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Full text of "História de Portugal restaurado ..."

PIISTORIA 

POR TU G A L 

RE STAURADO, 

OFFFRECIDA 

AO ILLUS i\nio E EXCELLENT.f^^o SENHOR 

D. J O S E P H 

MASCARENHAS, 

DOCONSTlLHO de SVjÍ MAGtSTjâDF, SEU MORDOMO MO'R 

ê'reftàeníe do Defemkargo ds Paço , IV, Mar(]utz. de Gcuvea , VUL Ccndede 

Santa Cruz, , XI, Senhor das Villas de Lavre , Fjiepa , Santa Cruz. , e La» 

gens , Senhor dai Ilhas de Saoto Afttaó , Flores , e Corvo com toias as fuás 

jurifdlcçoens , Alcaide tnór dos CaJleUos , e Villas de Mertola , Monte 

mór o novo , Grândola , e Alcarcere do Sal , Cornmendador nas 

Ordens de Cirifto , eoSantiago z^rc. 

ESCRITA P O R 

D. LUIZ DE MENEZES, 

CONUE DA F.RICEIRA , DO CONSELHO DE ESTADO DE SUA 
Mageftade, íeu Vedor da Fazenda , e Governador das Ar- 
mas da Província de Traz os Montes &c. 

PARTE PRIMEIRA. 
TOMO I. 




LISBOA, 

Na Offic.de DOMINGOS RODRIGUES,aos Anjos. 

" MDCCLI. 

Com todas as licençaf neceljarias. 
A'culla de Luiz de Moraes cCanro, Mercador de Livros , morador na Rua 
<2c SttOiQ Aniojúv» 



Digitized by the Internet Archive 

in 2009. with funding from 

University of Toronto 



http://Www.archive.org/details/bhistriacleportu01eric 




ÍLL."^^ E EXC."^^ SENHOR. 





SPlRA aconíeguira 
alta , e poderofa protecção de V.Ex- 
cellencia a reimpreíTaô do Portugal 
Reftaurado : Livro , em que o Con- 
de da Ericeira D. Luiii de Menezes 

elcre- 



efcreveoj com a mayor elegância da 
lingua Portugueza 5 a parte mais glo- 
rioía da hiíloíia deite Reino,- e pare- 
ce que leva abonada a lua efperança 
na reflexão , que faz , de que a Famí- 
lia dos JMaícarenhas tem teito nelle 9 
deíde o feu principio» as mais illu- 
ílres repreíentaçoenS)* enaõfónel- 
Je , mas na Afia , na Africa » e na Ame- 
rica occuparaõ os lugares principacs » 
ou os mais conípicuos» QueFamilia 
logrou nefte Reino tantos títulos co- 
mo a de Maícíii'^í^^^^s , de que V Ex- 
cellencia he o Chefe ? pois naó fat- 
iando nade Gouvea , e Santa Cruz» 
os Marquezes de Montalvão 5 e os de 
Fronteira, os Condes de Óbidos, os 
de Palma , os do Sabugal , os de Azi- 
nhoío, os de CoculimjOsdeCaftel- 
lo^novo , os de Serem , e os de Fe- 
nedono , todos toraô condecoraçoens 
dos ramos da Varonil deita Preclarií* 
fima Caía, 

Def. 



Defde tempos antíquííTimos tem 
os noílos Reys entregue aosMalca- 
renhas o cuidado da guardadas íuas 
Reaes PeíToas , e do governo do leu 
palácio : honra ndo-os com os empre- 
gos de Capitaens dos Ginetes , e de 
iViordomos mores- O Senhor D. Vaf- 
co Malcarenhas 9 III. Senhor de La- 
vre» foy Eftribeiro mòr do Senhor 
Rey D. joaô o III ; o I. Conde de 
Sanca CruT: (oy hum dos cinco Go- 
vernadores defte Reino , na falta dos 
noíTos Reys •> oIL foy Preíidente do 
Deíembargo do Paço \ o III. Mor- 
domo mòr da Rainha Dona Luiza 
Francifca de Gufmaô •, o V. Mordo- 
mo mòr do Senhor Rey D. Pedro ir, 
o VI. (ja promovido ao Titulo de 
Marquez de ^Gouvea ) Mordomo 
mòr do Senhor Rey D. Joaô V.*, 
o VIL [ e IIL Marquez ] logrou a 
meíma dignidade» e V. Excellen- 
cia anualmente a exercita com a de 



Pr efidente do Paço. 

Mas como naô fiariaó os noíTos 
Monarchas os lugares msis princi- 
pães da íua Corte aos Senhores mais 
principaes do feu Reino taô explen* 
dorifados com o langue Real de tan- 
tos Monarchas j como os preclaros 
Avôs de V. Exceliencia, que por 
Lancaftros defcendem do Senhor 
Rey D- Joaô o II. , c do Rey Eduardo 
Ili. de Inglaterra v por Noronhas ^ 
do Senhor Rey D. Fernando de Por- 
tugal, e de D. Henrique IL de Ca- 
ftella ", por Soufas , do Senhor Rey 
D. AfFonío o IIL de Portugal > ede 
V/itiza Rey dos Godos •, por Viihe- 
nas de ElRey D Fernando, o San- 
to , de Caftella» do EmperadorFi- 
iippede Alemanha , e do Emperadot 
de Conftantinopla Ifac Angelo,- por 
Silvas , e por Telles , de D Fruella 
II. Rey de Leaó % e de D. Sancho 
Garcez Rey de Navarra , por Ca- 

ftros , 



ftros^ deElRey D- Garcia deGalli- 
7.a 9 e Portugal *, pela Cata de Penel- 
Ja , do Senhor Rey D Pedro I- defte 
Reino, e pela de Távora, deElRey 
D , Ra m iro II, de Leaó. 

Mas íc toda efta torrente de ían- 
gue Régio fe unio por caíamentos 
com o de Maícarenhas » ja o Senhor 
D- Eftevaõ Rodrigues o primeiro que 
uíou do Appellido de Maícarenhas, 
por íer Senhor da Villa ddte nome, 
[naõ por mercê do Senhor Rey D. 
Sancho , como eícrevco hum Author 
moderno, mal informado, mas por 
herança de íeu Pay D. Ruy Mendes 
irmaó de D. Fernando Mendes 5 Se- 
nhor de Bragança ^ chamado o Bra- 
vo , caiado com filha do Senhor Rey 
D. Affonío Henriques] lograva a exi- 
mia qualidade de fangucReal, por 
feu Bifavô D. Mendo Alamjque pro- 
cedia dos Reys Alanos, e de íua mu- 
lher, que era filha de hum Rey de 

§ 4 Arme- 



.^.íinenia: todos Senhores de Bragan- 
ça, e de toda a íua Comarca que Ic* 
gravaó como Príncipes , herdadas de 
teus Avôs, que tinhaó conquiltado 
eílas terras aos Mouros , antes de ha- 
ver Reys em Portugal. 

A confideraçaó de que tantos 
alentos Régios faô os que influem a 
magnanimidade^ que todos em V. 
Excellenciaadmiraõ, produz a efpe- 
rança de que ha de honrar com o leu 
patrocinio huma hiíloria , em que a 
gloria de Portugal íe intereíTa tanto « 
e que ha de perdoar a confiança de a 
pôr aos léus pés com o reípeito mais 
profundo 



Seu indigno criado 



Luiz de Mora^.s* 



PRO' 







P R O^L O G O. 




ST A ceremonia, Lcitcr , de efcrevcr Pro- 
logo , mais por efcuíar a cenfura de que 
fklto á ley de dar principio com elle a hu- 
ma hirtoria taô grave , que por me parecer 
a ley precifa, me refolvo a oblervála : por- 
que diícuríado o fim com que fe eftabelecto , avalio 
por inútil efte trabalho , entendendo que na ifcolha 
da hilloria , e no acerto de ekreve-la confifte toda 
a fortur.a dos Auihores. Porque neir. a amizade dos 
Leitores pôde encobrir os defeitos do Ffcritor, nim 
efcurecer'lhe os acertos o odio^ e entre efiesdous 
extremos ( ordinariamente vicioíos ) íe lcv?nia o 
Tribunal da juftiça dos defintereíFados , por indepen- 
dentes, ou por naó conhecidos, que collumaf) drr 
o louvor por prerriio aos beneméritos, e a ctnfura 
por caftigo aos culpados. 

Huma das mayoies emprezas do mundo hc 
a reíoluçaó de efcrever huma hiíloria : porqne álèm 
de innumeravel multidão de inconvenir ntes , que he 
neceíTario que fe vençaó , e de hum trabalho excefli- 
vo, que he preciío , que íe lupere: no niefrro tem. 
po , em que fe pretende lograr o fruOo de tantas cii'i- 
genciis j tendcíe vencido formar o ír-^-nio, vmc^r 

a li^ 



a liçio i níTentar o eftylo j colher as noticiai? , lançar 
o^j borradores , tirá'lo[i eu limpo , conferi los , e 
apurá'los , quando quem efcreve íe anim?? ni empren» 
fa do livro que efcreveo ao pompoío tuulo de Au- 
thor , entaó começa a íer reo , e réo julgado com 
taó cxceíliva tyrannia, que tendo lingoa para fallar 
de tantas peílois , como faó as que comprehende 
qualquer volume , a naó pôde ter para díixsr de fer 
coiíde nnado íem íer ouvido. Julgo por muito errada 
a opinião commua , que allenta , que a hííloria he 
paralelo da pintura ; porque he tanto mais privilegia- 
do o Pintor , que o Elcritor , que teve lugar Ape!'es, 
pondo em publico huma figura que havia pintado , de 
lhe emendar a roupa , que hum artifíce delias lhe 
condemnou por imperfeita , e de caíligar a oufadia 
de outro, que , naó fendo Pintor , featreveo a arguir-» 
lhe o perfil da figura. Naó he concedida aos Eí^rito-í 
res tanta liberdade : porque no mefmo ponto que os 
íinetes do prelo acabarão de feilar a hiíloria que efcre- 
veraô , logo perderão toda a acçaó de emendá'la , e 
na difficuldâde de fatisfíizer a hum mundo de jaizos 
diverfos, fica provado o defengano , de que naó po- 
de hivcr hiíloria bem avaliada de todos. O Sol por- 
que coftuma taó repetidamente oíicrecer- fedo berço 
do Oriente ao tumulo do Occalo aos olhos do uni- 
verfo , íe expõem á cenfura dos que íem penetrar a 
mageftade do íeu refplandor , e a utilidade dos feus 
rayos , fujeitando a razaó 20 appetite , huns o con- 
demnaó de claro quando a calrna os aperta , outros 
de efcuro quando o frio os afílige , íem reparar que 
os latidos do caó Geleíte , que ainedrentáÓ n 1 Ccni- 
cula o; vapores , de que as nuvens noinvc no fe 
forjuaÓ , lió , e naó o Sol , culpados no rigor da 
calma , como as nuvens na afpcreza do frio. 

Que importa , que a verdade da hiíloria , e pu- 
reza 



TC7A do eftylo a formem como o Sol perfeita , fe 
os> Leitoicrs pertend.iii iUiliála como nuerem , e naô 
coíT/O m rrce* 

A eftas, e outras muitas difiii uldades ie fii- 
jeita quem le r« lolve n eícrevef hu ia hiftorii que pe- 
ia opini^rj conmiLÍd dos hitóorinJorcs coítunia ler de 
feculos pa í Fados 1 em que snais deíbfogiuios os âni- 
mos eiUiiíõ a defcobrir a verdade dos íucctiros. Fo- 
rem quaes fer-o os inconvenientes , quaes os perigos 
quaíi invencíveis , a que 'íe nrroja quem tomou a te- 
merária reloluçaó de impriniir tm iua vida a hiftoria 
do feu tempo, lim vt;rc2de què até imaginação taz 
horror efle intento; porque oppoftas , e incompatí- 
veis 2s obfigaçoens íorçolas aos nfcos mani feitos , 
naô parece po'ih'cl , apurndos, depilarem hum com- 
pollo períeiío ; pois faltar á verdade, fica fendo in- 
fâmia do Author , deícobrilla nas acçoens defacerta- 
das , Cihe cm Jeícredito dos comprehendidos. Enca- 
recer os beneméritos , fera inveja dos indignos : lou- 
var os viciofos , rpprobrio dos beneméritos: contar 
todos os íucceíFos, he empenho invencivcl : callar 
algims , póJe fer queixa dos intereílados. Nos caio s 
grandes , e ainda nos inferiores ajuílarenvfe todos 
em que laó verdadeiramente contadoi; , diftkullofa- 
■mente íe poderá confeguir : porque eu experimtnj 
"tey j achando*me em quatro batalhas , c em outros 
encontros, com muitos mil homens, na6 fe defco- 
brirem cous que concordallem no meímo f:i£lo ; e 
tenlio au^ançado que a razsó Jcíla variednde vem a 
fer, que como hum fó homem nao he poílivcl af^Oir 
a todos os fucceíibs de hum conílidlo , entendendo 
errídam-iíte que cahe no defcrtrdito de uao t r parte 
em tantas acçoens diveí ius , todas 9i> que naó pí';de al- 
cançar con^ a vifta defacredita por fabulolas. Se pois 
me naó íoy poílivcl contar fem tonirauiçaó tm v nas 

con- 



Cl /irfjpínç hjx\ fA fucceTo na prs Tença dos qa: 
fs acliaraó n^lle ; coaio pí)dór2v confjgu ir facilmen- 
te efcrevendo tantjs batalhas, fitios , intcrprezas , '. 
encontros íucccdiJos á valorofa Naçâo i^ortug-ieza 
p3r erpaço de vinte e oito ann )s nas quatro partes 
do Mundo , julgare n todos á níirraçaô das vii^>orÍ3í 
por verdadeiras, e por certos os^ motivos das empre 
zis militareis, e politicas, f/guiado-fe ordin^riamen 
te dcftí erro de dilcuríos , e falta de noticias huna 
queixa pi.pítua contra quw.n efcreve , e em alguns 
hum o lio eterno, que muitas vezes fe defaíloga pe- 
los cam nhos do dc^l} rior 

A erte, pois, labyrintho de eftra d as con tu- 
fas , a erte encanto de faatafmas disformes m? per- 
fuadio a arrojarme o entriinhavel amor da minha Pá- 
tria, de que fe compôs com o fangue a natureza, 
fundado no juilo temor de quc" naô occuUaíIcii mor- 
taes, as urnas do efqueci mento , as pcçoens gl^rio- 
fas de tantos heroes excellentes : accrefcentan Jofe a 
eílas razoens outro mayor eftimulo , que foy avaliar 
como obrigação precifa defcobrir os motivos do prin- 
cipio , e remate defta hiftoria de Portugal reí^anra- 
do 1 que me animey a e fere ver , pois cono Alpha, 
e Omega , divino íymbolo dos Gregos» forao ver- 
dadeiramente os dous pólos ( íe unidos pela natureza, 
pelos accidentes diverfos ) que me perfuadiraó a abra- 
çar eíle gran le empenho, pretendendo moílrar clara* 
mente ao mundo , aOim a juliiça com que o Sereiíilli- 
mo Rey D. Joa6 o IV. de immortal memoria fc rcíli 
tuliio á Coroa de Portugal , como a juíla razaõ com 
que o exjellente Principe D.Pedro, fegundo Tito , 
ddicia doi homens, fem mais caufa , que a dcfenfa , 
coníervaçaô , e feguraní^a deRe Reino , tomou fo- 
brc feus generolos hombr(% o governo delle , julgan- 
!^^^ doo por menos pezadoque a Coroa , que com tanta 

admi- 



admiração dos nieftres da politica j defpreza. Naó 
me obrig ;nJo íó o zelo da honra da Pátria a dclco- 
brir os fundamentos de taó grandes iucccílbs , fenaó 
tâiiibem a. Icgurança ih minlvi opinião , que amcy 
fe/Tjpre mais que a própria vida : porque como lo- 
grey a [brtuna de ter na giierrn pai te nas mavorts vi- 
âorias , que Te coiííeguiiaó neíie Reino , era nccef** 
iario moítrar que a guerra foy juíla , para que as cC- 
çoens fc julgaircm por virtuofas. E como da mef- 
ma íórie me luccedeo fer hum dos que aíliiliraó ás 
heróicas reíoluçoens (4o ^rincipe D. Pedro , era pre- 
cifo manik-ftar , que foraó juílifícadas , para me li- 
vrar áã caluinnia dos que íem noticias verdadeiras 
difcurraileííi a fatalidade delRcy D, Affbnío VI. 
Sem entenderem que foy depoílo pelos Três Eíta- 
dos do Reino , por incapaz do governo dtlle , e 
por inútil para a fucceííaô da Coroa. 

Além deílas taó urgentes cauías , naÓ fo- 
raó menos poderofas para me levar a efte intento,' 
a/li\n a magoa ( como ja referi) de ver c ue infenfi-s 
velmcnte hia o tempo confumindo a noticia de tan- 
tas ãc^õjs heróicas, por faltar quem fe refolveíie a 
eícrevê las : porque jó até o snno de 1644 , que efcr.» 
veo com erradas noticies Joaó Bautiíta Viraugu > Ve- 
n; ziano os fuccellbs deile Reino , e o Conde Mayoli- 
no nas fcas guerras civis, íe acha men;oria delUs. Co- 
mo a pena da pouca verdade com que todos os Autho- 
res Caílelhanos, que fennimáraó a íaliar na guerra fuc- 
cedida entre as duas Coroí3S a referirão : porque n^;ó 
íò tratáravO de encobri** com íicçoens a grandeza drs 
noíTas vidtorias, fenaó que cahiraó nn ignorância de 
errar os tc^mposdas Campanhas, preferindo as íiiccef- 
fivasás antecedentes , os nomes aosfiiios das Provín- 
cias onde acontecerão , e os Cabos, e Officiaes que 
le acharão ntllas, fe^uindo o mefmo delido que con- 
denarão 



dfnarao a hum Autlior Fnncez J que Imprimmío 
hun livf.), ern e|iii affirmiva, que Francifco I. Rey 
de França na6 fora prezo na batalha de Pavia. E per- 
guntando'lhe a razaó , porque calumniava a fua ver- 
dade, lançando 20 mundo aquella mentira, reípon- 
deo, que nos feculos futuros quem lelfe a fua hifto- 
tia , c dos Caílellianos , daria credito á opinião a 
que fe aífeiçioíle. Eíles foraô os motivos que me per*? 
fuadiraó a taó difiicultofo empenho , animandome 
juntamente a tomá'lo por minha conta as muitas cir- 
cunftancias , que me habilitár;i« ; porque àíém de her- 
dar de antigos , e valorofos Avôs fer a verdade alma 
da vida, como he da h ftoria , tive a fortuna de me 
criar no Paço com o foberano , e elclarecido Prínci- 
pe D.Theodofio , aíFiftindo-lhe continuamente de ida- 
de de fette até quinze annos , e igualmente aprenden- 
do com elle a primeira grammatica , e a liçaó das hiílo- 
rias. Nefte tempo fiz memoria das primeiras politicas 
com que ElRey D Joaó deo principio ao governo de- 
ite Reino, 

De quinze annos comecey a fervir na guer-i 
ra , em que paílcy por todos os Poítos taó vagarofa- 
rnente como qualquer Ibldado da fortuna , e cheguey 
ao mayor emprego de Governador das Armas. Achei» 
me em todas as occaíioens grandes da Província de 
Alentejo do anno de 1650. até a batalha de Montes 
Claros, e fuy voto em todos os negócios de mayor 
coníideraçaô. A guerra das Províncias aonde naó 
aííiíli , e a das Conqoiílas conferi com os Cabos , 
e Officiaes que íe acharão em todas as emprezas , 
depois de examinar os papeis mais íntimos, em que 
a curioíidade de varias peíloas le havia exercitado. 

As negociaçosns fora do Reino 1 que toca- 
rão a diíFerentes fujeitos , efcrevo por informação de 
cada hun delles , e pelos livros em que osEmbaixa» 

dores 



dores lançarão as Embaixadas. Os mais negócios pe- 
los documentos das Secretarias de liíbdo , e Guerra , 
biifcando em todos , alem deitas notcias , a kguran- 
ça de teítimunhiis dcíinicrtííadfls , que tiveraó lem 
dependência parte em todos os lucceííbs políticos , e 
miistarts. 

Dez annos de trabnlho me levou cfíe primei- 
ro volume ; no decv.rlb dcfte tempo riaô houve pcllba 
douta , ou Intiligente que fe animcíTe a examinálo , a 
quem o naò eniregíiíle, rujutando*me a qualquer 
cenfura que fe me apontava, emendando o que le 
me advertia, ainda que íoíie contra o próprio tntm- 
dimento, entendendo, que como tila Hiftcna naó 
ha de íer fó fatisfaçró do meu juizo , Icnaò dos Ahc^ 
yos , fico melhor livrado em ter por dtbníores os 
que a emendarem. He documento , que feliccmente 
devo ao Ibbre todos prudentlíllmo dilciirfo do Prín- 
cipe noííb Senhor. Antts que comcçafle a eícrevê-la 
palFty por eípaço de dous annos as hiíiorias mais íe- 
ledlcS antigas , e modernas , conhecendo , que era ne- 
ceíTario alfcntar o eftylo: porque raô tendo feguido 
mais efcolas, que as militares, que naó coílumso 
deixar á liçaó dos livros muitas horas de exercicio , 
haviaó levado a inclinação a equivocos , e termos 
poéticos , frale de que os primeiros annos mais conti- 
nuamente fe alimentcraó, e de que me fez apartar o 
mais que me foy poííiveí a doutrina dcsmcílrrsda 
hiftoria , e a dos preceitos hifloricos de Mafcarde Ita- 
liano , e do Padre Mene Francez , que neOa idade 
com grande elegância fe em prt gr rsó Pffíe a íTimpro. 
Nos últimos dous annos padeci msycr trabalho : por- 
que tocando-me nelles a occupaçaó de Védcr da Fa- 
zenda da Repartição da índia , que cofiuma deixar 
poucas horas livres, as que mse fícavsô de defcanço 
empregava neíte exercício , conhecendo, queptH^ir 

dia 



dia íem lançar linha J^he perder do tempo a melhor 
joya , que até agora naô tem havido milagre que folTe 
poJerofo para reftaurála. 

Huma das mayores fatiw«façoens que tenho al- 
cançado nefte meu emprego , he imprimir*fe quaíi jun^ 
tamente com efte livro os que com tanco louvor pró- 
prio , e com tanta honra da Naçaó Portugueza efcre- 
veo o moderno Livio Manoel de Faria e Soufa •, e 
como em todos chegaô os íucceíTos , que refere nas 
quatro partes do mundo , da fundação de Portugal 
até o aino de 1640 fica com a minha hiftoria enfiada 
a de Portugal ale a paz celebrada entre efta Coroa , 
e a de Caílella , que heo aílumpto que comprehen- 
dem eftes dous volumes. 

Agora , leitor , ou pio , ou malévolo , ou 
defintereílado , he neceíTario affiar o diícurfo , e eu 
feguro que muito menos ha de cuftar aos leitores ar- 
guir , do que a mim me tem cuftado o eícrever, E fe 
alguma iatisfaçaó fe entender que mereço pelo meu 
trabalho , naô quero mayor rccompenfa que o conhe- 
cimento , de que ategora naô fahio ao mundo hifto- 
ria mais verdadeira : pois fem aííeiçaõ , ódio , efpe- 
rança , ou temor , naó perdoey a requifito algum ne- 
cellario para a hiftoria , que me ficalfe por efcrever, 
parecendo'me fó efculado relatar defeitos particula- 
res, tendo por opiníjó , que os que fe arrojarão a def- 
cobrilos merecem mais o titulo de íatyricosque de 
hiftoriadores, exceptuando aquelles que referirão ví- 
cios de que depende a narração da íua hiftoria , como 
he neceíTario que me aconteça, quando chegar a refe- 
rir os fucceíTos da vida delRey D.Affonfo VI. 

Naó podia Tito Livio eximirfe de contar os 
exccííos de Tarquino , originando'fe da fua lafcivia a 
mudança de Reys á Republica no Império Romímo : 
mas pudera Quinto Curcio encobrir os vicios de Ale- 
xandre 



xandre Magno , que naó lhe embaraçarão as vido- 
rias da Afia. Precifo foy a Joaô de Maiiana rclaiar 
a cegUvira de Henrique VIII, de Inglaterra na indigna 
aífeiçaó de Anna BoKna, lindo eíle dt fatmo a pri- 
meira caufa de p íiLr de defenfor da Igr ja Catho i- 
cj á cabeça da p; i fidia herética : mas pudera Henri- 
que Catarino de Aviia diíTlmular os oivertimcntos de 
Henrique 111. de Franç;i , quj naó pertencerão lo 
governo da lua Monarchia, Faminiano EllraJa os des- 
concertos de Chiipim Vitelio , e o Cardeal Bentivo- 
glio nas luns memorias hiftoricas os vicios de alguns 
Card aes do Sacro Collegio, e outros muitos que uía- 
raó delta indigna liberdade. Deícobrircm-le os deíei* 
tos que n^ò prejudicarão a intereíles públicos, mui- 
tas vezes itrvem os Leitores mais de eílimulo, que 
de emenda , ufando dos exemplarei para defculpa dos 
vícios que pertendem íeguir , e he Dcos verdadeira 
tertimunha de que o meu principal intento , he ata- 
lhar todos os que póJem oílender a fua Divina Ma- 
geltade , e íer prejudiciaes á gloria deíla xMonarchia. 



Tom. I, , aai UCEN-j 




L I C E N Ç A S. 

DO SANTO OFFíCIO. 

PO^dfc rcimprimir-fe a Obra de que fe traa , e de- 
pois voltará conferida para fe dar licença , que 
cofra , fem a qual naó correrá. Lisboa 6. de Feve- 
reiro de 1750. 

fr. RJe Jlevcaflre' Abreti, Amaral, Ahneida, 
Jrigojo. 

DO ORDINÁRIO. 

TD 0'dem'fe reimprimir os Livros de que trata a Pe.' 
-^ tiçaô , e depois torne para fe dar licença para 
correr. Lisboa 6 de Fevereiro de 1750. 

D. Jofeph Arcebífpo de Lacei, 

DO PAC,0. 

QUe fe poííaó reimprimir , viftas as licenças do 
Santo Officio , e Ordinário , e depois de im- 
preíTos tornará á Meia para fe conferir , taxar , e dar 
licença , para que corra , e lem iíTo naÓ correrá. 
Lisboa 7 de Fevereiro de 1750. 

Marquez?. Attaidç, Cajiro, Almeida, 



DO 



p 



DO SANTO OFFICIO. 

Ode correr. Lisboa 8. de Junho t^e 1751. 

Sylva, Abreu. Almeida. 



DO ORDIN/RIO. 

Jl o ^1c correr. Lisboa 11. de Junho de 1751. 

D. J. A. L, 

DO P,ACO. 



AxaÔ para correr , em feifcentos reis cada hum 

Lisboa iz de Junho de 1751. 



Marquez P, Almeida, Cafiro- Doutor QuinteUa 



HISTQ 



Pag. i 




HISTO 

DE 

PORT 

RESTA 

LIVRO 





S U M MÁRIO. 

.^^í NTRODUCC.AM da HifloriaVe 

J&Jm fi'ndavientos para fe efcrever- Noti- 
'^^}Â ^^^ ^^^ antiguidades do Reyiw. Elo- 
r-^-i gio dos Reyy , e Varoens infigiies de 
Porítígal. Motivos da f tia infelicidai 
de. Pretendentes da Coroa ^ efiinda- 
mentos dajajliçay com que efperavaÕ 
alcançalla. Diligencias de Filippe 11. para a conje- 
gtiir. Irrejoiíiçoens d'-ElRey o C ar dial D Hemique^ 
e receio das Armas de Cajtella , caufa total de aca- 
bar a vida fe7n nomear Sticcejfor ao Reino, Deixa 
eleitos Cinco Governadores , três delles daÕ fentença 
por ElRey D- Filippe. Para confirmaJla entra ptde-, 
rojo em Portugal. C'A'oa-fe o Pnor do Cr aí o em San- 
Tom. I, A tarem y 



iV 



a FORTUGJL RESTAURADO, 

tarem : determina defender Lisboa : fica vencido , e 
o Reiho entregue. Pajfa ElRey de Badajoz a Tbo- 
mar ^ onde je cdebrdr ao Cortes ^ efoy jurado. Aca* 
badas- as Cortes^ entra em Lisboa. Interna o caja-^. 
viento da Diiqueza IJ. Catharina , (jue naÓ conjegue, 
loltci a Madrid ^ deixando o C ar dial Alberto goier* 
mando o Reino. ComeçoÔ a quebrar je os Capita los 
jurados em Thoniar. Morte de Filippe II. Succejfaõ 
de Fihppe III. Jornada , que faz a Portugal com 
pouca utilidade ; volta a Madrid , 07ide morre* 

lf>}rodurfaõ 4 Jk PROVIDENCIA Divina , que diílribue toda 
fíi/ieria. /^ a humana grandeza i e coftunia igualar a pei; 

na á culpa , e o premio ao roencimento , ha- 
vendo permittido, que os ânimos valerofos 
dos Varoens Portuguezes padeceíTem feflenta 
annos o infelice domínio de Caíleila, ou por caíligo da 
vaidade de haverem fuperado com acçoens fjnguUres a$ 
Naçoens mais remotas, ou por delconto da gloria, que 
na liberdade lhes deitinava , íufpendendo os golpes da ef- 
pada da julliça , e moílrando os frudos do ramo da Mife- 
ricordia lhes influio alentado eípirito » para que facudin- 
do taõ pezado jugo , libertaíTem a eíclarecida Pátria i me- 
lhor fabrica da Natureza , da injulta fujeiçaõ que pade- 
cia. O maravilholo eíFeito, que produzio elta reíoluçao, 
determino efcrever , fe naõ com a eloquência , e erudic- 
^aõ , que pede aíiumpto taõ levantado ( que nenhum dos 
Hiftoriadores antigos logrou melhor emprego ) com taô 
íolida , e independente verdade , que naõ achem os efpe- 
culativos que contradizer ; porque encontrar em quaH 
quer parte efta alma da Hiftoria , he tirar o credito a tu- 
do o que nella fe refere ; e como a verdade he diamante 
de tanto fundo , e de valor taõ inirinleco , que em ne- 
nhum tempo achou maior preço, que o de feos meímos 
quilates , queixem-fe embora os que dependerem da fal* 
lidade do tfcriptor i para que a pofteridade naÕ abomine 
os feos erros. A abelha , e afpid nafcem no mefmo cam- 
po ; ac^ueUa transforma as iloies em mel » eíle em pecos 

nha. 



PJRTE I. LIVRO 1. j 

nha. Efpero que no campo defta Hiftcria íejao os Leito- 
res abelhas, para naõ haver flor nociva. Ver-te ha no cowpi>íd'o da 
diícurío delia contender com dilatada Monarquia pQquQ- que íeticrevg, 
no Dominio , e vinte e oito annos huma fó Naçaõ , par- 
to de taõ pouca terra , pelejar , ajudada de poucos foccor- 
10$, contra todas as de Europa, vencendo qu» fi íempre 
íoldado a toldado, partida a partida , tropa a tropa , tro* 
ço a troço, e exercito a exercito, fendo em qualquec 
dai contendas maiores o numero dos Caítelhanos iupe* 
rior ao dos Portuguezes. Ver íe haõ mortes , incêndios; 
deltruiçoens , e cal.imidades j e os Pottuguezes, novos 
Antéos , tirarem todos os annos maiores fopças da pró- 
pria terra. Ver fe-hdô litios , intreprtzas , traças, e 
difpoliçoens admiráveis , contendas politicas , inirinfe- 
cas , e externas , que quando ameaçavaõ a ruira , ceie- 
bravaõ os Portuguezes o triunfo » e quando os fucctílof 
eraõ mais embaraçados, e os empenhos mais vigorofos 
na turopa, fultentar le a guerra em Africa, continuar- 
le na Afia, fuperar-fe na América ; naõ havendo Mar, 
q le n.ió panilTem a$ noflas quilhas , Terra , que naõ pi« 
zalTeai as ní^liss plantas, Elemento , com que ntõ conten* 
detlem o? noHos braços, Naçaõ , que naõ confeflaíle as 
noflas vivítonas. 

Os cabedaes com que me achey para tanto em- •punãarreWm 
prego , me animarão a tomar por minha conta efta obra ; para fe eUrever^ 
quando naõ íaiba levantarlhe mais, que as columnas ^aHijioria. 
naõ faltará outro Arquitedo, que com eíles materiaes 
aperfeiçoe efte ediíicio , remunerando-fe-me o trabalho , 
a que me exponho , na coníiííaõ do zelo com que refga- 
tei da prizaõ do esquecimento tantas acçoens heróicas, 
podendo herdar da natureza deixallas íepultadas i por- 
que os Antigos, e valerofos Portuguezes fouberuõ me- 
lhor empunhar a efpada , que apparar a penna ; pois de 
todas as virtudes podéraó fer o melhor exemplar com ma- 
iores vantagens das que lograõ , fe naõ deixarão eíque- 
cer muitas das grandes maravilhas, que íizersc. Porém 
para formar perfeitamente o corpo delta o\ rg , he necef- 
fario fazello ]umi''o'"o , m.oílrando os prircipios da Mo- 
narquia Poitugueza , aílim para fi;;3rtm iTiaij cJaros os 

A 2 fuc- 



'4 TORTVGAL RESTAURADO, 

íucceíTos modernos, que dependem de noticias antigas; 
como para que fe conheqaõ os muitos efpiritos bellico- 
fos, que em todos os íeculos brotou taõ pequeno diílri- 
âo , que naõ parecerá impróprio tomar taõ alto princi^ 
pio em Hiíloria , que naõ he geral do Reino , porque 
eíla pequena luz naõ poderá oíFender ao Leitor por bre- 
ve , como por achar muitos Autíiores , que feguiraõ eíla 
ordem em Hiílorias fimilhantes. 
'KôtkiadoRtt' ^ Reino de Portugal teve principio com o nome 

no ih Portugal, de Lufitania , como aílentaõ as mais certas opiniões» na 
tfuasar.úgui- anno 1 8oo da Creaçaõ do Mundo , i 50 depois que Deos 
4aí1:í. ( caíligados os iníultos dos homens) fuípendeo a inun- 

dação das aguas , 2170 antes que Chriíto , para Redem- 
pçãô Univerfal , fe reveíliíTe da natureza humana. Foy 
Xubál neto de Noé fegundo Adaõ do Mundo, primeira 
pay dos Portuguezesi porque pertencendo a Japheth ^ 
de que foy quinto filho, a propagação de Europa , e ía* 
hindo Tubál de Itália navegou o Mar Mediterrâneo , to-? 
cou o Eílreito de Gibaltar , e o Promontório Sacro , e 
lurgio na parte ma?s Occidental de Europa , onde deíem» 
barcou, aíFeiçoado de hum fitio íobre o Mar Oceano ^ 
que banhavaõ as aguas do Rio Sâlio por hum lado , fican- 
do por outro pouco diílantes as do Tejo. Neíle lugar fun- 
dou Tubál o primeko de Hefpanha , que com a duraçaã 
do nome de Setúbal, que quer dizer ajuntamento de Tu- 
bál, conferva o agradecimento do beneáciaj e com eíla 
Coroa deo principio ao Império de Helpanha. Os annos 
(dilatarão as Povoaçoens , e dividirão os Reinos. A for- 
tuna ,. hora nefta , hora naquella ida<le entregou a varias 
Kaçoens o dominio do Mundo >; porém por particular 
providencia , eíleve em todos os Séculos fempre o Rei'- 
no de Portugal , ou feparado de alheio Dominio, ou 
pelejando pela liberdade ; porque fora fem-razaõ » que 
viveíTe fujeito quem nafceo dominando» De idade etn 
idade , e de contenda em contenda tiveraõ os Portugue- 
ses Reys , formarão Republica » e elegerão Capitaens ,^ 
vencendo varias Naçoens , até que os vícios de alguns 
Ileys Gordos entregarão toda Hefpanha ao infelice dorr*!- 
nio dos Mouros. Sujeita íem remedia laílimofaraeme a 



FJRIE I. LIVRO I. f 

eftâ dífgraça á Naçaõ Portugueza , brevemente fe ani- 
mou a arrojar dos hombros laô cuítolo pezo , tomando 
( Feniz de todas as idadej) das cinzas.a que eftava reduzi- 
da , matcria o ardor com que coníeguio a lua liberdade. 

O Infante D. Pelaiu íoy o primeiío reílauradoc 
de Heípanha , e iilRey D. Aílonío o Catholico o primei- 
ro , que emprendco a Conquilía de Portugal. Entrou por 
Gaíiiza na Província de Entre Douro e Minho , ganhou 
aos Mouros as Cidades de Braga i e Porto ; na Beira a de 
Vífeu ; em 1 raz os Montes a Vil Ia de Chaves , e outros 
Lugares nas três Províncias. Recuperarão eíta perda ou- 
tra vez os Mouros ; reítaurou-a hiRey D. Fernando o 
Magno, e dilarou com algumas viclorias por eíta parte 
mais a Conquiita. Os Poriugujzes poucos, e íem Gapitaõ, 
padeciaó varias fortunas , e íupe.rafaó cem muito traba- 
liio grandes difficuldades ,até que Decs lhes diípeníou pa- 
ra remcidio o que permittio a tuíras isaçoens para calH». 
go. L)io-lhei Reys , e taa ornados de virtudes , que ícu- 
btrdó grangear , naõ íó de prefente , mas de futuro , a fe- 
gurançâ de íua mifericordia. Conquiítavâó os Reys de 
Leaõ os Lugares de Portugal , e encorporavaõ-nos á lua 
Coroa , coíTio premio de íeu trabalho. Toleravaò os Por- 
tuguezes eita opprííOaõ, pela inferioridade do poder, e 
porque prudentemente facriricavaõ a grandeza dos âni- 
mos aos revezes da fortuna , accommodando fe á fujei- 
çaõ dos Leonezes por cobrarem forças , para fe livrarem 
do Captivciro dos Mouios. Durou eíta difgrsça até que, 
reinando em Leaõ D. Aílonío VI , paliou de França a 
íervir na guerra , que fazij aos Mouros , o Conde D. 
Henrique , tilho legitimo de Henrique ( neto de Roberto, 
primeiro Duque de Borgonha ) e de Sibila também da 
Caía de Borgonha : por íeu Pay, biíneto de Roberto o 
Dsvoto , Rey de Prança ; por íua May, quaíi com o mef- 
mo luílre na afcendencia : e por fi, eíciarecido tronco dos 
Pveys de Portugal , taõ prudentes » e valeroíos Príncipes, 
que tendo a elpada por Sceptro , e a Ley Evangélica pot 
Coroa , ao melmo paílo, que venciaõ o Mundo , gran- 
geavaõ a gloria , e as rreímas £cçoens , que os íizeraõ ce* 
kbres , eos habilitarão para ler Santos :^tratavaõ aos vir- 

Tom. L A 3 *" tuofos 



6 PORTUGAL RESTAURADO , 

tuozos como pays, e aos vaffallos como filhos , e com hu- 
ma, e outra alTiíltíncia fempre vencerão, nunca com trai- 
ção : fempre triunfarão » nunca com vãagloriaj porque 
era a Fé o obJ2d:o das Conquiílas, e a itiilericordia o 
'Elogio do Conde tíiunfo que tiravaó dos Conquiftados. O Conde D. Hen- 
D. Henri]ut. riqu3 depois de confeguir gloriofas emprezas contra os 
Mouros em ferviço d'hiRey D. AíFonfo VI t mereceo pe» 
la fua grande qualidade , e valor caíar com fua filha D. 
Therela , dar-lhe em dote a Cidade do Porto , e conce- 
der-lhe tudo o que conquiílaíTe, com que vinha íó a in» 
tereíTar hum cuidado certo i e huma efpersnça em duvida. 
Logo que foy Senhor do Porto ganhou Coimbra , e Vi- 
leu , e todas as mais Povoaçoens de que entaõ fe compu- 
nhaõ as três Provincias de Entre Douro e Minho , Traz 
os Montas» e Beira. Desbaratou os Mouros em dezafete 
Batalhas , interprendeo Liísboa , e ganhou-a , [ ainda que 
os Bárbaros a recuperarão ) e unindo ás virtudes as vidto- 
rias , paílou a Jeruíalem , nomeado pelo Pontifíce Urbano 
li. por hum dos doze Capitaens , que foraõ com Gofre- 
do áquella Conquifta. Ganhada a Santa Cidade, voltou a 
Portugal trazendo preciofas relíquias, que ficarão por te- 
íVimunho da gloria , que adquirio neíta jornada , e da íua 
Fé. Depoi? de chegar levantou muitos Templos , e naõ 
houve acçaõ heróica , que naó exercitaíie , nem demonílra» 
Ehnoã^ElRey Ç^^ ^^ Chriôandade , que naõ fizeíTe. D. Afibnfo Henri» 
JD. ^^onj» quês filho do Conde D. Henrique, e primeiío Rey de 
Usanques. Portugal , foy nafcido , feliceobjedlo de milagres, crtan- 
do-feraro exemplo de virtudes, vivendo prodigioío triun- 
fador de inimigo? ; enxugou as lagrymas de leu Pay mor» 
ío com o fangue de D. Afibnfo VII Pvey de Caílella , e d2 
Leaô, que desbaratou, deixando-o ferido em huma ba- 
talha , gíinhada nos Cam.pos de Valdevez. Foy depois 
D. Afibafo Heníiques fitiado dos Mouros na Cidade d>2 
Coimbra, para onde logo paliou : o aperto foy grande, 
porém de forte a conftsncia, que livrou a Cidade: efca* 
lou Leiria , Praça fortiílima naquelle tempo : juntou ire* 
5ie mil homens, paliou a Alemtejo, Província fu>eita a 
limar Ríy poderoíb a que obedeciaô cinco Reys, e a eftes 
quinze Régulos \ unio-íe o poder de todos , e formarão 

hum 



PJR7E I. LIVKO 1. 7 

hum Exercito , em que íe contavaô mais de duzentos mil 
liomeDs delitos, e bem araiauo». Aviílaiaõ-le defjgual* 
mente hum , e outro Campo eui o de Ouiique, e recoLhe- 
cendo D. Aíibnío, que oa PortugucZi;* receavsu a multi». 
daõ dos Mouios, recorreu a D<:oíí dííudo confiado , e achou 
taõ propícia aquella inhnita milericurdia, que íe abrioo 
Ceo , e iiie appareceo Cliriíto pregado na L ruz ; promet- 
teo-Jhe a victona , títoIUe ai Caagas por Armas » e íegu- 
rou-lhe na delcendencia o Reino , amda que com íuipen-, 
íàó, íe/n limite. Araanheceo > e acclamataó-o os íoJdo- 
dos por íeu Rey , coroando-o ss elperanças de vencer, 
como a outros a tortuna de conquiílir ; pelejou , e íi.tis- 
fez-lhs Deos a promeíla , vencendo a niaior batalha , de 
que em Heípanha havia triunfado a Ley Evangclica. In- 
terprendeo i>antarem , e fazt.udo voto de levar.tar hum 
Templo em Alcobaça da Urdem de Ciíter, ganhada a Pra- 
ça ídtisfez niâgniíico a promeíia: atacou valeroíaraente 
a opulenta Cidade de Liiboa , e conleguio a empreza 
com acçoens heróicas, ajudado de huma Armada de In- 
glaterra. Deíiruio facilmente ao Miramolim Rey de Mar- 
rocos, que fitiava Ssntarem com hum grande Exercito, 
defendendo efta Villa o Infante D. Sancho, de cujo ga» 
Jhardo braço vecebeo EiRey de Mairocos D'uitas feíiaas. 
Foraõ tantas as virtudes d' El Rey D. Aficnío , que he efte 
o reíumo delias, deixando de eícrever muit' s , de que 
íe pnderaõ compor grandes Herdes. As horas em que eíte 
excí'?!.:nte Príncipe deixava de pelejar, e de SLcdir ás 
obrigaçoens de Rey, gaftava orando : foi muito favore- 
cido de S. Bernardo , que floreceo em leu tempo ; iníti- 
tuio as Ordens Militares de Aviz , e a da Aza , que durou 
pouco : levantou , e enriqueceo muitos Conventos , fez 
rotãveis fabricas, vitcofelice, mcrreo Cathoiico, he 
contado por Santo. Naõ desiuílraraõ as acçoens de tao 
heróico Progenitor leu íilho, e neto D. Sancho I., e D. ^ ■^~anc/,oi. 
Aífonfo Ií.,aquelle rompendo ElRey de Sevilha nos Cam- D^yj^n^ii. 
pos de Xarafe, desbaratando hum Exercito de Mouros, 
que fitiava Beja i e torrando no Reino do Algrave a Ci- 
dade d: Silvej, afilo de Piratas Mijuritanos ; tlte ganhan- 
do a Villa de Aícacere, edegcl'ando a ElRey de Badaicz, 

A 4 trin- 



í PGRTUGJL RESTAVRABO, 

V.Sancho II. trinta mil homens. De D. Sancho II. , de quem fe deícuii 
dou a natureza para o Governo i le naò apartou a virtu- 
de : fe viveo moleílado dos homens, morreo favorecido 

p.jfo7i>oiiL^^ Ceo. Seu irmaõ D. Afíonlo 111. Conde de Buionha , 
que íuccedeo no Reino , acabou de ganhar o do Algarve » 
e encorporou-o á Coroa de Portugal , Jançai»do os Mou- 
ros de todos os Lugares de hum , e outro Reino. ElRey 

áJ. i>;«;í,. ^' Diniz filho, de D. AíFonfoHI. foy o exemplar da Ju- 
íliça , e a admiração do valor , da prudência , e da libera- 
lidade , J3 domando a braveza de D. Sancho de Caílella > 
ja deftruindo apolítica de feu filho D. Fernando ; aqui 
fazendo hum feroz Urío em pedaços; accolá compondo 
as diífarenças entre os Reys de Aragão , eCaílella, dil- 
peiidendo magnânimo thelouros na jornada ; no íocego 
da paz fortificando todas as Praças do Reino , ennobre- 
cendo-o som a Ordem. Militar de JESU Chriíto , que in» 
lliíuio . e com a Univerfidade de Coimbra , e ornando a 
iingua Portugueza com a íuavidade do Metro , de que ca- 
recia , fendo o primeiro, que nella comipoz veríos. ElRey 

B.j^onfeiv. E). Afi-bnfo IV. feu filho , e da Rainha Santa Ifabel , que 
virtude deixou de exercitar ? ElRey D. Affonfo de Car 
llelia feu genro , que padeceo da fua vingança o caíligo , 
alcançou feJice na íua generofidade o fcccorro , caula to- 
tal da infigne vidoria , ganhada nos campos do Sallado 
j a quatrocentos mil Mouros; íendo a íua inftancia incen» 

tivo d^ batalha , e o feu braço motivo do vencimento. El» 

p.Piàro, Rey D. Fedro feu filho» mais fevero , que cruel » dando- 
Ihe efte titulo os que appeteciaõ os vícios , que elle abo- 
minava, vendo defunta aquella maravilha de D. Ignez 
de Caílro, que adorara viva , vingou nos cúmplices a 
fua morte, fazendoosvidima do Simulacro, que trasla- 
dou por entre tochas acceías de Coimbra a Alcobaça, 
querendo, que encontrando fempre com chammas pi- 
zaíTe coraçoens defpedaçados ; e corogndo-a antes de fe- 
pultada» fatisfez da íorte que lhe foy poífivel com a 
grandeza do lugar o aggravo do homicida ; confideran* 
do aquella innocencia morta , fem mais caufa , que a de 
naícer formoía; fem mais culpai que a de fer amada: 
e como naõ podia haver cxceílo çm dor taô juíla , era 

impof: 



PJRTE I. LIVRO I. 9 

iirpoíUvel ter dí feito Príncipe tsô fino. ElRey D. Fer- 
nando fcy arrante, e liberal , partes que , aíleiítando io- D\ Ttni(t}:ão\ 
brehuna gertil ditf tíic^aõ , ptdertô iLbornar a foilur.a , 
que cettiii inou kvallo cem o dfcívanecimento ao preci- 
pício ; porem que nnqtina fe íulUntou nelles pólos , que 
naõ perigtííle ? D. Joaó Primeiro, antes Meílre de Aviz , e d. ^oas o i: 
Defenfor do Reino , depois Rey , e Tronco de todos os 
de Europa, foy no reíplandecente das acçoens, einvenci- 
vel do animo , cryíUl , e aíjO , formado pela natureza uni* 
do efpeJho em que pudeflem verle os melhores Piincipes * 




Conde Joaõ Fernandes Andeiro os aggtavos do Paqo , Pe- 
lejou , venceo, etiiurfcu delReyde Caílella D. João 
Primeiro em Algibarrota, e muitas vezes dos feos Exér- 
citos, aíTiftido do valor invencivel do Ccnde D. Nuno Al- 
vares Pereira , fegundo Atlante de Portugal, e primeiro 
Progenitor daSerenillima Caía de Bragança i ajudando El- 
Rey a fuperar síTim aos Caílelhanos , ccmo aos máos 
Portuguezes. Socegada a guerra, opulento o Reino, 
crefcida a defcendercia Real,paílcu ElRey pcdeicíiíTimo 
a Africa , chegou â Cidade de Ceuta , faltou em terra , 
atacou a Praça , entrou*? , rendeo*a , e entregou a de- 
fenfa delia a Dom Pedro de Menezes , hum dos vaiero- 
fos , e eíclarecidos anteceíTores deíla Familii. Foy ElRey 
D. Joaõ devotillimo, melhor lufíre das acçt>ens, e ma- 
ior iegurança das vidíori^j. Deixou por SucceíTor da 
Coroa íeo filho terceiro D. Duarte , que a logrou com £>, Duarte. 
menos felicidade do que merecia; foy muito íciente, e 
muito valerofo ,* entrou em Ceuta dos primeircs que a 
occupáraó , padeceo , vivendo, a pena de ver ro Reiro 
infelicidades a que refiílio com grarde ccnfi-srcia; foy 
deílriíTimo domador dos mais ferozes cavallos, e ros exer- 
cícios da Cavallariaexcedeo a todos os dofeu tempo rajuf- 
tou as Leys do Reino , e fez guardar as mais juHas a 
feos Vaffalos. D. Affonfo quinto, o quechsmáraõ Afri- a Jffcrfo v» 
cano : que Sol o vío fem eígrimir a elpada , e que meya 
Lua, que nag eclipíaflein osíec* Eilandaites ? /.izila , Al- 
cácer } 



10 PORTUGAL RESTAURADO, 

cacer, e Tangere foraõ emprego do feu poder, e defpo- 
jo do feu valor. Tiyeraõ-o oi Caíbelhatios por íeu dsy , 
e 0$ Portuguizjs por íau Capitão.* aj íca a tólicidUá o 
faz lubsrbj , naoi a difgfaca pó Já diminuir lhe a g.oria. 
p. ^oai II, i^' Jo3õ U. , quw , Tead J Pnacipi , íe entaiou na empreza 
de Arzila I na vidaria de Touro, chegando a ler Rey 
mereceo o titulo d-* ii^r iacipe Ps^rfeito : tantas for-áõ a» vir- 
tudes de que íe compunhi! Nunca aliviou em outros liom* 
bros o pezo do Gov>;rnoi porque como naó, receava al- 
gum perigo, e qu^ilquer cuidado o difveiava » vmha a 
íar fó director da íua reputação, co.ii que íegutava os 
feos acertos j caíligou os valíailos indómitos , e nunca 
aguardou que ihe pediiíem premio os benetneritosi aos 
Caítelhanos trazia taô opprimido», que, te encontravaõ os 
íeos difigaios , lhes d iva a eícolher a paz ou a guerra , e 
elJes caítlgados com as íuas vidorias , ie rendiaõ fempre 
ao íiu preceito por confeguir a íua amizade. Deixou no 
Cabo de Boa-eíperança defcob^^rto defembaraçâda a cí« 
trada Real da índia, e no Reino de Gongo conquiílado 
íeguro fundamento da Fé , que depois fe eltabeleceo nas 
r>. Manoel Hiais remotis partes do Mundo. ElRcy O. Manoel felice 
fen competência, fendo contado por íilho único da ven- 
tura, por deícobrir , e conquiítar tantos Impérios, que 
todo o Uaiverfo celebrou o leu valor , e admirou a fuj 
prudência ; que Província deixou de o conhecer , e que 
Naçaô de o reípeiur ? Três partes contava do Mundo 
Europa , antes que elle reinaíTe , quarta lhe defcobrio o 
feu difvelo , lujeitando a America ao feu dominio : onde 
deixou aos Cafteihanos o que defprezou por mais fácil » 
querendo fó triunfar na Afia do menos útil , e mais culto* 
fo , para fe coroar n3 gloria pelas innumsravei? inão:i dos 
efpiritos, a que franqueou as portas do Geo. Seu íilho D. 
!>■ 'íoaõ III. ]^^^ ^^^- ^^y O centro de toda a piedade , teve género- 
fo íentimento de que feu pay lhe naô deixaíTe campo para 
dilatar as Conqaiíías ; governou-fe pela Religião com que 
eílabeleceo a juítiça, íempre inclinaio à mifericordia : 
íullentou a índia cooi repetidos íoccoiros , e foy vep.tu- 
rozo inítra mento de pilTar a ella o prodiglofo , e admirá- 
vel S. Fçiaciíco Xa7Í3r , gloria de Nayarrra , e efpiendof 

da 



TJBTE I. LI FIO I. II 

da Trdía. í IRcy D. 5ibaíli?ô íiiho co Fiircipe D. Josõ, 
e ntlo d'tlKty D. Jctõ lU* ii feJictn erte itcccdeo ro 
Keino , pciefTi , le lhe íaJtou a fcitLns , Icbrou-lhe o va- 
lor , c o Díõ coDÍegiàr o que intentava, naõ lhe pode 
rotbar a gloiia de err prender dilatar a le , e exterider o 
Império i defejava mais , qi^e a grr^rdeza herdr.da , a opi- 
nião adquirida: e tudo coníegnira , íe lhe nsõ atalhara 
os paílos a Jnveja da fortuna ^ porem o mar de Jsgíyíras , 
qutí cuftou aos Portugutzes a íua diígr£ça, raõóficgcu 
as eípevanças da íua reftituiçaõ , taõ arr?igad?.s ern ir,ui- 
tos cnraqoens » que paíisraõ da íujeiçaõ de i ortugel a Ca- 
llella a íua liberdade , com que parece que deíejallo 
era mais aíredo, que defí^ífogo , derronllraçcens que ló 
fe concedem ao maior mericimento. Faltando ElRey D, 
Sebaíliaô , fuccedeo no Reino íeu tio o Cardial D. Hen- ocardialjyl] 
rique i as virtudes de Prelado o íizeraõ grande na ellima- Kínrique, 
çaõ do Mundo , a íua perplexidade , que chorarão os 
íortuguezes , celebrarão os Caílelhanos : foy o feu ma- 
ior cuidado dilatar a Fé , e defterrar os vícios i viitudesi 
que , allim como a Coroa , Jhe prcpararrõ a Tiara. 

Eítes foraõ os Principes Portuguezes , que coroa- 
rão a Monarquia Luutana, e eftes os exemplares, que imi- 
tarão Varcens infignes do feu tempo em Portugal , pro- 
cedidos de outros , que em todos os feculos enrobrece- 
raõ o Mundo. Sirvaõ de abono asacçoens de Viriato ; as varoesinfgnesi 
de Sertório, contado como Portuguez ; o valor de Eal- Poríu^usi^es,. 
3are \, de Baucio Capeto ; Rechila ; EJRey AVamba ; D. 
Payo Gcrrea , que fez parar o Sol ; D. Nuro Alvares 
Pereira , que fez tremer a terra ; D. Pedro de Menezes i 
D. Duarte de ívlenezes ; D. Vaíco da Gama ; D. Frsrcif- 
co de Almeida \ Aíibnfo de Albuquerque ; D. Henrique 
de Menezes ', e Nuno da Cunha , que m.erecerr õ o titulo 
de Grandes ; Duarte Pacheco ; D. Luiz de AtP*de Ccnde 
de Atouguia,* D. Joaõ de Csílro, e outros muitos , que 
he impoíiivel contallos , cujas acçoens nunca pederaô fer 
encarecidas. Vencerão huns, e outros em vários tempos 
muitas vezes aos Csrthaginezes , aos Romanos , arí Ge» 
dos, aos Mouros, e aos Caítelhfrcs, e dos Gentios, e Tur- 
cos infinitas, Na(jOen$, contei;derido, e pelejando quafi 

iem» 



II PORTUGAL RESTAURADO, 

lempre com numsro inferior ao dos inimigos : cortarão 
naó conhecidos Mares i gitiharaô muitos K^mos , e íiae- 
raõ coatiecic a Lá/ Evangélica na Atrua, n^ Afu , e na 
Amenc4 a Naço^ns inaumerav^iís, píeganio-a Varjeas 
íantiiiimos, mujtjs dilles Martyres gíoriolji, floreicen- 
áo tíin irortugii em todos oj leculos njmeni iniigii* em 
todas as Fdcuididesi* purémcomoa fortuna naó confenta 
a granaeza dos impérios , toda eita gloria alcançada em 
Poitugal, todas citas viciorias coníeguidas , todoj eltes 
Riinoi v^onv^uiitados dcábaratou a o.niiíaõ dj hum ?.m: 
cipe í^jrcugde/i, e a negjwiaçió de huin Re/ Caitelha. 
no, ajudadj dosanimjs amOicioíoi dj tiuns homens in* 
gratos ao langue , de que íe ahmentavaó , e ini uigos da 
iliuitre i^atfia , em qui naUeraó , que produzia eite abof 
to por permiiiaô Divrina , porque tendj a gijfia de Por* 
tugal chagado ao maior auge , era neceíTario , que íe aba' 
teiíe » para tornar a tubir. kL como eltes foraõ os tunda* 
xnentos infehces dos glorioíos íuccellos deita tliitoria, 
dar'Jhe'ne-mos priícipu, particularizaado*os com as di* 
ílincçoens, e brevidade que for poirivel. 
jw ' d b£t- Chotavaó afíliclos os Vortuguezes a laílimoía 

dadeplrrigaU^'^^^^^^^ d'EiRsy D. Sebaítiaó, 6 com profundo fentimen- 
' lo te queixavaõ da perplexidade d'iílRey o Cardial D. 
Henrique', o qual tendo a irreíoluçaó por natureza, e o re« 
ceio por eíFeito do Habito , e dos annos , dilatava a Pof 
tugal a nomeação deíucceíTof» em conhecido prejuízo 
da lua tranquiliidadei porque, deívanecidas as idèas de ca* 
Zârle , intento, que teve no priícipiodo leu Gjveru) , 
fem reparar na Dignidade Sacerd Jtal, qu: profe íava,e em 
íeífeata e íete annjj , que havia feito , debilitado com 
muitas , e continuas infirmidades , parecendo por ha ma , e 
outra razão , que leria conhecida njnte iafruduofo o ma* 
trimonio , ainda que folie dif^Jinfado ,* porque para fer a 
fucceilaó natural , dirlicultavaoM oi annos , e os achaques', 
e para ler milagrofa , naô pare:la meritório o facriíicio 
da mudança da vida. Reconhecerão os Pretendentes da 
Coroa d 2 i^ortugal eltes etíeitjs dís annos en ElKíy, e 
tomarão confimçi para declarar em fua vida a íua preten* 
çaô. Erao ellej (cOi-neç^no; peh parte mais pod;roía a 

que 



que âíHílio a fortuna ) D. Filif pe \\ Rey de Csííella, 
por fer íilbo da Jirper-Miiz D. Ilibei , filharais ^]Q\h^PriiUef■ta U 
delRey D. Mareei de Boa Meircria. A Duqueza de Br a- ^7;;// ^7;;; 
gsnça D. Catharina , caiada com o Duque D. Jcéô , filha r»/?;^^. 
do Infante D. Duarte irnr.aó da In^peratriz. O Duque de' 
Saboya Emmanuel Philiiberto.filho da Infanta D.Beatriz, 
filha legunda delRey D. Manoel. Raynuntio filho primo» 
genito da Princeza de Parn-a D. Maria , irrr aa njais velha 
da Duqueza D. Catharina. O Prior do Crato D. António, 
filho , que pretendia íer legitimo; Infante D. Luiz filho 
terceiro delRey D.Manoel. A ultima Preterçora, com 
mais remota , e de roenos provada juítiça , era Catharina 
de Medicis Rainha de França, dizendo, que defcendia 
delRey D. Afi^onfo 111., Conde de Bolonha, e daCondefía 
Matilde fua primeira mulher ; porém averiguandcfe que 
uaõ teve filhos defte primeiro mstrim.onio » foi excluída 
da pretençaô i e íeguio quafi os m.eímos pífios a dos Du- 
ques de Saboya , e Parma , porque como eraõ pouco po- 
derofos , e naó unirão ás inítancias dos Emibaixadores, que 
irandáraõ , fubornos , e ameaços , artigos naquelles tem- 
pos fem contradicçaõ, ficou todo o vigor da contenda en- 
tre ElRey D. Filippe , a Duqueza de Bragança D. Catha- 
rina , e o Prior do Crato D. António. A Duqueza era todo 
o emprego da aíFeiçaõ delRey D. Henrique ; D. António 
fó nos primeiros annos alcançou o leu favor. Havia fica- 
do captivo na batalha de Africa , e com induílria alcan- 
çado liberdade: tanto que chegcu a Lisboa , trstcu de 
manifeftar a fua iulliça : pcrém. procedco nas diligencias 
com tanta demazia , que, cfTerdendo-íe ElRey , naó ló 
lhe encontrou a negociação de legitimar íe ( que com: ma- 
ior calor applicava ) mas obrigou-o a fahir da Corte, e 
procedeo com feveridade contra feos procuradores : mâs 
D. António, que fe conílituia vivo retrato delRey D; ,.-. 
Joaõ I. aflim no m.odo de nafcer, com.o nas esperanças ^'.'^a?/^.Sí'^* 
de reinar , naõ afroxou com o deílerro as negcciaçoens,, ^ 

procurando por tcdos es camiinhos ganhar es animes da 
Nobreza , e Povo. A Duqueza de Bragança , e o Duque 
D. Jopõ íeu marido eípersvaõ, que a fua juíliç?, e o fsvor 
àelRsy íeu tio , conhecidaxnente icclinado s corcíllos ,, 



14 PORTUGAL RESTAURADO, 

vanceíTam todas as contradicçoens, e fuperaflem as forças 
de toJos os emulos. Eít js razjens taÕ forçofas perluadiao 
o anitnj delR^y , deixando fe juntameme vencer dv« 
ificUtíJtfe ElRey muit'^^ íuccdíloTQS , que co»n 3 Ga(a de Bragança dava 
àcjfadi Br^ á Coroa de Portugal , confiJerando no Duque de Barce • 
S'"*^'*' los D. TlieodofiJ , Primogénito delia, taó galhardo ef- 

pirito , que de onze annos le ti ivia achado na batalha com 
ElRey D. Sebaftiaõ , e perdida ella ticáraprizioneiro, le- 
vanJoo os Mouros para Marrocos com huma glorioía 
ferida na cabeça , nao podendo a guerra crear com melhor 
leite taó poucos , egeneroíos annos. Todas eltas circuinf. 
tancías arrazoadas i e forçofas affjiçoavaõ os Pottugue» 
zes defintereíTados á julliça di Cafa de Bragançi : porem 
naõ pudjraò prevalecer os clamores dos independentc?s 
contra os ambicio(os , que atropelarão as Leys da razaõ, 
armados dointereffe; naó tendo forçi aquelles golpes pa* 
ra romper a dureza deites peitos , que em tudo degenera- 
rão da antiga conítancia , e fidelidade Portuguezat dei- 
xando'fe perfuadir do poder delR^y de Calleila , e das di* 
ligeiíciasde D. Ghriltovaô de Muur-?. 

Na grande fabrica do Elcurial achou a nova da 
perda delR^y D. Sebaíliaó a EIRey D. Filippe: e como 
naquelle tempo era avaliado pelo melhor mellre da Poli» 
tica , por naõ perder o credito, naõ intrepoz dilação, gran- 
de inimiga dos negócios de tantas confequencias. Deípa» 
'Mânãa EiRey ^^^^ ^^go 3 Portugal D. Chriltovaõ de Moura • queava- 
3). Ftiippe a D.* y^ou pelo íogiíio mais capaz para lograr o leu intento, 
chriflovao ^//por fer D. Chriílovaõ Portuguez , e aparentado com mui- 
f "■'*''* ^'"'^' tas famílias delle Ríiao. Havia paíTado a Calleila por mi- 
aixj jr, ^j^Q j^ Princeza D. Joanni» que deixou Portugal por mor- 
te do Príncipe D. Joaò feu marido. Em quanto a Princeza 
foy viva , lograva D. Chriftovaõ grandes favores feos ; 
quando morreo , o deixou muito encomendado a feu ir- 
rnaõ EIRey D. Filippe, o qual , reconhecendo a fua ca- 
pacidade , o occupou em os maiores Lugares. Chegou D, 
Chriftovaõ a Lisboa , e como era comporto de bom natu- 
ral , aiadado das liçoens de taõ excellente meítre , propoz 
a EIRey com diífimulaçaõ o negocio apparente , a que dií- 
fe fora miiniadD ^ quã era darilis o pezimâ da moite del- 

Rey 



rJETE I. JJFKO J. ij 

Rey D. Sebaftiaf . Elogo cem gísrdedellreza correqou 
s alieiçí^ar es trinos leUcos ci honi'j:i t7ts & fnttfn» 
çfcó delBey D. 1 ilippe, g< veinandole pcls iiclinc*Çcõ, 
qutí itrccnhecia eip crda i.uo-a daspelloa» coit» quetiaia» 
va. EiKey U. Her.r que obrigado dos clainoics de todo o 
Reino.e da círeiçaó qi^e íeiT>pie teve a íua ícbiinha a Lu- 
qutza de Bragança , da juftiça com que hcviade prtftiir 
aos mais Frttcndentes , e do temor que Uie caulársõ «s 
diligencias de D. Chiiílovaó , que lhe ní.õ foraõ crccber- 
tas , determinou nomear a Duqueza Succeílora do Rei- 
no : e foy eíle impulfo com tanta rtlolucaõ , queccrrmu* 
nicou a D. Joaõ Mafcarenhas , de quem mnito íe hísva , 
que o dia feguinte declarava a Duqutza de Bragança por 
fucceflora do Reino. O que Ic dilatou erii fiar a D» Joaô 
eíte fegredo de tanta importância , tardou eJle em delco- 
brillo a D. Chriftovâô de Mcura , n trcha que indigna- 
mente cahio em animo taõ nobre , e valerofo , que havia 
íuftentado o fegundo» e memorável fitic da Praça de Dío. 
D. Chriílovaó , tanto que teve eíla noticia, confideran- 
do baldada a diligencia, a que viera , e defíruidos os fun- 
damentos de toda a íua fortuna , £codio Jogo a atalhar a 
refoluçaõ delRey. Chegou tarde so Convento de Xabre- 
gas , onde ElRey eftava , e neõ podendo ccníeguir au- 
diência , paflou a noite nos Olivaes vizinhos, nc-c que- 
rendo , que pela manhãa fe anticipaíle a refojuçaó delRey 
á íua diligencia. AíTim o confeguio , e fallou-lhe ao ama- ialai>.chr'M 
rhecer, enlaçou no diícurfo tantos ameaços, e ufou ác 'í^õ íi FiRey 3 
tanta afpereza , reconhecendo a debilidade do feu eíplti- Mf^!'^^'^''^/''-: 
to , que parecia , que entre ElKey , e D. Chriílovaó fe ha- '^^'"''^ 
via trocado o exercício , es grandez?, Foy efía efilcacia 
tôõ poderoía., que bailou para dar a Coroa de Portugal a 
ElRey D. Filippe , e para a tirsr da ctheça á Diqucza de 
Bragança : porque H.lRey D. Henrique reiriflo , e teme» 
rofo lulpendeo a deliberação de declarar a Duqueza fuc- 
ceíTora do Reino ; de que refultcu íuccedeiem tantos 
embaraços, que veio 3 cahir Poitugal na infelice fujei- 
çaõ de Cífiella. D. ChriOovfõ avizcu prciDptEirerte a 
É Rey do iruito que a fua induíiiia havia cccíeguido: 
porque naõ lóficuva.div cuida a tíelibtifc^aÕ jdelRey no- 



i6 PORTUGAL RESTAUP^^DO ; 

mear a Duqueza de Bragança fucceffora do Reino (ha- 
vendo elle trazido ordem para lhe dar o parabém , quan- 
do alíin:! fuccedelle ) mas qus fe achava co n tantas, e 
taò importantes peíloasá Tua devoção , qae pjr iníbntes 
Ihecrefcíaó as eíperanças de grangear para ElRey D. Ft« 
lippe o Reino , que ambicioíamente íolicitava , íiado» 
mais que no feu poder , na debilidade das forças de Por* 
t jgal ,• e mais nos íeos exércitos , que na faa juítiça. 

ElRey D. Filippe recebeo cum grande contentaT 
mento as notícias de D. Ghriílovaõ ; e logo paradjr ma. 
ior calor ás diligencias, e aosfubornos, elegeo para Em. 
bâixador de Portugal a D. Pedro Giron , Duque de OUu- 
nj-;, B-j?., , "2, tomando por pretexto mandar a ElRey O. Henrique 
Porviíd o ut' CO n mais rormalidade aíh n o pezame da morte delKey 
q;í:Jjopj4. D. S:2baítiaó I como o parabém de haver tomado poíTe da 
Coroa. Era D. Pedro deílfo, focegado, e prudente , dif* 
poíiçoensque frizavaó com o geniode D- Chriílovaõ de 
Moura, de quem era grande amigo. Chegou D. P^d o 
a Lisboa,* e feita a funcçaó publica , applicou todas as ne- 
gociaçoens occultas: compraraó-fe huns, intimidaraô*fá 
outros , e todos íe confaadíraó,. para fe perderem todo?. 
ElRíy chamou a Cortes para moílrar o extremo da irre- 
chamaElReya foluçaô ■, porque quando todos aguardavJÔ , que nomeaf- 
coríes, fg Succeítor , decidio judicialmente a contenda , decla- 

rando-le juiz delia , como era de direito. Ordenou para 
efte intento, que foflem citados os Pretendentes , pára 
que requerertem fua juítiça por íi , ou por feos procura- 
dores ; e querendo, para o caio em que faltaíTe » durando 
Komea F.iR-y O litigio , nomear Juizes que a decidilTem , e Governa- 
covcrn.idorjs/ i\oi^s que executaílem a fentença , e adaiiniílraíTem en« 
J-^.r^e5. tretantoo Reino , lhe coníuliaraò os Três Eftados delle 

quinze Fidalg 3S , e vinte e duas pelloas de letras. Deftes 
elege 3 onze para Juizes da Gau(a , e do5 qainze cinco pa- 
ra Gos^ernadores do Reino , de.iois de fua morte. Eltes 
forao D. Jorge de Almeida Arcebilpo de Lisboa , D, Jo lo 
Tello de Menezes , Diog) Lopes de Soufa , Dom joa5 
Maícarenhas, Fraacifcj de Si - porém ficou eíta n )me:i' 
çaj em íegteio até a mo; te dflRey , e veio a fer a fepul- 
iúti do Reino, Diípoz ElRíylfeais, que todos Oj Eíla- 

dos 



?ARTE I. LIVRO 1. ' 17 

dos juraflem de naõ obedecer a Pretendente algum , fei\aõ 
ao que , pela lentença , que íobre a cauía Ic profeiiíle , 
foíle declar&do íuccelíor do Reino. O Duque de Bragan- Fjfeito das co~r, 
ça foy o prÍRieiro que obcdeceo a efte preceito , fazendo tes. 
virltide tía impoilibilidade. D. António tomou o juramen- 
to conitrangiuo. ElRey D. i-ilippc proteltou, que nsõ vi- 
nha no contrato » dizenao : Que a íua juítiça era taõ clara 
que naõ queiia pôiJa en. Juizu ; nrianifelta aeíhcza para a 
ameaçar conn o poder , e bera lograda ; porque ElRey 
D. Henrique, vendo eíta relo!uçaò, acabou de fe tntre- Mudaocar: 
gar de todo ao rectyo, e dependo todas as V.^'^^ ^i^^o diaideofmiaoi 
obrigavaõ á juíUça da Laia de i3ríigança , deterwiinou an- e^uereuger d, 
tcponhe tJKey U.tilippe , prevalecendo o tíeícito contra ^^^W«» 
o aííeclo. 

Tomada efta refoluçaô , intentou perfuadir a 
Duqueza D. Catharina# a quem sntes determir?ava co, 
ro^ir , a que fe íati^tizeíle ló com as oíFertas , que ElRey 
de Caítcila lhe fazia , e que deiiitille á-i pretenç-^õ. ttào prgpo/iaán»^ 
eHas : Ldrgarhe o Braiu , de quc: poderia o Duc[us àc (}tí2za,eccr.di. 
Bragança tomar o Titulo de Rey : que em Portugal lhe coem para deft» 
concedia perpetuo o Meílrado de <. hriíto » e todas as ^"'' 
ifençoens , e privilégios que pudeflem engrandecer a íua 
Cala : que lhe dava licença para poder todos os annos 
mandar huma Nào á india por lua conta , e que ajuítaria 
o caíamento de leu filho o Príncipe D, Diogo com huma 
de íuas filhas, por íerem duas , qual elle tlcolheíle. El- 
Rey D. Henrique , para facilitar as difficuldades , que 
fuppuaha achar neíla propufta , mandou a Vi!la'Viçoía o ., , „.„ ^ 

•Dl 1 o - y-^ ! • 1 Tl oTTv- I ^ Manda aVíIU' 

l^adre Jorge berrao da Con panhia de jbbUb , elogo em n^oia o Padre 
íeu feguimento ao Doutor Pculo AfFonfo , de (\\XQ.íài\a Jorge serraõ.e 
grande eílimí^çaõ, e hum do? primeiros Deputados da " ^"'''""^''''''^*' 
Meia da Conlciencis. Chegarão os dous a Viila- Viçofa, ^/"/^^* 
e juntos falarão a Duquezs. } oy a fubítancia da propoíla, 
dizerem*lhe da jarte delRey : Qjje lua Alteza, mais 
como pay , que como parei.te , ihe accntelhava rr.õ 
quizeííe deixar o certo pelo ari ifcado : que elle raõ fodia 
negar que fempie tivera por fem envida a jufíiça da Gafa 
de Bragança , e que o Icu intento fora preferilla a todos 
os Pretendentes dr- Coroa : poiém que vetdo aí trepas del-^ 
Tom. I. B Rey 



i8 TORTUGJL RESTAURADO , 

Rcy D.Filippe muito vizinhas , e o pouco poder com que 
a Cafa de Bragínça fe achava para lhe reíillir , juJgava 
que , nomeálla \ era o meímo que deltruilla que aílim 
pedia a Sua Alteza com toda a affeiçaõ , e encarecimento, 
que depoíla outra qualquer imaginação , aceitaíle os par- 
tidos que lhe offerecia £lRey de Caílella \ para queelle 
fem efcrupulo pudelie nomeallo por Succeílor da Coroa 
de Portugal , o que Súa Alteza fe ferviíTe de reíponder 
fem a menor dilação. A Duqueza ficou juílamente admi- 
rada deíla propofta , áqual refpondeo em huma diícreta 
carta, de que fe conferva o original. Lontinhaó as razoens 
delia : que o alivio que lhe ficava , eraconfiderar aquella 
'jRepoflada D«- ptopoíla como naíclda delRey D. Filippe , e naõ de fua 
^neza. Alteza : que na brevidade com que ordenava lhe refpon- 

delTe , naó podia obedecer-lhe , como deíejava , por eí- 
crito , por íer a matéria de tanta confideraçaõ , e pezo • 
que naõ era pofiivel tratalla, íenaó de rofto a rofto j e 
alíim lhe pedia licença para lhe ir beijar a maõ , e junta- 
mente reprefentar-lhe a notoriedade da fua juíliça, na 
qual conformavaô quafi todos os maiores Letrados do Rei^ 
no : mas que fobre tudo íó com fua Alteza queria açonfe- 
3har*fe» e com os intereíles públicos de feos naturacsi por- 
que a ninguém mais que a elles convinha , que houveíTe 
hum Rey Portuguez , e que neíte fentido , quando im- 
pcrtafle que a fua Caía cedeíTe do leu direito , por fegult 
efte fim , deixaria a pretençaõ do Reino » pondo'fe aos pés 
de fua Alteza , para que decerminaíTe o que mais conviefle 
ú confervaçaõ da Coroa : que toda a fua anciã , todo o feu 
deíejo , e cuidado fe refumia em buícar meios , para que 
fe confervalle a memoria dos glorioíos Príncipes feos Pro- 
genitores ; a qual , havendo mais de quatro centos annos 
que durava nefte Império , naõ podia haver razaõ para o 
aggregar a huma Monarquia , onde com o nome perdefr 
íe a fama fingular de fuás acçoens. Que fe o poder de 
Caítella era grande, e as fuás Armas horríveis, que o 
poder da Deos era maior , e as vidorias , e bons fucccf- 
íos da guerra fó da fua maõ fe díílribuiaõ ; que naõ pre- 
fumia de hum Principe taõ Catholico , como D. Filippe, 
. qufi toma.íítí as armas pata occupar o que lliQ naõ perten- 
■ / cia: 



pyíRTE 1. LIVRO "í^y 19 

da; que fefua Alteza a npméaíTe por Succeílora do Rei- 
no, faria o que era obrigado' em confciencia » edejufti- 
ça i e que fendo a caufa taõ jufta , o Ceo a tomaria por 
iua conta, huma vez declarada, e a defenderia contra 
todos íeos inimigos : que fedefta refoluçaõ reíultaflem 
guerras, edamnos, nunca íua Alteza podia incorrer em 
culpa alguma , nem ter o menor efcrupulo ; pois cumpria 
inteiramente com fua obrigação , dando a cada hum o 
que lhe tocava , como Rey Chriftaõ , e Juiz redlo i que 
ió fua Alteza o era nefta cau^a » por mais que Caftella o 
tiegafie ; e que ifto íuppoílo . o declarar a fentença em 
favor da juftiça , mais era evitar guerras que caulállas = 
que aparte incbediente à razão, e ao direito, quando 
cncontraíTe por força o cue elliveíTe julgado que naõ era 
feu , fempre correria per lua conta o damno que fe origi- 
nafledeftíi difcordia: e que fe para oíocego publico fof- 
feneceflâfio , que ella naõ falafle palavra nosíeos inte*. 
reííes , o faria logo , com tanto que íua Alteza declarsfíe 
em Cortei geraes de todo o Reino a refoluçaÕ i que to- 
mava de nomear a ElRey Catholico Succeflor da Coroa ; 
pois era juílo que ouviíle a todos em hum negocio , que 
a todos tocava ; que fe arrojava a pedir a íua Alteza , que 
fe naô entr^gifie a temer ameaços delKey de Callellaj 
porque fiava muito dà fua chriftandade : que qusnto aos 
partidos que elle lhe ofierecia,lhe nao convinha aceitallos; 
e que fó querendo elle a)ullar-fe em huraa de duas con- 
veniências, fe poderiaó es negócios compor com menos 
embaraços *. ajs quses eraõ , ou cafar o Duque de Esrcel- 
los com huma Infarta de Caftella , ou dsr-lhe ElRey Ca- 
tholico a D. Filippe feu filho fegundo.para que cafafle com 
hurra de fuás duas filhas , que deíla forte renur.ciaria todo 
feu direito em hum de s dous » para que em qualquer fuc- 
ceílo fícaííe eíte Reino íempre com Principe próprio , e 
de nenhuma forte íe uniíle á Coroa de Caftella •. que ne(. 
ta conformidade podia ella da fua parte ( aim^â que fícaf- 
fe a fua Cafa defraudada ái taõ generofa herança ) ceder 
da lua preíençaõ, feguindo a regra , de que peza mais 
o bem commum que o particular •, eque naó punha duvi- 
da que os Portuguezes appl?udiria(3 fimilhante refolu* 

Bi çaõ , 



4o TORTUGAL liESTJUBJDO , 

çao , pois coníegí«a4 o que defejavaô : e que de outra 
lórte naõ entendia dos que erjõíisis , e conltantes, e que 
deíejavaô parecer fe com os antigos zelolos da coiucr. 
vaçaõ da Pátria , que viriaõ em ouiro partido , ainda que 
alguns o intentâílein. Concluía finalmente : que quando 
íua Alteza Ine naó confedclie liceuça para ir em pelloa 
communicar'lhe eíte negocio, era clle dt; tanta impor- 
tsncia , que n íõ p^dia rcíulver*le com a prefla que o Dou- 
tor Paulo Affjiilo lhe hivia repreíentado da lua parte, 
pois era fó , e menos aífiftida de Coníelheiros, que El- 
Rey Gâtholico : que fe lervilFe de dilatar a eíte rejpeitoa 
íua refoluçaõ ultima i e quando quiz-^íle tomalla , folTe 
em GortJi , aonle elU avizaria a lua determinação; re- 
matando , que nunca havia de exceder o goílo tíe íua Al- 
teza , a quem rogtva , pela boa rnemona dos Príncipes 
feus Avós, qutzelle attender, e confiderar iodas eltas 
razosns , e outras muitas que d:; palavra dííTera a Paulo 
Affjnfo, com quc?m conferira diíferenteji diíBcu Idades , e 
duvidas , que podiaõ fucceder neita caufa , fendo roais 
delRey , e do Reino, que fui: pedindo a Deos ali umiaf^ 
le nel la a fila Alteza , eo guardaíle infinitos annos. Era a 
data em VilU-Viçofa ,era 20 de Outubro do anno ds 

^579- 

Eíla carta achou a ElRey D. Henrique caml- 
nhanio pira a morte a toda a preffa , mas o defejo que 
tinha de parecer Pay da Pátria » lhe deo alento para fe 
paílar a Almeirim a dar principio ás Cortes, que havia 
convocado para aquelíe lugar. Porém chegando á noticia 
do povo, que elle intentava nomear por Succellor do 
Reino a ElRey D, Filippe , clamarão todos fus iolos con- 
Alterafeoíx)- traeftj refoluç ló , e quizeraô abfogar afi od^rtito de 
■^■otomanoti' gjgg^^ PrincJpe: propofiçiõ quede antes tinhaõ feito, e 
'Xg€r FiRey^" 9'-*" ^^ ^^" "^^ hâvía admittido. ElRey neíta ultima affiic- 
dtCajicUa. ; çaÕ couci ieo ao povo que propuzelle asrazoeas por on- 
de lhe tocava eíle privilegio: mas nao chegou a exami- 
nallas , aguardando por horas as ultimas de fua vida. Eíla 
noticia chegou a Villa- Viçofa , e obrigou a Duqueza de 
cAí?/i«D«^w.Brag3nçí a fe pôr a caminho fem efperar licença. Che- 
z.aaAir»eirtm.gQ\x a Aiiiisif íih a tsmpo que ElRey eftava expirando; 

po« 



TARTE I. LirRO I. ai 

porém achando-o ainda com inteiro juizo , e voz defem- 
baraçada, teve lugar para conferir com elle largo eípa- 
ço , e íaio da conferencia taõ alegre , que todos , os que a 
víraó , entenderão que vencerão a pretençaô i de que al^ 
guns indignamente íicáraõ pouco latisfeitos, ou por te- 
rem entregue o coração a Caltella , ou por nâô íerem af- 
feiçoados a foberaniadaDuqueza de Bragança, que pu- 
dera fuavizar a pelioa do Duque D.joaõ , te fora mais 
adivo. Expirou ElRey , e íicáraõ deívanecidas todas eftas ^'J[\'i^„%'. 
prelumpçoens,porque-,aberto oTeítamento,le achou nel- 1^, Xnfe»Tep- 
Je , que o Reino le entragalTe a quem tiveile mais juítiça. mentf. 
Tanio pôde o temor , que viveo no coração d*EIRey de- 
pois de morto , e o obrigou a que tomaíle eíta delacerta* 
da, infeiice, e eícrupuioía reíoluçaõ , de que logo ex- 
perimentou o caítigo a lua memoria : porque os mais de 
íeos vaíljlios eltimâraõ a lua morte , e naõ houve algum 
a que cultalle pezar a lua falta. Morreo o ultimo de jânei* 
ro , dia em que havia nacido , aos íetenta e oito annos da 
fua idade : foy de eltatura pequena , branco , e louro, 
olhos azuis , parecido a ElRey D.Manoel mais no corpo, 
que no animo ; eíleve depofitado em Almeirim ; eílá íes 
puliado em Belem. 

Tanto que ElRey D.Henrique morreo , ficáraô 
os cinco Governadores exercitando o feu poder , e come- 
çarão a maquinar a Portugal a fua ruina. Foy a primeira ^^/^''^^"^''^^'^ 
acçaô, quelizeraô, deípedirem as Cortes : logo dei pa- c/,"if//J^*^í 
charaó Embaixadores a ElRey Catholico , pedindo-lhe avizo\ HRey 
quizefle depor as Armas , e elperar a fentença , infmuan- ^^ caftelh, 
do-lhe , que fahiría aíeu favor. O que entaõ pareceo def* 
treza , íe contou, depois da fentarjça dada, por promef- 
ía , com pouco credito dos Governadores, ficando fóra 
deita calumnia D.joaõ Tello de Menezes, porque naõ lo ^parta-p- ãõs 
le naõ achou em i\ya-Monte quando íe declarou a fenteri- '"'^'" ^: ^""^ 
ça , mas conlervou em todo o tempo o animo tao intei- Js^auJdhad»/ 
ro , que na força das negociações eícrevia o Duque de " ^"^^ ' ' ' 
OÍTuna a ElRey D. Filippe , que a D. Joaõ Tello ou íe 
lhe havia de cortar a cabeça , cu trazello íobrsa cabeça: 
e da meíma forte o Arcebilpo de Lisboa. ÈlRey Catholi- ^urí(!ElRey'0\ 
CO , tanto que lhe chegou â nova da morte d'EJRey D. riJt^iExmuX 
Tom. 1. B 3 Hen- 



2t FÕRTVGAL RESTAURADO, 

Henrique , juntou logo o Exercito , que muitos dias ani 
tes havia prevenido, chamando a eíle fim detlandesos 
Meftres de Caropo , e Capitães de maior reputação , obri- 
gando-o$ a que trouxeílem comfigo os loJdados mais ve- 
teranos. Compunha-le o Hxeicito de dezoito mi J infan- 
tes , e mil e quinhentos Cavallos : a boa qualidade da 
gente fazia diffimulcir o potco numero delle , e as mais 
preveijçoens correi pondiaõ á importância da emprezs. 
>7í»3M ohuí^ue Elegeo ElRey por General delia gente a D.Fernando Al- 
deAivaporGe- vares de Toledo Duque de Alva , excellente Capitão da- 
-^ - quelle tempo » íoltando-o do Caftello de Uzeda , onde o 

tinha prezo para fiar do íeu valor eíla Conquiíta» Seguio 
ElRey com toda a Caía Real ao Exercito , com determi- 
nação de juntar o trato brando ao rigoroío , confideran* 
do , que leria mais fatil render aos Portuguezes com a 
fuavidade , que com o poder \ porém a debilidade das foi- 
ças de Portugil fszia excular todas eftas politicas. Em 
quanto ElRey D. Filippe prevenia o Exercito, accdio o 
Prior do Crato a reprelentar aos Governadores a fua jufti- 
ça » e achando nelles menos attençaõ da que pretendia , fer 
guio outro caninho n^ais precipitado , por lhe faltarem 
^ meios para lograr o feu intento. Difpoz em Cantarem os 

^iclama-fe^ey gnimos dos poucDj que O Dcompanhavaó , os quaesobri- 
loZlantílem. ^f^^^ ^^ fidelidade, e do impulío, íem attençsò ao pe- 
rigo , o scclamáraõ Rey com poucas ceremonias i e menos 
Emra em Lis- prudcncia. Com cíle titulo paílrju D.Antonio a Li&boa » 
ioa , prepara-fe oude fim contrsdicçaó foy obedecido : logo íe preparou 
$araadeftnja. para defender a Cidade com maior confiança que forças; 
porque, coníumidos em Africa os foldados , e os thefou- 
ros , e diveitidâs as aliança.^ pelas negociações d'£«]Rey 
Catholico , as Províncias do Reino divididas em opin Óes, 
por maiores que foraô as diligencias do Prior do Crato, 
naõ pôde juntar mais que quatro mil homens, huns la- 
vradores, outros eícravos , e todos taõ mal armados, e 
com tao pouca dlfciplina , que naõ entendiaô a mais fácil 
operação militar , e o Prior do Crato , a que naõ faltavaõ 
virtudes, carecia totalmente de experiência. 
' ' EntFe a ambição d ElRey Catholico , e as temeri. 

SSr'' dades do Píior do Crato íluanava o Duque de Bragança, 



FARTE L LIVRO I. i^ 

e fiado fó na fua juíliça , a reprefentava com repetidíiJ 
inítancias aos Governadores : feguio-os a Santarém para 
onde íe mudáraó j pslTou com elles a Setúbal , que bufcá* 
raõ por refugio da pette, em que ardia o Reino-, e defenga* 
nado finalmente de que eraõ infruduoUs todas as tuas di- 
ligenbiiiS » e que os ânimos de quafi toda a nobrei^a eíta-- 
Vaó corrompidos , o Povo fem forças nem conftancia , os 
amigos largando a íua )uíti<;ja por attender á própria cora* 
moJidadei naò querendo nem unir íe a D. António (co- 
mo elle pretendeo) nem aceitar os partidos , que ElRey 
D. Filippe lhe mandou cffcrecer por D. CliriftovaÕ dé 
Moura , íe retirou a Portel , Lug^r feu na Província ds neríra-fe a por\ 
Alemíeio^deixando aos Governadores íuítanciada em hum '*^* 
papel a lua juítiça taó cKira , que , a naó íe interporem a 
ambição, e o medo , pouca duvida houvera em fe pro- 
ferir a ientençi a leu favor. Furaõ as íuas razoens expof- 
tas neite íentidoi Moilrava ; que D;?o> inliituira o Rei- s«2:»f»í^«i?^ 
no de Portugal , eleí>endo no Campo de Ourique a ElRey 'i"^' 
D. Aflonlo i^lennques com Império independente , e fo- 
ber <no, e que fora eitabelecido nelle, e feos SucceíTores, 
para Icvaf eni , como f uccedeo , o leu Santo nome » e Ley 
hvange íca ás Njçoens m^is barbaras, e Regioens mais 
remoras . que eíta eletçaõ fora confirmada com huma das 
maii infignes viclorias , que alcançarão dos Infiéis as Ar- 
mas Catholicas: que fora tlRey antes delia acclarrado pe- 
lo Exercto , e depois eleiro , e iurado pelos Três Eftados 
do Reino nas Cortes , que fe juntarão na Cidade de Lame- 
go, cek'brad s noanno de iI45'm nas quaes fe decretarão, 
e eltâbeleceraó as Ley> fundamentaes , e forma que fe 
devia ter na fucceflaó deí^e Reino ; porque o intento dos 
Purtuguezes fora naquella primeira creaçaó delle, eleger 
Reys, que os governaíTem em paz, e juífiça, coníervaííem 
a íua liberdade, e defendeíTem de íeos inimigos: decla* 
rando, (por anteverem com prudência os caíos futuros) 
que quando faltaíle a algum dos Reys filho Varáõ, pudef- 
íc herdir o Reino a fi ha mais velha , fe eí]:i veíle eoi Po tu» 
gal , e caí .fie com Portuguez , excluindo com ley , e 
c]aufu'aexprelTa qualquer Infanta, que cafaíTe fora do Rei- 
no cora Piincipe extrangeiro j porque como inítituiVao 

B 4 Reys 



■J3-4 PORTVGJL REST^VRÀDO, 

Reys para fua confervaçaõ , e quizeraõ , que foíTe Impé- 
rio hereditário nos Príncipes naturaes, negáraõ jullamen- 
te aquelle privilegio aos extrangeiros , e as Princezas que 
com elles cafaffcm , para que naõ foílem inltrumento da lua 
ruina ; que admittiràõ as filhas em quanto naturaes, e as 
excluirão em quanto extrargeiras : querendo moílrar, que 
inílitui õ Príncipes para a Republica , e naõ Republica pa- 
ra os Príncipes ; porque a fucceílaõ dos Reys fo devia at- 
tender á fua confervaçaõ, e liberdade, devendo eltego- 
Veinar^fe pelas fuás próprias leys , feguindo invioJavel* 
mente na fucceíTaô as que decretarão em feos princípios ; 
c fendo etta taõ importante , que lhe fegurava , e livrava 
entrar como herança em poder de feos inimigos , naõ per» 
mittindo que qualquer extrangeiro , ou natural, que naô 
Vivefle no Reino , e tiveíTe nelle íeu domicilio ( como de^ 
pois declararão as leys , que lhe deraõ os feos Principes^) 
gczaíle alguns bens da Coroa , pofto que lhe pertenceflem 
por direito hereditário :e que neíte fentido naõ podiaõ per- 
inittir que lografle toda efta Coroa , quem naõ foíle natu- 
ral deite Reino: que efta meíma ley feobfervára , e ti- 
vera íeu jufto vigor quando por morte d ElRey D.Fer- 
nando, que acabou fem mais filhos que a Infanta D.Bea- 
triz, caiando com ElRey D. Joaõ I. deCaftella, foraex* 
cluida da fucceffaõ por efte fundamento nas Cortes celebra- 
das na Cidade de Coimbra no mez de Abril do anno de 
1382, nas quaes declarársõ osTrezEíladosdoReinode 
coníentimento comum , e fem controverfia alguma , que a 
Infanta D. Beatriz por fer cafadâ com ElRey deCaftella, 
era incapsz defucceder no Reino ; e os Trez Eílados jun- 
tos em Cortes , a quem fó tocava decidir ellas matérias , 
houvéraõ por vago , e elegéraÔ ElRey D. JoaÕ I. que o 
liavia governado , e defendido dos Caítelhanos com taõ in- 
íignes YÍ<5lorias , como a fama celebrava •, e que naõ fó ex« 
cluíraõ eítes verdadeiros Portuguezes a Rainha D.Bea- 
triz , mas também aos Infantes D. Joaõ , e D. Diniz • fi* 
lhos d' ElRey D.Pedro, e de D.Ignez de Caftro coroada de- 
pois de morta , por íe haverem paíTado a Caftella , e efta- 
rem impedidos, e prezos por aquelle Rey» Moítrando que 
o zelo da honra, o amor da Pátria >^e confervaçaõ da li- 
berdade 



PJR7E I. LlVTkO 1. a; 

berdade em Rey natural, e ^cfimpedido, era a ley mais 
julta , e o afitdo n ais pcderolo, e rriais tonfoi me to in- 
tento » que tiveifcõ os Poriugutzes na eleição dos ieos 
Piincipes . e que ainda que tquelles fundanr-ertos raõ 
foraó tcõ claros, e notórios» eíle exemplo ló baldava 
para excluir totalmente a pretençaõ dElRey D. Fiiip. 
pe , e dos mais Príncipes extrangeiros , e juílilicar por 
melhor, e mais íóJida a caula de D. Catharina lua iru- 
Iher j porque nella concorriao as mefmas prerog tivas, 
que os Doutores spontaVcó, confórm.e as diípcliçoens, 
e regras mais irfalliveisde Direito , como os maiores Ju- 
riíconiultos haviaõ moltiado; porque, extirdaem ElRey 
Dom Sebaítiaõ a primeira Jinha dEJRey D.Manoel, de 
quem eraõ deícendentes todos os da controverfia , e m.or- 
lo íem filhos legítimos o Infante D. Luiz ,e ultimamen- 
te ElRey D. Henrique fem fucceíTaõ , ficava entrando a 
linha do Infante D. Duarte , íilhc d'E]Rey D. Manoel , 
que devia íem duvida fer preferido pela prerogativa de 
maículína á feminina da Imperatriz D. liabel lua irmaã, 
irãy d ElRey D. Filippe, que fe fundava efta opinião naõ 
íó no Direito con^mum , em que a linha dos varoens pre- 
cede á das fêmeas , ( como difpoem ainda os particulares 
na fucceíTaõ dos Morgados ) mas que era conforme á dif- 
pofiçaÕdElRey D.JcaÕ I. no feu Teftamento, approva- 
do , e admittido como Ley juíla , na qual chama á fuc- 
ceíTaõ do Reino ao Infante D. Duarte feu primogénito, e 
a íeos legítimos defcendentes ; e , faltando elles , aos mais 
Infantes feos filhos, precedendo íempre os maiores, e 
as fuás defcendencias ás dos menores : com o que fe mo. 
ftrava fem duvida , que , extindlas as linhas dos entres fi» 
lhos d ElRey D. Manoel , ficava preferindo, e entrando 
ra lucceíTaõ da Coroa a linha do Infante D. Duarte , que 
por fer de varáõ lograva a mais qualificada prerogativa , 
para íer preferida, eantepoíta a todas as outras, em que 
naõ concorria eíTa razaõ » por defcenderem de fêmeas: 
juntando íe a eítas razoens o beneficio da repreíentaqaõ 
de Julliníano , admittida, e praticada neíle Reino, em 
virtude da qual , reprefentando a Duqueza ao Infante D, 
Duarte íeu Pay , e ElRey D. Pillppe á Imperatriz íua 



.i6 POnTUGAL ^ESTJUB.ADO ; 

Mã/ » aílí n como o lafants por Varão havia de preferif 
apropria Imperatriz , que ElRey fó reprefentava , aHim 
a Ou| Jiza , qui repreiiniava leu pay , ihi ricavi prefe- 
rind j ; coafor.ni a Direito, e decifoens de Jurifconful: 
tos eoi caíos íimilhantss , e que da mefína torte, naó po^ 
dia o Prior do Crato D. António , ter algima acçió á Co- 
roa , porqae ainda , que era íiliio do Infante D. Luiz , mo 
era legitimo , nem o Sammo Pontitice o quizera legitii 
mar , por fer contra direito , e em prejaizo djs que ti- 
nhao eíta prerogiti/a, fen a qual ainda os particulares 
naõeraõ admittidos á fucceilaô de Morgados, e bens da 
Coroa , quanto mais a ella proprii » eltaado viv >s, e ex- 
iftiado 04 netos, e legitimou defcenJeitis d'hlRey D. 
Manoel , aos quaes pertencia o Reino, coafofr»e ás 
Leys Divinas, e humanas, e á diípofiçaó d^ElRey Doai 
Joaõ 1. no feu Teílamento j nem le pouía vaiei cio exem» 
pio da íucceílaô deile Prmcipe , fenJo também illeí;.tiín'>, 
por naõ haver naquelle tempo Tuccelíor legiiitno no Rei» 
no, que ie Iheancepuziife , e das ^^i t )fi.sc ) 1 1 t/l qui 
o Infante D. Joaò , por qu^m ElRíy D. Joaó tomou pof- 
fe , no principio do leu Governo , vendo-le prezo em L â« 
ílíHa , e com riíco manifeito da vida, lhe transferira o 
Direito , que tinha ao Reino , e lhe pedia , que fe coroaf- 
íe, mandando a feos parciaes, que lhe aíliitilfem , que- 
rendo com animo R;al, e zelo Portuguez, que a Coroa 
de feos Avó. fe coaíervaíle antes independente, e fepa- 
rada na cabeça de feu irroaò , que fujeita • e entregue nas 
mãos de feoi inimigos ; e que po* eíle ref peito efperava , 
que o Prior do Crato fendo imitador delia acçaó glorio- 
fa , aíTiíliíTe com a maior effi:acia á caula mais jufta , e á 
confervaçíõ do R^ino mais certa i que lhe naõ devia ob- 
llar o direito da Duqueza de Parma l3. Maria , irmãa mais 
velha da Duqueza íua mulher , por fer j A defunta , e Hca- 
rem leos filhos em gráo mais remoto, enaô fe extendet 
o beneficio da repreíentaçaõ mais, queafua May, além 
de ferem extrangeiros » fundamento , que ló bail .va para 
feex-luir*. molirava mais, que lendo taó evidentes asra- 
zoeas, e fundimintos do diíeito da Duqueza D. Catha» 
rina fua mulher, naõ tinluo menor for (ja as convenien- 

c:as 



F^R7E I. LIVRO 1. ty 

cias politicas » e interefles public9s, que fe devÍ£Õ con- 
íiderar em r.egocio taÕ inpcrtar te : poique fe entraííe 
r.o Keino, con o era juílo, a Dtqut^a lua n uJher , e el' 
3e, núõ fó procurarisõ conleivai te das as luas kys , e 
privilegies antigos, mas lhe corctdtiiaó de ro\o tcdoj 
aqutUts, a que deíle lugar a )ultíça: que haviaõtíe favo- 
recer a Ncbreza, alleviér o Povo, refpciíór os hccltfialli- 
cos, e procurar iroítrarfe em tudo, n-aiô que Senhores , 
• verdadeiros Pays de íeos vaííallos : e que juntamente fica- 
ria Itgura a lucceiUõ do Reino , schando-le a lua Caía 
com lilhos varoens, que ja havisõ derramado o langue 
pelo ferviço da Coroa; Que procurariaô coníeivar, e 
dilatar as Conquiítas com augmento da gloria , que os 
Portuguezes tinhao adquirido em todo o Mundo: E que 
ultirramente fó na íua Cafa íe podiaõ contar todas ai cir- 
cumíísncias de que neccíTitava o grande aperto , em que 
íe via eíle Reino, porém íe ( o que Deos mõ permittilk) 
vWfie o Reino a cahir nas mãos d lilRey de C afiella , tu- 
do o referido experim.entariaõ ao contrario i e perdendo 
a gloria, a honra , e a liberdade , viriró a íer contados co* 
mo elcrsvos, e vil deípojo de íeos maiores inimigos f; 
que tivelTem por certo, que tidas as prcn eflas dos Ccíte- 
lhanos eicõ falias, e te dss f s li as elptrtrças fingidas , 
cobrindo as corr huma induítria d íl^rr ulada , para le vin- 
garem da» injurias antigas, querendo vercer com a de- 
ílreza aquelles , de quem fenpte fui aõ vercidos com as 
arn as ; que naô degeneraíTem do íeu artigo valor , temen- 
do as prtrvtrcoers de Cèílella ; porque fe efàveílem to- 
dos unidos, e cor-íbntes I ntÕ devitõ tener o rrefmoj 
que em mais rpertsdos termos níõ temerí^õ íeos antepaf- 
fados : Que tiveflem por irfallivel , que tlRcy D. Filip- 
pe como prudente, le n^õ havia de empenhar em huma 
guerra tsô injufía , e difíicil dentro de Helpaiha, com 
riíco manifeílo dos Eftados, que fora delia dominava j co- 
nhecendo , que todos os Principes de Europa eraõ én ulos 
da fua grandeza , e a maior psrte dos fubditos dtífejava fa- 
cudir o jugo, que os" opprimia ^ e pcreí^e reípeito ss 
fuás prepâraçoens le deviaõ fuf pór fpparerte?, fó para 
atemorizar aos cobardes > eignotantes ^ eque lecorhe. 



28 PORTUGAL tEST JURADO, 

cenio a falta do feu Direito , naó qaeria íujeitarle ás ad* 
mosftaçoens do Sacnmo Pontiíiwji, que o obrigavaò a 
deíiítir das armas > nem ad nittia o Nundo Apoltoli^o , 
por entender, que trazia efta comoiillaó •, naõ iga.")rau4o 
que ainda em caio , que tiveíle ao-^Reino algum Direito ^ 
o deílruia querendo íer Arbitro , e Juiz da própria cau« 
ia , e com delprezo das Leys Santas , e juítas introduzir- 
fe na poíle com a violência das armas, para mollrar, que 
íó a ellas devia a Coroa , e tratar depois aos Portuga^;- 
zes como vencidos , e conquiítados : Q^ie tivtííT;:m tam- 
bém por íem duvida, que lhes haviaó de aíTiitir , íeiído 
neceíTario , todos os Príncipes de Europa com foccorros « 
e diverloens, aífim pelo parenteíco , e amizade, que coa- 
fervaraó fempre com Portugal , como peJa razaô do eíla- 
do , e conveniência própria, receando juftamente, que 
íe EiRey D. Filippe juntaile efte Reiao, fuás Gonquiltas^ 
e riquezas aos que dominava , crefceriâ tanto o íeu po- 
der, e grandeza, que nenhum delles ficava feguro da lua 
ambição , que meditava o Império Supremo de toda Eu- 
ropa : Q^ie entendellem , que matéria taó grave, e tao im* 
portante a todos, naô podiaò, nem deviaõ decidiila os Jui- 
zes particulares , qu2 ElRey D. Henrique nomeara , e íó 
pertencia aos Três Eílados unidos era Cortes , aconíejha- 
dos aíTi n dos Juizes , como das mais peíToas de letras, que 
houveíle no Reino, para que juntos deliberaíTem o que to- 
cava a todos : e que aílim deviaõ juntar-fc, e tomar em 
congreíTo univeríal com maduro confelho > a deliberação 
mais jufta , e útil ao bem publico, reloluçaõ, queelle íó 
defej 1 va ; proteftando , que para efte íim aíliftiria ás Cor- 
tes com todas fuás forças, e authoridade, e da meíma 
forte, que qualquer outro acordo, que le tomaíle , ou 
aííento , que íe íizeííe , dava por inválido , e de nenhum 
vigor , e que aíHn lhe naó podia prejudicar a elle, nem 
à juítiçi da Duqusza íua mulher : o que a todos fazia ma- 
nifeftj, porque depois naõ recorrelfem á ignorância: e 
que efperava em Deos , que pondo de parte paixoens , e 
intereíTes particulares , tratailsm íó do bem publico , e 
relolvelfiiH com ponderação, e acordo o que ju^gaíTeni 
mais co,iViniente , e acertidj. Eílas raz:)sns do Duque 
...,,,í corro* 



PARTE I. LIVRO J. 29 

corroborou depois a ncticia mais clara das leys de L?ire« 
go , que a poMica de Caílclla prcierdto tirar da puhlici* 
tíádc: oos ]!Vio& inii-rtflos, fOíque rellts le acluôr2Zões 
n uito iTíais cltíTas, e n ais íeiíjOta» das que elle cfíere*, 
ceo aos Juizes , c Gcvernadorei , e feita elta ciliger ciat 
paliou COMI â lua Cala a Poitel , levando con ligo Itu íi« 
Jho o Duque D. Theodofio , que alcsrçou libti dade á in- 
ítancia d li'Rey D. tiiippe. Us Goveinadcies verdo-le 
apertados das ii.ítancias de D. Artcnio, e niedroJoà dos 
ameaços , que ihes íazia, e vendo tardar a Armada de Ca- 
ítella, que b.lRey Cathoiíct) Ihespromettcra.fe relolver&õ 
a paliar de Setúbal a Aya-Monte , Itgar tíe Andaluzia; ou 
por temerem , que as f edtas de Setúbal , por haverem fi- 
do as piimeiras , que le levantarão com o Dortinio de 
. Hefpanha, fedelunillem dos edifícios para caftjgar a fem- 
lazaõ com quedeliberavaõ lujeitallajiou por querer Deos, 
que dellem lentença por tiRey D.Filippe na fua juri.vdic- 
çaõ, para que do íeu melmo íuboiro lahiííe cegamente 
mais eíte artigo á juftiça da Csía de Br^garça. ^ 

Chegados íí Aya-Monte Dom Joaó Mafcarenhasi 
Diogo Lopes de Soula , e Frarciíco de 5á , íicf nco em 
Liibja o Arcebifpo D. Jorge de Almeida , e D. jocõ Tel- 
Jo de Menezes , declararão a tlRev D. Filipre por Sue- o 

n ^ r- j T) . 1 j- j 11 *^ Senterça dos 

ceílor da Coroa de Pcrngal , diztndo . que lhe toc£va , covirLdcresà 
por fer Varáõ de boa linha, e de rraior idade •, q \:\ih\i- fi^or d^tlRty 
caraÕ a íentença em CallroMarim , u timo higar do Rei- ^-í^í^í. 
no do Algarve fronteiro a Aya Monte» de que o divide o 
Guadiana i e com tanto delccordo íe governarão os Go; 
vernadores , que até o ten-po , que elegerão para pronun- 
ciar efta lenterça, a fez deftfumada do melmo Príncipe,' 
por quem a deraô ; porque haverdo neíla occpííêÕ en- 
trado ElRey D. Filippe com o txi^rcito em Portugal, e 
vendo, que íó lhe cuílava a Corquiíla deí>e Reir o ospsf- 
fos , que díva nelle , pizardo íem cortrfdicçsõ a terra, 
que injullamente adquiria , fez pcuco cafo de fair a íen- 
tença a feu favor , que poucos dias ante? com tanta vehe- 
mencia folJkitava : poique para ccníepuir a Corcuilía de- 
Portvgal , achava , que os Itcs Èxeicirus erc-e os melho- 
te* Juizes i e paia diíTinitilar coní f letexto» arpaientes a 



}o PORTUGAL restaurado; 

íua pretençaô , julgava Aya Monte por lugar muito (uíi 
peitofo , para juíliíicar a lua cãuía: que aíHai coftuma 
Dáos caftigvir os ânimos ambiciolos, excuíando í"e do agra* 
decioiento os cnsfoios qu3 recebem injultos b^neíicios. 

Em quanto íuccediaõ em Portugal as diígraqas 

humas a outras , e fe ateava cada vez mais a peite , toy 

chegando o Exercito de Gaitella a Badajoz , e nelie a ulti^ 

ma ruina do Reino , que maior gloria havia adquirido na- 

junta-fetm quelle fcculo, Uairaõ íe em Badajoz todas a$ Tropas , e 

■Badajoz, o Ex- compofto O Exsrciío marchou 3 Elvas fera oppoíiçaò 

ercho, entra em q DQqijg jj^ ^jya ; abriraõ lhe nefta Cidade as portas, naô 

rSTcia!'" havendo quem detendeíle a entrada delias. EíRey D. Fi- 

^. ... lippe ficou com toda a Corte em Badajoz ; porque nas 

ytca HlRey em _J \ r- r ' y c • 

:Badajozefpe- "laiores opcraçocns iempre íe inclmava o leu gemo a 
randoofHccejfo. ohiSLt Có com O entendimento. Havia paíTado ordens a to- 
das as fronteiras de Portugal que ao mefmo tempo , que 
eíle Exercito , entraííem vários troços pelos lugares , com 
que confinavaõ Toy diverfaó útil para atemoiizar os po» 
vos , e íufpender os ânimos de alguns , que intentavéõ 
juntar fe em Lisboa com o Prior do Crato. O Duque de 
Alva paíTou com o Exercito de Elvas a Ejftremoz , e deffe 
^•''^^s^rihai ^"S^"^ ^ Setúbal , fazendo marchar os íoldados íem of- 
'^gol^rnadoi>eio fender a diíciplina , porque a fua feveridade era mais prc4- 
Du^uedeAlva, pria para os exercícios Militares , que útil para os políti- 
cos r como publicarão os grilhoens , que elle dizia trou- 
xera arraftando para efta Conquifta, lançados, como le 
entendeo , pelos infelices fucccíTos do governo politico 
de Flandes , ainda que fe tomaíTe outro pretexto. Ren- 
deo íe Setúbal fazendo pouca refiftencia , e o Duque dei- 
xando conquiílâda toda a Província de Alemtejo, e guar- 
necidos alguns lugares delia .• embarcou o Exercito na Ar- 




com verdadeira forma militar marchou na volta de [.is- 
boa , diftante da Cafcaes cinco legoas. Caminhav.;õ os íol^ 
dados ale^Tfes , levando por obj íJto o defpoj ) defta Cida- 
de. Grande era a fiiisfâçao , que preteniiao de tao fácil , 
e breve jornada \ porécn tinha ella coaíiança a diículpa d3 

ferem 



PJRTE I. LIFRO I. 31 

ferem os raeímos , a que íe dto o íecco da Cidsde de An« 
vers , por ciftigo de le airotinferem em tJ&ncíes ; dcícon* 
certo , que veio a ler hiifo do& n otivcs ir ais piinciptCí da 
contumácia, e vidcrias dos HoJJardtzes. O FriorcioCia- 
to com o Sceptro íem ítgursnça , e com aCotoa leir fir- 
meza , deívanecido, e mal fcconíelhadosguaidava em Lis- 
boa o ataque da hum Exercito de vinte mil íoldsdos ve- 
lhos , governado pelo Duque de Alva, hum dos maiores 
Capitaeas daquelle tempo , naõ fe achando para a oppoli^ 
çaó mais, que com quatro mil Icldados , que n&ô mere- 
ciaÕ eíte nome , lendo da qualidade , que íica referido , e 
fem outra noticia da arte militar, mais que aquella, qpe 
lhe enlinava D. António , que a nsõ ííhia. Sahio elle a 
Belém , lugar pouco diftante de Lisboa , tanto que rece* 
beo avizo , que os Caítelhanos chegavaõ. As primeiras ^janhanVAit» 
tropas inimigas intimidarão de forte a gente, que levava tomo aBeUm, 
comfigo , qu- deíamparando-o , fe retirarão á Cidade ; fe- 'ffira-íe a 4;^ 
guio-os por força D. António ; e o Duque de Alva íem '^"^'''*'- 
outra contradicçaõ , alojou o Exercito com a frente na 
Ponte de Alcântara , occupando deftramente todos os pe- 
itos mais convenientes.O dia feguinte íahio D» António a 
bufcai na defefperaçsõ o ultimo remédio , que encontrou 
facilmente, naô fendo para os difgraçados a fortuna nun- 
ca avara deftes alivios ; animou á empreza os que íem dií- 
pofiçaõ j nem forma levava ao precipício , atacarão todos Hedeslarataâo 
furioíamente aos Caítelhanos , e todos foraõ ligeiramen- "^ ^'''"^'' 
te rotos , naõ ficando a D. António outra jsdancia rraisi 
que a que lhe concedeo o Duque de Alva, chamando a 
eíle íucccíTo vidoria. Se o fabulofo utilizara, deítreza 
foy fazer corpo onde naõ houve matéria ,' que faltou , e 
faltará aos Caftelhanos em todos os íeculos , para celebra- 
rem efte titulo contra Portugal : e neíle conhecimento 
naõ quiz a prudência do Duque de Alva malloprar efta 
pequena occafiaõ, entrando em Liiboa com triunfo , fem Entra o ruqug 
lograr a vidoria. Foy recebido nella com lagrimas uni- ^r^ Hsha. 
Yerfaes, chorando huns os que levou a morte, outros o 
que roubavaõ os foldados , icdcs a liberdade , que perde» saha.fe d. a». 
raõ. Salvou-fe D. Anícnio, naO fedendo prevalecer ás ^^»''>"^f»«'*'^- 
diligencias dos Caítelhanos , que o tuíc&vaõ » centra a f.»^' csmaishga^ 

' ddidadc"'''-^^"-^" 



ji PORTUGAL tESTAUE.JDO ; 

d^liJade dos Porcuguezss ^ quj o encobrirão. A difgrai 
Ç4 d«i LÍ4DJ4 Ijguifdó os cnà^n lugares do Reino, compe- 
tiiiJj nibce/iaiajdi á.icregir-id io Ojq J3 Ji Aí/ai por« 
qujr lo qjiiJo Oi fjrtugiiZJS coaoif^iraò todoia ren- 
der-ij , coaiegairaò os Cait-;liiinjs lujiUdUoi. 'Jhegou a 
-àhe^aa^.lRey ^viR^^y jj. Fuippe a nova de tanta felicidade au.npj, 
iiiçceí}i. 9*^^ '1"'" ptííigoío catharro lhe havia poilo a viJa sm du. 

Vida , ( taõ pequenos accidentes arrumaó uo iVlando as 
maiores fabncaj» ) poré.n o alvoroço parece, que foy re- 
meJio, porque convaleceo breveiueate. Man a Jaítiça 
Diviía, quj lhe psrmitcio laude , naó quiz dilatar Uie o 
caltigo i lai era a qualidide da culpa de uiurpar in)uita- 
me.ue o Reino à Daquiza de B.aginça ! Adoecco a Rai- 
'Morreaii^l- nha L). Anna de Auítria lua quarta mulher, eembievet 
^^^Anna'^'^^'^ dias acabou em Badajoz a vida com geral feotimcnto de 
feus vaííallos , por ler ornada de muitas jvirtudcs. ElRey 
receando a corrupçiõ daquelks ares, mandou ieos )[í\\\osí 
para Madrid : e iem embargo da pena, e dos lutos , rec • 
beo eu publico o Cardial Riario , que veio da parte do 
T>M,encU ^^^^^^ foutilice 3 notiíicalio , que naõ entralle em Por- 
gadj. tugil com armas , e deile conientimento a que eíle foííe 

Aroitro das contendas. H ivia o Cardial chegado á Gort3 
muitos dias antes que o Exercito Uhiflj de Badaioz ; po» 
ré n ElRey , tendi noticia da initrucçaô da Embaixada, 
lhe negou audiência , el>erando , qu;; o Duque de Alva 
entraíle em Lisboa. Confeguido o intento , ouvio a pro- 
poíla , morcrou-ie muito obediente á Igreja, deípedio o 
Cardial, e partio pira Elvas. 
_, A cinco de Dezembro do anno de ijSr entrou 

ElRey em Elvas, dia, em que nao lo palluau .>s mtelices 
Portuf^uezesde filhos a vallallos , mas de vaíldllos a ef. 
cravo?, perdendo > liberdade , e a pureza dos coilrumes, 
em que permanecerão tantos leculos: porque entrou a 
ambiç.ió com as cadeas, e com os ferretes a lizonja, e 
de forte fe reveftiraõ de hum , e outro traje, que em pou- 
cos dias nao pareciaó forçados , cegamente perluadidos 
da deílreza dos Cillellianos , que para os enganar msis 
facilmenti cobriaô coTi demonltraçoens de amizade ani- 
nho; de inimigo?. ElRíy fai.ia particular eftudo de n,^5 

mof- 



PAP^TE L LIVRO 1. fj 

moílrar a eftes novos vaíTallos differença alguma no trai 
todaquellc quehatiaó tido dos antigos Keys de Portugal, 
porque íulpiravaõ. Neite lentido recebia muito branda- 
mente a todos os que vinhaó beijar lhe a maõ. Foy hum 
dos primeiros o Duque de Bragança , quede Portel paf- oDw^^í^íPrd- 
lou com íua Caía a VilU-Boim , lugar leu, huma legoa iar:^a dã cbediz 
de Elvas: entrou neíta Cidade com leu filho o Duque D. 'j^^^'^^^ ^^j^^^ 
Theodofio, moílrando ao mundo o pouco que importaõ ' ''•'" "' 
as Jeys , quando nos litígios os Juizes Ic deixaÕ fubornar , 
e a parte he hum Príncipe poderoío. ElRey os tratou 
com todai asdemonílraçoensdeaffabilidade, e cortezia. 
No dia íeguinte ao que chegarão a Elvas paflou ElRey 
a Villa-Boim , a vifitar a Duqueza D. Gatharina , que vifita F.lRey 4 
beijando-lhe a msõ , experimentou delvanecidas as juftas ^''F^*'*^ 
efperanças que tere de reinar. Voltou ElRey no meímo 
dia a Elvas , e brevemente pariio a Thomar , para onde 
havia chamado V.ortes. Por todos 0$ lugares poraue paf- Parte aThetTiar 
íava foy muito feílejado , dourando os Portuguezes ce- Zcorttr"''' 
gamente a pirola , que tom.avaõ , e de que brevemente 
experimentarão o amargofo interior. Celebrarão Ce as 
Cortes em Thomar , e jurarão a ElRey os Trez Eílados ^^ .^^^^^^ ^ 
do Reino. Foy o primeiro o Duque de Barcellos , o ulti* corus. 
mo o Duque de Bragança feu Pay , o qual aíTiftio com o 
Eftoque, como Condeltavel , ao ado das Cortes. Lan- 
çou-lhe ElRey em hum deíles dias o Tuzáo de ouro , pa- ^^„^^ ^ r««/?ã 
rece , que fó a fim de o prender com mais huma cadea. ao ònque,^ " 
Foraõ muitas as ceremonias defte ado , e grandes a^' de» 
monftraçoens com que ElRey tratou ao Duque, e a feu 
filho. Sentirão muito os Grandes de Caftella efta prefe- 
rencia : porém o animo d* ElRey, entranhado nas fubtile- 
2as da politica , naõ fe deixou vencer das queixas dos 
Grandes, a que trazia taô opprimidos, que eraó os pri- 
meiros que íentiaõ a uniaó de Portugal , por fcr fagrado, 
de que le valiaõ nos fucceflos de maior aperto. Conclui- 
rão- íe as Cortes , jurando primeiro os Trez Eftados ao 
Príncipe D. Diogo primogénito d'ElRe7 Catholico , e ju- 
rando ElRey de guardar os foros do Reino divididos em 
vinte e cinco Capítulos , que eraõ os mel mos i que ElRey 
D. Manoel havia promettido aos Portuguezes, quando 
Tom. I. ■ G pai- 



'34 PONVGAL f^ESTAUítJDO , 

paflou a fer jurado por Príncipe de Caftella , e Araga© ^ 
por lucceder nella Coroa fua mulher a Rainha Dona Ifa* 
hç\ , filha primeira dos Reys Cathoiicos. 
"Capítulos] cfut Era a fubítancia do que continhsó os Capitulos: 

EiRíy jurou ao Confervar a Coroa de Portugal nas leys , eftylos , liber- 
^*"*- dades , iíençoens , moeda, Caía Real, e officios delia, 

de que uíavaó os Príncipes naturaes do Reino , e que os 
officiaes íerviriaõ aos Reyseftandoem Portugal. Excuiaô 
SOS extrangeiros das dignidades EccleOafticas , governo» 
civis, Praças, Hábitos, Comendas Militares, jurisdic- 
qôes , Rendas , Titulos , Lugares , Senhorias , Doações^ 
Privilégios , Pfefidios , Comercio , e trato das Conqui- 
lias f e finalmente de tudo o que tocava á Coroa de Por» 
tugal na paz , e na guerra , em que fó entrariaõ privativa» 
mente os Portuguezes , admittindo aos extrangeiros ^ que 
tiveíTem fervido efta Coroa em tempo dos feos Reys an- 
tigos : QiJe o Vice.Rey defte Reyno , naõ feria fenaô Pef- 
íoa Real , que foíTe filho , irmaé , ou tio d*ElRey ; Que 
em qualquer parte , que ElRey eftiveíTe , alTiíliria com el- 
]e certo numero de PeíToas,com titulo de Confelho de Por- 
tugal, e íó por fuás mãos correriaõ todos o» defpachos^ 
e que eftes fe efcreveriíõ em lingua Portugueza : E que 
os Portuguezes feriaô admiltidoí, como os Caílelhanos» 
aos OfHcios da Caía Real : Que as Cortei íe naó juntariaô 
fora do Reino , e que fó nelle fe poderia tratar matéria y 
que lhe tocaíTe ; Que do Summo Pontífice fe naõ impetra» 
iia6 Bulias para levar terc^as , nem fubfidios das Igrejas : 
Qiie vagando bens da Coroa , fe naõ poderiaõ applicar a 
ella , e fó repartir fe pelos parentes da peíToa , por quem 
vagafíem, ou por outras beneméritas : Que fe 2codiria ás 
Conqui (las de Portugal com as Armas de toda a Monarr 
quia , fendo neceíTarias : Qiie fe abririaõ os portos feccos » 
comerciando os mercadores fem pagar direitos : Que EN 
Rey faria quanto The fofle poíTivel , por affiftir o mais dc> 
tempo em Portugal , e que o Príncipe íe criaria nefte Rei- 
no, para que cobraíTe amor aos Portuguezes, e os eíH» 
mafle conforme elles mereciaõ : E rematavaõ os Capitu* 
los , d^ndo a benção a feos defcendentes , que religiofa» 
meaíe trataílsiii de obfervallos , e amaldiçoando os que 

os 



PARTE 1. LirRO I. 3j 

OS alteraíTem. E que íendo caio que elle , ou feos fuccef. 
lores naõ guardallem tudo opromettido, e jurado , que 
os Trez Eltados ào Reino naõ íeriaõ obrigados a eftar 
pela concórdia, e poderiaó livremente negai lhes íujei* 
çaõ t valialagem , e obediência, íem por elte refpeitci 
mcorrereni cm crime de leia Mageílade , nem outro raáo 
cafo. Porem ella claulula , fe a naó imprimirão os Cafte» 
lhanos, achate na Icy Regia de Portugal , impreíla em 
Madrid por Joaó Salgado de Araújo Abbadc de Pêra ; e 
juítiíicaíli por todo* os manufcriptos daquelle tempo? 
íendo a deltreza de recatalla a primeira demonltraçaó do 
animo , com qu; foraõ jjradoí todos os capítulos , qu3 
tocavaó em conveniências dePortugd: ealilti nenhum 
houve dos que Filippe li. firmou n-íti featido , qae elle 
(e«n pirt- ), íeu filho, e neto t.Jtalinente naõ roíipeireoi, 
com qu:i foraò os meímoj Príncipes os qje j lílificárao 
rodais, que toJas as leys, a refoluçaõ que os Portugas- 
ze> tonjáraõ de le livrar de íeu doniinio, 

Dc^rpediddS as Cortes , paílou ElRey de Thomar 
a Almada , Villa que o lejo , onde he mais eílreito , di- PafaFJRey^ ] 
vide de Lisboa: em Alii.di aguardou ÊlRey alguns ^^^''^'^^t 
dias as prcvençoens da ent; ada que havia de fazer em Lis- 
boa. lintendcoMe que íe detivera, efperando reduzir o 
Prior do Crato D António por meio do Duque de Medií 
na Sidónia , com quem profeííára fempre eftreita amiza- 
de : mas deíVaneceo«íe ella negociaç iõ , e D. António 
coníeguio íalvar*íe, paliando em hum navio do Porto a PajfaTy.jínt$i 
França. EiRey entrou em Lisboa com apparato magnifi- nio a França. ' 
CO ; porém moftrou a Cidade mais o íeu pod:ír que o leu ^-'^^''f ^^^'>. 
affedoj porque fe obíervou , que naÓ houve voz algu« ^"^^'^^'"»' 
ma, que o acclamafle. Acabadas as feitas, entrarão as 
pretençoens , a que EIRey deferio taõ eítreitamente , que 
nenhum dos mais íolicitos em lhe entregar o Reino íe 
achava , que naõ eftiveíTe arrependido : porque como a 
ambição havia fido diredora das acçoens deites ânimos, 
tanto que fenaõ viraõ fatisfeitos , logo deixarão de fet 
cegos. Pudera ler contado como efi^.ito toda prudência 
delRey D. Filippe, naõ premiar eíles VaííaUos, para dar 
exemplo aos muitoj que doípinava , rr.oílrando que os 

C 2 Reys 



'^6 PORTUGAL 'RESTAURADO , 

Reys naõ devem pagar acçoens indignas , por naõ chegar 
a padecer o mefmo damno que fabricarão. Porém pertur- 
bou fazer'íeeíle difcurfo a leu favor , a relpoíla que deo 
ao memorial oíFerecido pela Duqu^eza de Bragança : por- 
que pedindo ella fatisfíç.ó das promeílas feitas peio Du» 
que de Oíluna a ElRey D, Henrique, aíTim de caiar o 
Prircipe D. Diogo com huma de luas filhas , como das our 
trás mercês para a fua Caía acima referidas , remetteo El- 
Key o memorial ao Confelho de Eílado , fiando*íe na 
difpoíiçaõ dos Confelheiros , que também íeriaó ajuda» 
'Naõ ãdmitte o dos das íuas infpiraçoens. Votarão elles que fe pagalie 
^"^^*'^'^*^''' com algum dinheiro o prejuízo, quepadecera a Caia de 
í "^ ^^^> Bragança no íacco,queos Caílelhanos deraõ ao Caltelo de 
Vina*Viçofa, era que perdeo hum grande thefouro j que 
prometleíle dotes ás filhas da Duqueza, e benefícios Éc- 
clcfiaíticos a feos filhos fegundos. CoHformou*í'e EiRey, 
facilmente com o Confelho de Eílado , e occultou o Du« 
que o defpacho . por nâõ moítrar 20 Mundo mais efta of- 
fenfa , quando íó o fofirimento podia £char por deíâfogo» 
iMaj como matérias taõ grandes naõ pedem eílar occultas, 
paliando por tantas mãos , publicoufe efta , ecaftigou a 
ceníura do Mundo aíTim o defacerto delRey i como a li- 
fonia dos Confelheiros de Eílado ; dando eíte remate á jufr 
ta prctençaô da Cafa de Bragança , tendo ló poder para 
lhe tirar as efperanças da Coroa a iniquidade dos ânimos % 
que vendérÊÕ a ElRey de Caílella a íua juíliça , e o am- 
biciolo animo com que ElRey, fem ter alguma , íe fez 
fenhor do Reino que lhe n^õ pertencia : fe bem ao pâffo 
das íuâs femrazoens experimentava ElRey os caítigos 
do Ceo , porque quando tomou Liàboa vio morrer a Rai- 
nha fua mulher, e quando reípondeo indignamente ao 
memorial da Duqueza de Bragança , lhe chegou avizo de 
'{MomaVrimi^ Madrid da morte do Príncipe D. Diogo feu lilho primo- 
íw/fíwcâr' genito. Chamando Cortes a Lisboa, bufcou o alivio de taó 
ies D. Filíj>^e. grande fentimento , fazendo jurar nellas pot Succtííor 
de Portugal feu filho D. Filippe. Se Deos nac fora mais 
poderofo, e taó incomprehenfivelmente iuílo, glande 
prudência era bufcar o remédio na c5ufa do damno : po» 
lém hum Rey Catholico parece que eítava obrigado, ven- 
do íe 



PARTE I. LIVRO I. 'jr 

do*íe foccorrido com eítes auxílios , a depor a contumá- 
cia deriítindo da erapreza , e naó occafionar os eítragos , e 
morte»' , que depois luccederaõ. 

« Awhou-fe nas Cortes o Duque de Bragança exer- 

citando o OíiiciodeCondeílavel : acabadas ellas , fe vol- 
tou para Viila-Viçoía , onde morreo diíntro de poucos Mí?rfí ri^ d»; 
dias , naó podendo o animo com o pezo de tantos infor- 2"^ D,:^oao. 
tunioj. Foy o feu génio religiofo , e a fua inclinação eí* 
pirirual , aiípofiç.õ que o levou a attender menos , do 
que era neceílario f â diligencia da Cua pretençaô ; eafpi- 
rando relig oiamente am^ior Coroa , coítumava dizer, que 
por niõ Ciir em huma culpa veniil » deixaria perder o 
Inperio de todo o Mundo; virtude que inclue de forte 
em li todas ss out<as , que baíta para fazer immortal a fua 
memoria, b Rey Cathoiijo » tanto que teve noticiada 
moíte do Duque de Bra^^ança , julgou que le lhe abrira o 
caminho de 1 jgurar a coiUiencia gravada com o pezo da 
jultiça da Daqueza D. Gaiharina. Refolveo-fe a tomalla 
por mulher, luppon.io que eiU naõ havia de porem du- ^^termina El- 
•vida largar o direito da Coroa de Portugal pelo domínio ^2«fl1í^í<^^'^ 
da Monarquia de Heípanha ; e que elle em fe livrar de 
eícrupulo de tantas coiííequencias , naõ conseguia peque- 
no dote ; bulcando todos os caminhos para licar com o Rei- 
co lem eícrupulo : porém nunca o etcrupulo o fez largar 
o Reino. Tomada eíla refoluçaõ, mandou por varias pef* 
fo.-js tentar o animo da Duqueza : acharaõ-a todas mais 
alheia deita pratica , do que imaginarão. Applicou El Rey 
o ultimo esforço, e entregou a diípofiçaó do combate a 
D. Ignez de Noronha mulher de Vafco da Silveira , avó 
.materna dos Condes de Unhaô. Era dotada de muitas vir- 
tudes» que lhe grangeáraó grande refpeito, e authorida- ^M^ o. r^wía 
de na Corte : deo-lhe ElRey poder para ular de todos os '^'^>^<>'-'>rh^ja' 
caminhos íuaves, e quando naobaítaliem , procuraile re- ^^^Z ^ - 
duzir a Duqueza com ameaços. Psfíou D. Ignez a VUla- 
- Viçofa , failou á Duqueza , e díípoz com todo o artificio 
o íeu intento. Entendeo logo a Duqueza o fim a queca» 
ir.inhavaõ os feos difcurfos , e defejou atalhallos , paíían- 
•do varias vezes a outras matérias : porém vendo que D.' 
Ignez fe deliberara a lhe propor as conveniências , que lhe 
Tom. I. C ^ le: 



38 PORTUGAL RESTAURADO, 

refultavaô defta » ccmo ella chamava , grande fortuna 
iníinuando'lhe juntamente os danos , que lhe poderiaó 
refultar de rero'uçaô contraria. Reípondeo com efpirito 

a^nenfa repoj- Real , generofidade de Matrona PortiJgue7a : Que dia 
tadaDui^ueza. naõ hãiia de tvocar aí memorias do Duque D.Joaõpela v-ai- 
dade da Coroa de Hejpanba > nem ojfender o direito dejeu 
filho o Duque DJTheodofio por nenhim rej peito humano , e 
que fe efte era o fimconi queElKey D.hilippe caminhaiJa 
áquella prepeuçaÕ^ que errada, a feufarecert o mtento , por*^ . 
que \ eu filho naõ feràta o direito, que tinha á Coroa de PoTm 
tngal , ainda que ella o remmciaffe , nem klRey je livrava 
de efcrupulo , comprando o que lhe naõ podia 'uenàer : equé 
quando elias razoens tiaõ bajla/fem para odi[fu^^dir , que 
recolhendo- fe em hum Comento atalharia ajiia determina* 
çaõ. Naõ cabe em algum peito humano mai Jt v,.ior , nem 
maior conftancia ! Voltouíe a Lisboa D.Ignez com a ref- 
poíla , que admirou toda a prudência d'EiRey D.Filippe : 
o qual vendo deívanecida eíla idea , e conhecidas todas 
as difpoíiçoens , que baftavaõ para lhe íegurar a Coroa , 
depois de dous annos de aíTiltenciâ em Portugal , deter- 
^Blta ElRgN a "^'^"^ p3ÍTar a Madrid, para dar calor a outros negócios 
Madrid. da JVIonsrquia , que pediaõ tratar-fede mais perto. 

Sahio de Lisboa , e paííou a VilIa*Viqoía a viíl- 
r'tfua'aT>Hcjue.t^t 3 Duqucza de Braganc^a: nefte lugar fe deteve trez 
xa^ejuemofira áiBS i c em todos cHes tcve muitas horas de conferencia 
amefma conf ^.qj^ ^ Duqueza , tfent^ndo todos oscí^minhos de alcançar 
-^^"^- delia o direito , que tinha á Coroa ; cíFereceo-lhe grandeí, 

e vários partidos ; e a Duqueza naõ cedendo do valor re- 
ferido , reípondeo a ElRey ; Que Je ella tinha juftiça * 
que na:} podia des herdar /eu filho detaõ género la pretençaõ^ 
e que/e naô a tinha , quejua Ma^ejtade acharia nelle muu 
to bomfoldãdo. ElKey diíluadido deita idea , paílou a Vil- 
la'Boim , e íeguio felicemente a jornada chegando a Ma- 
drid , onde foy recebido com geral contentamento de íeos 
Hetya e C;ír- vaíTâllos. Deixou por Govemador de Poriugal aoCardial 
dial Alberto Alberto Arquiduque dc Auftríâ feu fobrinho , feu cunha- 
jr^/rrS'/*' 'ío 1 ^ depois feu genro. Antes de tomar efta íefoluçaÔ 
^ " teve intento , conforme le entendeo , de que ficafle go- 

Xeinaado eítc ^ciao a ImperAtriz Maria > íuâ irmãa » 

viur 



PARTE I. LIVRO 1. 39 

viuva do Imperador MaximiJiano , e m5y do Cardial 
Alberto. Eílando em 1 homar lhe efcreveo , pedindclhe 
que pallaíTe a Helpanha. Naó dilatou el!a fazer a jornada; 
chegou a Barcelona, e logo paliou a PortDgal , onde íeu 
iimao eftava , c com elic voltou para Caítcila » moílran- 
áo o effeito que mudara de opinidõ. O ^..ardial tanto que 
comtçou a exercitar odommio, líiollrou logo o que os Guanje-.efiijeas 
Poriuguezes ames receavaõ , que ai Cortes de Thoroar icrtaíezas com 
foraõ ló formalidade occalionada do receio. Começarão p^f-^ioCaíle- 
a quebrarfe as promelias , que ElRey com tantas ratifi- i^^^^fl-Jj-^^^f,' 
Cc;çoens jurou em Thomar , e contirmou em Luboa , g,uar- fj.,ais capUuUs 
necendo !<; as Fortalezas com Infantaria Caitelhana, freio quefejutara^ 
que d -ciara va a deliberação do jugo : Os negócios na5 fe '^'** Cít/cí. 
expediaõ como íe havia prcmettiao , elperanuo-íe de Ma- 
drid a reíoIuÇí.ô das Coniuitasde importância , enrenden- 
d(i»íe , que todas le haviaó de determinar em Lisboa i Os 
tributos dus portos ícccos nsõ ie levantarão: as foi çá& ma- 
rítimas íe comcçáraó a divertir para a jornada de Inglater- 
ra , tirando*íe úo Reino g-nte, artilharia, mumçoens , 
e dinheiro em grande quantidade : Os oíEcios de juítiça 
naó íe davaõ em Lisboa, proviaã'fe em Madrid a cuUa 
dos cabedaes dos pretendentes : Os caitigos dos que fa- 
lavaõ qualquer palavra contra o governo , e dos que n ô 
haviaõ lervido tilRcy na conquiita do Reino , eraõ taa* 
tos , ainda que occultos , que íe naõ perdoava nem aog 
Religioíos j porque aquelles a que a tyrannia fuppunha 
delinquentes» eraõ ariebâtados de improvifo , elevados , 

â Torre de San-Giaõ , donde os lançava ó ao mar , que nad ^^Zanos ^ 
querendo occultar ranto deli6lo , trazia os corpos ás redes ' 

do* pefcadores , e retiravaó-le delias os peixes offcndidoí 
do iníulto , recufando fer mantimentos de homens , que 
Inudando as difpofiçoens de Deos » lhes queriaõ dar ho- 
mení por aliniento , e foy neceílario , que à ínílancia dos 
peícadores o Arcebiípo tíe Liiboa foíTe em prociflaõ ben- 
zer o rhar , profanado com tantos íacrilegios , para que 
elle ( como luccedeo ) tornaíTe a pegar o tributo do pei- 
5ce , que dantes coftumava. Arzilla gloriofa Conquifta Y.^^^ri-aÇe 'aí- 
ce^Rey D. AíFonío V., íe entregou a LiRey de Marrecos, 'zjdUa FiRey ^ 
naõ builando aos nicradcres piornstíerem defencer-fc dos lic Mamcos, 

C 4 Mou- 



4Õ TOKTUGAL 1{EST AURAm , 

Mouros , fem outro foccorro mais que o de íeos braçoí ; 
dando ElRey D. Filippe cila praça , e nella muitos Ju» 
gares coní -grados, fó por divertir o empreílimo , que 
ElRey de Marrocos queria fazer ao Prior do Crato de du- 
zentos mil Cruzados, Eftas , e outras demonílraçoens ac- 
crefcentáraõ de lórte a sfíllcçaõ nos ânimos de todos os 
Portuguezes , que muitos íe íahirao do Reino, vendo 
que nelie naõ tinhaõ livres mais , que os olhos para ver o 
que padeciaõ , e chorar o que perderão : porém naõ fal- 
tavcõ outros a que nsô confundia o temor , e achando-fe 
fem mais foccorro que o da efperança , recorriaõ ás pro- 
fecias : e eípalhavíõ*as pelo povo, para que eftivefle . 
fempre vivo o defejo da liberdade , até que o tempo offe- 
receííe occafijõ de procurall^. Clamavaó ao meímo fim 
muitos Pregadores nos púlpitos, donde fallavaõ livre- 
mente , que confeíTava ElRey CathoUco da!*lhe cuidada 
a guerra que lhe fazlaõ ; e ao paífo deíle receio os man- 
'Liheràaie gene- ^^^^ caíligar. Era hum dos mais refolutos o P. Luiz AI* 
9:oia do p. LuU Vfircs da Companhia de JESUS ♦ Religião em que eíleve 
SmjM fempre viva a fé Por tugueza. Prégmdo eíle Religioío na 
Capellâ a ElRey , eílando ainda em Portugal , dia de S, 
Filippe Apoílolo , tiíou do mefmo Evangelho o Theraa , 
e com grande vigor voltou para ElRey , e lho referio di^ 
zendo : PhUippe t qui lidet me , z^iâet ér Patrem. E aiuf« 
íou ao Thema hum diícurfo eloquentiílimo, moftranda 
que a reprefeníaç^õ era o direito , que preferia a todo o 
outro , e que aquells que o oíFendia , tyrannizava a jufti- 
ça. Bem conheceo ElRey , que falava a favor da Gafa 
de Bragança , mas valeo-fe da fua prudência para o dilll- 
mular, e admirou ao auditório tanta ouladia , stribuin- 
do*a ás grandes letras , e virtudes do Pregador. Efte mef-' 
mo virtuoío Varaõ pérgando ao Cardial Alberto o Evan- 
gelho do paralyttco , tnmou por Thema , Surge , toUe 
grahatum turnn^ ò* amhula. E voltando fe para o Cardial , 
Jhe difle : SereniíTimo Príncipe querem dizer eílas pala- 
vras, levantai* vos depreda , tomay o voflo fato, e ide pa- 
ja voíla cafa. Alentavaõ-fe com eíle pequeno deí^fogo 
os Portuguezes opprimidos com tanta multidão de peza» 
ses. O Cardial naó tevá no feu goveioo mais cuidado, qu« 

oiu- 



FJRTE I. LIVRO 1. '41 

ò Intempeftivo aíTalto , que o Prior do Crato D; António f^ira d. An. 
deo a Lisboa com huma Armada de Irglaterra, que a Rai- tonioem Pcttu» 
nha líabel lhe pertriitiio, perfuadida da politica de nieter í^Jcomhuma 
a guerra em caía a EJRey CathoJico, coroo eJle havia ;;™ ^''^^^ 
feito pouco tempo antes. D. António faltou em terra em 
Peniche , nobre ViHa dos ( ondes dé Atouguia , que difta 
doze léguas de Liáboa^ caminhou a efta Cidade fcm oppo- 
Hçaõ, entrou o arrabalde delia, e foy rebatido das an- 
tigas muralhas ; naõ achando no Reino os parciaes , que 
Juppunha » íe tornou a embarcar íem outro effeito. Pai. 
fou fe fegunda vez a França » e morreo em Pariz , can- ^^rretmP^ 
çado de procurar favores alheios , verdugo , que acaba '^'^* 
muito deprelTa a vida ; eílá fepultsdo na Igreja da Ave 
Maria , conlervando na humildade da fepultura o titulo 
de Rey ; que até as cinzas cobrem os homens com de£- 
yaneciraento. 

ElRey D. Filippe em quanto viveo , depois de 
ufurpar Portugal , que forso dezoito annos , fempre paf- 
fou em continuo cuidado na pouca fegurança com que 
dominava ânimos forçados , e belHcofos ; e conforme o 
i;eceio foraõ as cautellas , e as prevenções , até que os 
achaques, unindo fe aos snnos, lhe vencerão o efpinto, 
e com fetenta e hum de idade fc^bou a vida no EÍ^urial ^^<^rte^^'^l^ej 
a 17 de Setembro do anno de 1 5:98. ForaÕ tantas as penss fcu/íê^C/^' ' 
com que morreo , e tao continuas , que parece aguardava 
o Tiihunal Divino , que clle reílituiíTe Portugal à Duque- 
za de Bragança *, porém acabou fem efía fatisfaçaÕ, fiado, 
coroo fe entende, na mi feri cor d ia de Deos , que rruitas 
vezes , querendo governalla afraqueza das noflas idéas > 
e ulsr delia como nos convcin , e n3Õ como fomos cbrié 
gados, vimos a condemnar*nos pelos meínios fundamentos, 
que nos faciiitfô a fertença. Foy ElRey D Filippe , á 
cuíla da liberdade Portugueza, o primeiro Rey a qus 
obedeceotoda a Monarquia de Hefpanha , depois da lua 
deftruiçâõ infelice. Logrou o titulo de Prudente , por- 
que nos Príncipes, aíhm como ás virtudef $ t-ambem aot 
vicios íe chama politica : mas a politica nsó mciece fem^ 
pre o nome de prudência, porque nem fempre alcança 
fundamentos viituofos , e ti&ó ]^óde haver verdadeira 

pitt: 



4í PORTUGAL RESTAURADO, 

prudancia íeoi elle aliceríe. Cuidava muito do gover* 
no , conhecia os vaílallos , premiava os meriãmentos , 
ouvia a toijs» e a todos retpoaJÍ4 , naò com g:ínerali« 
dade , fenaõ com reíoluçaõ ás pretençô^s , de quíj mo- 
Itrava icr lutiira noticiai porém le accalo íuipeitava, 
que para a conlervaçaó do Impcrio era neceíUno co.tar 
por muitas vidas , a nenhuma perdoava , ainda que as cul- 
pas naó foliem muito manifellas, eos delinquentes fof- 
íem os mais chegados em langue. Pretendeo dominar to- 
da Europa , mais com as negociações , que com as ar- 
mas i eaquellas a que deu exercicio, toraõ entregues a 
vários Capitaens , naõ feguindo o exemplo do Imperadof 
leu pay , mai* amante dis vidlorias , que dos Reinos, por 
ferem ganhadas pelo íeu braço. Com o pretexto da Reli- 
gião introduzio cm França a guerra civ;l, e com iuduítrias, 
proaieffas ♦ ameaços , e Exércitos íe fez íenhor do Rei- 
no de Portugal , que lhe nao tocava, Teve eítatura pe- 
quena , prelençi venerável, olhos grandes, e azuis , na- 
riz bem proporcionado . beiços grollos , o debaixo cai* 
do , como da Cata de Auftria , e todo junto era de aípe* 
(Sto verdadeiramente Rsal.Careceo do íentido do olfacto, 
e coftamava dizer, que onaó offendia, porque defeíHi 
mavâ as delicias. Aborreceo tanto deixar-íe governar de 
feos validos , que antes de expirar , dizendo-ihe D. Chri- 
ítovaõ de Moura , que uíatle do alivio de que deixava 
hum filho muito capaz do Império, lhe refpondeo: Ay 
D. Cbrijtovao , que temo , que e haô de governar \ Caiou 
quatro vezes, a primeira co n D. Mana tilhad*ElRey 
D. Jo3o III. de Portugal: a fegunda com Maria Rainha 
de Inglaterra , filha de Henrique VIU. , de que naõ teve 
íucceííao: a tercei^^a com lUbel, filha de Henrique II. 
Rey de França: a quarta com Anna filhado Imperador 
Miximiliano. Teve por filhos da primeira o Príncipe D; 
Carlos, que morreo prezo em hum quarto de Palácio: 
da terceira D. Ifabel CondeíTa de Flandes, mulher do Ar- 
quiduque Alberto , e D. Catharina mulher de Carlos Ma- 
noel Djqae de Sabóia; da quarta D. Fernando,e D. Carlos 
Lourenço, que morrerão mininos, D. Diogo , que morreo 
jurado Pnicipe de Portugal, D. Marla,que morreo minina,' 

e D. 



Ty^RTE I. LJFEOI. 4} 

eD. Filípre» que fuccedeo na Coioa àe Portuga^* 

Morto EJRey D. Filippe , creítèraõ ai difgra- 
ças dePoittgal na Icgunda íujeiçaó de ítu filho Filippe 5mf^í D. Jf: 
lil. de Críteíla , e ccnudo por iegundo dePoitugali %^ ■^^•?' 
porque naò herdand o de feu pay a prudência , ccir.o os 
Reinos, governado pela ambição » edeíccncerto de feos 
validos , entrou , declarando com varias demonílraçces o 
intento de abater as forças deíle Reino por todos os câmi- 
phos» que miniítravaó os accidtntes , e quearguicoos 
maJ intcncioniidos. Mandou levantar gente em Portugal Man^fa fazer , 
paia Fiandes , íccfcícert^ndo aos fcldacos as pagas , para ^-^'^^ /*'''» . 
que o interefle delias os obrigcííe a deípovoar o Reino, ^ ^'^ "- 
que determinava fczer Província : e paflcu tanto adian- 
te o ódio , que teve á Níçaõ Portugueza , e o defejo de 
abatella , que ajuílando no anno de 1609 a indecoiola 
tregoa com os HoUandezes , que o roundo íoube , e todas 
as Naçoens murmurarão , capitulou , que feenterdia cem 
todos os Reinos , e Seihorios da Coroa de Caílella deita 
parte da Linha, ticando com a guerra aberta da Linha pa- 
ra além , que íaó tod&s as Conquiílas do Reino de Portu- ^^^^«'Wí áa 
gal : com que veio a entregar nas mãos dos Hereges a ^j^^*'*'^^"^^'!' 
maior parte das Conquiftas gloriofamerte compradas com /^/^^ ^Portí 
o langue dos Portuguezes. A Mina, e Guiné experimen- ^^i/. 
táraô primeiro efta defconcertada politica , deixando os 
Caílellianos perder eílas Conquiftas, parece que taõ cla- 
ramente por íua vcrtade, que a guerra de Guiné durou 
trez annos fem conUguic o m>is leve íoccorro. Padeceo a 
índia igual difgraça , e naõ fertio o Brafil menor daínno. 
Os appreítos das i.-áos da índia eraõ taõ dilatados , que fe 
perdiaó hors as monçoens , hora os navios ; e as Frotas 
do Brafil taõ pequenas» e mal apparelhadas , que fó np.5 
animavaô o nollo poder, fenaõ que caindo nss rr aos dos 
inin.igos Ihesaccreícentavaõss forças. Eftes deí'corcertos 
prejudicarão igualmente a todos Oi Eílados do Reino , e 
din-inuíraõ de lóríeoís cabedaes dos psrticulares, que íen. 
do a Praça de Li.^boa humá dás mais ricas do mundo, 
vieraõ a extinguirfe quafi todas as correfpondencias dos 
homens de negocio. É finalmente procurava ElEey Di 
íilippe <á>íeivar em Portugal o didams de íeu pay; 



44 PORVUGAL 'RESTJXJnADO ; 

que coílumava dizer: Era melhor a hum Príncipe fer Se- 
nhor de huíii Reino arruin3do , e mal leguro , que fljit.n- 
te, e pouctoio com o perigo de inquietai ie. 

Paflou EiRey a Portugal no priíuipio do anno de 
Fntra F.l^n ^^^9' ^^Y ?'ecebido em Lisboa comfellas uõ magnificas^ 
emLisha- ^^e conícllou , que fó aquelle dia entende/ j , que era L<ey. 
Éíle encarecimento levantou tantos ciúmes nos corações 
de feos validos , íenhores abfolutos do feu alvedrio , que 
desluzíraõ com elle de forte as acções do§ Portuguezei » 
que dando nTais credito aos ouvidos que aos olhos, trocou 
cm odio de toda a Naç3Õ as primeiras apparencias dv-iagra- 
do. Apenas houve Portuguez de que fe deixníls tratar 
( defprezo que a N ^Ç3Õ Portugueza , criada nos braços dos 
antigos Reys » que teve, feacio como o maior agg-avo. ) 
Deixe'íever, e communicar o Príncipe , que for Senhor 
de Portugal , íe , como as vidas , quizer dominar os al- 
vedrios de feus vaílalios. Faltou ElRey aos Portuguezef 
naó fó com o favor, m^iscoa a juítiça: porque negou 
quaíi todas as mercês» que lhe pedirão, aos que as pretende- 
rão em fatisfaçaÕ de grandes ferviços , e da mefma lòrta 
os lugares , occupando nelles vaUallos de Reinos diíFeren- 
tes. B como todo o intento d'ElRey era abater a g'andezâ 
de Portugal , os maiores golpes íe encaminharão ao me- 
lhor alvo : mas dos tiro? , e dos laços íe foube defviar a 
píudenciâ do Duque de Brag=inça L). Theodofio , ontra 
>,. , /, quem íearmáraõ. E^aô grandes , e differentes us motivos 
fielhanos, da demveja, edeciume, que dava a EiRey, e leos Mtni. 
cajA ds Bra^ ftros a fua grandeza. Coníideravaõ a juftiça com que afpi- 
lania. ygy^ 3 Coroa , o amor com que os Portuguezes lha oífere- 

ceraõ , fe acharão meios proporcionados para entregar^lha, 
e a diíferença , que fazia a todos os Grandes na magnificên- 
cia com queíetrai3V3. O Duque de Uzeda, primeiro Mi- 
niftro d ElRey , fazia em Madrid ollentaçaõ da íua ami- 
zade : porém cheguido a Elvas , e negando*lhe a Excel- 
Jencia , que todos lhe tributavao, trocou em ódio os pri- 
meiros aíFedlis , e fez toda' a diligencia por empenhar o 
Duque de Braginça em lance taô diffi:il , que o obrigaf- 
íe , 011 a cair em hum grande dezar, íoíífendo»o, ou a 
padecer hum grande caftigo , reílílindo. Porem o Duque 

fem» 



TJRIE J. in EO 1. 4$ 

fetrpre advertido , e fempre generofo, rurca erccntioíi 

accidente , em que for nenhuma das partes perigfcíle , ia* 
bcndo lairíe com maior credito de todos os enibarsços, 
que lhe dilpuzeraõ. Teve ordem hum íoldadoda guarda, Perigo doDiT. 
paia impedir-lhe a entrada de huma porta do Paço no dia, 9.«f -í?; ^^«^^£5 
eiri que íe celebrava o Ado das Cortes , moítrando, que^o ^"'' 
deiconhecia ; diíle-lhe o Duque cem muita moderaç?ó; 
JJeisavme entrar , que je naõ pode fazer j em 77Úm eflafe* 
fia. Montando a cav^iio , e íeu íi lio o Duque de Baleei- 
Jos D. jocõ , { que ds poucos ânnos veio aprender a Lis- 
boa â& ceieinonias cem que íe coioavrõ os Reys de Por- 
tugal ) quando íahiaõ do Paço fe travou huma penden. 
cia entre os ftos criados , que ercõ muitos , e os foJdcdos 
infantes de huma Companhia, que eílí va de guarda , e lhe 
haviaò tomado as armas: atreveo-íe hum deíles foldsdos 
a meter o moíquete ã caia contra o Duque , vio elle a re- 
íoluçaò , e foy andando fem fazer cafo delia: prenderão 
o ÍOidado, quizeraó, ou moftraiaõ, que queriaõ enfor- 
callo , perdoou lhe ElRey por interceílaõ do Duque, pií^i^de ítm « 
Quando íe partio para Villa-Viçofa acabadas as Cortes, foidadc,q^maii 
Uie diíle ElRcy, que pediíTe rrercês : rerpondeolhe ge- o #«^f''? 
nsroíamente : Seos Aws de Vojfa Mageftade , e os meus 
deraõ tanto à mnha Cafa , que a dej obrigarão de ter que 
j:edír, Faitio íe , e deixou aos Caílelhanos confuíos, e voluavillai 
admirados. Todas as Cortes a que aíTiílio reclamou occul- vifo/a. 
tair.ente , como coníla de dous proteftos , que fe acharsõ 
depois dá fua mcite; porque em quanto viveo os n?.õ íicu 
nem de feos filhos. ( AíTim o ouvi muitas vezes referir ã 
ElRey D, JosÓ ) Continhaõ elleseílas pahvras •• Frotejlo prete/lo dp l»^ 
por diante de Deos coviío verdadeiro Jíiiz , e Senhor de to- que. 
das as couzas , e toynoporjttiz dejle meu cafo , e^sr mi' 
nha Advogada a glonofa Virgem Miaria , e por tejiimu» 
tibas todos os Santos , de qve tudo o que niandey fazer , 
fiz , e dey confentimento [obre a corcaçaõ de Sua Mage» 
Jiade nefie Reino de Portugal , digo , que naÔ hey por va- 
liojo , por fer contra minha ventado e medo cadente , in 
conjiantem vir um , ^ reclamo oníniineliori modo , que em 
direito houver lugar , e sjfim o revogo , e hey por revoga- 
do tudo o que em tnçu prejmsíoje fizer , e de me os herdei- 
ros 



46 FOR.TUGAL tEST JURADO , 

rof daqui por diante , e declaro , quê os juramentos na3 
foraõ vali9/os t por nao ter vontade ^ nem tençaõy e jer 
menor de idixde de quatorze annos ; e por firmeza dijto fi,^ 
ejle por mim, e o ajjigney , ejelley com o finei e de meu 
EJcritorto a 1$ de Outubro do amo 1 591. e a.lignâva-le. 
Dizia o íegundo protefto •. Torjio a reclamar , e haver por^ 
nullo o que Je fez nçjlas Cortes com meu conjentimento , 
porjer levado de medo cadente in con(lantem vlrum\ e 
revogo o que eitd feito ate aitii em mm prtjuizo . e na me- 
Ihor forma , que em direito houver , e invoco em meu fa* 
vor a Santiffima Vtrçí^em Maria , a Sao Bernardo , e ao 
Santo Condeftavel . e tomo por minhas teflimunhas a to- 
dos os Santos^' e affim o protefto d- ante do verdadeiro Juiz, 
e declaro , que tudo ijh hejobre o direito , que tenho d Ca* 
roa de Portugal. AJligaava le , e era juítiíicado elle pro- 
tefto por Manoel de Oliveira Notário Apoítolico. Deltas 
diligencias, ainda que o Duque D. Theodoíio naó logrou 
em lua vida o frudto , conleguio-o (eu filho o Duque D, 
Joaõ , a quem coníla diile no adio das Cortes, que njò 
fizeffe tenção de jurar. Pouco tempo antes que o Duque 
vieíTe ás Cortes falleceraó íua May a Duqueza D. Caifia- 
rina , Matrona de taô excellentes virtudes, como temo» 
referido , e íua mulher a Duqueza Dona Anna de Velaf- 
co filha do Gondelíâvel de Gaftella. Viveo elle até o an- 
no de 1630, em que acabou com opinião de fingular vir^ 
tude , primeiro fundamento da grandeza , e gloria eftai 
belecida em íeu heróico Filho , e deícendentes. 
^ , _,„ ElRev D. Filippe depois de alTidir fete mezes 

Madrid y onde violentado em Lisboa, ie voltou para Madrid , nao deir 
morre. stH glo- xando em Portugal mais , que aggravos a huma Naçaô , 
gí<7. a que nunca domou o máo trato. Pouco tempo depois de 

chegar a Madrid acabou a vida , naõ lhe durando mais , 
que até o ultimo de Março do anno de 1621. Era de 45 
annos , e havia reinado vmte e douse meio: eítá enter- 
rado com feos pays no Moíleiro Real de Saõ Lourenço 
do Efcurial. Foy de eftatura com mais proporção . que 
grandeza , branca , e louro , olhos azuis 1 baiços groílos, 
e afpedo magellofo. Venerava muito a Igreja , e era in- 
clinado á miíericordia j poiím faz certo o vaticínio de 

feu 



TJRIE I. LIVRO 1. 47 

feu pay, entregando-íc de fcite á vcrtadede leos vali- 
dos , que elles forro os que reinarão gbíolitanierite, taÔ 
aitentos aos intereíles picprioi, que occófionaraõ males 
grandilTimos á Monarquia de Heipanha , os quaes pou- 
cfas vezes chegavaô á noticia d'E!Rey •, tal era a defatten- 
çaó com que le deixava governar. Cafou com Dona Mar- 
garida Ue Auílria , íilha dos Arquiduques Carlos , e Ma- 
na ,• morrendo ella , íe enterdeo , que vivera em perpe- 
tua continência. Foraõ feos filhos D. Filippe , que fuc- 
cedeo no Sceptro, D. Anna Maria mulher d*ElRey de 
Franqa Luiz Xlll , Dona Maria , que cafou com ElRey 
de Ungria , D. Carlos , D. Fernando , Dona Margarida , 
D* Ai^bnfo , que morrerão íem íucceílaõ. 




