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Full text of "Brasões da Sala de Sintra"

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BRASÕES DE SINTRA 



III 



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VOL. Hl 



Desta edição imprimiram-se 200 exemplares em papel de linho, 
numerados e rubricados. 



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BRASÕES 



DA 



SALA DE SINTRA 



DE 



ANSELMO BRAAMCAMP FREIRE 



(2.» EDIÇÃO) 



LIVRO TERCEIRO 




COIMBRA 

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 
I 980 



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AO LEITOR 

ÀS necessárias palavras de explicação que devem preceder as 
páginas deste livro são, por assim dizer, um prólogo fúnebre tar- 
jado de sentido e pesado luto. 

Com efeito, duas mortes terá o leitor que deplorar, ao abrir este 
volume; o desaparecimento de duas vidas úteis e fecundas aos labores 
da cultura e da erudição, o eclipse perene e total de dois espíritos 
aos quais não foi dada, infelizmente, a desvanecida consolação, o 
bem merecido e justificado prémio de verem, afinal, concluída esta 
2.* edição dos Brasões da Sala de Sintra. 

Para a sua publicação, que finda agora, justo será registá-lo aqui, 
muito contribuiu a iniciativa e o benemérito desenvolvimento que o 
ilustre professor Sr. Dr. Joaquim de Carvalho tem dado à Imprensa 
da Universidade de Coimbra, que proficientemente dirige. 

A primeira dessas mortes a lamentar, aliás com o nosso mais 
saudoso e maguado sentimento, é a do autor desta obra — Anselmo 
Braamcamp Freire — , cujo labor decorreu, na sua maior parte, ao 
alcance da minha vista, neste Arquivo da Torre do Tombo, entre 
o grupo de investigadores que assiduamente o frequentavam for- 
mando um verdadeiro cenáculo de doutos e prestimosos eruditos de 
que êle fazia parte com o general Brito Rebelo, Ramos Coelho e 
poucos mais. Fui pois testemunha, como funcionário do mesmo 
Arquivo, dos seus estudos e investigações e pude, por isso, apreciar, 
num convívio que gratamente recordo e cuja forçada e irreparável 
interrupção tanto lamento, as qualidades de fidalga distinção, de 
extremada cortesia, de atraente simplicidade que retinia Braamcamp 



VI Brasões 

Freire, a par das raras e invulgares aptidões que revelou de inves- 
tigador prudente e minucioso de algumas das ricas colecções e espé- 
cies que se guardam neste Arquivo. Foi certamente ao contacto 
dos seus pergaminhos e dos seus livros iluminados que êle sentiu 
avivar-se, dia a dia, a sua apaixonada e absorvente inclinação para 
os estudos genealógicos e nobiliárquicos, e foi dos tesouros aqui 
acumulados que êle pôde extrair, na sua grande parte, os materiais 
que lhe serviram para arquitectar a sua utilíssima e valiosa obra de 
consciencioso e profundo historiador. Essa obra, servindo-nos das 
justas e autorizadas palavras de um seu panegirista, o professor 
Dr. Manuel de Oliveira Ramos, coloca Braamcamp Freire num lugar 
de excepção, de primeira fila, na legião dos que, depois do admirável 
impulso de Herculano, tanto adiantaram as nossas investigações 
históricas. 

Não carece pois o erudito autor dos Brasões da Sala de Sintra 
do nosso elogio, já também feito em sessão solene na Academia das 
Sciências de Lisboa pelo Dr. António Baião, Director do Arquivo da 
Torre do Tombo, insuspeita e também autorizada testemunha para 
depor àcêrca dos valiosos e inolvidáveis serviços prestados por 
Braamcamp Freire à historiografia nacional. 

Quando foi publicado 02.° volume dos Brasões já o estado da 
sua abalada e enfraquecida saúde nos deixava infelizmente suspeitar 
de que a sua vida não seria assas longa de molde a poder terminar 
esta segunda edição da sua obra. Com que resignada conformação 
e saudade êle no-lo confessa no prólogo desse volume, quando, em 
17 de Dezembro de 1921, escreve o seguinte: 

« Fica-me uma grande saudade de não poder terminar esta se- 
gunda edição dos Brasões. Mas Deus assim o quis! São inúmeros 
os apontamentos de novos documentos para ilustração da obra. O 
leitor bem o alcança comparando o que ficou escrito na primeira 
edição e o desenvolvimento dado à matéria na segunda edição. 

« Lastimo ficarem perdidos todos os apontamentos àcêrca da 
capela dos Monises na igreja do Carmo de Lisboa. Foram coligidos 



Ao leitor ♦ vii 

a pretexto do casamento de Felipa Monis com Cristóvão Colombo. 
Anexos a eles em apêndice ou nota iria uma grande colecção de 
documentos relativos aos Perestrelos. Mas tudo isto lá ficou per- 
dido. Não entro em mais considerações; estou já num' estado de 
abatimento muito profundo. Por isso terminarei ». 



Não se iludia, infelizmente, Braamcamp Freire no seu triste pro- 
gnóstico, pois que, poucos dias depois, a 23 do referido mês, expirava 
na sua casa do Salitre sem poder ter a intima satisfação de ver con- 
cluída esta segunda edição da sua obra com a publicação do 3. *• vo- 
lume, que só ele poderia ter consideravelmente enriquecido. jQue 
grande e irreparável perda não foi por isso o seu desaparecimento ! 

Para o prosseguimento da tarefa de rever e publicar o presente 
volume uma pessoa estava naturalmente indicada para substituir o 
seu autor: Pedro de Azevedo, seu colega na Academia, seu guia es- 
clarecido na peregrinação através das colecções da Torre do Tombo, 
seu consciencioso e desinteressado paleógrafo, seu dedicado e utilís- 
simo colaborador. Foi pois confiada a Pedro de Azevedo esta 
missão, nada fazendo prever que seria também interrompida por um 
motivo lutuoso com a repentina e inesperada morte deste consumado 
paleógrafo e laborioso investigador. A tarefa estava, porém, prestes 
a atingir o seu fim quando as mãos hábeis de Pedro de Azevedo se 
paralizaram para sempre. Apenas faltava rever a publicação das 
cinco últimas folhas, de páginas 409 a 435, de que gostosamente me 
encarreguei, em primeiro lugar porque não era lícito eximir-me ao 
benévolo, confiado e indulgente convite que para esse fim me fizera 
o Sr. Dr. Vicente Rodrigues Monteiro, venerando Presidente da 
Ordem dos Advogados Portugueses, sobrinho por afinidade de Braam- 
camp Freire; em segundo lugar porque assim teria feliz e oportuno 
ensejo de expressar, por uma forma perdurável, o meu sentimento 
de respeito e admiração pela memória do erudito autor dos Brasões 
da Sala de Sintra^ cuja perda foi uma das maiores que poderia ter 
experimentado a historiografia portuguesa. 

YOL. UI B 



VIU . Brasões 

Diminuta foi pois a minha colaboração no presente volume, cujos 
índices minuciosos e utilíssimos para o leitor foram hábil e cuidado- 
samente organizados pelo Sr. Manuel Vidal, dedicadíssimo secre- 
tário de Braamcamp Freire e por sua disposição testamentária di- 
rector da preciosa biblioteca que deixou à Câmara Municipal de 
Santarém. 

Tôrre do Tombo, 17 de Maio de 1929. 

P. M. Laranjo Coelho. 



PROLOGO 

A última folha deste livro está impressa desde 8 de Abril de igoS ; 
jvai em breve fazer dois anos! 

Por vezes, para começar a escrever o Prólogo, já que no índice 
o anunciei, tenho posto diante de mim um pedaço de papel, e todavia 
sempre tem ficado em branco. 

Desejava aqui, nestes livros reservados para poucos leitores, 
limpar a minha testada, protestando contra o que por ai vai, reve- 
lador da profunda decadência de um povo. Longe do papel, acu- 
diam-me à memória os casos característicos, ocorriam-me as frases 
de justa indignação; pegava porém na pena e esmorecia. ^F^^ta de 
ânimo? — Talvez. — jPara quê criar mais inimizades? — Não tenho 
presunções de endireitar o mundo, e é cedo ainda para escrever a 
triste história destes tempos. 

« II n'y a pas de symptôme plus alarmant pour une nation, ni de 
plus súre indication de sa mine, que lorsqu'il ne reste aux vertueux 
citoyens et aux patriotes zélés que le parti de la retraite et du si- 
lence » (i). 

Estas palavras proféticas, escritas a propósito do Estado da Po- 
lónia quatro anos antes da sua primeira desmembração, são bem 
aplicáveis a Portugal nos começos do século xx, e queira Deus que 
não estejamos em vésperas de dar bens a partilha. 

«Retraite et silence», seja; mas consintam-me que, por excepção, 



(i) Palavras de uma carta de 27 de Maio de 1768 do Conde de Broglie, chefe da diplo- 
macia secreta de Luís XV. (Duque de Broglie, Le secret du Roi, vol. II, pág. 207). 



YOL. ni 



X Brasões 

vá buscar a uma publicação oficial, como singular amostra, a notícia 
de um facto que serve de indicação segura do estado amoral a que 
isto chegou. 

A Carta de Lei de 25 de Agosto de 1887 tornou obrigatório o re- 
gisto de todos os diplomas de mercês, tanto honoríficas, como esti- 
pendiadas, ri Querem saber agora o que tem sucedido no Supremo 
Tribunal de Justiça, por exemplo? Oiçam: 

«Uma verdadeira lástima. Se não vejamos: Tem o Presidente 
o seu diploma registado; mas, em compensação, de doze Juízes 
apenas o tem um, não tendo os outros nem mesmo o dos últimos 
anteriores lugares onde serviram» (i). 

Uma sociedade, na qual até os próprios Juízes do Tribunal Su- 
premo desrespeitam a Lei, para se eximirem ao gasto de uns cobres, 
está inteiramente corrompida. 

Retraimento e silêncio, muito embora, mas desprezo também. 
Viremos a página. 



Este terceiro livro contém apenas o prometido índice dos dois 
anteriores, e várias correcções e acrescentamentos, principalmente 
ao primeiro, escrito um pouco à pressa. 

Só quem nunca tiver procedido a investigações sobre assuntos 
históricos em Portugal, se admirará de tanto retoque. Os mais, e 
para esses é que escrevo, por si avaliam bem as dificuldades com 
que todos lutamos, e desculpam. 

Além disso, tenho um exemplo venerando a que me acostar. 

O nosso grande João Pedro Ribeiro, em folhetos adicionais, e 
até em livros distintos, passou parte do fim da vida a corrigir e 
acrescentar as suas obras anteriores, chegando às vezes a modificar 
completamente o pareoer exposto. 

Sirva-me isso de consolo. 



(i) Albano Alfredo de Almeida Caldeira, primeiro conservador do Real Arquivo da 
Torre do Tombo, Memoria sobre o serviço de Registo de Mercês, no Boletim das Biblio- 
thecas e Archivos Nacionaes, pág. 96 do segundo ano, igoS. 



Prólogo XI 



Entre os acrescentamentos agora feitos ao livro primeiro, vão 
dois Catálogos, um dos Regedores da Casa da Suplicação; o outro 
dos Governadores da Casa do Cível. Não podem ser perfeitos, 
porque para isso precisava de juntar às indicações tiradas dos docu- 
mentos registados na Torre do Tombo, as que ministrassem os 
arquivos do Supremo Tribunal e da Relação do Porto. Não pro- 
curei contudo alcançá-las, informado do caos em que aqueles depó- 
sitos se encontram. Entretanto creio haver adiantado bastante ao 
até agora a tal respeito averiguado, e ainda, a fim de aperfeiçoar a 
tentativa, aproveitarei a ocasião para aditar aqui algumas notícias 
encontradas depois dos Catálogos impressos. 



D. Fernando da Guerra, Arcebispo de Braga, pág. 191, já era 
Regedor das Justiças em Dezembro de 1441, como ficou dito; e 
parece que, também por esses mesmos tempos, foi nomeado Chan- 
celer-mor. Efectivamente, se ainda a 28 de Novembro daquele ano 
se encontra o dr. Diogo Afonso, seu predecessor no cargo, livrando 
uma carta registada a fl. 55 do liv. 2.° da Chancelaria de D. Afonso V, 
é certo que no verso da mesma folha já se vê outra carta, também 
de idêntico dia, mandada passar pelo dr. Rui Gomes de Alvarenga, 
vassalo de el Rei e do seu Desembargo e Petições, « logo teente do 
Arcebispo de Braga, seu primo e seu chanceller mór». Em datas 
posteriores, até 1463, mais nenhum outro Chanceler-mor aparece 
nomeado em documentos, a não ser o Arcebispo. 

Fernão Teles de Meneses, pág. 200, não podia exercer ainda o 
ofício de Regedor da Casa da Suplicação em 14 de Fevereiro de 1606, 
como num assento daquele tribunal trás J. I. de Freitas (i), porque 
já era falecido desde 26 de Novembro do ano precedente; assim o 



(i) Collecção dos assentos das Casas da Supplicação e do Civel, pág. 3, n.° 4. 



xn Brasões 

declara o seu epitáfio (i). Está pois errada, erro provavelmente de 
impressão, a data do assento a que me reportei; ficámos porém 
sabendo, se a data da morte está certa, não haver Fernão Teles 
exercido o cargo até o fim da vida, porque a carta de nomeação do 
seu sucessor é de 7 de Junho de i6o5. 

Fernão Teles foi o fundador do noviciado que a Companhia de 
Jesus possuiu na Cotovia, no sitio onde é hoje a Escola Politécnica (2). 

A respeito de Gonçalo Peres, Regedor da Casa do Cível, pág. 211, 
encontrei esta noticia: «Gonçalo Piriz foy escrivão da chanselarya 
delrey dó Fernando e delrey dó João o primeiro e despois foy re- 
gedor da casa do sivel e senhor de Bellas e foy casado com Maria 
Anes filha de de que ouve estes filhos .s. Pêro Gon- 

çalvez / e Luiz Gonçalvez / aos quoais chamarão Malafayas e / Ca- 
therina Gonçalvez molher de Alvro Nogueira filho de Afonso Anes 
Nogueira alcayde mor desta sidade » (3), Lisboa* 

Aires Gomes da Silva, pág. 212, já tinha perdido o ofício de Re- 
gedor da Casa do Cível antes da batalha de Alfarrobeira, havendo- 
-lhe êle sido tirado na segunda metade do ano de 1447 por ser amigo 
e servidor do hífante D. Pedro (4). 

D. Álvaro de Castro, Governador da Casa do Cível, pág. 216, 
morreu com efeito em Setembro de i528. Assim o declara expres- 
samente, em 3o de Outubro do referido ano, um mandado, no qual 
se ordena ao recebedor da Chancelaria do Cível que pague aos her- 
deiros de D. Álvaro as suas tenças daquele ano por inteiro, « posto 
que o Governador falecesse no mes de setembro do dito anno « (5). 

Entre os Chanceleres da Relação do Porto, nomeados na pág. 228,. 
que serviram de Governadores da Casa, é preciso meter mais um, o 
dr. Pedro Velho de Lagoar, que, exercendo aquelas funçóes, morreu 
na referida cidade a 2 de Abril de 1755 (6). Serviu por tanto entre 

(i) P. António Franco, Imagem da virtude em o noviciado de Lisboa, pág. 12. 

(2) Júlio de Castilho, Lisboa antiga. Bairro Alto, vol. V, pág. 24. 

(3) Nobiliário quinhentista, fl. lyS mihi. 

(4) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso F, pág. 369. 

(5) Corpo chronologico, parte }.*, maç. 41, doe. 94. 

(6) Gajeta de Lisboa de 17 de Abril de 1755. 



Prólogo xni 

José Pedro Emauz e Francisco Xavier da Serra Craesbeck de Car- 
valho. 

E mais nada tenho por ora para adir ao Catálogo dos Rege- 
dores e Governadores das Justiças; entretanto, a outros pontos do 
resto deste livro, é que entendo convir desde já acrescentar três no- 
ticias que encontrei. 



A propósito da data da criação do Ducado de Bragança digo na 
pág. 265, que ela se há-de colocar entre os dias 28 de Outubro e 3o 
de Dezembro de 1442; agora porém posso ainda encurtar um pouco 
mais o intervalo. Efectivamente, a 8 de Novembro daquele ano, 
ainda D. Afonso, que depois foi Duque de Bragança, era simples- 
mente Conde de Barcelos, e só com este título aparece na carta 
daquele dia pela qual, a seu pedido, foi Fernand' Alvares de Cernache 
nomeado capitão e coudel-mor dos besteiros e vassalos de cavalo (f). 

Em contrário do que supus na pág. 275, é certo, a-pesar-do es- 
tipulado na carta de 20 de Maio de 1467, ter passado o senhorio da 
vila de Aveiro, depois da morte do Conde de Faro, D. Afonso, a sua 
viúva. Revelou-me o facto uma escritura de aforamento feita a 16 
de Março de 1496, em Montemor o Novo, nas casas onde poisava 
então D. Maria de Noronha, Condessa de Faro, que declarou ter de 
juro e herdade, com a jurisdição, a vila de Aveiro e seu termo, no 
qual existia uma ilha que aforava a João do Porto (2). Provavel- 
mente D. Manuel, no empenho de restituir todos os bens aos Bra- 
ganças, fizera nova doação da vila de Aveiro à Condessa, por carta 
<iue se não encontra hoje registada na mutilada Chancelaria. É 
possível terem-se passado as coisas assim, mas não se entende bem, 
como tendo a Condessa sobrevivido ao filho, o 2 ° Conde de Faro, 
aparece este em documentos de i5o4, iSog e i5i3, citados na 
pág. 276, intitulando-se Senhor de Aveiro; e menos se compreende, 



(t) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 23.*», fl. 112. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 39.° de Doações, fl. 71. 



XIV Brasões 

o haver logo por morte do Conde transitado o senhorio da vila para 
o Duque de Coimbra, conservando-se ainda por uns poucos de anos 
viva a Condessa, primitiva donatária. O destroço padecido pelos 
livros do registo, quando o terremoto de 1755 deitou a terra a Torre 
do Tombo, torna difíceis, se não impossíveis, muitas averiguações. 

A última observação que me resta fazer, é relativa a uma obra 
em três grossos volumes manuscritos, a qual, com o título de Torre 
do Tombo, existe na Biblioteca Nacional de Lisboa erradamente 
atribuída ao Chantre de Évora Manuel Severim de Faria. Temos 
por este motivo caído muitos no erro, aceitando sem reparo aquela 
indicação; hoje porém não há para mim dúvida de serem os três 
referidos tomos cópia de parte dos «Sumários de todas as Doações e 
Chancelarias da Torre do Tombo», coligidos por Gaspar Álvares de 
Lousada Machado, escrivão do Real Arquivo. 

A prova desta minha asserção encontra-se a pág. 484 do vol. II 
do Arquivo histórico português, acrescentando ainda aqui, ao que lá 
deixei dito, que na realidade não se concebe como ao Chantre da Sé 
de Évora chegasse o tempo para extractar tantos milhares de docu- 
mentos da Torre do Tombo, quando nem sequer lhe dariam lá en- 
trada. 

Entenda-se pois, que em toda a parte, onde nestes três livros cito 
a Torre do Tombo de Severim de Faria, na realidade me reporto 
aos «Sumários de Lousada». O seu a seu dono. 

Visto ter falado no Arquivo histórico^ direi que êle vem certamente 
demorar a continuação destes estudos, os quais contudo não largarei 
completamente de mão. 

Aldeia, 17 de Janeiro de igoS. 



XVII 

MANUÉIS 



voL. ni 




BiusÓBS DA Sala de Sintra, Vol. III. 



Esquartelado: o I e IV de vermelho àsa de oiro terminada por uma mão 
do mesmo que empunha uma espada de prata, guarnecida de oiro, posta 
em pala; o II e III de púrpura, armado e linguado de vermelho. Timbre: 
os móveis do I. 

Com a única diferença de ser a mão de encarnação, se encontram estas 
armas a fl. 67 do Livro do amieiro mor, a fi. 1 1 v. do Livro da Torre 
do Tombo, e no Thesouro da nobreza de Fr. Manuel de Santo António, 
M-16. 

Com as mesmas peças, mas com a disposição dos quartéis erradamente 
alterada, se vê este brasão a fl. 29 do Thesouro da nobreza de Francisco 
Coelho. 

I 

D. AFONSO IV 

D. Afonso IV no trono foi logo bem diferente do infante D. Afonso em 
vida de seu pai. 

Tão antipático é Afonso como homem, como digno de respeito como rei. 
Foi um péssimo filho, um péssimo irmão, um péssimo pai; mas foi um 
grande rei, e um bom marido também. 

Se a nação não tivesse padecido em resultado das suas desordens, ser- 
-Ihe-iam estas talvez mais desculpadas. Não sucedeu contudo assim; e este 
rei é daqueles poucos de quem os historiadores antigos, na maior parte 
panegiristas encartados dos poderosos, sé mostram escassos em louvores. 

Ao tomar conta do governo não olhou D. Afonso IV, com a atenção que 
logo devia, para as graves responsabilidades do supremo mando. Havia ele 
porém a ventura de ter conselheiros, amigos verdadeiros e dedicados, que 
para o seu bem lhe falaram com isenção, arriscando sem hesitações o vali- 
mento. Havia êie, acima de tudo, a razão clara bastante para compreender 
os conselhos, não cuidando que o acaso do nascimento lhe trouxera também 



4 Brasões 

a supremacia no entendimento. Só os fátuos é que não ouvem os conselhos 
dos sisudos. 

Duarte Nunes de Leão que nos conte como as coisas se passaram, e que 
nelas aprenda, quem nelas tiver de aprender: 

«Era o infante ao tempo que começou a reinar de trinta e cinco annos. 
E nos começos de seu reinado, como elle era muito inclinado a caça e a 
monte, e o cargo de governar tão trabalhoso, descuidava-se algum tanto do 
governo, e de ouvir as partes, de que havia alguns queixumes. Pelo que, 
indo el-Rei de Lisboa ao termo de Cintra á caça, onde esteve perto de um 
mez, a tempo que tratava em conselho negócios de importância sobre o re- 
gimento do reino, vendo os do conselho quão mal se havia naquelles começos 
por uma leviandade, quando Veio e tornou ao conselho, depois que elle 
falou o que passara na caça, um dos conselheiros, por acordo de todos, lhe 
disse: 

— « Senhor, deveis de emendar a ordem que levais, e lembrar-vos que 
nos sois dado por rei, para nos regerdes, e por isso vos damos nossos tri- 
butos e mantemos na honra em que estais; e vós tomais a caça por oííicio, 
e o governo de vosso reino por passatempo, sendo certo que Deus não vos 
ha de pedir conta dos porcos ou veados, que não matastes, senão das partes 
que não ouvistes, e dos negócios de vossa obrigação que não despachastes, 
como agora fizestes, que, estando no meio de coisa tão importante á repu- 
blica, deixastes o conselho, em que éreis tão necessário, e fostes á caça por 
tantos dias, e nós aqui ociosos, esperando por vós. Levai outro caminho, e 
senão. . . 

« El-rei que de sua condição era agastado e bravo, como tinha por sobre- 
nome, ouvindo palavra tão insolente, respondeu mui indignado: 

— «Senão? 

«Ao que todos os do conselho responderam: 

— «Senão buscaremos rei, que nos governe em justiça, e não deixe de 
governar seus vassallos por andar apoz as bestas feras. 

«A isto respondeu el-rei mais indignado: 
• — «Os meus me hão de dizer a mim: Senão ?. . . A mim, senão ? 

— «A vós, disseram elles, todas as vezes que não fizerdes o que deveis. 
« El-rei se sahiu do conselho mui irado e suspenso do que faria. Mas, 

cuidando depois que lh'o diziam por seu serviço e pelo que lhe convinha, 
teve-os por bons servidores. / 

« Desta maneira usavam os conselheiros daquelles tempos passados, 
livres da avareza, ambição e luxo dos tempos presentes. Por que se con- 
tentavam com uma vida simples, e santa sobriedade, pelo que, como comiam, 
vestiam, e edificavam com pouco, não tinham necessidade de muito; nem 



Manuéis 5 

traziam com seus reis contínuos requerimentos, para que perdessem a liber- 
dade, que é o fundamento e a alma dos conselhos» (i). 

Mudando D. Afonso IV de vida, convocou as cortes, que se reuniram 
em Évora em Abril de i325, e nelas foi Jurado rei. Considerava este acto 
talvez necessário em resultado dos muitos parciais que seu irmão bastardo 
Afonso Sanches contava no reino, e fora dele. E também porque, aquele 
que fora outrora revolucionário contra a autoridade real em tempo de seu 
pai, querendo agora que na sua pessoa a respeitassem, consolidava assim 
com o voto popular o direito divino. 

Tornou-se zeloso da autoridade real, zeloso até à ferocidade, como o 
mostrou o sangue frio com que em 1826 mandou executar a sentença, que 
condenava à morte seu meio irmão João Afonso. Ainda que se queira con- 
siderar esta execução como um exemplo, para se evitarem revoltas futuras; 
ainda que se queira atender à rudeza dos tempos; este facto, junto aos mais 
igualmente sabidos, mostra bem a fereza do coração de D. Afonso IV. 

l E demais, qual era a culpa daquela criança, que pouco mais do que 
isso seria João Afonso ? Ter entabolado negociações com seu outro irmão 
Afonso Sanches, e tê-lo prevenido de que o rei ia invadir-lhe os estados. 
^Era tão grave a culpa que merecesse tal castigo? 

Na administração do reino e na sustentação da paz com os vizinhos, se 
foi ocupando a política de D. Afonso IV durante os anos seguintes. 

Com a mira na paz se celebraram em i328 as bodas da nossa infanta 
D. Maria com D. Afonso XI de Castela, e as do infante D. Pedro, herdeiro 
do trono de Portugal, com D. Branca filha do infante D. Pedro de Castela. 

O primeiro enlace foi desgraçado. O segundo nunca se chegou a ultimar, 
porque em i334, nas cortes de Santarém, desesperando, pelo estado de 
saúde da infanta D. Branca, de que ela fosse capaz de dar sucessão à coroa, 
apresentou D. Afonso IV à assembleia o projecto do casamento do filho com 
D. Constança Manuel, filha de D. João Manuel, senhor de Vilhena, e neta 
do infante D. Manuel de Castela. 

As cortes aprovaram este novo casamento, que fora tratado pelo chanceler 
da rainha de Castela D. Maria de Portugal. Além da esperança da sucessão, 
afiançada pelo estado físico de D. Constança, havia uma grande conveniência 
política na aliança de Portugal com o pai desta princesa. 

Era D. João Manuel um homem muito poderoso pelos seus parentescos 
e pelos seus haveres, os herdados e os adquiridos. Tinha Já a filha sido 
desposada com Afonso XI; e, se o casamento se não chegara a ultimar, 
fora porque durante o tempo de espera necessário para D. Constança entrar 



(i) Duarte Nunes de Leão, Primeira parte das Chronicas dos Reis de Portugal, fl. i35. 



6 Brasões 

na idade núbil, se manifestara o turbulento castelhano hostil a seu rei e 
futuro genro. 

Como a sua repudiada filha fosse substituída no trono de Castela, a que 
estivera prestes a subir, pela infanta de Portugal, ficou D. João Manuel com 
certo rancor contra esta corte. Agora, com a projectada aliança, não só se 
dissipava esse ódio, como se alcançava um importante auxiliar contra o rei 
castelhano, cujo porte conjugal era tão ruim, que se receava, chegasse a dar 
azo a guerra declarada entre os dois reinos. 

Afonso XI tanto o compreendeu assim que, com deslealdade manifesta, 
reteve a noiva em Castela, dando este facto origem ao rompimento das hos- 
tilidades entre o sogro e o genro em Agosto de i336. Não. foi guerra de 
morte, nem foram decisivos os combates que houve, nos quais, ainda assim, 
parece que o castelhano levou a melhor. 

Por mediação do legado do papa, e do embaixador de França, suspende- 
ram-se as hostilidades no verão do ano seguinte, e depois de várias demoras 
se celebrou a paz definitiva em Junho ou Julho, de iSSg. 

Entrou afinal D. Constança Manuel em Lisboa meado de Agosto deste 
mesmo ano. 

II 

OS MANUÉIS DE CASTELA 

* 

Juntamente com a infanta veio seu irmão, o joven Henrique Manuel de 
Vilhena, filho bastardo de D. João Manuel havido, em D. Inês de Casta- 
neda (i). 

Na corte portuguesa se criou Henrique Manuel, e nela continuou persis- 
tindo mesmo dçpois da morte da irmã sucedida em 27 de Janeiro de i34g, 
ainda que nas chancelarias não se encontre registada mercê que lhe fosse 
feita por D. Afonso IV ou D. Pedro, devido talvez à sua pouca idade. 

Recebeu contudo muitas doações de seu sobrinho el Rei D. Fernando, 
cujo vassalo foi, e em cujos documentos até ao ano de iSyS (2) aparece no- 



(i) Parece-me necessário dizer que este apelido Manuel, tomado por D. João, senhor 
de Vilhena, é o patronímico do infante D. Manuel de Castela, seu pai. E pura fantasia o 
querer derivar o Manuel de qualquer imperador de Constantinopla. 

(2) Doação das rendas de Mirandela em 8 de Março de iSjo {Chancelaria de D. Fer- 
nando, liv. i.°, fl. 54); doação da vila de Lamas de Orelhão em 28 de Outubro de iSji 
{Ibidem, fl. 92 v.) ; doação dos préstimos de Ourilhe, Castelo, Molares, Vai do Bairro, e da 
vila de Real, todos do concelho de Celorico de Basto, e mais de Bouças, Lapela, etc. em 18 
de Fevereiro de 1372 {Ibidem, fl. gS v.); doação de Cascais e reguengo de Oeiras em 7 de 



Manuéis 7 

Bieado, ora Henrique Manuel, ora Henrique Manuel de Vilhena (1). Em 
i38i já se encontra com os títulos de conde e de dom (2). 

Foi D. Henrique Conde de Seia; disso não há dúvida, pois que se en- 
contra nomeado com este título em um instrumento de 2 de Abril de i383 (3); 
porém conde de Seia e de Sintra, como alguus querem, isso é que me não 
parece, e pelo menos por ora ainda assim o não encontrei intitulado em 
nenhum documento. Nas chancelarias até não vem nunca designado o seu 
título; aparece muitas vezes o Conde D. Henrique, e uma vez o Conde 
D. Henrique, senhor de Cascais (4), mas mais nada. 

Por morte de D. Fernando não seguiu logo o Conde D. Henrique o par- 
tido castelhano, como alguns erradamente supõem (5). Prova-se isto por 



Junho de iZ-jZ {Ibidem^ fl. 107); entrega do castelo de Chaves em 7 de Agosto de 1378 
{Ibidem, fl. iSa); doação dos direitos de Fontes, S.Martinho de Moiros, Mesão Frio, etc. em 
9 de Agosto de 1373 {Ibidem, fl. i33). 

(i) Ainda aparece com este nome na carta de doação a Afonso Gomes da Silva da 
terra e julgado de Celorico de Basto, pela guisa por que a havia Anrique Manuel de Vilhena 
{Chancelaria de D. Fernando, liv. 1.", fl. 149). 

(2) O primeiro documento da Chancelaria, em que ele aparece com estes títulos, é na 
carta de entrega do castelo da Guarda de 12 de Julho de i38i, que está a fl. 84 do livro 2.» 
de D. Fernando. Por carta de 22 de Julho de 1421 (i383) ordenou el Rei ao «Conde dom An- 
rique, alcaide do nosso castelo da Guarda, que vista esta carta entregue o referido castelo 
a Álvaro Gil Cabral, nosso vassalo, que por ele fizera menagem». (Aires de Sá, Frei Gon- 
çalo Velho, I, pág. 1 10, doe 72). 

(3) Contrato de casamento da infanta D. Brites com D. João de Castela nas Provas da 
Historia genealógica, vol. I, pág. 309. 

(4) Privilégios aos moradores de Cascais, carta de i5 de Novembro de i385 a fl. 166 v. 
do liv. I." da Chancelaria de D. João I. 

(5) O Conde D. Henrique Manuel em seguida à morte de el Rei D. Fernando andou 
tergiversando, a ver quem o comprava por melhor preço. Seguiu primeiro o partido cas- 
telhano, pelo que lhe foi confiscada a terra de Lafões e doada a Martim Vasques da Cunha 
por carta de 21 de Maio de i384, já citada. A i3 de Julho desse ano ainda o Conde estava 
em desserviço, como se depreende da carta de confiscação dos bens do seu físico, Mestre 
Josepe. {Chancelaria de D. João /, liv. i.°, fl. 19 v.). Já estava porém com D. João I em 
26 de Abril de i385, quando el Rei fez doação ao Conde de umas casas na rua Nova de 
Lisboa. {Ibidem, liv. 1.°, fl. 3i v.). 

Confirmam portanto os documentos os dizeres do cronista, que nos afirma o seguinte: 
que em Janeiro de i384 assistia em Santarém a D. João I de Castela o Conde de Seia 
D. Henrique Manuel, que tinha Sintra, isto é, que era Alcaide de Sintra; que no castelo 
desta vila, tendo voz pelo Rei de Castela, estava D. Henrique em Fevereiro desse ano, em 
Setembro e em Outubro, quando o Mestre de Aviz teve de desistir de o combater por causa 
do cataclismo que se desencadeou sobre aquelas partes; e que ainda lá permanecia no Ja- 
neiro do ano seguinte, quando o Conde tencionou ir atacar o Mestre ao cerco de Torres 
Vedras (Fernão Lopes, Chronica de D. João 7, parte I, págs. 117, i25, 3oi, 342 e 386). 

Acrescenta porém Fernão Lopes, que neste ano de i383, em Agosto, depois da batalha 



$ Brasões 

várias doações, que lhe fez D. João I no ano de i385(i), sendo a última a 
dos paços de Sintra, para ele e seus descendentes, em 4 de Dezembro (2). 
No ano seguinte porém já estava ao serviço do rei de Castela, que nesse 
mesmo ano lhe dava o título de Conde de Montealegre e o senhorio desta 
vila e da de Meneses (3). 

Tinha casado o Conde D. Henrique em Portugal com D. Brites de Sousa, 
de quem teve descendência, em que se continuaram os senhorios de Mon- 
tealegre e Meneses, mas em que logo se extinguiu a varonia. 

Teve porém vários filhos ilegítimos havidos de diferentes mulheres, e 
entre eles a: 

D. João Manuel de Vilhena, 1.° senhor de Cheles e bisavô de D. Cris- 
tóvão Manuel de Vilhena, que passou de Castela ao serviço da casa de Bra- 
gança, que lhe deu a comenda de Moreiras na ordem de Cristo, e a alcaidaria 
mor de Fontes. Foi este D. Cristóvão progenitor da casa de Vila Flor, que 
recebeu o título de Conde em 29 de Setembro de 1659. A sua descendência 
masculina legítima terminou no 2.° conde, D. Cristóvão Manuel de Vilhena, 
que morreu em 1704, passando a casa e os títulos para os Sousas copeiros 
mores, dos quais o último foi o ilustre Duque da Terceira, que foi 7." conde 
de Vila Flor e morreu em 1860. 

Do 2." conde de Vila Flor foi irmão D. António Manuel de Vilhena, cava- 
leiro de Malta, ordem em que foi ocupando todos os postos até ao de grão 
mestre, para o qual foi eleito em 19 de Julho de 1722. Nesta altíssima 
dignidade morreu a 12 de Dezembro de 1736, e foi sepultado na igreja de 
S. João de Malta em soberbo túmulo no qual se gravou este epitáfio: 



de Aljubarrota, é que o Conde D. Henrique entregou o castelo de Sintra a D. João I, e ficou 
por seu vassalo, com a condição de lhe deixar ter tudo quanto de antes tinha (Ibidem, 
parte II, pág. 162). Esta afirmação é corroborada por uma carta de 5 de Setembro de i385 
de confirmação ao Conde da vila de Cascais e do reguengo de Oeiras, que precedentemente 
D. Fernando lhe havia doado (Chancelaria de D. João I, liv. 1.°, fl. 90 v.). 

Está pois tudo quási conforme, história e documentos, havendo só motivo para reparar 
no facto da acima citada carta de 26 de Abril de i385, de doação de umas casas na rua Nova 
de Lisboa, ser bastante anterior à batalha de Aljubarrota; mas pode-se atribuir a discordância 
a erro na data do documento ao copiá-lo para o novo registo, por isso que o cronista espa- 
nhol também assevera, que foi depois da batalha, que o Conde entregou o castelo de Sintra 
(Ayala, Crónica de... D.Juan I, cap.XVlI, do ano 7.°). Em i386 parece que já tinha pas- 
sado definitivamente para Castela, como no seu lugar ficou dito. 

(1) Registadas no liv. i.° da Chancelaria de D. João I, a fls. 3i, 3i v., 90, 90 v. e 116 v. 

(2) Ibidem, fl. 164 V. 

(3) Lopez de Haro, Nobiliário de Espana, liv. 2.», cap. 5. 



Manuéis 9 

D. o. M. 

HIC JACET M. M. FR. D. ANTONIVS MANVEL DE 

VILHENA 

REGIA A 5TIRPE ORTVS 

QVI AD SVPREMVM MAGISTERII CVLMEN 

OB VIRTVTEM ELECTVS 

MAGIS NATVS QVAM ELECTVS PRINCEPS VIDEBATVR. 

VIX ÇVSCEPTO IMPERII GVBERNACVLO 

ARCEM SVI NOMINIS CONDIDIT: 

VERE PATER PAVPERVM XENODOCHIA FUNDAVIT 

MIRA MENTIS FORTITVDINE PRAEDITVS 

VEL MAGNA COGITABAT, VEL EXEQVEBATVR. 

' MEMENTO, VIATOR, 

QVOD VBI GRESSUM IN HIS INSVLIS SISTES 

PIETATIS EJVS, MVNIFICENTIAE, SECURITATIS 

AMOENITATIS MONUMENTA IBI 

INVENIES. 

IN ACERRIMIS VLTIMI MORBIS CRVCIATIBVS 

SVMMA EJVS RELIGIO, ET PATIENTIA EMICVERE. 

I 
OBIIT PRIDIE IDVS DECEMBRIS 

A. MDCCXXXVI. 

AETATIS SVAE LXXII. MAGISTERII VERO XV. (l). 

Nesta geração extinguiu-se em Portugal a primeira linha dos Manuéis de 
Vilhena, porém de uma senhora com quem o 2.° conde de Vila Flor viveu, 
depois de a ter raptado ao marido, teve êle descendência, que posteriormente 
adquiriu por casamento o senhorio de Pancas, e que subsiste com a varonia 
de Saldanha. 

Derivou-se esta varonia de José Sebastião de Saldanha Oliveira e.Daun,. 
filho segundo do i.° conde de Rio Maior, e marido de D. Maria Leonor 
Carolina da Conceição Manuel de Vilhena da Costa Freire Martins da Fon- 
seca, senhora da Zibreira, da alcaidaria mor de Alegrete e dos morgados de 
Pancas, Alpedrinha, e Tapada da Cubeira, e bisneta do referido 2.° conde 
de Vila Flor. 

José Sebastião de Saldanha foi feito Conde de Alpedrinha em 3o de 
Agosto de 1864, e morreu a 10 de Novembro de i855, seguindo-o a condessa 
no túmulo dois dias depois (i). 



(i) Fr. Francisco de S. Luís, Collecção de inscripções, epitáfios, etc, fl. io8. 
(2) Feo, Memorias dos duques, pág. 385 e 386. 
voL. III a 



IO Brasões 

Estes Manuéis, de que no presente capítulo dei notícia, são os chamados 
de Castela, os quais em Portugal estão extintos na varonia. 

III 

MANUÉIS DE PORTUGAL 

Neste capítulo tratarei dos Manuéis de Portugal, e acabarei com a lenda 
que os faz descendentes de el Rei D. Duarte, que nunca teve filhos bastardos, 
que se saiba. 

Meado o século xv vivia em Lisboa um frade do Carmo chamado Fr. João. 
Era ele provincial da sua ordem em 1441, bispo de Seuta em 1446, e da 
Guarda em 1459. Fora embaixador a Hungria e a Roma, tivera o título de 
bispo de Tiberiades, e exercia o cargo de capelão mor. 

l Era este homem Fr. João Sobrinho insigne pregador carmelitano desse 
tempo, como alguns querem? Decerto que não. 

l Era este bispo da Guarda filho de el Rei D. Duarte, como com entu- 
siasmo o proclamou D. António Caetano de Sousa no cap. I do livro 12.° da 
Historia genealógica ? Também não. 

Então quem era ele ? Quem era ? Era um padre que foi bispo, e teve 

dois filhos de sua amante Justa Rodrigues, por causa de quem êle dizia, por 

sinal, se é que o disse: 

Justa fue mi perdicion ! 

Isto é certo, tudo mais é duvidoso. 

Tudo mais é duvidoso, excepto não ter êle sido filho de D. Duarte. E o 
próprio bispo que o diz; é o seu filho maior que o repete. Contra isto não 
há arrazoados, nem lerias de genealogistas, que prevaleçam. Também é 
certo que em nenhum dos bastantes documentos que tenho visto, se lhe dá 
o apelido de Manuel (i); e é certíssimo que sobre a sua filiação paira um 
mistério impossível hoje de desvendar, julgo. 



(1) Na ordem chamou-se, o futuro bispo da Guarda, Fr. João de S. Lourenço. Com 
este nome o encontro, entre os frades discretos do convento, em uma escritura de 5 de No- 
vembro de 1431 {Traslados de escripturas antigas do Carmo de Lisboa, liv. i.<*, pág. 144). 
— Em 1442, a i3 de Março, já Fr. João de S. Lourenço era provincial do Carmo, como se 
declara em duas escrituras daquela data; mas parece que estava ausente, pois que outro 
frade o representou nos actos {Ibidem, liv. 3.°, pág. 48, e liv. 1.°, pág. i63, advertindo que 
nesta o escrivão leu mal o documento original). — Em 1443, a 8 de Julho, outorga Fr. João 
(já tinha abandonado o apelido), licenciado em teologia e provincial da ordem em certo 
instrumento {Ibidem^ liv. a.", pág. 5). — No mesmo ano, a 6 de Dezembro, estando Fr. João 
em Roma na sua embaixada, é substituído na prelazia por outro carmelita {Ibidem^ liv. 3.», 



• Manuéis 1 1 

E não é só este o mistério. O bispo, além de teólogo exímio, era exce- 
lente astrólogo; e tanto, que o «serviu um diabo, e ele o conheceu, porque 
às portas fechadas lhe trouxe figos borjaçotes em Janeiro (jquem me dera 
conhecer este diabo, eu que morro por figos!); e, benzendo-se o bispo disto, 
ele desapareceu» (i). Mas deixemos o sobrenatural, e vamos ao positivo, 
e por partes. 

D. Fr. João, carmelita, bispo de Seuta e depois da Guarda, não foi o 
mestre Fr. João Sobrinho, também carmelita c contemporâneo. Não o foi, 
nem o podia ter sido, porque Fr. João Sobrinho nunca exerceu prelazia 
nenhuma (2); e D. João sabe-se por documentos, que citarei, que já em 1445 
era bispo de Seuta (3), e em 1469 da Guarda (4). E não só por isto, mas 
também porque o M. Fr. João Sobrinho, em princípios de 1479, já depois 
da morte do bispo, estava eleito em provincial e vigário da província do 
Carmo (5). 

Não foi portanto Fr. João Sobrinho o pai de D. João e D. Nuno Manuel, 
porque nas cartas de legitimação destes se diz serem eles filhos de D. João, 
bispo da Guarda, do nosso conselho, e de Justa Rodrigues, mulher sol- 
teira (6). 

Uma das dúvidas está resolvida: o carmelita Fr. João Sobrinho não foi 
bispo; o carmelita Fr. João bispo da Guarda é que foi o progenitor dos 
Manuéis. 



pág. 56). — Em 17 de Janeiro de 1444, em resuhado da mesma ausência, não é nomeado 
{Ibidem, liv. 2.<', pág. 9). — Encontro-o porém dado como presente em uma escritura de 16 
de Outubro deste mesmo ano {Ibidem^ pág. 12), mas dçve ser erro de cópia do tabelião que 
fez o traslado, pois que àquelo tempo ainda Fr. João estava em Roma, como logo direi. — 
No ano seguinte já era bispo de Seuta. 

Restitua-se o crédito ao tabelião que fez o traslado acima citado. Encontrei agora na 
Torre do Tombo os originais que ele copiou, e a escritura da data errada está a fl. 2 dum 
caderno de pergaminho encadernado em carneira com esta marcação B-47-16. Lá também 
se lê 1444, mas isto não abala a minha convicção, porque os tais cadernos também são cópias, 
porém muito mais antigas, quási contemporâneas. 

(i) Damião de Góis, Nobiliário (Vid. Arquivo histórico português, IX, 365). — Eu 
possuo dêste nobiliário uma cópia excelente, mas infelizmente incompleta. É talvez a que 
foi dada a João Pereira, fidalgo do Porto, à qual se refere D. António Caetano de Sousa no 
Apparato da Historia genealógica. Noutra ocasião darei notícia circunstanciada do códice. 

(7.) Fr. Simão Coelho, Compendio das chronicas do Carmo, pág. gr, col. 2.» in fine. 

(3) Duas escrituras de 2 de Dezembro de 1445 pág. 54 e 58 do liv. 2.° de Traslados de 
escrituras antigas do mosteiro do Carmo de Lisboa. 

{4) Escritura de 16 de Janeiro de 1459 no cit. liv. 1." de Traslados a pág. 3o6. 

(5) Escritura de 3 de Fevereiro de 1479 a pág. 1 10 do liv. 3." dos cit. Traslados. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.°, íi. 166 v., em duas cartas, ambas de i5 de No- 
vembro de 1475. 



12 , Brasões 

Não posso dizer de quem ele fosse filho; mas posso afirmar que o não 
foi de el Rei D. Duarte. E a outra dúvida que vou tratar de desvanecer. 

O argumento decisivo irá depois; começarei porém pela génese da im- 
postura. Como o gato, brincarei com o rato antes de o matar (i). 



O primeiro autor, que deu cá para fora a novidade impressa, foi Pedro 
de Mariz nos seus Diálogos de varia historia, que saíram em 1694. No 
cap. V do Diálogo quarto diz ele: « Houve mais elRey D. Duarte hum filho 
bastardo, chamado D. loão Manoel, de húa Dama & parenta da Rainha 
D. Lianor sua molher, q cÕ ella viera de Aragão: & chamav^sse D. lonna 
Manoel, da nobilíssima familia dos Manoeys de Castela. . .» (2). 

Para abonar o seu dito cita Pedro de Mariz na margem estes autores: 
«O Doutor Hieronym. Gudiel na Chronica dos Giron. cap. Sg. — GÕsalo 
Argote de Molina lib. 2. c. 38 Ba nobre:{a de Andalui. — Simão Coelho 
Carmelita», e, apontando mais quatro códices manuscritos, arremata com 
estas palavras: <íEt in hoc secada editione, fuit hoc cõprobatum satis 
siiperq; visis et revisis miiltis codicibus Jide & veritate côspicuisD. 

Pois se ele nesta segunda edição viu e reviu muitos códices, tanto desta 
vez como da primeira estava cego quando para os livros olhou. É triste, 
triste e desagradável, ter de dizer a um velho escritor, que, levado pela adu- 
lação, faltou à verdade; mas quem tem somente em vista restabelecê-la até 
onde puder, vê-se obrigado a dizer-lho. 

Gudiel na sua Chronica dos GirÕes (3) no cap. 39, que é bem comprido 
€ onde se vêem trinta e seis árvores de gerações diversas, em parte nenhuma 
fala no bispo D. João, nem em filhos de el Rei D. Duarte. Argote de Mo- 
lina no cap. 38.° do liv. 2.° da Noble^a dei Andaluzia também não se refere 
a semelhantes personagens; mas, o que é mais grave, é que no cap. 58.° tra- 
tando da linhagem dos Manuéis de Castela em parte nenhuma nomeia ao 
bispo, nem a sua suposta mãe. Finalmente, Fr. Simão Coelho no seu Com- ^ 
pendio das chronicas do Carmo guarda análogo silêncio sobre o caso. 

Os mais autores seguiram a Pedro de Mariz, copiando-se reciprocamente, 
e autorizando-se uns com os outros. 



(i) Vid. Archivo histórico portuguez, IX, 365. 

(2) Servi-me da edição de 1598, a que tenho, onde o transcrito vem no v. da fl, i58, 
que está numerada 5 18. 

(3) O verdadeiro título é: Compendio de algunas historias de Espana, donde se iratàn 
muchas antiguedades dignas de memoria: y especialmente se dá noticia de ia antigua familia 
de los Girones,y de oiros muchos linajes... Por el doctor Geronymo Gudiel. En Alcala .. 



^■■■mM^MiiM" 



Manuéis i3 

Anterior porém a Pedro de Mariz, em uma carta, que hoje se vê im- 
pressa (i), e que é datada do convento de S. Francisco de Santarém a 26 de 
Julho de 1567, se dirigiu Gaspar Barreiros a Damião de Góis, que já tinha 
publicado as três primeiras partes da Chronica de D. Manuel, .e dá-lhe a 
novidade (2). Começa por confessar que os netos e parentes do bispo 
D. João se lhe haviam queixado lá em Santarém do cronista não fazer 
« menção de cujo filho foy o Bispo da Guarda, pay do dito D. João (o D. João 
Manuel camareiro mor), assim da parte do pay como da may». Já daqui 
se vê o morbo de que a informação vinha eivada. Depois, continuando, 
diz mais: «O dito Bispo da Guarda foy capellão moor dei Rey D. Affonso 
o 5." havido do dito Rey e do Infante D. Fernando seu yrmão por filho del- 
Rey Dó Duarte seu pay, e por tal foy dado a criar e pella mesma causa 
feito Religiozo do Carmo, o qual filho ouve o dito rey em huma Sr.* caste- 
lhana que veyo a este reyno da linhagem dos Manueis de Castella etc». 

Este, à cautela, não entrou em grandes pormenores acerca da mãe do 
bispo; era dos Manuéis de Castela, e para novidade já bastava. Pedro de 
Mariz quis adiantar mais alguma coisa, e estendeu-se. Ele faz a mãe do 
bispo dama da rainha D. Leonor e com ela vinda para Portugal. jEra muito 
lindo, mas D. Leonor só veiu para cá em Setembro de 1428, e treze anos 
depois, em 144 1, já o filho da 4ama era provincial da ordem de Cristo! (3). 
Foi uma criança precoce. 

Outros atentaram no erro e quizeram salvar a cronologia, fazendo a mãe 
do bispo filha de D. Henrique Manuel de Vilhena, Conde de Seia, caindo 
noutro extremo, no de apaixonarem o infante D. Duarte por uma velha. 
Ainda outros disseram que ela fora neta do dito Conde D. Henrique, filha 
de D. Fernando Manuel de Vilhena, e dama da rainha D. Felipa, não se 
lembrando de que toda a geração dos Manuéis fora banida do reino pela 
traição do Conde D. Henrique. 

No meio de todos estes escolhos é notável a maneira como D. António 
Caetano de Sousa governa o seu barco (4), e como pretende salvá-lo do nau- 



(i) Joaquim de Vasconcelos, Damião de Góes. Novos estudos, pág. 120. 

(2) Damião de Góis no seu Nobiliário (refiro-me sempre à minha cópia) mostra ter tido 
conhecimento desta carta : « Lembro aqui que achei que dizia Gaspar Barreiros, que tinha 
escripto desta linhagem no livro que compoz das Linhajes de Portugual e Castella muitos 
annos antes do anno de iSóy, que dizia, que cria, que desta historia na sua Corographia. & 
que este Bispo foi Capellão mor del-rei D. A.° 5." & ávido delle do Infante seu Irmão D. fer- 
nando por filho delRey D. Duarte seu pai etc». Apesar disto conservou para progenitor 
dos Manuéis a Fr. João Sobrinho. 

(3) Fr. Manuel de Sá, Memorias históricas do Carmo, pág. 216. 

(4) Historia genealógica, Viv. 12°, cap. l. 



'14 Brasões 

frágio mesmo ao dar nos .cachopos dos papéis do Carmo, de um dos quais 
êle teve conhecimento, se é que o não leve de ambos e nos escondeu o mais 
perigoso. 

Permite-me contudo, leitor, ainda umas considerações antes de dar a 
palavra aos documentos, e permite-mas porque, mesmo na ausência deles, 
eu não acreditaria que o bispo da Guarda D. João houvesse sido filho de 
el Rei D. Duarte, e disto te quero deixar convencido. 

Já quási persuadido deverás estar, atendendo à origem das informações. 
Quem quer dizer uma verdade, não começa por mentir como fez Pedro de 
Mariz; quem crê numa novidade, não confessa que lhe foi sugerida pelos 
interessados, como declara Gaspar Barreiros. 

Atenta bem, amigo, e poupo-ie citações. 

D. Duarte nasceu a 3i de Outubro de iSgi, e casou a 22 de Setembro 
de 1428. Depois desta data já viste que lhe não podia ter nascido o suposto 
filho; portanto temos de lhe procurar o nascimento anterior a ela. 

A rainha D. Felipa morreu a 18 de Julho de 141 5. Não quero admitir 
que o grave, austero, respeitador D. Duarte fosse manchar, profanar, pode-se 
dizer, a casa honrada de sua mãe, seduzindo uma das donzelas entregues à 
sua guarda. Não o quero admitir; e não lho consentiria a vigilância da 
rainha. Por estes tempos contudo andava êle « doente do humor menenco- 
nico» (i), e um dos conselhos dos físicos de então era bem próprio para dar 
razão de ser a Fr. João de S. Lourenço, o futuro bispo da Guarda. D. Duarte 
porém diz que «todos desprezei». Admitamos por hipótese que o infante 
não tivesse sido sincero, e que não só bebesse vinho pouco aguado e se dei- 
xasse de grandes cuidados, mas também que se sacrificasse a Vénus com 
frequência, vindo então o bispo da Guarda a nascer por 1416, sendo entregue 
a uns vilões para o criarem como filho, e com tanto mistério e resguardo, 
que deles se supôs sempre nascido até ao final da vida. ^Nestas condições, 
filho de plebeus, nem sequer suspeitado de bastardo de um rei, acreditas, 
leitor, que aos vinte e quatro anos fosse o geral da ordem, lá em Roma, no- 
meá-lo provincial do Carmo de Portugal? ; Acreditas que em 1437, apenas 
com vinte e um anos, Fr. João, carmelita, fosse escutado, segundo diz Rui 
de Pina, pelos combatentes no arraial de Tânger, como um homem sábio e 
prudente? ^Acreditas que em 148 1, mal cumpridos os quinze anos, já 
Fr. João de S. Lourenço fosse um dos frades discretos do seu convento, 
como o declara uma escritura ? 

Não, tu não o acreditas, mas lastimas, como eu, a facilidade com que 



(i) Leal conselheiro, cap. XIX. — Quem tiver lido este livro não compreende a possi- 
bilidade do seu autor ter seduzido uma donzela da casa de sua mãe. 



wiii r il i iiii i j>%tj >i ^ ^' 



Manuéis i5 

aceitamos sem averiguações o que antes de nós se escreveu, sobretudo 
quando cheira a escândalo. Aceitamos umas vezes, porque outras criticamos, 
deprimimos, ridiculisamos, o que outros com mais estudo do que nós, ainda 
que nem sempre com firme crítica a que não damos o desconto dos tempos, 
escreveram. 



. Agora fale o bispo D. João: 

«... Disse e declarou que era verdade que êle de seus próprios dinheiros 
que houvera por razão de sua pessoa por mercês que houve de el Rei nosso 
senhor, isso mesmo por ir por embaixador por vezes em corte de Roma ao 
Santo Padre, e ao reino de Ungria, por outras causas, modos bons, lícitos 
e honestos... comprara e houvera para si por autoridade e licença do dito 
senhor rei estes bens que se adiante seguem. .. Destes bens fez logo mor- 
gado para sempre, mandando lhe dissessem em cada ano por sua alma seis 
missas em qualquer capela onde êle fôr enterrado, saindo no íim da missa 
sobre sua cova com responso... Disse mais que fazia doação deste dia 
para todo sempre ao dito D. João Manuel. . . das ditas casas novas. . . com 
a condição... que o possuidor que fôr das ditas casas lhe faça dizer em 
cada um ano para todo sempre seis missas resadas em cada quaresma de 
cada um ano, convém a saber, cada domingo da dita quaresma uma missa 
pela alma do dito senhor e seu padre e madre, saindo sempre em fim de 
cada missa com responso e água benta sobre a cova onde Ja:^ o dito seu 
padre e madre r> (i). 

