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Full text of "Brasões da Sala de Sintra"

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BRASÕES DE SINTRA 



Desta edição imprimiram-se 200 exemplares em papel de linho, 
numerados e rubricados. 



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BRASÕES 



DA 



SALA DE SINTRA 

DE 

ANSELMO BRAAMCAMP FREIRE 

(2.» EDIÇÃO) 

LIVRO PRIMEIRO 




COIMBRA 

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 
1921 



PRÓLOGO DESTA EDIÇÃO 

Já vai grosso o volume; meia dú\ia de palavras de esclarecimento bas- 
tarão pois. 

Foi meu intento, ao começar esta edição., reproduzir a primeira apenas 
com os acrescentamentos por ela própria já espalhados, e as alterações pro- 
veniejites de mais apurado exame de documentos, uns de novo encontrados, 
outros melhor interpretados. Este propósito mantive nos cinco primeiros 
artigos, nos quais pouca matéria nova se encontrará; no sexto já me alon- 
guei 7nais; no sétimo tornei ao primitivo plano; mas, d' ai por diante, entendi 
dever mudar de processo e alargar a exposição, com o intuito de aumentar 
a informação, ampliando portanto o número dos dados históricos apontados 
e registados. O resultado foi compreender este primeiro volume apenas 
do\e dos quinie artigos do correspondente da edição anterior, excluido ainda 
o Apêndice, com a Autobiografia de D. Afonso Manuel de Meneses. 

l Fi\ bem ? i Fi^ mal ? O leitor decidirá. 

Não alterei contudo os processos de análise e de exposição. São os da 
primeira edição, mais correctos e apurados até onde o meu estudo e a minha 
critica permitem. 

Quanto ao carácter da obra e às minhas intenções ao compô-la, tudo 
ficou exposto no Prólogo da primeira edição do livro segundo, e como éle, 
o Prólogo, se reeditará no seguinte volume, desnecessário parece repetir 
agora a explicação já produ\ida; bem assim desnecessário também julgo 
alongar mais esta introdução. 

Salitre, 2 de Junho de igzi. 



PREAMBULO 



VOL. l 



PREÂMBULO 



No outono de 1884 estava eu em Sintra, onde durante uns poucos de 
anos fui, com a minha gente, passar aquela estação e a anterior. Já não 
era então a minha mal conhecida Sintra doutros tempos, mas também ainda 
não viera a ser a Sintra do caminho de ferro, da qual fugi. 

O outono é a mais bela estação do ano nos arredores de Lisboa, e so- 
bretudo naquela privilegiada região. Depois das primeiras chuvas a vege- 
tação sequiosa renasce; na atmosfera sente-se o cheiro da terra molhada, e 
de algumas folhas secas prematuramente caídas; o sol não abraza, pode-se 
aproveitar o dia todo, e respirar o ar puro um pouco impregnado de mare- 
sia; o ceu está límpido, o mar ao longe azul, a serra desanuviada, o arvo- 
redo com todos os tons desde o oiro fosco até ao verde esmeralda. As urzes 
e os tojos florescem, o tricolor medronheiro encanta, os ribeiros da serra 
começam a murmurar, os pinheirais mansamente sussurram, no ondulado 
campo os casais alvejam com um branco mais intenso. A natureza toda 
veste galas neste período transitório entre os ardores do estio, e os frios do 
inverno. 

A tarde, depois do sol posto, uma aragem fresca tocada do mar por cima 
das charnecas leva o passeante a casa, e faz-lhe lembrar o fogão com o alegre 
estalido das pinhas e cepas. Aí, na sala, rodeado de pessoas amigas, em 
sã conversação, podem-se passar as horas mais quietas e desassombradas da 
rida. Era o que me sucedia no tal outono de 1884. 

Uma noite, não sei qual, nem sei a que propósito, falou-se mais no paço 
de Sintra. Talvez tivesse lá havido visita demorada em companhia de foras- 
teiro amigo; talvez tivesse estado o dia chuvoso e agreste, e parte dele se 
passasse ao abrigo de suas paredes; talvez não tivesse havido nada de ex- 
traordinário e apenas o acaso proporcionasse o assunto à palestra; talvez. . . 
^Mas para que perder-me em conjecturas, se na verdade me não lembro? 



4 Brasões 

O caso é que do ameno dize tu, direi eu, saiu a idea de se fazerem uns 
desenhos dos veados do tecto da sala das armas, e uns pequenos artigos sobre 
as respectivas famílias, e de se ir mandando tudo para o Diário Illiístrado 
o aristocrático jornal do high-life, que franqueou as suas colunas com bi- 
zarria: 

As desenhistas foram duas ilustres senhoras: D. Maria Francisca de Me- 
neses, ultimamente dama camarista de S- M. a Rainha, e D. Maria Amália 
de Sousa Botelho, posteriormente viscondessa de Pindela. O escritor fui 

eu. 

Direi, que, para poupar as minhas delicadas colaboradoras, que na sala 
dos brasões com as cabecitas no ar se arriscavam a torticolos constantes, 
aproveitei haver nos veados umas certas parecenças, e dividi a manada em 
grupos, que mais se assemelhavam. Confessada a culpa, ficará, não só me- 
tade dela perdoada, mas toda, atendendo à intenção. 

Feitos os desenhos, quem os passava às chapas de madeira era outro 
amigo, o visconde Júlio de Castilho (i), hábil desenhador, e paciente revisor 
de provas e original. 

Era pois tudo feito por assim dizer em família. 

Os artigos começaram curtos, mas foram estendendo, estendendo, e tanto, 
que o Diário Illustrado já pedia misericórdia, e já ia dando a prosa em doses 
homeopáticas. Alem disso eu adoptara o sistema de preceder cada artigo 
de um pequeno quadro de história pátria, ligado à origem da geração de que 
ia tratar. Ao princípio ia a coisa bem; depois começaram a escacear os 
assuntos; cheguei aos Britos, e não sabia já para onde me havia de voltar, 
nem conhecia facto histórico ainda não narrado, que pudesse servir de intro- 
dução à origem da família. No artigo dos Henriques havia-me valido dos 
desta linhagem terem tido uma casa na praça de Évora, para narrar os cé- 
lebres festejos aí realizados por ocasião do casamento do príncipe D. Afonso, 
cometendo um anacronismo, pois que a esse tempo ainda a casa não era 
dos senhores das Alcáçovas. Agora porém, nos Britos, não havia janela 
nem porta por onde entrasse que não estivesse escancarada. íQue fazer? 
O que a preguiça me aconselhava: largar a pena. Assim fiz, e nada se 
perdeu. 

Amigos benévolos começaram a incitar-me a concluir o trabalho, ou pelo 
menos a reunir em volume o já publicado. Meia dúzia de pessoas, a quem 
o assunto interessava, diziam-me o mesmo; eu porem, ajudado pela querida 



(i) Quási todos já morreram ! A Viscondessa de Pindela levou-a a morte a 14 de Abril 
de 1917; o Visconde de Castilho, em 8 de Fevereiro de 1919. 



Preâmbulo 5 

preguiça, ia sempre resistindo. Nem o poeta foi capaz de me espertar, 
apesar de se me dirigir em verso: 

Ressuscitar as memorias 
das passadas gerações, 
e d'entre o pó das historias 
evocar todas as glorias 
das antigas tradições, 
é serviço, é incitamento, 
é missão honrada e nobre; 

(0. 

Assim se passaram anos. 

Agora resolvi-me, e de repente arranjei tipógrafo, e começou a impres- 
são. 

Não me convenceram vaidades, que não tenho,,, nem devo ter; é unica- 
mente o desejo dos meus estudos poderem aproveitar a algum investigador, 
poupando-lhe pouco trabalho que seja. Mais nada. 

Dos vinte e dois artigos publicados no Diário Illustrado vão agora neste 
volume treze, e mais dois que nessa ocasião se não escreveram, o dos Vas- 
concelos e o dos Silvas. Vão todos muito imperfeitos, aproveitei o que já 
tinha, e pouco mais lhes acrescentei. A paciência hoje é pouca para gran- 
des investigações. Do que tratei foi de amenizar o mais possível o árido 
assunto. 

Ao publicar estes trabalhos, nos quais são recordados muitos feitos he- 
róicos da nossa história; ao publicá-los agora, nestes tempos de absoluta de- 
cadência e esfacelamento em que nos encontramos, sinto-me descoroçoado. 
Quando a nação perdeu todo o seu vigor, todç o seu brio; quando o velho 
rubro sangue português se transformou numa dessorada aguadilha; quando 
a dedicação se fez egoísmo; quando a abnegação se tornou em interesse, é 
triste escrever os nomes de D. João de Castro, Afonso de Albuquerque, 
Nuno Álvares Pereira, D. João I; é tristíssimo recordar Trancoso, Ceuta, 
Aljubarrota, Montijo (2). 

Se a pátria está moribunda, a velha nobreza, essa, morreu. Aquela ainda 
poderá despertar; esta é-lhe impossível reviver. Nem todos os raios fulmi- 



(i) Júlio de Castilho, Manuelinas, ed. de i88g, pág. i85, na «Singela historieta». 

(2) Isto escrevia em 1899; veio depois uma alvorada de esperanças, mas desapareceu 
antes do sol nascer, e hoje, infelizmente, ao quadro acima traçado só tenho de carregar as 
sombras. 



^ Brasões 

nam, ou assombram; há-os de luz que esclarecem o espírito; ^porque não há 
de vir um vivificante, que anime o generoso coração meio parado, e faça 
ressurgir do letargo em que jaz este pobre Portugal? Que Deus o despeça, 
e quanto antes. Agora, ressuscitar o que está morto, isso só um milagre, 
e milagres já se não vêem. 

A nobreza em Portugal morreu. Não foram os decretos de 84, não foi 
a abolição dos vínculos em 60, que a mataram. Não houve assassínio, houve 
suicídio. 

Uma educação piegas, uma perfeita incapacidade administrativa, uma 
degeneração resultante dos sucessivos cruzamentos do mesmo sangue, uma 
sorte de fatalismo ainda mussulmano, foram as caus"as prir^cipais que deram 
cabo da fidalguia portuguesa. Ao menos, sirva isso de lenitivo, acabou ela 
alegre; morreu a rir, a escarnicar daqueles que a pouco e pouco lhe foram 
comendo os morgados, as casas, os bens, lhe foram usurpando os direitos, 
as regalias, os títulos. Agora chora ela, mas já não tem remédio. 

O Rei, o representante do princípio monárquico, que sem nobreza para 
estabelecer a transição não pode existir, o Rei teve também muita culpa neste 
esfacelamento, que se não vê noutros países monárquicos. De princípio, se 
ele como chefe da nobreza, què deveria querer sempre ver honrada e digna, 
a protegesse, a amparasse, a animasse, a estimulasse, talvez lhe pudesse in- 
cutir o vigor suficiente para, ao menos em parte, resistir à onda que a arras- 
tava. Se êle também, na qualidade de seu protector, na de bom chefe da 
família, como fora o Rei no passado, tivesse tido sempre na mão os inte- 
resses dos seus fidalgos, tivesse dificultado aos seus ministros o enobreci- 
mento de pessoas pouco dignas, e proibido absolutamente o das indignas, 
não teria talvez conseguido curar toda a velha nobreza da eiva que trazia em 
si, mas teria de certo impedido o estado vergonhoso a que se chegou. ' O 
Rei foi cedendo, cedendo, a fidalguia foi descaindo, descaindo, os ministros 
foram abusando, até que hoje as distinções honoríficas, despresadas por mui- 
tos, são já escarnecidas por todos. Ainda se a coisa se passasse só em fa- 
mília! Mas não, por que, para maior opróbrio, ainda são os estrangeiros, 
quem mais escarnece! 

lA um homem realmente ilustre, que verdadeiros e assinalados serviços 
preste à pátria, que lhe há de dar o Rei? ^Um título? Ele porem, se for 
um vencedor de batalhas, não o aceita, lembrando-sc de que se fazem mar- 
queses por vitórias eleitorais; êle, se fôr um administrador honrado, um 
legislador sábio, desprezará o título, recordando-se de que se teem feito 
grandes do reino homens implicados em negócios escusos. ^O que lhe há 
de dar então o Rei? ^Uma condecoração? Deixem-me rir! uma conde- 
coração! (íA gran-cruz de Cristo talvez? ^Mas essa em quantos peitos 



Preâmbulo 7 

de banqueiros judeus não anda ela a embaciar-se por todo esse mundo 
fora? (i) 

O mal hoje não tem remédio; ^jpara que me hei de alongar em conside- 
rações que ninguém me agradecerá? Nada, volto ao assunto. 

Deveria talvez aqui dar uma notícia circunstanciada de tudo quanto eu 
soubesse da sala das Armas, e até mesmo do próprio paço de Sintra, onde 
ela está; mas isso levar-me hia muito longe, e portanto resumirei, limitan- 
do-me ao que reputo indispensável. 

El rei D. Manuel foi quem cuidou em estabelecer certas regras e acabar 
com o arbítrio no uso das armas, e na concessão dos brasões. Para este 
fim mandou por todo o reino ver e tomar nota dos escudos, insígnias e le- 
treiros que espalhados por ele havia, para do resultado se fazer um livro 
onde se pintassem os brasões (2). 

Assim o declara o cronista, e em confirmação apresentarei a prova de 
que, ainda depois do tal livro feito, se continuavam as pesquisas e informa- 
ções. 

Fr. André do Amaral, comendador da Vera Cruz, chanceler mor e em- 
baixador de Rodes, requereu se lhe dessem as armas de seu quinto avô ma- 
terno Domingos Joanes, instituidor de morgado com capela na igreja de Santa 
Cruz de Oliveira do Hospital, onde estava sepultado com o seu brasão no 
túmulo. Antes porém de se lhe despachar o requerimento, mandou el Rei 
o Rei de armas índia àquela vila examinar o escudo de Domingos Joanes, e 
só na volta, depois de se lançar o desenho no Lipro dos Reis d' Armas, é que 
se passou a carta de brasão ao suplicante em 23 de Abril de i5i5 (3). 

Torno ao livro dos brasões, ou melhor, aos livros dos brasões, porque 
me consta da existência de três ordenados por D. Manuel. Dois subsistem; 
são os chamados do Amieiro mor, e da Torre do Tombo; o outro, o mais 
velho, tinha o título de Livro antigo dos Reis d' Armas, e desapareceu, quando 
o terremoto arruinou o Cartório da Nobreza (4). Foram eles respectivamente 
ordenados por aquele Rei a João Rodrigues, rei de armas Portugal, ao ba- 



(i) Se isto sucedia na Monarquia, não lhe quis, ultimamente, desde que se restabelece- 
ram as distinções honoríficas, ficar atraz a República, e o enxurro das condecorações reco- 
meçou a enxovalhar as gentes. 

(2) Góes, Chronica do felicíssimo rei Dom Emanuel, fl. 347 da ed. de 1619. 

(3) Armaria portuguesa, apêndice ao Arquivo histórico português, pág. 27. 

(4) Fr. Manuel de Santo António, Thesouro da Nobreza, no artigo dos Osmas, o-i i, diz 
que as armas destes «estavam no Livro da Armaria dos Reis d'Armas, que se incendiou, de 
que conservamos copia». 



8 Brasões 

charel António Rodrigues, outro-sim Portugal rei de armas, e a António Go- 
dinho, escrivão da câmara. 

Alguma coisa direi de cada um dos livros, começando pelo mais antigo. 

Em 14 de Janeiro de 1490 era Portugal rei d'armas João Rodrigues, que 
naquela data subscreveu a carta de brasão de Pêro da Alcáçova, o dedicado 
escrivão da fazenda de D. João II (i). A 21 de Junho de i6o5 foi passada 
uma carta de brasão pelo rei de armas predecessor de António Rodrigues, 
segundo este mesmo declara noutra de 10 de Dezembro de i5i6 (2). O pre- 
decessor não nomeado por António Rodrigues sabe-se ter sido Martim Vaz 
como no-lo revela um documento, bem interessante por sinal. É ele o alvará 
de 23 de Outubro de i5i3 dirigido ao Feitor de Flandres, então João Bran- 
dão, dando-lhe ordem para assistir com trinta cruzados anuais, por tempo 
de dois anos, a Pêro de Évora, filho de Martim Vaz, rei de armas, enviado 
àquele Estado para aprender o que pertencesse ao ofício do pai (3). Dos 
conhecimentos de iluminura e de brasão adquiridos em Flandres por Pêro de 
Évora resultou, como logo notarei, o vir êle a ser, poucos anos depois, encar- 
regado da pintura das cartas de brasão. 

Tornou o predecessor de António Rodrigues a conceder mais uma carta 
de brasão, em 2 de Julho de i5o6, na qual declara dar a Nuno Caiado «as 
armas . . . como vão figuradas e pintadas no meio desta . . . e assim como 
foram e estão regis[adas no livro da nobre:{a do tempo que el Rei nosso se- 
nhor mandou por mim ordenara (4). 

As armas dos Caiados são as mesmas dos Gamboas, ou, para melhor 
dizer, aqueles não teem armas próprias e trazem as destes. 

Nem rio Livro do Armeiro mor, nem no da Torre do Tombo existem 
armas especiais para os Caiados, e as dos Gamboas estão em ambos eles 
na penúltima folha, que deveria ter sido pintada, no primeiro dos referidos 
livros, muito proximamente à data em que o deram por findo, isto é, a i5 
de Agosto de 1609, e por tanto três anos depois da carta de brasão de i5o6, 
na qual se declara existirem as armas dos Caiados, ou dos Gamboas (não é 
muito claro) já pintadas e registadas no livro da nobreza. Alem disto Fr. 
Manuel de Santo António, reformador do Cartório da Nobreza por provisão 
de 29 de Março de 1745, e autor do Thesoiiro da nobreza, traz referências 



(i) Armaria portuguesa cit., pág. 12. 
(2) Ibidem, págs. 533 e 534. 

Í3) Corpo cronológico, part. I, mac. i3, doe. 82; J. P. Ribeiro, Dissertações, V, 338. 
(4) Está este documento na Collecção de cartas de brasão da Biblioteca Pública de 
Lvora, e foi impresso pelo Visconde de Sanches de Baena no Archivo heráldico, pág. 679. 



Preâmbulo 9 

em várias partes desta obra ao Livro antigo dos Reis d' Armas, o qual de- 
certo teria tido muitas ocasiões de manusear, e no artigo dos Caiados lá diz 
ele, que as suas armas se achavam no mencionado livro. 

Mais ainda. Quando se passou a referida carta de brasão a Fr. André 
do Amaral, em 23 de Abril de i5i5, mandaram-se lançar as armas de Do- 
mingos Joanes no Livro do rei d' Armas. Não foi no feito por António Ro- 
drigues, porque neste não se encontram elas, e mesmo porque até já estaria 
entregue ao Armeiro mor; não se deve supor seria no ordenado por António 
Godinho, que em i5i6 ainda andava pintando a folha sétima, como adiante 
provarei; logo foi no outro, no tal que depois se chamou Livro antigo dos 
Reis d' Armas (i). 

De todo o exposto deverá concluir-se o seguinte: 

Existiu um livro de brasões, ordenado por D. Manuel ao rei de armas pre- 
decessor de António Rodrigues; 

Este livro não é o do Armeiro mor, pois que naquele já em i5o6 estavam 
pintadas umas armas, que, ou eram as dos Caiados e se não encontram no 
outro livro, ou eram as dos Gamboas, e neste só foram pintadas nas proxi- 
midades de iSog; 

No Cartório da Nobreza existiu um códice intitulado Livro antigo dos 
Reis d' Armas, no qual se via o brasão dos Caiados e que muito provável é 
ter sido o primeiramente ordenado por D. Manuel. 

O segundo livro dos brasões foi mandado fazer por D. Manuel, que da 
sua pintura, ou pelo menos da sua ordenação, encarregou o bacharel António 
Rodrigues, rei de armas Portugal e juiz da nobreza, o qual o fez, depois de 
prestar juramento de a cada um guardar sua justiça, e o assinou e selou com 
suas armas, em Lisboa, a i5 de Agosto de lõog. E este livro o chamado 
do Armeiro mor, em cuja casa esteve depositado durante séculos, e que hoje 
(1899) está em poder dei Rei (2). 



(i) Com estas armas de Domingos Joanes dá-se a coincidência singular de terem desa- 
parecido de toda a parte, menos da capela onde primeiramente existiram. Mandaram-nas 
lançar no Livro dos reis d'armas, este destruiu-o o terremoto; lançaram-nas no Livro da 
Torre do Tombo na folha 24, esta é uma das roubadas. Existem contudo em Oliveira do 
Hospital na capela modernamente chamada dos Ferreiros, onde está sepultado Domingos 
Joanes, e onde em i5i6 se foram copiar. Ali, na tal capela, lá se vê o escudo da aspa acom- 
panhada das quatro flores de lis, como se descortina numa fotogravura do folheto de Ade- 
lino Abreu intitulado Oliveira do Hospital. 

(2) A descrição deste livro seria muito curiosa, mas alongaria desmesuradamente estes 
preliminares, e espero ter ainda ocasião mais apropriada para o descrever. Ainda assim 

VOL. 1 2 



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I o Brasões 

Ainda antes do livro ser datado e assinado, ordenara D. Manuel, em 5 
de Julho de t5o9, as segundas adições ao Regimento do Armador mor, assi- 
nado, dia a dia, dois anos antes. Nestas adições, entre outras coisas, diz-se 
isto: «Hordenamos, que o livro, que mandamos fazer das Armas dos Fidal- 
guos de nossos Regnos o tragua sempre o dito nosáo Armador mor, em huma 
das arquas, em que andarem as armas de nossa pessoa para que cada vez, 
que nos quizermos ver, ou cumprir de ser visto por algum caso, nollo possa 
mostrar, e dar.» Transcrevo isto conforme o encontro na Historia genea- 
lógica, onde, depois de copiar aquele período, acrescenta D. António Cae- 
tano de Sousa estas palavras: «e por este justificado motivo he, que este 
livro está em poder do Armeiro mor, e os que naõ tem esta noticia lhes pa- 
recia muito estranho, ver este livro fora do Archivo Real» (i). Dizia o Tea- 
lino muito bem; e agora que o livro deixou de estar em poder do Armeiro 
mor, e está na mão dei Rei, para a Torre do Tombo, para o Arquivo Na- 
cional, é que ele deverá ir, e, se não está já lá, é porque ainda ninguém o 
lembrou a S. M., que foi quem salvou o precioso códice de ir parar a algum 
museu estrangeiro, pelo que todos muito gratos lhe estamos (2). 



transcreverei a autêntica, que o precede, por ser curta e por ter sido impressa há pouco 
com muitos erros. Diz ela: 

«Liuro ;• das armas C Que ho muyto alto. d Muyto excellente. E muyto poderosso 
princepe. ([ ElRey dom manuell ([ Primeiro Nosso Senhor. ([ Per graça de ds. Rey de por- 
tuguall T dos alguarues. C Daquem t dalém. mar. Em africa x Sor de guinee. {[ E da con- 
quista. Naueguaçom. E comercio de ethiopia. Arábia. Pérsia. E da Jndia Madou Amy Rey 
darmas Portuguall C Juiz da nobreza. Que cõpossese t hordenasse, ([ E nelle asentasse, 
Todallas armas. Dos. Reys. E princepes xpaãos. d E asy Judeus. Mouros x gentijos. ([ Domde 
primeiramente, decendeo. x começou. A nobreza. ([ E asy asentasse x possese : Todallas 
armas. Dos nobres destes Reynos E senhorios. Cada huúas em seu luguar propio. ([ E bor- 
dem. Como forom dadas antiguamente A cada hua C E pêra ello me mandou dar Juramento. 
C Sobre os sanctos avangellos per pêro de lemos seu capela C E afomsso mexia, estpriuam 
da sua camará. ([ Que bem x verdadeyramente. A Cada huu guardase sua Justiça. ([ Asy 
no luguar x antigujdade. Como em todo ali. E ho asinasse. De meu propio synall x armas. 
([ Feyto em lixboa. A xv. ds de agosto de mill e. v. & ix. Annos». 

A direita assinado: «Rey darmas Portugall«, em duas linhas. — A esquerda o brasão 
iluminado: Escudo pendido, cortado: o I de vermelho, águia de prata; o II faxado de oiro e 
azul de oito peças. Elmo de aço guarnecido de oiro, de três quartos, quási cerrado. Tim- 
bre: adejo de oiro. Paquife de oiro forrado de vermelho. Virol de vermelho perfilado de 
prata, e de azul. Correia de verde. 

( 1 ) Historia genealógica, vol. I, pág. cxciv. 

(2) Também concorri um pouco para que o pMicioso livro das armas se não perdesse, 
e de façanhas destas ninguém levará a mal gabar-me. 

Estava eu um dia num grande armazém de leilões e vendas na avenida da Liberdade, 
quando apareceu o Marquês da Foz, também frequentador da casa e grande comprador de 



Preâmbulo i \ 

Hoje já se encontra no Arquivo Nacional. 

No mesmo lugar citado, na página precedente porem, havia-nos dito D. An- 
tónio Caetano de Sousa, que, quem iluminara o Livro do Armeiro mor, tinha 
sido mestre Arriet, alemão. 

Deste estrangeiro e doutro, mais do que hipotético me parece, Jean du 
Cros, não encontro notícia nenhuma. Aparece porem a carta de nomeação 
de rei de armas Algarve a Jamays, que pelo nome não se me afigura Portu- 
guês (i). Foi ela passada a 2 de Junho de í5i4; ele já anteriormente porem 
exercia o ofício como consta de uma carta de brasão de 27 de Abril do mesmo 
ano (2). .Tenho ainda conhecimento de outra carta por êle passada no apon- 
tado ano de 1 5 14, a 1 1 de Julho (3), e sei que em i3 de Abril de 1627 já 
outro era o rei de armas Algarve (4). Nas duas cartas de brasão indicadas 
aparece o nome do rei de armas escrito James. 

Darei em seguida as noticias, até agora encontradas, relativas ao bacharel 
António Rodrigues e aos seus colaboradores, no período áureo da heráldica 
portuguesa. 

Martim Vaz, predecessor daquele rei de armas, ainda passou uma carta 



objectos valiosos. Conversámos um bocado, e de repente pregunta-me o Foz, se eu co- 
nhecia um livro em pergaminho com brasões iluminados. O coração estremeceu-me logo, 
mas, não dando nada a conhecer, fui puxando e ouvindo, e já persuadido de que se tratava 
do Livro do Armeiro Mor, adquiri a certeza quando o Marquês se me referiu a outro pre- 
cioso manuscrito, um livro de horas, revelando haverem-lhe sido ambos oferecidos. 

Não podia haver dúvidas. O Duque de Albuquerque, armeiro mor, tinha o livro na sua 
mão e havia morrido pouco antes; eram pois os herdeiros que tratavam de fazer dinheiro 
das duas preciosidades, ambas minhas conhecidas. Amicus Fo^, sed magis arnica heráldica 
corri ao Terreiro do Paço, subi ao ministério do Reino, falei ao ministro, então António 
Cândido Ribeiro da Costa, e preveni-o. 

Este, ou outra pessoa, mandou pedir o livro da parte dei Rei aos herdeiros do falecido 
Armeiro mor, e salvou-se a preciosidade. Posteriormente, por uma carta de 25 de Junho 
de 1899 do actual Conde de Mesquitela, um daqueles herdeiros, soube com exactidão como 
teve lugar a entrega do precioso códice. Foi o Conde de S. Mamede, secretário dei Rei, e 
não o Ministro do Reino, quem, em nome de D. Carlos e da sua parte, manifestou o desejo 
de consultar o livro, desejo imediatamente satisfeito. Não obstante, acrescentava eu em 
1899, era para a Torre do Tombo que o livro precisava ir, não só por ser lá o seu lugar, 
mas também por a forma como êle saíra da mão dos herdeiros do penúltimo Conde de Mes- 
quitela, assim o exigir. 

Na Torre do Tombo já êle se encontra, tendo sido para lá remetido em Setembro de 
1912, segundo lacónica informação do actual Director. 

(i) Corpo cronológico^ part. I, mac. i5, doe. 53. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. i5.°, fl. 58. 

(3) Ibidem, liv. 11.», fl. 42. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 2.» de Doações, fl. 5-/ v. 



1 2 Brasões 

de brasão, já lá acima indicada, em 2 de Julho de i5o6; poucos anos porem 
depois, em iSog, já António Rodrigues era Portugal rei de armas principal, 
como consta da data do Livro do Armeiro mor por ele assinado. Contudo 
as primeiras cartas de brasão, que encontro passadas em seu nome, são duas 
do ano de i5i2 (1). 

Organizada por D. Manuel a pomposa embaixada de Tristão da Cunha 
ao papa Leão X, o Rei de armas Portugal, que, com «seu escudo muy bem 
atabiado», precedia o embaixador no memorável dia 12 de Março de i5i4, 
em que êle, com o elefante, onça e tudo mais, fez a solene entrada em 
Roma (2), era o nosso bacharel António Rodrigues (3). Pouco por lá se de- 
morou, pois que a 25 de Outubro do mesmo ano já de volta passava uma 
carta de brasão em Lisboa (4). 

Por cá permaneceu exercendo o seu ofício, e alcançou, em i53o, por al- 
vará de 10 de Fevereiro, confirmado por carta de 12 de Abril de i535, que 
fossem obrigados todos os possuidores de despachos para tirarem armas, a 
requererem as respectivas cartas de brasão, sob pena de perderem o direito 
aos despachos (5). 

Depois foi nomeado juiz das sisas de Lisboa por carta de i3 de Abril de 
1644, com o mantimento anual de cinquenta mil quatrocentos e oitenta e 
cinco reais (6), e ficou acumulando os dois ofícios, como consta do alvará de 
3 de Outubro de i55o para lhe ser pago aos quartéis do ano, isto é, aos tri- 
mestres, a aposentadoria numas casas por ele indicadas (7). 

Ainda viveu António Rodrigues mais alguns anos, porque o encontro 

«subscrevendo várias cartas de brasão até 6 de Julho de i558 (8). Em iSõg, 

a 29 de Junho, passou-se ainda outra das tais cartas, esta porem transitou 

directamente pela Chancelaria, e portanto não se fez nela referência ao Rei 

de armas (9). No ano seguinte de i56o quem exercia o ofício de Portugal 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 42.", fl. 2 v. e 4. 

(2) Corpo diplomático português, I, 284, carta do dr. João de Faria a el Rei. 

(3) A 25 de Abril de i5i4 passou o Rei de armas índia uma carta de brasão {Chancelaria 
de D. Manuel, liv. 11.», fl. 62 v.); a 3 de Junho seguinte passou êle outra, declarando o fazia 
por quanto o Rei de armas Portugal não era no reino {Ibid., fl. 40) ; a 1 1 de Julho, sempre 
do mesmo ano de i5i4, foi passada uma carta de brasão por James, rei de armas Algarve, 
na ausência do Rei de armas Portugal, em serviço com Tristão da Cunha, embaixador em 
Roma {Ibid., fl. 42). 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 11.°, fl. 65 v. 

(5) Chancelaria de D. João 111, liv. io.° de Doações^ fl. 60. 

(6) Ibidem, liv. 5." de Doações, fl. 89 v. 

(7) Ibidem, liv. 4.° de Privilégios, fl. 45 v. 

(8) Chancelaria de D. Sebastião, liv. i." de Privilégios, fl. 291. 

(9) Ibidem, fl. 25 1 . 



Preâmbulo 13 

rei de armas era o filho de António Rodrigues, Gaspar Velho, que naquela 
qualidade passou uma carta de brasão em i6 de Março (i). Provavelmente 
o Rei de armas de D. Manuel era já morto. 

Nos quatro anos de i5i2 a i5i3 encontro, fazendo as cartas de brasão, 
nem menos de sete indivíduos, nenhum deles porem se intitula escrivão da 
nobreza, e julgo que o seu trabalho teria sido unicamente a parte caligráfica 
dos documentos, executando a artística, a iluminura, o próprio Rei de armas, 
ou o tal colaborador, que se diz ele tivera no Livro do Amieiro mor. 

Em i5i7 porém, a 2 de Abril, aparece-me Pêro de Évora, escrivão da 
nobreza, fazendo uma carta de brasão (2). O alvará de nomeação, no qual 
êle é declarado arauto do Príncipe, foi-lhe contudo só passado a 22 de De- 
zembro de 1620 (3). 

Por este documento consta, que Pêro de Évora tinha a seu cargo fazer 
todas as cartas de armas iluminadas e com o seu escudo pintado e timbre, 
se o tivesse, e tudo acabado da maneira como êle havia feito a do Barroso 
de Flandres (4). Ficou obrigado a ter sempre esta à mão, posta em uma 
táboa e assinada por el Rei, para servir de modelo e amostra aos interessa- 
dos, que por cada uma análoga por êle passada seriam obrigados a pagar-lhe 
oitocentos reais; isto, se eles não quisessem obra milhor, porque então de- 
penderia de ajuste. Morto D. Manuel, pediu Pêro de Évora confirmação 
do seu ofício a D. João III, e então requereu aumento no preço das cartas 
de brasão, alegando ser aquele diminuto, pois que gastava muito tempo em 
as fazer, e lhe davam muito trabalho. El Rei deferiu-lhe, confirmando o 
ofício e pondo a taxa de mil reais às cartas, por alvará de 10 de Janeiro de 
i534(5). 

Além de escrivão da nobreza foi Pêro de Évora também rei de armas Al- 
garve, e assim se intitula já em carta de brasão de i3 de Abril de 1627 (6), 
e ambos estes ofícios conservou até à morte, acumulando-os com o de escri- 
vão d'ante os corregedores do cível e crime da correição de Lisboa, para 
que foi nomeado em 3 de Março de i53o (7). 

E com data de 3i de Julho de i537 que encontro a última carta de brasão 



{i) Armaria portuguesa CiX-j^çià.^. 5 \o. 

(a) Chancelaria de D. Manuel, liv. 9.°, fl. 7 v. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 42 <> de Doações, fl. io3, incluído noutro. 

(4) O secretário Cristóvão Barroso, enviado e depois embaixador de Carlos V a D. João III 
e que parte muito activa tomou em contrariar o casamento deste rei com sua madrasta, se 
é que em tal se pensou. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 42.° de Doações^ fl, io3, 

(6) Ibidem, liv. 2.°, fl. 5j v. 

(7) Ibidem, liv. 42.", fl. io3 v. 



H 



Brasões 



feita por Pêro de Évora, entre as registadas na Torre do Tombo (i), e já a 
21, 23 e 27 do mesmo mês aparecem outras feitas, em nome de Pêro de 
Évora, por António de Holanda (2), que de 7 de Agosto (3) por diante con- 
tinua a fazer as mais. 

Seria nesta ocasião, princípios de Agosto de i537, '^^^ ^ Escrivão da 
nobreza partiria em serviço dei Rei para França, onde faleceu antes de i3 
de Janeiro de 1542, data da carta de mercê do ofício a seu íilho Jorge Pe- 
droso (4). Creio mesmo que morrera muito antes, porque até 9 de Agosto 
de i638 António de Holanda declara fazer as cartas por Pêro de Évora, es- 
crivão da nobreza, ao passo que, logo a 23 de Setembro do mesmo ano e 
d'aí por diante, êle as faz por mandado de S. A., sem mais nomear o antigo 
Escrivão (5). D'aqui concluo, talvez acertadamente, que já então tinha che- 
gado a notícia do falecimento de Pêro de Évora. E ainda mais mo confirma 
o ver a António de Holanda intitular-se escrivão da nobreza em 3 de Março 
de 1539, como logo direi. 

Deveria ter Pêro de Évora partido para França com o dr. Brás Neto, 
bispo de Santiago, e com o desembargador Afonso Fernandes, nomeados por 
D. João III, em i5 de Julho de 1637, para servirem com dois Franceses de 
juízes árbitros na questão das tomadias, que haviam de ser julgadas em 
Baiona (6). 

Aquele António de Holanda, acima nomeado, é o bem conhecido pai do 
famoso Francisco de Holanda, e por este em seus escritos posto nos píncaros 
da arte de iluminador. 

Sucedera António de Holanda a Francisco Henriques, notável pintor do 
seu tempo, falecido de peste em fins de i5i8, princípios de iSig, no ofício 
de passavante e já o exercia em 1628(7). ^^^ P^^^ ^^ qualidade de oficial 
da nobreza que êle começou a servir de escrivão por Pêro de Évora a 21 de 
Julho de 1537, como fica dito; já antes disso porem por algumas vezes tinha 
pintado cartas de brasão por provisão, ou especial mandado, dei Rei. Duma 
sei eu a I de Outubro de i533 (8), e doutra a 27 de Setembro de i536, na 
qual já se intitula oficial da nobreza (9). 



(1) Chancelaria de D. João III, liv. 23.* de Doações, fl. G4 y. 

(2) Ibidem, liv. 44.°, fl. 82, e liv. 23.", fl. 82. 

(3) Ibidem, liv. 23.», í\. gS v. 

(4) Ibidem, liv. 42.", fl. io3. 

(5) Ibidem, liv. 44°, fl. 94 v., e liv. 27.°, fl. 9. 

(6) Visconde de Santarcrri; Quadro elementar, III, 264. 

(7) Vida e obras de Gil Vicente, pág. 241. 

(8) Chancelaria de D. João III, liv. 46.'* de Doações, fl. 72 v. 

(9) Ibidem, liv. 22.», fl. 92. 



Preâmbulo i5 

De 7 de Agosto de iSSy por diante, até 9 do mesmo mês do ano seguinte, 
como já disse, fez António de Holanda trinta cartas de brasão por Pêro de 
Évora, escrivão da nobreza, ausente em França. De 23 de Setembro desse 
mesmo ano de i538, até 21 de Fevereiro do seguinte, encontram-se quatro 
cartas feitas pelo mesmo oficial da nobreza por mandado especial dei Rei (i). 
Em 3 de Março de iBSg intitula-se escrivão da nobreza (2), e d'aí por diante 
fez mais cinquenta e quatro cartas de brasão, subscrevendo umas apenas com 
o seu nome, outras declarando as fizera por especial mandado, e muitas in- 
titulando-se, ora oficial da nobreza, ora seu escrivão. A última por êle feita 
é de 19 de Julho de i532 (3), notando-se que isto é tirado das registadas na 
Torre do Tombo, que muitas outras faria, tanto este escrivão da nobreza, 
como o seu predecessor, as quais não fossem lá registadas. 

Em 3i de Agosto de 1642 já existe uma carta de brasão feita por Jorge 
Pedroso, escrivão da nobreza, filho de Pêro de Évora, para aquele ofício no- 
meado em i3 de Janeiro do mesmo ano (4). 

Foram pois Pêro de Évora e António de Holanda os dois principais co- 
laboradores de António Rodrigues, e os artistas exímios que iluminavam 
aqueles tam característicos e scientíficos, desculpem-me a expressão, brasões 
quinhentistas. 

Antes de acabar coni êle ainda mais duas palavras a respeito do Livro 
do Armeiro mor, ou Livro Grande, como também lhe chamavam. 

Quando António Rodrigues, em 16 de Agosto de 1609, o datou, assinou, 
e provavelmente entregou ao Armador mor, não estava o livro acabado, ou 
então era muito deficiente (5). 

Pelo mesmo pincel estão iluminados os brasões até à folha i34 inclusive, 
e mais um escudo no alto da folha i35. Na folha i36, tomando toda a lauda, 
está pintado por outra mão, mas ainda de artista, o brasão dos Ribafrias, tendo 
escritos por baixo uns dizeres relativos à concessão daquelas armas. Na folha 
seguinte, a 137, também tomando todo o recto dela, vêem-se as armas de 
Diogo de Torres, estas porém pintadas por mão bem mais inexperiente. 



(i) Chancelaria de D. João III, Doações, livs. 27.°, fl. 2, 9 e 16, e 44.°, fl. ii3 v. 
(2) Ibidem, liv. 27.°, fl. 20 v. 
Í3) Ibidem, liv. 32.», fl. 64.J 

(4) Ibidem^ liv. 32.», fl. 74 v., c liv. 42.", fl. io3. 

(5) Pedro de Mariz, no Prólogo anteposto à Chronica de D. Afonso IV de Rui de Pina 
e impresso juntamente com ela na edição de i653, no verso da folha 5 das preliminares não 
numeradas, declara haver sido o livro dos brasões, mandado fazer por D. Manuel e por êle 
entregue aos Armadores mores, acabado no ano de iSig, «como delle se vê». O que dele 
se vê é ter havido aqui erro de cópia ou de impressão, porque no livro está muito clara- 
mente «XV. dias de agosto de mill e .v^. e ix. Annos». 



1 6 Brasões 

Não é por ao livro se terem acrescentado estas armas, que eu Julgo ele 
ter sido dado por promo, estando incompleto ainda; não é, porque elas são 
ambas de datas muito mais modernas, umas de i54i, as outras de i56o. 
E sim por nele faltarem armas concedidas por cartas de brasão anteriores a 
iBoQ, que julgo o livro ter sido entregue incompleto, ou então ter o trabalho 
sido revisto com pouco cuidado. Note-se sempre que eu só sei do existente 
na Torre do Tombo, e que muito mais haveria que lá não chegou a ser re- 
gistado, facto pelo próprio livro atestado. 

Existiam já as armas dos Guantes dadas em 20 de Julho de 1454, as dos 
Cáceres, em 23 de Junho de 1459, as dos Câmaras, em 4 de Julho de 1460, 
as dos Frades, em 8 de Novembro de 147 1, e as dos Garros, em 3i de Agosto 
de 1475 (i), e nenhuma delas aparece no livro de António Rodrigues. Isto 
não falando nas armas concedidas a Gil Simões, Lopo Esteves, João Lou- 
renço, Gabriel Gonçalves (2) e outros, porque estes não originaram estirpe, 
e d'aí não admira lhes não dessem cabimento aos brasões no Livro do Ar- 
meiro mor. 

Vamos agora ao terceiro livro. 

Apesar das acuradas investigações, e do primor da iluminura, reconhe- 
ceu-se que ao livro de António Rodrigues faltava, como a toda a obra hu- 
mana, a perfeição. Para remediar isto encarregou D. Manuel a António 
Godinho, escrivão da câmara, de emendar os erros contra as regras da ar- 
maria cometidos, e de acrescentar o que necessário fosse, principalmente os 
timbres, a cada uma das linhagens. Do trabalho de António Godinho vemos 
o brilhante, ainda que não de todo impecável, resultado, em um livro, cha- 
mado da Torre do Tombo por lá ser guardado. Tem ele um título mais 
moderno em letras doiradas dentro de uma espécie de ramagem feita à pena 
com tinta preta, tomando todo o frontispício e cheia de desenhosinhos. Diz 
o título: Liuro da nobreza / perfeiçam das armas / dos Reis christãos e no- 
bres li I nhages dos reinos e senhori / os de Portugal / (3). 



(i) Armaria portuguesa cit., págs. 235, 97, 104, 2o3 e 221. 

(2) Respectivamente em 1488, 1471 e 1475 (duas), Ibidem, págs. 477, 184, 280 e 23i. 

(3) Assim como do livro de António Rodrigues, reservarei a descrição do de António 
Godinho para ocasião mais oportuna. Transcreverei contudo o Prólogo, interessante, ape- 
sar de um pouco longo, e que serve em parte para fundamentar o meu texto. Aí vai: 

«PROLOGO DIRIGIDO AO MVITO ALTO E MVITO PODEROSO ELREY DOM 
lOAM O TERCEIRO DESTE NOME E QVINTODECIMO DOS REIS DE PORTVGAL 
Per antonio Godinho Seu Scriuam da Camâra 

MVITO ALTO E MVITO PODEROSO REY E SENHOR DICTO HE DE PLATAM. 
Que se a virtude com os olhos corporaes se visse, Geraria amor de ssimesma, E por isso os 



Preâmbulo 17 

Pela leitura do Prólogo deste livro na nota transcrito fica-se sabendo, 
melhor que pela Chronica, quais as intenções de D. Manuel ao ordená-lo. 



poetas & sabeos trabalharão, De a ensinar decrarandoa per metaphoras fingimentos de figu- 
ras, Pêra o etediméto & coracã a milhor setir e cõceber, Os antigos fazia statuas c6 q muito 
encendiã os ânimos nella segundo SALVSTIO & outros autores, E por que nos premyos 
Que os príncipes dam aos bõs, A proporçam he necessarea segundo as calidades dos 
méritos. Cousa conueniente foy os que sinaladas virtudes fazem serem sinalados com images 
de insines armas. Com as quaes guardando a immortalidade de suas famas, Seus socessores 
teuessem obrigaçam : de os imitar, Que muita parte dos homcs se moue mais polia fama q 
per outra virtude) E vedo nas coronicas se nõ screuer de todos & dos Que ssescreue: sere 
breuemete recõtados seos feitos: nõ se tratando dos priuilegios liberdades Que per cartas 
dos REIS lhes foram dadas Quando os nobilitarão, Tinha em costume por suas memoreas 
se nom perderem, Assi como de as acrecetar com virtuosos & memoraueis feitos, Cõ ex- 
presso cuidado fazer registar as armas de suas nobrezas nos liuros dos reis delias perfeita- 
mete: requerendolhes fezessem as aruores de suas genologias, Satisfazendo os segundo seu 
regimento, Parece Que por se nom fazer nestes Reinos como conuinha, Cayo em tantanto 
esquecimento esta deuida lembrança & ta se ella viera a vsar delias. HQs que inorando as 
diminuyam Outros Que ressabendo as acrecetauã Outros Que com proueza frouxidade : ou 
cruel ventura as desemparauam que se ELREY vosso padre Que ds tem o nõ oulhara: 
aquerindo pêra si o despacho Que dantes era nos reis darmas: encarregandosse disso como 
de cousa sua, Nom fora muito elles delias ficarem alheyos, E buscadas per seu mandado: 
em liuros sepulturas edeficios e lugares em q se achauam, Delias & as dos REIS cristãos 
mouros & getios o LIVRO gramde ouue copea, Per cima disso tomada enformaçam dalgus 
officiaes darmas Que has cortes do EMPERADOR . REY de frãça Castella Ingraterra êuyou 
ver o Que se la costumaua Achou ser necessareo corregerêse muitas Que desconcertadas: 
polia corruçam do longo tempo erao & cõuinha darese timbres a todas : por serem ia per- 
didos & se nõ acharem. Cuia mingoa & defeito. S A. Querendo prouer (Que ao REY conuem 
dar o timbre & nõ o que cada hum Quer tomar como algus cuidam, lhes deu os mais no- 
bres Que se dar podiam mãdandoas aqui asentar em toda perfeiçam per suas antiguidades 
& como no dicto liuro se achara, Acrecetando antes ê muitas cousas Que minguado algua, 
Guardando as insines regras polia seguinte maneira. Sam os chefes das linhagés obrigados 
a trazer as armas dereilas Asi como foram dadas ao primeiro Que as ganhou & os outros 
CÕ as deferenças Que seus grãos requerem, Que o ai seria desordem & baxeza daquelle Que 
honrar se quisesse de honra nõ sua, Antes deuia ter aquella vergonha Que diz PLÍNIO no 
capitolo da honra da pintura terem os romãos Que socediam as casas dos passados em Que 
ficauam suas armas sobollas portas. Por entrarem cada dia No trunfo Aheyo, E auer por 
mais Qualquer menos scudo seu Que outro Que se contradiz, Demaneira q esta regra quis 
se guardasse primeiramente antre os senhores IFANTES vossos irmãos: segundo pellos 
labeos se mostra, Mudarãlhe os timbres: porq despois de .S. A. ter vistos os liuros & pa- 
recer de seus reis darmas, Ouue porbem o tíbre real se nom trazer sem mudança. Posto 
Que rias outras linhagés assi nõ fosse, E os Que traziam armas reaes squarteladas: trou- 
uessê suas bastardias, Querêdo o ainda scusarse nã se achara q nos REIS se nõ purgauam, 
Nê o esquartelado bastaua pêra deferêça, A regra dos outros timbres he tirarêse dos scudos, 
avedo nelles cousas de q se possa fazer: ou darêlhos daigúas cõformes aos apelidos & assi 
se fez a todallas armas, per outra regra Que manda nÕ trazer metal sobre metal nê cor sobre 
cor: se vereficaram muitas Que falsas handauam : podendosse presumir nom serem verda- 

VOL. I 3 



1 8 Brasões 

As primeiras investigações acerca dos brasões dos nobres portugueses foram 
feitas no reino pelos reis de armas João Rodrigues e António Rodrigues, 



déiras, Também avia no liuro algúas : Que separados scudos de húa maneira seruiam três 
& quatro linhagês como sã, Silueiras, Pestanas, Leitões, Coutinhos, Fonsecas, Tauares & 
outros, sobre as quaes ouue oupenyam Que as deferençassem. Pêra cada huas serem per si 
conhecidas. E achandosse as taes linhagês procederem hilas doutras. Nos timbres somente 
se diuidiram pello modo já dicto. Outras auia Que nií soo scudo se nomeauam duas linhagês. 
Assi mesmo foram apartadas. As nouas que se acharem cõ elmos abertos vam per modo 
dantiguidade : poUo liuro se fa^er pêra muito tempo & irem nomeadas nos decendentes dos 
que as ganharam. Os quaes ate o quarto grão as nom pode fora delle assi trazer. Em todos 
os outros brasões os elmos se abriram. Que sendo as linhagês mui antigas estauam çarrados. 
Fezeramse oito scudos en cada folha como estam no grande do meyo por diante, polia or- 
dem e que o começo hia demandar demasiada altura & conuinha ser manual & portátil, 
pêra com elle. S. A. despachar as armas & se lembrar das linhagês & o ter por registo delias. 
Outras muitas cousas se emendarão Que seria dilatoso dezeremse. E por este liuro nÕ ser 
ainda acabado Quando ds leuou ELREI .VA. nom esquecido de dar fim has cousas per elle 
começadas, o mandou acabar. E có elle nÕ ousaram algús fazer confusam cõ os apellidos Que 
as gentes do pouo costumam tomar ou poer per desdém hús a outros. E despois pedem ar- 
mas & as ham indiuidamcte. E em .V. A. oulhar por tal deuassidade: faz mercê aos grandes 
& fidalgos & nÕ pouca iustiça. Que a honra Que hus ganharam per uirtudes grandes ser- 
uiços & acrecentameto dos reinos. Iniusta cousa he outros per engano a auerem com gram 
preiuizo de pouo Que na sogeiçam dos pedidos fica, Nem teram rezam de se agrauauar 
aquelles Que teuerem armas mal auidas ou as quiserem aver: pois he cousa tam notorea 
.V. A. averse mui liberalmete nisso Nobilitando muitas pessoas com singulares armas & com 
outros nõ husando riguroso exsame : por naturalmente auer na condiçam de V. A. esta ex- 
celência aliem das outras em que também nom som dino fallar, Folgar de dar honra a toda 
pessoa Que lha pede & a merece, Como se manifesta pellos grandes de seus reinos Que fez 
mayores, Fez muitos perlados [e] Condes & muitos fidalgos do conselho, & a outros deu o 
dõ & a muitas molheres, Fazendo de muitos caualeiros fidalgos & de piaes caualeiros Hõ- 
rando com aueto de nosso senhor lESV CHRISTO Grande numero de pessoas. Nunca do- 
uidou acrecentar A caualeiros & escudeiros. Nom somente aquelles a que uinha per foro : 
mas aos que em outros tempos se nom costumaua fazer, Pois Quem vir os liuros das mo- 
radias & tenças Que tem dadas com os passados: ficara mui espantado de tanta nobreza, 
E os filhamentos sem moradias a que fim foram senam ter gosto de honrar pessoas. Digam 
os theologos Canonistas legistas : outros leterados & studantes Quanta honra & mercê oneram 
por nobilitar com isso os pouos, Confessem as Cidades seus acrecentamêtos, E as villas 
Quatas delias fez cidades & outras notaueis, E as aldeãs Quantas delias fez villas, Pois os 
edeficios nom se podem negar suas manificencias & que nõ vimos restauradas as vitruicas 
n:^edidas q de tantos annos a esta parte por nÕ auer tanta grandeza de ânimos Que as con- 
seruassem pereceram, Nom negaram as ilhas & terras de seus senhorios quam nobilitadas 
de perlados e sees com dinidades & moesteiros sam & de outros preuilegios, priuilegiando 
no defender das sedas pessoas despriueligiadas pêra que honradamente & como caualeiros 
podessem viuer, Lembrouse da nobreza dos estrangeiros ê seus reinos moradores mandando 
saber & asentar suas armas, Procurando acrarar algúas linhagês escuras e as ter: por se nom 
acharem nos liuros nem delias auer pessoas conhecidas, Nom ouso tocar em suas mayores 
grandezas temendo o prouerbio de APELES Ne super crepidã sutor iudicaret. E bem sei 



Preâtnbulo 



19 



entre os anos de 1496 e 1609, e delas o produto hoje existente foi o Livro 
do Amieiro mor. 

Feito este, mandou D. Manuel alguns oficiais de armas às cortes do Im- 
perador e dos Reis de França, Castela e Inglaterra, a tomarem informações 
respectivas ao seu ofício, nessas cortes posto em estado de grande perfeição. 
Voltando os oficiais reconheceram-se graves imperfeições no livro de António 
Rodrigues e viu-se a necessidade de ser emendado e ampliado. Encarregou 
então disso el Rei a António Godinho. Acrescentou ele os timbres aos bra- 
sões, seguindo o exemplo alemão e inglês e despresando o francês e o cas- 
telhano; e emendou muitos deles com infracções às regras da armaria ilumi- 
nados no precedente trabalho, mas ainda deixou escapar alguns erros, poucos, 
dos mais intoleráveis porém, os de metal sobre metal. Haja vista nas armas 
dos Eças, um cordão de oiro sobre campo de prata, e nas dos Albergarias, 
a bordadura de prata, sendo o campo do mesmo metal. 

Começou António Godinho o seu livro ainda no reinado de D. Manuel, 
portanto ainda antes de 1 3 de Dezembro de i52i; e findou-o depois do ano 
de i528, antes porém de 16 de Setembro de 1541. Chego a esta conclusão 
pelo exame dos brasões lá pintados. 

Há folhas às quais posso precisar bastante o tempo em que foram ilumi- 
nadas. São elas a sétima no verso e toda a oitava. Esta parte foi feita 
entre os dias 9 de Setembro de 1 5 16 e 7 de Março de iSiy. Na folha oi- 
tava vêem-se as armas do infante D. António, nascido na primeira data apon- 
tada; na outra folha as da rainha D. Maria, falecida no segundo dia marcado. 
Não pode pois haver dúvida; continuarei porém com o que diz respeito ao 
livro em geral. . 

Na folha 41 encontram-se as armas de Cristóvão Leitão, e conhece-se ha- 
verem sido desenhadas e pintadas pela mesma mão que fez o resto do livro. 



que VOSSA ALTEZA posto que com verdadeira speculaçam sinta & enda as cousas de 
scientia & arte, A muita grandeza sua lhe faz dissimular a fraqueza dos engenhos daquelles 
Que o seruem nellas. Mas por esta obra ser cousa Que se ha de mostrar & o tachar he fácil 
& o fazer difícil, f íumilmete lhe peço que lembrandolhe alguém os defeitos delia : se lembre 
Que ainda se nõ vio pintura perfeita ne em outras artes Quem e tudo acertasse. Nem duuido 
aver pessoas a que pareça mal os liões agueas & outras figuras nõ serem postas ao uiiio, 
Mas a arte das armas he pintarense con ferocidade sobre natural. Grandes nembros bocas 
unhas & corpos delgadçs estendidas ha feiçam dos scudos terços quartos & outras repar- 
tições Que desacompanhadas parecerim mal & pior as figuras encolhidas. Cuia pintura aqui 
escusa pintarêse per palauras propias & naturaes, E como as armas seiam sinaes de uirtu- 
des, sam obrigados os nobres husar do que os liões serpes aues & outras feras ou mansas 
& os metaes & cores delias seneficam, Daqual Arte, Por ELREY Que ds tem Ter gosto de 
se seruir de ml Procurei saber o que pude & neste liuro fiz o que bastaua Posto Que nom 
fezesse o Que se poderá fazer Se as outras em que de contino Seruia Me deram Lugar.» 



20 Brasões 

Ora àquele Cristóvão Leitão, que foi coronel e capitão dos alabardeiros, 
deram-se armas por duas cartas de brasão, uma de 21 de Abril de 1624, a 
outra de 3o de Junho de i528 (i). As concedidas pela primeira carta foram 
bastante modificadas pela segunda e, conformes com as desta, estão elas no 
livro de António Godinho; logo, este ainda não estava concluído em i528. 

No verso da mesma folha estão as armas de Jorge Dias Cabral, as quais, 
em virtude da ordem cronológica adoptada por António Godinho, segundo 
ele próprio declara, haviam de ter sido confirmadas depois de concedidas as 
de Cristóvão Leitão, e digo confirmadas, porque consta haverem elas sido 
dadas por Carlos V. Não existe contudo a carta de confirmação, e portanto 
não posso aproximar mais a data da conclusão do livro. 

Na folha 42 deste vêem-se as armas de Gaspar Gonçalves de Ribafria, 
pintadas e desenhadas porem por mão muito mais inábil, certamente não a 
do exímio artista que havia feito o resto. A carta de brasão de Gaspar Gon- 
çalves foi passada em 16 de Setembro de i54i (2); logo, a esse tempo já o 
livro estava concluído e entregue na Torre do Tombo. 

E não o deram por findo só então, segundo creio, antes me parece que, 
pouco depois de pintar as armas de Cristóvão Leitão em i528, deu António 
Godinho a sua tarefa por acabada. Vou apresentar as minhas razoes. 

De brasões de famílias, registados na Torre do Tombo anteriormente a 
3o de Junho de i528, omitem-se no livro de António Godinho os dos Guan- 
tes, Cáceres, Frades, Garceses, Spínolas, Lombardos, Amadores, Tangeres, 
Saccides, Loronhas, Beringéis, e la Penhas: doze ao todo. 

Dos registados no mesmo Arquivo, entre a precedente data e a de 16 de 
Setembro de 1541, faltam: Búzio, Pegado, Calheiros, Imperial, Altero, Ar- 
nau, Accioli, Padilha, Rios, Cisneiros, Badajoz, Maciel, Mariz, Figueiroa, 
Pó, Segurado, Varela, Gago, Espargosa, Zagaio, Calema, Landim, Maldo- 
nado, Alfaro, Valdês, Viegas, Couto, Drumond, Proença, Chanoca, Pavia, 
Seixas, Corelha, Carvalhal Bemfeito, Gacoto, Vilanova, Caminha, César, 
Barêm, Esteves e Palhavan: quarenta e um ao todo. 

E realmente pouco explicável a omissão dos doze do primeiro grupo, 
confesso-o; mas, para a dos outros quarenta e um do segundo grupo, muito 
mais numerosos em um período muito mais curto, há a explicação do livro 
estar já abandonado pelo seu autor. Tanto mais, que neste segundo grupo 
encontram-se nada menos de quatro concessões de armas novas: Espargosa, 
em 3 de Novembro de i533. Couto, em 28 de Março de i536. Carvalhal 
Bemfeito, em 27 de Setembro de i537, e Vilanova, em 3 de Fevereiro de 



(i) Armaria portuguesa, págs. 260 e 261. 
(2) Ibidem, pág. 438. 



Preâmbulo 2 1 

i538(i); e três acrescentamentos a armas antigas: Çacoto, em 19 de Julho 
de i538, Gesar, em 22 de Julho de ib3g e Barêm, em 14 de Janeiro de 
1540 (2). 

Não há dúvida que António Godinho podia ter posto todas estas armas 
no seu livro, porque ele sobreviveu muitos anos ainda às datas apontadas, 
como veremos. 

Depois de dada a sua tarefa por finda, foi António Godinho por várias 
vezes nomeado pelo rei para servir de inquiridor na prova apresentada pelos 
suplicantes afim de se lhes concederem brasões. Encontro-o em i538, a 9 
de Abril, em 1642, a 3i de Agosto, em 1644, a 9 de Novembro, em 1648, 
a 5 de Junho, 17 de Agosto, 12 e 18 de Novembro, em 1549, a 9 de Julho, 
em i5õo, a 4 de Janeiro e 7 de Outubro, e finalmente a 23 de Junho de 
i553(3). 

Nestes documentos é umas vezes intitulado escrivão da corte, outras es- 
crivão da câmara, e outras escrivão da câmara e do desembargo do paço. 

António Godinho ainda viveu mais alguns anos, pois que por carta de 8 
de Janeiro de ibb'] lhe foi concedido ter um ajudante para lhe escrever as 
cartas e provisões, sendo ele a esse tempo cava<leiro fidalgo da casa dei Rei, 
seu escrivão da câmara, e escrivão d' ante os desembargadores do paço (4). 
Esta carta também serve para mostrar que António Godinho, pelo facto de 
ter sido nomeado em 1544 escrivão do desembargo do paço, não deixou de 
ser escrivão da câmara dei Rei, como supôs o Visconde de Jurornenha, tirando 
d'aqui a conclusão de que o livro havia de estar acabado antes do despacho (5); 
e estava com efeito, mas por outro motivo, como deixei dito. 

Todo este estirado aranzel sobre os livros das armas parecerá ao leitor 
não vir a propósito da sala dos brasões no paço de Sintra; pois parece-me 
que vem, e verá. 

Aquela sala foi também mandada fazer por D. Manuel. Di-lo o seu ci- 
tado cronista, e não duvido que el Rei tivesse para esse fim aproveitado a 



(1) Armaria portuguesa, págs. i8i, i66, 122 e 546. 

(2) Ibidem, págs. 447, i36 e i55. 

(3) Chancelaria de D. João 111, Doações, liv. 44.°, fl. 46, liv. 32.% fl. 74 v., liv. 35."», fl. 24; 
Privilégios, liv. 2.°, fl. òo v., 35, Sy, 6i e 22.2, liv. 4.°, fl. 4 e i3i v., e liv. i.°, fl. 341 v. 

(4) Ibidem, liv. 5.° de Privilégios, fl. 172 v. — António Godinho alcançou de Pero da 
Lágia o traspasse do ofício de escrivão do Desembargo do Paço, em que este havia sido 
provido bastantes anos antes. Teve depois licença, confirmando a renúncia, e disto se pôs 
uma verba em 24 de Julho de 1544 no liv. 8.° de Doações, da Chancelaria de D. João III, 
fl. 120. 

(5) Raczynski, Dictionnaire histórico- ar tistique du Portugal, pág. ii3. 



22 Brasões 

torre Já existente, tomando para norma, relativamente aos brasões, algum 
dos livros de armas também por êle ordenados. Advertirei contudo, que, 
tendo as armas lá pintadas todas timbres, já não serviu de guia para a sua 
pintura o livro de António Rodrigues, pois os não tem, mas sim o de António 
Godinho, principalmente mandado fazer para lhos assinalar. Digo isto por- 
que evidentemente a um destes livros se foi buscar a ordem por que os bra- 
sões foram dependurados do colo dos veados. Vou prová-lo. 

O segundo livro, traz os brasões pela mesma ordem do primeiro, com 
fundamentada razão excluído pelo motivo indicado, e começa as armas das 
linhagens pelas dos Noronhas, continuando com as dos Coutinhos, Castros, 
Ataides, etc, até Castelos Brancos, em que completou vinte e seis brasões. 
Na sala de Sintra, começando-se em Noronhas, seguem-se Coutinhos, Cas- 
tros, Ataides, etc, até Castelos Brancos cujas armas estão no vigésimo sexto 
veado. D'aqui para diante há algumas pequenas variantes, que dão apenas 
por diferença faltarem na sala sete brasões dos setenta e dois primeiros do 
livro de António Godinho. Não se vêem em Sintra os das famílias de Re- 
sende, Moniz, Silveira, Falcão, Pedrosa, Bairros e Sem; e no lugar destes 
estão os dos Carvalhos, Gamas do Conde da Vidigueira, Gouveias, Lobatos, 
Pestanas e Valentes, todos debuxados no livro nas folhas próximas, excep- 
tuando as armas dos Carvalhos, as quais estão lá mais para o fim. 

Tenho ouvido dizer, e até lido, que foi o Marquês de Pombal, quem, 
avantajando as armas dos Carvalhos, as mandou pintar na sala de Sintra, e 
podia pelo facto apontado parecer que esta tradição tinha fundamento; mas 
não o tem, porque já em livro impresso em i655, relacionando-se as armas 
daquela sala, se nomeiam as dos Carvalhos (i). 

Vê-se pois por todo o exposto, que a pintura do tecto da sala das armas, 
tendo sido mandada fazer por D. Manuel, foi contemporânea do começo do 
livro de António Godinho, pelo mesmo Rei ordenado, já parte feito antes 
do seu falecimento, e que para os brasões dos veados serviu de guia e mo- 
delo. 

Posso mesmo dar a certeza de haver sido pintado o tecto entre os anos 
de i5i5 e i520, porque lá se encontram as armas do infante D. Duarte, nas- 



(i) Severim de Faria, Noticias de Portugal, na primeira edição impressa em Lisboa em 
i65f', pág. 117. — É verdade que este autor enche de erros a sua relação dos brasões da sala 
dos veados, e isso tira alguma autoridade ao seu dito, confesso. Corneça êle por afirmar 
serem setenta e quatro os brasões, quando são só setenta e dois; em seguida inclui na lista 
os dos Lobeiras, e Ribafrias, que não estão lá, e ao dos Pestanas, que lá está, chama Silvei- 
ras. O curioso é terem todos os autores meus conhecidos, que até hoje se têem referido 
às armas de Sintra, cometido exactamente os mesmos erros. 



Preâmbulo 23 

eido em 7 de Setembro do primeiro daqueles anos, e não se encontram as 
do infante D. Carlos nascido a 18 de Fevereiro de i52o, e a quem- seu pai 
apenas oito meses sobreviveu. Se eu soubesse a data da morte do infante 
D. António, nascido a 9 de Setembro de i5i6 e falecido com pouco tempo 
de vida, ainda melhor poderia precisar a ocasião em que a pintura da sala 
se fez, pois que não se vendo lá as armas daquele Infante, foi decerto a obra 
começada depois da sua morte. Eu para mim até julgo, não sei se com 
grande fundamento, que a obra já foi feita depois de 7 de Março de i5i7, 
dia da morte da rainha D. Maria; porque, tendo-lhe D. Manuel sido tam de- 
dicado e tendo António Godinho pintado as suas armas no Livro da Torre 
do Tombo, não posso acreditar que el Rei deixasse de mandar pôr o brasão 
da sua Rainha naquele tecto, onde quis ser representado rodeado por todos 
os seus. Para mim é pois de fé que a pintura do tecto, pelo menos a da 
cúpula, foi feita no ano de i5i7 a i5i8, entre a segunda viuvez de D. Ma- 
nuel e o seu último casamento. 

Dir-me-hão que, tendo servido de guia o livro de António Godinho, deve- 
riam as armas da sala ser perfeitamente iguais às daquele, e isso não sucede. 
Eu, concordando, lembrarei porem as restaurações, praga de que as belas 
artes teem sido vítimas entre nós, e em toda a parte, mais ou menos. Cons- 
ta-me de uma em tempos de D. Pedro II (i), e houve ainda mais outra depois 
do terremoto de 1735, muito sensível em Sintra. Se não fossem estes res- 
tauros, como se exphcaria, nas tam conhecidas e sabidas armas dos Castros 
de seis arruelas, estarem os esmaltes trocados, e em vez do campo ser de 
prata e os móveis de azul, aparecer-nos aquele de azul e estes de prata, trans- 
formando as tam nomeadas arruelas em besantes? Assim como existe esta 
diferença, tam grande e tam inexplicável, se não fossem os restauros, por 
que não hão de existir outras bem menos notáveis? 

Fique pois assente, salvo melhor juízo, que a pintura do tecto da sala dos 
veados foi começada pelos anos de i5i5, o mais cedo, e terminada antes de 
i52o, o mais tardar. 

Pouco posso acrescentar ao já sabido acerca dos artistas e artífices que 
trabalharam por esses tempos nos paços de Sintra. Ainda assim direi o 
pouco mais colhido em documentos, pois que o meu único fim não é alardear 
o que não tenho, mas pôr o pouquíssimo que possuo à disposição dos estu- 
diosos. 



(i) Esta restauração foi confiada ao cuidado do 3.° conde de Soure, D. João José da 
Costa, por ser o provedor das obras do paço. — Vide Sousa, Historia genealógica, tom. I, 
pág. ccn. 



24 Brasões 

Existiu em Sintra um pintor, que o foi dei Rei, e se chamou Lourenço 
Martins. Encontrei o nome dele, com a classificação de pintor somente, em 
I de Janeiro de 1480, em um instrumento de composição celebrado entre 
Luís Anes do Quintal, e a confraria* dos Fiéis de Deus erecta na igreja de 
S. Martinho daquela vila, irmandade de que Lourenço Martins era confrade. 
Reinava então D. João L Com a mesma classificação me aparece êle num 
documento de 27 de Abril de 1487, o qual me revelou ser o pintor então um 
dos dois homens bons da vereação da vila de Sintra (i). Em 1446, na me- 
noridade de D. Afonso V, era Lourenço Martins pintor dei Rei, e na quali- 
dade de confrade da referida confraria é nomeado num instrumento de em- 
prasamento de 6 de Janeiro. Depois, nas vésperas da desgraça da Alfarro- 
beira, em 14 de Abril de 1449, outorga Lourenço Martins, pintor dei Rei e 
então juiz da referida irmandade juntamente com Rui Mendes, em uma es- 
critura de emprasamento. Nesse mesmo ano, logo depois, a 22 de Junho, 
conservando a vara de juiz, mas agora segundado por Nuno Alvares Mal- 
rassoa, encontro pela última vez Lourenço Martins, «pynlor delrey», numa 
escritura de doação (2). E mais nada sei dele, senão que, em 16 de Dezem- 
bro de 1449, concedeu D. Afonso V ao «nosso pintor Lourenço Martins, mo- 
rador em Sintra», carta de isenção de encargos, servidões e contribuições do 
concelho, carta de privilégios de libertado, como então lhe chamavam, a qual 
«Ruy Galvam fez escprever» (3). 

Do já por outros nomeado pintor Gonçalo Gomes (4) sei, que vivia e pros- 
perava no ano de i5o4, no qual, a 27 de Maio, em Sintra, nas casas do ta- 
belião João de Guimarães, comparecendo os juízes e vereaderes em câmara, 
comprou êle, Gonçalo Gomes, que presente se achou, pintor e morador que 
então era em Sintra, por mil reais brancos, moeda ora corrente, a Duarte 
Fernandes Ferreira, morador em Óbidos, e a sua mulher, um pardieiro a 
par do hospital, que partia do aguião (norte) com Inês Martins, do suão (nas- 



(i) Em 1437 a 27 de Abril perante Lourenço Martins, do Arrabalde, e Pedro Anes, juí- 
zes, Diogo Afonso de Abreu, João Vasques Raposo, e Fernão Martins, vereadores, Nun'Al- 
vares Malrassoa, procurador, e João Liai, do Arrabalde, e Lourenço Martins Pintor, homens 
bons da vereação, compareceu Diogo Afonso, provador do hospital e gafaria, etc. — Per- 
gaminhos da Misericórdia de Sintra por mim examinados em i885, 

(2) Pergaminhos da confraria dos Fiéis de Deus, depois das Almas, existentes no car- 
tório da igreja de S. Martinho de Sintra, onde os examinei, fazendo deles extractos, em iSSS-. 

(3) Sousa Viterbo, Noticia de alguns pintores, I, 112. 

(4) D. Manuel, sendo ainda apenas duque de Beja, por alvará de 6 de Dezembro de 1489' 
tomou por seu pintor e em sua especial guarda e encomenda a Gonçalo Gomes, morador 
em Lisboa, ao qual, sendo já rei, confirmou o referido alvará por carta de i3 de Fevereiro 
de 1496 (Sousa Viterbo, Noticia de alguns pintores, I, 184). 



Preâmbulo 25 

cente) com casa do Cosayro (Rodrigo Anes) e da travessa (poente) e abreguo 
(sul) com rua pública (i). 

Depois encontro-o a trabalhar em obras no paço nos anos de 1607 e i5o8, 
ganhando sessenta reais por dia. No primeiro daqueles anos trabalhou vinte 
dias, desde 22 de Fevereiro até 27 de Março. Ocupou-se em doirar e re- 
novar pinturas das câmaras e casas «que se dana cõ a homidade». Foi 
nestes misteres ajudado pelo seu criado Johane, cujo jornal era de quarenta 
reais (2). 

No ano seguinte, o de i5o8, andou Gonçalo Gomes cinquenta e três dias 
nas obras do paço de Sintra, desde 6 de Março até 21 de Agosto (3). Teve 
por ajudantes, alem do seu referido criado Johane, a Diogo Gomes (4) e a 
Pêro Fernandes, que também ganhavam a cinquenta reais e começaram a 
trabalhar, um a 17 e o outro a 24 de Julho, terminando ambos a 21 de Agosto. 
Não se especificam as obras; de uma verba porem consta terem sido em 
grande parte na capela (5). 

O Almoxarife pagou, em 29 de Novembro de i5o8, a Afonso Alvares, 
bate-fôlha, de oiro batido >pera se dourar a capella e asy pêra renovar as 
. pinturas dos paços», cinco mil duzentos e cinquenta reais por mil e quinhen- 
tos pães de três reais e meio cada um, e deles fez logo entrega a Gonçalo 
Gomes, pintor (6). 



(1) Pergaminhos da Misericórdia, citados. 

(2) L.o truncado da receita e despesa de André Gonsalves anno de 1S08. — Annario 26 
do interior da Casa da Coroa. — Maço único. Tal é o título escrito num pedaço de papel 
colado na velha e traçada capa de um interessante, mas muito falho e deteriorado livro de 
contas daquele almoxarife de Sintra, a quem lá adiante especialmente me referirei. Não são 
as folhas do livro numeradas e por isso não as posso citar, mas o que dele disser é porque 
lá está. A letra é detestável, e bem posso e devo aqui agradecer aos muito dignos e amá- 
veis empregados da Torre do Tombo, José Manuel da Costa Basto, director, Albano Alfredo 
de Almeida Caldeira, conservador, ambos já hoje falecidos, e Pedro Augusto de S.Bartolo- 
meu Azevedo, oficial, actualmente primeiro conservador, a paciência e bondade com que 
me téem guiado e auxiliado nas minhas buscas e leituras. 

Este L.o truncado fê-lo o Conde de Sabugosa imprimir em apêndice à sua obra O Paço 
de Cintra, de pág. 221 a 243, encontrando-se a matéria apontada no texto na pág. 22Ó. D'ora 
avante citarei as páginas desta reprodução. 

(3) Cit. Livro de André Gonsalves, pág. 233. 

(4) D. Manuel, por carta de i de Junho de i5i3, fez mercê a Diogo Gomes, pintor, mo- 
rador em Sintra, de 4.000 reais de tença em sua vida, com obrigação de residir na vila, e de 
«fazer e correger nos paços dela quallquer cousa que for necesaria de seu oficio que nõ seya 
de calidade que gaste hum dia imteiro por que semdo pagarlheam seu jornall e nom o semdo 
nom lhe pagaram nada» (Sousa Viterbo, Noticia de alguns pintores, I, 81). 

(5) Cit. Livro de André Gonsalves, pág. 234. 

(6) Ibidem, pág. 282. 

VOL. I 4 



20 Brasões 

Além deste oiro recebeu o mesmo pintor para as referidas obras: nove 
arráteis' de vermelhão, a sessenta reais arrátel; quatro arráteis de alvaiade, 
a trinta reais; dezassete arráteis de óleo, a trinta reais; meio arrátel de azul 
por cem reais; dez arráteis de roxo-terra, a quarenta reais; três arráteis e 
meio de zarcão, a trinta e cinco reais; seis arráteis de ocre, a trinta reais e 
mais oitenta reais de grude e gesso (i). 

Importaram os materiais em quarenta e sete mil trezentos e dois reais e 
meio, a mão de obra, em seis mil setecentos e setenta e cinco reais; gas- 
tou-se portanto, em ibo8, em pinturas no paço de Sintra a boa conta para 
o tempo de cinquenta e quatro mil e setenta e sete reais e meio (2). 

Faltam muitas folhas no livro a que me vou socorrendo, e só lá encontrei 
contas do ano de i5io, nessas porem já não vejo nomeado a Gonçalo Gomes? 
apesar de terem continuado as pinturas na capela, para as quais se comprou 
oiro batido, ao mesmo preço mencionado, na importância de vinte e quatro 
mil e quinhentos reais, e mjais seiscentos pães de prata, ao preço de real e 
meio cada um (3). Aparece contudo nomeado pintor Pêro Rodrigues, cuja 
soldada era inferior em dez reais à do outro. Trabalhou Pêro nove dias, 
rapando a borda do guarda-roupa da Rainha, obra começada em i de Abril 
e para a qual lhe forneceram um pouco de roxo-terra, verde montanha e 
grude, importando tudo em cento e cinquenta reais (4). 

João Rodrigues, pedreiro, foi nomeado mestre das obras do paço de Sin- 
tra em sucessão a seu pai, ora finado, por carta de 17 de Julho de 1490, com 
quatro mil reais de tença anual para mantimento, a começar do princípio 
daquele ano (5). O pai, e antigo mestre das obras dos paços de Sintra, cha- 
mava-se Martim Rodrigues e desfrutara, desde o i.° de Janeiro de 1476, uma 
tença igual à do filho (6). 

Deste João Rodrigues, a quem talvez com exagero se tem chamado ar- 
quitecto, encontrei a seguinte memória. Em i5o3, no dia 29 de Julho, em 
Sintra, na casa do Santo Espírito, onde ao tempo se fazia a vereação, es- 
tando aí os mui>o honrados juiz ordinário e procurador, a saber: Francisco 
de Monterroio, fidalgo da casa dei Rei e juiz ordinário, Diogo Barbudo, Ál- 



(i) Cit. Livro de André Gonsalves, pág. 234. 

(2) Ibidem, pág. 282, 233, 234. — A quantia dos 54.077 rs. despendida nas obras de pin- 
tura correspondia, na moeda anterior à guerra, a 202.837 '"^-i com o valor aquisitivo de 
1.014:185 rs., segundo as tabelas de Gosta Lobo na Hi^t. da Sociedade etn Portugal. 

(3) Cit. Livro de André Gmsalves, pág. 241. 

(4) Ibidem, pág. 242. 

(5) Chancelaria de D. João II, liv. 9.", fl. 3o. 

(6) Carta de 7 de Março de 1476, dada em Toro a Martim Rodrigues, «meestre das obras 
de Sintra» (Sousa Viterbo, Dicc. dos Architectos, II, 402). 



Preâmbulo 27 

varo de Quadros e João Lopes, escudeiros e vereadores, e Estêvão Rodri- 
gues, escudeiro e procurador do concelho, fazendo vereação, perante Pêro 
Dias, escudeiro e tabelião pela rainha D. Leonor, fizeram emprasamento a 
Duarte Fernandes de um pardieiro a par do hospital, com a condição de 
fazer no dito pardieiro uma casa, a qual êle e seus sucessores mantenham 
sempre como casa. Estando já a arrematação feita, mandaram comparecer 
João Rodrigues, pedreiro, mestre das obras dos paços dei Rei, a fim de ir 
medir o tal pardieiro (i). 

Em i5o8 João Rodrigues, mestre, serviu pelo seu ofício de pedreiro nas 
obras do paço, ganhando sessenta reais diários. Trabalhou cento e qua- 
renta e sete dias, e depois mais oito, no cerco dos coelhos, nos canos da 
água da escada dei Rei e da Rainha, na estrebaria de Meca e em outras 
obras, ajudado por mais pedreiros, que ganhavam menor jornal, e por vá- 
rios braceiros (2). Em i5io também trabalhou de pedreiro, mas só qua- 
renta e três dias, ocupado em escolher telha nos fornos, em fazer betume 
para os canos de chumbo, em correger a parede dos canos da água junto 
com a casa de João de Guimarães, e noutros serviços (3). Em i526, já 
velho e aleijado, foi aposentado e para o substituir nomeou el Rei, por carta 
de 14 de Maio, mestre dos canos dos paços de Sintra a seu cunhado Marcos 
Fernandes (4). 

O mestre da carpintaria, João Cordeiro, nomeado, com mil e quinhentos 
reais de mantimento anual, por carta de D. João II de 3 de Março de 1486, 
confirmada por D. Manuel em 29 de Julho de 1497 (5), trabalhou nas obras 
do ano de i5o8, ganhando de jornal sessenta reais por dia. Primeiro esteve 
cinquenta e um dias assoalhando as sobrelojas do aposentamento dos Infan- 
tes, corregendo e repairando sobrados e outros serviços desta espécie; depois 
passou a estar quarenta e sete dias entretido a fazer rosas, estrelas e rezim- 
bros para a capela (6). Em i3io trabalhou cinquenta e seis dias, ainda nas 
rosas e estrelas para a capela (7), e deveria ter sido para o tecto, onde elas 
ainda hoje se vêem. Tinha sempre outros carpinteiros às suas ordens, tendo 
sido as obras deste ano nas grades da çoteia do sol, na casa da fazenda, na 
qual se fizeram repartimentos, no alpendre da entrada do aposentamento das 



(1) Pergaminhos da Misericórdia citados. 

(2) Cit. Livro de André Gonsalves, pág. 236. 

(3) Ibidem^ pág. 242. 

(4) Sousa Viterbo, Dicc. dos Architectos, I, 335. 

(5) Ibidem, pág. 222. 

(6) Cit. Livro de André Gonsalves, pág. 234. 

(7) Ibidem, pág. 241. 



28 Brasões 

Infantas, na távola da casa das sisas, em almários na mesma, e no banco da 
távola, «em que se ,ha de sentar o juiz e esprivam» (i). 

Na conta das obras de i5o7 há uma verba por onde se pagaram a Pero 
de Torres, pedreiro, por três mil e quinhentos reais cada uma^ duas janelas 
de pedraria, «que arrymquou e castou e acarretou e lavrou e asentou na casa 
da fazédá» (2). Das obras de Nossa Senhora da Pena mandadas por Diogo 
Barbudo, veador delas, vieram dez mil cento e quarenta e seis peças de 
«azulejo de toda sorte»; e de Belém remeteram cento e trinta e sete seiras 
dele, em sessenta e oito e meia cargas, a quarenta reais cada uma (3). 

Bastante posterior a estes mestres nomeados encontro um outro mestre 
das obras dos paços dei Rei na vila de Sintra. Foi ele António de Morais, 
e está sepultado na igreja de Santa Maria, no pavimento, em frente do altar 
mor, com este letreiro, que se não pode reproduzir exactamente como foi 
gravado por causa das letras conjugadas: 

AQVI IAS ANTO DE xMORA 
IS MESTRE DAS OBRAS DE 
SVA MAGt^E DOS PAÇOS DE 
STA VILLA PER CVIA AL 
MA SE DIRÁ NESTA IGRA P 
ERA SÈPRE HVA MISSA 
REZADA FALCO i qVTbRO 
ERA DE 1589. 

A QVAL S.a HE DE SVA F.a BRE 
ATIS DE MORAIS Q ELLA GÕ 
PROV CÕ LÇA DO ORDINAIRO E 
QER SE NÃO ENTERRE MAIS 
PESOA ALGVA. 

António de Morais viveu em Sintra casado com Isabel Garcia, de quem 
teve filhos baptizados a i3 de Dezembro de iSõy, 11 de Julho de iSyS, e 25 
de Março de 1 575, sendo esta última a Beatriz nomeada no epitáfio (4). 
Nos assentos de baptismo é o pai declarado por pedreiro. A filha Beatriz 
casou, em 19 de Novembro de 1699, com Francisco Rodrigues, natural de 
Lisboa (5), e morreu a 7 de Dezembro de i65i, sendo yiúva, moradora no 



(i) Git. Livro de André Gonsalves^ pág. 241 e 242. 

(2) Ibidem, pág. 226. 

(3) Ibidem, pág. 222 e 229. 

(4) Livro reformado da freguesia de Santa Maria de Sintra, fl. 12, 16 e 18. 

(5) Ibidem, fl. 161 v. 



Preâmbulo 29 

Arrabalde, e indo a enterrar à sua cova «que tem uma campa com seu le- 
treiro junto aos bancos» (i). 

Mais deveria dizer sobre as obras e artistas no paço de Sintra, mas tenho 
apontamentos muito sucintos, e não desejo demorar a publicação deste vo- 
lume. Para o segundo, se me deixar a «priguiça priguiçosa» de que um 
amigo me acusa (2), irá uma nota mais particularizada, na qual, depois de 
estudado o assunto, direi o que tiver aprendido. Isto escrevia em 1899 e 
agora, nesta segunda edição, pouco acrescentei, nem pagaria a pena manter 
o propósito, depois dá publicação do Diccionario dos Architectos do meu fa- 
lecido amigo e benemérito investigador e publicador de excelente material 
para a história pátria, o dr. Sousa Viterbo. 

Não posso pòrêm calar a satisfação com que, neste sítio, no princípio de 
um livro destinado exclusivamente, segundo parece, a comemorar grandezas, 
pompas, vaidades humanas, nomeei estes modestos filhos do tam bom, tam 
sofredor, tam caridoso povo português, ao qual tantos laços de sangue me 
prendem (3). Porque ele é realmente bom no íntimo, no fundo da sua alma, 
e dificilmente o desvairam; é sofredor e companheiro, e assim se tem mos- 
trado desde as Navas de Tolosa, passando pela guerra da Península, até 
nossos dias, em África combatendo o gentio e o clima, no reino aturando 
tudo que para aí se vê. Mas a sua grande, a sua incomparável virtude é a 
caridade. Quem lida com êle no campo, quem o vê repartir o pedaço de 
pão com o faminto, quem o vê abrigar no pardieiro o vagabundo, quem o 
vê largar um farrapo que ainda assim veste o nú, é que percebe a verdadeira 



(i) Livro reformado da freguesia de Santa Maria de Sititra, fl. 170. 

(2) Dr. Xavier da Cunha, Impressões Deslandesianas, vol. I, pág. 347. — Mais um amigo 
que já lá vai! Morreu em 1 1 de Janeiro deste ano de 1920, poucos dias depois de me ter 
enviado um exemplar da sua última obra, Homenagem posthmna ao Visconde Júlio de Cas- 
tilho. 

(3) Meu bisavó não digo, mas meu terceiro avô, guiando com uma das mãos o arado, 
e com a outra tangendo os seus bois, muita terra de feracíssimo campo do Reguengo de 
Alviela virou. Isto pelo lado paterno, porque pelo materno vejo, lá muito mais ao norte o 
paciente e pertinaz cultivador dos magros esparcéis do Overijssel, vivendo sobre a fraca terra 
conquistada ao mar. Um, o Português, debaixo do ceu azul, ao calor do sol intenso, alegre, 
descuidado, ralando-se apenas com a próxima colheita, e cantarolando, para espairecer seus 
males; o outro, o Holandês, envolvido nos nevoeiros do mar do Norte, calcurriando a lama 
no verão, escorregando sobre a neve no inverno, fleugmático, mas previdente, e sobretudo 
cônscio dos seus direitos de homem livre, que seus antepassados, e êle próprio, com sangue 
conquistaram, e firmaram. Duas raças bem diferentes, que já se guerrearam, mas que hoje 
se não podem odiar. 



3o Brasões 

e santa caridade de Cristo, a que não precisa de festas, anúncios, estímulos, 
publicidade, para se exercer. 

Bom povo, digno de boa sorte. — Deus lha dê, porque os homens porfiam 
em lha tirar. 

Para o fim deste preâmbulo apresentarei a lista das famílias cujos brasões 
encontraram lugar na sala dos veados, e agora apenas farei notar, que as 
armas dos Távoras foram, em resultado da sabida sentença, apagadas, mal 
se enxergando; e as dos Coelhos desapareceram por completo, pôr terem 
caído de podres as táboas sobre que eram pintadas, e não por haverem sido 
arrancadas. 

Os guardas do^paço, que à sala dos veados acompanham os visitantes, 
costumam dizer-lhes, no louvável intuito de encobrir o desleixo, que ali, na- 
quela falha, estavam as armas do Duque de Aveiro, mandadas arrancar ao 
mesmo tempo, e pelo mesmo motivo, por que foram raspadas as dos Tá- 
voras. 

E isto um disparate evidente, porque, alem dos Duques de Aveiro serem 
do ano de i535, e portanto posteriores à pintura primitiva do tecto, também 
se não pode admitir que uma casa de tal jerarquia tivesse as suas armas no 
canto escuro de uma sala, onde se tratou de observar as primazias. Tenho 
porem, afora deste raciocínio, dois testumunhos que se completam, e corro- 
boram a minha afirmativa. Um é o de Beckford que, visitando a sala dos 
veados em 24 de Julho de 1787, encontrou um só brasão arruinado, e esse 
era o dós Távoras (i). O outro é o do Príncipe Lichnovi^sky, que no mesmo 
mês do ano de 1842, visitando a referida sala, encontrou lá o escudo dos 
Coelhos todo aspado, como escreve o tradutor (2). É verdade que este via- 
jante, a propósito daquela sala, comete vários eiros na sua descrição, fazen- 
do-a redonda, contando lá setenta e quatro brasões, e aceitando, quási, a pa- 
tranha que a respeito dos Coelhos lhe disseram; mas isso não impede dele 
lá ter visto o brasão no estado indicado, pois que o Príncipe pode ter-se en- 
ganado, mas mentido não se admite. 

A sala é aproximadamente quadrada, pois mede catorze metros por 
treze (3). O tecto, de grande pé direito, terminado em cúpula, é oitavado 



(i) Italy with sketches of Spain and Portugal, vol. II, pág. 11 3. 

(2) Portugal. Recordações do anno de 1842, traduzido do alemão, 2.» edição, pág, 129. 

(3) Conforme a Planta do Real Paço e da villa de Cintra levantada por José António 
de Abreu, Capitão Engenheiro, Vogal Secretario da Commissão do Tombo dos Bens da Co- 
roa. Em maio de i85o. 



Preâmbulo 3 1 

na base, cortando os ângulos da sala. Todo em volta, no friso do oitavado, 
está uma renque de painéis, em cada um dos quais se vê pintado um veado, 
com um escudo pendente do colo e um timbre entre as hastes, tudo emol- 
durado em seu caixilho rectangular. Cada um dos lados do octógono tem 
quatro veados no friso e portanto em toda esta linha, a principal, estão trinta 
e dois brasões. A estes seguem-se mais dezasseis do mesmo tamanho, postos 
quatro em cada nembro da parede, logo abaixo dos do friso. Alem destes, 
em cada um dos quatro ângulos da sala, por baixo dos cortes do oitavado do 
tecto, vêem-se, em cada canto, mais seis veados, somando portanto vinte e 
quatro nos quatro ângulos. Recapitulando, temos: trinta e dois veados no 
friso que circunda toda a sala; dezasseis, nos quatro nembros da parede, na 
parte não afrontada pelo tecto; e por último, vinte e quatro nos quatro ân- 
gulos da sala, por baixo dos cortes do tecto; ao todo, setenta e dois. 

Afora estes ainda há mais brasões, não pendentes contudo do colo de 
veados e dispostos em cima, na cúpula, por este modo: ao centro, no fecho 
dela, as armas do rei, então D. Manuel; de roda destas mais oito de seus 
filhos. 

Na sala há seis janelas, duas a duas em cada uma de três paredes, exis- 
tindo na quarta mais outra janela, e a um canto uma porta apenas. Quem 
entra vê logo à sua direita, no friso do corte do tecto, as armas dos Noronhas. 
Vai lendo sempre para a esquerda até chegar às dos Corte Riais, pegadas 
às primeiras; então passa para a carreira de veados, nas paredes, abaixo do 
friso, e continua a ler de Lemos em diante, sempre para a esquerda, até aos 
Soutomaiores. Chegando aqui, só ficam por ver os brasões pintados nos 
cantos da sala, e começa pelos do ângulo situado por baixo do lanço onde 
se vêem os Noronhas, e, principiando em Lobatos e seguindo sempre para 
a esquerda, vem acabar nos Borges, o último dos brasões sobre a porta da 
entrada. 

Além destes veados, que sustentam as insígnias das armas, ainda no tecto 
mais acima se vêem outros oito muito maiores, sem emblemas porém, e só 
com uns listões brancos esvoaçando das hastes. Estes cervos estão pintados, 
em diferentes posturas, no meio dum apainelado com seus artezÕes e moldu- 
ras, formado entre a linha principal dos brasões, é aquela onde se puseram 
as armas dos infantes. 

De parte do tecto nos apresenta um desenho bem exacto o arquitecto 
alemão Albrecht Haupt, um dos poucos viajantes que não curaram por infor- 
mações; descreveu e desenhou o que viu (i). Hoje, melhor ainda, mído se 



(i) Die Baukunst der Renaissance in Portugal . . . Ersier band, Frankfurt a. M., i8go, 
pág, 129. 



32 



Brasões 



pode bem ver na bela reprodução do tecto publicada pelo Conde de Sabugosa, 
no seu interessante livro O Paço de Cintra. 

Agora, porei aqui uma espécie de planta do tecto da sala das armas, 
para por ela melhor se compreender a disposição dos brasões lá pintados, 
e em seguida darei a lista deles, reportando-me às letras e números do de- 
senho. 




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A — De prata, cinco escudetes de azul, postos em cruz e carregados cada 
um de cinco besantes do campo; bordadura de vermelho carregada de sete 
castelos de oiro. Coroa de florões fechada de dois meios círculos. Timbre: 
serpe alada, nascente, de oiro. Não tem letreiro. São as armas do Rei. 

B — Inf. D. Yoam. — O escudo do Rei diferençado por um banco de pin- 
char de oiro de dois pendentes. Elmo de prata posto de três quartos, sem 
Jíimbre. Coroa de oito florões passada no colo do elmo. 



Preâmbulo 33 

C — Inf. D. Lvis. — As armas precedentes com a diferença de, por baixo 
de cada um dos pendentes do banco de pinchar, no campo do escudo se ve- 
rem duas bricas Tranchadas de prata e prata, tendo, em chefe e em ponta, 
um castelo (?) de vermelho, e nos flancos uma águia de negro. 

D — Inf. D. Fernando. — As armas antecedentes, com a diferença de se- 
rem as bricas franchadas de oiro e prata, tendo no oiro quatro palas de ver- 
melho, e na prata uma águia de negro. 

E — Inf. D. Afonso. — As mesmas, sem tirar nem pôr. 

F — Inf D. Enriqve. — As mesmas. 

G — Inf. D. Drarte. — As mesmas. 

H — Inf D. Isabel. — Escudo em lisonja, partido: o I de prata lisa; o II 
de prata, cinco escudetes de azul em cruz, carregados cada um de cinco 
besantes do campo, bordadura de vermelho carregada de sete castelos de 
oiro. 

I — Itif D. Beatris. — As armas precedentes. 

Seguem-se os veados com os brasões das linhagens. 

1 — Noronhas. — Esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de azul 
em cruz, cada um carregado de cinco besantes do campo, bordadura de ver- 
melho carregada de sete castelos de oiro; o II e III de vermelho, castelo de 
oiro, o campo mantelado de prata, com dois liÕes batalhantes de púrpura, 
linguados de vermelho, bordadura de escaques de oiro e veiros de vinte pe- 
ças no II e dezoito no III. Timbre: lião do escudo, nascente, armado de 
vermelho. 

2 — Covtinhos. — De oiro, cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. 
Timbre: leopardo de vermelho, armado de oiro, carregado de uma estrela 
de cinco pontas do mesmo na espádua e segurando com a garra dextra uma 
capela de flores de vermelho e oiro. 

3k — Castro. — De azul, seis besantes de prata. Timbre: roda de nava- 
lhas de Santa Caterina, a roda de sua cor, as navalhas de prata. 

4 — Ataíde. — De azul, quatro bandas de prata. Timbre: onça passante 
de sua cor, carregada das quatro bandas do escudo no corpo. 

5 — De Ecca. — De prata, cinco escudos à antiga de azul, postos em cruz, 
os dos flancos apontados ao do centro, carregados cada um deles de doze 
besantes do campo, 4, 4 e 4, os escudetes sobrepostos a um cordão de 
S. Francisco de púrpura, com seus nós, posto em cruz, em aspa e em orla. 
Timbre: águia de azul, armada de vermelho e carregada no peito de uma 
cruz potêntea cosida de negro. 

6 — Meneses. — De oiro, escudete à antiga, cosido do mesmo e carregado 
de um anel com uma pedra, tudo de oiro perfilado de negro, a pedra virada 

VOL. I 5 



34 Brasões 

para o cantão sinistro da ponta. Timbre: donzela nascente de encarnação, 
vestida de brocado de prata, semeado de vieiras cosidas de oiro, guarnecido 
do mesmo no cinto, na gola e nos punhos, os cabelos soltos, a mão sinistra 
na cinta e a dextra segurando o escudete das armas. 

j — Castros. — De oiro, treze arruelas de azul. Timbre: Hão nascente de 
oiro, armado e linguado de vermelho. 

8 — Cvnhas. — De oiro, nove cunhas de azul com os gumes para cima. 
Timbre: dragão sem azas nascente de oiro, linguado de vermelho e carre- 
gado no peito das' nove cunhas. 

9 — Sonsas. — Esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de azul, 
postos em cruz, cada um carregado de cinco besantes do campo; bordadura 
de vermelho carregada de sete castelos de oiro, e um filete de negro sobre- 
posto em barra; o II e III de vermelho, caderna de crescentes de prata. 
Timbre: castelo de oiro. 

10 — Pereiras. — De vermelho, cruz florida de prata, vazia do campo. 
Timbre: cruz de vermelho, florida e vazia, entre duas azas de prata. 

1 1 — Vasconcellos. — De negro, três faxas veiradas e contraveiradas de 
vermelho e prata. Timbre: liao de negro, armado e linguado de vermelho, 
e carregado das peças do escudo postas em pala. 

12 — Meios. — De vermelho, seis besantes de prata entre uma dobre cruz 
e bordadura de oiro. Timbre : águia de negro, armada e membrada de ver- 
melho, e carregada de seis besantes de prata sobre o peito. 

i3 — Silvas. — De prata. Hão de púrpura, armado e linguado de verme- 
lho. Timbre: Hão de oiro. 

14 — Albvqverqe. — Esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de 
azul, postos em cruz e carregados cada um de cinco besantes do campo, e 
um filete de negro sobposto em banda; o II e III de vermelho, cinco flores 
de lis de oiro. Timbre: aza de vermelho. 

i5 — Andradas. — De verde, banda de vermelho perfilada de oiro, saindo 
das bocas de duas serpes do mesmo. Timbre: duas serpes nascentes e ba- 
talhantes de oiro, atadas de vermelho. 

16 — Almeidas. — De vermelho, seis besantes de oiro entre uma dobre 
cruz e bordadura do mesmo. Timbre: águia de vermelho, armada e mem- 
brada de oiro, e carregada de seis besantes de oiro no peito. 

17 — Manoeis. — Esquartelado: o I e IV de vermelho, aza de oiro termi- 
nada por uma mão do mesmo, sustentando uma espada alçada de prata, 
guarnecida de oiro; o II e III de prata, Hão de púrpura, armado e linguado 
de vermelho. Timbre: os móveis do I quartel. 

18 — Febos Monis. — Esquartelado: o I e IV de azul, cinco estrelas de 
#ito pontas de oiro; o II e III também esquartelado; o i.° de vermelho, cruz 



Preâmbulo 35 

florida de oiro, vazia do campo; o 2.° de prata, três faxas de azul; o 3." de 
prata, lião de vermelho; o 4.° de vermelho, lião de oiro. Timbre: lião aleo- 
pardado de vermelho, armado de prata. 

ig — Limas. — Partido de dois traços: o I de oiro, quatro palas de ver- 
melho; o II cortado, o i.° de prata, hão de púrpura, o 2.° de prata, três faxas 
xadrezadas de oiro e vermelho de duas tiras; o III cortado do 2.° do II sobre 
o I." do mesmo. Timbre: lião aleopardado de púrpura. 

20 — Tavoras. — De oiro, cinco faxas ondadas de azul e prata (?). Tim- 
bre: . . . (por causa do raspado Já se não conhece). 

21 — Henriqves. — De vermelho, castelo de oiro, o campo mantelado de 
prata com dois liões batalhantes de púrpura, linguados de vermelho. Tim- 
bre: o castelo. 

22 — Mendocas Fvrtados. — Pranchado de verde e oiro, no verde do 
chefe, pala de vermelho perfilada de oiro, no da ponta, a mesma peça um 
pouco mais em banda; no oiro, um S de negro em cada um. Timbre: aza 
de oiro, carregada de um S de negro. 

i^i — Alvergaria. — Dq prata, cruz florida de vermelho, vazia do campo; 
bordadura também de prata carregada de oito escudetes de azul, cada um 
sobrecarregado de cinco besantes do campo. Timbre: dragão volante de 
vermelho, armado de oiro. 

24 — Almadas. — De oiro, banda de azul carregada de duas cruzes do 
campo, floridas e vazias, a banda acompanhada de duas águias de verme- 
lho, membradas de oiro. Timbre : uma das águias, armada e membrada de 
oiro. 

25 — A\ei'edos. — Esquartelado: o I e IV de oiro, águia de negro; o II e 
III de azul, cinco estrelas de oito pontas de prata, bordadura cosida de ver- 
melho e carregada de oito aspas de oiro. Timbre: a águia armada e mem- 
brada de oiro. 

26 — Castel Branco. — De azul, lião de oiro, armado e linguado de ver- 
melho. Timbre: lião aleopardado de oiro, armado e linguado de vermelho. 

27 — Abrevs. — De vermelho, cinco azas de oiro, cortadas em sangue. 
Timbre: uma das azas. 

28 — Britos. — De vermelho, nove lisonjas de prata apontadas, moventes 
do chefe, da ponta, e dos flancos do escudo, cada lisonja carregada de um 
lião de púrpura. Timbre: lião aleopardado de púrpura linguado de verme- 
lho. 

29 — Movras. —De vermelho, sete castelos de oiro, 3, i e 3. Timbre: 
um dos castelos. 

30 — Lobos. — De prata, cinco lobos passantes de negro. Timbre: um 
dos lobos. 



36 Brasões 

3i — Sas. — Enxequetado de prata e azul de seis peças em faxa e oito 
em pala. Timbre: búfalo nascente de negro, com uma argola de oiro nas 
ventas. 

32 — CortereaL — De vermelho, seis costas de prata firmadas nos flancos 
do escudo, postas em faxa e dispostas em duas palas; chefe de prata carre- 
gado de uma cruz de vermelho. Timbre: braço armado de ferro guarnecido 
de oiro, a mão de encarnação empunhando uma bandeira de duas pontas 
de prata, hasteada de sua côr, e carregada de uma cruz suspensa de ver- 
melho. 

33 — Lemos. — De vermelho, cinco cadernas de crescentes de oiro. Tim- 
bre: águia nascente de vermelho, carregada de um minguante de oiro. 

34 — Ribeiros. — Esquartelado: o I e IV de oiro, quatro palas de verme- 
lho; o II e 111 de negro, três faxas veiradas de prata e vermelho. Timbre: 
lírio de oiro florido de duas peças. 

35 — Cabraes. — De prata, duas cabras passantes, sotopostas de verme- 
lho e armadas de negro. Timbre: uma das cabras. 

36 — Mir andas. — De oiro, aspa de vermelho acompanhada de quatro 
flores de lis de verde. Timbre: aspa de oiro com duas flores de lis de verde 
saindo dos braços superiores da aspa. 

37 — Tavares. — De oiro, cinco estrelas de oito pontas de vermelho. 
Timbre: cavalo branco, de sua côr, nascente, bridado de oiro. 

38 — Mascarenhas. — De vermelho, três faxas de oiro. Timbre : Hão 
nascente de vermelho, armado de negro, e carregado das três faxas do es- 
cudo. 

39 — Sanpajos. — Esquartelado: o I e IV de oiro, águia de vermelho; o 
II e III enxequetado de oiro e azul de cinco peças em pala e quatro em faxa; 
bordadura de todo o escudo de vermelho carregada de oito SS de prata. 
Timbre: uma das águias. 

40 — Malafajas. — De vermelho, castelo de prata, lavrado de negro, e 
sobrepujado de um corvo volante de negro na torre do meio. Timbre: os 
móveis do escudo. 

41 — Meiras. — De vermelho, cruz de oiro, florida e vazia do campo. 
Timbre: alão passante de negro, linguado de vermelho. 

42 — Aboim. — Esquartelado: o I e IV enxequetado de oiro e azul de três 
peças em faxa e três em pala; o II e III de oiro, três palas de azul. Timbre: 
dois braços vestidos de azul, as mãos de encarnação segurando um taboleiro 
enxequetado de oiro e azul de nove peças. 

43 — Carvalhos. — De azul, estrela de oito pontas de oiro dentro de uma 
caderna de crescentes de prata. Timbre : cisne de sua côr, armado e mem- 
brado de oiro. 



Preâmbulo ^ 3j 

44 — Motas. — De verde, cinco flores de lis de oiro. Timbre: uma das 
flores de lis entre duas plumas verdes. 

45 — Costas. — De vermelho, seis costas de prata, postas em faxa, dis- 
postas em pala e firmadas nos flancos do escudo. Timbre: duas das costas 
passadas em aspa, e atadas de vermelho. 

46 — Pesanhas. — De prata, banda de vermelho, carregada de três flores 
de hs de oiro postas no sentido da banda. Timbre: as três flores de hs 
apontadas em pala. 

47 — Pacheco. — De oiro, duas caldeiras de negro, postas em pala e 
carregadas de três faxas de veirado de oiro e vermelho, e três cabeças e 
pescoços de serpe de vermelho saindo de cada um dos encaixes das azas. 
Timbre: dois pescoços de serpe de oiro, bataihantes, e linguados de ver- 
melho. 

48— Sovtomaior. — De prata, três faxas enxequetadas de vermelho e prata 
de duas tiras. Timbre: lião de prata, armado e linguado de vermelho, e 
carregado das três faxas do escudo. 

49 — Lobatos. -De vermelho, três castelos de prata, bordadura de oiro 
carregada de oito lobos passantes de negro. Timbre: um dos castelos com 
um dos lobos nascente da torre do meio. 

5o — Peixeiras. — De negro, cruz potêntea de prata, vazia do campo. 
Timbre: unicórnio nascente e volvido de prata. 

5i — Valente. — De vermelho, lião de oiro. Timbre: o lião. 

52 — Serpas. — De verde, lião de oiro, acompanhado de dois castelos de 
prata em chefe, e de um dragão volante de oiro em ponta. Timbre: o dra- 

53 — Gama. — Enxequetado de oiro e vermelho de três peças em faxa e 
quatro em pala, cada peça de vermelho carregada de duas faxas de prata, e 
sobre o quinto escaque um escudete de prata carregado de cinco escudetes 
de azul, postos em cruz e sobrecarregados cada um de cinco besantes de 
prata. Timbre: naire nascente, vestido de branco, os braços nús, na mão 
direita segurando ao ombro um pau, e na esquerda, em ar de defesa, o es- 
cudete das quinas das armas. 

54 — Nogvei^^a. — De oiro, banda mais larga do que o usual, enxequetada 
de verde e prata de cinco ordens, a tira do meio coberta por uma cótica de 
vermelho. Timbre: ramo de nogueira de verde com ouriços abertos e nozes 
de oiro. 

55 — Betancor. — De prata, lião de negro, armado e linguado de verme- 
lho. Timbre : o lião. 

56 — Góes. — De azul, seis cadernas de crescentes de prata. Timbre: 
dragão volante de oiro. 



38 Brasões 

57 — Pestanas. — De prata, três faxas de vermelho. Timbre: onça nas- 
cente de prata. 

58 — Barretos. — De prata, dez pintas de arminhos de negro, 3, 4 e 3. 
Timbre: donzela nascente vestida de arminhos, os cabelos soltos, o braço 
direito curvado e a mão como que apontando para cima, e o braço esquerdo 
também curvado, mas com a mão apoiada na anca. 

59 — Coelhos. — Sumiram-se. 

60 — Queirós. — Esquartelado: o I e IV de oiro, seis crescentes de ver- 
melho; o II e III de prata. Hão de vermelho. Timbre: o lião nascente. 

61 — Fer eiras. — De vermelho, quatro faxas de oiro. Timbre: ema de 
prata, armada de vermelho. 

62 — Siqveiras. — De azul, cinco vieiras de oiro. Timbre: uma das viei- 
ras (i). 

63 — Cerqveiras, aliás Cerveiras (2). — Esquartelado: o I e IV de verme- 
lho, cruz florida de oiro; o II e III de oiro liso; bordadura de todo o escudo 
de prata, dividida em quatro partes pelo prolongamento das linhas do es- 
quartelamento, sendo duas dessas partes lisas, e as duas correspondentes ao 
I e IV quartel cada uma carregada de cinco escudetes de azul, sobrecarre- 
gados cada um de cinco besantes de prata. Timbre: cerva passante de sua 
côr. 

64 — Pimenteis. — Esquartelado: o I e IV de vermelho, três faxas de 
oiro; o II e III de verde, cinco vieiras de prata com o de dentro para fora; 
bordadura de todo o escudo de prata carregada de dez cruzes potênteas de 
negro. Timbre: toiro nascente de vermelho, com as unhas e armado de 
oiro. 

65 — Fois, aliás Goiás. — Cortado: o I partido de prata com três palas de 
púrpura, e de vermelho com um castelo de oiro; o II de prata, três pintas 
de arminhos de negro, em faxa. Timbre: torre de oiro. 

66 — Arsas, ahás Arcas {2>). — Esquartelado: o I e IV de oiro, faxa de 
vermelho; o II e III enxequetado de vermelho e oiro de nove peças. Tim- 
bre: alão passante de negro. 

67 — Pintos. — De prata, cinco crescentes de vermelho. Timbre: lião 
nascente de vermelho. 



(i) Aqui pintaram as vieiras com a parte côncava para fora; foi capricho do restau- 
rador. 

(2) Mais um vestígio dos restauros; as armas que estão neste veado são as dos Cervei- 
ras, e não as dos Cerqueiras, muito diferentes. Em i655, quando se imprimiram as Noticias^ 
de Portugal de Severim de Faria, ainda no tecto se lia Cerveiras e não Cerqueiras. 

(3) Para estes e para os precedentes vide a nota a Cerqueiras ; são casos análogos. 



Preâmbulo 89 

68 — Gopveas. — Partido: o I de vermelho, seis besantes de prata entre 
uma dobre cruz e bordadura de oiro; o II de prata, seis arruelas de azul (i). 
Timbre : águia de vermelho. 

69 — Faria. — De vermelho, torre de prata entre duas flores de lis do 
mesmo, e acompanhada de mais três postas em chefe. Timbre: a torre so- 
brepujada de uma das flores de lis. 

70 — Vieiras. — De vermelho, seis vieiras de oiro. Timbre : uma das 
vieiras entre dois bordões de Santiago de vermelho, passados em aspa, fer- 
rados e atados de oiro. 

71 — Agviar. — De oiro, águia de vermelho, armada e membrada de ne- 
gro, e carregada sobre o peito de um crescente de prata. Timbre: os mó- 
veis do escudo. 

72 — Borges. — De vermelho, lião de oiro, bordadura cosida de azul, e 
carregada de oito flores de lis de oiro. Timbre: liao aleopardado de oiro. 

Por baixo de toda a pintura, no friso das paredes, em grandes letras 
doiradas, lê-se esta quadra: 

POIS COM ESFORÇOS LEAIS 
SERVIÇOS FORAM GANHADAS 
COM ESTAS E OUTRAS TAIS 
DEVEM DE SER CONSERVADAS. 

O autor dos versos ninguém, que eu saiba, nomeia, e pouco com isso se 
perde, me parece. 

Aí fica pois a ordem e a maneira por que estão pintadas as armas dos 
nobres portugueses na sala dos veados do paço de Sintra. 

Aquela ordem é, como já disse, a mesma dada por António Rodrigues 
aos brasões no seu livro chamado do Armeiro mor, e seguida por António 
Godinho no outro livro, o da Torre do Tombo. 

Havia António Rodrigues jurado, como ele próprio declara, bem e ver- 
dadeiramente guardar a cada um sua justiça, pondo-lhe as armas no seu lugar 
e ordem, como haviam sido dadas antigamente (2). Foi um juramento muito 
arriscado este que o Rei de Armas fez; e nem lhe seria fácil observá-lo à 
risca, nem mesmo curou muito disso. 

Em seguida às armas do Príncipe assentou as dos maiores senhores da 



(i) Aqui estão bem iluminadas as armas dos Castros, as quais no seu lugar ficaram com 
os esmaltes trocados. 

(2) Veja-se a nota 2, pág. 9. 



40 Brasões 

corte, tais como os Duques de Bragança e Coimbra, o Marquês de Vila Rial, 
e, sob o titulo genérico de casa de Bragança, os parentes daquele primeiro 
Duque, os quais eram então seu irmão D. Denis, casado em Castela, e seus 
primos os Condes de Odemira e Tentúgal. Depois continuou o Rei de Ar- 
mas com as do Conde de Penela, descendente da casa rial; as da casa de 
Noronha de que era chefe o Marquês, mas da qual os outros membros tra- 
ziam armas diferentes, e entre eles já tinha havido o i.° Conde de Odemii»a; 
as dos Meneses de Tarouca pelo Conde de Valença; dos Coutinhos pelo 
Conde de Marialva; dos Castros de seis arruelas pelo Conde de Monsanto, 
começando só d'aqui por diante a dar unicamente aos brasões o nome da 
linhagem a que pertenciam. 

A primeira é a de Ataíde, onde Já existia o Conde da Atouguia. Se- 
guem-se-lhe a de Eça, de linhagem rial, a de Meneses em que já havia, alem 
dos antigos títulos, os mais modernos de condes de Cantanhede e de Tarouca, 
e depois por aí fora, que longo e fastidioso seria enumerar, e desnecessário 
até, para ficar provado que António Rodrigues pouco se importou com a or- 
dem da antiguidade; o que êle quis foi observar quanto possível as jerarquias, 
e na minha opinião fez muito bem. O livro havia de ser mostrado, não con- 
vinha ao autor indispôr-se com nenhum poderoso. 

Ele próprio Rei de Armas ingenuamente dá a conhecer na sua obra, que 
não pôde ou não quis seguir à risca o juramento. Na folha 49 traz as armas 
de «Castro cÕde. de mõsãcto», e na 5i as de «Castro antiguo». ^Porque o 
fez êle? Porque os primeiros eram uns grandes senliores, e os outros, ainda 
que mais antigos, estavam na segunda plana. 

Serve isto para provar que nem nos livros dos brasões, nem na sala de 
Sintra se obedeceu à ordem cronológica. Tiveram a preferência a grandeza, 
o vahmento, a posição na corte. 

Vá lá um exemplo só, e basta. 

O primeiro brasão na sala é o dos Noronhas, família que teve o seu prin- 
cípio no último quartel do século xiv (i). O quadragésimo segundo é o dos 
Aboins, existentes já mais de cem anos antes, na primeira metade do sé- 
culo XIII (2). 

Vou terminar, dando ainda contudo a razão por que apresento as duas 
pequenas e toscas gravuras nas quais se reproduzem as casas das quintas de 
Vai Flores e Ribafria. Dou-as por me parecer que representam boas amos- 
tras da nossa arquitectura doméstica no século de quinhentos. 



(i) Veja-se lá adiante no título dos Noronhas. 
(2) Vide no título dos Sousas. 



Pi'eàmbulo 



41 



A primeira é uma casa de campo, nobre sim, mas sem presunções a mais; 
a outra é um solar afidalgado, feito com carácter e capricho. Ambas elas 
foram edificadas pelo mesmo tempo, meado século xvi, sendo talvez a torre 
de Ribafria um pouco mais velha. 

E agora mais nada; aqui porei ponto a esta estendida palestra preliminar, 
esperando que ao meu trabalho aplique o leitor o verso do poeta latino: 

Arguor immerito, tenuis mihi campus aratur (i). 



Aldeia, 24 de Abril de 1899. — Salitre, 
21 de Dezembro de 1919. 



(i) Ovídio, nas Tristezas, liv. II, pág. 686 mihi. 

VOL. I 



1 



NORONHAS 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. I. 



Esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de azul em cruz, cada 
um carregado de cinco besantes do campo, bordadura de vermelho carregada 
de sete castelos de oiro (Portugal); o II e III de vermelho, castelo de oiro 
(Castela), o campo mantelado de prata, com dois liões batalhantes de púr- 
pura, linguados, de vermelho (Lião), bordadura de escaques de oiro e de 
veirado de vermelho e prata, de vinte peças. Timbre: lião nascente de púr- 
pura, armado de vermelho. 

Assim se encontram, mas com um filete negro sobreposto em barra no 
I e IV quartel e com os escaques da bordadura do II e III de oiro e veiros, 
no Livro do Armeiro mor, fl. 47 v., fio Livro da Torre do Tombo, fl. 9, no 
Thesouro da nobreza de Francisco Coelho, fl. 27, no Thesouro da nobre'{a 
de Fr. Manuel de Santo António, n-17, etc. 

I 

PAZ DE SANTARÉM 

Corria o ano de 1372 do nascimento de Cristo, 1410 da era de César, 
como então se contava. 

O reino libertado da invasão castelhana pela paz de Alcoutim (3i de 
Março de 1371) não encontrara contudo o socêgo, pois que a cunhagem da 
nova moeda, com os «preços desvairados» que el Rei lhe marcara, e a «al- 
motaçaria posta em todallas cousas» traziam os ânimos alvoroçados. 

Na primeira providência, a mudança da moeda, tinham-se deixado cair a 
princípio, não só os fidalgos, como os próprios comerciantes e gente miúda. 

Engodara-os a aparente vantagem de entregar à Moeda prata adquiri-da 
a dezoito libras de dinheiros alfonsins, recebendo em troca vinte e sete libras 



46 Brasões 

das barbudas por cada marco. Não viam, que de cada marco de prata, em 
vez de se extraírem as devidas vinte e sete libras, tirava D. Fernando cento 
e noventa e cinco barbudas, ganhando portanto cento e sessenta e oito libras 
em cada um. De-pressa porem acharam todos o logro, e recorreram a el Rei 
em alto brado. 

Decretou-se então a diminuição do valor marcado à moeda, e foi tal, que 
a barbuda passou de valer vinte soldos, a valer catorze, e por fim apenas 
dois soldos e quatro dinheiros. Mas, como isto ainda não bastasse, orde- 
nou-se a almotaçaria sobre todas as coisas; isto é, tarifaram-se, não só os 
preços dos géneros conforme os lugares da produção, como os próprios sa- 
lários; obrigaram os negociantes, e seguidamente os lavradores, à venda dos 
géneros enceleirados; e determinou-se a partilha dos mantimentos, se a tal 
necessidade se chegasse. 

Os amores e casamento dei Rei com D. Leonor Teles, escândalo monu- 
mental do tempo, proporcionaram ocasião a dichotes e alevantamentos, que 
fizeram ainda acrescer, ao mal presente, o receio pelo futuro. 

Se não quando, nos fins do verão, ameaçadora tempestade se vê acumu- 
lada no oriente. Não tardou a desencadear-se sobre o reino, onde penetrou 
sob forma de um exército castelhano, que, meado Setembro, invadiu o terri- 
tório, apossando-se de várias vilas e da cidade de Viseu. 

Parou aqui, não para se desvanecer, mas para tomar forças e incremento, 
e poder com mais impetuosidade e vigor investir com o coração do reino. 
Em Fevereiro do ano seguinte, o de i373, o exército castelhano saiu de Vi- 
seu, e a 23 do próprio mês assentou D. Henrique II os seus arraiais sobre 
Lisboa. 

^Que motivara similhante e inesperada invasão? O ânimo inquieto de 
D. Fernando, e o despeito do Castelhano ao ver preferida sua filha por uma 
mulher casada, e de sangue não rial. 

jPara esta guerra de tam funestas consequências concorreu um Português! 
Diogo Lopes Pacheco, um dos culpados na morte de Inês de Castro, voltara 
a viver na corte castelhana, e era a D. Henrique tão aceito, que ele o mandou 
a Portugal averiguar das denúncias recebidas de premeditadas hostilidades. 
O rico homem, esquecido do seu país e do perdão que seu rei lhe dera, 
quando, assaltado pelas saudades da pátria, a êle recorrera, e lembrando-se 
unicamente dos novos agravo^ recebidos, mas por êle provocados pela hos- 
tilidade manifestada ao casamento de D. Leonor, em vez de tratar de conci- 
liação, levou de cá exageradas novas a Castela. 

Da parte de Portugal viu-se quam exageradas eram, pela falta de aper- 
cebimento em que el Rei estava, não só para invadir, como até para resistir 
à invasão; e da parte de Castela pelas apressadas disposições tomadas pelo 



Noronhas 47 

Bastardo de Trastâmara, que, exasperado com os do seu conselho que opi- 
navam pela demora da expedição, lhes disse, na pitoresca frase de Fernão 
Lopes: «Ou vós todos estaes bevedos, ou samdeos, ou sois treedores». 

Apertada a heróica Lisboa pelo cerco, fechado D. Fernando em Santarém 
•om um dos seus ataques de covardice, destruída a esquadra, ^que restava? 
Aproveitar a mediação do Legado do Papa, e aceitar a paz por todo o preço. 
Foi o que se fez, assinando-se ela em Santarém a 19 de Março, e apregoan- 
do-se aí cinco dias depois. 

Combinou-se então a entrevista dos reis sobre o Tejo, e dela voltou D. Fer- 
nando, dizendo a sorrir para os fidalgos que o acompanhavam: a Quanto eu, 
hanricado venho!» 

Uma das condições desta paz foi o casamento da infanta D. Beatriz, irmã 
dei Rei, com o Conde de Alburquerque, D. Sancho, irmão dei Rei de Cas- 
tela. Celebraram-se as bodas com justas e festas brilhantes, e por esta oca- 
sião tratou-se o casamento de D. Isabel, filha bastarda de D. Fernando, me- 
nina de oito anos, com D. Afonso, conde de Gijon e Noronha, bastardo de 
Henrique ÍI, e moço de dezoito anos. E este foi um dos muitos casamentos 
de conveniência pactuados em todos os tempos entre soberanos, resolvidos a 
sacrificarem desapiedadamente a felicidade dos seus mais chegados, a troco 
do que posteriormente se chamou razão de Estado. 

O conde D. Afonso, ou porque já tivesse alguma inclinação, ou porque a 
sua desposada lhe fosse antipática, não anuiu de bom grado ao casamento, 
nem nos desposórios, nem quando posteriormente se tratou de o efeituar. 

Chegou a fugir para França e Avinhão, d'onde somente voltou apertado 
pelas ameaças paternas, e a muito custo, ante o altar, disse o sim sacramen- 
tal. Não consumou contudo o casamento, conservando seu pai iludido a tal 
respeito durante os dois meses, que permaneceram em Burgos e Falência. 
Morto el Rei, obteve o divórcio, mas dele não se aproveitou, pois que não 
só. consumou o matrimónio, como teve de sua mulher vários filhos (i). 

^Deixara-se seduzir pelas qualidades morais ou físicas da repudiada es- 
posa? ^Influíra sobre sua resolução o encontrar, na vida de perseguido e 
desgraçado a que o seu ânimo irrequieto o condenou, consolação e carinho 
em D. Isabel? ^Ou seria, porque, considerando a rainha de Castela D. Bea- 
triz tam ilegítima filha de D. Fernando, como a própria Condessa, tendo esta 
sobre aquela a vantagem da primogenitura, necessitasse ligar-se definitiva- 
mente a D. Isabel para justificar as suas pretensões ao trono português? 
Não sei, ainda que para a última conjectura me incline. 



(1) Fernão Lopes, Chronica d'el-rei D. Fernando, caps. 55, 66 e seguintes. 



48 Brasões 

O certo é, ter a Condessa, depois de viúva, voltado para Portugal, tra- 
zendo consigo seis filhos e recebendo para si e para eles bom agasalho de 
D. João I. 

II 

LINHAGEM 

Os filhos dos Condes de Gijon e Noronha, que passaram a Portugal com 
sua mãe, foram os seguintes: 

1° — D. Pedro de Noronha, arcebispo que foi de Lisboa de 1424 a 1452 (i). 
Dele provieram os Marqueses de Angeja (21 de Janeiro de 1714), o Conde 
de Carvalhais, os Noronhas Ribeiros Soares, as varonias das casas dos Ar- 
cos, de Marialva, de S. Lourenço e outras. 

2.** — D. Fernando de Noronha, conde de Vila Rial (1434) pelo seu casa- 
mento. Foi progenitor dos demais Condes de Vila Rial, antigos, dos Mar- 
queses (1489) e Duque da mesma vila (i585) e Duques de Caminha (1620); 
dos Condes de Linhares, antigos (i525), dos de Valadares (i7o3), dos de 
Paraty (181 3), da varonia dos Marqueses de Cascais, etc. Estes Noronhas 
sobrepuseram às suas armas as dos Meneses de Vila Rial, e no chefe da 
família estava a primogenitura legítima dos Noronhas. 

3." — D. Sancho de Noronha, i." conde de Odemira (1446), cujos des- 
cendentes legítimos provieram todos por linha feminina e usaram das antigas 
armas da casa de Bragança, ainda que em alguns se repetiu o apelido de 
Noronha. 

4.'' — D. Henrique de Noronha, capitão de gente de guerra na tomada 
de Ceuta, de quem não subsiste geração masculina legítima. 

5.° — D. João de Noronha, sem descendentes. 

6.° — D. Constança de Noronha, duquesa de Bragança, segunda mulher, 
sem geração, do i.° Duque de Bragança. 

Eis, resumidamente descrita, a origem e indicados os principais ramos 
da ilustríssima família de Noronha. 



(i) Encontrei, numa sentença de 4 de Janeiro de 1427, um selo pendente com as armas 
do arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha. São elas um escudo esquartelado: no I e 
IV quartel um castelo, e o campo mantelado com dois liões batalhantes; no II e III as qui- 
nas do reino com os escudetes dos flancos apontados ao do centro; euma bordadura a todo 
o escudo carregada de dezassete castelos. A sentença foi passada em nome de Vasco Es- 
teves, escolar em Direito Canónico, vigário perpétuo da igreja de S. Tomé de Lisboa e ou- 
vidor geral do muito honrado padre o senhor D. Pedro. — Torre do Tombo, Mosteiro de 
Oie/<j5, pergaminho, n.' 3 1 3. 



II 



COUTINHOS 



VOL. 1 



I 




Brasões da Sai. a de Sintra, Vol. I. 



\ 



De oiro, cinco estrelas de cinco pontas de vermeliio. Timbre: leopardo 
de vermelho, armado de oiro, carregado de uma estrela de cinco pontas de 
oiro sobre a espádua e segurando na garra dextra uma capela de flores de 
vermelho e oiro. 

Quanto ao escudo, pouca variedade apresentam estas armas no Livro do 
Armeiro mor, fl. 48 v. e no Livro da Torre do Tombo, fl. g v., consistindo 
apenas em as estrelas nestes serem de sete pontas. Quanto ao timbre po- 
rem a diferença é maior, no segundo, porque o primeiro não traz timbres: 
nele se vê pintado unicamente um lião aleopardado de vermelho. 

Conformes em tudo com a pintura desta sala encontram-se as armas dos 
Coutinhos no Thesoiiro da Nobreza de Fr. Manuel de Santo António, c-io5. 

I 

BATALHA DE TRANCOSO 

i385 

Aos 6 de Abril de i38õ, nos paços da alcáçova de Coimbra, as Cortes 
portuguesas proclamaram rei ao Mestre de Avis. 

Termidada a festa da coroação, elegeu D. João I os oficiais mores da sua 
casa e os do exército; agraciou, com mercês e favoráveis desembargos, os 
fidalgos e os povos dos concelhos, que mais sé tinham distinguido pela sua 
causa; e proveu às necessidades urgentes do novo reinado. Seguidamente 
passou ao Porto a fim de partir d'aí a acometer os lugares, que no Minho 
tinham tomado voz por el Rei de Castela. Eram eles na verdade os prin- 
cipais e o maior número. 

Os fidalgos, que nas Cortes se tinham reunido, tomaram então desvaira- 
dos caminhos, cada um para onde o dever ou o maior perigo os chamava. 



52 Brasões 

Para a Beira partiram, enire outros, Martim Vasques da Cunha para o seu 
castelo de Linhares, levando consigo seu irmão o alferes mor Gil Vasques 
da Cunha; o guarda mor, João Fernandes Pacheco, para a sua vila de Fer- 
reira de Aves; Gonçalo Vasques Coutinho para o seu castelo de Trancoso; 
e o mestre sala, Egas Coelho, para a sua vila de Linhares. 

Pouco tempo depois de chegados, em princípios de Maio, os dois alcaides 
mores viram das ameias de seus castelos invadir a província uma numerosa 
hoste castelhana, capitaneada por João Rodrigues de Castanheda. 

Em Cidade Rodrigo tinha mandado el Rei de Castela a alguns cavaleiros, 
que ajuntassem os seus homens de armas, a fim de fazerem correrias pelos 
campos de Portugal. Reunido já um certo número de capitães, não poderam 
sofrear os apetites de saque. Com este intuito puseram-se a caminho, con- 
tando com a impunidade, pois sabiam que, alem de não haver naquela pro- 
víncia fronteiro, os fidalgos principais dela estavam desavindos. 

Por Almeida entraram em Portugal, e marcharam por Pinhel e pela veiga 
de Trancoso direitos a Viseu, onde penetraram sein resistência, pois era 
lugar aberto. Saquearam a cidadei, roubando e cativando tudo que lhes 
aprouve, e puseram-se de novo a caminho, direitos a Castela, com os des- 
pojos e cativos. Levavam tam valiosa presa, que excediam a setecentas as 
azêmolas da carriagem. 

^Que faziam entretainto os alcaides mores dos 'castelos da fronteira? 
Agravados uns contra os outros, e não tendo, cada um de per si, forças su- 
ficientes para combater os Castelhanos, assistiam detrás das fortes muralhas, 
certamente raivosos, mas impotentes, à assolação e saque da província. 

Então, João Fernandes Pacheco, não lhe sofrendo o ânimo brioso a injúria 
recebida, decidiu tentar a reconciliação. Saindo de Ferreira dirigiu-se a Li- 
nhares, onde em Martim Vasques da Cunha topou bom propósito, pois pronto 
ficava, a-pesar das afrontas padecidas, para unir os seus homens de armas aos 
de Gonçalo Vasques Coutinho, e juntos saírem ao encontro dos invasores. 

Contente e apressado dirigiu-se o Senhor de Ferreira a Trancoso. Re- 
peliu-o porem o Alcaide mor, fundando-se no pretexto da discórdia existente; 
mas a verdadeira causa em breve a penetrou Pacheco por algumas palavras, 
que Gonçalo Vasques Coutinho deixou cair. Este, o que não queria, era 
combater debaixo da bandeira de Martim Vasques. 

Não desacoroçoado voltou Pacheco a Linhares, onde, exposto o embaraço, 
encontrou em Martim Vasques digna e levantada determinação. Todos sa- 
biam, ser ele Cunha muito superior em vassalos, nobreza e grandeza de casa 
ao Coutinho, mas, para serviço dei Rei e proveito da pátria, estava disposto 
a pelejar às ordens de Gonçalo Vasques, e para prova iria com seus irmãos 
juntar-se-lhe em Trancoso. 



Coutinhos 53 

Neste castelo se apresentaram os Cunhas, levando na sua companhia a 
João Fernandes Pacheco e a Egas Coelho. Foram tratados com um lauto 
banquete, durante o qual Leonor Gonçalves, mulher do Alcaide mor, «andava 
entre eles com grão prazer e lédice, mostrando que de tal festa era muy 
contente». Terminado o festim, e feitos os Juramentos de recíproco auxílio, 
acordaram na maneira e no lugar onde combateriam os Castelhanos. 

Na veiga de Trancoso, a menos de meia légua da vila, formaram-se a pé 
as tropas portuguesas. Constavam elas de cento e vinte lanças dos homens 
de armas de Gonçalo Vasques Coutinho, cento e cinquenta dos de Martim 
Vasques da Cunha, trinta dos de João Fernandes Pacheco, e mais algumas 
dos de Egas Coelho. Ao todo trezentas e tantas lanças, a que ajuntaram 
muitos peões trazidos das aldeias vizinhas. 

Bem de manhã, num belo dia de fins de Maio, apareceu a hoste castelhana 
em número de quatrocentas lanças, duzentos ginetes e bastantes peões e bes- 
teiros. Avistadas as tropas portuguesas, detiveram-se os Castelhanos em 
largo conselho, em resultado do qual inclinaram sua marcha para a direita, 
procurando a ribeira de Frechas, na imenção aparente de evitar o combate. 

Adivinhada ela, moveram-se os Portugueses, e apresentaram-se de frente 
aos Castelhanos junto à ermida de S. Marcos, a qual, como padrão que ficou 
sendo desta batalha, foi arrasada pelo exército castelhano, quando no Julho 
seguinte por ali tornou. 

Não podendo evitar o combate, deixaram os invasores os ginetes de 
guarda à presa, e os peões e besteiros de vigia aos cativos, e, postos a pé 
os homens de armas, ao som das trombetas, e ao estridor dos gritos «Cas- 
tilla y Santiago» e «Castafíeda», deram nos cavaleiros portugueses, que firmes 
■os receberam, clamando por «Portugal e S. Jorge», «Cunha e Ferreira». 

Travou-se a batalha, que foi das mais renhidas e características pelejadas 
entre Portugueses e Castelhanos. Nela, o valor, a união, o amor da pátria 
oprimida, supriram, como em outras, a falta de número. 

O ardor era tal, a sede do sangue inimigo tanta, que os duros golpes, 
batendo nas rijas armaduras, produziam pavoroso estrépito, ouvido d'ali a 
meia légua, em Trancoso. 

Os peões portugueses tinham fugido, ainda antes do primeiro choque, e 
ás mãos dos ginetes castelhanos morreram alguns. Não desanimaram con- 
tudo os homens de armas, ante este mau prenúncio de vitória. Apertando 
as fileiras, e redobrando de esforço, breve íizeram conhecer aos Castelhanos, 
que era ilusória a aparente vantagem. 

Já sobre a tarde, dos quatrocentos cavaleiros espanhóis, apenas existia 
um, preso por Gil Vasques da Cunha, que o não quis matar para haver tes- 
temunha, entre os contrários, de tam glorioso e extraordinário feito. 



54 Brasões 

j Deveras assombroso foi, o que o Castelhano viu então! Aqui, os cadá- 
veres de todos os cavaleiros e escudeiros seus companheiros de armas; aU, 
fugitivos, trepando pela encosta, os peões e besteiros, que não ficaram presos 
dos que, havia pouco ainda, eram seus cativos; ao longe, já pelo cume dos 
oiteiros, os ginetes, que, abandonando a presa, não esperaram a ver o fim; 
e, de roda dele, ofegantes, cobertos de sangue e pó, os Portugueses, todos 
os Portugueses, pois que, diz o cronista, nem um só dos homens de armas 
inordeu a terra nesse memorável combate (i). 

jQue nobre orgulho, que bem fundada audácia não incutiria esta vitória 
no ânimo dos Portugueses! ; Quanto não lhes aumentaria ela a fé no feliz 
êxito da sua empresa! ;e que brilhante prelúdio não foi da batalha de Alju- 
barrota! 

A Martim Vasques da Cunha, mais do que a ninguém, se deveu este glo- 
rioso sucesso, pois que, a favor da causa comum, soube vencer a altivez do 
seu carácter, dando um exemplo bem poucas vezes seguido nesses tempos 
de insofrido orgulho. 

O capitão da hoste portuguesa na memorável batalha de Trancoso foi, 
como fica dito, Gonçalo Vasques Coutinho, alcaide mor daquela vila e pos- 
teriormente marichal de Portugal. Foi cavaleiro de tam esforçadas façanhas 
que dele disse o Duque de Lencastre que, «se ouvesse de aventurar o Reyno 
de Castella, e poer seu direito em mão de hum homem que o combatese», 
Gonçalo Vasques Coutinho, ou Rui Mendes de Vasconcelos, cada um deles, 
era bastante para lhe confiar tal feito (2). 

Muito assinalada acção de Gonçalo Vasques Coutinho foi a da defensão 
de uma ponte, quando em 1387 o exército português seguia o caminho de 
Cidade Rodrigo. Nesse dia ele, único cavaleiro, acompanhado por alguns 
besteiros, embargou o passo aos Castelhanos durante todo o tempo necessá- 
rio para o nosso exército passar a vau (3). 

n 

LINHAGEM 

Era Gonçalo Vasques Coutinho senhor do couto de Leomil na Beira por 
sucessão a seus maiores, e por êle ser pequeno se lhe chamava o Coutinho, 
provindo d'aqui, diz-se, o apelido a seus possuidores. Este couto de Leomil 



(i) Fernão Lopes, Chronica de D. João 1, part. 11, caps. 19 a 21. 

(2) Ibidem, cap. 109. 

(3) Ibidem, cap. 1 12, 



Coiitinhos 5 5 

havia sido doado por juro de herdade com outros bens, por carta passada 
em Vila Nova de Anços a i3 de Março de 1410 (1372), ao vassalo dei Rei 
Vasco Fernandes Coutinho (i). A este mesmo fidalgo, intitulando-o cava- 
leiro e vassalo, fez D. Fernando nova doação, para ele e descendentes, por 
carta dada em Lisboa a 23 de Julho de 1421 (i383), pelos serviços prestados 
nas guerras com D. Henrique e D. João de Castela, da vila de Nomão e 
seus termos, do castelo de Penedono e seu termo, e dos lugares de Póvoa, 
Penela, Paredes, Riodades e Valongo, com seus termos, jurisdições, data de 
ofícios, tabeliães, etc. (2). Ao filho de Vasco Fernandes, o referido mari- 
chal Gonçalo Vasques Coutinho, confirmou D. loao I, em Ceuta, a 24 de 
Agosto de 1453 (141 5), a precedente doação, mandando incorporar todos 
aqueles bens no couto de Leomil e ordenando, a ele Gonçalo e a seus suces- 
sores, que se intitulassem senhores do couto de Leomil (3). 

Casou Gonçalo Vasques Coutiriho por duas vezes, sendo sua segunda mu- 
lher D. Joana de Albuquerque, filha bastarda do mestre de Santiago D. Fer- 
nando Afonso de Albuquerque, e dela só teve uma filha, D. Isabel Coutinho, 
que veio a casar com Gomes Freire, seahor de Bobadela. Da primeira vez 
havia Gonçalo Vasques casado com Leonor Gonçalves de Azevedo, filha de 
Gonçalo Vasques de Azevedo, senhor da Lourinhã, e primeiro marichal de 
Portugal, e dela tivera os seguintes filhos: 

i.° — Vasco Fernandes Coutinho, i.° conde de Marialva (Setembro de 
1440) e marichal do reino. Foi progenitor dos demais Condes de Marialva 
e dos Marqueses do mesmo título (i i de Junho de 1661) com a varonia de 
Meneses; dos comendadores de Vaqueiros, dos de Caldeias e dos de Almou- 
rol; dos Condes do Redondo (2 de Junho de i5oo), os quais posteriormente 
tiveram a varonia de Castelo Branco e ultimamente a de Sousa Chichorro; 
dos Marichais do reino, dos Morgados de Pinhel, e doutros. 

2.° — Fernão Coutinho, senhor de Basto e Montelongo, cuja descendência 
varonil em breve se extinguiu. 

3.° — Álvaro Gonçalves Coutinho, o legendário Magriço. 

4.*' — D. Álvaro Coutinho, bispo de Coimbra, segundo afirmam alguns 
nobiliários sem confirmação nos catálogos dos bispos daquela diocese. 

5." — D. Fernando Coutinho, bispo de Coimbra pelos anos de 1425. 

6.° — D. Luís Coutinho, bispo de Viseu e depois de Coimbra, a quem 
me tornarei a referir. 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.o, fl. io3. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 3.", fl. 149 v. 

(3) Ibidem. — Esta carta é o único diploma de D. João I datado de Ceuta por mim até 
agora encontrado. 



56 Brasões 

7.° — D. Felipa Coutinho, que em 1420 se desposou com D. Pedro de Me- 
neses, capitão de Ceuta e futuro i.° conde de Vila Rial e 2.° de Viana, não 
se tendo chegado a reaHzar o casamento por a noiva morrer no mar, quando 
ia ter com o marido a Ceuta. 

A varonia dos Coutinhos subsistia há pouco apenas na linha dos morgados 
de Â.rcoselo à qual pertencia o simpático Aj^ô dos janotas, D. José Coutinho 
de Lancastre, há poucos dias falecido (i). 