HiSTQí 



Pag. 49 




HISTORIA 

DE 



I 



•> 




RESTAURADO. 

LIVRO II. 



S U M M A R I O. 

UCCEDE va Corça de Vc7'tugalFi' 
l'ppe iy. Tí'.7raíIio do pcvo pela ff rej- 
Joõ dos iriítí.cs. Perde-fe a hakia. 
Atinada que le junta para a rejíau-^ 
rar. Vne-Je em Cabo V erde cun a de 
Cafiella. Cl: ep ao as /íunadas d Ba- 
hia , JitíaÔ a Cidade , queje entrega. 
Declara ElRey por xalido roConde Dtíqtie, Elege 
Dio^o Soares > e Migtíelde Vajcorcellos Secretários 
de EJlado , aqtielle em Madrid^ efte em Lisboa. Pro- 
poem-fe d Nobreza novo trihiíí o de quifi bentos inil 
Cruzados j naÓ je aceita. Depoem-je os Governado' 
r es por ejie refpeito, Succede-íbe D Dtogo deCaltro. 
lom. 1, D tlege 




yo PORTUGAL 7{ESTJURJD0 ; 

Ele^e ElRey para gover7ja^ o Reino a Dtiqtieza de 
Mafjtua.lnftituefe em Madrid ajunta do dejempez 
vho. Mandão fe executar os tf ibutos. Altera-fe o Po* 
1)0 de Évora , e Jocigafe com o cafligo de alguns de^ 
linquentes. C^amaoje a Mad*'id varias pefjoas prim 
cipaes. BtífcaÔfe pretextos para ttrar do Reino o 
Duque de Bra^a ça , e a maií Nobreza, Elegem o 
Duque Cap'ta6Gen ral de Reino : paffa a Almada : 
vifita a Duquezi de Mantua^ e volta para Filia Vi», 
çofa. jí terá fe Catalunha. Ch ama ElRey o Duqucy 
e a Nobreza a Madrid com o fitn àe fazer Portugal 
Provinda. Ref^lvefe a Nobreza a e tregar a Coroa 
ao Duque àe Bragança. Aceita a ojferta^ que lhe fi- 
zeraÔ. Acclamafe ElRey f lie emente em Lisboa , e 
em todo o Reino, Morre Miguel de Vafconcellos» 
Prendem a Duqueza. Entra ElRey em Lisboa* 

SUccedeo na Monarquia de Hefpanha Filippe I V.^ 
para Portugal terceiro. Entrou no Governo defem- 
hainhando lem diííimulaçaõ a efpada contra efte 
Reino, que experimentou na infelicidade daqucl- 
le Século , na mudança das Coroas» multiplicada 
a tyrannia. Sem chamar Cortes accrefcentou os tributei 
em Portugal com tal exceíTo, que vieraõa íer iníoleraveiy. 
Mandou lançar o real de agua em todo o Reino , dobrou 
ascizas, no íal íe pozeraõ novas contribuições, accref? 
centarao-fe os direitos nas caixas de aflucar , mandou-íe 
pagar meia n^ta de todos os Officios da Fazenda , e Jufti- 
ça , de que fe originarão roubos íem conto, e extorçõe» 
fem medida, PaíTavaó fe as Ordens em Caftelhano , e a 
Bulia da Cruzada fe alcançou perpetua , applicando a a 
ufos illicitos , quando o Summo Pontífice havia concedi- 
do o dinheiro , que reíultava delia , para conlervaçaõ das 
Praças de Africa. Naõ eraó os Ecclefiafticos menos gra- 
vados , que os feculares , pagavaõ f ubfidios , e mezadas , 
€ os Breves, que fe alcançavaõ para cftas contribuições , 
narravaõ contra a verdade o coníentimento geral do Rei- 
no; 



P^RTE I. LIVKO II. yi 

ho j porque os povos lempte reclamarão , e fó obrigado» 
da violência obedeciaõ. Fcz-le cltàntv; das iriercadoiias , 
e com titulo hora de empreftirao lem reílituiçaõ i hora 
deelmola lem mericiraento, le levava o duiheiro para 
Caitella. Kecolhiaõ le dd melma lóite as rendas appiica- 
das para reígate de Capiivo» , expondo os a peideieni 
huns a Fé na delelperaç õ da liberdade, outros aeíperan- 
ça de confeguilla. A teiça parte dos bens dos Coiilcihos , 
que os povos confignarto para reparo das fortificsções , 
Jevavaõ os Cal^eihanos \ em que naõ lo conleguiaò n ais 
eíle cabedal, n^as juntamente a ruma dac. mujaihas, que 
para abater de todo a conáança , e reíoluc^aò dos Poiíu- 
guezes» deíejavaõ ver aílolauas. Os Miniiíros Caftclha* 
nos , que eííiltiaó em Lisboa , também lançavaõ tributos s 
foy hum delles mandarem , que os barcos naõ íaiílem a 
peicar lem contiibuir , lifarido com mais certas redes, 
que as dos peícadores » o primeiro lanço , livres do peri- 
go d-stempeílades. Exafperou eíte delconcerto de lorte TumuUejêp^ 
os ânimos dos populares, que gritando libtrdade, profa- vo pela cppreff^ 
raraócom pedradas as janelas do Paço; porém faltando- destnbmQs, J 
lhe a alma da Nobreza de que íó fe animaõ, íocegaraõ o 
impulfo , porque entregues naquelle tempo os de maior 
qualidade, huns ás elperanças do governo deCaftella , ou» 
tros á delconfiança de abatello , tratavaó de lervir íem 
contradivÇiio , e de obedecer lem controverfia. Eíla difpo» 
fií^aõ daquelles ânimos íe juíliíicou na competência , com 
que todos íe eoibarcaraõ para o Brafii a reftaurar a Bahia 
de todos os Santos , amplillima enfeada , e porto da Ci- 
dade de S. Sdlvador , que os Holiandezes fem reíiftencia 
haviaõ ganhado. Conílou-lhes do pouco , que os Csílelha- 
nos animavaõ eíla Conquiíld,e o muito deícuido, com que 
os Portugueses a guarneciaõ , tendo fó por objtdo os in- 
terefles co Commercío. Appatelharaõ nos portos de Hol- 
Jancia huma Armada de vinte e cinco navios , que Jev«va 
30QO homeiís ; entregaraõ-a a jcaõ Vandott , a quem 
oeraõ por Almeirante Jaccb Vilhebens \ publicarão que a 
jornada era ás índias Occidentaes. Sahio a Arme da tn. De- 
zemJ-ifo, e paíTada a Lirha a íeis gráoi do Sul, aberras 
as inlhucçoens acharão, que os mandavaõ hir febre s 

B 2 Bahia , 



"ji FORTUÕAL ItESTJURJDO , 

Bahia , e interprender a Cidade de S. Salvador , Metrd' 
poli de todo o Eftado do Brafil» Provinda, que fica ns» 
quella vaftilTima parte do Muado novo , que fe chama 
America, ao Oriente delia, ea reípeito de còs-outroa 
ao Occidente » muito maior , que toda Europa , e com 
iioo léguas de cofta de mar» agradável , e fertiliirima. O 
íitio da Cidide he hum pouco elevado , e a povoa- 
ção corre de Norte a Sul, em forma prolongada. Entrou 
a Armada na Bahia , e bateo da Marinha o arrabalde. Era 
Governador daquelle Eftado Diogo de Mendoça , que ef* 
tava na Cidade; e feu filho António de Mendoça defen- 
dia hum Forte ainda imperfeito, que íe havia levantado 
dentro da agua defronte do arrabalde. A poucos golpes 
da artilharia o defamparou, deixando livre aos Hollande- 
zes poderem lançar gente em terra , como logo executa- 
rão , defembarcando looo mofqueteiros , que fem reíl- 
ítencia fè introduzirão jno arrabalde chamado de S. Ben- 
^ . to. Cerrou -íe a noite , e defam pararão os moradores a Ci- 

j^a, '* ^' dade , de que os Hollandezes ao romper da Alva fe fize- 
raõ fenhores. Acharão o Governado? em fua cafa , delia 
o levarão prezo para a Capitania, arrependido, como fe 
deve entender , de naô haver prevenido as difpofiçoens 
neceíTarias para a defenla da Cidade , que puderaõ íegu- 
rar-lhe a maior gloria. 

Os moradores da Cidade fem mais attençaõ , que 
a falvar as vidas, íe occultaraô nos bofques viziíhos a 
cila, deixando os Templos expoftos ás facrileg;is mãos 
dos Hereges i e as caías entregues á ambição dos inimi- 
gos. Só no Bifpo D. Marcos Teixeira fe achou vaierofa 
reíoluçaõ , e offereceo fe com os feos Clérigos em habito 
militar ao Governador para a defenfa da Cidade; naõ lhe 
admittio a propofta . e retirou fe a huma Aldeã do Cer^ 
taô, Mathias de Albuquerque , de que fe puderaô espe- 
rar diíFerentes eíFeitos , eftava governando Parnambuco , 
donde avizou a ElRey a perda da Bahia. Tanto que o 
avizo chegou a Madrid , eícreveo ElRey da fua maõ aos 
Governadores de Portugal , que eraònaquelle tempo D. 
Diogo de Caftro Conde de Bafto . e D. Diogo da Silva 
Conde de Portalegre : encarecia -lhes o muito , que eílima- 

va 



FJRTE 1. LIVRO 11. n 

va o Valor , e fidelidade Portugueza , e as finezâS , que em 
correfpondsncia de leu amor efperava que obraílem em 
cccaiiaó taÕ grande , como a perda da Bahia. Era a caufa 
deltas demonitraçoeus o perigo , que corriaõ oa interelTes 
das índias Occidentaes , que íe o damno fora ló da Coj 
roa de Portugal , pôde ler . que facilmente o diíiinuiliiraõ 
os Caftelhanoi. Vendo íe os Portuguezes menos deípre- 
zados d tilRey , moltraraó o muito , que labem obrar fa- 
vorecidos. Juntou le á nobreza de Lisboa quafi toda a que 
eílava dividida pelo Reino , e a pouco culto da Fiizenda 
Real fe apparelliaiaõ em ires mezes 26 navios» que íahi- 
tâõ com as aguas do Ttjo a bufcar as áo Oceano. Era Ai-rradapare, 
General da Armada D. Manoel de Menezes valerofo, e ^ rejiauraçAÁ 
pratico naquella proHlIaõ , Almirante D. Franciíco de Ai- ^ ^''''*" 
meida , e juntamente McUre de Campo de hum de doui 
Terços em que le dividia a guarnição dos navios . do ou- 
tro Terço era Meílfe de Garnpo António Monis Barreto ; 
e cada hum dos dous le compunha de 1900 infantes. Ti- 
nha ordem de Madrid D. Manoel , para aguardar a Arma- 
da de Callella em Cabo- Verde , que extcutou com grande 
prejuízo pela corrupção daquelles areS' Em Fevereiro do y^ta-feemca- 
annode 1625 chegou a Armada deCaílella a Cabo Verde bo-'^e:dea Ar- 
com 40 navios, 1 razia por General D, Fradique de To- mada ãe caJleU 
ledo Marquez de Vualdoeza , hum dos Caoitaens de ma- ^^* 
ior eftimdçaõ daquelle tempo, por Almirante D. joao 
Faxardo de Guevara. Conítava a guarnição de 8ooo ho- 
mííos entre Toldados, e marinheiros : os loldados divididos 
. em três Troços, dous de Helpanhoes, e hum de Italianos, 
de que eraõ Meílres de Csmpo D. Pedro Oforio , D. Joaõ 
de Orelhana , e o Marquez de Torrecuíla. De Labo- Ver- Entraon^Ba. 
de fahiraõ as Armadas na volta da Bahia, aonde entrarão hu. 
Sexta feira da Somana Santa. O tempo que íe dilatou 
eíte Toccorro havia feito guerra aos Hollandezes o Biípo 
D. Marcos Teixeira com a gente, que pode juntar ; moireo 
quando dava maior calor ás emprezas. Succedeo*ihe Fratr- 
ciíco Nunes Marinho , até que chegou do Reino D. Fran- 
ciíco de Moura, nomeado por EIKey Governador daqueb 
le Eíl^do , que cem signma gente , que trouxe comligo» 
qus achou junta , ganhou aos HoUandezes os arrabaldes 
Tom. I. D 3 do 



54 PORTUGAL RESTAURADO , 

ào Carmo , e S. Bento : mas com pouco damno da Cida* 
de , porque citava bem fortificada , e no porto ancoravaô 
26 navios ; a guarnição confiava de 30CO homens de va- 
rias naçoens , e a Cidade citava prevenida com todos os 
mantimentos, e munições neceílarias para largo fitio.Tan» 
to que as Armadas chegarão ao porto , faltarão em terra 
4000 homens á ordem do Marquez de Corpani Pedro 
Ruiz de S. Eítevaõ : dso lhe calor D. Fradique de 'I'oledo 
com o reíto da Infantaria, e huns , e outros defeoibarcaraõ 
íem oppofiçaõ.Na Armada ficou D. Manoel de Menezes, 
que a difpoz em huma meia Lua por evitar a fugida aos 
navios de Hollanda. D. Fradique tomou poflo , aquarte; 
]oufe , levantou trincheiras , e começou logo a diípôr as 
baterias. Fizer?.ó os inimigos huma lahida cem 300 ho- 
mens, que cuílou a vida a 50 das três Naçoens; porém 
plantada a artilharia , e encaminhadas as balas ás defenías 
de maior importância , foy taó ccnfideravel a ruina , que 
tomou poííe o temor dos corações dos defenfores, fomen» 
tando-o o damno , que D. Manoel de Menezes fazia afiira 
ros navios , que eftavaõ ancorados , como na gente , que 
andava na marinha. Suílentavsõ-ie os fitiados nas efpe- 
ranças de hura fcccorro ,«que aguardavaõ de Hollanda; 
poréoi nâó chegando, íenaÕ depois de rendida a Cidade, 
para ter roais teftimunhas a difgraça, que padecerão , tra- 
tarão os defenfores de entregalla •, e porque o Governa- 
dor contradizia aquella delibersçaõ , fe amotinarão , e en* 
tendendo os foldados, que pornaõ fugirem queria o Go« 
vernador mandâflhes queimara Armada, antes que elle 
toroaííe eíla generofa refoluç?© entregarão a Cidade â 
mercê dos vencedores , depois de trinta dias de fitio. En- 
trarão nella os Cs Itelhanos , Portuguezes, e Italianos, e 
uíáraõ da vic^oria ainda com mais ambição , que os Hol- 
landezes , faqueando» e deítruindo os edifícios da Cidade 
com tanto exceíTo, que naõ contou por menores inimigos 
os que a renderão, que os que a reílauraraõ. As Armadas 
com os prifioneiros , e com o defpojo fe partirão da Ba* 
hia , e caíligando Deos com varias tormentas a impieda* 
de ufsda na Cidade, chegarão com confideravel perda de 
navios , e gente a ancorar nos feos portos. ElRey D. Filip- 

P« 



FARTE I. LITRO II. yy 

,pe em fatisfaçaõ deita jornada fez mercê a todos os fidal- 
gos Portuguezes , que foraõ nella , de huma vida mais 
no* bens aa Coroa , Ordens que logravaõ , c parece que 
antevendo havia de ter effeito eíta niercé debaixo de ou* 
tro dorninio , quiz á cuita alheia pagar tantas finezas: 
porém naõ le pode negar que foy elta mercê muito coníl- 
deravei , compreíiendendo a quafi todas as peíicas princi-, 
pães, que foraó á jornada da Bahia , e refultando delia â 
muitas grandilum a utilidade. 

Naõ durou muito efta fortuna da reílauraçaô da 
Bahia, lem que Portugal padecelle igual dilgraça na per- 
da de Pârnambuco : porque os Holiandezes que ou na 
guerra , ou na paz de Calteliativeraõ fempre por objedo 
dos feos intereiles as Conquiitas de Portugal , tratadas 
como fazenda alheia todo o tempo que durou o dorninio 
daquella Monarquia, havendo reítaurado no anno de 
1628 a Companhia Occidental a diípeza da guerra ante- 
cedent;; com a preza que fez Pedro Moino Cabo de huma 
Efquadra da meíma Companhia na frota danovaHefpanha, 
que fe eítJmou em Hollanda em nove milhoens , determi- 
ráraó empregar eíte cabedal em maiores intereiles. De- 
pois de vários diicuiíbs concordarão que a mais útil em- 
prefa era tornar ao intento da conquiita do Brafil , Impé- 
rio quafi igual a toda Europa. Que a guerra devia come- 
çar em Pârnambuco , para a emprefa a mais fácil , e para 
a Companhia a mais útil. A mais facil pela debilidade das 
Fortiíicáçoens do Recife , e Villa de Olinda, ( lugares ÍI- 
tuados p.â diftancia de huma legoa ) e pelo defcuido dos 
Portugueses, a quem o parociímo da larga fervid.-ó ha- 
via fuíFocado o alento , e entorpecido os brsços. A mais 
utii por comprehender Pârnambuco fó pela Coíla 60 le- 
goas de longitud , começando em fette grcíos , e dous ter- 
ços Auílraes na Ria de Santa Cruz , que faz a Ilha de Ita. 
nisracà, e ac&bando ro Rio de S.Francifco, queeítáem 
dez grãos , e meio ; comprehendendo elte dillrido mais 
de cem Ingenhos que fabricaõ o aíTucar , que íiraõ de 
rouitos canaveáes , quantidade de páo que cham.aõ Bra- 
fil , género de grande importância , muito tab.^^co , algo- 
dão , gingibre > e cutras drogas. Que na felicidade de con- 

D 4 íeguir 



^6 FOKTVGAL RESTAURADO, 

feguir efta empreía confiília a facilidade de paíTar á da 
Bahia , e que na Conquifta delias duas Praças le cifrava a 
de todo o Império do Brafil , o qual ganhado era a eílra- 
da , que facilitava o dominio das Índias Occidentaes , de 
que poderiaõ aos Eltados de HoUanda reíultar as coníe- 
quencias , que com pouco trabalho do difcurío íe faziaô 
patentes na qualidade da emprefa. Abraçarão os Eiladcs 
da Companhia Occidental eibs razoens , e brevemente 
paílando-fe do Conft lho â execução , deo á vela huma 
Armada de 70 navios , em que hiaõ embarcados treze 
mil homicns, outo mil de guerra, os mais apphcados ã 
navegação. Era leu General Henrique Lonc, Almirante 
Rodrigo Simon , e General da infantaria para íaltar era 
terra Theodoro Banduat Demburg. Chegou eíle avizo a 
Madrid , e schando-fe nsqueUa Corte Mathias de Albu- 
querque , que havia pouco tempo antes governado o Bra- 
fil , pareceo aos Miniílros delRey deCaítella o fogeito 
mais cnpaz de íe lhe fiar efta empteía : porque alem do 
íeu valor , alargas experiercias, era Parnambuco de feu 
Irmaõ mais velho Duarte de Albuquerque Coelho. Pro- 
pozle-lne a coramiíTaô » aceitou-a , e paríio da Coite cora 
largas ordens para que íe lhe deífe toda a infantaria, e pre» 
veneno neceíTaria : porém chegando a Lisboa , naõ lhe 
valendo varias diligencias , nem requerer como próprio o 
negocio publico, veio fó a conleguir trez caravelas con;i 
pouca gente,e algumas m.uniçoens.Eirbarcouíepara Par- 
nambuco, proteítando aos Miniílros a perda, e dano 
que íuccedefle, diligencia inútil na felicidade, e na dií» 
graç? dos que tom^õ por íua conta grandes emprefas : por- 
que f e í" e ícgraõ , naõ ícrve, e fe nsó confeguem , naõ 
vai. Sahio Maíhias de Albuquerque de Lisboa a i 2 de 
Agofto do anno de 1629. , e chegou ao porto do Recife 
a i§ de Outubro, governando neíle tempo o Braíil Dio- 
go Luiz de Oliveira , dominio de que hia ifento Ma" 
íhias de Albuquerque era tudo o que tocava ao manejo 
das armas de Parnambiaco. Logo que chegou ao Recife 
faltou em terra , e fem perder tempo vifitou os Prefidios , 
reconheceo as Fortaleza» , e tudo achou taõ diminuido , e 
defmâGtôlado , que fe arrependera do Pofto que aceitara ^ 

íenaé 



TJRTE I. LirRO II: '0 

íe nsô fora maior o íeu animo , que tcdas asdifficuldades. 
Diípoz tudo o que julgou útil para a defenfa : porém co- 
rro havia de animar 6o léguas de Coila , em que fe con- 
tavaó 26 portos capazes de deíembarcarem nelles os Hof* 
landçzes, e a gente era pouca , e mal difciplinada , nao 
fny poílivel , que o efteito correfpnndeíTe á diligencia. A 
14 de Fevereiro do anno de 163c appareceraó 67 velas 
óc\ Armada inimiga. O dia íeguinte fazendo ponta a dif- 
fcirentes partes nas qunro léguas que hi dei diítancia en- 
tre a barra do Recife , e o porto do Páo Amarello, veio a 
d^íeaiba.-car neíte fitio Theodoro Vanduar Demburgcom 
quatro mil homens. Naó podendo Mathias de Albuquer- 
que impedir aos Hollandezes tomar terra , fe Iheoppoz 
na paííagem do rio Doce , e defendendo-a com grande 
valor largo eípaço , como era taõ fuperior o poder dos 
Hoilandezei , f cilitáraõ toda a difficuldade. E havendo 
n»lte tempo os outros navios lançado a gente em terra f 
que eftiva fenhora da Villade Olinda , acodio Mathias 
de Albuquerque a defender o Recife : porém naõ toleran» 
do o m-edo dos moradores alguma obediência , foraõ def- 
amparando os pofros, e tratando de falrar nos m^tos o 
mais precioío das fazendas. E como nas fuás peííoas con- 
fiftia a maior força da Praça, vendo Mathias de Albu- 
querque impolTivel a defenfa delia , pnsndou atear o fogo 
em tantas partes . que brevemente lhe íerviraõ di ali» 
mento mais de quatro milhoens , e em pouco efpaço fez 
a maior guerra que era poílivel aos ambicioíos mercadores 
que o mandavaó corquiítar. 

Paliou Mathias de Albuquerque o rio Bebirive ; 
e alojou*íe com alguma gente em huma caía, chamada 
da Afíeca , tiro de mosquete do Forte de S. Jorge , que 
ainda fe coníervava , e juntamente o de S.Franciíco. Eí- 
tava efte levantado íobre o mar no ultimo extremo da 
corda do Recife, que rematando neíle ponto 1 dá lugat 
a que a barra faça o porto traclavel , muito accommcda- 
do para fu) girem nelle navios pequenos. O Forte de S.Jor- 
ge era de fabrica sntiga mais capsz de reGílir ás frecha» 
dos índios, que ás balas dos Hollandezes : Jevantava*fe 
entre o mar , e o rio Bebiiive , e poi huma lingua de arêa 



j8 PORTUGAL WSTAURÃDO, 

da 100 paílos íe communicava com a Villa de Clínda. 
Gâaharaõ us tíoiiandezdjí eítis dous Fortes» e a povoação 
do Recife, e M^ihiâs de Albuquerque coín animo intré- 
pida ievaatou iiurn Forte em íiu.iia eminência, humaler 
gua diitdnte dis fortiíicaçaens do inimigo. Ctiamou-lhs 
UjmJhbUS, aquarieiuule junto a eile , e defenJiO'ls 
neíle litio largo tempo com grandes incommodidades , e 
inligne conítancia. Os tloUaíidezes também tratarão logo , 
de toftiíicar o Recife , e lliia de Santo António, que íica- 
va huin tiro de arcabuz, da Barreia dos aífogados. O ritj 
deíle nome , c o Capivaribe corriaõ pelos dous lados. Fo- 
raõ muitos os lucceííos que acontecerão íeis annos que 
fe pleitearão os poit js de farnambuco , e grande o valor 
dos que rompendo por muitas difficuid^des relillíraô ao 
grande poder dos Hollandezes. Mandou iilRey de Caílel- 
la íoccorrer por D. António de Oquendo a Mathias de Al- 
buquerque com 700 homens , aigumas muniçoens , e ar- 
tilharia. D. Antoaio depois de pelejar cora Adnaó Fatre 
General dos Hollandezes , e lhe meter a pique a Capita^ 
niai naõ fem grande eilrago dos íeos navios , lançou a 
Infantaria em terra , governada pelo Conde de Baíiolo Ita» 
liano. Acompanhâva-o Duarte de Albuquerque Coelho 
Senhor de Parnarnbuco. Os Hollandezes intentarão ganhir 
a Paraíba , Cidide de quinhentoj»' vizinhos , que toma o 
nome do rio que a rega , e fica em 6 gráos e dous terços 
da Equinoccial para o Sul. Naõ o confeguíraõ, e retirarão- 
fe com grande perdi. Foraó ganhando pouco e pouco o 
mais , e ultimamente tu Jo , ajudados dos Índios , que com 
arte contraftáraõ. Durou o Governo de Mathias de Âl^ 
buquerque até o mezdejulho do annode 1635:» tempo, 
em que ( depois de perdida a Paraíba , Porto c.alvo , Rio 
Grande , e quafi tudo o mais que tínhamos em Parnamba- 
co ) ganharão os Hollandezes o Forte de Nazareth , 2 
Cab3 de Santo Agoílinho. lletiroiríe Mathias de Albu- 
querque com pouca gente , e muira gloria , rompendo ni 
marcha duas vezes aos inimigos. Foy encorporaffe com 
o Cond^ de Banolo , que depoii de perdido o Porto Calvo 
fe havia retirado a hum pofto , chamado das Lagoas, 19 
iegoas de Potío Calvo , iatentando fortificat:íe em dous 

fitios I 



PJRTE I. IJVEO n. yç 

fitios , que feguraflem três portos , que ha\ia entre elJes," 
em que pudfcílcm deferrbsrcar os íoccorrcs , ^ue íe tlpe- 
ravaõ de Portugal , e Laltella. 

Nefte ttrrpo tinha íahido de Lisboa huma Arma' 
da , compoíta de duas Eíquadras de 30 r avios , governas 
das a de Portugal por D. Rodrigo Lobo , a de Caítella por 
D. Lopo de Hoíes e Córdova. Hia embarcado na Capi- 
tania de Portugal Pedro da Silva , psra íucceder no Co* 
verno do Bralil a Diogo Luiz de OUveira , e na de Cfftel* 
la D Luiz de Roxas e Borja , psrâ render em Parram* 
lS\Ko a Mathias de Albuquerque. Lsvava titulo de Me* 
ítre deCampo General o Marquez de Velada, que eíla* 
va nomeado por Capitão General daquelJa guerra. As Ar' 
madss aviílsraó o Recife , e acharão os Hollandezes taõ 
deíappercebidos , que fe o General de Caftella fe refolve- 
ra , como D. Rodrigo Lobo , e os mais lhe aconfelharaõ, 
facilmente pudera, ganhando o Recife 1 defvanecer to' 
do o diípendio, trabalho que os HoUandezes hsvisõ fei* 
to neíla guerra. Correrão as Armadas com os Nordeftes , 
e deraõ fundo no porto defronte das Lagoas , deitarão o 
loccorro em terra contra o parecer de todos os que eíia* 
vaõ aquartelados nellas , por fervir no eftado em que íe 
achavaó , e na grande falta de mantimentos ♦ que pade- 
ciaõ , mais de embaraço, que de remédio. Paílaraõ as Ar- 
madas à Bahia , e a mefma jornada fez por terra M?thias 
de Albuquerque» Ficou feu irmaõ Duarte de Albuquer- 
qfie co.Tí titulo de Governador de Parnc»mbuco , que efla- 
va perdido, eo Conde de Banolo com Patente de Gene- 
ral da Cavaliaria , íem haver Tropa alguma , que gcver- 
naíle. D. Luiz de Roxas com mais valor > que experiên- 
cia daquella guerra , determinou bufcar os HoUandezes 
da guarnição do Porto Calvo. Eraô íeis centos, tiversô 
avizo anticipado , retiraraõ-íe íem receber damro , e dei» 
xaraõ defem.baraçado aquelle pofto. Marchâvaõ a foccor- 
rellos mil e quinhentos , que aff íliaõ na guarnição de Pe- 
ripoeira, encontrara5-fe com D. Luiz , derrotaraõ*Oi pe* 
lejando valei ofarr) ente, e acabou a vida na contenda. Sue» 
cedeo lhe o Conde de Bsnolo, sberta huma Ordem d'El» 
Rcy , que D, Luiz de Roxas havia tiazido cerrada. Do íi» 

tio 



6o PORTUGAL tESTAURADO; 

tio d IS Lagoas eni que aíli lia o Conde pafTou a Potto 
Calvo, augmentoa as Fortiíicaçoens naquelle pofto, e 
com varias eíitiadas pelo Oertaò fez grande dano sos 
Hollandtízes. Recuperou a perda J02Ô Maurício Conde de 
Nazáu , d lho terceiro de Joaõ Conde de Nazáu, e Direm- 
burg , e de fua fegun ja mulher Margarida Princeza de Al« 
íaíia. Chegou ao Recite com 2700. infantes, e Patente 
de Capitão Ctínerai da Conquiíla do Brafil. Informado dos 
rnáos fuccellos da caTjpanna , e da diffijuldade por efte 
reípeito de íe tirar delia a utilidade do alTucar , que os da 
Companhia preteadiaó, fahio em caínpanha com cinca 
mii infantes, e veio buicar o Conde de Bafíolo a Porto 
Calvo. Havia elle occupado muitos poítos com pouca 
gente , e começando a perder os de menos importância » 
veio alargar todos, eretirouTe para o quartel das La- 
goas : mas parecendo* lhe pouco feguro, marchou para a 
Rio de S, Fran-iíco ultimo t^íruio de Paraambuco. Nef- 
tefitio, que pudera coaíervar facilmente por fer muito- 
defenfavel , o bufcáraõ os Hollandszes : largou o fem re- 
fiílencia, eretirou'fe àCidade de Segeripe d ElRey , vin- 
te e cinco legoas diítante do Rio de S. Francifco , e íef« 
lenta da Bahia. Naõ permittio o Conde de Nazáu, que 
deícanfaíle muitos dias em Segeripe-, refolveu íe a defa- 
lojallo por ficar mais defembaraçada a campanha de Par- 
nambuco, íem reparar que era maior inconveniente obri. 
galo a fe retirar á B ihia cora taõ bons foldados , e em que 
accreícentava a guarnição á Praçi principal que determi- 
nava fitiar , de que dependia qualltodo o Senhorio do Bra- 
fil. Teve anticipada noticia o Conde de Baííolo da marcha 
do Conde de Nazáu : reíirou'fe com tempo de Segeripe 
para a Bahia , acompanhado de todos os Toldados , e mo- 
radores que íe achavaõ naquelle diítriflo. Nioeílinou 
Pedro da Silva , Governador daquelle Bllado, no princi- 
pio a fua vizinhança pelas duvidas que fe poiiaõ oífere- 
cer no governo i porque a Pateate do Conde de B in jIo nao 
era fobordinada â fuá juriídicçaQ : porém deoreíTa eftimou 
tanto unir-fe com elle f que quafi lhe veio a largar todo 
o Governo no fitio da Bahia , que brevemente fuccedeo. 
Porque o Conde de Nazáu , animado com os bon? fuccef« 

fos 



PjmS I. LIVRO 11: 6t 

íos de Parnanibuco , intentou ganhar a Bahia i e veio fi^ 
tjjla com 40. ravioi , em que trazia 5 5:00. infantes , deus 
n;il niórinheiror, iodos os iníliurr ento* iitceííarios para a 
expugnaç ô da Praça , e chegou á Bahia a 14. de Abril do 
anno de 1638. Foy grande a confuíaõ dos que naõ recea- 
vaõ eíte dano , porque lhes mô convinha padecello ; csufa 
ordinária das maiores ruinas do mundo. Os HoUandezes 
defenibarcáraõ fem oppofiçsõ , mos procedendo com mais 
demora do que lhes convinha , deraõ tempo a que os fnia- 
dos , enfinados do perigo , trataíTem da defenfa. Fortifi- 
cou íe a Cidade , guarneceraõle os poftos importantes , 
c feguráraõ*fe a$ obras exteriores. Atacou algumas o ini- 
migo , e ultimamente, depois de quarenta dias defitio, 
íe retirou o Conde de Nazáu 5 havendo perdido muita par- 
te da gente que levava. Procedeo o Conde de Banolo com 
grande Iciencia , e valor neíte fitio , e acreditou Pedro da 
Silva n.í Fortaleza do animo a alcunha de Duro, com que 
íe dlltinguio de outro do íeu nome. O Conde Nazáu vol- 
tou para o Recife , e tratando íó do Governo politico 
fabricou na Ilha de Santo António hufna Cidade, a que 
chamou Mauricea , que intentou communicar com o Re- 
cife por huma ponte , a que deo principio , fobre o rio Ca-, 
pibarive , que corria entre hum a , e outra Povoação. 

No fim defte anno de 38 íahio de Lisboa a Ar- 
mada, tantas vezes promettida , e em taó conhecido pre- 
juízo dilatada, para a reftauraçaõ de Parnambuco. Era 
Capitão General delia o Conde da Torre D. Fernando 
Mafcarenhas , e levava Patente de Governador do Brafi! ; 
e por General deita Armada hia Francifco de Mello de 
Caílro , que morreo em Cabo* Verde : e com galharda re- 
foluçaô , em quanto foy vivo , naÕ quiz abater a ban- 
deira da Capitania de Portugal á C. apitania de Císftella. A 
vaidade de Miguel de Vafconcellos, e a liíonja de ou- 
tros Miniílros fez dar eíla Armada á vela antes de che- 
gir a Gaftelhana , com que íe havia de encorporar : por- 
que de fejando troílra-fe mais sdivos, c diligentes com 
ElRey de Cartel Ia , fem err bargo dos proteítos que fize- 
raõ os mais intelligentes , ordenarão ao Conde da Tcrre, 
que em Cabo* Verde aguardâíTe aos Caílelhanos , íem to- 

pararesj 



4t POKTUGAL T^ESTAUtADO , 

pararem nas inârmidades a que expunhaô os Portuguezeif; 
Ctiegou a Armada a Cabo- Verde , e depois de mortos maia 
de mil homens fe eacorporáraõ com ella os Caltelhaaos. 
Deraô a veU as duas Armadas unidas , aviltarão t^arnam* 
buço, e entendeo*fe, que, íe lançarão logo gente eni 
.terra, eíFeituariaô a pouco cufto o intento de g^iliar o Re- 
cife, que levavaõ premeditado, feguado a deiattençao 
com que acháraõ os Holiandezc:s« Paliou a Armada á Bania^ 
e dilatou le naquella barra tanto tempo , que o tiveraõ os 
HolJandezes de íe preveair.Qaando le fez á veJa paia Par- 
nambuco , e achou oppoíta a Armada de Hoiianda , e pele* 
jou com ella o Conde da Torre com pouco dano de am« 
bas as partes. Depois de fe dividirem, mandou o Conde 
lançar em hum porto, chamado do Touro , pouco dií- 
tante doR^ícife, mil loldados que governava o Mellre 
d3 Campo Luiz Barbalho. Parece que era o intento ga<. 
nhar poílo para deíembarcar a mais gente da Armada, 
porque navegando ,comofuccedeo , para as índias de <-a- 
ftella , era pouco efte cabedal para taõ dilatada conquifta. 
Vendo Luiz Barbalho que,partida a Armada, lhe naõ fica- 
va outro loccorro mais que o da lua induftiia, anilado 
do leu valor , e da fortaleza invencível dos feos íoldadost 
le relolveo a luperar inconvenientes quaíi invencíveis. 
Abrio caminho pelo Gertaô , rompeo quatteis de HoUan- 
dezes , venceo muitas enbolcadas , vadeou grandes rios , 
íoffreo fomes, e contínuos aíTaltos, e coníeguio valero- 
famente , depois de taó largi jornada, chegar a Bahia com 
a maior parte di gente com que fahio de Parnambuco. 
Ficou governando o Brafil o Conde de Óbidos , que exer- 
cUava o pofto de General da Artilharia , em quanto nao 
chegou áquelle Ettado o ViceRey D. Jorge Mafcarenhas 
Marquez de Montalvaô.Fezaos Hollaadezes eu Parnaffir 
buço guerra lenta , e fenfivel , mandando*lhe continua- 
ment-' queimar os fruólos da Campanha , para que a Com- 
panhia Occidental perdendo os interefles , e enfraquecidos 
oscibedaes, diminuído o poder, fícaíTe mais fácil a reítau- 
laçaô daquella Província. Mas todas eftas idéas fe defv<=- 
neceraõ cam a felice reílituiçaô da Coroa de Portugal a 
leu legitimo Senhor , que fucccdsa no Governo do Mar - 

quess 



PJBTE I. LIFPO II. Ci 

q»jez de Mcntalvsõ , crrro em ftu Jigcr c^ireircri 

P^íT?do o primeiro favot d« ílt cbleijUio àcz For- 
tuguezes . tornMrtõ os Miniílros CfeíteJhfcros a txct gitar 
r.ovai t<^ii<j?s de tyrannizallos- Dava coim toda a veht n tr* KctUíãàectiPt 
cu c^ior a eíla dtlornad^ empieza D. Galpar de C\iln.£Ô ^'^«s"'* 
Cond ' Di:que deOlivares, a qutm havia tritregueo dt 1» 
cuido o'EiRey D. Fi.ippeopezo do Governo da Monar- 
quici i era entendido, ÍVgaz, eloquente, erefoluto, ti- 
nha por ley a politica , e por doutrina a confervaçpõ da 
fortuna , que lograva , ainda que folie por meios diabó- 
licos, (luípeita, qus padeceo a lua opinião) Governava a 
Monarquia lem re (peitar a eftas vozes, t£Õ abfo'utamen- 
te I que naõ conheceo Hefparha em outro Miniílro igual 
poder, ainda recorrendo aos feculos paflados. O dtíva* 
necimento da grandeza lhe alterava de forte o snimo , que 
palTdVa a pretender dos homens naõ íó cblequios, íenaô 
idolatrias , próprias influencias dos efpiritos com qte tra- 
tava , fe accafo era certa a opinisõ , que corria. Achan- 
do efte defordenado intento o maior cbílaculo em mui- 
tos Portuguezes , em quem coftuma imperar o brio ifen- 
toda fortuna , gerou no íeu defccncertado animo eíla ge* 
neroía reíoluqaõ hum ódio implacável contra toda a Na- 
ção Portuguezi. Deícobrio a íua paixão, ou a fua dif- plege Dionosta- 
graça, próprio Miniftro da vingarça . em Diogo Soares res'iecretarbde 
Elcriv.íó do Gonfelho da Fazenda e n Lisboa , o qual tra- t'fí'^^o fr» ^ia- 
tado eín Madrid pelo Conde Duque, conhecendo o la- Íf'7/'"J'f- 
gaz para enganar, humjldi para obedecer , e mahcio\o (^^içeiic^, 
para inventar tyrannias contra a fua Pátria , lhe deu a oc- 
cupaçaó de Secretario de Eíl^do de Portiigal, refidindo 
cm Madrid , e por feu correípondente com a mefma oc- 
cupaçaõ de Secretario de Eftado em Lisboa , a íeu fogro, 
e cunhado Miguel de Vafconcellos , filho de Pedro Bar bo- 
fa y fendo efte taõ aborrecido do Povo de Lisboa por 
conftar , que dava arbitrios a Caílella , que lhe apedreía- 
raõ a cafa , e rompendo lhe as portas falvou a vida fu- 
gindo , que veio a perder dentro de poucos dias , naô 
conftando atégora quem fcíTe o matador. Era Miguel de 
Vafcorcellos fuberbo , e afpero no trato , inimigo ds No- 
breza I e peireguidor dos igu^es i e infçiiures .* e era de 

ÍQIVS 



64 PORTUGAL íiESTÃURJDO ; 

forte o império coiu que mandava , e taõ promptas as 
exewU^oens que fazia, que conítituido tyrãno da Repu» 
blica, ate as ordens fupremas d'ElR.ey deíprezava, fazen- 
do íó obedecer as que lhe eraõ convenientes» Entre todas 
eílas tyrannias fludtuava Portugal » naô achando mais re- 
médio nos males que padecia , do que as queixas occul- 
tas de alguns zelofos, e amantes da Pátria , que nem do 
ar íiavaõ oi fufpiroi , receando o caíligo , para que nem 
eíle delafogo tiveíle a enfermidade. Aquelleí a que tocava 
aoccupaçáo de Vici'Rjys, ou de Governadores, a qual 
era diípeaíada por trc;2 a.mos , hora a hum f ó , hora a 
dous com iguàl podcjr j compravaô os mais dellescom da* 
nos da Republica oif interelíes das fu i3 cafas i e os mais ât» 
tentos a eíta d^ílgualdide coít umav lõ a fer os eicolhidos 
para o giverno, tlavia entrado nelle D. António de At3i- 
de Conde de Gaílro de Ayro , e Nuno de Mendoça Con- 
de de Vai de Reys , quando chegou de Caítella h m De- 
creto d*ElRey , o qual co itinha , que íe juntalíem os Trez 
Eltados dl Cidade para fe lhes coinmunicar hum negocio 
de grande importância. Obedecerão todos, e juntarão fe 
na igreja de Santo António , preíente D. Luiz de Souza 
'Propsem-fe á Conde do Prado , que aíliilia ao tomar dos votos , propoz 
Nohrezíi h:i:r,a a Ordem d'ElR^'y , que era peJir quinhentos mil Cruzados 
t'atTre'^^l^Ii^^ Reino cada anno , fazendoMhi mercê de o deixar ele'. 
tZem ^ojU f^^^ a qualidade d :!s effaitos , e a forma da contribuição. 
tmz.ados, Irritáraófe os ânimos di todos os que ouvirão eíla pro- 
poíli, vendo a tyrannia com que ElRey, fem chamar Cor- 
tes, intentava lançar Xs6 conlideravel tributo. A confufao 
com que todo< ficáraõ , desfez generofamente D.Francif- 
Áci^^ogtnvoia^^ ^^ Caílel-Branco Conde do Sabugal , Meirinho Mor - 
Ao con.ie doSA' do Reiao, reípondendo » que elle , e todos os circjmftan» 
huid. ^£5 ^o Tl os Vogíes ,"q J2 falt ivaõ , haviaõ jurado guardar 

oscotlames de Portugal , pelos quaes lhes naõ era licito 
votar fora de Gort^^s em matéria timilhante. Levantou- 
fe tanto que diíTe eft is palavras , e íaio-íe da Igreja; fe- 
guÍ0'0 a Nobreza , íizeraõ o meímo todos os que le acha- 
rão prementes , vence lio o brio defta acçiõ ao receio 
de muitos , que temiao o mefmo que executavaó. Dcrao. 
Oà Gjveraadores conta a Madrid úo miofucceíTo da nro' 

poíta 



TÃRTE I. LIVRO II. 6í 

pofta ," e de loite fe irritou o Conde Duque , que os fez Depoim-feo} 
pagâf a culpa , qte naõ tir.haõ , deponGo*os do governo, (sovemadoresl 
e foy nomeado por ViceRey dí Ponugal D.Joaô Manoel j,,jcrre D,:^oaií 
Arccbilpode Lisboa , que aíTulia em Madrid , donde ia* Maf.ai tiàío, 
hiõ a exercitar a lua occupaçaò ; poré.Ti chegando a Lis- lue-Kfy, 
boa morreu hydrópico dentro de poucos dias. Trinta e 
dous , que tardou o piovimento de Madrid , ficou gover- 
nando o Coníelho de Eftado. Veio no«ncado por yico,' succede d. nhl 
Rey D. Diogo d- Caft.o Conde de Bailo , que_^havia fido godeCa/írj. 
duas veze> Governador , e grangeado opinião de auíte- 
ro , zeiofo , e prudente : durou no governo até o anno 
de 54 , acodmdo nos apertos do Reino , e das conquiftaf 
como podia , e naÕ como delejava , e os danos pedióõ f 
pela grande eíterilidade de eííeitos, qu fi eígctados com íí 

a amb çió dos Caftellianos , e arbítrios de clguns Poitu* 
gueze . No anno referido deíejou o Conde Duque entre* 
gar o governo de Pctugal a ptfloa, que foíle n uito irte» 
TelFadi na politica de C iliella , e naõ encontraíle os foros 
defte Reino : pareceo*lhe ajuítado ao leu intento D. Fran- 
ciico de Borji Princípe de Eíquilache, por íer deícenden- 
te de Portuguezes > porém, dilluadio-o deita detern::inr-<^aô --' 

o Duque de Viila-Formola irmaõ do Principe, invejoío 
de o ver preferido , corrompendo ao próprio langue a pe- 
çonha deite vicio: foy a traça de que ufou a íua inveja 
apontar ao Conde Duque de quem era favorecido , ( gran- 
de fortuna naquelle leculo ) para o governo de Portugal a 
Margarida Duqueza de iMantua , viuva de Vicencio Gon- ^f(f<^»!'Je« 
2aga terceiro Duque daquelle Eílado, e neta de Filippe f^^^!,^! *^- 
II. de Callella, nacendo da Infanta Dona Catharina íua 
filha, e de Carlos Manoel Duque de Sabóia com quem 
foy caiada , ficando por elie reípeito em gráo de prima 
com irmãa de Filippe IV, 

Achava'íe a Duqueza em Pavia , lançada fora òo :t^o^kU ãosjeoi 
wefmo Eltado , que dominara ^ porque íicando-Ihe \ot (mi í^Tos, 
morte de feu marido íó huma filha chamada Catharina, 
que deixou.nomeada herdeira de Mantua , e Monferrato, 
íe oppoz á íuccefliiõ da Cafa Carlos Gonzsga Duque de 
Nevers em França , por íer filho de hum irmaõ de Luiz 
il, Ducue de Màntua , que foy pay de Vicencio •, Varonia 
Tjm. I. ' E que 



governo de Por 
ftízat. 



u pomuGÃL nESTAmJDo , 

que ficava exiinda em Catharina fua filha. Acodio Hef- 
panha a defender o direito de Catharina, e França a fa- 
vorecer a pretençaõ de Carlos * Alemanha intentou occu- 
par aqiJtrlle Eílado conio fcudo Imperial j e deita compe« 
tencia íe originarão as notáveis guerras, que naquelle 
tempo opprimiraó Itália , de que foy theatro Lombardia^ 
Depois de vários lUt:ccríos padeceo a maior diígraça a 
* ■ Duqueza Margirida , deít-^rrando-a da própria Cala os 
que pretendiaó tyrínnizlla. Retirou*íe ella a Pavia > e 
líâquelle governo a entreteve EiRey , até que a chamou 
"He ebhaa D«. psra O de Portugil , porque o Conde Duque inípirado áo 
^:iez.a para o Q^que de Vi'la'Forn ola , lahiocom efta eieiçaò íem at- 
tender que ofivndii es foros de Portugal, por íer a Du* 
queza mulher, e em menos grào de parertefco com Ei- 
Rey , d3quelles que diípunhaõ os privilégios concedidos 
em Thornar por Fiiippe II., Jevando-o a atropelar qual'» 
quer diffijuldade o deíejo de coníeguir o tributo dos qui» 
nhentos mil cruzados, e a maquina que difpunna para 
reduzir a Província a antiguidade , e grandeza do Reino 
de Portugal : onde chegou a Duqueza de Mantua no fiíU' 
do anno de 1634. Entrou em Li>boa ♦ e no mez de Janeh 
ro do anno íeguinte tomou poíie do governo, continuou-o,» 
aíTiííida do Marquez de la Puebla,' que veio ds Madrid 
fem occupaçaõ, íó para aconíeUiar a Duqueza nas mate» 
rjas de maior importância. Mas efta diípofiçao foy fem 
eííeito , porque Miguel de Vakoncellos ordenava fem 
contradicçGÕ , e mandava executar íem dependência. Fo» 
raõle repetindo as ordens de Caítelia de lançar tributos, 
querendo o Conde Duque , que com o ísngue^ dos pobres 
le lev^antaílííTí as grandes fabricas do Bom Retiro editicio 
fora de Madrid, traçado pelo íeu appetite, e ord nado pe» 
la íua lifonja. DifvellavaTe Diogo Soares em Iheíatisfa? 
zer efta amhiçiõ , e propunba^lhe íubtilezas 1 que íonha» 
va o feo difvello; porém ás propoftas mal averiguadas, 
que lhe fazia , fe feguiaõ píiílar o Conde Duque intem- 
peílivas ordens de fe lançarem em Portugal tributos. Pre» 
tendia Miguel de V^fconcellos dar todas á execução» e 
eiao muirds vez^-s tr^o encont^a^^as humas a outras , que 
conhecida a diíHculdade do eficito, confiília o remédio 

dos 



Entra em Lis» 
boa. 

uí0e lhe o 
Marqmz de 
la Pueíla^ 



FARTE I. LirRO II. 67 

-âos Povos no muito, que determinavam carregallos de tri* 
butos, porque o embaraço fazia íuípendet as ordens. Af- 
flido pois Miguel de Vaiconcellos da confulaõ , propoz 
a Diogo Soares , que por atalíiar difficuldades fe tornâíle 
a pôr eín pratica o pedido (como lhe chamavaó) dos qui- 
nhentos mil cruzados. Accômodoule o Conde Duque ^ j„(iitue-ie em 
efte parecer, e naõ fe dilatarão as ordens, inílituindo'fe 'j^uãridaju»' 
para eíle eíFeito huma junta de Miniítros, a que deraõ ta d$ Jí/m;e. 
nomedideíempenho, independente do governo de Por- »ho. 
tugai , e íó immediata ao Confelho de Madrid , com o 
fim de que naó quereriaô as partes queixofas recorrer a 
eiles , por lhe naó cuftar mais a jornada , que a fem*ra- 
zaõ. Os da Junta paíTaraô ordens a todos os Corregedores Manâa-ie exf- 
das Comarcas i as quaes continhaõ , que os Povos haviaõ cutaroirié>uso, 
de dar todos os annos a EIRey quinhentos mil cruzados, 
além das impofições antigas» e que eftes íe aíTentaíTem á 
fatisfaqaõ dos Povos, a quem íe vendia por grande mer» 
cé dar-lhes a lanceta para efgotarem as veas. Os Correge- 
dores executavao com aperto as ordens , e os Povos ou- 
viaò com impaciência a íem'razaõ com que difpunhaô ty- 
rannizallos. 

Era Corregedor de Évora André de Moraes Sar- Míeraçoensái 
mento , o qual com imprudente zelo determinou , que fe i^^^ora, 
lançaíTe o tributo fem admittir réplica, caíligando aipe- 
ramente os que duvidavaõ obedecer, e conftando*lhe , 
que o Povo íe alvoroçava com o feu rigor , accreícentan- 
do a elle erro maior deíacerto , reíolveo indifcretamen- 
te atalhar o movimento por meios , que naõ convinhaõ ' 
chamou para eíle fim a fua cafa o Juiz do Povo Cezinan- 
do Rodrigues, ea Joaô Barradas feu £ícrivaõ , avaliados 
do Povo por zeladores da liberdade , e por eíla ra^ao 
muito eílimados : publicou*fe , que o Corregedor os cha- 
mava, e juíitamente a terçaõ deita ordem, dequefeoíi- 
ginou juntar-fe quantidade de gente á porta do Correge- 
dor ; defprezou elle o tumulto , e fez largas oraçoensaos 
dous, perluadindo'os a que fe larçafle o tributo, pedio lhe 
o Efcrivcõ tempo para communicar a cutras peííoas eíla 
propofta : e o Corregedor mandando fechar as portas ngp 
íó lhe negou o que pedia , mas trocou os rogos em amea; 

E 2 ços i 



i5g PORTUGAL 1{ESTJUP>.JD0 ; 

ços ; e dizendo-lhe os dous , que a íua paixão era infrài 
Cluofai porque até o reduzillos íeria inválido, pois o Po- 
vo naô confentiria no que elles firmaílem violentados,' 
íe augmentou a ira do Corregedor com eíla bem funda: 
da propoíla taõ demafiadamente, que depois de foltar 
'7mi,ruíiefictíi do defconcertâdas palavras contra o Povo, moílrou aos dous 
Corregedor. OS Míniílfos de juftiça , que havia mandado prevenir em 
íua caía para os enforcar , quando naõ confentilTem no 
tributo na fórrna , e cora a brevidade , que elle lhes or« 
ojttizãopovo ÒQtxzvtis O Juiz do Povo , que era reíoluto , vendo-fe 
lhe pede jocc3rro amgaqado, e o perigo imminente , chegou a huma janeJIa, 
que cahia para a praça , onde o Povo eftava junto, e pe- 
dio*lhe em altas vozes foccorro , dizendo, que morriao 
pela liberdade da pátria , e por livrar o Povo das oppref- 
iões dos Miniílros d'ElRey. A eítas palavras mal expli- 
cadas eiííre o rumor , e de todos entendidas pelos antece- 
dentes , toda aquella multidão de vozes unidas em huma 
crejcel, 'ittmuU ^^ ^oz gritáraõ , que morreíTe o Corregedor. Seguiofe em 
30, qtieimA.fe a hum inllante ao clamor a ira , e á ira a execução , e mi-^ 
caiadocorregt' niílraíido O furor inílrumentos, ardendo o Povo em cO', 
rZi!/}^' ^'■'' ^-^^ t ardeo a cafa em fccro. O Corresedor arrependido , 
:^ e medrofo i uniao que íe acha facilmente , conhecido o 

defacerto, falvou a vida no Convento de S. Francifco » 
donde paílou a Liíboa em habito diíhmulado , nao confe- 
guindo depois o íeu arrifc^do zelo outro intereííe mais , 
que o de falvar a vida. A fúria do Povo naô parou com a 
liberdade do Juiz , e Eícrivaõ , antes accendendo^fecom 
a noticia de que o Corregedor era fugido , inveíliraõ def- 
ordenadamente muitas das caías da Cidade, e dclpejan; 
do'as das melhores alfaias , naó dando lugar a fúria a ou- 
tra confideraç 16 3S queimavaõ na prsca , advertindo*íe , 
que podendo com elles mais a ira , que a ambição, até 
o ouro , e prata fazisõ matéria do incêndio» que naõ hou- 
ve quem refervaíTe coufa alguma das que roubava. Osli- 
^ithnan.íe oj ^^^^ Reacs foraõ da mefma forte condemnados ao fogo, 
TL7n-ol e ^s'^ condemnaçaó foltaraõ da cadeia os prezos , que ef- 
jsoif """ tavaõneila; que deíla forte fentencea eíle abfoluto Juiz; 
quando tumuHuariamente uíurpa o poder. 

AlFiLtiaõ neíte teir.po em Évora com fuás famí- 
lias 



PJKIE I. LIVRO 11. ^9 

liaj D. Franciíco de Mello , Marquez de Ferreira , D. Ro, 
drigo feu irmaõ , D. Affonfo de Poitugal , Conde de Vir 
rmoío , o Conde de Bafto D. Franciíco de Alancaítre , e D. 
Jorge de Mello : eltes Fidalgos vendo creícer o tumul- 
to i que no principio eílimáraó pela caula coro que le le- 
vantou, mudando com o ex^^eflo de parecer , determina- 
rão bufcar remédios para o atalhar. Juntaraõ'íe a eíle fim Proturaoosvi' 
na Freguesia de Santo Antaõ com D.Joaõ Coutinho , Ar- ^^k"', apiatat. 
cebiípu daqueila Cidade , e refolvendo falar aos piincipaes """'^'"^i 
do Povo, pedindoihes patrocinaílem o íocego , pciiua- 
dindo ao Povo quizeíle deixar ao Tribunal aa Camera o 
cuidado da conlervaçaõ da Cidade , e da liberdade de íeos 
foros, pois era a quem íó tocava , e que elles le obriga- 
Vaõ a interceder com ElRey o perdaõ das novidades íuc- 
cedidas. Naõ íervio efta piopolta mais que de fazer com 
o Povo fuípeitoía a Nobreza: íobreveio a noute quando 
íe intentava divertir eita fulpeita i e lendo as íombras 
melhor incentivo dos infultos, que os medianeiros remé- 
dio da i quietação, fe arrojou o Povo ás caias do Arcebif- ^ccetT-meumà 
po: porem obrigados da reverencia nao entrarão dentro , ' 
indignamente fatisfeitos de tirar com pedras ás janellas, 
acompanhando-as defconcertadas vozes , que nsõ ferem 
com menoi força. Mais atrevidamente procedeo outro M'»^^'^''^*^ 
tropel com a caía do Conde de Baíto , entrando íem ref- ^^^^^'^l^o^ . 
peito dentro do feu pátio : o Conde ouvindo o rumor o 
desfez com muita gencrofidade i mandou a feos criados ac- 
cender tochas , fahio á eícada aonde ja chegava o Povo , e 
com a authoridade que inculcavaõ os feos annos , e o féu 
afpeííio , diíTe em altas vozes * Poio de Évora , que me Reprime o Pov» 
quereis ? Sou vojfo natural , trez vezes governey ejie liet- «<"« « /«<» ani 
tio f em vos fazer aggravo , aqui me tendes : e jepara vof- ^^^'''^«^^«i - 
ja quietação ferve a minha morte ^ watayme , efocegayvos: 
fe qiúzeràes poupar-me a vida para vos ajudar ao remédio 
que vos convém , obray como vos parecer , >nias tiaõ vos ej' 
queçais de que Jois Fortuguezes y onde mmca je conhe^ 
ceo mancha de deslealdade. Vendo a D. Diogo de Caltro , 
parou a multidão confuía, ouvindo-o fe retirou arreperdi- 
da, que a tanto chega o império de hunna acçaôgeneroía. 
Centra os mais Fidalgos naô intentou o Povo movin ento 
1'om. L E 3 a-'gum , 



*jh FOnrUGAL HESTJURJDO; 

algum , de quefe originou a fufpeita de haverem dada ca» 
3or á íua defordem»..AsReIigioens faziaõ muito poraplaS 
car a inquietação , mas todas as diligencias eraõ fem íru- 
6lo, porque os do Povo começarão a gloriar-íe do que em« 
tõtnmw/iicao' preudiâõ , e juntamente a achar fequito em quafi todos os 
fe os de Évora Lugarcs da Provittcia do Alemtejo , com os quaes fe com» 
cem os lugares municavaó , dando'lhes parte das fuás difpofiçoens , con« 
yijmms, forme aS intiligencias qi:e confeguíaó em cada hum delJes. 
A forma com que fe faziaõ obedecer , era i congregando- 
fe os de maior capacidade, ajuílavaõ o que Thes pare- 
cia mais conveniente , e pafTando as ordens neceíTarias , fe 
pafjaf> astrais^ firmavaó com o nome de Manoelinho , hum doudo cele- 
«TfSI '^^' ^^^ naquella Cidade, entendendo que confeguiaõ neíle 
disfarce naõ correr perigo em qualquer sccidente o author 
do congreíTo , em quem coftuma cahir o maior caltigo. 
Deita íórte mandavaÕ; e fix3ndo'fe as ordens em varias 
partes da Cidade , finalavaõ termo á execução , declaran- 
do o caíligo que padeceria quem naõobedecefle ^ efe 
paíTado o prazo naõ erao obedecidos , executavaõ fem di- 
lação a pena impoí^a. Em algumas matérias uzavaô das 
ordens da Camera , fazendo paíTalIaç por força aos Verea- 
dores. Chegou a Vilia*Viçofa eílí: movimento, e troca- 
do por aquelies moradores em alvoroço , cobertos alguns 
'ateiam a-fe o *^'"'^ ^ ^^P^ danoitc, acclamár ó O Duque ds Bragv-Hça » 
Dttqus em Vil- D- Joaõ II. do fiome , e outavo no titulo , Rey de Po tu* 
la-vi^ofa. gal : mas como sinda nnõ era chegado o termo prefcripto 
de tantos íeculos , mandou o Duque fshir na mefma noite 
Sahe eTiuque âe pelas ruas ao Duoue de Barcelios D.Theodoíio feu fi^ho , 
Sarceiíos Dem j^gg tendo mais Jdadc que quatro annos : porém re^plan- 
JeJaoPov//'' cíecendo no delicado rofto as luzes das grandes virtudes » 
" * âe que depois fe compoz efie excellente Príncipe, foy 
íris de ferenidsde : recolheo-íe deixando focegadoorumor, 
e livrou a feu pay de cuidado , imooíTibilitando-o a acodir 
a eíle movimento huma grave infermidade de que eítava 
Impedido. 

A Duqueza de Mantua fez pouco eafo âa primei» 
Tíwflm,e/f;/z- ya pQ^í^j3 ^ que teve da aitaraçiõ de Évora , porém re- 
2.mch^àaD!i- pg^^^ida^fe OS -^vizos d» que os mais Lugares da Província 
i,^, de Alemtep tomavao a raeíma ¥oz com igual pretexto » 

e ia* 



P^R7E I. LIVRO 11. 71 

efabendo o fucceíto de Villa-Viçoía, íelhe foy de for- 
te introduzindo o temor , que naõ perdoava a diligencia 
alguma que juigafle adequada a íe livrar com o locego 
doi j ovos de taô grande cuidado. Fez a Madrid repetidos 
avizos , animou a Nobreza de Évora a continuar o zelo 
de aplacar o Povo , mandou por Corregedor dsquella 
Cidade a Jeronymo Ribeiro , que com grande aceitação 
do Povo havia tido a meima occupaçaõ nella : ordenou 
a Pr. Manoel de Macedo Frade de S. Domingos , applau- 
dido pela dílcriçaõ de feos iermoens , e agradável con- 
verfaç.-.ó» que tolle a Évora exercitar o (eu génio no púl- 
pito , e no trato : mandou a Fernão Martins Freire , íenlior 
da caía de Bobadélla , que fizeííe a melma jornada , com 
ordem de íe introduzir na Junta de S. Antaõ, por confiar 
que era muito aceito áqueíle Povo: poiém na junta nao 
toy admittido , excufando'íe os que íe schavaÕ nella com 
as ordens que haviaõ recebido de Madrid , nas quaes íó 
fe fazia mençaõ dos que acima ficaõ nomeados. Nenhum 
deites remédios baitou para diminuir aquella infermidade^ 
cada dia mais arraigada nos ânimos indurecidos contra o 
governo de Caítella , obftinados pelo antigo ódio, e de- 
íeiofos de mandar por intereíTe próprio. Reconhecendo-fe 
aílim em Madrid, como em Liiboa que era impolTivel re- „ . » 
duziUos com as negcciaçoens , ie determmarao a atalhar ^m^adridcati 
o dano com o caftigo ; mas até eíle remédio era difficul- ugar Évora. 
tofo , porque em Portugal naõ havia gente b&ítante para 
tanto empenho , e poíta efta matéria huma vez nas nãos 
^o rigor , eraõ muitas asconíequencias que arraigava , e 
muitos os paíTos com que íe defviava da obediência. Te- 
míaó os Portuguezes zelofoj, e prudentes , que osCaíte- 
lhanos fe determinaíTem a reduzir os levantados cem ar- 
mas extrangeiras , por íer hum perigo maniftfto ds todo o 
Reino , síTim pelas extorçoens dos loldados, que n2õ col- 
tumaõ fazer diílincçaõ entre os culpados, eosinnocentes, 
como nos conhecidos intentos dos Caítelhanos, que raõ 
defprezariaõ a occafiaõde poder tirara Portugal a peque- 
na liberdade que a leu pezar ainda lograva : e naõ íe en- 
ganavaõ os que fazisõ eíta dilcurfo , porque era certo que 
em Madrid fe eílinr.ava o que em Lisboa fe temia : aindíi 

E 4 qu3 



71 PORTUGJL KESTAVRADO, 

que alguns Caílelhanos receavaô o dano na confideraçaS 
do valor dos Portuguezcs , e dcíejavaó antes o íocego i 
que o caftigo. Da mefma forte eraõ differentes as opi- 
nioens dos Fidalgos de Portugal que aíTilUaõ em Madrid : 
porque huns deíejavaô que a inquietação de Évora foííe 
torcedor dos feos requerimentos , e por interefle particu- 
lar appeteciaõ que íe augmentaíTe: outros attentando me- 
nos á conveniência própria queá utilidade da Pátria , te- 
miao os perigos a que a coníideravaõ expoíta , fe a alte- 
ração fe nad defvaneceíle fem fe interporem as armas dos 
Caftelhanos , e por efte reípeito procucavaõ o caminho 
de focegalla. 
"dÍDifl^^ara ^ Conde Duquc de cujos movimentos eííava pen- 

• focegòt^^'^''^ dente a vontade d'ElRey, havia tirado o freio á ira , e 
corria desbocada contra os Portuguezes ; porém aind a na- 
Grãens à ^un- ^us^le tempo era mais nas palavras, que nos efFeitosi por- 
íadaNobrez^a, que [íuppoílo que OS amesços crefciaõ com os avizos de 
ijue (e formou Portugal, tentou todos os medicamentos brandos, primeiro 
tm Evera, ^^g uzaífe dos cauterios. E eícrevendo á Junta da Nobre- 
za de S. Antaõ de Évora , animando a todos com muitas 
palavras ( de que era grande meftre ) a continuar o zelo 
que moítravaó no ferviço d^EIRey > dando-lhe juntamen- 
te poderes para ajuílar os requerimentos do Povo fem da- 
no da authoridade Real : íe bem todas eílas ordens eraô 
lançadas com muito artificio. tecendo'as com palavras que 
-abriaõ caminho para as derogar » quando o ajuílamento 
lhe naÕ fatisfizeíTe : e conhecendo brevemente que eíle 
meio era dilatado , tentou outro que o deílruia. Achava- 
fe em Madrid Fr. Joaõ de Vaíconcellos Religiofo da Or- 
dem de S. Domingos , Varaõ ornado de grandes virtudes , 
de muitas letras , e quaHdade ; era natural de Évora , onde 
a cafa de feos pays refidio muitos annos ; juntavaõTe-lhea 
eítas circumílancias a de fer feu pay Manoel de Vafcon- 
cellos eílimado na Corte ,e a de fervir feu irmaõ Francifco 
de Vaíconcellos Conde de Figueiró de Mordomo da Rai- 
nha de Caftelía. Vendo o Conde Duque todas eftas difpoíi- 
çoes ajoftadis ao feu intento,chamou Fr. Joaõ fem aíliílen- 
cia de outra peíToa , deo'Ihe as ordens do que havia de obrar 
independente de todo outro poder , ettiandou-oque par- 

tiíle 



PJRTE I. LIVP.O II. yy 

tiíTe logo para Évora. Obedeceo Fiey Jceõ. chegou a parte a rvorá 
Évora i e íem dilação dilpoz o que julgou mais preciío frey ^cao dt 
para redu7,ir os ânimos daquelle Povo \ porém ainda que y^fíonctiUs» 
a fua grande authoridade confeguio ferem ouvidas as luas 
razoens , as dependências de Callella o fizeraõ com aquel* 
les homens muito íufpeitoío , e a íeveridade de íeu tra- 
to, em todas as acqoens auílero, foy para elles pouco agra- 
dável. Fez Frey Joaó de palavra íem outra íegurança lar- 
gas promeffas , porque nenhuma trazia por eícrito, e até 
elta liberalidade gerou defccníiança nos amotinados , pa- 
lecendo-lhes, que, como pouco merecida, feria depois fa- 
cilmente negada \ entendeo-fe também , que a Junta da 
Nobreza deíajudara as diligencias de Fr. Joaõ , por quan- 
to coroo elle quiz obrar independente de todos , e por eí- 
te refpeito íe defviou de os communicar : queixofos da 
íua defconfiança naõ fomentarão osfeos defignios. Chega- 
rão a Madrid as novas de todos eítes accidentes , de que re- 
fultou vir a Frey Joaõ ordem , para que, largando aquella 
commiíTaõ, paflaíle a Lisboa; e outra aos da Junta em que Eetira'/e a zffi 
íe lhes mandava, que continuaílem o poder na forma, que i'oa, 
antes le lhes havia concedido. Em quanto na Corte fe al- 
ternavaõ as diligencias , naõ eílavaõ ociofos os amotina- 
dos. Havi3õ grangeado á fua devcçaõ todos os Lugares 
de Alemtejo, excepto a Cidade de Elvas, e a ViUa de 
Moura , mas em lugar deílas fe fíFeJçoaraóao feu parti- 
do as Vilías de Santarém , e Abrantes , e outras perto de 
Lisboa, que por efta vizinhança deraõ mais receyo-, po- 
rém introduzindo'lhe alguma Infantaria de prefidio foraõ 
fáceis de focegar , e todo o terror dos Caílelhanos fe 
empregava em Villa-Viçofa , e sílim era todo feu cuida- 
do examinar as acçcens do Duque de Bragança , o quíl 
naõ fe fiando da inconftancia do Povo atalhou muitos par. 
tidos , que fe lhe propuzeraõ , e juílificcu-fe de forte em 
Madrid , que publicava o Conde Duque o muito , que El* 
Rey devia i fua grande mcder?çaõ , e prudência. Enten* 
dsndo o Conde Duque, que todas ss íuas diligencias lhe Ta* 
hiaõ baldadas : porque os Pcvos íe rrcítrfvaõ taó chíli- 
nados, que a todas ss prcpcílas nrõ hsviaõ refpcndido 
outra couía mais , que o deíconcerto de dizerem , que fa- 

riaõ 



j4 PORTUGAL RESTAURADO, 

riaõ o que pudeílem , declarando , que naõ tornariaô a ad« 
mittir os tributos , caufa da alteração > e que de fuás li- 
vras vontadjjí darlaõ a EIRsy o que lhes parecellei defa- 
cato que o Conde Duque avaliava como a maior culpa , 
pois le atreviaó ( dizia elle ) a quererem capitular com 
o leu Rey i e confiderando , que a dilação delis deíafoce- 
go era muito perigofa , podendo 05 inimigos da Coroa da 
CaitelU introduzir negociações com os Povos de Portu- 
gal, paílou ordem para que marchaíTem na volta das fron- 
TafAo-je ordês teiras defte Reino as Iropas , que guarneciaõ as Praças 
para marchare^ ^^ Guepuícui , c Navarra , íendo pouco confideravci a 
^ropa^de Ca- guerra , que por aqueila parte faziaô os Francezes , rota 
fidU. por Luiz XIII pouco tempo antes com Filippe IV 1 to* 

mando por pretexto aflim haverem os Imperiaes ganha- 
do Filisburg , que guarnecia Infantaria Franceza , valen-, 
do'fe do delcuido com que os Francezes eílavaõ fem te- 
'caMÍasdefero. ^^^ '^^ gucrra , como também a refoluçaó que o Cardial 
per a guerra en. Infante Dom Fcmando tomou de emprender Treveris an- 
frf Fra»(a, tes da guerra declarada ; e confeguida a empreza , levar a 
Brucelias prezo o Eleitor de Treveris, aggravo que os 
Francezes publicarão em vários Manifeftos, e mandando 
ElRey de França propor ao Infante areítituiçaô da Pra- 
ça, e a liberdade do Eleitor , naõ querendo elle admittir 
nem huma , nem outra propofta, ficou rota a guerra entre 
ambas as ( oroas. Governava as Armas de Guepufcua, e 
Navarra D. Franciíco Garrafa Duque de Nochera , Italia- 
no, e era feu Meftre de Campo General Diogo Luiz de 
Oliveira, Portuguez , das principaes Familias defte Rei- 
no » que havia occupado muitos Poftos no Brafil , e Flan- 
des. Nió lhe parecerão ao Conde Duque eftes fogeitos 
muito ajudados á empreza, reparando em que hum Ita- 
liano naô devia caftigar Hefpanhoes, nem fiar fe de hum 
Portuguez o damno de feos naturaes ; e nefta confideraçaô 
fez avizo aosdous : ao primeiro, que podia vir à Corte, 
pretençiô, que dias antes fomentava; ao fegundo , que 
paflaile a Fiandes a r^ovdrnar o Caftello de Gante. Ambos 
fe rxharâõ t3Ó offendidos, que deraõ caufa a virem prezos 
a Madrid , caftigando atyrãiia do Conde Duque ss iuftas 
queixas , que nao podia remediar. Marcharão as Tropas 



aor- 



PARTE I. LIVRO II. 75 

à ordem do Tenente General Marco António Gandolfo : 
conllavflõ ellas de oito mil Infantes » mal pagos, e peior 
dilciplinados 1 de que íe originou i hegarem íó trez mil ás 
fronteiras de Portugal , e de hum Regimento de Dragões, 
que fendo huns Arcabuzeiros mal montados vindo com 
elle titulo novamente de Alemanha, aflorr.bravaõ mais 
com o nome , que com o eíFeito. Foy a marcha de Bifcaia ,., / - 

/•!-. ••ii^'- 111 r^ it T ^ Mar chão as 

a Provmcia deKiOja, delia a Lampos, donde por Leão Tropas ^s/ron- 
entrarão na Extreniadura , e ficarão aquartelados ÓQÍàQ teiras de lenu, 
Valença de Alcântara até Badajoz. Foy nemeado por 5"'* 
General dcíle Exercito o Duque de Bejar , moço de deza- ^cmea-fe />/ 
lete annos , com o pretexto de fer o maior Senhor da Ex- ^^"T''^ ° '^'* 
tremadura , onde o Exercito fe juntava. E fendo a ca ufa ^^'* ^ *^'"^" 
verdadeira querer o Conde Duque , que o Cabo daquella 
guerra apparente íe governafle fó pela fua direcção , deo- 
]he por adjuntos os Meftres de Campo DJoaô de Grane- 
ros i e D.ChriílovaÕ Bowa*negra , arrbos Confelheiros de 
Guerra, e por Meftre de Campo General D. Diogo de 
Cardenas , que o era também do Reino de Portugal , e 
deftinou-lhe Badajoz por Praça de Armas. E porque neíle 
tempo íe haviaõ ateado as altersçoens nos Povos do Reino 
do Algarv^e ^ e davaõ maior cuidado , em razsÕ dos portos 
tio mar taó úteis ás Monarquias na paz , como fufpeitofos 
na guerra , íe nomeou para acodirao focego daquella par- ^J^J^^,'^^'/^^ 
te o Duque de Medina Sidónia, e o Marquez de Vai Pa- l.idlnV\ido' 
raifo , p.3ra lhe afliftir fem poíto •, e paírou'fe ordem ao mao/ocegod» 
Duque que levantafle em Andaluzia íeis mil Infantes , ^k»''^<^\ 
e quinhentos Cavalloy. 

As noticias defrcs preparaçoens chegarão aos amo- 
tinados , e naô íizerEÕ neHes mais eíTeito para a preven- 
ção , que iníroduzir-lhes grande receio , confequencia das 
acçoens onde governaõ muitas vontades ; e de todo fe 
desbaratara o congreílo , que tinha fido caufa de tantos 
cuidados $ íe algumas pefíoas particulares, que haviro 
tido parte no primeiro movimento, naõ fomentarão os 
ânimos dos populares, temendo que a fua inconílancia 
quizeíTe com o fncriíicio do íeu lí^rgue ^placsr a ira do 
Omcolo cíFendido, e dccIarando'Os per complices acre« 
ditarem o feu arrependimento. A Junta da Nobreza na 

cbíer- 



76 POnTUGAL HESTAUB.JDO i 

obferváçaõ deites movimentos fundava as efperançis dò 
ío-ego : porém j a conheciaõ o maior obílaculo na politi» 
ca do Conda Duque , o qual havendo examinado as pou', 
cas forças d^íta alteração , queria tirar delia naô fó a ia*, 
tisfaçaõdo gaito, que havia occaíionado á Monarquia ^ 
mas tributos maiores daquelles , que foraô occaiiaô do ieii 
defconcerto. Eítas idéas forjava Diogo Soares, poJia*âs o 
Conde Duque, e vendia-as muito caro Miguel de Vaícon- 
cellos j porque eítes erao todos os cabcdaes cora que os 
dous íogro , e genro augmentavaô os leos intereíles; e. 
como o Conde Duque por confeguir maiores intentos , co. 
nheceado eíta ambição a fomentava, durou íem oppoíi- 
çaõ o poder de Diogo Soares , ate que f jy nomeado para 
o Goníelho fupremo de Portugil D. Miguel de Noronha 
Conde de Linhares , que havia chegado de íer Vice'Rey 
da índia com grande applauío , merecido do feu valor , e 
grandeza de animo i ecomo eílas virtudes apartavaõ de íi 
^,vr,.- .- „ toda a lifonia , tanto que entrou no Confeliio fe declarou 
ire (7 CíWí ^í inimigo de Diogo boares , procurando moltrar fem re- 
Linhares^e Dio'buqo 3 demazía do leu procíídimento. Diogo Soares ven- 
go Soares. ^Jq qj^ contingência o grande poder, que exercitava com 
a oppofiçaõ de inimigo taõ poJefofo, empenhou toda a 
fua futileza em deíviat da Corte o Conde de Linhares: 
porém o intento naó era fácil de confeguir, porque o 
Conde Duque fazia grande eílimaçaó das muitas virtudes 
do Conde. Declarada eíla contenda, fe dividirão os Portu- 
guezes pretendentes na Corte , feguindo cada hum aquel- 
]a parte, que facilitava mais o feu requerimento, e al- 
guns , que amavaõ íó a reputação , eraõ parciaes do Con- 
de de Linhares. Fludtuavaõ os negócios de Portugil en- 
tre tantas tormentas, e naô era menor tempeftade a que 
levantava a cubica de alguns Portuguezes , que a que 
fomentava a ambição dos Gaílelhanos. O Conde Duque , 
vendo que eraõ chegadas as Tropas ás fronteiras de Por- 
tugal , bufcou caminho de íuavizar ocaftigo, que deter- 
minava dar aos amotinados, fazendo juizes das fuás cul« 
pas os PortU2uezes , que eílavao na Corte : para eíle fim 
drici dos Fi/^^^^^^^^*^^'^ todos a lua cafa com tao grande miíieno , e 
gaíiVr/^j/íeiíiaffiítAado di íóríi a cauíelia, e a recomendação do fe* 

gredo , 



PJR7E I. LIVRO 11. 77 

gredo , que os mais Jivres de culpa recearão o congreíTo. 
toraõ cincoenta os que conconèrsõ a cafa do Conde Du- 
qae para onde es chamaríiõ : entravaõ nelles alguns Mi- 
niftros Caftelhanos , e óíliíliaô por .Secretários deíla Junta 
Diogo Soares , e D. Fernando Rodrigues de Contreras Se- 
cretario de Guerra de Hefpanha ; preíidía o Conde Duque 
dentro de huma alcoba , em que coltumava dar audiência, 
SentáraÒ'íe íem preferencia todos os convocados em ca- 
deiras de efpaldas , e os Secretários em aílentos razos ; 
Jeo D. Fernando de Contreras , por íe en-.baraçar Diogo 
Soares, a quem primeiro le entregou hum Decreto d'El- 
Rey i a fubllancia do qual era moltrar a rebelliaô dos Po- 
vos de Portugal, e perguntar qual feria a melhor forma 
de focegallos , e que género de caítigo fe devia dar ás 
pefloas que fomentavaõ a perturbação. Lido o papel , fez 
o Conde Duque fmal a Joanne Mendes de Távora Bifpo 
de Portalegre , depois de Coimbra , para que reípondeííe: 
o que elle executou em huma concertada oração, que 
continha agradecimento a ElRey da clemência, que ufa- 
va com aquelles vaíTallos , os benefícios que todos lhe de* 
viaõi e o Reino uniformemente ccnfeflâva *. referio os 
grandes delidos dos amotinados, eexhortou a diligencia 
do focego, ãínrn no conlelho que deviaõ dar aEiRey , 
c^mo nos avizos, que era razaô fazerem ao Reino, a feos 
parentes , e amigos. Ditss eftas razoens, orou o Ccnde 
Duque louvando-as » e exaggerou a furoma piedade d El- 
Rey , pois efquecido de tsntcs delidos , como os Povos de 
Portugal haviaõ coromettido , deixava á diípofiçsó da No- 
breza o remédio delles : e de pois de artifícioíos periodos , 
accrefcentou , que íua Mageítade mandava , que de tudo 
o que íe ordenaíTe na reducçaó dos povos, fe deíTe cot ta 
ao Duque de Bragança , aíTim peb fua grande ?uthoridâ- 
de > como pela modcreçaõ , prudência, e zelo com que 
havia procedido na occaíiaõ prefente , de que fua Magef- 
tade fe achava em fummo gráo obrigado. A eítas palavra» 
do Conde Duque fe íeguitíõ grandes epplaufos, e li- 
loDJas de todos os que fílavsõ preferíes, que jacomo 
trato da Corte de Madrid fe haviaõ inficionado neíte per^ 
niciofo vicio. ForaÕ eleitcs para ir beijcr azr.£oa EJRey 

eíB 



7» TOnTUGAL '^ESTAUR.ADO , 

em nome de todas o Conde de Linhares , o Bifpo de Por- 
talegre , e o Conde de Figueiró i e veio a çoníeguir a 
indaitrii do Conde Duque , qae ie moltraílem obrigadoí 
os que íicavaõ m^is olienduus; enciininliandoíe todai 
aquellas politicas á deílruçaô da Nobrezá, e a ultima fet*. 
Vidaô dos Povos de Portugal. Todas ellas nego juv^oeni 
de Madrid labiaô os de Kvora , e como Ihej cliegavao 
também as noticias de crefcer o numero das tropas por ro- 
das as partes, a confufao, e o receio íhes acjnieliiava a 
concórdia. Valia*fe a Junta da Nobreza deites accideates , 
e procurava por todos os caminhos , que foiiem as laaa 
diligencias occaíiaõ do focígo doi Povos , aiíin por fec 
a acção taõ digna de louvor , coítio de recompeala. Os 
amotinados ouvirão as praticas do locego com bom rof- 
to até íe chegar ao ponto dos tributos; porém ta ito que 
fe falava em haverem de pagar os que lilR^y pedia , tor- 
navaó a obítinar-fe , eadeíVaaecer todas as eíperanças 
de ajuítamento util. O Arcebífpo D. joao Coutinho, en- 
tendendo fer eíla a occaíiaõ de tantos danos , íe offere- 
ceo virtuofameníe a pagar da lua renda o excedo que de 
novo íe queria impor á Cidade lobre os antigos direitos , 
o qual fe avaliava em três contos de reis : da meíma for- 
te fe obrigava o Senado daCamera a pagar dos bens pró- 
prios outro novo tributo , com que o Pov^o ficava livre , 
c ElRey fervido. Aos amotinados naõ ioava mal efta pra- 
tica: porém o Conde Duque a quem íe propoz, e repara- 
va em que Évora naõ havia de íevar traz ii os outros Po- 
vos alterados para o focego, como os levara para a per- 
turbação i porque além de fer naceíTario menos, para fe- 
guir hum exceílo, que para abraçar huína concórdia , nao 
havia nos outros Povos quem pelos aUeviar tomaíle poc 
lua conta a fatisfaçaô dos tributos, como íuccedia em 
Évora. Foy eíta quellao muito ventilada em Madrid. Ul- 
timamente, entendendo- fe que algumas pefloas particu- 
lares haviaô ganhado confiança nos mais ào-. Lugares alte- 
tados , chegou a adiantar-fe muito o ajultainento : po- 
íéT\ com novo accidente íe perturbarão todas eítasnego^ 

ciaçoens. 

Da contcovsríla que corria entre o Conde de Li- 
nhares 



PJRTE I. LIFRO II?' 7'^ 

nhares, eDicgo Soares, fe havia kvrrtfccJo o efpirito a 
joaõ Salgado de Ar.ijo , Abbsde de Peia , reíolvcnccfe 
3 dar capítulos de Diogo Srares, íTiOÍtrardoneiles eviden- CAtituUo'jiBí 
temente que as fuás exorbitâncias erióoccaíiaõ de ledos {^i^eáe^peraàé 
os rrovimentos de Porti gaL Entendeo Diogo Soares que ^^"^^""^'"'-.^^ 
o Conde de Linhares annrára a lefoluçcõdo Abbade, e 
ao palio que lhe creíceo o receio , difpoz a vingança , ap- 
plicaadoiodo o íeu cuidado em negociar apírtallo da Cor- 
te, hez efpilhar por íeo? parciaes , que fó o Conde de 
Linhares era capaz de focegar os amotinados , e aponta- 
vaò appsrentcs razoen* de ler efte o único remédio de tan- 
to dano; as quaes dilcuííada? fingelamente, sgradavao 
a iodos que cunheciaó ov.ilor, e adividade do Conde. 
Etta pratica ou vio o Conde Du que com bom rofro » e fa- 
zendo eita obfervaçaõ Diogo Soares , chegou mais lenha 
ao incêndio; e ultimamente veio a coníeguir, que El*- 
Rey períuadido do Conde Duque , mardaíle chamara 
Conde de Linhares , e que lhe encõmendôfíe, lem admit- ^-^arjíia niRey 
tir replica , no focego de Évora a íaude da Petria , dizen- ^,^J'"'^. ", ^°' 
do-lhe , que hávia conhecido que ló elle era cspaz deíla ' ^ ^f^^^^res» 
empieza. O Conde , ainda que entendeo a origem deílâ 
preceito , achando íe fem poder para a oppcfiçsõ , ava- 
liou por mehior partido a obediência : beijou a msõ a El- 
Rey pela confiança que fazia do feu zelo , e pedio fó pa- 
ra o acompanharem na txpçdiçcõ dos negócios a D.Al- 
varo de Mello, po Inquifidor Ar^tonio da Silveira de 
Menezes» e a D. Franciíco Manoel de Mello, que fe 
achava em Madrid £Ííiíliní'o aos negccios do Duque de 
Bragança , e que a'én) dt ter grande talento, como juí- 
tificaõ vario? livros queccnpuz , era preciío nefta cora- 
miílaõ para corciliar es anin os do Duque de Bragarçs , e 
Conde de Linhares , de cuja uniaõ ÍLppurha o Corde Du- 
que , que pendia o aJLÍlamerto dss alterrçÕes de Evorr^ 
Concederaõ'íe'ihe os trez, fem mais titulo que síTítir-líie. 
Paiticfe o Conde , e a poucas jornadas lhe chegou rrc^em., 
para que fize.fle r. tirar e Madrid D. Alvarc de Mello ,^ 
e António da Silveira» e ^ó D. Fr^T cifco Mareei corti- 
nuaíTe com elle a jorp?ds. Obedc cérsõ os de us , e o Corí- 
de conheceo íer Ir.duíliia de Dicgo Soaies diVeitir-lheo» 

xreios 



So PORTUGAL ^ESTAUR^DO , 

meios da execução , para o fazer complice na infelicidas 
de di emprtiZá ; poré.n naõ alterou coa» eíte accidente a 
jornadi , CO itiiiuou-d até ^/"lila^Vi^^ofa , onde íe aviltou 
cjin J Djqae de JSraginçi, hiveadjie adiantadj U.i-íran- 
ciíco Vliiioel a faciiicat os eícrupuios , que fe podiaò uf- 
fe.ecjr no tratamento. Coaferí^aó o Oaqie , e o Conde 
osremeJiOi mais effijazes de atalhar o dãao qus ameaçava 
á Pátria , cuj3$ intereifes ambos antepanhaô a todos os 
outros relpeitos j e para eíte íi n íegar ju o Daq ae ao Con- 
de âllim aíliílencia do feu poder, como a obediência ds 
feos vaílallos. Partio^íe o Conde para Évora, aonde dias 
antes havia chegado a noticia da fua commiííaò, entrou 
naCidide, e naò achou no exterior djlla apparencia al- 
guma de alteração, procurando os amotinado* fatisfazelJo 
com efta cauteiia , períuaJiJos quea matéria preíente fi- 
caria ajuftadacom a prometi i do Arcibiípo , e Senado. Os 
da Junta conferirão cora o Conde os pontos mais impor- 
tantes, trataado*fe no principio com todi a confiiuça. 
Caminhou lem contradicçaó o ajuílamento em quantoo 
Conde naõ declarou a forrna em que ElRey queria aceitar 
a obediência dos Povos. Dizia a ordem d^hlRey , forjada 
na extravagância do Conde Duqae , e approvada pela 
inalicia de Diogo Soares , que de cada hum dos Lugares 
inquietos foíTem prefeatár-fe na Corte os dous Magiílra- 
Ejxírnvíi^ante dos populares JuIz, e P.ocurador, os quaes tanto que eíli- 
piro^oftaaos Po- yeílem juutos » íe veltirisô de iacco., e com cordas ao pef- 
-yoUePtrtugal. ^^^^ entrariaõ em publica Audie.icia , a pedir a ElRey 
perdão pelos feos Povos ; e que ElRey os eftaria eíperan- 
do em trono levantado, aíP.iUdo dos Embaixadores, e de 
toda a Nobreza da Corte, a imitação dos imperadores 
Romanos» eque com ifto íeconfeguirla que as naçoens 
jnimigií da Coroa, que havi^Ócom grandegoílo ouvido 
a fobUvàçaõ dos Povos de Portugal, íonbeílem o feu ar- 
rependimento. Tanto que foy publica eíta ordem , enten- 
derão os de melhor diícurfo , que o Conde Duque queria 
juntar as cabeças dos culpados em Madrid com eíle pre- 
texto , para que pagiíTem com as vidas os exceffos com- 
meítidos. Porém fem embargo deite bem fundado jutzo , 
pode tanto a ind.uítria do Coade de Linhares, ou ( como 
^ le 



PARTE I. LIVRO II. Si 

íe deve entender) a íoa credulidade , que proníetteiido 
por penhor djs vidas dos que foííem a J\iadrid a lua pef- 
íoa, confeguio darem'lhe palavra v. ezinando , e Barraday, 
que «raõ os dou-s de Évora , que vinhaõ nomeados , de que 
hirÍ3Õ a Madrid íe os outros Povos concordaílem em que 
os Teos Magiítradoi íizelTem a jornada. O Conde tanto 
que alcançou eíla promella avizou todos os mais Luga- 
res» para que com o exemplo de Évora naò duvidaílem de 
obedecer ao preceito d'ElRey ordenando, que vicílem to- 
dos os MagUtrados áquella Cidade , para que juntos par- 
íilíem para Madrid á ordem de D. Franciíco Manoel , que 
ElRey havia deílinado para íeu Condudlor. Os dias que 
o Conde litigou eíta matéria com os outros Povos , fize- 
ra õ os de Évora infruiiluoíos. mudando de parecer, ou 
arrependidos do que prometteraõ , ou aconlelhados dos 
que lhe vaticinavaôo perigo. Deliberados em naó arriícar 
ss vidas na jornada de Madrid , foraõ a cafa do Conde de 
Linhares , e com apparentes fubmiíloens lhe diíTeraõ , que 
lhes perdoaíTe naõ poderem pôr por obra a palavra t que 
lhes haviao dado , porque o Povo , a cuja ordem eílavaò 
entregues , naõ queria confentir que fizeílem aquella jor- 
nada. Alterou elte accidente todas asdiípofiçoens, que a 
tanto cufto fe haviaõ confeguido, e incitou de íorte a có- 
lera do Conde de Linhares , ( matéria que na íua condi- 
ção eílava fempre difpoíta a menores incentivos) que 
rompeo furiofo em deíconcertadas vozes naõ fó contra 
o Povo, fenaõ também contra a Nobreza i e tendo por 
teftimunhas alguns dos da Junta de Santo Antaõ , a pou- ^^'^tosiíiirà 

1 1- /L .. :x ., \. A do Conde dg Jj,. 

cos lances levou a ira , como coítuma , todo o tratado ao ^ 

precipício : mandou íahir de fua cafa os do Povo, dizen- 
do*lhe, que ou fe apparelhaílem para a jornada, ou para 
o caítigo : íahiraõ'íe os dous, e fundando na perturbação 
a própria defenfa , tornarão de forte a indignar os ás. lua 
parcialidade , que publicavaõ , que fe o Conde fe naÕ ía- 
hifíe de Évora , elles o lançariaó. A eílas vozes junta- 
rão demonítraçoens de execução , naõ lem íuípeita de 
fer a Nobreza a alma deíles impuHos. Reconhecendo o 
Conde de Linhares todas as diligencias deibaratadas, fe 
refolveo a prevenir maior damno , e atalhar novas deíor- 
Tqih. I. P ^ deasp 



nhures. 



tt TOKTVGAL RESTAURADO; 

dens. Deípedio D. Francifco Manoel á Corte, dando con- 
ta do máo fucceílo da fua commiíTaõ , e moderofamente 
dascaufas porque a deixava , e fe partia para Lisboa, co- 
mo logo fez muito á fatisfaçííõ dos moradores de Évora, 
e de todo teve nelie fim a intervenção deíle negocio , lo- 
grando Diogo Soares como defejava o eíFeito da íuamali- 
ciofa induftria. E ainda que o Conde de Linhares voltou 
a Madrid antes da Acclaraaçaõ , nunca pôde livrar fe das 
calumnias de Diogo Soares, que o reduzirão a padecer 
hum largo deíterro em Torrezilhas , lugar apartado da 
Corte. D. Francifco Manoel chegou a Madrid , e deu no- 
ticia ao Conde Duque de todo o fucceíTo da lua jornadas 
ouvio eUe a informaçió com mais apparente » que inte- 
rior pezar , e deo fem dilação ordem , para que o caíligo 
foíTe remédio do tumulto, e o tumulto occariaõ da ulti* 
ma ruina da Portugal. 
Farte a Évora Avizou'fe á Duqueza de Mautua , que mandaíTe 

o Corregedor da ^ g^org O Cotregedor da Corte Diogo Fernandes Salema 
^ands^sTaUmà. ^^"^ íodos OS Mlniftros de Juftiça , que pareceííem necef- 
'fario5. Executoufe eíla ordem lem embaraço, porque o 
calor das armas vizinhas tirava o receio aos Miniítros de 
Juíliç 1. Logo que chegarão a Évora experimentarão fem 
coDtradicçíiõ eíta conlíança \ porque os populares , que 
naõ íabem reconhecer os perigos com o difcurfo » fiando 
íempre do tempo as prevenções, que devem fer parto do 
entendimento dos homens , fem maisconfelho nem atten-. 
Ç30 , que o receio , fe dividirão. Cezinando Rodrigues, e 
Joaô Barradas , e outros fe auíentaraõ: os mais fiadoí em 
ferem pouco conheciios, ficarão por mal de alguns del- 
caíi' ao Ce ^^^» porque O Gorfegf dor da Corte OS prcudeo , e íenten- 
de EvoVal ^^ ceando a todos , fahiraô a enforcar em eftatua Cezinando, 
e Barradas com pregôss, que os declarava© por traidores, 
prorr!ettendo'fe prémios a quem vivos, ou mortos os en» 
tregafle nas snâos da iuíliça ; os mais prezos huns foraó 
enforcados , outros lançados a galés, e todo5 com efte ex- 
emplo ficáraõ focegados , e obedientes. Ao meímo tem- 
po , qu^ em Évora , fe executou na mefma fórroa o caftí- 
go dos Povos do Algarve; porém com muito maior rigor^ 
porque tanto que chegou áqusUe Reino Pddro Viei- 
ra 



P^RTE í. LIVRO II. Sj 

f a da Silva Dcfembargador dos Aggravos da Cafa da Sup«. 
plicaçaõ , ajultou o JJuque de Meaina bidonia com Hen- 
rique Corrêa da Silva (governador oaqueile Reino , que 
para q ue o caltigo dos culpados íe exccutafie íem peiigo 
dos Miniftrosce jultiça, paílaile a alojar alguma Inían- 
taria aos lugares maiuie^ dcUe ; allim fe poz por obra 
conduzindo leis mil infantes D Francílco de Anaiae Ira- 
çaval , quelem formar proceílos foraõ os mais rigoroíos 
Miniítros do caítigo aííim nos culpados como , nos inno- 
centes. Pedro Vieira executou íentençasde morte em ai- y/J^^-{'^ '^ 
guns , outros deUterrou i e iocegado squelle Reino , fe '' ^ 
retirou a Infantaria contra o pârtxer do Marquez de Vai- 
Paraifo , que deíejava dilatar a guarnição por roais tem- 
po , por vários relpeitos que apontavd , que depois pu« 
dera ler muito conveniente ao governo de Caítella. Com 
o pretexto de dar melhor forma aos accidentaes referidos, 
havia o Conde Duque inlhtuido huma Junta de vários 
Miniílros Caítelhanos em Badajoz , outra em AyaMon- 
te : e a eítas ampliava de íorte os poderes , que ficavaõ í«7?''^«?V^õ ãe 
fem exercício os Triburaes de Portu^^al i querendo que o "'''^J ^""^"\ 
coftume facilitaíle aos Portuguezes a quebra dos íeos pri- ^y^ Mome^ 
vilegios , que com eíla deitreza fe hiaõ diminuindo , pa- 
ra que pouco a pouco viefle ElRey a lograr o íim deíeja- 
do, que era fazer Portugal de Reino Província, e aos 
Portuguezes de vaííallos eícravos. A elfas juntas íe man- 
dou ordem para aíientarem os novos tributos que haviaõ 
de fer caítigo dos Povos , e fatisfaçaõ da cubica dos Mi- 
niíUos Caítelhanos. Lançadas eítas primeiras linhas » fe 
começarão a elgotar os cabedaes de Portugal , para que , 
exhaultas as veas, e coníequentemente enfraquecido o 
corpo da Republica, pudefle cahir com menos trabalho, 
fendo o dinheiro o langue , que íuílenta o governo poli* 
tico por ley inítituida pela deíordenada ambição dos ho- 
mens. Foy eíte o primeiro quartel com que íe atacou Por- 
tugal , e delle para outros dous íahiraõ duas linhas de com- 
nunicaçaô, determinando o Conde Duque Governador 
deíla empreza, que depois de aflentados os quartéis > eo 
cordão cerrado » íe deííe o ultimo aííalto a eííe infelice 
Reino , naõ defendido de outras forças mais que as da in- 

F 1 fiCcencia 



S4 PORTUGAL %ESTAURAm ; 

nccencia com que padecia. Era o primeiro dos dous cha» 
iDar ElRey a Madrid as peíloas maiores de Portugal af. 
ílm em íangue ♦ como em letras, ecclefiaíticas , e lecuJa- 
res , para que, faltando o eípiriro para os impulfos, íe pU'. 
deíTe íepultar cadáver o corpo da Republica» O legundo , 
paíTaremTe ordens com o pretexto da guerra de França, 
para íe fazerem etn todas as Províncias deite Reino grof» 
las levas de Cavai laria , e Infantaria : e executadas eítas 
difpoílçoens , julgava o Conde Duque por indubitável a 
vidoriã , tirando a Portugal (que contava como inimigo) 
dinheiro, cabos, e gente. Lograda a primeira idéa dos 
tributos com as revoluçoens de Évora , paílou á fegunda : 
examinou exadamente quais eraõ as peíToas de maior cre- 
dito em Portugal , e que houveíTem , fendo chamadas ; de 
Jr a Madrid íem receio de algum caftigo. Feita eíla dili* 
chama FiRey geocta , 6 íuppondo o Conde Duque que dilTimulava muir 
A Madrid os to a íua tençaõ com eíla arte, como fe os outros excef- 
hnf/*^'^^''' fos a ncõ fizeraõ manifeíla, remetteo varias cartas d'EI- 
Rey á Duqueza de Mantua , ordenando'lhe que as rcpar: 
tiíTe logo. Sem dilaçsõ fe entregarão a D. Rodrigo da Cu- 
nha Arcebifpo de Liíboa, a D. Sebaíliaõ de Matos de 
Noronha Arcebiípo Primaz , a D. Joa© Coutinho Arcer 
biípo de^Evora , a D. Gafpar do Rego da Foníeca Bifpo 
do Porto, a D. Dicgo da Silva Conde de Portalegre, Dioi 
go Lopes ds Souza Conde de Miranda, D. Martinho Maf« 
carenhas Conde de Santa Cruz, D. Franciíco de Caílel- 
branco Conde do Sabugal , D. Francifco Luiz de Alencaf- 
tre Comendador mór de Aviz, Francifco Leitão Defem- 
bargador dos Aggravos » Joaõ Pinheiro Defembargador do 
Paço , e aos Padres SebalMaõ do Couto, Álvaro Pires Pa- 
checo , e Gafpar Corrêa da Companhia de Jefus ; porém 
dos três fó o ultimo chegou a Madrid. Continhsõ asc^T- 
tas efcritas a eftes Prelados , Miniftros , e Religiofos que 
Sua Msgeílade defejofo de dar forma a algumas matcria^i 
que na adminiftraçaõ do Reino neceíHtavaõ de emerda 
em todos os Tribunaes, queria formar hum Coníelho jun- 
to de fua Real peííoa, dos maiores Miniftros , e mais Prá- 
ticos de Portugal , para entender delles, como de talentos 
que tanto sílimava , quaes íeiiago^ meios mais propor- 

cionadoa 



P^RTE 7. LIVKO 11. Sy 

cíonados ao melhoramento, quefe pretendia , para cujo 
efFeito tanto que recebeílem aquella carta , fe partilTem 
paia a Corte de iMadrid , onde os elperava com todo o af- 
fedo de Príncipe amigo. 

Recebidas as cartas , fe puzeraõ a caminho to. 
dos os nomeados na forma , que fe lhes ordenava i corren- 
do o anno de 16^8, e com eíta novidade taõ extraordiná- 
ria creceo aos Fortuguezes o receio ^ efperando cada hum 
a hora em que hc^via de fer chamado , e temendo todos 
juítamente o infelice remate defta máquina. Os que che- 
garão a Madrid naõ tiveraô muitos dias mais ordem , que 
íeguir a Corte , nem pudéraó defcobrir qual foUe o nego- 
cio para que eraõ convocadoi. Foy a câufa defta artificio" 
ia dilação aíTim o grande aperto, que por varias partes 
tolerava a Monarquia, corno querer o Conde Duque ti- 
rar de Portugal rrais numero de pefloas particulares i o 
que dtíterminava fazer tanto que tiveííem efFeito as levas, 
queliaviaó de íahir de todoo Reino : e ainda havia outra « j. «, 
caula mais principal, que era como íe poderia apartar ^^^^^ ^^^^^^^ 
deli e ao Duque de Bragança , por dar fua Real Peíloa o D«3«#. 
maior exercício ao feu cuidado ; porque confiderava , que ^ 

afiiíH.ndo em Portugal , parecia grande o perigo de qual- 
quer execução violenta , fe o Duque fe declaraííe defen* 
lor da liberdade do Reino ; e como os Fortuguezes fe fa- 
ziaó refpcitar mais pelo valor, que pela induítria , íeguia 
como mais fácil o caminho de diminuillos, para que quan- 
do chegaífe o tempo de exafperallos , foíTe infru(íluoía 
qualquer refoluçaõ a que fearrojaflem. Neíle fentido ef- 
perandofe tempo mais opportuno, íe foraõ diífimulada» 
mente feguindo as dilpofições propoílas. Deo-fe ordem a Manàaofefai 
D. AíFonío de Lencaftre Marquez de Porto Seguro, pa- zerUvaspara 
ra que fizeíTe em Lisboa huma leva de Gavaílaria , fem '' ê^^^''^** de 
lhe limitar o numero , e a todas as Comarcas do Reino , ^'^'^y í^-f^r» 
e ás Ilhas dos Açores fe mandarão vários Fidalgos levan» *'*^^ ' 
tar gente em grande quantidade, tomando*fe por pretex- 
to acodir á guerra de França. Mandou*fe também , que oí 
navios de guerra , que fe achaflem nos portos do Reino, 
foíTem entregues à ordem do Almirante D. Thomaz de 
Çâuburum. Levou os galeões Santa Therefa , e S. Bal« 
Towé I. Fi thazsrj 



gvezes. 



U PORTUGAL RESTAURADO , 

fhazar , os mais íe ficarão prevenindo ; e ao Duque de 
Bragança chegou ordem , que tiraíle dos feos Lugares xrsil 
Vaflallos armados , e que os entregafle a D. António Tel* 
lo. Chegando avizo ao Conde Duque de que fe davaõ em 
Portugal todas as ordens á execução , fem haver quem ti- 
veíTe animo para contradizellas , e pareccndclhe que ja a 
fua induílria havia triunfado dos alentados efpiritos dos 
Portuguezes ordenou , que a huraa mefma hora foílem 
a cafa de variou Miniítros Caftelhanos todos os Portugue- 
zes , que haviaófido chamados á Corte , para que fem fe 
communicarem acodiííe cada hum á cafa do iMiniílro apon- 
tado , pondo-fe graves penas ao que revelaíTe o legredo. 
Propo.^a em Mas logo í e entcndco o intento de tantos artifícios , e den- 
MadridaosMi- Xío de pouco tSíTipo fe ni3nifeftou , que fora a propofta 
"1Í7! ^'"^^^' ^^'"'^^ ^ cada hum daquell^s Miniítros Portuguezes a fen- 
tenç3 por onde o Rtrino de Portug.-^l , fem fer ouvido , era 
condenado a perder a regalia , dando fe ElRey por livre 
do juramento que íizera nas Cortes , pelo haver defobri- 
gado a perfídia Portugueza , como elles chama vaô , apon- 
tando cafos fuppoílos , e dizendo , que os feos Theologos, 
e juriílas o livravaó de todo o efcrupulo ; porém que ainr 
da com eíie fundamento naô queria ElRey fazer acçaõ » 
que naõ foíTs jutlifioada , e que aíTim pedia a cad^ hum 
daqoelles Miniíhos feu parecer , para a forma em que fe 
havia de introduzir o novo Governo de Portugal > e como 
fe poderiaõ fem embaraço promulgar as novas leys, com 
ss quaes determinava fer obedecido dos Portuguezes , ad- 
vertindo íe , que fe nso pedia parecer , mais que porá a 
forma de executar. Efía foy a propoíta , e eíta caufa fó 
bailara para juítificar as acçoens dos Portuguezes , ainda 
que nao fora o fín principal de íe eximirem do governo 
de Caftella , ]ivrarem'íe do efcrupulo de ferem vaíTallos 
de pofíuidor intruío, tendo em o Duque de Bragança Se- 
nhor verdadeiro , e natural; porque havendo Filippe íí 
defob^ígí^do os Portuguezes de toda a fujeiçao á fua Co- 
roa , fe eille , ou feos deícendentes quebrantaíleníi os foros 
deftí Ríino, ainda dando'íe caio, que Filippe IV' foííe 
] gitíTfO poffuidor de Portugal , fem efcrupulo algum por 
eíli rsíolUjaõ pudérao os Portuguezes nagar-ihea obc? 

diencia » 



P^RIE I. LIVRO 11. 87 

diencia , pois eraõ culpas fuppoílas todas , as que o Con- 
de Duque Jhes arguia , a tiai de lhes uíurpar a Uberdade ; 
porque as alterações de Évora origináraQ:íe de tributos 
ânjuílos , e além de naó entrarem nellas maíi , que as pef- 
íoas de baixa condição , deitas foraõ caítigadas as de ma- 
iores delidos , que le acháraõ , com mortes , galés , e de- 
gredos , e depois com graviílímos tributos •, e nso mere- 
cia todo o Rciino a pena da culpa i que líaó tivera , e que 
os delinquentes pagáraõ. E quando eíla refoluçaó naõ fo- 
ra injulta, era intempeftiva , pois moílrar a terida,íem 
executar o golpe, he dar lugar ao reparo. Porque ainda 
que o Conde Duque íe fiava na^rmsda , de que era Ccbo 
D. António de Oquendo, que tinha ordem para invernar 
em Lisboa , e ao calor deíle poder íe havia de introduzir 
em Portugal o novo governo , ss prevenções humanas 
faõ taó incertas , que primeiro foy eíla pcderofa Arma- 
da defpojo de Hollanda no Canal de Inglaterra , que caíli- 
go de Portugal no rio de Lisboa \ e o íegredo t&ó recom* 
mendado foy maniteílo , obrigando aos Portugueze.« j que 
acordaííem do lethargo em que viviaó , tendo , para fe 
livrar do perigo que os ameaçava, o favor do mefmo 
tempo de que o Conde Duque queria difpôr, como fe 0^ 
futuros naõ foraô taõ contingentes para o íeu poder , co- 
mo para qualquer dos que íahem a paílear á inconítancia 
do theatro do Mundo. 

Tomada pelo Conde Duque a reíoluçaõ referida, e 
naõ lhe refpondendo os Portuguezes que confultou , mais 
que com excufas, fundadas no pouco poder que tinhaõ 
para tratar particularmente taõ importante matéria , fez 
correr íem diílimulaçaõ as ordens mais injuílas contra Por- 
tugal, naõ havendo a hum meímo tempo ley , que íe naõ 
rompeííe, privilegio, que fenaõ quebralíe, extorçaõ, que 
fe naõ fizeíTe \ chegando a tanto extremo a violência , qi\^ 
fe naó perdoou á immunidade Eccleíiaílica, porque cife* 
recendo-fe algumas duvidas entre o Colleitor Aiexandre fy^refjos ccnu 
Caftracani , e os Miniftros da Coroa , ordenarão os Cafte- o coiuiior,' 
lhanos aos de jufciça , que lhe cercaííem a caía , e lhe pro- 
hibiííem o trato , e o fuitento. Vendo-fe o Colleitor nefta 
extremidade, fe lançou com grande perigo por hurra ja- 
' ' F 4 relia ) 



8? PORTUGAL 1{EST JURADO , 

nella , e fe recolheo no Convento de S. Franciíco , parte 
de que o forao tirar » e o remetteraõ prezo a Madrid t dei- 
xando elle a Portugal com a afflivçaô de hum Interdido t 
de que fe feguiraõ graviífimcs damnos. Igualmente com 
a fucceffaõ doi dias le multiplicavaõ as exorbitâncias ; po! 
rém ao paíTo do damno caminhava no< Portuguezes o de? 
fejo do remédio , e do exceíTo dos males recebiaô o benefi- 
cio de lhes apartar dos ânimos o receio \ porque em quanr 
to foraõ toJeraveis, nem do próprio coração fiavaõ o dela- 
fogo, e tanto que pâflaraõ a exorbitantes, conhecendo 
que o caftigo futuro nâõ podia íer maior , que o mal pre- 
f ente , logo o coração fe«explicou pela boca » e como as 
Vozes » e as queixas íe communicaraõ , difcurfado o tem- 
po , conhecido o rifco , e averiguado o opprobrio , pafla» 
lao os zelofos da Pátria i e amantes da honra , de laftima» 
dos a vigorofos j e achando o valor de cada hum dos Por- 
tuguezes , forqofos eftimulos no? aggravos di Naçaõ tan- 
tas vezes oífendida , que ouvia referir a qualquer dos com 
que tratava , recorrendo juntamente, e poderando as va- 
lerofas acçoens de feosantcpaíTados, oíFerecia voluntaria- 
mente a vida pela liberdiide da Pátria •, porém todos eíles 
diícuríos » ainda que valerofos , e relblutos , naõ podiaó 
pafiar do íentimento â execução ; porque a lima áã poli- 
tica do Conde Duque havia adelgaçado de fóite o robuflo 
sço das forças de Portugal » que fe naõ recorria a remédio 
algum, que, bem ponderado, naô fe achaíTe ou impoílivel • 
ou taô difficultofo , que era quafi impraticável. 
Cenfiãeraccins Entre todos OS diícurfos nenhum fe achava de 

dos Portuguezes mús feguras efperanças, que aquellas que íe fundavao 
maisítiojos. no Duque de Bragança, vendo todos concorrer nelle iu« 
ftiça para fe coroar, valor para o emprender, eaffeiçaõ 
pos Povos para lhe fuítentsr a Coroa , huma das mais pre- 
ciías circumítancias de taõ árduas emprezas ; mas cbfer- 
vava-fe por outra parte, que o Duque naõ defcobria ou* 
ira inclinação mais , que o exercicio da caça , que nas alte- 
rsçõss de Évora naõ fó deíprezara as cffertas , que repe- 
tidamente Jhe fizeraõ os Povos , perfuadindo-o rruitos 
da Nobreza , que as aceitaíTe , mas que ufara de todas as 
diligencias, e negociações para juílificar coai ElRey a 

fua 



P^RTE 7. Ln^RO 11. 89 

íua obediência , e que aíHm n£Õ parecia feguro ofFerecet- 
jheo que n?ô havia de cctitar, Quéncío el^a& duvidas enr 
taraçavaó o difcurfo , itcorrisõ huns a chamar ku iirricO 
D. Uuaite cciripoftodetxcellentes virtudes, em quem 
leconhfccicô elpiritos crilitares que abraçaõ facilmente 
empreíasdifiicuJtotas , ecom a meíma juíliça á ftcceííao 
do Reino, quando o Duque a dimitiíle. Outros queriao 
formar hunja Republica , trazendo por exemplo Vene- 
za , Génova , e Hullanda, onde, lendo as utilidades com- 
muas, e os riícos iguaes, fe conferva a uni^ó incontraf- 
tavtl. Porém huma , e outra idea padecia forçofas duvidas : 
porque a primeira moftrava o maior obftaculo no Duque 
de Bragança, que naõ havia de querer que viíle o mun- 
do que cedia a íeu irmaõ, ou que naõ tinha animo para 
empiender , ainda que íe defíe cafo que defprezafle em- 
preza taõ generoía. Na íegunda fe confiderava a diíTeren- 
^a das naçoens , e o defeito que os Portuguezes padecem 
na diíliculdade da uniaô , fentindo ordinariamente, mais 
que a dilgraça própria , a fortuna alheia deíconcerto 
que totalmente deílróe todos os fins de huma Republica, 
Nefta contenda eílavaõ os difcurfos dos Portugnezes fem 
poder tomar forma , crefcendo com 0$ apertos do Conde 
Duque por inftsntes a matéria , quando chegou ordem ao 
Duque de Bragança , entrando o anno àt 1639 parí\ que Nrwea'feoi6u! 
com o titulo de Governador das Armas de todo c Reino q»f for Getural 
paíTaíTe a Almada a prevenir a defenfa delle , por le ha- ^""'^^^""^^r 
ver entendido que gm França fe apparelhava huma groíTa 
Armada contra Portugal. O Duque diícurfando que íe lhe 
íeguiriaõ grandes inconvenientes defta occupaçaõ . tratou 
de divertiila , nao perdoando por confeguir efte íim a dili- 
gencia alguma : porém naõ admittirsõ em Caítella as rrui- 
tas excuías que reprefentou, e foylhe precifo sceitar o 
pofto, e paííar a Almada. Juigsr?ô rruitos por defscerto 
do Conde Duque efta eleição, dÍ7endo c^Me QX\\xçgZíX 2$ PajjaaAlma- 
armas ao que avaliava aquella Coroa pelo maior inimigo, ^*' 
era querer legurar^lhe a vidoria , antes de ter principio a 
contenda; e que o Duque com os eípiritos vigorofos óss ^J-^'^"^!^^/"^''* 
vozes que o acclamáraõ Rey nas alíerrçoens de Évora , ^ ^ ^^'^'^*- 
diíporia as armas do Rçino como lhe msndavaõ) para ufat 

delias 



po POniUGAL tESTAUtABO, 

delias como lhe pareceíTe. Outros que prefumiaô paneí» 
trar melhor interior das futilezas do Conde Duque , di- 
ziaô que eíta confiança que fazia do Duque , era negaça 
para o trazer mais depreíia enganado à rede , armada p^ia 
íua induítria , e fó maneada pelo íeu braço ; que o Duque 
íervindo a ElRey, raoítrava que era vairallo aos Portu- 
guazss , que o julgavaó por Soberano : lendo diminuíra 
reputação de hum Principe o primeiro paíloda lua ruina: 
que pela obrigação de leu poíio havia de vifitar as torres % 
e os navios da Armada, eque era fácil prendello entran« 
doem qualquer torre , oupaíTallo, em o prim.eiro navio 
que vifitaííe, a Cadiz , onde perderia , quando naó foíle 
a vida , a Uberdade. Averiguou'fe depois naõ hiver du- 
vida em fer eíta a tenção do (.onde Duque ^ e a cawía de 
fazer Governador das Armas ao Duque de Bragança : po- 
rém o fucceílo moílrou , que o primeiro diícurfo que o 
condenava , acertara melhor os fins, do que elle diípu- 
zera os princípios ; porque o Duque tanto que chegou a 
Almada, foy vifitado de toda a Nobreza, e muitos íe 
reíolvèraõ a defcobriflhe o animo , com que Te dedicavaõ 
a feu ferviço i outros a tentallo querendo efpecular o feu 
intento ; porém o Duque naÕ conhecendo os de que de 
via fiar*fe , fondava os coraçoens de todos íem íe declarar 
com algum dellss : e ainda queeila deílreza foy naquel- 
]e tempo contada como irreíoluçaõ, depois foy celebra- 
da como grande prudência \ porque como os homens ava- 
liaõ ordinariamente fó pelo que entendem , e naõ como 
aquellescom que trataõ , fe acautelaõ, eíles Fidalgos que 
entreo"iva6 ao arbítrio do Duque os ânimos fem malicia , 
condêaavaõ*lhe naõ os aceitar fem reparo, como feas ra- 
zoens com que fe lhe oíTereciaõ naõ foíTem asmeímas que 
muitas vezes fervem de rebuço ao falfo trato. PaíTou o 
Duque de Almada a, Lisboa a vifitar a Duqueza de Man* 
vifítí^TiuqHe' fua j defembarcou nó Paço , dilatou-fe pouco na vifita , e 
í.4iê M4«í«^. j^^^gj^^^ ordenado a Duqueza que com deftreza fe lhe 
mudaíle a Cadeira deeípaídas, quando íe aílentava , do 
lugu que lha competia , Thomé de S jufa com refoluçiõ j 
e valor arrojou a Cadeira para a parte em que era razaõ 
0U2 euiv:lle. Voltou o Duque para Almada na mefma 

'' tal' 



FARTE I. LIFRO 11. 91 

tarde. Concorreo toda 9 Corte , hun* a níTiílir-lhe , outros 
a vello , e todos a feílejallo com taõ cliras derrionílraçoês 
a todas as luzes « que íizercõ mais cor.dênada a refoluçsô 
1:0 Conde Duque, que todos os efíciçosdos aos interelles 
de CaíteHa haviaô anticipadarr>ente reprovado. Na entra- 
da do Inverno fe recolheo o Duque a Vil]a*Víçofa livre 
dos Iêços dos Caftelharos, poique advertido de feguras 
inteligências íe defvicu dos perigos que o amesçavaõ. 
Naõ pv-fláraõ muitos dias depois de haver chegado , qus 
}he naõ vieíle ordem de Madrid, para fazer huma leva 
de foldados de leos Lugares. Replicou levemente pelo 
pouco effeito que havia tido a primeira ordem , lucce* 
dendo o mefmo em todas as levas que fe fizeraõ no Rei- 
no , ainda que algumas chegarão a Catalunha. Com eíla 
attençaõ naõ lhe admittindo hlRey a replica , fe difpoz 
o Duque a obedecer por n2Ó dar ao Ccnde Duque a rcca- 
fiaó quebuícava de o corcénar > porem mardou occulta- 
mcnte que a leva íe íizeíTe com tarta pauza , que naõ fer- 
viíle a diligencia mais que de o v?ô srguírem. 

Em Lisboa os que fundavcõ na refoluç-íõ do Du- 
que a liberdade da Pátria , perdèraÕ rr uito o animo com 
a cautela de que uícu em Almada , divertindo todas as 
praticas que íe encaminhavaõ a coroai lo- Eíle fentimento 
levou outra vez os difcurfos a Alemsnha , efperando do 
valor de D. Duorte a aííiílercia ro que emprendiaõ : po- 
rém como perigo eftava mais vizinho que ss eíperan- 
ças, tornarão a fazer novas inílancias ao Duque de Bra- 
gança. Hum dos que mais vivamente as apertava era Fran- 
ciíco de Mello Jvloi>reiro mór : elcevia a D. Frsncifco 
de Mello Marquez de Ferreira, e a D; Aftbnío de Por- BUi.etiàas da 
tugal Conde do Vimiofo, pedindo a hum , e outro que re. ÀUnuire »>w. 
prefentaílem ao Duque as moleílias que padeciaõ es For- 
tuguezs 3 que de juíliça naceraõ feos vaííallos ; que 
tomaíle a Coroa que voluntariamente lhe offereciaõ , pois 
era a mefma que os Cafíelh^nos icubársõ a feos Avósj 
que a efta ofFenfa íe naô devia antepor perigo algum , e 
que eííe fe devia ter por muito remeto ra ccníideí?.<^aõ de 
íe acharem osCaftelhancs com o prder dividido por mui» 
tas partes , e que neíte ler.tido nunca c tempo podia fer 

para 



9* POR.TUGAL RESTAURADO; 

para a reíoluçaô mais opportuno. ChegavaÕ eílas razoenà 
aoDuqus, e outras da (nelma lubítancia também enca* 
Primeira ^m- minliad3$ 30 Marquezde Ferreira, e ao Conde de Vimio- 
tadíiKpbrcz.(i, fo poi Jofge de Mello irmaô do Monteiro mór , cafa em 
que ie juntavaô Dom Miguel de Almeida , Pedro de Men-. 
doca Furtado, e Dom Aiitaõ de Almada a conferirem o 
caminho que íeguiriaõ para fe apartarem dos perigos que 
os ameaça vaõ. Recebia o Duque eítes avizos, ecomo re- 
conhecia o muito que havia que vencer para lograr em- 
preza tao árdua , dilatava declarar fe até que asdilpoíir 
çoens moílraílem mais feguranças que as do (eniimento j 
e maiores fundamentos que os males de que íe queixavaõ 
os que o perluadíaô. Desfez efta confufaô , e desbaratou 
toda a perplexidade do Duque o defacordo ,e pouca atteur 
çaõ do Conde Duque , que . tirando o rebuçj ao peito , 
defcobriode todo os intentos que recatava , t^ó mal con» 
fiderados que vieraõ a fer occ^ííaõ do mefmo dâao que 
'i^arta d'ElRey pr^tendia atalhar. Chegou ao Duque de Bragânç i íegunda 
00 Duque Pari orà^m para paííar a Almada i replicou, e def vaneceo-fe; 
paifaracaía' Porém dentro de poucos dias rccebeo huma carta dClRey, 
lunha» g^ que depois de largas perluaíoens, e promeííds , lhe or. 

denava que íe prevcnííle para paííar a Catalunha com eile, 
aonde determinava marchar brevemente a íocegar as re» 
voluções daquelle Eliado: outras da mefma fubílancia vie? 
raõ a todos os Fidalgos do Reino. 

Haviaó-fe exafperado os Catalães da contumaz 
cia do Conde Duque : po-^que , tendo elles alii ilido com 
rMetivosdasal. gente , e dinheiro na guerra de França ao foccorro de Sal- 
terafoes de Ca- íes , 3 fatisfaç lô , que ^ilcançárao delta íineza , toy nao íó 
talmhai falta de premio , fenaõ disfa veres , e defprezos , e aloja- 
rem os Caftelhanos todo o exercito nos lugajes mais opu- 
lentos daquelle Eítado. Fizeraó os Catalães repetidas 
queixas ao Conde Duque , de que relultou vir ordem d'El« 
Rey para que o exercito fe aquartelaíTe nos lugares , que 
os Cabos elegeíTem.Entendia^fe que a caufa deite rigor era 
a oppofiçaô , que alguns Catalães orgulhoíos por nature- 
za faziaó á fuberba do Conde Duque', negando.lhe os 
obrequios que lhe rendiaõ quafi todos es ValTallos da Co- 
loa de Heípanha. O que fe mottrou maij claramente em 

huma 



T^RTE I. Limo 11. 95 

huma contenda que o Conde Duque teve com o Almiran» 
te de Caítella em Barcelona, em que os Catalães fe de- 
clararão a favor do Almirante. Exaíperados os Catalães 
de taõ repetidos rigores, icmperaõ em deíoidens , e va- 
lendo*fe do antigo eílylo de en^trarem em Barcelona á fef- 
ta do Corpo de Deos íegadores , que baixavaõ das mon- 
tanhas, coílumados a viver de lattocinios , einfultos, e 
Liando deite bárbaro foccorro , unidos os da Cidade aos fe- 
gadores , matáraõ ao Vice-Rey D. Dalmau de Queralt 
Conde de Santa Coloma leu natural , e tntes grandemen- 
te eílimado de toda a lua nfçaô. Seguirao-fe a eíla cutras 
muitas mortes exoibitantes faciilegios , e roubo?. Os 
foldados cllendidos deftcs infultos procurarão a íatisfaçaõ 
pelo Principado; íaqueáraõ a Cidadede Perpinhaõ , unin- 
ÍJo*fe a guarniqaõ do Caftello á Infantaria que bufcava 
squella Cidade para alojamento , e a quem os da Cidade 
haviaõ fechado as portas. Padecerão outros Lugares efte 
meímo dano, e fez Carrbiiz a prin^cira oppofiçaõ ao 
exercito , de que fe íeguio padecer o primeiro caftigo poí 
todos os títulos exorbitante , e eícardalofo : porque aléoi 
de tirarem as tropas a vida a muitos moradores , forró en- 
forcados o Baraõ de Roca'Port Jacinto Vilofo, e Carlos 
Bertola nobres Catalães , que governavsõ squella Praça. 
A eítas extorções íe feguiraõ tantos exceílos , que che- 
gando os Catalães á ultima delerperaçaõ, fe reíolveraô 
a fortilicar Barcelona, e a bufcar o mais feguro renedio 
ra protecção d'ElRey de França. Para atalhar eíle dano 
perfuadio o Conde Duque a ElRey Cítholico que mar- 
chaflecomhum grande exercito ao cafíigo dos Catalães, 
naõ íó com o íim de fazer mais certa , e maior a virgarça 
dos delidos íuccedidos, de que elle havia fido caufa, fe- 
naõ também para que ella jornada ferviíle de pretexto ao 
intento de chamar a Madrid ao Duque de Bragarça , e to- 
da a Nobreza de Portugal , para que fem cppofiçaõ fe 
reduziííe a ficar Província. Tanto que chegou to Duque 
de Bragança a ordem para acompanhar ElRey a Catalu- 
nha , íe reíolveo generoíamente a íbríçar asífiertas que Refoive-fg orai 
repetidamente fe lhe haviaõ feito de aceitar a Coroa que ^«t ã eminfa 
de juíliça lhe pertencia, e a livrar a Pátria dos gnrèa^^^Msrdaàe^ 

Hiaks 



94 PORTUGAL mST JURADO ^ 

males , que fupportava , fendo muitas vezes mais podero* 
la haoiâ grande íem-razaõ , que a razaô mais torçofa. 
Conliderava qusi le obedecia á ordeai , duva fentw^nçj con* 
tra a tua vida , ou ao menos contra a lua liberdade , por- 
que todos os antecedentes infinuavaõ fer efte o fim do 
Conde Duque j e quando fe defle cafo , que hum , e outro 
perigo í«i divertiíle, naõ podia deixar de pôr em contin- 
gência a íua authoridade, e a grandeza da Cala de Bragan- 
ça , tantos feculos confervada Icm diininuiçaô ; porque a 
imprudência dos Caílelhanos foy neíta matéria de quali- 
dade , que fazendo taõ exadas diligencias porque o Du-? 
que fe apartaffe de Portugal antes de coníeguir a lua 
obediência , ja tinhaõ publicado que os Grandes lhe ha* 
viaò de preceder em todos os Actos públicos j e quando 
a verdadeira politica era obrigallo para o períuadir, lhe 
negáraõ o Arcebifpado de livora para íeu irmaõ D. Ale- 
xandre , dando por razaõ , que nao era Doutor em facul- 
dade alguma , quando no melrao tempo fe havia concedi» 
do o Bifpado de Vizeu a Leopoldo Archiduque de Tirol 
para hum filho feu de três annos , íendo contra a Ley do 
Reino darem-íe a extrangeiros Beneficios Ecclefiaílicos- 
Obrigado de taò certos ditcurfos , e queixofo de taó ju- 
ítos aggravos, e íobre todas as razoens humanas perlua- 
dido de impulfo fuperior , determinou o Serenilfimo Du« 
que de Bragança naó dilatar por mais tempo as eiperançâs 
dos Portuguezes , fendo valerofo Author da liberdade, 
que deíejavao ; porém cfperou que íe lhe tornaílem a 
fazer novas propjílas para aiuílar com maiores funda- 
mentos matéria , onde as difficuldades pareciaõ quafi In* 
vencivsis. Naõ lhe tardou muitos dias efta occafiaó , por; 
que, irritada de novo a Nobreza com as ordens , que che- 
garão a todos os Fidalgos , de que fe compunha , para 
acompanharem ElRey no caftigo dos Catalães , lembrados 
naõ fó do intento delta jornada ( conhecidamente difpofto 
para ultima rutna das íuas caías ) fenaô da differença das 
emprezas , para que feus Avós foraõ chamados dos anti-, 
gos Rays de Portugal, íe difpuzsraõ a tomar a ultima re- 
íoluqa5 , e a eleg-sr o caminho, que achaííem menos dif- 
fiiultoío paca coalegalc a fua , e a liberdade da Pátria. 

' A do- 



FJRTE 1. LIVRO II. 55 

A doze de Outubro do sfiro de 1640 , ( t2Õ de- 
cantado dos vaticínios, que nem a e^peritr.cií; deíe che- AnnO 
gar o fim delle íem apparencia de novidade útil , diminu- . 
ília as eíperanças dos que aguardavaõ refte tempo ali* 1^4^» 
herdade da Patiia ) fe juntarão em cala de D. Ante õ de ^^,^,,,^^^^^^^ 
Almada D« Miguel de Almeida, o Monteiro miór, 'jot- áo^Noíres. 
ge de Melio, Pedro de Mendoça , e António de Salda- 
nha , JoaÓ Pinto Ribeiro Agente da Gafa de Bragaiça , ao 
qual chamou D. Miguel de Almeida, sfiim por ler ava- 
liado por homem de grande talento , como por fer Agen- 
te dos negócios do Duque de Bragança, e muito obriga- 
do a procurar os leos irtercíles. Con eçart-Õ todos a dif- 
correr fobre o remédio de tantos males como o Reino par 
decia , e a queixarem-fe do Duque de Bragança, que era 
a cauía de tanta ruina , níõquerendo aceitar a Coica, que 
lhe òífereciaõ, e na Coroa as vidas , e as liberdades, que 
lhe entregavaõ. Arguiraõ-o deremiíTo, e irrefoluto , fa- 
zendo a paixão , ou o impu Ifo íobre-natural , que fe efque- 
ceíTem de que a empreza tinha mais re'evantes depen- 
dências, que occnfentimento do Di que.Defendeo'o Joro 
Pinto, fazendo officio de bom criado; referio as mvitas 
razoes, que havia , para fe naõ refolver fem grande con- 
fideraçaó em n-ateria taõ importante . moftrsndo os in- 
convenientes , que primeiro fe deviío facilitar : e corclu- 
hio , que fe julg? v^õ fer , acclsmar ao Duque o único re- 
médio de tantoí males , psra que aguardavaõ o íeu con» 
lentimento ? Q» e f e refolveílem a deciarallo Rey de Por- 
tugal, porque o Duque, vendoíe metido no empenho an- 
tes havia de querer kr Rey em contingência , que Vofíal- 
lo fufpeitoío , fendo mais remoto squcUe , que efle peri- 
go. Todos os que ouvirão Jc?Ó Pirto fe aíTeiçoarGÔ á fua 
opinião -y poiém aíTentaiaÕ , que fe fizeíie prirrei*o avizo 
ao Duque , perfuadindoo com irais vivas inílarcirs a que 
aceitafle a Coroa ; e quando elle dl vidaíle , íe elegeria o 
íegundo partido de o acclarrar fem feu coríentin ento, 
ou outro qualquer , que pareccfTe mais útil , e m?ií breve, 
porque eraõ ja tantos es que fèbisó eíta refolvç.õ, rue 
na quebra do fegredo per"gava muito o fucceífo delia. Per- 
luâdiraõ todos a Joaõ Finto, que foíle a ViUa-Viçf'^- ^^^ nr 

n. Laicas 



pá PORTUGAL RESTAURADO ; 

municar ao Duque a determinação aííentada, e a moítrar-' 
Anuo 1Í12 as razões , que o obrigavaò a libertar a Pátria , acei- 
/ tando a Coroa. Excufou-le Joaó Piato dizendo, que as 

^ ' razôis repetidas por ells pareceriaõ ao Duque íuípeito^ 
ias , e levadas do intereíTe , que lhe refultava da fua gran* 
dsza, equeaíli n era de parecer , que Pedro de iM.eadoi 
Ç3 aceitaíle eíla comtniíTaô, porque nelle concorriaõ to- 
das as circumftancias de que fe devia eíperar a felicidade 
Parte Pedro de da jomads. Aceitou Peiro de Mendoça com muito goíla 
Méijfuao Di- â diligíncia , e como era taõ empenhado no bom fuccello 
S^^-i delia , nad dilatou dalla á execução i fez caminho por lávof> 

ra , onde comunicou ao Marquez de Ferreira , e ao Con- 
de do Vimiofo a commiílaQ que levava ; efcreverao el- 
les ao Duque , esforçando quanto lhes foy poííivel as in«, 
ftancias , para que naò reculafle taó generofa offerta. Paf- 
fou Pedro de Meadoça com eítas cartas a Villa-Vicofa^ 
achou o Duque caçando na tapada , que fe íegue á Villa , 
que era todo o íeu divertimento , íendo huma das raaio- 
-h- ^ fj. j n les , e mais abundantes de caça de toda Hefpanha. De- 

Propojta ae Fe- .' . , . * ~. » 11 

drade Mendo- P^^s dos primeiros cumprimentos , oiiereceado' lhe occa- 
ia, ' Íia6 o campo de fallar ao Duqu2 íem teftimunhas i lha 

diíTe, qu2 elle vinha da parte de quaíi toda a Nobreza da 
Reino a pedirihe quizeíle aceitar a Coroa de Portugal » 
ufurpada a feos Avós por ElRey D. Filippe fegundo, e 
que do fentimento da Nobreza eilava o povo de Lisboa , 
eílimulado dos exceíToj dos Caítelhanos, e que nefte par- 
ticular era a refoluçaó de todos taõ uniforme « e incontra» 
ílavel , que quando davidaíla de aceitar a Coroa , deter- 
jninavaõ acdamallo fem feu confentimento : porcTi que 
parecendo aos de melhor difcurfo eíta refoluçaõ intem- 
peftiva , aíTentaraõ fazer*lhe avizo , efperando de feu 
grande efpirito , que fe naõ negaria ao amparo de taõ hon- 
rados Vaflallos, que voluntariamente entregavaõ ao feu 
arbítrio as vidas , e as fazendas com fegura confiança de 
lhe eternizarem a Coroa, fundada no valor dos Portu- 
guezes tantas vezes expJírimentadoi e qua fe o pouco, 
que eítimaíle o Sceptro o diíTa^diíIe da erapreza , o muito 
que devia gratificar taõ fiaos afFedos, era força que o obri- 
gaíls a toínac taõ galharda refoluçiõ , advertiado-lhe ♦ 

que 



f»«. 



PARTE 1. LIVRO 11. 97 

que quando naõ achaíTem por húa , ou por outra via me- 
iode o períuadir, que eílavaò refolutos a formar huma Ann5 
Republica ; e que devia conliderar quanto desdouro leria -z^q 
paraaíua opinião entre as Nações extrangeiras verem, ^"4 • 
que efigiaõ Képubiica, tendo nelle Príncipe natural ; por- 
que ainda que a empreza era grande, parece que a facili- 
tava a guerra de França , e as revoluções de Catalunha , 
repartindo'fe de for te o podir dos Caltelhanos, que íeiia 
faciJ desbaratar o que tfoaxeílem á oppofiçaõ do intento 
propolto : e que líie pedia naõ cõmunicaíle efte negocio 
ao leu Secretario António Paes Viegas. Era a cauía deita 
defconíiança recearem, que António Paes deíviaíle ao 
Duque de aceitar o Reino , e por eíte refpaito advertirão 
a Pedro de Mendoca em Lisboa elta diligencia. O Duque „ ,^ „ . ^ . 
reípond^o , que a materna em que lhe ralava era de tan- 
ta importância , que merecia toda a ponderação , e aíTim 
1 le pedia tempo para cuidar nella , e brevemente lhe da- 
ria refpolla , que em quanto a fialla de António Paes , fem 
algum elcrupulo o podia permittir , porque além das lar- 
gas experiências , que tinha do leu fegredo , e prudência, 
naó era o que menos o eílimulava ao mefmo que elle 
o perfuadia. Entregou Pedro de Mendcça ao Duque as 
cartas que levava do Marquez de Ferreira » e Conde áo 
Vimioio, e apartou o difcurfo o Bifpo de Elvas D. Má: 
noelda Cunha, que veio vifitar ao Duque. 

Acabada a vifita do Bifpo , entrou o Duque a dií- 
correr no modo da refpoíta , que havia de dar a Pedro de 
JMendoça , porque ainda que eftava refoluto a tentar a 
fortuna abraçando a empreza , enfinava-ihe a prudência a 
caminhar com os paílos mais leguros , que foííe poíTivel, e 
adifpôr de forte os ânimos , que ccncoireíle no empenho 
ou toda, ou a maior parte úá Nobreza , reíoluçaõ que 
coftuma a feguir o Povo , e lem eHa fempre íaõ incon* 
ftantes os íeos affsclos. Pareciaihe ao Duque convenien- 
te I antes de declarar o feu intento , anticipar todas as pre- 
venções, que confiderava precifas para o concluir , por- 
que depois de communicada a fua refoIuç?.õ , íuppunha 
grande riíco em fe lhe dilatar o eíFeito delia 5 e executada 
íem eíperanças de a confeguir , o que facilitavaõ as dif- 
Tom. I, G pcíições 



9S PORTUGAL tESTAVRADO; 

pofiqÔes convenientes , era entregar logo a vidoría na« 
Anno iTíãos de feos inimigos. Para ter maior íocego neíle cm- 
IÓJ.O baraço, naõ quiz refolver*íe íem o parecer de António 
'^ ' Paes Viegas: chamou o, e communkou-lhe tudo o que 
Conferencia ds havía paílddo com Pedro de Mendoça. Chegando ao pon- 
Junque comAn- to de quc 3 Nobreza determinava , quando elle fe relol- 
Mí^ ^*" ^'^' ^^^^ ^ "^° aceitar a Coroa , a formsr na ultima defefpe- 
' raçâõ hua Republica : diíTe António Paes ao Duque, que 

antes , que pair-.fie mais adiante, fe íerviíle o tirar de hu« 
ma duvida , a qual era , ^ue fe accafo os Portuguezes for- 
maíícro Republica i que partido havia de feguir ? l"e o de 
Portugal , fe ode Caftella ? Refpondeo-lhe o Duque, que 
fempre eítivera deliberado a fe naõ apartar do commum 
confentimento do Reino , e qualquer perigo a que fe ar 
rifcaíle por defenía da Pátria , teria por muito fuave : ou- 
vindo eflas palavras» diíTe ao Duque António Paes com 
grande fervor, que eíla fua refoluçaõ tirava a duvida da 
refpoíla , que hsvia de dar a Pedro de Mendoça : porque 
fe pela Pátria fe refolvia a arriícar a vida fendo Vaífallo 
de huT»a Republica , quanto mais gloriofo , e quanto maij 
conveniente era empenhalla fendo Key de hum Reino, 
que lhe pertencia de juíliça \ e que fc adefenfa da vida fi- 
cava dependendo da direcção alheia , muito maior pru- 
dência feria feguralla com a diíponçaõ , e cuidado próprio^ 
que achaíFe a maô , que tiraíle o golpe , na do Duque a ef* 
pada para o reparo ; que viíTe Europa , conhecefíe o Mun'! 
do , e confeçiííle a Poíleridade o valor com que fe arrot 
java a loj^rar em huma fó acçaõ duas victorias, reftituir- 
fe á poffe do Reino , que lhe tocava , e fatisfazer-íe das 
oíFenfas , que os Caílelhanos ufurpando'o , fizeraô a íeo5 
Avós, e que celebraífe Portugil para gloria fua fer elle 
aquelle efcolhidi» de Deoi no Campo de Ourique psra li* 
vrar n-\ decima fexta geração , quede preíente fe contava, 
o Reino qttenuado , ea Pstria nunca em outro feculo mais 
oppri:'"niJ3 ; que em quanto ás difficuldades, que fe lhe re* 
prefer t^V;35 , que ja fe nac podiaõ prevenir-, porque fó o 
beneficio do tempo era quem as havia de remediar: que 
na contingência ds Lua inconftante femeava o Lavrador 
a terra , e no peiígo da variedade do vento íe arrojava aa 

Mar 



P^RTE I. LIFRO II. çp 

Mar o navegante , tendo valor hum , e outro para ei^tre- 
gar ao tempo a íua fortuna : que nos calos giande^ toda 3 AnnO 
letolu^^aó le excuLava dtí temeridade , e qualquer reparo . 
(abraçado o empenho) era imprudência , íendo ló o ai- 1^4^* 
repenaimento o que í"e devia contar como maior \ recipi- 
cio , e que ultimamente nunca a diígraça poderia ler tao 
poderola, que , negando-lhe todos os nieios de le defen- 
der , lhe faltalíe na campanha com huma gloriola lepul* 
tura. O Duque eitimou muito eíta opinião de Amónio Rí^/ô^^í'/"^ í'p«' 
Paes y relpondeo-lhc que íe havia contormado com o leu ^"'. ** **""'*'' 
intento ; e depois de conferir com elle outros pontOi im- 
portantes , paliou ao quarto da Duqueza D. Luiza de communica á 
Gutmaõ íua mullier , liJha dos Duques de Medina Sido- Duajiez.a o m- 
nia » Jiuma das mais qualificadas , e anticjas íanúlias de ^'"^^^ ^^'^ *^'*' 
Câítella , deo-ihe contado empenho em que le achava, a .^^^^^ '^- 
que naõ qu^na arrojar fe íem o leu parecer. A Duqueza ' / 
qui era dotada de ciuendimento taô claro, e animo taõ / 

Varoíiil , como depois acreditarão largas experiências , / 

ponderando os perigos da lua Cala, lecdo objiw(í!lo do ri« 
gor do Conde Duque , julgou generoíamente por msis 
acertada, ainda que a morte folie conicquencia da Co- 
roa, rnorrer reinando, que acabar íervindo, e animou 
ao Duquí dizendo, que todos os vaticinios eraõ íegu* 
rança da empreza , e que neite íentido íó a dilação de le 
coroar podia fer prejudicial. Achando o Duque taõ con- r, ; 
íormes duas opiniões de que tanto fiava, chamou r^- dro de Me>idocA 
dro de Mendoça , e depois de lhe agradecer o trabalho , ejia refoUfao^ 
e o perigo , a que le expufera por leu relpeito , lhe dií- 
íe, que havia largamente ponderado tudo quanto elle 
lhe referira, e que antepondo a faude da Patuá ao rifco 
particular , fc relolvia a aceitar a Coroa para a fazer ret- 
peitada a feos inimigos , e commua a feos Vaílallcs, 
porque na occupaçaõ , que a Nobreza lhe dava, tlcolhia 
o trabalho do Governo , e largava aos que governaíle , os 
JntcreíTes do Império. Pedro de Mendoça aJegie de ha- 
ver confeguido o que tanto deíejava , pi etendeo beijar 
a maõ ao Duque , que o reculou dizendo, que psra 
cila ceremonia naõ faltaria terrpo, e que para coníe* 
guir o que difpunhaô f^ltavsô muitas circuiriílarxia:. 

G j tom 



100 PORTUGAL mSTAURADO , 

Com grande fatisfaçaõ defta modeftia partio Pei 

Anno dro de Mendoça para Mourão por dilTimular a jornada 

1 6 AO ^^ Villa- Viçoía. Deípedio logo hum Correio a D. Miguel 

„ , ^ ' ^ de Almeida , e lhe efcreveo dizendo , que fora á tapada ; 

Volta a Mourão ^ r c -í \ ^' \ t -*' 

jazavifoáju. ^"® ^^ nzeraõ alguns tiros , c que nuns le acertarão » ou- 
tamas conjufo. tros ie erraraõ , e que era grande a prudência de Joaõ Pin- 
to Ribeiro. Eíle avizo taõ pouco diítindoí deixou a D. 
sahe da davi' M-^gu^l muito embaraçado: porétíi recatando-o por naô 
da, ííí%r^/í confundir as refoluções, chegou Pedro de Mendoça, e 
cUrafat'* ^^ ^^ando a todos os da Junta conta da refpofta do Duque , a 
' celebrarão com tantas demonftrações de contentamento ^ 
que foy eílaa primeira acclamaçaô. Já nefte tempo havia 
crecido muito o numero dos Fidalgos empenhados neíta 
^loriofa em preza : todos tornarão â perfuadir Joaõ Pinto 
Ribeiro , que fofle a Vil^a* Viçofa a ajuílar com o Duque 
o dia, e a forma de fe executar o que eftava tratado , por- 
que era preciío concordar-fe com elle neítas , e em outras 
Gircumílancias, todas de grande confequencia.Tornoujoaõ 
Pinto a excufarfe , oíFerecendo as próprias razões» que 
rsprefentára no principio. Em ventilar eftas matérias fe 
gaftáraõ alguns dias , nos quaes faltando ao Duque os 
avizos , que era juílo íe lhe fizeflem muito repetidos , en- 
trou com razaõ em grande cuidado , e íabendo que Pedro 
de Mendoça havia paílado a Évora lhe efcreveo , pedin» 
do-Ihe novas do negocio que lhe encomendara: reípon» 
deo'lhe taõ confufamente, que o Duque crefcendo-lhe a 
embaraça fe reíolveo a chamar Joâõ Pinto , com o pre- 
texto de conferir com elle huma demanda , que fazia a 
Farte João ^^^^ ^- Odemira. Deu Joaõ Pinto coma a D. Miguel de- 
^inío aviíu- íla ordem , para que elle a eõmunicaíTe aos mais confe^ 
í^'F/rf* derados , e defpois de ajuílarem o que havia de dizer ao 
Duque íe partio para Villa- Viçofa. As fuás noticias dimi- 
nuirão ao Duque o cuidado com que eftava , porque 
nao fó concoícíoii com o que Pedro de Mendoça havia 
referida, mas accrefcentou , por facilitar a empteza, mui» 
tas inferenciss , que íeguravaõ a felicidade delia. Duran» 
do eftâ conferencia , chegou ao Duque avizo , que pafla* 
va© para Madrid algunas peíToas, de que fe podia infe* 
m > qus tiveUam notisia do q^^ íe ttatava j e q^uea Du* 

quezà 



PJK7E I. LIVRO 11. loi 

queza de Mantua , prevenida com alguns avÍ7.os , eípecu* 
lava os paflos mais occultos que davaó os Fidalgos de Lis* Anno 
boa. Vendo eltes accidentes lhe pareceo ao Duque que i^in 
perigava muito a empreza na diJaqaõ de íe executar. Def- "+ • 

oedio Joaõ Pinto com ordem que delTe Jogo Lisboa prin* ^ ^ 
cipio ao acclamar , porque começando hvora , como lhe fc^^^g pi„^^ 
aviziraó que eltava tratado , podia fucceder o inconva- cpm ordem de 
niente de fe prevenir a Duqueza de Mantua com algum Cer accUmade 
avizo anticipado , primeiro que fe declarallem os Fidalgos '"* Luboa, 
confederados: e íegurou o Duque a Joaõ Pinto, que fe 
íe delle cafo que em Li.,boa faliailem ao que promeítiaô , 
o que elle naó cuidava das pelloas que fe lhe oíferecéraõ > 
obrigadas por tantos reípeitos a antepor a todo o perigo 
a pontualidadle , que elle com os Povos, que em Alem» 
tejo eítavaó á íua devoção , havia de tentar a fortuna ia- 
hindo em campanha. Alegre de taõ generofa reíoluçao 
voltou Joaõ Pinto para Liiboa: chegou a efta Corte com 
^uas cartas do Duque, huma para D.Miguel de Almei- 
da , outra para Pedro de Mendoça •, porque reparando 
no perigo que corria efcrever a todos , elegeo o mais ve« 
lho da fâcç3Õ , e o que lhe havia levado a Embaixada. 
Naõ continhaõ as cartas mais que demonítrações do feu 
sffedo , remettendo a fua determinação ao que diffeíTe 
da fua parte Joaõ Finto a quem pedia deíTem inteiro cre* 
dito. A meíma noite em que Jo^ó Pinto chegou , fe sjun* 
táraõ em fua caía ( que era no Paço que neíla Cidade tem 
o Duque de Bragança) a maior parte dos confederados: 
porém acautelariióle quanto lhes foy poffivel , delxan* 
Í3o as carroças em difíerenres partes , retirando Joaõ Pin- 
to anticipadamente os feos criados , e pondo pouca luz 
na cafa , para que naõ foílem conhecidos os que eftavaõ 
ncUa. Souheraõ de Joaõ Pinto que a vontade do Duque 
era , que Lisboa deíTe principio á empreía , que fe intro* jyed^ira ^oMo 
duzidem na facção os mais que foíle poílivel , e que s bre- Pi»to a n/oiif 
vidade recomendava confiderando na dilação a total rui- f^-"' 
na : que com o maior afFedlo agradecia a todos o animo 
com que emnenhavaõ as vidas pela fua utilidade e que 
efperava foííe o íucceíTo taõ felice , que lhe n?© fa'tpfle 
tempo de remunerar lantas íintz?s : pois era certo que ba- 
lem. 1, G ^ via 



loi PORTUGAL RESTAURADO, 

via de efcolher pcit companheiros na Coroa aquelles que 
AnnO tanto trabalhavao por lha pôr na cabeça. Qualquer pala- 
lÓAú ^^^ deftas que JQaõ Pinto repetia era hum novo erpirito 
^' • que entrava nos peitos dos que eílavaõ prefentes: e Por» 
tuguezes com elpiritos dobrados naó podiaõ achar em- 
preza difficultbta. Todos approváraó a reloluç ô de con-ie- 
çar Lisboa a dec larar-le , e ja como ordem do leu Kty le 
difpuzeraô a obadecella. 
F.iege^fe o pri' Ajuítit^ó-íe naquella noute, que era Dominga 

miiro de Dex^e- yínte 6 feis de Novembro , que ft. executaíTe o que clta- 
broparaaAc y^ aílentado ao Sabbado lecuinte primeiro de Dezembro» 
e comunicou'íe a todos , que por intervenção do radre 
Nicoláo da Maia eílava reduzido o Juiz do Povo , Efcri- 
vaô , e Mifteres » e alguns da Caía dos Vinte e quatro : po- 
rém que atemorizados com o fucceílo de Évora ajuftáraõ, 
que nao fariaõ movimento algum fem verem declarada to- 
da a Nobreza \ promeíTa que facilmente coníeguiraõ. De» 
Ha conferencia le deo parte ao Arcebifpo de Lisboa , quç 
havia alcançado licença para fahir do empenho em que 
eftava em Madrid i proteftando as penas em que ficava 
incorrendo quem lhe impedia ir governai as fuás ovelhas. 
Authorizava elle muito a empreza, perfuadindo com a 
virtude , e com a eloquência ( hs vendo fido dos primeiros 
que fomentarão a liberdade da Pátria , parecendo-lhe eí« 
crupulofa a fujeiçaõ a ElRey de Caítella , como po fluir 
dor intrufo ) feguiraõ-o íeos parentes , e todos os Ec- 
clefialticoj , que lhe obedeciaõ. Eflando a empreza tanto 
adiante , que faltavaõ fó três dias para fe executar, fe deo 
conta delia a D. Joaõ da Cofta : era dotado de grande va- 
lor , e entendimento , partes que lhe haviaõ grangeado 
toda a eftimaç-íô da Corte, cnntando*fs nos íeos poucos 
annos muitos de prudência, Ouvio elle com muita atten- 
çaò a propofta que lhe fizeraõ , e depois de confiderar 
Jargo efpaço a gravidade da empreza , falou com a elo- 
vetc ^eDSJo&o quencia.de que era dotado, nefte fentido: Muitos amos ha, 
âa Cofia. Senhores , qut com profundo fenúmento ohjerno as calamu 
àades ^que padece Portugal , e que com iuthno aff^eão pro- 
mro achar caminho.que facilite a \ua liberdade, • nuncapu^ 
em àu viâa a jujtiça, ^m o Duque de Bragança tem para fe 

lhe 



PARTE I. LIFRO II. loj 

ihe fíítregar efta Coroa > nem ignoro o vigor com que a tyrâ- 
mza o Governo de Cafiella : porém a ra:jiaõ do Duque , e a A nno 
tfffenja do Reino , ainda que f ao fundamentos para nos mo- . 
(irarmos jiifiificados nao leio forças para nos confíderarmos ^ ^40. 
iiãoriojosj porque e(ia caufa a que nos queremos oppor » 
n.io ã decidem as razoes , hao de fentencialla as armas , e 
co-.ifideroy que os mejmos tnotiios da nojja rejoiuçao nos re- 
prèfentixo as maiores dificuldades. Confeço qo Duque de 
BragançA , conforme a noticia , que temos dojeu talento , be 
vmito cajaz da Coroa : porem ejla que Ibe queremos dar . be 
taõpezada ,queneceffita de maiores circumjlanclas y ba mi- 
Jter muitas experiências , que faltaõ ao Duque , vaõfó poli- 
ticas tfenaÕ militares \ porque no ejiadopve lente be neceffã' 
rio a Fortugalf que quem ctJipunbar o «5V<?^ tro jatba exerci* 
tallo como baflaõ. Da jegtmda caufa najte tatabetn contra- 
no ejfeito , porque fendo a maior queixa que temos dos Ca- 
ftelbanos a extremidade a que tem reduzido ejie Remo com 
o fim de o fazer Rrovincia% tirando delle gente, dinbeiro^ ar- 
niasy e cavallos , efla mef ma falta impojfibilita o que inten- 
tamos\por que fendo ejies os cjuatro elementos de queje com- 
põem o formidável corpo da guerra , e carecendo nos quafl 
totalmente de todos quatro , qual be ofimy quaes faô as e/- 
per ancas com que a emprendemos ? He factl fazer Rey a9 
Duque de Bragança» mas be muito difficultofo fuflgntarlhe 
a Cor o a, parte das emprezas grandes podem os ânimos vale* 
rofosfiar da fortuna y mas entregar Ibe todo o focego delias 
he a maior imprudência, e a mats indij culpável temeridade, 
domados todos os cabedaes de que fazemos conta y vimos a 
acbar tirada a provat quarenta fidalgos em Lisboa^ com taõ 
pouco féquitOy que nao cbegaõ a duzentos bomens : apromef- 
fa do Juiz do Vovó, e Mtjteres taõ mal fundada, que depen- 
de da vontade do Povo volúvel, e irconjiantey e algiias Jntel" 
agencias ern pomos Lugates da Proiiacia de Almtejo.Búr 
cppofios ao limitado poder, que temos em Lisboa^, havemos àe 
ãcbar os Soldados Caftelbaiios , que guarnecem o Càfiello , 
*Iorres , e NãvioSt que eflaÕ ancorados , que ao menos Jerdâ 
tnUe quinbentofy e alem defies^ todos aqvelies , vue àeten^ 
derem àe Cafiella , e os que mear Qj os ào [eu poder fe def- 
viarem dã n9ffa opmiaô. Da jègunda confiança , que he nos 

G 4 Lsiga- 



104 TOmuGAt t^STAUtJBO, 

lugares de Alemfejo fe deve fazer muito pouco caj o ^ uà 
Ann*0 confideraçaõ de terem na memoria os cafiigos das revolw* 
16 AO ^^^'^^^ ^^ Évora , das mais do Reino naÔ podemos inferir a 
^ * refohçao y Jem nos intremeter em adivmhar os futuros y 
privilegio que fem particular auxilio náo coftmnajer conce- 
dido aos mortaes. Porem eu quero juppor todas eftasdiffi^ 
culdaâes vencidas , e confiderar o Povo de Lisboa unida ^ 
[eguindo a voz do Duque de Bragança , o Caftello , Tor' 
res , e Navio? atacados , e rend dos á nojfa bizonharia ; tO' 
das às Cidades , Filias , e Lugares conformes com a opi- 
nião de Lisboa , e as Conquiftas J eguindo o confentimento 
do Reivo ^ reprej entalido fcmeforçoj as duvidas em qual- 
qtier dejtas propofiçoens ^ mas dando' as {como dife ) por 
"vencidas \ quaes fáo os Exércitos , quaes as Armadas cjus 
temos tara nos oppor ao poder de Caflella ? Conjente a me 
, tior duvida {je Deos naó cegar aos Castelhanos ^ marcha'^ 
rem , no mejmo inftante que chegar a Madrid a nova do 
que executarmos , contra Portugal os Terços , Tropas , e 
Armada dedicados para Catalunha a atalhar na no[fa re-^ 
foluça^ o maior damno que pode padecer aquella Mouar» 
quia, Hollanda » e Catalunha , quando je refolveraô a fa' 
codir o jugo de Caflella , haviaõ grangeado primeiro a ami- 
zade dos Príncipes vizinhos ^ que com grandes Exércitos 
ftifieiitaraÕ o feu partido , introdnzmdo^os nas melhores 
Praças ao mef mo tempo que elles fe declararão contra os 
CaRelhanos ; e nós outros naõ Jó elegemos a occaftaõ em 
que os Caftelhanos fe achaõ armados dentro de Helpanha > 
Jenãô fianwí tanto dos nofos braços que naÔ tratamos de 
algum outro joccorroy ema's quando ja agora ainda que 
comfí gamos a licença de algum Principe ^ he o prazo tua 
p)ouco , e tão difficultofo chegarem os foccorros a tempo , ha- 
Tendo de Jer por força a inconft anciã domar quem os con- 
iliiza , que he razão que confideremos ,0 damno muito dif- 
tante do remédio. Sendo todos efes difcurfos ( a meu pare- 
cer) fem contradícção , nxo nos f ca para que appcllar je* 
fiâo para milagres , e milagres , fenhores ♦ he jujlo que Je 
ereaõ , he hom que Je mereçaÔ , mas nao hc razaõ que Je 
efperem. Porém ainda que tenho tropo [lo as duvidas que 
je me offerecem em matéria tao ardna , e taÕ importante , naÕ 

he 



PJRTE I. LIFKO IT. íoj 

hf O meu fim encontrar a empreza , nem d ej vi arme dofC' 
rtgo delia ; pois naÕ he a primeira lez que a zttntade fe Anno 
aparta do entendimento em operaçocns mevos generojas : a . / . -. 
|| miiiba tenção he mo jtrar que figo o que julgo por taõ diffi' ^ ' 
fi/, e arrijcado, ponderando que fe há Ity que indignamente 
me obriga a entregar azida d dtfpoftçaÕ de qualquer Ami- 
go f que a ley natural me empenha afacrifcalla digiTamen- , 
te pela liberdade da minha Faina, Conjefo que Je tivera 
elta noticia mais anticipada > que fora o meu veto que je 
dijpu::^ejse ejta empreza com maior jegurança; porem fian- 
idojemea ttmpo que he taõ pouco o que temos do intento à 
execução ^ o que me parece hejenao dilate , porque nao 
achemos na jaL-a do fegredo o maior iniynigo. Hftas razões 
d;; L>. joaõ da Coita arguidas do íqu entendimento , e dei- 
prezadas do íeu valor perturbarão «juito os ânimos de to. 
doíos confederados , e foy de forte o embaraço que nel- 
Jes produ-ziraõ , que le refolveo Joaõ Pinto a avizar ao 
Duque de Bragança , que fufpandeíle as ordens , difpoí- 
tas para a execução do primeiro de Dezembro, até fegun- 
do avizo. Ficou o Duque em grande confufaô com eíta 
novidade , fe bem fahio íogo' delia , porque lhe chegou 
outro Correio de Joaõ Pinto com avizo que continuáíle 
as difpofiçoens , porque naõ haveria duvida que divertiíTe 
a emprefa ; e foy a caufa de fahirem os confederados do 
embaraço prcpofto diCcorrerem o empenho emqueefla- 
Ví-õ, e conhecerem que o maior perigo confiftia ns dila- 
ção i porque deícoberto o que eílava tratado experimen* 
tariaõ def unidos o í^ítigo , que receavaó armados : e n^a- 
nifeítsr^íe o que intentavaõ era infallivel , participando 
do íegredo toda a íóríe de gente que naõ coftuma giiar- 
dalio. Depoftos pois todos os inconvenientes, cerrados 
os olhos a todas as difficuldades , e ofíerecidos es peitos 
SOS maiores perigos , dileberáraõ eíles , em todos os fecu* 
los , quarenta llluílriíTimcs Varoens a cortar com as vale- 
lofas eípadas , novos Aiexandres , o laço com que a induf- 
tria Caítclhana havia arado o P^eino de Porttgal , e a exe- 
cutar huma das maiores acçoens que em nenhum tempo 
( diícorrendo por todas as hiílntias ) correo por conta da 
trombeta da fama j e como o que fica refetido he verda- 
deiro 



ío6 PORTUGAL RESTAURADO, 

deiro teftimunhodefta confiííaô » tendo raoftrado o poucov 
AnnO poder com que fe deliberarão a etnprender acçaô de tan- 
^ tas , e tâô invenciveis difficuldades , mollrando agora o 

1040. feiice j e valeroío remate deita gloriofa empreza , logra- 
rão eltes generofos Heroes no applauío univerfal o triun» 
fo I que merecem. 