^ Ainda o querem mais claro? Fale então D. João Manuel, o filho maior 
do bispo: 

«Por quanto D. João, que foy Bispo da Guarda, e Provincial daquele 
Mosteiro (o do Carmo em Lisboa), se mandou ali enterrar, lhe "davão a Ca- 



(i) Carta de 14 de Agosto de Í475 de instituição da capela do bispo da Guarda no con- 
vento do Carmo de Lisboa. Está a fl. 87 vol. I do Tombo das escripturas que tratão das 
Capellas deste Real Convento do Carmo de Lisboa. Feito depois do Terremoto . . . escripto 
pelo R. P. Frequentado Fr. Matheus de Araújo Correia, Escrivão do dito Convento. Anno 
de ijSS; guarda-se na Torre do Tombo. Está também a fl. i5i do liv. 3.° das Capellas do 
Carmo, que se guarda no cartório do hospital de S. José. Em ambos os livros são cópias 
autênticas, com reconhecimentos, e perfeitamente em forma, mas em ambos vêem-se apenas 
extractos. Está porém o documento por inteiro a fl. 16 e seguintes dos Autos da conta da 
Capella do Bispo da Guarda D. João Manuel (sic) na egreja de Nossa Sr.a do Monte do 
Carmo, Cartório das capellas, mac. Q2, n.o 2, Ext.o goy. — Estes preciosos autos encontrou-os 
no cartório do hospital de S. José, onde a pedido meu os procurou, o distinto cartulário 
daquele precioso arquivo, Luís Carlos Leão Trinité, a quem quero deixar aqui o meu agra- 
decimento. 



1 6 Brasões 

pella dos Reys para elle bispo, e que nella se enterrariao, senão o dito 
D. João, e seu irmão D. Nuno, e os que delles descendessem, salvo Leonor 
Pires, mulher, que foy de Pedro Annes, escudeiro e morador em Valverde, 
para o que o dito D. João Manuel dava tal renda ao Mosteiro para lhe 
dizerem certo numero de Missas pelas almas do Bispo seu pay, e sen paj^y 
e mãf delle Bispo^ que estavão enterrados da banda de fora da dita Capella, 
junto com o primeiro esteyo, etc. » (i). 

El Rei D. Duarte, como todos sabem, está enterrado na Batalha e nunca 
teve outra sepultura. As razões que D. António Caetano de Sousa apresenta 
em seguida à transcrição acima para a infirmar, são realmente fúteis (2). 



Fique pois assente, acabando com esta lenda, (^ue o bispo da Guarda 
D. João (3) não foi filho de el Rei D. Duarte. Fique também em certeza 
que o bispo, que na ordem se chamou ao princípio Fr. João de S. Lourenço, 
nunca usou do apelido Manuel; e agora direi resumidamente o mais que sei 
de sua vida. 

O misterioso João nasceu, em Lisboa dizem, nos princípios do século xv, 
pois que, tendo outorgado como um dos frades discretos do seu convento 
em uma escritura acima citada de 5 de Novembro de 148 1, não se lhe pode 
admitir menos de vinte e cinco anos a este tempo. Teve portanto lugar o 
seu nascimento no ano de 1406, ou ainda antes, quando o seu suposto pai 
tinha quinze anos escassos. Ainda em vida do condestável recebeu o hábito 
no convento do Carmo daquela cidade (4). Teve pois lugar esta cerimónia 
entre Agosto de 1422 e i de Novembro de 148 1. Depois professou termi- 
nado o noviciado, e ainda depois de professo conviveu bastante com Nuno 
Alvares, que morreu na segunda data apontada (5). 

Foi o frade da criação do condestável, e unido por estreita afeição a seu 



(i) Contrato de 5 de Julho de 1488 celebrado entre D, João Manuel e os carmelitas de 
Lisboa. Está a pág; 27 do liv i.° dos Tombos do Carmo citados por Sousa na Historia 
genealógica, vol. XI, pág.^386, e por Sant'Ana na Chronica dos Carmelitas, vol. II, § iii. 

(2) Historia genealógica, vol. XI, pág. 386. 

(3) Era tio de um Álvaro Pires Pessoa que teve carta de perdão em 6 de Julho de 1450 
(Torre do Tombo, liv. 3.°, fl. 5o8 v.). 

(4) Fr. Manuel de Sá, Memorias do Carmo, pág. 2i3 e 2i5; Fr. José Pereira de Sant'Ana, 
Chronica dos Carmelitas, vol. II, §§ 83 e 87. — Enganam-se porém os cronistas quando 
supõem catorze anos de idade a Fr. João ao receber o hábito. O menos que êle poderia 
ter em Agosto de 1422 eram dezaseis anos. Enganam-se também não identificando, como 
o fazem os documentos, a Fr. João de S. Lourenço com o Fr. João a que eles chamam Ma- 
nuel 

(5) Sant'Ana, Chronica dos Carmelitas, vol. I, §g 909 e ioo3. 






Manuéis 



17 



neto o Conde de Ourém (i). Apasar destas relações, /e talvez mesmo por 
via delas, porque recaíam em « homem de grande prudência e de san e justa 
tenção», foi D. João escolhido pelo infante D. Henrique, em princípios de 
1449, para aconselhar ao infante D. Pedro outro comportamento* nas suas 
discórdias com o sobrinho e antigo pupilo (2). 

Quis deixar manifestadas as relações de Fr. João de S. Lourenço com a 
a casa de Bragança, as quais explicam não só a rápida elevação do frade, 
mas também o seu futuro valimento junto a D. Afonso V, e antecipei-riíe 
um pouco. 

Quando em 1436 se organizou a malograda expedição a Tânger, uma 
das pessoas principais que nela tomaram parte foi Fr. João, que, conforme 
o cronista, já então era provincial do Carmo, no que há engano (3). No 
ano seguinte, em Agosto, partia o frade para Africa e lá serviu na campanha 
por forma que as palavras do cronista bem exaltam. Diz ele: «E aqui nom 
he razom, por seu perpetuo louvor, e boõ exemplo de Religiosos, que passe 
per esquecimento, o grande esforço nas pellejas, e húua devota esperança, 
para os que nellas morressem, bem acabarem, que ho Bispo de Cepta (4), 



(i) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 38o. — Fr. José Pereira de Sant'Ana na 
Chronica dos Carmelitas, vol. II, § 1 00, traz, referindo-se a Fr. João, uma carta do genro 
do condestável, o Conde de Barcelos D. Afonso, carta que é apócrifa. Basta lê-la para logo 
entrar a suspeita no espírito. A carta não tem data, e é dirigida, não se sabe a quem, mas 
a pessoa tão altamente colocada, que naquelas eras o filho de um rei lhe dava o tratamento 
de senhoria. 

A carta recomenda a Fr. João, provincial do Carmo, para abade comendatário de Alco- 
baça durante o impedimento do abade perpétuo, que, diz ela, poria de boa mente o mos- 
teiro nas mãos do carmelita. O abade de Alcobaça, que se encontra nestas condições por 
esses tempos, foi D. Fr. Estêvão de Aguiar chamado em 9 de Janeiro de 1440 para a corte, 
onde morreu a i3 de Fevereiro de 1446. (Fr. Manuel dos Santos, Alcobaça ilustrada^ pág. 264). 
A eleição de seu sucessor, Fr. Gonçalo Ferreira, foi aprovada por carta régia de aS de Março 
de 1446 (Liv. 5> de D. Afonso V, fl. 28). Já aqui ficam duas datas entre as quais se há de 
meter a da carta. Nesta porém se diz que já então havia Fr. João sido por duas vezes 
embaixador junto ao papa, o que vem precisar muito mais a data do pseudo-documento. 
Efectivamente Fr. João foi uma primeira vez a Roma donde voltou em fins de 1440, e tomou 
a ser nomeado a segunda vez em Julho de 1443. Tudo isto lá adiante ficará provado. 
Temos portanto de pôr a data da carta do Conde de Barcelos pelo menos depois de Julho 
de 1443; ora êle, já desde 3o de Dezembro do ano antecedente, era Duque de Bragança 
{Historia genealógica, vol. S.*», pág. 40) ; explique pois, quem souber, porque é que na carta 
D. Afonso se assina « O Conde ». 

(a) Pina, loc. cit. 

(3) Pina, Chronica de D. Duarte, pág. 1 18. — A propósito da citação desta crónica direi ' 
que nela se não encontra a mínima referência a ser o carmelita filho de D. Duarte. 

(4) Aqui há outra antecipação do cronista. Fr. João só foi bispo de Seuta depois dfr 
Í443. 

VOL. Dl 3 



l8 Brasões 

que despois foy da Guarda neste combate, e em todollos outros aos Chris- 
taãos acrecentava, o qual com as muytas leteras, e boa eloquência, de que 
foy bem dotado: e assi com hum viril coraçom, que lhe nom fallecia, vestido 
nas armas Seculares, em que pellejando recebeo muytas feridas e também 
nas Ecclesiasticas, como compria aas vezes os socorria, e esforçava com 
plenárias asoluçooens da Bulia da Cruzada, que trazia, e as mais os animava 
c5 ho Verdadeiro Corpo de Nosso Senhor, que a todos mostrava, dizendo 
em altas vozes, e com perenaaes lagrimas nos olhos, palavras de tanto es- 
forço, fee, e devaçaom, que os Cristaaõs, que ho viam e ouviam, tam sem 
receio se despunham aos perigos, que já nom pareciam, que pelejavam por 
livrar-se das mortes, mas que folgavam perder as vidas em tal auto, por 
nelle salvar suas almas » (i). 

Por estes tempos, talvez já depois da morte de D. Duarte, começaram a 
ter lugar as diferentes embaixadas de Fr. João, que se sabe ter ido na 
qualidade de embaixador uma vez a Hungria e duas a Roma. Da ida àquele 
reino só me consta pela escritura da instituição do vínculo acima citada; da 
primeira das idas à cúria sabe-se unicamente o seguinte: terem D. Rui da 
Cunha, prior de Guimarães, e o futuro provincial do Carmo D. João, che- 
gado ao reino de volta da sua missão em Dezembro de 1440(2); e a segunda 
consta por um documento interessante, que extractarei (3). 

O regente D. Pedro, estando em Sintra, mandou passar um alvará em 
16 de Julho de 1448 a Fr. João, provincial do Carmo, a quem havia nomeado 
embaixador a Roma, regulando-lhe a forma da jornada; e outro no dia 
seguinte, em que lhe mandou dar cem ducados de graça. 

Pôs-se Fr. João a caminho por mar, e chegou a Bruges a 8 de Dezembro, 
pagando de frete da carraca, em que foi até lá, vinte ducados. Nesta cidade 
recebeu trezentos e vinte ducados de um fulano frolentim por letra de 
câmbio de Tropell, mercador genovês estante em Lisboa. 

De Flandres seguiu para Roma por terra, comprando para a jornada 
uma besta para si que lhe custou vinte ducados, e por mais trinta, três 
cavalgaduras para três criados que consigo levava. 

Chegado à cidade santa recebeu mil cento e oitenta ducados de Felipe 
de la Luna por outra letra de câmbio do dito Tropell que ia para o banco 



(i) Chronica cit., pág. i63. 

(2) Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 320. — Parece confirmarem a estada de D. Rui 
da Cunha em Roma no ano de 1439 uns breves dados nesse ano pela cúria a favor da cole- 
giada de Guimarães (Serra Grasbeck, Catalogo dos abbades de Guimarães, págs. 48 e 49). 

(3) É uma carta de quitação que se encontra na Chancelaria de D. Afonso F, liv. 5.", 
fl. 54, publicada por extenso nos Documentos das chancelarias reais... relativos a Marrocos, 
I, 323. 



Manuéis 



t^ 



de António de Paces; e mais duzentos e cinquenta ducados dos monges de 
Florença, de dinheiros que lhes haviam sido dados em guarda em tempo de 
el Rei D. Duarte (i). Para haver contudo esta quantia teve de pôr demanda 
aos religiosos, na qual gastou onze ducados. 

Entrando Fr. João a tratar dos negócios a que ia, começou-lhe logo a 
esvasiar a bolsa, o que sucede sempre em Roma, como é bem sabido. 

Com as letras de desanexaçao do mestrado de Santiago, e de demarcação 
do bispado de Seuta, dispendeu o embaixador mil trezentos e cinquenta 
ducados de câmara e dez bojocos (baiocchi) nestas verbas: mil ducados de 
Veneza, que se diz serem mil e cinquenta e sete ducados de câmara e dez 
bojocos, ao Santo Padre; cem ducados ao Mourenensy pelo seu trabalho, 
por com boa diligência solicitar o que cumpria; cento e seis ducados pelas 
bulas da desanexaçao; quinze ducados pela letra de dispensação do casa- 
mento do infante D. Fernando; sessenta e cinco ducados, sendo quarenta de 
taxamentb do mestrado, vinte ao taxador por não ter levado taxa de quatro 
mil ducados em que o mestrado é posto, e cinco de outras coisas meúdas 
pertencentes às letras; dois ducados ao secretário do Duque de Borgonha, 
«meu muito amado e presado tio», pelas letras que fez; e cinco ducados 
aos porteiros do papa. 

Concluídas as negociações saiu Fr. João de Roma a 8 de Dezembro de 
1444 direito a Savona. Embarcou aí numa carraca a 22 de Janeiro seguinte, 
gastando quatro meses na travessia, parando em Cadiz (2), onde mudou 
para uma barca, e apontando finalmente a Castro Marim em 20 de Maio 
de 1446. Pela passagem na carraca até Cadiz pagou doze ducados, e na 
barca até Portugal nove dobras, ou nove ducados, pois que equivaliam como 
se vê da conta. 

Já até aqui estão apontados mil quatrocentos e quarenta ducados e dez 
baiocchi de despesas várias, vejamos agora as restantes verbas: Tomou 
para si quinhentos e quarenta e nove ducados para seu mantimento, e de 



(i) D. António Caetano de Sousa na pág. 383 do vol. XI da Historia genealógica, com 
a sua tineta de querer que o Bispo seja filho de D. Duarte, faz uma confusão medonha com 
esta parte do documento. Ele entendeu que os referidos dinheiros haviam sido dados em 
Guarda, isto é, na cidade da Guarda, ao bispo por el Rei D. Duarte, tirando daqui a con- 
clusão de que já no tempo deste rei gosava Fr. João de valimento. Nem então se sonhava 
em que o frade viria a ser bispo da Guarda, nem o documento diz coisa nenhuma que se 
aproxime da interpretação que o tealino lhe dá. Os tais dinheiros haviam sido dados «m 
guarda, em depósito, aos monges de Florença. 

(2) O documento chama-lhe Calez. Evidentemente não é Calais, mas sim a Gades 
antiga, nome que ocasionaria a confusão do escrivão pouco forte em geografia. Ele já a 
Savona chamara Sagona. Não é também para admirar o tempo gasto na viSgem, poi& 
que em Janeiro no golfo de Leão a carraca havia de ser bem batida das ondas. 



•20 Brasões 

três cavalgaduras, pelo tempo que medeou entre a chegada a Bruges e a 
partida de Roma, a razão de meio ducado por dia para a sua pessoa, e de 
um ducado por dia para as cavalgaduras, a terço de ducado por cada uma; 
pelo seu corregimento, setenta e cinco ducados; para vestido dos seus, 
quarenta ducados; para si de graça, cem ducados; para mantimentos durante 
a viagem por mar até Cadiz, quarenta e nove ducados e meio, contando a 
sua pessoa a cinco ducados por mês e os seus três homens a dois ducados 
cada um; e mais duas dobras até Castro Marim. Somou a despesa toda em 
dois mil duzentos e sessenta e sete ducados e meio, e dez baiocchi, e a re- 
ceita em mil setecentos e cinquenta ducados ; houve pois um excesso de' des- 
pesa de quinhentos e dezasete ducados e tal, que se lhe mandou pagar pelo 
rendimento da alfândega de Lisboa, ajustando-se as contas, e dando-se-lhe 
quitação um ano depois do regresso, por carta passada em Abrantes a 3 de 
Junho de 1446(1). 

No princípio desta carta diz-se: «fazemos saber que o ano passado de 
1443 mandámos à corte do Santo Pa^re D. João bispo da nossa cidade de 
Seuta etc. ». Daqui entendeu D. António Caetano de Sousa que D. João já 
era bispo de Seuta, quando foi para Roma; é engano, era já bispo quando 
se lhe passou a carta de quitação, isso sim. A 26 de Novembro de 1443 
ainda Fr. Aimaro era bispo de Seuta (2). A i de Julho de 1444 era contudo 
já falecido. Consta de uma carta de isenção de serviços para o homem que 
casar com Isabel Fernandes, morador em Guimarães, porquanto fomos certo 
que a criou de mui pequena D. Amaro, bispo que foi de nossa cidade de 
Seuta (3). 

Em 1445 tinha já Fr. João, provincial do Carmo, passado a ser D. João, 
bispo de Seuta primas de África (4), prelazia que provavelmente lhe havia 
sido confirmada em Roma no ano de 1444 em que lá residiu. Com o bis- 
pado conservou porém D. João o governo da província do Carmo, que 
exerceu até morrer. 

Em 1460 era capelão mor (5), e em 1459, nos princípios do ano, bispo 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.°, fl. 54, já citada. 

(2) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. 5.°, pág. 200. 

(3) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 24.°, fl. 76 v. 

(4) Encontro a Fr. João já provido no bispado de Seuta em duas escrituras de 2 de 
Dezembro de 1445 ( Traslados de escripturas antigas, liv. 2.°, págs. 54 e 58, papéis do con- 
vento do Carmo de Lisboa hoje na Torre do Tombo). 

(5) Procuração de 20 de Janeiro apud Sant'Ana, Chronica dos Carmelitas, vol. 2."», 
pág. 419; carta de 3o de Julho de niercê de. todos os bens móveis e de raiz, situados na 
Louzã e em Condeixa, de vários lavradores que haviam estado com D. Pedro na Alfarro- 
beira {Chancelaria de D. Afonso F, liv. 34,0, fl. 192 v.). 



Manuéis 2i 

da Guarda (i). Sucedeu neste bispado a D. Luís da Guerra a quem 
D. Afonso V, tratando-o por nosso bem amado primo, concedera, por carta 
dada em Estremôs a 28 de Junho de 1458, privilégios para os homens que 
trabalham em uma ferraria que o bispo ordenara e mandara fazer em Caria 
no seu bispado (2). Continuou D. João com esta exploração do ferro, e 
impetrou de el Rei uma carta dada em Évora a 17 de Abril de 146 1 (3) 
dirigida em geral a todos os juízes e Justiças, pela qual se concederam vários 
privilégios aos biscaínhos que então lavravam nas ferrarias de Caria, e a 
outras quaisquer pessoas que de futuro se empregassem na mesma indústria. 
Ficaram autorizados a buscar e abrir quaisquer vieiros de ferro que em o 
reino entendessem de achar, dando-se-lhes caminhos para trazerem o metal 
às ferrarias para aí o aproveitarem, e outrosim bois, carros e bestas para 
os transportes; tudo isto satisfazendo eles primeiro e contentando aos donos 
das terras, animais e veículos (4). 

Nesta carta é D. João intitulado bispo da Guarda, capelão mor e do con- 
selho. Bem assim o é em outra dada na própria cidade da Guarda a 2 de 
Setembro de 1465, em que se mandam prender muitos rendeiros das rendas 
do bispado, que estavam excomungados por falta de pagamento, e retê-los 
presos até satisfazerem seus débitos (5). 

Depois, aproximando-se a morte, instituiu D. João, em 14 de Agosto de 
1475, o morgado a que já me referi. 

Foi feita a escritura em Lisboa nas casas do muito honrado religioso 
senhor D. João, bispo da Guarda, do conselho de el Rei e seu capelão mor, 
estando aí o dito bispo e D. João Manuel, fidalgo da casa do príncipe. 
Começou o bispo por declarar que em Fevereiro de 1460 alcançara licença 
e faculdade do papa para que dos bens, licitamente grangeados, pudesse 
testar e legar até à soma e valia de cinco mil cruzados de câmara. Em 



(i) Numa escritura de 16 de Janeiro de 1459 se diz que D. João, bispo de Seuta, estava 
eleito e confirmado no bispado da Guarda {Traslados de escripturas antigas (do Carmo), 
liv. 2.°, pág. 3o6). Não sei quando tomou posse e seria muito antes de 16 de Abril de 1461, 
em que já era bispo da Guarda, como consta de uma carta dada em Évora, pela qual se 
mandaram restituir à sua mitra uns lugares que lhe haviam sido tirados {Beira, liv. 2.% 
fl. 189 V.). Foi com certeza, pois que numa escritura de 14 de Dezembro de 1459 já aparece 
intitulado bispo da Guarda sem mais restrições. Está o documento a fl. i5 v. dum caderno 
de pergaminho, que se guarda na Torre do Tombo com a marcação B-47-16. 

(2) Beira, liv. 2.», fl. 19. 

(3) Outra carta para análogos fins, dada em Lisboa no ano de 1462 e registada no liv. i.* 
de D. Afonso F, fl. loi, transcreve Sousa Viterbo nas Artes e industrias, Minas e mi- 
neiros, 53. , 

(4) Ibidem. - 

(5) Ibidem, fl. 26 v. 



22 Brasões 

virtude desta autorização adquirira estes bens: uma quinta com vinhas, 
pinhais, marinhas e moinhos no Hmite de Aldeia Galega, onde chamam a Lan- 
çada, a qual havia comprado por trezefitos e quarenta mil reais (i); na cidade 
de Lisboa, na freguesia de S. Mamede, comprara por cento e dez mil reais de 
D. Fernando Coutinho, marichal destes reinos, e de sua mulher, um assen- 
tamento de casas, que ainda não eram acabadas, e que o bispo ora manda 
acabar, as quais partiam com casas que foram de D. Álvaro Gonçalves de 
Ataíde, Conde da Atouguia, e da Condessa D. Guiomar de Castro, sua 
mulher, e da outra parte com azinhaga entre as casas que haviam sido do 
marichal e as de João Vaz de Almada, rico homem, do conselho de el Rei 
e vedor que foi da sua casa, e, ainda doutro lado com ruas públicas; com- 
prara mais e houvera por duzentos e setenta mil reais de D. João de Noronha 
e de sua mulher D. Felipa as sobreditas casas que haviam sido dos condes 
da Atouguia pais desta senhora, as quais partiam com as referidas casas de 
João Vaz de Almada, com as que haviam sido do marichal, e com ruas pú- 
blicas; uma quinta em termo de Abrantes, onde chamam Rio de Moinhos, 
adquirida por setenta mil reais; e o lugar da Póvoa de Sanhados, com sua 
jurisdição e padroado, no bispado da Guarda junto com Monsanto, que lhe 
custara sessenta e cinco mil reais. 

Destes bens, resalvando as casas novas que haviam sido do marichal, 
fez logo morgado para sempre, dando-lhe por cabeça as casas que haviam 
sido de D. João de Noronha, e pondo-lhe certa obrigação de missas já decla- 
rada. Fez administrador do morgado ao referido D. João Manuel, que pre- 
sente estava; mas, por êle ser menor de vinte e cinco anos, ordena que em 
seu lugar tenha a administração a mãe deste, Justa Rodrigues, ama do senhor 
D. Manuel, filho do infante D. Fernando, cuja alma Deus haja. Dispensa-a 
de dar contas, havendo de entregar a administração ao filho' logo que êle 
complete a maioridade. Por morte de D. João Manuel passará o vínculo ao 
seu filho maior varão legítimo, se o tiver, e, não o tendo, então irá a admi- 
nistração a seu irmão D. Nuno, o qual, em sendo maior de vinte e cinco 
anos, tomará conta dela, e até lá a terá sua mãe Justa Rodrigues. Por 
morte deste passará a seu filho maior varão legítimo; se porém D. Nuno tal 
filho não tiver, e D. João haja filha legítima, seguirá esta com a adminis- 
tração, de preferência à filha de D. Nuno, se a houver. Caso ambos os 
irmãos morram sem descendência nenhuma legítima, então haverá a admi- 



(r) Desta quinta já era possuidor havia anos, como consta por uma carta de 14 de 
Julho de 147 1 que dispensa de comparecer em alardos Gonçalo Afonso, besteiro do conto, 
morador em Aldeia Galega, emquanto estivesse ao serviço do bispo da Guarda, « do nosso 
conselho e nosso capelão mor» (^Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16.*», fl. i35). 



Maniiéis 23 

nistração do morgado em sua vida Justa Rodrigues, que por sua morte, ou 
quando lhe aprouver, apresentará o vínculo em pessoa leiga e de boa cons- 
ciência, e esta nomeará o sucessor, e assim seguidamente. 

Determina mais que, falecendo Justa Rodrigues antes da morte .dos filhos, 
D. João deixe toda a parte da legítima que lhe pertencer a seu irmão 
D." Nuno para este se poder suportar e viver honradamente' com .toda a 
herança de sua mãe, donde se vê que ela era rica. Não cumprindo D. João, 
perca logo a administração do morgado e fique esta a D. Nuno. 

Declarou também que havia comprado por cinquenta e cinco mil reais, 
que são cento e sessenta e oito cruzados, a D. João, conde de Mon- 
santo, e D. Maria de Meneses, sua mulher, uns paços na cidade da 
Guarda, que haviam sido do Conde D. Duarte, pai de D. Maria, juntamente 
com a aldeia que se chama da Ima, com o seu padroado e casas no Ver- 
dugal termo da mesma cidade, bens de que fez doações a pessoas a que era 
obrigado. 

Disse mais que fazia doação daquele dia para sempre a D. João Manuel, 
para todos seus herdeiros e sucessores, das referidas casas novas que haviam 
sido do marichal, e que ele bispo então acabava, com a condição de não 
poderem ser vendidas nem alheadas, e andarem sempre em uma só pessoa. 
Ao possuidor obriga a outros encargos de missas, os quais, bem como os 
impostos ao administrador do vínculo, já lá ficam acima declarados. Além 
disto põe por condição que Justa Rodrigues viva em toda a sua vida nas 
referidas casas sem delas pagar coisa nenhuma. 

Feito o instrumento, o dito D. João Manuel com sua referida mãe, por si 
e em seu nome, aceitaram e receberam o morgado com a sua administração, 
e a doação das casas com os encargos, sendo a tudo presentes o bispo Pêro 
Sanches, Pedro Alvares Pimentel (i), fidalgo da casa do Duque D. Diogo, 
João Gonçalves, criado do bispo D. João, João Rodrigues, escrivão da câ- 
mara do Duque (2), outro João Rodrigues, capelão do mesmo bispo, e, ainda 
mais outros que se nomeiam (3). 

No instrumento da instituição os filhos do bispo D. João não são nomeados 
com este parentesco, porque só a i5 de Novembro do mesmo ano de 1475 
é que foram legitimados (4). Em ambas as cartas de legitimação não é 
o bispo declarado capelão mor, e em nenhuma delas se dá aos filhos o título 
de dom, com o qual já são designados no instrumento da instituição. Eles 



(i) Foi casado com uma irmã de Justa Rodrigues, como adiante direi. 

(2) Não sei porquê, mas palpita- me que este fosse irmão de Justa Rodrigues. 

(3) Autos de conta da capella do Bispo da Guarda, etc, fl. i6 e segs. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.", fl. i66 v. 



24 Brasões 

tomaram o título, como o faziam os filhos bastardos dos condes, unicamente 
por serem filhos do bispo. \ Isto hoje chega a dar vontade de rir ! 

No ano seguinte, por bula de 24 de Julho, foi dado ao bispo da Guarda 
D. João um coadjutor para o seu bispado, e no último trimestre do ano já 
era morto, indo a sepultar à capela dos Reis da igreja do Carmo (i). O 
epitáfio que se ciiz existira sobre a campa, ou foi mal copiado, ou era mo- 
derno. 

Os dois filhos do bispo acima nomeados foram havidos de Justa Rodri- 
gues, mulher solteira, segundo dizem as cartas de legitimação, ama do futuro 
rei D. Manuel como declaram o instrumento da instituição e Damião de 
Góis (2). Foi ela, conforme diz o mesmo autor no seu Nobiliário^ filha de 
um lavrador de junto da Guarda (3), e mulher de grande espírito. Acerta 
em ambas as coisas o velho cronista, me parece. 

Num exemplar do I vol. da 2.* edição do Mappa de Portugal de João 
Baptista de Castro, exemplar que se guarda na Torre do Tombo, e que per- 
tenceu a João António Bezerra de Lima, a quem se refere o Diccionario 
bibliographico no vol. II, pág. 287, transcreveu ele por sua mão a seguinte 

quadra: 
, Justa Rodrigues justou * 

Com um frade carmelita, 
E esta justa maldita 
Os Manuéis nos deixou. 

Mostrou-me a quadra o general Brito Rebelo; mas, nem ele, nem eu, 
nem talvez, quem sabe? aquele que a copiou, lhe conhecemos o autor. 

De quem Justa fosse filha creio que ninguém o poderá dizer com certeza; 
agora de quem ela foi irmã, já está dito (4). Em 1487 a 21 de Novembro 
deu D. Manuel, então ainda longe do trono, pelo menos na aparência, a 
Isabel Rodrigues, mulher de Pedro Álvares Pimentel e irmã de a minha 
ama », uma tença de dez mil reais, que foi confirmada pelo mesmo depois 
de rei em 22 de Março de 1498 (5). A mesma Isabel em 22 de Abril de 



(i) Sant'Ana, Chronica dos Carmelitas, §§ no, 116 e 117. 

(2) Chronica de D. Manuel, parte I, cap. V. 
• (3) Do bispado da Guarda era Justa Rodrigues natural, como o declara a bula da fun- 
dação do convento de Jesus, citada por Fr. Fernando da Soledade, Historia Seráfica, 
parte III, pág. 652, § 1054, — A referida bula é de 17 de Julho de 1489 {Ibidem, pág. 653, 
% io56). Diz a bula que p^or parte aJustae Roderici muUeris Epitaniensis • é que foi feito o 
pedido (Fr. Jerónimo de Belém, Chronica seráfica, vol. 11, pág. 577). 

(4) Brito Rebelo, Convento de Jesus de Setúbal, artigos no Occidente, vol. IV, ano de 
1881. 

(5) Chancelaria de D. Manuel, ILv. 3i."», fl. 64, citada por Brito Rebelo. 



Manuéis 25 

i5o8 teve outra tença de três moios de trigo, contando depois que já tinha. 
Ainda outra irmã teve Justa Rodrigues. Foi ela Beatriz Rodrigues, que era 
14 de Abril de i5o2, sendo já viúva de Nuno da Cunha (1), teve mercê de 
D. Manuel de uma tença em sua vida de oito mil reais dos quinze que seu 
marido tivera (2). 

Dos irmãos que se indicam a Justa Rodrigues é melhor não falar, porque 
da existência do parentesco não há certeza nenhuma. 

Calcula o general Brito Rebelo que Justa nascera pelos anos de 1460 (3),- 
e parece que deverá ter quási acertado, pois que pouco antes nasceria, visto 
já ser maior em Agosto de 1475. 

Ela foi ama de el Rei D. Manuel, que nasceu a i de Junho de 1469(4); 
«mas des no tempo q começou a criar... se retirou a tam honesto modo 
de viver, que a todo o género de mulheres dava exemplos » (5). Daqui se 
conclui que o colaço daquele rei havia de ter sido o segundo filho do bispo, 
e que portanto, por umas contas aproximadas, o começo dos amores do 
prelado tivera lugar aí pwDr 146Õ, quando a sua diocesana contaria uns dezoito 
anos, e seria um verdadeiro morceau de roi para um libertino de sessenta. 

A cronologia é o diacho. O bispo D. João não pode ter nascido depois 
de 1406, e o seu segundo filho havia de ter vindo ao mundo em 1468 o mais 
cedo; acho pois, e já lá acima mostrei a minha dúvida, o prelado um pouco 
velho para ainda se arrepelar cantando 

Justa fue mi perdicion ! 

Só se êle chorava os amores cortados pela esquiva ama; mas franca- 
mente não creio tanto, como Damião de Gois nos quer impor, na severidade 
de Justa Rodrigues, a quem o bispo na instituição do vínculo manda, emquanto 
ela viver, dar casa, e esta era a que êle andava acabando com disvelo. 

Depois da morte do bispo, bastantes anos depois, cuidou Justa Rodrigues 
em fundar um convento (6) onde penitente acabasse seus dias. Como residia 



(1) Nem este Cunha, nem o cunhado Pimentel, eram fidalgos, e mesmo nobres não sei. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 2t.°, fl. 6 v., também por indicação do general Brito 
Rebelo, que encontrou esta carta e a precedente já depois de impresso e publicado o seu 
referido estudo no Occidente. 

(3) Cit. vol. do Occidente, pág. 211. 

(4) Cardial Saraiva, Obras completas, vol. IV, pág. 85. 

(5) Damião de Gois, Chronica de D. Manuel, parte I, cap. V. 

(6) No mosteiro de Jesus de Aveiro, no coro, na parte interior da porta, entre vários 
retratos está um que se atribui à fundadora, em trajo de freira, com um livro na mão, à 
«squerda, no alto, as armas dos Manuéis. Parece-me ser este retrato o mesmo que se vê 

VOL. III 4 



"26 Brasões , 

em Setúbal escolheu esta vila, e em 1489 ou 90 se lançou a primeira pedra 
do convento de Jesus, e começou a edificação. Tempos depois, em 149 1, 
conta-se que, indo D. João II a Setúbal e achando acanhado o edifício, man- 
dara deitar a terra a parte já levantada e reconstruir tudo de novo por um 
risco do mestre Boitaca. Estando quási concluída a casa, foi a fundadora 
a Gandia de onde trouxe sete freiras da regra de S.** Clara das reformadas 
capuchas de S.^^ Colecta, e deu-lhes posse do convento em fins de Maio, 
princípios de Julho de 1496, e a 1 1 deste mesmo mês entraram as primeiras 
noviças. Por ocasião de ambas as cerimónias se fizeram no convento luzidas 
festas a que assistiu D. Manuel, a rainha viúva D. Leonor, o arcebispo de 
Lisboa, e outros personagens. Passados anos, depois da morte do filho 
D. João Manuel (i), e portanto nos últimos arrancos do século, se recolheu 
Justa Rodrigues à clausura do seu convento de Jesus de Setúbal, onde morreu 
e foi enterrada (2). Está sepultada na casa do capítulo, no meio do pavi- 
mento, tendo sobre a sepultura uma pequena lápide com esta inscrição: (lida 
a 18 de Junho de 1916) 

AQI • lAZ • AF 
VNDADORA 
DESTA • GAZA 

Parece que ainda vivia em 1609, porque no Processo de Vasco Abul, na 
replica de Henrique da Mota ao parecer de Gil Vicente, alude, como estando 
viva, a ama dei Rei {Cancioneiro, III, ôSy). 

Do bispo D. João e de Justa Rodrigues nasceram os dois referidos filhos, 
João Manuel, e Nuno Manuel. 

^Porque adoptaram eles este apelido? Em atenção a sua mãe ter sido 
ama do senhor D. Manuel, depois Duque de Beja e ultimamente rei de Por- 



na iluminura da folha de rosto de um ms. na Biblioteca Municipal de Setúbal, intitulado : 
Tratado da Antiga e Curiosa | fundação do Convento de | JESUS | de Setúbal | o prim.* 
que ouve e se fundou neste | Reyno de Portugal de Religiosas Ca | puchas chamadas Se- 
nhoras pobres | da prim.» Regra de Santa Clara. | Fundadora Justa Rodrigues Pereyra | Ama 
do Sereníssimo Rey D. | Manoel | do qual são Protetores os Reys de | Portugal | Composto ( 
pela m« Soror Leonor de S.João | Relig' do d" Conv° e Abb' | Anno de i63o ] (Vid. Biblio- 
theca lusitana, III, 12). 

(i) Em 1497, tratando-se do casamento de el Rei D. Manuel, mandou este como seu 
embaixador a Castela, ao seu camareiro mor D. João Manuel, «que era hijo de don luan 
Obispo de la Guardiã, y de una duena que creò ai Rey dõ Manuel, que se Uamò lusta Ro- 
driguez: que estava muy mas adelante en la gracia dei Rey, que el Conde de Portalegre: 
que era antes el que governava ». (Çurita, Historia dei Rey don Hernando, liv. 3.%'cap. 9). 

(2) Brito Rebelo, Convento de Jesus de Setúbal, cit. 



Manuéis 27 

tugal, que a ela e aos filhos dispensou a mais rasgada e decidida protecção. 
Não há, não pode haver, outra razão. 

^ E as armas dos Manuéis de Castela por que foram tomadas ? Por quê? 
Por isto que Resende já nesses tempos escrevia na sua Miscellanèa: 

pois toma dom quem ho quer 

e armas nobres também 

toma, quem armas não tem, 

e dá o dom a mulher. 

(Décima 23t). 

l Quem sabe se o gordo cronista não estava exactamente pensando nos Ma- 
nuéis, quando da pena lhe saíram aqueles versos ? Quem ^sabe ? ^ 
No mosteiro de Jesus de Aveiro, num túmulo, no carneiro por baixo da 
capela mor lê-se este epitáfio, relativo a um neto de Justa: 

AQVI-IAZ-DOM-AM- 
TONIO-MANOELNE 
TO -DA FVNDADOR 
DESTEMVSTEIRO. 

Tem um escudo de armas, esquartelado: no I c IV a àsa com a mão e 
a espada; no II e III o leão. Timbre: a àsa. 

Não te admires, leitor; com as novas dinastias eram frequentes casos 
destes, e D. Manuel formou uma sorte de dinastia nova. Quando viera 
D. João I surdira uma nobreza de fresca data, a mushroom nobility, uma 
nobreza de tortulho, isto é, de espontânea geração e sem raízes. No reinado 
de D. Manuel também apareceu disto; além dos Manuéis, lembra-me agora 
dos Costas, e outros haveria; mas não paga a pena deitar a livraria abaixo. 

O que eu talvez deva é gastar mais uma dúzia de linhas com outros dois 
argumentos aduzidos a favor da régia geração dos Manuéis de Portugal, e 
aos quais ainda me não referi. 

Um é o epitáfio na capela mor da igreja de Jesus de Lisboa, na sepultura 
de D. Nuno Manuel; o outro uma quadra que se afirma ter D. Nuno usado 
como moto ou empresa (i). No primeiro diz-se que D. Nuno era neto de 
el Rei D. Duarte. Esta afirmativa vale tanto como isto: quem fez a capela 
mor, quem mandou gravar o epitáfio, foi um bisneto de D. Nuno, o arcebispo 
de Lisboa D. João Manuel (2), no ano de i633 (3). 



(i) Sousa, Historia genealógica, vol. XI, pág. 425, onde se transcreve o epitáfio, e pág. SgS 
onde se vê a quadra. 

(2) Fundou a capela mor do Convento de Jesus, &c. [Ibidem^ III, 241), 

(3) João Baptista de Castro, Mappa de Portugal, vol. 3.°, pág. 248. 



28 Brasões 

Quanto ao outro, à quadra, explicá-Ia-hei, tendo porém primeiro de a 

transcrever: 

Esta espada é de Milão 
Banhada em sangue Real, 
Sua ventura foi tal 
Que medrou com gran razão. 

E preciso que se saiba que D. Nuno Manuel foi casado com D. Leonor 
de Milá, ou dei Milá, que em Portugal se escreveu Milão (i), neta de 
D. Afonso, mestre de Calatrava, filho bastardo de D. João II, rei de Aragão. 
Explicado isto, parece-me que se compreenderá bem a quadra, que é simples- 
mente uma homenagem de D. Nuno a sua mulher e à sua clara e régia 
estirpe. 



D. João Manuel (2), o primeiro filho do' bispo, foi famoso poeta do seu 
tempo, e dele se encontram muitas poesias no Cancioneiro geral de Resende 
e no Cancioiíero general Castellano. Foi do conselho e camareiro mor de 
el Rei D. Manuel e com estes títulos se encontra na doação de uns pardieiros 
em Setúbal, feita em Montemor-o-Novo a 22 de Fevereiro de 1496(3). O 
mesmo rei lhe fez depois dádiva dos seus paços de Valada, que Pêro de 
Alcáçova, escrivão da fazenda, tinha e renunciou para este efeito. Foi feita 
a mercê ao camareiro mor com a supervivência a um seu filho varão maior 
legítimo, por carta dada em Estremes a 22 de Fevereiro de 1497 (4)* Pouco 
sobreviveu D. João Manuel à entronização do seu protector, que aproveitou 
a sua capacidade em missões de confiança, no exercício de uma das quais 
parece ter o camareiro mor morrido antes de 4 de Fevereiro de 1499 (^)* 
A sua descendência em breve se extinguiu, e o morgado ou capela do bispo 



(i) O próprio D. António Caetano de Sousa o confessa na pág. 48 1 do vol. II da His- 
toria genealógica. 

(2) D. João Manuel foi casado com D, Isabel de Meneses, filha de Afonso Teles de Me- 
neses, alcaide mor de Campo Maior e Ouguela. — Por alvará feito em Almeirim a 8 de Fe- 
vereiro de i5i I manda D. Manuel dar partilhas aos herdeiros de Afonso Teles de Meneses 
"e sua mulher D. Joana, e manda citar como herdeiros, a Gabriel de Brito e sua mulher, 

moradores na Merceana, Tristão da Silva, morador no termo de Alenquer, D. Urraca, mora- 
dora em Campo Maior, D. Antónia, mulher de Francisco de Sousa, moradora em Lisboa, e 
D. Isabel, mulher que foi de D. João, que foi camareiro mor dei Rei (Lousada, Cartajpacio, 
liv. II, fl. 252). 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 26.°, fl. 62 v. 

(4) Estremadura, liv. 2.°, fl. 82. 

(5) Nesta data foi nomeado camareiro mor D. Bernardo Manuel, filho mais velho de 
D. João Manuel, «que Deus haja».. {Chancelaria de D. Manuel, liv. 35.°, fl. 19 v.}. 



Manuéis 2^ 

■da Guarda chegou a andar em pessoas estranhas à famíHa(i). D. Nuno 
Manuel, 'O segundo filho do bispo, foi fidalgo da casa e almotacé mor de 
D. Manuel, Duque de Beja, seu colaço, ofício que já exercia em 12 de Maio 
de 1493, sendo então também alcaide mor da Guarda (2). Eltvado o Duque 
ao trono continuou D. Nuno Manuel, servindo-lhe de almotacé mor, ofício 
que depois acumulou com o de guarda mor, de que tirou carta em 11 de 
Março de i5i5(3), e ambos exerceu até ao fim do reinado de D. Manuel, e 
ainda em parte do de D. João III. 

Foi D. Nuno senhor de Salvaterra de Magos de que teve doação de juro 
e herdade com todos os direitos reais da vila e termo por carta de 8 de Fe- 
vereiro de 1 508(4), tendo já desde 1 de Janeiro do ano antecedente confir- 
mação em sua vida e na de seu filho maior e de seu neto, filho desse filho, 
das rendas, direitos, foros e tributos da mesma vila e seu termo, da lezíria 
do Romão junto com ela, de outros prédios no referido termo, e da alcaidaria 
mor da vila, tudo pela maneira por que o tiveram Rodrigo Afonso e Pêro 
Correia seu filho, que o venderam com licença régia a D. Nuno por cento e 
setenta mil reais. Foi dada a carta de confirmação em Tomar a 27 de 
Março de 1607 (5). Foi também senhor das vilas das Águias e Erra, que 
comprou em i52o(6). Era já morto a 17 de Março de i525(7). 

Casou D. Nuno a primeira vez com D. Leonor de Milá, filha de D. Jaime 
de Milá, Conde de Albayda e da Condessa D. Leonor de Aragão, filha 
natural do Duque de Vila Hermosa. Tiveram vários filhos dos quais o pri- 
mogénito foi D. Fradique Manuel. 

Este D. Fradique (8) foi senhor de Salvaterra de Magos, Águias e Erra 
em sucessão a seu pai. No ano de 1642 a 14 de Setembro trocou com 



(i) Em 171 1 era administrador e prestou contas um Cristóvão de Lemos Marques. Na 
segunda metade do século veio contudo a tomar posse o Marquês de Tancos. Consta do 
Cartório das capellas do hospital no liv. 19.» de Pontes. 

(2) Consta da carta de mercê de parte das saboarias brancas e pretas da comarca de 
Traz-os-Montes, a qual foi dada em Évora por D. Manuel, regedor e governador da ordem 
e cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, Duque de Beja e de Viseu, senhor da Covilhã e 
Vila Viçosa, senhor das ilhas da Madeira, e dos Açores, e Cabo Verde, condestável por 
€Í Rei nosso senhor de seus reinos; e pelo mesmo D. Manuel confirmada depois de rei ao 
próprio D. Nuno do seu conselho e almotacé mor, em 7 de Outubro de i5oi. {Chancelaria 
d£ D. Manuely liv. 38.°, fl. 87 v.). 

(3) Sousa, Provas da Historia genealógica^ vol. 6.°, pág. 109, n.° i. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 1 5.°, fl. 1 2 v. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 14.°, fl. 96 v. 

(6) Sousa, Historia genealógica, vol. XII, cap. IV. 

(7) Carta de confirmação de Salvaterra a D. Fradique Manuel, Chancelaria de D. João III^ 
liv. 14.°, fl. 96 v. 

(8) Morreu a 9 de Julho de 1564 {Registo de Santa Cru\ do Castelo, pág. 246). 



3o Brasões 

el Rei a Vila de Salvaterra com todos os bens, rendas e direitos, que nela e 
no termo tinha, pelas vilas de Tancos, Atalaia e Cinceira, alcaide mor de 
Marvão, e casal de S. Marta no termo de Santarém (i). 

Casou com D. Maria de Ataíde (2), viúva de D. Afonso de Noronha, pri- 
mogénito do Conde de Odemira, e filha herdeira de Nuno Fernandes de 
Ataíde, senhor de Penacova. Deles foram netos D. Francisco e D. Pedro. 

D. Francisco Manuel, senhor da casa, foi o i.° conde de Atalaia, de que 
teve carta passada em 17 de Julho de i583 (3), e faleceu sem filhos em 1624. 

D. Pedro Manuel, irmão deste D. Francisco, sucedeu-lhe na casa e foi 
2.® conde da Atalaia, de que tirou carta em 14 de Novembro de 1626. 
Morreu em Madrid a 26 de Julho de 1628, havendo casado com D. Maria 
de Ataíde, e deixando dois filhos varões: D. António c D. Álvaro. 

D. António Manuel, filho primogénito do 2.° conde, sucedeu na casa a 
seu pai e foi 3.° conde da Atalaia; morreu porém sem filhos em 1643. 

D. Álvaro Manuel de Noronha, irmão deste D. António, sucedeu-lhe na 
casa, porém não no título, e dele diz D. António Caetano de Sousa no 
cap. XI do liv. XII da Historia Genealógica o seguinte: «Não sabemos o 
motivo, que teve, para viver este Senhor fora do Reyno; porque passou à 
Itália, residio muitos anos em Veneza, e no ano de i665 voltou a Portugal, 
e fez a sua habitação na sua Vila de Águias, onde faleceu em 9 de Fevereiro 
de 1686, etc. ». 

O douto académico talvez não soubesse realmente a causa da expatriaçao 
de D. Álvaro, mas talvez também usasse de pia fraude fingindo ignorância 
de um facto, que nesse tempo acarretava desgosto, e quási ignomínia sobre 
a família. Eu sei o motivo, e como já lá vai muito tempo, hoje o modo de 
pensar é outro, e tudo que diz respeito à inquisição desperta a curiosidade,, 
contarei parte do que sei. 

IV 
D. ÁLVARO MANUEL DE NORONHA NA INQUISIÇÃO 

Ao anoitecer de sábado 10 de Setembro de 1644 dirigia-se um vulto 
embuçado em seu capote, com a aba do chapéu puchada para os olhos, pelas 
vielas que ao nascente do palácio da inquisição se dirigiam à rua das Portas de 
Santo Antão. O luar começava cedo, pois que havia pouco fora lua cheia, 
apressava o desconhecido o passo, e cada vez mais tratava de se disfarçar^ 



(i) Sousa, Historia genealógica, liv. XII, cap. V. 

(2) Morreu a 26 de Junho de i566 {Registo de Santa Criij do Castelo, pág. 248). 

(3) Doações de D. Felipe /, liv. 4.°, fl. 244. 



Mamiéis 3i 

Chegado em frente de uma das portas baixas, que para aquele lado se 
abriam na alta frontaria do antigo paço dos Estaus, porta que estava discre- 
tamente aberta, por ela se meteu o embuçado. Na loja encontrou quem o 
conduzisse ao primeiro andar, ao gabinete dos aposentos do inquisidor Luís 
Alvares da Rocha, que ali morava, e que por êle esperava de ordem parti- 
cular do bispo inquisidor geral. 

Encontrando-se só com o inquisidor e um notário, desembuçou-se o des- 
conhecido, e, sentando-se na cadeira de espaldas que o primeiro lhe indicou, 
declarou chamar-se D. Álvaro Manuel de Noronha, casado, de vinte e três 
anos de idade (i). 

Em seguida prestou juramento, e começou sua confissão, no cabo da qual 
foi severamente admoestado pelo inquisidor, que de semblante carregado lhe 
marcou a pena e penitência secretas, a que havia de sujeitar-se, avisando-o 
de que nunca mais cometesse tais crimes, pois que seria castigado com 
grande rigor. 

pecado, de que o senhor da Atalaia se acusou, era daqueles sobre que 
recaía a jurisdição do Santo Ofício, e para os quais regulava o Regimento 
de então no tít. XXV do liv. III. 

1 O que levara D. Álvaro a meter-se na boca do lobo ? O receio de um 
mal maior. 

Três dias antes da sua apresentação, a 7 de Setembro, tinha êle sido 
denunciado na inquisição por Francisco Aranha de Oliveira criado do Conde 
de Vila Franca, e por Manuel Nobre de Magalhães. Como êle o soubera 
não o sei eu, mas calculo, que seria avisado por algum dos dois; pois que, 
apesar do juramento de segredo, quem mecher nos papéis da inquisição 
adquire a certeza, de que os apresentados muitas vezes preveniam aqueles 
a quem delatavam. A prova disto tenho-a eu no próprio processo deste réu. 
Ele confessou a 10 de Setembro; pois a 12 do mesmo mês apresentou-se 
Simão da Fonseca, criado de D. Álvaro e seu cúmplice; e no dia seguinte 
seu cunhado o morgado de Oliveira, Luís Francisco de Oliveira e Miranda, 
também por êle delatado; (jora com as cautelas de segredo, que o senhor da 
Atalaia tomou, como poderiam saber estes do perigo em que se achavam, se 
não fossem prevenidos pelo próprio que nesse perigo os puzera ? 

Denunciado, quiz D. Álvaro aproveitar-se da benignidade, que o Santo 



(i) Não estava muito certo este fidalgo na sua idade. Nesta ocasião declara ter vinte 
e três anos; em 6 de Julho de i65i vinte e oito, quando, se a primeira vez disse certo, 
deveria desta acusar pelo menos vinte e nove anos; mas não fica ainda aqui. A 2 de Feve- 
reiro de i665 disse ter quarenta e oito anos, quando pela primeira conta deveria ter quarenta 
e quatro, e pela segunda quarenta e cinco ou quarenta e seis. 



S& Brasões , 

Ofício usava com os apresentados, e que vem expressa no § 3.° do tít. XXV 
do liv, III do Regimento. 

O caso era sério. Dois meses certos antes, a lo de Julho, fora relaxado 
e queimado o Padre João de Mendonça da Maia; e as prisões ferviam, 
andando o medonho tribunal tão aceso no castigo deste crime, que a 27 de 
Maio de 1645 se fez na sala da inquisição um auto público da fé unicamente 
destes criminosos, no qual saíram penitenciados e condenados a diferentes 
degredos vinte e três homens, dos quais dezaseis foram açoitados pelas ruas 
públicas da cidade. E não parou ainda aqui, pois que, menos dum mês 
depois, a 26 de Junho, houve novo auto da fé, este no Terreiro do Paço, no 
qual saíram setenta e quatro pessoas, das quais dezanove por este pecado, 
e destas foram relaxadas e queimadas oito, e entre elas dois nobres e dois 
padres. 

Aproveitou D. Álvaro com a sua apresentação, mas por pouco tempo, 
pois que reincidiu, e foi novamente denunciado, sendo-o agora por Manuel 
de Sousa Pinto, inquiridor na Relação do Porto, que em 12 de Junho de 
i65i se apresentou na inquisição de Coimbra, não lhe valendo a clemência 
que se usava com os apresentantes, pois que foi preso e processado. 

Este Manuel de Sousa declarou, que tinha prevenido D. Álvaro da sua 
tenção, e que êste não só o dissuadira disso, mas determinara de lhe mandar 
dar um tiro, se persistisse. Por esta razão, como estes factos se passaram 
na Atalaia, onde o delator, vindo caminho de Lisboa, encontrara D. Álvaro, 
tornou para trás, e se apresentou em Coimbra em vez de o fazer na capital, 
como tencionava. 

Alem deste ainda outro cúmplice, Luís Sanches de Baena, cónego na Sé 
de Lisboa, se apresentou em 16 de Junho do mesmo ano, confessando suas 
culpas na inquisição desta cidade. 

Se da primeira vez o caso fora sério, da segunda era seriíssimo. Tanto 
mais que a prisão do Conde de Vila Franca executada a 26 de Maio daquele 
mesmo ano de i65i por ordem da inquisição, vinha mostrar ao senhor da 
Atalaia, que a sua alta jerarquia o não poderia livrar de sorte tão cruel. 
D. Álvaro Manuel era de tão nobre estirpe como D. Rodrigo da Câmara, que 
.sobre aquele apenas se avantajava no título, o que não seria muito, mas exce- 
dia-o muitíssimo em serviços públicos. O Conde fora com efeito o procla- 
mador de D. João IV na ilha de S. Miguel, e servira denodadamente nas 
guerras da fronteira portuguesa, e por isso teria a protecção de el Rei. E 
teve-a, e foi público que a teve; e, se ela lhe não valeu, só se pode atribuir 
à doença, desmazelo e íilauciosa convicção de que o Santo Ofício se não 
atreveria contra um grande do reino. Bem caro pagou o Conde de Vila 
Franca seu erro. 



Manuéis 3? 

Não restava pois a D. Álvaro Manuel senão tornar a apresentar-se, para 
talvez evitar o cárcere e a pena última. 



A caminho de Lisboa se pôs o senhor da Atalaia, e, chegando à cidade, 
dirigiu-se a p. Francisco de Castro, bispo inquisidor geral, pedindo-lhe 
audiência. Este novamente deu comissão verbal ao mesmo inquisidor Luís 
Alvares da Rocha para, em sua casa nos Estaus, ouvir outra vez o réu. 

j Em que estado não tornaria o fidalgo a subir as escadas dos aposentos 
do inquisidor, na noite de 6 de Julho de i65i, sem luar esta, como sem es- 
perança iria o coração do atribulado senhor ! 

A mesma casa, a mesma cadeira, o mesmo inquisidor que sete anos 
antes; e até a mesma imagem do Crucificado, que não era o doce Jesus 
cheio de bondade e misericórdia que nós imploramos, mas o Deus temeroso 
e insensível que o fanatismo da inquisição inventara para terror dos pobres, 
que nela caíam. 

Terminada a confissão deste dia, mandáram-lhe que não saísse de Lisboa 
sem ordem da mesa. 

A 1 1 do referido mês voltou D. Álvaro à mesma casa a concluir a sua 
confissão, e desta vez deram-lhe um mês de licença para ir fora da cidade. 

Logo se lhe formou o processo, que tem o n." 806 dos da inquisição de 
Lisboa, e veio o promotor do Santo Ofício com seu requerimento à mesa 
pedindo para o réu ser preso e processado como devasso, sem emenda e 
diminuto. 