D. Luís CoutinhO;^ acima mencionado, era bispo de Viseu pelos anos de 
1438, sendo de lá transferido para o bispado de Coimbra em 1444, segundo 
dizem. Nesta qualidade acompanhou em 146 1 a infanta D. Leonor a Roma, 
quando foi casar com o imperador Frederico III (2). Afirmam igualmente 
os autores dos catálogos dos diversos prelados haver sido também D. Luís 
Coutinho arcebispo de Lisboa alguns meses do ano de 1453 (3); mas não 
acertam, porque êle não teve nunca a posse daquele arcebispado, nem se- 
quer nele foi confirmado, se para tal prelazia chegou alguma vez a ser eleito» 
Efectivamente aparecem duas cartas régias de 23 de Setembro e 9 de Ou- 
tubro de 1453 as quais esclarecem o caso. Pela primeira foi dada licença 
para andar em besta muar a um criado de D. Luís Coutinho, «bispo que foi 
de Coimbra» ; e pela segunda tomou D. Afonso V sob sua especial protecção 
a um escudeiro de «D. Luís Coutinho, bispo que foi de Coimbra, do nosso 
conselho, a que Deus perdoe» (4). Se êle houvesse sido arcebispo de Lis- 
boa, mesmo até apenas eleito, é certo que esta dignidade seria indicada nos- 
referidos diplomas. 

A pessoa de D. Luís Coutinho encontra-se ligada, sem sólido fundamento, 
julgo, a uma lenda interessante. Na antiga estrada de Lisboa a Sintra, entre 
a quinta do Ramalhão e o lugar de S. Pedro, encontra-se, à esquerda de 
quem se dirige para a vila, um túmulo misterioso, com uma cruz latina es- 
culpida na tampa, quási de nível com o solo, e uma outra cruz alçada sobre 
uma pequena coluna na extremidade da campa. Não se sabe para quem o 
túmulo fosse construído, mas houve quem suposesse estarem nele recolhidos 
os restos de D. Luís Coutinho (5). Vamos ver se será possível e plausível. 

Em 7 de Abril de i83o, por ordem de D. Miguel e na sua presença, 
mandou o Juiz de fora de Sintra abrir o referido túmulo e nele se encon- 



(i) Escrevia eu isto em 6 de Dezembro de 188^. 

(2) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. i32. 

(3) P. ex. João Bautista de Castro, Mappa de Portugal, III, 128-129. 

(4) Archivo histórico portugue^, III, pág. 229 e 23o. 

(5) Abade de Castro, Antigualha das cercanias de Cintra^ no Panorama, vol. vi, pág. 359, 



Coutinhos 57 

traram os ossos de um indivíduo só, sem aparecerem quaisquer indícios que 
habilitassem a identificar a pessoa a quem aqueles restos pertenciam. No 
auto então lavrado e depois guardado no Arquivo da Câmara Municipal, de- 
clara o Juiz de fora, reportando-se a documentos existentes no Cartório da 
Misericórdia, constar: que «em 1409 já excedia a memoria dos homens a 
fundação do Hospital e Gafaria dos Lázaros no cabeço do Ramalão»; que 
nesse mesmo ano se fizera a divisão dos rendimentos das herdades do dito 
hospital, ficando ele com metade e sendo a outra metade atribuída ao de 
Cascais; e finalmente que no Tombo dos bens, que ficaram ao hospital de 
Sintra, rnandado fazer em 1450 pela rainha D. Leonor, mulher de D. João II, 
e concluído em 1452, se menciona «o caminho aonde existe o Monumento e 
Crus». Na verdade, quando examinei o cartório da Misericórdia de Sintra, 
encontrei estes documentos e, se as datas do último estivessem bem inter- 
pretadas, elas afastariam completamente a suposição de haver sido o túmulo 
construído para receber os restos de D. Luís Coutinho, vivo ainda em 1460 
e 1452, visto que se deve entender ter falecido só em 1453, entre 23 de Se- 
tembro e 9 de Outubro, como indicam os dois diplomas acima extratados; 
as datas porem dos anos de 1430 e 1452 dentro dos quais se diz ter sido es- 
crito o referido Tombo, não são verdadeiras. 

Foi êle feito por mandado e em nome de «Dona lianor per Graça de deos 
Raynha de portugal e dos algarues . . . e senhora de guinee». Corneça pelo 
contrato celebrado entre os hospitais de Sintra e de Cascais para repartição 
das rendas e continua com outras escrituras até entrar na demarcação das 
herdades do hospital, à qual se seguem mais escrituras, sem nunca se en- 
cerrar o Tombo e, portanto sem se declarar a data, a não ser no fim onde, 
de letra moderna, século xix, se lê: «Feito em 1450». Esta indicação porem 
está longe da verdade. 

O ditado acima transcrito revela claramente, nas palavras senhora de 
Guine', tratar-se da rainha D. Leonor, mulher de D. João II e este soberano 
só começou a incluir aquele título no seu ditado em 1485 (i). Foi portanto 
o Tombo começado a escrever muitos anos, mais de trinta pelo menos, de- 
pois da morte de D. Luís Coutinho. A menção do túmulo naquele docu- 
mento não invalida pois a suposição dele ter sido feito para receber o corpo 
do Bispo de Coimbra. Na fl. 36 v. do Tombo começa a descrição e medi- 
ção do casal do Ramalhão, e na fl. Sy declara-se: «E ficam por partir E de- 
marcar ... os rressijos de junto das casas E outros grandes que vaam partir 
acima com o Ressijo do concelho honde estaa ó moj'mêto e cru:{i>. 



(i) João Pedro Ribeiro, Dissertações, II, 204. 

VOL. I 



58 Brasões 

Este monumento sepulcral estava no antigo cemitério dos gafos, como 
consta de uma determinação tomada pela mesa da Misericórdia em 12 de 
Julho de 1598: «que se concerte o mojmento dos lázaros que está no Rama- 
Ihão por ser memoria dos lázaros que estam nelle sepultados e esta casa ter 
obrigação de o ter sempre concertado» (i). Perto de um século depois, no 
dia I de Julho de 1673, deliberou a mesa da Misericórdia mandar «pôr húa 
cruz de Pedra na sepultura dos Lázaros, que está na estrada de Lisboa Junto 
a o Ramalão, por quanto esta casa tem obrigação de a reparar como admi- 
nistradora que hé do Hospital dos Lázaros, e ja esta S.'^ caza tinha mandado 
pôr a que furtarão, e se poz no anno de mil quinhentos e noventa e outo 
annos como se ue de híi termo no L.° 7.° dos Acord. f 96 e logo o dito P.^ . . . 
disse tinha mandado pôr a ditia cruz, e despendera nella mil e quinhentos 
rs.» (2). 

Era pois por esses tempos neste sítio o cemitério dos Lázaros, correndo 
ao sul dele a antiga estrada para Lisboa, como declaram as confrontações 
da courela do Vai da Gafaria, mística ou pertença do casal do Ramalhão, 
onde era situado o cemitério (3). Com o andar dos tempos mud©u-se o leito 
da estrada mais para o norte e veio a cortar o cemitério, dando em resultado 
ficar o monumento sepulcral à beira dela. 

O Abade de Castro, no artigo citado, não apresenta prova documental 
nem citação de fonte, como aliás é seu mau costume, e simplesmente declara 
que após «laboriosa investigação» pode presumir, com aparência de verdade, 
ser aquela sepultura a de D. Luís Coutinho. Diz ter-se êle afastado da corte 
quando em 1452 voltou de Roma, e ter-se recolhido a Sintra a tomar na sua 
serra os banhos de Santa Eufemia, procurando alívio ao mal da lepra, de 
que padecia, e já então andava muito adiantado. 

A esta suposição parece, na verdade, dar tal qual fundamento o primeiro 
dos dois documentos acima citados relativos ao Bispo, a carta régia de 23 de 
Setembro de 1453. Por ela consta estar então D. Luís Coutinho definitiva- 
mente afastado da sua diocese, «bispo que foi de Coimbra», só podendo atri- 
buir-se o facto a moléstia, pois noutra prelasia se não encontrava investido. 

Quanto à presunção de ter sido êle o gafo sepultado à beira da estrada 
de Sintra, tem ela certamente mais fundamento que a outra lenda do túmulo 
ser o de dois irmãos (4), a qual se desvaneceu quando, ao abri-lo, apareceu 
a ossada de uma pessoa só. 



(i) Acordos da Misericórdia de Sintra, liv. 7.», fl. 96. 

(2) Ibidem, liv. 1 3.", fl, 24 v. 

(3) Cit. Tombo. 

(4) Juromenha, Cintra pinturesca, pág. 114. 



Coutinhos 59 

Do i.° Conde de Marialva foi neto D. Francisco Coutinho, 4.° e último 
conde daquela vila na varonia dos Coutinhos, o qual por sua mulher, D. Bea- 
triz de Meneses, também foi conde de Loulé. Foram estes Condes enter- 
rados ambos na capela mor do convento franciscano de Santo António de 
Ferreirim, e sobre a sepultura lançaram este epitáfio: Aqui ja^ o Senhor 
D. Francisco Coutinho, Conde dos Condados de Marialva e Loulé, Mor- 
gado de Mdedelo e do Couto de Leomil, senhor de Castello Rodrigo, Alcaide 
mor de Lamego, Meyrinho mor deste Rej-no, Faleceo na Era de i532. E a 
Condessa sua mulher D. Brites de Meneses. Mandarão se aqui trazer a esta 
Casa de Santo António de Ferreyrim, aonde ja\em enterrados, por ser terra 
que seus Avos ganharão aos Mouros (i). 

A data da morte do Conde de Marialva e Loulé, como se encontra no 
epitáfio, está errada. O Conde não morreu em i532, mas sim a 19 de Fe- 
vereiro de i53o, como declara um documento (2). 

Estava aquele túmulo na referida capela mor do lado do evangelho, fron- 
teiro à porta da sacristia e por cima dele via-se um quadro do Descendimento 
da Cruz «de pintura primorosa», e era tudo encerrado num arco formado na 
parede, no fecho do qual estava o escudo das armas do Conde. Eram estas 
as cinco estrelas dos Coutinhos, tendo por timbre uma figura estranha com 
cara humana, e sobre êle atravessado um listão com esta divisa: SEGUIME 
POIS QUE SIGO TO DIGO (3). 

As armas do Conde de Marialva encontram-se também na fl. 48 v. do 
Livro do Armeiro mor, onde se vêem pintadas desta maneira: Escudo pen- 
dido, de oiro, carregado de cinco estrelas de sete pontas de vermelho; elmo 
de oiro, cerrado, guarnecido de esmaltes vermelhos e verdes, posto de três 
quartos e forrado à ponta de azul; paquife de oiro forrado de vermelho; virol 
de oiro e vermelho; correia de azul, perfilada de oiro. 



(1) Fr. Fernando da Soledade, Historia seráfica, IV, 352. 

(2) Torre do Tombo, Gaveta 9, maç. 10, n.° 14. 

(3) Memorias Sepiílchraes^ Qiie existem nos Conventos e Mosteiros desta Província dos 
Menores Observantes de Portugal; tiradas dos próprios lugares, aonde agora existem, e Es- 
criptas por Fr. António da Lu:( Fo!j[, Filho da mesma Provinda .Anno de lyS/. Ms. de que 
era possuidor, juntamente com outros dois análogos, formando uma interessante colecção, 
o antigo administrador da Imprensa Nacional, Venâncio Deslandes, que me fez o favor de 
me permitir deles extrair cópia. Encontra-se o indicado no texto na fl. 84 v. 



Hl 

CASTROS 




BnASÓEs DA Sala de Sintra, VoI. k. 



De azul, seis besantes de prata. Timbre: roda de navalhas de Santa 
Caterina, a roda de sua cor, as navalhas de prata. 

Estas armas teem os esmaltes do escudo trocados, e não sei como se 
possa explicar tal erro em brasão tam conhecido, a não se atribuir à res- 
tauração da sala em tempos de D. Pedro II. 

As armas destes Castros são: em campo de prata seis arruelas de azul. 
Assim se encontram no Livro do Armeiro mor, fl. 49, no Livro da Torre 
do Tombo, fl. 9 v., no Thesoiiro da Nobreza de Francisco Coelho, fl. 28, no 
Thesouro da Nobre:{a de Fr. Manuel de Santo António, c-54, etc. 

O timbre aqui pintado é o privativo dos Castros do morgado de Penha 
Verde, e foi adoptado por D. Álvaro de Castro, filho do grande D. João de 
Castro, ilustre progenitor daquela casa. O comum é um lião nascente, ou 
de oiro, ou de prata, e umas vezes carregado com os móveis do escudo, ou- 
tras não. A casa de Monsanto dão geralmente por timbre um caranguejo 
de prata, carregado das seis arruelas do escudo. 

As armas do Conde de Monsanto, como estão pintadas na fl. 49 do Livro 
do Armeiro mor, eram assim: Escudo pendido, de prata, carregado de seis 
arruelas de azul; elmo de oiro, cerrado, guarnecido de esmaltes vermelhos, 
e verdas, posto de três quartos e forrado à ponta de vermelho; paquife de 
prata forrado de azul; virol de prata e azul; correia de vermelho, perfilada 
de oiro. 

I 

PAZ DE ALCOUTIM 

A 23 de Março de 1369, junto do castelo de Montiel, encontrou D. Pe- 
dro I de Castela a morte às mãos de seu próprio irmão. 



é4 Brasões , 

Com o fratricídio Julgava Henrique II, que pacifico rei de Castela ficaria; 
não sucedeu porem assim, pois que a maior parte dos do bando do falecido 
rei se levantou com as cidades e vilas, que tinha em seu poder, tomando voz 
por D. Fernando, rei de Portugal. ' 

Da Galiza, onde principalmente se pronunciou o alevantamento, era a 
grande maioria dos fidalgos que procuraram a corte portuguesa, oferecendo 
a sua espada; por isso que, alem dos insubordinados, muitos outros passaram 
aquela fronteira, buscando um rei no de Portugal. 

D. Fernando era então, iSôg, mancebo de vinte e cinco anos, «vallente, 
ledo, e namorado, amador de molheres, e achegador a ellas. Avia bem 
composto corpo e de razoada altura, fremoso em parecer e muito vistoso; 
tal que estando acerca de muitos homeens, posto que conhecido nom fosse, 
logo o julgariam por Rei dos outros . . . Era cavallgamte, e torneador, grande 
justador, e lamçador a tavollado. Era muito braçeiro, que nom achava ho- 
mem que o mais fosse; cortava muito com huma espada, e remessava bem 
a cavallo. . . Era ainda . . . muito caçador e monteiro» (i). 

Liberal e de óptima índole, inteligente e sociável, procurava a convivên- 
cia, não só das damas, como de todos, sendo grande criador de fidalgos, e 
gostando de ver os seus paços sempre alegres e animados. 

Perspicaz, foi o primeiro a perceber que Portugal era Lisboa, e que, em 
quanto o reino conservasse a capital, poderia esperar pela independência; 
mas que, perdida aquela, esta em breve acabaria para todo ele. Lisboa, 
«grande cidade de muitas e desvairadas gentes», mereceu-lhe pois particular 
atenção, ainda que muito afeiçoado lhe não devesse ser, por quanto dela teve 
de sair corrido, quando se espalhou a nova do seu casamento. Levantou-lhe 
a famosa e forte muralha, que tam útil foi em 1384, quando D. João I de 
Castela a veio cercar. 

E não foi só para a capital, que olhou com desvelo. Tratou de desen- 
volver em todo o reino o comércio, favorecendo muito os mercadores; a agri- 
cultura e a população, mandando cultivar ou aforar os maninhos do Alentejo; 
a marinha, aumentando em grande escala e aperfeiçoando a construção dos 
navios. 

^Com tam boas qualidades, a que ainda acrescia o amor da justiça, e 
com tam previdente governo, como é que ele e o seu reino foram infelizes? 
E porque algumas das quahdades de D. Fernando, levadas ao excesso, tor- 
navam-se em graves defeitos. Ao génio irresoluto e volúvel juntava exces- 
siva galantaria e prodigalidade. Em breve deu cabo dos tesouros acumula- 



(1) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, no prólogo. 



Castros 65 

dos durante séculos pelos seus predecessores, e sem dinheiro, e apaixonado, 
deixava correr tudo à revelia. 

Tam depressa era pelo Conde de Trastâmara contra Pedro o Crú, como 
se aliava com os Reis de Aragão e Granada contra o Conde, já rei de Cas- 
tela. Vencido c obrigado em iSyi a fazer as pazes com Henrique II, Jun- 
tava-se ao novo amigo contra o antigo aliado de Aragão, dando lugar a este 
lhe ficar com a avultada quantia, que D, Fernando lá tinha, destinada ao 
soldo das tropas auxiliares. 

Depois, desprezado o casamento com a filha do Castelhano, e projectada 
a aliança com os Ingleses, inimigos daquele, não tem tempo de ultimá-la, 
porque D. Henrique II, avisado de seus projectos, invade novamente o reino 
em iSyS. Outra vez vencido, consegue livrar-se por meio de uma paz menos 
desairosa ainda, do que era de esperar. 

Morto D. Henrique, realiza a projectada aliança com os Ingleses contra 
D. João I de Castela; pouco depois porem de encetada a guerra, já aborre- 
cido, trata secretamente das pazes com os Castelhanos, abandonando ou 
aliados. 

Como era com os de fora, assim procedeu com os de casa. Na mão 
sempre daqueles a qUem se afeiçoava, por eles completamente se deixava 
guiar. Primeiro foi o conde D. João Afonso Telo, depois a sobrinha deste, 
a rainha D. Leonor Teles. 

Não se cuide que o povo, apesar do muito que por causa dele padeceu, 
o odiasse. Não. Tratava-o como uma criança amimada, a quem os bon- 
dosos pais, depois de ralharem, afagam e ameigam de novo. 

É como o povo d'então o historiador de hoje. Não pode deixar de sim- 
patizar com as brilhantes qualidades deste Rei, tam defeituoso muito embora, 
mas tam bom, tam previdente, quando antevia no desenvolvimento da mari- 
nha nacional o futuro engrandecimento do seu país. 

Volvamos à narrativa, ao que se passou em 1869 em seguida ao assassínio 
de D. Pedro de Castela. 

D. Fernando, crente no que os fidalgos castelhanos da sua parcialidade 
lhe diziam, e que o valido d'então confirmava, asseverando-lhe, que, «quando 
menos se precatasse», todo o reino de Castela era seu, invadiu a Galiza. 
Considerando a sua entrada, em vista daquela afirmação, como uma marcha 
triunfal, não foi prevenido para sérias resistências, e efectivamente não as 
encontrou na província, que estava quási toda por êle. 

De Tui, onde pouco se demorou, passou à Corunha; e aí sucedeu um 
facto digno de reparo. 

Era essa vila composta unicamente de pescadores e de gente ordinária, 
sendo o principal da terra um João Fernandes Andeiro. Como se receasse 

VOL. I 9 



66 Brasões 

um tanto das intenções de seus moradores, avançou el Rei e a comitiva com 
cautela, parando a distância das portas da Corunha. 

Saíram os moradores trazendo à frente João Fernandes Andeiro, que 
alegre acorria, bradando: «Hu vem aqui meu senhor el Rei Dom Fer- 
nando?» 

«Eu som, eu som», acudiu pressuroso el Rei, chegando as esporas ao 
cavalo e adiantando-se aos mais. E pela primeira vez beijou Andeiro a maò 
a el Rei de Portugal. 

iQuem diria então, ao ver aquele escudeiro de pobre vila de pescadores, 
que ele viria um dia a ser conde de Ourem e a calcar no coração da sua 
formosa Rainha o amor daquele Rei, tam gentil e garboso! 

Na Corunha permaneceu D. Fernando, entretendo-se na larga distribuição 
de privilégios e isenções às povoações que a sua voz tomavam; e na profusa 
repartição dos haveres dos contrários pelos que eram seus parciais, os quais, 
não poucas vezes, unicamente com esse fito o procuravam. Mandou cunhar 
moeda, enviou cartas a diferentes cidades, intitulando-se Rei delas, e soce- 
gadamente, caçando pelas vizinhanças, esperou a tal ocasião em que se lhe 
entregasse Castela toda, «quando menos se precatasse». 

O desengano veio rápido e assustador. Henrique II com Du Guesclin e 
os seus Bretões levanta o cerco de Samora, e avança a marchas forçadas 
sobre a Corunha. 

Não entrava isto nos ajustes. D. Fernando viera a receber preitos e ho- 
menagens, mas cutiladas não. Os amigos Galegos aguentem-se como pode- 
rem, que el Rei de Portugal tem suas galés ancoradas na baía, o mar está 
chãO; e o Porto não é longe. Levantar ferro e andar. 

D. Henrique sabedor desta prudente retirada, e certo de que, vencido 
D. Fernando, sem custo reduziria a Galiza, entrou pela província do Minho, 
preferindo guerrear em reino estranho. 

Talando e arrasando campos e povoados chegou a Braga, que logo capi- 
tulou. D'aí dirigiu-se a Guimarães, a que, em i de Setembro deste ano de 
1369, pôs cerco. Em breve porem o levantou, por lhe chegarem novas de 
como Algeciras caíra em poder dei Rei de Granada, que a arrasara. Pela 
província de Trás os Montes fora, obrando comO raio vingador de um deus 
de extermínio, regressou a Castela. 

Entretanto D. Fernando andava indeciso, de uma parte para a outra, por 
forma tal que Já o povo lhe cantava: 

Eis vello vai, 
Eis vello vem 
De Lisboa 
Pêra Santarém. 



Castros 67 

Depois da partida de D. Henrique, continuou ainda a guerra por terra e 
mar com vários sucessos, mas todos de pouca monta, até se celebrarem as 
pazes, em Alcoutim, a 3i de Março de 1371, pelas quais D. Fernando largou 
todas as terras que tinha na Galiza. E a confiança, que mereciam estas 
pazes, com o casamento tratado e com os muitos Juramentos, que por oca- 
sião delas se fizeram, a classificaram alguns da corte por um rifão apimen- 
tado, que Fernão Lopes refere, e que nem em latim se poderia aqui pôr (i). 

n 

CASA DE MONSANTO 

Entre os fidalgos galegos, que seguiram a parcialidade dei Rei de Portu- 
gal, distinguiam-se D. Fernando Rodrigues de Castro, conde de Trastàmara, 
Lemos e Sárria, e seu meio irmão D. Álvaro Pires de Castro. 

Eram estes fidalgos filhos de D. Pedro Fernandes de Castro, o da Guerra, 
rico homem, senhor de Lemos e Sárria, adiantado mor da fronteira e mor- 
domo mor de Afonso XI de Castela; o primeiro porém legítimo, o segundo 
bastardo. 

Alem destes dois filhos teve o da Guerra duas filhas, sendo igualmente 
uma legítima, e a outra natural. A legítima foi D. Joana de Castro com quem 
D. Pedro I de Castela casou, ainda em vida da rainha D. Branca sua mulher. 
Abandonada no dia seguinte ao do casamento pelo rei, que nunca mais a 
tornou a ver, continuou D. Joana contudo a intitular-se rainha de Castela. 
A natural foi a desventurada D. Incs de Castro, com quem D. Pedro I de 
Portugal afirmou ter casado secretamente. 

D. Álvaro Pires de Castro permaneceu em Portugal depois da paz de 
Alcoutim, e subiu ao fastígio das honras e dignidades. 

Em I de Junho de iSyi recebeu o título de conde de Viana da Foz do 
Lima, Caminha de Riba de Minho e Aldeia Galega a par de Alenquer (2), 
título pouco tempo depois mudado no de conde de Arraiolos (3). Em i382 
foi feito condestável, sendo o primeiro que houve em Portugal. Como alcaide 
mor de Lisboa defendeu a cidade do cerco, que em 1373 lhe pôs D. Hen- 
rique 11; e na qualidade de fronteiro resistiu em i38i ao sítio, que os Cas- 
telhanos puseram a Elvas caudilhados pelo seu próprio sobrinho o infante 



(i) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, cap. 23 c seguintes. O rifão, quem o 
quiser ver, encontra-o nó fundo da pág. 233. 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.», fl. 73. 

(3) Já com este título aparece em uma carta de escambo de 8 de Julho de 141 3 (ujS). 
— Chancelaria de D. Fernando, liv. i.", fl. 171. 



6S Brasões 

D. João. A este enviou o Conde dizer, assim que teve novas da chegada 
dos Ingleses, que, se precisasse dalgumas mercadorias de Inglaterra, apro- 
veitasse a ocasião para as mandar buscar a Lisboa, pois lá estavam umas 
poucas de naus inglesas, dando azo com o aviso ao imediato levantamento 
do cerco. 

Por morte de D. Fernando ligou-se o Conde de Arraiolos ao partido con- 
trário a el Rei de Castela, bando de que era chefe o Mestre de Avis; sempre 
porém irresoluto e receoso, veio a falecer de morte natural, durante o cerco 
de Lisboa, alguns dias depois de 1 1 de Julho de 1384. 

A este homem foram prodigalizadas as honras e as mercês (i), mais de- 



(i) Diplomas registados na Chancelaria relativos ao Conde de Arraiolos: 
Álvaro Pires de Castro, nosso leal vassalo, fazemolo conde das nossas vilas e castelos 
de Viana da Foz de Lima, de Caminha de Riba de Minho e de Aldeia Galega apar de Alan- 
quer, as quais vilas e termos delas. queremos que sejam cabeça do condado, as quais vilas 
e castelos e termos delas queremos e outorgamos que haja o dito Conde e os Condes [que] 
depôs dele vierem, com todolos moradores e pobradores delas, com toda jurdição, alta e 
baixa, mero e mixto império, e com os portos do mar das ditas vilas e dos termos delas, e 
com o dízimo de todalas cousas que foi sempre acustumado levarem os Reis que ante nós 
foram, assi das que vêem per mar, como per terra, e com alfolinhagem e portagem e cas- 
telagem e martinhega e todolos outros direitos que os Reis costumavam e de direito so- 
hiam avcr nas ditas vilas e castelos . . . e damos lhe poder ao dito Conde que faça e possa 
hi fazer tabeliães e juízes aqueles que vir que compre, etç. Santarém, i de Junho, era de 
1409 (1371). Liv. 4.0 de D. Fernando, fl. 1 t. — Conde de Viana, doação de Arraiolos e 
Pavia, em pagamento de sua contia, 4 de Novembro, era de 1409 (iSyi). Ibid., liv. i.*, íi 82V. 
— Conde D. Álvaro Pires de Castro, carta de entrega do castelo de Lisboa. Era de 1411 
(iSyS). Ibid., Pi. 121. — Doação dos direitos do pão das lezírias de Alfimara e da Malveira, 
em pagamento de sua contia, para servir com certas lanças. Lisboa, 8 de Agosto de 141 1 
(iSyS). Ibid., íl. i33. — Escambo, recebendo o Conde a vila de Odemira e seu termo, confis- 
cada ao almirante Lançarote Pessanha por desserviço, e mais o reguengo de Cantanhede, 
dando em troca os reguengos de Campores do Rabaçal, que lhe haviam sido dados com a 
vila e castelo de Arraiolos, com Pavia e Aldeia Galega, por condado, em escambo por Viana 
e Caminha, juntando-se ao condado OJemiia e o reguengo de Cantanhede. Santarém, 8 de 
Julho de.1413 (1375). Ibid., íi. 171. — Novo escambo, recebendo o Conde todos os bens con- 
fiscados por dívida ao contador Antoninho Martins, em troca da vila e termo de Odemira. 
A dos Negros, 6 de Outubro de 1413 (iSjS). Ibid., fl. 177. — Conde de Arraiolos, doação de 
todos os bens de João Esteves de Moreira, de Coimbra, que os perdeu por traição. Santarém, 
9 de Julho de 1415 (1377), Ibid., liv. 2.° íi. 21 v. -- Conde de Arraiolos, senhor da vila, carta 
-áe convenção com os seus moradores em virtude de queixas contra ele, família e servidores. 
Évora, 3o de Janeiro de 141S (i38o). Ibid., íi. 55 v. — Carta de doação de Ferreira de Aves, 
confiscada a Diogo Lopes Pacheco. Portalegre, 25 de Maio de 1418 (i38o). Ibid., fl. 64 v. — 
Esta vila de Ferreira largou logo ao alferes mor Aires Gomes da Silva, que já dela era se- 
nhor, quando em i de Julho daquele ano foi dada carta d« privilégios aos seus moradores. 
Ibid.^ íi. 65. — Carta de padrão de seiscentas libras. Lisboa, 6 de Agosto de i-j2i (i383). Ibid., 



Castros 69^ 

vidas à sua qualidade de irmão de D. Inês de Castro e à afeição de D. Leonor 
Teles, do que ao próprio mérito. 

O Conde de Arraiolos foi sepultado na igreja de S. Domingos de Lisboa, 
na capela de S. Jacinto junto aò altar da parte do evangelho, em um túmulo 
pequeno, com este epitáfio: Aqui j as dÔ Álvaro Peres de Castro primeiro 
condestable deste Refno e a condessa dona Maria Ponse sua molher. Junto 
a esta caixa estava outra do mesmo tamanho e feição com o seguinte letreiro: 
Aqui jas dô Pedro de Castro Jilho mais velho e susesor de dom Álvaro Peres 
de Castro primeiro condestavel deste Rejno (i). Defronte destas duas via-se, 
na mesma capela, ainda outra sepultura em tudo semelhante às precedentes, 
menos na inscrição que era esta: Aqui jas dô João de Castro Jilho mais velho 
e successor de dõ Pedro de Castro neto de dÕ Álvaro Peres de Castro pri- 
meiro Condestable deste Rejno. 

Pela banda de cima de cada um destes túmulos havia um escudo com 
seis arruelas, variando contudo lodos eles nos timbres. No de D. Álvaro 
era uma roda de navalhas, no de D. Pedro, um pavão, no de D. João, uma 
capela florida (2). 

D'aqui deveria depreender-se que muito antes de D. Álvaro de Castro, 
filho do grande D. João de Castro, ter adoptado o timbre da roda das nava- 
lhas, já outro seu antepassado bem remoto o tinha tomado; mas não o creio, 
nem o que lá estava em S. Domingos, se estava, deve fazer fé, por ser obra 
muito mais moderna. As tais caixas metidas na parede não foram decerto 
os primitivos túmulos daqueles fidalgos. Houve uma trasladação, não sei 
quando, e foi então que puseram as armas e os tais timbres; e como cons- 
tava que um D. Álvaro tinha escolhido para si o da roda, atribuiram-no ao 
D. Álvaro, cujos ossos recolhiam então. 

Do Conde de Arraiolos provieram todos os Castros chamados de seis 
arruelas, exceptuando os Castros de Melgaço. Daqueles foram ilustres che- 
fes os senhores do Cadaval, cuja casa se fundiu por casamento na de Bra- 
gança. 



liv. 3.", fl. 85. — Carta de 2 de Maio de 1422 (1384) pela qual D. João I tirou ao conde D. Ál- 
varo Pires a jurisdição da vila de Arraiolas, ordenando que d'ali em diante os seus mora^- 
dores só respondessem perante as justiças reais, ficando o donatário apenas com os direites 
patrimoniais, etc. Liv. ifl de D. João 7, fl. 18 v. 

(i) Este D. Pedro de Castro foi senhor do Cadaval e marido de D. Leonor de Meneses, 
filha dos !.•• Condes de Ourem. , 

(2) Meinorias Sepulchraes que para beneficio da Historia de Portugal offereceu á Aca- 
demia Real D. Automo Caetano de Sousa, fl. 97 e 97 v. — li outro dos três códices que per- 
tenceram a Venâncio Deslandes aos quais já me referi na nota (3) de pág. .'9. 



70 



Brasões 



Deles não foram menos ilustres os ramos dos Condes de Monsanto (21 
de Maio de 1460), os quais, com a varonia de Noronha, receberam o titulo 
de marqueses de Cascais em 19 de Novembro de 1643; o dos senhores do 
paul do Boquilobo; o dos do morgado de Penha Verde; e outros. 

A todas as glórias desta família sobreleva a de ter produzido D. João de 
Castro, herói cuja fama bastará para tornar imorredoiro o nome de Castro. 
Dele são representantes os Condes de Penamacor com a varonia de Salda- 
nha. 

A varonia dos Castros de seis arruelas está desde muito extinta, a não 
ser que permaneça em algum ramo obscuro e ignorado. 

III 

CASTROS DE MELGAÇO 

Não há plausibilidade nenhuma na dedução destes Castros dos prece- 
dentes apesar de usarem das mesmas armas, facto muito vulgar em Portugal 
já até no século xvr, com.o atesta Garcia de Resende na décima 23 1 da sua 
Miscellanea: 

pois toma dom quem o quer, 
e armas nobres também 
toma, quem armas não tem 



Derivam-nos de uns Castros galegos, senhores de Fornelos; é porem 
fantasia genealógica, sem base em documentos nem memórias coetâneas de 
nenhuma espécie. 

Martim de Crasto, cavaleiro da casa do conde de Barcelos D. Afonso, 
o futuro i.° Duque de Bragança, serviu denodadamente em Ceuta desde o 
ano de 1416, e no de 1419 ajudou a defender a praça do apertado cerco 
posto pelos Moiros. Do seu valor dá testemunho Azurara em vários pontos 
da Chronica do Conde D. Pedro. Foi alcaide mor de Melgaço e nele co- 
meça o Nobiliário de D. António de Lima a geração destes Castros. Casou 
com Leonor Gomes Pinheira, filha de Martim Gomes Lobo, ouvidor das 
terras do referido Conde de Barcelos, e de sua mulher Mor Esteves. Os 
filhos e netos de Martim de Crasto continuaram a servir a casa de Bragança, 
que durante umas poucas de gerações manteve os primogénitos na alcaidaria 
mor. O 3.° alcaide mor de Melgaço, Pedro de Castro, neto do i.°, serviu 
a casa de Bragança e casou com D. Beatriz de Melo, filha de João de Melo, 
comendador de Casével; em atenção a esta senhora juntaram muitos de seus 
descendentes o apelido de Melo ao de Castro. Destes Pedro de Castro e 



Castros 71 

D. Brites de Melo foi filho segundo Francisco de Melo e Castro, alcaide mor 
do castelo do Oiteiro, criado da casa de Bragança, o qual foi avô de Jeró- 
nimo de Melo e Castro, governador do castelo de S. Felipe de Setúbal, o 
qual de sua mulher D. Maria Josefa Corte Rial teve primeiro filho a João 
de Melo e Castro, e depois a Denis de Melo e Castro. 

João de Melo e Castro foi avô de Manuel Bernardo de Melo e Castro, 
visconde da Lourinhã em 3o de Agosto de 1777, e de Martinho de Melo e 
Castro, ministro da marinha desde 12 de Julho de 1770 até morrer em 24 
de Março de 1795, O Visconde da Lourinhã faleceu em 19 de Agosto de 
1792, havendo casado em 1771 com D. Domingas Isabel de Noronha, á le- 
gendária doente de depravação do paladar, a qual depois de viúva foi con- 
dessa da Lourinhã. Não tiveram filhos. 

Denis de Melo e Castro, um dos grandes generais do seu tempo, serviu 
em vários postos nas guerras da Aclamação, e em 1705, sendo governador 
das armas da província do Alentejo, tomou as praças de Valência de Alcân- 
tara e Alburquerque. Foi dos conselhos de Estado e Guerra, e 1.'' conde das 
Galveias, por carta de 10 de Dezembro de 1691. Foi pai de Pedro de Melo 
e Castro, 2." conde das Galveias, de quem foi filho o 3." Conde e irm.ão o 
4.°, ambos falecidos sem geração, este em 1763, o outro em 1777, extinguin- 
do-se então a casa. 

Do i.° Conde das Galveias também foi filha D. Maria Josefa de Melo 
Corte Rial, que casou com D. Luís de Almeida Portugal, i." alcaide mor 
de Borba. Foram bisavós de D. João Vicente de Almeida Melo e Castro, 
5.° conde das Galveias, título renovado na sua pessoa por carta de 2 de De- 
zembro de 1808. Havia sido ministro dos Estrangeiros e da Guerra em 
1801, e veio a ser ministro da Marinha e Ultramar no Brasil, desde 18 de 
Janeiro de 1809, até morrer em 1814. Sucedeu-lhe seu irmão D. Francisco 
de Almeida Portugal de Melo e Castro, 6.° conde das Galveias por carta de 
8 de Fevereiro de 1818, 4.° couteito mor da casa de Bragança na sua família, 
enfermeiro mor do hospital de S. José, onde a sua administração ainda é 
recordada. Foi avô do 8.° Conde das Galveias da varonia de Almeida. O 
actual Conde é neto deste por uma sua filha. 

As armas dos antigos Condes das Galveias eram: Partido: o í de prata, 
seis arruelas de azul (Castro); o II de vermelho, seis besantes de prata 
entre uma dobre cruz e bordadura de oiro (Melo). Coroa de conde. Timbre: 
lião nascente de oiro. 

As armas dos modernos Condes das Galveias eram: Esquartelado; o I 
de vermelho, seis besantes de oiro entre uma dobre cruz e bordadura do 
mesmo (Almeida); o II de prata, aspa de vermelho carregada de cinco es- 
cudetes das armas do reino, e entre eles quatro cruzes de prata, floridas e 



72 Brasões 

vazias (Portugal); o III de prata, cinco lobos passantes de negro, armados 
e linguados de vermelho (Lobo); o IV partido de Castro e de Melo, como 
acima ficam descritas. Coroa de conde. Timbre; águia de vermelho, car- 
regada de nove besantes de oiro, três no peito e três em cada aza. 
As armas do actual Conde não sei como são, nem isso interessa. 



IV 
ATAÍDES 



V©I.. I 



10 



I 




iífiAsÓEs DA Sala de Síntpa, Vol. i. 



De azul, quatro bandas de prata. Timbre: onça passante de azul carre- 
gada no corpo das peças do escudo. 

Assim se encontra este brasão no Livro do Armeiro ?nor, fl. 49 v., no 
Livro da Torre do Tombo, fl. 9 v., no Thesoiiro da Nobreza de Fr. Manuel 
de Santo António, a-5o, etc. 

No timbre é que, concordando todos, menos o primeiro que os não traz, 
em ser ele uma onça carregada das peças do escudo, se apresentam contudo 
variedades, quer no esmalte, quer na posição. 

I 

CAPITULAÇÃO DE CHAVES 
i386 

Vencida a batalha de Aljubarrota a 14 de Agosto de i385, permaneceu 
D. João I no campo os três dias do estilo. Ao terceiro, não se podendo já 
suportar o fétido dos cadáveres insepultos, levantou el Rei o campo e, man- 
dando enterrar dos inimigos unicamente o conde D. João Afonso Telo, que 
fora o azador da batalha, marchou direito a Alcobaça. Abraçado seu bom 
amigo o abade D. João de Orneias, continuou D. João I o caminho para 
Santarém, onde permaneceu até meado Setembro. 

Quando porem o exército passara à ponte da Chaqueda, já perto do con- 
vento, encontraram o cadáver, muito desfigurado pelos ferimentos e muito 
decomposto, de Rui Dias de Rojas, cavaleiro castelhano (i). Fora ele ca- 



(i) Ayala não nomeia este fidalgo entre os Castelhanos falecidos na batalha e nos no- 
biliários espanhóis, que consultei, o único Rui Dias de Rojas que encontrei, podendo ter 
falecido então, foi o senhor de Ia Bellota, primeiro marido de D. Leonor de Toledo. Como 



y6 Brasões 

sado com D. Leonor de Toledo, cuvilheira de D. João I de Castela. Tinha ' 
esta senhora por obrigação defumar as roupas riais; e se, em quanto isto 
íazia, alguns fidalgos entravam na câmara, costumava logo alçar-lhes os saios 
ou fraldões e, defumando-os, dizer-lhes: «Todos ireis defumados de bons 
odores delRey meu senhor: pêra perderdes os mãos cheiros, que saem destes 
chamorros, das casas hú vivem, e aldeãs hú moram» (i). 

Tinha sucedido ter D. Leonor ficado prisioneira do fidalgo eborense Diogo 
Lopes Lobo, que a levava consigo: e ao passar da ponte, apesar do estado 
do cadáver, reconheceu ela o marido e desatou a chorar. O caso não era 
para menos, pois a sua situação de triste se tornara tristíssima. Algum Por- 
tuguês de coração mais duro, ou que a alcunha de Chamorro mais na me- 
mória trazia, vendo-a naquele estado em vez de se condoer, escarneceu dela 
preguntando-lhe: «Digo, boa dona, que sam das vossas defumaduras, que 
púnheis sob as faldas aos cavaleiros? mister avia agora vosso marido húas 
poucas delas, que tam mal cheira alli hu jaz». 

; Pobre viúva! Mas, ainda assim, leitor amigo, não te entristeças mais 
do que o caso requer, porque ela, ao cabo de pouco tempo, se consolou nos 
braços do gentil cavaleiro messire Robert de Braquemont, seu segundo ma- 
rido. 

D. João I em Santarém, apesar das alegrias dos festejos e dos cuidados 
nas disposições e providências de todo o género, que havia a tomar, não se 
esquecia da promessa feita antes da batalha. Consistia ela, nem mais nem 
menos, do que em ir a pé em romaria desde o campo da batalha até à igreja 
de Santa Maria de Guimarães, d'ali a quarenta léguas. 

Chegada a ocasião propícia partiu de Santarém, já acompanhado pelos 
cem besteiros, que determinara compusessem de futuro a sua guarda, e, ou- 
vida missa no campo da batalha, encetou a romaria a pé. Terminadas as 
orações e distribuídas as esmolas, que resolvera dar, passou-se para o Porto. 

Logo em seguida à batalha Rial muitas das praças e vilas, que estavam 
pelos Castelhanos, tomaram voz por D. João \\ algumas porém permanece- 
ram ainda levantadas, e a estas resolveu o novo rei reduzir, começando por 
Chaves, praça muito importante da província de Trás os Montes. Era seu 
alcaide mor Martim Gonçalves de Ataíde, criatura de D. Leonor Teles, que 
lhe fizera o casamento com Mecia Vasques Coutinho, irmã de Gonçalo Vas- 



esta senhora porem fosse filha. de D. Leonor de Ayahi, irmã do cronista D. Pedro Lopes de 
Ayala, parece incrível que este não tivesse conhecimento da morte do sobrinho. É verdade, 
que poderia omitir-lhe o nome para não alongar a triste lista. 

(i) Chamorro era um epíteto injurioso, com que os Castelhanos designavam os Portu- 
gueses. 



Ataídes 77 

quês Coutinho, o do combate de Trancoso, à qual a Rainha dera como dote 
a alcaidaria mor. 

Fora Martim Gonçalves um dos fidalgos, que em Janeiro de i384 beija- 
ram a mão dei Rei de Castela, o qual seguidamente o despediu para que, 
persistindo em Chaves, mantivesse sua voz em toda a grande parte da pro- 
víncia de Trás os Montes, pela dita praça dominada. O Alcaide mor con- 
servou-se na sua alcaidaria, apercebendo-se para todas as eventualidades, e 
só desamparou o castelo quando, em Maio de 1384, acompanhou o Arcebispo 
de Santiago na sua incursão em direitura ao Porto. Por este motivo foram- 
-Ihe confiscados todos os bens por carta de ib de Junho de i385, e deles foi 
feita doação a Fernando Afonso de Mascarenhas (i). 

O castelo estava bem apercebido de armas, mantimentos e provisões de 
guerra; e às oitenta lanças de bons escudeiros, e aos besteiros e peões, que 
em número suficiente já lá havia, vieram juntar-se mais trinta lanças, e bom 
número de besteiros e peões, que de Galiza levara Vasco Gomes de Seixas. 
Petrechos também não faltavam, pois tinham um pequeno trom e uma cu- 
berta, ou engenho de atirar pedras, com o qual sabiam tam bem manejar, 
que, despedindo numa noite trinta pedradas contra a segunda bastida levan- 
tada pelos sitiantes, só três não acertaram nela. De água é que estavam 
mal, por a nativa ser de caldas, e a do Tâmega passar fora das portas. 

Cônscio da fortaleza das muralhas, e da boa posição e conveniente aper- 
cebimento do castelo, e confiado no próprio esforço e no da guarnição, altivo 
repeliu Martim Gonçalves de Ataíde a intiniaçãp, que D. João I lhe mandou, 
para entregar a vila e tomar a sua voz. Em vista da repulsa, só restava a 
el Rei o meio das armas para reduzir a praça. Com este intento, e depois 
de uma escaramuça para reconhecer as posições em torno dela, pôs-lhe 
D. João I o assédio em princípios de Janeiro de i386. 

Acampadas e dispostas convenientemente as tropas para fechar o cerco. 
e armados os engenhos, mandou atirar aos muros da vila e ao. castelo, es- 
colhendo de preferência para alvo, já com segundo sentido, as fortificações 
mais próximas do Tâmega. Vendo as el Rei bastante danificadas, mas vendo 
também que o sítio se protraía, e sabendo que pela falta de água poderia 
reduzir a vila mais depressa e sem grande derramamento de sangue, que de 
ambos os lados era português, tratou de a isolar do rio. • 

Para isso mandou D. João í levantar um castelo de madeira, a que cha- 
mavam bastida, e esta era de três andares e foi construída junto à velha 
ponte romana em frente das duas torres, que ladeavam a porta da vila fron- 



(i) Fr. Manuel dos Santos, Mouarchia lusitana^ VIII, pág, 729. — Já a 1 de Agosto do 
ano precedente fôra-lhe confiscada Gouveia e outra ten a. Ibid.^ pág. 594. 



78 Brasões 

teira à ponte. A bastida era revestida de caniço e carqueja, para incólume 
resistir aos tiros de pedra, e, bem guarnecida de besteiros e homens de ar- 
mas, proibia completamente aos sitiados o provimento da água. 

Era este o mais terrível dos males que os afligia, dos quais só era isenta 
Mecia Vasques, mulher do Alcaide mor, pois que a ela, em atenção a ser 
irmã de Gonçalo Vasques Coutinho, um dos seus capitães, consentia el Rei 
se lhe mandasse todos os dias um cântaro de boa água. Os cavaleiros por- 
tugueses sempre foram galantes com as damas. 

Foi pois para a bastida, que convergiram os esforços dos sitiados e si- 
tiantes, uns atacando-a, outros defendendo-a; e para que estes, com mais 
diUgência e ardor a guardassem, eram frequentes vezes revezados. Um 
dia, estando a guarda dela entregue ao senhor de Vila Flor, Vasco Pires de 
Sampaio, chegado o serão recolheu-se ele ao arraial para ciar, descuidado 
de qualquer sortida que os de dentro fizessem. Em tam má hora porém se 
ausentou que os sitiados, notando o desamparo da bastida, saíram numerosos 
e, munidos de matérias inflamáveis, lançaram-lhe fogo, que, atiçando-se no 
revestimento de caniço e carqueja, em menos de três credos a consumiu de 
todo, e puderam eles á vontade matar a sua sede. 

Abandonado o projecto de reduzir a vila pela falta de água, construiu-se 
nova bastida, mais .forte, maior e mais próxima do arraial. Desta não ces- 
savam dia e noite os tiros de pedras e setas, os quais, por ela ficar padrasto 
à muralha fronteira, causavam grande dano nos defensores e nos muros e 
casas. Os sitiados defendiam-se como podiam; mas os seus engenhos, por 
de mais curto alcance, pouco prejuízo causavam aos sitiantes. 

Entretanto prolongava-se o assédio, e a quadra era de tanta friagem, 
caindo a neve tanto a miúde e tam basta, que no regresso de uma das muitas 
correrias feitas em terras de Galiza morreram de frio na serra uns poucos 
de soldados e moços. Além da intempérie havia a necessidade de reduzir 
várias outras povoações da província, as quais, raantendo-se por el Rei de 
Castela, incomodavam as nossas tropas; e havia igualmente o perigo deste 
soberano juntar forças e vir descercar a vila. Era pois urgente apressar o 
acometimento da praça, reforçando o campo, para o que mandou D. João I 
convocar, além do Condestável e outros fidalgos, a vários concelhos. 

Um destes foi o de Lisboa, que logo, com a maior prontidão e boa von- 
tade, pôs em pé de guerra e em marcha duzentas e dez lanças, duzentos e 
cinquenta besteiros, duzentos homens de pé, dois trombetas, três alveitares, 
dois ferradores, dois seleiros, dois correeiros, e um jogral. A esta gente 
deu por capitão o anadel mor Estêvão Vasques Felipe, levando a bandeira 
da cidade o alferes dela, Gonçalo Vasques Carregueiro. Determinou mais 
este nobre concelho, que os homens de cavalo levassem um L de prata sobre 



Ataides 



79 



a libré, e que todos fossem já pagos dos três meses de Março, Abril e 
Maio. 

Causa imenso contentamento ver a dedicação dos povos pelo seu rei, pelo 
seu escolhido, pelo primeiro rei nacional em suma. E não era só Lisboa. 
Era o Porto, era Coimbra, era Santarém, era a grande maioria das povoa- 
ções, que não estavam sujeitas a alcaide mor ou a senhor, pois que D. João I 
teve de lutar principalmente contra a nobreza. ^ Quantos nobres foram obri- 
gados pela arraia miúda a entregar os seus castelos.? Que o digam Beja, 
Portalegre, Estremoz, Évora, Arronches, e outras terras. 

No mesmo dia chegaram a Castelões, onde el Rei os fora receber, o Con- 
destável com algumas lanças, adiantando-se ao corpo de suas tropas, e o 
contingente do concelho de Lisboa. Devia ser grande o prazer de D. João I 
ao ver o seu dedicadíssimo Nun'Alvares, e os soldados tam bem corregidos 
da cidade, que fora o baluarte da sua causa, e sua companheira de privações 
e receios, durante aqueles tristes e angustiosos dias do cerco; porque nós 
tomamos sempre maior afecto àqueles, que participam as nossas aflições e 
trabalhos, do qiie.aos companheiros do prazer e descanso. 

Vendo Martim Gonçalves de Ataíde os reforços recebidos e os preparos 
para o assalto, receoso de ser entrada a vila por força de armas, preitejou, 
isto é, capitulou a entrega de Chaves. As condições eram esperar quarenta 
dias por socorro dei Rei de Castela, a quem avisariam e, não vindo auxílio, 
sairiam com armas e haveres. A tomada da praça era inevitável, ^'mas para 
que arriscar mais sangue.-^ D. João I aceitou a capitulação, recebendo em 
reféns um dos filhos do Alcaide mor. 

Correndo os quarenta dias penetravam a miúde na vila os parentes e 
amigos de Martim Gonçalves e de Mecia Vasques, a vê-los e falar-lhes. 
Ora, uma vez que os foi visitar Afonso Madeira, escudeiro seu amigo, pre- 
guntou-lhe o Alcaide mor: 

« — Que faz lá esse vosso Mestre? 

« — Não sei o que faz — respondeu o Escudeiro — mas parece-me que fez 
pivolas para vos obrigar a sair d'aqui para fora à força. 

« — O demo que lhe agradeça essa física». 

E mudaram de conversação. 

Sendo a resposta dei Rei de Castela, que entregasse a vila, tratou o Al- 
caide mor, nestes últimos dias, de pôr sua mulher e filhos em Monterey, e, 
terminado o praso, fez entrega de Chaves a D. João I em fins de Abril de 
i386, havendo já perto de quatro meses que se lhe pusera o cerco (i). 



(i) Fernão Lopes, Chronica d'elrei D. Fernando, cap. 65; Chronica de D. João I^ p. 2.'% 
caps. 62 a 66 e 69. 



8 o Brasões 

Saiu da vila Martim Gonçalves de Ataíde, entre os acostumados apupos 
e motejos, caminho do desterro, d'onde nunca mais voltou, sobrevivendo 
poucos anos à capitulação de Chaves. Em 23 de Setembro de rSgi era já 
falecido, pois que por carta dessa data mandou D. João 1 restituir à sua 
viúva e filhos todos os bens, por ambos os cônjuges possuídos ao tempo da 
morte dei rei D. Fernando (i). 

II 

LINHAGEM 

Era Martim Gonçalves de Ataíde fidalgo de boa casa e de ilustre ascen- 
dência. Sobre a origem remota de sua família há opiniões encontradas e 
nenhuma, a dizer a verdade, fundada em base segura. Consta contudo, que 
seu bisavô Gonçalo Viegas possuía em 1290, entre outros bens, a quinta do 
Pinheiro na freguesia de S. Pedro de Ataíde, julgado de Santa Cruz de Ri- 
batâmega, actual concelho de Amarante. Provouse que esta quinta havia 
já sido de seus antepassados e era honrada, e que, além dela, possuíam em 
honra toda a freguesia (2). Por aqui se mostra ser a família já antiga e haver 
sido esta freguesia de S. Pedro de Ataíde, honra possuída pelos seus pro- 
genitores, que dera o apelido à linhagem. 

De sua mulher Mecia Vasques Coutinho, que depois de viúva foi aia dos 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 2.", fl. 60 v. Diz a carta: Mecia Vasques Continha, 
mulher que foi de Martim Gonçalves de Ataíde, ela e seus filhos hajam todos os bens e 
quintas e herdades, que o dito Martim Gonçalves e a dita Mecia Vasques haviam por seus, 
e como seus, ao tempo da morte de D. Fernando, e os metam logo de posse, não embar- 
gando havermos feito mercê e doação dos ditos bens a Gonçalo Vasques Coutinho, irmão 
da dita Mecia Vasques, ou a outras pessoas afora aquele, etc. Viseu, 23 de Setemb'o, era 
de 1429 (iBgi). Liv. 2.0 de D. João /, fl. 60 v. — Ainda encontro registadas mais duas mer- 
cês de D. João I a Mecia Vasques: Pelas maldades e traições que João Afonso Pimentel co- 
meteu confiscámos seus bens móveis e de raiz, e vendo os bons serviços que recebemos de 
Mecia Vasques Goutinha, assim em criar nossos filhos, como outros, e os muitos e estre- 
mados serviços que recebemos dos da sua linhagem, e esperamos de receber, com acordo 
da rainha D. Felipa e do infante D. Afonso meu filho primogénito herdeiro, doação para 
sempre da quinta de Randufe no termo de Chaves, que o dito João Afonso havia etc. Porto, 
16 de Outubro, era de 1436 (iSgS). Ibid.., fl. 180. — Doação para sempre a Mecia Vasques 
Coutinha, e a todos seus herdeiros, de todos os bens móveis e de raiz de Vasco Machado 
e de sua mulher, porquanto se foram para Castela. Porto, 17 de Outubro, era de 1436 (iSgS). 
Ibid., fl. 148. 

(2) Liv. i." de Honras e Devassos de Além Doiro., fl. 28 v. — Inquirições ordenadas por 
D. Denís na era de i328, ano do nascimento de 1290 



Ataides 8 1 

infantes filhos de D. João I, teve Martim Gonçalves de Ataíde os seguintes 
filhos: 

i.° — Álvaro Gonçalves de Ataíde, foi o i.° conde da Atouguia por carta 
de 17 de Dezembro de 1448 (i), e morreu antes de 14 de Fevereiro de 1462, 



(i) Místicos, liv. 3.°, fl. jio. — Mais diplomas relativos ao Conde da Atouguia: Álvaro 
Gonçalves de Ataíde, do conselho, governador da casa do infante D. Pedro e alcaide do 
castelo de Monforte de Rio Livre, carta para 5o homisiados poderem viver nessa vila, para 
a povoarem, etc. Tentúgal, lo de Outubro, era de 1458 (1420). Liv. 4.0 de D. João J, fl. 12 v. 

— Álvaro Gonçalves de Ataíde, nosso aio e do infante [D. Fernando], meu irmão, do nosso 
conselho, mostrou privilégio que lhe foi dado por D. João I. — Álvaro Gonçalves de Ataíde, 
do nosso conselho e regedor da casa do infante D. Pedro meu filho, sejam privilegiados e 
escusados todos seus caseiros, lavradores, amos, mordomos, etc. Lisboa, 8 de Outubro de 
1425. — Confirma, em Santarém, a 24 de Outubro de 1440. Liv. 2.0 de D. Afonso V, fl. 34. 

— D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, conde da Atouguia, mostrou uma carta de D. Duarte e 
quatro do infante D. Pedro. — Eu o infante D. Pedro, duque de Coimbra, e senhor de Mon- 
temor, pelos serviços de Álvaro Gonçalves, meu cavaleiro e do conselho dei Rei meu padre 
e meu governador de minha casa, doação dos casais da Chança e do Carvalhal no termo 
de Penela, etc. Lisboa, i5 de Junho, ano de 1425. — Eu o infante D.Pedro, duque de Coim- 
bra, senhor de Montemor, pelo serviço de Álvaro Gonçalves de Ataíde, governador de mi- 
nha casa, doação do lugar de Cernache para sempre. Lisboa, i5 de Junho, era (sic) de 1425. 
— D. Duarte, o infante D. Pedro nos disse que el Rei D. João lhe fizera mercê do lugar de 
Cernache com a jurisdição e padroado, o qual foi de Gonçalo Nunes Barreto, e de certos 
direitos e casais que o mesmo tinha no termo de Alvaiázere e na Albergaria Velha, e do 
padroado da igreja de Pelema, no termo de Alvaiázere, os quais bens houvera de Gonçalo 
Nunes por escambo doutros bens no Algarve; e outrosi lhe fez mercê dos casais e herdades 
da Chança e do Carvalhal, termo de Penela, confiscados a Gonçalo Lourenço, escrivão que 
foi da puridade de D. João L E consirando os muitos serviços de Álvaro Gonçalves de 
Ataíde, do nosso conselho e governador de sua casa, lhe fez doação de Cernache e de todos 
os mais lugares e padroados; mas como a doação, que D. João I deles lhe fizera, fora sob 
condição de os não poder doar, etc. Confirma as doações feitas, em Santarém a 3 de De- 
zembro de 1433. — Infante D. Pedro, duque de Coimbra, senhor de Montemor, tendo feito 
doação a Álvaro Gonçalves dos casais de Chança e do Carvalhal, e sendo êle casado longos 
anos havia com D. Guiomar de Castro, e não o tendo declarado na carta, vem nesta expres- 
samente declarar que a ela também foi feita a doação, «consirando e trazendo à memória 
como a dita D. Guiomar casou com o dito Álvaro Gonçalves a meu requerimento por en- 
commendamento dei Rei meu padre e da senhora Rainha minha madre», etc. Lisboa, 18 de 
Fevereiro de 1439. — D. Pedro, duque de Coimbra, os serviços de Álvaro Gonçalves de 
Ataíde, do conselho dei Rei e governador da minha casa, sendo casado longos anos havia 
com D. Guiomar de Castro, etc. o mesmo para Cernache. Lisboa, 17 de Fevereiro de 1439. — 
Confirma D. Afonso V ao Conde, em Évora, a 26 de Janeiro de 1450. Liv. 34P de D. Afonso V, 
fl. 104 V. — D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, conde da Atouguia, apresentou carta. — Álvaro 
Gonçalves de Ataíde, do conselho, regedor e governador do infante D. Pedro meu irmão, 
mostrou carta dada à condessa D. Guiomar que Deus perdoe. — A condessa [de OurêmJ 
D. Guiomar nos disse que tem uma quinta no termo de Benavente, que chamam a Foz, que 
parte com rio Tejo etc. Carta de couto para a dita quinta. Lisboa, 2 de Junho, era de 1431 

VOL. I U 



82 Brasões 

data da carta do título de conde da Atouguia a seu filho D. Martinho de 



(tSgS). — Apresentada a carta por Álvaro Gonçalves, ele nos disse que a dita quinta era ora 
sua, etc. Confirma, em Avis, 28 de Julho de 1438. — Confirma, em Évora, a i de Dezembro 
de 1449. Liv. 34.0 de D. Afonso F, fl. io3. — Álvaro Gonçalves de Ataíde, do nosso conselho 
e regedor da casa do infante D. Pedro, e D. Guiomar de Castro sua mulher apresentaram 
instrumento. — Em 1438, ao i.° de Dezembro, em Torres Novas, nas poisadas onde ora poisa 
Álvaro Gonçalves de Ataíde, do conselho dei Rei e governador da casa do infante D. Pedro, 
estando ele e D. Guiomar de Castro sua mulher, disseram que haviam casado por palavras 
de presente na era de César de 1450 (1412), em Lisboa, por carta de arras. Ela entregara 
ao marido em dote todos os bens de raiz e móveis que herdara por morte da Condessa sua 
avó, e de seu pai, etc. fizeram novo contrato revogando o mais antigo. — Confirma a Rainha 
e Infante, em Lisboa, a 24 de Janeiro de 1439. Liv. j8.o de D.Afonso V, fl. 44. — Novamente 
confirmada, em Évora, a 5 de Março de 1450. Ibid., liv. 34.°, fl. 74. — D. Álvaro Gonçalves de 
Ataíde, conde da Atouguia, do nosso conselho, dá-o por alcaide mor do castelo de Coimbra 
pela guisa que o havia em tempo do infante D. Pedro, etc. Óbidos, 8 de Agosto de 1449. Liv. 8.° 
da Estremadura, fl. 225 v. — D. Afonso em sembra com a rainha D. Isabel, minha mulher, e 
com o infante D.João, meu filho primogénito herdeiro, fazemos saber que a condessa dona 
Guiomar nos disse como tem tenção de mandar fazer um mosteiro da ordem de S. Fran- 
cisco acerca da cidade de Lisboa e que, porquanto não achava nenhum lugar tam disposto 
pêra isso como o vale de Enxuvregas, por ser perto do mar e isso mesmo da dita cidade, 
de que o dito mosteiro poderia haver grande ajuda de esmola pêra governança das pessoas 
dele, por em a dita cidade haver muitas notáveis e boas pessoas, e que ainda por o dito 
mosteiro ser mais àcêrca dela, que outro algum, de semelhante maneira os moradores da 
dita cidade se desporiam de ir a ele, recebendo muitas doutrinas e bons exemplos àcêrca 
de sua salvação per as boas e notáveis pessoas àcêrca do serviço de Deus, que com sua 
ajuda entende encaminhar, pedindo-nos por mercê que lhe quiséssemos outorgar as nossas 
casas e pardieiros que foram paços, que são em o dito logo de Enxovregas, com o laranjar 
e certo pedaço de terra nossa, que é horta, tudo junto com os ditos paços, pêra em êles 
mandar fazer o dito mosteiro, e antes que lhe sobre elo déssemos final determinação, man- 
damos a João Sodré, que ora á nosso almoxarife do Almazem em a dita cidade, que com 
Martim de Basto, nosso escrivão dele, chegasse ao dito logo de Enxovregas e soubesse quem 
trazia essa terra e por que preço, e se era emprazada, e em vida de quantas pessoas, e quanto 
poderia a nós tudo render. Os quais nos certificaram, que êles por pessoa o foram ver, e 
acharam que as ditas casas com três hortas, em que são as ditas laranjeiras, foram empra- 
zadas a um Afonso Eanes, hortelão, já finado, em vida de três pessoas, por 270 livras da 
moeda antiga em cada um ano, que são desta moeda ora corrente 3714 reais, a razão de 
5oo por uma, o qual nomeou ao dito prazo por segunda pessoa a Caterina Gonçalves sua 
mulher, e ela ha de nomear a terceira pessoa, e com certas pessoas demarcaram o que era 
necessáriç para o dito mosteiro per esta guisa : as ditas casas e pardieiros, em que foram 
os ditos paços, com as laranjeiras, e tomaram per a esquina da torre deles que está além 
da fonte, assim como vai pêra o pé do loureiro, ficando êle de fora, e indo per o longo do 
caminho, que vai pêra o poço, até ao pé de uma nogueira, que é junta com o dito poço, a 
qual fica de fora com o dito poço, e assim indo ao longo do rêgo de água até cerrar no ba- 
celo, e dele indo ao canavial do caminho até tornar a cerrar com as ditas casas e fonte e 
canto da dita torre, onde começaram, as quais confrontações partem com outras hortas 
nossas . . . que tudo valeria de renda por ano 1600 reaes, e que tanto se devia descontar à dita 



Ataides 83 

Ataíde (i). Foi o i." Conde sepultado na igreja matriz da capital do seu 
condado com um pomposo epitáfio, errado na data numa das versões minhas 
conhecidas, a qual é a seguinte: 

Este Mo[i]mento que enserrado tem o Corpo do Magnifico D. Álvaro 
Gonçalves de Attaide, Conde de Atouguia, e Senhor de Monforte nÔ podia 
emsarrar, nem escojider as suas virtudes, as quais como quer que com sua 
alma segundo piadôiamente voassem ao Ceo, a sua cr ar a memoria ficou na 
terra por ser aos mortais muito claro exemplo de jnrtudes as quiséssemos 
demostrar não somente esta pedra, mas ainda híí grande volume de escritu- 
ras não poderião comprehender. Este dos seus primeiros annos, despresadas 
as brandas paixões que aos mancebos ás ve\es desvairão dos virtuosos cami- 
nhos, ajuntou com ardide-{a que do muj excelente Cavalleiro Mai^tim Gon- 
çalves de Ataide seu Pay por direito de herança lhe acontecera hua manci- 
dão juesturada com muita prodencia, e convercação graciosa; e assi?n que 
a verdade da vida sem heprocrecia, e sem outras sirimonias dejingida Ri- 
ligião, em que elle tanto Lu^io, que não somente as suas obras, mas ainda 
seus maduros e sãos consselhos, nos Rejs da piado^a lembrança D. João e 
D. D.'^ cujo Conselheiro foi muito prestais asim nos feitos da guerra, que 
nos seus pritneiros attnos o dito Rey D. João ouve com ElRef de Castella, 
nos quais elle asa:{ perigos, e trabalhos passou e soportou, como depois a 
guerra acabada nas outras cousas, que pertencido ao Regimento do Rejno. 
Visitou a Ca^a Santa de Jerusalém, e foi na guerra de Bosna com o Em- 
perador Segismundo, e da hifoi com ElRey D. João na tomada de Ceita 
com asa\ gente darmas acompanhado, E depois foi com o Infante D. hen- 
rique no decerco da dita cidade, e no Conselho Geral de Constância esteve 
aquelles turbados tempos da divi\ão da Igreja por parte do dito Seíior Rey, 
até que averiguada a scisma, foi hã Santo Papa Martinho em Avinhão creado, 
e depois foi eleito nas Cortes Aio de ElRey Dom Affonso o quinto bemaren- 
turadamente Reynante, o qual asim creou e ensinou, que alem da sua ma- 
ravilhosa natureza muito se mostra hoje em elle a sua doutrina. Partiuse 
desta vida em idade 7nadura, Anno M. iiii'^ LV. (aliás Af. iHj- LII, como se 
encontra na outra versão) em grande prosperidade Leixoii mui honrados 
filhos sussecores em memoria gloriosa nos vindoros se gr os (2). 



Caterina Gonçalves, etc. — Nós visto o seu requerimento, fazemos lhe mercê por esmola de 
doação pêra sempre pêra ela Condessa e todos, que dela descenderem por linha direita 
masculina,das ditas casas, pardieiros, laranjar, horta, fonte, etc. Santarém, 17 de Outubro 
de 1435. Liv. i5.o de D. Afonso V, fl. 118 v. 

(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 2», fl. 7. 

(2) Sousa, Memorias Sepulchraes, íl. 141 v. — Péssima transcrição do epitáfio, na qual 
emendei algumas palavras, seguindo outra pouco melhor, mas com a data certa. 



84 Brasões 

Foi D. Álvaro Gonçalves de Ataíde progenitor dos demais Condes da 
Atouguia, que no fim do século xvi já tinham a varonia de Câmara, e dos 
quais o último morreu no cadafalso de Beiêm, a i3 de Janeiro de 1759. 
Foi igualmente progenitor dos Condes da Castanheira (i de Maio de i532), 
dos quais saiu o ramo dos Condes de Castro Daire (20 de Junho de i625) 
e nestes veio posteriormente a fundir-se o ramo originário. A sua varonia 
extinguiu-se próximo dos fins do século xvii, passando os bens vinculados 
para a casa dos Marqueses de Cascais. Do i.° Conde da Atouguia proce- 
deram mais ramos de Ataides relativamente obscuros, e nos quais creio es- 
tar, há muito, perdida a varonia. 

2.° — Vasco Fernandes de Ataíde, fidalgo da casa rial com quinhentas e 
quatro libras de moradia por mês, foi vedor da casa do infante D. Henrique 
e a seu lado morreu na tomada de Ceuta, em i4i5, sem deixar geração. 
Foi o lánico cavaleiro português morto naquela empresa, derrubado por uma 
grande pedra lançada das muralhas. Ao facto alude uma inscrição num pe- 
nhasco sob uma torre, parecendo ser aquele letreiro o único vestígio subsis- 
tente da permanência dos Portugueses em Ceuta. E constituída a inscrição 
pelo seguinte epigrama: 

Vascus Ataydes primus dum hanc occiípat ar cem; 
Saxum hoc aã limen vitaque, morsque fuit (i). 

Como quem dissesse que esta pedra fora para Vasco de Ataíde, o primeiro 
a entrar nesta fortaleza, ao mesmo tempo a sua vida e a sua morte. 

3.° — D. Isabel de Ataíde foi primeira mulher, com geração, de D. Fer- 
nando de Castro, senhor do paul do Boquilobo. 

4.° — D. Helena de Ataíde casou com Pedro Vaz da Cunha, 2.° senhor 
de Angeja e Pinheiro, de quem teve geração. 

5." — D. Felipa de Ataíde, dama da rainha D. Felipa de Lancastre com 
mil e duzentas libras de moradia, foi a primeira mulher de Gonçalo Anes 
Chichorro, 3.° senhor de Mortágua. 

6.° — Caterina de Ataíde, dama da mesma Rainha, teve igual moradia 
na sua casa. 

Em algumas memórias encontra-se nomeado por irmão do Alcaide mor 
de Chaves a Gonçalo Viegas de Ataíde, progenitor dos morgados de Ca- 
parrota, termo de Coimbra, e dos senhores de Penacova; mas não creio haja 
fundamento plausível para tal asserção. 



(i) D. Tomás Caetano de Bem, Memorias dos Clérigos Regulares^ II, 191, reportan- 
do-se a uma conferência académica do P.e António Caetano de Sousa. 



V 
EÇAS 




BnAsÓEs DA Sai-a de Sintra, Vol. I. 



X 



i 



/ 



De prata, cinco escudeles à antiga de azul, postos em cruz e apontados 
ao do centro, cada um deles carregado de doze besantes do campo postos 
em três palas; os escudetes sobrepostos a um cordão de S. F^rancisco de sua 
cor, com seus nós, posto em cruz, em aspa e em orla. Timbre: águia de 
azul, armada de vermelho e carregada sobre o peito de uma cruz potêntea 
cosida de negro. "" 

Com pequena diferença encontram-se estas armas no Livro do Armeiro 
mor, fl. 5o, no Livro da Torre do Tombo, fl. lo, no Thesoiiro da Nobre:{a 
de Francisco Coelho, fl. 27, no Thesouro da Nobreza de Fr. Manuel de 
Santo António, e-i, etc. 

I 

ASSASSÍNIO DE D. MARIA TELES 
i379 

Na madrugada de uma segunda feira, em que se contavam 18 dias do mês 
de Janeiro da era de 1405, ano do nascim,ento de Cristo de iSôy, finou-se em 
Estremoz D. Pedro I, o Justiceiro, ao fim de dez anos de reinado; e disse- 
ram os povos, que «tais dez anos nunca houve em Portugal como estes». 

A tristeza e o luto pouco tempo permaneceram na corte portuguesa. O 
moço Rei muito afeiçoado a todos os prazeres cumpridoiros a um cavaleiro 
galante e voluntarioso, que, além de soberano, era rico, arredou as mágua« 
e lançou-se desenfreadamente aos prazeres. O cavalgar, o caçar, o montear, 
o jogar, e sobretudo o galantear, foram as ocupações predilectas de D. Fer- 
nando. 

Na corte portuguesa não havia outra dama da família rial, a não ser a 
infanta D. Beatriz, meia irmã dei Rei, filha de D. Inês de Castro. A casa 



88 Brasões 

da Infanta era o prazo dado das donas e donzelas, que então frequentavam 
a corte. Os filhos de D. Pedro eram alegres e folgavam, de que em suas 
casas reinasse o prazer resultante da convivência de muitos e ledos compa- 
nheiros. Todos tinham casa bem posta e de muitos serviçais, aberta e franca 
a qualquer cavaleiro ou ilustre escudeiro, que a procurasse. Exceptuar-se- 
-hia unicamente o infante D. Denis. 

D. Beatriz, além de por índole e gosto apreciar e estimar a sociedade dos 
fidalgos da corte, era certamente incitada a isso pelo Rei seu irmão, que nos 
seus saraus via uma mina de galanteios e amores. Sucedeu porém, o que 
de certo ninguém suporia. ;A primeira a cativar o coração do jovem Rei 
foi a própria irmã! As extravagâncias matrimoniais de D. Fernando causam 
assombro. Primeiro pretende casar com a irmã, e a sério pede dispensa 
para tal união; je por fim casa com uma mulher, cujo marido era vivo! E 
o caso foi, que, em quanto se requeria à Cúria a dispensa, o procedimento 
dos dois, com falas e jogos amiudados, adubados de beijos e abraços, era 
tal, que se começou a rosnar da honra da infanta. ^ Seria já a nacional má 
língua, de que ainda hoje tanto padecemos? ^ou haveria alguma verdade 
nestas murmurações? Apesar do desabusado do tempo, custa a crer em 
tanta depravação, e parece (desmancharem o dito os casamentos ajustados 
por D. Fernando com infantas de Aragão e Castela, durante o tempo, que a 
estes incestuosos amores assina o cronista. 

Na corte da infanta D. Beatriz brilhavam sobre todas as damas pela sua 
mocidade, formosura, elegância, nobreza e riqueza, D. Maria Teles e sua 
irmã D. Leonor Teles, sobrinhas do «fiel conselheiro» D. João Afonso Telo, 
conde de Ourém, filhas do rico homem D. Martim Afonso Telo, e irmãs de 
D. João Afonso Telo posteriormente conde de Barcelos, e de D. Gonçalo 
Teles futuro conde de Neiva. A primeira, D. Maria, era viúva do rico ho- 
mem Álvaro Dias de Sousa, chefe desta ilustre família, o qual falecera antes 
de Abril de i365 (i), e mãe de D. Lopo Dias de Sousa, mestre da Ordem 
de Cristo, de cujas rendas ela dispunha na menoridade do filho. A outra, 
D. Leonor, era casada, havia já uns três anos, com João Lourenço da Cunha, 
2.° senhor de Pombeiro, que cometeu a grave imprudência de deixar tão for- 
mosa mulher visitar a corte, permanecendo éle no seu solar da Beira, para 
onde, por mais que a chame, ela não volta. O resultado é sabido. D. Fer- 
nando loucamente apaixonado, e levado pelas arteirices de D. Leonor, calca 
aos pés todas as resistências, e casa, em Janeiro de 1372, com a mulher de 
João Lourenço da Cunha. 



(i) Archivo histórico poríuguei(, lY^ i63. 



Eças 89 

Apresentada a nova Rainha à corte, todos lhe beijam a mão, ainda que 
alguns contrafeitos, negando-se a isso unicamente o infante D. Denis, res- 
pondendo briosamente às injunções: «que lha não beijaria, mas que lha bei- 
jasse ela a êle» (i). O outro irmão dei Rei, o infante D. João, não escru- 
pulizou, e foi o primeiro a saudá-la, permanecendo por esse facto na corte 
e recebendo acrescentamento. 

Este infante D. João, o mais velho dos filhos então existentes de D. Pe- 
dro I e de D. Inês de Castro, era «muito igual homem em corpo e em geesto, 
bem composto em parecer e feiçoÕes, e comprido de muitas boas manhas, 
muito mesurado e paaçaão, agasalhador de muitos fidallgos do reino e es- 
tramgeiros, e muito graado e prestador a qual quer que em elle catasse 
cobro». 

Grande monteiro, passava dias e dias correndo montes e vales embre- 
nhado nos bosques e charnecas, procurando os ursos e Javalis, e com tal 
afoiteza, que por vezes correu não pequeno perigo. Desta sua paixão lhe 
resultava uma tam grande afeição pelos seus nobres alãos Bravor e Rabês, 
que os trazia para a cama e entre eles dormia. Igualmente bom caçador 
não poupava as perdizes e lebres, que se lhe deparassem; e nas Justas e tor- 
neios distinguia-se entre os melhores. Primava êle porem, d'entre todos os 
exercícios corporais, no de cavalgar, no qual a sua destreza e ardimento o 
faziam ter na conta de ser o primeiro de toda Espanha naquela nobre arte. 
Era simultaneamente liberal. Jogador e galanteador, e não lhe faltava, para 
formar o tipo do cavaleiro d'então, a rudeza orgulhosa, a superior ignorância 
e o pronunciado desprêso pelos ditames da moral, quando opostos à sua am- 
bição ou aos seus caprichos. 

Tam perfeito cavaleiro não carecia decerto da qualidade de infante, para 
inspirar violenta paixão a qualquer dama; e assim sucederia, se aquela que 
veio a amar não pertencesse a uma família, onde a ambição preferia a tudo. 



(i) Este brioso infante D. Denis foi sepultado, conforme declara D. António Ponz, Viage 
de Espana, vol. 7.°, pág. 65^ em uma capela chamada dos Quatro Altares, imediata ao San- 
tuário no célebre mosteiro de Guadalupe. Foi sua filha D. Beatriz que em 146 1 mandou 
erigir-lhe o mausuléu, para êle e outro para sua mulher, a infanta D. Joana, dando-lhes, na 
escritura para êssé fim lavrada, o título de Reis de Portugal. O lugar, então escolhido, foi 
o centro da capela; depois, quando naquele convento se encontraram Felipe II e D. Sebas- 
tião, foram, com licença de ambos, passados os túmulos para as paredes fronteiras aos dois 
altares, que ficaram subsistindo, e sobre cada um dos mausoléus se colocou uma figura de 
pedra ajoelhada, representartdo a da mão direita a D. Denis, a quem dedicaram este epitáfio : 

Hac Lusitanae jacet uma gloria pentis, 
Dinis ab invicto clara propago Petro 
Cui natura dedit Regis cuui slemate nomen, 
Detulit Infantis pátria sors titulum. 

VOL. I 12 



90 



Brasões 



Continuando a frequentar a corte, breve se deixou D. João cativar pela 
formosura e atractivos de D. Maria Teles, a irmã da Rainha. Declarados 
os seus sentimentos e não de todo repelidos, significou-se-lhe contudo, que, 
para a posse da .mulher desejada, teria de passar primeiro pela igreja e que, 
sem o sacramento, nada obteria. Até aqui perfeitamente: D. Maria defen- 
dia a sua honra, e fazia bem; <; demais, desde que sua irmã tinha casado com 
el Rei, atropelando todas as conveniências sociais, seria para estranhar, que 
ela, estando livre, casasse com o Infante? Revela pprêm o artifício da fa- 
mília dos Teles o modo de alcançar o apetecido casamento. 

Não ignorando D. Maria quam violento era o amor de D. João, e quam 
poderosa é,,em pessoa acostumada à satisfação dos seus apetites e caprichos, 
a resistência da mulher amada, e até que ponto de alucinação pode levar o 
regatear da suspirada posse, resolveu dar o último golpe na indecisão do 
Infante. 

Consente nas suas solicitações, e apraza-lhe uma hora da noite para à 
puridade o receber em sua casa. A íim de conciliar a vitória, emprega os 
maiores desvelos em aperceber, a si, e à sua câmara, por forma a exacerbar 
os desejos do namorado Infante. Veste as suas melhores galas, aquelas que 
mais realçavam, a sua beleza, e apresenta-lhe uns aposentos, cujo conforto, 
como hoje dizemos, pedia a persistência. 

Com o coração aos pulos no peito sobe o apaixonado cavaleiro a escada, 
e penetra na câmara conduzido silenciosamente por mão de discreta mensa- 
geira. Tudo rescendia amor, desde a formosa mulher até às fofas almofa- 
das, discretos tapetes e recato do leito, entrevisto na sombra da próxima 
alcova. Doido, lança-se o Infante aos pés da sua adorada, e ternamente lhe 
renova os amorosos protestos. Ela porem, repelindo-o brandamente, vai 
deixando chegar a paixão ao apogeu, e invocando então o maior, e quási 
sempre infalível argumento da mulher amada e bela, deixa correr as lágri- 
mas. O seu amor é grande, mas estima mais a sua honra; e, se o Infante 
realmente a ama^ não a quererá ver infamada. Se a quer possuir, se lhe 
quer chamar sua, pode fazê-lo já, penetrando primeiro no contíguo orató- 
rio, onde um padre e duas testemunhas em breves minutos os unirão para 
sempre. 

iQue havia de fazer o Infante? Tudo se lhe tinha varrido da mente, e 
só nela chamejava, atiçada pelos desejos, a imagem da mulher adorada, para 
cuja posse apenas se pediam uns curtos momentos de espera. Está dito; 
casemos. 

Na manhã seguinte, quando o pagem de D. João pegou nas suas roupas 
da véspera achou nelas um perfume suave, embriagante que despertou no 
mancebo sensações deleitosas. 



Eças 9 1 

Tendo o Infante posto por condição ao casamento o mistério, continuaram 
a ver-se a furto, e por algum tempo iludiram os curiosos; mas, como o se- 
gredo que passa de dois dificilmente é mantido, dentro em pouco começou-se 
a murmurar das visitas de D. João. A boa reputação de D. Maria Teles 
estava porem por tal forma assente, que ninguém duvidou houvera casamento 
secreto. 

Chegada a novidade aos ouvidos da Rainha, esta, em vez de folgar com 
o acrescentamento da irmã, tomou-se de inveja e ódio, incrível em outrem 
que não fosse D. Leonor, cujo carácter era para extremos destes. Começou 
a adúltera a antever que por morte de D. Fernando, em quem já se ma- 
nifestavam os primeiros sintomas da tísica, seria proclamado rei o infante 
D. João, e que teria ela portanto de se esbater na sombra para ceder o 
campo á nova rainha. Via mais, que D. Maria, respeitada pelo seu bom 
porte, seria estimada de todos e obteria logo o que D. Leonor, apesar de 
tantas mercês e dádivas, não conseguira ainda, isto é, o amor de seus vas- 
salos. Esta idea tornara-se fixa, e a tal ponto importunava o seu espírito, 
que, não podendo mais suportá-la e não lhe vendo outro remédio, resolveu 
destruir a causa de tam assustadores efeitos. 

Que D. Leonor assim pensasse, unicamente causará assombro a quem 
não conhecer a sua índole desalmada; jmas que para esta maldade ela encon- 
trasse um cúmplice no próprio irmão do algoz e da vítima, isso sim, isso é 
que é assombroso! D. João Afonso Telo, almirante de Portugal, de corpo 
e alma dedicado à Rainha sua irmã pelas muitas mercês dela recebidas, e 
de carácter igualmente perverso, aceitou sem dificuldade o papel de lago, 
que a Rainha lhe destinou na delineada tragédia, onde Desdémona seria a 
própria irmã, e Othelo o cunhado. 

Começou o Almirante a frequentar o infante D. João mais do que costu- 
mava, e a deixar cair na conversação palavras e frases, que lhe sugerissem 
a idea de suceder ao irmão no trono, casando com a sobrinha. Despertada 
a ambição do Infante, falou-lhe claro, e, como que da parte da Rainha, ofe- 
receu-lhe a mão da infanta D. Beatriz, mostrando-lhe quanto D. Leonor de- 
testava a projectada aliança da filha com o Duque de Benavente. A tentação 
era já grande, mas o murmúrio da consciência conservava o Infante ainda 
indeciso. 

Recorreu-se então a outro meio; à calúnia torpe e vil. Ou o futuro 
Conde de Barcelos, ou Diogo Afonso de Figueiredo, vedor do Infante, ou 
Garcia Afonso do Sobrado, seu conselheiro, um deles, foi assaz infame para 
insinuar no ânimo do marido de D. Maria Teles, que era traído, e que sua 
mulher tinha um amante. 

D. João, crendo nesta aleivosia mais prontamente do que devera, le- 



92 Brasões 

vado decerto a isso por ela lhe proporcionar pretexto para satisfazer sua 
ambição,' dando-lhe motivo para executar o sinistro propósito de matar a 
mulher, põe-se a caminho a fim de praticar tal feito tam indigno de cava- 
leiro. 

Dirigiu-se a Alcanhões, onde então estava a corte, e ao aproximar-se da 
povoação topou D. João Afonso Telo, que, acompanhado de muitos fidalgos, 
vinha ao seu encontro. 

No dia da chegada jantou com o cunhado, e no seguinte com sua prima 
D. Isabel de Castro, dama da rainha e filha do Conde de Arraiolos, sendo 
em ambos estes convites tratado com grande magnificência e jiábilo. D. Isa- 
bel, como senhora de extremada belesa, tinha muitos admiradores entre os 
fidalgos portugueses e estrangeiros, distinguindo-se entre eles D. João Afonso, 
muito seu apaixonado. Todos se apresentaram na festa, em que se folgou 
e dançou até à tarde, terminando por uma espécie de merenda de frutas e 
vinhos, no fim da qual ofereceu o cunhado ao Infante uma preciosa cota de 
armas, uma adaga de boa têmpera, e uma faca, fogosa e alentada, que lhe 
tinham trazido de Inglaterra. Isto é: ministrou-lhe as armas com que mataria 
a irmã, e proporcionou- lhe meio seguro e rápido de condução. 

De casa de D. Isabel de Castro dirigiram-se as donas e donzelas, os ca- 
valeiros e escudeiros, em luzida comitiva ao paço, onde alegremente foram 
recebidos. 

A sós com a Rainha e o futuro Conde de Barcelos teve o Infante uma 
demorada conversação e, terminada ela, retirou-se D. João para casa do 
cunhado, onde pernoitou. Na madrugada seguinte partiu direito a Coimbra, 
não aceitando o jantar que no seu castelo, por onde passou, lhe ofereceu seu 
enteado o Mestre de Cristo, que pela recusa, pressentindo o perigo, mandou 
a toda a pressa avisar sua mãe. D. Maria, animosa e inocente, desprezou 
o aviso do filho, como já desprezara outros. 

Seguindo seu caminho saiu o Infante de Tomar, e foi dormir ao Espinhal, 
d'onde partiu à meia noite para chegar, pouco antes do amanhecer, ao antigo 
convento de Santa Ana, junto à ponte de Coimbra, ainda para diante do si- 
tio, onde hoje se vêem as ruínas do velho convento de Santa Clara. Aí fez 
alto, e depois de ter durante momentos falado à parte com os seus dois 
criados atraz nomeados, dirigiu-se a todos os seus homens de armas, dizen- 
do-lhes o fim a que ia a Coimbra, ocultando ainda assim a parte principal 
de seus funestos projectos. 

Atravessada a ponte e chegados à couraça, chamou o Infante por um dos 
seus escudeiros, que tinha cursado as aulas, e advertindo-lhe, que D. Maria 
poisava nas casas de Álvaro Fernandes de Carvalho, encarregou-o de os en- 
caminhar para lá. 



Eças 93 

Dirigiu o antigo estudante a cavalgada direito à igreja de S. Bartolomeu, 
d'onde nascia uma estreita rua, que ia desembocar na frente da porta das 
ditas casas, e com tamanha infelicidade que chegaram no momento, em que 
uma mulher saía a ir ao rio lavar, a qual, abrindo a porta, lhes franqueou a 
entrada. 

Neste comenos tinha rompido a aurora, e a manhã aproximava-se. , 
O Infante com os seus subiu, e na primeira sala encontraram umas cria- ' 
das ainda deitadas, que lhes disseram estar D. Maria fechada nas torres, 
onde tinha sua câmara e a de seu filho. Pobre criança, cuja imagem, evo- 
cada em tal transe, não despertou na consciência de seu malvado pai nem 
uma sombra de remorso, nem um instante de hesitação. 

— i Vassalos! arrombem as portas. Quem mais poder quebrar, mais 
quebre. 

Acorda D. Maria Teles ao estrépito do arrombamento, e trémula, ansiosa, 
cheia de susto e terror, salta da cama mal embrulhada na colcha, tendo, para 
não cair no chão, de encosiar-se à parede junto ao leito. Avistado o marido 
exclama: 

— O! senhor, ique vinda é esta tam desacostumada? 

— Boa dona — diz ele — agora o sabereis. Vós andastes dizendo que eu 
era vosso marido, difamando-me por todo o reino ao ponto de chegar aos 
ouvidos dei Rei, e da Rainha, sabendo que era caso para me mandarem 
matar, ou me porem em prisão para sempre, e fizeste isto, quando deveríeis 
tal encobrir a todos os do mundo. E, se na verdade sois minha mulher, 
ainda mais mereceis a morte, pois cometeis adultério. — E lançou-lhe a mão 
ao ombro. 

— O! senhor — lhe responde a mísera — bem entendo que vindes mal 
aconselhado, e perdoi Deus a quem tal conselho vos deu. Contudo apraza 
a vossa mercê de vos apartardes comigo por um pouco para aquela câmara; 
ou de mandardes sair vossos moradores, que eu saberei mostrar-vos um con- 
selho mais proveitoso, do que aquele que vos deram contra mim. Por com- 
paixão ouvi-me, e tempo tereis para fazerdes o que vos aprouver. 

— Não vim aqui para estar comvosco em conversação. — E dizendo estas 
palavras, deu o Infante um forte puxão pelo colcha, descobrindo quási todo 
o alvo corpo de D. Maria, causando esta scena tam violenta impressão e 
profundo dó nos circunstantes, que todos viraram a cara, não podendo conter 
as lágrimas e os soluços. E no momento de a descobrir, deu-lhe o Infante, 
com o bulhão do Conde de Barcelos, uma funda punhalada entre o ombro e 
os peitos, direita ao coração. 

— Madre de Deus acudi-me! e tende mercê da minha alma! — exclamou 
ela em mui altas e doridas vozes. 



94 Brasões 

Entretanto o malvado arranca o punhal da ferida, e crava-o novamente, 
dirigindo- o, por um requinte de malvadez, às verilhas. 

— Jesus! filho da Virgem, acudi-me! 

E com estas palavras se fecharam para sempre os lábios da desditosa 
D. Maria Teles, que pagou, com pena desproporcional ao delito, o ter astu- 
ciosamente forçado o casamento do Infante (i). 



(i) Vou ver se me. será possível fixar a data do assassínio de D. Maria Teles; parece-me 
que sim. 

Em Leiria, a 20 de Novembro de iSyò, celebraram-se os esposórios da infanta D. Beatriz 
com o Duque de Benavente {Clironica de D. Fernando, cap. 96). Depois disto começou 
D. João Afonso Telo a tentar o infante D. João {Ibid , cap. loi). O Infante, já convencido, 
vai à corte, que estava em Alcanhões, termo de Santarém. D'aí, resolvido de todo, parte 
com seus criados para Coimbra, passando por Tomar, onde descança. Desta vila segue para 
o Espinhal, onde dorme. A meia noite continua o caminho, e por Foz de Arouce chega à 
ponte de Coimbra antes de alvorecer. Demora-se um pouco em conciliábulo com os seus, 
entra na cidade, e chega à porta da casa de D. iMaria, quando «a alva começava desclarecer 
e trigavasse a manhã pêra viir» (Ibid ^ cap. io3). Já rompia o dia, quere isto dizer. 

Consumado o crime, foge para a fronteira da Beira, onde permanece algum tempo; 
volta perdoado, e a'vista-se com el Rei em Salvaterra, d'onde com ele segue para o Alentejo 
{Ibid., cap. 104). Aí, no Vimieiro, desgostoso, afasta-se da corte {Ibid., cap, io5). 

São estes os traços gerais da narrativa de Fernão Lopes. 

Antes de mais notarei, que aquela noite da última tirada do Infraite havia de ter sido 
bem estendida, pois que lhe deu tempo para, da meia noite até antemanhã, andar oito lé- 
goas, que tanto é a distância do Espinhal a Coimbra {Portugal sacro-pro fano). De noite, 
por caminhos maus e montanhosos, não quero que uma turma de cavaleiros andasse mais 
de légoa e meia por hora; portanto precisou de cinco horas para a viagem, e os acicates 
bateriam. Já temos um facto positivo: o crime foi perpetrado na quadra em que as noites 
são compridas. Agora falta marcar o ano. 

Depois de feitos os esposórios ainda D. Fernando permaneceu em Leiria, onde assinou 
a 6 de Dezembro uma carta de legitimação {Monarchia lusitana^ 8.* p., pág. 222). D'aí se- 
guiu para o norte, e em 29 do mesmo mês já estava em Vila Nova de Anços (ã/., ibid.). 
Entrou o ano de iSjy, e a 20 de Janeiro encontrava-se el Rei em Tentúgal. Por aí e por 
Coimbra passou todo o inverno, e, chegado o bom tempo, abalou para a Beira Alta. Pela 
Vacariça dirigiu-se a Viseu, Folgosinho, Guarda, Teixoso e Covilhã, onde passou a segunda 
metade de Outubro. Daquela então vila fez ponta a Belmonte, seguindo de lá, por Açores 
e Celorico, até Trancoso, onde estava em princípios de Novembro. Pouco aí permaneceu, 
pois que a 24 daquele mês já se encontrava de volta em Tentúgal [Ibid., pág. 236 a 238). 
Fica portanto completamente excluído o ano de iSyy, pois que nesse D. Fernando não saiu 
da Beira. 

Em 1378 passou el Rei o inverno em Coimbra, e a primavera por Torres Novas e San- 
tarém. No verão porém seguiu para Óbidos e Atouguia, e, sempre por aquelas partes, jor- 
nadeou não longe do mar até ao fim do ano, em que o encontro, no primeiro dia do se- 
guinte, outra vez na Atouguia {Ibid.^ pág. 238 e 239). Este ano tenho também de deitar fora, 
pois que, se D. Fernando andou por Santarém, foi já meado Abril, quando começa a aurora 



Eças 95 

Tam simpática é a vítima, como odiento o algoz, que na minha aversão 
só consegue ser excedido pelos dois maquinadores da negra trama. 

A expiação começou logo. Repelido o Infante com pouco rebuço pela 
Rainha, compreende ter sido nas suas mãos apenas o instrumento do ódio 
de D. Leonor, que, unicamente para o engodar, lhe acenara com o casamento 
e o trono, do qual vê que o seu crime o afastara para sempre. Perseguido 
pelo Conde de Neiva e pelo Mestre de Cristo, irmão e filho da assassinada, 
unicamente defendido por seu tio o Conde de Arraiolos, acha-se D. João na 
necessidade de andar homisiado pela Beira, passando trabalhos, privações e 
inclemências, até que,, mais apertado, penetra em Castela (i). 

Por intercessão de sua irmã, a Condessa de Alburquerque, alcança a pro- 
tecção de D. João 1, que lhe dá o senhorio de Valência de Campos, Alba de 
Tormes e outras povoações, cujos, rendimentos não chegavam para manter' 
a casa que lhe cumpria, tendo de se valer da esmola dalguns fidalgos caste- 
lhanos. 



pelas quatro horas da manhã, e portanto não dava tempo ao Infante para a tal sua última 
tirada. E não só por isto, mas também porque nenhuma viagem se fez por então ao Alen- 
tejo. 

Chego emfim ao ano de iSyg, aquele em que estou persuadido se cometeu o crime. 
No dia I de Janeiro achava-se a corte na Atouguia, como disse. No princípio do mês se- 
guinte já estava em Alenquer, onde, tirante uns dias passgdos em Vila Nova da Rainha, per- 
maneceu por todo o Março e parte do Abril; a 17 deste porem já estava em Salvaterra, e a 
29 em Santarém. D'aqui por Sintra veio para Lisboa. A última notícia, que tenho, de 
D. Fernando estar nesta cidade, é de 16 de Setembro; depois disto voltou para Santarém, 
onde assinou uma carta de certa mercê a 5 de Novembro [Ibid.^ pág. 345 e 346). 

Estava portanto D. Fernando em Santarém nos princípios de Novembro de iSyg, e de 
lá iria passar algum tempo a AlcanhÕes, ali ao pé. Aqui, em Alcanhões, em princípios de 
Novembro, talvez a passar a festa dos Santos, veio o infante D. João ter com a corte. D'aqui 
partiu para Coimbra, gastando cinco horas na derradeira marcha, como calculei, chegando 
portanto à ponte antes das cinco e um quarto, isto é, antes de começar a romper a aurora. 
Consumado o crime, fugiu para a Beira, d'onde volta perdoado a Santarém, e vai avistar-se 
com el Rei a Salvaterra nas vésperas de 1 3 de Dezembro, dia em que naquela vila D. Fer- 
nando assina a carta de mercê da quinta de Santo André, no termo de Azurara, a Diogo 
Afonso de Figueiredo, vedor do Infante e seu companheiro na funesta empresa [Monarchia 
cit., pág. 346). O perdão foi completo. 

De Salvaterra partiu el Rei com o Infante e a corte para o Alentejo {Chronica de D. Fer- 
nando, cap. io5), e de Arraiolos a 3o de Dezembro já é datada uma carta {Monarchia cit., 
pág. 346). Seguiu pela província, passou em Évora, e a 6 de Março de i38o estava no Vi- 
mieiro (Ibid.). Foi aqui que o Infante se afastou desgostoso da corte. 

Parece-me, que tudo calha certo, e que posso pôr o assassínio de D. Maria Teles em 
Novembro de iSyg. 

(i) Em toda esta narrativa segui a Chronica de D. Fernando, de Fernão Lopes. 



g6 Brasões 

Para cúmulo de opróbrio, só faltava ao filho de Inês de Castro virar as 
armas contra a sua pátria, o que realizou na guerra de i38i, penetrando em 
Portugal e caudilhando os Castelhanos no apertado cerco de Elvas. 

D. João I casou-o com sua irmã natural D. Constança, a quem decerto 
não tinha lá muito grande amor. Este Rei de Castela, assim que lhe constou 
a morte de D. Fernando I de Portugal, mandou, em fins de Outubro de 
i383, prender o infante D. João, e recolhê-lo ao castelo de Almonacid, onde 
o conservou preso por alguns anos, não por o Infante conspirar contra el Rei; 
mas por cautela, para afastar a sua concorrência ao trono de Portugal. Já 
estava porém solto em 1887, ano em que seu cunhado o criou duque de Va- 
lência de Campos, vila que desde esse tempo passou a ser designada por 
Valência de D. Juan (i). 

Já tinha morrido o Infante em 20 de Setembro de 1400, comiO consta de 
uma carta daquela data pela qual D. João I de Portugal confirmou um ins- 
trumento de aforamento feito «per o iíFante dom joham nosso irmão a que 
deos perdoe» (2). Mostra-nos este documento não poder ser exacto ter o in- 
fante D. João confirmado em 1402 os privilégios concedidos por Henrique III 
de Castela à igreja de Palência (3), estando provavelmente o erro na trans- 
crição da data. " Foi sepultado em Salamanca, no mosteiro de Santo Estêvão 
da ordem dos Pregadores (4). 

II 

LINHAGEM 

Da segunda mulher, a infanta D. Constança, teve o Duque de Valência 
unicamente duas filhas: 

I.* — D. Maria de Portugal, condessa de Valência e senhora dos estados 
de seu pai em Castela, casou com Martim Vasques da Cunha, i.° conde de 
Valência de Campos em 1897, de quem foi segunda mulher e teve ilustríssima 
descendência nos demais Condes de Valência, nos Duques de Najera, etc. 

2.^ — D. Beatriz de Portugal, condessa de Buelna. Foi mulher de D. Pe- 
dro Nino, I." conde de Buelna,' já em 148 1, e tiveram ilustre descendência. 

De sua primeira mulher, a desditosa D. Maria Teles, teve o infante 
D. João um único filho, a criança que estava dormindo na câmara contígua 



(i) Lopez de Haro, Nobiliário, II, 281. 

(2) Archivo histórico portugue^^ vol. iii, pág. 120, n." lxv. 

(3) Lopez de Haro, cit. Nobiliário, II, 281. 

(4) Ibidem. 



Eças 97 

à da mãe, quando ela foi assassinada. D. Fernando se chamava, e criado 
ao desamparo, sem pai, nem mãe, nem quem por êle realmente se interes- 
sasse, saiu um devasso acabado. O seu fraco era casar, e com o maior 
desassombro o fazia, chegando ao ponto de ter às vezes três e quatro mu- 
lheres vivas. Então filhos, isso era um não acabar, j Quarenta e dois lhe 
assinam os nobiliários! 

Por alguma gentileza, não apontada nas crónicas nem nos nobiliários, 
teve de passar para Galiza, onde seu primo o Duque de Arjona lhe deu o 
senhorio da vila de Eça. Por este motivo foi chamado D. Fernando de Eça 
e transmitiu este apelido a seus descendentes, aos quais à hora da morte, 
diz-se, aconselhara o regresso à pátria. A ela tornou êle depois de morto, 
segundo reza o epitáfio de sua sepultura na capela mor da igreja do convento 
do Espírito Santo de Gouveia, nas seguintes palavras: 

Aqui ja^ D. Fernando de Eça Jilho do Ifante D. João, e neto delRey 
D. Pedro de Portugal e da Ifante D. Lies de Castro sua molher, e bisneto 
delRef D. Afonso de Castela, o que venceo a batalha do Salado. Este 
D. Fernando foi padre de D. Caterina Abadessa de Lorpão, que o aqui 
mandou tresladar na Era do Nacimento de nosso Senhor lesii Christo de 
mil e quatrocentos e setenta e nove annos, xxv dias de laneiro (i). 

No epitáfio de D. Fernando de Eça diz-se que êle era bisneto dei Rey 
D. Afonso de Castela, o que venceo a batalha do Salado. E erro, e fácil se 
torna mostrá-lo. 

Diz Fr. Manuel da Esperança, descrevendo o túmulo de D. Fernando: 
«Na pedra fundamental desta engraçada machina, feita a modo de degraos, 
se acha hum epitáfio composto de letras góticas, mal distintas, & com pala- 
j'ras imperfeitas, que o fa:{ejn dificultoso de ler: mas a leitura é esta» (2), 
acrescenta êle todo ufano, e transcreve o epitáfio. 

Feita a transcrição, aceita Fr. Manuel como palavras evangélicas as do 
epitáfio, e não pÕe dúvida nenhuma em ser D. Fernando de Eça bisneto de 
D. Afonso XI de Castela; e portanto filho, não da primeira mulher do in- 
fante D. João, D. Maria Teles, mas sim da segunda, a infanta D. Cons- 
tança. 

Não pode ser. Se D. Fernando tivesse sido filho de D. Constança, teria 
sucedido a seu pai na casa que em resultado deste casamento êle logrou em 
Castela. Ora isto não teve lugar; porque, quem sucedeu nela, foi a filha 
mais velha dos Infantes, a Condessa de Valência. E não se pode objectar 



(i) Fr. Manuel da Esperança, Historia Seráfica, vol. u, pág. 647; Sousa, Memorias se- 
pulchraes, fl. 73, 

(2) Historia Seráfica, loc. cit. 

VOL. I l3 



gg? Brasões 

que, se isto assim aconteceu, foi por D. Fernando ter passado para Portugal, 
porque todos são concordes em dizer que êle viveu na Galiza, onde o Duque 
de Arjona lhe deu o senhorio de Eça, do qual se derivou o apelido para seus 
descendentes. Também são concordes em declarar que o Duque lhe dera o 
senhorio para sua subsistência, por êle ser pobre e seu parente. 

Eram parentes com efeito e bastante chegados, por isso que tinham bisavô 
comum. D. PVadique de Castela, duque de Arjona, era neto por sua mãe, 
D. Isabel de Castro, do nosso Conde de Arraiolos, filho de D. Pedro Fer- 
nandes de Castro, o da Guerra. D. Fernando de Eça também era bisneto 
de D. Pedro, porém por sua filha D. Inês de Castro. Bem sei que, se 
D. Fernando íôsse filho da infanta D. Constança, ainda mais parente seria 
do Duque de Arjona, porque então, em vez de um, teriam dois bisavós co- 
muns: D. Pedro da Guerra, e D. Afonso XI de Castela. ' > 

O argumento decisivo porem lá lá ficou em cima. Se D. Fernando tivesse 
sido filho dos infantes D. João e D. Constança, ter-lhes-ia sucedido na casa, 
na sua qualidade de varão, que sempre nestes casos preferiu à fêmea. Con- 
tra isto não há epitáfios, nem frioleiras, que valham. 

«Nenhuma família teve mais esclarecido principio do que a de Eça; e 
devendo continuar no esplendor e grandeza da sua origem, para que fosse 
respeitada, infelizmente foi sempre em huma total decadência; de sorte que 
quasi se veiu a extinguir.» 

Isto dizia D. António Caetano de Sousa em 1745. íQue mais acrescen- 
tarei? Apenas que julgo a sua varonia completamente extinta, e que sempre 
pensei, ao atentar nesta família, que sobre ela pesava, desde a sua origem, 
o crime do seu progenitor. 

Foi característico o porte desregrado das senhoras nas primeiras gerações 
dos Eças, e bem revelador do atavismo, ou melhor talvez hereditariedade, a 
que se encontraram sujeitas. Já ao caso brevemente me referi e para aqui 
trasladarei as minhas palavras. 

«D. Brites de Eça, abadessa de Celas, teve filhos do bispo D. João de 
Abreu; D. Caterina de Eça, irmã de D. Brites e famosa abadessa de Lorvão, 
foi amante de Pêro Gomes de Abreu, senhor de Regalados e sobrinho neto 
do Bispo; D. Joana de Eça, abadessa de Celas e filha de João Rodrigues 
de Azevedo e de D. Branca de Eça, irmã das outras duas Abadessas, teve 
amores com Vasco Gomes de Abreu, poeta do Cancioneiro e sobrinho do 
bispo D. João; e, finalmente, D. Felipa de Eça, abadessa de Vai de Madeiros 
e depois de Lorvão, e filha de D. Pedro de Eça, irmão das duas primeiras 
Abadessas, foi amante do irmão de Vasco, do nosso João Gomes de Abreu 
das trovas. 



Eças 99 

«Aos seus amores com a freira existem muitos remoques no Cancio- 
neiro* (i). 

Melhor do que eu descreve D. João III, numa carta de 3i de Agosto de 
1643, ao seu Embaixador em Roma, o comportamento dissoluto das Eças 
no mosteiro de Lorvão. Testemunha mais digna de fé não se poderá en- 
contrar. Diz el Rei: 

«Doctor Balthasar de Faria, eu el Rey vos envio muito saudar. Direis 
ao Santo Padre de minha parte que neste reyno de Portugal, no bispado de 
Coimbra, estaa huum moesteiro de monjas da ordem de Cister, o qual he 
muito antiguo, e fundado e dotado pelos reis destes reynos meus antecesso- 
res, e casa de maj^or renda que neles ha de molheres, que vai a renda dela 
de quatro mil cruzados pêra cima, e valeria muito mais, se as propriedades 
quintãas e granjas dela se não alienaram e emprazaram pelas abadessas que 
pelo tempa foram; e que ha na dita casa cento e sessenta molheres, antre 
professas e noviças e conversas, e ha sessenta annos e mais que nela sam 
abadessas molheres de linhajem dos Eças, em modo que grande parte das 
monjas da dita casa sam da dita Hnhagem, e algúas filhas de monjas da dita 
linhagem, que ja naceram na dita casa. E do dito tempo pêra ca no dito 
moesteiro nom se guardou a religiam e observância dela em nenhum dos 
votos sustanciaes, como per regra e constituições da ordem se devera fazer, 
antes na dita casa se viveo muito tempo muy dissolutamente, e muitas monjas 
dela emprenharam, e pariram, e tem filhos e filhas; e isto he muito notório 
no reyno, e causa de muita infâmia da religiam e escândalo do povo. E entre 
as monjas da dita casa, que emprenharam e pariram e tem filhos, e que 
dissolutamente viveram, hee dona Felipa dEça, que ora pede a abbadia dela, 
e sendo bastarda e ilegítima. E porque, falecendo húa dona Margarida dEça, 
abadessa que foy do dito moesteiro, desejando eu que a dita casa se refor- 
masse e posesse em boom estado, e que as monjas dela vivessem em' estado 
, de salvaçam, enviey per minha carta encomendar aas ditas monjas que nam 
elegessem abbadessa, e sobreestivessem atee verem meu recado, desejando 
de enviar a elas húa pessoa religiosa pêra as provocar a elejerem algúa re- 
ligiosa da ordem, pessoa de boom viver e observante da regra e religiam. 
E grande parte delas, por serem parentas amigas e aliadas, vivendo ainda a 
dita dona Margarida abbadessa, estando porem jaa pêra morrer, fizeram vir 
doutra parte e meteram no moesteiro a dita dona Felipa dEça, monja que 
com elas se criou na dita dissoluçam; e pêra as conservar em seus maaos 
custumes e husos a elejeram por abbadessa tanto que a dita dona Margarida 



(i) ^ gente do Cancioneiro, vol. xi da Revista lusitana, pág. 320. 



I oo Brasões 

faleceo, antes de enterrarem o corpo da defunta, nom guardando na dita 
eleiçam a forma e modo, que por direito e suas constituiçes da ordem de- 
verom guardar ...» (i). 

Esta abadessa de Lorvão, D. Felipa de Eça, foi uma verdadeira heroína 
e alguns interessantes dados para a sua biografia deixei na Revista lusitana, 
no artigo acima citado. 



(i) Corpo diplomático portuguei, V, 206-207, 



VI 

MENESES 




Brasões da Sala de Sintra, VoI. I. 



De oiro, escudete à antiga, cosido do mesmo e carregado de um anel com 
uma pedra, tudo de oiro perfilado de negro, e a pedra apontada ao cantão 
sinistro da ponta. Timbre: donzela nascente de encarnação, vestida de bro- 
cado de prata, guarnecido de oiro e semeado de vieiras cosidas do mesmo, 
os cabelos soltos, a mão sinistra na cinta e a dextra segurando o escudete 
das armas. 

O escudo dos Meneses é de oiro liso. Assim se encontra no Livro do 
Armeiro mor, fl. 5o v.; no Lipro da Torre do Tombo, fl. lo; nas Tropas de 
João Rodrigues de Sá, fl. ii5 do Cancioneiro geral de Garcia de Resende; 
nas Arvores do Conde de Vilanova, nos artigos de Meneses; nos Tropheos 
Lusitanos de António Soares de Albergaria, fl. 32, 35 e bj mihi, etc. Pos- 
teriormente, divulgando-se a lenda a que logo me referirei, começou a apare- 
cer um anel nas armas dos Meneses de Cantanhede, sendo talvez ó primeiro 
a apresentar tal novidade Fr. Leão de Santo Tomás a pág. 483 da 2.^ part. 
da su3i Benedictina Lusitana, impressa em i65i, isto é, apenas catorze anos 
após os Tropheos Lusitanos. Como era absurdo, foi quási universalmente 
seguido desde esse tempo. 

O timbre apresenta-se geralmente da mesma forma, variando apenas 
nalguma minúcia. 

I 

LENDA DO ANEL 

E por tal forma ilustre esta família, tantos e tam esclarecidos ramos dela 
provieram, que me desculparás, leitor benévolo, se por excepção eu te enfas- 
tiar com a sua genealogia. 

Sei bem quam áridos são, e aborrecidos se tornam, os autem genuit; 



104 Brasões 

mas, para poder dar idea da origem e ramificações dos Meneses por forma 
agradável e clara, teria de alongar desmesuradamente este artigo. 

Os linhagistas do visinho reino proclamam os cinco grandes solares de 
Castela aos de Lara, Haro, Castro, Guzman e Villamaior. Fundam-se para 
isso em eles pertencerem, desde tempos mui. remotos, às famílias a que de- 
ram os apelidos, e a serem elas derivadas dos reis. 

Em vez de cinco diriam seis, incluindo na lista o de Meneses, se esta 
linhagem se não tivesse extinto em Espanha, conservando-se unicamente em 
Portugal. 

Em 1179 adquiriu por troca D. Tel Pérez o senhorio de Meneses junta- 
mente com outros, e este rico homem era sexto neto na varonia de D. Fruela lí, 
rei de Lião e Galiza em 924(1). Juntaram-se pois as duas condições, que 
fizeram dar o epíteto de grandes aos cinco solares apontados: antiguidade, 
e ascendência rial. 

O esplendor da família era tal, a sua origem tam remota, que dela se 
apoderou a lenda. 

Contava-se que, pouco depois do segundo casamento de D. Ordonho II 
de Lião, sua filha, a infanta D. Ximena, seduzida e abandonada por um dos 
fidalgos da corte, com quem fugira, se acolhera ao lugar de Meneses, em 
terra de Campos. Aí, para obter meios de subsistência, escondendo sua 
vergonha, sujeitara-se a nobre Infanta a ir servir para casa de Telo Sánchez, 
lavrador abastado e honrado do lugar. O porte da servidora era tam mo- 
desto, a sua formosura tam atraente, tais dotes de dona de casa revelou, e 
tam desamparada se apresentou, que o amo, seduzido e condoído, ofereceu- 
-Ihe a sua mão. Muito oportuna reputou então a descendente de Santo Her- 
menegildo tal aHança, e aquela, que talvez despresara a mão de reis, jubilosa 
aceita para marido o lavrador. Decorridos tempos, e havendo já dois filhos 
gémeos, acontece ir D. Ordonho caçar às próximas montanhas e, surpreen-' 
dido pela noite, pedir agasalho à casa de Telo, a principal do lugar. 

Reconhece Ximena no cançado monteiro a el Rei seu pai e, não que- 
rendo perder a ocasião que a Providência lhe deparara, resolveu dar-se a 
conhecer. 

Tinha a Infanta guardado o vestido de brocado, com que fugira, e um 
anel com um rubim encastoado prenda de seu pai. Daquele brocado e de 
burel corta e alinhava à pressa, para cada um dos filhos, uns pelotes meio 
ricos, meio pobres. Em seguida prepara com todo o esmero uma malassada. 



( I ) Salazar y Castro, Glorias de la Casa Farnese, pág. 5^5. 



Meneses io5 

frigindo em apurado azeite uns frescos ovos, e manda por seus filhos, da- 
quela estranha forma trajados, oferecer a el Rei o seu predileto prato, no 
meio do qual deixara cair o anel. 

Admirado el Rei do singular vestuário dos servidores, surpreendido ao 
ver os seus gostos adivinhados, assombrado ao achar dentro da malassada 
o anel, pregunta ansioso pela explicação. Então lança-se-lhe a filha aos pés 
e tudo acaba em beni, como nas comédias de Scribe. 

Perdoa D. Ordonho à Infanta; reconhece a magnanimidade do lavrador 
Telo, que casara com D. Ximena supondo elevá-la; nobilita-o; declara seus 
netos aos gémeos; e substitui-lhes as vestiduras, meio ricas meio pobres, 
por belos pelotes de brocado forrados de marta no inverno. 

Volta el Rei para a corte com a família aumentada e em testemunho de 
regosijo manda celebrar umas justas, em que entram os filhos do lavrador, 
apresentando-se com escudos de oiro liso e este moto: 

Si quieres saber quien son 
Los dos dorados paveses, 
Hijos de la hija son 
De Ordono de Léon, 
Y de Tello de Meneses. 

O segundo 'casamento de D. Ordonho foi em 921, e a sua morte em 924. 
Dentro destes três anos a lenda faz fugir a D. Ximena, casar com o lavrador 
e ter dois filhos, o que tudo é possível, existindo o prodígio unicamente, em 
no mesmo praso os pequenos se desenvolvereni a ponto de servirem malas- 
sadas ao avô, e lidarem num torneio. Com estas pequenas coisas não se 
prendem todavia as lendas. 

De D. TelPérez, i.*' senhor de Meneses, foi filho primogénito D. Afonso 
Télez, rico homem, senhor de Meneses, Medellin, Montealegre, Valladolid, 
Madrid, etc. Este foi o fundador do castelo de Alburquerque pelos anos de 
1218, e é o sepultado num mosteiro de Palazuelos, de Bernardos, junto a Due- 
nas, em cuja sepultura se gravou este epitáfio: Obiit Alfonsiis Telli nobilis 
amator totius bonitatis factor istiiis nionasierii. Era CID . CC. LX. VIU. (i), 
ano de Cristo de i23o. Estivera em 12 12 na batalha das Navas de Tolosa, 
e para comemoração carregara o seu escudo de oiro liso com uma cadeia 
de ferro de sua cor, posta em banda. 

De sua primeira mulher, da casa de Giron, teve o fundador de Albur- 
querque, alem de filhas, a D. Telo Afonso, sem geração, e a D. Afonso Té- 



(i) Argote de Molina, Noble^a dei Audalupa, fl. 89 v. 

TOL. I * 14 



io6 Brasões 

lez de Córdova que veio a suceder no senhorio de Meneses e noutros bens. 
Deste segundo D. Afonso Télez foi filha herdeira D. Maria Afonso, senhora 
de Meneses, a qual, viúva e sem filhos, tornou a casar com o infante D. Afonso 
de Molina, irmão de S. Fernando. Deste casamento foi filha, entre outros, 
a famosa rainha de Castela D. Maria de Molina, em cujo bisneto, D. Pedro I 
de Castela, recaiu a casa de Meneses por extinção da linha primogénita. 

II 

SENHORES DE ALBURQUERQUE 

Em 12 20 já D. Afonso Télez, o fundador de Alburquerque, era casado, 
pela segunda vez com D. Teresa Sanches, filha de D. Sancho I de Portugal. 
Deste casamento foi segundogénito D. João Afonso, que por morte do primo- 
génito sucedeu na casa. 

Este D. João Afonso, rico homem e senhor de Alburquerque, foi alferes 
mor de seu primo com irmão D. Afonso III de Portugal, e com aquele cargo 
é mencionado em documentos dos anos de i25o até I255. Neste passou 
para Castela, figurando na corte de D. Afonso X como rico homem e perti- 
gueiro mor de Santiago. Em 1268 era já falecido, deixando dois filhos: 
D. Rodrigo Anes, e D. Gonçalo Anes Raposo. 

D. Rodrigo Anes, o primogénito, foi 3.° senhor de Alburquerque e rico 
homem de Castela. Casou com D. Teresa Martins, filha de D. Martim Gil 
de Soverosa, o Bom, valido de D. Sancho, o Capelo, e vencedor da lide do 
Porto. Deste casamento é apontado como único filho D. João Afonso, 4.° 
senhor de Alburquerque, i.° conde de Barcelos, rico homem de Castela e 
depois de Portugal. 

D. João Afonso rebelara-se contra D. Sancho IV de Castela, e deveu a 
vida à intercessão de sua prima D. Maria de Molina, mulher daquele Rei. 
Breve se esqueceu porem da gratidão devida, abandonando a Rainha nas 
lutas, que varonil e habilmente sustentou durante a menoridade de seu filho 
D. Fernando IV, e declarando-se vassalo de D. Denis, a cujo serviço já se en- 
contrava a 9 de Dezembro de 1296, confirmando o foral de Moura. D. Denis 
soube aproveitar-Ihe as aptidões, incumbindo-o de negociar as pazes com 
Castela e conseguindo pela sua intervenção o vantajoso tratado de Alcani- 
ces, de 12 de Setembro de 1297. Em satisfação de seus serviços fê-lo 
D. Denis conde, e este é considerado o primeiro conde português na moderna 
forma, que não é, ainda assim, a actual, em que o condado, na maior parte 
dos casos, é constituido pela pessoa do titular. Até ali os condes, que exis- 
tiram, eram temporários e governadores de territórios, que pela sua extensão 



Meneses 1 07 

constituíam condados e a cujo governo era inerente o título; ao passo que 
este, o de D. João Afonso, foi vitalício e com o título recebeu o senhorio. 
Assim o diz a carta: « . . . E por que o fiz Conde, doulhe a minha vila de 
Barcelos com seu termho. que el que a aja en todolos dias de sa vida . . . 
Dada em Santarém, oyto dias de Mayo . . . E. M. CCC. xxxvj. anos.« (i), 
ano do nascimento de 1298. 

Morreu o Conde pouco depois de 5 de Maio de i3o4, data do seu testa- 
mento (2), deixando unicamente duas filhas havidas de sua mulher, D. Te- 
resa Sanches (^): D. Violante Sanches e D. Teresa Martins. 

D. Violante Sanches foi casada com o alferes mor D. Martim Gil a quem 
D. Denis, depois de o ter feito conde, doou Barcelos por carta de i5 de Ou- 
tubro de 1304(4). Morreu sem geração. 

D. Teresa Martins foi 5.* senhora de Alburquerque, Codiceira, Vila do 
Conde, etc. e casou com D. Afonso Sanches, mordomo mor dei rei D. Denis 
seu pai. Foram os fundadores do mosteiro de Vila do Conde e os progeni- 
tores dos Albuquerques. 

O Conde de Barcelos, bem como o haviam feito os senhores de Albur- 



(i) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.", fl. 3. 

(2) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana^ VI, 3o. 

(3) Argote de Molina, na fl. 90 da sua Noble^a dei Andaluzia, declara haver o Conde de 
Barcelos casado em segundas núpcias com D. Maria Coronel e este desacerto repetem, alem 
de muitos outros, dois considerados genealogistas, um espanhol, outro português, Salazar 
y Castro e D António Caetano de Sousa. 

O conde D. João Afonso de Barcelos não casou, nem em segundas nem em primeiras 
núpcias, com D. Maria Coronel, não sendo portanto dela as filhas. É fácil de provar. 

D. Teresa Sanches, filha bastarda de D. Sancho IV de Castela, teve, dois casamentos: 
um, com D. João Afonso, conde de Barcelos (Livro velho das linhagens, pág. iSj dos Portu- 
galiae momimenta histórica); o outro, com D. Rui Gil de Vilalobos (Casa de Lara, III, 436). 
O Conde de Barcelos morreu pouco depois de 5 de Maio de i3o4 {Monarchia lusitana, liv. 18, 
cap. 8) ; D. Rui Gil ainda confirmava em documentos do ano de i3o7 {Casa de Lara, tom. ni, 
pág. 453); logo o primeiro marido foi o Conde, o segundo o Vilalobos, e portanto quem 
ficou viúva do Conde, foi D. Teresa e não D. Maria. 

Provado que D Maria Coronel não foi a segunda mulher do conde D. João Afonso, 
basta, para provar que não foi a primeira, o saber-se que ela estava casada em 1347, isto é, 
trinta e três anos depois da morte do Senhor de Alburqderque, com o conde D. Pedro de 
Barcelos {Historia genealógica, tom. i, pág. 260). 

Provado que D. Teresa Martins não era filha de D. Maria Coronel, que nunca foi mu- 
lher do conde D. João Afonso, resta provar que a fundadora de Vila do Conde foi filha de 
D. Teresa Sanches. Alem de o asseverar o Livro velho das linhagens, consta ter ela, D. Te- 
resa Martins, tido uma meia irmã chamada D. Maria de Vilalobos (História seráfica, liv. 8, 
cap. 5, § i), que é certamente filha do segundo casamento de D. Maria Sanches. 

(4) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.», fl. 33 v. 



io8 Brasões 

querque seus predecessores, carregou o seu escudo de oiro liso com um cas- 
telo de vermelho, alusivo ao senhorio. O brasão usado pelos descendentes 
de D. Teresa Martins e de D. Afonso Sanches será descrito no artigo dos 
Albuquerques. 

De D. João Afonso, 2." senhor de Alburquerque e alferes mor de 
D. Afonso III, foi filho segundo, como já fica dito, D. Gonçalo Anes Raposo. 
Este, na qualidade de rico homem de Castela, confirmou as cartas de privi- 
légios de várias cidades nos anos de 1284. 85 e 86. De sua mulher, D. Ur- 
raca Fernandes de Limia, teve a D. Afonso Martins Telo, único de seus filhos 
em cujos descendentes se continuou a geração masculina dos Meneses. 

Este D. Afonso Martins Telo, rico homem de Castela e depois de Por- 
tugal, onde foi alcaide de Marvão (1) e onde se encontram memórias suas 
nos anos de i3i7, 18, 21 e 22, seguiu o bando*do infante D. Afonso contra 
el rei D. Denis e foi um dos ricos homens, que em Pombal, juntamente com 
o Infante, juraram as pazes em princípios de Maio de i322. Em Portugal 
casou com D. Berenguela Lourenço, filha do rico homem D. Lourenço Soa- 
res de Valadares, senhor de Tangil e fronteiro de Entre Doiro e Minho. 
O seu filho primogénito chamou-se D. Martim Afonso Telo e foi progenitor 
dos Meneses das casas de Marialva e Louriçal, como indicarei no cap. iii. 
O segundogénito foi D. João Afonso Telo, i.° conde de Ourem e progenitor 
dos Meneses das casas de Vila Rial e Tarouca, como referirei no cap. iv. 

Tem sido matéria de discussão qual das linhas é a primogénita, se a de 
Marialva, se a de Vila Rial; mas não deve restar dúvida. A casa de Ma- 
rialva tem por si o Livro Velho das Linhagens, e os Nobiliários do conde 
D. Pedro, Xisto Tavares, D. António de Lima e outros. 

III 

CASAS DE MARIALVA E LOURIÇAL 

D. Martim Afonso Telo, filho primogénito de D. Afonso Martins Telo, 
foi rico homem, amante e mordomo mor da rainha de Castela D. Maria de 
Portugal, mulher de Afonso XI, e a seus pés, salpicando-a com seu sangue, 
recebeu a morte em Toro, a 25 de. Janeiro de i356, às mãos dos sicários de 
D. Pedro I, filho da sua própria amante. Tinha casado em Portugal com 



(1) Afonso Martins Telo, meu vassalo, alcaide do meu castelo de Marvão, veja três vezes 
no ano como estão bastecidos e manteudos os castelos de Portalegre, da Vide, de Arron- 
ches e de Monforte. Santarém, 25 de Janeiro de i359 (iSai). — Liv. 3.° da Chancelaria de 
D. Denis, fl. i3^. 



Meneses 109 

D. Aldonça de Vasconcelos, filha herdeira do infanção Joane Mendes de Vas- 
concelos. Dela teve quatro filhos; 

i.° — D. João Afonso Telo. Foi alcaide mor de Lisboa em 1872 e almi- 
rante de Portugal pelos anos de 1 375(1). Com o almirantado começou a 
gozar do título de dom, como se vê da carta de 23 de Maio de 1414 {i3j6) 
pela qual foi feita doação das terras de Mafamude, Laborim e Lavadores a 
dom João Afonso Telo, almirante (2). Continuou ele, como consta de vários 
documentos (3), exercendo aquele ofício nos anos seguintes até ao de i38o, 
no qual, por carta de õ de Julho, lhe foram mandados guardar os privilégios 
do almirantado (4); não sei porém, se ainda o conservou por muito tempo. 
Na carta de 27 de Janeiro de i382, de doação da terra da Feira e outras não 
aparece com o título de almirante (5), com o qual se torna a encontrar Lan- 



(i) Para fixar esta data tenho estas indicações. — Por carta de 29 de Junho de 1410 
(1372), foram confirmados os privilégios dos almirantes a Lançarote Pessanha (Aires de Sá, 
Frei Gonçalo Velho, II, 552, doe. 740), e mais nenhum documento a ele respeitante encon- 
trou nos tempos seguintes o consciencioso e indefesso investigador citado. Em 8 de Julho 
de 1413 (1375) já Lançarote Pessanha estava incurso no desagrado de D.Fernando, que lhe 
confiscara Odemira. É evidente que já então não devia possuir o almirantado. Em i de 
Maio de 1412 (1J74) ainda João Afonso Telo não era almirante; pelo menos sem o título 
aparece numa carta daquela data de doação de certos bens {Livro ifi de D. Feriiando, 
fl. 141 v.). Com ele contudo o encontro em duas cartas dadas em Santarém a i5 de Abril 
de 1414 (1376), e pelas quais se lhe doaram várias terras (Ibid.^ fl. 192). 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.», fl. 172 v. 

(3) Km 1376, no mês de Julho, a 17, entrega do castelo de Monsanto, e a 19, doação 
das terras de Vilasboas e Vilarelhos; em 1377, a 19 de Novembro, doação das terras de Paços 
e outras no julgado da Feira; e em 1379, a 20 de Março,* doação das rendas da alcaidaria de 
Lisboa — Chancelaria cit., liv. 1.°, fl. 195 v., e liv. 2.% fls. 23 e 65 v.. 

(4) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.°, fl. 66 v.; Aires de Sá, ob. cit., pág. 557, doe. 742. 

(5) Chancelaria de D. Fernando, liv. 3.", fl. 59 v. — Mais alguns documentos, ainda não 
apontados, relativos ao 6.° conde de Barcelos, D. João Afonso Telo, irmão da rainha D. Leo- 
nor : a João Afonso Telo, nosso vassalo, doação das terras de Santa Maria em a terra da 
Feira, Cabanões, Ovar e Cambra, Coimbra, 10 de Fevereiro de 1410 (1372); doação do cas- 
telo de Lisboa, Leiria, 22 de Outubro de 1410 (1372). A D. João Afonso Telo, doação dos 
bens de Álvaro Vicente, Salvaterra, i de Maio de 141 2 (1374). A João Afonso Telo, almi- 
rante, nosso vassalo, doação das terras da Bemposta, PenarroivTS e outras, Santarém, i5 de 
Abril de 1414 (1376); doação das terras de Samodães, Ribeira de Gondim, etc, na mesma 
data; doação do castelo de Monsanto, Alenquer, 17 de Julho de 1414 (1376). A D. João 
Afonso Telo, conde de Barcelos, nosso vassalo, doação das freguesias de Rebordões, S- Mar- 
tinho do Campo, Santa Maria de Negrelos, Santo Isidro, Virãos, Santiago, e S. Salvador, 
que sohiam ser do julgado de Refoios, e da freguesia de Sanguinhedo, que fora da jurisdição 
de Aguiar de Pena, que todas haviam sido doadas ao Infante D. João, sendo apartadas das 
suas antigas jurisdições, e depois haviam pertencido à infanta D. Beatriz, e agora manda 
el Rei que tornem às suas antigas jurisdições e que pertençam ao Conde, senhor destas. 
Dada em Almada a 26 de Junho de 142 1 (i383). Ao Conde de Barcelos, nosso vassalo, em 



1 1 o Brasões 

çarote Pessanha numa carta de 20 de Setembro de i383 (1). Na referida 
carta de 27 de Janeiro de i382 já aparece intitulado conde de Barcelos (2), 
havendo sucedido no condado por morte de seu tio D. João Afonso Telo, 
conde de Ourém e Barcelos. Seguiu o partido do invasor, que em Setem- 
bro de 1384 o criou conde de Mayorga em Castela. Morreu na batalha de 
Aljubarrota, a 14 de Agosto de i385, e foi o único dos inimigos a quem 
D. João I mandou dar sepultura, sendo esta excepção devida a êle ter acon- 
selhado el Rei de Castela e com êle instado a ferir o combate. Foi de génio 
perverso e o sócio de sua irmã D. Leonor em alguns dos seus crimes. Casou 
com D. Brites de Albuquerque e teve filhos, mas não teve netos. 

2.'' — D. Gonçalo Teles, conde de Neiva, a quem me tornarei a referir. 

3.° — D. Maria Teles, mulher de Álvaro Dias de Sousa, senhor de Mafra, 
Ericeira e outros lugares, e depois do infante D. João, filho de D. Inês de 
Castro. É a infeliz D. Maria Teles, cujo trágico fim narrei no artigo dos 
Eças. 

4.° — D. Leonor Teles, rainha de Portugal, mulher de D. Fernando, a 
Lucrécia Bórgia portuguesa como lhe chama Herculano. Casara com João 
Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro, de quem, quando D. Fernando se 
namorou dela, já tinha um filho, Álvaro da Cunha, senhor de Pombeiro por 
morte de seu pai. 

D. Gonçalo Teles (3), conde de Neiva e senhor de Faria em 1373 (4); 



Almada, a 3o do mesmo mês, entrega do castelo da Feira. — Chancelaria de D. Fernando, 
liv. 1.°, fls. 94 V., 114, 141 V., 192, 193, 195 V.; e liv. 3.", fls. 72 v., e 84. Conservou ate final 
a alcaidaria do castelo de Lisboa, como consta desta carta: Antão V^isques, cavaleiro, seu 
vassalo, doação da alcaidaria do castelo de Lisboa, com todos seus direitos e rendas, como 
a tinha D. João Afonso, conde de Barcelos, salvo aquelas coisas que a ela pertenciam, de 
que o dito Senhor fez mercê ao Concelho da cidade de Lisboa. Santarém, 28 de Agosto de 
J483 (i385). — Liv. i.o de D. João 1, fl. io3. 

(1) Aires de Sá, Frei Gonçalo Velho, tom. it, pág. 563, doe. 74^^. Na mesma colecção 
encontraram-se três documentos anteriores a este, dois do próprio ano de i383, e um do 
antecedente, os quais se referem todos ao almirante, mas não o nomeiam. 

(2) Carta da referida data passada çm Rio Maior, nos paços que foram de Rui Garcia 
do Casal, de doação a D. João Afonso Telo, conde de Barcelos, da terra de Santa Maria da 
Feira, Cabanões, Ovar e terra de Cambra, doação ampliada a descendentes legítimos, pois 
que já em sua vida possuia aquelas terras. Encontra-se registada a carta no livro 3.° da 
Chancelaria de D. Fernando, fl. Sg v., com a data certa, e com ela errada no liv. 2.», fl. 99 v. 

(3) Alguns dão-lhe o apelido de Meneses, D. Gonçalo Teles de Meneses, mas é certo 
que com êle o não encontro em nenhum documento. 

(4) Em 1372 por duas cartas, ambas de 22 de Outubro, foi feita doação a Gonçalo Teles 
da terra e castelo de Neiva {Chancelaria de D. Fernando, liv, i.°, fl. 1 13 v.). Em i373, a 16 



Meneses 1 1 1 

destaca-se da perversidade do irmão e da irmã Leonor. Protestou energi- 
camente contra a morte da irmã Maria, maquinada pelos dois e com os seus 
homens de armas perseguiu o Infante assassino. Sendo alcaide mor de 
Coimbra, recusou abrir as portas da cidade à Rainha sua irmã e a el Rei de 
Castela, e pouco depois, em Maio de i384, declarou-se com a cidade pelo 
Mestre de Avis, a quem serviu, capitaneando a armada do Porto e comba- 
tendo nos cercos de Alenquer e Torres Vedras. Aqui, por desconfiança do 
Mestre, foi preso em Janeiro de i385, e remetido para o castelo de Évora 
onde permaneceu sob prisão até iSSy. Durante o cativeiro foi-lhe confiscada 
a casa e alguns bens doados a diversos, como, por exemplo, a terra de Faria 
doada, por carta dada no arraial de sobre Chaves, a i6 de Janeiro de 1424 
(i386), em troca da terra de Lanhoso, a João Fernandes Pacheco, vassalo e 
guarda mor de D. João I (i); e a própria terra de Neiva e Aguiar de Neiva 
doadas no mesmo arraial, por carta de 24 do referido mês, a João Rodrigues 
de Sá, vassalo e camareiro mor (2). É certo porem que, apesar dos rigores 
havidos, não perdeu D. Gonçalo Teles o título de conde. Encontra-se efecti- 
vamente uma carta passada em S. Pedro de Gastei (Agostem), a g de Janeiro 
de 1424 (i386), pela qual D. João I confirmou a João Afonso a doação, que 
em casamento lhe fizera o «Conde D. Gonçalo», do reguengo de Arcos em 
terra de Faria (3). No ano porem de 1387 foi restituído à liberdade e à 
graça dei Rei, que por carta dada nos paços do Curvai, em Castela, a 7 de 
Julho de 1425 (1387), fez doação ao conde D. Gonçalo de todas as terras e 



de Julho, é feita doação dos bens de João de Lobeira a dom Gonçalo Teles, conde de Neiva 
e senhor de Faria (Ibid., fl. 12S). 

Mais alguns documentos relativos a D. Gonçalo Teles, conde de Neiva, não apontados 
no texto : Gonçalo Teles, nosso vassalo, por muito serviço, doação por juro de herdade do 
julgado de' Faria, peia guisa por que o nós ora havemos, Quiaios, 18 de Novembro de 1409 
( iSyi) ; doação da terra de Aguiar de Pena, em pagamento de sua contia, Leiria, 22 de Ou- 
tubro de 1410(1372); doação da terra de Mirandela, do almoxarifado da Torre de Moncorvo 
em pagamento de sua contia, na mesma data; doação do castelo de Leiria, Leiria, 12 de 
Novembro de 14 10 (iSya). Ao conde D. Gonçalo, entrega dos castelos de Valença e Lapela, 
Santarém, i de Julho de 141 3 (iSyS); doação da terra de Vermuim, em pagamento de sua 
contia, na mesma data; doação de Vermuim, 9 de Setembro de 1414 (iSyõ). As freiras de 
Vila do Conde tinham outorgado a jurisdição de Vila do Conde, Póvoa de Varzim, etc, a 
D. João Afonso Telo, conde de Ourem, em sua vida; agora, depois da morte dele, fizeram 
doação da referida jurisdição ao conde D. Gonçalo, e el Rei confirma-lha, em 12 de Agosto 
de 1420 (i3S2). — Chancelaria de D. Fernando, liv. 1.°, íls. 84, 114, 114, ii5v., 171, 170V., iSBj 
e liv. 2.», íi. 92 v., 

(i) Chancelaria de D. João /, liv. 1.°, fi. i5o. 

(2) Archivo histórico portugue^, III, pág. 1 17, doe. uv. 

(3) Chancelaria de D. João I, liv. 1.°, 11. i52 v. 



1 1 2 Brasões 

lugares que ele havia em tempo dei Rei D. Fernando, posto já íôssem dados 
a algumas pessoas de juro e herdade, não embargando cartas nem alvarás 
que sobre isso tivessem essas pessoas (i). Restituído à liberdade serviu o 
Conde a el Rei no cerco de Melgaço, em i388; sobreveio porem depois novo 
desacordo, visto que D. João I, em carta de 3i de Outubro de 1429 (iSgi), 
declara ter confiscado ao Conde por desserviço as suas terras (2). Morreu 
D. Gonçalo Teles a 28 de Junho de 1408 (3). 

Havia ele casado, antes de 23 de Outubro de 1872 (4), com D. Maria 
Afonso de Albuquerque, filha legitimada de D. João Afonso de Alburquerque, 
o do Ataúde, aio e mordomo mor de D. Pedro I de Castela. Sobreviveu a 
Condessa de Neiva muitos anos a seu marido, e ainda era viva em Outubro 
de 1429(3). 

Em atenção a este casamento, e para se distinguirem dos Meneses da 
linha de Vila Rial, formaram os descendentes do Conde de Neiva o escudo 
das suas armas, sobrepondo o escudete de oiro liso, armas antigas da família, 
ao escudo dos Albuquerques. Ficou portanto o -.seu brasão constituído pela 
seguinte forma: esquartelado: o I e IV das armas do reino com um filete 
de negro sotopôsto em barra; o II e III de vermelho, cinco flores de lis de 
oiro; sobre o todo, de oiro liso. Timbre: donzela nascente de encarnação, 
vestida de oiro, segurando na dextra o escudete de oiro liso. 

De D. Gonçalo Teles, conde de Neiva, provieram as casas dos senhores 
e condes de Cantanhede (6 de Agosto de 1479), rnarqueses de Marialva (n 
de Junho de 1661), hoje na casa de Lafões; dos senhores da Ponte da Barca 



( 



(i) Chancelaria de D. João /, liv. 2.", fi. 3. 

(2) Carta de doação de Neiva, Aguiar de Neiva, Darque e outros lugares, que liavia o 
conde D. Gonçalo, a D. Afonso, «meu filho que se ora cria em Leiria» (Liv. 2.0 de D. João I, 
fl. 46). E mais claramente na carta de 8 de Novembro de 140 1 de confirmação ao mesmo 
D. Afonso daquelas terras e doação doutras, diploma em que se lê: «Por quanto o conde 
D. Gonçalo nos desserviu, segundo foi mostrado perante nós e julgado-por sentença, ele foi 
privado das terras que havia dei rei D. Fernando, etc.» — Liv. y.<^> de Doações de D. João III., 
fl. 121, transcrita numa de confirmação. 

(3) Memórias do Cartório de S. Vicçnte de Fora citadas por Gaspar Alvares de Lousada, 
nos seus Sumários da Torre do Tombo, tom. 11, fl. 53 1 mihi. 

(4) Por carta desta data foi legitimada Maria Afonso, filha que foi de D. João Afonso 
de Albuquerque e mulher que agora é de Gonçalo Teles. — Chancelaria de D. Fernando, 
liv. 1.°, fl. 106 V. 

(5) Carta de 17 do referido mês na qual D. João I declara que «a condessa D. Maria 
tinha de nós em sua vida as terras de Azurara e Fão, e ora pediu fizéssemos mercê das ditas 
terras a D. Beatriz de Meneses, sua neta. nossa criada». El Rei anuiu e fez delas doação, 
em sua vida, à dita D. Beatriz, que naquele mesmo ano casou com Aires Gomes da Silva, 
-2.° senhor de Vagos. 