Repetirão' fe as ordens neceíTarias , e os poftoi 
convenientes com a maior diílincçao que foy poílivelf de- 
pois de ventiladas varias opinioens , que occorriâó a tan- 
tos d iícur foi , porque huns queriaô , que o Duque de 
VMrhí dlfeurfes Bragança appareceííe de improvifo em Lisboa , dizendo: 
fohre^a execi» que fó a fua prefença havia de fegurar a empreza ; po- 
i^^'^ rém convenceo'os a contradicçaõ , de que a jornada pode- 

ria naõ ler occulta á vigilância da Duqueza de Mantua , e 
que o .maior perigo era dar tempo á prevenção. Outrof 
eraô de parecer , que fe atacafle primeiro o Caílello , mas 
examinado o numero dos foldados da guarnição , e achan- 
do*fe mais de quinhentos, pareceo duvidoío o eíFeito de- 
'^lfeta''}e afcf fejado. Aflcntaraô por conclufaõ , que Sabbado , primei- 
ma^e tempo dd TO de Dezembro , com o menor rumor que foíTe poíTivel, 
Acdama^aó. fg achaflem todos juntos fto Paço , repartidos em vários 
poíloí I e que tanto que o rologio déííe nove horas íahif- 
fem das carroças ao mefmo tempo : que huns ganhaflem 
o Corpo da guarda , onde eílava huma Companhia de In- 
fantaria Gaftelhana, outros fubiílem á fala dos Tudefcos 
a deter a guarda de Archeiros Alemaensi que aíliília neU 
la *, outros appellidaíTem , pelas janellas do Paço , liberda- 
de , e acclamaíTem o Duque de Bragaiv^a Rey de Portugal, 
outros entraííem a matar o Secretario de Eílado , Miguel 
de Vifconcellos, diligencia, que j«í1gavaÕ importantilli- 
ma aíTim por atalhar as ordens , que a fua refoIuç:1õ po- 
dia diftribuirj como para incitar o Povo com aquelle me- 
recido caíligo , e períuadillo ao empenho dá Nobreza, pa- 
ra que naô duvidaíle de a feguir. Tomado eíleaílento, 
bufcáraõ todos , confeçando-íeodiaaniecedente , o fjvor 
de Deos para fegurar a empreza •, porque co-no aqiella 
acç^ô naõ era de vingançi , íenaó de juíliça , fuppunliao 
qus deíla podiaõ Hcitaínente fer entaõ os executores. 
Para o dia aífinalado , ao amanhecer, fedeo recado a tod > 

aquei 



1 



VJRTE I. LIVRO 11. lor 

aquelles , que por dependências dos quarenta Fida'gos ha* 
yiaõ de sjTiftir ncfta facçaõ, fem mais noticia delia » que AnnO 
ferem chamados por cJies ; preveniraõfe , c armarão- j^^^ 
íe todos, e foy muito para louvar o valor de D. Filip- ^^r^* 
pa de Vilhena, Condeíla deAtouguia, porque fiando-fe 
da fua prudência o íegredo deite negocio, ajudou a armar 
íeos dous filhos D. jeronymo de Ataíde , e D.Ffancifco 
Coufinho , e os exhortou a confeguir a valeroía acçaõ , 
qu3 emprendiaó. A melma acqaõ com igual valor execu- 
tou D. Marianna de Lancaftro com feos dou s Alhos Fer- 
não Telles» e Aiitonio Telles da Silva. Sem haver dos 
confederados quem fe arrepcndeíTe da determinação, cccu» 
paraõ todos os poftos deftinado:. Impacientes eíperav&ó ^j^fcihe prin* 
as nove horas, e como nunca o rologio lhes pareceo mais àpío accowme. 
yagarofo , tanfo que deo a primeira , fem aguardarem a tendo o Paf*. 
ultima , arrebatados do generofo impulfo íahirao todos 
das carroças, e avançarão ao Paço. Jorge de Mello, An- 
tónio de Mello de Gaílro, Eftevaõ da Cunha com alguma 
gente, queosfeguia, detiveraô osfoldadosCaílelhanos, 
que eííavaô de guarda. D. Miguel de Almeida fubio â 
fala dos Tudefcos , e difparou huma piftola , final que 
também eftava ajudado para que todos íe repartiííem pe- 
las partes d'antes deftinadas. Luiz de Mello Porteiro 
mór , e joaõ de Saldanha de Soufa ganharão o lugar on- 
de eftavaõ arrimadas as alabardas dos íoldados. D. Af« 
fonío de Menezes , Gaípar de Brito Freire , e Marco 
António de Azevedo lançarão todas as alabardas em ter- 
ra , e empedíraô que os foldados cliegaílem a tomallas, al- 
guns delies intentarão defender a porta que fahe so cor- 
redor que íe remata no Forte $ onde morava Miguel de 
Valconcelios: porém inveílidos valerofamente de Pedro 
de Mendoça , ede Thomé de Soufa defoccupáraõ a poTta, 
e querendo gsnhar huma , que hia para o quarto daDu- 
queza de Mantua , a acharão ja cccupada por Luiz Go- 
dinho Benavente , criado do Duque de Bragança , e por 
outras peíToas , que o acompanhava© , os quaes matando 
hum Tudefco, e ferindo outro, os fizeraÕ retirar. Neíte 
tempo andava D. Miguel de Almeida venerável, ebriofo 
coai a efpada na xnaõ gritando : Liberdade j Fortvgnezef s 



IO? PORTUGAL 'RESTAUP^JDO . 

Víva ElRey D. JoaÕ o Quarto. E com as mifous vozes 
Anno chsgou âi varaadas do Paço , e repátiadj'as muitas vezes 
/ ouvido do Povo is foy caavocando no Terreiro. Arrebi- 

^4^' tâdos de igual furor bufcando a caía de Miguel de Vaí- 
Atomett-ft a concsHos entráraõ pclo corredor D. António Telio, D. 
enfade Miguel Joâô ds Sa dc Mcnezcs Câmereiro mór dhlRey, Anto» 
de vajconceiios. Dxo Tclles ferido em hum braço de huma bala de pi Ítala 
que fe difparou na fala dos Tudefcos , o Conde de Atou- 
guia , íeu irmaõ D. Francifco Coutinho, D. Álvaro de 
Abranches , Ayres de Saldanha , D. António Alvares da 
Cunha, Joaõ de Saldanha de Souía , D. Gaílaó Couti- 
nho, Sancho Dias de Saldanha, Joaó de SaManha da 
Gama, efeos irmãos António, e Bariholon:ieu de Salda- 
nha, Triftaõ da Cunha de Ataíde, feus filhos Luiz, e 
Nuno da Cunha , e feu genro D. Manoel *Childc Rolim ; 
no fim do corredor encoatíáraó a Francifco Soares de Al- 
bergaria Corregedor do Civel da Cidade, que Cahia da Se- 
cretaria de Eítado : diiTeraõ'lhe todos com igual impuKo 
( Viva ElRey D. Joaõ ) elle tirando pela efpada com reío- 
luçaô imprudente , refpondeo ( Viva ElRey D. Filíppe , ) 
pcríuadiraóo que íe focegaííe , naô foy pollivel , dif. 
paráraõ'lhe huma piílola na graganta , ferida de que mor- 
reo dentro de poucas horas. Chegando á Secretaria cchà» 
raõ nella António Carreia official maior ,• fem fe defen- 
der lhe deo D. António Tello algumas feridas , enteadeo- 
íe que por paixiô particular. PalTiraô adiante bufcando a 
caía em que afiiftia Miguel de Vafconcello? : havia-lhe 
advertido pela manhãa Manoel Manfos daFonfeca, que 
no Terreiro do Paço fc juntavaó muitos Fidalgos , muílrou 
com palavras defconcertadas que defprezava o avizo ; po- 
rém accufado da cJifciencia gravada com tantos delidos 
fe levantJU da cmm , e cerrou a porta por dentro da cala 
em que defp^ichavai que era a primeira que paífado o 
correvi ^r cáhe íobre o Terreiro do Páço. Romperão os cori' 
federados facilmente a porta , e naõ achando dentro a Mi- 
guel de Vafconcellos entenderão que fe livrara paíTmdo 
àcaía da índia para onde tinha communicaçió , de que 
arrazoadamente fe affligírao : mas advertidos de huma ef- 
cravaabríraõ hum armário de»P3psií| onde acháraõ que 

' '^ eíh- 



PARTE I. LIVRO II. 109 

eltâva efc/Dndido : difparou^lhe D. António Tello hun^a 
pillola , íentindoie ferido fihio á caia or.de recebeo ou- AnilÒ 
trás feridas mortats de que csiiio , poíém ainda vivo o . 
lançarão ao Terreiíopor huma das janelias, aguardava'o ^^4o# 
quantidade de gente que havia concorrido daquella que Aítr/í rie mU 
lem attençaõ buíca o rumor. t\o metmo tempo que cfciíio ^"^^ ^^ ^ 4<'<'»z 
o mireravei corpo moribundo , íe empregou nelle toda 
aquelladelcuncertada ira tem perdoar aa'gum exceílo , e 
ficou em hum inítante deiprezo commum o meímo que 
havia fido reípeito univerfal , e parecendo a todos hunia 
fó vid4 pequena latisfaçâõ de tantas culpas, vingava ca- 
da hum naquelle cadáver a fua ira, como fe eftivera ca- 
paz de fentimento. Depois de extindos todos os oppro- 
brios , e ds apuradas todas as afrontas foy enterrado a 
inltancia de Gafpir de Faria Severim , que íervia aquel- 
le anno de Efcrivaô da Mifericordia » e veio a padecet 
oscaíligos que juftamente haviaõ merecido os feos def- 
concertoi. Lançado da janella Miguel de Vaíconcellos , e 
examinsdos com demafiada ambiç Õ por algumas peííoas 
os feos Eícritorios , foy achado em huma das caías inte* 
liores o Capitão Diogo Garcez Palha cem huma carabina 
nas mãos, diíparou'a, e outras armas de fogo que havia 
na caía íem eíFeito, inveítiraõ'o , e cbrigaraõ^o a íe 
lançar por huma das janelias que cahem para o Terreiro 
com algumas fendas i íalvoufe com huma perna dcícon- 
certada. Ao meímo tempo quefeexecutavaÕ eftas acções 
fubirsõ ao quarto da Duqueza de Mantua D. Miguel de ^^ ^'''^"^s" ^à. 
Almeida . FernsÕ Telles de Menezes , D. Joaõ da Coíía ^"^'^•^'^^"^í 
que havia atalhado a morte a alguns dos Miniílros que 
eftavaõ nos Tribunaes , Thomé de Soufa , Pedro de N\tn* 
doca, Dom AntaÕ de Almada, Dom Luiz feu íiil^o , 
Dom António Luiz de Menezes , Dora Rodrigo de Me* 
rezes íeu irmaõ , Dom Carlos de Noronha , António de 
Saldanha , Dom António da C oíla , Dom António de Al- 
cáçova, Joaõ Rodrigues de Sá , Martim r^íToníode Mel- 
lo , Francifco de Mello, Luiz de Mellc que foy Porteiro 
mór dElRey, Manoel de Mello leu filho, Triflsõ de 
Mendoça , Luiz de Mendoça » Don: FratKiíco- de Sou» 
íà, Dom Thomás de Noronha, Dc.tr* Francifco ^e No» 



rio PORTUGAL 'RESTAURADO, 

ronha , D. António Mafcarenhas , Dom Fernando TeílôS 
Anno ^"^ Faro, Rodrigo de Figaeiredo, Luiz Gomes íeu ir- 
y- màô , Ffanciíco di Sampayo , Gomes Freire de Andrade 

^^4^* ái íeu íilho, Gilvaz Lobo i e depois de abrirem por força 
alguinas portas queacíiáíaõ fechadas, chegarão todos á 
Caia da GaJé , onde acharão a Duqueza de iviantua a hu« 
chegAo á vijiíf fna janella diS que caíiein para a porta da Gapella Real, 
duD^ins^i. p^dmdo em vozes altas ao Povo que a fdvoreceíTe , e li- 
vraíle de tao perigoío íaace: obrigáraò'a decoroíamente 
a fe retirar da janella , intentou defcer ao Terreiro do Paço, 
e vendo que lho prohibiao, diíTe com voz envbaraç^da : 
Bafla Senhores : ja o Mmi(lro culpado pagou, os deítdos 
commettidos ; na') pcijfe adiante o furor , qae naõ merece 
Palavra daDn- entrar em pekos taõ nobres i eu me obrigo a que ElRey Ca» 
f«Éë. tholíco nao Já perdoe y mas agradeça hvrarjç ejh Reino 

dos excelfos do Secretario. O íircebifpo de Braga , qu3 
havia chegado dá íMjdrid com a occupaçaó de Frelidinte 
do Paço , íahio do íeu Tribuíiai , chegou a tempo que a 
Duqueza acabava de pronunciar as palavras referidas , foy 
feguindo o meímo eítylo com aquelle grande ãffedo quí2 
fcmpre o levou ao governo de Caltella ; porém o refpei- 
to que fe obfervou com a Duqueza , ouvindo'a , fe que- 
brou com elie, naõ querendo efcutallo ; atalhou-o Dom 
Miguel dizendo-lhe que lhe rogava que fe calaíle , por- 
oue lhe havia cuftado muito a noite antecedente livrallo 
f^ZAnelitd^ morte : obrigado deite coníelho fe retirou o Arcebifpo 
Prunav.retira- 3 hum dos apoíentos interlores \ mas a Duqueza de Man- 
fetemerofo, tua com animo varonil foy continuando as primeiras per- 
luaíóes, e repetindo novas inílancias fegurando o per- 
dão d'ElRey de Caílella: Reíponderaó-lne que ja naô 
conhewiaó mais Reys que ao Duque de Bragança que ha- 
viao acciamado. Ouvindo a Da :iueza eítas palavras lhe 
crefc^o a paixió de forte , que foy precifo a D. Carlos de 
Noronha opporfe'lhe com menos cortefia da que até aill 
fe hivia ufado , pedio-ihe que fe retiralTe, e naó quizeíle 
dir occafuô a que íe Ih; per Jelle o refpeito. Replicou el- 
, ]a , A mim! E como ? Gomo íenhora ( diile D. Carlos ) obri- 
£l'Ti clgaado a V. A. a que, fe nao quizer entrar por eíla porta , 
ítfí^tíxW<»«Ã«.iaia?oraqu;Uaiai3lia. (Termo indicoroío qae íó acha 

dÍL- 



PJR7E I. LIVRO 17. iir 

^\{cv^^B T\z\m\^oxxzv\c\z daetrpreza) Vendo a Duqi eza 
que era ja temeridade a repbgntncia , cedeo íio goipe da AvWiO 
fortuna, recolheole po leu Oratório , e pedindo-fe-lhe, j/^j^ * 
que paflaíle ordem a D.Luiz dei Caippo, Tenf nted.^ Me- ^^ ' 
Ite de Campo General , que governava o Caftello , para Renra-fe a du» 
que naõ fizelíe algum movimento , aíllgnou na forma que "l"'^^^' p/ra !e 
a lançarão, e D.Luiz dt^l Campo lhe obedeceo , livr?ndo cr.tregaroCaf-^ 
a todos do cuidado em que os punha a artiihsria, qiie pu- tdlo, 
dé a )ogar em grande preiuizo da Cidade. Ficou de guarda 
á Duqueza D.Antsõ de Almada com algumas peOoas , os 
mais Fidalgos fabíraõ ao Terreiro do Paço: gritando; 
Liberdade ' Viva ElRey Dom JoaÕ o Qjmrto. O ef- Acckt77a'ieFU 
trondc) , a confufaõ , e a incerteza havia obrigado qos Rey D.ycaopei 
moradores da Cidsde a íe recolherem a íuas caf^as , Ql^cidade. 
por eíle reípeiío naõ acharão os corfedersdos junta a 
gente, que fuppunhaõ, de que fe affligíríõ muito ; po- 
rem depreíla fe livrarão deite íufto , porque tanto que 
fe entendeo o fim da revolução , e do eflrondo corcorreo 
todo o Povo a acclamar com grande aífedlo o novo Pvey. 
Ajudou muito afta refoluçaõ o Arcebi-po D. Rodrigo da 
Cunha, porque tanto que teve noticia de que eft&va fe- 
liceroente executado tudo o que anticipadamente íe havia 
diipofto, fahio da Sé, e no terreiro, que lhe fica dian» 5^;,í<,^rfíí//: 
te, achou D. Pedro de Menezes; Conde de Catanhede , pcdasc^eose- 
Prefidente da Camera com todo o Senado , porque haven- ^'('^^odaCame, 
do cerrado as portas do 1'ribunal , onde eftava , o perfua- '^^' 
diraó feos filhos a que as abrifle , naõ lhe havendo com- 
municado antes a gr;?nde acçaõ , que emprendiaõ •, ceceo 
íem difficuldade a tao generofa inílancia, mandou abrir as 
portas , entrarão dentro , pegou D. Álvaro de Abranches 
na Bandeira da Cidade, feguirâõ-o todos, vieraõ bulcer 
o Arcebifpo, e quando baixava , defronte da Igreja de 
Santo António, pouco difíante da Sé, gritou oPcvo, Dejprrjãs 
que huma Imagem de prata de Chriílo Crucificado , que cã r//?^ ^ 
?evava hum Cspell?5 , a quem tocava , diante do Arcebif- ^'^"í^- 
po , defpregára o brsço direito ; ss felicidades de Portu- 
gal , e a juftiça daquella acçac podem períuadir que feria 
milagre; fe íuccedeo gccsfo , foy pela cccsfisõ rruito 
inyíleriofo. Gritou o Pcvo pioílrado poi terra , que era 

mi" 



Anno 

1Ó40. 

Conjirma. fe pe- 
los Dsz.emhar- 
gaãores a A'-' 



3L0S. , 



Flegem'fe Go- 
'vernadores que 
fazem avi 1^0 aa 
Reino» 



112 PORTUGAL RESTAURADO, 

milagre, e todos cobrarão invencível coníianqa de que 
D^Oi- âpprovava a glorioía deliberação dos confederados. 
PeríuaJidjs de tàô grande Incentivo, naõ íbavaõ em toda 
a Cidade mais que vivas, e acclamações ao novo t^rincipe, 
valeroio Author da lib2rdade da Pátria. Chegarão alguns 
Fidalgos á Cafa da Supplicaçaõ , e acháraó as portai fecha- 
d-ís , pedio Ayres de àaldanna aos Defeoibarg idores , que 
eftavaõ dentro , que as mandallem abrir , legurando-os 
de todo o prejuizQ, qie podiaõ temer, abrirão elleti e 
informadas da cauía do alvoroço , approváraõ com gran- 
de vontade por efcrito a refoluçaó , que íe havia tomado, 
firmando fe todos no aíTento , queíizeraõ, e porque Mi- 
niílros de juíliçi correm perigo nas revoluçoens deita 
qualidade» íegurou*os Ayres de Saldanha ate fuás cafay. 
D. Gaílaô Coutinho abrio as cadêas , e íoltou todos os 
prezos , que eílavaò nelias , parecendo lhe impróprio nao 
lograrem o privilegio do dia , em que íe celebrava a liber- 
dade da Pátria. Nelle tempo havia chegado o Arcebifpo 
ao Paço , o qual achou cheio de gente de todos os efta- 
dos, que conformes celebravaô a fortuna de íe verem li- 
vres da fujeiçaò de Gaílella , fem fe lembrarem de que 
havia, fenaó maiores , outras diíliculdades , que vencer; 
Voltarão ao Paço todos os Fidalgos , que fe haviaó efpa- 
]hado por varias partes da Cidade » depois de a deixarem 
com tal focego , que dentro de três horas naó parecia 
aquelle o melmo theatro , onde fe haviaó reprelentado 
tantos fucceífos diíFerentes. Tratarão logo de eleger Go- 
vernadores, em quanto o Duque di Bragança, jaReyde 
Portugal, naõ chegava de Villa»Viçoli ; nomearão aos 
Arcebifpos de Lisboa , e Braga , e a D.Francifco de Caftro 
Inquifidor Geral: porém allegando elle algumas difcuipas 
que infinuavaó o feu receio ( quando naó foííeoíeu na- 
tural encolhimento ) fe lhe admittiraô. O Arcebifpo de 
Braga , que havia fido eleito á inítancia do de Lisboa , 
procurando livrallo por eíle caminhj dos perigos a que o 
confiderava expofto , também fe ex:ufava, mas aconlelha- 
do de alguns ameaços tomou o governo. Promptamente 
foy chamado o Vifconde Dom Lourenço de Lima por 
fer dotado de muitas virtudes , que raeieciaõ geral eíti- 

maçaó 



FAB.TE 1. L1VR.0 11. nj 

mação. Logo que os Governadores aceitarão, defpedi* 
iiô vários Correios a todas as Cidades , e Villas maiores AnnÒ 
do Reino,fazendo-lhes avizo da refoluçsõ que Lijboa ha- ^ 
via tomado, de reítituir Portugal á SereniíTima Caía de *í>4Q» 
Bragança » acclamando Rey ao Sereniflimo Senhor Du- 
que Dom Joaõ , a quem tocava por linha direita o Reino 
de juíliça , e que eíperavaõ, que como verdadeiros Portu- 
guezes leguiilem a voz de Lisboa , e fe preveniííem con- 
tra a invaláõ de Caítella , de que Deoí lhes havia de dat 
vidoria , como íempre concedera a feos antepaílados, 
Deípedidos os Correios ao meio dia íe recolherão os Go« 
vernadores para fuás cafas, admirados de acharem a Cida- 
de no mef mo (ocego , que o dia antecedente . e as logeas 
dos mercadores , e tendas abertas , fem haver em tanto re- 
boliço , e inquietação quem offendeíTe , nem roubafle peCr 
íoa alguma , verdadeiro íignal dt; que a difpoíiçaõ era Di- 
vina j e fendo fimilhantes dias os maii próprios de vin« 
gança , ficou eíla para exemplo da concórdia,* porque to- 
dos os que n3Õ eítavaõ conformes depuzeraõ a inimiza- 
de , querendo achar-fe unidos na guerra , que eíperavaõ : 
poreai efte primeiro femblante favorável da fortuna, mo 
Jfez deícuidar aos Governadores da prevenção neceíTaria 
para atalhar os accidentei , que fobrevieíTem. Mandarão paffao ordens 
íahir todas as Companhias da Ordenança, repartiraõ*fe ;.7ra o /off^a 
eílâs em vários pollos, ailim para evitar qualquer defa- àa cidade,^ 
íocego , como pa''3 sílegurar os Caftelhanos , que vivisõ 
na Cidade : taó regulada foy eíla acçaõ , que naõ quize- 
raô que cahilic o damno em quem nsÔ merecia caíligo. 

Socegada a (^idade, entrou Joaõ Rodrigues de Sá, Kende-m-fe os 
D. Joaõ da Coita , e outros Fidalgo"? em huma de duas ga- ^'iic''es d^s ca{ 
]és, que havia naquelle tempo no Rio, e nelte pequeno j'^''^^'''*^'^* 
baixel renderão três navios da Armada de Caflella , que 
eítavaõ furtos, guarnecidos de Infantaria . confeguindo 
fó a gloria de emprender acç-õ t..5 galharda *, porque os 
Caftelhanos nem íizeraõ reíiítencia , nem tiv-raõ acordo 
para largar as velas eílando apparelhados , tendo vento i^pmderh 'Ho» 
profpero, e maié favorável. Huma à:s^ maiores rr>?írsiv\' c^^fieU^nes em 
Jhas defte dia foy o defícordo dos Csfíelhanos , que prefi- ''f/^'^ "z!^ 
diayaó o Caftello ; porque aind^ que fe naõ achavóõ de ]"l^^ de MhJ 

Tora. I. H guar- 2«frj«f, 



114 PORTUGAL F^ESTAVBADO, 

guarnição mais que quinhentos mofqueteiros , havendo^ 
Anno *e tirado para Catalunha mil e trezentos homens de todos 
j • os prefidios ( leíbluçaõ que os mais intelligentes nos ne- 

4^» gocios de Portugal julgarão por delatino ) leeítes que íe 
achávaõ i;o Caítello fe determinarão a lahir ao rneímo 
tempo , que começou o primeiro rumor ( como Mathias 
de Albuquerque, que eítava prezo por vir injuftamente 
capitulado do governo das Armas de Parnambuco, lhes 
aconselhava ) ficara muito duvidofo o fucceíío da empre. 
za , e quando fe confeguira, fora á cufta de muito langue i 
porque os Caftelhanos que andavaõ eípalhados pela Ci- 
dade ( que eraõ em grande numero ) achando corpo a que 
fe unir, pudéraõ fazer duvidofa oppoíiçaõ , e o Povo fe vi- 
ra que os confederados achavaõ reíiftencia , difiicilmente 
fe declard,ra \ porque poucos faõ os corações , que íe arro- 
jão voluntariamente aos perigos fem alguma efperança 
da vidloria. Mathias de Albuquerque vendo que os Cafte^ 
lhanos naô aceitavaõ o feu primeiro parecer, como era 
Confelheiro de guerra , e naõ fabia a caufa do rumor , fez 
cerrar as portas , e guarnecer as muralhas , querendo pre- 
venir a artilharia. Chegou a primeira ordem da Duqueza 
de Mantuâ a que obedeceo D. Luiz dei Campo, ainda 
que entendeo , que a Duqueza a paílára violenta. Veio 
fegunda ordem para que fe naõ fortificaíTe o Csílello, a 
qual confiderando Mathias de Albuquerque íe recolheo 
ao feu apozento , tendo já noticia de tudo o que havia 
paíTado , de que lhe refultou a maior alegria , vendo oc« 
cafiíõ de ter exercicio o íeu grande preílimo em utili-da- 
de da fua Pátria. Naquella noute fe arrimarão ao Caftel» 
lo todas as Companhias da Ordenança , e no dia feguin- 
te á tarde checou D. Álvaro de Abranches, Thomé de 
Souía , e D. Franciíco de Faro com ordem da Duqueza 
para D. Luiz dei Campo entregar o Caílello : pareceolhe 
a elle que noo vinha muito diítinfla »* apontando as duvir 
Èntreça-fe o ^^^5, íe lhe paíTou como a pedio. Tanto que lhe chegou a 
capiío, ordem mandou abrir as portas , entrou dentro D. Álvaro, 
e os mais que o acompanhavaõ , e tomou poíle do Caftel- 
lo , que os Governadores lhe haviaõ entregue até que El- 
Rey chegaíle ,' foltou JSilathias de Albuquerque , e Rodri- 



Py4K7E 1. L1V%0 11. iiy 

í?o Botelho Confelheiro da Fazenda , que também eftava 
prezo por huma pendência , que teve com hum Mercador, Anno 
Mandou D. Álvaro lançar bando , que os Soldados Caíle» ,/ ^ 
lhanos que quizeflem ficar ler vindo a ElRey D. Joaõ fe '^ • 
lhes pagaria pontualmente , apontando-fe-ihes outras co- 
modidades ; aceitarão muitos, os mais íahiraõ formados, 
privilegio da capitulação , que fizeraô : alojaraõ'OS nas 
Tercenas, fitio fora da Cidade» e deraõ'Ihes logo paíTa- 
portes para que divididos paííaílem para Caítella. D. Luiz 
dei Campo tanto que chegou a Madrid o mandou EiRey 
prender / vendo perdida a honra , perdeo o juizo ,* íe fi- 
zera efta confideraçaõ antes de entregar o Caítello, pu- 
dera evitar huma , e outra difgraça. 

No mefmo dia , que o Caítello, fe renderão as ^enâem'Ce a 
Torres de Belem , Cabeça íecca , Torre velha, Santo Torres. 
António , e o Caítello de Almada ; receberão ordem da 
Duqueza de Mantua , e fem refiítencia alguma íe entre- 
garão , fazendo o medo o eíFeito , que naõ pudera facilr 
mente confeguir o poder dos confederados. A Duqueza Retira-fe a Btei 
de Mantua mandarão os Ge vernadores fahir do Paço para queza ao Paça 
o de Xabregas, acompanhada do Marquez de la Puebla , dexavregau 
que lhe aíTiítia ao Governo , do Conde Baineto íeu Eítri- 
beiro mór , e da mais gente de que fe corc^nha a fua fa- 
mília. Haviaó os dous íido prezos , e D. Diogo de Carde- preNdem-feoi 
nas Meítre de Campo General , Thomás de Hibio Calde- Minljiros àc 
ron Coníelheiro da Fazenda , D. Diogo da Rocha Juiz do Cajicila, 
Contrabando , e D. Fernando de Albia e Caftro Confe- 
lheiro da Fazenda; no mefmo Sabbado da acclamaçaõ in- 
tentarão D.Diogo de Cardenas, e o Marquez introduzir-fs 
no Caítello primeiro que fe rendcíle , naõ lhes foy poíTivel 
confegillo, de que moftráraõ grande fentimento , perfiia- 
didos a que, fe defendeffem. o Caítello , poderiaÕ divertir a 
empreza , ou ao menos aguardar nelle o íoccorro d'E!Rey 
Catholico. A Duqueza de Mantua acompanhada do Air 
cebiípo de Braga chegou ao Paço de Xabregas, eíteve ne- 
íte apofento até que a mudáraõ para o Convento de San- 
tos , que fuccedeo dentro de breves dias , e em huma , e- 
outra aífiítencia foy decorofamente íervida , e ref peitada. 
Tento que no dia da acclamaçaõ fe executou felicemen* 

H2 te 



itó PORTUGAL RESTAURADO , 

te tudo o que fica referido , partio Pedro de Mendoça , ê 
'Anno J<^'S- ^q Mello peia poíla com avizo a EIRey da fortuna , 
i6j.O ^^^^ ^^'""^ ^^ coníeguiria taõ árdua , e taõ glonoía eirprefa. 
"^ ' Chegarão a Villa Viçofa á fegunda feira a tempo que £U 
^atte Pedro^de Rey cjueria entiat a ouvir o Sermão na íua Capella, de- 
■^^'"^f^^l^fj"-- raõ-iJie a nova, beijaraó-lhe a iricõ, e mandou íem íe 
darcúntaaEi- P^'íurbar que íe continuaíle a loiemnidade , íocego qu2 
Rey. bjiftára para o fazer digno da Coroa : porem o alvoroço 

neõ deo lugsr a íe íeguir eíla ordem, e EIRey veiido quan- 
•Parte a LLhoa, to ccnvinha paTtifíe com brevidade para Lisboa, fe m.c- 
teo em hum coche fcomparhado neile do Marquez de 
Ferreira , e do Conde de Vimiofo , ( que ja com o avizo 
da acciamaçaõ havisó chegsdo, tendo primeiro folemnc- 
menteacclamado a EIRey em Évora) de Pedro de iMen- 
doça , e Jorge de Mello ; e â csvâllo', de alguns criados de 
"He cd aio ^^^ ^^^^- Sem mais tropas que o feguifiem partio EIRey 
tínEvora.tnos P^''^ Li&boa 3 tomsr poíle de hum Reino, que os Pvcys 
tnais Lugares de Caítella , fcrmidaveis a todo o mundo , íenhoreáraó 
JfMenítejo. feíTenta annos , e haviaõ de pretender reílaurar como a 
pedra de maior valor da fua Coroa: porém ja eíta refo* 
Juçaõ era penhor das felicidades que depois confeguio. As 
Villas de Montemor, eArrayolios, por onde EIRey paf-^ 
fou , e os mais lugares da Província de Alemtejo a que 
fez avizo , antes que fahiíle de Villa* Viçofa , o acclamá- 
rao com as demonítraçoens rr;sis alegres que lhes foy pof- 
iivel. A' quarta feira chegou E'Rey a Aldeã Gallegâ, onde 
achou qus o efperavaõ muitos Fidalgos, e outras peíToas 
Ecclefiaíticas, e Seculares; recebeo a todos taõ benigna- 
mente , que ra primeira acçso confeguio entregarem-lhe 
íntranip.rj em Hos c^rsçoens as liberdades , e as fazendas. Namanhãade 
zhloa, herece- quinta feira fe embarcou , e ás nove horas chegou a Ponte 
hão 'om u;ii- ^ 1^ ^ Índia. Eftavaõ no Paço os Governadores, e comç 
nso efperavaõ EIRey tao brevemente , tanto que íe ef- 
p'^ílhou a nova de que era chegado correo ao Paço, e ao 
Terreiro tanta gente , e foy de forte o alvoroço , e as vozes 
alegres do Povo que por inílantes lhe era neceíiario che- 
' ' gar EIRey ás isUiellas ; porque a fede de feos Vaííallos íe- 

naõ íatisfazia vendo-o repetidas vezes. Naquella tarde 
beijáraQ a niaõ a EIRey todos os Tribunaes , e accreícen- 



PJP^TE I. LIVRO II; 117 

tou a alegria levantar por íeis mezes o Auditor da Lega- 
cia o Interdido , que o Colleitor havia deixado , porém AnnO 
com eíteocculto privilegio. ^Multiplicou-íe o contenta- j/'jri 
mento com os avizos de todas as Cidades , Villas , e Lu- ^ ' 
gares do Reino, que coníirmavaõ naò haver parte algu- J^'^^^^^-^^^^* - 
ma, que lem mais elpeculaçaõ , que a do alvoroço , mó * 

íizeíTe oílentaçaõ da tua íidelidade, ( lucceflo raras vezes 
acontecido noniundo) havendo fó em Alemtejo alguns 
Lugares , que tiverao anticipada notícia do que fe tratava, 
e íendo tantos os das outras Provincias , que conlinavaõ 
com vários Lugares da Monarquia de Caílella. Mas como 
Deos havia oilpofto a íeparaçaõ deftes dous Reinos * 
decretou , que anoitecendo o ultimo de Novembro, unidos 
cora o do i inio de Caítella , parentes com o trato , amigos 
com o comercio, enlaçados com os intereíles , a manhãa 
do primeiro de Dezembro , o meímo golpe, que cortou 
a vida a Miguel de Vaíconcellos , univeríalmente facodií- 
íeodominio, deíataíTe o parentefco , quebrafle a amiza- 
de , defuniífe os intereíles ; que a primeira voz , que sc- 
clamaíTe ElRey D. Joaõ em Lisboa, foafle em todo o Rei- 
no ,'voalTea todas as Conquiítas, ecomo fe os inílrumen- 
tos eftiveííem acordados iizeíle em todos os ânimos Por- 
tuguezes a meíma confonancia j grande havia de fer a in- 
credulidade para fe naõ conjecturar da felicidade do princi- 
pio defta empreza a fortuna do remate delia. Santarém - » j- • 
foy o primeiro Lugar, que acclamou ElRey (em receber a^ÍRcy^^tcdfs 
catta de Lisboa. Em Coimbra recebendo-a , foraô exceíli- ^i Provindas, 
vas as demonftraçõey. O Porto duvidou , mas reduzio*fe 
em breves horas. O Caílello de Viana , guarnecido de In- Eende'je o ca* 
fantaria de Caílella , fe poz em defenfa , atacarsõ^o , e ren- P^^" ^' yi^na, 
dera5'o galhardamente os moradores , ajudados de algu- 
ma gente de Braga , Guimarães, e outros Lugares. Em "^^ ^^ settãal 
Setúbal o Caileilo de S.Filippe , e a torre de OutaÕ refií- '^^llJda. 
tiraõ oito dias , paílados elies , fe entregarão. O Reino do '^^'' ^ 
Algarve , que governava Henrique Correia da Silva , c,^^^ ^ f^^imo 
obrando grandes íinezas a íua diligencia » íe defunio de exevf.oo r«- 
Caílella \ e finalmente todos os Lugares , que eraõ demar* «" (^0 Akarvt^ 
cações antigas , e feparaçaõ dos Reinos , scclamarsõ o no- 
vo Rey. Para coroar a obra , e FiRey íe Cçroat fem cui- 
Tom. I. H 3 dado 



Tt^ POUTUGAL 1{EST JURADO ; 

dado algum , faltava fó para render a Fortaleza de S.GíaSí 
jinnO huma das mais excellentes de Europa, síiim pela for tifir 
16 An caçaõ por fer quaíi inexpugnável » corro pelo fitio , por 

' V "^ * dominar todos oç navios, que entraô pela barra de Li boa. 
'l'anto que deraõ lug r as muitas difficuUiades , que mila- 
grofamente fe vencersõ, mandou ElRey a D Franciícode 
Soufj , que juntando á gente, de queeltava teito Meftre 

w*: j o r,' s. de Campo , o nuTiero maior doi íoidados da Orde nança ; 
que lhe folie p^ílivel , marchalle a atacar a Fortaleza de 
Ò.Giaõ : he pouco o fitio , que el!e dá á terra para a expu* 
gnaç õ , porém efte tem hum mente taõ vizinho, que rica 
pad alio á Fortaleza. Levantou íe nelle hum redudo , e 
começ >ra5 a jogar quatro ir.eios canhões com pouco eíiei- 
to, e deo principio com menos íciencia hum inffU<íluofo 
aproche Governava a Fortaleza o Tenente D.Fernando de 
la Cueva , o qual logo defpachou avizo por 1 u 1 Caravela 
ao Daque de Maqueja , General da Armada d EU-ey Ca- 
tholico, pedindoMhe foccorro, de que poi.co neceílitára 
em muitos mezes , fe quizera defendcffe, tendo na Forta- 
leza mantimentos , e munições em grande quantidade e 
íeilcentos foldados, baftante prefidio para a pouca terra» 
que defendiaô , e para refiltir á infuffíciencia dos expugná- 
dores. Eftava prezo na Fortaleza , por ordem d'elRey Ca» 
tholíco, D.Fernando Mafcarenhss, Conde da Torrei havia 
paíTado ao Brafil no anno snt cedente com a poderofa Ar- _ 
mada , a que fe unio a de Caftella , com o fim de reítdU- 
rar Parnambuco, como ja referimos- Chegando o Conde a 
Lisboa o prenderão , e antes de fer fentenweado lhe tirarão 
o Titulo , e todas ssrrercés , que lhe havi?õ feiío qud!> 
do fe embarcou. Vendo pois aberto o caminho de coníe* 
guir , com a liberdade do Reino , a (ua liberdade , e a im- 
portância daquella Fortaleza , fe refolveo a propor ao Ter 
nente o? grandes intereíTes , que lhe podiaõ refultar que- 
rendo entregalla , cfferecendofeihe taõ boa occaílaõ C04 
mo raõ haver outro Lug^r no Reino, que naõ eftivefie 
tendido. Ouvio o Tenente a pratica com bom rofto , fo- 
mentou'a o Conde, aiuftáraô a recompenfa, e celcbrou- 
fe a entrega da Fortaleza a doze de Dezembro depois de fe 
difpararem por concerto , e (em dano , alguas peç^s de ar- 

tilh^^-iia 



PARTE I. LIFRO II. 119 

filharia de hua , e outra parte. Tomou poffe da Fortaleza 
D. Francifco de Sou la : ( dous dias antes fe havia rendido 
a de Caícaes a D. Gaftaõ Coutinho ) ao Tenente íatisfez 
EIRey com huma Comenda , e outras mercês a refoluçaõ 
que tomou mais útil, que briota» Do avizo que havia tei- 
to ao Duque de Maqueda reíultou defpedir logo três Sé- 
tías, e hum barco longo á ordem de D. Sabiniano Manri- 
que com Infantaria, e munições. Chegou â barra dia de 
Natal , e faltou em terra fem íe acautelar , acompanhado 
de hum Capitão , e dez foldados ; foraõ viftos , e logo pre- 
zos , as embarcaçóej reconhecendo efta dilgraça fe retira^ 
raõ. O mel mo íuccello teve o batei de hum avizo, que ve- 
io feguindo as Sétías com maior foccotro ,• o Capitão del- 
le mais acautelado , mandou reconhecer por nove Solda- 
dos a quem a Fortaleza obedecia •, perguntaraõ-o ellei 
do batel i rsíponderaó-lhe da Fortaleza , que a EIRey de 
Caítella j enganados deíla confiança íaltáraõ em terra , fi- 
carão prezos , e o navio livre de algumas bailas que lhe 
tiráraô fe voltou para Cádis. Outro de Canárias entrou 
pela barra obrigado de hum temporal i trazia algumas pef- 
foís principaes com fuás famílias,* a todos mandou EIRey 
dar paílaporte para Caílella. 



Anno 
1640. 

Enírega-fe SaÕ 
Ctad. 



P riza o de Bem 
^.aiiniano MA' 
ri que* 




H4 



HISTO. 



Pag. Ill 




HISTORIA 

D P 

PORTUGAL 

RESTAURADO. 

LIVRO III. 



S U M M A R I O. 



URyiO aElRey os Três Eftaãos do 
Rehw, Solemnidaãe do Juratiiento, 
Eleição da Officioes da Cafa.e Mni- 
ftros para o Governo. Entr ao em Lis' 
boa a Rainha^ Príncipe , e Infa7:tes. 



^^^i^i^^-í^ ChegaÕ dCcrte osEidahios divididos 
por todo 9 Reir.o. Chama ElRey a Cor- 
tes , ondefoy jurado , e o Príncipe D- Theodofio por 
Herdeiro e Succef^or defte Remo. Levanta os tribu* 
to i po fios por Caflella. Ajuftao-Çe em Cortes os meios 
para a âefenÇa do Reino. Pajfaoje algtirs Fidalgos 
para Caflella. Alter a-\e o Povo ^ que ElRey f o cp^ a 
com prudência. Acclama-fe ElRey na liba da Ma- 
deira. 



Anno 
1640, 



122 PORTUGAL hestavrado, 

ãeira- Seguem ai ma s e/fe exemplo. J^efendem-fe OJ 
Anno Cajtelhanos noCaftello da LlhaTeyceira'- fniaóoos 
16^0, moradores i e ejitrega-fe. Chega a nova da /ice lama* 
ça6d'ElRey ds Fraca) de Africa : obedece lhe Ma^ 
zagao , e o Reino de Angola. Duvida Tangerei e Ceut 
ta nega a obediência. He acclamado em todas as Fra* 
ças da América ^ e em todo o Domínio da Afia. Bre^ 
ve relação do Eftad) da índ'a. DifpofiçÔes d» Gover- 
no d'ElRey. Manda Embaixadores aos Ft ine.pes da 
Europa. Noticia dos acontecimentos de todos. Nob e 
empreza do Cinde de Ca fiel- Melhor em Cariagsna, 
Succejfos do Infante D. Duarte^ fuaprizaÒ, e morte. 



E 



M quanto fe acabavaõ de vencer tontas diííicul- 
dades » fendo as diligencias mais poderofas que 
as contradicções , preparava Lisboa a íolemni- 
dade de Coroar ElRey, e dar-lhe em nome de to- 
do o Reino juramento de obediência , e íideiida- 
forma iojura^ de. Diípoíbo tudo O que era neceíTario para fe celebrar ef- 
mentod'tlRey. tc ado , íe Icvantou a quinze de Dezembro no Terreiro 
do Paço hum theatro , que igualava com as varandas do 
nieímo Paço , adornado magnificamente. Baixou ElRey a 
ellecom todas as infignias Reaes , acompanhado da No- 
breza, e peílbas principaes da Corte na forma dos Keys de 
Portugal. Vinhaó exercitando OJ officios da Cafa Real to- 
dos aquelles que por privilégios antigos tinhaó OLCupa- 
çaônella, conciliando ElRey os ânimos de íeos Vafial- 
los na obfervaçaõ da juíliça que guardava aquelles» ern 
^/« • ^ r^r^ que primeiro íe exercitava o feu poder. Era Mordomo 
£ mór D. Manriqae di Silva Marquez de Gouvea , Carne- 

reiro mó' Joaõ Rodrigues de Sá Conde de Penaguião , Eí- 
triheiro mòr Luiz de Miranda Henriques , e Veador D. 
Pedro Mafcarenhas filho mais velho do Marquez de Mon- 
• taWaÕ Servia de Meirinho mór DJoaõ de Gâllello^branco 
por feu irmâô , que hivia ficado em M.idtid, de Guarda 
mór Peiro de Meidoçi, de Alferes mór Fernão Telles 
de Msnizes. VmHa o Mírqasz de Ferreira com o eílo- 

que 



PJRTE 1. LIVRO III. líj 

que defembainhado exercitando o officio de Condeftavel. 
Elegeo EiRey por Secretario de Eílado Francifco de Lu- AnnO 
cení, me-tcij. cccupsçaõ da lua grarde capacidade. Sahto |^ .„ 
tJR"y vrftido de r?í]o pardo bordado de ouro com botões, "^ * 
e Cidea de diamantes , trazia ópa de tela branca íemeada 
de ran^^os deouio, ÍLfttntava-lhe a íalda , que largamen- 
te íeextendia, o Cameft.'i'o rrór. Sentoa-íe debaixo de 
hum docel em lugar alto adornado das infignias Reaes , e 
depois de romaron os q'ie IhaaíTuticíó os lugares que lhe 
tocavaô , fez huir.a O aqô muito eloquente o Ooutor ©^^^^^^ ^^2,^^; 
Francií'co de Andrade Leitaó Deíerrbargador dos Aggra- tor Framijcode 
voi. Molb-ou relia com prudentes razões a juftiqa com ^^dradeieitai 
que os 1 re$ hftadcò do Reino reftituiaõ a ElRey,que eíla* 
Vd preíenle » a Coroa , ufurpada á Duqucza D. Catharina 
íua Avó por Fiippe 11 Rey de Caílella*, fez prefente a 
ElRey a vontade com que os Povos oírVreciaõ , pelo de- 
fán der , e perpetuar na Coroa , as vidas , e as fazendas i e 
aos Povos a refoluçaó com que ElRey determinava ex- 
por-fe aos maiores perigos pela coníervcçaó da fua liber* 
dade. Ac- h?ài a Or?çaõ le teguio o jursmento a que deo 
principio Dom Miguel de Noronha Duque de Caminha. 
Foy ElRey Dom Joaõ jurcdo por legitimo íuccefíor dos 
Reinos, e Senhorios de t^ortugal pata íi , e feos defcen- 
dentes, e prometteo a feos Vallallos de lhes g' ard^ar io- 
das as ifençóis, e franquezas que lhes fortõ concedidíís 
pelos Revc- <eos antecefiores. Rematou-fe o ado defenro- 
lando o Alferes mor a bandeira, e dizendo três vezes ; Rsal 
por ElRey D. jo:ô quarto, Rey de FortPgal : a que com 
repetidos vivas refpmdeo todo o j^ovr. Feita cita ultim^ 
ceremonia , defeco ElRey ao Terreiro , montou s cr-vr^Uo 
debaixo de hum Palio , acompanhado s pé de toda è No- 
breza defcoberta , lev^ndo-o de rede^ D. Pedro Fernandes 
de Cpftro , em auíencia do ( onde de M^nfanto Aíc.^ide 
niór de Lisboa. Na Praça do Pelourinho eftava hucn thea- 
tro muito bem adereçado: parou EiRey diante delle , e 
ouvio hu3 Oroçaô ao Doutor Francifco Rehello Homem Orà^at^errá. 
Vere dor da Camer^ , que continha o alvoroço do Povo, 'll[l^yfrlad'»r 
e a reloluçaô de defender en preza tsõ g^oriofa. Acab?da TaCamtra, 
a Oraçâõ, lhe entregou as chaves da Cidade o C onde de 

Canta" 



IJ4 PORTUGAL RESTAURADO, 

Cantanhede Prefidsnte do Senado. Continuou ElRey o 
Anno caminho á Igreja Cathedral da Sé , onde fe apeou a dar 
\6±Cí graças a Deos. Cantarão os Muficos o Te Deum landa" 
' T" mus entre vivas , e lagrimas alegres de todo o concurío. 

Voltou EIRey ao Paço com repetido applaufo, e alegria 
de toda a Corte, defprezando todos os perigos , que amea- 
çavaô o Reino , e a confideraqaõ da offenía feita a hum 
Rey vizinho , e poderofo. EIRey naó dilatou , como era 
neceílario , nomear Miniítros pára o Governo , que logo 
continuou com a vigilância, e attençaõ , que pediaõ os 
muitos accidentes , que por horas fobrevinhaõ , e as gran- 
des prevenções de que eílava pendendo o empenho , em 
kUhMiniíiros ^^^ ^^ achava. Nomeou pára o dei pacho de todos os dias 
* ao Arcebiípo de Lisboa , e ao Viíconde D. Lourenço de 
Lima i dentro de poucos dias ao Marquez de Ferreira j 
paíTado mais tempo ao Marquez de Gouvea. Alem deíles 
para oConíelho de Eftado ao Arcebiípo de Br.;ga , ao ín-^ 
quifidor Geial , ao Marquez de Vil)a*Real , que ja por Ca- 
Itella tinhaó efte exercício , ao Conde do Vimiolo, a feu 
irmaõ Dom Miguel de Portugal Biípo de Lamego , e ao 
Marquez de Ferreira. O Concelho de Guerra , Prefiden- 
cias , e mais occupações da Corte, repariio EIRey pelas 
peíloas de maior mericimento. Oá Governos das Armss, 
e mais Poftos Militares entregou aosfogeitos, de que 
adiante daremos noticia , quando dermos principio aos 
íucceíTos da guerra. Dia de Natal pela manhãa paflou EI- 
Rey a Aldeâ-Galega (Viha que com três léguas dediílan- 
cia divide de Lisboa o TeJQ , opulento com as aguas do 
Oceano com que íe communica ) a efperar a Sereníssima 
chegAaKamhA Rainha Dona Lulza de Gufmaó fua mulher , que para ma- 
a Aldeã Galega iof alegria dos Portuguezei trazia comfigo feu íilho mais 
velho o Príncipe D. Theodofio , e as Infantas Dona Joan- 
na, e Dona Catharins. Acompanhava a Rainha o Marquez 
de Ferreira , que hrs via partido a bufcalla , Dom Vaíco da 
Gama Conde da Vidii>ueira , e Dom Franciíco Coutinho 
Entra em Vi'.- Coude do Rodondo. Élegeo a Rainha por fua Gamereira 
boa.eformafé- mói a Marqueza de Ferreira ; nomeou EIRey por feu 
ihacafa. Mordomo mór a D. Sancho de Noronha Conde de Ode- 
mira,- díO'lh2 para Eítribeiro mór a D. Luiz de No-onh^, 

ea 



PAmE 1. LIVRO III. 12 j 

e a Pedro da Cunha , que era feu Tenerte, fez íeu Vta- 
dor. Entrou a Rainha em Li&boa com univerfal comen- AnnO 
tamento: nomeou k go poi Aya do Ptincipe , e Infantas iAaq^ 
aD.MariannadeAlancaílre , viuvade Luiz daSilva; cr- ^ ' 

nou o Palácio das niais qualificadas , e forípoías Damas da ^* 

Corte , e dos MiniDos n.ais iHuítres » primeira deCconíian- pí^ 

ça dos Caíleihanos , diícurfando priidentenr.ente , que os ij 

altivos ânimos dos FiJ .Igos de Portugal naõ entregavaõ 
leos íilhos a íervir, íenaõ a hum Rey , a quem dcurmi- 
navaõ defender. 

No tempo , que ElRey fe acclamou slTiíliaõ va- ^oTicorrem ii 
rios Fidalgos retirados da Corte em Lugares differentes, tÚi.iI.os defó» 
molell^adcs do governo de Cafrella, e todos com íííma di- ra a aar obedi* 
ligencia concorrerão a celebrar a nova liberdade. Era hum «»''* * tlRey. 
áelles D. Fernando de Menezes > irmaõ mais velho de D. 
Luiz de Menezes , Author defta hiíloria : havia paííado a 
Madrid, e trocando pelo exercício militar o requerimento 
do Titulo de Conde , que lhe eftava concedido, fe refol- 
veo a acompanhar o Marquez de Lagaííes , que paflbu na- 
quelle anno a halia , 2chando*í"e dous annos continues nas 
occafiões mais importantes daquelle exercito , fe retirou 
a íuacaía, obrigado de huma grande enfermidade , fem 
ElR.y D. Filippe lhe deferir ao requerimento, nem lhe 
lâtiífazsr as finezas executadas em íeu ferviço. Chegou- 
lhe ao Louriçal ( Lugar, que diíla féis léguas de Coim- 
bra , ro qual píliítia) a nova da accUmaçaÕ d'elRey : no 
mefmo dia partiopara Lisboa, acompanhando-o feu irmaõ 
D.Diogo de Menezes , que foy dos primeiros íoldsdos, 
que vslerofamente fe oppozeraõ em Alemtejo á inv.ifí 6 
dos Críílelhanos , e dos piimeiros Vafíallos da fua etSévz , 
que glorioíatrente deraõ a vida pela liberdade da íua Pá- 
tria. Chegarão brevemente á Corte, onde ElRey os re- 
cebeo com a afTabilidade herdada na Coroa i pois forro 
íempre os Reys át Portugal igualaiente Senhores , e Pays 
de feus Vallallos: politica de que lhes refultou alarga* 
rem tanto os Rair os da Planta Portugueza , que reco^he- 
rciô enxertados n-sis precioíos frudos , que aquelles da 
que tirarão o primeiro alimento. Segulo a D. Fernando 
de Menezes toda a fua faípUia, e poucos dias depois de 



i2á PORTUGAL RESTAURADO; 1 

haver chegado â Corte , offereceo D.Luiz de Menezes fea 
Anno irniaõ ao lervico do Príncipe D.Theodofio , tendo a mefr 
-• maidade, que fua Alteza , que eraõ fete annos. Foy eíta 

£040. 3 ^yj primeira , e maior fortuna , criando'fe com a doutri- 
nadefte excellente Príncipe, a que aíiiftio oito annos con- 
tinuos, alcançando fem differença o maior favor íeu , pai 
ra que padecelle eterna faudade da fua gloriofa vida na fua 
intempeftiva , e lamentável morte. Moílrava o Principe 
nas primeiras inclinaçoenf o feguro alicerfe , em que fe 
fundarão as efciarecidas virtudes , que depois reíplande- 
ceraô no feu animo. Era feu Meftre D. Pedro Pueros, Ir- 
landez de naçaõ , virtuofo nos coftumes , pratico nas fcien- 
cias. Dava o Principe liçaõ de Latim , a que D. Luiz afli- 
ítia, para que a curiofidade íe incitaíTe com acompeten» 
cia : depois deita liçaô tinha o Principe hora dedicada para 
ouvir ler a hiftoria ( hum dos mais úteis exercicios , que 
merecem levar o tempo ) porque na hiíloria íe encontrão 
virtudes para imitar, vicios de que fe deve fugir, exem- 
plos que provocaõ o valor , fortunas que incitaó o animo , 
difgraças que moderaõ o efpirito. Cultiva de forte o in- 
, genho , que he na tenra idade flor , nos maduros annos 
frudlos ; e ultimamente íem controverfia he o melhor em- 
prego de todas as potencia-s da Alma ,occupa mais utilmen- 
te a memoria , engrandece mais nobremente o entendi- 
mento , fujeita mais virtuofamente a vontade. O diver- 
timento , que o Principe buícava para o trabalho deites no 
bres exercicios era aprender a pintar , e a fabricar hum 
rologio , íendo grande credito da fua virtude vaierfe da 
taõ Jnfignes artes para deCafogo das melhoresjiçoens , e 
veio a confeguir , formando-o a natureza taõ perfeito , 
achar nelle diípofiçoens para ter ciúmes a arte. Nis u!tj- 
mas horas do dia formando dos mininos , que lhe aíliltiaò , 
huma Companhia, de que era Capitão , bebia fuavemente 
a difciplina militar , e no manejo das armas hia fortaie- 
cendo o corpo : e porque aquelle , que naceo para paflear 
o mundo , pouco importa que feja delicado •, quem o ha de 
fuílentar fobre os hombros convém i q-ie os crie robuf- 
to?. Eftas primeiras difpofiçôes confeguiraô pe'o tempo . 
adiante , que o Princips nos breves annoi de fua vida vief- ^ 

Is 



PJR7E 1, LIVRO 211. 127 

fe a nflô largar a penna da maõ qus fuftentava a efp ada, 
uniaõ taõ util , como enfina aíetta, com a penna voa o AnilO 
ferro que ha de ferir. Neftes , e outros fiiiiilhantes exer- ^á^q 
cicios cultivava os primeiros annoi , íervindolhede ver- 4 ^i 
dadeira doutrina os Vârios cafos qiie via na Corte , e fuc- 
ceíTos que ouvia da guerra , aprendendo igualmente na 
pratica , e na theorica. 

Chegou a Madrid a nova de fer gcclamsdoo Du- Jr/J^ JcVw 
que de Bragança Rey de Portugal a íete de Dezembro, auifjjçll " 
defpedio o avizo o Corregedor de Badajoz , mas como foy 
com as primeiras noticias , e o cafo eia taô fingular , hia 
taô confufo que naõ dava lugar a elguraa reíoluçâõ; ler* 
vio íó de deípacharem correios a vanas partes para fe an- 
ticiparem algumas prevençoens , e de fe avizar ao Impe- 
rador de Alemanha , peòindo'lhe rnandsíle ter cuidado ra 
peíToa do Jní^ante D. Duarte. O Sccrctâiio Diogo Soares 
receando o perigo , que lhe occafionava taõ grande golpe, 
defpedio hum confidente com ordem que avciiguaiTe em 
Lisboa a verdade do fucceílo \ tanto que chegou foy lo- 
go preío , c declarando a caufa da íua jornada , o íoltárcô 
lem caíligo. Fez maior a confuíaõ da Corte de Madrid 
chegar a elJa o Conde de Figueiró , que havendo partido 
de Lisboa os últimos dias de Novembro , naõ dava noti- 
cia da acclamaçaõ. O primeiro que tirou a duvida foy hum 
Caftelhano criado Q*ElRey D. joaõ que o fervia em Villa- 
Viçofa , o qual fe paííou para Caílella a dar noticia de tp* cprecem-fg tt 
do o que havia acontecido. Tanto que fe rompeo em. Ma» ndaigosonecí- 
drid eila certeza, os Fidalgos Portuguezes que íeacha- ^«^ .^^ f'» aí^- 
Vâõ n-aquella Corte íe foraõ ofFerecer a ElRey para a Con- TeCaMil? 
quiíla de Portugal , os mais delles com o coração na de- ' 

fenfa da fua Pátria , como , paíTado pouco tempo, juílifícá- 
laõ , e contando os que aíTiíliaõ em Madrid , e es que an- 
davaõ repartidos em varias partes fervindo ElBey de Caí- 
telJa, eraõ oitenta os que fe achavaó fora dcfte Reino, 
entrando nelles alguns Ecclefiaílicos ,• grande numero pa- 
ra faltar em Reino taÕ pequeno. A hifíoria hirá dsndo 
noticia a feu tempo dos nomes de todos. Repartio ElRey 
D. Filippe os juros que vagársõ das pcíloas que ficdrgõ em 
Portugal por muitos deíle§ Fidalgos , naõ paílando cída 

mez 



12^ WtTUGAL 1{ESTAUP<.AD0 ; 

ms2 o maior diípendio de três mil reales. Foraõ vários oi 

AnnO juízos qâJe fsfizeraõ em Madrid fobre o remédio que íe. 

^ h^via de applicar a matéria taõ importa^ite : os de meihoc. 

1640. diícurfo eraõ de parecer que o exercito de Catalunha ( in-, 
Difcurjos Mre jq[};q caíligo daquella Província, e motivo principal da re« 
aConciHiili ds fo^yçj5 q^^ OS Portuguezes tomarão ) pallaíielao;:» a Ba-., 

dajoz , porque fem duvidi lograria no primeiro tinpulfo 
a Gonquilta de Portugal , que paíTado mais tempo feria 
diílicilemprefa. Cegou Djos o Conde Duque deíordena-, 
damente apaixonado contra os Catalaens peias razoens re- 
feridas ♦ e refolveo que fe continuaílem os progrelTos da 
Catalunha; e em verdade que julgada cila mneria pe« 
los meios humnnosi parece que fora muito difficultoía a 
defenfa de Portugal , faltando nelle quall totalmente 
loldados, difctp!ina, cavallos, armas, e dinheiro ^ mas 
como todas as dlfpoíiçoens erao encaminhadas pelo Au- 
tor das acçoens humanas, para defempenho da palavra 
dada a ElKey D. Affonfo Henriques no Campo de Ou- 
rique , era preclío que 0$ abíurdos dos Caítelhanos á\U 
puzeílem os noííos acertos. Adiante daremos noticia dos 
AnnO Gabos, e das tropas que diílribuiraõ pelas fronteiras de 
Portugal. 

1641. Entrou o Anno de 1641.6 chamou ElRey Cor- 
chama HlRey tes para víute 6 outo de Janeiro , concorrerão todos os 
D.joaoaCor- Procuradores das Cidades , e Villas defte Reino que tem 
'"• . voto nellas. Celehrou-Ce o Aã) na fala dos Tudeícos com 
Be jurado El- ^^ ceremonias coílumadas. Jumraô os Três Eftados a El- 
Re'^,eo ^"'"' j^ey por ]gg^i(T;^^3 Senhordeítes Reinos, e por Príncipe, 
Oração de D. e fucceíTor leu ao Príncipe D. Theodolio que elUva aííen» 
Manoel da ch- ^g^Q debaíxo do docel junto a leu pay. Orou difcretamen- 
pi.a Biípo de jgQQ^ Manoel da Cunha Biípo de Elvas, encareceo na 
■\ ' Oração a ElRey o amor dos Povos, pois voluntariamen- 

\ te dedica vaó a íeu fervíço , e defenfa as vidas , e as fazen- 

das: moftrou aos Povos a refoluçaó , com que ElRey fe 
eíquecia de todos os perigas fó por attender â fua confer- 
vaçaõ, e liberdade, e chegando com elles ao ultimo ex- 
( tremo entregava á fuá condançao SereniíTimo Principe 

D.Theodofio feu fiJbo mai* velho, e nelle melhor Trs- 
iano íucceílor do melhor Nsrva. Com eftas, e outras elo- 

queiius 



PJRTE I. LIVRO 117: 129 

quentes razoe» deo fim á Oraqaõ. Depois de acabada fe 
continuou o Juramento , obrervando-íe os eílylos antigos, AnilÒ 
€0 ultimo que jurou deo fim ás ceremonias daqueUe dia. ,x j» 
No feguinte voltou ElRey fem o Principe feu íilho ao ^ * 
iTiefmo lugar com igual apparato ao dia antecedente. Fez primara fropo* 
o Bilpo D. Manoel da Cunha fegunda pratica , e primeira íiuetT^quefeU. 
propoíiçciõ de Cortes.Suavizou os corações dos Povos pu« J^^^'^J''' " '"' 
blicando por ordem d'EIRey, que havia por levantados 
todos os tributos impoftos por ElRey de Cattella , pru- 
dente refoluçaò para enlaçar em maiores empenhos 03 
ânimos generoíos dos Portuguezes. Exhortou o Bifpo a 
i]niáõ,e delinterene particular, achando próprio exemplo 
em o navegante, o qual fe por attender às íuas convenien* 
cias fe delcuida do governo ào navio , perigaõ na fua de- 
fattençaó naõ fó a própria vida , e o próprio cab^idal , mas 
as vidas , e os cabedaes de todos os paííageiro?. Deixou da 
parte d ElRey á eleiçio dos três Eilados do Reln3 os me- 
ios íT.ais proporcionados para a fua defenfa , oírerecendo 
para o diípendio da guerra todo quanto dinheiro lhe fo- . . 

bejalTe de huma pequena porção , que exceptuava para o 
luítento da Cafa Real, e todas as jóias, e prata lavrada , 
que havia nella , e na de Bragança. Acabada eíla Oração, Repo/Iaâo Boui 
refpondeo a eila Ja parte dos Povos o Doutor Franciíco ííiFra?:c}/coRe. 
Rebello Homem Vereador da Ca»nera. Continha a refpo- 'b^í-o^^mm. 
fta dar as graças a ElRey de anticipar aos Povos a mercê 
de lhes levantar os tributos , e offerecer da parte dos Po* 
vos em recompenia deite beneíicio as vidas , e as fazendas 
de todos para defenia » e fegurança do Reino. Acabado o 
ado das Cortes , ordenou ElRey que em três Conventos 
fe juntaílem divididos 03 Três Éílados. Em S. Domingos 
o Ecciefiaílico ; a Nobreza em Santo E oy: em S. Fran- 
cifco os Procuradores dos Povo?. Defpois de alguas con- 
ferencias, que deJiua parte a outra fe comunicavaõ, ma* 
nejando os trinta da Nobrezí?, que íempre fe coílumsó ele- 
ger , facilmente todas as matérias, naõ havendo animo al- 
gum , que naõ fe Gchaííe diípofto a obrar as maiores fine- 
zas. Ajuíláraõ que para guarnecer ss Fronteiras fe levsn- ^efolfícao ^as 
tp.flem vinte mil Infantes e quatro mi' Cavsllos; e feito corres f^-ra a 
o cómf u^o da difpeza, que podia f&zsr eíte Expirei to, fe 
Tom. I. i acf.cu, 



de/: i 



150 PORTUGAL 1{EST JURADO ; 

achou i que bailaria para o fuftentar hum milhão e outo 
AnnO centos mil cruzados : porém, apurada a conta, e conhecen- 
\6ax ^o'{q que a difpeza era defigual á receita, concordarão, de- 
^ ' pois de paflado algum tempo , em dar a ElRey deus mi- 
lhões. Para íatisfaçaõ defta cômputo dedicarão as decimas 
de tolís as fazendas , naõ fe exceptuando género algum 
de pefloa , que deixaíle de contribuir a dez por cento , de 
qualquer qualidaJe de fazenda de que folie íenhor , exce- 
ptuando-íe os Ecciellaílicos, que voluntariamente cfíere» 
ceraó das íuas rendas hum certo cômputo em cada Biípa- 
do confóí-me o rendimento delle. Os feculares que occu- 
pavaõ officio5, tinhaõ trato, ou logravaõ algiia mercê : pa- 
gavaó os que tinhaõ officios conforme o que elles rendiaõ» 
aos que tratavaó fe orçavaõ os géneros ; das mercês fe ti- 
rava nas Chancellarias de cinco hum , metade para paga- 
mentos das folhas ,* o que reftava applicado para as dif- 
pezas da guerra. Os Vereadores da Gamera de Lisboa ac- 
crecentaraó três reis a dous que pagava cada arraiei de 
carne : ao vinho quatro, de três que contribuía ; que íen» 
do a Cidade taõ populofa. e tJÕ abiindante , fazia gran- 
de ÍÕTia. Eíles foraõ os tributos em que os Povos volunta- 
riamente fe conformarão. Accrecentarsõ^fe defpois que 3 
guerra fez maiores defpezas : monitro taõ formidave',qu2 
nem do alimento fe contenta , nem. do ínngue íe enfaítia , 
w /. , r fendo os que mais favorece os primeiros que íacrifica.Def- 

lie pedem- e as -i-r-n-r? ^ i \ r ' ■ c -^ a 

Coras. pedio ElRey as Cortes , oando-ie por lati feito da contri- 

buição dos Povos , e os feos Procuradores partirão com va- 
inftim-íe aju. ^33 mercês contentes, e obrigados á grandeza d ElPvey. Fi- 
ía ãosTresEfta. cou inítitui Jn a Juiita dosTres Eítados apontando-fe Mini- 
*^' - ílros de cada hum delles para a diííribuiçíiõ dos tributos, 

de que refultou a EíRey , e ao Reino grsnde utilidade. 

S-jm contradicçaõ nem azar da fortuna tinha El- 
Rey Do Ti Jojo lançido as primeiras pedras no ediHcio de 
que eríí Senhor, e havia fido Atquitedto : porém como até 
o mefuo Filho de Deos naõ achou doze homens , que com 
fó hum covíçaõ o ferviíTem , e fem variedade nos affedlos 
^he obedeceilem , experimentou ElRey a primeira mole- 
/tia na refoluçaõ que cegamente tomàraô alguns Fidaí- 
gosdaquslles ínâímoí n que c^rn o laço do juramento ha 

viio. 



PJRTE I. LIVRO III. V51 

víaô atado a fua fidelidade > e com a quebra do jursíren* 
to deftruirao a fua opinião , naturalizada por tantos alcen- AntlO 
cientes, que eícurecendo a gloria paílada com o feu deía* ^ 
certo , naõ íó le prejudicarão a íl próprios , mas deixarão ^^4^ • 
aberto o caminho a outros , que trocarão oi triunfos em 
efpedaculos. He verdade que a empreza começada tinha 
as! elperanças longe , e os perigos perto : porém le 0$ que . 
deímaiavao tomarão por elpelno o fangue Poituguez , de 
que íe reveftiaó, delprezáraõ as difficuJdades , tendo por 
natureza arrojarenrle a impolfiveis ; mas parece que cbrou 
nelles a defconíiança de naô entrarem na acclamsçaõ , (>de- 
feito que tem prejudicado muito ás generolas acções Por* 
tuguezas ) Sirva^liies de dilculpa o que em outros foy vi- 
cio i e entenda*ítí que elta foy a cauía de fe paíTarem a 
Caíteila , para nos ex.:uzar"mos de referir os íibíurdos de 
que foy mappa o feu defacerto.Foraô os que tomarão eíta v^ifa'6'fe aca* 
infelice reíoluçaõ Dom Duarte de Menezes Conde úq piia alguns ik 
Tarouca , feos filhos Dom Luiz de Menezes, c D. Eíle* ^^^^'ifi^\. 
Vaõ de Menezes, fendo eíi:e de tenra idade, e que de- 
pois palTando-lc a Portugal moftrou generoíamente , que 
íó a falta do difcurfo pelos poucos annos que tiíha o 
obrigara a deixar a fua Pátria : D. Joaõ Soares de Alar. 
caó Alcaide rnór de Torrei»- Vedras , Mellre Sala d El- 
Rey : Dom Pedto Mafcarenhas íeu Veador , e D. Jerony- 
mo Mafcarenhas Deputado entaõ da Meia da Cunfcien* 
cia, em quem durou o odío ainda depois que conítgui» 
mos a paz , e viveo taõ arraigado no feu peito contra a 
própria Pátria, que os meímos Caílelhanos que lhe pa- 
garão com grandes lugares as finezas, que havia feito, 
abominavaõ.e deíprezavaò a fua contumácia : ercõ o& dous 
filhos do Marquez de Montalvfcô,qifeaífiílÍ3 por Vce-Rí:y 
do Brafil ,* os curros que íe pafiaraõ pyra Caíteila com eí- 
t^^s , foraõ Dl Lopo da Cunha , e feu fiiho D. Pedro Luiz 
da Silva filho de Lourenço da Silva , que por cego naõ ex- 
ercitava a ocwupaçaô de Regedor da Juftiça , para o que 
íeu filho tlpeiava id-«de. Comunicarão eltes Fidalgos en- 
tre fi o intento irifciice cue haviaõ sbroçado, ítndo Frey 
Man >ti de Mscedt- Religio-o de S. Dcmirgos ircentivo 
dd íua determinaçGõ , e mediar.6ÍKj do íeu dtíignio. P?ra 

I 2 facili- 



152 PORTUGAL HESTAUR^DO , 

facilítallo fe lhe oíFereceo occafiaõ opportuna : porque 
Anno ElRey naõ derogando mercc alguma feita por Caftelia , 
lÓAi iTisndou a D.Joaó Soares , que folTe a governar Ceuta , ao 
^ -' Conde de Tarouca Tangere , Lugares para que eílavaÕ 
nomeados antes d E!Rey í"e acclamar. Tomou ElRey ef- 
ta determinação íem ponderar a incerteza deíla diligen- 
cia , naõ confiando até aquelle tempo o partido que aquel- 
]as Prfíç 3s determiiiavÊÕ íeguir. Havendo recebido os dous 
Capitães de Ceuía , e Tangere as ordens neceílarias, 2ju- 
Itaraó com os mais referidos , que depois àz eílarem em* 
barcados , ao íetípo de dar á vela fe meteílem em hum 
bargantim , que fe havia tomado aos Caílelhaaos , e que 
ElRey tinha dada ao Conde d.í Tarouca por lho haver 
pedido para o ter em Tangere, e íe introduziíTem em 
hum de dous navios, que levavaõ. Miniílrou hum acci* 
dente eíle concerto ; porque achando-íe D, Lopo da Cu' 
nha com o Conde dos Arcos em huma pendência que teve 
com hum Corregedor do Crime , depois de prezo o Con* 
de , íe retirou D. Lopo ao Convento de Belém , onde fe 
juntarão os mais concertados na jornada , tomando o pre- 
texto de Iheaííiílirem no homizio. 

A íete de Fevereiro, que era o dia deílinado para 
9 execução, íe embarcarão o Conde de larouca, e D.Joaõ 
Soares com fuás famílias em hum navio Amburguez , os 
mais no barg3ntim,com tenção de ie introduzirem fora da 
barra no navio em que hisõ os dous referidos , ou em ou- 
tro que levava comfigo ; defpois de todos embarcados 
lhes faltou o vento antes de fahirera de S. Giaõ. Vendo- 
fe neíle aperto avizou o Conde deTarouca aos do bargan- 
tim , que o efperaílem i para que juntos corjeílem a mef- 
ma fortuna •. deraõ elles varias , e frívolas excufas , e re- 
ceando o damno , que tinhaõ por infallivel , Íahira5 no 
bar^antim , que neceílitava de menos vento, que os navios, 
e deixando ao Conde , e a D. Joaõ Soares em taõ perigofa 
contingência , receando menos as ondas , que a juftiça, na- 
r/f^rt^ es pn. vegàrâõ com vento proípero , que os levou fep;uros a Aya- 
i^eirss a Jy^ Monte. Os dous navios crefcendo o vento fahira© da bar- 
'^"'^'- ra, e o Conde, e D. Joaõ Soares chegando á vifta de Cádis, 

tomando o pretexto ds çxaminax a Armada de Caftelia , 

quizs» 



TARTE I. LIVRO llh íjf 

quizeraÔ entrar naquelle porto. O Meftre Amburguea 
caõ quiz obedecer'Jhes respondendo , que naõ era aquel- AtthÒ 
la a lua derrota, e continuou a viagem : encontrando ef- ^ 
te accidente , foy precizo a eltes Fidalgos deícobrirem ao« J^^ * ^, 
leos criados a fua determinação , para que unidos obrigaf- ^/^^'^^V^T^^' 
fero ao Amburguez a íurgir em Gibraltar , porto da Coroa "^^"^ * '^'^ ' 
de Caítella « que lhes ficava mais vizinho : aíTim fe exe« 
cutou , e cedendo o Amburguez á forqa que lhe fizerao 
entrou em Gibraltar , ondelaltáraõ em terra. O An^bur- 
guez tanto que fe vio livre do perigo deo á vela para 
Lisboa, trazendo comfigo alguns Poituguezes, e parte 
do fato do Conde , e de D. Joaõ Soares \ o outro navio nso 
íendo admitiido em Tangere, voltou tambrím para Lis- 
boa. Juntaraõ'le em Sevilha, para onde partirão o Conde chefao tcdcs'ã 
de Tarouca , e D. Joaó Soares com outros Fidalgos : paf- Madrid. 
faraõ a Madrid , onde foraõ recebidos com todas aquellas 
demonitraçoens que pedia a refoluçaô , que tomarão em 
offenfa da Coroa de Portugal , e b neficio do partido de 
Callella. De prefla acharão o es íligo no defenganoi por- 
que julgando a poucos lances a Portugal rendido , exami- 
narão nas débeis forças de Caftella , que feria muito diffi- 
cuUofa a reítituiçaõ das luas cafas, de que nunca tiveraâ 
r^compenla. Logo que eíles Fidalgos fe paíTaraõ para Ca- 
llella conftou a LlRey , que Frey Manoel de Macedo fo« PnzaõdeTrey 
fa medianeiro da cega determinação, que tomarão ^ man- ^'^^^''«^ ^^ ^^»z 
dou prendello , e depois de alguns annos o embarcarão 
para a índia , e acabou a vida em Angola arrependido da 
fua teme id ide. Tanto que fe divulgou^elo Povo de Lis- Altera-fe » p^ 
boa o fuccelTo referido, levada do tervor a que fe incita vo de Lidoa,^ 
fem difcurfo eíle monftro cego , coftumando a encarecer 
com defconcertos os íeos affedos, unido no 'letreiro do 
Paço, e nas mais ruas da Cidade, determinou caíligarnos 
Fidalgos , que ficarão , o delido dos que fugirão •, naõ le 
lembrando de que poucos dias antes haviaõ fido Authorcs 
da fortuna , que celebravao, e da liberdade que defendicõ. 
Atalhou ElRey efte pr meiroimpulfo chegando à janella, 
e mandando a .¥arrim Affonfode Mello, que diíTcífe da 
fua parte ao Pc o quí nenhum delinquente ficari;? fem 
calíigo. Dividioíe wom eíta íegurança, e amanhecer 5 
Tom» I. I 3 papeii 



í}4 PORTUGAL WST JURADO, 

papeis nas portas da Cidade , nos quaes punhaõ preceito a 

lÀnno todos os Fidalgos , que dentro em poucos dias queimaíle/n 

1 6a I ^* carroças em que anda vaõ , ( defconcertado elieito , con- 

^ ^ • íiderada a cauía com que fe alterarão ) aos Fidalgos que 

encontravaõ pelas ruas : obrigavaõ a acclamar ElRey , e 

Y'itsecias cofn g ^jj^gr que morrcíTem os traidores. ElRey mandou pu- 

e/la alteração, olicar papeis , HOs quacs dizia, que aquellies que fomen- 

taífem a guerra civil ( consequência do movin-ento pre» r 
fente) dariaõ o melhor íoccorro aCaítella*, e que nelta 1 
confideraçaô , da maior conformidade era do que le da- 
ria por melhor fervido , para que fe naõ perturbaíTe a di« «, 
recçaõ das matérias , e para que fe encaminhaílem todas ^ 
as diípoíições a íe defender o Reino, que reftaurarao. 
Eilas razoens repetiaô por ordem d*ElRey no púlpito os 
Pregadores, e deíla fraíe uzsvaõ o Juiz, e pefloas rr ais 
reípeitadas do Povo , refultando de todas eftas diligencias 
'PrhMo daMar 3p]acar'íe o movimento. Entendeo'íe que a Marqueza de 
<^uez.aáe Men- Montalvaô tivera noticia da fugida de feus filhos D. Pe« 
iêh^^i dro , e D. Jerónimo Malcarenhas , mandou-lhe ElRey pôr 

guardâs em íua cafa , e foraõ os feos criados prezov ; os 
quaej examinados , e naõ lhes achando culpa , tornarão a 
íoltar : porém a Marqueza , confiando que aos indícios 
accrefcentava palavras demaziadas contra o decoro Real , 
foy remeítida preza ao Caílello deArrayoIoss TKoleftia 
de que a livrou dentro de pouco tempo íeu filho D. Fer- 
nando Maí^arenhas; chegando do Brafil. Também foy 
prezo Lourenço da Silva', e fua mulher, e foltos paílado 
ç- algum tempo , for confiar que ignorarão a refoJuçaÕ de 

TeuTo/rãdí. feu fi''^^o Luiz da Silva. Os máos exemplos íempre achao 
eo dcMenezts.e quem OS imite, íesfuiraô o dos que fe paíTíiraõ a Caílel- 
PedrsGotnesde Ja D Franciíco de Menezes r que chamavaoo Bjrrabás , 
jíbreft. Q Pedro Gomes de Abreu íenhor de Regalados , aqueUe 

aíTiília em P-oença de qne era Alcaide mor, eftenofeu 
Lugar . e ambos deixiraô a fazenda /e focee;o de íuas ca- 
faspela incerteza do premio d'ElRey da Caílello. que nun* 
ca confeguiraó : D. Francifco paíTou fó com hum criado, 
Pedro Gomes com toda a fua família. O Procurador da 
Coroa requeren , que foííem citados por éditos loÀos os 
que fe paíTarco a Gaítdla : aíTiii fe exscutou, e depois 

dâs 



PJK7E 1. LlVfp 111. jjy 

âas di'ig5ncias ordinárias , foraõ declaradoí por clTenío- 

res da Mâgeftade , e coníifcsdos íeos bens. AnilÒ 

Eitabelecido ElRey D. Joaó na poíle do Reino , ,/;., 
faltavaMhe para o lograr ;como íeos antepaííados, £er obe- ^ * 
decido nas diiatadas Conquillas,que domina Portugal. Jm- l^^rnaJ^esll 
perio taõ celebre por todas as circumílancias, como quali- iuejc faff^raõ 
liça a luz do maior Planeta , conduzido do valor dos Por- « caíieiu. 
tuguezes de hum a outro [emisferio , para que igualmen- 
te fertilize todo o mundo. A Cidade do Funchal na Ilha 
da Madeira foy eyemplo a todas as outras Conquillas, 
como ja em outro íeculo havia fido a primeira em fe ma- 
nifeftar aos olhos dos Portuguezei , quando deraõ princi- 
pio a todas aquellss, que gloriofamente coníeguiraõ. Che- 
gou á Ilha hum navio de Lisboa com cartas d'íi!Rey para 
o Governador Luiz de Miranda Henriques , e para o Bif- '^^^^''^^',í A 

,^ . 1- j 11 c - ^ • Be'^ rta ilha r.a 

f O D. Jeronymo rernando,nas quaes lhes razia avzio, que ^aJeira» 
ficava em pacifica poíTe do Reino de Portugal , e queef- 
per^va igual obediência da fua fidelidade. Acreditarão os 
tíous eila fe naó dilatando a execução de acclamar EíRey 
em toda a Ilha , e concordarão todos os moradores delia 
em íeguir a mefma voz. Os Cafteliianos que prefidiavsô 
â Fortaleza a entregarão fem refiftencia , e divididos pe- 
la Ilha aguardarão commodidade para paflar a Canárias, 
a qual brevemente confeguirsõ. A nova da s-cclamaçaó %«?<' «^f/wõ 
mandou Luiz de Miranda a Martim Mendes deVafconceh <•^<^^''^ ^ ^^ 
los Governador da Ilha do Porto Santo : recebeo*a com o ^/Js''^'^^ 
mefmo applauío, e íuccedendo ao contentamento man- * ' ^^'*' ' 
dar difparar algumas peças de artilharia , utilizou o favoi 
divino a demonílraçao , porque furgindo doze navios de 
Turcos no porto principal , dando grande incommodida- 
de ã Ilha, a largarão por efte rerpeito , entendendo que 
procedia o eftrondo das peças de caufa mais relevante 
contra o feu defignio. PaíTou a noticia a Ilha de S.Miguel, 
que com igual demonftraçaõ feguio o exemplo das duay. 
Forao as finezas pelo novo Piincipe por mais cuílofss de 
maior gloria aos moradores da Ilha Terceira , pois gran- 
gesraõ exaltar a fe Portugueza pelos fios das eí padas da 
contuniEcia Caílelhana.Ju'g3va ElRey a empreza diffcul. 
lofa , por fer a Fortaleza da Cidade de Angra huma das me- 

l 4 Ihorei 



Ji6 TOfiTUGAL í{ESTJUP>.ÀDO ; 

Jhoreí de Europa , e fe achar nella Governador D. Alva^ 
AnnO to de Viveiros , foldado de reputação , com hum groflo 
lÓAl, P/^^J^^^ ^'^ Infantaria , e fer o fitio da Fortaleza taó lupe- 
^ ^ • riorá Cidade, que podiaõ jogar contra eila cem peças de 
artilhíiria, queguarneciaõa muralha, fem achar reparo al- 
gum . parecendo impoíTivel que os moradores , ainda que 
íe refolveílem a leguir a vuz do Reino, fem outro íocr 
corro tomaíTem a re<oluçaô de atacar a Fortaleza , nem 
que deliberando- ^e podcílem entrar na efperança de ren- 
dílJa. Porém confidirando ElRey , queíemprefe devem 
tentar as em prezas de que naõ refulta damnô com o máo 
fucceíTo , chamou Francifco de Ornellas da Camera , que 
ly.7,W4 FiRey aíEília em Li boa , natural da mefma Ilha , da? princi- 
ir'^ncrcí7Qr ^^^^^ fa^^ílíss delia , e Capitão mór da Villa da Praia , apa- 
puiUs!'^^ '^'^'' rentado com as peíloas de ma-.or qualidade , de conheci* 
do Vdior , e por todos os liquifitoso fogeito mais adequa* 
do paraella empreza ; recõmendouiha com as palavras J 
e promeíTas de que os R.eys íabeni uzar quando neceíTitaó 
dosVaíTallos , e de que muitas vezes íe efquecem dcí'. 
poij de confegiiida a iàéi , que fabricarão. 

A dezaíete de Dezembro partio Francifco de Oi". 
tiellas de Lisboa , a fete de Ja-^ei^o chegou á Ilha Tei-, 
ceira , foy ancorar ao porto da Villa da Praia, defembar 
coude noute , fem mais companhia, que a de vinte barris 
de pólvora» e levando fó em fi o legedo de que tanto 
dependia a felicidade do fucceílo daquella empreza y coa* 
íeguio no acerto dos primeiros paílos a maior parte do 
àntento que levava. Sem fazer diiaçaó caminhou para a 
CiJade de Angra três legoas diílante da Vilia da Praia. 
V Tant j que chei^; m à Cidade bufcou feu cunhado Joaõ de 

Bn^ncor Capitão mór delia, e entregoulhehoma ciTta, 
q e lhe trazia d ElRey ; deolhe conta de tud.) o qae ha- 
via piíTado e^rt Livboa , e fem refiílencia o achou feu par- 
cial: mas reconhecendo em outros de que fez a melma con« 
fiinçq , differente opinião, nnidoucom elles ?s guardas á 
3inguaííem c porque naô perig3ÍTe o theíouro da fidelidade 
queencohrta. Teve noticia D. Álvaro de Viveiros defet 
chegado Francisco de Ornellas, e confufamente foube que 
a fua jornada dliEmiilava maquina grande ; mandou cha- 

malOj 



TJRTE 7. LlVnO 111. 137 

fnalo , e vendo que cem vários pretextos fe excuf£va de _ 

entrar na Fortaleza , Ihecreceo aíuípeita, eaeftepííío AnilÕ 
adiantou a cautella. Lançou vo7 que o$ Francezes, e Hol- ,i^^j 
Jandezes vinhaõ entrependera Fortaleza , e com efte re- ""^ ' ' 
ceio Tuppofto a começou a municionr^r, e baílecer na me- 
lhor forma que lhe foy poííive! , embaraçardclhe efta 
determinação as diligencias, edeílrezas de Fr.nciíco de 
Orntíllas i o qual vendo que em A ng-a perigava a fua peí- 
foa, e nella ioda a empreza fepaíiou á ViUa di Praia, e ^ 

difcurfaiído que com a dilação creíciaõ niuitos inconve- 
nientes, achando difpoílos os ânimos principaes das pef- ^..i^^a-feEH 
loas da Villa aacclamar relia ElRey D. joaõ, deo áexa- ^^^^^ viiladé 
cuçaõ o intento , e os moradores , tirada a mafcara da diíli- Praia, 
muiaçaõ.naó perdoarão a demonftraçaÓ alguma de alegria, 
e com toda a diligencia mandarão notificar aos Oiiiciaej» da 
Camerade Angra que íeguiíTem a meíraa voz. Qusfi todoa 
elles eítavaõ deita opinião *, e foraõ bufcando os meios 
mais proporcionados para fe livrar das mãos de D. Álvaro 
de Viveiros, o qual tentando diíierentes caminhos deter^ ^.,. . ^ 
mmava prender o maior numero de pelloas prmcipaes da ^ Aixaro de 
Cidade que lhe folTe poífivel : logrou fó o feu defignio em viveiros. 
Ff. Joaõ da Puriíic çaõ Pnordo Convento de Santo Agof- 
tinho, eeai Eítivaó dl Silveira , que da parte de Francif- 
CO de Ornellas o foraõ petfuadir que rendeíle a Fortaleza a 
ElRey D. Joaõ, dizendo-lhe, que da fua grandeza rece- 
beria grandes merece, e que para lhas fegurar trazia poderes 
Francifco de Ornellds. Refpondeo D. Álvaro á propoíla 
com a rccUifaÕ dos Embaixadores , e antes que na Cidr^de 
íefouheh"e a íua reíoluçaó , mandou recado a António do 
Canto de Caítro , para que vieífe dar-ihe conta de huma 
pendência que a noute antecedente havia íiJo com a Ren- 
da. Levava ordem hum Sargento , a que oaccmpanhjvad 
dez íoidados, p^ra que, duvidando elle de ob^de^er^o preri» 
defTem. Achava íe Aator.io do Canto junto a hum Corpo 
da guarda de huaia conípanhia PoTtiig'a-:;za , que coíluma- 
va cccupar aquel'e pofto , e conlitcendo o intento para . . 

^. 1 1 . r r j 1- j ' j Prin: eira revoe* 

que eracnamado , quiz excufar-^e de obedecer a crdem, ,^^^^^^^_^ ^,^^, 
e o Sars^ento prerdendo'o deterrrinru dálía á txecuçrõ:íi- /,v''?/£j:íí,ec«/- 
£0U A.ntonio do Canto pela efpsda p^ia íg defendtT , e pu- teihams. 



serw,õ'Ie 



ijl PORTUGAL RESTAURADO, 

zeraÓ*re os foldados Portugu^ízei da fua parts , difpararao 
Anno os Gaítelhanos os arcabuzes^, e ferirão dous Portuguezcs , 
i/i/iT 'icodio quantidade de gente do Povo, e tendo ja os ani- 
**H** moj taõ difpoílos, que neceflitavaó de menos incentivos , 
gritarão todoí ; Liberdade , Viva ElRey D. João» Com o 
íervor deitas vozes carregarão aos Gaítelhanos ( que com 
o rumor haviaõ crecido a maior numero ) até o primeiro 
corpo da guarda , que occupavaÕ fora da Fortaleza. Aco- 
dio o Capitão mór mais para incitar os ânimos que para 
dividir a pendência, eíahio acompanhado da gente que 
.^ ^^ na Cidade era capaz de tomar armas.Todos opprimiraõ ds 
caftdlVnos"!he ^^^^^ aos Cafte]hanos,que os obrigarão alargar o Corpo da 
kiRsyacciama- guarda da Porta , que chaniavaó do mar , e ganharão jun* 
do KA cidade, tameute o Porto da Boa Nova , que fica debaixo da Forta- 
leza. «D. Álvaro de Viveiros parecendo^lhe que com o ef- 
trondo da artilharia poderia divertir o tumulto , fez diípa« 
rar três peças que havia mandado aíleftar contra a Cidade : 
foy a ruina menor do que o perigo que os moradores antes 
da execução haviaô imaginado, e attribuindo pela faltii 
de experiência militar a milagre o pequeno eíFeito da arti- 
lharia , acharão eítimulo no remédio que D. Álvaro inven- 
tou para íocego. Vendo D. Álvaro que naô correfpondera 
o íucceflo ao intento , quiz tempsrar com o lenitivo o 
achaque, que havia aggravado com a bebida rigoroía: 
mandou propor ao Capiíaô mór meios de accommodamen- 
to I a que o Capitão refpondeo que eftava determinado 
a acabar a guerra a que elledera principio. Francifco de 
E>7tra vrancif- Omellas ouvio na Villa da Praia o eítrondo da artilharia, 
codeorneiias 00 meímo inílante íe poz em marcha com mil e quinhen- 
ccm o loccorra. tos Infautes que tinha prevenido, e as duas horas depois 
Difpoemadj- ^^ j^gj^ j^Q^jg chegou 3 Cidade : achou os moradores pe- 
M<''^C' ^' jejando, as bocas das ruas tapadas, e a pólvora mudada 
para o Collegio dos Padres da Companhia , por fer a parte 
em que coítumava eftar , expoíla as bate ias da Fortalez?. 
Repartioíe o novo foccorro peias trincheiras, e ficando 
melhor guarnecidas, fe levantarão mais, fazendo-as de- 
fenfaveis em poucas horas. No dia feguinte avançarão os 
Gaítelhanos duas mangas de Mofqueteiros, eintroduzin- 
do*aspor hunsquiíitaes, e caías que lhe fícavaõ vizinhos , 

de- 



PJRIE I. LIVRO III. ^ 159 

derao algumas cargas com pouco efíeito; foraõ os Cafte* 
lhanos rechaçados , e guarnecido squelle poílo. De preíTa AonO 
fcíatisfizsraõ os Portuguezei da fahida \ porque fazendo • ., 
o Cp^itaÕ Hiór tirar com huma peça de duas libras . foy ^ * 
dar a bala na trincheira contraria : o pouco exercicio da 
guerra occafionou alvoroço nos fo!dados, ao alvoroço íe 
4eguio o impulfo, ao impulfo a execução ^ avançarão ás 
trincheiras íem ordem , e com grande valor fizeraó reco- 
lher os Gaílelhanos á Forfakza. d-:í.im parando de todo as 
trincheiras, e íicáraõ mortos íeis Portuguezes, e quinze ^^ 
feridoy. GanháraÔ no dia íeguinte o Forte de S. SebaíliaÕ , ^'"T/ZZ 
em que os Caltelnanos tinhao hum Capitão com vmte e de s. ieíajiiào. 
cinco íoldados : acháraô doze peças de artilharia encrava- 
das, prevenção àos Caílelhanos, conhecendo que nao 
podiaó defender o Forte , nem retirar a artilharia. O bom 
lucceílo , e o pouco damno que as balas faziaõ na Cidade , 
animou os moradores , muito dignos de grande louvor pot ^ 

fe arrojarem a huma emprezâ que parecia quafi impoíH- 
vei , abraçando a fem difciplina» íem dinheiro, fem iaf- 
trumentos de expugoaçao , e com poucas muniçoens , e 
confeguindo'a íem mais foccorro que o da fua coofíancia. 
He a Fortaleza huma das melhores de Europa , como fica Deícripçao da 
dito , occupa quafi huma legoa : pela parte do mar he in- ■F'?''''^^^*^* 
cspugnavel , pela da terra feacha em pouca diílancia mui- 
to bem fortificada , tem dentro agua nativa , c hum? gran- 
de ciííerna , terras em que fe femeaõ vinte moios de tri- 
go , algumas vinhas , e pomares : schava-fe com quinhen- 
tos Infantes de guarnição, mantimentos, e muniçoens 
para mais de hum anno, cem peças de artilharia montadas ; 
durou o fitio quatorze mezes , acodindo a elle alguma gen- 
te das Ilhas vizinhas. E como eíla matéria referida neft* 
lug^r excede a ordem que determino íeguir neíla hiíloria, 
referirey brevemente todo o fucceíTo , e eíle mefmo eíly- 
lo obíervarey em todos oscafos que foraõ eííeitos da se- 
clamaçaÕ , por naõ interromper o fio que heide feguir , 
fendo todo o meu cuidado nefta obra evitar a confufaõ aos 
que a lerem. 

Logo oueem Caílelís fe foube da scchtD^qaô t Sôccorrs ^&^caI 
fe defpediraô de Sevilha , e S. Lucar vaiios avizos , e foc^j^^/^^J^^^ ^^'^^^ 

corres "•^'^ ■' 



140 PORTUGAL REST JURADO, 

corros a D. Álvaro de Viveiros com taõ infelice íucceíTci 
AnnO dos íltiados , que todos cahiraõ nas mãos dos expugaado* 
-^ res. Foy mais confideravcl o queconduzio Manuvii doCan- 

- ** • to ds Caílro irmaõ de Antomo do Canto. Aífiftia Ciii Mar 
drid no tempo em que chegarão cartas a EIRey Catholica 
dâs peíToas principaes da Una , naj quaes lhe íeguravaõ a 
íua fidelidade : deítra diffimulaçaõ para dilatar os loccorros 
da Fortaleza.Julgou ElRey que era o melhor meio de moí; 
trar a íua coníiançi com aquelles que ainda íuppunha leua 
F.ie^e F.iRey de vaíTâlIos, eleger por Cabo de três navios em que manda- 
nod^d^c^'^^' va Infantaria , muniçoens, ebaftimentos, a Manoel do 
dl c«(iroT^° Canto, por fer natural da mefma Ilha, e muito apareota-j 
' do nella: propoz-fe-lhe a jornada , e logo aceitou a com» 
milTaõ , vendo aberto o caminho da íua liberdade, tí deii 
xo de ponderar eíta fua refoluçâõjporque nas acçoens lirai- 
Ihantes coílumaô fer mais reclos Juizes os contrários |j 
que os intereílados. Chegou Manoel do Canto á Ilha a íal^ 
Vamento , e prevalecendo no leu animo contra todas as 
duvidas o amor da Pátria , mandou aos Capitaens das duas 
fragatas da fua con ferva , que diítante daterra aguardai- 
íem avizo íeu. Chegou ao porto , e íendo reconhecido de 
alguns barcos da Ilha , mandou dar conta ao Capitão mór 
da lua deliberação , que era de entregar aquelle navio , e 
procurar render os dous. Vieraõ de terra quantidade de 
^Tdo Canto ^'^«"cos com Infantaria » introduzioíe facilmente em o nar 
o (occorro, vio , 6 íÍ7.eraó prifioneiros OS Caílelhanos que vinhaó nel- 
le , ficando guarnecido de foldados Portuguezes. Avizou 
logo Manoel do Canto aos outros dous navios, que po- 
diaó entrar no porto fem receio i obedecerão, e em pou- 
co efpaço foraõ rendidos do navio de Manoel do Canto , e 
barcos da terra. Efta difgraça viraõ os fitiados em grande 
prejuízo da fua confiança : para a perderem de poder avi- 
zar a Cartella do aperto que padeciaô , lhe tiráraõ os Por- 
tuguezes huma caravela de terra onde eftava varada , que 
pela defenfa da Mofquetaria da Fortaleza julgaviõ fegu- 
ra. Naõ tiveraõ melhor fucceílo, que os três navios, dous 
Inglez^Si de que era Cabo D. Luiz Peres de Viveiros ir- 
maô de D. Álvaro: e.tibarcou na Curunha com gente, e 
hiítineFitas , clie^oa á viíla da Ilha , foy reconhecido de 

Msnoel 



PJRTE I. LIFRO IIJ. 141 

Manoel Corrêa de Mel!o , que ccn^ os três rcvios teíeri- 
dos , e dons Ho) lande zes , que voliiiUP.rianicrte quÍ2<?r&õ Anno 
siliílir neíla empteza, tinha a leu cargo divertir tcdos os ^/^r 
ÍLCCorros , que vieílem cos íitiados ; itceczo D-Luiz dos í^4 • 
navios Hollandezes , com quem os Ingkzes caõ querisô IZÍlufJr^^,- 
pele)ar, e luppondo os tresda mefma conierva, le rtíol- 
veo a entregar a gente que trazia aos da Ilha antes, que 
aos Hollandezes. Buícou o porto , lançou a gente em terra, 
acodio Franciíco de Ornellas , e fem d.fíicuidade fez todos 
osCaítelhanos prifioneiíos, alcançando muitas munições , 
« mantimentos. Correrão a mefma fortuna outros dous na- 
vios , hum mandado de Flandes pelo Cardial Infante D. 
Fernando, outro de Seviiha , ambos íe renderão: o òq Rendem 'fe otfi 
Sevilha a iMsnoel Corrêa de Mello , o de Flandes na Ilha ''"-^ ^^'*^ ,^^' 
de S. Miguel. Por todas as partes era grande o aperto dos "-'^^^'^^j^^^^*. 
fitiadosi porque os Portuguezes lhes haviaõ tirado todos 
os meios d.; augmentar com íortidas os baílimentos, le- 
vantando hun^.a groíTa trincheira defcoartinada por alguns 
fortins , que fabricarão » defprezando o perigo de muitas 
balas. Naõ lograrão os Ctiados , em todo o tempo que du- 
rou o fitio, mais que hum bom íucceílo , occafionsdo da 
defcuidodosPortuguezes. Succedeo em humafahida, em 
a qual matarão dezafete , e ferirão trinta ; porque na con- 
fiança dos muitos dias , que lhes durava o focego , fe dei- 
tarão 3 dormir ao meio dia , fem a vigilância , e lentinel- 
jas neceíTatias ; reconhecerão os Caftelhanos elle defcui-- 
do , avançarão ás trincheiras , e fízeraÕ o damno refesido. ^^^^'-^^ ã»^ ^i 
Origininou íe deite fucceiTo motinarMe o Povo contra o ^'"^''^' 
Capitão mór, e Francifco de Ornellas, pondo*lhes a cul- 
pa da delordem íuccedida : fccegou íe eíla altersç.^õ por 
induílria, e diligencia de Manoel Ccrrea de Mel!r. D, 
Álvaro de Viveiros naõ achsndo ia remédios a que recor- 
rer , uíou CCS que coffuma deícobrir a ultima áefefpera- 
çaô : fez fabricar na Fortaleza hum pequeno barco, me- 
teo*lhe dentro hum Capitão , e dez íoldadcs , cem os pou- 
cos baílimentos , que podia carregar tsõ pequena em.bar- 
caçaõ ; efcreveo a HlRey Catholico a extremidade em que 
íe achava , de que fó o podia livrar hum grande ícccorro r 
antes do barco fe feçabar fugio daFcitakzahunie.ícrsva 

para 



Ut PORTUGAL tRSIAUKADO, 

para a Cida Ja , qua àto noticia deita obra \ mandou Fr3n« 
Anno cifcj ds Ornellas ter graaici vigilância , e como nunca á 
/ boa diligencia coítana faltar atdicidide, defpedindo D. 

■^ * Álvaro o barco, e tendo navegado pouco efpaça, foy co- 
^fllhaZ'/ tlin ^'^"^^^ <^^^ bateis , que o eíperavaó \ e poítos na trincheira 
barco de a-jlz.0 OS prifionsiros , intíoduztraõ a ulti^na deíeíperaçaõ aos íi- 
tiâdoSi Em Lisboa naô havia mais noticia dos íuccelíos da 
Ilha , que terem acclamado a hlRey os moradores da Vil- 
la da Praia , tomando os Pvloaros; na barra os avÍ7,os que 
Franciíco de Ornellas tinha remettido. Neíta perplexida- 
de íe reíolveo ElRey mandar á Ilha ao Padre l^rancifco 
Cabral da Companhia de JESUS, para que com titulo de 
mnâx BlRey Viiltador da fua Religião diíembircdíle na Villa da Praia . 
v.Frãíifcoca-"^ ^^^*^^'^^^'^^>^^ ueila algumas mumçoens que levava: en- 
brai. tregou'ihe firmas, apoderes para í;;gurar mercês, e uzac 

dasíirmas, havendo accidente que o pediííe. Chegou á 
Ilha em breves dias , e como nao achou que vencer nos 
ânimos dos moradores , empregou os poderes na conítan- 
cia de D. Álvaro de Viveiros. Aviílou'íe com elie algumas 
vezes» prometteo*]he da parte d'ElKey grandes mercês: 
porém em todas as conferencias achou nelle firme refolu- 
çaõ de antepor o credito ao perigo. Mas paliados alguns 
dias, foy a fome , e deíeíperaçaõ do íoccorro rhetorica 
mais poderoía; porque achando-íe D. Álvaro depois de 
quatorze mezes íem mantiriientos , nem eíperança dofoc- 
Rend^'ie aTor. ^Qf ^o , reudeo 3 Fortâlcza feíTiinda feira i6. de Março de 

taiez.it o mejmo ^ ,. •.t^íi^-r* „jo^ 

àla em am fe ^o^^ , dia cm que outro D. Álvaro Marquez de Smta 

havia ^erdidff. Cruz f feíTenta anãos antes, a havia ganhado aos Portu* 

guezis, termo prefcripto da vontade Divina para recom- 

penfi de todos o?dimnos occafionados em Portugal pelo 

rigor do go/erno dí Calljlln. S^hio D. Al/aro com todas 

as hoii'asque íatisfazam aos ren:iidos , muito fi liilhintes 

as da f epultu^a , q je exciíara o cadáver a que fe dedicaô : 

porém 3T» D. Álvaro, fe houve diígraça ,naõ houve culpa 

def:;aíen1 ) a Fortaleza até ch^g^r a ultima extremidade. 

IfifoluTii o^fi o prefidio Portuguez , que governava 

Entra 9 ^''f/»-j,33õ drí Bitaoco^ , cntreg mdo íe ia Fortaleza até íegun» 

á, i^ornii'Ae^- j^ ^^^^^^ d£lR'y, oTCa^elhanos ficarão aquv.tela' 

dos na CidÂdá , e brevemente coaíeguiraó embarca- 

çpens 



TJETE I. LIFEO III. 145 

çoens cm que paííaraÕ para Caílella. Francífcode Ornei- 
las íe embarcou para Lisboa a dar a r.cva da felicidade do AnnO 
luLceífo em que havia tido a principal parte : chegando , ^ 
foy recebido d'lílRey com as dcmonftraçoens de honra ^^41» 
que merecia o leu procedimento. Ftz-lhe mercê de huma ^"^'[^^^«y «?*'"! 

7- . 1 -1 11 1 1 CCS aos que o 

Commenda de nul cruzados, deo outra de mitnos lote aye,^,v^p, - 
JoaÕ de Betancor , ás mais pefloas particulares deo hábi- 
tos , e tenças , regulando^as confor.Tse o mericimenro que 
tiveraó ; acertada pc^Uiica nos Principes a quem a guerra 
faz dependentes dos Vailallos \ porque ainda que a dif- 
peza feja fem medida, no peio <àâs cccafioens militares 
achaõ os svanqos fem conto. Poucos di3s depois de entre- 
gue a Fort-ileza , chegou á Ilha António de Saldanha Ca- 
pitão mór da Torre de Belém com cinco caravelas , em 
que levava trezentos Infantes, muniçoens, e artilharis c%.-t « iih» 
groíía : deíembarcou em Angra , e roy recebido com grars- ^"'^"iodesai- 
de íblemnid.ide : achou o$ moradores divididos em parcia- "'' '*' 
lidadei, occâfionando as diíiençoens a smbiçaõ do gover- 
no. Socegou-os, e em breves dias levantou hum Terço, 
tirando as difpezas dos intereíTes do cunho da m.oeda , pa- 
ra que levava ordem d E Rey : que foy naquelle tempo 
paflsrem com huma marca as moedas de ouro, que vali.ió 
quatro cuzados , a valor de três m.il rsis , as pstscss qu.3 
pefavaõ trezentos e vinte, a quítro centos e oitenta , os 
toílosns a íeis vinteis, a três os meios toíloens, eaeí- 
te preço os dous vinténs. Deo-fe execução a eíla ordem 
ptimeiroem Portugal , psfiou depois ás Conquiíla?. For- 
mou tam.bem António de Saldanha duas Companhias de 
Cavállos í com eíta gente, e duas Navetas da Icdia en- 
trou em Lijboa. j^^if^ ^ ihh^ 
Em quíinto na Ilha Terceira fuccedeo o que íica cem ducsNave- 
refendo , psllou a Africa , a Aíja , e a America a noticia ^*^^* ^^^"^' 
do novo poíTuidor do Império de Portugal \ e da mefma 
íórte, que na Europa, foy scclanrdo nas psrtesque nel- 
Ias dominava, FlRey D. Jc?6 IV.» gloriofo Príncipe, 
cujo nome foy obedecido , e celebrado nas quatro partes 
do Mundo. Aíliítia jMartim Corrêa da Silva em JVlatza' Dáviarza^ao, 
gaõ : com o primeiro avizo entregou aquella Praça so íer- oirriiemiaaEP 
viçod'ElRey, Ceuta j eXargeic; a f limeira goverrada^*^: 



I4Í POniUJAL lESTAmJDO, 

por D. Francifco de Almeida i a feguada par D. Rodrigo 

AnnO da Silveira Conde de Sàrzedas, fazendo efcrupulo dss 

, homenagens que haviaõ dado, naõ quizeraõ leguir nova 

I (>4í* partido. Ceuta nao fe tornou a uiir á Coroa de i^ortugal , 

^""■'^i*J'!X* Tangere fe incorporou nella , cotio em feu iuear dire* 
jiciii. fHíís. Na Remo de Angola aluítia reiro Gelar ae Mene» 

Angoiiíiitnm' zes, tanto que lhe chegou a noticia da acclamaí^aõ d'£l. 
bemobedkiicia, ^^y ^aõ dilatou entreg3r'lho com todos os Lugares , que 
naquslla parte eftavaõ á fua ordem. E o mefmo executá- 
rsó todos 03 Governadores das Ilhas , e Lugares da terra 
íirme , de que he fenhcr Portugal na coita de Africa. Na 
América era Vice'l.iey do Eílado do Brafil Dom Jorge 
Mafcarenhas Marquez de Montalvão. Chegou á Baiiu 
huma caravela, íahio em terra o iVkílre , prohibindo'o 
aos mais que o acocipaahavaô, falou com o Marquez , 
entregouilie huma carta d ElRey , na qual lhe dizia , que 
defpois de acclamado em Portugal lhe faltava, para fegu» 
rança da Coroa, achar a melma obediência «lo Eilsdo do 
Brafil i que do feu valor , e do feu acordo eíperava a fe- 
T.iípoíiçoms -lo licidade deita empreza. Na diligencia do Marquez logrou 
Marquez. (hxio £iRey 35 efperançis , que lhe inOnuava , porque fem a 
^^'"'^-"'^^^'"^m^noii inquietaçíô reduzio á íua obídieacia aquclle va- 
ítiílimo Eítado. Recebida a carta d'ElRey, deo ordem que 
nenhum barco chegaíle á caravela, e porque na Bahii 
cDollava a guarnição Caítelhana de feiscentoi Inf-intès , 
mandou formar o Terço da feu filho D. Fernindo Mafca» 
renhasna praça do Collegio dos Padres dj Companhia , e 
o Terço de Joanne Mendes de Vafconcell os na praça do 
Paço. Logo chamou as peíTo^s Píincipaes de todos os Eí* 
tadosjC conferindo a carta dElRey com cada hum dos que 
chamava em particular , obíervando o feu featimento, e 
ouvindo 3 íua refpoíta , os recolhia para o interior de fua 
caía. Apurados todos o5 ânimos, e achando nelles a coa- 
ílancia que defejava , unío cm hum Confelho os que ha- 
via convocado , e lida em voz alta a carta d'ElRey , man- 
dou que cada hum referiíTe em publico o que lhe havia 
fíiEiiey/i-!.i-dec\^xàáo em particular- Sem algum fe retratar, fe ratifij 
v,adp na B^Vu, c:\t56 todos , 6 a execuçaô foy voto definitivo. SahiraS 
do PsçocomexceíTiyaS deoionftraçocns de contentamen- 

to, 



1041.- 



FJ^IE 1. LlVfp IIL i4f 

to ; chegarão á Sé , onde com repetidos vivas í?ccl3ir;áraõ 
ElRey O. Joaõ. Seguio o Povo íem conttoverfia a mef- Anrid' 
ma voz , deíarmáraõ a guarnição Caltelhana , e continua- 
•raõ*le na Cidade grande* feílaí per muitos dias. O Mar- 
quez defpedio logo o Provincial da Companhia ao Rta ^«5«« <> wí/w* 
de Janiíiro , que governava Salvador Corrêa de Sá : cbe- 2Tclrna% 
deceo lem duvida , vencendo no íeu animo o langue Por* ^^ „„ bjo de 
tiiguez ao que tinha Caítelhano \ que a eítrella dominan- Janeiro. 
te, que Tujeita aquella a eíta naçaó, também no iníe* 
rior prevaleíce. Da meíma forte âvizou o Marquez todas 
as Capitanias íubordinadas ao íeu dominio > e em todas 
achou igual obediência. Fez também avizo ao Cotide de ^vszoão Mar» 
Nsfau , que governava as armas Holiandezas em Parnam- quez. ao ccnde 
buço , de como o Reino de Portugal , e o Eirado do Bra« '^^"^'^ de^-aUiSf 
■111 eílavaõ íeparados do dominio deCaílelia, por terem 
Rey natural em o Duque de Brar;an<^a a que haviaõ dado 
8 Coroa / juft ça , que havia íjdo ieílen'a annos opprim.ida 
do poder d'ElRey de Caítella ; e que conhderando que as 
duas naçoenscaminhavaõao mefmoíim de íe defenderem 
daquellas arraasi julgava infalível a concórdia entre os 
Kltados, e o Reino. Porém o Marquez fazendo elle avi- 
zo , n3Ó propoz ao Conde de Naíau que ceílaííem as ar- 
n.as i fundando prudente j que efta era toda a fortuna dos 
Hollandezes , porque como dos intereííes do afíucar tirava 
a Companhia de Mercadores feita em Hollanda o dinheiro 
p3 a a ditpeza da guerra , em quanto eí^í^va viva ie def- 
íruiaó todos os fundamentos para que íe formara ; bailan- 
do poucos moradores para lhe pôr fogo a todos os Cana- 
veaes ; e coníeguindo a paz , logr& vaõ divertido eíte dam» 
no. Aílim o teltim.unhou a experiência , ergrollc-índo d^ 
lòrte o poder dos HoUandezes nos annos , que eítiverf:ô 
depois livres da guerra , que puzeraõ em contingência tu- 
do quanto Portugal dominava na America, e lográvgõ fem 
duvida eíta felicidade , fe o favor de Deos fe i bô puzera 
muitas vezes da parte da no íTa imprudência. Anteverdo 
efta utilidade rcrcebeo o Conde Maurício a nova da accla- 
m.^çaô com guinde goíto , o qualm.aiíifeltoo na muita sr- ^!u^^^,,f^L 
tilharia que mardou diíparar , c nas muitas feílas que por parrTn.hí"'^ 
alguns dias msndou f&Zir, fendo hiitr, dos que enticu rei» ^di^ma^io^, , 
Tom. 1. K Jas. 



'1^6 PORTUGAL RESTAURADO, 

las, O Marquez havendo dedicado todo o Eílado do Bra- 
KnnÒ fií á obediência d'E]Rey , mandou íeu filho D. Fernando 
16 Al ^ Lkboa a dafJhe conta do que havia executado em íeu 
'^ * ferviço , ofFerecendo*ihe juntamente hum dilatado papel, 
'partiDom Ver- divítado peli fua larga experiência, que continha iniportan- 
Thal^dofrafU *^^ ^vizas para a dtlpoliçaô do novo governo. Partido D, 
Fernando, chegou 30 Pt<rio de Tapôa , àuzi íe^^oas da 
Bahia , em hudsa Caravela o Padre Franciíco de Vilhena 
dâ Companhii d^; jFSUS : íahio fó em terra , e deo ordem 
à Carave<3 qui ie íi/,cHe ho mar ; chegou á Cidade , e en^ 
trou no íeu CoUt-gio lem fazer rumor } e tendo noticia do 
focego com que o Filado ào Brafil obedecia a ElRey , exe- 
cutou com grande imprudência a ordem que levava íua. 
ElRey naô íe dafjdo por feguro do avizo que havia feito 
ao Brafil , mandou ao Padre Francifco de Vilhena, depois 
de defpedír a primeira Caravela ; paíTou*lhe as ordens ne- 
cefl"arias , para que em cafo que o Marquez lhe naó tivef- 
ífc obedecido , elegia por Governadores do Eílado ao Bif- 
po D. Pedro da Silva , ao Meftre de Campo Luiz Barba- 
ího , e a Lourenço de Brito Corrêa. Era a caufa deita nova 
ordem haverem*íe paíTado para Caftella D. Pedro , e D, 
Jeronymo Mascarenhas filhos do Marquez , e recear ÊI- 
Rey , que pudeílem fazer prevaricar o animo de íeu pay » 
ainda que fedeclaraíTe confiante na íua obediência : po- 
rém encommendou ElRey ao Padre Francifco de Vilhena 
toda a cautella nefle negocio , e deixou ao feu difcurío , e 
%npmãenàaão^^^ difpofiçaô obrar confórme a neceífidade das mate- 
HdlvUhtm:' rias o pediíle. Achando pois o Padre Francifco de Vilhena 
as demonílrnçoens do Marquez taõ contrarias so q»;ie 'e- 
vava fuppoíío, n?õ lhe bailando eíle defengano , uíou 
ò^ ordem da me ima forte , que fe o Marquez houvera ti- 
do o procedimento de que ElRey íe temia. Tanto que 
chegou ao Collesio , chamou os três Governadores no- 
meados , e faltando nelles a virtude de antepor a razaõ 
ao doi-iinio. lidas a^ cartas d'ElRey , aceitara© o gover- 
no , e mmdáraô 20 Padre Francifco de ViUiena , que foíTe 
. - joqoe^íregu ao M-irquez a carta, que ElRey lhe efcre- 

W^4 f* o yja. AíTim o executou ; Ico o Marquez a carta , e vendo- 
iltZl! íeporôlla dsCobíJ^a^j» do governo j moílrando nafegu* 

f a liça 



PARTE I. LIVRO 111. 147 

rança do femblante a igualdade do animo, fahío de fua ^. 

cala para outro apofento particular. Entrarão os Gover- AnnÒ' 
radores no Pâço , e fazendo pouco urbanamente Rco a t^ax - 
quem havia fido Author da obediência daquelle Eítado, j.^,^^^^ l ^^ 
examinarão com huma devafla a fidelidade do Marquez ; tra^^Goíerla- 
a qual lervio de apurar a fua innocencia : e dando'íe ai- dores, 
guns capítulos de exorbitâncias, que íuppufcraõ , os con« * 
tradille com certidoens menos apaixonadas, e mais ver» 
dádeiras. Depois de entregar o governo , conhecendo , que 
todas as dilpofiçoens caminhavaõ á fua deícompofiçaó f 
le retirou ao CoJlegio dos Padres da Companhia , bulcan»» 
do o remédio na caufa do damno : naó lhe valeo o frgra- 
do , íizeraõ delle prifaõ , pondo-Jhe guardas ; e juntamen- 
te prenderão ao jMeitre de Campo Joanne Mendes de Frh..SoãoMaA 
Vnfconcellos, e ao Sargento mór Diogo Gomes de Figueí- J^^^/ J °'*^^''^ 
redo , fem mais culpas, que ferem reputados por amigos ' ^^''^* 
do Marquez i foltando ao mefmo tempo Luiz da Silva 
Telles , e D.Sancho Manoel j que o Marquez havia pre- 
zo por mstarem de dia hum Ajundante na Praça do Paço. 
Com efte fsvor , e aquella execução deraÔ os novos Go- 
Ternadores principio ao feu governo. Mandarsõ prevenir 
huma caravela , onde embarcarão o Marquez entregue a 
Luiz da Silva. Antes de dar á vela chegou hum navio r^w^/^ ^«w 
detpedido por ordem d*E]Rey Catholico , entrou no Por- navio deCajhU 
to, foy facilmeíite rendido; e examinado, acharaõ-fe ^'*' 
cartas d*ElRey para o Marquez acompanhadas de outras 
de feos filhos; continhaõ todas repetidas inftancias de 
confervar aquelle Eftado na obediência deCaílella. En- 
tregarão os Governadores todcs eftes papeis a Luiz da 
Silva para que os dsfle a ElRey , e prenderão quatro cria- 
dos do Marquez , obrigando'o a feguir a viagem com 
pouca afilftencia , e grande difcommodo : porém a força 
do cuidado era o verdugo mais violento na confiderfçsõ 
de fe haverem feos filhos pafíado a Caftella , e laber do 
Padre Francifco de Vilhena, que eílava a Marcueza fua 
mulher preza por ordem d'ElRey no CaíteUo de Árr&yclos, 
e ncõ baftava a eíperança de que podia fubornar tantos 
Jnforturios com o procedimento que havia tido no Brííil, 
para evitúr o combate , que lhe davsô teó perigofos £cci- 

K 2 dentei. 



li? PORTUGAL mST JURADO ; 

dentes. Chegou a Lisboa; e achou a fortuna com difie' 
Anfio rente femblaote do que fuppoz na viagem : porque ha* 
ldj.r vendo chegído feu filho D. Fernando com a nova do lo^ 
- ^ * cego, e obediência com que ficava o Brafi! •, ( ainda que 
deCfmbdrcando em Peniche, o delacetto de íeus irn^^ãos 
incitou contra a íua peíloa a fúria do Povo , a que entre- 
gara a vida , a naõ fer íoccorrido da urbaiiidâde do Conde 
ds Aíougma, que nlli fe achava, o qusl o íalvou em 
fuj cafa , depois de haver recebido huma cutUada na cabe- 
çi . de que o curou nella dentro de breves dias) deo-íe 
ÉjRey por obrigado a lhe ccncder a liberdade de fua 
íTiãy , em quem os beneficius na5 tiveraõ em tempo al- 
gum poder para antepor 05 intereíTes de Portugal a sfíei- 
^aó de Caftella , fendo efta ingratidão cauía toísl àã rui« 
che^A e MafndL de íua cala.Tanto que o Msrquez deo fundo no Rio de 
i^usz. a Lisha. Lj^^Qa , achou que O clperavaõ fua mulher livre da prizad, 
e feu filho cora o poílo de Coronel de hum dos Terços da 
Corte. Efta primeira luz bailou para desbaratar as nuvens 
que lhe cubrl^io o snimo ; stigmentoulhe o contentsmen*: 
to o applaufo co:"n que f^y recebido da Nobreza ,e Povo, 
e focegou*íhe de todo o eípírito o favor I queElP\eylhe 
fez quando chegou a lhe beija'* a rr-Do , ao que fe íeguio 
empregallj nas maiores occup.-çoens , eon que durou al- 
guns annos, moílrando-llie afortuna (como veremos) 
por miiita? vezes vários íí-mblant.-ís. 

Faltava fó a FJRey na Afia , para íe reduzir a íua 
obediência , o í>mperio da índia , primogénito da nature- 
za , ( terra em que ss plantas íaÕ frudos , as fiores aro- 
mas , ss aguas pérolas , as pedras piecioías) conquifiado 
pelos Portuguezes com temeridade , coníervado com in- 
jlgne valor, e efm-iltado do feu generofo íangue. Para 
facilitar as diíficuldades deíla empreza , a entregou Eji- 
Rey como as mais nas ?)Z3S da fortuna, ou uzando de mais 
íeUgiofo íerrr.Q, nas máas àa providencia , que com fig- 
naes evidentillimos fe decla''ava nas maiores difnculdades 
em feu favor. Em trinta de Março leváraõ ancora dabar- 
'p^r^em âitas ra d-í Lisboi dous navios *• hia em hum delies por Ca- 
Tinosp.iraa In- ^[^^^ mót Saucho de Faria: era Capitão do outro Ma- 

t^aldJmcZ^^^^ de Liz: as duas emharcaçoens levavaõ as mefmss. 

" * - ' caí tas ^ 



PJRTE I. LIVRO IIT: 14^ ^ 

cartas í e os Capitaens igual ordem para o ViccRey Joeo 
da Silva Teilo Conde de Aveiras, toraõ em conlerva até AnnO 
a aJtura de Cabo- Verde , onde ie apartou Manoel de Liz , 
na volta de Moçarrbique , ordem que ElRey lhe havii 1041. 
dado, encõmendando-lhe muito a diligencia , por le di- 
vulgar em Lisboa que Coime do Couto , que havia fica- 
do em Caílella , Soldado de valor , e experiência na nave- 
gação, era partido na melma derrota, a fim de snticipar 
ElRey de Caítella com aquelle avizo, o que Moçam- 
bique fe havia de fazer de Portugal. Achando Manoel de 
Liz vento profpero, deo fundo a dous de Agofto defron- 
te da Fortaleza de Moçambique : era o Capitão que a go- 
vernava , António de brito Pacheco , para quem kvava 
Manoel de Liz carta d'iiIRey. Qj_jando deferabarcou , cita- 
va na praia António de Brito i declhe a nova da accla- 
inaçaõ antes da carta , e obrou nelle tanto o alvoroço ,' 
que lem a abrir acclamou ElRey: com ieualcontentamen- ^ , - -,. 

/- •- oijj r Tai a^- declama' fe F.l- 

to íeguifao os Soldados a mtíma voz. Deo logo António RtyemMoçam* 
de Biito homenagem a Manoel de Liz, para que trazia %«í^ 
poderes , e ficou íegura na obediência d'ElRey aquella For- 
taleza , depofito de tanto ouro , que a fer conduzido poc 
mãos menos ambicioías , e ainnocencia dos que o trazem 
tratada com menos malícia , pudera Portugal com efta fó 
Conquifta excufar o trabalho de outras muitas, que fem 
utilidade cultiva. A treze de Agoíto psrtio Manoel de Liz 
para a índia na volta de Goa i e com o receio da Arma- 
da dos Hollandezes , que fuppunha íurta na Barra daquella 
Cidade , foy demandar o Cabo da Rama , que difta para 
a parte do Sul doze legoas delia. Chegou a íeis de Setem- 
bro , e paíTado o Rio do Sal , foy correndo a praia de ^z\^ 
fete , difparando a artilharia , para que ao rumor delia 
acodiíTtí alguma pefloa que o informaíle da parte em que 
alliftia a Armada de Hpllanda. Vendo que lhe naõ lucceúia 
como imaginava , determinou chegsr-fe á barra de Goa , 
eamparar'le da Fortaleza do Murmug; Õ por entre a terra 
firme , e os Ilhéos de Goa a velha , caminho que o livrava 
do perigo , ainda que os Hollandezes tiveíTem occupada a 
barra : porém achando o vento contrario , furgio en hum 
llhéo que fica da outra banda de Goa a velha. Nelle ftio 
Tom, I. Kj veio 



tyo PORTUGAL HESTJURAhO, 

veio ter com elle o Capitão Gsfpar Gomes em huma Al* 
Anno tnadia em que andava com ordem do ViccRey Joaõ da 
• Silva Tello , Conde de Aveiras, que pouco tempo antes 

y^ • havia tomado poíTe daqiiells governo , para fazer avizo. 
aqualquef embarcação que chegaíTe do Reino, de que 
os Hi»Jandezes eílavaõ furtos na Barra com dez navios» 
aguardando outros tantas, por le haverem a juílado com 
o Hidalcaõ para fitiar Goa, elle por terra coro quarenta 
mil homens , elles pot mar com os vinte navios •■, e que 
por efte refpeito ordenava o Vice Rey a qualquer embar- 
carão grande que chegaííe > que íe recolhefle aChauli 
fendo pequena , a Onor , ou Cananor , e que as vias íe lhe 
remetíeflem pelo Capitão Gafpar Gomes. Levava Ma- 
noel de Liz ordem para as entregar na maô do Vice"Rey » 
e nzô lhe fenda poíHvel deixar o navio , tendo da nr^efma 
forte por peri^ofo levállas a Onor,pelo rilcode lerem co- 
lhidas pe^os HoUandezes , deo á véía para Onor , e entre- 
gou ãs viss a hum filho feu de nove anno^ chamado An- 
dré de Liz , ordenando'lhe que as deíle na maô ao Vice- 
Rey. Embarcado André de Liz na Almadia chegou á po» 
vosçaõ deP^ngí, e entrando na Igreja de Ncfia Senho- 
ra da Conceição ( a primeira que fe havia fundado na In» 
dia ) achando nella os moradores aoSermaõ, com mais 
valor , e dei embaraço que permittia a lua pouca idade , ac° 
clamou ElRey. Deteve o alvoroço a folemnidade dafef- 
ta , e feguindo todos a mefma voz, bailou a de hum me- 
^ ,f. pj nino para atalhar a forçofa ponderação que íe devi^ fazer 

ífymPa»")' ^^ r.egocio de tanto pèzo : mas como hum fó poder im- 
• ^' pêra em todos os corcçcens humanos, pouco importava 
que fe interpuzeíTe a larca diftancia que vay do Occafo 
ao Oriente. O mefmo efíeito, que nos eípiritos Portugue» 
zes gerou o nome d ElRey D. Joaõ em Portugal , produzio 
noí' que £Íliíli:í5 nas remotas partes da índia. Tornou'íe a 
embarcar André de Liz, eem brevc^s horas chegou a Goa. 
Havi-rfeaniicipado de Pangí por tsrra Francifco às Silva 
Soto*Mayor, e dando a nova ao Vice-Rey , naõ schon 
j . pela ^randezí delia na íua credulidade inteira fatisfaçaõ. 
drêdeLizaovi CFie.^on André de Liz a desfazer a duvida, e com varo- 
ící^ty. tíil reíolucaõ díííe ao l/ice-Rey ; E^ai ^'ar, Senhor^ entrí- 

gOíH 



PJR7E 1. LIVRO 111. 151 

gou ElRcy D, João Qtiarto a meu^ay , para que as trou- 
xefe a l^ojja Excellencia y e por mio jer licito largar o AnnO 
tiaito de que 'icm por Capndo , je7ido eontin gente pelejar ./ ., 
fia barra com os Hollanàezes , as fiou de mm para íj{£ eu *^4í* 
CS entregai] e a F. Exccilencia. Receba- as FMxcellenca x 
€ diga ; yiva ElRey Dom João Qiiarto ííoJso Sinhor 
Rey de Portugal. Admirado o Vice-Key da LiLbaixada, 
e ito Erabaixauor , tomou as vias , e mandandcas tbric 
pelo Secretario de Eílado , achando nellas a certeza, que 
defejiva o íeu animo verdadeiramente Portuguez ^ pcuco 
Uie pareceo que fazia , íe logo acclamava hlRty. Cha- 
fT.ou as peíToas principaes , e fez-lhes prefente na relteu- 
raç^ío do Reino a redempçaõ da Índia : pois íe originava o 
citado miíeravel em que todos a vií õ ou do cuidado , cu 
ào deícoido do governo de Caítella , hum , e cutro ini- 
migos mortaes da confervaçaõ daqueJle Iciiperio : poden- 
do fupporle , que o cuidado dos Gaítelhanos era o maif 
certo, e o mais prejudicialinimigo , depois de cbferva- 
das as Capitulações feitas com os Hollandczes na primei» 
ra trcgoa ajuftaaa entre huma, e outra Naçaõ, deixando- 
Ihedelembaraçída aConquiíla da Índia » parecendo, que 
a fim de diminuir ^s forças de Portugal. Naõ schou o Vice- 
Rey animo algiim differente da fua opinião. Deo ordem 
para que fe preveniíTem as foleranidades preciías naquel* 
leadlo, e a onze de Setembro foy EiRey acclamado em mrlnejaecldi 
Goa, íem lhe cuítar mais diligencias , que a de huma car- n7^do tm Goa , 
ta; fortuna para todos os íeculos digna da maior admira* Z'^'^''^''^^^^^* 
çaõ. Manoel de Liz deixando o navio feguro em Onor, '"^"''^^ ^"^-^^^ 
le partio para Goa : com a fua chegada íe coríirmár;3Õ msis 
os ânimos de todos , accrecentôndo a notijcia , que vira 
em Portugal de íórte o ardor aos moradores da Índia , qua 
a qualquer delles parecia fácil romper com o peito a mul- 
tidão das aguas , que dividem hum de outro Pólo , e achar- 
fe nas fronteiras oppoítos à invaíaõ de Gaitei la. Trazia 
Manoel de Liz ordem para que o ViceRey mandaíle fa- 
zer preíente ao Cabo da Armada de Ho! landa a lepar^çaõ 
de Poitugal, e Caílella, advertindo»ihe , que ctíTavaÕ 
com efte accidente os motivos da guerra da índia, Aííim fe 
exicuiou 5 recsbeo o Cabo a nova cora toda a fclemnida. 

K4 de, 



152 PORTUGAL RESTAURADO, 

de, mas fem embargo de ouvir todo o fucceíío da acck- 
AnnO maçâõ , e juntamente , que íicava em HoUanda Embaixa- 
I 6 AI ^^^ ^^ Portuga í ajuítardo as pazes , naõ quiz o Cabo def- 
^ ^ ' iílir 02 guerra t dizendo , que fe fújeitava á ordem do Vi- 
ce-R?y, que sffiítia em Jacatará. Foy eíla determinação 
em dumno de Sancho de F^ria , que em Cabo- Verde fe 
havia apartado de Manoel de Liz ; porque na fé de hum 
faivo condud j , que levava de Lisboa , firmado pur filguas 
Officiaes HoUanJezes, ent ou na Barra de Goa com ban- 
deira Je paz: atticaraô-o cinco navios de Hollanda, e naô 
fazendo cafo da bandeira , nem do íalvo conduto , qaizs- 
raõ entrar por força o navio : defendeo-o Sancho de Faria 
, V-íIerofar.ente. Creceo o poder aos Hollandezes , e fez 

7ho de Faria."' ^"^P"^i »'-' ^^ í"^'' '"^encia : ficou morto Sancho de Faria , e 
quarenta Soldados, os mais quafi todos feridos, e o navio 
entresiue. Os Hollandezes perderão cento e vinte homens , 
e o Cabo da Armada. Nao diminuio eíta difgraça o ardor 
dos moradores de Goa : continuara5*íe grandes feitas até 
vinte de Outtib.o , dia em que fóy jurado com muita fo- 
lemnidade o Principe D.The )doílo. O Vice*Rey logo que 
lecebeo a nova dj Acclamaç íõ , defpedio vários avizosa 
todos os Capiraens das Fortalezas daquelle Doroiaio i os 
yie accUmado q^ass fem contradicçaô ficáraô na obediência d^elRey, Si- 
FÃRey em Ma- nalara6'íe nas demonftraçoens os moradores de Macao , 
cáo,ena^mais Cidade fítuada no Império àd, China, Chegou a ella Anto- 
Praiasdaindm ^^^ Y\2Aho Ferreira por ordem d'elRey, e achou aquelle 
opulentillimo povo dividido em parcialidades : confor»; 
moulhes os ânimos a nova da AcclamaçaÕ , celebrada 
com feílas taõ cuítoías , que fe pudera duvidar da relação 
delias, quando fe ignorara a riqueza em que vivem os 
moradores daquella Cic^ade. AjuílàrsÔ fazer a ElRey hum 
grande donativo de dinheiro , que logo mandarão a Lií- 
boa , e duzentas peç.-s de artilharia de bronze, ccmmuif 
tas muniçoens , que foraõ remettendo nas monções , que 
íe ofFereceraõ. O animo do Hidalcaõ também fe fujei» 
tou á nova da Acclamaçaò delRey , porque referindo- 
Ihe Jofeph Pinto Pereira , que o Vice*Rey lhe mandou por 
Embaixador , tudo o que havia paíTado em Lisboa , fe 
achou obrigado a desfazer o centrado , que, como fica di« 

to. 



TJRTE I. LIVRO III, i y j 

to, celebrou com os Hollandezes , prcniettendo-lhe fi- 
tiar Goa por terra : e naõ foraó pcderofas as diligencias » AnnO 
que eUes depois íizeraó, para o períuadirem a que tornai- ,/: . , 
le a vir no primeiro concerto i e ficou por eíle refpeito li- r.l , ,. 
vre a Cidade de Goa do grande perigo , que a amesçava. f^í Jo''/ii0dt 
Manoel de Liz voltou para Lisboa na primeira monçaô tcoa. 
chegou a falvamento, e remunerou-lhe ElRey a nova , 
que trazia, e o trabalho, que padecera por íeu ferviço, 
com varias mercês. Stu filho trouxe da índia o Habito de 
Chriílo I que lhe deo o Vice*Rey ( hum dosgrar.dts pri- 
vilégios daquelle poílo ) quando da parte de íeu pay ihe 
entregou as vias. E para que fique mais claro o que refe- 
rit-mos adiante do Eítado da índia , daremos breve noti- 
cia do que dominávamos no tempo em que entrou a go. 
vef nar o Conde de Aveiras : e lograrão os curiofos , ainda 
que com menos erudiçsõ , verem feguida a Hiíloria de 
Manoel de Faria e Soufa, que chega a referir os íucceí* 
fos da Índia até o anno de 1 640. 

Achou o Conde de Aveiras em grande aperto a r^eUfa^ do Ff. 
índia com a guerra que os Hollandezes faziaõ na IJha de tado da índia ' 
Ceilaó i e ajudados d'ElRey de Paõ com o fitio que ha- 
viao poíto á Cidade de Malaca. A Cidade de Goa, cabe- 
ça de todas as daquelle Eílado, lograva livres todas as 
fortalezas I terras, e Tanadárias da fua antVga jurlsdic- 
çaõ. Confervavamos as Fortalezas de Moçambique, Mom- 
baça, Maícate , Soar , Dio , Damaô com fuás Tanadarias, 
e o Forte de S. Jeronymo a ella annexo : a Fortaleza de Bâ- 
çaim. com as de Marcorá , e Allirim , que lhe pertenciaõ : 
a Cidade da Chaul com a fua Fortaleza, e a do Moro : 
as Fortalezas de Onor , Barcelor , Si Miguel do Csmbo- 
lim , Mangalor, Can^nor, Crarganor, Cctikõ ^ a For- 
taleza, e Cidade de Cóchim : a Cidade de Co!urrbo na 
Ilha de Ceilão com todas as terras , que lha tocí^vaõ , ex- 
cepto as Fortalezas de Bâticala , Triquimale, Nigumbo, 
tí Gale , que os Hollandezes haviaõ tomado os annos an- 
tecedentes : a Cidade de S. Thomé de Meliapor : a For- 
taleza de Manar , o Reino de JafanapstEÕ com a Forta- 
leza de N.S. dos Milagres , e do Cães ; a Fortaleza de So- 
lor , e a Cidade de Macáo na China, Lego que o Vice- 



15:4 PORTUGAL %ESTÃUB.ADO , 




-Iva, pa* 

^ ra acodir ao fuítetito dos Svildados i coftame antigo , e ho» 
yl£Èy'dfL ^^ '^^"^ gí-anda damao obíervado na índia. Guarnecido» oj 
i^a, Fortás na melhor forma , que foy poíSvel, reforçou os na- 

vios da Armada , díípoado-os para refiitirem ao grande po- 
dc;r com que os Hoílandezes ameaçavaõ aquella Barra , e 
nomeou por Capitão mór da Armada, que eraõ quatro ga- 
leoens» íete galeotis , e algumas manchuas, a Valen- 
tim Soares, Soldado de conhecido valor,e experiência. Dif- 
poíla a defenfa de Goa , reíolveo o Vice*Rey com aílifíen- 
ciâ do Confelho de Eftado, foccorrer Ceilão, de que era 
Capitão General D. António Maícarenhas , governo de 
que eílavâõ os de Ceilaõ mal fatisfeiíos. Pira emendar as 
deíordens que fuccediaõ da pouca aceitação do governo 
de D. António , nomcoi o Vice-Rey em íeu lugar a feu 
irraaõ D. Filippe ^4óícarenhas , que os de Ceilaô com 
grande iníbincia pedi?ô, por concorrerem neile muitas 
virtudes dignas de eilira^çaõ. Acsitou D. Filippe , e em 
huma náo, e quatro galeotas íe embarcou para Ceila6 
'Sitio de Ni^utn- com trezentos e vinte Soldados. Checou à Cidade de Co- 
^"-' Jumbo, e fem interpor dilação , linidi a gente da Ilha à 

que levava na Armada , marchou a filiar a Fortaleza de 
Nigumbo. A íete da Novembro começou a jogar a arti- 
lharia com tanto eíie':to , que, eílando íó de prelidio cen- 
to e dezaíeis Holland^^zes , a renderão , dsfefperados de 
outro íoccorro , que puderaó confeguir , íe liverao valor 
para fe defender mais tempo ,• porque conilando a D. Bal- 
thaaar ♦ General d'ElRey de Cândia (unido neíte tempo 
com os Hollandezss ) qu-e a Fortaleza ellava fitiada, mar- 
^ , , . chou a foccorrella com três mil Chingalás. Teve D. Filip- 
gllL. P- anticipado avizo , fahio a efperar D.Bjlthazar , e hob- 

ve pouca dilação entre invelUr eíta geme t e desbaratalla; 
e fez mais alegre a vidoria a prizaô de D. Balthazar , que 
por haver fido cabfça de levantados , foy íentenceado à 
morte. D Filippe dando viila de algilis velas, que navega- 
vaõ para a Ilha , marchou na volta de Columbo : andava 
a gente d*ElRey de Caadia taõ vizinha, que averiguando O. 

4FÍ. 



PJRTE 1. LIVRO ni. ly; 

Filippe que as err.bsrcEçcens ersõ íó três » livre deíle cui- 
dado , bulcou a gente d'HlRey , e deibaratcu-a fem damno AnnO 
algum. Em mais apertados termos que Ceilão, (e rcha- -x.. 
Ta neíle tempo Malaca; cem três baterias laboraveõ os *^4^' 
HoUandezes contra a Cidade , huma de íete peças jogava '-'('<> ^e MaUcA 
contra a Coiracja , tirava oi tra de cinco ao Baluarte de 
Saõ Domingos , e haviaó fabricado a terceira na Ilha das 
Kàos i e todas tinhGÕ de íorte ar? uinsdo as muralhas , que 
naô podia jogar delias a rríTa sitilluiia, e depcis de fri- 
tas na Cidade varias cortadurasi fe levantou huma plaía» 
forma no alto de S. Paulo ,de queos Hullandezes rccebieõ 
grard- damno. Haviaó elles começado o fitio com mil e 
TÍu2£ntos homens da lua naçaõ , e grande numero de Gen» 
tioíj e di'.rando o Titio mais do que imcginavaô , deíef- 
.petar. õ da ConqLiíta , na imaginação do íoccorro que po- 
dia vir de Goa. iiitas noticias teve o Vice-Rey por Nega- 
patíõ, e defej.-ndo muito foccorrer Malaca, IhenEÕfoy 
poliivel m.andar nsquella norçaõ i, pelas muitas partes a 
que lhe era neceíTario acodir) mais que huma Galeota com 
alguns íoldadoj , de que era Capitão Luiz da Coíla. Mof- 
trou depois a experiência que fe reíla occafiaõ íe esfor- 
çara o fojcorro , naõ experimentara a feu pezar aquelle 
tilado a infelicidade daquelJa emprega dos Holbndezes. 
Em Maícate governava a Fortaleza Chriltovsõ Rodrigues 
CafteÍ'Btanco , deíunio^fe com Frsncifco de Tavova de 
Ataíde. Animado o Imsmo, Principe daquelle Eílado, def- sitio de MaUífi 
tas noticias , intentou fitiar Mafcate : foccorreo o Vice- í^. 
Rey a Fortaleza , mandou prender os dous da contenda , 
eelegeo para governar a Praça António de Moura. Lo- 
go que chegou o ícccorro levantou o Imamo o fitio. NaÔ 
perdoaveõ os Holltndezes a diligencia alguma de prejudi- ^ . ,^^ - 
csrao Eftado da índia : introduzirão em Goa alguns Sol« cca" h^a'tr^' 
dados diílimulsdos com o traje de Inglezes i os qubqs caó dos Hoiia»^ 
unidos com hum C snaTÍm deterrrinavaõ queimcr aí'^^^^^-. 
embarcaçoens que eílavaõ furtas na Barra r foraõ àct' 
cobertos , e enforcados. E eraõ taô bem preparados os inf* 
trum.entos que traziaõ p^^ra a execução que intentavao ^ 
que, fazendcfe experiência , íe achou que quanto mais 
sgua Ihelançsvaõ , tanto mais aidiao. Chegarão naquel- 



rjó PORTUGAL f.ESTÃURADO,' 

le tempo os Hollandczss a barra ds Goa com féis ecnbarca^ 
AnnO Ç3sns, e refgatáraô a Álvaro de Soufa de Távora, Capi- 
, taô do Galeaõ S.Boaventura , que haviaô queimado junto 

*í^4I« a Murmugaõ ; e era efte Fidalgo de taô conhsciJo valor, 
que foy geralmente eílimada a fua liberdade. O Vicer 
Rey fem le perturbar com os muitos accidentes , que lhe 
íobrevinhaõ, acodia como bom Piloto a todos os ventos, 
que combatiaô aquelle Eftado , e prevenia todos os da- 
nos I que podiaô vir de novo. Tendo noticia que em Mo- 
çambique era morto Diogo de Varconceilos Governador 
daquella Fortalezi, elegeo em íeu lugar ao Claveiro 
Franctíco da Silveira; levou de íoccorro hunpataxo, 
e três galeotas com maitimentos, e rauniçoens, e ordem 
para foriificar com toio o cuidado tudo o que achaíTe 
conveniente naquelle diítridlo , para fegurança do reTgar „ 
te do ouro , que em grande abundância íe tirava todos os 
annos do Comercio dos Cafres habitadores daquelle Cer- 
mVíiãdes de ^^õ. Porém eítas ordens , ainda que o Vice-Rey as enca- 
MofomHfiíe. minhava ao bem commum , íempre os Governadores as 
conílruiaõ em interefle particular» e com avanço* tao 
exceílivos » que a algum ouvi dizer , que em pouco tem- 
po , e nao metendo grandes cabedaes » íe achara com 
hum milhaó em pedaços de ouro. E he grande prova da 
fragilidade dos diícuríos dos homens navegarem os Por- 
tuguezes tantos mares , por bufcar ganâncias ince tas, e 
que deixem ao arbítrio de hum fó homem os intereíTes in* 
falliveis : porém hoje fe pôde efperar nefta parte gf-aide 
melhora com a direcção do Príncipe D. Pedro , que co- 
nhecendo com verdadeiro difcurfo as utilidades deȒe ne- 
gocio, o vay reduzindo a forma mais conveniente. Mom. 
baçi ainda que naõ tinha occafiaõ de guerra , foccorreo*a 
n Vice-Rey com gente , e muniçoens : e receando juíla» 
mente a cavillaçaô dos Hollandszes , mandou prevenir to- 
das as Fortalezas do Eílado com ordens diftindas . e aper- 
tadas » que ainda que os Hollandezes chegaííem a ellas co- 
mo amigos, oi hofpedaíTem com tanta cautela, que naõ 
lhes deiTem lugar a que uzaíTem da manha , e da força , de 
que taõ cautelozamente fe íabiao valer , como jutliíica- 
yaô varias experiências. E fe em todas as partes fe fizera 

efta 



PJRTE I. LIVRO III. 157 

efta mefma preverçsõ , nrõ vieraõ a experimentar as nof- 
las ConquiíU^s o* grandes demnos, que p;:deceraÕ \ que ti- AnnÒ 
veraõ taõ difii: 1 lemsdio, que foy Tieceííaiio ccncorrer iX^t 
todo o favor Divino , pata fe rtílaurarem. E na lndÍ3 em ^ ' 

que puderaó ter os leos rggravos igual fatisfaçaõ â que 
tiveraó na America , naõ íoy a falta do poder a que nos 
prejudicou, fenaó a emukçaó, e interefies pioprios, que 
naquelle Eílado forco tantas vezes inimigos das ccnve- 
niencias publicas. O ViceRey depois deitas prevenções 
detpedio para o Reino a Caravela Noíla Senhora deNâ- 
zareth , e a Caravela Santa Anna , que foy de avÍ2o , de 
que era Capiíaõ JoaÕ da Cofta , a Caravela Noíía Ser.hora 
da Oliveira, e Santo António, de que era Capitão Antó- 
nio Cabral. Chegarão os prinieiras a Lisboa a i 5 de Maio che^^aa ElRef 
de mil e leiscentos quarenta e hum : as íegundas a fete de aviíodachedié'^ 
Julho domeímo anno^ e teve ElRey licito alvoroço de "^<^«^«^'^i 
ver debaixo da (ua sdminiilraçsõ as primeiras piimJclas 
GO Eitado dí índia. 

Accl amado FJRey Dom Josõ em tcdos os Luga* 
res aonde chega o Dominio de Portugal . era flecefl??io 
que as diípofiçoens do governo correlpondeílsm á fortu- 
na que hávia tido em coníeguir a polTe do Reino; por- 
que a cadea da politica he de tal forte travada , que ba- 
ila tirar*lhe hum arnel para romper a csdea. Foy das pri* Dl/po/tuent ài> 
meiras dirpoliçóes d*ElRey fazer hurra Arnir.da , que fer- Goiemo à^EU 
viíTe ao Reino de efcudo , para que naõ fcíTe prejudica- ^^'■i ^' ^^*^* 
do , e ás Conqulílas de freio , para que r?õ prevaricaíleiji. 
Déraó os cf-bed es , que /e ajuntáreõ , alimerto 2 dcza na- 
vios : depois Ó-2 preparados nsó concordavaõ os parece- 
res dos Coríelheiros na pefToa do General, que os Itvifi 
de governrr. Q^iar do era maior a duvida deo furtV no c/f?;7^á 7rA*4 
Rio de Liírboa em hurra Csraveia ArtcnioTeiíeí de Me- y-rjcr/hTclie^ 
cezes , o qual lir. vendo pcabsdo o ^overro ds Irdia cera 
opinião de muito valeijDÍo , e pr£t'co no exercício da na- 
vegação, psrtio deCoa , echegcu a Lisboa em quótrc me« 
zes : entrou de rcrte, e recebendo a neva do novo Prim 
cipe de que era Vafíallo, foy defen-barcar so Paço, e 
achou em E'Rey tantas demonílraçces de alegria da íua 
chegada, e taô exct\;íivo o favor, que íe recojheo para 



Ansio 
1641. 

He eleita Gcns' 
raldaArm^iU. 
Manda ElRey 
a Catalunha o 

Padre Ignacio 
Mafcarenhas. 



'Pxerdto de Ca- 
(lella [obre Bar- 
celona, 



'uítacfue de Mo' 



"Cinfeãeraçao 
fie Porffgal cõ 
Catitlanha. 



ij? PORTUGAL 'KESTAVRADO, 

íua cifacom o titulo ds Genera! da Armada, meracida fa* 
tisfaçao da vidjria , que havia confeguido na índia , e 
eleiç>30 uaivdríalíneníe approvaii : felicidade que os Prin* 
cipes poucas vez;s confeguem. ElRey avaliando a guerra 
de Catalunha por huma das mais importantes fegurança? 
do feu Ríino , mandou com toda a brevidade a ]U;ílla Re- 
publica ao Padre Ignacío Mafcarcnhas da Coopanhia de 
JESUS , irmaõ d? D. Joaò Mafcarenha^ Conde de Santa 
Cruz , acompanhado do Padre Paulo da Coíla. Ordenou- 
Ihe ElRey, que défie conta aos Deputados, que aííiítiaS 
em Barcelona , de como eftava em pacifica poíle do Rei- 
no , e que lhe íega^afle todos os foccorros, que para a fna 
defeaía houveiíeín rniíter de Portugal : grande fortuna pa- 
ra 0$ Gatalaens , fe a noíTa errada politica naô fizera a ex- 
ecução diíFerente da promeíla. Porém eíla fervio aos Cata- 
Jaens de grande alento, porque no dia feguinte ao que che- 
gou a Barcelona o Padre Ignacio Mafcarenhas (a quem os 
Catalaens receberão com grandes demonííraçoens de con- 
tentamento ) apparecco á vifta da Cidade o Marquez de 
los Valles , General do Exercito de Cafteíla, com vinte 
mil Infantes, e quatro mil Cavallos; e depois de occupar 
os poftos t e alojar o Exercito, ufou da induítria primei- 
ro, que da força , mandando propor aos Deputados vá- 
rios accommodamentos > que naõ aceitarão. Vendo poisi 
que a guerra havia de fer quem decidiíle as propo-las , 
mandou atacar Monjuic , obra exterior da Cidade : foy 
melhor defendida do que eílava fortificada , e perdendo o 
Exercito mais de dous mil homens , íe retirou o iMarquez 
de los Valles a Tarragona. AíTiilito o Padre Ignacio Maf- 
carenhas na muralha a todo o confli;fí:o : durando elle , Ihs 
advertirão os Deputados , que diflelTe ao íeu Rey , que to« 
niaííe exemplo naquella occafiaó , e sprendeíTe a íulientar 
a guerra fora d 1 Corte , quanto lhe fofle pollivel : porque 
nunca o achaque era muito petigoCo i fe o corâçao o naõ 

padecia. 