A 14 de Agosto foram vistos os autos na mesa, e pareceu a todos os 
votos, que antes de outro despacho seja o réu chamado e examinado por suas 
diminuições, e faça termo como quer estar pelos autos para ser despachado 
na forma do regimento; e que este exame e termo se faça em casa de algum 
dos inquisidores, em razão do segredo com que o regimento quer que sejam 
castigadas as pessoas de qualidade. Assinam os inquisidores Pedro de Cas- 
tilho e Luís Álvares da Rocha; e no mesmo dia o conselho geral confirma o 
parecer da mesa. 

Ficou sete meses parado o processo, até que a 18 de Março de 1662 pela 
quarta vez subiu D. Álvaro Manuel, sempre de noite, a terrível escada da 
casa: do inquisidor Luís Álvares da Rocha, que à sua vila da Atalaia, o man- 
dara notificar para ali ir. 

Desta vez foi perguntado pelas diminuições, de que o promotor o acusava,, 
e a que não satisfez, nem lhe era fácil pela forma como o Santo Ofício inter- 
rogava os réus. jEle nem lhes declarava o nome dos cúmpHces, nem o 
lugar do delito, nem o tempo certo em que fora cometido l 

voL. m 5 



34 Brasões 

Terminado o exame, aceitou o réu o ser sentenciado pelos autos. Então 
lhe foi mandado que se não ausentasse de Lisboa sem licença do tribunal, e 
sem se tomar determinação em sua causa. 

Os dias seguintes foram os de maior tormento para D. Álvaro, que 
chegou a estar detido em uma das casas das. audiências por ordem da mesa. 
Escapou porém à prisão no dia 23 de Março, em que o inquisidor Luís Ál- 
vares da Rocha, com ordem do inquisidor geral, deu licença ao réu para 
poder ir para sua casa, emquanto o tribunal não ordenasse o contrário. 
Saindo da inquisição tratou logo D. Álvaro de se ausentar do reino, indo 
nisto de acordo com o Santo Ofício, ou pelo menos com o inquisidor geral. 



Da vida de D. Álvaro Manuel, emquanto andou expatriado, dão boa 
notícia os seguintes documentos, que extraio do seu processo. 

O primeiro será uma carta dirigida pelo desterrado fidalgo a pessoa que 
residia em Roma, carta em que porei a pontuação e algumas maiúsculas, e 
suprimirei as abreviaturas, tudo para melhor inteligência do leitor. O 
mesmo farei com os outros documentos. 

Segue a carta: 

«Duas resebi de v. m., huma por via de Francisco Velho, e otra nesta 
posta, que não sei donde esteve metida tanto tenpo a que veo pela via do 
padre da conpanhia, por que anbas me mandou o portaletra. Esta desta 
posta me dexa ben mortificado, pois não poso falar con v. m. que por carta 
não se fia tudo. Logo resgei a que v. m. me mandou pelo risco de a perder. 
Eu fico escrevendo de vagar a meu cunhado (i), e enviarei as cartas a v. m. 
para lhas enviar. Estimara eu muito que Camillo Capeli, se for, que fale 
con aquella gente do Rosio, quando estiverem todos juntos, con huma pitisam, 
que Alixandre Pascali a muito tenpo que anda por estas partes, e esta 
doente, e con fontes, lhe pede lisensa pêra se poder ir; este he o prinsipal 
negosio que se pode la fazer, ho que lhe limitem tenpo, porque seu cunhado 
não lhe manda con que se posa sustentar, ho obrigem o dito cunhado lhe 
mande sen escudos de ouro pêra cada mes; mas será melhor aver orden 
pêra se ir, e isto he tocante ao negosio. Do que padeso, agora darei conta 
a V. m. como maior amigo que tenho, e senpre dezejei servirlo. Pela carta 
que lhe mandei tradozise, entendera o como esta este omen rezoluto, e nesta 



(i) D. Álvaro Manuel teve quatro cunhados: Luís Francisco de Oliveira e Miranda, 
morgado de Oliveira, falecido a ii de Junho de 1654; Alexandre de Sousa Freire, comen- 
dador de Cristo, governador de Beja em i663; D. António da Silveira, comendador da Sor- 
telha; e Jorge Furtado de Mendoça, comendador de Loulé, Destes três últimos qual é o 
cunhado referido na carta não o sei eu. 



Manuéis 35 

posta tive huma pior, e a minha gente me aviza de Veneza o mal que lhe 
acode e que padese, e creo que de desgosto me moreo a minha negra, que 
con tanto gosto a mandei buscar, do que estou ben sentido, e pêra que o 
disgosto me não mate a mi, e me não saia de Ancona como me sai já de 
Roma, se ben este mercante ainda este mes me pagou, não sei o que poderá 
fazer; se v. m. achar pesoa nesa parte que me enpreste seis sentos escudos, 
farei procurasan a Gamillo CapeH pêra me vender sen mil reis de juro en 
Portugal, e não se canse v. m. en traduzir a carta que en man propia se 
pode dar, dizendo o que ei pasado e o que he asosedido. Esa carta me 
fasa V. m. mercê de a dar ao snro embaxador(í), e, se me responder, v. m. 
me mande a resposta a Ancona sen nome suposto. O Baltesar se fora nesta 
enbarcasam que esta a carga en Liorne, se tivera orden de o poder mandar; 
mas não ten dinheiro pêra que posa fazer corentia, e enbarcasse. V, m. me 
de algumas novas, porque se diz que he levantado o reino de Aregam e de 
Sacaria (sic) tanben. Como esta da peste, que serto que não podia vir en 
pior tempo ? Deus o queira livrar e dar a v. m. muita saúde, eu fico con 
ela pêra o serviso de v. m., e lhe peso me não falte con novas suas, que so 
elas me aliviam, e as creio, e crea me v. m. que dispois que estou neste 
lugar, não paso hum dia alegre, cudando o que me pudia fazer este ome en 
Roma o faltar me com as mezadas, como oje me ameasa; serto tinha o 
morer de paxan, e asi v. m. me disculpe com o snro embaxador e lhe sene- 
fique meu dezejo, e deste lugar me partirei, como en Veneza derem pratica, 
porque me não meto a fazer viazen por que me baste o animo estar corenta 
dias en lazareto, por que de malenconia morerei. V. m. escreva ao framengo 
como quen lhe da por nova, e lhe diga que o noso embaxador, enformado 
que cazava ca en Veneza, me mandara notificar que não cazase fora do 
reino sen orden dei rei, e dentro en dois anos me fose a Portugal. Se isto 
não prejodicar a v. m. peso o fasa, porque me serve de grande otilidade. 
Guarde Deus a v. m. Ancona 20 de agosto de 656. A carta vai aberta, 
lea V. m. e serea (cerre-a). 

C^° de V. m. D. Aluaro Manuel de Noronha». 



No ano seguinte foi apresentado este requerimento na mesa da inquisição: 

« Dis Dom Álvaro Manoel de Noronha, que elle se acha fora deste Reyno 
e de sua Gaza ha annos nas partes d'Italia, aonde foy passando por França 



(i) Era Francisco de Sousa Coutinho, do conselho de estado, alcaide mor de Santarém, 
Golegã e Almeirim, antigo embaixador na Suécia, Holanda e França. 



36 Brasões 

com resolução de ir visitar os lugares S.*°* de Jerusalém; e porque lhe não 
he possível conseguir esta perigrinaçao, a respeito das guerras da Repub.* 
de Veneza com o Turco, e tem padecido m/°* trabalhos, e Infermidades mui 
perigosas que o obrigarão a abrir fontes. — Pede a V. S. lhe conceda Licença 
pêra se poder tornar pêra este Reyno e quietação de sua caza pêra tão bem 
tratar do que a ella lhe convém, ou se lhe limite tempo pêra o fazer. 
E. R. M.». 

A mesa da inquisição de Lisboa informou este requerimento em 17 de 
Abril de lôSy, sendo de parecer todos os três inquisidores, que a compunham, 
e que eram então Pedro de Castilho, Francisco Barreto e Manuel de Maga- 
lhães de Meneses, que, por não haver sentença nem assento algum tomado 
nos autos, não havia sobre que caísse o deferimento à petição. 

A 27 do mesmo mês conformou-se o conselho geral com a informação 
da mesa, e lá se foram por então as esperanças a D. Álvaro de se ver repa- 
triado tão breve. 



Resignado ou não, continuou D. Álvaro Manuel no seu exílio, e parece 
que permaneceu em Itália. Em fins de 1664 abalançou-se porém a vir dis- 
farçado para Portugal, trazendo consigo um breve do papa, e a seguinte 
carta de recomendação: 

«Meu P.^ Baltazar Telles (1). O Portador desta Carta he a Pessoa que 
elle dirá a V. P. Vay a esse Reyno e no mesmo ponto que Deus o levar a 
Lisboa, ira buscar a V. P.^ por lhe ser asy necessário; e não só a elle, mas 
as mayores cazas de essa terra como V. P. sabe. O negocio que vai buscar 
depende da autoridade e industria de V. P. em cujo animo eu lhe tenho 
assegurado todo seu bem e o de tantos. S. S.**** andou com elle tão benino 
e liberal, como V. P. verá de seus despachos: que tendo a bondade e zelo 
de V. P. por condutor, não fico duvidando que lodos terão o bom efeito que 
lhe dezejo, peço a V. P., e aqui tenho procurado. Sey que para que se 
empregue de todo o coração nesta matéria, tudo o mais he supérfluo; e 
porque nas outras sou leigo, cesso, pedindo a Deus leve este a salvamento 
diante de V. P., e que mo deixe ser m.^° cedo, e guarde sua pesoa como eu 
dezejo. Em Roma me disserão que V. P. era Propozito de S. Roque, e 
assy havia de ser se la ha propozito. Novas da minha Jornada dará o Por- 



(i) O Padre Baltasar Teles era jesuíta, cronista de sua província, provincial e prepósito 
da casa de S. Roque. Nascera em Lisboa em iSgS, professara em 24 de Março de 1610, e 
veio a morrer em 20 de Abril de 1675. É o autor da Chronica da Companhia de Jesus, e 
da Historia geral da Ethiopia. 



Manuéis 87 

tador. Sobre tudo guarde Deus a V. P. como dezejo &c. Em Pisa a i5 
de Novembro de 1664 — M.^° devoto Serv.°"" Amigo e discipulo de V. P. — 
P. Francisco Manuel». 

Em 8 de Janeiro de i665 o Padre Baltasar Teles, prepósito dà casa pto- 
fessa de S. Roque, por ordem que lhe dera o bispo eleito de Elvas Panta- 
leão Rodrigues Pacheco, deputado do conselho geral do Santo Ofício, entregou 
ao inquisidor Francisco Barreto uns documentos referentes a D. Álvaro Ma- 
nuel, e que eram, além da cópia da carta precedente, mais os seguintes: um 
breve do papa Alexandre VII datado de 2 de Agosto de 1664, dirigido aos 
inquisidores de Portugal, e passado a favor de Álvaro Manuel Conde da 
Atalaia, no qual breve lhe são perdoadas as penas, que poderiam merecer, 
comutando-lhas em algumas espirituais a arbítrio da inquisição; uma carta 
do cardial Albizzi, prefeito da suprema e geral inquisição de Roma, datada 
a carta desta cidade em 8 do mesmo mês; e finalmente uma petição de 
D. Álvaro, que em seguida transcrevo: 

«111.° S.°' — Diz Dom Álvaro Manoel de Noronha, que elle depões de 
de andar desterrado deste Reyno doze annos, na forma que da parte do s.^° 
officio lhe foi declarado, com grandes incomodidades de sua pessoa, e perdas 
de saúde, faltando-lhe muitas vezes o necessário, em rezão de neste Reyno 
se não dar satisfação de sua fazenda aos gastos que necessariam.*^ hera for- 
çado fazer em terras estranhas: Recorreu a Sua Santidade, como Pay e 
Suprema cabeça da Igr.*, declarandolhe todos os erros que por elle tinhão 
passado, e a piedade com que o s.*° oííicio se tinha ávido com elle, como 
consta da Supplica inserta no breve que aprezenta, pedindo a Sua Santidade 
perdão das penas que tinha incorrido, o qual Sua Santidade, movido de 
compaixão, lhe concedeo liberalme.*^ na forma que do mesmo breve consta, 
remetendo o a V. S." 111.^, não pêra lhe perdoarem as penas medicinaes do 
foro da consciência, maz as do foro exterior, mandando lhe, que elle Supp.% 
pella estimação que Sua Santidade tem deste S.*° Tribunal, recorresse a elle 
com o dito breve, e com carta do Em.° Cardeal Albigi Prefecto da Suprema, 
e geral Inquizição de Roma, como se vê da mesma carta, e breve, no qual 
lhe perdoa todas as penas incorridas, ou que podia encorrer, tornando a 
este Reyno. — Pello que. — P. a V. S.^ 111.* que em comprim.'° do dito breve, 
o dê á execução na forma delle, e declarando que Sua Santidade foi servido 
conçederlhe com approvação de V. S.* 111.* poder em todo o foro íicar livre, 
e seguro, E. R. M.». 

Entregues por esta forma os referidos papéis ao inquisidor Francisco 
Barreto, este os apresentou na mesa no dia seguinte, 9 de Janeiro, e nela se 
resolveu remetê-los ao conselho geral para este ordenar o que se deveria 
seguir, como mais conveniente ao serviço de Deus. 



38 Brasões 

O conselho geral no mesmo dia mandou aos inquisidores de Lisboa que 
vissem os autos e tomassem neles o assento que parecer de Justiça «sem 
embargo do breve que se oíFerece». Era próprio deste indomável tribunal 
o querer eximir-se mesmo a obedecer "ao papa. 

No próprio dia 9 (com muita actividade trabalhou desta vez a inquisição) 
foram os autos vistos na mesa, e pareceu a todos os votos, que, ainda que o 
réu reincidira no crime, pelo estado dos autos se acha em termos de ser 
julgado, e sua causa determinada pela disposição do regimento, onde se 
manda castigar com pena pública extraordinária as pessoas de qualidade. 
Contudo, visto como o re'u confessou suas culpas, tem andado ausente do 
reino em maior degredo do que o que se lhe houvera de dar, e traz o breve 
do papa, não há lugar a se lhe dar outras penas mais do que as do breve, 
mas que por conselho se lhe podia dizer que viva fora desta cidade. Assinam 
os dois inquisidores Fernão Correia de Lacerda e Francisco Barreto. 

Ainda nesse dia subiram os autos novamente ao conselho geral, que, 
mais severo do que a mesa, assentou que o réu fosse preso nos cárceres da 
penitência. Assinam este assento os deputados do conselho: Pantaleão Ro- 
drigues Pacheco, Diogo de Sousa, Fr. Pedro de Magalhães, Luís Alvares 
da Rocha e D. Veríssimo de Lancastre. Não havia inquisidor geral desde a 
morte de D. Francisco de Castro sucedida em i de Janeiro de i6õ3. 



Estava outra vez D. Álvaro Manuel perdido. Os cárceres da penitência 
pouco menos horríveis eram do que os secretos; e a prisão seria a publici- 
dade, o escândalo, a infâmia sobre si e seus filhos. 

Assim parecia, mas não era. A referida decisão do conselho geral foi 
tomada unicamente por um desses requintes de crueldade, em que o Santo 
Ofício era mestre. Ele não se atrevia a desobedecer abertamente ao papa, 
a castigar publicamente um fidalgo da prfmeira nobreza do reino, havendo 
tão pouco tempo que o Conde de Vila Franca fora penitenciado; mas não 
se contentava com o castigo já padecido pelo réu, castigo que o próprio tri- 
bunal declarara exceder o que em pública sentença podia ser-lhe dado; não, 
era necessário ainda martirizar mais aquele homem, que de criminoso passa 
a vítima. 

No próprio dia 9 de Janeiro em que o conselho geral lavrou o referido 
assento, nesse próprio dia foi lá chamado o inquisidor Francisco Barreto, e 
deu-se-lhe ordem para mandar vir a sua casa D. Álvaro Manuel, e, sem 
embargo do assento que o conselho havia tomado em seu processo, lhe 
dizer, que, havendo o Santo Ofício respeito à qualidade de seus maiores, 
lhe ordenava, que dentro de oito dias se saísse do reino. 



Manuéis 39 

Isto declarou o próprio inquisidor ao notário José Cardoso, que o escreveu 
nos autos para vergonha dum tribunal, que, usando destes processos, se 
atrevia a intitular-se o mantenedor da fé. 

Mas ainda liá mais prova da crueldade dos inquisidores, crueldade impró- 
pria de ministros de um Deus de misericórdia. 

O Santo Ofício dava apenas oito dias ao réu para êle sair do reino; é 
porque tinha pressa, e achava necessária a expatriação; por tanto parecia, 
que a D. Álvaro deveria ser intimada aquela ordem logo no dia 10, ou nos 
imediatamente seguintes; mas não, demoraram-lha até ao fim do mês, con- 
servando durante esses vinte dias ao réu na angustiosa dúvida da sua sorte. 



No sábado 3i de Janeiro de i665, ao tempo em que o notário José Car- 
doso saía da inquisição da audiência da tarde, disse-lhe o inquisidor Fran- 
cisco Barreto, que, como fosse noite, «se chegasse para sua casa». Indo o 
notário, referiu-lhe então o inquisidor o que se passara entre êle e o conselho 
geral no dia 9 antecedente. 

Estando o notário falando com o inquisidor, a este trouxe recado um 
criado, que estava ali um homem, que trazia uma carta do Padre Baltasar 
Teles, prepósito de S. Roque, e que a havia de dar em mão própria. O 
inquisidor mandou entrar o homem, e sair o criado. Aquele logo que entrou 
disse ser D. Álvaro Manuel de Noronha, e lançou-se no chão aos pés do 
inquisidor, onde esteve chorando tempo considerável. 

Eram estas scenas que a inquisição queria, não como mostras do sincero 
arrependimento dos culpados, mas como prova do seu absoluto poder e do 
desmesurado pavor que em todos incutia. 

O inquisidor fez levantar a D. Álvaro, e lhe deu a ordem que tinha do 
conselho geral; ao que o réu respondeu, jque não sabia onde se fosse, e 
que viera pedir misericórdia, e que esta se lhe não concedia depois de haver 
passado tantos anos de desterro e misérias ! o que repetiu por vezes. Fi- 
nalmente concluiu com dizer, que cumpriria o que se lhe ordenava; mas que 
o prazo de oito dias era tão limitado, que não dava lugar a pôr em ordem 
algumas coisas tocantes à sua fazenda e casa; porque ainda se não tinha 
visto com o Conde do Prado, em cujo poder estavam seus bens; e maior- 
mente, porque não acharia embarcação. 

Com isto se foi declarando ter mais que confessar, e o inquisidor o não 
quis ouvir por precisar para isso de licença do conselho, e de ratificantes; 
mas disse-lhe que na segunda feira seguinte podia vir às mesmas horas, e 
êle o prometeu. 

Informado o conselho geral de tudo o passado, expediu ordem em 2 de 



40 Brasões 

Fevereiro ao referido inquisidor para ouvir a nova confissão daquele fidalgo, 
e declarou que reservava para o conselho' de quarta feira à tarde a discussão 
sobre a prorrogação do termo pedido. 

Feita a confissão no dia 2, e retinido o conselho no dia 4, aqui se assentou, 
que o inqusidor Francisco Barreto chamasse o réu a sua casa, e lhe notifi- 
casse, que saísse do reino dentro de oito dias a contar do da notificação. 
Aceitando-o ele, se lavraria disso termo; não o aceitando, o mandaria 
prender. 

A 6 de Fevereiro compareceu D. Álvaro Manuel, por ordem que para 
isso teve, em casa do inquisidor Francisco Barreto, onde lhe foi intimado o 
assento último do conselho geral, que o réu prometeu cumprir, obrigando-se 
a sair do reino até ao dia i5 de Fevereiro de i665. 

Do processo mais nada consta, porém da Historia genealógica se sabe 
que D. Álvaro Manuel não cumpriu com a sua promessa, e retirou-se para 
a soberba torre da sua vila das Águias no Alentejo, onde ainda viveu vinte 
e um anos, vindo a morrer a 9 de Fevereiro de 1686. 



De D. Luís Manuel de Távora, 4.® conde da Atalaia, filho primogénito 
de D. Álvaro Manuel de Noronha, provieram os mais condes da Atalaia que 
tiveram o título de Marquês de Tancos em 2 de Outubro de 1751 (i). O 
ii.° e último conde da Atalaia, que tinha a varonia de Noronha, faleceu em 
i3 de Julho de 1886 deixando descendência, e como rapresentante da ilustre 
casa da Atalaia a seu filho D. Duarte Manuel de Noronha. 

São ramos desta casa, ramos destroncados Já depois de perdida a varonia 
de Manuel, os Marqueses de Viana e os Condes de Seia, que tudo está 
pouco menos de extinto. 



OS DOIS ESCRITORES DA FAMÍLIA MANUEL 

A varonia dos Manuéis de Castela acabou-se em Portugal na pessoa da 
Condessa de Alpedrinha, D. Maria Leonor Carolina da Conceição Manuel 
de Vilhena da Costa Freire Martins da Fonseca, senhora de Pancas. 

A dos Manuéis de Portugal extinguiu-se na 2.* marquesa de Tancos, 
D. Constança Manuel, que, depois de viúva, foi Duquesa camareira mor por 
decreto de 17 de Dezembro de 1791 e carta de 27 de Abril de 1790(2). 



(1) Chancelaria de D. José, liv. 64.», fl. 108. 

(2) Mercês de D. Maria 1, liv. i7.*>, fl. 6 v. (o título foi de Duquesa de Tancos). 



Manuéts 41 

Dos Manuéis de Castela descenderam por linha feminina dois portugueses 
ilustres, escritores considerados, cujos nomes ainda hoje são venerados na 
literatura e história peninsulares. Refiro-me a D. Agostinho Manuel de 
Vasconcelos, e D. Francisco Manuel de Melo. O primeiro escreveu só em 
castelhano, o segundo fê-lo nessa língua e na nossa. 

D. Francisco Manuel de Melo foi terceiro neto, como ficou dito na pág. 473 
do i.° voL, de D. Diogo de Melo, que foi casar a Castela, a Cheles, com 
D. Maria Manuel de Faro, filha de D. Francisco de Faro e de D. Leonor Ma- 
nuel. D. Agostinho Manuel de Vasconcelos foi bisneto do mesmo D. Diogo, 
de quem ambos os autores descendiam por seu filho maior D. Gomes de 
Melo, copeiro mor do infante D. Duarte. Um, D. Francisco, era bisneto 
por varonia e representante do dito D. Gomes; o outro, D. Agostinho, era 
seu neto por sua filha D. Ana de Noronha, mulher de Rui Mendes de Vas- 
concelos. Vê-se pois que foram parentes muito chegados. 

D. Agostinho Manuel teve um trágico fim, pois que, como é sabido, 
morreu degolado no Rossio em 29 de Agosto de 1641. Havia ele sido admi- 
nistrador do velho morgado de Machede nas proximidades de Évora, e 
apesar de casado por duas vezes, não deixou filhos, ficando-lhe porém para 
lhe perpetuarem a memória quatro livros impressos. 

Aqueles Vasconcelos do morgado de Machede eram Cascos, apelido que 
abandonaram pelo mais afidalgado de Vasconcelos, e por morte de D. Agos- 
tinho extinguiram-se, passando o vínculo por sentença a um parente afastado, 
morador em Estremoz, e chamado Garcia Pestana de Brito Casco de. Mes- 
quita. 



V0L.U1 



XVIII 



MONISES 

(FEBOS MONIS) 



XVIII 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. III. 



Esquartelado: o I e IV de azul cinco estrelas de oito pontas de oiro 
(Monis); o II e III esquartelado: o i.° de vermelho cruz florida de oiro, 
vazia do campo; o 2." de prata três faxas de azul; o 3.° de prata leão de 
vermelho; o 4.° de vermelho leão de oiro. Timbre: leão aleopardado de 
vermelho armado de prata. 

Estas armas estão erradíssimas no II e III quartéis, e pouco mais certas 
se encontram a fl. 67 v. do Livro do armeiro mor, a fl. 1 1 v. do Livro da 
Torre do Tombo, a fl. Ô4 do Thesouro da nobreza de Francisco Coelho, etc. 

Pode-se conjecturar, que nestes quartéis do brasão de Febos Moniz o 
que se queria pintar, eram as armas dos reis de Chypre da casa de Antis- 
quia, e que foram as seguintes: 

Esquartelado: o i." de prata cruz de potêntea de oiro, acompanhada de 
quatro cruzetas do mesmo (Jerusalém); o 2.° faxado de prata e de azul de 
dez peças, com um leão sobreposto de vermelho, armado e linguado de 
oiro (LusignanJ; o 3." de oiro leão de vermelho coroado, armado e linguado 
do campo (Arménia); o 4.° de prata leão bicaudato de vermelho, armado e 
coroado de oiro, linguado de azul (Luxembourg) (i). E sobre o todo deste 
quartel deveria talvez estar o escudo de oiro com um leão de negro, que se 
lhe vê pintado no Livro do armeiro mor e no Livro da Torre do Tombo; 
porque estas seriam as armas da família que se aliou com a dos reis de 
Chypre, pois que a mãe de Febos Monis não era desta casa por varonia. 



1 

O PRIMEIRO CASAMENTO DE EL REI D. MANUEL 

D. Manuel Duque de Beja foi aclamado Rei de Portugal em Alcácer do 
Sal, a 27 de Outubro de 1495, e, apesar desse dia ser terça feira, não deixou 



(i) Père Anselme, Hisíoire généalogique. ..dela maison royale de France, etc, tomo II> 
págs. 595, 604 e 1 13 e tomo III, pág. 83, mihi. 



46 Brasões 

a ventura de sorrir a este monarca. Fora ele declarado sucessor da coroa 
no testamento de seu primo D. João II, devendo a nomeação unicamente a 
ser irmão da rainha D. Leonor, pois que o Rei queria deixar o reino a seu 
bastardo D. Jorge. 

Encetou D. Manuel o seu reinado com um acto de clemência, que muito 
o honraria, se o não tivesse pouco depois anulado e por forma deshumana. 
Foi o caso, que, quando os reis católicos expulsaram os judeus de Espanha, 
muitos deles se acolheram a Portugal mediante certas condições, as quais, 
não cumpridas, os obrigavam a cativeiro. Nele caíram muitos, e já de 
alguns, como seus escravos, tinha disposto o falecido Rei, quando o Duque 
de Beja, subindo ao trono, os libertou a todos. 

Mais o Rei estava apaixonado, paixão a que não seria estranha a ambição; 
e o objecto desse amor, a princesa D. Isabel de Castela viúva do nosso prín- 
cipe D. Afonso, punha por condição ao seu casamento a expulsão dos judeus 
de Portugal. Durante algum tempo a benignidade e o amor se contrabalan- 
çaram no ânimo do Rei, até que o lado da afeição pesou mais, e os judeus 
foram condenados. 

Decidida a perseguição, mandou no princípio da quaresma de 1497, como 
primeira providência, que no domingo de pascoela, isto é, a 2 de Abril, se 
tirassem aos judeus todas as crianças menores de catorze anos, aíim de 
serem educadas na lei de Cristo. Apesar do segredo exigido, espalhou-se 
a notícia, e então, receoso de que os pais por qualquer forma pusessem os 
filhos a salvo, mandou logo executar a ordem. 

Esta bárbara determinação até sobresallou aos próprios cristãos, que não 
puderam deixar de censurar tão deshumana lei, e muitos trataram de a iludir 
recolhendo em suas casas a algumas crianças. Mas para os judeus é que 
ela foi horrível. Em muitos o desespero, a paixão excitada, os arrastou ao 
ponto de matarem os filhos « afogamdohos & lãçandohos em poços, & rios, 
& per outros modos querédo antes vellos acabar d'esta maneira, q não apar- 
tallos de sim, sem sperança de hos nunca mais vere » (1). Pois para que 
um pai mate seu próprio filho; para que se decida a fazer padecer o ente 
que é o seu enlevo, a sua esperança e consolação; para se sentir com ânimo 
de ver cerrados aqueles olhos, muda aquela boca, ermas de cor aquelas 
faces, inertes aqueles membros, é preciso que seja imensa a desesperação. 

Em outros a falta de ânimo levou-os ao suicídio. 

i Que horroroso quadro ! 

Entretanto o faustoso Rei, na estreiteza das ideas do seu tempo, pensava 
com alegria, que mais próxima era a hora do seu apetecido enlace. 



(i) Damião de Góis, Chronica de D. Manuel, parte I, cap. 20. 



Monises J^rj 

Não parou aqui a perseguição. A nova ordem de expulsão estava dada, 
os judeus tinham três portos por onde podiam expatriar-se, e o prazo con»- 
cedido ainda se protraia. Mas aquela gente era trabalhadora, económica, e, 
por meios mais ou menos lícitos, possuía avultadas riquezas, i Gomo obstar 
a que estas saíssem do reino ? Não era difícil. Primeiro negando-se-lhes 
embarcações; depois, determinando-se-lhes para só de Lisboa partirem; e 
por último, com delongas, deixando-se passar o prazo. E tudo isto se fez, 
porque «não deixaua elRei de cuidar no que cõuinha á saúde das almas 
desta gente»! (i) 

No Rossio, nos paços dos Estaus, estavam albergados mais de vinte mil 
Judeus, que pelas condições no tratado ficavam, assim que passasse o prazo 
para a sua saída, e ipso facto, cativos. Neste aperto propuzeram muitos a 
D. Manuel que se fariam cristãos mediante a restituição dos filhos, e a isenção 
de devassas durante os próximos vinte anos. Aceita a proposta, diz o cro- 
nista, que, aos que persistiram na sua lei, deu o monarca embarcação para 
Africa. Acho demasiada benignidade, e não creio que eles obtivessem a 
liberdade tão barata. 

Tratou-se em seguida de baptisar aos que ficaram, que escolheram para 
seus padrinhos aos fidalgos principais do reino, que lhes puzeram os seus 
nomes, a que os neófitos acrescentaram logo os apelidos dos seus protectores. 
Deste facto proveio, ainda mais do que do abuso da adopção sem causa dos 
apelidos maternos, a confusão que neste ponto se nota em Portugal; confusão 
que dá lugar a que, por exemplo, tanto direito tenha a chamar-se Almeida 
o Marquês do Lavradio, como um qualquer moço de esquina. 

Estavam entretanto satisfeitos os desejos da mística princesa, e já razão 
não havia para impedir a sua volta a este reino, como noiva do tio de seu 
primeiro marido. 

No fim de Setembro de 1497 encontraram-se os reis Católicos e o de 
Portugal em Valência de Alcântara. Durante os três dias que aí permane- 
ceram muito desacompanhados, se celebraram, sem festas nem regosijos 
alguns, as lúgubres bodas, que foram cortadas inopinadamente pela notícia 
da grave doença do príncipe D. João, herdeiro da monarquia espanhola. 

Tinha o príncipe adoecido em Salamanca de uma febre contínua, e para 
lá se dirigiu Fernando o Católico a todo o galope com mudas dispostas pelo 
caminho, conseguindo por esta forma chegar a tempo de receber o último 
suspiro do filho, que morreu a 4 de Outubro (2). 



(i) Damião de Góis, Chronica de D. Manuel, parte I, cap. 20. 

(2) Çurita, Historia dei Rey Don Hernando, liv. 3.», cap. 9. — Difere um pouco da nar- 
rativa de Damião de Góis. 



48 Brasões 

Esta morte, causa de profunda tristeza para os reis de Espanha, abria 
vastos horizontes à ambição de D. Manuel, que no íntimo do seu coração 
infalivelmente se jubilou com ela. 

A nova rainha de Portugal era com efeito a sucessora do irmão nos di- 
reitos à herança das coroas de Castela e Aragão; e, se a princesa viúva 
tinha ficado grávida, a sua dor e aflição podiam muito bem causar um mau 
sucesso. Assim sucedeu, e D. Margarida, ainda antes do fim desse ano, 
abortou uma criança. 

Trataram então os aflitos reis Católicos de assegurar a sucessão de seus 
reinos a sua filha D. Isabel, para o que mandaram pedir aos reis de Por- 
tugal viessem a Espanha, afim de serem jurados príncipes de Castela e 
Aragão. 

Depois do seu casamento tinham D. Manuel e D. Isabel passado a Cas- 
telo de Vide, onde se não celebraram por causa do luto todas as brilhantes 
festas que estavam ordenadas. Daí, depois de pouca demora, seguiram 
para Évora, e só no fim de Dezembro, estando já a rainha grávida, é que 
entraram em Lisboa. Foi então que receberam, com a notícia do aborto de 
sua cunhada, o pedido para se irem fazer jurar príncipes a Espanha. 

Via D. Manuel emfim coroadas todas as suas aspirações. Ele, que nas- 
cera tão longe do trono pátrio, filho segundo dum ramo da casa real, passara 
inesperadamente, em resultado da execução, ou assassínio, do Duque de 
Viseu seu irmão, a chefe daquele ramo. Depois, continuando o imprevisto, 
morre desastradamente o único filho legítimo de D. João II, que se vê obri- 
gado a declarar ao Duque de Beja por seu sucessor. Rei de Portugal, sonha 
talvez D. Manuel em retinir sobre sua cabeça as três coroas da península, 
insta pelo seu casamento com a filha primogénita dos reis de Castela e 
Aragão, e acede a todas as condições; e mal tinha consumado o matrimónio, 
outro facto inopinado, a morte do príncipe herdeiro, seguida em breve da 
perda da única esperança de lhe ficar descendência, franqueou ao venturoso 
príncipe português a realização dos seus ambiciosos projectos. 

Era demasiada sorte, e a fortuna caprichosa nem sempre acompanha 
aos seus dilectos. Em poucos meses sucessivas mortes, desvaneceram o 
sonho, não inteiramente contudo, porque o esperançado D. Manuel ainda 
se foi agarrar a outra amarra, casando com a última filha dos reis Cató- 
licos. 

l Que aconteceria, se se tivesse realizado então a união dos três reinos 
da península ? i Quantas vezes não temos, todos os que pensamos em his- 
tória, devaneado sobre os resultados que de tal sucesso proviriam? Pois, 
se, ainda hoje, tão longe dos tempos, tantos pensamentos desvairados nos 
acodem ao atentarmos neste facto, i quão intenso não seria o trabalho de 



Monises 49 

imaginação de D. Manuel, que, com sobejos fundamentos, chegou a ver 
quási realizadas as suas aspirações ? 

Convocadas as cortes reuniram-se em Lisboa a 1 1 de Fevereiro de 1498, 
e nelas se deliberou sobre a jornada do Rei e da rainha para serem jurados 
príncipes herdeiros de Castela e Aragão. 

Encerradas as cortes a 14 de Março, partiram os reis de Lisboa a 29 do 
mesmo mês, caminho de Toledo. 

Era lustrosa a comitiva, e na lista dos oficiais mores e fidalgos que a 
compunham, e que Damião de Góis nos deixou (i), se encontra nomeado a 
Febos Monis. 

II 

SENHORES DE ANGEJA 

O sobrenome de Monis é patronímico de Munio, e, como fosse por este 
facto muito repetido nos primeiros séculos da monarquia, se esforçaram 
alguns linhagistas, com bem pouca crítica, em relacionar vários xMonises, 
que tinham unicamente de comum o serem filhos de Munios (2). \ E não foi 
só dantes, ainda hoje se escreve disto ! 

No reinado de D. João I viveu Vasco Martins Monis (3), que era filho de 
Branca Lourenço e de Martim Fagundes, que pelas eras de 141 5 a 17 (iSyy 
a 79) foi encarregado da guarda e arrecadação dos igrejairos reais de Beja, 
Serpa, Moura, Mourão e Olivença (4). Casou Vasco Martins com Brites 
Pereira, e era já falecido em 1489. Foi o progenitor dos alcaides mores de 
Silves, dos senhores de Angeja, e de vários ramos no continente e nas ilhas. 

As armas destes Monises eram unicamente as cinco estrelas de oiro em 
campo azul. 



(i) Damião de Góis, Chronica de D. Manuel, parte I^ cap. 26. 

(2) [O acento tónico de Munnius ou Monnius cai no i. O respectivo patronímico é 
Munnici ou Monnici, que deu em português Moni^, ao passo que de Monnius derivou-se o 
português Moninho. — Nota da revisão\ 

(3) Vasco Martins Monis, cavaleiro, nosso criado e alcaide de Silves, aforamento em 
três vidas de um moinho com suas herdades e pomar em Silves etc. 7 de Outubro de 1422 
(A. D.). — Diogo Monis, fidalgo de nossa casa e alcaide mor de Silves apresentou a prece- 
dente carta, declarando ser a derradeira vida e pedindo se lhe fizesse emprazamento enfa- 
tiota; el Rei lho concede em Évora a 25 de Janeiro de 1490 {Chancelaria de D. João /, 
liv. 16.°, fl. 12 V.). Diogo. Monis, fidalgo de nossa casa, e alcaide mor de Silves, apresenta 
carta de aforamento feita em Faro a 4 de Junho de 1490, e foi-lhe confirmada a 24 do mesmo 
mês. (/ííí/em, fl. 41). 

(4) Conata da carta de certa mercê que está a fl. 47 v. do liv. 5.° da Chancelaria de 
D. João I. 

VOL. III 7 ' 



5 o Brasões 



III 

MONISES DE LUSINHANO (SAMPAIO) 

Outros foram os Monises de Febos Monis. Deles diz a trova de João 

Rodrigues de Sá: 

«Amba-1-as armas reaes 
de Chipre, e Jerusalém, 
com armas mistura tem 
de Moniz; mas estas taes 
a hum só d'elles convém. 
Um só, a quem com razão 
chame-se de Lusynhão, 
^ seu pay lh'o foi alcançar, 
por s'ajuntar e casar 
com tão alta geração.» 

Efectivamente todos os nobiliários do reino são concordes em assinar a 
Vasco Gil Monis, pai de Febos Monis, um casamento, o segundo, com 
D. Leonor de Lusinhano, a quem não nomeiam os progenitores. 

A família dos Lusignan de Chypre tinha-se extinguido, e sucederam-lhes 
os príncipes de Antioquia, que foram reis daquela ilha e reis titulares de 
Jerusalém; mas com estes directamente não se aliou o nosso Monis. 

Dos últimos reis de Chypre saiu um ramo que se intitulou durante algum 
tempo príncipe de Galilea, no qual depois de perdido o principado, reapa-v 
rece em alguns dos seus membros o apelido de Lusignan, juntamente com o 
nome de Febos. Destes provavelmente era a mulher de Vasco Gil Monis. 



Gil Aires, pai deste Vasco Gil Monis, dizem ter sido filho de um homem 
de Alegrete e de Maria Trabuca. Foi ele cavaleiro muito honrado em 
tempo de D. João I serviu de escrivão da puridade ao grande condestável, 
que em 4 de Abril de 1460 (1422) lhe fez doação em vida de uma quinta no 
termo de Almada, a qual fora de Lourenço Anes Fogaça, e que se chamava 
de Morface'm, como tudo se infere da confirmação da mesma propriedade a 
Diogo Gil Monis (i). 



(1) Por parte de D.Leonor de Sousa, mulher que foi de Diogo Gil Monis, foi mostrada 
carta. — D. Leonor de Sousa, mulher de Diogo Gil Monis, do conselho, apresentou carta. 
— Carta de doação. Ano de 1497 (esta data está evidentemente errada, poderá ser 1477) 
a 2 de Setembro, em Lisboa, nos paços dei Rei, onde ora poisa a\nui alta e excelente prin- 



Monises 5 1 

É Gil Aires (i) intitulado escrivão da puridade do condestável em escri- 
tura de 28 de Julho de 1442 (1404). Com esse título, e mais o de criado, 
é nomeado noutra de 29 de Setembro do mesmo ano; e com os mesmos, e 
o de cavaleiro, ainda noutra de 9 de igual mês de 1444 (1406). Finalmente 
cavaleiro, e vedor para as coisas pertencentes a Seuta, em escritura de 28 
de Julho de 1428 (2). 

Morreu antes de i de Setembro de 1487, e foi sepultado na capela de 
Nossa Senhora do Pranto, depois intitulada da Piedade, no convento do 
Carmo de Lisboa, capela que para seu jazigo lhe havia sido doada pelo con- 
destável fundador do convento. Havia casado Gil Aires com Leonor Ro- 
drigues, que lhe sobreviveu, e vendeu ao Conde de Ourém D. Afonso a re- 
ferida quinta de Morfacém. Deste casamento nasceram os seguintes filhos: 

i." — Diogo Gil, que depois se chamou Diogo Gil Monis. Onde êle e 



cesa infanta D. Brites, seodo ela presente, fez ela ler pelo notário uma carta de doação. — 
D, Afonso etc, ao infante D.Fernando meu irmão, doação para sempre de todos os quartos 
que havemos no Paço do Lumiar, e da quinta de Carnide, e dos casais de Loures, e de quais- 
quer outros bens do termo de Lisboa, que foram de João Fernandes Pacheco, quando se 
partiu destes reinos para os de Castela, Santarém, lo de Fevereiro de 1460. — Lida acarta 
disse a infanta que o infante D. Fernando fizera mercê dos ditos quartos e quinta de Car- 
nide e casais de Loures ao honrado Diogo Gil Monis, fidalgo da casa do dito senhor, e seu 
vedor da fazenda, e que à infanta ora por demanda lhe foram julgadas por sentença, porém 
ela fazia de tudo doação em nome do Duque D. Diogo seu filho ao dito Diogo Gil Monis de 
juro e herdade para sempre. — Confirmada a D. Leonor de Sousa, mulher do dito Diogo 
Gil Monis, com a condição de por morte do marido ela haver os bens, e por sua morte seu 
filho; e não se entenda nas casas que estão em Lisboa junto com S. Martinho, que foram 
do dito João Fernandes Pacheco, das quais fizemos mercê a Diogo Fernandes de Almeida, 
fidalgo de nossa casa, e êle as vendeu a João Garcês, cavaleiro de nossa casa e escrivão da 
câmara e fazenda de além mar, etc. Estremoz, 7 de Outubro de 1484. — Confirmada a 
D. Leonor do Sousa, a i3 de Fevereiro de 1492. — Apresentou também uma procuração 
feita por D. Leonor a seu filho Pêro Monis, em Odemira a 12 de Abril de 1498, com poderes 
de vender os quartos do Lumiar, e pede por se ter ora concertado com o dr. Mestre João, 
nosso físico, sobre o foro da quinta de Carnide, consentimento e licença etc. Confirma a 
Mestre João, Lisboa, 22 de Outubro de 1498. {Chancelaria de D. Manuel^ liv. Si.", fl. ii3). 

(1) Na era de 1442 (1404), a 19 de Setembro, em Almada, ante os paços de D. Nuno 
Alvares Pereira, condestável, perante o juiz pareceu Gil Aires, escrivão da puridade do dito 
senhor Conde, etc. (Documento transcrito na carta de confirmação de Paços de Ferreira 
e Cabeceiras de Basto a António Pereira. — Chancelaria de D. João III, liv. 7.°, fl. 197). — 
Na doação do condado de Ourém e outros muitos bens feita pelo condestável a seu neto 
D. Afonso em 4 de Abril de 1460 (1422), documento feito por Gil Aires, nele se declara que 
o condestável havia feito doação em vida do mesmo Gil Aires meu criado da barca de Sa- 
cavém e do Reguengo de Almeida termo de Santarém. {Provas da Historia genealógica, 
vol. V, pág. 567, n.° i). 

(2) Documentos n.<" VII, VIII e XIX, apud Fr. José Pereira de Sani'Ana, Chronica dos 
Carmelitas, vol. I, págs. 8o5, 809 e 824. 



52 Brasões 

os irmãos foram buscar o apelido (i) não sei, nem encontro explicação plau- 
sível para o caso, mas sei que foi senhor da tal quinta de Morfacém, que 
lhe doou para sempre o Conde de Ourém, neto do condestável, pelos ser- 
viços que a este havia prestado Gil Aires, pai de Diogo Gil, a quem, sendo 
escudeiro da casa do referido Conde, foi confirmada a doação por el Rei em 
I de Setembro de 1437. Seguidamente aparece-nos Diogo Gil Monis, cava- 
leiro do infante D. Henrique, recebendo em 20 de Agosto de 1449 doação 
dos bens de Pêro da Azambuja e João da Azambuja, moradores em Mon- 
temor o Velho, que haviam combatido ao lado do infante D. Pedro na da 
Alfarrobeira; e ultimamente, em 1452, exercendo o ofício de reposteiro mor 
do infante D. Fernando (2). Foi Diogo Gil, juntamente com sua irmã Isabel 
Monis, tutor de seu sobrinho Bartolomeu Perestrelo, capitão da ilha do 
Porto Santo, e era já falecido em Maio de 1614, tempo em que ainda vivia 
sua viúva D. Leonor da Silva. Fora ela filha de Rui Gomes da Silva, 
senhor da Chamusca, e de D. Branca de Almeida, e do seu casamento com 
Diogo Gil proveio um ramo de Monises da Silva, que serviram nos paços 
reais, e de que o último representante morreu de doença, sobrevinda ao can- 
saço havido na batalha de Alcácerquibir em 1578. 

2.° — Vasco Gil Monis. Foi veador da casa do infante D. Pedro e com 
êle entrou em 1449 na batalha de Alfarrobeira, pelo que lhe foram confis- 
cados seus bens, entre os quais se compreendiam umas casas na rua de 
Morraz, entestando na Judiaria defronte da rua da Sapataria de Lisboa, das 
quais D. Afonso V fez doação em 22 de Dezembro de 1460 a Rui Monis, 
irmão de Vasco. Foi este depois perdoado, e já em 26 de Abril de 1472, 
concedendo-lhe aquele Rei licença para andar em besta muar, lhe chama 
nosso fidalgo, e criado que fora de el Rei seu pai. Em 1482 teve mercê, 
pelos serviços prestados a D. Afonso V e D. João II, de uma tença de dez 
mil reais, que em 1492 foi trespassada para seu filho Pedro Alvares Monis. 
Em 1469 era administrador da capela de Nossa Senhora do Pranto ou da 
Piedade na igreja do Carmo. Este facto parece indicar ter sido Vasco Gil 
o íilho primogénito do velho Gil Aires, porém os nobiliários todos o põem 
em segundo lugar. Encontro a referência, confusa é certo, de ter êle acom- 
panhado a D. João de Coimbra quando foi casar com a herdeira do trono 
de Chypre. Se isto assim foi, está explicado o segundo casamento (3) de 



(i) Estes todos se chamaram Monises depois que seu pai foi posto em honras. {No- 
biliário de D. António de Lima). 

(2) Carta de 26 de Julho de 1452 de doação dos bens de João Gomes, corretor das 
bestas de Lisboa, que fora ao reino de Granada « onde negou a nossa santa fé e se tomou 
moiro «. (Chancelaria de D. Afonso V, liv. S.», ú. 3 v.). 

(3) O primeiro casamento havia sido contraído entre 1433 e 1438, no reinado de el Rei 



Monises 53 

Vasco Gil com uma senhora da casa de Lusignan, parenta da que então rei- 
nava naquela ilha, donde Vasco regressaria a Portugal em 1475 depois do 
assassínio de seu amo. Sobre este casamento há grandes confusões nos no- 
biliários, pois que todos dizem ter ele tido lugar em Aragão e que a noiva 
era dama da infanta D. Isabel de Aragão mulher do senhor D. Pedro, Rei 
de Chypre. Isto é o que eles escrevem; porém a infanta D. Isabel de 
Aragão casou com o infante D. Pedro da Alfarrobeira; o se?ihor D. Pedro, 
filho destes, nem foi casado nem Rei de Chypre, mas sim Rei titular de 
Aragão; e quem foi regente de Chypre, e marido da herdeira desta coroa, 
foi o senhor D. João, irmão de um e filho de outro Pedro. Do casamento 
de Vasco Gil Monis e de D. Leonor de Lusinhano (à portuguesa) vieram os 
Monises de Lusinhano, que foram administradores da referida capela da 
Piedade no Carmo, e dos quais se extinguiu a varonia na pessoa de Febos 
Monis de Lusinhano e Torres, que, além da capela, também administrou o 
morgado da quinta das Conchas no Lumiar que fora dos Torres. Casou 
este Febos com D. Felipa Coutinho, filha do alcaide mor de Sintra André 
Gonçalves de Ribafria, e nasceu-lhe filha herdeira D. Luísa Monis, ou Monis 
Torres. Morreu esta senhora em 16 de Maio de 1659, e foi enterrada na 
antiga sepultura dos Monises na igreja do Carmo. Havia casado com seu 
segundo primo Francisco de Sampaio, 9.° senhor de Vila Flor e outras terras, 
e alcaide mor da Torre de Moncorvo, que lhe sobreviveu perto de três anos, 
e faleceu em 9 de Janeiro de 1662, sendo sepultado na mesma capela. Por 
esta forma entrou a casa dos Monises de Lusinhano na dos Sampaios, e 
posteriormente os senhores delas tiveram os títulos de condes (1764) e mar- 
queses (1884) de Sampaio. 

3." — Rui Monis. Ao contrário de seu irmão Vasco medrou Rui Monis 
com a desgraça da Alfarrobeira, pois que lhe foram dados alguns bens de 
parciais do infante D. Pedro. Em 1449, a 10 de Julho, intitulando-o cava- 
leiro de sua casa, lhe doou D. Afonso V os bens de João de Serpa, antigo 
escudeiro do regente. No ano seguinte recebeu mais duas análogas dádivas; 
a 20 de Junho a dos bens de João Esteves, morador que fora em Alenquer 
e aposentador do infante; e a 22 de Dezembro as referidas casas em Lisboa 
de seu irmão Vasco. Logo a seguir, em 146 1, tratou-lhe el Rei o casamento 
com Felipa de Almada, donzela da casa de sua irmã a infanta D. Leonor, 
prometendo-lhe duas coroas de oiro, e arbitrando-lhe por carta de 25 de 



D. Duarte, com Catarina Fernandes, filha de Fernão Rodrigues, cavaleiro, a quem os nobi- 
liários dão o apelido de Alardo. A esta senhora fez D. Afonso V mercê, por carta de 25 
de Julho de 1449, de que não fossem os bens, que ela herdara de seus pais, compreendidos 
na confiscação que fizera dos bens do marido. {Místicos, liv. 3.°, fl. ii5). 



54 Brasões 

Fevereiro uma tença de vinte mil reais brancos. Em. 1462 já Rui Monis era 
cavaleiro fidalgo, o que consta não só da lista desse ano, mas também duma 
carta de aforamento (i). Finalmente a 16 de Maio de 1468 foi nomeado 
tesoureiro da moeda da cidade de Lisboa em lugar de João Afonso, cava- 
leiro, que havia sido provido em contador de Évora. Em 1472 ainda exercia 
Rui Monis o cargo de tesoureiro, tendo sido por carta de 14 de Dezembro 
relevado e perdoado de quaisquer faltas cometidas no exercício do seu ofício 
de que estava suspenso, e em que foi reintegrado. Casou Rui Monis com 
D. Felipa de Almada, como fica dito, e dela teve a Garcia Monis (2), também 
tesoureiro da casa da moeda, e outros filhos, porém em breve se extinguiu 
toda a geração. 

4.° — Gil Aires Monis (3), cavaleiro fidalgo na lista de 1462, deve ter 
sido irmão dos precedentes; não é nomeado nos nobiliários. 

. 5.° — D. Leonor Monis, que foi segunda mulher de Fernão de Sousa, o 
da Labruja, por ser senhor da quinta deste nome junto à Golegã. 

6.° — Guiomar Gil que era casada em 1469 com Lopo Dias de Lemos, 
que juntamente com seu cunhado Vasco Gil se opôs naquele ano à sepultura 
de qualquer pessoa estranha à família na capela de Nossa Senhora do Pranto 
no Carmo (4). 

7.° — Isabel Monis. 

A propósito desta senhora seja-me permitida uma breve digressão, que 
não vem fora do assunto, visto que diz respeito a uma aliança ilustríssima 
que tiveram os Monises. 



(i) A carta é de 1 1 de Fevereiro de 1462, e está no liv. 35.° da Chancelaria de D. Afonso V 
na fl. 58. Por ela aforou D. Afonso V a Rui Monis, fidalgo da sua casa, «mas casas em 
Lisboa na rua da Comendadeira, as quais partiam contra o vendavel (sul) com pardieiros, 
com casas que haviam sido do Duque de Bragança D. Afonso, e com outras de el Rei; do 
aguião (norte) com um quintal do cabido da Sé de Lisboa, onde está «um acipreste», o 
qual (quintal) foi do dito Duque, e bem assim com casas do cabido que o Duque trouxera e 
então eram do Duque seu filho ; da parte do levante confrontavam com outras casas de 
el Rei; e do poente com rua pública que ia sair à Cordoaria Velha. As tais casas aforadas 
a Rui Monis «soia de trazer a dita comendadeira», por cuja morte passaram ao nomeado 
Duque de Bragança, vindo por falecimento deste a ficar a el Rei. Foi pois a tal comenda- 
deira, que deu o nome à rua, Inês Pires, a mãe do Duque D. Afonso. 

(2) Garcia Monis era tesoureiro da Moeda em i5i4 (Saraiva, Obras, vol. 4.°, pág. 187, 
n.»44). 

(3) Gil Aires Monis, nosso cavaleiro, na carta de 3 de Fevereiro de 1462 de quitação a 
João Fernandes da Silveira. {Chancelaria de D. Afonso V, liv. i.°, fl. 2 e Torre do Tombo, 
liv. 3.", pág. 298). 

(4) Fr. José Pereira de San t' Ana, Chronica dos Carmelitas, tomo i.», pág. 690 e 691. 



Montses 55 



IV 

MONISES PERESTRÊLOS 

Casou Isabel Monis com Bartolomeu Perestrêlo, i.° capitão donatário da 
ilha do Pôrto Santo, da qual o infante D. Henrique lhe fez doação, primeiro 
somente em vida, e depois de juro e herdade em i de Novembro de 1446. 
Apesar daquela senhora ter sido a segunda mulher de Bartolomeu, contudo, 
como do primeiro casamento só ficaram filhas, foi o filho de Isabel Monis, 
também Bartolomeu Perestrêlo, quem depois veio a ser o 2.° capitão dona- 
tário da ilha do Pôrto Santo, o que lhe foi confirmado por D. Afonso V em 
i5 de Março de 1473. Mas, para entrar na posse da sua ilha, teve de impu- 
gnar o contrato de venda dela que durante a sua menoridade, em 17 de 
Maio de 1458, fizeram sua mãe e seu tio Diogo Gil Monis, como seus tutores 
que eram (i). 

Além deste filho teve Isabel Monis mais filhas, três ao que parece, que 
foram Felipa Monis, Briolanja Monis, e Violante Monis. Felipa Monis, 
mulher de Cristóvão Colombo, não seria nunca Dona Felipa, em quanto 
viveu; mas posteriormente é-lhe dado o título nos documentos espanhóis. 
Depois de morta não foi rainha, como D. Inês de Castro, mas foi Dona. 

Felipa Monis casou, aí por 1474, com um genovês cheio de vida, vigor, 
ambição e tenacidade, cuja estrela fulgurante brilhava lá para as bandas do 
ocidente, onde êle foi descobrir um novo mundo: 

A Castilla, y a Leon, ^ 
Nuevo mundo dió Colón. 

Foi efectivamente com o grande almirante Cristóvão Colombo que Felipa 
Monis casou, e foi dela que êle teve o filho e sucessor D. Diogo Colón, 
2.° almirante e vice-rei das índias Ocidentais. 

Aparece Felipa com os apelidos de « Monyz Perestrêlo» no depoimento 
feito em 8 de Março de i535 por Diego Mendez, vizinho da cidade de 
S. Domingos na ilha Hispaniola (hoje Haiti) e antigo companheiro de nave- 
gação de Cristóvão Colombo (2). Parece dever ser o mesmo Diego Mendez 



(i) Cristoforo Colombo in Portugallo por Prospero Peragallo, apêndice II, pág. 235. 

(2) La pátria de Colón según los documentos de las ordenes militares por D. Francisco 
R. de Uhagon, (Marquês de Laurencin) Ministro dei Tribunal y Gonsejo de las Ordenes y 
Gabellaro Professo de la de Galatrava, Madrid, tip. de Ricardo Fé, 1892, 8.° de 72 págs. Aí 



56 Brasões 

nomeado por D. Diogo Colón no seu testamento de 1 509(1), e pela forma 
por que o nomeia se vê a confiança que lhe merecia. 