Meneses 1 1 3 

e morgados de Argemil, Freiria e Canidelo, hoje na casa de Vila Nova de 
Souto dei Rei; dos senhores de Alconchel e Formoselha, marqueses de Cas- 
tro Fuerte em Espanha; dos senhores do morgado de Ponte de Sôr, casa 
da Flor da Murta; dos comendadores de Grândola, extintos; dos senhores 
de Oliveira, extinta a varonia; dos condes da Ericeira (i de Março de 1622), 
marqueses de Louriçal (22 de Abril de 1740), ultimamente no Conde de Lu- 
miares. 

Acima ficaram descritas as armas dos descendentes do Conde de Neiva (i); 
posteriormente porem introduziram estes Meneses, no escudete sobreposto, 
a sombra de um anel com um rubi encastoado; e substituíram, no II e III 
quartel, o campo de vermelho por campo de azul, carregando-o somente de 
três flores de lis. O acrescentamento do anel fundou-se na lenda referida, 
que começou a derramar-se no século xvii; e a modificação nos dois quar- 
téis foi para ostentar parentesco, que não existia, com a casa rial de F'rança. 
Destas armas usaram sempre os Marqueses de Louriçal. 

As últimas armas de que usaram os Marqueses de Marialva, chefes destes 
Meneses, foram estas: esquartelado: o i das armas do reino; o II de ver- 
melho, três flores de lis de oiro {Albuquerqiies modificado); o III de verme- 
lho, castelo de oiro, o campo mantelado de prata com dois liôes afrontados 
de púrpura, armados e Hnguados de vermelho, e bordadura de escaques de 
oiro e veiros {Noronhas do Conde de Gijon) ; o IV de oiro, cinco estrelas de 
vermelho (Coutinhos). Sobre o todo de oiro, um anel de vermelho com sua 
pedra (Meneses). Coroa de marquês. Timbre: a donzela já descrita (2). 

A explicação deste acrescentamento nas armas está no facto da casa de 
Marialva ter perdido a varonia dos Meneses na 3.* marquesa, D. Joaquina 
Maria Madalena da Conceição de Meneses, que casou em 17 12 com D. Diogo 
de Noronha, filho segundo dos 3.°^ Marqueses de Angeja. Por esta forma 
nas duas principais casas dos Meneses, a de Marialva e a de Vila Rial, veio 
a varonia a ser substituida pela dos Noronhas. , 

Dos 3.°* Marqueses de Marialva foi filho primogénito D. Pedro de Alcân- 
tara de Meneses Coutinho, 4.° marquês de Marialva e 6." conde de Canta- 



(i) Advirto porem que nem todos os descendentes do Conde usaram daquelas arnnas, 
sem diferença. D. Fernando de Meneses, 2." senhor de Cantanhede, mordomo mor da rainha 
D. Isabel, trazia por armas o escudo partido: o I das quinas do reino sem a bordadura; o 
II de vermelho, cinco flores de lis de oiro; e sobreposto um escudete de oiro liso. Assim 
se puseram na sua sepultura em Vila do Conde. 

(2) Assim se vêem pintadas em duas floreiras, que tenho, pertencentes ao grande ser- 
viço de loiça da índia da casa de Marialva, o qual foi vendido em leilão depois da morte do 
penúltimo Conde de Linhares. 

VOL. I i5 ? 



114 Brasões 

nhede, o qual, casando com D. Eugenia Mascarenhas, filha dos 3.°^ Condes 
de Óbidos, teve, alem doutros, os seguintes filhos: 

i." — D. Diogo José Vito de Meneses Coutinho, 5.° marquês de Marialva, 
pai do 6.° e último Marquês, falecido em i823, da Duquesa de Lafões, se- 
nhora da casa por morte do irmão, da Marquesa de Loulé, mãe do i.° Du- 
que, e da Marquesa de Louriçal, que faleceu viúva e sem filhos do último 
Marquês. 

2." — D. Manuel José de Noronha e Meneses, conde dos Arcos (carta de 
21 de Março de 1769) pelo seu casamento com a 7.* condessa, D. Juliana 
Xavier de Noronha. E este o tristemente célebre Conde dos Arcos, que 
morreu em 1779 em Salvaterra numa toirada, facto que Rebelo da Silva com 
a sua pena de oiro imortalizou. Foi bisavô do último Conde dos Arcos fa- 
lecido em 1892, e do finado Conde de Vila Nova da Cerveira, e terceiro avô 
da 7.* Condessa de S. Miguel, morta em 9 de Dezembro de 1898 sem deixar 
filhos, e da Viscondessa de Trancoso, já antes falecida, em 1874, deixando 
filhos nos quais está a representação das casas dos Arcos e S. Miguel. 

3." — D. António Luís de Meneses, marquês de Tancos (carta de 14 de 
Abril de 1793) por ser casado com a 3.* marquesa, D. Domingas Manuel de 
Noronha, 9.'^ condessa da Atalaia. Seu filho mais velho foi o último Mar- 
quês de Tancos (1), pai do último Conde da Atalaia, e avô de D. Duarte Ma- 
nuel de Noronha, representante da casa. Um dos filhos segundos dos 3.°* 
Marqueses de Tancos foi o i.° Marquês de Viana (2), pai do 2.° e último 
Marquês, falecido em 1890 e ainda bem lembrado pelas suas faustuosas fes- 
tas no palácio do Rato, que por compra passou ao Marquês da Praia e Mon- 
forte. Outro dos filhos segundos foi o i.° Conde de Seia (despacho de i3 
de Maio de 1820), também possuidor de avultada fortuna e de um palácio 
nas pToximidades do largo do Rato, na rua da Escola Politécnica, esquina da 
rua do Arco. Do i.° Conde de Seia foi filho o 2." e último Conde, o qual, 
apesar de ter nascido bem rico, morreu pobríssimo, ainda no século xix, me 
parece. Nestes ramos segundos da casa da Atalaia os apelidos eram Ma- 
nuel de Meneses, ao passo que na linha primogénita se conservavam os de 
Manuel de Noronha; as armas porem de todos eles eram as mesmas, as dos 
Manueis. 

4." — D. Rodrigo José António de Meneses, i.° conde de Cavaleiros por 



(i) Desde 1899 para cá houve mais dois Marqueses de Tancos, o 5." e o 6.°, um já f«- 
lecido, D. Duarte Manuel de Noronha, que, sendo miguelista, reconheceu a monarquia cons- 
titucional, e seu filho, que vive no estrangeiro 

(2) Conde de^Viana, por carta de i3 de Maio da 1810, marquês, carta de 3 de Julho de 

1^21. 



Meneses ^ ^ ^ 

carta de 29 de Novembro de 1802. " Havia casado com D. Maria José Fer- 
reira de Eça, senhora da casa de Cavaleiros, que morreu em 1796, e era 
filha única de Gregório Ferreira de Eça, ii.*^ senhor da referida casa, e de 
sua segunda mulher D. Isabel de Bourbon. Houve mais dois Condes de Ca- 
valeiros: o 2.% filho do i.% e o 3.^ sobrinho do 2.% filho de um seu irmao. 
Esta casa também deu um Conde à da Lousa, sem descendência porém, bem 
como a não tiveram nem o 2.», nem o 3.° Conde de Cavaleiros, falecido em 

1881. . . .^ j • • 

Gregório Ferreira de Eça, acima nomeado, havia sido casado em primei- 
ras núpcias com a condessa Luisa Gera, dama camarista da rainha D. Mana 
Ana de Áustria, e em virtude deste casamento teve ele mercê, por alvará 
de 3o de Janeiro de 1741, do tratamento de senhoria (i). O apelido da Con- 
dessa encontra-se geralmente aportuguesado em Guerra, e assim foi escrito 
na sua sepultura, na igreja da Misericórdia de Óbidos, no pavimento, em 
frente do altar mor e logo abaixo do degrau do cruzeiro. Sobre a lapida 
está gravada esta inscrição, copiada por mim em 19 de Agosto de 1894: 

Aqvi Despojada da vida ao Fai- 
al GOLPE da morte DeSCANCA O 
CORPO DA IlS."-^ CoND.* D. Lu 

izA Guerra Damma Cammr.^* 

Da r.* n. snr.'^ d. marlvnna 

De Austrl\. Em 28 De Abril 

De 1748. 

Pela parte de cima do epitáfio vê-se o brasão da Condessa gravado pela 
seguinte maneira: escudo carregado de uma cruz acompanhada, no I e IV 
cantão, de um forcado espetado num pequeno cabeço, e no II e III, de uma 
armação de veado. Sobre o escudo dois elmos coroados, tendo no de dextra 
por timbre o móvel do I cantão entre duas azas, e no de sinistra um busto 
de mulher, segurando na cabeça uma torre sobrepujada de uma armação de 

veado (2). ' . - . • - 1 

Na matriz de Cantanhede, na capela do Santíssimo, estão dois túmulos 
de pedra lavrada, e debaixo de um deles escreveram: Esta sepultura he de 
D João de Meneses Sottomayor e de D. Margarida da Silva sua m.''' a 
qualfalleceu a 27 dias de Novembro de 1546. Junto à mesma vila, na ca- 



(i) Gaveta de Lisboa de q de Fevereiro de 1741. ' 

(2) São quási as armas dos Barões de Gera, austríacos, como se pode verificar no Ar- 
moriai general de Rietstap, vol. n, pág. 761. 



1 1 6 ' Brasões 

pela de Nossa Senhora da Misericórdia da quinta da Varizela, puseram sobre 
uma sepultura este epitáfio: Aqui ja\ D. Jorge de Meneses, Senhor da Villa 
de Cantanhede, falleceti em a sua ínlla de Tancos ao primeiro dia de Março 
de i532 a. (i). 

Da casa de Marialva foi ramo ilustre a dos Condes da Ericeira, Marque- 
ses de Louriçal. 

O i.° conde da Ericeira foi D. Diogo de Meneses por carta de i de 
Março de 1622. Era mordomo e gentil-homem da boca de- Felipe IV, que 
por lhe ser afeiçoado, e pelos seus serviços lhe deu a grandeza. A D. Diogo 
sucedeu seu sobrinho D. Fernando de Meneses, 2.° conde da Ericeira (carta 
de 1 1 de Abril de 1646), governador e capitão general de Tânger, de que 
escreveu a história. Teve uma única filha, D. Joana de Meneses, que casou 
com seu tio D. Luís de Meneses, 3.° conde da Ericeira (carta de 26 de setem- 
bro de 1669), o do Portugal restaurado, vedor da fazenda de D. Pedro II 
e seu bem conceituado ministro. Deste foi filho o 4.° conde, D. Francisco 
Xavier de Meneses, o poeta da Henriqueida, e neto o 5.° conde, D. Luís de 
Meneses, duas vezes vice rei da índia, e i." marquês de Louriçal por carta 
de 22 de Abril de 1740. Foi pai do 2.° e do 3." Marquês de Louriçal, e avô 
do 4.° e último, que morreu a 3 de Junho de 1844, passando os morgados da 
casa para seu parente o 4.° conde de Lumiares, José Manuel da Cunha Faro 
e Meneses, avô do 7." e último falecido a 9 de Dezembro de 1908. 

Alguns fidalgos da casa de Louriçal foram sepultados na capela mor da 
matriz de Santiago da mesma vila. Transcreverei os seus epitáfios, segundo 
informação do meu- falecido amigo Aníbal Fernandes Tomás, enviada da Fi- 
gueira da Foz em carta de 12 de Agosto de 1903. No cruzeiro, do lado da 
epístola: Aqvi ia^ Dom Diogo de Meneses em / deposito ate se lhe fa\er esta 
capela / falec£o a 7 dagosto era de i55g. / Da mesma banda Jaz sua mulher: 
S. de Dona Violante de Castro inolher de D. Diogo de Meneses f. a 3o (?) 
de maio era de j5y8 {2). No mesmo cruzeiro, do lado do evangelho: S. de 
Dona Isabel de Castro em deposito. Na capela. mor do lado da epístola: 
S. de Dona Isabel de Castro Jilha de D. Diogo de Meneses e de D. Violante 
de Castro f. a 10 de abril na era de iSjj em deposito (3). Do lado do 
evangelho: S. de D. Francisco de Meneses f.° de D. Diogo de Meneses e de 



(i) P. Luís Montês Matoso, Memorias Sepulchraes, fls. 107 v. e 108. 

(2) Nas Memorias Sepulchraes, do P. Luís Montês Matoso, fl. 114, encontra-se esta ins- 
crição com alguma variedade : . . . Faleceu em Lisboa era de iSyS, em vez do que está na 
texto. 

(3) Variante nes^e epitáfio : . . . Falleceu em Lisboa em Abril na era de iSjg ... 



Meneses 1 1 7 

D. Violante de Castro . . . f. a ... de fevereiro de j5y5 (i). Nestas inscri- 
ções, ao meio delas, estão esculpidos brasões dos Meneses, numas, e noutras, 
dos Castros de seis arruelas. 

Aquela D. Isabel de Castro, nora de D. Diogo de Meneses, enterrada na 
igreja do Louriçal, era filha de Álvaro Peres de Andrada, senhor do mor- 
gado da Anunciada, o qual lá mais adiante nomearei, por ter sido chefe da 
distinta família daqueles Andradas, de cujos dotes literários, bem como da 
casa, foram herdeiros os Condes da Ericeira. 



IV 

CASAS DE VILA RIAL E TAROUCA 

D. João Afonso Telo, filho segundo de D. Afonso Martins Télo, como se 
referiu na pág. 108, foi grande valido de D. Pedro I e D. Fernando. D. Pe- 
dro, de quem foi alferes mor, fê-lo conde, solenizando este acto com festas, 
que ficaram famosas^ e dando-lhe em seguida o senhorio de Barcelos por 
carta de 10 de Outubro de iSôy (2). D. Fernando, em cujos diplomas ele é 
intitulado fiel conselheiro, acrescentou-lhe muito os bens (3) e criou-o conde 



(i) Variante neste epitáfio : ... de Castro. Doutor em Theologia. Falleceu em Lisboa de 
32 annos em . . . 

(2) Chancelaria de D. Pedro I, liv. i.", fl. i5. 

(3) Lançarei aqui a indicação de vários diplomas relativos a D. João Afonso Telo, altm 
dos apontados no texto : ao conde D. João Afonso, doação da lezíria do Galego no almoxa- 
rifado de Santarém, i de Agosto da era de 1405 (iSõy); a D. João Afonso, conde de Barce- 
los, doação de Torres Novas e seu termo, em Santarém a 25 de Janeiro de 1408 (iSyo); a 
D. João Afonso Telo, conde de Barcelos, nosso vassalo 'e nosso mui fiel conselheiro, doação 
da jurisdição da honra de Britiande, em Coimbra a 5 de Julho de 1403 (iSóy); doação do 
padroado de S. Lourenço do Bairro, para si e sucessores, em Santarém a 12 de Junho de 
1406 (i36S); doação para si e sucessores da terra de Paos, em terra de Nóbrega, em Lisboa 
a 5 de Outubro de 1406 (i368); doação para si e sucessores do quinhão rial e direitos da 
aldeia de Ois ásx Ribeira, Requeixo, etc, em Coimbra a 22 de Setembro de 1407 (1369) ; nova 
doação da lezíria do Galego, agora para si e sucessores, em Lisboa a 17 de Julho de 1409 
(1371); doação da vila de Peral, para si e sucessores, em Lisboa a 17 de Julho de 1409(1371); 
doação da vila do Cadaval, para sie sucessores, em Tentúgal a i de Dezembro de 1409 (1371); 
doação pelos seus muitos serviços a el Rei, a seu pai, e à casa de Portugal, da vila de Ançã 
para si e sucessores, em Tentúgal a i3 de Dezembro de 1409 (1371); a D. João Afonso Telo» 
conde de Barcelos, nosso vassalo, doação do julgado de Freitas, terra de Guminhães, etc* 
em Braga a i5 de Agosto de 1410 (1372). — Chancelaria de D. Fernando, liv. i.<», fls. i5 v. 
5o V., 14 v., 28, 33, 46, 70, 76, 89, 88 v., 1 10 v. 

Ainda apontarei mais estes dois : ao concelho e moradores de Barcelos, a rogo de D. João 
Afonso Telo, conde da dita vila, dá-lhes por termo os julgados de Penafiel de Bastos (Bas- 



1 1 8 Brasões 

de Ourem, título com que se encontra em um documento de 25 de Dezembro 
de iSyi (i) e em alguns outros. Por carta de 5 de Janeiro do ano prece- 
dente tinha-lhe el Rei, na verdade, feito doação da vila de Ourém, mas fora 
em pagamento de sua contia e não pelo ter feito conde (2). 

Morreu o Conde de Ourem e Barcelos pelo Natal de i38i, segundo 
afirma Fernão Lopes (3), e assim deverá ter sido, porque a 27 de Janeiro 
de 1882 Já o sobrinho do mesmo nome era conde de Barcelos, como acima 
ficou dito. Deixow viúva a D. Guiomar Lopes, que ainda vivia em Agosto 
de 1404 (4). A Condessa era filha de Lopo Fernandes Pacheco, senhor de 
Ferreira, e de sua mulher D. Maria de Vilalobos (5), filha do rico homem 
D. Rui Gil de Vilalobos. 

Os Condes de Ourem foram sepultados na capela mor da igreja da Graça 
de Santarém, e no meio do pavimento está uma lápida com este letreiro: 



tuço) e o couto de BoigeSo, em Coimbra a 5 de Fevereiro de 1410 (1372); aos moradores 
de Vila do Conde, lugar do conde D. João Afonso, nosso vassalo e nosso fiel conselheiro, 
e a sua petição, isenção da portagem, costumagem e passagem de nenhumas mercadorias 
suas 'que eles levarem ou trouxerem, em Coimbra, na mesma data. — Ibid., fl. 94. 

(i) Carta de doação da quinta de Vilarinho apar de Coimbra. — Chancelaria deD.Fer- 
nandoy liv. i.° fl. i55. 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.", fl. 52. 

(3) Chronica de D. Fernando, cap. 134. 

{4) Por carta de 22 de Agosto de [442 (1404) foi dada quitação à condessa D. Guiomar 
do resto do preço da quinta da Palma comprada por seu rtiarido em tempo de D. Fernando. 
— Chancelaria de D. João I, liv. 5 °, fl. 38 v. 

(5) Estão sepultados os dois cônjuges na capela de S. Cosme c Damião da Sé de Lisboa, 
em dois sarcófagos encostados às paredes laterais, com as suas figuras jacentes sobre as 
tampas. Na parede superior ao túmulo de Lopo Fernandes, numa lápida nela embutida, 
lê-se este epitáfio : Aqi: ia^: Lopo: Fernâde\: Pacheco: senhor: de/Fereira: e: moordomo: 
moor : do: ifant: do I ni: Pedro: e: chãceler: da: rainha: dona: Bcatr/i^: o qval\: foi: 
inercee : e: feitvra: delrei: dom: Afo/nso: o qrto : e: foi: cõ el: na: lide: q: outie : có : 
elrei d/e: Graada: hu: este: rei : foi : fa-^er : aivda: a: elrei:/dom: Afõso: de: Castela: 
qndo: elrei: de: Banama/hn: tapa: sobre: Tarifa: na: era: de: mil: e: ccc: e:/lxx: 
e: viii: anos: ao: ql : Lopo: Fernãde:^ : foi : enjAuinhon: dada: cõ : grade: hõra: pio: 
papa: Be /nedito: hiía: rosa: douro: que: ele: con: grade : j honra : pos : en: esta: see : 
tanto: q: dalo: chego ju: oqval:foi: casado: con: dona : Maria : filha j de : dom: Rui: 
Gil: de: Vila: Lobos: e: de: don / a : Tareiia: Sanche^: q: foi: filha: delrei: I dom: 
Sancho: de Castela: e foi: en: terra j do: en: este: moiimento: xx : e: dous : dias: /de: 
dejenbro : da : era : de : mil : ccc : e : Ixxx : j e: sete : anos : — Júlio de Castilho, Lisboa an- 
tiga, p. II, tom. Ill, pág. 237. 

Na face do túmulo de Lopo Fernandes vê-se o escudo dos Pachecos : duas caldeiras 
veiradas de três tiras, as azas garguladas de uma cabeça de serpe em cada reigada. Na face 
do túmulo fronteiro esculpiram o brasão de D. Maria, o escudo dos Vilalobos, dois lobos 
passantes sotopostos. 



Meneses 1 1 9 

Aqui iai ho mJ° nobre e vertuoso snor dom ioham afonso tello de meneses 
conde dourem e a muito nobre e vertuosa senõra condesa dona guimar de 
vilalobos bisneta delrei dõ sacho de castelã sua molher os quaes edificarão 
e dotarão este moesteiro. As armas do Conde são um escudo liso (Meneses); 
as da Condessa um escudo partido: no I as do marido; no II esquartelado 
de dois lobos passantes sotopostos (Vilalobos), e de duas caldeiras em pala 
(Pachecos). 

O epitáfio acima transcrito é o lá existente hoje e por mim copiado na 
dia 16 de Janeiro de i885; outro porém veio este substituir na segunda me- 
tade do século XVII. O mais antigo estava sobre a campa, um tanto levan- 
tada do chão, no meio da dita capela e dizia isto: Aqui ja^ o muito nobre, 
e virtuoso BarÕ D. João Afonso Tello de Meneses, Conde de Ourem, que por 
seus grandes merecimetos foi o mais 'pre\ado, e honrado vassalo, que o mui 
claro, e excellente Rei D. Afonso de Portugal o IV. teue, o qual da mui no- 
bre, e virtuosa Condesa D. Guiomar de Villalobos, bisneta dei Rei D. Sancho 
de Castella sua mulher, que aqui nesta presente sepultura está sepultada, 
ouue dousjilhos, que. em sua vida por seus merecimentos for ão feitos Condes; 
o primeiro ouue por nome D. loão Afonso Tello de Meneses, que foi Conde 
de Viana; e o outt^o chamado D. Afonso, que foi Conde de Barcellos; e Ima 
jilha, chamada D. Leonor, casada com D. Pedro de Castro, primogénito de 
D. Aluaro Pire:{ de Castro, o qual D. Pedro ouue da ditta D. Leonor Jilhos 
mui nobres, e honrados, entre os quaes foi a muito l^onrada, e pre'^ada 
D. Guiomar de Castro, Côdessa d'Attougia, que por ser neta lidima do ditto 
Conde, e Condessa, e por herdar, e merecer sua benção os mandou honra- 
damente sepultar (i). A Condessa da Atouguia, na inscrição nomeada, fa- 
leceu em 1473. 

Na mesma página do livro citado ainda se encontra outra inscrição, a da 
fundação do convento: Este mosteiro mandou fa:[er o Conde de Ourem 
D. loão Afôso, e a Condessa D. Guiomar sua mulher, e foi posta em el a 
primeira pedra segunda feira 16. dias do mes de Abril da E. 1418. E o 
ano de Cristo de i38o. 

Apesar de no epitáfio antigo e no Nobiliário do Conde D. Pedro (2) se 
^ornearem por outra ordem, eu entendo que os filhos dos Condes de Ourem 
se devem assentar assim: D. Afonso Telo de Meneses, D. João Afonso Telo, 



(i) George Cardoso, Agiotogio lusitano, tom. i, pág. lyS. Neste livro, escrito e impresso 
•m i65i e i652, aparece ainda este epitáfio antigo, ao passo que na Historia de Santarém 
edificada do P.c Inácio da Piedade e Vasconcelos, escrita «m 1737 e impressa em 1740, já só 
se encontra o epitáfio moderno, na pág. i33 do tom. i. 

(2) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 363. 



120 Brasões 

D. Leonor de Meneses e talvez um D. Telo mencionado apenas no cit. No- 
biliário e sem referência em nenhum documento meu conhecido, não se de- 
vendo todavia hgar fé a uma suposta descendência que alguns genealogistas 
lhe dão. 

De D. João Afonso Telo, conde de Barcelos e de Ourém, provieram os 
Condes de Vila Rial (1424), os quais, com a varonia de Noronha, receberam 
os títulos de marquês (1489), e duque da mesma vila (i385), o de duque de 
Caminha (1620), e os de conde de Alcoutim (1496), e de Valença (1499); ^^ 
Condes de Viana (iSyS e 1460); o de Valença (1464) e Loulé (1471); os Al- 
caides mores de Castelo Branco; os Marqueses de Valada (i8i3)(i), condes 
de Caparica (1793); a varonia dos Marqueses de Olhão (1808), condes de 
Castro Marim (1802); os Condes de Tarouca (1499), os quais, com a varonia 
de Silva, receberam o título de marquês de Penalva (1750); os Senhores de 
Aveiras, Condes da mesma vila com a varonia de Silva (1640), e Marqueses 
de Vagos, com a de Câmara (1802); os Alcaides mores de Proença; os Al- 
feres mores do reino, etc. 

D. Afonso Telo de Meneses, filho do Conde de Ourem, foi feito conde 
de Barcelos, em vida de seu pai, por carta de 20 de Março de 1872 (2), ao 
passo que seu irmão, D. João Afonso Telo, só posteriormente foi criado 
conde de Viana, como logo veremos, e por isso, com bom fundamento, julgo, 
o suponho filho segundo. No mesmo dia em que lhe foi dado o condado, 
fez D. Fernando doação a D. Afonso Telo das terras e julgados de Refoios, 
Santo Tirso, Aguiar de Sousa, Lousada, Felgueiras, Vila Boa, Roças, Vieira, 
Lanhoso, Entre Homem e Cávado, e Regalados (3). 

Dá-se todavia um facto digno de nota com o título de conde de Barcelos 
concedido a D. Afonso. O pai, desde 1371 pelo menos, era também conde 
de Ourém, mas encontro-o ainda com o título de conde de Barcelos em do- 
cumentos posteriores à investidura do filho neste condado. Há mais ainda: 
pai e filho foram condes de Barcelos conjuntamente. Nos tempos modernos 
não causaria este facto estranheza nenhuma, mas naquelas eras é singular. 
Consta terem eles sido simultaneamente condes de Barcelos de duas cartas 
passadas em Braga, no mesmo dia, i5 de Agosto de 1410 (1372), uma de 
doação do julgado de Freitas e terra de Guminhães a D. João Afonso Telo, 



(i) As armas dos Marqueses de Valada eram: escudo partido: o I dos Meneses de Ta- 
rouca; o II dos Castros de treze arruelas, tomadas estas pelo morgado de Évora, dos Condes 
úe Basto, seus ascendentes. 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2,°, fl. 28. 

(3) Ibidem, fl. 28 v. 



Meneses 121 

conde de Barcelos, vassalo dei Rei; a outra, de Gondomar a D. Afonso, 
conde de Barcelos (i). 

E pois singular este caso, que só pode ter explicação na menoridade do 
filho, por isso que então o título de conde não era somente honorífico, mas 
abrangia o senhorio da terra e a mesma não podia ter dois senhores. 

Nunca mais sucedeu facto análogo no período decorrido até à ocupação 
dos Felipes, a não ser nos anos de i53o a i534 nos quais existiram simulta- 
neamente duas condessas proprietárias de Loulé*: a infanta D. Guiomar Cou- 
tinho, e sua mãe D. Beatriz de Meneses; mas esta havia anuído a ser o con- 
dado confirmado a sua filha. Muito depois, nos anos de iSgo a 1602, é que 
houve dois Condes de Portalegre, pai e filho, advertindo que este sucedera 
a sua já falecida mãe, que era a proprietária do condado. 

D. Afonso Telo de Meneses, o 5.° conde de Barcelos na ordem cronoló- 
gica, faleceu em vida de seu pai a quem regressou o condado. 

D. João Afonso Telo, segundo filho do Conde de Ourem, já era certa- 
mente conde de Viana do Alentejo em 10 de Abril de 1376(2), ainda em 
vida de seu pai, e talvez antes de Março de 1373 (3). Em i382 sucedeu em 
parte da casa paterna (4), mas não nos condados de Barcelos e Ourem, da- 
dos, respectivamente, ao almirante D. João Afonso Telo e ao valido João 
Fernandes Andeiro. Casou o Conde de Viana com D. Maior de Portocar- 
reiro, filha de João Rodrigues de Portocarreiro, senhor de Vilarinho da Cas- 
tanheira e, segundo dizem, de Vila Rial. Morreu o Conde em princípios 
de i384, na sua vila de Penela, assassinado pelos seus vassalos por seguir 
o partido de Castela (5). Não sei onde fosse sepultado, nem tenho a certeza 
de que armas usou, mas inclino-me a supor que já tivesse adoptado as abaixo 
descritas. 



(i) Estão registadas ambas as cartas na fl. no v. do liv. i.° da Chancelaria de D. Fer- 
nando. 

(2) Carta dessa data de mercê da alcaidaria de Beja em pagamento de sua contia. — 
Chancelaria de D. Fernando, liv. i."> fl. 192. 

(3) Fernão Lopes, Chronica de D, Fernando, cap. 82. 

(4) Carta de i5 de Julho de 1420 (i382) de doação ao Conde de Viana, filho do Conde 
de Ourem, ora falecido, do senhorio da honra de Canaveses e Britiande, para o qual fora 
escolhido pelos habitantes. — Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.", fl. qS. 

Relativos ao Conde de Viana ainda encontro mais estes documentos : D. João, conde 
de Viana, mercê dos direitos riais da vila da Lousã, em prestamo, 17 de Fevereiro de 1415 
(1377); Conde de Viana, alcaide de Beja, mercê dos direitos riais da alcaidaria da dita vila, 
em preço de trezentas e cinquenta libras que tem em tença, 14 de Janeiro de 1419 (i38i). 
— Chancelaria de D. Fernando, liv. 1.°, fl. 200, e liv. 2,", fl. 74 v. 

(5) Fernão Lopes, Chronica de João I, II, 5o. 

V©L. I 16 



122 



Brasões 



Do Conde de Viana foi sucessor seu filho D. Pedro de Meneses, i.° conde 
de Vila Rial e 2.° de Viana. Está este assim mesmo sepultado na Graça 
de Santarém em sumptuoso mausoléu, com duas figuras de vulto deitadas 
sobre ele, e muitos ornatos, e brasões. Deste túmulo consta que as armas 

do 1.° Conde de Vila Rial foram: cortado de um 
traço, partido de dois, o que faz seis quartéis: o I, 
III e V [de oiro], dois lobos passantes sotopostos 
[de púrpura] (Vilalobos); o II, IV e VI [de oiro], 
quatro palas [de vermelho] (Lima); e sobre o todo 
de [oiro] liso (Meneses). Timbre: cabeça de cervo 
esfolada, com sua pele, formando esta uma sorte 
de paquife. Tudo melhor se verá no desenho aqui 
reproduzido o qual, em i de Julho de 1899, 
me remeteu de Santarém o meu desditoso 
amigo Alfredo Casimiro de Almeida 
Ferreira, distinto oficial do exército, 
levado pela morte na força da vida. 
A divisa repetida em várias partes 
do mausoléu era o famoso ALEO. 
Inclino-me, como acima disse, a 
que estas armas já tivessem sido ordenadas pelo i.° Conde de Viana, de 
quem o filho as derivou; e agora irei dar as minhas razoes. 

O novo brasão foi adoptado por estes Meneses, evidentemente, para se 
distinguirem dos outros Meneses de Cantanhede. Para o formarem foram 
buscar as armas das casas com que mais proximamente se haviam aliado. 
A mãe do Conde de Viana era Vilalobos, a avó Valadares, a bisavó Lima. 
A mãe do Conde de Vila Rial era Portocarreiro, a avó Vilalobos, a bisavó 
Valadares, e a terceira avó Lima. Fosse qual fosse dos dois Condes, que 
houvesse adoptado as armas, é certo terem ambos desprezado as de Vala- 
dares por menos notáveis; mas também parece certo, que, se tivesse sido o 
Conde de Vila Rial quem formou o escudo, não precisaria pôr de parte as 
armas de sua mãe, senhora de apelido ilustre, Portocarreiro, para ir lá tam 
atrás escolher as da sua terceira avó. E esta exclusão ainda mais injustifi- 
cada seria no Conde de Vila Rial, por ser éle neto materno de João Rodri- 
gues Portocarreiro, que havia sido senhor daquela vila (i). 




(i) Em muitas memórias encontro João Rodrigues Portocarreiro intitulado senhor de 
Vila Rial ou de Panoias, em cujo distrito se continha aquela vila; mas a verdade é que ena 
documentos nenhuma referencia a tal senhorio me aparece. D. Fernando fez doação, por 
jur de herdade, a João Rodrigues Portocarrôiro, seu vassalo, por serviço que lhe fizera, em 



Meneses 1 23 

O I ." Conde de Vila Rial teve um filho bastardo, D. Duarte de Meneses, 
3." conde de Viana, como geralmente é designado, mas na verdade i.° conde 
de Viana do Minho, na sua geração, pois que os outros dois o foram de 
Viana do Alentejo. De D. Duarte vieram os Condes de Tarouca e outros; 
c tanto este conde D. Duarte, como todos os Meneses dêle descendentes, 
usaram das mesmas armas do conde D. Pedro de Vila Rial, e por isso a este 
escudo se chama ordinariamente o dos Meneses de Tarouca. 

Teve porem o Conde de Vila Rial uma filha legítima; D. Beatriz de Me- 
neses se chamou e foi mulher de D. Fernando de Noronha, 2.' conde de Vila 
Rial. Desde este casamento, os sucessores, chefes da casa, Condes e Mar- 
queses de Vila Rial, sobrepuseram o escudo das armas do i.° Conde ao dos 
Noronhas, ficando assim constituído o brasão: esquartelado: o I e IV das 
armas do reino, com um filete de negro sobreposto em barra, o qual ger-al- 
mente esquecia; o II e III de vermelho, castelo de oiro, o campo mantelado 
de prata com dois liões batalhantes de púrpura, armados e linguados de ver- 
melho (Noronha). Sobre o todo, escudete partido de um traço cortado de 
dois, o que faz seis quartéis: o I de azul, estoque de prata, empunhado de 
oiro, posto em pala; o II, IV e VI de oiro, quatro palas de vermelho (Lima); 
o III e V de oiro, dois lobos passantes sotopostos de púrpura (Vilalobos). 
Sobre o todo do todo, de oiro liso (Meneses) (i). Advertirei que o estoque 



guarda e defensão dalguns lugares do reino, em que o mandara estar por fronteiro, da vila 
e castelo de S. Felizes dos Galegos, com toda a jurisdição, pela guisa que os havia D. João 
Afonso de Albuquerque com D. Isabel sua mulher, etc. Golegã, i5 de Maio de 1408 (1370). 
Também por jur de herdade lhe deu: no Porto, em 20 de Janeiro de 1410 (1372), a vila de 
Vilarinho da Castanheira; na Lourinhã, a 17 de Novembro de 1413 (i375), para êle e her- 
deiros, as terras de Ferreiros e Tendais {Chancelaria de D. Fernando, liv. 1.°, fls. 61, 92 v. e 
i8á v.); alem de muitas outras terras dadas em pagamento de suas contias; mas, nem por 
doação hereditária, vitalícia ou temporária, me consta ter-lhe feito mercê de Vila Rial. 

(i) As armas do Marquês de Vila Rial_encontrcim-se pintadas no Livro do Armeiro mor, 
fl. 46, e no Livro da Torre do Tombo, fl. 9. Descrevêl-as-hei como vêem no segundo, e entre 
parêntesis darei as variantes do primeiro. 

Escudo pendido e esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de azul postos em 
cruz, carregados cada um de cinco besantes do campo, bordadura de vermelho carregada 
de oito (doze) castelos de três torres de oiro, diferençado (não tem diferença) por um filete 
de negro em banda; o II e III de vermelho, castelo de três torres de oiro, o campo mante- 
lado de prata com dois liões batalhantes de púrpura, armados e linguados de vermelho (da 
mesma púrpura), bordadura de escaques de oiro e veiros de dezoito (vinte) peças. Sobre 
o todo : escudete partido de dois e cortado de um traço, que faz seis quartéis : o I de azul, 
estoque de prata, empunhado de oiro (gotado de sangue), posto em pala; o II, IV e VI de 
oiro, quatro palas de vermelho; o III e V de oiro liso (de oiro, dois lobos passantes de púr- 
pura). Sobre o todo do todo : escudete de oiro liso. Elmo de oiro (guarnecido de pedraria 
€ de esmalte verde), aberto, de três quartos, forrado de vermelho. Coroa de oito (vinte) flo- 



124 Brasões 

era privativo unicamente do senhor da casa, na qualidade de capitão here- 
ditário de Ceuta; e mais advertirei ainda que só aquele e o seu imediato 
sucessor se apelidavam de Meneses, usando todos os mais membros da fa- 
mília do apelido e armas de Noronha. Assim o fizeram os Condes de Li- 
nhares, antigos; e, se os Condes de Valadares, apesar de trazerem o apelido 
de Noronha, adoptaram as armas do chefe da casa de Vila Rial, sem o es- 
toque todavia, foi para afirmarem o direito que se arrogavam de sucessores 
dela. 

Recapitulando temos: primeiras armas, escudo liso dos Meneses; segun- 
das armas, Meneses, Vilalobos e Limas; terceiras armas, Meneses, Vilalobos, 
Limas e Noronhas; quartas armas, as terceiras, tendo no I quartel um es- 
toque. — Das primeiras usaram todos os Meneses antigos, e nesta linha so- 
mente o seu progenitor, o í." Conde de Ourem; das segundas usaram o 
i." Conde de Viana, o i.° Conde de Vila Rial, o conde D. Duarte,' e por 
este todos o^ Meneses chamados de Tarouca; das terceiras usaram os Me- 
neses descendentes do 2.° Conde de Vila Rial e os Noronhas da casa de 
Valadares e seus ramos, e não usaram delas os Noronhas, Condes de Li- 
nhares, apesar de virem do mesmo tronco; e das quartas só usaram pessoal- 
mente os Marqueses de Vila Rial, o Duque da mesma vila, e o i.° Duque 
de Caminha. 

D. Leonor de Meneses, filha dos 1.°^ Condes de Ourem, acima nomeada, 
casou com D. Pedro de Castro, senhor do Cadaval, e foi sepultada na igreja 
da Graça de Santarém, na capela do lado do evangelho, no cruzeiro da 
mesma igreja. Metida na parede debaixo de um arco, e também do lado 
do evangelho, está uma sepultura de mármore preto, e no vão do arco por 



rões (pequenos). • Paquife de prata, forrado de azul. Virol de prata e azul (não tem virol). 
Timbre: Hão nascente de púrpura, armado e linguado de vermelho (não tem timbre). 

Posteriormente houve um curioso atrevido que lançou sobre o I e IV quartéis do es- 
cudo outro filete de negro em barra. 

Nos dois citados livros, na fl. 48 de um e na 9 v. do outro, estão as armas do Conde de 
Valença, mas não são elas as do primogénito do Marquês de Vila Rial, ainda que já desde 
1499 andasse aquele condado na sua casa ; mas sim as de D. Henrique de Meneses, que havia 
sido conde de Valença por carta de 20 de Julho de 1464, e conde de Loulé, em 12 de No- 
vembro de 1471. São elas: escudo pendido, cortado de um traço, partido de dois, que faz 
seis quartéis: o I, III e V de oirOj dois lobos passantes de púrpura, armados de vermelho 
(de púrpura), e linguados do mesmo; o II, IV e VI de oiro, quatro palas de vermelho. Elmo 
de prata (de oiro), guarnecido de oiro (de esmaltes vermelhos e verdes), aberto (cerrado), 
posto de três quartos, forrado de azul. Paquife de oiro, forrado de vermelho. Virol de oiro 
e vermelho (não tem virol). Timbre : um dos lobos (não tem timbre). Correia de azul (per- 
filada de oiro). 



Meneses i25 

cima dela este letreiro: Aqui ja\ dona Honor de meneses Jilha de dom Joham / 
afonso tello de meneses conde dourem e da condesa / dona guiomar que edi- 
ficara este moesteiro a quall foe / molher de dô pedro de castro Ji lho de dõ 
alv^ perei de castro cõde / de rrayollos prim^° côde st abre de portugal e 
ouve dela estes /filhos dÔ iohã e dô fernãdo e dona isabel e dona guiomar / 
esta senhora dona guiomar majidou fa:{er esta sepultura a sua madre. 

Na parede por cima do arco tem um escudo partido: o I com seis arrue- 
las (Castros); o II liso (Meneses). 

A senhora D. Guiomar, que mandou fazer a sepultura, é a mesma 
D. Guiomar de Castro, condessa da Atouguia, acima nomeada. 

Do Conde de Viana foi sucessor, como já declarei, seu filho D. Pedro de 
Meneses. E o famoso conde D. Pedro, i.° capitão de Ceuta, de quem Azu- 
rara escreveu a Chronica. 

Após o assassínio de seu pai, em princípios de 1884, parece ter D. Pedro 
de Meneses passado com sua mãe para Castela, onde D. João I o fizera 
conde de Ilhó, título nunca reconhecido em Portugal (i). Tornou para a 
pátria chamado por D. João I e já cá se encontrava em 1407 (2). Serviu, 
como alferes do infante D. Duarte, na expedição de Ceuta e lá ficou, na 
recêm-conquistada cidade africana, encarregado, na qualidade de capitão e 
governador, de a guardar e defender. Em Ceuta permaneceu dessa vez por 
mais de oito anos, só tornando a Portugal em princípios de 1424. Recebeu 
então de D. João I o título de conde de Vila Rial, com o qual já se encontra 
numa carta régia de 14 de Fevereiro daquele ano (3). Em Maio de 1433 já 
D. Pedro de Meneses era conde de Viana (4) e em princípios do ano se- 
guinte, já seu genro D. Fernando de Noronha era conde de Vila Rial (5), a 
quem, com aprazimento do sogro, foi dado o senhorio desta vila por carta 



(i) Gomes Eanes de Azurara, Ciironica do Conde D. Pedro^ pág. 52 1. 

(2) Instrumento de i de Março de 1445 (1407) pelo qual comprou a quinta de Pousa- 
foles a João Lourenço de Penela. — Chancelaria de D. Duarte, liv. i.", fl. 87 v. 

(3) Carta de confirmação da lezíria do Galego, em Santarém. — Chancelaria de D. João I, 
liv. 4.», fl, 66 V. 

(4) Carta de 8 de Maio daquele ano, ordenando a Fernão Lopes, guarda das escrituras 
da Torre do Tombo, que desse a D. Pedro de Meneses, conde de Viana e senhor de Vila 
Rial, almirante do reino, alferes do Infante e capitão e governador de Ceuta, traslado de 
quaisquer escrituras pertencentes ao Almirantado. Sousa, Historia genealógica, IV, 3i-32, 
em extrato, com a citação certa, e por extenso, com ela errada, no tom. i das Provas^ 
pág. 95. 

(5) Carta de 12 de Janeiro de 1484 de confirmação do dote de sua mulher. — Chancelaria 
de D. Afonso V, liv. 34.% fl. 63 v. 



126 Brasões 

de 27 de Setembro do mesmo ano (i). A carta de conde de Viana só foi 
passada a 17 de Abril, e nela declara el Rei D. Duarte fazer esta mercê ao 
conde D. Pedro, considerando o grande desejo que D. João I tinha de lhe 
dar e doar a dita vila para haver por ela título de conde, como já em outro: 
tempo tivera seu pai; mas que, por ela pertencer às Capelas de D. Afonso IV^H 
entendeu não poder dispor do seu senhorio sem autoridade do Papa, que só] 
agora lha deu (2). Era pois esta vila de Viana a do Alentejo e não a do' 
Minho, da qual, em 1460, veio a ser conde D. Duarte de Meneses, filho legi- 
timado de D. Pedro de Meneses. Tem havido confusões sobre estes conda- 
dos de Viana, e para as desfazer e por ser interessante e característica dos 
tempos a história do condado de Viana do Alentejo, lá adiante a narrarei. 

Exerceu também as funções de almirante do reino, tendo havido o almi- 
rantado em dote com sua terceira mulher, filha do almirante Carlos Pessa- 
nha, a quem, por do casamento da fiilha não ter ficado descendência, regressou 
o almirantado, como consta da carta de 1 1 de Novembro de 1448 de confir- 
mação dele a micé Lançarote, neto de Carlos (3). Igualmente serviu de al- 
feres mor a D. Duarte e veio a morrer, ao cabo de vinte e dois anos de ca. 
pitão de Ceuta, a 22 de Setembro de 1437 (4). 

Casou por quatro vezes, ou para melhor dizer, por três, visto que de uma 
vez o casamento não se chegou a ultimar. A primeira foi com D. Margarida 
de Miranda, que jaz no mesmo túmulo com o marido, e a quem o epitáfio 
dá o título de condessa, não sei se acertadamente. Era filha de D. Martinho 
de Miranda, arcebispo de Braga. Depois, em 1420, desposou-se com D. Fe- 
lipa Coutinho, filha do marichal Gonçalo Vasques Coutinho. Este casamento 
porém não se chegou a consumar, porque a noiva, vindo ter com ó marido 
a Ceuta, morreu no mar pouco afastada da costa do Algarve (5). 

A segunda mulher de D. Pedro de Meneses foi D. Beatriz Coutinho, com 
quem casou em 1426, precedendo contrato de casamento lavrado em Sintra 
a 17 de Agosto de 1426, «nos Paços dei Rei D. João, na casa em que ora 
pousa D. Beatris Coutinha, casa que é dentro no curral dos ditos Paços, es- 
tando hi o Ifante Eduarte, e o Ifante D. Henrique e o Ifante D. Fernando^ 
e peça de Ricos-homens, Cavaleiros e outros». Lavrada e lida a escritura, 
foi chamado D, Fr. Lourenço, Bispo de Mayorgas, e celebrou o casamento, 
sendo o Conde, que estava governando Ceuta, representado por seu procu- 



(i) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.°, fl. 84. 

(2) Ibidem, fl. 88. 

(3) Liv, de ExtraSy fl. io5 v. 

(4) Epitáfio de sua sepultura e Azurara, Chronica do Conde D. Pedro, cap. final. 

(5) Azurara, Chronica do Conde D. Pedro, pág. 496. 



Meneses 127 

raclor(i). Era D. Beatriz a mais velha das duas filhas de Fernão Martins 
Coutinho, senhor de Mafra e outras terras pelo seu casamento com D. Leo- 
nor Lopes de Sousa, filha legitimada do mestre de Cristo, D. Lopo Dias de 
Sousa. Por morte de Fernão Martins Coutinho, e depois de porfiada de- 
manda, herdou a Condessa de Vila Rial, sua filha, duas partes da vila de 
Mafra e a Enxara dos Cavaleiros, terras que passaram a sua filha D. Isabel 
Coutinho, mulher de D. Fernando de Vasconcelos e mãe do i." Conde de 
Penela. A condessa D. Beatriz foi mandada lançar por seu marido no seu 
túmulo. 

A terceira mulher foi D. Genebra, com quem Já estava casado em 8 de 
Maio de 1433 e com quem houve em dote o almirantado (2). Era filha do 
almirante micé Carlos Pessanha e irmã de D. Beatriz Pereira, mulher de Rui 
de Melo que também foi almirante por morte de seu filho micé Lançarote. 

Já lá acima me referi ao soberbo mausoléu de D. Pedro de Meneses, 
i." conde de Vila Rial e 2.° de Viana, na igreja do convento da Graça de 
Santarém. Estava este túmulo no fim do cruzeiro do lado da epístola, 
onde depois se erigiu a capela de Santa Rita quando se passou o mausoléu 
para debaixo do coro, à parte esquerda de quem entra pela porta principal. 
Tem duas figuras de vulto jacentes sobre a tampa, e nas faces laterais, 
muito ricas em ornatos, vêem-se várias vezes reproduzidos os brasões do 
Conde e das suas duas primeiras mulheres. O do Conde já está descrito; o 
de D. Margarida é um escudo em lisonja, partido, ao I as armas do Conde, 
ao II uma aspa acompanhada de quatro flores de lis (Miranda); e o de 
D. Beatriz, também em lisonja, só difere do precedente em ter no II cinco 
estrelas de cinco pontas (Coutinho). 

Transcreverei a seguir o epitáfio, seguindo uma execelente cópia, que em 
28 de Abril de 1900 me enviou o meu ilustrado amigo António Bernardo de 
Figueiredo, major de artelharia, a quem devi muitos esclarecimentos inte- 
ressantes, que no decurso desta obra serão apontados, pois por ela muito se 
interessou. Faleceu este distintíssimo oficial a 29 de Março de 1902. 

Aqui vai o epitáfio do Conde, desenvolvendo algumas abreviaturas e in- 
troduzindo entre parênteses quadrados as palavras desaparecidas em virtude 
do arrombamento pelo mausoléu padecido em tempo da invasão dos Fran- 
ceses: \Aqui ja^l o muito [honrado] niuy nobre e mui fidalgo s*"" dom P° 
de meneses conde que foi de^ viana o prim° capitã e goveimador que foy na 
cidade de Cepta alferes mor do muito alto mu]ito poderoso e muj''" excel- 



(i) Archivo histórico portugue^, IV, i66. 
(2) Tudo consta de documentos já citados. 



128 Brasões 

lente S°^ dÕ eduarte pella graça de deus rey de portugal e do algar^'^ e S*"" 
da dita cidade. Jilho que foy. de dom Johã a°: tello / / [de meneses: c]onde 
que fof de viana e 5"''; de penella. miranda alvito e vil la nova: e neto que 
foy de dÔ JÕ: a°: tello de meneses: conde que foy dourem e [da condessa 
dona guimar de ferreira sua] fnolher bisneta que foy delrey dÔ sacho de 
castella que este moesteiro edijicarõ: o qual conde dÕ p°: a dieta cidade de 
cep'^ huma soo em africa per xrisptãos possuída cõ / / [muit]a descrisçom: 
xxii anos governou: e contras mouros enfiiees muy esforcadam^^ defendeo: 
e os conquistou, per mar e per terra e fei afastar e per força leixa[r grande 
parte dos termos delia onde por] sua defensam: e per a dieta conquista fe\ 
mintas peleias em ellas sempre vencedor e nunca vencido: de que a dieta 
cidade ouve sempre em seu tempo gloria de vencim^^ ^^11 mouros temor e 
os dietas regnas grande louvor: finou se em a dieta cidade xxii de setemb° 
com seu próprio entender bom e católico xptão: ataa morte muy [esforçado 
cavaleira a seu rey natu]ral muy verdadeira fiel e leal: anna de nosso senor 
de mil iiij'^ xxxvij: mandou consigo lançar a condessa dona briati\ continha 
sua molher: sua sepultura / / mandou fa\er : a muito honrada muy nobre e 
muy honesta senhora dona Honor de ??ieneses sua filha molher que foy do 
muito honrado e nobre S*"* [dom fernando filha da marques de villa v]içosa: 
a qual mandou com o dieta seu padre lançar a condessa dona tn^^ sua ma- 
dre, e assy ja^em todas: nossa S°'' deus lhes queira perdoar amen. // 

A propósito deste túmulo enviou-me o meu querido amigo Visconde de 
Castilho, já hoje falecido, estas curiosas notícias que teve a paciência de co- 
piar: 

«Por cartas de Santarém se tem a noticia, de que abrindo-se no Mosteiro 
dos Religiosos de Santo Agostinho, da mesma Villa, huma sepultura, situada 
no meyo da Capella mór, em que forão sepultados o Conde de Ourem D. João 
AíFonso Telles de Meneses, e a Condessa sua mulher D. Guiomar de Villa- 
lobos, bisneta dei Rey D. Sancho IV.' de Castella, fundadores, e dotadores 
do dito Mosteiro, se achou inteiro o corpo da mesma Senhora, e o lançol 
em que estava envolto, incorrupto, havendo mais de 840 annos, que he fa- 
fecida» (i). 

«Na semana passada se referio com menos certeza, haver-se achado in- 
teiro o corpo da Senhora Condessa de Ourem D. Guiomar de Villa-Lobos, 
e agora se soube, que a sepultura, que se abrio,, não foy a do Conde D. João 
Affonso, mas hum magnifico mausoleo de seu neto D. Pedro de Meneses, 
segundo Conde de Vianna, e primeiro Capitão Governador de Ceuta, onde 



(i) Gazeia de Lisboa, n.° 24, de 14 de Junho de 1725.. 



\ 



Meneses 1 29 

faleceo no anno 1437. e como foy casado duas vezes, e ambas as mulheres 
sé sepultarão com elk, se não pode saber de qual será o corpo, que se achou 
inteiro. Presenceou casualmente a sua abertura o Marquez de Cascaes seu 
oitavo neto» (i). 

A este facto também um escritor contemporâneo se refere, afirmando ser 
o corpo encontrado incorrupto o da condessa D. Beatriz Coutinho, e contan- 
do-nús que ele esteve patente em uma das capelas da igreja por mais de oito 
dias, em quanto se passou o mausoléu para debaixo do coro (2). 

Em campa raza no chão, ao lado do sepulcro do Conde de Viana, com 
figura gravada na pedra, lê-se: Aqui ja^ a muito honrada e nobre senhora 
dona Honor de J7ieneses / molher que foi do muy^° honrado e nobre S°^ dô 
fernando f° primo genjto do m^° honrado presçado e nobre S^'" dÔ fernãdo 
neto delrej dô JÔ marques de / vila viçosa e côde daraiolos filha do m^'^ 
honrado e nobre S'"" dõ / p° de meneses conde de viana alferes mor delrej 
dÕ eduarte capitã e governador que foy na cidade de cepta e almirante 
destes reg°^ / finou em vij dias de mayo do ano de nosso sénior . . . de mil 
Illl' lij. (3) 

Esta foi aquela D. Leonor de Meneses, «molher por certo virtuosa, e de 
grande saber», a quem seu pai deixou por herdeira de todos os bens patri- 
moniais, com o especial encargo de ordenar a sua sepultura; e, depois de 
ter feito por êle celebrar exéquias em Ceuta, trasladou seus ossos para a 
igreja da Graça de Santarém. Não se contentou a sua piedade filial só com 
dar. sumptuosa jazida aos restos de seu pai. Quis também D. Leonor que 
as suas acções ficassem perpetuadas na História, e para isso, junto de Azu- 
rara, encarregado por D. Afonso V de escrever a crónica do Conde de Viana, 
instava ela pelo cumprimento da ordem régia, e o seu «requerimento foi azo 
de se isto melhor escrever» (4). 

Por morte de seus pais suscitaram-se dúvidas entre D. Leonor de Meneses 
e sua irmã a condessa de Vila Rial, D. Beatriz de Meneses; compuseram-se 
porém a fim de evitar demandas e, em Santarém, a 20 de Setembro de 1440, 
outorgaram numa escritura de partilhas, a qual teve confirmação régia em 
21 de Outubro de 1444 (5). Ainda ao tempo era D. Leonor solteira, vindo só 



(1) Gaveta de Lisboa, n.» 25, de 21 de Junho de 1725. 

(2) P. Inácio da Piedade e Vasconcelos Historia de Saniarem edificada, I, 139-140. 

(3) Esta sepultura não é mencionada na obra acima cilada; a cópia da inscrição devo-a 
também ao meu falecido amigo António Bernardo de Figueiredo. 

(4) Azurara, Chronica do Conde D. Pedro, págs. 2 ir, 624 e 626. 

(5) Liv. 3.» de Místicos, fl. 140 v. 

VOL. I . '7 



i3o Brasões 

a casar, em 1447, com D. Fernando, então filho primogénito do Marquês de 
Vila Viçosa, como declara o epitáfio (i), e posteriormente 3." duque de Bra- 
gança. 

Já mencionei, não só as três filhas legítimas do Conde de Viana, como 
também o seu único varão legitimado (2), D. Duarte de Meneses. Como seu 
pai distinguiu-se êle nas guerras africanas e as suas façanhas mereceram ou- 
trosim ficar registadas em crónica especial escrita pelo mesmo Gomes Eanes 
de Azurara (3), autor da Chronica do Conde D. Pedro. Foi D. Duarte de 
Meneses nomeado alferes mor por carta de 6 de Agosto de 1444 (4), por ou- 
tra de 16 de Janeiro de 1459 capitão e regedor de Alcácer de África (5), e 
finalmente, no princípio do verão de 1460, em Santarém, «com solene arenga 
de seus serviços e merecimentos, e com devida ceremonia» o fez D. Afonso V 
conde de Viana de Caminha (6). A carta do título foi passada na referida 
vila de Santarém a 6 de Julho daquele ano (7). Morreu o Conde de Viana, 
nos primeiros dias de Fevereiro de 1464, às mãos dos Moiros, numa expe- 
dição à serra de Benacofú, defendendo a retaguarda da hoste de D. Afonso V 
que apressadamente se retirava (8). Na obra citada encontram-se alguns 
dados para a biografia da condessa de Viana, D. Isabel de Castro, segunda 
mulher e viúva de D. Duarte de Meneses. Deste consórcio nasceram, entre 
outros, os i."* Condes de Loulé e de Tarouca. 

V 

CONDADOS DE VIANA 

Em cumprimento de promessa lá acima feita, vou tratar de deslindar este 
caso, que se tem prestado a confusões. 



(1) Como a carta do título de Marques de Vila Viçosa é de 25 de Maio de 1455 e a 
morte de D. Leonor teve lugar a 7 de Maio de 1452, havemos de admitir, ou que o epitáfio 
só foi gravado alguns anos depois da morte, ou que o título já estava concedido tempos 
antes de passada a respectiva carta. Qualquer das hipóteses é admissível. 

(2) Por carta de i5 de Março de 1424. — Chancelaria de D. João I, liv. 4.", fl. 74. 

(3) Chronica do Conde D. Duarte de Meneses, no tom, lu da Collecção de livros inéditos 
de historia portuguesa. Lisboa, Off. da Academia Real das Sciencias, 1793. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 25.°, fl. 10. 

(5) Ibidem, liv. 36.°, fl. 11. 

(6) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. 143, 

(7) Liv. 3.° de Místicos, fl. 57 v. 

(8) Critica e historia., vol. i, pág. 3-4. 



Meneses 1 3 1 

Houve nos séculos xiv e xv dois condados de Viana: o primeiro foi o de 
Viana da Foz do Lima, ou Viana de Caminha; o segundo, o de Viana do 
Alentejo, ou Viana de apar de Alvito. 

Do primeiro foram condes: i.° D. Álvaro Pires de Castro, por carta de 
I de Junho de 1371, possuiu o condado até às proximidades de iSyõ, em 
que já era conde de Arraiolos; 2." D. Duarte de Meneses, por carta de 3 
de Julho de 1460, possuiu o condado até morrer, em Fevereiro de 1464; 
3.° D. Henrique de Meneses, filho do 2.°, é intitulado conde de Viana em 
Março e Junho de 1464 e foi criado conde de Valença em 20 de Julho do 
mesmo ano. 

Do segundo foram condes; i.° D. João Afonso Telo, possuia o condado 
em 10 de Abril de i^yõ, não havendo a certeza de quando nele fosse inves- 
tido; conservou-o até morrer, em Janeiro de i384; 2." D. Pedro de Meneses, 
filho do 1.°, já era conde de Viana em -Maio de 1433, apesar de só ter carta 
do condado em 18 de Abril do ano seguinte; desfrutou-o até à morte suce- 
dida a 22 de Setembro de 1437. 

Quanto ao primeiro condado, o de Viana do Minho, são claras eni o de- 
signar as cartas da sua criação a favor de D. Álvaro e de D. Duarte, saben- 
do-se que o pouco tempo que D. Henrique o teve, foi por sucessão a seu pai. 
Quanto ao segundo, o de Viana do Alentejo, também não há dúvida, apesar 
de faltar a carta de criação dele a favor de D. João Afonso Telo; mas sa- 
be-se pela carta de doação, que a vila de Viana dada em condado a D. Pedro 
de Meneses era a pertencente ás Capelas de D. Afonso IV, e a mesma de 
que seu pai, D. João Afonso, já fora conde. Fica portanto o caso perfeita- 
mente esclarecido por este documento, que já tive ocasião de citar, bem como 
todos os outros até aqui apontados. 

Viana do Alentejo havia pertencido ao 2." conde de Barcelos, D. Martim 
Gil, e por sua morte, sucedida em fins de i3i2 ou pouco depois, tornara 
para a Coroa. Logo em seguida, por carta dada em Torres Vedras a g de 
Novembro da era de i35i (i3i3), criou D. Denis vila a Viana, dando-lhe 
por termo Alvito, Vila Nova, Vila Ruiva, Malcabrão, Benalbergue e Oriola. 
Obrigaram-se então, o concelho e moradores da nova vila, a fazer cerca de 
muro de roda dela, no lugar que lhes el Rei mandar, e que colha dentro a 
fonte grande de que se servia a povoação. Deverá ter o muro quatrocentas 
braças de circuito, uma de ancho, e em alto ser quanto poder atanger um 
cavaleiro em cima de um cavalo com uma lança de nove côvados, que não 
possa ferir nem dar com ela a quem estiver entre as ameias. Terão de 
fazer a essa cerca três portas em lugares convinháveis, e a cada porta dois 
cubelos bons, um de uma parte da porta, outro da outra. Para a obra 
dá-lhes el Rei prontamente mil libras de ajuda, obrigando-se o concelho a 



i32 Brasões 

meter logo mãos a fazer e lavrar o muro, e a não alçar dele mão até lhe 
dar cabo (i). 

Menos de um ano depois fez D. Denis doação das vilas de Viana e Te- 
rena, que haviam sido do conde D. Martim Gil, e eram situadas no bispado 
de Évora, a seu filho primogénito herdeiro o infante D. Afonso. " A carta 
foi dada em Lisboa a i6 de Outubro da era de i352 (i3i4), e a doação foi 
feita ao Infante para êle e sucessores, com a condição de não poder dar as 
vilas a ninguém, salvo a sua mulher a infanta D. Beatriz (2). 

Vinte e tantos dias antes de morrer (3), em Lisboa, a 4 de Maio de iSõy, 
fez D. Afonso IV doação a sua mulher, a rainha D. Beatriz, para a sua ca- 
pela, da vila de Viana em Entre Tejo e Guadiana, com seus termos, padroa- 
dos e jurisdição cível (4). Um dos primeiros actos do reinado de D. Pedro I 
foi confirmar, em Lisboa, a 8 de Junho do mesmo ano de lôSy, à Rainha 
sna mãe a referida doação (6). Esta senhora, no ano seguinte, poisando em 
Fontelo, na comarca do Bispo de Viseu, fez, em 11 de Janeiro, doação entre 
outros bens da vila de Viana à capela e hospital, que, juntamente com seu 
finado marido, havia ordenado de fazer em Lisboa (6). 

Entrou portanto nesta ocasião a vila de Viana para a posse das Capelas 
de D. Afonso IV e D. Beatriz; mas nem sempre nelas persistiu apesar da 
doação ter sido feita em perpetuidade. 

Nas Capelas se conservava ainda a vila a 20 de Abril de 1402 (i364), 
data de uma carta, na qual D. Pedro I mandou vir as apelações dos feitos 
cíveis de Viana ao Provedor das Capelas (7). Estas possuíram a vila até ao 
ano de i373, ou ainda por mais alguns, porque certeza só tenho de Viana 
constituir já o condado de D. João Afonso Telo em 10 de Abril.de 1376. 
Saiu então pela primeira vez esta rica povoação da piedosa instituição a que 



( i ) Chancelaria de D. João II, liv. 1 7.", fl. 70; Collecção dos Diplomas, e mais documentos 
e titullos respectivos á instituição, dotação^ privilégios das Cappellas e Mercearias instituhidas 
por o Senhor Rey de Portugal Dom Affonso IV. E de sua Mulher a Senhora Raynha Donna 
Beatri^, ms. hoje em meu poder, fl. 1 19. 

(2) Chancelaria de D. Denis, liv. 3 °, fl. 88 v.; Collecção cit., fl. 1 17 v. 

(3) D. Afonso IV parece ter morrido 339 de Maio de i357, uma segunda feira, conforme 
declara o Chronicon Conimbricense, no qual se lê : «Era de mil CCCXCV. annos, feria II 
XXIX dias do mes de Mayo passou ò muy nobre è [de] boa memoria Rey D. Afonso ò. 
quarto, e filho do muy nobre Rey D. Denis, ò qual Rey è Senhor nobre passou em a Cidade 
de Lixboa, è jas em a See da ditta Cidade». — Florez, Espana sagrada, XXIII, 346. 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 17.°, de fl. 64 em diante onde se encontram muitos 
documentos relativos às Capelas; e cit. Collecção, fl 23 v 

(5) Cit. Chancelaria, e na Collecção, fl. 24 v. 

(6) Chancelaria cit., e Collecção, fl. 2'2. 

(7) Collecção cit., fl. 84. 



Meneses i3^ 

fora vinculada, para entrar no domínio de um protegido e parente da rainha 
D. Leonor Teles. Pouco tempo porem a possuiu ele, pois que tragicamente 
perdeu a vida, assassinado, em princípios de 1884, pelos seus vassalos de 
Penela, por seguir o partido castelhano. 

Havia Viana sido trocada por certos bens, não sei quais, mas de muito 
menor rendimento do que a vila, como se infere da carta de 2 de Abril da 
«ra de 1424 (i386) pela qual D. João I, no arraial de sobre Chaves, ordenou 
que às Capelas voltassem e fossem restituídos todos os prédios delas alhea- 
dos no reinado de D. Fernando (i). Já então era morto, como fica dito, o 
i." Conde de Viana, e no senhorio da vila parece ter-lhe sucedido sua mãe, 
a condessa de Ourem D. Guiomar, com quem ainda em 1402 trazia demanda 
o Provedor das Capelas (2). 

Meio século certo após a morte do i.° Conde de Viana, tornou esta vila a 
ser desmembrada das Capelas, e a formar novamente condado, o de D. Pedro 
de. Meneses, que foi 2.-° Conde desta Viana e que Já com o título se encontra 
em documento de 8 de Maio de 1433. Também por pouco tempo possuiu 
a vila o 2.° Conde, que morreu a 22 de Setembro de 1437, havendo, durante 
a sua posse, sido confirmados ao concelho e homens bons de Viana de Alvito 
todos os seus privilégios, foros, liberdades e bons costumes, por carta de 21 
de Dezembro de 1484 (3). 

Morto o Conde a 22 de Setembro, logo a 9 do mês seguinte determinou 
el rei D. Duarte que a vila de Viana com seus termos, rendas e jurisdições 
fôsse retornada às Capelas de D. Afonso IV e rainha D. Beatriz (4). Ainda 
desta vez porem, não ficaram elas na posse pacífica da sua cobiçada Viana, 
por isso que D. Afonso V, por carta dada em Lisboa a 27 de Fevereiro de 
1460, fez doação a D. João, seu sobrinho, filho do Marquês de Vila Viçosa, 
seu primo, da vila de Viana em troca da renda dos tabeliães de Lisboa, a 
qual era de cento e dezasseis mil e quinhentos reais brancos, e de metade 
da quinta das Ilhas no termo de Mafra, no valor de nove mil daqueles reais 
de renda (3). 

Pouco mais de um ano pertenceria a vila ao seu novo e último senhor, 
visto que D. Afonso V, por carta de 4 de Setembro de 1461, mandou ao 
Corregedor da comarca de Entre Tejo e Guadiana, que se não intrometesse 
na eleição de juízes feita em Viana nesse ano por Pêro de Abreu, cavaleiro 



(i) Collecção cit., fl. 86. 

(2) Chancelaria de D. João 11^ liv. 17.», fl. 64; Collecção cit., fl. 21 v. 

(3) Chancelaria de D. Duarte, liv. 1.°, fl. 48 v. 

(4) Cit. Collecção, fl. 71 v. 
(5j Liv. 3.° de Místicos, fl. 53. 



1 34 Brasões 

de sua casa e alferes mor da bandeira de S.-Jorge, que tinha o cargo de 
provedor das Capelas (i). 

Algum tempo depois mandou D. Afonso V expedir uma bem notável 
carta, da qual transcreverei a parte interessante. 

Em seguida a um longo preâmbulo, diz el Rei: «a nossa notícia veio, que^ 
sendo a instituição das Capelas assim dotada por D. Afonso IV e D. Beatriz, 
dalgumas terras e possessões para seu mantimedto e governança . . . e entre 
elas assim foi a vila de Viana do Alentejo com toda a sua jurisdição; a qual^ 
por ser muito boa e de frutos avondosa, de muitos fidalgos e nobres foi sem- 
pre desejada, em tanto que nos tempos passados muitos deles requereram 
aos Reis de ante nós, que lhes fizessem dela mercê. E pêro a alguns por 
suas importunidades tal mercê fosse feita, e a dita vila de Viana por vezes 
da dita instituição indevidamente fosse desmembrada e apartada, e lhes fosse 
outorgada; vendo nosso Senhor Deus, que tal desmembração e apartamento 
contra serviço Seu e saúde das bemaventuradas almas do dito Rei e Rainha 
era feita, assim como Aquele que pode ferir e dar saúde, e de. Cuja mão 
nenhum pode escapar; querendo-os da Sua vara ferir por seus indébitos re- 
querimentos, permitiu serem punidos por tal, que, os que depois viessem, 
pudessem de.lo tomar o exemplo, o que não só por uma vez, mas por muitas, 
foi visto e experimentado em aqueles que o pediram em vida dei rei D. Fer- 
nando, e assim no tempo dei rei D. João e dei rei D. Duarte. Pelas quais 
cousas os Reis, que a assim das ditas Capelas desmembraram em seus tem- 
pos, muito eram arrependidos. E sendo assim a dita vila vaga em tempo 
dei Rei meu senhor e padre por morte do conde D. Pedro, que a proveu e 
possuiu, e não sem muita e grande enfermidade, o dito Rei meu padre a fez 
logo às ditas Capelas restituir, com tenção de nunca mais ser tirada às ditas 
Capelas; e, tendo assim as Capelas delia a posse, sendo nós com grande ins- 
tância requerido . ... » (2). 

Até aqui são idênticos, nas duas fontes citadas, os dizeres deste docu- 
mento; d'aqui em diante porém diferem muito, e a razão julgo ser esta. A 
Chancelaria era um registo oficial ; para êle não convinha neste caso trazer 
o nome de um próximo parente dei Rei, ao qual, em virtude da sua cobiça, 
a ira de Deus ferira. Por isso, aa trasladar-se ali o documento, passou a 
referência a ser impessoal: «requerido depois de alguma outra pessoa, etc»; 
na Collecção dos documetitos das Capellas não tinha de haver o mesmo res- 
guardo, e convinha até publicar o caso para, perpetuando a memória do cas- 
tigo, afugentar outros cobiçosos; por isso se transcreveu a carta na íntegra,. 



(i) C\l. Collecção, ^. iSg. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. ij.», fl. 83; cit. Collecção, fl. 140 v. 



Meneses i35 

■e como fora originariamente escrita. Adoptarei pois no restante da transcri- 
ção, em toda a parte em que diferir da Chancelaria, a cópia da Collecção dos 
documentos, não só por ser mais interessante, mas também por me parecer 
mais verdadeira e conforme aos outros documentos lá em cima citados. 

Continuo pois: «... sendo nós com grande instância requerido de D. João, 
nosso muito amado sobrinho (é o futuro Marques de Montemor), que lhe dés- 
semos a dita vila de Viana em escambo por outra tanta renda em esta cidade 
<ie Lisboa para a dita instituição apropriada; por nos parecer coisa honesta 
« fazedoira, lho outorgámos, e, consentindo no dito escambo, prouve ser feito. 
E, não embargando que esse escambo por autoridade ordinária e do prelado 
a que pertencia, e apostólica do Santo Padre Pio, sendo, que ora é, na igreja 
de Deus presidente, fosse confirmado; não é de duvidar, depois da posse da 
ílita vila por sua parte tomada, querendo o nosso Senhor Deus em elo mos- 
trar Seu milagre, mui dorida e trabalhosas enfermidades padeceu, sendo-lhe 
dito por homens de boa vida, que não leixando a dita vila não poderia delo 
guarecer. E havendo o dito D. João certa noticia das coisas que àqueles, 
que a dita vila pediram no tempo dos Reis ante nós, aconteceram, e sendo 
«m verdadeiro conhecimento que suas enfermidades e dores não era somente 
admoestações de nosso Senhor Deus, ao qual não prazia a dita vila ser tirada 
às Capelas . . . , com a carta do escambo, a confirmação do Santo Padre, e 
com todalas outras escrituras, que sobre elo tinha, por Fernão de Lemos, 
seu escudeiro, que nos todas suas enfermidades e paixões da sua parte con- 
tou, em a nossa vila de Santarém, onde então estávamos, em nossas mãos 
mandou renunciar; enviando-nos pedir por mercê, que pelo amor de Deus 
lhe outorgássemos, que este lugar nunca mais em nossos dias o déssemos a 
alguma pessoa, e que assim o leixássemos por benção a nossos filhos e her- 
deiros, e descendentes, sendo a isto presente o infante D. Fernando, meu 
muito prezado e amado irmão, e certos do nosso conselho,* e sendo outrosim 
presente Pêro de Abreu, cavaleiro de nossa casa e nosso alferes mor da ban- 
deira de S. Jorge, e provedor das ditas Capelas, o qual sempre nos requereu 
que a dita vila às ditas Capelas não quiséssemos tirar, e que a elo não daria 
nunca seu prazer e consentimento. E nós, vendo e considerando sobre as 
cousas iam maravilhosas que o nosso Senhor Deus tam milagrosamente por 
conservação da dita instituição quis obrar, querendo-nos conformar com Sua 
vontade, que pelas coisas suso ditas manifestamente nos declarou; conhe- 
cendo quanto com razão nós, nem os que depois de nós vierem, contra elo 
em parte alguma não devemos ir; desejando em todo, e por todo, em sua 
posse, liberdade e jurisdição a manter, como somos teúdo; por esta presente 
mandamos e defendemos ao príncipe D. João... e ao infante D. Fernando, 
duque de Viseu e de Beja . . . , e a todos os que de nós descenderem, sob 



i36 



Brasões 



pena de nossa bênção e maldição, se o contrário fizerem, que depois de 
nossos dias não tentem, nem presumam tentar mais o Senhor Deus de em 
este caso, nem em coisa alguma outra, que em desfazimento, apartamento,; 
nem desmembração das rendas, liberdades, jurisdição da dita instituição seja;' 
nem dêem, nem consintam dar, trocar, nem alhear, nem escambar a dita vila 
de Viana, terras, possessões, nem heranças, que à dita instituição pertençam, 
a nenhuma pessoa; porque, conhecendo nós verdadeiramente, que a Deus 
apraz de a conservar e manter, nossa última vontade de o cumprir assim a 
Ele prometemos por nossa fé rial . . . ». 

Foi passado este notável documento, que atesta bem a fé viva e pura 
crença daqueles tempos, em Lisboa, a 2 de Outubro de 146 i,e descíe então 
conservou-se Viana na posse das Capelas de D. Afonso IV e rainha D. Bea- 
triz. 

VI 

TELES DE MENESES E TELES DA SILVA 



D. Beatriz de Meneses, filha de D. Martinho de Meneses, i.° senhor de 
Cantanhede, e neta de D. Gonçalo Teles, conde de Neiva, foi notável mulher. 
Casou-a o infante D. Pedro, pelos anos de 1427, com Aires Gomes da Silva, 
cavaleiro do seu conselho e regedor da casa da infanta D. Isabel sua mu- 
lher (i). Para este casamento concorreram também a Condessa de Neiva e 
D. João I; a Condessa, impetrando a carta -régia de 17 de Outubro de 1429, 
pela qual as terras de Azurara e Fão, que ela da Coroa trazia, fossem doadas 
a sua neta D. Beatriz de Meneses (2); el Rei prometendo-lhe em casamento 
quatro mil coroas de oiro, pelas quais lhe mandou pagar anualmente qua- 



(i) «Eu o infante D. Pedro, duque de Coimbra, senhor de Montemor, estando em Lis- 
boa, haverá dois anos, comecei de tratar casamento entre os nobres e honrados Aires Gomes 
da Silva, cavaleiro do meu conselho e regedor da casa da Infímta minha mulher, e D. Bea- 
triz de Meneses, em o qual tratado eles se acordaram e convieram com certas condições; e 
porquanto por minhas ocupações eu trigosamente parti da dita cidade», não se fez a escri- 
tura, a qual se lavrou em Lisboa a 8 de Outubro de 1429, dotando-se D. Beatriz com sete 
mil coroas de oiro, entrando nelas as quatro mil prometidas por el Rei, e estipulando-lhe 
Aires Gomes duas mil coroas de arras, para o caso de a preceder no túmulo. Foi o con- 
trato confirmado pelo infante D. Pedro, em Tentúgal, a i 5 de Setembro de 148 1 ; por el rei 
D. Duarte, em Santarém, a i5 de Novembro de i433, «posto fosse feito em escritura depois 
de consumado o matrimónio», e por D. Afonso V, em Sintra, a 12 de Outubro de 1450, para 
D. Beatriz haver as duas mil coroas das arras pelas terras de Aires Gomes, «sem embargo 
delas estarem outorgadas a outras algumas pessoas». — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 11.", 
íl. 26 V. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. ii.°, fl. 32 v. 



Meneses iSy 

renta e dois mil e oitocentos e cinquenta e sete reais brancos no almoxarifado 
<ie Ponte de Lima (i). 

Aires Gomes da Silva havia sido armado cavaleiro em Ceuta, após a 
conquista da cidade, pelo infante D. Pedro e veio a ser 2.° senhor de Vagos 
em 1484 e regedor da justiça da Casa do Cível de Lisboa em 1441. Acom- 
panhou sempre o Infante e ao lado dele esteve na batalha da Alfarrobeira, 
a 20 de Maio de 1449, pelo que incorreu na perda do ofício e na confiscação 
dos bens. Em virtude porem da amisade dispensada por D. Afonso V a sua 
mulher, mandou êle, não só expedir, em 22 de Abril de 146 1, três cartas de 
perdão para Aires Gomes da Silva e seus dois filhos, João da Silva e Fernão 
Teles, como também fazer mercê, por outra de 28 de Julho de 1453, de res- 
tituir a D. Beatriz e Aires Gomes a terra de Vagos e outras, e ainda, por 
mais uma carta, de i3 de Fevereiro de 1459, doar as terras de Unhão e ou- 
tras, que haviam sido também de Aires Gomes, a seu filho Fernão Teles (2). 
Era então já Aires Gomes falecido pois que, segundo o seu epitáfio, morrera 
a 25 de Maio de 1454. 

Fora D. Beatriz de Meneses aia da rainha D. Isabel (3), mulher de 
D. Afonso V, e depois de viúva e da morte da Rainha, confiou-lhe êle a 
criação e educação de seus dois filhos (4). Em 1462 retirou-se D. Beatriz 
de Meneses da corte e recolheu-se a S. Marcos, na freguesia de S. Silvestre 
do Campo de Coimbra, onde doara todos seus bens à Ordem de S. Jeró- 
nimo, para no sítio fundar um convento. A D. Beatriz deve-se incontesta- 
velmente a fundação do convento de S. Marcos, transformado por seu filho, 
o regedor Aires da Silva, na preciosa jóia arquitetónica, ainda hoje existente, 
mas em lastimável estado de abandono (5). Morreu D. Beatriz em 1466, 
antes de 10 de Julho (6), deixando dois filhos varões: João da Silva e Fernão 



(1 ) Carta de 12 de Fevereiro de 1430, incorporada noutras. — Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. ii.°, fl. 43. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, livs. 11.°, fl. 20; 10.», fl. 19 v.; e 36.», fls. .58 e 65. 

(3) Carta de 57.143 reais brancos a D. Beatriz de Meneses, aia que foi da Rainha, para 
sua moradia, vestir e tença que tinha. Santarém, 16 de Abril de 145 1. — Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 1 1.°, fl. 20 v. 

(4) Considerando os serviços de D, Beatriz de Meneses, «aia de meus filhos», e de João 
da Silva, do nosso conselho, seu filho, etc . carta de camareiro mor do Príncipe. Évora, 21 
de Março de 1459. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 36.°, fl. 112 v. 

(5) Acerca da fundação do convento de S. Marcos escrevi alguns artigos no Jornal do 
Commercio, em Agosto e Setembro de 1903, os quais deverão entrar no vol, 11 da Critica e 
historia, quando . . . Deus quiser. 

(6) Data da carta de doação de um conto de libras, por morte de D. Beatriz de Mene- 
ses a seu filho Fernão Teles, diploma incorporado noutros è registado na Chancelaria de 
D. João III, liv. 5 1 .° de Doações, fl. 54. 

VOL. I 18 



i38 



Brasões 



Teles de Meneses. Do' primeiro procederam os Silvas, senhores de Vagos, 
condes de Aveiras (1640) e marqueses de Vagos (1802); do segundo os Teles 
de Meneses, de que foram chefes os Condes de Unhão (i63o), e os Teles da 
Silva de que são primogénitos os Marqueses de Alegrete (1687). 

As armas dos Teles de Meneses da casa de Unhão são esquarteladas: o 

I e IV de prata, Hão de púrpura, armado e linguado de vermelho (SUpo); o 

II e III de oiro liso (Meneses). Timbre: o lião. Assim se encontram na 
igreja do convento de S. Marcos, na sepultura de Fernão Teles; e assim se 
vêem numa pedra hoje guardada no Museu de Santarém e proveniente da 
capela de S. Bartolomeu da igreja do convento de S. Domingos, onde estava 
o túmulo de Rui Teles de Meneses, 4.° senhor de Unhão, e de sua mulher 
D. Guiomar de Noronha. 

As armas dos Teles da Silva da casa de Alegrete teem os quartéis tro- 
cados, isto é: o I e IV de oiro liso (Meneses); o II e III de prata, lião de 
púrpura, armado e linguado de vermelho (Silva). Timbre: o lião. 

Lá adiante, no artigo dos Silvas, terei muita ocasião de me referir aos 
Teles de Meneses e aos Teles da Silva, limitando-me aqui a deixar-lhes in- 
dicada a origem. 

Recapitulando, vê-se, que de D. Tel Pérez, i." senhor de Meneses, pro- 
vieram quatro ramos principais: 

I." — O dos senhores de Meneses, incorporado na coroa de Castela pelo 
casamento de D. Maria de Molina com D. Sancho IV. 

2.° — O dos senhores de Alburquerque, dos quais proveio com diferente 
'varonia a famíKa portuguesa de Albuquerque. 

3.° — O dos senhores de Cantanhede, de que foram chefes os Marqueses 
de Marialva, hoje na casa de Lafões. 

4.° — O dos Condes e Marqueses de Vila Rial, cuja progenitura se extin- 
guiu no cadafalso do Rossio a 29 de Agosto de 1641, conservando-se a re- 
presentação na casa dos Condes de Valadares. 

Por linha feminina foram notáveis ramos do tronco dos Meneses os Teles 
de Meneses e os Teles da Silva. 

A varonia dos Meneses permanece actualmente nas casas da Flor da 
Murta e Olhão (i), à primeira das quais pertence uma das minhas ilustres 
colaboradoras, que tam primorosas artistas se manifestaram. 



(1) Alêm destas duas casas ainda subsistia a varonia dos Meneses, quando primeira- 
mente isto escrevia, na de Valada; hoje porém extinguiu-se já pela morte, sucedida no ano 
de 1914, do 3." Conde de Caparica, com quem mantive inalterável amizade. 



. VII 
CASTROS 




Brasões da Sala de Sintra, VoI. I. 



De oiro, treze arruelas de azul. Timbre: Hão nascente de oiro, armado 
€ linguado de vermelho. 

Assim se encontram estas armas no Livro do Armeiro mor, fl. 5i, na 
Livro da Torre do Tombo, fl. lo, no Thesouro da Nobre\a de Fr. Manuel 
de Santo António, c-53, etc. Alguns autores carregam o lião com os móveis 
do escudo. 

I 

PARTIDA PARA CEUTA 
1415 

No mosteiro de Odivelas, quinta feira 18 de Julho de 1415 (i), roída pela 
peste, entregou a alma a Deus a virtuosa, a querida rainha D. Felipa de Lan- 
castre. 

No Tejo achava-se reunida numerosa esquadra, apercebida de homens c 
petrechos para empresa grande e desconhecida, que preocupava os reis es- 



(i) Muitos autores assinam o dia 19 de Julho, como tendo sido o da morte da rainha 
D. Felipa, mas é erro. A data exacta do falecimento é a apontada. Consta ela do epitáfio, 
Transcrito por Sousa na pág. 3i do vol. 11 da Historia genealógica; consta também da Cró- 
nica da tomada de Ceuta de Azurara, onde no cap. 45 é indicada em uma quinta feira pró- 
xima ao dia de Santiago; e da narrativa de Mateus de Pisano, á pág. 35 dos Gesta Regis 
Joannis de bello Septensi, onde se declara ter a Rainha falecido oito dias antes do dia de 
Santiago. Todos três concordam, pois que, tendo caído neste ano de 1415 o dia de San- 
tiago, 25 de Julho, em uma quinta feira, a Rainha, morrendo no dia 18 deste mês, como diz 
o epitáfio, vem a morrer numa quinta feira, como assevera Azurara, e oito dias antes do dia 
de Santiago, como declara Pisano. Quanto ao lugar da morte sigo a Azurara; mas pode 
muito bem ser, que Pisano tivesse tido razão, pondo-o em Sacavém. O epitáfio sb diz, que- 
no dia seguinte ao da morte foi sepultada em Odivelas. 



142 



Brasões 



trangeiros e os povos de Portugal. Estes, convocados para ela por todo o 
reino, acudiram, moços e velhos, ao chamamento. Todos queriam parti- 
cipar dos perigos e das glórias de uma expedição, comandada por el Rei, 
dirigida pelos jovens e simpáticos Infantes, que iam nela ganhar as esporas 
doiradas, e patrocinada pelo velho Gondestável. 

O movimento era grartde na praia de Restelo, e não consta que nela 
aparecesse então nenhum velho, profeta de maus agoiros, como aquele que 
Camões lá fez imprecar, anos depois, contra a ambição dos homens. 

O perpassar de cavaleiros e escudeiros ricamente^trajados, seguidos dos 
seus pajens, ou dos homens da sua criação e libré, que vestiam as suas cores 
e traziam alçados os seus estandartes; o canto plangente das trovas, com 
que na praia os mesteirais acompanhavam a sua lida; o vaguear dos besteiros 
do conto tam diversamente corregidos, conforme eram as librés da cidade, 
vila ou couto, a que pertenciam; a faina dos petintais e galeotes, quer nos 
batéis, que de contínuo em direcções opostas sulcavam o rio, quer a bordo, 
dando a última demão no apercebimento das embarcações, e sempre acom- 
panhada da inevitável gritaria da gente marítima; o doidejar das bandeiras 
e estandartes, em que se ostentavam todas as cores vistosas, e que profusa- 
mente guarneciam os mastros; a nota aguda duma ou doutra trombeta, quer 
a bordo, quer em terra, levantando-se acima de todas as bulhas, para dar 
algum sinal, alguma ordem; todo este conjunto de cores vivas e brilhantes, 
de sons diversos e discordes, alumiado e aquecido pelo nosso sol de Julho, 
que se reflectia no espelho do incomparável Tejo, dava ao quadro um tom 
alegre e festival, que tornava todas as fisionomias radiantes. 

Eis que o dobre fúnebre dos sinos de Odivelas, transmitido de torre em 
torre, ecoando pela praia, faz empalidecer todos os rostos, leva as lágrimas 
a todos os olhos, pára todos os trabalhos. Até o ceu, participando da dor 
geral, durante duas horas eclipsa o brilho do sol, deixando cair sobre o reino 
lutuosas trevas (i). 

jA Rainha morreu! * * 

Não era só o marido e os filhos, que a amavam. Todos, nobres e arraia 
miúda, ricos e pobres, adoravam a virtuosa D. Felipa, o espelho da liai con- 
sorte, da boa mãe. 

E ela, coitada! que tanto desejo tinha na execução da empresa; ela, que 
tanto ansiava por ver os filhos armados cavaleiros em seguida a feitos glo- 
riosos, praticados em expedição, que levava em mira, não só o aumento do 
reino, como o derramamento da Fé; ela, prostrada no leito, conhecendo a 



(i) Pisano e Azurara referem-se a este eclipse, que contudo não encontro mencionado 
na tábua cronológica (ios eclipses, na Art de vérifier les dates. 



Castros 14? 

morte próxima, sabendo que na volta não abraçaria os filhos, ainda teve 
ânimo, a mulher cristã e forte, para preguntar d'onde soprava o rijo vento 
•que sentia, e para dizer aos filhos, que, sendo do norte como era, soprava 
de feição, e poderiam partir no dia de Santiago, d'ali a oito dias. ,i- 

A moribunda marcou a data. y 

Com ânimo verdadeiramente varonil, não se deixaram, el Rei e rfs In- 
fantes, subjugar pela dôr; e posto que no conselho se dividissem os/votos, 
D. João I ordenou os aprestos para a jornada. Mandou largar o liito aos 
filhos para todos os imitarem, pois que as empresas militares não se^querem 
com choros e trajos de dó, mas sim acompanhadas de folgares e liizimento. 

Assim o executaram os Infantes logo que chegaram à galé de S. Henri- 
que, onde, envergando as suas mais vistosas roupas e mandando erabandeirar 
toda a embarcação, ordenaram às trombetas tocassem alegre e rijamente, a 
fim de serem ouvidas de toda a esquadra. 

Era domingo, e o calor excessivo. Nas cobertas de seus navios, fecrean- 
do-se à sombra com jogos e folgares sisudos, como requeri^ a sua dôr, es- 
tavam os expedicionários, fugindo a Lisboa, onde a peste grassava com in- 
tensidade. De repente ouvem-se os sons alegres e ruidosos das trombetas. 
Sobem aos tombadilhos, e vêem a galé do infante D. Henrique toda emban- 
deirada. íQue será? Aproximam-se nos batéis, todos pressurosos, para 
saberem a novidade, que, apenas divulgada, afugenta as tristezas. Em breve 
todas as embarcações imitam a galé do Infante, e embandeiradas, ao som 
das trombetas e charamelas, que não cessavam de tanger, festejam a tam 
desejada ordem para a partida. 

Assim que constou na praia, aonde concorrera muita gente aos primeiros 
sinais estranhos, espalhou-se a notícia até Lisboa, onde logo se apregoou a 
determinação dei Rei, afim de todos se aprontarem para na terça feira es- 
tarem a bordo das suas embarcações. 

De Alhos Vedros, onde D. João I permanecia desde os primeiros dias da- 
doença de D. Felipa, e para onde se retirara forçado pelos filhos, a fim de 
fugir ao contágio, veio el Rei na terça feira (i), na galé do Conde de Bar- 
celos, pernoitar em frente de Restelo. 

Na noite de terça para quarta, que era de luar, recresceu o movimento. 
Tudo se punha prestes. Os recêm-vindos entraram para a esquadra; o 



(i) Azurara, na cit. Crónica, não traz certas as férias em relação ao mês e ano, em que 
estes factos se deram, adiantando um dia. A esquadra partiu do Tejo direito a Ceuta no 
dia de Santiago, 25 de Julho de 141 5, o qual, neste ano, caiu em uma quinta feira; pois Azu- 
rara, nos princípios dos caps. 5o e 5i, designa-o como sexta feira. Em idêntico equívoca 
incorreu Pisano, na pág. 39 dos Gesta, chamando sábado ao dia seguinte ao da partida. 



144 Brasões 

resto das armas, dos petrechos, dos mantimentos, foi transportado para 
bordo. 

Na quarta feira de manhã el Rei, já na sua galé, mandou levantar ferro 
para -ir fundear um pouco mais abaixo, defronte de Santa Caterina de Riba- 
mar, a fim de com este movimento se apressar o embarque. 

A final, no dia seguinte, quinta feira 25 de Julho de 1416, dia de San- 
tiago, mandou D. João I às trombetas da sua galé, que dessem o sinal da 
partida. 

Nesta esquadra ia para a conquista de Ceuta a flor da cavalaria e nobreza 
de Portugal. Os cronistas conservaram-nos os nomes dalguns dos nobres 
barões, e nas listas encontram-se nomeados D. Álvaro Pires de Castro, e seu 
filho D. Pedro de Castro. 

n 

LINHAGEM 

^Quem era este D. Álvaro Pires de Castro? 

Era sobrinho de outro D. Álvaro Pires de Castro, conde de Arraiolos e 
progenitor dos Castros de seis arruelas, e filho de seu meio irmão D. Fer- 
nando de Castro, conde de Lemos e de Trastâmara, e de Mília Gonçalves, 
senhora de Assequins. 

Sobre a filiação deste D. Álvaro Pires de Castro tem havido dúvidas, 
que se desvanecem com a leitura do extracto da carta de doação de Asse- 
quins, na fl. 120 do livro i." da Chancelaria de D. João 1. Aí lê-se: «Carta 
de doação a Mília Gonçálvez, madre de D. Álvaro Pírez de Castro, do lugar 
de Assequins pela guisa que o ella havia delrei D. Fernando . . . ». Foi dada 
em Coimbra, a 11 de Abril da era de César de 1428, ano de Cristo de i385. 

Conhecida a mãe de D. Álvaro, com sobrados fundamentos se lhe pode 
nomear por pai ao conde D. Fernando.' Em primeiro lugar provam-no as 
armas de que D. Álvaro usou, as mesmas do Conde e diferentes das dos 
outros Castros; em segundo lugar a protecção pelo infante D. João dispen- 
sada a Mília Gonçalves, o que se compreende tendo ela sido concubina de 
seu tio D. Fernando de Castro. Consta a protecção do Infante do extracto 
da carta de confirmação das rendas e direitos reais do lugar de Assequins 
a favor de Mília Gonçalves, para que os recebesse «assim como o ella avia 
em tempo dei Rei D. Fernando e do infante D. João». Foi dada esta carta 
em Lisboa a 19 de Agosto da era de 1422, ano de Cristo de 1384, e está 
registada no 'mesmo livro a fl. ib v. 

Durante a primeira guerra de D. Fernando com D. Henrique II de Cas- 
tela, de 1369 a 1371, permaneceu o Conde de Lemos por vezes em Portugal, 



Castros 145 

e frequentou muito esta corte (i), sendo então provavelmente que lhe nasceu 
aquele filho. 

Para D. Álvaro Pires de Castro ser, como alguns querem, dos Castros 
de Fornelos, galegos, opõe-se terminantemente o título de dom, que não havia 
a esse tempo nos supostos descendentes daquela casa; e as armas, pois que 
aqueles Castros usaram somente de seis arruelas. 

Sendo, como estou persuadido, D. Álvaro Pires de Castro filho de D. Fer- 
nando de Castro, conde de Trastâmara, Lemos e Sárria, pertencia a uma 
das mais ilustres e antigas casas de Espanha, tam ilustre, que mereceu ser 
considerada um dos cinco grandes solares de Castela. 

D. Álvaro Pires de Castro foi senhor das Alcáçovas e dos seus reguen- 
gos, como consta de uma carta abaixo citada, e por outra, dada a 14 de 
Março de 1433 e confirmada a 3o de Março de 1439, na qual é intitulado 
vassalo, foi-lhe feita mercê das rendas e direitos dos Judeus de Évora (2). 
Casou com D. Maria Lobo, irmã de Diogo Lopes Lobo (3), i.° senhor de 
Alvito e Vila Nova,, e dela teve estes filhos : 

i.° — D. Pedro de Castro. Foi senhor das terras de Benviver e Sul e da 
quinta de Roriz, no julgado de Lafões, bens que o infante D. Henrique, de 
quem fora criado, lhe doou em valia de cinco mil coroas de oiro, que lhe 
prometera em casamento com D. Caterina, filha de Joane Mendes de Vas- 
concelos, doação confirmada por D. João I por carta dada em Almeirim, a 
16 de Janeiro de 1424 do Nascimento (4). Esta doação do Infante não foi 
inteiramente graciosa. Ele prometera a Joane Mendes de Vasconcelos dar 
a D. Pedro de Castro, em casamento com sua filha, as referidas cinco mil 
coroas em herdades, elevando até àquela quantia o dote dado ao filho por 



(i) Conde D. Fernando, senhor de Castro, doação de Mirandela e Aguiar de Pena, na 
era de 1410 (1372). Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. 91. — Doação a Gonçalo Teles 
da terra de Aguiar de Pena que trazia o conde D, Fernando. Leiria, 22 de Outubro de 1410 
(1372). Ibidem, fl. 114. 

(2) Chancelaria de D, Duarte, liv. i.°, fl. 46. 

(3) D. Afonso V por carta dada em Toro, a 19 de Maio de 1476, fez mercê a Rui Lobo, 
cavaleiro e criado do infante D. Henrique, em satisfação dos seus serviços em Tânger e nas 
tomadas de Alcácer e de Arzila, e sem embargo de ser bastardo, das mesmas honras e liber- 
dades e privilégios que seu pai e seus parentes tinham, e as mesmas lhe outorga para seus 
filhos. Declara que Rui Lobo era homem fidalgo e de linhagem, filho de Estêvão Fernandes 
Lobo, irmão de Diogo Lopes Lobo, já falecido, e da mulher de D. Álvaro de Castro, também 
já falecida, mãe que fora de D. Diogo de Castro, o Velho. D. João II confirma esta carta, 
em Évora, a 10 de Março de 1491, a Fernão Lobo, filho de Rui Lobo, — Místicos, liv. 2.", 
fl. 144. 

(4) Chancelaria de D. João /, liv. 4.", fl. 71 v. 

voL. I 19 



146 . Brasões 

D. Álvaro Pires de Castro, cedendo-lhe este o lugar das Alcáçovas, com 
todos os seus reguengos e direitos, dos quais D. João I fez doação ao Infante 
por carta lavrada dois dias depois, a 18 de Janeiro (i). A mulher de D. Pe- 
dro de Castro, à qual os nobiliários dão erradamente o nome de Tareja, era 
filha de Joane Mendes de Vasconcelos, 4.° senhor do morgado de Soalhães, 
e de sua mulher D. Leonor Pereira. D. Pedro de Castro foi, por este casa- 
mento, progenitor dos Castros, almirantes do reino e posteriormente condes 
de Resende (19 de Junho de 1754), e doutros ramos nos quais a varonia está 
extinta. • " 

2.° — D. Álvaro de Castro. Foi fidalgo da casa do infante D. Henrique 
e com três dos seus irmãos acompanhou-o na desgraçada expedição de Tân- 
ger de 1437. Prometeu-lhe o Infante cinco mil dobras em casamento, e para 
lhas pagar doou-lhe as saboarias pretas de Évora e vários lugares do Alen- 
tejo, doação ratificada por D. Duarte, em Montemor o Novo, a 19 de Janeiro 
de 1435, e confirmada por D. Afonso V, em Évora, a 10 de Janeiro de 
1462 (2). A noiva era D. Isabel Pereira, filha de Diogo Pereira, comendador 
mor da Ordem de Santiago e governador da casa do infante D. João, e de 
sua mulher Maria de Resende. Esta senhora, por escritura feita nas Alcá- 
çovas, nos paços do genro, a i de Janeiro de 1442, dotou sua filha com duas 
mil dobras em casamento, estando este já efectuado desde princípios de 
1435 (3). D. Álvaro de Castro já era falecido em 12 de Janeiro de 1463. 
Foi progenitor dos alcaides mores do Torrão, condes de Mesquitela (carta 
de 14 de Maio de i658), título extinto em 1674; de diversos ramos com casa 
na índia, de um dos quais proveio o moderno Conde de Nova Goa (1864); 
dos alcaides mores do Sabugal e Alfaiates (23 de Outubro de 1485), senhores 
de Lanhoso e outras terras, passando, por extinção dos Castros, para uns 
Meneses e depois para os Castelos Brancos, condes do Sabugal (4). 

?.° — D. Fernando de Castro, o Cegonho, foi governador da casa do in- 
fante D. Fernando, pelejou no malogrado cerco de Tânger de 1437 e foi dez 
anos depois, com o secretário Rui Galvão, por ordem de D. Afonso V, levar 
ao infante D. Pedro as condições da concórdia com o Duque de Bragança, de 
quem D. Fernando era parcial (5). Morreu solteiro e sem filhos. 

4.° — D. Fradique de Castro, o Tagarote, também, como seu irmão, ser- 
viu em Tânger em 1437, mas, ao contrário dele, foi parcial do infante D. Pe- 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 4.», fl. 72. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.", fl. 47 v. 

(3) Archivo histórico portugue:^, IV, 3o. 

(4) Sepulturas do Espinheiro^ págs. 22, 37 e 59. 

(5) Rui de Pina, Crónica de D. Afonso F, pág. 369. 



Castros 147 

dro a quem aconselhou a não sair de Coimbra e evitar vir aceitar batallia de 
D. Afonso V(i). Casou com D. Beatriz de Vasconcelos, filha de Joane 
Mendes de Vasconcelos, 4.° senhor do morgado de Soalhães e matou-a (2), 
depois de ter tido dela, alem de duas filhas freiras, a um filho que morreu 
sem geração. Tornou a casar com D. Mecia da Silveira, filha de Nuno Mar- 
tins da Silveira, escrivão da puridade dei Rei D. Duarte. Deste casamento 
não houve sucessão. 

5.° — D. Diogo de Castro foi, na sua família e por carta de 20 de Maio 
de 1475, o i.° capitão da gente de guerra da cidade de Évora (3). Servia 
então na guerra da invasão de Castela, durante a qual acompanhou o Conde 
de Penamacor na empresa de Baltanas. Foi bisavô de D. Fernando de Cas- 
tro a quem Felipe I, em Évora, a 24 de Fevereiro de i583, fez conde de 
Basto, considerando os serviços «que particularmente D. Diogo de Castro, 
seu pai, que Deus haja, e êle me fizeram». A carta do título foi só passada 
a 12 de Setembro de i585, e dela consta o acima dito e mais ainda que o 
condado era constituído pela vila de Celorico de Basto, «a qual por uma pro- 
visão houve por berrt que daqui em diante se chamasse Basto» (4). O título 
de conde de Basto extinguiu-se em 1642 por morte do 3." conde, D. Lourenço 
Pires de Castro, e a casa, depois de em 1689 se extinguir toda a descen- 
dência do 2.° conde, D. Diogo de Castro, veio a passar, por sentença de 19 
de Janeiro de 1773, a D. José de Meneses da Silveira e Castro, senhor dos 
morgados de Caparica e Paíameira, e avô do 2." Marquês de Valada, falecido 
em i5 de Outubro de 1895, último possuidor dos velhos paços de S. Miguel, 
em Évora, residência dos Condes de Basto, antigos capitães daquela ci- 
dade (õ). 

6.° e 7.° — Duas filhas casadas com fidalgos galegos. 

Vê-se pois não terem os Castros de treze arruelas desmerecido, para com 
os de seis, nem no esplendor da origem, que era a mesma, nem no lustre 
dos ramos deles derivados. 



(i) Rui de Pina, Chronica de D, Afonso V^ pág. 401. 

(2) Nobiliário quinhentista, pág. 55, n.» xxiii. 

(3) Liv. 5.» de Odiana, fl. iS; v. 

(4) Chancelaria de D. Felipe I, liv. i5.» de Doações, ti.. i65. 

(5) Sepulturas do Espinheiro, págs. 6 e 7. 



VIII 
CUNHAS 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. I. 



De oiro, nove cunhas de azul. Timbre: grifo (sem azas), nascente, de 
oiro, linguado de vermelho, carregado sobre o peito dos móveis do escudo. 

Assim se encontram estas armas, sem diferença nenhuma no escudo, no 
Livro do Armeiro mor, fl. 5i v., no Livro da Torre do Tombo, fl. lo, no 
Thesonro da Nobre;{a de Francisco Coelho, fl. 40, no Thesouro da Nobre:{a 
de Fr. Manuel de Santo António, c-108, etc. 

Quanto ao timbre porem está errada a pintura da sala de Sintra. Ele 
é um grifo nascente de oiro, alado de azul, semeado de cunhas de um no 
outro. O semeado de cunhas tem sido modernamente modificado, e redu- 
zido a três cunhas no peito, e três em cada uma das azas. 

I 

O ALCAIDE MOR DE CELORICO DE BASTO ^ 

Em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1279, morre, arrependido e humilhado 
ante o clero, D. Afonso III, o que fora conde de Bolonha e, auxihado pela 
mesma classe ante que se curvava agora, usurpara a coroa de Portugal a seu 
irmão D. Sancho II. 

Nesse próprio dia foi proclamado rei seu filho D. Denis, que, durante 
poucos dos primeiros meses do seu reinado, tolerou uma certa ingerência 
nos negócios do reino a sua mãe, a rainha D. Beatriz. Era a viúva filha de 
D. Afonso X de Castela e de D. Mayor Guillen, senhora de Alcócer, filha 
do rico homem D. Guillen Pérez de Gusman. Casara em i253, sendo muito 
nova, com Afonso III, ainda em vida de sua primeira mulher, a condessa 
Matilde. Entre os bens com que se constituíram as arras da jovem rainha, 
compreendeu-se o apréstamo da terra e castelo de Celorico de Basto. 

Em 1281 era alcaide mor deste castelo Martim Vasques da Cunha, 5." se- 



i52 Brasões 

nhor da honra do Julgado da Tábua, senhor de metade da freguesia de S. Mi- 
guel da Cunha, e cavaleiro de ilustríssimo nascimento e de briosas façanhas. 

Por motivo ignorado quis então o Alcaide mor largar o castelo (i). Di- 
rigiu-se à Rainha e esta disse-lhe, que só seu filho el rei D. Denis lhe poderia 
levantar a menagem. 

D. Denis, apesar das repetidas instâncias, não deferia o requerimento a 
fim de prejudicar um cavaleiro, que doestara a seu antigo preceptor, o có- 
nego de Évora, Domingos Anes Jardo, muito privado dei Rei, e que a esse 
tempo Já deveria ser seu chanceler mor, pois recebeu os selos em 19 de 
Julho de 1281. 

Despeitado, o Alcaide mor deixa Celorico entregue ao Alcaide nienor, e 
sai a consultar sobre o modo, como poderia largar o castelo, sem faltar ao 
preito e homenagem Jurados. 

Percorre a Alemanha, a Lombardia, a Inglaterra, a França, a SicíHa, a 
Navarra, o Aragão, a Castela e o Lião, expondo o seu caso a todos os reis, 
príncipes, duques, condes, altos senhores, e fidalgos, e colhendo os seus pa- 
receres assinados e reconhecidos pelos notários das diferentes localidades. 



(i) Fr. Francisco Brandão, na 5.» parte da Monarchia lusitana, liv. i6.°> cap. 28, conjec- 
tura que Martim Vasques da Cunha percorria em Setembro de 1282 as diferentes cortes es- 
trangeiras, consultando sobre o modo por que largaria o castelo a el Rei, que o não queria 
receber. Conjectura mais, que a insistência do Alcaide mor procedia do desejo de se reunir 
às forças, pela rainha D. Beatriz levantadas então para ir em auxílio de seu pai, o que cer- 
tamente explicaria a recusa de D. Denis, aliado dos revoltosos. Os documentos porem não 
me deixam aceitar as conjecturas do douto Cisterciense. A revolta contra Afonso X, dirigida 
pelo Infante herdeiro, e coadjuvada por toda a família rial e pelo maior número dos fidalgos 
e povos castelhanos, manifestou-se claramente nos princípios do ano de 1282, e ameaçado- 
ramente nas cortes de Valhadolid em Abril do próprio ano. Anterior a este tempo não se 
pode supor em D. Beatriz o propósito do auxílio ao pai, e até, só em Junho, é que se come- 
çam a encontrar vestígios dos aprestos da Rainha para a jornada, não constando o apareci- 
mento em Sevilha dos primeiros fidalgos auxiliares, senão em princípios de Novembro deste 
ano de 1282. Ora, por carta de 9 de Setembro desse mesmo ano de 1282, arrendou D. Denis 
a terra e castelo de Celorico de Basto a Martim Joanes em sua vida (o que exclui a quali- 
dade de provisório,, que o cronista supõe a este contrato) pela renda anual de 210 maravedis 
velhos, com a obrigação do rendeiro pôr no castelo um cavaleiro, ou um escudeiro fidalgo, 
que vença Soo soldos {Chancelaria de D. Denis, hv. i.% ú. 54 v.). Por aqui se vê, que nesta 
data havia Martim Vasques abandonado definitivamente o castelo; mas há mais ainda. Um 
mês antes, em i de Agosto, já Martim Vasques não residia em Celorico, e comparecia ante 
João Soares, ouvidor «em logo da corte», que o demandava em juizo sobre a demarcação 
da metade da terra da Cunha, que era regalenga (Liv. 2." de Direitos reaes, fl. 241 V.). Em 
conclusão : sendo materialmente impossível a Martim Vasques percorrer nos quatro meses 
que vão de Abril a Agosto, os países por êle visitados, se os visitou a todos, forçoso é admitir 
que a sua partida foi anterior à manifestação da revolta em Castela, e que portanto o motivo 
da sua resolução não foi o desejo de socorrer a D. Afonso X. 



Cunhas i53 

Munido destes documentos, os quais, coisa singular, eram todos concordes, e 
entre eles se contavam os conselhos de bastantes fidalgos portugueses, voltou 
Martim Vasques da Cunha a Celorico de Basto. 

Entrou no castelo e meteu lá «huum gallo e a galinha e gato e cam e sal 
e vinagre e azeite e pam e farinha e vinho e agua e carne e pescado e fer- 
radura e cravos e beesia e seetas e ferro e baraço e lenha e moos e alhos e 
çebollas e escudo e lamça e cuytello ou espada e capello ou capellina e car- 
vom e folies de ferreyro e fozil e isca e pederneira e pedras per cima do 
muro». Em seguida acendeu o lume em uma das lareiras, e mandou sair a 
todos, ficando unicamente êle dentro do castelo. Depois aferrolhou e tapou 
todas as portas, e subiu à muralha, levando uma corda, com um cesto atado 
numa das extremidades. Passou a corda em volta de uma das ameias, dei- 
xando cair as duas pontas para o lado de fora da muralha. Então, agarran- 
do-se com ambas as mãos à ponta mais comprida, salta para dentro do cesto 
e vai-se deixando escorregar até ao fosso. Chegado aí, ata uma pedra à 
corda, e lança-a para dentro dos muros. 

Monta em seguida Martim Vasques da Cunha em seu ginete, põe-se à 
frente de seus homens de armas, e percorre três freguesias, sem parar nem 
olhar para trás, clamando: 

— jAcorrede ao castelo dei Rei que se perde! jAcorrede ao castelo dei 
Rei que se perde! 

Por esta forma, cumprindo à risca com as instruções expressas nos do- 
cumentos que tinha em seu poder, não foi el Rei contra êle, e «esta boa 
façanha ficou pêra sempre», como diz o Nobiliário do Conde D. Pedido (i); 
o qual mais acima Já escrevera: «e porque fez por el (o castelo de Celorico 
de Basto) façanha muy boa come muy boo cavaleyro posemos em este livro 
como passou pêra saberem os boos que teverem castellos e lhos nom quise- 
rem filhar aquelles de que os tem, seemdo em paz e em assessego e sem 
cerco como os podem leixar sem erro». 

Vê-se que isto ficou matéria assente e regulada. 

II 

SENHORES DA TÁBUA 

Martim Vasques da Cunha, o alcaide mor de Celorico de Basto, era bis- 
neto na varonia de D. Fernão Pais a quem, conforme declaram as testemu- 



(i) Poriugaliae monumenta histórica. Scriptores^ ipág. 358. 
VOI-. I 20 



i54 Brasões 

nhãs na terceira alçada das Inquirições da era de 1296 (i258), a infanta 
D. Teresa doara o julgado da Tábua, com o padroado da sua igreja, a êle 
e a sua muliíer, D. Mor Huzbertiz (i), pertencendo o julgado, ao tempo dos 
depoimentos, aos filhos de Lourenço Fernandes da Cunha (2), netos do pri- 
meiro possuidor. O governo da infanta, ou melhor, rainha D. Teresa ter- 
minou em 1128; foi pois anterior a este ano a doação do julgado da Tábua 
aos Cunhas, em cuja casa êle permaneceu durante sete séculos. Em ne- 
nhuma linhagem portuguesa, me parece, se manteve durante tam largo pe- 
ríodo o senhorio de uma terra, ainda com a notável circunstância dele ter 
passado sempre em linha varonil, sem bastardia, até D. José Maria Vasques 
Alvares da Cunha, 4.° conde da Cunha (3), 5." trinchante da Casa Rial na 
sua família, 22.° senhor do julgado da Tábua, com o padroado da sua igreja, 
12.° administrador do morgado do Bulhaco, par do reino, etc, falecido a 16 
de Março de i865, deixando dois filhos, o 5.** Conde da Cunha e D. Joana 
da Cunha, ambos falecidos sem geração, passando a representação da casa 
aos Meneses da Flor da Murta. 

A D. Fernão Pais, i ." senhor do julgado da Tábua, tanto o Livro velho 



(i) Os livros de hnhagens escrevem o nome desta senhora de modo diverso, D. Mor 
Randufiz, e fazem-na filha de D. Randufe, ou D. Randufo Çoleyma, e de D. Exemea, ou 
D. Eixa. 

(2) «Pelagius Petri, prelatus Sancte Marie de Tavoa, juratus et interrogatus de patro- 
natu ecclesie de Tavoa, dixit quod milites qui habent hereditates de Tavoa sunt patroni, 
Interrogatus si faciunt aliquod fórum Regi, dixit quod non. Interrogatus cujas est hereditas 
Tavoa, dixit quod de filiis de Laurencio Fernandi de Cuya, et de illis qui fuerunt de avo- 
lenga de Donno F. Pelagii et de Donna Maiore Huzbertiz. Interrogatus unde habuitDonnus 
F. Pelagii et Donna Maiore Huzbertiz ipsam hereditatem, dixit quod, secundum quod audivit, 
quod Domina Infans Donna Tàrasia dedit illis eam pro servicio quod fecerunt illi. Petrus 
Fernandi dixit similiter. Petrus Petri dixit similiter. Et multi alii quilibet per se dixit si- 
militer.u — Portugaliae monutnenía histórica, luquisitiones., vol. I, part. 11, pág. 781. 

(3) O título de conde da Cunha fora dado de juro e herdade, por carta de 14 de Março 
de 1760, a D. António Alvares da Cunha, «tendo consideração aos notáveis e distintos ser- 
viços que D. Luís da Cunha me fez, por espaço de sessenta e dois anos sucessivos, nos lu- 
gares de desembargador do Porto e da Casa da Suplicação até o ano de 1696, e depois dele, 

I até seu falecimento, nos empregos de enviado extraordinário na corte de Londres, de em- 
baixador extraordinário e plenipotenciário no congresso de Utreque, e de embaixador nas 
cortes de Londres, Haia, Madrid e Paris, atendendo as sucessivas representações com que 
o sobredito suplicou os referidos serviços lhe fossem despachados em benefício da casa de 
seus pais e do administrador dela, seu sobrinho D. António Alvares da Cunha, contemplando 
ao mesmo tempo os serviços pessoais com que o dito D. António se tem distinguido também 
por sua profissão militar até o posto de capitão de mar e guerra das fragatas da armada, e 
nos empregos de governador e capitão general da praça de Mazagão e do reino de Angola», 
etc. Carta do título de conde da Cunha, na província do Minho, de juro e herdade, erigin- 
do-se o dito lugar logo em vila. — Chancelaria de D. José, livs. 72,°, íi. 85, e 69, ú. 49. 



Cunhas 1 5 5 

das linhagens, como o Nobiliário do Conde D. Pedro, dão já' o apelido da 
Cunha; o primeiro porem atribui-lhe o patronímico Gonçalves e dá-lhe uma 
ascendência mui diversa, mas não menos ilustre, da consignada no segundo 
e geralmente adoptada. Conforme o Livro relho seria o progenitor dos Cu- 
nhas filho de D. Gomes Pais de Piscos, irmão do famoso mestre do Templo, 
D. Gualdim Pais, e ambos da linhagem dos Ramirãosi Esta ascendência 
contudo parece-me prejudicada pelo único documento meu conhecido, apesar 
dele frouxa luz lançar sobre aorigem "da família. Este documento é a acima 
apontada declaração das testemunhas nas Inquirições da era de 1296 (i258). 
Declararam elas que o primeiro senhor do julgado da Tábua fora Fernão 
Pais, como ao fidalgo chama o citado Nobiliário, e não Fernão Gonçalves, 
como é designado no Livro velho^ notando-se ainda que neste o patronímico, 
nesses tempos rigorosamente observado, está errado, pois que, sendo, se- 
gundo ele afirma, Fernão filho de Gomes, não poderia chamar-se Gonçalves. 
Em abono da descendência dos Cunhas da linhagem dos Ramirãos um ligeiro 
indício, insuficiente, se me afigura, para fazer fé, encontro nas Inquirições 
da era de 1296 (i2b8) acima citadas, na quinta alçada porém. Depondo as 
testemunhas sobre as rendas e direitos riais* da paróquia de S. Miguel da 
Cunha, afirmaram existir lá, de tempos antigos, a honra de D. Gonçalo Ra- 
mires (i), nome de um irmão de D. Paio Ramires, de quem foram filhos o 
Mestre do Templo e seu irmão, o suposto pai do primeiro Cunha. 

O Nobiliário atribuído ao conde D. Pedro, no Título LV.° trata «do li- 
nhagem dos de Cuynha domde o mais longe sabemos: o primeyro foy dom 
Goterre (2) que foy naturall de Gasconha», e continua dizendo: «Este dom 
Goterre veo com o comde dom Hemrrique a Portugall seemdo cavalleiro 
boo e velho e de gramde emtemdimento, e fiava o comde delle e chamavao 
aos seus comsselhos, e deulhe o comde muitas herdades e possissões em 
terra de Guimarãaes e de Bragaa e deulhe o porto de Varazim. E com este 
dom Goterre viinha huum seu filho cavalleiro mancebo muy de proll e avia 
nome dom Paay Goterrez, e el nom avia molher ca lhe morrera em sa terra. 
Este dom Paay Goterrez edificou o moesteyro de sam Symom da Jumqueyra 
e o moesteyro de Souto e o de Vilela, e foy casado com dona Ouseemda 
Ermigiz Aboazar, filha de dom Trestamiro Aboazar ... e fez em ella Fer- 
nam Paaez de Cuvnha ...» (3). Mais adiante, no «Titulo LVIII.** de dom 



(i) «It. dixit quod forarii domini Regis non sunt ibi et habet ibi honor de vetu donni 
Gunsalvi ratniriz». — Liv, 9.* de Inquirições de D. Afonso IJI., fl. 29. 

(2) Por uma coincidência singular o último Conde da Cunha também se chamou 
D. Goterre. 

(3) Portugaliae monumenta histórica. ScriptoreSj pág. 356. 



i56 Brasões 

Goterre Auaerete da Sillva, como foi casado e quaaes filhos ouve», começa 
a escrever por esta forma a linhagem dos Silvas: «Este dom Goterre Auda- 
rele foy casado com dona e fez em ella dom Paay Goterrez da 

SilIva, o que fumdou o moesteiro de Cujaaes e foy casado com dona Samcha 
Anes, filha de dom Joham Ramirez ... e fez em ella dom Pêro Paaez Escacha 
e dom Gomez Paaez da Sillva . . . » (i). Ambas as passagens fazem bastante 
diferença do que apareceu impresso em 1640. Dá-se nelas a coincidência, 
como se vê, de o primeiro da linhagem dos Cunhas se chamar D. Goterre 
e o segundo D. Paio Goterres, nomes do primeiro e do segundo dos Silvas, 
tirando deste acaso um genealogista espanhol a conclusão de serem idênticas 
as pessoas e os Cunhas derivados dos Silvas (2). Não me parece contudo 
admissível a presunção, não só por as indicações do Nobiliário medieval 
apenas concordarem nos nomes dos fidalgos, divergindo essencialmente nos 
dados biográficos atribuídos a cada um deles; mas ainda por ao facto pa- 
recer opôr-se a cronologia determinada pelos poucos documentos existentes 
meus conhecidos. D. Paio Goterres da Silva, como mostrarei no artigo dos 
Silvas, vivia em io85 e 1129 e a doação do julgado da Tábua a D. Fernão 
Pais da Cunha é posterior a 11 14 e anterior a 1128, e foi-lhe feita pelos seus 
muitos serviços, excluindo portanto a juvenilidade em que deveria estar se 
fosse, como pretende o genealogista espanhol, filho de um terceiro casamento 
de D. Paio Goterres da Silva. Até dos documentos tiro a ilação de se haver 
o progenitor dos Cunhas inclinado ao partido da rainha D. Teresa, ao passo 
que o primeiro Silva seguiu e acompanhou D. Afonso Henriques. 

Não se julgue contudo, por eu dar a preferência às indicações áo. Nobi- 
liário do Conde D. Pedro, que as aceito todas, incluindo a proveniência da 
Gascunha, não, senhor. 

Quanto ao apelido proveio êle indubitavelmente do solar pela linhagem 
possuído na paróquia de S. Miguel da Cunha, nas proximidades de Braga. 
No quinto rol das Inquirições da era de i32G (1288), chegando o tribunal à 
freguesia de S. Miguel da Cunha encontrou a paróquia dividida em duas me- 
tades, uma reguenga, a outra de fidalgos, mosteiros e igrejas. «Em esta 
meyadade dos filhos dalgo — juraram as testemunhas — som quatro quintaãs 
que som de filhos e netos de Lourenço Fernandez e virÕ nas honrradas des 
que se acordam as testemunhas e per razom destas quintaãs trazem por 
honrra toda a villa, assy ho reguégo delRey, como todo ho ali, que nom 
emtra hii o moordomo do carritell nem peita voz nem coyma, salvo que 



(i) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 363. 

(2) D. Luís de Salazar y Castro, Historia genealógica de ia casa de Silva, vol, I, pág. 86 
e segs. 



Cunhas iSj 

entra hii o moordomo do pam polias teigas. ([ Estee como estaa», determi- 
nou a alçada (i). Outra referência ao solar dos Cunhas ainda se encontra 
nas mesmas Inquirições, em diverso rol porem. Chegando os inquiridores 
ao julgado da Tábua, declararam as testemunhas ser ele «herdamento dos 
de Coia e doutros filhos dalgo e trage hy seu juiz e seu moordomo e tra- 
gemno por honrra». Em vista da informação, mandaram-se manter os pri- 
vilégios (2), os quais foram depois confirmados, por sentença de 3o de Março 
da era de i38o (1342), a Vasco Martins da Cunha, filho de menor idade de 
Martim Vasques da Cunha, já falecido, e de D. Violante Lopes Pacheco, 
filha de Lopo Fernandes Pacheco (3). Nesta sentença torna-se a dizer que 
«o dito julgado de Tavoa era dos de Cuynha». 

D. Lourenço Fernandes da Cunha nomeado nas inquirições de i258 e 
1298, como sendo já falecido, era o filho primogénito de D. Fernão Pais da 
Cunha, i.° senhor da honra do julgado da Tábua. Neste domínio sucedeu 
a seu pai, bem como no senhorio da paróquia de S. Miguel da Cunha onde 
possuía quatro quintas, todas honradas, como acima vimos, uma das quais, 
com sua torre, era o solar da linhagem. Alêm disso teve os padroados das 
igrejas da Tábua e S. Miguel da Cunha, e dos conventos de S. Simão da 
Junqueira, S. Salvador do Souto e Santo Estêvão de Vilela todos da ordem 
dos Cónegos regrantes de Santo Agostinho. Tomou parte no cerco e con- 
quista de Sevilha em 1248 e durante as perturbações dos primeiros anos do 
reinado de Sancho II, de i223 a 1229, foi muito vexado em nome dei Rei 
por Vasco Mendes, provavelmente o de Sousa, e escreveu uma famosa carta 
de protesto: oHec mentio de malefactoria, quam Rex Domnus Sancius fecit 
Domno Laurentio Fernandi, et precepit facere . . . miserunt ignem in sua 
quintana de Cuina, et cremaverunt eam quia per igne nichil ibi remansit: 
Et derribaberunt de ipsa Turre quantum potuerunt ...» (4). De sua mulher 
D. Sancha Lourenço, filha de Lourenço Gomes de Maceira, teve primogénito 
a D. Gomes Lourenço da Cunha. 

Sucedeu este nos senhorios e padroados possuídos por seu pai, mas, por 
sentença de 8 de Setembro de i323 (i285), foi-lhe tirado o padroado da 



(1) Liv. 1." de Inquirições de Alêm Doiro, fl. 3 v. 

(2) Liv. de Inquirições da Beira e Alêm Doiro, fl. 10. ' 

(3) Chancelaria de D. Afonso IV, liv. 4.", fl. 96 v. — Nesta ocasião foi confirmada a 
Vasco Martins a honra do julgado da Tábua, com toda a jurisdição de juiz e de mordomo, 
ressalvando a apelação para el Rei. 

(4) João Pedro Ribeiro, Dissertações, tom. I, Appendice n.» xuii, com o engano de atri- 
buir o documento, que não é datado, ao reinado de Sancho I, quando ele é do tempo de 
Sancho II, como advertiu Herculano, na Nota xvi do tom. II da Historia de Portugal. 



i58 Brasões 

igreja de S. Miguel da Cunha (i). Com as freiras de Santa Ana da Ponte 
de Coimbra havia tido prolongadas contendas, desde 1277, pelo menos, às 
quais D. Afonso III quis pôr ponto, intimando o fidalgo a comparecer na casa 
do concelho daquela cidade no dia 6 de Julho do referido ano, onde lhe foi 
ordenado que não continuasse a vexar a prioresa e religiosas, mas nada con- 
seguiu e só no reinado do seu sucessor terminaram os vexames (2). De todas 
estas severidades usou com êle D. Denis apesar de ser seu afilhado: «E este 
dom Gomez Lourenço foy muito homrrado e de gram fazenda e foy padrinho 
delrrey dom Dinis» (3). 

De D. Gomes Lourenço da Cunha parece ter sido sucessor seu irmão 
João Lourenço da Cunha, pelo menos teve o padroado do mosteiro de S. Sal- 
vador do Souto e foi herdado no julgado da Tábua, instituindo em 1262 com 
os bens lá possuidos um morgado com certa obrigação de missas (4). Foi 
fidalgo prepotente e irrequieto, tendo cometido toda a sorte de violências 
durante o reinado de D. Sancho II. Na Cornelhã existia um campo, inculto 
desde 1244, ,em virtude de João Lourenço mandar prender pelas gargantas 
e acoimar os homens que se abalançaram a ir lavrá-lo (5). 

Outro irmão de D. Gomes Lourenço foi D. Egas Lourenço da Cunha, «o 
melhor e mais honrrado de seus irmãos», o qual se encontra, na qualidade 
de rico homem, confirmando vários forais desde 1236 até 1260 (6), e ante- 
riormente umas doações dos anos de 1249 e 12b 1 (7). Morreu na era de 
1299(8), ano de Cristo de 1261, não deixando descendência, legítima pelo 
menos. Por duas vezes foi Egas Lourenço vitima da má leitura de textos: 
de uma vez fizeram-no padrinho de baptismo de D. Denis, o que já lá acima 
fiicou advertido; doutra vez, com tam pouco fundamento como já vou mos- 
trar, fizeram-no privado de D. Afonso III. A carta de doação da vila do 
Souto da Ribeira de Homem a João Soares Coelho, datada de iii das nonas 
de Março da era de M. CC. Lx secunda (5 de Março de 1254 e. v.) encontra-se 
transcrita de leitura nova no liv. 1.*' de Alem Doiro, fl. 216, cheia porem de 
erros de leitura, dos quais os principais são a data da era, e os nomes dos 



(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl, loG. 

(2) Ibidem, fl. 106 v. 

(3) Nobiliário do Conde D. Pedro^ pág. 356 dos Poriíigaliae momimenta histórica. Scri- 
ptores. Fr. Francisco Brandão leu mal este trecho na Monarchia lusitana, V, fl. 4 v , e su- 
pôs ser o padrinho de D. Denis D. Egas Lourenço, irmão de D. Gomes. 

(4) D. Nicolau de Santa Maria, Chronica dos Cónegos regrantes^ I, 335. 

(5) Liv. 9.° das Inquirições de D. Afonso 111, fl. 6. 

(6) Portugaliae monumenta histórica. Diplomata., passim. 

(7) Archivo histórico portugue^^ IV, 38o e 38i. 

(8) J. P. Ribeiro, Dissertações, tom. III, Appendice, pág. 84, doe. xxix. 



Cunhas 159 

x:onfirmantes. Quanto à data o copista não reparou para o x aspado, ou não 
lhe sabia o valor, e em vez de 1292, escreveu 1262; quanto aos confirmantes 
introduziu entre eles, em seguida a «dom Mem Soares privado dei Rey», a 
dom Egas Lourenço da Cunha privado dei Rey, que não confirmou tal 
carta, pois não se encontra no registo original, o liv. i.° da Chancelaria de 
D. Afonso III, fl. 4. Por se terem aproveitado da leitura nova, erraram 
nas suas afirmações dois distintíssimos historiadores, Fr. Francisco Brandão, 
na Monarchia lusitana, V, fl. 4 v., e Francisco Manuel Trigoso de Aragão 
Morato, nas Observações sobre a palavra Privado, a pág. 170 da 2.* part. 
do tom. XI das Memorias da Academia. O primeiro saltou por cima do 
erro na data, não a mencionando; o segundo apresenta-a certa, provavel- 
mente por a ter encontrado na própria Monarchia, no tom. IV, fl. 187, onde 
Fr. António Brandão se remete ao oi:iginal. 

Filhos ainda de D. Lourenço Fernandes da Cunha e irmãos dos prece- 
dentes encontro Vasco Lourenço da Cunha e D. Martim Lourenço da^^Cunha. 
Do primeiro tratarei a seguir, do segundo ocupar-me-hei lá mais adiante. 

Vasco Lourenço deverá ter sido o segundogénito por isso que sucedeu 
no senhorio da honra do julgado da Tábua. Possuiu também, ao que pa- 
rece, o morgado lá instituído por seu irmão João Lourenço da Cunha em 
1262, e foi casado com D. Teresa Pires, filha de D. Pedro Fernandes Por- 
tugal e de D. Froilhe Rodrigues de Pereira, «por quem, declara um genealo- 
gista espanhol, seus descendentes juntaram às nove cunhas a cruz vermelha 
em campo de prata, que é a insígnia dos Pereiras» (i); é porem engano evi- 
dente. A cruz dos Pereiras é de prata em campo de vermelho e a cruz de 
vermelho em campo de prata, usada no escudo por alguns Cunhas de Por- 
tugal e de Castela, é a cruz dos Albergarias, cuja casa vieram a herdar, se- 
gundo adiante direi. Idêntica proveniência tiveram os escudetes das quinas 
postos em bordadura pelos fidalgos das principais casas desta geração. 

Teve Vasco Lourenço da- Cunha dois filhos varões: Martim Vasques da 
Cunha, o alcaide mor de Celorico de Basto de quem narrei a façanha da 
entrega do castelo; e Estevão Vasques da Cunha, que em 1278 era vassalo 
e cavaleiro da casa do infante D. Denis, recebendo de soldada, no dia 3o de 
Outubro de cada ano, trezentas libras em panos, outro tanto como na mesma 
casa havia seu primo Fernão Martins da Cunha (2), filho de D. Martim Lou- 
renço da Cunha. 

Vasco Martins da Cunha, bisneto na varonia do Alcaide mor de Celorico 



(i) Dr. Gerónymo Gudiel, Compendio . . . de los Girones, Aicalá, iSjy, fl. 75 v. 
(2) Arquivo histórico português, X, 58. 



i6o Brasões 

de Basto, foi 7.° senhor da honra do julgado da Tábua, com a Jurisdição cível 
e crime a qual lhe foi confirmada por sentença de 3o de Março da era de 
i38o (1842), sendo então ainda menor e sob a tutela de seu avô materno 
Lopo Fernandes Pacheco (i); sentença confirmada por D. João 1 em 3 de 
Maio da era de 1480 (1392) (2). Foi também 5.° administrador do morgado 
da Tábua, senhor da terra da Cunha que D. Pedro 1 lhe confirmou em prés- 
tamO) por carta de 16 de Junho da era de 1396 (i357), «por quanto a tinha 
dei Rei seu padre» (3); da jurisdição cível e crime do julgado da terra de 
Soverosa a qual lhe foi desembargada, como a houvera seu pai, em 23 de 
Janeiro da era de 1486 (1398) (4); b.° senhor do couto do Pinheiro e da Cas- 
tanheira de cuja jurisdição cível e crime teve mercê para sempre por aquela 
guisa e condição que a havia seu pai e avós, em 4 de Abril da era de 1428 
(i385) (5); e de toda a mais casa de seus antepassados. Viveu nos reinados 
•de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I dos quais todos teve o título de 
vassalo. D. Pedro I fez-lhe mercê das vilas de Angeja, Pinheiro, Pereira, 
Bemposta e Castanheira em i357, das alcaidariás mores dos castelos de Mel- 
gaço e Castro-Laboreiro em 16 de Junho da era de i3gb (i357), da do cas- 
telo de Lisboa em 29 do mesmo mês e ano (6), e das terras de Segadães e 
Paços sobre Estrada, no almoxarifado de Aveiro, para comprimento da sua 
quantia, em 20 de Fevereiro da era de 1402 (i364) (7). Por morte de D. Fer- 
nando seguiu o partido de seu genro el Rei de Castela; logo porem se arre- 
pendeu e veio unir-se ao partido nacional capitaneado pelo Mestre de Avis 
a quem, antes e depois de rei, serviu sempre com uma fidelidade nem por 
todos os seus filhos seguida. Esteve com quatro deles nas Cortes de Coim- 
bra do ano de i385, nas quais foi aclamado rei D. João I que foi solenemente 
jurado em 6 de Abril e logo fez mercê a Vasco Martins da Cunha, o Velho, 
de o nomear do seu conselho, havendo-lhe doado, por duas cartas de 4 do 
mesmo mês, a terra de Figueiredo e a aldeia de Assequins, para êle, sua 
mulher e descendentes em forma de morgado que anda em filho varão (8), 
e a jurisdição cível e crime do couto do Pinheiro, como já ficou acima dito. 
D. João I ainda concedeu aos moradores do seu couto da Tábua isenção do 
serviço militar e de aposentadoria, por carta de privilégios de 7 de Março 



(i) Chancelaria de D. Afonso IV, liv. 4.°, fl. 96 v. 

(2) Liv. 2.° de Além Doiro, fl. 54; e liv. 2.° da Chancelaria de D João /, fl. 66 v. 

(3) Chancelaria de D. Pedro I, liv. i.», fl. i v. 

(4) Chancelaria de D. João I, liv. 2.'», fl. 166. 

(5) Ibidem, liv. 2.», fl. 166, e liv. i.", fl. 116 v. 

(6) Chancelaria de D. Pedro I, liv. i.", fl. 3. 

(7) Ibidem, fl. 94. 

X8) Chancelaria de D. João I, liv. 1.», fl. 117. 



Cunhas i6i 

de 1439 (1401), dada em Leiria (i). Faleceu pelos anos de 1407 e Jaz em 
S. Francisco de Coimbra. 

No arquivo do mosteiro de Lorvão existiam dois instrumentos originais, 
um de 25 de Novembro de 1445 (1407), do inventário dos bens deste Vasco 
Martins, e o outro de 7 de Maio de 1447 (1409), das partilhas entre os seus 
herdeiros. Por eles consta ter êle casado em primeiras núpcias com Leonor. 
Rodrigues de Alvarenga, e que então era sua viúva e cabeça de casal sua 
segunda mulher D. Teresa. Herdeiros eram D. Gonçalo da Cunha, bispo 
da Guarda, Gil Vaz da Cunha e sua mulher Leonor Gonçalves de Moura, 
Pedro Vaz da Cunha e sua mulher D. Teresa de Ataíde, Vasco Martins da 
Cunha, o Moço, e sua mulher Brites Gomes da Silva, D. Leonor da Cunha (2) 
e seu marido D. João de Castro, D. Lsabel da Cunha, recolhida em Lorvão, 
filha do conde Martim Vasques da Cunha, D. Mecia Vasques da Cunha, aba- 
dessa de Lorvão, e D. Beatriz da Cunha, também filha do Conde (3). Nestas 
duas escrituras só me dá motivo para reparo o apelido da primeira mulher 
de Vasco Martins da Cunha, a qual não podia ser Alvarenga e era decerto 
Albergaria, como está provado pela sentença de 17 de Março da era de 1427 
(1389) a qual Julgou o morgado de Santo Eutrópio a Martim Vasques da 
Cunha, «como neto maior lídimo de Lopo Soares de Albergaria» (4). Não 
podia ser seu neto pelo pai, logo foi-o pela mãe. 

Vasco Martins da Cunha, o Velho, casou a primeira vez com Beatriz Lo- 
pes de Albergaria (õ), filha de Lopo Soares de Albergaria, senhor da alber- 
garia de Paio Delgado e do morgado de Santo Eutrópio, em Lisboa, e de 
sua mulher D. Mecia Rodrigues de Meira. Por este casamento vieram os 
.Cunhas a herdar a casa de Albergaria, tendo sido os bens dela doados a 
Martim Vasques da Cunha, filho primogénito de Beatriz Lopes, por cartas 
de 20 de Setembro e 14 de Outubro de i386(6), e os morgados Julgados 
pela acima citada sentença de 17 de Março de 1389. Deste matrimónio nas- 
ceram os seguintes filhos: 

i.° — Martim Vasques da Cunha, o da batalha de Trancoso, foi um dos 



(i) Chancelaria de D. João /, liv. 2.°, fl. 169 v. 

(2) Viúva do famoso dr. João das Regras falecido em 1 404 e já casada em segundas núpcias. 

(3) Fr. Manuel dos Santos, Monarquia lusitana, VIII, 688. 

(4) Provas da Historia genealógica, VI, 148. 

(5) Dou a preferência a este nome ao de Leoríor Rodrigues de Alvarenga, como apa- 
rece na Monarquia lusitana^ por não ter confiança no extrato do documento lá citado, não 
só por trazer o apelido errado, mas até porque o cronista parece não ter visto a escritura 
alegada. Álvaro Ferreira de Vera, nas Notas ao Nobiliário do Conde D. Pedro, também 
segue a versão por mim adoptada, e bem assim outros autores. 

(6) Chancelaria de D. João I, liv. i.", fls. 177 e i85. ^ 

VOL. I 21 



102 Brasões 

mais denodados fidalgos do seu tempo. Comparavam-no a dom Galaaz, um 
dos cavaleiros da Távola Redonda, e muito notável feito praticou quando, 
em 1387, no cerco de Vilalobos, indo à forragem só com mais dezassete 
companheiros, se defendeu contra quatrocentas lanças castelhanas, fortifi- 
cando-se numas antas ali próximas (i). Este homem, nove anos volvidos 
sobre esta façanha, passou-se para o inimigo, apesar da sua grande casa em 
Portugal, seduzido pelos prometimentos de Henrique III e talvez também 
invejoso do muito acrescentamento de Nuno Alvares Pereira. Herdara a 
casa de seu avô materno, mas não chegou a suceder na de seu pai por se 
ausentar para Castela, onde foi criado conde de Valência de Campos em 
iSgy. Dele e de sua primeira mulher D. Maria Giron (Girona, como lhe 
chamam os documentos), senhora desta casa, procederam por varonia as 
casas dos marqueses de Vilhena, duques de Escalona, condes de Xiqueíía; 
a dos duques de Ossuna, condes de Urena, e outras. Por fêm.ea procede- 
ram entre outros os senhores e marqueses de Cascais, hoje na casa de Niza, 
os quais herdaram a albergaria de Paio Delgado e o morgado de Santo Eu- 
trópio. De sua segunda mulher D. Maria de Portugal, filha primogénita e 
herdeira do infante D. João, duque de Valência de Campos, procederam as 
casas dos condes de Valência, duques de Najera, a dos condes de Requena, 
a dos marqueses de Escalona, e outros (2). 



(i) Fernão Lopes, Chronica de D. João 1, part. 11, caps. 7G e 108. 

(2) Existem muitas cartas régias relativas a Martim Vasques da Cunha. Aqui vão oâ 
apontamentos dalgumas: a D. Maria Girona, mulher de Martim Vasques da Cunha, nosso 
vassalo, doação de juro e herdade, com as jurisdições, dos lugares de Tarouca e Valdigem, 
com seus termos, em Vila Nova de Anços, a 5 de Março de 1410 (1372); à mesma senhora, 
«por divido que comnosco tendes», e em casamento com o seu referido marido, foi regu- 
lada, por carta dada em Queiraz a 6 de Outubro do mesmo ano, a sucessão naquelas terras, 
que ficariam, depois da morte dela e do marido, ao filho varão mais velho que d'entre eles 
houvesse, e seguidamente aos seus descendentes de filho em filho até à extinção da linha 
varonil, porque então tornariam as terras para a Coroa; ainda no mesmo ano, por carta 
dada em Leiria a u de Novembro, fez D. Fernando doação do castelo de Lamego a Martim 
Vasques. — Chancelaria de D. Fernando, liv, i.", fls, loi v., 112 v. e i[5 v. 