Retirado o Marquez de los Valles, faz o Padre 
Ignacn Mafcaren^aw a fui funçíõt ouvirão os Deputa- 
dos a Embaixada, eaceitjrao muito voluntariamente con- 
fedetaríe co,ti Portagal. De Barcelona introduzioo P. Ig- 

nâcio 



FjniE I. LIVRO 111. 159 

nPcio Mafcarenhaf no Exercito de Csftella iruius cprtas, 
qte trazia u'e]Rey para Gffciaes Portugueze? , que ler- AnnO 
viaónelle: as maiid^iUasforaò entregues, e a rr.aior par- ,^.j 
te dilles fe pafláraõ a Barcelona com muitoi foldâdos , co- _7 * , 
mu tlR.^y lhes ordenava, e de Barcelona a Portugal , co- \X°Jiuo!Toi 
no veremos. Os Catalaens deíejavaõ avizar a França do ^oídaàos Porta» 
perigclo eftado em que fe âchavaô, receando juílamente 5«<«/. 
que o Exercito tornaíle a atacar a Cidade mal foítJti.ada , 
pcior guarnecida. DifficultÃva*]he efta diligencia por terra, 
tôfem os Caltelhanos os caminhos tomados , e por ir.ât a 
fdlia de embarcação. Offereceo-ís o Padre Ignacio Mafca- 
reahas a facilitar efte impcllivel : aceitarão os Deputadoí paTuàt'Barc'6\ 
a offerta com grandes demonítríçoens de agradeciíiiento: ima o Padre' 
entregdraóMhe varias cartas. Tanto que as recebeo , \q igr.atio Majca» 
embarcou na volta de França : achou taó contrario o ven- ^^"J^^^ ' ^^^«'^ 
to , que naõ lhe lendo poíFivel tomar algum porto de Fran- '^ *" *'** 
ça , deferabarcou forçadamente em Génova , onde en^ 
conírou maior perigo do que íuppunha. Eítava naquella 
Cidade o Marquez de Laganéz , que havia chegado a el- 
la , tendo acabado o governo de Milsõ, ç efperava embar- 
caçoens para paíTar a Heípánha. O Padre Ignjcio Maíca- 
renhas tanto que chegou , teve cõmunicsçaõ com alguns 
Gcínovezes, e com inadvertida confiança ihes deo conta 
dos negócios de Portugal , e Catalunha, e da commiíTaõ 
que levava : chegou facilmente efta noticia ao Marques, 
e deliberou-fe a matar , ou prender Ignacio Mafcarenha?. 
Soube erle com s mefma brevidade eííareíoluçíõ do Mar- 
quez , fez preíente 20 Senado o rifco em que ef^sva : íi- 
veraõ os que governavaõ a Republica grande âttençaõ 
á fua noticia , e manrárao fegurar a íua peíToa até íe em- 
barcar em hum navio HoUandez, em que chegou a Fr?.n« 
ça. Tanto que d^fei^barcou , fc^tisfez com toda a diligen- ^^'S^^-^^t 
cia , e acerto a commiíl.ô * que levâVa de Barcelona , e de- 
clarando na Coite de França a verd?de dos fucceííos de 
Fortug;»!, que a deílreza dos Csílelhanosccm reUçoení 
falfas tinha confundido , voltou a Barcelona , e achou no5 ^^■^'^ « ^'''"f^r 
Deputados igua'< sgradtr-cimento á h?a diiigercia. Havi?õ ""'^' 
chegado áquella Cidade muitos Officiaes , e íoldado* Por. ^^^'^""J^^iít 
tuguezes, efíeito das cartas , que h&via efpalhsdo no ^^-sluaZ!'''*'^'^'' 

ercilo 



i6o POnTUGAL WSTAunjDO , 

erciío deGaíleila: embarcou'fe com ellas para Portuf^ali 

Anno chegou a IdiváiOíiito a Liiboa , e achou a lati. façió^das 

1Ó4.I i í^ss Hnezas no conhecimeato, que ElRey Jhecjrifeíloii 

^ *^ que íinha delias, naó querendo o íeu habito, eoíoudcf- 

intereile melhor premio. 

Os Catâlaens , tanto que partio o Padre Ignacio 
Mafcarenhas , mandarão por Embaixador a Portugal a D. 
'Emhaixad.t de Joíeph ôs Salas, Bataõ de Arcne; entrou em Lisboa a oi- 
q^,\^U!tthj. ^Q ^^ ^^^j-j ^ £^y ho(pedado em Belém na quinta de Ruy 
da Silra , e conduzido a Auditncia d*elRey pelo Conde da 
Vidigueira : fez prelentes a ElRey as razoens , que tivc- 
ya5 os Catalaens para negar a obediência a EiRey de Ca- 
ílella , e dalla a ÈlRey de França : que pedia da parte da 
Republica perpetua paz com Portugal. N^õ teve ElRey 
inteira faiisfaçaô deíla Embaixada , íuíi!izando'íe por ai- 
guas indicios , que o animo áo Enbaixador vinha cor- 
rompido pelos Caílelhanos, e por eíla cauía foy defpe- 
dido com palavras geraes, e offertas fem effeito. O pri- 
meiro diícurfo originou a fegunda íuípeifa de que o Arce- 
bifpo de Braga , e mais conlpirados ( de que a feu tem- 
po fe dará noticia ) tiversò trato , e communiciçíõ corn 
o Embaixador. Naô entrarão neíla calumnia D.Lourenço 
de Souía , Capitão da Guarda d'elRey , e feu irmaõ L). 
Joaõ de Soufa , C walleíro da Ordem de S. joaó , hoj* 
Prior do Grato , po^qne léus inimigos naô alcançarão ef- 
taoccafiaô, por haverem antes deíla períuadido a ElRey 
que duvidaílem da íua grande fidelidade, fem mais caufa , 
que attenderem alguns a intereíTes próprios, originando- 
fe ordinariamente deites defconcertos da inveja a maiot 
deílruiçíõ das Monarquias, fendo a defconíiança entre o« 
Principei , e os vaflAlios benemérito*, ? guerra civil , que 
mais deoreíía as desbarata. Mandou ElRey a D.Lourenço 
para a Beira , e a D. Joaõ para o Algarve : porque como 
as prefumpçoes eraò taô incertas» queria apurarMhes os 
ânimos facilitando-lhes o caminho de fe paliarem a Caftel- 
]a , como o haviaó feito D. João Soares , D. Pedro, e 
.D. Jeronymo Mafcarenhas, de qtjeni D. Lourenço, e D. 
Jo3Ó eran muito amigo5 ; cifcumítancia , que havia aju- 
dado a Í20S emulos a dar côr ao teíbimunho , que lhes le« 

vanurao 



T^RIE I. LIVRO IIL Í6i 

vantárao.' Sahio tiíta prova muito em ^bonoda fua íideli« 
dade: porque provendo ElRey o lugar de Capitsô da AHHO 
guarda em Luiz de Mello íeu l^orteiío ir.ór , e rpeitan- ^ 
du eltcs Fidalgos com outros aggravos muito feníivies, ^4»« 
elles oftentaraò íempre a íua íincz? , e íoffrimento com 
as mais honradas demonftraqoens. Refpeitando ElRey a 
fua conllancia , e igualdade de animo , os reítituio no fím 
do anno de l6^^ ao íocego de íuas caías , e dentro de pou- 
co tempo tornou a dar a D, Lourenço o feu cfficio , expe- 
rimentando melhor eíFeito na fegunda que na primeira 
demonítraçaõ. O dia leguinte ao que ElRey defterrou D. 
Lourenço , e O.Joaõ de Souía, deoa íeu iiraaõ D. Maneei 
de Soufa a Prelazia deThomar; querendo emendar com 
efte beneficio o rigor com que havia caíligado huma pre-, 
íumpçaõ incerta. 

No melmo tempo em que ElRey mandou o Pa» 
dre Ignacio Maícarenhas a Catalunha , defpachou por Em- 
baixadores outros ícgeitos a vários Príncipes de Europa, 
conhecendo que as alianças faó a maior íirmeza , e o ma- 
ior credito das novas Monarquias. Mandou a França Fran- Fmhaixadoreè 
cifcode Mello feu Monteiro mór, e António Coelho de de Frau^a,^ 
Carvalho Deíembargador do Psço , ambos com igual po- 
der , e por Sew:ret,irio da Embaixada Chriftovaõ Soàres 
de Abreu, Defembargador do Porto. Eraõ as pazes dí 
França as mais certas, e as mais úteis , porque a viva guer- 
ra que aquelie Reino tinha com o de Caltella , as íazia 
jnfalliveis , e a opulência , e grandeza de Frcnça as mo- 
ílrava convenientes: vindo a fer hm , e cutra confider^- 
çaõ fegura confiança dos foc^orros djquella parte. Parti- 
•raó de Lisboa a 28 de Fevereiro , ancorarão na Arrcchela ^;^^^1^ ^ ^^'' 
a cinco de Março ; forsõ recebidos do Graõ Prior de Fran- 
ça Cavalleiro de S. Joso , e Governador daquella Cid de 
com muitas demonílraçoes de aíTabil idade, e grandezi. 
Partirão para a Corte de Paríz, e em todos os Lugares por 
onde palTaraõ , foraõ hofpedados magniíicanTente. Che- 
gando a Orleans defpediraõ o Secretario Chriílovaõ Soa- 
res , avizando a ElRey de coo^o eraõ chegados: continua- 
rão a jornada , e duas legoas de Pariz rcharrõ o Secuts. 
rio con-i hcia Quinta prevenida por ordem d ElRey. Tive- 
Tcm. I, L raó 



roíktla. 



i62 POmvGAL 1{ESTAUR^DO , 

rao audiência a 25" de Março , efperava'os meia Jegoa 
Xnno da Cidade o ívhrichal de Cliatilhom , e outra? muitas p^í- 
l^/iT ^^"^^ principaes da Corte com os coches d^ElRey. Vinha 
. ^^ • , em hum delles o Duque de Xevroza, para o qual paíT^- 
tiv?rZ'lií7i'en'. ^^^ ' ^ couduzio-os a S-Germocm cnde ElRey afliflia- Ke- 
cia d^aiRey, e cebeo*os com os favores, que podia difpenfar a Mageftada 
íio cardial Ri. ePcaminh-:?doá dos iníerdles que refultavaò áquella Coroa 
chilien, j3^ fep^raçao de Poí tugal , e CaítslJa. Voltarão ao apofen- 

to que lhes eílava prevenido, e no dia Íp^gxúnXQ tiveraõ Au- 
diência de Annaudo joaõ de Piefis Cardial de RichiJieu 
primeiro Miniftro daquella Coroa, e digno de iriSiorei 
cccupaç ?ens *, porq'ie nem os feculos prefentes , rem 03 
paííadoi admirarão (ogeito politico mais merecedor de 
todos os encomio5í, Uíbu con os Embaixadores agrada- 
Vc!«i termos, e exjfíli/a cortezia, ofierecendo'lhes logo 
muito mais do que lhe pedirão; porém elles uzando de 
huma errada fantalla aceitarão muito menos do que era 
neceflario á defenía de Portugil , dizendo que nenhuma 
couza lhes faltava : e o tempo trouxe ccmfigo o arrepen- 
dimento de nso faberem uzar do prln-eiro ardor do Car- 
dial , em todas as opersçoens daquella naçaÕ fempre o 
^]ufia'fe"a paz ^^'^^ "^i^* Tiverao Audiência da Rainha , e paílados al- 
guns dias depois de varias conferencias ajuílsraó entre 
huma, e outra Coroa pa'Z perpetua , prometendo ambos 
03 Rey.5 de naõ njudar ros inimigos de qualquer delles 
com gjnte , dinheiro , rnuniçõe? , ou navios , deixando li- 
vre aos Hollandezes entrarem nefta confederação, quando 
com. a noticia delia a achâílfm conv-iíiiente. Que a guerra 
fe fjria a ElRey de Caftella por híía, e outra parte com 
todas a*? forças, e por todos os caminhos, que fe oíFerecef- 
fem ; Ql'- EiRey Chriftianifiimo íe obrigava a rriandar a 
Portugal vinte navios de guerra nos últimos de Junho fe- 
guinte y a fe unirem com outros tantos d'E!P.ey de Portu- 
gal , efperando'íe que as Províncias unidas concorreíTem 
com igual nu meroiQíieeila Armada intentaria tomsra Fro- 
ta da novo. Helpanha, e procuraria fa2;er todo o dano, que 
foíTe pi^íTivel em os portos, e navios de Caíiella : E que os 
intereííes feriaõ Igualmente divididos: Qj^ie o Comercio en- 
tre os dons Reinos fe continuaria da meíma forte , que fe 

obíer- 



FJRTE J. LITRO III. iííj 

cbfervára no tempo dos antigos Reys deí'ortug1^, Qpe El- 
i\ey de Frãça pcrmitiia qos navios Portuguezes podillem AnnO 
Lomprar nos feos portos to ja a íorie de anuas , municoans ^ 
e mantimentos, que IhetoíTem neceílsrios. Firmáraóie, ^4'» 
c publicaraõ-fe as pazes, e partiraò*íe os Embaixadores ''^''^•^'' ^^"^"^ 
{53ra Arrochella, para leembarcaiem em dez navios da ^'^.^^^^'""'^'"^ 
.rmada que veio a Lisboa, de que era General o Mar- '^"^'^' 
^/uez de Beríe lobrinho do Cardial Richilieu. 

No melmo dia que íahiraõ de Lisboa os Enbai* , , . , 
vâdores de França, deipachou ElRey para Inglaterra U. de :f,aiaterra» 
Antaõ de Almada , e Franciíco de Andrade Leitão Dei- 
tmbargador do Paço, e por i Secretario de ambos Antó- 
nio de Soula de Macedo. Padecerão na viagem grande 
tormenta-, paflada elia foraõ leguidos na boca do Cana^ 
de fete Fragatas Dunquerquezas , que os obrigou a to- ^:^'J'^'' * ^ -- 
víYai o porto de PJemua , íetenta legoas de Londres. A 
íete de Março íahiraô em terra , partirão para Londres i 
e derpediraõ ao Secretario a pedir licença a ElRey para 
poderera entrar na Corte. Achou António de Soufa algu- 
ma diíHculdade na licença , embaraçando'a a diligencia 
de D. Aítbnfo de Cardenas Embaixador de Caílcira: fa- 
cilitou as difíiculdades que ellcpropoz o Conde de Pem- 
biave, parecer de que ElRey fazia grande eílimaçao , e 
adiando a mefma opinião do Parlamento pelos interefics 
do commercio , diípeníou ElRey com os Embaixadores 
que entraíltjm com a folemnidade coílumada , e permitti- 
da aos maiores Príncipes de Europa : pedindo primeiro 
< como por íati :• fazer a íua curiofidade ) a António de Sou- 
fa , que lhe declarafle por hum papel o direito , que El- 
E.ey D. joaõ rinha á Coroa de Portugal. Executou An- 
tónio Ge Sou ia o que ElRey lhe pedii , e com toda a ele- 
gância lhe moíliou o direito d'EÍRey D. Joaõ , e a tyran- 
nia de Caftslla. £ vendo o Embaixador daqueila Coroa 
"vencida a íua negociação , fahio da Corte , e a íete de Abril ^-r.tr^^ioemLen^ 
entiáraô nella o* Embaixadores de Portugal » e forsõ re- '^''" ^'^ ^j'í'*^^* 
cabidos d^ElRey com grandes demonílraçoens de alegrin : '^l,^J''Y'ahTo 
scháraõ na Rainha o meímo femblante , e coro mais effi z^ djidU^ 
cacia por fer irmSa d'E;Rey de França. Conferirão os negó- 
cios, que hiaõ trntà-r, com os Miniílros, que lhes foraÕ 

L 2 apqn* 



í64 PORTUGJL RESTAURADO , 

epontadoí ; e depois de algumas controverfias, eíl.^n:ío 
AnnO para íe ajuílarem os Caritu os da paz , chegou a Ingla* 
1 6 ir ^"^^^ noticia , que Tr-íliiõ d^ Mendot^a , que toy por iim- 
^ ' bixador di HolJanda como ]ogo veremos, havia í.jufta" 
do com os Hollandezes, que os Vaírallosd'ElRey de Portu- 
gal naõ poderiaõ comprar nem fretar navios raais que 
Êos Holiandezes , e que o Gõmercio da Ilha de S. Thonié, 
e dd tod ^ a cofia de Africa fícaru livre a ambas as naçcens , 
e que ElRey de Portuga] pecmitriria aos HoUandeseíí , qus 
uzaííe Ti TiO feu Reino de liberdade de coníciencia. (^ui- 
zeraõ os Inglezes , que fe celebralle com elles o meimo 
contr.uo ; porém os Erribaixadores prudentemente ref- 
pondaraõ , que no que tocava á liberdade de coníciencia 
farisõ avizo ao feu Príncipe, entendendo àíslb^ (como 
fuccedeo ) qua naõ havia de conceder aos Hollandezes li-, 
herdade alguma de confcíencia , que naô foíle ajuílada 
aos Dcícretos do Sumrno Pontífice : que em quanto aos fre- 
tas dos navios í"e uzaria com os ínglezes o mefmo que 
aos Hollandezes fe concedeíle : que no Comercio das Ilhas 
de Africa naõ deviaô embarsçarfe, quando n.Ôeraõ fe* 
nhores deoíitras, como fuccedia aos Hollandezes , donde 
a corrsfpondencia foíTe igual para os Porfjguezes. Jul? 
garao os Miniftros ínglezes cilas propoílas arrazoadas, 
^^nfloti-je a e ajuílou^fe 3 paz íem nssis declaraçoens , que fer perpe- 
fa-4, cominiia- {^^ entre os dous Reys para fi , e para leos delcendentes: 
**'^'^'*' que feos Vaííallos íeriao obrigados a coníervar amigável 

trato , e Comercio ; ( entendendo^fe debaixo deíie artigo 
poderem os Poríuguezes comprar cnuniçoenj , e armas 
em Inglaterra , e paíl^em os ínglezes fem embaraço a 
VoUa-è oi Em. f^^Yit à gusrra de Portugal.) Ajuílada a paz , fe voltarão 
'""^ * os Embaixadores para Lisboa, e ficou em Londres alTií- 
íkido ao?5 negocias o Secretano da Ensbsixada António de 
Sauía Macedo. 

Em a rrefma rraré, que os Embaixadores de 

Frsnçn, e Ine^Jp.terra, partio de Lisboa por En^baixsdor 

/•>«í'á.'y.iÍ4^Vj3e j^.j|j,^nd3 Trifraô de Mendoça. Havia ElRey nomes» 

HcUm.da. ^^ g j^,^^.^ Pereira de Caftro Chsnçarel dn Caía da Suppli- 

C2Ç9Õ para íícompsrih?ír Tíiílao de Mendoça c^cm igual 

poder ( naõ lhe fendo mí^nos neceííariO} qu.^ aos mr^isa 

hum 



VJRTE I. LIVRO HL líy 

lutH Mlniílro de letras, e experiência , que lhe fíliíliííe, 
por íer a negociação com os llollandszeá a de maior im- AnnÓ 
portancia) e por juítos reípeitos fe excuíou Luiz Pereira , 
da jornada. Entendeo EiRey que íuppria efta falta no- ^^41» 
meando por Secretario da Embaixada António de Soufa 
Tavares , Miniitro de letras » e fufficiencia. Mandou 
timbem por Confelheiros nos intereííes da mercancia 
Guilhelme Rozem Hollandez , naturalifado , e caiado em 
Lisboa , e joaó Nunes Santarém , ambos homens de ne- 
gocio , que vieraõ a íervirde maior embaraço a Triítao 
de Mendoça. Poucos dias depois de fahirem de Lisboa , 
obrigados de huma grande tormenta entrarão em Plemua 
porto de Inglaterra , onde havia defembarcado D. Antaõ 
de Almada; acharão ancorados no meímo porto quatro 
navios de guerra Hollandezes. Tri fíaô de Mendoça em 
quanto amainava a tormenta , íahio eoi terra , paflou 
encoberto pela pofta a Londres , fallou aElRey, e de- 
pois de conferir alguns negócios com D. Antaõ de Almada, . 
tornou a voltar , e acompanhado dos quatro navios, que ^ .fl^í, 

I / j 1- 1 • 1 j r^iX entra em PU' 

achou no porto , por ordem dos Embaixadores dos Elta- ^,^rt^ ^affa a 
dos I que aílíitiao em Londres , deo á vela para HoUanda , Londres. 
lançou ferro quatro legoas da Aya. Sahio logo em terra EmranaAya. 
António de Soufa Tavares i e paffou a pedir licença aos 
Miniftros , que governavaô, para poder entrar o Embai» 
xador. Sem difficuldade lhe foy permittida , e recebido o 
Embaixador com toda a folemnidade. As conveniências , 
que reíultavaó ao^ Hollandezes da feparaçaõ de Portugal, 
eraõ fáceis de conhecer , durando a guerra entre os Eíta- 
dos , e ElRey de Caftella , e tendo empenhado todos os 
feos interelles nas Conquiftas de Portugal , as quaes fica» 
vaõcom efta feparaçaõ ( a feu parecer) no feu arbitiio , 
julgando psquenas todas as forças deíle Reino para rcfif. 
tirão grande poder deCaltella , e que neíla confiderrcro 
íícariaõ as Gonquiftas fem foccorros , e faltando-lhes o ali- 
mento com a debilidade expoítas a poderem elJes Lzar dos 
mais leves accidentes , para fe fazerem fenhores dos luga- 
res em que íe ach3Íle maior utilidade. Ajudados da tyjan Jj^f'^'f^,^-af^ 
nia , e diiTimulsdo filencio dos Miniftros de Cãílella , cc- ccruta'us%s 
cupav.30 os Hollandezes na índia Malacâ , e na Ilha de HoUande^es. 
Tom. I; L 3 Cti- 



^66 PORTUGAL HEST JURADO , 

CeilíÔ as Fortalezas de Negumbo y eGale, com o favot 
/CnnO dos iVlouros, e Gentios haviaõ fabricado cm varias partes 
Xóil Sr^'"Js5 Fortalezas, e Povoaçoens. Havíamos tatubem 
^ "*■ * perdido O.muz, entregue aos Perías , os quaes ajudáreó 
oslnglezes, invejando todas as naçoens os muitos inte- 
refles, que naquellas partes havíamos confeguido. No 
Braíil occupavaó os Hollandezes Parnambuco, Paraíba, 
Rio grande , Ciara, as Ilhas de Taroaracá , de FerriaÕ de 
Koronha: pa^a a parte do Su!, Porto Calvo, e ^egeri- 
pe. Os avanços , que tiravaõ deitas Conquiílas , eraõ gran- 
des, e intereííados nelles os de maior poder naquelles Ei- 
rados. i){ muitos annos de poíTe , e os poucos elcrupu* 
los , que aprendem na falfa doutrina , que íeguem , os 
obíigava a crer , que o direito de coníervar o que ha- 
viaõ conquiílado preferia a qualquer outro fem contro- 
verfia. 

ElRey D.Joaô fundado nas leys de primeiro pof- 
fuidor , queria que os Hollandezes reílituiflem a efta Co- 
roa o muito que haviaõ roubado delia : pequeno Exercita 
para vencer inimigos taÕ poderofos. E ficando íó a deílre- 
23 , e a eloquência , para remediar tantos impoíliveis , ne- 
ceflario era que ElRey com profunda coníideraçaõ ele- 
geíTe o fogeito mais pratico, mais intelligente , e mais 
entendido de todo o Reino , para que a fubtile^za venceíTs 
tantas difficuldades. Porém naquelle tempo era tao pouco 
o exercício que havia em Portugal doj» negócios políticos, 
e militares , que naõ fe podem condemnar jultamente os 
que naô ajuitarâõ com todas as circumítanciaí , que convi- 
nha ás diligencias a queforaõ mandados. A iníirucçaõ que 
Triílaó de Mendoça levava era que propuzeíTe aos Ef- 
Prõpoflaacs ^^^^^ hiíma treffoa", e íufpenfao de arm.aí por dez annof 
em todos os Lufares fujeitos a Coroa de Portugal ; e que 
neíle tempo fe ajuftaria perpetua paz entre hum , e outro 
Do-ninio : Qjia os Eftados mandaíTem a Lisboa vinte na- 
vios, para cuja diípeza ElRey ofFerecia a contribuição, 
que concordaífem , e igual numero de navios, para que 
unido? CO m vinte , que lhe dava ElRey de França , pudel- 
fe ao meímo tempo defender a Coita de Portugal , e cffen- 
der a de Caítella : que pediílá aos Hollandezes a reltitui- 

çaô 



PARTE 1. LIVRO III. \Cj 

çaõ das Praças occupadas nas Conquiílas , porque , livre 
l^ortugal da fujeicaõ dcCailella, naõ podido uíurpar o Ar.ríj 
c]us naõ tocava áquella Coroa : Que E'R.ey dsri.^ acs Efta- ^ 
dos Comercio livre em touos os portos deite Reino, redu* *^4*» 
zindo-íe as impoliçoens, e direito ao eílylo antigo dos 
Keys de Portugal , com vantagens nos privilégios , e li- 
berdades : Que os Eílados permittiííem paílar á guerra de 
Portugal todos os Oíliciaes de Cavallaria, e Infantaria, que 
foiTem neceirarios , e da melma forte Ingenheiros para as 
Fortiricaçoens , e artifícios de fogo , e que piideíTem com- 
prar os Fortuguezes em Hollanda todas as muniqoens, e 
inílrumentos neceíTarios para a guerra. Offereceo o Em- 
baixador eílas propoílas aos Miniítrcs dos Eílados , e aju- 
ftou coín elles a confederação íeguinte , de que í"e fegui- 
raõ em todas as Conquiítas da Alia , e da América muito 
confideraveis damnos. Aírentaraò os Eílados com a Co- ccnãicnem dt 
roa de Portugal tregoa , e íuípenfaõ de armas por efpaço Pregoa. 
de dez annos , e que todos os Súbditos de huma, e outra 
parte fe abíliveílem de toda a guerra , e prejuízo : Qiie íe 
ajudaíTem com todas luas forças em oííenía de Caílella , e 
de feos Vaílallos , entendendo-íe eíle Tratado no Brafil , e 
na índia , onde íe obfervaria a mefma uniaó com os Reys 
aliados de Portugal, e Hollanda, tendo-o elles aííim por 
conreniente , dando*íe hum anno de termo para íe publi- 
car na índia , ajuftando-fe da mefma forte a fsgurança de 
navegarem os navios de ambas as partes » íem offenfa al- 
guma delias , e a igualdade do Comercio , naõ fe alteran- 
do a forma em que fe achava ao tempo deíle ajuílamen- 
to. Obrigou'fe também o Embaixidor a que ElRey raan- 
daria outro a Hollanda no termo de oito mezes a tratar da 
paz , a qual naõ íe ajuílando, fe naõ alteraria a tregoa dos 
dazannos declarados; Que em qualquer das pprtes , que 
fofle achada alguma pefloa, que trataíTe negociação de 
Caílella contra Portugal, ou contra os Eílados , fofeca- 
fcigada confórmtí mereceíle o delicílo , e da mefma íórte 
fe ju'gaí!em por inimigos comuns os Lugares , ou Fortale- 
zas, que tomaíTem a voz de Caílella : Que os moradcres 
de ambas as Naqôes fíc?riaõ com o que tiveíTem adquiri- 
do, aíTun de bens de raiz, como rr, oveis j e havendo du- 

L4 vida 



i6^ PORTUGAL REST JURADO , 

vida n IS propriedades, propondo cada hum a íuacsufa; 
'Anno íe obfervaria de ambas as partes juiViça igual: Que os 
l6j.r Portuguezes naõ poderiaõ fretar navio^s íciiâó os dos Ef^ 
- "^ * tados , nem permittir comercio ou trato niii CcnquiUas a 
alguma outra naçaõ mais que á Holbndeza : e que raõ po» 
deriaõ fietar em Hollsnda navio de menos porte que ds 
260 toneladas com 16 peças de artilharia , gente , e mu- 
niçoens proporcionadas ; e que, íuccedendo cthar-fe al- 
gum nsviocom menos do sjuíiado, ie pcdciiá tomar por 
perdido : Que os Fortuguezes naõ pudeíTem peílar Ne- 
grosalndias deCaílelIa, rem outra alguma fazenda^ 2 
que , achando-fe , feria coi.fifcada : Qiie na Coíla de Africa, 
Ilhas de S.Thomé » e as mais daqueIJa parte todas asfa» 
zendas que fe tiraíTem 1 feriaõ regiílicdas ■. e ppgíriaõ di- 
reito nos lugares principaes que pertenceílem à huma, e 
outra nsçaõ : Que, adquirindo*íe algum domínio nas Ín- 
dias Occidentae» deCaftella, feria repartido por igual : 
Que os Eftados feobrigavõõ a mandar â íua cuíla vii;te 
^ navios de guerra a Lliboa ♦ para íe unirem c(;m outros 

tantos que ElRey teria apparelhado, e juntos fariaó guer- 
ra aos Caílelhanos , e que os intereíTes feriáõ repartidos 
igualmente: Que ElRey poderia tirar todos os Ofiiciaes 
de guerra , que lhe foílem neceíTarios daqueles Eítados; 
Cs quieselies mandariaõá fua cuíla , e feohfigavao a foc» 
correllos em quanto aíIiíliíTem em Portugal ; Q^ e da mef- 
ms forte poderia tirar de HoUanda todaj as mi.riiç:jenç > e 
inílrurtientos militares, que julgaííe convenientes ppra a 
guerra. Efla era a íubílancia dos capitules que fe ajuílá- 
raõ com os Koílandezes.IncluiaoTratòdo outros de menos 
importância , e neíles havia clauíulas muito miúdas cm 
ordem so,-; intereíTes de Hollanda.e a naõ reftituir o que ha- 
via conquift ido de Portugal no tempo deCaíleila. O tem- 
po foy defcobrindo que ficávamos prejudicados ; porque 
ainda que nos era precifamente neceíTaria a paz de Hol- 
Janda , refultavaõ aos Eftados tantos intereííes da fepara- 
ç^õ de Portugal , que fe forí eíía matéria manejada com 
mais de ftreza , naô ha duvida q fe confeguiriaó na paz ma- 
iores utilidades, e naõ fuccedèraõ depois tantas , e taÕ pre- 
judiciaes controveifias , que foraõ caufa de damnos irrepa- 

laveis. 



PJRTE I. LIFRO IlL J69 

ravcis. Triílaõ de Mendcça voltou a Lisboa ra Armada 
que íTanuáraõ os Hltados , trcuxe conJlgo dous Regimen- AtinO 
tos de Ccvallaiia , qL^eiUidáde de aimas, e niuiiiçcens » jAat 
hum dos melhores efíeitos da íua )oraada pela grande tal- "+ * 

ta que hsvia delias refte Reii o. r i- 

Elcgeo ElRey prra a Embaixc^da de Dinamsrca , 'ZlrlZAr. 
e Suécia a Frfrciíco Ct Sc ufa Coutinho, em quem con- rnada^tiocíor- 
corriaô partes miuiío efíenciaes psra eíla con n iílaõ. Em- ro. 
barcou'le em hum iípvío de Dirâiraica, levando per Se- tndaixada de 
cretaiio da Embaixada António Moniz de Cat valho , cc- ^J^^'^''^^ ^"*'' 
cupado ní^quella occafiaÔ no Defem.bsrgo do Porto. Partio 
a 18 de Março , chegou a if de Abni á boca do Zonre 1 
dtíembarcou junto ao Caíleilo de Conembrog. Eítava Ei- ... 

Rey tao vizmho , que logo teve ncticia de que era ciiega- ^^J^^ ^ ^-^^^ 
do , e por eíla cauía fe paííou a Ccoupenhaven Coíte da- merca. 
qucile Príncipe , e circo legoas diílar.íe. JVUndcu o Em- 
baixador ao Secretario a pedir licerç;i para poder deíem- 
barcsr , concedeo-íe-lhe i entrou na Coite em hum Ccchs 
à*hlRey , mas como particular-, foy hcfpedado com mui- 
ta grandeza. P-aíladas as primeiras ceremonias , recorreo o 
Secretario aoVice-Rey, Miniílro principal daquella Corça, 
pedindolhe da parte do Embaixador Audiência. GartGU'í"e 
hum mez em excufas apparentes íera concluííõ algiaa, e 
corihecer;do oEmbâixador quení^ícia o embaraço dss alian- 
ças que ElRey de Dir smarca tirha com a Caía de Auítíia, 
e dependentiaj em q eivava com FlRey de Caftelía , man- 
dou ao Secretario que diííeíle so ViceRey , que cu fe lhe 
defle Audiência , ou licença para íe partir a outras partes 
a que o chcmavaõ rccupações de grande importância. Sem 
embixo relpondeo o Vice Rey que o íeu Príncipe fe acha- ^^^"^f'- U-p-Ah^ 
Va com difiicuicnde? if Itpercveis^porque smda que defeja- 
va íuTiamente a am-izade d'EiRey de Portugal, os negó- 
cios daquella Cc^oa com a de CaílellaeraÕ de qualidade , 
q lhe prendicó o a'vfdTÍo psra o receber com de mor âra- 
ções publicf s : q íe tivtíle algiim negocio q conferir , lha 
apontaria Miniílro com q o trst^ííe, e fe qui7t íle daquelle 
Reiro algúa crufa q foíle neceíisria para a defcnfa de Por- 
tugal, paílaris Ir go ordem para q fe ]hedefFe;e ? cíles fefoi ^ 
atando hua larga CL.dea de ccmprimentos, íictndo ]ig< da a 

outra 



170 PORTUGAL -RESTAURADO , 

outra de depend;ncias a vontòde daquelle Príncipe. A eC- 
Anno ^^' oíiertas rvíípondeo o Emb.iixidor : Q^ie daríelhe , ou 
X . naõ audiência , era ponto indivili/el , e que viil:i n^gar* 

^^4^» le-ihe , fe lhe permittiíie iicençi para fe partir, ficand3 
nelle vivo o agradecimeato da cortezia, que co.no parti» 
cuiar havia recebido naquella Corte: 0^13 em quanto a tra- 
tar negocio com Miniftro algum , lho naõdiípenlava ha- 
ver'fe-lh2 negado audiência : Q,ie das oíiertss do íoccor- 
ro fe naõ valia , por ter deixado as prevençoens ds Portu- 
gal independentes delias. Entendeo o Vice*Rey da refpo- 
íta 3 juíla qucixi do Embaixador , havia-lhe EiKey dado 
ordem para a Tuavizar quanto folie políivel ; diíle ao Se» 
cretario •. Q^lq Sua Mage^lade teria grande goilo de que 
o Embaixadojf quizeíle ver o Gaílello de Fredesborg , lu • 
gar de recreação , onde ElRey iria a lhe fallar , porque íi« 
caria com grande pena de que fe partiffe fem poder vel*: 
Io. Pareceo ao Embaixador , que eíle era o caminho de 
fe concluir algum ajuítamento , e aceitou a oíferta. No 
mefmo dia veio a caía do Embaixador hum Almirante, 
que o havia levado defte Reino, aentregarlb^í da parte 
d'E!Rey dous mil cruzados , que recebera de frete. Nao 
podendo o Embaixador deixar de os aceitar pela apertada 
ordem , que o Almirante trazia , os mandou repartir pelos 
Officiaes , e Soldados , que o haviaõ comboiado. O dia fe- 
guinte conduzio o Vice-Rey o Embaixador ao Caftello de 
Fredesborg , cinco léguas diftante da Corte, por caminho 
taõ deleitofo , que parecia mais breve a jornada. Chegou 
ao Caftello, o qual julgou de fabrica maravilhofa , e en- 
trando nelle admirou a magnificência , e adorno , occupan- 
ào grande efpaço a viíla em pinturas» e eílatuas excellen- 
tes.' deriÔ'ihe recado de que ElRey o efperava para lhe 
iTLr/dJ^ fallar i obedeceo , e achou em ElRey as maiores demon- 
empar i.a ar. ^^^^^^^^^ ^^ aíFibilidade. Repetio-lhe as diículpas de lha 
neg^r a audiência , e as mcfnas oíF:irtas , que o Vice'tley 
havia feito ao Secretario.* refpondeo o Embaixador pe- 
la raefma linguagem de que havia uíado na primeira pro- 
polla dlzíp.do .• ^iií lhe naô ficava occafiaô mais , que de 
agrad^c^r os favores particularej?, viíl^ negar-lhe Sua Ma- 
geítaJi aadieacia publiia. Conyidouo Elílsy a jantar, 

fen* 



PJRTE I. LIVRO III. ^ 171 

íentou-0 comfigo á irefa , e a íeu cunhado Jccõ de Roxas 

de Azevedo , que Jevou neíta jornada, é ao leu Secreta- AnilÒ 

lio, dando ao Embaixador melhor Jugar, que a leu íilho > ^ 

o Conde Valdomâro. Foraõ dilatadas as horas da meia, Íl"4í» 

aíliítio a ella a Nobreza principal da Corte, e á lua viíla 

briiid3u ElRey à faude d'£lRey D. Joaó, e confelTando-lhe 

eíle Titulo publicamente , fez maia condemnaJa a refolu» 

çdò de ihe uóô aceitar o Embaixador. Foy elle delpedido 

acabada a mela com as mefmas ceremonias com qui havia 

entrado. Deite Lu^ar continuou a jornada para Suécia , „ ^ ^ . 

, ,. , , ,• 1 1-í • ! t • j- i^^^ie para Sue» 

havendo-ine chegado licença da Rainha , que havsa pedi- ^^^^ 
do por via do AlFiilente dsquelie Reino, que eftava na 
Corte de Dinamarca. Nas Províncias por onde paííou ds 
Efmolandia , Oílrogozia , iJudermanlandia , achou pre- 
venida magnifica holpedaç^em. Chegou á Cidade de Eíro- 
cholmia, onde fííiília a Rainha, e Jogo foy vifiíado da f/2j| ■^''* 
fua parte , finalandclhe audiência para dahi a dous dias .' 
acabado o prazo, veio bufcar ao Embaixador grande par- Tcmauditncia 
te da Nobreza dsquelle Reino, e com todas as ceremo- da Rainha. 
nias de maior oftentáçaõ foy conduzido ao Paço. Achou 
que os hombros de huma galharda Dama fuílentavaó o 
pezo daquella Monarquia da P<ainha Chriftina, que naõ 
paliava naquelle tempo de quinze snncs, deícobria no 
generofo aípedo os alentos deGuílavo Adolfo íeu glo- 
riofo Pay , m.orto na batalha deLufen, quando com as 
efperançjs mais feguras íuppunha toda Europa fendo 
defpojo do feu valor , atada ao carro dos feos triunfos. 
As moílras do femblante varonil de Chriílina diíliamla- ^i.j ^ » 
vaõ a fragilidade da natureza , e dos snnos, e propcrcio- „/j^^j laiçti 
navaô o emprego da Coroa. As acçoens deita exceUenté 
Princezi dérao pelo tempo adiante verdadeiro teílimunho 
daí difpofiçofns , que nelia fe admiravaô nos primeiros 
annos , pois deixando generofamente o próprio , e bellico* 
fo fenhorio por deteftar a cegueira herética % íe paííou a 
•viver em Roma» querendo beber na fonte o licor íuave 
da Evangélica doutrina, facrifícando pia , e religiofamen- 
te no Altar de Noíla Senhora do Loureto o Scepíro , e a 
Coroa , e merece naô fó por eíía heróica acçaõ o aíTeífto 
univerfal , íenaó tambcm pelas grandes virtudes, .e fcien- 

das 



Í7Í PORTUGAL B.EST JURADO, 

cias íncoiiparaveis , qu2 nella rerplaadic-í;Ti. Q^iindoèn* 
AntíO ífou o Embiixador ellava íentaia debaixo dj huii do- 
i^/fr ^^'^ ^ aífiíliado-ih^ cinco Tutores, qa2 íeu pay lhe iiavia 
í:^4*^^» deixado, e que coin ella governavaò o Reino : )j ito do 
eftrado á maõ direita tinhaô aile.ito três pri nis tuasi fi- 
lhas do Conde Palatino, todas de exc^lleate íjc noíuri , 
a que fe feguiao outras muitis Damas. Tanto que chegou 
o Embaixador á porta da ante-cameca , fe levantou a Rai-. 
nha , e dando tre> paílos lhe fez huma pequena inclina- 
ção. Ouvio a Embaixada em Latim , reíponJeo na mefr 
ma língua , que filiava com grande perfeicsó , e da mef- 
ma forte todas ãi de Europa : coilumando diz.'r difcreta- 
mente : Que he gr.^nde o perigo de quem naó fabe mais ; 
que 3 própria iingua , porque ricará fem falia mudo, fe 
perder o uío deiía. Aceitou com grande contentamento 
as oífertas da amizade de Portugal , e naõ perdoou a cir- 
cumílancia alguma , que juítificaíTe o feu aíiedlo. O dia 
íeguinte ao da audiência deo principio á negociação, a 
quai ajudou muito o Baráõ de Roche Embaixadjr d*Êl- 
P^^^^^g^^^;. Rsy ChriftianiíriTiO naquella Corte. Apontou a Rainha 
xador em con. por Mlniftro da conferencia ao Grão Chançarel , a que 
ferencia com os aiJiíliaõ dous Senadorcs ; houve poucas controverlias, pe- 
Miniãros da j^ m^jta unliõ das vontades, ajuttou-fe a paz , e lançarão- 
^^'" "*' fe os Capítulos delia em Iingua Latina •, coniinhaõ ellea ; 

. , ^ Obíervar'íe entre as duas Naçoens igual correfpondencia, 
cJm slecia/'^^ ^ livre Commercio en todos os portos de hum , e outro 
' Reino. Concedeo a Rainha ao Embaixador três navios de 
guerra, em que trouxe artilharia, armas, e muniç5es, 
fegurando o retorno nas varias drógis , de que abunda 
Portugal. Neftes navios fe embarcou o Embaixador; n,'!- 
les chegou a Lisboa a falvamento : paíTaido pelo Zonte 
lhe mó vifitárao os navi >^ , favorável demonlíraçao, que 
ElRey de Dinamarca mandou, que fe uzafle com elle. Foy 
a paz de Suécia de grande importância a Portugal, pela 
grande reputaçso , que naquelle tempo as armas daquel- 
le Reino haviaó coníeguido em Europa , fendo a Gafa de 
Aullria a mais prejudicada no? feos progveííof. 

A Embaixada que cançDU mais os difciirfos , e 
qii3 verdadeira [neate íe devia veatilar com maior cuida- 
do , 



PARTE I. LIVT.O III. 175 

do , era a de Rcm?: Ccrfideravâ-fe , que em nenhuma 
forma podia prejudicar a dilaçsõ do £n baixador , porque An^O 
tentar o animo do Pontífice Crbano VUl, quenaqueUe ,^.j 
tempo goveinava a Igreja , era prudência , que elle ha- *^4^5 
via de agraJecer , e o mundo naõ podia condemnar. Ven- 
do que» guiadas as noílas acçoens dos paflos da madura 
por.derí.ç,-õ, íubiamos iondar os ânimos» e acliar íundo 
iifjs intereíles , que prezes de ancora taó fegura nsõ po» confider^foes'; 
deriaõ peiigar em a'guraa tempefcade : e que quando o ^«e dijptuha-^ 
Pontihce fe refolvePie , íuperado o conhecido obftaculo ^^^ \%l^'^'- 
deCaíleila, a reconhecer EiRey de Portugal i facilmem ^'^ '^ s^-ojna* 
te com a certeza defta reibluçaó le poderia defpedir o Em- 
baixador ; e que íe acafo prevaleceílem no íeu animiO as 
conveniências dos Caílelhanos , muito devia obi igar-fe da 
attençaõ d'ElRey, naõ querendo embarsçallo íem deter- 
minação íua em empenho taõ confideravel : e que fuppof- 
to íe' entendia, que o anirnso do Pontífice era Francez, 
que eíla m-efma voz o faria attento aos interefles de Caí- 
tella, querendo moílrar a juíliça Jgual, fendo eíla ima- 
ginação pequena fegurança para o empenho , que fe buf- 
cava ; pois o perigo de íe voltar o Embaixador fem íer 
admiittido do Pontiíice i naõ devia ceder á mais podfirofa 
apparertcia do bom fucceílo , fazendo eíle muito contin' 
gente a csiteza do poder , que ElRey de Caílella fuftenta- 
vâ em Roma. Os que defendiaõ a opinião contraria , di- 
^iaõ que , dihtando-fe a Embaixada , fe dava motivo ao 
Pontífice a naõ querer aceitálla , quando depois íe "^^^^ n^a^-êesemVcvíi. 
nienasíTe ■. eque, elpalhando a induílria dos mal afledos ír<?w. 
eíla apparente falta de religião , caufaria movimenio noa 
ânimos dos Povos, nos quaes por fimilhante caufa acha 
femjpre difpoíiçaõ o deíaíocego : que também era pre- 
cifo naõ expor ra conílderrçaõ das n?çoens duvidoía a 
vontade do Pontiíice , o qual religioíamente deviam.os 
luppor mais attento á juíkiça , que applicado sos intereí- 
fes. E que ainda que nos arriícaílenios so defsr de naõ fec 
admittidoo Embaixador » o que parecia impcílivel conhe- 
cendofe o animo do Pontífice inclinido a França - que 
nas propcfiçcens do requerimento fgria ERey publica ro 
Hiundo a íua juílií^a , achando ícm duvida a parcialidade 



174 POnrUGAL Í{ESTAUB./1D0, 

Fraaceza propicia , e empenhada em beneficio noíTo , af- 
Anno fi^ por encontrar as dependências de Caítella , como pot 
/ íerem os Miniítros dâquella Coroa os c]ue fomentavaó a 

IO41. opinião de fe naô dilatara Embaixada, E que finalmente 
com a Igreja nenhuma deraonítraçaõ era arrilcada , íenio 
os mais humildes os que mereciaó a maior Coroa. Preva- 
leceo efíâ opinião, e nomeou ElRey por ErribriiXidof a 
2>. M/>eZ de Rom^a a Dom Miguel d-: Portugal , Biípo de Lamego, 
Port/i'y.ii/yeno'icmã6 do Conde de Virulofo: tinha d^ idade aquelies an« 
mea^o Embai- nos , cm que ò valor anda mais adivo , preciío paia â jor- 
icadorARoma. ^^A^^ quc emprendia , e ornava'fe eíta virtude, que fs 
schava na fua peíToa , de entendimento, e letras, que o 
babilitavaó para eíta occupaçaõ. Elegeo EiRey para iae 
aííitcir a Paníaleaò Rodrigues Pacheco, Inquifidor doCon- 
felho geral do S/iOto Ofiicio , declarando-o Agente dos 
negócios de Portugal na Corte de Roma j acliavaõ-íe nells 
com grande igualdiíde as letras, e as virtudes. Foy por Se- 
cretario da Embaixada R( digo Rodrigues de Lemo , Deí- 
embargador do Porto , em quem concorriao todas as par^ 
tes, que pedia efte emprego. A 15 de Abril partirão de 
chega õ Embai- Lísboa , entráraó na Arrocfiella , onde o Bifpo defembar- 
xador a Arro- cou , foy hoípedado do Graõ Priot de França conigraade 
çhlia. magnificência, e parecendoihe neceíTarío conferir com o 

■Monteiro mór, Embaixador de França , os negócios de 
. Itália, fe reíolveo paílaraPariz. Fez a jornada em treze 
Pajfa aParit. ^-^^ ^ chegou á Corte , fallou a EiRey , á Rainha , e ao 
Cardial. Levando ajuftado com ElB^ey , e com o Montei- 
ro mór o que lhe pareceo mais conveniente , íe partia para 
Itália. Deteve-fe em AvinhaÕ efperando que paíIaiTen 
as mutações , tempo perigolb para entrar em Roma. A 20 
de Outubro embarcou em Tolon , e dentro em poucos 
dias deo fundo em Civita Vechia , que diíla treze legoas 
de Roma. Fez avizo de que havia chegado ao Marquez de 
Fontane, Embaixador d'ElRey Chriftianifíimo naquella 
Corte, o qual fem dilação lhe manJou parte da íua famí- 
lia , bem armada , para o acompanhar , a que fe juntarão 
trinta Portuguezes , e alga, is Catalães. Alterou* íe o Pon- 
tífice com a noticia de fer chegado o Embaixador de Por- 
tugal: poièn naò tendo pretexto para lhe impedir que 

ent?aiTe 



P^K7E 1. LlVfp UI. j^) 

entvcíTe em Roma, ordenou ío Cardisl António Earbâri- 

no mandafle í"egurar*ihe a eftrada , cjí Ílando-Jhe , que es Av\V\Ò 

CafttíUianos naõ podendo impedir ao Bifpo , que dcíem- ^ 

biírcalle , intentavaõ em oífenla lua no caminho algum mo- 1^4^» i 

vitr.ento. Com eila legurançi naõ encontrando o Biípo de 

Lamego embarrço» chegou a Roma: âpeou^fe em czi'?íCkegAa^.cmA] 

do Embaixador de França , onde licori recebendo na hof. 

ped^ígem todos os oblequios devidos á íua authorid^de. 

Durou a sffiftencia em cala do En baixador muitos àh.^, , e 

para le paílar a hum Palácio , que torr.ou na Praça Naona, 

lhe foy neceílario grande iníUncia , por ter o Embaixador 

oídem d'ElRey de Frarça para o deter em fua cafa £té 

coníeguir Audiência doPontitice, achando ella unisô o 

rreio nisis proporcionado de controverter as negociações 

de Caíieila. 

AíF.ftia em Roma por Embaixador d*E]Rey Ca- 
tholico naquslle tempo D, Joso Chumaceiro. Dentro de 
pcúcos dias veio rendeilo o Marquez de los Valles cooi 
titulo de Embaixador extraordinário. Antes que o Biípo 
chegafle haviaô celebrado os poucos Portuguezes , que 
eílavaô em Roma com tao publicas demonítrsçoens a no- 
ticia da Acclam3çaõd'EjRey , que paíTár? ô a parecer ex- 
ceíios , fe o valor dos Portuguezes naõ fora coftumsdo a 
vencer os msicres obftaculos. Sina]ou*íe entre todos B-:ai 
Nunes Caldeira , Provedor aqoelle anno do Hoípital de 
Santo Amónio , que naquella Corte châmeõ dos Foríu« 
guezes; porque luceedendo celebrar-fe a fefta do meímo 
í>anto. e fendo coftume afiiílir nel^a o Embaixador g'EI- 
Rey Cathobjo , funç^-^õ que lhe tccsva como a Embaixa- 
dor de Rey de Portugal , deliberou Brás Nunes Caldeira , 
que havia de defender ao Embaixador de Caílella a en- ., -„,,r /u 
trada da Igreia. Junícn alguns Poituguezes, q^\^e \^ re- de'BrasNHm 
folveraõ a acompânhallo , e ^em repararno ptrtgo z quz caldeira, 
fe expunha nsõ íó pela differença do poder que os Ca- 
ílelhanos íinhgõ em Rema , íerrõ pelo ciirte de juí tar 
publicamente armas de f t go ti õ deferdida? naquella C or- 
te , que o delinquente , que fe acha cem ellas , naõ diíTe- 
re mais que 24 horas da culpa á n crtc. j; rtou toco o 
género de ai mas j que lhe foy pcíiivel, cfítr.iivsí , e defcn- 

ilvas i 



176 PORTUGAL %ESTAURJDO , 

floras ; occupou os poílos , que podiao facilitar o feu ín» 
Ann6 tento ; e coní^aadj âo Pontitice , e ao Eaibaixador ds Ca» 
/• ílálla a fui dciiib?raçíó, nem o Embaixador Ce arrojou a 

^^'ív divertilla , neoi o Poniiiica quiz caíligalla; privilegio daf 
acçosns grarndjs, qui até os oíFerididos coitumaõ ampa- 
lailas ; e nao íó eít^ anno íicou divertida a airiibucia que 
os Enbaixadorss de Gaílella faziaõ eoi Santj António, 
fenaò qu3 paíTou a todos osíeguintes , nao tornando a ia- 
tentalla. Dcípois ds chegar a Roma o Marquez de los Val« 
HemsuoPontU ^s » fsmeteo o Pontiíiwe os negócios de Portugal aos Car- 
fica os negócios diaes NepotQS Franciíco António Barbarino , ao Cnrdial 
doEmbaixiior Gaietano , e ao Gardial Pamphilio , que com o nome ds 
a\ alguns car- Innocencio X fuccsdeo a Urbano no Pontiíicado. As lup- 
---'^- plicas fe encaminhavaõ ao Cardial Fraiicilco Barbarino, 

oíFerecia'llias Paníaleaõ R.odfigu::s , acodia às AuJi^íncias 
como Agente dos negócios de Portugal , e a tudo o mais, 
que pertencia ao fim , que fe procurava. O Papa , em quan- 
to fe naõ tomava a ultima reíoluçiõ , mandou ordem ao 
Bifpo Embaixador para que nao palTeaíle pela Corre em 
publico. Fez Pantale. õ Rodrigues a primeira fuppHca aos 
quatro Cardiaes nomeados , toy na« apparencias bem ad- 
mittida, e relpondeo aella o Gardial Francifco , que de- 
fejava ver o dir^iito com que ElRey de Portugil íe intro- 
duzira na Goroa. Replicou Pantaleaô Rodrigues , que El- 
Rey D. João mandava Embaixador á Sé Apoílolica a dac 
obediência ao Sum mo Pontilice, e naô a efperar deciíao , 
ou confirmação alguma de Sua Santidade , pois era Senhoc 
de hum Reino ileato no temporal de todo o Juizo huma.- 
no : porém que por obviar as interpretaçoens dos polí- 
ticos , fatisfaria á curiofidade do Gardial. No dia fe- 
jípreíéía Pan^ gatnte levou em hum memorial deduzido o direito d* EU 
^aÍTVi^V.'- í^sy á Goroa» que occupava, com razoens tao ciaras , e 
moriaUofnodi' t^6 bem fundadas, que eícurecèrao todas as appjrentes 
niiod-EiRey. propofiçoens , que os Gaíbelhanos haviao efpalhado em 
vários manifefto9. Eíperando defte papel Paataleaó Ro- 
drigues a refoíuçaó de fer o Embaixador admittido a Au- 
'DlfflcnUiies dieucia , lhe declarou o Cardial Francifco , que Sua San- 
fr.ip->'J.u pei)^ tidade via nefta Embaixada mais demonílraçoens appa. 
' " renUS/ que obidlenâa , e re'piito á Sé Apoílolica : por- 
que 



Cardial Fra>i 
ci(c9 Barbiirlni 



PJRTE L LIVRO III. ijf 

que a retenção das Cape lias , que em Portugal fc haviaõ 
ufurpado á Igreja, continuava, vioíando'íe por efte ca- AnflÒ 
ninho a inimunidade EccleíiaíMca , e sprovando'íe com ^ 
a contumácia o perniciolo exemplo da expuHaõ do Biipo ^^41» 
de Nicaílro Colieitor Apoftolico , occafionada por elte 
reípeito : Que a eíla prejudicial reroluçaõ fe accrefcenta» 
va o grave efcandalo , que a toda a Republica Chriítãa 
tinha dado a priíaã do Arcebiípo de Braga D. Sfcbaíliao 
de Mattos : ( que ja neíte tempo havia cummettido os de- 
lidos , que adiante referiremos ) e que > confideradas eítas 
razoens , le julgava precifo que o Arcebifpo foíle pofto 
cm lua liberdade, e le Jhe reltituiíTem íeos bens, cu ao 
menos o remetteilera em Cuítodia a Romã , para que o 
Summo Pontiíice como íeu legitimo Juiz julgaíTe o feu 
delido: que as Capellas fe reitituiílem á Igreja , fem íe 
interpor duvida , nem embaraço : que com eítas demonf- 
traçoens fe conciliaria o animo de Sua Santidsde póra sd» 
mittir a Embaixada. Satisfez PantaleaÕ Rodrigues a efta ^ /, . -. 
propoíta dizendo: que ainda queacomraiílaõ do Bifpo Em- t\u^o^ LàX 
bâixador fe naô extsndia a mais , que a dar obediência ao guei, 
Summo Fontiíice , naõ parecia licito gravar com encar- 
gos o ado de huma acçaõ voluntária , o que fendo con» 
tra todo o direito univerfal , excufava o Embaixador de 
naõ trazer poderes para tratar o que le naõ fuppunha que 
pudcíle scontecer ; que fiado na piedade Cfctholica d"El- 
Rey feu feiíhor promettia da fua parte , que a ouvida das 
Capellas le ajuílaria com a concluíaõ mais favor? vel á 
Igreja , mandando Sua Santidade Núncio Apoílolico a 
Portugal, como haviaõ feito fcb^-e fimilhõntes Concor- ' 
datas os Pontífices Joaõ XXI. e Xiíto 1 V. tm tempo doj 
Heys D. AíFonfo V. e D. Joso íegundo : porque eíla 
matéria era taô embaraçada , quti tiveraõ as duvidas del- 
ia principio no anno de 1604. cuja ky , defde aquelle 
tempo eítabelecida , havia cerogsdo o Colieitor com ef- 
«. candalo univerfal. Que em quanto á reí''ojuçaõ do Arce- 
bifpo de Braga, Sua Mageílade ns6 havia excedido as 
permifloens do Diteito Canónico ; pcvque fendo o Arce- 
bifpo convencido no crime de lefa Mf geílade, o neõ exi- 
mia o foro EcckíjaftiiO naõ fó dá prisão , mas nem da 
Tom. I, ' M mor- 



Í7S TOnrUGAL 1{ESTAV11JD0, 

morte , de que havia vários exíínrplos no Mundo ; porét» 
^AnnO q^e Sua Mageitade , para que naô ficafle acçaó alguma 
jx íua eícrupulola, mandaria entitgar os autos do Arcebif» 

■ ^4^* po aos Juizes , que Sua Santid.íde apontafle tm Lisboa, 
prohibíndo-lhe remettellos a Roma aílim o perigo de po- 
der por qualquer accidc-nte cahif naç n.ãos dos Caftelha- 
iios ♦ coiDO a dJíii^uldade de íe lhe haver de formar culpa 
em Roma daquella Mageitade, que o Summo Pontiíice 
naõ reconhecia por coroada. EíUs íatisfjçoens atalharão 
com o Cafdiai Barbarino os pretextos , que bufcava pa- 
ra a dilaçaó, quá ju gaya preciia, vendo que naõ era 
razaõ delení^anar ao Embaixador de Portugal , nem con- 
veniente offender o Embaixador de Caílclia. E ultima- 
mente antepondo a politica â juíliça, apertando Pantaleao 
Rodrigues pela ultima reíoluçaõ , faltando razaõ ao Cari 
dial, faltaraõ'1 le razoens *, de que f^ originou canfar-fe 
de forte das inft meias do Agente , ( defeito ordinário de 
quem fem razaó offende) que com demonftrc^çÕes efcan- 
dalofas dava a entender a Pantaleao Rodrigues nas au- 
diências publicas o feu enfado. Vendo pois o Bifpo Em- 
baixador as duvidas, que cada hora crefciaõ na íua pre- 
tençaõ» buícou todos os caminhos , que as podiaõ facili- 
tar , e em todos achou cortados o% pailos pelas negocia- 
ções de Caílella. Eíle fucceíTo fazia diííerente eííeito no 
wyftàas ãa Marquez de los Valles, porque vendo as íuis diligen* 
j^âArc^uez. ãeUi cías bem loíiradas , tomou animo para rrjaior empreza , 

Valles Embai' ,_ . F^-^^a^ r> «« «oíl^a A.^ n\ír^^ A^ I «r« 




de Portugal , tendo por certo , que, permittindo o P >ntiíi« 
ce audiência ao Bifpo , confirmava a acclamaçaõ d*ElRey:, 
e lhe facilitava por eíle caminho as alianças dos Prínci- 
pes de Europa ; confequencia , que fegurava a defenfa 
defte Reino. Nefta confideraçaõ bufcou pretextos para 
publicar queixas íem fundamentos, que faó fáceis ds 
schar em quem oegocea feguro no poder , e no cabedal. 
O Biípo alcançou neftes dias audiência de alguns Car- 
diaeç , que o tratarão com hon''a<i de Embaixador : acom- 
panhar a5-a a eftai vizitai os feos criados cora alguas in- 

ÍJgnias 



Anno 
1Ó41. 



PJRTE I. LIJ^RO lã, Í79 

ílgnuis fó permittidas aos Embaixadores. Inferio o Mar- 
«jucja delta novidade , qus o Bifpo havia confegu'do au- 
diência do ÍJííaio Pontífice na fornia , que defejava. Mul- 
tiplicou as queixas com taô immodeítas lupplicas , que 
opprimido o Summo Pontifics com a memoria em Ca- 
llella , e o cuidado em Napolc;* , declatou : Q^ie naÕ acei* T>eciara « pon* 
tava a Embaixada do Biípo de Lamego. Conílandoihe ^^\^' ?''^ "/'i 
ao Marquez de los Valles a certeza deite Decreto , sppli- l"da de^porZ'- 
cou á paixão os últimos alentos , e fem mais confidera- gal. 
ç>:ó , que a da ira , ne-n mais attençaó , que a da fúria , de- 
terminou prender o Biíoo de Lamego , e remettello a Ná- 
poles , íeguindoo exemplo do Marquez de Caílello Ro- 
drigo, que havia tomado a melma reíoluçaõ com o Prín- 
cipe deSans, por huma leve fuípcita de que o Príncipe 
tinha iníelMgencias com França j e razendo-lhe coitar a 
cabeça , deo motivo a hum dos maiores efcaindaíos da 
Europa. Com eíle erro por Norte determinou o Embai» 
xador dsCaítella executar a empreza de prender hum Pre- 
lado na Corte de Koma , feguro na fé do Pontiíice , fem 
mais caula, que achar favorável a íua refoluçaõ , íup» 
pondo-a poucos dias antes da parte das pretençoens do 
Bilpo ; deíconcerto univerfal da natureza humana , que 
tanto adoece de fraca, como de fó^-te i e aílim a debilita 
o fangue que ihe falta, como a íuffoca o que lhe íobra. 
ReloJuío o Marquez a executí^r eíle intento , juntou em j^ff^ta o i^aV' 
Roma, por intervenção do Príncipe Galiano da Czía qnez de hs vai. 
Colona , dependente de Caítela , duzentos bandidos , ^^-''^^''*^'^^^* 
unico acerto defta empreza , íendj fó homens de vida '"^''^'''^^^■^"h, 
taõ larga, proporcionado* para a execução defte delírio j '***'^' 
e querendo honeftar o rancor, q le em Roma caufavaô 
afluas preverçoens , fez }ôf t i^o a huma pequena por- 
ta , que fahia do feu Palácio, e publicou , que os Poitu- 
guezes haviaÔ fido authorcs dMVa ínfolercia ; e com efte 
pretexto chí^m.cu a Roma OíFiciaes , e Soldados de Nápo- 
les. O Pontiíice cOi'ftando-]he das prevençoens do Em' Prevenf sem á^ 
baixador de Caíteila, buícou dous caminhos de atalhai- -p^^/^. 
las : hum , mandando legurar com grande numero de 
Soldados 33 psrtes íuípeitolas : e dando ordem para que 
fahiííem de Roma iodos os vagabundos, com que dimi- 

M 2 nuio 



164,1, 



dfvh.os que Ce 
àao ao Bi'po 
Embaixador» 



Prevençcens 
tcKtra as Caf. 



:i%o PORTUGJL mSIAVRA-bO, 

nuio muito a familia do Marquez de los Valles ; cetro; 
ordenando ao Bifpo de Lamego que fc acompsnhaíre 
de pou:a familia , e que o feguro da íua palavra , e das 
prevençoens, que mandava lazer » podiaõ iivrallo de tO" 
do o receio. Eílindo de huraa , e outra parte as matérias 
na diípofiçaô referida , e acompanhando-fe o Bilpo Em* 
baix^d )r íó de dous Gsnti> homens , e dous lacaios , con- 
forme a ordeiTi do Pontiíice , chegou em 20 de Agoílo o 
eíFcito , que íc podia eíperar de tanta refoluçaõ deícon» 
certada. Sahío o Biípo de Lamego ás cinco horas da tar- 
de a vifirar o Embaixador de França, acompanhado da 
familia, que lhe efcava deítinada : Era hum dos Centís 
homens Diogo de Barcellos , antigo criado de íua caía. 
Examinou a íua attençaÕ , que feguia a carroça do Bifpo 
huma efpia dos Caílelhanos •, advers*iO-o ao Biípo ♦ o 
qual mandou logo chamar hum confidente, a que orde- 
nou que foíTe a caía do Embaixador deCaílelJa, e que 
achando alguma novidade, lhe fizeíle avizo em caía do 
Embaixador de França , para onde hia. Naõ tardou mui- 
to co.B a certeza de que achara em caía do Embaixador 
prevenindc»fe gente » armas, e carroças. Confírmou ef- 
ta noticia Pantalesõ Rodrigues : porque tendo naquella 
tarde Audiência do Cardial Barbarino, foube delle que 
o Marquez de los Valles eftava refoluío a bufcar occafiaõ 
de fe encontrar com o Bifpo , e valer-íe delia para o ma- 
ísr , ou psender : e pedindo o Cardial a Pantalccô Ro- 
drigues quizeíTe períuadir ao Bifpo que naõ fahiffe aquel- 
la tjrde de fua cafa , elle lhe reípondeo que ja quando 
elle fahira íicava fora delia. Obrigado de hum a , e ou- 
tra noticia lhe pareceo ao Bifpo que era neceílario pre- 
venifíe para que o naõ colhefle o Embaixador de Caf- 
tella defarmado. O Embaixador de França defejou per- 
fuadir ao Bifpo que fícaíTe em fua csfa, dizendo que 
como naõ era novidade fer feu hofpede , que ninguém 
poderia cenfurar efta acçaõ : porém o Biípo advertido , e 
vaíerofo, em nenhum caio admittio efta propoíla \ o que 
vendo o Embaixador de França, mandou juntar a fua 
familia á do Bifpo , eaeílas fe unir?õ alguns Portugue- 
zes , e Catalaens j qus andavaô em Roma ; chegarão to- 

dos 



PARTE 1. LWRO 111. ''úi 

dos juntos ao numero de íeflenta peiroai. O Embaixador 
de França por evitar a contuiaõ , e defordem , romeou AnríÒ» 
por Cabo defta gent© ao feu Meilre de Camera , cliamado ^ 

Lucach > peíloade que fazia grande confiança. Feita elta . ^"4^ 
prevenção) entrou o Bilpo em huma carroça com quatro falTadct^^"dl 
Gentis nomens , í^m moitrar ibbrefaJto algum , herdando f,^'^^^. 
o valor , e conílaacia di Icos antigos predcceflores : Se* 
í^uia'o a mais gente , huns em carroças, e outros a pé ; 
rnas de forte repartidos, e caminhando as carroças táo 
devagar, que todos íe acháraõ junto?. Pouco havia o 
'Bifpo andado, quando lhe tizeraó avizo , que o Mar- 
*quez de los Valles le vinha chegando : mandou aos co- 
cheiros , que naõ paraílera , e vieraõ a topaffe as corro- 
ías dos dous Embaixadores em huma volta , que faz a 
rua de Santa Maria invia. Gritarão os Gaítelhanos , que 
fizeílem alto ao Embaixador de Caítslla, refponderaõ os encontro ies 
Portuguezes, que paraflem ao Embaixador de Portugal, '^«'■«f ^-^^''»! 
Sem dilação íahiraõ os Caltelhanos das carroça» , o mef; ^'^ *'^"- 
mo fizeraõ os Portuguezes, e Francszes ; de huma , e 
outra parte fe dirparárao quantidade de carabinas , e pif- 
tollas , de que Jogo ficírao mortos > dos que acompanha- 
vaô o Bifpo , hum Maltez parente do Embaixador de 
França , dous pagans feos , e hum criado de Pantaleaõ Ro» 
drigues : dos Caltelhanos cahiraó mortos oito , em que 
entrou o Capitão U.Diogo de Vargas , e ficáraõ vinte fe- 
ridos. O eítrago das armas de fogo fe accrefcentou com os 
golpes das elpadas, que os Portuguezes fabem efgrimir 
com grande deítteza. Carregarão os Gaíleihanos com 
tanto valor, que em breve efpaço defampararaõ ao Mar- 
quez de los Valles, que fe naõ havia até aquelle tempo 
fahido da carroça , e vendo*fe fó perturbado do receio fa- 
hio pelo eípaldar delia, e falto de alento , eíquecido da 
reputação , perdido o chapeo , e defcornpofta a capa , fe ^ake dcjapop.o 
recolheo á logea de hum bifcouteiro , donde pÊÍÍcu á caía " ^^'^'''r'*— '^' 
doGardial Albernoz, que ficava vizinha. O Biípode La- ''' ''''^^''* 
megofahioda carrcça , em que hia, no principio da pen- 
dência com hda cncbina nas irãos , e em quanto ella du- 
rou deu valeroían->cnte calor £OS que o Ecompf rhavaõ : 
£csbada elia , fe recGlhto â csfa de hum Italiano em quan- 
Tom. I, Ivj o to 



VíSz PORTUGAL mSTAVR^DO , 

to as eárroçi^ fe prevenicõ., e os moítos fe retira vaò.Vol- 
. Aniio tou para o Palscio do Eftbaixâdor de França , donde , ío- 
í6ll '^^S^cJo o rumor, fe retirou ao leu apofento. A carroça do 
"^ • EiTibaixador de Caftella elteve deus dias feita pedaços 
y}o vicioriojo, "° lugar da pendência , fem haver quem a recolheííe , que 
* tal era o defacordo com que ficou o Marquez de los Val- 
Jes , e a fua família. Veio logo vifitar o Biípoc^'' Lsme* 
goda parte do Cardial Bárbarino hum Gentil-horriem íeu, 
agrjdeceo o Blfpo o comprimento íem fe queixar do fuc- 
ceíTo. Os Cardiaes da facção de Caílella , e todos os que 
fegui.õ aquelle partido , acodiraô logo a cafa do Mar- 
quez dô \qs Vjiícs: â do Biípo de Lamego vieraô o Du^ 
que de Brechano » e muitos dos dependentes de França. 
O Cardial António montou a cavallo; e fegurou a Ci- 
dade com vários corpos de guarda , que repartio pelas 
ruas. No dia feguinte a eíle fucceíTo determinou o Mar- 
quez de los Vailcs fahir-fe de Roma íem dar conta ao 
Pontífice : porém perfuadÍraõ-o os parciaes a que lhe 
fallaíle , por naõ accrecentar o juílo fei tinr ento com que 
eílava da fua demazia. Obrigado defre confelho pedio o 
Marquez audiência , e ufando nella de pretextos apparen- 
tes para fe fahir de Roma \ o Papa o dcfpedio com bre- 
saheãe-Eumao vcs , Q graves palavras. Paííou-fe o Marquez para a Ci- 
Marque- de los dsde de Aquila , e eíte feu retiro gravou na opinião de 
yaiUs. todos mais o feu exceílo , e fez de todo evidente a fua 

imprudência. O Biípo de Lamego entendeo que deíie ac- 
cidente havia de refultar o bom fuccefio da fua Embaixa- 
da , fuppondo que naõ podia o Pontifíce achar rrelhoc 
•faíisfaçaô do infulto commettido pelo Marquez de los 
Valles em oíFenfa da fua authoridade , e difcredito da fua 
palavra, que recebello como Embaixador de Portugal, 
Sobre eíle bem fundado difcurfo aíTentou as mais efficazes 
diligencias, applicou todas as negociações , muUipiicou 
as maiores inftancias : porém achando mais que nunca 
cerr-ílos os ouvidos do Pontífice , negando-fe a audiência 
do Cardial Barbarino a Pantaleaõ Roc^rigues , e havendo 
yecebi:lo ordem d'ElRey , que fe paíTado hum anno de aCí 
íiílencta de Roma, que fe confava em 20 de Outubro,' 
aquieílava próximo, ixsd houveíT^ confeguido aceitar 

o Sum- 



FJR7E I. LIVRO III. 18} 

O Summo Pontífice a Embaixada, ie voltafíe a Portugal » 
ití reíolveo' por uliimo delengano a fazer liuma lup^^iica AtinO 
a Sua Santidade , cujas razões eloquentes , e bem lunda- 1/ aj 
dai continhaõ todo o direito d^EíRey â íucceílsõ da Co- j,y,.vJ*/« '/,v 
roa de Portugal , a poííe pacifica em que eítava naõ ló ^i'''^]f^,"//J^J^ 
do Reino, IcnaÕ de todas as Conquiílas delle » a humii- xadvr aoi^ai^, 
dade, e promptidáõ com que mandara dar obediência a 
Sua Santidade , que era paliado hum anno lem poder con- 
Icguir audiência, por haverem prevalecido as caviloías 
diligencias dos Caltelhanoí , taô poderoías , que obriga- 
vaõ a Sua Santidade a negar a ElRey Dcm Joaô o que 
os Summos Pontiíices íeos gloíioíos Predeceílores haviao 
concedido naõ íó a todos os Príncipes Lhriliãos Jcgitimos 
poíTuídores das fuás Coroas , como elle era, nras ainda 
aos intruíos , hereges , e infiéis , que íe quizeraõ lujeitar 
a efta obfequioía ceremonia : e que ficando ElRey cora 
8S diligencias , que havia feito , livr;; de efcrupuJo dos da* 
nos I que ao eípiritual do íeu Reino forçofamerte haviaó 
de reíultar , elperava que eíles correílem por conta , para 
a dar no Tribum^l roais Supremo , dos que £coníelhav£Ô 
a Sua Santidade; e que alem deífas juítificadas queixas , 
conftando a ElPvey apouca fegurança com que vivia na- 
quella Corte , o mandava íe voJtaííe a Portugal , naõ ha- 
vendo confeguido audiência até o fim do mcz de Outubro, 
em que prefazia o termo de hum anno de siliftencia da 
Roma : porém que elle esperava , que S. Santidade ulsn» 
do da lua piedola grandeza , quizelle conceder-lhe audiên- 
cia merecida de juíliça , e remédio da í,flicçaÕ , que pa- 
decia Portugal de preíente , e dos males que íe témíaõ de 
futuro. Naõ foy de algum effeito eíta ultima diligencia, Re/bof^ aoEif>- 
refpondendo o Cardial Biche ao Biípo de Lamego por l.vxí'c'cr a de^ 
ordem do Sumo Pontífice, que a Congregcçaõ dos Car- ^^"S^í-^í». 
diaes havia determinado , que a Embaixada naô foíle sd- 
mittida , aífim pelos accidentes, de novo acontecidos , co- 
ino porque tendo o Ellado da Igreja guerra com o Duque 
de Parma, naõ podia pôrfe em riíco de quebrar com os 
Caílelhanos , guerra que leria mais formidável so Eílíi- 
do da lgrej.3 , pelo grandv» poder , que ElRey Catholico ii. 
ilha em Itália , e peia riiUÍta vizinhança , que havia de Na. 

PA 4 polés 



1^4 FOnTUGAL ^ESTAVP^JDO, 

polés a Roma. Defenganado o Bifpo com efta ultima deí 
Anho terminação , íe refolveo partirfe para Portugal. O Ponti« 
164.1 fic3 piírecendo-lhe , que íuavizava os aggravos referidos 
^ • com permittir ao Embaixador audiência como Biípo de 
^ Laoiego, Jha mandou offerecer: neíta forma naó quiz 

^>ílSl^^^- aceitâlla. dizendo, que naõ era aquelle o íim para 
rof/.o parncpi- 9^^- O ^^u Pfincípe ihe entregara a commiíísõ , que trou- 
l^r. X2ra. Partiofe também lem fazer ceremonia alguma com 

o Cardial Franciíco Barbarino ; porque como eílava com 
tanta razaõ quaixofo , julgou que naõ eraõ precifas todas 
as demonílraçoens , que íizeílem mais publico o feu íen- 
Parte deRo777n, timento. Embarcou'fe em Liorne, e em poucos dias che- 
* chega a Por- gou 3 Lisboa , onde as fuás acçoens , ainda que com máo 
iuiaU íucceíTo , lograrão o applaufo que mereciaÕ , por ferem 

difpoítas com grande valor , e prudência. Durou-lhc pou- 
co tempo a vida , e as fuás virtudes íizeraõ geralmente 
íentida a fua morte. 

No mefmo tempo, que fuccederaõ ojr vários ca- 
fos de que temos dado noticia , havia ElRey foliciíado to- 
dos os caminhos defegurar adefenfadefteReino , epro; 
curado juntamente trazer a elle todos os Portuguezes , 
que por varias partes andavaõ divididos em íerviço d*El- 
Rey de Caftella. Conílando-Ihe , que D.Rodrigo Lobo 
havia chegado com alguns navios a Cartagena de índias » 
derrotado de hum temporal , havendo fahido de Lisboa 
migeussd^El' dous annos antes por Geaeral de huma Armada, que paf- 
Rey parafe re- fou 30 Brafil , e padecido OS infortunios , que experimen- 
'j!,t'!^J[t.tou o Conde da Torre, quando intentou reítaurar Par^ 
wè «Ií;;ÍJwí. nambuco , e que com D. Rodrigo vinha embarcado Joaô 
Rodrigíie? de Vaíconcellos Conde de Caftello* Melhor , e 
outros Fidalgos dignos de toda a eftimaçaõ , fe refolveo a 
fazer-lhes avizo , e quiz na brevidade anticipar-íe ao que 
de Caftella fe havia de mandar áquçlla parte , podendo 
refultar deíla diligencia paílar*fe D. Rodrigo a Portugal 
fem embaraço. Elegeo para efta jornada a Joaõ Páes de 
Carvalho , habilitando^o aílim o ter capacidade, como ha- 
ver eítado muito tempo em Cart gena. Partio de Lisboa 
em huma caravela em cinco de Janeiro com vento prof- 
pero : chegou brevimentí á^ Ilhas de Barú , cincç legoas 

de 



TARTE I. LIFRO III; ííj 

de Cartagena , onde deixou a caravela , e paíTou a Car- 
tagena em hum batel ; levava algumas cartas , que El- AnnÔ 
Rey mandou lançar fobre huns finaes em branco , que fe ^ 
acháraõ d'ElRey de Caílella na Secretaria de Eftado : le- ^^41^ 
vava outras aílignadas pela Duqueza de Mantua > que fir- 
mou obrigada ou do receio, ou das inílancias. A confu- 
laó dsquelk tempo occafionou o defacerto das cartas *, 
porque luppondo-te , que era General da frota de Irdias 
D. Jerónimo de Sandóval , que o havia fido , íe lançarão 
as cartas em leu nome , e le puzeraõ para elle os íobreí* 
critos das que Ihetocavaõ. Outras que hiaõ para D. Ro- 
drigo Lobo continhaõ crdem , para que vieíle comboian- 
do a frota , e que na aliura das Ilhas acharia vinte fraga- 
tas de Dunquerque , que fe haviaÕ de incorporcr com 
elle , para íegurar a frota da Armada de França , que a ef- 
perava. As cartas cfcritas a Dom Jerónimo eraõ ordens 
apertadas, para que naõ embaraçaíle o que íe ordenava a 
D. Rodrigo Lobo. Tanto que Joaõ Paes chegou a Carta- 
gena falou com Dom Rodrigo , e deolhe a carta occulta s 
que Jevova d'ElRey , que continha a peiíuafaõ de fe paf- 
lar a Portugal , folicitardo na jornada os maiores i&íeref- 
fes , que lhe folTetn poíliveis : pcrém faltando a prudên- 
cia neceílaria era negocio taõ importante , e achando João 
Paes por General da frota s Francisco Dias Pimenta , que 
havia fuccedido a D. Jeronirpo de Sandóval , pudera cc- 
culto dar a carta que levava d*ElRey a D. Rodrigo , e vol- 
Ur-ÍQ com as outras na caravela fem dsmno, rem pe- 
rigo do fegredo ; mas o feu pouco recsto fez peteríe a 
Francifco Dias Pimenta a íua chegada. Tanto que o fcu- 
be o buícou , e íolicitando as cartas, que elle lhe deo íem 
refiítencia , examjnando nos erros delias a cavilrçrõ das 
ordens, prendeo Joaõ Paes, e pcrdo-oa tormento a pou- Pr'3ia"íie^caâ 
cos tratos confeílou a diligencia a que virha , e a meíma ^^^"^^<^''''*'*' 
declaração fez ligo D.Rodrigo Lcbo, porque vendo 
defcoberto o tr^tí^do, quiz cvitrr pridentemenfe ffzcr» i^efcohe-íe o 
fe fufpeitoío -, corílando-lhe tan bem , que síTim como "^'^"'''' 
chegira a caravela ás Ilhas fora ccr;hecida por fmbar- 
caçaõ de Portugal ; erro que pudera evitar fe, mandando- 
fe outra ii.enos fuípeiloía , que Jogo de Cartagena ha- 

via5 



l6^i. 



jiU PORTUGAL RESTAURADO, 

jViaõ hido varias peffoas examinar a diligencia a qus vi- 
AnnO "^3 » o <l'-í^ cultou pouco trabalho » porque os remeiros, 
qu2 leyâraõ a joaó-faes no batel , tinhaó referido aos Por- 
tagaezes, que encontrarão , todo o fucceílo da acclama- 
çaõ. Francilco Dias tanto que teve deícobsrto toda eíta 
i máquina , mandou buícar a caraveila por alguns barcos , 
; e a eíte rumor os que eílavaõ nella , prevenidos para quaU 
quer accidente, levarão ancora , edéraò á vela para Por- 
tugal, fem oílenfa de algu as cargas , quedos barcos lhes 
tirarão ; chegarão a Lisboa , e íicou ÈIRey com grande 
íentimento , íabsado delies o máo fucceílo da lua jorna- 
da. Joaõ Paes foy fenteaceado á morte , de que íe livrou 
por quinhentas patacas, embargos que o puzerdô na rua 
lem mais exame do feu delicio. As noticias da acclama- 
çaõ d'ElR.ey alterarão os ânimos de quafi todos os Por» 
tuguszes , que havia em Cartagena , moílrando Deos eoi 
todas as partes do Mundo , que com o remédio da Simpa-, 
tia , duvidofo em outras feridas , determinava curar aquel- 
las, que os Gaít jlhanos haviaó feito nos ânimos dos Por- 
tuguezes íeíTeata annos , que os dominarão. Produzio o 
avizo de Joaõ Pae? o maior eíFeito no ganerofo coraçaõ- 
do Conde de Gaílello- Melhor , e parecendo-lhe pequena 
emprezí a de paííac fó a fua peíloa a Portugal , intentou 
outra taô bem fabricada, que merecia melhor fortuna: 
porém as grandes emprezas compoem-íc de muitos iníbru* 
mentos , naõ íe ajuílando nunca íegredo communicado a 
muitas peíToas , e fendo o fegredo a alma dos n^rgocios, 
deílroem-fe, íe íe revela, e coníerva-fe poucas vezes, 
por naõ fazerem todos os inílrumentos os movimentoi 

iguaes. 

No tempo em que o Conde de Caftello-Melhoc 
^rd7co?iie7e andava forjando as maiores idéas , lhe offereceo a fortu- 
Çajiiiíi>j-Mei!}jrn3igí occafiaó quedelejiva. Partio Francifco Diaí Pimen- 
ta para Porto Billo com dez navios , a bufcâr a praia que 
naquelle anno havia de paQar na frota a Hefpanha : fica- 
rão furto j no porto d-: Cartagena quatro galeões grandes , 
queeraõ as Capitanias, e Almirantes de Portugal, eCa- 
ítallai e o prefiiio qj2 íicou em Cartagena conílava a 
maior parte de lafaataria Portugueza : eífcas diípofiçõ;s 

fo- 



P^KTE 1. UV%0 III. 1 S7 

forsõ matcria £o fcgo em que ardia o Conde de CaOello- 
Melhor por eccreceritar a íua opinkõ » tsõ íimilhante ao AnnÒ 
jTxímo fogo , que íe tpaga , fe íe tiíÕ foiTierta. Formou , 
o Conde con:f!go as ideas íeguintes , e ajuílou-as com ^4 • 
o feu difcurfo, muito capaz Confelheiro de negocio de 
tanto pezo I primeiro que ferefolveííe a ccmimunicallas 
a outra peíloa. Diícuríou que os quatro navios, que fi- 
carão lurtos , eílavaô ítm guarnição , que introduzir- lha 
dos Portuguezes ♦ que íe achavaó em Cartsgena , era mui- 
to fácil, e pouco difiicil perfuadillos com as iníiancias 
dos Capiíaens , que julgava diípcítos à íua ordem , para 
emprenderem huma accaõ de tanta gl-oria , e utilidõde. 
Dilpunlia mais , que os rrsntimentos , e muniçoens r.e- , 
ceílarias para o provimento dos navios, poderia facil- 
mente tirar dos muitos» que efíavaõ recolhidos no arra- 
balde da Cidade chamado GeíTamaníí porque depois de 
ganhado os Officiaes, e Soldados Infantes julgava , que 
fcrià fácil interprender o arr&balde , e favorecendo a for- 
tuna o intento , ganhar a Cidade, e que quando femo- 
ílraíTe difficultofa eí!a ultima empreza, lhe baítavaõ pa- 
ra o que intentava as muniçoens , e mantimentos, que 
havia de tirar do arrabalde; e porque o Forte deScõFi- 
lippe , que dominava a Cidade, e defendia a barra, po- 
dia íer embaraço á empreza , e cífenfa aos navios, deter- 
minava vâlerofamenre o Conde de o ganhar na mefma 
hora, que tiveíTe diípoílo o aíTalto do arrabalde» e para 
ccnfeguir a empreza , difpunha iníroduzir-fe na Fortale- 
za na forma, que muitas vezes cofíumava ir a ella, que 
era com feos camaradas , e criados a converfar naquelle íi- 
tio as horas deíoccupadas.Era eíle numero de gente íupe- 
rior à pequeDa guarnição da Fortaleza ; e efta ccnílâva 
quafi toda de íoldados Portuguezes , e per eí^e refpeito 
tinha o Conde per infallivel ccnfegiúr o cíFeito, que de- 
fejava ; e levantar.doTe mais o reme ntado vôo de feu ef« 
pirito, fuppunha empreza fscil, unidos es fios de lodo 
eíle tear , achando-fe com os quatro navios bem guarne- 
. eidos íuperior ao poder , que Frarcifco Dias Pimenta tra« 
zia na volta de Porto Bello para Cartagena, inveílillo í 
e ganhados os navios carregados de prata entrar com 

triunfo 



iSJ POITUJAL nESTAUHJDJ , 

triuifo, e coTi d."ípojo em Lisboa de tanta irapoitaticia,' 
Anii3 e taõ valerolanaente coníeguido , que toda a prata , que 
^ os galeões trouxiíleoi, íeria pou;a para lhe fabricareni 

*^-ff« eíhtuas. Formado eíte difcurío, paílou logo o Conde á 
execução I e a primeira peííoa a quem commuíiicou o íeu 
Comunica o m> íntento foy a D. Rodrigo Lobo , o quâl achou valerofa-, 
J/^^J^ ^5^/ ,^J mente dilpoílo a tentar a empreza, ea procurar todos 
o a}^rov4^ os caminhos de confegui^la. Depois de exaíninaiem as dif- 
ficuldades , le ajuftáraõ na difpofiçaó íegaiate. Eílavao 
alojados na Cidade os Capitães António de Aze7edo , An- 
tónio Rebillo Falcão i e António Rapoío , iem os quaes 
is naõ podia confeguir o intento propolto.Suppozo Con- 
de , qua três Antonios era felice vaticiaio , e naó podiao 
faltar á fé Portugueza j encommendou ao Capitão Pedro 
^«f^rre^jáPí- jaqy25cj2 Magaihaeus , em cujo valor, e deílreza punha 
d^ii^^ncuT ''^ arrazoadamente a maior confiança, que perfuadiíTea An- 
ii^encus, jQj^JQ d» Azevedo obrigado aj Conde alFim na melhora 
de poílo , como no remédio das faltas de cabedal ; porqua 
na perfuafaõ deite julgava, que coníiítia a dos dous cama- 
radas , conhecidimente governados pela íua direcção. Fez 
Pedro Jaques com tanta efficacia a diligencia, que trouxe 
António de A-zevedo diante do Conde, depois de o inítfuit 
em tudo o que eííava dirpoíto : porém António de Azeve- 
do refpondeo ao Conde tAÕ fria-nente , e com tanta turba- 
ção, que Pedro Jaques foy de parecer que o mataffem lo- 
go ; o que o Conde nao confentio, aííim pela íua grande 
chriílandàde , como por fe fiar em que elle prometteo de 
perfuadir os dous Capitaens íeos camaradas , que logo 
diíle hia pôr por obra: porém ou inftruidos por elle, ou 
intfodu2;tndo.lhe a grandeza da acçaõ o med j , ( taõ peri- 
goCo hofpede nos coraçiens dos homens, que quebra as 
leys da hoípitalidade com todas as virtudes que acha neU 
íes) de tal modo ficou exercitando eíle domiaio em todos 
os três Capitaens, que fe reíolveo António de Azevedo, 
concordando com os dous , naõ fó a fe defviar da empre- 
za , mas a entregar nas mãos de íeos inimigos os amigos , 
enaturaes, a que era por tjntas razoans obrigado. 
Deicohre 9 tra- ^^ amanhecer de 29 de Agoíto foy buCcar ao 

to Antonu dl g^rggjj.Q jy[5j. £). Afltoaío Maldonado' Texada , que go» 
^f^íve^o,^ _ O . - vernava 



I 



PJRTE I. LIVRO III. iRí) 

vernava a Cidade i e a D. Francifco Cartejon; que fer- 
via de Almirante da Armada , aos quaes deíccbrio tudo AnnO 
quanto Pedro jaques Uie havia fiddo. Os Caltelhanos ^ 
lem mais outra averiguação determinarão prender ao ^"45* 
Conde de Caítello-Melhor , a Pedro Jaques , é a íeoí ca- ^/"■''^ '^°^T 
maradas ; e para o executar íem per.-go da guarnição Por- dgUos. 
tugueza , fingirão que chegara avizo de que spparecisõ 
oitenta navios Hollandez^s , e por eíle fuppollo temor 
niandáraõ tomar as armas á guarnição CaíleJhana , e sos 
moradores, e ordenarão aos Portuguezes , que nao íahif- 
íem de feos quartéis fem fegunda ordem. Seguros deite 
receio prenderão ao Conde de Caílello"Meihor, a Pedro 
Jaques de Magalhaens , Jorge Fuítado de Mendoça , D. 
Luiz de Abranches , António- de Meilo , csmaradss do 
Conde, e aos feos criedos. Prerdérsô t^nhem a Pedro 
Goníaives Rotèa , Capitão de Mar, e Guerra da Ce pita- 
nia de Cííítella. Sem formar proceíTo , nem interpor dila- 
ção i chamarão a perguntas a Pedro Jaques , diante dos 
juizes» que elegerão para o exame do delido , cfrsrdo 
preíente António de Azevedo : o qual dizendo primeiro , 
que era Chriílaõ , e que íe naõ poderia crer , que levantaf- 
le teftimunhos, referio , que Pedro Jaques havia hido 
Quas noites a íua caía , a primeira a lhe propor quEnto el- 
k havia declarado , a fegunda a faber íe eílavaõ íeos ca- 
Hiarsèas perfuadidos. Depois de acabar toda accnfiílpõ, 
que indignamente fez, lhe reípondeo Pedro Jaques , fem 
Je perturbar , huma tió generofa mentira , que crm o va- 
lor , e juizo Tuperiores ao perigo , acreditou o defeito de 
haver encontrado a verdade. Difie , que António de Aze- 
vedo mentia em quanto havia reUtado, e que mater ctl- 
pa , queaelle, punha aos Juizes , pois davaõ credito a ^ - J 
hum homem taõ vil, que lem rre coílumâra encaminhar ./^'^''J/^^^^^ 
as luas acções pelos delírios do vinho , e que fe reípcndef- c^ues» ^^ "' 
fe em forma ao que lhe perguntaíTe , eftava certo , que a 
Verdade o pciia a elle livre , e faiiaa Ar te nic de Azevedo 
delinquente ; e continue u dizendo s Artoriode Azevedo; 
Naõ podeií regar com verdade , que eu fuy a vcfla cafa di- 
zer*vos, que nfõ períendeíTeis hua drn;^. qv;e ei! Jo)ici- 
tâva, e vós ccnhcteis, pcrque era empenho irtr : pro» 

fi.eucítes 



r?o PDITU3AL llESTAURJDJ , 

niettíílii di exíc itar o qui vos ad/^irtia , fc;z.vos defcuí- 
ÂilhO dar aontlajiçió Jo viinj di pilivra, q 13 meti.jfieis da* 
j^ dj ; tor i^y úgaiJa noitJ a tritafvos co no m,recieif . e 

.f>^4*- a d^fafia.-vos, íizeítes zonbiria d j diíaeJito , naõ que- 
rendo lahir ao canpo 5 e fazeado* vos pizo tirais perdido 
a opinião, quiz^ltes reítaurar huma infâmia con outra 
infâmia , iiiuritandj coin os v^'il)i t^'.timu:ih )s, qua as 
mãoi da juftiça vingaílem em mim o que naõ poJeraó as 
voíías mãos. Fisou attonito António oe Azevedo, ena6 
' íoube reíponder huma íó palavra , e confuudiraõíe de for- 

te os juizes , e os que ouvíraô naõ íó as razoen* de Padro 
Jaquãs , íenaõ a coaííancia, e reíoluqso com q.12 as pro- 
ferio , que mandarão recolhello á prizao * e to/náraõ pot 
expedieíite pôr a tormento* António Rodrigues , feu cria- 
do , e a Jacintho Lobo , que o era áy Gon Je de Gafteilo* 
Melhor. Falíou neilas o valor para fuitentar o fegredo á 
viítâ do tormento, confeGíárao tudo o que fâbiaó, que 
bailou para aggravar a culpa dos que eítavaó prezos, e ti- 
vera© os juiz;:s eftes indícios por baílantes para dar tratos 
T Fl í r'iT^ O' ^ ^^^^'^ jaqueí ; os qaaes forâõ de qualidade , q<?e parecs 
fcs" de píJrIque fuftentaf a vida foy divida particular ao favor Divi- 
ja^uis. no , que afàítio ao íeu valor ; porque con ílantem ente naá 

pronunciou maif palavras 1 que aquellas que forao ne- 
ceílarias para a defenfa do Conde » ganhando na conftan- 
cia , com que padeceo o tormento, immortal credito na 
memoria do» homens. Depois de curado o íentenceárao 
em dez armos de degredo fora de Cartagena 1 e íeu diítrí- 
do. Tanto qus íe Iheoifereceo occaíiaõ, paíTou aCndis, 
'Pafa a Lhhoa^ de Cadis a Lisboa ; fezMhe ElRey mercê de huma Cô- 
faK.'ihe ElRey jogada , 6 fez depois nos grandes poílo? , queoccupou , 
^"''^' fícçoens taõ fiaaladas , como largamente referiremos neí- 

tahiíloria. ^ , ^ , , 

Poucos dia? depois da prizao do Conde , chegou 
de Porto-BilloFrancifca Dias Pimenta, e querendo mof- 
trar no rigor a pouca alteríçaõ, que tinha ao íangue Por- 
tu^^uez, de que le aliiientava, mandou occultamentetra- 
2e?o"Conde djCaftello- Melhor ao Caftello de S.Filippe , 
e naô achando na íua confiíTiò maii que repetidas quei- 
xai ái injuíto procidinerito , que com elle íe uzava , o 

remetr 



P^RT5 ;. Lll'%0 HL 191 

remetteo ao Auditor da Artnada D. Francifco Regi com 

dous OuTÍdotes por adjuntos , íem attender a que naô ti- AnnO 

nha jurildiçâõ para íentencear hum 'litulo de Portugal fem ■/ ' 

dillerença nas preeminências aos Grandes de Caftella, cu* 4 • 

jai culpas reíerváraõ os Reys para Tribunal mais fupre- 

mo. Formarão o proceflo os juizes nomeados , e fenten- -^«"/e^rf/í/e 'o 

wy-^i/-^ i 1 •: 1 Conde amortet, 

cearão o Conde a morte, condemoando-o primeiro a le» ,/,,^j^yiw^e 
var tratos, efperando que a conliíTaõ do Conde x\o%xx^- -primeiro tor, 
tos tizcfle mais juílificada afua íentença, ou defcobriiíe wí»/o. 
algu(nas pefloas, a que elletiveflecoaímunicado aqueila 
reloluçsõ. A!jtes que a fentença íe publicaíTe ordenou 
Franciíco Dias Pimenta, que íe embarcaílem na Armada 
todos 05 Portuguezes, qut; havia em Cartagena , recean- 
do que a viíla áò efpedaculo 0$ obrigafle a depor « obe- 
dic-n.ia. Depois de embarcados , leo hum Efcrivaõ a íen- 
tença ao Conde » de que appellou , moítrando a nulJida- 
de nas prerogativas do Titulo : naõ lhe valèraõ os embar- 
gos , e a onze de Outubro , juntos todos os Juizes , a que 
aiiiíiia D, Francifco Cartajon , acérrimo inimigo dos Pcr- 
I tuguezes, prefente o Conde, lhe diíTe o Auditor, que 
I citava na íua mró livrar fe dos tratos , defcobrindo os cúm- 
plices , por naô padecer a morte mais penofa , 2 que íem 
app^ilaçaô o tinhaõ condem nado. Refpondeo o Cor^de 
coiiftantemente , que a jurifdicçaõ que elleií tomavaô naô 
paffava dos limites do Corpo á liberdade da Alma: que 
quanto mais infallivel era durar-)hc pcucoavida^ tanto 
mais eíiicazmente devia tratar da im mortalidade ^ ns5 
condemnando a quem o naõ mejecia. Na refoluç?6 da fef. 
polia do Conde entenderão os Juizes , qae era inftuduo- 
ía a efficacia das pslavras , e remettèraõ ás obras o defafo» 
go da paixão coai queprocediaõ : íizeraõ deípiro Conde, 
e apurando nelJe ornais intinu^ do rigor, lhe derfõíeí"e 
tratos, miniílros que ohrigívaô a extcuçaôcom cutror 
tormentos: padeceo'os fem prorunciar rutra palavra 
riai? que as que julgtu receíTarias para implorar o foi cor» 
TO Divino, Vendo os Juizes , que íuperava a cor^Ojncta 
do Conde os repetido* golpes dos cordéis, mandarão af- 
froyallos, c recolhendo"o á prizaõ , o ertregátaÕ a Cirur- 
glosas com taÕ po«ca acticia daqueUaarte, que forro 

i 



192 PORTUGAL RESTAURADO y 

novos verdugos , aggravando»lhe as faridas cora os remeJ 
AntlO àioi. D.Rodrigo Lob3 impaciente com a noticia da que 
X o Coade padecia , bulcou Fr^aciíco Dias Pimenta , e per-, 

^^ _ guntandoJhe com as razoens, qu3 coftuma a defconoer- 
fl^ie o^Ro^dri ^^^ ^ p3ÍX3Õ , qusm lhe dera poder para proceder contra 
%Lobo\ evoU ^^^ Titulo de Portugal , Francifco Dias lhe refpondeo , 
ia a. PortMgai' que a reíoluqaô com que fallava o fazia íuípeitoío : com 
a mâ5 na eípada quiz D.Rodrigo juíliíicar a íua fidelida: 
de ; prendeo°o Francifco Dias , trouxe-o na frota a Ma* 
drid , onde foy folto j paíTou-fe a Portugal , e durou-lhs 
pouc) tempo a vida. Os Caítelhanos publicarão, que o 
Conde confeííára o delido no tormento, a íim de obriga- 
rem com eíla invenção a que alguns Portuguezes le au« 
fentaíTem, para ficarem por efte caminho deTcobertos os 
cúmplices : foy a traça infrutluofa ; e deixando o Con- 
de ns prizao , fe partio Franciíco Dias Pimenta para Hef- 
panha , livre do cuidado, que lhe davaô os muitos Por. 
tugueses, que levava na frots. Chegando a Cartagena ^ 
antes de fe partir a infantaria Gaitei hana , que íahio da 
Bahia depois de acclamado ElRey , corno fica referido, 
coma qual reforçou a guarnição dos navios de guerra , 
repartindo o5 Portuguezes por todos os da frota , levou 
Francifco Dias nofeu galeão a Jorge Furtado de Mendo- 
ça , a quem permittitaõ , que paOalle a Madrid com a ap- 
pellaçaô do, Conde, que lhe aceitarão os Juizes , reco- 
nhecendo o pouco poder, que tinhaô para o ienrencear à 
morte. Fez Jorge Furtado em Madrid toda a diligencia, 
que lhe foy poíTivel . pela liberdade do Conde ; paQoj-íe ,' 
depois delle a confeguir , a Inglaterra , e de Londres^ a 
Portugal. Os mais camaradas do Conde , e os feos criad js 
forao também foltos. António de Azevedo mal íatisfeito 
Yim mierivei ^^Qq^^. 3 Hefpaoha , onde fem recompenfa alguma aca- 
dt Anti>ni3 dj ,^^^ ^ ^. j^ ^.j ^ ^ pobremente i íendo até aos que rece- 
^^jsvu 0. ^^^^ beneficios deíla qualidade pezados , e abomináveis 
os infa-nes authores delles. O Conde mal faô das feridas 
fe arrojou a novo intento : quiz levantaffe com oCaílel- 
lo onde eftaví prez-? 5 teve ginhados alguns íoldados por 
intelligencia do Padre Frey Ambrofio do Eioitito Santo 
da Ofdsm dáS.Biaca, leu Goafeilor, que havia trazi- 
do 



w 



\ 



PARTE I. LIVRO ItJ, T93 

do da Bahia. Determinava ganhar o Callello ajudado de al- 
guns Soldados , que havia grangesco , e ccníeguir navio ^ nnò 
para le paliar a Portugal: mas como o intento eia grai de , . /; . j : 
e os meios pouco proporcionados , íe delvaneceo , e íi^cu ^ * 
o Conde íó alimentado da eiperarça de hum avizo » que 
havia feito a ElRey por dous Alfeies ♦ hum chairado An- 
tonio de Abreu , outro Domingos da Silva , os quaes paf- 
laraõ a Cádis occultos na frota , e de Cádis fem perigo a 
Lisboa ". deraõ noticia a ElRey de tudo o que o Conde pa« 
decera > e IcíFria por íeu ferviço. 

Achou-fe ElRey obrigado á fatisfaçaô de tantas 
finezas , e perfuadido juntamente da politica de obrigar 
com a boa correípondencia a maiores emprezas os vaIc;io- 
íos ânimos de feiis Vaiíallos ; mandou logo appreftar hum 
navio, dando calor â brevidade o animo varonil da Con* 
deça de Caílello* Melhor , hoje Marqueza do mefeo Ti- 
tulo » que em muitas acçoens grandes tem moítrado , que 
andaõ nella iguaes o valor , e a prudência. Dentro de pou- 
cos dias dso a vela com os dous Alferes , que levavaõ or- 
dem de procurar por todos os caminhos a liberdade do J^j^f^a FlRf^ 
Conde , e largas promeíías , fc a confeguiflem. Em qua- t'' »^^'^^ /'*'•'* 

- ' , ° ^ V ^ ' A- t ' livrar e Ctttde,, 

renta úias lançarão ferro na ponta oa Conoa , onze léguas - -- 
de Cartagena: faltou em terra António de Abreu , cami. 
chou para a Cidade, e occulto buícou a caía de Fr.Am- 
broíío íem íer vifto de outra peííoa ; falou com eiJe, e 
3he communicou o intento que levava. Fr. Atrbroíionaõ 
querendo dilatar o alivio á aíflicçsõ, que o Conde pade- 
cia, tendo*lhe prohibido o poder falar-ihe , lhe mandou 
dizer por hum criado , que unicamente o feivis , que lhe 
defle alviçaras. Eíta noticia fem outra diílincçaõ dç^ixoii 
o Conde alentado, e confufo. Naõ IKe durou muitos dias 
o embaraço , porque Fr.Ambrcíio foube coní^eguir o com- 
municar*íe com elJe. Era Governador da Cidade D.Ortu- 
nho de Aldape Biícainho , grande inimigo de Portugue- 
Z£S \ havia tirado ao Conde , com as noticias de qtie queria 
fugir, naõ fó os criados , mas o CrnfeOor. Fr. Anrbrcfio 
reconhecendo a nriHeria ào BiTcsinho, a que era conheci- 
d mente íujtito , lhe arn ou cem o recaio do gaílo . e 
o obrigou a cahir no hço fficilm^ntt?, §uíltnt5Ví;fe o 
Tum. I. N Conv 



194 PORTUGAL RESTAURADO , 

Conde das efmolas , que Fr. Ambrofio lhe grangeava. PaJ 
Anho blicou Fr. Ambrofio , que fe partia para Caracas , pois lhe 
i6ai ^^^ permittiaõ , que confeíTalTe o Conde dizendo , que 
T" * era impiedade de que até os Infiéis fe abítrahiaõ. Soiíbe o 
Gorernador a fua refoluçaõ , e vendo que auiente Frey 
Aiíbrofio havia de correr forçofamente o fuftento do Con- 
de por fua conta , achou mais fácil a permiíTaõ, que odif- 
pendio , e concedeo licença a Fr. Ambrofio para entrar a 
falar ao Conde todas as vezes, que lhe pareceíTe , naõ 
querendo arriícallo a fegunda tentação de aufentar-fe. 
jdí Trey Am' Tanto qu3 Frey Ambrofio teve eíta permiífaõ entiou no 
IfltT' ^•"'^'^^ Caftello , e conmunicou ao Conde a vinda , e o intento 
ejanotma^ dos dous Alferes. Conferirão o modo com que fe podia 
confeguir romperem os muitos laços daquella prizao, e 
vieraò a ajuflar , que naõ podiaõ lograr eíle intento fem 
perfuadir a três Soldadof , hum Caftelhsno chamado An- 
tónio Ruiz natural de Sevilha » e dous Portuguezei, hum 
cujo nome era António Ferreira natural de Santarém » ou- 
Effeltes da]iiht' txo Barnabé Caldeira de Villa-Viçofa, Falou-lhes Frey 
rdidade y e da kmhto^io y Q todos prometteraõ íegredo , e execução, 
m/ena. obrigados da liberalidade com que o Conde antecedente- 
mente os havia tratado, e defta forte vieraõ a fer autho- 
res defta acçaõ os dous maiores oppoílof , a liberalidadt!» j 
ea miferia ;' porque íe o Governador naõ fora miíeravel » I 
nao entrara Frey Ambrofio a fallar ao Conde, e fe o Con- 
de naõ fora liberal, naÕ achara hum Caftelhano , e dous 
Portugueses , que arrifcaílem a vida pela fua liberdade. E 
deíla propofiçao fe pôde facilmente tirar a confequencia 
de que he tal a virtude da liberalidade, que he mslhor 
fer prifioneiro liberal , que Governador miferavel. Pare^ 
cc que difpunha Deos a fugida do Conde por meios ex- 
traordinários. Informado António de Abreu de Frey Am- 
brofio de tudo o aue havia confegutdo , e difpondo am- 
bos a traça p^ra fe executar a liberdade do Conde, fahio 
António de Abreu da Cidade por huma parte occulta , e 
paíTou em huma canoa ás Ilhas de Bani, onde havia con- 
certado com Domingos da Silva, que o efperaíTe no na- | 
vio. Ch?í]íou as Ilhas» e achou o navio rendido a huma 1 
fragata Hollandíza , quí andando a corío o encontrou a 

cafo. 



PARTE I. LIVRO III. ipy 

cafo. Domingos da Silva na defefperacaô de ver balda- 
da tanta diligencia, havia corotnunicado ao pirsta o ne- Anno 
gocio a que hlRey o mandava : mas íem embargo de ju- ^ 
Itiíicar com o$ paíTaportes a fua verdade, prtvalecèia |- ' 
com o pirata a ambição da preza , íe naõ fora mais pcds- J^'!'/Jil{2\ 
loía a fortuna do Conde, que dandc-lhs neíte íiJcct.íío '^^ o aazie, 
por deidade tutelar a liberalidade i tanto que chegou An- 
tónio de Abreu , concordando a lua noticia com a de Do- 
mingos da Silva , Ic obrigou gcnerofâmente o pirata a 
trocar oi intereíles pela gloria da empreza. Promeiteo a Rgf.i^.g o capi< 
António de Abreu de lhe aíliílir até o ultimo alento, e taõsjjifti^dim, 
executou-o com tanta verdade , que foy a íua galharda Z'^-'*- 
reíoluçaõ o mais útil inílrumento delia máquina. Confe- 
rindo com elle, e com Domirgos da. Silva António de 
Abreu tudo o que deixava diípoíto , voltou a terra , e oc- 
cultando-íe na efpellura de hum mato vizinho á Cidade, 
onde eíUve alguns dias , entrou de noute a falar a Frey 
An-brofio, e deixou-lhe efcrita huma carta para o Conde, 
na qual lhe dava conta de tudo o que havia paliado, e o 
perluadia á brevidade da execução. Eíla carta, por nad lyefcuidí át tri 
imaginado accidente, pudera ler a deílruiçaõ áQ ioáo o Ambro/to, 
intento; porque Fr. Ambrofio pouco advertido, retiran» 
do-íe António de Abreu para o mato , chegando-lhe hua 
carta do Conde para huma Senhora daquella Cidade a 
quem devia grandes alliílenciai na fua prizaõ , trccou por 
defacerto as cartas , e mandando ao Conde a meíma , qus 
havia eícrito , remetteo a de António de Abreu, que hia 
para o Conde, a eíla Senhora , com quem ellefe corref- 
pondia. Abrio-a ella , e achando na carta todo o fegredo meVJa^e fe- 
da empreza , fe refolveo generofamente a occultallo. Eí- nerofadehurm 
creveo ao Conde, culpando a pouca alteriçaô de Frey Am- yf»^^'^'» c^?/??- 
brofio, remetteo-lhea caíta de António de Abreo, e íe- ""*'- 
guroU'lhe o fegredo, o qual guardou inviolavelmente. 
Merecia efta generofa acçaõ naõ deixarmoi em filercio 
o nome deita Senhora: porém como ainda vive, nsõ he 
razaõ que deícobrindo o que executou , pcíTa ella peri- 
gar pelo mefmo csminho , que foube gr^rgear os maiores 
iouvore?. Pafiscoeíle fcbreíalto , veio Frey An brcílo, e 
António de Abreu a ajuítsr por ordem do C onde o tempo 

N í mcis 



ir)6 PORTUGAL RESTAURADO, 

mais adequado da confeguir o que intentava. Chegou a 
Atino occafiaõ , e foy o dia em que os três Soldados referidos 
16 Al ci^tráraõ de guarda á peíToa do Conde : e íem embargo de 
^ "^ .* que havia feito algum rumor na Cidade chegarem os na-, 
vios a Boca Ghica, huma das treí barras delia , teve a Ji- 
herdade do Conde f elice execução em i é de Junho. Sahio 
Fr. Ambrofio de Cartagena com hum criado do Conde, 
e nove Portuguezis reduzidos a ter parte na empreza ; 
embarcarâõ-fe todos em huma lancha ,' na qual os efpera- 
va Domingos da Silva , e amparados com o efcuro da noi- 
te aguardarão hum íinal , que os do Caftello haviaõ pro^ 
mettido fazerj Tocou a hora de entrar de TentineiJa ao 
Conde a Barn?.bé Caldeira , e andar de ronda a António 
Rodrigues : fahio o Conde com elles , íem fer fentido dos 
rn^ida acimi^ Soldados» que dormiaô á porta da prizaô , por entre os 
ravel do Conde quaes paííarsõ , e buícando o poílo em que eílava de feii» 
tinelâ António Ferreira , íizeraõ com o fogo de hum mur- 
rsó aoí que eílavao na lancha o fmal concertado : reco- 
nhecendo'o , faltarão brevemente em terra , e fe chega- 
rão ao pé da muralha. Sem interpor dilação, perigoía em 
tanto aperto , atárao os do Caltello huma corda ao reparo 
de huma peça de artilharia , e lançando*fe primeiro por 
elia dons criados do Conde , para examinar a íua feguran- 
ça , achando'a firme , baixou o Conde com grande traba- 
lho , por lhe ficar dos tratos aleijada a maõ eíquerda ; fize- 
raô a meíma diligencia os três Soldados , e unidos os qu.e 
defcsxao aos que efperavaó, fe embarcarão na lancha, e 
brevemente íe introduzirão em o n^vio Hollandez , que 
o Conde elegeo p^ra a viagem, havendo-íe unido a eite 
outro da meíma conferva. 

Vinha rompsndo a manhãa , e ao mudar das len» 
tinellas fentiiao os do Caítello a falta do Conde : diípa- 
láraô huma peça , para que c^a Cidade fe fizeíTe aiaiv prom- 
pta diligencia : acodio o Governador ao rebate , e para 
que tiveíTe maior motivo de pena , foy a tempo , que 
vio paíTar por junto da Cidade 0% três navios , l'argas as 
Vcilas, tremulando as flimmulas , e feitos os galhardetes , 
as Armas de Portugal arvoradas , as de Caílella ( preven- 
ção dos Piratas HoU^fídezes ) arrajpiando , a artilharia, e 

naoíque- 



TARTE 1. LIVRO III. 197 

inoíquetes alterando«fe com repetidas cargas , ouvindo- 
íe na pauza delias as alegres vozes dos que partindo fo- Anno 
kmnizavaó a felicidade que coníeguiaô. Seguirão os na- ^ 
vios a viagem deixando aterra, e a poucas fangraduras ^^^^^ 
experimentarão o tempo contrario , que facilmente mu» 
da de condição , coroando-íe da inconítancia. Creceo de 
íórte a tormenta , que aberto o navio Portuguez fe foy 
apique. Entre a compaixão do naufrágio rendeo o Conde 
2 Deos as graças da íua felicidade ; porque foy neceílario Perde fe » »«"' 
que o navio Hollandez em que elle íe embarcou viefle w Portuguex.»^ 
àquelles mares com íim taó diverfo , e queaquelle Pirata 
fe relolveílc ícm conveniência alguma a ajudallo , para 
naõ fer o mar , que bufcava por remédio, íepulcro da vi- 
da que livrara da contingência em que eftava na prizaõ : 
porque, ainda que he certo que quem trouxe os Holian- 
dezes pudera íuí pender a tormenta ou íuílentar o na- 
vio , moftra Deos os effeitos , e naõ perirritte á ignorân- 
cia dos homens reconhecer as caufas. PaíTada a tormenta , 
feguindo a viagem encontrarão huma fragata Caílelhana , 
que caminhava com varias mercadorias na volta de Car- 
tagena : rendér<iõ-a , e dividindo os Caítelhanos pelos Renilem huma. 
dousnavios, a guarnecerão com marinheiros Hollandezes. 'fragata, cafie-. 
Alegres da preza caminharão dous dias , entrou'lhe fe- ^^'"'** 
gundo temporal taÕ rijo que meteo apique a fragata Caf. 
telhana. Naõ íey fe fora fácil aos mais fcientes Mathe- 
maticos reconhecer para a prevenção do perigo efte def- 
concerto das eltrellas ? De maneira que os Hollandezes 
que cantavaõ a gloria de vencedores , foraõ os de que na 
tormenta triunfou a morte , e os Caílelhanos que chora- 
vaõ a difgraça de fe verem prifioneiros , acharão nejla a ^""^'''^f^^ í"'. 
ccnfervaçaõ das vidas. Razaõ era que eíles exemplos de- Z''defieTíHc\ 
íenganaflem aos que temerariamente querem antever os cejfos, 
futuros. O navio em que hia o Conde , leve evidente 
perigo , roto o leme , e quebrado o maílo grande ; no 
maior confiido entrou no porto das Palmas , havendo 
perdido de viíta o outro navio, Concertou*íe eíle o me- 
lhor^ que lhe foy poílivel , e largando os Caítelhgnos , paO 
fáraõ a Tortuga , habitgç^õ de Frarcezes , onde forsõ 
hofpedados com toda a urbanidade ; e reparando o n? vio 
Tom. I. N 3 " íize- 



19 8 PORTUGAL f^ESTJVRADO-, 

íizeraô viagem , e feoi mais contradicçaõ entrarão em Lit 

Anno boa. D^íembarcou o Conde, foy recebido d'EiRey coni 

/ todas as demonftraçoena , e fatisfaçaõ que requeria o feu 

"T mericimento : diíTe-lhe que íe apurara como o outo na 

Etttra o Conde fomalha , ( comparaçaõ da Efcriíura) e outras palavras 

em Lhboa , he em que OS Prlncípes tetn o maior theíouro , fe fabem i e 

recebido d^ El. querem uzar deilas. Fez El Rey mercê ao Conde do Ti- 

des honras , e ^^^^ ^^ <^uas vidas mais , 6 nas mel mas o. bens da Co- 

fw^rces. ro3 , e Oídcns , e de huma Commenda de mil cruzados i 

nomeou-o do feu Coníeiho de Guerra , e Governauor das 

Armas da Província de Entre Douro e Minho , onde sd- 

quirio com acçoens novas maior mericimenio. A Fr^ 

Ambroíio deo oitenta mil reis de penfaõ em hum Bifpa- 

do , aos mais fatisfez com tenças , h.biícs, epoítos. Ao 

'Premb me íe Capitaô Hollandez premiou com féis mil cruzados , huma 

deoaocapisao cadés de ouro , e huma n^edalha com o feu Retrato. O 

líoiUndez. c^nje jh- deo dous mil cruzados, com que foy íatisfeir 

to , e todos como merecerão íicáraó premiados. 

Antes que entremos nas primeiras acçoens da 
guerra , donde a hiftoria tomará fio , para íahir o menos 
que for poffivel da ordem dos annos , determino de me dei? 
embaraçiir na forma propoíla de todos os cafos grandes 
que dcpeadéraó da Acclamaçau , ainda que o eíteiío íe 
dilatalTe: porque como naô tecem a hiítoiia truocador, pu- 
dera ficar confufa , fe os dividiíle > e qualquer deUes tem 
tanío qu2 ponderar , que merecia particular volume , prin- 
cipalmente eíle que agora dirá exercício á penna , pois 
veremos laftimoiâmenie hum Príncipe vendido, c hum 
Imperador comprado , íendo o Príncipe innocente , e o Im- 
perador ambiciofo , miniilrando eftes deíconcertos por 
ordem de hum Rey efqueciJo do título de Catholico, ho? 
mens que depuzeraõ as obrigaçoens do fangue , e os em- 
penhos da Pátria, efcurecendo acçoens muito glorioías» 
com as quaes haviao refplandecido no mundo. Succedeo 
fT , c o cafo da forte feguinte : O Sereniffimo Infante D.Duarte 
flfr /«p;Lr ' irmaô d^ElRey D. J02Ó paiTou a Alemanha a íervir o Im- 
DomD^*rte. pdfador Femaado IIÍ. tanto que teve idade para eímaltar 
com o nobre exercício das armaso efclarecido fangue her- 
dado dos Rsys feQS gloriofoi AvóJ,Ciiiando ElRey foy ac- 

clamado 



I64I' 



PjmS I. LIVRO III. "199 

clamado, exercitava o podo de Sargento General de Ba- 
talha , com acçoens taõ íinaladas , que unidas á ífiabili* AnnO 
dade do trato , e a outras excellentci virtudes 1 conleguia 
a eílimaçaó do Imperador , e era enrprego dos olhos, e 
docífedo de todo o Exercito. Havia'íe achado nas occa- 
fioens de maior importância do Império , quando as Ar- 
mas de Suécia o tiveraõ mais opprimido , affiftindo fami- 
liarmente ao Conde Mathias Galaço nomeado pelo Im- 
perador por Tenente General de leu filho primogénito 
Fernando Rey de Bohemia, e ajudando-o a lançar os Sue- 
cos do Império , os quaes governados pelo Duque de 
Uyeymar depois da morte d'EiRey de Suécia tinhaõ occu- 
pado a maior parte delle , íendo deita recuperação o Conde 
Galaço o Author iBais digno , e o Infante o Executor rnais 
valerofo das íuas ordens. Eltes fucceílos merecedores de 
immortal roemoiia elcreveo o Infante em huma relsçaô de 
eílylo u6 levantado , de linguagem taõ excellenta ,.de 
termos militares taõ próprios , e de iuizcs , e conceitos 
taõ íupcriores, que naõ ló pode competir , mas exceder 
â tudo quanto tem efcrito as pennas melhor apparfday^ 
Conferva^fe efte papel da própria letra do Infante na li- 
vraria de Luiz de Soufa fiiho H. do Conde de Miranda, 
Cspelaõ mór do Principe D.Pedro, e Arcebiípo de Lis- 
boa , que cem m.uito louvável curiofidade peregrinou de- 
pois de fahir de Roma , (ó por eícolher em toda Europa 
os melhores livros, confeguindo juntar a »Tf?ÍQr livraria 
dcfte Reino. Acabada a Cí>rrpaDha do anno de 1640 no 
irez de Dezembro, aquarteíando-fe o Exercito , íicou 
o Infante alojado na Suevia , três léguas de Ulma. Che- 
gou aos Miniílros de Caílella primeiro o avizo da Accla- 
ipaçaõ, que ao Infante. Publicou*íeem Liiboa que Frsn-. 
cifcode Lucena havia íido origem deite defacerto por an- 
tigas diííençoens mal aíiedo £o Infante: porém o deí- 
cuido d'ElRey padeceo no juizo dos homens a maior con- 
dsrnnaçaô, julgando que matérias deita qushdsde nsô fe 
deviaô fiar de cutra diligerci?) , íendo precifo avizar a feii 
irn.aõ pela peflca mais corfidente . a tempo que eHe 
fe pudeíle fahir do Império fem perigo dos Miniílro* de 
Caílella, que era certo haverem de romper naíuapeíToa 

N 4 tcdoa 



Dllhí 



200 PORTUGAL RESTAURADO , 

todas os irapulfos da ira de verem feparado o Reino àe 
Anno Portugal daqiiella Monarquia : porém a fatalidade que 
i6ai conduzio á morte efte innocente Príncipe diípoz , que fe 
X04I* defconceftaílem todos os inltrumentoç da íua Jiberdadeí 
A?1iília na Corte do Imperador por Plenipotenciário d El- 
Rey Catholico Dom Francifco de Mello, a quem hon- 
rou a natureza com o Real langue da Cafa de Bragança , 
mas variando nslle o effeito de correr pelas véas, foy o 
motivo mais principal da ruína do Infante , efquecido dos 
benefícios que devia á Caía de Bragança , ou troc3ndo*os 
pelas dependências do Conde de Olivarest Chegou-lhe 
de Mídrid a nova dos fucceíios de Portugal , e ordem pa- 
ra procurar por todas as vias a prisão do Infante i enten- 
dendo-fe em Madrid juftamente , que em fc lograr eíle 
intento fe tirava a Portugal a melhor defenfa , pot con- 
correrem no Infante todâs as virtudes de hum Príncipe 
^^ politico, e da hum Capitão experimentado. Tratou D. 
D^FrancTfcode F^^nciíco de àzT ã execuç36 a ordem de Caítella , e naô 
M^iio fobre a perdoou para eíle eíFeito a negociação alguma : commu» 
frizao do /e- nícou O que sntentava a alguns Hefpanhoes, os quaes 
nhor injante. achou de opiniaõ contraria, parecendo^lhes impcíliveíj 
que o Imperador fe perfuadifie a cooperar em hum trato 
taõ dobre : porém como nunca faltaô fequazes à maldade, 
achou Dom Francifco diípoftos par? eíle fim o Padre Fr. 
Diogo Qiiiroga Confeíícr do Imperador , e o Doutor Na- 
varro Secretario da Imperatriz. Com a diligencia deíies 
dous Miniítros fe começou a fomentar a negociação , e 
>ropofiaao im."^^^^^^^^^^^ Francifco qualquer dilação parigoía, pe- 
perador, e jiia ^^^ audiencja ao Imperador» e propoz-lhe com grande 
rej^ojia. efficacia a noticia , que havia tido de Madrid da alteração 

de Portugal, e quanto convinha aos intereíÍ3S da Caía 
de Auílria a prizaõ do Infante , porque faltando na íua 
pefloa aos Portuguezes Capitão , e á Coroa mais hum 
SucceíTor, vendo divertida a maior circumílancia da fua 
rebelltaô , feriaõ fáceis de reduzir á obsd)?;ncia d*ElRey 
Catholico , podendo refultar do contrario maior contu- 
mácia na guerra mais perigofa » e de mais relevantes con- 
fequencias , que podia ter a Cafa de Auílria ; porque to- 
cando taô vivamente no corâçaõ de Hefpanha , forçofa» 

mente 



TAKTE L LIVRO III. 201 

mente pela uniâõ antiga , e inícparavel havia de tccar 
ao Império o meíroo damno. Moftiou o Inr.percdor gran» AllHO 
.de íentimento deita propofta dizendo , que preferia a to* ^ 
,dos os jntereíles naõ violar a iminunidade do Império , e ^^4^5 : 
jiaô quebravas leys da hoípitalidade j que o Infante elUn- 
• do em Alemanha naõ tinha culpa nos íucccflbs de Portu- 
gal , e que as íuas acçcens em beneficio daquella Coroa 
mereciaõ differente recoropenfa. Ajudou eíta refoluçaõ voto âo^Arcjm* 
o Arquiduque Leopoldo irmaô do Imperador , a quem duque Leopoldo» 
íe comrriunicou eíía matéria, proteftando , que confen- 
-,tir*íe ra priz3Õ do Infante feria a maior infidelidade , e â 
.inais aboirinavel ingratidão \ pois fe < ífcndia a innoccn-; 
cia, e fe calligf^va o rneíicimerto. Ni2Õ defraaior^õ as 
dili^eríciss dos Minifíros de Csftclla com o máo fuccef- 
fo deite primeiro combate : fizer^õ medianeiros com os 
JMiniltros do Imperador os dobrcens de Hefpcnha , com 
os qaaes em muitas occsíloens tem os Caíleihanos per- 
.fuadido os an^raos m.ais obílinados. Ganharão o Conde de 
.Traum.eftorfi^' , parecer que ouvia o Imperador, e com 
elle outros fogeitos importantes , para confeguir o que 
intsntavaj. 

RompeoTe na Corte a indigna diligencia, que fa- 
ziaô, e erao contrários aella todos os defmtereíTados , cla- 
inando pela liberdade: do Império. Vacilava o animo do 
Imperador entre hums , e outra opinií^o : porém comba- 
tido com. o ultim.o esforço fe rendeo á cavilofa induílria 
dos Crfíteihanoj'. Prevenirão e les a Inperatriz , e f2:cil- TavcrfceítTm'- 
mente a períuadiraõ ao leu parecer : prom-etteo ajudallos, pirai rizes inte- 
e o executou com tanta deílreza, que depois de íe mo- ^^'('^^t^í'^"^''-^. 
Itrar au Imperador n uiio aífiicla da molcília, que pade- 
cia nefte caio, lhe aconfelhou , que fe livraíle deefcrupu- 
lo, feguindo o parecer de íeu ConfeíTor. Su]eitou'íe o 
mal acautelado Príncipe filho de Ad õ a eíle remédio, pa- 
ra aggravar de todo a infirmidade: chcm.ou logo Fr. Dio- 
go Quircga , o qual a Imperatriz tinha prevenido» e 
eílava pouco difiante efperardo eíte avizo. Propoz-lhe o 
Imperador o embaraço em que íe achava ■ brevemer^ç o 
Jivrou da duvida, inílruido nas eiradas politicas de Ma» 
chavidlo : diíTe ao Imperador ;, que deixáiia a confcienda ^^^rola^"'^" 



201 PORTUGAL nESTAURJDO , 

muito gravada , fe logo naõ mandaíTe prender o Infante: 
AnnO buícou ( corro TJpido com o intareile ) muitas razoens 
apparentes para dilfimular efte caviloío parecer ; dizendo, 
IÓ4Í. quj ao Imperador tocava, como 3 Monarclia 'tíais fu- 
preoio I procurar reduzir por todos os caminhos iiuma na- 
ção rebelde à ob:;diencJa de íeu legitimo Principe : .que 
a prizaó do Infanta era hum dos meios proporcionado! 
para eíle fim , e a attençaõ ao bem publico taô abíoluta , 
quederogavâ qualquer outra ley , que OiTendefTe ; e a eítas 
fántafias accreceotou outras , que achaõ o caftigo a tem- 
po , que naó podem uzar do remédio da culpa. Vencido o 
animo dolmpsradar, lavou as mãos do delido, e eritre- 
D.i/f orriem a gou O innocerite. Deo ordem a D. Luiz Gonzsga , para 
D.LmzGon::a- que foíTe 30 quatíel de Leypen , e charnaile a Ratisbona , 
ga para^pnn- ^^^^ eítava a Gofte , da lua parte ao [nfante \ e que em 
/IL'.. '''caio que du vi iaíle di obedecer, o trouxeííe prezo. Pre- 
venífaó os Gaílcllianoi os difcurlos que íe haviaõ de fazer 
fobre efta ordem com outra maldade , e efpaltiaraõ , que 
o Senhor Infante com a noticia dos lucceíios de Portugal 
fugira : puzeraó talha de oito mil cruzados a fua cabeça, 
e logo perfuadiraõ a Picolomini , General áo Exercito , 
qu2 fe achava na Corte » para que o Infante prevenido 
com algum avizo naõ pudeíle aufentarie , e que mandaífa 
o Coronel D.Jacintho de Vera com huma ordem , quedi- 
orie?n do Ge- ^lã', Ordcuo ao CoTonel D.Jãcifitho de Ver ã ^ que vd a9 
neral plcolomi- q,j^^f;gi ^g Leypen a prender o Frincipe ds Bragançat e qnet 
"''■ naõ o podendo conjegitir , o viate , e que ou uivo , ou morto 

me tra^a o Jsu corpo. Muito deíejava encobrir eíla delibe- 
ração dí Picolomini , por naô afear com ella as muitas par* 
tes que teve: poré r» he indifp2 ifavel a verdade da hiito- 
ria, e naõ pôde ter diículpa fazer-fe Miniftro da prizao 
do Infante o G^ajral , que havia de fer dífenfor da fua in- 
nocencia, exercitando á fua oiàítm pofto naquelle Exer- 
cito. Nao teve çíFeito a que DJacintho levava , porque 
o Infante fe havia partido de Leypen para Ratisbona, oni 
de fe celebrava a Dieta Imperial , a tratar alguns negi- 
cios dos feos Soldados , fem a menor fuípeita do perigo,' 
a quí levava a vi ia expofta. Embavcou-íe no Danúbio, 
accidentc , que o li V£OU da morte , vindo procurar-lha poí 

terra 



PARTE 1. LIVRO III. ícj 

terra o$ que traziaô por objedo os oito mil cruzados pro- 
niettidos pe^a íua cibf.ça. Indo n^^vegando )he chegou AnrO 
hum avizo de D.Luiz Gonzaga , cm que Jhe dizia , que i(.a\, 
aguardafle , porque trazia huma ordem do Imperador para ^ * 
lhe communjcar : fez alto, naõ querendo ouvir as repe- 
tidas inítancias dos itos criados , os qu;fe.< jacoma]gurra 
noticia , ainda que contuía , ]he advertí-aó , que iepaf* 
faíle a lugar feguro : porém cHe naõ quiz admittireíla 
propofiçaó , porque fâzi.a maior coríiança na fè do Impe- confarça ge- 
rador ^ propondo'ih2 o g;:r.erofo eípirito , que o alimen- «í'-"^'» ^^ •^«* 
tava , taó fcr^^olas asobrigaço^ns de hum Principe, que "^'"' ^"^'«»**« 
refutava qualquer opinião , que naõ era Subordinada a efte 
axiorrja. Moilioii-ih;; a experi>?ncia , que, fendo a Fidalguia 
do animo a vittudt: mais appetecidj , nuiras vezes he o 
niaior verdugo de quem a Icgra: porque habilita para efte 
emprego coraçoens preveííos, e tece á íua innoccncia 
com eíla fmgeleza os Uços áà hn luina. 

Aguardou o Infante a D.Luiz Gonzaga : chegou 
fó com hum criado, difíimubçaõ , que o fez menos íuí* 
peitofo , moítrou ao Infante a ordem , que levava do Im- 
perador , á qual ficceramente cbedeceo fem repugnân- 
cia. No dia íeguinte , que fe ccntaraõ 14 de Fevereiro , 
cheg-.raõ a Rausbona , acharão prevenida huma carrrça 
de D. Franciíco de Mello , demorílrrçsõ , que o Infaiite 
agradeceo como cortezia , nac ccnhecenco , que era pri« 
zaó; entrou neila, onde o recebeo Agoftinho Navarro, 
que deo ordem para que a carroça guiaííe a huma eílala- 
gem comboyada do Proboíle general, e da vileza dos 
íeos MiniUros. Chegarão à cílalsgem , e acharsô nella o rn^ãe-fe em 
Capitão da Guarda do Imperador cem qunrenta Mcíque- ''■'«•» efialagerti, 
teiros , o quai difie ao Infante , que Sun Mrgeílade Cefa» 
lea lhe ordenava , que fem outro avizo feu naô fshiíTe da- 
quelle lugar. Alterou-fe o Infante, mais da corducçaõdo 
Proboíle , que da £ íTjílercia do CapitsÕ da Guprda. Sentio- 
fe , e queixou'íe : porém ja era de bald'e huma , e cutra 
demcnílraçaõ ; porque ra pouca diífererça , que ha de er- 
ro a ferro , faõ os erros cadeia onde em hum íó fuzil íe 
enlaçaõ muitos. Hofpedaraõ ao Infante no mais eílreito 
a|:oíeDto da eílalsg^m , de que na mç íroa noite o mudou 

patg 



204 PORTUGAL RESTAURADO, 

para outro menos humilde D.Luiz Gonzaga, o qual 6 
Atino informou da cauía da fua prizaõ , dando*lhe palavra da 
, parte do Imperadjr de nunca o entregar nas mãjs do» 

1041. Caíleihanoá i aàô fazenJo ^o Imperador o reparo preciío 
ác qu2 no recato do prometter devem os Príncipes pôr o 
Bajfe-We paU- maior cuídado : porque muitas vezes ou por geaeroíida- 
""imp^eTador^de "o ^^ propria , OU pof tacilítat os íeos intentos , ou por ex« 
naõ entregarem c^ii-it 3]g\i\xi perigo cmpenliaô 3 fua palavra , cachando 
aoscajislhunos. muito Ordinariamente contradicçoens para fatisfazeila , 
perdem o credito ; porque o que íe promette , e íe nao 
executa , o recebe por afronta o fuperior, por injuftiça 
o igual , e o inferior por tyrannia. Menos grave fora a 
culpa do Imperador , íe nao accrecentara á entrega , que 
fez do Infante nas mãís de íeos inimigos , a quebra de lua 
palavra. Attonito deixou ao Infante a noticia que Ihs 
deo D. Luiz Gonzaga» naó íuppondo porém arriícada a 
"vida nas mãos de dous impoíliveis , que aíllm lho períua- 
dia arrazoadamente o feu dilcurfo : porque primsiramen-, 
te avaliava por impraticável % que ElRey íeu Irm.aõ fe 
refolveíle a tomar a Coroa fem lhe fazer anticipadoavi- 
20. Em fegundo lugar fuppunha impoíTivel cntregallo o 
Imperador nas mãos dos Caítelhanos , ellando ells livre 
de culpa » todo entregue ao acerto de íerviilo. Mas os 
dous oppoítos em cuja contrapofiqaõ tinha confiança, 
veio a unir iaílimoíamente a experiência. Vio no rnef* 
mo dia prezos todos os íeos criados , e examinados os 1 
íeos papeis pelo Doutor Navarro : e como eíla reíoluçaô 
era o maior eílrago do feu refpeito, pouca efperança lhe 
podia íicar de prevalecera íua juíliça. Na indecente pri. 
zaõ daeítalagem paíTououto dias , os quaes gaíláraõos 
Caílelhanos em confultas do modo com que poderiaó con- 
íeguir paíTallo ao Caítello deMilaó, licença que o Im- 
perador até aqaelle tempo havia negado. 

Favoreciâô muito a juíliça do Infante os Con- 
gregados da Diefa de Ratisbona : reprefentavaô ao Im- 
mijencias da perador com vivas razoens quebrada a liberdade do Im- 
PUia. perio, e a f é Girmanici corrompida: feriao aos Caíle- 

lhanos c;)m asfuas melmasacçoens, fazendoMhe memo- 
ria áoi manlfeítos que hiviaõ publicado contra a Coroa 

de 



PARIE I. LlVfp lII. ?cj 

dc França ícbre a pri2f,6 do Piincipe Caíiirjiro / ros quses 
avaliavíó aquelia olCíõ pela n.ais irfiti » e que no calo AnnO 
priifentc et^ó suthorcs de cutra -por todas ss circurr ílan* . 
cias líiais aborr.inavei, cbrigondo ao in^perídor a que ti- ^"4^» 
raííe a liberdade a hum Píirvipe fem culpa , que fervia He], 
e valeroldífiente ao Império, bufcando-íe para cila execu- 
çaó huma Cidade franca , em que fe celebrava Dieta Im- 
perial , de iTiUitos féculas formada para eílsbelecer as leys 
do Império. Eltimuiou mais a':>s da Dieta hum eloquen- papd derran- 
te , e bem fundado papel , que lhes fez prefentar Francif- cUco de scuz.it 
CO de S^uza Coutinho, naquelle tempo Embaixador no c^w/;»^"- 
Kemo de Suécia, o qual continha o direito d'E}Re7 D. 
joaõ á Coroa de Portugal , os ex^eíTos de que ufáraò os 
lleys Catholicos Filippe II , III , e IV na íiia Conquifta, 
e no feii dominio , a innocencia do Infante , e alUgnalsdas 
acçoens executadas em fervico do império; e concluía, 
que ainda que o Infante cooperaíTe em reílituir a Coroa a 
ítu Irnicó, ( o que íe regava) era injuítarnente prezo, 
pois o introduzia na pcíle do que fe lhe devia de iuíliça: 
e que feaco tanto pelo contrario ter o Infante noticia dos 
íucceííos de Portugal , que ley Divina, cu humana per- 
mittia , que fofie prezo em Império abíoluto , e Cidade 
livre hum Piincipe innocecte, e officiofo ro raefmo Im« 
perio , pois por fervir ao Imperador deixara a pátria , e 
a grandeza da prcpris Ce fá , achando per fatiífeçíõ o tor- 
mento , e o evidente pe.igo da vida ? Naô foEsõ de utili- 
dade alguma eílas diligenei.as , nem os rrefrotíaes , que o 
Infante prefeníou ao imperador, que ccntinhaõss nricf- 
mas razo«;ns \ e ultim-amente lhe negou audiência, que por 
muiiíis vey.es lhe pedio : porque era cíílnfor podei cfo , 
e queria efconJer o roílo ào oítendido. FaUraolhe vários 
Principes intercedendo pelo Infante » iníurdeceoTe aos 
íogos de todos , e por fe eximir de tad penoícs embara- 
ços apartou de fi a cccãfia^ da culpa , erirc^ eíle remé- 
dio foy menos util para o livr&r co peccrdo, porque fe 
gravou mais com a diíUrcia. Mardou £o Infante para s r,-jfnre à Te?* 
Fortaleza de Paíleovu , entregue ao Core rei Xenque , e tc<:i^ã de Paf; 
feíTenta moíqueteiros divididos em duss barcas : chfgou/*^'^"? 
eji; deus diaf , e achcu prevenido o Pal^.cip dOvArchidu- 



2o6 POR.TUGAL RESTAURADO, 

que Leopoldo , de quem era a Fortaleza , por ord jm fua ; | 
Anno « pszar dos Caítalhanos , que dcíafogaraõ eíta paixão com ■ 

a vigilância das guardas , e prevenção dai jineliaj, cer-. 
lo4í» rando'as com grades de ferro. Miniílrava Navarro eítas 
diligencias, a quem entregarão o Infante , para que o^ô 
atroxaííá a fua moleítia. Cinco mezes efteve neita pri- 
zaõ , no íifTi delJsi alcançarão of Caítelhaaos do Impera» 
pafa àde dor poderem raudar-Jha para Grats, caminhando íempre , 
Grau, i ao intento de o levar a Milaõ , de que era Grats maií vi- j 
zinho. Psrtio de Paíeovu , deyendo áquelle Povo demon- 
ítraçoerzs de grande commiferaçaó , a íete de julho che- 
gou a Grats , onde creceo de forte o aperto , que lhe íi- 
zeraõ , que chegarão a negar-lhe licença para vender a fua «i 
prata, íendo-lhe necefl ar io valer -fe delia para feíuílen- ^1 
tar. Tratava*o o Governador humanamente , de que foy 
afperamente reprehendido : porque naõ querem 03 que ^1 
tyrannamente procedem » qae alguma acçaô juíta emende ™ 
as que defconcerta a fua impiedade. Deite lugar teve o In- 
fante correfpondencia em Roma com o Bifpo de La/nego, 
paia quem vi algumas cartas íuas , em que lhe pedia a in- 
tervenção do Pontiíice ; encarecendo'lhe o aperto com que 
^4^ ohrAo em P^ílava : porém em Roma naó valèraõ as diligencias dô 
Koma as dili- Bifpo para confeguir o que r^íultava em beneficio da Co- 
gençiat. roa ds Pottuga 1. 

Chegou neíle tempo por Embaixador de Caftel- 
Ia à Corte do Imperador D.Manoel de Moura Marquez 
de Caftello* Rodrigo : havia entre elle , e D. Francifco de 
Mello, por intereíTes particulares , antiga oppofiçaõ, ce- 
dera6*a em damno do Infante , e unidos fomentarão a 
fua ruína. Crefcendo as diligencias , fe multiplicou o máo 
trato do Infante, tirarao*lhe todos os criados Portugue- 
ze$ : e chegando com elle à ultima mortificação , lhe pro- 
hibiraõ , que fe confeflafle com hum Padre da Companhia 
Tira'fe'ihe «/é Alem 30 , cm que achava alivio efpiritual. Foy eíte o gol- 
oconfejfor, pg j^ais fenfitivo , que cxperimeotou aquelle confiante , 
e valerofo Príncipe em todo o difcurfo da fua trabalhofa 
prizaõ : porque as p^nas, que chegaõ áalma , tsm poder, 
por ferem maiores , para diminuir o rigor dos tormentos 
do corpo.' Entre tanto aperto coafeguio o alivio de che- 



PJRTE 1. LIVRO ni. Í07 

gar huma carta íua ás ti^bcs d© Irr.perador , que continha 
eftas fofçofas f e diícretas lazoens : Militas vezes tenho AnnO 
mamfeftaào a V. Magepaàe Qejarea a grande injítftifa y e j ^ . j ^ 
aggravo , que fe me faz , quando eu per haver deixado a ta im 
pátria , e a commodidadcda minha caja » e havendo J em i- ^^J^^^ ^o m^e» 
do oito annos a V. Magejlade cotn tanta fatisfaçaõy como 
jabe todo o mundo » efperava receber grandes favores : agO' 
ra entendo que o Marquez de Cajiello-Rodrigo continuan- 
do omefmo que havia inventado D- Franclfco de Mello, 
procura conâuztr-me a MiiaÔ» pa'*ii ^^^ eufirva de zom- 
baria I e júcrfcio ao ódio , e indignação dejle , e outros 
Miniftros : porem efpero da grandeza de F. Magejlade , 
qtte não queira rojnper em mim as leys dajuftiça , e ãquel- 
le direito , 110 qual me conjiituirdò a hofpit alidade t e fê 
publica , inviolável entre as mais barbaras Naçoens* Pelo 
que efpero que F. Mageflade terá confideraçao a minha jU' 
Jíiça , e imiocencia , deixando huma , e outra nas Juas Im- 
•pertaes mãos ate que F, Mageflade viefranquee o direito 
das gentes coma mej ma liberdade do Jnipeno , mõpefmit- 
tindo que je execute em mim novidade ^ que ftrva de exem- 
plo t ao prejudicial à fé publica. Re/ refent ando Juntamen- 
te a F, Mage(tadeo grande amor , trabalho » e ãíjpeza com 
que tenho j ervido a F. Magejlade , exj onda a vida a minu- 
tos perigos , co7rio agora fizera com o mej vi o animo ^ e fíde- 
iídade , fe F. Matr p/fade tno permittira Guarde D eos a Im- 
perial Feffoa de F. M<igeftade Ce/area. De Cr ates 16 de 
Mar^o de 1642. D. Duarte. A efta carta mandou refpon- 
der o Impeiftdor pelo Conde de TranfrrandorfFas ra7-6es 
feguintes , que pedis6 different.- execução : Dey a S.Ma- Rejpr^a dofm* 
gejtade Ce (área o. carta de F. Excellencia » e lhe referi tu. gerador. 
do o que y» Excellencia v:e cfcrevto em 16 dopaffado. St* a 
Mageftade Ce f área me refpon'ieo muito bengramente , 
declarando naõ querer aggravar a F. Fxcdlerna na fiia 
afflicçao > mas alleviallo muito depreffa , e em fendo tempo 
fazer-lhe todo o favor : o qtie Je w e tjferece r' ferir a FfJJa 
Excellencia beijando-lhe asmaos^Fiena 5 de Jlrilde 1642. 
Alai íe pudera colligir do fuave cftyludefta carta o con- 
trario eíFeito quebrotcu o arimo qie a ptrduzio: mas 
quem naõ vio dcurjdo o írp^rgo da piíola ? Cora a diffe- 

lença 



20? PORTUGAL f.ESTAURADO, 

rençji de fer útil aquells engaao , eíle mortal tanto paí 
Anno 1^^ ^ Infanta, que o padecco , como para o Imperâdur , 
16 u ^''" ° fabricou. Poréin com a diiícjrença de levar ao In- 
. '«■*• fante ao íupphcio de liuma vida caduca', e entregar o Icnr 
perador nas máos da morte do diícredito , queeiernamen* 
le dura, lavrando eíte bruto finzel ca paciência do infan- 
te o mais perfsito original da conítancia. 
ps^teparavU' Partio Dom Frânciíco de Mello para o governo 

dis D.vra7rcifco ^Jos Eílados dô Fiacdes, preaiio , como íe entendeo , da 
t^ÍHjÍ^!el P'^^'^^^ ^^ infante: , aindi q ae por outras acçoens mais 
Jc c^jidb-Lio. dec )rofaj » e verdadeiramente grand^^ís havia merecido a 
ãrigiasncioci. EiRey Catliolico maiofes lugares. Ficou o Marquez de 
açoe?is de'j4,ku Caít^lo-RodrigQ eritregue da negociação de paíiar o In- 
''' faate a icaJia, para que fem dependeucis de outro poder 

íe eXícuíaíTeai nelle os maijres eílragos da íer.i luftiça. 
Coniiderando o Marquez preciía eíta execução íe reíol- 
veo a applicar a mais efficaz diligencia. Te i.'e meio para 
'promctter ao Imperador quarenta mil cruzados» por lhe 
permittir a licenç 1 que pedia- Cerrou a ambição de todoj> 
os olhos a eíte infeiice Príncipe, naõ íe achando em ou-'' 
Entrega o im- ^^^ âlguiTi examplo de miiior difgraça ; e reioh/eo-íe a ' 
perador for di- vcnder a Ubsidadc do império , as leys da hoípit^lidade ,- 
fíheiro o Senhor g inimunidâde dos Frhicipes livres , a palavra dada , e ra- 
injmte, tifícáda muitas vezes com muitas promefias , e ultima» 

mente a recebsr o dinheiro, e a entregar o Infante nas 
mãos do Marquez de Gafteílo-Rodrigo. Verdadeiramen- 
te que naõ acho termos corn que encarecer o horror , qu2 
íTse faz efte íucceíTo , olhando para o íniperador i e a la-^ 
ílima a que me obriga eíti tragedia, pondo os olhos no 
ínfaryte ; porém como a túnica de Cefaí banhsda em fan- 
gu3 fez maior effeito no Povo Romano , que a traição de 
I Bruto , e rhetorica de António , paílemos toda a elo- 
; quencia para a coníldersçàõ deíle efpedlaculo , porque 
í delineado na idea de quem lèr eíla hilloria , preíumo que 
schará maior efficacia na imaginação » que nos conceitos. 
Entregue o Infante ao arbitrio do Marquez deCaftello- 
RoQfigo , duvidou da parte que lhe fignalaria para eterna 
prizió: deíejou que foíTe Hefpanha, mas achou na coa- 
ducç i5 gr^adis diíii:uliáds^ , e riico era qualquer dos lu- 
gares 



P^RTE 7. Zn^-RO 111. 209 

garei em que aíliíliffe , pela vizinhança de Portugal. Em 
Nápoles havia a duvida de que os Príncipes livres, poc AtiYíO 
cujos Eltados havia de paflar o Infante forçofamente , ^ 
naó quereriaó que os feos Eftados foílem eílrada de huma * ^41 • 
acqaò taó indigna. Ultimamente fe veio a reíolvec no in- 
tento propoíto de paliar o Infante ao Caftello de Milaõ % 
pela fortaleza o mais feguro , e para a conducçao o mail 
fácil ; elegeo o caminho de Tirol dominio da Gafa de Auf* 
tria , e vizinho do Eítado de Milaõ. Paílou'íe a ordera a 
Navarro ; prevenio elle com toda a atterçaõ o íegtedo t 
mas naô pode coníeguillo , porque chegou primeiro a no- 
ticia ao Infante ; e perguntando-ihe dimmuladamtfnte í.e 
era certo hum difcurlo que havia feito de que o Jevavaõ 
ao Gailello de Miiaó , Itie affirmou Navarro com hum fo» 
3emne juramento , que naó tinha tal ordem , uzando da f^ay'n»A àié 
errada politica de hum Miniftro do mefmo íecalo, que ^'^^^"^ 
cotturoava dizer, antepondo á ley Divina a f/agilidade 
dos intereíles humanos, que na5 havia meio mais tffi- 
caz para enganar , que o juramento, Defmentio^íe bre- 
vemente Navarro , e entrou a intimar a ordera eo Infan» 
te com grande numero da Soldados , oquil fem a menor 
alteraçíiõ lhe dlíTe. Seja Deos louvado-. Exlerunt cum gla- 
^iis , & ftijiíbtis tanqnam ad latronem. Gocn toda a bre- p^rte'>ara Am 
vida Je o nr.eièrarj em huma liteira entregue a Stuerabergs ui. ^ 
Cõmi'lario imperial , e á tyramia de Navarío. Antes que 
fe parcilTe deGrats eícreveo a hum Miniítco do írr> per 3- 
dor huma eloquentiffima carta , em que íubíLanciava todo 
o ÍUwceíío , c expunha toda a íi a queixa , uzando do pe- 
queno deíafíogo de hum animo atflido, que he comuni- 
car a íua diígraça. Chegando aos confins da Valtelina, 
achou hum Sargento mór mandado pelo Governador da 
Milão , ao quai o entregou o CónttiíTario Imperial. Delpe* 
dindo'feo CõmiíTario do Infante , Ih^; difl« : Dizey ao Im- Recaído mifie- 
pevador , que maior pena me dá haver fewido a hum Br'n- ^'"f^ f^--'^ <> ^"é 
cipe tyranntf , que o verme prezo , vendido ^ e entregue nas^^''^^''''- 
mios df meus inimigos ^ mas que Deos ba depernuttir que 
haja alguma hora niímfàça o mefmo comj^sfíhsy que 
mõ fiacerac mais privilfgtados que eu ; foisaCaJa Kl^I 
de ttrtugal, decuc deJLttido , ncõ ccee errfmguc é Ce ^a 
Tom. I. O de 



3 TO PORTUGAL ÍIESTJUBADO, 

r- ^'^ Aujlria : e que fe lewhre para mort ficaçar, ftia como a 

AnnO mhn me Jucceâe pa-ra meu alivio i de que as ktjiorias hao 
í 641 . ^^ /«^^^^ nelle , e em mim. Êítas eloquentes, e irjileíioiaj 
^ ' paiav/as merecem coníervar-íe eternamente na memoria 
dos homens para caíligo do imperador , e gloria do In- 
fante. Continuou a jornada , e naõ querendo a fortuna ii- 
vráUo de golpe algum , teve inteliigsncia para ver as or- 
deí\s que levavaÔ os que o conduzirão : eraõ firmadas pe» 
Jo imperador, e diziaô que em calo que encontrafleraí 
algur.n poder que quizef.e livrar o Infante , o matafieru 
priraeiVo ; tratando a vida de hum Principe innccente , e 
Tyr ^«4 $rãem ^^^^^ ' C^^o fc fora de qualquer Vaífallo feu , delinquen* 
do í^m^iradoT ^^ nocúme de Icífa Mageítade. Pudera com eíta ordem 
ter perig-p a vida do Infante 1 fe fe naõ deívanecéra o tra- 
to qus t> Marquez de Niza , naquelle tempo Embaixa- 
dor de F,?Sfiçâ, tíve com os Efguifaros; porque eílive^ 
raô refolutos a Hvrallo qu-^ndo paííaíle dos confias do Im- 
pério para o Eílado de Milaõ : porém naÔ encontrou no 
caminho n-^ais que a piedade de alguns que o viaõ pade- 
cer íem culpa *, multipIlcando'fe-lhe de forte com os dias 
os tormentas , qus até a morte lhe tardou, em quanto 
naõ teve apoiadas toà^As as afílicçoens da vida. Os Gafte- 
ihanos lhe derao no Caiiello de Milaõ por apoíento a 
^ntfA no Cal' ^"^'"^^ ^^ RoqUeta » deftinada de muitos feculcs para pri- 
selhdsMiUs. 2:30 dos delinquentes de mais atrozes delidos , e de mais 
baixa nacimeiíto. Pijz^raõ^lha fentinelia á vifta , cadeia 
qu2 de fó^^te o ligava , qua nem o fo.uno , único alivio 
das infelicidades , tinha livre , porque o acordava a fen- 
íinella que fuccedla. Tiráraõ'ihe os criados , e toda a com- 
municaçíõ qu? podia fervir*lhe de refugio. E linalmen^ 
te naõ perdoara? a g3nera algum de martyrio em quanto 
durou a prizaõ do Infante , qus foraõ oitoannos, acaban» 
do*feihe com a vida. 

No difcurfo deíle tempo bufcoa El Rey íeu ir- 
mão todos 05 meios da fu 1 liberdade com taó efficazes df. 
ligencias, que entendendo qua os Caftelhanos queriaô 
foltallo por quatrocentos mil cruzados, os mandou pai- 
far 3 Itilia ; e naõ fortindo effeito a neí^ociaç?õ» fora6 
tíepois applicadoâ a v^úos empregos. Communicoo^fe o 

lofaa: 



PJR7E KLWfp lII. sii 

Infante cora ElRey os annos que viveo , por intervenção 
de hum Clérigo chamado Dom Franciíco Portii , que coí- Anncy 
tumava dizer-lhe Miíla. A traça poi OLde le ccnkguiaa w 
correfpondencia , era no tempo em que o Infante cu\ia • "* 

Mifla i punha debaixo da alcatifa, que eft£.vâ ao pé do ai- 
tar , o$ papeis que efcrevia , íem poder íer vifto dai len- J^f^""?^^^ 
tinellas , no mcímo lugar achava í5 repoílag j tendo o u^^rar /«« ir^ 
Clérigo confeguido ( uzando do pretexto da decência ) que wat. 
tienhuma outra pefloa, íenaó elle , adereçaffe o altar, e 
compuzeíle a Capella. Confervaõ"fe ca Secretaria de EO 
tado papeis de grande erudi<^aõ, e muito importantes 
documentos políticos, de que ElRey fevaleo em varias 
occalioens. Era 13 de Agoíto do anno de 1648 acabou a 
irida eíle confiante , e ChriílianiíTimo Principv?. Mui mu* -a^"^'' ^'' ^^' 
rou*fe que a morte fora ajudada , mas depois íe entendeo "^-^f D.Dh^ne' 
que naturalmente acabara a vida ; porque onde o trato 
era taô penoío , qualquer outro veneno íer ia menos cfii- 
caz. A maior piedade que os Caílelhancs uzár^õ com o 
Infante, foy deixarem que depois de morto íecumprií- 
lem os íeos legados , achando fó a morte por medianeira 
^a cõmiferaqaõ. Morreo de 39 anncs,è viveo compoílo 
de todas as virtudes. Era vaierolo em ^rào muito fupre- ç,„ ., • . 
mo , e trazia unidos na esfera mais íuperior o entendi- 
mento , e a prudência. Efmaltava eílas partes com huma 
liberalidade taõaff&vel, que parecia que ficava obrigado 
3 todos CS que fazia benefícios. Foy de t ílíitura ieventa. 
<ja, branco, e louro , e todas ss feiçoens tsõ propojcloriadas 
que levava os olhos de todos a íua gentil difpofiçaõ. As 
demonílraçoens que ElRey fez no anno em que niorreo 
o Infante, referiíemos em íeu lugar ; íentindo em quan- 
to viveo, entender-íe que fora o feu defcuido csuía da^ 
quella prizsõ, e daquella morte. Neò faltarão políticos 
dos que fabem tirsr o vicio da liforja do centro ca vis tu» 
de, que julgarão ler htm dos fundrmeiítoj c? ceríeiva- 
^£Ó deíle Reiro niô vir a elle o Infc-r,te , dizcridecve o 
leu nâtuial era caprichoío íem n:cderfçaô, erltivofem 
regularidade , que tcdos os cabedsts cc Ktinr er^ò \ cu- 
cos para o ftu f^niílo j e que o exucicio cí> rixu2 c\ Ale- 
li.aaLfi Jlip hiivia erfinado idcas niiiteres , t^Le tiC í\ jvi:õ 

O 2 para 



Atino 
1641, 



212 P0K7UGAL nESTAVS^BO , 

para a moderação de que neceílitava a guerra defenfitai ' 
Poré n todas eílas fubtilezas eraõ faltas, equimericasi 
potqae hum Príncipe ornado de tantas viitudes forçada» 
mente havia de fer incentivo das melhores atçoens, 4 
^jjthor doj maiores progieflof. 