Se Felipa Monis, não casou em Lisboa, foi aqui contudo que lhe nasceu 
o filho Diogo, como o diz terminantemente no seu depoimento o referido 
Diego Mendez, e de ouvida o confirma Pedro de Arana, vizinho da cidade 
de Córdova, outra testemunha no mesmo processo (2). 

É de muita confiança o dizer de Diego Mendez, que declara conhecer a 
família de Colón havia trinta anos, e porque se sabe que este conhecimento 
não era superficial, como se prova, não só do que dele diz D. Diogo Colón 
no seu citado testamento, como duma carta pelo Diego Mendez escrita ao 
2." almirante (3), e mais ainda pelo testamento do próprio Mendez, feito em 
Valhadolid a 6 de Junho de i536(4). Era um amigo da casa. 

Bem sei que o Bispo Frei Bartolomeu de las Casas diz « que fiiese á 



a págs. 33 lê-se : «que el padre dei dicho viRey (D. Diego Colón) se llamava don Christoual 
Colón ginoves e que hera natural de la Saona quês una villa cerca de Génova, e que la 
madre dei dicho viRey muger dei dicho don Christoual se llamava dona Felipa láonyi^ 
Perestrelo e que era natural de la dicha cibdad de Lisboa ...» 

(i) Henry Harrisse, Christophe Colomb, apêndice B, vol. 2.°, pág. 458. 

(2) La pátria de Colón cit., pág. 33 e 36. — Diego Mendez quando depôs, em 8 de Março 
de i535, estava em Madrid tratando de apelar de certa sentença que em i528, sendo ele 
aguazil mor da cidade de S. Domingos da ilha Hispaniola, contra ele dera o ouvidor da ilha. 
O conselho das índias, perante quem apelava, por sentença de 3 1 de Outubro de i534 o 
absolveu, mas só em parte. Desta sentença requereu ele carta executória, que só lhe foi 
expedida em 7 de Julho de i536. Vide Autógrafos de Cristóbal Colón y papeies de América 
publicados pela senhora Duquesa de Berwick e de Alba, pág. i32 a 134. 

Agora para maior clareza extractarei para aqui os depoimentos das duas teste- 
munhas. 

«.Diego Mende:^. . . dixo.. . que conoce ai dixo don Diego Cólon. . . e que sabe que es 

hijo legitimo de don Diego Cólon su padre ya difunto viRey e almirante e gouernador que 

fue de las índias dei mar Oceano e de dona Maria de Toledo su muger. . . a los cuales. . . 

conocio e conoce de treynta anos a esta parte poço mas o menos e quel dicho viRey hera 

. natural de la cibdad de Lisboa quês en el Reyno de Portugal. 

« Pedro de Arana. . . dixo. . . que conoce ai dicho don Diego Cólon que pide el habito. . . 
e que sabe que es hijo legitimo de don Diego Cólon su padre ya difunto viRey e almirante 
e gouernador que fue de las índias dei mar Oceano e de dona Maria de Toledo su muger... 
a los quales este . . . conocio e conoce de mas de veyente e cinco anos a esta parte e que no - 
sabe de donde era vepno e natural el dicho viRey salvo que ha oydo depr que hera natural 
dei Reyno de Portugal ...» 

(3) Publicada a pág. 59 na colecção cit. Autógrafos de Cristóbal Colón y papeies de 
América. 

(4) Foi publicado por Navarrete no vol. I da Coleccion de los viajes y descubrimientos, 
pág. 462 mihi, com o título de Relacion hecha por Diego Mende!(, de algunos acontecimientos 
àel último viage dei Almirante D. Cristóbal Colón. 



Monises 



57 



vivir Cristôbal Colón à la dicha islã de Puerto Santo donde engendro ai 
dicho su primogénito herdero D. Diego Colón «» (i). 

Mas isto é, como o mesmo bispo de Ghiapa confessa, uma reminiscência 
vaga, dsegtin que me quiero acordar n\ e o testemunho do próprio D. Diogo, 
que Las Casas invoca, é a respeito de ter Colombo vivido uns tempos em 
Porto Santo, onde o sogro tinha alguns bens. i E depois, não podia o filho 
ter sido gerado na referida ilha, e vir nascer a Lisboa ? 

Foi também em Lisboa que Felipa Monis faleceu, e foi sepultada na capela 
da Piedade na igreja do convento do Carmo, onde era o jazigo de sua família (2). 



Também a esta linha dos Monises Perestrêlos pertenceu um varão douto 
e respeitável, o bispo de anel D. Frei Cristóvão Monis (3), carmelita. Foi 
ele prior do convento de Lisboa em i5io, provincial em i522, nomeado no 
ano seguinte bispo- coadjutor em Évora do cardeal infante D. Afonso, o que 
lhe foi confirmado com o titulo de bispo de Reona por 
bula de 16 de Março de 1624. Fez o seu testamento em 
23 de Junho de i53o, ao qual acrescentou uma cédula 
em 7 de Março do ano seguinte, estando no serviço do 
cardeal em Alçaria Ruiva, onde lhe deu um mal, de 
que morreu a 20 do mesmo mês. Na igreja daquela 
povoação, então termo de Mértola, foi sepultado, e dali 
trasladado em fins de i539 para o convento do Carmo 
de Lisboa para a sepultura, que escolheu à porta do 
claustro (4). 

Frei Manuel de Sá na obra citada na nota diz que 
D. Frei Cristóvão Monis, de quem ignora a filiação, usava de dois sinetes: o 
pequeno com as armas dos Monises, que são cinco estrelas em aspa; o grande 
na forma que vai copiado no princípio do capítulo XVIIl das Memorias. 

Este desenho do princípio do capítulo, que eu aqui reproduzo, é bastante 




(i) Historia de las índias no fim do cap. IV do liv. I. 

(2) «... é traer asy mismo ally (ai monasterio que manda hacer) el cuerpo de Dofía Fe- 
lipa Mufiij su legitima muger (dei Almirante D. Cristôbal) mi madre questá en el monas- 
terio dei Cármen en Lisboa, en una capilla que se llama de la piedad quês de su linage de 
los Munires.. .» — Segundo testamento de i523, de D. Diogo Colón, pág. 487 do 2.° vol. do 
Christophe Colomb de H. Harrisse. E o torna a dizer mais adiante na pág. 492. 

(3) Em escritura de emprazamento, feita em Lisboa, no mosteiro de Nossa Senhora do 
Carmo, na sacristia, a 7 de Janeiro de i5i8, na presença do R. P.Fr. Cristóvão Monis, Prior 
do dito mosteiro, &c. {Torre do Tombo, gaveta ^^ do Mosteiro do Carmo de Lisboa). 

(4) Memorias históricas do Carmo, por Frei Manuel de Sá, pág. 91 e segs. 

VOL. III 8 ' 



58 Brasões 

tosco, mas ainda assim percebe-se o suficiente para, se conhecer que o bispo 
de Reona era deste ramo dos Monises. O escudo é esquartelado: no I e IV 
cinco estrelas de cinco pontas; no II partido de um leão e de três bandas 
carregadas de sete máculasinhas, 2, 3 e 2; no 3." parece ser uma cruz can- 
tonada por quatro cruzetas. 

No i.° e 4." quartel não há dúvida, são as armas dos Monises, de azul 
cinco estrelas de oiro. No 2.% apesar de haver alguma confusão no segundo 
quartel, também facilmente se entende que são as armas dos Perestrêlos, 
partido: o i." de oiro leão de púrpura, armado e linguado de vermelho; o 
2.° de prata banda de azul carregada de três estrelas de oiro e acompanhada 
de seis rosas de vermelho. Por pouco que o lacre estivesse quebrado ou 
gasto, podiam, a banda e as seis rosas, três de cada lado, que a acompanham, 
parecer ao desenhador três bandas completas carregadas de objectosinhos 
que êle não conheceu, nem pôde contar. 

No 3.° quartel é qíie a dúvida é grande. Para ser o que mais parece, 
isto é, uma cruz cantonada por quatro cruzetas, não conheço escudo portu- 
guês com semelhantes móveis. Se fosse presumível que o desenhador tivesse 
tivesse tido diante de si a cruz potêntea dos Teixeiras, e que, por encontrar 
nesse ponto a impressão do sinete um tanto apagada e confusa (i), tivesse 
interpretado o desenho pela forma esdrúxula por que o fez, se isto fosse 
mais do que presumível, porque presumível é-o, se fosse provável, estava 
então descoberta a filiação do bispo D. Frei Cristóvão Monis. Sim, porque 
nesse caso teria êle sido filho do segundo Bartolomeu Perestrêlo e de sua 
mulher Guiomar Teixeira, e portanto primo com irmão de D. Diogo Golón, 
que era o grau de parentesco, que entre os dois havia. 

l Está provado este parentesco ? Está (2). 

No cartório do Carmo existia o testamento do bispo D. Frei Cristóvão 
Monis, que lá o viu o douto e indefesso investigador Severim de Faria, e de 
lá extractou, além de outros, o seguinte período que para aqui transcrevo: 
« e porque a visRainha das Antilhas Dona Maria de Toledo filha de Dom Fer- 
nando de Toledo irmão do Duque Dalva lhe deve fao testador) obra de 700 
libras de huma tença que tinha de seu mariSo (D. Diogo Colón) que hera 
primo com irmão d'elle Bispo, se descontem etc. » (3). , 



(t) «Tem escudo esquartelado, à direita as armas dos Goutinhos (também são cinco 
estrelas como as dos Monises, e daí veio a confusão) à esquerda leões e outras que estão 
bem apagadas». Severim de Farim descrevendo o brasão, que viu no testamento de 
D. Frei Cristóvão Monis, descrição que pôs no cartapácio 3.' do seu Ms. intitulado Torre do 
Tombo, fl. 453 na Biblioteca Nacional. 

{2) Vide Torre do Tombo, vol. I, fl. 141. 

(3) Ms, citado na nota precedente. 



Monises 5 9 

Não podem pois restar dúvidas. O filho e sucessor de Cristóvão Co- 
lombo era primo com irmão do bispo de Reona, a quem provavelmente 
deram o nome de Cristóvão por deferência para com o marido da. tia Felipa, 
o qual talvez tivesse até segurado a criança sobre a pia baptismal no tempo 
em que esteve em Porto Santo. 

Vou um pouco longe nas conjecturas, mas é que, i se D. Frei Cristóvão 
não foi filho do segundo Bartolomeu Perestrêlo, de quem o havia de ser 
para poder ter o indubitável parentesco que tinha com Diogo Colón ? i De 
Briolanja Monis irmã da mulher de Cristóvão Colombo ? ; Do cunhado 
deste, se cunhado foi, Miguel Moliart, marido de uma Violante Monis ? 
Não creio; e, excluídas estas duas senhoras, mais ninguém aparece, além de 
Bartolomeu, que pudesse ter sido irmão de D. Felipa Monis. 

Briolanja Monis não parece ter tido filhos, nem ter sido casada, e decerto 
não foi muito abastada (i); e, além do mais, creio que viveu fora de Por- 
tugal na companhia do sobrinho D. Diogo (2). 

Excluída Briolanja vamos a ver se é provável ter o bispo D. Frei Cris- 
tóvão Monis sido filho de Viglante Monis. 

Desta senhora também há notícia por um testamento, o do outro D. Diogo 
Colón irmão do grande almirante (3). Também se vê, que, como Briolanja, 



(i) nltem mando que à mi tia Brigulaga (sic) Moni^ serán dados por sus iercios veinte 
mil maravedis eu cada un ano mientras que viviere para sus necesidades, computados los die^ 
mil maravedis que le solia dar». — Testamento de iSog de D. Diogo Colón, 2,» almirante, a 
pág. 460 do vol. 2."* do Christoph Colomb de H. Harrisse. 

(2) Da própria citada verba do testamento já isto se podia inferir, porém mais certo fica 
com o que se lê no fim duma carta de Diogo Mendez ao almirante D. Diogo Colón : « Su- 
plico a V. merced dé su parte destas nuevas.. . à la Senora Bryolanja Moniz, que desta vez 
no pude escrebirle». — Autógrafos de Colón, cit. pág. 60. 

Esta carta, que trata sobretudo das demandas que o almirante então trazia na corte, é 
datada de «i Burgos á três de Juniof. Vamos a ver, se lhe dou com o ano. 

No post scriptum da carta dá o Mendez as novidades, e entre elas escrevo: «Lo que 
se di^e de nuevo es que da el Rey la tenencia de Burgos á Don Hernando,. . . Item dan el 
Gran Capitan á Loxa.. ». Ora a doação da cidade de Loja a D. Gonçalo Hernandez de 
Córdoba é do ano de i5o8 (Crónica dei Gran Capitan, liv. 3.», cap. VI; Quintana, Vidas^ 
vol. I.», pág. 227, mihi; Lafuente, Historia de EspaHa, vol. 5.", pág. 5oo mihij. 

Neste ano ainda D. Diogo Colón andava embrenhado nas suas justas pretensões, das 
quais só pequena parte fora já resolvida, não alcançando ele as cédulas reais, que lhe deram 
provisória e depois definitivamente o governo da Hispaniola, senão a 9 de Agosto e 29 de 
Outubro de i5o8. (Harrisse, Christophe Colomb^ vol. 2.», pág. 255). 

Fica, ao que parece, tudo certo, pondo-se a data da carta no ano de i5o8. 

(3) «É mando asi mismo que se dé luto á los familiares criados e amigos dei dicho 
senor Don Diego Cólon para que lo traigan por él en reconocimiento dei sentimiento que 
tienen de su fin é fallecimiento, é que las personas á quien se dé sean las siguientes. Vio- 



6o Brasões 

não vivia ela na abastança, e também, como aquela, se vê que andava atre- 
lada à família Colón; uma, a Briolanja, ao D. Diogo Colón sobrinho, a outra, 
a Violante, ao D. Diogo tio; ambas em Espanha. Há contudo uma diferença 
entre as duas, e é que de Briolanja temos indicação segura de ser cunhada 
de Cristóvão Colombo, ao passo que de Violante é só quási pelo apelido 
Monis, que o podemos conjecturar. 

Quanto ao estado de ambas elas, temos o mesmo silêncio nos documentos 
que eu conheço, com a diferença porém de que a Briolanja ainda ninguém, 
que eu saiba, se lembrou de fazer casada, ao passo que a Violante, diz a 
nobre publicadora dos Autógrafos de Colón na pág. 200 do índice de nomes 
próprios, que lhe juntou, que era casada com Miguel Moliart(i), e irmã de 
Briolanja Monis e de Felipa Monis, mulher do descobridor da América. 
Parece dever ser de peso esta afirmativa da ilustre Duquesa de Berw^ick, 
que, tendo tantos documentos na sua mão, não avançaria tal coisa sem estar 
muito segura dela. 

Entretanto sempre direi que da carta de Miguel Moliart publicada na 
pág. 47 da referida colecção, e com o seu fac-simile na frente, não posso 
concluir que êle fosse cunhado de Cristóvão Colombo (2). 



lante Muniz é dos mugeres suyas que la acompanan. . .» E mais adiante: «Iten mando 
que se paguen á Violante Muniz diez ducados de oro em limos na que el dicho Senor 
Don Diego Golon mando que se le diesen, é mas en su nombre le fago gracia é suelta de 
siete ó ocho mill maravedis que le debia ai dicho Senor Don Diego por préstamo por quanto 
esta fué su voluntad de se los perdonar é remitir». — Testamento de D. Diogo Colón, irmão 
do i.° almirante, escrito em i5i5 por sua ordem por Frei Gaspar Gorricio, a pág. 472 e 478 
do 1° vol. do cit. Christophe Colomb de Harrisse. 

(i) Escrevo Moliart e não Muliart ou Muliar, porque foi da primeira maneira que êle 
próprio se assinou numa carta autografa a que logo me referirei. 

(2) Veio-me agora à mão um novo folheto, em que o respeitável apologista de Colombo, 
o P. Peragallo, torna a mostrar-nos as aturadas e conscienciosas pesquizas, que tem feito 
sobre tudo, que se relacione com o seu herói. É o título do folheto : Disquisiponi Coloni' 
bine N.o 5, / Pallastrelli di Piacen^a in Porto gallo e la moglie di Cristo/oro Colombo; 
Génova, 1898. 

Neste pois a pág. 38 vem citada uma cédula real de 3o de Maio de 1493, na qual se 
nomeia Miguel Moliart, vizinho de Sevilha, e sua mulher Violante Monis. Não restam 
portanto dúvidas. Casaram. O que ainda não está autenticamente provado, que eu saiba, 
é que Violante Monis fosse irmã de Felipa Monis, e portanto Moliart cunhado de Colombo. 
As probabilidades contudo aumentaram; é certo. 

Há um ponto porém do folheto, em que eu não concordo com o douto Peragallo, e é 
quando êle se inclina a fazer de Briolanja e Violante a mesma pessoa. 

Temos o nome de Violante Monis claramente escrito em dois documentos: a cédula 
real de 3o de Maio de 1493, o testamento de D. Diogo Colón, irmão de Cristóvão, em 22 de 
Fevereiro de i5i5. 

Temos o nome de Briolanja Monis também em dois documentos, que se colocam entre 



Monises 6i 

A carta é de prestação de contas e de reconhecimento de dívida, mas é 
tão cerimoniosa, que parece excluir toda a intimidade e parentesco. Está 
ela bastante mutilada no alto da folha, onde apenas se lê: uYlustre em... 
magniji . . . » ; o final porém está intacto e, não tendo tratado senão de contas, 
arremata por estas palavras: theso las manos de viiestra sefioria Miguel 
Molfart*. 

Esta carta, que não tem data, talvez seja do ano de 1494. 

Por baixo da assinatura está escrito o número 94, que não sei que outra 
coisa possa significar, senão a indicação do ano. O algarismo nove daquele 
número está mais apurado, do que os outros noves que Moliart escreveu na 
carta, e o quatro não se parece nada com os mais que nela se vêem. Nestes 
o traço perpendicular é recto, no outro é curvo. No verso da carta escreveu 
Colombo: iscaria de migel muliart de 2g mil maravedis que me debe*. O 
nove do número 29 escrito por Colombo, não se pode dizer que seja tal 
qual o nove do 94, mas é mais parecido do que os mesmos algarismos de 
Moliart. Se portanto o 94 fosse da mão do almirante, outra coisa não 
poderia ele significar, senão a indicação do ano em que a carta foi escrita. 
Todos sabem, que é muito corrente esta maneira de abreviar a indicação 
do ano em que se está. No século xv é muito vulgar cá na península, encon- 
trando-se vários documentos datados de 462, 448, etc, atirando-nos para os 
princípios da idade média. 

Em 1495 estava Moliart nas índias Ocidentais, e provavelmente haveria 
partido com Colombo na sua segunda expedição, a do ano de 1493. Estava 
lá, é certo, e por sinal que se mandou queixar aos reis Católicos da maneira 
como o almirante o tratava. Por isso nas instruções que estes deram ern 
1495 a João Aguado, entre outras coisas que lhe recomendavam dissesse a 
Colombo, era a oitava « que dexe venir a fray jorge ... y a miguei muliartey 



osprecedentes, pois que são dos anos de i5o8 e iSog. Um é acarta de 3 de Junho de Diogo 
Mendez, o outro o testamento do almirante D. Diogo Colón de 16 de Março. No primeiro 
está o nome claro: «Bryolanja Moniz».; no segundo está mal escrito: «Brigulaga Moniz». 
Ora parece-me mais fácil por erro de copista, ou doutra qualquer espécie, fazer Brigulaga 
de Briolanja do que de Violante. Se não nos aparecesse noutro documento o Briolanja, vá, 
mas tendo nós em dois documentos Violante, e em um claramente Briolanja, temos de 
admitir forçosamente que eram duas pessoas, e que Brigulaga foi corrupção de Briolanja e 
não de Violante. 

No segundo testamento do almirante D. Diogo, feito em Santo Domingo a 8 de Setembro 
de i523, não se toma a nomear a Briolanja, nem se menciona sua irmã. Longe da vista, 
longe do coração; ou estaria já morta aquela senhora, que nunca julgou que o seu nome 
aparecesse tanta vez em letra redonda, e em tanta língua. 



62 Brasões 

porque hacá han quexado a sus alteias dello (almirante), diciendo que los 
tiene e maltrata » (i). 

A má vontade de Colombo x:ontra Moliart provinha provavelmente da& 
tais contas referidas na carta, as quais, mesmo do contexto dela se conhece, 
não andavam lá muito correntes. Parece até que a dívida nunca foi paga. 
O facto de ainda hoje se encontrar no arquivo da casa dos descendentes da 
almirante o papel, que ele considerava como confissão de dívida, exclui a 
idea do pagamento. Moliart talvez morresse por esses tempos, ou lá, ou já 
na península, mas morreu pobre, e pobre deixou sua viúva, a quem- no tes- 
tamento já referido se dão dez ducados de esmola, se perdoam oito mil 
maravedis de dívida, e se veste com roupa de luto. 

Seria pois talvez por causa do mau estado das relações entre ambos, 
que a carta é tão cerimoniosa, e que dela se não pode tirar a certeza de 
Moliart ser cunhado do almirante. Vou-me convencendo de que o era, mas 
queria que houvesse um dado positivo, e isso não encontro. 

O que fica demonstrado é a existência do tal Moliart, da qual, com bem 
boas razões ao tempo, chegou a dCividar o douto P. Peragallo (2), bem como 
do parentesco com Colombo. Para o próprio nome de Moliart, astrano 
puré in Ispagna»^ como bem nota o aludido crítico, há explicação plausível 
em ele não ter sido espanhol. 

Efectivamente na segunda edição do Armoriai general de J. P. Rietstap 
encontro: a Moliaert ou Moliart. Gueldre. Ecartelé, efe». Podia pois o 
Miguel Moliart ser do ducado de Gueldria, e é bem sabido que naqueles 
tempos vinham muitos íllamengos negociar a Lisboa « às ilhas, onde em 
qualquer dos sítios poderia ele ter casado com a filha de Bartolomeu Peres- 
trêlo. 

({Mas casaria ele? ,; E no tal 3.° quartel do escudo das armas"do bispo 
D. Frei Cristóvão Monis estariam as armas dos Moliarts, que eram bem 
complicadas, esquarteladas, e com peixes, chaveirões, e uma cabeça de 
boi? (J E vivendo Miguel Moliart em Espanha (em 1491 em Huelva), e 
Violante Monis, sua mulher, também naqueles reinos (em 1493 e i5i5 em 
Sevilha), como é que tinham isolado cá para Lisboa um filho em que nin- 
guém fala ? 

Nada; se o bispo D. Cristóvão Monis era primo com irmão do 2.° almi- 
rante D. Diogo Colón, o que é indubitável, só o podia ser como filho do 
2.° capitão da ilha do Porto Santo, Bartolomeu Perestrêlo. 



(i) Autógrafos de Colón, cit., pág. 5. 

(2) Cristo/oro Colombo e la sua famiglia, cap. IX. Vide porém agora lá atrás a nota (2) 
a pág. 60. 



Monises 63 

Já vai longa a digressão, para que pedi vénia, e a que fui levado pelo 
interesse que se liga a tudo, que diga respeito a um homem como foi Cris- 
tóvão Colombo. Acabo pois. 

Mas não posso tal acabar, noto agora, porque, sendo as armas que estão 
na sala de Sintra, e a que este artigo se refere, as de Febos Monis, ainda 
nada disse deste sujeito. Tenho pois de abrir novo e último capítulo. 



V 

FEBOS MONIS 

Foi Febo Monis o filho maior de Vasco Gil Monis e de sua segunda 
mulher Leonor de Lusinhano, ambos atrás referidos. 

Em 1484 já ele era moço fidalgo da casa de D. João II (i), e tendo o 
mesmo foro lhe fez este Rei mercê, por carta de 3 de Dezembro de 1487, 
de certos bens confiscados (2). Ainda neste tempo parece que vivia Vasco 
Gil, o pai de Febos Monis, a quem, por carta de 27 de Novembro de 1492, 
se trespassou uma tença de dez mil reais que fora dada àquele em 21 de 
Maio de 1482 (3). 

Poucos anos depois, em 1496, sendo já fidalgo da casa de D. Manuel, 
efectuou Febos Monis o seu casamento com uma donzela da Duquesa 
D. Isabel de Bragança, Maria da Cunha, à qual prometeu com as arras cinco 
mil trezentas e trinta e três coroas das da ordenança, as quais el Rei lhe 
segurou das tenças do marido por carta de 3 de Outubro do referido ano (4). 
Era ela filha de Gonçalo Correia, 4.° senhor de Farelães, e de sua mulher 
Margarida do Prado; e não foi só el Rei que lhe favoreceu o casamento. 
Também a Duqueza o levou muito em gosto; e tanto, que prometeu à noiva 
seis mil coroas, e, emquanto lhas não pagasse, arbitrou-lhe sessenta mil 
reais de tença, tirados da que ela, Duquesa, tinha na ordem de Cristo, na 
qual Febos Monis também gozava de outra pensão de trinta mil reais com 
o hábito, e aos cônjuges se pagavam ambas no ano de i5oo(5). 

Daqui datam, ao que julgo, as relações de Febos Monis com a casa de 
Bragança, que naquele mesmo ano de 1496 do casamento foi restituída aa 



(i) Sousa, Provas da Historia genealógica^ voL a.", pág. i8i. - 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 19.», fl. 82. 

(3) Ibidem, liv. 2.», fl. 128. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 9.*, fl. 2. 

(5) Severim de Faria, Torre do Tombo, vol. I, fl. 140 e 140 v. da minha cópia. 



64 Brasões 

sombrio D. Jaime, que logo apresentou a Febos na alcaidaria mor de 
Arraiolos, da qual já estava de posse em 8 de Julho de 1497, como consta 
de uma carta dessa data, em que D. Manuel fez em Évora doação a Febos 
Monis, fidalgo da sua casa e alcaide mor de Arraiolos, para ele, seus her- 
deiros e sucessores, de umas casas dentro na cerca da referida vila(i). No 
ano seguinte ainda conservava a alcaidaria, o que se sabe por uma carta de 
6 de Fevereiro de mercê de bens no termo de Barcelos (2). 

Naquele ano porém de 1497 já Febos Monis havia passado ao serviço da 
rainha D. Isabel, que em fins de Setembro casara com D. Manuel (3). Junto 
a estes régios esposos, exercendo o ofício de mestre sala, partiu Febos 
na sua comitiva, quando foram a ser jurados príncipes herdeiros de Cas- 
tela e Aragão. Grandezas sonhadas, que a inconstância da fortuna fez 
desabar. 

Seguindo com a ordem cronológica das notícias que tenho de Febos 
Monis, mete-se agora aqui um episódio trági-cómico em que ele também 
teve o seu pequeno papel, e de que tenho notícia por uma sua interessante 
carta. 

O « malenconico» Duque D. Jaime bem contra sua vontade foi obrigado 
por el Rei e mais .parentes a assinar em Setembro de i5oo(4), o seu con- 
trato esponsalício com D. Leonor de Mendoça, que havia de vir, uma dúzia 
de anos depois, a morrer-lhe às mãos. Era a noiva ao tempo do ajuste 
menor de doze anos, e maior de sete. No ano de i5o;2 (5) trouxeram a 
Duquesa para Portugal, e levaram-na ao Duque «sem ainda ter idade para 
se entre eles consumar o matrimónio », no qual D. Jaime levava pouco gosto, 
«e não tardou muito que não manifestasse a sua displicência». 

Não era ela contudo, a displicência, tão formal, que, apesar de não ter 
havido consumação, se não tivessem passado entre os dois «outras algunas 
cousas de que — ella nom ficarya tam limpa e fora de pejo que muy grande 
incomvenyente se nom seguyse » da dissolução do matrimónio (6). Curiosi- 



( 1 ) Chancelaria de D. Manuel, liv. 29.», fl. 27 v. 

(2) Ibidem, liv. 28.°, fl. 72 V. 

(3) Consta o serviço à rainha de uma carta de 10 de Janeiro de 1499 em que se manda 
pagar a Febos Monis, desde o primeiro dia do ano, uma tença de quarenta mil reais que era 
outro tanto como tinha da falecida rainha e princesa. {Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.°, 
fl. 72). 

(4) Sousa, Provas da Historia genealógica, vol. 4.*», pág. 11, n.» 100. 

(5) Góis, Chronica de D. Manuel, parte I, cap. 61 ; Sousa, Historia genealógica, vol. 5.°, 
pág. 498. — Este discorda daquele na data do contrato esponsalício fundando-se na leitura 
do documento; concorda porém no ano da vinda para Portugal da Duquesa D. Leonor. 

(6) Carta de D. Manuel ao Papa sobre o caso da fuga do Duque de Bragança. Está 
impressa a pág. 17 do vol. XI do Corpo diplomático portugue^. 



Monises 65 

dades adiantadas, como lhe chamaria um patusco meu conhecido, j E estra- 
nhou depois o Duque D. Jaime, quando foi o caso do pagem António Alco- 
forado, que tivessem frutificado no ânimo da Duqueza D. Leonor as sementes 
de depravação que êle próprio lhe lançara ! Os maridos são quási sempre 
os culpados dos desvairos das mulheres; li isto em Balzac, me parece. 

Voltemos ao Duque. 

Pegou êle em si, e, levado pelas susgestões dos frades da nova ordem 
da Piedade muito seus protegidos, e que grandemente desejavam apanhar 
tal presa, abalou de Portel, onde estava com toda a sua casa chegado da 
corte, e só com um criado meteu-se por Espanha fora direito a Roma, para 
lá, suplicante aos pés do Papa, alcançar licença para professar entre os tais 
capuchos. D. Manuel porém sabedor do caso mandou logo emissários por 
desvairados caminhos à cata do maluco do sobrinho (i). Um desses mensa- 
geiros foi Febos Monis, que partiu no alcance do Duque juntamente com 
Jorge de Melo, que julgo ser o que em i5i8 era porteiro mor, e que por 
pouco o não apanharam. 

Na sua tornada escreveu Febos Monis uma carta à Duqueza D. Isabel, 
mãe de D. Jaime, carta que vai por extenso na nota (2). Por ela consta 



I 



(:) Além destes emissários encarregados de trazerem o Duque ao rêgo, mandou também 
D. Manuel uma carta ao Papa, a qual está, como já disse, impressa no Corpo diplomático, e 
outra ao geral da ordem da Piedade (ou ao dos franciscanos, não sei) a qual está impressa 
também, e o foi por Teixeira de Aragão no seu livro Vasco da Gama e a Vidigueira, onde 
constitui o documento n.° 16 a pág. 23o. 

(2) Na Torre do Tombo no maço i.° das Cartas missivas sob n.° 427 encontra-se uma 
carta de Febos Monis dirigida «Á duquesa (nossa) senhora» e que reza assim: 

«Senhora. — Nam he neseçaryo escreuer a uosa Senhoria da tomada do duqu^ nem do 
modo delia poys o sabe ja e asy de sua uymda a bragança onde Jorge de mello e eu che- 
gamos huum dia e meo despoys delle porque quando chegamos onde elle foi alcançado era 
ja tornado per outro caminho pollo quall ho segymos atequi onde ho achamos muy retraydo 
em seu oratoryo passamos e pasey despoys coelle mujtas Rezones de que se nam poderá 
meudamente dar conta a uossa senhoria em fym seu preposyto he bom para seruyr a deus 
e parecelhe que se nam deue dyso mudar e he o mor teólogo que numca vy porem eu creo 
que o umor malemconyco nam he çem legoas delle ordenase de modo que o com[unJycamos 
pouco e jsto porque fecha as portas e Reza ou lee e pode homem mall emtrar coelle e eu 
menos que o nam quero anojar, mas elle cada uez esta em mylhor modo porque ate a fey- 
tura desta eu lhe faley per duas vezes huuma com Jorge de mello quando chegamos e outra 
soo que me elle mamdou chamar daquall o achej majs obediemte a razam e a segyr o que 
elrej mandar, oje que he sábado chegaram fernão Rujz e o veedor e ja se serujo a cea per 
elles e comeo e creo que sse desuestira que elle nam querja fazer, a uymda de uosa senhoria 
ca se deue escusar por que elle esta ja em jr pêra onde elrej quiser e uosa senhoria estará 
fraca e o camynho he gramde e se nos ca tjuer pode ser que escusara ho jr lia e elle he 
mjlhor Ha que ca tam longe portanto deuese de trabalhar acarretallo lia e de la a corte e 
a nam sse partyr delrej numca. eu atee ver sua determjnaçam nam partyrej de ca aymda 

VOL. Ill 9 



66 Brasões 

que o Duque, depois de tomado, veio direito a Bragança, onde passava a 
vida metido no oratório a rezar ou a ler, muito retraído e atacado do « umor 
malemconyco » , e ainda com muita pancada no miolo, pois que só alguns 
dias depois, chegando uns seus criados, é que se desvestiu, o que aíé ali 
não quisera fazer, j Isto no pino do verão ! Além de doido era pouco 
aceado, concluo eu. Febos Monis contudo encontrava-lhe, não só bom pro- 
pósito de servir a Deus, mas também vontade de fazer o que el Rei lhe 
mandasse. Estes são os principais pontos da carta, que é datada Bragança 
sábado 27. Foi portanto escrita 27 de Agosto, único dia vinte e sete que no 
ano de i5o2 caiu ao sábado. 

Febos Monis, cansado «mal sentido», como êle próprio declara, da estafa 
que apanhou correndo atrás de um doido, voltou para o sossego da sua casa 
e do seu serviço no paço, onde veio a exercer as funções de reposteiro mor 
em fins de i5o6, princípios de i5o7, pois que por carta de 2 de Novembro 
de i5o6 se lhe mandou pagar, do primeiro de Janeiro seguinte em diante, 
uma tença de dez mil reais brancos com o ofício de reposteiro mor que Pêro 
Monis havia, e nele trespassara (i). Este Pêro Monis era primo com irmão 
de Febos, filho de Diogo Gil Monis, irmão de seu pai. A alcaidaria mor 
de Arraiolos, e provavelmente com ela algum serviço que tivesse na casa de 
Bragança, tinha Febos largado já então, ou largou pouco depois, sendo certo 
que em i5io, a 26 de Outubro, outro era o alcaide mor, a quem o Duque 
dá poder para mandar guardar a coutada, como o fazia o couteiro posto por 
Febos Monis (2). 

A 21 de Junho de i5i4 já o reposteiro mor era morto (3), pois que 
naquela data é feita mercê do ofício a Jerónimo Monis, como o fora seu pai 
Febos Monis, « que Deus perdoe » (4). Foi sepultado na sua capela da Pie- 

que mynha estada ca faz pouco prouejto ao que me parece, e eu nam vym bem sentydo 
nem no estou ante me seria neseçarja mjnha casa algums dias mas isto nam será sse com- 
prir de ca fazer alguum serujço, portanto veja uosa senhoria o que me mamda, noso senhor 
uossa uyda descanse e conserve como desejo, de bragamça sábado xxbij dias. bejjo as manos 
de uosa senhoria Febus monjs». 

(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 38.°, fl. i5. 

(2) Severim de Faria, Torre do Tombo, vol. 2.°, fl. 422 da minha cópia. 

(3) O testamento original de Febos Monis está no cartório do Conde de Sampaio. 
Todo escrito pelo próprio punho, é de difícil leitura. Foi feito em dia do Corpo de Nosso 
Senhor na era de i5o9, é por tanto de 7 de Junho, apesar da aprovação aparecer datada de 
6, em Lisboa, nas casas de Febos Monis, fidalgo da casa dei Rei, jazendo doente em cama. 
A abertura foi feita a 8 do mesmo mês de Junho de iSog. Manda-se enterrar na capela de 
Santa Maria da Piedade, no Carmo, no meio dela, junto com os degraus do altar, debaixo 
de uma campa grande, para também lá caber a mulher. Testamenteiro o Governador D. Ál- 
varo de Castro juntamente com a mulher do testador. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 15.», fl. i36 v. 



Monises 67 

dade no convento do Carmo de Lisboa com este epitáfio: S.'' de Phebos 
Moni:{^ Reposteiro Mor dei R. D. M/'Jidalgo de sua Ca:;a, e do seu Con- 
selho (i). 

Daquele Jerónimo Monis, foi filho e sucessor outro Febos Monis, o dedi- 
cado patriota de i58o, o intransigente procurador de Lisboa às cortes de 
Almeirim. Os seus representantes hoje já lá muito acima ficam nomeados, 
e mais nada aqui direi. 



(i) Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 167. 



XIX 
LIMAS 



XIX 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. III. 



«Por se não ter ainda tirado o desenho do veado que traz o brasão dos 
Limas, ficam estas, com as de Vasconcelos e os Silvas, para depois». 
{Diário Illustrado de 4 de Maio de i885). 

Substituo aqui, como já fiz por outras duas vezes, o desenho de Sintra 
pela reprodução das armas que estão no Livro da Torre do Tombo, fl. 1 1 v., 
e em seguida vou descrever as que se vêem pintadas sobre o veado da sala; 
e depois direi alguma coisa da linhagem dos Limas. 

As armas destes no tecto de Sintra são: 

Partido de dois traços: o I de oiro quatro palas de vermelho; o II cor- 
tado, a de prata leão de púrpura, b de prata três faxas xadrezadas de oiro 
e vermelho de duas tiras; o III cortado do b do 2.° sobre o a do mesmo. 
Timbre: leão aleopardado de púrpura. 

Estão certas no escudo, salvando alguma insignificante minúcia, porém 
no timbre não. O leão deste deve ser rompente, pois que é o do 2.* quartel, 
o dos Silvas. Sim, porque os Limas não tiveram armas próprias, e estas 
aqui descritas são compostas das de Aragão na i.* pala, e nas outras duas 
das de Silva e Sotomaior esquarteladas. Direi também que é este brasão pri- 
vativo dos Viscondes de Vila Nova da Cerveira, e que é disparate moderno 
querer dar aos Limas como único escudo as quatro palas em campo de oiro. 

O Livro do armeiro mor é de iSog e nele na íl. 58 as armas dos Limas 
são iguais às de Sintra, que são anteriores a i52o. As do Livro da Torre 
do Tombo, também anteriores a esta data, são pintadas pela mesma maneira, 
como se vê na estampa. Numa carta de brasão át 12 de Janeiro de i528 
diz-se claramente que as armas dos Limas são partidas em três palas, ai.* 
de Aragão, as outras duas esquarteladas etc. (i). Sem nomear o Aragão 
descrevem-se as armas dos Limas pela mesma forma em outra carta de 
brasão de 7 de Outubro de 1572(2). Ainda noutra carta de brasão, esta 
mais moderna pois que é de 16 de Junho de i633, se diz ser o escudo dos 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 44.°, fl. 6 v. 
(2) Privilégios de D. Sebastião, liv. 9.% fl. 366 v. 



72 Brasões 

Limas partido em três palas, a i.* de Aragão, e as duas esquarteladas de 
Silva e Sotomaior(i); neste documento contudo seguiu o rei darmas a des- 
crição que já andava impressa no livro que vou citar. 

Em i632 publicou Frei António Brandão a terceira parte da Monarchia 
Lusitana, que, pelas licenças se vê, já estava composta desde o ano de 1629. 
Nela diz o erudito bernardo na fl. io5, que os Limas têm por armas «o 
escudo partido em três palas. A primeira de Aragão, e as duas esquarte- 
ladas dos Sylvas e Souto Maior, e por timbre o Leão das armas». O mesmo 
se encontra na Nobiliarchia Portuguesa de Vilasboas é Sampaio impressa 
em 1676, porém já composta em i665. 

Depois deste fez Francisco Coelho o seu Thesouro da nobreza, que é 
datado de 1675, e nele' pintou as armas dos Limas só çom quatro palas de 
vermelho em campo de oiro. 

A novidade data pois deste tempo, e não tem melhor fundamento do 
que o capricho dum rei darmas, que sabia tanto do seu ofício, como mani- 
festou numa obra sua, que se encontra impressa (2). 

Fique pois assente que as armas dos Limas são uma mistura das de 
Aragão, Silva e Sotomaior, e que elas são privativas da casa dos viscondes 
e seus ramos; mas dêem-nas a quem quiserem que lhes não levo nada 
por isso. 

I 

O ANEL DOS LIMAS 



Em 3o de Maio de i252, menos de quatro anos depois da gloriosa con- 
quista de Sevilha, e nessa mesma cidade, morreu o seu conquistador, o 
grande Rei de Castela e Leão D. Fernando III, o venerando santo que a 
igreja glorificou. 

— if. Desnudo sali dei vientre de mi madre, desnudo he de volver ai seno 
de la tierra!y> 

Exclamava ele em derradeiras palavras, mandando arredar de si todos 
os sinais e manifestações das pompas soberanas, vaidades que se sumiram 
na hora fatal da morte. 

Um dos muitos e valentes capitães e nobres ricos homens que o serviram, 



(i) Privilégios de D. Felipe III, liv. i.», fl. 3o6. 

(2) Advertências feitas ao Livro intitulado, Nobiliarchia Portugueza, no que toca ás armas 
das Famílias, pág. 662 e seg. do vol. VI das Provas da Historia genealógica. — Se o autor 
da Nobiliarchia pouco sabia de brasão, o das Advertências não se lhe avantajava grande 
coisa. Árcades ambos. 



Limas 73 

foi D. Fernando Yanez de Limia, senhor desta casa na Galiza, e que a Por- 
tugal viera em 1427 com o socorro castelhano a D. Sancho II. 

A D. Fernando Yanez atribuem um caso que, se tivesse realmente suce- 
dido, era mais do que extraordinário, seria milagroso. 

Vamos à história à qual posso pôr por epígrafe este verso, que vem a 
propósito por ser duma fábula: 



II fdut, autant qu'on peut, obliger tout le monde. 



O exército cristão estava cercando na Andaluzia uma vila ou praça qual- 
quer de moiros. Um dos capitães das tropas sitiadoras era o rico homem 
de Limia, que um dia de descanso em que se não pelejava, saiu da 
sua tenda a dar um passeio pelos arredores a distrair-se da monotonia do 
assédio. 

Tomou pelos campos fora com um bastão na mão, e absorto em seus 
pensamentos cuidadosos com a demora na conquista da praça, ia com o seu 
bordão rolando os seixos do caminho, e cortando, as flores das ervas que 
topava, lembrando-se com pena que era bem mais fácil aquele entretenimento 
do que degolar os moiros, ou enxotá-los do seu reduto. 

Assim foi andando, andando, até se arredar bastante do arraial, e chegar 
a sítio ermo e solitário. Aí, atraído por um certo sussurro que vinha de 
parte onde via mecher as ervas, aproximou-se cautelosamente, e deparou-se- 
-Ihe uma scena que o surpreendeu. 

A boca de uma* cova duas doninhas pelejavam denodadamente com uma 
grande cobra. Era o amor paternal, junto ao valor próprio daquele animal- 
sinho, que lhes dava suficiente esforço para defenderem ao seu inimigo a 
entrada da lousa onde tinham os filhitos. 

A luta encarniçava-se; à vantagem da força juntava a cobra a da peçonha 
com que ia envenenando as pobres ensanguentadas doninhas, que já se sen- 
tiam, além de muito doridas das mordeduras, tão inchadas que ameaçavam 
arrebentar. A natureza porém, cujos mistérios para as doninhas não o 
eram, oferecia-lhes ali ao pé o contra-veneno para seus empeçonhados feri- 
mentos. 

A mais atacada das duas corre pressurosa a uma próxima moita de sara- 
magos, esfrega-se por eles, mastiga-lhes alguns dos arrebentos, e curada, e 
retemperada, volta ao combate, permitindo à companheira usar do mesmo 
processo para rehaver as forças. Por mais vezes se repetiu a espojadela 
nos saramagos, mas ou estes perderam a virtude, ou os ferimentos se agra- 
varam, o caso é que a contenda terminou pela vitória da cobra, diante de 
quem as cançadas doninhas largaram o campo, e por não poderem mais 

VOL. 111 10 



74 Brasões 

defender os seus filhos, gritavam e lastimavam-se que era uma dôr de alma 
ouvi-las e vê-las. 

Então interveio, e muito a tempo, o bastão do rico homem, que com 
meia dúzia de bordoadas matou a cobra. 

Contente com a sua boa acção voltou D. Fernando Yanez de Limia para 
o arraial, e, mal chegado, pôs-se a contar a uns amigos a sua curiosa aven- 
tura. Nisto, com grande pasmo de todos, vêem aproximar-se uma das 
doninhas, que «sem razoes nem temor», chegando ao senhor de Limia, 
deixa cair a seus pés uma pedra preciosa que parecia de anel, e que trazia 
na boca. E foi-se embora sem mal, porque todos haviam ficado quedos 

como os santos nos nichos 

curiosos de observar (à falta da dos homens) 

a gratidão dos bichos. 

Mais pela estranha maneira como a adquiriu, do que pela sua valia, teve 
D. Fernando em grande estimação esta jóia, a qual, depois de encastoada 
em anel que se ficou chamando da bênção, deixou a seus filhos e descendentes 
em morgado, para que andasse sempre no filho mais velho; e assim a pos- 
suía no último quartel do xvi século o 4.° visconde de Vila Nova da Cerveira, 
D. João de Lima. 

Concluída a narração da lenda, seguem-se no Nobiliário de onde a extraí 
estas palavras: «E eu, D. António de Lima Pereira, que este livro fiz e 
ordenei, o ouvi assim ao Visconde D. Francisco de Lima, o velho, e a meu 
pai, e a D. Leonor de Lima, abadessa de Vitorino, que foram pessoas de 
crédito, tidas em conta de muito verdadeiras, aos quais ficou esta opinião de 
seus antecessores por muito verdadeira. A qual pedra de anel dizem que 
tem virtude, e aproveita para muitas coisas, principalmente para o que em 
si a traz adquirir o amor e benevolência do Rei e senhor em cujo serviço 
andar; e que além disto aproveita para muitas coisas. O qual acontecimento 
dizem que foi em tempo de el Rei D. Fernando o Santo, que ganhou Sevilha 
e Córdova aos moiros». 

j Quási que acredito no condão da pedra ! i Se não fosse êle, como 
explicar o rápido engrandecimento de Fernand'Anes de Lima, um galego 
que veio servir a D. João I, e sobretudo o do seu filho Leonel de Lima, o 
i.° visconde de Vila Nova da Cerveira? Nenhum deles praticou façanhas 
dignas de nota; nenhum deles se ilustrou por acções ínclitas; je contudo ao 
primeiro deu aquele Rei um casão, e ao segundo fez D. Afonso V o primeiro 
Visconde de Portugal! Não seria bruxedo, não, porque em Fernão houve 
o engodo de ser estrangeiro, o que em Portugal sempre foi motivo de esti- 



Limas 75 

mação; e em Leonel exíslia provavelmente a sedução do hábil, manhoso e 
feliz cortesão. 

O Marquês d'Argenson no seu Journal ou Mémoires nota um caso aná- 
logo sucedido em França com os Noailles; diz êle: // est de ces familles 
de Cour, tirées de Vobscurité par le bonheiír et par Vintrigue, sans avoir 
jamais rendu d'éclatants services^ sans avoir produit d'hommes d'un mérite 
élevé. Elles sont cependant les mieux établies, etc». ^É o caso dos Limas, 
pois não é ? 

O que não sei é como o anel da bênção lhes veio parar à mão, ou melhor, 
ao dedo, porque o que não está provado de maneira nenhuma é que os 
Limas dos viscondes descendessem dos antigos Limas, ou Limias, galegos. 
É possivel, mas certo não é, porque a posse, se posse houve, do tal anel 
não supre a completa ausência de documentos. 



II 

OS LIMAS BATISSELAS 

Em io33 Já existia na Galiza o castelo de Batissela de que era então 
senhor D. Diogo Nunez de Batissela, que por sua neta D. Isabel Nufíez foi 
bisavô de D. Fernando Árias Batissela, que viveu em tempos de D. Fer- 
nando II de Leão (iiôy-iiSS) (i). 

Neste D. Fernando Árias começam a linhagem dos Batisselas, ou Limas, 
tanto o Livro Velho como o Nobiliário do conde D. Pedro. Advertirei que 
escrevo Batissela, e não Baticela, ou Baticella, porque em uma escritura de 
5 de Agosto da era de iSiy (1279) encontro confirmando na qualidade de 
rico homem de Leão a «D. Johan Ferrandez Batissela», que devia saber 
escrever o seu nome (2). 

Daquele D. Fernando Árias foi filho D. João Fernandez Batissela, el 
Bueno de Limia, o primeiro que aparece com este apelido, que tomou, ou 
lhe deram, por ser herdado na Galiza nas margens daquele rio. 

Batisselas ou Limias por lá viveram por aqueles reinos de Galiza, Leão 
e Castela, tendo alguns membros da família passado temporariamente a Por- 
tugal, uns em serviço militar, outros por terem casado aqui. Destes foi um 
D. João Fernandez de Limia, « dito Batissela », que casou com D. Maria Anes, 
filha de D. João de Aboim, como já ficou referido na pág. 259 do vol. I. 



(i) Frei Felipe de la Gandara, Nobiliário, armas y triunfos de Galicia, pág. 253 tnihi. 
(2) P. Henrique Florez, Espana sagrada, vol. XXII, pág. 277 mihi. 



76 Brasões 

Este D. João Fernandez foi filho de D. Fernando Fernandez de Limia, e 
deu-se a coincidência, que serve bem para provar o lustre da família, de 
terem os dois, pai e filho, assinado ambos, um como rico homem de Castela, 
o outro como rico homem de Portugal, o tratado de Alcanices em 12 de Se- 
tembro de 1297 (i). 

Deste João Fernandez de Limia, que umas vezes nos aparece com dom 
e outras não, e a quem me tornarei a referir, foi tio outro D. João Fernandez 
de Limia (2), rico homem também, e filho do herói da aventura das doninhas, 
que vinha a ser portanto avô de João Fernandes, sobrinho. O João Fer- 
nandes, tio, foi morador em Sevilha e possuiu herdades em Safara e várzea 
de (Ardilla) no termo de Moura, as quais sua viúva D. Maria Garcia vendeu 
a el Rei D. Denis em 1296(3). Não se confundam pois os dois homónimos. 

João Fernandes de Limia, o Batissela, como é nomeado num documento (4), 
ou o Pão Centeio, como lhe chama, provavelmente por ser trigueiro, o No- 
biliário do conde D. Pedro, foi em Portugal, por cabeça de sua mulher 
D. Maria Anes, senhor da vila e castelo de Portel, de Vila Boim, e de vários 
outros bens nas comarcas de Évora e Leiria, que aos cônjuges doara em 26 
de Maio de 1291 sua mãe e sogra, D. Marinha Afonso, viúva de D. João de 
Aboim (5). Meteu-se o genro deste de posse de Portel por instrumento de 
26 de Maio da era de 1829 (i29i)(6). 

Na corte portuguesa parece ter tido desde então bastante persistência o 
fidalgo galego, que encontro na qualidade de rico homem confirmando várias 



(i) Frei António Brandão, Monarchia Lusitana, parte III, fl. io5; e Frei Francisco 
Brandão, Monarchia, parte V, fl. 254. 

(2) D. João Fernandez de Limia, o tio. — Eu D. Afonso Garcia de Soto Maior, irmão 
de D. Gomes Garcia, abade que foi de Valhadolide, vendo a D. João Fernandez de Lima 
todo quanto herdamento deu el Rei D. Sancho de Castela ao dito meu irmão, em Çafara e 
várzea de Ardila &c., por 9.000 maravedis de largura, contendo cada maravedi por 10 dinheiros 
da moeda nova branca dos Burgaleses &c. lunes, 6 março iSaS (1290). Testemunhas 
D. Fernando, irmão de D. João Fernandez de Lima, &c. {Guadiana, liv. 8.°, fl. 16 v.). — 
D. Sancho, Rei de Gastella, Leão &c. Por fazer bem e mercê a D. João Fernandez de 
Lima, e por serviço que nos fez e faz, confirma-lhe os herdamentos que comprou de Afonso 
Garcia de Sotomaior,. .. que são a várzea de Ardila,... Cafra em termo de Mora, &c. 
Burgos, miercoles, 8 de março, em el ano seseno que elRei sobredicho regno (1290). {Extras^ 
fl. 142). — Eu D. João Fernandez de Lima, pertiguero mor da terra de Santiago, dou a vós, 
D. Maria Garcia, minha mulher, todos quantos herdamentos comprei de Afonso Garcia de 
Sotomaior, &c. Sevilha, 19 junho i33o (1292). {Guadiana, liv. 8.", fl. 17 v.). — Ver na 
Gav. III, mac. I, n.° 14, e mac. X, n.°» 2 e 5. 

(3) Frei Francisco Brandão, Monarchia, parte V, fl. 232 v. 

(4) Figueiredo, Nova Malta, vol. II, pág. 219. 

(5) Brasões, vol. I, pág. 259. 

(6) Figueiredo, Nova Malta, vol. II, pág. 219. 



Limas 77 

cartas dos anos de 1292, 1296, 1296 e 1297(1). Depois, em 4 de Janeiro 
de i3oi, morando João Fernandez de Limia na sua vila de Salvatierra de 
Galiza com sua mulher D. Maria Anes, fizeram escambo com el Rei D. Denis 
da vila de Portel pelas de Évora Monte e Mafra, e terra de Aguiar de Neiva. 
Não ficaram ainda por aqui as trocas com el Rei, pois que, por outra escri- 
tura de 7 de Abril de i3o5, deu D. Denis ao rico homem pelas vilas de 
Évora Monte, Vila Boim e Aguiar de Neiva, os lugares de Vimieiro, Almada, 
Povos, Figueiró e Pedrógão, e mais quatrocentas libras da renda de Che- 
leiros(2). 

No ano antecedente, a 20 de Fevereiro, havia sido concedido o foral à 
vila de Mafra, de quem eram senhores, e continuaram a sê-los, os referidos 
D. João Fernandez de Limia e D. Maria Anes (3). 

Creio que já por estes anos de i3o4 e i3o5 tinha o fidalgo galego, aban- 
donando a corte portuguesa, estabelecido o seu assento em Salvatierra, por 
isso que não tenho encontrado o seu nome confirmando os documentos do 
tempo. Por morte de D. Maria Anes, sua mulher, passou à vila de Mafra, 
e à sua vizinha Ericeira que andava junta, ao sobrinho neto de D. Maria, 
D. Diogo Afonso de Sousa, de quem a herdou o filho Álvaro Dias de Sousa, 
que a deixou à sua viúva a desditosa D. Maria Teles. Esta senhora vendeu 
a vila de Mafra a um primo de seu marido, outro Álvaro Dias de Sousa, a 
quem foi confiscada por D. João I por êle seguir o partido castelhano. 
Então fez aquele Rei doação de Mafra em 1396 a Fernão Martins Coutinho, 
pai da Condessa de Vila Real D. Beatris Coutinho, e avô de D. Isabel Cou- 
tinho que foi senhora de Mafra, mulher de D. Fernando de Cascais e mãe 
do i.° conde de Penela. Nos seus descendentes continuou o senhorio, que 
depois de porfiada demanda passou aos Viscondes de Vila Nova da Cerveira. 
Isto é: a vila de Mafra, que pertenceu a um Limia galego dos verdadeiros 
Batisselas, veio ultimamente a ser possuída pelos Limias portugueses, que 
certeja nenhuma há de descenderem dos outros. 

III 

OS MARQUESES DE PONTE DE LIMA 

Certeza, autenticada por documentos, dos Limas Viscondes de Vila Nova 
da Cerveira descenderem dos Batisselas ou Limias antigos, não há; mas 
também exagero seria dizer, que probabilidades nenhumas existem. 



(i) Frei Francisco Brandão, Monarchia, parte V, fls. 2«9, 226, 246, 25 1 e 261. 

(2) Ibidem, liv. 17."», cap. Sg." e escritura n.» 36. 

(3) Ibidem, parte VI, fl. 27. 