No reinado de D. João I, entre várias outras cartas, encontram-se estas: doação para 
sempre a Martim Vasques da Cunha, nosso vassalo, do morgado e hospital de Santestrópio 
(Santo Eutrópio), que é edificado na cidade de Lisboa, em virtude da ida para Castela de 
Gaterina Dias e Urraca Fernandes sua madre, que o dito morgado e hospital tinham, dada 
no Porto a 20 de Setembro de 1424 (i386); doação para sempre da posse e direito que Ga- 
terina Dias, filha de Diogo Soares, tinha no hospital de Santo Eutrópio edificado em Lisboa 
na freguesia de S. Bartolomeu, assim como ela o tinha quando se foi para Castela, dada em 
Ponte da Barca, a 14 de Outubro do referido ano; carta de privilégios para os caseiros, fo- 
reiros e lavradores dos seguintes bens do mesmo Martim Vasques: albergaria que foi de 
de Lopo Soares (albergaria de Paio Delgado) e hospital de Santo Eutrópio, ambos edificados 



Cunhas 1 63 

2.° — Estêvão Soares da Cunha foi desassisado, dizem os nobiliários an- 
tigos, e eu suponho ter êle sido um infeh*z. Casou por amores com uma 
mulher de desigual condição a qual lhe pagou, traíndo-o; desforçou-se, ma- 
tando o amante; homiziou-se em Castela e ficou sem a casa por o irmão 
Vasco lha ter tirado, apesar do seu incontestável direito a suceder nela após 
a expatriação do irmão primogénito. De Estêvão Soares foi neto Luís da 
Cunha, cavaleiro fidalgo da casa de D. Afonso V na lista 1467. Reivindicou 
este para si o senhorio e morgado da Tábua que por sentença houve de sua 
parenta D. Mecia da Cunha, bisneta de Vasco Martins da Cunha, o Moço, 
e mulher de Pêro Gomes de Abreu. Casou com sua sobrinha D. Maria da 
Cunha, filha de seu primo com irmão D. Aires da Cunha, e não tendo tido 
dela descendência nomeou o senhorio da Tábua em seu sogro, a quem, segundo 
dizem, D. João III o confirmou por carta de 17 de Outubro de i532. Nos su- 
cessores de D. Aires se continuou o senhorio. Encontro num apontamento 
meu, sem indicação da fonte, a notícia de Luís da Cunha haver sido sepul- 
tado na igreja de Santa Maria de Celorico de Basto, «em sepultura com as 
suas armas, tendo dois anjos por suportes, e este letreiro: Aqui ja:{ Luís da 
Cunha chefe dos Cunhas senhor de Táboa». A sepultura doutro senhor da 
Tábua consta-me ter existido no corpo da igreja de Santa Caterina de Lis- 
boa, no pavimento, com este epitáfio: Sepultura de D. M.^^ Alv\ da Cunha, 
Comendador da Ordem de Xp.° Chefre da mui antiga e lllustrefamilia dos 
Cunhas, que tendo nesta Cidade três Capellas, por humildade se mandou 
lançar na sua Parochia, viveo 65. annos, e 8. meses e i3. dias, morreo em 
g. de Setembro de 162J. annos (i). Este D. Manuel foi 17." senhor da Tábua 
è 15.*^ do seu morgado, em que sucedeu a seu primo do mesmo nome. Foi 
também administrador do morgado de Bulhaco, instituído, segundo se diz, 
em 1237, com capela da invocação de Santa Margarida, na igreja de S. Ma- 
mede de Lisboa, por Maria Pires, mulher de Pedro Martins de Bulhão, ir- 
mão de Santo António, e ambos quartos avós de D. Maria Afonso de Bulhão, 
primeira mulher de D. Aires da Cunha, 14.° senhor da Tábua, e avô de 
D. Manuel. Este possuía ainda uma segunda capela, da invocação de Santo 
António, instituída na igreja da Vitória de Lisboa por seu tio avô Fernão 
Vaz da Cunha, que viera da índia muito rico. Agora, qual era a terceira 
capela mencionada no epitáfio, não sei. De Estêvão Soares da Cunha, além 
dos senhores da Táboa, condes da Cunha, provieram os senhores de Santar, 
marqueses em Espanha, onde ficaram depois da revolução de 1640. 



em Lisboa, e quinta de Benafarão no termo de Almada, dada em Lisboa a 5 de Abril de 
1427 (iSSg). — Chancelaria de D. João I, liv. 1.», fls. 177 e i85; liv. 2.", fl. 21 v, 
(i) Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 180. 



1 64 Brasões 

3.° — Vasco Martins da Cunha, o Moço, vassalo de D. João I, foi senhor 
de Penalva, Sinde e Azere, por carta de 8 de Abril de 142 1 (i383), em pa- 
gamento de sua contia, no valor de 260 libras (i), doação que D. João I lhe 
confirmou, e mais a terra de S. Gião, por carta de 21 de Maio de 1422 
(i383) (2); senhor da terra de Lanhoso, com suas rendas e direitos, e a Ju- 
risdição cível e crime, tudo de Juro e herdade para sempre, por carta de 1 1 
de Março de 1424 (i386) (3), confirmada por D. Duarte em 28 de Março de 
1434 (4); alcaide mor do castelo deLanhoso por carta de 4 de Julho de 1427 
(i38g) (5). Achou-se nas Cortes de Coimbra de i385, quando foi aclamado 
D. João 1 que lhe fez muitas mercês (6). Sucedeu a seu pai no Julgado da 
Tábua e morgado da Cunha, em virtude da ausência de seu irmão primogénito 
e da incapacidade de seu irmão segundogénito, conforme consta, entre outros 
documentos, de uma escritura de 10 de Abril de 1436 lavrada pelo notário de 
Vasco Martins naquele Julgado (7). Em 143 1 pretendeu abandonar o mundo 
e professar cm alguma Ordem religiosa, mas D. João I mandou-lhe que 
«tornasse a sua vida e que houvesse suas terras como havia». Obedeceu e 
tornou a «fazer vida com sua mulher e a criar e manter seus filhos» (8). 
Foi casado com Beatriz Gomes da Silva, filha de Fernão Gomes da Silva 
que fora senhor de Lanhoso, e ainda viviam em 1436, quando autorizaram 
a doação, que seus filhos Rui da Cunha, prior de Santa Maria de Guima- 
rães, Aires da Cunha, escudeiro do infante D. Fernando, D. Maria da Cunha, 
abadessa de Lorvão, e Martim Vasques da Cunha com Mecia de Andrade, 



( 1 ) Chancelaria de D. Fernando, liv. 3.°, fl. 74 v. 

(2) Chancelaria de D. João /, liv. i.<*, fl. 19 v. 

(3) Ibidem^ fl. 171. — No diploma declara-se que haverá a terra, como a tinha Fernão 
Gomes da Silva, que se ora foi para Castela. Este Fernão Gomes era o sogro de Vasco 
Martins. 

(4) Chancelaria de D. Duarte, liv. 1.», fl. 77 v. 

(5) Chancelaria de D. João /, liv. 2.", fl. 40 v. 

(G) Cartas de 8 de Junho de i384, de mercê de bens em Torres Vedras; de 3 de Outu- 
bro do mesmo ano, de bens no Porto; de 6 de Outubro de i385, da coutada de Randide, no 
termo de Torres Vedras; e de 19 de Novembro de 1387, de privilégios para a sua quinta de 
Ouvim e honra do couto da Torre, no julgado de Regalados. — Chancelaria de D. João I, 
liv. I.", fls. 16, 48 v., 79 V., e 196 V. 

(7) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.», fl. 178 v. — Por aqui se vê que não teve inteiro 
cumprimento a carta de 29 de Dezembro de 1438 (1400), pela qual D. João I fizera mercê a 
Pêro Vasques da Cunha, seu meio irmão, de poder suceder por morte do pai nos morgados 
da Cunha, Tábua e Pinheiro {Livro 2fl de D. João I, fl. 170), apenas sucedeu no último. 

(8) Consta da carta de 7 de .Janeiro de 1431 de doação das terras de S. Gião e Penalva 
a sua filha Leonor da Cunha, em casamento com Fernão Gomes de Góes. — Chancelaria de 
D. João 1, liv. 4°, fl. 128 v. 



Cunhas i65 

sua mulher, fizeram a seu irmão Afonso da Cunha dos bens que haviam de 
herdar de seus pais na comarca de Antre Doiro e Minho, doação confirmada 
por D. Duarte, em Estremoz, a 4 de Maio do referido ano (i). Alem dos 
filhos acima nomeados ainda tiveram outro. Já então falecido, o qual se cha- 
mou Luís Vasques da Cunha, ou simplesmente Luís Vasques. Teve ele mil 
e quinhentos reais de moradia na casa de D. João I (2) e foi prior de Santa 
Maria de Guimarães e o era nos anos de 1419 a 1428 (3). Mandou ele fazer 
uma preciosa arca de prata doirada para relíquias, a qual se encontra re- 
produzida entre as estampas da folha 7 da Arte Religiosa em Portugal, 
acompanhada de umas interessantes notas de Joaquim de Vasconcelos, meu 
erudito amigo. A inscrição, conforme se encontra reproduzida neste livro, 
diverge na data da versão do autor citado na nota, pois este leu era de 1468, 
quando na realidade parece ser era de 1457; mas isso não influi. Supõe 
Grasbeck haver Luís Vasques sido filho de Vasco Martins da Cunha, o Ve- 
lho, mas nisso enganou-se, porque ele foi filho de Vasco Martins da Cunha, 
o Moço, como prova o escudo das suas armas na mesma arca esculpido: 
esquartelado de nove cunhas (Cunha) e de um Hão (Silva), as primeiras pelo 
pai, as segundas pela mãe. Além disso não podia ter sido filho de Vasco 
Martins, o Velho, porque não vem mencionado entre os seus filhos na citada 
escritura de 7 de Maio de 1409. Sucedeu-lhe no priorado seu irmão Rui da 
Cunha, ou melhor D. Rodrigo da Cunha, de quem existem memórias desde 
1424 a 1447 (4). Na linha primogénita da descendência de Vasco Martins, 
o Moço, conservou-se durante mais duas gerações o senhorio do julgado da 
Tábua, tornando depois aos descendentes de seu irmão Estêvão Soares, como 
•acima disse. Nesta linha e bem assim nas colaterais está há muito extinta 
a varonia. 

4.° — Gil Vasques da Cunha, alferes mor. Dele tratarei no capítulo s^ 
guinte. 

5." — Lopo Vasques da Cunha, senhor da terra da Maia, serviu de alferes 
mor na batalha de Aljubarrota por seu irmão Gil Vasques, e em 1397 passou 
para Castela com seu outro irmão Martim Vasques da Cunha. Em 5 de 
Novembro desse mesmo ano deu-lhe Henrique III as vilas de Buendia e 
Azanon, na mesma ocasião em que criou conde de Valência de Campos a 



(i) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.", fl. 178 v. 

{2) Soares da Silva, Memorias de D. João /, vol. iv, doe. 3i, pág. 216, onde aparece no- 
meado a seguir a seu irmão Martim Vasques. 

(3) Francisco Xavier da Serra Grasbeck, Catologo dos Abbades de Guimarães no vol. 
de 1726 dos Documentos e Memorias da Academia Real da^Historiá. 

(4) Ibidem. 



i66 Brasões 

seu irmão. Juntamente com sua mulher fundou Lopo Vasques, em Portilho^ 
a 3 de Agosto de 1446, dois morgados para seus dois filhos mais velhos. 
Sua mulher foi D. Teresa Carrilho de Albornoz, senhora de Paredes, Por- 
tilho e Valtablado, irmã do cardial D. Afonso Carrilho, e ambos os cônjuges 
já eram falecidos a 7 de Setembro do referido ano, deixando estes filhos: 
D. Pedro da Cunha, i.° conde de Buendia, do conselho e guarda mor de 
D. João II de Castela, progenitor dos demais condes, que foram grandes de 
Espanha, dos marqueses de Vai de Cerrato, etc; D. Lopo Vasques da 
Cunha, duque de Huete, com ilustre descendência; Gomes Carrilho, senhor 
de Jadraque, camareiro de D. João It, progenitor dos marqueses de Carra- 
cena, dos de Castro Fuerte, etc; D. Afonso Carrilho, arcebispo de Toledo, 
progenitor dos marqueses de Falces; e D. Leonor da Cunha, condessa 
de Cifuentes, primeira mulher de D. João da Silva, 1." conde de Cifuen- 
tes (i). 

6." — Rui Vasques da Cunha, nomeado em alguns nobiliários, poderá ser 
o cavaleiro Rui da Cunha, comendador da Ordem de Santiago, que pelejou 
na hoste portuguesa na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de i385. 
Era já falecido em 7 de Maio de 1409 (2) e portanto não pode ter sido o Rui 
Gonçalves da Cunha, arcediago da Sé do Porto, que dizem ter fundado um 
morgado em 1450. 

7." — D. Mecia Vasques da Cunha era abadessa de Lorvão em 1409, como 
acima vimos, e talvez seja a Mecia da Cunha, dama da rainha D. Felipa, 
com setecentas libras de moradia (3). 

Vasco Martins da Cunha, o Velho, casou a segunda vez com D. Teresa 
de Albuquerque, filha natural de D. Fernando Afonso de Albuquerque, mes- 
tre de Santiago, embaixador a Inglaterra. Deste segundo casamento nasce- 
ram estes filhos: 

8.° — D. Gonçalo Vasques da Cunha, doutor em direito pela Universidade 
de Bolonha, bispo eleito da Guarda em fins de 1397, só tomou posse do bis- 
pado em 1400 e governou-o até 1426, ano em que morreu nalgum dos 
meses de Agosto a Novembro. Contribuiu muito para a edificação da nova 
Sé, sobre cujo pórtico lateral da banda do norte se colocou o escudo das 
suas armas, que era esquartelado: o I e IV das quinas do reino: o II e III 



(i) López de Haro, Nobiliário de Espafía, II, 8; Salazar y Castro, Casa de Lara, II, 843, 
e Casa de Silva, I, 254. 

(2) Data da escritura de partilhas acima citada. Nela não vem mencionado, entre os 
filhos de Vasco Martins da Cunha, nenhum Rui, sinal de que já tinha morrido, se existiu. 

(3) Soares da Silva, Memorias de D. João I, IV, 221. 



Cunhas i 67 

das nove cunhas. A sua Sé legou a sua biblioteca, importante para o 
tempo (i). 

9.° — Pêro Vasques da Cunha, senhor de Angeja, Pereira, Assequins, 
Bemposta, Figueiredo e dos coutos do Pinheiro e Castanheira, foi o proge- 
nitor dos Albuquerques, senhores de Anjeja, do Conde de Penamacor e dou- 
tros que serão mencionados no título dos Albuquerques. 

10." — D. Isabel de Albuquerque, mulher de Gonçalo Vaz de Melo, o 
Moço, senhor da Castanheira, Povos e Cheleiros, e alcaide mor de Évora, 
foi mãe, entre outros, de D. Pedro de Melo, conde da Atalaia, e de D. Leo- 
nor de Albuquerque, mulher de João Gonçalves de Gomide, senhor de Vila 
Verde e escrivão da puridade de D. João I. Seu marido matou-a injusta- 
mente, pelo que foi degolado, e os filhos, aborrecendo o apelido paterno, 
adoptaram o materno, o qual seus descendentes ilustraram nas pessoas do 
grande Afonso de Albuquerque, de Matias de Albuquerque, vice rei da índia, 
e doutros. 

A descendência proveniente dos dois casamentos de Vasco Martins da 
Cunha, o Velho, dividiu-se em dois ramos distintos. No primeiro conservou-se 
o apelido originário, no segundo foi este trocado pelo de Albuquerque. 

Manteve-se o senhorio do julgado da Tábua e dos morgados da Cunha e 
da Tábua na linha primogénita portuguesa, a qual só veio a extinguir-se na 
varonia em 1895 pela morte do 5." Conde da Cunha. Então ficou subsistindo 
a varonia dos Cunhas unicamente nos descendentes do alferes mor Gil Vas- 
ques da Cunha, aos quais destino o capítulo iii deste artigo. 

Quanto aos Albuquerques, provenientes dos Cunhas, constituirão eles a 
matéria do XIV artigo. 

Os descendentes do primeiro casamento de Vasco Martins da Cunha, o 
Velho, alteraram as suas armas acrescentando-lhes as dos Albergarias, no todo 
ou em parte, por se haver fundido a casa dos Albergarias na dos Cunhas. 

Os que em Espanha vieram do Conde de Valência de Campos, filho pri- 
mogénito, trouxeram em campo de negro banda terçada de oiro, prata e 
oiro, cada uma das partes de oiro carregada de nove cunhas de azul postas 
na direcção da banda, 3, 3 e 3, e a parte de prata carregada de uma cruz 
florida de vermelho, vazia de prata; bordadura de prata carregada dos cinco 
escudetes das quinas do reino. 

Os que em Portugal vieram de Estêvão e de Gil, 2.° e 4.° filho, acres- 



(i) José Osório da Gama e Castro, Diocese e districto da Guarda, págs. SaS e 421. 



1 68 Brasões 

centaram ao antigo escudo da casa uma bordadura cosida de prata, carre- 
gada das quinas do reino. Destes alguns dispuseram as suas armas pela 
seguinte forma: esquartelado: o I e IV de oiro nove cunhas de azul; o II e 
III de prata, cruz florida de vermelho e vazia do campo. Bordadura de todo 
o escudo de prata, carregada de nove escudetes de azul, sobrecarregados de 
cinco besantes de prata. Estas porem não creio, que sejam hoje usadas, 
apesar de ainda se verem na primeira das capelas afonsinas da charola da 
Sé de Lisboa (i), e, segundo penso, no palácio do governo, em" Pangim, no 
retrato de Nuno da Cunha (2). 

Os que em Espanha vieram de Lopo, 5.** filho de Vasco Martins da Cunha, 
o Velho, usaram também do escudo das cunhas com a bordadura das quinas. 

Ficaram portanto desde esse tempo, princípios do século xv, existindo 
em Portugal dois escudos diferentes para armas dos Cunhas. O primeiro, 
as nove cunhas de azul em campo de oiro, com a bordadura das quinas; o 
segundo, as nove cunhas somente, sem a bordadura. 

O primeiro é privativo das casas dos senhores da Tábua, condes da Cu- 
nha, dos senhores de Santar, dos senhores de Gestaçô, dos condes de S. Vi- 
cente, dos condes de Povolide, dos marqueses de Olhão, e dos condes de 
Lumiares. O segundo dos demais Cunhas. 

III 
CONDES DE LUMIARES 

Gil Vasques da Cunha, quarto filho de Vasco Martins da Cunha, o Velho, 
serviu ao Mestre de Avis logo nos primeiros tempos. Foi capitão de unja 
das cinco naus da armada do Porto de socorro a Lisboa, então assediada 
pelos Castelhanos, e com ela entrou no combate naval ferido no Tejo, em 
frente da cidade, no dia 18 de Julho de 1884. Também foi um dos fidalgos 
que em 6 de Outubro, depois de levantado o cerco, beijaram a mão ao Mes- 



(i) Júlio de Castilho, Lisboa antiga, 1* p., vol. m, pág. 220. 

(2) José Maria Delorme Colaço, Galleria dos Vice-Reis^ e Governadores da índia Por- 
tuguesa dedicada aos illustres descendentes de taes Heroes. Em i83g e 1840. Possuo os 
desenhos coloridos, originais do autor, dos dez primeiros Heroes^ e mais os do 17.» e 18."; 
alem destes, tenho, em tiragem especial os sete restantes. Na litografia do retrato de Nuno 
da Cunha, o 9." da colecção, tal como foi publicada, vê-se apenas um escudo esquartelado, 
com uma bordadura e nela as quinas; na estampa original porem divisam-se perfeitamente 
as cunhas no I e IV quartéis e a cruz florida nos outros dois. Melhor se podem ainda ver 
nas Lendas da India^ de Gaspar Correia, no tom. lu, em frente da pág. 3o8, no retrato de 
Nuno da Cunha, onde, não sei porqu^, os quartéis aparecem invertidos. 



Cunhas ' 169 

tre na qualidade de regente do reino. No ano seguinte assitiu às Cortes de 
Coimbra, não se tendo oposto, tam abertamente como seu irmão Martim 
Vasques, à aclamação de D. João I, que logo em seguida a ela o nomeou 
alferes mor do reino. Nesta mesma ocasião, por cartas de 10 de Abril e i3 
de Maio, fez-lhe doação em tença da terra da Maia e coníirmou-lhe de juro 
e herdade a terra de Marialva, a qual lhe havia doado quando ainda era re- 
gedor do reino (i). Entrou na batalha de Trancoso, mas não pelejou na de 
Aljubarrota, tendo sido seu irmão Lopo Vasques quem então levou o pendão 
rial. Continuou servindo até que em iSgy, seguindo o deplorável exemplo 
de seu irmão primogénito, passou para Castela, .onde lhe foi feita doação 
das vilas de Roa e Mancilha, sendo-lhe em Poitugal confiscados todos seus 
bens e doados, por carta de i de Setembro do ano seguinte, a seu cunhado 
D. Nuno Alvares Pereira (2). Ao cabo de cinco anos porem regressou à 
pátria e D. João I, por carta de 27 de Maio de 1440 (1402), restitui-lhe todos 
os bens patrimoniais (3), seguindo-se logo depois, por duas cartas de i de 
Junho, a restituição da terra da Maia e a doação das terras de Celorico de 
Basto, Borba de Azinhares, Vai de Boiro, Montelongo e Portocarreiro (4). 
Mais mercês lhe tez el Rei, entre elas, em 1410, a da sinagoga de Monchi- 
que, no arrabalde do Porto, onde Gil Vasques edificou uma bela residência 
senhorial, na qual posteriormente seu bisneto Pêro da Cunha Coutinho, jun- 
tamente com sua mulher D. Beatriz de Vilhena, fundaram o mosteiro da 
Madre de Deus (5); mas não lhe tornou mais a confiar o posto de alferes mor 
no qual permaneceu João Gomes da Silva. Morreu Gil Vasques em Janeiro 
de 1418(6). 

Casou a primeira vez com D. Isabel Pereira, irmã do condestável D. Nuno 
Alvares Pereira e filha do prior do Crato D. Álvaro Gonçalves Pereira. 
Morreu D. Isabel em i de Junho de 1402, deixando quatro filhos a que logo 
me referirei. Casou a segunda vez, pelos anos de 1405, com D. Leonor 
Gonçalves de Moura, filha de Álvaro Gonçalves de Moura, meirinho mor de 
Entre Tejo e Guadiana, alcaide mor de Moura e de Évora, e de sua mulher 



(i) Chancelaria de D. João 1, liv. i.', fls. 117 e 09 v. 

(2) Ibidem, fl. 180 v. 

(3) Ibidem, liv. 3.% fl. i3. 

(4) Ibidem, e liv, 2.", fl. 177 v. 

(5) Sousa Viterbo, Occorrencias da vida judaica, no Archivo histórico portuguez,. 
vol. 11, pág. 188 e segs. 

(6) Consta da carta de sentença de 5 de Dezembro de 1459 (1421) dada a favor de seu 
filho Fernão Vaz da Cunha, relativa à sucessão da terra da Maia. — Chancelaria de D. João 1,. 
liv. 4.", fl. 62. 

VOL. I 22 



I yo Brasões 

D. Urraca Fernandes, g/** senhora da Azambuja. Deste casamento não houve 
Gil Vasques descendência; do primeiro matrimónio nasceram: 

Fernão Vasques da Cunha, rico homem, senhor de Celorico de Basto, 
Montelongo e terra da Maia, que lhe foram confirmadas em 142 1 e 1433, foi 
fronteiro mor em Ceuta e morreu em Tanger, ao lado dos Infantes, em fins 
de Setembro de 1437. Casou com D. Branca de Vilhena, filha de D. Hen- 
rique Manuel de Vilhena, conde de Seia, de quem teve uma única filha, 
D. Maria da Cunha, sucessora da casa e mulher de Fernão Coutinho, que 
por ela foi senhor de Basto, Montelongo, etc. 

D. Felipa da Cunha tinha em 1429 «tratado seu casamento» (i), e veio a 
ser, com efeito, mulher de Fernão de Sá, alcaide mor do Porto, senhor de 
Sever, camareiro mor de D. Duarte e D. Afonso V. 

D. Maria da Cunha, mulher do dr. Martim do Sem, de quem no título 
dos Almeidas tratarei, 

João Pereira Agostim, um dos doze de Inglaterra, achou-se na conquista 
de Ceuta em 141 5 e, depois da cidade tomada, ficou nela capitaneando a 
gente da casa do infante D. Henrique. O qual João Pereira «depois foy 
muy boom cavalleyro em aquella cidade, e em outras muitas pelejas forom 
elle e outros boÕs homeés ante daqueste feito, os quaaes andando nas guerras 
de França e de Inglaterra, ouvindo as novas da armaçam que elRey fazia, 
leixaram todallas doçuras de França e daquellas terras por víir a serviço 
delRey, os quaaes eram o dito Joham Pereyra, e Diego Lopez de Sousa, e 
Pêro Gomçallvez a que deziam Mallafaya, e Alvoro Meemdez Cerveira» (2). 
Por êle disse a cantiga 

Quem guardaria Ceuta 
Malafaia ou João Pereira. 

Lá continuou servindo com denodo, como se lê em várias passagens da 
Crónica do Conde D. Pedro, e depois foi em 1437 com os Infantes na de- 
sastrosa empresa de Tânger. 

Casou com Brites Gonçalves, filha de Gonçalo Rodrigues de Galafura, 
senhor do morgado de Medeio, «e assim se mostra da demanda que correu 
sobre este morgado» (3), e dela teve único a Nuno da Cunha. Foi este ca- 



(i) Archivo histórico portugue'^, III, 122. 

(2) Azurara, Crónica da tomada de Ceuta, cap, 100, pág. 264. 

(3) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário, II, 632, viihi. — D. Francisco de Meneses, 
Famílias de Portugal, II, H. 492 v., mihi, diz: «a mulher de que houve ao dito Nuno da 
Cunha era filha de Gonçalo Rodrigues de Galafura, porque seu neto Pêro de Galafura consta 
ser primo com irmão do dito Nuno da Cunha». 



Cunhas i 71 

mareiro mor do infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, e alcaide mor 
de Palmela. Possuiu a casa em Setúbal, onde em 1484 o Duque de Viseu 
foi assassinado; e morreu em 1476 antes de i5 de Junho (i), deixando viúva 
D. Caterina de Albuquerque, filha de Luís Alvares, mestre sala de D. Afonso V. 
A D. Caterina, «mulher que foi de Nuno da Cunha», foi feita mercê, em sua 
vida, por carta de 19 de Maio de 1477, ^^ ^^^ tença de novecentos e se- 
tenta e dois reais brancos, dos quais havia pagamento pelo foro de um pomar 
que trazia da Ordem de Santiago no termo de Palmela (2). Ainda então 
não tinha tornado a casar com o marichal D. Fernando Coutinho, pripieiro 
do nome. De Nuno da Cunha e de D. Caterina de Albuquerque foi filho 
primogénito o famoso Tristão da Cunha. 

Foi Tristão da Cunha i.° senhor de Gestaçô e Panoias, por carta de 18 
de Setembro de i5io (3), camareiro mor do duque de Viseu D. Diogo, do 
conselho de D. Manuel e seu vedor da fazenda, nomeado por alvará de 12 
de Março de 1504(4), tendo sido por outro, de 22 de Outubro de i5i3, nas 
vésperas da partida para Roma, autorizado a traspassar o ofício em seu filho, 
Nuno da Cunha (5), a quem contudo só foi passada carta em 20 de Dezembro 
de i52i (6). 

No ano de 1496, a 28 de Abril, fez-lhe D. Manuel mercê de cinquenta 
mil reais de tença anual, em atenção aos seus serviços e a ter sido camareiro 
mor de seu irmão; no de i5oo recebia também duas tenças uma de sessenta 
e cinco mil reais e a outra de cinquenta mil reais pelos rendimentos da Or- 
dem de Cristo; e desde o ano de i5i4 em diante êle aparece nas listas dos 
fidalgos da casa rial com a moradia de quatro mil duzentos e oitenta e seis 
reais por mes, como cavaleiro do conselho. No ano de 1498 foi um dos 
fidalgos que acompanharam D. Manuel a Castela, quando êle e sua mulher 
foram a ser jurados príncipes herdeiros daquela coroa. 

Este rei estimava deveras a Tristão da Cunha e tanto que o nomeou, no 
ano de i5o5, para primeiro vice rei da índia; o que se não realizou por êle 
cegar repentinamente e em seu lugar enviou a D. Francisco de Almeida. 
Tendo recuperado alguma vista por efeito da medicina, ou da natureza, foi, 
no ano seguinte, nomeado capitão mor de uma armada de dezasseis velas 



(i) Critica e historia, I, 265. 

(2) Liv. I." da Ordem de Santiago, fl. 3i. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 8.°, fl. 

(4) Jbiden7,\W. 18.», fl. ii8v. 

(5) Ibidem. 

(6) Ibidem, fl. 1 17 v. 



172 Brasões 

enviada à índia. Seis das naus eram capitaneadas por Afonso de Albu- 
querque, provido então no governo daquele estado. Tendo a esquadra saído 
de Lisboa em 6 de Março desse ano de i5o6, descobriu as ilhas a que o 
capitão mor pôs seu nome e, por ter tomado muito ao largo, teve que in- 
vernar em Moçambique, d'onde, aproveitando esta demora forçada, fez um 
reconhecimento pelas costas da ilha de Madagáscar, o qual foi muito preju- 
dicial à esquadra por se terem perdido alguns navios nos baixos de areia, 
que há em torno da ilha até grandes distâncias. Passou a Melinde, cujo rei 
trazia guerra com os reis de Hoya e Lamo, e pedindo socorro a Tristão da 
Cunha, este o ajudou, e tomou e saqueou a cidade de Hoya e lhe matou o 
seu rei, o que, sabido do de Lamo, se constituiu, para evitar a mesma catás- 
trofe, tributário da coroa portuguesa em seiscentos miticais de oiro por ano, 
ou duzentos e dezasseis mil reais. Depois de um porfiado combate também 
tomou e saqueou a cidade de Brava situada trinta léguas mais acima, em se- 
guida à qual empresa, que já foi no ano de 1607, foi armado" cavaleiro com 
seu filho Nuno por Afonso de Albuquerque. No ano seguinte chegaram à 
ilha de Socotorá, a qual era um ponto muito importante, não só por dificul- 
tar o comércio aos Moiros pelo mar Roxo, cuja entrada ela defendia, como 
também por poder vir a ser um porto seguro para as esquadras portuguesas 
nas suas viagens por aqueles mares, pelo que Tristão da Cunha levava ins- 
truções particulares de D. Manuel para a tomar. Surgindo em frente do 
castelo da ilha, que era guarnecido por Fartaquins, povo que a havia con- 
quistado, os mandou intimar para dela saírem, e, não o fazendo eles, de- 
sembarcou as suas tropas e, combatendo com eles, os venceu, matando-os 
a todos, menos um por ser mui hábil piloto. Os indígenas, que eram uma 
espécie de cristãos, foram por êle muito bem tratados, e deixou-lheS um 
missionário e por governador da ilha a D. Afonso de Noronha, sobrinho de 
Afonso de Albuquerque, e por alcaide mor do castelo, a seu cunhado Fer- 
nando Jácome. Em 20 de Agosto separou-se de Afonso de Albuquerque, 
ficando este pelos estreitos de Arábia, continuando Tristão da Cunha na sua 
derrota para a índia, onde, aportando a Cananor, fez, com a sua chegada, 
levantar o apertado cerco posto pelos índios a esta cidade, que já estava nos 
últimos apuros. Constando ao vice rei D. Francisco de Almeida que esta- 
vam quinze ou dezasseis navios moiros em Pananá prestes a partirem, re- 
solveu ir incendiá-los, e juntando a sua armada com a de Tristão da Cunha, 
em comum comandaram esta brilhante expedição, na qual os filhos de ambos 
muito se distinguiram. Conseguido o seu fim, voltaram os dois ilustres ge- 
nerais para a índia e estando já carregados, ou quási, os navios de retorno, 
em breve regressou Tristão da Cunha para o seu país, metendo-se a caminho 
ainda nesse mesmo ano de i5o8. 



Cunhas ijS 

Querendo el Rei I). Manuel mandar as primícias da índia ao papa Leão X, 
decidiu enviar-lhe uma luzida embaixada com o magnífico presente, que es- 
pantou a Europa e tem sido descrito em todas as histórias daquele tempo, 
e nomeou por embaixador a Tristão da Cunha. Fez êle a sua entrada em 
Roma, com um brilhantíssimo séquito, no dia 12 de Março de i5i4, e tendo 
feito a sua embaixada, talvez a mais magnífica de que há conhecimento, o 
Papa, levado da fama de seu nome, lhe ofereceu o bastão de general da ar- 
mada que tinha aparelhada contra os Turcos, oferecimento pelo embaixador 
recusado por não ter autorização do seu rei. Demorou-se menos de um ano 
na embaixada, como consta do mandado de 21 de Outubro de i5i4 no qual 
se lhe mandam dar trinta e oito mil quinhentos e setenta e quatro reais da 
sua moradia, a razão de quatro mil duzentos e oitenta e seis rs. por mês e 
alqueire de cevada por dia, de oito meses desse ano, que tinha andado em 
Roma como embaixador (1). Pelos seus serviços na embaixada foram-lhe 
dados, por carta de 14 de Abril de i5i5, duzentos e cinquenta mil reais de 
tença em sua vida (2). Em Maio de i523 recebia Tristão da Cunha quatro- 
centos e quarenta e cinco mil rs. e vinte moios de trigo de várias tenças (3). 

Tendo D. João III, em Outubro de i528, mandado com grande pressa 
Manuel de Macedo ao estreito Pérsico com uma carta de prego para abrir 
assim que lá chegasse, empregou Tristão da Cunha todos os meios para des- 
cobrir aquele segredo, maS como o não conseguisse escreveu a seu filho Nuno 
da Cunha, então governador da índia, a famosa carta: «Filho Nuno, la vay 
hum mancebo em híia nao míiy apressado, por mandado d'elRey, nunca pude 
saber ao que vay, deyxalhe fazer tudo o que lhe elRey manda, sem lhe ires 
a maÕ a cousa algúa, manda pimenta, e deitate a dormir» (4). 

Em Agosto de ibSg parece que ainda vivia (5), mas nesse mesmo ano o 
colheu a morte, segundo consta do epitáfio na capela mor da igreja matriz 
de Olhai vo, o qual diz: Sepultura do Grande Tristão da Cunha, senhor de 
Gestaco e Penajofa, do conselho d'elrei D. Manuel e D. João III, nomeado 
embaixador a Roma; general da Liga Catholica, nomeado pelo papa Leão X 
contra o Turco; e o primeiro capitão que, por combate, tomou cidade a 
Mouros no Oriente. Falleceu anuo de i53g — e de sua mulher D. Anlonia 
d Albuquerque (6). 



(i) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, tom. iii, fl. 849 mihi. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 24,», fl. 3i. 

(3) Livro das tenças, no Archivo histórico portuguez, II, 116. 

(4) Diogo do Couto, Década quarta da Asia^ fl. 92. 

(5) Arquivo histórico português, X, i58. 

(6) Guilherme João Carlos Henriques, Alemquer e seu concelho, pág. 258. 



iy4 Brasões 

Casou Tristão da Cunha com D. Antónia Pais (i), filha de Pêro Gonçal- 
ves, secretário de D. Afonso V, de 1449 a 1464 (2), e de sua mulher Leonor 
Pais, irmã de João Rodrigues Pais, contador mor de Lisboa. Deste casa- 
mento procederam: 

i.° — Nuno da Cunha nasceu pelos anos de 1487 (3); partiu com o pai 
para a índia em Março de i5o6; de lá regressou em Julho de i5o8, tendo 
sido armado cavaleiro pelo grande Afonso de Albuquerque no campo de ba- 
talha. Quando Nuno da Cunha partiu para a índia, ao chegar à ilha de 
Madagáscar pôs, à primeira angra onde aportaram, o nome de D. Maria da 
Cunha por contemplação de uma donzela da casa da rainha D. Maria com 
-quem andava de amores e com quem veio a casar (4). Chegado ao reino, 
mandou-o D. Manuel em i5ii por fronteiro a Çafím, onde serviu com dis- 
tinção durante algum tempo. Resolvida a embaixada de seu pai a Roma, 
fez-lhe D. Manuel mercê, por alvará de 22 de Outubro de i5i3, de lhe per- 
mitir que renunciasse o ofício de vedor da fazenda no filho Nuno, o que só 
se veio a realizar por instrumento feito em Lisboa a 20 e carta de 27 de 
Dezembro de i52i (5). Nomeado do conselho por carta de 17 de Fevereiro 
do ano seguinte (6), serviu o ofício de vedor até ser nomeado governador e 
capitão mor da índia, para onde partiu em 18 de Abril de i528 na náu Flor 
da Rosa, uma das da armada desse ano, na qual dois irmãos do governador, 
Simão da Cunha e Pedro Vaz da Cunha, capitaneavam respectivamente as 
naus Castelo e Santa Caterina. No caminho, "a i8 de Novembro, tomou a 
cidade de Mombaça, tornando o seu rei tributário da Coroa portuguesa; foi 
a Ormuz, onde condenou o rei da terra a pagar mais quarenta mil xerafins; 
partiu para Goa a i5 de Setembro de 1629, onde aportou a 22 de Outubro. 
Pouco porem lá se demorou por isso que já a 18 de Novenibro chegava 
a Cananor e lá, oito dias depois, dava-lhe a posse do governo do Estado 
Lopo Vaz de Sampaio, que por ordem dei Rei remeteu preso para o reino. 
Dez anos durou o notável governo de Nuno da Cunha, sucedendo-lhe, como 
a todos os grandes homens que tivemos na índia, ser muito acusado pelos 
seus émulos; em pouco tempo porém fez-se inteira justiça à sua honradez, ao 



(1) D. Antónia de Albuquerque lhe chama João de Barros na déc. iv da Ásia, pág. 710, 
sem grande fundamento talvez. 

(2) Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, Memoria sobre os Secretários dos 
Reis e Regentes, no vol. I da 11 série da Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias, 
pág. 35. 

(3) A gente do Cancioneiro^ vol. x da Revista lusitana, págs. 283-284. 

(4) João de Barros, Asia^ déc. 11, liv. i, cap. i, fl. 2 r.-v. 

(5) Chancelaria de D Manuel^ liv. i8.°, fl. 1 18 v. 

(b) Chancelaria de D. João III, liv. i," de Doações, fl. 8. 



Cunhas 



175 



seu valor e à sua boa administração. Entregou o governo, a 14 de Setembro 
de i538, a seu sucessor D. Garcia de Noronha, que do reino partira com 
severas instruções relativas ao seu antecessor. Só pôde embarcar em Janeiro 
de 1539, partindo já mal sentido e em seguida a dobrar o cabo da Boa Espe- 
rança agravaram-se-ihe os padecimentos por forma a tratar de se preparar 
para a morte, que lhe sobreveio por todo o mês de Março. Preguntara-lhe 
seu capelão, se queria que trouxessem seu cadáver embalsamado para o 
reino; ele porém respondeu lhe: «Que pois Deos avia por bem de o levar 
no mar, que o mar fosse sua sepultura, pois a terra o não quisera. E se ella 
tam mal recebia seus serviços, não lhe queria entregar seus ossos». Deter- 
minou mais, que lhe vestissem o manto da Ordem, lhe pusessem a espada 
na cinta, lhe atassem um par de câmaras de ferro aos pés, para seu corpo 
ir logo ao fundo, e o lançassem pela varanda ao mar. Poucos dias antes 
escrevera por sua mão uma cédula, na qual «jurara por aquella hora em 
que estava, não tèr da fazenda d'el Rei mais que cinco riioedas d'ouro, que 
tomara da fazenda de Soltam Badur Rei de Cambaia, para as mostrar à 
el Rei em Portugal por serem fermosas, & grandes». Tinha cinquenta e 
dois anos de idade (i). Casara duas vezes: a primeira, com a já nomeada 
D. Maria da Cunha, que era filha de Martim Afonso da Silveira, alcaide mor 
de Terena, e de sua mulher D. Caterina da Azambuja, filha do esforçado 
cavaleiro Diogo da Azambuja; a segunda com D. Isabel de Vilhena, irmã 
do Conde da Sortelha e filha de Nuno Martins da Silveira, senhor de Góes, 
mordomo mor da rainha D. Caterina, e de sua mulher D. Felipa de Vilhena. 
Do primeiro casamento proveio uma linha de Cunhas, senhores de Gestaçô 
e Panoias, alcaides mores de Terena, a qual se extinguiu em i665, passando 
a casa a seu parente o Conde de S. Vicente. Do segundo casamento foi 
quarto neto João Nunes da Cunha, vice rei da índia por carta patente de 1 1 
de Março de 1666, e i.° conde de S. Vicente por outra de 2 de Abril, título 
que lhe foi dado em vida, não podendo começar a usar dele senão depois 
de chegar à índia (2). Morreu em Goa, com quarenta e nove anos, a 7 de 
Novembro de 1668, deixando uma única filha, D. Maria Caetana da Cunha, 
que casou com Miguel Carlos de Távora, conde de S. Vicente, em sua vida, 
por carta de 14 de Janeiro de 1672 (3). Era o 2.° Conde de S. Vicente ir- 
mão do i.° Marquês de Távora e teve descendência, na qual se extinguiu o 
título de conde de S. Vicente em i835. 

2." — Manuel da Cunha partiu para a índia na armada de i5io, capita- 



(i) João de Barros, Ásia, iv déc, cap. último. 

(2) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 20.° de Oficias e mercês, ti. 88. 

(3) Ibidem, liv. 41.°, fl. i5o. 



1^6 Brasões 

neando uma náu; acompanhou Afonso de Albuquerque na conquista de Goa, 
em 25 de Novembro do mesmo ano, sendo então armado cavaleiro pelo pró- 
prio Governador; e morreu no ano seguinte, no assalto tentado pelas tropas 
do Hidalcão contra a cidade, durante a expedição de Albuquerque a Ma- 
laca. 

3.° — Simão da Cunha, trinchante de D. João III, partiu para a índia, 
depois de ter vendido o ofício, como capitão de uma das naus da armada 
de 1628, da qual era capitão mor seu irmão o governador Nuno da Cunha. 
Mandou-o este com uma armada de oito navios conquistar a ilha de Baarem, 
mas não foi feliz na empresa, que falhou completamente, tendo o próprio 
comandante, quando já retirava para Ormuz, falecido no mar, em Outubro 
de 1529. Veio o seu corpo a ser sepultado na capela mor da igreja matriz 
de Olhalvo, com este epitáfio: Sepultura de Simão da Cunha, trinchante 
mor dei Rei D. João III. General do mar da índia. Falleceo anuo de i52g. 
E de sua mulher D. Isabel de Meneses (i). Era ela filha de Rui Gomes da 
Grã, governador da casa da Excelente Senhora nomeado por carta de 26 de 
Maio de 1498 (2), e de sua mulher D. Maria de Meneses, camareira mor da 
mesma senhora (3). Simão da Cunha, além doutros filhos que não deixaram 
descendência, teve a Tristão da Cunha e a Rui Gomes da Cunha. De Tris- 
tão foi filho e sucessor outro Simão da Cunha, senhor de Povolide e Castro 
Verde pelo seu casamento e bisavô de Tristão da Cunha de Ataíde, i.'' conde 
de Povolide, em sua vida, por carta de 8 de Janeiro de 1709 (4). Era sobri- 
nho de Nuno da Cunha de Ataíde, conde de Pontével, em sua vida, por carta 
de i5 de Abril de 1662, por estar casado com D. Elvira Maria de Vilhena, 
dama da rainha D. Luisa, a quem, por acompanhar a Inglaterra a rainha 
D. Caterina, fora concedido, em 2 do referido mês, um alvará de promessa 
do título para a pessoa que com ela casasse (5). Foi esta senhora quem» 
depois de viúva, edificou a sumptuosa igreja da Encarnação de Lisboa. O 
Conde de Povolide era irmão do Cardial da Cunha, outro Nuno da Cunha 
de Ataíde, capelão mor em 1706, bispo de Targa no ano seguinte, conse. 
Iheiro de Estado, ministro do Despacho, inquisidor geral e finalmente pro- 



(i) Guilherme João Carlos Henriques, Alemquer e seu concelho, pág. zSy. 

(2) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 3i °, fl. 148. 

(3) Foram estes cônjuges sepultados no pavimento da casa do capítulo do mosteiro de 
Santa Maria da Piedade de Azeitão, com o seguinte epitáfio gravado na campa: Aquija^ 
Rui Gome^ da Graã que foy governador da Excelente Senhora do conselho delRei e D. Maria 
de Meneses sua molher que foy camareira da mesma senhora. — Archeologo português, 
III, 27. 

(4) Chancelaria de D. João F, liv, 29.", fl. 3io. . • 

(5) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. aS.* de Ofícios e mercês, fl. 19. 



Cunhas 177 

movido a cardial nacionaí em 1712, sendo em 1722 investido pelo Papa, em 
Roma, na basílica de Santa Anastácia, vindo falecer a Lisboa a 14 de De- 
zembro de 1730. Em i833 faleceu Luís da Cunha Grã Ataíde e Melo, 4." e 
último conde de Povolide (i), e passou a casa a seu irmão António da Cunha 
Grã Ataíde e Melo, conde de Sintra por carta de 28 de Junho de 1828 (2), 
que também morreu sem descendência em 1861, pelo que, depois de ter es- 
tado algum tempo de posse da casa seu irmão João da Cunha Grã Ataíde e 
Melo, passou ela a seu sobrinho o 9." conde de Valadares, D. José António 
de Noronha Abranches Castelo Branco, extinguintlo-se a varonia dos Cunhas. 
— Rui Gomes da Cunha, segundo filho do primeiro Simão da Cunha, como 
acima ficou escrito, foi capitão mor da armada da índia do ano de i566 e 
copeiro mor de D. João III e de D. Sebastião (3). Casou; foi bisavô de Tris- 
tão da Cunha, i." senhor de Valdigem por portaria de 19 de Novembro de 
1669 (4), governador e capitão general de Angola em iõ65, d'onde voltou 
preso em 1667, governador das armas da província de Trás os Montes; e 
foi terceiro avô de Pedro da Cunha de Mendoça, 2.*' senhor de Valdigem, 
veador da casa da rainha D. Maria Ana de Áustria, general de batalha, fa- 
lecido em 1731, deixando uma única filha, em quem terminou a varonia deste 
ramo dos Cunhas. Casou esta senhora, que se chamava D. Beatriz Josefa 
da Cunha e Mendoça, com seu tio D. Carlos José Bento de Meneses, veador 
da casa da dita Rainha, filho segundo da casa de Valada, e foram avós de 
Francisco de Melo da Cunha de Mendoça e Meneses, 9.° monteiro mor do 
reino em 1789 (em sucessão a seu prim^o Francisco de Melo), 1." conde de 
Castro Marim (despacho de 14 de Novembro de 1802 e carta de 23 de Março 
de i8o3), i.° marquês de Olhão (despacho de 21 de Dezembro de 1808), te- 
nente general, governador do reino em 1808, etc. Morreu em 1821 e foi pai 
do 2.° e último Marquês de Olhão, falecido em 1844, e avô do 3." e último 
Conde de Castro Marim que falecera dez anos antes. Estes títulos estão 
completamente extintos, posto dos titulares exista descendência. 

4.° — Jerónimo da Cunha morreu solteiro. 

5.* — Pedro Vaz da Cunha, estribeiro mor de D. João III, com quem vou 
continuar. 



(i) Decreto de 17 de Dezembro de 1792 {Gaifeta de 21). 

(2) Consta da carta do assentamento passada em i3 de Setembro do mesmo ano. — 
Chancelaria de D. João V7, liv 37.°, fl. 289 v. 

(3) Carta de 6 de Junho de \55g. — Chancelaria de D. Sebastião, liv. i." de Doações, 
fl. 372 V. 

(4) Confirmada por carta de i3 de Fevereiro de 1676. — Chancelaria de D. Afonso VI, 
liv. II.» de Oficios e mercês, fl. 285 v. 

YOL. I 23 



! 

178 Brasões 

• 

O último dos filhos legítimos de Tristão da Cunha, embaixador em Roma, 
e o único de quem permanece ainda descendência varonil, foi Pedro Vaz da 
Cunha, moço fidalgo e companheiro de seu pai na embaixada (1). Na folha 
de i5i6 ainda vencia mil reais de moço fidalgo; na de iSig porém já re- 
cebia dois mil e quatrocentos de escudeiro e pagou-se-lhe o tempo que ser- 
viu em Tânger; depois passou a cavaleiro fidalgo com três mil reais (2). 
Era estribeiro mor de D. João III, quando em i528 embarcou na armada de 
seu irmão, o governador Nuno da Cunha, capitaneando a nau Santa Cate- 
rina (3). 

Achou-se na conquista de Mombaça a 18 de Novembro do mesmo ano, 
tendo sido o primeiro a entrar na praça, e na mais alta torre arvorou a ban- 
deira portuguesa. Foi por duas vezes ferido, repelindo tentativas de recon- 
quista dos inimigos; escapou dos ferimentos, mas veio a morrer, nos princí- 
pios do ano de i529, das febres reinantes naquelas paragens. Nele perdeu-se 
um «mancebo de grandes esperanças, muito esforçado, humano, e ornado de 
outras muitas virtudes» (4). 

Casara no ano de 1 520, antes de 7 de Junho (5), com D. Beatriz da Silva (6), 
íilha de André de Sousa, senhor de Miranda e alcaide mor de Arronches, 
«a qual por falecimento de seu marido, ficando muito moça, se meteu freira 
na Madre de Deus» (7). A ela, com grande louvor, se refere o cronista da 
Ordem, mas as suas palavras causam um calafrio de horror. Tinha oito 
filhinhos; teve a coragem de os abandonar; morreram-lhe sete; sentia, no 
coro onde permanecia orando, passar os enterros, «e como se o caso lhe não 



(i) Mandado de i de Setembro de i5i4 para se pagarem a Pedro Vaz da Cunha, moço 
fidalgo, filho de Tristão da Cunha, os primeiros oito meses em cumprimento de nove me- 
ses que andou em Roma com seu pai. — Lousada, Sumários da Torre do Tombo, III, 847 
mihi. 

(2) Moradias, mac. i.", liv. 4, fl. 69. — Por este documento consta haver Pedro Vaz da 
Cunha servido na armada do Estreito em Julho, Agosto até i5 de Setembro de i5i7, e no 
resto do ano e nos primeiros nove meseS de i5i8 am Tanger. Também consta ter come- 
çado a receber a moradia de cavaleiro em Agosto de i5i8. 

(3) Diogo do Couto, Década quarta da Ásia, liv. v, cap. i.°, fl. 80. 

(4) João de Barros, Quarta década da Ásia, liv. in, cap. 8.", pág. 1 56. 

(5) Mandado de 7 de Junho de i520 para se pagarem a D. Brites, filha de André de 
Sousa, 160.000 rs. do primeiro terço das 4000 coroas da ordenança, que lhe haviam sido 
despachadas de mercê para seu casamento. Foi recebida aquela quantia pelo procurador 
de Pedro Vaz da Cunha, seu marido. — Lousada, Sumários, I, fl. 35i v. »ji7íí. 

(6) Consta o apelido desta senhora de um recibo por ela assinado, em 3i de Março de 
1528, de certa quantia que ficara por pagar de uma tença de seu marido. — Corpo cronoló- 
gico, part. II, mac. 1 57, doe. 34. 

(7) Nobiliário quinhentista, pág. 1 37, n.° vii. 



Cunhas ' ■ 179 

pertencesse, persistia no seu socego» (1). E supõe o cronista que este des- 
apego agradaria a Deus! Triste aberração! 

O filhinho, que escapou, chamava-se Jerónimo da Cunha; foi pajem da 
rainha D. Caterina e do conselho de D. João III. Casou com D. Maria da 
Silva, filha que veio a ser herdeira de Jorge Correia, o Belo, 3." senhor do 
morgado de Paio Pires instituído em 1479, ^ *^^ ^^^ segunda mulher D. Fran- 
cisca da Silva. 

Luís da Cunha, único filho daquele enlace, foi 4.° senhor do referido mor- 
gado, e casou com D. Joana de Meneses, filha que veio a ser herdeira de 
Bernardim Ribeiro Pacheco, senhor do morgado das Cachoeiras, comendador 
de Vila Cova, e de sua mulher D. Maria de Vilhena. 

Manuel da Cunha e Meneses, neto do precedente, senhor dos morgados 
de Paio Pires, Cachoeiras e Barreiro, veador da casa da rainha D. Maria 
Francisca Isabel de Sabóia, morreu a 7 de Março de 1693, tendo casado 
com D. Francisca de Albuquerque, dama da rainha D. Luisa de Gusmão e 
irmã de Simão Correia da Silva, 6.° conde da Castanheira pelo seu casa- 
mento (2) e 6.° alcaide mor de Tavira em sucessão a seus maiores, o qual 
morreu em 1710 e a casa passou*a seu sobrinho neto Manuel Inácio da Cunha 
e Meneses. Era este filho de Tristão António da Cunha e Meneses, que não 
chegou a suceder na casa de seu pai Manuel da Cunha e iMeneses, por morrer 
três dias antes dele, e de sua mulher D. Leonor Tomásia de Távora, filha 
dos 1..°^ Marqueses de Távora. "^ 

O filho de Manuel Inácio, José Félix da Cunha e Meneses, nasceu em 
1712, foi 8.° alcaide mor de Tavira, senhor da mais casa, comendador de 
várias comendas na Ordem de Santiago, veador da casa da rainha D. Maria 
Ana de Áustria em 1730. Serviu no exército, teve o posto de marechal de 
campo e em 1762 foi nomeado governador e capitão general da província da 
Beira. Morreu em 1776, tendo casado em 1740 com D. Constança Xavier 
Domingas Aureliana de Meneses, filha do i.*' Marquês de Louriçal, e por 
este casamento vieram seus descendentes a herdar a casa de Louriçal. 

Manuel da Cunha e Meneses, filho mais velho de José Félix, nasceu a i3 
de Janeiro de 1742, foi nomeado governador e capitão general de Pernam- 
buco, tomou posse a 9 de Outubro de 1769 e conservou-o até 3i de Agosto 
de 1774, passando então a governar â Baía, onde Já se encontrava a 8 de 
Setembro e governou até i3 de Novembro de 1779. Voltou então ao reino, 
sucedeu na casa de seu pai e casou, a 25 de Março de 1784, com D. Maria 
do Resgate de Portugal Carneiro da Gama Sousa e Faro, filha herdeira de 



(i) Fr. Jerónimo de Belém, Chronica seráfica, III, i25. 

(2) Carta de 27 de Janeiro de 1670. — Ofícios de D. A/ottso F/, liv. 2.°, fl. 208. 



i8o 



Brasões 



D. José Francisco de Portugal da Gama, 2.° conde de Lumiares pelo seu 
casamento (i), 8.° comendador de Fronteira e senlior da mais casa de seus 
maiores, e de sua mulher D. Madalena Gertrudes Carneiro de Sousa e Faro, 
iilha herdeira de Carlos Carneiro de Sousa e Faro, 5." conde da Ilha do 
Príncipe e i.° de Lumiares, título em que, por carta de 1 3 de Novembro de 
1753, foi mudado o precedente pelos motivos alegados no diploma (2), 9.° e 
último capitão donatário, governador e alcaide mor das ilhas do Príncipe e 
Santa Maria, coronel de infantaria, gentil-homem da câmara do infante D. An- 
tónio. A 2/ Condessa de Lumiares morreu em Fevereiro de lycS e seu 
marido também faleceu nesse mesmo ano ou no seguinte. 

Efeituado o casamento de Manuel da Cunha e Meneses fez-lhe D. Maria I 
mercê do título de conde de Lumiares por carta de 12 de Janeiro de 1788(3), 
do próprio dia em que nasceu seu único íilho. Morreu o Conde a 18 de 
Setembro de 1791 e sua viúva tornou a casar, a 9 de Dezembro de 1793, 
com seu cunhado Luís da Cunha Pacheco de Meneses, veador da princesa 
viúva D. Maria Benedita, antigo governador e capitão general das provín- 
cias de Goiazes, de 1778 a 1783, e de Minas Gerais, de 1786 a 1788. Foi 
o 5.° conde de Lumiares por mercê concedida entre os anos de 1796 e 
1799 (4). Morreu a 3o de Setembro de 1819 e sua viúva em 26 dé Março 
de 1823 (5). 

A casa de Lumiares foi fundada por António Carneiro, famoso secretário 
de D. Manuel e D. João III, um dos nossos homens de Estado mais notáveis 
do século XVI. A sua biografia está ainda por escrever e para aqui trasla- 
darei umas notas biográficas noutra obra minha registadas (6). 



(i) Carta de i5 de Maio de 1777. — Chancelaria de D. Maria J, liv. 3." fl. g5 v. 

(2) Tendo havido por bem mandar incorporar na Coroa a ilha do Príncipe, de que era 
donatário o conde da mesma Ilha, Carlos Carneiro de Sousa e Faro, dando-lhe em lugar o 
senhorio da vila de Lumiares, e por não ser conveniente que não tendo o dito Conde já se- 
nhorio nem jurisdição na mesma ilha, conserve o título dela, há por bem extinguir o título 
de conde da Ilha e criar em seu lugar o de conde de Lumiares de que usará d'aqui em diante. 
— Mercês de D. José, liv. 5.°, fl. 340. 

(3) Mercês de D. Maria /, liv. 23.°, íi. 37. 

(4) Não existe registada a carta de mercê do título, ou pelo menos não está lançada 
nos índices, mas não o possuia ainda em Setembro de 1796, quando foi nomeado veador da 
Princesa {Gaveta de 27 de Setembro), mas já como conde de Lumiares vem mencionado no 
Almanach de 1799. 

{5) Advertirei que muitas destas datas são das Resenhas e doutros livros análogos, e 
não da minha responsabilidade; outras são averiguadas por mim e quási sempre cito as 
fontes. Fica esta advertência feita para toda a obra. 

(6) Vida e ob?-as de Gil Vicente, págs. \b5~i5j. 



Cunhas íSt 

António Carneiro, sobrinho de Vasco Carneiro, cidadão do Porto (i), 
exercia desde 1482 pelo menos, com vinte e três anos de idade apenas, se 
os dizeres do seu epitáfio estão certos, o ofício de escrivão da câmara de 
D. João II, não tendo alcançado porem carta de nomeação em forma senão 
a 4 de Fevereiro de 1490, aos trinta anos. A sua aptidão e talento eram 
todavia de tal ordem, que, apesar da sua pouca idade, mereceram completa 
confiança em negócios políticos a el Rei, como claramente o revela a relação 
dos livros e documentos, alguns bem particulares e importantes, entregues 



(1) Á família dos Carneiros a mais remota origem que seguramente se lhe pode dar, é 
na pessoa de João Carneiro, cidadão do Porto, onde viveu na primeira metade do século xv. 
Lá casou com uma filha de Pedro de Figueiroa, família que também teve assento na refe 
rida cidade, oriunda de cidadãos dela e da qual saiu a casa de Beire. Deste João Carneiro 
foram filhos, pelo menos, os dois seguintes : 

I.» — Vasco Carneiro, escudeiro, cidadão do Porto, teve, em 25 de Maio de 1490, carta 
de privilégio para seus caseiros, amos e lavradores, e em i5o3 foi enviado pelos juízes, ve- 
readores e homens bons do Porto a el rei D. Manuel para com ele tratar sobre negócios 
relativos aos privilégios da cidade, dos quais sempre foram muito ciosos. Nela casou com 
Maria Anes Sanches, irmã de João Sanches, de quem vieram os Brandões da Torre da Marca, 
representados ultimamente pela Marquesa de Monfalim e de Terena. Entre outros filhos 
teve a João Carneiro, que fundou a capela de S. João Baptista, depois chamada do Desagravo, 
no cruzeiro do sumptuoso templo de S. Francisco do Porto. Nela foi sepultado e numa 
pedra metida na parede da parte do evangelho gravaram este letreiro: Esta capell a mandou 
fa\er João Carneiro Mestre Eschola que foi na Sé de Braga, que a dotou e instituio em 
Morgado, e deixou por Administrador delia a Luis Carneiro seu irmão e a seus descendentes. 
Acabou-se no anno de MD. Fecharam a capela com umas grades de ferro, nas quais, como 
remate, puseram o escudo das armas dos Carneiros com alguma diferença, porque neste 
em vez da banda ser acompanhada pelos dois carneiros passantes, é acostada por eles, tendo 
o da ponta para esta virada a cabeça (Fr. António da Luz Foz, Memorias Sepulchraes, fl. 12). 
Aos Carneiros do Porto extinguiu-se a varonia e a capela do Desagravo pertencia, em 1787, 
aos sucessores de Gonçalo de Almeida e Sousa, 8." senhor da Cavalaria. 

2.° — Pedro Carneiro viveu no Porto, onde casou com Caterina Fernandes de Soutomaior^ 
viúva. de um Biscainho apelidado França, que naquela cidade tinha o comércio do estanho, 
e filha de João Fernandes de Soutomaior, aliás João Gonçalves de Miranda Soutomaior, 
como consta da carta de brasão de Diogo de Sá (Arch. hist. port.,, II, 464), e de sua mulher 
Felipa de Sá, que foram os progenitores dos Sás da casa da Anadia. Do casamento de Pêro 
Carneiro nasceu, segundo alguns dizem, o secretário António Carneiro. 

' Pelo que fica dito vê-se que os Carneiros, bem como os Figueiroas da casa de Beire, 
os Brandões da Torre da Marca, os Sás da Anadia e várias outras famílias aqui não men- 
cionadas, derivaram a sua origem de cidadãos do Porto. Os primeiros contudo tiveram a 
sorte de produzir logo um homem ilustre, ou, para melhor dizer, dois: António Carneiro e 
Pêro da Alcáçova Carneiro. Por este facto e por terem passado para a corte elevaram-se 
imediatamente à primeira plana, aliando-se com as principais famílias do reino, em quanto 
os outros, permanecendo no Porto ou na província, conservaram a sua relativa obscuridade^ 
da qual só saíram do meio do século xviii para cá. ~ - 



i82 Brasões 

pelo Escrivão da câmara por ordem de D. João II, em 22 e 29 de Setembro 
de 149 1, em Alenquer, para onde foi desterrado, quando caiu no desagrado 
do soberano. Deu origem ao facto, segundo anda contado, o casamento a 
furto, como então se dizia, de António Carneiro com Beatriz da Alcáçova, 
filha de Pêro da Alcáçova, cavaleiro muito do valimento de D. João II e seu 
escrivão da fazenda, com tam ampla alçada, que el Rei no seu testamento 
declara dela ter êle tido o principal cargo. Acrescenta-se, e esta segunda 
■parte parece-me inventada après coup, haverem os noivos sido desterrados 
para a ilha do Príncipe, da qual António Carneiro veio posteriormente a ser 
donatário. Se Beatriz da Alcáçova era donzela da rainha D. Leonor, como 
se afirma, e o casamento clandestino teve lugar no paço, explica-se bem a 
cólera de D. João II; mas não creio que ela provocasse a aplicação de tam 
duro castigo e até me inclino a acreditar num perdão relativamente rápido. 
No preâmbulo da carta de doação' da ilha do Príncipe declara D. Manuel lem- 
brar-se «do muito serviço que António Carneiro, cavaleiro de nossa casa e 
escrivão da nossa câmara, fez a el rei D. João, e como das cousas em que o 
encarregou, lhe deu de si sempre mui boa conta e recado, poio qual sabe- 
mos que o dito senhor tinha vontade de lhe fa\er mercê e acrecentafnentot. 
Destas palavras deverá depreender-se ter chegado D. João II a perdoar' a 
António Carneiro e provavelmente a restituí-lo ao seu ofício de escrivão da 
câmara, pois que investido nele se encontra em um alvará de 17 de Junho 
de 1496, oito meses apenas depois da morte do Príncipe Perfeito, espaço 
talvez curto para a notícia do passamento chegar à ilha do Príncipe e de lá 
voltar o desterrado, se lá estivesse. D. Manuel, por seis cartas de Março e 
Abril de i5oo, fez mercê a António Carneiro da capitania da ilha do Príncipe 
para êle e descendentes, com dispensa da Lei Mental, com a propriedade 
dos moinhos, serras de água, fornos de- pão, terras da ilha, etc, com toda a 
jurisdição cível e crime, reservando somente morte de homem e talhamento 
de membro, os quais dois únicos casos reservados demite de si, em quanto 
for sua mercê, em António Carneiro, fazendo todos os feitos fim nele, pois 
os seus ouvidores os julgarão sem apelação nem agravo; dá-lhe mais, também 
para descendentes, como a capitania, a alcaidaria mor da ilha, com a mena- 
gem das fortalezas a el Rei; concede-lhe por dez anos o resgate da pimenta,, 
malagueta e toda a especiaria nos rios de Guiné; e finalmente outorga vários 
privilégios, isenções e liberdades aos povoadores da ilha, aos quais dá ainda 
quitação da dízima e portagem de todas as mercadorias enviadas para o 
reino. Depois destas largas mercês, entre as quais a da concessão especial 
de todas as jurisdições sem reserva é realmente notável e prova bem a con- 
fiança de D. Manuel no seu Escrivão da câmara, nomeou-o êle seu secretário 
por carta de 16 de Abril de 1509. D'então por diante foi António Carneiro 



Cunhas : i83 

o ministro de confiança do soberano. Todos os negócios de importância 
eram por êle tratados; nos registos da Chancelaria os diplomas de maior 
circunstância vê-se que foram escritos por êle; nas colecções áo Corpo Cro- 
nológico, das Cartas missivas e das Gavetas, na Torre do Tombo, encon- 
tram-se centenas de documentos, alvarás, minutas de cartas patentes e de 
instruções a embaixadores, cartas missivas, etc, tudo da letra do Secretário. 
Na ante véspera da morte chamou-o D. Manuel, fechou-se com êle na câmara 
€ ditou-lhe o seu codicilo, no qual, sem o nomear, deixa recomendado ao 
filho que se continui a servir dele. D. João III seguiu a indicação paterna, 
mas António Carneiro, talvez cansado, impetrou dei Rei a carta de i5 de 
Janeiro de i522, pela qual seu filho primogénito Francisco Carneiro foi no- 
meado secretário; parece porém ter êle tido mais propensão para as armas 
do que para o governo, e d'aí resultou agregar-lhe o pai, para os negócios 
da índia, seu outro filho Pêro da Alcáçova Carneiro, nomeado por carta de 
i6 de Maio de i53o, encontrando-se durante o resto da vida do progenitor 
diplomas indiferentemente escritos pelos dois irmãos. António Carneiro 
morreu a 3 de Abril de i545, com oitenta e seis anos, ficando d'então por 
diante exercendo o cargo de secretário somente Pêro da Alcáçova Carneiro, 
que taníbêm foi notável ministro. * 

Pêro da Alcáçova Carneiro foi feito conde da Idanha a Nova por alvará 
de 1 de Novembro de i582 e carta de 2 de Janeiro de 1584(1). Morreu a 



(1) Havendo respeito aos muitos e mui continuados serviços que Pêro da Alcáçova Car- 
neiro, do meu conselho do estado e vedor da minh|i fazenda,- fez por tantos anos, como é 
sabido, à coroa destes meus reinos nas matérias e coisas que por êle corriam, que foram 
todas de muita importância, assim em vida dei rei D. João, meu senhor, que Santa Glória 
haja, como cm todos os tempos do governo do sr. Rei D. Sebastião, meu sobrinho, que 
Deos tem, e havendo outrosim respeito aos muitos serviços que dele tenho recebidos, e aos 
que ao presente me fez, e espero que sempre me faça a muito meu contentamento, e a como 
por todos estes serviços e por seus muitos merecimentos, e muitas qualidades de sua pessoa, 
é razão que receba de mim honra, acrescentamento e mercê, tal que juntamente com a me- 
mória deles a haja também do galardão deles, e por folgar muito de lhe fazer mercê pela 
muito boa vontade que por todo lhe tenho, me praz e hei por bem de lhe fazer mercê do 
título de Conde da vila de Idanha a Nova, de que êle tem a jurisdição em sua vida por 
mercê do dito sr. rei meu Sobrinho, confirmada por breve apostólico por ser do mestrado 
da Ordem de Cristo, cujo governador e perpétuo administrador sou; e quero que d'aqui em 
diante êle se chame Conde da Idanha a Nova, e use, e goze, de todas as honras etc. . . . E 
com o dito título de conde terá e haverá de assentamento em cada um anno, o que direita- 
mente lhe pertencer, etc. A qual mercê lhe eu tinha feita por um meu alvará de lembrança 
feito ao i." de Novembro do ano de i582 e por uma postila feita nas costas dele a 26 de 
Fevereiro do ano passado, que foram rotos ao assinar desta carta, que por firmeza de todo 
o que nele se contêm lhe mandei dar etc. Lisboa, 2 de Janeiro de 1584. — Chancelaria de 
Felipe I, liv. 4.» de Doações^ fl. 266 v. 



1&4 Brasões 

12 de Maio de iSgS (i), deixando descendência há muito extinta na varonia, 
O escudo das armas do Conde da Idanha era esquartelado: o I e IV de azul, 
alcáçova com três muralhas e cinco torres, tudo de prata, as portas, frestas 
e o lavrado de negro (Alcáçopa); o II e III de vermelho, banda de azul, per- 
filada de oiro, carregada de três flores de lis do mesmo e acompanhada de 
dois carneiros passantes de prata, armados de oiro (Carneiro) (2). 

Francisco Carneiro, filho primogénito de António Carneiro, foi 2^° capitão 
da ilha do Príncipe, em sucessão a seu pai, c bisavô de Luís Carneiro de Sousa, 
i.° conde da referida Ilha, por carta de 4 de Fevereiro de 1640 (3). Casou 
o Conde com D. Mariana de Faro, filha de D. Sancho de Faro e Sousa, 
7.° senhor do Vimieiro, e neta de D. Francisco de Faro, 1.° conde e 5.° se- 
nhor do Vimieiro, e da condessa D. Mariana de Sousa da Guerra, 4.''' senhora 
de Alcoentre e Tagarro, casas em que, por falecimento do 5.° conde do Vi- 
mieiro, D. João de Faro e Sousa, veio a suceder, em 1801, a 3.* Condessa 
de Lumiares. 

Do i." Conde da Ilha, como por abreviatura eram designados, foi bisneto 
o já nomeado Carlos Carneiro de Sousa e Faro, 5.° conde da Ilha e i.° de 
Lumiares, em quem terminou a varonia do ramo primogénito dos Carneiros. 
Eram as armas destes, já lá acima descritas, que os Condes da Ilha usavam 
sem diferença. 

Ao i.° Conde de Lumiares sucedeu sua filha D. Madalena Carneiro de 
Sousa e Faro, mulher de D. José Francisco de Portugal da Gama, 2.° conde 
de Lumiares, e as armas destes condes eram: esquartelado: o I de prata, 
aspa de vermelho carregada de cinco escudetes das armas do reino (Faro); 
o II de vermelho, banda de azul, perfilada de oiro, carregada de três flores 
de lis do mesmo e acompanhada de dois carneiros passantes de prata, ar- 
mados de oiro (Carneiro); o III de negro, três faxas veiradas de prata e 
vermelho (Vasconcelos); o IV enxequetado de oiro e vermelho de três peças 
em faxa e cinco em pala, as peças de vermelho carregadas cada uma de duas 
faxas de prata, e no ponto de honra um escudete de prata carregado de 



r (i) Sousa, Historia genealógica, XII, 909. 

(2) Tombo da comenda da Idanha a Nova, de q he comendador e Alcaide mor dõ Pedro 
dalcaçoua carneiro, ms. na Biblioteca Nacional, 7-5-11. 

(3) Tendo consideração ao que me representou Luis Carneiro, donatário das ilhas do 
Príncipe e Santa Maria, assim em razão de sua calidade, como dos serviços de seus passa- 
dos, e a pretensão que tinha de que se lhe fizesse mercê do título de conde, etc. carta do 
título de conde da Ilha do Príncipe, em sua vida. Madrid, 4 de Fevereiro de 1640. — Chan- 
celaria de Felipe IH, liv. 28.« de Doações, íi. 324. 



Cunhas i 85 

cinco escudetes de azul, postos em cruz e sobrecarregados cada um de cinco 
besantes de prata (Gama do Conde da Vidigueira). 

Dos 2."* Condes de Lumiares foi filha herdeira D. Maria do Resgate de 
Portugal Carneiro de Sousa e Faro, que sucedeu em toda a casa dos Car- 
neiros, de sua mãe, e na dos comendadores de Fronteira, de seu pai, e ainda 
veio a ser i3.^ senhora do Vimieiro e 12.''^ de Alcoentre. Foi condessa de 
Lumiares por seu casamento com Manuel da Cunha e Meneses, 3." conde, 
como acima ficou dito, e morreu deixando um único filho. 

Chamou-se este José Manuel da Cunha Faro Meneses Portugal da Gama 
Oarneiro de Sousa, e nasceu em 1788. Foi 4.° conde de Lumiares (1), se- 
nhor da casa, par do reino, tenente general, ministro da guerra e presidente 
do conselho de ministros em seguida à Revolução de Setembro, por decreto 
de 10 desse mês de i836. Foi este ministério, que pouco durou, o da fa- 
mosa ditadura liberal de Passos Manuel. Morreu o Conde de Lumiares em 
1849, tsiido casado em 1807 com a filha dos i."* Marqueses de Valada, 
D. Luisa de Meneses, que morreu em i88o. Destes 4."^ Condes de Lumiares 
foram filhos: 

I." — José Félix da Cunha e Meneses, de quem adiante falarei. 

2." — O general Francisco da Cunha e Meneses foi o 12." senhor do mor- 
gado do Vimieiro, no qual sucedeu ao 2.° Conde de Barbacena, em virtude 
da cláusula posta pelo irtstituidor, o arcebispo D. Fradique de Portugal, pela 
qual, faltando a sucessão directa, era chamado o varão parente em grau mais 
próximo do instituidor. Morreu viúvo e sem filhos. 

3.° — Manuel da Cunha e Meneses foi cónego honorário da patriarcal, 
assentou praça e serviu, com seu pai e seus dois irmãos mais velhos, a causa 
da liberdade, desde soldado na ilha Terceira até à convenção de Évora 
Monte. Foi por duas vezes ferido gravemente, uma na coxa direita, no re- 
duto das Medalhas, outra na cabeça, na batalha de 'Almoster. Como aju- 
dante de campo do Conde das Antas acompanhou a divisão auxiliar a Es- 
panha. Nestas campanhas «foi por várias vezes elogiado e recomendado 
porem nunca remunerado» senão com a cruz de S. Fernando de Espanha. 
Foi cavaleiro de Malta e capitão do batalhão naval. Morreu em 27 de Fe- 
vereiro de i85o, tendo nascido a i3 de Abril de 181 2. Casou em i de Julho 
de 1848 com sua cunhada a condessa de Lumiares, D. Constança de Saldanha 
e Castro, que nasceu a 25 de Maio de 18 17 e morreu a 27 de Março de 1860. 
Era irmã do 2.° Conde de Penamacor. A Manuel da Cunha e D. Constança 
de Saldanha sobreviveu, única filha, D. Maria Luisa da Cunha e Meneses, 



(i) Por carta de 22 de Julho de 1792, — Mercês de D. Maria 1, liv. 27.», fl. 195. 
yoL. I 24 



i86 



Brasões 



que nasceu em 7 de Abril de 1849, e casou em 6 de Fevereiro de 1869 com 
o autor destes estudos. 

4.° — Luís da Cunha e Meneses casou com D. Maria Madalena Quintela, 
lilha dos 1.°^ Condes do Farrobo, e deles há vivos cinco filhos: D. Luisa, 
viúva de José Augusto da. Gama, que foi deputado e par do reino electivo; 
D. Maria do Resgate, solteira; Joaquim Pedro, solteiro; José Manuel que 
casou com D. Emília de Avilez, e depois com D. Maria Augusta de Barros 
Lima, com filhos de ambos os casamentos; Luís, casado com D. Carolina 
0'Donell Hearn, de quem tem filhos. 

5.^ — Carlos da Cunha e Meneses, pela sua elegância, distinção e apri- 
morada maneira de cantar e representar, deixou nome nas sumptuosas festas 
de seu sogro. Casou com D. Maria Joaquina Quintela, filha dos 1.°^ Condes 
do Farrobo, e tiveram três filhas; D. Luisa, marquesa da Ribeira Grande; 
D. Mariana que faleceu viúva de D. Luís Gonçalves Zarco da Câmara; e 
D. Maria Joaquina, baronesa da Regaleira. 

6.° — D. Maria Nazareno da Cunha e Meneses morreu em 1896 viúva 
de Luís de Castro Guimarães, par do reino, falecido a 8 de Março de 
1881. 



José Félix dá Cunha e Meneses, o primeiro dos filhos dos 4.°^ Condes -de 
Lumiares, nasceu em 1808, foi 6.° conde de Lumiares, oficial do exército, e 
morreu em 1848 em vida de seu pai, pelo que não sucedeu na casa. Havia 
casado em i835 com D. Constança de Saldanha e Castro, que depois tornou 
a casar com Manuel da Cunha, irmão do Conde, como já fica dito. Dos 6.°* 
Condes foi único filho: 

José Manuel da Cunha Faro Meneses Portugal da Gama Carneiro de 
Sousa da Silveira, que foi 7." conde de Lumiares, 4.° coudel mor do reino 
na sua família, representante das casas dos marqueses de Louriçal, dos con- 
des do Vimieiro, da Ericeira, das Sarzedas e da Ilha do Príncipe, dos alcaides 
mores de Tavira, dos comendadores de Fronteira, dos senhores de Alcoen- 
tre, dos morgados de Paio Pires, Cachoeiras, Anunciada, e outros. Nasceu 
em i3 de Maio de i836 e casou, em 3 do mesmo mês de i858, com D. Ana 
Amélia Pinto de Sousa Coutinho, dama das rainhas D. Maria Pia e D. Maria 
Amélia, filha dos 4."* Viscondes de Balsemão com grandeza. Morreu a Con- 
dessa de Lumiares em 4 de Fevereira de 1896, e o Conde em 9 de Dezembro 
de 1908, deixando nove filhos vivos. 

As armas do último Conde de Lumiares eram dois escudos a par. O 
primeiro partido: o I de oiro, nove cunhas de azul, bordadura de prata car- 
regada de cinco escudetes de azul, sobrecarregados cada um de cinco be- 
santes de prata (Cunha); o II esquartelado: o I e IV das armas do reino, o 



Cunhas 187 

II e III de azul, três flores de lis de oiro, e sobre o todo escudete de oiro 
com a sombra de um anel e seu rubim (Meneses). O segundo esquartelado 
de Faro, Carneiro, Vasconcelos e Gama, como acima ficaram descritas. 

IV 

SENHORES DE POMBEIRO 

Um dos filhos de D. Loiyenço Fernandes da Cunha, 1.^ senhor da honra 
do julgado da Tábua, lá acima nomeados (i), foi D. Martim Lourenço da 
Cunha. Dizem ter ele sido padroeiro do mosteiro de S. Simão da Junqueira 
da Ordem dos Cónegos Regrantes e o cronista da Ordem alega, em prova, 
uma carta régia de 5 de Junho da era de i3i3 (1275), pela qual D. Afonso III 
ordenou a D. Martim Lourenço e a D. Lourenço Martins, seu filho, que não 
devassassem o couto de Faria pertencente ao dito mosteiro, sob pena de qui- 
nhentos cruzados (2). Este documento ou é apócrifo e não foi o primeiro 
inventado pelo autor citado, ou está mal interpretado, tendo-se lido cruzados 
por soldos. E possível porem que o facto seja verdadeiro por quanto me 
consta que na freguesia de Santa Maria de Bagunte, então do julgado de 
Faria, fizera D. Martim Lourenço casas e tapadas, destruindo lugares re- 
guengos e apoderando-se deles, ocupando os logradoiros e serventias das 
aldeias e cometendo toda a sorte de violências durante as desordens do rei- 
nado de D. Sancho 11 (3). Fundou, dizem, a quinta da Cunha Nova, junto 
ao lugar de Lamízios na freguesia de Santo André de Parada do actual con- 
celho de Vila do Conde. 

Casou com D. Sancha Garcia de Panha, filha de D. Garcia Fernandes de 
Panha e de sua mulher D. Teresa Pires de Baião e deste casamento nasce- 
ram os seguintes filhos: 

i.° — D. João Martins da Cunha casou por duas vezes e teve vários filhos, 
sendo um deles Rodrigo Anes da Cunha, ou Rui da Cunha, que também 
assim é nomeado. Foi cavaleiro e talvez seja este o que pelejou em Alju- 
barrota e não o seu parente Rui Vasques da Cunha lá acima mencionado (4). 
Deste Rui da Cunha encontro memória de ter vendido, juntamente com sua 
mulher Inês Esteves, e por escritura feita em. Braga, a 6 de Fevereiro de 
1872 (1334), ao arcebispo D. Gonçalo Pereira, por mil setecentas e setenta 



(i) Pág. 159. 

(2) D. Nicolau de Santa Maria, Chronica da Ordem dos (Jonegos Regrantes, I, 322. 

(3) Inquirições de D. Afonso III da era de 1296 (i258), quinta alçada, liv. 9.°, fl. 6. 

(4) Pág. 166. 



i88 Brasões 

libras, a sua quinta de Bastuço a qual fora de Fernão Martins Camelo e de 
sua mulher D. Ouroana (i). 

2.° — Lourenço Martins da Cunha de quem me tornarei a ocupar. 

3.° — Gonçalo Martins da Cunha, chamado D. Gonçalo Camelo, foi in- 
fanção e progenitor da ilustre família dos Camelos, hoje extintos na varo- 
nia, da qual foram chefes os senhores de Baião, provenientes do filho do fa- 
moso prior do Crato e marichal da hoste, D. Fr. Álvaro Gonçalves Camelo, 
bisneto do acima dito Gonçalo Martins. As armas dos Camelos são: de 
prata, três vieiras de azul. Timbre: pescoço e cabeça de camelo de sua cor. 
Alguns usaram das armas dos Cunhas e assim as encontro em um túmulo 
junto ao altar de Santo António, o colateral da parte da epístola na igreja 
do convento franciscano de Nossa Senhora da Conceição de Matosinhos. 
Era em forma de arca e tosco bastante; estava ingerido na parede e tinham- 
-Ihe cortado um bocado, vendo-se ainda no frontal dois escudos com as nove 
cunhas (2). O epitáfio rezava assim : Esta perpetua morada he do devoto 
Gonçalo Camello Sendeiro da Casa delRey Dom Joham o Segundo e da de- 
vota Dona sua molher Margarida Alpare'{ (3). 

4." — Fernão Martins da Cunha era em 1278 vassalo e cavaleiro da casa 
do infante D. Denis, com trezentas libras de soldada paga em panos, com 
vencimento a 3o de Outubro de cada ano (4). Passou posteriormente a cha- 
mar-se Fernão Martins Camelo e já em Janeiro de i32i era falecido, quando 
a sua viúva*, D. Ouroana, foi tirada a quinta de Alhi, a qual fora de seu ma- 
rido e então a possuía seu filho (5). Ainda teve outra quinta, a de Bastuço, 
a qual veio a pertencer, como acima disse, a seu sobrinho Rui da Cunha. 

5.° — D. Maria Martins da Cunha casou com Gonçalo Pires de Portocar- 
reiro. 

Lourenço Martins da Cunha, acima nomeado, foi sepultado no convento 
de S. Jorge junto a Coimbra e teve, segundo o Nobiliário do Conde D. Pe- 
dido, unicamente dois filhos (6): Martim Lourenço da Cunha, que segue, e 



(i) Lousada, Sumários^ II, fl. 264 v. mihi. 

(2) Fr. António da Luz Foz, Memorias sepulchracs^ fi. 80, onde se reproduz o desenho, 
mas apenas se transcreve parte do epitáfio. • 

(3) João Pedro Ribeiro, Dissertações, vol. I, pág. 298. 
(4.) Arquivo histórico português, X, 58. 

(5) l^ousada, Sumários, 1, fl. 264, mihi. 

(6) O Livro velho das linhagens não nomeia Lourenço Martins da Cunha, mas na 
pág. 167, entre os filhos de D. Estêvão Fernandes [Barreto], menciona Constança Barreto 
«casada com D. Egas Lourenço da Cunha morador em terra de Coura àquem Valença»* 
É possível que fosse filho de Lourenço Martins, mas também é possível que fosse o filho 



Cunhas 189 

D. Inês Lourenço da Cunha, mulher de Vasco Pereira, senhor de Paiva e 
Baltar. 

Martim Lourenço da Cunha foi o i.° senhor de Pombeiro por carta de 3 
de Fevereiro da era de iSgS (i358), pela qual D. Afonso IV, em atenção aos 
serviços de Martim Lourenço e por ele ter casado com D. Maria, filha de 
Gonçalo Anes de Briteiros, «que há comigo dívedo», lhe doou o referido 
lugar de Pombeiro em troca das terras de Torres e Vilarinho do Bairro, 
com toda a Jurisdição, para herdeiros e sucessores (i). Sucedeu no senhorio 
João Lourenço da Cunha, filho dos acima nomeados. E o bem conhecido 
marido de D. Leonor Teles com quem el rei D. Fernando casou, e ainda por 
cima lhe confiscou a casa, por ele se não conformar com os acontecimentos, 
e a doou a Fernão Afonso de Albuquerque, por carta de i de Julho de 1417 
(1379) (2). Voltou para Portugal em fins de i383, fazendo-lhe o Mestre de 
Avis várias mercês no ano seguinte (3); João Lourenço porém traíu-o, tendo 
entrado, durante o cerco de Lisboa, na conjura de D. Pedro de Castro para 
franquearem o ingresso na cidade aos Castelhanos pela parte da muralha 
confiada à sua guarda. Antes porém de realizarem a traição, adoeceu João 



de D. Lourenço Fernandes da Cunha, 2." senhor da Tábua, lá acima nomeado, apesar de 
nos livros de linhagens se lhe não mencionar casamento. 

Um genealogista, Calisto Rangel Pereira de Sá, senhor do solar de Rangel e governador 
de Moçambique, tratando dos Cunhas, declarou ter Lourenço Martins da Cunha tido mais 
um filho com o nome de Pedro Lourenço da Cunha, a quem diz ter encontrado figurando 
em documentos dos anos de i323 e 1344, e ainda mais afirma haver ele sido pai de Vasco 
Pires, instituidor do morgado de Antanhol. Estava Calisto Rangel bem no caso de averi- 
guar esta ascendência por ser casado com uma irmã de um dos morgados de Antanhol e 
poder portanto consultar os documentos do arquivo da casa, mas não me merece confiança. 
O referido morgado foi com efeito instituido por um Vasco Pires em i386 {Chronica dos 
Cónegos regrantes, II, i56), que certamente, se fosse Cunha, não deixaria de aparecer com 
o apelido na escritura de instituição do vínculo. Devemos pois, em meu parecer, lançar a 
afirmação de Calisto Rangel para o monte das pias fraudes genealógicas, bem alta cordi- 
lheira na verdade. 

(1) Chancelaria de D. João 111^ liv. 45.» de Doações, fl. 161 v., transcrita noutra de con- 
firmação e impressa pelo Visconde de Sanches de Frias, na 2.* ed. do seu Pombeiro da Beira^ 
pág. 23 1. 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.°, fl. 45 v, — Confisca-lhe os bens pelas traições 
que contra ele cometera, entrando em Portugal com o inimigo, e porque, já depois de per- 
doado, «comprou peçonhas e falou com algumas pessoas que no-las dessem para nos matar 
per elas, segundo fomos certo por aquelas pessoas, com que o ele falou», etc. 

(3) Doação para sempre: de todolos bens móveis e de raiz possuídos por Fernão Vas- 
ques em Campo Maior e seu ternao, Lisboa, 2 de Maio ; das casas do mestre Cochicho, em 
Lisboa, na freguesia de S. Nicolau, Lisboa, 18 de Junho; de todolos bens móveis e de raiz 
que Afonso Martins, escrivão que foi dei rei D. Fernando, genro de Palhavan, há em estes 
reinos, Lisboa, 20 de Junho. — Chancelaria de D. João I, liv. 1.°, fls. 19, i5 e 16 v. 



1 go Brasões 

Lourenço e o seu confessor obrigou-o a descobrir tudo ao Mestre. Apro- 
veitou a ocasião para alcançar dele que reconhecesse por seu íilho a Álvaro 
de Sousa, até então apresentado no paço por Leonor Teles como sendo filho 
bastardo de Lopo Dias de Sousa, mas que na realidade o era dela e de seu 
marido (i). Passou Álvaro de Sousa a chamar-se Álvaro da Cunha e a casa 
de seu pai confirmou-lhe D. João I por carta de 17 de Abril de 1428 (i385) (2). 
Tomou parte nas Cortes de Coimbra de i384, entrou na expedição de Ceuta 
e lá, depois da conquista, foi armado cavaleiro pelo infante D. Henrique, a 
23 de Agosto de 141 5. Casou com D. Beatriz de Melo, filha de Martim 
Afonso de Melo, rico homem, 5° senhor de Melo, e de sua segunda mulher 
D. Inês de Brito. Deste casamento nasceram, entre outros, João Álvares da 
Cunha e Rui de Melo. 

João Álvares da Cunha foi 4.° senhor de Pombeiro e bisavô de Mateus 
da Cunha, 7.° senhor de Pombeiro, a quem foi confirmado o senhorio por 
carta de 10 de Fevereiro de 1529 (3). Casou pelos anos de i52o ou i52i 
com D. Leonor, que nos instrumentos ora é apelidada Coutinho, ora Mene- 
ses, e a quem, por alvará de 26 de Abril de i52i, se mandaram pagar cento 
e oitenta mil reais do primeiro terço das quatro mil e quinhentas coroas do 
seu casamento (4). Era filha de D. Pedro de Meneses, i.° conde de Canta- 
nhede, e da condessa D. Guiomar Coutinho, sua terceira mulher. 

O Senhor de Pombeiro era já falecido em 29 de Novembro de i545, 
quando sua viúva por meio do dr. Rui Lopes pediu ao juiz de Santarém, em 
nome de seu filho, o traslado da carta de doação de Pombeiro (5). Manso 
de Lima, nas suas genealogias, afirma ter Mateus da Cunha morrido em 
Casal d'Álvaro, na freguesia do Espinhei, e ter lá estado seu corpo em de- 
pósito até ao ano de 1600. 

Pode ser. Foi porem sepultado definitivamente na capela mor da igreja 
matriz de Pombeiro da Beira, num túmulo cravado na parede, sobre a 
campa do qual esculpiram em pedra a figura jacente do cavaleiro, em tama- 
nho natural, e no frontal gravaram, entre dois escudos, o seguinte epitáfio: 
Aqui j ai o muito esforçado e estimado seííor mateus da cunha sõr q foi desta 
pila e terá de pôbeiro o qual noso siíor tenha na sua sãta gloria Amen (6). 
Na parede do fundo, um pouco acima do sarcófago, puseram mais dois es- 



(i) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, part. \, cap. 1S4, pág. 348. 

(2) Chancelaria de D. João /, liv. i.°, fl. i35. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 45.° de Doações, fl. lõi v. 

(4) Lousada, Sumários, III, pág. 846 mihi. 

(5) Ibidem, II, fl. 262 mihi. 

(6) Sanches de Frias, Pombeiro da' Beira, cit., pág. 95. 



Cunhas 19I 

cudos iguais aos inferiores. Estes escudos são partidos: o I de nove cunhas; 
o II cortado das quinas do reino sobre cinco flores de lis (i). 

Aquelas armas assim misturadas eram as de Mateus da Cunha e metade 
das de sua mulher, as dos Meneses de Cantanhede, faltando-lhe o escudete 
liso sobreposto, ou por não o terem esculpido, ou por se ter apagado nas 
voltas padecidas pelo monumento, ou ainda por a fotografia reproduzida na 
estampa não o ter dado. 

Ninguém, que tenha reparado com olhos de ver em brasões antigos, es- 
tranhará o encontrar-se só metade das armas, porque era coisa muito vulgar 
fazer-se isto para simplificar, quando os escudos eram esquartelados. Ainda 
hoje, em Lisboa mesmo, bem patente a todos, e não muito antigo, se encon- 
tra um exemplo disto no brasão, que está sobre a porta principal do palácio 
Mesquitela ao Poço Novo. Ai se vê um escudo partido: no I cortado das 
quinas do reino sobre um Hão, que é metade das armas dos Sousas do Prado; 
no II cinco estrelas, armas dos Macedos. 

Posto isto, parece haver sido o túmulo de Mateus da Cunha mandado fazer 
por sua viúva, o que vem confirmar um tanto o dito de Manso de Lima, não 
sei onde por ele desencantado. 

De Mateus da Cunha e D. Leonor Coutinho foi filho e sucessor Martim 
Lourenço da Cunha, último senhor de Pombeiro na varonia dos Cunhas, e 
que já era falecido, solteiro e sem geração, pelos anos de 1546. 

Alem deste filho e doutras filhas, tiveram eles a D. Maria de Briteiros, 
ou da Cunha, como diz o letreiro do seu túmulo, a qual veio a suceder na 
casa por morte de seu irmão (2). Casou esta senhora a primeira vez com 
seu primo D. João de Almeida, comendador do Sebal, de quem não teve ge- 
ração que persistisse. Tornou D. Maria a casar com D. António de Castelo 
Branco, 6." senhor do morgado de Castelo Branco o Novo, que morreu em 
i588, tendo juntamente com esta sua mulher, que foi a segunda, principiado 
a fundação do convento da Conceição de Capuchos, junto ao seu morgado, 
na freguesia de Santa Iria da Azóia. Foram sepultados na capela mor da 
igreja do referido convento e no seu jazigo gravaram a seguinte inscrição: 
D. António de Castellobranco, do Conselho delRey, e sua mulher Dona Ma- 
ria da Cunha, Senhores da Villa, e terra de Pombeiro, deu principio a este 
Mosteiro da Conceição, efaleceo antes de o acabar, no a?ino de mil e quin- 
hentos e oitenta e oito (3). 



(i) Sanches de Frias, Pombeiro da Beira, estampa. 

(2) Em Santarém, no mês de Fevereiro de 1547, fez D. Maria da Cunha procuração a 
fim de tomar posse dos bens de seu irmão Martim Lourenço da Cunha. — Lousada, Siimá- 
rioSy II, 261, mihi. 

(3) Fr. António da Piedade, Chronica da Arrábida, I, 635. 



192 Brasões 

Destes cônjuges foi bisneto D. Pedro de Castelo Branco, capitão da guarda 
de D. João IV que o criou visconde de Castelo Branco junto a Sacavém, por 
carta de 26 de Setembro de 1649 (i), e foi o segundo visconde que houve 
em Portugal. Na regência da rainha D. Luisa de Gusmão foi elevado a 
conde de Pombeiro, por carta de 6 de Abril de 1662 (2). Foi progenitor dos 
demais condes de Pombeiro, os quais já com a varonia de Vasconcelos rece- 
beram o título de marquês de Belas por carta de i3 de Janeiro de 1802 (3). 
Subsistem. 

De Álvaro da Cunha, 3.° senhor de Pombeiro, foi filho segundo^ conforme 
acima disse, Rodrigo Afonso de Melo, ou simplesmente Rui de Melo, como 
depois se chamou (4). 



(i) Chancelaria de D. João IV, liv. 20° de Ofícios e mercês, fl. 237. 

(2) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 26." de Oficias e mercês, fl, i63 v. 

(3) Chancelaria de D. Maria I e D. João VI, liv. 6.", fl. 196. 

(4) Não se estranhe trocar o mesmo indivíduo o nome de Rodrigo pelo de Rui, Estas 
e outras anomalias aparentes eram nesses tempos vulgares. Como esclarecimento a muitos 
casos análogos, que no decurso desta obra se encontrarão, reproduzirei aqui um pequeno 
artigo por mim publicado há anos a propósito do parecer por um distinto filólogo apresen- 
tado, no qual duvidava pudesse Rui ser a abreviatura de Rodrigo. 

Em eras remotas afigura-se provável, à primeira vista, que o não tivesse sido, porque 
nos chamados LíVros de linhagens encontramos dois patronímicos diversos: para Rui, Rúiz; 
para Rodrigo, Rodríguez. Note-se contudo que, não tendo aqui aqueles livros, não posso 
afirmar se a prática era constante, ou variava muito (-*), Não creio porem que nenhum dos 
Ruis nomeado no Nobiliário do Conde D. Pedro, ou nos outros, apareça em documento do 
tempo senão com o nome de Rodericus, ou Rudericus. 

Do século XV existem documentos que provam, irrefragávelmente. considerarem-se os 
dois nomes como abreviatura um do outro. 

Por carta de 21 de Julho de 1476 foi Rui de Melo, guarda mor e capitão de Tanger, 
criado conde de Olivença, e desde então por diante passou, em todos os documentos, a ser 
chamado D Rodrigo de Melo. A referida carta está registada na Chancelaria de D. Afonso V, 
no liv. 7.» a fl. 46 V. ; mas, como estou escrevendo longe dos meus apontamentos, só poderei 
citar, para prova de ter Rui de Melo passado a ser D. Rodrigo de Melo, um único documento, 
a carta de 17 de Janeiro de 1487 pela qual foi uma sua neta habilitada a poder-Ihe suceder 
na casa. Está o documento na Chancelaria de D. João II registado a fl. 61 v. do liv. 21." 

Mas há mais ainda. 

Aquele mesmo fidalgo, antes de ser conde de Olivença, encontra-se em documentos 
nomeado ora Rui de Melo, ora Rodrigo Afonso de Melo (*#). Não sei explicar a razão, mas 
posso apontar o facto, que não sucedia só com os Ruis, mas também com os Peros, os Fer- 
nãos, e outros. 

Era regra, quási invariável nesses tempos, quando o patronímico ou o apelido começava 

(#) Creio que muito poucas vezes, se alguma vez chegou a ser empregado, se encontrará nos Livros de linha- 
£ens o patronímico Rúiz ; só aparece Rodríguez. 

(#*) Exactamente o mesmo caso se dava com seu contemporâneo e homónimo, o almirante Rui de Melo. 



Cunhas , igS 

Rodrigo Afonso de Melo já era fronteiro no Algarve em 1460 (1), e já 
então exercia pelo filho o ofício de almirante do reino (2), no qual veio a su-. 



por vogal, escrever-se o nome próprio por extenso e não em abreviatura. Assim dizia-se 
Pêro Martins e Pedro Anes, ou Pedr'Anes; Fernão Lopes e Fernando ou Fernand'Álvares, 
que eles geralmente escreviam /erHã dalvare^; Rui de Melo e Rodrigo Afonso de Melo. 

^ Seria para evitar o hiato ? Talvez; creio porem que nisto também imperavam as cos- 
tumeiras, que sempre tiveram muita força e decerto muita mais ainda nesses tempos. 

E as tais costurpeiras com os nomes próprios não eram aquelas somente; várias outras 
havia. 

Quando ao nome próprio precedia o título de dom, era aquele sempre escrito por ex- 
tenso (*); D. Pedro, D. Rodrigo, D. Martinho; e até, se o Pêro, o Rui, ou o Martim, rece- 
biam o título de dom, passavam a ser Pedro, Rodrigo ou Martinho. Por exemplo: Pêro 
Vaz, de Melo foi feito conde da Atalaia em 1466 e passou a chamar-se dom Pedro de Melo; 
Martim Vaz de Castelbranco, que havia sido nomeado com este nome vedor da fazenda em 
1480, passou a intitular-se dom Martinho de Castelbranco desde que seu pai recebeu em 
1485 o título de dom. Caso idêntico sucedeu com outro vedor da fazenda, seu contempo- 
râneo, João Lopes de Almeida, nomeado para aquele cargo em 1475, passou, de 1 3 de Junho 
do sno seguinte em diante, a chamar-se D. João de Almeida, por seu pai ter sido então criado 
conde de Abrantes. 

E aqui ocorrerá ao leitor uma observação: — ^Eles não mudavam só o nome próprio, 
largavam também o patronímico í 

E verdade; era outra costumeira e esta pode-se também dizer de prática geral, porque 
muito poucas excepções existem. 

O famoso Álvaro Vaz de Almada já na própria carta, pela qual Henrique VI de Inglaterra 
o criou conde de Avranches em 1445, é nomeado D. Álvaro de Almada. Álvaro Gonçalves 
de Ataíde, de 1448 em diante, passou a ser D. Álvaro de Ataíde, conde da Atouguia; Rui 
Vaz Pereira foi D. Rodrigo Pereira, conde da Feira ; Gonçalo Vaz de Castelbranco, recebendo 
o título de dom em 1485, ficou-se chamando D. Gonçalo de Castelbranco; o capitão dos 
ginetes Fernão Martins Mascarenhas, agraciado com igual mercê em 1496, passou em docu- 
mentos a ser D. Fernando Mascarenhas, apesar de lhe terem gravado o primeiro nome no 
epitáfio da sua sepultura no Espinheiro de Évora* 

Outros exemplos poderia aduzir, mas bastam estes para provar a praxe, e, como já estou 
longe do Rui e do Rodrigo, porei ponto (**). 

(i) Carta de i de Agosto de 1450 de 60.000 rs. brancos de tença. — Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. iS.", fl. 121. 

(2) Por carta dada em Sintra, a 19 de Setembro de 1450, foi Pêro Rodrigues de Castro 
confirmado no posto de almirante em Lisboa para que o nomeara Rodrigo Afonso de Melo 

(«) E náo só com o título de dom, mas também o mesmo sucedia com os qualificativos de doutor, mestre, frei, 
«te. Deste último caso temos um exemplo interessante na Frágoa de Amor de Gil Vicente. Diz o Frade: 

conselhoume hum meu amigo 
que fosse frade e filo assi 
de Ruy Pirez, frey Rodrigo. 

(fl. i55, col. 2.) 

(»«) O Jornal do Cotnmercio, n.* i5.oi8, de quinta-feira 21 de Janeiro de 15,04. 

VOL. I 25 



1 94 • Brasões 

ceder-lhe por sua morte e se lhe passou earta a 27 de Julho de 1453, já em 
nome de Rui de Melo (1). Foi senhor da casa de Melo, a qual herdaria por 
sua mãe e lhe seria confirmada em 1450(2), e das terras de Évora Monte, 
Portimão e Mértola. Estando na sua vila de Portimão foi morto por um 
tiro, segundo se conta, indo a acudir a uma rixa entre Franceses e Ingleses. 
Havia casado com D. Beatriz Pereira, filha que veio a ser herdeira de mtcé 
Carlos Pessanha' almirante do reino, e foi sepultado na capela mor da igreja 
do convento da Trindade de Lisboa, em um túmulo metido na parede da 
parte da epistola, tendo sobre ele deitada a figura do cavaleiro armado. 
Viam-se lá as armas dos Meios, Pereiras, Pessanhas e Cunhas sobrepujadas 
desta divisa: 

Qui le mal ne peut soiifrir 
A gran honeiir ne peut venir. 

E por baixo dos escudos este letreiro: A todos seja memoria desta sepidtiira 
ser do imfito generoso fidalgo, e famoso cai'alleiro Rui de Mello, Senhor da 
Casa de Mello, o qual em tnda do muito alto e muito excelente e muito po- 
deroso Principe ElRey D,Õ Afonso o 5.° foi Almirante de seus Reptos e seu 
fronteiro mor no Reyjio do Algarj^e, o qual por bondade de sua pessoa e 
valentia de suas armas fe\ muito asinalados serviços ao dito Senhor Rey e 
Reynos, segundo aos vivos he manifesto ata a elle prender morte a qual foi 
aos vinte e sinco de Fevereiro do anuo do Senhor de 146J, a qual sepultura 
mandou fa\er a muito generosa Senhora Dona Breatis Pereira sua inolher 
para elle e para si e para Miser Latisarote flho dos ditos Senhores outro 
si Almirante que foi, a qual Senhora foi sobrinha do mui 7nagnifíco poderoso 
e i'irtuoso Senhor Conde DÕ Nuno Alvres Peixeira Condestabre que foi destes 
Rejnos. Requiescant in pace. ,Amen (3). 



em nome de seu filho micé Lançarote [Chancelaria de D. Ajonso V, liv. 34.°, fl. 179 v.). 
Por outra análoga, de 25 de Novembro do ano seguinte, foi confirmado em almirante no 
Porto Fernando Alvares Vieira {Ibid.^ liv. Sy.", fl. i5i v.). 
(i) ií>/<iem, liv. 10.», fl. 25. 

(2) Rodrigo Afonso de Melo apresentou a carta de 11 de Junho da era de 1455 (1417) 
})ela qual D. João I coutara a Estêvão Soares de Melo a ribeira de Melo, pedindo dela con- 
firmação, Goncedeu-lha D. Afonso V e na fl. 200 v. do liv. 34." da sua Chancelaria come' 
çou-se a lançar o registo da carta, mas não se terminou, ficando sem todo o fecho, e por 
isso não sei qual a sua data. Está ela todavia entre duas de Outubro de 1450 e por tanto 
deverá ser deste ano. A Martim de Melo foi feita mercê da jurisdição do lugar de Melo, 
«por morte do Almirante que Deos haja», por carta de 22 de Novembro de 1467 (liv. i." da 
Beira, fl. 252). 

(3) Escrevi este epitáfio combinando a leitura que dele encontro no Nobiliário de Xisto 
Tavares, e nas Memorias Sepulchraes de D. António Caetano de Sousa. Fr, Jerónimo de 



Cunhas igS 

Foi a Almiranta, como ela se intitula no seu testamento (i), sepultada na 
mesma igreja, com o seguinte epitáfio: Sepultura de D. Brites Pereira, 
mulher de Ruy de Mello] Almirante destes Rejnos, e sobrinha do Conde 
D. Nuno Ahares Pereira. Falleceo a ig de Julho, anno de 1483 (2). 

Como é bem sabido havia D. Denis contratado o Genovês, «micer Manuel 
Peçagno», para lhe servir de almirante e, por carta de i de Fevereiro da 
era de i355 (iSiy), lhe conferiu o almirantado, a ele e seus descendentes 
para sempre (3). Continuou o almirantado nos descendentes de Manuel Pes^ 
sanha até seu neto inicé Carlos Pessanha, a quem D. João I confirmou o 
ofício por carta de 12 de Novembro de 1435 (1397) (4). Demitiu-o este de 
si pelos anos de 1433 a favor de seu genro D. Pedro de Meneses, 2." conde 
de Viana, mas como ele não deixasse descendência da filha do almirante 
Carlos, tornou a este o almirantado depois do ano de 1437, e foi-lhe nova- 
mente confirmado por carta de 6 de Fevereiro de 1439 (5), e ainda por outra 
de 2 de Julho de .1441 lhe foram confirmados os privilégios do almirantado, 
como os tivera em tempo de D. João I (6). Pouco depois morreu, tendo 
«posto» o alrríirantado em seu neto Lançarote Pessanha, filho de Rui de Melo, 
e a seu requerimento lhe foi confirmado, «posto que o dito almirantado por 
qual quer guisa a nós pertença, segundo nos fizeram entender que pertence». 
Passou-se a carta de confirmação a 3i de Agosto de 1444(7). Era então 
micé Lançarote, como êle é designado nos ulteriores diplomas, de menor 
idade e por êle servia o cargo de almirante seu pai, como acima ficou já 
notado. Pouco tempo de vida teve porém micé Lançarote e já, por carta de 
27 de Julho de 1463, fazia D. Afonso V, por sua morte, mercê do almiran- 
tado a seu pai Rui de Melo, «se a nós direitamente pertence dar e prover 
do dito almirantado», com toda sua jurisdição e rendas (8). Suscitaram-se 



S. José já o havia dado à impressão na pág. 195 do i.° vol. da sua Historia da Trindade, 
mas evidentemente leu-o mal, errando-lhe até a data, e não entendendo, segundo êle pró- 
prio confessa, os dois versos franceses. ' 
(i) Cit. Historia da Trindade. 

(2) Ibidem, pág. 1 98- 199. 

(3) Belgrano, Documenti e genealogia dei Pessagno Genovesi amiragli dei Portogalh^ 
pág. i3, doe. IX ; Aires de Sá, Frei Gonçalo Velho, vol. 11, pág. 507, doe. dccix, 

(4) Chancelaria de D Afonso F, liv. i8.°, fl. 81, mencionada noutra de confirmação, com 
a data acima, e com a de 10 de Novembro no liv. de Extras, fl. to5 v. 

(5) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 18.°, fl. 81. 

(6) Ibidem, liv. 2.», fl. 92 v. 

(7) Ibidem, liv. 25.°, fl. i3 v. — Foi esta carta passada por autoridade do infante D. Pedro 
e depois renovada por D. Afonso V, em 1 1 de Novembro de 1448 (liv. de Extras., fl. io5 v.). 

(8) Ibidem, liv. 10.», fl. 25. 



196 Brasões 

as dúvidas previstas no diploma e foi mandada sobrestar a posse, até que 
D. Afonso V resolveu mandá-la dar, «visto como por nossa carta e autori- 
dade o dito micé Lançarote Pessanha possuiu e teve o dito ofício de almi- 
rante, em quanto viveu, e não por outra sucessão, nem herança que lhe per- 
tencesse». Foi passado o novo diploma a 2 de Abril de 1454(1). Por cartas 
de i5 e 16 do mês de Julho seguinte foram-lhe confirmados os direitos e a 
jurisdição do almirantado (2). Por morte de Rui de Melo sucedeu no almí- 
rantado o monteiro mor Nuno Vasques de Castelbranco, a quem D. Afonso V 
com toda a solenidade criou almirante na Sé de Évora, em Abril de 1467 (3). 
Era Nuno Vasques filho de Gaterina Pessanha, sobrinha do almirante Carlos, 
e nãu encontro a carta da sua nomeação, mas de vários diplomas consta ter 
Nuno Vasques possuído o almirantado, citando d'entre eles a carta de 26 de 
Setembro de 1475, pela qual a Lopo Vasques de Castelbranco seu filho pro- 
meteu D. Afonso V dar por sua morte, a um seu filho, não só todos os ofí- 
cios que já tinha, como aqueles que haveria de herdar de seu pai, e eram 
o almirantado e a montaria mor (4). Não chegou Lopo Vasques, por morrer 
assassinado em 1478, a suceder ao pai pois este só faleceu em 1481, vindo 
D. João II a nomear almirante, por carta de 3 de Outubro de 1483, a Pêro 
de Albuquerque, do seu conselho (5). 

jMas, agora reparo! não é propriamente do almirantado que devo estar 
tratando aqui. Acabemos com os Cunhas. 

• De Rui da Cunha e por bastardia provieram uns ramos desta família es- 
tabelecidos no Algarve, outros na Estremadura, todos relativamente obscuros 
e todos, segundo creio, extintos na varonia. 

Também foi filho segundo da casa de Pombeiro, e neto da rainha D. Leo- 
nor Teles e de seu marido João Lourenço da Cunha, um fidalgo, que hon- 
radamente serviu a D. João I e foi sepultado na parede da igreja do convento 
de S. Francisco da Covilhã, onde lhe puseram o seguinte epitáfio gravado 
em caracteres góticos : Aquija^ ho mufto honrado Cavaleiro Frey Diegalves 
da Cunha Comendador que foy de Castelejo e de Castelnovo ho qual foy na 
tomada de Cepta com o muyto alto e com o muyto excellente e muyto vir- 
tuoso Senhor Rey Dom loham (6) da boa memoj^ià & foi nas Ilhas de Canária 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. io.°, fl. 25. 

(2) Ibidem.Yiv. i5.°, fl. 8. 

(3) Duarte Nunes do Lião, Chronicas^ part. 11, Chronica e vida delRey dom Affonso o V^ 
pág. i3o. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. So.", fl. 8. 

(5) Chancelaria de D. João JJ, liv. 23.», fl. 45 v. 

(6) Fr. António da Luz Foz, Memorias Sepiílchraes, fl. 80, incompleto. 



Cunhas 197 

por mandado do muito honrado pvijicipe & muito virtuoso Senhor o Infante 
D. Henrique seu Jilho: o qual se finou na Era de 1460 anttos (i). 

De uma filha bastarda deste Diogo Álvares da Cunha descenderam, diz-se, 
uns Cunhas que houve no Pedrógão. 

Há ou houve casas nobres com o apelido da Cunha desde tempos remo- 
tos, como são os senhores do morgado do Vidigal junto a Montemor o Novo, 
os do morgado dos Olivais no termo de Lisboa, os do Paço da Cunha no 
Minho, e ainda outros, os quais contudo se não podem entroncar com con- 
fiança na varonia dos verdadeiros Cunhas. 

Esta conserva-se hoje legítima em Portugal unicamente nos Condes da 
Cunha e nos de Lumiares, salvo sempre a existência dalgum ramo obscuro, 
porque em família tam ramificada é difícil seguir-lhe as linhas todas. 

Isto escrevia eu em 1899, hoje a varonia dos Cunhas apenas subsiste nos 
Lumiares. 



(i) Fr. Manuel da Esperança, Historia seráfica, part. i, pág. 428, onde se encontra o 
epitáfio completo. 



! 



IX 
SOUSAS 



i 




Brasões da Sala de Sintra, Vo!. I. 



Esquartelado: o I e IV das armas do reino com um filete de negro sobre- 
posto em barra; o II e III de vermelho, caderna de crescentes de prata. 
Timbre: castelo de oiro. 

Assim se encontram também no Livro do Amieiro mor, fl. 5-2, no Lii'ro 
da Torre do Tombo, fl. lo v., no Thesouro da Nobreza de Francisco Coelho, 
ti. 28, no Thesouro da Nobre\a de Fr. Manuel de Santo António, s-52, etc. 

I 

LENDA BE SANTA SENHORINHA 

No alcáçar reinava o silêncio. 

Das paredes da sala de armas pendiam -as espadas, as bestas; aos cantos 
estavam arrumadas as lanças, as ascumas, as frechas; e sobre todas estas 
armas outrora luzentes, se estendia agora uma camada de pó. Para elas o 
repouso usava a ser pouco, e os vizinhos Sarracenos d'alêm Doirb de contí- 
nuo lhes sentiam os golpes. 

No pátio os almogavares e os besteiros ora passeavam, ora se sentavam 
na soleira dalguma porta, nos degraus dalguma escada, sonolentos, aborre- 
cidos com a desusada inacção, procurando com os olhos instinctivamente o 
seu adail, cuja vista pelo menos lhes recordaria a lide desejada. Na varanda 
alpendrada, e na contígua sala de armas, encostados a um pilar, a uma om- 
breira, Junto aos limiares das portas, em grupos, entretinham-se os homens 
de armas, os escudeiros, os pajens do Conde. Todos tristes, contando bai- 
xinho uns aos outros novidades, velhas para eles; recordando a formosura e 
garbo da Condessa, quando na sua hacaneia chegara ao castelo, desposada 
do Conde, o modo lhano e afável que para todos tinha, o amor estremo com 
que ela e o marido se queriam, a sua bondade para os pobres, a sua indul- 

VOL. I 26 



202 Brasões 

gência para os servos da gleba, para os escravos, E um recordava um 
caso, e outro recordava outro, e todos acabavam com um suspiro, lastimando 
a tam inesperada morte. 

E então pela centésima vez cgntavam, como tinha sucedido: a criança 
nascera bem; era muito franzina sem dúvida, mas estava viva e sã; a mãe, 
depois do inevitável padecimento, aconchegara a si a recêm-nascida, e dfis- 
cançara risonha com a filha ao lado; o Conde, radiante, saíra da câmara a 
participar a notícia, e ordenara ao ovençal para dar à farta de comer e beber 
aos vassalos e moradores do castelo, a íim de festejarem condignamente o 
feliz sucesso; o senhor não se importara da criança ser uma donzela, visto 
que o primogénito era um rapaz. 

Lembravam ainda: que ao outro dia já a Condessa tinha os olhos luzen- 
tes, as faces coradas em demasia; que estava inquieta, indiferente à filha: 
que a noite seguinte fora de agitação e desassossego na doente, de pertur- 
bação e terrores no marido e em toda a família; e que estes terrores foram 
fundados, porque a febre recresceu, e D. Teresa exalou o último suspiro. 

E com lágrimas recordavam os derradeiros momentos, a volta da razão, 
o adeus saudoso ao marido e aos dois orfãozitos, e a f é viva com que se 
abraçara à cruz, que lhe estendia o confessor, frade bento do mosteiro de 
Pombeiro, padroado da casa. 

^E o Conde? Sentado junto ao leito da morta na sua cadeira de assento 
e respaldo de coiro, no qual se via lavrada uma caçada, com o corpo dobrado 
para diante, os cotovelos fincados nos braços da cadeira, a cara nas mãos, 
deixava silenciosamente correr as lágrimas. E pensava naqueles anos tam 
breves de suprema ventura; no dia do casamento, quando a trouxera para o 
castelo; no pranto a custo por ela sustido, quando do alto do eirado lhe dizia 
adeus no momento da partida para fossado alem Doiro; na terna vivacidade, 
com que íf volta ela se lhe lançava ao pescoço, não reprimindo então as lá- 
grimas por estas serem de alegria. 

jE tudo isto tinha acabado! je aquela mulher tam querida jazia ali, fria, 
inanimada, dentro em pouco invisível para sempre! j Ficara só no mundo! 

Não, pão ficara, porque, alem do filho, agora com a idea de o alentar, 
lhe traz a ama para o pé a recêm-nascida. 

— Ai! quam miudinha és, minha senhorinha! E com soluços e choros 
continua: — Filha, a Cristo Deus te ofereço, e a Ele próprio te encomendo, 
para que Ele mesmo dirija teus passos até à sua presença. — E à ama diz: 
— Vai, tem cuidado nela, e com toda a dehgência a guarda e a conserva. 

E a ama levou a criança, que Senhorinha se ficou chamando, e depois de 
desmamada a entregou o pai, para a educar, a sua cunhada Godinha, que 
hoje se venera no altar. Tomou-lhe a beata afeição de mãe, e vendo-a tam 



Sonsas 2o3 

pura, tam meiga, quis desprendê-la do mundo, e, exaltando na sua mente a 
virtude da castidade, lançá-la nos braços de Jesus. 

Fácil lhe foi o conseguimento. 

Tinha Senhorinha sete anos, quando o filho de um riquíssimo Conde da 
linhagem dos reis a requestou; ela porem prestes o desengana, dizendo-lhe 
que nem êle, nem a casa paterna, a possuiriam. 

Despeitado o Conde Avulfo, a quem o pretendente narrara o sucedido, 
manda vir a filha à sua presença, interroga-a a tal respeito e recebe esta 
resposta: 

— iQue é isto, meu pai.-* ^que é isto? Por ventura não me escolhestes 
um excelente esposo e senhor? ^Por ventura não me oferecestes a Deus, 
óptimo e máximo? 

Enleiado despede-a o pai, que inquieto e preocupado, chegada a noite, 
se lança na cama, onde, depois de muito pensar no destino a dar à filha, 
afinal adormece. Eis que se lhe mostra um Anjo do Senhor, a animá-lo e 
confortá-lo, dizendo-lhe, para não ter mais insónias por via da filha, pois ela 
escolhera o melhor destino, e, já que pretendia ser esposa de Jesus, a dei- 
xasse seguir sua vocação. 

Logo ao amanhecer, alegre procura Avulfo a filha, e conta-lhe a visão. 

Manda em seguida proceder no seu condado, na encosta sobranceira ao 
rio Ave, à edificação de um mosteiro, que do orago e da terra se ficou cha- 
mando de S. João de Vieira. Dota o Conde o novo cenóbio, pÕe-lhe por 
abadessa Godinha, e nele assiste à profissão da virgem, que em 970, tendo 
apenas oito anos, tomou o hábito de S. Bento. 

Morta Godinha, sucede-lhe Senhorinha no abadessado, e poucos anos de- 
pois troca o mosteiro de S. João pelo de Basto, que a rogos seus edificaram 
seus parentes. Aqui viveu o resto dos seus dias, entregue às orações, enfra- 
quecida pelos constantes jejuns, mortificada pelos cilícios; mas cheia da graça 
divina, que nela se patenteava claramente por meio dos milagres por sua in- 
tercessão operados. 

Faz com que apareça farinha, quando no mosteiro já não havia de co- 
mer; manda calar as rans, que perturbam os cânticos religiosos; transforma 
a água em vinho; arreda a tempestade iminente; despedaça umas poucas 
de noites seguidas os grilhões, que prendiam seu irmão; e ainda depois de 
morta, alem de dar a vista a um cego e de fazer outros milagres, era o seu 
túmulo manancial perene de terra santa, remédio eficaz para as moléstias de 
todos aqueles, que com fé a traziam ao pescoço. 

Morreu a virgem santa com cinquenta e oito anos no dia de S. Jorge, 23 
de Abril, do ano de 1020. Jaz enterrada na sua igreja de Basto, e reza-se 
dela no dia 22 de Abril. 



204 Brasões 

Tal é a poética e singela lenda de Santa Senhorinha de Basto, narrada 
em precioso códice do século xii impresso nos Portugaliae monumenta his- 
tórica. 

II 
VARONIA ANTIGA 

A ilustre família de Sousa, diz a tradição, pertenceu santa Senhorinha; 
e, se assim é, destaca-se a cândida e mimosa figura da virgem no meio dos 
rudes barões e soberbos cavaleiros progenitores desta família, consrderada 
como a mais antiga de Portugal, por subsistir independente desde o começo 
do IX século. 

Na antiga terra de Panoias, que abrangia o território situado entre a 
serra do Marão e o rio Tua, desde o Doiro até Murça, tiveram o seu pri- 
meiro assento os progenitores desta casa. D'ali passaram às margens do 
Sousa, onde possuíram a honra de Novelas e outros bens, e fundaram, no 
próximo concelho de Felgueiras, o sumptuoso mosteiro de Pombeiro. 

Afirma-se ter sido seu progenitor D. Soeiro Belfager. Vivia êle nos prin- 
cípios do IX século e em esclarecida linha masculina foi quinto avô de D. Egas 
Gomes de Sousa, o primeiro que usou, ou a quem deram, este apelido, rico 
homem de D. Afonso VI, rei de Castela de 1072 a 1109. 

Dos. Sousas antigos encontram-se várias memórias sepulcrais no claustro 
do mosteiro de Alcobaça, na parede fronteira à casa do capítulo. Acho no- 
tícia dos seguintes epitáfios: Era i3oo in mense 8''^'^ obiit Rodericiis Menendi, 
ciijus anima requiescat in pace. Outro diz: Era 128 1 obiit Donnus Gondi- 
salims. P. N. pro ayiima. Estes estão por cima de vários escudos das armas 
dos Sousas, e na mesma parede, mas debaixo de uma pedra, com um homem 
a cavalo esculpido, vêem-se mais os seguintes: Hic vequiescit Dfius Gondi- 
salvus Menendi de Sousa, ciijus anima requiescat in pace, — Era 12^^. tertio 
Kalendas Martii (27 de Fevereiro de 1239) obiit Dnus Garcia Menendi Fi- 
lius recordationis Comitis Dni Menendi filius et pater Comitis Dni Gondi- 
salvi, anima ejus requiescat in pace. — Era 1288. i"] kalendas Januarii 
(16 de Dezeinbro de 1245) obiit Dfifl Elvira Gonsalvi uxor Dni Garcia; 
Menendi requiescat in pace. — Era 1246 Decima kalendas p.*'"' (23 de Ou- 
tubro de 1208) obiit Dna Mayor Menendi uxor Diii Petri. — Era i3oo. 7.^ 
Idus Decembri (7 de Dezembro de 1262) obiit Dna Maria Egea ejus anima 
requiescat in pace (i). 



(i) Estes letreiros dou-os tal qual os encontro em Sousa, Memorias Sepulchraes^ fl. 184 
e 184 V. 



Sousas 2o5 

D. Gonçalo Mendes de Sousa, acima referido, deve ter sido o filho pri- 
mogénito do conde D. Mendo, o Sousão, aquele que lhe sucedeu na casa e 
foi mordomo mor, e de quem, com este ofício, se encontram notícias nos 
anos de 1 189 a 12 IO. D. Garcia Mendes esse é decerto filho do referido 
Conde, devendo ser portanto irmão de D. Gonçalo. O P.^ Sousa, nas Me- 
morias Sepulchraes, pôs-lhe a data da morte a III das calendas de Março, 
como ficou transcrito; na Historia genealógica porem, marcando-lhe o dia 
do falecimento a 29 de Abril, mostra que na inscrição se lia III das calendas 
de Maio (i). Não sei em qual dos sítios acerta. 

D. Fr. Francisco de S. Luís, na sua Colecção de epitáfios, letreiros, dís- 
ticos, etc. (2), diz, na fl. 42, que no mosteiro beneditino de Pombeiro, a duas 
légoas de Guimarães, fora da porta principal e debaixo do pórtico, estava 
uma lápida com esta inscrição: 

vi ; ns : martii \ ob \ don^ \ velasc^ 

menedi \ filiits \ comitis \ doimi • menendi \ E 

m cc XXX. 

O conde D. Mendo, o Sousão, foi grande bemfeitor daquele mosteiro, e 
teve realmente um filho chamado D. Vasco Mendes, que dizem ter servido 
a D. Sancho II e ter morrido em 2 de Março de 1242 (3). Não pode por- 
tanto, se a afirmação é verdadeira, ter sido este o sepultado em Pombeiro, 
o qual morreu, com efeito a 2 de Março, mas do ano de 1192, a não ser que 
ao copiar o epitáfio o Cardial S. Luís lhe tivesse escapado um 1 na data, e 
esta se devesse ler m cc Ixxx. 

De D. Egas Gomes de Sousa, acima nomeado, foram quartos netos na 
varonia, o conde D. Gonçalo Garcia e D. Mem Garcia de Sousa. 

O primogénito, o conde D. Gonçalo Garcia, senhor de Neiva e alferes 
mor, foi um dos mais opulentos ricos homens do seu tempo em Portugal. 
Na segunda metade do ano de i255 foi investido no alto cargo de signifer 
enrice, alferes mor (4) e nele permaneceu até morrer. Casou com D. Leo- 
nor Afonso, filha natural de D. Afonso III, havendo-se celebrado o contrato 
de casamento em 11 de Maio da era de i3ii (1273); e já tinha morrido em 
5 de Dezembro da era de i324 (1286), quando D. Denis assinou uma carta, 
mandando proceder a inquirições nos bens deixados pelo conde D. Gon- 



(1) Vol. XII, pág. 239. 

(2) Outro precioso manuscrito na posse do conselheiro Venâncio Deslandes. 

(3) Sousa, Historia genealógica XII, il-j, 

(4) Archivo histórico portugue^yW, 11 3. 



2o6 Brasões 

calo (i). Por este documento pode-se apreciar a extensão dos domínios 
do conde D. Gonçalo e a magnitude da sua casa, a qual só foi partilhada 
entre os seus herdeiros por sentença de 2 de Setembro da era de 1826 
(1288) (2). 

D. Mem Garcia de Sousa, o segundogénito, foi rico homem e com o go- 
verno de Trás os Montes (tenens Trans Serram) encontra-se nos anos de 
1235 e 1236, e com o da terra de Panoias (tenens t erram de Panoias) nos de 
1264 e 1255 (3). Em princípios de 1275 já tinham morrido, tanto ele como 
sua mulher, D. Teresa Eanes (4), a das Coxas Quentes, filha de D. João Fer- 
nandes Batissela, el Bueno de Limia, e de D. Maria Pais Ribeira, a Ribei- 
rinha, amante que fora de D. Sancho I de Portugal. Do seu casamento teve 
D. Mem Garcia, entre outros filhos dos quais não subsiste geração, a Maria 
Mendes e Constança Mendes (5). Destas duas irmãs provêem os dois gran- 
des ramos dos Sousas e delas tratarei, uma após outra, 

III 

SOUSAS CmCHORROS 

Maria Mendes, com quanto fosse a mais velha, não partilhou os bens da 
casa de Sousa, ou por ser já falecida ao tempo da morte do pai, ou talvez 
por causa dos fracassos, que lhe sucederam, por estas palavras narradas no 
Livro velho das linhagens. «E esta Maria Mendes rouçoulha seu irmão Gon- 
çalo Mendes, e despois leixoua ca lha filhou o arcebispo D. João Ayras de 
Santiago, e casoua com D. Lourenço Soares de Valladarcs» (6). Era de boa 
e antiga estirpe este D. Lourenço, que foi rico homem e senhor de Tângil, 
e não cause espanto aceitar êle por mulher uma incestuosa fidalga, mesmo 
até porque o irmão «se foy alem mar quando rouzou sua irmã D. Maria.» 
Esta agora é de quem escreveu o Nobiliário do Cojide D. Pedro. Eram 
frequentes estes casos naqueles tempos desregrados e rudes. 



(i) J. P. Ribeiro, Memorias das Inquirições, pág. iio, doe. 38. 

(2) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, tom. V, fl. i34*v 

(3) Archivo histórico portugue^, IV, i25. 

(4) Carta de 12 de Fevereiro da era de i3i3 (1277) pela qual Teresa Mendes, recolhida 
no mosteiro de Lorvão, doou a sua irmã, D. Constança Mendes, e a seu cunhado, D. Pedro 
Eanes de Portel, toda a sua legítima paterna e materna. — Archivo histórico poriuguef, VII, 
pág. 212, n.° 212. 

(5) Acerca dos Sousas antigos, alem dos Livros de linhagens, pode-se ver a Benedictina 
lusitana de Fr, Lião de Santo Tomás, II, 49-55, e em outras passagens. 

(6) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores^ pág. r52. 



Sousas 207 

Desta união nasceu, única segundo se diz, D. Inês Lourenço, mulher de 
Martim Afonso, a quem puseram a alcunha do Chichorro, talvez por ser 
baixo. Era êle filho de D. Afonso III «de gaamça e de huuma moura.» 

Os demonicos dos autores dos livros velhos de linhagens parece, que já 
os escreviam para a famosa botica do Grémio Literário, a qual não sei se 
ainda existe e se conserva a bem merecida fama de maldizente, que d'antes 
lograva. Muitas vezes de passagem lá os via; jhá quarenta anos! Hoje 
estão quási todos mortos, e, não sei por quê, faziam-me então lembrar os 
«acérrimos jarretas» do alto de Santa Caterina do nosso Tolentino. Não era 
porque fossem todos velhos, não; mas é que havia ali qualquer coisa daquele 
«concílio profundo», que 

Sem ter um palmo de terra 
Está repartindo o mundo. 

A bon entendeur, salut, e "vamos adiante. 

O nosso genealogista cortesão, D. António Caetano de Sousa, dá a Mar- 
tim Afonso o título de dom e a qualidade de rico-homem com o governo de 
Chaves, confundindo-o, involuntariamente quero crer, com D. Martim Afonso 
[Telo], irmão do alferes mor D. João Afonso, senhor de Alburquerque (i). 
Este D. Martim Afonso teve com efeito o governo de Chaves, como consta 
de documentos de 1273 a 1277, e não só o de Chaves, mas os doutros cas- 
telos na mesma comarca de Trás os Montes, nos anos de 1267 a 1278(2). 
O outro Martim Afonso pode ser, na verdade, a testemunha deste nome na 
carta de 1299 extractada por Fr. Francisco Brandão na Monarchia lusitana, 
part. V, fl. 283, e citada pelo P.^ Sousa. 

De Martim Afonso Chichorro e de D. Inês Lourenço foi filho, único va- 
rão, outro Martim Afonso Chichorro, a quem alguns, não sei se com funda- 
mento, dão o apelido de Sousa. Sem êle aparece num documento interes- 
sante e esclarecedor de vários pontos, que obscuros, confusos e errados apa- 
recem nas genealogias. 

Em Coimbra, nas casas de apar do mosteiro de Santa Clara, no dia 6 de 
Dezembro da era de 1379 (i34i), pela manhã, em presença de D. Afonso IV, 
compareceram os honrados filhos dalgo Vasco Martins, filho de Martim 
Afonso Chichorro, de uma parte, e da outra Inês Dias, filha de Sancho Ma- 
nuel, e declararam haver tratado casamento entre eles, obrigando-se o noivo 
a dar quatro mil libras de arras à noiva, se falecesse antes dela. Oferece- 
ram-se para fiadores o infante D. Pedro, Afonso Martins, alcaide de Santa- 



(i) Historia genealógica, XII, págs. 701 a 704. 
(2) Archivo histórico portugue^f, IV, 126. 



2o8 Brasões 

rêm, Gonçalo Lobato e outros, e el Rei aprovou (i). Esta carta foi quatro 
dias depois apresentada por Diogo Manuel, irmão da nubente, a Pêro Giral- 
des, sobrejuiz dei Rei, a fim de a mandar registar no livro do registo da 
Chancelaria. Comparem-se as iníormaçaes ministradas por este documento 
às fantasias dos genealogistas. 

A Vasco Martins de Sousa, como posteriormente se veio a chamar o nu- 
bente de 1341, serviu o infante D. Pedro de fiador, por que ele fora de sua 
criação. Apenas o Infante subiu ao trono, em Maio de i357, chamou-o para 
seu chanceler mor e com este ofício e a qualidade de rico-homem aparece 
na carta, de 18 de Outubro desse ano, de doação de todos os bens móveis 
e de raiz de Pêro Coelho (2), um dos assassinos de D. Inês de Castro. Na 
sua qualidade de chanceler mor assistiu Vasco Martins em Coimbra, no mês 
de Junho de i36o, às inquirições das testemunhas^ chamadas a depor no caso 
do alegado casamento de D. Pedro I com aquela senhora (3). No reinado 
de D. Fernando continuou Vasco Martins de Sousa a estar nas boas graças 
do soberano, como consta de vários documentos nos quais é intitulado nosso, 
vassalo. Além doutras mercês fez-lhe D. Fernando doação, por juro de her- 
dade e por carta de 1 3 de Fevereiro da era de 1410 (1372), das terras de Pe- 
naguião e Gestaçô (4). Outras mercês lhe fez e entre elas, em préstamo, 
em quanto fosse sua mercê, por carta de 1 de Abril da era de 141 5 (1377), 
a das rendas da terra de Mortágua (5). Desta mesma terra lhe fez depois 
D. João I doação, por juro de herdade e por carta dada em Coimbra, ao 
tempo das Cortes, a 3 de Abril da era de 1423 (i385) (6). Morreu Vasco 
Martins sem deixar descendência varonil. 

Dele dizem ter sido irmão Martim Afonso de Sousa, também presente 
às referidas Cortes de Coimbra e d'ali a meses combatente na batalha de 
Aljubarrota. Foi este aquele jovial cavaleiro que, conforme narra Fernão 
Lopes, prometeu a Deus, se o tirasse a salvo da batalha, de ir ter uma qua- 
rentena com dona Abadessa de Rio Tinto, sua amante (7). Conta-se tam- 
bém que João Rodrigues de Sá, o das Galés, irmão da referida Abadessa, 
ao saber do voto de Martim Afonso, prometera correr atrás dele e desan- 
cá-lo; esta segunda parte porém não é tam certa como a primeira, da qual 
para prova ficou um filho. 



(1) Chancelaria de D. Afonso IV, liv. 4.°, fl. 84 v. 

(2) Chancelaria de D. Pedro I, liv. i.», fl. i5 v. 

(3) Aires de Sá, Frei Gonçalo Velho, vol. I, pág. 76, doe. xl. 

(4) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. gS. 

(5) Ibidem, liv. 2.°, fl. 3. 

(6) Chancelaria de D. João 1, liv. i.", fl. 120. 

(7) Chronica de D. João I, part. 11, pág. gS. 



Sousas 209 

Dizem também ter Martim Afonso de Sousa sido 2." senhor de Mortágua 
em sucessão a seu irmão, mas ainda não encontrei confirmação documental 
do facto, o que, na verdade, não basta para o invalidar. O senhorio daquela 
terra veio a ser dado por el rei D. Duarte, de juro e herdade, a D. Sancho 
de Noronha, seu sobrinho, e a D. Mecia [de Sousa], sua mulher, por carta 
de 27 de Janeiro de 1434, na qual se não encontra referência nenhuma aos 
anteriores donatários (i). São os futuros 1.°^ Condes de Odemira e D. Mecia 
era filha única legítima de Gonçalo Anes de Sousa, 3.'' senhor de Mortágua, 
segundo dizem, e íilho primogénito do referido Martim Afonso de Sousa. 

Foi este fidalgo o progenitor dos Sousas Chichorros, aliás Sousas do 
Prado. As armas destes Sousas são: esquartelado: o I e IV de prata, cinco 
escudetes de azul em cruz, cada um carregado de cinco besantes de prata; 
o II e III de prata. Hão de púrpura, armado e linguado de azul. Timbre: o 
lião. Deles foram chefes os senhores de Mortágua, que se fundiram na casa 
dos Condes de Odemira, e ilustres ramos os seguintes: os senhores de Gou- 
veia, Condes do Redondo c Marqueses de Borba; os Condes d'Alva, Mar- 
queses de Santa Iria; os Condes de Linhares; os comendadores de Santa 
Maria de Africa, morgados da Azinhaga, nos Condes de Rio Maior; os co- 
mendadores e alcaides mores de Tomar, que terminaram na Condessa de 
Pontével, fundadora do sumptuoso templo da Encarnação em Lisboa; os se- 
nhores de Beringel, Condes do Prado e Marqueses das Minas, hoje con^ a 
varonia dos Silveiras da casa das Sarzedas, que é a dos Lobos de Alvito; 
os Condes de Rio Pardo; os senhores de Alcoentre e Tagarro, nos Condes 
do Vimieiro, hoje nos de Lumiares; os morgados do Bairro, nâ casa de 
S. Martinho; e outros. 

Deter-me-hei com alguns dos ramos desta geração. 

A casa dos senhores de Gouveia de Riba Tâmega teve princípio em Fer- 
não de Sousa, filho de Martim Afonso de Sousa, bastardo de Martim Afonso 
de Sousa, 2.° senhor de Mortágua. Fernão de Sousa, criado da casa de Bra- 
gança e do conselho dei Rei, comprou a Fernão Gonçalves de Miranda a terra 
de Gouveia, a qual D. Afonso V lhe confirmou por carta de 18 de Agosto de 
1473 (2). Em seus descendentes recaiu a casa dos Condes do Redondo, ha- 
vendo este título sido renovado, por carta de 2 de Março de 1707, a favor 
de Fernão de Sousa Coutinho, veador da casa rial e sobrinho do conde do 
Redondo, D. Francisco de Castelo Branco (3). 



(i) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.», fl. 58. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 33.", fl. 167. 

(3) Chancelaria de D. João V, liv. 3i.», fl. 55 v. 

voL. I 27 



2IO 



Brasões 



O título de conde do Redondo data de 2 de Junho de i5oo e foi dado a 
D. Vasco Coutinho, em troca da vila de .Borba, da qual já era conde desde 
3 de Fevereiro de 1485. Em seus descendentes na varonia continuou o título 
até seu quarto neto, o 6.° conde, D. Francisco Coutinho, que sem descen- 
dência Já era falecido em i656. Poucos anos depois, proferida em 23 de 
Dezembro de 1660 sentença no pleito levantado entre os parentes do falecido, 
foi concedido a seu sobrinho, D. Duarte de Castelo Branco Coutinho e Me- 
neses, o título de conde do Redondo, por carta de 27 de Janeiro de 1661 (i). 
Era D. Duarte filho de D. Cecília de Meneses, irmã do 6.*^ Conde do Re- 
dondo, e de seu marido D. João de Castelo Branco, íilho segundo do i.** 
Conde do Sabugal. 

Em menos de trinta anos deram os Castelos Brancos três condes do Re- 
dondo, o 7.°, o 8.° e o 9.°, D. Francisco de Castelo Branco Coutinho, fale- 
cido sem descendência em 1686. Então vagou o condado para a Coroa, mas 
pouco depois fez D. Pedro II mercê dele, por carta de 20 de Dezembro de 
1693, a D. Manuel Coutinho, filho segundo do i.° Marquês de Marialva (2) 
e terceiro neto de D. Francisco Coutinho, 3." conde do Redondo. Foi D. Ma- 
nuel o IO.® conde, mas pouco tempo logrou o condado, pois que morreu, sol- 
teiro e sem filhos, a i3 de Outubro de 1699. 

Tornada a extinguir a linha dos condes do Redondo fez D. João V, 
como já lá acima ficou dito, mercê do título a Fernão de Sousa Coutinho, 
bisneto pela linha de Castelo Branco de D. João Coutinho, 5." conde do Re- 
dondo. 