JiíSXQl 



2IJ 




■R^STAUR.ADO. 

LIVRO IV. 




S U M M A R I O. 

pyj JSPOEM ElRey a fornia da defen- 

' I fa do Reiíio, DiJírilLíçaÕ da gejí- 

tà te para a guerra. Eleição do Ce ride 

i|; do Vimiofo por Capitão Ceneral de 

j^lemtejo ^ e dos 7)1 ais Cabos , e Cjji- 



^^^' ciaes dcçtiella Ercvificia. PaJJa a el- 
Ja Mathias de Albufíuerciue a aWfúr 



dsfortificaçoefis. Fica governando em aufeiicia do 
Conde do Vimiofo. Primeiro rompimento com Ca- 
fel/a. Altera- fe o Povo da Cidade de Ehas , ele. ta 
Praça de Armas ^ por querer pelei j ar. Socegao 
Alathias de Albuquerque , e fatísfaz os Stldados 
com embojcadas ; e efcaramuças- Volta a Akmtejo 

O 3 o Conz 



Anno 
1641, 



214 PORTUGAL 1{EST JURADO, 

o Conde do Vimioso, Inientaõos Ca (ielbanos ganhar 
Anno por trato Campo- Maior , e defvanece-fe. ISÍarcha o 
1 64 1 , Conde de Monte-Rey com hum Exercit o a atacar OH- 
vença : forma as baterias : dd hum ajfalto : refijle-o 
Francifco de Mello ^ que governava a Praça^e retira^ 
fe o Conde de Monte-Rey. Torna ElRey a chamar d 
Corte o Conde do Fifniojo. Succedelhe Mathias de 
AlUtqtierque. Farias fucceffos de todas as Praças da* 
quella Província. Elege ElRey por Governador das 
Arruas delia a Martim Affonfo de Medo. inter pren- 
de o Conde de Monte-Rey Olivença : defende- a Roi 
drigo de Miranda^ que a governava , valerofaínente* 
RetiraÔ-fe os Cajlelhanos com grande perda. Inter' 
prende Martim Jlífonfo de Mello a Praça de Val- 
verde : entra a Filia , e defendefe o Forte. Faygo- 
vernar a Provinda de Entre Douro e Minho D. Ga: 
IlaoCoíitinko. Fo-rtifica ãs Praças , e rompe aguer' 
ra. Fortificai) os Galegos em larga di flanela of Lu' 
gareç perigo [os da Raia, Delermina D. Gafiao ata- 
car todos a hum tempo : confegneo com grande feli- 
cidade , e valor. Pajfa D. Gap ao a Lisboa. Fay go- 
vernar Trás os Montes Rodrigo de Figueiredo : rom- 
pe aguerra^ e ganha alguns Lugares em Galiza. Paf- 
Ja a governar a Beira Dom Álvaro de Abranches l 
guarnece as Praças , e faz diligencia por fujientar 
a Provinda f em romper a guerra. 

CCLAPvIADO ElRey D, Joaõ em todos os 
Lugaref , que obedecem á Coroa de Portugal 
com a felicidâdii referida , e lançadas as pri- 
meiras linha-5 fltrijs no governo interior, co- 
mo na'? dilpcíiçõe? í:xtern?ís , refaltou delias 
o debuxo do mais lino retrsro da politica, fem dever ao 
íucceíío a íentença deita obra, fendo de todos ordinaria- 
mente Juiz a diígraçi , oa a fortuna com que íeconíegue 

pelo 




PARTE I. LIFRO IV. 215 

pelo errado diícurío dos homens tsô cegos coíto a meí- 
ma foi tuna ^ porque avaliando as acçõe* conforrae o fuc- Anno 
ccílo tiraõ ao valor o preço , e às dtl|.oíiçces o prenio. Fe- . 
netraodo pois ElRey , que íe naÕ cercou Minerva de Fru- lí'4í« 
dencia , íem o adorno úo ekudo iiiilitar , e vendo que niô 
havia palmo de terra em todo o circuito do Reino que re- 
Itaurára , que naô foííe fronteira de feos inimigos , e que 
era irapoírivel,que a dilàç3õ,que pede a fabrica dos baluar- 
tes, pudeíle íer remédio á brevidade de que dependia a de- 
feníâ do Reino/ deo ordem para que íe íortiíicaíle com os D;y^(,^^^ ^iRtj 
peitos amantes de feos Vaííâllos, repartindo-os regular- ^ deftnia do 
xnente por todas as fronteiras ; cocifiderando que para a K"»o. 
defcnla dos Reinos foy lempre eíta a muralha mais impe- 
netrável. Porém ainoa que ufou deite aceitado diícurfo , 
fiaõ deixou de applicar o roáior cuidado ás foitificaçôes, 
levantando-íe em todas as Provirtcias nas Praças , que eraõ 
mais precizas, e adiartandcfe conforme o calor , e o cabe- 
dal com que íe trabalhava : e era de qualidade o ardor de 
todos os Povos , que á competência huns dos ouí> os fe via 
em todos os Lugares do Reino fabricar fortiíiccções, le- 
vantar gente , comprar cavallos , e conduzir arroas. 

Divide-íe Pcctugâl em íeis partes , fazendo-fe pe- Befcripça^ it 
io diícurío do tempo duas da Província da Beira i por- ^'ermgaL 
que repartindo" íe conforme as demarcaçoens antigas , faq 
as Províncias cinco, e o Reino do Algarve, Aiemtejo, 
Entre Douro e Minho , Traz os iMontes , Beira , e Ex- 
trem.adura. Tem o Reino cem léguas de compndo, extcn* 
dendo-fe em forma prolongada pela marinha do Oceano, 
fendo últimos extremos ao Meio dia a Viila de Ssgres, 
no Reino do Algarve , ao Septemtriíõ a de Caminha , 
que coFiíina com o Reino de Galiza. Pela parte da ter- 
ra tem Portugal menos cinco léguas, fendo tenros zo 
Septemtriaô a Cidade de Bragança , e ao Meio dia a Vii- 
la de Caílro-Marim. De largura pela parte que he mais 
dilatado tem trinta e três léguas , tirando huma linha 
redla desde Peniche porto de mar no Oceano a Salvater- 
ra da Beira, que he quaíi o Lugar iiUirro, que co Mtio dia 
toca na Raia do Reino de Leaõ. A variedade dos tampos 
confundirão as deniarc£çoen» , porque ha hoje muitcs Lu- 

O 4 geres 



2i6 PORTUGAL mSTAUR^DO , 

gares no Domínio de Portugal , que naõ tocavaõ á anti» 
Amno ga Lufitania, e ha outros , que fe uniraõ aos Reinos com 
1641, Çu-coníinaõ. O ingenho , e valor he comrLura em todos 
' ' os Poítuguezes , ornando-os a natureza de fingular habi- 
lidade para a compreheníaõ das letras 1 e de melhor dif- 
poliqaõ para o exercicio das armas. O Reino he abun- 
dante de todoí os frutílos , e coihem*fe nelle os mais fazo-J 
nsdoj, e naõ dependera de outra Naçaô alguma, ia os 
Portuguezes quizeraõ uzsr de tudo o quelograõ. O ter- 
reno das Provindas , que fuítentáraô a maior força da 
guerra , era cm tudo diverfo , porque o de Alemtijo he 
campanha por toda a parte, que olha ao Guadiana , que 
foy o theatro dos maiores progreííos militares » e ncíta 
coníid^raçaõ erao continuas , e maiores as occaíioens da 
Cavíllaria. Entre Douro e Alinho compõem lede terre- 
no t^ô aipero , tantos montes , e páííos difficultoíos, 
que íempre a infantaria era a que de huma , e outra parte 
íegurava as emprezas. Na Beira , e Traz os Montes fe 
contendia em huma , e outra parte com igual poder, e 
variamente fe difputavao as occafioens , hora em íitios 
afperos, hora em Campanha raza. O Algarve íentio pou^ 
CO tempo a inquietação das armas. Naõ tocarão na Pro- 
víncia da Extremadura , porque nunca os Caítelhanos che- 
garão a ferir o coração do P.eino. Oi rios , e os lugares 
onde íedifputaraõ a maior parte das emprezas, nomea- 
remos quando chegar o tempo de dar noticia delias, Efte 
pequeno tronco de Portugal animado dosfrucfloi dos mui- 
tos ramos , que extende por todo o mundo , refiílio vale- 
roíamente á mamoravel guerra, a que damos principio. 
Foy hum das fundamentos mais principaes da noíla defen- 
ia a regularidade , e difcipilna com que íe difpoz, alIiTi 
o exercicio da gaerra , como os meios de fe fufteníar , ad- 
miravelmente alimentada de todas as forças do Reino v 
porque nsõ fe exceptuou peííoa alguma desde maior es- 
fera ás de: inferior qualidade, desde os moços de quinze 
annos ate 03 decrépitos de fetenta , que naõ tributaííe vo* 
lunt.íriament:; a fazenda , e que naõ entregsíle cora gran» 
de goílo a vida para coníeguir a dí.'fenfa da Pátria, rei- 
jundo em tcdosos a.ninio* aavcríaõ á Naçaõ Ca lie ih. 3 na», 

iieida» 



PJRTE I. LIVRO IV: 217 

herdada dosaícendentes » e deí"ejoda liberdade. 

Repartio EiRey Governadores pelss Provircisf , Anno 
■dividio 3S Frcvincia» em Comarcas , e a3 Comarcas , 
em Companhias, tendo cada huma das Comarcas hum "^^'^ 
Governador, hum Sargento mór, e dous Ajudantes , ç ^'f^'''^^'f^° ^a 
cíiua huma das Companhias todos os Officiaes de que co- ^rZ/^^, '^^ ^ 
ílumaõ compôr-íe. Eíta qualidade de gente tinha o titu-'^ 
lo de Ordenança , e eítava aliíbda por todo o Remo com 
utiliílima diftincç?.õ , comprehendendo as liílís todos os 
homens do Reino de quinze até Ittenta annos. Ueílas Vi- 
Itas íe tiravaõ para Soldados pagos o? íilhos íegundos de 
todo o género de pelloas , exceptuando* fe os íilhos únicos 
de viuvas, eUvradores para a cultura das terras. Deílej, 
e dos caiados de boa idade , e diípcílqaõ , fe formou em 
cada huma óas Comarcas hum Terço , d: ndo'lhe o titulo 
de Auxiliares. Nomeava EiRey porn Meílre de Campo 
dstada hum dos Terços a peííoa mais nobre , e de melhor 
talento daquella Comaica , e das nreímas qualidades fe 
bufcavaõ osCapitsenç para as Ccnrpínhias; a todos eítes 
Oííici-es dava ElRey pstentes, e privilégios de pagos. 
BuíciVaó"le para Sargentos nióres , e iVjudantes deíles 
Terços os Capitaens de Infantaria, e Alferes mais práti- 
cos dos Exércitos , com o Hm de exercitarem os Soldados, 
e eraõ íoccorridos da rrefma íòrte , que os mais das fron« 
teiras. A obrigação àos Terços auxilií^res era acodirem 
ás foníeiras, para que eílíVcõ deftinsdos, na occsfiacS 
de guerra ou tfíenhva ou defeniiva : em quanto eílavso 
nelias erao íoccorridos Cv'"m praõ de ír>uniçaõ, como os 
Soldados pagos , e o mefmo íe cbíervava com os da Or- 
denança ; acabadss as occafiocn-s fe recolhiêõ a íuas caí; ;?, 
As Companhias da Ordenança , cue fe compunhaõ dos 
iromens de maior idade , scodirõ quando era maior o 
aperto , e quando os Exércitos eíiavaõ cm CsrrpÊnha , a 
guarnecer as Praças, que lhe ficavaõ m^Js vizinhas ; e para 
que eíta ordem fe nffo confundííTe, nem houveíTe exorbi- 
tâncias muito contingentes neílas diligencias , quando era 
neceííario levas para os Exércitos, repartia ElRey por 
todas as Comarcas do Reino os Gencrres, e Cabos de 
Hiaior zelo , e çxperiensia , e os Miniílios de msicr qua- 
lidade 



I 



2iS POXTUJAL T\EST AUKADO , 

lidade, e coníxioça. Da Píoviacia de Aíemtejo fe tiravaÔ 
Amo P^J^^ 3 mefiiiâ t*íoviacia av Ijvas dos Saldados pagos , de- 
dicando-fe ou hucna íó Co:narca grande , ou duas pe* 
quenas unidas para as Jevas de cada hum dos Teremos , e 
Êia miifma forte os lugares para as Companhias : aílim pa- 
ra que os Soldados , lendo parentes, e conhecidos, íc con- 
íervaííem j como para qus , auíentando*íe , íoíiem fáceis 
de reconduzir. E porque as Praças de Alemtejo eraõ roais , 
eos Exércitos maiores, e que operavaõ continuan?.ente, 
dedicou ElRey com a meíma diítincçaó de Comarcas, e 
mais ordem referida, toda a Província da Extremadura, 
e parte da Beira para acodirem a Alemtejo. As mais Pro- 
viocias fe alimentavao a fi mefmas com a raeíma ordem , 
e difciplina. Para íe confervar a Gavalldria , íe uíou de 
Imma induílria taô útil, que pareceo pelo eifeito miia» 
grofa : deo*fe lhe o nome de Arca , e Ccntrato , que vi- 
nha a íer entregar EIRey aos Capitaens hum certo nume» 
ro decavallos , os quaes eraõ obrigados a conkrvar com- 
prando pelo feu dinheiro os que Ine fi.!tay£Ô, dando-ihe 
EIRey para eíle eífeito nas moíiras hum certo preço , o 
qual crefcia tanto quanto as Companhias íe augrrientavaô , 
declarândo*fe no contrato, que os Capitaens fizeraõ com 
EiRey outras diO:racçõ:2S de muito grande conveniência. 
Acodia á Provincia em que havia guerra , a que ficava 
mais vizinha , e íuccedendo nisrcbar com as Tropas o 
Governador das Armas, eíiava à ordem díiquelle a que 
íoccorria *. ajuftamento que evitou muitos embaraços, que 
neílas occafiões coítumsô acontecer. As mais diípoíiçõe? 
iRilitares foraõ tiradas das que obfervárao em todos os 
feculos os maiores Meítres da guerra *, e chegarão a exer- 
citar-fe com tanta perfeição , que pudera Portugal fer ef- 
cóIa de todas as nações de Europa , aíiira como nella foy 
theatro dos maiores progreílos. Entendo , que efèas noti- 
cias Híõ feraõ moleftas a quem ler cita hiftoria: porque 
como foraõ fundamento dds gloriofas acções de que ella fs 
compõem , pois he alma da guerra a boa difciplina , ficará 
fem duvida com m^i )r clareza , e diftincçiõ tudo o que 
ao diante formos referindo. 

Logo qu3 ElRiy tonou poffe do governo do 

Rei- 



P^TslE I. LIVRO ir. 5T9 

Reiro , elegeo per Cepttsõ General de todo e)le 3 L)cm 
Afíor.ío de Portugal Conde do Vinioíc. Níõ chef:cua Anno 
gozar as gr^rdes f retn iterictas defie Feito, mLidf.cGO , 
cnimo d'ElKey por Frsrciíco de Lucera , o quallhe acon- ^^4^' 
leihoii, cuQ Bíiõ era juíío anterôr cem difíereiíça tcõ de- ocoKàedoFn 
ligual hurn Vsllallo a tantos, a quem devia iguaes i^^Q' (jgfierai. ' 
ZES. Foy efta variedade fentida do Povo , de quem o C on- 
de era eliimado &áim pekis íuas vittudes , cerro pela 
memoria de íeos Avós , os quaes fcreõ ít.n i^re unidos aos 
irtereíles de Portugal. Era dotado de rrisito vaJor , de 
juizo , e liçnó , e de fummabordade , que n Ditas vetzes 
lhe prejudicava; fendo precifo por invenção diabólica, 
qvQ vzíqA a malícia, forqofa ccnipanheiía da Politica. F2I- 
tavâ-lhe ao Conde a experiência militar , geral defeito dos 
mais daqueiie tampo, por nsõ havtrem viílo guerra al- 
guma. Pâílou a exercitar o íeu Poíto íó na Provinda de 
/ilemíejo c 20 de Dezembro, levando ccmíigo feu filho 
D. Luiz de Poríngp.1 , que foy logo Cspitaõ de Infanta- 
ria , rcjco tempo depois Meltre de Csrr po , e a D. Dio- 
go de iMenezes , que aflentou praqa na Companhia de D. 
LuÍ2J. Chegou a Elvas , Cidade que elegeo por Praça de Elege Elvas pã^ 
iirnías, achcndo-a por todos os requifitos a mais capaz '''''P''*/'"^^'^'': 
defte titulo. Fica diílante ires léguas de Badajoz , Pr?ça ''"'** 
de Armas dos Caílelhano?. Corre Guadiana entre as duas 
Cidades, b.?nha as niuralhas de Badajoz, e diíla duas 
léguas de Flvas, por inclinar a corrente para a parte ds 
Portugal. He taõ igual a campanha, que divide eílas duas 
Cklí-des , que fe divifaõ clarsmcníe de huma os vultos, 
que fahem da outra. Elvas fica em fitio msis eminente : po- 
rém fcbe*íe a ella com taõ pouco trabalho, que parece que 
foy prevenção da natureza fazella taõ regular, para que 
a circumvallaíTe numa das rrelhores fortificsçoens do 
mundo» Achou o Conde do Vimiofo per intervenção do 
Bifpo de: Elvas D. Manoel da Cunha, dirpcftosos ânimos 
dos miOradores a empenhsr as vidas na liberdade da Patris^ 
ea facrificar as fazendas â defenfa da Cidade. Com eíla re- 
ío!uçaõ haviaô derrubado as caías, que embarsçavaõ a 
antiga muralha , de que Flvssccm terceiro recinto, que- 
lecolhia a fi tcdos os ediêcios j era eercada , leysntando 



220 PORTUGAL restaurado; 

alguií ruínas, qua os muitos annos Iiaviao occafinado na 
'AnnO íiiuralíia. Fecharão também as portas, e raaii arrifcadas, 
^ deixando fó para o ferviço da Cidade abertas três : a de 

IO41. Évora, que depois foy fabricada mais adiante, na forti- 
ficação moderna fe chamou da Efquina , e fica ao Occiden- 
tá : a de Olivença quali na parte oppoíla, que olha a Ba- 
dajoz j e a ds S. Vicente entre huma , e outra, olhando a 
Campo' Maior. Com a aíTiltenciaj e authoridade do Con- 
de íe deo mais calor á defenfa da Cidade , e da mefma lor- 
te a todas as fronteiras da Proviíicia. Deo íogo ordem a qu2 
^ . íe fizeíTem levas de Infantaria , e Cavallaria : e foy o pri- 
faprtmeiro^xu'^^''^^^ Msítre de Campo , que levantou gente em Évora 
ire de Cam^o! Dõíti JoaÕ da Cofta , O qual reíplandeceo todo o tempo, 
que lhe durou a vida, com tantas virtudes , e acçoens tao 
valerofas , como largamente referirá eíla hiíloría , fem 
ter eícrupulo de parecer Chroniíla íuípeitofo , conítmdo , 
que devo a efte Vdrao infigne na criação, e documentos 
dos primeiros annos da guerra , fegu^da natureza. Para 
Capitaens das primelrss duas Companhias de Cavallos 
•B.noângode ^oj^eou ElRev a Dom Rodrigo de Caftro , eGiípardá 
^/5.:/^«rac<j- Sequeira Manoel, que cora grande diiigencia as forma- 
puaens de Ca- faõ logo 1 ainda que de pouco numero : porém como o 
-uaih. 2;e1o do Conde naô íuperava a falta de experiência, coi^ 

riaô as difpofiçoens con maior confuíaÕ , que utilidade ; 
de que fe originava , fendo o dinheiro pouco , gaílaffe 
inutilmente. 

Acodio ElB.ey a efte damno , mandando a Alem- 
P^fa a Alem'.^QP MathÍ3S ÓQ Albjquerque , que na guerra do Braíil 
íeio Mathiasdeh^vU graogiâdo coíi graodes experiências memorável 
Aibíiiuercine. opiniâõ. Era muito pratico nas fortiíicaçoens, e no ma- 
neja da Infantaria : mandou'o ElRey fem poílo a Alem* 
tejo para inflruir aos Soldados daquella Proviacia em hum 
e outr3 exercício. Chegando a Elvas , e vendo , que a Ci- 
dade eílava em b^ítmte defenía--, paílou a Olivença , jul- 
gando n.?qu3lla Vil'a mais preciza a íua aíliftencia , por 
fí:ar da outra parte de Guadiana expoíla á invafaõ de Caí» 
í^ílla , ainda que fe communicava com as Praças deita par* 
te por humi grande ponte, que alguns ann^s eíleve le- 
vantada. Oio principio á forticaçaó da ViiU : porém 

naó 



PJRTE I. LIVRO IV. 32 i 

fiíõ querendo fazer dairiro às caías , Isrccii ai Vnhíi irais 
dili:Tbdas do quc tra rectííario , e fc)y depois n uito dif- AniíÒ 
íicuJioío fabrisiar de pedra , e cal os baluartts , que er.taõ , ^ . - 
fe íizeraóde terra , e faxina. E ainda a reloluçaõdcs ir o- 4* • 
radores rcniedeoii eíle damno , porc^ue reconhecendo que 
por confervar buma pequena parte punhcô tm cci tin-/;'"'"^'^'* °"i 
gencia tudo o que logiavaó , pedír^ió a Mathias de Albu- '^^"^^' 
querque que delenhalle a Fortilicaçaõ pelo fitio mais con« 
yenitnte , íem tazer calo da delir uiçaô dos edifícios. Fei- 
to o deíenho , e coireçada a obra , ícy de íórte o calor i 
e diligencia dos rt oradoies, que em breves dias eflava a 
Praça cerrada , e os baluartes em altura lufficiente. Ma^ 
thias de Albuquerque , deixando ordem para que íe con- 
tinuaíle o trabalho , paííou a Elvas , por julgar preciío 
acodir brevemente a todas 2S partes. Em Elvas deo or- ^urmema a$ 
dem a fe levantarem três meias luas diante das portas *, e jottifirtiçeens.] 
fabricou*fe outra no outeiro de Santa Luzia, onde agora às Elvas, 
íe ve o grande Forte , que depois fe levantou , e conimu- 
nieou por huma linha con- aporta de Oliverça. Pela par- 
te interior da muralha facilitou pcdei-íe correr toda fem 
embaraço , e mandou arrimcr algum teírspleno nos luga- 
res por onde mais facilmente podia fer batida da arti- 
lharia. CoDcorreo o povo para o difpendio deílas obras 
com o dinheiro , que reíultava de dous reis que impuzé- 
raõ na carne , peixe ♦ e vinho , eílandocoftumades a lhe 
parecer fuave efte género de tributo , fendo feos antepaf- 
íados os primeiros que o introduzireõ em Portugal para Prwdpie io 
2l grande fabrica de arcos , e canos , cem o$ quaes n etè« íe^/ da agua, 
raõ a agua na Cidade » ficando as fontes, dor.de fahe , hu- 
ma légua delia : deixando cfle tributo em todo o Reino 
o titulo de Real da Agua^ ao quesgora íe ccílufra irr pôr, 
offerecendo*fe algum aperto nas mais das Cidades , e lu- 
gares delle. Paflou Mathias de A buqucrque a ^^rripo^ eira o rrtfmir 
Maior, e approvou o defenho por crde fe tríbalhfva ra crtiCam^o-ué 
Fortificação daquella Prsça, accrecentfncoihe fó o ba- *"'■•. 
luarte de S. Stbaíliaô, Quando voltou a Elvas achou ja 
formadas algumas plataformas de madeira nas partes mais 
convenientes da muralha, para que havia dtixsdo erdem í 
plantou çellas a artilharia > e deo prii:cii:io á fabrica de» 



222 PORTUGAL restaurado; 

c37aUiíihos di ffiza, diquseín muitas occafiosns ufoií 
Anno co.n muita utiliiiii a Infantaria coatra aCavallaria de 
i6j.i Caltilla. Neíte tanpo chjgou a Elvas D. Joaõdi Coita 
i 4** coiíi algamas Companhias ds feu Terço que lavantav* 
em Évora , para onde voltou a acabar de formallo , e dar 
principio á fortiíicaçiõ daquslla Cidade ; deíenho que íe 
naõ ajuílau muitos annos; e parecendo fatalidade , moO 
iTou depoií o íuccíílo qu3 Iiavia fido providencia. Com 
as Companhias qui faltavaõ do Terço , entrou Dom Joa5 
d: TraKcirco de ^^ Coíta em Elvas brevemente. D. Franciíco de Soufa , 
scniaformAem levantava com igual diligencia outro Terço , de que foy 
BejahumTer^o Mcílre ds Campo na Comarca de Beja, o qual íe appli- 
cou á guarniçiÕ de Moura , e Serpa : fcrmou ta^nhem al- 
v4'' t gnmas Companhias íoltas, que depois fe reduzirão a Ter- 
% ços da guarnição de Elvas , Campo^Maior , e Olivença. 
'CAfiUetJs mo- for Gâpítaens mores deílas três Praças nomeou ElRey da 
íyj' primeira D. Álvaro de Araide , da fegunda a Gomes Frei- 

re de Andrade , e da terceira Franciíco de Mello. Neíte 
tempo, prevalecendo com EiRey ascalumnias dos inimi- 
"eh ElRe S^s ^^ Conde do Vimiofo , o chamou á Corte com 3ppa« 
o Conde do fI rsutes pretextos , e mandou ordem a Mathias de Álbu- 
mio fo, governa querque , para qui: exsrcitaífe o governo dss Armas de 
Mathiasde Al- Àlemtejo , nomeando-o Confeíheiro de Eítado. 
híjuerque. M-mdâva ss Armas dos Caítelhsnos o Conde de' 

o conds de Monte-Rey , que aíTiltia na Cidade d.-s Merida , oove le- 
tiTnadbPdi'' gt»3S diítaníe de Bjidajoz. Governava Badajoz o Marquez 
Jrmasde caf ÓQ Toral } c as Tfopas, qu3 mand^vaã , naõ eraõ formida- 
ieiu. vei'}, pila diverfaõ d.3 exjrciío de Cstalunhi , cuidado 

Governa Bada- principal di palxâõ do Conde Daque ern grande iniliiids" 
Tto^uP'"''' ^^ ^°^^ confervaçaõ. Porém ainda que o exercito naó 
*""- ' era grande, nos excedia multo em o numero ( e diícspU- 
ra : porque para crefcerem as noífas Tropas , faltavaõ as' 
cabedass» e para fe exercitarem , fcíencia í fendo o le- 
thargo de feílenta annos de cativeiro de Caíleila , pr-igo. 
fa occaíiaô , depois dereílaurado Portugal, da lua vin- 
gança. Efteve a guerra alguns mezes íufpenfa , aíli m pe- 
la pouci difpofiçió djanibis as partes, como pelas g^^n• 
desraizis que a con iiuaicaç^o de tantis annos havia lan- 
no3 anisnos dehun, e oacto R;iaJ : intitit^ndo. 

aiéjn 



FJRTE 1. TJVRO IV. _ jij 

a^ém defía rí.zsÕ a pcJitica dcs Caííeihí ros ccnff guir cem 
asriegcticçcen»occult3sa recupeiLçaõde Pcíiuga^ , eva^ AnfiO 
liando 'd com â guerra íbeita per ntito ciividcls n^i ton- ^ 
fidercçpó do fronde valor dos PottLgiitzea, tm diíltren- ■^^4^* 
tes íeculos com o próprio prejuízo tantas vtzes experi- 
mentado. Foy a Poiti-ga! a dilcqaõ da guerra de grar.dií- 
Jima utilidade: porque tiversõ te nr. po fcs prever çoens de 
todo o Reino pára íe propcrcicnar com menos embsrsço 
ao perigo daConquiíb. O Marquez de Tcral foy o pri- 
meiro que rompeo a lufper.ísô díis armas : porque íahin- p^,<^„v^ ^„^; 
do em nove de Jur lio a Ronda de Elvas com a pouca at* p-,mer.to da 
tenção que coftumsva , nsõ paíTsrdo de dez o iwirctxo ft(erra. 
dos Ca^alloi da CompÊrhia de D. Rodrigo de Caílro, 
acháraó ouiros tantos Ceftelhanos que es proTocáraõ a 
eícaramuçar. NaÕ lhes perturbou os anirroj o novoacci- 
dente, atacarão a efcsrsmuça com grrrde refoluçsõ: 
pcTém ao tempo que prevaleci?© centra os dez Caítelha* 
nos, fahiraõ trinta que eílavsô enbofcndos em huiras 
vinhas chamadas das Caldeiras junto r,o Guadiana , e íu- 
perando o maior numero ao iraicr ^alor , rendérsõ íe* 
te Portuguezes , e falvárac^íe trej. Durarido o cotfiií^lo , 
cahio Ciorto o cavâllo de Roque Aitunes natural de 
Moura , e reíoluto a perder a vid? por eternizar a memo. 
ria , naõ nreitou quartel com a peníaó de dizer , Vrca El- mcVu 'ghriorà 
Rey D. Filippe ,• a que es Cafíelhancs querido cbrigalJo, àe Rcque ^». 
e iacrifícou o generofo efpirito cem as repetidas vezes '"''^^ 
de , Ftva Deoí , e ElRey D. ^oaô meu Senhor : deixan- 
do efcrito com o íeu f&ngue « que n? o tem honra nem vi- 
da aquelle que por coíileivar s vida quer perder a hcnra. 
Os três Soldados , que efcapáraõ , deraõ em EJv^s o pri- 
meiro rebate : todos 02 que cuviraõ a noticia do fuccf íío , 
íearrojàrcõ furiofamente a íahir íem crdem a folicitar a 
vingança : porém deteve*os a prudercia de IViathias de 
Albuquerque, mandando cerrar as portas da Cidade, te- 
ir.endo que os Caftelhanos íe ErnsíTem a efta defordem 
com maior poder. E psra que efta porderaçaõ ficaííe má* 
nifeAa , íem perigo do feu credito , aos que naqutlle tem- ^^'^^ ^fai 
po pouco exercitados naõ fabiaõ diftirguir as scçoers ir»i- ^^'"^ ^" ^^^^ 
litares , íe pez acivallo, e correiido a Cidade dizia em nrj/-' 



224 PORTUGAL RESTAURADO ; 

vozes altas ; que a força dos efquadroens tanto confiílíá 
Anão no valor como na dilciplina j que de taõ deílra maô ne- 
1Ó4I ceíTitava a efpada na guerra , como o potro no manejo } 
^ * * porqua aquella , e eíte íe prccipitavaó » íe a arte naõ do- 
mina a cólera ; e que elle lhe promettia muito breve* 
mente a fatisfaçaô daquelle aggravo. Foy eíla promeíTa 
récnora da temeridade dos foldados, e moradores de El- 
vas , fuíFocando a paixaõ a que os obrigava a morte dos 
foldados f e verem que os Caltelhanos rebanhavaô algum 
gado que andava pola Campanha. Mathias de Albuquer- 
que pondo em ordem a pouca gente de que conitava 
aquella guarnição > e mandando deícobrir os Olivaes que 
alarga diltanci4 rodeaó Elvas, fahio á Campanha , naô 
podendo deter a Infantaria ♦ que pudera arrepender*fe da 
defobsdiencia , fe os Caftelhanos fe naó houveraô retira» 
do: omefmofea Miithias de Albuquerque, ouvindo, e 
defprezando a inconfiderada murmuração dos moradores 
de Eivai , que condénavaõ por falta de valor a fua pru* 
dencia» No dia fegainte tornarão os Caltelhanos a paliar 
Guadiana com 400 Cavallos , e mil Infantes, e íem ou- 
tro eíFeito , que forraalos á viíla da Ronda le retiráraõj 
. , . Na meíma tarde havendo chegado a M.-ithias de Alhu- 
Jo^CA.íeihmos. qusrque algumas levas âa Infantaria . fahio de Elvas com 
700 Infantes I e 30 Cavallos ; paílou a noute embofca* 
áo em hum valle de huma vargea junto do Monte da Ter-. 
rinha. SahiJo o SjI ,e apparecendo a Cavallaria Caílelha- 
na no lugar de Telle ia íituado da outra parte di Guadia- 
na , marchou Gàípar ds Siqueira aprwocir ai Tropas 
inimigas, aque ocarregaííem. Entendendo os Caltelha- 
nos que era embofcada , naô quizer 4Õ paiTar o rio mais 
que algum Cavallos , que fuílentáraó huma leve efcira- 
muça. Impacientes da dilaçâô 0$ da embofcada , fahiraó 
, „ formados á Campanha , de que refuitou retirarcmTe o« 

S1'wí;Í«. ^^^-^^*'^^'» e ficar a noíTa gente taõ ufana, e paga do 
lltz.Z\ °^ '' procedimento de Mathias de Albuquerque , como (e hou- 
veraõ confeguido huma grande vÍLloria. Tal era o de£- 
concerto dos ânimos naquílie principio da guerra , que 
fe oíFiadiíô' da prulincia , e fe pagavaõ da temeridade. 
E hs csrto que f« Mithias de Albuquerque naõ reconhe- 
cera 



P^RTÍ I. LIVRO IV. 115 

icra igual iníuíncijncia nosCailL-lhcnos , que levando fó 
Irinta Cavallos, e tendo viílo no dia antecedente ao ini- Antl^ 
fnigo4oo, e mil Infantes , que naõ expozeta a Infantaria • 
em huma campanha raza a riíco taõrcanifeílo : porém **^4^» 
neftes princípios como os Caílelhanos nsõ empenharão na 
guerra de Portugal as Tropas veteranas , e íó pele)3vaó 
com a gente levantada de novo, contendia* íe de ignorân- 
cia a ignorância. E aílim por levei , e mal dilpofios eícre« 
▼o pouco animado eíte* primeiros fucceíTos , Tecoendo ^ 
que moleftem a quem ler efta hiícoria : porém quem ef- ji^g^/^^, je n 
creve he fó obrigado a contar na verdade tudo o que acoa- ejcrevertm éfi 
teceo no tempo de que trata , fem fazer reparo em outras t^s fucí^ijis, 
Taidades, que coílumaó dsílruir o credito dos Hiiloria^ 
dores; e o aflumpto que tomo he tao vaílo, que nao 
taltaràô ao Leitor muitos empregos da íua curiofidade. 
i\etirou*re a Eivas Mathias de Albuquerque trazendo ^eura-je Ma- 
corhíigo o corpo de Roque Antunes , que achou na campa- thias ds Aib:** 
nha 5 ao qual com grande pompa fez dar na Sé de El* v*(rq^<^y « "^^• 
vas honrada íepultura: porque na politica de remunerar '^//"^'«'í^^i 
grandes acçoens com coroas de louro 1 para irâammar os Antunes, 
íinimos dos Soldados a maiores emprezas, foy Mathias 
de Albuquerque infigne imitador dos Gapitaens Roma- 
nos. O Marquez de Toral , querendo com a diííimulaçaô 
coníeguir maior utilidade , mandou os fetj prifioneiros p^^^^^^g ^.^.r^: 
com hum volantlm , em que dizia , que rompefíe a guer* tim dos c7;ie- 
ra fora oefordem do Cabo da R-onda ; e na coi ilíiíO de m-áX lhanos com 0^ 
obedecido padeceo lo':;© o cníligo do falfo trato , porqu"^. f'/'"^^^''^^! 
querendo juítific^r efce proteíto com outra appareaíe Li- 
lidade I mandou publicar que todos os Paizancs Portu- 
guezes , que quizeíTem recolher as fuás íearas , o podiao 
executar íem perigo algum. Nao íe enganou na irr.ça dte 
enganallos , por quanto periuadidos facilmente do inte- 
reíle , naõ dando credito ás repetidas advertências de Ma- 
thias de Albuquerque , paíTaraô muitos contra os feus pre- 
ceitos a recoiher as íernenteiraí , que tinhaõ em Coitei- ^ . , 
la , e naõ íó luccedeo ifto aos de Eivas » n as fizera õ o cTffclíaJL"'^' 
meímo todos os das Praças da Rai?. Acabado o traba- 
lho de fegar o tíigo , experimeíátfiõ o caítigo da íua 
ambição: porque 04 Caitelhanos o rccclhér «u , e es def- 
Toii). 1. P pedira^ 



22(5 PGE.TUGJL RESTAURADO, 

pedirsõ com muito máo trato. Efieve a guerra slgiins dia? 
^nno fufpenf j -, e fe os Soldados de huma , e outra parte fâzisí? 
i6ai ^^^^^^ preza, íe tornava a reítituir; dur^u pouco eíta 
4 • corre fpondencia , e de novo experimentarão os lavradores 
maiores hoítiJidades. Em fatisfaçaô deita ofienía fe man- 
dou armar ás Tropas de Ronda , que coílumavao fahít 
duas de Badajoz com 4oCavano8» e 200 Infantes: hia 
EfcardfKuça por Cabo O Capitão Joaó Tavares 5 naô confeguio mais 
das Trocas. qjjg atacarfc huma leve eícaramuça » de que veyo ferido 
Plogo de Mefquits. 

Naí!e tempo voltou de Lisboa o Conde do VimioM 
^erna o Con.ie fo 3 continuar O govsmo dsquella Província , prevale- 
llmteT, '^ cendo por aquclla vez a íua innocencia centra as calum- 
^ '"■' ' niss d^ íeos inimigos. Deteve-íe o Conde em liílrerr.oz 
' a dar ordem ás levas de Infantaria , e Cavsllaria , que 
por fglta de cabsdaes caminhavaô Isntomente. Franciíco 
de Mello , Governador de Olivença ♦ fabendo que o Gon« 
de era chegado a Eílremoz, paílou áquella Villa a com- 
mimic2r'Iae alguns ne<^ocios importantes. Tiveraõ os 
Cajfteíhanos noticia deita jornada , mandou o Marquez 
de Total ^ooCavailos com ordem , que aguardaíTem os 
dou? dias íegutníes, ncs q-jaes entendiaõ que poderií 
voltar. Etnbofcargé-íe entre Olivença , e Gerumenha j 
lançarão ao am.nhecer huma parfida a bater as eítradas , 
foy viíta de Olivença. O Sargento rcór Luiz Pinto de 
Matos, que governava a Praça , enganado de pouca ex- 
periência mandou íahir dous Capitaetis de Infantaria com 
So Moíqueteiros , d4ndo*lhe8 ordem , que íegniíTera 3 
pauida: fahiraõ elses , e os da partida , por lhes dar ma« 
ior confiança , fe foraõ retirando. Greceo aos Cspitães 
o calor com eíi-e enj^ano , e accrecentou'!hes o empe- 
nho o que puiira ferviríhes de avlzo : porque detendo. 
ÍQ, era certa a embofcada , e r;ítifando"fe, impoílivsl ai- 
cançallos Tanto qui; os di partida os viraõ Jií^antesda Pra- 
'^'jíã de duas çi , volíaraõ a carregaUos , e ao meímo tempo f^hírao os 
compMhuí â& jja embofcada , que eft ivpõ nas coitais do fitio de Cí-ílello 
oUveaça. Velho , pouco diftante da C)livença : avançarão todos ao* 
Infantes , os quass vendo-fe perdidos , voltarão alguns as 
coílas ; outros querendo fs valei; do reparo de hua tapada » 

a nteg 



?AR1E 1. L1V%0 IV. 227 

antes de o confeguir íoraõ dsgollados. Foy s perda tr.enot 
CO elieito 1 que no eftrondo : porém como era a primara , AnP.O 
teve difculpa o fentimento , que houve em toda a Provia- | /, ^ r 
da. Mathias de AJbuqu-erque , naó querendo dar lug.ir ^^'4í« 
a que o receio íe apoderaíl j dos ânimos do« motadciei de 
Olivença, d« que podiaõleguiríe effjitos rnuito preiudi* 
ciatíS , tanto qne lhe chegou a noticia deíle Tuccelio » mar- J^^^rcha Ma* 
chou caminho de Olivença com 400 infantes , e 40 Ca- ^'][ZJe fofZ 
vâilos: chegou a Guadiana taõ perto da noite , que alo» fgVVo.' ' 

jou junto do lio , onde aguardou o dia com a: armas na 
inaõ , conftanJo-lhe , que as Tropas dos Csítelhanos eíla- 
vaô da outra paite do rio, Sahio o Soli e paílada a poa- 
te , marchou formado , e cliegou fem oppollçao a Oli- 
vença , naõ querendo os Callelhanos embaraçar ihe a jor- 
nada ; o que, a ferem ruaiâ deílros, com 400 GsvaJIos 
puderaõ fazer facilmente. Foy efta refoluí^au de gi-ande 
eííeitoi porque 03 moradores ce Oivença eílavoô muito 
confiifos com o luccelTo paíiado , e os Caílelhancs deiar- 
minavaõ valerfe ào íeu lobrefalto, interpreadendo a Fra- 
ca a noite íeguinte. Defvaneceo'fe o intento , vendo mar- 
char Mathia? de Albuquerque com o foccorro. Deteve- 
fe elle dous dias em Olivença » e deixando na Praça i $0 
Infantes, com os 250 , e 40 Caval!os fe pez eiE marcha. 
Apuardava*o o inimigo com millnfcntes, 6400 Cavai- ^'^'^ J^/'//^'^^ 
ios: reconneceo , que a noila gente marchsva fcrmacln , e a \nxtfúHo na 
taõ devagar , que moílrava j^cuco receio •, o que banou retirada. 
paia fe naó refolverem os Caílelhanos a pelejar', deixan- 
do chegar a Maíhias de Albuquerque á ronte de OH. 
vença , onde ficou livre do perigo , que o ameaçava. Elle , 
e outros fimilhantes erros dos Caílelhanos exercitados 
muitas vezes no principio da guerra em utilidade rcíla, 
r.onglutinaraõ de forte os materiaes deite edifício da con- 
feivaçaô de Portugal, que quando fe reíoivèraõ a que' 
rer arruinallo , experimentársõ afua defenfa impenetrá- 
vel a todos os golpes ; e fazendo'nos o exercício da guer- 
ra , fem prejuízo noíTo , maiores Soldados , paílamos 
gloricíameníe dentro de poucos annos doi perigos ds 
conquiftados á contingência de conquiíladores. VoUársQ 
os Caílelhanos a Olivença a bufcar n3 pouca experien- 

P 2 cia 



22? FOnrUGJL ^ESTAVF.AJDO, 

cia daquella guarnição ftgundâ deíordem ; deraó asíenti^ 

Anno nelljs avizo ao Governador da Praça, mandou elle logo 

j X fahir o Capitão D. Manoel de Souía com loo Infantes, 

4 • e Paulo Viciira Rijo com i 5 Cavailoa , íem rnais caufa 

que entender que era precilo o naõ CfíOilrar receio : como 

«r^l^^r'^^^'* íe fora ley da suerra fahirein de huma Praça voiuntaria- 

|y« Olivença. i- -/^ii- * li- 

" mente a pelejar contra muita Cavâllana poucos Inrantei, 
Valecfa Dom Manoel do reparo de alguns vallados, def- 
viáraÕ«íe os Caíleihanos dos mofquetes , e marcharão pa- 
ra a Praça. Entrou em paite dos Infantes o receio , e voU 
íàraõ as coftas : porém com os que licâraó lulleniou D. 
Manoel Tem perturbação o poíto , ajudado dos poucos 
Cavallos de Paulo Vieira : reíiráraõ-íe os Caílsihanoa 
íem damno de ambas as parte». 

De todos eíles accidentes íe da^a conta ao Con- 
de do Vimiofo , que naÕ havia paíTado de Eilremoz 1 por 
ilhe haver chegado noticia de Li$boa de qne pievaleciaá 
em fua auísmcia as cavil^çoens de íeos inimigos i eccrao 
dfcllas podia originayíe o aggravo de EJRey Ihs tirar o 
poík), queria eíperailo em iugar mais apartado dos Caí. 
telhancs , por lhes dilatar msis tempo o goíto de íâberem ^ 
que lhe nsõ remunerava tantas finezas executadas po^ 
ieu íervíço. E accrecentava-íe a eíte cutro maior len. 
tinienío , que era recear que os mais Vaíí;íllcs d^ElRey , 
vendo a oííenfa que lhe dâva por fatisf.^çaõ, íe etcramen- 
taífem do íeu aggravo , e falt^ílera com o zelo que eíla 
defejava irfíair em todos i defenla da fua Pátria. Veio 
^nftrenva do ^^ Éivas bií!c<í!lo Mathííis dí Aibuquerque a conferir cooi 
íocom Maihias ^^^^ negocios importftníes áo governo da Provmcia : com- 
^ Mifíquerque iTiUnicou*Jhe o Conde, que António Mexia Capitão da 
Ordenançi de Campo'Maior , que íulientava com per» 
iniíTiÕ fua correfpondencia com osCaiteliianos , fe havia 
deixado cavilozimente perfuadir das inítancias do Mar- 
quez de Toral , e lhe havia promettido introduzir o Con^ 
de de MGnte*Rcy em Campo-Maior por hum quintal das 
caías eu qu* vivia » e que por efte trato dobre podiaô lo- 
grar as noíTas Armas hum bom fucceíTo. Foy Mathias 
de Albuquerque de contraria opinião, dizendo que era 
piq infíçioí o nofío po4iíí ao dos Caft^lUaH^S , a Praça 



PJR1E I. LIVRO IV. iip 

de Campo-Maior taô mal fortificada , e elles ta6 ac2utí>. 
lados , que avaliava o rifco por infallivel , ainda na íup- AnríO 
poliçtô de que fe devia dar inteiro credito a Ac tonio Me* ^ 
xia : porque o trato defte género de homens era taõ de- ^^4^* 
ÍJgual , e taõ perigoío , que cofturaaó enganar a s&bas 
as partes. E por eíla confideraçaõ pedindo á Rainha liar 
bel de Inglaterra premio hum Vaílallo feu de hum gran-i 
de íerviço que lhe havia feito deíla qualidade » eUa lhe 
íizera mercê , e o ]ançá*a fora do Reino , dizendo que 
le tornaria a valer do feu preíbimo quando receilitaííe 
de hum traidor. Ajuílou-fe o Conde com eíla opinião de 
Jvlathias de Albuquerque , e esforçarão por maior caute- 
]a o prelidio de Campo Maior : da que le originou rr,u« 
dar de intento o Conde de Monte*Rey, que, conforme de* 
pois conítou , para eíle fim havia chegado a Badaioz com 
4000 Infantes , e 500 Cavâllos ; e vendo deívanecida 
a interpreta de Campo*M2Íor , fe refolveo a atacar Oli- Re/crça-fe cm* 
vença, períuadido de Sebaíliaõ Corrêa natural da meíma po-Áiaicnrier- 
Villa , que l"e havia paílado a Caítella , fendo o primeiro -^^^^"'/^ •« ?»- 
Soldado que cegamente introduzio eíle defacerto, que "'^^'^^'^'** 
muito poucos imiíársõ em todo o diícurío da guerra ; e 
naquelies a que íuccedeo moítrava Deos que íe oíFendia 
da traição que executavaõ , porque ou acabavaõ a vida 
nas primeiras occafioens em que íe achavaõ , ou íicavaô 
nellas prifioneiros , e vinhaõ a pagar na forca o feu de- 
lido, 

Refoluto o Conde de MontcRey a atacar OH- Biípoficoens dos 
vença eíperando coníaguir , efca]ando'a , ganhalla a pcu- capiLnespa. 
cocuílo, nafuppoíiçsõ de achar os baluartes fem defen- ''^ atatar oUi 
fa, e a Guarnição íem difciplina; juntou em Badajoz '^^"^''- 
8000 Infantes, 2000 Cavâllos com todas as prcven- 
çoens neceflsrias ; tirou das Tropas primeiro 400 Cavai- 
los , os quaes mandou correr a Campanha de Elvas, com 
ordem de atacarem qualquer ícccorro que pefiafíe para 
Olivença \ e de impedirem que ss fentinellas da Ronda 
occupaiiem os poílos , donde defcobriílem a marcha que 
determinava fazer. Marcharão os 400 C&vallos , e de- 
pois de executsrem .a ordem que traziaõ de encobrir a 
oarcha, rebanháraõ o gado que achà^fõ na Camprmha.^ 
Tom. I. p 3 e pu- 



Z50 PORTUGAL tESIAVRADO, 

e puzeraô fogo ás íementeiras, que eftavao maduras i 
AnrK) natí valendo com o Conde de Monte* Rey oppor-fe a eáa 
j^ .- ordem , que havia dado , o Cabido de Badajoz , obrigado 
potmfo o'á °" ^^ ^^^° Catholico, que naõ difpenfa efta forma de 
mntiirlsT''' ^^^^^^i ou do tcmor de padecerem igual deftruiçaõ oi 
frudos, que produziaôas fuás Campanhas. Dom joaõda 
Cofta era Governador de Elvas , dandclhe ElRey eíta 
occupsçaõ por haver D. Joaõ de Ataide aceitado o pofto 
de CommilTario Geral da Cavallaria \ vendo D. Joaô da 
sahe B. Joaõ ^^íla Tcbanhat o gado , e arder as f earas , mandou fahic 
da coftaGover. Infaotaría até as ultimas tapadas dos Olivaes , para a par- 
nador deEhas. te do Guadiana ; occuparaõ-as antes que os Caftelhanoj 
entraíTem nelles, deraõalguas cargas, que empregarão, 
defviâraô-fe delias , e continuarão o incêndio até a tarde, 
que fe retirarão a incorporar no Exercito , que ja havia 
marchado com mil Cavallos de vanguarda, a que fe fe- 
guiaõ duas linhas de Infantaria ; a eíta as bagagens, com 
hum Terço de guarda, fazendo a retaguarda 500 Cavai- 
los , a que fe unirão os 400 , que foraõ a Elvas. Aviílou 
o Exercito Olivença , onde ja o efperava Francifco de 
Meilo Governador daquells Praça , informado de cinco Ir- 
landezes , que fe havisõ ptíTado a ella : logo que lhe che- 
gou elia noticia , repartio os Soldados , e Paizanos pelos 
lugares mais convenientes , e havendo chegado D. Ro- 
drigo de Caftro com a fua Companhia de Cavallos de 
Coiiiboy a a'guas muniçòe,^ , a defmontou , e fe unio a D, 
Manoel de Souza no Baluarte de S. Pedro , como fe naô 
fora msis ulil acodir montado aonde foífe maior o peri- 
go , ícndo capazes as ruas de Olivença de fe manejar ne!- 
las hum grande troíTo de Cavallaria, Com duas horas de 
Sol chegou todo o Exercito fobre Olivença : alojou en- 
tre os Olivaes, que naquelle tempo a rodeavaô , no fitio 
das Perrarias vizinho da Praça pela parte onde a de- 
fenfa era menor , por ter ainda hum lanço de trincheira 
p]antao arti- por acabar. Plantarão os Caftelhanos logo duas peças de 
ihariá. artilharia, as quaes fizeraõ jogar com pouco damno dos 

defenfores : eftavao elles difpoftos á defenía , efperando 
que o valor fuppriíTe a falta da fciencia militar ; de que 
Eraacifco de Mello por eftudo tinha muita noticia : fez, 

jogar 



P^RJE 1. L1VÍ{0 ir. 2J1 

Jogâf côritrâ o Exercito a pouca artilharia , que havia na 
Praça , porém o damno foy taô confideravel » que depreí- AnnO 
ia íe arrependerão os Caftelhanof do intento •, reíol verto- , ^ . » 
íe clles a atacar hum pofto exterior , fahiraõ alguas man- * *^4i • 
gas de Mofqueteiros da Praça , que por três vezes os re- 
chaçarão. Vendo o Conde de Monte-Rey maior oppofiçao ^'//^^y' ''"* 
da que fuppunha , perfuadido das fallss promeíTas de Se- ^^'^ ^' 
baftiaó Corrêa , fe reíol vco a retiM»r*fe » cu£tando*Jhe o in- 
tento duzentos homens morto» , c feridos , em que eatra- 
vaõ Officiaes de importância. 

Teve o Conde do Vimiofo avizo do bom fuccef- 
ío de Olivença , e para que o naô cclebraííe com o gofto, 
que pedia a primeira vidoria » lhe chegou ordem d'El- tvw e Co»ãè 
Rey para que deixando o Exercito entregue a Mathias de ^'^'^Jlll^l^ 
Albuquerque, paílaíle â Corte , por importar aííim a íeu ^co^rultcover* 
lervJço. Entendeo-fe que Mathias de Albuquerque fora na t^latiúas de 
hum dos que fulminara a ruina do Conde , condemnando Albuqueniuc. 
o feu defcuido , dizendo , que eraõ necefíarios melhores 
fundamentos para huma guerra , na qual a bizonharia dos 
Soldados fe havia de lupprir com a prudência , edeítreza 
do General : difcurfo que, fe foy certo, deprefla experi- 
mentou Mâthiaç de Albuquerque maior revez , que efte 
golpe ; porque partido o Conde do Vimiolo, paliados 
poucos dias do feu governo , íem haver nelles acçaô mi- 
litar digna de memoria, o prenderão pelas caufas que 
adiante referiremos, e nomeou ElRey por Governador 
das Armas a Martim AíFonfo de Mello. Aífiília em Caf- stuudSk»^ 
cães , governo que lhe entregarão logo que ElRey fe ac- TJlTuut^'^ 
clamou : haviaõ lhe ofíerecido o Brafil que naõ quiz ' ' 

aceitar , habilitou*o para eíta occupaçaõ a alliílencia de 
alguns annos da índia. Era dotado de valor , e limpeza de 
mãos, onde a chiromancia do Povo coítuma defcobrir, 
e ajuizar os afFedos do animo , difcurfo acreditado em 
Martim Aííonfo, que mereceo por eíla virtude grande 
applauío , e grsndes lugares : pretendeo patente de Ca- 
pitão General do Reino , como a que havia tido o Con- 
de do Vimio/o :refpondeo*íe-lhe que, paííando ElRry o 
Conde a outro en^ prego , fe attenderia ?o feu requeri- 
irento : e naõ tendo o Ccnde ào Vimiofo em fu^ vida 

P 4 cu- 



231 FOKTUG AL 'RESTAURADO, 

outra occupaçaõ, fe naõ deo patente de Capita5 General 
Ànno 3 outro Vaílallo ; refervando-íe a authoridade , epreemi- 
- • nencia deíle grande titulo para o Príncipe D. Theodolio, 

104I«. Com efta promefla j e patente de Governador das Armai 
paífou a Alemtejo Martim Afíbnío de Mello, e encontrou 
em Arrayolos hum correio que D. Joaô da Cofta havia 
deípachado 3 ElRey , dando*lhe conta de hum feíice fuc- 
ceílo coníeguido nos breves dias que governou aquella 
Provinda , depois de partido delia Mathias de Albuquer- 
que. 

Foy o cafo , que andando D. Joaô em Elvas dan- 
do ordem a adiantar as Fortiíicaçoens , útil exercício a que 
foy lempre fummamente applicado , lhe chegou avízo 
de Santa Olaia , Aldeã duas léguas de Elvas no cami- 
nho de Arronches , que os Cafteihanos haviaõ feito huma 
groíla preza , e que marchavaô com ella na volta de Gua- 
diana , caminhando pouco diílantes de Elvas, a qual dei« 
xavaõ á maó direita. Eraõ eítas Tropas 40oCaval!os, que 
o Conde de Monte*Rey havia mandado a elta facção , de- 
pois de íe retirar de Olivença : executárao^a feni con- 
trovetfia , e naô perdoando â extorçaó alguma paííáraô 
os Caíí:elh;mos de cruéis a facrilegos , profanando os AI-, 
E-^eeijis dos tâfes , e deíplndo as imagens das Ermidas do Campo. D. 
Cajííihaijos. Joaõ da Coíia tanto que recebeo oavizo , fez fahir da Pra- 
ça féis Companhias de Infantaria com 500 Soldados, de 
que era Cabo o Sargento mór António Gallo, e noventa 
Gavallos divididos em duâs Companhias que governava 
?az fahir Dom Gâfpar de Siqu-iira. Era a ordem que ievavao , que mar- 
jcao da Cofia chaílcm atQ o íim dos Olivaes para a parte das Meimoas , 
í,!?^"^'*^ ^*^''' valendo- íe das tapadas, e Titios accõmodados para a In» 
fantaria cíTender a Cavallar ia fem poder íer contraftada ; 
eque obfervando adifpoiíçaó dos GâOelhanos, uzaíTem 
dos meios que lhes ofíereceíle a fortuna : que as duas Tro-; 
pas fe nsô defuniíTem da infantaria guarnecidas de diiajt 
mangas de Moíqueteiros. As ordens bem diílribuidas faõ 
a fegurança das em prezas: afilm influio eíta nos ânimos do» 
Soldados firme confiança do bom fucceíTo. Chegarão ao 
nioníe do Perdigão, deraó vifta dos Gaílelhanosi e refolve- 
raô*íe a pelejar. Fotnuraõle íem alterar a ordem que le *. 

yavaó, 



uas 



TJRIElt LIVRO IV. 9 5} 

vavaõ. » e marcharão psra o inimigo , que caminhava com ^ 
intento de paílar a preza no rio Caia t que naquella Cam- AílílD , 
panha entra em Guadiana con^ crecidj corrente. Os Ca- t6±i^ 
Ittlhanos advertidos do CommiíTario geral, que mandava *t * -i 

as 1 ropas , de que nâô era para defprezar a refoluçaò dos 
Portuguezes , largando a roupa que trâziaõ nas garupas 
aguardarão formados a reloluçaõ dos que os bufcavso, 
'lanto que a noíla gente chegou, diíparáraõ os Caflelhnnos Atacaooscd''^ 
as carabinas , e acertou huma bala no CapitaÕ Gafpar de ^(^^'^""s, 
Siqueira , de que cahio morto , merecendo as fuas partes fg^llq^f^ja^' 
por muitos titulos mais dilatada vida. Foy de maior eíFei- ^ "* 
to a carga que os Caftelhanos receberão da nolTa Infanta» 
lia; porque matando'lhe, e ferindo alguns da vanguar- 
da dns Tropas, le diminuio o ardor de todoi. Reconhe- 
cendo 03 embaraços a noíla pouca Cavallaria, os atacou 
na delordeai , e lhes accreceníou a confufaô \ e uzando 
as duas Tropas de toda a de<.lf£za, depois de darem a C3r- 
gâ voltarão a formar*fe na retaguarda da Infantaria , e tor^ 
ráraõ com grande preUe?.a a occupar os feos poílos. Aju- 
dados das cargas que a Infantaria multiplicava , inveílira6 . ^ 
fegunda vez aos Gafcelhanos com ta5 bom fucceffo , que cai7il- o7 
os obrigarão a voltar as coftas, deixando alguns mortos , deibarUtaLs, 
vinte prifioneiroj , e levando outros feridos. Sinalou-fe 
nefta occafiaõ André de Albuquerque , António de Salda- 
nha , Joaõ de Seixas , Capitaens de infantaria , e D. Diogo 
de Menezes , que foy por Soldado da Tropa de Gafpar de 
Siqueira , e manifeil:ou na primeira occiíiaó galha-damsn- 
te o feu Vdlor. D. Joaòda Cofta íahio da Praça a dar calor sa^sD.y^a^da 
â empreza, e achando'a confeguida ngradeceo ao Sargen- coj?.i, agradeci 
to raór António Gallo, e aos mais Ofíiciaes o valor, e dif* aoscabcsobe^ 
pofiçaô com que haviaô pelejado, animando'OS com os lou- ^«'^í*^''í 
vores a maiorej emprezas. Os Caftelhanos largarão a pre-^ 
za que levavaõ , falvando fó delia algum gado , que mar- 
chou com húa partida alguas horas primeiro que asTropas. 
Em quanto fuccedeo o que fica referido, naó íe 
atacavaõ nas outras Praças fronteiras de CaftelJa com me- 
nos calor as primeiras efcaramuças. Affifiia em Beja for- Papa Moura 
mando o feu Terço D. Francifco de Soufa : chegcuihe d. Framijco ck 
avizo que em JV^oura.para cride o Terço eftava dellin^do, ^''"■/'^t 

einrg. 



254 PORTUGAL RESTAURADO ; 

entregando* lhe ElRey juntamente o Governo da Praça ; 
Al^O havia nos àninioj dos moradores algum movimento , com 
i6ái indiciosde pouca conílancia na defeafa da Praça : paíTou* 
^^T.* fe logo a ella, querendo atalhar qu2 fe naõ Jevantaíle 
grande incêndio o que até aquelle tempo era pequena 
faifca. Chegando a Moura averiguou que os moradores 
de Barrancos haviaó fido os mais culpados naquella alte- 
ração. Deo D. Francifco logo conta a ElRey deite íuccef- 
ío, e havendo"Jhe chegado outras noticias de raaiorei 
infultos deites Paizanos, a que chamavaó Genizaros os 
de Aleratejo , poi haverem partido até o idioma Portu- 
guez com a lingua Caítelhana \ ordenou ElRey a D. Fran- 
cifco de Soufa , que para caíligo deite , e terror dos mais 
Lagares , arrazaíle logo Barrancos, Era elte Lugar dos 
Condes de Linhares , ficava na Raya de Caílella defronte 
de Enzina Sola; e além óãs razoens referidas eítava taõ 
empenhado dentro de Caílella , e era taõ difficil , e pou«; 
CO útil confervallo , que fem a culpa dos moradores fora 
'-jírraz.rfeSar- juíto deílruillo. Marcliou Dom Francifco a executar a or- 
raacos pela tfi' dem d*ElRey , obíervando o fegredo por naô fazer rebel- 
fdicLUde diys ^^j q^ q^g eraõ fó raáos VaííaÍlos5 exemplo que pudera 
jeosmortdorts ^^^ naquelle tempo de grande prejaizo chegou a Bar- 
rancos , mandou fahir do Lugar todos os moradores , e de- 
pois de tirarem o fato \\t puzcraô os Soldados o fogo, 
Recolheo-fe D. Francifco a Moura fem embaraço dos Ca- 
ílelhanos , e voltou a Beja a acabar de format o feu Ter- 
<^o. No dia feguints ao que partio de Moura entrarão os 
Caílelhanos com 300 Cavallos até o Lugar da Amareleja, 
levarão grande preza; fahio a bufcallos o Sargento mór 
Franciíco de Abreu de Lima , que Luiz da Silva Alcaide 
mor de Moura havia mandado de foccorro a Amareleja 
com 200 Infantes , e retirandoȒe os Gaftelhanos fem re^ 
quererem pelejar, entrou o receio nos noDos Soldados, 
efcAramuçanoQtMgvcaâ antes de terem occafiao que os^ ohrigaííe. Os 
r«i4r iiwíire-Caftelhanos vendo a defordem fe valerão delia, ataca- 
^*^'*- rao com fúria , e naô acharão mais reliíleacia , quj? a de 

80 Infantes, que íe recolherão a huma tapada , d^ cu- 
jas cardas recebendo algam damno íe retirarão , por (e 
. naO refolyerím a inveftillos. O Sarg-jnto mór a quem 

fe 



PJRTE 1. 7. IV RO IV. 33 y 

fe attribuio a deíordem dos Soldados , fcy pre70, e depois 
deílerrsdo com nota de infâmia em íeu ÊÍlento, fendo Antlò , 
digno de grande louvor o zelo com que difpunhaõ a nof- ,gj^T "^ 
fa defenía os primeiros authores da nofia liberdade. Ap- ^^ 3 
plaudiaó-fe em Elvas os que valerofamente procediaõ, 
caftigavaõ*fe em Moura os que vilm.ente voltavaÕ as co- 
itas ao perigo i guardando a vida para o diícredito ; porr 
que íó de fe fazet diftincçaõ de homens â homens , e de 
procediínentos a procedimentos fe colhe o frudto íazona* 
do, que alimenta, e dihta as Monarquias. Os Gsílelha* j/,/^^^,^^-^ 
nos voltarão fegunda vez a Amareleja, que entrarão, e dotCa^tLhan«i 
faquearaó fem refiftencia. Chegando a Beja eíle avizo a 
D. Francifco de Souza , recebeo outro para prevenir a 
gente que havia levantado , ordenando-te lhe que raar- 
chalíe com ella em foccorro de Olivença , por fe ter avi» 
zo de algumas intelUgencias , que fe confervavao em Ca-. 
íleila , que os Caftelhanos voltavaõ fobre aquella Praça s 
porém como neílas noticias naõ ha certeza, mudarão de 
opinião , e publicou*íe , que o inimigo queria interprea* 
der Moura; acodio fem dilação D. Francifco á fua Praça, 
achou nella os moradores muito defalentados ; animou'os 
á defenfa , e dentro de poucos dias fe defvaneceo eíla 
prefumpçaõ. 

Continuavao os Caftelhanos as entradas, e p«- 
receo neceílario divertir-fe com a ving^tiça a oppreflaS 
dos Povos. Diftava Valença de Bomboy huma legoa de 
Amareleja , e era a Villa como mais vizinha dos noflos 
Lugares , de que eUes recebisõ maior damno i tinha féis 
Companhias de guarnição, e alojavaõ-fe nella cinco Com- 
panhias de Cavailos. Informado deite preíldio* ed-í pen- 
ca defenfa das trincheiras da Villa fe refolveo Frsnciíco 
de Mendoça Alcaide mór de Mourão , cinco legoas dif- 
tânte de Moura para a parte de Olivença , a tratar com 
D. Francilco de Souza a interpreza delta Villa : reconhe- 
ceo D. Francifco a difficuldade deite intento confideran- 
do que, unida a gente de Moura com a de Mcursõ , eraô 
pouco mais de m\ os mal difciplirsdos Iuffintes , e fó 
quarenta os pouco deílros Cavailos j porém len brado de 
que 05 PoitL£ueze5 fempre com 5:ci:copcderccnfegiiirs6 



íjó PORTUGAL RESTAURADO, 

grandei acçoens , fe reíolveo a feguir a opinião de Frati- 
Anno ^^^^^ ^^ Mwndoçi. Concertou com elie juntarem-fe na 
j ^ Aaiareleja , qus ttcava a ambos em igual diílancia , e que 

í.?4*» lançaííem voz de qu3 fe uniaõ para comboiar o trigo, 
que aquelles moradores coihiaô das íuas fearas. Uniraô- 
íe os dous na Amareleja com o poder referido , e marcha- 
rão para Valença quando cerrou a noite; chegarão a avi- 
Itália depois de romper o dia íeguints : fendo reconheci» 
dos dos Caílelhaaos, formarão as Tropas fora da ViHa , e 
entre ellas algumas mangas de Moíqueíeiros, e guarne- 
cerão as tíinwiíeifas com a infantaria que lhe íobrava, e 
'jíiíque de va' com a gintí da terra. Fez efti boa difpofiçaõ mais aiio- 
lencadiBshy. fo O nolÍQ âtaque , porque deiprezando a lafaniaria o pe« 
figo , foy em muito boa forma com repetidas cargas ga* 
nhando os poítos. Largaraó-ihos lem graade reíiílencla 
as Tropas, e dando os doas Cabos valeroto e'xemplo,avaa- 
Beg^nhiAipe- Ç^raõ por todas as pattes a VUla; fugirão as Tropas , e 
los portiíj,ms.es deíamparou a Infantaria a trincheira ; entrarao-a os nof* 
fos Soldados , e p^decío a Villa miferavel eílrago : forao 
muitos osdefpojos, refguardando-fe religioíamente os 
lugares Sagrados. Salvaradíe ai Tropas dos Caííelhanos 
em Oliva, que ficava poaco diílante , os Infantes pade- 
cerão o maior damno. Retirou'fe D. Frâncifco de Soufa , 
e Francifco de Mendoça , trazendo os Soldado? conten- 
tes com o défpojo , e deixmdo os Povos fatisfeitos com 
a vingança , como fe o prejuízo alheio fora remédio da 
rniíeria própria. 

Aj fronteiras de Câílello de Vide , e Marva5 ex- 
perimsntaraâ nelte priacipio aíguaias hoítilidades da 
Guarniçíô de Valença. Governava Caftello de Vide D. 
Nuno Mâfcarenhas rvleítre de Campo de hum Terço , 
D= mno Maf- que guirneda aqaella, e as mais Pi'aças vizinhas. Tomou 
carenía:3Jver' íatísfaçao da oftenía dos Caííelhanos juntando 400 In- 
tiahrdecnihi' f^^.^^^ com OS quaes dcítruio toda a Campanha de Va- 
^^ÍI:t^;S lença chegando até as portas da Villa, fendo fácil correr 
F./L?.r^^aquelle diílrido fem Cavallaria pela grande afpereza , e 
ca>^ura. pailos difficultofos de todo elle: recolheo-fe Dom Nuno 

ch^a aEjíre- j-^,^ embiraço dos Caííelhanos. Neile tempo chegou a 
""'^ /r;r Eítíímoz Mirtim AíFoaío de Mello, etomando promp- 

la. 



PAME 1. LIVRO IV. 537 

tatrtente inforrraçaõ do tftcdo da Prc vircia , fccdiosto- 
cj£5 as Yiíqzs , le i aó et n) tudo o qi e era rectí1r;ro a ca- ^\WÔ 
cia hum a , propcrcionaiiccas a 1( dcs tcrfoin e a in por- ,/;.j 
tancia dellcs, e au que os pcucc cíbttífceédâqiielle tem- "^ * 

po diípeníavaõ. Obrigou aos iroradores de Éítiecrtoz a 
íbrtiíicar a ViiU na íorma , que as niais da Picvincia o ba« 
viaõ executado: levantarão humá grolla trh cheira òq ^^/^'Mís t^ i 
terra , e faxina com banqueta , e parapeito , defenfa baí- ^'^*' 
tante para deter o impulío da Cavallaria doinirriigo: 
muitos annoi le luítentou delta íórte, depois enfinou a 
experiência , que Eílremoz erâ o coração de Aleretejo , 
c coníequentemente de iodo o Reino , e íe fabricou neíta 
Villa a grande Fortilicaçaô , que hoje a rodea , merecea- 
do com eiJa o nome de huma das melhores Praças de toda 
li,uropa. Cieceo a trinci.eira , que iM^rtim Aifoaio de 
Mello mandava levantar, com hum rebate falfo , que fe 
ÒQò de noite , de que íe originou taõ grande ccnfufaõ i 
por íe naõ haverem íinalado aos moradores os poílos , a 
que haviiõ de acudir, que, a í^f^erdadeiro , pouco nume» 
10 de Caílelh&GOJ bailara para entrar 3 Villa fem oppoíl- 
çaõ. Aca;iíellâdos com a experiência fe diípozeraõ 01 mo» 
radures com melhor forma » e por locss as partes de Alem- 
tejo era ceccílaria grande vigilância : porque os Ctítelha» 
nos fiâô preveniíido que os corâçcens valeroíos íe en- 
durecem de todo tratado? com crueldade , julgarão pela 
jíaií acertada politica naõ perdoar a extorçaõ slguma. 
4|Ploíl;rG«^e»3dflF4rii'S experiência , noísngue, que tan- 
tra vezes , e ein tanta copia deframáraõ , que fora me- 
3É|tíg^aja-A#cn ferva í nas prr prias veias , uzar da fííirria, 
queTmtafaqoJaism/.CQin slguas Tropas, e poucos infan- 
tes entrarão frniilmfTite as Aldeias Tslega , e Olor àif^zn^^^^'^'"^^ '^ _ 
tes menos de hiía kgoa ce Olivença. 1 iveraõ 0$ morsdo; P^"''''"".^'^' 
res avizo a tempo que pudéraô retirar fea Oliverça .,per- ^^^' ^ ^"^' 
déraõ a pouca roupa com que pcb emente le repara Víf6','s 
■?i(floria de que os Caftelharos rss gazetas fizeraõridir*" 
cuia oítenta<;âõ. Retiraraõ-íe deixando queimadas as Al- 
deias , e nas Igrejas delias f.-crilegos tefeim unhes da fua 
irreverência. Os moradores das Aldeias íe difpuzetsô a 
íatisf^zer o agguvo , ç a recuperar a pçr da : hum , e ou- 

m 



íjg PORTVGAL RESTAURADO , 

tro effeito confegairaõ em multas entradas > que ázeraõ 
Anno ^^ varias partes ds CaíleDa. 

^^ Nerte tempo eílimulado o Duque de Feria, e o 

ff.^4*« Marques d;: Vilia-Nova, que aíliftiaõ noifeos Jugares, 
da perda de Valença , quizeraô reftaurar , fe naô a Praça » 
a reputação ; juriíou-íeihes o Marquez de Caítro Forte ; 
'ojy,u!>Hé de Fe. q chegando'lhes alguma gente de Badajoz , formaraá 
*''f./ yr^^f"hum Corpo de 1600 Cavalios , e dous mil infantes , 3 
i'or;s intcntao âtnanneceraõ a fete de Agoito íobre Mourão. ForaofefJti- 
MoHras, dos pouwO efpaco antes de atacarem , e por eí^e refpeito 
naõ tiveraõ os deicuidados iiioradores maia tempo, que o 
de íe recoíhereai do arrabalie à fraca ^trincheira da Vi-la : 
guarnecerão*» , e acodindo vaieroíamente Franciíco de 
Mt^ndoça , acharão os Gaililhanoi galharda oppoíiçao 
onde conílderavaõ débil refUte icia ; porque psOjauO o 
arrabalde , que ganharão , e inveftinio a nincheíra , fo- 
raõ taÕ repetidas , e com tao fí^lice emprego as cargas , 
t.stlra9'fe: qu3 delia fe deraõ, que 03 Gaítelhanos f« retirarão íesn 
poder confeguir a empreaírTdetsríTíinaçaÕ , que os da Pra- 
ça celebrarão difparando quatro vezes corn grande eítci- 
to huma íó peça áz artilharia , que tiohaõ fetn mais ha* 
Jas. Saquearão o arrabslde , e retirara5'fe com grande 
perda. Antes de chegarem aGerumenha , por onde íize- 
raõ a marcha , encontrarão Francifco Rebello de Almada 
CommiíTario Geral da Cavallaria , que por ordem de Mar- 
tim Affoaib de Mello vinha de Eílrempz a foccorrak 
Mourão com looGavalloJ, e 40a íhfqobefts/iÍB«to qu^PP 
defcobrioas Tropas inimigas , ganhou com tcrnpoosOilr-. 
- vaes de Gíruiienha, ficaado«ihe a Frsça.a»^^q jU É a aipi ' 
encobrindo-llie a Infantaria o qiie~>l>:!})a»iáwpiÉ^ cfu Te^' 
Tiíta mais que a vanguarda , que proton'gou t fez appd* 
rencia de tanto poder , que os Caílelhanos naõ quizeraS 
tentar a fortuna , e unindo- fe D.Rodrigo de Caltro cOvii a 
fua Companhia a Francifco Rebello à viíla do inimigo ; 
lhe tirou de todo à refoluçió de pelejar í dufou a efcara- 
m\ic\ muitas horas, á tarde recolherão osCaftelhanos os 
batedores, e fe retirarão para Badajoz. O GommiíTario 
Geral metco as muniçoens , que levava, em Mourão» e 
voltou*íe para Elvàs , oade ja eíl^va o Governador da» 

Ar* 



! 



TyiRTE I. TJVRO IV : 159 

AríT-as ; 03 de Mourão recon>penlâraó dej reíTa"o danino , ^ 

q\^e receberão no ariabaide,;!Com groilas prezas^ - que íi-. Alina'- 

'zeraó em Cailella. tí^/ít'' " 

Maríim AiTonío de MciFo dclxsndo Eílrcmoz ^^^** ^ 
com as prevenc^ocns referidas , paííou a Elvas , onde foy Er.tra (mEhas 
recebido doa moradores com grar.de aiegna , per íer ni- marfim u^jfon. 
tural, e Alcaide mor de Elvas. Logo que cnxrcu T.ei\a /(^ de MelU. 
Pfdça Q. informou D. Jo&õ da Ceita do eílaco da hovin- 1 

cia , n^ qua], diíle, que-lc achavaõ tre« mil Infames pagos , Hcma-o-Dom 
e 400 CavallGS •, que as Praças com a terra, e faxina, que ^,"** J^^f "^^ 
fe hi7ia levantado neilaj , eftavaó dcfendidai dos af-p^^^.^-^^,-^^ - 
faltos f e n^õ dos fitio? \ que ^ anilharia era muito pou^ 
ca , e ac munlçoen* menos j e que o dsmro , que os lavra- 
dores haviaõ recebido era rruitcvftriií^-de , porque os Sol- 
dscícs Infantes difficultoíamentd 'deferdiaó mais que as 
Viâí^as; e que a CavaPana era tí6 pí^/uca, que naÔ baâa-) 
va pira afcgurança dos gados ; que s infantaria pagaeíla- 
va dividida oelas Praças principies \ que a« (f!jtra$ íe guar- 
neciaô com os feos mefmos moradores ; procediírento 
de que íe devia efperar muito , e fiar pouco: porque ain- 
da que af v^leroías acçoenf , que haviaõ extcutado, íer 
guravaó as eíperan^s de níõ prevaricar a íua fidelidade,' 
a experiência em tcdaj as pr-ites do mundo moítrava , 
que- nos gr&ndes corílidos fe apagava*íaci'mente o ardor 



dos ^3Ízano« íem a uni|á^da Infantaria paga} e que o 



dosPa 

jÊÊÉt^'*-7''áo era muitoíifcriarái fo|^ss , que os Csíle- 

4|n. avaõ \ e que ^íTim. era pYeciío corfiderar nfiUi* 

TO TÍo^tneioi de ergrí uar as Trepas . e de baílecçH^-ê 

» "culpar a% Praçai. Que o Conde de Monte ReT^ef* 
•^al do Exercito dí Csí*e']a , e de Merida havia oaf- 
fado a Bad^s . ortde fíTília *, que er;i feu Míflr? de 
Campo Ge!^B D.Joaõ dt Garay ♦ Soldado de gtprde ex- 
periA-Ja »* e reputação i que a Cavallaiia povtínâva D. 
André Pacheco , e que para General da Ariiihari?? efisvá 
nomeado D.Luiz de Aiancaftre , tio do Diique de Aveiro ; 
que os msis pcílos, e govevnos ífes J^srcas occupsviíá 
grandes Senhores , e Soldados de eflimUrÕ , e que os con- 
fidentes ^ que havia em Csftella , íegurÊvaõ que eraõ dous 
Ç;ii oí Cavâllos dei Tropas fsgas, e quafi outros tantos 01 



540 PORTUGAL RESTAURADO; 

ds outras Tropas, que chattiavaÕ Miliciana» , que tinha 
AftnOí fere mil Infantes pagos , e oito mil quintados, quecrâó 
lÓAl como as noíías Ordenanças i trinta peças de artilharia 
- "^ • montadas, íeis gr^as , as mais de Campanha» quatro 
morteiros, petardos, e todos os infirumentos de expug» 
naçiõi que eílavaõ as carruagens promptas , eajultado 
. aílento para vinte , e cinco mil reçoens / que efte Exer- 
cito era tao nainerofo , que le devia applicar igusl cui- 
dado a todas as Praças: porém quda de Olivença pedia 
maior attençaõ aíFim por haver fido infrucluofo em- 
penho do Conde de Monte'Rey , que feguindo a ordein 
àos aífe£to8 humanos , havia de preterir para a conqaíf- 
ta a Praça. 4e que receberá a maior oíFcínfa , como por fer 
a Guarnição de Olive^si continua oppreiko de muito* 
Sugares ds Caftella , e Irsio-das entradas em Portugal, 
A eftas ad-rertencias ajuntou Dom Joaô di Coita todas as 
mais que lhe parecerão utcis , e com eíta direcção deo 
Martim Affonío de Mello principio aoíeu goveaio. Ele- 
geo Elvas para afiiítir nella continuamente ( exemplo -que 
acertadamente feguiraõ muitos annos os Govjinidores das 
AríTiag que Ihs tuccedéraó. ) Os moradores de Eivásde- 
íejâvao colher algumas paveas de #figo , a que havi^ 
perdoado o incêndio dos Caílelhauos , e as uvas da.j vi- 
nhas das Caldeir^i5Vt|peoíos do perigo propuzeraõ a 
, Martim Afí^bafo d.fooEfíitento^^vorecidos dacórrú£era- 
çaô. Mandou ju.ííar Tídaa caBfágem poíIivaU 



da de mil líifaates , e 400 Cavalio^, fahiraô de E^^í4rT|f" 

tnts^hecer , breve.-nerfíe chsgou o avizo a Badaijía|ai&'n- 

d(?'í»cadio a Cavallarii , e lafantaria a Telena, e J|||| 

ftiaís que receio de huma , e outra parte , colhidol^l 

fruá:)i di Ca npanha, fe retiriraô as Tropas de amb^s. Os 

Caftelhvios mo eíliv-6 ociofos , davaô j^ntinua op. 

preflaô em todas as frontríiras; correrão (!!fmpo'Maioc 

CdrrèmTs caf-^^^ pouco frudo, pâíTáraS a Arronches, íizeraô gran- 

íw,rXc4^'- <3e preza ; a defefpsraç 16 dos moradores os obrigou a íe- 

lo']!iaior, / guillos, achá''30 em' íigu 13 pafloi cílreitos lugar de tentat 

éjfinihgs^ a fortuna •, inveftlrâô co n poucas eguis , e algumas efpin- 

gardas três Tropas qu2 lev.ivao a preza , cahio das orimei- 

MS baUs morto o Capltiô de Cavallos Cabo das Tropas , 

larga* 



TAR7E 1. LU^^O IV. 24? 

7argiríiõ os mais a preza » e ficá/ao com ella os âe Arron- 
ches futisfeito*, e vingado?. Em Caftello ds Vide raó /tníiõ 



164T. 



p- 



era menor a oppreíTaõ : alguns Cavaílos que ífiiftiaõ na 
Villa de Ferreira moleilavaò mais continuarr.ent« aquel- 
le diftridto. Relolveo-íe D. Nuno Mafcarenhas a procu- d. Nuno Mafi 
rar algum remédio , juntou 600 Infantes pagos , e da tartnhas /«• 
Ordenança , marchou para Fcireira , onda havia 400 fo. 2«^'* ísmiraA 
gos , chegou íem ler íentido , entrou faciimente : fa- 
queou a Vilh , e queimou-a. Recclhera6'fe os moradores 
"a hum Caílello que tinhaõ antigo, e forte, e D. Nuno 
fe retirou com os Soldados fatiifeitoi do delpojo. Neítas 
entradas de pouca confideraçaô fe paííava o tempo fem 
fe verem no Exercito de Gaítella os efíeitos que prornet- 
tia. Quiz adiantar os íeos progreíTos o Meílre de Campo p^j.^^^ de hft 
General D. Joaõ de Garay , e intentou ganlíár Elvas , per- frahaD.^jo^S 
fuadido de hum Frade, quede Elvas paííou para Bidajoz, ds Garay. 
e fegurou a D. Joaô , que neíla Praça havia duas parciali- 
dade?, huma que feguia â voz d'ElRe7 de Caite?Iâ, ou- 
tra d'ElPv:y de Portugal : que a Caíleihana lhe mandava 
pedir foccorro, e que no prim^^iro rebate qutí houveíle 
eítsriaó promptos para qu-í fahindo a elle 05 Cabos , e Sol- 
dados de GuarniçÔ, como coíliimai-sõj ficando fenho- 
res da Cidaie occupafiem as portas delld , que promet- 
tiaô confervar at ^ lerem íoccorHdos i c que f ria fa:il 
naõ podendo torn-r-lhj a ganh;^r as p.rríi^ a Guarnição , 
por fer pouca . bizonha, e mai armada. Ainda <{lq Dom 
Joaõ de Garay naõ deo inteiro credito a efta propofta, nao 
3he pareceo que le defprezaíTe : ordenou a hum Officisl 
pratico de hum dos Terços Vvâloem , que com quatro 
Soldados de confisnça fe ç/aíTaíTe a Eivas » e que depoii de 
introduzidos examinaflem o fundamento com que o Fra« 
cie facilitava a empreza , e o poder que tinha a parcíalida- 
<3?, que elle chamava d'ERty de Caftella; e que com a 
noticia CO que ach fiem voltrilíe a Badajoz , ou mandaííe 
hum dos Soldados. P.!rtio efte Ofiicial logo que recebeo a 
ordem , entrou em Elvas i e mandando exan ioar MyvtiiU 
Affonfoaílim a e)Ie como a feos corrpanheiros, achando 
que fe encontra vaõ nas confilfoens, os jemetteo a Lisboa: 
o mefmo lucceílo tiveraõ cinco vSoldsdos de CaTâllo , que ^ 

Q. zotri 



J4i PORTUGAL ^ESTAVRABO, 

com a mefma ordem paííaraõ a Olivença. Vendo D.Joa6 

AnnO ds Garay que naõ podia confeguir maia diftinda noticia , 

• que a primeira , que o frade referira , que perfuadidoda 

*^4^* pouco, que íe arrifcava , havendo de exceder muito o 

poder, que levafle , ao que havia de achar em El vas , acon« 

intenta Elvas fgihou £o Gondc de MoutcRcv , que tentaíTe efta empre- 

o Conde de MO' „ 11 #-»j • ^ r ' n. • 

^.^gy. za. Julgou o Conde conveniente leguir efte parecer : )un» 

tou três mil Infantes , e 1500 Gavallos. PaíTou Gaia , e 
fez alto nas vinhas de Terrinha » fitio , que forçofaoienta 
deícobriaõ a? fentinellaí da noíTa Ronda: chegarão ellas 
depois de fahido o Sol , carregou*as huma Tropa dos ini-; 
migos até dentro dos Olivass. Gom a noticia do rebate 
mandou Martim Aífonfo montar as Tropas, em que ja 
havia 500 Gavallos, pelas haver remontado Martim Af» 
Sahê Martim fonfo , e cílarem oefta occafiaõ quafi todas em Eivas , e 
^ffonfv.adian' faj^jf ^q^ Terços mil infantes. Conduzlo efta gente Dom 
7à'\:?{L c^^ i^^^ *^^ Cofta , e Msrtim Affonfo; que eftava íangrado 
as Trocas, ttQs vezcs , fc levantou da cama , e fahio ao outeiro da 
Santa Luzia , donde divifava toda a Campanha. Marchou 
D. JoaÕ da Cofta í e fahindo fora dos Olivaes fez alto de- 
traz de huma colina » onde as Tropas ficavaõ cobertas da 
Campanha : mandou occupar as fentinellas neceííarias » e 
defcobrir a Campanha por 15 Gavallos, a que dava calor 
D.Rodrigo deCaftro com a íua Tropa. Deo vifta a Efqua» 
dra a ires Tropas Caftelhanas, que eraõ as que haviao 
'kecoiitro da corrldo as fentinellas : procurou detelias, ao que fe deixa- 
Ternnya. j.^- períuadir facilmente » intentando que a Tropa de D. 
B^odrigo fe ercpenhaííe de forte que fe perdeíTe fem re- 
médio. Entendco Dom Joaõ da Coíla a determinação dos 
Caftelhanos , e mandou retirar D. Rodrigo de Caftro : 
obedeceo elle , recolhendo os batedores com boa oídem. 
Defenganados es Caftelhanos de que nao podiaõ empe- 
nhallo, o carregarão as três Companhias : havia D. Joaõ 
da Coita avançado com asnolTas Tropas ao alto da colina ^ 
guarneoendo^lhe os flancos com algumas mangas de Mof- 
queteiros : empenharaô*(e os Caílelhanos de forte , qu3 
íe acháraõ entre as noílas Tropas , que os receberão com 



TifoUo a.Trr^ huTia carga felicemente empregada. "Era huma das Com- 
x.as cem dV^^Í. panhids doi Gafteihanos dç Dragosns , oi quaes dcfmon- 



pai Pori 

z.ai cem . . ._v- ,._ 

:eiis. tandofie 



P^R7E 1. L1V%0 IV. 24J 

tando'íe como coílumava5 , para dar a carga com os roof» 
quetes que traziaõ, oj carregarão as noíías Tropss taõ va- Anno 
lerofa, e ligeiramente , que degollàraÔ loo Caílelhanos, t/^i 
antei que os da embeiçada o$ pudefiem foccoirer , o que ^^ * 
com toda a diligencia procurou o Conde de Monte'Rty, 
e D. Joaõ deGaray \ deícobrindo a Atalaya ( que fc ha- 
via levantado no montí: da Terrinha , e eilava guarneci* 
da \ aos Caftelhanos que eílavaô erabofcados , tocou a ar- 
ma , e reconhecendo a caufa D. Joaô da Coíla , retirou os 
Soldados com grande trabalho , porque le haviaõ empre- 
gado ein defpir os Caílelhanos mortos; mas reduzicdcos 
à primeira forma, occupou a entrada dos Olivses antei 
que o inimigo chegalTe a elles , e metendo a Infantaria 
em duas tapadas » que de huma , e outra parte franquea-, 
vaõ a eílrada , receberão as Tropas , que vinhaõ avança- 
das huma carga com íanto eíFeito, que cahiraó mortos 
muitos Soldados delias, Fizeraó alto , e atacou-íe entre R^tirao-fe 0} 
3S Tropas huma efcaramuça , que fuílentou com valor D. cajieiUuos cí 
Rodrigo de Caílro , e n?.Õ querendo empenhar a Infanta- (^^^'^' 
ria , de que pudera refuhar-lhe melhor fucceíTo , íe reti- 
rarão com 3 perda referida , e foy o caftigo do frade o de- 
fafFogo do damno , qus lhes occaíionou : teve em Badajoz 
largíi > e eílreita pvizriõ , depois o remettèrsõ a Madiid. 
Recolhícíe a noiTa gente a Elvas , e logrou Dom Jo^ô 
da Coita o merecido bpplaufo do bom fucceíío qu5 díC- 
puzsra , e coníeguira , ajudado do valor dos que o acom- 
panharão, Antes dsíle fucceflo havia logrado em Porta- 
legre Dom Luiz de Portugal outro muito felice. P.ílou 
âquella Cidade por ordem do Governador das Armas a 
exammar a culpa de alguns moradores, dos quaes havia 
rotida que davaõ avizos aos Caílelhanos , e que determi- 
navaõ introduzillos na Cidsde. Levou Dom Luiz corrfi- socega d. lsííz 
go quatro Companhias de Infantaria do feu Terço , e hu- dePortu-^ai Por^ 
ma de Cavallos : entrou em Portalegre com o pretexto ^'*%'^5>^'f^^'» 
de acodir ás Foriiíicaçoens , examinou fecretamente as ("^"M; """"^ ""^ 
cuip !s y e os delinquentes , e csíligando alguns que o me- 
reciaô íe íocegarsò todos. Dursrdo efía dih'gercia en- 
trou o ir.ifr.*go pela íe-ra de Marvíô. e quein.ou as Al« 
dtas de Pitaranha , e GjU gc; teve Dom Luiz êv;zo, 

CL 2 mat; 



2.ÍV PORTUGAL RCST JURADO, 

r^nrchou fem dil.<Çí6 com a gente que havia levado de 
AniiO Elvas , e a'guns moradores dí Cidade. Hiáõ'fe ratiran- 
16^1 ^ ■* °* G^ílelhaaos : íegui-os D. Luiz , e na íua retaguarda 
- ^ * queimou o lugar do Fico, e com huma grande preza fe 
veio reiiranda. Voltánó os Cailelhaaos, fez aito Dom 
Luiz , e mandaado por alguns Molqueteiros occupar os 
lados da eílrada , direita naquelle afperiffimo fitio , onde 
a Infantaria he Tuperior á Gavallaria , recebèraÕ os Gvif- 
telhanos Iiuma carga-, càrregou*os a Tropa qus era de 
Dom Fernando Telles governada p^lo feu Tenente Mar- 
tim Domingues Banha , tomouihes alguns Cavallos, e 
íicáraõ moitos 30 Infantes. Retiíou*fe Dom Luiz cora a 
preza , e por ordem do Governador das Armas voltou a 
Elvas, ficando por Capitão morde Portalegre Manoel 
Godinho de Caítello-Branco. 

Oi intentos do Conde de Monte-Rey , além de 
ferem pouco fel ices , erao condenados em Madíid pela 
má diípofiçaõ com que os fsbricava. Deíejoío de emen- 
dar a foi tuna , e reílaurar a opinião, experimentando 
juntamente deívanecidas as intelligencias de Lisboa , in- 
fruítuofo o empenho do Exercito junto , íe relolveo por 
todas eftas razoens aenipreg^Ho antss de o deíun'r. Af- 
feiçoou'fe â interpreza de Olivença , levado do defejo 
de vingar o primeiro intento mal íuccedido, e obrigado 
ú^s queixas repetidas de todos os moradores daquelíe dif- 
trido, os quaes períeguidcs da Guarnição de Oavença 
naõ logravaó fazenda livre , nem davaõ paílo íeguro , e 
períuàdido também das iníiancias de S~'b3Ílic3ó Corrêa, 
que com maior maldade queria emendar a primeira trai- 
ção. Reíoluto a intentar efta empreza juntou dous mil 
Cavallos , e fei; mil Infantes , e pafloa a Valverde. Na 
tarde de 16 de Setembro faliio deíla Villa , marchou fem 
fer fentido pela Ribeira , e chegou junto de Oiiv^nça 
^fíierprcKde^ ttcs hotas antes de amanhecer *. nefce tempo íentí^aõ o ru- 
mor da gente dous lavradores , correrão a dar avizo á Pra* 
çi , mas na5 chegarão maisdepreíTa que os Caftelhanos. 
Perguiíáraõ as fentinellas , Quem vive ? E quizerao elles 
difli.nuUffe com a cautela de Viva ElRey Dom ^oaõ\ pe- 
dida a woatrafeuhj , e naõ {eípoadííjdí? , foraõ reconhe- 

cidoi. 



Olivençà oCon 
de M9nts\lUy 



PARTE J. LJFRO IV. 24? 

tidos. Tocou^fe arma , e naõ dando logar a frticr pre* 
vençaõ , avançarão valeroíanients , e era o perigo taõ ^ VííO 
viz'nho , que , a naõ fertni rtbcítidos do valor de poLcos , 
Soldados , primeiro íe padecera o eílrsgo , do que íe pre- Í041 . 
veniíie o remédio. A Companhia que ellava de guarda ás 
mal cerradas portas, que era a do Mcílre de Campo D, 
JoaôdeSouía, governada pelo íeu Alferes Maitim Na- 
bo Façanha, foy a qu; deteve a exemplo dos primeiro» 
Soidâfíos o Ímpeto dos Caílelhanos ; os quaes naõ ló atra- 
carão a porta , mas 05 dous baluartes de hum , e outro la- 
do delia , fobindo pelos flancos que a defccríinívaõ ; 
achàraõ a piimeira refiftencia em alguns moradores que 
2codiraô ao rumor. As vozes dos Caitelhanos , ruido das 
balas, e clamores do Povo acodio Rodrigo de Miranda 
Governador da Praça , que íuccedeo a Francifco de Mel- 
lo, que occupou o pollo de Meítre de Campo, acoai- 
|?anhado de D. Manoel de Soufa , e outros Officiaes ; fíze- 
raõ atalhar aj bocas das ruas , e unido hum Corpo de In- 
fantaria da que fe vinha juntando, carregarão valerofa- 
irente os Caftelhanos. Durou o conflido duas horas que 
ciurou a noite ; a raanhãa lhes acabou de introduzir as lu- 
zes do esfo'ço, fepuitando aos Caftelhanos nas trevas do 
medo: perderão os poílos que haviaõ ganhado, e quan- 
do íe retirarão , fendo a diftancia pouca , os corpos gran- 
de aivo, e os tiradores deftro», foy o damno exceílivo : 
pafiarí>ó os mortos , e feridos de 400, entre elles Officiaes 
de importância , e pefloas de qualidade. Formsraõ-ie a 
tiro de artilharia » de que também receberão prejuízo. 
RecolheraõMe a Badajoz , mandando a Cavallaria em Reúra-fe cem 
três troços a Elvas, CampcMaior , e Villa-Viçofa: po- grande perda, 
rém voltaraõMe todos fem effeito algum , por acharem os 
gados recolhidos. Houve no fucceiTo referido acçoens 
íTiuito fmsladss: fcy dds mais celebres defender na porta 
Gregório Corrêa nsturai de Seixas termo de Ourem , fen- 
do de fetenta annos , grande efpaço com hum chuço aos 
Caftelhânoi a entrada delia, e repetindo rruitss vezes ; 
Jjõu-jne eu a Dcos^ e ao meu Rey Jjom Joaõ: ajfaflay . - , r 
Cãjldhanos, que nao haveis âe entrar \ fcy invencível , ;J'^v",^';'í.'2* 
rícsb:ndo grande nuniero de golpes. Na defenía dos ba- "" ' ' 



rca. 



I64I. 

'Reârigo de Mi 
rada , eos mais 



246 POK^IVGAL ^ESTAm^DO, 

luartes procederão com grande vslor os Capitães Frafí^ 
Anno ciíco Pinto Pereira , e António de Vaíccnceilcs : Rodri- 
go de Miranda executou vakroíamente o que fica referi- 
do , e diílfibuio todas as ordens com grande acerto até 
lançar os Caftelhano? fora da Praça : ficou oeJla hum Sol- 
'oifUiles^prTce- ^^^^o morto , 6 algUDS fcridos. A tarde que os Csilelha- 
àem com valor, nos íâhíraõ ds Badâjoz , chegou a Campo*Mayor hum 
Portuguez , com quem tinha intelligencia o Governador 
das Armas, e deo conta ao Sargento mór Luiz Alvares 
Baines da entrada » e intento do Conde de MontcRey : 
fez o Sargento mór avizo ao Governador das Armas , o 
qual fem dilação chamou aConfelho, e propoz a notiJ 
cia, que havia recebido: concordarão todos os votos; 
que íe foccorreíTe Olivença , e que íicafie em Elvas Mar- 
tim AíFonío de Mello para acodíif aos accidentes , que ío* 
brevieílem. Naõ quiz elle ajuílar-fe neíla parte ás cpi. 
niões do Confelho, e refolveo i que elle havia de fer quem 
levaíTe o foccorro. DeCpachou logo todos os Soldados da; 
ordens , que aííiíliaõ em Elvas , das Praças da Província . 
ordenando a todos os Governadores delias, que marchai"- 
fem a Gerumenha , para onde logo partia com a maior 
brevidade , e maior numero de gente , que lhes foííe pof- 
livel juntar. Deípedio )untan:eníe partidas fobre Badajoz» 
e Olivença , com ordem > que lhe foflem mandando avi- 
zo de tudo o queobfervaílem; e na mefma noite partio 
Pirte uartim ^q Elv,-?» para Gcrum.enha com aCavallaria , e infintaria 
jíprijo f«^'-tígqyeila Guarnição , duss pecss de artilharia, e alguma* 
,^.. muniçoen?. Pouco havis marchado , quando le lhe unio 

a Gusrniçaô de Campo-Mayor ; e sníes de chegar a Ge- 
rumenha reconheceo o affalto de Olivença , ouvindo os 
tiros, e vendo fuzilar os mofquetes. Chegou a Gerume- 
nha, e ao meio dia recebeo avizo de Rodrigo ce Miran- 
da do máo fucceíTo , que os Caílelhanos tivtíraõ na inter- 
prensa ; porém que ainda ficavaõ á viíla da Prnça : que le 
achava com taõ poucos defenfores, que necefiitava mui- 
to de íer foccorrida. Marfim AfFonfo achando*fe com 
i6oo I n fartes , e 600 C&vailos , fe refolveo a marchar 
psra Olivença (em aguardar a mais gente , que havia 
mandado conduzir, fó lhe: deixou ordem em Gerumenha 

para 



1É4I. 



ÍAKTE 1. LIVRO IV: kíA7 

para que íe incorporalfera na ponte da OHverça, íor.de 

iiiQS faria avizo do que haviaô de executar. Anits de p€r- Alino 

^lír deGerumenha íccebeo carta de Pvodíigo de Mirsrída 
«m que lhe dizia , que o inimigo íe havia íetirsdo : coq- 
tinuQU Martim Aifcnfo a marcha , que antes pudera íet 
iatempelliva , levando corofigo ió a Cavallaria , e algu- 
mas cargas de muniçoens , que íeguiavao 200 Moíque- 
tteiros. Chegando a Ulivenç^agraGeceo com grandes de. Entra em oii- 
tnonífraçoens aos Officiaes /Soldados , e moradores o va* J""?^ ,ammaos 
loi que íiaviao moítradoi e deixando em Olivença a Jn^ Zem7o\'rej!dh 
faiuaria que levava , huma Tropa , e S3 muniçoens , íe 
voltou psra Elvas , mandando deípcdir os fccconos > que 
Iiavia convocado. 

O Conde â-^ MonteRey tendo noticia das pri» 
soen* que £1Rey i.aquelle tempo mandou fazer em 
Lisboa ,* de que adiante íe dará noticia , desfez o Exer- 
cito , e aquavtelou as Tropas , ( reíoliiçaÓ por onde íe ju. 
itiíicou , que tora formado para eíte íim ) e como experi- 
mentava deívanecidos os intentos, e asemprezas mal iuc- 
cedidas , le reíolveo a deixar a guerra , e dentro de pou- pftirct*]ea iao- 
tos dias p2ftJo para Madrid, onde fe queixou de Sebaítiaó dnà scof.àéck 
Corrêa dizendo , que o tizera maMcgrar as em prezas com Monte- ney. 
opinioens fingidas, e confelhos diíllmulados : ordinária dif* 
culpa de Generaes infclices, e merecido caíligo da infíde« 
lidade de Sebaíliaó Corrêa , experiência que enconttsõ os 
que pretendera fundar íobre baíes abomináveis a eílatua 
da virtude. Ficou o Meíire de Campo General Dom JoaíS 
celGaray Governando o Exercito, e querendo dar íeiice 
principio ao feu Governo determinou interprender Cam- 
po Maior por intervenção de António Mexia, o raeímo 
de quem referimos , que Mathias de Albuquerque em 
tempo do Conde do Viír iofo íe naõ íiara ; eíte com Çimv. 
Ihaotes quimeras preiendeo enganar Martim A íTonío d^ 
/Vlello» de ccraçsô taó afpero para íe deixar perfuadir 
òã verdade, que Jhes f-aítavaõ todss asdilponçcens para 
dar credito à mentira ; e uzsndo com Ai.tcnio Mexia da 
pouca diílimul£çaõ que tinha por n;-tL'reza lhe diíTe, quo 
bem o conhecia por ticidor, mas que , fe fizeíle a E^P^ey 
a)[;ua) grande ferviço , íicâria livíe dcíla cpiniaõ, e qu^. 

Q4 aiLa- 



248 f^ORTUGAL RESTAURADO i 

acharia feguro premio da fua diligencia. Ufou Aníonit> 
Anuo Mexia deita reípoíla com differente fentido, e tendo lu- 
/ gar de paíTar occultamente a Badajoz , legurou a D.Joaõ 

'^ • de Garay entregafihe Campo-Mayor ; o qual o remetteo 
a D. joaõ de Scntiliííes , que para elte íii» havia manda- 
do para Albuquerque. A falta que António Mexia fez 
em Campo-Mayor deo cuidado ao bargento roór Luiz Al- 
vares i accrecentou'íe , vendo que 05 Caílelhanos vinhaÒ 
reconhecer a Praça com quatro Tropas •. fez avizo a Mar- 
tim Affbnío dehuma, e OLitraattençaôi mandou elle lo- 
go para Gampo'Mayor o Meftre de Campo Aires de Sal« 
danha com féis Companhias de íeu Terço . prevenção ; 
que diíluadio aos Caítelhanos da erapreza. Aires de Sal« 
danha tratou com grande calor dafortiricaçaõ daquella 
Praça 1 que ficou governando , e moleltava cem partida* 
continuas os lugares do inimigo vizinhos aella. Neíle 
tempo interprendersõ o« Caítelhanos com roao luccefío a 
Aldeã de Santo Alexo , quatro legoas de Moura. A no- 
ticia de que os moradores eraó ricos obrigou ao Comr 
iniíTario geral Dom Joaô de Terraílas a procurar licença 
para íaqueallos : concedeo°Íha Dom Joaô de Garay, fahio 
de Badajoz com 200 Cavallos , e incorporadoái os de 
Valverde , e outros Lugares com alguma ínfantaíia , for- 
mou hum Corpo de i 500 Soldad )s , e amanheceo ío- 
bre a Aldeã de Santo Alexo : era ella cercada de huma 
pequena trincheira, e defendida de 100 moradores, go* 
vernados pelo Capitão Martim Carrafco Pimenta t repar-i 
tio ella a gente pelos poílos perigofos , c refervou al- 
guns , que íobraraó , para acodir aonde o aperto foíle 
maior. Avançarão os Caítelhanos âs trincheiras , e che- 
gando muitas vezes a montailas , de todas foraõ valero- 
^clfív'^ /!/ famente rebatidos : retiraraõ'fe deíenganados , deixando 
san:o"^Mexo! ^^^"^^^ mortos , levando outros feridos. Teve efte avi2o 
Martim AíFonfo , mandou íoccorrer a Aldeã com mu- 
niçoens , e ao Capitão de Cavallos Dom Henrique Hea- 
riques com a fua Gcrmpanhia de quartel para Moura, de- 
fejando evitar o damno, que os Caítelhanos faziaô aos 
lavradores daquelle diítriÓo. Entrarão elles no termo de 
Monfarás com 200 Cavallos , fizeraõ huma grande preza» 

qu5! 



PARTE 1. LIVRO IV. ií'49 

querendo paíTar Guadiana lha tiráraõ os lavradores que fe 
haviaõ unido , e os cbrigáraõ a rcíiraríe , perdendo 30 AnnÒ 
Cavallos. Aires de Saldanha continuando no dtlejo de ^ 
occalionar aos moradores dos lugares de d ílella o melmo * ^4^ • 
damoo que padeciaõ os de Portugal , mandcu huma par- 
tida de 10 Cavallos a Villar d'hlRty, quatio léguas de 
Campo* Maior : rebanháraõ eílei 400 rtzes ; poiém ten- 
do andjdo a maior parte do can u ho , lhas tirou huma 
Tropa , que eftava em Villar d'HlRt y. Retirardõfe para 
Can!po*iVjaior , e dando noticia do que lhe havia fucce* 
dido , montou Joaõ de Saldanha di Gama com a íua Com- 
panhia , e duas , que haviaõ chegado de Eives comboi- 
ando trei peqas de artilharia , e fahio com grande brevi- 
dade a buícar os Caftelhanos. Cerrou*fe a noite , ef y 
fdõ teneb/uia , que as Tropas naõ fó erráraÕ o csm.inho , 
mas divididas em partes tomáraõ varias eítradas. Teve 
melhor fortuna o Tenente JoaÕ Soares da Companhia de 
joaó da Meilu , porque com 17 Cavallos deo vifta dos que 
leVoVio a preza : deíprezou o exceíTo na confiança do va- 
lor , avançou aos Caílelhanos , voltarão elles as coftas 
deixando 1 o » e largáraõ a preza .* rebaaháraõ*a os noíTos, 
e puzeraó-le em n^archs. Por iguaes meios fe diípunha y^^i^, rucceifos 
a íati&façao i porque os que fugíraó para Villar d'ElRey , em outras fan 
acháraõ duas Tropas de Badajoz, que havieõ chegado /«• 
com hum comboy ; unidos todos feguír^õ a noíla par- 
tida i porém qusndo a avJílàraõ , eítava js incorporada 
com joaõ de Saldanha , e os mais que fe h. vtaõ perdido í 
era enumero igual 1 mas nac foy igual a feíoluçaõ, por- 
que os Caílelhanos vendo maU gente da que fuppunhaÕ , 
naõ derãõ lugar a que os reconheceíTem , e com grande 
diligencia fe retirarão. Aires de Saldanha com aquellas 
Tropas, duas mais de Elvas» e 500 Infantes , armou âs 
Tropas de Villar d ElRey , e Talavers : tocou^fe arma an- 
tes de tempo , Teco;heo*fe fera outro eíFeito, que o da de- 
(ordem com que procederão os Soldados , prejudicial ini- 
migo das emptezas militares. EraÔ eíles leves encontros 
os eíFeitos da guerra de huma,' e outra parte : pcrém s li- 
ma do exercício hia pouco a pouco gaftando a bilonharia 
dos ncílos Soidadosje o tempo que cclltma eícurecer o luf- 

tre 



ip POKTUGAL RESTAURADO, 

tre d IS armas as fez refplandecentes nás mãos dos Porta- 

, Foy neíle anno a mâior acção que fe intentou em 

1041. Alemtejo a interpreza ds Valverde. Teve noticia Martim 
valve7dT ^^ ^^onío , que o inimigo engroílava o pteíidio d^ila Viiia: 
a ver e» xQdtQM novo íobreísUo 3 Oilvcnça , e elegeo geaerofo ca- 
minho de o atalhar , coníormando'fe coai a opinião ds D. 
Joaó da Coita , o qual llie propoz , que tinha por fadi- 
vel intsrprsndsr Valverde , e que íuccedendo íeiicemea- 
te como efperava f íe coníeguiria para as armas opi- 
niaô , e para os Soldados exercido , e utilidade , dous 
pólos que fuílentaõ a máquina da guerra , e que junta- 
mente ficaria Olivença livre dos aílaltcs , tendo o psrigo 
menos vizinho i e os Lugares abertos daquella parte 
fem tanta oppreííaoi pois era Valverde pela vizinhança da 
Raia a coníiança que mais obrigava^ aos Caílelharioa a 
enirar em Portugal. Gonformando-íe Martim Affonío 
com eíle acertado parecer , fem commuaicar a outra peC« 
loa a refoluçaõ que tomava (baíe em que la feguraõ to- 
dos os deíigaios*dâ guerra) eícreveo a Rodrigo de Mi« 
randa, que eípeculaiie o eirado da fortificação de Valver- 
de, e o numero de Soldados de que íe compuiilia t* íua 
Guarnição: fiou Rodrigo de Miranda eíta diiig*inciade 
Joa5 Mendes de Magalhaens , o qual vivendo em Val- 
verde quando ElRey fe acclamou, fugio da mulher Ca- 
àelhana, e trouxe a Olivença três filhos , para que fe 
criaílem Portuguezes ; ficou*lhe em Valverde fegura cor- 
refpondsncia , da qiul irabe queconftava a Guarnição de 
infantaria paga de 600 Soldados , ede quatro Tropa.^, em 




fogos: e que Dom Joíeph havia accomodado o utio^ corno 
elle o permittia, atalhando as eílradas , levantando^ me- 
ias luas , e huma trincheira com banqueta , e parapeitos , 
tudo de faxina, que havia cortado as raas , e comunica- 
do ascafas, e levantado na Igreja hum redudlo pequeno, 
mas bem fabricado. Deo Joaõ Mendes eílas ncjticia.^ a Ro. 
d.-igodjMiídada, edias-lhe, que fe acáío delias refui. 

talíj 



PJRTE 1. LIVRO IV. 2^ 

tcíTc aticar^fe ValvevJe , que elle fe (fTcrecia pira guiar 
a gente, que ttíle a tila tnprc^a , e que advertia , qt-e AnilO 
o 'artilharia eraexcuísda, porque para a conduzir leria ^ 
r.eceflario rodear tanta terra , que faUrflem horas para ^^4^' 
le lograr a interpreza ao air^arhecer. Kerr etteo Rodrigo 
de Alirandaeíta informação a Martim Afibnío de Mello, 
ccníerio-a elle com Dom Joaõ da Cofta, eajuíláraõ dc.r á 
execução el]:e intento ; uniraÔ-íe cora todo o fegredo ss 
Guarniçccr.sdas Praçss mais vizinhas , e fahiraõ de Eiva» 
a 27 de Outubro. Coníiava o nurrero da gente de 2 5*00 
intantes, e 500 Cavallos. O Meílre de Campo D. joao 
da Colía exercitava o Poílo de Meftre de Campo Gene- 
ral ; e as Tropas hiaõ governadas pelo CõmiíTario geral 
Francifco Rebello ds Almada. Chegarão a Olivenqa ás 
dez horas da noite, e dilatsndoMe m=ai,i tempo do qus 
era neceOario lhes aroanheceo meia légua de Valverde •, 
foraõ dei cobertos , e o tempo que gaíláraõ era chegar ti- 
veraó os Caueihancs de íe prevenir. Houve duvida íobre 
le continuar a em.preza , reconhecendcíc o rifco de eíca- 
lar huma Praça de dia , prevenida , e com boa Guarnição,' 
a qual bufcavaõ na ccnfisnça do defcuido , e filercio da 
noiie ; prevaleceo o temor de perder a reputação , ( que 
ha calos em que também he valerolo ) defpre^Zândo Ma?- 
tim AíFonfo de Mello o perigo deo ordem a que inveftif* 
lem as trincheiras; repsvtio D. joaodp Ccíla em tresl ra« 
.4josa ínfsntaria, fignalando aos Officises a parte por onde 
havisõ de atacar, e tendo-fe por mais falice aquelle a que 
tocava o maior rifco , todos avançársõ va^erofsmente a 
Villa. Havia5 os Caftelhsnos repartido os Poftos tripu. 
Jando Soldados » e Paizanos \ e as Tropas rccupársõ o íl- 
tio em que eílava huma Igreja fora da Villa collocada 
aos Martyres. Invefticas o CommiíTario geral com as 
que levava , e nc6 frzrrdo grsrde reílílercia voltárgô 
as coitas , e fe recolherão a Valverde. A rríla ínfsntaria Er.trao 'ria vih 
fem uzar das eícadas , que 'evava prcven'dâ? , mcr.tcu a$ ^» <^^ Pcrtu^ue^ 
trincheiras, fendo o coníeguír nos Poituguezes ccn^equen. ^''^' 
cia de emprender : defsmpjrc^raõ os C^íteJhsrcs os Pcílc, 
bulcando as cafss per n elhor dcfenla ^ e fffim o experi- 
iiitntárôõ os expugnaderes , pcique c!f.s fieílas , que psra 

eíte 



2p POR.TUGAL RESTAURADO, 

eáe fim eílavao abertas nas paredes dcllaf , os maltrata* 
AnnO Vâõ. Entrarão alguns , e ácuíla de muito íangue chegá- 
/ raõ á Praça : quizeraõ avançar o redudo da Igreja ♦ po- 

IÓ41. j.^j^ ^Qy. i;-mtii a reíoluçaõ , neceffitando para o expugnar 
de maiores prevençoeai » e juntamente por haver ficado 
pelas caías a maior parte da Infantaria , cuftando 2 ambi- 
ção a muitos Soldados juílamente a vida. Vendo o Com- 
nnlTario geral Fianciíco Rebello de Almada eíta deíor: 
dem , intentou cora pouco acordo remedealla , metendo 
as Tropas na Villa ; excedo que accreccntou a confufao ; 
e fez maior o eítrago , fendo elle o primeiro que o expe^ 
r-«,i, rimentou, cahindo morto de huma bala que lhe deo por 
faris vranúfco hum olho , diígraça geralmente íentida , por ler muito 
Rebello de ^/. yaleroío » e ter grande pratica do exercício da Cavallariat 
tríada. qyg adquirio em muitos annos de aííiltencia de Flandes s 

o íeu corpo fez reíi?ar o Capitão de Intantíiria André de 
Albuquerque por alguns Soldados, que pagáraõ com o 
fangue o dinheiro co n que os comprou para eíte eífeito ; 
e ainda aííim o naÓ c^níeguiraõ, le hamaCaítelhana tam- 
bém íalariada os nó ajudara, atando-lhe huma corda ao 
pefcoço, pela quallaílimofameníeo arraíláraõ, recolhen' 
do'o a huma das caías que haviaõ canhado. Vendo iMar- 
tim Aífonío de Mello o pouco efteito, e muito damno 
com que o redudo era atacado , mandou tocar a recolher , 
e Don Joaò da Coita , que valeroíamente havia aífi ilido 
em todos os lugares de maior perigo , formando dos Sol- 
dados , que pode juntar , hum elquadraõ fora da Vil- 
la , recolheo com efta attençaõ âquelle corpo todos os 
que fahiraõ da Villa , e confeguio evirar-lhes maior dam- 
nos. Incorporados os faons , e retirados os feridos, mar- 
chou Martim Afí^onfo de Mello para Olivença , cuítan- 
do-lhe aempreía 30 Soldados que ficiraó mortos, e mais 
de 60 que trouxe feridos. Os que perderão a vida , de 
maior etlimaçao , foraõ o Commiííario geral Francifco 
Rebíllo de Almada! , o Capitão de I-ifant^ria J036 de 
Siixas Soldado de conhecido valor , o Capitão Agoítinhp 
Piíto, Joaõ Soares de Carvalho Tenente de Joa6 de Sal- 
danha. Ferirão David Cale Inglez , que depois foy Msf- 
tr& de Campo, Gil Vaz Lobo, Ayres de Saldanha 

quan- 



Jletirao ie fem 
efeito. 



s^v^r^» 



TARTE 1. LIVRO IV. 255 

quando fobia a trincheira, cahindo-lhe huíra grande pe 
ora na cabeça, o obrigou o golpe a peider o fentido : po* Anno 
rém tornando deprefla en; leu acordo , contiauou valtro- y 
iiimeote a primeira reioluçaõ, niollrandolhe o coraçcõ -^^4*? 
pielago , que he tôl a btt^vidade da vida , que coDVtm 
Icgiar dcprelia o tempo , que acceletad?*mcnte ros leva á 
mo. te. tranciíco Pinto Pereira foy ^derrubado da trinchei- 
ra com huma bala. Ficou tanibem iTiCrto em Valverde 
Joa6 Mendes de Magalh.;en$, que hnvii agenceado a em- 
preza, e guiado as 'Iropas. Pagou E'Rey a feos filhoís o 
inciicimento de íeu pay , fazendo lhe largíis mercês. Conf- 
teu que 08 Csílclhanos, perderão mais de loó homens , e 
o defpojo do lugar foy muito confide/avel. Recolheo*fe a 
Elvas Martim Afibnfo de Mello com tJgun as bandeiras, 
que m-ndou pendurar na Capella maior da Sé de Elvas, 
contrapezando eite pequeno tiiunfo, o lentin.er.to de 
oaõ coníc-ji^uir entrar o rediiclo , pela grande defordem dos 
Soldados. Poucos dias dijpois òt íie fuccefío derrotou 
Aires di Saldanha a Tropa que aíTiítia em Viilard'ElRey, ?TÍÍ f'" 
cpallanaoa Eivas, correrão os CaíteJhanos Campo'Maior jropadeviíiar 
com as Tropas de Bad.^joz \ achandcíe íem poder para a d'hiRey, 
oppoíiçaõ , naô quiz o Sargento mór Luiz Alvares tbrir 
as poit:*s da Praça. Impacientes deíla cdvertencia os Sol- 
dados, e moradores is lançarão alguns pelas trincheiras 
fora» naquelle tempo pouco levantadas; o impulío os 
apartou delias, íeguindo ao i.jmigj o efpsço que baf- 
tou, para que voltando d golUíle 50 que juílam.ente pd- 
leceraô o caííigo da dcíoidcm , íendo a obediência a ai' 



tna dofoimidavel corpo da guerra. Eítas primeiras fail 
cas, que íenaõ produzirão iT-aior incêndio pucetaõ íi 



Deffollao os Ca» 
;(■. fítlhanos e*n 

pucaaõ íer ^^ÍI^^^JJ ' 
ceíprezadas , como foraõ cauía na Província de Altrriti jo ^"^ -^^'^^oi*. 
de hum fogo taõ vivo, como ao diarte noílrardõ es ftic- 
ceíTos da guerra, por ferem fundam.ento de tant?. n-rquina, 
íobcm a grande preço, meiecendo por eíleieípúto a at- 
tençaó dos Leiíoiei. 

Em quanto fuccedeo nr, Frcvircta de A]en.t;;jo 'Diipof.cr.o d* 
no anno de i 641 o que fica referido, rsó dcfcenfáraõ as ^•":/-"'-í 
armas das outras Picvinciaí. Dos íuccí^íius decsda huma 
delias hiícy dsndc noticia ; e eíta mcíma crdem d>ítermi. 

no 



I64I. 



iy4 PORTUGAL tESi:AURAT>0, 

no feguir em todos os annos que fe contlnuaõ , por eví- 
,nnO tar confufaõ. Referirey no principio do anno que efcre- 
ver todoí os fucceffos que acontecerão na Provinda de 
Alemtejo , continuarey com os do Minho , feguirfe hao 
os de Traz os Montes , e logo os da Beira 1 accõmodan- 
do as matérias politicas no lugar onde derem melhor luz 
á Hiíloria , rematando cada hum dos annos com a noticia 
da guerra das Conquiftas. Seguindo pois efta difpoftçaô * 
paíTemos a referir os fucceffos da Província de Entre 
d En- ^^"'''3 ^ Minho. Logo que ElRey fe acclamou elegeo 
^m Douro l mI por Governador das Armas deita Província a Dom Gattaõ 
nho, deqHshe Goutinho , nomeando*o do feu Conlelho de Guerra. Na 
Governaior (jg Atííca fe havia exercitado os primeiros annos ; depois 
das Armas^D,^ viudo pata Lísboa fe embarcou em algumas Armadas , 
^hlr ^^^ '* ^ tinha conieguido em todas as occafioens que fe olfere- 
cerao opinião de muito valerofo. Nos primeiros diâs de 
Janeiro partio de Lisboa , chegou ao Porto , paílou logo 
a Bragi , onde fe deteve alguns dias, e deita Cidade par- 
tio para Viana, Villa a mais Occidental da fronteira da 
Galiza ♦ e hum dos mais deleitofos lugares de todo o 
Reino , banhandoM o mar Oceano , e o rio Lima. Os 
feos moradores ja naõ ignoravaõ os exercícios militares, 
nem os affombrava o eilrondo da artilhsria , ganhando 
yaleroíamente aquuila Fortaleza aos Caílelhanos , como 
fica referido. Logo que Dom Gaftsô chegou â fronteira 
a correo toda de Viana até Mílg.^ço: huma das attenções 
roais precifas, que deve obfervar hum Governador das Ar- 
mas , porque fem grande conhecimento da Província que 
governa, he quafi impoílivel acertar as difpofiçoens ne- 
eeffarísft nas occafioens que fe Ihá oíFerecerem. Neíta jor- 
nada fez Dom Gaílaô aliíUr toda a gente de Entre Dou- 
ro e Minho : achou muita » e valerofa com poucas ar- 
mas , e menos difciplina. Elegeo os Officiass mais prati- 
TõrúdcA as çQg ^ q^j^ p^^g defcobrir , levantou trincheiras a Caminha,' 
Pragas, ^.^^ 'í^ovs. ds Cerveira, e Valença. AlTillindoá Fortifi- 

caça5 da ultima o rodearão alg'-imas balas de artilharia 
de Tuy , Praça de Armas dos Galegos , que divide de 
Valençi o rio Minho com pouca diftancia de huma a 
outra parte. Os moradores de Salvaterra deraô principio 

ao 



TJRrE I. LIVRO IV. 2^ 

30 rcmpirnento ; quizersò impedir huns barcos , cue 
hiaõpara Monçaó ', os niorsdores deOa ViUa osdeferde* AnriO 
raó conduziiidc»os a elia , e eílirruledos deíle exceílo ^ 
levantarão huma plataforma junto ao rio, e pondo rei- *^4^^^ 
la três peças de artilharia, as difpararaó cora prejuízo 
àas cafas de Salvaterra , fituaçaô da outra parte do rio « 
como em Teu lugar diremos. Neltes dias andando em j^fjohçaõ vaU- 
Melgaço rondando as íentinellas junto do rio , o Capitão roía do capitai 
de Infantaria Francifco de Gouvea Ferraz eílimulsdo de rràdícedeGâui 
ouvir da outra parte do rio a hum Soldado Galego algu- '"^'^' 
luas palavras contra o decoro d'ElRey , fe lançou impe- 
tuofamente ao rio, e paíTando^o a nado, fe achou da ou- 
tra parte fem oppofiçaõ , porque o Galego medrozo do 
feu valor fe retirou, antes que elle chegaíle, podendo 
facilmente tomar vingança da fua oufadia . tornou da mef- 
raa íórte a voltar para Melgaço , e logrou o merecido 
applauío da lua refoluçaõ. De Janeiro até Julho íe paílou 
de huma , e outra parte fem mais ernpreza , que eftes pri- 
meiros ameaços de guerra \ em Julho qusndo fe rompeo 
a guerra era Alemtejo i conhecendo EiRey que manear 
as armas fó para a defenía era multiplicar o perigo, e 
que a paz que defejava , fe havia de confeguir fazendo 
guerra , ordenou aos Governadores das Armas de todas íís 
Províncias, que entraílem em Caílella. Naó dilatou D. Rompí-fe à 
GaftaÕ a obediência » deo logo ordem a Frey Luiz Coe- g^'-irra, 
lho da Silva , Cavalleiro da Ordem de S. Joaô , que com 
a gente de Viana, embarcada em huma galeota , duas 
lanchas , e alguns barcos , paíTaíTe a queimar a Villa da 
Guarda, fituada junto do mar, defronte de Caminha* 
Mandou a Dom Jo3Õ de Soufa CspUsõ mor de Melgaço , 
que entraíle no mefmo tempo pela Ponte das Várzeas, 
António Gonçalves de Olivença pelo Porto dosCavallei- 
ros , por Lindofo Manoel de Soufa de /^brcu, e pela 
Portella de Homem Va^co de Azevedo Coutinho. Tôdai 
eftas entradas fe executarão em Lugares muito diílantes 
huns dos outros, c toda eíta gente nao levava mais dif- 
pofiçaõ , que a do feu valor^ porém ignorar os perigos que 
bufcava a fazia m?is refoluta, achando a fortuna favo» 
lavel, q^e coíluma pôr-íe da parte dos temerários. Dom 

GàUâ4 



n-yô PORTUGAL REStAUK/lDO , 

Gjiíta5 paliou á Infula pouco diftante da Guarda, para 
AfriO obíarvar deíla íicij o fucceiTo dos Vian^zes , da que na6 
j< , j refultou mais , que voltaram-ís com dous barcos de peí"- 
^y^ ' cadores. lrritou'íe muito Dom Gallaô deite dafconcerto , 
como fe as diípofiçoe is deita empreza naõ inlinuaraõ o 
faccsíTo delia. Na Infula mandou Dom Gaítaõ levantar 
humredmíto, parecendo-lhe litio acco^nmodado j e que 
necc-jfitaya de fegurança. Os mais que entrarão em Caíbl- 
la laquearão , e queimarão algumas Aldeãs, e trouxsraò 
defpojo, que os obrigou a fe animarem a maiores empre- 
!-.-...«. r^';. 2^*- Governava o Reino de GaHza o Marquez de Vai- 
z.aoMan^H2z '^àTaúo. As prevcnçoens , e diícipimâ daquella parta 
de vai-Paraiio. naÔ excediaó muito ás noíTas, íó havia a diíferenca de íe 
haverem nomeado Oíiiciaes, que entendiao a guerra, da 
que refultava terem os Soldados melhor noticia delia. 
Varas entr . í*^^'^'^^ ^^^'^ depois de retirada a noíla gciote» mandou o 
àJs/cb:tml\ Marquez de ValParaifo 8oo Infantes á Freguezia de 
e outra panei Chíiíloval , que he na Raia junto ao rio das Varzeaes , 
queimarão alg'imas Aldeãs , fem perdoar o inluUo ao ia- 
grado das Igrejas : paffarao á Freguezia de Paços , que fe< 
gue a Ghriltoval \ acodio D. Joaõde Soufa, e Francifco de 
Gouvea , o que havia paílado o Minho a nado, e trazendo 
comfigo íó 70 houisns occuparaõ a paííagem do rio, e obri- 
garão os Galegos a que íe retiraííem perdendo 40. Eítas 
entradas , que parecisõ mais de bandoleiros, que de Solda- 
dos, fe alternavaõ de huma, e outra parte com pouca vaa. 
íagem nos íucceíTos. Com a noticia da entrada que os Ga- 
legos fizeraõ tornou Dom Gaítaõ a convocar a gente que 
havia dividido , e deo ordem ao Sargento mór Simaõ Pit- 
ta , que entrarie em Galiza pela Ponte das Várzeas , e a 
Maooel di Soufa ds Abreu pelo Porto dos Cavalleiroj. 
Simão Pitta tendo noticia que o inimigo engroíTava poç 
aquelia parteopoJ^r, íuípendep a entrada, Manoel ds 
Soufa paílou o Porto com três mil Infantes , e 40 Ca- 
vallos, e fabindo que o inimigo occupava o Lugar do 
Facho , por onde forçofamente havia de paíTar , maa* 
dou avançir António Goaçilve* de OUveaça com 403 
Infíántes a deíalojar os Galegos , que íe achavaõ com 
300 , eco-n 1 50 Givallos, Inveítio-os valerofâmente An- 
tónio 



1641. 



■TAME 1. LIVRO W. 167 

tonio Gonçalves , e cbiigou-os a fe retirarem : porém def- 
compoz efta acção occupando a gente que levava em AnnÔ 
laquear algumas Aldeãs, retirando "íe com a preza íern 
íe incorporar com Manoel de Scuía , como &\\q ihc h^via 
ordenado. Sem embargo deita defordem msrchou Ma- 
noel de Soufa para o Lugar de Monte Redondo , grande, 
xico , e fortiíicado com cuas Companhias pagas , e outras 
da Ordenança, que o Guarneciaó ; chegando ao Lugac 
mandou avanqar as trincheiras pelos Capitaens D. Vaf- 
CO Coutinho, Chriítovaò Mouzinho , e Luiz de Brito; 
entraraõ-as valeruíaniente , e queimarão o Lugar a cu-, 
lia das vidas de muitos Galegos, A preza, e o exemplo 
da gen*i de António Gonçalves inculcou a dslordem , 
porque muitos dos Portuguezes , que fabiaõ as veredas , 
íe retirarão para íuas calas com os defpojos que colh.è* 
raô. Os Galegos que fahiraõ do Lugar occupáraó a aípâ» 
leza de hum monte, que erâ o caminho por onde Ma- 
noel de Souía forçofamente havia de paliar. Vendo elle 
que lhe era neceilario vencer efta difficuldade deo or- 
dem a que avançafie toda a gente a defoccupar aquelle 
fitio , e nao fabendo melhor diíciplina , que a da compe- 
tência , dille que aquelle que chegaíle primeiro logra- 
ria o appíauío daquelJa occafiaõ. O valor de todos diíli- 
iTiulou eíVe defconceito : porque avançando intrépidos 
por todas as partes obiigáraõ 03 Galegos com rrorte de 
alguns a largarem o peito. Aos que íe retirsv£Õ fe uiii- 
laô outros , que dos Lugares vifmhos acodiaõ ao rebate j 
c chegando ao numero de rnil Infantes, e 200 Cavsllos 
fe farmaraõ em hum valle , rroftrarido que deísjavío pe- 
lejar, í-acilmente lograrão o intento íe Manoel de Soufa 
íe naÕ achara com menos duss parles da gente, que ha- 
•via levado á empreza. Retirou'fe queimando de cami- 
nho cilgumas Aidea?. Dom Gaílao raÒ eftimou tanto o 
bom fuccefío , como íentio a derordem dos que fe reti- 
rarão , e caítiggndo os que tiveiíõ culpa, e dando pre* 
Tiiios aos que procederão com acerto foy poico apou- 
co reduzindo a melhor forma a ger te daquella Pícvjm 
cia , e 00 mefmo pt^ílb que er.fm^va aprendia, Porém 
Tom. L B. aquel- 



268 PORTVGAL RESTAURADO, 

aquelleí a que fuccade lerem primeiro Generaes , que So^ 
3Lnno áâ<^os , difficilmente fahem grandes meittcs na eícóia nii^ 

j)^jç jjjgj depois do fucceflo referido entrou 
o inimigo pelo Porto dos Cavai Jeiros com dois mil In- 
fantes , e trezentos Cava lios , e derrotou os Capitães An- 
tónio de Barros , e Affonío de Caitro, que com as fuafi 
Companhias pagas guardavaô aqueJIe Port \ Vindo'fe 
retirando os foccorreo o Capitão iVlathiasOzorio, a que 
dava calor o Sargento mór SimaÕ Puta : fizeraõ alto o» 
Galegos com perJa í^e alguns Officiâcs , e toldado* j vol- 
tarão íobre o Confelho de Laboreiro , e o Lugar de Alco« 
baça, que deftruiraõ , e queimarão. A noíla infantaria 
fe recolheo ao Convento de Fiaens de frades de S.Bernar- 
do , que com eíla guarnição ficou livre dos damnos , que 
os Galegos determinavaõ fazer*lhe , oíFendidos das mui- 
tas inteliigencias , que aquelles Religiofos confervavao 
em Galiza, e de naõ entrarem o? Caftelhanos oConv^jn- 
to , refultou naô deftruir o inimigo muitas Freguezias i 
defendidas pela confervaçaô daquelle faio. O Marquez 
de Val-Paraifo confiderando com experiência militar o 
que mais convinha á dcfenfâ de Galiza , e de que podia 
lefultar maior damno a P.r^rtugal , elcgeo para Praça de 
Armas o Lugar de P^drenda , fituado entre o Porto dof 
Cavalleiros , e a Ponte das Várzeas » Lugares por onde a 
noíía gente mais continuamente coftumava entrar em 
Galiza. Do Porto » e Ponte , que fícavaõ nos dous ladoa 
oppoftos , até a Pedrenda em diítancia de legoa e meia » 
fez levantar rcdutílos, conforme a capacidade dos íitios , 
e taÕ vizinhos, que huns a outros íe defendiaó , aninaa? 
do a todos hum grande Forte , queguatneciaòfeiscentoa 
fortincao csCa: í^fantes. Pftra dar fim a efte trabalho, fe alojou o Mar- 
kges Pedrenda. qucz na Ptídrenda com féis mil Infantes , e feiscentos Ca- 
vallos , entendendo que , aperfeiçoada eíla obra , feria fá- 
cil a fegurança dos Lugares , que governava , e infallivel 
a ruina dos que pretendia conquiftar. D.Gaílao tendo avi- 
20 defte novo intento do inimigo, reconhecendo o perigo 
de fe coafeguir , íe reíolveo a procurar todos os caminhos 

de 



PJR7E I. LW%0 ir. i6^ 

ãe O atalhar, e uzando dos meio» pouco propordonsdoa , 
que naquelle tempo difpeníavaõ a confuíaô , e falta de An£To 
experiência, animou com a refoluçaô a temeridade, a in- j>í^, 
da que a todos pareceo valor imprudente , de querer ata- ^4** 
car fortificaçoens bera fabricadas, e melhor guarnecidaf, 
com hum tropel de gente íem forma nem obediência , com 
pcucaí muniçoens, e n>enos baítimentos , e fem mais in- 
llrumentuj de expifgnaçaõ, que duas ligeiras peçfíS de 
artil.iaria. Mas cooio Deos quiz íempre raanifeílar entre 
os noíios dcfconcertos a íua miíericordia, nao argumen* 
tem of que íabem os preceitos da gucira , lendo efta hlílo» 
ria , a caufa das noílas fortunas \ tratem íó de lhe dar crc« 
dito , na fe de que em nenhum feculo , e de nenhuma ou- 
tra naçaõ íe elcrevec até eíte tempo hiítoria msis verda» 
deirèl ; porque íem recsyo, íem ódio , e fem aíTeiçaõ e£- 
crevo em humas partes o que vi , em outras o que obíet- 
várao todjs aquelles com que trato , e com quem coníiro 
todas asmateriai , queefcrevoi 

Rafoluto D.Ga Hiaõ a atacar o Forte , e os Redu- 
étos íem artiíicio nem díííimujaçaõ , convocou a gente de cíjiaõ a ^Jtí 
toda a Província. Conftava a quefe havia aliílado para fer ^^ihu " ' 
paga de 4000 homens , porém na difcipiina na5 havia dif* 
ferença algua , porque ainda que alguas Companhia? efta- 
VaÕ formadas , naõ fe tinhaô dividido em Terços, e to- 
do o Corpo junto nao era mais que hum tumulto de gente 
valerofa. A maior parte da Infantaria paga entregou Dom 
Gaílaá á ordem de Lopo Pereira de Lima, CêVâlleiro de 
^alta , a que pjliftia feu irmaó Diogo de Mello da mef- 
ma Religião, e Capitão rhót de Barcellos : alojarão am- 
bos em Lamas de Mouro , lugar vizinho ao Porto dos Ca- 
valleiros. Com efta noticia apreíTou o inimigo o trabalho, 
e em quatro dias reduzio a obra a deíenfa. D. Gaftaõ com 
outro Trocp alojou na Ponte das Várzeas, e para que o ini» 
r igo divertiíTe o poder , que tinha junto , mandou entrar 
em Galiza pela Portela de Homem a Vaíco de Azevedo 
C outinlio, epor Linde zo a Manoel de Souza de /»breu , or- 
dtnRndo']hei , oul* ff gunda feira nove de Seten hro ( dia 
que íó deílin3va para ad emprezas , pofío que na ky Divi- 

R 2 na 



270 COKTVGAL KESTAVRADO , 

na fó fe deve fazer cafo da providencia de Deos ) entraíS 
AtmO í^í" em Galiza. No meímo dia ao amanhecer , havendo q 
antecedente reconhecido as Fortificações, dividio D.Gaí- 
Uo a infantaria em três troços, e levantando huina pia? 
tafótma , fez jogar as duas peças de artilharia , que le? 
4acZns/"'' vava , contra o Redudlo da Ponte das Várzeas ; e foraíí 
de grande eíreito , recebendo o inimigo confideravel 
damno. Os três troços, que goyernavaõ Lourenço de 
Morim Sargento mór de Caminha , e os Capitaens Gaf? 
par Calado Manoel, e Martim Coelho Vieira, com gran- 
de valor, e pouca ordem , íuperando o embaraço de ai- 
ISiívJ/^ "^^^ gumas eáacadas , avançarão três Reduílos , e os cntrâraó 
a hum meímo tempo, degollando os Soldados, que os 
guarneciaô ; e ficando aberto o caminho de Moníe^ReJon- 
do , que os Gaíegoi haviaõ reparado, fe retiraráó os que 
fugíraõ para eíle lugar , que ficava vizinho. Depois de 
arruinados osRedudos, inveíliraó com as tiincheirasde 
^ntrSô' Afcate. Monte^Rcdoodo , defamparou'as o inimigo , entrarão o 
í^sdodé>,efsre. j^^^y f3qu€ara5'o fegunda vez •, e o mefrao fizeraõ a 
ird^m algumas Aldeãs » que ficavao pouco diítantes. O* Gale- 

gos acodlraô áqueíla parte com três mil Infantes, e qua-, 
trocentos Cavallcs , e achando a gente carregada de def« 
pojos, avançarão com reíoluçaõ , e os Soldados da Ordea 
nança , naõ querendo pôr em contingência o que havíací 
roubado , voltarão as coitas , naõ valendo a Dom Gafta6 
as grandes diligencias , que fez pelos deter na Ponte. Os 
Officiaes, e quinhentoj Soldados, que fícârâo, íizerao 
loílú ao inimigo , e v.ilendo'lhes a aipsrsza do fino, fe 
vierao retirando pelas veredas mais eílreitas , e deixando 
quinze Soldados mortos , e dez prifioneiros , confeguiraá 
vaievofamente paílar a Ponte fem maior damno. Dom Ga- 
ílaõ eítimuiado da defordem , e do máo íusceíTo , unindo 
a eíla gente alguma que havia detido , tanto que amanhe- 
w /-.-/j- ..«," ceo toínou a paíTar a Fonte , e acabou de desfazer todos os 
fotm a gente, e Kedudos , c toncheiras : o que feconíeguio com tanta di- 
arn/ina as For- ligíncia , que qu2ndo OS Galiegos , que naó efperavao fe- 
ujicafosMs. guíida reroluçíô , acodíraõ , ja os Redudos eftavao desfei- 
tos , e fem receberem dano fe retirarão á fiia viíla os nof- 
fos Soldados. Diogo d* Mello , e Lopo Pereira, deílinados 

ccn- 



TJRTn I. LirRO IV. iji 

cútitti os redudos do Porto dos Cavalleíros i Juntársô 
cinco mil Infantes , e foraô alojar com elles á viíta deite Anbíí 
Lugar : o dia que chegarão tomou o inimigo lingua , acer* , /; . r 
tou de íer hum velho de ^o annos > ao qual perguntando- ^^ • 
lhe o para que fora chamado refpondeo , que para o ata- 
que daquelias Fortificaçoens. O Meftre de Campo Antó- 
nio Sohs Gabo daquelle Troço , tornou a remetter o ve- 
lho aos Maltezes com huma carta , em que dizia , que 
aquelie homem fora colhida, e que confiando àa, íua con- 
fillaõ , que era chamado para huma empreza taó gãlhyr- 
da , como a de inveftir aquellas Fo-rtiácaqoens , mó que- 
ria que ie maMograííe por faha de hum Soldado de t-^nta 
importância , e acciecentava a efta zombaria outras pa- 
lavras exorbitantes. Teve eíta carta reípo fia com Biaio- ^i/c^^^íA;,^/^, 
les opprobrios , e á feguuda feira executarão os Maltezes e lebo penira 
a ordem de inveílir o Forte, e redudos , que era o meí- ^'"'^j^'* '"^'^^•^ 
tno dia em que Dom GaftaÕ tinha logrado o íucceíío refe- ^''*'°^' 
ffido ; dividio'íe a Infantaria em dois tróçoj , de que era6 
Cabos oi dois iroiãos t ao que governava Lopo Pereira 
dava caior feu irroaõ António Eereira de Lima com 8o 
Cavallos ; marchou eíle troço pela parte de Alcobaça , e 
atacou o Forte , e redudos do fitio da Cofta. Diogo áz 
JVlello efcoiheo para atacar os redudlos , e Forte da íerra , 
empreza mais duvidofa , por íer o íitio mais aípero » o 
Forte maior , e os redudos melhor defendidos ^ e ter o 
inimigo formado da outra parte da ferra três mil Infan- 
tes, e loo Cavallos para defender o aíTalío, e fomen- 
tar o preíidio. Conhecendo Diogo de Mello o rifco diíta 
empreza íe unio a í:íos irmãos , e formou hum corpo de 
mil infantes, que entregou ao Sargento móf Simaõ Pitta 
com ordem que atacaíTe os redudoí , que primeiro cor* 
riaõ por conta de Lopo Pereira: feita eíta diviíaô , cota 
4000 Infantes , e 80 Cavallos deo volta Diogo de Mel- 
lo ao Lugar de ChaÕ cjs Caftro , e lançmdo 500 Mofque» 
teiros por cada hum dos lados da ferra , com a mais gente 
ganhou a eminência por entre nuvens de balas , e v<'lí:n- 
do'ís do primeiro calor dos Soldados inveiJ:io hum redu- 
do , que o^ Galegos fem efperar o aflalto de fa repararão , 
e favorecidos da mofqus teria dos outros redudos fw> re- 

R 3 colhèifitj 



Z72 FOR.TUGAL RESTAUnADO , 

colherão ao Forte que eftava no alto da ferra. Com pou^ 
AflilO CO mais trabalho ganhou Diogo de Mçíllo os outros redu. 
*^.j dos, e íeguindo a vidoria chegou junto do Forte. A 
^ ' grande GuaroiçíÕ que eítava neile , entrando*lhe o re- 
^ ceio antes de experimentar as feridas , largou o Forte feín 

/uãlToo^Vim ^^"^ refpeito aoí Officiaeí , que hora cora rogos , hora 
friaci£ai. * com eílocadas pretendiaô detelJa : mas como ordinária» 
mente nos grandes conflitos em que fe achaõ ânimos ca- 
vardes , o recaio excede ao perigo , fe deixarão os Gale- 
gos matar dos feos Gapitaens , por naõ chegar ás mãos 
com os noílos Soldados. Entrarão elles o Forte , de que re- 
fultáraõ muitss mortes daquellej mefmos » que , íe ie der 
fenderão, puderaõ falvar as vidas. Os JVlaltezes teadp 
logrado a vidoria , e os Galegos que efcavaô formados, 
defamparando o fitio que occupavaõ, marcharão a for* 
iTiar-fe em fitio mais diítantei Diogo de Mello com mui- 
to acordo mandou tocar a recolher , e com toda a diligen- 
cia marchou a dar calor a Simaõ Pitta, e chegou a teraJ 
po , que elle atacava o redudlo da Coita , o qual todoí 
juntos renderão com a mefma felicidade que os outros re- 
feridos. Faltava fó hum , que parecia pelo fitio , e gran- 
deza o mais díífícil i porém achiraÕ nelle ainda menor re- 
fiílencia , porque os Ofíiciaes desamparados dos Soldados i 
íerendèfaõ, elegendo antes o cativeiro, que a infâmia. 
Entrou nos rendidos o Meítre de Campo Dom António 
Solis, e com galantaria da foituna foy acafo o primeiro 
Portugyez , qos chegou a elle, o velho , de que havia fei- 
to zombaria.' Os Gapitaens » e Officiaes que íicáraô prifio- 
líeiroy , forsò i8, dos Soldados fe íalváraò a maior par-' 
te , valendo-lhes o mato , e afpjreza do íitio. Arrazá- 
rz6-ÍQ as fortifícaçoens , ficsraõ queimadas algumas Al- 
deãs , e os Gal^^^os caítigado». Recolheo-fe^ Diogo de 
Mello, feos irmãos , e os mais que íe acháraõ na empre-, 
za corn merecida fatisfaçaõ das valerofas acçoens que ha- 
viaõ executado. 
mito de õtt^ Vaíco de Azevedo Coutinho , e Manoel de Sou- 

íjAs intiaias» fg ^» Abreu , que entrarão ( como referimos ) na mef- 
ma fegunda feira , aquelle pela Portela de Homem , eíle 
por Undozo ^ queia<ára5 V*»í"io de Azevedo a Viila de 

L09 



PJRTE L LIVRO IV. 27^ 

Lobios , e outros Lugares : MaEoel de Soufa a Villa de _ 

Compoliella, que oa Galegos íem utilidade defecderaõ , AnnO 
fazendo o ineímo a ouuas Aldeãs; e todos íe retirarcsõ j^.j 
cora tantos deípojos , que ficou deícontado o trcbalho da ^. ^ ' 
jornada. Com maior oppofiçaó , e naõ menos airoío íuc- ^Acção militar 
ceílo entrou no meímo tempo em Galiza o Abbsde áQ^o jLbbade^^ 
Bouro da Ordem de S. Bernardo , que havia fido Soldado, ^^^'^"r 
e exculava-o de eícrupulo i e de efcandalo ferem os Âbba*, 
dea dsquelle Convento Capitães mores daquelle Couto , e 
lendo natural a defeala , íer para a coníeguit a Oifcnla for- 
çofa; juntou rail hom^ns.entrou em Galiza» e Cabendo que 
o inimigo determinava fazer*lhe oppofiqaó com igual po- 
der, difíe MiíTa,peIejou,e venceo, matando com as próprias 
iDaos hum Capitaõ»e dois Soldados; ficaroo a opiniaS me- 
no» gravada,que a coníciencia.Naó teve taõ boa fortuna o 
Capitão Martim Telxéirs^o qual entrando ca meíma occa- 
fiaõem Galiza o obrigarão os Galegos aretirar*fe,perdendo 
hum Alferes,e dez SoIdados.Ficou entre os priíioneiros hu valor àe luí^ 
moço de 18 annos chamado Luiz da Silva , conheceraô'o da si/x-^ 
por fer de qualidade, e privilegiarão*© deixando'lhe a efpa- 
da: foube elle uzar do privilegio , e accreditar o faogue» 
porque entregando'© a quatro Soldâdo$,para que o depofi- 
í,5ÍTeni na primeira prizaô do Lugar mais feguro,fuccedeo 
que deíles caminharão doii com menos diligencia, e vendo 
Luiz da Silva os outros, que o levavao pouco acautela- 
dos tirou huma faca , e metendo-a pelos peitos a hum dos 
dois, com grande ligeireza, e felicidade fez o meímo 
aoíeguodo, cahiraô ambos » tirou pela efpada , inveílio 
com os iois , que hayiaõ ficado mais deívíados , ferio 
hum , e fez fugir o outro , e occuItando'íe naefpeíiura 
do mato, em que era muito pratico , fe paílou de noite 
valerofa , e felicemente a Portugal ; o Marquez de Vai» 
f araiío vendo prevalecer a defordem contra a deílrcza , 
porque era Soldado velho , e já (e compunhaõ as fuás 
Tropas de muitos Oíficiaes , e Soldados de experiência, 
intentou, bufcando a íatisfaçaõ, diílimular a difgraça, 
paííoUiíem achar quem fe JheoppuzeíTe, a Ponte das 
Vavzeas com dois nil Infantes, e zco Cavallos, fen- 
do o dáícuido dos Capjtaens Martim Teixeira , Fíancif- 

K 4 CO 



274 PORTUGAL RESTAURADO , 

CO de Azevedo , e Francifco de Gouvea total occafiaõdo 
AnTlO infortúnio que padecerão ; porque ioveilíndo o inimigo 
16 Aí ^ aíojamento , que occupavaõ, o deíaoipararaõcom pcr- 
, ' . ^^ de vinte Soldddoj , os mais que fugirão íe retirarão a 
vafZT^U0 râ ^^^^^ alojamento I onde eltavaô osCapitaen» Mathias 
phumqiiuriei. Ozorio , Rodtigo de Moura, e Dom Joaõ de Souía , que 
iiâviaõ acodido de Melgaço, com os quaes íe naõ haviaô 
querido iíícorporar o dia antecedente; deíordem que oc« 
câíionou todo o máo fucceíTo, porque juntos com 300 
Infantis puderao defender ao inimigo a Ponte: o qua^ 
depois de ganhar o primeiro alojamento marchou para 
o íegundo ; naõ efperaraó os que eílavaõ nelle que os 
inveítiilem , puzeraô-íe em íalvo no alto de huma fer« 
ra , e dei acreditarão a opinião de que podenaõ juntos de-i 
fender a Ponta ; queimarão os Galegos oi quartéis , e re- 
tiraraõ-íe fera fazer outro damno. O Inverno fez fufpen- 
der de huma , e outra parte as hoftilidades* Dom Galtaò 
Coutinho deixando Guarnecidas as fronteiras fe recolheo 
a Braga a difpôr algumas fabricas, que juligava con- 
venientes para continuar a guerra na Primavera feguin-; 
te i atalhou*lhe eíte intento huma ordem d'ElRey» pela 
''Chani» ElRey qygi Q chamava para aíTiltir nas Cortes , que fe celebra? 
çjíie-u ^^^ naquelíc tempo em Lisboa ; entendeo'le que fora pre« 

texto para lhe tirar o Governo de Entre Douro e Mi- 
nho , attendendo a algumas queixas dos moradores da- ' 
quella Província : naÕ voltar ao Governo delia foy oufa 
de fe oaõ defvsnecerella murmuração: he certo que pu3 
déraô fazer tolerável qualquer exceflo 0$ bons íucceííos 
que teve , achando a Província com taõ poucos meios de 
confervalla ; nomeou três Governadores em fua auíenr 
cia , os quaes EUley confirmou , e governarão a Provín- 
cia em quanto naõ chegou a cila o C onde de Caílello'Me- 
]hor : foraõ elles Manoel Telles , Diogo de Mello PereiJ 
ra , Viole Datis Francez de Naçaõ 1 de conhecido valor ," 
e fidelidade. 
'Provada de A Província de Traz 0$ Montes com a primei- 

irAx. os Motes, jra notícía da Acclamaçaõ d* ElRey em Lisboa fe feparou 
dos Reinos de Galiza , Caftella , e Leaõ com quem con- 
fina , feoi ficjíi; í-ugar algum de todo eíle diílri(íío, que naõ 

lottiaffe 



I 



T.4RTE I. LIVRO IV. 17 y 

tomafle as armas, r.sõ fó psra fe deferder , íeríõ'para 
n^altratsr aoí inirriigo» \ e vtudo que le dilatava ncirear AnilS 
tJRey Govetnavioi da» Atiraj squt lia FrcviriCis, n an- • 
daraó âs CõíT^aTcas dfst Cidades , t ViUfiS principaes delia J.^4^5 ■ 
pedir a Dom Gâft?ò, que havia chegado a Entre Douro 
e Minho , quizefle fignalar-lhes peíloa capaz para os Go- 
vernar em quânio naõ cheg^íle de Li^bo3 Governador 
das Armas, a que cbedeceíiem , íendo o leu principal íe- 
ceio B.agançd, e Chavei; aquella fronteira da Puebla 
d::Cen.bria, efta de Monte'Rey , e ambas por eftareni 
fem defenía expoltai à invaiaô dos Galegos. Naõ lhes da» 
va menos cuidado a CJdade de Miranda , de grande im- 
portância peloi muitos Lugares que cobria. ElegeoDom 
Gaíltiõ paia o Governo de Traz os Montes a Martim Ve- 
lho da Foníeca Sargento mór de Viana, que tendo va- 
lor , eprudencii» era pratico no exercicio da guerra por 
haver íervido em F landes. Chegou elie a Traz os Mon- 
tes , e tratou com grande acerto da defenfa dos Lugaref 
maií importantes Ci-quella Provincia » levantou-lhes trin- 
cheiras t nomeou lhes Capitães » e meteo-lhes Guarnições. 
Tirou o defra acertada occup2ç:56 Rodrigo de Figueire- corir?!» ^.-^íp 
do de Alarcão , que a três de Fevereiro entrou por ordem mas Rodrigo ds 
d'ElRey a governar aquella Província. Havia na acclama- F'g««/'í<if, 
çaõ oílentado larggmente a íua fidelidade i e todas as fuás 
acçoens coftumava lavrar na confiança do feu valor em 
varias occailoens acreditado. Entrou em Chaves, ecom 
toda a diligencia dividio em Cotrpanhias agente, que 
achou na Província capaz de tomar arm?s: repartio-lhe 
todas as que pode juntar , e ncmeou*lhe Ofiiciaes guarne* 
cendo os Lugares naais importantes com a gente menos 
occupada. Continuou em Chaves^ e Brpgarça o trabalho 
das trincheiras» e mandou que fe levsntaíTem nos Luga- 
res mais arrifcadoí de toda a Raia : ppíTou neítes exercí- 
cios até o mez de Julho , tempo em que rompeo a guer» ^ 
ia por ordem d'ElRey , como fízerso as mais Prc vincias, 
peias caufas ja referidas. Em quanto durou a fufpsnfaÕ 
das armas , íe reítituirtô algumas prezas , que fe fizeraõ 
dehuma, e outra parte. Em. MnntcAlecre recebeo Ro- „^, . 
dngo de Figueiiedo a ordçra d'ElRey para tooiper a guer- ^«^,1^^ 



I5?á PO?^TDGÃL tEST AUtAJyO , 

ra , e com toda a diligencia difpoz ^ogo a execução : jutíJ 
íALÍiriO í^^u em dois diJs dez mil homens , íendo muita a gente 
/ daquelía Pfovincia , e naquelle principio fáceis de condu- 

'T.^-r^» zir oj ânimos defejofos de pelejar, appetecendo os Poí 
vos a guerra por nova , e ignorada , e por natural aíF-r- 
d:o doj coraçoens Portuguezeaj porque quando lhes fal- 
tou no Reino , paífaraõ a buícalla aíem da raorobona 
por mares n^Ó conhecidos. Unida a gente , fem uz^r de 
outra diíciplina a dividio Rodrigo de Figueiredo em qua- 
tro tróqosi entregou hum delles a Balthazar Teixeira 
Capitão mór de Monte Alegre , com ordecn que eatrâíle 
por aqueila parte em Galiza : mandou entrar com outío a 
Simaó Pitta da Ortigueira por Monforte : entregou o ter- 
ceiro a feu irmaõ Henrique de Figueiredo Governador de 
Bragança, mandando^lhe que entraíTcm por aquellediílth 
èlo : com o ultimo que conílava de 4000 homens mar- 
chou Rodrigo de Figueiredo a Monte-B^ey, aonde orde- 
nou íe incorporaílem os dous que primeiro havia defpedi- 
sujehão-je ah do, Balthazar Teixeira ganhou oito Lugares » achando 
guns LHgAres gQj dois delks Guamíçaõ que rendeoi e offerecendo*fe 
ás Galix.^. jqjJqj os moradores de íicíLrem á obediência d^ElRey de 
Portugal, paííafido familia, e fazenda a eíte Reina , íe 
livrarão da ruina que os ameaçava. Simaô Pitta entroa 
cinco Lugares , que com igual diligencia tiveraõ a meírna 
fortuna. Henrique de Figueiredo íaqueou o Lugar de Ca» 
labor, poZ'lhe o fogo, e conduzio grande presa a Bra- 
gança. Rodrigo de Figueiredo , levando â vanguarda feu 
trma6 Luiz Gomes de Figueiredo, marchou a Monte- 
GanhMo-feduas Rey, ganhando primeiro as Villai de Vimbra. eTamague* 
F^/<ií. los , que o inirrligo havia Guaraecldo j naõ foy grande o 

dãao, pelo evitir Rodrigo de Figueiredo : chegou el!e á 
vifta de Monte'Rey , onde fe lhe incorporarão Balthazat 
Teixeira , e Simão Pitta , aloiou junto da ViUa de Ve- 
rim, cujo defeníavel Titio ref peitou a nofla gente: ires 
dias fe deteve no mefmo lugar Rodrigo de Figueiredo ; 
nelle fe queimarão algumas Aldeãs vizinhas , e fe perdoou 
ás novidade» maduras , parte nas eiras , na fé da pro- 
meíla dos Paizanos , que oíFerecerao dar obediência a 
Êl^ey Dom João » que durou o tempo que a noíTa gen- 



te 



i64i< 



l 



PJR7E 1. LIVRO IV.. 177 

tepeifiTiio ra csmpar ha. O ]Vla»cie2 de TsrrÊÍcra leco* 
Iheo ao Caitcllo de Mcnte-Rty ico Inféntes pfgos, e 2!- ArrhÒ 
guns Faizanos» lefoluto a dttei ccr í cuclle íitio, cerro 
Riais impcitante, por íer única íegi Terça ca rraiot per- 
te do Reino de Gdliza. Rodiigo de Figueiredo cem ella 
noticia defejou tentar a fortuna inveltirido o Csílello : 
porém achando'fe corií poucas iruniçceiís, km iníliu- 
mento algum de expugnaçaõ , e acabados os mattimen- 
tos , venceo com a piudencia a refoluçsõ intempeíliva , 
elatisfeito do que havia coníeguido fe retirou a Chave*. 
Ao outío dia depois de haver chtgsdo teve avizc de Brs- _ • - t. 
gança , que os Caílelhanos haviso entrado por f qiiella cajuihams 
pane no termo de Monforte , onde queimarão feu Lu* aignvs i^n* 
gares , naõ perdcóndo a facrilegio algum , crueldade , e ^'"'ff^ 
cxtorçsô. Luiz Gemes que havia íicadc em Chaves (por- 
que Rodrigo de Figueiredo cem a primeira noticia de 
que o inimigo entrava , paliou a Bragança , receando ju» 
iiaraente a pouca defeofa daquella Cidade ) mandou ao 
Capitão Paulo Teixeira, que juntando a gente que lhe 
foííe poiTivel marcliâíTe a bufcar o inimigo : v.so foy gran» 
de o numero que pode convocar, mas foy grsndc a dili- 
gencia : tcnrsndo lingua ícube que o ininigo marchava 
com ^oo Infantes, e 40 Cavallos | achava'fe elle com 
400 Infantes, reíolveo fe a pelejar com taõ pouco nui 
mero, eílimiilado da crueldade, que os Caítelhanos ha- 
vido uíado nas entradas antecedente?. Marchou a Mon» 
tt-Rey , deo viíla do inimigo pouca diílancia da Praça ; 
que o eíperava fcrmado com as coitas em huma Aldeã ; 
inferio dos repetidos avizos, que via deípedir a Mcnte- 
Rey , que os Galegos pediaõ foccorro , certo li gral do re- 
ceio , valeo'fe da opportunidade , e ní6 querendo que 
chcgaíTe o foccorro mandou pôr fogo ao Lugar , que ler- 
via ao inimigo de retaguarda , para o obigar a quem;U. 
daíTe de íitio : naõ logrou o intento entendido dos GalegoFi 
porém fuperando todas as difficuldades os inveílio : rece» 
beraô'0 com algumas cargas, mas com pouco camno, 
por tirarem de muito longe , e fugirem depreíTa; 1^26 ^^/^-^ ^í- 
receberão elles grande prejuízo pela vizinhar ça de Mon- "^'/fcscutrcsLH: 
t€*Rey, aonde fe retitarfcõ : queimou anoífagenteo Lu-^^V*^:^^^^"-''^! 

par jeosCalig-ji 



á/S PORTUGAL ^EST.^RÃDO ; 

gar , onda eftava o iaioiigo ; experimentarão nove maíá 
Aàno a mefma difgraça , padecendo o* moradores o mefmo dani- 
lfiÉ.\ ^^ ^ ^"^ nas entradas antecedentes os Galegos haviâõ oci 
Jw4^ • cafionado aos noílos Lugares. De huTia , e outra parte fe 
repetiaõ as entcadaj , Bálthazar Teixeiía corn a geate 
de Monte Alegre queimou íeis Lugares i vindo-íe reti- 
rando, teve avizo que o inimigo havia entrado em Por-, 
tugal , pouca diftancia daqualie fitio : reíoluto a pele- 
jar muchou contra os Galegos j procurarão ell&i reti^ 
rar'íe , e dara6*fe por feguros em Vilia Maior de Girou» 
da, que haviaõ fortificado com trincheiras muito capa- 
zes de defenía. Era a VilIa grande » eriça, porque con- 
ílavao os fogos de trezentos , e affillia nella guarnição de 
xí/f '^'SSí Infantaria paga. Venceo Balthazar Teixeira todas eítas 
vilU Aíayor. áífficuldades , iiiveítio a Villa , rendeo-a , e poz-lhe o fogo 
á cuila de muitas vidas dos inimigos i retirouTe a Mon- 
forte trazendo alguns fcriJos, e hum Soldado meãos. O 
Marquez de Tarraíoaa entrou ao metmo tempo no termo 
de Chaves, e marchou para Villa* Verde com 2000 In-; 
fantes i e i 30 Cavallos : teve Luiz Gomes avizo em Oa- 
r ^ teiro fecco , Lugar aonde havia chegado com o primeiro 

nr!fz%Taraf0- rebite , 6 achando'fe cjm 2000 homens fe rc^rolveo a ibc- 
ijãvnu^erde. coffer Villa' Verde : chegou a tempo que os Galegos 3ia- 
caviÔ o Lugar , e era com v^^lor defeadido ; entrou deri» 
LíiíiL tro fem oppollçaô , defmaiarao os G^legoíi vendo eíle nao 
^^^''' ' imaginado foccorro , retiraraõ-fe , íeguio-os Luiz Go* 
Gjfls'^ "' 0jes , e obrigou* J3 a fe recolherem aos íeos Lugares cooi 
^""^"^^ grande perda , fazendo elle o meímo aos noíloi com mui- 

ia opinião. 