78 Brasões 

Em 1369 invadiu o nosso volúvel D. Fernando a Galiza, e, apesar, de lá 
se poder demorar pouco, tomou a sério o seu papel de Rei de Castela. 
Naquele ano e nos seguintes até à paz de Alcoutim, que é de 3i de Março 
de 1371, se entreteve êle entre outras coisas a fazer doações de várias terras 
na Galiza aos fidalgos seus parciais. Um destes foi Álvaro Rodrigues de 
Limia, seu vassalo, a quem por carta dada em Santarém a 3 de Julho de 
1408 (1370) fez doação de juro e herdade da terra de Sande e de várias 
outras naquele reino (i). Nesse mesmo dia por outra carta lhe mandou 
entregar a vila de Milmanda por êle ser «tal, tão bom e leal e verdadeiro» 
que lhe poderá prestar bom serviço na guarda e defendimento dela (2). 
Depois da paz conservou-se ainda Álvaro Rodrigues cá pelo reino, pois que 
em 2 de Julho da era de 1409 (iSyi) o nomeou D. Fernando alcaide 
de Melgaço (3). Esta mercê deveria ter sido mais efectiva do que as 
outras. 

Dizem os nobiliários que este Álvaro Rodrigues de Limia, sobre cuja 
ascendência e filiação diferem, havendo tanta falta de prova para umas como 
para outras suposições; dizem, repito, que fora casado com D. Inês de 
Sotomaior, e pai de Fernand'Anes de Lima, o progenitor certo dos Limas 
portugueses. Se é verdadeiro o casamento de Álvaro Rodrigues, algumas 
probabilidades há dele ter sido pai de Fernand'Anes, pois que, como já fica 
dito, o escudo dos Limas foi formado com as armas de várias linhagens, 
entrando nelas as dos Sotomaiores. Também de reforço à referida filiação 
notarei, que o filho mais velho de Fernand'Anes se chamou Álvaro Rodri- 
gues, nome que lhe poriam por ser o do avô. 

Na Chronica de D. João I nomeia Fernão Lopes a um Afonso Rodrigues 
Batissela, escudeiro dos alcaides que em i385 venceram a batalha de Tran- 
coso, e que antes dela o enviaram com um recado para o capitão da hoste 
castelhana (4). i Seria este escudeiro parente dos Limas ? Não sei, e, pondo 
de parte mais dúvidas que não posso resolver, vou ao certo. 

Fernand'Anes de Lima passou a Portugal, e ficou a servir a D. João I 
de quem já era vassalo, quando em iSgS el Rei foi pôr cerco à cidade de 
Tui, onde, no arraial de sobre Tui, por carta de 24 de Junho fez doação 
àquele fidalgo para êle e seus descendentes legítimos da casa de Giela com 
todas as suas pertenças, e da terra de Vai de Vez (hoje Arcos de Vai de 



( 1 ) Chancelaria de D. Fernando, liv. i .°, fl. 64 v. 

(2) Ibidem, fl. 65. 

(3) Ibidem, liv, 4.°, fl. 5. 

(4) Chronica cit., parte II, cap. 21. 



Limas 79 

Vez) com a Jurisdição cível e criminal (i). Logo seis meses depois, no 
Porto, a 2 de Janeiro de iSgg, houve nova doação de D. João I ao seu vas- 
salo Fernand'Anes de Lima, de juro e herdade, das terras de Fraião, Coura, 
S. Martinho, S. Estêvão, Jaraz, e Vai de Vez, na comarca de Entre Douro 
e Minho, com todos os seus lugares, termos, julgados, territórios, herdades, 
casais, rendas, direitos, foros, pertenças, etc, e mais a jurisdição cível e 
crime (2). Depois, tendo-se levantado dúvidas sobre a jurisdição destas 
terras, lha confirmou el Rei plenamente por carta dada em Lisboa a 1 1 de 
Dezembro da era de 1443, ano do nascimento de 1406 (3). 

Foi Fernand'Anes casado com D. Teresa da Silva (4), filha de João 
Gomes da Silva, i.° senhor de Vagos e copeiro mor, e de D. Margarida 
Coelho, filha de Egas Coelho, mestre sala de D. João I, e i." senhor de 
Montalvo em Castela. Foi brilhante pelo que se vê a primeira aliança por- 
tuguesa dos Limas, e em memória dela entraram no escudo das suas armas 
as dos Silvas. Do referido casamento foi o primeiro filho Álvaro Rodrigues 
de Lima, que sucedeu na casa de seu pai, mas que já era morto sem sucessão 
nos princípios do ano de 1429; o segundo filho foi Leonel de Lima. 

Se já para Fernand'Anes de Lima o anel da bênção aproveitou, por isso 
que, havemos de concordar, o fidalgo galego medrou bastante; veremos que 
os efeitos do amuleto ainda se tornaram muito mais notáveis em seu filho. 
Foi, brincadeira à parte, uma raça feliz, e que, como muitas outras estran- 
geiras, entrou em Portugal com o pé direito. 

Começou Leonel de Lima por ser criado do infante D. Duarte, e com 
esta designação alcançou de D. João I em Avis, por carta de 24 de Janeiro 
de 1429, confirmação dos lugares e terras de Fraião, Coura, S. Martinho, 
S. Estêvão, Jaraz, e Vai de Vez, e da casa de Giela, com todas as suas 
pertenças, que tinham vagado para a coroa pela morte sem filhos de seu 
irmão Álvaro Rodrigues de Lima. E diz el Rei na carta: «posto que nós 
tínhamos feita e ordenada uma lei em nossa vontade (é a lei mental) que 
por morte de nenhum fidalgo, ou doutro qualquer que de nós traga algumas 
terras de juro e herdade, não fiquem, salvo a seu filho ou neto lídimo e 
varão maior, e não a irmão, nem irmã, nem outro parente » (5). 



(i) Chancelaria de D. João /, liv. 2.", íi. 145 v. — Na Chancelaria de D. João III, liv. 14.», 
fl. 33, em uma carta de confirmação, vem transcrita a da primitiva doação porém com a 
data da era errada, pois que em vez de 1436 (i3g8) escreveram 1437. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 2.°, íi. 181 v. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 4.°, íl. 32. 

(4) Não era filha de João Gomes, mas sim de Rui Gomes da Silva (Archivo HiSTORica 
PORTUGUEz, vol. V, pág. 267, 269, transcrevendo o testamento dela). 

(5) Chancelaria de D. João /, liv. 4.°, íi. 1 10. — Confirmada ao mesmo Leonel de Lima 



I 



So Brasões 

De filho segundo, pouco abonado decerto, passou logo Leonel de Lima 
a ser senhor de uma grande e boa casa, havendo para isso de se abrir uma 
excepção na ainda havia pouco tempo pensada lei mental. Não se cantentou 
Leonel de Lima só com a confirmação da casa, tratou de ir cuidando em 
casamento, procurando noiva entre as criadas de el Rei, que tornou a 
manifestar a sua benevolência a favor de Leonel, que já então era seu 
criado. 

Por carta dada em Almeirim a 12 de Abril de 1482 declara D. João I 
que tratou o casamento do seu criado Leonel de Lima(i) com a sua criada 
D. Felipa da Cunha, a quem dá de dote três mil e quinhentas coroas de 
bom oiro do cunho do rei de França, e, como lhas não pode pagar desde já, 
arbitra aos cônjuges um milhão duzentas e oitenta e três mil quatrocentas e 
vinte e três libras de tença, paga no almoxarifado de Ponte de Lima pelas 
rendas e direitos da feira do Ladário, em cada ano no mês de Maio, quando 
ela se faz, sendo o primeiro pagamento logo no Maio seguinte. Aprova mais 
el Rei as arras de mil e quinhentas coroas pelo noivo arbitradas, e autoriza-o 
a obrigar a elas as suas terras de Vai de Vez e S. Estêvão, para que a 
noiva, que levou consigo quinhentas coroas em oiro, prata e dinheiros, haja 
as tais terras até se pagar de todo o seu dote (2). 

Era D, Felipa da Cunha filha de Álvaro da Cunha, 3.° senhor de Pom- 
beiro, e portanto neta da rainha D. Leonor Teles. A mãe de D. Felipa 
havia sido D. Brites de Melo, filha de Martim Afonso de Melo, 5.° senhor 
de Melo, alcaide mor de Lisboa. Dos irmãos de D. Felipa, além do senhor 
casa que continuou em seus descendentes, nomearei ao almirante Rui de 
Melo, fronteiro mor do Algarve, que casou com a herdeira dos Pessanhas, 
a D. Leonor da Cunha, mulher de Álvaro Pires de Távora, senhor do Mo- 
gadouro e da casa de Távora, e a D. Isabel da Cunha, Condessa de Abran- 



por el Rei D. Duarte, que lhe chama seu criado, em Santarém a 20 de Novembro de 1433 
{Chancelaria de D. Duarte, liv. i.*>, fl. 16), e por D. Afonso V na mesma vila a 7 de Março 
de 1449 {Chancelaria de D. Afonso F, liv. i5 ", fl. 33). 

(i) A vós, Lopo Roiz, nosso almoxarife em Ponte de Lima... Nós assentamos ora 
per nossas vendas, direitos e sisas que nós avemos na nossa feira do Ladairo a Lionel de 
Lima, nosso criado e do Infante Eduarte meu filho, e a D. Felipa, nossa criada, i conto e 
283:323 libras de tença em cada ano em preço de 3:5oo coroas velhas de bom ouro e justo 
peso, de cunho dei Rei de França, que lhe avemos de dar em casamento com a dita D. Fe- 
lipa da Cunha, nossa criada, com que o ora casamos, &c. Almeirim, i3 abril, era do Nas- 
cimento de 1432 (Câmara de Lisboa, liv. 3." de D. João I, fl. 58). 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 4.°, fl. 134; confirmada por D. Duarte, em 4 de De- 
zembro de 1433, e por D. Afonso V em 4 de Março de 1439. {Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. 18.°, fl. 24). 



Limas 8 1 

ches(i) mulher do i.° conde D. Álvaro de Almada, cavaleiro da Jarreteira. 
E trago todas estas alianças para se ver que o segundo casamento dos 
Limas não desmereceu do primeiro, e que eles se aparentaram logo à entrada 
com as casas mais fidalgas do reino. 

A boa sorte, ou a previdência, de Leonel de Lima levou-o a inclinar-se 
para o partido da rainha D. Leonor e do Duque de Bragança, e de acordo 
com ambos deixou de vir às cortes de Lisboa de 1439(2). Emquanto durou 
a regência do infante D. Pedro, não aproveitou decerto muito Leonel de 
Lima com a política que adoptara, e tanto que em 1489 ainda a sua posição 
na corte era subalterna (3); «escudeiro nosso creado», diz a carta citada de 
confirmação do contrato de casamento. Em 1454 porém já era fidalgo da 
casa e do conselho (4), e antes disso, em 1442, fora escolhido pelo infante 
D. Pedro para juntamente com o dr. Rui Gomes de Alvarenga ir por embai- 
xador a Castela (5). Daqui parece poder-se depreender, que Leonel de 
Lima se congraçara com o infante, como dizem os nobiliários. 

Ao viajante que percorre a província do Minho; que percorre, ou percorria, 
porque com a mania demolidora que nós temos, e que é uma das caracterís- 
ticas da nossa completa decadência, não sei se não estará já tudo em terra; 
ao viajante, pois, não lhe esquece a pitoresca vista de Ponte de Lima nas 
frondosas margens do seu rio, tendo na frente a sua comprida ponte, e atrás, 
destacando-se no fundo, o seu ameado castelo. Pois saiba que este foi 
mandado levantar por D. Afonso V, que da sua construção encarregou a 
Leonel de Lima. « Ordenamos que em a nossa villa de Ponte de Lima se 
faça ora novamente um castello em as casas de Leonel de Lima, do nosso 
conselho, que são dentro em a dita villa, que é logar assaz conveniente, as 
quais nos o dito Leonel de Lima para ello deu livremente . . . Mandamos 
aos moradores da villa, e a todos os corregedores, juizes, justiças, etc, que 
deixem daqui em diante fazer e edificar o dito castello ao dito Leonel de 
Lima em as ditas casas, e delas até ao muro possa filhar aquelle chão e 
parte do muro e torre que vir que é necessário e compridouro, etc». No- 
meia-o de juro e herdade alcaide mor do castelo de Ponte de Lima que 
ficará perpetuamente para todos seus filhos e netos, descendentes por linha 



(i) D. Isabel da Cunha parece não ter chegado a ser Condessa de Abranches, como se 
verá lá adiante. 

(2) Pina, Chronica de D, Afonso V, pág. 262 e 269. 

(3) Não é tanto assim", porque em 1446 já era do conselho como declara a carta de 7 
de Maio, de 10.000 reais brancos de tença {Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.°, fl. 70). 

(4) Na carta dada em Viseu a 3i de Maio de i354 de confirmação da jurisdição nas suas 
terras de Fraião, etc. {Chancelaria de D. Manuel^ liv. 4.°, fl. 32). 

(5) Pina, Chronica cit., pág. 338. 

voL. ni II 



83 Brasões 

direita, contanto que da feitura da carta a cinco anos esteja completamente 
feito e edificado o castelo. Foi dada a carta em Elvas a 26 de Abril de 
1464(1).^ 

Continuou Leonel de Lima merecendo o favor de D. Afonso V, que em 
Lisboa a 21 de Outubro de 147 1 lhe fez mercê em vida de Vila Nova da 
Cerveira, e seu termo, atendendo aos muitos serviços feitos a el-Rei seu 
pai e a ele, tanto no reino como nas partes de Africa (2). Depois acompa- 
nhou-o na expedição de Castela, e em Samora a 25 de Outubro de 1475 lhe 
deu el-Rei de juro e herdade a terra de Burral de Lima, que já possuía em 
vida (3). Poucos meses passados, em Toro, a 4 de Maio de 1476, deu-lhe 
D. Afonso V os títulos de Dom e de Visconde, mandando que dali em diante 
se chamasse D. Leonel de Lima Visconde de Vila Nova da Cerveira (4). 



(i) Alem Douro, liv. 3.°, fl. 18 1. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 22.°, fl. 5o v. 

(3) Alem Douro, liv. 3.», fl. i83. 

(4) Místicos, liv. 2.°, fl. 59 V. — Como a carta é interessante por vários motivos, para 
aqui a transcrevo : 

«Lionel de Lima Carta per que foy feito e criado visconde de Vila nova de Cerveira e 
seja chamado de dom. 

«Dom Aífonso etc. por que alealdade he amais alta nobre virtude que pode seer em o 
homem e delia apraz muyto a Deus e aos Rex e príncipes e Snnores com quem os homées 
ham de viver ca asy como ham de ser fiees a deus convenlhe que sejam leaees a seu Rey, 
e Snnor nam poendo o coraçam em outra cousa alguíãa e os taees com Razam pêra sempre 
sam louvados e bem aventurados e aelles e seu linhagem da deus aos taes galardam de 
gloria e os Rex e princeepes fazendolhes mercês asinalladas crecem seus estados e casas. 
E que alealdade seja de grande estimaçam coneçesse por que esta encomendou Deus aos 
Rex e princepes juntamente com aiustiça que em lugar seu aministram em este mundo. 
Assy que obaram leal he luz espelho e huúa claridade antre os homees E por que muy pró- 
pria e comveniente cousa he aos Rex e princepes ennobrecer honrrar e fazer bees e mercês 
aos que bem e lealmente os servem e acrecentar suas casas e estados o qual he aos Rex 
cousa louvável e devida de fazer especialmente aos seus naturaees por que quando quer 
que estes fazem serviços assinallados assinadamente devem seer sublimados honrrados e 
acrecentados seus estados e casas. E>tamto os Rex e príncipes que assy o fazem sam mais 
louvados e Recebem glorioso Renombre e fama quamto em os seus tempos foram intitu- 
lados os que não o eram por serviços que a elles ouuessem feitos pois esto comsideramdo 
e acatando apessoa e linhagem e grande lealdade e bondade de vos lionel de lima meu va- 
sallo e do meu conselho e os muytos e bo5s e leaees e continos serviços que os nobres 
donde vos vindes fizeram aos Rex de gloriosa memoria meus progenitores e uós amy avees 
feito e fazees de cada dya e os trabalhos que a veés passados por meu serviço em vossa 
pessoa deRamando delia vosso sangue e apoendo atodo perigo de morte cada vez. E quando 
conveo em aquelle — graao que lealdade e virtude vos obrigava — assinadamente em amynha 
Conquista de africa e assy em serviço de El-Rei meu Snnor e padre da gloriosa memória 
cuja alma nosso Snnor queira perdoar como em meu serviço e commynha armada cadavez. 
E quando pêra ello fostes chamado quando os outros duques Condes e Ricos homees de 



Limas 83 

Foi este o primeiro Visconde de Portugal, e durante muitos anos, mais 
de século e meio, não houve outro viscondado no reino. Por este motivo é 



meus Regnos eram e foram chamados e fazendo grandes gastos de vossa fazenda por levar 
como defeito levastes gramde numero de fidalguos e outras jentes em meu serviço E assy 
vindo per vossa pessoa e comvossa casa ame servir em a guerra em que estou em estes 
ditos meus Regnos de castella e de liam. Contra EI-Rey e Rainha de cezillia e contra seus 
secaces sobre a socessam delles amy e a Rainha dona Joana minha muito cara e muy amada 
esposa pertencente e Comfiando que sempre assy o farees e continuarees daquy em diante 
e milhor se milhor poderdees E por que outros servindo como vos fizestes e fazees de cada 
dia esperem ser soblimados decorados e honrrados e acrecentados se esforcem pêra bem e 
lealmente servir pella presente vos faço e crio bisconde da vylla de vylla nova de cerveira 
E quero e mando e he minha mercê que daquy em diante sejaees chamado e eu pella pre- 
sente vos chamo dom lionel de lima bisconde de vylla nova de cerveira e que vos façam 
salva e as outras cerimonias que aos outros biscomdes dos meus Regnos se acustumam 
fazer a assvmesmo que seja chamado dom Joham de lima o voso filho mayor legitimo 
guarda mayor do príncipe dom Joham meu muyto caro e muy amado e preçado filho aquém 
pertence a socessam de nossa casa o qual quero e me praz e mando que gose depois de 
vossos dias do dito titoUo de bisconde assy pellos muytos boós e leaees serviços que delle 
tenho Recebido em a dita minha comquista dafrica e em estes ditos meus Regnos de cas- 
tella Continuadamente me faz e por ser criado comiguo desde sua mininice como por os 
méritos e birtudes e lealdade de sua pessoa e que ajaeês e vos sejam guardadas bem com- 
pridamente todallas homrras priminencias perRogativas e todas as outras cousas e cada 
huQa delias de qual quer natura e feito vigor callidade e mistério que por Razam da dita 
dunidade e titoUo nos devem seer guardadas e do que devees gozar e se acustumaram e 
custumam guardar atodos os outros biscomdes dos ditos meus Regnos, tí que possaees 
gozar e gozeês delias e de cada huúa delias e por esta minha Carta e com ella vos em visto 
em a dita dinidade e titollo e vos dou a possyssam e casy possissam delle e quero e mando 
que daquy em diamte vos e vosso filho mayor dom Johã de lima que soceder vossa casa 
sejaees e seja biscondes da dita villa de villa nova de cerveira e apossa haver e herdar depois 
devos como em cima dito he Qua eu polia presente aguora e daqui em diamte vos Recebo 
em tituUò e dou o dito titollo e nome de bisconde da dita villa de vylla nova de cerveira a 
vos dito dom lionel de lima e depois de vos ao dito dom Joham de lima vosso filho que 
vossa casa herdar como dito he e por esta dita minha carta e por seu trelado assinado per 
notairo pruvico mando ao dito primcepe dom Joham meu filho e aos Ifantes duques pre- 
lados Condes Marqueses Ricos homes mestres das hordees priores Comendadores e subco- 
mendadores e alcaides dos castellos e casas fortes e chãas e aos do meu comselho e ouvydoros 
da minha audiência e a todollos comcelhos Corregedores alcaides meirinhos e alguazys Rege- 
dores cavaleiros escudeiros officiaees e homeês boõs de todas as cidades billas e lugares dos 
meus Regnos e Sunorios que agora sam ou seram daquy em diante e atodas e quaees quer 
pessoas meus vassallos súbditos e naturaees de qual quer estado e condiçam que sejam e 
seer possam e qual quer ou quaees quer delles que vos Recebam por meu biscomde como 
dito he que eu polia presemte acatamdo e comsiramdo o suso dito de meu próprio moto e 
certa ciência e poderyo Real absoluto de que em esta parte quero usar e uso como Rey e 
soberano Sunor nam Reconhecente superior em ello temporal desde aguora pêra estonces 
e destonces pêra aguora vos ey e Recebo enomeo e faço a vos dito dom lionel de lima bis- 
comde da dita villa de villa nova de cerveira e depoys de vossos dias ao dito dom Joham de 



84 Brasões 

* 

muito comum em livros e documentos encontrar o Visconde de Vila Nova 
da Cerveira nomeado por antonomaria, ou excelência, «o Visconde». O 
mesmo sucedeu com os barões de Alvito (criação no ano anterior de 
D. Afonso V, que igualmente inventou para cá os marqueses) e que, por 
terem sido também os únicos durante ainda mais largo período, são quási 
sempre, nesses antigos tempos, designados por «o Barão». 

O segundo viscondado que houve em Portugal foi em 1649 o de Castelo 
Branco, morgado e castelo aqui ao pé, na freguesia de S.*^ Iria da Azoia (i). 
Foi ele criado por D. João IV, que por carta de 26 de Setembro e conferiu 
a D. Pedro de Castelo Branco depois 1° conde de Pombeiro (2). O segundo 
barão foi o da Ilha Grande de Joanes, título com que D. Afonso VI agraciou, 
por carta de 17 de Setembro de 1666, a Luís de Sousa de Macedo (3). Do 
facto de Leonel de Lima ter sido feito visconde tira-se geralmente a con- 
clusão, de que êle era grande fidalgo; pois eu não direi, que concluo exacta- 
mente o contrário, mas abato muito nas presunções. Se êle fosse grande 
fidalgo tê-lo-ia D. Afonso V feito conde, como fez a tantos outros. Por 
isso mesmo que o não era, é que o escolheu para nele criar o título de vis- 
conde, marcando logo a inferioridade em que este ficava relativamente ao de 
conde. Existiam unicamente em Portugal os títulos de duque e de conde, 
quando D. Afonso V subiu ao trono; e êle quis completar a série. Em 146 1 
criou o primeiro marquês, o de Valença, na pessoa do conde de Ourém, 
primogénito, do duque de Bragança. Acentuou-se logo este título na gra- 
duação e categoria devida. O mesmo sucedeu com os de visconde e barão. 



lima vosso filho mayor e he minha merce e mando que nenhuúes nem alguúes nam sejam 
ousados de hir nem passar comtra o que nesta carta he contheudo nem contra cousa alguúa 
nem parte dello em algiãa maneira nem por alguúa Razam sob pena da minha merce e 
deperdimento das pessoas e bees os quaes por apresente o comtrario fazendo confisco e 
aprico pêra minha camará E fisco e mando as ditas minhas Justiças que cada e quando que 
por vos dito dom lionel de lima e depois de vossos dias pello dito dom Joham de lima vosso 
filho mayor legitimo porem Requeridos que exuquetem o sobre o dito em as taees pessoas 
que o comtrairo fizerem sobre o qual mando ao meu chanceler e notairos e aos outros ofi- 
ciaees que estam a mesa dos meus sellos que vos dem e liurem e passem e sellem mynha 
carta de privillegio Rodada esta minha carta e as outras minhas cartas e sobre cartas que 
lhes pedirdes e mister ouverdes em a dita Razam dada em a nobre e leal Gydade de touro 
a quatro dias do mes de mayo anno de myl iiijc Lxx bj». 

(i) Visconde de Castelo Branco junto a Sacavém, carta de 25 de Setembro de 1649 
{Chancelaria de D. João /V, liv. 20.°, fl. aSy); carta de assentamento de 18 de Fevereiro de 
i65o {Ibidem, liv. 21.°, fl. 224). Conde de Pombeiro, carta de 6 de Abril de 1662 {Chance- 
laria de D. Afonso V/, liv. 26.', fl. i63 v.); carta de assentamento de 4 de Maio de 1668 
{Ibidem, liv. 22.°, fl. 292). 

(2) Sousa, Historia genealógica, vol. VII, pág. 222. 

(3) Ibide^, pág. 41a. 



Limas 85 

Foi este inaugurado em 1475 com a baronia de Alvito, escolhendo el Rei 
para êle ao dr. João Fernandes da Silveira, que ninguém, julgo, se lembrará 
de alcunhar de fidalgo; teve princípio o outro título no ano seguinte com o 
viscondado de Vila Nova da Cerveira investido em Leonel de Lima. Era 
este certamente de esfera superior ao barão; quando digo esfera superior 
refiro-me à nobreza, porque em ilustração e serviços era muito inferior. 
Não era contudo de esfera igual às de Lopo de Almeida, Rui de Melo e 
Lopo de Albuquerque, que naquele mesmo ano de 1476 foram feitos respec- 
tivamente condes de Abrantes, Olivença e Penamacor. Seja isto dito em 
abono da verdade, como a entendo, e não porque eu tenha em mente deprimir, 
nem lisonjear, ninguém. 

Voltemos aos viscondes, a quem algumas vezes se dá o título de viscondes 
de Ponte de Lima em virtude de serem alcaides mores desta vila. 

D. Leonel de Lima, o i.° visconde de Vila Nova da Cerveira, morreu 
com noventa e dois anos a i3 de Abril de 1495, segundo dízem os cronistas 
franciscanos (i), e no mesmo mês do ano seguinte foi confirmada a casa a 
seu filho (2). A viscondessa D. Felipa da Cunha havia morrido a 7 de Se- 
tembro de 1486, e ambos os viscondes foram sepultados na capela de Nossa 
Senhora da Piedade do convento de Santo António de Ponte de Lima, fun- 
dação sua (3). 

Tiveram os viscondes muitos filhos; dez lhes nomeiam os nobilários, 
sendo seis varões. Destes apenas formaram linhas distintas dois, que espe- 
cializarei, e que foram D. João de Lima, o 2.° visconde, continuador da 
casa, e Fernão de Lima, alcaide mor de Guimarães, tronco da casa de Castro 
Daire. Dos outros procederam muitos daqueles Limas, intrépidos soldados 
e valentes capitães, que tanto sangue verteram na índia pela pátria, e que 
tão nomeados são pelos historiadores das nossas conquistas; mas todos se 
extinguiram às terceiras ou quartas gerações e deles por varonia não subsiste 
descendência. 

Das senhoras mencionarei a D. Inês de Souto Maior que foi casada com 
Lopo Gomes de Abreu, senhor de Regalados, e deles provieram todos 
aqueles inúmeros Abreus de Lima da província do Minho, aos quais perten- 
ceram as casas de Regalados, Paço Vedro, e outras. 



João de Lima, o filho maior de Leonel de Lima, que depois foi i.° vis- 



(i) Frei Pedro de Jesus Maria José, Chronica da Conceição^ vol. II, pág. 28^ 

(2) Cartas de 26 e 27 de Abril de confirmação de sucessão de bens a seu filho D. João de 
Lima, no liv. 3.» de Alem Douro^ fl. 181, e no liv. 30.° da Chancelaria de D. Manuel^ fl. 49. 

(3) Frei Fernando da Soledade, Historia Seraphica, vol. III, pág. 604. 



86 Brasões 

t 

conde, era muito galanteador, e daí lhe vieram várias aventuras, com as 
quais contudo não parece ter êle padecido muito, ainda que uma foi alta- 
mente escandalosa. Como as encontro apontadas no Nobiliário de seu 
sobrinho neto D. António de Lima, creio que teriam acontecido e por isso a 
elas me referirei, tratando de as acomodar com os documentos existentes. 

Começou João de Lima requestando uma donzela da casa da infanta 
D. Joana, a de Aveiro; Catarina de Ataíde era o seu nome, e seus pais 
Gonçalo de Ataíde que perdeu a casa por seguir as partes do infante 
D. Pedro, e Isabel de Brito. Não repelido pela donzela, provieram todavia 
embaraços não sei de que banda, e o casamento fez-se «a furto ))(i). 

Não deixa de ser vulgar seguirem-se às grandes paixões satisfeitas o tédio 
e o aborrecimento, e assim sucedeu com o volúvel João de Lima, que dentro 
em breve cortejava a D. Catarina de Melo, dama da rainha D. Leonor, diz 
o citado Nobiliário, mas havia de tê-lo sido emquanto princesa. Era D. Ca- 
tarina filha do segundo casamento de Vasco Martins de Melo, alcaide mor 
de Évora, e tinha a alcunha da Rainha de Pedra. Tão duro porém não foi 
o seu coração que não cedesse aos galanteios do apaixonado fidalgo, que 
com ela também casou ocultamente, consumando o matrimónio mesmo no 
paço, onde D. Catarina ainda andou já trazendo em si o fruto dos seus 
amores. 

Então, vendo a sua honra perdida, exigiu a dama a publicação do matri- 
mónio, a cuja validação se opôs a outra Catarina, que levou o negócio para 
Roma. Aí foi declarado bom o primeiro casamento, e nulo o segundo, 
ficando a pobre D. Catarina de Melo com uma filha às costas e sem marido; 
sem marido temporariamente, pois que posteriormente casou, não direi com 
quem porque pode todo este caso ser cancan de cour. 

Para João de Lima a única pena foi, ao que parece, obrigarem-no a jun- 
tar-se à primeira mulher, recebendo-a como sua legítima esposa; ^e talvez, 
quem sabe ? não fosse pequeno castigo. 

Toda esta história, que dava um bom título para um capítulo de romance: 
«Um D. João entre duas Catarinas»; toda esta história havia de ter sucedido 
antes de 9 de Setembro de 1472(2), em que el Rei aprovou em Coimbra o 
contrato de casamento de João de Lima, fidalgo da sua casa e do seu con- 
selho, com D. Catarina de Ataíde, donzela da casa da infanta sua filha (3). 



(i) Vide Chronica de D. Afonso V, de Rui de Pina, cap. 168, pág. 533. 

(2) Pelo contrário, parece-me mais provável que sucedesse depois disso. O contrato 
de casamento foi efectivamente aprovado por D. Afonso V em 9 de Setembro de 1472; mas 
a i3 de Junho de 1482 confirmou D. João II o morgado de Gaião a «Catherina de Ataide 
donzella da casa da infanta minha irmã» {Chancelaria de D. João 11, liv. 6.°, fl. 79), ora, 
sendo ela donzela, não era casada. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 29.», fl. i63. 



Limas 87 

Não chegou D. Catarina a ser viscondessa, pois que dois anos antes do 
titulo ser concedido ao marido, já este estava segunda vez casado (1); mas 
foi senhora do morgado de Gaiam em Santarém, que havia sido de seu pai 
e de seu irmão Pedro de Ataíde, o Armador, ou o Corsário, como lhe 
chama D. António de Lima, e que nela renunciou o vínculo por carta de 18 
de Abril de 1468, confirmada por el Rei a i5 de Dezembro do mesmo ano (2), 
Por este casamento entrou na casa dos Limas aquele antigo morgado, capela, 
ou hospital, que fora fundado junto à porta da Atamarma por um D. Gaiam, 
alcaide de Santarém, de quem se encontram vestígios em documentos dos 
anos de 11 62 a 11 76 (3). Não era contudo D. Catarina de Ataíde descen- 
dente do instituidor, mas houve o morgado como neta de Nuno Gonçalves 
de Ataíde, a quem D. João I o doara por carta de 22 de Agosto da era de 
1459 (i42i)(4). 

Em 1476, em seguida à concessão do título de visconde a seu pai, passou 
João de Lima a chamar-se D. João de Lima. Era já do conselho de 
de D. Afonso V, e o continuou a ser de D. João II, que o nomeou seu 
guarda mor por carta de 16 de Abril de 1482 (5). Em 1494 já era pela se- 
gunda vez casado, sendo agora sua mulher D. Isabel de Melo (6), filha de 
Mariim Afonso de Melo, 7." senhor de Melo, Em 1496 sucedeu na casa de 
seu pai, vindo a ser o 2.° visconde de Vila Nova da Cerveira, de que teve 
carta em 27 de Abril daquele ano (7), 2.° alcaide mor de Ponte de Lima por 
carta de confirmação da véspera (8), senhor de Vila Nova da Cerveira (9), e 
das terras de Fraião, Coura, S. Martinho, S. Estêvão, Jaraz e Vai de Vez, 
e da casa de Giela com as jurisdições, da terra de Burral de Lima, das 



(i) Carta de padrão de 6 de Julho de 1494 adiante citada. 

(2) Chancelaria de D.Afonso V, liv. 28.°, fl. i25. — Confirmado o morgado a D. Cataritia 
por D. João II em i3 de Junho de 1482 {Chancelaria de D. João II, liv. 6.% fl. 79). 

(3) Aires Sá, Gonçalo Velho, pág. 438. 

(4) Supra, pág. 2o5. 

(5) Sousa, Historia genealógica, vol. XI, pág. 220. 

(6) Carta de 6 de Julho de 1494 de padrão de uma tença de quarenta mil reais a D. João 
de Lima, do meu conselho e guarda mor e a D. Isabel de Melo sua mulher. Foi confirmada 
por D. Manuel aos mesmos, sendo eles já viscondes por carta de 28 de Abril de 1496. 
( Chancelaria de D. Manuel, liv. 27.", fl. 86 v.). 

(7) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 49. 

(8) Alem Douro, liv. 3.», fl. 181. Nesta carta, apesar de ser anterior à do título, já é 
D. João nomeado visconde. 

(9) Consta ter sido o visconde senhor daquela vila, da carta, entre outras, de confir- 
mação da jurisdição das suas mais terras, dada por D. Manuel em 20 de Setembro de i5oi 
a D. João de Lima, visconde e senhor de Vila Nova da Cerveira, do nosso conselho e alcaide 
mor de Ponte de Lima. Está esta carta a fl. 32 do liv. 4.» da Chancelaria, e por ela se vS 
que os viscondes tiveram o senhorio da vila, como aliás era de fácil intuição. 



88 Brasões 

defesas de Ponte de Lima, etc. (i). Em i5o8, no princípio do ano, já era o 
visconde falecido (2), sobrevivendo-lhe a viscondessa bastante tempo por isso 
que dela ainda encontro memórias no ano de i533, em que, por carta de 24 
de Março, foi trespassada à viscondessa D. Isabel de Melo uma tença de 
quarenta mil reais que havia sua filha D. Beatris, donzela que fora da rainha 
D. Leonor (3). Esta D. Beatris, o único filho que o visconde houve do seu 
segundo casamento, despresou o mundo e meteu-se freira no mosteiro da 
Madre de Deus. Do primeiro casamento porém tivera o visconde, além do 
sucessor da casa, de um que morreu moço, e doutro que foi frade, a 
D. Diogo de Lima, capitão na índia, que teve geração na qual se extinguiu 
a varonia, tendo um dos seus netos instituído, na segunda metade do xvi sé- 
culo, o morgado de Niza no termo de Grândola, que veio a parar a Estêvão 
Brandão de Lima, que morreu sem filhos e sem testamento. Por este mo- 
tivo se meteu sua noiva D. Mariana Josefa da Cunha de posse do vínculo, 
que lhe foi tirado por sentença de 1 3 de Outubro de 1678, salvas as herdades 
da Casa Branca e do Ervedal com que o marido a dotara, e que lhe foram 
mantidas por sentença de 18 de Janeiro de 1680, atendendo à grande dife- 
rença da idade que havia entre os cônjuges quando casaram, pois que êje 
era velho de sessenta anos, e ela rapariga de vinte e cinco (4). 

D. Francisco de Lima, o filho mais velho de D. João, sucedeu a seu pai 
e foi 3.° visconde de Vila Nova de Cerveira por carta de 7 de Abril de 
i5o8(í>), e senhor da mais casa que lhe foi confirmada por carta de 10 de 
Maio do mesmo ano (6). Faleceu o visconde a 24 de Dezembro de i55o(7). 

Foi êle casado com D. Isabel de Noronha, filha dos 2.*" condes de 
Abrantes, e com ela já estava recebido em 17 de Julho de i5o2(8). Deste 



(i) Cartas de confirmação de 2 e 4 de Maio de 1496, e 7 de igual mês de 1497, ^i^* 3'° 
de Alem Douro, fl. 181, i83 e 184, e Chancelaria de D. João III, liv. 14.0, íi. 33. 

(2) Carta de 7 de Abril do título ao filho. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 19.», fl. 68 v. 

(4) Pegas, De exclusione. . . maioratus, vol. I, pág, 9 e 10. 

(5) Chancelaria de D. João IH, liv. 14.", fl, 3o v., onde se encontra transcrita na de con- 
firmação de 14 de Fevereiro de i528. Declara D. Manuel na carta de mercê do título, que 
este vagara porque o visconde D. João «se ora finou». 

(6) Ibidem, fl. 33, incluída na de confirmação dada por este Rei ao mesmo visconde em 
18 de Fevereiro de i528. 

(7) Assim o declara a carta de 9 de Julho de i566 de confirmação de tença a seu filho 
o visconde D. João {Doações de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 17.°, fl. 45 1). 

(8) Data da carta de confirmação a D. Isabel, mulher de D. Francisco de Lima, fidalgo 
de nossa casa, de um alvará da Excelente Senhora, dado em Santarém a 20 de Março de 
1492 a favor de D. Isabel, da sobrevivência de uma tença de cem mil reais que tinha sua 
avó a condessa D. Brites ( Chancelaria de D. Manuel, liv. 20.°, fl. 29 v.). 



Limas 



89 



casamento, o primeiro do visconde que do segundo não teve filhos, nasceu, 
entre outros, D. João de Lima, que continuou a casa. 

Foi D. João de Lima 4." visconde de Vila Nova da Cerveira, de que não 
tirou carta de confirmação, como deixou de o fazer para o restante da 
casa(i), mas consta que teve o título da carta de confirmação da tença, ou 
assentamento, de cinquenta mil reais que os viscondes tinham com o titulo, 
carta que foi dada a D. João em 9 de Julho de i566, declarando-se que a 
tença a começaria a vencer do primeiro de Janeiro do ano seguinte em 
diante (2); donde se deverá concluir que o título lhe seria dado por então. 
Casou D. João de Lima em i525 com D. Inês de Noronha, filha de Joãa 
Rodrigues de Sá (3), senhor de Sever, alcaide mor do Porto, o poeta tanta 
vez nomeado no Cancioneiro de Resende, e irmã de Francisco de Sá de 
Meneses, conde de Matosinhos. Faleceu o visconde D. João nas proximi- 
dades de Agosto de 1573, deixando por seu sucessor a seu filho primogé- 
nito (4). 

Chamou-se este D. Francisco de Lima, e já em 1546 era casado com. 
D. Brites da Alcáçova, filha do secretário Pedro da Alcáçova Carneiro (5). 
Foi D. Francisco o 5.° visconde de Vila Nova da Cerveira de que teve carta, 
em seguida ao falecimento do pai, dada em 11 de Agosto de i573(6). Era 
o visconde já falecido em 4 de Abril de iSyS, quebrando-se nele a varonia 
dos Limas da casa dos viscondes, pois que deixou por sua herdeira a uma 
filha. 

Foi ela D. Inês de Lima, que já estava casada com Luís de Brito, quando, 
na data apontada, lhe foi averbado um juro de cento e cinquenta mil reais 
que herdara por morte de seu pai (7). Chegoulhe D. Inês a suceder na 
casa, porém nem ela, nem seu marido, tiveram o título de viscondes, coma 



(i) Infere-se do que está expresso no fim de uma carta que está registada a fl. 276 do 
liv. 3." de Confirmações gerais. 

(2) Doações de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 17.°, fl. 45i. 

(3) Consta da carta de 21 de Agosto daquele ano em que o visconde D. Francisco foi 
autorizado a obrigar qualquer das suas terras para segurança das sete mil e seiscentas dobras 
que ele prometera dar a D. Inês que ora casa com D.João, etc. {Chancelaria de D. João Uly. 
liv. i3.°, fl. 83). 

(4) Doações de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 36.0, fl. 29. 

(5) Por um alvará de 16 de Julho de 1546 fez D. João III, em atenção aos serviços d& 
Pedro da Alcáçova Carneiro, do seu conselho e seu secretário, mercê a D. Francisco, casando 
ele com D. Brites, do título de visconde e dos cinqíienta mil reais de assentamento para 
depois da morte de D João de Lima seu pai {Ibidem). 

(6) Ibidem. 

{7) Verba posta à margem da carta de padrão do referido juro, a qual se encontra a 
fl. 452 do liv. 17." de Doações de D. Sebastião e D. Henrique. 

voL. m 12 



9© Brasões 

erradamente dizem alguns autores. Foi êle renovado em Lourenço de Brito 
-de Lima, «neto do derradeiro visconde D. Francisco de Lima», por alvará 
de lembrança de i3 de Dezembro de 1579, que logo citarei, sendo então já 
sua mãe falecida, mas seu pai ainda vivo. Chamou-se este Luís de Brito, 
ou Luís de Brito Nogueira, como em algum documento é nomeado, e foi 
senhor dos antigos morgados de S. Lourenço de Lisboa, e S. Estêvão de 
Beja, vínculos em que o filho lhe sucedeu por sua morte entre os anos de 
i583 e iSgi, 

Lourenço de Brito de Lima alcançou, como já disse, em i3 de Dezembro 
de 1679, em atenção aos serviços dos viscondes, e aos de seu pai em Africa 
onde ficou cativo na batalha de Alcácerquibir, e a ser êle, Lourenço, o único 
descendente de seu avô materno o 5.° visconde D. Francisco de Lima; 
alcançou, repito, um alvará de lembrança do cardial rei para suceder no 
título e casa de Vila Nova da Cerveira. Confirmou Felipe II ao visconde 
as mercês, que de juro e herdade tinha o avô, por carta de 7 de Janeiro de 
i583, com a condição dele casar com mulher que ao Rei agrade. Nestes 
documentos é sempre chamado Lourenço de Brito de Lima, porém por uma 
apostila de 4 de Setembro de 1591, sendo o visconde já casado, mandou 
el Rei que êle, e os que dele descendessem, se chamassem primeiro de Lima 
que de Brito, e o visconde de ora em diante se nomeie D. Lourenço de 
Lima e Brito. Depois por carta de i3 de Setembro de 1591 confirmou-lhe 
Felipe II o título e a casa, pelo visconde se achar casado com D. Luísa de 
Távora, filha do falecido Luís da Alcáçova Carneiro, filho mais velho do 
conde da Idanha, do conselho de estado, vedor da fazenda, e bisavô do re- 
ferido D. Lourenço de Lima. Finalmente a 1 1 de Dezembro do mesmo 
ano teve carta de padrão dos cinquenta mil" reais de tença, que eram orde- 
nados ao título (i). Muito tempo depois, por carta de i5 de Dezembro de 
1623, quando seu filho mais velho já era conde dos Arcos, deu Felipe IV ao 
visconde de Vila Nova da Cerveira, as honras de conde no seu próprio 
título (2). Ainda sobreviveu D. Lourenço muitos anos a esta última mercê, 
pois que no de 1646, sendo do conselho de estado de D. João IV, renunciou 
o título de visconde em seu filho D. Diogo, como logo direi. 

Dos 6.°' viscondes de Vila Nova da Cerveira, D. Lourenço de Lima de 
Brito e D. Luísa de Távora, nasceram, além de outros, os seguintes quatro 
filhos: 

i.*^ — D. Luís de Lima, i.° conde da vila dos Arcos de Vai de Vez, «que 



(i) Consta tudo do liv. 12.0 das Doações de Felipe /, fl. 192 v., e do liv. iS.», fl. 384 v.^ 
« 395 V. 

(2) Doações de Felipe III, liv. i8.% fl. 182. 



Limas 



9» 



é do visconde seu pai», por carta de 9 de Janeiro de 1620, em sua vida 
somente (i), ampliada logo depois a concessão a mais duas vidas por alvará 
de 8 de Fevereiro seguinte (2). ' Ambas estas mercês, além de outras, lhe 
foram feitas por ele estar casado com D. Vitória de Gardaillac e Bourbon, 
dama da princesa D. Isabel de Bourbon. Os pais da condessa dos Arcos 
já lá para trás ficaram nomeados. Morreu o conde dos Arcos, que foi gentil- 
-homem da câmara de Felipe IV, antes de 14 de Setembro de i63o(3), dei- 
xando entre outros a D. Lourenço de Lima, que foi 2.° conde dos Arcos por 
carta de 14 de Setembro de i63o(4), e morreu solteiro em dia de S. Joãa 
de 1Ó47, segundo o seu epitáfio na igreja de S. Lourenço de Lisboa (5); e a 
D. Madalena de Bourbon que casou com D. Tomás de Noronha, que foi 
3.** conde dos Arcos em verificação da última vida por carta de 10 de Junho 
de 1662(6), dando-se-lhe mais duas vidas no título por carta de 2 de Outubro 
de 1668(7). Deste casamento provieram os Noronhas condes dos Arcos 
que hoje se acham extintos na varonia, que se conserva contudo no conde 
de Vila Nova da Cerveira e noutros. 

2.° — D. João de Lima que ficou servindo em Castela, onde casara em 
1639 com D. Francisca Luísa de Souto Maior, 4.^ condessa de Crescente; e 
lá, com o nome de D. João Fcrnandez de Sotomayor y Lima, foi feito mar- 
quês de Tenório em i3 de Julho de 1644(8). Foram pais de D. Fernando 
Yanez de Lima y Sotomaior, i.° duque de Sotomayor, 2.° marquês de 
Tenório, que morreu sem filhos em 1706, passando a casa a uma sua irmã. 

3." — D. Leonel de Lima que dizem casara em Flandres com Francisca 
de Gallo, filha de Francisco de Gallo, conde de Dion-le-Mont, de quem teve 
a Carolina de Lima, mulher de seu tio António de Gallo Salamanca, e mãe 
de João de Gallo Salamanca, conde de Dion-le-Mont, que veio a Portugal 
com a patente de coronel acompanhando ao pretendente D. Carlos, e cá 
morreu em Santarém a i de Julho de 1704(9). 



(i) Doações de Felipe II, liv. 42.", fl. 2i3. 

(2) Ibidem, fl. 212 v. 

(3) Consta da carta do título ao filho. — D. António Caetano de Sousa a pág, 118 da 
vol.XII da Historia genealógica põe-lhe a morte a 24 de Junho de 1647, emendando depois, na 
pág. XLII da segunda parte do mesmo volume, para 1637 ; de ambas as vezes porém se engana^ 

(4) Doações de Felipe III, liv. 22.°, fl. 334 v. 

(5) Moreira, Colecção de inscrições, fl. 238. 

(6) Doações de D. Afonso F/, liv. 27.°, fl. 352. 

(7) Ibidem, liv. 20.°, fl. 329. 

(8) Dr. Salazar de Mendoza, Origen de las dignidades seglares de Castilla y Leon,^ 
pág. 481 mihi. 

(g) Sousa, Historia genealógica, vol. XII, pág. 120^ onde lhe chama conde de Droule^ 
lemont. 



92 Brasões 

4.° — D. Diogo de Lima que foi doutor em teologia, e, abandonando a 
carreira, foi, em resultado da morte e ausência de seus irmãos, feito 7.° vis- 
conde de Vila Nova da Cerveira, titulo que seu pai nele renunciou, e de 
que teve carta em 26 de Setembro de 1646, recebendo por outra desse 
mesmo dia as honras de conde no seu título (i). Sucedeu em toda a mais 
casa de seu pai, à qual reuniu a de Mafra pelo seu casamento com a con- 
dessa viúva de Armamar, D. Joana de Meneses (2), representante dos condes 
de Penela, como fica dito na pág. 3bg do vol. I. 

Foram pais do 8.°, 9.° e io.° viscondes de Vila Nova da Cerveira, e avós 
de D.Tomás de Lima e Vasconcelos, ii.° visconde, cuja única filha, D. Maria 
Xavier de Lima e Hohenlohe, casou com Tombas da Silva Teles, que veio a 
ser o 12.** visconde por carta de 6 de Outubro de 1721 (3). Foram pais do 
i.° marquês de Ponte de Lima de juro e herdade, feito em 17 de Dezembro 
de 1790(4), mas que só tirou carta em 14 de Abril de 1795(6).* Como a 
casa de Ponte de Lima passasse pelo casamento da 12.* viscondessa a ter a 
varonia de Silva, já a ela me referi a páginas me seguintes, para onde re- 
meto o leitor. 

Este ramo, o dos viscondes, foi o principal dos Limas. Nele contudo 
veio a varonia originária a ser substituída pela dos Britos, e ultimamente 
dos Silvas, tendo-se por fim extinguido a casa, que hoje é representada pela 
senhora marquesa de Castelo Melhor. 



IV 

SENHORES DE CASTRO DAIRE 

O outro ramo notável, que a linhagem dos Limas produziu em Portugal, 
foi o dos alcaides mores de Guimarães, senhores de Castro Daire por casa- 
mento. Apartou-se êle do tronco na pessoa de Fernand'Anes de Lima, que 



(1) Doações de D. João IV, liv. 17.°, fl. 288. 

(2) D. Joana de Meneses, senhora da casa de Mafra e viscondessa de Vila Nova da Cer- 
veira, morreu a 25 de Dezembro de 1654, e foi sepultada no convento de Santo António de 
Ponte de Lima (Frei Pedro de Jesus Maria José, Chronica da Conceição, II, pág. 3i, § 5i). 

(3) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 56.**, fl. 263. 

(4) Supplemento á Gaveta de Lisboa de 24 de Dezembro de 1790. 

(5) Chancelaria de D. Maria I, liv. 47.", fl. 276 v., sendo na carta apenas nomeado vis- 
conde de Vila Nova da Cerveira D. Tomás de Lima, sem a ladainha de nomes que lhe cos- 
tumam pôr. 



Limas 9? 

se ficou depois chamando Fernão de Lima, nome com que se encontra na 
maioria dos documentos. Foi filho segundo de Leonel de Lima, posterior- 
mente D. Leonel de Lima, i." visconde de Vila Nova da Cerveira. 

Começou logo Fernand'Anes a servir no paço na qualidade de moço 
fidalgo, e com a moradia de mil reais se encontra na lista de 1462; em 1469 
porém Já era cavaleiro fidalgo com dois mil seiscentos e setenta e cinco 
reais, e com este foro e moradia aparece ainda nas listas de 1474 e 1484(1). 

No ano de 1471 se decidiu da sorte de Fernão de Lima. Logo no começo 
desse ano, estando já aprazado o dia 22 de Janeiro para o casamento do 
príncipe D. João, oito dias antes, a i5, nomeou D. Afonso V em Santarém 
a Fernão de Lima para copeiro mor de seu filho e herdeiro (2). Tomou o 
príncipe grande amizade a este seu criado, que o acompanhou, não só nas 
jornadas de Africa e Castela, mas também nas suas estúrdias e rapaziadas 
noturnas. Em algumas destas ocasiões teve D. João, que sabia apreçar os 
homens, ensejo para conhecer o valor e esforço de Fernão de Lima, de 
quem dizia que era um dos homens do reino, que, com a espada na mão, 
melhor lhe pareciam, e aquele de quem mais se arrecearia a cavalo com 
lança e adaga, e o que escolheria para companheiro em algum grande feito. 
Isto dizia D. João em príncipe, e o continuou proclamando depois de rei, e 
eram palavras merecidas, pois que Fernão de Lima, « além de ser um dos 
mais valentes cavaleiros do seu tempo, era mui grande cavalgador e tão 
desenvolto a cavalo, que parecia que nasceu na sela» (3). 

Foi um valente e dedicado amigo de D. João II, que não só lhe confirmou 
o ofício de copeiro mor em 9 de Junho de 1484(4), como lhe deu uma boa 
casa em várias mercês que lhe fez. Pagou bem Fernão de Lima o favor e 
valimento, acompanhando sempre a seu rei, que lhe deu ordem para andar 
a seu lado, secretamente armado, no tempo das traições dos duques e fidalgos. 
Contra as facas e punhais serviria de escudo a el Rei a valorosa lealdade do 
seu criado e amigo; agora, contra a outra traição mais vil e cobarde, se 



(i) Encontra-se tudo isto nas listas publicadas por Sousa no vol. II das Provas da His- 
toria genealógica. 

(2) Extras, fl. 38 v. — Ao copeiro mor cumpria, segundo reza a carta de nomeação, 
pôr no dito ofício um escudeiro da casa do príncipe, qual lhe aprouver, e de que o príncipe 
seja contente, o qual escudeiro em nome do copeiro mor servirá o ofício; vinha a ser o 
copeiro menor. Ao copeiro mor manda el Rei entregar a prata, vinho, e quaisquer outras 
coisas que ao seu ofício pertençam, e autoriza-o a tirar e pôr não só o dito copeiro, como 
os homens da copa, quando justo e de razão fôr, e dar emenda e castigo aos mesmos 
homens. 

(3) D. António de Lima, Nobiliário. 

(4) Chancelaria de D. João 11^ liv. 22.°, fl. 139 v. 



94 Brasões 

pode haver graus em tal crime, contra a do veneno (i), contra essa de nada 
podia valer o generoso esforço do destemido cavaleiro. Só pôde participar 
da enfermidade de seu amo, e precedê-lo no túmulo. Com D. João II se 
encontrou o copeiro mor na herdade da Fonte Cuberta nos princípios de 
149 1, quando a el Rei foi dada a beber aquela água, que talvez por ordem 
ou anuência, certamente com regosijo dos seus mais chegados, estava enve- 
nenada. Fernão de Lima também dela bebeu, e no amo e no criado 
os sintomas foram os mesmos, e o tempo de duração aproximadamente 
igual (2). 

Não se esqueceu D. João II, aquele grande rei a quem ainda se não fez ■ 
justiça completa, porque é preciso fazer-lha não só como político, mas como 
homem; não se esqueceu pois o Príncipe Perfeito mesmo nos angustiosís- 
simos dias de Alvor, quando via a morte, ora à sua beira, ora um nada afas- 
tada acariciando vãs esperanças fugidas; quando se via sem os seus mais 
próximos, a quem ainda o medo alongava, o ódio apartava, e o remorso 
proibia a vinda, porque é preciso ser muito impudente o criminoso para 
poder assistir ao supremo transe da sua vítima; não se esquecau pois o mo- 
ribundo, repito, do seu antigo criado e amigo, alegre companheiro da moci- 
dade, triste sócio na cruel e prolongada agonia. 

Na véspera da morte, naquele dia 24 de Outubro de 1495, em que tantos 
e tão desvairados pensamentos acudiriam ao espírito do desenganado rei, 
nesse dia assinou ele um alvará em que confirmava ao filho mais velho do 



(i) Acerca do envenenamento de D. João II pode-se ver o que escrevi em três artigos 
no Jornal de Comercio; o primeiro a 7 de Setembro de 1901 intitulado A Rainha D. Leonor, 
e os outros dois a 8 e i3 de Fevereiro de 1902, sob o título de Envenenado. Estes artigos 
e outros espero brevemente reunir em volume. 

Naqueles mostra-se que os dizeres dos cronistas são confirmados pelos documentos, 
que claramente revelam que não foi só o Copeiro mor Fernão de Lima, que morreu pelos 
mesmos tempos que el Rei; o mesmo sucedeu também a Estêvão de Sequeira, copeiro pe- 
queno, e a Afonso Fidalgo, homem da copa. 

(2) Pina, Chronica de D. João II, pág. 129; Resende, Vida de D. João II, fl. 81. — Os 
sintomas do envenenamento foram análogos em D. João II e no seu copeiro mor, que poucos 
dias antes dele faleceu «inchado e soluto» como el Rei. E não foi só o copeiro mor; foi 
também o copeiro Estêvão de Sequeira, e o homem da copa Afonso Fidalgo, que ambos 
igualmente beberam da mesma água. — Afonso Fidalgo foi certo morrer também no ano de 
1495. Consta da carta de quitação à sua mulher e herdeiros, na qual se declara haver-lhe 
tomado conta do ano de 94 e parte do de 95 em que se finou. Ele então era almoxarife de 
Benavente e fora encarregado do corregimento de um paul por D. João II. A carta é de 6 
de Setembro de 1497 ^ ^^^^ ^^ ^^^' ^•° *^° Guadiana, fl, 248 v. 

Também se passou carta de quitação a Estêvão de Sequeira copeiro que havia sido de 
D. João II, e esta também se passou à viúva e herdeiros em 3 de Maio de 1499, ^^s não 
declara os anos a que se refere. Está no liv. de ExtraSy fl. 161. 