Depois de ter estado nas varonias dos Coutinhos, Castelos Brancos e Me- 
neses, entrou finalmente o título de conde do Redondo na dos Sousas e nela 
se continuou até o presente, existindo agora um conde do Redondo e do Vi- 
mioso, filho primogénito do actual Marquês de Borba. 

Marqueses de Borba tem havido três: i.° Tomé José de Sousa Coutinho 
Castelo Branco e Meneses, 14.° conde do Redondo, criado marquês de Borba 
por despacho de 17 e carta de 3o de Dezembro de 181 1 (3); 2.° Fernando 
Maria de Sousa Coutinho, i5.° conde do Redondo, filho do precedente, feito 
marquês por carta de 20 de Maio de 181 2 (4); e o 3.", Fernando Luís de 
Sousa Coutinho, neto do 2.°, miguelista convertido ao credo constitucional e 
feito marquês por despacho de 27 de Abril de 1903 (5). 



(i) Doações de D. Afonso VI, liv. 24.°, fl. io3 v. 

(2) Chancelaria de D. Pedro II, liv. 38.", í\. 291 v. 

(3) Gaveta de 3 de Abril de 1812 e Sanches de Baena, Diccionario aristocrático, pág. i32. 

(4) Chancelaria de D. Maria 1 e de D. João VI, liv. 23.", fl. iSy. 

(5) Diário do governo de 29 de Abril de 1903. 



Sonsas . 2 1 i 

Os Condes do Redondo da varonia de Sousa usaram por armas as acima 
descritas, mas também lhes encontro o escudo esquartelado: o I e IV das 
quinas, como acima; o II do lião, também como acima; o III de oiro, cinco 
estrelas de cinco pontas de vermelho (Coutinho). 

O primeiro conde de Alva, criado por despacho de i3 de Janeiro de 
1729 (i), foi D. João Diogo de Ataíde, general da armada rial, filho segundo 
do 6.° conde da Atouguia; quando digo filho segundo, note-se, é no sentido 
de não ter sido o sucessor da casa, e não porque realmente tivesse sido o 
segundo na ordem dos nascimentos. Morreu o Conde de Alva em 1 1 de 
Abril de J740, havendo casado com D. Constança Luisa.Paim, 5.* senhora 
do morgado de Alva e filha herdeira do bem conhecido secretário de Estado 
Roque Monteiro Paim. Este Roque, muito tempo depois de morto, ainda 
aparecia na quinta de Belas e' no palácio dos Pombeiros à Bemposta, cau- 
sando não pequenos sustos aos donos e habitantes daquelas casas. O curioso 
é éle não querer saber dos Alvas seus descendentes, e incomodar com suas 
visitas, na verdade importunas e serôdias, os Pombeiros, com quem nenhum 
parentesco tinha. Mas, mais curioso ainda, era haver na família quem acre- 
ditasse nas aparições. 

Depois da morte do i.° Conde de Alva fõi dado o mesmo titulo, por carta 
de 26 de Março de 1764 (2), a D. Luís Mascarenhas, nomeado pouco antes 
vice rei da índia. Era este fidalgo filho segundo da casa de Fronteira, do 
2.° Marquês, e marido de uma filha dos 2.°* Condes de Santiago, não tendo 
portanto vínculos de consanguinidade, ou afinidade, com a casa de Alva. 

Passou esta por morte da i.''' condessa, D. Constança Paim, a sua irmã 
D. Maria Antónia Paim, mulher de Rodrigo de Sousa Coutinho, filho se- 
gundo do II." Conde do Redondo. Deste casamento, além doutros filhos, 
nasceram gémeos, D. Vicente de Sousa Coutinho e D. Francisco Inocêncio 
de Sousa Coutinho. D. Vicente, 7.° senhor do morgado de Alva, ministro 
em Turim, nomeado em 1762, e depois embaixador em Paris, onde faleceu 
a 8 de Maio de 1792, havia casado em 1778, em segundas núpcias, por im- 
posição, diz-se, do Marquês de Pombal para evitar que a sucessão da casa 
recaísse na única filha existente do primeiro matrimónio, a qual não consen- 
tira nunca em consumar o casamento pelo Marquês imposto com seu filho 
segundo, o futuro Conde da Redinha. De sua segunda mulher, uma senhora 
francesa, teve D. Vicente, ao cabo de dez anos de matrimónio, único filho 



(i) Gaíjieta de Lisboa de 20. O P.e Sousa declara, na Historia genealógica,, IX, 463, 
haver sido passada carta a 29 de Abril; ainda porem a não encontrei registada. 
(•z) Mercês de D. José, liv. 7 °, fl. 355 v. 



2 1 2 Brasões 

a D. Luís de Sousa Coutinho, criado conde de Alva por carta de 9 de Junho 
de 1797 (i) e marquês de Santa Iria por despacho de 4 de A.bril de i833 (2). 
Faleceu a 5 de Abril de i85o, tendo sido seus filhos, entre outros, o 3." 
conde de Alva, D. Vicente de Sousa Coutinho, e D. Pedro de Sousa Couti- 
nho, conde do Sabugal pelo seu casamento. Dambos a descendência varonil 
está extinta, creio. 

As armas da casa de Alva, de que o Marquês de Santa Iria foi senhor, 
eram: Partido: o I esquartelado: o i.° e 4.° franchado de prata e de negro, 
com um Hão sobreposto e entrecambado dos mesmos esmaltes, armado e 
linguado de vermelho (Paim)j o 2.° e 3.° de prata, três buzinas de negro, 
postas em faxa e dispostas em roquete, guarnecidas de oiro e com os cor- 
dões de vermelho (Monteiro); o II também esquartelado: o i." e 4.° das 
quinas do reino; o 2.^ e 3." de prata, liao de púrpura, armado e linguado de 



(i) Mercês de D. Maria I, liv. 28.°, fl. 336. — É curioso o preâmbulo desta carta e por 
isso o transcreverei livremente: «Tendo consideração a me representar D. Luís de Sousa 
Coutinho . . . que tendo sucedido no senhorio de Alva de seus tios D. Constança Luisa Paim 
e seu marido D. João Diogo de' Ataíde, que pelo valor e distinção com que havia servido na 
guerra da Tríplice Aliança nos postos de general da cavalaria da província da Beira, mestre 
de campo general e governador das armas das províncias do Minho e Alentejo, e ultima- 
mente em capitão general da armada rial, obteve o título de conde de Alva, mercê conce- 
dida no senhorio e terras que ele administrava por cabeça da dita sua mulher, D. Constança 
Luisa Paim; que por falecimento destes sucedera no senhorio e mais bens da casa sua irmã 
e avó dele suplicante, D. Maria Antónia Paim, casada com Rodrigo de Sousa Coutinho, con- 
tinuando a sucessão do sobredito senhorio de Alva e mais bens em seu pai, D. Vicente de 
Sousa Coutinho, e no mesmo suplicante que os está possuindo na mesma forma que seus 
tios os Condes de Alva; que havendo eu declarado no princípio do meu reinado, que a 
mente do senhor rei D. João V fora, que as honras e mercês, que tivessem entrado em casas 
em remuneração de serviços feitos em guerra viva, continuassem nos sucessores das mesmas 
casas, e por isso vagando para a Coroa duas vezes o título de conde do Redondo pela falta 
de sucessão de D. Francisco de Castelo Branco e D. Manuel Coutinho, o mesmo sr. rei 
D. João V o renovou e continuou em Fernando de Sousa, senhor de Gouveia ; e fui servida 
renovar o título de visconde de Fonte Arcada em João Jaques de Magalhães, bisneto de um 
irmão do último visconde, Manuel Jaques, como também o de conde de Sandomil em Fer- 
nando de Miranda Henriques, sobrinho do último conde Pedro Mascarenhas, sem mais ser- 
viços que a memória de seus ascendentes, e- que sendo o mesmo D. Luís de Sousa Coutinho, 
sobrinho dos Condes de Alva, sucessor da casa em que o dito título entrou por serviços 
militares feitos em guerra viva, neto dos Condes do Redondo e com a mesma varonia, filho 
de um embaixador e gram cruz da Ordem de Avis que serviu por mais de trinta anos, e ter 
entrado para o Rial Erário com a quantia de quarenta contos de reis para o empréstimo 
estabelecido pelo Decreto de 29 de Outubro do ano próximo passado, cujos juros também 
oferece durante a guerra, estava nos termos . . . Carta do título de conde de Alva, em sua 
vida, etc. Palácio de Queluz, 9 de Junho de 1797». 

(2) Chronica constitucional do Porto, n.° de 4 de Abril de i833. 



Sousas 2i3 

azul (Sousa). Coroa de conde, depois de marquês. Timbre: lião de negro, 
armado e linguado de vermelho. 

D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, filho segundo de Rodrigo de 
Sousa Coutinho, foi governador de Angola e embaixador em Madrid, onde 
morreu em 1780, tendo casado com uma rica herdeira, D. Ana Luisa Joa- 
quina Teixeira, filha de Domingos Teixeira de Andrade, sargento mor de 
batalha, e de sua mulher D. Maria Bárbara da Silva, filha do contratador 
dos diamantes. Do seu casamento teve D. Francisco Inocêncio, alem dou- 
tros filhos, a D. Rodrigo de Sousa Coutinho e D. Domingos António de 
Sousa Coutinho, i." conde (i) e i." marquês do Funchal (2), notável diplo- 
mata que prestou valiosos serviços à causa liberal e faleceu em Londres sem 
descendência, em Dezembro de i833 (3). 

D. Rodrigo começou por servir na carreira diplomática, tendo permane- 
cido como ministro plenipotenciário em Turim de 1778 a 1796. Regressou 
então ao reino por ter sido nomeado ministro da marinha em Setembro de 
1796(4). Por decreto de 6 de Janeiro de i8oi foi nomeado presidente do 
Rial Erário (5), vindo a transitar em 1808, ao chegar com a família rial ao 
Brasil, para o ministério dos negócios estrangeiros e da guerra. Em satis- 
fação dos seus relevantes serviços foi feito conde de Linhares por despacho 
de 17 e carta de 22 de Dezembro de 1808 (6). Morreu o Conde de Linhares 
no Rio de Janeiro a 26 de Janeiro de 1812. Dele provieram os demais 
condes de Linhares dos quais actualmente subsiste o 4.° 

A casa dos Condes do Prado, Marqueses das Minas, derivou-se da dos 
senhores de Mortágua na pessoa de Rui de Sousa, irmão de Fernão de Sousa, 
i.° senhor de Gouveia. Rui de Sousa, foi senhor das vilas de Sagres, por 
carta de 29 de Outubro de 1471 (7), e de Beringel, por outra do ano de 
1477 (^X meirinho mor de D. João II, em quanto príncipe, e seu almotacé 



(i) Carta de 8 de Junho de 1812. — Dicc. aristocrático, cit., pág. 32. 

(2) Decreto de 4 de Abril de i833. — Clironica constitucional do Porto, n." ^S. 

(3) José Liberato Freire de Carvalho, Memorias com o titulo de Annaes, IV, 234. A 28 
de Novembro declara o Marquês do Funchal no livro O Conde de Linhares, pág. 10. 

(4) Gaveta de i3 de Setembro. 

(5) Gaveta de i3 de Janeiro. 

(6) Gaveta de 21 de Abril de 1809, i.° Suplemento, e Dicc. aristocrático, pág. 128, 

(7) Confirmada por D. João II em 29 de Março de 1482. — Chancelaria de D. João II, 
liv. 6.°, fl. 52 V. 

(8) Incorporada na de 22 de Abril de 1499 de confirmação do senhorio a seu filho 
D. Pedro de Sousa. — Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.°, fl. 94 v. 



214 Brasões 

mor depois de rei (i), embaixador a Castela e Inglaterra, e poeta do Can- 
cioneiro. Morreu com setenta e cinco anos em Toledo, a 24 de Maio de 
1498, por ocasião dos juramentos de D. Manuel e D. Isabel na qualidade de 
príncipes herdeiros de Castela (2). Foi trasladado o seu corpo para Évora 
e lá sepultado, sob campa de bronze, numa capela junto à porta de entrada 
da igreja dos Lóios. Casara a primeira vez com Isabel de Siqueira, que 
faleceu no ano de 1460, segundo declara o seu epitáfio (3). Era filha de 
Francisco Anes de Torres, vedor da casa da rainha D. Isabel, e de sua mu- 
lher Violante Lopes de Siqueira, ama que havia sido da mesma Rainha. 
Casara a segunda vez com D. Branca de Vilhena, filha de Martim Afonso de 
Melo, guarda mor, alcaide mor de Olivença e senhor de Ferreira, e irmã do 
Conde de Olivença. D. Branca já era falecida cm Janeiro de 1494 e está 
sepultada, também sob campa de bronze, junto do marido, 

Fizera-lhe D. Afonso V mercê da vila de Beringel, em vida dele e de 
sua mulher D. Branca, passando, por morte do sobrevivente, ao filho maior 
d'entre ambos nascido, e por morte deste a todos seus filhos e descendentes. 
A vila de Sagres, que lhe fora doada em vida, tirou-lhe D. João II, dando-lhe 
por ela trezentos e dez mil reais brancos de tença (4). O ofício de almotacé 
mor renunciou ele próprio no filho primogénito do seu primeiro casamento, 
João Rodrigues de Sousa, a quem foi confirmada a almotaçaria mor por 
carta de 5 de Fevereiro de 1490 (5). 

Este João Rodrigues de Sousa começou, poucos dias depois, a intitular-se 
dom João Rodrigues de Sousa (6), tendo sido portanto concedido aos filhos 
de Rui de Sousa, em Fevereiro de 1498, entre 5 e 28, o título de dom, do 
qual se não encontra registada a carta de mercê. Seguiu porem João Ro- 
drigues a praxe adoptada entre os fidalgos da corte e, largando o patroní- 
mico, passou a chamar-se D. João de Sousa. Esta praxe era constante, como 
já deixei indicado na nota 4 de pág. 192. 

D. João de Sousa foi embaixador a Castela na primavera e verão de 
1494 (7), teve a comenda, alcaidaria mor e capitania de Nisa (8), e foi_ no- 



(i) Carta de 22 de Novembro de 1481. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.% fl. 149. 

(2) Sepulturas do Espinheiro, pág. 9-10. 

(3) Estava também gravado em chapa de bronze, mas na igreja do Espinheiro, no pa^- 
vimento da capela mor, d'onde desapareceu. — Ibidem, pág. g. 

(4) Carta de 3 de Janeiro de 1494. — Chancelaria de D. Manuel, liv, 3i.", fl. 4 v. 

(5) Chancelaria de D. João II., liv. 17.», fl. 40. 

(6) Carta de 28 de Fevereiro de 1490 mandada livrar «por dom João Rodrigues de Sousa, 
do seu conselho e seu almotacé mor«. — Chancelaria de D. João II, liv. 17.°, fl. 129. 

(7) Archivo histórico portuguetç, III, 5 1 . 

(8) A carta de capitão é de 3i de Julho de 1497 [Chancelaria de D. Manuel, liv. 29.°, 



Sousas 21 5 

meado guarda mor de D. Manuel por carta passada em Almeirim a lo de 
Fevereiro de i5io (i). Faleceu a i6 de Dezembro de i5i3, segundo decla- 
rava o seu epitáfio (2) e confirma uma carta da rainha D. beonor de 21 de 
Janeiro do ano seguinte, na qual se refere à morte de D. João de Sousa (3). 
Foi êle um dos servidores de D. Leonor Mascarenhas que se zangaram, por 
ela os ter tratado com desdém, e lhe dirigiram trovas de despedimento, re- 
colhidas no Cancioneiro geral. Já era casado em 1476 com D. Margarida 
Fogaça, donzela da Excelente Senhora (4), e filha de João Fogaça, comen- 
dador de Cesimbra, e de sua mulher D. Constança de Vasconcelos, apelido 
com que se encontra também nomeada D. Margarida em alguns documen- 
tos (5). Não se deve confundir este João Fogaça com seu sobrinho do mesmo 
nome, um dos poetas de mais nomeada do Cancioneiro geral. 

De D. João de Sousa não ficou descendência, mas de seus irmãos pro- 
vieram os morgados da Azinhaga e os alcaides mores de Tomar. 

Do segundo casamento de Rui de Sousa foi primeiro filho Pêro de Sousa 
ou D. Pedro de Sousa, como passou a chamar-se de princípios de 1490 em 
diante, depois de aos filhos de Rui de Sousa ter sido dado o título de dom. 

Casou D. Pedro de Sousa a primeira vez, sendo ainda simplesmente 
Pêro de Sousa, fidalgo da casa dei Rei, com D. Mecia Henriques, filha do 
regedor Fernão da Silveira, que a dotou com dez mil coroas, para pagamento 
das quais pediu a D. João II consentisse no traspasse que nela fazia das 
rendas riais de Montemor o Velho, as quais o Regedor possuía em sua vida 
por carta de 3 de Março de 1479. Anuiu el Rei e passou-se a carta das 
referidas rendas a D. Mecia, em Beja, a 4 de Fevereiro de 1489 (6). Dois 
anos antes porém já o casamento estava realizado, como consta da carta de 
24 de Abril de 1487, pela qual foi autorizado Rui de Sousa a poder empe- 
nhar, para depois de seu falecimento, as rendas de Beringel e das talhas de 



fl. 3o V.)- Neste documento é intitulado alcaide mor de Nisa e por outro de 5 do mesmo 
mês consta possuir a comenda. [Ibidem, fl. i5 v.) 
(i) Corpo cronológico, part. I, mac. 8, doe, 84. 

(2) Sousa, Historia genealógica, XII, 897. 

(3) Critica e historia^ pág. 127. 

(4) Carta dada em Toro a 10 de Abril de 1476 de 2800 coroas de oiro em casamento a 
D. Margarida, transcrita na de confirmação de 3 de Setembro de iSaS, sendo ela já viúva. 
— Chancelaria de D. João III, liv. 14.° de Doações, fl. 204 v. 

(5) Alvará de 3o de Outubro de i5oo de doação a D. Margarida de Vasconcelos, mulher 
de D. João de Sousa, do reguengo de Montemor o Novo por falecimento de seu marido, e 
carta de 8 de Março de i5i4 tornando efectiva a mercê por D. João ser já falecido. — Chan- 
celaria de D. João III, liv. 14.° de Doações., fl. 204. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv. 26.°, fl. 64. 



2i6 Brasões 

Barroso às quatro mil dobras de arras prometidas no contrato de casamento 
de seu filho Pêro de Sousa com sua mulher D. Mecia (i). Esta senhora 
ainda era viva em 26 de Março de 1494 (2). 

Entrara D. Pedro de Sousa, como aventureiro, nas famosas justas de 
Évora de 1490 por ocasião das festas do casamento do príncipe D. Afonso, 
trazendo por empresa um salteador assassino, com este moto: 

Vuestra vista desbarata 
mas do qu'este roba y mata. 

Talvez composição sua porque dele, como de seu pai e de seu irmão D. João 
de Sousa, existem trovas no Cancioneiro geral. Voltemos porem aos casa- 
mentos de D. Pedro. 

Tornou ele a casar pela segunda vez e agora com D. Margarida de Brito, 
ou D. Margarida Freire, como em alguns documentos é designada, e já o 
matrimónio estava celebrado em 20 de Março de 1498, data da carta de con- 
firmação do traspasse de uma tença de cento e trinta mil reais, que Rui de 
Sousa fez a favor deste seu filho, para depois da morte dele passar ao neto, 
filho de D. Pedro e de sua mulher D. Margarida de Brito (3). Era ela filha 
herdeira de Estêvão de Brito, alcaide mor de Beja, e de sua mulher D. Joana 
Freire. Em virtude deste casamento teve D. Pedro de Sousa a alcaidaria 
mor de Beja, na qual sucedeu por morte de seu sogro^e se lhe passou carta 
a 25 de Setembro de i5o5 (4). Em 5 de Janeiro de i5o8 ainda D. Marga- 
rida vivia; a 10 de Fevereiro de i5i2 já D. Pedro de Sousa estava viúvo. 
Foi portanto entre estas duas datas, que se passou a tragédia do assassínio 
da adúltera consorte e do seu cômplice. 

Existem dois assentos, ambos de 10 de Fevereiro de i5i2, assinados por 
D. Manuel, de um dos quais o teor é este: «Veadores da fazenda, amigos, 
estas três mil coroas que foram de D. Margarida Freire, mulher que foi de 
D. Pedro de Sousa, trespasseis no dito D. Pedro, por quanto, por lhe ela 
errar na lei do casamento, lhe foi julgada por sentença toda sua fazenda. 
Lisboa, 10 de Fevereiro de i5i2» (5). O. outro diz o mesmo, com a dife- 
rença de se referir a umas quinhentas coroas que pertenciam a D. Marga- 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 20.°, fl. 27. 

(2) Carta desta data de 40.000 rs. de tença em duas vidas a D. Pedro de Sousa, em aten- 
ção aos seus serviços passados, e aos futuros dele e «de D. Fernando, seu filho, e D. Mecia, 
sua mulher». — Chancelaria de D. Manuel, liv. 27.°, fl. 67. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.°, fl. 88. 

(4) Ibidem, liv. 20.*>, fl. 26. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 5i.» de Doações^ fl. 52. 



Sousas 217 

rida (i). Vê-se pois que a circunstância do adultério ficou bem provada, e 
que a Justiça não pediu contas a D. Pedro por se ter desafrontado. Nada 
mais sei do caso, e apenas vagamente me consta ter D. Pedro de Sousa, 
após o assassínio da mulher, ido a Castela, a casa do Conde de Benavente, 
onde o cômplice do adultério, um seu criado (2), se homisiara, havê-lo atraído 
à rua e tê-lo morto, escapando-se logo para Portugal com grande perigo. 

Pouco mais de um ano depois daquele mandado dei Rei, já D. Pedro de 
Sousa estava pela terceira vez casado, e não casou mais vezes porque não 
quis, ou não teve com quem, pois que ainda sobreviveu vinte e quatro anos 
a sua derradeira mulher. Foi ela D. Joana de Melo, filha do provedor de 
Évora, o dr. João Afonso de Aguiar. Já se tinha celebrado o casamento em 
6 de Junho de i5i3, data de um instrumento de doação feita por D. Pedro em 
Évora, no qual há referência a uma procuração de D. Joana sua mulher (3). 
Morreu esta senhora a 2 de Novembro de i53i, segundo declara o epitáfio 
da sua sepultura no demolido convento de S. Domingos de Évora, guardan- 
do-se hoje a respectiva campa no Museu da Biblioteca Pública Eborense, onde 
copiei o letreiro no dia 3 de Abril de 1901. Diz êle: 

AQVI . lAZ . AMVI . MANIFICA . SRÃ . DONA . lOANA . DE . MELLO 
COMDESA . DEPRADO . MOLHER . QVE . FOI . DO . MVI . MA 
NIFICO . SÕR . DOM . PEDRO . DE . SOVSA . COMDE DE . PRADO 
Q.DEÍXOV. ESTA. CASA. HVA.ERDADE. EM. MACHEDE CÕ.OBRIGVACÃO 
DE . HVA . MISA . COTIDIANA . EHV . NOTVRNO . DFINADOS . ACABA 
DAS . AS . MATINAS . DAS . FESTAS . FALECEO . II . D . NOVÊSRO . DE . 1 53 1 . 

Sucedera D. Pedro de Sousa a seu pai no senhorio de Beringel, que lhe 
foi confirmado por carta de 22 de Abril de 1499(4). Em i5o5 já era do 
conselho, quando, por carta de 20 de Fevereiro, lhe foram concedidos os 
privilégios de desembargador, como já seu pai os lograra (5), e em i5i4 teve, 
a 2 de Junho, carta de capitão de Azamor, em todolos dias de sua vida, com 
a jurisdição e alçada (6); pouco tempo porém permaneceu na capitania, pois 
largou-a a el Rei em i5i6, recebendo por ela em satisfação uma tença de 



(i) Chancelaria de D. João III^ liv. 47.° de Doações^ fi. 116 v. 

(2) Não se tome a palavra criado no sentido actual de servidor. O pagem António Al- 
coforado, por esses tempos assassinado num caso análogo, era criado do Duque de Bragança 
e, não obstante, de família nobre. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 47.» de Doações, fl. 116 v. 

(4) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 41.», fl. 94 v. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 2.° de Doações, fl. 97 v. 

(6) Chancelaria de D. Manuel j liv. i5.°, fl. ii5 v. 

voi.i 28 



2l8 



Brasões 



duzentos mil reais em sua vida (i). Era por esses tempos capitão de Cafim 
Nuno Fernandes de Ataíde e, juntando-se-lhe D. Pedro de Sousa, partiram 
os dois capitães, na primavera de i5i5, pelo sertão africano dentro, até che- 
garem com as suas tropas aos muros de Marrocos, d'onde, depois de esca- 
ramuçarem com os Moiros, tornaram às suas praças sem mais nenhum pro- 
veito, alem da glória (2). 

Regressando ao reino, comprou a seu sobrinho Martim Afonso de Sousa 
a vila do Prado, a qual ele tinha de Juro e herdade e D. João III confirmou 
a D. Pedro de Sousa por carta de 22 de Novembro de i525, fazendo-lhe, 
por outra do mesmo dia, mercê do título de conde do Prado em sua vida (3). 
Prolongou-se ela ainda por muitos anos, vindo só a faltar-lhe em 23 de Março 
de i655 (4). 

Apesar de três vezes casado apenas teve D. Pedro de Sousa um filho 
havido de sua primeira mulher, D. Mecia Henriques, o qual se chamou 
D. Francisco de Sousa. Era D. Francisco atacado de cleptomania, e tinha 
outros vícios que se não nomeiam, chegando os seus desatinos ao ponto do 
pai e do sogro impetrarem de D. Manuel ordem de. prisão contra êle, ordem 
executada pelo Juiz de Beja, que o foi prender uma noite à cama. Trazido 
para Lisboa com muita gente, foi embarcado na nau Loba com destino à 
índia, onde, ou na viagem, endoideceu de paixão e morreu (5). Casara este 
desgraçado com D. Maria de Noronha, filha dos 2.°^ Barões de Alvito, e por 
ela foi bisavô de D. Luís de Sousa, 5.° senhor de Beringel e 2.° conde do 
Prado, por carta dada em Madrid, a 12 de Junho de i633 (6). Morreu sem 
descendência em 1643^ havendo renunciado a casa em seu sobrinho D. Fran- 
cisco de Sousa. 



(i) Carta de 6 de Dezembro de i5i6. — Chancelaria de D. Manuel^ liv. 25.°, fl. 55. 

(2) Góes, Chronica de D. Emanuel, part. ii, fl. 128. 

(3j Chancelaria de D. João III, liv. 36." de Doações, fls. 187 e 188 v. — Não quero deixar 
de notar aqui, não por espírito de crítica, mas para acautelar o. leitor contra as datas e ci- 
tações erradas, infelizmente muito frequentes na História genealógica^ de D, António Cae- 
tano de Sousa. Nela, no tom. xit, tratando, na pág. 916, em capítulo especial, de D, Pedro 
de Sousa, conde do Prado, diz que «Dom Joaõ III. o creou Conde, de que lhe passou Carta 
feita no primeiro de Janeiro de i526; depois lhe fez mercê da Villa, e terra de Prado em 
Lisboa a 10 de Junho de i556», e à margem cita «Chancellaria delRey D. João III. liv. 3o, 
pag. 187». Ora, como ficou declarado no texto, as cartas do senhorio e do condado são do 
mesmo dia, e este o de 22 de Novembro de i525. 

(4) Esta data vem declarada na carta, de 2 de Agosto do mesmo ano, de padrão de 
cento e trinta mil reais de tença a D. Diogo de Sousa, neto do Conde. — Chancelaria de 
D. João 111, liv. 54.» de Doações, fl. 81. 

(5) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário, vol. 11, pág. 87, mihi. 

(6) Chanceldria de D. Felipe 111, liv. 32.» de Doações, fl. 62. 



Sonsas - 219 

Era este neto de outro do mesmo nome, que fora governador e capitão 
general da Baía em iSgí, e do Rio de Janeiro em 1608 com a promessa do 
título de marquês das Minas pelas do oiro que no Brasil havia descoberto. 
Este primeiro D. Francisco de Sousa, avô do segundo, vinha a ser irmão de 
D. Luís de Sousa, 4." senhor de Beringel, pai do 2.° Conde do Prado. 

O segundo D. Francisco de Sousa foi o 3." conde do Prado, de que se 
lhe passou carta em 17 de Março de 1644, em virtude de seu tio D. Luís 
ter nele renunciado o título (i), e i.° marquês das Minas, por carta de 7 de 
Janeiro de 1670 em satisfação dos seus serviços no governo das armas da 
província de Entre Doiro e Minho, e havendo respeito a ir por embaixador 
extraordinário a Roma (2). Morreu quatro anos depois, a 23 de Junho, 
tendo casado pela segunda vez, em 1641, com D. Eufrásia de Lima, filha 
dos i.°* Condes da Torre, a qual faleceu em i656, deixando entre outros os 
seguintes filhos: 

i.° — D. António Luís de Sousa, que foi 4.° conde do Prado em vida de 
seu pai, e depois 2.° marquês das Minas. E o famoso Marquês de quem 
Saint-Simon diz: «Ce... marquis Das Minas... est celui qui a toujours 
commandé Varmée portugaise contre Philippe V, qui prit force places en 
Espagne, qu'il garda peii, entra mêj/ie dans Madrid, qu'il ne peut conser- 
ver, et qui coinmandoit une aile de Varmée de Varchiduc avec dix-huit ba- 
taillons portugais à la bataille d' Alman^a, que le duc de Bermck gagna 
complètement le 25 avril ijoj, et qui eut de si grandes suites. Das Minas 
continua de servir en chef jusqu'à la paixr> (3). 

Deste Marquês das Minas provieram os restantes marqueses da casa dos 
Sousas, dos quais se contaram oito ao todo, tendo os últimos três a varonia 
de Noronha. Foram eles, além do 1.° e 2.'' já mencionados: D. João de 
Sousa, 3.° marquês das Minas (filho do 2.°) e 6." conde do Prado, título em 
que sucedeu a seu irmão primogénito; D. António Caetano Luís de Sousa, 
4.** marquês e 7.° conde, filho do precedente; D. Maria da Piedade Francisca 
Antónia de Sousa, 8.* condessa do Prado e 5.^ marquesa das Minas, neta 
do 4.° Marquês, filha de D. João de Sousa, que não chegou a lograr nenhum 
título. Aquela senhora, que morreu em 1787, havia casado a i de Outubro 
de 1760 com D. Lourenço José das Brotas de Lancastre, 8.° comendador e 
alcaide mor de Coruche na ordem de Avis, chefe, mas com a varonia dos 
Noronhas, condes dos Arcos, de um dos ramos da família de Lancastre. 



(i) Chancelaria de D. João IV, liv. 16." de Doações, fl. 191. 

(2) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 35."», fl. 24 v, 

(3) Mémoires du duc de Saint-Simon, vol. vi, pág. 440, inihi. 



220 Brasões 

Pelo seu casamento veio a ser marquês das Minas e conde do Prado (i) e 
morreu a 28 de Abril de 1801, sendo alferes da Ordem de Avis e tenente 
general. Dos 5.°* Marqueses nasceram três filhos: — D. Francisco Benedito 
de Sousa Lancastre e Noronha, que nasceu a 12 de Setembro de 1780, foi 
6." marquês das Minas por despacho de 17 de Dezembro de 1790 (2), e mor- 
reu solteiro a 6 do mesmo mês de 1796 (3). — D. João Francisco Benedito 
de Sousa Lancastre e Noronha, que nasceu a 16 de Junho de 1782 e foi, por 
morte de seu irmão, 7.° marquês das Minas e io.° conde do Prado. Bem 
novo, e bem doente, foi, sendo gentil-homem da câmara, nomeado governa- 
dor do reino com outros por aviso de 20 de Setembro de 1808, confirmado 
por carta régia de 6 de Julho do ano seguinte. Comparecia já pouco às 
sessões da regência por motivo da sua falta de saúde, e ainda mais deixou 
de as frequentar em virtude de um conflito levantado entre o Marquês e o 
general Beresford, que se queixou para a corte . do Rio de Janeiro. D'aí 
veio uma nota, em i3 de Abril de 1810, na qual era o Marquês desculpado 
com os seus achaques, que o haviam já levado a pedir a demissão, acrescen- 
tando porém, que lhe desaprovariam o proceder, se não fosse motivado pela 
doença. O Marquês então abandonou de todo o governo, e, havendo alcan- 
çado a demissão por decreto de 24 de Maio de 18 10, brevemente falecia sol- 
teiro a 28 de Dezembro do mesmo ano. Pouco sei da vida deste fidalgo, 
mas nele existiram de certo qualidades proeminentes, que o levaram aos 
vinte e seis anos e doente a ser escolhido para o alto cargo de governador 
do reino. Hombridade tinha êle, que, .naqueles tempos de tanta relaxação 
como os de hoje, não se vergava ao predomínio inglês, e resistia a Beresford 
e aos seus colegas inglesados da regência, os quais em represália não con- 
sentiram que a noticia da morte do Marquês das Minas viesse publicada na 
Gaveta de Lisboa. Encontrei-a no Diário Lisbonense. — D. Joana Bernarda 
de Noronha e Lancastre, que nasceu antes de seus irmãos em um dia 16 de 
Janeiro, chamava-se em solteira D. Joana de Meneses, e com este nome ca- 
sou, a 3 de Agosto de 1788, com Francisco José Luís de Melo, 9.° monteiro 
mor do reino, que d'ali a pouco falecia de bexigas, a 24 de Janeiro de 1789, 
não deixando filhos (4). D. Joana Bernarda de Noronha e Lancastre, como 



(i^ Cartas de 26 de Junho de 1761 e 3i de Janeiro de 1777, respectivamente registadas 
no liv. iS.», fl. 3, e no liv. 5.°, fl. 186, das Mercês de D. José. 

(2) Gaveta de 24 de Dezembro de 1790. Não encontrei a carta registada. 

(3) Ga^ieta de 9 de Dezembro de 1796. 

(4) No Suppleménto á Gaveta de Lisboa, n." 7, em 20 de Fevereiro de 1789, vê-se que 
lhe sucedeu na casa seu parente Francisco da Cunha, que foi nomeado monteiro mor por 
decreto de 16 de Fevereiro daquele ano, impondo-se-lhe a obrigação de usar logo em se- 
guida ao seu nome o apelido de Melo. 



Sonsas 221 

já então se chamava, permaneceu no estado de viúva, herdou a casa de seu 
irmão, e em 1811 já era a 8.* marquesa das Minas e 11.* condessa do Prado, 
e como tal vem mencionada no Álmanach de Lisboa para 18 12, ainda que 
só teve carta do titulo em 25 de Novembro de i8i5 (i). Morreu a Marquesa 
em Março de 1827 (2), e nela se extinguiu completamente toda a descendên- 
cia legítima do 2." Marquês das Minas, de quem apenas ficou existindo pro- 
gépie por linha ilegítima e feminina nos Sousas Botelhos, condes de Vila Rial. 
O título de marquês das Minas foi porem renovado quinze anos depois, como 
logo direi. 

2.*' — D. João de Sousa foi vedor da casa rial, comendador de Santa Ma- 
ria do Prado e Santa Maria de Vila Franca na Ordem de Cristo, governador 
de Pernambuco, general de artelharia e governador das armas do Minho. 
Morreu em 1718, havendo casado com D. Maria da Nazaré de Lima, con- 
dessa viúva de Mesquitela, que por ordem régia conservou as honras e gran- 
deza apesar do segundo casamento. Era ela filha dos 7.°^ Viscondes de Vila 
Nova da Cerveira, e fora casada com D. Noutel de Castro, 2." conde de 
Mesquitela. Foi este Conde um perverso. Mandou assassinar na noite de 
7 de Dezembro de 1667 o Marquês de Sande, e homisiou-se em Castela, 
d'onde voltou quatro anos depois e, achando-se escondido em casa do sogro, 
aí abusou de uma cunhada, que não pôde esconder a sua vergonha. Denun- 
ciado por aquele foi o Conde preso no mosteiro de Odivelas, e sentenceado 
a desterro perpétuo na índia, para onde embarcou na armada de 167 1. 
Fugiu de Goa para Roma, e lá morreu em 1674. — De D. João de Sousa e 
de D. Maria de Lima foram bisnetos por posterior bastardia, além doutros, 
D. Diogo de Sousa e D. Luís de Sousa. — D. Diogo de Sousa, que foi o i.° 
conde do Rio Pardo (cidade do Brasil) por carta de 29 de Julho de 181 5 (3), 
havia sido capitão general de Moçambique, Maranhão e Rio Grande, coman- 
dante em chefe do exército nas campanhas de Montevideu de 1810 a 181 3. 
Foi também vedor da casa rial, senhor da casa de Santa Tecla e Ferreiros, 
comendador do Prado e doutras na Ordem de Cristo, na qual foi gran-cruz, 
vice-rei da índia em 1816, conselheiro de Estado e Guerra, par do reino por 
carta de 3o de Abril de 1826, tenente general, e ministro da guerra em 1828. 
Morreu viúvo e sem filhos em 12 de Julho de 1829. — D. Luís de Sousa her- 
dou a casa de seu irmão e foi avô de outro D. Luís de Sousd, 2.° conde do 
Rio Pardo em 2 de Julho de i863, que morreu em 1880, deixando viúva, já 



(i) Dicc. aristocrático, cit., pág. 5-. 

(2) Encontro esta data no 11 vol. da Resenha das fatnilias titulares; ainda a não achei 
confirmada. 

(3) Dicc. aristocrático, cit., pág. 33. 



^22 Brasões 

hoje falecida, e filhos, que existem. — Extinta a descendência legítima do 
filho primogénito do i.° Marquês das Minas, parecia que a representação da 
casa deveria passar aos descendentes do filho segundo, os Rio-Pardos, mas 
não, porque estes também não eram legítimos. 

3.° — D. Pedro de Sousa, que foi sumilher da cortina c dom prior de 
Guimarães, morreu em 1706. 

4.° — D. Maria Madalena de Noronha, que foi a primeira mulher de 
D. Luís Manuel de Távora, depois 4.° conde da Atalaia, de quem, alem de 
um filho cónego e uma filha freira, teve a D. Pedro Manuel, 5.° conde da 
Atalaia, mestre de campo general no exército do Marquês das Minas, em 
cuja ausência governou a legião portuguesa da Catalunha. Foi muito aceito 
ao pretendente D. Carlos, que o criou grande de Espanha, mercê não reali- 
zada; mas, continuando o Conde da Atalaia a servir ao mesmo D. Carlos 
já imperador, este o nomeou vice rei da Sardenha, general da cavalaria de 
Nápoles, governador do Castelo Novo desta cidade, e do conselho de Estado 
em Viena, onde morreu no ano de 1722, extinguindo-se esta linha. 

b.° — D. Luisa Bernarda de Lima, que casou com D. Luís Baltasar da 
Silveira, veador da rainha D. Maria Ana de Áustria, comendador na Or- 
dem de Cristo, e filho de F^ernão da Silveira, capitão valente nas guerras de 
Flandres,- mestre de campo na restauração da Baía, almirante da armada 
rial, morto pelejando na batalha das linhas de Elvas, onde estava sitiado, e 
d'onde fez uma vigorosa sortida ao encontro do exército libertador. Era 
Fernão da Silveira filho segundo de D. Luís Lobo da Silveira, 7.° senhor das 
Sarzedas, e irmão de D. Rodrigo Lobo da Silveira, 8.° senhor e i." conde 
daquela vila. De D. Luisa Bernarda de Lima foi filho primogénito D. Brás 
Baltazar da Silveira, i.'' senhor de S. Cosmado, que casou com D. Joana 
Inês Vicência de Meneses, irmã do 3.° e 4.° Condes de Santiago. Deste ca- 
samento, além de uma filha falecida criança, nasceram D. Luisa Francisca 
Antónia da Silveira e D. Maria Inácia da Silveira. Casaram ambas estas 
senhoras, uma após outra, com Nuno Gaspar de Távora, depois de Lorena, 
que foi tenente general, veador da rainha D. Mariana Vitória e governador 
da cidade de Évora, e morreu a 8 de Janeiro de 1789 (i). Era irmão do 
justiçado Marquês de Távora e do seu primeiro casamento nasceu D. Brás 
José Baltasar da Silveira e Lorena, senhor da casa, e avô de D. Brás Maria 
da Silveira e Lorena, 9.° marquês das Minas, título nele renovado em i5 de 
Janeiro de 1842. Dele e da marquesa D. Eugenia de Sousa Holstein foram 
filhos: o 12.° Conde do Prado, o 10. ° Marquês das Minas, ambos falecidos 



(i) Gaij[eta de 17. 



Sousas * 122$ 

sem deixar geração, e D. Alexandre da Silveira e Lorena, ii.*' marquês das 
Minas, também já falecido (3o de Agosto de iQoS), deixando uma filha.. — 
Do segundo casamento de Nuno Gaspar de Lorena nasceram: D. Francisca 
de Paula do Pópulo de Lorena, marquesa de Pombal, que veio a herdar por 
morte da última Marquesa das Minas os morgados desta casa, e por morte 
de D. Luzia de Meneses os da casa de Santiago; e D. Bernardo José de Lo- 
rena, 1.° conde das Sarzedas nesta linha por despacho de i3 e carta de 24 
de Maio de i8o5 (i). Passou a governar a índia como vice-rei no ano se- 
guinte, e lá permaneceu até 1816, em que se retirou para o Rio de Janeiro, 
€ aí morreu em 1818. Deixou descendência legitimada, na qual se tem re- 
petido por mais duas vezes o título de conde das Sarzedas, e que creio existir 
ainda na varonia lá pela índia. Destes Silveiras senhores de S. Cosmado, 
ou dos Lorenas condes das Sarzedas, ou talvez de ambos os ramos, as armas 
eram estas: Partido: o I de prata, três faxas de vermelho (Silveira); o II de 
prata, cinco faxas ondadas de azul, sendo a do meio carregada de tim golfi- 
nho do campo, bordadura de oiro com a divisa Qiiasqumque Jindit em letras 
de negro (Távora). Coroa de conde. Timbre: urso nascente de prata, lin- 
guado de vermelho (2). {Bem sei que o uso das armas dos Távoras estava, 
e está, proibido por uma sentença, mas bem nos importamos nós com o que 
está proibido! 

6." — D. Eufrásia Felipa de Lima, condessa da Ilha do Príncipe por casar 
com o 2." conde, Francisco Carneiro de Sousa, de quem teve muita descen- 
dência, na qual, por um notável acaso, está a representação dos antigos Con- 
des das Sarzedas. 

7."—^ D. Maria Lourenço de Meneses, dama do paço, falecida solteira. 

Esboçada por esta forma a descendência do 1° Marquês das Minas, tenho 
agora de me referir a um seu irmão, que se chamou D. João de Sousa, foi 
um valente soldado e matou-se, solteiro e sem filhos, em Setúbal, atirando-se 
de uma janela abaixo num acesso febril. 

A respeito deste D. João de Sousa existe uma história parecida com a 
do Pêro Gil, progenitor dos Mousinhos de Albuquerque, história que me le- 



(1) Ga!jeta de 18 de Maio, e liv. 7.» das Mercês do Príncipe Regente, fl. 3o v. — Não se 
pode considerar D. Bernardo José de Lorena como 5.° conde das Sarzedas, pois que êle por 
maneira nenhuma representava os antigos condes. Lá adiante, no artigo dos Silvas, se po 
dera ver como se extinguiu a casa dos Silveiras condes das Sarzedas, e a quem passaram 
os morgados e a representação. 

(2)' Tenho peças de loiça da índia de dois padrões diferentes, um deles belíssimo, com- 
estas armas. 



224 Brasões 

vará um capítulo do artigo dos Albuquerques. No caso de D. João de Sousa 
sabe-se contudo quem inventou a fábula. Foi João Carlos Feo, que o não 
fez por mal, mas simplesmente por comprazer, ou para lisonjear um amigo. 
João Carlos Feo, num Attestado genealógico impresso em 1867, diz, na 
pág. 10, que deste D. João de Sousa, irmão do i.° Marquês das Minas, foi 
filho natural «Luiz de Sousa da Costa legitimado em 1643 por carta de El-Rei 
D. João IV». Em seguida deduz uma linha por ali abaixo até o amigo a 
quem quis obsequiar. 

Na Chancelaria de D. João IV não existe semelhante carta de legitimação. 
Nenhum dos autores genealógicos, contemporâneos ou próximos do tempo de 
D. João de Sousa, lhe dá semelhante filho. Tam pouco não o faz D. António 
Caetano de Sousa, na Historia genealógica, onde guarda absoluto silêncio 
sobre o caso, ele tam cuidadoso em nomear sempre todos os filhos bastardos 
legitimados e mesmo infinitas vezes os que o não são. Tanto isto é assim, 
que nomeia, não vamos mais longe, um irmão ilegítimo do próprio D. João 
de Sousa, D. Pedro de Sousa. E para notar é que não só este bastardo 
não legitimado da casa do Prado, como todos os mais, e não foram poucos, 
usaram do título de dom, o qual João Carlos Feo se não atreveu a dar ao 
por êle inventado, apesar de o declarar reconhecido pelo pai. 

E a mesma história dos Albuquerques de Pêro Gil; é o mesmo sistema 
de fabricar fingidas descendências; mas, neste caso, sem a agravante dos 
falsos documentos existente no outro, ainda que neste se faz referência a 
um instrumento inventado; isso porem é pecado mais venial. 

De D. João Afonso de Albuquerque fez-se filho a um Pêro Gil e neto a 
um Gil Afonso Fernandes; de D. João de Sousa faz-se filho a um Luís de 
Sousa da Costa e neto a um Manuel da Costa. Isto é: de fidalgos da pri- 
meira plana declaram-se filhos e netos a uns sujeitos, muito boas pessoas 
embora, mas sem nome, sem posição social, largando o apelido originário, 
vivendo modestamente, não sonhando sequer com as futuras grandezas a 
que os hão de querer elevar! Nem para falsificar genealogias temos geito! 
e antes assim. 

A novela é tam mal urdida, que não me referiria a esta suposta linha de 
Sousas do Prado, se por acaso não tivesse encontrado na Resenha das fa/ni- 
lias titulares o seguinte: «João da Costa Santos . . . morreu . . . tendo obtido 
em 1774 Brasão de suas armas, onde provou o acima dito» (i). Ora o «acima 
dito» é que êle era quarto neto em linha varonil de D. João de Sousa, irmão 
do i.° Marquês das Minas. 



(i) Visconde de Sanches de Baena, Resenha das familias titulares, II, pág. 35 1, com a 
<iata errada, 1774 por 1752, e repetido por outras palavras a pág. 497. 



Sousas . 225 

Isto não é exacto. Na carta de brasão de João da Costa Santos, quanto 
-a. ascendência deste, só se diz o seguinte: «Por provar ser Flllio legitimo 
de Manoel da Costa Santos e de sua mulher Dona Maria da Assunção, Neto 
pela parte Paterna de Domingos da Costa, e de sua mulher Dona Catharina 
de Abreo de Figueiredo, natural de Ponte de Lima, Bisneto de Manuel da 
Costa. E pela parte Materna, ser neto de Manoel Dias de Sousa, natural 
da Cidade do Porto e de sua mulher Dona Maria Anna da Encarnação, na- 
tural da Vila de Almada. E que todos os ditos seus Pays, Avós, etc.» Foi 
passada a 27 de Novembro de 1752(1). 

Pela transcrição feita já vê o leitor, que não há nesta carta de brasão a 
mínima referência a D. João de' Sousa, irmão do i.° Marquês das Minas; e 
em virtude da mesma transcrição concordará que o autor da Resenha foi ex- 
tremamente infehz ao fazer a asserção acima apontada. 

Os senhores de Alcoentre tinham a sua casa em Lisboa entre a rua da 
Cordoaria Velha e a calçadinha de S. Francisco, em frente do convento da 
mesma invocação (2), no qual existia o seu jazigo, na igreja, na capela do 
Descendimento, depois conhecida pela capela dos Faros, quando estes her- 
daram a casa dos Sousas, e era a colateral da banda do evangelho mais 
imediata à capela mor. Nesta tal capela viam-se quatro escudos de armas 
na parede, dois de uma parte e dois da outra, todos ovajs e sem elmo nem 
timbre. O primeiro do lado esquerdo era esquartelado das quinas do reino 
e de um Hão volvido; eram as armas dos Sousas do Prado, não signifi- 
cando aquela diferença no liao senão capricho ou ignorância do escultor. 
O outro ao lado também era esquartelado,- tendo no I e IV cinco vieiras, e 
no II e III o campo liso, e em bordadura a todo o escudo quatro castelos, 
alternando com quatro liões, estes nas linhas da aspa, e os outros nas da 
cruz; queriam ser as armas dos Pimenteis, marqueses de Tavara, erradas 
porém. Representavam portanto os dois escudos os brasões de Martim 
Afonso de Sousa, i." senhor de Alcoentre (3), governador da índia, fundador 
da capela, e o de sua mulher D. Ana Pimentel, dama da rainha D. Caterina 
e sobrinha por sua mãe do i." Marquês de Tavara. 



(i) Registada no liv. 18.° de Mercês de D. Luis 7, H, 281 

(2) Júlio de Castilho, Lisboa antiga, p. II, tom. V, pág. 1 17. 

(3) D. João III por carta de 28 de Março de 042 fez mercê de juro e herdade a Martim 
Afonso de Sousa, capitão mor e governador nas partes da índia, da vila de Alcoentre e al- 
caidaria de Tagarro, bens da Coroa ao mesmo já vendidos por escritura de 19 de Dezembro 
de 1541, pelo preço de 14.000 cruzados, o mesmo por que um mês antes, a 17 de Novembro, 
D. João III os adquirira dos marqueses de Vila Rial, D. Pedro de Meneses e D. Beatriz. — 
Chancelaria de D. João III, liv. 38.» de Doações, fl. Sj. 

voL. I 29 



2ú6 Brasões 

Defronte destes dois escudos, na parede da banda da epístola, estavam 
outros dois, um dos Sousas do Prado em tudo igual ao seu fronteiro, e outro 
esquartelado, sendo o I e IV das armas do reino com as quinas em aspa e 
oito castelos na bordadura, e o II e III de cinco flores de lis. Eram as ar- 
mas dos Albuquerques, e representavam os dois escudos os brasões de Lopo 
de Sousa, 2.° senhor do Prado, e de sua mulher D. Beatriz de Albuquerque, 
filha de João Rodrigues de Sá, senhor de Sever, alcaide mor do Porto, e de 
sua terceira mulher D. Joana de Albuquerque, filha do mestre sala Luís Al- 
vares e de sua mulher D. Teresa de Albuquerque, filha de Gonçalo Vaz de 
Melo, senhor da Castanheira, e de D. Isabel de Albuquerque. 

Da parte de cima destes escudos lia-se esta inscrição: i522. Aqui ja:{ 
Lopo de Sousa Jilho de Pedro ãe Sousa e de sua mulher D. Maria Pinheira, 
senhor da vila do Prado e das terras de Paiva e Baltar, e de sua mulher 
D. Beatrii de Albuquerque. Falleceu na era de . . . 

No pavimento da mesma capela via-se uma sepultura raza com este le- 
treiro: Aqui fa:{ D. Isabel de Albuquerque, mulher que foi de António de 
Brito, irmã de Martim Affonso de Sousa, que esta capela fe\. E D. Lui{a 
sua Jilha mulher que foi de D. João da Silva erdeiro do conde de Portale- 
gre {i). 

Maria Pinheira, acima nomeada, é a da sabida sátira ao Conde da Cas- 
tanheira: 

Mestre João sacerdote, 
de Barcelos natural, 
houve de uma moira tal 
» um filho de boa sorte. 

Pêro Esteves se chamou; 
honradamente vivia; 
por amores se casou 
com uma formosa Judia. 

Deste, pois nada se esconde, 
nasceu Maria Pinheira, 
< mãe da mãe daquele Conde 

e sua avó verdadeira (2). 

Efectivamente de Pedro de Sousa e de Maria Pinheira, nasceu D. Vio- 
lante de Távora, segunda mulher de D. Álvaro de Ataíde, senhor da Casta- 
nheira, e mãe de D. António de Ataíde, i.*' conde daquela vila e valido de 



(i) P.e Luís Montês Matoso, Memorias Sepulchraes, fls. 38 a 3^ v. 
(2) Conforme outra variante o último verso seria assim : 

que é o Conde da Castanheira. 



Sonsas 227 

D. João III. Agora saber-se se a mulher de Pêro Esteves era ou não Judia, 
isso é averiguação em que me não meto. 

Martim Afonso de Sousa, 2.° senhor de Mortágua, o da quarentena com a 
abadessa de Rio Tinto, Aldonça Rodrigues de Sá, teve dela a iMartim Afonso 
de Sousa, legitimado por carta de 22 de Janeiro da era de 1443 (i4o5)(i). 
A este segundo Martim Afonso de Sousa já me referi, nomeando-lhe alguns 
filhos, e agora aqui indicarei mais um, João de Sousa, o último na ordem do 
nascimento, segundo dizem. 

Entrou João de Sousa» para casa do infante D. Fernando, irmão de 
D. Afonso V, e já nela servia em 1455, quando, por carta régia de 17 de 
Abril, lhe foi feita mercê do serviço rial e novo dos Judeus da Guarda (2). 
No ano seguinte já estava casado,- como nos revela a carta de 28 de Abril 
de vinte mil reais de tença pelas duas mil coroas do seu casamento (3). Foi 
sua mulher Branca de Ataíde, filha de João de Ataíde, camareiro mor do 
infante D. Pedro e 2.° senhor de Penacova pelo seu casamento com Maria 
Nunes de Cordovelos, filha herdeira de Nuno Fernandes de Cordovelos, criado 
da infanta D. Maria, filha de D. Pedro I, e i.° senhor de Penacova (4). 



(i) Chancelaria de D. João /, liv. 3.», fl. 66 v. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. o.", fl. 148. 

(3) Ibidem^ liv. i3.*», fl. 149 v. 

(4) Por carta de i de Março de 1422 (1384) fez o Mestre de Avis, na qualidade de re- 
gedor e defensor do reino, pura doação a Nuno Fernandes de Cordovelos da vila de Pena- 
cova de Riba de Mondego, com todos seus direitos para sempre, para êle, filhos e netos 
{Chancelaria de D. João J, liv. 1.», fl. i). Por outra carta dada em Coimbra, a 10 de Abril 
do ano seguinte, foi-lhe ampliada á doação com o lugar de Paços da Abobreira, declaran- 
do-se qae êle haveria estes lugares com todos os direitos riais, pela guisa que os houvera 
a infanta D. Maria, aque Deus perdoi (Ibidem, liv. 4°, fl. 25). Em 1421, estando Maria Nu- 
nes, filha do falecido Nuno Fernandes de Cordovelos, desposada com João de Ataíde, cama- 
reiro mor do infante D. Pedro, pediu este a seu pai para confirmar a doação de Penacova 
e Paços da Abobreira aos dois esposos, ao que el Rei anuiu, e lha confirmou por carta de 
6 de Agosto na qual é determinada a forma da sucessão (Ibidem). Nos descendentes de 
João de Ataíde e de sua mulher conservou-se o senhorio de Penacova até seu neto Nuno 
Fernandes de Ataíde, o valoroso capitão de Çafim, o qual, conjuntamente com sua mulher 
D. Joana de Faria, traspassou aquele senhorio, a sua filha D. Maria de Ataíde, em casamento, 
transação aprovada por carta régia de 21 de Junho de i5i3 {Chancelaria de D. Manuel, 
liv. 42.°, fl. bb V.). A D. Maria de .\taíde foi confirmado o senhorio, depois da morte de seu 
pai, por carta de 27 de Julho de 1 528 {Chancelaria de D. João III, liv. 48.» de Doações^ fl. 108). 
D. Maria era casada com D. Afonso de Noronha, filho maior do 3.» Conde de Odemira, e fói 
mãe do 4.° Conde, em cujos descendentes se continuou o senhorio daquela tam pitoresca 
vila de Penacova, que no alto do seu monte avista um dos mais belos panoramas das mar- 
gens do Mondego. 



228 ^ Brasões 

Na casa do infante D. Fernando, no posto de capitão dos seus ginetes, 
continuou João de Sousa servindo e na sua presença combateu, em 1464, no 
malogrado escalamento de Tânger (i). Das suas façanhas contra os Moiros 
dá fé o seu epitáfio abaixo transcrito, e por êle também consta haver pelejado 
na batalha de Toro, a i de Março de 1476. Já então era o infante falecido 
havia anos e João de Sousa entrara para o conselho de D. Afonso V, segundo 
declara, além de muitas outras, uma carta de 19 de Julho de 1471, de vinte 
mil reais brancos de tença por vinte moios de trigo que tinha assentados em 
Benavente, nas rendas do mestrado de Avis (2). 

Por estes tempos já devia haver muito que João de Sousa ingressara na 
Ordem de Santiago, na qual teve as comendas de Ferreira, Represa e Al- 
valade, com as rendas da aldeia de Coles (3). Havia de haver muito por- 
que, por carta de 16 de Julho de 1475, por éle ser um dos treze mais antigos 
da Ordem, foi nomeado comendador mor dela, na menoridade de D. Diogo, 
duque de Viseu, a quem o cargo pertencia por ter a comenda de Mérlola à 
qual andava anexa a dignidade de comendador mor (4). Não a conservou 
por muito tempo João de Sousa, por isso que em mais nenhum documento 
o encontro mencionado exercendo tal cargo. 

. D. Manuel, apenas sentado no trono, lembrou-se logo do antigo criado de 
seu pai e, por carta dada em Setúbal, a 18 de Abril de 1496, fez-lhe mercê 
de duzentos mil reais de tença, considerando os seus muitos, mui grandes e 
continuados serviços a D. Afonso V, a D. João II e ao infante D. Fernando, 
assim nestes reinos, como nas partes de Africa e em Castela, onde com 
muita despesa e gasto de sua fazenda sempre serviu aos ditos senhores (5). 
Daqueles duzentos mil reais traspassou cinquenta mil em sua mulher Branca 
de Ataíde, a quem foi passada carta de padrão a 18 de Julho do ano se- 
guinte (6), e outros cinquenta mil em seu genro 02.° Conde de Penela, pas- 
sando-se a João de Sousa, na mesma data, carta de padrão dos cem mil 
reais restantes (7;. 

Em Abril de 1 5 1 3 já estava viúvo (8) e por todo o primeiro semestre de 



(i) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. i53, 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 17,°, fl. 69 v. 

(3) Por carta de 22 de Março de 1475 foi autorizado a arrendar as comendas de Ferreira 
e de Santa Maria da Represa. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.°, fl. 96. 

(4) Ibidem, liv. 26.°, fl. 180 v. 

(5) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 40.<*, fl. 3i v. 

(6) Ibidem^ liv. 29.», fl. 3o v. 

(7) Ibidem. 

(8) Carta de 10 daquele mês de padrão dos So.ooo rs. de tença vagos por morte da mu- 
lher. — Chancelaria de D. Manuel, liv. 42.», fl. 44 v. 



Sonsas 229 

i5i5 faleceu (i). Foi sepultado na igreja de Ferreira do Alentejo, gravan- 
do-se no túmulo este epitáfio: 

Aqui i jaz I omuito '• honRado \ snor \ ioãm | de sousa '■ e a muito \ honrada \ 

senora \ brãqua j detaide \ sua ; molher \ fi 
lha ■ domuitó j onrado \ jÕ \ detaide [ snor '■ de penacova ! ocual \ | ioã] \ 

desousa • e filho • de martimafõm • de : sousa • 



eneto j doutro | mtm | afôm '• de 
dom : fernãdo j de | purtugall 



sousa \ q | era '■ pmo \ có j irmão [ delrei j 
ho '■ quall | ioãm : de j 
Sousa : niica ; fez '■ ero ; nê | vileza \ ao ; senor \ ne J amiguo ; criado ; del- 
rei I dom \ afõm | ho \ quíto | e do | sõr | imfáte '■ se 
14 j irmão \ seus : snors j e por j serviço J de | ds ; edelles \ anbos ; seus • 

sres \ epor \ onra \ do reino ; foi J e dezoito [ pelleias | 
de j mouros \ nas | ptes \ dalém | mar j enas \ peleias '■ foiferido j deseteferi- 

das I e foi I cercado \ três vezes \ hua \ em | 
cepta I eduas ; e ; alcacere '■ hõde j foi j ferido '■ duas ] vezes ; deferidas j 
mortaes | hõde \ seouve j tã | be | etã \ es 

ditos j cercos [ q j nêhú • q ; nelles | fose | se • nã | 
naguera ; cõ • elrei j dõ '■ anrique 
onde ': se [ ouue \ mui j bem | desafiado | se j cõ | hú j 
mouro l sobre j afee | onde | se | ouue \ tãbê | fize 
ra ] esforçada • mete j q | ho desbaratou | e foi | moito \ louado \ detodos | 



forcada | mete \ nos 

oue : milhor \ efoi 

de I castelã '■ emgrada 



os I castellanos 
mada • dalcacere 



q I ai j era '■ psentes j foi j nato 

ee darzilla \ edetaniere \ e nadestroicã \ danafe [ foi | 
ê j duas I batalhas \ capaes [ com 
elrei \ dom j afõm j ho quinto '■ rei j de castella \ e deportugall • seu [ se- 



fose l ho ser 

q j houue j cÕ elrei j 



nhor \ eservio | tam | be j q | nê j hú j q j cõ j elle 
vio : milhor ; asi ; naguera [ cõtinoa j como '• na batalha 

dom I fernãdo | ho aguardou j e seruio 
[milhor q] nhu j o aguardo | nê | sérvio \ milhor | q elle [ e tá | bê foi | 

CO j p infante • seu j senor j naêtrada j de taniere onde foi ferido de morte (2). 

Sobrepostos ao letreiro vêem-se dois brasões: o de João de Sousa, um 
escudo esquartelado de quinas e de Hão, assente sobre um manto da Ordem 



(i) Carta de 18 de Junho de i5i5 de padrão de 100.000 rs. de tença a seu neto João 
de Sousa, em satisfação da comenda de Ferreira, que D. Manuel havia prometido a seu avô 
de lhe dar, por seu falecimento, e não o pudera fazer por oposição do mestre D. Jorge. — 
Chancelaria de D. Manuel^ liv. 27% fl. 2 v. 

(2) Lido de uma fotografia vista em Junho de 1919, menos as últimas palavras em itá- 
lico, as quais nela se não divisavam, e as tirei de uma cópia que me havia sido enviada em 
Março de i885. Parece faltar pelo menos uma linha, inferior ao actual pavimento, na qual 
viria a data da morte. 



23o Brasões 

de Santiago e sobrepujado do capuz, que se vê atacado de duas atacas em 
forma de laço; e o de Branca de Ataíde, um escudo em lisonja, partido das 
armas do marido e das dela, cinco barras pelos Ataídes. 

Alem de D. Maria de Ataíde, condessa de Penela pelo seu casamento 
com o 2.° conde, D. João de Vasconcelos e de Meneses, e de D. Joana de 
Ataíde, segunda mulher de Luís de Brito Nogueira e fundadora do mosteiro 
da Rosa de Lisboa (i), tiveram mais a Manuel de Sousa, falecido em vida 
de seu pai, tendo casado com D. Joana de Sousa, filha de João Fernandes 
de Sousa, senhor de Baião. O filho destes, João de Sousa como o avô, 
chegou a suceder nas terras de Baião, que lhe foram confirmadas por cartas 
de i6 de Fevereiro de i52o e 12 de Setembro de 1629 (2); foram porém rei- 
vindicadas as terras por seu primo Cristóvão de Sousa Coutinho e julgadas 
por sentença final ao filho deste, Fernão Martins de Sousa (3), cujos descen- 
dentes continuaram na posse delas. 

A casa dos Sousas de Meneses, copeiros mores e posteriormente condes 
de Vila Flor, pretendem também derivar dos Sousas Chichorros, mas tenho 
muitas dúvidas a tal respeito. A ela 'dão por progenitor um Jorge de 
Sousa, comendador de Melres na Ordem de Santiago e escrivão da sisa dos 
vinhos de Lisboa, filho, segundo asseveram, de Pêro de Sousa, comendador 
das Idanhas na Ordem de Cristo, bastardo de Gonçalo de Sousa, comen- 
dador mor desta Ordem e neto por bastardia de Martim Afonso de Sousa, 
2." senhor de Mortágua (4). Na filiação de Jorge de Sousa é que está o 
erro. 

Existiram dois Jorges de Sousa contemporâneos, dois ou mais, mas de 
roda de dois consigo arrumar indicações documentais. De ambos eles en- 



(i) Foi começado a fabricar em iSrg, segundo afirma Fr. Luís de Sousa, na Historia de 
S. Domingos^ part. III, liv. 2.°, cap. i.°, pág. 84 e segs. 

Foram os cônjuges sepultados na igreja defronte da porta, com este epitáfio: Aquija^ 
o Senhor Luis de Brito Nogueira, Senhor dos morgados de S. Lourenço de Lisboa, e Senhor 
dos morgados de Santo Estevão em a Cidade de Beja, o qual Senhor foy tão bom cavalleiro 
em seu tempo, que o não houve melhor; e com elle ja^ sua mulher D. Joanna de Ataide de 
Sousa, a qual com seu consentimento /<?f este Mosteiro, a que deixou toda sua fajenda, por- 
que não tinha filho, netn filha, e elle dito Senhor deixou sua terça, porque tinha filhos de outra 
mulher, que herdavão seus morgados. Era iSzS. Assim o encontro transcrito pelo P.e João 
Bantista de Castro, no tom. III do Mappa de Portugal, pág. 33o. 

(2) Chancelaria de D. João JII, liv. 16." de Doações, fl. iSj. 

(3) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário, V, págs. 444 e 445 mihi. 

(4) João Carlos Feo Cardoso de Castelo Branco e Torres, Memorias histórico- genealó- 
gicas dos Duques portugueses^ pág. 3oi. 



Sousas 23i; 

contro memória em um nobiliário do tempo (i.). Conforme as indicações 
deste códice o mais velho dos Jorges de Sousa casou pela segunda vez com 
D. Leonor, filha de Rui Gil Moniz, tesoureiro da Moeda de Lisboa, e já ao 
tempo do seu segundo casamento era pai de Francisco de Sousa Mancia^s, 
havido da primeira mulher (2). Deste Jorge de Sousa, não se sabe a filiação 
e o outro Jorge de Sousa é que era o filho de Pêro de Sousa, acima no- 
meado, e foi casado com Simoa de Rabêlô de quem teve vários filhos, mas 
nenhum Francisco (3). São dignas de confiança estas indicações genealógi- 
cas pois em parte as confirmam os documentos, os quais distinguem os dois 
Jorges de Sousa, dando a um a qualificação de fidalgo da casa dei Rei, ao 
passo que o outro nunca passou de simples cavaleiro da mesma casa. O 
fidalgo era o filho de Pêro de Sousa; o cavaleiro era o pai de Francisco de 
Sousa Maneias. 

Jorge de Sousa, «fidalgo da nossa casa», teve, em 12 de Abril de 1480 
carta de oitenta mil reais de tença (4), e em 18 de Agosto de i5o8 foi expe- 
dida ordem ao Almoxarife de Çafim para lhe dar sete mil reais de mercê (5). 
Jorge de Sousa, «cavaleiro de nossa casa», foi nomeado escrivão das sisas 
dos vinhos de Lisboa, por carta de 8 de Janeiro de 1488 (6). Já então era 
comendador de Melres e casado em primeiras núpcias com Inês Cerveira, 
moça da câmara da infanta D. Joana e criada da condessa de Monsanto, 
D. Isabel de Cascais, a qual, por instrumento de 4 de Fevereiro de 1475, a 
dotara com duas mil coroas que tinha dei Rei e foram confirmadas a Inês 
por carta de 12 de Março do mesmo ano (7). Esta devia ter sido a mãe de 
Francisco de Sousa Maneias. 

Quanto à filiação de seu pai posso conjecturar, com certos visos de pro- 
babilidade, haver êle sido o Jorge de Sousa legitimado, juntamente com seu 
irmão Pêro de Sousa, por carta de 18 de Junho de 1453, na qual se declara 
serem ambos eles filhos de João de Sousa, criado dei rei D. Duarte e cónego 
beneficiado na Sé de Lisboa, e de Mor Eanes, mulher solteira (8). 

Francisco de Sousa teve a alcunha de Maneias, forma aportuguesada do 



(1) Tenho este nobiliário já impresso com o título de Nobiliário quinhentista, faltando 
apenas terminar o índice para ser publicado. 

(2) Cit. Nobiliário^ pág. 264, n." vu. 

(3) Ibidem, pág. 145, n.° xxxví. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.% fl. u8v. 

(5) Corpo cronológico, part i, mac. 7, doe. 35, 

(6) Chancelaria de D. João 11^ liv. 18.°, fll. 23. 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.», fl. 149 v. 

(8) Ibidem, liv. 10.», fl. 118. 



232 ' Brasões y 

nome do trovador galego Macias (i), por ser muito namorado e galanteador, 
dirigindo versos muito apaixonados às damas. Partiu para a índia na ar- 
mada do ano de iSog, capitaneando a nau S. Boaventura; entrou em Goa 
com Afonso de Albuquerque a 2 de Março de i5io e lá permaneceu durante 
o período da primeira ocupação da cidade, até 17 de Maio do mesmo ano. 
Foi então, quando Afonso de Albuquerque se resolveu a despejar a cidade 
por não poder sustentá-la, e deu ordem para tudo embarcar, que Francisco 
de Sousa, primeiro de todos, mandou desferrar as velas da sua nau e, «com 
a pressa de voltar ao reino», foi demandar a barra sem ordem do Governa- 
dor, que mandou atrás dele e o fez tornar, repreendendo-o e tirando-lhe a 
capitania da nau, «de que êle ficou muito descontente». Parece ter regres- 
sado ao reino nos fins de i5io, ou na armada de Duarte de Lemos, que che- 
gou no ano seguinte, ou na de Gonçalo de Sequeira, que só em i5i2 aportou 
a Lisboa. Depreendo porem de dois versos do próprio Francisco de Sousa, 
ter êle voltado na primeira daquelas armadas, pois declara: 

Três anos ha que sam fora 
quatro mil legoas daquy. 

Os três anos seriam os de i5o9, 10 e 11 (2). 

Jã então estava casado com D. Antónia de Meneses, filha de Afonso Teles 
de Meneses, alcaide mor de Campo Maior e Ouguela, casamento de amor, 
tendo tido o noivo, 'segundo leio nalgumas memórias, de ir arrancar a sua 
amada às grades do mosteiro de Santos, onde ela estava recolhida. Consta 
estar já então celebrado o matrimónio de um alvará, feito em Almeirim a 8 
de Fevereiro de i5i i, pelo qual íoram mandados citar para partilhas os her- 
deiros de Afonso Teles de Meneses e de D. Joana sua mulher. Eram eles 
Gabriel de Brito e sua mulher, moradores na Merceana, Tristão da Silva, 
morador no termo de Alenquer, D. Urraca, moradora em Campo Maior, 
D. Antónia, mulher de Francisco de Sousa, moradores em Lisboa, e D. Isa- 
bel, mulher que fora de D. João [Manuel], camareiro mor (3). 

Na armada de i5i6, da qual era capitão mor João da Silveira, trinchante 
de D. Manuel, tornou Francisco de Sousa à índia, capitaneando a nau Luz 



(i) Em vários passos do Cancioneiro geral se encontra repetidas vezes o nonje do 
poeta galego transformado em Maneias; mas não eram só os poetas, também os prosadores 
empregavam a mesma grafia, por exemplo, João de Barros, na segunda década da sua Ásia, 
fl. 49, lá põe a Francisco de Sousa a alcunha de Maneias. 

(2) Albuquerque no Cancioneiro, no Boletim [da Sociedade de Geografia de Lisboa] 

COMEMORATIVO DO V CENTENÁRIO DA TOMADA DE CeUTA, pág. 12. 

(3) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, fl. 529 mihi. 



Sousas 233 

que se perdeu (i). Ainda voltou ao reino e só veio a morrer nas proximi- 
dades de Março de iSSg (2). 

Foi um dos melhores poetas do Cancioneiro onde existem trovas suas 
feitas em Portugal, antes de i5o4, talvez sendo ainda solteiro, em louvor do 
claveiro, D. Diogo de Meneses, apaixonado por D. Felipa de Abreu (3); ou- 
tras escritas na índia, em Maio ou Novembro de i5io, com um remoque a 
Afonso de Albuquerque (4); e mais já compostas no regresso da primeira 
ida à índia: 

Três anos ha que sam fora 
quatro mil legoas d'aquy, 
d'onde afirmo que nam vy, 
nem menos des que naçy, 
tam genti! dama ate gora. 
E por ysto sey dizer, 
que quem quer que vos servir, 
que, quanta pena sentyr, 
se pagua so com vos ver (5). 

Apesar de ser já então casado, a «gentil dama» das trovas não era sua mu- 
lher, mas sim D. Joana de Mendoça, futura duquesa de Bragança. E outras 
muitas trovas suas se encontrarão ainda na mesma compilação. 

De Francisco de Sousa Maneias foi neto Francisco de Sousa de Meneses, 
i." copeiro mor na sua família por carta de 18 de Setembro de 1579(6). 
Deste foi bisneto Luís de Sousa de Meneses, 4.° copeiro mor, que casou com 
D. Maria Ana de Noronha, filha de D. Sancho Manuel, i." conde de Vila 
Flor, em sua vida, por carta de 23 de Junho de 1661 (7), ampliada a mercê 
a juro e herdade e tirada uma vez fora da Lei Mental, por alvará de 23 de 
Agosto de 1668 (8). E o vencedor da batalha do Ameixial em 8 de Julho 
de i663. O filho primogénito deste célebre general foi D. Cristóvão Manuel 



(i) Archivo histórico portugue^, 111, 53-54. 

(2) Feo, Memorias dos Duques, cit., pág. 3o6. 

(3) Cancioneiro geral, fl. 146, col. 5. — D. Felipa de Abreu era filha de Duarte da Cunha, 
irmão do 2° Visconde de Vila Nova da Cerveira, e já estava casada, em Fevereiro de i5o4, 
com João Soares, fidalgo da casa rial {Chancelaria de D. Manuel, liv, 21.», fl. 35 v.), neto 
materno de Fernão Soares de Albergaria, senhor do Prado. A D. Felipa chama «minha 
prima» Álvaro Pires de Távora, e na realidade eram primos em segundo grau por serem 
ambos bisnetos de Álvaro da Cunha, senhor de Pombeiro. 

(4) Cit. artigo Albuquerque no Cancioneiro, pág. 12. 

(5) Cancioneiro geral, fl. i5o, col. 3. 

(6) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 44." de Doações, fl. 285. 

(7) Doações de D. Afonso VI, liv. 24.», fl. 162. 

(8) Ibidem, liv. 32.°, fl. 20. 

VOL. I 3o 



234 Brasões 

de Vilhena, 2.° conde de Vila Flor de juro e herdade em 1 1 de Setembro 
de 1677 (i). Morreu a 17 de Julho de 1704, deixando unicamente filhos 
legitimados, do mais velho dos quais proveio a moderna varonia da casa de 
Pancas,. e passando o título para seu sobrinho Martim de ^ousa de Meneses, 
5.° copeiro mor, que foi 3.° conde de Vila Flor de juro e herdade por carta 
de 26 de Janeiro de 1709(2). Foi este Conde de Vila Flor terceiro avô de 
António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 7.° conde 
de Vila Flor, marquês da mesma vila em 1827 (3), duque da Terceira de 
juro e herdade por decreto de 8 de Novembro de i832 (4) e carta de 1 1 de 
Abril de i838 (5), marechal do exército, 9.° copeiro mor. Foi o comandante 
em chefe do exército libertador, que no Mindelo desembarcou em 9 de Julho 
de i832; foi o general que entrou em Lisboa a 22 de Julho de i833, tendo 
derrotado na véspera as tropas rialistas, o que venceu a batalha da Assei- 
ceira, em 16 de Maio do ano seguinte, e aceitou a convenção de Évora Monte, 
a 27 do mesmo mês. Também foi várias vezes presidente do conselho de 
ministros, gerindo a pasta da guerra. Morreu a 26 de Abril de 1860; foi 
depositado em S. Vicente de Fora; e levantou-se-lhe uma estátua de bronze 
no antigo cais do Sodré ao fundo da rua do Alecrim, hoje praça do Duque 
da Terceira. Não deixou descendência. 

Havia casado por duas vezes: a primeira, em 181 1, com D. Maria José 
do Sacramento de Melo, condessa de Vila Flor, que morreu em 1818, e era 
filha dos 1.°' Marqueses de Sabugosa; a segunda, em 1821, com D. Maria 
Ana Filomena de Mendoça, a gentilíssima duquesa da Terceira, a distintís- 
sima camareira mor, a dedicadíssima consorte, que era filha dos 1.°' Mar- 
queses de Loulé, e morreu em i de Julho de 1866, sendo o seu corpo depo- 



íi) Doações de D. Afonso VI, liv. 32.°, fl. 20. 

(2) Chancelaria de D. João F, liv. 29.», fl. 325 v. 

(3) Havendo meu augusto pai, de saudosa memória, feito expedir, em 14 de Janeiro de 
i833, como regente destes reinos o decreto seguinte: 

Tendo eu no ano de 1827, na qualidade de Rei de Portugal, feito mercê ao Duque da 
Terceira, então Conde de Vila Flor, do título de marquês e não havendo esta minha dispo- 
sição tido então o seu devido efeito, pelas circunstâncias calamitosas que sobrevieram e 
que desde aquela época tem pesado sobre este desgraçado país, o que de nenhuma sorte 
deve prejudicar os direitos pelos quais o referido Duque fora naquele tempo agraciado, hei 
por bem, em nome da Rainha, confirmar ao sobredito Duque da Terceira aquela antiga 
mercê do título de marquês de Vila Flor. 

Hei por bem e mando, em verificação da referida mercê, que o sobredito Conde de Vila 
Flor se chame Marquês de Vila Flor etc. . . Paço das Necessidades, 1 1 de Abril de i838. — 
Registo de Mercês de D. Maria II, liv. 10. °, fl. 14. 

(4) Chronica constitucional do Porto, de 9 de Novembro de i832. 

(5) Registo de Mercês de D. Maria II, liv. 10.», íi. 17. 



Sonsas 235 

sitado no mosteiro dos Jerónimos de Belêm, e transportado no dia seguinte 
para S. Vicente de Fora para junto do marido. 

As armas dos Copeiros mores Condes de Vila Flor, e portanto às do 
Duque da Terceira, eram: esquartelado: o I e IV também esquartelado: o 
I.'' e 4." de prata, cinco escudetes de azul, postos em cruz, e carregados 
cada um de cinco besantes do campo; o 2.° e 3.** de prata. Hão de púrpura, 
armado e linguado de vermelho (Sonsas); o II e III ainda esquartelado: o 
[." e 4.° de vermelho, aza de oiro terminada por uma mão de encarnação, 
que empunha uma espada de prata guarnecida de oiro; o 2." e 3." de prata, 
Hão de púrpura, armado e linguado de azul (Maniieis de Vilhetia). Sobre o 
todo: de oiro Hso (Meneses). Coroa de conde, depois de duque. Timbre: 
o Hão do I. , . 

Dos Sousas Chichorros procederam por fêmea, entre outras casas, por 
linha legítima, a dos Sousas Camelos, senhores de Baião, e a dos Sousas de 
Macedo, viscondes de Mesquitela, e por bastardia a dos Sousas Botelhos, 
condes de Vila Rial. 

Os senhores de Baião procederam de D. Fr. Álvaro Gonçalves Camelo, 
prior do Crato e marichal da hoste em tempos de D. João I. Era o Prior 
irmão de Vasco Gonçalves Camelo a quem o mesmo soberano fizera mercê 
e doação, por juro de herdade, das terras de Baião, Lágia e outras, as quais 
tornou a doar, por morte de Vasco, a Álvaro Gonçalves Camelo, filho bas- 
tardo do referido Prior do Crato. Casou o segundo Álvaro com D. Inês de 
Sousa, filha de Martim Afonso de Sousa Chichorro, 2.° senhor de Mortágua, 
e dela teve Luís Álvares de Sousa, sucessor na casa, e outros filhos. A Luís- 
Alvares foi confirmado de juro e herdade, por carta de 4 de Novembro de 
1434, o senhorio das terras de Baião, Lágia e outras, as quais por sua morte 
foram confirmadas a João Fernandes de Sousa, por carta de 3 de Junho de 
i5oo, «por quanto era filho o primeiro legítimo que as ditas terras her- 
dava» (i). Não está clara a redacção deste documento e parece estar em 
plena discordância com os nobiliários antigos, pois todos eles íazem a João 
Fernandes de Sousa, neto de Luís Álvares de Sousa por seu filho Fernão 
Martins de Sousa. Seja porem como for, nos descendentes de Luís Álvares 
de Sousa, que foi provedor da fazenda do Porto desde princípios de 145 1, 
se continuou o senhorio da terra de Baião, tendo todos eles deixado obliterar 
o apelido de Camelo, da sua varonia, para usarem só do de Sousa, o qual 
transniitiram aos Viscondes de Balsemão por D. Maria de Sousa, neta do 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 4.», fl. 19. 



236 Brasões 

referido João Fernandes de Sousa e mulher de António Pinto da Fonseca, 
morgado de Balsemão. 

Francisco de Macedo, criado da casa do senhor D. Duarte, duque de Gui- 
marães, casou com D. Felipa de Sousa de um ramo de Sousas proveniente 
de Martim Afonso de Sousa Ghichorro, 2." senhor de Mortágua, por um seu 
filho, conforme alguns dizem, chamado Afonso Vasques de Sousa, segundo 
marido de D. Leonor Lopes de Sousa, senhora de Mafra, Ericeira, etc, vilas 
de que por sua morte seu viúvo se apossou, em prejuízo dos enteados. 

De Francisco de Macedo e D. F^elipa de Sousa foi neto António de Sousa 
de Macedo^ notável jurisconsulto, diplomata, estadista e escritor, a quem a 
causa da Restauração deveu muito valiosos e prestantes serviços. Morreu 
em I de Novembro de 1682, deixando único filho a Luís Gonçalo de Sousa 
de Macedo, a quem D. Afonso VI, em satisfação dos serviços de seu pai, 
dera, por carta de 27 de Setembro de 1666, o título de barão da Ilha Grande 
de Joanes, em sua vida (i), me'rcê ampliada a mais duas vidas por alvará de 
27 de Maio de 1667 (2). Deste Barão foi neto Luís de Sousa de Macedo, 
3.° barão da Ilha Grande, a quem foi tirado o senhorio da ilha, dando-se-lhe 
em satisfação o título de visconde de Mesquitela de juro e herdade, dispen- 
sada três vezes a Lei Mental, e mais três mil cruzados de renda anual, tam- 
bém nas mesmas condições (3). Foi o Visconde de Mesquitela tenente ge- 
neral do exército e morreu a 7 de Outubro de 1783, deixando da viscondessa, 
D. Joana Antónia de Sampaio e Lima, duas filhas das quais a primogénita, 
D. Maria José de Sousa de Macedo, casou em 1772 com D. José Francisco 
da Gosta e Sousa, armeiro mor da Casa Rial, criado visconde de Mesquitela, 
depois da morte do sogro, por carta de 20 de Junho de 1787, em verificação 



(i) Tendo respeito aos serviços que António de Sousa de Macedo, do meu conselho e 
meu secretário de Estado, me tem feito por espaço de vinte e cinco anos contínuos até 27 
de Maio deste ano, assim dentro neste reino, nos maiores lugares da justiça e fazenda, e ou- 
tros negócios de importância, como fora dele nas embaixadas em que o tive ocupado mais 
de sete anos, sendo ultimamente embaixador aos Estados Gerais das Províncias Unidas, e 
muito em particular aos que me tem feito no cargo de meu secretário de Estado, em tempo 
que, por mercê de Deus, se alcançaram sucesos muito gloriosos em grande reputação desta 
Coroa, e desejar por todas estas raaões, por sua qualidade e memória de seus avós, fazer-lhe 
honra e mercê, me praz e hei por bem fazer-lha do título de barão da Ilha Grande de Joa- 
nes, no estado do Maranhão, de que o dito António de Sousa de Macedo é donatário, para 
seu filho Luís Gonçalo de Sousa de Macedo, etc. — Doações de D. Afonso VI, liv. 28.", 
fl. 219. 

(2) Ibidem, fl. Sig v. 

(3) Decreto de 2 de Maio de 1754 {Ga^^etas de Lisboa de 9 e 16 de Maio), e carta de 28 
do mesmo mês (liv. 45." da Chancelaria de D. José, fl. 32i). 



Sousas 287 

da primeira vida fora da Lei Mental (1). Morreu o Visconde em 1802 e a 
Viscondessa em 1816, deixando por sucessor da casa a seu filho primogénito, 
D. Luís da Costa de Sousa de Macedo e Albuquerque, 3.° visconde de Mes- 
quilela de juro e herdade, por carta de 29 de Agosto de 1798 (2), e 1.° conde 
de Mesquitela em sua vida, por carta de 28 de Fevereiro de i8í8 (3). 
Deste provieram os demais Condes, o 2." dos quais, D. João Afonso da 
Costa de Sousa de Macedo e Albuquerque, foi feito duque de Albuquerque, 
em sua vida, por decreto de 19 de Maio de 1886 (4), e morreu sem descen- 
dência a 24 de Setembro de 1890, passando o título de conde a seu irmão 
imediato, D. Luís António da Costa de Sousa de Macedo e Albuquerque, 
também já falecido. 

As armas dos primeiros Viscondes de Mesquitela eram: escudo partido: 
o I cortado: no i." de prata, cinco escudetes de azul em cruz, cada um car- 
regado de cinco besantes do campo; no 1° de prata, lião de púrpura, armado 
e linguado de vermelho (metade de Sousas)] o 11 de azul, cinco estrelas de 
seis pontas de oiro (Macedo). Timbre: o lião. 

Sobre a porta principal do palácio de Mateus, nas visinhanças de Vila 
Rial, vêem-se estas armas: esquartelado: no I uma águia, no II uma cruz 
florida, no III uma torre, e no IV quatro bandas. Suportes: dois liÕes. 

O I quartel é dos Aguiares, não há dúvida, pois que veio à casa pela va- 
ronia dos Mourões da Cumieira; o III é o destes, faltando-lhe as duas faxas 
entre as quais deve estar metido o castelo; o IV é dos Botelhos; mas o II 
não sei a que família pertença. Cruz florida simples, sem mais peça a acom- 
panhá-la, trazem os Pereiras, Meiras, Meireles e Portos, mas não encontro 
grande plausibilidade em existirem armas destas famílias no brasão dos mor- 
gados de Mateus. 

Este vínculo parece ter sido instituído em 1620 pelo dr. António Alvares 
Coelho, que o deixou a sua filha Maria Coelho, mulher do dr. Matias Alvares 
Mourão. Estes cônjuges, achando-se sem filhos, nomearam o morgado em 
outro Matias Alvares Mourão, sobrinho de ambos, como lhe chamam, sem 
que isso tosse rigorosamente exacto. O segundo Matias era neto por sua 
mãe, D. Joana Mourão, de Diogo Alvares Mourão, irmão do primeiro Ma- 
tias; e por seu pai, Domingos Botelho Ribeiro, era neto de Paula de Figuei- 



(1) Chancelaria de D. Maria I, liv. 3o.% fl. aTi v.; Mercês de D. Maria I, liv, 21.», 
fl. 364. 
, (2) Mercês de D. Maria 1, liv. 27.*, fl. i5g. 

(3) Mercês de D. João VI, liv. i3.«, fl. 43 v. 

(4) Diário do Governo de 22. 



238 Brasões 

redo, irmã de António Alvares Coelho, o instituidor do vínculo. Isto posso 
depreender do pouco que sei desta gente. 

Aqueles dois irmãos, Matias Alvares Mourão e Diogo Alvares Mourão, 
seguiram ambos os lugares de letras e foram muito unidos. Matias habili- 
tou-se para aqueles cargos em i653, Diogo em i656. Pelo processo deste 
se sabe terem eles sido naturais da freguesia da Cumieira, filhos de Bilchior 
de Aguiar Ferreira e de sua mulher D. Isabel, moradores na sua quinta de 
Lago Bom da mesma freguesia, netos paternos do licenciado Amaro Gon- 
çalves de Aguiar e de sua mulher Margarida, moradores na referida quinta, 
e netos maternos de Diogo Alvares Mourão e de sua mulher Maria de Aze- 
vedo, moradores na sua quinta da Cumieira (i). Dos processos também 
consta que ambos os habilitandos eram ao tempo casados; não se lhes no- 
meiam porem as mulheres, e só de Diogo se diz que ela era sua prima. 

Matias Alvares Mourão foi doutor em leis, e, sendo já lente de substituta, 
foi eleito colegial de S. Paulo em 24 de Fevereiro de 1645. Ainda regeu 
outras cadeiras, e serviu de deputado da Mesa da Consciência e Ordens, e 
de desembargador titular da Relação do Porto (2). 

Diogo Alvares Mourão havia sido eleito colegial canonista de S. Pedro 
em 25 de Fevereiro de 1649, e foi lente da cadeira de sexto, juiz do fisco de 
Coimbra e desembargador do Porto (3). Regeu também outras cadeiras, e 
ainda era vivo em 16 de Maio de 1662, quando foi nomeado para a de de- 
creto, conforme diz Barbosa Machado, que a ele e a seus escritos se re- 
fere (4). 

Para prova da amisade, que disse ter existido entre os dois irmãos, trans- 
creverei uma inscrição que foi posta na capela de Nossa Senhora da Con- 
ceição da igreja de S. Pedro de Coimbra: Esta capella mandou fa\er o 
Dr. Mathias Alvares Mourão, Cavalr.° do Habito de xp'o Collegial e Reytor 
que foi do Collegio de S. Paulo Lente de Véspera de Leys De{.°'': Nella está 
sepultado seu irmão o Z).*"" Diogo Alvares Mouram Jiii\ do Fisco, Collegial 
e Reytor que foi do Collegio de S. Pedro, Lente do Decreto, e ambos forão 
os primeiros juizes desta Irmd.^ de N. S. da ConJ^"* (5). 

Matias Alvares Mourão não teve filhos de sua nomeada mulher; Diogo 
Alvares Mourão parece porém ter tido uma filha natural, chamada D. Joana 
Mourão, que foi sua herdeira, e casou com Domingos Botelho Ribeiro, ter- 



(i) Leitura de bacharéis, mac. 3.°, let. D., n." 24. 

(2) D. José Barbosa, Memorias do Collegio de S. Paulo, pág. 162, n.° no. 

(3) Manuel Pereira da Silva Leal, Catalogo dos collegiaes de S. Pedro, pág, 23, n.» 98. 

(4) Bibliotheca lusitana, vol. IV, pág. 95. 

(5) P. Luís Montês Matoso, Memorias sepulchraes, fl. 118. 



i 



Sousas 289 

ceiro neto, segundo dizem, de Helena Botelho Correia e de seu marido 
António Machado, neto de outro António Machado, filho bastardo de Pedro 
Machado, i.° senhor de Entre Homem e Cávado por compra, que lhe foi 
confirmada em 1450. 

De Domingos Botelho Ribeiro e de D. Joana Mourão foi filho o segundo 
Matias Alvares Mourão, acima referido, senhor do morgado de Mateus. 
Casou com sua prima D. Maria Coelho, filha de Cristóvão Alvares Coelho, 
colegial de S. Pedro em 1660, desembargador de agravos, chanceler do 
Porto, e deputado da Mesa da Consciência, e de sua mulher D. Brites de 
Barros e Faria. Deste casamento nasceu António Botelho Mourão, fidalgo 
cavaleiro por alvará de 1 5 de Junho de 17 17, senhor do morgado de Mateus, 
onde começou a edificação do soberbo palácio que lá se vê, cavaleiro da or- 
dem de Cristo, e tenente coronel de cavalaria. Morreu em 1746, tendo ca- 
sado em 1721 com D. Joana Maria de Sousa, senhora dos morgados de Mo- 
roleiros e Ponteias, que morreu em 1728, e era filha herdeira de D. Luís 
António de Sousa, e de D. Bárbara Mascarenhas de Queirós, sephora da casa 
dos Queiroses de Amarante. D. Luís António de Sousa, filho natural do 
2.* Marquês das Minas, foi general de batalha e governador das armas do 
Minho, e morreu em 1749, tendo nascido em 1671. 

De António Botelho Mourão foi neto o famoso morgado de Mateus, 
D. José Maria de Sousa Botelho Mourãp e Vasconcelos, ministro em Paris, 
que na sua magnifica edição dos Lusíadas levantou um digno monumento à 
glória de Luís de Camões, Deste Morgado foi filho o i." Conde de Vila 
Rial (decreto de 3 de Julho de 1823), avô do actuai 3." Conde (decreto de 
24 de Fevereiro de i858). , 

As armas dos modernos Condes de Vila Rial são: escudo partido: o I 
esquartelado: o i.° e 4." de prata, cinco escudetes de azul em cruz, carre- 
gados cada um de cinco besantes do campo, 2.° e 3.* de prata, lião de púr- 
pura, armado e linguado de vermelho (Sousa); o II de oiro, quatro bandas 
de vermelho (Botelho). Timbre: um dos liÕes. 

Antes de terminar o capítulo referir-me-hei a uma fábula inventada por 
um Cónego de Santa Cruz, perfilhada e ampliada por um Teatino. 

Em 1387, em seguida ao seu casamento, escolheu D. João I as pessoas 
que haviam de servir a rainha D. Felipa e entre elas nomeou vedor de sua 
casa a Afonso Martins, «que depois foi Prior de Santa Cruz» (i). 

De roda desta indicação teceu D. Nicolau de Santa Maria, cronista de 



(i) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, part. 11, pág. 228. 



240 • Brasões 

Santa Cruz de Coimbra, a tal mal urdida fábula, género por êle muito cul- 
tivado. Afirma ter Afonso Martins sido filho de Martim Afonso de Sousa, 
a quem acompanhara na batalha de Aljubarrota; haver casado com D. Maior 
Rodrigues, filha de Rui Vasques Ribeiro, «fidalgo bem conhecido e estimado 
dei rei D. João I»; ter dela tido um filho, «por nome Fernão Afonso, que 
estudou e se fez doutor em Leis na Universidade de Bolonha, e foi Desem- 
bargador dei Rey» ; e, finalrpente, haver professado, depois de viúvo, em 22 
de Junho de 1887 (i). 

Vamos desembrulhar a meada. 

Martim Afonso de Sousa, combatente na batalha de Aljubarrota, foi o 
2.° senhor de Mortágua e entre os seus filhos nenhum nobiliário antigo no- 
meia Afonso Martins. Isto seria bastante para pôr de parte tal filiação, que 
se não funda em nenhum documento; mas, para mostrar toda a falsidade da 
invenção, há maior prova ainda. 

Afonso Martins casou, diz o cronista de Santa Cruz, com D. Maior Ro- 
drigues, filha de Rui Vasques Ribeiro, e depois de enviuvar professou em 
iSSy. Ora Rui Vasques Ribeiro só veio a casar passados trinta e seis anos, 
precedendo instrumento de dote e arras feito em 8 de Maio de 1423 (2). 

Não julgo necessário mais prova para mostrar ser toda esta história uma 
das muitas falsidades, de que Fr. Nicolau de Santa Maria é hoje réu con- 
victo. 

D. Amónio Caetano de Sousa, genealogista cortesão, não se contentou 
em aceitar toda a invenção do Cónego de Santa Cruz, mas ainda foi mais 
longe, e vem-nos dizer que o tal dr. Fernão Afonso, filho do prior Martim 
Afonso, foi o dr. Fernão Afonso da Silveira, pai do dr. João Fernandes da 
Silveira, i.° barão de Alvito (3). Isto é: a homens de baixa extração pre- 
tende filiar numa das mais ilustres gerações de Portugal. O argumento de- 
duzido dos dizeres de Xisto Tavares no seu Nobiliário chega a ser infantil, 
visto que êle, entre os filhos de Martim Afonso de Sousa, não nomeia o 
Prior de Santa Cruz. 

As palavras escritas por Xisto Tavares no seu Nobiliário, ou melhor 
Livro das Principaes Linhagens de Portugal (pág. 681 da minha cópia), 
são realmente as transcritas na Historia genealógica: «O Doutor Fernando 
Afonso da Silveira, filho do Prior de Santa Cruz, foi homem honrado em 
tempo dei Rey D. João o primeiro, foi Desembargador do Paço, foi casado 



(i) Chronica da Ordem dos Cónegos regrantes de Santo Agostinho^ part. 11, liv, ix, 
cap. 24. 

(2) Chancelaria de D. João 1, liv. 4.°, fl. 63. 
{3) História genealógica, Xll, y\3. • 



Sousas « 241 

com Gateriíia Teixeira, filha de de que houve a João Fernandes 

da Silveira.» 

Depois de as transcrever continua D. António Caetano de Sousa: «Não 
nomeou quem era o Prior como pessoa conhecida naquele tempo.» Sucede 
porem não o ter Xisto Tavares nomeado aqui, nem tampouco quando enu- 
merou os filhos de Martim Afonso de -Sousa, pois apenas lhe dá, alem de 
filhas, três filhos, um legítimo, Gonçaleanes de Sousa, e dois bastardos, 
Martim Afonso de Sousa e Pêro de Sousa (pág. 207). ^Ora se o Prior fosse 
realmente pessoa conhecida não seria nomeado entre os filhos do suposto pai? 
Não há que duvidar; mas não foi nomeado, porque nunca teve tal ascen- 
dência. 

D. António de Lima no seu Nobiliário não indica a filiação do dr. Fernão 
Afonso da Silveira, e diz que a mulher dele era filha de «hum çapateiro de 
Torres Vedras.» 

Sem exageros para um lado, nem para o outro, escreve o autor do No- 
biliário quinhentista Já por vezes citado: «O doutor fernão dafomso da sil- 
ueyra foy hú ome homrrado e dautoridade em tempo delrey dom joaõ o pri- 
meyro e foy casado com catrina teyxeira filha de de que ouue hú 

filho por nome o doutor joaõ fernandes da silueyra.» (i) 

Fiquemos com este e cortemos sércio o ramo enxertado no velho tronco 
dos Sousas. 

IV. 

A CASA DE SOUSA NOS FINS DO SÉCULO XIII 

D. Constança Mendes, a segunda filha do rico homem D. Mem Garcia 
de Sousa referida na pág. 206, sucedeu em grande parte da casa de seu tio 
o conde D. Gonçalo Garcia, a qual se não partilhou sem litígio a que pôs 
fim a sentença de 2 de Setembro de 1288, à qual lá mais adiante aludirei. 
Era Já então D. Constança casada com D. Pedro Eanes de Portel, rico ho- 
mem, filho do famoso mordomo mor e valido de D. Afonso III, D. João Pe- 
res de Aboim, fundador da vila de Portel e senhor de uma tam grande casa 
que dos títulos de seus bens se fez um registo especial guardado no Arquivo 
Nacional da Torre do Tombo. Intitula-se o cartulário Liuro do Registo das 
cartas dos bees e erãcas q dÕ loam de portei teiie nestes reinos, e acha-se 
hoje impresso no vol. iv e seguintes do Archivo histórico portuguez e em 
separata, com este frontispício: Livro dos bens de D. João de Portel cartu- 
lário do século XIII publicado por Pedro A. de A\evedo Primeiro Conserva'- 



(1) Pág. 247, n.» I. 

YOL. I ' 3l 



242 Brasões 

dor da Torre do Tombo precedido de uma Noticia histórica por Anselmo 
Braamcamp Freire. Edição do Archivo histórico portiigue:[ igo6-jgio. 
4.° grande de civ-186 págs. e seis estampas. A edição em separado foi de 
cento e um exemplares. 

E a propósito destes Aboins e Porteis, em quem chegou a estar a repre- 
sentação da casa de Sousa e que a transmitiram a seus descendentes por 
linha feminina, seja-me permitido tratar deles neste capitulo especial. 

Com a margem direita do Lima estremava o antigo couto da Nóbrega. 
Neste, no meio de suas altas montanhas, fundou D. Òrigo Oríguiz, por or- 
dem do nosso primeiro rei, o forte castelo da Nóbrega, e D. Afonso Henri- 
ques deu-lhe por isso dois casais de Panelas na freguesia de S. Martinho de 
Paço Vedro (i); e não lhe daria só isso. 

Naquele mesmo julgado da Nóbrega possuiu D. Origo muitos bens, e 
entre outros, na freguesia de Santa Maria de Santa Azias, uma quinta cha- 
mada de Grastafroia, à qual ele foi anexando em roda várias terras, a que ia 
pondo marcos, e por esta forma Juntando grande parte da paróquia à quinta. 
Por fim entendeu-se com o Abade de Ermelo, e dividiram a freguesia entre 
si, ficando el Rei sem nada (2). Por estas e outras é que foram ordenadas 
as Inquirições. 

Também possuiu prédios na freguesia de S. João de Grovelas (3), e nou- 
tras da terra da Nóbrega, e muitos mais bens teria, que não vêem clara- 
mente indicados nas Inquirições; por exemplo: na freguesia de Santa Maria 
de Aboim, de que el Rei não tinha o padroado, nem lá possuia reguengo 
nenhum, pelo que se pode conjecturar seria grande parte da freguesia da 
família de D. Origo. 

Na paróquia de S. Martinho de Paço Vedro, onde D. Origo tinha os tais 
dois casais de Penelas, aparece uma herdade que fora de Elvira òríguiz (4), 
certamente a rnesma D. Elvira, que deu o nome ao alto de uma serra na 
próxima freguesia de S. Mamede de Goido, e perto da torre e paço de Vila 
Verde, que foi desta gente (5). Esta D. Elvira Òríguiz é decerto a mulher 
de D. Lourenço Mendes de Gundar (6). 



(i) Inquirições de D. Afonso II do ano de 1220. — Portugaliae monumenta histórica. 
Inqusitiones^ pág. 38. 

(2) Inquirições, cit. pág. 37 

(3) Ibidem, "pâ^. 117. 

(4) Ibidem, pág. 1 19. 

(5) Carvalho da Costa, Corografia, I, 236. 

(6) Nobiliário do Conde D. Pedro. — Portugaliae monumenta histórica. ScriptoreSy 
pág. 369. 



Sousas • 243 

Nas Inquirições, que vou citando, são frequentes os nomes de Origo, e 
os patronímicos de Origuiz, em pessoas herdadas no julgado da Nóbrega, e 
mesmo nas testemunhas chamadas pela alçada, que procedia à devassa. 
Nas Inquirições do ano de i258, onde também se repete a apontada fre- 
quência, já aparcem, aquele nome e patronímico, escritos com outra grafia: 
Onrico ou Onrigo, e Onríguiz. 

Nestas Inquirições de i258, quando o tribunal chegou à terra da Nóbrega, 
também lá encontrou herdados a D. Pedro Onríguiz e Fernando, Martim e 
Onrigo Onríguiz, que deveriam ser todos irmãos, e que estavam de posse 
da igreja de Santa Maria de Covas (1). Na freguesia de Santiago de Vila 
Chan toparam uma certa Marina da Várzea, proprietária de uma casa, onde 
Pedro Onríguiz poisava de cada vez que lá ia (2); e na paróquia de Santa 
Maria de Santa Azias encontraram um certo Pedro Zano, que se escusava 
de pagar foro a el Rei sob pretexto de ter criado a D. João de Aboim. (3). 

. Este D. João de Aboim era filho daquele D. Pedro Onríguiz e também 
aparece muita vez nomeado nestas Inquirições, com bens em S. Mamede de 
Vila Verde e Santa Maria de Santa Azias (4). Todavia advertirei, que ainda 
ao tempo destas Inquirições, 1268, não possuía D. João, apesar de já se cha- 
mar de Aboim, a casa de Santa Maria de Aboim, a qual só no ano de 1270 
alcançou, como logo direi, quando esboçar a vida dele. Aquela quinta de 
Aboim, solar destes, foi achada honrada nas Inquirições de D. Denis, mas 
pouco tempo permaneceu na família, pois que no reinado de D. Afonso V 
foi comprada por um Fernão Martins, criado do Arcebispo de Braga. O 
comprador, por não ser fidalgo, pediu a el Rei que lhe desse privilégio para 
poder usar das honras da quinta, o que lhe foi concedido (5). 

Por tudo isto vê-se, que D. Origo Origuiz, «aquele que tomara a terra 
aos Mouros» (6), não só lá fundou o castelo da Nóbrega, como lá assentou 
casa e viveu, e não só êle, mas também seus descendentes. É pois D. Origo 
Origuiz considerado, e com razão, o progenitor das antigas linhagens da Nó- 
brega e de Aboim, até às quais é impossível com fundamento seguro, e até 
por simples conjecturas prováveis, remontar as modernas famílias daqueles 
apelidos. Tenham paciência, se alguns teem essa presunção. 



(1) Inquirições de D. Afonso III do ano de i258. — Portugaliae monumenta histórica. 
Inguisitiones, pág. 410. 

(2) Ibidem, pág. 41 3. , • 

(3) Ibidem^ pág 414. 

(4) Ibidem, págs. 410, 414. 

(5) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fi. 270. 

(6) Nobiliário do Conde D. Pedro, cit., pág. Sóg, havendo manifesto anacronismo no 
dito. 



244 Brasões 

São as armas dos Aboins modernos: esquartelado: o I e IV enxequetado 
de oiro e azul de cinco peças em faxa e cinco em pala; o II e III de oiro, 
três palas de azul. Timbre: dois braços vestidos de azul, segurando entre 
si um taboleiro de xadrez de oiro e azul, de cinco casas em faxa e cinco em 
pala, e encaixilhado de oiro(i). De armas muito diversas usou porém o 
mordomo mor D. João de Aboim, como lá adiante veremos. 

As armas dos Nóbregas são: de oiro, quatro palas de vermelho. Tim- 
bre: Hão aleopardado de oiro carregado de uma pala de vermelho (2). 

A Manuel da Nóbrega foi passada, em 11 de Março de i6o5, uma carta 
de brasão com as armas dos Nóbregas, mas com um timbre muito diverso, 
pois se lhe deu por tal um açor volante de negro, armado e membrado de 
oiro (3). Admira isto por o agraciado ser neto do dr. Gaspar da Nóbrega, 
a quem se passou carta de brasão em iSSy com o timbre de leopardo (4). 
Entretanto o timbre do açor é apontado, como sendo o dos Nóbregas, em 
alguns livros de armaria (5). Vilasboas na Nobiliarchia, e Fr. Manuel no 
Thesouro, sobrepõem o açor ao escudo, o que não é aceitável. Lembra-me 
que o açor fosse dado como diferença por Manuel da Nóbrega ser filho se- 
gundo de um filho também segundo do dr. Gaspar da Nóbrega. 

Conhecidos o solar e as armas, passarei a escrever a genealogia da fa- 
míHa. 



D. OURIGO, O VELHO, DA NÓBREGA, é o primeiro da linhagem, 
despresando ascendências fundadas em conjecturas. O Livro Velho das li- 
nhagens nomeia-o, referindo-lhe o casamento e chamando-lhe D. Eurigo da 
Nhovregua (6). O Nobiliário do Conde D. Pedro chama-lhe dom Origo, o 
velho da Nhovrega (7). Preferi a grafia Ourigo por causa do Ouríguiz, pa- 
tronímico dado nos livros de linhagens a seus filhos. 

Viveu D. Ourigo da Nóbrega na primeira metade do século xiii, visto 
haver notícias de seu sogro em 1228 ser já senhor de casa e pessoa impor- 
tante, e em i258 falecido. Não pode pois D. Ourigo ter sido o Oorigo Ori- 
guiz, fundador do castelo da Nóbrega por ordem de D. Afonso Henriques, 



(i) Armaria portuguesa, apêndice ao Archivo histórico portuguez, pág. 2, 

(2) Ibidem, pág. 353. 

(3) José de Sousa Machado, Brasões inéditos, n." 371, e a descrição do brasão no No- 
biliário coordenado por Jorge Salter de Mendonça, ms, em meu poder, vol. xvii, fl. 92. 

(4) Armaria portugue^a^ cit.,pág. 353. 

(5) Livro da Torre do Tombo, fl. 20; Thesouro de Coelho, fl. 39. 

(6) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 169. 

(7) Supra, pág. 356. 



Sonsas 245 

cujo reinado terminou em 11 83; mas foi decerto seu descendente ou parente. 
Fidalgo era ele; o seu casamento o prova. Consta ter sido senhor da terra 
da Nóbrega, e padroeiro do mosteiro de S. Martinho de Crasto. Casou com 
D. Maria Lourenço, filha de D. Lourenço Fernandes da Cunha, 2.° senhor 
da honra da Tábua, senhor da Cunha Velha, padroeiro dos conventos de 
S. Simão da Junqueira, S. Salvador de Souto, Santo Estêvão de Vilela, e 
das igrejas de S. Miguel da Cunha e de Santa Maria da Tábua, e de sua 
mulher D. Sancha Lourenço de Maceira, filha de Lourenço Gomes de Ma- 
ceira, companheiro do genro no cerco e tomada de Sevilha, no ano de 
1248. 

De D. Ourigo da Nóbrega, o Velho, e de sua mulher D. Maria Lourenço, 
foram filhos os seguintes: 

1. D. PEDRO OURIGUES DA NÓBREGA. Segue. 

2. D. Garcia Ourigues, nomeado no Nobiliário do Conde D. Pedro, 

mais notícia dele não tenho. Conforme a mesma compilação foi 
seu filho Pedro Garcia da Nóbrega. Figura este como testemunha 
em uma carta de i de Novembro de 1296 (i), e, segundo Manuel 
de Sousa da Silva numas notas manuscritas que fez ao referido 
Nobiliário (2), foi avô doutro Pedro Garcia da Nhoverga (Nó- 
brega), a quem D. Fernando, em 20 de Agosto de 14 10 (1372), fez 
mercê da terra de Macinhata e préstimo de Alvelos, mediante a 
obrigação de o servir com duas lanças na guerra (3), e o Mestre 
de Avis, regedor do reino, lha tornou a dar, ou confirmou, em 19 
de Abril de i385 (4). Em Pedro Garcia perde-se a noticia deste 
ramo de Nóbregas. 

3. D. Maria Ourigues é nomeada pelo Nobiliário do Conde D. Pedro em 

várias partes, mas com muitas confusões (5). Dela posso entender 
que casou por duas vezes, sendo uma com Pedro Fernandes de 
Cambra, senhor do couto de Sabariz na terra da Nóbrega, actual 
concelho de Vila Verde; e a outra com Reimão Viegas de Porto- 
carreiro, o ousado raptor da rainha D. Mecia López de Haro. 

Também entendo, pelos encontrar nomeados todos a seguir 
nas Inquirições de 1268, como atraz referi, e pelos patronímicos, 



(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 246 v. 

(2) Citadas por D. Afonso Manuel de Meneses no título de Nóbrega do referido Nobi- 
liário coordenado por Jorge Salter, vol. xvii, fl. 96. 

(3) Chancelaria de D. Fernando, liv. i."», fl. ni. 

(4) Fr. Manuel dos Santos, Monarquia lusitana, VIII, 683. 

(5) No tit. 43. § 4.°, no tit. 5o. §§ i." e 2.», e no tit, 55. % \* 



246 ' Brasões 

terem sido irmãos de Pedro Ourigues da Nóbrega mais os se- 
guintes: 

4. Fernando Ourigues, 

5. Martim Ourigues, e 

6. Ourigo Ourigues. Dos dois últimos só tenho os nomes nas inquiri- 

ções, devendo ser por causa do filho Ourigo, que o pai teve a al- 
cunha do Velho; do Fernando tenho-o ali, e, ainda que com engano, 
também o tenho no Nobiliário do Conde D. Pedro (i). Diz este 
que D. Marinha Viegas (uma bisneta do famoso Egas Moniz) fora 
casada com Fernão Origis, filho de Pedro Origis Anóvrega. É 
engano evidente, e escreveram filho em vez de irmão. E tanto é 
engano, que duas páginas mais atraz o mesmo Nobiliário, no- 
meando os filhos daquele Pedro Ourigues, lá pÕe um Fernão 
(como adiante escreverei), mas com o devido patronímico de Pi- 
res. Quanto ao Fernando Ourigues direi, que foi herdado em terra 
da Nóbrega, e senhor da quinta de S. Julião na freguesia de Loi- 
reiro, concelho de Penaguião. Casou com a senhora acima no- 
meada, e dela teve filhos, e descendência, porem é impossível, sem 
provas autênticas, e essas não aparecem, acreditar-se no ramo de 
Aboins, que de Fernando Ourigues querem deduzir. 

II 

D. PEDRO OURIGUES DA NÓBREGA, filho de D. Ourigo, o Velho, 
foi senhor de Aboim em terra da Nóbrega, camareiro e senescal do infante 
D. Afonso, conde de Bolonha, a quem acompanhou a França, e com ele se 
achou, em 22 de Julho de 1242, na batalha de Saintes, onde D. Pedro ficou 
prisioneiro dos Ingleses, cuja hoste pelo seu senhor fora rompida (2). Res- 
gatado do cativeiro continuou no serviço do Conde de Bolonha, em quanto 
permaneceu em França, e na qualidade de seu camareiro foi uma das pes- 
soas, que em Paris, a 6 de Setembro de 1245, assistiram à ceremónia do 
solene juramento feito pelo Conde, de guardar as estipulações impostas pelo 
clero, logo que fosse investido no governo do reino (3). 

Para Portugal voltou D. Pedro Ourigues, provavelmente nos fins daquele 
mesmo ano, logo -depois do juramento, na comitiva do Conde, que já em 
princípios do ano seguinte de 1 246 estava obedecido e reconhecido como re- 



(i) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 32 1. 

(2) Herculano, Historia de Portugal, vol. II, pág. 385, mihi. 

(3) Ibidem, pág. 406. 



Sousas â47 

gente em Lisboa. Na côrte parece contudo não ter permanecido o fidalgo 
da Nóbrega, pois que não encontro o seu nome em documentos daquele 
tempo, e pelas Inquirições de i258 sei, que costumava então poisar em casa 
de Marina da Várzea todas as vezes, que ia à freguesia de Santiago de Vila 
Chan, em terra da Nóbrega (i). Viveria nas suas terras, em quanto seu 
filho D. João de Aboim acompanhava a côrte. 

Casou D. Pedro Ourigues da Nóbrega com D. Maria Viegas, irmã de 
sua cunhada Marinha Viegas e ambas bisnetas de Egas Moniz, o aio de 
D. Afonso Henriques (2). Custa um pouco a adçnitir que, tendo Egas Mo- 
niz morrido muito velho em 1146, uma bisneta sua pela linha de seu filho 
primogénito fosse casada de fresco pelos anos de 1220, isto é, mais de se- 
tenta anos depois da morte do velho bisavô, no entanto é isso bem mais 
possível do que ter Pedro Ourigues casado com D. Urraca Gil, filha de Gil 
Pires Feio e de sua mulher D. Inês Soares Coelha, terceira neta do referido 
Egas Moniz (3). Por este enlace se encontrar mencionado em autoridade 
mais segura já para ele me inclinei; considerações porem sobre o caso for- 
muladas (4), me levam agora a repeli-lo. Se D. João de Aboim, o filho pri- 
mogénito de Pedro Ourigues, fosse filho de D. Urraca Gil e neto de Inês 
Soares Coelha, vinha a ser sobrinho neto do trovador João Soares Coelho, 
irmão daquela senhora, fidalgo da casa do Conde de Bolonha e homem apro- 
ximadamente da sua idade, como aliás o era também D. João de Aboim. 

Do casamento de D. Pedro Ourigues nasceram: 

1. D. JOÃO PERES DE ABOIM. Segue. 

2. Estêvão Peres de Aboim é nomeado nos nobiliários antigos (5). Foi 

uma das testemunhas nas cartas de i5 e 18 de Outubro de 1299 
(1261), pelas quais a seu irmão D. João de Aboim coutou 
D. Afonso III a herdade de Portel e deu licença para nela edificar 
um castelo (6). Nos citados nobiliários antigos diz-se haver Estê- 
vão Peres casado com D. Eixemea Esteves, filha de Estêvão Soa- 
res de Alfange, «que nom foi lidimo», única notícia que dele nos 
dão. Um dos referidos nobiliários acrescenta, que Estêvão de 
Aboim casara pela segunda vez com D. Maria Anes, filha de João 



(i) Inquirições de D. Afonso Ilí, nos Portugaliae monumenía histórica. Inquisitiones, 
pág. 4i3. 

(2) Nobiliário do Conde D. Pedro, nos Portugaliae monumenta histórica. ScriptoreSy 
pág. 319. 

(3) Livro velho das linhagens, nos Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 161, 

(4) D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, Cancioneiro da Ajuda., II, pág. 355, nota i. 

(5) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, págs. 161 e Sig. 

(6) Livro dos bens de D, João de Portel, does. vm e x. 



248 Brasões 

Pires Brocardo e de D. Maria Dade, e deste segundo casamento 
tivera um filho, que, apesar de morrer criança, sobrevivera ao pai 
e deixara a mãe por sua iierdeira. Do primeiro casamento apon- 
tam-se dois filhos: Gonçalo Esteves, e Mor Esteves, mulher de 
Fernão Dade, filho do Alcaide de Santarém. Gonçalo Esteves de 
Aboim foi cavaleiro, e como tal. aparece testemunhando em uma 
escritura de i3 de Dezembro de i3i5, celebrada entre o Meirinho 
mor e o Mestre de Santiago (i). Casou Gonçalo com D. Alda 
Yasques, filha de Vasco Afonso, chamado Vasco Moiro, alcaide de 
Coimbra, e deste casamento nomeiam-se quatro filhos sem outra 
indicação alem dos nomes, senão a respeito do último, Fernão 
Gonçalves, que dizem fora prior de Povos. Uma filha mais teve 
Estêvão Peres de Aboim, omitida nos nobihários, mas recordada 
em um documento. Chamou-se D. Elvira e, sendo visinha de San- 
tarém, do quintal das Donas, e viúva de*D. André, recebeu e ado- 
ptou por filho, por carta de 1 1 de Janeiro da era de i3i3 (1275), 
a Pedro Eanes, «consobrinum et afilatum meum», filho de D. João 
de Aboim, mordomo de D. Afonso ÍII (2). 

3. F^ernão Pires Farinquel, de Braga, «que catou bem o agouro» (3), «o 

que na linguagem do tempo significa lér a sina, d maneira gallega 
pelo voo das aves» (4). Pode ser. 

4. Estevainha Peres casada com Gomes Ansur e depois com João Gon- 

çalves de Barvudo, de quem, entre outros filhos, teve a Estêvão 
Eanes, cavaleiro, o «sobrino de dom Oane» de Aboim nomeado 
em duas escrituras de 9 de Janeiro da era de 1327 (1289), ambas 
relativas à troca de Portel por Mafra (5). 

Ill 

D. JOÃO PERES DE ABOIM, ou D. JOÃO DE ABOIM, dambas 
as maneiras nomeado nos documentos contemporâneos, foi fidalgo muito 
importante do seu tempo, e pela influência exercida sobre o ânimo de 
D. Afonso III, cujo valimento se repartia entre o chanceler Estêvão Eanes 



(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, VI, 227. 

(2) Livro de D. João de Portel, doe. ccvi. 

(3) Portugaliae 7nonwnenía histórica. Scriptores, págs. 161 e 3 19. 

(4) D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, Cancioneiro da Ajuda, II, 355. 

(5) D. João de Aboini^ no Archivo histórico portuguez, vol, iv, págs. ijS e 174, does* 
III e !▼. 



Sonsas 249 

e D. João de Aboim, teve este preponderância decisiva no governo do reino. 
Aproveitou-se dela para engrandecer sua casa, chegando a tal o número de 
doações recebidas de diferentes naturezas e proveniências que delas se fez 
um cartulário especial, o Liuro do Registo das cartas dos beês e erãcas que 
dÔ loam de portei teue nestes reinos, ]á lá acima mencionado. Este D. João 
de Portel é o próprio D. João de Aboim (1). 

Pelo livro vê-se bem a ambição do valido de D. Afonso III; tudo lhe con- 
vinha, contanto que aumentasse as suas riquezas. Encontram-se ali cartas 
de doações, privilégios, diligências, compras, vendas, adopções para heran- 
ças, quitações e outros contratos; uns dei Rei, outros de várias Ordens mili- 
tares e monacais', de vários Concelhos de cidades e vilas, que o recebiam 
com sua mulher e filhos por seus visinhos, dando-lhes herdades, e finalmente 
de particulares, que lhe vendiam,, ou davam, ou deixavam seus bens, adò- 
ptando-o por filho, a êle, ou a seu filho mais velho, para herdarem a metade, 
ou a terça parte, de suas legítimas, mesmo havendo filhos. Começam os 
registos na era de César de 1287, ano de Cristo de 1249, e terminam em 

l3-22, 1284 (2). 

Por aqui se pode ver qual não foi a cobiça de D. João de Aboim, que 
chegou a usar algumas vezes de pressão para alcançar bens apetecidos. 
Repare-se nas palavras da licença régia obtida pelo valido, em iv das cal. 
de Julho da era de 1295 (28.de Junho de 1257), para o Conselho de Évora 
lhe conceder herdade no seu termo. Diz a carta: «quod recipiatis eum (se. 
Joannem Petri de Avoyno) in vicinum vestrum et heredetis ipsum, et quan- 
tum sibi majiis et nielius heredamentum et in meliori loco dederitis, tantum 
rohis magis graciscar et remunerabo (3). Aqui está o Rei impondo-se ao 
Concelho de Évora, obrigando-o a bem dotar o seu «clientulus et vassal- 
lus». 

Alem da cobiça, ainda o nosso grande Historiador, atentando no espan- 
toso número de compras revelado no Livro do registo feitas por D. João de 
Aboim, o acusa com razão de aproveitamento dos dinheiros públicos, pois 
que para pagar aquelas não chegariam decerto os rendimentos do seu pe- 



(i) Veja-se. acerca deste rico homem o meu artigo intitulado D. João de Aboim, publi- 
cado em 1906 no vol. IV, do Archivo histórico portuguez e anteposto em 19 10, como No- 
ticia histórica^ à reprodução do Livro dos bens de D. JoÃo de Portel. Ampliei então bas- 
tante esta biografia. 

(2) Livro de D. João de Portel, does. xxvin e cxcviii. — Declara José Anastácio de Fi- 
gueiredo na Nova historia da ordem de Malta, vol. II, pág. 27, nota 8, que as cartas come- 
çam no ano de i25o, não tendo reparado para a fl. 29 do Livro do registo onde se encontra 
uma doação de 1249. * 

(3) Livro de D. João de Portel, doe. i. 

VOL. I 32 



25o Brasões 

queno solar em terras da Nóbrega (i). Até de rapina o acusa, fundando-se 
numa sentença de 1284, 4*^^ mandou restituir ao Concelho da Sortelha certos 
herdamentos, que lhe haviam sido tomados (2). Não duvido de que D. João 
de Aboim rapinhasse seu bocado; ^quem, omnipotente, o não faria naqueles 
tempos? mas, neste caso da Sortelha, não foi ele o rapinante. 

Perdoa-me, grande mestre, cujo retrato d'aqui estou vendo, mas equi- 
vocas-te-te. O teu equívoco nada influi na substância da narrativa, que 
ias fazendo, só tem o defeito de antecipar a data da morte do Mordomo 
mor de D. Afonso III, facto de mínima importância para a história de Por- 
tugal, mas de grande interesse agora para mim, e só por isto reparei no en- 
gano. 

O caso prestava-se a equívocos como o leitor vai ver, e era de somenos 
valia, por isso Herculano não o analizou; aproveitou o que à primeira vista 
lhe pareceu vir para o caso, e andou para diante. 

Pela sentença foram mandados restituir à vila da Sortelha certos bens 
por ela dados a D. João, pai de D. Pedro Eanes, a quem o julgador condena 
os restitua ao Concelho. iOra, encontrando-se um D. Pedro Eanes obrigado 
a restituir bens usurpados por seu pai, um D. João, quem não suporia achar-se 
em frente de D. Pedro Eanes de Portel e de seu pai D. João de Aboim, o 
grande abarcador de» doações e heranças? Ninguém. Mas a sentença diz, 
até logo no título, «porque se julgou que os herdamentos que D. Pedro 
Eannes e sua mulher D. Orraca Afonso», etc, D. Pedro Eanes de Portel 
era porem já casado em 1271 com D. Constança Mendes, que só morreu 
em 1298, como adiante mostrarei; não podia portanto ser ele, em 1284, o 
marido de D. Urraca Afonso. E não era com efeito, porque o marido desta, 
que era filha bastarda de D. Afonso líl, foi D. Pedro Eanes Gago íilho de 
D. João Martins Chora. Olhe o leitor, que este Gago e este Chora eram 
ricos homens, e o primeiro foi governador de Trás os Montes; não eram uns 
choraraigas, ou tatibitates quaisquer. 

^Era, ou não, fácil a confusão? Era, ninguém afirmará o contrário. 
Fique pois o Mordomo de D. Afonso III com outras rapinâncias, se as pra- 
ticou, mas a da Sortelha temos de lha tirar do saco, bem cheio já doutros 
pecados. 

Estivera João Peres de Aboim com seu pai em França, servindo ao Conde 
de Bolonha, e lá ganhara, pela frequência de um meio muito superior em 
ilustração ao da pátria, urri verniz de civilização b uma cultura literária que 



(i) Herculano, Historia de Portugal, III, 11:. 

(2) Ibidem, pág. 116, texto e Nota I, onde se cita a sentença que está na Tôrre do Tombo 
na Gaveta xi, maç. 7, n.° 27. 



Sonsas . 25 1 

o elevaram muito acima dos mais cortesãos seus contemporâneos. Foi tro- 
vador e ainda hoje existem dezasseis das trinta e três poesias suas de que 
há conhecimento (i). Para Lisboa, nos fins do ano de 1243, princípios de 
1246 vohou com D. Afonso a quem, tanto lá em França, como depois cá no 
reino, serviu sempre com dedicação, ainda que sem desinteresse. 

Aclamado o Conde, e já obedecido em todo o reino como seu rei, partiu 
D. Afonso III para a conquista do Algarve, para onde D. João de Aboim o 
acompanhou, e onde dele recebeu, por carta datada de Faro em Março de 
1287 (1249), a mercê de umas casas em Santarém (2). Parece ter ficado 
guerreando por lá, pois que, quando el Rei,, no fim do inverno do ano se- 
guinte, voltou ao Algarve, aparece João Peres de Aboim assinando, como 
testemunha em duas cartas datadas de Faro, uma do mês de Fevereiro, de 
doação de Porches ao chanceler Estêvão Eanes, a outra de i de Março, de 
entrega do castelo de Albufeira à Ordem de Avis (3). 

E muito possível, apesar do silêncio dos documentos, que João Peres de 
Aboim já tivesse acompanhado Afonso III à conquista do Algarve, ocupando 
o posto de alferes menor, pelo menos na primeira destas cartas acima apon- 
tadas, na de Fevereiro de i25o, aparece êle investido no cargo: subsignifer 
lê-se no diploma. Pela segunda consta ser já então do conselho dei Rei. 
Com o referido posto de alferes menor encontra-se João Peres em vários 
documentos até 16 de Junho de i255, aparecendo, já em Outubro do ano se- 
guinte, provido no cargo seu sucessor João Durães {4). Já a esse tempo, 
apesar de ainda se não encontrar confirmando diplomas na qualidade de rico 
homem, vai aparecendo João Peres com o título de dom, desde Outubro de 
1260 em diante (5), em vários documentos, não régios, advirta-se, e com al- 
ternativas. Em carta régia porém de Outubro da era de 1291 (i253) foi 
confirmada a dom João Pérez de Aboim a doação que o Concelho de San- 
tarém lhe fizera da lezíria de Alcoelha (6). Volta a aparecer noutra carta, de 5 
de Março de 1292 (1254), de doação a João Soares Coelho (7), o trovador 



(i) D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, Cancioneiro da Ajuda, II, 359-36o. 

(2) Livro de D. João de Portel, doe. xxviii. — Esta carta, descoberta por HercuJano, ser- 
viu-lhe para precisar a data da conquista de Faro. 

(3) Chancelaria de D. Afonso III^ liv. i.°, fls. 106 v. e 43 v. 

(4) Portugaliae monumenta histórica. Leges^ págs. 652 e 667. 

(5) Livro de D. João de Portel^ doe. li. 

(6) Ibidem, doe. xxvi 

(7) «Johannes Suerii, miles, dictus Coelyus, pro servicio quod nobis fecistis fideliter et 
devote», carta de doação de juro e herdade dos direitos riais da vila «deSauto de Ripa Ho- 
minis» (Souto da Ribeira de Homem) «III nonas Martii apud Leyrenã», era 1292 (Leiria, 5 
de Março de 1254). — Chancelaria de D. Afonso 111, liv. i.', fl, 4, — Confirmada em carta com 



252 Brasões 

seu primo, mas só de 24 de Maio de 12 56 (i) em diante se torna permanente. 
Encontro-o pela primeira vez, confirmando como rico homem, na carta de 
Setembro de 1269 de couto a Alvito, na qual aparece tenens Pojitem Lituie (2). 
Em Setembro de 1264 era mordomo da cúria régia e d'então até ao fim da 
vida gozou sempre da dignidade de rico homem. Tornemos porem um 
pouco atrás. 

Efectuado em Maio de i253 o casamento de D. Afonso III com D. Bea- 
triz de Gusmão, foi D. João de Aboim nomeado mordomo mor da pequenina 
Rainha, dignidade que Já exercia em 22 de Janeiro de 1264 (3). Neste posto 
continuou sempre servindo a D. Beatriz, de quem foi muito estimado, e seu 
confidente e conselheiro durante o curto período de sua regência, em Feve- 
reiro e Março de 1279(4). Depois, naqueles angustiosos tempos da revolta 
do infante D. Sancho contra seu pai Afonso X, acompanhou D. João de Aboim 
a Rainha a Sevilha, quando, em 1282, foi levar socorro a seu pai. Junto 
dela permaneceu por algum tempo e é nomeado no documento de 8 de No- 
vembro, pelo qual el Rei de Castela deserda o revoltado filho (5). Mas, 
voltando a Rainha para Portugal só em fins de i285, já a esse tempo havia 
muito, que D. João de Aboim estava no reino, pois que a 3i de Março de 
1283 comprara uma casa em Santarém (6) e a 17 de Julho confirmara em 
Lisboa o foral de Cacela (7). 

Fica dito o que pude apurar das relações de D. João de Aboim com a 
rainha D. Beatriz, as quais foram muito cordiais e a elas posso atribuir, pelo 
menos em parte, a importante doação de bens em Çamora que de juro e 
herdade, com certas ressalvas, por carta de 14 de Novembro de 1267, fez 
el Rei de Castela ao Mordomo mor de sua filha (8). Agora esboçarei as que 
êle manteve com seu amo e senhor el rei D. Afonso III. 

Serviu-o em França, acompanhou-o para Portugal, e já era seu conselheiro 
em 1258, quando, com outros do conselho, formou a comissão que elaborou 



selo de chumbo, por o da outra ser de cera, em Santarém, a II das calendas de Janeiro da 
era de i3o3 (22 de Dezembro de i265). — Chancelaria de D Afonso III, liv. i.°, fl. 81. 
(i) Ibidem, fl. 16. 

(2) Ibidem, fl. 61 V. 

(3) Fr. António Brandão, Monarchia lusitana^ part. IV, escritura xxxi. 

(4) Frederico Francisco de la Figanière, Memorias das Rainhas, pág. 122. — No mesmo 
livro, nas págs. 248 e 249, encontram-se dois documentos de 1259 e 1274, nos quais D.João 
de Aboim figura como mordomo da Rainha. 

(5) Figanière, Memorias das Rainhas, cit., pág. 120. 

(6) Livro de D. João de Portel, doe. cxcix 

(7) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, part. V, fl. 87. 

(8) Livro de D. João de Portel, doe. xxxii. 



Sonsas 253 

o Regimento da Casa Rial de 1 1 de Abril da era de 1296 (i258) ordenado 
por D. Afonso (i). No ano antecedente, como atrás disse, ainda el Rei o in- 
titulava apenas clientulus et i>assallus, mas já lhe era muito afeiçoado, como 
prova a referida insinuação ao Concelho de Évora para o bem dotar. 

E mais se prova ainda essa amizade e os bons serviços por D. João pres- 
tados a el Rei, com as palavras da carta de 18 de Outubro de 1299 (1261) 
de 'licença para a fundação do castelo de Portel. Diz o instrumento: «Et 
hanc gratiam facio vobis pro creancia quam vobis feci, et pro multo servicio 
quod mihi fecistis bene et fideliter longo tempore in Francia et in Spania et 
in regno Portugalie et in aliis locis, ubi mihi necesse fuit» (2). 

Poucos anos depois já D. João de Aboim aparece exercendo o grande 
cargo de mordomo mor, o maior da cúria régia. Nesta qualidade, «Maior- 
domus Curie», confirma em Santarém uma carta de 3o de Setembro de 
1264(3), e como «meu moordomo» é mencionado na lei de 1 5 de Novembro 
do mesmo ano (4). 

Esta alta dignidade, que lhe deu muita ingerência nos negócios públicos, 
exerceu D. João de Aboim até à morte de D. Afonso III, a cujos últimos 
momentos assistiu e como testemunha figura no instrumento, de 17 de Janeiro 
de 1279, destinado a perpetuar a reconciliação in extremis dei Rei com o 
clero (5). Morreu Afonso lII em í6 do mês seguinte e, aberto o seu testa- 
mento, nele se encontrou D. João de Aboim nomeado primeiro testamenteiro 
em seguida à rainha D. Beatriz (6). Então, como já disse, serviu de conse- 
lheiro á Rainha durante os poucos dias da sua regência; e naquela qualidade 
confirmou, em 18 de Março de 1279, a carta dos privilégios do mosteiro 
do Bouro (7). Tomando porem D. Denis em suas mãos o governo, deixou 
D. João de Aboim de exercer o cargo de mordomo mor e já com êie encon- 
tro, em 3 de Abril do mesmo ano, a D. Nuno Martins, na carta de certo 
contrato com os Judeus de Bragança (8), e na de u de Janeiro de 1280, de 



(i) Portugaliae monumenta histórica. LegeSy pág. 198. 

(2) Livro de D. João de Portel^ doe. x. 

(3) Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1.», fl. 72 v. — Em 8 de Maio de 12Õ4 ainda D. Gil 
Martins, intitulando-se Maiordomus, confirma uma carta, na qual D. João de Aboim apenas 
figura como testemunha {Ibidem, fl. 72) ; não admite pois dúvida nenhuma que tem a data 
errada uma cana, de 22 de Fevereiro daquele ano, impressa por Gabriel Pereira nos Docu- 
vientos de Évora, I, i5, na qual D. João de Aboim é intitulado mordomo. 

(4) Portugaliae monumenta histórica. Leges, pág. 21 3. 

(5) Fr. António Brandão, Monarchia lusitana, IV, fl. 255. 

(6) Ibidem, escritura última, fl. 284 v. 

(7) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 5i v. 

(8) J. P. Ribeiro, Dissertações^ vol, III, p. 2.; pág. 89 mihi. 



254 Brasões 

doação da quinta de Majapão à infanta D. Branca (i). Esta última carta 
também é confirmada por D. João de Aboim, na qualidade porem de rico 
homem e governador do Alentejo, «lenens Ultra Tagum», d'onde se vê que, 
com a dignidade de mordomo mor, não perdeu a graça do novo soberano. 

Foi pois quási de quinze anos a duração do exercício de mordorno mor, 
que teve D. João de Aboim, e poucos ministros se gabarão de tam longo go- 
verno. 

Durante ele alcançara de D. Afonso III, em 3 de Fevereiro de 127Õ, uma 
carta de quitação, geral e ampla, de todos os contratos directa ou indirecta- 
mente havidos entre el Rei e o seu Mordomo (2). Foi uma segurança por 
ele tomada para os próximos tempos, em que a coroa mudaria de cabeça, 
e parece ter sido profícua. se não escusada, porque,. se D. Denis o substituiu 
na mordomia, continuou contudo D. João acompanhando a corte e conser- 
vando o governo do Alentejo. Com este governo, «tenens Elboram», ou 
«tenens terram de Ultra Tagum», encontra-se em vários documentos desde 
Fevereiro de 1270 até Julho de 1284(3). 

Depois da ocupação do Algarve levantaram-se as conhecidas dúvidas com 
a Coroa de Castela, que pretendia ser aquela conquista dentro de seus limi- 
tes e portanto sua própria. Terminaram essas contendas por ser cedido o 
reino do Algarve a D. Afonso III mediante certas condições, e de tudo se 
lavrou um instrumento em Sevilha a 20 de Setembro de 1264; ^ ^^ mesma 
cidade, para se dar fim a outras questões sobre estremas em vários pontos 
do reino, havia-se já lavrado, a 5 do precedente mês de Junho, uma escritura 
pela qual se nomearam dambas as partes certos prelados e fidalgos encarre- 
gados de proceder às competentes demarcações. Entre os últimos encon- 
tra-se D. João de Aboim (4). 

Em virtude do instrumento atrás referido, pelo qual terminaram as con- 
tendas sobre o reino do Algarve, ficaram por governadores de seus castelos 
D. João de Aboim e seu filho D. Pedro Eanes de Portel e obrigados, em 
virtude de uma das cláusulas do tratado, a guardarem homenagem a el Rei 
de Castela pelas fortalezas da província. Esta homenagem foi-lhes levan- 
tada por uma carta de Afonso X, de 16 de Fevereiro de 1267, na qual lhes 
manda entregar todas as praças do Algarve a Afonso III, ou a quem este 
ordenar (5). 



( ! ) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, escritura oitava, fl. 3o8 v. 

(2) Livro de D. João de Pqrtel^ doe. ccxxi. ' 

(3) D. João de Aboim, no Archivo histórico portuguez, vol. IV, pág. 1 18, nota 6, 

(4) Fr. António Brandão, Monarchia lusitana, IV, fl. 222 v. 

(5) Livro de D. João de Portel, doe. xxxi. 



Sonsas 255 

Catorze anos mais tarde, já depois da morte do Bolonhês, começaram 
as desinquietaçÕes do infante D. Afonso, irmão de D. Denis. Foi este ata. 
cá-lo a Vide, onde aquele se fortificara e d'onde fugiu para Sevilha. Aí, 
melhor aconselhado, submeteu-se e passou uma procuração, em 8 de Ou- 
tpbro de 1281, para fazer composição com el Rei. Ratificada esta em Es- 
tremoz, a 1 1 de Fevereiro de 1282, um dos seus confirmantes foi D. João de 
Aboim (i). 

Depois disto não encontro o nome do antigo Mordomo mor em mais ne- 
nhum negócio de importância, e só confirmando algumas cartas régias Já ci- 
tadas, e adquirindo prédios, sendo o último comprado, por escritura de 3i 
de Março da era de 1822 (1284), uma casa em Montemor o Novo (2). Fi- 
nalmente, veio a morte, que o surpreendeu, depois de 24 de Julho daquele 
ano e antes de 19 de Setembro do seguinte, talvez a i5 de Março de 
1285(3). . ^ 

Deveria ter D. João de Aboim bons setenta anos, quando morreu. Ele 
foi para França com o infante D. Afonso e, se não se sabe a data exacta da 
partida, sabe-se contudo que o casamento com a Condessa de Bolonha se 
realizou em 1238(4). Fosse D. João homem de vinte e cinco anos a esse 
tempo, que já em i283 completara os setenta. 

Agora resta-me tratar muito sumariamente das fundações e doações de 
D. João de Aboim (5). 

Alcançada em 28 de Junho de 1267, como disse, a licença régia para o 
Concelho de Évora o receber e a sua mulher D. Marinha Afonso, como vi- 
zinhos, e os dotarem, tratou-se de tornar^ efectiva a autorização. Assim se 
fez por uma carta de Novembro de i258, na qual aquele Concelho lhes dá 
herdade no termo da cidade a partir com o de Beja por muitos termos e di- 
visões, que bem mostram a importância da doação (6). 

A isto seguiram-se nos anos imediatos infinitas cartas de aquisição, dentro 
dos mesmos limites, de bens, os quais D. Afonso III mandou demarcar por 
cartas' de 27 e 28 de Outubro de 1239, e por fim coutar por outra de 16 do 
mesmo mês de 1261, concedendo juntamente por ela todo o régio direito, 
tanto o temporal, como o espiritual (7). 



(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fi. 62. 

(2) Livro de D. João de Portel^ doe. cxcvm. 

(3) D. João de Aboim, cit., pág. 121. 

(4) Figanière, Memorias das Rainhas, pág. io5. 

(5) No estudo intitulado D. João de Aboim, encontra-se muito mais desenvolvida, tanto 
a biografia, como a história das fundações e doações daquele rico homem. 

(6) Livro de D. João de Portel, doe. 11. 