Rodrigo de Figueiredo attendendo a todos os 

intereíleí da Proviacia , Te refolveo a defmantelar Vil- 

larelho, por ficar na Riii expofto fem remédio àinva- 

íaõ do inimigo ; executou eíla determinação com 2000 

homens , e porque o? Galegos tiver<io anticipaiamente 

noticia delia , te refoWeraõ a efoerallo quandj voltaíTe*. 

tjesbarata Ro^ coníegairaó'o em difgriça O.ia ; deraõ viíta da noíT.i gen« 

drkoãeFií^m'^^^ aiacarâ6'a coti fu-ia , foraõ rebatidos con valor, 

'■'^''''"'^'^'"•e desbaratados fem reliílíncia. Rodrigi de Fiíruíiredo 

G^nU Ta-rtx^ Q^^ ^^ ^-â*^'^^ ^^ ^^- ^^5^^^ » ^^^ ptofeguíado a vi- 



Soccorre 
Comss ti 



FJKTE 1. LIVRO jV. 179 

(floria ganhou Tarníguelos» iDgtr cm que ra prin eira 
efurada hsvia eltíc^o^íem lhe ÍLZer d; n ro, equeoini- Ap.nO 
r^igo havia foriifícado , elegíUtío-o | ara sJojarrtnto de j/:^, > 
hum 1 tot,o de Ccvallaria , t k.f.r.tsria , e n:oleítava n.vi* *^^ 1 
to os roflos Lugares : retiroirle Rodrigo de Figueiredo 
para Chaves , trazendo os ^oldtdos rico* , fvidoricfos. 
Paííadoí pcucos dias entrou o ipirt igo pela parte da 
Torre de Eivededo , houve r.cticia em Chèves , fshio 
defta Praça Rodrigo de Jhigu€vredc\, e Luiz Goitcs íeu 
irmaò cera a gcíite que puceraô iuuíar » mas quando che* cet!unuat-]i 
garae 3a o iiiimigo havia queiís ai-o a Torre. Adiantou-<ií entradas a 
íe Luiz Gomei , e encontrando ro caminho 0$ Paizaros '^<"'^«/«í"i?<'í» 
que haviaô efcapado marchou com elJes a foccorrer Ou- 
teiro íeco; porem dando viíla deliea gente do inimigo, 
Jhq foy nectílario para íe defender ganhar huma íeira-, 
que achou viftnha , a qual cccupou com tso bom fucceí* 
lo, que 01 Galegos depois da a avançarem varias ve- 
zes, diiluadidc* da eaipreza is retirarão; o nieímo fez 
Luiz Gomes , e R( drigo de Figueiredo , com quem fe 
incorporou logo. t ra huma en preza ccníçquencia de ou* 
ti3 : retirado o inimigo entrou B.iIthaZar Teixeira pot 
Monte Alegre , e quvin.ou três Lugares- grandes, e ricos. 
Logo os Galegos procurcraô a vhigança» eRtrsraõ o dia 
feguinte , e atacarão o Lugar de M<iiros , dcfenderíõ'fe 
os moradores, ouvioTe a mcíquetaiia em os noííos Lu^ 
gares , e acodírsõ com. diligencia , mss ja a tempo que o 
Lugar era entrado > e conricçava a ateafíeo fogo , extin- 
guiraco os ncíloj Scjdados, e íegbíndo o inimigo , qua 
logo íe poz em maichc? , alcsrçriíidco dentro dos feus 
Lugares, ihe mstáraõ hum Capitjõ de Cavallos , hum 
Sargento mor , e quarents Soldados , err que entr?va hum 
lobrinho do Marquez de Tarrafoní?. Rodrigo de Figueire* 
do quando defpedio o foccorro a Mairos marchou ícbre 
MontcP.ey, para evitar que Of Gf:'egOí? focccrre/Iem a 
fua gente t alojou em hum morte á viíts da Praça . onde 
chegou também, Bahhuzar Ttixeirs ^ fshiraõ de McLíe^ 
Rey algunfj CavaUos , travou-fe hi rra eícaran iiça , que 
durou síé a ncute coro pcuco darrnode hurra, e bufra 
parte, /lo sn^anhecer marchou Luiz Ge raes, e BcJtha» 



tSo PORTUGAL mSTAURADO, 

zar Teixeira para a Villa de Uimbra , feguio*os Rodrí* 
Anno S^ ^^ Figueiredo com o relto, era todo u numero treí 
mil infantis , e 6o Cavallos » e levava duas peça* de ar- 
l64I, tilharia ; porém diíputava fe entre huma, e outra Naqa5, 
€ contendia'le fem forma, fem arte, e fem dilciplina. 
Chegando a Uimbra os que hiaó avançadoi acliáíaõ loo 
Cavallos fora da Villa: era eila grande, com boas trin- 
cheiras , e melhor Guarnição : a (Javallaria íuftentou a ef- 
caramuça em quanto naõ chegou Rodrigo de Figueiredo, 
o qual tazsndo jogar as duas peças de artilharia , de que 
receberão os Galegos damno , carregando os jutuamente 
com reíoluçaô, os fez retirara MonteRey, defampa- 
rando o fitio em que eftavaÕ. Entrarão os noííos Solda- 
dos fem difficuldade Uimbra , o meímo íizeraó no Lugar 
do Rofâl , e ambos foraô alimento do fogo. Paílou Ro. 
diigo de Figueiredo a queimar iVloura » Lugr^r grande , e 
rico , que íica da outra parte do rio Tamaga meia légua 
de Monte-Rey, O Marquez de Tarraíona eílava forma* 
do entre Veriín , e Monte-Rey á vifta da nofla gente j re- 
foluçaõ que pudera juftimenie divertir a empreza : ])0- 
rém os fucceíTos da guerra compoem-fe de tantas varie- 
dades , que he utll moitas vezes ignorar os perigos pa- 
ra confeguir as vidorias. Paliou Luiz Gomes o rio com 
oi feffentd Cavallos ao calor dás duas peças de artilha- ia, 
íeguio o Balthazar Teixeira , avançou o inimigo 2!gui 
IBSS Tropas, que foraÕ rebatidas , e defprezando-fe a« 
muitas balas de artilharia , que de Monte-Rey fe difpara- 
vaõ I as quaes ainda que tira las por elevação cahiraó fem 
prejuízo entre oí Soldados ; paílou toJa a gente da outra 
parte do rio á viíta dos Galegos : foy o Lugar queimado , 
e faqusado , e tornou Rodrigo de Figu-iredo (em oppoíi- 
çaô a paíTar o rio , alojando aquella noite na rnefmo lu. 
gar ♦ em que havia eftado a antecedente. Amanheceo , e 
dividio a gente em três Tróçostentregou hum a Luiz Ga* 
mes , para q'je eatrando pela parte fronteira a Monfor- 
te, íizeffe nos Lugares do inimigo o prejuízo que lhe fof- 
fe poíllvel. o queelle exacut^u com grande damno da-, 
quelle dillrido : outro deo a Balthizar Teixeira, orde- 
paado-lhi que foíTe queitnar o Lugar de Medeiros » fron- 
teiro 



1641. 



TJKTE 1. LWRO IV. iti 

teírr» a Morte-Megre ; e com o terceiro fíccu fazendo _ 

c^ra a Mor.ít-Rey , para diveitir os ícccorros. Naõ era AtinÕ 
o grclío nuito corfideiave) *, porém a p( uca reíohçsô 
dos Galegoj diículpava qualquer ten.eridade. Marche u 
Baithazat Teixeira a aticâr Medeiros levando pouco 
mais de mil Infantes : era o Lugar grande , cercado de 
trincheiras, e guarnei:ido com 700 homens. O coítume 
de vencer alhanou a difficuldadc da empreza , inveílio 
o Lugar , entrou-o , e rcndeoo , ficando mortos muito* 
dos detentores, retirando íe a Monte- Alegre, e Rodri- 
go de Figueiredo a Chavei. 

Bulcavaõ os Galegos, e Caílelhanos, (Reinos 
cora que coniina 1 raz 01 Montes) todos 0$ caroir;hoi 
de íatisfazer os repetidos damnos , que haviaõ experi- 
mentado. AiFiítiaô nos Lugares de que traõ Senhores 
oaquelle diílricto o Marquez de Alcanices , eo Conde 
de Alva de Liite \ conftou-lhes por noticia de huma eí- 
pia , que marchavaõ leis pecas de artilharia , e algumas 
muniqoens de Lhroa para Miranda, e que levavóõ ta6 
pouca gente de Ctmboy , qi e fer:a faci^ derrotalla , e 
tomar s arnlharia. Perfuadi^'oj defta informação jun- 
tarão 2000 homers, c em íeis de Outubro raarcháraô 
ao Lugar de Duas Igrejas, por cnde aíhrmava o efpia 
que o Comboy havia de pâilar : deívaneceo-íe o inten» 
to fendo dei coberto o trato, e detido o Comboy, Com 
efta noticia entrou o inimigo o Lugar de Duas Igr*.! 
jas , e queimou outras Aldeãs. Era Pedro de Mello C;:- 
pitaõ mór de Miranda i tanto que teve avizo de que 
o inimigo juntava gente p-ra entrar naquella Provín- 
cia, pedio foccorro a Francifco deSarrpaio, que gover- 
nava os íeos , e outros Lugares na Torre de Moncor- 
vo : fem dilação lhe mandou 1500 homens, e por Ca* 
bo dellej Domins^os de Andrade Corrêa. Havia paíTa- 
do de Chaves a Bragança Rodrigo de Figueiredo , on« 

Ide recebeo avizo de Pedro de Mello de que o inimigo 
entrada, e ja íabia o intento pela coníiíTaõ do efpia» 
que prendeo , o qual pagou com a vida a traiçriõ que 
havia feito : tanto que Rodrigo de Figueiredo chepou 
a Bragança , receando o f cuco prefidio de Mir*r.da , lhe 



2gi PORTUGAL RESTAURADO , 

maticÍ3ir C3m ínfaatii, qu2 foíaô os primeiros que chs* 
Ânno gsrao d 3 Mogidouro , nobre Viíla entre outras mui- 
lÍAf ^^^ ' ^'-^^ ^^^* "^T^-^^^ Proviacia o Gonde de S. João. 
T"^' Djípawliou correioá a todoj o3 Lugarej daquella par- 
te , ordaaando aos CapUaens mores , que juntando o 
maior numero de gente , que lhes foíle poíFival mar- 
chaílein p&ra o Lugar de Arguíello , TeruíO da Vil- 
Ia úz Outeiro i oiide aciíariaó a ordem , que haviao 
de feguir. Pata eíte meímo Lugar mandou a Henri- 
que de Figueiredo com a íua Companhia , e duas da 
Ordenança , ordenando-lhe que unindo toda a geate 
que chegaííe âquiile íltio , que era o mais próprio 
para defender todos os Lugares de ra«;ior coníequen- 
ciâ j que íicavaõ daquelia parte , obíervando 03 movi- 
mentos do iíiimigo acodille aonde juIg3ÍÍe que era 
suais útil a íua affiítencia. Logo que Henrique de Fi- 
gueiredo chcfgou a Arguíello teve noticia que o iiú- 
/sy^ migo marcíiava para a Villa do Vimioío , avizou fea 
/^^ irmaó , e acodio áquelia parte. O mefrap fez Rodri- 
A-^ go de Figueiredo , mandando primeiros que paríiít^ 

ordem a i^edro de Mello , p^ra que vieííe incorporar-; 
fe coai ellê no Lugar da íipecioía , que íicava m 
Raia junto do Vimiofo. Chegarão todos quafi á meí- 
ma hora , e tornando língua fouberaõ , qae o Conde 
de Alva de Liíle , c o Marqu2/5 de Alcaoices fe ha- 
iriaõ retirado a conduzir novos íoccorros com tencaõ 
de continuar a guerra , e que havinõ fortificado o Lu« 
gar de Brandithsens , fituado ria Raia ^ d^ixando-lhe 
ieisceatos Infânt;ís pagos de Guarniç-íõ , com intea* 
to de entrar por aqaelia pirte » facilitando em qual- 
quer empenho a retirada. Gonfideravi'íe grande o rif- 
co de Miranda , aperfeiçoada eíta ohra : porque ef- 
tand-> com pouca Guarniçiô , e peior defenfa , e naá 
havendo meios pira fazer as fortiticaçoens capazes, 
e duráveis os preudios íicavao evidentes os diícurfos 
de que fe encaminhivaõ contra eíta Cidade as difpo- 
liçoenj do inimiga. Nilta co'i^ideraç3Ó fe reíolveo 
R>i;ig3 d2 Figjeirído a deftcuir o aliceríe para ar- 
xuiaiz o ediftwío , e íe livrar do cuidado futuro corv- 



leguiauO 



PARTE I. LIVRO 'IV: '285 

íeguindo a refolucaõ prefente. Marchou com circo mil 
homens a atacar Brandilhaens , e coíno as difpcfiçoens Anno 
gaílavaô pouco tempo , por levar cada Soldado a ordem iAat 
no feu alvedrio, e a fortuna no feu valor , retblutamen- ^ • ' 
te atacarão huns as trincheiras do Lugar ja levantadas , canhaste srM* 
outros hum Redudo ainda naõ perfeito, e todos rom- duhaem feniji- 
pendo a oppoliçaó dos Caíielhanos, entrarão o Lugar» ^•*'^'* 
forçarão o Redudo , e degollaraõ parte da Guarnição. 
Foraõ os que primeiro deraó exemplo aos mais, osCa- 
pitaens Henrique de Figueiredo , Gregório de Eíccbar , 
Amónio de Almeida , e Francifco Pacheco. Rodrigo de 
Figueiredo valerolamente defprezando as balas , animou 
a toJjs, e religioíamente refpeitou a Igreja, naíí con- 
fentindo que íe lhe puzeíle o fogo , â qual Pedro de 
JVIello havia levado aj portas , e defendendofe os inir 
migos na Torre os obrigou a fe renderen. Ficarão pri- 
íioneiros íeis Capitaens , três Alferes, quatro Sargen- 
tos , e duzentos e oitenta Soldados; cuilou a empreza 
quinze Soldados noíTos , e retiraraõ'íe vinte e cinco fe- 
ridos , CS derpDJos do Lugar íizeraõ aos Soldados mais 
fuave o trabalho da victoria. Recolheo-íe B^odrigo de 
Figueiredo a Bragança , remetteo os prifioneiros a Lis- 
boa , e o rigor do Inverno fez deícançar as armas al- 
guns mezes , que gâílou ultimamente Rodrigo de Fi- 
gueiredo diípondo com toda a atiençaõ a di?fenia da Pro- 
.vincia. 

Tocou o governo da Província da Beira a Dom ^^ jíi.jaro de 
Alvâro de Abranches , o qual depois de acclamar ElRey , Jirânches go- 
e tomar poíTe do Caílello de Lisboa , foy nomeado do vema a Beira. 
Confelho de Guerra. Kavia pafiado á reílauraçaó da Ba- 
hia por Capitão de Infantaria , e tinha*íe embarcado era 
algumat Armadas , que correrão a Cofta : quando El- 
Rey fe acclamou eftava nomeado por ElRey de Caílel- 
la para Governador de Mazagaõ. As poucsi occaíioens, 

Ique teve no governo da Beira , deixou quaíi em fiiencio 
o pouco tempo, que aíTiítio neíta Província a primei- 
ra vez , que foy a ella. Partio de Lisboa os últimos de 
Janeiro de 1641 , chegou a Coimbra acompanhado de 
Joaõ de Saldanha de Scufa , o qual havia exei citado os 
Tom. I. S primei- 



zH POKTUGAL RESTAURADO , 

primeiros annos da íua idade na guerra de Africa em 
AnriD MazagaÔ , primeira grammatica dos moços daquelle 
• tempo. Levava também Dom Álvaro por Tenente de 

1041. Meítre de Campo General a Manoel Lopes BrandaÕ , qua- 
tro Sargentos mórei , e dozeCapitaens de Infantaria to- 
dos de conhecido valor. Paílou de Coimbra a Viíeo » de- 
cerrê 4 Prô- fta Cidade aos mais Lugares da Provinda , dando nelles 
^2""'» j'^^^*''" ordem ás levat neceílarias de Gavallaria , e Infantaria^ 
■'''' Difpoz a fortificação de Pinhel ♦ e mandou alguma gen- 
te para Almeida , a mais importante Praça daquella Pro- 
vinda , por cobrir grande parte dof Lugares abertos » e 
por fie ir muito vizinha da Raia do Reino de Leaó, Era 
CapitaS mór de Almeida Dom Francifco de Lemos Ra* 
niiro , que com muito cuidado fe prevenio para a defen- 
der. Gorreo Dom Álvaro de Abranches toda a Província ; 
em Almeida íe deteve alguns dias a dar principio á for- 
tificação , que deixou encomniendada a Rodngo Soâre« 
Pantoja ; paíTou a Caílello'Rodrigo , três legoas diítan- 
te de Aimeida ; poucos dias , depois de haver chegado , 
teve avizo que o inimigo juntava gente , e fez com 
toda a brevidade a mefma diligencia. Governava as Ar- 
mas do partido contrario o Duque de Alva , o qual laben- 
do a prevenção de Dom Álvaro de Abranches » a qiie elle 
naõ havi?. dado motivo, porque fó havia unido algumas 
Companhias» p.^ra retirar os Galego.^ ^ e derribar os moi- 
nhos do rioTouroens ; prsvenio osLugares vizinho* dí 
, Raia: porém aio pode divertir o recsio dos moradorcj 
vaZreparí^^ GJudade Rodrigo, Praça de Armas daquella Provin- 
da , porque qaaíi todos a def;amparíÍTí»5 , p3Ííando'íe a 
Sáhmaaca. Dom Álvaro de Abranches conítaodo-lhe a 
caufa, porqu- o Duque de Alva hivta chamado aquel- 
la5 Companhiai , deípedio a gente , que tinha junto, fen- 
do todo o feu defejo conferv^r a íuípenfaõ de nrrna». 
Chegoa-lhe em Julho ordem d'ElRey para rorrper a guer- 
ra, como nas outras Províncias fe havia ext^curado* po- 
rém elle confíderando que era o damno inf^llivel , e a 
utilidade contingente , nao alterou o eftylo propoílo. 
Eítí prudsnda foy mal diíourfada , ajudando a coudem- 

iialla 



i 



TAKTE i: LIVRO IV. 18; 

nalla os bons fucceíTos das cutras Provindas ; porque co- 
mo a temctidade andava valida da fortuna, e as ícli- AntlO 
cidades coftumaô cofoar as acçocns , íem íe dií} uiar ^C ai 
a razão ou delordcm cora que íe ccnfeguiraõ , cuipa- ^ * 
vaô os pouco acautelados a Dom Álvaro de Abrsnches 
o focego , coiiio íe ra guerra naõ fora o beneficio do 
tempo o melhor foccorio. Na conficnça defta fua re* 
loluçaó íe cultivarão íein prejuízo as terras dehuna, 
e outra parti;, acliando-fe oí Caílelhanos com t^a pou- 
co poder , que avaliavaó por fortuna naô fe íompec 
a guerra. Hum acciclente eíleve para defcompor eíla 
boa correfpondencia » mas teve fscil remédio , porque 
caminhavaõ a hum meímo fim as ideas de ambas as par- 
te?. 

Veio ter o Eítio a Villa de Naves frias , três ^^ -rhmaz de 
legoas de Alfaiates, Dom Thomaz de Oria , íiJho do orU ;-rende hx 
Duque de Turs , e Reitor da Univeríldade de Salaman- Paiíano. 
CS. Sahindo hum dia à caça , encorítrou hum Paizano 
Fortuguez , que fem caufa levou priíioneiro. Teve avi- 
zo deite íucceíío Sraz Garcia Mafcarenhas , Capitão de 
Alfaiates , deo conta a Dom Álvaro de Abranches, o 
qual parecendo-lhe precizo mofcrar, que naô nafcia de 
temor a fufpenfao da guerra , ordenou a Braz Garcia , 
que procuraíle a fatisfaçaô defte aggravõ «a peí^ca de 
Dcm Thomaz de Oria , declarando*lhe que naô fizeíis 
damno a outra alguma peíloa. Com eíta ordem í'r:hio 
Braz Garcia huma noite de Alfí^iates com cento e trinta 
Infantes : antes de amanhecer chegou a Naves friss fem 
fer fentido , e informado da caía de Dom Thomaz a 
icdcou de Moíqueteiros. Inquietarão* fe os moradores 
com íbbrefalto taÕ repentino , porém Braz Garcia , dan- 
do'rnes palavra de os naõ moíeftar, os livrou do receio, 
íez logo derribar as porias da cafa de Dom Thomaz , 
entrou dentro , ma?? nsõ coníeguio prendello , porque Braz GanU 
íentifsdo o rebate, fe hncou pov hufTía isnella , e feri- Mafcartr.has 
to levemente de huma bala eJcspou em hum mato yi' ''^{'^''' trt»t 
zinho da ViUa : fícáraõ prifioneiros quatro criados feus , '^^''^''' 
e Dom Cefar Lencabechia feu primo , com qutm fe en- 
ganarão os noíToí Soldados, pveíunrjindo quê era Dom 

S 2 Tho- 



i64i< 



Manda o Dw 



■ 286 POKIVG AL tESl AUtJBO , 

Thomaz. Foy remettido a Lisboa, e teve induftria para 
Anno í^ugir da prizaó. Braz Garcia Matcarenhas fez guardar taõ 
pontualmente aos Soldados a ordem , que levava , que 
até perdoarão á prata , que havia em cala de Dom Tho-, 
TTsaz, e foliando o Pâizano prifioneiro, fe retiráríô para 
Alfaiates. Paííados alguns dias levarão os Caltelhanos 
huma grande preza da Aldeã da Ponte, huma legoa de 
Alfaiates. Logo que D. Álvaro de Abranches recebco o 
avizo, ordenou a Braz Garcia Maícarenhas , que pro- 
curaííe a recompenfa. Era elle adivo , e reíoluto , jun- 
tou gente com grande preffa ; porém quando ellava para 
marchar , chegou hum volantim do Governador de Guir 
g^rX !íi^r "^í^o com toda a preza , que fe havia levado , dizen! 
refiituir huma ^^ » <^ue O Duque de Alva mandava reílituilla , e di« 
K#áJ- nheiro para pagar as rezes , que faltaílem. Eraõ fó cin- 

co , que o volantim pagou; e cora o gado, e eíla fa- 
tisfaçaõ fe retirou Braz Garcia Maícarenhas para Alfaia» 
tes , e íicáraõ as Províncias no focego antecedente. Eni 
Setembro abrio Dom Álvaro de Abranches com ordem 
d*EIRey Alfandega era Salvaterra : porém experimen- 
tando'íe que refultavaõ alguns inconvenientes da com- 
niunicaçaõ dos Caftelhanosi fe tornou a cerrar. Em No- 
vembro pedio Dom Álvaro licença a ElRey para fe 
paíTar a Lisboa a fe curar de alguns achaques , que pa- 
K.ViVjjeD..í/. ^^cia: concedco'lhai e deixou a Provincia entregue ao 
-varedeAbran-TQntnXQ General da Cavallaria Joaõ de Saldanha , o 
ches ye pverr.a qual 3 govcmou tvcs mczes com grande aceitação de 
Ooaõ de Salda' (^^^ ç,\\^ ^ fazendo trabalhar nas Fortificaçoens, queel- 
^- le ir.efmo com grande fciencia defenhava. Armou os 

Soldados de Cavaílo de carabinas , e piíloias , de que ca- 
reciao , fazendo adellrallos com exercícios contínuos: 
coníeguia varias, e úteis intelligencias em Caílella; e 
querendo os Caílelhanos interprender Frexo de Efpada 
á cinta , teve taõ anticipado avizo , que prevenio Fran- 
cifco de Sampaio , por cuja conta corria efte Lugar , o 
qual dobrando-ihe a GuErniçaõ, fez defvanecer eíle in- 
tento. O tempo , que durou a Joso de Saldanha o go- 
verno , foy ta6 aípcto por fer no rigor do Inverno , 

que nad teve occai^aõ dç intentar empreza alguma. No 

fim 



PJRTE I. LIVRO IV. 2S7 

fim de Dazembro Coubs qas o Duque de Alva fazia al- 
gumas prevençoensi Isgurou todos os Lugaret arrifca- 
dos, e liwou a Provinda íbcegada até Março do anno fe 
guinte , te npo cm que chegou â goveraalla Fernaõ Tel: 
ks de Menezes, como em ieu lugãriefeJremos;^ 



Annd 
1641. 




Si 



HISTO. 



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DE 



I 




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STAURi\DO. 

LIVRO 



S U M M A R I O. 



-^^^^^V^i 



i 



LEGE ElRey Minifirof para ãecl- 
v^'^| dir os negócios de mmor hnportmKia* 
r^^j Co7icede licença d Duqueza de Man- 
fe^^ tuà para voltar a Caftella, Confpira* 
i-Í^^A Ç^Õ contra ElRey : defcohre-fe : pren- 
^^_jf^^^^ dem-fe os cúmplices , e confejja lo o 
deliâlo jaó cafiigados os de maiores 
culpa f, Che^a a Lisboa a Armada de Françã. Une- 
Je com a Armada d'- ElRey : navegao antes de che» 
gar a de Hollanda , e todas ^e j'ep ar ao com pouco ef- 
feito. Tomaoos Hollandezes Angola , ^S*. Thomé , e 
Maranhão. Difpoe?n-Je os moradores a refiaurar ef- 
ta perda. Na índia fe perde Malaca ^ ejoccorre-fe 
Ceilão, Chega a Lisboa a nova dos mdosfucceff s diç 

S 4 Con-. 




290 PORTUGAL fES7 JURADO, 

Conflui [ias , e deixa ElRey navegar livre para HoU 
Anno landa a Armada dos Efiados , que efiava furta no 
1641, porto de Lisboa. Sabe injiaò de Mendo ça com ella: 
perde-fe em hum a tormenta. 

O labyrintho de Ideas muito difíerentes da»; 
que)]as , que placidamente tantos annos culti- 
vara, paliava ElRey Dom Joaõ de hum cui- 
dado a outro cuidado no principio do íeu Go- 
verno : e ainda que a felicidade com que ha- 
via tomado poil^ d j íeu Reino , era para o coração effi« 
CL z epitome , como o combatiaõ tantas ideas , íe naõ des- 
falecia, naõ farava. Havia roto a guerra com poucas Ca- 
pitaens experimentados , e rr.enos Soldados veteranos \ o 
Reino quali exhauíto de dinheiro , muniçoens , e arma*i 
contra hum Rey taõ poderolo , que abundava de tudo o 
de que elle carecia. Era lhe neceíiario naõ íe íiar de to- 
dos, nem moftrar que deíconíiava de alguns de feos Vaf- 
fallos ; atten.;aõ de que muitas vezes íhe refultava fe- 
guir o parecer dos indifcretos por conlicienie$ , outrai 
doi mal affedos por entendidos , e como inter iorríjente 
por huma , e outra cauía defconfiava ou delles ou daquel* 
3es, e as experiências era© taô poucas, confundi. .õ*íe as 
rcfoluçoens , e deíencaminhavaõ"ie muitos negócios : 
porém na confider3c;aõ dos dilatados anno« em que outroi 
exercícios íizeraõ habito na natureza d' ElRey, sfiiíUn» 
do em Villa' Vtçofa â tod^s os acertos politicoN,que mana- 
rão de í:u G )verno, íaõ dignos de louvor, e nenhum er- 
ro merece íer condemnado , porque abraçou muito gene- 
loía empreza , e grangearaó todas as iuasacçôei immor- 
tal memoria. As matérias íTiais importantes à^ Monar- 
quia confultava com a Rainha Dona Luiza , porque re' 
conhecia no feu difcurfo fcberana intelligencis , e era o 
íeu peito o centro do íegredo : virtudes que tendo por 
bafe hum efpirito varonil, que transluzia pelo veo de hum 
Régio fsmblante muito decorofamente agradável a collo. 
cáraó viva na eftimaçaõ Ide todo o mundo , morta entra 
as luzes da melhor esfera : porque combatida das calum- 
nias , e apuradíi nos imfortumos fuube reinar para ven- 
ces 



I 



FAME 1. LIVRO V. 291 

cer, e vercer para reirar, ccno a úu ten pc largsnerte 
ief«.ii5a a it ^lir.dii psrte âe{\d hificria. Frarciíco de Luce* AiinO 
ra Stcietariu de tfisdo era dos Miniíírcs de que ElRey ^ 
fa^ia nicretida elHrraçcÕ : porque alem de iruitas noti- . ^^"^ ' 
cias, e de grsrdts experiências , Icgravâ entendirtierto ^/^J^y^^^^J ' 
isgaz , e íí gatidade que foy mais útil para as matérias da- wais unfanca, 
qutiie ttn po , que picveitcla para a íua corfervsçaõ. 
De AiitcDic Paes Viegas, artigo, e fideliíFno Secieta- 
taric da Cala de Bragança , fiava ÉIRey os maiores negó- 
cios i e porque era impedido da gota , o m^andava levat 
ao Pac^o em hurra cadeira. Com entendim.ento , e zelo 
£cor,(e]hava a E.lRty , e lhe inculcava para os Poílcs es 
icgeUcs de mcior cap&cidede. tfíes eraõ os que familiar* 
iritiue trataví:õ com hlRey. Entre es mais preferis com 
graride acerto o Arcebifpo de Lisboa, e o Capellacmót 
Uom Álvaro da Coita : r.eíle fobrava a deftreza , raquel- 
le a finceridade. Também* favorecia ElRey ao Virconde 
Dom Lourenc^o de Lima, a Dom Manoel da Cunha Bif- 
po de Elvas, e a Joaó Rodrigues de Sá Conde de Pena- 
guião feu Cam.ereiro mor. Outros fe forsô introduzindo , 
de que fe daiá noticia em íeu It^g^r. A mudarça do gover- 
no havia gerado no corpo da Republica differentes humo- 
res , os quaes com-batendo a ncíureza dos negócios , ho. 
ra Cl bons a fcrtaleciaõ , hora o« máos a debilitavaõ, di* 
vertio EiRcy efles laíliff ofím.ente com. a defcarga do ían» 
gue, coroborcu aquelles com a igualdade do alimerto: 
mas forsõ taõ cuítoíos es meioj de chegar ao fim da íaude 
per tendida , que merece a rrarraçaÕ delles obfervaçaõ par- 
ticular. 

Retirada no dia da acclsmsçao d*ElRey para os 
Pecos de Xabregas < Piinceza Dtna íviargarida dd Aufíria 
Duqueza de Martua , que governava eíles Reinos, a 
pfcílaraõ para o Ccnverto de Santos , ccir-o fica referido , 
eritendenoL-fe que fic&va r.fqielle fitio cem menci íuf- 
peiías de ft n trtarosarip 05 duvidoloí, e íegurar 05 que 
íeguiaõ a facete de C&AtlIaj porque eííardo alojsdrsno 
ir.elmo Paço c Msrqiez de h Pueblí» , e c Corde Esine- 
to Cavíhaiiço naicr dp Diqntzs cresci; ó aí prefi^r^p- 
^ces de íe ccinirtULicarcm com n^uitas ptííoas em grande 

prs- 



292 PORTUGAL 'RESTAURADO, 

prejuízo do novo governo; porém com toda eftacâutelá 
ÀnílO ^^^ cefiárao as pecíoaroen?» de que a airiilencia da Du- 
quezaera perigofa confiança dos fequazesd^Caítella. Dif- 
curfjvaó alguns Miniílros , qu2 a Duqueza naõ fervia etn 



1641, 



T>ijc!irhs acer- p^rti^pr^i j^^is que de inquietar os ânimos , e fomentar 
dtMíintiL. lediçoens» e que íe raz5a com o íeu iuttento conlideravel 
difpeza : por cuios reípaltos convinha bufcar meio, pa- 
ra que ella foííe quem pediíTe licença para pafíar a Caf- 
tella , infinuando'íe*ihe , que fe lhe naõ havia de negar, 
e que com a fua Uberdade fe confeguida foliarem em 
Caítella alguns Portuguezes , que cítavaó prezo? com 
grande molellia. Davaô por author delia pratica a Fran- 
cifco de Lucena , dizsndo-lhe , que por eíl^ feCoeito que- 
ria grangr-ar a liberdade de íeu rilho prezo com apsrto em 
Madrid i e naõ eraó os qus faziaõ eíie difcarfo máos pa- 
ra teílimunhas da fua def jza , quando dspois o prende- 
ra»! : porque eílando elle g.inhado por Gattella , naõ ne- 
cellitava de induílria para a liberdade de feu rilho. 0$ que 
encontravaó a opinião de iz mandar a Duqueza pr^raCa- 
llella diziaõ » que perdiaraoií o maior penhor da Uberda- 
de do Infante Dom Duarte ; porque ElRey d^ Ca'le)la, 
quando naõ foíls mais que por reputação , como conílat^a 
dê varias cartas do iiífante efciitas a ElRey ♦ lhe convi- 
nha procurar V5? livrs da prizao , que padecia par íeu 
ref peito, a Duqueza de Mantua , pedoa em qaem con- 
corriaõ toda» as prerogativai da grandeza ; e que eslanio 
ella dentro do Convento de Santos , facilmente fe lhe po- 
deria evitar a corrimunicaç -ó de Gaílelhanos , e Portu- 
guezes ; e quanto ao diipen Jio • naÓ era vazaó , que lem- 
braíle , eftando de permeio confideraçoens de tantas con- 
fequencias. Eita variedade de oplnioens fazia duvidar a 
ElR«y da refoluçaõ , q^ie havia de tomar neíta matéria : 
porém fuccedendo , íem fer neceííario outra diligencia, 
mandar a Duqueza pedir a ElRey com grande inílancia li- 
cença para paííar a Madrid , e achando a Rainha por me- 
dianeira da fua liberdade , ou por compaixão , ou por po- 
"CH là ElRey ^^^^^^ « veio ElRey a tomar a refoluçaó menos convenien-, 
lice"* d £)1 te , q'ie fcry a de lhe conceder a licença , que p^dia , e 
g;<í«. juntamente de poder mandar a Madrid Dom P^ídro da Mo- 

ta 



VARTE 1, LIVRO V. 295 

ta Sarmento, feu Mordomo » que levou cartas sbertas da 
Duqueza para ElRey Catholico.e para o Conde de Oliva» A DUO 
rcs , que continhíiõ noticia da liberdade , que le lhe per- tá^^t 
irfttia. Porém antes que voltaflerefpoíta deitas cartas , f e ^ * 

defcobiiraô as confpiraçoeas cortra ElRey, de que lego 
daremos noticia; fucceílo, que esforçou a opinÍ£Õ de man- 
dar a Duqueza para Caftella, avaliandca por ítthorade 
todas as revoluçoens. Aílentada efís determinaçEÕ , m&n. 
dou ElRey dizer á Duqueza, que íe prevcniííe patapaf- 
far a Madrid : replicou ella, dizendo, que partiria quan- 
do lhe chegaííe refpoí!a da carta , que havia efcrito a El- 
Rey Catholico. A repugnância a fez mais fufpeltofa com 
os que fomentavaõ a íua jornada , dos quaes perfuadido 
ElRey , lhe ordenou , que íem replica fe preveniíTe para ParteaTiuíiui» 
partir. Obedeceo a Duqueza , e partio com a lua familia z.a. 
acompanhada de Luiz Gomes de Bafto , Corregedor do 
Crime de Lisboa , e do Juiz do Crime , Simsõ de Oliveira 
da Cofta. Chegou a Elvas , e achou duas legoas da Cida? 
de , que a aguardava Martim Afibnfo de Mello, Gover- 
nador das Armas, com a Cavallaria , Officiaes, e peíToas 
paríiculsres , que fe achavaõ naquella Praça. Naõ lhes fe^ 
a differença do tempo mudar de eílylo , tratando a Duque- 
za com o meímo refpeito, e ceremonia , que lhe rendiaõ 
quando governava. Inftou ella , pedindo que fe cobriflem 
quando lhe falavsõ , naÕ confeguio mudança com o feu 
rogo , muito á fatisfaçaô do feu levantado eípirito , que 
fe naô havia abatido com os infortúnios. Apeou'fe no 
Convento dos Religiofos de Saõ Paulo fora dos muros de 
Elvas, onde lhe prevenirão spoíento , nsõ íe fiando de 
hoípedes taõ fulpeitofos: porém a oílentsçaõ , e os re- 
galos diíTimuláraõ a defconfíânça. No dia feguiníe che- 
gou a Eivas o Ouvidor de Villa-Viqofa com ordem d'El- 
Rey para examinar o fato da Duqueza. Executcu'fe cen- 
tra o parecer de Martim AíFonfo de Mello > e achando» 
fe que levava muito pouco cabedal, principal csufa ( co- 
mo fe entendeo) daquella diligencia, ficcu eíla scçaõ 
mais defairofa. Qu^z a Duqueza reíeivnr huns pf peis , 
que diíVe ferem cartas do Pontifice, d'F)Rey Catholico , 
c de feu marido i inítou o Ouvidor indiAretaircnte que 

era 



h 



294 P01{TUQAL 'i{ESTAUE.ADO , 



I04Í. Ouvidor j e EVik^y íabando-o íVdeo por mal feivido, e 
peiof aconíelnado e.n o inandir áqueíla diligea»;ia. Def- 
p2dio a Dj^ueza h.urn criado a Btdajoz a negociar com o 
Condi ds Monte-Rey asbagjgaas neceílariâi para o feu 
fato : ajuílou-íe que ua ponte de Caia fe mudaíí<2 das em, 
que hi3 de Portugal para as de CalleUa. Partio a Da4up.- 
za» e querendo os doui Miniílros de juftiça que a acompa- 
nhavaó , que o íeu fato pagaíle direitos na Alfandega , o 
naõ confentio M^riiri Aff-bnío de Mello , e íe obrigou ei- 
le, e Dom Joaô da Cafta á íatisfaçao do dinheiro que icn* 
portaííe: porèn ElRey ordsnou que íe naõ falaíle ne(ta 
chesa]aBada'n\3itQni. ADjqueza partio para Bidajoz acompanhada 
joz. de Martim àfíbaío de Mello, e de todos 0$ mais que fe 

acha'raõ naqueiia parte t ce lando por aquelle dia as holti- 
lidades da Campaaha. Dc2(pedio-íe a Duqueza mais obri- 
gada da cortesia dos SoldaJos , que do trato dos Corte- 
zaoai , naõ deixando ep Portugal queixoío? do f^ií go* 
verno ; porque com grande entendimento , e generofida- 
de havia eacoatrado as defordens , e infuUosdo; iMiaifcros 
deCafteiía. 

Apreílou a jornada da Duqueza de Mantua , ( co. 
mo ja diilí lios ) defcòrir EiRey a confpiraçaõ dos qui 
intent !Vao tirar-lh;; a vida , e so Reino a liberdade. Ni5 
era de todo averiguada eíta matéria , quuido Eliley fe re- 
íolveo a manJaiia , e com as primeiras luzes delia entea- 
deo ElRsy, qu:í a airiitíacia da Duqujza fervia de incen- 
., . . , tivo ao dâbrdena do intento dos conípiraio?. Foy D. Se- 
f4/^rlt'?5:baíliaÔ d. mtoi de Noronha Arcehiípo de Braga o pri- 
tr* lilRey. raeíro que fabricou efta infelice refoluqao , querendo pa- 
gar a EíRty Catholico os benefícios que havia recebido da* 
quella Coroa, e comprar com perpetuo difcredito o lou- 
vor appareate de agradecido. Era comporto de entendimen- 
to fag^z , e de a ai no intrépido , e fabii com a liberalida- 
de facilitar as fuás opiniões. Q^nndo ElRey fe acclamoa 
exercitavj aoccupaçaô de Prefidinte do Paço , como aci- 
ma refjfiínoi. R;?ceafos os que acclamáraõ ElRey do feu 

efpi- 



TJiRlE i. LlVff) F., 295 

efpirito ; eda inclirrçaõ I que moflrava íosintereíles de 
CaítcUa , intentarão rratallo \ de que (e difluadiraóo oia A TOO 
antecedente ao da acclanneçaõ » parecendo'lhe melhor ,/; .* 
acordo cbrigallo com btneficios,* politica ,cujo íucceflo 4 • 
depende dos ânimos em que fe emprega. Elegerão o Arce- 
biípo por hum dos Governadores do Reino em quanto 
ElRey l"e dilatava , como também fica apontado : quando 
ElRey chegou lhe fez tantos favores , que, a íer menos 
obítinado o íeu animo , baílaiaÕ para grangeallo , haven- 
do também lido as inteiceííoens d'E]Rey poucos tempos 
antes em Madrid cauía das iuas melhoras , quando de 
Biípo de Elvas paíTou a Arcebilpo de Brsga. Eíquecido 
pois das obrigaçoens paíTadas , e dos benefícios preíentes , 
ou por afíeiçaõ á Coroa de Callella , ou por duvidar da 
ccniervaçaõ de Portugal, íe refolveo o Arcebifpo a fec 
Dom Oppas Lufitano , raó fe lembrando do Biípo de Lisr 
boa Dom Martinho , que ecn tempo d'ElRey Dom Joaô 
primeiro foy ftm culpa na fua própria Igreja emprego la- 
fíirr oío da irá das íuas mefmas ovelhas , que podem cega- 
irente fazer're vorazes com osdefconcertos de hum mio 
Paílor. O primeiro caminho » que o Arcebifpo buícou pa- HeauihoriJf., 
ra a difpofiçaõ do íeu defordenado intento , foy introdu» (dit^oiymaz^ 
zir r gs peílodS , que lhe pareciaõ difpollas ou por quei? 
xa do novo governo, ou por dependências deCaílelIa, a 
pcLca legurança da nova Monarquia , dizendo : que con- 
tendia fem forças contra o poder d ElRey CathoUco, for- 
midável a todo o mundo i que os Exércitos, e Armadas 
dcsCaOelhanos havi.-iÕ de encher os campos, epovoaros 
mares; que a defenfa de Portugal por todos 0$ caminhos 
fe m.oftrava im.poílivel , porque a* ordens d'ElRey , e de 
feos Minift^os todas ertó ccnfufas , e a execuçsõ dellcs 
como as ordens •, que as fronteiras efíavaõ abertas , nos 
Cabos das Províncias naô havia mais que o rome , e nos 
Soldados fó a spparencia : de que cia fácil tirar por con- 
cUifaõ , qu^ brevemente feriaõ Isflimofo efpeíflsculo as 
cabeçaç òos que barbaramente íeguiilem a incerteza do no; 
vo goveino. 

A primeira peíToa a que perfuadio eíía cavilofa ^^urta-fe-iheo 
pratica foy ao Marquez de Villa Real Dcm Luiz de ^'^'^9^*^ à^ 
~ ~' — " " ' "" ' Me- ^''"''^i^'!- 



cultos 



T)6 PORTUGAL I^ESTAURJDO , 

Men2Z3S , a queoi eu mudara o nome , íe na5 faltara á 
Anno verdads da liiítoria. Eílava em Leiria quando ElRey foy 
/ gcclamado , e naô is lhe havia íiado anticipadainente efta 

T" noticia, porque o feu talento nsõ havia graogeado tan- 
to creJito , como merecia o feu eíclarecido fangue. Era 
o Marquez facii de perfuadir , e difiicil em diícuríar ; pe- 
iietrouo a doutrina artiíicioía do Arcebifpo , entrcgouíe* 
lhe, e deixou-lhe na diípofiçao o (eu alvedrio. CoíTi:-nu- 
rJcou s íeu filho Dom Miguel de Noronha Duque de Ca- 
minha a fui deliberação , o qual com mais valor, enaõ 
melhor fortuna contradiíle a feu pay o cego intento , a 
que íe arrojava , letnbraodclhe o juramento a que eíla- 
vaô obrigado?^ , e quanto melhor feria perder a vida de» 
fendendo s liberdade da Pátria , que coníervar a Gafa r.o 
per^ia^-eo Ar- J^felice caíiveiro de CaíteJIa. Ferfuadio taíiibeni o Arce- 
lebtjpoo cjnie bifpo 3 feu fobrinho Ruj de Matos de Noronha, primei- 
de winii:i?iíar,e to Condc de Armamaf , fendo fáceis de enganar as fuás 
poucas experiências % e communicou o dcíordenado inten- 
to , que hávia abraçado , com outras peiloas da primeira, 
e íegunda qualidade, cujos nomes referiremos quando 
dermos conta das prizoens de todos os culpados. Deíejs- 
va o Arcebiípo dar noticia a ElRey Catbolico da tea que 
hia ordindo , cuílando-lhe grande cuidado nao ter refpo- 
íia de huma carta , que lhe havia efcrito por D. Joaõ Soa- 
rts, de cuja reíoluçáõ teve noticia quando fepaíFou para 
Caíbella, na qual íe dífculpava de aceitar o Governo, e 
cooperar nas diligencias de íe reduzirem os Lugares do 
Reino, firmando as cartas eícriías a eiie fim. Por fe livrar 
do embaraço que |í)âdgcia la refolveo a mandar a Gaitei- 
la hum homem , chamado Manoel Valente ♦ Efcílvso da 
Tabola de Setúbal ; e naõ podendo ajuilar com Manoel 
Valente efta jornada tao brevemente como pretendia , 
determinou mandar Diogo de Brito Nabo ;^ porem antes 
que o confeguiífe fe deícobrio a conjuração. Hun.ia das 
pefloas de que o Arccbiípo uzava para o fim que preten- 
dia, era Melchior Corrêa da Franca , ao qual havia nego- 
ciado Diogo Soâces a mercê do Habito de Chrifto , e a 
Patente d í MíO:rí de Caupo de hum Terço, que havia 
de levantar em Portugal, pago com o dinheiro qus re- 

iultan e 



FJETE I. LIFV^O V. 297 

fu't2ÍTe í?3 venda doa Hábitos daf Ties Oídens . e feros 
de Fidalgo? , para c^vx\ t£n beir^ tii ha tiô^ido ordens de AílTiO 
Caíttll?. Vendo cem a cccicn í qaõ di iRty deívínccida ./.r 
a comiTiifíaõ ,e divertido opcfío. detciR irou f tílsr a Ca- ^ 4 • 
ílella em companhia r"e Diogo de Briío Níbo, tanhem 
dependente daquelle Govtrno. Por alguâs circunrsllancias 
que naõ puderaõ diíTm ular fe defcobno eíte intento dos 
dois referidos : roandou ElRey prendellojí, e, naô haven- 
do baííante prova do íeu delido , foraó logo foltos. Eíla 
piedade que puJéra íervií'lhcs de arrependimento lhes 
accrecentou a corfiar.ça, e íe cííere^èrâó ao Arctbiípo 
(o qual \\v:,% cofDmunicou o ͣU intento) a accrccentar o 
iiumero dos conjurados. O piimeiro em qiie teve effeito 
a lua diligencia foy Pedro de B^eça Thefoureiro da Al- 
fandega » e homcai de negocio i períuí^dico Melchior 
Corrêa affirmando-lhe contra a verdade, que paílava6 
de itiil os qie er-tiâvsó na c< nji rr^5õ. Fí^ liou Pedro de 
B.ie(,'a por interven^-^aò de Melchior Corrêa com o Mar- 
quez de Vil!a*Re<il \ reíT>ttíeo»o o ?4ajquez ao Arcebif» 
po , que aíFi ília ecn huma quinta fora de Lisboa junto a 
Molia Senhora da Luz , rec^beo-o ello com rruitos lou- 
vores , e grandes proír.eíias , e depois de vsrias confereti» 
cias aíiiríriou Pedro de Baeça ao /'rcebifpo , que, unidos 
os feos cabf daes aos de Diogo Rodrigo de Lijboa , e Si- 
mão de Souía também contrr-tadores , governados pela 
Í!}a direcção , entregaria a fua ord^m hunV miih«,ô, e tre- 
zentos mil cruzidoii porém a pfcmeíTa era coní pouco 
fundamento , por naõ fereín taõ gf( íto; os cfbedaes dos 
três, nem os ânimos dos dois taõ íeguro'. Encaminha- 
das eftas difpofiçoens pelo Arccbifpo ,"e defejoío de aug» 
mentar outras para adiantar a execuíjsÕ, schou com -^n- 
ior preíla o caíiigo da íua temeridade . potqug Ped-o oe 
Baeça tanto que íe ?partcu do ArcebifDo fcy bulcar luxT, 
Pereira de Barros Coníacor da F.senda, o quf.l h?vi- fi- 
do obrigado a Miguel de Vafconcellcs ; e a» g.uido de quG 
efcrevia aCaft2l)a,o tinha ElRey mandado prender , e 
foltar junramente em breve? diaj , por juílificar a fu.~ in« 
nocencia. julgando Pedro de Baça per bèíhnres eftaa 
Cicias para o f&zer piuc^al dí4 cci-juraçaô, íe decisrou 

cem 



apS PORTUGAL RESTAURADO , 

com elle, fácil itando*lhe a certeza de matar a ElRíy, e 
Anno ^s reítituir o Reino a Gaíleila com os foccorros , que 
^^ ElRey Gatholico havia de mandar íem falta por terra , e 

_ *^^* por mar, elsgurou'lhe que eraõ oitenta os Fidalgos cone 
jurados, e mais de quinhentas as peíloas de outras quili. 
dades i perfuadindo-o a ter parte em taõ grande em preza , 
com intereíles , que híviaó de reíultar delia aos que a con- 
feguiílem. Dividira5*íe os djus i moílran do Luiz Perei- 
ra que ficava períuadido ; porém , paífados oito dias , fe 
refoiveo a dar conta a ElRey da conjuração , e querend^ 
efpecular primeiro todos os fundamentos deíla maquina i 
foy bufcar Pedro de Baeça , e lhe diíTe , que elle hjvia 
coníiderado o que lhe ouvira referir , e que achava a em- 
preza taõ grande , que fe naõ reíolvia a entrar nella íem 
íaber os nomes dos conjurados , e como determinavaõ 
difpor o que emprendiaô. Refpondeo-Jhe , que os cun- 
jurados eraõ o Marquez de ViUa Real , feu íiilio o Duque 
de Caminha , o Inquifidor Geral , o Conde de Armamar , 
Dom Agoílínho Manoel , e outras multas peííoas ; qi!2 
a ordem , e o modo da execução fe efperava de Madrid, 
donde fabia que íe havia promettido hum grande Ex* 
ercitõ, com que o Conde de Monte' Rey havia de en- 
trar porAlemtejo, e huma Armada, que no dia da ex- 
ecução fe havia de achar na barra de Lisboa, e que íe 
elle quizeíle fallar com o Arcebiípo de Braga, que elle 
o acompanharia , e que íendo-lhe neceíTario dinheiro para 
perluadlr algumas peííoas mandaria contar todo o que lhe 

pediíle. 

Havendo Luiz Pereira colhido as noticias , que 

defejava, íe deípedio de Pedro d<í Baeçi , e íem inter- 

ZiíU Pereira de por dilaçaó, fc foy ao Paço ; fallou a ElRey, e deo-lhe 

Barros deico^ couta aífim da primeira como da íeganda conferencia , que 

t'\!!rfrfP "" havia tido com Pedro de Baeça , e de todas ascircumílan- 

cias acima declaradas. Ordenou*lhe ElRey ♦ que foííe a 

caía de António Paes Viegas , e que lhe referlíTe por efcri- 

to tudo quanto lhe havia repetido. AíTiai o execucou Lui^s 

Pereira, e remunerou ElRey a fua fidelidade com huraa 

grande Comenda. Foy eíla primeira noticia , que EJRey 

tev3 da conjuração, e com slia accrecentou a vigila :cia, 

tra- 



cenjuraçAOé 



TJRTE 1. LIVRO V. 299 

tratando de examinar mais jurídicos fundamento?. Dentro 
de breves dias conleguio elce intento na confiilaô de Mí?- A nilD 
noal da Silva Maícarenhas natural do Torrão, e aíli» ^r aj 
ftente em Lisboa , o qual achando*í'e Iiuma tarde em "^^^ ' 
noíla Senhora da Luz , o veio huícar Mano;^! de Varccm- 
ceilos , com quem havia da poucos ttjmpoá antes tra- 
vado amizade , e difcorrendo amb^os do eftado do P^eino 
]he dille Manoel de Vafconcellos , que era infallivel ve- 
rem Portugal em poucos niezes conquiílado do poder for- 
midável cTe Gaítelia \ porque elle reconhecia a debilidade 
da noíla defenía com mais circumíl:ancias que outra algu- 
ma psíloa , por haver chegado de Elvas de aíFiítir ao 
Conde do Vimioío , e íervir-lhe de Secretario; e que 
por eíla, e outras caufas rauito relevantes naõ faltavaõ 
iTiUitiS pelloasi de grande qualidade , e entendimento , 
que eTtavaõ reíoUiias a atalhar o cafligo que a todos 
aire^açava , executando as maiores finezas pelo íerviço 
d'h'.!iley Cathoiico , e ultin^amentc lhe declarou tudo 
quanto os coniurados haviaõ conferido. Naõ quiz Manoel TldeUdade d^ 
da Silva, com maior amigo, e melhor acordo, uzar de Manoddasih. 
diilimulaqaô alguma: «íxtranhou a Manoel de Vafconcel- '^^* 
loè com gfanwííiefficacia a propoíiç-ao que lhe havia feito, 
e animsndo'0 á contiança da defenía do Reino , lhe diíle , 
que fe refolveíle a hirem logo dar conta a lilRey do pe- 
rigo A que eílava expofto. Sobrefaltado, e temero-o íeex- 
ciiíava Manoel de Vaíconcellos : poièm obrigado do re- 
ceio dco permilTaó a Manoel d^ Silva , para que logo fof- 
íe avizar a FJRey di parte de ambov. Naõ tardou Ma- 
neei G3 Silva na diligencia, porém nao podendo falar a 
FJRey com a preíTa quedefejava , impaciente da dilsçio 
foy bulcar o Conde do Vimioío a íua caía, o qual havia 
cheirado naqoelle tempo ds Alemtejo deíobrigado do 
Pofto, e dervlhe conta d^ quinto havia paliado com Ma- 
roe! de Vafconceilos. Louvo J'rne muito o Conde afine- 
í^2, e o zs!o, e avaliardo poT grande fortuna oiterecer- -dà conta o,Cc.^ 
íe-lhe occallaõ de moílrar a EiRey á fua conílancia , e íi- ^« ^^ r/;.'/5/í> 
Gciidade , quando padecia os raatores pggravos , foy ao ** ^^^'^'J' 
Paço, e commuo'cou a ElRey tcda cita matéria. Orde- 
noL-lhe BlRcy que aquella rodma noite lev^ííe comfl- 
To n. I. T ro 



1041 



?oo FO?^.TUGAL RE ST AU t Ano, 

go a fallar-lhe a Manoel da Siiva , e a Manoel de Vafcoit- 
Anno cellos. Na5 dilatou muito eíta ordem , e foy ds qualida- 
de a diígraça do Arcebiípo, e dos mais conjurados, que 
^' nem foub^raõ que Manoel da Silva deiccbrira o leu in- 
tento , nem Manoel de Vafconcellos , eítí-ndo ganhado 
da negociação do Arcebiípo , lhe com rr» único u o n)áo íuc- 
çefío que tivera coíT: Mi^noel da Silva a lua diligencia : 
porque com huma , ou outra noticia poderá dei vanecer 
faciloaente os indicios que calumniavaõ a ÍLa fidelidade. 
E taó claramente perir.ittio Deos, que eíte Íucc-Oo foíle 
encoberto ao Arcebiípo , que cego do leu dehdto , vifi- 
tando-o o Condedo Vimioío, fe deliberou a tentar o íea 
^^!L^tf.^^"l fídeliffimo animo, prefumlndo que o Conde queixoíò 

ao Conde q>e j n li r- r> • ^ i- ,- 

fale ao Aree- "O sggravo de hie haver EtRey íirado iem cauiaogo- 
ilfpo. verno da^ Armpp de iilerr.tejo, ia arrojaria a entrar no 

numero dos coniurados. Reíoluto nefte delirio fez ao 
Defcobre-iha Coude hij'T?a larga oraçaó , e oítentou nella todâs a« 'ieas 
fonjtirafAó, acima daclara-JÍas. Repetio os norr.es dosconjuri^c $, e 
accrecentou outros que o naõ^eraõ-, cavillaçaõ , que em 
grande prejuízo de fua confciencia fez prender muitas 
pellbas íem culpa. O Conde reípsitando a Dignidade , e 
os annos do Arcebiípo , e o damno que reúiltaria a tao 
grave negocio de qualquer demonltraqaó que íizeííe, re» 
priroio a juíta cólera que lhe cauíou taõ abominável pra- 
tica , e com palavras geraes feparou a converíaçaó , e foy 
Jogo dar ccnta a ElRey de tudo o que havia paííadocom ^ 
o Arcebifpo ; e conferida a reíoluçaõ que havia de tomar 
em negocio taõ árduo, e de taõ relevantes coníequen- 
ciss, achavaõ'fe por todas as partes grandes difículdades 
DifiiculâatJesq ouQ vcncer , pof íereiu ai peíloas nomeada* na con iura- 
£/:{£3^^cff»/$í^í. Ç25 (g5 apajgntadas , e de tanta qualidade, que quaíito- 
ra^ nsjie nego- j^^ ^^ ^^^^ forçofamente haviaõ de cooperar nas prizoens 
podiaó fer contados coroo partes dos que fe haviaõ de pren- 
der , e onde ps ríiizes eraõ taô poucas , podia*íe recear a 
menor tempeítade. O corrçaó d*FJRey ornava-fe de gran- 
de valor, porém deixava*íe perfuadir dos di^curfos bem 
fimdados , e aíTim ainda que deíejava livrar'íe do cuida- 
do com a execuç.íõ , vencia-o a prudência , reconhecen- 
do as diíficulclades da empreza. Huí» dos reparos que mais 

o era- 



I 



TJRTE J. LIFRO V. 501 

ó embaraçavas» era fer^lhe forçoío moílrar ao mundo, 
que havia Vaílallos nofeu Reino taõ cegamente precipi- Ann© 
tsdos, que íe relolviaõ a trocar a gloria cie fe defenderem ^( aj 
dos Caftelhanos pela tyrannia do íeu governo. Conti- iiJ4í- 
nuando em EiPvey a p::i-plexid3do » dcauaciáraõ de Pedro 
de Baeça huns criados feos , dizendo , que elle maquina- 
va contra a confervaçaõ do Reino com Melchior Corrêa 
da Fr..nca , e Díoíto de Brito Nsbo. Tomado judicial- 
mente: eíle depoimento , e concordando com a conliílaõ 
de Luiz í^ereirade Barros, íe refolveo ElRey a mandar p^/^^,^^/^-, 
prender os três denunciados , eíperando que reíultaíTe da cúmplices ydc\ 
íua declaração maior fundamento contra os coní pirados re/w/r^? pr^r* 
de mais altaesféra. Foraõ prezes os três , e poitos a ror» ^'*'*" ^''-'''** 
iTjento t Jevou Pedro de Baeça os tratos fem confeilar o 
delidlo, íoíí>eraô'OS oj dous com menos conllancia i c 
concordou a íua confiiTaó com quafi todos os indícios an« 
tecedentes. Vendo hlRey tantas evidencias julgou , qus 
era precizo tomar neíla matéria a ultima refoluçaô , para 
ous novS culpados com a diífimulaçaõ fe naõ augmentaíie a 
ouladia , e para que o caíligo folie freio dos que vacillâa 
vaõ , e alento dos que o defendiaõ. 

Eícoliiido efte difcurfo pelo mais acertado , no 
dia f|ue lecontavaõ 28 de Julho, mandou que os quatro ^''^^*»F'''3r 
Terços da Ordenança fe formaíTem nns praças principaes ^Znmi's7èn' 
da Cidade , advertindo que determinava fahir a vellos;«r«í/es. 
exercitar. Deo"le recado a toda a Nobreza , para que 
vieííe aqueila tarde , que era Domingo, ao Paço a scom- 
panhar a ElRey , e juntamente íe fez avizo aos Coníe- 
iheiros de Eít do , psra que todos ás três horas depois do 
meio dia íe âchaílem no Confelho. O Marquez de Villa 
Real aíTuííado das prizoens de Pedro de Bseça , Mt*Ichioc 
Corrêa, e Diogo de Brito, e admoeílado de feu filho, 
ou arrependido do feu errado intento , diíl-e a ElRey, fa- 
hindo aquelia meíma manbaa de ouvir MiíTa ng tribnna j 
que o Zíio com que fe dedicava ao feu íerviço mo f< ífria 
di^açoens , que tinha matéria iruito importante qne lhe 
commi:nicar. ElRey fem n oítrar a menor pertuíbrçaõ 
]he refpondeo, que vieíTe á$ trea horas ao Coníe ho de 
títj^do. Aí^m o executou o ^^crc,usz , e lubindo a ef:a- 

T 2 da 



302 PORTUGAL RESTAURADO, 

da do Paço achou o Porteiro mór Luiz da Mello que o en- 
ÍAnrio caminhou a hum apoíento, onde eftava Ihon.éde Sou» 
, ia , o qual tanto que o Marquez entrou lhe diíle , que 

lí>4^» KlRsy lhe ordenava que o prendeíie. Perturbado, e icm 
replica lhe entregou a efpada. Na mefma forma prendeo 
Preniem'(e o ep,^ outro spoíenío 20 Arccbiípo de Braga , D.Rodrigo 
Phu'r'Ii ^\ ^^ Menezes íilho íegundo do Conde de Cantanhede , iia- 
ArcíhUpó^âl quelle tempo Deteaibargador do Paço. Dom Pedro de 
:Bragíi,<; outros. Menszes , qui fuy Biípo elíito do Porto , prendeo pelo 
nefmo eílylo ao Bifpo Inquifidor geral. A ordem de pren- 
der ao Duque de Caminha íe deo a Pedro de Mendoca , 
e António de Saldanha : aí^uardáraó elles que o Duque 
chegaíle ás efcadas do Paço, e antes que le apeafle , fe 
meíerso com elle no roefmo coche era que vinha , eo 
leváraÓ á Torre de Belém , de que era Capitão mór An- 
tónio de Saldanha. Para a mefma hora tinhaõ as Juíliçay ,^ 
e alguns Fidalgos variai ordens , que executarão , pren- 
dendo a Nuno de Mendoça Conde de Vai deReyi, ea 
Lourenço Pires de Carvalho na Torre de Belém '. para a 
de S2Ó Filippe de Setúbal foy kvado Dom António de 
'>ltaide Conde da Caílanheifa, para a de Outaõ Goníalo 
Pires de Carvalho \ na Torre de Cafcaes foy prezo Antó- 
nio de Mendoça Commiílario da Cruzada , e no Caftello 
de Lisboa Ruy de Matos de Noronha Conde de Arma- 
mar : no Convento de Belém , paílando depois para a 
Toire , Frey Luiz de Mello Religioío de Santo Agoftinho> 
Bifpo eleito de Malaca : nas Ga.ieas do Limoeiro prendé- 
laõ a Paulo de Carvalho Vereidor da Camera , e a ícu 
irmão SebaílifcÕ de Carvalho ambos Defemhargado^es da 
Caía da Supplicaçaõ , Luiz de Abreu de Freitas Efcrivaõ 
da Camera d ElRey , Jorge Fernandes de Elvas, que pou- 
cos dÍ3S antííji íe Jiavia poífado de Caftella a elle Reiao , 
Diogo Rodrigo de Lisb>a, Jorge Gomes Alemo íeu íilho» 
e Simsô de Souía Serrão , todos três homens de nego- 
cio de groíTos cabcdaes , Chriííovaó Cogominho guarda 
iTíór da ToTe do Tombo , JManoel Valente Efcrivsõ da 
Tavola de Setúbal , António Corrêa Official maior da Se- 
cretaria de Eítado. No dia feguintft prenderão no Limoei- 
10 a Doíu Agofcialio Manoel , e dg camiaho de Coim- 
bra 



' PJ-RJE 1. LW%0 V. 'joj 

bra para Braga, trouxerao prezo á Torre de Bslem o Bil- 

po dt; Mariyria Dom Francifco de Faria , que havia fido AnnO 

creado do Arcebiípo de Braga. Tendo tlRey avizo que j^^^» 

ts prizoens acima ref-ridas eílavao executadas , íahio ^ * 

com femblante trilb, e l^vero a huma cala, onde o 

aguardava toda a Nobreza da Corte , á qual manifeilou o 

lentimeato com que íe acliava, de o obrigarem os intenr 

tos dos conjurados á reíolucaò que contra elles tomara , ^ „ ^.. , 

rr * ^ -. 1 r r Valia ElRef « 

e que mgsnuamente aíiirmava , que tratar da lua leguran- ^oi,f.ez.a, 
Ça era mais que amor da vida , a 'nor de íeos Vaílaílos t 
porque íe o haviaÔ baleado para de^enCa , e liberdade 
própria, destruída a ciufa, perigivao fem duvida os ef- 
fcitos ; e que com ísni mo igual , riaõ eilando de psr msio 
ella obrigTí^aó , el-^g^ra autei a morte , que a peia que 
padecia , v^nd j que era o primeiro Rey de Portugal , con- 
tra cujo decoro d^ícobert.imente prevaricara a íidelidada 
For<ugue'.3 , taô radicada em muitos feculos, que havia^ 
fervido dj exemplo a vários Príncipes, para comprimir; 
e refrear os diiconcertoí de íeos Vailalos : pjrém que 
na diígraça preiente , etcontrava o aliivio de conhecer 
a fineza, e igual cc)r.?çaô dos quí eílav^õ fem cu"pa, de 
cujo vaior íiava a fua iegursnça , e a defeaía do Reino. 
Q^ie os crimes do* prezos , eítiveilem certos , que íe ha- 
■viaõ de exa ninar com todj a exacçaõ j pa:a que o mundo 
conhecelTe oi fundamentos que tivera na relo-uçiõ pre- 
íente , eíparand > que todos expefimentaifem no feu go- 
verno a igu;ild^de de verem nos delidoi caíligo , e nos 
n-ericimentos proísio. Todo aquelle concurfo a que GN 
Rey repítio eilas razoens, lhe refpond>ro em huma íó 
voz a ídtisfav-aõ com que ficava da execuçiõ que naquel- 
le dia fizera: porque he o rumor dos grnniís concuríos 
orador el<).]uentiíIimo , íem formar as pabvtas exprime 
diítindamenre u? aíiedo. Recolheo-íe ElRey, e elpa- 
íhaivJo-íí; pelo Povo a noticia das p:i?;oens, le alterou de Altere-fe oPel 
forte contra a Nobreza , que com diíhculdade fe recolhe- vo contra (>.N9'_ 
raõ a íua c-ifa , oí que eílavao no P.<ço. ^'■*^''' 

Nclte meíiiio dia ma? dou h-Rey a Manoel Lo- 
bo dí Silva que fofie a Fllremoz . onnde ríUítia Mitliias 
de Albuquerque , e qu2 diUimuladamente obíervi^íTe o 
Tom. 1 T 3 tffeito 



iÓ4t» 



jo^ PORTUGAL nESTAVRADO, 

effeito que fazia no feu animo a nova das prizoen* dos 
Anno conjurados , e que fe inforínade em grande íegredo de 
pelToas de maior confiança do íeu procedimento, por- 
que era muito pouca a prova , que havia contra el!a , e 
o feu mericiinento rr>uito grande : conítava ló que o 
Conde do Vi niofo eoai pouca cautela perguntara ao Ar- 
cebiípo de Braga na pi imeiva conferencia que tivera, fa 
entrava na conjuraç õ Matliiás de Albuquerque , iiiferin- 
do-o da correlac^-aò que tinha com o Marquez de Villa- 
Real j e qu^ o Arcebiipo lhe refpondera , que fim entra* 
va, fem ina's motivo que lembrar*lhe i que tinha tm 
Catlelia íeu irmaó Duarte de Albuquerque, e querer o 
Arcebiipo accrecentar fequazesao feu delido, íem repa- 
rar no çnccrgo da fua confciencia. Conítou mais , que de- 
terminavao os conjurados mandar o Bilpo eleito de Mala- 
ca a tentar o animo de Mathias de Albuquerque; ( peque- 
nos indicios para fe proceder contra hum homem tao gran- 
de s e que governava no Reino a Província de ivrals tor- 
ça , e de maior importância.) Manoel Lobo chegou a 
Hxfemôs, e informando^fe levemente do procedimento 
de Mathias de Albuquerque , achou na bocca de íeos ini- 
migos algumas culpas íuppoílas , e com efta noticia, fem 
eíperar por Martim AfTonfode Mello, que hia agover-, 
nar as Armas, como ElRey lhe havia ordenado, dizen- 
do'lhe que, naõ achando ií^diciosbaftantes contra Mathias 
de Albuquerque , aguardafie por Martim /Vfi^bnfo , por- 
que, ficando elle entregue das Armas, ceílavaõ os receios j 
íem 'preceder circumítmcia algufiia delias foy Manoel 
Lobo a cafi de Mathias de Albuquerque , e moílrando-lhe 
Vh^rd^AM' 3 ordem q »s levava d'£íRey para o prender a aceitou com 
^mr^ues toda a reverencia , e Ibcego , e juntamente lhe entregou 

todos os papeis que achou n,is alzibeirís, e as chaves dos 
Eícitoriíis , pata que examinaíle os que eíliveílem nellef. 
Nj meíma noite caminharão os dois para Setúbal em hu- 
ma liteira , padíícendo Mathias de Albuquerque oppro- 
brios nos Lugues por onde paíTava d.iquelles mefmos ho- 
mens , que pela fama d.ís fuás acçnens poucas horas antes 
lhe promettiíiõ triunfos. Tco cegamente governa a fortu- 
na a vida humana 1 Chegando a Setúbal o deixou Manoel 

Lobo 



Prizao lie AU' 



TARTB I. LIVRO V. joy 

Lobo na Torre de Outaõ , onde o perfeguirao de for- 
te as defordenadas vozes do Povo , que íabendo-o El* AnnO 
Rey o mandou mudar para a Torre de Belém. Na de S, • 
Giaó prenderão neftes meímos dias ao Padre jcab da PvSi- '"^ • 
íurreiçaõ , Geral doe Frades Lóios pela a.«fnia preíurnp- 
çaõ. No dia feguinte ao das prizoens, que fe íizeraõ cm 
Lisboa, correo o Arcebiípo delia a Cidade com huma 
Pfociíiaó de Graças , por fe haver defcoberro a conjura- 
ção, que aiieaqava a Portugal a ultima ruína. ElP^ey de- Decreto q ma^t-* 
lejando juíUíicar-íe por todos os caminhos mandou íixar da ElRey i'fil'ih 
Editaes nas portas da Cidade , que continhaõ o grande ^'*''* 
fentitnerito com que havia mandado proceder cootra os 
que eftavaõ prezos, antepondo a faude publica ao feu 
defejo, que era fazer mercê a todos, e que ordenava a 
feos Vaílallos, que com todo o focego aguardaílem a 
rerolu:jiò que fe tomava, legurando a)uítar-fe com as 
obriga :oens da Juftiça ; e que fe contra eíla ordem fe 
levantalíe al^am rumor, ou fuccedeíTe alguma inquie- 
tação, fe daria por mal fervido , e mandaria proceder 
íeveramente contra os authores de qualquer defconcer- 
to. Com efte F.dital fe focegou mais a fúria do Povo, 
que fe havia d-íenfreado de íorte, que fegui^õ com pa« 
lavras defconcertadas os Fidalgos , que pafíav -õ pí:ias 
ruas. Uzou"{e também, para o applacar» da diligencia dos 
Préíx^ 'ores , que exhortavaõ dos púlpitos o Kicego , e 
uniáô moftrando as perigoías coníequencias de eii-eita 
contrario. Mandou El Rey fixar nos lugares públicos íe* 
gundo Editai , em que perdo<iVa o delido a qualquer psf- 
loa , que diante dos juizes apontados deícobriíle a noti- 
cia, que hoiiveiTe tiio da conjurpcaõ. Muitos dos com- 
prehén:{idos fe livrarão do caíHgo comeiie indulto , e ac- 
crecentáraõ a prova aos que depois foraó condemnados. 

Logo que as prizoens fe executarão n^sndou El- 
Rey proceílar as culpas de todas os pr'.:zos. Havia de pre- car(as do Jn- 
ceder a todaí as diligencias fó7.er'ie-lhes pergunta^, •, po- ^«///^cr GciaU 
lém muitos delles as excozá» !o confeílando o delido. 
Foy o primeiro qjefeguio eíte caminho o Irquífidor Ge- 
ral , eícrever.do n E'Rey huma carta , cuja ftbítarcia era; 
Que fiado na benigaidads d'ElB.ey lhe referia tudo o que 

T 4 iia. 



io6 PORTUGAL tESTAimABO , 

havia paíTado da Acclamaçao atéaquella hora, affirmafl^ 
AnnO do que no íeu animo nunca entrara a mais Icve tençaõ de 
\6±\ diíTsrvir a íua Migeílade , e que, havendo quem úUleíte 
^ ^ ' o contrario , era failo , e que ló íe Iheofferecia que en- 
tendendo do Arcebilpo de Braga o deícontentamenta, 
com que vivia, do eítado preiente , e quanto fufpirava pe- 
lo govtríno de CaiíelJa , lhe extranharaõ algumas vezes 
eíla pratica, e a ultima occaliaõ fora Domingo 28 daquel- 
Je mcz de julho : que fe deixara de referir a íua Magefta- 
de o que entendera do Arcebifpo , fora por lhe parrcer que 
aquell s razoens n>ó tinhaõ entidade, nem diípunhaó 
algum íim. Q.i>e de Gonfalo, e Lourenço Hres era muito 
parente, que nunca lhes ouvira mais, que lentimento de 
fe verem ajguns delcoricertos , cora que j erigava a con- 
íeTV3<^aó áo Reino, e queaífirraavaó havclio advertido 
aílim a Sua iVkgeílade. Rematava acarta, que por lhe 
naô permitfirem ir lançar'fe a feos pes fiava aquella car- 
ta de Dom Jorge de Mello , que depois foy Meitre-Sa- 
3a da Rainha. No dia feguinte efcreveo outra carta maif 
larga, em que dava conta a ElRey cooí particularidade 
de diíFerentes occalloens , em que o Arceniípo de Braga 
o quizera períu-idir a que accíamaíTem EJRey de Caítel- 
la » para que dizia haviaõ de achar o Favo promptoi ea 
que mandâílem a Madrid a Frey Manoel de Maceuo , pa- 
ra conferir naquella Corte varias matérias tocantes a elle 
íim » e que juntamente lhe pedira qurzeííeperíuadir á lua 
opinião a Goníalo , e Lourenço Pires por ferem íeos pa- 
rentes: Que deíla commiííaó, e de rodas as mais porpo- 
íiçoens íe havia exculado co ti o Arcehirpo , e que fe ha- 
via faltado em dar conta de 'las a Sua Maeeftade, fora por- 
que as primeiras conferencias haviaó Uiccedido antes que 
Sua Mageílade chegaíTe de Vilia-Viqofa, e a ultima na 
mefma manhãa queo pre^de''aõ. Eita carta enviou o In- 
quifidor Geral a È!Rey pelo Capellaõ raór» e tornando a 
n''andallo chamar pouco eípaço depois de lha ter entre- 
gue efcreveo outra , em que dizia a EiRey , que fazendo 
novo examp na fua memoria , lhe lembrava que o Arce- 
biípo Uic diííera quando faciUtára acclainar o Povo ElRey 
4$ Câíieilâ , que toinariaõ a introduzir a Dyqueza de 



I 



PJRTE J. LIFRO V. 307 

M intua no Govc:rno do Reino , e que ultimamente lhe 
sconlelJiara , que íoíie do parecer na ultima propoítaque AlinQ 
o Secreiaiio tíe EAsdo Francilco de Lucena havia feito ,x.j 
aos Coulelheiros de Eflado ( na qual lhes perguntava da ^ * 
parte de Sua Mageitade íe convinha paliar a íua Real 
Pefloa á fronteira , que era muito conveniente efta jornar 
da» e que buícaíle eUe Inquifidor Geral as razoens mais 
forcjDÍas para a perfuadir , porque na fronteira íe confe- 
guiria mais facilmente darem a morte a Sua Mageítade > 
coj.n pei tci diaõ , e que elle reípondera ao Arcebifpo, 
que o leu parecer havia de íer o contrario, e que neíle 
lentido fizera hum papel, que comn uoicára a Sebaítiaõ 
Ceíar, o qual o cbngara s m.udar decpiniaõ, dizendo- 
Ihe com bom zeio como elle entendia , que convinha m.ui- 
to que Sua Mageítade fone á fronteira , para que o viííem 
íeos Soldados , e para evitar com eíla reíoluçaõ as murmu* 
raçoens que corriaó de que Sua Mageítade íe naô inclina- 
va á gucr a, e que íeguindo elle efte confelho lançara 
outro papel, o qual remettia a Sta Mageítade, porque 
o leVcVa çomlige» o dia que o prenderão , fuppondo que 
era charrado ao Conlelhu de Eftado para votar neíta ma- 
téria. Híla toy a fubítarcia das canas do Inquifidor Geral , 
e íem embc^rgo da coníiííaõ dellss íe lhe fizeraõ perguntas^ 
a que refcondeo íem alterar , nem accreícentar o que na« 
cáítàs havia elcrito. 

O Arccbifpo de Braga , depois de deíafogar a 
primeira patxaõ com palavras defconcert^^das , períua- 
cido arttncioíamtníe ( como iè eníendeo ) do Cppel- 
laõ nió( , eícteveo a t^Rey dua^ cartas. Cctitinha a cri- ^ , , -,-. 

_ 1 . ■' n 1 • n Cartas do Ar- 

n eira o connecimenfo em que eítava dos juíios ^o- cebiitodeBra- 
tivos , que Sua Mageítade tivera para proceder ccn- g«. 
tra elle , e que ainda que eíperava todo o favor do 
generofo animo de Sua Mageítade , que receando o 
pcíturballem alguns de feos Ccnfelheiros , lembrava 
a Sua Mageítade n ais a c'errercia a que era inclina» 
do, que a vingança a que pedia íer períusdido ; que 
elle íe achava prcmptiííimo p&ra obedecer a tudo o 
que Sua Mageítade ordeniíle da íua jeíloa, e que 
paia defcargo da íua C9iiítiencía pedia a Sua JVage- 

itade 



}o8 PORTUGAL RESTAUR.ADO , 

itade córn muitas lagrymas permittiíTs qus eiitraíleaaf- 
Anno ^litit-líis na prizaõ o t^adre Fr. Simaó dos Anjís Carme- 
/j lita Deícalça pata feu ConfeíTor , e com quem receberia 

1041. particular alivio. Concadeo'ihe ElRéyefte defafogo, at- 
tendendo á grandeza da fua Dignidade reduzida á ulti- 
ma difgraça humana. Dizia na íegunda caita , que co» 
nhecendcíe pelo diíiconcerto das íuas culpas digno de 
morte , e merecedor de Sua Mageíiade nâó uzar com eU 
]e de fua natural clemência , e piedade , fe ofierecia a de- 
clarar tudo o que liavia paliado na conjuração, para loce- 
go de lua alma 1 com tanto que Sua Mageítade lhe pro- 
rnetíeíle perdoar a quatro peíloas , que elle declararia de- 
pois de concedido o perdão , aíiirmando nâõ terem mais 
culpa , que í'u>eitarem'le a feguir a íua ordem v e que pa- 
ra le coníiecsr a veidade i e inteireza com que taliava of- 
fereciâ a lua vidi por íacriíicio di íecs delido* , e dimit- 
tia para fi todo o perdaõ d^Hes. Viíta efta carta , e de- 
pois de ventilada largamente a propoficaõ delia refolveo 
ElRey que nsõ convinha diferir ao requerimento do Ar- 
cebiípo, porque eíta concelTaõ lhe ficava ligando o po- 
der com que devia mandar proceder contra os outros 
culpados i pois íendo todos iguaes no delido, naô era 
)Uito que o mefmo Arcebifpo que fora fonte de todas as 
culpas, condemnalTe huns com a fua confiílaô, e por íeu 
relpeito fe abfolveiíem outros, Eíliniulado o Aicehifpo 
de le lhe naõ diferir ao requerimento que íizera 2 ElRey, 
entrando a tomar^lhe depcirrento Francilco Lopes de 
Barros, e Pedro Fernandes Monteio, refpondeo todo 
7'r/W/V«rí/>í».'eatfegueá cólera, que elle era Arcebifpo de Braga , e 
/ladoArceHí^o qm naô conhecia pjr Superior mais que a Deos , e ao 
Summo Pontífice , e que Sua Mageílade naô podia pro- 
ceder contra elle ; e que fe accafo o executaíle de poder 
abfoluto obraria como aííaciao particular, e naó como 
Rev , e que juntamente eílava lefoluto a naõ refponder 
ao que íe lhe perguntaíTe, por qucmto o verdadeiro ju- 
ramento de fidelidade que havia dado fora a EiRey Dom 
Filippe , porque ao íegaaJj o conlf rangera o temor , e 
amsaç)Ç, e que ao qui fó fe fujiitava cor,. o ch^ift^õ, 
era perdoar a ElRsy fe o maadaffe matar , e ú peíloa que 

oex- 



VAR7E 1. LIVBO V. 309 

O exvcutcfle. Determinou l-rpr.ciíco Lopes de Barros per- 
liicdillo a que nioderfcíltí a paixaõ ccn-. que falJava i'nrõ AnDÒ 
íendo pcllivel, reni ciiertrdo íílirar o CLto c íirrT.tu ti- ./ , 
Je em leu nome. Palisdos alguns òias , e n oderaca a pai- ^^4*f\ 
Xâõ do Arcebiípo i lendo rtpergirtsdo peio n.einio De- 
íefí-brirgsdor , e perjuadido ccn\ eloquentes razoens , a 
que eiiava obrigado rta confciencia a declarar o que íabia 
da con)uraqaõ , proteílando pritneiro , que naõ coníentia 
eíTi juiy.o lecular por naõ contradizer os Breves , e Câno- 
nes» e que tudo quanto dizia era violentcdo do n"edo da 
n^cite, ícm querer toiTiar juramento declarou, que en- 
tendendo que pela fidelidade que havia jurado a hiRey 
Dom I-ilippe naõ podia reconhecer outro Rey , e que tu- 
do o que cbraíle por íegurar ella opinião era licito , e Declaração dé 
conveniente , fora afeiçoando ao íeu defignio todas as Arcebij^o, 
peíToss , que lhe havia fido pcflivel períuadir ao ferviço 
c'EiRey de Caílella , e que íabendo do Conde de Ta, 
rouca , e de Dom Josô Soares , que íeguiaõ a mefma 
opinião, e que fe reíolvisõ a ppílar para Caílella, ef« 
crevera huma carta por Dom Joaõ Soares a ElRey Dom 
fiJippe, na qual prcteftava a fua irnocencia no fuccef- 
ío da acclamaç3o , e difculpava todas as acçoens, em 
que depois deila forçí^damente, como Vsflallo d'ElRey 
Dom josiõ , havia concorrido , e que além deílas excufas 
íegurava com grandes aiiirmnçoens a fua fidelidade : Que 
r.jió tendo refpoíta defta carta • nem outro avizode Ca- 
ítella, entendera que ElRey Calholico nâõ admittira a 
íua diiculpa , e que obrig^ido do temor de que , conqui- 
liando os Caftelhanos eíle Reino, fcíTe e]le apritreira 
pelToa ccntn quem procede íTem , bufcára todos o« ca- 
minhos de defvanecer títa lufpeita ; e que lhe accrecen- 
tára o receio dos Caftelhanos, ouvir que os mais empe- 
nhados na defenía do Reino sffirmâVíõ publicamente, 
que Portugal fe raõ pedia defender, e que neíle temw 
po , havendo algumas vezes filiado com o Marquez de 
Vi!ia'Real lobre o citado do Reino, a íua pouca defen- 
ía , e o perfgo que todos corrifõ , schsvaõ a melhor 
refolucsõ , entrardo o Exercito de Caílella em Portu- 
gal , paílaríe logo pira elle j poiém que r.aõ hsviaô 

deter* 



'/jta FOKTUGAL RESTAURADO, 

determinado o moio da execução , e que sndando neíla 
AtinC) perplexidade fora bufcallo hu^na manhâa PeJfo de Bae- 
lój I ^^ mandado pelo Marquez de Villa-Real, e que depois ds 
-^ -* conferire.n a pouca fegurança do novo Governo, Pedro 
de Bãsca moítrára grande defconíiança da reíoluçaô áo 
Marqaez , e juniaaiíints da inclinação do Duque le-j íi- 
Jho , e que eile Arcebiípo hunia vtZ que faiLíra com uiie 
alcançara no leu animo grandes mcfíras de í"e apartar das 
matérias que tratava , e muito mais remoto delias depois 
que Sua Mageíla ie ihe fizera mercê do titulo de Duque. 
Ôii3 Pedro de Baeça lhe afiirmara , que tinha laais de mil 
homens á fua ordem; porém que os nao nomeara , e que 
paíTados poucos di3s mandara o dito Pedro de Baeça fal» 
lar com alie num Manoel Valente, que elle naõ coahe- 
cia , o qualihe diiíera, que Pedro de í3aeç3 determiniva 
dar conta a E R::íy deCaílella por hum íiomem de fua 
obrigação, do citado em que Portugal feachi/a , e íabec 
o tempo, em que o Exercito junto para a Ci>ncjuiíía de 
Portugal hâvia de entrar nerte Reino j e que eile Arce- 
biípo mandara por eile homem huma citVa de números 
em que eile Arcebiípo era o primeiro, Díj4> S,>.irc:i o 
íegundo , a Duqueza de Mantua o fepíimo , e dos maia 
que íe naó lembrava , para que debaixo deita cifra íe fu- 
Ãentafle fegura a correípondencia de ambas as parle?. Que 
depois do referido fallára com o Conde do Vimioío , o 
qual fe lhe queixara do aggravo que le lhe hâvia feito eni 
3he tirarem o poito de G^vern^dor das Armas , e lhe diíle'* 
ra , que eilava com intento de fe paíT ir a França , ao que 
Jhe refpondera que elegia bom caminho , que o mais i^cer* 
tado era, que íe Sua Migeílade fe auzentiile do Reino , 
como íe dizia , acclamarem outra vez ÊlRey Dom Filip- 
pe , com que fe-^urava a eile Reino grandes utilid^dves» li* 
vrando o dos incêndios, das mortes e d^s violenciss, que 
na conquiila dosC lílelhanos o ameaça ^^ao, e que o Con- 
de , íegundo depois enten ieo , com animo dobrado lhe 
approvára muito a :juelle parecer : e queperguntando'lhe 
a ge ue que podetia entr-^r nelle empíínho , eile Arcebií- 
^ po lhe referira o q.ie havia paílajo com Pedro de Baeçs, 
e qui entendjadj que o Condi lhe. fallâra lizamente , fç 

de- 



FJR7E 11 LIVRO V. 511 

dccbíàrs cem elle , e ]he diíler?. o que h^via paíísdo cem 
o Marquez de VilI&'Real, lepeiindo-Jhe tsiribem a pcu- AnhO 
ca feguranç?. que tinha no animo do Duque; Q.ue no ,/^r 
Biipo Inquiiidor Geral entendia pouco goílo do novo Go- "^ -^* 
verno , que com Gonfalo, e Lourenço Pires raó falara , 
mas que luppunha que feguiricõ o leu Partido : Que fa» 
]ando-lhe o Conde em Mathiâs de Albuquerque , lhe reí- 
poiKlera que feria bom tentállo , porque ainda que fer- 
via rjas fronteiras com grande cuidado, como o Conde 
aíiirmsva , que tinha leu irmaô em Caítella, e que po- 
G!cõ íiiber delle o eftado em que de prefente íe achava , 
e que diícorrendo fobre o animo do Conde de Vai de 
Reyi , e de António de Mendoça , diííeraõ que tinhaõ 
muitos parentes em Caílella , mús que com o primeiro 
iiaõ havia falado , e que do ítgundo inferia , que efpera- 
va que es íucceflos o aconíelhailem do Partido que havia 
de feguir : Que de íeu fobrinho o Ccnde de Armamar dif- 
fera , que havia de feguir a ordem , que elle Arcebifpo 
lhe deíle : mas que declarava , que nenhuma refoluçaõ 
fe havia tomado na forma em que havia de executar o 
feu intento ; Que do Conde da Caílanheira naõ fabia cou- 
ía alguma em damno deíla Coroa: Que as peíloas a que 
faláf a para as períuauir á íua opinião havia declarado i e 
que proíírado aos pés de Sua Mageílade lhe pedia quizef- 
íe perdoar aos que elle havia períuadido i por naõ perder 
tantos V^aílsUos arrependidos da fua culpa : Que na ver- 
dade com que falava fe naÕ podia pôr duvida, pelo que 
havia declarado de feu próprio fobtinho , e que lerribrané 
dclhe mais alguma circurAÍlancia a referiria , protefían* 
do que o feu animo era de nsõ condemnar a quem o na6 
nsereceíle. Eíla coníiíTaõ do Arcebifpo , e a bem funda- 
da diligencia de Pedro Fernandes Monteiro livrarf Ô a El- 
Rey do cuidado em que o parecer de plgun.s âcí rr)i:iores 
Letrados , e melhores Miniílros do Reino o tinhaõ po- 
ílo» sconfelhando-lhe déíTe tratos 20 Arcebifpo , entran- 
do nelles o Vice*Colleitor. 

No meímo tempo efcreveo o Duque de Csmi* cana c]o-d$i^ 
nha huma ca»ta a E-Rey , a qual continha eítss rísoens : í«^ ^« cupii. 
Qj-!e da priza^ eai Que eílava recordando as tircurcílar^íss '"'"^*- 

do 



1Ó4I. 



57í POn.TVGAL RESTAURADO , 

do feu delido, o confeíFava com fincera vefdads nacida 
lAnnO de todo o coração , e que efperava da grandei^a d'Eiaey 
o perdaôdel'*, tomando por medianeiros a Rainha, e 
Príncipes íeos Senhores: Qiie o Arcebiípo de Braga lhe 
havia dito noa primeiros dias da Acclamaçsõ , que o Rei* 
no fe naô podia defender , porque o poder de Caílella era 
multo grande, e asnoffas prevenc^ocns muito defiguaes : 
e paiTados alguns dias lhe diflera Pddro de Bseça , e Mel- 
chior Correada Franca o meímo : e que perguntar.do'lhe 
que havia elle de fazer , íeo inimigo ganhaíie Alemtejo , 
e litiaííe Liiboa » leípondera , que o que havia de fazer era 
accufallos por traidores i do que fe diíluadira^pelo cegar 
o diabo , entendendo também que eíles homens muda- 
riaô de opinião vendo os bons íucceíics qiie Deos dava 
em todas as Provincias ás Armas deite Reuio : Que ulti- 
mamente Lhe havia dito o Conde de Aroiamar da parte 
de feu tio as mefmas razoens , que elle antes lhe havia 
referido , â que refpondera que era Vaílalio de Sua Ma- 
geítade, que eftava deter mins do a dar a vida pela lua 
dcfenfa, aírim por inclinação, como por intereíle, pois 
lograva em Portugal a grandeza , que naõ havia de al- 
cançar em Caílella , e que eíle Partido avaliava por mais 
feguro , porque eíla cauía mcítrava Deos que era fua , 
favorecendo a com tantos prodígios , como todos os dias 
fe manífeftavaô; Que o Conde de Armamar a eíU ref« 
pofta fizera nova inilancia » dizendo que íe Sua Mage- 
llade fe viíTe apertado dos Caítclhanos íe havia de em- 
barcar e fâlvai*fe fora do Reino ; a que refpondera que 
Deos havia de evitar eíle aperto, e quando fuccedefle, 
que elle , e todos os VaflallGs de Sua Mageftade o ha- 
viaõ de prohibir , detendo a Sua Mageílade psra que de- 
fendeíTe o feu Reino : E que deflas , e outras razoens en- 
tendera que o fiiTi dos conjurados era psflarem^fe ao Ex- 
ercito deCaftella , quando entraíTe em Portugal. A cita 
confiíTiô fe feguíaõ roemos humíliílímos para que RlRey 
lhe perdoaíTe i e proteílos de o fervir todí? a vida com 
a nía'or fidelidade. Quafi deíla mefma fubílancia eraô 
fete cartas, qu3 o Marquez de Villa-Real elereveo tam- 
be.ia a ElRey. Humas » e outras foraâ de todos a ultima 

rui- 



PJRTE I. LIVRO V. 7,1) 

ruína , fer vindo de verificar as culpas , que rem a íua con« 
íilíaô pudcraò ler íTienos noiorics , e íàstiâ acs Jiji7.e5 ar- AnilO i 
razoada duvida no Jançar dss íenterças, fe naó acháraõ -t^Am' 
mais que a confufaô d -s teltiiíjunhas ; porém Deos , que ^ 

favorecia a cauía d'EiRey , permittio que os conjurados , 

iaiiçaílem com a fua mao a íua Itntcixa, iintendeo-íe que ^'^"''"'JJirJ'' 
as tíiiigeiícias do CapeUao n or tt.ciJjtsíao eltá , que lup- ^ 
punhao, negociação, e expeiuner.táiao os ulíinios pa- 
iGciíincs, 

Examinadas pelos Juizes as cartas refeiidas , e 
reperguntadáS as teftimunha.i , íe tomou o depoimento 
SOS prezes , que naõ havicõ conftfiado por eícrito , que 
fcrcõ o Conde de Aru^íimar , Dom i^gf ll:!nho Maneei , Confeffao cr 
íV^ekhior Corrêa da Fr«nca, Diogo de BvitoNabo, Ma- ^''^^'/'' ' 
Doel Valente, Chriítovaõ Cogominho , e íeu irmsõ o^" "'* 
Bifpo de Manyria , e o Bifpo cieiro de Malpca. Todos 
conftílaraò cora tanta clareza , cue nv^õ eraõ as provas 
menos que os delidos. A Pedro de Baeça puzeraõ fegun- 
dp vez á viíU do Potro : poretn convencido rroftrando- 
Iheacor.fiílaõdos outtcs prezos, naõ quiz experimentar 
Tegundo tormento , declarou toda a fua culpa , e pedio a 
Ii!Rey quizeííe ç^rdcar"lhe, cfíerecendo hum donativo 
de ttinta mil cruzados , e a paríe da fazenda que tocava 
a íua mulher , que era muito ccnllderavel. Naô Telhe 
aceitou a oiíerta , parecendo m^íis coriveniente caíligar os 
ítus delidos. A Sirnsò de Soufa , e Jorge Gomes Alemo 
deraõ tratos, que padícèraõ fem f^zer confiíTaõ algumas 
ApuTw^das ss diligenci .s , íe foy abreviando aos R.eos o pra- 
zo da viia, para que o eípedaculo mais laítimofo , que 
nunca vio Portugal , foíle t bjedoacs Poituguezes no Ro- 
cio de Lisboa. MandáTÊO os Juizes dizer aoi Reo:^ de íua 
)uftíÇ3 no prazo de três dias. O Merquez de Viila Real, 
o Duque de Carriinha , o Conde de Arm^mar rppeilàraõ 
para a Meia da Conlcienciâ , por ferem Cava'leiros pro« 
feíios na Ordem deChrifír. O De utcr Fiar cifco Cabral 
Piícal da Meia da C onfciencia formou libello contra elles , 
de que íe liie deo viíta , e neô h£ vendo dtftza cortrarie- 
dade, os relexáraõ á Jiít-ça íecular per íe lhes prcvaro Fehxao-fe yi 
ciime de Uza Msgtíladt da ptiatiia cabeça, Dcr&Ô a ien. cavaiUiroj, 

tença 



5 14 POUTUGAL V.ÈST JURADO, 

tençí em 23 dj Agoílo ds 1Ó41 Doii Lsaõ de Noronha; 
An '10 Franciíco Lop2s de Barros, E.tevaõ Fuzeiro, Sioiaõ Tor- 
/- ^ refaõ Coelho. Seguio-fe a eíta feníenca ofterecer Lib^Uo 

"^ * coitra todos os Rsos o Proi:urador da Coroa Thomc Pi- 
nheiro da Veiga > e figaa!ou"íe*ihes o prazo de três dias 
psra reíponderem conforme a ley do Reino. Acabados el- 
les , e havendo lançado a íua defeza, íe juntarão na Riia- 
çaõ a 26 de Agoíto , para íenteaceare^ii todos os coa^en- 
eidos , os Doutores Francifco Lopes de Barros Juiz Re- 
"^mzes qne dao l^tof , Franciíco de Meíquita , Pedro de Caftro , Gx^gO' 
a ie>uenç-;i na. úo Mafcarenhas Homem , que foraõ adjuntos ao proceí- 
Rcia.ao. f,^.^ ç\q^ autoj , Aodré Ve;ho da Fonfeca Corregedor do 

Crime da Corte, Fr^^nciíco de í-\l neida Cabral » Valeaticn 
d? Gofta de LsíisoSí Fernai de .Mattoj C-irvalhoza, Mar- 
çal Gafíído Jacome , Duirte Al /ares de Abreu, Fernão 
Cabral Chanceller mór , e Jo?.5 Pinheiro Deíembargadoc 
do Paço. ElRey querer d > que foíle mais iuíiiíicada ac- 
ção de tanta iíiiportancia mandxi paílar hum Decreto, 
e:n virtude do qual nomeou íqu Fidalgos por adiuntos uai 
fentençgs do Marquez de Villa-Reil, Duqu-í deC^rninh;», 
Kofftea ElRe ^ Conde de Armamar; foraõ e^tes Pedro di .vi-.iíoçj 
itiaiiospo? Furtado, Fernão Telles de Menezes , Don Pedro de Al- 
l^uizts. caçova, Dom Miguel de Almeida , Henrique Corrêa da 

SilVa , e António Telles de Menezes , e porque os três ul- 
tirno-; fe déraõ por íufpeitos fe eleger'?6 em feu lugar Pe» 
dro da Cunha , Triílaô da Cunha , e Pedro d,^ Cunha Vea- 
Da-le fentença clor da Rainha. Juntos todos os Juizes nomeados , depoii 
contra os c}njíi-ái íDuítas horas dediS3Çío,.e largas conterea^ias , fen- 
rãdoj. tenceáraS â morte ao Mirqaez de ViIla*R^al, ao Duqus 

de Caninha, e ao Conde de Armamar. Na tarde do meí- 
mo dia os D^fembargadores nomeados , fem mais adjun- 
tos conderonaraõ a degolar a Dom Agoftinho Manoel, e 
Q arraftar , e enforcar em forca mais alta do coCtumado , e 
efquartejar a P^dro de Baeçi , Melchior Corrêa da Fran- 
ca , Di )gi de Brito Nib) , e Manoel Valente. Chriílo- 
vaô Cogiminho foy remettido ao juizo Ecclenaflico pot 
ter Ordena Menores i depois á Mefa da Coníciencia ; po- 
rén hivendo-lhe por dc:rogados os privilégios, eUí, e 
Afltoaio Goírea íoixõ os uUijios qus enforcarão defroa 

tev 



PJRTE 7, LIVRO V. ' jiy 

te do Limoeiro a nove de Setembro. 

Os fundamentos das íenienças do Marquez , e Anno 
dos mais condemnados , havendo pcuca diíFerença de hu- / 
mas a outras , diziaó : Q^Je fe ruoílrava , que no primei- ^ ' 
IO di Dezembro ác 1640 fora EiRey Dom joaõ o IV 
accUmado Key de Portugal aa Lidadi de Lisboa , cabe- '^^J'fr^^'^Xll 
<^a do Reino , e , pafiados poucos dias , nas Cidades , Vil- ^^J^"'^"'"^' 
las , e Lugares de todo elie, por lhe pertencer de jufliça 
a legitima luccefíaõ deita Coroa ; e que aos quinze do 
próprio mez em aclo publico, e theatro levantado, jun-, 
10 das varandas do Paço, fora ElRey jurado dos três Ef- 
tados do Reino por Rcy , e Senhor natura), para fi , e íeos 
Dtíícendjntes , fazendo todos a ElRey pleito , e home- 
nagem de fidelidade , e obediência i no qual aclo íe acha- 
la o Reo , e lizera a mefma promeíla , e juramento nas 
tnâjs d't IRey , e que fendo o Réo por origem , nacimen- 
to, e habitação natural deíle Reino , como tal , Vaílallo 
dElRey , elquecido de fua obrigaçaõi e juramento fal- 
tara era tudo á lealdade, e fidelidade promettidaj poc 
quanto logo depois da acclamaçaõd'ElRey fe começara a 
negociar em Lisboa huma traição, e rebelliaõ contra a 
Fciíoa d*ElRey , e toda a Famiiia Real, e contra o bera , e 
conrerviç:^ó de íeos Reinos , e Vaílallos , concorrendo 
para efte efieito pcíloas grandes , e outras de menos qua- 
lidade , as quaes determina vaõ romper as guardas Reaes 1 
e fazer outros graves damnos nos lugares de msyor im- 
portância , accia nando ElRey de Gaílella ; e outroj pre- 
veríos intentos até a priíaó , emoite d'ElRey , intentan- 
do que eítjí Reinos tornaílem ao cativeiro de CaPrella , 
e a Duqueza de Mantua ao governo na forma em. que ef. 
tava antes de íe acciamar HlRey. Da qual confpirgçaõ fe 
provava que o Reo tivera noticia , e fora delia parcial com 
o Arcebiíp ) de Braga cabeça di dita conjuração , e que o 
•Reo o coiífelTâva n.ís perguntas 1 que lhe foraõ feitas i as 
quaes depois ratiticára em fórrna judicial ; no que o Reo 
commettéra o atrocíílimo crime de leia Mageílade de pri- 
meira cabeça , sííim por ajliftir nos ados da coujuraq'5ô a 
que o Arcebiípo o encacninhava , como em naõ deícobrir 
logo a ElRey tudo o que delia íabia , vendo crefcer por 
Tom. L U inílan- 



y6 PORTUGAL RESTAURADO, 

inftantes a maldade , e o perigo àe fe confeguir o atroz 
Anno eíFeito del]a , e depois dos termos ordinários, de que le 
X uza em fimilhantes íentenças i condênavaõ ao Reo a mor- 

ÍO41. ^g natural , e aconfiícaçaõ de feos bens. Djdas as lenten- 
ças na forma referida , foraõ noticiadas aos condemnados 
na manhâa de 17 de Agofto. Chegou á noticia da Duque* 
za de Caminha o ultimo exceílo da íua diígraça, e deli» 
berando-fe alheapjiicar o derradeiro remédio , mandou 
pedir a ElRey audiência , permittio-lha , e entendeo-fe 
que com animo de lhe conceder a vida do Duque , por- 
que de outra íórte parecia grande crueldade ouvir os ro- 
gos de huma íenhora de taõ poucos annos , coberta de lu- 
to, e delagrymas, para lhe naõdifferiri porém ElRey 
parece que quiz rooftrar , que naõ impedia os meios da 
juíliça , e que fazia da íua parte quanto lhe era poíTivel 
por facilitir os caminhos da mifericordia. Entendeo-fe 
que a reíoluçaõ que tivera de perdoar £o Duque fora áU 
vertida por alguns Miniftros , e que também a defviára 
a Rainha , parecendo*lhe que era neceíTario efte caftigo 
para a firmeza da Coroa , eftimulando'a de íórte o peri- 
go da vida d'ElRey , e dos Príncipes feos filhos » que fal» 
lando'lhe o Arcebifpo de Lisboa , para que foiíe media- 
Severa rerpofla "^''"^ ^^ vida do Duque , lhe refpondeo que o mais que 
ía Rainha, podia fazér por íeu reípeito , era guardar-lhe fegredo da^ 
quellapropoíla. Deitas inferências fe originarão os dif- 
Tem a Buque- c\MÍos refcridos , 6 3 conclufaõ foy , que reprezentsndo 
íadt Caminha 2i Duqueza 3 ElRey ( acompanhada de íua Mãy a Conde- 
êudiencia, çg ^^ Vzto ) diante 03 Rainha com laítimofas palavras a 
calamidade a que a íua difgrsça a reduzira , e pedindo- 
Ihe mifericordia fahio do Paço com efperanças da vida 
do Duque , que o feu fangue murchou dentro de breve» 
horas. 

Em 28 de Agoílo leváraõ o Marquez de Villa- 
Real , o Duque d- Caminha, o Conde de Ármamar, ea 
Dom Agoftinho Manoel a humas cafas do Rocio, para 
que as luas cabeças foílem fatisfaçaÕ das fuás culpas : me- 
íe^a6'os em difFerentes apozentos , fem que huns tivef» 
■fem noticia dos outro? ; paílaraõ a noite ajuítando fervo- 
rOfamente as conlciencias , e o Marquez com mús foce- 



PJKTE 1. LIVRO V. }i7 

ffo dormio algum efpaço , acordaraõ-o pcdindclhe â ben* 
«jaõ da parte de feu liiho , porque faltando a câutéla cor.? Af^no 
veniente foubsraõ ambos , que hum e outro eítavaõ nas ^(.^^ 
mcíraas caías para igual caltigo , e vieraõ a entregar as ^ * 
vidas antes que o golpe do cuteio lhes cortaíle as cabeças , 
e póii: fer que a primeira em que a alma tinha a melhor 
parte folie o m.iior martyrio , fervindo de exemplo ao 
iBundo , para fc conhecer quanto vai mais a virtude, qua 
a grandeza , o bom procedimento , que a grande quali- 
dade , derogando mais facilmente eftes , que âquelles 
privílegioç. Levantou"íc no Rocio hum theatro , que íe 
communicava por hum paíladiço com a fegunda de três 
janellas , que havia no quarto baixo , onde eftavao os 
condemnados á morte. No theatro íe puzeraõ quatro ca- ^0^^^,^ ^^ex^ 
iJeiraj , as duas que haviaõ de íervir de íuppiicio ao Mar- ecu^ao aos con- 
quez , e Duque íirmavaô*íe em eítrados ; era o era que dcmnados, 
degolarão o Duque de três degráos , o do Marquez de 
dois, a cadeira do Conde levantava hum íó degráo, a de 
Dom Agolcinho Manoel eílava no pavimento i porque 
até no ultimo termo onde a morte iguala a todos íolicita 
privilégios a vald-ide humana. Ao romper da manhaã de 
29 de Agoíto fe formou no Rocio o Terço da Ordenan- 
ça , de que era Coronel Dom FranciTco de Noronha » pa- 
ra divertir qualquer accidsnte , que embaraçafle aquel- 
le laiUmofo , e funeílo ado. Os Defembargadores que 
haviaõ fido Juizes íe juntarão na inquííiçao , para defe- 
rirem com brevidade aoi embargos , que os condemnados 
puzeíTem : porém defenganados elles de que eraõ in- 
úteis todos os remédios humanos , tratarão íó dos que 
convinhaõ â falvaçaõ das almas , em que naõ podiaõ 
achar infelicidade , e com demonftraçoens de grande ar- 
rependimento fize^raõ todos 0$ adtos de verdadeiros Ca- 
tholicos Pvomanos. A liuma hora depois do meio dia deo 
principio a cite efpeclaculo o Marquez de Villa*Real , 
íahio da caía onde chegava o paíTadiço, e caminhou para 
o theatro acompanhado dos Corregedores do Crime da 
Corte, e outras juíliças , de alguns Jrrrãos da Miíericor- 
dia, e dos íeos criados. Le«rava veílido hum capuz, as 
mãos levantadas , e atados 0$ dedos pollegares coro huma 

U 2 íita 



1641. 



•3i8 PORTUGAL RESTAURADO , 

fítta negra. Hia publicsndo o pregão o íeu delicio , qus 
Anuo ciidáva ao Porteiro o Rey de Armas Portugal com a cota 
veílida. Ar.íesque o Marquez chegaííe á cadeira , le poz 
três vezes de joelhos diante do CruciHxo , que levava 
hu'"n Capes laõ da Mifericordia , 3Judando'o na Oraçaó 
quatro Rcligiofos , dous da Companhia de JEi^U^, e 
*dous Carmelitas defcalços : a hum delles le reconciliou 
antes que íe íentaíT; . deí"pedio*íede todos os que eítavaõ 
preíeníes , e fem moftrar perturbarão íe entregou ao fu- 
plicio. O Algoz , que coberto o roíto fez a execução , 
lhe ligou os braços , e os pés á cadeira em que eítava i"en- 
tado : neíla horrenda forma mandou pedir ao Povo , que 
em gi'3nde numero aíTiilia no Rocio , que lhe perdoaíle a 
cíFenfa qne havia feito ao Reino. Entcíideo eite cego , 
e defatinado monftruo , que o perdão que pedia era da vi- 
da , e com grande fúria repetio três vezes : Morra ; ef- 
candalo que enterneceo muito os ânimos menos deíacor- 
dados. Entregou o Marquez a cabeça ao Algoz» cortou- 
lha, e cobriraõ'lhe o corpo com hum pano d-' baeta ne* 
gra. Acabada efta execução , voltou todo aquelle fúne- 
bre acompanhamento a buícar o Duque de Caminha , que 
chegou ao theatro coin menos focego que íeu pay , e 
mais coíumifersçaõ , por achar os coraçoens feridos da 
primeira magoa, e fe confiderar nelleaculpa menos pe- 
zada. Ao Duque fe feguio o Conde de Armamar cheio 
de elpirito , e de valor , fendo de menos annos , e de ga- 
lharda prefença. Foy o ultimo Dom AgoíHnho Manoel, 
e logo laftimofamente íe descobrirão os corpos de todos 
ouatro. Approvou o Povo o caíligo gritando , F^íva £/>- 
Rey Dom JoaÕ. Continuáraõ'fe as execuçcens de Diogo 
de Brito Nabo, e de Manoel Valente: foraõ as ulti- 
mas a de Pedro de Baeça, e de Melchior Corrêa da Fran- 
ca, na forma das íentençss. Os corpos dos quatro de« 
gollados eltiveraõ até a meia noite no theatro, hora^ 
a que veio bufcallos í« tumbi da xMiíericordia , e os le- 
vou ao Convento dos Carmelitas defcslços , licença que 
ElRey lhes havia concedido, fazendo elles petiçoens» 
eftando ja nas cafas do Rocio , fendo a do Conde de Ar- 
marnar toda da íua letu: prova de grande coração. £ra 

o Mâr- 



F^R7E 1. Ln^fP V. }!<>, 

O Marquez de Villa-Real de 51 amos, oDuquefeufi- 
3ho de 17, o Conde de Armam-r d;: 24, Dom Agoftinho AnnO 
Manoel de 58. Acabou no Marquez » e Duque a v ala de ^ 
Vi la Real, merecendo remate n-aii £»loriolo os Illufties ^ * 

Aicendentes de que fecorrpoz 167 annos que fiorcceo , 
poique i2Vc principio em D. Affon;o Henriquet de Caf- 
telU, eNoiOnha, primeiro Condi deGijon, ti.íio na- 
tural d ElRey Dom Henrique II. da Caítella, o qual Dom >«:<» daCafét 
Atijn.oc.ioacom Dona líabel filha natural d^EiRey D. de vúu^KiéU 
Ferna dodi Portugal. Ficou ao Marquez huma hibaecn 
JVljdád cafáda com o Conde de Medelhim , que depois 
da paz pretendeo a fucceíTaó da Caía de ViHa-Real ^^para 
leu rilii:) Doa Pedro de Meneze?. Diícurfiraó os Caíle- 
Ihanos , que o caltigo referido fazia mais duviiofa a Con- 
quiíU de Portugal, entendendo, qje ElReyDom joao 
le ndõaTuiara a tanto en^.penho, fe duvidara da feguran» 
çi, e obediência dos ânimos de feos ViíTalios. E fe aca- 
ío os conjurados fizeraõ elle difcurfo , que rodas aícir» 
cumltancias mot^rav^õ inf illivel , naõ le arrojarão taõ ce* 
g itncíUe , obrigado^; do tensor d<íç armas de CaíVella , ^o 
precipic»') de que fe defpenharao ; porqua nenhum doa 
que previíricárâô appetecéra o afpero domínio dos Csfte» 
lha;i ».i , fe lupi^uzera fegura a defenfa , e liberdade de 
Portijgíl. No di.i e p que le fizeraõ as execuçoen^ , fahio 
ElRey veitii> de luto á Cafa cti que aíliftia toJa a No- 
breza, e coTi eloquentes, e graves pa1avr.iç m nifellou 
o feu gran 1 : fenti nento , e verificou a íua julliç ; remet» 
teo a FLomí )\ pr í^-Hos de toios.oí que foraõ c'<ÍHiTido5i Man/ia ElRey 
ao Bi(pv> de L.amego . para fe juílificar com o Pontifica. osprocejjo$ a 
Acabada elta tragedia, te forsõ examinando as culpas dos '■■^^"^'^' 
que foraõ prei(»^ i enaô leachandv.» fun lamenta* que os 
condemnaíTem, for^ó todos foltos ainda q'ie e^ d ífer^ntes ^f/,.^."-^^ '^ ^^^ 
tempos. Sahirdó da prifaó os Condes da Ciílínheira, e 
VA de Reys . e G >nfa1o Pires de CarvaUí >; feu filho 
Lourenço PíTei tivera o mefmo fucceíTo , íe npõ mcréra 
ra pfir<i6. António de Mendoça mandou EiR^y ptíTaf 
da Torre de S. Giaó, onde eftava. para o <^'oaverto da 
Trinlide de S ntarem , e depoi* fry mandado recolher 
pâía f >a cafa : dtlla tornou as occui c ens que exeícita- 
lom, I, U 3 va 



?2o PORTUGAL RESTAURADO, 

r. va antes da prizao , e depois paíTou a maiores lugarei ate 

AnnO chegar á grande Dignidade de Arcebiípo de Lisboa ; Ma- 
lÓAlm thiaj de Albuquerque , que havia fido prezo com taõ le- 
ves indicios , como diílemos , fendo dotado de grandei 
virtudes » e valerofo coraçaõ , apertou muito porque fe 
inveftigaííe o feu procedimento i querendo que de jufti- 
ça, e naò de favor lhe reftituiflem a opinião, que fem 
caufa lhe haviaô poflo era contingência. Fizeraõ-fe exa- 
ctas dil/gencias , eípeculáraó'fe as mais Jeves circumftan» 
cias, e fahindo Juft ofamcnte apurada a lua fidelidade, 
o mandou ElRey foltar doCaftelio, para onde o havia 
mudado , tanto que fe conheceo a igualdade do feu pro- 
cedimento. Foy íoltallo o Doutor Pedro Fernandes Mon- 
teiro, e com eJle Dom Joaõ Malcarenhas, Julliíicou o 
grande concu?ío , que o acompanhou até o Paço com 
grandes accb!riC<;oen$ o geral coniíintameDto , que to- 
dos tiveraô da fua liberdade. Chegando a beijar a maõ a 
ElRey, lhe difle com afpedio fe vero , econítante: Tem 
VoJJa Mage(iade a feos pés o mais leal Vaj^allo que pôde 
dejejar. Keípondeo'lhe ÊlRey , que eltava inteirado 
da lua innocencia » e difpofto a fazer lhe muita mercê. 
Huma , e outra promefla fe juíliíicáraõ brevemente. O 
Arcebifpo de Braga, eolnquifidor Geral eftivéraõ pre- 
20S nas cafas interiores do Forte no Paço : delta prizao ot 
'Mfirteào ^rce' p^ç\ii^^ para 3 Tofre de Belém, nadeS.Giaõ veio ul- 
èt/po dfEra^a, timamente a acabar a vic^a Dom Sebaftiaõ de M.tos ar- 
rependido do precipício a quii taõ cegamente fe arrojara, 
que nem foube difpôr a maldade , que traçava , logrando 
hum entendimento muito claro , acreditado em variai 
experiências: porém o medo he inimigo capital do juizoj 
rendeo o Arcebiípo , fuffocou*lhe o entendimento , c aca» 
bou*Ihe a vida. Morreo com tanto conhecimento dos feos 
erros , que mandou , que o enterraílem no Adro de qual- 
quer Igreja, e lhe puzeflem huma campa raza , porque 
naõ ficaíle memoria do que fora. O Inquifidor Geral logo 
que o paííáraõ para a Torre de Belém , o melhorarão de 
ht folto o In- trato , apurendo'íe com muita piedade o feu delido. Foy 
^uifidor Gtral. folto a 5 dè Fevereiro de 1643 » ^ ^^S^ reftituido aos feos 
lugares ) foituna que ieoi parentei folemnizáraô com 

Stan- 



PARTE I. LirRO V. j2i 

grandet feílas. O Bifpo de Martyria , depois de eftar 
muitoj annos na Torre de Be!é n , o paííaraô para o Anno 
Conrento de Saó Vicente, onde acabou a vida. PaíTada /- 
efta tormenta, naõ ficou quem alterafle mais no interior *^4'' 
do Reino a tranquilliJade ; porque alíim como as confpi- 
raçoens contra os Príncipes fulminadas faõ perigofiirimas , 
delcobertas faõ muito úteis ao feu governo, naõ fó por 
le evitar o perigo que correm , fenaó porque os Povos 
vendo o feu Prmcipe innocente i e expofto a perder a vi- 
da pela lua defenia , e liberdade , creícendo'lhes recipro- 
camente o aftecto , fe fazem voluntariamente efcravos 
doi Príncipes de que eraõ fó Vaílallof, AíTim fuccedeo 
aos Portuguezes , porque abraçarão todos com maior 
fervor a detenta do Reino , fuífocando os impulfos teme- 
lofos do caíligo alguns, que eraò inclinados ao governo 
deCaílelb, hconio todjs os Portuguezes caminharão a 
hum rrielmo íim , logo annunciaraõ a defenia , e a proí^ 
periedade d Portugal. Foy grande prova das culpai 
dos condem lados , e da juftiça que ElRey teve para os caf- 
tlgar, a igualdade com que naturaes, e extrangeiros ap- 
provaraõ eíla refoluçaõ, logrando ElRey nefta acça6 
duas utilidajes: a da íegurança da vida , e Reino, ea 
opinião de prudente , e jufto ; confequencias de que oi 
Príncipes devem fazer a maior eftimaçaõ, quando con« 
feguem lograllas unidas ; porque naõ baila fó a feguran- 
ça de reinar . he neceílario qu3 fejaõ avaliados por mere- 
cedores do Império. 

Na Arrochela fe embarcarão os Embaixadores 
que ElRey havia mandado a França , na Armada que da- 
quella Coroa paíTava a eíte Reino; em fatisfaçaõ do que 
ficava capitulado , nomeando-fe por General delia o Mar- 
quez de Berfé fobrinho do Gardial Rechilieu , e herdeiro 
da fuaCaía. Conílava a Armada de lo navios de guerra, 
e 6 de fogo , bem guarnecida , e melhor apparelhada. Sa- 
hio da Arrochela a i6 de Julho , e achando o vento con- 
trario , fe dilatou 25 dias, e chegou a Barra de Lisboa a dJ^l^^llZa' 
7de Agofto. Entrou Chriftovaõ Soares de Abreu, Secreta- co.noMarcihex, 
rio que havia fido da Embaixada , por ordem do Monteiro ^c Betfé. 
mór a dar coçita a ElRey da íua vijida, ElRey mandou. 

U 4 logo 



322 POtTUGAL 1{EST JURADO , 

logo aos Condes da Calheta , e Vidigaeirs , que íahlíTem 
AnnO 3 vifitar da íua parte o Marquez de Berfé. Eutrou ellc no 
^ Rio, ela )çou ferro na enleada de S. Joleph , alternando- 

*"-r • U as cargis de artilharia que diiparáraõ a A mada de 
Frsnça, Torres » e navios da noíía Armada , qui eltavao 
lílUo aElRey^ anco^ados. o návio em que "vinhíiõ os dous hrnbaixado- 
"èaixadores.''"' ^^^ ínrgio dcffonte do Paço : íahiraõ ellssa beijar a mao 
a ElRey , e prefentaraõ*ihe as cartas que traziaõ d*EIRey 
dí França , da Rainha % e do Cardial Richilieu. As doí 
R;ys continhaó muito cortczes, e amig.ívei$ oíFertai, a 
do Cardial coníelhos ptudentiíUmos. DiziaaElRey; que 
d^Il^êchflieZ trataflecom muito cuidado das fortificaçoens, e do provi- 
' mentudis Praças , e que procurafle ter íeos Vailâllos muir 
to fujeitos , para que foííera. taõ capazes da difciplina mi- 
litar, como eraÕ valerofos : que com a menor vexação 
dos Povos , que lhe folie pofiivel , formaíle hum Exerci- 
to , e huma Armada , que buícaílem ao inimigo ao mefmo 
tempo dentro nos feos lugares i antes que os do feu Rei» 
no padeceílim a moleítia da guerra : eque eíperava que 
Sua Magíftade naõ dele mçaria na quietaç?!/5 , que de pre- 
fente lograva , pelos embaraços de íeos inimigos , uzan» 
do do beneficio do tempo cjntra as muitas forças , e pode- 
xofos contrários » com que depois fem duvidi havia de 
contender. Rematava a carta , ofTerecendo daquella par- 
te grandes eíFeitos da íua diligencia , que as experiências 
acreditarão todo o tempo que lhe durou a vida , enten- 
dendo acertadamente que era a íeparaçaô de Portugal a 
maior fortuna dos intereilcs de França ^ e as promellat 
dos Príncipes, ou dos validos em íeu nome, nunca fao 
t£Õ certas, como quando refultaó em conveniências dot 
feos Eftados. ElRey mandou ao Marquez de Berfé quan- 
5)4 ElRe'j aw ^^^^dc de refreícos : e em ii de Agollo entrou elle a fa- 
dknciaao Em- Í3r*íhe acompanhado do Conde do Vimiofo , que o foy 
laixador de bufcar em huma Gôndola bem adereçada. Trazia o Mar- 
irando» quez comfigo muitas peffoas de grande qualidade , e Sol- 

dados de eftimaçaõ , de que ficáraõ alguns fervindo nefte 
Reino. Recebeo ElRey ao Marquez com magnifico ap« 
parato, e com todas as demonítraçoens decortezia, que 
podU diípenfai: a Magâílade .FâIqu o Marquez à Rainha» 

e ao 



PJUTE I. TJVBO V. ^j } 

e ao Príncipe Don> Thec de ÍJo , que no íenblínte defco- 
bria generoío'. í-fíictos , que cultivídos da iriClhor indole AnnÕ 
€orr;e<savâõ a íioicctr no leu anin o. Recolheo íe o Mof ,/-.- 
qtez outra vcz a Arn)? da , ntõ querendo ficar no apcíen* *"4*» 
tu da Corte Real , que ElRey lhe hcvia mandado preve- 
nir com todv* a magr.iíiceíicia. Quando ciiegou a Atirada 
de Frarça , achou a de Portugal prepsffcia p^ra navegar : ^'f^a^J* dt 
coniUva ella de treze navios, cinco muito pcderclos, os ^<^f^H'^h 
c.aíi, ainda que pcqueno« , bem apparelhados, e capszes 
de pekjar. Nomeou tJRey por Aln.irante da Armada a 
Ferai õ da Silveira , irraaôdoCondede Satzedas . que ha. 
via fervido muitos annos de Capitão de Cavallos em Flan- 
àti com grande opinião, e paliado ao Hrafil na Armada j 
de que toy General o Conde da Torre ♦ por Capit«?õ de 
Mar fc Guerra \ pelejando varias vezes muito valerofamen- 
te. Fo^aõ por Capitaeni de Mar e Guerra Soldados de va« 
ler , e experiência , e embarcaraô»fe muitos Fidalgos defe- 
joíos de adiantar a íua opinião. D. António Loiz de Mene-, 
2CS havia levantado hum Terço na Comarca de Coimbra, 
de que ElRey o fez Meílre de Campo , deílinado para a 
Guarnição deCaícaesj e mandando ElRey, que fe em- 
barcaíle a maior parte dos feos Soldados , por eíle refpei- 
to » e por elles duvidarem de fervir no mar» havendo*os 
deílinado psra a t^^rra , íe refolveo Dom António género- 
íhmiente a embarcaffe. O intento a que caminhavaõ as 
duas Armadas , e ade Hollanda que fe pguardava por inf- 
taníes , era interprender Cádis, llhâ na Cofta de Anda- 
Juzia para a patte do Ocear o AthKintico . frequentada do 
Comm.erciode muitas nrçoens, a respeito de ler o Empó- 
rio do* theíouros da Amtíica , e poftoirrportantiUirao fa- 
rá aconíerv::ÇC'ô de Ardaluzia : po'^que diílí^ndo antiga- 
mente 700 paíios daterr.i fi me, hoje com huma ponte 
le communica com Porto Real, pouco diílante do Porto 
cie Santa Maria > ficando por eílas difpoíiçoens ( fendo 
ganhada ) fácil de íuítentar, ede fccccrrer. As conveni- 
ências referid:s foraõ o motivo principal defta jorrí da 1 
deíejni.do ElRey , íegurdo o parecer do Cardial Richilieu, 
que feos inimigos fentiflem a guerra ro$ próprios luga- 
les, piizneixo que kos VaÍIs^Joí a f adectUcn^. fiò f^rta- 



32| PJXTUJAr, f{ESTAJJRADO , 

ziai ; e erradas politicas do Conde Duque fizeraõ no muits 
Anno ^° ^^^ empreza mais ruidofa : porque tomando motivo 
^ j de algumas noticiai , que deo a entender lhe chegarão de 
^^^•; Lisboa, mandou ordem ao Duque de Medina Sidónia, 
irinaõ da Rainha Dona Luiza , e Capitão General de Anr 
daluzia , para que foffe a Madrid , havendo'lhe primeiro 
enco nmendado a prevenção dos Lugares daquellaCofta, 
Naõ obedeceo o Duque opprimido de alguns achaques > 
que oííereceo por excufa , de que o Conde Duque torraou 
maior maquina , e introduzio no animo d»ElRey Catho- 
Jico maiores fufpeitas. Foy eífeito deilas mandar Elfc<^ey 
Dom Luiz de Aro , que depois fuccedeo na valia ao Con- 
suffeitas contra dc Duque , 3 Saõ Lucar ( onde o Duque de Medina Sido- 
di^aluotla^^' "'^ ^ítava) com apertada ordem de o levar a Madrid, fe» 
^'^'^', gurando*lhe o perdaõ de qualquer culpa que houveffe 
commettido. Partio o Duque com Dim Luiz , e achando 
em Madrid calumniada a íua opimaó , tratou por todos os 
caminhos ds fuffocar as vozes que a offendiaó. Dizia fe 
que hum Religiofo de Saõ Franciíco , chamado Frey Nír 
coláo de Velalco , havia paliado a Portugal , e que do Al- 
garve ( como fuccedeo ) fora conduzido a Lisboa por or- 
dem do Conde de Óbidos, Governador daquelle Reino , 
que efte levava cartas do Duque, em que offerecia a feii 
cunhado levantarMecom Andaluzia; e que communican- 
do-íe efte negocio com hum homem , que eitava prezo 
em Lisboa ( habilitando*© para efta confiança , dizer elle, 
que havia fido criado do Duque de Medina ) o (oltaraó í è 
que offerecendo*íe para levar ao Duque os avizo< , que fe 
lhe encarregaíTem , lhe aceitarão a ofterta , e lhe dera BI- 
Rey cartas para o Duque , as qiiaei elle levara a Madrid ; 
eque, eximinadas , fe averig'jâra , que eftava ajuftada 
entre EiRey , e o Duque a interpreza de Cádis ; noticia, 
que ja tinha o Conde Duque por hum Clérigo, chamado 
Rodrigo de Mendoça ( como o Conde dizia ) o qual Cléri- 
go fe havia paflado de Portugal a Caftella, dizendo que 
contra Cádis fe uniaõ a? Armadas de França , e Hollanda 
com a de Portugal , e que das cartas para o Duque íe colhe- 
ra , que era o final concertado para as Armadas poderem 
entrar na bahia de Gadij , e deitar gente em terra , accen- 

derfe 



P^RTE I. LIVRO V. 31; 

derfe hum farol no írgulo de hum Baluarte, dos que de- 
fendiaó a bahia de Caoii 5 e que o Murqutz de Ayâ ir.cn- AnilO 
te, tio do Duque de Medina , era hi^rn dos principaeí fe« -.Aaj 1 
quazes deita facção, havendo tan bem cutros muitoi, a ^ Í4 
que 08 deus haviaõ pet íuadido. Verdo o Duque efte rego- 
cio em t2ó apeitados teimes , e que com o pretexto de 
alliítencia lhe Itrviaõ de guaida ptfloas principííes daCor»; 
te , a quem HlRey Caihuiito havia encommendado a fua 
íegurança , determinou iuítificar*fe, fixando carteis em; 
variaá p<ttes, nos quaes dcíaliava a ÉlRey Dom Joaõ feu j^^fafio íoDoí 
cunhado , que nomeava Duque de Bragança j e para mo- que deMtdmã 
ftrar que as obras diziaõ com as palavras , confeguindo li- 6Wí>«w. 
cença d*ElRey de Caltella , paliou a Badajoz acompanha» 
do de muitos parentes íeos : de Badajoz o conduzio Dom 
Joaõ deGaray , Mc lhe de Campo General , que governava 
as Armas , com algumas Tropas a Valença de Alcântara » 
Lugar nomeado nos carteis para o defafio. Chegou efta no- 
ticia a Martim Affonfo de Mello , Governador das Armas 
da Província de Alemtejo, e parecendo*lhe que podiaõ 
eftas vozes ( por lerem de matéria taõ defufada ) fer tra- 
ça de Dom joaõ de Garay para interprender Portalegre » 
le roetteo naquella Cidade com a gente que pode tirar 
dos prefidios vizinhos, Em Portalegre teve noticia de que 
o Duque, c Dom Joaõ de Garay entrarão de Valença 
de Alcântara até huma Aldeã, que havíamos defpovoa- 
do, chamada a Pitaranha, primeira, e fegunda vez, e 
que havendo o Duque mandado authenticar a diligen- 
cia que havia feito por fe lograr o delaíio , fe voltara pa- 
ra Madrid, e Dom Joaõ de Garay para Badajoz ; com 
que Martim Afionfo fe recolheo a Elvas. Efta accaõ da 
Duque foy julgada pelos Caftelhanos infelJcemente, en- 
tendendo todos , que ElRey Dom Joaõ por nenhum titu-, 
]o eftava obrigado a aceitar o defafio, e que ermo fe naõ 
podia lograr era infruduofa efta derrorftrgçsõ : porém 
quando os achaques íaõ defta , qualidade, rsõ fe achando 
os remédios de que necefiit£Õ, applic3õ*fe*lhe osquefe 
encontrão com apparencias mais íàudaveís» ainda que 
naõ pode hum Vaílallo achar efcudo taÕ fcite que reílí- 
|a aos golpes de hum valido íem ttirxr de Dcos, rem 

doi 



)r6 PORTUGAL fESTAVRABO, 

dos homens. Aífin o expsrinsatou o Duquti j porque 
Anno ainJa qus conít ou , que Frey Nicolao de Vaiaico , a qudui 
_ • fe hivid attf ibuido todo eíle moviínento , tivera em Lis» 

* ^ • boa por taitigo dos leos embuíles hum cárcere por vida í 
e íepaltura, e qui ao criado do Duque mandara tiiRey fol- 
tar urba.iamente « iem mais râzaô , qu;: dizer , que havia 
conti.iuido a aiíiílancii di lua caía \ naõ pode o Duque 
livrar'íe dasopprcíloens, que muito» annospadeceo^ po^-^ 
que chegando a Madrid, foy mandado prehvii' a hu'í»a jun- 
ta , qu;: íe formou em Bílcaia » para o dcíviarem com 
elle apparente pretexto i de voltar a AndiJuí.ia , diidCiU* 
do*fe elta commiílaõ: e averiguando o Conde de i.>iivaíej, 
qje havia o Duque palia io a S.Lucar a ver íua muiner , 
íe:ii pedir licença a EíRey, parccendo-lhd eild biita.ite 
caufa para conícguir o i tento de moleílallo como deíe- 
java, o liandou E Rey prender no Callello de Coca , fe- 
te legoat de ValladoUd. Deita prizaó o paíTaraô para Se- 
góvia, de Segóvia para Volladolid, eemhuna, eoutra 
L.i iadi; elleve treze a jivos. Veio ElRey a loltaM o no an- 
no de lóói » quando fe eíF.^ituou em S. Joaõ di Luz o z'\* 
íamentod hlR y de França Luiz XIV co ii a Princezid* 
Call:ílU . e a p.^-z entre anibaa as Coroa» : porém ainda que 
fe avirigiju a injutt'Çí» com qud o Dnque havn pidj- 
eido t.4nti moíeila fen culpa , nunca lhe relbtuiraõ Sao 
Lucar, que lhe tirarão, confirmando-íecom elte í jw^edi 
a opinião ^ue correo , di q le fora vexido íó p k e te: raf- 
peito. O Marquez de Aya*monte tevre pcior fortuna : 
jyc%ollaooMar. pt^rqui O prenderão no Gaitello de Pinro , cmco lei» 01$ dí 
qtisx, d$ ^^''- jvij^^nd, e lhe cortarão a câb;^'ça-, huf^an ioi- ap.»area. 
te? pretextos para aex^-cuçjo delta eícrupuiola leveri- 

dade« 

Dilatou-fe a Armai 1 d? Fr^nç;» eío-ranii pela 
de Portugal no ri3 ái Li<^)\ dj 7 até i6 de \l»o'Io \ dia 
em qu? huma , e outra levarão ancora, hoy tamheii a ciu- 
fa da dila^iõ a^ijardirem pcila Armada ds HoUandi , qu€ 
nao chegou ao tempo concertado. Os Francczes fahirao 
Sé^^rftdsUshoa pximQUo da Birra pírafóa, nas íalvít rebentou huma 
asd^4tArmx- p^ç , ^ \^^^^ Urca ^jllandjza , que EiRey h ivia fretado, 

^'*'* le/ja*dij o PAiol dâ pólvora , e a powoía o aafio a pi- 

que 



FARTE 1. LJVEO V. 117 

que; lubtileza que es [crrens ctlcíbrirsõ pcra d:nno 

alheio, íem ítgurírça p?rpri3 » fazcnio do ftu entendi- ylnno 

jT;erto ideio a que tacrJíicaraõ as vidsj. Cem Pcrtigue- / 

zes le perderão na Uica , lerdo efía difgrça infelice pro* ^4^« 

gr oítito da cmprcza. S^^hio a nofla Arír.adíi com treze na- 

Vlo^ , íeis caravelas , e quL-íio niil 1í fcrte?. Ciecco o 

vento de qualidade, que lem íair a Armada da Ce íla , 

quebrou o maíto a S.Pãntaleaó , hum cos msiores navios 

delia, e » nao íe podendo remediar com facilidade , ficou 

Eo rio. Outros navios fe maltratarão, mas concertados, 

e unidos com os mais , dcraõ à vela , e dobrarão o Cabo 

de Saõ Vicente , or-.de aviltarão circo frpcatas deCaftel' , . , ^ . 

■% r ^\ .... . j'T^ j Pele ao CO a ri CO 

la, nccu-lhes mais vizmha a Armada ce trança, de que ^^a^atas deCã 
íahiraõ quÊtro navios , que até o dia íeguinte deraõ csça /?í/aj. 
a deus , que íe deíunirfõ òo& cinco , e r:í õ podendo sícGnr 
çailos fe tcínaraõ a ircorpcrar cem es da ÍU3 ccnfeiva. 
Us. ties fícàraõ pelejando com a Armada de Frarça, o 
que naó poderão excufsr por ferem pouco ligeiros: divi- 
dio'OS a noite. Ao romper ca manhãa do Íeguinte dia 
le acharão as três fragatat Caltelhanas junto ao Ga- 
leão Saõ Bento, em que hia o Almirante Fernsó da Sil- 
veira. Era Capitão de huma das fr? g? tss hum Portuguez 
natural de Almada , chamado Salvador Rodrigues ^ re- 
íolveo-fe valercíamente a íe meter debaixo da artilliaria 
da nofía Almirante ; deo-lhe huma csrga , matou três Sol- 
di-dos , e terio treze , fez'fe so n sr lem damno algum 
com grande fentimento de Ferrnõ da Silveira , e inindo- 
le ouíra vez ás duas fragatas , de que fe havia apartado , 
foraõ feguidas de alguns navios Frcncezes , de que íe 
livrarão, e entrando em Cádis dersõ avizo , qre a der- 
rota das Am sdas era para f quella porte. A viz5rh?n- 
ça do perigo incitou a prevê nçpf, Âcodio o Ducue de 
Cjudad Real , e unindo a gente» que trouxe á que eíl:'va 
em Cádis , quando cheg^rpô as Armadv^íf paliava ê Guarni- 
ção de cinco mil homens. Deraõ ellas fundo a quatorze de 
Setembro fora da Bahia deCadis • a Aimirrnta de Fran- 
ça licou m;is vizinha a terra, cbíervcu efía dilTererca -f''^'' fvrJs as 
Fe-.raõ da Silveira , paliou pela Almirsnta . e de fctíe ^^'jf'''^ '* 
le empenhou em ficar ir.ais vizinho do j: erige ds terra, 

cus 



5 28 POÍ{TUGAL 1{ESTÃURAD0 , 

qu2 qaando as Armadas quizeraô .íahir cuftou grande 
AnnO trabaUio o rebocarem* Iht; o nâvio por fer muito pezado , 
e o vento contrario. Oito dias eítiveraõ as Armadas fo- 
1641. ijjg Cádis , e vendo os Gsneraes delias a empreza por to- 
das 3S circumíbancias mais diíficil do que fuppuzeraõ , 
íe refolveraõ a deixalla. António Telles defejou entrar 
dentro na bahia de Cádis a queimar as Fragatas de Dun- 
querque , e outros navios que eítavaõ furtos : dillua- 
diO'o o iMarquez de Berfé defta reíoluçaô , julgando a 
utilidade pequena , e as difficuldades de entrar , e íahir 
, ■ àã bihia , fí:m grande rifco , quafi invenciveif. Deíva* 
ff7:o!Tj faial'- «^cido síts intento , derao á vela as duas Armadas , a de 
i7õ.' Françi para Arrochela , e a de Portugal para Lisboa, 

donde le defpedio avizo a D. Franciíco de Souza , qu3 
de iMoura havia paííado ao Algarve , para que fe retirai- 
fe com a gente que havia cxiduzido , difpoíta para o lo- 
gro da empreza de Gádij. O dia fegulnte ao que entrou 
a Armada ein Lisboa, chegou a Frota ào Braíil com ii 
navios carregados de aííucar , e drogas que produz aquel- 
Entra a Anníi' ]q Eftadoi IJepois de partidas as duas Armadas , chegou 
da dsHolkfidu. Q Lísboa a 10 de Setembro a Armada de Fíoilanda con 
20 nivios: h3via*íe apartado com hum temporal qua- 
tro dias antss de outra Efquadra , em que vinha Triftaô 
de Mendoçi , maí amainando o vento entrou pela barra. 
Eri Almirante da Armada de Hollanda Adriano Gyiíels , 
íoldado de grande experiência, e valor, que na Indii 
havia cedido a António Telles , de quem foy vencido 
ern huma batalha naval : trazia titulo de Embaixador 
DkEiReyaiiH- dos Eílados. Dio^lhe ElRey audiência o dia fegulnte 
enàa AO Embai' 3,^ q^g i^nçou feíro > acompanhou'o o Baráo de Alvito , 
*'"^"'' ( .. / e vo!tou-íe" para a Armada. Triílaó de Mendoça havia 
landa, fretado em Hollanda 12 navios de guerra, em que tra- 

zia mil Infantes Hollandezes, em dous Regimentos , go- 
vernados por Coronéis , e Officiaes da melma nação, 
obrigados a íervirem três annos com íoldos proporcio- 
nados aos pagamentos de Hollanda. Trazia também 
comprados quatrocentos cavallos ♦ muitas armis , e ma- 
* niç3in». Eíle íoccorro foy mais applaudido viíto , qu2 

experiíHíiitada : porque os infultQS dos Hereges fiz rao 

intoie- 



PjlRJE 1. LU FO V. y.ç) 

intolerável a fua rllíDercia reíie Reiro, íerdô a rtJigio- 
la piedade da Naçcõ Fciti guezr o ciiíol , q^e irsii íTria- Ann3 
n er.teírjiura o vaJor de que leccnpcejr. TairbeiTí eiío ,/:., 
peztdos aos povos os íocconcí de HcUíinda , pela gran. ^^4 ^ 
de difpeza que fe fez com elles , e pelo cavillofo trato 
(5os Hollandezes » porque valerccíe nr-s Ccnquiftas de 
Portugal do aperto a que a guerra cortinua o reduzia , 
uzavaõ da noíla dependência para a fua utilidade. E che- 
gando ultimamente a conhecer , que era melhor têllcs por 
ini/nigos deíccbertos , que diíliffiuiadoí , viemos a rom- 
per com eiles a guerra nas Conquiftas, e contrapezaraõ 
as grandes vidorits da Arr:èrica os infortúnios da Afia, 
totalmente occífioncdos das rcOss defordens. A i8 àc saíea^rf»aáà 
Setem^brõ íahio a Armada de Hoilanda na volta de Câ' de HolUnda.^ 
dis a fe incorporar com as duss , que havi&õ ravegado 
a coníeguir aquella empreza. Mandou ElRey com eíta 
Armada cinco caravelas , que levavaõ Infantaria para ac» 
crecentar o numero da que fe havia embarcado. Hum 
temporal fez arribar a Cafcaes os Hollandezes ; focega- 
do o vento, feguiraõ a derrota , chegáfÊÕ à vifta de Cádis, 
e naõ encontrando as duas Armadas voltársõ ao Csbo de 
Saô Vicente» donde íizeraõ a ElRey avizo , de que de» 
terminav?ô ( viíto ncõ Ic lograr a en preza a que vieraõ) 
aguardar naquella altura a íiota de Índias, que fem du- 
vida coftumava a cheg?r naquelle ttmpo-, e que pedito 
a Sua Magellade qiiizefle mandar ircorpor&r com a fua 
Armada alguns navios da ncíla. Quando chegou eíle avl* 
zo a Liíboa ja a rrfia /^rrr.ída havia srcoraco rorio; 
porém querendo ElRcy cmterrpotiz&r com os HcUsn- 
dere* lhes mandou quatro nfivio? , e por Cabo delle^ Rry 
de Brito Falcão. Sshio Ruy de Brito a ii de Outubro, 
e nomefmodia tomou hum révio nercartil Inglez, em 
que os Mouros haviaõ feito preza , e c^rregar^o de ferro 
o levavííô psra Salé. O dia íeguinte í viílou onsviodos 
Mouros, que renderão o Inglez , deo->he car.a , e obri- 
gou-o a dar á coíla. Seguio a viagem , e chegsndo ao 
Cabo deSfÕ Vicente neõ achou a Ai rr'f da de Hoilanda , 
msrdou inforn;ar"fe a terra , donde lhe veio rrticia , qne 
a Almada fe £zera ra volta do Ccbc de S^nta Maria. Se- 

guivj 



z.a com a',.di 

ÇnfiíiiU, 



550 PORTUGAL KESTAURADO, 

guio a mefína derrota , e gaitando vinte e nove dias neíla 
Anuo diligencia , naô podendo cjníeguir encocitrar a Armada 
>^ de Hjllanda , íe recolheo a Lisoja , oade a achou anco- 

1041. j,^^^ ^ refazeado-fs do damno que havia recebido do en- 
contro que teve com a Armada de Gaílella. Conltava eíU 
de vinte e quatro navios, de que era Cabo D. JeronyríiO 
Gomes de i^andovai ; entre o de S. Vicenie , e o de Santa 
Maria íe encontrarão as duas Armadas» arribou adeCaf» 
tella íobre onze navios Hollandezes , íicaudo nove a fota^i 
Rocõnoãa Af' vento, peleijáraõ muitas horas íem conhecida ventigem ; 
ií//4«'^?. porém iendo opodertaõ deíiguai, meterão us Gaiteiha» 
nos a pique dois navios Hollandezes , e chegando o& nove ^ 
que nao haviaõ podido arribar , iobreveio o vento taõ rij 
jo , que dividio as Armadas. A deGaícc:]ia levou perda 
de gente , e quâtro navios taò delappareihados , que naô 
toraaraõ a navegar. Deteve-íe a Armada de H.c)ilanda no 
rio de Lisboa atè Janeiro do anão íeguiate de 164^ » tem- 
po em que voltou de HoUanda , dspois de njs occaiioaar 
odamao, que adiante diremos, 

£m quanto em Europa fe peleijava com 0$ Caf* 
tslhanos, haviaõ os Hollandezes na Amt;rlca poílo todo 
succejfos doBra. ^ ^^: j^^o coi adianfar caviilolamente a fua fortuna.Conf- 
tou ao Conde de Nazau , que era partido da Bahia o 
Marquez de Montalvão, evendo-íe livre doob.hculo 
que lha fasia o leu pruiente governo, dando-ihe rnaiof 
confiança a pouca attencaõ dos três Governadores, que 
taó iniuílameate haviao prezo o Viarquc-z , e juntamen- 
te interpretando a favor de f-us iates elies as capituía- 
'uín^.a-Ja dos Ç Dens quc Tfiítaó de Mendoça havia feitg com 05 Eíta- 
Holiandczis tíjs , preparou hunia Armada de 20 navios com 1000 
contra Angola, Xnfantes , c loo lodios, c fazendo General de!ia a hum 
Vs^cTrlr* Coríario chamado Tolo , a quem a falta de imma perna 
havia dado a alcunha de Pé de pio , c 1 mçando vuz , que 
efta A-^mada híi efparar a Frota de índias de Callelia, 
mandou interprend^r a Cidade de S. Paulo de Loanda, 
cabeça das povoaç )ens de q le ElRey de Portugal he Se- 
nhor no Reino de Angola. Governava elli parte da Afri- 
ca n.3q'ielle tempo Pedro Cefar de Menezes, íiího f«- 
gundo d3 Vaíco Ftírnaadís Ceíar , que havia exercitado 

em 



FARTE 1. LIVRO V, jji 

ém Flandei o pofto de Capitão de Cavallos com muito 
boa opinia6. EraÕgiande» as utilidades que q« Hollanda- Anno 
zei conleguiaõ na Conquifta de Angola , fendo s princi- • 
pai levarem para o Bralil os Negros qae habitâò aquel* ^^4^» 
le dillrido , para íervirem na fabrica doi Engenlios de 
aílucar , infruduofa fem a alliiiencia , e trabalho deíles 
bruto* racionae«. Foy occulto eile intento dos Hollandc- 
zes aos Governadores du Bralil , por haverem com pouco 
acordo retirado as Tropas, com que o Marquez de Mon- 
talvão fu (tentava a guerra em Pamambuco, e por gaita- 
rem pouco cabedal com as intelligencias , e principal- 
mente por lerem os Triumviros , até na granaeza Ro- 
mana , perigdfo governo; e parece quafi infalliveí , que 
ie o Conde de Nazau naó fundara a fua confiança na 
delcuido dos Governadores , nâõ deftitulra as Fortifica- 
çoens de Parnambuco da maior parte da Guarnição » que 
as animava, pondo em lifco tudo o que havia ganhado 
na Anerica pelo que naó tinha coníeguido em Africa. 
Porém pode diículpar os Governadores nao íe períuadi» 
rem a que podia caber nos Hollandezes tanta inOdeli- 
dade , cofVtand >'lhe$ das capitulaçoens da paz celebra- 
das entre BiRey , eosEílados de Hollandíj. Puzeraõ os 
Hollandezís a prôi em Angola, e tomarão no caminho 
hirma c3'-ivéla Portagueza , que hia para aquelle Reino ,. 
que elles aviltarão a 24 de Àgoílo, O perigo naõ elpe- 
ià\ò , e o f jbrefalto repentino confundirão de íorte os 
ânimos dos «n oradores da Cidade de S. Paulo, que fun- 
dando cega Ticate o remédio do dar no na brevidade da 
retirada, dsfampararaô a Cidade. Pedro Gefar, vendo- „, ^ - 
je em t.^nto aperto, deixou o Capitão Math.ias Telles mradL-res a. 
Veloío coTj 6^ homens em a Fortaleza, da Cruz , pouco cidade, 
diítante da Cidade , e íeguio a gente que íahio d^lla. A 
Fortaleza e^a taó mal fortificada , e eftava com taô pou- 
ca prevenção, e em fitio taõ inuril , que 01 Hollandezes 
tanto que d:íc:mb.ircaraô , fem c char quem íe Iheí cppu\ 
zelTe, o dia feguinte ao que chegarar, fahiraõ em o lugac 
do Penado. Sem fazer cazo da Forta.ez3,a deixarão á ma(^ 
direita , e luhindo a hum monte que lhe ficGva eminí nte « 
e&trar õ na Cidade fem maÍ5 err baraço i que a opfcfiçaô 
Tom. I. Z que 



552^ PORTUGAL tESTAVRADO, 

qué fiz^raô poucos Soldados, e alguns Paizanos, ceden- 
AnnO ^^ «i^£â facilmente ao maior numero. Três Capita^ns 
V p.^g)s » que havia na Cidade , mandou o Gov*crnadof; 

IÔ41. com algu na gente á praia íj irapedii dufembarcarem os. 
Hollatidizes .-porém elles laitaudoem terra em patiedef- 
Entraomiia os yr^^jj ^ ficou eíU di!Íg2ncia infruduofa. Quando volta- 
iio a^e^ss. y^^ p^^^ aCidide a actiaraô o-cupada dos inimigos ; íal* 
vaT.íô'íá no lugar de Benibem meia iegoa deiía , pata 
onde o Governador íe havia retirado , e a maior partC; 
di gí.*nte CQ ii os moveis íúíais preciofos. Mas parecen» 
ketira feo Go' do'*lhe ao Gov^mador aquelle fitio arriícado , íe foy a!o- 
vtrnador, jsr a hum lugaf junto do lio Bembo , quatro Iegoa* pela 
terra .dentro , achando eile íitio accommodado pata reè 
cebcr algum foccorro , que llie vieííe por mar. Penetra^ 
raô os Hjllandezes eíie deílgnio, levantarão hum Fortci^ 
ra bocca do rio, e guarnecer: ô*o com 300 Soldadost- 
Pedro Cefár querendo atalhar tfte damno,. mandou o Ca-; 
pitaó Gregório Ribeiro com iro Soldados atacar o Forte : 
porém achou de qualidade a reílílsncia , que teve por 
fortuna retirarfe , perdendo fó três Soldados. Vendo Pe- 
dro Ceísr baldado eíle deilgnio, e o luga?, em que cll3ya,y 
pouco íeguro , íe paílou para o de Aquilinda , naô mui-, 
to diílante : reconhecendo eíle por menos capaz, íe foy 
alojar a hum faio íete legoas da Cidade, em huma fa- 
zenda de hum homem, chamado Domingos Carvaho» 
SeguiraÕ-o os Hollandezes com 500 Infantes , e duvi- 
dando confeguir a empreza {em artilharia, mandarão 
bufcalia. Entendeo Pedro Cefar eíle defignio, e naõ 
querendo experimentar o eíieito «delle , íe retirou p^ra 
a Fortaleza de Mafangano ^ o legoas peia terra dentro , 
'jivlz.^i oGover- deixssndo defpedido 8VÍZO a ElRey por António da Fon- 
pador aElRey. (g^g Dorneílasdo infelice fucceíío daquelle Reino. Antó- 
nio da Fonfeca embarcou^fe em hum barco no rio Cuan- 
ca , íahio ao mar , livre dos Hoiiendezes, chegou à Ba- 
hia a falvâmento , paílou a Liaboa em huroa caravela , 
onde entrou a 20 de Deí^emhro : achou que ElRey anda- 
va á csça da outra parte do Tejo. Recebeo a noticia dos 
fuccetíofids Angola , e n^ó foy ta6 breve o remédio , co. 
mo pedia perda t^Q confidsravel. Os Holiandezes havendo 



TAME 1. LIVRO Vyi ^^ 

logrado facilmente o que intentarão em Angola', n?6 cui" 
zeraô íoltir das mãos a fortuna » para que naõ ir^udaííe AnflO 
de condição. Efcolheo o Pé dé pio 13 naviôsH que-etii ^Aai, 
tregou a Audreíon pratico , e valefoío Soldado , pííílou ^ 
cite á Ilha de S. Thomé , pofto precifo para o fim a que 
oí Hollandezes caminhâvaõ. Pouco$ dias antes havisõ os 
moradore* acciamado ElRey D. Joaõ: porque tendo no- 
ticia deite fuccelTo por hum nario Inglez , foy com tan- 
ta incerteza , que aguardarão maior probabilidadt:. Du- 
rando ella duvida , chegou ao porto hum navio Caíté- 
Ihano trazendo o Capitão delle ordem para introduzir na 
Forta-eza 200 Soldados com a deítreza de diíTimuJar à 
mudáiíç.» do governo. Aportou ao meímo tempo hum 
navio Francez e^nallha das Cabras, pouco diitante dia 
S. Ihome. Os Ciíleihânoj mandarão dizer aoá n^orado^ 
res , que fataíle n ao« Francezes como inimigos. Teve ô 
Crípiííõ Fíancez efte avizo >€ íahendo que 03 Caílelhanos 
eítavaõ em o li tio da Praia das Conchas , inveítío o na- 
vio , c;ue rendeo , e lançou os Cailelhanoj era S. Thomé. 
Governava eíta Uha o Alcaide mór da Fortaleza Miguel 
Pereira de Mel'o, por morrer naquelle tempo o Gover- 
nador Manoel Qu^reíma Carneiro. Prevenido Mígusl 
Pereira das noticia* antecedentes , fe informou de hum 
Piloto VoviUGtiez que vinha com os Caftelhanos, e scbarf- 
do cena a noVa da Acclamaçaõ, e o intento que òsCaf- 
telhanos traziao, poz a tormento o Governador que vi« 
nha nomeado em c^fo que a empreza íe confepuiííe. -^ 

Padeceo oCa^íelhan:) negando tudo o que lhcp?r!::junt^.- 
va; porém baiju a informação do Piloto oara 'Mispulál , , '">%■- 
Pereira acdamar ElRey Dom João. Mandou dar aos Reynmir.ade 
Francezes todos os baitimentos que Ihei foraÕ neceíTarios , s. ihorné, " 
partirão elles da Ilha, levanclo comfigo o navio Cafte* 
lhano, quehaviaô tomado. Paííaios doasdiaa, chegou 
hum navio Inglez com cartas d'ElR«y, que 01 llheos 
ceiebraraõ com grandes- fe 1^3?. Durou-Jhes pouco o cort- 
tentart^ento , chefiando hum barco de Angola com a no4 
va da perda di Cidade de S.Paulo, ecom avizo de que 
CS Hollandezes d^terminavaõ ppíTsr áquella líKi, Naõ 
foydeefieito efta noticia, roa* fervio fó dsanticipar ó 

X 2 te- 



ÍH POKTUGAL RESTAUtADO , 

temor, para que tiveíTem menos difculpa de a perder, 
lAnnO porque a prevenç^ió que íó fizeraÕ , fuy retitar o Uto 
lÓAi P^^^*^ Ceruó da ilha, e o Governador meteo naForta- 
'* * leza , qus era muito capaz de íe defender , quaritioade 
de mantiiientos ; e naõ correíponderaô as mais diípuli-, 
Ghe^ao os HoU çoioi â cílj, Chegaraõ os Hollandezej a íiha a 1 5 de Ou-, 
landez.es ^ a tubfo , )anç3nó ferro dua» Icgoas da Cidade » deíembar- 
s.Thomé, caraõ 14 Conpaahias que ficarão alojadas em h\>nvà tre- 
mida de Santa Arna, pouco diílante da M:.iiítha j ie- 
vantaraó tri icheira , e foítiíicaraÕ'fe cora muiu bfcvií 
dade. Acodio áquella parte alguma gente nolla ; porérn 
f, ]tandu'lhe Ciípitaó , edifciplina, voltarão lt:m outro 
effciío para a Cidade \ de que reíultou cobrarem os Holj 
]andezeí maior alento , porque vendo tant^ cJcío»dem, 
íe pu2;er3Õ em marcha para a Cidade. Creceo neir< a 
confuíaò , porque r>aó havia quem dilpuzelle adcfenfj. 
Arrojou*íe JoâÕ de Souía , filho de Lourenço Pires de Tá- 
vora , Governador que fota daquella Ilha, a aiuntar al- 
guma gente, para impedir ao* Holiand€2es a pafiagem 
de hum rio , que corria entre a Cidade , e a ellrada , por 
onde marchavaô: deo o intento á execução, começou a 
pelejar valerofaraente. Sahiriíõ da Cidade três Coír>pa- 
nhias a foccorrello ; mas encontrando alguns , aquém o 
medo havia obiigado a defamparerem Jtaõ de Souía, 
xjue vinhaÕ dizendo que o» mai^ ficavaõ degoilados • 
íem outro exame voltarão as codas as três Corapanhiaf. 
Wcupão a vor- ^* ^"^ ficaraõ com Joàõ de Soufa , também o deixarão , 
tauL da ' íalvou-íe elle com grande riíco , eos Hollandezes mar- 
j>raia. châiaó fem oppofiçaõ á Fortaleza d > Praia pequena , que 

governava o Capitão Francifco Ximenes. Pudera elle 
refiftirlhes muitos dias , mas íem reparar na honra a def" 
amparou. Occuparaõ*a os Hollandezes , e marcha'rao 
para a Fortaleza principal , em que eltava o Governador 
Manoel Pereira com 400 Portuguezesí jogava a Forta- 
Jeza 36 peças de artilliaria , que igualmente offendiao 
os navios da Armada • e Infantaria que eílava^ em terra, 
Haviaõ metido a pique a Almitanta , e continuando o 
dsmno de huraa, e outra parte, fé retirarão os HoUan- 
íjçsigi paca a Foitals^g , que Ii^aviaõ ganhado. Mandarão 
. " " deksas 



PJRTE I. LirRO V, ?5y 

defembarcar mais gente , e o dia feguinte marchársõ pa- 
ra a Cidade, onde eílava Joaõ de ÍJoufa com poucos mo, AnnO 
radores, porque os mais íe haviaõ retirado para huma ^ 
eminência, que ficava pouco diítante. Aguardarão o? 1^^* . 
Hollaiidezeí que ceiraíle a noite, e bufcando parte por f^j^"" "* * 
onde a Cidade podia ter foccorrida , fingirão que craó " * 
Portugueze* , e , enganando facilmente os pouco deítroi 
moradore*, fe introduzirão nella. Qiiando fe conhsceo 
o eng^jno era ja irremediável •. retirou*fe Joaõ de Sou- 
ía f e os mais para a eminência onde eílavsô os outroi 
moradores i tanto que amanheceo os inveítiraõ os Hol. 
landazes , e os obrigarão a fugir para o mato. Ganhado 
clleíitio, o fortificarão , e juntamente outro faio, que 
deíccrtinava a Fortaleza, e plantando em huma, e ou» 
tra parte artilharia a começarão a bater : quaíorze dias 
paílaraô íem outro efieito , recebendo grande damno da 
Forti'eza, e naô havendo faltado nella mais que três 
Soidíidos : efte lucceíTo , que pudera íervir de eílimulo ^^^/^ " ^"^^i 
a Manoel Pereira, lhe accrecentou o receio , e íem mais pereWa 4 lor- 
caufa , que cahirem algumas bombas dentro da Forta* takz^a, 
leza , com mais eftrondo , que prejuízo , fe rendeo, 
fem outra permiílaõ, que a de poder paílar ao Reino, 
aon ie chegou , e fendo logo prezo acabou a vida no Ca» 
íteliode Luboa, pagando juítamente a fua cobardia. Se- 
nhores os HoUandezej da Fortaleza fuftentaraõ a guer- 
ra que lhes fizeraô os que fe paliarão ao mato , até 
que chegou àquelJa ilha ordem d'ElRey para ajuíl^rem 
a paz com os Hotiandezes : concluio*fe, e tornarão o» 
Portuguezes a povoar a Cidade , focego que lograrão 
pouco tempo ; porque chegando da Mina nova gents; 
aos Hollandezes lançarão 0$ nolfoi fora da Cidade 1 e 
puzeraõ fogo às caía?. PaíTaraõ os moradores ao ma- 
to, e fuftentaraõ a guíi^a até o anno de 1644 -> ^^^' 
po em que fe fujeiíaraô os Hollandezes por íe verem 
totalmente deílituidos do íoccorro. 