Limas 95 

seu copeiro mor o castelo de Guimarães, e todas as mais tenças e dinheiros 
que êle da fazenda real tivera (i). ^ 

Arrastado pela atracção e simpatia que me merece tudo que diga respeito 
a D. João II, Já matei a Fernão de Lima, já lhe pus sucessor na casa, sem 
nada do pouco mais que sei da sua vida ter dito. Voltemos atrás. 

Nomeado Fernão de Lima copeiro mor do príncipe em 147 1, trataram-lhe 
o casamento, para o que lhe desembargaram três mil coroas, pagas a razão 
de cento e vinte reais cada uma, por alvará dado em Évora a 26 de Abril 
de 1473 (2). A 16 de Março do ano seguinte já estava casado (3). Foi sua 
mulher D. Constança de Azevedo, filha de Diogo Lopes de Azevedo, senhor 
de Aguiar de Pena e S. João de Rei. Sobreviveu ela muitos anos a seu 
marido, porém parece que não casou segunda vez apesar do que os nobiliá- 
rios dizem, pois que em i5i3 e 1624 lhe foram confirmadas as referidas 
duas mil coroas (4), sendo ela de ambas as vezes apenas nomeada mulher 
que foi de Fernão de Lima (5). 

Apesar de todas estas dádivas esponsalicias, que se traduziam em tenças, 
não abastavam os rendimentos ao casal. Acudiu-lhe porém o pai de Fernão, 
Leonel de Lima, que pediu a D. Afonso V para trespassar em seu filho os 
foros, rendas e direitos da alcaidaria mor de Vila Nova da Cerveira, com a 
condição de voltarem ao pai no caso de sobrevivência. Acede el Rei ao 
pedido, e por carta dada em Samora a 6 de Novembro de 1476 são consi- 
signados os referidos rendimentos ao copeiro mor do príncipe (6). 

Finalmente ocupou o trono D. João II, que no ano de 1484 tratou de 
fazer casa ao seu dedicado servidor. Começou por confirmá-lo em 9 de 
Junho, como ficou dito, no ofício de copeiro mor. Seguidamente, a 14 de 
Agosto, em duas cartas, nomeia-o alcaide mor, e fronteiro mor e capitão de 
Guimarães; no dia seguinte faz-lhe mercê das dízimas da mesma vila; a 18 
determina que por morte do visconde seu pai, haja Fernão de Lima vinte 
mil reais brancos de tença com sobrevivência para seu filho; e ainda no 
mesmo mês, a 3i, faz-lhe doação da terra de San Ceriz. Em Novembro, a 
3o, dá-lhe em Almeirim uma tença de cinquenta mil reais brancos; e final- 



(i) Chancelaria de D. João 111, liv. 41.°, fl. 72. 
{2) Ibidem, liv. 3i.°, fl. 70 v., e liv. 41.°, fl. 81 v. 

(3) Consta do alvará daquela data de desembargo a D. Constança, mulher de Fernão 
de Lima, de duas mil coroas, a cento e vinte reais cada uma, de moto para seu casamento 
{Chancelaria de D. João 111, liv. 41.°, fl. 81). 

(4) No Livro das tenças, feito em Maio de i533, declara-se na fl. 18 ser a tença das 
2.000 coroas paga a seus herdeiros. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 41.», fl. 81. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9.°, fl. n . 



^6 Brasões , 

mente a ii de Dezembro autoriza o pai a trespassar nele dez mil reais dos 
cinquenta mil da sua tença que tinha com o título de visconde, e confirma- 
-Ihe as rendas da alcaidaria mor de Vila Nova da Cerveira (i). Logo no 
ano seguinte, a i8 do primeiro mês, dá-lhe D. João II os direitos e rendas 
da portagem de Guimarães; e por último, a 19 de Dezembro de 1488, nas 
Entradas, faz-lhe mercê das carnes, dinheiros e rendas de Maravide (sic) e 
Braga, e de quaisquer outras coisas « que nós tenhamos e nos pertença haver 
nas freguesias de que por esta nossa doação lhe temos feito mercê em a vila 
de Guimarães » (2). 

Para núcleo e princípio de casa já não foi mau tudo isto, que hoje repre- 
sentaria um rendimento bem sofrível. Pouco tempo contudo gozou dos seus 
bens Fernão de Lima, que entre outros filhos deixou a Diogo Lopes de Lima, 
que lhe sucedeu, e a D. Jerónimo e D. João de Lima, capitão de Calecut, 
ambos valentes soldados, de cujas façanhas com devido louvor fazam ampla 
menção os historiadores das nossas conquistas. 



Diogo Lopes de Lima, que já em 1494 era fidalgo da casa de D. João 11(3), 
teve deste rei um alvará assinado em Alvor na ve'spera da sua morte, a 24 
de Outubro de 1495, pelo qual lhe confirmou o castelo de Guimarães e todas 
as outras tenças e dinheiros que seu pai Fernão de Lima tivera da coroa. 
Apresentado o alvará ao novo soberano, foi por este confirmado em Montemor 
o Novo em cartas de 22 de Novembro seguinte (4). Em virtude destas 
mercês foi Diogo Lopes, alcaide mor de Guimarães, senhor da portagem da 
mesma vila, das carnes, dinheiros e rendas de Maravide e Braga, e da tença 
de cinquenta mil reais, e alcaide mor das sacas da comarca de Entre Douro 
e Minho (5). Além disto, a 23 de Novembro de 1496, recebeu carta de pri- 
vilégio para seus caseiros, amos, etc. (6). 

No ano seguinte, por duas cartas ambas de 28 de Junho, lhe foram con- 



(i) Várias cartas que se encontram registadas de fls. i38 v. a 141 do liv 22.» da Chan- 
celaria de D. João II. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 41.°, fl. 72 e 81. 

(3) Carta de Setúbal a 7 de Agosto de mercê de bens confiscados em Penaguião [Alem 
Douro, liv. i.°j fl. 168). 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 41.", fl. 72 e 81. — Ainda tornou tudo a ser confir- 
mado ao mesmo Diogo Lopes de Lima por cartas de 3i de Outubro de 1497, e 10, u e 12 
de Fevereiro de 1524 {Ibidem). 

(5) Esta contudo só lhe foi confirmada a 20 de Dezembro de 1499 (Chancelaria de 
D. Manuel, liv. 14.'^ fl. g3). 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 4.», fl. 5, incluída na de confirmação de 17 de P'eve- 
reiro de i5a4. 



Limas 97 

firmadas as duas restantes tenças de seu pai, uma de vinte mil reais e a 
outra de dez mil(i); e por outra carta de ó'de Novembro foí-lhe convertida 
numa tença de vinte e cinco mil reais a siza judenga de Guimarães (2). Em 
i5oi a 5 de Outubro coube a vez à confirmação das três mil coroas do casa- 
mento do pai (3); e finalmente, a 6 de Fevereiro de i5ii, foi-lhe dada mais 
uma tença de vinte mil reais (4). 

Em todos estes documentos é Diogo Lopes de Lima intitulado fidalgo da 
casa, e em alguns alcaide mor de Guimarães; foi êle porém do. conselho de 
D. Manuel e D. João III, e já na lista de i5i8 aparece o seu nome entre os 
dos cavaleiros do conselho (5), e com a designação de ser do conselho se en- 
contra nomeado nos mais documentos que citarei. 

Em 1622 já Diogo Lopes de Lima era certamente casado com D. Isabel 
de Castro (6); e havia de ter tido lugar o casamento muitos anos antes, pois 
que seu filho D. Fernando de Lima aparece como moço fidalgo na lista de 
i5i8(7). D. Isabel de Castro, ou D. Isabel de Castro Pereira, que também 
assim se encontra nomeada em documentos, foi 3.^ senhora de Castro Daire 
com a jurisdição cível e crime, e a apresentação de juizes e tabeliães, o que 
tudo lhe foi confirmado por cartas de 23 e 24 de Janeiro de i528(8j, e admi- 
nistradora do morgado de Airão e Canelas (9). Era ela filha de João Pereira, 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 29.°, fl. 57 v., e liv. 3o.», fl. 8. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 41.", fl. 81 incluída na de confirmação de 12 de Fe- 
vereiro de 1524. 

(3) Estas três mil coroas haviam já sido confirmadas aos herdeiros de Fernão de Lima 
por alvará de 28 de Junho de 1497, foram-no agora a Diogo Lopes, a quem tornaram a sê-lo 
em Fevereiro de 1524. Ele depois trespassou-as a sua filha D. Violante de Castro em casa- 
mento com Diogo de Miranda, camareiro mor do infante D. Henrique, e ela alcançou carta 
de padrão da tença respectiva às três mil coroas em 17 de Fevereiro de 1540 {Chancelaria 
de D. João III, liv. 41.°, íi. 81 v., e liv. 3i.», ú. 70 v. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 8.°, fl. 17. 

(5) Sousa, Provas da Historia genealógica.^ vol. 2.°, pág. 354. 

(6) Consta de uma carta de 7 de Novembro na qual Diogo Lopes, alegando que João Pe- 
reira seu sogro tinha de el Rei a terra de Castro Daire, que rendia em cada ano uns vinte e 
dois mil reais de foro, a qual havia de herdar o filho Diogo Pereira, pede a el Rei, que lhe 
defere, para que D. Isabel possa suceder ao irmão caso este morra sem descendência legí- 
tima {Chancelaria de D. João III, liv. 14.», fl. 52, e liv. 38.°, fl. 43 v ). 

(7) Sousa, Provas, vol. 2.°, pág. 365. 

(8j Chancelaria de D. João III, liv. 14.°, fl. 52 e 57. 

(9) Este morgado foi instituído por João Pereira, fidalgo da casa de- el Rei, senhor de 
Castro Daire, por escritura lavrada em Guimarães, na sua casa na rua Escura, a 11 de Junho 
de 1526, e foi aprovado e confirmado por el Rei em 8 de Novembro de .1527, O morgado, 
de que era cabeça a quinta de Airão no termo de Guimarães, compreendia muitos prédios, 
e entre eles também a quinta de Canelas no lêrmo de Viseu; dele foram nomeados pelo 

VOL. Ill l3 



98 Brasões 

fidalgo da casa de el Rei, 2." senhor de Castro Daire e instituidor do mor- 
gado de Airão, e de sua mulher D. Maria de Castro (i), e neta de Fernão 
Pereira, cavaleiro fidalgo do duque de Bragança, alcaide mor de Guimarães 
e 1.° senhor de Castro Daire, que lhe deu D. Afonso V em 4 de Julho de 
1449(2). Sucedeu D. Isabel na casa em virtude da concessão referida feita 
por el Rei a seu marido em 1622, e por ter falecido sem filhos ainda em 
vida do pai seu irmão Diogo Pereira, que já era morto em 16 de Julho de 
1626, como consta de um instrumento feito em Guimarães nesta data, pelo 
qual se sabe também que João Pereira já era outrosim falecido, pois se 
declara que sobrevivera seis meses ao filho (3). Morreu portanto João Pe- 
reira entre 1 1 de Junho, data da instituição do vínculo, e 26 de Julho de 1626, 
e o filho aí por Dezembro ou Janeiro precedentes. 

Tendo D. Isabel sucedido já no senhorio de Castro Daire, foi dado a seu 
marido um alvará a 5 de Fevereiro de i528 para ele, durante a vida dela, 
poder nomear os juízes daquela terra, ampliada a concessão aos tabeliães 
por carta de 29 de Abril do mesmo ano (4). A vila de Castro Daire tinha 
vários privilégios concedidos, por D. Denis, e entre eles o de nenhum rico 
homem nem prestameiro poder lá poisar; foram-lhe agora confirmados, re- 
vogando-se aquela restrição a favor da pessoa que houvesse a terra, por 
carta de i3 de Julho de 1529 (5). Ainda por outra desse mesmo ano, a 8 



instituidor primeiros administradores sua filha e genro com reversão de um para o outro, e 
aos futuros possuidores se lhe impôs a obrigação dos apelidos de Lima Pereira (Chancelaria 
de D. João III, liv. 14.°, fl. 53 v.). 

(i) Na casa do capítulo do convento de S. Domingos de Guimarães foi ela sepultada 
com este letreiro na campa : Aqui a mJo virtuosa SJ^ D. M.^ de Castro m.^r que foi do 
S.r João P.r^ Senhor de Castro Dairo, e Jazerá até quando D.s quiser, q. obiit anno Dni j5i4 
(Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 144). 

(2) A terra de Castro Daire foi dada de juro e herdade com ambas as jurisdições por 
D. Afonso V na data apontada a Fernão Pereira; depois, nos paços de Sintra a i3 de No- 
vembro de 1461, deu-lhe o mesmo rei a nomeação dos tabeliães da vila; e finalmente a 3o de 
Outubro de 1475, em Samora, privilégio para pôr os juízes na sua terra. A 10 de Setembro 
de 1495 foi tudo confirmado ao mesmo Fernão Pereira por D. João II, e em i3 de Março 
de 1497 PO'" ^- Manuel. A Fernão sucedeu seu filho João Pereira, a quem as precedentes 
doações foram confirmadas por cartas de 10 e i5 de Maio de i5io e 12 de Abril de i5n. 
Consta tudo do liv. 14." da Chancelaria de D. João II, fl. 52 e 57. 

Estes Pereiras de Castro Daire eram parentes dos duques de Bragança, não por descen- 
derem do Barbadão de Veiros, o qual, conforme um documento (Provas da Historia Genea- 
lógica, vol. I, pág. 394, n.° 12), não foi avô materno do i." duque; mas sim pelo casamento 
daquele Fernão Pereira com Maria Ribeira « minha parenta » como declara o duque num 
alvará de 3 de Maio de 1447 (Historia genealógica, vol. VI, pág. 671). 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 14.°, fl. 52. 

(4) Ibidem, fl. 57 e 91. 

(5) Ibidem, liv. 48.", fl. 46 v. — Aí vêm transcritas duas cartas de D. Denis: uma dada 



Limas gg 

de Outubro, foram concedidas certas isenções ao ouvidor do senhor da 
terra (i). . . 

Continuou Diogo Lopes de Lima no conselho de D. João III, a quem se 
dirigiu na qualidade de alcaide mor de Guimarães, expondo-lhe a dificuldade 
em que às vezes o punha o regimento e ordenação da alcaidaria. Ele era 
obrigado a apresentar em câmara nove pessoas para delas escolherem o que 
havia de servir de alcaide por três anos, e nenhum desses indivíduos havia 
de ser solteiro, por ser contra a ordenação; ora podia suceder ele apresentar 
algum deste estado, e não o aceitarem; pedia portanto a el Rei que orde- 
nasse que fossem todos aceitos posto que algum solteiro fosse. Concede-o 
el Rei por carta de 21 de Abril de i53o(2). 

Em i523 sucedeu um caso notável (3), e que podia ter tido graves conse- 



na Guarda a 1 1 de Agosto da era de i333 (1295) em que el Rei arrenda aos juízes, povo e 
concelho do julgado de Castro Daire por quinhentas libras de Portugal todas as suas direi- 
turas, salvo a colheita; e a outra dada no Porto a 21 de Julho da era de 1346 (i3o8) para 
os do julgado lhe darem mais certas propinas. 

(i) Chancelaria de D. João III, liv. 48.°, fl. 94 v. 

(2) Ibidem^ liv. 42.°, ti. i25. 

(3) Não se pode duvidar de ter realmente sucedido qualquer coisa grave resultado da 
desavença entre o bispo do Funchal e Diogo Lopes de Lima ; temos porém de pôr o sucesso 
não no ano de i523, mas sim no ano de 1524. Neste a 25 de Janeiro escreve do Porto 
Gaspar de Figueiredo a el Rei, dando-lhe parte da desavença, e pedindo a S. Al. lhe man- 
dasse dizer o que era de seu serviço, caso eles e os seus partidos viessem a tomar armas, 
como se dizia {Corpo chronologicoy mac. 29, doe. 14, e pág. 378 do vol. IV das Obras do 
Cardial Saraiva). — Segue a carta que por muito interessante transcreverei: , 

«Até agora não dei conta a V. A. da diíierença do bispo do Funchal com Diogo Lopes 
de Lima, porque, havendo respeito á causa delia, e assim também a intervir em concórdia 
o arcebispo de Braga, que trabalha muito nisso, cuidei que cessasse logo. E agora que 
vejo, que cada dia vai crescendo em vulto, ainda que por ventura não fundirão tanto como 
cuidam, pareceu-me coisa obrigatória escrever a V. A. o que disto sei e oiço, posto que, 
assim o bispo, como Diogo Lopes, vivam e estejam fora dos logares d'esta comarca possam 
entrar; e porem. Senhor, porque, indo isto adiante, não podia deixar de se fazer algum mal, 
escolhi por menos erro fazer a V. A. o que passa acerca disto, que calar-me sem lh'o noti- 
ficar, ainda que o corregimento d'isso não toque ao cargo que V. A. manda que tenha por 
agora n'esta comarca. 

« O principio da differença, segundo se diz geralmente, foi sobre uma conezia da egreja 
de Guimarães, as quaes fconepas), assim o cabido como o prior (o bispo era então Dom Prior 
de Guimarães), distinctamente confirmam; e porque o bispo tinha já dadas duas, ou mais, 
e o cabido a seu rogo consentiu n'isso, querendo-se entregar o dito cabido de outras tantas, 
confirmou um filho de Diogo Lopes em uma conezia, que então vagara, sem o notificar ao 
bispo, o qual dizem, que recebeu d'isso desprazer, pela ter já dada a um creado seu, Diogo 
Lopes, tanto que soube sua tenção, veio-se a Braga, e d'ahi escreveu ao bispo por um es- 
cudeiro seu creado, pedindo-lhe a dita conezia para seu filho. E, porque duvidou de lh'a 
dar, mandou um notário de Braga para dar fé de uma appelação, que o dito seu creado, em 



loò Brasões 

qíiências, se não há exagero em quem a conta (i). Transcreverei do Nobi- 
liário citado: 

a Este Diogo Lopes de Lima, alcaide mór de Guimarães, teve umas diffe- 
renças com o bispo do Funchal D. Diogo Pinheiro, que era também prior 
de Guimarães e de Barcellos e vigário de Thomar, sobre uma conezia de 
Guimarães, em que os cónegos e cabido apresentaram a D. Manuel de Lima 
seu filho segundo. O bispo houve paixão dos cónegos não apresentarem 
quem elle queria, e de traçarem mais a parte do dito Diogo Lopes de Lima 
que á sua. E sobre citações e outras coisas, que sobre isto succederam, 
vieram a tamanho rompimento, que o bispo se fez forte em a villa de Bar- 
cellos com Henrique Pinheiro seu sobrinho, alcaide mór da dita villa, e 



nome do cabido, havia de intimar de tudo o que o dito bispo mandasse sobre a dita conezia, 
não lh'a querendo conceder. 

« O bispo, ao tempo que elles chegaram a sua casa em Barcellos, estava em uma ca- 
mará, e com elle um sobrinho seu; e, depois de ler a carta de Diogo Lopes, pediu papel 
para lhe responder; e o escudeiro, como viu seu propósito, começou, como procurador do 
cabido, fazer seu officio, e o escrivão, que estava á porta, vendo isto, entrou para dentro. 
O bispo, como viu a cilada, lemetteu a uma dagua (adaga) do sobrinho, e deu um golpeou 
dois por um braço ao notário, e se lh'a não tiraram das mãos íizera mais damno. Acudiram 
a esta volta os seus, e trouxeram o escudeiro pelos cabellos a rasto um pedaço, e outro 
tanto dizem que fez o bispo ao notário. (; Era tim pastor de almas evangélico este bispo !) 
Assim se tornaram ambos a partir para Braga, onde o dito Diogo Lopes ficara esperando, 
o qual, como soube o que passara, se foi logo a casa de Leonel de Abreu a Regalados, e 
dahi se foram ambos a ver com o Visconde (de Vila Nova da Cerveira); e d'esta ida pro- 
cedeu dizer-se, que ajuntavam gente. 

«Isto é, Senhor, o que se diz geralmente, E o que eu sei, é que d'esta cidade foram 
muitas armas emprestadas para o bispo, e muitas se vêem aqui buscar, e outras trazem de 
fora a limpar e correger. 

« Dois escudeiros servidores do bispo me disseram, que sua tenção era ir a Guimarães 
com cento e cincoenta, ou cento e sessenta, de cavallo, e que para este caminho convidava 
seus parentes, amigos, e servidores; e outro tanto se diz que Diogo Lopes fará. 

« E posto, Senhor, que me parece que não hão de vir a rompimento algum, porque 
pode ser que não quererão que se cuide isto d'elles; e, havendo ahi algum ajuntamento, 
não pôde ser sem muita gente das terras e jurisdicção em que os corregedores d'esta comarca 
entendem, terei em mercê a V. A. escrever- me, acontecendo-se isto, o que farei. A saber: 
se irei ás terras do Duque (de Bragança) acompanhado, ou só, sem os officiaes d'esta cor- 
reição, fazer requerimento da parte de V. A., assim ao bispo, como a Diogo Lopes, que des- 
façam o dito ajuntamento; ou se somente atalharei, ou procederei contra os fidalgos e pes- 
soas desta comarca, que entrarem n'este alvoroço. E em tudo me mande V. A. o que hei 
de fazer, com brevidade, porque de um dia para o outro pôde succeder coisa, que seja neces- 
sário saber o que V. A. mais ha por seu serviço. 

« Nosso Senhor accrescente a vida, e o estado real a V. A., como deseja. Do Porto 25 
dias de janeiro de 524 annos. — Criado de V. A. — Gaspar de Figueiroa». 

(i) D. António de Lima, filho do próprio Diogo Lopes de Lima, no seu Nobiliário. 



Limas lor 

outros parentes e amigos, aos quaes o dito Diogo Lopes determinou ir buscar 
a Barcellos, e dar-lhes batalha se lhe abrissem, e a cercar, se se encastel- 
lassem. 

« Para isso se ajuntou a mais gente, que em tão pouco tempo se pôde 
aperceber, assim de cavallo como de pé, porque lhe acudiu logo João de 
Mello de Sampaio, dom abbade de Pombeiro, com trinta de cavallo e muitos 
peões, como visinho mais chegado; e o visconde D. Francisco de Lima seu 
primo; Leonel de Abreu, senhor de Regalados, seu sobrinho; Fernão de 
Sousa, senhor de Gouveia, primo com irmão de sua mulher; João Rodrigues 
de Sá, alcaide mór do Porto, D^ Manuel de Azevedo, seu primo com irmão 
de sua mulher; António de Azevedo, senhor de S. João de Rei e Bouro; 
Pêro da Cunha, senhor de Celorico de Basto; e António Pereira, senhor de 
Cabeceiras de Basto e de Lamegal, que Pedro da Cunha Coutinho por sua 
muita velhice mandava. De Gallisa vinha com trinta homens d'armas D. João 
Sarmienio, senhor de Salvatierra, D. Pedro de Sotomayor com outros, e 
D. Pedro Bernardez de Castro, Diogo Alvarez de Sotomayor e outros muitos 
senhores daquelle reino. Até Remir Nunez de Gusman', do de Leão, se 
apercebeu. Mandaram-se todos elles oííerecer para vir, por serem estes 
senhores parentes dos Limas. 

« E por não serem bastantes para resistir a tanto poder os corregedores 
€ justiças, se poz no meio com todo seu poder o arcebispo de Braga D. Diogo 
de Sousa e Vasconcellos, e tanto fez que os concertou e poz em concórdia, 
com nome de tão singular prelado, de tanta autoridade, que nenhum do seu 
tempo em Hespanha lhe ganhou, e poucos egualaram. 

a Esta lembrança se poz aqui por serem estas as mores assomadas, ajun- 
tamentos de fidalgos e gente de guerra que se viu n'estes reinos de muitos 
annos. O que foi o anno de i523, reinando el-rei D. João III, nosso senhor, 
que usando da sua virtude e mansidão lhes perdoou livremente pelo muito 
amor e affeição que tinha a D. Fernando de Lima, que se achou com seu 
pai, e%pelo muito que n'isso fez o conde da Castanheira, que, como muito 
parente de ambas as partes, fez que se apaziguasse tudo». 

Diogo Lopes de Lima ainda era vivo em princípios de 1540(1); D. Isabel 
■de Castro sua mulher havia-o precedido porém no túmulo, pois que em i5 
•de Fevereiro de i536 já a seu filho fora confirmada a sucessão no senhorio 
■de Castro Daire (2). 

Destes cônjuges foram filhos entre outros os três seguintes: 

í." — D. Fernando de Lima que foi 4.° senhor de Castro Daire por carta 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 3i.°, fl. 70 v. 
(2) Ibidem, liv. 38.°, fl. 48 v. 



102 Brasões 

de confirmação dada depois do falecimento de sua mãe em i5 de Fevereiro- 
de .i535(i). Não herdou porém a casa de seu pai, porquanto morreu em 
sua vida em Julho ou Agosto de 1637, sendo capitão de Ormuz (2). Suce- 
deu-Ihe no senhorio seu filho maior D. Diogo Lopes de Lima, 5." senhor de 
Castro Daire, de que teve confirmação em Fevereiro de 1542 (3). Morreu 
em 4 de Agosto de 1678 na batalha de Alcácerquibir, não deixando filhos (4),. 
pelo que vagou o senhorio para a coroa, e Felipe II fez dele mercê em i58i 
a seu tio D. António de Lima, como direi. 

2." — D. Manuel de Lima, o tal cónego apresentado de Guimarães por 
causa de quem houve o motim referido. Largou a vida eclesiástica, fez-se 
soldado, combateu valorosamente na índia onde foi capitão mor de armadas 
no governo de D. João de Castro, e com esforço não menor tratou, come- 
tamos outros, de fazer por lá fortuna, com a qual regressou ao reino, onde 
adquiriu a capela mor do convento de S. Francisco de Lisboa para seu. 
jazigo. Lá foi sepultado da parte da epístola na parede onde se viam trcs 
figuras de pedra em seus nichos, abertos entre quatro colunas, e um escuda 
com estas armas: terçado em pala, o i.° palado de seis peças, o 2." cortada 
de um leão sobre três faxas enxequetadas de três tiras, o 3.° cortado das 
três faxas sobre o leão. E o epitáfio dizia: Aqui ja^ D. Manuel de Lima 
filho de Diogo Lopes de Lima do Conselho dos Reis D. Manuel e D. Joam^ 
Senhor de Castro Daire, e Alcaide mor de Guimarães e de D. Isabel de 
Castro Per-eira sua mulher j , o qual D. Manuel sérvio 25 annos na índia, 
quasi todos de Capitão; os esforçados feitos que fe\ no Cerco de Callecuty 
na guerra de Cai?ibaia, na gram batalha de Dio, e em outras partes as 
Chronicas o di:{em; esta Capella mor he sua, tem hUa missa cada dia por 
sua alma, e com o remanescente de sua fa'{enda, que forão mais de 14 mil 
anisados se acabou esta Igreja. Faleceu a 14 de Março de i568 annos {b). 
Este D. Manuel de Lima foi o que teve o desafio com Pantaleão de Sá na 



(i) Chancelaria de D. João III, liv 38.", fl. 48 v. 

(2) Diogo do Couto, Década quintay fl. 48 mihi. 

(3) Chancelaria de D. João JIJ, liv. 38.", fl. 43 v. 

(4) [D. Diogo Lopes de Lima casou por i554 com D. Helena de Sousa, filha única de 
Tomé de Sousa, primeiro governador geral do Brasil, a qual faleceu pouco antes de Feve- 
reiro de 1612 sem ter tornado a casar. Isto consta dos documentos publicados na Revista 
de História, volumes 3 e 4. — Nota da revisão]. 

(5) Montês Matoso, Memorias sepulchraes do convento de S. Francisco de Lisboa, fl. 35 
e 35 V., até onde está o traço no texto, e daí para baixo em Sousa, Memorias sepulchraes, 
fl. 80. — Advertirei que o P. Montês se enganou ao copiar, e escreveu D. João em vez de 
D. Manuel de Lima, e não concluiu o epitáfio por estar encoberto o resto com o presbitéria 
que se fizera de novo. 



Limas io3 

praia de Belém; assim lacònicamente o leio no Nobiliário de Diogo Gomes 
de Figueiredo. 

3.° — D. António de Lima, que depois se chamou D. António de Lima 
Pereira. É o autor do famoso Nobiliário. Nos seus primeiros anos foi 
destinado para a vida eclesiástica, e tanto que por alvará de 28 de Agosto e 
carta de 14 de Setembro de i525 foi apresentado na igreja de Airão no arce- 
bispado de Braga (1). Em i53o era abade da igreja de S. Pedro de Castro 
Daire, o que consta por uma carta de 4 de Maio em que se manda coutar o 
Poço dos Monges, no rio da ribeira de Paiva junto à dita vila (2). 

Abandonou posteriormente a carreira eclesiástica, e foi alcaide mor de 
Guimarães, que venceu por sentença, alcançando juntamente com a renda 
da alcaidaria, a da portagem e dizima das sentenças da mesma vila, pelo 
que fizera preito e homenagem ao duque de Guimarães D. Duarte. Por 
morte deste senhor passou o senhorio da vila para a coroa, e D. Sebastião 
por carta de 2 de Maio de iSyS confirmou a alcaidaria mor a D. António de 
Lima (3). A demanda sobre a alcaidaria havia de ter sido entre D. António 
e seu sobrinho D. Diogo Lopes de Lima, que pretenderia suceder ao avô. 

Foi também D. António 6.° senhor de Castro Daire depois da morte do 
sobrinho, senhorio que foi confirmado de- juro e herdade em 18 de Agosto 
de i58i a D. António de Lima Pereira, do conselho de el Rei, podendo-lhe 
suceder sua filha maior legítima, visto ele não ter ao tempo filho varão legí- 
timo (4). Análoga concessão lhe foi feita por alvará de 16 de Fevereiro de 
i582 com respeito à alcaidaria mor, pois que por ele foi autorizado a no- 
meá-la em filho ou filha, sucedendo-lhe neto e bisneto do nomeado (5). 

Tinha D. António de Lima a alcunha do Riscado, e deixou duas filhas, 
<:om uma das quais, D. Ana, a segunda, casou clandestinamente D. António 
de Ataíde, levando o pároco enganado à grade do Salvador, onde ela estava 
recolhida (6). 

Foi D. António de Lima sepultado na capela mor de S. Francisco de 
Lisboa, pondo-se-lhe este epitáfio: Sepultura de D. António de Lima, do 
Conselho dos Reys D, Sebastião, Dom Henrique, e Dom Felippe Alcaide 
mór de Guimaraens, Senhor de Castro Dairo, ao qual Jicou a administração 
desta Capella mór, que he de D. Manuel de Lima, seu irmão, para se haver 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. i3.», fl. 5i. 

(2) Ibidem, liv. 52.°, fl. 188 v. 

(3) Doações de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 42.°, fl. 20. 

(4) Doações de D. Felipe I, liv. 25.°, fl. 122. 

(5) Ibidem, liv. 23.», fl. 271 v. 

(6) Livro de familias escripto por António Portocarrero que o trasladou dos livros de 
D. Francisco de Meneses, na Torre do Tombo, Ms. 21-E-ii. 



104 Brasões 

de continuar em seus descendentes, e todos podem ter nesta Capella suas se- 
pulturas, faleceo a i8 de Setembro de i582 (i). 

Casou D. António com D. Maria de Vilhena, de quem deixou duas filhas: 
D. Isabel de Lima, que pouco tempo sobreviveu a seu pai; e D. Ana de 
Lima, a quem logo me referirei. Teve D. António vários filhos bastardos, 
e entre eles o famoso D. Paulo de Lima Pereira cuja vida escreveu Diogo 
do Couto (2). 

D. Ana de Lima Pereira foi 7.* senhora de Castro Daire por carta de 
confirmação de 7 de Outubro de 1 593(3), senhora da alcaidaria mor de Gui- 
marães confirmada ao marido por carta de 6 de Fevereiro do mesmo ano (4), 
e ultimamente condessa de Castro Daire. Foi casada com D. António de 
Ataíde, i." conde de Castro Daire por carta de 20 de Junho de 1625 (5), e 
5.° conde da Castanheira, que foi governador do reino com o conde de Vai 
de Reis de 14 de Agosto de i63i a i de Abril do ano seguinte, e sozinho 
desde então até Maio de i633 em que tomou posse de presidente da mesa 
da consciência (6). Morreu a 14 de Dezembro de 1647, ^ ^^^ sepultado na 
capela mor da igreja de S. Francisco de Lisboa com este epitáfio: D. An- 
tónio de Athaide D. Antonii IL Comitis de Castanheira ac D. Barbarce de 
Lara Filice D. Petri de Meneses III Marchionis de Villa Real Nepoti, Con- 
jugi D. Anna^ de Lima D. Antonii de Lima ac D. Marice de Vilhena Filice 
hceredi, posterisque eorum ob administrationis successionem jus sepeliendi in 
Capella maiori Capitulum Provinciale dejinipit, Summus Pontifex robô- 
ravit. CID.IDC.IX{-]). 

Estava escrito nos azulejos da parede da capela mor do lado do evan- 



(i) Sousa, Historia genealógica, vol. VIII, pág. 3 das Advertências. 

(2) Vida de D. Paulo de Lima Pereira Capitam mór 4^ armadas do Estado da índia, 
onde por seu valor, e esforço nas batalhas de mar e terra, de que sempre conseguio gloriosas 
victorias, foy chamado o Hercules Portugue^. Author Diogo do Couto Chronista e guarda 
jnór da Torre do Tombo do Estado da índia, bem conhecido por suas Décadas. .. Lisboa, 
1765. 

(3) Doações de D. Felipe I, liv. 25.", fl. 122. 

(4) Ibidem, liv. 23.", fl. 271 v. 

(5) A D. António de Ataíde, do meu conselho e capitão geral da armada do reino, aten- 
dendo aos seus serviços e ao que padeceu no negócio sobre a perda da nau da índia, que 
os inimigos queimaram, em que se verificou que não teve culpa e que cumpriu com suas 
obrigações, mercê do título de conde da sua vila de Castro Daire até que herde outro qual- 
quer que lhe pertença, etc, dada a 20 de Junho de 1625 {Doações de D. Felipe III, liv. i5.% 
fl. 142). — D.António de Ataíde, denunciando na Inquisição a 17 de Agosto de 1 596, declarou 
então ser de trinta e dois anos de idade (Archivo histórico portuguez, IX, pág. 475). 

(6) João Pedro Ribeiro, Dissertações, vol. II, pág. 198, e vol. 3.", parte II, pág. 2i3 mihi, 

(7) Montês Matoso, Memorias sepulchraes, fl. 35 v. 



Limas io5 

gelho, em frente do túmulo de D. Manuel de Lima, e no plano da capela 
viam-se mais estes dois letreiros: Sepultura de D. António de Lima (havia de 
ser Ataíde que lá estava) e D. Atuía de Lima sua mulher; e o outro: D. An- 
tónio de Ataide e D. Anna de Lima sua mulher, como administradores per- 
pétuos desta Capella mandarão fa^er esta sepultura, em a qual se poderão 
enterrar os mais Administradores que delles descenderem, e suas mulheres 
e Jilhos-familias ( i ) . 

Os condes de Castro Daire e da Castanheira, provenientes de D. António 
de Ataíde e D. Ana de Lima, extinguiram-se na varonia, passando a casa 
para os marqueses de Cascais, e destes para os de Niza. 



Por tudo quanto fica escrito se vê que a varonia dos Limas acabou de 
todo em Portugal, e que dos dois ramos principais qu» a linhagem cá pro- 
duziu, estão as representações na senhora marquesa de Castelo Melhor e no 
conde da Vidigueira. 



(i) Montês Matoso, Memorias sepulchraes, fl. 36. 

VOL. Ill 14 



XX 
TÁVORAS 



i 




mil 




Brasões da Sala de Sinika, Vol. llf. 



Estas armas foram em pane apagadas e não se podem bem distinguir. 
Contudo, conforme o Livro do armeiro mor a fl. 58 v., o Livro da Torre 
do Tombo a fl. 1 1 v., os Tropheos lusitanos de António Soares de Albergaria 
a fl. 52, as Arvores do conde de Vila Nova, etc, direi, que as armas dos 
Távoras foram em campo de prata cinco faxas ondadas de azul. Timbre: 
um golfinho de sua cor saindo de uma capela de ramagem de vermelho, flo- 
rida de oiro. 

O rei darmas índia a fl. 28 do seu Thesouro da nobreza, o padre mestre 
Frei Leão de Santo Tomás a pág. 492 do tomo II da Benedictina lusitana, 
o cronista Frei António Brandão no cap. XX do liv. 1 1 da Monarchia lusi- 
tana, o padre D. António Caetano de Sousa a pág. igS, 225, e 61 1 da edição 
de 1755 das Memorias dos grandes, e outros, dizem ter sido de oiro o campo 
do escudo destas armas. 

Os senhores da casa de Távora desde os princípios do século xvii modi- 
ficaram o seu brasão, acrescentando em bordadura a divisa QUASCUNQUE 
FINDIT, e passando o golfinho do timbre para o centro do escudo. Destas 
armas, assim alteradas, usaram unicamente os marqueses de Távora, os 
condes de Alvor, e, talvez, os de S. Vicente. 

Os ramos antigos dos Távoras trouxeram sempre as primeiras armas, e 
aos ramos modernos foi proibido o uso de quaisquer pela sentença de 12 de 
Janeiro de 1759. Insisto neste ponto por ver numa obra recente, aliás esti- 
mável, dadas as armas com a divisa QUASCUNQUE FINDIT a uma casa, 
a da Carreira, que se não pode entroncar na dos Távoras, nem mesmo antes 
do século XVII. 

Acrescentarei de passagem que, não tendo sido derrogada ainda em ne- 
nhuma das suas partes a sentença de 12 de Janeiro de 1709, ninguém tem 
direito a usar, nem do apelido, nem das armas de Távora. Os verdadeiros 
Távoras assim o praticam, com a moderníssima e inexplicável excepção de 
um só, o representante da casa de Abrantes; substituíram os mais o apelido 
de Távora pelo de Lorena. 

Na ilha Terceira existiram, e creio que ainda existirão, uns Távoras, dos 



lio Brasões 

quais alguns passaram ao continente, e que, apesar da sentença, continuaram 
a usar do apelido. Estes Távoras não têm contudo parentesco nenhum com 
os verdadeiros. Procedem eles de Luís Valadão, possuidor da quinta da 
Salga na referida ilha, e de sua mulher Beatris de Távora, filha de um Fran- 
cisco Gonçalves de Távora, que, meado o xvi século, viera da Madeira es- 
tabelecer-se na Terceira (i). 



(i) Francisco Ferreira Drumond, Aiwaes da ilha Terceira, quarta época, cap. III. 

A propósito de tudo, que mais proximamente fica referido no texto, saiu no jornal as 
Novidades de ii de Maio de i885 o seguinte artigo: 

« Disse ha dias o Diário llliístrado n'um dos artigos descriptivos dos brazões da sala de 
Cintra, que ninguém tinha o direito de usar o appellido ou as armas dos Tavoras. Foi esta 
aííirmativa posta em duvida, porque, dizia-se, em 1842, um membro da familia dos Tavoras 
da ilha Terceira, requerera ao então ministro do reino, António Bernardo da Gosta Cabral, 
para usar do nome de Távora, acrescentando-o aos outros seus appellidos, e que o reque- 
rimento tivera o seguinte despacho : — Não carece de auctorisação. — Paço, etc. 

« Este despacho suppunha-se fundado n'um decreto de D. Maria I, rehabilitando a me- 
mória dos Tavoras. 

« Como se desconhecia a data do decreto, e a forma da sua redacção, alguém lembrou-se 
de escrever uma carta ao sr. Joaquim Martins de Carvalho, o erudito e paciente collec- 
cionador, e a resposta obtida é tão curiosa que não podemos furtar-nos a transcreve-la 
aqui : 

« O marquez de Alorna, como procurador da memória e fama póstuma de seus sogros 
e cunhados, e pelo interesse de sua mulher e filhos, requereu á rainha D. Maria I, que fosse 
concedida revista da sentença de 12 de Janeiro de «759. 

« A rainha, por alvará de 9 de Outubro de 1780, concedeu a revista pedida, nomeando 
uma grande junta ou tribunal para a decisão, com assistência do procurador da coroa. 

«Essa junta proferiu a sua sentença em 23 de Maio de 1781, pela qual revogava a sen- 
tença de 12 de Janeiro de 1579, na parte que dizia respeito aos marquezes de Távora, Fran- 
cisco de Assis e Leonor de Távora, seus filhos Luiz Bernardo e José Maria de Távora, e 
seu genro D. Jeronymo de Athayde, conde de Atouguia, por não se provar que fossem cúm- 
plices na tentativa de morte contra el-rei D. José, ou para ella concorrentes; declarava que 
não haviam incorrido em nota, ou infâmia alguma; absolvia a sua memória, e restituía todas 
as famílias dos sobreditos ás suas honras, e ao uso do appellido de Távora, que lhes fora 
prohibido pela mencionada sentença condemnatoria. 

o Não teve, porém, eífeito a sentença de revista, em razão dos embargos que a ella poz 
o procurador da coroa, João Pereira Ramos; sem que a rainha D. Maria I tomasse a este 
respeito resolução alguma. 

« Posteriormente, o ministro do reino, marquez de Ponte de Lima, annuindo ao pedido 
de D. Luiz de Athayde, concedeu em i5 de Julho de 1791, que o respectivo escrivão passasse 
a certidão da sentença de revista, ordenando, porém, que na referida certidão se declarasse 
que essa sentença de revista estava suspensa, em razão dos embargos do procurador da 
coroa, os quais ainda se haviam de decidir. 

« Quiz D. Luiz de Athayde fazer impiimir a sentença de revista; mas não o pôde con- 
seguir. Só veio a realisar os seus desejos quando em 1808 estava Junot em Lisboa. O titulo 
dessa celebre sentença, impressa nas duas linguas portugueza e franceza, a qual se tornou 



Táporas 1 1 1 

I 

A EXECUÇÃO DA MARQUESA DE TÁVORA 

Amanheceu o dia i3 de Janeiro de 1769 enevoado, sombrio e triste. 
Tristeza própria da quadra, tornada mais lúgubre ainda por um eclipse da 
lua, que durou até depois das oito e meia da manhã. 



muito rara, é o seguinte: — Sentença da revista concedida ás casas Távora e Athouguia. — 
Lisboa: na impressão imperial e real. Ano de 1808. Por ordem do governo. 

« D. Luiz de Athayde limita-se a publicar a sentença com a declaração dos embargos, 
que vem logo em seguida ás assignaturas dos juizes; e decerto se esses embargos tivessem 
sido desattendidos e houvesse algum posterior decreto de D. Maria I, que fosse favorável á 
pretensão da familia dos Tavoras, não deixaria de o publicar. 

« No anno de 1843, antes das férias do mez de setembro, discutiu a associação dos advo- 
gados de Lisboa a seguinte consulta, que lhe foi apresentada: — « Hoje, á face dos princí- 
pios da carta, vigora a disposição da sentença que aboliu o appellido Távora, e alvará que 
a confirmou ; isto é, aquelles que ainda tiverem sangue dos Tavoras poderão usar do appel- 
lido como insígnia de nobreza, sem incorrer nas penas comminadas nos mesmos ? ». 

« A associação dos advogados decidiu-se quasi unanime contra este quesito. Apenas 
foi sustentada a opinião cpposta pelo sr. Holtreman. 

■ A favor do quesito allegava o sr. Holtreman com o principio constante do § 19 do 
artigo 145." da carta constitucional, que diz: — • nenhuma pena passará da pessoa do delin- 
quente. . . nem a infâmia do reu se transmittirá aos parentes em qualquer grau que seja. » 

« A isto respondia a quasi unanimidade da associação dos advogados, que os effeitos 
d'esta disposição legal não podiam retrotrahir-se, nem invalidar sentenças anteriores, que 
haviam surtido o seu effeito. 

« Esta consulta deu logar á publicação de várias cartas de advogados e diversos docu- 
mentos, os quais se podem ver na Gaveta dos Tribunaes do ano de 1843, n.<" 3i5, Sai, 827, 
333, 337, i3S, 341, 343, 344 e 345. 

« Uma carta do distincto advogado Sebastião de Almeida e Brito pouco adianta para a 
questão. Torna-se, porém, muito apreciável a carta d'um advogado de Setúbal, com as ini- 
ciaes M. D. S. e A. datada de 12 de novembro de 1843. 

« Censura elle asperamente a forma tumultuaria como haviam sido proferidas as três 
sentenças de 12 de janeiro de 1759 (do conselho especial, do tribunal das ordens militares, 
e do tribunal da inconfidência); mas emquanto á forma como entendia que perante as mo- 
dernas instituições politicas se podia annullar a sentença condemnatoria, dizia o seguinte: 

« Todavia a primeira daquellas sentenças condemnou os filhos e netos dos Tavoras ao 
perdimento das suas honras, porque os declarou incursos em infâmia, « mandou quebrar 
suas armas, arrazar e salgar sua residência confiscar seus bens; e tudo isto que se obrou em 
virtude d' uma lei, só as cortes e o rei podem agora derrogar, fazendo e executando outra, 
conforme o actual modo de existir como nação ». 

« Resta saber em que se fundou o ministro do reino, António Bernardo da Costa Cabral, 
para em 1842 dar o despacho no requerimento para uso do appellido de Távora: — Não 
carece de auctorisação. 

« Julgamos que o motivo d'este despacho não foi o supposto decreto de D. Maria I, o 



112 Brasões 

No largo de Belém durante toda a noite se ouvira martelar, e se sentira 
um rumor confuso de vozes dominando o pulsar do mar. Viram-se formas 
humanas perpassando pela praça, e lá para o meio do parapeito as labaredas 
vacilantes de archotes, alumiando o trabalho duns homens, cujas sombras se 
projectavam fantásticas e inquietas pelo terreiro fora. 

Aquele vento frio, que sempre reina durante os eclipses, foi atirando para 
o mar com a nebrina da noite, deixando contudo o ar húmido e fortemente 
impregnado de maresia. Já se diferençava vagamente o que quer que era 
levantado do chão, lá no semi-círculo do cais à beira mar, quando a praça 
começou a ser ocupada por tropa. Primeiro chegaram dois regimentos de 
infantaria, que se puseram em alas desde a porta do páteo dos Bichos do 
paço real, até ao ponto onde Hdavam os trabalhadores noturnos. Atrás 
destes regimentos, vieram outros dois, mas de cavalaria, os quais, tendo 
destacado fortes piquetes para tomarem as bocas das ruas, se postaram por 
detrás da infantaria. 

A. manhã ia rompendo, e as formas a princípio confusas do palanque do 
cais, tornavam-se distintas, e com horror se reconhecia nelas um cadafalso 
sobrecarregado por vários aparelhos de suplício. 

Efectivamente na véspera a suprema junta da inconfidência, retinida no 
palácio da Ajuda, lavrara a sentença contra os réus do atentado de regicídio, 
praticado na noite de 3 de Setembro de lySS, contra D. José I. E logo ao 
outro dia, sem a prévia publicação costumada, se tratou de dar cumprimento 
ao terrível decreto. 

Era pois com efeito um cadafalso, que se via armado no cais de Belém, 
com as costas viradas ao rio, à borda do qual, junto às escadas, eslava 
amarrado um barco carregado de lenha e barris de alcatrão. Fora o cada- 
falso armado sobre pilares de madeira, todo Hso, sem parapeito, nem pin- 
tura alguma. Sobre ele se viam algumas aspas e várias rodas pregadas em 
postes altos. Era sinistro o aspecto daquela máquina, agora pingando água 
da humidade da madrugada, e que logo gotejaria sangue. 

O concurso do povo era já enorme, e perto se estava das seis horas e 



qual não existe; mas a opinião contraria do ministro é da associação dos advogados de 
Lisboa — isto é, por entender que o § 19.° do art. 145.° da carta annullava os effeitos das 
penas infamantes para com os descendentes dos condemnados pela anterior sentença de 12 
de Janeiro de 1759. 

« Em todo o caso é para extranhar que, havendo um dos membros da família dos 
Tavoras obtido um despacho favorável do ministro do reino em 1842, se fosse no anno imme- 
diato de 1843 consultar sobre o mesmo assumpto a associação dos advogados de Lisboa. 

« E isto o que muito resumidamente temos a responder ao cavalheiro, que de Lisboa 
nos consulta acerca d'este objecto. 

Joaquim Martins de Carvalho. » 



Jávoras 1 1 3 

três quartos da manha, quando saiu do portão do páteo dos Bichos uma es- 
colta de dragões precedendo os ministros criminais dos bairros,' e o corre- 
gedor do crime da corte e casa, João Inácio Dantas, todos revestidos com 
os seus uniformes, e a cavalo. Atrás do corregedor vinha, entre dois padres de 
Rilhafoles, uma cadeirinha negra, como negros eram os pensamentos daquela 
que a ocupava. Atrás e aos lados do préstito marchavam mais dragões. 

Chegados aos degraus do cadafalso descavalgaram os ministros, e subiram 
a tomar os seus lugares aos lados do tablado, ficando o corregedor, como 
juiz da execução, na frente. 

Então saiu da cadeirinha, envolta em uma capa alvadia D. Leonor de 
Távora, a altiva marquesa que ousara dizer que os carvalhos eram árvores 
de que em Portugal se não fa\ia caso, a varonil senhora, que acompanhara 
seu marido à índia, e que, neste angustiosíssimo lance, mostrou ainda o 
grande valor do seu ânimo. 

No primeiro degrau da escada confessou-se ela, e às sete horas e trinta 
e quatro minutos, terminada a confissão, subiu ao cadafalso « com igual 
ânimo, ao menos no exterior, com que tinha subido ao portaló da Capitania, 
quando se embarcou para a índia para acompanhar ao Marquês seu marido, 
nomeado Vice-Rei daquele Estado (i). 

No alto da escada esperavam-na o meirinho das cadeias e três algôses, 
que a conduziram em volta do cadafalso, afim de ser bem vista e reconhe- 
cida pelo povo. Depois mostraram-lhe, um por um, os differentes instru- 
mentos de suplicio que estavam sobre o tablado, expHcando-lhe o modo como 
eles seriam aplicados a seu marido, a seus filhos, parentes e criados! Que 
horror I E este martírio, que a sentença lhe não impuzera, quem o ordenou ? 

A varonil mulher quebrou emfim. Ela tinha ânimo para suportar a sua 
desgraça; mas as descrições do padecimento, que se imporia aos seus, com 
tanta ferocidade feitas em tal momento, arrancaram-lhe as lágrimas dos olhos, 
e levaram-na a pedir lhe abreviassem tal prelecção. 

Neste tempo aproximou-se de D. Leonor o principal algôs^ que acabava 
de largar o capote e gorro preto de que estava revestido; e, tomando-lhe de 
sobre os ombros a capa alvadia, a dobrou e a pôs sobre um banco, que es- 
tava no meio do tablado. Então apareceu, a que fora marquesa de Távora, 
com as mãos atadas sobre o peito e vestida como no próprio dia em que 
Havia sido presa, a i3*de Dezembro de 1768, pois que, durante todo o mês 
de cativeiro, nem a ela, nem aos seus companheiros de infortúnio, foi permi- 
tida, sequer, a mudança de camisa. Trazia um vestido e casaco de setim 
azul escuro, fitas e diamantes no toucado, e um lenço em volta do pescoço. 



(i) Frei Cláudio da Conceição, Gabinete histórico, tomo XIV, pág. 35. 
voL. m \5 



1 14 Brasões 

Mandou-a o algos sentar sobre a capa no banco, o que ela logo executou ; 
porém ainda se levantou para compor o vestido, que não ficara à sua von- 
tade. De novo sentada lhe passaram, pela cintura e pelos pés, cordas com 
que a ligaram ao banco, e vendando-lhe em seguida os olhos, lhe abaixou o 
verdugo o lenço para lhe descobrir o pescoço, contra o que ela reagiu excla- 
mando senhorilmente: 

— Não me descomponhas. 

Os padres de Rilhafoles, que sempre acompanharam D. Leonor nesta 
derradeira e triste peregrinação, lhe renovaram então, e com maior empenho, 
as exortações, pois que o algos levantava o cutelo, com que, para maior 
opróbrio, a feriu pela nuca, decepando-lhe a cabeça quási completamente, do 
primeiro golpe, caindo ela sobre o peito apenas segura pela pele do pescoço. 
Acabando de a separar, a mostrou o carrasco ao povo, e em seguida a atirou 
para o tablado, para onde igualmente arremessou o corpo depois de desligado 
do banco; e tudo foi coberto com um pano de tafetá preto. 

Assim morreu, pelas oito horas e meia da manha, D. Leonor, a última 
senhora da casa de Távora ! 

A ela se seguiu sobre o cadafalso seu filho José Maria de Távora. . . mas 
a pena nega-se a narrar tais horrores. 

De outras famílias indiquei o princípio; desta, o fim. Poucas subiram 
tão alto, nenhuma caiu tão desgraçadamente. 

Não só lhe mataram as cabeças, como lhe proscreveram o nome, e até 
pretenderam que a história o esquecesse, mandando destruir todos os docu- 
mentos e monumentos, que aos vindouros recordassem o odiado nome de 
Távora ! 

Diz a sentença; «... Mandam que nenhuma pessoa, de qualquer estado, 
ou condição que seja, possa da publicação desta em diante usar do appelido 
de Távora; sob pena de perdimento de todos os seus bens para o fisco e 
camará real, e desnaturalisação destes reinos e senhorios de Portugal, e 
perdimento de todos os privilégios, que lhe 'pertencerem como naturais 
delles. . .» (i). 

II 

A ORIGEM E REPRESENTAÇÃO DOS TÁVORAS 

Era antiga a família de Távora, e com este apelido se encontram já indi- 
víduos nos reinados de D. Pedro, D. Fernando e D. João I. 



(i) Constitui esta sentença o documento n.» 14 da Historia do reinado d'el-rei D. José 
por Simão José da Luz Soriano. 



Távoras 1 1 5 

Frei Bernardo de Brito na Chronica de Cister, nos cap. XII e Xlll do 
liv. III, lhe tece uma ascendência fabulosa, trazendo, em confirmação dela, 
duas escrituras, uma de aforamento, a outra de doação. A esta já o patriarca 
da sciência diplomática em Portugal fez a devida justiça a pág. 7 do tomo III 
das suas Dissertações. A outra, a de aforamento, aquela em que os frades 
de S. Pedro das Águias, e os fidalgos D. Pedro e D. João Ramires beijarão-se 
por beijo de bocca, não encontro referência em nenhuma das obras de João 
Pedro Ribeiro, talvez por êle o julgar desnecessário. Como vêm ambas as 
escrituras apontadas por António de Almeida na sua memória intitulada 
Erros historico-chronologicos etc. a pág. 107 e seguintes da I parte do 
vol, XII das Memorias da Academia. 

Já porém, antes de todos, o consciencioso Frei António Brandão apresen- 
tara (i) uma escritura original do mosteiro de S. Pedro das Águias, que des- 
trói as asserções do cronista Brito; e, se o douto Brandão pretende logo 
conciliar os dizeres do documento com a narrativa do seu predecessor, é 
porque a esse tempo ainda o padre Brito era considerado quási como orá- 
culo. 

Também geralmente se diz, que o rio Távora foi o que deu origem ao 
apelido desta família. Até certo ponto é isto confirmado fielas faxas ondeadas, 
que se vêem no escudo desta casa: mas, por outro lado, encontram-se vários 
aforamentos de prazos em Santa Maria de Távora, freguesia do actual con- 
celho dos Arcos de Vai de Vez, feitas por D. Denis a um Lourenço Pires (2), 
nome muito vulgar nos primeiros ascendentes verosímeis dos Távoras. 

De Lourenço Pires de Távora (3), aquele de quem todos os nobiliários 
antigos derivam esta família, se encontra memória na Chancelaria de 
D. Pedro I, que, por carta de 26 de Dezembro da era de 1397 (iSôg) lhe 
fez doação em quanto fosse sua mercê, do Minhocal, que fora de Diogo Lopes 
Pacheco (4). Continuou êle servindo àquele rei e a seu sucessor D. Fer- 
nando, e era já falecido, ao que parece, em 12 de Julho de i38i, pois que 
nesta data fez o rei doação das vilas de S. João da Pesqueira e Ranhados 
a Rui Lourenço e a Pedro Lourenço de Távora, em atenção aos serviços de 
seu pai Lourenço Pires de Távora (5). 