(7) Ibidem, does. vi, iv e vut. 



•256 Brasões 

Foi nesta vasta extensão de território que D. João de Aboim, no sítio 
onde já existiria um núcleo de povoação, fundou o castelo e vila de Portel, 
tendo previamente para isso impetrado licença dei Rei, que lha concedeu 
por carta de i8 do mesmo mês (i). E tudo ia tam apressadamente, que já 
em I de Dezembro de 1262 dava D. João de Aboim, com sua mulhar D. Ma- 
rinha Afonso e seu filho Pedro Eanes, o foral à dita vila (2). 

Por estes mesmos tempos também povoou e aumentou muito o lugar da 
Fonte de Mosárabe, no termo de Fulvas, lugar a que pôs o seu nome e se 
ficou chamando Vila de Aboim, e hoje Vila Boim. E tanto isto é certo, que 
em i3 de Janeiro o Bispo e Cabido de Évora davam ao Mordomo mor da 
Rainha o padroado da igreja «de Villa voym in termino de Elvis que antea 
fons de Mozarave vocabatur» (3). Haviam-lhe estes territórios sido doados 
pelo Concelho de Elvas em data ignorada, mas provavelmente posterior à 
definitiva conquista do Algarve, em i25o, e seis anos depois, por instrumento 
do mês de Fevereiro, o mesmo Concelho ampliou a precedente doação com 
mais terreno junto ao primeiro, tudo situado no termo da vila, no lugar cha- 
mado Moçarava (4). Finalmente, em 1264 o referido Concelho, por instru- 
mento do mês de Janeiro, confirmou todas as precedentes doações e demar- 
cou a herdade de Moçarava (5). 

Estendidos, ampliados e começados a povoar os vastos domínios alente- 
janos do valido de D. Afonso III mandou este às justiças do concelho de 
Monsaraz, que fizessem a demarcação do seu termo com o da nova vila de 
Portel. Assim se executou em 18 de Janeiro de i265 e, logo a 7 do mês 
seguinte, apresentou o Mordomo a carta a el Rei, que naquela data a con- 
firmou (6). Nesta confirmação tornou D. Afonso III a patentear a sua ami- 
zade pelo seu ministro, a quem chama «meo Maiordomo et meo crientulo et 
fideli vassallo.» 

Para se avaliar bem a extensão destes domínios mencionarei as igrejas, 
que, pela concórdia feita com o Bispo de Évora em Janeiro de 1262, cons- 
tava andar então D. João de Aboim a edificar. Eram elas as de S. João, 



(i) Livro de D. João de Portel, doe. x. 

(2) Ibidem, doe. cclix; Portugaliae monumenta histórica, Leges^ pág. 703. — Advertirei 
que nos Portugaliae monumenta escapou um pequeno erro de leitura ou de impressão, o 
qual todavia reveste eerta importâneia e carece de ser emendado. No documento lê- se 
«... dom Johan perez davoym e mha molher donna Maria affonso . , . »; nos Portugaliae 
monumenta saiu impresso Maria em vez de Maria (— Marina, Marinha). 

(3) Livro de D. João de Portel, doe. ui. 

(4) Ibidem^ doe. cxliii. 

(5) Ibidem, doe. xxtn. 

(b) Ibidem, does. xv e xvi. 



Sousas 257 

Santa Maria e S. Vicente de Portel, a de S. Pedro do Marmelal, a de San- 
tiago da Corte de Anojo, a de S. Loureço de Alqueva e a de S. João de 
Portel Mafomede (S. João de Vila Boim), de todas as quais êle e sua mulher 
Marinha Afonso eram os padroeiros (i). 

Dentro do seu senhorio fundou D. João de Aboim o mosteiro da Vera 
Cruz do Marmelal por êle doado aos Hospitalários, e da edificação encarre- 
gou D. Fr. Afonso Peres Farinha, famoso prior daquela Ordem. Duraram 
as obras dez anos, ficando concluídas em 1278 (2). 

Foram notáveis e extremamente cordiais as relações de D. João com a 
Ordem do Hospital, e provieram sobretudo da amizade que em toda a vida 
uniu o Mordomo mor ao Prior dos Hospitalários. Além das doações já 
indicadas fez-lhes D. João mercê, por carta de 2 de Abril de 1271, da 
igreja de Santa Maria de Portel e de todas as mais, que na vila e seu 
termo viessem a ser fundadas, isto acompanhado da doação de vários outros 
bens (3). 

Mas D." João de Aboim não dava só, isso seria contrário ao seu génio, e 
consta que da Ordem também recebeu doações. Em 1 de Maio de 1261 
dela adquiriu a quinta de Vila Verde, em terra da Nóbrega, por troca de 
certos bens em Ponte de Lima e Valença; e em 20 de Julho de 1270 trocou 
com o Hospital a sua casa, couto e herdade de Frossos e mais bens em Riba 
Vouga, pela casa de Santa Maria de Aboim em termo da Nóbrega, com todos 
seus casais e bens, tanto os eclesiásticos como os temporais, com a isenção 
do pagamento dos tributos riais. A isto chamavam o couto de Aboim; foi 
porém a doação feita só em vida dele e da mulher (4). Vê-se pois que, se 
o fundador de Portel acrescentava a sua casa do Al-entejo, não se esquecia 
contudo do seu antigo solar do Minho, que por sua morte deixou muito au- 
mentado. 

Estou chegando ao fim. Por carta de 14 de Agosto de 1276 fez D. João 
de Aboim, juntamente com sua mulher, doação da herdade da Fonte Furada, 
termo áe Évora, ao Bispo e Cabido da mesma Sé, em «remédio de seus pe- 
cados» (5). Ele que o dizia, lá o sabia. 

Depois morreu, d'ali a anos, como já disse, e foi sepultado na igreja do 
mosteiro da Vera Cruz do Marmelal da Ordem do Hospital, fundação sua, 
e hoje lá se vê por baixo do presbitério, virada para o corpo da igreja e co- 



(i) J. A. de Figueiredo, Nova Malta^ II, 195, 

(2) D. João de Aboim, cit., pág, i58, 

(3) Livro de D. João de Portel, doe. xxii; D. João de Aboim, cit., pág. i5i. 

(4) Livro de D. João de Portel^ does. xlvji e l. 

(5) Ibidem, doe. lxxxviii. 

voL. I 33 



2 58 Brasões 

locada da parte do evangelho, uma lápida, que certamente não é a primitiva, 
na qual li este epitáfio no dia 25 de Março de 1901: 



AQVI • lAZ • DOM • lOAM ( X\ /n\ /\ I DABOIM • SNOR • QVE FOI 



DE PORTEL • QVE FVM /olflV^LVVftV) ^OV • ESTA • IGREIA • DA 




8—9/ 
VERA + E ADOTOV • A "^"AMA V RELIGIÀO • DE SÀO • lOAM 



A inscrição é relativamente moderna, como já notei, e não sei se nos 
dizeres será cópia exacta da antiga; o escudo de armas porem, pela compa- 
ração dele com o selo de D. João (i), afigura-se-me estar reproduzido com 
bastante cuidado. 

Por sua morte levantaram-se contendas, entre sua viúva e seus dois filhos, 
sobre a partilha de seus bens, e só terminaram por instrumento de composi- 
ção lavrado em Leiria, a i5 de Junho de i325 (1287). Por ele ficaram per- 
tencendo: ao filho Pedro todos os bens de Santarém, Sintra, Lisboa, etc, e 
todos os de Çamora e outros de Castela, com obrigação do pagamento das 
dividas e legados; à filha Maria, o castelo e senhorio de Portel, Vila Boim 
e os herdamentos de Évora, Monforte e Leiria, livres de encargos; à viúva 
finalmente ficou a sua meação em todos os bens dos dois quinhões (2). 

Havia casado D. João de Aboim pelos anos de 1246, logo depois do re- 
gresso de França, com*D. Marinha Afonso, filha de Afonso Pires de Arganil, 
o que, por mandado do infante D. Pedro, trouxe as cabeças dos mártires de 
Marrocos para Santa Cruz de Coimbra, e de sua mulher D. Velasquida de 
Çamora, senhora castelhana muito rica naquele reino, nos bens da qual veio 
a suceder seu neto D. Pedro Eanes de Portel. 

Depois de viúva fez D. Marinha Afonso doação (não se lhe aponta a data) 
do casal do Oiteiro, na freguesia de Santa Maria de Aboim à Ordem do 
Hospital, e em 11 de Agosto de 1288 de umas casas em Santarém ao con- 
vento de Alcobaça (3). Depois, em 26 de Maio de 1291, doou a sua filha 
Maria Anes e a seu marido João Fernandes [Batissela] toda sua meação no 
quinhão que à filha ficara dos bens paternos (4). 



(i) Reproduzido no V vol. do Archivo histórico portiigue^, em frente da pág. 65. 

(2) D. João de Aboim, cit., doe. 11, pág. 171. . 

(3) J. A. de Figueiredo, Nova Malta, II, 226. 

(4) D. João de Aboim, cit., doe v, pág. lyS. 



Sousas 259 

Morreu D. Marinha Afonso depois de Maio de i3o6, e foi a enterrar Junto 
de seu marido, D. João de Aboim (i). Deixaram dois filhos: 

1. D. PEDRO EANES DE PORTEL. Seguirá. 

2. D. Maria Anes, posteriormente D. Maria de Aboim, casou a primeira 

vez com D. Martim Afonso Telo, de quem foi segunda mulher. 
Era ele irmão mais novo de D. João Afonso, alferes mor e senhor 
de Alburquerque, e permaneceu por muitos anos em Portugal, onde 
se encontra confirmando como rico homem vários diplomas desde 
1257 até 1278, ora com o governo da terra de Santa Maria, ora 
com os de Bragança, Chaves ou Montelongo. Já D. Maria era 
viúva em Junho de 1287 e ano e meio depois estava outra vez ca- 
sada com D. João Fernandes Batissela, ou de Limia, que dambas 
as maneiras aparece nomeado nos documentos. Foi rico homem 
de Portugal e encontra-se confirmando muitas cartas nos anos de 
1289 a 1299, Ainda vivia a 3 de Abril de iSio, era porém já fa- 
lecido a 20 de Setembro de iSiõ. D. Maria de Aboim foi, em 
virtude da citada escritura de composição celebrada em Leiria, 
no ano de 1287, senhora de Portel. Juntamente 'com seu segundo 
marido trocou, em i3oi, com el rei D. Denis aquele senhorio pelas 
vilas de Évora Monte e Mafra e terra de Aguiar de Neiva, as 
quais recebeu de juro e herdade. Fez D. Maria de Aboim o seu 
testamento em Lisboa, a 3o de Julho da era de \2>-]b (i337), e nele 
deixou fundado, nesta cidade, na freguesia de Santa Justa, onde 
depois foi a rua da Porta de Santo Antão, um hospital posterior- 
mente designado por Hospital de D. Maria de Aboim. A 8 de 
Setembro do mesmo ano já tinha falecido, sem deixar descendên- 
cia (2). 

Em um instrumento de viii dos idos de Dezembro da era de 
iSio (6 de Dezembro de 1272) encontro um «Martinus Johanis, 
nepos donni Johanis de Avoyno» apresentado na igreja- de Penas- 
roias da diocese de Braga (3). A palavra nepos está aqui no sen- 
tido de sobrinho e não de neto, e este Martim Eanes foi certamente 
o filho de João Gonçalves de Barvudo, cunhado de D. João de 
Aboim, filho mencionado no Nobiliário do Conde D. Pedro, onde 
se declara haver ele sido cónego de Lisboa. 



(i) D. João de Aboim, pág. i23. 

(2) Ibidem, págs. 126 a 128. 

(3) João Pedro Ribeiro, Dissertações, vol. III, p. 2.», pág. 80, n,» xxvii. 



26o 



Brasões 



IV , 

D. PEDRO EANES DE PORTEL, único filho varão de D. João de 
Aboim nomeado nos documentos, foi rico homem e participou da fortuna de 
seu pai, conservando-se porem relativamente bastante na sombra. 

Com seus parentes outorgou o foral de Portel em i de Dezembro de 1262, 
devendo ter já catorze anos complefbs de idade. Com seu pai teve os cas- 
telos do Algarve por el Rei de Castela, e na qualidade de rico homem, «tenens 
Algarbiumí confirma uma carta régia em Maio de 1266 (i) e o foral de Silves, 
em Agosto de 1 266 (2). No princípio do ano seguinte foi-lhe levantada por 
D. Afonso X a menagem dos castelos do Algarve; em Maio porem ainda se 
mantinha no governo daquele reino (3); mas em Abril do ano seguinte, 1268, 
já estava investido no de Leiria (4). 

Com os governos de Sintra e Leiria encontro-o confirmando o foral de 
Pena da Rainha, em 4 de Julho de 1268, o dos Moiros forros de Silves, 
Tavira, Loulé e Faro, em 12 do mesmo mês do ano seguinte (5), e ainda 
outra carta de Janeiro de 1271 (6). Só com o governo de Leiria confirma 
nesse mesmo ano a doação de Pedrógão (7) e ainda outra carta a 1 1 de Ou- 
tubro (8). Conservou este governo durante alguns anos e com êle o encontro 
ainda, em 20 de Março de 1282, confirmando o foral de Oriola(9); mas de 
23 de Abril em diante já tinha o governo de Trás os Montes (10). , Não sei 
se também durante todo este período teria tido o governo de Sintra, mas 
pelo menos com êle o encontro em 1279, na carta de certa doação ao con- 
vento de Alcobaça, feita em 12 de Junho (11). Em i283 porém confirma o 
foral de Cacela, a 17 de Julho, já sem governo nenhum e somente como rico 
homem (12). 

Nesta qualidade continuou acompanhando mais ou menos a corte, e disso 



(i 

(2 

(3 
(4 
(5 
(6 
(7 
(8 

(9 
(10 

(Í2 



Chancelaria de D. Afonso III, liv. i .", fl. 77. 

Portugaliae monumenta histórica. Leges, pág. 706. 

Chancelaria de D. Afonso III, liv. i." fl. 85 v. 

Ibidem, fl. 90 V. 

Portugaliae monumenta histórica. Leges, págs. 710 e 715. 

Chancelaria de D, Afonso III, liv. 1,°, fl. io5. 

Fr. António Brandão, Monarchia lusitana, IV, fl. 233. 

Chancelaria de D. Afonso III, liv. i .<* fl. 1 1 1 . 

Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 70. 

J. P. Ribeiro, Memorias das Confirmações, doe. xliii. 

Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 44. 

Supra, fl. 87. 



Sousas 261 

encontro vestígios até Agosto de 1286(1). Depois, a 18 de Dezembro da- 
quele ano, 22 de Julho e 9 de Agosto do seguinte, aparece com o governo 
da terra de Panoias (2); mas, d'então por diante, continua, como simples 
rico homem, a confirmar muitas cartas até à doação da Atouguia, em 19 de 
Outubro de 1807 (3). E para mais prova de que êle acompanhava a corte, 
estão declarando as sentenças de 20 de Outubro de i3o8 sobre as Inquirições 
de i3o7, que estas foram vistas por «mha corte com muytos Filhos dalgo que 
hi syam», e o segundo destes nomeado é D. Pedro Eanes de Portel (4). É 
deste ano de i3o8 a última noticia encontrada de D. Pedro Eanes, que já 
não deveria ser vivo a 7 de Outubro de i3i5, data de um diploma régio no 
qual o seu nome se não encontra entre os dos confirmantes (5). 

Como seu pai, e ainda em sua vida, mostrou sempre D. Pedro particular 
afeição pelos Hospitalários, dos quais era confreire. Confirmou, em 2 de 
Abril de 1271, juntamente com sua mulher, a doação das igrejas de Portel 
feita por seu pai à Ordem (6). Por ela foi contemplado na carta de conces- 
são do isento do Marmelal, em 16 de Abril de 1274, e dela teve em pres- 
timónio a bailia de Ansemil, com a condição de deixar à Ordem um terço 
dos seus bens (7). Também foram amistosas as suas relações com os Tem-, 
plários, pois que, por escrituras feitas em Lisboa a 25 *de Junho e 12 de Se- 
tembro de 1294, reconheceram, êle e sua mulher, serem apenas usufrutuários 
vitalícios de umas casas da Ordem em Leiria (8), e a ela doarem outras na 
mesma vila, à ponte Coimbrã (9). 

Tendo morrido D. João de Aboim, levantaram-se dúvidas sobre as parti- 
lhas de seus bens, como acima disse; foram elas resolvidas por composição 
de que se lavrou escritura em i5 de Junho de 1287 (10). Por este acordo 
ficaram a D. Pedro os bens de Monsaraz, Estremoz, Évora Monte, Monte- 
mor o Novo, Santarém, Sintra, Lisboa, Óbidos, e Alem Doiro, e mais os si- 
tuados em Castela e que à partilha vieram pela herança de sua avó D. Ve- 
lasquida de Çamora. 

Foi pois outrosim senhor de uma grande casa, à qual juntou a de sua 



(i) Chancelaria de D. Denis, Hv. 1.°, fl. 174. 

(2) Ibidem, fls. 189, 2o5 v. e 207 v. 

(3) Ibidem, liv. 3.°, fl. 58 v. 

(4) J. P. Ribeiro, Memorias das Inquirições, does. xxv, xxvi e xxx. 

(5) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.», fl. 98. 

(6) Livro de D. João de Portel, doe, xxii, 

(7) J. A. de Figueiredo, Nova Malta, II, págs. 240 e 226. 

(8) Gaveta VIII, maç. 14.», n.» 45. 

(9) Gaveta VII, maç. i3.", n." 11. 

(10) D. João de Aboim, eit., doe. 11, pág. 172. 



202 Brasões 

mulher, que também foi rica. Viveu, quando não na corte ou nos seus go- 
vernos, a maior parte do tempo em Leiria, e sumptuosamente. Lá hospedou 
a rainha D. Beatriz, em Novembro de 1279, e em Junho de 1287 seu filho 
el rei D. Denis (i). 

Faleceu D. Pedro Eanes, como acima disse, num dos anos de i3o8 a i3i5 
e foi sepultado, segundo se afirma, no mosteiro da Vera Cruz do Marmelal, 
onde todavia não encontrei vestígios do seu túmulo. 

Já era casado em Abril de 1271 com D. Constança Mendes [de Sousa], 
filha de D. Mem Garcia [de Sousa], rico homem, governador de Trás os 
Montes, em i235 e i236, e da terra de Panoias, em 1264 e i255, e de sua 
mulher D. Teresa Eanes [de Limia], Consta estar já efeituado então o ca- 
samento da escritura de doação das igrejas de Portel à Ordem do Hospital, 
doação confirmada por Pedro Eanes e sua mulher D. Constança Mendes (2). 

Era D. Constança sobrinha do conde D. Gonçalo Garcia de Sousa, como 
fica dito na pág. 206. Por morte dele levantaram-se grandes questões sobre 
a partilha de seus bens e apresentaram-se como litigantes: D. Martim Gil, 
posteriormente 2." conde de Barcelos, D. Mem e D. João Rodrigues de Bri- 
teiros, D. Pedro Eanes de Portel por si e por sua mulher, Martim Anes, 
Fernão Pais de Barbosa, Gonçalo Nunes de Bragança e a condessa viúva 
D. Leonor, irmã de D. Denis. Foi a contenda perante el Rei a fim dêle jul- 
gar a quem haviam de pertencer os coutos, honras, maladias, naturas, testa- 
mentos e egrejários que compunham a herança e eram estes : Panoias, An- 
drães, Mouçós, Pena, Aguiar, Barroso, terra de Basto, Vila Verde, Amarante, 
Sanche, Travassos, Freixieira, Unhão, Vila Verde, Canavezes, Vila Cova, Pa- 
rada, Ferreira, Levogilde, Fonte Arcada, Astrufe (?), Paradela, Ois e Eixo. 
D. Denis, que fez tudo quanto quis, como reza o prolóquio, tratou, antes de 
mais nada, de mandar averiguar se não teria ele direito pelo menos a parte 
daquelas terras, que teriam sido dadas umas somente em vida do Conde e 
outras, por este ou seus maiores, usurpadas à Coroa. Foram os herdeiros 
meter-se na boca do lobo. Para procederem àquela averiguação, nomeou 
el Rei, por carta de 5 de Dezembro de 1286, dois indivíduos, um por sua 
parte, outra pela dos herdeiros (3). Procedeu-se a uma rigorosa inquirição. 



(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana^ V, fls. 55 e i25. 

(2) Livro de D. João de Portel^ doe. xxii, — Supõe João Carlos Feo, nas Memorias dos 
Duques, págs. iSq-i^o, estar já efeituado o casamento de D. Constança Mendes em Fevereiro 
de 1265, alegando uma escritura de doação a ela e a seus filhos feita por sua irmã Teresa 
Mendes; sucede porem que aquela escritura não é do ano de 1265, mas sim do de 1275 
(Livro de D. João de Portel, doe. ccxii). 

(3) J. P. Ribeiro, Memorias das Inquirições, doe. xxxviii. 



Sousas 26? 

que durou perto de dois anos, e em 2 de Setembro de 1288 deu el Rei a sen- 
tença da partilha dos referidos bens (i), dos quais D. Constança Mendes teve 
grande parte. 

Fez esta senhora o seu testamento em Santarém a 8 de Janeiro da era 
de i335 (1297), deixando por testamenteiros a seu marido, a seu primo com 
irmão Fr. Afonso Rodrigues, guardião de S. Francisco de Lisboa, e a Fr. Mar- 
tim de Castro (2). Morreu D. Constança antes de 10 de Maio do ano se- 
guinte, pois que nessa data se tirou um traslado do seu testamento (3). Foi 
sepultada no convento de S. Domingos de Santarém (4). 

De D. Pedro Eanes de Portel e de D. Constança Mendes de Sousa foram 
filhos : 

1. JOÃO PERES DE SOUSA, que segue. 

2. João Peres de Sousa, outro filho do mesmo nome indicado em todos 

os livros de linhagens, com a declaração de nem dum nem doutro 
ter ficado geração. 

3. D. Branca Peres chegou a suceder em parte da casa materna, casou 

com Pedro Afonso, filho bastardo dei rei D. Denis e futuro conde 
de Barcelos, e morreu deixando um filho que lhe sobreviveu o tempo 
suficiente para seu pai herdar a parte da casa de Sousa possuída 
por sua mãe. Não sei quando se efectuou o casamento; inclino-me 
porém a supor que tivesse tido lugar nas proximidades de 10 de 
Dezembro de 1289, data da primeira carta de doação de bens feita 
por D. Denis àquele seu filho, para êle e sucessores legítimos (5). 
Quanto à data da morte de D. Branca, não me é também fácil pre- 
cisá-la. Sua mãe já tinha falecido em Maio de 1298, e D. Branca 
certamente sobreviveu-lhe para poder herdar a sua casa; mas, para 
este efeito, não havia só de ter sobrevivido à mãe, tinha também 
de assistir ao falecimento de seu irmão D. João Peres de Sousa. 
Este ainda era vivo em Fevereiro de i3o4, logo D. Branca só de- 
pois deste tempo morreu. Afirma o douto e consciencioso cronista 



(i) Chancelaria de D. Denis, liv. 1.", fl. 241 v.; Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusi- 
tana^ V, fl. 1 34 V. 

(2) D. João de Aboim, cit., doe. vi, pág. 176: Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, 
V, fl. 270. 

(3) D. João de Aboim^ cit., doe. vi, pág. 176. 

(4) Testamento do Conde D. Pedro de Barcelos, seu genro. 

(5) «Querendo fazer graça e mercê a meu filho Pedro Afonso», carta de doação de bens 
em Lisboa, Estremoz, Évora Monte, etc, nos quais sucederão seus filhos ou filhas, lídimos, 
se os houver, e, se eles morrerem, ficarão os bens a Afonso Sanches seu irmão. — Chance^ 
laria de D. Denis, liv. i.», fl. 270 v. 



264 Brasões 

Fr. Francisco Brandão a existência, no cartório do mosteiro de Sal- 
zeda, de uma escritura de 10 de Março de i3oi de desistência, na 
qual outorgou o Conde D. Pedro com sua muliíer D. Maria Xime- 
nes (i). Parece-me porem haver erro nesta data: primeiro, por- 
que D. Pedro só foi conde em i3i4; segundo, porque consta ter 
êle, com sua mulher D. Branca, feito doação de tudo quanto pos- 
suiam em Montouto a D. Garcia Martins, grão comendador da Or- 
dem do Hospital, em escambo pelo lugar de Eixo (2), e este con- 
trato só poderia ter sido realizado nos anos de i3o3 a i3o6, nos 
quais D. Garcia, Martins foi grão comendador (3). Mas há mais 
ainda e o próprio cronista nos aponta o seu erro, tam de boa fé 
andou. Na fl. 179 v. declara que D. Pedro «teve ... o officio de 
Mordomo mòr da Infanta Dona Brites sua cunhada, como consta 
por escritura de desistência de certas herdades, que eraõ do nosso 
mosteiro da Salzeda, que já referimos». É a tal escritura de 10 
de Março de i3oi, na qual outorgam o Conde D. Pedro e sua se- 
gunda mulher D. Maria Ximenes; ^mas, como podia a escritura ser 
do ano de i3oi e nela mencionar-se o mordomo mor da infanta 
D. Beatriz, se o casamento dela só teve lugar em i3o9? Ele pró- 
prio Fr. Francisco Brandão o declara (4). Todos estamos sujeitos 
a erros de datas, seja ^qual for o cuidado com que procedamos, e 
no fatal verso desta fl. 179 mais dois erros análogos são cometi- 
dos (5). Em resultado da precedente averiguação fica evidente ter 
D. Branca Peres morrido só depois de i3o4, ano em que ainda há 
notícias de seu irmão D. João Peres de Sousa, e antes de 1? de 
Stembro de i322, data de uma procuração geral de «dona Maria, 
condessa de Barcelos», a seu marido o Conde D. Pedro, para poder 
emprasar e escambar todolos herdamentos que haviam em Portu- 



(i) Monarchia lusitana, V, 178. 

(2) Carta de 24 de Julho de i362 (1324) de confirmação régia da sobredita troca.— 
Chancelaria de D. Denis^ liv. 3.", fl. 160 v. 

(3) J. A. de Figueiredo, Nova Malta, II, 35o a 352. 

(4) Monarchia lusitana, VI, i32. * 

(3) Afirma Fr. Francisco Brandão, no lugar citado, que a carta de confirmação régia da 
doação feita a Pedro Afonso por João Soares, freire da Ordem do Templo, é de 9 de Feve- 
reiro de i324, quando ela é de 9 de Fevereiro, na realidade, mas do ano de i3i4 {Chancela- 
ria de D. Denis, Hv. 3.°, fl. 85). «E — continua — no primeiro dia de Mayo do próprio anno 
o fez elRey Conde de Barcelos». Ora a carta de doação da vila de Barcelos, por que o 
fizera conde, é de dez anos antes, de i de Maio de i3i4 {Ibidem^ fl. 86 v.). 



Sousas 265 

gal(i). Mandou-se D. Branca sepultar no mosteiro de S. Domin- 
gos de Santarém, junto de sua mãe (2). 

Pedro Afonso é o famoso Conde D. Pedro de Barcelos, presu- 
mido autor do Nobiliário do Conde D. Pedro e possuidor de um 
precioso Livro de Cantigas (3), no seu testamento legado a el Rei 
de Castela (4). Dá-se a singularidade do testamento ser de 3o de 
Março de i35o e D. Afonso XI de Castela ter morrido em Gra- 
nada, uns dias antes, a 26. Como o Conde D. Pedro ainda viveu 
mais quatro anos, é bem possível que tivesse derrogado a deixa e 
o livro. fosse parar a outra parte. 

Pedro Afonso foi havido de D. Grácia, proprietária de umas 
casas a par da Sé de Lisboa nas quais seu filho veio a fundar um 
hospital, e de duas tendas à porta do Ferro doadas por D. Denis, 
que, por morte de D. Grácia e por carta de 22 de Agosto de i362 
(i324), fez delas mercê para sempre a seu filho (5). Várias outras 
doações de bens e senhorios lhe havia já feito seu pai (6), a quem 
acompanhou a Aragão, em i3o4, tendo talvez então apenas avistado 
sua segunda mulher, pois que a afirmativa de Fr. Francisco Bran- 
dão de D. Pedro ser já ao tempo casado com D. Maria Ximenes (7) 
carece de fundaniento, como mostrei. Em i3o7 era mordomo da 
Infanta sua cunhada e naquela qualidade confirma uma carta, da- 
tada da Atouguia a 19 de Outubro (8), por todos estes serviços e 
pela afeição que lhe dedicava, criou-o el Rei seu pai conde e por 
isso lhe fez doação da vila de Barcelos, por carta de i de Maio 



(i) Transcrita na carta de 12 de Setembro de i36i (i323) de composição com os mo- 
radores da freguesia de S. Cristóvão de Mondim. — Gaveta XV, mac. 19.», n." 53. 

(2) Testamento do Conde D. Pedro, nas Provas da Historia genealógica, I, i38. 

(3) D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, Cancioneiro da Ajtida^ II, 243. 

(4) D. António Caetano de Sousa, Provas da Historia genealógica, I, 1 38. 
^5) Chancelaria de D. Denis, liv. 3,», fl. 1 60 v. 

(6) Alem das cartas de 1289 e i3i4, já lá acima citadas, e desta de 1324, encontrei mais 
as seguintes: em Lisboa, a 28 de Junho de i339 (i3oi), a Pedro Afonso, meu filho, doação 
de bens em Sintra que haviam sido de Pedro Fernandes, copeiro de D. Afonso III (Chance- 
laria de D. Denis, liv. 3.°, fl. i5" v.); em Lisboa, a 3 de Agosto de 1341 (i3o3), doação do re- 
guengo da Asseca em Tavira {Ibidem, fl. 24 v. ; Gaveta, XV, mac. 9.», n." 20) ; em Lisboa, a 
i5 de Setembro de 1344 (i3o6), doação para ele e descendentes lídimos, com reversão para 
a Coroa, da terra de Gestaçô, com seus termos e jurisdições (Gaveta III, mac. i.*, n.» 5; 
Gaveta XII, mac. 6.», n.» 20; Gaveta XJV, mac, 4.°, n." 2; Chancelaria, liv. 3.», fl. 52 v.; Mo- 
narchia, V, 179 v.). 

(7) Monarchia lusitana, V, fl. 178. 

(8) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.°, fl. 58 v.; Monarchia, VI, 119. 

voi.. 1 34 



266 Brasões 

de i3i4(i). Foi o 3.° Conde de Barcelos, sucedendo no condado 
a seu parente por afinidade D. Martim Gil, a quem também su 
cedeu no posto de alferes mor, com o qual confirmou uma carta 
de 7 de Outubro de i353 (i3i5) (2), e o qual conservou até mor- 
rer (3). 

Aparece-me pouco depois exercendo um serviço público, con- 
forme hoje lhe chamaríamos. Gomo é sabido, em seguida às In- 
quirições gerais de i328 (1290), mandou D. Denis proceder a várias 
outras particulares e entre elas umas, em i355 (iSiy), no conce- 
lho da Feira e delas foi encarregado o Conde D. Pedro (4). Nas 
revoltas do infante D. Afonso contra seu pai el rei D. Denis, s,e- 
gum o Conde D. Pedro logo de começo, em i32o, como vassalo 
da casa do Infante, na qualidade de mordomo de sua mulher, o 
bando do sucessor da coroa. Por esse facto foi deserdado e des- 
terrado para Castela, d'onde voltou por ocasião das novas revoltas 
de i322 e com o Infante esteve em Coimbra, onde se empenhou 
em tratar e ultimar a sua concórdia com D. Denis. No tratado 
celebrado então foi-lhe restituída a sua casa e para a comarca da 
Beira passou a residir (5). No ano seguinte, a 8 de Janeiro, fez 



(i) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.°, fl. 86 v.; Monarchia^ tom. V, fl. 179 v., com a data 
errada, e com ela certa, no tom. VI, pág. 208, onde transcreve toda a carta. 

(2) Carta de doação das vilas e lugares de Penela e Miranda do bispado de Coimbra, 
Alvito, Vila Nova com a quinta que chamam da Agua dos Peixes, e a Vidigueira, Malcabrõ, 
Vilalva, Vila Ruiva, S. Cocovado e Bonalbergue a D. Isabel «minha sobrinha, filha do infante 
D. Afonso meu irmão». — Chancelaria de D. Denis, liv. 3." fl. 97 v. — K a última carta regis- 
tada na Chancelaria com os nomes dos confirmantes, os quais pelo braço secular foram os 
seguintes : Afonso Sanches, mordomo mor, Conde D. Pedro, alferes mor, João Afonso, Fer- 
não Sanches (todos quatro filhos bastardos de D. Denis), Afonso Denis, mordomo da Rainha 
(filho bastardo de D. Afonso III), Martim Mendes de Berredo, D. Fernão Peres de Barbosa, 
D. João Rodrigues de Briteiros, D. Gonçalo Anes de Berredo, Martim Anes de Sousa, Joane 
Mendes de Briteiros, João Simõ, meirinho mor, Pêro Steves, copeiro mor, Stevam da Guarda, 
eicham mor e mais os prelados, nomeados por Fr. Francisco Brandão, na Mona^chia lusi- 
tana, VI, 228, onde omite os nomes dos três últimos ricos homens e errou o ofício de Pêro 
Steves, pois em vez de copeiro mor leu meirinho mor, alongando-se numa explicação que 
cai pela base, pois não se nomeiam dois meirinhos mores. 

(3) Pelo menos ainda assim se intitula ano e meio antes de morrer, na carta de 20 de 
Agosto de 1390 (i352) pela qual doou todos os seus bens de Torres Vedras e seu termo a 
Pêro Stêvenz, vedor da sua casa, para acrescentamento «daquele hospital, que eu e Tareja 
Anes ordinhamos em Lisboa». — Livro iP do Hospital do Conde D. Pedro, fl. 3o, no Arquivo 
da Câmara Municipal de Lisboa. 

(4) Livro 1.° de Direitos riais, fl. i ; Monarchia, V, fl. 184 v. 

(5) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, VI,passim. 



Sonsas 267 

o Conde uma composição com Martim Afonso de Sousa, na qual 
foi árbitro o infante D. Afonso, e por ela lhe foi sentenciado o 
couto e honra de Lalim e mais os de Eixo e Daes, ficando a Mar- 
tim Afonso as honras e coutos de Amarante, Barroso e outros (i). 
Ainda eram restos da partilha dos bens da casa de Sousa. 

Na comarca da Beira, como acima disse, passou o Conde a 
residir nos seus paços de Lalim, d'onde contudo se afastou em 
i336, quando rompeu a guerra entre D. Afonso IV e seu genro 
D. Afonso XI de Castela. Fez então D. Pedro uma entrada por 
Galiza com muitas gentes d'armas às suas ordens, talou e arrazou 
quanto quis, obrigando o Arcebispo de Santiago, que pretendera 
estorvar-lhe o passo, a retirar diante de suas forças (2). 

Por estes tempos, já há muito, estava casado em segundas 
núpcias com D. Maria Ximenes, como lhe chama um documento 
abaixo citado, ou D. Maria Coronel, nome que lhe dão alguns au- 
tores (3). Era ela natural de Aragão, filha de D. Ximeno Cornei 
e tia de D. Pedro Cornei, senhor de Alfajarin, fidalgos muito no- 
meados nas histórias daquele reino e descendentes da linhagem 
dos seus mais antigos ricos homens (4). Diz-se ter ela vindo para 
Portugal em 1282, por dama da rainha santa Isabel, mas não está 
disso muito certo o cronista (5) e eu ainda muito menos. Em 1822, 
como mostrei acima, já estava realizado este casamento que não . 
foi feliz. Os génios dos cônjuges não se acomodavam e em vir- 
tude disso passaram a viver apartados, primeiro ambos em Por- 
tugal, depois ela no Aragão, e ele por cá, em não encoberta con- 
cubinagem. 

Em 14 de Outubro de i345, estando D. Pedro e D. Maria em 
Coimbra, cada um deles passou sua procuração para idêntico fim; 
ela assinou-a nos paços dei Rei, ele porem «em S. Domingos da 



(i) Fr Francisco Brandão, Monarchia lusitana, VI, págs. 424-425. 

(2) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso IV, fl. 35; Duarte Nunes do Lião, Primeira parte 
das Chronicas, fl. i5i ; Nobiliário do Conde D. Pedro, pág. 290, onde mais miudamente narra 
os sucessos. 

(3) Um deles foi Argote de Molina, na Noble^a dei Andalupa, fl. go, onde erradamente 
diz ter ela sido a segunda mulher de D. João Afonso, i." conde de Barcelos, erro já adver- 
tido na nota 3 de pág. 107. 

(4) Gerónymo Çurita, Anales de la Corona de Aragon^ liv. VI, cap. vi, fl. 191 ; liv. I, 
cap, xxxn, fl. 3i v., etc. 

(5) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 68 v., persuadido, e fl. 178, afir- 
mativo. 



268 Brasões 

dita vila» (i). Em 1847 ^ separação já era completa. A Condessa 
residia em Lisboa nos paços de Lopo Fernandes [Pacheco], senhor 
de Ferreira, onde, a 1 1 de Agosto, assinou uma carta de venda 
interessante. Por ela vendeu a seu marido «todo o direito que 
eu hei e de direito deva de haver em todalas aquelas herdades 
que vós a mim destes em arras, e em doação, e em compra de 
meu corpo, e de todalas outras herdades que eu e vós havemos 
nos reinos de Portugal e do Algarve». O preço estipulado foi de 
três mil escudos de oiro e dobras, e mil duzentas e cinquenta libras 
da moeda de Portugal, preço de que ela se deu por «bem pagada» 
por o ter recebido de Pêro Coelho, cavaleiro, vassalo e procurador 
do Conde (2). Na véspera fora expedida uma carta régia, autori- 
zando os respectivos tabeliães, que interviessem neste contrato e 
noutro análogo, a neles incluírem, sem prejuízo de validade, a 
cláusula do juramento. Este diploma esclarece bem o caso. A 
. el Rei, por uma parte, pelo seu nomeado procurador, declarou o 
Conde D. Pedro, que êle fazia doação a «dona Maria Xhemenes, 
condessa sua mulher», de todolos bens possuídos pelos cônjuges 
no reino de Aragão; por outra parte veio a Condessa participar 
que ela fizera doação a seu marido de todos os bens do casal exis- 
tentes nos reinos de Portugal e Algarve (3). Foi a separação de 
bens, porque a de pessoas já estava realizada havia muito, vivendo 
o Conde nos seus paços de Lalim, onde mandou trasladar em pú- 
lica forma estas cartas a 9 de Outubro de 1348, e no mesmo dia 
publicá-las na vila de Crasto Rei, no adro de S. Pedro, perante 
OS' juízes da dita vila. O instrumento foi mandado lavrar para ser 
entregue a D. Tareja Anes, natural de Toledo, «para ajuda de seu 
feito per razão daquelas cousas que êle dizia que vendera e dera 
à dita D. Tareja, das sobreditas cousas conteudas na sobredita 
carta de compra sobredita» (4). Esta D. Teresa Anes era a con- 
cubina do Conde, com quem êle vivia maritalmente. Fr. Fran- 
cisco Brandão notou o facto, mas das premissas tirou uma conse- 
quência, tam conforme à moral, quanto oposta à verdade; «vivendo 
ambos juntamente, e sendo os criados os mesmos, sinal hé de que 



( 1 ) Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa, Livro iP do Hospital do Conde D. Pedro, 
fl. 54. 

(2) Livro /.« do Hospital do Conde D. PedrOy fl. 28. 

(3) Ibidem. 

(4) Ibidem. 



Sousas 269 

estavam casados» (i). Não estavam nem podiam estar, porque a 
condessa D. Maria vivia então no Aragão. Interveio ela também 
no ajuste, muito combatido por el Rei de Castela, do casamento 
da nossa infanta D. Leonor com D. Pedro IV, rei de Aragão (2). 
Para este reino passou, provavelmente na armada em C[ue partiu 
a Infanta, nos princípios do outono de 1347, e lá vivia quando, 
em 3o de Março de i35o, o Conde D. Pedro fez o seu testa- 
mento (3). 

Quinze meses antes, a 7 de Dezembro de 1348, fizera Teresa 
Anes o seu. Nele, em seguida, às palavras sacramentais do início, 
diz ela: «eu pecador Tareija Anes, natural de Toledo, criada delRei 
D. Afonso de Portugal ... e da rainha D. Briatis sa mulher . . . 
faço e ordeno o meu testamento». Manda enterrar o seu corpo, 
«ali hu o Conde D. Pedro tiver por bem»; institui nas suas casas 
de Lisboa, que foram de D. Grácia, um hospital, ao qual lega todos 
os seus prédios de Lisboa e comarca da Estremadura. Manda en- 
tregar toda a sua herdaile de Toledo e a mais existente nos reinos 
de Castela, a Santo. Agostinho daquela cidade, «aU hu jaz meu 
padre»; e dispõe do resto dos seus bens (4). D'ali a tempos, de- 
pois de D. Pedro ter feito o seu testamento, no dia 27 de Maio de 
i35o, em Lalim, nos paços do Conde, na câmara de D. Tareja, 
«que jazia em sa cama doente», compareceu o tabelião de Crasto 
Rei e perante testemunhas tirou uma cópia do referido testamento, 
que lhe foi apresentado (5). A 16 de Agosto do ano seguinte já 
ela tinha morrido, como consta da escritura de doação naquele dia 
feita pelo Conde D. Pedro a Pedro Esteves, vedor da sua casa, 
das casas apar da Sé, que haviam sido de sua mãe D. Grácia, para 
nelas êle manter os capelães e pobres do hospital lá instituído, 
com os rendimentos de certos bens que lhe dera em Sintra, e com 



(1) Monarchia lusitana, V, fl. 179 v. 

(2) Gerónymo Çurita, Anales de Aragon^ liv. VII, cap vi, fl. 191. 

(3) Provas da Historia genealógica, I, pág. 104. — Declara o Conde no testamento: 
«este outorgo e hey por firme em todo para sempre, e se algum testamento, ou testamentos 
que a Raynha tenha, ou a Condeça Dona Maria, ou que tevesse Lopo Fernandes [Pacheco] 
... eu os revogo». — A condessa D. Maria era D. Maria Ximenes, nem podia ser outra, mesmo 
porque não existia por cá mais nenhuma. 

(4) Livro i.o do Hospital do Conde D. Pedro, fl. i3; Monarchia, V, fl. 182; e Provas da 
Historia genealógica, 1, i33, onde é transcrito na íntegra, com os costumados e infelizmente 
tam repetidos erros de leitura. 

(5) Livro i.o do Hospital do Conde D. Pedro, fl. i3. 



270 Brasões 

os que Ji cavam de Tareja Anes, etc. (i). Foram, esta escritura e 
outra, apresentadas pelo referido Pedro Esteves, em 5 de Julho de 
de i354, nas casas da quinta que foi do Conde D. Pedro, para 
delas lhe darem públicas formas autênticas (2); estava pois o Conde 
então já morto. Consta porem que ainda vivia em 2 de Fevereiro 
desse mesmo ano (3), tendo tido portanto lugar a sua morte num 
dos cinco meses decorridos entre as duas datas. Foi sepultado 
em S. João de Tarouca, e ao convento deixou grande parte de 
seus bens (4). 

Fidalgo muito rico manteve sempre uma grande casa e «houVe 
os melhores vassallos que houve outro comde nem homens boÕs 
dos que d'antes forom» (5). Foi homem de elevada estatura, como 
se verificou posteriormente, segundo conta o cronista, neste inte- 
ressante trecho: 

«No anno de 1634. mudarão os Religiosos de São loão de Ta- 
rouca a sepultura deste Conde da parte direita do Cruzeiro para 
a nave direita da Igreja, & abrindóa por curiosidade, acharão a 
armação dos ossos toda inteira: medirão o corpo com húa cana, 
& constou ter de comprido quasi onze palmos & meio; a sepultura 
não promettia menos corpo, porque he grande em demasia. Res- 
pondia a grossura, & mais compaginação a esta grandeza: na meia 
cabeça da parte direita, tinha meio barrete de cetim amarelo tos- 
tado, forrado de tafetá da mesma còr, tudo mui saõ ainda; & o 
cabelo desta mesma parte crecido com grande melena, & sobre ma- 
neira ruivo: calçava esporas douradas, & dentro delias estavaÕ as 



( i) Livro 1° do Hospital do Conde D. Pedro. fl. 3o. 

(2) Ibidem. , 

(3) Neste dia assinou o Conde D. Pedro um título de confissão de dívida de 1 149 libras, 
5 soldos, 9 dinheiros e mealha, a Vicente Anes Froyas. Encontra-se a escritura na fl. 55 do 
cit. Livro i.o do Hospital do Conde D. Pedro^ mas por tal forma apagada, que me foi im- 
possível lê-la; reporto-me a um índice anteposto ao códice, no século xvn, afigura-se-me, e 
elaborado por pessoa de confiança, segundo pude apreciar pela confrontação doutras verbas 
do índice com os respectivos documentos. 

(4) «Item mando que toda a erdade que eu hei em Santarém, e em seus termos, que 
foy de Dom Pedro Annes Portel e de Dona Constança Mendes sa molher . . . entreguem . . . 
ao . . . Mosteiro de S;m Johão de Tarouca . . . e esta erdade dei eu assi e entreguei ao dito 
mosteiro, porque o prometti assi a Dona Branca com que eu fui casado primeiro, onde a 
dita herdade decende». — Testamento do Conde D. Pedro já citado. 

(5) Nobiliário do Conde D. Pedro. — Portugaliae monumenta histórica. ScriptoreSy 
pág. 290. 



Sousas 271 

solas do calçado inteiras de ponta aguda, como então se custumava. 
Os que esiiveraõ presentes mo certihcaoaÕ cÕ miudeza» (i). 

Do túmulo vê-se uma reprodução fotográfica na pág. 64 da Arte 
românica em Portugal. Texto de Joaquim de Vasconcellos, com 
reproducções seleccio?iadas e executadas por Maluques Abreu. 
Porto. 1918. 
b. Maria Peres Ribçira de quem falarei no capitulo V. 



JOÃO PERES DE SOUSA foi rico homem de Portugal e nesta quali- 
dade confirma na carta de confirmação do couto de Almoster em 1298, na 
de certa doação à Ordem do Hospital em 8 de Junho de i3o2, no foral de 
Vila Boa do Monte em i3o3 e na carta do couto de Mafra, em 20 de Feve- 
reiro de i3o4 (2). Todos estes diplomas foram também confirmados por seu 
pai, a quem não sobreviveu; sucedeu porem em parte da casa de sua mãe. 
Foi sepultado no mosteiro de S. João de Tarouca, onde também encontraram 
jazida alguns de seus parentes Sousas (3). Com este apelido e só com êle 
o encontro assinando as referidas cartas. 

Dizem ter éle lido um irmão do mesmo nome; não creio porém na exis- 
tência simultânea de dois filhos de D. Pedro Eanes de Portel, ambos de nome 
João Pérez, e nos documentos não encontro vestígios dessa existência coetâ- 
nea. Suponho que morreria um antes do outro, ou que os pais mudariam 
o nome ao segundo depois da morte do primeiro; ou ainda que seria só um 
filho chamado primeiro João Pérez de Portel e depois, pela herança da casa 
de Sousa, João Pérez de Sousa. Confesso porém, que a esta última conjec- 
tura concedo a menor base, porque todos os livros antigos declaram a exis- 
tência dos dois filhos. 

João Carlos Feo, nas Memorias dos Duques, quis dar remédio a esta in- 
verossimilhança dos dois filhos com o mesmo nome, chamando a um João 
Peres de Sousa e ao outro João Peres de Portel. Foi mero capricho para 
o qual não há fundamento nenhum, nem em documento, nem em nobiliário 
antigo; foi só para salvar a homonímia. 

João Baptista Lavanha, na sua incorrecta edição do Nobiliário do Conde 



(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 180 

(2) Ibidem, V, fls. i5i v. e 296, e VI, págs. 21 e 28. — Esta última carta foi passada a favor 
dos tios de João Peres de Sousa, Maria Anes e João Fernandes de Lima, e está impressa por 
inteiro no Arquivo historjco portuguez, IV, 188. 

(3) Testamento do Conde D. Pedro acima citado. 



272 Brasões 

D. Pedro, que, se tivesse realmente sido o autor do livro, não deixaria nele 
tam confusas as notícias \lêstes fidalgos seus cunhados, traz, nas págs. iSy e 
i58, os dois Joões e a cada um deles assina um casamento; mas não é isso 
conforme ao texto do Nobiliário. Nele lê-se: «E dona Costamça Meendez 
foy casada com dom Pedro Annes Portel. . . e fez em ella Joham Pirez, e 
outro Joham Pirez, e dona Bramca Pirez, e dona Maria Pirez Ribeyra. E 
Joham Pirez e Joham Pirez nom ouverom semel» (i). Mais adiante diz: 
«re este dom Pedre Annes foy casado com dona Orraca Affomsso . . . e ou- 
verom huuma filha que ouve nome dona Aldonça Pirez que foi casada com 
Joham Pirez Portell que dissemos, e nom ouverom semel» (2). Logo lá mais 
adiante escreve: «e dona Samcha Martiins Baarreta que foy casada com dom 
Joham Pirez Portell e nom ouverom semel» (3). Por fim, ainda lá se lé o 
seguinte: «dom Pedro Anes Gago que cazou com dona Oraca Afifomso . . . 
fez em ella dona Aldara Pires a qual casou com João Pires Portel o maior e 
nom ouverom filhas» (4). 

Isto é bem diferente, como o leitor vê, do posto por Lavanha na sua 
edição do Nobiliário. Este não declara ter tido cada um dos irmãos o seu 
casamento; apenas diz que um João Peres de Portel casou com fulana e 
com beltrana, sem precisar se foi o mesmo ou se foram dois. Somente es- 
clarece que o casado com a filha de D. Pedro Anes Gago, à qual duma vez 
chama Aldonça e doutra Aldara, era o maior. João Carlos Fco, nos seus 
Duques, seguiu Lavanha. 

Vamos ver o que mais dizem a respeito dos dois irmãos os nobiliários 
antigos. 

O fragmento junto ao Cancioneiro do Colégio dos Nobres repele, quási 
pelas mesmas palavras, as afirmações do Nobiliário do Conde D. Pe- 
dro (5). 

O primeiro Livro Velho das Linhagens diz: «E D. Constança Mendes . . . 
casou com D. Pedro Annes Portel ... e fez em ella João Pires de Sousa, e 
outro João Pires de Sousa, e Branca Pires, e Maria Ribeira. E deste João 
Pires de Sousa, e Branca Pires sa irmã nom ficou semel nenhuma» (6). Este 
já é mais exacto, pois dá aos dois o seu verdadeiro apelido, o de Sousa. 

Mais adiante diz: «e Martim Fernandes Barreto foi casado com Maria 



(1) Portugaliae monumcnta histórica. Scriptores, pág. 290. 

(2) Supra, pág. 297. 

(3) Supra, pág. 298. 

(4) Supra, pág. 32 1. 

(5) Supra, pág. ipS. 

(6) Supra, pág. i52. 



Sonsas 273 

Rodrigues . . . e feje nela ... D. Sancha Martins . . . E Sancha Martins casou 
com João Peres Portel, e non ouve semel» (i). 

Já aqui aparece João Peres sem o apelido de Sousa e com o de Portel; 
são tudo confusões. 

Mais atrás, nomeando o D. Pedro Anes também sogro, segundo o Nobi- 
liário do Conde D. Pedro, de João Peres de Sousa, diz: «D. Pedro Annes 
Gago; este D. Pedro Annes foi casado com D. Urraca . . . e non houve delia 
semel» (2). 

O segundo Livro velho diz: «D. Constança Mendes, e c^asou com D. Pe- 
dreanes Portel . . . e farão filhos» (3). No tempo deste ainda não tinha 
nascido nenhum dos JoÕes. 

Depois, falando num dos sogros atribuídos a um daqueles, diz: «D. Pe- 
dreanes Gago, que casou com D. Orraca Affonso, e feje hi huma filha» (4). 

De todo o exposto concluo o seguinte, podendo sem dúvida enganar-me : 
existiu um João Peres de Sousa, é certo, pois que confirma em documentos 
c é nomeado noutro, o testamento do Conde D. Pedro seu cunhado. Se teve 
outro irmão do mesmo nome, este morreu criança e o João Peres de Sousa 
mencionado nos documentos é o que casou por duas vezes, sendo o primeiro 
casamento o único declarado no Livro velho das linhagens, e o segundo o 
que neste não vem e a mais lhe dá o Nobiliário do Conde D. Pedro. 

Casou João Peres de Sousa da primeira vez com D. Sancha Martins Bar- 
reto, filha de Martim Fernandes Barreto, fidalgo português, e de sua mulher 
D. Maria Rodrigues, que fora amante dei rei D. Denis. Casou da segunda 
vez com D. Aldonça Peres, filha de D. Pedro Anes Gago, rico homem, go- 
vernador de Trás os Montes, e de sua mulher D. Urraca Afonso, filha bas- 
tarda de D. Afonso III. São os dois a quem tiraram por sentença, em 1284, ^s 
bens que haviam sido do concelho da Sortelha, como já lá muito acima disse. 

De nenhum destes casamentos houve descendência e em João Peres de 
Sousa acabou a linha varonil dos Aboins e Nóbregas, e passou a represen- 
tação da casa de Sousa a sua irmã D. Maria Peres Ribeira. 

Preguntar-me-há agora o leitor, para que enxertei aqui um tam largo ca- 
pítulo, e eu lhe responderei, que por três razoes: 

Primeira, porque não veio fora de propósito, pois nele se tratou de uma 
família, em que entrou e esteve a representação da casa de Sousa; 



(1) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 167. 

(2) Ibidem, pág, 162, 

(3) Ibidem^ pág. 177. 

(4) Ibidem., pág. 180. 

voL. 1 35 



274 Brasões 

Segunda, porque D. João de Aboim foi um vulto notável da nossa histó- 
ria, e a sua vida está pouco estudada (i); 

Terceira, porque te quis mostrar, amigo leitor^, que eu sou quási capaz 
de fazer genealogia, como ela deve ser feita; mas protesto-te não a tornar a 
fazer, por ser uma maçada, em que eu fico de pior partido, pois tu saltas as 
páginas, e eu tive de as escrever. E com isto vamos ao resto. 

Do casamento de D. Constança Mendes de Sousa e D. Pedro Eanes de 
Portel, alem dos filhos sem descendência perdurável, nasceu D. Maria Peres 
Ribeira, por quem se continuou não a casa de Sousa, porque essa extin- 
guiu-se, mas o apelido de Sousa, como veremos no capitulo seguinte. 

V 
SOUSAS DE ARRONCHES 

Em D. Maria Peres Ribeira, última filha de D. Pedro Eanes de Portel e de 
D. Constança Mendes de Sousa, como acima na pág. 271 ficou indicado, veio 
a recair, por falecimento de todos seus irmãos, a representação da casa de 
Sousa; mas simplesmente a representação. Deram seus pais a D. Maria 
Peres por apehdo o de sua bisavó D. Maria Pais Ribeira (2), a Ribeirinha, 
amante de D. Sancho I, revelando-nos o facto quam diferentes eram os 
preconceitos d' então dos de hoje. 

Casou com Afonso Denis, filho bastardo de D. Afonso III e de Marina 
Pires da Enxara, e a êle fez seu pai doação, por carta de 5 de Julho de i3i6 
(1278), de um herdamento no termo de Torres Vedras, onde chamam Vila 
Pouca, para êle e descendentes legítimos, com reversão para a Coroa no 
caso destes faltarem (3). Parece ser o mesmo «Alfonsus filius meus, quem 
nutrivit Martinus Petri, clericus meus», a quem, no seu testamento de ix das 
cal. de Dezembro da era de iSog (23 de Novembro de 1271), seu pai deixou 
mil libras (4). Estas duas mercês são as únicas, de que encontro memória. 



(i) Isto escrevia eu em 1899, hoje, sem falsa modéstia, não posso dizer o mesmo.. 

(2) Na primeira edição deste livro, em parte nenhuma dele, nomeei Maria Pais Ribeira, 
a Ribeirinha; não podia pois ter-lhe aposto o apelido de Berredo, como nota a Senhora 
D. Carolina Michaelis de Vasconcelos no vol. II do Cancioneiro da Ajuda, pág 3 18, nota 5. 
Foi confusão da ilustre escritora. 

(3) «Do et concedo Alfonso filio meo et Marine Petri de Eyxaraí totum illud herda- 
mentum ...».— Chancelaria de D. Afonso 111, liv. i.°, fl. iSg v.; Fr. António Brandão, Mo- 
narchia lusitana, IV, fl. 220 v.; Provai da Historia genealógica Vi, 191, nestas, com as cos- 
tumadas incorrecções, p. ex., Turris putoribus, por Turris ueteribiis. na outra, antepondo um 
D. (donno) a Alfonso. 

(4) Fr. António Brandão, Monarchia lusitana, IV, fl. 285. 



Sousas ' , 275 

feitas por D. Afonso III a este seu bastardo (i). Entrando D. Denis a reinar, 
só vinte e dois anos depois se lembrou deste seu irmão e somente para lhe 
confirmar a mercê que lhe fizera a rainha D. Beatris de umas casas em Lis- 
boa. A carta é de i5 de Setembro de i338 (i3oo) (2) e portanto apenas 
pouco mais de um mês posterior ao falecimento da Rainha, sucedido a 7 do 
precedente mês de Agosto (3). Seria disposição testamentária, mas é curioso 
ela lembrar-se de um bastardo de seu marido. 

No ano de i3o6 começou Afonso Denis a confirmar cartas régias na qua- 
lidade de rico homem (4), continuou em i3o7, a 19 de Dezembro, na Atou- 



(i) D. António Caetano de Sousa, genealogista cortesão, trata no tom. XII da Historia 
genealógica, pág. 2170 segs., de Afonso Denis a quem atribui o título de dom, com que não 
aparece em nenhum documento, e afirma ter sido a ele feita, por carta de 12 de Maio de 
i3io (1272), mercê de 20.000 libras. Esta mercê, que se encontra registada no liv. i." da 
Chancelaria de D. Afonso III, ^. 114 v,, não foi feita ao filho bastardo, mas sim ao legítimo, 
o infante D. Afonso. Alem disso ainda nos vem afirmar, na pág. 222, haver êle com aquelas 
libras comprado depois o senhorio da Póvoa de Salvador Aires; é porém pura fantasia, 
sem base documental, nem tradicional. Mais estranho ainda é o que se encontra escrito 
na pág. 245, a respeito da futura sogra de Afonso Denis : «Constança Mendes de Sousa, diz 
êle, que casou com D. Pedro Annes de Aboim, Senhor de Portel, Leiria e Cintra.» Dá-se 
porém o caso curioso de D. Pedro Anes nem se ter chamado de Aboim, nem ter sido senhor 
nem de Portel, nem de Leiria, nem de Sintra. Não é por gosto que venho desmerecer na 
obra do Padre Teatino, na qual há algumas coisas boas, sem dúvida; mas para varrer a 
minha testada, pois como ainda existe gente que confia na crítica e processos históricos de 
D. António Caetano de Sousa, tenho de lhe notar os erros quando em oposição às minhas 
afirmações. Mas não insistirei mais, deixando aqui esta advertência geral para casos idên- 
ticos futuros. 

Não obstante quero consignar ainda a lástima, que a mim e a todos os estudiosos de 
história pátria causa a falta absoluta de conhecimentos paleográficos de D. António Caetano. 
Os documentos por êle reunidos nos seis tomos das Provas seriam um manancial de infor- 
mações preciosas, se neles pudéssemos confiar; infelizmente porém assim não sucede e a 
confrontação das cópias impressas, com os originais ainda existentes, dá-nos exuberante 
prova da incorrecção daquelas. Nesta parte o mal remedeia-se, mas com respeito aos 
documentos desaparecidos, aos do cartório da Casa de Bragança, p. ex., destruídos pelo 
terremoto, i como poderemos utilizá-los confiadamante ? De modo nenhurti. Esta mancha 
na obra do padre Sousa é bem conhecida de todos os profissionais (seja-me permitido cha- 
mar-lhes assim) de investigação histórica, mas ainda ficam os curiosos, em grande número, 
infelizmente. 

A parte interessante da obra de D. António Caetano é toda a relativa aos sucessos pos- 
teriores à narrativa do Conde da Ericeira, no Portugal restaurado. Essa parte á muito 
aproveitável, dando, é claro, o desconto à crítica eivada de cortesanice do autor. 

(2) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.", fl. 10 v. 

(3) Figanière, Memorias das Rainhas, pág. i3i. 

(4) Em Lisboa, a 22 de Julho, em Santarém, a 27 de Novembro, e em Coimbra, a 10 de 
Dezembro. — Chancelaria de D. Denis, liv. 3.", fl. 3o v., 5i e 5i v. 



276 Brasões 

guia(i), sempre porém sem designação de nenhum cargo, até que, em carta 
de 7 de Outubro de i3i5, aparece intitulado mordomo da Rainha (2). Pou- 
cos anos antes, por carta de 24 de Abril de 1848 (i3io), fizera-lhe seu irmão 
D. Denis mercê de escusar de hoste, fossado, foro e toda peita aos povoado- 
res e moradores da Póvoa de Salvador Aires, herdade de Afonso Denis (3). 
Dele apenas sei mais que já estava substituído na mordomia da casa da Rai- 
nha, provavelmente por ser falecido, em 22 de Dezembro de 1375 (i337), no 
auto de aprovação do testamento dela, pois entre as testemunhas aparece 
nomeado «Gonçalo Pérez Ribeiro, mordomo mor da dita Raynha Dona Isa- 
bel» (4). Sua mulher ainda era viva neste ano, pois tendo sua tia D. Maria 
de Aboim feito o seu testamento a 3o de Julho, nêle lega cem libras a «dona 
Maria Ribeyra mha sobrinha» (5). Do seu casamento com Afonso Denis nas- 
ceram estes filhos: 

i.° — Pedro Afonso de Sousa foi o primogénito, segundo o Nobiliário do 
Conde D. Pedro (6), a quem sigo, pois que o argumento apresentado por 
D. António Caetano de Sousa da casa de Sousa se ter conservado em 
seu irmão Diogo Afonso de Sousa, devendo portanto ser este o primogé- 
nito (7), não tem força nenhuma por assentar em base errónea. Mandado 
por D. Afonso IV, durante o cerco por ele posto a Badajoz em i336, aco- 
meter Vila Nova da Barcarrota foi completamente desbaratado, dando o 
siflcesso lugar a ser levantado o referido cerco 1^8). Passou depois para Cas- 
tela e foi o progenitor dos Sousas de Fernan Nuííez, dos quais foram chefes 
os condes de Arenales, marqueses de Guadalcasar, com ramificações em 
Espanha, e, segundo se diz, com uma linha que existiu em Benavente. Os 
descendentes espanhóis deste Pedro Afonso usaram das seguintes armas: 
franchado -de vermelho e prata, no vermelho castelo de oiro, na prata as 
quinas do reino (9). 



(i) Chancelaria de D. Denis^ liv. 3.», fl. 58 v. 

(2) Veja-se lá atrás na pág. 266, nota 2, onde vêem mencionados todos os confirmantes 
desta carta. 

(3) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.°, fl. 72 v. 

(4) Figanière, Memorias das Rainhas, pág. 289. 

(5) B. João de Aboim, cit., pág. 186 do Archivo histórico portuguez, ou melhor, por 
ser transcrição do original, na pág. 179 do Livro dos bens de D. João de Portel. 

(6) Portuga liae monumenta histórica. Scriptores, pág. 291. ff 

(7) Historia genealógica, XII, 597. 

(8) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso IV^ fl. 35-36; Duarte Nunes de Lião, Primeira 
parte das Chronicas, ú. i5i-i52. 

(9) Descripcion genealógica y historial de la ilustre Cása de Sousa, Madrid, 1770, 4.", 
pág. 259. 



Sousas ' 277 

2.*' — Rodrigo Afonso de Sousa, rico liomem, serviu de testemunha na 
procuração passada, em 6 de Março de iSgg (i36i), por el rei D. Pedro I a 
D. Fr. Martim do Avelar, mestre de Avis, para tratar de tréguas ou pazes 
com D. Pedro IV de Aragão (i). Teve dois filhos bastardos: Gonçalo Ro- 
drigues de Sousa e Fernão Gonçalves de Sousa. Gonçalo Rodrigues foi se- 
nhor de Mafra, Ericeira e Enxara dos Cavaleiros por compra de D. Maria 
Teles, e alcaide mor de Monsaraz. Em 1884 passou-se para Castela e, sen- 
do-lhe por esta traição confiscados todos seus bens, foi a vila de Monsaraz 
doada a Mem Rodrigues de Vasconcelos, por carta de 24 de Setembro, e os 
seus bens móveis, por outra do dia seguinte, ifcFernão Gonçalves da Amei- 
xoeira (2); as vilas de Mafra, Ericeira e Enxara regressaram ao filho de 
D. Maria Teks, o mestre de Cristo D. Lopo Dias de Sousa. Gonçalo Ro- 
drigues foi progenitor de um ramo ilegítimo de Sousas, no qual há muito se 
extinguiu a varonia. Seu irmão Fernão Gonçalves de Sousa foi senhor de 
Vila Boim, por carta de 14 de Julho de 1374, sendo já alcaide mor de Portel 
desde 9 de Junho de i368; tudo porém perdeu por seguir o partido caste- 
lhano, tendo-se visto obrigado a entregar o castelo e marchar para o exílio 
em fins de i38z|.(3j. Nada mais sei dele. 

3.° — Diogo Afonso de Sousa de quem tratarei adiante. 

4." — Garcia Mendes de Sousa, contemplado em i337 com um legado 
de duzentas e cinquenta libras, no testamento de sua lia D. Maria de Aboim, 
dizem ter sido prior da Alcáçova de Santarém. 

5.** — Gonçalo Mendes de Sousa foi contemplado por sua tia com igual 
legado e é esta a única notícia positiva que dele tenho. Dele pretenderam, 
sem fundamento, deduzir por linha feminina os Sousas de Toledo (4). 

Diogo Afonso de Sousa foi criado por sua tia D. Maria de Aboim, irmã 
de seu avô D. Pedro Eanes de Portel. No seu testamento, feito em 3o de 
Julho de i337, deixa-lhe ela um legado importante : «a Diago affonso meu 
criado as mhas vilas de Mafara E da Eyricejra asy como mhas deu El Rey 
E lhe Eu ia delas fiz doaçÕ» (5). 

Não resisto a transcrever, para mostrar os processos de investigação his- 
tórica de D. António Caetano de Sousa, o que êle diz deste Diogo i^onso 



( 1 ) Visconde de Santarém, Corpo diplomático portugue^, I, 3 1 7. 

(2) Chancelaria de D. João /, liv. i.°, fls. 39 e 64. 

(3) D. João de Abotm, cit., págs. i54 e 169. 

(4) Descripcion de la ilustre Casa de Sousa^ cit., pág. 24 r. 

(5) D. João de Aboim, cit., pág. 1S6, e melhor no Livro dos bens de D. João de Portel* 
pág. 179- 



278 Brasões 

de Sousa: «veyo elle a succeder em toda a grande Casa de seus pays, e 
avós: porque foy Senhor da Povoa, de Salvador, Ayres, e outras terras, Se- 
nhor de Mafra, Ericeira, e Enxara dos Cavalleiros, por Doaçaõ que lhe fez 
sua tia D. Maria Annes de Aboim . . . que foy Senhora destas terras; e naÕ 
tendo filhos de seus dous maridos . . . fez o seu Testamento em 3o de Julho 
de iSSy, e deixou os seus bens a sua sobrinha Dona Maria Paes Ribeira, e 
a seus filhos, dos quaes veyo a ser successor universal Dom Diogo Affonso de 
Sousa» (i). Quem ler isto e vir citado o testamento de D. Maria de Aboim 
há de supor que D. António Caetano tirou as suas afirmações daquele do- 
cumento, pois nele, para o caso, lê-se isto: «E arredóós todos tã bé a dita 
Dona Maria Ribeyra come os ditos seus filhos E todolos outros, meos paretes 
de Todolos outros meus béés saluo daquelo q lhes E,u mãdo é este meu Tes- 
taméto». O que lhes mandou dar no seu testamento, foram os legados em 
dinheiro, acima especificados, e o das vilas de Mafra e Ericeira. Além disso 
também é curioso como da Póvoa de Salvador Aires, uma herdade de Afonso 
Denis, da qual não subsistem vestígios nenhuns, se fazem três povoações di- 
versas. Fraquezas de genealogista cortesão. Toda a preocupação de D. An- 
tónio é fazer crer que os bens da casa de Sousa, como ele lhe chama, foram 
passando de geração em geração até chegarem a D. Maria Pais Ribeira e a 
seu filho Diogo Afonso. Assim porém não sucedeu, porque a parte dos re- 
feridos bens, que em partilha coube a D. Constança Mendes de Sousa, mu- 
lher de D. Pedro Eanes de Portel, passou a sua filha D. Branca e desta, por 
falecimento de seu único filho, a seu viúvo, como acima ficou dito. Maria 
Peres, irmã de D. Branca, nada dela herdou. 

Foi Diogo Afonso de Sousa sepultado na igreja de Santo André de Mafra, 
onde lhe puseram este epitáfio: Aquijai D. Diogo de Sousa, Senhor que for 
desta Villa, e se passou em Coimbra a j8 de Novembro da Era de 1882 (2). 
E ano do Nascimento de 1844. Da inscrição já em 1879 não foram encon- 
trados vestígios (3). No dia 5 de Outubro de 1914 estive na arruinada igreja 
de Santo André, vi os túmulos de D. Diogo e de sua mulher, colocados de- 
baixo do coro à direita entrando, e chegados à parede. Em nenhum deles 
existe inscrição; mas pode ser que ela tivesse sido gravada nalguma lâmina 
de pedra colocada na parede da capela mor, onde se diz "que os sepulcros 



(i) História genealógica^ tom. XII, págs. 262 e 263. 

(2) Manuel de Sousa iMoreira, Theatro histórico, genealógico^ y panegírico: erigido a 
la Immortalidad de la ... Casa de Sousa, pág. 386. — Este livro é obra reduzida do ms. Re- 
lação da Família de Sousa da Casa dos Condes de Miranda, de Gaspar Alvares de Lousada, 
segundo afirma D. António Caetano de Sousa, na Hist07-ia genealógica, XII, 219. 

(3) Estácio da Veiga, Antiguidades de Mafra, pág. 67. 



Sonsas 279 

tiveram primitivamente o seu lugar. No de D. Diogo estão esculpidos na 
frente três escudos d'armas e mais dois nos topos, todos iguais, com as ar- 
mas dos Sousas, assim: esquartelado: no I e IV as quinas do reino, com 
os escudetes dos flancos apontados ao do centro; no II e III a caderna de 
crescentes. 

D. Diogo Afonso de Sousa casou com D. Violante Lopes Pacheco, viúva 
de Martim Vasques da Cunha, 6.° senhor da Tábua, e filha de Lopo Fernan- 
des Pacheco, senhor de Ferreira, e de sua primeira mulher D. Maria Gomes 
Taveira. Sucedeu D. Violante a seu marido no senhorio das Vilas de Mafra 
e Ericeira, talvez por elas terem sido doadas conjuntamente aos dois cônjuges 
por D. Maria de Aboim. Privada temporariamente do senhorio das suas 
vilas, foi-lhe porem novamente confirmada a jurisdição delas por carta de 12 
de Agosto de i362, mas pouco tempo a usufruiu pois que, por carta de 17 
de Abril de i365, foi o senhorio de Mafra confirmado, por seu falecimento, 
a sua filha D. Branca de Sousa (i). Alem dela, foram também filhos de 
D. Diogo Afonso e de D. Violante Lopes, Álvaro Dias de Sousa e Lopo Dias 
de Sousa. 

Álvaro Dias, sendo já casado com D. Maria Teles, teve de se expatriar 
para fugir ã sanha de D. Pedro I por ser o amante preterido da dama por 
el Rei requestada; no exílio morreu antes de Abril de i365. Seu irmão Lopo, 
que tivera também de fugir com êle, foi mais feliz, pois que ainda regressou 
ao reino depois da morte de D. Pedro. Bem recebido de D. Fernando, que 
lhe deu em i368 a alcaidaria mor de Chaves, achava-se três anos depois, 
provavelmente por morte da irmã D. Branca, de posse das vilas de Mafra e 
Ericeira conjuntamente com seu sobrinho do mesmo nome (2). 

Este sobrinho era Lopo Dias de Sousa, filho de Álvaro Dias de Sousa e 
D. Maria Teles. Por falecimento do mestre de Cristo D. Nuno Rodrigues 
Freire fez a rainha D. Leonor dar o mestrado daquela Ordem ao filho de 
sua irmã, o qual ainda era então de menor idade (3). Vem a notícia desta 
mercê entre várias outras no capítulo relativo ao casamento de D. Leonor 
com el Rei D. Fernando, mas do facto não se deve inferir forçosamente que 
todas elas sejam do ano de 1372, o do enlace; algumas são posteriores. 
Tanto na data da investidura de D. Lopo Dias no mestrado de Cristo, como 
na de seu sucessor o infante D. Henrique, existem há muito dúvidas ainda 
hoje não esclarecidas mesmo depois da publicação de dois livros, onde elas 



(i) D. João de Aboim, cit., págs. i63 e 164. 

(2) Ibidem. 

(3) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, págs. i()i e 342. 



28o Brasões 

deveriam vir resolvidas ou pelo menos aclaradas (i). Neste estado terei de 
as deixar pois não me compete escrever aqui a história da Ordem, não obs- 
tante, socorrendo-me do melhor guia, direi o que este nos ensina a tal res- 
peito. 

Por alvará de i6 de Dezembro de i56o foi encarregado o dr. Pdr' Alvares 
[Seco], do desembargo dei FÍei, de compilar os livros das escrituras da Ordem 
de Cristo. Desempenhou-se da tarefa e pôs à sua compilação o título de 
Lhiro dos sumários das scrittiras da ordem de nosso snor jesu christo pola 
ordenança e situação em que as ditas escrituras cõ os mesmos sumários 
pão scritas no liuro q delias mãdou fa\er ElRey dom Sebastião, etc. (2). 
Desta obra e do seu autor diz Fr. Francisco Brandão: «Tudo dispôs Pedro 
Alvares Seco com notável clareza, e trabalho incansável,, que entendo ser a 
escritura desta qualidade mais bem digesta que ha em Espanha, e a não lhe 
dar Deos particular talento para tal occupação, parece impossível poder con- 
cluir com perfeição obra tão dilatada, e trabalhosa» (3). Ora, a propósito 
de D. Lopo Dias, afirma o dr. Seco haver êle sido nomeado mestre quando 
era moço de doze anos e, por esse facto, ter só sido confirmando ao atingir a 
idade perfeita, pelo papa Bonifácio IX, e portanto entre os anos de íSSg e 
1404, os do seu pontificado. Quanto à investidura averigua-se isto; quanto 
à morte, apura-se o seguinte. Já no ano do Nascimento de 1420 era mestre 
o infante D. Henrique, «e por escrituras que se acharão no livro novo pa- 
rece claramente que o dito dom Lopo Dias faleçeo des o ano. . . de 1416. ate 
o anno de 1420. E a certeza do anno em que faleceo e em que foi feito 
Mestre o... Iffante ategora o não achei pêra. o poder çertifiquar» (4). 

Foi mandado sepultar pelo infante D. Henrique, na igreja do convento 
de Cristo em Tomar, em rico sarcófago, com a sua imagem de vulto de 
tamanho natural deitada sobre a campa, colocado na parede da parte do evan- 
gelho Junto da porta, posteriormente tapada, da sacristia velha. Esta sepul- 
tura mandou depois D. João III trasladar para a parede da direita da capelinha 
de Nossa Senhora, por baixo da torre dos sinos, e por a estátua jacente aí 
não caber, se meteram os ossos em menor túmulo, na frente do qual se mandou 
gravar uma cópia do letreiro antigo (5). 

O epitáfio não transcreverei, porque se encontra reproduzido em muita 



(i) Vieira Guimarães, A Ordem de Christo, Lisboa, 1901; Marrocos e três mestres da 
Ordem de Cristo, Coimbra, 1916. 

(2) Torre do Tombo; Christo^ B-51-14. 

(3) Monarchia lusitana, VI, 281.' 

{4) Livro dos summarios, cit. fl, 27 v. 
(5) Ibidem. 



Sousas 281 

parte (i). Nele avulta o êrro da data da morte do mestre D. Lopo Dias, 
pois a põe no dia 9 de Fevereiro da era de Cristo de 1435, quando êle já 
estava morto muito antes. Para se entender ser a era de César, também 
não acerta, porque então dava o ano do Nascimento de iSgy, ao qual o 
Mestre sobreviveu. Na reprodução do brasão também houve, segundo me 
parece, pouco escrúpulo, pois o escudo, igual ao do avô, tem os escudetes 
das quinas todos postos a direito, como se usava nos tempos de D. João 111. 
Nas crónicas de D. João 1 de Fernão Lopes e de Gomes Eanes de Azu- 
rara encontra-se larga menção das acções do mestre D. Lopo Dias de Sousa, 
que não casou, por isso ser então defendido aos comendadores das ordens 
militares, mas teve muitos filhos bastardos. Um deles foi D. Leonor Lopes 
de Sousa, a quem seu pai, designando-a por sua parenta e criada, fez doação, 
por escritura de 2 de Março de iSgS, em casamento com Fernão Martins 
Coutinho, dos lugares de Mafra, Ericeira e outros. Aos descendentes destes 
cônjujes, os Marqueses de Ponte de Lima, veio ultimamente a pertencer o 
senhorio de Mafra (2). 

Outra filha bastarda do Mestre de Cristo foi D. Isabel de Sousa e dela 
provêem os Sousas do Calhariz, duques de Palmela. Casou D. Isabel, antes 
de 10 de Abril de 1460, com Diogo Lopes Lobo (3), 3." senhor de Alvito, e 
dele teve três filhos todos mortos em vida de seu pai, pelo que foi a este con- 
cedido, por cartas de 22 de Julho e 11 de Setembro de 1470, poder sua filha 
maior D. Maria de Sousa suceder-lhe no senhorio de Alvito, Vila Nova, Ri- 
beira de Nisa, Aguiar e Oriola, tudo de juro e herdade, sendo ela já então 
casada com o dr. João Fernandes da Silveira, regedor da Casa da Suplica- 
ção (4). Foram os 1.°' Barões de Alvito por carta de 27 de Abril de 1476, 
passando d'então em diante o dr. João Fernandes a chamar-se D. João da 
Silveira, e a êle, por carta de 6 de Outubro de 1488, foi feita mercê do dom 
para seus filhos (5). 

Dos Barões de Alvito foi filho segundo D. Felipe de Sousa. Casou com 
D. Felipa da Silva com quem fez testamento de mão comum em 25 de Julho 
de i5i6, instituindo nele o morgado de Monfalim no termo de Torres Vedras. 



(i) Sousa Moreira, Theatro histórico^ em frente da pág. 494; P.^ Sousa, Historia genea- 
lógica^ XII, 287; Arte portuguesa, pág. 36, a melhor de todas as reproduções, etc. 

(2) D. João de Aboim, cit. págs. i65 e 167. 

(3) Por carta da referida data foi confirmada uma tença de 20.000 reais pelas 2 000 co- 
roas por Diogo Lopes Lobo prometidas em casamento a D. Isabel de Sousa. — Chancelaria 
de D. Afonso V, liv. 34.», fl. 58 v. 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 6.», fl. 127. 

(5) Ibidem, liv, ig.», fl. 14(3. 

voL. 1 36 



282 Brasões 

Ela ara filha de Gil Vaz da Cunha, senhor da quinta do Calhariz no termo 
de Cezirnbra, a qual lhe havia sido aforada pela igreja de S. Mamede de 
Lisboa c lhe foi confirmada por D, Manuel, em 4 de Maio de i5oi (i). Veio 
a quinta a pertencer aos descendentes de sua filha D. Felipa. 

D. Felipe de Sousa foi progenitor da casa dos Sousas do Calhariz, condes 
de Palmela em 11 de Abril de 1812, marqueses da mesma vila em 3 de 
Julho de 1823, e finalmente duques de Palmela em i3 de Junho de i833, tí- 
tulo em que foi mudado o de duque de Faial, concedido em 4 de Abril do 
mesmo ano ao chefe da casa, o bem conhecido e considerado homem de Es- 
tado, que se chamou D. Pedro de Sousa Holstein. Em primogénitos, ou em 
filhos segundos da casa de Palmela, tem havido estes títulos: conde de Ca- 
lhariz, 3 de Julho de 1823, marquês de Faial, i de Dezembro de 1834, mar- 
quês de Sousa Holstein, 3 de Setembro de i855, marquês de Monfalim, 9 de 
Agosto de 1861, e marquês de Cezimbra, 3 de Fevereiro de 1864. Todos 
estes títulos estão actualmente (1920) extintos, menos os de marquês de Faial 
e de Sousa Holstein. 

As armas dos duques de Palmela são as dos Sousas de Arronches, es- 
quarteladas das armas do reino, e de vermelho com uma caderna de cres- 
centes de prata. Agora, neste ano de 1900, numas obras que os Duques 
mandaram fazer no seu palácio do Rato, puseram sobre a porta de entrada 
um enorme pedregulho com as armas da casa, mas erradas. 

Em heráldica o tracejado no campo, ou nos móveis do escudo, não é in- 
diferente, pois serve para designar os esmaltes. O tracejado que está no II 
e III quartéis das tais armas indica para o campo a cor púrpura, quando ela 
deve ser a vermelha. O canteiro achou monótona, pouco artística, a repetição 
do mesmo tracejado, e variou do I para o II quartel. Caprichos de artista. 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 6.°, fl. 44. — Por este documento consta haver a 
quinta do Calhariz pertencido a Pedr'Eanes Lobato (o que foi governador da Casa do Cível) 
e tê-la ele, no seu testamento, vinculado a uma capela fundada na igreja de S. Mamede de 
Lisboa. Fora a quinta aforada em três vidas a um criado do infante, D. Fernando, mestre 
Joane, que a deixou muito danificada, alem de ficar devendo grande dívida de foros. Con- 
vieram então a viúva e os filhos com o provedor, procurador e confrades, e com o juiz do 
cível, especialmente delegado pelo testador para intervir nos assuntos relativos á capela, 
encampar o praso e aforá-lo de novo a Gil Vaz da Cunha, com a condição dele pagar a dí- 
vida dos foros, na importância de 20.000 e tantos reais. Vinte e um anos depois deste acordo, 
havendo já Gil Vaz gasto muito dinheiro na quinta, onde fizera uma casa, que lhe custara 
bem 200.000 rs., metera baceladas, que podiam dar 3o ou 40 pipas de vinho, esmoitara her- 
dades, que levariam sete moios de semeadura, e fizera pomares e outras muitas bemfeitorias» 
veio pedir a el Rei lhe garantisse as despesas feitas. Foi-lhe então passada a referida carta 
de 4 de Maio de i5oi, pela qual, além de se lhe confirmar o aforamento, foi dispensada qual- 
quer determinação do regimento das capelas contrária ao praticado. 



Sotísas 283 

Doutro brasão também usaram os Duques de Palmela: dois escudos a 
par: o primeiro das referidas armas dos Sousas; o segundo esquartelado: o 
I de azul, cruz potentéa de oiro (Teixeira); o lí esquartelado: o i.° e 4.*' de 
oiro, águia de púrpura, linguada de vermelho, o 2.° e 3.° enxequetado de 
oiro e negro de sete peças em faxa e oito em pala, bordadura de todo o 
quartel de vermelho, carregada de oito SS de prata (Sampaio); o III de oiro 
seis minguantes de azul (Amaral); o IV de azul cinco flores de lis de oiro 
(Guedes). Coroa de duque com barrete de par do reino à inglesa. Divisa: 
VERITATEM REGIBUS. 

As armas do segundo escudo são as do Conde da Póvoa, de quem a casa 
de Palmela herdou a grande fortuna. 

A mais duas filhas bastardas do mestre D. Lopo Dias de Sousa me refe- 
rirei, por delas terem tomado o apelido alguns de seus descendentes. Cha- 
maram-se D. Violante de Sousa e D. Branca de Sousa. 

D. Violante casou, precedendo contrato de dote e arras de 8 de Maio de 
1428, a 9 de Julho confirmado por el Rei (i), com Rui Vasques Ribeiro, 
2.° senhor de Figueiró, filho ilegítimo dè Rui Mendes de Vasconcelos, 
i.** senhor de Figueiró. Daqueles cônjuges foi filho e sucessor João Ro- 
drigues Ribeiro, 3." senhor de Figueiró, de quem se derivaram duas linhas 
de Vasconcelos; na primogénita, deduzida de Rui Mendes de Vasconcelos, 
4.'' senhor de Figueiró, manteve-se o apelido de Vasconcelos; na segundo- 
génita, proveniente de Pêro de Sousa Ribeiro, i.** alcaide mor de Pombal, 
obliterou-se durante quatro ou cinco gerações o apelido originário, que 
só tornou a aparecer em Francisco de Vasconcelos, 5.® alcaide mor de 
Pombal, e em seu irmão João Rodrigues de Vasconcelos, 2.° conde de Cas- 
telo Melhor e 6.° alcaide mor de Pombal. Foi progenitor dos mais condes 
e depois marqueses de Castelo Melhor, os quais ao apelido de Vasconcelos 
juntaram o de Sousa, em recordação de D. Violante, a bastarda do Mestre 
de Cristo. 

Do 3.° senhor de Figueiró também foi filho D. Diogo de Sousa, arcebispo 
de Braga, ainda hoje com veneração recordado na capital da sua arquidiocese. 

D. Branca de Sousa, a última das bastardas de D. Lopo Dias de Sousa, 
Mestre de Cristo, a que me referirei, foi criada de D. João I e já era casada 
em Maio de 1481 com João Falcão, cavaleiro da casa do infante D. Pedro (2). 



( i) Chancelaria de D. João 1, liv. 4.', fl. 63. 

(2) Carta de i de Maio de 143 1 de «m conto e 5o.ooo libras de tença por 3.ooo coroas 
de oiro que D. João I lhe prometera em casamento. Foi confirmada por D. Duarte a 19 de 



284 Brasões 

Foi alcaide do castelo de Mourão e por canas de 24 de Novembro de 1433 
e de 4 de Março de 1438 foi-lhe feita mercê das rendas riais de Elvas, com 
o serviço novo dos Judeus (i), e dos direitos de Mourão, também com o ser- 
viço dos Judeus e Moiros do lugar (2). Já era falecido em i de Abril de 
1452 (3), e por dois dos filhos havidos de sua mulher foi progenitor dos Fal- 
cões, alguns dos quais usaram também do apelido de Sousa. Entre os seus 
descendentes tem bastante nomeada seu bisneto Cristóvão Falcão, o poeta da 
égloga Crisfal, na opinião de muitos. 

Filhos bastardos legitimados, havidos em Leonor Ribeira, teve o Mestre 
de Cristo dois: Lopo t)ias de Sousa e Diogo Lopes de Sousa (4). Apesar 
porém de na carta de legitimação eles aparecerem por esta ordem, é certo 
haver Diogo Lopes sido o «filho maior», como declara o documento a seguir 
apontado. 

No verão de 1398 pôs D. João I cerco à cidade de Tui e nela entrou no 
dia 26 de Julho, segundo refere a sua crónica. Logo no dia seguinte mandou 
expedir uma carta notável, datada do «arraial a par da nossa cidade de Tuy», 
pela qual constituiu a moderna casa de Sousa. Diz o diploma, livremente 
extractado: «Fazemos saber que por as maldades e traições, que contra 
nós e contra nossa pessoa e coroa de nossos reinos cometeu Egas Coelho, 
sendo nosso vassalo e natural, em contratando e induzindo alguns cavaleiros 
e escudeiros do nosso senhorio, que se levantassem contra nós com algumas 
nossas fortalezas, e se fossem para nosso adversário de Castela,... e porque 
outrosim veio por vezes com nossos inimigos de Castela a nossa terra, aju- 
dando-os a fazer em ela guerra crua de fogo e de sangue. . .». Este Egas 
Coelho, aliado agora dos Castelhanos, é o mesmo que em i385 ajudara a 
desbaratá-los na gloriosa batalha de Trancoso ! Por estas «traições e mal- 
dade», continua a dizer a carta, foram-lhe todos seus bens confiscados; agora 
porém «vendo e consirando os muitos serviços de D. Fr. Lopo Dias, mestre 



Junho de 1434, e por D. Afonso V a 8 de Abril de 1439 e a 18 de Dezembro de 1450. — 
Chancelaria de D. Afonso V, livs. i8.°, fl. 5y v., e 34.», fl. 16 v. 
(i) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.°, fl. 1 1 v. 

(2) Transcrita na de confirmação de 28 de Dezembro de 1450. — Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 34», fl. 17. 

(3) Carta desta data de doação a Álvaro de Moura, fidalgo, em sua vida, da renda do 
genesi de Évora e povoações adjuntas, em casamento com D, Branca, filha do havia pouco 
falecido João Falcão. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.", fl. 28 v. 

(4) Carta de legitimação de 3 de Janeiro da era de 1436, ano do Nascimento de i3q8 
{Chancelaria de D. João 1, liv. 2.0, fl, 167). ' Por esta carta também foi legitimada D. Maria 
de Sousa, futura condessa de Marialva pelo seu casamento. 



Sousas 285 

da Ordem de Cristo, e os que entendemos de receber de Diogo Lopes de 
Sousa, seu filho maior», faz-lhe doação para sempre de todos os bens de 
Egas Coelho, convém a saber: «a vila de Miranda e de Podentes, Germelo, 
Folgosinho, julgado de Vouga, com todas as suas rendas, direitos e jurisdi- 
ções. . . dos bens de Leiria e de todolos outros do dito Egas Coelho», e ainda 
mais do lugar de Nelas, que havia sido de D. João Afonso Telo, 6.*^ conde 
de Barcelos. Estabelece a sucessão para o filho maior legítimo e, não havendo 
descendência varonil, fiquem os bens a seu irmão Lopo Dias, etc. (i). 

Possuiu também a alcaidaria mor de Arronches, segundo se depreende 
da carta de i5 de Março de 144 1 de fronteiro daquela vila (2) e doutros 
documentos posteriores. Transmitiu-a a seus descendentes, aos quais da 
posse deste castelo, onde fixaram residência, se deu a designação de Sousas 
de Arronches. A alcaidaria passou a seu filho Álvaro de Sousa e a seu 
neto Diogo Lopes de Sousa, a quem foi confirmada por carta de 18 de No- 
vembro de 147 1 já citada. A este seguiram-se os seus descendentes e suces- 
sores no senhorio de Miranda e mais bens da casa.' 

Diogo Lopes de Sousa, o primeiro, mordomo mor dei rei D. Duarte, já 
exercia o ofício em 21 de Maio de 1484, quando lhe foi confirmada a doação 



(i) Chancelaria de D. Duarte^ liv. i.°, fl. 58 v., transcrita na carta de confirmação de 
21 de Janeiro de 1434. — Não encontrei a carta da primitiva doação registada na Chancelaria 
de D. João I, onde contudo, na fl. 154 do liv. 2.", aparece outra análoga, datada porem de 
i5 de Julho de 1435 (iBgy) e portanto do ano precedente. Neste diploma a doação é feita 
directamente a Diogo Lopes de Sousa, «nosso criado», em morgado, para todos seus des- 
cendentes em linha direita, sem exclusão de filhas. Qual o motivo por que posteriormente 
se reformou, ignoro. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 2 3.", fl. 22. — No lugar indicado encontra-se o re- 
gisto de uma carta pela qual Diogo Lopes de Sousa, do conselho, mordomo mor e alcaide 
mor da vila de Elvas, foi nomeado seu fronteiro. Dada a oarta em Lamego, a i5 de Março 
de 1441. A seguir notaram apenas outra tal carta de fronteiro de Arronches, expedida na 
mesma data. Deverá depreender-se que, assim como Diogo Lopes foi nomeado fronteiro 
de Elvas, sendo alcaide mor do seu castelo, também seria nomeado fronteiro de Arronches 
por ser alcaide mor do seu castelo. Na-carta de 18 de Novembro de 147 1, de confirmação 
da alcaidaria mor de Arronches a seu neto Diogo Lopes de Sousa, declara el Rei que «o 
damos por alcaide mor do nosso castelo de Arronches, assim como o de nós tinha Al^varo 
de Sousa seu pai, que se ora finou» {Chancelaria de D. João II, liv. 12.°, fl. t38, transcrita 
na de nova confirmação), d'onde se vê ter Álvaro de Sousa também possuído aquela alcai- 
daria. João Carlos Feo, nas Memorias dos Duques, pág. 182, confundindo este Diogo Lopes 
de Sousa com o neto do mesmo nome, declara que ele foi alcaide mor de Arronches «por 
escambo que fez com Ruy Mendes Cerveira, confirmado em 8 de Março de 1441 pelo Infante 
D. Pedro». Não cita a fonte, conforme um deplorável costume que lhe servia para envolver 
o suposto no provado, e eu não encontrei o registo da confirmação do tal escambo, que na 
verdade poderia ter tido lugar pois é certo ter Rui Mendes Cerveira possuído a alc;iidaria. 



286 Brasões 

dos bens de Egas Coelho (i). Continuou servindo a D. Afonso V no -mesma 
cargo, sendo depois de seu falecimento substituído por seu filho Álvaro de 
Sousa, que já era mordomo mor em 1460 (2). Perderia ele, se não fosse já 
falecido, o ofício e a casa em virtude do crime de bigamia, provado e jul- 
gado. Constitui este facto um escândalo de corte interessante de registar. 

Álvaro de Sousa casou com D. Maria de Castro, filha de D. Fernando 
de Castro, governador da casa do ijjfante D. Henrique. Morreu esta senhora 
não sei quando, mas certamente bastante antes do ano de 1461, e talvez 
ainda antes de Dezembro de 1455, data da morte da rainha D. Isabel. Por 
falecimento de sua mulher tomou-se Álvaro de Castro de amores com D. Maria 
de Meneses, donzela da casa daquela Rainha, amores correspondidos até ao 
ponto de nada lhe ser negado (3). Não se prendeu contudo o amante feliz 
e foi casar com Isabel da Silva, prima em segundo grau da sua amada; com 
ela viveu como marido e mulher durante um certo período, dela teve um 
filho, mas, sempre volúvel, dela se veio a apartar. Então tornou a casar 
com D. Guiomar de Meneses, irmã de D. Maria de Meneses; não se resignou 
porem ao abandono Isabel da Silva, pôs-lhes demanda, venceu-a e teve sen- 
tença de confirmação do seu casamento. Em virtude dela mandou D. Afonso V 
expedir a carta de i de Dezembro de 1472 pela qual confiscou os bens de 
D. Guiomar de Meneses e de seu marido, e de todos fez mercê a Diogo 
Lopes de Sousa, seu mordomo mor e filho do prirneiro casamento de Álvaro 
de Sousa (4). Já então havia mais de um ano que ocorrera o falecimento 
de Álvaro de Sousa (õ), e mais de onze que tivera lugar o casamento de 
D. Maria de Meneses com Gil de Magalhães, senhor da terra da Nóbrega (6). 
Talvez esta senhora seja a mesma a quem Pêro de Sousa Ribeiro endereçou 
as trovas «aa senhora dona maria de meneses estando para casar» (7). 

D. Guiomar e D. Maria de Meneses eram filhas de Rui Gomes da Silva, 



( 1 ) Chancelaria de D. Duarte, liv. i .°, fl. 58 v. 

(2) Carta de 28 de Julho de confirmação das vilas de Miranda, Podentes e mais bens- 
da casa de Sousa, transcrita noutra registada na Chancelaria de D. João 11^ liv. 12.°, fl. i36 v, 

(3) «... o dito Álvaro de Sousa dormira primeiro com D. Maria de Meneses sua irmã 
(de D. Guiomar de Meneses) carnalmente». — Carta de i de Dezembro de 1472 abaixo citada- 

(4) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 29.°, fl 244 v. 

(5) Carta de 18 de Novembro de 1471 de mercê do cargo de mordomo mor a Diogo- 
Lopes de Sousa, por falecimento de seu pai Álvaro de Sousa. — Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. 2i.°, fl. 82, 

(6) Carta de 12 de Dezembro de 1461 da tença correspondente às 2.000 coroas de oiro 
do dote por D. Afonso V outorgado a D, Maria de Meneses. — Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. 9.", fl. 9 V. 

(7) Cancioneiro geral, fl. 149, col. i. * 



Sousas 287 

alcaide mor de Campo Maior e Ouguela. D. Maria teve provavelmente vida 
socegada lá no Minho com seu marido, quer ele ignorasse, quer êle soubesse 
a sua aventura; agora D. Guiomar, essa, andou sempre em questões com o 
enteado (i). 

Diogo Lopes de Sousa foi mordomo mor de D. Afonso V, 3.° senhor de 
Miranda, Podentes e mais casa, que lhe foi confirmada por carta de 14 de 
Julho de 1477 (2), e alcaide mor de Arronches de que teve carta de con- 
firmação, passada em Sintra a 18 de Novembro de 147 1 (3). Tirou-lhe 
D. Afonso V o ofício de mordomo mor, quando foi da entrada em Castela, 
em virtude da capitulação celebrada coni os grandes daquele reino; mas, por 
carta de 21 de Abril de 1475, em satisfação da mordomia mor e dos seus 
serviços, deu-lhe D. Afonso V uma tença (4), confirmada e ampliada por 
D. João II por carta de 23 de Junho de 1484 (5). Já era casado em Feve- 
reiro de Í475 com D. Isabel de Noronha (6), que foi sua primeira mulher e 
era filha de Pêro Vaz de Melo, regedor da Casa do Cível. Deste casamento 
nasceram, entre outros, André de Sousa e Henrique de Sousa. 

André Sousa foi 4." alcaide mor de Arronches e senhor de Miranda e 
mais casa de seus avós. Continuou-se ela na sua descendência até seu 
bisneto Manuel de Sousa, 7.° senhor, que faleceu criança pelos anos de 1570 
e foi a casa julgada vaga para a Coroa, por sentença de 27 de Março de 
1574(7). 

Henrique de Sousa, o Diabo, foi senhor de Oliveira do Bairro por carta 



(i) Por instrumento de 21 de Fevereiro de 1475, confirmado por carta régia de 12 de 
Março seguinte, compusera-se D. Guiomar de Meneses com seu enteado Diogo Lopes de 
Sousa, obrigando-se este a dar-lhe anualmente 85.ooo rs. pagos em certas rendas (Chance- 
laria de D. Afonso F, liv. 3o.°, fl. 176 v.). Destas parece ter-lhe só entregado a dos moios 
de Arronches (Ibidem)^ fazendo-se remisso na entrega das restantes, e não sei se a carta de 
24 de Junho de 1476, para ser inteiramente cumprida a composição entre os dois celebrada 
{Ibidem, liv. 70.", fl. 100), daria resultado. 

(2) Transcrita na de aS de Junho de 1484 de nova confirmação. — Chancelaria de 
D. João II, liv. 12.», fl. i36 V. 

(3) Confirmada por D. João II a 33 de Junho de 1484 e por D. Manuel a 5 de Agosto 
4e 1496. — Liv. 5."» de Odiana; fl. 223 v. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.°, fl. i58 v. 

(5) Chancelaria de D. João II, liv. 4.», fl. 46. 

(6) A 2 de Fevereiro de 1475 assinou D. Isabel de Noronha, no castelo de Arronches, 
residência habitual destes Sousas, uma procuração passada a seu marido a fim de poder 
outorgar num contrato a celebrar com sua madrasta.— Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.», 
fl. 176 V. 

(7) Jorge de Gabedo, Decisionum Supremi senatus regni Lusitaniae, part. II, Arresto 76, 
pág. 192. . , ■ 



288 Brasões 

dada em Sintra, a 25 de Setembro de i5i6(i), anadel mor dos espingardeiros 
do reino por outra de 12 de Fevereiro de i524 (2) e do conselho de D. Ma- 
nuel e D. João III. Já era casado em ibog com D. Francisca de Mendoça (3), 
filha de Jorge da Silveira, do conselho e futuro guarda mor do infante 
D. Fernando. D. Francisca ainda vivia em Maio de i523 (4) e seu marido 
Henrique de Sousa já era falecido em 18 do mesmo mês de 1648 (5). 1 

Sucedeu-lhe na casa seu filho primogénito Diogo Lopes de Sousa, 2." se- 
nhor de Oliveira do Bairro, anadel mor dos espingardeiros (6) e embaixador 
a Inglaterra nos anos de i555 e i55ó(7). Foi do conselho e já era gover- 
nador da Casa do Cível de Lisboa em 12 de Julho de lôôg, quando, por oca- 
sião da peste grande, foi nomeada para a cidade uma junta governativa, com 
todos os poderes régios, composta dos vereadores da Câmara Municipal, de 
Diogo Lopes de Sousa, governador da Casa do Cível, de D. João Masca- 
renhas, capitão mor da gente da defesa da cidade, e de D. Martinho Pereira, 
vedor da fazenda rial (8). Sendo já do conselho de Estado, foi um dos cinco 
governadores do reino nomeados em i58o pelo Cardial Rei, falecido logo a 
3i de Janeiro; mas pouco tempo exerceu o cargo, porque no mesmo ano, a 
i3 de Setembro, morreu (9). 

No dia 3 de Outubro de 1379, estando o Cardial Rei no mosteiro de Xa- 
bregas, em presença de D. Jorge de Almeida, arcebispo de Lisboa, de D. João 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. 25», fl. 108. — A terra tinha vagado por falecimento 
de D. Telo de Meneses, 3.» senhor dela na sua hnha, e segundo primo de Henrique de Sousa- 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 41.* de Doações, fl. 68 v. — Henrique de Sousa com- 
prara o ofício por escritura feita em Tomar, a 4 de Setembro de i523, a Martim de Freitas, 
de menor idade, provável filho de Francisco Coelho, o precedente anadel mor dos espingar- 
deiros, como o próprio diploma declara. 

(3) Carta de 4 de Março de iSog de padrão de So.ooo rs. de tença, os quais seu pai nela 
traspassara, sendo já casada; está a carta transcrita na de 28 de Março de i522 de confir- 
mação. — Chancelaria de D. João III, liv. 3o.« de Doações, fl. 82. 

(4) Livro das tenças no Archivo histórico portuguez, II, 98. 

(5) Carta daquela data de confirmação do senhorio de Oliveira do Bairro a Diogo 
Lopes de Sousa, por falecimento de seu pai Henrique de Sousa. — Chancelaria de D. João III, 
liv. 55.» de Doações, fl. 147 v. 

(6) Largou este ofício, recebendo em troca So.ooo rs. de tença em sua vida, por carta 
de padrão de 26 de Julho de 1549. — Ibidem, fl. 190. 

(7) Em satisfação dos seus serviços na embaixada foi-lhe dada uma tença de i5o.ooors. 
por carta de 26 de Setembro de i558. — Chancelaria de D. Sebastião, liv. 4° de Doações,. 
fl. 12 V. 

(S) Freire de Oliveira, Elementos para a historia do município de Lisboa, vol. I, págs. 475- 
.476. 

(9) Carta de confirmação de uma tença a Bernardim de Sousa, sobrinho do Gover- 
nador. — Chancelaria de D. Felipe I, liv. 3." de Doações, fl. i68. 



Sonsas 28g 

Mascarenhas e de Francisco de Sá, fez doação a Diogo Lopes de Sousa das 
vilas de Miranda, Podentes, Vouga, Germelo e Folgosinho, as quais, pela sen- 
tença acima citada, tinham sido Julgadas vagas para a Coroa. A doação foi 
para ele e seus descendentes varões lídimos, no caso de os ter, e, não os 
tendo, passariam então as vilas a um seu sobrinho, filho maior legitimo de 
seu irmão Vasco de Sousa, com tal condição, que o sucessor nas terras havia 
de casar com uma filha de Fernão da Silva [de Meneses] e de D. Beatriz *de 
Vilhena, tia paterna de Manuel de Sousa, último senhor de Miranda. Desta 
doação verbal assinaram, a lo de Abril de i58o, já depois da morte do Gar- 
dial Rei, um atestado as três testemunhas acima nomeadas, todos colegas 
do novo donatário no governo do reino, declarando ser ela' verdadeira, e 
finalmente por carta do dia seguinte houveram os Governadores por bem con- 
firmar-lhe a doação (i). 

Diogo Lopes de Sousa também teve a afcunha do Diabo, «por saber muito», 
escreve ingenuamente um genealogista; mas, fosse por isso ou por outro 
motivo, o caso é que com ela se encontra em vários assentos nos livros paro- 
quiais da freguesia de Santa Cruz do Castelo (2). 

Sucedeu com efeito o filho maior de Vasco de Sousa, Henrique de Sousa, 
na casa que fora de seu tio o Governador e por cartas de 8 e 12 de Maio 
de i58i, passadas em Tomar, foram-lhe confirmados por Felipe I os senho- 
rios das vilas de Miranda, Podentes, Vouga, Germelo e Folgosinho, e terra 
de Oliveira do Bairro (3). Como ainda então não tivesse satisfeito à con- 
dição de casar com uma filha de Fernão da Silva de Meneses e de D. Bea- 
triz de Vilhena, sobreesteve-se na doação de Miranda e mais vilas até que, 
em Lisboa, a 28 de Outubro do mesmo ano, por o casamento estar já efei- 
tuado com D. Mecia de Vilhena, filha daqueles cônjuges, foi a carta definiti- 
vamente soescrita (4). Foi Henrique de Sousa governador da Casa da Relação 
do Porto, tendo tomado posse em lôgo, e em i6og passou para o conselho 
de Portugal em Madrid, onde pouco depois, por carta daída naquela cidade, 
a 21 de Março de 161 1,, foi criado conde de Miranda em sua vida (5). 



( 1 ) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique^ liv. 44.° de Doações, fl. Sjo. 

(2) P. ex. no de 11 de Setembro de 077 de óbito de Lourenço Garcês, criado dele pró- 
prio, do qual ficou por testamenteiro «o governador diogo lopez de sousa o diabo dallcunha». 
— Registo da freguesia de Santa Cru\ do Castello, pág. 264. 

(?) Chancelaria de D. Sebastião e D Henrique, liv. 45.° de Doações, fl. 3o5 e 804 v. 

(4) Ibidem, fl. 3o5. 

(5) Havendo respeito aos muitos e continuados serviços de Henrique de Sousa, do con- 
selho de Estado, e à particular satisfação minha com que sempre os fez em todas as ocasiões 
e cargos em que me tem servido, e em especial no conselho da Coroa de Portugal, que 
nesta cidade reside, confiando que assim o fará sempre, como de seu zelo e de quem é se 

voí.. I 37 



290 Brasões 

Nos seus descendentes continuou-se a casa, tendo sido a seu neto, Hen- 
rique de Sousa Tavares da Silva, 3.° conde de Miranda, feita mercê do tí- 
tulo de marquês de Arronches em sua^ vida, por carta de 27 de Junho de 
1674, pelos seus serviços e em especial os prestados nas embaixadas de 
Holanda e Castela (i). Por sentença de 21 do mês seguinte foi o Marquês 
de Arronches mantido na posse da comenda hereditária de Soza, e como é 
muito notável a história dessa comenda, dela me ocuparei lá mais adiante (2). 
Em breve perdeu a casa de Arronches a varonia de Sousa. Quando em 
1706 morreu o Marquês de Arronches existia, como sucessor da casa, sua neta 
D. Mariana de Sousa, já casada com Carlos José de Ligpe, príncipe do Sacro 
Romano- Império, e 2.*^ marquês de Arronches por carta de 21 de Março de 
1684(3). Este Marquês, sendo embaixador extraordinário em Viena de 
Áustria, foi acusado de ter atraído a uma cilada e assassinado um gentil 
homem da câmara do Imperador por causa de uma dívida de jogo. Sobre 
a culpabilidade do Marquês há bastantes dúvidas, e o seu posterior procedi- 
mento não foi de molde a desvanecê-las. Ele, apesar de ter sido em Lisboa 
julgado livre de culpa, por sentença de 4 de Fevereiro de 1700, não quis 
nunca regressar a Portugal e morreu em Pádua no ano de 1713 (4). Na casa 
sucedeu sua filha D. Luisa Casimira de Nassau e Sousa, a 3o de Janeiro de 
1716 casada com o senhor D. Miguel, íilho natural de D. Pedro II e por êle 
reconhecido em seu testamento. Teve o tratamento de duquesa^ em 2 de 
Abril de 1716(5), e o foi de Lafões por despacho de 21 de Junho de 1718, 
na própria ocasião em que D. João V fez a doação do concelho de Lafões, 
com o título de duque, a D. Pedro de Bragança, filho mais velho do senhor 



pode esperar, e desejando por tudo isto e pela qualidade e antiguidade de sua casa e daqueles 
de que descende, etc, carta de conde da vila de Miranda do Corvo de que é donatário, etc. 
— Chancelaria de D. Felipe II, liv. 29.® de Doações, fl. 3i6. 

(i) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 3i.° de Doações, fl. 64. 

(2) Nota no fim deste artigo. 

(3) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 54.° de Doações, fl. 3o3 v. 

(4) P.e Sousa, Historia genealógica, tom. XII, cap. 20, pág. 555 e segs. 

(5) Gazeia de 4 de Abril de 1716. — D. António Caetano de Sousa, nas Memorias dos 
grandes, pág. 12 da ed. de 1755, em seguida n errar a data do título de Duquesa de Lafões, 
declara haver D. Luisa Casimira tido a prerrogativa do tratamento de alteza, «que nenhuma 
pessoa lhe disputou na Corte, depois que lhe foy julgada por três sentenças conforme, obtidas 
contra o Procurador da Coroa no Tribunal da Relação, e passou a ultima de 16 de Dezembro 
de 1723 pela Chancellaria, que era a p.ublicidade mais solemne, que podia obterw. Assim 
seria; mas o certo é ler-se na Gaveta de Lisboa de 24 de Março de 1729: oFaleceu na 
manhaã de 16. do corrente em idade de 35. para 36. annos, depois de huma dilatada enferp 
midade, a Excellentissima Senhora D. Luiza Gazemira de Sousa, Duqueza de Lafoens...». 
Aqui não se lhe reconheceu o tal tratamento de alteza. 



Sousa's 291 

D. Miguel (i). Morreu este de um desastre afogado no Tejo, em Janeiro de 
1724, e sua mulher em Março de 1729. Ainda então vivia sua mãe a 2." Mar- 
quesa de Arronches pelo que D. Luisa Casimira não sucedeu nos títulos da 
casa, apesar de sua mãe, com autorização régia, a ter renunciado no senhor 
D. Miguel por ocasião do seu casamento, sendo só por alvará de 29 de Ja- 
neiro de 1747, já depois da morte da Marquesa, que o Duque de Lafões foi 
autorizado a possuir os bens da Coroa outrora'pertencentes a sua avó (2). A 
22 de Dezembro do mesmo ano foram passadas cartas ao Duque de Lafões 
para suceder nos senhorios da casa, mas não se mencionam os títulos (3). 

Duques de Lafões houve mais dois,, o fundador da Academia Rial das 
Sciências de Lisboa e seu genro, falecido em 27 de Maio de 1867. E hoje 
representante da casa D. Caetano Segismundo de Bragança, neto do 3.° Duque 
e antigo par do reino em sua sucessão, tendo tomado posse a 17 de Março 
de 1882. 

Recapitulando temos: a antiga família de Sousa, anterior à fundação da 
monarquia, extinguiu-se na varonia em fins do século xiii; em seguida for- 
maram-se dois ramos novos, ambos procedentes por fértieas dos antigos e 
ambos com a varonia ilegítima de Afonso III; estes ramos são os pelos linha- 
gistas designados por Sousas do Prado e Sousas de Arronches. 

O último possuidor da casa de Sousa, já muito reduzrida, foi o Conde 
D. Pedro de Barcelos, que a teve por sua mulher e a deixou ao mosteiro de 
S. João de Tarouca. Na casa de- Miranda não existiram bens nenhuns da 
antiga casa de Sousa, sendo portanto desacerto dos genealogistas lisonjeiros 
darem àqueles a designação de senhores da casa de Sousa. 

NOTA 

COMENDA DE SOZA, pág. 290 

Esta comenda, pelas condições singulares em que foi criada, concedida e possuída me- 
rece referência especial precedida de uma breve relação da Ordem Hospitalar de Santa 
Maria de Rocamador, cuja sede foi na vila de Soza. 

Na armada dos Cruzados que em 1180 auxiliaram Sancho I na conquista de Silves, 
entrou em Portugal, segundo parece, a religião dos Eremitas de Rocamador (4). Tomou- 
-Ihes afeição el Rei que poucos anos volvidos lhes mandou passar a seguinte carta: 

In dei nomine. Quoniam antiqua temporis institutione. ittris debito, racionabilis consiie- 
Hido. penes omnes emerserit. ■.iit factonim series, successuum numerus. fortunarum euentus. 



(i) Gaveta de 33 de Junho de 1718. 

J2j Chancelaria de D, João V, liv. 114.", 11. 258 v. 

(3) Ibidem, liv. 26.", fls. 334 v. e segs. 

(4) Viterbo, Elucidário, II, 291. 



292 Brasões 

scripto commendentur . ut commendata ab hominum memoria non decidant. et omnibus pre- 
térita presencialiter consistant. Jccirco ego Sancius dei gratia Portugalie Rex. illustris- 
simi regis Alfonsi boné memorie . et Regine Maphalde Jilius . una cum uxore mea Regina 
donna Dulcia. et Jiliis et Jiliabus méis. facio cartam donationis et perpetue Jinnitudinis ■ 
ecclesie :\incte Marie de rupe amatoris . de uilla que uocatur Sopa . que est in termino de 
Vouga circa maré. Hanc utllam memoratam cum suis terminis nouis et ueteribus. et cum 
suis salinarijs . et cum suis omnibus pertinencijs . et etiam cum uniuersisque in ea tam ad 
ius nostrum quam ad ius Episcopi pertinent . ecclesie sancte Marie de rupe amatoris . et fra- 
tribus ibidem deo seruientibus damus . et iure hereditário in perpetuum possidendam conce- 
dimus . cautatam sicut conchiditur lapidibus illis qui iussione nostra ibifixi existuiit. Addimus 
etiam . ut quicumque cautum illum infregerit. fratribus supradictis. aut illi cum uillam memo- 
ratam mamiienendam comiserint . quingentos sólidos . pectet et cautum in suo robore pertna- 
neat . Quicunque igitur hoc factum nostrum integrum observaverit . sit benedictus a deo. 
Amen. Cui uero aliter f acere presumpserit . quidquid ipse fecerit. Jilius eiiis in irritum 
deducat. Nos supradicti reges qui hanc cartam . in . E'. Af". cc^. xxx'. i'. Jaus octobris 
fieri precepimus . coram subscriptis eam roborauimus. et hec signa fecimus f f f f f f. 
Qui affuerunt. 

Martinus bracarensis Archiepiscopus cfr. Marliniis Portugalensis Episcopus c/r. Pe- 
trus Colinbriensts Episcopus cfr. Nicolaus visensis Episcopus cfr. Johannes lamecensis 
Episcopus cfr. Suarius vlixbonensis Episcopus cfr. Pelagius elborensis Episcopus cfr. 
Gonsallus menendi maiordomus curie cfr. Comes donnus fernandus cfr. Petrus alfonsi cfr. 
Alfonsus ermigij cfr. Suarius suarij testis Giraldus pelagii testis Petrus nuni^ testis. 
Julianus notarius curie (i). 

Por esta carta, de 1 5 de Outubro de 1 193,'vê-se haver feito D. Sancho I perpétua doação, 
por juro de herdade, à igreja de Santa Maria de Rocamador e aos frades que neht serviam 
a Deus, dessa mesma igreja e da vila de Soza, onde ela estava edificada, no termo de Vouga, 
junto ao mar, com seus termos novos e velhos, com suas marinhas, com todas suas pertenças, 
dentro dos marcos lá mandados fixar por sua ordem, com todas as jurisdições, tanto as régias 
como as episcopais, e finalmente couta todo aquele território com a pena de quinhentos soldos 
de éncouto. Ainda outra mercê consta ter D, Sancho I feito aos Eremitas de Rocamador, a 
de uma vila no termo de Numão, como se declara nas actas das Inquirições gerais da era de 
1296 (i258), na quarta alçada, nestes termos : Itein Martinus petri clericus iuratus et interro- 
gatus scit quod villa de Ciata (ou Ciaca) que est in Nomam quefuit regalenga et modo tenent 
illam fratres de Sancta Maria de Rocamador et non faciunt de illa fórum Regj et dedit illam 
Rex donnus Sancius senex eis (2). E destas mesmas Inquirições, nas actas da terceira alçada 
porem, consta ter tido também a Ordem aceitação entre os particulares, pois duma doação 
a ela feita de bens, em S- João da Pesqueira e seu termo, se encontra lá memória (3). 

Mandou D. Afonso II expedir em Coimbra, no mês de Julho da era de i256 (1218), a 
seguinte carta de confirmação da doação por seu pai feita aos Frades de Santa Maria de 
Rocamador: 

Ego Alfonsus dei gratia Portugalie Rex una cum uxore mea regína donna vrraca et 
filiis nostris infantibus donno Saneio, et donno Alfonso. et donno fernando . et donna Alienor. 
istam cartam suprascriptam quam pater meus excellentissime memorie Rex donnus Sancius 
fecit et concessit ecclesie sancte Marie de rochamador et fratribus eiusdem loci de illa uilla 



(1) Forais antigos, maço 12.", n.' 3, fl. 61 v., col. 2. 

(2) Liv. 3.*, de Inquirições de D. Denis, fl. 63. 

(3) Gama \iaTros,'Historia da Administrarão publica em Portugal, II, 4 ""4. 



Sousas 293 

que iiocatitr So-fia í concedo ego et confirmo eidem Ecclcsie et fratribus ibi deo seruientibus. 
eo modo quo pater meus eis illam jecit et concessit. Et ut habeant mea concessio . et conjir- 
matio. in perpetuum firmitudinis robur obtineant. presentem cartam fieri iussi et meo sigtllo 
plúmbeo comuniri. que quidem facta fuit . apud Colimbriam mense Júlio. In e". M*. cc". L*. 
vi'. Nos supranominati qui hanc cartam fieri iussimus coram subscripíis eam roborauimus. 
et hec signa fecimus 1 1 1 1 1 1- 

Qui affuerunt. Donnus Martinus iohannis signifer regis cfr. Donnus Petrus iohannis 
Maior domus curie cfr. donnus Laurencius suarij . cfr. donnus gomecius suarij cfr. donnus 
Gil uaasqui:^ cfr. donnus Johannes fernandi cfr. donnus fernandus fernandi cfr. donnus 
Rodericus menendi cfr. donnus Poncius alfonsi cfr. donnus Lopus alfonsi cfr. vincencius 
menendi^ cfr. Petrus petri testis. Martinus petri testis. donnus Stephanus bracarensis 
Archiepiscopus cfr. donnus Martinus Portugalensis episcopus cfr. donnus Petrus Colin- 
briensis episcopus cfr. donnus Suarius vUxbonensis Episcopus cfr. donnus Suarius Elbo- 
rensis Episcopus cfr. donnus Pelagius lamecensis Episcopus cfr. donnus Bartolomeus 
visensis Episcopus cfr. donnus Martinus Egitaniensis Episcopus cfr. Magister p. cantor 
port. testis Petrus garsie testis. Johanninus testis Gonsaluus menendi cancellarius (i). 

Estas foram as primeiras doações em Portugal feitas à nova Ordem, a qual teve o seu 
assento em Soza d'onde irradiou para diferentes partes do reino, estabelecendo nelas hos- 
pitais, fim p>rincipal do instituto, conservando-se ainda hoje, apesar da sua extinção datar do 
século XV, a sua memória, não só em escritos, mas até na designação dalgumas localidades 
do país (2). Deste instituto Icmbrou-se a rainha Santa Isabel em ambos seus testamentos: 
no primeiro, de 19 de Abril de i3i4, deixa-lhe uma vestimenta e um cálix (3); e no de 22 de 
Dezembro de 1327 lega-lhe trezentas libras (4). 

Com o andar dos tempos levantaram-se desinteligências entre os Priores de Soza e os 
moradores do lugar, as quais deram ocasião à intervenção régia, sempre, é claro, favorável 
aos primeiros. Em i255 queixou-se o Prior a D. Afonso III dos homens da terra: eles não 
lhe obedeciam, nem lhe pagavam as rendas. Acudiu-lhe el Rei com uma carta expedida em 
Coimbra, a 9 de Agosto da era de 1293 (i255), na qual manda que tudo se restabeleça como 
estava trinta anos atraz, no tempo de D. Sancho II (5). Neste rhesmo dia, segundo as me- 
lhores conjecturas, confirmou Afonso III a Fr. Hugo, «prior de Soza Ordinis monasterii 
Sancte Marie de Rupe Amatoris», a doação por Sieu irmão Sancho II feita à Ordem do lugar 
da Mamarosa, o qual andava embargado pelo Almoxarife de Coimbra (6) e que, de então 



(i) Forais antigos, maço 12, n." 3, fl. 62, col. 1. 

(2) Na Chorographta moderna de Joáo iMaria Baptista menciona-se uma quinta de Roque Amador na freguesia 
de Vila do Touro, no concelho do Sabugal, e um higar na freguesia de Gouveias, concelho de Pinhel. No Porto ti- 
veram o seu hospital na rua da Ferraria de Cima, d'onde passaram pura a rua das Flores (J. P. Ribeiro, Reflexões hi»- 
toricas, 11, 198). Hospitais pertencentes á congregação de Rocamador existiram também em Lisboa, Saíitarim, 
Torres Vedras (Vítor Ribeiro, Historia da Bene/icencia publica, págs. 3i e 32) e noutras terras. Em alguns docu- 
mentos aparece o vocábulo alterado para Reclamador. 

(3) «Item/nando aa Sancta Misericórdia de Recamador homa vestimenta boa e hum cálix com que cante um clé- 
rigo». — Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Evolução do culto da Rainha Santa, II, 6. 

(4) «Item mando a Sancta Maria de Recamador trezentas libras». — Ibidem, pág. i5. 

(5) Chancelaria de D. João II, liv. 8.", d. 2?5, transcrita noutra de confirmação. — A carta foi mandada passi^r 
por D. Afonso, rei de Portugal e conde de Bolonha; é portanto de D. Afonso lli, que reinou da era de i283 à de i3i7. 
Sucede porem, que ao transcrever a carta o escrivão lhe errou a data e pôs era de i263, quando reinava Sancho II. 
Suponho que o erro proviria do escrivão ignorar o valor do x aspado e ao ver no documento original E*. M*. cc*. Ix.* 
iij*. entendeu I2Ó3, dando ao x o valor de dez, quando êle estava aspado e valia quarenta, sendo portanto a era a 
de 1293. 

{à) Chancelaria de Q. João II, liv. 8.", il. 224 r. — Na transcrição da primitiva carta também se dá aqui um erro 
de data, o qual se não pode explicar pela ignorância do valor do x aspado. Declara-se ser a carta da era de 1257, do 



294 Brasões 

por diante, foi sempre da apresentação do Prior de Soza. A um sucessor de Fr. Hugo en- 
contro referências d'ali a quarenta anos, em duas públicas formas dos dois diplomas prece- 
dentes a requerimento dele passadas, a 23 de Julho e 7 de Agosto de i334 (1296). Chama- 
va-se Fr. Guilherme Mossel, nome certamente de estrangeiro, como já o de Fr. Hugo também 
tinha esse sabor. 

Passam-se muitos anos sem encontrar mais notícias dos Priores de Soza até que, em 
tempos de D. Fernando, me aparece D. Ponce, «priol de Santa Maria de Recomendor desse 
logo de Soza», impetrando a carta de 21 de Outubro de 1416 (iSyS), pela qual lhe foraqj 
confirmados todos os antigos privilégios nos anteriores diplomas concedidos : de pôr juiz 
e mordomo, de levar os direitos e rendas da igreja e de haver toda a outra jurisdição (i). No 
ano seguinte, por uma carta de 1 1 de Fevereiro, obteve para o sal produzido nas suas ma- 
rinhas dispensa do direito do alfonsim (2). 

Nova carta de confirmação de seus privilégios alcançou, agora já de D. João I, em 7 de 
Setembro de 1444 (1406), um Prior não nomeado no diploma (3). Em breve porem arre- 
pendeu-se el Rei da concessão feita e viu-se obrigado «de lha mandar tomar por algumas 
cousas que ele fazia, que não eram nosso serviço», segundo se declara na carta de nova confir- 
mação dos privilégios passada, a 26 de Maio de 1449 (1411), a seu sucessor, Fr. -Vasco, 
«mestre e confessor do infante Duarte meu filho» (4). 

A Fr. Vasco seguiu-se, não sei se directamente, João de Sousa; antes porem dçra-se um 
facto importante para a história da igreja de Soza e da Ordem de Rocamador. Em 21 de 
Outubro de 1378 fora concedida uma carta, acima citada, de confirmação dos antigos privi- 
légios a D. Ponce, «priol de Santa Maria de Recomendor desse logo de Soza»; agora, em 
22 de Abril de i438, é expedido um alvará de confirmação dos mesmos privilégios a João de 
Sousa, criado dei rei D. Duarte e «priol da igreja de 5. Miguel de Soza» (5). Neste inter- 
valo mudara pois o orago da igreja de Soza, passando a sua invocação de Santa Maria para 
S. Miguel, a qual ainda hoje permanece, i A mudança do orago indicará também o desapa- 
recimento da Ordem ? Talvez, pois só muito vagas alusões encontro a esse facto, não me 
sendo possível precisar a data da sua realização. Nos sessenta anos decorridos entre 1378 
e 1438, nos documentos dentro deles expedidos relativos a Soza e aos frades de Rocamador, 
n^o se encontra mencionado o orago da igreja; mas, pelo qualificativo de frei anteposto 
ao nome dos priores, sou levado a crer que ainda no tempo de Fr. Vasco, isto é, em 141 1 
e anos seguintes, o lugar e a igreja pertencessem à Ordem. 

João de Sousa, primeiro prior secular de Soza, não esteve de princípio na pacífica posse 
da jurisdição do lugar, pois a ela fôra-Ihe posto embargo porMartim Gonçalves de Azevedo 
e outros. Recorreu êle então a el Rei, que lhe mandou dar o acima referido alvará de con- 
firmação dos antigos privilégios concedidos aos priores seus predecessores, alvará por 
D. Afonso V confirmado em carta de 3o de Março de 1439 (6). Era ainda João de Sousa 



tempo de Afonso II, quando a carta é de seu filho do mesmo nome. Estou porém persuadido que o Prior de Soza 
aproveitaria a ocasião de se queixar dos moradores da vila lhe não pagarem os foros, para se queixar também da 
usurpação feita pelo almoxarife de Coimbra do seu lugar da JVIamarosd, c que D. Afonso III no mesmo dia resolveu 
as duas pretensões. 

(1) Chancelaria de D. João^ll, liv. 8.', fl. 224 v. ; liv. 3." da Estremadura, íl. 162 v. 

(2) Chancelaria ae D. Fernando, liv. 2.", fl. 37 v., em extracto; Chancelaria de D. João II, liv. i.», fl. 224 v. ; 
liv. 3." da Estremadura, fl. 162 v. 

(3) Chancelaria de D. João U, liv. 3.", fl. 52. 

(4) Ibidem, (1. 1^0. ^ 

(5) Chancelaria de D. Afonso K, liv. 19.°, fl. 63. 

(6) Ibidem. > . * 



Sousas 295 

prior de Soza no pontificado de Pio II (Agosto de 1458 a Agosto de 1464), o primeiro Papa 
<[ne resolveu transformar o antigo priorado em comenda da Ordem de Santiago; era porem 
já falecido quando Xisto IV, por sua bula de 14 de Março de 1477, deu o padroado da igreja 
de S. Miguel de Soza para sempre a D. Afonso V e seus sucessores, e determinou que ela 
ficasse constituindo uma comenda da Ordem de Santiago (i). 

Foi João de Sousa cónego beneficiado na Sé de Lisboa e com esta dignidade é nomeado 
em duas cartas, ambas do ano de 1453 e de legitimação de filhos. A primeira é de i5 de 
Fevereiro e por ela foi legitimado João de Sousa, então moço da câmara rial, o qual fora 
havido em Mor Eanes, mulher solteira (2). A segunda é de 18 de Junho e foi passada a 
favor doutros dois filhos havidos da mesma. mulher, um dos quais foi Jorge de Sousa, futuro 
comendador de Melres na Ordem de Santiago, a quem me referi na página 21 1. Esta carta 
é de simples legitimação; a outra foi concedida n requerimento do pai com cláusulas espe- 
ciais, as quais eram muito amplas e se podem ler na concedida quatro anos depois ao neto 
do nosso grande historiador Fernão Lopes, por mim mandada imprimir entre os docu- 
mentos ilustrativos da Introdução à Primeira parte da Crónica de D. João I, pág. lix, n." V. « 
Estas cláusulas especiais já foram pedidas com o intuito de João de Sousa se encontrar 
habilitado para a sucessão de seu pai, fosse ela qual fosse. 

Este segundo João de Sousa foi conhecido pela alcunha do Romanisco, e a ele me tor- 
narei a referir largamente, pois foi o i.° comendador de Soza; mas quero deixar aqui indi- 
cado o fundamento que tive para lhe dar a referida filiação. Numa sentença, também para 
.ser lá mais adiante apresentad.i ao leitor, a qual pôs termo a uma demanda sobre a posse 
da comenda de Soza, lê-se esta alegação, frouxamente repelida pela parte adversa: «e de 
mais nam constando, que o dito primeiro adquirente (o referido João de Sousa) fosse nas- 
cido de legitimo matrimonio, e pessoas scientes em. livros de geracoens entenderão, que fora 

bastardo na forma declarada nas certidoens foi e sendo o mesmo primeiro adquirente 

bastardo» etc. (3). Parece-me indicação segura, conjugando-a com a sucessão na posse da 
igreja de Soza. 

Por D. Afonso V foi João de Sousa enviado na qualidade de embaixador a Roma, pro- 
vindo-lhe da estada na Cidade Eterna a alcunha do Romanisco. Prestou lá tais serviços a 
el Rei, «que nos houvemos e havemos dele por mui bem servido, e confessamos lhe sermos 
em muita obrigação», não só por ter bem encaminhado os negócios de que ia encarregado 
junto de Xisto IV e da Cúria, mas por ter havido dele para a Coroa em perpetuidade o 
padroado da igreja de Soza, passando ela' a constituir uma comenda da Ordem de Santiago. 
Por estes serviços, considerados por D. Afonso V como sendo de um «nosso bom e verda- 
deiro criado e servidor», fez-lhe el Rei doação do padroado da dita igreja de Soza, para ele 
e todos seus herdeiros e sucessores ji/re hereditário^ «o qual queremos que ele haja, e seus 
herdeiros hajam, assim e tam compridamente como a nós é outorgado e nos pertence por 
bem da dita doação, colação e provisão, que a nós pelo Santo Padre é outorgado ; e queremos 
e mandamos, que algum nosso sucessor ou herdeiro em elo nunca lhe ponha dúvida nem 
embargo, nem a ele nem a seus herdeiros, acerca delo, de torvação, ou façam alguma con- 
tenda, porque ante de o no património nosso rial termos incorporado, o tiramos de nós e o 
traspassamos nele dito João de Sousa e todos seus herdeiros», etc. Dada em Évora, a 8 de 
Agosto de 1478 (4). 



(i) Tudo consta da hu\a. Rationi congruil, de 26 de Agosto de 1492, registada na Chancelaria de Felipe II, no 
liv. 19.° de Doações, fl. 272 v., e impressa pelo P.e Sousa nas Provas da Historia genealógica, VI, 202. 

(2) Liv. 2." de Místicos, íl. 171 ; liv. 2." de Legitimações de leitura nova, fl. 2i3. 

(3) Pegas, Tractatus de Exclusione . . . Maioratus, ), 149. 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 8.°, fl. 225 v. — Encontra-se também transcrita na ChanceLiria de Felipe II, 



296 



Brasões 



Era então João de Sousa do conselho dei Rei e alem da comenda de Soza já desfrutava 
a de Povos, também na Ordem de Santiago, a qual talvez lhe houvesse sido dada pelo prín- 
cipe D. João, que, na qualidade de governador da mesma Ordem, fizera mercê, por carta 
dada em Évora a 6 de Agosto do referido ano, a João de Sousa, comendador de Povos, de 
doze mil reais de tença, em quanto sua mercê fosse (O. 

Confirmou-lhe D. João II a doação do padroado e comenda de Soza por carta de 28 de 
Novembro de 1486, declarando que a sucessão se entenderá somente nos herdeiros por linha 
direita descendentes (2). Anteriormente, nos dias 20 e 23 do mesmo mês, havia el Rei 
mandado expedir cinco cartas, nas quais confirmava a João de Sousa os vários diplomas de 
privilégios concedidos aos antigos priores de Soza e já acima indicados (3).' Finalmente 
veio o papa Alexandre VI e por sua bula Rationi congruit, dada a 26 de Agosto de 1496, 
confirmou ao «dilectus filius» João de Sousa o padroado e a comenda de Soza (4). Pouco 
tempo mais de vida teve João de Sousa, porquanto já era falecido a' 21 de Novembro do ano 
seguinte (5). O documento citado revela-nos o nome da mulher do Comendador de Soza. 
Foi ela D. Leonor da Silva, filha de Afonso de Miranda, porteiro mor de D. Afonso V, e de 
sua mulher D. Violante de Sousa, e teve duas mil e quinhentas coroas de casamento. 

D. Leonor é uma das minhas muito queridas raparigas do Cancioneiro. Muito queridas, 
sim, e muito diferentes das que para aí andam hoje mostrando pernas, braços e colo num 
impudor nunca visto. ; Ainda se fosse só isso 1 mas o porte condiz com o trajo. Numa 
coisa., designada lá por eles, pela alta roda, roda sim, mas roda de azenha em levada de 
água pantanosa, o nível moral e social desceu ao mais baixo. As boas maneiras desapare- 
ceram, a cortesia fugiu espavorida, a linguagem das salas foi substituida pelo calão das ta- 
bernas, e de tudo, ainda para mais, se faz gala. P'elizmente é uma pequena parte, mas a 
mais mexida, da sociedade; a reacção porem chegará um dia, não muito afastado é de esperar, 
e cortará pelo são, lançando o podre para o monturo. ' 

Ora pois ! D. Leonor da Silva foi uma das raparigas do Cancioneiro e das de maior no- 
meada. Por ela andavam apaixonados Jorge da Silveira e Nuno Pereira. Encontraram-se 
os dois trovadores um dia num caminho, indo Nuno Pereira «muyto cuydoso», e Jorge da 
Silveira, «dando muytos sospiros», e preguntaram um ao outro: 

Vós, senhor Nuno Pereyra, 
por quem his assy cujdando ? 

Por quem vós hys sospirando, 

senhor Jorge da Sylveyra? (fl. i,col. j.J 

D'aqui originou-se o famoso processo do «Cuydar e Sospirar», no qual entraram muitos 



liv. 19." de Doações, fl. 262 v., com a data do ano errada, 1481 por 1478. No princípio do ano de 1481 eslava Afonso V 
em Coimbra, a'onde no verão, como então designavam a nossa primavera, foi a Beja e de lá para Sintra na entrada de 
Agosto, fugindo a Lisboa e Évora onde «morriam» de peste, como declara Rui de Pina, no cap. 212 da Cfironica de 
D. Afonso V. Os dizeres do cronista são confirmados pelas rubricas dos cadernos da Chancelaria, vendo-se portanto 
não ser possível estar Afonso V no dia 8 de Agosto de 1481 em Évora, 
(i) Liv. i.^ da Ordem <fe Santiago, fl. 19 v. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 8.", fl. 225 v., carta feita por Fernão de Pina. 

(3) Ibidem, fls. 224 e 225. 

(4) Chancelaria de Felipe II, liv. iq." de Doações fl. 262 v. ; Provas da Historia genealógica, Vi, 102. 

(5) «Nós el Rei fazemos saber que a dona Leonor da Silva, molher que foi de João de Sousa, foram desembar- 
gadas por el rei dom Afonso meu tio 2.5oo coroas de moto dé seu casamento» Perdera a carta e pede se lhe mande 
passar novo padrão, o qual lhe é dado em Évora, a 21 de Novembro de 1497. — Chancelaria de D. João III, liv. 14.' 
de Doações, fl. iii, transcrito o alvará numa carta de confirmação. 



Sonsas 297 

poetastros cortesãos. Escolheram para juiz a D. Leonor da Silva e simularam haver ela 
pronunciado sentença a favor do suspirar, sentença publicada 

A nove dias do mes 
dos onze meses do anno 
da era doytenta e tres. (fl. ji, col. 4.) 

Era ela ainda então solteira, mas pouco tempo depois ajustou-se o seu casamento e, 
quando a nova estalou na corte, Nuno Pereira, apesar de ter decaído no processo veio com 
umas trovas de protesto, cheias de verdadeiras imprecações. 

Seja muyto na maa ora 
hum tam triste casamento, 
poys se vay do paço fora 
a senhora minha senhora 
por meu mal, e seu, que sento. 
Eu sento verme morrer, 
sento vela enguanada, 

sento vella padecer f 

e sento vella vender 
so color dencaminhada. (fl. 32-33.) 

Nos Últimos versos vejo alusão a pressão exercida sobre a donzela, para a forçar a casar, 

com um rústico lá da Beira 

Vaa morrer, poys me matava, 
antr'os soutos laa na Beira. (fl. 33, col. i.J 

Contra o noivo também pragueja o trovador: 

Hoo furtuna, tu que mudas 
hCa cousa noutra cousa, 
daa doenças muy agudas, 
a que nam prestem ajudas 
nem jolepes, hoo de Sousa. (fl. 33, col. i.J 

j Já vou tam longe àa comenda de Soza ! Voltemos a ela para acabar, mas sempre 
direi primeiro que D. Leonor da Silva já era finada a 26 de Abril de iSaS, quando as duas 
mil e quinhent*as coroas do seu casamento foram confirmadas a seu filho (i). 

Morto João de Sousa, sucedeu-lhe na comenda seu filho António de Sousa a quem, 
por carta de 10 de Agosto de i532, foram confirmados os privilégios antigos do priorado de 
Soza (2). Morreu António de Sousa sem descendência e pela primeira vez passou o padroado 
a colateral do último cpmendador, mas descendente do primeiro ; porquanto as sobrevi- 
ventes filhas deste, e irmãs daquele, D. Cecília da Silva e D. Francisca de Sousa, apresen- 
taram no padroado a Manuel Freire de Sousa, que foi o 3.» comendador. Era êle filho de 
D. Cecília e de Gomes Freire de Andrade. . 

Nesta ocasião viu-se a força das doações referidas, porque, querendo D. João III opôr-se 
a esta apresentação e dar a comenda a outra pessoa, teve de desistir, e a nomeação das 
duas senhoras prevaleceu. 

Continuou, transmitida pacificamente de uns em outros membros desta familia, a posse 



(1) Chancelaria de D. João 111, liv. 14.» de Doações, fl. 1 1 1. 
(2j Ibidem, liv. 18." de Doações, fl. 74 v. ' 

voL. I 38 



298 



Brasões 



da comenda de Soza até ao 6." comendador Diogo Freire de Andrade e Sousa, que dela teve 
confirmação por carta de 21 de Junho de 1610(1). Morreu êle a 3 de Outubro de 1629, 
sem desce adência legítima, deixando porem vivas seis irmãs, cinco freiras e uma casada, e 
um primo segundo, Luís Freire de Andrade, que só morreu a í8 de Janeiro de 1637. Apesar 
disto meieu-se logo de posse da comenda Diogo Lopes de Sousa, 2." conde de Miraada, 
quarto neto do Romanisco por sua referida filha D, Cecília da Silva. 

Na posse do padroado permaneceu o Conde até morrer em 1640^ sendo então ainda 
vivas três das irmãs do 6." Comendador, às quais continuava a assistir o direito da apresen- 
tação do padroado, direito que parece não terem, nem mesmo nominalmente, chegado a 
exercer. 

Morreu a última em 1649, ^ então propuseram, Alexandre de Sousa Freire e seus irmãos, 
todos filhos do acima nomeado Luís Freire de Andrade, acção de reivindicação contra Hen- 
rique de Sousa, 3." conde de Miranda, que continuava na posse da comenda por morte de 
seu pai. Foi o feito julgado na Relação por sentença de 21 de Julho de 1674, sendo conde- 
nados os autores, apesar de parentes mais próximos do último possuidor, por serem des- 
cendentes por linha não legítima do i.° comendador João de Sousa, e mantido na posse do 
padroado e direito de apresentação da comenda o Conde de Miranda, que, havia menos de 
um mês, tinha sido criado marquês de Arronches (2). 