O Conde de Nazau tanto que teve avizo dos Artr^a^a hpU 
bon^ fucceíTos confeguidos em Angola, e Saõ 1 home , lande xa contra 
cefpedio outra Armada , que confíava de 18 navios à or- " MaranhUo. 
dem de Joaõ CornsieSi qus levava nella dois mil In fan- 
Tom. I. Xi tes , 



55á PORTUGAL RESTAURADO, 

tej , a interprender a Cidade de S. Luiz da Ilha do Mara^ 
Ann,0 nhaó. Chegou efta Armada á viíta da Cidade a 24 de No« 
i6á\ vembro. A i,ha do Maranhão íica na Coita do Brafil ; 
^ \j \.\ corre para o Ciará de Oeíte a Leite, e para o Pata a 
■ jta ejcn^(ao. Q^-fnofOíiít;; em dois grâos e meyo da banda do Sul : 
tem 12 léguas de comprido, e cinco de largo , e em al- 
gumas partes ith \ fica em huma grande bahia , que aUi 
faz a terra firme , de que diita duas legoas da parte do 
Xefte , e do Utfie três , e por huma e outra entraõ na«« 
Vios : pciia parte do Sul a divide da terra firme hum rio, 
que terá de largura hum tiro de arcabuz. Oi Francezesa 
dtfcobri ao, e lenhoreárâõ até o anrío de 1614, que Je« 
lonymu de x^lbuqiier^ue os lançou delia, governando o 
Brafil Gaípar de Souía: a Ilha naô dava mais que taba*^ 
CO, e mandioca *, na terra fir re havia Engenhos de aíTu- 
car ; hoje íe tem deícoberto outras drogas quafi taô pre- 
cioías como as da índia. Governava aUha Bento Maciel 
Parente; reconlieceo a Armada , e vendo que era de Hol- 
landa a mandou falrar, por ter recebido ordem d*ÊlRey 
para naó tratar como inimigos mais que a lurcos, e 
Caílelhanos. Continuou a Armada a derrota fem ref. 
ponder á falva , nem amainar. Vendo o Governador efta 
refoluçaó mandou dar-lhe carga com toda a artilharia, 
a eíla refpondèraõ os Hollandezes , e querendo livrar-íe 
do perigo das balas deraõ fundo a diílancitj , que 01 li- 
vrava delle i lançárco logo mil homens em o fitio de 
Noíla Senhora do Deílerro : os moradores com o ócio ef- 
quecidos do exercicio militar derpovoárao a Cid^Je , e o 
Governador fe achou na Fortaleza com fetenta Soldado,?, 
trinta e cinco delles meninos de muito pouca idade, a qua 
havia fentado praça para fupprir a falta de outros tantot 
Soldados velhos , que tinha mandado para huma Capita* 
nív Çúã , defacírirto que lhe tirou a honra , e lhe cuílou a 
vida , coílumado efi-eito da ambição , que com eUesde» 
fenganos acha íernpre íacrificios. Marcharão es Hollande- 
zes para a Fortaleza , e vendo BentJ Maciel a fua deiihe» 
raça6 mandou dizer a Joaõ Corneles , que aqueHa ilha 
era dElRey d? Portugal , com quem os Eftados de HoU 
landâ haviâõ gãkbiado pazes y e que neíts íentido \g- 



PARTE 1. LIVRO Vi 537 

tioraTí acaufa que o trazia a lhe fazer guerra. Refpon- 
tíeo JoaôCorneles, que elle naó determinava cífeoder AnOo 
os Fortuguezes , que vinha com ordem do Conde de Na* ^ 
zau Governador dai Armai em Parnambuco para cccii* ^^4*''' 
par aquelk Ilha ; que quizeíle elle que is aviítaííem , 
para conferirem o que foíle maia útil a lilRey » e aos 
£itauos. Obrigado do receio aceitou Bento Maciel eíie , ^ . j 
partido : íahio da Fortaleza , fâllou com Joso Corne- 'tníalcrBent» 
les , e aíleatáraõ que Bento Maciel íicaíle governando luníei cem es 
a Fortaleza , e que aos Hollandeze* íe deíle huma par- udUnds^es, 
te da Cidade , para fe aquartelarem , e mantimentos 
por íeu dinheiro até que chegaíle ordem dElRey, e 
dos Eílados , com a qual fe tomaíTe a Uitima refolu- 
çaõ O modo da jornada doi HoUandezes bern deixava co- 
nhecer o cavilofo anifi.o deíla propoíta; porém Bento 
Maciel , que governava melhor os feos cahedass que a 
Fortaleza, aconíelhado do medo , bufccu pretexto para 
entregar a Fortaleza, e a Ilha. Entrarão os HoUandezes F»/r4< ;íd Cí'> 
C3 Cidade , e naõ querendo ai rgar mais o prazo â diffimu- dade ^ ^ ^/nj 
laçaô a faqueáraó. Molhou Joaó Corneles que fora de* í**""»»" ♦' 
lurdem dos Soldados, para facilit -r a entrada da Forta- 
leza ; éílim o confeguio como o difpoz , mandou occupar ^^^^*° f '^"'J 
os poftos delia pelos HonanJeze^, tomar poííe doa Ar- '/j!^^*^^'''^'^? 
mazensi abater ai bandeiras de Portug.il , e arvorar as da ' 
Holianda, depois difto executado repetir !Õ oi Soldados 
o faque da Cidade , naó concedendo mais privilegio ao Sa- 
grado > que ao profano. Seguioíe a eíla extorçaó manda- 
rem recado aos Portiáguezes deltapocurú , povoação pe- 
quena de terra firme , doze legoas da Ilha onde efiavaõ of 
Engenhos , que lhes tnandaíiem tantas caixas de aíTucar , 
que bafraííem a livrallos do perigo que os ameaçava ; poc 
fe livrarem deíle damno contnbuiaõ íeis mi! ciixss ; J036 
Corneles naõ querendo perdoar a diligencia aígumâ fez 
jurar a todos os moradores obediência aos Eftados , e em- 
barcou cento e cincoenía Soldádíjs Portuguezes em hu- 
ma urca mal apparelhada e deixou'o$ livres para fegui- 
rem a derrota que quizeíTem, fuppondo que lhes dava 
íepultura na liberdade. Puzeraõ elles a proa na Ilha da 
Midcira , porèiii a xnuita agua que fazia o navio , 0$ 

X4 obp- 



5 5 ^ PORTUGAL f{ESTAURJDO , 

obrigou a arribarem á Ilha de S. Ciiriílovaõ na Coda de 
Anno India« de CaílelJa, povoada de Franceze», e inglezcs. 
i6ai Acháraô muito boa hoípedajem , e em varias emoarca" 
** çoeas pjílaraó brevemente a Lisboa. Joaõ Corne !;is vol- 

tou com a Armada a Parnambuco» onde triunfou da vi-, 
dt jria de huma traição. Deixou na Fortaleza 6o Hollande- 
ze» , e quatro naviOi no porto i baítiute íegutança para 
a pouca o^ipofiv^ió que temiaó. B^nto Maciel levarão 
elies premio a Parnambuco ; morreo em hu na FortalcfZa, 
que oí Hollandeses tinhaõ no Rio Grcnde , pagando juf- 
tamente a fua ambição , e pouco valor , defeitos que eíle 
anno for aõ cauía dsa muitas difgraças » que padecemos 
nasGonquiftas, e conhecido eíFeito do lethargo com que 
os Calteihaoos por todos o.í caminhos adormentavaõ os 
ânimos valerofos dos Partuguezcj , negando-lhes o exer- 
cício da guerra , e dandoihs» Mercadores por Capitaens , 
que fundavaõ a maior opinião nos mais certos intereííet. 
^^^ É íeeíle diícurío he preíumpçaô de Portuguez, e naó co- 
^"^^ nhccimenío do valor , que [ieos quiz influir nos efpiritos 
5"^'^ bellicoios deíla generoía Naçaô i brevemente o veremos 
nas vidorias coníeguidas nos mefíTios lugares das difgra- 
ças j íem mais foccorros , que efgrimirem os v apitaens as 
eípadas fem ar ifmeticas^ deliberando-fe a fazer livros de 
Caixa dos Annaes da Fama. 
9ãe(e§os da In* ^^^ ^^^ interromper a ordem da hiftoria feguire» 

^a^ 'mos nefte anno os fuccelíos da índia, que acootecéra& 

no de 41 antes de chegar áquelle Eítado a nova da ic- 
clamaçaô. Era Vice'Rey delle o Conde deAveias, co- 
mo fica refeíido \ e deíejando accreditaríe com a:çoen íi* 
nahdas, achava por oppolto o grande poder dos Hollan- 
dczes , e a arte com que ufavaõ delle, naõ confentia mais 
efperança , que a de poder confervar o que naquel e tem* 
po tínhamos na índia : e ainda eíla era pouco íegura , 
porque os foccorros defte Reino naõ eraõ grandes , e as 
forç;iç da índia fe achavaõ muito inferiores. Suílentava 
o Vice'Rey amigável correfpondencia com os Reys vifi- 
nhos ; e fó íe haviao feparado delia 0$ Reys de Jor » Pam , 
e Cândia , de quem os Hollandezes recebiaõ foccorros 
çonua as noíías Armas, eíbaado aa íuas taõ poderofas^ 

quq 



PJRTE 1. LIVRO V. ^59 

que cccupsvaõ tcdos os lugares (eguinter. Tinh^ó feito . 

lia cm VingorJs, teria do iiidalcuõ , diílante para o Nor- AnnÒ 



1641. 



te lete legosi ce Goa ; e uzerido dr dcílrcza de vender a« 
dioga» do Sul , e n etcadoiia» de Europa por trenos pre- . , 

ço , e coiii nieros direitos, do que coítuiravamos dar ^'^''^f;^/*/'^ 
as noílas , sugtnentavao os Icos cabedaes , e 0$ rolios íe ^j^e;, 
deliruicô. 1 inhíiõ ir-fcis nas terras do meln^o Hidalaõ 
feitorias em Dabul , e Rajapor i e outras pelo certaõ dcn« 
tro, que lhe íerviaó de grande utilidade. Occupavaó na 
inclma Coíía para a pai te do Norte huma grande feito- 
ria em Surráte , de que tiravaõ grandes interefles , fen- 
do maiores os avanços , levando aqueiles géneros para a 
parte do Sul , e para o Corr oraÕ na FerGa , que fica de» 
fronte de Ormuz, e em todas as mais partes daquelle Ef» 
treito; e do de Meca íuftentavaõ utíli/Timas correfpon- 
dcnciâf. Senhcreavfíô na (oOa de ( crrn^sndel a Forta- 
leza de Pslescfcte Na llhadeCeibõ occupavaõ as For- 
talezas de Galle, de Triquemale , e Baticalcu, que nos 
haviaõ tomado em 0$ annos de 1638 , 39 , e 40 , e a de 
Negumbo , que Dom Filippe Malcarenhai havia reftau* 
rado. Para a parte do Sul tinhaõ fertoría no de Achem , e 
outras na Ccntracoíla : occupavsõ a Cidade , e a Forta- 
leza de Jacatará ( a qte deraõ o ron e de nova Batavia ) 
na Ilha de Jaoa do Senhorio do Matarão: eraõ Senhores 
das três Ilhas de Banda , e tinhaõ feitorhs no Macaca na 
iJha de Bomeo no Reino do Mcgnr, que he parte de Ben» 
gala; c nos mfcis portos daqueila Coita eraõ tao fuperio» 
res > que nsô entrnva nellesa commerciar náo Poríugue- ' 
za. Domi avaõ a Ilha de Amboino com as mais 3dj;.ícen- 
tes, e tod^s havióô fortificado, eprefidiado: fenhorea- 
V3Õ o Archipelago das Ilhas de Maluco, e tinhaõ Fortes 
em as de Ternáte, Tidôre, Mouíel , e Mequien ; e juíi- 
to a eftat Ilhas occupavaõ 2S de Baróchina » Gf^loilo , Ba." 
canora, cBaychaõ, e no mar da China , allhaFormoía, 
donde frequentavaõ o trato da China para o Japaõ ; ftj.. 
Itentavaõ qutfi abíolutamente o commercio de Pef íi , Ta» 
naílari , Junfalaõ , TarsrgA, Ilhas de Piírenta . Queda 
e Pêra : o rrefmo Senhorio havÍ£Õ sdquirido ro Eftreito 
ce SincafurS) Coíla dePam , ?«tône, § Chi upa , en- 



543 PORTUGAL RESTAURADO, 

íeada deSiaó, e ds Gochioichina , portos dsGmbjya ; 
Atino 'í^niííiiiíi » China, e Chincheo, e a Ponta de Sumbor,' 
16 Al ^^'^^ l^nhoreá de todos os mares daquella parte de Muí- 
4*' fulapatiõ , onda tinhaõ feitorias ; e da meíoia íórte na 
Coita de Goromandel. E finalmente naô havia em todo 
o Orisíite parte, em que os Hollandezes naõ tiveílem en- 
trada, e de que naô tiraíTem groíTiili^íios iniereflei. O Vi- 
ce-Rííy para ie defender de taõ poderoíos inlínigoa. e íe« 
gurar a Cidade de Goa, que elles ameaçaõ, dilpoz em 
Úíjpo^fog:is do todos oj poríOb do noílo Dominio o maior numero de tra- 
eondsde .ávsr barcaç^x^os que lhe foy poílivel juntar. Conilava a Arma* 
ras '/ice-Rey. jjg ^^ Goa de vinte navios, e huma galé: era Capitão 
nióf dalia Luiz da SiWa, íilho maia velho do Conde de 
Aveiras g que no anno antecedente havia moítrado na de- 
feaía de' hum Forte daquella barra , que o íeu valor cor- 
lefpondia á fua qualidade. Sahio de Baçaim, como era 
ccftume , a Armada para a Ceita do N.>rte : conítava de 
Tinte e oito embarcaçoens , chamadas Sanguiíeis , e go- 
vernavaa Dom ^^anoei de Menezes , tendo ordem do V"i- 
ce*Rey para que nos primeiros de Setembro eltiveílc fo- 
bre a barra de Goa. A Armada do Cabo deComorim era 
de doze navios , e nomeou o Vice-Rf.y por Capitão mót 
delia a Doiningos Ferreira Beliago. A do Canará le com- 
punha de doze navios , governada pelo Gapitaõinor Fer- 
não de Mendoça Furtado, filho de Franciíco de Mel- 
lo de Caítro, que o Vice-Rey havia mandado invernat 
a Mangalor por Cspitio mór da gente de guerra iaquel- 
• la , e das mais Foi'ía1ízas do Canará , com ordem , que 
no mez de Setembro le achada m em Goa corn todos oa 
mantimentos, que lhe fofle poíTivel. Porém to ias cilas 
prevençoens naõ baítiraô a defembaraçar a barra de Goa , 
que os Hollandeze? occupàr^õ na forma que havemos 
referido. E naS teve melhor effeito ofoccorro, que o 
Vice-Rey mandou a Malaca , a que os Hollandezes ha«, 
Viaó poáo fitio no mez de Agoílo do anno antecedente ; 
porqui n4Q houve mais noticia de huma grande não , que 
O Vící^Rsy mandou áqueila Fortaleza carrtíg -'da de pól- 
vora , e mantimentos » fazend.i juntamente avizo poi 
íerra aos Eleitos ds Nígapataõ , e prevenindo-os com 

gvof- 



P^RTE 1. LWRO V. 341 

groíTos créditos 1 para que scodiffem a Míílsca coir tcdos ^ 

us n^aniiintnto» poíliveis , prcmettendo lhes ? fe ir.tro* Anhõ^ 
duzilic-m o loccono, hábitos , e fidalguiaf. E na Mcnç ô , ^ 
de Abnl deite anno , havendo o Vice»Rey prevenido vin- "4i* ^ 
te e íci^y erribí.rca(;otns com Soldados, niuniçocns, e man* fj^*^^" '^^^*' 
tin.entos , chegou aGoa a nova por via deCóchim, que * 
Altílaca le peu era a 1 4 de Jareiro défte anro de 41, de» 
pois de durar o fitio cinco meze» e ireio , ht. vendo na For- 
taleza taõ poucos mantimentos, que parecia irrpcíTivel 
coníervar íe tanto tempo íem íe lhe introduzir fcccorio. 
íoy eltâ perda nuito confider^vel, e tocáraó as confe- 
quencias delia naõ íó ao Elledo da Índia , mas também â 
elte Reino, que accrecentou eíta queixa ás mais, que 
juítamente publicava do infelice doroinio dos Calfelhaf 
nos , porque le deícuidáraõ dos foccorros da índia , par^ 
ce que com o lim ja referido de quebrantar as forças de 
Portugal. Em Ceilão eraõ melhores os íucceíTos; nos pri- socccrVo âecel' 
n ciros dias de M^rço lhe n andou o Vice*Rey o fegundo ho ^ que ^c-jer' 
íocworro, que conlísva de oito grleotus , em que forfÕ 'í'»'^^''? c>'F'^'>?« 
duzentos elellenta Soldados , quatro peças de attilhé^ia, ^^'»A'"^«»^^*ç 
iruniçoens, c mantimentos, e do7em.il Xerafíns. O Ca- 
pitão General Dom Filippe Mafcarenhas , depois de che- 
gar eíte íoccorro a CeilaÕ deíern incu hir f< bre G-Ue, 
iras houve inconvenientes que o emboraçáraõ, fendo o 
principal ter noticia , que os HoUandezes lhe havido de 
jacataT-à introduzido grande íòccotro. O* de Galle vendo- 
íe com groíío prcíidio íe animarão a fazer algumas íorii» 
das : em huma que fizcraõ a 10 de Apofío ptrdèraõ hum 
Cspitsõ com trinta Soldados , e aos mais íeguio a ncíia 
gente até as portas da Fortaleza. Depois deíie fucceíTo 
a íitiou Dom Filippe Maícsrenhas ; porém h^verc^c che- 
gado a nova da scclamsçaõ d'FlRcy , e da an izade qi}e 
tratava com os Hollandezes Jevínícu Dom Filippe o fi- 
tio , rras todos os noílosí bfequios , e boa correíporden- 
cia naõ obiigáraõ aos Hollandezes a retroceder do$ íeo* 
cavilofos intentos , uzando em utilidade íu^ da ntíla er' 
reda confiança. O Hidã'csõ rece? va o rcíTo p( der , e efte 
era íó o carr inho de íuftentar a fua palavra , que em mui- 
tas ocçafioçn^ vendo'o dimiriUidoihâvia qiicbrsntpdr. O 



54Í POKTUGAL RESTAURADO; 

Mogor era guerreiro, e inquieto, vario, e ambicíofo J 
AllllD deffijava ( vendo os bons íucceílos dos iiollandczes ) ac« 
tK í crecentar com as íuas armas a noíla diígraça ; mas o Vi- 
194*' ccRey teve induítria para co^nprar alguns de íeos vaii- 
dos, e temperar com eíta arte a iua arrogância. ElRey 
de Cóchim perfeverava na antiga amizade que lempre 
teve com os Portuguezes : por mais diligencias que fazia 
pelo divertir hum valido leu com titulo de Regedor, 
'MMdao os Reys ^^^^^^ào Samud Gaíliel. Eíles Reys, o Samorim, Elr 
daindiaEr/ibai. Rey do Ganafá , o de Jolocondá , o Imamo Rey da Ara- 
.xadores aoFice. {51 ^ , e todoj OS maís do Sul mandáraõ ao Vice-Rcy Em- 
hVd7''AccU. fc*3Íxadores com o parabém da acclaraaçaó 5 íó EiKcy do 
mafdol japao naô quiz adoiittir trato, nem commercio algum, 

por maiores diligencias que o ViccRey fez por graa* 
gear á Cidade de Macáo eíla commodidade , que era 
nmito grande , principalmente depois que fe acabou o 
commercio de Manilha » que occupavaõ os Caitelíiínos, 
e coRÍíderando o Vice*Rey que na amizade dos Hollan- 
dezes coníiitia toda a nolla confervaçaõ naqaelle Eita-^ 
do^<>;^rocurou com grande ad:ividade, e diligencia, co* 
mçf))3 referimos ♦ que os Holiandezes defoccupaíTem a 
barra de Goâ na fe da amizade contrahida entre ElRey , 
e os Eltados. Mandou à Capitania a tratar eíie negocio 
a Gafpar Gomes , peííoa intelligentei e naô haveadoos 
Holiandezes deferido ás propoíiçoens que Ihea levava, 
nv«m querer reftituir a não de Sancho de Faria, confenti- 
raõ fó que o Vice*Rey pudeíie mandar hum fitnbaixi- 
dor ao General » que smltia em Batávia , para o que oíFe- 
receraõ huma embarcação fegura, que para Batavia par- 
tia de Surrate. Era tanta a opprelTaó que os tíojlándszeí 
davaõ a Goa , que foy precifo ao Vice* Rey aceitar elta 
Ef?fh4'ixada a:>s ofÍQrta. Nomeou para eíta iornada a Diogo Go;T;es de 
udliindjx.3s. Brito, Fidilgo de juizo, e experiência , e man.iou em 
fu3 companhia ao Padre Frey Gonfalo Veloío Religiofo 
da Ordem de S.Ffsncifco, em quem concorriaó parte* 
dignas de aíTiftir a negocio de tanta importância. A íub- 
íl^ncia dainíhujçio \úí Icvavaõ, era pedir ceíTaó de ar-; 
mas naquelles Eílados, o que parecia Jicito conceder'fe, 
havendo taô certa noticia de que entre o Reino de Por- 

tugal , 



tugal, e as Provinciâj Unidas fe negccbva hum Trata- 
do dtí paz , que peJa. ccrjcâurriS Ic cnter dia, que ra6 AnnÕ 
era pcli.vtl dfciXir de íe ajuíUr ; e que eíla ctífaõ de ar- . 
iras duraíle até itgundo avizo do Keir.o cu dos Eftsdos , ^^4^ 
que eia certu havia de declarar a foirria dosjuíísiKento, 
que le houvelíe celtbrado. Paitíiaõ Ois dou* íem grarde» 
efperarçaí de concluir a tiligeiii.ia i a que eraC mandai 
do* : porque bem fe entr^ndia , que os Hollandeze* , íó 
amsntei da lua coiiíerv?çaõ , raõ haviaõ de perder tem-^ 
po de íolicitar a noíla ruina , quando íupponhaõ a Por- 
tugal, dtíunidu deCaílella , ít enos poderofo. A noticia 
de que em Portugal ht-via ElRey levantsdo os tributos 
c brigou fcos mor ií dores de Goa a pedir ao ViccRey , que 
eltf inculto, con^^o Víjílalks d E]P.ey , Ihef íbrangeíle 
tan bi^rn a ellts ; ej ortar do em priír.eiro lugar o tributo 
da neia Aum^ta, que eia o de maior eícandaJo em tem- 
po CO governo dos Caílelhacos. Conliderando o Vice*Rey 
quanto convinha aofcperto, em que íe íichava, ter fatis- 
feitos os mori dores diquelle Eftiido, ordenou, que íe 
levantaííem ostíibutos, entendendo, que muitas vezes 
de fim ilhente afabilidade , uUd^ com os povos , refulta 
aos Príncipes cí}cíecerem"Jhe voluntariamente maiores 
fubfidios ; porque da violência íó exorbitâncias , c dei- 
acertos fe colhem. Todas eíía* matérias reíolviao Vice- 
Rey com o parecer do Coníelho de Eftado , em que era 
afliítido do Arcebifpo Primaz Dom Fr.Francifco dos Mar- 
tyrts, Rcligioío que havia fido da Ordem de Saõ Fran- 
cifco I de vida exemplar , e prudência digna de toda a ve- 
neraçfô, do Inquifidcr António de Faria Machado , An- 
tónio M' niz Barreto , Capitão de Goa , que hsvia fervia 
do err tcdas sioccfcííoens com grande valor, e sdiv idade, 
de Dom Manoel de Almeida Pereira , Dom Joaõ de Mou- 
ra » de Fr:*nciíco de Mello de Cfiílrí"!, e Jcfeph Pinto Pe- 
reira. Nefte ten po havia na índia oi tros Soldados , e Fi- 
dalgos particulares , que naõ degenersvíiõ no valor dos an- 
tigos Heroes Vorti guezes, que iJluítrásaõ cem gloriofas 
scçíens a íua r?çsõ: porém degereiavr^Õ ir.uitos delles 
ra grande as biçaô com que queri£0 enriquecer em y^i uco 
Un.po por n-.eiO$ iliiçUts, pai^cenS; e ipvejas deíor- 

dscadas^ 



544 PORTUGAL RESTAURADO, 

denadsJ , que foraõ caufa de todas as iofeíicidades , qué 
Anuo naquelle Ellado fe padecerão. 

^ Coai as diigraças que occaíionou ásConquiftas 

^fij:'"^ 02 Portugal o falfo trato dos Hollandesas dan.K)« fim ao 
anno de r 641 , e cora a mefma caufa r e igual efíeito da- 
remos principio em Europa ao de 1642. Reparada a 
Armada de HoUanda do damno recebida da coatenda , 
que teve com a Armada de Caílella , e chegando ari- 
zo do Brafil a EIRey da refoluí^aõ » que o Conde de Na^ 
zau havia tomado > dUculpada pelos Eílados com as ca- 
pitulaçoens , que explicavaõ a íeu favor. Entendendo 
hum , e outro íusceílo o Almirante Gylíels» determinou 
liyrar-(e do perigo , que o ameaçava , vaado*íe entregue 
com dezoito navios na barra de Lisboa á noíía dirpofiçao , 
podendo juílameníe reíolrer EIRey , que foíFem parte 
da latisfâçaó doa aggravos recebidos, InclinavaÔ-fe alguns 
lyijcHrfos \ohrs Miniítros á repreíalia, dizendo, que os liulíandezes ha-» 
fe deter a Ar- 713^ faltado á capitul3çaó, quebíantando a paz aiuítada 
maiU dl Hol' ^^^ Triílso de Meidoça, e que ainda que nos capítulos 
Unda. ^^^^^ houveíTe algu n termo » que interpretado a íau fa- 

vor , diílimulaíle o Ceu eKceílo , que e'ía era a primeira 
oífenía quemerecb íer caíHgadajpoi» loa;o que EIRey úiU 
ceramente fe íiou da fua amizade , começarão a engánal- 
lo; e que além deita áíoicbitancia , fe naõ contentarão da 
aíTaltar, e render Angola, e Saõ Thomé, porém que 
cavilofamente , e com trato dobre ton^raó o Maranhão; 
fazendo-fe fenhores dos racifmos , que o? receberão como 
amigos: que dilTimula? tantas queims era manlfelldr* 
mos a debilidade das nolTas forças , eípeculaçaõ com qu2 
ordinariamente fe perdem os amigos, e íe deciaraô mais 
de preíla os inimigos encoberto? , fen ío íó o receio de 
igual damno rémcra dos que exarcitao o filio tr^no. 
EIRey , que , como bom Coníhaíle , avaliava o? acciden- 
teí pelo que pezavaõ , e naó pelo que luzia6 » foy da opi- 
nião contraria , ponderando , que romper a guerra com 
08 Hollandeztâ em Europa naõ remediava ov damnot dò 
Brafil , e punha em contingência o Senhorio de Portugal : 
porque o? Hollandezs^ , offerecendo a fua Armada ao 
noíío loccorro , defvaaeciaÕ os intentos , que os Cafte- 

Ihános 



TJRTE L LITRO V. 5,45 

lhanos podJaó ter deíj.ztr gucira 2 Pciti-gal peruar , e 
por teria , inijulío, a que djílicultoíaniente pedíamos re'» Aimo 
fiíiii } c cjue deciarendu es Kcllardezet por inirnigos , íiaõ / 
ló íiOS íaltiiVa tík íeccorro, nía$ qut arriícavcmoitodo ^^A^t 
o poder que tirihi.nc* ron ar , a que os Hoilarcezes eraõ 
coni n.uitas vtntagenç íupeiiores : que a eftai razccrs íe 
accrccthtavíiÕ outit» iruito fojçoías, fendo a iriais prin- 
cipal Vil a Amada de HolJ&roa a ajudarTos debaixo da 
íé publica , ííictoíarta ens tod'j5 es accideiites ; que dêÕ 
pOQisíj.ts achar pretexto para a violar , como 05 Hollsn- 
dezef delcobiirGô nas capitulac^oens » para occupareiTí o 
que conquiítaraõ dentro dcj quatro tr;ez€s , que loxraraõ „^r,^,^ ^;^^„ 
depiaío» para íe publicar a paz no Braill : e que íetra» ^J^''77;;;fííir il 
taíleií)os taô mal 05 hoípedcs , que julíameiíte duvidariaõ Armada. 
de noi foccrrrer os Priíicipeí sliacot?, Tomada efía refo- 
h'^í<Õ » ficou fácil fo Ahi irante de Hollanda perfiisdir a 
tlRey, quelha concederje huma iníhncia que lhe fczj 
delitcza que ffcbiicou para le livrar áo damno , que temia. 
Dizia a propoíta , que EiRey uniíle com a Armada de 
Kollanda huma de onze navios , que eílava apparelhada 
para hir na Ptimavera em foccorro da Ilha Terceira» ( de 
que tJRey havia feito General Triítcsõ de Mendoça , de- 
pondo com pouca caula a António 1 clles deíle exercício) 
e unidas as Ain.cdaf , âgutrdariáô a Frota de índias de 
Caílella , com bem fundadai eíperanças de coníeguir gran- 
de piogreíio. Períuadido Eílley deita cngaDofa propofra , 
dco ordem a liiltsô de Mendoça , para que defle k vela ^ , -n ^a 
a logTiir eíleimento ,^e dtfpedido o Alrnirante de Hol- ^t^^.lj' atempa 
landa , e os feci Capitães , dando a todos joyas , cadeas , tJcjjayjrrjeJa, 
e medalhas com o íeu retrato: tomando oconíeihoe^- ^'^ at i^uUn 
rado de dar graças por aggiavos , de que cr ílumaõ '^'^' 
lizar os dependentes de menor esfera. Sahio a Aím-sda 
de Hollsnda a ítis de Janeiro, e a ncíla o dia írguin* 
te , rr.enos três navios , a que fsltcu o vento , que de- 
pois fcbejcu a todos. Q\ieterdo TriííaÒ de IVIendí çs in- 
corporallo* con o.s mais, fe fez na volta da terra ; unidos 
efíes, e it^rdo íó rsvegedc quarenta kgoas , ]evsniou*íe y.^^^^i& « ^ 
ti vento, engrcí^árro a* ni:vers, slterc u*íe o nar , e cer- 7^./';^!, utjía 
ío^'íe a m ite. A hmm^ í^w licJlandezes tanto que f.^hio aínrr.ejja. 
"" ' ^ " ' ' da 



Há POKTUGAL RESTAURADO, 

da barra , navegou em popa para Hollanda , trocando ó 
Anno Almirante o coiícjrtj ajuitaJo p^la infidelidade preveni- 
^ da. Naò tem a fortuna de fer Príncipe maior difgraça f 

1042. qyg fjjf.ijie precilo dilfimular oíF^iafa* por lhe faltar po- 
der para caftigallas : porém o Meltre da politica naó com- 
poz o livro do Duelo , e aílim vem a julgar o mundo uoi 
Princtpeí como prudência o meímo , que nos particula- 
res he difcredito. Chegou 1 Armada de Hoilânda aoííeof 
portos íem perigo da tempeftade, queturioíãmentecom- 
bateo os nollos navio». Creceo o vento , e encheo^ihe? as 
velas : roas querendo que levaílem mais do quepoJiiô , 
^^raT^madít as dl Capitania , e Almiranta rebentarão , lem lhes valer 
'a prevenção dos Pilotos i quehaviaó mandado prenJellas 
para lhes eícuíar o deíaíia. Padecerão u3 maltas ase in- 
tendas das velas , e íentíraõ os navios o damno dos mafj 
tos , viaô.fe atacados do mar, e do vento pela frente, e 
pelo fundo , e experimentavaó penetrado o ce itro do itn- 
pulío da agua , fem poder reíiltir á difpoliçaó com que 
fouÃO forraaioj , nem prevalecer o focjorro dos br jços , 
qae maneavao as bambas como armai derenlivas. »->u- 
tro mar lança vaõ ao mar as nuvens , e i.ior>r3ndj'fi ao 
mar o poder , furiaíamente fepultava 0$ ni^/ios, c no 
meímo inftante os levava ao Ceo, naô querendo lalval- 
I08: cafo onde ló íe encontrão eites toriríos inço npati- 
veis. Conjuradjs os Elementos, cád.í 'lun dclles precen» 
dia oftentar o feu poder \ o vento , incentivo di guerra, 
intentava lograr a viwioria, de que a «gui , par fe. ao pró- 
prio paiz , íè queria fazer fenhora ; o^ íeKinip^g 'S , rom? 
pendo o ar , pubiicavaô com as vozes á.n trovoen< íer 
o fogo o mais poderoío \ a terra eíperava triunfar dos 
delpojos da batalha , vencendo co-n a referva : porém 
naô lograrão os Elementos a inter^ireza de noite , por- 
que Of navios refiílírsá até chegar o dia , mas teiJo ga- 
nhado o Sol , melhorarão o partido, confundiraõ'lhe at 
nuvens a luz, e roubava a nevn a viilâ , c )^1 que po- 
derá o dia coroar* fe tamb;m por noite. Na afflicçaò de 
contender c o n tantos , e taó poJerof j« inimíi^oí , paíTi- 
vao 01 affliwl >s navegmtes de h j n pe- ig ) a outro perigo , 
e dí hum cuidado a outco cuidado; rompiaó oj clamorea 

o ar. 



PARTE 1. LIVRO V. 547 

ò ar, e abrisõ os votos o Ceo i que nunca Deos he taô 
bufcado, como quando he muito temido. Todos querico AnnO 
mandar, e nenhum acertava a obedecer , e nem o prccei- ,/í ., 
to era íoccorro, nem o acerto remédio; ja todas as velas ^ 

em divididos pedaços et ao triunfo do vento , e ja te das 
as cordas em desbaratada contufaó eraó deípojo das on- 
das ; faltava aos maítos de todo a força , e aos lemes to- 
talmente o governo , fó as tabcas por unidas faziaõ ma- 
ior rellílenjia. A Capitania bufcou o Sul por amparo » e 
achando daquella parte o vento oppoíto , depois de ten« 
tar vários rumos voltou à terra, que efperava Triílaõ de 
Mend )ça , aberta a lepultura. Lmçou huma ancora de- 
fro:Ue dl praia da Albofeira , íste ieguai da barra de 
Liiboa, e vendo que naíi ceíTava o tea;poral mandou 
cortar o m iíto grande; por experimentar fe amainava 
a fuMa do ve no com elte tributo : porém reconhecendo 
que era maior o empenho lhe facrificou cegamente a 
Vida, e a de Ceu filho Henrique da Mendoça, Dom Sei 
b íliíõ d-j Vafconfellos , que ícirvia o poilo de Meftrede 
Can^^o, Dom Diogo di Portugal , Ruy Telles de Mene- 
zes , Capitaen^ de infantaria. Com eftes Fidalgos , o Pi- 
loto , e alguns marinheiros , le meteo Triílaõ de Men- 
doça no batel do feu navio, contra a opinião dos que fi- 
carão t proíeítando , que o naô largaíle. Pareceo^llie in- 
veja e!ta advertência, e fem fazer caio delia , íahio o 
bate! , ou tumulo deites Fidalgos , a pelejar com poucas 
forças contra poderofos inimigos , que as naó haviaõ di- 
irinui-la. Ao entrar no batel cahio ao mar Trift. õ de 
Ivlenjoça , livraraõ-o com grande trabalho, e ncó \\\^ 
deraó muito efpâço de vida , porque o batel antes de 
chegar a terra o iepultaraô as o/idsf , falvando*fe íó Pír,:'.;e o^^/í/ 
o Piloto, e hum marinheiro. Parece naõ efper^-va o ven- "^^ ^ cct-erai, 
to mais que eííe facrificio , íaltcu á terra, e f..voreceo J f^/'""*'^' ""**' 
o navio , lançando-o ao rr.ar. Fez elle em breve eíp.^ço 
grande jornada, cerrou fe a noite, e fentindo os na- 
vegantes , que íe encoftava á terra , fe deraò por per- 
didos: diípararaô algumas peças com t-õ boa fortuna» qu2 
fentindo íe o rumor delias na Torre de S Giaô , levantou 
farol , julgarão eíla luz por Santehiio \ antiga , e naõ 
To:n. I. Y averi*! 



VIO, 



548 PORTUGJL HEST JURADO, 

averiguida confiança dos navegantes: buícaraõ-a com 
Anno novo Valor, e com grande fortuna, e ao romper da rnâi- 
-r nhãí dííciô fuado na rio de Lisboa. O Alrairaaíe ÍTan» 

- "^ cifco Duarte, pratico, e valeroío , hia embarcado em 

S. Nicoláo , navio muito pezado , acedia pouco ao ieme , 
e trabalhando muito com a força das ondas veio â per- 
dello. Quiz o Almirante remediar, com pipas ligadas, 
cfta falta i e naõ havendo quem íe refolvelle a entrar no 
batc-1 para as accommodar , o Almirante íe meteo nelle 9 
e tí^ab^lhando quanto lhe foy poíTivel , naô pode coníe- 
guir o que intentava Aviltou o navio a Lourinháa , do- 
ze Jsgoas da barra de Lisboa , e lançou ferro defronte de 
hum ficic chamado Peralta. Reconhecendo o Almirante 
brevemiate que a amarra fe hia trincando, a mandou 
cortar de dia , por íe naô perder de noite; e naó lhe fal- 
tando acordo para íolicitar todos os remédios divinos» 
e humanos , depois de exhortar a todos , lembrando'lhes 
o perigo em que eílavaõ, a pedir a Deos petdsõ de f uai 
culpas ( porque até padecerão a difgraça de naõ levarem 
no navio algum Sacerdote ) fabricou jangadas , em que 
meteo foldados , e marinheiros. Salváraõ*fe 32, e pere- 
mfraJtl^efal'^^'^^ 1 40 : porque os mares repetidos, e os penedos 
'vaõ-íe o! mais iníuperaveis os fizeraô em pedaços. O Almirante aguar- 
^avios, dou a que de todo fe desfizeíTe o navio , dizendo ( como 

repetirão os que íe faiváraõ ) que fe acazo fahiíle ào 
naufrágio com vida , nao queria dar conta a EIRey m is 
que da iua difgraça : conilancia digna de eterno louvor. 
Lançou'fe ao mar na ultima taboa, que brevemente o 
Jevou aterra: efperava*o nella hum pedaço do navio, 
que tanta diligencia tizera por falvar , deo-lhe taã grande 
golpe , que logo deíappireceo aos que de terra viaõ laí- 
timofamífnfe a fua infelicidade. Os mais navios da Ar« 
mada feíalyàrao com grande trabalho em varioí portos. 
Sentio EIR^^y eíla dilgrsça, e pagou com muitos fuf- 
fragios as finezas dos que morrerão em feu ferviço, fa- 
zendo juntamente varias mercês a fe05 herdeiros. 



HISTORIA 



349 




HISTORIA 

DE 




RESTAUPxADO. 

LIVRO VI. 



S U M M A R I O. 

ISPOEM Martim Afonfo de Mello 
a defenfa das Fracas da Proiiv.àa 
de Alemtejo.Varios fíícceIJcs daqucUa 
Província. Elege ÈlRey porGover- 
fiador dai Arir.as de Ah mtejo ac Con- 
de de Óbidos : e pajfa Martim A jf an- 
jo a governar o Algarve, Succe(fos 
de Entre Douro e Minho. Recontro de Rodrigo de 
Figueiredo em Trar os AFfJtes, Elege ElRey por 
Governador das Armas da Beira a Fernão Telles de 
Mene-zis : Sujeita alguns Lugares de Caftella , e em 
vários recontros alcança felices ^ítcceffos. Import an- 
te f matérias politicai. Manda ElRey ao Conde úa Vi- 
digue'rapor Embaixador de França , e a outros Mi- 

Y 2 ntftros 




jyo PORTUGAL "RESTAURADO; 

mftros para as Cortei de Europa, Chama fegunda 
An no r^,ez o R ino a Cortes Ajjentafe a contribui çaô.Pro*, 
1 642, põem fe a ElR^y nas Cortes deliâios do Secrei ario de 
EJlaJo Francíjco de Lucería^he prezo na 'Torre de Sm 
CiaÕ. Si'ccej[os do Brajil de que be Governador An- 
tónio Telles da Silva- As Praças do Maranhão fe 
começaõ a rejiaurar. Succeffos da índia. Noticia das 
guerras de Al er.iiejo. Ganha Joanne Mendes lelena, 
Refolve ElRey pajfar a Evora.efabe e7n Campanha 
o Exercitai quep' fven-o. Ganha o Conde de Oh' dos 
Valverde ; jltia Badajoz ^ e le. anta ojiíio. Manda 
ElRey retirallo.e ajoanne Meneies de Vajconcellos* 
Tica govenando o Extrc to Maíhtas de Albuquer- 
que ; ganha alguns Lugares , e a Fraca de yilla-nova 
dei Fr ej no- Recolhe Je o Exercito^ e ElRey a Lisboa, 
Nafce o infante D./Jffonfo Governa o Conde de Caf^ 
tel- Melhor Entre Douro e M-nho: ganha Salvater- 
ra , e fortifica' a. Sitia aquelía Praça o C ar dial 
Spinola: dtfende-ao Londevolerofamenie ^ e corfe- 
gue outras emprezas com felicidade* 

Fortuna que dava os golpes , que neíle tem» 
po fe experimentarão , deícobria juntamente 
novos reparos, coírumando íempre a jogar 
com os honriens na taboa do mundo, baralha- 
das as diígrfif^as , e as felicidades ; porque 
igualrr;er;te maltratem , e utilizem os azares , e as fortes. 
A tormenta qae ao mstinheiro he naufrágio, ao lavra- 
dor h • bonança \ a guerra que ao Paizano he caltigo, ao 
Soldado he remédio : e muitas vezes na roeíma tormen- 
ta fe fa!va o marinhei'o, e fe perde o lavrador i e a 
mefrna guerra he pára o Paizano profperidade, e para o 
Soldado fepultura; porque o Reino da fortuna hea mu- 
dsr.ça , o Scetro a inconílancia , a Coroa a inílsbilidade; 
e dos fucceíTos p.MÍTadosi e dos que adiante referiremos 
conítará com evidencia a piava deílas variedades. Con- 
tinuava 




PJP.TE I. LIVRO VI. ^y? 

tínuava Martim AíFonío de Mello o governo d?,s Armas 
da Província de Alemtejo , fazendo a guerra aoj Cafíe* Anno 
lhanos, mais como conquiftador, que como conquiíla- r(ÍAo 
do, e cada dij fe melhoravaô com o exercido nos Mi- ^"^ 
niltros da Corte as difpoíiço^ns, e nos Soldados a diíci* 
plina. Foy cedendo o rigor do Inverno ao focego da Pri- 
mavera , e os homens , que fendo compoílos dos elemen- 
tos varí lõ de íorte os preceitos da natureza , que defti- 
naò para a guerra o meímo tempo , em que os elementos 
coílumao tazer pazes , deraô principio a novas em prezas; 
Com menos miudeza , que no primeiro anno da guerra, 
efcreveremos as que forem de pouca importância , por- 
que nos grandes ediíiciôs naô íaõ da meíma fubílancia os 
materiaes dos aliccríes , que os dos capiteis : porém aju- 
llaõ íe de forte os fundamentos , que firvaõ para fegu- 
rança de grande máquina i porque no acerto do peiíil 
conkrte a perfeição da pintura. Para explicar os homens, 
modraras Praças, e enlinar os íi tios da Campanha efpe? 
ciíiquey até agora as mais pequenas cifcumítancias » por* 
que com efta luz ficaíTem claras todas as matérias, que 
íe feguem : daqui por diante , fem ficar acçaõ que naô 
feja explicada , a$ refumirey quanto me for poííivel, 
guardando as diílincçoens para as maiores emprezas , 
porque neftas fe deleita a efpeculaçaó , ailim como fe en* 
faitia nos fuccellos de pouca inportancia. Crefciaõ na 
Provinda de A-emtejo os Terços, e Tropas a maior 
numero de Soldados com os foccorros de Hollanda, e 
com as novas levas, que £lRey mandava remetter áquel- 
la Província. Regularrríenie repartia Martim Aífbnfo de Diípcficoes mi 
Mello por todas as Praças a gente que chegiva de novo , ^''^''^^ '!^ ^''^'': 
engroííando o mais que lhe era políivel as Guarniçoens'^^^/^^^''^^ ^' 
de Elvas, Olivença, e Campo'M3Íor , porque lendo 
pouca a diftancia , que ha entre e(l-js Praças , fe uniaâ 
facilmente as Tropas de todas *, difpofiçaó que refreava 
as entradas que os Caftelhanos faziaô em continuo pre- 
juízo dos gados dos lavradores , primeira caufa em todo 
o difcurfo da guerra dos encontros da Campanha , nos 
mezes em que naõ campeavaõ os Exércitos , e CU2 
adiantava muito o noílo Partido , fendo a melhor remon- 
Tom. I. Y 3 ta 



jp PORTVGAL RESTAURADO, 

ta que confeguiaõ as Tropas de Alemtejo , os Gavallos 
Anno que os Caílelhanos deixavaõ em Portugal. O Meítfe de 
,•.. Campo General Dt Joaó de Garay continuava o governo 
T" • das Arenas do Exercito de Gaílelia , qus íe achava muito 
diminuído, depois de ísdeívanecer o intento, para que 
o Con Je de Olivares em tempo do Conde de Moíiie-Rey 
o havia formado : porém o numero daCavallaria era taó 
fuparior ao las aoíTas Tropas , que para defender a Pro- 
Viacia era necellario que o valor dos noflos Soldados 
prcval^c^íTe contra o excefio dos Caftelhanos •, e íupe» 
rando elles em toáãs as occaíioens efta diíHculdade , fica- 
Fió mais glorioíbs os progreíios que conteguimos. Deo 
principio aos defte anno o Meilra de Campo íiires de 
Saldanha : conílou*lhe que alguns Caítelhâno? de Albu- 
querque vínhaõ pefcar aos rios Xebora , e Botova, que 
dividem de Caílella o contorno de CampoMaior , e que 
continuavaô eíle divertimento na confiança de have- 
rem crecido as aguas dos rios com as do Inverno. Deter- 
minou Aires de Saldanha valerfe deíle defcuido , man- 
dou ao Capitão André de Albuquerque por Cabo de cem 
Infantes, e cincoenta Gavallos, com ordem que atacaí- 
fe os que pefcavaõ com poucos Gavallos, e que deftrai 
mente deixaíTe fugir alguns delles » para que dando re« 
bate em Albuquerque pudeíle desbaratar a gente que 
jí>f^„/;.(,^3Cí. daquella Praça vieííe de íoccorro. Correfpondeo o qSVi- 
fitao André de to á dírpofiçaõ j fora5 atacados por dez Gavallos os que 
MlòuQuerqití. pefcavaoi íiciraõ prilioneiros fete » os outros íe retira- 
rão a Albuquerque , duas iegoas diftante. Acodi aã ao 
rebate cincoenta Civallos , e outros tantos Infantes , qje 
facilmente foraõ dtrsharatad )s , elcapando fó do periga 
alguns, qu3 naô quizer.'õ chegar a elle. Teve D. João 
de Garay ella noti -ia , e íolicitou maior vingança : com 
400 Infantes , e 400 Gavallos mandou intcrprender o 
Caítello de OuguelU , dua^ Iegoas díílante de Albuquer- 
que , hunia de Campo Maior. Era o Caítello pequeno, 
mas em bon fitio ; o lugir de 200 vizinhos : eftavaô 
no Gaftello duas CoTipanhias governadas pelo Capitão 
Manoel Homem Pereira. Avançarão os Caftelhanos 
guiados por FranciícQ Portillio , que havia affiltido em 



VJRTE 7. LIVRO Vi 5J5 

Ouguella : foraõ rechaçados, deixando alguns Soldados 
moitjs» e levando outros feridos. Aires de Saldanha cu- AnnO 
vindo em Cacr-po-Maior o rebate acodio logo a elle , mas -,/ .^ 
quando chegou a OugueUa ja os Caílelhanos fe haviaõ re- . T""* 
tirado. Paliddoí alguns dias correrão elle? a Campanhã de ^i]'illnoid%'u' 
Mouraô com íeisccatos Cavallos. Deíla inferência, e de ^^«£//4, 
outras noticias entendeo Franciíco de Mendoça , ^n^^varios hcceps. 
intcntavaó atacar aquella Praça , avizou a Martim Af- 
fonfo de Mello , mandou promptamante íoccorrello , e 
tornando os Caítelhanos a repetir a entrada , lhe tirou 
a pre7.a o Capitão de Cavallos D. Henrique Henriques, 
e lhe tomou alguns Cavallos , quando paítavaõ Gu;?diana» 
Martin Afforilo d;; Mello defejando trocai os priíionei- 
ros, que havia de huo^a , e outra parte, propoz efte 
ajultjinento em hum bolantim a D. Joaô de Garay : no 
admttio elle a propoíla , e reípoodeo, que prometia 
dar liberdade aos Caltelh anos que ef^^vaó em Eivas. Sa- 
hi õ eí^es a trabalh r no Forte de Santa Luzia , a que 
ent3Ó íe Java principio , fabricando'le em huma eminên- 
cia Vizinha á porta de Olivença, parte que olha a Bida- 
joz. Teve O. J mÕ de Garay eíla noticia , intentou fa- 
ti-sf^zer a prOinzt'!a qije h^via feito, tirando os priíio- 
neiros que coannLiavaÒ a ^i-lle trabalho. Eraaempreza 
diílicil , porém diícurlsndo D. Joaõ de Garay , que podia 
refultar do intento colher nos Olivaes d^ Elvas a Guar- 
nição que collumavâ íahir aos rebates, fe arrojou a exe- 
cutallo. Elegeo para m rchar huma noite tempefruofa, Biípofçoens h 
cahio eífa em duus de Mirço, mandou hum C^'^h&Q D/joao de çai 
com cincoenta Cavallo> guiado prir hum Soldado pratico, ''f^J K^"^ /''"'"■ 
que fe embofcaffe no outeiro do Bíiaõ , que fica entre os ^^ M'"^'^"""^: 
Olivaes , vizinho ao Forte de Santa Luzia , promeítendo- 
Ihe que lhe daria calor co r? dois mil e quinhentos Infan* 
tes, e mil e quinhe ítoi Cavallos , que formaria em hutn 
fitio chamado o Paço do Conlelho, menos de huma íegoa 
de EUi«. Executoyfetoda eíla difpofiçaô , e entrarão os 
cincoenta Cavallos fem os fentircm as fentinellas, queco- 
ílumavaô ficar fobre os portos do Caia , prevenç õ qne ba- 
ilava para livrar ài cuidado, e de perigo , em quanto Gua- 
diana crecido com £S íguas do Inverno fe naõ vadeava , fe 

Y 4 aa 



Anno 
1642. 



Rehafe em El 
lias. 



Sãhe Martifn 
uiífonio com 
poK.ca ordem. 



Retira le o Go- 

'uernaãor das 
Ar>nai cera 
fsrigo. 



554 POnTUGAL í^ESTyiURJDO, 

Bs ítíiitinellaí naõ trocarão pelo abrigo das choupanas d 
vigilância a que fe obrigáiaõ j como eíta noite íizeraõ ; 
fendo na guerra fioiilhantes defcuidos occaiiaó de maio- 
res diígraqas. Amanhecdo , abrirão íe as portas de Elvas ,, 
fahio a gente da Cidade^ avançarão os cincoenta Cavai- 
los aíé o Forti de Santa Luzia , e defencontrandcíe com 
os Gaíl:lhanos , que cofcumavaô vir ao trabalho, o que 
era muito faéliv:;! , íizeraõ alguns Paizanos ptilioneiros , 
' c preza no g^á ) que encontrarão. Tocàraõ arma as íenti- 
nellas da muralha, avizou o fio o do reb-ite aos que ella- 
Vaõ levantados , e acordou os que àotmvcõ , o repente 
mulíi. licou a confuíaõ, o embaraço, a deíordem com qua 
fecoílumava íahir de Elvas aos rebates antes de chegar 
o deíengano , de que os Olivaes naõ eraõ impenetráveis. 
Montou a cavalgo JYÍartim Affanfo de Mello acompanha- 
do de alguns Officiaes de Ordens , mandou íahir a Infan- 
taria que foy encontrando, e lem sguardar a que ficava, 
nem dar muaiçjens á que mandava marchar , fem have- 
rem montado as Tropas , e eílando os Olivaes por def- 
cobrir, marchou pela eftrada principal com a Compa- 
nhia de Infantaria de Joaô Ribeiro Corrêa , a que feguiaó 
quatro Tropas Hollandezas ( que haviaó chegado a Ef- 
trenioz) e ordenou ao Capitão de Infantaria Luiz Perei- 
ra de Sá , que com a íua Companhia marchaííe á maó ef- 
querda da eílrada por onde elle caminhava , e deixou 
ordem na porta de Olivença, c reguiílem as Tropas» e 
Terços que foíTem faindo , e que no Forte de Santa Lu- 
zia le meteílem duas peças de artilh^aria. Pouco havia 
marchado , quando recebco huma carga de íeis Tropas do 
inimigo avançadas a dar calor aos cincoenta Cavallof. 
Naõ querendo o í Hollandezes sguardar fegunda, volta» 
raõ as coitas. A Companhia de Jo3Õ Ribeiro Corrêa rece- 
beo todo o dam no , morrerão parte d )S Soldados , 0$ ou- 
tros fijiraõ feridos » e f ó o Cipiíaó eícapou com pouco 
credit). Mirtim AfFonfode Mello intentou que o cavai- 
lo o livr^síle do perigo ; poré n aterra com a chuví eíla* 
va taõ pezída , que com grande trabalho , e maior for- 
tuna o poz em íalvo , efcapando de muitas balas que 
o feguirao; liveraõ o meímo fucceílo os Ofíiciaes que 

acom- 



PAR7E l.LW^OVI. 55^ 

ícoirpanhavaô a Martim Afibnío de Mello. Dom Manoel 
de Scuía vinha marchando pela n.eíípa eílrada com a íua AnnÕ 
Ccmpaiihia , mas lalvou'a , tenco ten.po para melhorar , 
de Titio t a de Luiz Pereira de Sá acodio ao ruir.or dos ^"4*í 
tiros , e dando de roílo com o inimigo , occupou huma 
tapada i avançarão os Caílelhanos , chamando hum Ca' 
pitaõ de Cavalloi por Luiz Pereira de Sá; relpondeo'lhe 
com huma carga , letirareó-íe elles , e foraõ formaffe 
ao outeiro do Baiaó. Os Meílres de Campo Dom Joaõ da 
Cofía , Dom joaÕ de Soufa , e Dom Miguel de Azevedo 
( os dous occupados novamente nefte polto ) quando os 
Caílelhanoí av^rçáraó , eftavaõ formando a Infantaria, 
e Dcm. Rodrigo de Caftro as Tropas : a» quae* acodiraõ 
pron piamente, e avançando Dom Rodrigo com as Tro- 
pas, e algumas mangas de Moíqueteiros , dcfalojou as 
fcis inimigas que eí^avaó no outeiro do Baiaõ : foraã 
efcas incorporar*fe cona a mais gente , que fe havia for- 
mado fora dos Olivaes , e depois de Dom joaÕ de Garsy 
perfiítir sté a tarde nífte fitio , fe retirou para Badajoz, ^^^j^^j^^i^* 
Acompanhou*o neíía occaiiaõ Dom Luiz de AJencaílre, rayl ^ ''' 
que havia cheg^ao áqueile Exercito com o Pofto de Gene- 
ral da Artilharia , e trouxe a eíla facção três peças de Cam- 
panha : durou pouco nefte exercicio , nao podendo mui- 
to tempo com o pezo de offender a Patiia , ídolo que a 
Natureza com mais reverencia venera. Recolheo-íe a nofr 
la gente com a liçaõ da cautela, que a Infelicidade coftu- 
maenfinar. De huma , e outra patte fe alternsvaõ asem- 
prezas , lendo humas vingança de oDírís. Martim Aíibn- 
ío de Meiio, ainda que havia conhecido o falfo trato de 
António Mexia , Capitão da Ordenarçs de Campo Maior, 
havendo elle pretendido juftiíicar com ví^rias prova» a fua 
innccencia , tolerava a commuricaç õ de António Mexia 
com Dom Guilhelme de Burgo Irlar dez , que povernava 
Albuquerque. Aires de Saldanha. d?ndo']he cuidados* 
muitas evidencias que calurrri^vsõ António Mexia , de- 
terminou apurar o feii procedimento. Coítumfva elle dif- 
fimular a negocifçsõ com que ergnava an bas as par- 
tes , levando com grande ttihdide ííZtndas , que troca- 
va por cutras de Caílella : elíe ttí»to íe kUtbiavacni 1 i^m 

íitio 



jyá PORTUGAL RESTAUnADO , 

fiúo entre Gampo«Maior, e Albuquerque « e a confetif 
AniO coTi António Mixia vinha diirrnulado Dom Guilhelme 
com duas Tropas , que moílravaô fer íegurança das mer- 
164^" cadorias. Qiierendo António Mexia acreditar a fua íide- 
lidadi , íeguroa a Aires de Saldanha entregar*lhe a Ooín 
Guilhilme, e as duas Tropas. Aires de Saldanha com 
permiílaò de Martim Alfonfo aceitou a oíFerta , e levan- 
do António Mexia com attençaó, e ícgurança marchou 
ao fitio coílumado das conferencias com quatrocentos Ca-, 
valios de Elvas , e Campo-Maior , e quinhentos Infantes ; 
. ^ porém naõ apparecendo nem as Tropas , nem Dom Gui« 

PnzAjypj^rt, j|^g|j^^ prendio António Mexia, remetteo-o a Martim 

de António imc> ' ,7. , ' ^ , r • 1 j 

nU, ' Aíionío , que o mandou a Lisboa, e pagou morre ido no 

Limoeiro a fihi Jade do feu procedime it j. Aires de Salda- 
nha correo a Campanha de V^illar d^ELUy , e íahindo duas 
Tropas a embaraçar*lhe a preza , que trazia as carregou 
até dentro da ViUa , e lhes tomou alguns Gavallos. Neites 
mefmos dias entrarão os Caítelhanos com leis Tropas pe- 
los campos de Moura: íizeraõ preza em quantidade de ga- 
do, que levavao com grande fentimento dos lavradores. 
Eftimuladodeftas queixas Dom Hen ique Hen-iqueç, íi- 
hio de Moura com fefíenta Ca valios , que diviJio em duas 
Tropas , dsndohuma ao feu Tenante \ aviítou com e^as 
o inimigo du3s legoas de Moura , carregou a ret >guir la o 
tempo que baftou para deter a marcha até chegarem cin- 
coenta mofquetelros , que havia mandado tirar dj Santo 
Alexo , e C,afra , tanto que chegarão , unindo os is Tro. 
pas , obrigou aos Gjítslhanos a que largaíTem algu n do 
gado que levavaõ, naò deixando nunca de continuir a mar- 
chi: porènD:)m Henrique os fez dilatar de forte , qus 
refolvendo-fe os Caltelhanos a pelejar, foy a tempo que 
teve D. Henrique noticia de que chegava a incorporar -íe 
CO n elle o Ajudante Joaò Ribeiro Villa Franca com cem 
ujoíqueteiros , de quatrocentos com que havia fahido de 
Moura o Sargento mór Filippe de Mattos Cotrim , por ox\ 
dem do A'c3ide mór Luiz da Silva , a fe incorporar com 
^es^^fãtaDom Doti Hínrlqua, Com a noticia deíle (occo''ro inveílio el- 
Henrifíe i-i-ri- j^ vilerofamente as féis Tropa? » cahiraõ das cardas mor- 
VreMh7'a tos alguns Gaíl^lhanos , ameirontadoí; os mais voltarão as 



PAR7E 1. LIVRO VI. 357 

coílas. Seguio-lhes Dom Henrique o flcarce stépsílÉtem 
a Kibeira da Chança , cinco léguas de JVloura ; deixarão Anno 
toda a prtza , c quarenta CavaUos i e ficou a reíciLcaõ de ,/ .^ 
Dom Henrique com n^erecido ap-plEuTo. Poucos dias de- ^^4^* 
pois cíeltc íucceílo chegou de Lisboa a Moura Dom Fran- 
ciíco úe Soula , e deíejando accrecentar a íua opinião com 
alguma tacçaõ importante, íe reíolvco a interprender a 
Viiia de Atouche. Dava confiança para fe coníeguir eíle 
intento o defcuido dos moradores ; porque além de fica- 
rem nove léguas de Moura, escarninhos por onde po- 
diaõ invellillos eraô os mais aíperos de Serra Morena, e 
ainda vencido eíte embaraço , como o poder naõ era pro- 
porcionado á empreza, podia contar*fe a retoluçaó por te- 
Hifciidcde. Superando eítas difiiculdades juntou Dom Fran- 
ciíco mil e quinhentos Infantes pagos, e paizanos, e fef- 
lenta Cavailos da Tropa de Dom Henrique Henriques > e 
irarchou a atacar Arouche: fez alto algumas horas em o 
Lugar de Ficalho , porque a aípereza do caminho linha 
quebrantado muito a Infantaria : faltou'jhe eíle tempo pa- 
ra chegar ás horas deftinadíís , que era ao amanhecer , e 
para fer a marcha occulta : tendo o inimigo noticia delia 
muito anticipadamente , o que conftou a Dom Franciíco : 
mas pareceiido-lhe que devia preferir o empenho ao peri- 
go , ftz continuar a marcha, ainda que síguns Oííjciaes 
lhe aconielhavcõ que deliUiíle da empreza : chegou á Vil- 
la com huma hora de ria , aihou que era murada , e que 
dentro havia hum Caílello w poííivel de conquiítar lem 
maior poder , que a Villa teria quinhentos vizinhos , e 
que todos com algumas Companhias pagâs eftavaõ pre- 
parados para a defenía ; porém como naõ era tempo de 
tomar coníelho , mais que com a execução , dividio a In- 
fantaria , e a Dom Henrique Henriques mardt u occupar 
as eftrfdas por onde podia vir foccorro á Villa. Tocarão ^tacaBjrani 
a invtftir as trombetas, e caixas : obedecerão os Capitães, "J" ^« '««> ^ 
e Soldados todos a hum tempo, e ri õ valendo aos dtfen? ^'^''^ ^^ ^''"^^ 
fores a tefiftencia, por entre muitas balas erttàraõ o ar^ ' *" 
rabalde : poiém querendo com mais prefla do qLe era 
converyierte , íctisfazer-fe do trabalho cem o dtífoio, 
ícy ccnfequcncia deíle deíaceito a ccrJuíáõ , e dtf- 

cidtm ? 



}j8 PORTUGAL 'RESTAURADO, 

ordem: obfervou-a Dom Francifco de Souía , e por fe 

Anno naõ expor a algum perigo mandou tocar a recolher, to- 

16 Al ^^^ oÍ3edecèra(:í retirando cinco Soldados feridos : logo 

^ 4 • fe pozeraõ em marcha , e levando grande defpojo , e 

preza chegarão a Moura fem achar contradicçaõ no ca- 

miíiiio, 

Neftes dias havia Aires de Saldanha mandado va- 
rias vezes a Caítella partidas groílas, que fe recolherão 
com muitos cavaílos , com que as Tropas fe engroflavaô, 
che-a o Mon- animando*fe a maiores emprezas. Havia chegado de Lis- 
leiramòrGene» boa Franclfco de Mello Monteiro mór com o poíto de 
rai du Cava!. General da Gavallaria , eíperando ElRey , que o feu valor 
lana. fuppriíTe a pouca experiência que tinha deite exercício : 

Martim Affonío de M3II0 querendo hoípedallo com al- 
guma empreza, intentou ganhar a Codiceira, Lugar en- 
tre Albuquerque , e Arronches, duas léguas diítante de- 
lta Praça, preíidiado com huma Companhia de Infanta- 
ria , e onde eílava aquartelada outra de Cavaílos. As pre- 
vençosns que Martim Aífonío mandou fazer para a jor- 
nada naõ foraõ occultas aos Caftelhanos, dando noticia 
delias hum morador ds Campo* Maior, que fugio para 
Badajoz : mas nao labendo elle qual fofTe a empreza , re- 
fultou fó deite avizo chamar Dom Joaô de Garí^y algu- 
mas Tropas a Badajoz. Teve Martim AfFonfo de Mello 
noticia dsíle movimento-, porém mandando tomar língua, 
e averiguando que era ló prevenção, e que naô paílava 
de Badajoz , continuou o intento da empreza , entenden- 
do que primeiro poderia exejutalla , que o inimigo pre- 
venirlhe o damno. A 25' de Abril fe poz em marcha, fo« 
, cegado o rumor que íizeráõ algumas Tropas Hollandezas, 

iWdfc^j Alar- - querendo marchar íem Ih^s pagarem quatro mezes, 
Codiceira. que fe lhas deviaô , que logo fe lhes íatisfizerâo. Levava 
Martim AfFonfo mil e oitocentos Infantes, quinhentos 
Cavaílos, e duas peças de artilharia de Campanha: o 
dia que marchou foy tao tampeftuofo , que com diffi- 
cujdade chegou a Arronches ; o feguinte á tarde pa»;tio 
pira a Codiceira : porén a dilação de paííar a gente af 
rib^íiras, foy de qualidali , queamanheceo antes deavi- 
íiarem o Lugar. Chegados a elle dividirão a Infantaria, 

difpon- 



P^RTE I. LIVRO VI. 3J9 

difpondo^a pata o âílalto os ?/leftres deCítrpo D. Joaô 
de Soula , e Ayres de Saldanha: afrojar£õ'íe tcdus ás AnnÓ 
triíichciiai, qiic facilrrente ievaraõ , porque ts duas Cem» ,/:.« 
pái.hias, e o* moradores le recolherão para o Cfaliello ; ^ * 
alguns, que le rtiitardõ á Igreja , íe quizcrtó defender , 
nas quebradas as portas, ís vidas de oito vigAiió a ou- ^^^^'*/^•^íf' 
lodia. Intei.tou-lc ítm eíieito ganhar oCaiíeilo; porque* - - " 
ís prevcnçoeiís naõ eraõ proporcionadas á reíoluçaô : la» 
qucoufci ti queim^ufe olugar , e as Ttopas deítiuiraô al- 
guns pizocns , e Cwías do 1 ermo > de que a todos os Sol- 
CciCosrtíuitou utilidade: íicaraõ alguns feridos , entreelò 
3t& o 1 enente General da artilharia Faulo Vernol Italiano. 
C/ ligor do ten po nrõ deo lugar a outras operaçoens que 
tltciViò tíiípoltas : retire U'íe Martini Aícnfo de iMcilo pa- 
ra tíiien 6z , as 1 repas , e Infantfcria a feos quartéis. 

Foucos dias depcis deita icmada íahio de Caf- 
tello de Vide o Mtítfe de Cenipo D. Nuno Mafcarerhas 
con^ 5f.o Infantes , e 6o Ccvailos , a queinr.Er o Lugar de 
brn-li-^go, cue ertí de ^co vizithos: quando chegou a 
elle, naô achou quem lhe reílllille a entrída; porque os 
iT:or«ídorfc;s tendo nc t cia ar lícipcdamerte, e raõ lendo foc- 
corridos dos Lugares a que pedirão gente para íe defende- ouema d.av 
rem, laígáraõo deS^n Tiego, a que D. Nuno mandou pôr mMaícarenkai 
o fogo- Acodindo tcdos os P^izancs dsqt.elles contemos , ^ f"-?"'' '^^^^^ 
cccupáfcõ hum ir^sto ntito eípeílo , pelo c, uai era for- '''*^*'' 
ça haver de p? Tí^r Dom Nuno : conhecendo tDe efía dif- 
fiv.L)ldade invencível, íe retircu para CaílelJo de Vide , 
rsõ podendo paílar adiante 3 executar rrsiores prcgreíToíf. 
Quaíí noir^elnTiO ten^poíêhio de Moura D. Frónciíco de ' 

Souía , e incorporando-fe com elle Manoel de ]V1e!!o { que 
eft. va em Serpa , e cem quem havia sjufíado a irtt rpreza 
de trfmafola ) rr archaraõ a execitalla com 1 2oe Infantes," 
e looCavalJo?. Fraa fscçaôde impo-tancia. pelodanno 
que de f nfinaíolfi recebisõ os ncfio.^ Lugares; ires aiílfca- 
da , per ter a Villa 400 vizinhos, e duas Compfnhi. s de 
Infantaria de Gusn jqaõ . tííando lambem du£S T'cpas 
aquarte adas re^a ; ejtrtamente por ter huma trircl ei- 
ra , que a rodeava, nuito levantada, e him Caflcilo 
com grande capacidade para íe d&knder, Veccidas, na 

CCiiii- 



jáo POVLTUGAL RESTAVtADO, 

coaíi iáraç i6 d ) vilar dos noilos Soldados , por Dom" 
Anno Francííco àt Soufa toJâs eíUs diffiwuldadss , íe poz em 
X marcha dia de Maio pela manhãa ; fez alto á tarde, t/es 

1042, legoas da Viíia, fendo â noite pequena , e o caminho af- 
pero , por íicar Enrinaíola na fralda de Serra Morena , 
amaaheceo o dia leguinte anteí de chegarem á VUla : 
foraõ lentiuoi , e eíperavao os Gaftelhanoí com gran- 
de refaluçaõ , guarnecida a trincheira. Parecia iuv^eilil- 
la temeridids , mas he ley eítabclecida entre os Portugue- 
Dfrancifco de ^-^ i 9^^ ^ pefigo da Vida naó atalhe os caminhos da hoa. 
Souía ataca a ra. Dividio'fe â infantaria , para que os Gaílelhancís ui* 
Endnafcia. yeftidos por muitas pâEtes, íe delutiiílem , e íe defani- 
fííallem. Correípoodeo o eíieito áreíoluçao *, porque ata- 
cadas valsrofameate as trincheiras , a^ deíanipaíáraô os 
Caíleilianos. Forao eatradas com morte de miiiíos ài\lQd> : 
porém os que íe retirarão ao Caílello , a feu íl^Ivo toma- 
rão a vingança \ porque ficando as ruas da ViUa bem def- 
cortínadas, ferirão oitenta Soldados, c matarão vinte e 
cinco. Procederão com amito vaiar os Cipitasna Jerony- 
mo de Moura , Ulderich Strech Holiand^a , Joaõ Laton 
Inglez , e outros. M;iaoel de Mello fahio fciido e^u hum 
braço , naó fe ex::a(aad j do? maiores psrigoj. Dora Fraa- 
cifco de Soufa acodio a todas as partes com muito valor, 
e prudência , e vendo o damno que a Infaníada eCtavn re- 
cebendo do Caílello , mandou que íe retlralle , íicanUo a 
D.Trandfco de VíHa íaqueada , e queimada. Vindo em marcha, carre- 
sòufafe retira, gíiraõ a Retaguarda duas Tropas da ViHa : inveílio"as 
faq-Mada,eque> Qom Hsnrique Fíenriques , e obrigotj^at a que le retira(- 
mada. a Filia. ^^^ ^^ amparo das muralhas do Caltello. Gontinuou-fe a 
marcha íem outío embaraço , e chegarão os Soldadas a 
Moura fatiiifeitos do deípojo, que coituma fí^r hum dos 
melhores medicamentos das feridas , que recebem na 
guerra. 

Em quanto por todas as partes fe fazia eii Alem- 
tejo guerra ás fronteiras de Caftella paíTou com licença 
d'EIRey Martim AíFonfo de Mello a Lisboa. Publ.cou'fe , 
que naõ voltava a Alemtejo , porque com a guerra coaie- 
çou naquella Provi icia adeíordem de feappetecer , e ds 
fe coníeguit a madinça ào% Go vernadore? das Armas ; 

pade-. 



P^RIE 1, JAVtp VI. i6i 

padecendo por efta cauía o ferviço d^ElRey grande dctri- 
n-ento ; pcrem Maitim Affonlo de MeiJo c3clVènec5.o cí- AnHO 
ta.opiniaó ', porque tanio que falJou a EiRcy , e lhe deo . 
ccnta de varias queixas que tinha do Secretario de Lít?,- -^"4 • 
do Eranciko de Lucena , que foy o principal motivo da 
luajoinada, lego voltou paia Alemtejo, íicsrdo ElRey 
fatisfeito do íeu zelo , e bom ptcccditKento. Em quanto 
eftevs sufente , governou as Armas o Monteiro mór Ge- 
neral da Cavallífiia , e alliíliotir Elvas, acnde chegou 
Martim AliQnfo a tempo , que o Morteiro mór havia 
paliado a Olivença cora as Trcpss de Elvas, e Cam- 
po*Mrior , e encorpcradas comi ââ de Olivença , sjurtou 
^oo Cav2llos, e 8co Infantes, governados pelo Sar- 
gento mói joaó Leite de Oiiveifa : araarheceo emjbof- 
cado junto de Akonchel , Vil 'a diíl&nte três legoas de 
Olivença , de que era íenhor o Marquez de Caítro For- 
te O. joaõ de Menezes SotcMaJori £chava"fe dentro 
delia» e rodeavc- huma trincheira trezentos fogos de que 
le compunha. Mais defensável era o t aílello , porque 
íe levantava junto da Villa huma eminência em que ef- 
ta va fitU2do , taõ aípera , que fazia o Ceítello capaz de 
reíiitir muitos dias a maior pcder = prefidicViô*o duas 
Companhiss de infantaria, e ^o Cavallcs. Naõ fendo o 
Monteiro nór fentido, f;rhir-.ô os moradores a cultivar 
a Cempanha , inveíliráõ*í s as Trepais, f]Zer£c*os pri- 
iioneiros, e rodearEÕ a Villa. AcrdirrÕ os Cfílelhanos 
à trincheira; poiém ccm;o eis baixa , e elles poucos , a ^^^^^ ^ji/í»; 
entrátaõ fsciln.ente os noí-cv 8co ÍLf::ntes. B.etolheraõ- ieiro mcra^ii- 
íe os Cíiftelhanos ao Caftello , ícy íaqueada a Villa , e ladeMurnheU 
retiroii'fe o Monteiro mór para Olivença , ficando mor- 
tos em Alconchel o Capitão de Ir.frr.taíiíi Mfrc el Kires, 
e oito Soldados. O dia feguirte amsnbeceo D. Jcaõde 
Garsy jurto a Olivença com; lOco CíVal^os , e 3co In- 
fantes : íí:hio o Monteiro n ór cem zi Trcpgf, e l». fan- 

taiia Qpquella Praça; tt?vcu-fe 1 tmiS eícarfpiça, que ^, 

cuílou as vidas a muitos de rn:bas as paites. O Mrnteiro ^í/c/íx^í; 
ircr mandou vir de diverça dussftçcsde ^nilbriia de 
Campanha: tanfo que con eçáraõ ajcgí^r, letircuoini- 
XI igo as ÍU£s Trcpss , por E£.c f ^decei dí-nno kír= itJíi- 



Anno 



ját POKTUGAL RESTAURADO, 

dade. Recolheo-fe Dom Joaõde Garay a Badajoz , e man« 
dou duzentos CavalJos correr a Campanha de Campo ma- 
ior : acharão elles , por defcuido das fentinellas, alguns-feí 
gadores no campo , aos quaes impiamente tirarão as vi- 
das. Acodia ao rebate joaõ de Saldanha da Gama com hu- 
rna Tropa Hollandesa : trazia ordem de Ayres de Salda- 
nha para entreter os Caílelhanos sté elle chegar com a In- 
fantaria i porém os Hollandezes, valendo^íe do pretexto 
DanoemCam- ^3 f^lia de psgas , naõ quizerao pelejar, e àc(àô íugac 
p3 mfiior por 8 que OS Cdíleihanos fa retirâílem , levando comíigo t'i- 
^j*^ I^V'-^'» do o que acharão na Campanha. Pàílado eíte íucceíío , 
o andex.es, ^hegou 3 Campo maior hum Clérigo , dizendo que vi- 
nha tratar do treco dos prifioneiros ds aíibas as p-rtes, 
íendo o fim principal trazer duas cartas òq Governador de 
Albuquerque : huma para Fernaõ Sanches ní:tural de Cam- 
po maior, que depois foy Capltaó deCavalloa, ourra 
para hum Caftelhano , chamado Braz Garcia, ambos va- 
Icrofo. Soliados. C >nti haõ as cartas períuafoens para 
que lhe fizeíTem àvizos importantes , ofierecendo Jiies 
grandes prémios : entfegaraó"as elles a Ayres dá Saldanha , 
que as remeteo logo a Martim AíFonfo de Melí >. Orde- 
nou eUe , que íingiílem que íe perfuadiaô , dizrad o ao 
Governador de Albuquerque, que era neceíl.ario conferi- 
rem de roítoa roíto njatocia taõ importante. \íVi't\ o exe- 
cutarão os dous , refpon iendo por hum prilljaeiro ás car- 
tas que tiveraõ, e o dia que finaláraõ para a conferencia 
fahiraô com trezentos Cavallos a efperar o Govereiador de 
Albuquerque: parén naõ ihechíguidoo avizo .. naó fez 
— a jornada» e ficou livre do perii'o. Neite meí mo tempo 

havia intentado o Monteiro móf iníerprender a Villa de 
Alconchel, maj fahindo o Sol antes de chegar a ella , fe 
letiroupor Valverde, onde encontrou huma Companhia 
de Infantaria deWaloens, quedegollou, em fatisfsçaô 
dos fegidores de Campo maior. Naõ logrando o Monteiro 
móreíte intento, executou outro: amanheceo fobre Ché- 
les, Lugar três legoas de Olivença , prefidiado por du* 
zentos e cincoenta Infantes, e trinta Cavallos: levava 
o Monteiro mó^ quinhentos lnfante«, governados por 
Dom Diogo de Menezes Capitão de Infantaria , quepaf- 

fando 



TJRTE I. LIVRO VI. 365 

fando a Aleírtejo com o Conde do Virr.ioío aílentcu pra- 
ça no Terço de Dom Luiz de Portugal , e quevendo ter Anno 
noticia de lodos oi pollos antea de chegar ao de Capitão, 1^42 
foyCabo de Efquadra, Sargento, e Alftrss ; qufiido o 1 * 

Monteiro mór chegou de Lisboa o levou de Guacniçaõ 
para Olivença, e ultimando nelle a$ muitas viítuies ds 
que era dotado, lhe entregou eíle Troço de Infantaria. 
Eítavaó os Callellianos prevenidos com noticia muito an- 
ticipada do intento do Monteiro mór , e tendo elle eííe 
avizo nao dellítio da empreza , mandou com as Tropas 
ganhar as eilrauas., para que os Caílelhanos naõ foílent 
íoccorridjs , e ínveilio Dom Diogo de Menezes aj trin- 
cheiras com tanta reíoluçaõ , que fendo o primeiro qus 
íubio por elJas , íeguido d(i todos os OíKciaes , e Soldados, 
matando, e ferindo os Caítelhanosque encontravaõ, o^ (^anhaoj^õteh 
obrigarão a íe recolher em hum Fortim , que novamente ^^'«'"■^"*'* 
hãvi,õ fabricado. Tornou Dom Diogo a formar a Infan- 
taria com intento de inveílir o Fortim , porém entenden- 
do o Monteiro mór , que a dilação podia íer psrigofa , 
porque tendo os Caftelhanos anticipada noticia daquella 
jornada, íem falta teriaô dado avizo a D. Joaõ de Garay, 
que havia de marchar a foccorrellos , mandou pôr fogo 
ao Lugir , e te retirou por Telena huma legua de Ghéies, 
e paliando Guadiana defta parte le voltou para Oliverça. 
Foy o difcurlo acertado , porque Dom joaõ de Garay 
com o avizo que teve dos Gaíleíhanoj deChéles, mar- 
chou a foccorrellos com mil e duzentos Cavalios , e tre- 
zentos Infantes , e chegou a Ghéies poucas horas de- 
pois de parfido o Monteiro mór ; feguioo até Guadiana, 
e retifou'íe , examinando que as nollas Tropas haviao 
paílado o rio. O Monteiro mór defejofo de que os Ca- 
llelhanos recebeflem repetida moleília ros kos Lugares 
mandou ao CõmilTario geral Gaípar Pinto Peílana com 
trezentos Cavalios , e a D. Diogo de Menezes com cin- 
coenta Mofqueteiíos montados em mulas á Figueira dtí 
Vargas, Lugar de 3 5'0 vizinhos, quatro léguas de Oli- 
vença , ao amanhecer chegarão ao Lugar , entrâr£õ'o fa- cahha-ie fí' 
cilmente por naô haverem lido fentidos , e retirarsõ-fe com r/zeVa ^c var-, 
grande preza , dt jxando mortoí alguns Caílclh^nos , qne í^^' 
Tom. I. Z aco- 



3^4 POR.TUGAL RESTAURADO, 

acodiraõ ao foccoiro de íuas caías. Retiraraõ'fe para Al- 
AntlO conchel , aonde haviaõ chegado de Gomboy trezentos e 
• cincosntJt Cavallos , tomàièQ os Caílelhanos língua, e con- 

£042* llando']hes que eraõ fupeúores ao noílb poder, íe reíolve* 
raõ a atacar a retaguarda das noílas Tropas ^ occupou'a 
Xantrene Coronel Francez com cincoenta Cavallos, eioy 
entretendo grande efpaço aos Caiteihanos : porém carre- 
gando ellej com mais calor , por naõ haver o Cõmiflario 
defiílido da mancha , conhecendo eile a caufa dt^fta refolu- 
çaõ fez alto , ordenando que a preza lera íe deter paílafle 
a Olivença. Acodio D. Diogo de Menezes a retaguarda 
das Tropas , e fazendo defmuntar os mofqueteiros > dete* 
ve com repetidas cargas a deliberação dos Gaitei banos. 
Vendo elles a noíla Cavallaria cançsda , e menos que a 
que levavaÕ, fe refolveraõ a pelejar i mas aeíle tempo ja 
o Camiflario havia formado as Tropas, e D. Diogo ds 
Menezes a pé diante dos feos Soldados lhes fazia valero* 
'ínãujlnas com famente empregar todos os tiros; porém naô fora fácil ía- 
qMfeLvrãoas^ hlrem huns, e outros do perigo que os ameaçava, fe o Cô- 
wiúario! ^'^^* núííario perfuadido por D. Diogo de Menezes nsõ manda* 
ra pôr fogo ás fementeiras , que eílavaõ diípoftas para ar- 
der , e achando o vento grande , e favorável , por dar no 
roílo aos Caílelhanos , fe ateou de forte o fogo , e coro tal 
brevidade, que naõ fó obrigou aos Caílelhanos aquele 
retiraílem , naõ podendo vencer as chamniâs , e o fumo, 
inas abrazou mais de oito leguâj de terra , de que recebe- 
rão todos os Lugares vizinhos conílderavel perda. O Cd- 
íDiílario continuou a marcha livre do perigo , deixando 
mortos oito Soldados , e trazendo vinte feridos á cufta das 
Tidas de feíTenta Caítelhanos. Poucos dias depois defte fuc» 
ceíío teve noticia o Monteiro mór, que os Ca fte lhanos 
chamavaõ a Albuquerque as Tropai dos quarteiá , e per* 
íuadindo-^e , que determinavaõ , entrando pela parte de 
Cíimpo' Maior, celebrar em Portugal a feíl a de Santiago 
orago militar dos Caílelhanos , que cshia em hum dos dias 
íeguintes, querendo eípecular com mais fundamento eíla 
jdei, mandou António Teixeira Capitão de Dragões cooi 
feíT^nti a to na»" lingn a Bidijoz, adv^rtindo-lhe, q o Cõ- 
miílario geral fahiria com o teíto dâ» Tropas a dar*lhe ca- 
lor. 



PARTE I. LWRO VI. ?6y 

lor, e faria alto em o fitio daCorchuela, maisdehuroa 
íe^oa de Badajoz, e menos de três ds Olivença. António AnnO 
Teixeira tanto que íahio o Sol , executando a ordem que -.óaZ 
levava . correo a Campanha , e fez alguns Paizanos pri- *+ " 

lioneiros, matando íeis, que fe quizjraõ defender eni 
hum monte: tojou'leiirma , fahiraó duas Tropas de Ba- 
dajoz , feguiraô António Teixeira, e entendendo elle 
que as metia na embeiçada , errou o caminho da Cor-, 
chaela , onde eítava o Commiílario, e veio parar a OU- 
vença fcm receber damno. O Commiílario cuidadofo da 
dilação de António Teixeira mandou ao Coronal Boíi- 
meut com 40 Cavallos , que fe adiantaíTe a procurar no- 
ticia de António Teixeira. Pouco havia march.do , quan- p'(//í!ff •* 
do deo viíla das duas Tropas que íevmnao retuanoo: dmsfropas 
inveítio'asj e romoendo-as , feguio os GaRelhanos até caíieihahasi 
a embofcada *, mandou o Commiílario avançar as Tro« 
pas de D. Kodrigo de Caílro » e D. Joaó de Âtaide , que 
matando huns, fazendo prifioneiros outros, obrigarão 
aos miis a fe retirarem a Telena. Sahiraô de Bid^joz 
ce.Ti Cavallos a dar calor ás duas Tropas 1 eftes foraõ def- 
cobertoí das fentinellas, que o Commiílario havia avan- 
çado, e vendo que vinhaó cahir naembofcadí, colhen- 
do dous batedores, fem ferem viítos dos cem Cavallos, 
mandou ao Coronel Xantrene, e a D. Rodrigo de Mene- 
zes, que ja era Capitão de Cavallos, que ercobertos 
com as arvores marchaífem fobreamsõ direita a cortar 
os Caílelhanos , que vinhaÕ marchando para aqiiella par- 
te : executarão elles a ordem ; porém deícobrindcfe an- 
ticipadamente , deraõ lugar aos Caftelhanos a voltarem 
as coílas , antes de poderem íer cortados : e feguirsô-os , 
e fazendo alguns prifioneiros, tornarão a encorporarfe 
com o CommiíTario, e todos voltarão a Elv35 com 5'^ 
t^avallos dos Gaítelhanos. As Tropas que íi^áraq em Ba- 
dspz íahiraõ ao rebate : mas nad quizeraó empcnhar- 
fe na contingência do numero das noíTas. Em todas as 
Praças de huma , e outra parte fe repetiaõ ds entradas, 
quali com íucceílos igu^es. Em CampoMaior naõ tive» 
laó os Holiandezes boa fortuna: forsõ 30 deíraontidos a 
Caíteliai depois de fe lhes haver prohibido, por out^-^s 

Z 2 en- 



Anno 
1Ó42. 

J^anda enfor- 
car D. João de 
Garay trinta. 
HoUandezes. 



566 PORTUGAL RESTAURADO , 

entradas, que haviaõ fe^to j mas prevalecendo com el* 
les a ambição da pilhagem , entrarão íem licença pela 
parte de Montijo : foraõ íeniidos , e colhendo-os os Caí- 
telhanos a todos, quando eíperavaô liberdade, mandou 
D, Joaõ de Garay enforcallos , exemplo , que foy muy 
útil a luima, e outra parte. O Monteiro mor, informa- 
do de hum Caftelhano, que de Villa^Nova dei Frelno 
paíTou para Mouraõ , foy com 2 5'o Cavallos armaras 
duas Tropa», que fe aquarteiav«õ em VillaNova; po- 
rém naõ refultou da diligencia grande effeito, porque 
na6 fediípondo a embofcada como convinha , cab-rdôfó 
neila nove Caílelhanos , que íicáraô priíioneiros. Deita 
jornada do Monteiro mór teve noticia D, Joaõ de Garay 
taô anticipadamente, que ajuntando 1200 Cavallo*, le 
poz em marcha para Villa-Nova , a tempo que lhe veio 
recado , que as Tropas de Campo^Maior levavaõ todo o 
gado da Villa da Povoa. Achava-fe cora poder para alllílir 
a ambas as partes, mandou a efta 600 Cavallos, e com 
outros 60 j marchou para Villa-Nova. Em Alconchel 
schou avizo , que o Monteiro mór íe havia retirado, e 
voltou 'íe para Badajoz. Os outros éoo Cavallos i antes 
de chegar â Povoa, fouberaô que com pouca diftancia 
marcha vaô as Tropas de Campo* Maior, levando o ga» 
do de todo aquelle diftrido : conftavaõ as Tropas de 
160 Cavallos , de que era Cabo Joaõ de Saldanha da Ga- 
iT)a , que em auíencia de Aires de Saldanha governava 
Campo-Maior. Sahio a fazer eíla preza na fé de have» 
rem marchado as Tropas para VilIa*Nova , como havia 
tido noticia, porque de outra forte fe naõ refolvèraõ a 
empenharfe, ficando a Povoa cinco íegoas de Campo- 
Maior , coberta com as maiores Praças dos Caílelhanos •• 
porém uíando di cautella conveniente deixou huma par- 
tida fobre Badajoz, que o avizou do grande poder com 
que o inimigo vinha a bufcallo. Conhecendo elle o peri- 
go a que eftâva expofto , defpedio promptamente avizo 
ao Sargento mór Manoel da Silva Peixoto , que havia 
ficado governando Campo-Maior , para que fahiííe a 
Icccorrello com a Infnntiíia daquelía Praça, e que logo 
3àe raandaffá 40 Cavallos , qu^ haviaõ ficado nelia. Obe- 

deceo 



PARIE i: L1V9P VI. ^67 

deceo o Sargento mór , e adiantáraõ'íe os quarenta Cavai- 
los â ordem de Fernaõ Rodrigues Galvaõ Capitão da Urde- A nn O 
nançj. Encontrou Joaõ de Saldanha quando íahia àús j/.2 
inatos de Xebora , huma l^goa de Campo- Maior , e reco* ^ 

fihecendo que o inimigo íe adiantava de forte , que íem 
duvida o romperia antes de chegar a Csmpo*Maior, lar- 
gou a preza de gado miúdo , e com a outra fe falvou em 
Ouguella , que ú\q ficava menos diítante : porém na5 dei- salva feemOw 
xará de padecer grande eílrago , íe Fernaõ Rodrigues que ^"fj'* ^'«* ''^ 
deixou na retaguarda os quarenta Cavallos naóentretivera 
com tanto vaior , e deítreZa os batedores do iniínigo , 
que naó tiveraó lugar de íe baralharem , e deterem as noí- 
fas Tropas. Fernaõ Rodrigues íem damno algum fe reco* 
]heo a Campo* xMaior : íizcraõ os Caftelhanos alto , e 
ao mefmo tempo deraô viíta da Infantaria^ que vinha 
entrando em huma deveza poi co diítante de Campo- 
JMaior. Naõ diltáraó a reíoluçaó de avançalla ; porem 
o Sstgenro mór que a governava , tendo tempo de fe va- 
ler dt; huma tspada , edosn.paro das arvores , ficou for- 
iTíado em fitio t,õ feguro, que depois dos Caílelhanos 
deixarem mortos na Campanha quarenta SoJdedos, íe 
retirarão íem outro tííeito para Badajoz , e o Sargento 
mor com a Infantaris para Canipo'Maior. Faíladus poucos Ticdu^SosCa' 
dias, degOílaraõ cem Cavâllos de Valença duas Companhias (lelhanos duas 
de Infantaria de Gaílello de Vide por culpa dos Capiraens , Ccm^Anhias. 
que fiados na aípereza d.3quelle fitio marchavaõ com pou- 
ca cautcUa. Tornarsô de Valença a entrar os Caílelha- 
nos com quatrocentos Cavallos , e cincoenta Moíque- 
teíroj ; mas fendo íentidos , quando chegavaõ a Fer- 
reira , das fentintllss, que os Paizanos daquelles Luga- 
res coílumavsô a pôr nai ferras vizinhas , avizsraô 
os moradores d"* Povoa das Meadas , os quaes vendo 
que naõ podlaò defenderia , defamparáraõ o Lugar. En- 
trarão nellcí CS CaíVelhanos a fer teílimunhas da vale- 
rofa reíoltç õ de Jogõ de Almeida Alferes da Orde- 
nança da Companhia de Tolofa. Havia^íc retirado íem 
levar corr.figo a bandeira , porque o rebste repentino 
foy origem do deícuido de deixálla ; efiando diílsnte 
do Lugar, e os Caílelhanos entrados nelle , calJo neí- 
Tem. I. Z 5 te 



i64i' 



?á? POKTUGAL RESTAUtADO, 

te erroi e ainda que achava a vida fegurai como o naô 
Anno eílava a feu parecer a opinião, procurou o remédio, 
que íó a honra coftuma buícar no perigo; entrou o Lu- 
gar» e achando a bandeira ainda no Corpo da guârda 
pegou nelia, c ao meírno tempo o inviílíiao alguns Caí. 
Mf^^valero^a teíh-inos i foyfe retirando, e defendendo até nura Lu- 

ao Alferes roao j >. • j • j m 

dt A^meidíi. S^'" ♦ onde havia deixado o cavaiio em que vi^ra ; moa- 
tou nelle com duís feridas, deixando-as íatiâf^itas na vi- 
da de hum Caílclhaao , e fem eaibaraço dos mais que o 
feguia5, falvou a bandeira, e a vida, e iiriírioriaiizuu a 
fua memoria. Retiráraõ-íe os Caílelhanoi , e rendo Dom 
Niino Mafcarenhas avizo defta entrada, acodio com du- 
zentos Infantes, e íenierariamente fe reíolveo a occupar 
o Porto dos Cavalleiros, hum dos do rio Sever, que 
corre entre Caftel]o de Vide , e Valença ; quando chegou , 
achou algumas Tropas do inimigo ainda derts parte: oc- 
cupou hum alto inexpugnável , fez dar aos infantes repe- 
tidas cargas , a que alguns Caftelhanos renderão as vida*. 
Entrou o mez de Outubro, ecom o Outono a mudança 
do governo das Armas da Provincia de Alcmtejo. Martini 
^íiõnfo de Mello continuava a afíiílencia de Eítremoz , 
havendo deixado Elvas contra o parecer de íeos aniigos i 
e dependentes , de que reíultav^ a murniuracaõ dos que o 
nao eraõ. Arguiaõ*o juntamente íeos inimigos de al'pe- 
To coíh os pertendentes , pouco pratico nâ guerra , e confs 
fufo nas ordens ; e accumulavaõihe outras culpas com 
pouca râzaoi porque havia entrado a governara Provín- 
cia de Alemtejo no tempo de miior perigo , e fem rece- 
ber damno algum tinha fuftentado a guerra , e augmen- 
tado as Fortificaçoens , remedi mdo juntamente as dema* 
fias dos Hollandezes , que foraÕ muito exorbitontej. 
Ouvio ElRay as cilumniis que argui^^o a Mar ti m Af- 
fonfo de Mello, efpeculando a verdade delias covn menos 
diligencia do que elle merecia , e a)udando*as Francifco 
de Lucena , pouco inclinado ás acçoens de Martim Af- 
fonfo. Refultou deftes accidentes mandar ElRey ao Con- 
r%e El^Ke-' o ^^ ^^ Torrecom Gregório de ValcaOar a retbrmar o Exer- 
^Iralff^rmlr' *^°'ío de Alemtaio , independente de Martim Aironfo. Ori- 
« Exiniii. giaou"fe deíla commiíísÕ eritíe os dous forçoía defcoc- 

fiança 



PARTE I. LIVRO VI. ^69 

fiança. Reformou o Conde muitos Officiaes contra o pa- 
recer , e gollo de Martim AíFonío de Mello , por haver ia- Alino 
troduzido aos mais djlles nos Poítos que occupsvaõ, e i/r^," 
dilpoz a íeu arbítrio tudo o que lhe pareceo conveniente ; "^ 

e acabada a caiu niijjaõ » vuiiou para Lijboa. Entendeo^le 
que iatoimârà a ElRey pouco a favor de iMartim Affonfo 
de Mello ; pOrqus no meímo tempo lhe mandou ElRey 
Patente de Governador do Algarve, e ao Conde de Óbi- 
dos , que occupava eíte Pofto , avizo de que o havia no* 
meado Governador das Armas da Provincia de Alemtejo. 
Chegou o Coniaem Outubro a Elvas» epartiode Eftre- p^^^ martim 
moz Martim Aílbnío de Mello par,i o Algarve. O Conde ^fonfo a go^ 
de Óbidos havia fervido no Brafil , e em Flandes com vemar o ai^ 
muito bom procedimento , e eíper^va'fe do fei: juizo , e ?/irve,eoCode 
da affjbilidadc do íeu trato, que exercitaíle com grande ^i^^teio".^ " 
acerto a occupaçaó que ElRey lhe entregava. Antes de 
chegar o Conde a Elvas , havia o Monteiro mór fahido de 
Olivença com trezentos Gavailos a bufcar três Tropaj, 
qne daváõ comboy aos Paizanos , que vindimavaõ as vi- 
nhas de Telena. Com eíla noticia , dada por três Soldados 
que man:iou fobre Badajoz, e íem msis feguro exame j 
marchou o Monteiro mór ao amanhecer , e fazendo prifio- 
neiro as partidas , que levava avançadas , hum Soldado 
Caftelhano, exsminando*o, diíTe, que o comboy das vin- 
dima? erao quitrocentos Cavallos , e íeiícentos Infantej. 
Como fe o Soidado fora Cortezaô , lhe cuftou a vida o fal- 
Jar verdade, e naô chegou o arrependimento aoi que lhe 
deraõ a morie, fenaõ depois da experiência, que foy para 
todos inútil fatisfaçaó. Viraõ eítes alguns Cavalios dos 
que o inimigo havia avânc^ado para a paite de Olivença , 
que era a de maior íufpeita , tendo do outro lado Guadia- 
na por fegurançâ : inveíliraô'Oí ; porque para os meter 
em maior empenho, cederão os Caíiclhanos. O Monteiro 
mór vendo que as Tropas dos Caftelhânosmontavaõ em 
foccorro das partidas , que hiaõ carregando , avarçcu toda 
3 gente que fevava con íigo , a tenpoqueosCaítelhano? 
o vinhaô buícar cem quatrocentos CavsHos , e íeifcentos 
Infantes. Vendo o Mcnteiíomór a defigualdade do poder, 
determinou retiraríe cem tempo, e elegeo a pente de 

Z 4 Oli- 



J70 FOKTUGJL RESTAURADO, 

Olivença por fer menos diítante , ficando pouco mais de 
Anno huma légua dacfuelle fítio : fez marchar a bom pafio as 
j^ Tropas, licando cile com os Ofíiciaes» e cincoenta Caval- 

- 42» los efcolhidos na retaguarda delias ; carregàrsõ vaJeioía- 
meníe os Callelhanos , mas naõ puderaõ confeguir def- 
compor a ordem da retirada. O pó, e o fumo stízou a 
Dom Joaõ da Coíla , que governava Elvas , e eítimulan- 
do-o a adividade de que eia dotado , íem dilação alguma 
íe poz em marcha cem mil Infantes, cento e íeííenia Ca- 
vslios , e duai peças de campanha. Com efte poder mar- 
chou para hum dos portos mais vizinhos á ponte de Oli- 
vença , querendo moílrar ao inimigo, que determinava 
pafíar Guadiana , e com eíta deílreza deter a fúria coni 
que vinha atacando ao Monteiro mór. Foy de tanto eíFei» 
to a bem fundada idéa de Dom Joaõ da Coita , que duzen- 
tos Cavallos , que a toda a preíTa lahiraõ de Badajoz a fe 
incorporar com as Tropai que sndóVaõ pelejando , íizeraõ 
alto e acodiraõ ao porto que Dom Joaõ da Cofi-a moíha- 
'Ltvra]eVMon- va , que queria paííar, HaviaÔ também com eífe cuidado 
teiro mnr com o as mais Tropss dctído a fúria com que carregs vsõ , dando 
Mí^rre^Dc^w tempo so Monteíto mór para mandar oitent.-í Dracoensa 

J*>io da Coita. /• ,j-L'í/~vi' i- r 

•' legurar o porto da ribeira de Olivença , que íorçoíamen» 
te havia de paflar , ordenando-lhes que tsnío que eílivef- 
íem da parte delia , deímontados guardaílem. o porto. Foy 
efta diligencia de grande eífeito , porque os Caftelhanos 
com o temor de Dom Jo^õ da Cofta , e cora o pretexto d& 
achar aquelle p-iílo defendido íi7.era6 alto, e o Montsiro 
mór paflou íem perigo a ribeira , e chegou á ponte de Oli- 
vença fem perda confideravel. Dom joaõ da Coíla vendo 
que o Monteiro mór havia paílado a ribeira deixou no por- 
to em que eftava duas mangas de Mofqueteiros, emar, 
chou para a ponte a íe incorporar com o Monteiro mór. 
Logrou Dom Diogo de Menezes a maior parte da gloria ~ 
daquelle dia , porque efcolhendo os melhores Cavallos da 
fua Tropa , veio íempre íufcentando todo o pezo da eíca- 
ramuça. Acodio também quafi ao mefmo tempo a Infan- 
taria de Olivença , e os Caílelhanos vendo t;^nto poder 
junto fe retirarão para Valverd«, e as noílas Tropas para 
os íeos quartéis. O Ccnde de Óbidos logo que chegou a 

Elvas 



TJRTE L LIVRO VI. ^71 

Elv.*is determinou pafíar s Oliverça •, deis diss f rtes que 
íizeíie a jorrada íugiohum Mouio de Elvas paia Eada- AnnO 
joz, e deueíta noticia a Dom Joaô de Gaiay. Reíciveo- ,^ ^ 
íe elle a exaniinar a verdsde deJla. Mcntou cem n il Ca- *í^42' 
vallos , e emboícou-íe com elles no csminho de Oliven- 
ça : porem o Conde de Óbidos havia hido a Olivença o 
mefmo dia que o Mouro fahio de Elvas, e voltado a El. 
vas íem fazer dilação , brevidade que defvaneceo o inten- 
to de Dom Joaõ de Garay. Naquella noite , por naõ baldat 
de todo a jornada, ainmou as Tropas a Oliverça : ao 
amanhecer mandou duas a correrem as fentinellas , que 
íahiraó da Praça. Montou a Cavallaria de Oliverça 20 Ficar«muça.m 
rebate : os primeiros Cavallos que íahiraõ entretiveraõ cihen^a.^ 
de íorte as duas Tropas , que chegando o Tenerte Gene» 
rai da Cavallaria Dom Rodrigo de Caílro com as que ha. 
via na Praça, carregou as duas até a enrbofcada. Sahio 
Dom Joaô de Garay delia : voltàraÕ a* ncílaj Tropssa va- 
ler'ie da infantaria , que o Monteiro mór havia formado 
nos Olivaes : na redrada toroáraõ os Csftelharos vinte 
Cavallos , e deixarão mortos dez Soldados , e fem occa- 
íionarem mais damno íe voltou Dom Josõ de Garay pa- 
ra Badajoz. No principio de Novembro chescu a Elvas ^ 
com O poito de Meícre ae Campo General joanne Men- ;^^ vajco^cdios 
des de Vaíconcellcs. juIgouTe por acertada a eleição d'£l- LiefueactanPi 
Rey » tendo-íe grande conceito da fua capacidade, haven- poCenuíiL 
do fervido com reputação de Capitão de Cavallos em Fian- 
dss , e de Meítre de Campo no Brafil. Neíte anno nsõ hou- 
ve mais hoílilidades, que algumas que os Csftelhanoí fi* 
zeraõ nos Cnmpos de Mour; ô , havendo ElRey mandado 
que fe iurpendcíTem as entradas á petição dos povo» , que 
eíítendiaõ que o inimigo fó provocado nos fazia d.-ímno; 
porém , conhecido o engano deita opinião, íe íoiráraÕ a 
continuar , como adiante reíerirerros. 

A Província de Entre Douro e Minho, cepois suctepsrJeEn- 
que Dom GaííaÕ Coutinho fí-hio delia ficou governa' neDcuroeui? 
da pelos três Meítres de Campo Marrei Telles de ^"^''* 
Menezes, Diogo de Mello Pereira , e Viole de Atys. 
Continuarão o feu governo íem facç£Õ de irppoitan- 
€ia até o rnez de Setembro do antjo que efcrcven-os. 

Kdí© 



971 PORTUGAL ítESTAURADO, 

Ntíiti tampo tiveraõ carta de Rodrigo de Figueiredo » Go« 
AntlO v^rnaiar das ArrniS ds Traz oi Montei , era que 03 avi- 
^ zava , que o Prior de Nâvarra > que havia fuccedido no 

1042. governo das Armas deGalliza ao Marquez de Vai Parais 
ío, ajuntava gente para entrar em Portugal : que ellefe 
prevenia para íe ,lhe oppor , que lhes regava quizeííem 
ir fazer alguoia diveríaõ. Tanto que lhes cnegou eíte avi- 

so , repaitiraó coíre íi a diligencia de ajuntar gente, e a 
treze de Setembro !s achárâõ todos em Monçaó com oito 
rail infantes , e cento e vinte Gavallos, e o dia íeguinte 
_i e-n "^ísrárao em Galíiza , e alojarão no Lugar de Gorveiho , de 
GaUiz.a. cem viziíihos I que íaqtiearaô , e queimarão. Gontinuâ- 
raõ a marcha, e cátnjiinhando oito legoas por Galliza den- 
tro , deíhuíraõ, e queimarão muitos Lugares grandes , 
e quantidade de /\ldííí»á : retiràracíe a Lindozc , e haven- 
do o inimigo quebrado huma ponte por onde haviaõ de 
paliar , buícáraõ o porto do rio, que acháraõ defendido ; 
mas facihnente fizeraô deíalojar os Galegos ^ efe retira- 
rão fem dam no algum. No meímo tempo , com ordem 
dos Governadores, havia entrado pela Portela de Ho- 
mem Váíco de Azevedo Coutinho , e íem alguma op- 
poíiçâõ queimou vinte Lugares do Goníeiho de Lindoío , 
alguns delíes reediíicados , havendo padecido anteceden- 
temente fimilhante ettrsgo. Rodrigo de Figueiredo con-^ 
tinuou o governo da Ptovincia de Traz os Montes de Ja- 
neiro até Setembro fem facção de importância de am* 
Succeffos ^ãs^^^ g^ parte»-. No tempo que avizou os Governadorei 
\Trjz. osMo' ^^ Minho , marchou para Galliza com quinze mil Infan- 
tes, e cento e c'ncjeaia Gavallos , e cinco peças de ar- 
tilharia. Sahio de Valverde, e entrou em Fizes Lugar 
defpovoado deGalliza. onde diípoz a gente na melhor 
forma , que lhe foy poíHvel , ignorando as Ordenanças 0$ 
preceito? de íe ordenarem , com J convinha. Chegou com 
efta gente a Mindim , Lugar também deftruido , e paííou 
aalojirem humfitlo, chamado Ferrão, efperando nelle 
avizo dí entrada doi Governadores de entre Douro e Mi- 
nho , determinando qu3 os dous Troços fe juntalTem , pa- 
ra que o damno d2 todos aquelle^ Lugares foíle fem re^ 
paro ; porém veado que o avizo tardava , e a gente fe lhe 

di- 



PARTE 1. LIVRO VI. 575 

diminuía, adicntou Ictecetto* Ififantes, e os cento e cin- 
coeota Cavallos , que govtrnava oCapitcõ de CavííJloi AnHÒ 
Irancilco Pereira oa Siiva. Era a ordem que levava, en- ,/ ^ 
tretti í» gente que i&hiíle de Morte-Rcy. Teve avizo de '^4^? 
huiTia paiiida que avançou , de que entre os Lugares de 
1 amaguelios , e Mouraçosappareciâõ três Tropa» do irii- 
nugo , e íem outra couudtroçaõ dividio as três que leva- 
va. Mandou a Miguel Ferraz Bravo , que marchaíle com 
huma pela eitrada , a Gregório de Caítro com outrí por 
junto du lio Tâmega, e eile com a terceira atalhcu por 
hum vúlle com o fim de chegar mais de preíTa ao inirriigo 
como conlegiiio , e carregando valerofamente as três Tro- 
pas as obngoua voltarem as coitas. Segiiio'as£té as vinhas 
do Lugar de Verim, unido a Monte-Rey , tomou íete ^fc<'»iro de j^ 
Cavallos» e incorporadas as outras duas Tropas, determi- "'^^ 
nou retir»iíe a íe unir com ogroílo , por appareccr oini« 
migo formado com cinco mil Ir.fsrtes , € quatrocentos 
Cavallos: porem barbaramente peííuadido de hum Fran* 
cez chamado Ugo Ordio Meílre de Campo , fe deixou fi- 
car , por lhe diztr o Francez , que era reputação das armas 
d ElRey n?5 largarem o campo. D. Martim de Redim 
Pricr de Navarra , que vinha irarcharsdo ? vendo a occa- 
íisõ taõ opportui^a, avsnçou com a Cavallaria , e algu- 
mas mancas de Moíqueteiros , e obrigou a Frsnciíco Pe- 
reira a largar per força o campo» que pudera deixar com 
reputação , e fem peíigo. Retirou-íe a hum mor te sonde 
havia chegado parte dos íetecentos Infantes que levava á 
fua ordeir. Puxou o inimigo por toda alnf?ntariâ, e 
quando cerrava a noite atacou no mente as Tropas, e 
Infantes. Defenderaõ-fe muito efppço com grande vclor^ 
e Rodrigo de Figueiredo , tat to que cuvio as czrges^ 
irarchou com toda a gente a Icccorrer Frsrcifco Pereira. 
Porém como ? noite foíle eícura , a ccnfufpõ pirée , e 
a gente mal diíciplinsda , parte da que levsva fe voltou 
para Portugal. Chegou Rodrigo de Figueiredo crm a 
que fe rtfolveo a feguil'o ao lugar onde fe peleiavs, 
entrou valerofaiT ente no ccrfiido : rcrém , r»fÕ lhe va« 
Jendo todas a$ diliget cias que fez , o Prior de Navarra 
pelejou cem ter.to vaJor , . e boa diípcfiçaõ, que £5 rof» 

íáS 



574 VOKTUGAL f{ESTAURADÕ , 

ias iVopas , e Infantes voltarão as coitas. Livrou-as a 
Anní) noite d j ultimo da nno , recolhendo'íea hum monte, on- 
_/ 2 ^^ havia íijadj a artilharia , que com íiiTiilhaattí defor- 
. _J '^ díiTi baícirao, os que a goveraavaó a íeu arbítrio , ella 
%nu''Jtes^ eminência. Rodrigo de Figueiredo por naô ler conheci- 
$oi»^erda. do , e pelo valor com que peisjou , deixou de íicar pri- 
I íioaeiro ; chegou com os mais ao monte , e quando ama- 
nheceo achou que havia perdido duzentos homens entre 
mortos , e prifioneiros , fendo hum delles o Capiraõ de 
Cavallos Miguel Ferraz , e hum dos mortos António da 
Cunha, e outros Oíiiciaes da Ordenança. O inimigo tam- 
bém perdeo alguns Soldados , que fez pouco íentidos a 
gloria do bom íucceíio. Rodrigo de Figueiredo, com a gen- 
te que lhe havia ficado, marchou á viita ào inimigo, efez 
alto em Villareiho, legoa e meia de MontcRey. Neíte 
Lugar íe deteve cinco dias , mandou em todos elíes correr 
íe?n oppofiçaõ a GavH panha. No ultimo faliio o inimigo 
de Monte'Rey com féis mil Infantes, e quatrocentos Ca- 
vallos, e marchou paia ViUarelho. Naó duvidou Rojri- 
go de Figueiredo de pelejar , fahio áo quartel onde eíta- 
va com 3 gente que lhe havia ficado, e alguma que havia 
conduzido , e com duas peças de artilharia, e formou-ie 
diante do inimigo. Periiilio deíla foi te todo o dia, e vea. 
do que o inimigo duvidava de pelejar comelle, íe reti- 
rou tanto que foy noite a ViUarelho, por naõ achar eai 
três mil homens , que lhe haviaó íicado , a reíoluçaõ que 
defejava. De ViUarelho palTou a Chaves , e o inimigo vol- 
tou para Monte* Rey fem outro cíTeito. Poucoa dias depois 
deite fucceflb entrarão íem ordem em GalHza três Com- 
panhias de Vinhaes; derrotou-as agenteda Puebla de Se* 
nabria. Succedèraõ a eiles outros encontros de huma , e 
outra parte , de menos conftderaçaô. 

As Armas da Província da Biirá tiveraõ efte an^ 
no mais exercício , que os antecedentes. Cheirou a gover- 
succefjos da ^ Ferniõ Tellis d^ Miiezes nos primeiros dias d« 
Bdra j « 1,0' M uço. hatregou'lh3 hlRey eita occupaçao ( de que alle- 
v"v4 Bjrnjo vio 1 ^ :)iTi Mvuo di AbfanchiS ) nomsandj'0 doCoa- 
TeUji di Mf ^gii^-, d^iGi-rra, e conceieo'!h2 todas a? prevençoens 
"*^'^' queliíepedio paradifeaderaProfincia. Levouaellaoor 

^ Mjílre 



PJRTE 1. LWRO VI. 57J 

Meftre de Catrpo de hum Terço de Infantaria a D. San- 
cho Manoel. Havia aíTiílido muitos annos em Itília, e AnnO 
FJandes com muito boa reputação, paíTou depois por ^ 
Sargento mór ao Brafil , e veio â occupar os maiores ^*^42* 
poitos do Reino. Chegou Fernaõ Tellea á Guarda , on- 
de lhe entregou Joaõ de Saldanha o governo. Poucos dias 
depois de chegar teve avizo de Braz Garcia Mafcare-, 
fjhas Governador de Alfaiates , que D. Franciíco de Hi» 
raço , que governava Alvergaria , mandava fazer algu- 
mas prezas , que naó reftitula , como fe havia obferva- 
do em tempo de D. Álvaro ds Abranches , e no que du- 
rou o governo de joaõ de Saldanha. Pareceo-lhe a Fernão 
Telles que era taõ leve a cauta de romper a guerra , que 
fe devia eípersr rr aior occafiaõ. Dentro de poucos dias en- 
trarão quarerta Cavallos atè o Lugar c^e Forcalhos - aco- 
dio ?.o rebste Braz Gsrcia Maícarer.bas ; retircu'fe o ini- 
migo, l-.vrrdo daqnelles Lugares presa connderavel : na 
retíjnarda fez priíioneiros Brnz Garcia Maícarenhas no- 
ve Soldados , e hum Alferes. Com a noticia defíe novo 
movimento fcrefolveo Fernaõ Telles arosrper a guer- 
ra , naõ querendo que o inimigo na confiança de íua dif* 
limulaçâõ íe animjíle a maiores err.prezas. Mandou a 
Joaõ de Saldanha com cem Cgv?.llos para a Vi-lla de Al- 
faiates, e a D. Sancho Manoel com parte do feu Terço 
para Caílello Bom, oídensndclhes que acodifíem son- 
de fofíe msis precifa a fua aíliííerc'a. Poucos dias depois 
dechegarerr aos alojamentos deftinados , fahiraõ os Caf- 
tçlhanos de .-alvergaria , entrarsõ no Lugar de Forcalhos, 
laques^ic-o, puzeraõ-lbe o fcgo , e leváraÕ a rraior 
parte dcs n, oradores piiíioneiros. Accdio Joaõ de Salda- 
nha atcnpoque oiniuigo fe havia retirrdo. Defejando 
rsõ dilatar a vingnnça , mandou ?o Capitão Diogo de 
Toar , que er.trafle o Lugar de Cazilhas » rico , e bem 
povoado, e elle ficou em oppoíiçaõ do focccrro , que 
podia íahir de Alvergaria. Encontrou'íe Diogo de Toar 
com D. Sancho , que t<-nbem havia acodido ao rebate; 
uniraõ'fe os deus , entrársõ no Lugar , e depois de f^qnea- 
do lhe piizeraõ o f<^go. Fernaõ 1 ellei rmdcu depcfitar 
ledos C5 deípcjcs que es SoJdsdoí tittiSsrLÕ, £,té tx^m-^- 

EâJf 



575 PORTUGAL RESTAVRADO , 

nar íe o inimigo folicitava nova concórdia. O dia feguín- 

AnnO íe veio hum volaniinn do Duque de Alva , em que fegu- 

, rava, que as entradas fuccedidas fora defmancho dos 

1642. Soldados, e que fazendo-íe igual reftituiçaõ dehuma, 

fSífktscIf'- ^ ^^^^^ ^^^^^ ^° ^^" ^^ hzviSL roubado , naô íuccederia 
?E»^í/^ ^ ' novo accidsnte que perturbaííe o focego. Ajuftou-ís 
Ferna5 Telles a eíla propoíta , foltáraõ'fs os priiioneiros , 
e reítituiraõ'íe as prezas. Naô durou muitos dias efta 
correfpondencia : porque de Alvergaria entrarão os Caf- 
telhanos no Lugar de Fuinhos, e derrubarão, edeíkui- 
I2Ó toda aquella Campanha. Diículpou'íe o Governador 
doCafteiío, dizendo que a gente que entrara era fujei- 
ta a D. joaô deGaray : mas conílando, que parte delia 
fahira do Lugar de S. Martinho do governo do Duque 
de Alva , e parecendo a excuía pretexto de romper a 
gLierra , ou diííimulaçâõ para roubar íem perigo , l'e re- 
folveo Fernaõ Telles a naõ tornar a aceitar praticas ar- 
tiíiciofas , e a íe livrar do damno que traz comíigo guar- 
dar a palavra íem correípondencia. Partio occulto para 
Alfaiates, defpedindo primeiro avizo a todos os Offi- 
.ciaes da Província , pára que fe achaílem naquella Villa 
legunda feira da íemana Santa , e que levalTem comfigo 
toda a gente que Í2 pudeíle tirar dos Lugares vizinhos, 
para que engroííaíle o pequeno Corpo, que havia de In- 
^efolveVe Fer- fantaria paga. Tanto que chegarão aAlfaiatei todos os 
não Telles rom- Oí^da'^8 convocados, Ihes declarou FernaÕ Telles a re- 
feragutrra. íolucaõ , que hâvia tomado de entrar em Cafteila, e as 
cauí^s que oobrigsvaõ a naõ dillimular mais tempo as 
cavilaçoens dos Caítelhanos. Todos approvávaõ a fua 
refoluçaõ , e vierao a ajuftar depois de vários pareceres , 
que Valverde Lug<ir de 500 vizinhos» o Gaftello , e o Lu- 
gar de Elges foílem fatisfaçaô dos aggravos referidos; 
Ficaví Elges três legoas de Alfaiates, o Cnílello era 
quadrado, e a fituaçaõ delle em huma eminência ; a Vil- 
la íe continuava ao pé do Caítello, e era de cem vizinhos : 
pouco diftantes para hum , e outro lado íicavaõ as Vili 
las de Valverde , e S. Martinho de Trebejo ; a terra to- 
da era fragi^a» e qualquer oppofiçaô bailara para diífi- 
cultar a em preza. Sahio dá Alfaiates Fernaô TeUes o 

dia 



PJRTE 1. LIVRO VI. }77 

òia íeguinte ao que checou áquel]e lugar ; levavs deus 
ji.il Iníantes, e duzentoi Cavalios ; avilíou Valverde , e AnnO 
mandou propor aos moradoics, que íeentregâílem , e que ^ 
conícntiílem em viver debaixo da protecção , e obcdien- *o42. 
cia d'blRey Domjuaõi ^.oique ló íujeitando*íe seitas 
condiçoeriò pcderiaõ fctalhar o dan no que os airiesçava. 
Vendo os iroradores a difi culdade dâdcfenía , eoriíco 
das vidas, e dos cabedses, sdniittírí^õo partido. Celebrou- Dá valverdà 
fe o contrato por eícritura publica , proveraõ*íe em come obediência aEU 
d*iilRey os Officios da juítiça , e deirJbaraõ^fe as trinchei* ^^'^' 
ias. \Jo\x\ Sancho Manoel havia'fe apartado de Fernão «íwí^e-yí o Ca* 
Telles a atacar o Caltello de Elges , cl egou a elle com Z'*^" (^e í-H^í, 
tiabalho pela ajpereza da terra , e ncõ haverdo dentro 
jT-ais que hum Alferes , e fete Soldados, fe renderão Jogo. 
Os troradores da Villa fe concertarão dâ mefma forte que 
os de Valverde. Ordenou Fernaõ lelles a Dom Sancho 
que fiv:i!lle no Caftello com trezentos Infantes , refoluçao 
duvidcía de íe luíler.tar , e pouco útil , ainda que íe conr 
feguiíle. O Duque de Alva com a noticia da perda de El- 
ges mandou fahir alguma gente de Ciudads Rodrigo , de 
Coria, de í)aô Maninho, c outros Lugares da Serra de 
Gata a occupar hum noníe , padraílo ao Caílello de El- * 

ges , e levantar nelie hum fedudo. D. Sancho com avizo 
deíle movimento, e de que os nioradcrej» da Villa muda- 
vaô o fato para Saõ AUrtinho , e trsíâvaõ de negar a tbe« 
diencia promettida, msndou fí^if Soldados á Villa, e re- 
colheo todos os mantimentos que achou nella , que erso 
muitos. O dia feguinte mandou fôr fcgo ío Lugar, para 
spartar do Caílello o perigo das calas vizinhas a elle. Re- 
fiíliraõ os moradores , mas foraõ lançados fora da Villa. 
Dom Sancho fez trabalhar na baibscaa , em cerrar ft^ por- 
tas , e nas m.tis preverçoens que julgcu convenierte» , 
e svizou a Fernfô Telles dotftodo em que fe achava. 
Levou o avizo htm Sargento, que os Cíílelharos toma- 
rão quando voltsva ccn> areípiílade Fernfõ Telles. A 
dilação obrigou a Dom Sancho a n andar fegtrdo fvizo» 
que chegou cem a fegurarça àt\QX deprtfla foccorrido. 
Keíte tempo trahalhavaõ os Caíl^elhanos no ledudo , e ^^-^'^^^"^ «^^âi 
n-oleltavaõ o CLÍleilo tom lepetidaí cergas, leuberdo f;,í;'f;" Jv7, 

deilây La(itiiodtLiit9 



57S PORTUGAL WSTÃURADO; 

delia igual íatisfaçaõ , e poucas horâs ceílava a bateria de 
Anno huma , e outra p^rte. Ferirão as balas alguns Soldados do 
^ Caílello , e hurna delias matou ao Capitão Joaõ Corrêa. 

* 04 2 . Fernão Telles naó le deícuidando em prevenir o foccorro 
ajuntou leis milínfantuís, e duzentos Cavallos , e fazen- 
do a melhor prevenção de mantimentos, que Jiie íoy poí- 
íiVil marchou para Èlges , donde íahio Dom Sancho a cf- 
perallo. Havia Fernão Tellss ordenado a Braz Garcia Maí^ 
carenhas, que deíie cento e cincoenta infantes ao Capitão 
Simão da Coita Feo , com ordem que de noite occupaiTí; 
hum monte, padraíto doreJudlodos Gaílelhanos. Era a 
ferra afpera , e o caminho difficil •■, cahio ao Capitão o ca- 
vallo , e pareceadoihe a queda caufa baftante para Jargac 
a gente, e deixar a esupreza.íe volíou para Alfaiatesipren- 
deo-o Braz Garcia, e mandou por Cabo da gente que ha- 
via ficado na ferra a hum Capitão da Ordenança de Viiiac 
Torpiin. Achou elle agente, mis perdeo-fe na íerra , e 
naó coníeguio occupar a eminência: a eftes Soldados fe 
uniraõ cincoenta Mofqueteiros , que íahiraô do Calitello, 
e entregues ao Capitão Manoel Feo de Meilo, eao Aju- 
dante bimaõ Ferraz de Faria, por feexcufar áê empreza 
com pouca reputação o Capitão Luiz de Paiva. Divi lidos 
os dois atacarão o s edudo por duas partes ; porém chegou 
roais de prelTa iVlanoil Feo de Mello, vencendo com gídíi- 
de diffi:u!dade a aípereza da ferra, e as muitas balasque 
, r / IhQ atiravaò do redudo. Os Caítelhanos naõ quizerao 
^dnãa, ' '" aguardar o aííslto , e íendo trezentos os que guarneciao 
o redudo , o deíamaararsó ; guarncceo*o, e ficou pot 
Cabo delle PAanoel Feo de Meílo. Fernão Telles depois 
defte íucceílo voltou a alojar a Valverde , diílimulando 
com os moradores a pouca fé que guardavaó , por Ih^ 
íer neceíTario o aloi imento para a gente que trazia : de- 
terminou uzar da occafiaó , e arrazar a Vilia de Saõ Mar- 
tinho de Trebejo, que conftava de quinhentos vizinhos , 
e diftava huma légua de Valverde- O Duque de Alva 
tanto que fe perdeo Elges mandou para Saõ Martinho ao 
M.íítre de Campo D. Benito Q.-iiroga com algumas Com- 
panhias pagas. Levaatou-lhe elle trincheiras, fez corta- 
duras nas tuas, e comiDunicou as caías âbrindo-lhe fre- 

ftias. 



PARTE 1. LIVRO VI. 379 

ftraç. Fernão Telles marchou para S. Martinho i e fa« 
zend3 âltu eíTi hu^n campo que ficava diante da Vilia, Anno 
dividio a gente que o havia de atacar: mandou a Joaõ / 
deSaidaana, que tomafie com a Cavalisiia as eftra' ■^^42* 
das » executou elle a ordem , e impedio que naô entraíle 
nella alguma gente , que baixâva da SetradeGata. Dom ^ 

Sancho marcnou com quinhentos Infantes pagos pela 
parte malsafpera da Serra,- e Manoel Lopes Brandão , e 
o Sargento mór Lourenço da Cofia Mimofo avançarão 
pela parte oppofta. D. Sancho achou fora das trincheiras 
duas mangai de Alofqueteifos , mandou carregallas por 
outrai duas: foraó rechaçadas, e D. Sancho stacàndo yitac/./!; av}^ 
com toda a gente que Jevava entrou a Villa a pezar dos ^^ ''^ s.mmuÍ' 
defeníores. Ficou ferido António de Saldanha , e doze "^"^ 
Soldados mortos. Porém ainda que a Vilía foy entrada , 
naÕ íe confeguio a vidoria \ porque qualquer das caías 
citava taõ bem guarnecida, que cuítava penetralla grande 
diííiculdade. Vendo-fe D. Sancho em taÕ confideravel em- 
penho , mandou dizer a Fcrnaõ Telles , que obrigafle aos 
Cabos do Troço da Ordenança a atacarem pela parte que 
lhes tocava, para que divertido o inimigo, fe pudeíle 
confeguir a cmpreza. Fernaô Telles, íolicitando-o com 
prometias, e ameaços , naõ pôde obrigar a gente da 
Ordenança a que lhe obedeceíle , porque occupados do 
temor , nem receavaõ o cafttgo , nem appeteciaõ o pre- 
mio. Porém D. Sancho, deíprezando valeroíamente o 
perigo , foy rompendo as cafas , e ja chegava á Praça , 
quando Fernão Telles lhe mandou ordem que fe retiraíle. 
Keplicou elle : mas repetindcfe-lhe a crdem , obedeceo RttiraSíe « 
queixofo de íe lhe tirar das mãos a em preza. FernaÕ Tel- Portugueses. 
les dizia , que elle naõ psflara squella ordem , e dando 
a entender que lhe haviaõ dito , que Joaõ de Saldanha 
a mandara , moftrou Joaõ de Saldanha publicamente, que 
a retirada fora tanto contra o feu parecer , que" elle 
íe obrigava a entrar a Villa com a Cavallaria defmontada ,' 
licença que FernaÕ TqUçs naõ quiz permittir. Averi- 
guou'íe, que nem hum, nem outro paíTára a ordem, e 
de>xou-fe fem exame efta matéria , pela nsõ fpzer ef- 
ccndalofí?. Ficársõ rrcrtos dezoito Soldsdos dentro da 
Tom. I. Aa Villa , 



3 «o PORTUGAL RESTJURJDO, 

Villa , e vieraô outros tantos feridos. Fernâõ 1 ejles pai- 
Anno Tou ao Callello de Elges , deiniantelou-o , ruina que o ini- 
16 A2 *^*Jgo ^^go tornou a reparar. Retirou*íe p?.ra Penamacor , 
^ e derpedio a gente da Ordenança pouco íatisfcilo do íeu 

procedimento. 
GarJ^ao es c^i O Ducjue de Alva em fatisfacaõ deíla entrada 

jieihanos Mdea maodou em Kibacoa queimar Aldeã da Ponte : reíiftiraõ 
àapjníe,eqmi' qj moradores , mas foy entrada a trincheira do Lugar, e 
^âres!*'^"' ^"' a ígíeja , perdendo muitos delJes as vidas. Saquearão os 
Caltelhanos o Lugar , puzeraó-lhe o fogo , e fizeraõ o 
tnefmo a oito daquelle dillrido fem achar refiltencia, 
nem oppofiçaõ na campanha ; porque fazendo os fachos 
avizoa todos os Lugares daquella parte, naõ houve refo- 
luçaõ para acodir delles pefloa alguma. Fernão Telles jul- 
gou por mais culpados a Rodrigo Soares Pantoja Gover- 
nador da Príiça de Almeida, ea Braz Garcia JVlalcarenhas 
Governador de Alfaiates: remettecos a Lisboa prezo» j 
pafiados^ íeis m.ezes os m.andou ElRey foltar. Tanto que 
o inimigo íe retirou íe prevenio Fernaõ Telles paia in- 
terprender Aldeã do Bifpo , Lugar de duzentos e cincoen- 
ta vizinhos, légua e m.eia de AJm.eida, huma da Raia fitua- 
da em huma eminência , a que ficaõ outras fobranceiras^ 
e dominando .^^' ma aprafivel campina regada das aguai 
do rio das Gafas. Havia no Lugar duzentos Infantes pa- 
gos, e vinte Cavallo» , e accrecentavaõ a Guarnição os 
moradores das Aldeãs vizinhss.Fernaõ Telles ajuntou mil 
Infantes, quatrocentos pagos, 0$ mais da Oídenança, du- 
zentos Cavalios , e duas peças de artilharia, e marchou de 
Almeida para Aldeã do Biípo. Adiantou-fe Joaõ de Salda- 
nha com a CavallÊíia a tomar os poílos ; chegou Fernão 
Telles com a Infantaria , msndou dizer aos do Lugar que 
fe rsndeíTem antes de experimentar o damno que os arnea» 
cava ,• refponderaõ com os moíquetes , inveftio-os Dom 
Sancho Manoel dividindo a nente em três Troços, mas 
achando nos defenfores valerofa refiílencia , durou a con- 
tenda largo efpaço íem vantagem ,* ultimamente prevale- 
cendo o valor dos noflos Soldados , foraõ os primeiros que 
fubiràõ as trincheiras o Capitão Manoel Teixeira , eFIa- 
minio Portal Sargento reformado. Os Caftelhanos fe re- 

tiiarad 



PARTE 1. L-IVRO VI. j8i 

retirarão á Igreja , onde fe renderão. Mas hum acci- 
dente lhe accrecentou o damno , porque rebentando den- Anno 
tro da Igreja hum fraíco de pólvora , a ignorância dos iAa^ 
Soldados da Ordenança os obrigou a gritar que era mina/ ^4^« 
de que relultou degolarem parte da infantaria paga. Dot 
roilos Soldados ticaraô mortos vinte em que entrou o Ca: Ttiies^Aldirdc 
pitaõ Aífonfo de loaf , e vieraõ trinta feridos. Em quan« Bii^õ. 
to durou o aíialio appareceo o inimigo com aJguns Ga- 
vallos, e infantes, quefahiraõ de Villar deCorvo: obri* 
gou'Oí Joaó de Saldanha a que íe retiraíTem i e depois do 
Lugar laqueado , e queimado , le retirou Fernaõ Telles 
para Almeida. Poucoâ dias depois derrotou joaô de Salda- 
nha no Lugar de Gallegos feíienta Cavallos,de que tomou succtjfcs vários 
dez I e o inimigo com melhor fucceflo , desbaratou junto 
a Alfaiates oitenta infantes > e trinta Cavallos , de que íi- 
cáraõ vinte e fete mortos , e parte dos outros foraõ prifio; 
neiros. O Uuque de Alva vendo perdida Aldeã do Bifpo , 
e defcoberto o Campo de Arganhaõ , de que lograva 
Ciudad Rodrigo o melhor provimento , determinou for- 
tiíicara Villa de Fontes, fronteira a Villar Formofo , Lu- 
gar noíío. Era o fitio accommodado , c os moradores cen- 
to e cin.oenta. Mandou logo aquartelar nefta Villa dur 
2entos Infantes; e vinte Cavallos i para que começaíTem 
a fortiíicalla. Ferna6 Telles , tanto que teve eíta noticia > 
juntou novecentos Infantes, e cento e cincoenta Cavallos > ' 
e marchou a atalhar eíle intento. Mandou adiantar as Tro- 
pas para evitar o fcccorro, e tanto que chegou á Villa, 
fez jogar contra a fortiíicaçsõ duas peças de artilharia , 
que levava comfigo. Poucas balas havia difparado , quan. 
do chegou avizo , que apparecisõ algumas Tropas do ini' 
n^igo, que fahiraõdeCiudad Rodrigo do Caíleliô do Guar- 
daõ , e de Gallegos. Com eíle avizo ordenou Fernaõ TeN 
les a Dom Sancho que formafle a Infantaria : unio-llie as 
Tropas, e as duas peças, e mandou a AíFonfo Furtado de 
Mendoça que com cincoenta Cavallos csrregaíTe os bate- 
dores do iniHiigo. Fxecutou elle eí?a ordem cem taõ boa 
fortuna, que os batedores fe retirátEÕ ás Trcpss. e a* Tro^ 
paf voltarão as coílas.Scguio-cs Aflcnio Furtado ccrr. o re« 
ílc dos noílofj tcn:ou ao inirr^igo hum CrpitiÕ, e trinta 

Aa 2 Ca- 



5^2 POIíTCGAL RESTAVR^DO, 

Cavallos : efta fscçaõ gaílou todo o dia , e faltando a 
Anno Fernão Telles mantimentos para perfiftir na em preza , fe 
^ retirou fem a executar. O Duque de Alva mudou de opi- 

^** niaõ , e mandou naõ íó retirar a gente paga da V>]la de 
Fontes , mai obrigou os moradores a que a delpovoaliera. 
Dentro de poucos dias a queimou D. Sancho , e paflou a 
Vai de la mula a dar calor aos lavradores de Ribacoa , pa- 
ra legarem os pães Tem perigo , com quinhentos infantes, 
e cem Cavallos. Com eíla gente íe adiantou ao Caítello do 
Guardaõ, que íicava vizinho, avançou vinte Cavallos a 
provocar aquelJa guarnição ♦ e ficou embofcado com o re- 
rttcoHirodt ^o da gente, pouca diftancia do Caítello. Sahiraõ delle 
Guardao. ceuto 6 cincocnta Cavallos , carregarão os vinte , mat co- 
nhecendo a embofcada fizersõ alto. Vendo D.Sancho que 
aguardava encoberto íem fruélo , defcobrio parte da gen-, 
íe , e mandou aos Capitaens JoaÕ Fialho , e Manoel Tei- 
3Eeira Homem com cento e cincoenta boccas de fogo , que 
marchaíTem encobertos com o rio de Touroens, em quan- 
to elle com efcaramuças entretinha os Caílelhanos , que fe 
haviaõ arrimado a humadefeza,eque podendo chegar fem 
íerem viítos os inveftiíTem , que elle o$ loccorreria. O ini- 
migo havia puxado por oitenta Infantes do Caítello , e íu« 
ítentava a efcaramuça fem receber damno ; porém chegan- 
do os Capitães fem íerem fentidos atacarão valeroíamen- 
ii«m^eT>.SAn-^'^t* foccorreo"os D. Sancho, voltou o inimigo as coitas , 
tho Manod ,s m3taraÕ*lhe no alcance trinta Soldados, e íicáraõ cincoenta 
caílelhano!, prilioneiros^em qns entrou hum Sargento mór. Retirou*íe 
D. Sancho , e o dia feguinte entrou o inimigo por Vill ar 
Formofo com quinhentos Infantes, e cem Cavallos: com 
igual poder fahio D Sancho a bufcar os Caítelhanos, inve- 
ítio'o$ de repente , e achou taõ pouca refiítencia , que os 
rompeoj matou huns, preuideo outros, os mais fugirão, lar- 
gindo as srmas. D. Sancho vendo a fortuna favorável naõ 
quiz perder tempo, communlcnu a Fernão Telles a empre» 
za de FrelxenedasE , e depois de tomadas todas as noticiay, 
que feguravaõ o bom fucceíTo , marchou a eíta em preza 
na tards de quatro de Agoíto com feiscentos Infantes , e 
cem Cavallos; poréni o caminho era taõ afpero , e hu- 
ma ferra , que por força havia ds paílar , taõ alcantila- 
da , 



PARTE I. LIVRO VI. j?j 

da ; que antes de chegar ao rio Águeda , que feparava 
Fre.xcnedas de PortugU i lhe amniheceo. Mandou hii- AnnO 
ma partida da outra parte do rio , e tendo avílo ds que i<a^ 
naõ era (entido , o oatTou co^ti toda a diligencia , e fe 04-« 
«hegou ã Villa, que era de trezentos vifinhos com boas 
trincheiras, e guarniqao por f^ra Aduana. Qyando as fen* 
tinellas tocàraó arma , chegava D. Sancho ás trincheiras : 
JTubiraõ a ellas on notlos oJoldados , e á cuíla das vidas á^ Ganha Freixf' 
muitos Gsilclhanos entrarão a Viila » e a faqueáraô- ^Q^ntdaso.sanch^ 
tiraraô-fe com cento e cincoenia prifioneiros, e ricos dol^" - 
defpojos í pequeno premio dos trabalhos da guerra. Fer- 
não Telles , que governava aquella Província com grande 
cuidado ,attendeado igualmente á defenía dos naturaes i e 
ao damno dos contrários , coníiderando que do Caltellodo 
Cjuardaó eraô os noilos Lugares muito prejudicados , or- 
denou a D, Sancho Manos! » que com^uinhentos Infan- 
tes , e cem Cavalios paííaíTe de Almeida a Vai de la aiuIa 
a levantar hum forte , que cobriíTe aquella campanha. Vai 
d-í Ia mu 'a he Lugar de cento e cincoenta vifinhos , difta 
h 7m quario de légua de Guardaõ, e huma de Almeida» e 
eftá fituaJo junto ao rio Tourões. Marchou D. Sancho a Levanta.íe • 
dar prmcípio ao forte , e em fete dias de trabalho naÕ fez ^one deyaUe 
o iuimi,^o oppoíiçaô alguma. Neíla condanqa deu O. San- ^^ ^"^^' 
cnj hwcaqa a alguns Officiaes , e Soldados , para hirem 
co/nprar wavailos a feira , que em Agofto le coltuma fazer 
e n Tranofo. O dia feguinteao que partirão appareceo da 
outra part2 do rio o inimigo com mil e quinhentos Infan- 
tes , e duzentos e cincoenta Cavallos governados por D. 
Jo.'5 de Tvlenezes , que havia chegado com o pofto de Me- 
ítre de Campo General. D. Sancho avifou logo a Fernão 
Telles, que tanto que recebeo o avifo , d^fpedio os Caoi* 
tães Nuao da Cunha , e Jeronymo da Cunha Rangel com 
as fuás Companhias , e elle os feguio com a que eíhva de 
guarda á fua porta, daze Cavailos, e duas peças de artilha- 
ria. Chegou a Vai de la mula , e achou o inimigo formado 
da outra parte do rio em híia eminência-, porem D Sancho, 
e todos os Soldados eftavaõ taô defejoíos de peJejjr , que 
deíorezando a defigualdade do poder, lhe entrou fegura 
conti nça da vidljria , reíolveo-í« a paíTar o rio, que com a 
Tom. I. Aa 3 força 



3^4 POK7VGAT. f\ESTAVR^mO , 

força do Sc! tinha din.inuido a corrente. Executou eíla 
Anno deteriLinaçaõ , e os Cs í>t. Ih anos lem rr-ais cauía, que q 
\Aa2 ^'^^01 que íe lhes infundío, naÔ íó íe naõ oppuzeraô á 
'^ ^ * paíTagem do porto , como deviaô , mas largarão a emir 
nencia , fitio que melhorava muito o íeu paitido. Vaíeo- 
fe D. Sancho com valor , e prudência deite defacordo , 
e paflou com os oitenta Cavallcs , e o Capitão Duarte de 
Miranda Henriques com cincoanta Mofqueteiros a ganhar 
o monte , qus o inimigo havia largado. Oís Caftelhanos 
deixarão na retaguarda cincoenta Cavallos : carregarão ef! 
tes a Dom Ssncho , que com trinta fe havia avançado, dei- 
viou'fe elle para o lado elquerdo, determ.iraiido inveftic 
a Tropa pelo coílsdo , e recebendo ella huma carga doi 
cincoenta Mofqusteifos , que feguiao a Dom Sancho ,e 
ferido o Capitão cpm huma bala psla cabeça , deíampar» 
raÔ os Soldados o poílo. Seguio-os D. Sancho •, íoccorre- 
raõ*oj as fuás Tropas , havendo chegado os noflo* cincoen» - 
ta Câvalloi, governando trinta o Tenente Rodrigo M02 
leira , vinte o Alferes Simaõ Borges da Coita , todos jun- 
tos inveftiraõ os Caftelhanos , v^ndo que o feu General 
fazia o mefmo com a Infantaria ; porque conhecendo Fer- 
não Telles na retirada do inimigo o (eu receyo , poílo va. 
ierofamente diante dos quiphentoi Infantes , que levava, 
bufcou os mil e quinhentos com qu3 o inimigo fe lhe op- 
punha , os quaes ainda que por algum eípaço fizeraõ gran» 
^6ta í^ííC/S/íí-jje jrefiíi-encia , vievaõ a voltar as coílas , e a feu exemplo 
lhanos «m Vai ^ ;^^^^ ^ Tropas , 6 acabársõ de derrotallos; porque naô J 
achou o medo que levavaõ eílrada mai' rscii para fugi em, 
que o centro dos Efqui droens de Infantaria por onde pe« ; 
netravaõ. As duas peças de artilharia s)ud::ra5 o terror de •. 
todos, porque diíparadas repetidas vezss, naÕ atirarão ba- i 
la íem emprego. Fcrnaõ Telles exhoi tsndo aos feus Solda- 
dos, qua acakiflem de vencer , lhes ir/inhio tanto efpirito, 
que de todo obrigarão aos Caftelhanos a fugir fem ordem. 
Bufcaraõ alguns por reparo as ruvnas da Aldeã do Bifpo 5 
porém vendo que a furi.i dos noíTos Soldados fe naõ deti-. 
nha com a vantagem do fítio que occupavao , o defampa* 
raraÔ, bufcando a íegurar.ça na afpereza doi fitiospara on- 
íe íe retiravAÕj Fernaó "íelles mandou tocai a recolher re- 
ceando 



PARTE 1. LIVRO VI. j 

geando amudançi da forturva na defordem doalcsnce; 
perderão os Calleihanos entre mortos , e feridos mais de Anno 
quinhentos homens ; morrerão dez Soldados noITos , em ^ 
que entrou Lila egenheiro Francez, eíicaraó tiinta feri- ^^42» 
dos> D. Sancho íuaaoel procedeo multe valerofamente, 
eenterideo cou ícien^ia militar todos os accid^^ntes que 
£e lhe offereceraõ ; Fernaõ Telles fe recolheo a Vai de la 
mula com mv-irecido applaufo dos Soldados , que he o ma- 
yor premio de quem os governa. L)eteve'ía neíle lugat 
alguns dias psra aperfeiçoar o Forte , que eítava comer 
çadj, nelles Iheciíegou avizo de Salvaterra , de que D, 
Joaõ de Garay com as Tropás da Exíremadura ficava ío- 
bre aquelia ViUa , na qual naõ havia mais que duzentos 
liomens com poucos mantimentos , e menos muniçoens, 
que a Viila eítava aberta , e o Caftello pouco capaz de fe 
tí;.feadir , e que n^ brevidade do foccorro coníiítia afua 
íegurança. Fernão Telles tanto que lhe chegou eíte avi« 
zo partio logo paríi a Guarda , e defpedio varias ordem 
a todos os Lugcres da Província , para que oj Capitaenj 
mores vieíTera incorporar*fe com ell2,trazendo toda a gen- 
te q lhes foile poiTivel. Naõ foy necelTario o effeito' deita 
diligencia , porque Dora Joaõ de Garay fe efcuíou do em- 
penho, vendo que naÕ trazia poder para evitar o íoccor- 
ro. Fernão Telles voltou para Almeida , e animada doj 
bons fuccelTos , fe reíolveo a emprender o Caftello do 
GuardaÕ , de que os noíTos Lugares i ainda depois de 
levantado o Forte de Vai de la mula , recebiaõ confidera- 
vel damno. Era a empreza difficultofa, e por efte refpev- 
to neceffitava de mayor prevenção , que as paííâdas. Ef- 
creveo Fernaô Telles a todos os Capitães mores , reccõ. 
jnendando-lhev que tiraíTem de todos os Lugares que go- 
Teraavaõ , naõ íó a mais ♦ fenaõ a melhor gente , expe- 
rimentando*fe nas occafioens antecedentes , que nefte pari 
ticular eraõ as diligencias dos Officiaes muito efcrupulo- 
fas. Conícguio-fe nefta empreza melhor eíFeito : porque 
era poucos dias fe juntou em Almeida a melhor gente 
da Província , e em tdnto numero , que efcolheo Fernão 
Telles fete mii homens , e deixou qusfi outros tsntos 
pteíidiando as Pr:,ças. Aos fcte mil homens, que rpar- 

Aa 4 tou 



Anno 
1642. 