Do segundo destes irmãos procedeu toda a família de Távora, de que 



(i) Monarchia Lusitana, cap. XX, do liv. XI. 

(2) Chancelaria de D. Denis, liv. 4.», fl. 53, 53 v. etc. 

(3) A Lourenço Pires de Távora, doação das terras de Paredes, Penela, Cedavim, Numão 
e Ordea do almoxarifado de Lamego, em pagamento dos seus maravedis, lo de Julho de 
1415 (1377). — Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. i3 v. 

(4) Chancelaria de D. Pedro 1, fl. 40 v. 

(5) Monarchia Lusitana, cap. 44.», do liv. 22.° 



1 1 6 Brasões 

foram chefes os condes de S. João da Pesqueira, marqueses de Távora. 
Deles se derivou a varonia dos condes de S. Vicente; a casa dos condes da 
Alvor; a varonia dos Silveiras, hoje marqueses das Minas, a dos modernos 
condes das Sarzedas ramo destes, e a dos marqueses de Abrantes; a casa 
dos reposteiros mores, que entrou na de Castelo Melhor; e a casa de Ca- 
parica, hoje na de Valada. 

A representação da casa de Távora está actualmente na de Fronteira, 
como descendente de D. Leonor de Távora, marquesa de Alorna, filha dos 
justiçados marqueses Francisco de Assis e D. Leonor de Távora. 



XXI 



HENRIQUES 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. III. 



De vermelho mantelado de prata: no vermelho, castelo de oiro; na prata, 
dois leões batalhantes de púrpura, linguados de vermelho. Timbre o castelo. 

Estas armas estão certas, e erradas vêem-se no Livro do Amieiro mory 
fl. 59, no Livro da Torre do Tombo, fl. 12, e no Thesoiiro da nobreza de 
Francisco Coelho, fl. 28; erradas somente na posição dos leões que não estão 
batalhantes, pois que o de dextra em vez de ser volvido está direito. 



Mais exactas aparecem no Thesouro da nobreza de Frei Manuel de Santo 
António, H-3, onde o único erro consiste no esmalte dos leões ser de ver- 
melho em vez de púrpura. 

Assim como D. João II, quando se irritava, incutia terror no aspecto, nos 
olhos injectados de sangue, e na trémula e fanhosa voz que ainda mais lhe 
tardava; assim pelo contrário, quando não tinha preocupações a desgostá-lo, 
era a sua presença agradável e folgava de se divertir na sua brilhante corte. 

O severo juiz dos cunhados e dos mais fidalgos seus parciais, esse homem, 
diante de quem todos tremeram, passada a sanha « era singular dançador 
em todallas danças. . . e avia. . . serão de salla de danças e bailos ! » (i). 

E não era isto uma vez ou outra, era mui frequentes vezes. E, se se 
não dançava, jogava-se, assistia-se aos entremeses, viam-se as lutas dos 
homens, as corridas, os saltos e os Jogos de lança e barras tanto a pé como 
a cavalo; exercícios em que o rei folgava de tomar parte. Outros dias, aos 
domingos e dias santos, saía a cavalo pela cidade acompanhado de numerosa 
corte e dos seus músicos que enchiam as ruas com o som alegre das trom- 
betas, atabales, charamelas e sacabuxas. E parava para conversar afàvei- 
mente com alguns homens honrados do lugar, se os encontrava; e o povo, 
de quem era amado, «e todos, recebiam muito contentamento; e lhe alim- 



(i) Garcia de Resende, Lyuro.. . ^ trata da uida. . . do Rey Don João o segundo etc. 
no cap. das «Feições: virtudes, costumes e manhas dei rey dom Joam o segundo...», o 
seguinte ao Prólogo. 



120 Brasões 

pavam com grande deligência as ruas, e lançavam panos às janelas e as 
mulheres postas nelas »(i). 

Nesses mesmos dias comia em público e havia durante o banquete « danças, 
estormentos, menistres, e bailos de mouros e mouras vestidos de muytas 
sedas que pêra ysso tinham: e ho faziam tam be q era pêra folgar de ver» (2). 

D. João II comia unicamente duas vezes ao dia, mas bem, não sendo tão 
sóbrio na comida como na bebida, que foi água da fonte até aos trinta e 
sete anos, quando, por causa da doença, começou a beber vinho. Mas, por 
exigir todo o cerimonial e por lhe agradar a mesa, « comia com tanto vagar, 
e detença, que a elle fazia dano, e a todolos que sua mesa aguardavam, era 
de tanto nojo, e cansaço, que sem muita pena, toda a nom podiam sofrer, 
nem aturar » (3). 

Não eram só os exercícios corporais que tinham cabimento na corte do 
Príncipe Perfeito, também nela se cultivavam os do espírito. A prova têmo-la 
no Cancioneiro geral de Garcia de Resende, vasto e curioso repositório da 
poesia cortesã daquele tempo. 

Temido dos grandes, amado dos pequenos, em paz com os vizinhos, 
vendo o seu reino próspero e dilatados os seus descobrimentos, e tendo junto 
a si seu filho e herdeiro, pensou D. João II em, sem guerras nem alardos, 
facilitar a realização da empresa de Afonso V, reunindo sobre a cabeça do 
filho as coroas da península. Com este propósito e o de assegurar a paz 
com os poderosos vizinhos, enviou o rei de Portugal os seus embaixadores 
em. Março de 1490 aos reis de Castela e Aragão, pedindo-lhes a mão de sua 
filha primogénita para o príncipe D. Afonso. Levavam os embaixadores, a 
requerimento da rainha D. Isabel, a « fegura do Príncipe inteira, bem 
tirada por natural, que natural e verdadeiramente era das muy formosas do 
mundo » (4). 

Logo a 18 de Abril se celebraram em Sevilha as bodas dos príncipes, 
sendo D. Afonso representado pelo embaixador Fernão da Silveira, a quem 
se passara procuração para este efeito. E era tal o desejo, que D. João II 
havia na conclusão deste enlace, que tinha mandado postar pelo caminho es- 
cudeiros de sua casa, encarregados de transmitir a notícia duns aos outros, 
e com tanta brevidade o fizeram que no dia seguinte, ainda de dia, soube 
el Rei em Évora a realização das bodas na cidade andaluza. 

Passeava D. João a cavalo pela Praça com o príncipe, o duque de Beja 



(i) Idem, loc. cit. 

(2) Garcia de Resende, loc. cit. 

(3) Rui de Pina, Croniqua do muy eycellente rey Don Johan. . . o segundo. . ., cap. 82. 

(4) Ibidem, cap. 44. 



Henriques 121 

e muitos senhores, quando chegou o mensageiro. Divulgada a nova, começai 
logo a grita alegre do povo, o repique dos sinos, o estridor das trombetas, 
o estrépito das bombardas, a estalida dos foguetes a atroar os ares; ao passo 
que se acendiam os fogaréus, se enramavam e embandeiravam as ruas e os 
muros e torres da cidade. 

Entretanto recolhia el Rei às casas de João Mendes de Oliveira, onde, 
por causa das obras nos paços reais, então se alojava (i), e ao passar pelas 
pousadas de Aires de Miranda, casado com D. Briolanja Henriques, filha de 
D. Fernando das Alcáçovas, lhe saiu esta senhora ao encontro, bailando e 
tocando pandeiro, com tanta galantaria, que D. João II a tomou de ancas no 
cavalo e a levou ao paço para, diante da rainha e da corte, repetir as suas 
danças e tocares. 

Isto passou-se na segunda feira 19 de Abril. Na terça feira, logo de 
manhã, foram o rei, a rainha, o príncipe, o duque de Beja, os grandes e 
fidalgos da corte, as donzelas da rainha, as senhoras e donas da corte e da 
cidade ao mosteiro do Espinheiro não longe de Évora, a ouvir missa e dar 
graças a Deus. Ia vistosa e luzida a numerosa cavalgada precedida pelos 
«mouros e judeus com suas touras e quinolas», e em que os «singulares 
ginetarios e ginetes que então avia », mostravam, para agradar ao rei e às 
damas, os recursos da sua perícia, o seu ardor. Saltavam e coleavam os 
cavalos aos lados das dóceis hacaneas levadas de rédea pelos pagens, cor- 
riam os lebreus por entre a gente, galanteavam os cavaleiros, riam-se as 
travessas donzelas, e em todos se manifestava a alegria, cora que iam des- 
pertando os ecos dos sombrios sobrais e azinhais de roda do devoto templo. 

Depois de rezar, jantaram, e à tarde, com «grande estrondo de praser», 
voltaram a Évora, onde pelas praças e ruas se tinham armado mesas, em 
C[ue o povo comeu e bebeu à farta, participando da alegria de seus príncipes. 
A noite houve serão no paço, com danças e festas, até pela manhã. 

Na quarta feira toldou-se o Terreiro do Paço, guarneceu-se todo em 
volta, com vistosas bandeiras e tapeçarias, armou-se com brocados o estrado 
e docel real e no centro celebraram-se « momos Reaaes, e mui ricos, a que 
veeo ElRei com Senhores casados, e o Príncipe, e o Duque cada hum per 
sy, com seus Fidalgos, e Gentis homes envencionados todos com muita graça, 
e gentileza, de coores, e devisas como pêra seus propósitos se requeria. E 
assi ouve outros muitos momos de Fidalgos em grande perfeiçam, a que 
pêra danças, e festas pareceo que a noite minguava » (2). 



(i) Resende, Chronica, cap. 112. 

(2) Todas as palavras entre comas são tiradas das crónicas de Rui de Pina ou de Garcia 
de Resende. 

YOL. ni 16 



122 Brasões 

Na quinta feira correram-se touros ~e houve jogos de canas na Praça; e 
os festejos haviam de continuar nos dias seguintes, ataihou-os porém a morte 
da infanta D. Joana, irmã de el Rei, que estava recolhida no mosteiro de 
Jesus de Aveiro. Pelo qual acontecimento se tomou rigoroso luto, e se 
mandaram desarmar os paços, revestindo as paredes das salas de panos 
azues, em vez das ricas e vistosas tapeçarias que nelas se encontravam (i). 

Terminaram as festas presentes, mas tratou-se de preparar as futuras, 
que teriam lugar por ocasião do recebimento dâ princesa, esperada em 
Outubro. 

D. João II queria que as festas fossem « as mayores, jnais reaes e mais 
perfeitas que se podessem fazer», para isso ordenou uma casa deputada, 
isto é, uma comissão, como hoje lhe chamaríamos, para a qual nomeou ao 
vedor da fazenda D. Martinho de Castelo Branco, homem « galante pêra o 
tal carrego poys era pêra gentilesa e galantaria», e ao escrivão da fazenda 
Henrique de Figueiredo, um dos muitos poetas pelo Cancioneiro geral li- 
vrados do esquecimento. 

Escolheu-se para os festejos a cidade de Évora, então a segunda do reino, 
por em Lisboa grassar a peste, de que depois houve algum rebate na capital 
do Alentejo pela acumulação da muita gente lá retinida. Para ocorrer ao 
perigo providenciou el Rei da seguinte forma. Mandou, antes do interlúnio 
de Setembro, parte do ano em que os ares são mais corruptos, sair a todos 
da cidade, e persistirem, durante quinze dias, nas terras ou quintas vizinhas, 
ou em abarracamentos nos campos. Entretanto enchia-se a cidade da maior 
quantidade de gado vacum, que se pôde arranjar. Terminados os quinze 
dias, durante os quais a policia da desabitada cidade foi feita com tão boa 
ordenança, que se não praticou um roubo, saiu o gado, e procedeu^se à lim- 
peza, caiação e defumadura das casas; e em seguida regressaram os mora- 
dores. Depois, próximo ao interlúnio de Outubro, mandaram-se novamente 
sair por dez dias todos os escravos e pretos. 

Com estas providências, adoptadas a conselho dos físicos, evitou-se, 
dizem, o contágio. 

Entre tanto tinham-se concluído as obras e acrescentamentos ordenados 
aos paços, pequenos para o que deles se desejava. A principal obra foi a 
da sala para os festejos. 

Foi ela levantada na horta de S. Francisco pegada com a porta do mos- 
teiro, correndo com a sua largura do nascente ao poente em direcção aos 
paços. Media de comprimento sessenta e seis metros, de largura dezasseis 
e meio e de alto dezaseis. Era construída de parede de taipa entre grandes 



(i) Garcia de Resende, Livro da vida e feitos de Don João segundo, cap. ii5. 



Henriques I23 

mastros, mandados vir de Lisboa pára sustentarem o tecto de taboado, todo 
breado e calafetado de maneira a não lhe poder chover dentro. 

O interior, paredes e tecto, era todo forrado de « ricos e fermosos lam- 
bees: cousa nova que parecia muyto bem polia diferença que tinham dos 
brocados e tapeçarias». 

A porta principal era no topo norte fronteira ao estrado real, que tomava 
toda a parede do sul, e que era, assim como as escadas que a ele conduziam, 
todo ricamente alcatifado. Aos lados da porta havia, à direita entrando, 
uma enorme copeira, espécie de aparador agigantado feito de muitos degraus, 
para nela se porem as peças de prata. Do outro lado da porta, fazendo 
simetria à copeira, levantavam-se outros degraus em anfiteatro, para onde 
haviam de ir os trombetas e tambores. Aos lados da sala, do poente, desde 
a copeira até ao estrado real, e do nascenta, desde este até ao palanque dos 
trombetas, estavam outros dois estrados, também levantados do chão, conti- 
nuados em degraus e defendidos por duas bem lavradas grades de madeira, 
uma em baixo junto ao chão, a outra por detrás do degrau superior. Neles 
se haviam de acomodar os cortesãos e pessoas honradas, que dali haviam 
de assistir às festas. 

Ao nível do último degrau e da parte de trás da grade superior, corriam 
umas como galarias em que estavam catorze mesas, sete em cada parte, 
dispostas em frente de bancos encostados às paredes, de modo a fazer-se o 
serviço pela parte de fora, como então se usava, por forma que, mesmo sen- 
tados, pudessem os convidados gozar do espectáculo da sala. 

Acima ainda desta galeria lateral, havia quatro casas, duas de cado lado, 
construídas da parte de fora da sala, para a qual tinham vista cada uma por 
um grande arco. Nelas estavam dispostas bancadas em anfiteatro destinadas 
aos menestréis, que, sem deixarem de ver, podiam alegrar a festa com a 
sua música. 

Mais uma porta se abriu na sala, na parede do poente junto do estrado 
real, destinada a dar serventia para o próximo paço. 

De roldanas presas ao tecto pendiam, perpendiculares às primeiras grades 
dos estrados, trinta espécies de lustres de madeira doirada, em forma de 
cruz, em cada uma de cujas extremidades havia uma tocha; e, por baixo 
deles para que os pingos de cera não caíssem sobre os espectadores e actores, 
estavam cravadas umas pequenas bandejas covas. Além dos lustres dispo- 
riam-se, para a iluminação da sala, uns oitenta brandões sobre as mesas e 
copeira, e umas cem tochas nas mãos de outros tantos pagens ordenados 
para este serviço; o que tudo junto perfazia umas trezentas luzes, o sufíiciente 
para tornar «a sala tão crara como se fosse de dia». 

Não foi esta a única obra, pois que, junto ao paço, se edificaram, com 



1 24 Brasões 

uma rapidez incrível, umas grandes e bem acabadas casas, destinadas espe- 
cialmente para aposentadoria do príncipe e princesa. 

Além das obras ordenadas tomou el Rei várias providências todas ten- 
dentes, não só, a tornar estas festas « em tudo tam ricas, e tam Reaaes, que 
ja sempre em Espanha serem lembradas por .soos, e sem comparaçam»; 
como tambe'm, à boa ordenança, tanto da aposentadoria e sustento, como 
da polícia do inúmero concurso de gente, que a elas acudiria. 

Priineiramente mandou el Rei cartas suas participar o tratado casamento 
a todos os prelados, senhores, fidalgos e cavaleiros principais do reino, con- 
vidando-os. Juntamente a eles todos e às mulheres de muitos, para assistirem 
aos festejos, e recomendando-lhes, que viessem apercebidos com toda a pos- 
sível magnificência, tanto de criados como de alfaias, afim de puderem aga- 
salhar os estrangeiros que concorressem a Évora. 

Além das mercês e dádivas, tanto em dinheiro, como em jóias, alfaias, 
baixelas, brocados, sedas, panos de lã, cavalos e escravos, oferecidas a todos 
que às festas viessem, assegurou el Rei por dois anos as rendas seculares 
ou eclesiásticas a todos aqueles que, para ocorrerem às inevitáveis despesas, 
as tivessem de arrendar antecipadamente. Deu-lhes mais o prazo de um 
ano para pagamento de suas dívidas, de qualquer natureza; e igual prazo 
de suspensão para as demandas contra eles intentadas; isto quando tais dí- 
vidas, ou demandas, não dissessem respeito a outras pessoas que também 
concorressem aos festejos, porque, neste caso, cessava o privilégio. 

A todo o fidalgo e cavaleiro que quisesse justar, mandou-lhe dar cavalo, 
armas e duzentos cruzados em brocados e sedas. Aos que fossem para 
dançar e fazer momos desembargou-lhes, a uns, cem, e a outros duzentos 
cruzados nas mesmas espécies. 

A seguir dirigiu-se el Rei à cidade de Évora, notificando aos juízes, ve- 
readores, fidalgos, escudeiros, procurador, e homens bons a chegada da 
princesa para o próximo mês de Outubro, e ordenando-lhes, por meio de 
um regimento datado de 6 de Agosto (i), os festejos que se haviam de fazer 
na cidade. 

Dá-lhes pressa e manda-lhes escolher de entre si três ou quatro para mais 
•# especialmente se encarregarem do que cumprisse afim de a tudo se dar exe- 
cução. 

Entre outras recomendações, de que me vou aproveitando pela narrativa 
fora, ordena o referido regimento que as ruas hão de ser « mui limpas e 



(i) Regimento que el rei D. João 11 mandou á Camará de Évora para se fazerem nesta 
cidade as festas do casamento do principe, transcrito por Filipe Simões no Instituto, vol. XV, 



pág. 143. 



Henriques 



125 



tiradas todas as esterqueiras», e os caminhos e calçadas mui bem corregidos; 
que a cidade há de dar os toiros, para serem corridos, em número de vinte 
€ quatro, número posteriormente por uma carta de D. Martinho de Castelo 
Branco (i) elevado por ordem de el Rei a cinquenta; que há de dar de pre- 
sente cento e vinte carneiros, mil e duzentas galinhas, cento e cinquenta 
patos, cem cabritos, sessenta leitões, quantos coelhos e perdizes se puderem 
achar até doze mil reais, sete arrobas de confeitos, cinco arrobas de tâmaras, 
cinquenta alguidares de frito, e trinta alguidares de farteis. 

Para ocorrer a estas despesas prometeu el Rei à cidade os dois terços 
delas, e mandou que para ajuda do terço restante concorressem com as 
terças de um ano as vilas de Beja, Moura, Serpa, Alvito, Viana, Portel, Re- 
dondo, Évora Monte, Vimieiro, Vidigueira, Torrão, Alcáçovas, Alcácer do 
Sal, Montefnor e Arraiolos. Em conta dos dois terços dá el Rei o brocado 
do pálio, toda a seda para o vestido dos seis que o hão de levar, e logo de 
pronto cento e cinquenta mil reais. 



Ordenou também el Rei, que das numerosas raourarias do reino viessem 
todos os mouros e mouras, que soubessem dançar, tocar e cantar, a quem 
mandou dar bons vestidos e conveniente gratificação. 

Ordenou mais, que das povoações próximas viessem às festas «moças 
fermosas que soubessem bem bailar, e cantar, que vieram com mancebos 
foliões vestidos de suas envenções»; e igualmente a todos estes deu vestidos 
e dinheiro. 

Para presentear, sustentar e alojar toda esta gente era necessário, com 
muita despesa, buscar fornecimento dentro e fora do país. 

De Florença, Génova e Veneza importaram-se brocados, sedas, pedrarias, 
várias peças para guarnecer vestidos e arreios, e ricas alfaias para armar as 
salas e câmaras. 

De Flandres, Inglaterra, Irlanda e Alemanha vieram tapeçarias, panos de 
lã finos, hacaneas, peles de marta, arminhos e outras forraduras, prata em 
pasta, cozinheiros, « manistrees altos e baixos », etc. 

As cidades e feiras de Castela foram-se buscar muitos outros panos, sedas 
e brocados. 

Da Barbaria veiu muita cera. E assim, de diferentes partes, se proveu 



(i) Regimento que el rei D. João II mandou á Camará de Évora para se fazerem nesta 
cidade as festas do casamento do príncipe, transcrito por Felipe Simões no Instituto, vol. XV, 
pág. 144. 



i«6 Brasões 

de frutas verdes e secas, tâmaras, conservas, açúcar, mel, manteiga, e espe- 
ciarias de todas as qualidades. 

Dos portos do mar mandou vir todo o peixe fresco ou de conserva tomado, 
não só pelos pescadores da localidade, como por outros muitos de propósito 
para tal lá enviados. 

De todas as comarcas dos arredores de Évora mandou vir para a cidade, 
trigo, cevada, farinha, bois, carneiros, vacas e cabras de leite, leitões, vitelas 
e todos os mais mantimentos análogos, e igualmente muitos leitos. ♦ 

Ordenou a todos os caçadores e pescadores daquelas comarcas que, 
durante todo o tempo das festas, não cessassem de caçar e pescar enviando 
logo, pelos troteiros para esse fim ajustados, a sua caça e pesca. 

De todo o reino mandou vir, por terra e mar, galinhas, capões, patos e 
toda a sorte de aves; e em tanta quantidade lhas trouxeram, que, diz o 
cronista, comeram mais de cem moios de trigo durante o tempo das 
festas. 

Estabeleceram-se cinco praças, bem providas de tu(ío, em diferentes sítios 
da cidade, menos na praça principal, destinada unicamente para justas e 
festas. 

Estava tudo preparado e o apercebimento era completo, podia pois chegar 
a princesa. 



No dia 22 de Novembro de 1490 encontrou-se além do Caia o duque de 
Beja, deputado expressamente por D. João II para conduzir D. Isabel a 
Évora, com a comitiva que a acompanhava. Feitas as saudações e cumpri- 
mentos do estilo, seguiram todos até à estrema, onde se despediram da prin- 
cesa muitos dos castelhanos, que com ela tinham vindo até ali. 

Nesse dia pernoitou em Elvas e no seguinte em Estremes, sendo rece- 
bida em toda a parte com arengas e grandes festejos e conduzida debaixo 
do pálio à igreja principal da povoação. 

Era tal a impaciência de el Rei por ver a princesa que, sabendo em 
Évora que nesse dia ela chegaria a Estremôs, partiu de lá « aforrado e se- 
creto», e entrou na vila na própria ocasião em que pelo outro lado chegava 
D. Isabel. Ia com ele o príncipe e pouco numerosa comitiva, e foram todos 
apear-se a casa do duque onde poisaram. 

Avisada a princesa da chegada do sogro e do noivo ceou à pressa e, lar- 
gando os trajos da jornada, vestiu-se e preparou-se convenientemente para 
os receber. Outro tanto fizeram as suas damas e criados. 

Chegando el Rei correu a esperá-lo ao topo da escada, e assim que êle 
subiu, ajoclhou-se a princesa para lhe beijar as mãos, no que êle não con- 




Heitriques 127 

sentiu levantando-a com muito carinho e alegria. Depois apresentou-lhe o 
príncipe, e então se abraçaram os noivos postos, por mesura, qu^si de joe- 
lhos. 

Entraram para os aposentos, e assentaram-se no estrado, tendo ô rei o 
príncipe à sua direita e a princesa à esquerda. « Onde EIRey teendo a 
Princesa per hua mão, e os olhos e coraçom em ambos de dous, lhe disse 
com muita graça, descripçam e amor, as primeiras palavras que cabiam na 
primeira vista de cousa em que tanta gloria, e contentamento recebia, e que 
nom menos o procurara, que desejara». 

Respondeu a princesa com tanta discrição, que não desmentiu a boa fama 
que dela havia. 

Em seguida, apesar de já em Sevilha se ter celebrado o casamento por 
procuração do príncipe, quis el Rei que ali de novo a tornasse a receber por 
sua mulher, realizando a cerimónia o arcebispo de Braga D. Jorge da Gosta. 

No dia seguinte partiram, o rei e o príncipe para Évora, e a princesa 
para o mosteiro do Espinheiro, onde permaneceu alguns dias, e onde se con- 
sumou o matrimónio: «o que de muitos foi estranhado por ser em casa de 
nossa senhora e de tanta devaçao. E afirmou-se por muito certo q naquella 
propia noite cahio da parede da ygreja hua amea junto da camará. . . a qual 
amea ate oje (i533) nam foy concertada e esta assi por memoria que os 
frades disso fizera». 



No domingo 28 de Novembro (i) teve lugar a entrada da princesa em 
Évora, e foi pela forma seguinte. 

Depois do jantar, que então era bem cedo, saiu el Rei do paço acompa- 
nhado dos prelados, grandes, oficiais mores e mais corte, em direitura ao 
mosteiro do Espinheiro. 

Iam na frente os músicos ricamente vestidos de sedas e montados em 
belos cavalos, tangendo trombetas, tambores, charamelas e sacabuxas. Se- 
guiam-se-lhes muitos porteiros da maça, reis darmas com as cotas bordadas 
do escudo real, arautos e passavantes. Atrás deles o porteiro mor Gomes 
Ferreira com quatro mestres salas, e, por sua ordem, o veador da casa Rui 
Lobo, os vedores da fazenda, conde de Abrantes e D. Martinho de Gastelo 
Branco, e o mordomo mor D. Pedro de Noronha precedendo el Rei. 

Vestia D. João II à francesa um pelote de brocado forrado de marta, 



(i) Rui de Pina põe a entrada no domingo 27 de Novembro, é porém engano. O do- 
mingo foi a 28. O mesmo fez Garcia de Resende que o copiou. Este erro ambos eles o 
emendam, escrevendo mais adiante «domingo cinco dias de Dezembro.. .». 



128 Brasões 

com muitos golpes seguros com ricos firmais de pedraria e muitas pérolas 
cosidas em volta, e por cima uma opa roçagante de tela de oiro forrada de 
arminhos. Ao peito, um grande e deslumbrante colar de pedraria; ao lado, 
uma rica adaga de oiro segura por precioso cinto; e na cabeça, um chapéu 
e p'enacho brancos. 

Montava à brida um soberbo cavalo russo-pombo com riquíssima guar- 
nição. Levava, adiante de si, muitos cavalos de estado; aos lados muitos 
moços de estribeira vestidos de brocado; e, atrás, os seus pagens ricamente 
enroupados, seguidos de muitos senhores e fidalgos. 

Chegando ao mosteiro, a princesa saiu logo ao seu encontro. Vinha ela 
montada em uma mula, e as suas damas em outras mui ricamente arreadas. 
Era precedida por muitas trombetas e outras músicas, porteiros da maça, 
reis darmas dos reis de Castela, em cujas cotas Já se viam as barras de 
Aragão e as águias de Sicília ao lado dos castelos e leões, e pelos seus mes- 
tres salas, veador, e mordomo mor D. João de Meneses. 

Juntas as comitivas pôs el Rei a princesa à sua direita; e, levando à frente 
um tão grande número de trombetas, raenistreis e outras músicas que era 
coisa espantosa, dirigiu-se para a cidade. 

Então deu a princesa mais uma prova, muito louvada pelos presentes, da 
sua estremada cortezia; e foi, que, apesar de el Rei a não levar de rédea, 
descalçou a luva da mão esquerda, lado donde el Rei ia, e todo o tempo a 
trouxe descoberta. 

Tinha-se mandado compor e limpar o caminho todo, è em várias partes 
à beira dele estavam armados estrados, onde se viam entremeses de gente 
do povo, e dos judeus e mouros. Por ele fora topavam-se muitas danças de 
moças e foliões, todos ricamente vestidos e diversamente invencionados. 

A multidão do povo era enorme, e a custo podia romper o cortejo. 

Chegados à ponte do Charrama encontraram, à saída dela em alas pos- 
tados, sessenta fidalgos, todos invencionados com ricas opas de brocado e 
tecidos de oiro, forradas de preciosos estofos e peles; todos com magníficos 
colares e cadeias de oiro ao pescoço, e montados em formosos ginetes rica- 
mente guarnecidos. 

Calculam-se em duzentos os nobres que naquele dia vestiram opas roça- 
gantes à francesa; sendo delas cento e vinte de brocado e tecido de oiro, com 
chapados do mesmo metal e ricos forros, e as outras de magníficas sedas 
forradas de brocado e ornadas de muitos canotilhos e bordados. Outros 
muitos foram vestidos à portuguesa de tabardos de sedas e brocados com 
ricos forros, e os capuzes abertos. Iam todos carregados de colares, ca- 
deias, cintos, espadas, adagas, firmais de oiro batido e outras jóias de 
grande valor. 



Henriques 1 29 

Montavam à gineta fogosos cavalos enfeitados com esplêndidas guarni- 
ções, Jaezes, e telizes, e cada um era acompanhado de muitos pagens, e 
moços de esporas com sumptuosas librés. 

Foram caminhando até se avistar a cidade cujos campanários, torres e 
muralhas estavam apendoados de bastas bandeiras, dominando a todas a 
das armas reais içada sòsinha no alto da torre junto dos açougues (i). 

Chegaram emfim à porta de Aviz sobre a qual flutuava uma bandeira 
com as armas da princesa, aí se apresentaram, rodeando a bandeira da ci- 
dade, os juízes, vereadores, procurador e escrivão da câmara, todos com 
suas varas nas mãos e seguidos dos fidalgos, cavaleiros, escudeiros e povo 
da cidade, e das mulheres dos escudeiros e « d'ahi para baixo», todos a pé. 

De cada lado da dita porta, então denominada de Santa Maria do Espi- 
nheiro, estavam, sobrepujados de outras bandeiras com as armas da princesa, 
os dois cadafalsos mandados levantar pela cidade. Num deles apresenlou-se 
um vistoso grupo de fadas, que avançaram à chegada da princesa e lhe pro- 
gnosticaram, cada uma por sua vez e como que à porfia, todas as venturas;, 
profecias bem depressa desmentidas. No outro via-se figurado o paraiza 
com as nove jerarquias dos anjos em brilhante vestuário e não menos esplên- 
dido scenário. 

Então parou a comitiva e, adiantando-se o mestre Cataldo Sículo, pro- 
fessor da Universidade de Lisboa, recitou um longo discurso gratulatório em 
latim, o qual, apesar de escutado em profundo silêncio, não seria talvez de 
todos entendido. 

Terminada a oração entoaram alguns dos coros dos anjos do paraizo uma 
suave melodia, que outros acompanhavam primorosamente, fazendo uma 
« espantosa musica D. 

Aqui apearam-se todos, menos o rei, a princesa e as damas, a cujas 
mulas pegaram.de rédea os fidalgos. 

Puzeram-se o rei e a princesa debaixo do pálio, que era de brocado de 
pêlo, e estava posto sobre seis varas altas e bem pintadas às quais pegavam 
os regedores principais da cidade de Évora, a saber: João Mendes de Oli- 
veira, Diogo de Góis, Gonçalo de Sousa, Álvaro Mendes do Esporão, Fernão 
Brandão e Henrique de Macedo (2), todos eles vestidos de opas de damas- 



(i) Citado Regimento. 

(2) Ibidem. Aqui lançarei uns breves dados biográficos relativos a estes seis regedores 
principais de Évora. 

Joane Mendes de Oliveira, fidalgo da casa de el Rei e 6.«> administrador do morgado da 

quinta da Oliveira no termo de Évora, tivera, em 6 de Julho de 1482, carta de confirmação 

dos privilégios daquela quinta em sucessão a seu pai, Martim de Oliveira (Chancelaria de 

D. João 11, liv. 6.°, fl. 108). Casara a primeira vez com D. Beatris de Melo, filha de Vasco 

VOL. III 17 



i3o Brasões 

quim, metade roxo e metade branco, cores da princesa, e de jubões de setim 
preto, com chapéus de veludo da mesma côr. 



Martins de Melo, alcaide mor de Évora, e de D. Isabel de Abreu, por quem os filhos de 
Joane Mendes vieram a herdar uma tença de doze mil reais, e parece que só deste casamento 
houve sucessão.. Em Maio de i5o2 já Joane Mendes era falecido, quando, por carta de 3i, 
foi confirmada a referida tença a seu filho Aires de Melo {Chancelaria de D. João III, liv. 61.» 
>de Doações, fi. 141, incorporada noutra). O morgado de Oliveira havia sido instituído pelo 
arcebispo de Braga D. Martinho em seu testamento feito em Lisboa a i3 de Agosto de i3o6, 
chamando para a sua administração em primeiro lugar a seu irmão Mem Peres (Torre do 
Tombo, Gaveta 12, maç. 2, n.''4; Pegas, Tractatus de exclusione . .. maioratus,\o\. II, págs. 66 
e segs.); e com algum equívo em Brandão, Monarchia lusitana, part. VIÍ, pág. 71). 

Diogo de Góis era de um ramo desta família estabelecido em Évora. Encontro-o em 
Abril de 1464 nos paços do bispo de Évora intervindo, por parte dos fidalgos da cidade, em 
um conselho lá reunido para deliberar acerca de aposentadorias (G. Pereira, Documentos de 
Évora, lí, 99). Foi casado com Maria Brandoa, havendo com ela duas mil c quinhentas 
coroas de casamento, por parte das quais, ainda em dívida, recebia uma tença de dezaseis 
mil e tantos reais, por êle e pela mulher vendida, por escritura feita em Évora a 7 de De- 
zembro de i5o4, a seu genro António Lobo {Chancelaria de D. João III, liv. 42." de Doações, 
fl. 23). Nada mais sei documentado deste Diogo de Góis, que foi fidalgo da casa de el Rei, 
bem como o foi seu genro, que teve a alcaidaria mor de Monsarás pelo duque de Bragança. 

Gonçalo de Sousa teve a alcunha do Lavrador pelo muito que se dedicou a lavoura. 
Edificou em Évora uma basta abegoaria que deu brado, e morreu em i5i6, segundo o seu 
epitáfio no cruzeiro da igreja do Espinheiro {Sepulturas do Espinheiro, pág. 20). 

Álvaro Mendes do Esporão, <f homem bem honrado e muito bom cavallei^ro », era senhor 
da herdade do Esporão no termo de Monsarás. Foi progenitor dos Vasconcelos da casa 
do Esporão, condes de Figueiró, e já a êle me referi no liv. I, págs. 382 e seguintes. 

Fernão Brandão, filho de Diogo Lopes Brandão, então chefe da família dos Brandões 
de Évora, já fora juiz desta cidade em 1482, e, exercendo o ofício, foi-lhe dada licença, por 
carta de 7 de Dezembro, para comprar umas casas na cidade {Chancelaria de D. João II, 
liv. 3.", fl. 108 v.). Em 1497, P°^ carta de 18 de Maio e em sucessão a seu pai, foram-lhe 
■confirmados os privilégios de uma sua herdade no termo de Évora, a par de Santa Marga- 
rida, a qual fora coutada por D. Fernando a seu bisavô Fernão Martins Brandão {Chance- 
laria de D. João III, liv. 17.0 de Doações, fl. 147). Já tinha morrido a 29 de Outubro de iSag, 
•quando os privilégios da referida herdade foram confirmados a sua filha Joana Brandoa 
(Ibidem), e pouco antes morreria porque, por carta de 12 de Dezembro do ano precedente, 
havendo respeito aos seus serviços e aos de seu pai, fôra-lhe feita mercê de uma tença de 
vinte mil reais {Ibidem, liv. 14.», fl. 23o v.). É preciso não confundir este Fernão Brandão 
com outro, seu contemporâneo, que foi poeta do Cancioneiro, como indico no artigo Dois 
Portuenses poetas do Cancioneiro, no vol. I do Tripeiro, pág. 69. 

Henrique de Macedo era filho de Diogo Gonçalves de Macedo e neto de Martim Gon- 
çalves de Macedo {Sepulturas do Espinheiro, pág. 29), a quem D. João I deveu a vida na 
batalha de Aljubarrota, como conta Fernão Lopes. Fizera Henrique de Macedo extraordi- 
nários gastos por ocasião das festas de Évora; vendera quintas a usurários por um terço 
menos do seu valor ao que D. Manuel acudiu em i5oo, mandando restituir-lhe uma quinta 
vendida. Em Évora continuou a viver e lá veio a morrer em fins de 020, princípios de 
i52i. No citado livro aponto estes e outros dados biográficos; mas encontro nos Doc«- 



' Henriques 1 3 1 

Tojnou o cortejo a avançar. 

Levavam de rédea a mula de D. Isabel o duque de Beja e o futuro duque 
de Coimbra, D. Jorge, criança de nove anos de idade. As estribeiras iam 
condes e grandes senhores, e el Rei, para lhe fazer maior honra, atou às 
rédeas a ponta do seu cordão da ordem da Jarreteira, e com a outra ponta 
na mão a foi levando. 

Viarn-se todas as ruas do trânsito espadanadas e cobertas de vistosos 
toldos feitos de panos de várias cores expressamente mandados vir de Ingla- 
terra e Flandres, os toldos suspensos de mastros dos mesmos panos forrados. 
As paredes das casas, todas armadas de sedas e tapeçarias das janelas para 
baixo e adornadas de ramos de loiro e laranjeira com várias jóias pelas 
janelas e portas, deleitavam não só os olhos, como o olfato pelos muitos per- 
fumes colocados junto às soleiras. 

Poucos passos andados topou o cortejo próximo de um chafariz com os 
moiros e judeus principais de Évora e de Lisboa, Setúbal e Algarve, acom- 
panhados de suas folias e danças. 

Mais adiante, à entrada da rua da Selaria (i), estava a procissão orde- 
nada pelo capelão mor, tendo à sua frente o arcebispo de Braga de pontifical 
rodeado dos outros prelados e de toda a mais clerezia. Incorporado o prés- 
tito na procissão subiram todos pela rua fora até ao taboleiro da Sé, onde 
se ostentava o cadafalso mandado armar pelo cabido e clero da cidade (2). 

A porta da Sé apearam-se o rei e a princesa, e entraram a fazer oração 
e a beijar o santo lenho da Vera Cruz que lhes foi oferecido. Terminada a 
oração tornaram a cavalgar e na mesma ordem dirigiram-se para o paço^ 
onde chegaram já de noite, alumiados por infinitas tochas erguidas nas mãos 
de todos os moços fidalgos e de muitos moços da câmara ricamente tra- 
jados. 

A esta hora já estavam acesas as muitas luminárias que a cidade mandara 
pôr em todas as torres da cerca e campanários das igrejas; e de todos os 
lados estalavam os « tiros de fogo » pelo rei fornecidos à cidade. 

No trajecto para o paço ainda a princesa encontrou, para a festejar, mais 
dois cadafalsos mandados levantar, um pelos franciscanos a par da horta de 



mentos de Évora de Gabriel Pereira, vol. II, pág. 170, a referência a um interdito posto em 
Évora, para cessar o qual avisou D. João II, por carta de 17 de Maio de 1484, os juízes, ve- 
readores, etc. da cidade de haver mandado a «Anrique de Macedo que se saya delia atee 
vyr recado de seu caso». Qual fora este caso, que deu lugar a ser lançado interdito sobre 
toda a cidade, é que não sei. 

(i) Citado Regimento. 

(2) Ibidem. 



!32 Brasões 

S. Francisco junto ao mercado da erva, e outro, obra dos dominicanos, junto 
à Porta Nova(i). 

Na sala do paço a rainha e o príncipe, acompanhados de uma numerosa 
e luzida corte de damas e donzelas, esperavam por D. Isabel. Para lá a 
conduziu el Rei, e começaram logo as festas e danças, que se repetiram 
depois da ceia, tomando parte nelas as pessoas reais. 

E depois... foram descançar, e já não era sem tempo, e o mesmo fize- 
ram durante o dia de segunda feira. 



Á terça feira à noite inaugurou-se a famosa sala de madeira, atrás des- 
crita, com um «banquete de ceia». 

Na galaria do fundo, a galaria real, e sobre um estrado, estava, sob o 
docel, a mesa principal, a mesa travessa (2), onde se sentaram el Rei, a 
rainha, o príncipe, a princesa, o duque de Beja, o senhor D. Jorge, e D. Ro- 
drigo de Ulhoa, embaixador de Castela. 

Nas mesas das galarias laterais sentaram-se os convidados, comendo, na 
primeira mesa da direita, o marquês de Vila Real a quem se seguiam as 
senhoras, donas e donzelas; e na da esquerda, o arcebispo de Braga, 
D. Jorge da Gosta, o bispo de Évora, D. Afonso de Portugal, os mais bispos, 
os condes, os do conselho, etc. 

As bancadas dos estrados entre as grades estavam cheias de espectadores, 
pois que na sala se admitiu, além dos conhecidos, todos os embuçados por 
constar estarem em Évora muitos grandes senhores castelhanos. 

Os convivas, era de uso então, sentaram-se unicamente em um dos lados 
da mesa, e sobre bancos (donde veio o nome de banquetes aos festins) en- 
costados ou próximos das paredes, Deixavam portanto Hvres os topos das 
mesas e o lado fronteiro, aquele por onde se fazia o serviço e se mudavam 
as cobertas. 

Era complicado e moroso o serviço dos banquetes pelo cerimonial neles 
desenvolvido. 

A mesa real assistiam todos os oficiais; e os moços fidalgos faziam o 
serviço. As outras mesas estavam ordenados, a cada uma, certo número de 
oficiais e trinchantes e de moços da câmara, únicos vestidos de veludo preto, 
pois todos os mais ostentavam sedas e brocados de cores brilhantes. 

Para cada prato levado à mesa real, era uma verdadeira procissão. Vi- 



(i) Citado Regimento. 

(2) Cfr. esta designação em Conde de Vila Franca, D, João I e a aliança inglesa, obra 
sob muitos aspectos notável. 



Henriques i33 

nham adiante, a dois e dois, muitos porteiros com a sua maça de prata, 
atrás deles os reis darmas, arautos e passavantes, o porteiro moi*, quatro 
mestres salas, o veador, os vedores da fazenda e o mordomo mor. 

Ao passo que chegavam ao estrado, faziam todos uma profunda mesura, 
sendo só nesta ocasião que o mordomo mor se descobria, tendo-o já feito, 
desde o meio da sala, os vedores da fazenda, e trazendo todos os mais o 
barrete na mão desde a entrada. 

Esta cerimónia repetiu-se todas as vezes que as pessoas reais beberam, 
€ a todas as novas iguarias que se traziam à mesa; e foi sempre acompa- 
nhada do toque de todas as trombetas, tambores, charamelas, sacabuchas e 
instrumentos dos menestréis, e do seu canto, o que produzia tão grande es- 
trondo que se não ouvia mais nada. 

Mudadas as cobertas afastavam-se os diferentes oficiais, calavam-se os 
músicos, e emquanto os convivas comiam, representavam-se os entremeses, 
palavra derivada do francês entre mets. • Este era o uso, e isto se praticou 
então. 

Mal se tinha começado com o primeiro serviço, quando se viu assomar 
à porta uma junta de nédios bois com as hastes doiradas, puchando por uma 
grande carreta, também doirada, carregada de carneiros com as armas como 
as dos bois. Adiante destes lá vem o carreiro com a sua aguilhada esper- 
tando-os, e muito taful vinha ele, por sinal, com o seu pelote e gabão de 
veludo branco forrado de brocado e o seu barrete tombado para o lado. 
Estranho trajo, mesmo para um abegão, mas próprio para um moço fidalgo 
invencionado. 

E com efeito era moço fidalgo o carreiro, Henrique de Macedo; e os 
bois... eram bois, mas assados inteiros, assim como os carneiros, e 
postos sobre um estrado bastante rasteiro para se não verem as rodetas 
sobre que andava, e parecer serem os próprios bois que tiravam pela car- 
reta. 

Oferecidos eles à princesa e terminado o serviço, levou-os de novo o 
carreiro pela sala fora até à porta, e, saindo à rua, deu-os ao povo, que num 
instante despedaçou tudo, tratando cada um de levar o mais que podia. 

Entretanto serviram-se por todas as mesas muitos pavões assados, com 
os rabos, pescoços e cabeças como se fossem vivos, e da mesma forma 
muitas outras aves. 

Começaram depois os momos e representaram eles um rei de Guiné, 
com que vinham três espantosos gigantes de quarenta palmos de altura, rica- 
mente vestidos e tão bem feitos que pareciam vivos. Com eles entrou uma 
«mui grande e rica mourisca retorta», isto é, uma dança de pessoas vestidas 
à mourisca com lanças e broqueis, em que vinham duzentos bailadores dos 



1 34 Brasões 

mais afamados, todos tintos de negro, com muitas manilhas de metal dourado 
enfiados nos braços e pernas, cobertos de guisos. 

E puzeram-se todos a dançar e a pular e eram tantos os dançadores e 
cada um com tanto guiso, que faziam uma bulha capaz de ensurdecer. 

Durante a ceia ainda houve outras representações, e, terminada ela^ 
danças e festas durante a noite inteira. 



Nos dias seguintes continuaram as festas, até que, no domingo 5 de De- 
zembro, houve novo banquete na sala de madeira ainda mais esplêndido que 
o primeiro. 

A disposição das mesas era a já dita, e a elas se tornaram a sentar as 
mesmas pessoas, e pela mesma ordem. 

Ao correr da pena notarei que, ainda há pouco, em certos banquetes 
reais, isto é, nas ceias, lá se via no topo a mesa travessa com as pessoas 
reais a ela sentadas, virando as costas à parede e olhando para a sala. K 
lá estavam também as mesas laterais onde comiam os convidados, com as 
únicas diferenças de estarem de pé, e do serviço ser feito por entre as mesas 
e a parede, em vez de o ser pelo meio da sala. Vê-se pois que o uso me- 
dieval, com pequenas alterações, se conservou por muito tempo. 

Neste segundo banquete, quando se entrava na sala, apareciam as mesas 
«tam fermosas e tam guerreyras que eram muito pêra folgar de ver e cousa 
nova que ainda se nam vira ». 

O que lhes dava o aspecto marcial eram castelos e barracas de campanha 
sobre elas dispostos, havendo, em cada mesa, um castelo entre duas tendas; 
menos na mesa travessa, em que, talvez para não tapar a vista, faltava o 
castelo. 

Eram feitos estes de madeira delgada e de forma arredondada, e reves- 
tidos de tafetá doirado com muitos capitéis e outros ornatos, e guarnecidos 
de muitas bandeiras. 

Eram as tendas de damasco branco e roxo, cores da princesa, e enfei- 
tadas com muitos bordados e bandeirinhas doiradas. 

Sentados às mesas os convivas, tiraram os moços da câmara as tendas e 
castelos, que cobriam pratos montados cbm variadas iguarias e viandas; e, 
guardando para si as barracas, distribuíram os castelos por pessoas que os 
pediam para mosteiros e igrejas, onde se conservaram pendurados por muito 
tempo, e onde depois se mostravam como coisa digna de ser vista. 

Apesar de ser inúmero o concurso de espectadores, que presenciaram 
ambos estes banquetes dos degraus entre as grades, e apesar de, na ocasião 
de se levantarem da mesa, serem por eles distribuídas as viandas, era tal a 



Henriques i35 

sua profusão que não só chegaram para todos comerem, como ainda sobe- 
jaram muitas. Facto a que, juntamente com a boa polícia da sala,, se deveu 
o não haver «pessoa que deytasse mão de cousa algúa nem fizesse mao 
ensino ». 

Terminado finalmente o banquete, durante o qual certamente se haviam 
de ler figurado graciosos entremeses, entraram na sala por seu turno apara- 
tosos momos e alegres danças, ainda mais vistosos e ricos do que os de 
terça feira passada. Foram tais, tão brilhantes e prolongadas estas festas, 
nas quais como moço da câmara Garcia de Resende serviu, que, diz-nos 
êle « se se ouvesse descrever meudamente como foy pareceria fabula dAmadis 
ou Esprandiam » ! 

Tiveram repercussão em Castela e a elas, engrandecendo-as, se refere o 
cronista dos Reis Católicos, não nos poupando um remoque final. 

« E celebrarÕ en aquella ciudad (Évora) las bodas cÕ grã solennidad, e 
hizierÕ grandes fiestas de justas e torneos que durarÕ treynta dias: que pêra 
lo que se requeria a estas fiestas, assi el rey de Portugal, como los senores 
principales, y otras gêtes de sus reynos, hizierõ grandes e muy costosos 
aparejos en los edifícios dÕde hizierÕ las fiestas: y en los recebimiétos grades 
e juegos que para ello se adereçarÕ: y oirosi en los muchos panos de bro- 
cados, sedas e guarniciones que hizierÔ para arreos de sus personas, y en 
las dadivas que dieron. Lo qual fue todo por extremo: que queriendo los 
Portugueses emparejar con la grandeza de los reynos y sefíorios dei Rey y 
de la Reyna parescio tener mayor animo para gastar, que bastava la facukad 
para lo que gastavan «.(i). 



Até à oitava do Natal cessaram os festejos ruidosos, e durante esses dias 
ensaiaram-se os justadores para o magnificentíssimo torneio, no qual D. João II 
apareceria como mantenedor (2). 

Marcou-se a liça (3) na Praça, então menor em comprimento do que hoje, 
pois que terminava pela parte do norte (4) em um grande pórtico romano de 
três arcos, que a cortava em toda a sua largura no sítio onde agora se vê o 



( i) Nebrixa, aliás Pulgar, Chronica de los Reys Catholicos, cap. 129 da 2.» parte, fl. 307 v. 
da ed. de i565. 

(2) Mantenedor: o principal cavaleiro das justas, e torneios, que defende a empresa 
contra os combatentes (Diccionario de Moraes). 

(3) Liça: campo para batalha de reptados, de justadores, torneios, etc. cercado de 
teia (Ibidem). 

(4) Escrevo de memória, mas não creio errar muito pondo o norte na Praça de Évora 
atrás da igreja de Santo Antão. 



i36 Brasões 

chafariz. Era este pórtico romano de muitas colunas sustentando vários 
entablamentos, e de muitas estátuas em diferentes nichos; e foi mandado 
derribar, vítima de feroz vandaHsmo, pelo fanático cardial rei afim de desa- 
frontar a insulsa fachada da igreja de Santo Antão, fábrica sua. E com tanta 
gana lhe deitaram os picaretes, que só escaparam oito colunas posteriormente 
aproveitadas para o refeitório do colégio dos jesuítas. 

No outro topo da Praça já se via a casa da câmara, mandada construir 
por D. Afonso V na esquina da rua dos Mercadores, hoje rua do Paço; à 
qual D. João II tinha acrescentado em 148 1 a varanda, depois por Felipe II 
coberta pela forma por que persiste (i). 

Ao poente da Praça, próximo do novo edifício da câmara e dele separado 
pela rua da Cadeia que não sei se ainda então se chamava das Estalagens, 
levantava-se parte do antigo paço real denominado dos Estaus por ser desti- 
nado a aposentar as pessoas ilustres que procurassem a corte, cuja residência 
era nos paços novos de S. Francisco. 

Alinhadas com os Estaus e deles separadas pelas ruas dos Toiros, pos- 
teriormente tapada, estendiam-se, até à rua do Raimundo, umas casas que 
posteriormente pertenceram aos Henriques, senhores das Alcáçovas. Destas 
casas, ruas e paços nada ali resta, sendo tudo abrangido hoje (i885) pelo 
palácio de José Maria de Sousa Matos. 

Diferentes moradas de casas se seguiam, desde a rua do Raimundo, até 
à actual dos Mercadores, que é terminada por um arco, e desta até ao pór- 
tico romano. 

Do lado do nascente corria a frontaria da praça formada irregularmente por 
várias casas, cortadas, quási ao meio, pela rua da Selaria que se dirige à Sé. 

Em frente da nova casa da câmara estava um chafariz de mármore, que 
D. João II mandara construir, e para o qual vinha a água de uma nora no 
terreirinho da rua da Selaria, junto à velha torre do rei Sisebuto. 

Defronte do arco principal do famoso pórtico romano estava o pelourinho, 



(i) Por que persiste l — Escrevia eu isto em Abril de i885. Hoje já lá não restam ves- 
tígios das interessantíssimas construções antigas do topo sul da Praça. As casas da câmara, 
com a sua encantadora varanda alpendrada, as suas janelas manuelinas, foram mandadas 
derribar por um homem, que para desgraça da capital alentejana dispôs durante anos de 
fatal influência política sufficiente para estragar quási tudo onde pôs as mãos. As casas da 
cadeia, ao lado dos paços do concelho, tão características, com os seus degraus exteriores, 
as suas grades de ferro lavrado, a sua velha pedra darmas, também encontraram algos. Em 
vez destes edifícios, um de primorosa arquitectura, ambos de vetustas recordações, vêem-se 
de um lado ruínas, do outro uma insulsa construção moderna. Gomo lembrança resta 
apenas, que eu saiba, uma gravura tosca na pág. 100 do vol. XVIII do Occidente, reprodu- 
zida por A. F. Barata em parte da pág. 177 da sua Évora antiga. 



1 



Henriques i Sy 

levado depois para o lugar do seu vizinho chafariz, demolido quando 
D. João III introduziu em Évora as águas da Prata pelo monumental aque- 
duto. Hoje não sei onde pára o pelourinho. 

Como ia dizendo, foi na Praça que se marcou a liça, a qual se toldou 
toda de panos suspensos de- elevados mastros, em cujos topes tremulavam 
bandeiras reais. 

A teia, posta na segunda feira 20 de Dezembro, foi coberta de panos 
verdes e roxos, cores do mantenedor que era el Rei; e neles, de um e outro 
lado da teia, viam-se bordados a oiro muitos pelicanos em seus ninhos, ali- 
mentando os filhos com o próprio sangue: essa era a empresa de D. João 11. 

Semilhante revestimento pôs-se na balha(i), divisão de madeira de uns 
cinco palmos de altura rijamente cravada no chão no centro da liça, e que 
servia para os combatentes não irem de encontro um ao outro, podendo 
unicamente ferir-se com as armas. Daqui a frase vir à balha — e não vir à 
baila — , pois que o mantenedor, duas e mais vezes, vinha à balha, ou para 
quebrar novas lanças com o mesmo aventureiro ou para acudir ao desafio 
doutro. 

Aos lados da teia estavam armados os palanques para os espectadores, e 
no topo, próximo do pelourinho, o camarote real, donde havia de assistir às 
justas a princesa D. Isabel, a rainha do torneio. Era esta estância posta 
entre dois enormes mastros, em cada um dos quais se via içada uma ban-^ 
deira das armas partidas de Portugal e Castela, brasão da princesa. Era, 
além disso, forrada de preciosas alcatifas e guarnecida, dos lados e por 
detrás, de ricas tapeçarias em que se viam pintadas façanhas de portugueses; 
não só por ser esse o uso da corte, como por servir na presente ocasião de 
estímulo aos justadores. 

Do outro lado, mas fora da teia e tapando a embocadura da rua dos 
Mercadores (hoje do Paço) e as frentes das duas casas que a terminavam^ 
uma das quais era a da câmara, tinha-se levantado a távòla, designação da 
sítio onde os mantenedores se recolhiam esperando pelos aventureiros, que 
viriam a desafiá-los. 

Era a távola construída de madeira em forma de fortaleza com suas 
torres e cubelos, e guarnecida de muitas bandeiras e de muitas lanternas^ 
A noite acendiam-se estas e eram tantas que parecia estar toda a távola a 



(i) «Corria pelo meio do theatro uma balha de trinta palmos de comprido e cinco 
d'alto para divisão dos combatentes «. — Relação do recebimento^ e festas^ que se fi^erão^ ncL 
Augusta cidade de Braga, d entrada do lllustrissimo, & Reverendissimo Senhor Dom Ro- 
drigo da Cunha, Arcebispo, & Senhor delia. Primas das Hespanhas. Em Braga por Fru- 
tuoso Lourenço de Basto, 1Ó27, fl. 34 v. 

VOL. III 18 



i38 . Brasões 

arder. Era tão vasta, que durante o tempo do torneio, uns poucos de dias, 
alojou-se nela el Rei com todos os mantenedores e numerosos oficiais, escu- 
deiros, pagens e mais pessoas do serviço, além de muitos cavalos sempre 
selados. E dentro dela, nesses dias, celebraram-se banquetes e outras várias 
festas. 