Ainda tornou a haver dúvidas para o encarte na comenda de Soza de D. Pedro de Bra- 
gança, duque de Lafões, representante do Marquês de Arronches; teve porém o Duque 
sentença favorável no Juízo da Coroa, em 10 de Novembro de i733, a qual passou pela Chan- 
celaria em 19 de Agosto de 1735 (3). Mesmo depois de estabelecido já o regímen constitu- 
cional foi reconhecido à representante do Duque de Lafões o seu absoluto direito à posse 
dos bens da comenda de Soza, conforme esclarece a seguinte verba: «A D, Maria Carlota 
de Bragança se passou carta em 5 de Janeiro corrente, declarando que a natureza dos bens 
da comenda de Soza, conteúdos nesta carta de confirmação e de que está de posse, não está 
obrigada a encarte nem a pagamento do direito porque não pertencem à Coroa, e se registou 
no Uv. 21." do Registo de Mercês de D. Pedro F a íl. i5, e para constar pus esta verba. 
Lisboa, 24 de Janeiro de 1861» (4). 



(i) Chancelaria de Felipe II, liv. 19.* de Doações, fl. 262 v. 

(2) Tudo consta da já citada sentença transcrita em Pegas, Tractatusde Exclusione. . . Maioralus, 1, 14.7 e segs. 
{"i) Son^a, Historia genealogica,'SÃl,b'ii. 

(4) Apostila à margem da carta de confirmação do padroado e comenda de Soza a Jofio de Sonsa.— Chancelaria 
de D. João II, liv. 8.", fl. 225 v. 



X 



PEREIRAS 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. 1. 



De vermelho, cruz florida de prata, vazia do campo. Timbre: cruz de 
vermelho, florida e vazia, entre duas azas de prata. 

Sem diferença no escudo encontram-se estas armas no Livro do Armeiro 
mor, fl. 52 V., no Livro da Torre do Tombo, fl. lo v., no Thesouro da no- 
breza de Francisco Coelho, fl. 27, no Thesouro da nobreza, de Fr. Manuel de 
Santo António, p-29, etc. 

Quanto ao timbre todos concordam nas peças da sua composição, mas dis- 
cordam nos seus esmaltes. Não se encontra esta variedade unicamente nos 
autores heráldicos, outro tanto sucede nas cartas de brasão, chegando ao 
ponto do mesmo Portugal rei de armas, o bacharel António Rodrigues, passar, 
nos anos de i532 a 1Õ42, quatro cartas de brasão com as armas dos Pereiras, 
variando em todas elas os esmaltes do timbre (i). Pois tinha ele estricta 
obrigação de o não fazer, visto que já a esse tempo existia o livro chamado 
da Torre do Towzèo ordenado por D. Manuel, e em cujo prólogo se ler 
€ . . . Achou [D. Manuel] ser necessareo corregerese muitas [armas] Que des- 
concertadas: polia corruçam do longo tempo erao & cÕuinha darese timbres a 
todas: por serem ia perdidos & se nÕ acharem. Guia mingoa & defeito .S. 
A. Querendo prouer (Que ao REY conuem dar o timbre & nÕ o que cada 
hum Quer tomar como algias cuidam, lhes deu os mais nobres Que se dar 
podiam mãdandoas aqui asentar em toda perfeiçam. . .» Em conformi- 
dade portanto com este livre deverá ser o timbre dos Pereiras uma cruz 
de vermelho, florida e vazia, posta entre duas azas de oiro, recamadas 
de azul. 



( I ) Chancelaria de D. João III, liv. iS.» de Doações, fl. 1 1 3 v.; liv. 23.», fl. 5; liv. 44.», fl. 40 v.; 
e liv. 32.*, fl. 49. 



3o2 Brasões 

1 

. LIDE DE TRASGONHO 

O reinado de D. Afonso II foi uma continuada luta dei Rei com os parentes, 
çom a nobreza, com o clero. 

El Rei lutava por egoísmo, é certo, mas desse egoísmo deveria provir o 
bem da nação e, se ele o não conseguiu, deve- se atribuir mais à sua falta de 
aptidão para a hjta, do que à brevidade do seu reinado. Na verdade el Rei 
era tenaz, mas não era taloroso, e nesses tempos, quando facilmente s« 
desembainhava a espada, não bastava a tenacidade. 

Alem disso, e sobre tudo, D. Afonso II não foi político. Atacou todos 
a um tempo, não sabendo apoiar-se nuns para dominar os outros, e assim 
sucessivamente, se não reduzir, pelo menos, enfraquecer a todos. AJudan- 
do-se da nobreza, em quem o ardor militar se conservava intemerato, como 
prova a tomada de Alcácer do Sal efectuada em 121 7 pelos nobres e prelados 
independentes do Rei, poderia êle talvez dominar o clero; assim como, apoian- 
do-se neste, subjugaria aquela. Mas não, com o fito unicamente em aumentar 
o poderio rial e acrescentar as rendas públicas, desaveio-se com a nobreza, 
ordenando as confirmações e inquirições gerais; com o alto clero, atacando- 
-Ihe os foros e reprimindo com demasiado rigor as primeiras resistências; e 
finalmente com as Ordens religiosas, proibindo as provisões de Soeiro Gomes. 

No povo, seu natural aliado, poderia D. Afonso encontrar auxílio eficaz 
contra o inimigo comum; não o soube porem aproveitar, ou despresou-o. 
Pois não era para isso o nosso bom povo dos concelhos, que na batalha das 
Navas de Tolosa, no dia 16 de Junho de 12 12, tanto se distinguira pelo seu 
sofrimento durante a campanha, pelo seu valor na acção, chegando a causar 
assombro a um contemporâneo ilustre, testemunha ocular. 

Vencido, humilhado, morre Afonso II em 25 de Março de i223, deixando 
na mão dos seus ricos homens a tutela de seu filho herdeiro, mancebo de 
treze anos. 

Pode-se conjecturar o que seria a menoridade de D. Sancho II. O clero, 
vencedor ao tempo da morte de D. Afonso II, aproveita o ensejo para impor 
vergonhosas condições de paz; os nobres, desenfreados, recomeçam no seu 
sistema de espoliação das terras e rendas da Coroa; e até as Infantas, redu- 
zidas mas não satisfeitas, reclamaram e obtiveram vantajosas concessões. 
No meio disto, a posse da tutela de D. Sancho II era disputada pelas armas 
entre os ricos homens, passando el Rei, e com êle o absoluto mando, como 
de rnão em mão, do poder de uma facção para o de outra, conforme predo- 
minava a força, único direito a que nesses tempos se atendia. 



Pereiras 3o5 

Foram calamitosos para o reino os anos de i223 a 1226. 

Ainda então regia a diocese do Porto D. Martinho Rodrigues, adversário 
contumaz que fora de Sancho I, e estrénuo propugnador das regahas clericais; 
agora porém, não só em paz com a rialeza desde a concordata de 1222, mas 
até aliado dos tutores do moço rei. Contra o governo destes havia vários 
bandos de insurgentes levantados pelo reino, sobretudo em Alem Doiro, e um 
dos principais era o caudilhado por D. Pedro Mendes de Poiares. 

Era o Senhor de Poiares sobrinho do Bispo por ser filho de sua irmã 
D. Urraca Rodrigues de Pereira; e talvez fiado no parentesco tentou entrar 
na cidade do Porto. Não lho consentiu o animoso prelado, que só fugira 
diante das forças de um rei, e auxiliado pelos moradores do seu burgo, que 
tam dedicados então lhe. eram, repeliu o ataque. 

Frustrado o seu intento, volta Pedro Mendes a Poiares, a fim de recons- 
tituir e acrescentar as suas forças. Decorrido pouco tempo, à frente de mais 
numerosa tropa, toma de novo o inquieto fidalgo o caminho da cidade, o qual 
sem estorvo percorre, até que, pouco depois de tfansposto o rio Sousa, se lhe 
depara pela frente um numeroso bando para lhe tolher o passo. O previdente 
Bispo não se descuidara, e pelo ocorrido prevendo novo acometimento, avisara 
seu poderoso primo D. Pedro Rodrigues de Pereira, o qual, reunindo os seus 
homens de armas, se dirigira ao encontro de D. Pedro Mendes de Poiares. 

Encontraram-se as duas hostes em Trasconho, ou Crastomo, entre Paço 
de Sousa e Valongo. Dado o sinal do combate investem-se com denodo os 
dois bandos, e trava-se rija batalha, «e porque dom Pedro Rodrigues fez a 
lide com rrazom ajudouo Deus: e morrerom hi muitos fidallgos de huma e 
da outra parte». 

No meio do combate tinham-se avistado os dois cavaleiros e, arremetendo 
um contra o outro, rolou Pedro Mendes de Poiares morto pelo chão. 

'Triunfante voltou D. Pedro Rodrigues para a sua quinta de Pereira nas 
margens do Ave (i;. 

II 

LINHAGEM 

O vencedor da lide de Trasconho era neto de D. Gonçalo Rodrigues da 
Palmeira, o primeiro desta linhagem que passou para Portugal (2). Fugia 



(i) Fr. António Brandão, na Monarchia lusitana^ p. IV, liv. 12, cap. 32.", p5e a batalha 
de Gresconho, como lhe chama, no reinado de Sancho I; esta inadevertência do douto cro- 
nista reparou Herculano na Historia de Portugal, vol. II, nota 16, pág. 481 mihi. 

(2) Seu pai Rodrigo Forjaz tinha servido ao Conde D. Henrique, e aparece confirmando, 



3o4 ' Brasões . 

D. Gonçalo à cólera dei Rei de Castela, que o queria punir, por ele ter dado 
junto ao paço em um cavaleiro, que o desmentia, um golpe com a espada 
«per cima do ombro que o talhou atáa cimta» ! Derivou o seu apelido do 
couto da Palmeira a ele doado, não por D. Sancho I, como se tem dito, mas 
muito anteriormente. 

Nas Inquirições de D. Afonso III do ano de i258 lê-se: «Item de Mo- 
nasterio Sante Marie de Nandim. . . Monasterium ipsum est cautatum per 
patronos a domna "Regina Tarasia filia magni Regis Alfonsi» (i). Ora o pa- 
droeiro, que desde o tempo da rainha D. Teresa coutara o mosteiro de Landim, 
fora D. Gonçalo Rodrigues, e não ficara só por aqui a sua generosidade, pois 
também doara ao mesmo convento a própria honra da Palmeira, e fá-lo«-hia 
em seu testamento; mas há mais ainda para provar, que este couto lhe não 
podia ter sido dado por D. Sancho I. E que D. Gonçalo Rodrigues já era 
morto em Junho de 1177, e portanto mais de oito anos antes da aclamação 
d'aquele rei. 

Sei que já era falecido naquele tempo, por mo asseverar a escritura da 
confirmação do couto da Palmeira, que ao mosteiro de Nandim, ou Landim, 
como hoje dizemos, fizeram os filhos de D. Gonçalo, em Junho de 1 177, refe- 
rindo-se ao pai como já morto (2). 

O governo de D. Teresa durou de 11 12 a 1128, neste intervalo passou 
portanto D. Gonçalo Rodrigues para Portugal, onde foi muito bem recebido 
pela Rainha, e não é para admirar visto êle ser parente próximo do famoso 
Conde de Trava, amante daquela senhora. 

Afirma-se que também a D. Gonçalo Rodrigues fora feita mercê das terras 
de Lanhoso, Basto, Refoios, Paiva,. e Baltar, e nada seria demais para lhe 
compensar a perda na Galiza do condado de Trastâmara, que havia sido de 
seus antepassados e a D. Gonçalo Rodrigues pertencia, por ser o chefe da 
família e o representante do Conde D. Mendo, para Espanha vindo nos prin- 
cípios do século IX, segundo dizem. 



em 9 de De2embro de 1097, a carta dos privilégios da Cornelhã {Historia Ecclesiae Lusita- 
niae, vol. II, pág. 214), parece porem não ter permanecido em Portugal. 

(i) D.Tomás da Encarnação, Historia Ecclesiae Lusitaniae, vol. III, pág. i85; José 
Anastácio de Figueiredo, Nova Malta, vol. I, § 194. 

(2) «Nos Filii de Domno Gondisalvo Roderici, Fernandus Gondisalvi, & Gondisalvus Gon- 
disalvi, & Elvira Gondisalvi, & Rodericus Gondisalvi. .. facimus scriptum firmitudinis inter 
nos . . . Placuit nobis, & juramento, ac benedictione, & maledictione, atque poena firmavimus 
cautum, quod Pater noster bonae niemoriae Domnus Gondisalvus Roderici fecit Monasterio 
de Nandim, & Ordini Sancti Augustini pro remédio animae suae concessit, ratum, & stabile 
in perpetuum permanere... Facta charta mense Junii Era millesima ducentesima decima 
quinta ...» Ano do nascimento de 1 177. — Historia Ecclesiae Lusitaniae, cit. pág. 184. 



Pereiras 3o 5 

Casou D. Gonçalo Rodrigues da Palmeira por duas vezes e ambas em 
Portugal, ou talvez uma na Galiza e outra cá. 

Conforme o Livro Velho das linhagens foi sua primeira mulher D. Frolhe 
Afonso, filha do Conde D. Afonso de Celanova; e segunda D. Urraca Viegas, 
intitulada fundadora do mosteiro de Tuias, a qual depois tornou a casar com 
o Conde D. Vasco Sanches. Diz mais o mesmo nobiliário, que da primeira 
mulher nasceram Rodrigo e Elvira, e da segunda Gonçalo e Fernão (i). 

Encontro bastante matéria para reparo na ordem dos nascimentos destes 
filhos, e poi'tanto na dos casamentos do pai, tal como no-los apresenta o 
Livro Velho. No nome dos filhos acertou ele, mas na cronologia dos seus 
nascimentos não me parece, fundando-me na escritura atraz extractada da 
confirmação do couto a Landim. Nela nomeiam-se os quatro irmãos por esta 
ordem: Gonçalo, Fernando, Elvira, e Rodrigo, e não se me mete na cabeça, 
que, sendo Rodrigo o primogénito, consentisse em o seu nome aparecer em 
último lugar. Entendo bem d'onde proveio o equivoco dos livros de linhagens. 
O filho Rodrigo foi o primeiro Pereira e progenitor destes, ao passo que de 
seus irmãos não houve descendência varonil, e por isso os linhagistas supo- 
seram ser aquele o senhor da casa, e portanto o filho mais velho; mas sem 
razão, me parece. O apelido de Pereira tomou D. Rodrigo Gonçalves por 
ser senhor da quinta daquela denominação nas margens do rio Ave, quinta, 
segundo todos afirmam, por ele adquirida, ficando portanto excluída a idea 
de sucessão nela a seu pai. 

A tal escritura de confirmação feita em Junho de 1177 é das tais, de cuja 
autenticidade não posso duvidar, pois que o nosso grande mestre de diplomá- 
tica a aceitou sem reparo (2). Isto é indiscutível, e portanto fica-nos o Ro- 
drigo sendo o último filho de D. Gonçalo da Palmeira, obrigando-nos, ou a 
alterar a ordem dos casamentos deste, ou a fazer àquele nascido do segundo 
matrimónio. 

Vamos a ver o que deste dilema sai. Começarei por alterar a ordem dos 
casamentos, e por dizer que D. Gonçalo foi casado pela primeira vez com 
D. Urraca, e depois com D. Frolhe. Quanto a esta não há dúvidas; tanto 
pode ter sido primeira, como segunda mulher, por ter casado uma só vez, e 
por haver notícias de seu pai, o Conde D. Afonso, nos anos de ii3i (3), è 



(i ) Livro Velho das linhagens nos Portugaliae tnonumenta histórica^ Scriptores, pág. i58. 

(2) João Pedro Ribeiro, Dissertações, vol. Ill, pág. 164, n.° 520. 

(3) Testemunha na doação do Conde D. Fernando de Trava de um prédio ao Bispo de 
Coimbra em 11 das calendas de Agosto da era ii6g (22 de Julho de ii3i). — Miguel Ribeiro 
de Vasconceldfe, Noticias do mosteiro da Vacariça, p. II, pág. 58, doe. n." i3. Veja-se a nota 
seguinte. 

VOL. I 39 



3o6 Brasões 

de 1176, se são do mesmo indivíduo as que encontro neste último ano(i), 
quando provavelmente D. Gonçalo já seria falecido. 

Agora passarei a D. Urraca Viegas, fundadora do mosteiro de Tuias, se- 
gundo equivocadamente lhe chama o Nobiliário do Conde D. Pedro, e filha 
de Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques, Foi aquela senhora casada 
por duas vezes: uma vez com D. Gonçalo da Palmeira, outra vez com o Conde 
D, Vasco Sanches (2). Constam estes casamentos, não só dos livros de linha 
gens, mas «m deles, o do Conde, também consta da combinação dos dizeres 
daqueles com os de uma escritura. Em Julho de 1297 (1259) foi D. Beren- 
gueira de Cardona autorizada pelo Bispo do Porto, a entrar no mosteiro de 
Tuias como padroeira, por ser terceira neta da fundadora, D. Urraca Viegas (3) 
e de seu marido o Conde D. Vasco, dizem os linhagistas. 

Bem, fique pois assente: a intitulada fundadora de Tuias casou por duas 
vezes. Agora, para serem os mais velhos os filhos de D. Gonçalo da Palmeira 
dela havidos, tinha forçosamente D. Urraca de ter sido a sua primeira mulher 
e portanto já ser viúva do Conde D. Vasco. Pois bem, isto é impossível. 

Primeiro, porque o Conde D. Vasco ainda era vivo em Março de 1170, 
quando confirmou o foral dos Moiros forros de Lisboa (4); e porque nos sete 
anos decorridos até Junho de 1177, em que D. Gonçalo era falecido, não há 
tempo para este casar por duas vezes, e sobretudo para os seus filhos serem 
todos maiores, de catorze anos pelo menos, para naquela data poderem con- 
firmar a doação de couto a Landim. Digo mais, em ii65 ainda D. Urraca 
não era casada com o Conde D. Vasco. Em Janeiro daquele ano confirmaram 
D. Teresa Afonso e seus filhos a doação de Tuias feita por ela aos Cónegos 
de Santo Agostinho, e entre os filhos lá se assinou D. Urraca, que, se já fosse 
casada segunda vez, se intitularia Condessa D. Urraca (5). Não cause reparo, 
advertirei, o ela não se intitular condessa na doação de 1 199, abaixo citada, 
porque então já ela era sanctimonialis, isto é, uma quási freira (6), e portanto 
despida das vaidades do mundo. 



(í) O Conde D. Afonso confirma uma carta de doação ao mosteiro de Lorvão, em Maio 
da era de 1214 (1176). — Fr. António Brandão, Monarchia lusitana, p. III, fl. 217 v. — Pare- 
ce-me pouco provável que este Conde D. Afonso seja o mesmo citado na nota precedente, 
e inclino-me a que não fosse este o sogro de D. Gonçalo da Palmeira. 

(2) Livro Velho das linhagens, pág. i63 nos Portugaliac nwnumenta histórica. Scriptores. 

(3) Fr. Lião de Santo Tomás, Benedictina lusitana., vol. 11, pág. 354. 

(4) Portugaliae monumenta histórica. Leges, pág. 396. 

(5) Fr. António Brandão, Monarchia lusitana., III, fl. iSg v. 

(6) Sanctimoniales, dictae olim feminae aut virgincs, quae sanctimoniae et victae inte- 
gritati potissimum dabant operam : interdum certis, saepe nullis illigatae monasticis votís. 
— Du Gange, Glossarium. 



Pereiras 3 07 

Segundo, porque D. Urraca Viegas em 11 98, vinte e tantos anos pelo 
menos depois da morte de D. Gonçalo da Palmeira, já era viúva do Conde 
D. Vasco (i), e, sendo abadessa de Tarouquela, ainda era viva, mas por força 
muito velha, em i23i (2). • 

Uma das proposições do dilema já se vê ser impossível, pois que se não 
pode alterar a ordem dos casamentos de D. Gonçalo, tal como vem no Livro 
Velho. Vejamos agora se será possível ter sido engano deste o declarar por 
filhos da primeira mulher, os que o foram da segunda, e vice-versa. 

Não pode também ser, porque os filhos marcados à primeira mulher, 
D. Frolhe, tiveram descendência, tanto em todos os Pereiras, que de um 
daqueles provieram, como em muitas outras famílias; e os filhos de D. Ur- 
raca não tiveram descendência, que persistisse, e, se a tivessem tido, haviam 
de ser também padroeiros do convento de Tuias e não consta que os Pereiras 
o fossem, nem a Benedictina no lugar citado os aponta. 

As conclusões a tirar do exposto são duas. Primeira: na carta de confir- 
mação do couto 2f Landim o último dos confirmantes nomeados é o mais. velho 
dos irmãos, o que não é crível; segunda: o Livro Velho das linhagens não é 
nenhum evangelho pelo qual se possa sempre jurar. Esta é a conclusão ver- 
dadeira, reconhecida já, a propósito de outro caso, pelo esquadrinhador mor 
da nossa velha papelada,. João Pedro Ribeiro, nas Reflexões históricas {?>). 

Mas, fosse como fosse, o certo é ter D. Gonçalo da Palmeira tido um 
filho chamado D. Rodrigo Gonçalves da Palmeira, segundo o Livro Velho, ou 
D. Rodrigo Gonçalves de Pereira, na versão do Nobiliário do Conde. Pro- 
veio-lhe o apelido, conforme já disse, da quinta de Pereira nas margens do 
rio Ave, quinta por ele fundada ou adquirida, e para a qual passou a viver 
depois da doação' do couto da Palmeira a Landim. Deste D. Rodrigo é que 
exclusivamente descendem os Pereiras. 

As armas, diz Argote de Molina, tomára-as D. Rodrigo Forjaz, pai de 
D. Gonçalo da Palmeira, por" se ter achado na batalha das Navas de Tolosa^ 
onde aparecera no céu uma cruz semelhante à por êle adoptada. O mesmo 
autor quer-nos fazer acreditar, que todas as linhagens de Espanha e muitas de 
Portugal, em cujas armas se vê uma cruz florida, a tomaram por terem seus 
progenitores entrado naquela batalha, e terem presenciado o milagre. Pare- 
ce-me mais provável haverem sido muitas destas cruzes adoptadas em atenção 
às Ordens de Calatrava ou de Avis, das quais teriam sido cavaleiros ou 
adictos os progenitores das linhagens. 
'. \ 

(i) Santa Rosa de Viterbo, Elucidário^ verb. Deo-vota, vol. I, pág. 365. 

( 2) Ibidem, pág. 366. 

(3) Vol. I, pág. 60. 



3o8 Brasões 

Voltando a D. Rodrigo Gonçalves direi a maneira sumária e radical, como 
se conta êle vingara a sua honra ultrajada. Não era homem de meios termos; 
vão vei., 

«Este dom Rodriguo Gomçallvez foy casado com dona Enes Samchez. Ella 
estamdo no castello de Lanhoso fez maldade com huum frade de Boyro, e dom 
Rodrigo Gomçallvez foy desto certo e chegou hi e çerçou(i) as portas do 
castello e queymou ella e o frade e homeens e molheres e bestas e caaes e 
gatos ç gallinhas e todas cousas vivas, e queimou a camará e panos de vistir 
e camas e nom leixou cousa movill. E alguuns lhe pregumtarom porque 
queimara os homeens e molheres, e el rrespomdeo que aquella maldade avia 
XVII dias que sse fazia e que nom podia seer que tanto durasse que elles 
nom emtendessem alguuma cousa em que posessem sospeita, a quall sospeita 
elles deverom descubrir» (2). 

Desta matança nada resultou. D. Rodrigo nem foi castigado, nem deixou 
de encontrar quem mais o servisse, nem teve de passar sem mulher, pois 
que não ficou curado da primeira, e tornou a casar com D. Sancha Henriques 
de Portocarreiro. 

Do segundo casamento do Senhor de Pereira foi único filho varão D. Pedro 
Rodrigues de Pereira, campeão do Bispo do Porto e vencedor da batalha 
entre Paço de Sousa e Valongo. Este casou por duas vezes e de cada uma 
de suas mulheres teve um filho chamado Gonçalo. 

Um, D. Fr. Gonçalo Peres de Pereira, foi grão comendador de Espanha 
na Ordem do Hospital pelos anos de 1269 a 1291. O outro, o Conde D. Gon- 
çalo de Pereira, foi muito liberal, «e deu huum dia em Pereyra lxiiii cavallos 
ssô huum carvalho que hi estava, deu logo os xxxii e logo comprou estes 
cavallos aaquelles a que os dera: e deulhes em emprego daveemça que com 
elles fez dos seus casaaes tamtos de que sse elles leverom por bem emtre- 
gues: e estes cavallos deuos logo a outros fidallgos» (3). 

Casou o Conde da segunda vez com D. Inês Lourenço, filha de D. Lou- 
renço Anes Carnes, posteriormente mestre de Santiago, e não teve descen- 
dência mascuUna. Porem de sua primeira mulher, D. Urraca Vasques, filha 
de D. Vasco Martins Pimentel, rico homem e meirinho mor de D. Afonso III, 
teve os seguintes filhos: , 

i.** — Vasco Pereira, senhor de Paiva e Baltar, foi o progenitor dos Pe- 



(i) No sentido de tapar, cerrar. 

(2) Nobiliário do Conde D. Pedro, nos Portugaliae monumenta histórica. ScriptoreSy 
pág. 284. 

(3) Ibidem, pág. 285. 



Pereiras 809 

reiras Marramaques, senhores de Cabeceiras de Basto, com a varonia extinta 
e a representação nos Câmaras, Condes da Taipa, também extintos (i). 

2." — D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, foi pai de D. Álvaro Gon- 
çalves Pereira, que entre outros muitos filhos teve o ínclito condestável 
D. Nuno Alvares Pereira, um dos mais notáveis heróis em Portugal nascidos, 
do qual, por sua única filha D. Beatris Pereira, proveio a casa de Bragança. 
Foi o Arcebispo de Braga progenitor dos morgados de Águas Belas, dos 
comendadores de Farinha Podre e dos do Pinheiro, casas nas quais se extin- 
guiu a varonia (2). ^ 

O conde D. Gonçalo de Pereira ainda teve mais um filho; este porem foi 
natural, havido em Marinha Vasques, e chamou-se Rui Gonçalves Pereira. 
Dele tratarei no capítulo seguinte. 

III 

CONDES DA FEIRA 

O ramo destes Pereiras derivou-se do tronco na pessoa de Rui Gonçalves 
Pereira, filho bastardo do Conde D. Gonçalo de Pereira. Já foi Rui Gon- 
çalves herdado na comarca da Beira, e no seu paço de Covelas de Riba de 
Vouga, no dia 7 de Abril da era de i385 (1347), foi intimado da parte dei 
Rei pelo seu juiz no julgado de Vouga a demitir de si e não usar da jurisdição 
criminal no referido couto de Covelas (3). «Foy boo cavalleiro custoso de 
gram fazenda» (4) e teve entre outros filhos, segundo o Nobiliário citado, a 
Álvaro Pereira e Gonçalo Pereira, duas das testemunhas diante de quem 
D. Pedro I, em Cantanhede, a 12 de Junho da era de 1398 (i36o), declarou 



(t) Houve dois Condes da Taipa: D. Gastão da Câmara Coutinho Pereira de Sande, 
senhor das Ilhas Desertas, dos morgados da Taipa e Regalados, alcaide mor de Torres Vedras, 
i.° conde da Taipa, por carta de 3 de Julho de 1823, par do reino desde 3i de Outubro de 
1826, faleceu sem geração a 27 de Março de 1866; e D. Manuel Jerónimo da Câmara Cou- 
tinho Pereira de Sande, 2." conde por decreto de i de Julho de 1866, morreu, também sem 
descendência, em i de Maio de 1869. 

(2) Pretende-se deduzir de Diogo Álvares Pereira, filho do prior D. Álvaro Gonçalves, 
uma linha de Pereiras, mas não há fundamento suficiente para isso. Diogo Álvares morreu 
na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de i385 ; neste ponto não há dúvidas. Pois bem> 
na tal suposta linha dá-se como vivo, ainda em iSgS, um seu bisneto ! Isto é : são duzentos 
e treze anos tomados por três gerações ! Muito mais se poderia notar ainda na tal linha, 
mas basta isto para fazer pô-la de parte. 

(3) Livro 2.» de Direitos riais, fl. 196. 

(4) Nobiliário do Conde D. Pedro, nos Portugaliae monumenta histórica. ScriptoreSy 
pág. 286. 



3 IO Brasões 

haver casado com D. Inês de Castro (i), e ainda a Rui Pereira, o valente ca- 
pitão da nau Milheira da armada do Porto, que entrou em Lisboa durante o 
cerco posto pelos Castelhanos, em Julho de 1384, Foi aquela nau uma das 
cinco aprisionadas, tendo sido o seu capitão, depois de combater valorosa- 
mente, morto por um virotão. 

Havia D. Fernando, logo ao subir ao trono, mandado entregar, por carta 
de 27 de Fevereiro de 1406 (1367), o castelo de Elvas a Álvaro Pereira (2). 
Outras mercês lhe fez ainda, intitulando-o, em alguns diplomas, seu vassalo (3). 
Morto D. Fernando, tomou Álvaro Pereira o partido do Mestre de Avis, e 
assistiu às Cortes nas quais êle foi eleito rei, a 6 de Abril de i385. Logo a 
seguir D. João I, não só nomeou Álvaro Pereira marichal da hoste (4), como, 
por carta de 8 do mesmo mês, lhe fez doação de juro e herdade das terras 
de Santa Maria da Feira, [Cabanões de Ovar], Cambra e Refoios, com seus 
julgados e termos (5). Esta foi a origem da nobre casa da Feira e Álvaro 
Pereira o seu primeiro senhor. 

Faleceu Álvaro Pereira e D. João I, por carta dada no Porto a 19 de 
Agosto de 1424 (i386), fez mercê a seu filho João Álvares Pereira, para êle, 
seus filhos, netos e descendentes, de todas as terras da Coroa possuidas ao 
tempo do falecimento por seu pai, que fora marichal, com a condição delas 
passarem, não tendo João Álvares filhos, a sua irmã Beatriz Pereira e seus 
descendentes, e, na falta destes, a sua outra irmã Leonor Pereira e seus des- 
cendentes, revertendo, só na falta de todos, para a Coroa. Foi tudo confir- 
mado depois, por carta dada em Évora a 5 de Abril de 1453, a Fernão Pe- 
reira, do conselho dei Rei e filho maior do referido João Álvares Pereira, 
declarando-se então serem as terras as acima nomeadas. Em seguida tornou 
a ser tudo confirmado, por carta dada em Santarém a 2r de Dezembro de 



(i) Aires de Sá, Frei Gonçalo Velho, vol. I, doe. xl, pág. 78. 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv, i.", fl. i v. 

(3) Doação por juro de herdade de um souto apar da aldeia de Joane, no termo da Co- 
vilhã, com a condição de acabar, pelas rendas do prédio, o mosteiro de S. Francisco daquela 
vila, carta de 28 de Fevereiro de 1410 (1372), Doação, em quanto fosse sua mercê, dos lu- 
gares de Avelãs de Cima e outros, carta de 2 de Agosto de f4i5 (1377). Outra, nos mesmos 
termos, dos lugares de Sever, etc, dada a 20 de Agosto de 1419 (i38i). — Chancelaria de 
D. Fernando^ liv. i.», fl. 95 v., e liv. 2.», fls. 12 v. e 84 v. 

(4) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, p. II, cap. 1.", asserção confirmada pelos dizeres 
da carta de 25 de Agosto de 1423 (i385) de doação a Álvaro Pereira, nosso marichal, das 
terras e lugares que Gil Martins Doutel possuia, a quem foram confiscadas, «porquanto, 
estando nós na batalha, que houvéramos com el Rei de Castela, o dito Gil Martins Doutel 
fugiu dela e não nos quis ajudar em ela, nem perCalçar da honra que todolos Portugueses 
em ela houveram». — Chancelaria de D, João 1, liv. 1.°, fl. 85 v. 

(5) Chancelaria de D. João I, liv, 1.", fl. 128. 



Pereiras 3i i 

1467, ao filho maior de Fernão, Rui Pereira, fidalgo da casa e do conselho, 
a quem se seguiu seu filho D. Diogo Pereira, que alcançou confirmação da 
casa da Feira, sendo também fidalgo da casa e do conselho, por carta dada 
€m Lisboa a 7 de Dezembro de 1486(1). Estes dois últimos, Rui e Diogo, 
foram o i.*^ e o 2.° conde da Feira. 

Quanto aò castelo da Feira consta o seguinte: Fernão Pereira, fidalgo 
da casa, declarou a D. Afonso V, que pelos reis D. João I e D. Duarte fora 
doado a João Rodrigues de Sá e a seu filho Fernão de Sá o castelo da Feira, 
o qual estava muito danificado de muros, paredes, casas, e outras coisas a 
ele necessárias, de tal forma, que, se ao reino sobreviesse algum trabalho, 
o que Deus defendesse, os moradores da terra da Feira não teriam no cas- 
telo defensão nenhuma. Pediu Juntamente a el Rei, por quanto a terra da 
Feira era de seu pai João Alvares Pereira, a quem, como filho legítimo maior, 
esperava suceder, que lhe fizesse mercê do castelo de juro e herdade, pois 
que o queria correger, refazer e reparar à sua própria custa, de muros, pa- 
redes, casas e todas as outras coisas que fossem necessárias para sua forta- 
leza e defensão. Outorga-lhe el Rei o pedido, e faz-Ihe doação, por carta 
de 19 de Novembro de 1448, do castelo da Feira de juro e herdade, com a 
condição de fazer as obras necessárias. Por morte de Fernão foi confirmado 
o castelo, por carta de 21 de Dezembro de 1467, a seu filho Rui Pereira, a 
quem sucedeu D. Diogo Pereira, que obteve confirmação em 7 de Dezembro 
de 1487 e 9 de Março de 1496(2). Foram estes os dois primeiros condes da 
Feira já lá acima nomeados. 

Rui Pereira, 4.° senhor da terra de Santa Maria da Feira e 2.° do seu cas- 
telo, foi o i." conde da Feira. Como se não encontra registada a carta de 
mercê deste título, entraram os genealogistas em grandes confusões. Xisto 
Tavares e outros dizem haver êle sido o primeiro que se chamou conde da 
Feira, sem vontade dei Rei; D. António de Lima porem, melhor informado, 
acrescenta que D. Afonso V lhe dera depois o seu consentimento. Outros 
mais modernos afirmam, fundados em documentos falsos, haver aquele mo- 
narca criado conde de Moncorvo a Rui Pereira, mas que êle não quisera 
usar de tal título e ordenara a seus vassalos lhe chamassem Conde da Feira (3). 
Não é opinião aceitável: em primeiro lugar, porque os documentos autênticos 
são mudos a respeito do condado de Moncorvo, ao passo que claramente 
falam no da Feira, como veremos; em segundo lugar, porque não posso acre- 
ditar que em Rui Pereira o capricho o levasse ao ponto de repudiar, junta-. 

(i) Chancelaria de D. João //, liv. 8.», fl. 226 v. 

(2) Liv. I." cia Estremadura, fl. Si v. 

(3) P.e Sousa, Historia genealógica^ III, 28. 



l 



3 1 í Brasões 

mente com o condado, as rendas da vila de Moncorvo, as quais com êle 
haveria de receber. E então estes senhores da Feira, Rui e Diogo, que foram 
grandes opressores dos seus vassalos e, sobre tudo o primeiro, apaixonado 
agenciador dos próprios interesses, por causa dos quais teve uma bem sabida 
e grave contenda com os burgueses do Porto. 

Quanto à existência do condado da Feira na pessoa de Rui Pereira não 
pode haver dúvidas; vários documentos o atestam. Por alvará de i6 de 
Maio de 1481 fez D. Afonso V mercê ao Conde D. Rodrigo Pereira, do seu 
conselho, dos bens de certos moradores nas suas terras de Santa Maria e 
Cambra (i). Na já citada carta de 7 de Dezembro de 1486, de confirmação 
da casa da Feira á D. Diogo Pereira, determina-se que êle haja as terras, 
como as houvera o dito Conde seu pai D. Rodrigo Pereira (2). Por estes 
documentos já fica certo ter êle tido o título de conde, e que este só podia 
ser o da Feira, também não há dúvida. 

Veio o condado da Feira a vagar em 1700, por morte do g." conde D. Fer- 
nando Forjaz Pereira, e por carta de .10 de Fevereiro de 1708 fez D. João V 
doação da. casa a seu irmão o infante D. Francisco (3). Nesta ocasião tinha' 
já a Coroa tido sentença favorável na demanda levantada, acerca da sucessão 
da casa da Feira, por D. Álvaro Pereira Forjaz Coutinho, descendente de 
D. João Pereira, o Mulato, filho bastardo do i.° Conde da Feira. Nesta 
ocasião forjaram-se, com uma audácia incrível, vários documentos falsos dos 
quais darei notícia lá adiante (4). 

O i.'' Conde da Feira, sendo ainda simplesmente «Rui Pereira, fidalgo 
de nossa casa», de quern D. Afonso V confessa ter «grande carrego», havia 
casado, precedendo contrato de 20 de Junho de 1456, com D. Leonor de Ber- 
redo, donzela da casa da falecida rainha D. Isabel e filha de Gonçalo Pe- 
reira (5), o das Armas, 2.° senhor de Cabeceiras de Basto, nomeado por vezes 
na Chronica de D. Afonso V. Era D. Leonor irmã de D. Maria de Berredo 
já ao tempo casada com Fernão Pereira, de quem foi segunda mulher. Este 
Fernão Pereira era o pai de Rui Pereira e fizera-lhe também D. Afonso V o 
casamento, como se declara na carta de 8 de Outubro de 1451 de aprovação 
do contrato ante-nupcial (6). Reíere-se a estas duas irmãs, ainda solteiras, 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 3.°, fl. 43 v. 

(2) Ibidem^ liv. 8.», fl. 226. 

(3) P.e Sousa, Provas da Historia genealógica, V, 368. 

(4) Nota I no fim deste artigo. 

(5) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 44.", fl. 92. 
(ó) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 35.", fl. 92. 



Pereiras 3 1 3 

um documento interessame, o qual em resumo declara: «Querendo fazer 
graça e mercê a D. Maria de Berredo e a D. Leonor sua irmã, donzelas da 
casa da Rainha minha mulher, hajam, do i.° de Janeiro que foi de 1430 em 
diante, de seu mantimento e vestires, trinta e dois mil cento e setenta e dois 
reais brancos, a saber: nove mil novecentos e quarenta e três reais de seu 
mantimento a cada uma 5 e quatro mil novecentos e cinquenta reais a cada 
uma de seu vestir, contando ai mil e quinhentos reais de vestir para um 
homem e uma mulher, que as servem; e de sua cevada a cada uma delas por 
ano mil cento e noventa e três reais. Évora, i5 de Março de 1450» (i). 

D. Rodrigo Pereira, i." conde da Feira, estava já morto em Dezembro 
de 1486 e parece ter falecido nesse mesmo ano. Numa carta de 6 do refe- 
rido mês, manda-se pagar, do i.'' de Janeiro de 1487 em diante, a D. Diogo 
Pereira uma tença de dezassete mil reais brancos, «os quais havia o Conde 
D. Rodrigo seu pai pela jurisdição da terra de Refoios, que lhe foi dada e 
se tornou à Sé da cidade do Porto» (2). D'aqui deverá erltender-se haver o 
Conde D. Rodrigo recebido ainda a tença do ano de 1486. Neste mesmo 
ano, por outra carta também de 7 de Dezembro,, já citada, foi confirmada a 
casa da Feira a D< Diogo Pereira, filho maior de D. Rodrigo; do título porém 
só se encontram vestígios, de lhe haver sido conferido, de i5 de Janeiro de 
i5oi por diante, não muito positivos (3), e certos em i de Setembro do. mesmo 
uno (4). 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.*', fl. 122 v. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 8.», fl. 122. 

(3) Auto mandado lavrar pelo Corregedor da comarca da Estremadura a i5 de Janeiro 
de i5oi «na vila de Ovar, terra do Conde da Feira»; parece contudo haver o título sido dado 
no documento por mera cortesia do Corregedor, pois que el Rei na ordem àquele enviada 
o manda simplesmente ir à «Feira, terra de D, Diogo Pereira». — Corpo cronológico, part 11, 
mac. 3, doe. 63 

(4) Sentença de i de Setembro de i5oi dada a favor dos povos das suas terras e contra 
D. Diogo Pereira, conde da Feira, que os oprimia. No dia 1 1 de Outubro seguinte foram as 
justiças para intimar a sentença ao Conde e, chegando acerca do castelo da Feira, acharam 
por notícia que o Conde D. Diogo andava ao monte sobre um porco; e tornaram em busca 
dele Conde e o acharam, já vindo para o castelo, com certos seus escudeiros, e o escrivão 
lhe entregou uma carta missiva cerrada, a qual o Corregedor lhe enviava. Leu o Conde 
a carta e foram todos para o castelo, e nas casas onde o Conde está, numa câmara sua, se 
apartou com os escrivães e com eles falou, etc. No ano seguinte, a 25 de Outubro, fez-se 
termo da publicação da sentença, no castelo da Feira, estando el Rei no dito castelo, onde 
por seu mandado foi um escrivão ao aposentamento de D. Diogo Pereira, conde da Feira, para 
lhe publicar a sentença e ler-lha. Ele porem declarou não a querer ouvir e só estar por ela 
na parte que lhe era favorável, tencionando vir com embargo à parte que lhe era contrária. 
Foram presentes D. Diogo, filho do Marquês de Vila Rial que Deus haja, Brás de Ferreira, 

voL. I 40 



3 14 Brasões 

Nos descendentes de D. Rodrigo Pereira continuou a casa e título de conde 
da F'eira até seu quarto neto D. João Forjaz Pereira, 5.° conde por carta de 
20 de Abril de iSgô (i) e sucessor na casa por morte de seu irmão D. Diogo 
Forjaz Pereira de Meneses, que a houvera, sem o título, em sucessão a seu 
avô o 4.° conde da Feira D. Diogo Forjaz Pereira. Havia D. João servido 
na índia nos postos de capitão de Ormuz e de Malaca e de lá regressara, ao 
ter conhecimento da morte do irmão, a fim de suceder na casa. Nomeado 
vice-rei da índia por carta patente de 1 1 de Março de 1608 (2), para lá partiu 
a 29 de Março, na nau Vencimento do Carmo, e no caminho morreu (3). 
Antes de partir, entre várias mercês, fizera-lhe el Rei. por carta de 14 de 
Março de 1608, a de lhe tirar por duas vezes fora da Lei Mental, além da 
vida concedida a sua filha, o tíj:ulo de conde da Feira, a vila e concelho da 
Feira e as vilas de Ovar e Cambra, que tudo havia de juro (4). 



procurador dos feitos dos forais da comarca da Estremadura, Afonso Anes, clérigo e capelão 
do Conde, e no fim chegaram o Marquês de Vila Rial, irmão do D. Diogo acima, seu outro 
irmão D. Henrique e D. Pedro de Meneses, conde de Cantanhede {Gaveta, X, mac. 12, n." 16). 
Não posso deixar de notar esta maneira de D. Manuel corresponder à hospitalidade dispen- 
sada pelo Conde da Feira, consentindo lhe fosse intimada uma sentença desfavorável. Nela 
menciona-se outra de D. João II, de 29 de Abril de 1489, dada a favor de D. Diogo Pereira, 
conde da Feira; não valerá porem nada esta afirmativa não só por a referência à tal sen- 
tença vir apenas em extracto, mas também por estar em oposição aos mais documentos 
conhecidos. D. Manuel ia então a caminho de Santiago de Compostela, 
(i) Chancelaria de Felipe 7, liv. 3o.» de Doações, fl. 220. 

(2) Chancelaria de Felipe 11^ liv. 23.° de Doações^ fl. 4. 

(3) Luís de Figueiredo Falcão, Livro de toda a fas^enda, pág. 187. 

(4) Havendo respeito aos serviços que D. João Froyas Pereira, conde da Feira, do meu 
conselho, tem feito nas partes da índia e neste reino, onde por vezes serviu de capitão geral 
das armadas dele, dos quais serviços el Rei meu pai e eu tivemos sempre muito particular 
satisfação, e a o Conde me ir ora servir às ditas partes da índia por meu viso rei delas e por 
muito folgar de lhe fazer honra e mercê, por todos estes respeitos e por seus merecimentos 
e daqueles de que êle descende, hei por bem e me praz de lhe fazer mercê do título de conde, 
que tem, de juro e de lhe tirar por duas vezes fora da Lei Mental o mesmo título e a vila e 
concelho da Feira, e assi as vilas de Ovar e Cambra, que tem de juro, alem da vida de sua 
filha, e com a declaração que, em falta de filho do possuidor último, virá tudo a filha fêmea, 
e, não tendo filho, ao irmão barão descendente de sua casa, e, não havendo irmão, virá ao 
sobrinho barão, filho do irmão do último possuidor descendente de sua casa. E assim me 
praz de lhe fazer mercê da dízima do pescado de Ovar, que tem em sua vida, de juro para 
que ande anexa à sua casa da Feira e que, sendo os seus ouvidores letrados aprovados pelo 
Desembargo do Paço para meu serviço e sendo limpos de raça, possam fazer a correição 
uma vez cada ano, assim como a fazem os meus corregedores das comarcas do reino, as 
quais mercês lhe faço, além das mais que por estes respeitos lhe fiz, etc. Lisboa, 14 de 
Março de 1608. — Chancelaria de Felipe II, liv. 23.° de Doações^ fl. 37 v. — Nestes termos se 
renovou a concessão da casa da Feira, a qual tinha vagado pela qaorte sem filhos de D. Diogo 
Forjaz Pereira de Meneses. 



Pereiras 3i5 

Em virtude da mercê acima apontada foi a sua filha única, D. Joana Forjaz 
Pereira, concedido o titulo de condessa da Feira por carta de 14 de Outubro 
de 1620(1). Casou esta senhora com D. Manuel Pimentel, ou D. Manuel 
Forjaz Pereira Pimentel, como é nomeado na carta de 14 de Outubro de 1628 
do titulo de conde da Feira (2), e dele teve a D. João Forjaz Pereira, 7.° conde 
da Feira (3), e a D. Fernando F'orjaz Pereira Pimentel, 8.° e último conde 
da Feira em sucessão a seu irmão (4). Morreu a i5 de Janeiro de 1700 sem 
deixar sucessão legítima, apontando-se-lhe todavia dez filhos bastardos (6). 

Vagou então para a Coroa a casa da Feira e dela fez D. João V mercê a 
seu irmão o infante D. Francisco, dando-o facto origem a uma demanda, como 
já lá acima ficou apontado. Ao bisneto do autor nesse processo, D. Miguel 
Pereira Forjaz, foi concedido, por carta de 18 de Maio de 1820, o título de 
Conde da Feira em sua vida (6). Foi militar e serviu na campanha do Ros- 
siihão e Catalunha, mas tornou-se mais conhecido pelas suas funções civis, 
na qualidade de secretário da regência e de ministro da guerra, cargos de 
que foi deposto pela revolução de 1820. Morreu sem sucessão a 6 de No- 
vembro de 1827, passando a casa a sua irmã D. Maria Joana Forjaz da Câ- 
mara e Meneses, viscondessa de Vila Nova do Souto dei Rei, mulher do 
3.® Visconde. 

Pertencia o Conde da Feira D. Miguel ao ramo dos Pereiras, morgados 
da Redinha e senhores dos coutos de Freiriz e Penagate. Outros ramos 
ainda se derivaram da casa da Feira: os dos senhores de Fermedo e Cabe- 
çaes, os Pereiras de Berredo, os morgados de Vila Maior, os da Taipa e 
outros. 

Tem havido, com maior ou menor certeza, muitas e muito ilustres casas 
com o apelido de Pereira derivado, directamente por uma senhora, desta 
antiga varonia. Lembram-me os Duques do Cadaval, os senhores de Castro 
Daire, os Pereiras de Lacerda, os Pereiras de Araújo e mais. 

Outras casas há, igualmente antigas e ilustres, as quais, usando do apelido 
de Pereira, são contudo ramos destroncados da árvore principal. Tais são 
os Pereiras Coutinhos, morgados e viscondes da Baía, os Pereiras de Alco- 



(i) Chancelaria de Felipe. Ill, liv. 7.» de Doações, fl. 86. 

(2) Ibidem, liv. "ii.* de Doações, fl. 245 v. 

(3) Já era conde a 27 de Janeiro de i65o, data de uma verba relativa a certo juro vin- 
culado no qual sucedera. — Chancelaria de D. João IV, liv. 5.* de Doações, fl. 240. 

(4) Carta de i de Outubro de 1669. — Chancelaria de D. Afonso V/, liv. 45." de Doações^ 

fl. lOI. 

(5) P.« Sousa, História genealógica, V, 296 a 298. 

(6) Mercês de D. João VI, liv. 14.°, fl. 194 v. 



3i6 Brasões 

chete dos quais são chefes os morgados da Amieira, hoje Pereiras de Lucena, 
os' Pereiras Coutinhos da casa de Penedono, os Pereiras Patos, os Pereiras 
da casa de Bertriandos,. os dos coutos de Mazarefes e Paradela, daqueles 
derivados, etc. 

No capítulo seguinte ocupar-me-hei dos Pereiras de Bertiandos, aprovei- 
tando-me de averiguações documentais directamente alcançadas e de informa- 
ções tiradas do arquivo da casa e ministradas por meu velho amigo o actual 
Conde de Bertiandos. - 

IV 

CASA DE BERTIANDOS 

A casa de Bertiandos foi fundada nos fins do século xv pelo honrado 
Fernão Pereira, cavaleiro, almoxarife dei Rei no seu almoxarifado de Ponte 
de Lima. 

Era Fernão Pereira, filho de Lopo Rodrigues Cerveira, escudeiro, almo- 
xarife de Ponte de Lima pelos anos de 1430 a 1450, se é que não foi seu 
neto e filho de Diogo Pereira, cavaleiro, outrosim almoxarife da mesma vila 
desde 1460 até às proximidades de 1466; se não foi filho deste, deveria ter 
sido seu irmão. 

A Lopo Rodrigues Cerveira, seu almoxarife em Ponte de Lima, deu 
D. Duarte em tença, por carta de 5 de Dezembro de 1433, a herdade da 
Loisa no reguengo daquela vila, doação confirmada por D. Afonso V, em 21 
de Junho de 1439 (i). Este Rei, por outra carta da mesma data, confirmou- 
-Ihe o almoxarifado (2). Ainda em vida de Lopo Cerveira foi nomeado al- 
moxarife de Ponte de Lima, por carta de 28 de Setembro de 1450, Diogo 
Pereira, escudeiro do infante D. Henrique (3); ao mesmo, sendo já cavaleiro 
e ainda almoxarife, foram dados quatro mil reais de tença por carta de 24 
de Fevereiro de 1464(4); e, não sendo já almoxarife, foi nomeado coudel de 
Vila Nova da Cerveira, onde então morava, por carta de 14 de Março de 
1466 (5). Por uma carta de perdão de 14 de Dezembro de 147 1, à qual logo 
me referirei, consta ter já então o almoxarifado de Ponte de Lima Fernão 
Pereira, que em 1497 ^ resignou no filho Lopo Pereira, a quem se passou 
carta no dia i5 de Junho, adiante citada. 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 19.", fl. 16 v. 

(2) Ibidem, liv. 18.% fl. 96. 

(3) Ibidem, liv. 34.», fl. i58. — Este Diogo Pereira é o progenitor dos senhores do couto 
de Mazaretes e Paradela. 

(4) Ibidem, liv. 8.", fl. 179 v 

(5) Ibidem, liv. 14.*, fl. 71 V. 



Pereiras 3 1 7 

Recapitulando: em 1433 já Lopo Rodrigues Cerveira exercia o ofício de 
almoxarife de Ponte de Lima; em 1497 ainda o possuia Fernão Pereira, que 
dizem ter sido seu filho. São mais de sessenta e quatro anos, talvez para 
cima de setenta, ocupado? apenas por duas gerações. Não é impossível; 
mas também não é muito provável. Numa inquirição de testemunhas feita 
em 1570 e junta aos autos de uma demanda que então corria sobre o padroado 
de Mangoeiro, declara-se ser Fernão Pereira filho de Lopo Rodrigues Cer- 
veira. Esta inquirição, passada um século depois, não tem autoridade sufi- 
ciente para nos assegurar a verdade das suas asserções, tanto neste ponto, 
como noutros a que se refira relativos- a sucessos daqueles antigos tempos. 

Lopo Rodrigues Cerveira passou a morar em Valença, onde exerceu o 
ofício de escrivão da dízima do ferro e aço e das sacas, de que teve nomeação 
provisória, sendo já escudeiro, em 3 de Junho de 1462, e definitiva em 10 de 
Agosto de 1472(1). Na mesma vila foi proprietário, e lá. possuiu, entre 
outros bens, o chão em que esteve o castelo dei Rei, do qual lhe foi feita 
mercê por carta de 27 de Julho de 1462 (2). Foi filho de Rui Lopes da Cer- 
veira, padroeiro, no julgado de Vila Nova da Cerveira, da igreja de S. Pedro 
de Mangoeiro (depois chamada de Gondarêra), na qual apresentou um cura 
em 2(3 de Agosto de 1434(3). 

Este padroado de S. Pedro de Mangoeiro, e depois de Gondarêm quando 
a freguesia mudou de sede, conservou-se na posse dos-senhores da casa de 
Bertiandos até à extinção dos direitos de apresentação, e permite deduzir com 
segurança os Pereiras daquela casa dos antigos Cerveiras, que tomaram o 
apelido de Vila Nova da Cerveira, da qual, em tempo de D. Sancho I (i i8õ- 
-121 1), foi senhor D. João Nunes da Cerveira, ainda nomeado nas Inquiri- 
ções de 1 258 (4). 

Na própria freguesia de Mangoeiro encontram-se , nas Inquirições, várias 
referências à permanência aí dos Cerveiras, Nas já citadas de i258 diz-se 
que Maria Cadela recebeu a Pêro Lourenço da Cerveira por filho em her- 
dade foreira a el Rei, e por esse facto a traz honrada, não pagando já o 
foro (5). Nas de 1290, data da sentença que as julgou, iniciadas contudo 
dois anos antes, conta-se que em tempo de D. Afonso II (1211-1223) Gonçalo 
Anes da Cerveira, que havia sido criado no lugar de Copos fora da freguesia 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. i.", fl. 40 v., e liv. 29.°, fl. 80. 

(2) Livro 3." de Além Doiro, fl. 286. 

(3) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, vol. II, fl. 260 miAi, reportando-se a docu- 
mento existente no cartório dos Arcebispos de Braga. 

(4) Poriugaliae monumenta histórica. Inquisitiones.,'pág. 35i. 

(5) Ibidem^ pág. 333. - ■ 



3i8 Brasões 

de Mangociro, fora trazido a esta ao lugar do Oiteiro em Gondarêm, sendo 
já tam grande que sósinho podia cavalgar, e desde então, sob pretexto de o 
terem lá criado, escusavam-se os moradores d'e pagar a el Rei seus foros e 
direitos, trazendo o lugar por honra (i). 

Casou Rui Lopes da Cerveira com Maria Pereira. De quem ela fosse 
filha não o dizem os nobiliários antigos, nem o declara nenhum documento 
meu conhecido; dela porem, isso é certo, tomaram seus descendentes o ape- 
lido e as armas, em substituição das dos Cerveiras (2), as quais seriam as 
na nota descritas, muito diversas todavia das dos Cerveiras de Santarém, 
usadas pelo alferes mor da bandeira daquela vila, Mem Cerveira (3). 

Fernão Pereira, o fundador da casa de Bertiandos, fez as suas rapaziadas 
e estúrdias, e de uma delas, que lhe ia saindo mais cara, consta o seguinte. 

Em Vila Nova da Cerveira morava Pêro Carvalho, escudeiro, que parece 
dispunha dalguma autoridade, pois prendera e preso retinha numa casa da 
vila a Pêro Anes, acusado de haver assassinado Fernão Pita, filho de João 
Pita. O assassino era amigo ou protegido de Fernão Pereira, já ao tempo 
almoxarife de Ponte de Lima, e êle, juntando gente, foi a Cerveira, soltou 
o preso e deu-lhe fuga por forma a não poder ser julgado. 

Até aqui não foi a coisa mal; mas sucedeu que, tanto Pêro Carvalho, como 
os parentes, e não eram poucos, do assassinado Fernão Pita, queixaram-se 
a el Rei, dizendo que Fernão Pereira era «homem mal feitor, renegador de 
Deus e de Santa Maria e de seus santos», e fugira. Realmente fugira; mas, 
aproveitando a renovação por então feita da lei de 148 1 em benefício dos 
homisiados que fossem servir a Africa, para lá partiu na expedição então 
organizada com o fim de acometer Arzila, cuja conquista realizou em 24 de 
Agosto de 147 1, seguindo-se-lhe logo a ocupação de Tânger. Voltando 
D. Afonso V triunfante a Lisboa, não publicou só a mudança do seu ditado, 
que passou a ser de Rei de Portugal e dos Algarves, d'àquêm e d'àiêm mar 
em Africa, mas também um perdão geral. Deste se aproveitou Fernão Pe- 
reira, que, tendo previamente alcançado das partes interessadas remissão da 



(i) Inquirições de D. Denis, liv. 4.°, fl. 86. — A este mesmo facto há outra referência em 
Inquirições da mesma alçada lançadas no Livro da Beira e Além Doiro, fl. 85 v. 

(2) As armas dos Cerveiras são esquarteladas: o I e IV de vermelho, cruz florida de oiro 
e vazia do campo ; bordadura de prata carregada de doze escudetes de azul, cada um sobre- 
carregado de cinco besantes de prata; o II e III de prata, duas cervas passantes e sotopostas 
de púrpura. Timbre : cerva passante de púrpura, carregada de uma cruz florida de oiro e 
vazia de púrpura. — Livro do Armeiro mor, fl. 67, Livro da Torre do Tombo, fl. 14, carta de 
brasão de 2 de Abril de i5i7 na Chancelaria de D. Manuel, liv. 9.°, fl, 7 v. 

(3) Nota II no fim deste artigo. 



Pereiras 3 1 9 

queixa, foi, por carta de 14 de Dezembro de 1471, em galardão do seu ser- 
viço em Africa, relevado de toda a culpa e proibida a sua prisão (1). 

Restituido Fernão Pereira ao socêgo de sua casa, tratou de aumentá-la, 
sendo ainda solteiro (2), e, havendo alcançado de D. Afonso V o padroado da 
igreja de Santiago de Cristelo o qual, por ser no termo de Caminha, já lhe 
havia cedido D. Pedro de Sotomaior, conde daquela vila, propôs uma troca 
ao dom Abade do mosteiro benedictino de S. João de Cabanas. Aceitou-a 
o Abade, então D. João de Sá, e sugeitou-se o contrato á aprovação do Or- 
dinário, ao tempo o Vigário geral, sede vacante, do Bispo de Ceuta na admi- 
nistração de Entre Lim*a e Minho. Mandou ele proceder à avaliação das 
propriedades que se pretendiam trocar, as quais eram, por parte do Almo- 
xarife, o padroado de Cristelo, e por parte do Abade, a quinta de Bertiandos, 
com todas as suas casas, vinhas e herdades, possuída pelomosteiro naquela 
freguesia. Foi então o rendimento da quinta, com todas as suas pertenças 
e foros, avaliado em oitocentos reais brancos, e o do padroado, em dois mil 
e quinhentos. Conhecida a vantagem que a troca trazia ao convento foi ela 
aprovada por sentença de 22 de^ Março de 1479, e desde então pertenceu a 
quinta de Bertiandos aos Pereiras (3). 

Já neste tempo possuia Fernão Pereira propriedades naquela paróquia. 
A casa deste prédio era no lugar depois chamado a Devesa da Granja, sitio 
ainda hoje existente com o mesmo nome dentro da quinta, próximo do palácio, 
havendo a memória de ter sido efectivamente devesa. A quinta, que fora 
do convento, constava de muitas terras e das tais casas, provavelmente demo- 
lidas para aproveitamento da pedra, quando se edificaram ou ampliaram os 
próximos paços. Era pois a quinta de Bertiandos propriedade encravada na 
já possuída pelo Almoxarife, e assim se explica o ter ele feito com os Frades 
uma troca, na aparência só vantajosa para estes. 

Casou Fernão Pereira, depois de realizado este contrato, com Maria Vaz 
e dela já tinha pelo menos um filho, quando Caterina Dias, mulher de Gon- 
çalo de Bairros de Vaabom, morador no julgado de Regalados, considerando 
como não tinha filho nem filha nem outro nenhum herdeiro, e considerando 
mais o grande divido que tinha com Fernão Pereira, almoxarife de Ponte de 
Lima, e com Maria Vaz sua mulher, lhe aprouve de perfilhar e tomar por 
filho e herdeiro em todos ^eus bens a Lopo Pereira, filho dos ditos cônjuges. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 17.», fl. 17. , 

(2) Na escritura a seguir citada não se declara o estado de Fernão Pereira; envohe ela 
porem uma alienação de propriedade e portanto deveria intervir no contrato a mulher de 
Fernão Pereira, se ele fosse casado. 

(3) Documento existente no cartório da casa de Bertiandos. 



320 Brasões 

Foi o instiumento de perfilhação feito pelo tabelião do referido julgado, a 12 
de Janeiro de 1490, e teve confirmação régia a 3o de Julho do mesmo ano(i). 
Maria Vaz, a quem alguns nobiliários dão sem fundamento o apelido Malheiros, 
sobreviveu a seu marido e por escritura do ano de i5o3 vendeu a seu filho 
uma quinta em Refoios de Lima (2). 

Continuou Fernão Pereira no almoxarifado de Ponte de Lima e, sendo 
já cavaleiro, teve dele confirmação de D. João II, em 27 d-e Agosto de 1488, 
e em 21 de Abril de 1496 de D. Manuel, em cujas mãos renunciou o oficio 
para nele ser provido seu filho Lopo Pereira, a quem foi concedida carta çm 
i5 de Junho de 1497 (3). A êle foram passadas duas cartas de quitação, uma 
relativa aos anos de i5i4 e i5, e a outra ao de i5i8. Não seriam só estas 
de certo as que se lhe deram, mas nenhumas outras estão registadas. • Pela 
primeira, datada de Lisboa, a 23 de Março de i5i7, consta que o rendimento 
daquele almoxarifado, nos dois referidos anos^ importara em três contos, 
oitocentos e noventa e oito mil e quinhentos reais, incluindo o um por cento; 
e pela segunda, passada em Évora a 20 de Março de i52o, que em i5i8 ren- 
dera os âbis contos, quinhentos e oitenta e cinco mil e seiscentos reais por 
que havia sido arrendado (4). 

Foi Lopo Pereira 2.*^ senhor da quinta de Bertiandos, onde viveu e onde 
morreu a 17 de Agosto de 1626 (5). Casou pela segunda vez com Inês Pinto, 
senhora rica, a qual em 1666, sendo viúva e havendo-se composto com os 
filhos do primeiro matrimónio de seu marido, instituiu dois vínculos em Ber- 
tiandos, os quais se ficaram designando por primeiro e segundo morgado de 
Bertiandos e foram nomeados em seus filhos, Francisco Pereira, primogénito, 
e António Pereira, segundogénito. Foi esta senhora quem acrescentou muito 
as casas de Bertiandos e quem mandou levantar a torre, que ainda agora lá 
se vê por trás dos dois palácios de diferente arquitectura, tendo pertencido 
o situado ao nascente, para a parte de Ponte de Lima, ao primeiro vínculo, 
e o outro, com a torre, ao segundo. 

Quem fôr hoje pela lindíssinía estrada de Ponte de Lima a Viana lá vê. 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 16.0, fl, 46. 

(2) Cartório da casa de Bertiandos. 

(3) Chancelaria de D, João II, liv. 24.", fl. 71 v.; Chancelaria de D. Manuel, livs. 40.°, 
fl. 73 v.,e 3o. o, fl. 123 V. . 

(4) Cartas de quitação dei rei D. Manuel, no Archivo histórico portuguez, vol. 1V> 
pág. 286, n.°» 45o e 45i. 

(5) Assim o declara, nos seus escritos genealógicos, seu descendente D. António Pereira 
da Silva, bispo do Algarve de 1704 a 171 5. Alem disto existe um documento j^elo qual 
consta ser sua mulher viúva em i566 e portanto não pode ser este Lopo Pereira o que servia 
na índia em i568 (Couto, Década oitava, pág. i23 mihi) e em 1571 (Década nona, pág. 491), 
como equivocadamente referem algumas genealogias. 



Pereiras 32 1 

à sua direita, defronte do rio Lima, de que os separa uma fértil e extensa 
veiga cortada pelo caminho, os dois solares dominados pela torre, atrás deles 
erguida, destacando-se tudo no verde mais sombrio dos montes, que servem 
de fundo ao risonho painel. Por lá passei em 1875, no ano mais angustiosa 
da minha vida. - 

Entre as duas famílias, que ali viviam paredes meias, em breve, coma 
era fatal, se estabeleceu a desarmonia, bastando para isso a criadagem. Até 
me lembro de ter ouvido contar há muitos anos ao Conde de Bertiandos, 
então Gonçalo Pereira, que o senhor de um dos morgados, alegando ser Pe- 
reira de melhor qualidade, mandara inclinar para o seu lado a velha cruz 
dos Pereiras, a qual defronta com as casas no alto de uma coluna de pedra, 
antigo pelourinho da vila de Bertiandos, assente sobre um fuste constituída 
por um marco miliário. 

Acabou depois tudo pela melhor das maneiras, pelo casamento, em 1792, 
de D. Maria Angelina Senhorinha José Justa Pereira Forjaz de Eça Monte- 
negro, 9.* senhora do segundo morgado de Bertiandos, com Damião Pereira da 
Silva de Sousa e Meneses, 10." senhor do primeiro morgado, 2.° da vila de 
Bertiandos e padroeiro de S. Pedro de Gondarem, olim Mangoeiro. Foram 
pais do dr. João Pereira da Silva de Sousa e Meneses, lo.*' senhor do se- 
gundo morgado por sucessão a sua mãe, falecido sem filhos em 1823 ; e de 
Gonçalo Pereira da Silva de Sousa e Meneses, 3." senhor da vila e ii.° de 
ambos os morgados de Bertiandos, i.** visconde com grandeza, em 21 de 
Agosto de 1840, e i.° conde de Bertiandos, em 14 de Abril de i852, par do 
reino por carta de 3 de Maio de 1842', falecido a 5 de Setembro de i856, 
deixando viúva a condessa D. Teresa Teles da Silva, filha dos 3.°' Mar- 
queses de Penalva, a qual ^e finou a 9 de Maio de 1881. 

Sucedeu-lhe sua filha D. Joana Maria do Rosário Francisca de Sales Pe- 
reira da Silva de Sousa e Meneses, 2.^^ condessa de Bertiandos, 12.^ senhora 
dos seus dois morgados, do dos Biscainhos em Braga, do de Pentieiros e de 
vários outros. Faleceu a Condessa na sua casa de Braga a 23 de Julho de 
1896, tendu casado com seu prim.o Sebastião Correia de Sá Meneses Brandão, 
conde de Bertiandos por decreto de 19 de Agosto de i852, par do reino por 
carta de 23 de Fevereiro de 1864, oficial mor honorário da casa rial, etc. 
Morreu em 6 de Julho de 1874 e era filho segundo dos 2."* Condes de Te- 
rena(i). 



(i) Este Conde de Bertiandos era sexto neto de Francisco Jácome do Lago, irmão e 
sucessor de Baltasar Jácome do Lago que está enterrado na igreja de S. Domingos de Viana 
do Castelo em capela sua. onde se vê o seu brasão igual ao que lhe foi concedido por uma 
carta não registada na Torre do Tombo e por isso dela aqui farei menção. 

«Portugal Principal Rey darmas. . . e caualeiro professo da orde de Sãctiago, faço saber 
voL. 1 41 



322 Brasões 

Deste casamento foi filho primogénito Gonçalo Pereira da Silva de Sousa 
e Meneses, actual 3." conde de Bertiandos e i5.° senhor desta casa, contando 
desde Fernão Pereira. Foi par do reino por sucessão a seu pai, tendo to- 
mado posse a 3 de Maio de 1878, e oficial mor honorário da casa rial; é 
casado, desde 1876, com D. Ana de Bragança, da casa de Lafões, dama ca- 
marista que foi da rainha D. Maria Pia. Não têem os Condes filhos e dele 
é irmão imediato sucessor Sebastião Pereira da Silva de Sousa e Meneses, 
actual conde de Tarouca pelo seu casamento com a 11.* Condessa. 

As armas dos senhores de Bertiandos foram sempre as dos Pereiras: de 
vermelho, cruz de prata, florida e vazia do campo, sem nenhuma diferença. 
Assim se encontram, não só na frontaria de uma das casas de Bertiandos, 
como na capela que para seu jazigo e de seus descendentes fez na igreja 
matriz da vila a instituidora dos vínculos, a referida Inês Pinto. 

NOTAS 

I 

DOCUMENTOS FALSOS, pág. 3 12 

Creio não existir entre nós, nem talvez em nenhum outro país, uma colecção mais auda- 
ciosa de documentos falsos, do que a reunida e com inverosímil ousadia divulgada no livro 



a quantos esta minha carta de brasão darmas. . . vire, que Baltasar jacome do laguo, morador 
na villa de Viana foz de lima, me pedio e requereo, que porquãto elle descedia por linha 
dereita legitima e sê bastardia por parte de seu pay João rodrigues do laguo e de sua may 
Isabel jacome, e de seus auos João rrodrigues do laguo, o velho (avô paterno),' e caterina 
dias jacome (avó materna), e de seus bisauos, das gerações e linhagens dos do lago, e ja- 
come. . . que lhe desse hú escudo c5 as armas que as ditas linhagens pertence. . . pello que 
. . . busquei os liuros da nobre fidalguia do Reyno que em meu poder estão, e acho nelles 
que as ditas linhagês pertence serê estas, que em esta lhe dou inluminadas .s. o escudo es- 
quartelado, ao primeiro dos do lago que trazê o capo vermelho e hua torre de prata laurada 
de preto assentada em hú lago dagoa, e dentro nella hua donzella dos peitos pêra cima em 
cabelio vestida de azul e três íior de lises douro em chiefe, e ao segudo dos jacomes que 
traze o capo partido em palia, ao primeiro de azul e hú castello de prata cuberto laurado 
de preto, e ao segudo douro e hila mea aguea preta estendida picada douro, e assy os con- 
trairos, elmo de prata aberto guarnido douro, paquife de prata e vermelho, e ouro e azul, e 
por timbre húa aspa vermelha, e nella as três flor de lises douro, por deferença híía estrella 
douro, que cÕ ellas. . . deve trazer. . . e por verdade lhe passei esta certidão de brasão em 
Lixboa. . . aos vinte e sete dias do mes de nouêbro, Diogo de sanrromão a fez, ãno do nas- 
cimento. . . de mil quinhentos e oitenta e seis». 

Ao Conde de Bertiandos agradeço a cópia desta carta de brasão e a indicação doutros 
documentos do seu arquivo que me serviram para esta breve notícia dos Pereiras de Ber- 
tiandos. 



I 



Pereiras 323^ 

intitulado: Allegaçavi practica, e jurídica sobre a posse, e successam do titulo, e casa da 
Feyra contra os Senhores Procuradores da Coroa, e Infantado, a favor de D. Álvaro Pe- 
reyra Forja^ Coutinho, ordenada pelos Doutores Joseph Corrêa Barreto, e Francisco Vaf 
Tagarro, com huma Summaria RecupilaçaÕ do conteúdo neste volume, que servirá de índice 
aos documentos delle. Pelo Padre Mestre Pedro da ConceyçaÕ Cónego Secular da Congre- 
gação de S. JoaÕ Evangelista, e legitimo irmaÕ do Author pertendente. Gravura em aço 
com as armas dos Condes da Feira. Lisboa Occidental. Na Officina de Mathias Pereyra 
da Sylva, e Joanne Antunes Pedroso. Com as licenças necessárias. M.D.CC.XX. — 4.° de 
XVI n. n. 194 págs. e uma árvore genealógica dos Condes gravada em aço. 

Os documentos neste volume impressos, com excepção de duas certidões da Torre do 
Tombo transcritas nas págs. i3o e i32, são todos falsos. [Não se pode deixar de ficar as- 
sombrado perante tanta audácia ! O autor do processo perdeu a demanda, como não podia 
deixar de ser, mas o falsificador, fosse êle quem fosse, parece ter ficado sem castigo apesar 
de existir na Allegaçam manifesta tentativa de burla. 

Analisarei alguns doS supostos documentos relativos à criação do condado da Feira e 
do pretenso anterior condado de Moncorvo nos quais, segundo o autor da Allegaçam, fora 
investido um fidalgo a quem êle ora chama Rui Pereira, ora Rui Vaz Pereira. Para facilitar 
a análise começarei por assentar os verdadeiros dados biográficos, quanto ao nascimento 
daquele fidalgo, colhidos em documentos autênticos. 

Fernão Pereira, escudeiro da casa do infante D. Duarte, estava ajustado a casar com 
D. Isabel de Albuquerque, quando D. João I, por carta de 28 de Fevereiro de 1428 (e. v.), 
lhe permitiu empenhar certas terras da Coroa à garantia do dote e arras prometidos a sua 
esposa {i). Tinha-se já realizado o casamento em 4 de Junho de 1482, data de outra carta 
pela qual D. João I mandou pagar a Fernão Pereira e D. Isabel de Albuquerque, sua mulher 
um conto e cem mil libras de tença anual em preço das três mil dobras que lhes dera em 
casamento (2). Foram estes cônjuges os pais de Rui Pereira, futuro i." conde da Feira, 
que portanto só poderia ter vindo ao mundo nos últimos dias do ano de 1428, ou nos 
primeiros do seguinte, e para isso haviam seus pais de ter realizado o matrimónio poucos 
dias após a assinatura da primeira daquelas cartas. Em Julho de 1456 parece não haver 
dúvida de ser já Rui Pereira maior de vinte e cinco anos, pois que interveio, cedendo direitos, 
no contrato de casamento de sua irmã D. Mecia com o Berredo (3). Temos portanto Rui 
Pereira nascido entre Dezembro de 1428, o mais cedo, e Junho de 143 1, o mais tarde. Posto 
isto, examinarei os tais documentos, 

O primeiro transcrito na Allegaçam é, na pág. 61, a carta de legitimação de D. João 
Pereira. Esta carta escrita, como aliás todos os mais pseudo documentos, em termos que 
tornam à simples leitura, de quem não seja perfeito ignorante em matéria diplomática, pa- 
tente a sua falsidade, é datada de 1 3 de Janeiro de 1443 e por ela o infante D. Pedro, em 
nome de Afonso V, legitima a requerimento de Rui Pereira, conde de Moncorvo, um seu 
filho, D. João Pereira, havido sendo o pai solteiro, e já a seu rogo legitimado por um breve 
do Santo Padre. 

j A maior idade que Rui Pereira, o suposto pai, poderia então ter, eram catorze anos ! 



(i) Chancelaria de João 7, liv. 4.*, fl. 109 v. 

(^2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 18.*, fl. 69 v. 

(3) Jbidem, liv. i3.», fl. 5 v. 



324 



Brasões 



É de pasmar, mas mais extraordinário ainda é que este forjado documento e os seguintes 
são apresentados em certidões, que se dizem extraídas do cartório da Casa de Bragança!* 
Como isto se pôde fazer, ou simplesmente alegar, é que não compreendo. 

Segue-se por ordem cronológica o contrato de casamento do referido D. João Pereira 
com D. Leonor Coutinho (pág. i38). Outorgam neste contrato os pais dos desposados. 
Rui Pereira, conde de Moncorvo, e Lourenço Pires de Távora; confirma-o E». Afonso V 
por carta de 9 de Outubro de 1446. A escritura fora assinada a 25 de Dezembro de 1445, 
quando o pai do noivo mal poderia contar dezassete anos completos! 

Não me alongarei examinando todos os outros documentos alegados; nem se quer apon- 
tarei para o estranho caso de ha,ver Afonso V por um simples alvará, datado de 10 de 
Março de 1448, derrogado todas as leis, inclusive a mental, afim de Rui Pereira, conde de 
Moncorvo, poder doar a seu filho legitimado D. João Pereira, toda a sua casa (pág. 64) ; 
diploma que deu lugar a poder ser lavrado por um tabelião de Vimarons um instrumento 
público de nomeação de sucessão, outorgado em i3 de Maio de 1449 pe[o mesmo Rui Pe- 
reira, então mancebo de vinte anos de idade. É verdade que provavelmente tão moço como 
ele seria o notário, que no instrumento ousou sobrepor a autoridade do seu constituinte à 
rial, fazendo-lhe declarar : «e porque na Carta de legiiimaçon, que do dito Senhor habia nom 
ban expressas todalas forças das Ordenações destos Regnos, para mayor balidade, as ha por 
expressas neste estromento como se de cada qual delas estivesse fazendo nelo huma sepa- 
raçon a cada qual» (pág. 65). Separado do censo comum está quem tomar isto a sério e 
de pasmar é que ainda haja hoje quem o faça. 

Não olharei para a escritura de instituição de morgado feita a 3 de Janeiro do ano da 
nascença de i5i8, na qual a instituidora, D. Leonor Coutinho, se declara «viuva de meu 
marido dom João Pereira» (pág. 127), quando este só morreu em i523, ano em' que vagaram 
as suas tenças (i). E o curioso é que seu pai já o dá por morto em 22 de Dezembro de 
1480, data do seu testamento (pág. 88); mas a verdade é que tanto este como a escritura 
da instituição tudo é apócrifo. Não repararei pois para nada disto visto que bem provado 
deixo ser uma fantasia sem fundamento a concessão do tal título de conde de Moncorvo 
com o qual, só em documentos falsgs, aparece galardoado um rapaz de catorze anos, filho 
de um fidalgo que nem sequer era do conselho, nem ao menos senhor de casa; e irei exa- 
minar a suposta carta do título de conde da Feire. 

Com a data de 14 de Janeiro de 1452 encontra-se ela transcrita na pág. 124. Por ela 
deu Afonso V o título de conde da vila e castelo da Feira, de juro e herdade, a Rui Vaz 
Pereira. Será o meu primeiro reparo o nome. 

O futuro Conde da Feira nunca, antes de o ser, se chamou senão Rui Pereira e, depois 
de o ser, só usou do nome de D. Rodrigo Pereira, Rui Vaz Pereira, filho segundo de Gon- 
çalo Pereira, senhor de Cabeceiras de Basto, era doutro ramo dos Pereiras e já tinha mor- 
rido em Março de 1449 (2). Posteriormente enlaçaram-se as famílias dos dois ramos dos 
Pereiras, casando em 1451 D. Maria de Berredo, irmã de Rui Vaz, com o pai de Rui Pereira, 
Fernão Pereira (3), de quem foi segunda mulher; e em 1456 Martim Vasques de Berredo e 
D. Leonor de Berredo, também irmãos de Rui Vaz, casaram respectivamente com D. Mecia 
e Rui Pereira, filhos de Fernão Pereira (4). 



(i) Livro das tenças, no Archivo Íiistorico portuguez, vól. II, pág. 128. 

(2) Liv. 3." de Místicos, fls. 112 v. e 119 v. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 35.', fl. 92. 

(4) ibidem, liv. 13.", fls. 5 v. e 7 v. 



Pereiras 325 

Visto o êrro do nome examinarei a data. 

Em Janeiro de 1452, mal podia ter Rui Pereira vinte e três anos de idade e ainda não 
havia sucedido na casa paterna, pois que ela só lhe foi confirmada por três cartas de 21 de 
Dezembro de 1467(1). É inadmissível supôr-se, não só que se fosse dar o título de conde 
a um rapaz sem merecimentos nem serviços especiais, ainda em vida de seu pai e de seu 
avô, mas principalmente que, andando nesses tempos o senhorio da terra inerente ao con- 
dado, podessem existir conjuntamente dois donatários da mesma vila, João Alvares Pereira, 
a quem só em 1453 sucedeu o filho Fernão Pereira, e do mesmo castelo, este dito Fernão 
Pereira, a quem ele fora doado em 1448, os dois em concomitância com Rui Pereira, filho 
de um e neto do outro. É pois inadmissível tal pressuposição; mas há mais ainda. 

Existem registados, desde i45ó a 1476, afora dois ilegíveis, onze diplomas régios relativos 
a Rui Pereira, que nos primeiros seis é apenas intitulado «fidalgo de nossa casa» (2), e nos 
outros cinco, a começar em 21 de Dezembro de 1467, àlêm de «fidalgo de nossa casa», tam- 
bém aparece designado por «do nosso conselho» (3). ^Se ele fosse conde da Feira desde 
14Í2, não se declararia esta qualidade nos posteriores diplomas? — é evidente que sim. 
Igualmente é evidente que na carta de conde da Feira, se ela não fosse inventada, se havia 
de fazer referência ao título de conde de Moncorvo, se este não fosse também invenção do 
falsificador dos documentos. 

Encontram-se, neste registo de falsidades, várias alusões a um breve de legitimação 
pontifícia concedido, a pedido de Rui Pereira, a favor de seu filho narural D. João Pereira. 
Aqui o caso era porém mais grave e por isso não se ousou publicar o falsificado diploma e 
mesmo as alusões a êle rev^estem sempre um tom vago, até que, numa suposta carta de 
D. João II, se declara haver Rui Vaz Pereira «legitimado a seu filho natural D. João Pe- 
reira... pelo Santo P. Martinho V» (pág. 69). Aqui temos por fim claramente indicado o 
nome do Papa a quem se atribui a legitimação de D. João Pereira; vejamos porém como a 
cronologia nos irá claramente desvendar a fraude. Martinho V foi eleito papa a ri de No- 
vembro de 1417 e morreu na noite de 20 para 21 de Fevereiro de 1431 (4). Supondo que o 
seu último acto fosse assinar o breve de mercê a D. João Pereira, vinha êle a ser legitimado 
quando seu pai, na melhor hipótese, podia ter apenas dois anos completos de idade! 

Estamparam-se ainda no tal livro vários testamentos todos falsos epara exemplo apon- 
tarei um, o do i.° conde de Marialva, Vasco Fernandes Coutinho. Tem o pseudo docu- 
mento a data de 3 de Agosto de 1430 e uma das legatárias é «minha neta D. Maria», passando 
o legado por sua morte «a sua filha Leonor» (pág. 141). Ora sucede que não só o título 
de conde de Marialva é posterior a Agosto de 1440, mas que êle havia casado apenas vinte 
e quatro anos antes de fazer o tal testamento, em seguida ao contrato esponsalício aprovado 
por D. João I a 12 de Maio de 1412 (5). Em vinte e quatro anos ter filhos, netos e bisnetos 
é fecundidade demasiada. 

O inventor de todos estes falsos documentos não creio tivesse sido nenhum dos dois 
advogados, José Correia Barreto ou Francisco Vaz Tagarro, que pleitearam a demanda. 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 8.", fls. ii3 v., n5 e 226 r. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 44.", H. 92; e Chancelaria de D. Afonso V, livs. iS.", fl. 7 v. ; 36 *, fls. i33 e 
245; 8', fl. 19 v; e 14.», fl. i5 v. 

(3) Chancelaria de D. João II, liv. 8.», fls. Ii3 v., ii5 e 226 v.; Chancelaria de D. Afonso V, liv . 33.», fl. 65 v. ; 
e liv. 2." de Místicos, fl. 53. . 

(4) L'Art de vérijier les dates, III, 401 c 40a. 

(5) Chancelaria de D. Afonso K, liv. 12.», fl. 3o. 



326 Brasões 

mas sim o próprio irmão do A. o P. M. Pedro da Conceição, frade lóio, que compôs a 
Summaria Recupilaçam impressa nas folhas preliminares e na qual se alegam todos os falsos 
documentos. Era provavelmente o P. M. genealogista de poucas letras, como são todos 
em geral, e não hesitou em perpetrar a fraude, com a qual não satisfaria só a vaidade nobi- 
liárquica (i). 

Não se limitou a falsificação aos documentos impressos e publicados no livro citado 
a ousadia foi muito mais longe ainda. * 

Na Torre do Tombo, na Gaveta II, maç. 9, n." 5, existe umh carta régia dada em Se- 
túbal* em Maio de um dos anos de 1496, i5o6 ou i5i6(2), pela qual se simula haver D. Ma- 
nuel confirmado a D. Álvaro Pereira Coutinho uma carta de D. João II, «de determinação, 
conversão e amigável composição» entre D. Leonor Coutinho, viúva de D. João Pereira (3), 
como tutora e administradora de D. Álvaro Pereira Coutinho seu filho, e D. Diogo Pereira, 
conde da Feira. Esta carta, muito deteriorada em partes pela água aclaratória em tempos 
sobre ela lançada a fim de se extrair alguma cópia, ou, mais provavelmente, por qualquer 
outra droga a cujo efeito foi sujeita para simular antiguidade (4), tem trechos ilegíveis e 
entre eles está a data, da qual só se percebem as palavras «Évora vinte e um de Janeiro do 
ano de mil». Existe porém uma cópia do pseudo-documento na Biblioteca Pública de 
Lvora, no códice cix-2-5 e lá tem a data de 21 de Janeiro de 1493. 

No tal pergaminho encontram-se todas as afirmações repetidas nos documentos da 
Allegaçam, e já manifestamente convencidas de falsas, desde a legitimação concedida pelo 
papa «Martim quinto», até ao testamento de «Rui Vaz Pereira, conde da Feira». Bastaria 
a repetição destas asserções para convencer de falso o diploma, mas ainda há mais. No 
fim dele declara D. João II ter mandado ver tudo pelos doitores (sic) João Teixeira, chan- 
celer maÀox (sic) e por Pêro Botelho e por Rui da Oram e por Vasco Fernandes, chanceler 
da Casa' do Cível, e ouvidos seus pareceres fdei a minha determinação» (sic). Repare-se 
para esta linguagem diversa da de todos os outros documentos congéneres do tempo, mas 
não está ainda aqui a orelha do gato. 

Os doutores João Teixeira e Vasco Fernandes não exerceram simultaneamente os cargos 
de chanceler mor e de chanceler da Casa do Cível, com os quais se encontram designados 
no pergaminho. O dr. João Teixeira foi nomeado chanceler mor por carta de i de Julho 
de 1484 feita pelo secretário Afonso Garcês (5), e já era falecido a 19 de Março de 1493, 
data da carta de confirmação, por seu falecimento, dos casais e herdades do Chouto, termo- 
de Santarém, a seu filho Luís Teixeira (6). O dr. Vasco Fernandes ainda em 19 de Dezembro 
de 1492, quando provavelmente o dr. João Teixeira já era falecido, ao passar uma certidão 
dos forais de Serpa e Évora, intitula-se do conselho, conde palatino, do desembargo, cro- 



(1) Constitui esta Nota até aqui uma comunicação por mim lida, em Julho de 1518, em sessão ordinária da 
Segunda Classe da Academia das Sciências de Lisboa, comunicação publicada no respectivo Boletim e em sepa- 
rata com o título de Condados de Moncorvo e da Feira, ousada falsificação de documentos. 

(2) Hoje da data só se podem ler as palavras «Setúbal... de Maio ano de mil... seis». Se o documento não 
fosse falso valeria a pena, para averiguar a sua data, declarar que efectivamente há noticias de D. Manuel ter estado 
em Setúbal no ano de i5o6, a 18, 20, 22, 24 e 27 de Maio (Corpo cronológico, passtmj. 

{3) Já lá acima ficou dito que D. João Pereira só fahceu em i523, em tempos portanto de D. João III e não 
de D. João II. 

(4) Digo isto porque, quando no século xviii se fez a cópia das Gavetas para a leitura nova, já estava o falso 
documento em pnrte ilegível, e, se lhe tivessem só então deitado a água aclaratória, podê-lo-hiam ter lido todo. 

(5) Chancelaria de D. João 11, liv. 23.", 11. i3g. 

(6) Transcrita numa de confirmação de 23 de Fevereiro de iSíg. — Chancelaria de D. João III, liv. 37.° de 
Doações, fl. 07. 



Pereiras 32j 

nista e guarda da Torre do Tombo e livraria rial (i); e só noutra certidão, dos privilégios 
da vila de Arronches, a 20 de Fevereiro de 1494, acrescenta àqueles títulos o de chanceler 
da Casa do Cível (2). Não se encontra registada a sua carta de nomeação para este cargo, 
mas não podia ser muito anterior e havia de estar lançada num dos livros dos três últimos 
anos do reinado de D. João II, os de 1498, 94 e 95, os quais desapareceram, como já 
adverti (3). A última nomeação de chanceler da Casa do Cível havia sido feita, em virtude 
da aposentação concedida ao dr. Álvaro Pires, do conselho, e por carta dada em Évora, a 
26 de Maio de 1490, Rui de Pina a fez, e recaíra no dr. Nuno Gonçalves, outrosim do con- 
selho (4). 

No tal falso documento declara-se ter sido o diploma selado com o selo pendente; mas 
de tal asserção nenhum vestígio se encontra. .E não paga a pena perder mais tempo com 
este caso. 

II 

MEM CERVEIRA, ALFERES MOR DE SANTARÉM, pág. 3 18 

Na citada página descrevo em nota o brasão dos Cerveiras, conforme se encontra nas 
fontes lá citadas as quais são dos anos de iSog, i5ij e i520 e tantos. Doutras armas con- 
tudo usou o alferes mor da bandeira de Santarém, Mem Cerveira, vivo por esses tempos, e 
que edificou uma capela a qual, pelo pouco ainda subsistente, se conhece haver sido de pri- 
moroso lavor. 

Mem Cerveira foi um simples «cavaleiro da criação dos Reis que Santa Glória hajam»^ 
um modesto soldado, um pacífico cidadão de Santarém (5), de quem não ficou nomeada 
nas crónicas; mas nele existiu o amor da Arte, do qual nos deixou a prova na sua capela 
-vandálicamente demolida. Destruiram-lhe impiedosamente o padrão do seu bom gosto, a 
única memória destinada a perpetuar-lhe o nome, é justo que, ao menos aqui, dele e da sua 
obra fique breve notícia. 

Levantou Mem Cerveira a sua capela, com a invocação de S. Bartolomeu, no convento 
de S. Domingos de Santarém, na igreja, onde era a primeira do lado da epístola no alto da 
nave, ficando portanto não muito longe da outra capela de S. Pedro, jazigo dos Sens, a qual 
era a segunda no cruzeiro daquela mesma banda, e a ela me hei de referir no artigo dos Al- 
meidas. 

Testemunha de vista dá da capela de Mem Cerveira esta descrição em 1740: «he tam- 
bém funda para dentro; tem nella hum meyo arco de pedraria lavrada, em forma de obra 
Moisaica, embebido na parede, em que se vê huma grave sepultura de boa pedra, com huma 
figura de hum varaÕ deitado, esculpido na tampa do caixaÕ da mesma sepultura, vestido 
todo de armas brancas, e em baixo está o seguinte letreiro : Aqui ja^ Francisco de Fariãj 
fidalgo da casa delRei nosso Senho?-; o qual falleceo a nove de Junho de iSaS» {6).- 

Este letreiro não estava contudo gravado na sepultura principal, mas sim no pavimento 



(i) Forais antigos, maço 11, n.' ^i, apontada por J. P. Ribeiro nas Memorias do Real Archivo, pág. 5r), nota 5. 

(2) Chancelaria áe D. Manuel, liv. 41.", fl. i3, desconhecida de J. P. Ribeiro. 

(3) A Chancellaria de D. João II, no Archivo histórico portuguez, II, 338. 

(4) Ibidem, liv. i3.», fl. 66. 

(5) Aparece um Mem Cerveira, escudeiro, com 1200 libras de moradia na casa de D. Joáo I (Soares da Silva» 
Memorias de D. Jodo I, IV, 219); não me atrevo contudo a identificá-lo com o Alferes mor da bandeira de San- 
tarém. 

(b) P.« Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarém, II, 74. 



328 



Brasões 



da mesma capela sobre uma campa rasa, que cobria os restos do genro do fundador (i). 
No moimento, segundo informa o consciencioso autor do artigo da citada colecção, ninguém 
foi sepultado, porque Mem Cerveira, que o erigiu, jaz na igreja de S. João de Rio Maior. 

Da capela existem dois preciosos vestígios no Museu distrital de Santarém. Aqui os 
reproduzo conforme o desenho que o meu excelente amigo António Bernardo de Figueiredo, 
major de artelharia, me enviou poucas semanas antes de morrer, quando já estava bem 
doente. Fora ele também quem já para mim fizera os desenhos tirados da capela dos Sens, 
lá adiante gravados; foi êle quem descobriu na rua da Judiaria de Santarém a velha casa, que 
pode muito bem ter sido a do valoroso alferes de Toro, Duarte de Almeida, o Decepado, à 
qual no artigo dos Almeidas me referirei também; e foi éle finalmente, quem me ministrou 
as muitas e interessantes informações tantas vezes indicadas nesta obra. 

Fazia-o, não só como amigo dedicado, mas também e sobretudo pelo amor que consa- 
grava à história pátria. Homem de bem às direitas, era muito sabedor e estudioso, e na 
Companhia Rial dos Caminhos de Ferro Portugueses, onde foi empregado muitos anos, 

prestou relevantes serviços, os quais, ultimamente, desde a 
entrada da gente francesa e afrancesada, lá hoje (igoS) domi- 
nante, não eram apreciados como mereciam; talvez frustras- 
sem ou estorvassem arranjos. Ele sabia-o, mas satisfazia-se 
com o louvor da sua "consciência, e morreu tranquilo a 29 de 
Março de 1902, distinguindo bem os amigos verdadeiros dos 
falsos e hipócritas. 

Os desenhos que êle me mandou são os dois aqui repro- 
duzidos, tirados ambos de fechos da abóbada da 'capela de 
Mem Cerveira. 

Num, vé-se o escudo das armas dos Cerveiras, como o 

trazia o alferes mor de Santarém; no outro, a sua empresa 

cuja significação ignoro, e a sua divisa. Este é o meu prazer, 

três vezes repetida na bordadura, lendo-se mais, no centro, 

as palavras A seu tempo. 

Mem Cerveira foi de uma família nobre de Santarém, ou 
do seu termo. Pode-se presumir, despresando fantasias de 
genealogistas, haver éle sido filho de um Fernão Cerveira, 
pai de Isabel Cerveira, mulher de seu parente além do quarto 
grau Pêro Cerveira, morador na Azinhaga, moço da câmara 
dos infantes D, Henrique e D. Fernando, duques de Viseu. De 
Fero e de Isabel foi filho outro Fernão Cerveira, a quem foi 
passada carta de brasão em i3 de Dezembro de iSoy, naqual, 
além do referido, se declara ser êle sobrinho de Mem Cerveira, cavaleiro da casa dei Rei (2) 
Presumo haver sido Mem irmão de Isabel, e não de Pêro, porque êle afirma no seu tes- 
tamento, a que mais largamente logo me referirei, haver administrado o morgado de S. João 
de Rio Maior; e encontro possuidor de «uma quinta de morgado, a que chamam S. João de 
Rio Maior» (a mesma posteriormente pertencente a Mem) a um Fernão Cerveira, que 
deverá ser seu pai, por os documentos parecerem indicar ter a Fernão sucedido directa- 
mente Mem. 





(i) Retratos e elogios cios varões e donas, no artifio relativo a Mem Cerveira. 
(2) Sanches de Baena, Archivo heráldico, pág. 63o, n." xxvi. 



Pereiras 329 

Fora o morgado insiituído, como declara o mencionado testamento, por «Estêvão Mar- 
tins Cerveira, cavaleiro, que jaz na igreja de S. João de Rio Maior» ; e veio a possuí-lo Fernão 
Cerveira, escudeiro da casa dei Rei, a quem foi dada. em Estremoz, a lo de Junho de 1447, 
uma carta de privilégios de coutada para a referida quinta (i). Nela sucedeu directamente 
a Fernão, segundo parece, Mem Cerveira, a quem, sendo cavaleiro dei Rei e morador em 
Santarém, foi dada por D. Afonso V nesta vila, a 16 de Julho de 1474, análoga carta de pri- 
vilégios para a mesma quinta, carta que D. João II confirmou por outra de 28 de Maio de 
1487(2). 

K de presumir que Mem Cerveira tivesse militado na guerra da invasão de Castela, na 
qual seu cunhado, ou irmão, Pei» Cerveira prestou serviços merecedores de galardão (3); 
é de presumir, repito, porque em Toro, poucos dias após a batalha, a 18 de Março de 1476, 
fez D'. Afonso V doação a Mem Cerveira, cavaleiro de sua casa, em sua vida, pelos seus ser- 
viços, dos direitos das jugadas que à fazenda rial pagavam os lavradores da sua quinta de 
S. João de Rio Maior (4). Terminada a campanha parece ter Mem Cerveira recolhido a 
sua casa em Santarém, onde exerceu os ofícios de contador da aposentadoria (5), de con- 
tador 'e juiz dos resíduos e terças dos concelhos apropriados às obras, e de provedor dos 
hospitais, albergarias e gafarias de Santarém e Alenquer (6). Também foi alferes mor da 
bandeira de Santarém, como ele próprio declara no seu testamento, mas não encontrei a 
carta de nomeação, provavelmente feita pela Câmara da vila. 

Escreveu Mem Cerveira, por sua própria mão, o seu testamento a 10 de Novembro de 
1 520(7), ^ j'^ tinha falecido a 6 de Fevereiro do ano seguinte (8). 

Transcreverei algumas verbas daquele curiós© papel, porque elas mostram-nos o homem 
e os tempos. 

Depois de uni longo exórdio, encomendaudo a sua alma a Deus, manda enterrar o seu 
corpo «na minha capela de S. Bartolomeu, que eu fiz no mosteiro de S. Domingos, em o 
moimento que mandei fazer». Determina, por ser irmão da Ordem, que o amortalhem no 
hábito de S. Domingos, dando-se logo outro novo ao frade que ceder o seu; que no dia do 
seu finamente se façam sinais em três igrejas, mas não quer convites, «que não chamem 
nem roguem pessoas algumas», diz êle; que, se falecer «fora desija vila, onde vivo, ... à 
minha custa seja logo sem detença trazido à dita capela»; que no dia do enterramento 
venham todas as Ordens, «e ofertarão ao enterramento trinta e um alqueires de trigo e um 
quarto de vinho, e levarão com o corpo presente quinze tochas e mais a cera acostumada»»; 
que os seus frades de S. Domingos lhe digam uma missa cantada com suas hora^s e ladainhas, 



(1) Liv. i3.° da Estremadura, fl. 3. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 21.",, fl. 121. 

(3) Por carta de 16 de Março de M76, dada cm Toro, foi acrescentado o mantimento que Pcro Cerveira havia 
com o ofício de escrivão das sisas e posições na Azinhaga e Golegã, fazendo-se-lhe esta mercê em virtude do «serviço 
que me tem feito em estes meus reinos de Castela». — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 6.°, fl. loi v. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 6.", fl. 58 v.; confirmada por D. João II, em Santarém, a 28 de Maio de 
1487, e por D. Manuel, na mesma vila, a 4 de Novembro de 149'i. — Chancelaria de D. Manuel, liv. ig.", fl. 41. 

(5) Neste oficio foi nomeado por D. Afonso \', mas na sua Chancelaria existe a carta incompleta; foi porém con- 
firmada por D. João II, em Évora, a 3o de .Maio de i4^?>, e por D. Manuel, em Montemor o Novo, a 5 de Fevereiro de 
1496. — Chancelarias de D. João II, liv. 6.", fl. 100, e de D. Manuel, liv. 32.", fl. 89. 

(6) Para estes ofícios foi nomeado por carta dada em Montemor o Novo, a 5 de P'evereiro de 1496. — Chancelaria 
de D. Manuel, liv. 32.", fl. 111. 

(7) Torre do Tombo, Convento de S. Domingos de Santarém, liv. 5.°, Testamentos, fl. 107 v. 

'8) Carta daquela data pela qual foi Francisco de Faria, cavaleiro da casa dei Rei, nomeado contador da aposeci- 
tadoria de Santarém, como até então o havia sido Mem Cerveira, «que ora faleceu». — Chancelaria de D. Manuel, 
liv. 37.°, fl. iio. 

voi.. I - 42 



33o Brasões 

«e seja ofertada com dois alqueires de pão cozido e um almude de vinho, e suas candeias e 
insenso, e de esmolas trezentos reais, dois círios, cada um de um arrátel, c doze pescadas 
secas», heclara que sua primeira mulher, Isabel de Montarroio, e o filho d'entre ambos 
havido, Kui Mendes, estão sepultados na capela dos Reis da mesma igreja, e por suas almas 
manda fazer certos sufrágios. Nomeia por primeira administradora da capela que institui, 
a de S. Bartolomeu, a sua segunda mulher Leonor Alvares, e, não querendo ela aceitar, ou 
por sua morte, ficará a sua filha Leonor de Montarroio, casada com Francisco de Faria, 
andando sempre esta administração na pessoa que houver a do já referido morgado de 
S. João de Rio Maior. Aparta da sua terça para a capela o casal de Cabanas e outros 
bens; menciona as suas casas de S. Nicolau, provavelmente aquelas em que vivia; e nomeia 
por testamenteiras, em primeiro lugar a sua mulher, e depois a sua filha. Finalmente, arre- 
mata por esta forma. 

«Item, porque naturalmente a ausência causa esquecimento e desamor, de que se segue 
as pi^ssoas virem a perder a liai amisade que a seus maiores, padres, madres, e avós, e ascen- 
dentes, devem, o que assim vemos por experiência, que quási é já a todos notório; por onde, 
o que a bom fim se ordena, vem depois em dano e pecado dos que o não querem cumprir; 
€ caso que eu testador o contrário dêsto confio, porque espero na misericórdia de nor-so 
Senhor, que pela guisa, que eu em minha vida o fiz, não somente aos que por natureza, obri- 
gação natural, são obrigados, mas a outros, que ao presente calo; digo, que sem embargo 
da tal confiança, que dos bons è virtuosos eu tenho, que o bem hajam de fazer, porem, 
porque 'com a longura dos tempos podem vir pessoas de desvairadas condições, que o que 
feito tenho neste testamento lhe não pareça bem, e o não queiram cumprir, o que Deus 
nosso Senhor não queira; digo, que qualquer que contra este meu testamento fòr, em parte 
•ou em todo, e contrariar de feito ou auto, para se não dever de cumprir, como nele é orde- 
nado, a maldição e destruição de Sodoma e Gomorra venha sobre ele com a maldição dos 
profetas ao povo judaiòo, suas casas sejam desertas, e suas herdades destruídas; e aqueles 
que o contradisserem, suas mulheres sejam viúvas, e seus filhos órfãos, e os estranhos co- 
brem suas riquezas, e o seu poderio outrem haja, e não seja a eles misericórdia, e a sua 
oração seja feita em pecado, seus dias sejam poucos, e não seja a êle ou a eles nenhum 
adjutório, nem se amercie Deus de seus pecados, e seja vestido de maldições, e a desaven- 
tiira entre com êb como água em terra. E se, sem temor das sobreditas maldições e 
sem embargo delas, algum ou alguns contra o dito meu testamento forem, do dia que contra 
êle forem a nove dias, eu o emprazo e hei por emprazado, ou emprazados, que até nove 
dias primeiros seguintes m.e vão responder, e estar a juizo para o Juiz Universal, Cristo 
Jesus, nosso Senhor e Redentor». 

Pois, apesar disto tudo, nem sequer a filha ou' o genro trouxeram o cadáver de Mem 
Cerveira para o seu querido moimento, de tanto seu desvanecimento ! ; Para aquela capela, 
que na sua divisa êle apregoava Èsie é o tneu prazer J ; Para aquela sepultura, onde A seu 
tempo êle esperava descançar eternamente! E «o contrário desto confio», diz êle no seu 
testamento; [bem enganado estava! 

O pai de Francisco de Faria, genro de Mem Cerveira, foi o mestre Gil, cirurgião que havia 
sido do duque de Viseu D. Diogo, em cuja casa recebia de moradia, calçado, cevada, ração, 
e vestiaria, treze mil seiscentos e sessenta e três reais por ano (i), e que depois foi cirurgião 
mor dei rei D. Manuel e de sua irmã a rainha D. Leonor. 



(i) Consta da carta de tença da mesma quantia, dada ao mestre Gil pelo Duque I). Manuel, em Montemor o 
Novo, a 3 de Fevereiro de 1485. - Chancelaria de D. Manuel, liv. 31.", íl. 63 v. 



Pereiras , 33 1 

A mãe foi Guiomar de Faria, que já estava viúva a 19 de Julho de i5ii, data da carta 
de doação da renda das saboarias de Palmela, a qual vagara por morte de seu marido (1). 
Por esta mesma ocasião, a 16 do referido mês, fora feita mercê a Francisco de Faria, cava»- 
leiro da casa dei Rei, dos vinte e três moios de pão meado que seu pai tivera pelas rendas 
da vila de Tomar, onde ao filho também serão pagos (2). 

Leonor de Montarroio, filha de Mem Cerveira, parece estar já casada em 10 de Feve- 
reiro de 014 com Francisco de Faria, porque êle então exercitava, provavelmente pelo sogro, 
o ofício de contador dos terços e resíduos da comarca de Santarém, como declara uma 
carta de padrão com salva, dada em Almeirim naquela data ao referido Francisco de Faria, 
de uma tença de oito mil reais, por êle comprada a Rui Fernandes, «tangedor da Rainha 
minha irmã» (3), a rainha D. Leonor. 

De Franciscp foi irmão o dr. Diogo de Faria, também físico e cirurgião mor dei rei 
D. Manuel e da rainha D. Leonor. 



íii Chancelaria de D. Manuel, liv. 8.», fl. 68- 

(2; Ibidem. 

(3) IbidcBi, liv. i5.", fl. 6 v. 



I 



XI 



VASCONCELOS 




Brasões da Rala de Sintra, Vol. I. 



De negro, três faxas veiradas e contraveiradas de prata e vermelho. 
Timbre: liao de negro, armado e linguado de vermelho, e carregado das 
peças do escudo. 

Com as faxas simplesmente veiradas encontra-se o escudo deste brasão 
no Lwro do Amieiro mor, fl. 53, no Livro da Torre do Tombo, fl. lo v., 
nos Tropheos lusitanos de Soares de Albergaria, fls. 55 e Ç)6 mihi, no The- 
soitro da nobreza de Francisco Goe»lho, fl. 40, no Thesouro da nobreza de 
Fr. Manuel de Santo António, v-12, em várias cartas de brasão de i5i4, 
i5i5 e outros anos apontadas na Armaria portuguesa no artigo Vasconcelos. 
Com as faxas veiradas e contraveiradas, forma errada, trazem também este 
escudo: Fr. António Brandão, na Monarchia lusitana, III, lyS; Fr. Leão de 
Santo Tomás, na Benedictina lusitana, II, 498 ; e em cartas de brasão de 
i53o, i533, etc. apontadas na citada Armaria. João Salgado de Araújo, no 
seu Suinario de la familia de Vasconcelos, fl. 18, traz este escudo errado, 
declarando ser o campo de vermelho e as faxas de veirado de branco e negro. 

O timbre, como está pintado na sala de Sintra, aparece também no The- 
souro da nobrecia de Francisco Coelho e numa carta de brasão de 1709(1). 
Com muito pequena diferença, pois que esta consiste apenas em o lião não 
ser armado, nem linguado de vermelho, encontra-se o timbre dos Vasconcelos 
em cartas de brasão dos anos de i53o, 1540 e i552(^). Numa carta de brasão 
de ,3 de Abril de i533 (3) descreve-se o lião do timbre como nas precedentes, 
mas, por excepção, nascente. O mesitio dizem quási todos os autores por- 
tugueses, que têem tratado de heráldica. 

Apesar desta quási unanimidade entendo, pelas razoes apontadas no artigo 



(i) Copiada no Archivo heráldico do Visconde de Sanches de Baena, pág. 655. 

(2) Armaria portuguesa^ pág. 524. 

(3) Ibidem. 



336 Brasões 

dos Pereiras, pág. 3oi, dever prevalecer a todos a autoridade especial do 
Livro da Torre do Tombo, e que, conforme com este, deverá o timbre dos 
Vasconcelos ser um Hão de oiro, carregado das faxas do escudo. Desta mesma 
opinião era em iõi5 o bacharel António Rodrigues, Portugal principal rei de 
armas, na carta de brasão concedida a «Duarte Lopes de Vasco goncellos» 
em IO de Março, dizendo: «e por timbre um lião de oiro assentado com as 
três faxas das armas» (i). Depois mudou de parecer, nas cartas de i53o, 
1640 e i552. 

I 

SENHORES DA TORRE DE VASCONCELOS 

Houve, eu falo sempre no pretérito, não só porque Já hoje tudo isto acabou, 
mas também porque só o passado me interessa; houve pois duas famílias di- 
versas de Vasconcelos, ou melhor três: a dos legítimos, a dos de Penela 
daqueles derivada por uma senhora, e a dos do Esporão, destroncados ou 
pouco menos. De todas três darei resumida notícia. 

Ponho completamente de parte infantes Velosos e outros petas seme- 
lhantes, e começarei em Martim Moniz, o legendário herói da porta da alcá- 
çova de Lisboa (2). E começo neste, porque o testamento de. um de seus 
filhos a isso me autoriza. 

Conforme o Nobiliário do Conde D. Pedro (3) casou Martim Moniz com 
D. Teresa Afonao e dela teve: Pedro Martins da Torre, João Martins Salsa 
e Martim Martins, arcediago de Braga. 

No cartório das capelas do arcebispo D. Gonçalo Pereira, junto à Sé" de 
Braga, estava o testamento do arcediago Martim Martins; lá o viu Gaspar 
Álvares de Lousada e dele fez largo extracto, esquecendo-lhe a data (4). 

Nesse instrumento declara o testador ser filho de Martim Moniz.; institui 
por seu herdeiro universal a seu sobrinho Estêvão Anes, filho de João Peres 



(i) Armaria portuguesa, pág. 524. 

(2) Na era de 1187 (A. D. 1149) o «famulus Dei Martinus Moniz» fez doação de dois 
casais cin villa Boneli» (é a freguesia de Boêlhe, no concelho de Penafiel) ao altar do Sal- 
vador de Paço de Sousa {Documentos para a historia portugue:^a, pág. i56). Nas Inquirições 
de D. Afonso III do ano de i258 ainda esses casais eram do mosteiro, que declara tê-los 
tido «de testamento herdatorum» {Portugaliae momimenta histórica. Inquisitones, pág. 586). 
D'aqui pode-se concluir haver Martim Moniz sobrevivido pelo menos dois anos à tomada de 
Lisboa .'' Não, porque não estão bem identificados os dois Martins e era preciso averiguar 
cabalmente, se a família dos Vasconcelos foi herdada para aquelas bandas, para o que não 
tenho encontrado elementos. 

(3) Portugaliae momimenta histórica. Scriptores, pág. 365. 

(4) Sumários da Torre do Tombo, II, fl. 452 v., mihi. 



■* jp 



Vasconcelos SSy 

de Vasconcelos; e deixa um legado em terra de Santa Maria a Pedro Anes 
de Alvelos, que é o filho. dado pelos nobiliários antigos a João Martins Salsa 
e, conforme os mesmos, o progenitor dos Alvelos. Do testamento só isto 
aproveitarei e basta para o meu intento, por ficar provada a existência dos 
três filhos de Martim Moniz, apesar de não serem nomeados se não os dois 
netos, o Vasconcelos e o Alvelos; mas, pelos patronímicos destes, tiram-se 
os nomes dos pais. E não fica só isto provado, também fica sabido quando 
teve princípio o uso dos referidos apelidos. 

Pedro Martins da Torre, o primeiro filho de Martim Moniz, tirou o ape- 
lido, é evidente, do senhorio de uma torre e esta já podia ser a de Vascon- 
celos na freguesia de Santa Maria de Ferreiros, do concelho de Amares. 

A primeira referência ao lugar de Vasconcelos encontra-se nas Inquirições 
de 1258 (i), na paróquia de Santa Maria de Ferreiros: «Item, dixerurit que 
VasconceIos*é Onra» (2). Nas de 1288 declararam as testemunhas que Vas- 
concelos, Rio Bom e Banaria constituíam uma honra de Rodrigo Anes e Pedro 
Anes de Vasconcelos, honra muito antiga, pois constava ter sido criada em 
tempo de D. Egas Fáfez (3). Pelas mesmas Inquirições consta possuírem 
então os de Vasconcelos outra honra constituída por toda a vila de S. Sal- 
vador de Amares, a qual houveram por escambo com a Ordem do Hospital (4). 
Foi julgada por honra nas sentenças de 1290(5). Foram estas honras pos- 
suídas por João Peres de Vasconcelos, como se colhe da acta relativa à fre- 
guesia de S. Salvador de Vilar do Monte, onde por outra sentença foram 
mandadas honrar as casas e herdades dos de Vasconcelos (6). Já então era 
João Peres de Vasconcelos falecido, como expressamente é declarado nos 
depoimentos, e talvez tivesse morrido antes de Janeiro de i265, segundo se 
pode deduzir dos documentos a seguir apontados. 

D. Sancha Peres, vizinha de Santarém, constituiu, por instrumento de 
procuração lavrada naquela vila a. 6 de Janeiro da era de i3o3 (i265), seus 
procuradores a seus sobrinhos Rodrigo Eanes e Pedro Eanes de Vasconcelos 
a fim de em seu nome outorgarem numa escritura de troca de propriedades (7). 



(i) Nas Inquirições de 1220 toda a paróquia de Santa Maria de Ferreiros era rialenga. — 
Portugaliae monumenta histórica. Inquisitiones^ pág. 92; Pedro de Azevedo, Os de Vascon- 
cellos, no Archivo histórico portuguez, II, 878, n.° i. 

(2) Portugaliae monumenta histórica. Inquisitiones, pág. 426; Os de Vasconcellos cit.^ 
pág. 378, n.° II. 

(3) Os de VasconcelloSf cit., pág. 378, n," iii. 

(4) Ibidem. 

(5) Ibidem^ pág. 379, n.» v. 

(6) Ibidem^ n.° iv. 

{7) Ibidem., pág. 377, doe. i. 

TOL. I . 43 



338 Brasões 

Apresentaram-se os dois irmãos no mosteiro de Arouca e, por instrumento 
de IV das nonas de Maio da referida era (4 de Maio de i265), celebraram 
com a abadessa D. Mor Martins a ajustada troca. Consistiu ela em D. Sancha 
Peres dar à dona Abadessa certo casal e outro meio casal por ela possuidos, 
recebendo por eles toda a herdade que D. Mor Martins havia no lugar cha- 
mado de Vasconcelos, com todas suas pertenças, excepto o espiritual, consti- 
tuido pela terça parte da igreja de Santa Maria de Ferreiros. Houvera a 
dona Abadessa esta propriedade por morte de sua mãe, D. Estevainha Soa- 
res, e concorda na troca principalmente por amisade pelos ditos Pedro Eanes 
e Rodrigo Eanes seus sobrinhos (i). Com efeito D. Mor Martins era prima 
com irmã do pai deles, João Peres de Vasconcelos, tendo por bisavô comum 
aquele D. Egas Fáfez, em cujo tempo se criou, como dizem as testemunhas 
de 1258, a honra de Vasconcelos. 

Supõe o indefesso investigador e meu riiuito presado amigo Pedro de 
Azevedo, no seu citado artigo Os de Vasconcellos, ter só, por ocasião desta 
escritura de escambo, entrado a posse da torre de Vasconcelos na linhagem. 
Não posso porem concordar, não só por ver na procuração para se realizar 
a compra já os procuradores da adquirente se chamarem de Vasconcelos, 
mas também porque com este apelido encontro o pai deles nomeado nas ci- 
tadas Inquirições de 1290, sendo já então falecido. Além disso os de Vas- 
concelos também eram descendentes de D. Egas Fáfez, pela mulher de Pedro 
Martins da Torre, D. Teresa Soares, filha de D. Soeiro Pires Torta e de 
D. Froilhe Viegas, filha de D. Egas Fáfez, «de Lanhoso o que fez muito bem 
em Randufe», podiam portanto, sem dúvida, terem herdado directamente a 
honra. 

Foi pois João Peres de Vasconcelos o primeiro deste nome, e é o primeiro 
desta linhagem nomeado no Livro velho (2). Davam-lhe, por ser mimoso, 
ou por afronta, a alcunha de Tenreiro; se é que o Marquês de Montebelo 
não tem razão em pretender, que a verdadeira alcunha era Temeiro, como 
quem diz teimoso, obstinado. 

Mostrou João Tenreiro a sua pertinácia num caso contado pelo Nobiliário 
do Conde D. Pedro (3), e a seguir por mim abreviado. 

Aires Anes de Freitas matara a Gil Martins, filho de D. Martim Peres 
Ribeiro e primo segundo de João Tenreiro. Tomou este o caso a peito e, 
simulando haver desafiado a Aires Anes, levou consigo seu primo direito 
Pedro'Alvelos até ao mosteiro de Fonte Arcada, onde matou o assassino de 



(i) Os de Vasconcellos, cit., doe. 11. 

(2) Portugaliae mommenta histórica. Scriptores, pág. 160. 

(3) Ibidem, pág. 3 17. 



Vasconcelos 339 

seu outro parente, O irmão de Aires Anes de Freitas e outros fidalgos re- 
correram a D. Sancho II, que mandou emprazar ao Vasconcelos e ao Alvelos. 
Compareceu só este, alegando em sua defesa haver sido enganado pelo primo, 
que o levara a Fonte Arcada para um desafio e não para um assassínio, e 
que, se João Tenreiro o negasse, lhe «metteria as mãos sobre ello». Foi 
então novamente emprazado o fidalgo de Vasconcelos para vir responder ao 
repto, e êle não o fez, nem à primeira nem às mais vezes, para que foi inti- 
mado, sendo guardadas muito bem todas as praxes conforme ao uso. Em 
vista disto reuniu el Rei em Cabeço de Vide um numeroso e escolhido con- 
selho, e deu a sua sentença à revelia de João Peres. Absolveu a Pedro Al- 
velos e lançou todo o castigo por este merecido ao que por si próprio Já devia 
haver João Tenreiro, a quem deu o crime por provado. 

Foi esta sentença muito louvada e João Peres de Vasconcelos «numca 
depois veo a purgar seu rreto», dando mais prova de prudente, que de valo- 
roso. 

Havia de se ter passado este caso entre os anos de 1228 e 1246, pois João 
Tenreiro foi em 1248 servir a Castela no cerco de Sevilha, não sei se por 
andar foragido por aquelas partes. 

Casou João Peres de Vasconcelos com Maria Soares, filha de Soeiro Viegas 
Coelho e de D. Maior Mendes de Candarei, e dela teve, conforme o Livro 
Velho das Linhagens: o bispo D. Esteve Anes de Lisboa (i), Rodrigo Anes 
de Vasconcelos, Pedro Anes de Vasconcelos, Teresa Anes casada com João 
Fernandes Franco, progenitores dos Orneias, ou melhor Dornelas, e Maria 
Anes, mulher, segundo o Nobiliário do Conde D. Pedro, de Aires Rodrigues 
de Urro. 

Pedro Anes de Vasconcelos possuiu com seu irmão mais velho a honra 
de Vasconcelos, como mostram as Inquirições acima citadas, e dele a des- 
cendência varonil terminou na primeira geração. 

Rodrigo Anes de Vasconcelos sucedeu na casa e, como seu tio materno 
João Soares Coelho, foi trovador, existindo ainda dele seis cantares (2). 
Casou e entre vários filhos, de que não persiste descendência varonil, nasceu 
primogénito Mem Rodrigues de Vasconcelos. 

Sucedeu este na casa, foi senhor dos coutos de Freiriz e Penagate, no se- 



(i) Bispo muito duvidoso. Cfr. D. Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiastica da igreja 
de Lisboa^ p. II, cap. 65; Fortunato de Almeida, Historia da Igreja em Portugal, I, 63o. É 
certo todavia ter existido um mestre Estêvão Anes de Vasconcelos, presente à escritura de 
8 de Fevereiro de 1268 (i23oj, feita em Santarém, pela qual D. João Peres de Aboim doou 
uma vinha em Alenquer, termo de Santarém, à Ordem do Templo {Livro de D, João de 
Portel, doe. xlvi, no Archivo histórico portuguez, V, 65). 

(2) D. Carolina Michaêlis de Vasconcel«s, Cancioneiro da Ajuda, lí, 558. 



340 • • Brasões 

gundo dos quais, sendo meirinho mor de Além Doiro, alcançou licença de 
D. Denis, em 5 de Outubro de 1822, para edificar na sua herdade uma casa 
forte, a fim de ter ai o corpo em salvo, quando lhe cumprisse (i). Esta torre 
«toda de cantaria, à qual se sobe por uma escada de mão pella muita altura 
em que tem a porta, ainda neste anno de 1727 está em sua perfeição e se vê 
juncto a estrada hindo de Braga para Ponte de Lima à mão direita. . . In- 
justamente largaram de si este testemunho de valor, lealdade e nobreza os 
senhores que venderão este couto e Torre» (2). 

Casou Mem Rodrigues de Vasconcelos por duas vezes, tendo sido filho 
primogénito do primeiro casamento Joane Mendes de Vasconcelos, alcaide 
mor do castelo de Estremoz (3), onde estivera por fronteiro em 1269 numa 
das guerras com Castela, e d'onde foi posto fora pela arraia meúda nos prin- 
cípios da revolução de 1 383-84. Foi sua única filha D. Aldonça de Vascon- 
celos, mulher de D. Martim Afonso Telo e mãe dos Condes de Barcelos e 
de Neiva, da rainha D. Leonor Teles e de D. Maria Teles. 

Já estava Mem Rodrigues casado pela segunda vez em i de Agosto de 
1346 (i3o8) quando, em Freiriz, sua segunda mulher, Constança Afonso, o 
constituiu seu procurador para outorgar numa escritura de troca de proprie- 
dades com o arcebispo de Braga D. Martinho, escritura celebrada naquela 
•cidade a iii das nonas de Julho (5 de Julho) do mesmo ano (4). Era Cons- 
tança Afonso irmã do bispo de Lisboa D. João Afonso de Brito, instituidor 
do morgado da Arega, por instrumento de 7 de Agosto de 1367 (1329), a 
favor de seu sobrinho Gonçalo Mendes de Vasconcelos (5). Do casamento 
de Constança Afonso foram filhos, entre outros, Martim Mendes e Gonçalo 
Mendes de Vasconcelos, de quem falarei, e entre as filhas foi uma, D. Maior 
Mendes, a qual, segundo o Marquês de Montebelo seu descendente (6), herdou 
a torre de Vasconcelos, e os mais bens da casa em terra de Entre Homem 
e Cávado, os quais passaram aos descendentes de D. Maior e de seu marido 
Gonçalo Machado, hoje representados pelo Conde da Figueira. 

Poderá ser que assim fosse; mas Estêvão Rodrigues de Vasconcelos, irmão 



(i) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, fl. 450 mihi. — Era a torre de Pena Gati, 
como então lhe chamavam, situada na freguesia de Santiago de Vila Chã, hoje Santiago de 
Carreiras, e dela se obliterou completamente o nome (Pedro de Azevedo, Os de Vasconcellos, 
cit., págs. Sya-SyS). 

(2) D. Afonso Manuel de Meneses, Titulo de Vasconcelos, n." i5, no Nobiliário coorde- 
nado por Jorge Salter de Mendonça, tom. XXIV, fl. 98 mihi. 

(3) Carta de 8 de Dezembro de 1410(1372). — Chancelaria de D. Fernando,\\\. i.°, fl. 117. 

(4) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, 432 mihi. 

(5) D. Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiastica de Lisboa, p. II, cap. 88. 

(6) Notas ao Nobiliário do Conde D. Pedro, pág. i5, plana 3o5. 



Vasconcelos 341 

do Mem Rodrigues acima nomeado, instituiu em i3o8 um morgado, fazendo 
dele cabeça a quinta de Vasconcelos, com todas as suas pertenças, em Entre 
Homem e Cávado, e nomeando para administrador àquele seu irmão, à 
mulher deste, e em sucessão a eles seu filho Gonçalo Mendes e sua geração (i). 
Ora a geração deste fidalgo foi muito dilatada, como o leitor logo verá, pois 
que dele descenderam todos os bons Vasconcelos, e portanto não se entende 
como a quinta deste nome passou aos descendentes de sua irmã, a não ser 
a vinculada prédio diverso daquele onde estava a torre de Vasconcelos. Em 
1642, quando o Marquês de Montebelò, Félix Machado da Silva Castro e Vas- 
concelos, dirigiu o seu Memorial a Felipe IV (2), era ele senhor da torre de 
Vasconcelos, na freguesia de Santa Maria de Ferreiros, e doutra torre no vale 
de Geraz, em terra de Lanhoso, a qual era o solar dos Machados e por alguns 
também é designada impropriamente por torre de Vasconcelos. Das duas 
torres era possuidor em 1758 um descendente do Marquês de Montebelò, 
seu terceiro neto D. Jorge Francisco Machado de Mendoça Eça Castro Vas- 
concelos e Magalhães, capitão de infantaria residente em Viana do Castelo, 
e alem delas ainda possuia a casa de Castro com sua torre em Carrazedo e 
ainda outra torre em Dornelas (3). Foi D. Jorge avô de D. Maria AmáUa. 
Machado, sucessora da sua casa e segunda mulher de D. José de Castelo 
Branco, i.° conde da Figueira (4), título tirado de um morgado pertencente 
à sua primeira mulher sem ter nada de comum com a actual cidade da Fi- 
gueira, tendo-se dado a extravagância do título haver sido renovado em um 
filho da segunda mulher. 

No seu Memorial revela-nos o Marquês de Montebelò um pormenor inte- 
ressante. Por ocasião do nascimento do príncipe D. Baltasar Carlos, tam 
meu conhecido dos vivos, expressivos e numerosos retratos de Velásquez, e 
portanto nas proximidades de 17 de Outubro de 1629, concedeu Felipe IV, 
a instâncias da Rainha, o título de conde de uma das suas terras a Félix 
Machado (5) e êle o tomou de Vasconcelos e o usou durante alguns meses, 
até ser avisado da parte dei Rei que este o fazia marquês de Montebelò (6). 



(i) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, 448 mihi. — De i3i8 data a instituição, 
segundo Clemente Félix na Reposta que po^ aos Oppositores da casa de Mafra em favor do 
Conde de Figueiró, pág. 5. 

(2) Memorial dei Marques de Montebello, s. 1., 1642, deve ter sido impresso em Madrid. 

(3) Memorias paroquiaes de ij58 compiladas no Diccionario geographico do P.e Luís 
Cardoso, apontadas no est. artigo Os de Vasconcellos, págs. 365 e 372. 

(4) Despacho de i3 e carta de 17 de Maio de 1810. — Chancelaria de D. João VI, liv. 2i.* 
de Doações, fl. 172 v. 

(5) Memona/ cit., pág. 212. 

(6) Ibidem, pág. i38. 



342 Brasõei 

Martim Mendes de Vasconcelos, o segundo filho varão de Mem Rodrigues^ 
casou com D. Inês Martins, filha de Martim Pires, senhor de Alvarenga, e 
nos descendentes deste casamento continuou o senhorio daquela honra (i), e 
um deles foi o famoso secretário de Estado Miguel de Vasconcelos e Brito, 
vítima da revolução do i.° de Dezembro de 1640. Entrou depois o morgado 
na casa da Fervença em Barcelos. 

As armas dos Alvarengas são em campo de veiros três faxas de vermelho, 
as dos Vasconcelos são em campo de negro três fachas de veirado de prata 
e vermelho; e para ambas o timbre é um lião. Há pois muita analogia entre 
os brasões das duas famílias, e tanto mais notável se torna esta semelhança, 
quanto são raros os veiros e veirados nos escudos portugueses (2). Também 
entre estes são de disposição bem singular, única para eles ambos, os dos 
Almeidas e Meios, e contudo conhece-se menor relação entre estas duas famí- 
lias, que entre as dos Alvarengas e Vasconcelos. 

II 

SENHORES DE SOALHÃES E CONDES DE PENELA 

Gonçalo Mendes de Vasconcelos, terceiro filho de Mem Rodrigues de 
Vasconcelos, meirinho mor de Alem Doiro, foi. homem notável no reinado de 
D. Fernando em cuja crónica é várias vezes nomeado. Ele lhe fez doação 
por juro de herdade da terra de Soalhães e doutras no julgado de Vila Chã, 
das rendas da Lousã, em préstamo, e das doutros lugares, e o. nomeou alcaide 
mor de Coimbra por carta de ib de Julho de 1411 (iSyS), e por outra de 28 
de Abril de 1416 (1^*78), sendo êle do conselho, o autorizou a usar, nos jul- 
gados de Soalhães, Vila Chã, Loivos e Penela, de toda a jurisdição como 
usam os condes, os mestres de cavalaria (ordens militares), o almirante, o 
prior do Hospital e o abade de Alcobaça (3). Por morte de D. Fernando 



(i) Por carta de 8 de Outubro de 1423 (i 385) confirmou D. João I a João Mendes d« 
Vasconcelos a jurisdição de Alvarenga, como a houvera Martim Pires seu avô. Por outra 
de 1 1 de Novembro de 1469 confirmou D. Afonso V a precedente a Gonçalo Mendes de Vas- 
concelos, neto do referido Joane Mendes. — Liv. i." da Beira, fl. 274. 

(2) Campo de veiros só se «ncontra no escudo dos Alvas, na primeira faxa dos Saraivas 
e no segundo e terceiro quartel dos Monroys, mas estes são espanhóis; faxas veiradas só 
aparecem nos Vasconcelos e seus derivados. 

(3) Memórias de Gonçalo Mendes de Vasconcelos nas Chancelarias de D, Fernando e 
D. João I. 

Carta porque deu a Gonçalo Mendes de Vasconcelos, em quanto sua mercê" fosse, a 
terra de Pereira, no almoxarifado de Coimbra, com todos os seus direitos foros e pertenças. 



Vasconcelos 34Z 

acompanhou a rainha D. Leonor, sua sobrinha neta, para Alenquer, quando 
ela para lá retirou, fugindo de Lisboa. Conservou-se sempre bastante inde- 



-Lisboa, 7 de Outubro de 1407 (iSõg). — G. M. de V., nosso vassalo, por muitos serviços, 
pura doação a ele e a todos seus herdeiros e sucessores, por jur de herdade, da terra de 
Soalhães, Gondiços e Duas Igrejas de Vai de Pombos, no julgado de Vila Chã e Buallim (?), 
com seus termos, jurisdições alta e baixa, mero e mixto império, salvo as apelações. Coles, 
10 de Março de 1410 (iSya). — Carta per que mandou entregar a G. M, de V. a terra de 
Frades e os casais de Sendim, Gondinhães e Duas Igrejas, em pagamento de seus maravedis. 
Tentúgal, 12 de Dezembro de 1410 (1372). — Carta per que mandou entregar o castelo de 
Coimbra a G. M. de V. Lisboa, 25 de Julho de 141 1 (i373). — G. M. de V., nosso vassalo, 
coutaiftos-lhe a sua quinta de Nomães, no julgado de Vermoim, como foi sempre coutada 
no tempo dos reis passados. Salvaterra de Magos, 28 de Fevereiro de 1412 (1374). — A G. 
M. de V., cavaleiro, nosso vassalo, pura doação e a todos seus herdeiros, da terra de Francos 
e casais de Sandim, com todos seus direitos e foros. Torres Vedras, 25 de Dezembro de 
1418 (1375). — G. M. de V. nos disse que ele há uma 'quinta no julgado de Penela de Riba 
de Lima, a qual foi de Mem Rodrigues de Vasconcelos e no seu tempo era coutada, etc. 
Confirma os privilégios de couto para a quinta. Tentúgal, i5 de Março de 1415 (1377). — 
G. M. de V., nosso vassalo e do nosso conselho, temos por bem e mandamos que ele possa 
usar e use de toda jurdição nos julgados de Soalhães, Vila Chã, Loivos e Penela, como parte 
com o julgado de Ponte de Lima, poendo em eles juízes em seu nome, feitos pela guisa que 
na nossa jurisdição é conteúdo e que mandamos que possam usar os condes e mestres da 
cavalaria e o almirante e o priol do Hospital e o abade de Alcobaça; porem mandamos etc. 
Santarém, 28 de Abril, por João Afonso, bacharel em leis, seu vassalo e ouvidor da Rainha, 
era de 1416(1 378). — Deu, em quanto sua mercê fosse, a G. M. de V. as rendas da vila da Lousã, 
assi como as havia a infante D. Beatriz, salvo a jurisdição. Valada, 8 de Junho de 1416 
(1378). — Deu em préstemo, em quanto sua mercê fosse, a G. M. de V. os seus casais em 
termo de Guimarães, onde chamam Vizela. Portalegre, 11 de Abril de 1418 (i38o). — Ao 
almoxarife e escrivão de Coimbra, e aos juízes e jus,tiças da Lousã mandamos-vbs, que logo 
vista esta carta e sem outro embargo nenhum leixedes haver e recadar e receber a G. M. 
de V., nosso vassalo, ou a quem el mandar, todalas rendas e direitos e ações dessa vila e 
termo, deste ano que ora anda da era desta carta em diante. Rio Maior, i5 de Novembro 
de 1420 (i382). — G. M. de V., nosso vassalo, carta para lhe ser desembargada a terra de 
Varzela, que de nós tem em préstamo. Rio Maior, 7 de Março de 1421 (i383). — Chance- 
laria de D. Fernando.^ liv. i.», fls. 46V., 101 v., 117, 128 v., 141 e 285; liv. 2.°, fls. 2 v., 3o, 3ov. 
e 61 ; liv. 3.", fls. 37 v, e 5a v. 

G. M. de V., nosso vassalo, confirmação da terra da Lousã. Lisboa, 19 de Maio de 
1422 (1384). — A G. M. de V. deu, em quanto sua mercê fosse, a portagem da cidade de 
Coimbra. Lisboa, 27 de Setembro de 1422 (1384). — Lerabrando-nos em como G. M. de V. 
fez a el rei T>. Pedro, nosso p?dre, e a el rei D. Fernando, nosso irmão, e a nós muito ser- 
viço e, consirando nós em como o dito G. M. «he boõ caualeiro leal e verdadeiro», que- 
rendo-lhe fazer graça e mercê, faz-lhe pura doação para êle e para todos aqueles que dele 
descenderem por linha direita, do reguengo de Cantanhede, com todo seu termo, por jur de 
herdade, com a jurisdição cível e crime, como havia o Conde D. Álvaro Pires [de Castro]. 
Coimbra, 16 de Abril de 1423 (i385). — O concelho e homens bons do julgado de Alvarenga 
enviaram-nos dizer, que nós não havemos no dito julgado outra renda senão tam somente 



$44 Brasões 

ciso sobre o partido a tomar, apesar de dois de seus filhos se terem juntado 
logo ao Mestre de Avis. Indeciso se manteve sempre no castelo de Coimbra 
e, apesar de ter tomado parte nas Cortes lá reunidas em Abril de i385, pa- 
receu melhor a D. João I substituí-lo na alcaidaria e dá-la a Lopo Vásques 
de Siqueira, futuro comendador mor de Avis (i). Foi Gonçalo Mendes com- 
pensado com a doação de juro e herdade do reguengo de Cantanhede, por 
carta de i6 de Abril de 1423 (i385), na qual, para lhe doirar a pílula, há 
referência aos seus bons serviços a D. Pedro, D. Fernando e ao próprio 
D. João I, por ser «boÕ cavaleiro, leal e verdadeiro». Não lhe podendo 
todavia manter esta doação, deu-lhe D. João I, em troca, por carta de 20 de 
Abril de 1427 (1389), a vila da Lousã de juro e herdade. Morreu em Se- 
tembro de 1407, deixando testamento no qual se refere às suas más contas 
na tutoria dè seu neto Rui Vasques Ribeiro (2). 

Casou Gonçalo Mendes de Vasconcelos pela primeira vez, antes de Junho 
de 1343, com D. Maria Teles (3), filha de D. Afonso Martins Telo, alcaide 
de Marvão, e de D. Berenguela Lourenço de Valadares. Dão-lhe os nobi- 
liários mais três mulheres, só encontro porém referência justificada a mais 
outra, D. Teresa Rodrigues Ribeira, herdeira do morgado de Soalhães, filha 
de Rui Vasques Ribeiro, 2.° senhor daquele vínculo. 

Gonçalo Mendes de Vasconcelos foi sepultado em S. Domingos de Coimbra 
onde lhe puseram este epitáfio: Aqui ja^ Gonçalo Mendes de Vasconcellos, 
que foi hum dos bons cavalleiros que ouve em seu tempo em Portugal e sua 
molher dona Tarefa Ribeyra e seu Jilho Ruy Mendes e dona Leanor Pereira 



a jurisdição, e nos pediam por mercê que a déssemos a G. M. de V., porque foi de sua avoenga. 
E nós vendo etc. Carta da jurisdição cível e crime, salvando a apelação etc. Guimarães, 
8 de Janeiro de 1425 (1387). — G. M. de V. carta de pura doação para sempre, para êle e 
para seus filhos e netos e descendentes lídimos, da vila da Lousã, com a jurisdição cível e 
crime, reservando a correição e alçada. E esta doação lhe fazemos e damos em emenda 
dos reguengos de Cantanhede, de que lhe havíamos feita mercê e lhos tiramos e demos a 
outrem. Lisboa, 20 de Abril de 1427 (1389). — Chancelaria de D. João /, liv. i.», fls. 35, 64, 
126 V. e 181 ; liv. 2.», fl. 16. 

(i) Fernão Lopes, Chronica de D. João'I, part. 11, pág. i3. 

{2) Pedro de Azevedo, Os de Vasconcellos cit., págs. 373 e 374. 

(3) Por instrumento de i3 de Junho de i38i (i343) fizeram-se as partilhas entre os 
filhos de Mem Rodrigues de Vasconcelos, comparecendo João Dornelas, cavaleiro, procurador 
de Gonçalo Mendes de Vasconcelos e de D. Maria Teles sua mulher, e de Gonçalo Esteves 
de Tavares e de Leonor Rodrigues [de Vasconcelos] sua mulher, filha do dito Mem Rodri- 
gues, e ainda Pêro de Oliveira, abade de S. Miguel de Penagate, procurador de Vasco Gon- 
çalves Barroso e de sua mulher Mecia Rodrigues, também filha de Mem Rodrigues. — Lou- 
sada, Sumários da Torre do Tombo, II, 45 1 v. mihi. 



Vasconcelos 345 

molher que foi deJoanne Mendes que se finou a 20 de Septembro de 1440 (i). 
Na mesma igreja estava o túmulo de sua mulher, com o seguinte epitáfio: 
Aqui j ai dona Tareja Ribeira molher que foi de Gonçalo Mendes de Vas- 
concellos e finousse a 21 de Julho de 1428 e foy hutna das boas donas que 
em seu tempo ouve em Portugal {2), 

Filhos varões de Gonçalo Mendes de Vasconcelos nomeiam os nobihários 
os três seguintes: Joane Mendes de Vasconcelos, 2.° senhor do julgado de 
Soalhães e 4.° administrador deste vínculo, seguirá; Rui Mendes de Vascon- 
celos i.° senhor de Figueiró e Pedrógão, ocupará o capítulo IH; e Mem Ro- 
drigues de Vasconcelos. Nomeio-os pela ordem por que se encontram no 
Nobiliário quinhentista (3), entendendo-se deverem ser todos filhos de D. Te- 
resa Rodrigues Ribeira, por ter o mais velho sucedido tanto no senhorio do 
pai, como no morgado da mãe. 

Mem Rodrigues de Vasconcelos, 

Outro também famoso cavalleiro, 
Que a ala direita tem dos Lusitanos, 
Apto pêra mandalos, e regelos, 
Men Rodriguez se diz de Vasconcelos (4). 

Combateu denodadamente na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 
i385, comandando a famosa ala dos Namorados, não sendo ainda então mestre 
da Ordem de Santiago, apesar de ter sido investido neste alto cargo muito 
antes do ano de 1402 assinalado na história impressa da Ordem (5). 

Direi muito resumidamente o que deste célebre cavaleiro tenho encon- 
trado na Chancelaria e no famoso Livro dos Copos, registo de documentos 
antigos da Ordem de Santiago, mandado fazer pelo seu ínclito Mestre el rei 
D. João II (6). . 

Em fins de r383 começaram, com o assassínio do Conde Andeiro e a ida 
de D. Leonor Teles para Alenquer, as perturbações que ao reino trouxe a 



(i) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, 444 v. wiiãí, com a era errada, pois de- 
Teria lá estar 1445 e não 1440. 