Sítis de Gtíar 
daÕ, 



Defcrevi-le o 
Cafiello do 
Guardas, 



ftillo ài Cnau 
iiu 



5 Sá PORTUGAL R ESTAVBJDO , 

tou para a jornada , unio novecento* Infaútes pagos , e 
duzentos c cínccenta C avalies, e trts peças de ait»ihaiia 
de doze libras , e cora eOe ( orpo de Exercito n^archou pa- 
ra Guardaõ. Sérvio de Meftre de Campo General D. San* 
cho Manoel, elevou melhor fornia do que ate aquelle 
tempo fecoftumava. Marchava de vanguarda aCavalla» 
ria, e a Infantaria dividida em dez 1 roços formava três 
Corpos , o ultimo cobria as três peças, e 2S bagagens» 
Quando chegarão a Vs] de la mula acharão lingoa , que 
legurava naõ ter o inimigo avifo deíle movimento. O Ca- 
ílello do Guardaõ fica en> hum a eminência vifinho a Vai 
de Ia mula , a parte que olha s Portugal occupâ hum bof- 
que muito expefo entre dois oiteiros , a deCaílella hehu»' 
ma campina n uito dilatada. O Caftello era quadrado com 
quatro torrioens redondos nos cantos , que franqueavaô a 
muralha , na qual eíia vac pelos muitos annos da uniaó tof 
dos os materiaes taõ conglutinados , que naó receava o dã* 
no da artilharia de doze libras ; as ruínas da antiga barba- 
cãaeftavaõ reparadas; a guarnição confiava de quinhentoa 
lnfar;tes , baítccidoscom mantim»íntos, em-uniçoenspara 
largo fitio. Quando o Sol íe punha chegou Fernaõ 1 ellet 
à viíla do Caílello i repartio D. Sancho a gente , circurr* 
valando'o, e poz a 3rtjlhr?ria em o outeiro de S, Pedro vi* 
•finho à muralhp. 1 anto que amanheceo , havendo reco» 
iihecido o Caftelío D. Sancho « e PupuHoier Francez, que 
exerc tava o poílo de ^J crente General da Cav;^lUria em 
Jogar de joaõ de Síldanha , que havia paílydo por Me* 
álre de Campo ao Exercito ó^ Alemtejo , niandou Fer* 
naÕ 1 elies períuadir ao Governador que íe entrsgafie» 
tnas reípondendo os fitiar-os por línguas de fogo , íe in* 
íiam.mara5 de íorie os noiios Soldados , que por tod;.'S at 
partes invelluc^õ huma trincheira» que rodeava o Caílel- 
lo. Rtrfiítiraõ oi íitisdoí algurafs horas: porém obriga- 
dos do dânjuo que receberpíT, e atemorizados do eíFeito 
da artilharia, que gchando n^enos tefiílencia nos corpos 
que na muralha » maltratou muito os que defendiaô a bar* 
bacãa, naÕ quizeraõ arriícarfe a mayor perigo. Chama* 
raô com hum tambor, iuípendeo-le oaflaho , paduaraã 
íendetfe , fahio o Governador D. Diogo de Rapreía Ga* 

valleiro 



PA^TE 1. LIVRO VI. 387 

valleiro deLialtaj e ícià Capitaens fó com asefpscíaí, 

os fr.iíis SoIdac.o^ lern atinas. Ferraô lelies mandou para AnnO 

Almeida 05 Oíiiciaes , e os So ida dos para CalUlla. Dos ^ 

roíios So]dacíos ticaraó alguns teridos . entre Qikh o Ca- ^^42» 

pitaô Manoel de Avelar barmento. Foy o CfifteUo ía- 

queado, e fazendo-lhe alguns fornilhos lhe derbõ fogo» 

íieou de todo arruin;ido , e os noflos Lugares iivretí do 

perigo que lhes occaíionava. Tanto que ie rendeo o Ca- 

itello mandou Fernaõ Telles a D. Sancho Manoel com 

a Cavallaria , e nil infantes contra o Lugar de Galhegos, 

que era de trezentos vifinhosi ef^avaõ quatorze Compa-^^ ^ 

nhias de guarniç&ó j porem nac quizeraõ aguardar o ^^^\' g^rTcaihego^ 

to I e dei pejarão o Lugar » que ficou laqueado , e deílrui- ^ c«/r«._ ' 

do , com outros quatio vihnhos a elle. ívo n.eímo tempo 

entrou por Alia) ytes a gente de Sabugal, e Souto, e quei- 

iT,âraõ o Lugar de PerozmnRecolheo*íe Fernaõ Telles pa* 

ra Almeida , e remetteo a Lisboa os Offciaeí. prifioneiros, 

os quaes paílado algum tempo voltarão com paflaportes 

paia Cailella. O Duque de Alva , que síTiília cm Ciudsd 

llodrigo, com a noticia da perda do Guardaõ, e àa rr ui- 

ta gente que Fernaò Telea tiff.ha junto, pedio loccor* 

10 a todos 05 Lugares do leu doti ínio , ercaíecendo o pe* 

lieo, que Cii'daa BodrJíio ecríia. (luando os foccorios 

chegarão fe havia Ferrão J elles retirado, ^^^^■^^■^^deALvaeitrs» 

o Duque de Alva err pregai o poder que ti! ha jui to, en* ma com ^bm» 

trou em Portugal, e íaqueou Maihsda Sorda , Lugar aber* -«//«««. 

to , e íem f^uarniçí.o, Teve PernÊÓ Telles ens Almcda 

Evi(p deílâ entrada , íahio com 25 '1 ropss , e achátdo 

que o inirr/tgo fe retirava naô pode fazerlhe rrayor d<ifjr 

no, que toaiarlncna retcigusrda alguns cava)'os. Paliados 

slgui^tódiaí, íabendo Fernaõ 1 elles que ís ruin?:; dt- Al* , 

dea do Bifpo ferviac de rcccpteculo a alguns Caflelheros» 

eque ffebiaô deite Lugar a LÍlthàtx 05 lívrrdoreí, f rde- 

rou ao Capitão de Cavallns Diogo de Tosr , que cem a 

fua Tropa dejbaraíaile aquella "patt^dp. F^ccedeo elle & retrciac osc»- 

ordtrr. , e pedio em Alfayates trintz Infsntes . com. intcn*'^"^^'''"^ -^'^^^ 

to de íaquear em Aldeã ; porém havendo cht g?co ácutUa ^^ ^*"- 

paite cem Cavallos com hum ccn bcy , txperiíi ertcu o 

caíligo da lua aíi.bi^aÕ, porque inytíUfíCo-o otciiota- 



58S PORTUGAL RKSTAUKADO, 

raõ I íalvandcíe fó alguns Soldados , a que valeo a noite» 
^nno cm hum mato que eílava viíinho. Poucoí dias depois defca 
16 AT deíordem fuccadeo outra em Alfayaies. Avill:ou o ini- 
- "T**. migo aquelia Praça com huma Tropa , o Governador 
Mmosl de Soufa de Almeida mandou íuhir outra , que 
governava o Tenente Simaõ de Oliveira da.Gamma : re- 
liraraõ-fe os Caftelhanos de forte , que conhsceo o Te- 
nente, que o Jevavaõ a perderle entre mayor poier; 
fez alro , e avifou o Governador, dando*llie coaia do 
feu be-n fundado difcurfo; o Governíidor pp.recendollie 
que era receyo , Ine ordenou que càfíegaih? o inimigo : 
obedeceo o Tenente , proteííando ciue conhecia o perigo. 
Chegon 3 embofcaòa , íaiiio o inimigo deiia, desbarato u- 
Ihe a Tropa, morrèrsõ vinte Soldados, e os mais fica- 
rão priíioneiroj. Fernaô Telles c^Higou a irnprudencia 
do Governador de A.ifayates, tiranio-lhe opoílo , em que 
occupou o Sargento mor Lourenço da Cofca rvlimoCo. O 
Duque de Alv?., quando Fernão Telles tomou Gu^Tdao, 
entendendo que podia iitiar Ciudad Rodrigo , na5 íó con- 
vocou a gente da Província, mas avlíoii 2 Madrid, pe- 
dindo com grande :nftanci.<», que o foccorreílem. Gover- 
nava em aufencia dElFvey, que havia paliado a Catalu- 
nha, a Rainha Dona Kabel de Borbon fua primeira mu- 
lher, naó dilatou ella o remédio ao perigo quefe lhe pro- 
punha, e» netteo ao Duquí oitocentos Cavallos muito 
Í5»m mon* !o; Veado elle que Fernão Telles fe haria re- 
tirado , poni-õ desluzir a íua inílancia , ajuntou quatro 
mil infantes , e determinou entrar em Portugal. Teve Fer- 
não Telles anticipada noticia , alTim dos foccorros que 
haviaô chega':lo ao Duque , como do feu intento ; efcre- 
yeo a EiRey repetidas vezes o aperto em que eftaya 
aqiiella Província ; porque naô íó carecia de gente pagíi , 
mas a que havia era taô mal íoccorrida 1 que obrigados 
do aperti a que e^íavao reduzidos , largavaô os Soldadoí 
âs bandeiras. De Lisboa naõ fó lhe faltarão com os foc« 
corro? que pedia, mas nem lhe reípondèraõ ás cartas, 
que efcreveo íobre eíla matéria , e eílas omiíToens Ía5 a 
caufd dos máos (ucceílos dos exercito? , e os Príncipes pot 
encobrilhs coílumaõcondemnat aquelles aqueraentregio 

as 



TJRTE I. LU TO VI. 5S9 

as Frovircias. Fernão 1 eiles verdofe en; tsr^crpcto, 
mandou da GusTda , para cndc hcVia pi ílado , £0 Âíeítre Annd 
deCair.po D. Sancho á Villa de Pinhel a cor.duzir a gen- j^ .- 
te da Ordenança que lho fofle poínvel, e cícreveo aos ^t ' 
Capitaens mores, que marchaíltm lego cem tildas as or- 
denanças do leu diftndo , e aos Cabidos de Coiír.bra , 
Vileu , e Guarda, pedindo-lhes , que o foccorrcíTem cora 
algum dinheiro para defender a Província , que o inimi- 
go poderolamente ameaçava. Surtirão todas eftas dili- 
gencias pouco eíieito , porque a gente da Ordenança an- 
tes queria paoccer o caltigo da dtlobediencia , que expe- 
rimentar CS perigos, e as irccmrr,odidiiCeJ da guerra , e 
acodiraõ fó os Oíhwiaes com poucos Soldados \ e os Ca- 
bidos , naõ fazendo cafo do mal futuro, pertcndiaõ ia» 
tisfazer a Fernaõ Telles fem e-^ecuç õ. 

Neíle eíbdo achou o inimigo a Provincia da Bqi- En/ra d. ^õaà 
ia em 17 de Outubro, dia em que entrou nella com qugi.^<'^res de ^Ur- 
tro mil Infantes, e mil Cavallos. Gcvernsva elte -l rcço^^^^^^^^^/^^- 
de Exercito Dom João Soares de Alarcsõ , que occupava 
naqucJia parte de Caftella , ( psra onde fe psííou depois 
de jurar a EIKey Dom jo^ó ) o pcflo de Gcrer^ 1 da CavaU 
3aria. O primeiro Lugar em que entrou foy Eícatigos em 
Ribscoa , que era de duzentos v.finiics , rr.as fem defenfa, 
os moradcres havinõ rrudado o fato para Caítello Rodri- 
go, oqiie )he íicou íaqueáraõ CS Cíílelhanoj, e pu2eraõ 
fogo ao Lugar. De Efcarigos pp.ilnu o inimigo a Vermio- 
íã , e AIrncfsDa, que padecerão igual dcmno. Nefte Lu. 
gar fe defendcrsÕ íete Soldados muitas horas na Torre da 
Igreja , íalrar.do*lhc Si mun-çoers le renderão , fegurcn- . , 

do lhes r-S vidas, prrmeíía que lhes naõ cuardáisõ, if,Q.CruíUaJe ten* 
tando tcdos a langue frio. Cocr. o mcfmio rigor entrarão es 
Csftelharos os Lugares de Mstalcbos , e Co)mesr, de- 
golando tcdos osPaizanos, que naõ pu^erfÕ retirar-fe. 
De Colmear marchou Dom ]czÔ Soares crrtra Eícflha5 
Aldeã de Caílello Rodrigo ^ pcrém de trezentos vifinhos, 
e meyâ légua dií^arte da Raya. Haviao os moradores le- 
vantado huma trincheira pouco defei. lavei , que rcdeava 
o Lugar , e ao redor da Igreja , que era de cartaria n uiío 
forte p ccmeç&vaõ hum reduáo , que pLZsu Õ á vil^a do 

jni- 



po POKTUGAL RESTAUKADO , 

ininigo em baftante dfjfenfa. O lug^r eílá fituado no 
Anno íirn djhuTi campo, qjje fe eílende duas léguas par», o 
l642» ^ '■ ' ^ P^f^ o Norte meya, topando em alguns montei , 
Cije coníinaõ com Caítelia , por entre os quaes corre o 
Rio Águeda , que divide os dous Reinos. Havia n > luJ 
g^r trinta Soldados pagos , que go^ernav i o Alferes João 
Kodrigues, em aufencía dofeu Capitão Jj^õda Siit/a, e 
cento e cincoenta moradores de que era Capitai Paulo 
Freire. Tanto que o inimigo chegou k viíla do lugar,. 
^jítacaõlEfca' ajuftaraõ todos recolberem-íe á Igreja , e redudo com as 
ii^^õ. famílias , e a melhor roupa , conhecendo que nao podiao 

defender as trincheiras. Os Caftelhanos entrarão no lug^r, 
e parecendoihes fácil ganharem o reduéto , o inveftirao 
defcuhertos. Cuílou a oufadia as vidas de fantos , que Te 
retirarão para atacar em melhor forma. Cobriraõ'fe com 
algumas pipas, que tiráraõ do lugar ; avançarão fegunda 
yez ; porém recebendo muito mayor damno , naô fó dos 
que defendiaõ o redudo , mas também do valor de Joio 
Pinto Soldcido pago , o qual fazendo hum parapeito deta- 
boas no telhado da Igreja, e carregando-lhe as raulherei 
muitas vezes alguns mosquetes que prevenio, foraô tan- 
tos os Oíiiciaes , e Soldados em que empregava o* nrps , 
que Ce Ihs deveo grande parte da defenfa do redudo* Os 
Caítelhanosi avançando pela parte donde a parede delle 
, era mais baixa , e delgada , lhe abrirão hama brecha i e 
intentando entrar por ella, foraô valerofamente rebati- 
dos dos defenfores; naõ fendo as mulheres as menos ya- 
lerofas, porque naô fò tiravaó as pedras das fepulturasí 
e ãs arrimavaó á brecha \ mas com mantas molhadas na 
agoa de hum poço, que havia na Igreja , extinguiaõ in- 
trépidas , antss que rebentaííe o fogo , as granadas que 
os Caftelhanos lançavaõ pela brecha. Todos os que entra- 
rão por ellà perderão as vidas , e fem o poderem prohi- 
bir fe tornou a brecha a cerrar. Vendo os Caftelhanos a 
dífficuldade da empreza , tentarão fahir com reputação 
delia , offerecendo grandes partidos a Paulo Freire , que 
elle valerofamente deíprezou, Atalhando fe os paílos aos 
defigntos de D. Joaõ Soares por taõ pouca gente» e em 
lugar qu3 julgava taô fácil de cooquiftar , e receando as 

perit 



PJRTE 1. LIVRO VI. 591 

perigcfas cor/fequencias a que fe expunha , Je íe aviítaf- 
íe cocn âs Tropas da íua naçaô , que taó cegamente of- AnfiÒ 
fendia , fe retirou de Eícalhaõ , e de toda a Frovincia 1 ^ 
a que pudera occaUonar maiores damnos , conforme a pou- ^4*», 
ca prevenção que achou nella. Em Efcalhaõ íicaraõ cento Retirao-fe cjm 
c cincoenta Caitelhanos mortos > e ievaraõ comfigo muitos ^erda.^ 
feridos, em que entravaõ Officiaes de grande importância. 
Fernaô Telles 1 com jufto fentimento, por naõ poder re* 
mediar o damno da Província como defejava , e padecen- 
do as murmuraçoens dos Paizanos» que íe lhe naõ enco- 
briaô , os quaes coftumavaõ avaliar o procedimento dos 
Generaes pela dilgraea, ou felicidade , paíTou da Cidade 
da Guarda á Villa do Vinhel , a aguardar os íoccorros que 
havia mandado prevenir. O primeiro que lhe chegou foy 
Iiuma Companhia de cento e cincoenta Clérigos de Vifeu» 
em que entravaõ Cónegos , e Abbades > de que era Capi- 
tão o Theíoureiro mór da Sé Gomes de Andrade Cabral. 
Vinhaõ todos muito bem armados , e livres de efcrupuloff| 
por fer adefenía permittidaa qualquer habito. Eíla com- 
panhia , e a trais gente que lhe foy chegando, mandou 
Fernão Telles para Almeida , por ]he chegar nefte tempo 
avizo doíucceíio de Eícalhaõ, de que o inimigo íe havia 
retirado. Para averiguar o leu ir.tento mandou a Dom 
Sancho Manoel tomar lingua com quarenta Cavallcs, e 
cem infantes. Deixou elJe os Infantes em Vai de la mula, 
e entrando pelo campo de Arganhsõ chegou ao Lugar de 
Serranilho , donde trouxe alguns Caílelhanos priíioneiros. 
Conítou da íua coníiíTaõ , que Dom Jcaõ Soares determi- 
nava continuar as entradas de Portugal, pouco íaiiífeito 
dos primeiros progreílos. Fernaõ Telles cem elía notícia 
pafiou feo Lugar de Miuzella três léguas da Raia : íltuado 
em dií>í<rcia igual de todas as partes que podisõ psdecec 
maior dan no, e levou comfigo trezentos Infantes, e oem 
Cavallos. Logo que chegou mandou a Dom Sancho, que 
com os cem Cavallos entraííe em Caftella a tomar ma- 
yor informação do intento de Dom JoaÕ Soares. Dom 
Sancho entrou síè a defeza de Ssgeiías , quatro léguas 
da Raya , e achando nella trezentas vacas as fez corduzir 
para Portugal j e cem cilas 05 Faizanos de tcdos squel* 



392 POR.TUGAL tESTAVRADO , 

les Lugares. Ja n<ííle tampo era fentUo , e fahiraô a buí- 
Anrío calb duzsatoí Ga?allos , que fe alojsraò e.n Boda6, e 
l6xt ^^ Callello de Gunaldo : deites íe adiantarão vint-e a en- 
"■í ' treter a marcha de D. Sancho até chegarem os mais. Dom 
Sancho mandou ao Capitão Diogo da Fonleca com vinte 
Cavailos a pôr a preza em íalvo , e elle com os maii 
que lhe íicaraô íe foy incorporar com o Capiraó Ghrif» j 
tovaõ da Foaleca , a quem o inimigo vinha carregando: "| 
foraõ algum efpaço ganhando terra ; porem chegando á 
defezâ di ÁlbufeJa, e eltando ja unidas as Tropas dos 
Carteihanos, atacarão com tanta reíoluçaó aos noílos Sol-, 
dados , que desbaratados voltarão as coitas. D. Sancho fi- 
cou na retaguarda com Aftbnío Furtado de Mendoqa 
Alcaide mór de Covilhãa, com outras pefloas particula- 
res , e o Sargento mór Kozâó Francez ; o qual dando 
verdadeiro teítimunho do íeu valor , dille a D. Sancho , 
que era melhor perderera*f3 pelejando , que fugindo : e 
(Com o mefmo impulfo bradou aos Soldados que voltaííem 
a livrar as honras , e vender caras as vidas. Foy de tanto 
effeito efta género fa períuafaõ , que D. Sancho, que Je- 
vava o meliuo intento, (como difle a Rozaó em altas 
vozes ) e os Soldados corridos de os correrem os Gaite*. 
lhanos fizeraó alto , e lhes voltarão as caras. Entende- 
iBtíconir» tòm raô os Caítelhauos que eíta refoluçaó nafcia de havet 
*í C4/í^iÂ^»íí. gente embofcada naqu3 lie íitio, como ja em outra occa* 
liaô lhes haviaõ íuccedido. Baftou efte difcurfo fem outro 
exame para ficarem de authores reos, naô fe Jembran» 
do dos Authores que fazem renacer as acçoens dos ho* 
mens , e eternizai las na pofteridade» Deraõ as coitas ao 
perigo , e o roíto ao difcredito. Seguio*o$ D. Sancho até 
cerrar a noite < íicáraô muitos mortos , trouxe trinta prU 
fioneiros, erecolheo*fe a Miuzella , ondeeftava Fernão 
Telles i ehavenuG tido poucas horas de defcanço , che- 
gou avizo que D. Joaõ Soares tinha entrado naquella Pro- 
víncia , e marchava na volta da Nave do Sabugal. Fer- 
não Telles ouvio com tanto alvoroço eíta noticia , comp 
^ íe tivera a vidoria fegura no numero das Tuas Tropas, 

e naô fora taõ inferior o poder , com que pretendia buf- 
car oinimi2:o, qu2 fepuisraõ contar no coafíido cinco 

Gaite. 



PARTE I. LIVRO VI. ?95 

Cônelharos para pelejar cora cada hum dos Portuguezej. 
ívlas efles íaõ os privilegiei do valor , poique , niultipli- Anno 
cando os golpes, naô ló faz acontenda igual, n^ as a vi- j^Ar 
dloria certa , ainda que íeja lupcrior o numero dos con- ^ • 

trarJos. Montou Fernaõ Telles a cavallo , e fez mafcJiar 
a gente que tinha comfigo , e mandou ordem a Lourenço ^^f^l^^^l'"^ 
da Coita Mimoío, para que logo remettefle cem Mof* ^,„, dejí^uaí 
queteiros , e a Tropa qfje íe achava em Alfaiates,* e o poder. 
meímo avizo fez a Manoel Feo de Mello a Villar Formo- 
fo. Deípedidas eftas ordens , marchou a bufcar a eílrada 
que o inimigo havia de levar da Nave para Caílella. Quan* 
do chegou ao lugar que pretendia , achou que o inimigo 
tmhapaflado, deixando deftruido o Lugar da Nave, po-. 
rém era taõ pouco o eípaço, que com pequena diligencia 
aviíláraó os noílos batedores as fuás Tropas. Chegou nef» 
te tempo agente de Villar Formoío , eachou*fe Ferna5 
Telles com cento e cincoenta Cavallos , e trezentos Infan-' 
tes Os Caítelhanos reconhecendo s noíTa gente, melhora* 
raõ de fiiio ; porque a terra por onde marchavaõ era baixa i 
e com as muitas aguas que haviaó chovido difficil de pizar, 
Achava-íe D. Joaõ Soares com menos Infantaria da que 
havia trazido , por haver mandado alguma diante com a 
preza : porém reconhecendo a pouca gente que o buf- 
cava, teve a vidoria por infallivel , e aílim a celebíava 
o feu alvrroço, comoíeanaõ houveffe de ganhar á cul- 
ta do meímo íangue que o alimentava» Fundado nefías 
efperanças r formou as Tropas com boa difciplina , e foy 
leceber os inimigos que o bufcavaÕ. D. Sancho Manoel 
reconhecendo a deíigualdsde do poder dos Caftelhanos » 
perfusdio a Fernaõ Telles que fc rctiiaííe , dizendo, 
que era temeridade impscnder impofíiveis ; que muita» 
vezes fêber excuíar os perigos era taõ grande gloria , co- 
mo vcncellos ; e que devia confiderar o manifcfío rifco^ 
a que ficava squella Provincia cxpoíla , fe foííem desbara- 
tfdcs os poucos Soldados que empenhava. Do mefmo íeti* 
timento eraõ os Capitaens de Cavallo, ede Infantaria. 
Porém Fernaõ Telles, naó íó reveftido de infjgne valor, 
mas de grande prudência , dilTe que o inimigo eílava 
taõ vizinho , que por foiça a retirada íe havia de conver- 



594 PORTUGAL REirAUnADO, 

ter em fugida ; c que os Gaftália laj í ^ vâleriaõ fen fal* 
Anil D t3 naõ fó do excedo das Tropas , íe lao d j taoior , que oi 
^ Soldadoj , voltaado-lhes as cj-tas, manifertadem ; naõ 

^^^i podendo em fimilhantes ojcàiUias eitrar >ndhn foccor*, 
ro a quem determinava pelejar, que reconhecer o receyo 
dos contrários ; e que a quellaó de fer melhor pelejar , 
ou retirar-fe , podia lervir em outros caíos , e naõ na- 
quelle oode o inimigo eftava ã viíta , e haviaõ de fazer 
a retirada por huma campanha, onde naõ podiaõ achac 
ma^s abrij^o , que a força dos braços , e o alento dos cora- 
çoeas i e que ie na occaíiaõ prefente eíte era o único re* 
íTiedio, quànto mais acertado íeria pelejando negar ao 
inimigo a ventagem de lhe moftrar receyo ; que deviaõ 
todos lembrar-fe naõ fó do valor de que eraõ dotados , 
e da caufa juíla que defendiaõ , mas do Gabo que manda- 
va as Tropas dos Caftelhanos i que era D. Joaõ Soares , 
D qual havia fugido deíle Reino paraCaílella, faltando 
ao juramento , que tinha dado a ElRey , e á fidelidade a 
que o obrigava a própria natureza , afrontada de novo ^ 
vindo pelejar contra a fua Pátria; e que aos que daquel- 
la forte faltavaõ ás íuas obrigaçoens fe lhes entorpecia o 
difcurfo para diílribuir as ordens , e a maõ para manear a 
eípada *, e que íe no General , por eftas razoens , haviaõ 
de achar tanta inhabilidade , nos Soldados naõ poderiaô 
defcobrir mayor animo» que aquelle meímo, que pata 
gloria fua tantas vezes experimentarão ; que a guerra era 
nova , e o Reino pequeno , e que neila coníideraçaõ , ain- 
da que eftiveíle de permeyo o perigo , todas as emprezas 
íe haviaõ de governar attendeado mais ao credito , que 
ao poder, e que a opinlaõ nunca no mundo, pelejando 
Refoive a peie^ com valot , íc havla perdido. Tomada eíla reíoluçaõ, que 
ja, eaMima 9i todo? approvâraõ , deu Fernaõ Telles a Dom Sancho fe- 
Soldados. x^nt2L Cavalios , de que eraõ Capitaens Braz do Amaral f 
e Chriílovaõ da Fonfeca , e tomou para fua guarda trin- 
ta e cinco, governados pelo CapitaÕ Duarte de Miran- 
/ da Henriques, e a Infantaria ficou formada , naõ tendo 

mais que os braços por trincheiras. Vieraõ nefte tempo 
oi Caítelhanos avançando pouco a pouco , e chegando 
psrto da noíla Infantaria lhe deu huma carga .* poréitii^ 

naõ 



nos. 



?AME I. LIVRO VI. 5P5 

nao Ihei fez damno pelo naõ receberen: na diílancia coa- 
v-aisnts. í\nimadoioí Caitelhanosdeíla delordsm, a AnnO 
invsftíraõí mai Fernaô Telles , e D. Sancho recoahecsn» ^ 
do o perigo , e que a nofla infantaria vacilava , fe adiaar ^ ^42^. 
tàraô com as tre» Tropai a receber a carga. Inveílirao- 
noj oj Caftellianoj , e acháraõ táô valerofa refiftencia , 
que mô h^uve Officiai , neín Soldado , que naô fizeíTe 
acç jeni muito (Inaladas. Porém como o nuRiefo era ta5 
dciigual , chegarão alguns Officiaes a perluadir a FcrnaS 
Telles , a que lenaõ expuzeílc a tanto perigo , porque 
o fucceílo cftavâ dwvidolo. Reípondeo com grande ferr 
vor : que a vidoria era íua , qus çontinuaffem até o con-, 
feguir» Efta conítancia , e chegar neíte tempo a Tropa i 
c oj cem Infantes de Alfayates » animou de forte a In- Qf/Jhl'^'^ 
faataria , que cobrando novo alento , e unidos os que ^^' 
vieraõ aos que pelejavaõ , obrigarão aoj Caftelhanof 9 
vo;t4r a collai , cedendo ao feu valor. Seguirâô"nos pou«. 
CO t íp ^Q , porque FcrnaÕ Telles mandou tocar a recot 
Iher . receando alguma delordem. FicáraÔ raortoi 90 
Çaltelhano? , leváraÓ muitos feridos 1 e deixaraÕ outroi 
prifioneiros. Dos noílos foldadoí moireo fó hum Fran- 
cez, recolheraõ-fe ^oferidot, entre elles AíTonfo Furi 
tado de Mendoça , que pelejou valerofamente , Pedro 
deSouía de Caftro Capitão mór de Vifeu 1 Miguel da 
Fonfeca Ozorio , Ga f par de Távora de Brito , Chrifto- 
va5 da Fonfeca Cardófo. D. Sancho moílrou que fabia 
dlfcorrer antes , e pelejar depois , pcrque a todas as par-, 
tes accodio com grande valor , e prudência : porém todot 
confeíTàraÔ que ao valor , difcurfo , e conílancia de Fet» 
naõ Tcliei deviaô o bom íucceílo que logravaõ : por- 
que naõ houve idsa que naô formafle com juízo , nem 
acçaõ que naÕ executaíTe com acerto. Voltou*íe para AI- 
fayates , e foy efta a ultima occafiaõ que teve naquella 
Provincia , porque fe retirou para Liiboa , e proveo El- 

Rey o poíto fegunda vez em D. Álvaro de Abranchás. 

Deix u FernaÔ Telles ns6 fó deftruido o campo de Er^ 
ganhão , que era muito povoado , e fuftento de Ciudad 
Rodrigo, mas outros muitos lugares defde a foz de 
Águeda , que entra no rio Douro , até a de Elges que 
Tora. I. Bb pcfde 



59Ó POKTVGJL RESTAURADO, 

perde o nome no Ttjo, diíiíidlo que coíTíptelicndé m Às 

Anno dè 30 leguaa de terra : logrou com muita f<;licidade, e 

^ maitinduítria que inílruroentoí , todas ai accjoen* que 

*"4^' emprendeo, e deixou os foldado», e paizanos com o coí- 

tume de vencer , enfioados a pelejar. 

Em quanto as armas de Portiigal valerofamenie 
fe manejavaõ , e todas as Provincias feiiimente íe defen» 
diaõ , trabâJíiâva ElRcy , fonte de todas as acçoens he- 
róicas, por fertilizar as muitas, e deílinòtas plantas» 
que ]ivravaÕ a abundância dos frudos íazonados » em íe 
banharem nos íeus preceitos , e confundia a politica de 
íeus inimigos*', que funda vaõ a ruina de Portugal na eí- 
pcrançados feusdefacer tos. Porém naõconfeguiaõ todas 
as fuás operações a total íatisfaçaô de feus Vaííalos: por- 
que conhecendo o feu animo demaziadamente inclinado 
ao exercício da caça , cm que fe criara { e muito appli- 
cado aajuftar a conlonaneia da Solfa, entendiâô querou^ 
bava otcmpo a obrigação dogovernu do íau Reino eao».^ 
importantes negocios,que dependiaô das luas íeíoluçõei 
naõ querendo os zelofos admittir a doutrina , que intro- 
duzia a lifonja no animo delRey , dizendclheaiguni 
Miniftros que defcançar para cançar , mais era ambição 
do trabalho , que deíejo do defcanço j e que na recrea- 
ção de Sua Mageftadeconíiíiia a fua faude, ícgurança da^ 
íua vida , alma da conícrvaqaõ do íeu Reino. Ouvia Êl- 
Rey eíla ft vozes das Sereas do Paço*, verdugos dos Prínci- 
pes , fepultura dos Reinosj mas para que o veneno o na5 
reduziíTe á ultima ruina cerrava acautebdo UlyíTes mui»- 
tas vezei os ouvidos com 0$ verdadeiros conielhos do» 
defmtereíladoj.PorérnoaO prevalecendo totalmente conr 
tra o damno a utilidade do reníedio , c receando todos o 
perigo do Reino , cujo corpo luílentsva a cada hum a 
cabeça , foy efcolhido D. Joaõ da Coíla, para adrertir a 
ElRey os damnos da Monarquia. Aceitou elie a com- 
/ miílaé, antepondo a virtude de fallar verdade ao íenti- 

mento que ElRey ppdia receber de ouvila , e preíentou-- 
j^etncriaUeD. lhe hum memorJàl que continha as razoens feguintei:; 
^çdSJa.Cojia. ,. Senhor , ainda que o conhecimento do meu pouco ca^- 
,j.bedal menaõ deixa confiança ptra efperar» que as mi-:- 

.» nhai i 



i6^i. 



PAKTE I. LlVR.0 VI. 597 

7« nliaj razo:ns fejaõ uteii ao ferviço de Voíla Mágaíla- 

,. ds, obriga-me o tnea affeiíto , e o empenho da con- Anno 

i» fervaçiô dâ rainha Pátria a dizer claramente a Voí» 

,. fa Mageílade aí deíattençoens do Governo, quecoa- 

,. demnao oi mais intereíladoí na coníervaçaô defte Rei- 

f. no. E naò bafta a conlideraçaÕ de que podem oíiendet 

,. eftas noticias o animo de Volla Mageílade para me im- 

,. pedir que eu as reíira , aílim i e da maneira que com- 

,. mamente faò julgadas , ainda qu3 a adulação as emu- 

i. deça. Coníta das cartas doi Governadores das Armas 

i. das Províncias, que Entre Douro, e Minho na6 chega 

}. a ter hoje 400 íoldadcs pagos , e que eltes naõ laõ íe- 

). gurot, porque faltando'lhei a confignaçaõ para os foc* 

i. corres , faltarão elles na guarnição das Praças. Traz 

,. os Montes íe acha da meima forte. Na Beira coníta a 

». Voíía Mageítide por avifoi muito repetidos de Fernaá 

V Telles a falta que tem de íoldados 1 de dinheiro , e de 
,. todas ai mais prevençoens neceíTariai para defenfa da- 
1. quella Província. Em Alentejo juíliíicaô st ultimas 
». moítrat que íe paíTàraÕ ; que falta mait da ametade da 
». gente que ja teve ; em particular os Regimentos Ho« 
í. landezes , que quafi todos eílaõ desbaratados. O con* 

V trato , que (e fez para a coníervaçaô da gente qneíi! 

V cou naquella Província , naÕ baíta , nem poderá perílí- 
,.tir , íe divertirem , como íe coíluma , aos contratado- 
>. res at coníignaçoens que fe lhes oíferecem ; de que re- 
,. fultará naõ íó perderena^fe eíles , mas também ot que 
,. adiante fe celebrarem , pela falta de credito com que 
». íicaráô os Miniílros de Voíla Mageílade. O Reino do 
,. Algarve nsõ tem meyo algum de fe defender» Cafcaes , 
,. Peniche, S. Filippe, e OutaÓ fe achaô taÕ deílituidas de 
,. guarnições.que em melhor eílado confervavaõ os CaC- 
,. talhanoseftas fortalezas, quando naõ temiaÔ a invafao 
,. de inimigos taõ poderofos.Oj Armazéns deílaCidade fe 
,. vem d^focupados , fendo taõ neceíTario velos preveni* 
,. dos, Liiboa fem efperança de fe fortificar , e o Caítello 
i. fem cuidado de fe pôr em melhor dsfenía,os Terços da 
,. Ordenança naô tem exerciçio.e osfidalgoi, e geate no. 
). brí eíl,i5 iírn arma», e f?m forma, e]todos incapazes ds 

Eb ii i. gco- 



598 PORTUGAL RBSTJVRJDO,^ 

,. acodirem 80S muitos , e pcrigoíos sccidentes 2 que efr 
Anno ,. tarno* expoíios. O Brefil çoíjllderamoí arriícado a fet 
16 A2 *• ^^^P^J^ ^*^* HoUandezcs » coíro o tem fido Angola e 
^ j. ó\Thomé, e tudo, Senhor , vemos em eftado taõ peti? 
,, gcfo , que psrece que nos confervaroo* lò pela ifn« 
j. po/TibiJidadç de noííos Jnim.igos. Deite lethargoprocc- 
,. de a deíeftimaçaõ que íoffremot aos Eíírangeíro», ea 
i.defalsnto que expcrimentauíoi nox naturaei i eoten* 
,. dendo que naõ tarda mais a fua ruina , que em quanto 
,. fe naÕ melhora o partido de Caftella : e deita iuppo-/ 
,. íiçaõ íe podem temer refoluçoeni roais nocivai ao eí- 
,. tado preíente, que o damno da guerra. Soltaments 
,, muriTiUra o Povo , e lente a Nobreza com grande ex- 
j. ceifo a pouca attençiõ , com que fe acode âí material 
,. em que confifte a defenfa do Reino ; dizem que oCon* 
,. felho de Guerra naõ tem fufficientef Miniítroi , e qua 
,. quando acertaÕ em algumai propoftai couvenientei 
,. à boa difpofiqaõ da guerra, que V. Mageftade ssnaõ. 
,. admitte I prevalecendo oConfelho de outras peííoa» 
,. que tem m.uito menos noticia da arte militar : reparaô 
,. em que havendo anno emeyo que V. Mígeftade teoA 
,. a Coroa na cabeça , naÕ aíliítio hum fó dia no leu Con» 
). ielho de Guerra, gaitando muitos em outrosTribunaes, 
',, e em occupações menos preciías para a defenfa do Rei» 
,. no ; dizem que he grande aconfuíaõdasordcns do- 
5. Confelho da Fazenda , e por V.M^geítade naô atten- 
,» der a ella , fe perde a mayor parte ; as decimas fécula- 
,, res , bens de aufentef , econfifcados, e as Cõmendai 
i. vsgãs naô le cobraÕ por iguaes inconvenientes. Jwlgo. 
j. também precifo advertir a V. Mageítade que vejo to» 
,. dos os negócios decididos pelos quatro CoDÍelheirof 
,. de Eílado, com quem V.Mageftade deípacha, eenten. 
y, do que na5 tem as noticias , e diípofíçoens neceUarias/.- 
,. para poderem encaminhar as matérias q tocaõ à guer- 
5. ra í c fó ferve cita forma de governo de dilatar os def- 
;. pachos, e peyorar as reíoluçoens. E aflim convém que 
,. V.Mageíladeíe conforme o mais qu« for poíUvel, cora. 
;« as confultai dosTribunaes, porque ainda que ignorem 
»< limito, entendem melhor do feu officio , que os.Minií- 

tros 



PAWTE L LIVKO FJ. 59^ 

;, tròs da dei pacho, do alheyo. Al contribliiçoensi dos 
,, Povoi, applicadas á guc:rra , tem grandes diverti men- AnnO 
;. tofi e os foldados além ds mal pagoi , faõ muito def* y- 
,. favorecidos dos Miaillroí , negandolhcs naô fó ot ází* *^42» 
,. paclioi , mas as palavras cofteze* , que obrigaô muito , 
,. e cuílaó pouco. Mas efte mào tetmo nafce, de que co« 
,. mo fenaõ criáraô na guerra as peíToai de que V. Migefí 
,. tade le íerve, naõ (abem pezar quanto import» gran- 
,. gear 0$ íoldadoi por todos os caminhos. Porém mai* 
,, que tudo ouço que fentem todoí naõ fe inclinar V. Ma- 
,. gsítade muito ao exerciiio militar ; e juntamente qus 
,, abrsça a pratica de lenaõ fazer cafo do poder dos Caíle*. 
,. lhanos .* veneno taõ prejudicial , que nafce da malicia 
,. dos que naõ querem que íe trate da defenfa do Reino , 
i. a que V. Magcftade he taÕ obrigado como à íua pro- 
,, pria vida. Efte he, lenhor, o eílado cm que fe acha 
). Portugal , e efta a voz commua de todo o Reino , com 
,. táô pouca exceiçaô , que fó os dependentes de Gaftel- 
,. la deixaô de pedir a V. Mageftade com lagrimas o re- 
,. fiiedio. E por efte refpeito entendi que era obrigado ; 
,. como quem ama tanto o ferviço de V. Mageftadei a 
,. referir lem rebuço o meu lentimeoto, para que antes 
,. de chegar o damno , fe poíía divertir o perigo •• porque 
,. fe eitando os inimigos com taõ poucas forças , nós ou- 
,, tros nos ccnfideramos em tanto riíco , que fera , íe- 
,. nhor , fe por algum dos accidentes que podem fobre* 
,. vir, melhorarem o feu partido , Vendofe delembara-: 
,. çados da guerra de Catalunha, de França , e Holanda , 
,. que agora os diverte ? O remédio que julgo mais pro* 
„ porcionado , e a pedra fundamental defte edifício , pt« 
j.rece que fera attender V. Magettade ao governo , e 
,. melhorar os Confelheiros , pondo nos Confelhos de 
,. Guerra, e Fazenda os mais expertos fujeitos deíles dous 
,. exercícios, que fe acharem no Reino, e autherizac 
,. V. Magsftacie eftes Tribunaes com fua aíTiftencia i ao 
,. menos huma vez na íomana. £ quando V. Mageftade 
..avsrigue que a fazenda que hoje ha, naõbafta para a 
,. defenfa do Reinn, devem bufcarfe mfyos de fe aug- 
,, mentir-, proporcionando os tributos quanto for poí- 
Tom. I. Bb iii í.fivel, 



i6^i. 



400 PORTUGAL RESTAURADO, 

,. fivel , repSftindo o dinheiro pelas Praças maii arrifca- 
Anuo » dai , e pelos íoldâdoí peyot íoccorridos ; porque dcíU 
,. forte feraõ fem duvida leguros, e felicei os íucceílot 
,. dai armas de V. Mageft?dc. Também íesá muito ccn* 
,. veniente , para defvânecer a opinião do Povo , favorç' 
,. cer V» Mageiftâde as artes militares exerciiíndo«íe lel- 
,. las pefloalmente : porque todos buícaràõ a guerra , 
,. vendo que V. Mageítade fe deleita em formar e£< 
,. quadroens de Cavallaria , meter Terços era batalha , 
,, vifiíar as oíiicinas de artilharia , e as fortificaçoens f e 
j. applicarfe as mais artes , e inftrumentoi bellicos , ex* 
}, erciclos todos régios , dignos do alto coraçíõ de Vcíla 
y. Magcílade , e approvados com exemplos dos mayores 
,4 Pfincipet do tcundo. Com eftas opperi çoens exercita- 
,, dat pouco tempo, terá V. Mageítade muito menos tra* 
,. balho , o Ríino íe vcrà defeni^ido , o amor nos VaíTal- 
,. los íeguro, e a reputação nas naçoens Eílrangeifas aug- 
S. mentada , vendo que V. Mageftade fegue 01 paííosda- 
■,. quelles Principes , que nas virtudeí próprias fuíjdáraó, e 
,. eílabeleceraõ oa Impérios. Achsndo V. Magefl-ade ncf- 
i» tas occupaçoens inteira fatiífaçsõ , efperámos fers du- 
',» vida que V. Mageílade fe refolva a paflar á Província 
5. de Alentejo , a ver o íeu exercito, e animar os feui 
,. foldadoy. Defta refoluçaõ rcfultará terror aoi contri» 
j. rios , e aos amigos coníiança, naõ haverá VsíTalIo ai- 
y. gum de Vofia Mageftads que íe exima do exercici j da 
,. guerra , nem haverá cabedal que fe recate para o íuilen- 
,. lo delia í porque ao Piincipe , Sol da M-narquia, coC-, 
,. tumad a correípcnder as phíntasdos VaíT^lios com pro- 
,. porcionadaa íinezai ás que grangeaõ , ecom igua^ri be- 
;, neíicioj aos que recebem. Repartirá V- Msgaílads pe^ 
^. los foldados f conhecendo'os , os prémios íem defigual- 
\. dade y e defta confonancia rcfultará a fegurança dãi vi- 
,idorias. V. Mageftade com feu fober^no juizo refolve* 
^. rá o que mais convier á confetvaçaÔ defíe Reino , e á 
,. utilidade de feus Vaflalloi , para qua ©'Príncipe noíío 
,. Senhor, depois de muitos annos que ha de durar a 
5. vida de V. Mageftade , Icgre íeguro , e felice eíte 
v^lmperio.. 

Adnâto 



PARÍE I. LIl^RO vi: 401 

Admittio ElRcy a veidade , e pureza deftaj râ. 
20eâí com muito aguuio , e ponderou-as cam grande AnnO 
prudência. Reíultou delia reflsxaõ dsípsJir faccorroj a ,><.> 
todat ai fronteiras , atte.riir com cuiiada ás configiia. 4*» 
çoans qu2 íe davàõ , eattalhaf ai que fedivertiaõ, e 
uitorminou paiTar a Alentejo a Pniaavera feeuiate. Para ^^^""'^"^ p^^y 

•»,-,/•.•. j í^ /• o Memorial ds 

exí'cutar eíce (eu intento i o mandou propor aos Confe* o.joaõdacof' 
Ihiiros de Eílado , dizendo; que a guerra de Catalunha m, emand^ 
era a mais uíil diverfaõ que efte Reiao coníeguia ; e qua prot>or ao cm{ 
nenhuma outra poderia def fogar maii aoi Caialaens.que f^^^^e^f^í 
entrarem em Giitella ai atinas de Portugal : naõ fendo íó aAiíZe/J.' 
eít-í o i&tereiTe que refultava á íua Coroa do intento qus 
propunha, fenaõ também outro maii eíTencial, que era 
a ieputi^âõ das armai, e a fatijfaçaõ dot Principes alia* 
dos: porém que naõ queria tomar a ultima reColuçaÕ i 
íem entender os parccerís doi Confelheiroi : e que junta' 
mente ordenava a cida hu?a delles , que declaraiTem o 
íeu voto : qu3 exercito bailaria para aquella Campanha : 
e que Praça devia elegef para formar o exercito, Foraó 
Tarioi os pírcícerei dos Confelheiros de Eítado. Hum doi 
que votavàõ com mayor acerto nas matérias mais impor- 
tantes daquelle tempo, era o Marquez de MontAlraõ. 
Foy o feu voto da (ubftancia íeguinte. ). Que elleeílrei- f^oto do Mar- 
j. tava o fcu entendimento ipropofta que Sua Mageílade i'*^."^ jeMeni 
I. mandava fazer , efperando ter occafiaô de reprefentar , ^'^ ^^^' 
,.a Sua Mageftade as duvidai que fe IheofTereciaõ Cobre a 
s. jornada, que Sua Mageítade queria fazer a Alenteio : e 
,. que refpondendo fó ao que fc lhe perguntava , dizia ; 
,4'-"?'^e hum dos pontos mais principaei , a que fe devia ât« 
,. tender , era occultaríe que Su.i Mageílade determinava 
j.paflar a Alentejo, e juntamente a Praça de CaftcHa 
,. aonde fe houveffe de empregar o exercito , para que o 
,. inimigo fenaõ preveniíTe , e a naô baíleceíTe : que da 
,. m^fma forte convinha que as noíTas Praças demai? im* 
V portancia eftiveílcm bem fortificadas , e guarnecidai ; 
,. porque fe o inimigo intentaííe a diverfaõ, nos naô foíle 
,. neceíTari® hum exercito para aconquifta , outro para a 
,. defenfa ; e que íuppofta efta prevenção , lhe parecia 
,. que o exercito conítaííe de doze mil Infantes pagos , e 

Bb iv »' Sooo 



402 POFJVGJL RESTAVR^DO, 

,. Soco -Auxiliares, de looo CavsUos , s 30 pe^asdeir- 

Anno ». liíharia, ao groííaj , e 10 deCairpanha, 4 mortei- 

16 AZ »• i^os , todae ss rruniçoens, n)fíntin»ciuot , e bagagtias 

f pa>*a íuílentar eíle Ccipo , e todos os Qfticiaes que fal- 

,. tâvaõ para o animarem : e que tudo o referido convíj 

,. nha que fe prevenifle cem tempo, e com abundância, 

í. repartindo cada operação por diíierentef Miniíifof, 

,. fendo todoí obrigados a dar conta a Sua Mageílaae do 

,. efieito da fua diligencia : c que íobre tudo era neceílario 

,. ajuftarem^íe confignaçoens ceí.tas de dinheiío , coJum» 

i. na, e capitel da guerra; que a Praça que devia de ele. 

,. ger para formar o Exercito , era Efírernô* : a qual devia 

>. prevenirfe com grande atíençaô muito anticipadamen* 

,. te i e que com a melma ledeviaôdifporaf guarda* d í 

}. fua peíloa , e que todas eílat matérias pela imporiancii 

,. delias mereciaò particular ponderíçtõi queeíperava 

,. que Sua Magefíade difpuzeííe o que foíle maiiconve- 

,. niente a feu íerviço. Depois deftc ywrecer fez o Màt- 

quez de Montalvão hum papel que deu a ElRey , que 

continha eftai razoens .* i. Senhor , depois de me vec 

j, deíobrigado dos preceitos da propofta 1 queV. Mage- 

;. ítade mandou fazer ao Confelho de Eftado , fobre a 

,. refoluçaõ de paílar a Alemtejo , me parecío rep:efentac 

j. a Voíla Mageílade as duvidas , que .fe me oífereee n 

,. neítâ jornada. Ac-íite Voíla Mageítadeefta minha coa« 

i. fiança , lembrandoíe do meu zelo , onde Voíla Magefta, 

;, de encontrara aífeiíloi que a defculpem. Parcce-raequj 

,i o perigo de Voíla Mageftade fe aulentar de Liíboa hi 

,. de qualidade , que naõ pôde recompenííallo outro ri* 

,. gum intereííe. E como as Monarquia* íeguera o cíHlj 

j, dos corpos humanos, he fieceí]ario aos Mcdicoí prudeo' 

,, tes I naõ ló tentar o pulfo para conhecerem os males 

». que padecem » íenaô também averiguar a origem don- 

,. de procedem 1 para lhe applícarem remédios proporcio 

,. Dados. Tirou Voíla Mageftadc a Caftella juftiílimamen. 

i. te eíle Reino depois de 60 annos de poíle *. e lie infalli. 

,. vel que era tanto tempo, e tantas aliançasi como houvá 

j, entre as duas Coroas » produziíle o intereíTe ou tnalda- 

y de muitoj affcí^oados ao partido de Caílella , comojà 

i*fe 



1Ó42. 



VJRTE I. L1VT<0 VI. 40} 

. fe tem expeiin.cntado noi que le dtclarársõ , e fe deve 

\ teniti doi que ie rccataó íó obrigados de icceyo , cíli- AnnO 

*. niuladoí dds diligencias do» Caítelhanos , de quem en 

*. teoio maií a n:aí2iia que a força , maii o filenciu que o 

\ ruido. Neita ii;.citcza de auimoí naó pôde ierconve- 

'. nicnte que a Keal peiloa de Vofla Msgeílade íe apaite 

*. da íua Corte, Cabeça de todo o Reino , a que cfta Ci- 

'. dade coltuiTia d^r Leyj ^ prittcipalmente achiudo-íe ella 

', fem fo:tiâcáÇâó alguma, c naó podendo ficar com uu- 

\ mero fufficieíiie de gente paga. Também me obriga a 

\ recear muito o perigo da peiloa de Vofla Mageílade, 

*. naó lo Cl zelo , e o amor , mai a madura confideraçiõ y 

\ porque he de crer que de Caítella procurem a oífcnfa 

*. de V'oíla Mageltade» naó perdoando aos meyoa maif 

. illicitos *. e ella idca enima que naÕ hc tempo de V. Ma- 

\ geílade andar entie o eítrondo da* ai ma*. A eílei for- 

\ çofos reparos , fe leguem outros também de grande im- 

\ portancia. Se Voíía Mageílade empenha na guerra a 

|. fua Real Pefioa , põem o mundo em erperanças de 

. grandes emprezas , as quaes podem faltar por accidetit 

. tef iníuperaveis *. e fc naõ fuccederem , ricaráõ ot con- 

. trarioi mais animofos » e os amigos irenos confiados. 

^. O tempo ainda naõpermitte » que Vofla Mageftade íe 

. ponha diante dos leiii exércitos •. e a naõ fer fiífim , ao 

. meímo exercito convém , que VoíTa MagetVade fe naõ 

, aparte detida Corte , donde devem lahir todos o; foccoir 

^ . ros capazes de o alimentar , naõ havendo mais que ^o 

j, léguas de diftancia , que he a menor em que póds aílií- 

j.tirhum Príncipe, quindonaõ delibera acharíe peíío il- 

.. mente nas facçoens militares. Nefte íentido,. Senhor,.. 

j. íou de opirà. Õ , que V- ofía Mageít de dS a ent:índer que 

,. vay a Akmtejo , para que as prever.çoeni ísjaõ mâit 

,, promptas, e que tanto que o exercito elliver preveni- 

,. do , VoíTa Mageílade o entregue a peiToa de que fizer 

,. mayor confiança , dsndo-lhe por fegundos Caboi os que 

,. tiverem raayores experiências •. e alcançando as Armai 

,. de VoíTa Mageílade oi felices fucceflos, que eu efpe- 

,. ro, cntaó poderá fer tempo de Voíía Mageílade fazer 

;» cora a ÍQa peâoa algujna demonílraçaÕ , poique bum 

i^ felist 



1642. 

PríVÁleccn a 



4Ô4 PORTUGAL RES7AURAD0, 

r. fíUz pria:ipio ticilita grinJás diffi:ulxii.iii. Fez e.n 
Aíino Ellley grande mudaaçt eíls parecer do Marquez de 
MjnUlvaõ » porque ponderadas ben as razoem por hu- 
ima, c ojíra parte, aiadaque as de D. Joaô da Coílaeraõ 
raaito <2tii:az2j , e geaeroías , ai que o Marquez offere- 
X^ cii íncluíúiô matérias muitoi importantes: edepoUde 
'joal^dz, de Ufg )s Jejitei , prey ilecerao neíla occíôaõ. Chegou nef* 
Mc^udvã}, te teiti.>> a Liiboa Silvadot de Mello C3m ijo íolda-, 
das Poríugnezsâ. Achava^fe na Villa de Praga nos con«" 
í-^/f^z-íS^/t/í I^Q, ^jg ,Yraga5, tanto que lhe cliegou a noticia de que 
íom 300 s4^ feiRsy 3ra accla.Tiaao , nngio que intentara hama entet- 
díiâys ao fer' p<'eza ; íahío depois do Sol pofto di ViHa com os folda* 
vifo dAiiíy. d js , e declarou*Ihei qu; o leu intento era paílaríe a Bar* 
csloíu , para fe embarcar naq.ielle porto para Portugal. 
Todos Iheapproyáriô areíolaçao , cantei de araaohe» 
cer etliraS fegaros em Gatiiunha. ChegáraS a Barcelo- 
na , a:hoa Stlyador de M:íllo dinheiro , que para cfte 
fim o Padre ígnacio Miícarenhat haví' dsixado naquella 
Cidade. Uaio aos que h^ara outros 150 foldados , que 
acliou em Barcelona , com eíla gente incorporada atra* 
vedou França, chegou s Arrochela, aon b também achou 
dinheiro, queElR^y hivii manlado áquella Cidade pa- 
ia os Portuguezss quechegiíTem a ella : embarcou ifo 
que m^nio'! diante, e com 01 outros entrou em Liiboa. 
cL%alacI.^^'^''^^ ElRf!7 huma Comenda, eo pofto de Capitão 
píZiUmtiè niórde B^^gançi. Os foldadoí fe dividirão pela* frontei- 
fr^:;*^^ >tsai- ras , e paíTàcaõ depois muitos a grandss poííos. No mef- 
ifad^rdeMeih, mo tsmoo chegífaõ di Inglaterra D, Fcancifco de Aze- 
vedo , e.Alvaro de Souía. Achava6*fe ein Madrid » quan- 
fi/io %Tdr- ^^ Ê'R^7 f« accl jmou ; paííaraô a fervir a Flandes , don-i 
Zdsdz2ytdl,e '^<i ficilTiente acharaÔ embarcação para Londres, de Lon- 
Álvaro dísuhi dr^s fe eubarcaraô para Lisboa. Recebeo'os ElRey com 
a demoiftcaçaõ que merecia a fua fineza , grangeando 
com elU ficarem muito poucos Portuguezes lervinio aos 
Caílelhanos. E deitas , e outras politicas lhe era neceíla' 
rio ufar , para fenaõ def vanecjr a gloriofa , e incerta ac* 
ça5 que emprendera. 

Determinou EIRey mandar fegun ia embaixada 
a Erança , por fst a parte aonde eraô mais feguras as de-. 

pendenjias 



PJSTE I. LIVRO VI' 40 j 

pehderciaf , na ccrílácfsçaÕ dos int&rcíícj que refu tava 
9 Coroa de Frai.ça da gueira de Porti g^i fcm contorver- Anno 
cia, o mais abonado fiador das alianças dos Printipes, Ele- 15.2 
geo ElRey por Embaix^^dor de Frsnça a D. Vaico Luiz ^ ' 
caGan^maCondeda Vidigu<;ira. Era avaliado por muito 
capaz delta occupsçaõ , aioda que de poucos annos : iras l-[j/^/^fyJJ. 
como deite vicio, coaforme o diicurío de hum cortezaõ » ^J,,^ por Km. 
Ce emendaõ os homens todos os dias , concorrendo no hahafi.or de 
Conde da Vidigueira as outras virtudes , deíempenhcu Tran^a._ 
no acerto da hmbaixsda o conceito que; !e fcrrrava de!- 
le. Pai tio de Litboa a 9 de Abril , e levou por Secretario 
da En.bsixada-Artonio Moniz de Carvalho , qte artet 
havia pafiado a Dinamarca , e Suécia cem a n eín a occu» 
paqaõ. Depois de experimentar alguns dias o vento con^ 
traiio , chegou a Arrocbela s 4 de Msyo , defembsrccu , 
e foy hofpedado mígnfícamcnte doGraÕ Prior de Fran* 
ç3. Delle foijbe , que ElRey CbriflianiíTmo era partido 
» litiir Perpinhtõ. Ccn* efta noticia íahio de Arrochela á 
buícar a Corte ; strevelTou a mayor pc»te de Frarça » e 
por todoí 01 lugares por onde paílou , foy exarrir ando as 
Relíquias de rrayor vener?çaõ , os edifícios de rraycr ti- 
plercor , e snt/guidades de m?yor preço. Fez alto tm 
Kíibcna cem. líguss deÂvrochela : cm Nâibora athoa 
doerte 20 Cardeal Richilieu de hurra grave inftírrj':'"d3 
qve havia tróíido do c!<ercifo , ero r tfmo dia por rre- 
Ihcrar de fnio havia íj^hido em hum Jeito ars hcn;bros 
dcs foldsdoí ( que rem. aos que leguem efre gsnerofo ex- 
ercício frc os valides pezrd- s ) pars Bvciers , cinco le* 
guss dillarte. O Conde msndou ao Secetario ds er bai- 
X£da pela poAs a darccrta rc Cardeal de como havia che* 
p^adc.o meírro aviío fez a ElRey so exercito que lhe cr- 
dencu psílsíTe ? Buciers dizerdclhe que a ircon medi- 
dace que havia ro exercito para o receber 1 fazia forqo« 
fa 8 dilação. Dentro de pouco? dirs Vfyo ElRçy doente 
para Buciers, e íeguirdo os irefirci paíTog do Cfrdeal; 
paílcu a Avinhsõi sonde o íeguit o Ce nde da Vidigueira : 

fcy de Avirhaõ a Pariz, e scsbardo a vida csquelJesdiaj 

a Rait ha Mãy , fe deteve EíRey alguns difs cm Ftrtc ^^^^ ^„^;V,,;^. 

^'tb!ô. lacfo que LjRty che£CU a Piíiz, deu iV.à\tFi deimy o cr^-.-de- 

cia da Vidiptim^ 



406 FOKTUGÃL KE^TAUR.ADO, 

Anno cia ao Goade. Foy ca iduzído de huma qiiiaia, onde efta^ 

l64Zm "^^ ^^^^ dâCidaáe , do Matiehal de S.Luca, e recebe n- 

da'o EiRsy, ea Rainha com todas as ceremcniíJi coílu- 

madai , Mie nomearão Ghavigni Secretado de Eítado doi 

negocioi fora do Reino • para conferir oi da fua embai» 

Xoda. Os primeiroi que o Conde tratou com mais calor, 

foraó a liberdade do Infante D Duarte , e de quii o Sum. 

tno Pontitice aceltaííe a embaixada do Bifpo de Lamego. 

,. Poréai nem huma , nem outra coufa teYC efFeito , pelas 

razoení acima declaradas. Tratou o Conde com todo o 

calor di liga formal entre ai duas Gofoaj : porém , tendo 

'Aborte do Car- ^^^^ principio 3 cíle negocío com boas efpcranças de o 

dial RiMiiii. conf jguif , acabou a vida o Cardeal Duque de Richilieu , 

e variando no governo de França todos os Miniítros , co- 

Succeâe 3 Car» meçou 3 tratar de novo com o Cardeal JuIio Maílarini » 

àeaiAíafarini. que fuccedco ío dc RichiUcu , elegcndo*o ElRey por 

primeiro Miniftro daquella Coroa. Continuou o Conde 

as negociaçoení propoitas , e outra$ de grande importan^ 

cia com o lucceíTo » que em íeu lugar referiremos. 

Huma das matérias que ncfte ttvmpo dava a EU 
Rey mayor cuidado , era a perda de Angola, S, Thomé, 
e Maranhão : porque recuperar tantos lugares por força 
em partes taô diverfas . parecia muito difficil , durando a 
gLvzrra doi Caftelhanos ♦ e ísndo os Holandezes taõ po- 
derofos-, e reduzir os Ettados com razoem depois de ef- 
tar«m de poíTe , havendo elles íido Authorcs de toda a 
cavilaçaõ ♦ era quafi impraticável. Porém como outros 
relevantes refpeitoj faziaõ forçoíaefta diligencia, na5 
fendo menos confideravel moftrar ao mundo o enganofo 
procedlmeato do? tfolandezss , mandou ElRey ordem a 
Francifco de Andrade Leitaõ , que afliília em Inglaterra , 
para que paíTaíTe a Holanda a reprefentar aos Éftados o 
injofto procedimento doi Governadores Holandezes, que 
aíTiíliiô no Brafil ; porque quarido nao confeguifle o ef- 
feito que fe procurava , ao raenoi entenderia a reíoluçaó 
dos Eftados , para fe procurarem os meyoi de recuperar 
os damnoj padectdof no Brafil. Logo que Francifco de 
Pafa a Hoian- ^^^^^^^ recsbjo 3 ordem delRev , paffou 'de Londres a 

MrZfuhti Holanda i taoto que chegou a H^ya . naô lhe dilatando 

os 



PMTE I. LIVRO VI. 407 

01 Miniílrol a audiência que pedio , Ihetn.oflrcu era Anno 
hila Jarga oraçaô ; ,. A injuítiça coiii que os Hollande- 1642. 
,. 2ei do Bralil ha viaõ cccupaco o Ueino de Angola , S. q^^,^^ , ,,, fg^, 
i»Thomé, e Maranhão, lendo ja noÚQm cQxiã àcquG- aos ^tiiaius'. 
,. ElRey D. Joaõ eia acclaroado em Portugal , e de que- 
,. aquelJeí Eltado* haviaõ admittido TriiUÕ de Mendo-- 
)• ça (eu HiDbaixador, e ajullado com ellc Hegosi poi dez 
,. annoi , aíTim delia , ccmo daquella parte da Lmha , e 
,, de que as forças dos Eíladoí Is hivi^õ unido às de Pory 
,. tugal , em, prejuízo dclRey Catholico, inimigo de hu» 
}. m-a , e outra Ntçsõ ; e que alem de tciem por muitas- 
,. vias a certeza de todo» cites íuccefioi, o* Governado- 
). res dal Praças, que cauteloíam.tnte renderão , quando- 
j. chegarão a eilaj , lhe íizeraÔ preíente tudo o referido 
,. para que em nenhum tcn po pcdefiem» cobrir o íeu en- 
j. gano comi a c&pa da ignorância : e que íem emb; go 
,. deltas adm.ceílaçocni , íe haviaÔ m.etiido de pode dai 
,. Praçàj, fazendo^íe inimigoi dísquellea que oírccebsraõ- 
i. coíi o hofpedeti e que convencidof das razoens que- 
,. os Governadores Portuguezei lhe leprcíentàri^G , leí- 
,. penderão , que haviaõ dedo conta àquelles Ellados, 
,. cuja refoluçaÕ eíperavaÕ para íeguir o que ihe« crde- 
,. nafíem: o que fuppoílo , ficava claro , e íem duvida 
,. haverem procedido os HclJandcze» do Brafil com deí- 
.. ordenada cubica, cíiccdendo o direito das gentes, a f è 
,. publica , a ccnliança , e fíngileza natural de queTrif- 
>» taõ de Mendoça h&via uíado nas capitulaçoens feitas 
}. com àquelles Eltados , a verdade conílante da pala Vi a ' 
\. que lhe deraõ, o intento pacifico da em.baixrda. a cani 
,. dida , e liza tcnçaÕ que EIRey teve quando a deípe^^ 
i.dio, econfiímou oeílenío delia. E que fuppoílos to- 
f. doi efles antcccderteí, para que naÔ houveíle no mum 
,. do quem erradamente im.2gina0e , que as Pioviccias ^ 
j. Unidas cceperavaô cm. acçaõ tac iníqua , e quede 
}. preíente era efccndalo tr.ivcrfal, efperava naÕ íó que 
i' os Eftadci mandaflem reíliiuir a EiRey ti do o que fia 
,. America, e Africa fe havia ufuipído injultamente , fe« 
>. nsõ que fentiíiem os Auihoses da culpa comi exemplar 
t, câilí£0 a gtfcVJdèdç delia ; pctqiic havendo qualqueí- 



4o8 POKTUGALKESTÀUViADO, 

,. omiíTaô aaa áan pracizai dsmoaíitaqosast que caução 
Anno ,. Te podsriâ dar no mundo á fé publica , reado^fe a paz 
1 642. *• ^"^ todoí os feculoi facrofanta, neile cafo indignamea- 
,. te violada ? È que a interpretação que algum coftuma- 
, . dos ái fubtilezai do comercio davaô aos capitulos da 
.,. paz , era taõ indigna , que fe corria de refutalla diant« 
,. de taô illuítre Congrello ; porque o tempo que íe deu 
,. para íe publicar a paz na«conquiítaí , era lizamenteo 
I, que pâreceo neceffario para chegarem a eliai 01 Embai- 
,. xadares que levaflcm os trasladoí dos capitulos, e que 
,. durante eíle prazo , fendo notória n© Brafil a paz » taõ 
,, obrigados eítavaõ a guardalla 0$ Holândezes da Ame- 
,. rica , como os da Europa , fenaõ queriaó encorrer na 
,. Ley Civil dos Romanos, que chsma dolo a naõ fe dar 
,. crgdito ao que todos crem , e dizem em algum lugar : 
^. e que eatendendo-íè eíla ley em huma ló parte, íe po- 
/ ,. deria forçDÍamente explicar em tantos lugares , como 

y,fotiõ 01 em que no Braíil fe publicou a acclamaça9 
j. dclRey. Qiie por eftas razoem {e outras muit aí que 
^yacaejceHtoií ) eíparava ElReyfeu fenhor, que ot Elta- 
,, dos gloriofoj em tantas acçoeni militares , e politicai 
í. naô haviaô de qusrer desluzillas , ufurpando cautelo- 
,. famente as Praças , e Lugares que Ihei naõ pertenciad. 
Efte bem fuadado difeutío pedia hnma Armada muito 
poderoía para paffar ao Brafil , quando os Holandezei 
naõ admittiflem as propoíiçoens delle : porem os Holan- 
dezei, deípreza do o pouco damno que podiaÕ receber 
das noíTas armas, fizeraõ pouco cafo das noíTas queixas. 
Mal naõ paíTou muito tempo , que naõ moftrafle Deoi 
que accodia pela noíla juftiça. 

ElRey achaado-fe dependente, tratou de con- 
temporizar , em quinto fe naõ pode fatisfazer , e pouco 
a pouco foy melhorando todas as difpoíiçoeni. Coníide- 
rando qua nii primeiras Cortes , que no principio do an- 
no de i<54t havia celebrado, naõ tinhaõ os Povos coníl- 
gaado os eíFeitos necaílarios para aíTiílir ás grandes deípe* 
zas, qus fazia a guarra , os convocou tegunda vez^a 18 
se^H^iis Cor- ^^ Setembro. Ceíebraraõ*fe na f^l i dos Tudefcos co-n ai 
ftfx. ceremoaiai coílunadas, Rspattlraõ Oi três Eftados pe- 

los 



VJRTE 1. LiFRO VI. 409 

loi Ccnvenícs de Santo Eloy , S. Domirgnfi , e S.Ffan- 

cifco: ao primeiro foy o da Nobreza , ao íegundo o fíc* Anp.O 

clefiaílico , ao terceiro o doí Povoj. Foy propoíla , que • 

ElRey mandou fa-zer , que os vinte n».il infsntej, e qua- ^"4 -• 

trc mil Cavaiiofi que le or^ou nas primeiras Cortei, quí: ^"'^'^'* ^^' 

era neceíiario para defender as fronteiras do Reino, fe '^' 

naõ podiaó íuílentar com menos de dous ir.ilhões e qua- 

trocenioi mil cruzados,que a efíe reípeitoícapontaíícm 

os meyos mais fuavci de fe tirar do Reino eíle dinheiro. 

Depois de varias confultas , concordarão ©i ires Eftí dos, 

que as decimas eiaõ o caminho mais próprio , e o tiibu- 

to mais igual , cie que ie podia ufar : porem declararão 

os Povos , que na contribuição havia de ficar o íeu cof 

po leparado , para que íe íoubeíle o que cada hum dor 

três diípendia , e naõ vieíle a cair no Povo , como menor 

poderoío , o mayor pezo. Os Ecclefiaílicos, e a Nobreza 

unirpõ-fe contra efca propofta, naõ querendo deíuniríena 

contíibuiçaô. Repetirão os Povos as iní^ancia». MandoU 

ÊlRey perfuadir aos Procuradores pelo Secreraro de: 

Eílaco Francifco deLucena.A judavaõ o defignio delRey 

o Marquez de Montalvfõ , e Duarte Alvares de Abieu 

Deíembargadcr dosAggravos, que eraô Procuradores de 

Lisboa. Propoz o Secretario de Hftado, que ElRey oífer 

reeia do património P>.eal, e das confign-ções, que lhe to-- 

cavaõ, prefazer novecentos mil cruzados, e que queria 

que os tree Eítados fem feparaçaõ pagaffera hum milhaô' 

e quinhentos mil cruzados das decimas das fizendas.. 

Os Procuradores dos Povos vendo eíta refoiuçaõ , e do- 

fneíticos com as negociaçcens os que eílavaõ msis af- 

peros , fe reduzirão á vontade delRev , e veyo íem íe- -^P^fff/ a 

parsçao a íicar aílentãdo o tributo do* deus milhoens e ' ' 

quatrocentos mil cruzados para as deípezas da guerra. 

Ncílas Cortes le déraô a ElRey vários papeis íobre o- 

procedimento dos Miniílroj de que fe fervia. Refultou 

o mayor efíeito de huma petiqaõ que fe fez contra Fran- ^^l.'1'^^-r "^^''J'' 

cifco de Lucena aílinada por muitos Prccuradoret dos? ^^^Xl^Sícrít 

três Eftadoí do Reino, e preíentàraõ^na a ElB.ey alguns iario desfiado;. 

dos Miniflros de nâyor esfera. Francifco de Lucena ha- 

lúa aíTtítido em Msdiid coro a occupaçaõ de Secretario 



Anno 

1642. 



Me frszo 



'S&he a Ar mi 
4a 4 correr a 



Tom<tÍ'f« »4 
UkA Terceira 
deifS nuvlos di 
índias. 



41Ô PORTUGAL RESTAURADO, 

do Confclho de Portugal: por induílria de feiís laimigot 
o tinha mandado ElRey D. Filippe pata efte Rei 10 por 
Secretario das Mercês. Nefte exercicio o achou a accla- 
maçaô delRey,e inculcado pela fua grande capacidade» 
o elegerão 01 Governadores para íervir de Secretario de 
Eftado , atè que ElRcy chegaffe : porque ainda que elle 
no tempo de Câltella havia encontrado oi intereíTes da 
Cafade Bragança, era conhecidamente inimigo de Mi- 
guel de Vafconc3llo$.Deu*lhe ElRey a poííe do exereicio 
em que o achou, eíatiifez'fe de forte do feu talento,que 
íe accomitiodava ao leu parecer em todas ai matérias ^ 
maii impottantej.Efte favor incitou a inveja, e provocou 
a calumnla , e foy occaíiaõda ruina de Francifco de Lu^ 
cepa.Eftava prezo em Madrid íeu filho Affonfodc [-.uce- 
na , e procurava meyoj de o livrar da prizaô , ou ao me- 
nos de lha fuavizar ; crefcso deíorte a murmuração àc» 
íla diligencia , que paílou a fazer íufpsitoza a fua fideli- 
dade. E efte foy o fundamento dos capítulos que fe de* 
laõ contra elle,de que fe originou raandallo ElRay pre- 
zo para a Fortaleza de S- Giaô ; porque ainda queni fui 
Gpiniaô era innocente < e havia dado confentimento ás 
diligencias que Francifco de Lucena fazia pelo alivio dt 
prizaô de (eu filho , eraô tantas as peíToat , c de tanta 
authoridaáe as que íc fizeraÕ partes nefte negocio , que 
Ihepareceo a ElRey precizo fatiifazellaf. E defta reío- 
lucaô veyo a refuUar a Francifco de Lucena a ultima ca- 
lamidade , como em (eu luga r diremos. 

Neíla aQQO mandou ElRey a Armada a correr a 
, Cofta: era G*ncral dslla António Telles de Menezes, 
Almirantí Cofme do Couto » que havia paflado de Ca(- 
tella a fervir efte Reino. Levava a Armada i $ navios de 
guerra , e trei de fogo , que guarnedaõ t^oo Infatites : 
iecolheo*le na entrada do Inverno fem mais effeito , que 
íegurar osnoílos mares. Melhor emprezaconfeguiraõ na 
Ilha Terceira 0$ foldados da Fortaleza de S. Filippe: por- 
que chegando a ella dous navios de índias na fé de que fe 
coiferviva íuiiita a ÊlRry de Caftella , quando recoj 
nhecér;io o engano , acháraô inevitável o perigo , forao 
remettii3í a Litboa , e intersílou ElRey nelles confide- 
ravel faaenda. Nefte 



PJfiTÊ I. LIVRO VI. 411 

Em quanto duriraõ eílei fucceíTos em Portugal , 
naõ eftiveraò focegadas as armas no Braíll. Mandou £1- AlltlO 
Rey por Governador daquslle Eftado António Tellcí da j/ía^ 
Sil^a. Tatuo qua chsguU a B^hia, proc^deo contra os ^042. ^ 
três que g vernavaõ , pelai ofFenfas feitat ao Marquez ^^"£"^,°htGÒ- 
de MoniaWaô. Mandou prezas pa a Liiboa Luiz Barba- vernlTor ^aI- 
lho , e L.-UTenço ds Britto. A Luiz Baibaiho perdoou tonij Telles dx 
ElRy » por Í2 averiguar , que os feus erros procídéraõ ^^^"*'- 
irnis do eaici diírí'íiUo que da vont.de. Lourenço de 
Britto eíleve muitos annos prezo ná cideâ publica de Lis*, 
boa. Ao Bifpo fiZ António Telles repor todos os oxde- 
nados , que h .via levado. Nefte tsmpo confeguiraô of 
raoradoret do Mar;ínhjô . íem mais íoccorro que o eíli» 
muij doí aggtavo>qae receberão dos Hollaadezss , glo- 
riota íiti»f çaí de tantas oífenía». Depois deoccupado o 
M :ranhaõ g;j- necè'aõ os HoUandezes a Cidade, e repar- 
tiroó jo^íoldadm pelo» Engenhos da terra firme. Huni, 
e outr-js com a íobíib» deinjuftos vencedores fe licencia. 
raõ d2 íó.te, que naõ perdoando ao (agrado, nem ao 
profano, eu t Jdos os lugares viaõ laílimoíamente os Por- 
tuguezís as \gi jat, c aí ho iras offeadidas. Eraõ mayo* 
res os ex:eíIos das que habitavaõnos E*^genhos , e alíim 
foraõ o? p'i Díiros que pjdecéraõ o cJÍligo.Defenganadof 
ofi Portuguezes de que lhe naõ valia, nem aparent reii fe 
com os Hollandizes ca(anio*os com fuás filhisj nem quei* 
xaiem-ie ao G ívernador, como repetidas vezes fizeraõ 1 
appellàraó pa-a o valor de íeus braço-, nos quaes por 
antiga difpoílc^aÕ da natureza , achâraõ fempre o mais ef- 
ficaz remédio. Elegètaõ por íuperior acertadamente <\n- AmoMhMonU 
tonio Moniz BAfceto , que havia exercitado o po (Iode Bareta ície- 
Capitão mór da Cijíidecom grande opinião de íoldaáo vant» m ua- 
pr-itico, e valerofo! aceitou clle aoccupaçaõ , attenden- '''*^^]/ '^J"^'^'* 
do aíTim ao bem publico, como à oíFenfa particular, por '''^'' "^ ^^^^* 
haver recebid » muito má.í trato de vinte HoUandezes , 
que alojavie 1 hun Erig:nho, que elle< Ihs haviaõ dei- 
Xid >. R^f ilMtí em ini^e ^tír t iõ diffijil emoreza , ajuntou 
cen Po'tiigii'Z*í e í'gu is negroi e huma noite entrou 
em t >d «- os Engehoí que Ih-ficav^o raai« offrto , e naõ 
íicoí 4 Hniez que CO ii a vi 'a naõ pag^íle os deliclos 
Tom. L Ce com- 






Ganha o Toríe 
do^Caiyario. 



Dtrrota os Ho- 

landez.es. 



Sitm 4 Cidade, 



41 1 PORTUGAL RESTAURADO , 

commet tidos. Faílou o eftípeiího a raaii diííici] , e mais 
generoía vingança; e aiitei de arRanhccer, chegarão a^ 
hum forte chafiiado do CalTa?io,que os Holandezcf guar- 
necisÔ com 70 joldadoí , e oito peçs* de ertilhai ia. Con* 
íervaraÕ o fileiício até que conleguiiaõ matar liama íenti- 
neila ) que com repetidas vozçj acordou ao* Hoiaodezesi 
mas acodiraõ a ífR)po que o Forte eííava entrado peio 
meímo lugar , em que a íentinella perdeo a vida. inten- 
tarão elles em vaõ a teíiftencia : porque a razaõ , e o vai 
lor dos noííos íoldado* Ihei facilitava hum triumfo cm c i- 
da golpe. Degolarão todos os Holandezes que guar neciao 
o Forte , e fabendo diítinguir a razaÕ do aggravo entre os 
m^íyores Ímpetos da cólera , perdoarão â alguot Fíance^ 
zci. Ganhando o Forte, paflou António iMonizíem dila- 
ção à Ilha , por naõ haver na terra firme outra oppofiçaó, 
intentando confeguir a vidoria nodefcuido doí Holande: 
zes : porém na5 logrou efte acertado difcurlo ; porque 
hum negro que fugio da terra firme , de tudo o que nel- 
Je havia acontecido deu aviío na Cidade. Preveni. íe o 
Governador , e paíTaraÕ^íe os maii dos Pottuguezes , a 
que chegou cila noticia , a f e incorporarem com 30 que 
António Moniz havia mandado diante. Huns , e outros 
degolarão 40 íoldados Holandezes» que fahiraôda Cidar 
de a defcobrir a campanha. O dia íeguinte chegou Anio- 
nio Moniz a íe incorporar com os Portuguezes da WhQt e 
marchando para a Cidade , ie encontrou com hura Cíipi« 
taõ Elcocez chamado Sandaiim , que vinha por Cabo de 
1 20 Holandezes a reconhecer o (cu intento. Tanto que 
huns , e outros íeavjftáraó , refoluísmente le inveíliraõ: 
porém naõ valendo ao Eícocez o v^lor com que pelejou 
foy derrotado naõ efcapando mais qut cinco Holandf zei. 
Logrou António Mcniz nefte fucceíTo , na6 foconfcguil- 
lo fem pender mais que dous íoldados » mas ganhou nel- 
le armas para os que conduzia , de que tinha grande falta; , 
Animado do favor da íbrtuna íe rcíolveo a fitisr a Cidade 
com pouca gente, falto de pólvora , e infi:rumentos. 
Chegou a ella , iganhou logo alguns poftos , e fortificou» 
íe nelíef , querendo ter os Holandezes opprimidos , quaní . 
do naõ pudeíle couquiílallot: fizeraò eliei algumas for; 

tidas- 



PARIE I. LIVRO VI. 41J 

tidas, e detodai íe recolherão com grande p^rda. Con- 
tinuou o fitio, e cjnio 03 mayores íucceffo» dslle fe con- Anno 
ieguiraõ com areítauraqao da Cidade no anno de 1645, jí{ai 
daremos e-n feu lugar eita noticia, por naô íahirmoi da "4^* 
ordem da historia. No Reino de Angola fe paíTou eíte an- 
no com grande opjjreifao, cOaíervanda'fe Pedro Ge fac 
nos Lugares apontadoi , fem fe offerecer occafiaó digna 
de referir. £m S.TíiOdiié guarnecerão 01 HoUaadszes fó 
at fortiíicaçóej , e deixarão livrei aos moradore 1 a Cida« 
de , e mais Lugares , que de antes occupava5 , obrigando* 
os a que llie pagaílem a contribuição que coílumavao dat 
a Portugal. ElRey teado noticia do que fuccedia em S; 
Thomé, mandou por Governador daquella Ilha a Lou- 
renço Pires de Távora com ordem , que ufaíTe do tempo 
conforme as occafioens que lhe offerecede a fortuna. Che- 
gou elle a S. Thomé , e fem contradição tomou poíTe do 
governo , e fe foy dií pondo para confeguir o que ElRey _ 
lhe ordenava. Parta ios alguns annos veyo a correfponder 
felizmente o fucceíloao intento. 

Continuou no Eftado da índia a guerra com os succefõs]ãã 
Hollandezes na mefma forma que a deixamos o anno ^"^'^. 
antecf^dente , naÕ podendo prevalefcer as diligencias que 
o Vifo*Rey fazia por effeitnara Tregoa , e osrequert- 
ment js , e proteftos , que por repetidas vezes mandou 
fazer ao General da Armada , que affiftia na Barra de Goa, 
de que corriaó por fua conta todas as perdas , e damnos ; 
que de guerra taô injufta fobrevieíle. Porem os Hollan- 
dezes , idolatras do intereíTe, naõ attendiaõ mais que ao 
fim pertendiJo, de ficarem tenhores da índia neíla occa- 
fiâ6 , em queconfideravaô , por todas as circunílancias , 
as noflas forças mais debilitadas. Teve noticia o Vifo* 
Rey de que em Ceilão intentavaõ fuiar Columbo , e que 
ao mefmo tem 10. determinavao ganhar S.Thomé', e Ja- 
fanapatao , e que para eíle eíFeito haviaó fahido de Bat* 
tavia féis navios de guerra a fe incorporar com outros 
quatro , que fe feparavaô da Armada , quâ eftava íobra 
a barra de G ja. O Vifo-Rey embaraçado com ta6 diííe- 
rentes, evigoroíos cuidados, naõ le achando com poder 
para mandar íoccorro ao meímo tempo a todos os Lugares 

Ce 1 que 



1042. 



414 POKTUGÀL ■KESTÀUB.JDO, 

que 08 Holandezei ameaçarão , ordenou a Domingoi 
AnnO Ferreira Belliágo , que era CapitaÕ mòr da Armada do 
Cabo de Comorim , que feguiííe oi qustro navios Holan. 
dezes , que haviaÕ íahido de Goa , coíleando ate Cochirui 
e que naô achando naquelle Reino noticia do intento dos 
Holandezci , chegaíTe ao Cabo de Comorim , e a rodo o 
rifco íoccorreGe a Praça que ellei ententaflem invadir. 
E porque a Arnriada de Domingos Ferreira naõera muito 
poderoía i ordenou o ViíoRey a D. Álvaro de Attaide , 
que com nove navios fe encorporafle com elie , e íeguií- 
íe a fua ordem, Netle tempo appareceraõ nos mares de 
Ceilaõ doze navios Holandezcs , e intentando Jinçar em 
Negumbo gente em terra , deívancceo a fua refoluçaõ o 
▼alor com que os do prefidio fe deliberarão ádefenía da 
Praça , c fizeraõíe na volta deCalature, moítrando que 
feguiaõ o intento de atacar Jafanapatâõ. D. Filipp - Maf- 
carenhas íccodio promptamente a íoccorrer Jafanapataó; 
mandoulhe artilharia , e muniçoens ,e defpedio hutn na- 
vio , e oito galeotas a fe incorporarem co n Domingos 
Ferreira j e juntamente paíTou o dem a Francifco d? Sei- 
xas, que com 40Q honsnj m 'chaíTe piraaquella parte. 
O meímo receyo c^m que neíle tempo pífl ovamos dof 
Holandezcs , tinhaô elles de que intent.ífferao recuperar 
a Fortatâza de Gale. Para fe íegurarem dell:^ ufp-iita , 
mandarão alguns navio, que continuamente ãífiitiílím na 
boca da birra , por fer o -taque pela parte do vjr , o que 
avaliavâô por mais perigofo : porque a coiduc 5 da arti- 
lharia portárra era muito difíicultofa. Vendo D. Filippe 
as diffículdídís de ganhar Gà!a -for força, dete minou 
conqulílalla por acedio : porque tirad?? ai com.fnodida- 
des da cinnpanha , poderia conleguirís largírem os Ro- 
landezes a Fortalezs. Porem como pela pnte do mai ef- 
tâv-íõ livres os foccorros , parecia in.fruduofo efte em- 
penho , de que poderá tirallo a ordem do Vifo Rey , que 
chegou a fete de Outubro, de eftarem ajuftadai as tre- 
goas com os Holandfzes entre ElRey, eo3 Eítadospor 
dez annos » na forma . e com as condií^oens que fica ref«* 
rido : mas naõ pode confeguír » que o Governador ói For- 
taleza de Gale JoaÔ Mattheus quizçfle íujcitarfe a eíla 

noti - 



PARTE 1. LlVR.0 VI. ^ty 

íiotícia ; que lha mandou fazer pfefente por Loiiretiço ^ 

Pereira de Brito i ufando da roefma cjutela, de que fe AntlÒ 
Vâ.'éraôo>queeftava5na barradeGoat reípondeo, que t/C^^i 
Um ordem do íeu General , que aííiftía em Báttavía , que *^4*4| 
era naquelle tempo António Wandamien, na5 podia ai- 
terar o eftado da guerra , e fc refolvia a continualla. Com 
elta repofta , e íem outro effeiío feguiraõ o meímo eftú 
lo Os negócios da índia até o íitii deite anno que acabamos 
de efcrevcr. Saliiraô nefte tempo da barra de Lisboa pa-; 
ra íoccorro da índia os Galeoens S. Bento, de que era 
Capitão mòr D, JoaÕ da Gamma , e N. Senhora de Penha ^^^^ autpaffai 
de França , que governiYa JoaÕ da Gofta , os Patachos r49*/»<^w. ' 
N. Senhora do Roíario, eN. S-nhora da Oliveira , go- 
vernados por António Cabíal , e Pedro de Oliveira. S» 
Bento pcrdeo'fe em Moçambique, íaIvou*íe parte da 
gçnte;eoCapitíÕmòr, quefallcceoem terra dentro de 
pouco. dias. Deftas, e de outras defgraças fuccedidas na 
viagem , e guerra da Inàia íe originou a opinião , de que 
feria fácil fabricarfe huraa calçada de oíTos , que chegaffe 
de Portugal à Goa , em que íe contaô mais de 5'^oo Ie« 
guas de diílancia , fe le dera caio que fe pudeílem ajun- 
tar os corpos dos Po:í«!guezes mortos neíla arrojada , e 
glorioía conquifta. Por^m os ânimos grandes naõ coíla- 
íHiiÕ delviarfe de eraprezas difficultoías ; antes fe incitaõ 
fnsis quando as confideraó menos faíliveis ; tendo por 
certo o triunfo ou na execução , ou ao menos no \n» 
tento. 

Emrou o anno de 164^» e tanto que ceíTou o ri- ^nno 
gor do Inverno , tornou a travarfe o exercício da guerra . 
em todas as Províncias de Portugal. O Conde de Óbidos , 1^43. 
que governava Alemtejo , paílou s Lisboa com licença 
delRey a recebcrCe com Dona Joanna Mâícarenhas filha suaejjos d* 
de feu irmaõ o Conde de Santa Cruz ; ficou governando ^^em^io, : 
a Proviscia o Meílre de Campo General Joanne Mendes 
de Vafconce'Joí. Foy o primeiro bom íuccefio do feu go- 
verno mandar a Villar delRey o Co''onel Til cora o Re- 
gimento de Hollandezes que governava * a que fe unirão 
as Tropas de C^mpo Mayor. Mtrchàraõ todos de noite l _ r...r,.f r;; 
ao amanhecer lançarão 40 Cavallos a peg^r no gado que ^ig.rtta ?o caji 
Tom. I. Ce iii íahia uihams. 



416 POmVGAL RES7JURADO , 

íahia da Villa ; fahio delia huma Compaí:hia de Cavallos 
AnnO com cincocnta Infantes, e empcnhaiaô-íe com tanta im- 
X prudência » que todos foraõ derrolados, eo- mais dellcb ri« 

L *^4j • cáraô mortos. KetiráraÕ'íe as noflas 1 ropas fera oppoliçaõ 
da CavalJaria de Badajoz : porque havia marchado a aoi- 
te antecedente para Valverde, acoaindo a hum rebate que 
a eJRe fim te lhe deu de Oiivença» Paliados poucos dia> 
juntou joanne Mendes Iciícentos Cavallos, ecntregou'Os 
a D.Kodrigo de Caftro , 7 enentc General da Cavailâria » 
ordenando'ihc , que ante^ de amanhecei fe cmboícaffe na 
ribeira de iUearrachc , deita parte de Guadiana, vifinha 
a Badajoz; Joanne Mendes com dous mil infantes fez '' 
alto nas vinhas das Caldeiras, que ficaõ juntoaCaya, por 
onde eíte rio entra cm Guadiana, íira o fim derrotar as 
Tropas de Bad^joz,que coítumavao vir à forragem áqucl- 
le fitio. Na5 íuccedeo fahirem no dia que as eípcravaõ 
por pafiarem moOra. Defenganado D. Rodrigo , mandou 
quarenta Cavallos quecarregsílera ss íentinelas até a pon • 
te Que remata na porta de Badajoz , que olha pr. Portu- 
gal. Aííim o executarão , íahiraõ da Cidade duzentos Ca- 
Yallos, vieraõ carregando os quarenta que com bo;i fortu- 
na Os meterão na emboícada , íe í>.r».odrigo íen^õ antic!» 
pára a íair deíla, ds que reíuliou letirárem-íe os Csíleiha- 
Jios fem damno confídsísvel. Sentio Joanne Mendes tin- 
to eíla defordem , que mandau prender D.Rodrigo : nías 
durou"lhe o csítigo poucos dias. Joanne M-jí d^s, defej ^rt^ 
do fazer gloriofos os princípios do íeu governo , m3nc!ou 
Rompe o Com- 20 CommiíTario Gera! Gsípar Pinto Peftana , que foíTe- 
mjfatJoGa(par armar âi duas Tropas que eftâvaô no Almendral j Villa 
pimo ham^ cjnco leguas de OUvenca» Derrotou o CommiíTsrio humâs- 
-''^^' das Tropas , matando o Capitão delia , eretirou-íe co.oi 

brevidade , receando as muitas Tropas do inimigo, que 
eftívsô alojadas em vários quarteii vifmhos ao Almen- 
dra! , cachoa, fegurando-lhe o porto da ribeira de Olí- 
Tença, ao Meftre de Campo André de Albuquerque, qne 
de Capitão de Infsataria havia paíTado a eíte pofto pg. 
lo grande valor > e capacidade que moftrava. D. JoaÕ- 
de Garay , em fatisfpçaõ deftas entrada , i; ntou a Ca- 
valiatia , parte da Infantaria da^ Pragas tilinha', ecor- 

rea 



PARTE I. LIYRO VI. 417 

feo 3 cimpsnha ds Santa Olaya , duas léguas de E-vai , 
com grande prejuízo dcs lavradores. Naõ foy poífivel a AnilO 
Joanne Mendel impedir eíla entrada pela defigualdade 
do podet.-buícoua íati:façaõ tornando a unir aCavalla- •^"43» 
ria , marchou com ella Dr Rodrigo de Callro a armar ás 
Tropas de Albuquerque , íuccedeo-Jhe taõ felizmente 
que ai derrotou, tomandoihe 8o Cavallos.Sentio D.Joaõ denota d, nei 
de Garày igu.^Jmente elle lucceíTo ao que experimenta- ^^iío^eCajh» 
▼a dele lhe paliarem de 6 jo Napolitanos, que haviaô '^MlmíTrat. 
chegado moniadoj a Bidajoz, a mayor parte a Portugal : 2 3 f 
quiz evitar e lie damno , efpalhando , que tanto que che* 
gavaõ ái noflas Praças lhes tiravaô as vidas. Desbaratou 
Joame Mendei elta induftria , mandando aoj que fe paf* 
íavaõ qutíefcreveíTem vários papeis, nos quaes declarai 
íem o bom tratamento que recebisõ. Foraõ lançidoiem 
Badajoz , e cm outros iugares de Gaílella , de que refuU 
tou continuarem os Napolitanos de forte em íe paíTa* Paffaífe tnuítet^ 
rem pira efte Reino, que foy neceííario á D. JoaÕ de NapoUtamsa , 
Cirsy deímontar ?i mayor parte delles reeílimulado def- 'fi'^^^^^- 
ta» , e de outras defordent que experimentava ; íem po. 
der remedialas , pedio licença a ElRey para ir a Madrid. 
PermittTolha , e fuccedeolhe D. Diogo de Benavidei, que k^-''"^/* ^*^^'^ 
com o titulo de Meftre de Campo General ficou gover- ll^Garayfsut 
nando o exercito. Tanto que chegou a Badajoz , reco- cedeihe d. dL 
rhccendo todos os fitios vifinhos daquella Praça , pare- so deBemvides 
cendolhe importante o lugâT de Telena o mandou guar- 
necer de Infantaria, elevantarlhe huma trincheira. Te- G4«ã<i joanae 
ve Joanne Mendel ellta noticia, e determinou livrarfe ^^^^J/í^rXÍ' 
defte embaraço : juntou mil Cavalioi, e 3000 Infantes ^'^"'^ "''' '""^ 
paflou Guídiana , entrou o lugar facilmente arrazou o , e 
poz*lhe o fogo , edeixou-o incapsz de íe guarnecer {(^m 
nova fortificação. D. Diogo de Benavides achando-íe 
com inferior poder , naõ quiz arrojarfe ao empenho dif- 
íicii de fe oppor a efte intento, e Joanne Mendes fe re- 
tirou a Elvas. Poucoí dias depois deite íucceíTo, tsve 
avifo que os Caílelhanos mandavaõ duísTropas fegurar 
o g3do que paítava entre Xevora , e Guadiaaa. Ao naf- 
cente defronte de Bsdajoz entra em Gaadiaog Xevora; e 
porque de Inverno corre impetuofo, tem huma ponte 

Ce iv bem 



"4i8 PORTUGAL RESfJVRADO, 

bem fíbíicada , mcya légua defta Cidade. Matchju Dom 
Alino Rodrigo de Caftro de Gsiftpo Mayar i e o Medre de 
^^ Campo Ayres de Saldanha i e unindo íelhe as Tropas di 

* "4 J • Elvas, ajuntarão quinhentos Cavallos i e íeis Companhias 
de Infantaria : paliou D.Rodúgo com a Cavallârià o jtiais 
perto da ponte que lhe fuy pofiivei , para dir calor ao 
Coronel Til , que com o ícu Reg mento de HoIIaadcae^ 
íe havia adiantado a hum vale escubeito do Foi te de Saô 
Chtiítovaô , e Ayres de Saldanha ficou íegurando hum 
porto de Jfevora. Sahiraõ pela manhãa trinta Cavallos 
de Badajoz , a que daraõ calor as duas Tropas deílinadas 
para comboy do gado í avançarão os HoUandezes , toma» 
raõ quinze Cavallos , os mais fe retirarão para as duas 
Tropas , e todos á ponte de Badajoz. Montou ao rebate 
a Cavai laria daquclla Praça , e fahio delia governada pc- 
lo Commiílario Geral D.Joaõ Baptiíla Filo Marino; car. 
regou clle com tacto ímpeto oj HolIandez«s, que osobri S 
gou a fe retirarem. Soccoreo os D. Rodrigo, e íizeraõ ] 
alto os Caílcíhanos : travou-íe huma bem contendida ef. ' 
caramuça , esforçáraõíe os foccorros dehuma, e outra 
parte ; ultimamente avançou D. Roddgo com toda • as 
'£fca}Jm»faem '^^op^s i cederaõ osCaiteUianhos , e rétiráraõ-feao Forte 
jBÃdajoz,emq de S.Chriílovaõ, e deixando morto o CommiíTario Geral, 
/òy prezo Dom itváraõ prifioneíto a I). Francifco de Almada, porque f : 
S^^'^^"'"^'^^' ^^^ deíenfrtíou o cavallo , e íem poderem foccorrello , i: 
^ ' meteo enire os Caílelhano?. MandáraÕ'no para Madrid » 

e trocáraõno depois pelo Marquez de la Puebla: vi/e 
hoje Rcligiofo da Companhia de JESUS com grande ex- 
emplo, e letras. Retiroufe D.Rodrigo \ e ficáraõde hiía> 
e outra parte âlguQs mortos na campanha. Os Caftelhia- 
tetrrotaiosca' jjq^ q ^jg ícguintc dctTOtársõ 03 cawpanhade Elvas jun- 
jrcpTdlmvZ ^^ 2 Atalaya de Uveda a cos^paohia de Cavalioí de An- 
■ tonio do Canto de Cafíro , naõ fe «chando ellc prefente, 
Eftavaõ os Cavallos defmoniados , e naÕ haviaõ as ien- 
tinellas occupado os poíta'; conrenientes ; íalváraó-fs fó 
^ alguns foldados que íe recolherão á Atalaya. Tomou 
^ZILhTl Joaô de Saldanha àa, Gama fattsfaçaõ defta oífenfa : fahio 

(le Saldanha em \ ^ -k» rr-^ o> i it 

jLibuqmrque de Campo Mayor com as Tiopas , e 1 etços daquellt 
4Q0 i»/««/ií. guami^aoje d^r^oio^ çmj(^lbuquerque duzemus Iníante^» 

que 



pJMB I. livro ri. 41? 

que com pouca cautela achou íóia da Praça ; perdcrsó 
a vida c^ roaks dos íoldcdos, e trouxe cs Oíiiciaesprilio- Anno 
neiros Lm quanto em Alemtcjo íuccediaõ tites breves -,/-, 
encoetros » e outícs de njenoí importância , preparava ^^j' 
filRey o exercito , que no Outono feguinte determinava 
que laíiííle em campanha. Os annos antecedentes fc ti- 
nha ventilado efta matéria , e KlRey havia prudentemen- 
te dilatado a execuç Ô , cuníiderando as poucas forçai do 
Keino , arruinado do governo de CafteJla ♦ e a pouca ex* 
petiencia dos foldiído, . Porém tendo ia qu^íi tre annos 
deexeicicio , e havetídcfe augmenisdo as fortiíicsçoens, 
c ícbic tudo querendo fatisfazer ás inftancia: delRey dí 
França i que dcídjava divettif o poder dos Caftelhanos d j 
-Caia.unhi, ídido eita guerja hum d s Bl*yi>íe. funda» 
mentc^s da confeívaqaó de Portugal i por eft s , e outras 
razo ns muito confideraveis , teíolveo ElRey qu2 o ex», 
crcito íahifie em campanha» e juntamente síriítir em Evo» 
ia odo o tsmpu qu2 duraffe . aíTim para que tod>^ í«us 
Vafiallos accodiíicm ao exercito ^ como para qur ni6 fal* 
taíkm neiic os loccorroc., e provímeatos , e a Pv. ças 
da Provincia eítivtllera feí;uías de qualquer diverf ó > Refoive ElRey 
c,ue os Gâítiílhaaoj intentaííem Tomada elta refoluçaõ , ^<ar 4 AUm-^, 
c ajudadas todas as prevercoens , declarou ElRuy que a ^'^'^ ' ^ ?'^- f 
Ramha D.LUiza ficava em Lí.^bos governando em íii^ «u- j ^J^,/^^ 
lencis , e nomeou p.-iií \ht aniílirem no governo a D.Mâ« 
■noel da Cunha Biípo Capçllaó mór , a Sebaíliaô Ceíar ds 
Menezes» e ao Marquez de Ferreira. A 19 de Julho à 
tarde montou ElPvey a cavalio , adornado , e os que o 
acompaníisvaõ , de ga)'as niiiita?es ; foy é Sé a benzer a 
Eílcnd^rte » que entregou a D, Francifco Coutinho Con- 
de de Rerlondo ícu Alferes çtjòr : íem voltar ao Paç*;» en« 
tiou en. tum bergatítim , e pafiou a Aldeã Galega , doa* 
òe pariio o dia feguifite, e avifou a Évora que havia de 
entrar de noite naquell* Cidade; en^ô b/ifícu eíla pre- 
venção para deter o povo que fabio a efper&Uo com tanta 
ftlegria» que anrucciava o hora lucceíío da câíTipanha, |^'/^^^^^'^ *«* 
Eílavaõ prevenidas para ElRcy zs caías do Conde de Ba» 
ilo , onde eílevc ate ^o do rrcímo mez , dia tn. que en- 
trou Dâ Cidade puLlicatttr.tç cc.br grar.(^c íppíraio , 9 



410 POR.TÍ7G.4L KE?iTAUKADO, 

magai5:aí f^ílii- A 7 de Agiílo paffou ElRey ancubsr- 
Anno to a Lisbaa a ver a Rainha , qus havia cieixado em veO 
16 Al PS"2S do parto » de que nafceo o Infante D. Affbnío, qti2 
T"^* dcpoií fuccsdeo no Reino : pofèm vendo que a dilação 
era mayor do qua fuppunhs , tornou a voltar psra Évo- 
ra , e cofíi toda a attençiõ foy difpondo as prevençóer.s 
que fsitavaõ para fahir o Exercito no mez de Setembro 
fegu Pui dm Campanha, tempo em que o Sol vay perden- 
do a f ça incontraítivel do veràõ aa Píovincia de Alern;- 
Sabeo Exercito tejo. H fvendo chegado a Elvas as levas de Gavallaria , e 
em campanha. Infântifia, 6 todas as carruagens , fahio o Exercito da^ 
quelia Cidade a féis de Setembro , governado p^lo Con- 
de de Obidoj ; era feu Mííílre de Gampo General Josn- 
ne Mendss de Vafconcellos , General da Gavallaria o 
Monteiro mòr , da Artilharia Dom Joaõ daGofta, po- 
ílo a que pouco antes havia paílado. Conftava o Exerci- 
to de doze mil Infantes , dois milCavallos, dez peças 
de artilharia de Campanha , dois morteiros, e variot 
inftrumentos de expugnsç^ô , efmaltava-fe com a ma- 
yor parte da Nobreza do Reino , que fe dividio pelas 
Tropas, e Terços de Infantaria» tendo hum dos pri- 
meiros que íentáraô pr^ça M^thiss de Albuquerque, 
que ex jrcitava o Offi:io de Soldado , como fe naó hou- 
vera governado pouco tempo antes aqusjle Exercito, A 
Gavallaria fe compunha de quatorze Companhias Portu- 
guezâs , e de cinco Ri-gimentos , três Hollandezas , e 
doisFrancezes. António de Saldanha Capitão rnór daTor- 
re de Bslèm ficou em Elvas com dois mil Infantes da 
guarniçíõ, entregue do governo da Província: Sahío o 
Exercito de Elvas ás duas horas da tarde, e ficou alojada 
deíl^í parte do Guadiana i o dia feguinte paflou a ponte 
de Olivença, onde fe incorporarão alguns Terços, e 
Tropas que faltavao , e fez alto nas hortai de Olivença, 
Praça que ficou governando D. Gafta5 Coutinho. Ama* 
nheeeo, e paíTou o Exercito a Ribeira d^ Valverde, e en- 
trou pela Extramadura . havendo 170 annos contados 
desde o tempo d^ElRey D. Aiíbnío V.que na5 havia entra- 
do em Gjílella Exercito de Portuc;al, aquartelou*íe pouco 
diílants de Valverde , Praça deftinada para fer o primei- 
ro 



PMTÊ I. LIVRO VI. 4n 

ro emprego dcíla cânipanha. Era Gí^vcriadiT ce Vi^Ivsr- 
de joiô B^^ tiíta Pinha Tello Napolitsnc cem i lo ínL n* Aimo 
tcís pago^ Heipanhoes , e Italianos , e 8a C^vaiios divL* ^ 
didosem du«s 1 ropas : a forcificdiçaô naõ hsvia melhora* ^^45» 
do muito , depois que eíta Villa a primeira vez foy en- 
trada i e as muitas paredes das hortas, e pomares que a 
rodeavaõ , davaõ grande commcdid^de à Infantaria para 
chegar às triricheira; : os moradores que eítâviõ dentro 
eraó poucos i havendo íahido a mayor parte deiles para os 
Jugares do íertaõ , por ordem do Conde de Santo Elbe- 
vaõ ', que h»via chegado a Badajoz a governai a.s Ara as 
da iiia«madura , com pouca lati.faç^õ á^s Ciftelhanos , 
pela pouca pratica que h^vi.í ccnieguido aa Arte Militar. 
Ka roanhaá de lo deietcmbiu chegju ocX-Mcit a V^lver^ 
de , e havendo o Meíbe de Campo Genef; 1 reconhecido 
01 poltos, mandou avarçar 500 Infantes goverov do, pí,»súicàeValver' 
los Sargentos ttóres Btnto Maciel, e i^ntcnJo Gaiio j'^** 
cem o tira de ganhar huma tf: inércia viíinha á Preç^: oc- 
cupáraõ'na , dcíprezaijdo a^ rruiias balas que os Csííe- 
lhanos atiravaô das ttuclieiras O exercito le dividio em 
dous quaitei: : íiccu o Conde de Óbidos alojado junto a 
eíta eminência, a que dav:^ nome hufí a hermida de S^ 
Pedro , que riclla havia , e o jMeO.re de Círopo General 
na parte oppcfta. Repíitirgô-íe o^ Terqcs, efaciíiT en- 
te forao chegando , cobriiido*í;r com o^ vi>l lados da- li- 
nhas ♦ ás trincheiras da Pia^^a as mangas de Moíqueteà* 
íos. .Oefendiaõ"ie deiií> us Caílclhános com repetidas 
cargas. Joaõ de Saldanha de Soula ( que havia fucce- 
dido no Terço a D. joaõ da Coita , depois de oceupar 0= 
pofio de Tenente Geceral da Cftv&liaria da B-ira ; ^yres 
àe Saldanha, e Eftacio Piqué ganháííiÔ humas ruira quiíi 
iguaesás trincheiras j donde o inimigo recíbia cocíidera- 
vel darrjno. Dom joaõ da Coftâ fez jugsr a artilharia das 
duas eminercias de S. Pedto, e Mariyrescom pouco ef- 
feito; e por efía cauía mandou a Olivença buíca- c<íls 
meycs canhoens. Em quanto naõ thegavi'õ , n oleílava 
a Praça com os morteiros , fazendo nella as bonb?s dam- 
no conhderavel. O Conde de Óbidos, anteí que íc paf» 
íaíle a mayor empenhç 1 n.únuuu hum trombeta a per» 

íu«die: 



411 POKtVGÁL RESTAURADO, 

ftiadir ao Governador que fe rendeíTe. Refponáeo e le 
Anuo com arroganeia , moílrândo defprezar o perigo , íiado na 
^ promeiTâ que o Conde de Santo Eilev*ô lhe havia feito 

T"/' de o foccorrer. Ayres de Saldanha , das ruínas onie aífi- 
fti:í, d.u priucipio ahumaproche, ern quetrabílha?aõ 
igualnieníe com os ^oIdado.^ as pelToas mai5 principaes, 
que and.vaõ no Exercito. O Conde de S. Eftevaô inten- 
tou co.n mil Cavallos , e cento e cincoenta Infante^ ia? 
troduiir foccorro em Valverde pela parte de Albufeira , 
^* díílaate duas leguis deita Vt^qr. porem retiíou'fe ante.^ d.? 
chifgar ao Exercito, parecendo*lhe pouco o poder que le« 
▼avj para o de bâratar , e que a Paca naõ neceíEtava de 
guarnição » ficando por eíle r^í peito iníempeftivo o cruji 
penho a que íe deliberava. Retirou fc para Badajoz , e in« 
troduzio em Valverde hum S<írgcnto com avifo ao Go* 
ve^nad )r ) que elle, para fe juftiíic^r, fi^z publico quando 
rendeo a Viila) em que Jhe ordenava que pelejdlTe em 
qu. ntu lhe f-fle poíTivel , fí;m efperar íoccorro , porque 
elle fe achava fem forqaspjra tomar efte empenho; c que 
eftimaria intinito, que os Portuguezes quei naííem toda a 
Eftremadura , para ver fe criaõ os Miuiftros de Madrid i 
que havia Rcy em Portugal, e quetiaha Exercito em Ca-' 
ftella.Gom eíle def engano vendo o Governador que a ar» 
tilhâtia groíía conieçâva ajugar, e que a Infantaria, ha- 
vendo chegado ás trincheiras, fe dífpunha para dar o affal- 
to, paílados trei dias rendeo a Praça , declarando que ca- 
TiiHdefiaPra' .^y^^^^ como Conde dí Óbidos Governador das Armas 
^'^ do Exercito delRey de Portugal Titulo, que fó a artilha- 

ria , que contavaõ por ultima razaô dos Reys, obrigava 
aos C «ftelhanos naqualle tempo a proferir. Eraô as coa- 
diçocn^, que a guarnição fahiria formsia , fegurando- 
fe'lhe toda a commodidjde para paíTar a Aya'monte ,^ lu- 
gar de Andaluzia, aonde naõ poderia entrar fenaõ em 
principio de Novembro , por le evitar a alfifteacia daquelr 
la gente na campanha daqueUe anno. A mayor parte del- 
ia 'ficou em Portugal por fua vontade , principalmente a 
Napolitana. Ta*?to que fahio a guarniviaô, entrou o Exer- 
cito em Valyerd; , e depoi> de retirada a artilharia, as 
muaiçoáas, c b«ílimento> , e de íahire.n o^ moradorcss 

pa- 



FAKTE J. LIVRO VI. 425 

para Oi Uigares viíinhos , íe poz fogo á Vil^^ , relet van* 
do-íe a Igrejí. toy de grande utilidade eita einpreTa : AnnO 
porque Valverde era continua moleltia de Olivença, e jf.ii 
doi maii lugares vifinho* \ e entrando o exercito a cam- 't'^' 

pear com bom luccsilo , lograva'fe o fim para que fora 
formado , que era a reputíçaõ das Am ai, e a diverfaõ . 
de Catalunha , fufpendendo o» foccorroi daquella parte 
o cuiaado deita. Cinco dias íe deteve o Exercito cm VaN 
' irerdc , aguardando a Cavaliaria , e Infantaria , que havia 
marchado com os rendidos a kftremoz. Neíle tempo che- 
gou avizo au Conde de Óbidos , de que o Conde de San- 
to hfííiva5 fahiía de Badajoz para Merida com a mayor 
parte da Cavaliaria , e Infantíiia , e que em Bâdíijoz ha- 
via ficado o Conde de lorrejon Meftre de Campo Gene- 
ral toífi muito pcuca guarnição, Ch;imou o Conde de 
ObidoJ a ContcUio , e propoz efta noticia, moftrando af- 
feiçoar*íe a cmpreza de Badajoz, Naõ achou contradição 
noi que votáraó , nem fez reparo no pouco numero de 
gente , e na falta de artilharia groílâ , e de outras pre- 
vençoens^ que íem contradição eraõ voto contrario, 
paliando juntamente pelo efcrupu^o da ob ig çaS de avi- 
zar EIRey ettando taõ vifinho , naõ ps^ecendo jufto to- 
ma^ eíla reío!uç3c íem íeu coníentimeito, porque a am- 
bição de gloria lhe facilitou todos os inc nvenisntef. 
CoiH o int-nio propolto marchou a Ev^rcito para Bada- 
joz , e Hi íegunda marcha alojou junto das ruinas de Te- 
lena , es iegoa queefte Lugar diíta d; Badajoz marchou 
fcm mudar forma. As f goas do Guadiana , que banh"!^ 
as muralhas de Badajoz, lerviao de trincheira solado 
eíquc;rdo , cobrio o direito todo o Corpo da C avalia- ia -^ 
marchaví de vanguarda o MeílredcCa-Tpo Msrtim Fer- 
reira» fcldsdo de conhecido valor i com tre? Companhiaj 
de cada Terço. Chegou o Exercito à viíta de Badajoz, cht^aoExercU 
( fituaçaõ que defcreveremos cti lug^^r míii corr.peten- íoa:Bada]oz.. 
te, porque as poucas occ. fioens que houve reíla em- 
preza naõ pedem a explicsçaõ dos fitios ) o inimigo 
Jançou fera algumas Tropas , que fuílentár-iõ dt baixo á% 
moíquet líiíí da F^aça huma leve eícsrsmufB. Giiarrfce- 
raõ os CaítelhaBOâ huns moinhos • ç^ue eítavtõ eir Gua- 
diana 



154 í. 



424 PORTUGAL RESIAURADq, 

diana viunhos da muralha : inveftio*os o Sargento mor 
Anuo Belchior do Crato com trezentos Infantes , e defalojou 
as mangas que os guarneciaõ favorecidas da artilharia , 
e raoíquetaria da muralha, e fuftentou valerofaraente 
efte poíto , até que por fer inútil à empreza , o manda- 
rão retirar. Martim Ferreira havia ganhado huns valia- 
dos , queficávao na frente do Exercito , e guarneceo-os 
a pezar da oppaíiçaó , que íizeraó algumas mangas de 
mofqueteiros , que os Galtelhanos lançarão da Praça : 
porém repetindo*íe o empenho do inimigo , e conhecen- 
do a pouca importância do poíto, mandou o Conde de 
Óbidos retirar Martim Ferreira, cuílando aempreza a 
vida do Capitão Manoel Serraõ, e de alguns íoldadoR. 
O Exercito ècou alojado com a frente em Badajoz , a re- 
taguarda para a patte de Telena , Guadiana cobria o lar 
do efquerdo , o direito os carros de muniçoens , e baga- 
gens , guarnecidos de mangas de jwofqueteiros , a Cavai 
laria no centro , a artilharia na vanguarda , e todo oex» 
ercito coberto de oliveiras , que guarneciaó aquelle fitio. 
B porque a artilharia da Praça oíFendia muito os íolda- 
dos , fe começou a levantar na frente do exercito huma 
trincheira : remédio ta5 arrifcado para os que a fabricá- 
va6 , co-iio inútil para o exercito. E efta experiência fo- 
ra juílo que eafiaiíle , antej de creícer o damao » ou a 
fe tomar tefoluçaô de atacar , fe o poder era capaz da 
empreza : ou a defviar o exercito do perigo da artilha- 
ria , em quaato fe nao deliberava applicallo a outro em- 
prego : porque nenhum prejuízo he mayor para 01 ex« 
ercitoi , que verem os Toldados acabar inutiliaeate oi 
que morrem por erro dos que governa5 , coftumando 
fazer nefle cafo duas inferências : a primeira, a iníuf- 
ficiencia doi Caboi 5 a fegunda , a difficuldade dos pré- 
mios : entendendo que quem na6 íabe reíervarlhci ai 
vidas pari os perigos importantes , naó fabera avaliar- 
Ihes as acçoens para a fatisfaçao que merecerem , naír 
cendo de huma , e outra defconfiança muito arrrifcadai 
coníequencias. Vendo o Conde de Obidoj 01 muitoi 
íoldadoí que cuftava o trabalho da trincheira , econí- 
tando'lhe que íe murmurava da pouca utilidade de(^a 

obra , 



PM7È I. LIVRO rr. 42| 

obra , para tomar a ultima reloluçaó mandou a Joifine 
Mendei que folie icconhecer a Cidade , ordenando que Anno 
ícfizefle)Untíinicntediligenciapor tomar lingua para ave- ^ 
riguat o eíhdo tnj quá le achava a Praça d* r.uniçocas , e 43 • 

báiUrr.entoi. Ac- nipanharaò a Joanrií; IVleodes, Mathiaf 
de Albuquerque , eo Padre Joaó Paíchailo Coímander , ^'""^''/" 
Reljgioío dà CoíDp-ohia de JESUS, de naçaõ Fiameiigo, culdt! ^ 
natural de Lobai.;- inligne Mathematico , e que depois 
com o exercício das foriificaçoeni de Portugal , fe fez 
Gonfumado cDgeoheiro , gtangeandolhe a msyjt eílima. 
çaõ úutraa muitas partci que lograva. Obfervariõ os trea 
a diípoliçaó da Praça ^ porém afabilidade que acbàraô 
de atacar, pur naõ ter fortificação alguma n.-:odcrna , 
encontrou a noticia qus ouvirão ao í frades Capuchoi de 
hum Convento, que Hca fora de Badajoz, da invocação 
de S. Gibriel , oí quaeí lhe feguraraõ que o Conde de 
Santo Eílevaò havia roltido para BadajOZ , e que trou- 
xera Ci^niíigo mil Ccivallos , e 4000 infantei , numero 
muito íupperior a quêl^juer das psites em que U dividifle 
o exercito , quando le rcíolveíTe a fitiar a Praça. Eíla do- 
t- ticia íe juftiácou por variai lisguas que íe tomàrsõ , e 
logo que Joanne Mendes , e 03 mais chegarão ao exe rcito 
ciiamou o Conde de Óbidos a Confelho , e propoz o pou- 
co numero de gente de qus fe compunha o ex-: cito , o 
groilo piefidiocom que is achava em B^dijoz o Coudede 
Santo Eíte^pÕ , a dilatada ci^cunvalaç^õ daCld^de , a vi* 
finhánçaido Inverno, e outras difficuldades que totalmen- 
te encontravaõ coDtinuaifeaquellefitio. Tccou ao Mef- 
tre de Campo Joaó de Saldanha de Souía voísr primeiro 
que of qustío Cabos do exercito, Meítres de Campo, T^'^ ^'/^'** ^^ 
Tenentes Geneiaes da Cavai iaria , Títulos , e Confelhei- " ^'^ "* 
roí de Guerra , que fe achavaõ no exercito , de que fe 
compunha o Confelho , ediíTe; que clle fe naõ havia 
achsdo na primeira conferencia , em que íe tomou a rc- 
foluçaõ de vir aqueila Praça, porem que fuppunha da ca- 
pacidade das peíToas que foraõ deíle parecer , que o naõ 
feguiriâõ fem fundamentos muito foVidos de lograr a em- 
preza que intentarão ; que neíta fé, e juntamente vendo 
que o exercito íenaõ hariâ diminuído depois de cheg.ir 



416 POB.TUGAL RESTAURADO , 

áquella Praça, havendo creícído no empenho o cuidado 
Anno da reputação do exercito , naõ via caufa baftante que o 
1642. obrigíílí: a rstsráríe , antes ai p ^ucas fortidaf do iniaiigo 
^ ' infinuavaõ, que na6 era taõ groíTo o preíidio da Praça 
como :í$ liaguas díziaô ; e que íe era juito govcrnarerr/te 
psla ííja confiíTaô, também ellaiaffirnríavaõ que 0$ foccor* 
roj fe reconheciaõ impoíTiveis pelo aperto em que eltavaÔ 
os Jug^rei vifinhoi ; e que formaríe exercito de foldadaj 
Vilhoi era impoíiivel, impoííibilitando'o o grande emper 
nho àà guerra de Catalunha: e que huma , e outra no- 
ticia juíli/icava o Conde de Saato Êftev^o nareroluçaô 
que tomara de entrar em Badajoz com todo o poder que 
tinha , pois fieira fora da Praçi, fe tirera efperança de 
formar exercito com que a íoccorrer ; que oi mantimen- 
tos , e prevençoens para a defenf4 da Praça eraõ muito 
poucos, porque o< Caftelhanoi naô haviaõ imaguiado que 
o exercito tomafle a refoh çjõ de fitiala; e que por todai 
eftai coníideraçoeni era de parecer qui íe fizeíTe n dous 
quartéis que dividiíle Calamon, pequeno rio queen ra 
cm Guadia ia , e que íe mindaílí vir d ; E va« a artilharia 
groíTa , e todoj oi iuílrumemoí de expugnaçaô que foíTem 
neceíTarios , e chegando os foccorroi que efperavaõ , que 
fe podiaõ inferir o bo n f ucceílo de e^preza t*õ glorio- 
f a , e de tantas confeqiieiíciai , que merecia exporem- 
íe , pela confeguir a mayores difficuldade i e que ulti-. 
marneote quando eíla opiniaõ parecefieduvidofa, que 
ElRey eílava taÓ perto , que cm nenhum caio ícm afua 
raíoluçaõ devia abilarfe o exercito d^quelle fitio ^ poif 
hum doi úiu que obigára a EIRey a vir de Litboa affiílir 
em Évora , fora decidir aí duvidas que íe lhe coníultaf* 
fem do exército fem prejudicar a dilação i e que no cafo 
prefente ♦ ainda que EIRey naô houvcíTc paíTado a Évo- 
ra , era «"ízaô que a Liiboa fe lhe deíle conta do parecer 
do Con(*Jho , e fe efperaíle a fua ordem , poii o eípaço 
de trsi dial naõ e Jibiraçava outro qualqutr progreílo 
que íe int^ntaíle , quando o empenho em que fe achavaõ 
nao oareceile conveniente. Foy da mefna opi íiaô O.Nu- 
no MaCcarínhas , e Mathiij d- \lbuque'q u , eetfor- 
çou o fcíu voto co.n outras muitairazoeni naÕ menoi 

for-. 



PAKTE I. LIVKO VI. ^ij 

forçofai. Todoj os roais que feguiraõ contrario parecei , 
e Joanne Meniei de Valconcel los ampliando ai razoem AnnO 
de íe retirar o exercito , diíle : que bufcar empenhoi dif? t^j. j ' 
íicultofos fcm meyos proporcionados era erro indiículpa» ^^'^'i*- 
yel , que os Caítelhanos d;:fendiaÕ Badajoz como a Pra- 
^a raaii principal daquella Proviacia , e que por efte reC« ^j^^^Jl^^'^"^" 
peito íe acliayaô dentro todos os Cabos , e Officiaei , com '" '^' 
taõ grolTo prdidio que excedia a qualquer das partes do 
exercito qje intentava dividido fuiala*, que acircunvala* 
^aõ era taô larga , occupando'fe o terreno de huma , e 
outra parts do Guadiana ( como erâ piecifo para evitat 
CS loccorros ) que íe entendia mais de trei léguas , e que 
íò para guarnecer os fortins , e linhas que íe levantaílem , 
era neceíFario dobrado exercito j que íe achavaõ fero ar* 
tilharia grolTa para íuílentar as batarias que íe deviaó £a« 
zer : que a reputação naõ perigava « pois naÕ haviaô re- 
partido quartéis , nem começado aproches ; e que ÊlRey 
dotado de fumma prudência íe conformaria com as reío- 
Juç ens trais úteis a feu íírviço j e que neíle fentido o 
que o convinha era fitiar outros lugares mais fáceis de 
confeguir ♦ e de rruito grande utilidade. Approvou o 
Conde de Dbidos efte parecsr » e aíTentarao marchar conr 
tra Alconchel , Chéles , e Villa Nova dei Frcíno. To« 
mada a r^íoluçaõ referida ,deialo)Ou o Exercito de Bada- 
joz a lo de Settembro pela manhaã. Cuílou a aíTiílencia 
daquelle alojamento 1 20 íoldados , e entre elles o Capi-. 
taô de Cavallos António Machado da Franca » fentido de 
todos , por fe conhecer nelie Angular valor. Os feridos 
paflaraõ de 1 50. O Conde de Santo EítevaS vendo que 
o Exercito íe retirava , fcz fahir de Badajoz toda a guar- 
nição, efpcrando valerfe na retaguarda de alguma defor- 
dem : porém a terra era taô cortada de íanjas , e vallados , 
que guarnecendo íe de mangas de mofqueteiros , impedi- 
rão a refoluçaõ da Cavallaria : naõ confeguindo joanne 
Mendes , peio pouco exercício militar daquelle tempo, 
pequeno applauío pela diípofiçaô defta retirada. Ficou o 
Exercito alojado aquella noite em Telena , e deixou def- ^'Jlraíei exer* 
truida toda a campanha vifmha a Badajoz. O dia Ceguin- 
teí^ojoii fora do Alcornocal , que largamente occupa 
Tom. I. Dd aquelU 



ciro. 



42S POE.TUGAL KESTAVRJDO, 

' aquella campanha psra aparte de Valverde, Pafíou a alo- 

AnnO jar na ferra de Olor i e naqueila noite havendo o Conde 
j^ . j de Óbidos dcílribuido as orden» para fedar principio ao 
^^* intento propoíto , lhe chegou hum correyo com reíolu- 
çaõ delRey , para qucelle, e joanne Mcndej de Vaí- 
^iTraro^cmde^^^^^^^^^ íc fecolhellem aLiíboa, aonde íem n©va or- 
de Óbidos^ t dem naõ fahiriaõ de íuas caía.s , e que o exercito ficaíle 
!joanne Meti- entregu^c 3 Màtliias de Albuquerque. Fcy a cauía del- 
des ,e entregar j^^y dcípedir cíta oídem (ouc pudcra íer nriiitosrriícada • 
thias de Aibw * ^^^ ^^^ Vafíajlus tao ne!s , e obedieníes ) o íentimento \ 
querque. Que teve daen-preza de Badajoz : porque quando o ex- 
ercito marchou para aquella Praça , foy íem ie lhe d^r 
conta íenaô depois de íe chegar a elia, e dilTirnulando , 
efte enfado com as efperanças que fe lhe deraõ de le ga* 
nhar Badajoz, paflou apertadas ordens a todo o Reino, 
para que toda a gente capaz de tomar as armas acodiffe ao 
exercito , e ordenou todas as mais prevençoens perteng ' 
centes ao fim da empreza começada. Vendo pois que os 
nieímos que o obrigarão a efras difpofiçoens, carevol- ' 
ver todo o Reino , haviaô fem coníentimenio ítu levanr 
tado o fitio de Badajoz ^ ficando por efte íuccefio na fuá 
confideraçaÔ cxpofto a poderem avaliarfe as íuas í^cçoens 
por pouco ponderadas , e as fuás ordens por intempefti- 
V3s , íe deliberou a antepor a efte perigo todos os piais 
que podiaõ acontecer » e a dar -fatiífiçaõ ao Reino, ti- 
rando do exercito os dous Cabos mayores delle. Obede- 
cerão ellespromptamente , e deípedindofe Joanne Men- 
des de Mathiáis de Albuquerque, lembrado do íeu voto em 
Badajoz , e fufpeitando que fora arrificio para ccnfeguir 
efte íucceíTo » lhe diííe. : agora tomará V. Senhoria Bada- 
joz Mâthias de Albuquerque . que era diícreto, e pru- 
dente lhe refpondeo : Msl poder ey eu intentar cm preza » 
que V. Senhoria íendo taÕ grande Soldado naó pode con- 
l€guir. Naqueila noite íahiraõ osdou.^ do exercito, e fi* 
cou entregue a Mathias de Albuquerque com grande la- 
ti: façaõ dos foldados , de quem era fummamente amado , 
aílim pelas virtudes , que reconheciaõ nc íeu aaimo , cor 
mo pelo grande cuidado que tinha de lhes procurar to- 
^ úâ$ SjfS co^modidâdes. Eftá mudança de governo foy útil 

aos 



PARTE 1. LIVKO VI. 429 

30? Portugueze;^ moradores de Badajaz : porque o Con- 
de de Santo Eitevaõ naõ entendendo o fim que o Exerci- Anno 
to tivera para fitiar aquella Praça, e fe retirar íem ac- ,/:^, 
e?dente algum i fufpeitou que fora intelJigencia , e con- *^45« 
certo entre eiles , e os Cabos do Exercito , para entrega- 
rem Badajoz. Qusndo o Conde fahio deita Praça para 
Metida com efla íufpeiía , os mandou prender , e pôr 
alguns a tormento : porem conftando?lhe a dcmonílraçaõ 
que ElRey havij feito com os dou^ Gabos principaes do 
Exercito, conhecendo a Innoccncia dos moradores, man; 
dou foltallo . 

M «thías de Albuquerque , naõ alterando a dif. 
poíiçaô do Gond: de Óbidos , defpedio o Monteiro mór 
cooi a mayor parte da Cavallaria , e quinhentos infantes oMonieiromôr 
a queimar as Villas de Albufeira i Almendral , e Torre j queima AigHas^ 
todas de dilatada povoçaÕ. Chegando a ellas o Montei- ^'^^^^' 
ro mór , schouas fem gínte , roandou*]hes pôr o fogo , 
reftrvando as Igiejas , e hum Convento de freiras que 
havia no Almendral, e voltando para o Exercito, o achou 
aquartclcdo na ferra de Olor , que fica junto a Olivença 
da outra parte daquella Praça. O dia feguiate , que crao 
ly de Setembro, marchou Mathias de Albuquerque con- 
tra Alconchel , e levou de Olivença dous meyos canhões, sUiêdeKhUhtl 
ainda que cora pouca eípcrança de ferem de utilidade , 
pela grande afpareza do fitio em que o Caftello cílà fabri- 
cado. Alconchel fica ires léguas de Olivença para a parte 
de Xerês , a Villa que fe compunha de feifcentos vifinhos, 
fe eilcndia pela campanha, a hum lado delia , olhando a 
Portugal , fe levanta oCaílello , taõ antigo , que o ga- 
nhou aos Mouroi ElRey D, AíFonfo Henriques no anno 
de 1 166, occupa o alto de hum levantado monte , íem 
haver nelle mais fitio , que o que foy neccílario para fa- 
bricar o Caftello , fendo precipício toda a circumferencia. 
Sobe*fe ao Caftello por hum cftreito , e afpero caminho, 
que tem principio com diftcrentes voltas na Igreja da Vil- 
la. Eftava dentro J3. Joaõ de Menezes Soto Mayor Mar • 
qiíez de Gaftro Forte, fenhor de Alconchel. Tinha o Ca. 
ftello trezentos Infantes de guarnição , e todas as mais 
prevenções neceílarias para hum largo fitio; a Villa citava 

Dd 2 rodeai 



.1045 • 



4}o PORTUGAL RESTAURADO, 

rodeada de huma trincheira i a Igreja terr;>'plenada, e os 
AnnO moradores difpoílos a fe defenderem em hunía , e outra 
parte. Tanto que o Exercito chegou a Altonchel reco- 
nheceo Mathias de Albuquerque i e D.Joaô da Coita to- 
dos os poitos , e julgáraó muito duvidoía aemprezado 
Caítello: porém a induitria venceo todas as diílicuJdades. 
Mandou Mathias de AJbuqucrqxje a D Jo»õ da Cofta, que 
fizeíle fubir a hum monte , quaít igual ao Caltcllo , entaô 
muito aifailado delle , os dous meyo canhoens , e duas^ 
peças de melhor calibre. Confeguio-fe , ainda que com 
grande trabalho , fizeraõ*íe as plataformas» c preparou» 
íe à vifta dos moradores o aílalto da Villa ; os quses obri- 
gados do temor iizeraô o que Mathias de Albuquerque 
defejava , que era recolherem toda a gente inútil dentro 
do Caílello , para que a falta do^ manticneatos » e os da* 
mores das mulheres facilitaílem a entrega delle. Na mef' 
ma noite que fe íizeraõ as plataformas , ganharão Luiz 
da Silva , e joaô de Saldanha com grande perigo huma 
Hermida , que ficava a tiro de arcabuz do Caítello , e 
humas caías quafi em igual diítancia , onde po?eraóhum 
morteiro , começou a jogar a artilharia ícm mais eíFeito^' 
que derrubar algumss amêas. Tocou a André de Albu- 
querque inveftir ao mefmo tempo as trincheiras da Vill» 
entrouxas com o íeu Terço, cuftando as vidas de quatorze 
foldados 'y períuadio aos que defendiaõ a Igreja que íe ren- 
deíTem fem aguardarem a ultima ruina. Naõ querendo el- 
les ceder , fe expuzera5 a padecer a mayor deígraça, porr 
que dos artifícios de fogo, que íe lançarão dentro fe 
ateou de forte na muita roupa , que eílava recolhida na 
Igreja , que rompendo o fogo o tedlo , communicandor 
fe á Capellâ mòr, foraõ aquelles moradores laftimofo 
emprego das chammas . a aaõ lhes valer a grande piedade 
de André de Albuquerque, a cujo valor andava unida efta 
virtude ; advirtio a hum Frade Capucho que apptrecea 
m telhado , que íalvaíTe o Sacrário , e pcdindoMhe a 
Religiofo da parte dos moradores mifericordia, a qual 
ellcs implorava© com fentidas , e levantadas vozes que few 
riaõ o ar, rompendo o fogo, e o fumoj refpondeo-lhes An* 
dfé de Albuquerque , que citava piopmpto para os ajudar» 



PJRTE l LIVKO VI. ^'4ji 

fedo Caftello fufpendeffem oitito«, donde cahiaÔ tan* 
tat bailai, que offendiaô igualmente oiCaíleWiaros, e Auno 
Portuguezes. Fezíe aviío ao Caftello, e ajuftou*íc fui* i<a2 
peníaõ de armas por trea hora»: abriraõ'fe dou^ 'porti* "^>* 
lhos na parede da fancriftia , pre(ervoK*fe do fogo a ^ 

Capellaraòr, e ficaraÕ livrei o^moradorei. Acabadai as 
trea hora? , continuarão as bateria» com pouco eíFelto : 
porém as bombas intimidavaõ de foíteagentedopovoi 
que e liava dentro do Caftello , que com repetidos cia" 
morej defanimavao o^ foldados, e obiigavaõ ào Gover 
tiador a le arrepender de os haver recolhido. Luiz da 
Silva , e André de Albuquerque ganharão com difficuldade 
hum penhafcos virinhos da muralha , e JoaÕ de Saldanhai 
•e Ayres de Saldantia levantarão huoia trincheira , pela 
qual fe communicaraõ com a Hermida que fc havia 
occupadu, e de huma , e outra parte Te foraô ganhando 
poftos , favorecidos os toldados , que íe melhoravaó de 
terreno , dat mangas de maõ pofta, ai quaet com fogo 
vivo naõ davaõ lagar aos do Caftello a poderem atirar 
como deíe javaõ. Obrigados defte temor t e do receyo das 
bombas , appareceo na muralha huma bandeira branca ,' 
mandou Mathias de Albuquerque averiguar a caufa , ref- 
pondeo hum Sargento mót , chamado JoaÕ de PedraíTa » 
ibldado de conhecido valor , que £e retiraílem para os íeus 
poftof , porque a bandeira fora defordem , e o Caftello, 
fe havia defender em quanto elle tiveíle vida, Aílim ímc 
cedeo I porque continuando as baterias , foy morto de 
huma baila de mofquete , e crefcenio nos íoldadot o 
leceyo fuípenderaô a defenfa. Tratarão logo de partidos, 
^eraõ reféns, e entregarão o Caftello. Sahio âeWe Dom Fí7trega.(e « 
JoaÕ de Menezes com toda a fua familia , os foldados CapUo d* ai- 
pela capitulação ficarão detidos até (e acabar a campanha. '^^^^^''^ » "^"^^ 
Mathias de Albuquerque deixou no Caftello Manoel ja^""'^""'* 
Silva Peixoto , Sargento mòr de Ayres de Saldanha , com 
duzentos Infantes; parecendo aquslle íitio capaz de fe 
guarnecer , para fegurança das partidas , que entravaõ em 
^Caftella. 

Antes que o Exercito fahilTe de Alconchel > man* 

áou Mathias de Albuquerque a Dom Rodrigo de Caftro 

Tom, I. Dd 3 com 



45» PORTUGAL RES1:AURJD0 

com íeifcentos Cayallot reconhecer Figueira de Vargas; 
Anno í^2s léguas dcAlconchel, Villade quatrocentot vifichoi 
^ cortí iiuma trincheira , e hum Caltello governado per Dom 

* "45 • Gabriel da Silva , de quem era a Villa , caiado com Donsl 
Anna de Mendoça , irroaã de Pedro de Mendoça. Entenr 
dendo Dora Gabriel que as Tropát de Dom Kodrigo eráô 
Rêde-je liguii'^ vaRguarda do Exercito , rendeo o Gaftello com perniiflaõ 
rudi Vargas, ^^ paliar a Xerés , levando a íua farrilia » e òs moradoroi 
com a tua roupa. Fic^raÔ no Caltello duas Companhia! de 
lEfant;íria pára mayor fegurança dos comboii % em quanto 
durafle a campanha , fe acaío o inimigo os icapediffe pot 
outras eítradat. Incorporado Dom Rodrigo com o Exer- 
cito , marchou de Alconchel para Villa NoTa dei Frefno f 
quatro leguai diftante , deixando Olivença á maÕ eíquer* 
da. Adiantou fe o Monteiro mór com a mayor parte da 
Cavallaria a ganhar poílos íobre Villa Nova para lhe eyii 
Uir oi foccorros : chegou o Exercito o dia ítguinte.He Vil" 
lâ Nora fabricada em híía eminência, a que le íobe pci tu* 
das ai partes por entre pomaret , e hortas. Efícode-Fe a 
Villa em forma proloogada i cercada de huma muralha an- 
tiga , que por huma , e outra parte rematava no Caftello,' 
fituado para onde o Sol nafce , que he a parte que olha a 
Badajoz. O Cafíello erâ grande , e quadrado , fracqueava» 
fe CO» algunr torreoens , rodeava 'o hwiía barbacaãbent 
feita, e hum foíío naÕ muito iargo. Havia além do prif 
iReiro recinto , três interiorej , c unia-íe a ultima muralha 
para o nafcente, O Arrabalde da Villa , defendido de hoj 
ma larga trincheira , conftava de quatrocentos fogot , e 
shi» àeviíiaNonsí Villa havia íeiícentof. Seguia -íe huma grande quinta 
-vadeiFreím, ^q Marquez de Barca Rota ^ de quem era Villa Nova, e 
hum Mofteiro de frades de S.Francifco. Conftava a guarnS 
çaõ de íeifcentos Infantes pagos , e fefíenta Cavallos , fo- 
ra OS paizanos , goveríJados pelo Meftre de Campo Dora 
Francifco Geldres, afiiftido de Dom Prancifco Agueio , 
Meftre de Campo, e Engenheiro. HaviaÔ lançado para 
Xerêf a gente inútil , e achava3'íe na Praça muitas peítoat 
de qualidade de todos os lugares vifmhos. Tinha o Caftel- 
lo duas peças de artilharia de bronze , e muitas munições, 
£ msiQtifiíefitQf i fuileBtaYa'(« da aguâ (ie hua graode cif- 



PARTE 1. LIVRO VI. 45J 

terna ^ e osmoradorei receando o fiti o recolherão quanti- 
dade em talhas. Tanto que acabou de chegar todo o cx* AnnO 
ercito , mandou Mathias de Albuquerque marchar oi t<aj 
Terços cubettos do Gaílello, ordcnandolhei que fizeí- ^"4>» 
íem alto na parte oppolla , que fazia tofto aoi luga- 
res de Caítella raayore^, e mais vifinhoi. Adiantoufc 
Mathias de Albuquerque a reconhecer a Praça , e ob- 
íetvando.a, naô deixou de recear as dificuldades quefc 
lhe oâ'e:ecia5 • vendoa muito capaz de íe defender » 
o Trem do Exercito falto de iaítrumentos de expug- 
naçaõ , o inrerno vifinho , e oi foldados mõleílados 
do rigor do Sol muito nocivo naquellei mezcs , por an- 
dar muito b4Íxo, de que fe originava adoecerem em grande 
numero: porem a importância da Praça, e a reputação 
das Armai o obrigarão a romper por todos oi impoífireis. 
Ordeaou logo ao Sargento mór Belchior do Crato, 
que com quatro mangas^ de mofqueteiros gaohaíTe hamas 
hortas , que oí Gaílelhanot defendiaÔ i por íuftentar a 
agua , que leyavaõ para a Viila : obrigou-oi a defampa* 
fàrera o pofto , e motreo na empreza o Capita5 FranciícO 
Soares da Cunha. Naquella noite ganhou Joaõ de Sal» L^ncaodt 
danha com o feu Terço o Arrabalde i e ficou levemen- g^^^^^IJ^, oAr^ 
te ferido em huma perna. Nas ultimas cafai delle levan- ráèáWe. 
tou Dom Joaõ da Cofta huma plataforma, era que poz 
dous meyos canhoens f que começarão a jogar tanto que 
amanhece© ; poréaa com pouco cíFeito » por fer a mura- 
lha do Caftello terraplenada. Também as bombas de hum 
morteiro, que daquella parte começou a jogar, naô fa« 
aiaÔ grande damno. Outra bateria fe levantou contra a 
Vi lia , que jogava da outra parte do Arrabalde : mas 
fendo as peças ligeiras era raayor o eftrondo que o pre- 
juízo. Mathiat de Albuquerque conílderando o pouco 
efíeito daí baterias , mandou ao Meílre de Campo da 
Armada Dora António Ortiz com leifcentos Infantes do 
íeu Terço , e ao CommiíTario Geral da Cavallaria Dom 
Joa6 de Ataide com trezentos Cavalloi bufcar a Oli- 
vença dous meyos canhoeai. Quando voltavaõ com elles 
para o Exercito , e fetecentas cargat de munições , e nian* 
timentos , defcobriíâõ os batedores cinco Tropas do ini, 

Dd 4 migo 



454 POmvGAL RESTAURJDO ; 

migo : que vigorofamente os carregarão. Socccireo'Ol 
Anno p^rn joaó de Attaide a tempo que appareciaO outrai 
i6ai ^^^^^ ' ^cz elle alto , e aguardou ao Conde l-iaíco , que- 
^/^ vinha de retaguarda. Unicfe-lhe brevemente a Infanta^ 
ria , e formados marcharão a buícar os Caílclhanos. Naô 
qiiízeraõ elíes pôr em contingência o fucceílo , tetifaraôv 
le , dando lugar ao comboy a que chegaíle ao Exercito? 
Antes que íe reformafle a bateria , mandou Mathias de 
Albuquerque períuardir ao Governador que íe rendeííe > e 
naõ quizeííe experimentar oa fúria dos íoldados o damno 
que padeciaÕ os conturoazsi , que pelejavaõ ícm cípe- 
rança de foccorrc. O Governador relpondeo , que agra^ 
decia a advertência , mas que na Praça havia tudo , o que 
era ncceffario para defendella muitot mezes , que era a 
que tocava á fua obrigação , e aos feus Generaes íoccot» 
reilo , quando lhes parecefle cooveniente. A eíle tempo 
tinha a artilharia arruinado hum lanço da barbacaã , e 
parte de hum torreaõ. Pareceo-lhe a Mathiai de Albuquer: 
que a ruina capaz de aílalto : mas como le naÕ havia 
toflfeguido cegar 'fe o foflo , tendo o inimigo queimado 
por muitai vezes aí faxinaj que íe lançavaõ dentro parecia 
a empreza muito difficultoía. Para a facilitar ordenou D- 
Joaõ da Cofta huma ponte de madeira , que por uaô fer 
o foflo largo, podia dar caminho para íe chegar á muralha» 
Lançou*íe a pente duai horas autes de amanhecer, diver» 
tindo repetida! cargas de artilharia o precifo ruído de 
armai Ia. Poy o primeiro que íe offereceo ao perigo $ de a 
paliar , Joaõ Rodrigues de Si Camareiro raór delRey, que 
havia dado nas occaiioens paliadas grandes moftras do íeu 
valor. Fizeraó o raeímo trinta Ofticiaei , e peíioas parti-, 
cubares, noraeou*lhes Mathias de Albuquerque por Cabo 
a Fulgencio de Matos , CapitaÕ áo Terço de joaõ de 
Saldanha. Entratiô todos com grande reíoluçaÔ na pon^ 
te : porém íeatíndo'Os oi Caílclhanos , acodiraÕ àquella 
patte com tantos ioftrumeatoi de fogo , e pedras , que 
lançarão , que naõ podendo reílílir oi que eftavad na 
ponte , cahiraò cinco no foflfo mortos , e alguns feridos. 
jitfede.feaPraO Catoareiro mór , e os roas chegarão á brecha , e acha* 
IJiimv^^hr jaõ ^Ue çftaYà tâó âUíii Q taÔ^íi^4«íf^B^Í^«i que era 

m 



PjnE 1. LIVRO VI. 4^^ 

iirpoflivel cnirar por elíe. Vécdo iuJ^encio dt Meto- o 
danino qce ítro íiuto ucehiaô , n.ancjL Ucci a H colher, ArnO 
c retiraracle todot quando tcn^pia a manhaã, Ooeímo ,/; . 
cíFeito cxpeiimtnicu Gilot , ergenlxiro Vrancez , a noite ^45* 
leguinte a clia: porque querendo airimat huR ai mantas 
á murílha do Caíteilu , fcy rebatido dos íitiatíos , letiraa» 
le ferido, deixando alguns mcitos. Íno meímo tempo 
deitai opetaçoenk íe vcitàraõ ai baterias contra as defen- 
fas coro melhor emprego , do que le conícguia na mura- 
lha. Arruinarão as calas do Marquez , donde íe recebia 
muito damno , e huma meya lua » que cobiia a porta 
principal do Caftello. Fabrícàra6'íe logo três minas 
contra a muralha daquella paite : atacada a principal , 
Ic lhe dco fogo , cahio hum grande lanço, cuftando ai 
vidas a muito» loldados Caftelhanos. Com eítc damno 
começou a entrar o temor nos fitiadot, que íe accrcfceiitou 
com outra ruina , que a artilharia mudada , por ordem de 
Mathias de Albuquerque» fez na muialha, que dividia 
o Caítcllo do Arrabalde , vindo a terra por íer mais fr ca 
a máyor parte delia. Receofoí do aflalto , readidoí do 
trabalho » e deieíperados do foccorro, tratarão osíltiâdoa 
de íe entregar. Mandou o Governador hum Religiofo de 
Santo António fallar com Dom josõ da CoUa , que aíliftia 
na bateria, dizendo que eftava reíoiuto arender a Pi?,ça 
Dom Joaõ da Coíla lhe reípondeo, que aquclJai matérias 
as naó traiavaõ fenaõ Officiaes de Ciuerra. Com eíla re. 
poíla tornou o Governador a pelejar j nras diirou'lhe pou» 
CO tempo o ardor» e tocou caixa para a patte oppoft^ , 
onde eftava de guarda com o íeu Terço o Mcílre de Cam* 
po Franciíco de Mello. Enfadado Dom jt-aõ da Cofia de 
naõ capitular a Praça» pela parte cnde elle aííiílian an- 
dou continuar as bateria» , receberdo gríLEdc prcjuiao oi 
Caííelhanoi , que íe haviaõ deícuberto na fè de íe querer 
rero entregar. Advirtido o Governador ccir^ tile damno, 
chamou para o lugar dai baterias: íuíperdecap D. JosÕ 
da Coíla ', e fahio da Praça o Ssrgentc n ói Dom Sehaítiad 
de Ncgreiroi. Ajuftcraõ is capiíulíçcens na foima daf „ . , , - 

J-, tr 1 j /• ' 2-n- t r « Rendi' íe y efof' 

oe Valverde, ío com a cifícrençs ce le entregarem ost ,if:ca-/e viiu- 
«avalies que houveílcm na Praça, foi a çi dçs C incise* i -^'"'I. 

e todsa 



43á PORTUGAL RESTAURADO 

c todai ai armas. Dados reféns da hum a, e outra parte; 
A 11 no íahio o Governador com quinheatoi Infantes i e fetenta a 
í^Ai *í'J^^<'o foldadoi de Csvallo, e entrou na Praça Dom Anto* 
*"4J» r.io Ortiz com o íeu Terço ^ ( duízentos moradores que 
hivia na Praça fç paflaraõ para Xerè«. ) Achou nelli mui- 
tas armap, e mantimentoi. Ficou governando*a Bsnto Ma* 
cii! Parente , Sargento mar do Icçode Joaõde Saltianha 
com dez Companhias de variai Terço.. Brevemeate a 
leadeo o Meftre de Campo André de Albuquerque com o 
feu Terço » raandandoo Ellley para aquelle preUiio , e a 
Joa5 Palchafio Goímander , com ordem que reduziíle o fi- 
lio do Gaftello a fortiticaçaÕ moderna : o que executou 
çom grandí brevidsd;. Em todas as occaíiosai que íe of • 
ferecòíaÓ , al]im nede íitio » cono na? maisdaquella cam- 
panha, eraó o; prirnsiros no perigo i e trabalho os Titulos, 
e Fidalgoiqueaadavâõ no Exercito; porque á competên- 
cia íe excidiaó huns aos outros no valor, e no deíejo d» de- 
fen'a da fua Pátria. A perda de Villa-Ncíva foy muito fen- 
ti ia doa Caftelhanos , pela grande oppreílaô que dava aof 
Povai vifinhos o prcfidio que ficou naquella Praça , e*pela 
ricputaçaõ da> Armas de Portugal , que via6 prevalecer 
como conqui dadoras contra o mefiao Príncipe que deter- 
minava fujeitallâí. O Exercito paílou de Villa-Nova a Fi- 
gueira de Vargas f donde fe retirou a guaraiçaô ♦ ficando 
atrazado o Gaftello , e deftruhida a Villa. O mefmo fe ex* 
ecutou em Chcle?, que os Caftelhanos haviaõ defpovo?. 
netira-feo Ex- do .' pâíTou a Alcoachel i e entrou em Olivença com taó 
excito. grande teTipeftade, que impedio a Mathiai de Albuquer- 

que continuar o^ progreííos da campanha , confiderando 
qoe como era principio de Inverno , todos oi dial que fuc» 
csdeffem feria maisrigorofo o tempo. 

Oefpediraô'fe o^ foccorros das Províncias i e á\* 
vtdiraõ"fe as guarniçoens pelos quartéis coftutnadoi. 
paffa FlRey <, Aquartehdo o Exercito, paílou Mathias de Albuquer- 
Villa 7içofa. qu3 a ViIla*Viçofa , onde ElRey havia chegado a aliviar 
alguns dias as íaudades, que fempre teve daquelle fitio* 
Recebso a Mathias de Albuquerque com grande í honras 9 
t«er?c'tda^ d 18 fua« virtudes. O mefni favor experimen- 
t'ir.1.6 da fua grandeza os Cabos, e Offi-iaes do Exerci to que 

che* 



PJBTE /. LIVRO VL 4)7 

cbegáraô a beijar lhe a mao. Voltou pjira tvora , e a cin- 
co de Otlubro pattio para Lisboa, onde foy lecebitío Anno 




LíS- 



— -- 1» . ... cta, 

fonlo íeu filho íegundo , que tíepcis pela iníeJiz íi.cneK^,'^^,;»^/,, ^«/, 
do PriDcipe Dotn 1 l-ecdolio vcyo a iei piiir.ugejjitu. Ha- Rty D.^f^ío. 
via lido bautizado coro grtntíe loleiv.nidade pci D^ta Ma; 
ncel da Cunha Bifpo de Eivai, eCapellaõ n;ór tíelRey i 
íendo feut Padrinhos o Prircipe Doro 1 hccdi íio , ca la* 
tanta Dona Joanra. Na6 teve klRey íó elta cccaliaõde 
coptentaniento nefla jornada , íeraó tarrbe» a univeríal 
aceitação do governo da Rainha na iua auíencia. Paíícu á 
Coite Mathia? de Albuquerque, e ficou governando Alen* 
tejo o Monteiro RÓt General da Cavallaria : qte de OH. 
vença , tonde eftava , foy alífíir ero EWas: e conlíanao-.he 
que na deveza de Fedra Buena , que era áo Almirante de 
Caôella , íe havia levantado huaa caía fcrte , guarrecica 
óe alguns fr.oíquetei» os, que defendia quantid2de de {?,ado, 
que paítava níquellefitio, n-aclou com íetecectcs Ca* 
▼allos a bufcarapieza , edeftruir a cal». Hum , c CLtiOG^.,;^,^ e Meni 
intento coníeguio Dom Rodrigo de Csfíio cero àh7,etAGiteiro n,),r Pedrã 
Cavallos que íevata de vanguarda. Chegou o avifo a Al-^"'"'"^'"'"* 
buquerque . lançarão os C aítelbanos dtzentO: Infantes , ^'^^'^^^^^''"oi, 
trinta Cavallof, cípeiando tirar a Dcnj Rodrigo a piesa 
etn hura pafío eftreito vifjnho á Praça , per orde forçofa» 
frente havia de paflar. As paitida5 que eOavaô íobie Al' 
buquerque , deraõ efía ncticia 20 Alrrteiro n ór \ que 
niandcu ao Capita6 D. António Alvarci da Cunha com a 
lua Companhia , e alguns Dragrens , crderando-lhes que 
impediflem aos CaftelhanoJ a detertrirçííC que trsz-aõ. 
Ccnfeguio-le como fe difprz : porque nsõ lhe» Vâlerdo re- 
tJrarcm-fe a htía feiía afpcra i feiro tcdo? derrotados , fi- 
cando fljuitos mortos , trazendo D. Ar tonio osrutros pri* 
ficneifos. No mefmo dia, que o Mcnteiro n(5r fczeflâ 
etttsda : fahio Dom J026 de Attaide de Arrocches, onde 
c0aYa de quartel com cinco Cofr^pachiaí, entrou eir. Sí6 
Viteote, duat léguas diílante, e vt% rusf do lugar , que er a Ar^w»; <^^ ,>; 
nbcrto , fez aíguní CeiUIhacci piiíior.thc> : f aliou adiaB-I''^'"''^/^;^: 

te 



4j8 VOP.IUGALKESTAUKADO; 

t;; , corríio a campanha de Valenqa « e trazendo humsl 
Anuo g'and3 preza, fahio a querer tirarMhaDom Franciícode 
\h á inojoza Capitcio de Cavallos com a fua Companhia ^ der* 

'^^' roív>u'iha D.Joaó , e trouxe'0 prifioneiro. Retirou-fecom 
a prezi a Atronchei , e paíladof quatro diás lere noticia, 
que o tnin^igo com cem Cavalloí , e trezentos Motque* 
telros hayia entrado no Afluir.ar; que diílava fó huraa 
]:gua de Arronches, e que levava a roayor parte doi pai* 
zsíos piiíioneiros. Achava'fe D. Joaó com cincoenta Ca* 
vaDos, e outros tantos Infantes: marchou coai elles a 
bufcar o inimigo : íeguindo*o alguns paizanos com efpin- 
garda^' ApreflaraÕ ds íórte a marcha , que ganhou huma 
«áas <erra-' que corre para Albuquerque, antes que osCaC" 
telhanos a occupaílem. Chegarão elles íem cuidado do p^' 
rigo que os ameaçava ; atacou'os D. Joaô com tanto vigor, 
qu^ fem lhes dar lugar para íe formarem , o^ desbaratou» 
matando huns, c fazendo oatros priíioneiros » entrando 
nelles o Capitaè de Cavallos SebaftiaÕ Corrêa , natural de 
Olivença /que tantas diligencias havia feito peia entregar 
aos Caftel-^anos , como ja referimos. Efteve muitos annos 
prezo em Li.boa , e na prizaÕ veyo a acabar a vida. En* 
tendia6-fe de forte oe^e tempo os fuccefloi acafo com af 
boiS fortunas , que ante^ que D* Joaõ de Ataíde avanç*flc, 
viahaõ oj Caftelhanos dizendo aos prifioneiroi que le- 
vava ô do Aílumar : que ja que o (eu Rey Dom ]oa6 era 
fanto, camo diziaõ , que charaaffem por elle , que of 
livaíTe daquelle trabalho ( porque havido determinado 
aii tes obrigalloí a que diíIeíTem : Viva ElRey D. Filippc g 
e elles com g''ande conílancia reípondido : Que naÓ que» 
C0^fia)icia riaô negar o feu Rey que era fanto. ) Na6 haviaõ os Caf* 
àos pcmiuez.^ ^^^-^^^ç^^ acabado de pronunciar as palavras referidas J 
quando os inveftio> e derrotou Dom João deAtaide, e 
livrou os prifiooeiros , os quaes cípalhàraõ efte íucceflo 
pelos Povos em grande utilidade do fetviço delRey. Efta 
foy a ultima occafiaS efte anno na Província de Alentejo: 
porque o Inverno cerrou a porta de Jano i e fufpendeo a 

gu^íra. ^ 

Em quanto as Armas de Alentejo fetlluftravao 
com íucceíTos tâo venta joíoj , nâo eftiveraõ ocioías as 

Armas 



WAME 1. rjVKO VJ. 459 

Armrs das outras Provindas. Paflou o Conde de Caílello- 
JMelhor a governar tntre Douro , e Minho , e tendo por Anno 
mais próprio , para íe livrar do mâo trato que havia pa- ^ ^ , 
decido na prizaõ de Cartagena de Índias , o eftrondolo ^'* < 

da guerra que o de canço da Corte , íahio de Lisboa a /,..,, 
27 de Março , e entrou na fua Província com geral aeei- "^^J^^llV, ç" 
taçaõ de todos os n oradores delia , pela opinião que dig" ^/„/,^ ^ ^^e 
namente havia adquirido de valor , de zelo , e de ^^z- governa o cox- 
bilidade. Achou as Prac^as muito deftituida de todas Sts^' djCaMo. 
prcvençoens neceílai ias para íe de fender era •, porqne o ' """r 
governo dos três Mcltres de Can^po naô podia íer taô 
adivo I nem taõ rcípeitado da Provircia , c da Corte , 
que os preceitos , c O; aviíos le lograflem coro a regula- 
ridade que con ?inha. Fez o Conde paílar moftra,c achou- 
íe íò com mil /nfantes pagos , e tantos Ofíiciaes , que 
requeiiâõ roayor numero de íoldados. Reformou os que 
eraõ fupeifluos , pagou três mezes , e accodio ao mais 
piecizo. Informou'íe das forças ♦ e das Praças do inimigo^ 
e determiticu dar feliz principio ao íeu governo , inier- 
prcndendo a Villa de Salvaterra , frOiitcira a Monç õ;, fi- 
tuada (obre o rio Minho , que eia a íua mayor íeguran- 
^á , porque naÕ íe podia paíTar a cila fern paflar o rio em 
barcos , por íe naõ vadear em porto algum daquelle dií^ 
trido. Nafceo rio Minho em Galiza na fonte Minhaõ; 
donde toma o nome, quatro léguas para o Nf re d« Ci- 2)//?%^,? df> 
dade de Lugo que vem bufcar, banhando os muros dei a» nc Mmko,^' 
junto da ponte das Meítas em Porto Marim. Entra nelle 
o rio Sil , taõ caudaloío , que dizem vulgarmente os fr;0- 
radores % que as aguas faõ do Sil , e do Minho a honra do 
nome. Com outros muitos rios fe vay engroííando o 
;Miuho , e fertilizando muitos lugares > ate entrar por 
hum fò arco de humalmaravilhoía ponte junto da Cidade 
de Oreníe : paííapor Ribadávia , e chegando a Raya de 
Portugal, corre a Poente , formando elle a Raya perto 
de onze léguas i e enriquec«ndo'íe com as