(2) Ibidem, entendendo-se 1428 do nascimento de Cristo e não da era de César. 

(3) Págs. 324, n.»' II e ni, e pág. 328, n." xiv. 

(4) Luís de Camões, Lusíadas, canto IV, est. 24. 

(5) Fr. Agostinho de Santa Maria, Historia tripartita, pág. 349. 

(6) Neste cartulário o último documento, onde se nomeia o mestre D. Fernando Afonso 
de Albuquerque, antecessor de D. Mem Rodrigues, tem a data de 20 de Junho de 142 1 (i383), 
na fl. 72 V.; e o primeiro passado em nome de seu sucessor, o infante D, João, é de 16 de 
Junho de 1460 (1422), na fl. 74. 

voL. I 44 



346 Brasões 

morte de D. Fernando. Nesse tempo dividirara-se logo os bandos em dois: 
o da Rainha, com os fidalgos principais; o do povo, com o Mestre de Avis à 
frente. 

Mem Rodrigues encostou-se de princípio, e desse lado sempre permaneceu, 
ao partido de D. João, que, sendo regedor do reino, nos anos de 1384 e i385, 
desde 20 de Maio a i3 de Fevereiro, fez várias doações e mercês ao seu sol- 
dado (i). Do valor e lialdade, com que este serviu ao Mestre de Avis no 
cerco de Lisboa, dão boa prova as palavras da carta de doação de Monsaraz 
na qual, referindo-se aos serviços de Mem Rodrigues, se especializam os feitos 
tem estas tribulações nas quais o dito Mem Rodrigues serviu a nós, e a estes 
reinos, e serve em cada um dia». 

Logo no primeiro ano do seu reinado, antes e depois da batalha de Alju- 
barrota, continuou D. João I beneficiando este seu valente partidário (2), que 
já nos fins deste ano de i386 tinha o título de vassalo dei Rei, e a promessa 
do mestrado de Avis. Esperava porém de o haver o comendador mor da 
Ordem, Fernão Rodrigues de Siqueira, fidalgo que também prestara valiosos 
serviços, e a quem D. João 1 desejava igualmente contentar. Então, para se 
livrar de embaraços, determinou el Rei escolher para mestre àquele dos dois 
que a Ordem elegesse. Venceu Fernão Rodrigues, que foi nomeado mestre 
de Avis recebendo Mem Rodrigues em compensação o mestrado de Santiago, 
declarando el Rei aos cavaleiros e freires da Ordem, que não havia por boa 
a eleição por eles feita de Rui Freire para seu governador (3). 

Confirma os dizeres do cronista uma carta dei Rei dirigida da cidade do 
Porto, em 3 de Fevereiro de 1425 (iSSy), aos cavaleiros e freires da Ordem 



(i) A Mem Rodrigues de Vasconcelos, doação do jantar das Alhadas, termo de Monte- 
mor o Velho, em Lisboa, a 20 de Maio de 1422 (1384); na mesma cidade, a 14 de Junho, 
doação de bens nela situados pertencentes a dois criados do Conde de Barcelos; a 20 de 
Junho, bens em Beja de outros partidários de Castela; a 10 de Setembro, mais bens em 
Lisboa, estes de um criado de Gonçalo Tenreiro, capitão mor da frota; a 24 do mesmo mês, 
sempre em Lisboa, doação da vila de Monsaraz de juro e herdade; e finalmente, a i3 de 
Fevereiro de 1423 (i385), em Torres Vedras, também de juro e herdade, doação de toda a 
terra que Martim Correia havia dei rei D Fernando, tirando os casais já doados ao dr. Gil 
do Sem, do conselho do Regedor do reino. — Chancelaria de D. João /, liv. i.», fls. 11 v., 
42, 49, 39 e 8 v. 

(2) No Porto, a 10 de Abril de 1423 (i385), teve Mem Rodrigues de Vasconcelos con- 
firmação do jantar das Alhadas; a 19 de Maio, em Ponte de Lima, doação de juro e herdade 
das terras de S. Martinho, Labruja, Labrujeira, Santo Estêvão e Jaraz; a 6 de Novembro, em 
Guimarães, já com o título de vassalo dei rei, as rendas, frutos, direitos e foros de Caminha, 
também de juro e herdade; e a 28 de Dezembro, em S. Pedro de Gastei apar de Chaves, teve 
mercê das jurisdições das suas terras. — Ibident, fls. 106, 143, 162 v. e 149. 

(3) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, p. II, cap. 189. 



Vasconcelos 347 

de Santiago, na qual lhes manda que obedeçam a D. Mem Rodrigues, mestre 
da Ordem, que se havia deles queixado, e lhe guardem sua bandeira, coma 
sempre o fizeram aos outros mestres seus predecessores (i). 

As bulas são porem um pouco posteriores. A primeira é de Urbano VI 
c foi dada em Roma a xiii das calendas de Março (17 de Fevereiro) do ano x 
do seu pontificado (i388); nela aceita o Papa a resignação do mestrado feita 
por Estêvão, aliás Rui, e confirma nele a Mem. A segunda é de Bonifácio IX,. 
tem a data de v dos idos de Novembro (9 de Novembro) do ano i do seu 
pontificado (iSSg) e confirma a precedente. Ambas foram publicadas em 
Lisboa, a 10 de Julho de i3gi (2). 

Continuou D. Mem Rodrigues figurando nos anos seguintes em vários 
documentos, d'entre os quais distinguirei a carta, dada em Lisboa a 25 de 
Fevereiro de 143 1 (i393), pela qual D. João I fez doação ao Mestre e à Ordem 
«das casas que chamam da Moeda Velha em Lisboa junto com a porta da 
Cruz, em que soem de estar as Escolas, assim como partem com rua pública,. 
e com a porta da Cruz, e com o muro até. ao mar, e com casas do mosteiro 
dacelhas (Cheias ?), e com casas de Lopo Domingues Caeiro. . . das quais lhe 
fizemos doação para em elas fazer uns paços para êle e os mestres, que 
depois dele vierem, poderem em elas poisar quando vierem a Lisboa» (3). 

O último documento, em que encontro o mestre D. Mem Rodrigues de 
Vasconcelos, é uma sentença de 1 1 de Julho de 1452 (1414), pela qual foi 
tirada à Ordem a dizima das mercadorias saídas pela foz de Setúbal (4). No 
ano seguinte dizem ter morrido (5). Não sei onde foi sepultado; mas, como 
já se chegou a afirmar havê-lo sido no corpo da igreja de S. Francisco de 
Évora, lá adiante esclarecerei o caso" (6). 

Não casou, ainda então isso era defeso aos cavaleiros das ordens militares^ , 
mas teve bastardos vários filhos e filhas, tendo daqueles provindo os Vascon- j 
celos de Elvas. Foram legitimados os oito seguintes: Diogo Mendes, Inês ' 
Mendes e Leonor Mendes de Vasconcelos, por cartas de 28 de Dezembro de 



(1) Livro dos Copos^ fl. 69 v. — Por outra carta dada no arraial de sobre Campo Maior, 
a 14 de Novembro de 1426 (i38&), quitou D. João I ao mestre D. Mem Rodrigues de Vascon- 
celos e à Ordem de Santiago as colheitas riais a que eram obrigados pela passagem da água 
do rio do Roixo {Chancelaria de D.Afonso V, liv. 5.*, fl. Sg v.; Archivo histórico portuguez, 
IH, 4o5). 

(2) Livro dos Copos, fl. 26 v. 

(3) Chancelaria de D. João 1, liv. 2.", fl, 71 v. 

(4) Liv. de Direitos riais, fl. 237 v. 

(5) João Bautista de Castro, Mappa de Portugal, II, 44. 

(6) Nota I no fim deste artigo. 



348 Brasões 

1429 (iSgi), todos havidos de uma mulher solteira, sendo ele escudeiro (i); 
D. Beatriz, Diogo Gonçalves e Gonçalo Mendes, por cartas de 3 de Maio de 
1446 (1408), sendo êle mestre e nomeando-se só a mãe da primeira, que foi 
Inês Martins (2); e finalmente Mem Rodrigues e Joane Mendes, por cartas 
de 5 do mesmo mês e ano, havidos, sendo êle mestre, um de Beatriz Nunes 
€ o outro de Constança Anes (3). 

Para emendar uma data errada por um frade tomei tempo; mas por certo 
não o dará o leitor por mal empregado, pois lhe disse, àcêrca de um Portu- 
guês notável, coisas que talvez ignorasse. 

Voltemos à sucessão de Gonçalo Mendes de Vasconcelos. 

Confessou êle no seu testamento, como já notei, dever certos dinheiros 
das rendas das terras de seu neto Rui Vasques Ribeiro, do tempo em que 
havia sido seu tutor. Confessou ser a dívida de quatro mil libras de dinheiros 
portugueses de boa moeda antiga, de duzentos marcos de prata lavrada em 
baixela e de certas quintas em Entre Doiro e Minho. Não se conformou Rui 
Vasques com o valor dado ao seu crédito, pediu dele avaliação e foi a dívida 
de seu tutor fixada em sete mil e trezentas coroas. Interveio então D. João I 
e, atendendo aos serviços do finado Rui Mendes de Vasconcelos, pai de Rui 
Vasques, e a haver casado este «com Ana Afonso, minha parenta», pagou-lhe 
as sete mil e trezentas coroas. Satisfeito Rui Vasques, substitui-se-lhe a 
fazenda rial e exigiu de Joane Mendes de Vasconcelos, filho sucessor de Gon- 
çalo Mendes, o pagamento da dívida. Deixou êle correr o processo à revelia; 
foram vendidas as terras da Lousã, por mil e setecentas dobras. Vila Chã e 
Penagate, por cento e vinte, Soalhães, por cento e cinquenta, Penela, por 
setecentas, e Larim, por duzentas e dez. Em seguida foi-lhe comunicada a 
arrematação a fim dele dizer de sua justiça.. Acudiu só então Joane Mendes; 
reclamou pelo baixo preço das arrematações; e alcançou compôr-se com a 
fazenda rial nestas bases: a vila da Lousã ficaria na posse da Coroa, no 
valor porém de quatro mil coroas; do saldo de três mil e trezentas coroas 
seriam abatidas as rendas das terras desde o sequestro, salvo a do ano de 
1413 da Lousã; e o restante haveria de ser pago dentro de dois anos. Nestes 
termos podia Joane Mendes de Vasconcelos tomar desde logo posse das terras 
de Penela, Vila Chã, Larim e Soalhães, como havia antes de serem seques- 
tradas. Foi a composição ratificada por carta régia de i3 de Setembro de 



(1) Chancelaria de D. João I, liv. 2.°, fl. 61 v. 

(2) Ibidem^ \\v. S."», fl. 81 v. 

(3) Ibidem, fls.,81 e 81 v. 



Vasconcelos 349 

1451 (i4i3)(i). Finalmente, passados, não dois anos, mas perto de sete, foi 
Joane Mendes de Vasconcelos, por carta de 8 de Abril de 1468 (1420), dado 
por quite para com a fazenda rial, ficando contudo só com Soalhães e metade 
de Penela(2). 

Não fora porem só esta a dívida deixada por Gonçalo Mendes de Vascon- 
celos. Quando êlp faleceu ainda se encontrou a sua herança gravada com 
duas mil e quinhentas dobras moiriscas, de bom oiro e justo peso, das quais 
era credor a fazenda rial. Para sua segurança tomou ela posse das terras 
de Penela, Penagate, Landim e Vila Chã, na comarca de Entre Doiro e 
Minho, e da de Soalhães, na de Trás os Montes. Entretanto celebrava-se a 
composição com Joane Mendes de Vasconcelos relativa à divida da tutoria, 
e D. João I, por carta de 27 de Maio de 1455 (141 7), fazia mercê das duas 
mil e quinhentas dobras moiriscas do seu segundo crédito a Gonçalo Pereira, | 
seu criado (3) e provavelmente já então casado com D. Beatriz de Vascon- j 
celos, filha do mestre D. Mem Rodrigues, à qual, por carta de 17 do mês | 
seguinte, fez seu irmão Diogo Mendes de Vasconcelos doação de todos os 
bens da sua legítima paterna, tanto os patrimoniais, como as terras da Coroa, 
feudos e morgados que lhe pertencessem herdar de seu pai (4). Foi esta 
doação logo confirmada por D. João I e posteriormente por D. Duarte, por 
carta de 25 de Agosto de 1434, sendo então D. Beatriz certamente já casada (5). 

Gonçalo Pereira, era o das Armas, 2." senhor de Cabeceiras de Basto, e 1 
juntamente com sua mulher vendeu ao 8.° Conde de Barcelos por escritura 
de 7 de junho de 1441, confirmada por D. Afonso V a 10 do mês seguinte, 
as terras de Penela contra o Levante, Vila Chã, Larim e couto de Penagate, 
com todolos casais, herdamentos e direitos que com elas vieram em partilha 
a Diogo Mendes, irmão de D. Beatriz, de quem ela as houve (6). 

Quando Gonçalo Mendes de Vasconcelos morreu existiam apenas dois 
filhos legítimos seus, D. Mem Rodrigues de Vasconcelos, mestre de Santiago, 
€ Joane Mendes de Vasconcelos. Eram eles os herdeiros de todos seus bens 
próprios e terras da Coroa, tirando algumas heranças nas quais por direito 
Joane Mendes havia de suceder a sua mãe. Não se entenderam os irmãos 
na partilha e, posta demanda, proferiu o infante D. Duarte, a quem recor- 
reram, a sua sentença, mandando dividir pelos dois irmãos, em partes iguais. 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 3.°, fl. 162 v. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34.°, fl. jS, transcrita n outra de confirmação. 

(3) Chancelaria de D. João I, liv. 3.», fl. 200 t. 

(4) Ibidem, liv. 4.% fl. i v. 

(5) Chancelaria de D. Duarte^ liv. i.", fl. 35. 

(6) Liv. 2.» de Místicos, fl. 222 v. 



35o Brasões 

os bens e terras do pai, sugeitos, também em partes iguais, à obrigação do 
pagamento das dívidas (i). Sobre esta sentença se baseou a já citada carta 
de 8 de Abril de 1468 (1420), pela qual Joane Mendes ficou com Soalhães e 
metade de Penela. Em virtude da mesma sentença ficaria o Mestre de San- 
tiago com a outra metade de Penela, Vila Chã, Larim e Penagate, terras por 
sua filha D. Beatriz de Vasconcelos e seu marido Gonçalo Pereira vendida* 
ao Conde de Barcelos pela escritura de 7 de Junho de 1441 acima citada. 

Pareceu-me curioso deixar notadas estas diversas transacções, não só para 
mostrar a forma benévola como nelas intervinha o soberano, mas também 
para justificar a relativa decadência a que ficou reduzido Joane Mendes de 
Vasconcelos. Era êle, apesar de na carta de 8 de Abril de 1420 vir nomeado 
em segundo lugar, o «filho primeiro lídimo» de Gonçalo Mendes e por esse 
facto lhe havia sucedido na honra de Soalhães, como declara uma carta de 
2 de Setembro de 1434, à qual lá adiante me reportarei. 

Houve pois Joane Mendes de Vasconcelos, em sucessão a seu pai, os se- 
nhorios do julgado de Soalhães e de metade da terra de Penela, como lá 
acima ficou dito, e mais, por eleição do concelho e homens bons do julgado, 
confirmada por carta régia de 9 de Maio de 1/^46 (1408), o senhorio da terra 
de Mós (2). A sua mãe sucedeu no morgado de Soalhães, do qual foi o 
4." administrador. 

Era este morgado grande, rendoso e honorífico. Compreendia bens em 
Coimbra, Viseu, Lisboa e Porto, e ao seu administrador pertencia o direito 
de apresentar um cónego na Sé de Lisboa, na cònezia chamada das Abitu- 
reiras (3) e depois de Mafra. Fora o vínculo instituído por D. João, bispo 



(1) Desta sentença teve uma vaga idea o P.« Sousa e a ela se refere no tomo XII da 
Historia genealógica^ pág. a, com a data errada, «21 de Outubro da Era de 1438, anno de 
Christo de 1400», quando o infante D. Duarte tinha nove anos de idade. A verdade é que 
a data da sentença não encontrei em parte nenhuma e só a ela há referência na carta régia, 
já muita vez citada, de 8 de Abril de 1420. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 3.*, fl. 78. — José Anastácio de Figueiredo, na sua eru- 
dita Memoria para dar hunia idèa justa do que eram as Behetrias, impressa no tom. I das 
Memorias de Litteratura portugueza da Academia R. das Sciencias, conta como os mora- 
dores do julgado da aldeia de Mais, a qual não sabe identificar, escolheram a D. Henrique 
de Castro, filho de D. Pedro de Castro, para no senhorio da terra suceder a seu velho pai, 
logo após seu falecimento, escolha confirmada por carta régia de 6 de Maio de 1463 (págs. i3i 
c 197). D. Pedro de Castro era genro de Joane Mendes de Vasconcelos e por sua morte 
tratou de se apossar das suas terras, como veremos; pode pois muito bem ter alcançado a 
posse do senhorio da beetria de Mós, e esta ser a. designada no documento de 1463, do qual 
só «parece uma cópia de leitura nova, pelo nome de Mais. 

(3) Carta de doação do padroado das Abitureiras à capela de D. JóSo, bispo de Lisboa,. 



Vasconcelos 35 1 

de Lisboa, em l3 de Maio de i3o4 e confirmado por D. Denis a 20 de Feve- 
reiro do ano seguinte (1). 

D. João Martins de Soalhães foi filho de Lourenço Martins e de Fruela 
Viegas. Estudou na Universidade de Paris, tomou ordens sacras e, sendo 
capelão dei rei D. Denis, foi nomeado cónego de Coimbra e nesta dignidade 
foi por ele enviado a Roma, d'onde voltou em 1290 com o interdito, que pe- 
sava sobre o reino, levantado. Em 1291 já era cónego de Lisboa, em 1294 
bispo desta diocese, e logo embaixador a Castela e depois a Roma, e ultima- 
mente, em i3i5, arcebispo de Braga. Sobreveio a idade e com ela os 
achaques e fraquezas próprios, resultando entregar-se a dois assessores indi- 
anos, que lhe trouxeram o desgosto de lhe ser imposto, em i323, um coadjutor. 
Finalmente morreu a i de Maio de i325. Foi sepultado na igreja da Sé de 
Braga, numa capela por ele fundada, d'onde foi trasladado para um túmulo 
embutido na parede, pondo-se-lhe então este epitáfio: Huc translata siint 
ossa Dfii loannis de Soalhães Archiepiscopi Bracharensts anno salutis i5ii (2). 
Na Sé de Lisboa fundara, na charola, a capela de S. Sebastião, onde, na pa- 
rede do lado do poente, seu descendente o cónego Pedro Lourenço de Távora 
mandou gravar em i588 uma longa inscrição com alguns erros, sendo o prin- 
cipal dar ao bispo fundador o apelido de Vasconcelos (3). 

Nas instituições dos vínculos o Bispo não nomeava os filhos como tais, 
-chamava-lhes seus criados; do mais velho porem até existe a carta de legi- 
timação dada por D. Denis, em Santarém, a 28 de Janeiro de 1346 (i3o8), 
na qual lhe chama Vasco Anes, seu vassalo, filho de D. João, bispo de Lis- 
boa (4). Foi este Vasco Anes de Soalhães o primeiro dos filhos nomeados 
pelo instituidor para a administração do vínculo. Casou da primeira vez com 
Leonor Rodrigues, filha de Rodrigo Afonso Ribeiro. Não foi muito feliz com 
^sta mulher, «que fez torto a seu marido. . . com huum cavaleyro que ouve 
nome Joham Rodriguez Redomdo filho de Rodrigo Annes Redomdo amdando 
«lia em casa delrrey dom Diniz e mandoa ell porem matar por justiça» (5). 



-Santarém, 19 de Novembro de 1341 (i3o3). Já por outra carta de 25 de Novembro de iSSg 
(i3oi), fizera D. Denis doação do padroado da igreja de Santa Maria de Alvarelhos, bispado 
<lo Porto, a ele próprio D. João, e não ao bispo. — Chancelaria de D. Denis, liv. 3.», fls. 29 e 17. 
(i) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, VI, 42. 

(2) D. Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiastica de Braga, II, cap. 3i ; Historia ecclesias- 
tica de Lisboa, p. 11, caps, 76 a 8 1 . 

(3) D. Rodrigo da Cunha, Historia de Lisboa cit., fl. 227 v.; Júlio de Castilho, Lisboa 
antiga, p. II, tom. III, pág. 24.1, 

(4) Chancelaria de D. Denis^ liv. 3.», fl. Sg. 

(5) Nobiliário do Conde D. Pedro^ nos Portugaliae monumenta histórica. Scriptores^ 
pág. 338. 



352 Brasões 

Deste malogra do casamento nascera único Rui Vasques Ribeiro e extraor- 
dinário parece ter ele, depois de toda aquela tragédia, tomado o apelido da 
executada mãe; mas assim sucedeu. Foi Rui Vasques o 2.° senhor do mor- 
gado de Soalhães e casou, pela segunda vez, com Margarida Gonçalves, 
filha de Gonçalo Anes de Briteiros, de quem teve a D. Teresa Rodrigues Ri- 
beira, 3.^ senhora do morgado de Soalhães, a qual morreu já viúva em 20 de 
Julho de 1428, conforme o seu epitáfio acima transcrito. Casara com Gon- 
çalo Mendes de Vasconcelos, em quem comecei este capítulo, e fora mãe de 
Joane Mendes de Vasconcelos. 

Foi este fidalgo casado com D. Leonor Pereira, filha de D. Álvaro Gon- 
çalves Pereira, prior do Hospital. Joane Mendes, apesar de irmão dos dois 
capitães da ala dos Namorados e de cunhado do condestável D. Nuno Alvares, 
seguiu, no começo das discórdias, o partido de sua parenta a rainha D. Leonor, 
mantendo a sua voz no castelo de Estremoz, do qual era alcaide e d'onde foi 
forçado a retirar pelo povo revoltado. Depois, aclamado rei o Mestre de 
Avis, veio servi-lo. Morreu antes de Julho de 1434 e foi sepultado no con- 
vento velho de S. Domingos de Coimbra, segundo consta do epitáfio, adiante 
transcrito, de seu neto D. Fernando de Cascais, e no mesmo convento se 
encontrava o túmulo de sua mulher com esta inscrição nele gravada: Aqui 
ja^ dona Leonor Pereira molher que foi de Joanne Mendes de Vasconcellos, 
irmã do Condestable dom Nuno Alvar e^, que se finou a 18 de Abril de I44g, 
foi húa das boas donas que oure ern Portugal {i). 

Deixou Joane Mendes de Vasconcelos com certeza duas filhas legítimas: 
D. Maria e D. Teresa de Vasconcelos, e ainda mais outra, segundo parece, 
mas havia de ter morrido antes do pai, ou ser ilegítima; chamou-se D. Bea- 
triz de Vasconcelos e foi primeira mulher de D. Fradique de Castro, o Taga- 
rote (2). Mais um filho, certamente ilegítimo se existiu, lhe aponta, entre 
outros genealógicos, D. Jerónimo de Ataíde no seu Nobiliário por mim con- 
sultado quando existia na biblioteca do Marquês de Castelo Melhor. Cha- 
ma-lhe António de Vasconcelos e afirma haver casado e ter-se apartado da 
mulher para tomar ordens sacras, vindo a ser prior de Tentúgal (3)' 

D. Teresa de Vasconcelos, a segunda filha de Joane Mendes de Vascon- 
celos, havia casado pelos anos de 1423, como já ficou dito (4), com D. Pedro 
de Castro, i.° senhor de Bemviver. Tratou êle, logo em seguida à morte do 



(i) Lousada, Sumários da lôrre do Tombo, II, fl. 444 v. mihi, 

(2) Nobiliário quinhentista, pág. 824, n." 11. 

(3) Veja-se a sua sucessão na Critica e historia, pág. 74. 

(4) Na página 145, onde e na seguinte se deverá emendar o nome desta senhora de Ca- 
terina para Teresa, que foi o verdadeiro, j Culpa da minha terrível caligrafia ! 



Vasconcelos 353 

sogro, de se apossar das suas terras, contra o que reclamou seu cunhado 
D. Afonso de Cascais e el rei D. Duarte mandou, em i3 de Julho de 1434, 
expedir uma sentença pela qual declarava terem vagado para a Coroa todas 
as terras, de que fora donatário Joane Mendes, por estarem incursas nas dis- 
posições da Lei Mental, visto êle não ter deixado descendência varonil (i). 
Aquelas terras eram Soãlhães e metade de Penela, e sucede que, mês e meio 
após a sentença, foi feita doação da primeira delas ao filho da irmã mais velha 
de D. Teresa; sucede mais ainda que, por cana de 23 de Abril de 1450, foi 
confirmada a D. Pedro de Castro, como herdeiro de Joane Mendes por estar 
casado com sua filha, a carta de 8 de Abril de 1420 pela qual a este fora dada 
quitação das dívidas paternas e reconhecido o senhorio nas terras de Soãlhães 
e de metade de Penela (2). D'aqui concluo, apesar do documento não estar 
claro, mas outro o esclarece (3), que a D. Pedro fora feita doação de Penela, 
a outra terra possuida pelo sogro. 

D. Maria de Vasconcelos, a primeira filha de Joane Mendes de Vascon- 
celos, casou com D. Afonso, senhor de Cascais, e dele foi a segunda mulher. 
Era^D. Afonso filho bastardo do infante D. João e neto de D. Inês de Castro. 
Havia casado em primeiras núpcias, em 1408, com D. Branca [da Cunha], 
filha do dr. João das Regras (4). Havia-lhe D. João I feito doação, por carta 
de 8 de Maio de 1435 (iSgy), da vila de Cascais e do reguengo de Oeiras 
de juro e herdade, bens em que lhe sucedeu sua viúva D. Leonor da Cunha 
e a esta seu neto D. Pedro, por morte de quem vagaram para a Coroa, em 
virtude da Lei Mental. D. Duarte porém, por carta de 2 de Junho de 1436, 
tudo confirmou à irmã de D. Pedro, D. Isabel de Cascais, filha de D. Afonso 
de Cascais (5) e futura condessa de Monsanto pelo seu casamento com o 
i.° Conde, a quem as terras foram confirmadas por carta de D. Afonso V 



(i) Liv. i.° de Direitos Riais, fl. 271. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34.», fl. yS. 

(3) Este outro documento é a carta de 1 1 de Julho de 1497 de confirmação da prece- 
dente a D. João de Castro, filho de D. Pedro de Castro, na qual se declara ser a confirmação 
relativa à terra de Penela somente (Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.», fl. 35 v.). — No censo 
da população mandado fazer em 1527, na comarca de Entre Doiro e Minho, lá vem mencio- 
nada esta Penela, com a designação de «Penella de Dom Joham» (Archivo histórico por- 
TUGUEZ, III, 25 i). 

(4) Em carta de 4 de Julho de 1446 (1408) dirigida ao Almoxarife do celeiro de Lisboa, 
declara D. João I haver de dar em casamento a D. Afonso, seu sobrinho, com D. Branca, 
filha do dr. João das Regras, do conselho, 7000 dobras de oiro para comprar herdades, e 
porque tam toste lhas não pode dar, «e êle toma ora sua casa», manda-lhe dar os reguengos 
de Algés e Oeiras e todos os mais de ribamar, termo de Lisboa. — Chancelaria de D. João I, 
Ifv. 3."*, fl. io3 V. 

(5) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.", fl. 194 v. 

voL. I 45 



354 Brasões 

de IO de Outubro de 1449(1). Foram progenitores dos Condes de Monsanto 
e Marqueses de Cascais. 

Não sei quando se realizaria o segundo casamento de D. Afonso de Cas- 
cais, mas suponho curta duração ao primeiro, por ver que em 1439, quando 
começaram os alvoroços em Lisboa contra a rainha D. Leonor, viúva de 
D. Duarte, já D. Fernando de Cascais, filho do segundo casamento de 
D. Afonso, o acompanhava. Era então D. Afonso alcaide mor de Lisboa e 
com o filho e outros fidalgos parciais da Rainha se meteu dentro no castelo, 
onde não pôde resistir por lhe faltarem os mantimentos e teve de o entregar 
ao infante D. João, retirando-se para junto de D. Leonor. Quisera o pai 
entregar logo o castelo, à primeira intimação do povo; «mas o filho por ser 
mancebo, em que o sangue e pontos da honra ferviam, o ouve por abati- 
mento» (2). Era êle então já casado, porque no ano seguinte partiu para o 
desterro e nesse mesmo ano lá morreu; não poderia portanto ter muito menos 
de vinte e cinco anos de idade e por isso o segundo casamento de seu pai 
deveria ter tido lugar pelos anos de 141 2 ou i3, isto é, cinco depois do pri- 
meiro. 

D. Duarte, em seguida à sua sentença acima referida, de i3 de Julho de 
1434, pela qual declarou vagas para a Coroa ás terras possuídas por Joane 
Mendes de Vasconcelos, fez doação, por carta de 2 de Setembro do mesmo 
ano, da terra de Soalhães de juro e herdade a D. Fernando, por ser seu so- 
brinho e do condestável D. Nuno Alvares Pereira, e alem disso por êle ser 
neto por sua filha mais velha do último donatário, o referido Joane Mendes (3). 
Ainda D. Duarte, encontrando-se em Montemor o Novo, mandou chamar à 
sua presença, no dia 4 de Junho de 1436, a D. Álvaro de Castro e sua es- 
posa D. Isabel de Cascais a fim de darem quitação a D. Afonso, pai dela, a 
sua mulher D. Maria de Vasconcelos e a seus herdeiros, de todos os bens 
móveis a D. Isabel pertencentes, não só de sua legítima por morte e herança 
de sua mãe D. Branca [da Cunha], como por sucessão de seu irmão D. Pedro, 
t de tudo mandou lavrar nesse dia a respectiva carta (4). Seguiu-se, d'ali a 
pouco mais de ano e meio, a morte de D. Duarte e em Setembro de 1439 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34.", fl. 170. 

(2) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 264. 

(3) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.°, fl. 32. — Neste diploma declara-se ter Joane iMendes 
de Vasconcelos sucedido no senhorio de Soalhães a seu pai Gonçalo Mendes de Vasconcelos, 
por ser seu filho primeiro lídimo, e terem as suas terras vagado para a Coroa por dele não 
ficar nenhum filho lídimo, salvante duas filhas, D, Maria e D. Teresa. Por isso a terceira 
filha D. Beatriz, havia de ser já falecida, ou não era legítima. 

».4) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.», fl. 191 v. 



Vasconcelos ' 355 

começaram os alvoroços do povo de Lisboa contra a rainha D. Leonor, nos 
quais D. Afonso e D. Fernando de Cascais se manifestaram logo por ela. 

Tendo sido expulsos do castelo, como acima ia dizendo, foram pai e filho 
ter com a Rainha a Alenquer e d'aí a acompanharam nas suas jornadas pelo 
reino até Almeirim, d'onde ela partiu encobertamente para o Crato. Cons- 
tando no dia i.° de Novembro a sua fuga, trataram seus parciais de a seguir, 
e entre eles partiu o velho D. Afonso de Cascais, forçado da mulher e do 
filho e muito contra vontade, pois se abraçou «com a terra e com muytas 
lagrimas dizia: Leixaime comer a esta terra que me criou, e a que nom fuy 
nem som treedor. Nom me desterreis este corpo sem culpa, nem lhe deis se- 
pultura em terras alheas. Mas em fym o levaram» (i). 

j Pobre velho ! adivinhava a sua sorte ! Para o desterro partiu com a 
Rainha a 29 de Dezembro de 1440, e lá, em Çamora, morreu juntamente 
com o filho em Agosto do ano seguinte (2), no qual lhe nasceu o neto, o futuro 
Conde de Penela. Foram seus bens confiscados e, já depois da morte dambos, 
doados, por carta de 19 de Março de 1441, ao 4," Conde de Ourem (3). Para 
Portugal voltou a viúva, ao terminar a regência do infante D. Pedro, e trouxe 
consigo os ossos de seu filho, mandando-os para o convento velho de S. Do- 
mingos de Coimbra, onde foram sepultados no jazigo de seu avô Joane Mendes 
de Vasconcelos, gravando-se na loisa o seguinte epitáfio: Neste moimento 
do Senhor Janemendes de Vasconcellos ja^em os ossos do mui Illustre Senhor 
Dom Fernando seu neto, o qual em seu testamento mandou que aqui fosse lan- 
çado, tra:{ido de Castella o?ide se Jinou em serviço da Rainha Dona Leanor 
Madre delRey Dom Afonso o 5.° de Portugal, e foi Jílho de Dom Afonso e 
neto do Infante Dom João que era filho delRej Dom Pedro de Portugal e 
da Infante Dona Inês de Castro sua molher (4). 

Pagou D. Afonso V a sua dívida de gratidão a D, Maria de Vasconcelos, 
fazendo-lhe mercê de uma tença de trinta mil reais brancos por carta de 6 



(1) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 3io. 

(2) Ibidem, pág. 323. — Não cause reparo o cronista escrever «xxix de Dezembro de myl 
e quatrocentos e quarenta e hum»; ele contava pelo ano do Nascimento à risca, e esse tinha 
começado no dia 2 3 do mês. Veja-se a prova da minha asserção no Archivo histórico por- 
TUGUEz, II, 486, sendo para notar haver eu aí aduzido exemplos exactamente deste ano de 
1440. 

(3) Liv. 3." de Místicos, fl. i52. — Ainda por outra carta de 25 de Janeiro de 1446 foram 
doados uns prédios, que ele possuíra em Ferreira, a Lopo Mendes de Vasconcelos, cavaleiro 
do infante D. Pedro (Archivo histórico portuguez, III, 410) e talvez filho do mestre D. Mem 
Rodrigues de Vasconcelos. 

(4) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, fl. 444 mihi. 



I 



356 Brasões 

de Abril de 145 1, na qual se refere aos muitos e bons serviços por ela «feitos 
a nós c à senhora Rainha minha madre» (i). 

Casara D. Fernando de Cascais, antes de ir para o desterro, com D. Isabel 
Coutinho a quem, sendo ainda solteira, fora confirmada a terra de Aregos 
por carta de i5 de Fevereiro de 1434(2). Era D. Isabel filha única de 
D. Pedro de Meneses, 2.° conde de Viana, e de sua mulher a condessa D. Bea- 
triz Coutinho, senhora da referida terra em sucessão a seu pai, Fernão Mar- 
tins Coutinho, a quem ela fora doada por carta de 1 1 de Janeiro de 1480 
(1392) (3). 

D. Isabel acompanhou o marido para Castela e lá, conforme parece, casou 
em segundas núpcias com João Freire de Andrade, senhor de Alcoutim, de 
quem foi primeira mulher e não teve sucessão (4). D. Isabel já tinha mor- 
rido em 23 de Outubro de 1460, quando, por sua morte, foi a terra de Aregos 
confirmada a seu filho D. Afonso, sobrinho dei rei (5) e futuro conde de Pe- 
nela. 

Por este casamento veio a entrar na casa de Penela o senhorio de parte 
da vila de Mafra, pois que a Fernão Martins Coutinho, avô de D. Isabel, 
havia sido aquela vila doada, juntamente com a Ericeira, a Enxara dos Ca- 
valeiros e o Ulmarinho, por escritura de 2 de Março de 1398 lavrada em Lis- 
boa, nos paços riais, em presença de D. João I que a aprovou. Era a escri- 
tura de casamento de Leonor Lopes [de Sousa], filha do mestre de Cristo 
D. Fr. Lopo Dias de Sousa, com Fernão Martins Coutinho e foi a doação 
feita aos esposados, em suas vidas, e a seus descendentes (6). E para maior 
segurança fez D. João I, por carta de 25 de Julho de 1396, doação ao refe- 
rido Fernão Martins Coutinho das ditas terras, para ele e sucessores, com 
as jurisdições, mero e mixto império, etc. (7). 

No ano seguinte morreu Fernão Martins Coutinho sem testamento, dei- 
xando duas filhas, D. Beatriz e D. Felipa. Sua viúva, D. Leonor Lopes de 
Sousa, só veio a falecer em 1421, havendo tornado a casar com Afonso Vas- 
ques de Sousa, filho de Martim Afonso de Sousa, 2° senhor de Mortágua, 
de quem deixou vários filhos. Afonso Vasques manteve-se, depois de en- 
viuvar, na posse dos bens da mulher, até que em 1425 suas enteadas oci- 



( 1 ) Chancelaria de D. Afonso V, liv. Sy.", fl. 28 v. 

(2) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.", fl. 87; liv. 3." da Beira, fl. iSj. 

(3) Ibidem. 

(4) Nobiliário quinhentista, pág. 269, n.» xvi, onde lhe chama D. Isabel de Meneses. 

(5) Liv. 3.° da Beira, fl. i36 v. 

(6) Gaveta XIV, maç. 4.», n.° i. 

(7) Chancelaria de D. João I, liv. 2.", fl. 122. . 



Vasconcelos 35 j 

taram para partilhas. Começou a correr a demanda; morreu o réu e con- 
tinuaram nela seus filhos. Entretanto casavam as duas filhas de Fernão 
Martins Coutinho: D. Beatriz Coutinho com D. Pedro de Meneses, conde 
de Vila Rial, em Sintra, a 17 de Agosto de 1426, «nos paçoá dei rei D. João, 
na casa em que ora pousa D. Beatriz Coutinha, casa que é dentro no cnrral 
dos ditos paços» (i); D. Felipa Coutinho casou pouco depois com Luís Ál- 
vares de Sousa, escudeiro da casa do infante D. Duarte, e teve em dote duas 
mil e quinhentas coroas do cunho dei Rei de França, as quais lhe prometeu 
D. João I, dando-lhe, por carta de 17 de Junho de 1420, feita em Sintra, em 
quanto lhas não pagava, uma tença de um conto de libras, do i.° de Janeiro 
passado em diante, assentada no almoxarifado de Vila Rial (2). Luís Alvares 
de Sousa foi 3.° senhor de Baião e já era provedor da fazenda do Porto em 
princípios de 1451 (3). 

Foi prosseguindo o pleito até que D. Duarte, por sentença de 18 de Junho 
de 1436, mandou proceder à partilha (4). Feita ela, dividiram-se as terras, 
passando a Ericeira e dois quinhões de Mafra a D. Felipa Coutinho (5) e 
ficando os três quinhões restantes daquela terra e a Enxara à Condessa de 
Vila Rial, seguidamente aos sucessores de sua filha, os Condes de Penèla. 

Eram estas terras consideradas bens patrominais e, como tais, eram par- 
tilhadas e possuídas sem confirmações régias; mas o 2." Conde de Penela, acau- 
telando-se contra possíveis dúvidas futuras, solicitou e impetrou de D. Manuel 
a carta de 6 de Junho de i5i7, pela qual, tanto quanto em direito podia, ele 
lhe confirmou de juro e herdade os três quinhões da vila de Mafra (6). 
Passou este senhorio do filho primogénito do 2.° Conde d'e Penela, D. Afonso 
de Meneses falecido sem descendência legítima, para seu irmão D. António 
de Vasconcelos e Meneses, que, sendo já muito velho, casou e teve um filho. 
Ao seu nascimento assistiu um ministro da justiça e comenta D. Afonso Ma- 
nuel de Meneses no seu nobiliário: «melhor fora assistir à mãy no acto de 
conceber». Para um eclesiástico e desembargador da Casa da Suplicação 
é bom comentário. 



(i) Gaveta II, maç. i.°, n." lo. 

(2) Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa, Livro 3.° de D. João 1, fl. 56.— O contrato 
de casamento é de 21 de Junho de 1428 (Chancelaria de D. Afonso V, liv. iS.», fl. i63). 

(3) Carta de 6 de Maio de 1451, arbitrando-lhe 25.716 reais de mantimento com o dito 
ofício. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. ti.", fl. 69 v. 

(4) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, III, fl. 480 v. mihi. 

(5) Por carta de 4 de Setembro de 1450 foram confirmados a Luís Alvares de Sousa os 
privilégios do seu lugar da Ericeira e os do lugar de Mafra, em que teve alguma parte. — 
Chancelaria de D. João III, liv. 16.» de Doações, fl. 154. 

(6) Chancelaria de D. Manuel^ liv. io.°, fl. 55. 



358 Brasões 

Este tal filho chamou-se D. João Luís de Vasconcelos e Meneses, foi senhor 
de Mafra e da dízima do pescado da Ericeira, tendo passado a Enxara dos 
Cavaleiros, os concelhos de Soalhães e A regos e outras terras da Coroa a 
seu primo, D. João de Vasconcelos e de Meneses, filho ilegítimo do referido 
D. Afonso de Meneses. A pedido deste e por influência de Martim Gonçalves 
da Câmara, valido de D. Sebastião, foi dado, em i3 de Agosto de i566, 
um alvará de lembrança ao referido D. João de Vasconcelos para suceder 
ao pai naqueles bens da Coroa, casando com D. Caterina de Eça, donzela da 
rainha D. Caterina e neta de sua camareira mor D. Joana de Eça. Veio a 
mercê a realizar-se, sendo lhe confirmados os bens por cartas de i6 e 17 de 
Junho de 1Õ94 depois de efectuado o casamento e de falecido o pai (i). 

D. Caterina de Eça era filha de António Gonçalves da Câmara e neta de 
Pêro Gonçalves da Câmara, irmão do 3.° Capitão do Funchal, e de sua 
mulher a referida D. Joana de Eça. A propósit-o. desta senhora contarei 
uma anedocta que lhe é atribuída. Um dos factos alegados pelo Prior do 
Crato D. António, para provar o casamento de seu pai com Violante Gomes, 
«foi o que lhe aconteceu indo ela ao convento de Odivelas em um dia em que 
ali se achava D. Joana de Eça, camareira mor da rainha D. Caterina, a qual 
logo que entrava na igreja lhe chegou uma almofada para assentar-se, e que 
o não faria a não ser casada com o Infante; porém esta Camareira mor por 
tola era capaz de praticar destes despropósitos» (2). 

D. João Luís de Vasconcelos e Meneses, senhor de Mafra, morreu em 
Madrid a 5 de Dezembro de i633 (3), sem deixar filhos, seguindo-se à sua 
morte porfiada demanda entre vários contendores sobre o senhorio de Mafra, 
o qual, por sentença de 17 de Setembro de 1648 (4), foi adjudicado a D. Joana 



(i) Confirmações gerais, liv. j.', fls. 5i v. e 53. 

(2) Memorias raras e celebres, copia de um M. S. Anommo, que parece escripto no fim 
do século passado, letra do último quartel do século xvii. Era da livraria do Marquês de 
Valada e emprestou-mo o Conde de Caparica seu filho. 

(3) Consta do epitáfio na igreja da Graça de Santarém, na parede do lado do evangelho, 
na capela dos Condes de Penela: Na s^ do tumulo q esta no mo (meio) desta capella esta 
dô io (João) luis de ms (Meneses) e vasc°^ sf de ma/rafo de dõ auto de Tns e vascos e neto e 
erdro dos condes de penela e quinto neto do i/ante dõ io fo legitimo delrei dÕ po (Pedro) de 
poriugal viveo Sj annos e acabou a 5 de de:^bro de 633 e por morrer na corte de madrid 
mandou trazer de la o seu corpo inteiro dona m^ (Maria) de castro sua molher ^ lhe mãodou 
Ja\er esta s^ ^ ela tãobem escolheo pi- se sepultar, anno i63/. No meio da capela, no pavi- 
mento lá está uma grande campa lisa. É a sepultura mencionada nó letreiro da parede. 
Por cima deste vê-se um escudo com as armas do reino, com sete castelos na bordadura, 
diferençadas por um banco de pinchar de dois pendentes; o escudo sobrepujado de uma 
coroa de florões. 

(4) P.e Sousa, Historia genealógica^ XII, 116. , 



Vasconcelos Z5g 

de Meneses terceira neta de D. Afonso de Meneses, condessa de Armamar 
pelo seu primeiro casamento, sem geração, e viscondessa de Vila Nova da 
Cerveira pelo segundo, tendo-se continuado a casa de Mafra com os senhorios 
de Soalhães, Aregos e Enxara nos descendentes deste matrimónio até ao 
último Marquês de Ponte de Lima, por cujo falecimento passou a casa ao 
último Marquês de Castelo Melhor do sangue dos Vasconcelos. 

Examinadas, muito pela rama concordo, as fases por que passou a sucessão 
nos senhorios de Mafra e Soalhães, tornarei lá atraz ao filho único de D. Fer- 
nando de Cascais. 

Nasceu em 1441, chamou-se D. Afonso e sem apelido nenhum, só com a 
designação de «nosso sobrinho, filho de D. Fernando de Cascais», aparece 
de principio em documentos régios, entre eles, em duas cartas de 23 de 
Outubro de 1460, de confirmação da terra de Soalhães, por morte do pai, e 
do concelho de Aregos, por morte da mãe(i). Em 1465, por outras duas 
cartas, uma de 23 de Junho e a outra de 5 de Dezembro, fez-lhe D. Afonso V 
respectivamente doação da vila de Penela, no actual distrito de Coimbra, 
com as jurisdições, e do reguengo de Campores, no termo da vila, tudo em 
sua vida somente, sendo já na segunda destas cartas designado por D. Afonso 
de Vasconcelos (2), único apelido com que o encontro mencionado em diplomas 
e crónicas. Seis anos depois, por carta de 24 de Outubro de 147 1, foi feito 
conde de Penela, «com todas as honras e preeminências que são e devem 
ser outorgadas aos condes que de sangue rial como êle descendem» (3); e, 
atendendo a esta circunstância, foi-lhe o assentamento de cento e quarenta e 
cinco mil reais elevado a duzentos mil por carta dada em Çamora, a 23 de 
Novembro de 1475(4). Já era casado em 12 de Outubro de 1467, quando 
D. Afonso V fez mercê a D. Isabel da Silva, para quando o senhorio por j 
qualquer forma vagasse, do reguengo de Campores, que havia .doado a 
D. Afonso de Vasconcelos, seu marido (5). . 

O Conde de Penela serviu em Africa: em i45g, em Arzila, com o Conde 
D. Duarte; em 1463, no escalamento de Tânger, perdendo na ida o seu navio 
afund.ado pela tormenta; e em 1464, na expedição à serra de Benacofú. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3.°, fl. 77 v. ; liv. 3.° da Beira, fl. i36 v. — Da Enxara 
dos Cavaleiros tomara por êle posse sua mae em i de Dezembro de 1448, em virtude de um 
alvará de D. Afonso V, — Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, 449 mihi. 

(2) Liv. 3.° de Místicos, fl. 287 v.; Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8.°, fl. 9 v. 

(3) Liv. 3.° de Místicos, fl. 4; Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. 169. 

(4) Liv. 4.» de Místicos, fl. 26. 

(5) Ibidem, fl. 10 v,, transcrita na de 17 de Abril de 1483 de confirmação, por morte do 
marido, do reguengo e de doação dele a seu filho para depois do falecimento dela. 



36o Brasões 

Quando, em 1476, se organizou a expedição a Castela, marchou para lá o 
Conde de Penela, comandando uma das alas do exército, e, apesar do cro- 
nista o não mencionar, de cerio combateu na batalha de Toro, no i.° de 
Março do ano seguinte, regressando a Portugal com o príncipe D. João, com 
quem Já se encontrava em Miranda do Doiro a 14 de Abril, a passar a Páscoa. 
O seu bom serviço nesta campanha é atestado na carta de 10 de Julho de 
1476, pela qual D. Afonso V fez mercê a D. Afonso de Vasconcelos, conde , 
de Penela, seu muito amado e presado sobrinho, adiantado das comarcas dai 
Estremadura, havendo respeito aos seus muitos e extremados serviços, tanto ' 
nestes reinos, como nos de Africa e Castela, «onde ora grandemente nos 
serviu, com sua pessoa e gentes e muita despesa de sua fazenda», de na v 
vila de Penela e reguengo de Campores lhe poder suceder o filho (i). " 

No ano seguinte acompanhou o príncipe às Cortes de Montemor o Novo, 
principiadas a 21 de Janeiro e respondidas a 9 de Fevereiro (2). Da sua. 
estada lá consta das trovas «Do Coudel mor a Anrryque dAlmeida que lhe 
mandou pedyr novas das Cortes que elRey dom Joã fez em Montemoor o 
Novo sendo pryncype o ano de setenta e sete sendo ellRey seu pay em Frrãça». 

Diz Fernão da Silveira: 

Lyxboa que sonha 
' . no cardealado, 

moordomo Noronha, 
também deputado. 
Hy he Portymam, 
Alvito, Penela, 
Berynguell comela 
que fez o sermara (3). 

Não serviu só em postos militares, também exerceu cargos de justiça, 
pois que, por carta de i de Maio de 1479, foi nomeado regedor da Casa 
do Cível de Lisboa (4). Ano e meio depois, a i de Novembro de 1480, 
falecia, contando só trinta e nove anos de idade. D. Afonso V lastimou-o e 
à sua memória dedicou palavras sentidas na carta de conde de Penela ao 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 6°, fl. 45 v., com omissão do dia e sem ela na Chan- 
celaria de D. João III, liv. 47." de Doações, fl. 22, " 

(2) J. P. Ribeiro, Memorias sobre as Fontes do Código Philippino, no tom. II das Me- 
morias DE LlTTERATURA DA ACADEMIA, pág. 92. 

(3) Cancioneiro geral, fl. 19, C9I. i. — As pessoas nomeadas são: D. Jorge da Gosta, 
arcebispo de Lixboa, promovido a cardial no ano precedente ; D. Pedro de Noronha, moor- 
domo mor; Gonçalo Vaz de Gastelbranco, senhor de Vila Nova de Portymam; D. João da 
Silveira, barão de Alvito; D. Afonso de Vasconcelos, conde de Penela; e Rui de Sousa, se- 
nhor de Berynguell (Beringel). 

(4) Liv. de Extras, fl. 166 v. 



Vasconcelos 36 1 

íilho, em sucessão ao pai, «pois a nosso Senhor prouve de o tam cedo levar 
pêra si». O cronista contemporâneo, Gomes Eanes de Azurara, referindo-se 
aos defensores de Arzila no cerco lá posto pelos Moiros no ano de 1439, es- 
creveu: «Dom Duarte dera certas guardas a alguns Fidalgos na barreira... 
das quaes contamos por primeira, a que fói dada ao nobre Senhor Dom Afonso 
de Vasconcellos por razão da pessoa, porque assi em grandeza de linhagem, 
como em bondade de custumes, nom partio deste Regno pêra aquelle cerco 
nenhum melhor que elle» (i). 

Foi o Conde de Penela sepultado na igreja da Graça de Santarém, com 
este epitáfio por mim copiado em i(5 de Janeiro de i885: Aqui fa^ ho mui 
manijico ilustre s^'' dÔ a° de p'^°celos e de meneses con^'^ e s°'' de Penela o qual 
foi bisneto do ifãte dôjohã q era f^ .lidi?no delrei dõ p° de portugal e asi nS 
menos de vertudes q de tã real linliagê de todos esses tempos que viveu fe^ 
tais e tão asinados serviços aos reys de portugal e ao mesmo reino que nenhum 
acrecentamento de maior estado pudera satisfaser a seus grandes mereci- 
mentos viveu 3g annos e Jinouse o primeiro dia do mes de novembro era de 
480 e a muito magnifica senhora dona isabel da silva condessa de penela 
sua molher encolheu também pêra si esta mesma sepultura qué não se causa 
foi huma so a elles ambos na morte aos quaes foi sempre hua so vontade na 
vida vivendo viveu annos. 

Por cima dois escudos, um, era lisonja, partido: o I cortado das armas 
do reino sobre partido de liso e de quatro faxas de veirado; no II um iião. 
São as armas da Condessa. O outro escudo, com as armas do Conde, é 
esquartelado: o I e IV das armas do reino, com oito castelos na bordadura; 
o II e III terçado em pala: o i.° quatro faxas veiradas, o 2.° e 3.' reunidos, 
formando um só quartel, cortado de um traço, partido de dois, que fazem 
seis quartéis: a, c, e, dois lobos passantes e sotopostos, b, d, f, quatro palas; 
sobre o todo,.escudete liso. Está o túmulo metido na parede da banda da 
epístola na capela colateral com a mor do lado do evangelho. A variedade 
das quatro faxas de veirado nas armas dos Vasconcelos encontraremos tam- 
bém no túmulo de Rui Vasques Ribeiro, na igreja de S. João Baptista da 
sua vila de Figueiró dos Vinhos, e no arco da capela dos Vasconcelos do 
Esporão na Sé de Évora. Notarei também ser singularidade do epitáfio o 
apelido de Meneses no nome de D. Afonso de Vasconcelos. 

A mulher do Conde de Penela, D. Isabel da Silva, era íilha dos 1.°^ Condes 
de Abrantes, e deu a seu marido, entre outros filhos, a D. João de Vascon- 1 
celos e de Meneses e D. Fernando de Vasconcelos e de Meneses, i 



(1) Chronica do Conde D. Duarte, cap. 76. 

voi . I 46 



362 Brasões 

D. João foi o 2.° conde de Penela por carta de i6 de Abril de 1481 (i), 
senhor das vilas de Penela, Mafra e Enxara dos Cavaleiros, e dos concelhos 
de Soalhães e Aregos, e vedor da fazenda por carta de 3o de Setembro de 
ibi"] (2), para substituir Nuno da Cunha, que ia ser nomeado governador da 
índia. Nas terras do Conde de Penela, conforme o censo da população 
mandado fazer por cartas régias de 17 de Julho de 1527, viviam 1243 mora- 
dores assim repartidos: 42, na vila e termo da Enxara dos Cavaleiros; 191, 
na vila e termo de Mafra; 554, ^^ vila e termo de Penela; 97, no concelho 
de Soalhães (3); e 359, ^^ concelho de Aregos (4). Dando à palaví^a mora- 
dores do censo de 1527 a sua actual designação de fogos, e calculando em 
média quatro moradores a cada fogo, temos cinco mil habitantes nas terras 
do Conde de Penela. 

Morreu êle em i543, antes de Abril (5), deixando descendência na qual 
se continuou a sua casa. Ao Conde alude Gil Vicente em 1529 no Clérigo 
da Beira: • ^ 

Qual é o mor namorado 

de Portugal e Castela ? 

He o Conde de Penela, 

mas anda dissimulado 

por amor da sua estrela. 

E em i532, na Rofiiagem de Agravados, diz 

que he muyto dadivoso. 

O seu brasão era o escudo esquartelado: o I e IV as armas do reino com 
dez castelos na bordadura ; o II de negro, três faxas de veirado de prata e ver- 
melho (Vasconcelos); o III cortado de um traço e partido de dois que fazem 
seis quartéis: o i.°, 3.° e 5,° de oiro, dois lobos passantes e sotopostos de 
púrpura, armados e linguados de vermelho; o 2.°, 4.° e 6." de oiro, quatro 
palas de vermelho; sobre o todo, de oiro liso (Meneses). Timbre: lobo pas- 
sante' de púrpura, armado e linguado de vermelho, sobre uma capela de penas 
de pavão de sua côr (6). 



( 1 ) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.", fl. 73. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 3o.° de Doações.^ fl. 160 v. 

(3) Povoação da Estremadura e Povoação de Trás os Montes, no Archivo histórico 
PORTUGUEZ, vol. VI, págs. 255 e 270; vol. VII, pág. 247. 

(4) Povoação da Beira. Nota II em apêndice a este artigo. 

(5) Archivo histórico portuguez, X, 116. 

(6) Livro do Armeiro mor, fl. 47, sem o timbre; Livro da Torre do Tombo, fl. 9, com êle. 



Vasconcelos 363 

D. Fernando de Vasconcelos e de Meneses, filho segundo de D. Afonso 
de Vasconcelos, i." conde de Penela, «foi muito douto nas antiguidades e 
matérias politicas pelo que teve grande estimação athe dos estrangeiros, foi 
muito verdadeiro, affabel, cortes e liberal, e com tal termo' se havia no que 
lhe pediaÕ e elle naÕ podia dar que ficava quem pedia igualmente obrigado, 
foi clérigo e o primeiro beneficio que teve foi a Abadia de Selva no Arcebis- 
pado de Braga de que foi colado em 7 de Dezembro de 1 5 10; e no de i5í3 
foi Deaô ou Arcediago de Lisboa tendo a Abadia de S. Mamede de Angeris 
na terra de Chaves, e depois foi elevado pelo Papa Leaõ 10 a Bispo de La* 
mego em 8 de Novembro do anno i5i8, e estando em Lisboa quando os 
fidalgos beijarão a maõ a el Rey D. Manoel pelo cazamento da Rainha 
D. Leonor elle foi hú delles e el Rey D. Manoel o fes seo cappellaõ mor no 
anno 16 16, e no anno ibig se achou com o dito Rey em Sintra no Conselho 
que se tomou acerca de Fernaõ de Magalhães quando se passou ao serviço 
do Imperador Carlos 5 e no anno i52i esteve prezente a morte do dito Rey, 
e no anno i525 em Torres novas recebeo por procuração a Infante D. Izabel 
irmã dei Rey D. loaõ 3 com o Imperador Carlos 5.", e no de iõ33 bautizou 
ao Princepe D. Manoel filho dei Rey D. loaÕ 3.*' e no de 1643 acompanhou 
athe a raya de Castella sendo ja Arcebispo de Lisboa a Infante D. Maria a 
cazar conj o Princepe D. Fellippe filho do dito Imperador fazendo muitos 
gastos athe Salamanca onde se fizeraô os despozorios, no anno 1540(1) foi 
elevado pelo Papa Paulo 3.* a Arcebispo de Lisboa de que tomou posse em 
6 de Outubro e foi o ultimo Prior que teve S. Vicente de Lisboa morreo 
muito velho e com sináes de muita virtude em 7 de Janeiro de i564, deixou 
para as obras da Se ^^ cruzados de renda e nella esta sepultado juncto da 
sepultura do Arcebispo D. Martinho da Costa e tem este letreiro: Nesta 
sepultura foi enterrado ç Corpo de D. Fernando filho de D. Affbnso /.° Conde 
de Penella foi Arcebispo desta Cidade e CapellaÔ mor delRey D. Manoel 
delRey D. loaÕ 3.° e delRey D. Sebastião nosso snôr falleceo de 83 annos c 
meyo a 8 de Janeiro de 1564(2). Fez a Igreja de S. António do Tojal 
deixando a metade da Torre dos sinos feita porque tirava a vista da Tribuna 
dos Paços, foi do Conselho dos quatro dei Rey D. Manoel e seo valido, suc- 
cedeo no Arcebispado ao Cardeal Infante D. Affbnso filho do dito Rey» (3). 



(i) Bula de 24 de Setembro. — Corpo diplomático por tu gue^ç, IV, 3^6. 

(2) Na Lisboa antiga, p. II, vol. III, pág. 864, transcreveu Júlio de Castilho outro epitáfio 
muito diverso encontrado nas Antiguidades de Lisboa de Coelho Gasco, lastimando-se destas 
confusões. 

(3) Tirei esta bem abreviada notícia biográfica do título dos Vasconcelos, n." 240, de 
D. Afonso Manuel de Meneses, no Nobiliário coordenado por Jorge Salter de Mendonça, 
vol. XXIV, fi. 173 mihi. 

V 



304 ~ Brasões 

Foi este Arcebispo de Lisboa quem, em i55i, com intuito de averiguar 
as rendas do arcebispado, ordenou a seu guarda roupa Cristóvão Rodrigues 
de Oliveira que elaborasse uma espécie de cadastro da cidade. Esta obra 
foi posteriormente impressa em Lisboa, em casa de Germão Galharde, em 
ano não indicado e com o título de Summario ê qve brevemente se contem 
algpãs covsas (assi ecclesiasíicas como secvlares) qve ha na cidade de Lisboa. 
E livro extremamente raro. 

Usou D. Fernando de Vasconcelos e de Meneses de umas armas muito 
semelhantes às dos Eças, também descendentes, como estes Vasconcelos, do 
infante D. João. Vêem-se elas no selo do Arcebispo e consistiam em um 
escudo carregado dos ciiico escudetes das quinas, dispostos em aspa, com 
cinco besantes em cada um, e um cordão, com seus nós, posto em orla e em 
aspa, passando nesta parte por baixo dos escudetes (i). 

Teve o Arcebispo vários filhos ilegítimos e entre eles a D. João Afonso 
de Meneses, arcebispo de Braga em i58i, em sucessão a D. Fr. Bartolomeu 
dos Mártires. Sagrou-se em Lisboa na capela rial, assistindo Felipe 1 e o 
cardial arquiduque Alberto, e fez a sua entrada em Braga a 25 de Abril de 
i582. «Tinha' ja cinco anos pouco mães, ou menos de Prelado gastados na 
visita, & reformação delia, quando recebendo hua carta delRey D. Felippe 
o prudente, em que o reprehendia de algCias cousas que passavão no Arce- 
bispado; como fosse pessoa de grade opinião, assi o sentio, que de puro des- 
gosto veyo a adoecer, & morreo em 14. de lulho. . . de iBSy. sendo de idade 
de 65. annos» (2). Tudo derivou da denúncia enviada a Felipe I contra o 
dr. André Velho Tinoco, arcediago de Neiva na Sé de Braga e secretário 
do Arcebispo, tendo sido denunciante um irmão do próprio prelado. O 
dr. André Velho Tinoco foi preso na Inquisição de Lisboa pelo pecado ne- 
fando, a 23 de Julho de i586, e foi-lhe lida a sentença, na sala, no dia 10, 
de Setembro do ano seguinte (3). 

III 

SENHORES DE FIGUEIRÓ 

♦ 

Dei tal desenvolvimento ao capítulo precedente, que terei de me restringir 
neste e nos seguintes. 

Entre os filhos de Gonçalo Mendes de Vasconcelos, i.° senhor de Soalhães, 



(i) P.e Sousa, Historia genealógica, tom. IV, Est. K, n.° 35. 

(2) D, Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiastica de Braga, II, 397. 

(3) Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, processo n." io53. 



Vasconcelos 365 

lá atraz nomeados (i), foi o último Rui Mendes de Vasconcelos, companheiro 
de seu irmão Mem Rodrigues de Vasconcelos na batalha de Aljubarrota, ca- 
pitaneando com êle a ala dos valorosos Namorados. Já . então lhe havia 
D. João I, como Regedor e depois como Rei de Portugal, feito três valiosas 
mercês. A primeira, por carta de 14 de Setembro de 1422 (i384), foi a 
doação da vila de Viana de Caminha, com seus cambões, e da terra da Nó- 
brega, com seus coutos e termos, a qual tinha Fernão Gonçalves de Meira, 
tudo com ambas as jurisdições, salvando só as apelações e agravos, e para 
descendentes por linha direita (2). A segunda foi a de pura doação para 
sempre, para êle e todos seus descendentes legítimos, das terras de Figueiró 
e Pedrógão, com todos seus termos e pertenças, por carta de 2 de Novembro 
do mesmo ano, na qual já é intitulado vassalo (3). A terceira consistiu na 
doação, em préstamo, das rendas, direitos, e frutos novos de Gaia d'apar do 
Porto, por carta dada em Coimbra, pouco depois da aclamação, a 19 de Abril 
de 1423 (i385)(4). Por estes mesmos tempos, mas já no Porto, a 25 de 
Abril, confirmou-lhe de juro e herdade a vila de Viana de Caminha e a terra 
da Nóbrega, com as jurisdições (5). 

Pouco mais tempo teve de vida, pois morreu em Maio de 1387 do feri- 
mento de uma seta ervada durante a expedição daquele ano a Castela, «e 
troverãno a Portugal e hi foi soterrado» (6). O lugar da sepultura foi o con- 
vento velho de S. Domingos de Coimbra, gravando-se no túmulo este epitáfio: 
Aqui ja'{ o nobre escudeiro Rui Mendes Jilho de Gonçalo Mendes de Vascon- 
cellos e de dona Tareja o qual em honra e defendimento destes reinos se 
Jinou a 18 de Maio de 422 (7). A data está evidentemente errada, não só 
por o cronista afirmar ter Rui Mendes morrido na era de 1425, mas porque, 
como acima ficou expresso, ainda em Abril da era de 1423 é mencionado êm 
diplomas régios. 

Rui Mendes de Vasconcelos não casou, mas teve dois filhos bastardos: 
Rui Vasques Ribeiro, de quem adiante me ocuparei; e Pêro Rodrigues de 
Vasconcelos, a quem D. João I, por carta de 9 de Junho de 1426 (1387), con- 
firmou a terra da Nóbrega, a qual Rui Mendes havia de juro e herdade e antes 
de morrer lhe dera (8). Poucos mais dias teve de vida, visto que um mês 



(1) Pág. 345. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. i.°, fl. 48 v. 

(3) Ibidem, fl. 54 v. 

(4) Ibidem, Ú. 102. 

(5) Ibidem, fl. io3 v. 

(6) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, p. II, cap. 1 10. 

(7) Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, 444 mihi. 

(8) Chancelaria de D. João /, liv. 2", fl. i v. 



366 Brasões 

certo depois foi a dita terra da Nóbrega, como veremos, confirmada por sua 
morte a Rui Vasques. Nos diplomas não se menciona parentesco nenhum 
existente entre Rui Vasques e Pêro Rodrigues, mas parece-me evidente terem 
sido irmãos, pelo menos filhos do mesmo pai. 

A Rui Vasques fez D. João I doação, por morte do pai e por carta de 9 
de Junho de 1425 (iSSy), das terras de Viana de Caminha, Figueiró e os 
Pedrógãos, com todas suas rendas, jurisdições, etc. (i), seguindo-se logo, um 
mês certo depois, por morte de Pêro Rodrigues de Vasconcelos, a doação 
da terra da Nóbrega, a única a seu pai pertencente e ainda não possuida por 
êle (2). Pouco tempo andado comprou-lhe D. João I a terra de Viana e já 
o contrato estava realizado em 4 de Abril de 1482 (i3g4), quando de novo 
lhe confirmou todas as terras, tirada Viana (3). Tudo isto se passou durante 
a menoridade de Rui Vasques, de quem foi tutor seu avô Gonçalo Mendes 
de Vasconcelos, que tam más contas deu da sua tutela, como acima vimos. 
Morreu Gonçalo Mendes em 1407 e já então era Rui Vasques casado com 
Ana Afonso, «minha parenta», declara D. João .1 num diploma de 1413 já 
citado. 

Quem fosse esta parente de D. João I, a ninguém, creio, será possível dar 
dela informação segura. A consanguinidade proviria da mãe dei Rei, é o 
mais a que se pode, a que eu posso, chegar. 

Em todos estes documentos citados aparece o filho de Rui Mendes de 
Vasconcelos sempre designado pelo nome de Rui Vasques, sem mais apelido; 
deste tempo porem em diante, isto é, após atingir a maioridade, passou a 
chamar-se Rui Vasques Ribeiro, em atenção, dizem, a haver sido criado por 
sua avó D. Teresa Rodrigues Ribeiro. É possível, visto êle, na realidade, 
ter usado do nome completo do pai dela. Para confirmar a alteração no 
nome aparece a carta de i5 de Fevereiro de 1462 (1414), pela qual D. João I 
fez mercê a Rui Vasques Ribeiro, seu criado, do pão da terra da Nóbrega 
destinado ao seu castelo (4). 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 2.°, fl. i v. 

(2) Ibidem, fl. 3 v. — Fez D. João I todas estas mercês a Rui Vasques, não encontro 
porem referência a nenhuma carta de legitimação e a pelo P.e Sousa indicada, sem citação, 
no vol. XII da História genealógica, pág. 399, com a data de 14 de Agosto de 1430, parece 
não poder ter existido, por isso que, se o ano é o da era dé César, não é provável que Rui 
Vasques já fosse maior e casado em 1445, quando o avô morreu; se ó ano é do Nascimento, 
em 1430 estava Rui Vasques no fim da vida, quando já nenhum proveito poderia tirar da 
legitimação. 

(3) Chancelaria de D. Duarte, liv. 3.», fl. 10, e mais claro, apesar daquele ser o registo 
original, na Chancelaria de D. João II, liv. 6.", fl. 82. 

(4) Chancelaria de D. João 7, liv. 3.», fl. 167. 



Vasconcelos 36j 

Não sei quando Rui Vasques Ribeiro enviuvou, mas sei que em 8 de Maio 
de 1423 já estava outra vez casado. Era então sua mulher D. Violante de 
Sousa, e no referido dia declarou Rui Vasques em escritura pública, feita na 
sua terra de Figueiró, que ao desposá-la lhe prometera três mil e quinhentas 
coroas de oiro de dote e arras e vinha agora garantir-lhas, dando-lhe em 
penhor o dito lugar e seu termo, a fim dela haver as suas rendas até ser paga, 
com a condição porem de logo após integral pagamento entregar a terra aos 
herdeiros de seu marido. Confirmou el Rei este contrato por carta de 9 de 
Junho do ano do Nascimento de 1423(1). Era D. Violante de Sousa filha 
bastarda de D. Lopo Dias de Sousa, mestre de Cristo. 

Foram os dois cônjuges sepultados na capela mor da igreja de S. João 
Baptista de Figueiró, em um túmulo de pedra levantado sobre dois lióes 
e nele esculpidas suas armas e gravado o seguinte epitáfio, em caracteres 
góticos: 

Aqui jaz o muito hõrado caualeiro Ruy Vaasqs filho de Ruy Meedes de Vascõ- 
celos neto de G" Meedes e de dona Tareja Ribeira e do/na Violãte de Sousa 
sua molher f* de dõ Lopo Dias M"-" de xps neta de Alv° Dias de Sousa e de dona 
M* irmaa da rainha dona/ Lianor os quaes mãdou J" Roíz de Vascõcelos seu 
filho erdeiro aqui tresladar era de noso S»" Jhú xpo de mil CCGG Lvj aiíos/ (2). 

A data é a da trasladação, pois que já em 1435, como veremos, era Rui 
Vasques Ribeiro finado. 

As armas estão em dois escudos. Num são as de Rui Vasques assim; 
cortado: no I quatro faxas veiradas (é o que a escultura quere representar); 
no II quatro palas. No outro escudo as de D. Violante: partido: o I das 
armas do marido; o II cortado das quinas do reino, postas porem em aspa, 
sobre uma caderna de crescentes. Não teem timbres, nem elmos. 

O escudo de D. Violante, na parte propriamente da sua família, está 
bem. São metade das armas dos Sousas chamados de Arronches, sem a 
bordadura dos castelos no quartel das quinas; disto não há só este exemplo, 
dois outros lá acima ficam apontados. Agora no escudo de Rui Vasques é 
que há lugar para reparos. 

O I quartel é dos Vasconcelos. O desenho está tosco, as faxas parecem 
mais carnéleas (3) do que veiradas, mas é o dos Vasconcelos, com quatro 



(i) Chancelaria de D. João 7, liv. 4.", fl. 63. 

(2) Combinando a transcrição um tanto livre, como todas, do P.c Luís Montês Matoso, 
nas suas Memorias sepulchraes, fl, 154 v., com uma reprodução que se encontra, com alguns 
«rros, na pág. 36 da Arte portuguesa. 

(3) Gamélea é como o bacharel António Rodrigues traduz o francês crénelé em uma 



368 Brasões 

faxas cm vez de três, e assim mesmo as vemos na igreja da Graça de San- 
tarém no túmulo do i.° Conde de Penela, parente deste Rui Vasques, e na Sé 
de Évora na capela de Joane Mendes de Vasconcelos, do Esporão. Não há 
pois dúvida, são as dos Vasconcelos, e por aqui se conhece haverem alguns 
deles, se não todos os antigos, trazido no escudo quatro faxas em lugar de 
três somente. 

No II quartel são as armas chamadas dos Ribeiros: em campo de oiro 
quatro palas de vermelho. Estou persuadido que neste quartel também há 
uma peça a mais em relação às armas modernas, e que, assim como no I 
vieram a ser só três* faxas^ também o II só a três palas foi reduzido. No 
Livro do Armeiro mor, na fl. 66^ estão as armas dos Ribeiros, e é o escudo 
esquartelado: o I e IV de oiro, três palas de vermelho, o II e III de negro, 
três faxas veiradas de prata e vermelho. No Livro da Torre do Tombo tam- 
bém elas estavam na fl. i3, esta porém é uma das roubadas. Exactamente 
iguais ao desenho do primeiro livro citado, aparecem as armas em cartas de 
brasão de lo de Maio de i53o, i3.de Novembro de i536, 20 de Maio de i538, 
i5 de Julho de 1542, 4 de Dezembro de 1344,. e 17 de Setembro de ib^b (i). 
Encontram-se contudo as armas dos Ribeiros com quatro palas no 1 quartel 
no teto da sala de Sintra, em cartas de brasão de 12 de Março e 25 de 
Outubro de i568, e 25 de Março de 1569(2), e em vários autores heráldicos. 
E tudo mais moderno, e menos digno de confiança. Em todos os casos o 
escudo esquartelado das faxas e das palas, quer com três, quer com quatro 
peças, é privativo dos Vasconcelos Ribeiros da casa dos Senhores de Figueiró 
e da dos Alcaides mores de Pombal; o que não impede de se terem conce- 
dido' cartas de brasão com aquelas armas a todo e qualquer sujeito que se 
chamasse Ribeiro, ou tivesse algum avô deste apelido. 

De Rui Vasques Ribeiro e D. Violante de Sousa parece ter sido único filho 
varão João Rodrigues Ribeiro, 3.° senhor de Figueiró e Pedrógão, terras que, 
juntamente com a da Nóbrega, D. Duarte lhe confirmou, por morte de seu 
pai, por carta de 17 de Janeiro de 1435 (3), posteriormente confirmada por 
D. Afonso V e D. João II, respectivamente em 3o de Março de 1450 e i5 de 
Janeiro de 1482,"* com exclusão da terra da Nóbrega já então vendida (4). 



carta de brasão, de 16 de Maio de i520, registada no liv. 6." de Místicos, fl. 174. v. — Nós 
temos- a palavra ameado, que corresponde bem ao francês, tratando-se de muros e torres; 
em heráldica porem dever-se-há atender à autoridade daquele Rei d'armas. 
(i) Armaria portuguesa, ^à^s. /j3o e 43i. • , 

(2) /£»íiie7/i, págs. 43 1 6432. , 

(3) Chancelaria de D. Duarte, liv. 3.°, fl. 10. . 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 6.", fl. 82, ^ 



Vasconcelos 369 

Nestes diplomas dá-se-lhe o nome. de João Rodrigues Ribeiro e o mesmo se 
fez na carta, de 18 de Outubro de 1456, de venda da terra da Nóbrega e renda 
do pão do seu castelo (i), e noutra do ano de 1489 de dez mil reais brancos 
de tença a D. Erjinca sua mulher (2); nos documentos a seguir indicados apa- 
rece porem nomeado João Rodrigues de Vasconcelos. 

Por escritura de 29 de Abril de 1475, feita na vila de Figueiró, terra de 
João Rodrigues de Vasconcelos, do conselho dei Rei, dentro em a. sua torre, 
estando êle aí e sua mulher D. Branca da Silva, vincularam certos bens a 
uma capela por eles instituída pela alma de Tomás de Sousa, e nomearam-na 
em seu filho Pêro de Sousa [Ribeiro] e em seus descendentes, inclusive o 
bastardo, contanto que seja «são de entendimento, e sendo aleijado do entender, 
como às vezes aquece, não herde». Teve confirmação régia em 10 de Outubro 
de 1476(3). ^ 

Parece ter servido na expedição de Castela, pelo menos em Toro foram- 
-Ihe dadas duas cartas, uma em 5 de Maio de 1476, de mercê do serviço velho 
e novo dos Judeus de Figueiró e Pedrógão (4), e outra a 8 de Dezembro do 
mesmo ano, de privilégios de couto e honra para a sua quinta da Guarda e 
feira da Mouta Santa, acerca do Rabaçal (6). Se desta ida ao próximo 
reino tenho dúvidas, certeza tenho porem de João Rodrigues Ribeiro haver 
servido na expedição e tomada de Alcácer em Africa no ano de 1458, sendo-me 
o facto revelado por um documento interessante. 

Gostava o fidalgo, como todos do seu tempo, de toirear; mas, em resul- 
tado desta inclinação, sobreveio-lhe uma vez grave desgosto. Uns cinco anos 
antes do de 1458, correndo-se um toiro em Figueiró, lançou-lhe João Rodri- 
gues uma garrocha de ferrão, a qual por infelicidade foi cravar-se na perna de 
um moço, que por ali perpassava. Esteve o desgraçado doente seis meses, e 
ao cabo deles, recrudescendo o mal, finou-se. A justiça rial, honra lhe seja, 
não olhando à graduação social do réu, mandou tirar uma inquirição de tes- 
temunhas sobre o caso. Temeu-se João Rodrigues, apesar de protestar haver 
dado o ferimento «per cajom e sem sua culpa», e de não haver queixosos, e 
aproveitou o indulto geral prometido aos criminosos, que fossem servir à 
expedição de Alcácer e para lá partiu com D. Afonso V, que lhe perdoou a 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 6.°, fi. 83 v. 

(2) Ibidem, liv. 26.", fl. 48 v., incompleta, sem a data, mas pelo teor consta ser do ano 
indicado. 

(3) Ibidem, liv. 2.», fl. 143 v. 

(4) Ibidem, liv. 6.°, fl. 83 v. 

(5) Ibidem^ liv. 21.", fl. 144 v. — Neste documento a designação do sítio da feira está 
claramente escrito Monta (momta) Santa. D. João II confirmou tudo por carta de i3 de 
Junho de 1486, «tirando o pescar». 

voL. 1 47 



Syo Brasões 

culpa por carta de 21 de Outubro de 1468, dada na própria vila recém con- 
quistada (i). 

Do casamento dè João Rodrigues de Vasconcelos e D. Branca da Silva, 
que também em alguns documentos aparece com o apelido de Meneses, nas- 
ceram, entre outros. Rui Mendes de Vasconcelos, de quem a seguir tratarei, 
e Pêro de Sousa Ribeiro, que irá no capítulo seguinte. 

Rui Mendes de Vasconcelos foi 4.° senhor de Figueiró e Pedrógão (2), 
alcaide mor e capitão de Penamacor (3), e avô doutro Rui Mendes de Vas- 
concelos 6.° senhor daquelas vilas (4). Alcançou este, por alvará de 22 de 
Março de i553, autorização para sua casa passar a sua segunda filha (5), 
deserdando a primeira, D. Maria de Vasconcelos, por ter casado a furto com 
um Vasconcelos seu parente, Diogo de Sousa, de quem teve o i." Conde de 
Castelo Melhor. 

A filha preferida do $.° Senhor de Figueiró chamava-se D. Joana de Vas- 
concelos e foi-Ihe confirmado o senhorio de Figueiró e Pedrógão, por morte 
do pai e por carta de 19 de Agosto de i557(6), antes de ser casada com 
Luís da Alcáçova Carneiro, filho primogénito do Conde da Idanha. Este 
casamento só se efectuou depois das mortes, não só do pai, como também 
do cunhado de D. Joana, porque, em vida deste, o acima nomeado Diogo de 
Sousa, ninguém em Portugal se atreveu a casar com ela, por ser êle um 
fidalgo muito valoroso e ameaçar de morte a todos que o tentassem (7). Rea- 
lizado o casamento, nasceu primogénito Pedro da Alcáçova de Vasconcelos. 
Veio êle a ser o 8.° senhor de Figueiró e Pedrógão, senhorios que passaram 
a sua filha D. Ana de Vasconcelos e Meneses, condessa de Figueiró pelo seu 
casamento com Francisco de Vasconcelos, 1 .° conde de Figueiró, dos Vascon- 
celos do Esporão, aos quais pertencerá o capítulo V. 

Foi Pedro da Alcáçova de Vasconcelos casado com D. Maria de Meneses 
e, nos primeiros anos do século xvii, fundaram, na sua vila de Figueiró, o 
convento de Nossa Senhora do Carmo da Ordem dos Carmelitas Descal- 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 36.°, fl.gS. 

(2) Foram-lhe confirmadas as duas vilas por cartas de 14 de Maíço de 1489, feita esta 
por Fernão de Pina, e de 21 de Julho de 1496. — Chancelaria de D. Manuel, liv. i3.», fl. i. 

(3) Cartas de 24 e 28 de Julho de 1486. — Chancelaria de D. João 11^ liv. 4.°, fl. 1 1 1. 

(4) Carta de confirmação de 16 de Abril de 1539. — Chancelaria de D. João III, liv. 26.* 
de Doações, fl. 1 to v. — Ao pai dele, João Rodrigues de Vasconcelos, haviam sido os mesmos 
senhorios confirmados por cartas de 14 de Janeiro de i5oo e 22 de Agosto de i528. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 65.» de Doações, fl. 334. 

(6) Ibidem. 

(7) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário genealógico, II, 5 1 1 mihi. 



Vasconcelos 3j i 

*ços(i). Neste convento foram sepultados, não só os fundadores, como sua 
filha e genro, e dos seus epitáfios encontro esta memória: Sepultura de 
Pedro da Alcaçopa de Vasconcellos, Senhor que foi das villas de Figueiró e 
Pedrógão, casado com D. Mareia de Meneses, o qual falleceu aos j3 de Se- 
tembro de j6ij e mandou fa\er sua Jilha D. Anua de Vasconcellos e Meneses, 
Condessa de Figueiró em seu testamento. Sepidtura da Senhora D. Maria 
de Meneses mulher que foi do Senhor Pedro da Alcáçova de Vasconcellos, 
Senhor das villas de Figueiró e Pedrógão, que falleceu a i8 de Outubro de 
i63g, e o mandou fa\er sua filha a Senhora D. Atina de Vasconcellos e Me- 
neses, Condessa de Figueiró em seu testamento. Sepultura de D. Francisco 
de Vasconcellos, Conde de Figueiró, casado com a Senhora D. Anua de Vas- 
concellos e Meneses, Condessa de Figueiró, e a mandou fa:{er a dita Senhora 
Condessa sua mulher. Sepultura da Senhora D. Anua de Vasconcellos e 
Meneses, mulher que foi de Francisco de Vasconcellos, Cotide de Figueiró e 
Senhor da mesma villa e da do Pedrógão, filha do Sr. Pedro da Alcáçova 
de Vasconcellos e da Senhora D. Maria de Meneses, Senhores que forão das 
mesmas villas de Figueiró e Pedrógão, a qual no seu testamento mandou 
fa\er estas sepulturas a que deu cumprimento seu testamenteiro por sentença 
dos residuos da Cidade de Lisboa no anno de iyo5{2). 

A esta senhora D. Ana de Vasconcelos e Meneses dedicou o dr. João 
Salgado de Araújo, protonotário apostólico, abade das igrejas de Pêra e co- 
missário do Santo Ofício, o seu opúsculo intitulado Svmario de la familia 
ilustríssima de Vascojicelos, historiada, y con Elogios. Dirigido a la ilvs- 
trissima senora dona Ana de Vasconcelos y Meneses, Condesa de Figuejrò, 

y senora de las villas de Pedrogoji, y Villanueua de Frascoa, mayora\go 
de Esporou, y otras. Con licencia dei Conseio, En Madrid, por luan San- 
chez. Ano M. DC. XXXVIII. 4.° de vi n. n.-68 fls. numeradas pela frente. 
E opúsculo de nenhuma vaha histórica, quanto aos tempos antigos, e de muito 
pouca em relação aos contemporâneos. 

De Rui Mendes de Vasconcelos, 4.° senhor de Figueiró, foi filho segundo 
Pedro da Silva de Vasconcelos, avô doutro Rui Mendes de Vasconcelos, 
I." conde de Castelo Melhor, por carta dada em Madrid a 21 de Março de 
161 1 (3). Havia sido partidário decidido de Felipe II na ocupação de Por- 



(1) Fr, Belchior de Santa Ana, Chronica dos Carmelitas Descalços, tom. I, pág. SgS, 
cap. 3o. 

(2) P.e Luís Montês Matoso, Memorias sepulchraes, fls. i55 e i56. 

(3) Havendo respeito aos serviços que Rui Mendes de Vasconcelos, do meu conselho 
de Estado, fez a el Rei meu pai em negócios de importância e confiança, que se lhe encar- 



372 Brasões 

tugal, merecendo-lhe a carta de 7 de Março de 1584, pela qual, havendo res- 
peito aos seus serviços na matéria da sucessão do reino e ao bom modo com 
que nele procedeu, lhe fez doação de juro e herdade das vilas de Valhelhas 
e Almendra, com as jurisdições (1). Foi alcaide mor da Covilhã e Penamacor, 
capitão de Tânger (2), do conselho de Estado e mordomo da Rainha D. Mar- 
garida de Áustria, e morreu a 3 de Fevereiro de 1618 (3). «Fue muy enten- 
dido, y grande Cortesano, sus palabras y conversacion eran de rara agudeza, 
y muy sentenciosas» (4). Este Conde, achando-se unicamente com filhas, 
obteve licença régia para nomear sucessor à sua casa seu parente Francisco 
de Sousa e Vasconcelos, alcaide mor de Pombal, com a condição de casar com 
sua neta, D. Mariana de Lancastre. Morreu porem Francisco de Vasconcelos 
antes de efectuado o casamento, e seu irmão e sucessor na casa, João Ro- 
drigues de Vasconcelos e Sousa, foi ainda substituído na vocação, casou com 
I). Mariana e foi 2.° conde de Castelo Melhor, como veremos. 



IV 

ALCAIDES MORES DE POMBAL 
CONDES E MARQUESES DE CASTELO MELHOR 

De João Rodrigues Ribeiro, 3." senhor de Figueiró, foi filho segundo Pêro 
de Sousa Ribeiro, alcaide mor e comendador de Pombal na Ordem de Cristo. 

A favor deste filho haviam seus pais instituído, no ano de 1475, uma ca- 
pela a qual lhe foi confirmada por carta de 5 de Maio de 1496(6). Antes 
disso havia o pai, João Rodrigues de Vasconcelos (6), traspassado neste filho 



regaram no tempo de sua sucessão naquele reino [de Portugal] e aos anos que há, que serve 
a Rainha, minha mulher, de seu mordomo e a satisfação com que o faz, e desejando por 
tudo isto e pela calidade de sua pessoa e casa, etc. Carta do título de conde da vila de 
Castel Melhor, da gual êle é donatário etc. — Chancelaria de Felipe II, liv. 23.'» de Doações, 
fl. 272. 

(i) Chancelaria de Felipe /, liv. 5.° de Doações, fl. 219. 

(2) Não há dúvida de Rui Mendes de Vasconcelos haver sido capitão de Tânger, assim 
o declara terminantemente um alvará de 12 de Setembro de i63i logo citado. 

(3) P.e Sousa, Historia genealógica, XII, 410. 

(4) Salgado de Araújo, Sumario de Vasconcelos, fl. 65 v. 

(5) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 27.°, fl. 79. 

(6) Repeti aqui o nome de João Rodrigues com o apelido de Vasconcelos, pois com êle 
aparece neste documento, encontrando-se no precedentemente citado com o de Ribeiro. 
Era indistintamente nomeado com qualquer dos dois apelidos e até, caso curioso, no mesmo 
diploma, p. ex.: D. João 11 confirmou, em 1482, a João Rodrigues de Vasconcelos a carta 
de padrão de 9.000 rs. concedida por D. Afonso V, em 1460, a João Rodrigues Ribeira — 
Chancelaria de D. João II, liv. 6.», fl. 83. 



Vasconcelos SyJ 

uma tença de vinte e cinco mil reais brancos, a qual foi confirmada a Pêro 
de Sousa Ribeiro, já então fidalgo da casa dei Rei, por carta de 12 de Maio 
de 1487 (i). A mãe veio ele a suceder nos casais de Ansião, que por sua 
morte lhe foram prometidos, por carta de 20 de Fevereiro de 1493 (2); e final- 
mente herdou do pai a quinta da Guarda e a feira da Mouta Santa, cujos 
privilégios lhe foram confirmados por carta de 10 de Maio de 1497 (3). As 
suas tenças trocou Pêro de Sousa Ribeiro com D. Manuel pela alcaidaria 
mor de Pombal e outras rendas na vila; mas reconheceu-se haver êle pre- 
juízo e foi-Ihe compensado por uma tença de doze mil reais brancos, consi- 
gnada numa carta de padrão de 8 de Outubro de i5oi, na qual é intitulado 
do conselho dei Rei e alcaide mor de Pombal (4). Foi sepultado no pavi- 
mento da capela do Santo Sepulcro da igreja de Santa Maria do Castelo de 
Pombal, gravando-se na campa o seguinte epitáfio: Aquija:{ Pêro de Sousa 
Ribeiro e D í Joana de Lemos sua uf^ Faleceo no atino de j5o2{b). Há erro 
nesta data pois êle ainda vivia, como veremos, em fins de i5o5. 

D. Joana de Lemos era filha de Gomes Martins de Lemos, senhor da 
'Trofa, e ainda vivia em i5i4, tendo por ela recebido uma sua tença deste 
ano seu filho Lopo de Sousa Ribeiro (6). 

Pêro de Sousa Ribeiro foi um dos poetas palacianos de mais nomeada, 
não tanto talvez pela qualidade das composições, como pela quantidade; a 
seguinte Cantiga não deixa contudo de ter poesia: 

* Aperfya meu cuydaUo 

comyguo, sem me deyxar,, 
tanto, que seraa forçado, 
se dura, de me matar. 



(i) Encontro mais três tenças registadas a favor de Pêro de Sousa Ribeiro: uma de 
3o.ooo rs. por carta de 8 de Janeiro de 1485, feita por Pantalião Dias; outra de i5.ooo rs., 
por carta de 27 de Março de 1493; e a terceira de i5 moios de pão, lo de trigo e 5 de se- 
gunda, a qual lhe dera D. Manuel em sendo Duque, e lha confirmou por carta de 24 de 
Abril de 1497. Esta está registada no liv. 3." da Chancelaria, fl. n3 v., e as outras três, 
contando com a do texto, foram todas con^rmadas por cartas de 5 de Maio de 1496, regis- 
tadas no liv. 27.°, fls. 83 e 83 v. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. i3.°, fi. 36 v.' 

(3) Ibidem, \iv. 12.», fl. 16. 

(4) Ibidem, Wv. 38.", fl. 91. 

(5) D. António Caetano de Sousa, Memorias sepulchraes, fl. i83 v. 

(6) Por desembargo de 12 de Setembro de i520 foi mandado pagar a Lopo de Sousa 
Ribeiro 60.000 rs. das tenças dos anos de i5i3 e i5i4que sua mãe D. Joana de Lemos havia 
da Excelente Senhora (Lousada, Sumários., I, 353 v.). Este Lopo de Sousa Ribeiro foi pro- 
genitor de um obscuro ramo de Vasconcelos em Pombal, já extintos na varonia, segundo 
creio. 



374 Brasões 

Nunca me deyxa tristeza^ 
de a ter tenho rrezam, 
poys vejo meu coraçam 
contra mym em tal firmeza. 
Fazme ser desesperado 
tal vyda sem esperar, 
tanto, que seraa forçado, 
se dura, de me matar. (/i. jg3, col. i.) 

Grande celeuma provocaram na corte uns apodos por ele dirigidos «a 
estes casados abaixo nomeados, que andava damores, e partiasse elrrey c5 
a rrainha pêra Almeirim». Passou-se o caso no outono de i5o5(i) e vieram 
os casados, desesperados por lhes descobrirem o jogo, e outros solteiros 
apodar a Pêro de Sousa Ribeiro, «em paguo destas trovas que fez por seus 
pecados». Começou João Fogaça por lançar um pregão em nome do Cor- 
regedor da corte; 

Pague três mil em dinheiro 

quem daqui atee janeyro 

em outra cousa falar, / 

se nam em rryr x trovar 

Pêro de Sousa Ribeyro. 

A quem souber envençam, 

jeytos, trajos x gybam 

dilo aa loguo sso pena 

de paguar aquela pena 

que sse contem no rrifam. 

E como passar janeyro 

poderaa qualquer obreyro ' 

dy avante trabalhar, 

que nã manda mays goardar 

Pêro de Sousa Ribeyro. (ji. 772, col. 3.) 

Até fizeram tomar parte nos motejos às donzelas da infanta D. Beatriz, 
mãe de D. Manuel, e às damas da rainha D. Leonor, viijva de D. João II, 
e quem por elas trovou, por elas de certo inspirado, foi cruel. Disseram as 

donzelas: 

Avemos dele gram doo 
fidalguo velho x onrrado, 
em triste dia minguoado, 
naceo ele em Figueyroo. 

(1) Na Critica e historia, pág. 188, marquei o tempo para a composição destes apodos 
entre 12 de Dezembro de 1499 e 3o de Setembro de i5o6; agora porem, posso precisar a 
data, pois sei que dentro daquele período só em Outubro de i5o5, fugindo à peste, se 
ausentara a corte para Almeirim. As averiguações cronológicas sobre o itinerário da corte, 
a que tive de proceder para a Vida de Gil Vicente, deram-me aquele conhecimento. 



', Vasconcelos 3jS 

Loguo disse hu feiticeiro 

que avia num janeiro 

hú gram trabalho passar 

que er escusado criar 

Pêro de Sousa Ribeiro. (/i. jyji, col. 3.) 

As donzelas, raparigas novas, encareceram na sua idade, que não devia 
ser muito avantajada; vieram a seguir as damas sisudas e atacaram o físico: 

A todas muito nos pesa, 
por assy sser esta cousa, 
triste de Pêro de Sousa, 
que tomou tã maa empresa. 
Com sseu olho rremeleyro 
T na mão o sseu babeyro, 
ca o viamos entrar 
antes do demo tomar 
Pêro de Sousa Ribeyro. (fi. 1^3, col. 3.) 

\ Pobre Pêro de Sousa Ribeiro ! sucedeu-te como a muitos outros, foste 
buscar lã e vieste tosquiado. 

Passou ele a sua vida na corte, só se ausentando dela para estar em 
Pombal e é. desacerto grande confundi-lo com Pêro de Sousa, enviado por 
Afonso Y a França a notificar a Luís XI a sua partida para lá (1). Este era 
o que foi em Castela alcaide de Seabra e em Portugal vedor da caga de 
Afonso V. 

De Pêro de Sousa Ribeiro e D. Joana de Lemos foi trineto Luís de Sousa 
de Vasconcelos, 4.° alcaide mor e comendador de Pombal (2). Casou com 
D. Maria de Moura, dama da rainha D. Margarida de Áustria, filha de Fernão 
Rodrigues de Almada, provedor da Casa da índia (3) e neta de Rui Fernandes, 
o famoso feitor em Flandres e hábil diplomata nas cortes do norte (4). Deste 
consórcio nasceram, entre outros, Francisco de Sousa de Vasconcelos e João 
Rodrigues de Sousa e Vasconcelos, ou João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa, 
como passou a chamar-se depois de suceder na casa de Castelo Melhor. 

Francisco de Sousa e Vasconcelos sucedeu a seu pai na alcaidaria mor e 



(i) Pina, Chronica de D. A/ouso V, pág. 567. 

(2) Confirmada a comenda por carta de 14 de Março de 1 597. — Chancelaria da Ordem 
de Cristo^ liv. 1 1.», fl, 418. 

(3) Pelos muitos serviços de Fernão Rodrigues de Almada, que Deus perdoi, foi dado, 
em 16 de Junho de iSgS, um alvará de lembrança a Luís de Sousa e Vasconcelos casado 
com D. Maria de Moura, filha de Fernão Rodrigues, para a comenda e alcaidaria mor de 
Pombal ficarem por seu falecimento a seu filho mais velho, — Ibidem, liv. i3.», fl, 3oi v. 

(4) Cfr. Noticias da Feitoria de Flandres, passim. 



376 Brasões 

comenda de Pombal por cartas de 7 de Outubro de 1616(1); pouco tempo 
porem gozou delas, porque já em 1621, por sua morte, foram dadas a seu 
irmão João por cartas de 6 de Setembro, atendendo a ficar sua mãe pobre 
e com muitos filhos (2). 

Havia Rui Mendes de Vasconcelos, i.° conde de Castelo Melhor, em 
atenção aos seus muitos serviços no tempo das alterações do reino e sucessão 
dele, e quando foi capitão de Tânger, e no cargo de mordomo de Felipe II e 
da Rainha sua mãe, alcançado um alvará régio para poder nomear a sua casa 
e título em um seu parente, com a condição de casar com uma sua neta por 
êle escolhida. Nomeou em pritneiro lugar a Francisco de Vasconcelos e, no 
caso dele falecer, a seu irmão João Rodrigues, para lhe sucederem na casa, 
casando com sua neta D. Mariana de Lancastre (3). Morreu Francisco de 
Vasconcelos, sucedeu-lhe na pretensão seu irmão João, mas sobrevieram 
vários pretendentes à sucessão da casa: o conde da Calheta João Gonçalves 
da Câmara, neto do i.° Conde de Castelo Melhor, a Condessa da Calheta, 
mãe do Conde, e o Procurador da Coroa; todos porem, ao cabo de anos de 
duração da demanda, foram excluídos por sentença do Juizo da Coroa e 
Casa da Suplicação. Então, treze anos depois da morte do Conde de Cas- 
telo Melhor, foi dado em Madrid, a 12 de Setembro de i63i, um alvará a João 
Rodrigues de Vasconcelos e Sousa a fim de nele haverem efeito, conforme 
a nomeação do Conde, as mercês a este concedidas, com a condição, para 
evitar a revista da sentença e facilitar a entrada imediata, logo após a cele- 
bração do casamento, na posse dos bens, de pôr em Pernambuco uma com- 
panhia de trezentos homens lá pagos à sua custa durante seis meses. Ainda 
se protraiu por mais alguns anos a decisão definitiva da sucessão, até que, 
em virtyde de João Rodrigues de Vasconcelos ter largado à fazenda rial cinco 
contos e tanto do depósito das comendas do Conde de Castelo Melhor, para 
se desobrigar dos trezentos homens a enviar a Pernambuco, e visto estar 
casado com D. Mariana de Lancastre, foi-lhe dada a carta de 18 de Julho 
de i635 do título de conde de Castelo Melhor, em sua vida (4), seguindo-se 
àquele diploma outros de doação das terras de Valhelhas e Almendra, da alcai- 
daria mor de Penamacor, etc. 

Num papel de diferente leti*a intercalado no tom. II do Nobiliário de 



(i) Chancelaria da Ordem de Cristo, liv. iS.», fls. 55 e 56. 

(2) Ibidem, liv. 22.», fls. 34 v. e 35. 

(3) Não encontrei registado nem transcrito o respectivo alvará de mercê ao Conde de 
Castelo Melhor; depreende-se porem o que digo no texto do teor do alvará passado em 
Madrid, a 12 de Setembro de i63i, adiante citado. 

(4) Chancelaria de Felipe III, liv. 26.« de Doações, fl, 258, 



Vasconcelos 877 

D. Jerónimo de Ataíde da biblioteca de Castelo Melhor, escrito por pessoa de 
casa entre os anos de i653 e 1667 e portanto muito antes da composição do 
Portugal restaurado, lêem-se as seguintes notas biográficas por mim há 
tempos copiadas: 

«Saiu João Rodrigues de Vasconcelos a servir no ano de 38 por soldado 
da companhia de seu irmão Nicolau de Sousa, de que era general D. Fer- 
nando Mascarenhas, conde da Torre, e .com ele se achou na peleja que 
teve no ano de 40, no mês de Janeiro, com os Holandeses quatro dias nas 
costas de Paraíba; e, indo derrotado parar à índia, sucedeu que em Carta- 
gena foi preso por se querer levantar com os Portugueses, que ali se achavam 
em companhia do general de Portugal D. Rodrigo Lobo, e trazerem a este 
reino os galeões e pelejarem com a frota dos Castelhanos. Tendo isto assim 
disposto, o descobriu um António de Azevedo, capitão de infantaria, filho de 
Tomé de Azevedo, procurador que foi do povo de Lisboa. E preso o dito 
Conde e seus camaradas e criados o condenaram à morte e lhe deram tor- 
mento para efeito de descobrir os cúmplices e, porque negou tudo, sofrendo 
com grande constância, lhe concederam apelação para Castela. Sabendo-se 
em Portugal este sucesso, o mandou el Rei D. João 4.° buscar em uma fra- 
gata a instâncias da Condessa D. Mariana, sua mulher, e tudo se fez com 
tanto acerto que se obrou como desejava, porque o Conde saiu de um cas- 
telo, em que estava preso com sentinelas e rondas, e dous criados, descendo 
pela muralha por uma corda, e se meteu numa lancha que lhe estava preve- 
nida de um navio de corsários holandeses que, arrependidos de haverem rou- 
bado a fragata que ia buscar o Conde, se ofereceram para o trazerem a 
este reino, como em efeito o trouxeram, padecendo grandíssimas tormentas 
e evidentes perigos de poderem dar em terra de Castelhanos, obrigados de 
algum naufrágio (i). Chegou finalmente o Conde a este reino, havendo quatro 
anos que dele saíra. El Rei D. João lhe fez particulares honras e favores, 
respeitando o que tinha padecido por seu respeito, e assim lhe deu a comenda 
de Santa Maria de Beja da Ordem de Avis e o mandou governar as armas 
da província de Entre Doiro e Minho, d'onde tomou a praça de Salvaterra 
de GaHza duas vezes, e da segunda a forteficou e defendeu a um grande 
poder de Galegos e Castelhanos, com que o cardial Spínola, vice rei da Ga- 
liza, o veio investir de noite e de dia várias vezes até que, desenganado à 
custa de muito' sangue, deixou a empresa e fez com que aquela praça, a de 
Salvaterra, que ganharam as armas dei rei D. João, se conservasse em sua obe- 
diência. Depois o mandou el Rei vir governar as armas do Alentejo e o fez 



(i) Todos estes sucessos são narrados, com muitos mais pormenores, pelo Conde da 
Ericeira no Portugal restaurado, I, págs. 174 a 184. 

, VOL. I 48 



378 Brasões 

do seu conselho de Guerra, d'onde assistiu o ano de 46 e querendo surpreender 
a praça de Badajoz o conseguia, se não fora que os que o haviam de ajudar 
lhe faltaram, como foi notório; e dos mesmos inimigos constou, que a praça 
se levara sem dúvida, segundo estava desapercebida. D'aqui o tornou a 
mandar el Rei a governar o Minho com tenção de fazer a guerra em Galiza, 
com poder groço, e ultimamente, no ano de 49, o mandou a governar o 
Brasil, onde foi, levando a seu cargo a armada da Companhia Geral, e foi 
aquela que meteu socorro em Pernambuco, pelejando com os Holandeses, 
depois que lhes ocuparam aquela capitania e, governando o estado do Brasil 
três anos e dez meses, se veio a este reino ("1)». 

Nomeado pela segunda vez governador das armas da província de Entre 
Doiro e Minho, para lá partiu o Conde de Castelo Melhor em 1667, em 
tempo de guerra acesa. Lá morreu a i3 de Novembro do ano. seguinte e foi 
sepultado no convento de Santo António de Ponte de Lima, na mesma capela 
onde jazia sua parenta por Vasconcelos, D. Joana de Meneses, senhora da 
casa de Mafra e viscondessa de Vila Nova da Cerveira (2). 

D. Mariana de Lancastre, condessa de Castelo Melhor, era filha de Simão 
Gonçalves da Câmara, 3.'^ conde da Calheta e 7.° capitão donatário do Fun- 
chal, e de sua segunda mulher, D. Maria de Meneses e Vasconcelos, dama 
da rainha D. Margarida de Áustria, e filha mais velha de Rui Mendes de 
Vasconcelos, i." conde de Castelo Melhor. D. Mariana de Lancastre foi, 
depois de viúva, camareira mor da rainha D. Maria Francisca de Sabóia e 
marquesa de Castelo Melhor, entrando em funções logo após o desembarque 
da Rainha em Agosto de. 1666. Dez anos antes havia morrido sem descen- 
dência seu irmão João Gonçalves da Câmara, 4.° conde da Calheta, e a Con- 
dessa de Castelo Melhor, que d'então por diante se passou a chamar D. Maria 
de Lancastre de Vasconcelos e Câmara, sucedeu, em virtude de sentença, nos 
seus bens e já em 22 de Dezembro de 1667 estava de posse da capitania do 
Funchal (3). Por esta forma vieram a unir-se as duas casas de Castelo 
Melhor e da Calheta, o que Rui Mendes de Vasconcelos pretendera evitar. 

Dos 2.°^ Condes de Castelo Melhor foi filho sucessor Luís de Vasconcelos 
e Sousa, 3.° conde de Castelo Melhor, famoso ministro de Afonso VI e um 
dos mais notáveis homens de Estado de Portugal. Desterrado do reino, 
vítima de uma cabala de corte, para cá voltou só no ano de 1686 em virtude 
de licença de D. Pedro II, «logrando ElRey — diz um contemporâneo — nesta 



(i) Não conservei a ortografia do original, nem mantive a sua pontuação. 

(2) Fr. Pedro de Jesus Maria José, Chronica da provinda da Conceição, tom. II, liv. i.% 
|5i. ... 

(3) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 4.°, fl. 226 v. 



Vasconcelos Syg 

deliberação a aceytaçaÕ commua, porque os signalados serviços, que o Conde 
de Gastei Melhor havia feito a sua Pátria, eraõ merecedores de naõ acabar 
a vida fora dela» (i). Nos seus descendentes se continuaram as casas de 
Castelo Melhor e da Calheta e se repetiram os títulos de conde duma e doutra 
vila (2). A seu filho primogénito, José de Caminha de Vasconcelos e Sousa, 
4.° conde de Castelo Melhor, foi feita mercê do título de marquês da mesma 
vila, de juro e herdade, com duas vidas fora da Lei Mental, por carta de 2 
de Outubro de 1766, em troca das capitanias das ilhas da Madeira e de Santa 
Maria, com as suas jurisdições (3). 

O 5." e último marquês de Castelo Melhor, João de Vasconcelos e Sousa 
Câmara Caminha Faro e Veiga (4), morreu em 1 1 de Janeiro de 1878, deixando 
descendência legitimada, pelo que a representação da casa passou a sua irmã, 
a 6.* Marquesa, já defunta, e desta a sua filha a senhora Viscondessa da Vár- 
zea (5). A representação da casa de Castelo Melhor perdeu a sua antiga 
varonia de Vasconcelos, esta porém ainda se conserva em alguns parentes 
do falecido Marquês, um dos quais é o actual Conde de Figueiró. Não valeu 
a Rui Mendes de Vasconcelos, 6.° senhor de Figueiró, excluir da sucessão 
dá sua casa aos Vasconcelos, posteriormente condes de Castelo Melhor. Na 
casa não entraram eles, mas com o título já teem sido enobrecidos dois: o 
actual, e anteriormente Luís José de Vasconcelos e Sousa, por despacho de 
17 de Dezembro de 1808(6), filho segundo do i.° Marquês de Castelo Melhor 
e vice rei do Brasil, falecido em 1809. 

As armas do i.° Conde de Castelo Melhor foram unicamente as dos Vas- 
concelos; as do 2.° e 3.° eram esquarteladas: o I e IV dfe negro, três faxas 
veiradas de prata e vermelho; o II das armas do reino; o III de vermelho, 
caderna de crescentes de prata. São as armas dos Vasconcelos e metade 
das dos Sousas de Arronches. Posteriormente, absorvida a casa da Calheta, 



(i) Conde da Ericeira, Portugal restaurado, II, 876. 

(2) Afonso de Vasconcelos e Sousa, filho primogénito do 3.° Conde de Castelo Melhor, 
foi o 5." conde da Calheta, por carta de 27 de Junho de 1690, em verificação de uma das 
vidas que sua casa tinha (Doações de D. Pedro II, liv. 20.°, fl. 33y). 6." Conde da Calheta 
foi seu neto António de Vasconcelos e Sousa, por carta de 3 de Outubro de 1766 {Mercês 
de D. José, liv. 3.», fl. 3i5 v.); 7.° conde, o primogénito do 2.» Marquês de Castelo Melhor, 
despacho de 6 de Maio de 1793 {Gajeta, de 11). 

(3) Mercês de D. José, liv. 3 °, fl. 3i5. 

(4) Decreto de 6 de Abril de 1859. 

(5) Em seu marido o Visconde da Várzea, foi renovado o título de marquês de Castel» 
Melhor. 

(6) Ga^neta de Lisboa^ de 21 de Abril de 1809, !.• Supplemento. 



38o Brasões 

traziam o escudo partido: o I de Vasconcelos; o II de Câmaras, de negro 
torre de prata entre dois lobos assaltantes de oiro, tudo disposto sobre um 
cabeço cosido de verde em ponta (i). Ultimamente traziam: esquartelado : 
o I e IV de Vasconcelos; o lí de prata, aspa de vermelho carregada de cinco 
escudetes das armas do reino (Faro); o III de Câmara. Coroa de marquês. 
Timbre: o liâo dos Vascçncelos. 

Assim se viam no soberbo palácio dos Marqueses, em Lisboa, no lado 
poente da actual praça dos Restauradores. O palácio foi adquirido pela 
Companhia Rial dos Caminhos de Ferro Portugueses, juntamente com outros 
terrenos próximos, para neles fazer a estação central de Lisboa e o túnel que 
liga esta com as redes das linhas daquela Companhia. No palácio porém 
nao se boliu, e foi posteriormente cedido pela Companhia ao Marquês da 
Foz. Tudo isto se passou pelos anos de 1889. 

O Marquês da Foz restaurou o palácio, que estava longe de ser ver aca- 
bado, e restaurou-o com aprimorado gosto e rigoroso estilo. Na escada 
monumental, na sala de baile, no hall, na casa de jantar, na livraria, em tudo, 
revelou o Marquês a sua fina capacidade artística. Ali, os quadros, as tape- 
çarias, os mármores, os bronzes, as loiças, a talha, a marcenaria, tudo está 
no seu lugar, tudo é bom, nada discorda, nem vexa com a opulência ruidosa 
de muito ricasso moderno. 

No lugar das armas do Marquês de Castelo Melhor ainda hoje se vêem 
as do Marquês da Foz: escudo esquartelado: o I de azul, cinco flores de lis 
de oiro (Guedes); o II de oiro, fretado de vermelho (Correia); o III esquar- 
telado de prata, com seis crescentes de vermelho, e da mesma, com lião de 
púrpura, armado e linguado de vermelho (Queirós); o IV de azul, lião de 
oiro, armado e linguado de vermelho (Castelo Branco). Coroa de marquês. 
Timbre: penacho de três plumas de vermelho. 

O Marquês da Foz morreu em 29 de Outubro de 1917, tendo vendido o 
palácio em 1908. Acha-se hoje aquela antiga e artística residência transfor- 
mada em casas de jogo, escritórios comerciais, cinematógrafos e lojas, tendo 



(i) As armas dos Câmaras foram concedidas a João Gonçalves de Câmara de Lobos 
por carta de 4 de Julho de 1460 {Armaria portuguesa, 104). Com as armas deu-se-lhe o 
apelido. Parece pois não poder haver diferenças neste brasão, pois há-as e grandes. No 
Livro da Torre do Tombo, fl. 41, vem este escudo com o campo de verde, a torre coberta 
de prata e cruzada de oiro, os lobos de sua côr, e sem o cabeço em que tudo deveria assentar. 
E não aparece só neste livro o escudo por esta forma, mas também assim se encontra numa 
carta de brasão de 18 de Julho de i533 (liv. 45.° de Doações de D. João III^ fl. 52 v.). Mais 
ainda : os Condes da Ribeira Grande, também Câmaras, usam as armas e creio que sempre 
as usaram com estas diferenças, e mesmo não sei, se os próprios Condes da Calheta e os 
Castelos Melhores seus sucessores assim o não fariam. 



Vasconcelos 38 1 

uma delas, com consentimento do actual proprietário e cumplicidade de um 
arquileto, destruído, com ornamentos de péssimo gosto, a harmónica, regular 
e majestosa fachada. 

Das casas de Figueiró e de Castelo Melhor saíram vários ramos: uns que 
viveram no Pombal, outros na corte, e entre estes uma curta varonia da casa 
de Lumiares, e as dos Condes das Alcáçovas, dos Marqueses de Belas e dos 

Condes da Figueira. 

* 

Conta o P.^ António Cordeiro na Historia Insulana (i), que el Rei man- 
dara à Madeira quatro fidalgos para casarem com as quatro filhas de João 
Gonçalves Zarco, o i." capitão donatário do Funchal, sendo um deles Martim 
Mendes de Vasconcelos. Não se sabe ao certo cujo filho fosse, supondo-se 
ser dos verdadeiros Vasconcelos; sabe-se contudo haver-se realizado o casa- 
mento dele com Helena Gonçalves da Câmara, filha do Zarco, e terem pro- 
vindo dos dois os Vasconcelos da Madeira e os dos Açores, de todos os quais 
não sei se ainda a varonia permanecerá lá por aqueles arquipélagos. 

Também é de duvidosa filiação um Mem Rodrigues de Vasconcelos, que 
passou a viver à ilha Graciosa, onde deixou geração. Deste Mem Rodrigues 
foi filha Constança de Mendoça, mulher de Álvaro de Orneias, instituidor do 
morgado do Caniço na ilha da Madeira em 1499. ^^ ^^'-^^ descendentes 
chamaram-se Orneias de Vasconcelos; foi ultimamente seu representante e 
senhor do morgado, o digno par do reino Agostinho de Orneias de Vascon- 
celos, nosso ministro em S. Petersburgo, falecido a 6 de Setembro de 190 1, 
e um dos poucos que lerião esta seca. Se por este seu ascendente, Mem 
Rodrigues de Vasconcelos, se não pode precisar como se entronca a família 
dos morgados do Caniço nos verdadeiros Vasconcelos, por outro avô bem 
mais antigo se sabe, que deles provieram. 

Fernão Fernandes de Dornelas, senhor da torre e quinta do Oiteiro e 
de toda a circunjacente freguesia do Salvador de Dornelas, a qual foi o 
solar e deu o apelido a esta casa, era filho de João Fernandes Franco e 
de Teresa Anes, filha de João Peres de Vasconcelos, o João Tenreiro atrás 
falado. 

As armas antigas dos Orneias eram: de oiro, três flores de lis de ver- 
melho (2). As armas modernas são: de azul, banda cosida de vermelho, car- 
regada de três flores de lis de oiro, postas no sentido da banda que é acom- 



(1) Liv. 3.», cap. 10, § 72, e liv. 6.», cap. 44, § 467. 

(2) Agostinho de Orneias de Vasconcelos na notícia biográfica anteposta às Obras de- 
D. Ayres d'OrneUas de Vasconcellos, arcebispo de Goa, pág. 11. 



382 Brasões 

panhada de duas sereias cosidas de sua côr, com o espelho de prata e o 
pente de oiro(i). Timbre: uma das sereias (2). 

Como os Orneias de Vasconcelos várias outras famílias tem havido deri- 
vadas deste tronco por uma senhora; lembra-me agora dos Almeidas de Vas- 
concelos, condes da Lapa, dos Vasconcelos Leites da casa das Carvalheiras 
em Braga, e dos morgados de Ponteias no campo de Coimbra. 

V 

MORGADOS DO ESPORÃO, CONDES DE FIGUEIRÓ 

«Alvoro Mendez do Flsporao, home bem honrrado e muito bÕ cavaleyro», 
segundo dele escreve um autor contemporâneo de seus filhos (3), é certo 
ter-se chamado de Vasconcelos, como adiante veremos, e ter sido irmão de 
João Mendes de Vasconcelos, como declara um documento (4). Contempo- 
râneos existiram na comarca de Entre Tejo e Odiana dois Vasconcelos (meus 
conhecidos) de nome João Mendes. 

Um, morador em Elvas, era casado com uma irmã de Álvaro de Abreu 
e de Rui de Abreu, os quais lhe haviam dado em casamento com ela uma 
herdade coutada no termo da vila. Consta de uma carta de D. Afonso V 
aos juízes de Elvas, mandando-lhes declarar as coimas consignadas no primi- 
tivo instrumento de couto, pois ao confirmá-lo esquecera apontá-las. A carta 
é de 23 de Março de 1453, o instrumento da vereação designando as coimas 
é de 7 do mês seguinte e a nova confirmação régia só foi dada a 6 de Feve- 
reiro de 1459, sendo mandada livrar «por Fernão da Silveira, seu coudel 
mor, que ora tem cargo por seu especial mandado de escrivão da sua puri- 
dade». Foi finalmente esta carta apresentada por Gonçalo Pereira, cavaleiro 



• (i) Livro do Armeiro nioi', fl. 109, Livro da Torre do Tombo, fl. 23 v., cartas de brasão 
de i5i3 c i533 {Chancelaria de D. Manuel, liv. ii.°, fl, 43 v. e Chancelaria de D. João III, 
liv. 45.° de Doações^ fl. 52 v.). Existe uma carta de brasão de 7 de Agosto de i537 [Chan- 
celaria de D. João III, liv. 23.» de Doações^ fl. gS v.) na qual as sereias se encontram mais 
conformes com as regras heráldicas por serem esmaltadas de oiro. 

(2) Todos os citados na nota precedente menos o Livro do Armeiro mor, que não traz 
timbres. 

(3) Livro das obras de Garcia de Resende que trata da vida e grandissimas virtudes. . . 
do... príncipe elRey dom João o segundo, cap. 144, fl. 91. 

(4) Carta de brasão de 3 de Abril de i533 concedida a Diogo Gil de Vasconcelos, natural 
•de Montemor o Novo, filho legítimo de. . . Leonor Mendes de Vasconcelos e neto de JoSo 
Mendes de Vasconcelos, irmão de Álvaro Mendes de Vasconcelos do Esporão. — Chance- 
Jaria de D. João II J, liv. 45."» de Doações, fl. 63. 



Vasconcelos 38? 

da casa dei Rei, e a ele confirmada, salvo quanto ao caçar e ao pescar, por 
carta de i3 de F'evereiro de 1487, feita por Fernão de Pina, sem se declarar 
como a herdade viera parar à posse do apresentante (i). Álvaro e Rui de 
Abreu eram filhos de Martim Rodrigues de Abreu. O primeiro foi cavaleiro 
da casa do infante D. Henrique e dele há notícia em vários anos entre os 
de 1448 e 146 1 (2). Não creio que este Joane Mendes de Vasconcelos tivesse 
sido o irmão de Álvaro Mendes do Esporão, antes me inclino de preferência 
para o a seguir apontado. 

A 1 1 de Fevereiro de 1450, na casa da Câmara de Elvas, sendo lá reunida 
a vereação, pareceu Joane Mendes de Vasconcelos, morador em Évora, filho 
de Mem Rodrigues de Vasconcelos, e lhes disse, que bem sabiam como seu 
pai havia no termo da vila, onde chamam o Azinhal, uma herdade coutada 
adquirida por compra de Martim Gonçalves do Carvalhal, «seu avô», de 
Joane Mendes parece mais provável, apesar de estar em conflito com a gra- 
mática, e pede para lha defenderem e coutarem, como sempre fora, havia 
mais de cem anos. Concordou a vereação, deu a Joane Mendes o respectivo 
instrumento e este teve confirmação régia em 3o de Março de 1450 (3). No 
caso, muito provável se me afigura, deste Joane Mendes de Vasconcelos haver 
sido o irmão de Álvaro Mendes de Vasconcelos, do Esporão, vinha este a 
ser filho de um Mem Rodrigues de Vasconcelos e assim exphcada a tradição 
conservada pelos genealogistas dos morgados do Esporão descenderem do 
outro famoso D. Mem Rodrigues de Vasconcelos, mestre de Santiago. 

Na verdade porem a filiação e ascendência de Álvaro Mendes do Esporão é 
muito duvidosa. Uns dizem que êle era filho de uma filha do sobredito Mestre 
de Santiago, e desta opinião parece ter sido o cronista mor Fernão de Pina; 
outros afirmam ser êle neto do mesmo Mestre por um seu filho. Inclinar- 
-me-hia mais à primeira versão, pois me não palpita que fosse grande a 
nobreza do pai de Álvaro Mendes; mas, como D. António de Lima, direi 
nada se poder afirmar, pois «não consta de certeza alguma por papéis, cró- 
nicas, ou letreiros, destes netos do Mestre e só fica isto em opinião» (4). 

Álvaro Mendes de Vasconcelos, cavaleiro da casa do Conde de Guimarães 
e morador em Evora^ apresentou a D. Afonso V certas escrituras pelas quais 
mostrou haver sido pelos reis seus antecessores defesa e privilegiada a sua 
terra chamada do Esporão, no termo de Monsaraz; e apresentou mais um 



(i) Chancelaria de D. João JI, liv, 19.», fl. 7, onde por engano se datou do ano de 1443 
a apresentação em vereação da carta régia. 

(2) Vitorino de Almada, Concelho de Elvas, I, 353. 

(3) Chancelaria de D. João 11^ liv. lo.», fl. 1 1 v., transcrita noutra de confirmação. 

(4) Nobiliário, fl. 116 v. mihi. 



384 Brasões 

alvará de couto para a referida herdade concedido pelo mesmo Rei. Com 
estes documentos requereu se lhe mandasse passar carta em forma, e obteve-a 
a 16 de Agosto de 1468(1). 

Por este documento vê-se que, se Álvaro Mendes nos nobiliários e cró- 
nicas é comumente chamado do Esporão, não obsta isso, a que o seu verda- 
deiro apelido fosse o de Vasconcelos; mas também se vê, que a sua posição 
na corte era um tanto subalterna, criado de um grande senhor.. É verdade 
que depois, numa carta de padrão de vinte e cinco mil reais de tença, pas- 
sada em 18 de Junho de 1484, já é intitulado fidalgo da casa dei Rei (2). 
Notarei uma coisa, para não passar despercebida. Aquele Conde de Gui- 
marães, de quem Álvaro Mendes do Esporão era cavaleiro em 1468, sucedeu 
dez anos depois na casa de Bragança e foi o Duque desditosamente degolado 
na praça de Évora, em 20 de Junho de 1483. Um ano depois, dia a dia 
quási, era concedida ao antigo criado da vítima, não direi inocente, daquela 
tragédia e pelo próprio severo Rei que a delineou, a referida tença de vinte 
cinco mil reais, pelos muitos serviços pelo agraciado prestados, tanto a 
D. Afonso V, como a D. João II, assim nas partes de África, como nas 
guerras passadas de Castela. Será apenas uma coincidência e bem possível 
é, que muitos anos tivessem já decorrido depois de Álvaro Mendes haver 
largado o serviço de D. Fernando de Bragança. 

Proveio a alcunha do Esporão, pela qual Álvaro Mendes de Vasconcelos 
é designado, da posse da herdade daquele nome havida por ele em casa- 
mento. 

Em 1427 Teresa Anes da Fonseca, viúva de Fernão Lopes Lobo, irmão 
de Diogo Lopes Lobo, 1.° senhor de Alvito, achando-se sem filhos, instituiu 
o morgado do Esporão, no termo de Monsaraz, com a obrigação de certas 
missas na Sé de Évora, e chamou para seu primeiro administrador a seu 
sobrinho Gonçalo Rodrigues da Fonseca (3). 

Fernão Lopes Lobo fora cavaleiro e morador em Évora; possuirá três 
herdades no seu termo junto ao Enxarrama, confrontando entre outros pré- 
dios com uma herdade de Gonçalo Rodrigues da Fonseca; e para elas alcan- 
çara, em 27 de Março de 1457 (1419), carta de couto (4). Foi esta carta 
confirmada por sua morte a seu filho Nuno Fernandes Lobo, escudeiro e vas- 
salo dei Rei, por cartas de 12 de Dezembro de 1434 e i3 de Abril de 1439(5). 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 28.», fl. 82 v. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 22.°, fl. 5. 

(3) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário genealógico, II, 481 mihi; D. Francisco de 
Meneses, Familias de Portugal, I, fl. 3 10 mihi. 

(4) Chancelaria de D. João I, liv. 4.", fl. 35 v. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 20.% fl. 16 v. 



Vasconcelos 385 

Quanto a Gonçalo Rodrigues da Fonseca sei que, sendo escudeiro, vassala 
dei Rei e morador em Évora, obteve, em 8 de Março de 1427 (iSSg), carta 
de legitimação para seu filho Álvaro Gonçalves, havido de Margarida Afonso, 
sendo pai e mãe solteiros (i). Sei mais que seu meio irmão, Pedro Afonso 
Vilela, filho de sua mãe Caterina Pires e de seu segundo marido João Afonso, 
escrivão que íôra da rainha D. Leonor, lhe fez doação de todos seus bens, 
doação confirmada por D. João I em 1 1 de Junho de 1442 (1404) (2). Ainda 
mais sei que, por carta de 1 1 de Agosto de 1446 (1408), dada em Sintra, lhe 
foi coutada uma herdade no termo de Évora, onde chamam a Sitima (3), a 
qual por sua morte veio a pertencer a Leonor Gonçalves (sua filha ?) e dela 
passou a seu filho Martim Casco, morador em Évora, a quem foram confir- 
mados os privilégios da herdade por carta de 25 de Janeiro de 1447 (4). 

Gonçalo Rodrigues da Fonseca, o primeiro chamado para a administração 
do morgado do Esporão, morreu antes de nela suceder, e por morte da insti- 
tuidora meteu-se de posse dos bens do vínculo seu enteado Nuno Fernandes 
Lobo. ■ Disputou-lhe a posse Álvaro Gonçalves da Fonseca, filho legitimado 
do primeiro nomeado para a sucessão, e alcançou a administração do mor- 
gado por sentença do ano de 1475 do corregedor da corte, João Mendes 
Aguado (5). Este Álvaro Gonçalves da Fonseca, i." administrador legítimo 
do morgado do Esporão, casou com Caterina Ribeiro e foram pais de Leonor 
Ribeiro da Fonseca, 2/ senhora do morgado e mulher, segunda, dizem os 
nobiliários, de Álvaro Mendes de Vasconcelos, em cujos descendentes se con- 
tinuou a posse do vínculo. 

Ainda casou Álvaro Mendes uma terceira vez, agora com Aldonça Mar- 
tins Loba a quem, sendo já viiíva, foram confirmados, por carta de 1 1 de 
Agosto de 1490, os privilégios da herdade no sítio do Azinhal, termo de 
Elvas, já lá acima mencionada, a qual pertencera a João Mendes de Vascon- 
concelos e a seu pai Mem Rodrigues de Vasconcelos (6). Como viera esta 
herdade a pertencer a Aldonça Martins ? O diploma não dá indicações 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 4.", fl. loa. 

(2) Liv. 6." de Odiana, fl. 265 v, 

(3) Chancelaria de D. João I, liv. 3.", fl. 76. 

(4) Liv. 3.» de Odiana, fl. 283. 

(5) D. Francisco de Meneses, Famílias de Portugal, I, fl. 3io mihi. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv. io.°, fl. 1 1 v. — Foi novamente confirmada a Aldonça 
Martins por carta de 10 de Outubro de 1498 (liv. 8.° de Odiana, fl. loo v.). Depois, a 18 de 
Outubro de i5 12, Álvaro de Mesquita, cavaleiro da Ordem de Santiago e morador em Elvas, 
pediu ao juiz com alçada na dita vila uma certidão da presente carta e sobre ela obteve 
para si, em 19 de Março de i532, carta de confirmação dos referidos privilégios (liv. 19.* de 
Doações de D. João 111, fl. 82). 

VOL. I 49 



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nenhumas e as conjecturas podem-se espraiar sem maior base; fundamento 
. bastante tem êle todavia para corrigir ou esclarecer uma data de Garcia 
■de Resende. 

Conta êle que um Diogo Gil Magro, cavaleiro da casa de D. João II e 
irmão do anadel mor dos seus besteiros Rui Gil Magro, injuriara gravemente 
a Álvaro Mendes de Vasconcelos, impossibilitado pela sua idade de se desa- 
frontar. 

Temeroso porem Diogo Gil dos filhos do homem por êle ofendido, reti-' 
rou-se para a companhia de Pêro Juzarte, senhor e alcaide mor de Arraiolos, 
reputando-se seguro no seu forte castelo. Enganou-se todavia, porque «no 
ãnno de noventa t dous: Joane mendez de Vasconcellos / t Diogo mendez seu 
yrmão: filhos do dito Alvoro mendez per estucia do pay / com muita géte de 
cavalo T de pe que ajuntou entrara per manha ao dito castelo hu dia ante 
manhã t quebrara as portas da casa do dito Diogo Gil t o matara» (i). Não 
contesto a veracidade da história; mas, ou sucedeu antes de Agosto de 1490, 
quando Álvaro Mendes já estava morto, ou a vingança dos filhos exerceu-se 
depois da morte do pai. 

Álvaro Mendes do Esporão foi homem muito abastado e dizem que ins- 
tituirá, para seu filho segundo, o morgado das Vidigueiras próximo de Évora. 
Este filho chamou-se Diogo Mendes de Vasconcelos, casou e foi sua bisneta 
D. Francisca de Vasconcelos, 4.* senhora do morgado e mulher do chanceler 
mor Damião de Aguiar Ribeiro, de quem teve filha e sucessora a D. Antónia 
de Vasconcelos casada com Tristão da Cunha de Ataíde e Melo, 8.° senhor 
de Povolide, e nos seus descendentes continuou a administração do morgado. 
Aquele Chanceler mor foi muito rico e começou a edificação do palácio das 
Portas de Santo Antão em Lisboa, onde residiram os Condes de Povolide, 
dos quais passou por venda ao Conde de Burnay, que o arrazou e no seu 
lugar edificou uma grande casa, com pouco gosto e menos estilo, com a qual 
a estreita rua não pode, mas que de certo custou muito dinheiro. Neste 
prédio está há anos estabelecido o Ateneu Comercial e os dois escudos de 
armas que sobrepujavam os dois portões do antigo palácio dos Povolides, 
encontram-se hoje numas dependências da quinta das Laranjeiras, assistindo, 
certamente confusos, às evoluções desportivas da família da casa. 

O filho mais velho de Álvaro Mendes do Esporão chamòu-se Joane Mendes 
de Vasconcelos, ou Joane Mendes do Esporão, como o nomeia Damião de 
Góes numa passagem da ChroJiica de D. Emanuel. Em seguida ao caso do 
castelo de Arraiolos teve Joane Mendes de se homisiar em Castela, d'onde 
só regressou em 1498 com D. Manuel, na volta da ceremónia dos juramentos. 



(i) Vida de D. João II, cap. 144, fl. 91, 



Vasconcelos 387 

A ele serviu de Embaixador naquele reino por algumas vezes, permanecendo 
lá por largas temporadas nos anos de i5o'2 a i52o(i). De uma das vezes 
foi encarregado de receber a importância do último terço do dote da rainha 
D. Maria, segunda mulher de D. Manuel, e o resto do dote e arras da Rainha 
Princesa, como era designada a primeira mulher daquele soberano. Desses 
dinheiros teve quitação por carta de ló de Janeiro de 1509(2). Fundou em 
i53o a capela chamada do Esporão na Sé de Évora para seu jazigo, de sua 
segunda mulher D. Briolanja de Melo e dos sucessores do vínculo. Morreram 
os cônjuges ambos no ano de 1541 c tudo consta das seguintes duas inscri- 
ções, só uma subsistente: 

ESTA CAPELLA. MANDOV FAZER JOANNE MENDES DE VASCONCELLOS 
DO CONSELHO DELREY DOM MANOEL O i." E DELREY DOM lOAO 3.» SEV 
FILHO PARA SI E PARA DONA BRIOLANIA DE MELLO SVA MOLHER E PARA 
TODOS SEVS HERDEIROS QVE HERDAREM O SEV MORGADO DO ESPORÀO 
A QVAL SE FEZ DE CONSENTIMENTO DE TODO O CABIDO DESTA SE E DO 
DITO REY DOM lOAO E DO CARDEAL IFFANTE SEV IRMÃO BISPO DELLA 
AS QVAIS CONVENSOENS CONFIRMOV NOSSO MVY SANTO PADRE CLE- 
MENTE 7.' SEGVNDO HE CONTHEVDO EM SEV COMPROMISSO E MANDA O 
DITO lOANNE MENDES A SEVS HERDEIROS TENHÃO CVIDADO DE FAZER 
DIZER MISSA QVOTIDIANA QVE LEYXA QVE SE DIGA PARA SEMPRE NESTA 
CAPELLA A QVAL SE ACABOV NO ANNO DE i53o. 

Esta inscrição já lá hoje não existe; encontrei-a no Nobiliário de Diogo 
Gomes de Figueiredo, onde aparecem as demais inscrições ainda hoje exis- 
tentes copiadas com bastante exactidão, garantindo por isso a boa leitura da 
primeira. Foi ela substituída por outra quando Manuel de Vasconcelos, se- 
gundo informação do mesmo Figueiredo, mandou reformar a capela. Era 
ambas as inscrições vem apontado o ano de i53o como sendo o da fundação; 
encontra-se porem em certa parte da capela o núniero i527, o qual talvez 
indique a data do começo da obra, ou a do consentimento do Cabido para ela. 

A capela do Esporão na Sé de Évora é, na opinião de um distintíssimo 
arquiteto alemão, um exemplar perfeito da primitiva Renascença portuguesa, 
de aparência sumptuosa e admirável (3). A capela fica situada no topo do 
cruzeiro da banda do evangelho. É quadrada; tem um altar de talha, em 
parte colorida com imitações de pedra, também no estilo da Renascença, 
mas mais adiantada; sobre o cruzeiro abre um arco emoldurado de elegan- 



( 1 ) Góes, Chronica de D. Emanuel, part. II, cap. 3o, fl. 5o v. ; p. III, cap. 27, fl. 47 ; e p. IV, 
cap. 48, fl. 63 ; Santarém, Quadro elementar, II, passim. 

(2) Cartas de quitação de D. Manuel, n." 400^ no Archivo histórico portuguez, III, 
pÁg. 476. 

(3) A. Haupt, Die Baukunst der Renaissance in Portugal, II, i35. 



388 Brasões 

tíssima escultura (i); por cima do fecho, num nicho incrustado num belo friso, 
vè-se o escudo e elmo dos Vasconcelos; em baixo uma delicada grade de 
ferro fecha a capela. 

As armas dos Vasconcelos tornam aqui a aparecer-nos com quatro faxas, 
como já as vimos na igreja da Graça de Santarém e na de S. João Baptista 
de Figueiró; facto que me leva a supor, segundo já indiquei, haverem sido 
quatro as peças do primitivo escudo dos Vasconcelos, posteriormente redu- 
zidas a três. 

A pintura do retábulo representa o Descendimento da Cruz e nada tem 
de muito especial; o tecto é de laçaria de pedra com seus florões, nos quais 
se vêem esculpidos os escudos dos Vasconcelos e os dos Meios; nas duas 
paredes laterais, à altura aproximada de dois metros, estão embebidas quatro 
inscrições fúnebres, duas de cada lado. A primeira do lado do evangelho 
é o epitáfio do fundador; do mesmo lado, abaixo desta, a de seu filho Álvaro 
Mendes; em frente, fazendo rosto e competência à do fundador, está a de 
seu neto e homónimo; a seguir a esta vem a última, a do bisneto Manuel de 
Vasconcelos. Segue a primeira inscrição. 

lOÃO MENDEZ DE VASCONCELLOS S.°« DO MORGADO DO ESPO: 
RÃO FILHO D'ALVARO MENDES DE VASCONCELLOS E DE DONA LIANOR 
RIBEIRA S.«^ PROPRIETÁRIA DESTE MORGVADO •/. FOI DO CONS.» DEL 
REI DOM M/-^ E DEL REI DOM JOÃO O 3.° E SEV EMBAIX.»»'' NA CORTE 
DOS REIS CATHOLIGOS, E DEL REI DOM CARLOS SEV NETTO •/. E DE. 
CONSENTIMJ» DO DITTO REI DOM lOÃO; E DO CAR.-- IFFANTE DOM 
AFFONSO SEV IRMÃO, BPO. DESTA CIDADE., E DO CABIDO DESTA SEE 
CONFIRMADO PELLO PAPPA CLEMENTE 7."° MANDOV FAZER NO 
ANNO DO S."^ DE. i53o ESTA CAPELLA PARA SEV lAZIGO E DE 
DONA BRIOLANIA DE MELLO SVA 2.* MOLHER, E DE TODOS SEVS 
SVBCESSORES, QVE HERDASSEM O DITTO MORGADO D'ESPO: 
RÃO, •/. DOTOVA, DE HVA MISSA QVOTIDIANA PARA SEMPRE IN: 
CLVINDO NELLA AS, QVE O MORGADO IA TINHA DE OBRIGAÇÃO 
ESTA AQVI SEPVLTADO, COM A DITTA DONA BRIOLANIA DE ME: 
LLO SVA MOLHER. FALLECERÃO AMBOS NO ANNO DE : 1541. : 

De sua primeira mulher D. Joana de Sousa, filha bastarda de Vasco Mar- 
tins de Sousa Chichorro, capitão dos ginetes de D. Afonso V, nasceu único 
Álvaro Mendes de Vasconcelos. Sucedeu na casa, foi do conselho de D. João III 
e seu embaixador em Castela de i53i a iõ36(2), tendo nesta qualidade acom- 
panhado Carlos V em várias das suas empresas. Numa destas jornadas 
ficara em Roma, na ocasião que mais acesas andavam as negociações rela- 



(1) Reproduzido na obra acima citada, pág. i38. 

(2) Fr. Luís de Sousa, Annaes de D. João III, págs. 877, 387, 396, 397, 398 e 400 ; San- 
tarém, Quadro elementar, II, passim. 



Vasconcelos 389 

tivas à bula da definitiva instituição do Santo Ofício em Portugal, a qual foi 
expedida em 23 de Maio de i536 e, depois de ter também concorrido para 
a sua concessão, foi dela portador, segundo declara o seu epitáfio. Por ele 
também consta haver Álvaro Mendes morrido no ano de i555, revelando-nos 
outra memória haver tido lugar a morte no dia 3o de Dezembro e ter-se, no 
mes seguinte, dado de esmola à Misericórdia de Évora doze mil reais pelo 
haver acompanhado à sepultura (1). Foi levado à sua capela da Sé e no 
túmulo gravou-se o seguinte epitáfio: 

ÁLVARO MENDEZ DE VASGONCELLOS, S."" DO MORGADO D'ESPORÃO 
FILHO DE. lOÃO MENDES DE VASGONCELLOS E DE. DONA lOANNA DE. SOV: 
ZA SVA i.« MOLHER (FILHA DE. VASGO MTZ DE. SOVZA GHIGHORRO CAPI: 
TÃO DOS GINETES DELREI DOM AFFONSO. 5.», E FRONTEIRO MOR 
DE TRÁS OS MONTES) FOI DO GON» DELREI DOM lOÂO O 3.» E SEV 
EMBAIXADOR MVITOS ANNOS NA GORTE DO EMP.°« GARLOS 5." 
AQVEM AGOMPANHOU EM MVITAS DE SVAS EMPREZAS : ALGANÇOV 
DO PAPPA PAVLO 3.» NO ANNO DE .i536. A BVLLA DA INSTÍTVIÇAO 
DO S.^» OFFIGIO DA INQVISIÇÃO, NESTES REINOS SENDO ENVI: 
ADO A ISSO PELLO DITTO REI DOM lOAO : FÂLLEGEO NO ANNO DE 
i555 E ESTÁ SEPVLTADO NESTA GAPELLA GOM DONA GVIO: 
MAR DE MELLO SVA MOLHER, FILHA DE DVARTE DE MELLO, E DE 
DONA ISABEL DE BRITTO, A QVAL FÂLLEGEO NO ANNO D' iSyS. 

D. Guiomar de Melo fora dama da imperatriz D. Isabel e segunda mulher 
de Álvaro Mendes "de Vasconcelos de quem teve, entre outros filhos, a Joane 
Mendes de Vasconcelos, 6.° senhor do morgado do Esporão, também sepul- 
tado na capela de sua casa na Sé de Évora, com o seguinte epitáfio: 

lOÃO MENDEZ DE VASGONGELLOS, SENHOR DO MORGADO 
DO ESPORÃO FILHO DE ÁLVARO MENDES DE VASGONCELLOS 
E DE DONA GVIOMAR DE MELLO SVA 2.* xMOLHER, FOI DO 
CONSELHO DOS REIS DOM SEBASTIÃO, DOM HENRRIQVE 
E DOM PHELIPPE O PRIMEIRO : E ESTÁ SEPVLTADO 
NESTA CAPELA, FÂLLEGEO NO ANNO DE i583 

Havia casado com D. Ana de Ataíde, filha de D. António de Ataíde, 
i.° conde da Castanheira, e da condessa D. Ana de Távora, e dela teve, entre 
outros, a Manuel de Vasconcelos, sucessor na casa, como adiante veremos, 
e a Luís Mendes de Vasconcelos. 

É este a» bem conhecido autor do interessante livrinho (no tamanho, na 
substância é grande) intitulado Do sitio de Lisboa. Dialogo (2), impresso 



(i) Arquivo da Misericórdia de Évora, Livro dos de/untos de 1546 a i556, fl. 210 v. 
(2) A. de Oliveira Marr