Da parte de fora lá estava o campanário e o sino para tocar alarma, 
como se se estivesse em frontaria de inimigos; e, para em tudo haver ana- 
logia, estavam sempre mantenedores armados, por turnos, com seus cavalos 
aparelhados, e em tudo prontos para sair à liça assim que qualquer aventu- 
reiro os desafiasse. Disto eram avisados, não só pelo repique do sino, como 
pelo abatimento de um grande facho, que na fortaleza havia, o qual sempre 
permanecia aceso ou fumegante. 

Mas, antes de tomar a teia, tinha o mantenedor de, conforme o uso, 
apregoar o desafio com toda a pompa e a maior pubhcidade, requisitas ceri- 
mónias a que D. João II não faltou. 



Voltemos novamente à sala de madeira a qual, na terça feira à noite, en- 
contraremos toda iluminada com as cento e vinte tochas dos seus trinta lus- 
tres de cruzetas de táboas doiradas, quási iguais aos que o bon Roi René 
pintou no seu célebre manuscrito dos torneios (i); com a sua copeira resplan- 
decente de luzes, pratas e cristais; e com os seus cem pagens enfileirados 
em diferentes lugares, segurando cada um a sua tocha hasteada em comprida 
vara, e lá veremos a rainha, os príncipes, as damas e donzelas, e toda a 
mais corte, e os numerosos espectadores entre as duas grades nos palan- 
ques. 

Colocados todos, abriu-se a larga porta e por ela entrou uma nau à vela, 
cercada e precedida de nove batéis, postos sobre ondas. Era tudo tão bem 
feito e natural, e avançava com tanto artifício, que a muitos se afigurou terem 
sido transportados à Ribeira a ver a chegada e o desembarque de algum 
daqueles intrépidos argonautas, que já corriam as costas africanas até ao 
cabo da Boa Esperança. 

E o estrondo da artilharia, o toque das trombetas e atabales, o apito dos 
mestres e contramestres, a grita dos marinheiros executando as manobras, 
o clarão das inúmeras tochas e velas que guarneciam as embarcações, os 
vistosos brocados de que eram feitos os toldos, as cores alegres das sedas 
das bandeiras e estandartes, o lustre do tafetá branco e roxo das enfunadas 
velas, o brilho do doirado cordame, todo este conjunto de luzes, sons e 



(i) Paul Lacroix, Vie militaire et religieuse au Moyen Age, 7.» cromolitografia. 



Henriques i Sg 

cores, deslumbrante, estrepitoso e alegre, tornou este entremês o mais magní- 
fico de todos os destas festas extraordinárias. 

Precedendo o batel de el Rei, o primeiro que avançava adiante da nau, 
andava sobre as ondas um grande e formoso cisne de extraordinária alvura 
realçada por algumas penas doiradas. Vinha êle guiando um cavaleiro, que, 
à proa do batel, em pé, coberto de resplendentes armas, o seguiu até parar 
próximo de D. Isabel (i). 

Então cessaram todas as bulhas, e ajoelhando-se o cavaleiro entregou à 
princesa um breve, ou cartel, acção acompanhada de algumas palavras ditas 
em alta voz, nas quais resumiu a sua tenção. Era ela a de a querer servir 
nas festas do seu casamento, e, proclamando-a a mais bela, reptar e desafiar 
para justa de armas com oito mantenedores, todos que o contrário afir- 
massem. 

Procedeu-se em seguida à publicação do desafio, e segundo o costume 
foi ela feita pelo rei darmas, que vestia a cota das armas do mantenedor, 
neste caso as reais. Entrou êle acompanhado de arautos e passavantes e 
precedido de alguns trombetas, e leu em voz alta o breve e as condições do 
torneio, com a declaração dos dois prémios dele: um para o que mais ga- 
lante viesse à teia; o outro para o que melhor justasse. 

Ultimada a leitura, deitaram os batéis as pranchas fora e por elas saíram 
el Rei e os mantenedores. Postos todos em terra foi-se embora o mar, 
levando as suas embarcações, e repetindo-se então a salva, a mijsica e a grita 
da entrada, com tal estrondo, que a sala tremeu e pareceu querer vir abaixo. 

Terminado o entremês, pegou D. João na mão da nora e avançou com 
ela para o meio da sala seguido dos mantenedores, cada um conduzindo sua 
dama, e todos dançaram. 

Concluídas as danças, entrou o duque Beja com seis justadores, fidalgos 
de sua casa. Vinham invencionados dos sete planetas e rutilantes de oiro, 
pedrarias e preciosos brocados. 



(i) O conde de Vila Franca, na sua já citada obra, diz, que este episódio do cavaleiro 
do cisne, bem como outros destas festas, foi tirado de representações análogas que tiveram 
lugar no celebrado banquete dado em Lile, trinta e sete anos antes, pelo duque Filipe de 
Borgonha e sua mulher D. Isabel de Portugal, tia avó de D. João II. Em todos os casos 
em Portugal e na corte já se conhecia desde remotas eras, mais ou menos confusamente, a 
lenda do cavaleiro do cisne. Para prova transcreverei a seguinte verba do codicilo, datado 
de 29 de Dezembro de i358, com que morreu a rainha D. Beatris, viúva de D. Afonso IV: 
«Item mando a ElRej Dom Pedro meu filho a minha Taça com sa sobre Copa e com seu 
capitel do Cavaleiro do Çirne E com huú Pichei pequeno smaltado. A qual taça e pichei 
me a dita Raynha daragom minha filha mãdou». — Gaveta 16, maç. i, n.» 1, apenso ao tes- 
tamento. 



140 ' Brasões 

Deus sabe se não saía já do coração do duque a frase final do mole, que 
:para as justas escolheu, dexar a my por vós! Ele amou a gentil Isabel, 
■que depois foi sua primeira mulher, e ela tão pouco tempo persistiu em Por- 
tugal, que é lícito supor tê-la D. Manuel amado à primeira vista. 

Atrás destes sete aventureiros entraram muitos outros, também ricamente 
invencionados, e todos declararam aceitar o desafio, e que, nas condições 
-das justas, viriam a elas quebrar suas lanças. 

Tendo o último aventureiro apresentado o seu breve, apareceu o segundo 
^ntremês. 

Consistia ele em uma fortaleza levantada entre um rochedo e uma basta 
floresta, em sítio ermo e temeroso, que mais medonho ainda tornavam dois 
selvagens de sentinela junto ao portal. Deles porém se não arreceou um 
valente homem darmas, que sobreveiu e, combatendo-os, os desbaratou. 
Vencidos os selvagens, correu o guerreiro a romper as correntes e cadeados 
que tinham cerradas as portas do encantado castelo; abertas elas, saíram 
pela ponte levadiça, dançando, muitos e desvairados momos, e pelo ar, 
voando, infinitas perdizes e outras aves que puzeram em reboliço toda a 
sala. 

Após este entremês entraram na sala vinte estranhos peregrinos, cujos 
mantéus eram de brocado e arremendados sim, mas com remendos de setim 
e veludo. Arrimavam-se a bordões doirados, e doiradas eram as contas 
<]ue, em grandes ramais, traziam ao pescoço. Na cabeça, .os amplos cha- 
péus de aba larga levantada de um lado tinham as copas guarnecidas de 
muitas imagens devotas. » ' 

Chegados em frente da princesa proclamaram o seu breve, pois que eles 
^ram fidalgos invencionados e vinham, como aventureiros, para combater 
nas justas. Lido o cartel lançaram fora os seus trajos de peregrinos, e apa- 
receram com esplêndidos vestuários de corte. E os mantéus, contas e mais 
despojos, todos de valor, foram em um momento presa dos moços da câ- 
mara, reposteiros e chocarreiros, tomando cada um o mais que podia. 

Continuaram ainda até de madrugada as danças, os momos e os entre- 
-meses, dando-se cora a noite fim a estes divertimentos. 



No meio destas festas, quási não havia tempo para repouso. Vimos 
como se passou a noite de terça para quarta f^eira, pois logo na tarde deste 
dia se dirigiu o mantenedor a tomar a teia. 

Foi presenciado o espectáculo pela rainha, que andava adoentada, pelos 
príncipes, por toda a corte e por infinito número de espectadores espalhados 
pelos palanques. 



Henriques 141 

E, ainda que o cronista nos não descreva o acompanhamento e as ceri- 
mónias com que 'se praticou o acto, pode-se conjecturar seriam inúmeras e 
magníficas, pois que, tendo saído o rei à tarde do paço, era já noite quando 
desceu à fortaleza. E ao facto de se estar nos dias mais curtos do ano, se 
contrapõe o da breve distância existente entre os dois lugares. 

Recolhido o rei à távola nela se alojou e permaneceu, com os mantene- 
dores seus sócios, durante todo o tempo das justas. 



No dia seguinte, quinta feira 23 de Dezembro, apresentou-se el Rei na 
liça, ou fez a sua mostra, como dizem os cronistas contemporâneos. 

Em primeiro lugar saíram da fortaleza, que se tinha armado na praça, 
muitos moços a cavalo vestidos de sedas verdes e roxas e tocando trombetas 
bastardas. Atrás deles um bem composto e guarnecido cadafalso moven- 
do-se sobre rodas invisíveis, assim como o eram os que faziam andar. Vinha 
êle enfeitado com muitas bandeiras e trazia pendurados em volta, pela parte 
de fora, muitos atabales em que tocavam outros tantos atabaleiros, todos 
invencionados em bugios, e tão bem, que ainguém diria não serem ma- 
cacos. 

Após este cadafalso vinha outro em tudo semilhante, unicamente os ata- 
baleiros traziam figuras de leões com jubas doiradas. 

Aos atabaleiros seguiam-se muitos tangedores de charamelas e sacabuxas, 
que precediam um muito grande e espantoso gigante de mais de trinta 
palmos de altura. Vinha êle todo coberto de armas doiradas com um escudo 
na mão esquerda e na direita uma facha de armas, e montado em azêmola 
de proporções descomunais escolhida para o efeito e revestida de peles de 
urso com tanta perfeição que iludia. Em volta do gigante muitos homens 
de armas com alabardas doiradas aos ombros. 

Depois vinham a cavalo os porteiros com suas maças de prata, os reis 
darmas, arautos e passavantes, o porteiro mor. Gomes Ferreira, quatro 
mestres salas e D. Pedro de Noronha, mordomo mor. A estes seguiam-se 
muitos cavalos de estado com ricas guarnições e os moços de estribeira, que 
os levavam, vestidos de brocado. 

Após eles D. Jorge de Castro, irmão do futuro 3." conde de Monsanto e 
pagem de el Rei, «moço muyto fermoso e gentil home», que vinha rica- 
mente armado com muitos doirados e pedrarias e na cabeça uma grinalda, 
guirlanda lhe chama Resende, de pedraria terminada por um penacho de 
penas de garça. E os paramentos do cavalo, em que vinha montado o pagem, 
eram de tela de oiro forrados de marta zibelina e tão compridos que, para o 
animal poder andar, os levavam, levantados e afastados, doze moços de es- 



142 Brasões 

tribeira vestidos de brocado de pêlo, «que fazia hum grã terreiro: e era íer- 
mosa cousa pêra ver ». 

Por fim entrou el Rei a cavalo coberto de riquíssima armadura guarne- 
cida de pedras preciosas e pérolas, com a coroa real sobre o elmo e dela 
saindo os liames de nau doirados que ostentava por cimeira em atenção à 
rainha, fazendo um desgraçado trocadilho com liames e Lianor, como então 
se dizia: 

Estes liam de maneira 

que jamais pode quebrar 

quem co'elles navegar. 

Em volta de D. João II caminhavam quarenta moços de estribeira vestidos 
de bro.cados de pêlo. 

Atrás de el Rei vinham, tambe'm a cavalo, os oito mantenedores, a um 
e um, todos ricamente vestidos de brocados e sedas, cobertos de bordados e 
entretalhos e ornados de magníficas jóias. Cada um deles era rodeado de 
muitos moços de esporas vestidos de sedas. 

O primeiro mantenedor atrás de el Rei era D. João de Valenzuela, antigo 
prior mor da Ordem de S. João de Castela, donde andava desterrado por 
haver seguido o partido da Excelente Senhora. Era homem não muito novo 
decerto, pois que já naquela qualidade figurara numa concórdia celebrada 
em 1467 entre os priorados de Castela e Portugal (i). Trazia como cimeira 
o vulto de Alexandre sobre uns grifos e esta divisa: 

No es menor mi pensamiento, 
mas ha quebrado tristura 
las alas de mi ventura. 

O segundo era D. Diogo de Almeida, ou D. Diogo Fernandes de Almeida^ 
do conselho, monteiro mor, prior eleito da Ordem do Hospital, e futuro 
testamenteiro de D. João II, sendo já então prior do Crato. Era a sua ci- 
meira uma boca de inferno com as almas a penar, e dizia a divisa: 

Acorda-os (2) de mis passiones, 
animas, y descansareis 
de quantas penas teneis. 

O terceiro mantenedor era João de Sousa, comendador de Ferreira, Ai- 



(i) José Anastácio de Figueiredo, Nova Malta, vol. III, pág. 70. 

(2) No Cancioneiro, fl. 174, col. i, lê-se «Nemhraos», em vez de «Acórdãos», comO' 
vem na Chronica de Resende, fl. 79; sigo porém esta. 




Henriques 14^ 

valade e Represa na Ordem de Santiago. Havia sido capitão dos ginetes 
do infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, e muito valente soldado em 
Africa onde entrara em dezoito pelejas e fora sete vezes ferido, como declara 
o seu epitáfio na igreja de Ferreira. Era a sua cimeira uma besta fera, com 

esta divisa: 

Aquesta guarda sus armas, 
mas a mi que «imor enciende 
nunca delias me defiende. 

O quarto mantenedor, Aires da Silva, camareiro mor e do conselho, 
5.° senhor de Vagos, e depois regedor das justiças, trazia por cimeira um 
cão Cerbero e esta divisa: 

Guardas tu, mas no tan cierto 
como yo siempre guarde 
la fé dei bien que cobre. 

O quinto mantenedor era um fidalgo francês, Monseor de Veopargas, lhe 
chama Resende, e trazia por cimeira uma cabeça de cabra e esta divisa: 

Quien me tocare naquesta 
yo le rompere la testa. 

O sexto era D. João de Meneses, o Pica-Sinos, alcunha que lhe foi posta 
por em rapaz querer andar sempre a repicar sinos. Era irmão do conde de 
Cantanhede e aio e mordomo mor do príncipe D. Afonso, a quem acompa- 
nhou quando, em 12 de Julho de 149 1, deu, nos campos de Santarém, a 
mortal queda do cavalo abaixo. D. João, um dos melhores poetas do Can- 
cioneiro, trazia por cimeira um ichó (armadilha em forma de alçapão para 
apanhar caça meúda) e dentre dele metido até à cintura um homem. A 

divisa era esta: 

Es tan dulce mi prision 
que deve, para matarme, 
no prenderme mas soltarme. 

O sétimo mantenedor era Álvaro da Cunha, estribeiro mor, ofício que já 
exercia desde 1487 pelo menos e conservou durante toda a vida de D. João II, 
de quem foi muito aceito. Era filho segundo de Luís Álvares, mestre sala, 
e de sua mulher D. Teresa de Albuquerque, irmã do conde da Atalaia. A 
5ua cimeira era uma harpa sem cordas, e a divisa: 

Quanto mas oye alegria 
quien no alcança ventura, 
tanto mas siente tristura. 



144 Brasões 

E, finalmente, o oitavo mantenedor era Rui Barreto, que neste mesmo 
ano havia sucedido na casa a seu pai, Nuno Barreto, alcaide mor de Faro, 
senhor da Quarteira, eic. Trazia por cimeira um banco pinchado (aparelho 
de guerra destinado a combater as muralhas das praças sitiadas, danifican- 
do-as), e por divisa: 

Mas quiero morir trás el, 
sus peligros esperando, 
que la muerte recelando. 

Dada a volta em torno da praça recolheu-se de novo el Rei e os mais 
mantenedores à fortaleza, donde viram a entrada dos aventureiros. 

Precedido de muitas trombetas e outras músicas, e de variados entre- 
meses, entrou na praça o duque de Beja, seguido de seis outros aventureiros, 
fidalgos de sua casa, todos rodeados de muitos moços de esporas e de estri- 
beira. 

Era a cimeira do duque o deus Saturno, com esta divisa: 

El consejo que he tomado 
deste muy antiguo dios, 
es dexar a mi por vos. 

Seguia-se-lhfe D. João Manuel seu camareiro mor, ofício que continuou. a 
exercitar depois do duque suceder na coroa. Era D. João um dos dois filhos 
do bispo da Guarda, a quem Já largamente me referi, e foi notável poeta no 
seu tempo. Trazia por cimeira o sol, e esta divisa: 

Sobre todos resplandesce 
mi dolor 
porque es el qu'es mayor. 

O outro aventureiro era Pedro Homem, poeta do Cancioneiro, cavaleiro 
fidalgo, estribeiro mor de D. Manuel antes e depois de rei. Ostentava por 
cimeira a Vénus, e trazia esta divisa: 

Si esta gracia y hermosura 
puede daria, 
de vos tiene de tomaria. 

O quarto aventureiro era Garcia Afonso de Melo, comendador professo 
na ordem de Cristo, alcaide mor de Castelo Branco e também poeta do Can- 



Henriques 145 

cioneiro. Pertencia a um ramo dos Meios, senhores de Ferreira de Aves, e 
trazia por cimeira a lua, com esta divisa: 

Antes da luz de su lumbre 
de vuestra gran claridad 
es la desta escuridad. 

O quinto aventureiro era Lourenço de Brito, comendador de Castelo 
Novo e copeiro mor de D. Manuel, antes e depois de rei. Trazia por cimeira 
a Mercúrio, com esta divisa: 

No ay saber ni descricion 
ai que os mira, 
porque viendo'os se le tira. 

O sexto aventureiro era João Lopes de Sequeira, que foi trinchante de 
el Rei D. Manuel e o fundador da vila de Santa Cruz do cabo de Gué. 
Trazia por cimeira o deus Marte e esta divisa: 

La vitoria, que de aqueste 
he recebido, 
es verme de vos vencido. 

O sétimo aventureiro, António de Brito, irmão de Lourenço de Brito, era 
fidalgo da casa do duque e possuia a renda do jantar de Alcanede. Trazia 
por cimeira a Júpiter e esta divisa: 

Aqueste suelé dar vida 
ai que mas servirse halla, 
y vos ai vuestro quitaria. 

Estes, contando com o duque de Beja, eram os sete aventureiros da sua 
quadrilha e representavam, como se vê, os sete planetas. 



Após o duque e a sua quadrilha entraram na Praça os outros aventureiros, 
todos ricamente vestidos e armados, acompanhados de muitos pagens, moços 
de esporas e de estribeira. Eram entre todos mais de cinquenta, como diz 
Rui de Pina; mas só dos seguintes nos conservou Garcia de Resende os 
nomes. 

D. Fernando de Meneses, primogénito do marquês de Vila Real, e depois 

VOL. III 19 



146 Brasões 

i." conde de Alcoutim e de Valença, e 2.° marquês e 4.'' conde de Vila Real, 
trazia por cimeira um farol com esta divisa: 

En el mar de mi desseo 
viendo su lumbre segui 
a ella, y dexe a mi. 

Aludia a D. Maria Freire com quem casou por amor contra a vontade de 
seu pai. Era ela filha única de João Freire de Andrada, senhor de Alcoutim 
e aposentador mor. 

Pedro de Aires, fidalgo castelhano, trazia uma serpente e esta divisa: 

La vida pierde dormiendo 
el que muerde este animal 
y yo callando mi mal. 

D. Henrique Henriques, 2.° senhor das Alcáçovas, do conselho de el Rei, 
comendador de Colos e aposentador mor, trazia por cimeira uma torre 
com um sino e esta divisa: 

Este sona mi servicio ' ' 

ser con vos 
tan cierio como con dios. 

D. João de Almeida, conde de Abrantes, do conselho e vedor da fazenda, 
trazia um hidra de sete cabeças e esta divisa: 

Quando sanan de un dolor, 
los que como yo padecen, 
siete dei se le recrecen. 

Fernão Martins Mascarenhas, capitão dos ginetes, comendador de Mér- 
tola e Almodóvar, trazia uma atalaia, e dizia a divisa: 

Ha descubierto mi vida 
desde aqui 
gran descanso para mi. 

D. Rodrigo de Meneses, mordomo mor da rainha, guarda mor do prín- 
cipe, comendador de Grândola, e irmão do mantenedor D. João de Meneses, 
trazia umas limas com esta divisa: 

Estas sueltan las prisiones 
de que muchos han salido, 
y a mi han mas prendido. 



I 



Henriques 147 

D. Martinho de Castelo Branco, vedor da fazenda, senhor de. Vila Nova 
de Portimão, do conselho, e posteriormente i." conde daquela vila, trazia 
uma mão com uns malmequeres e esta divisa: 

Cien mil destas desfoge, 
mas fue mi ventura tal, 
que siempre quedo en el mal. 

Jorge da Silveira, que fora veador da fazenda do duque D. Diogo e era 
filho segundo do regedor Fernão da Silveira, 3.° coudel mor do reino, trazia 
umas faieixas e esta divisa : 

Van buscando mis servidos 
el galardon que cayo 
donde nunca perecio. 

D. Diogo Pereira, cavaleiro fidalgo e depois 2.° conde da Feira, filho de 
Rui Pereira, i.° conde da Feira, trazia a imagem do arcanjo S. Miguel com 
as balanças na mão, e esta divisa: 

Si a noi gran querer y fee 
galardon tiene defesa 
tu lo pesa. 

D. Rodrigo de Castro, chamado D. Rodrigo de Monsanto, cavaleiro 
fidalgo, capitão de Arzila, e filho bastardo de D. Álvaro de Castro, 1° conde 
de Monsanto, trazia a torre de Babilónia e esta divisa: 

Es tan baxa mi ventura 
y tan alto el edifício, 
que no basta mi servicio. 

D. Diogo Lobo, fidalgo, filho herdeiro da baronesa de Alvito e futuro 
2.° barão de Alvito, do conselho e vedor da fazenda, trazia um leão rom- 
pente e esta divisa: 

Con sus fuerças y mi fee 
todos mis males dobree. 

D. Pedro de Sousa, moço fidalgo, e depois i.° conde do Prado, trazia 
um salteador assassino com esta divisa: 

Vuestra vista desbarata 
mas, do que este roba y mata. 

Francisco da Silveira, coudel mor, ofício que serviu nêsie ano de 1490 



148 Brasões 

em lugar de seu pai, e no qual depois lhe sucedeu, vindo a ser o 4.° na sua 
família, foi senhor das Sarzedas e era irmão dos outros aventureiros Jorge 
e Diogo da Silveira. Trazia por cimeira umas luas cheias e uns minguantes 

e esta divisa: 

Las minguadas son mis bienes, 
y por my dicha ser tal 
las Ilenas son de mi mal. 

Diogo da Silveira, irmão do precedente, foi veador da casa do senhor 
D. Jorge duque de Coimbra. Trazia um medronheiro com medronhos e 

esta divisa: 

Neste remédio de vida 
tengo la mia perdida. ^ 

Pero de Abreu, fidalgo, sucedera em 1488 a seu pai, Fernão de Abreu, 
na renda da portagem de Évora e, segundo notícias de nobiliários, na posse 
da quinta da Sempre Noiva, Junto de Arraiolos, a qual vendeu a D. Afonso, 
bispo de Évora (1). Trazia por cimeira uma águia e esta divisa: 

Não tespantes do que faça, 
segueme bem e veras, 
e eu te matarey a caça 
e tu a depenares. 

Nuno Fernandes de Ataíde, moço fidalgo em 1484, foi senhor de Pena- 
cova, alcaide mor de Alvor e famoso capitão de Safim. Trazia por cimeira 
uns ramos de fetos e esta divisa: 

En el comienço de aquestos 
comence, 
y en ellos acabare. 

Garcia de Sousa, fidalgo, era filho bastardo, legitimado em 147 1, de 
Vasco Martins Chichorro, também em documentos designado por Vasco 
Martins de Sousa Chichorro, capitão mor dos ginetes de D. Afonso V, que 



(i) Gabriel Pereira, na pág. Bj do vol. III dos Documentos de Évora, tratando da quinta 
da Sempre Noiva, transcreve apenas trechos da instituição do morgado feito pela filha do 
bispo, extraídos de um códice da Colecção Pombalina da Biblioteca Nacional de Lisboa, 
com a data da aprovação régia errada, quando tudo poderia encontrar no liv. 9.° das Doa- 
ções de D. João III, fl. 77, A. F. Barata a pág. 33 e segs. do opúsculo Évora e seus arre- 
dores nada adianta e cai no mesmo érro( Além destes autores, que podiam e deviam ter 
averiguado alguma coisa acerca desta propriedade, onde existe uma casa de tãò curiosa 
arquitectura, não sei de mais ninguém que tivesse tratado do assunto. 



Henriques 1 49 

poucos dias antes renunciara neste filho a alcaidaria das casas de Bragança (i). 
Trazia uns compassos e esta divisa: 

Es descanso de mi mal 
la fe que os tengo dada. 

João Ramirez de Arelhano, fidalgo castelhano residente na corte portu- 
guesa, onde casara com D. Leonor, filha de Gomes de Miranda, alcaide 
mor de Torres Vedras, e irmã de D. Beatris, mulher do aventureiro Garcia 
de Sousa, parece ter sido esmerado cortesão e assíduo galanteador, segundo 
se depreende de trovas do Cancioneiro geral e de versos de Gil Vicente no 
Velho da íiorta. Em i523 recebia noventa e cinco mil reais de três tenças 
com o hábitode Cristo (2) e em i526, sendo viúvo e já velho, perfilhou Aleixo 
de Sousa, filho do sobredito Garcia de Sousa (3). Pouco mais tempo teria 
de vida, porque no citado Livro das tenças já aparece com a apostila de 
«finado». Trazia uma celada e esta divisa: 

Es descanso de mi mal 
ser en aquesta celada 
toda mi vida gastada. 

Diogo de Mendoça, do conselho e alcaide mor de Mourão, veio a ser 
dali a menos de quatro anos, por morte de seu irmão Duarte Furtado de 
Mendoça, anadel mor dos besteiros do conto (4). Teve uma filha muito for- 
mosa, chamada D. Joana de Mendoça, que ele não chegou a ver duquesa 
de Bragança (5). Trazia por cimeira umas âncoras e esta divisa: 

Que venga toda fortuna 
jamas sueltan vez ninguna. 

Foi escolhida de preferência a língua castelhana para as divisas em obsé- 
quio à princesa. A galantaria com as damas era a primeira e mais neces- 
sária qualidade do cavaleiro de então. 



(i) O instrumento de renúncia é do i.° de Outubro de 1490 (Chancelaria de D. João 11^ 
liv. ii.*>, fl. 70 V.). 

(2) Livro das tenças, no Arquivo histórico português, vol. II, pág. 104. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv, 12.° de Doações, fl. 144. 

(4) Sepulturas do Espinheiro, pág. 61. 

(5) D. Joana de Mendoça casou em i520 com D. Jaftne, 4.° duque de Bragança, e por 
carta de 14 de Julho de i5i6 havia sido dada a alcaidaria mor de Mourão, por morte de 
Diogo de Mendoça, a seu filho Pêro de Mendoça {Chancelaria de D. Manuel, liv. 37.°, fl. 64) 



i5o Brasões 



Um torneio ! que grandioso, que imponente e excitante espectáculo não 
seria esse, no qual a insigne ordem da cavalaria ostentava todas as suas 
galas, toda a sua perícia e ardor ? Onde os cavaleiros rivalizavam não só 
nos duros golpes e destreza no cavalgar, como na magnificência dos trajos, 
adornos, e luzido acompanhamento ? Onde a galantaria em honra das 
damas chegava a transformar-se em culto ? Quem haverá que o saiba des- 
crever? Talvez ninguém. A brilhante pena de Walter Scott tentou-o; mas, 
apesar da magia das suas descrições, quanto àquem não ficaria ele da reali- 
dade ? 

Naqueles tempos guerreiros da idade média, tempos de lutas quási cons- 
tantes, o exercício das armas era tão necessário àquelas constituições robustas 
e ardentes, que, nem mesmo durante a paz, podiam passar sem simulacros 
de guerra. Destes exercícios se originaram as justas, torneios, tavolado, 
canas e outros divertimentos militares, que se foram, com o andar dos 
tempos, transformando, como todas as mais coisas, chegando a ser bem 
diferentes dos primitivos. 

Em Portugal há memória d'e vários torneios antes e depois dos de Évora; 
mas nenhum tão esplêndido. 

Estes jogos, sempre perigosos, muitas vezes sanguinolentes e algumas 
mortíferos, eram sujeitos a regras que obrigavam a respeitar as pessoas es- 
colhidas para juízes. No de Évora foram eles D. Rodrigo de Ulhoa, embai- 
xador de Castela, Rui de Sousa, almotacé mor, e o regedor das justiças 
Fernão da Silveira. Tinham os juízes o seu lugar marcado na liça em sítio 
donde pudessem, não só ver bem tudo que os campeões realizavam, como 
acudir imediatamente, caso fosse infringida alguma das regras das justas. 
Para este fim, traziam eles nas mãos uma vara, com a interposição da qual 
faziam cessar logo a luta. Eram eles sempre escolhidos entre os fidalgos 
de bandeira quadrada, e, durante o torneio, um arauto segurava nas suas 
bandeiras. 

As regras principais, que havia a seguir, eram: não ferir com as pontas 
das espadas, mas unicamente com o gume; não combater fora das fileiras; 
não ferir o cavalo do adversário; dirigir as lanças unicamente contra a vi- 
seira e couraça; deixar de ferir o contrário logo que ele levantasse a viseira, 
ou lançasse fora o capacete; não se juntarem uns poucos contra um só(i). 

As damas, que eram a alma destes combates, gozavam neles do primeiro 
lugar, e de tantas imunidades, que, não só era sempre uma delas quem en- 



(i) La Cume de Sainte Palaye, Mémoires sur l'ancienne chevalerie, parte 2.» do tomo i." 



Henriques 1 5 1 

tregava o prémio, como, em casos duvidosos, formavam um tribunal sem 
apelação no qual esses casos eram decididos. 

Os cavaleiros mais afortunados apresentavam-se na liça, proclamando em 
altas vozes os nomes das suas amadas, de quem se declaravam escravos; 
favor que não era alcançado, senão depois de terem dado muitas provas da 
sua constância no amar, e do seu esforço no combater. 

As vezes, sucedia entrarem na liça cavaleiros agrilhoados pelas suas 
damas, que levavam nas delicadas mãos as cadeias de preciosos metais, com 
que os traziam algemados, e só os largavam, quando se dava o sinal do 
combate. Outros havia, que entravam naquele torneio calados e sós, como 
que abandonados; mas que pelo seu denodo conquistavam a apetecida escra- 
vidão, com a qual se ufanariam nas justas seguintes. 

As damas davam aos seus adoradores um laço, um véu, uma faxa, um 
bracelete, um sinal qualquer para os poderem conhecer durante o torneio. 
E, se a. insígnia dada era destruída no meio do combale, apressavam-se os 
cavaleiros a vir junto delas pedir-lhe uma nova, pedido sempre atendido. 
Facto este que deu lugar a uma vez, em certo torneio em França, no qual o 
prémio foi mais disputado, as damas acharem-se despojadas de todos os 
enfeites, com os braços e os seios nús e os cabelos caídos. 

Entre nós, contudo, não chegaram as coisas a estes extremos, atento ao 
recato de que sempre usaram as damas da corte. 

Continuando com as nossas justas de Évora direi, que foram das bem 
justadas que houve, e daquelas em que a preceito se observaram as regras 
estabelecidas, o que deu em resultado não haver desgraças a lamentar. 

Na própria quinta feira, em que el Rei pôs a sua mostra, ainda se que- 
braram algumas lanças, mas foram poucas, porque sobreveio a noite, e 
apesar da iluminação da Praça ser brilhantíssima não quis D. João II, que 
continuassem as justas. 

Continuaram-se elas na sexta, sábado e domingo, em que se terminaram, 
e teve el Rei a destreza, ou felicidade, de quebrar as quatro primeiras 
lanças, que eram exigidas para ganhar o prémio devido ao melhor justador; 
pelo que lhe foi ele adjudicado. O outro, destinado ao que mais galante se 
apresentasse na liça, esse, desde o princípio o tinha ganho; não só, porque 
talvez realmente o merecesse, como porque nos juízes sempre haveria um 
pouco de parcialidade cortesã a seu favor. 

Terminadas as justas recolheram-se todos ao paço, onde ,§e fez a entrega 
dos prémios, e deveria ter sido feita pela seguinte forma. 

Na sala, onde todos se encontravam, entrou, levando nas mãos o prémio, 
a princesa precedida de trombetas, arautos, passavantes e do rei darmas, e 
ladeada por duas das suas damas e pelos juízes das justas. Deu três voltas 



i52 Brasões 

em redor da casa; e então, parando defronte de el Rei, entregou-Ihe o prémio 
em troca do qual recebeu um beijo. D. João porém conientou-se com a 
honra, e cedeu o proveito a favor de dois dos aventureiros que tinham en- 
trado na liça. Deu ele o anel com um riquíssimo diamante, prémio desti- 
nado ao que mais galante se apresentasse, a Diogo da Silveira, o cavaleiro 
do medronheiro; e o colar de oiro coberto de preciosos esmaltes, prémio do 
que melhor justasse, a um fidalgo valenciano a quem Resende chama mossem 
Alegre. 

Com isto se terminarani as festas, ainda que para os dias seguintes es- 
tavam destinados mais divertimentos, tanto na sala de madeira, como na 
Praça; mas apareceu novo rebate de peste, e este tão ameaçador, que obrigou 
todos a dispersar. 

O Rei foi para a herdade da Fonte Coberta próximo da cidade'^, os prín- 
cipes para o Espinheiro, e da família real só ficou em Évora a rainha, que 
estava doente. 



Sobre a praça de Évora era a fachada da nobre casa dos Henriques se- 
nhores das Alcáçovas, a qual fizera parte dos antigos paços reais, e lhes 
fora doada por D. Afonso V. 

Esta informação por mim aceita em i885, quando pela primeira vez tratei 
do assunto, não é exacta. Na ocasião de se realizarem as justas de Évora, 
a casa alinhada com os Estaus e deles separada pela rua dos Toiros, não 
pertencia ainda aos Henriques, pois que por documentos do Arquivo Muni- 
cipal Eborense consta serem elas em i5o2 e i5o3 propriedade de Rui de 
Sande (i), aquele a quem Garcia de Resende veio a suceder em 1491 na es- 
crivaninha de D. João II (2). Rui de Sande, ou melhor D. Rodrigo de 
Sande, pois D. Manuel lhe deu o doi?i pelos seus serviços como embaixador 
em Castela, lá morreu em i5o4 antes de Outubro (3) e só posteriormente 
viria a sua casa da praça de Évora a pertencer aos Henriques das Alcá- 
çovas. 

Voltemos porém às festas. 

Entre os aventureiros das justas, como acima vimos, aparece D. Henrique 
Henriques, senhor das Alcáçovas e um dos muitos cortesãos desses tempos 
dados a trovar. E não foi só ele da família, pois que também seus irmãos 



(i) A. Felipe Simões, Paços Reaes de Évora, no vol. XI do Archivo pittoresco, pág. 2, 

(2) Critica e historia, pág. 33. 

(3) Carta de 24 de Outubro de i5o4 de 40.000 reais de tença a sua viúva D. Guiomar 
Freire {Chancelaria de D. João III, liv. 37.° de Doações, fl. 1 58). 



Henriques i53 

D. Afonso, D. Joana e D. Catarina Henriques, suas sobrinhas D. Felipa e 
D. Margarida Henriques, filhas de D. Briolanja Henriques e de Aires de 
Miranda, poetaram e no Cancioneiro geral recolheu Garcia de Resende 
trovas suas. 

Procediam estes Henriques de D. Fernando, filho bastardo de Hen- 
rique II, rei de Castela, que no seu testamento, datado de 29 de Maio da 
era de 1412 (1374-e. v.), o nomeia nestas palavras: « Outrosi eso mesmo 
rogamos é mandamos á la Reyna, é ai Infante, que á Don Hernando mi 
fijo, é á Dona Maria mi fija, que si entendieren criarlos é facerles mercedes, 
que lo fagan; é si non, que ai dicho Don Hernando que Io fagan CleVigo. . .»(i). 
Sua mãe parece ter sido Beatris Fernandes (2). Foi ele senhor de metade 
de Duenas por doação de sua irmã D. Leonor, afim de poder casar com 
D. Leonor Sarmiento (3). Passou D. Fernando a viver em Portugal no 
tempo de D. João I em cuja casa tinha, em 1414, de moradia de cavaleiro, 
vinte e sete mil libras (4). Morreu, segundo se diz, em 1488 (5). 

Dele foi filho outro D. Fernando, a quem a rainha D. Leonor, chaman- 
do-lhe, em nome de D. Afonso V, «nosso tio, neto dei Rei D. Henrique de 
Castella », fez doação, em casamento, dos direitos e rendas do reguengo das 
Alcáçovas por carta de 14 de Fevereiro de 1439(6). A noiva era D. Branca 
de Melo, filha de Martim Afonso de Melo, guarda mor de D. João I e alcaide 
mor de Lvora e Olivença, e a ela prometeu a rainha em casamento duas 
mil coroas de oiro, pelas quais lhe arbitrou, por carta de 10 de Abril de 
1439, uma tença de setecentas mil libras (7). 

Expediram-se mais três cartas relativas às rendas e direitos das Alcá- 
çovas: pela primeira, de 24 de Agosto de 1439, a doação foi acrescentada 
com o lugar, além do reguengo, em quanto fosse mercê dei Rei (8); pela 
segunda, de 3 de Abril de 1440, tornou-se vitalícia (9); e pela terceira acres- 
ceram as jurisdições, também em vida (10). Em todos estes diplomas é 



( 1 ) Testamento dei Rey Don Enrique Segundo, pág. 1 1 3 do tomo II de las Crónicas de 
los Reyes de CastUla de D. Pedro Lopez de Ayala, edição de Sancha. 

(2) Ibidem, pág. 114, nota 12. 

(3) Ibidem, -pÁg. ii3, notaS, 

(4) Soares da Silva, Memorias para a vida 4el Rey D. João o I, tomo IV, pág. 221. 

(5) Barbosa Canais, Henriques de Portugal, pág. 54 de um folheto incompleto mencio- 
nado no vol. IV do Diccionario Bibliographico, pág. 266, n.° 28o3. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 18.°, fl. 3/ v. 

(7) Ibidem^ liv. 19.°, fl. 7. 

(8) Ibidem, liv. 19.°, H. 94. 

(9) Ibidem, liv. 20.', fl. 61. 

(10) Liv. 3." de Místicos, fl. 98 v. 

TOL. in ao 



i54 Brasões 

designado por D. Fernando, neto de el Rei D. Henrique, nosso primo, e no 
último, do nosso conselho. 

D. Fernando das Alcáçovas, como em outros documentos é designado, 
estivera em Outubro de 1437 no palanque de Tânger, quando teve lugar a 
desastrosa expedição, e dai passara a servir em Seuta(i). Morreu no ano 
de 1462, ou nos primeiros dias de 1463, porque por carta de 5 de Fevereiro 
deste ano foi feita mercê a D. Branca, « mulher que foi de D. Fernando das 
Alcáçovas nosso primo, neto dei Rei D. Anrique de Castela, a que Deus 
perdoe», dos direitos dos reguengos das Alcáçovas para os começar a haver 
do i.° de Janeiro do referido ano em diante, em sua vida, como seu marido 
os tivera (2). D. Branca de Melo sucedera a seu pai no senhorio de Bar- 
bacena, e por ela tivera seu marido as jurisdições daquele lugar, como 
consta da carta de confirmação delas a seu neto D. Jorge Henriques, encon- 
trando-se neste diploma seu avô nomeado D. Fernando Henriques (3), apelido 
que julgo nunca usara, nem em vida lhe fora dado. 

Eslava D. Branca de posse dos direitos reais do reguengo das Alcáçovas, 
quando, por carta de 8 de Abril de 1469, foi feita doação, em vida, a D. João, 
sobrinho de el Rei e futuro marquês de Montemor-o-Novo, da vila das Alcá- 
çovas, com todos seus direitos e jurisdições, resalvando o reguengo, o qual 
haverá por falecimento da actual donatária ou por satisfação a ela por ele 
dada (4). Chegou D. João a haver os direitos do reguengo os quais, só 
depois da sua condenação como traidor, vieram a pertencer ao filho primo-' 
génito de D. Branca de Melo. 

De seu Aarido teve esta senhora, além doutros filhos, a D. Henrique 
Henriques e D. Afonso Henriques, em cujos descendentes se continuou a 
linhagem. 



D. Henrique Henriques foi aposentador mor do príncipe D. João e, exer- 
cendo já o ofício, aparece na carta de 1 de Janeiro de 1476 pela qual o prín- 
cipe, na qualidade de governador da ordem de Santiago, lhe deu a comenda 
dos Colos (6). Continuou o príncipe dando provas de afecto ao seu servidor, 



(c) Assim o declara a carta de 20 de Junho de 1441 da isenção de besteiro a um mo- 
rador das Alcáçovas, que a D. Fernando acompanhara a Africa (Pedro de Azevedo, Docu- 
mentos das Chancelarias Reaes, vol, I, pág. 536, n." yS). 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. S.", fl. 1 1 v. 

(3) Carta de 11 de Agosto de 1541 na Chancelaria de D. João III, liv. 3i.° de Doações, 
fl.88. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 36.», fl. 106. 

(5) Liv. I.» do Cartório de Santiago, fl. 45 v. 



Henriques i55 

que parece tê-lo acompanhado na invasão de Castela (i), não só em várias 
mercês na ordem de Santiago (2), mas intervindo no ajuste do seu casamento 
para o qual lhe permitiu obrigar às três mil coroas de arraá prometidas a 
sua esposa, D. Felipa de Noronha, as rendas do reguengo das Alcáçovas, 
nas quais, por promessa de D. Afonso V, devia suceder ao marquês de 
Montemor depois de seu falecimento (3). Subiu D. João II ao trono em 
148 1, pouco depois teve lugar a conspiração do duque de Bragança e nela 
se achou envolvido seu irmão Montemor. Foi êle condenado a morte e con- 
fisco por sentença de 12 de Setembro de 1483 e D. João II, por carta de 2S 
do mesmo mês, fez doação a D. Henrique Henriques, em sua vida, da vila 
e reguengo das Alcáçovas, com todos seus direitos e rendas e bem assim 
jurisdições eivei e crime, resalvando a correição e alçada (4). Era então 
D. Henrique do conselho e aposentador mor e neste ofício continuou ser- 
vindo a D. João II, mas nele não o conservou D. Manuel que, por carta de 
5 de Fevereiro de i5o4, em virtude de renúncia de António de Brito, o 
nomeou caçador mor (3). Pouco tempo serviu o ofício, porque já era fale- 
cido a 5 de Novembro do ano seguinte, quando foi confirmado o senhorio 
das Alcáçovas a seu filho D. Fernando Henriques (6). 

De D. Henrique Henriques deixou-nos o retrato Nuno Pereira: 

Sam de cote gracioso 
digo mil graças de cote, 
a quem quero dou hum mote 
e pico-me de pomposo. 

Doutro cabo tal baixeza ' 

e compasso de gram dor 
qu'em chapins não chego alteza 
do princepe nosso senhor (7). 



(i) Por carta datada de Samora, a 23 de Outubro de 1476, nomeou D. Afonso V almo- 
tacéis de Évora a D. Henrique Henriques e Aires de Miranda, «pelos serviços que ora recebi 
e espero receber nestes meus reinos de Gastella». Chancelaria de D. Afonso V, liv. So.", fl. i65. 

(2) Mercê da renda do moinho do Cubo, no- termo de Santiago do Cacém, por carta 
de 27 de Maio de 1477, ^ P°^ outra de 14 de Fevereiro do ano seguinte deu-lhe, em escamWb 
pela comenda dos Colos e moinho do Cubo, as rendas dos lagares de Alcácer do Sal e do 
casal de Benagazil no termo da mesma vila. — Cit. Liv. i.° do Cartório de Santiago, fls. 45 
€1 117. 

(3) Alvará de 10 de Outubro de 1477 no cit. Liv. i.° do Cartório de Santiago, fl. 83. 

(4) Chancelaria de D. João 11^ liv. 26.°, fl. i3 v, 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 23.°, fl. 2. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 14.° de Doações, fl. 216 v. 

(7) Cancioneiro geral, fl. 164, col. i. — Este Nuno Pereira, autor das trovas, era cunhado 
de D. Henrique, pois casara com sua irmã D. Beatris Henriques a quem, segundo dizem, 
matou. 



i56 Brasões 

Parece que era frequentes vezes atacado de um padecimento, incómodo para 
êle e para os vizinhos: 

Por que Anriquez dÕ Anrique 
hé mais ventoso que maio ? 

quer saber o dos Porquês de Setúbal (i) achados no paço ^m 1488. 

Casara D. Henrique por duas vezes: da primeira com D. Felipa de No- 
ronha, donzela da casa da princesa D. Leonor e filha de João Gonçalves da 
Câmara, 2.° capitão do Funchal (2), e o casamento fora feito pelo príncipe 
D. João, que, por carta de 10 de Outubro de 1477, a ela garantiu pelas 
rendas dos bens da coroa possuídos pelo noivo o prometido dote e arras (3). 
Da segunda vez casou com D. Leonor da Silva, viiíva de Cristóvão de Melo, 
alcaide mor de Évora, falecido em Africa, em combate, no ano de 1488. 
Já estava realizado o segundo casamento de D. Henrique Henriques em 
Agosto de i5o2(4) e por esses anos casou D. Fernando Henriques, filho pri- 
mogénito de D. Henrique, com D. Isabel de Melo, filha única do primeiro 
casamento de sua madrasta, e jlor este enlace houve a alcaidaria mor de 
Évora, da qual já estava de posse em 5 de Novembro de i5o6, quando lhe 
foi confirmado o senhorio das Alcáçovas (5). A D. Fernando e a D. Isabel 
comprou D. Manuel a. alcaidaria mor, dando-lhes, em satisfação dela, cem 
mil reaie de tença em duas vidas e os direitos do reguengo das Alcáçovas de 
juro e herdade, tudo por duas cartas de 12 e de 1 1 de Fevereiro de i5i8(6). 
De então por diante em seus descendentes se conservou o senhorio da vila 
das Alcáçovas, da qual, , perdida já a varonia de Henriques, foram feitos 
condes por decreto de i de Dezembro de 1834(7). 

De D. Henrique Henriques também procederam os ramos dos caçadores 
mores, extintos, os dos Henriques da Madeira e da índia, ambos com a va- 



(r) Cancioneiro geral, fl. 175, col. 2. 

(2) Era o João Gonçalves, capitão da Ilha, do qual existem trovas no Cancioneiro geral, 
flS. iSi, 177 e 180. 

(3) Liv. i." do Cartório de Santiago, fls. 78 e 81. . 

(4) Carta de 3i de Agosto de i5o2 de 56.6oo rs. de tença a D. Leonor da Silva, que 
nela trespassara seu marido D. Henrique Henriques. — Chancelaria de D. João III^ liv. 3g.* 
de Doações, fl. 75. 

(5) A alcaidaria mor de Évora havia sido prometida, por carta de 5 de Maio de 1489, 
confirmada por outra de 29 de Agosto de 1499, à pessoa que casasse com D. Isabel de Melo, 
filha de Cristóvão de Melo. — Chancelaria de D. João III, liv. 14.' de Doações, fl. 216 v., in- 
corporadas ambas noutra de 29 de Julho de i528. 

(6) Ibidem, liv. 14.° de Doações, fl. 216 v. e 2i5 v. 

(7) Resenha de Silveira Pinto, vol. I, pág. 18. 



Henriques iSj 

ronia extinta, e ainda outros, em todos os quais igualmente se extinguiram 
as varonias. 



D. Afonso Henriques, o segundo filho de D. Fernando das Alcáçovas, foi 
senhor de Barbacena em sucessão a seu pai, que houvera o senhorio pelo 
seu casamento com D. Branca de Melo, filha de Martim Afonso de Melo, a 
quem fora doado in perpetuum por D. João I(i). Além do senhorio, teve 
a alcaidaria mor e a capitania de Borba por duas cartas de 8 de Outubro de 
1483 (2), bens confiscados ao duque de Bragança. Pouco depois, ou por 
esses tempos, deu-lhe mais D. João II os direitos reais, as rendas e a alcai- 
daria mor da vila de Portalegre da qual estava de posse em 1490, quando, 
por três cartas do mês de Maio, lhe foram confirmados os antigos privilégios 
da sua defesa e quinta do Azinhal, nos, termos de Portalegre e Arronches (3); 
já era então do conselho. Subindo D. Manuel ao trono quis fazer doação 
da vila de Portalegre a Diogo da Silva de Meneses, seu aio, escrivão da puri- 
dade e vedor da fazenda, e para realizar o seu intento deu a D. Afonso Hen- 
riques, em sua vida, em satisfação, duzentos e cinquenta mil reais de tença, 
devendo dela passar por sua morte cento e cinquenta mil a seu filho e suces- 
sor (4). Seguiu-se pouco depois a restituição da casa aos Braganças e para 
se efeituar deu D. Manuel a D. Afonso Henriques outra satisfação, não sei 
qual, pela alcaidaria mor de Borba. 

Ainda continuou por mais alguns anos fazendo vida de cortesão, pois que 
não encontro vestígios dele haver servido nas guerras desses tempos; mas 
já tinha morrido em Dezembro de i5o6(d) e provàvelniente falecera no pró- 
prio ano. Dele também nos deixou o retrato o mesmo l^uno Pereira, poeta 

do Cancioneiro: 

Sam gualante castelão, 
o mór qu'há d'aqui ó Cayro, 
e gasto cum boticayro 
cada dia hum chinfrão. 
Porqu'é tal minha magreza 
que requere confessor, 
bem o sabe su'alteza 
do princepe nosso senhor (6), 

(i) Tudo consta da citada carta de 11 de Agosto de 1541. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. zf.", fl. 64. 

(3) Ibidem, liv. iG.°, fls. 11 e 11 v, 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 4.°, fl. 20. 

(5) Carta de 10 de Dezembro de padrão de i5o.coo rs. a D.João Henriques em sucessão 
a seu pai D. Afonso Henriques. — Liv. 5." de Místicos, fl. 47 v. 

(6) Cancioneiro geral, fl. 164, col. i. 



i58 Brasões 

Casara com D. Leonor de Berredo, que lhe sobreviveu (i), e era filha de 
Lopo Mendes de Vasconcelos, um dos bastardos do mestre de Santiago, 
D. Mem Rodrigues de Vasconcelos. Foram estes cônjuges os progenitores 
dos demais senhores de Barbacena, senhorio que seus descendentes venderam 
aos Castros do Rio, posteriormente viscondes e condes de Barbacena; dos 
morgados da Roliça e doutros ramos em todos os quais já findou a varonia. 



No Cancioneiro geral há muitas referências a pessoas de apelido Henri- 
ques, homens e senhoras, uns compondo versos ou dando motes, outros 
apodados em trovas, mas não é fácil descriminá-los, sobretudo a parte femi- 
nina. Já desta lá acima apontei algumas pessoas, e da parte masculina 
mencionei dois poetastros, restando-me ainda indicar outro poetastro, Hen- 
rique Henriques, e um poeta, Luís Henriques, dos quais só posso identificar 
o primeiro, muito menos interessante que o segundo. 

Henrique Henriques, um dos muitos que no verão de 1496 arrancharam 
nos apodos dirigidos à carapuça de Lopo de Sousa (2), era filho de Aires de 
Miranda e daquela D. Briolanja Henriques a quem D. João II levou nas 
ancas do cavalo para o paço a fim de bailar diante da rainha. Henrique 
Henriques foi em 1498 aos juramentos de Castela (3); casou com D. Maria 
de Sousa, filha de Rui de Abreu, alcaide mor de Elvas; teve a alcaidaria 
mor de Fronteira, da qual estava de posse em i532(4); e morreu no pri- 
meiro trimestre do ano de i556(5), devendo ser bastante velho. Teve muitos 
filhos e larga descendência de Mirandas e Henriques de Miranda, alcaides 
mores de Fronteira, senhores de Murça, etc. 

Luís Henriques, o poeta, e dos mais notáveis do Cancioneiro, não posso 
identificar. Encontro mencionado nos índices da Torre do Tombo um Luís 
Henriques apenas que possa ser este. E um a quem D. Afonso V, designan- 
do-o por «nosso escudeiro», fez mercê de quatro mil e tantos reais brancos 
de tença por carta de 5 de Novembro de 145 1 (6). E pouco e incerto. Das 



(1) Outorgou no contracto de casamento, de 1 1 de Agosto de iSog, de sua filha D, Maria 
Henriques com Jorge de Brito, doando-lhe uma tença de 10,000 rs. da qual contudo só foi 
dada carta de padrão a D. Maria em 8 de Abril de i5i4, por sua mãe só por esses tempos 
ter falecido. — Chancelaria de D. Manuel, liv. i5.°, fl. 75. 
" (2) Cancioneiro,^. i6o, col. 3. 

(3) Resende, Entrada dei rey dom Manoel em Castella, fl. 128 v. 

(4) Archivo histórico poRTUGUEz, IV, pág. 342. 

(5) Livro dos defuntos da Misericórdia de Évora dos annos de j54y a i556, fl. 228 v. 

(6) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 37°, fl. 46 v. 



Henriques i5^ 

suas trovas consta ter estado na Mina(i), e ter alcançado, não sei se pelo 
seu serviço aí, alvará de cavaleiro, o qual não conseguiu ver confirmado e, 
lamentando-se do facto, alude numas trovas à sua pobreza e aos seus ascen- 
dentes: 

Cujos pães avós parentes 

foram criados dos reis 

alguns capitães de gentes, 

isto nam por accidentes, 

mas consintem nos as leis (i). 

Datas precisam-se desde Julho de 1491, Trovas á morte do príncipe 
D. Affonso^ até Setembro de i5i3, quando foi tomada a praça de Azamor, 
expedição em que Luís Henriques serviu, segundo claramente deixou expresso 
nas trovas Ao duque de Braguança quando tomou Azamor (2). 

De todas as suas trovas as mais notáveis serão talvez as dirigidas a huma 
moça com que andava d'amores ante de se os Judeos tornarem cristãos, e 
hum Judeu casado e alfayate, a que ela queria bien, o fei tornar cristão e 
casou com elle (3). Nestas introduziu o poeta « duas frases em hebreu de 
ritual judaico, algumas palavras da língua hebraica, e outras do dialeto 
hebreu-ladino, e aludiu a diversos usos e costumes dos Judeus de Portugal 
no século xvi (4). Estes conhecimentos scientíficos do poeta poderiam levar-me 
a supô-lo o bacharel Luís Henriques, morador em Santarém, a quem, por 
cartas de 3 e 6 de Dezembro de i522, foi autorizado o uso da sua sciência 
e arte de física e cirurgia (5); mas é inverosímil, dadas as circunstâncias 
manifestadas nas outras trovas. 



Outra Yamília de Henriques existiu, a dos do Bombarral, e, apesar de 
ser de muito inferior prosápia, já dela encontro vestígios nos fins do século xv 
e também num poeta do Cancioneiro. 

Henrique da Mota fez umas trovas a uma mula muito magra e velha que 
viu estar no Bombarral e pertencia a D. Henrique, filho do marquês de Vila 
Real. No meio desta versalhada aparecem umas trovas de « Gomes Anri- 



(i) Cancioneiro, ti, 102, col. 2. 

(2) Ibidem, fl. io5, col. 3. 

(3) oO duque eycelente nosso guyador* (fl. io3, col. 4); «Partimos em ponto-» (H. 104, 
col. 2); «Chegamos já tarde» {ibidem, col. 4); «ficamos no campo» (fl. io5, col. i). 

(4) Cancioneiro geral, fl. io5, col. 4. 

(5) Francisco Maria Esteves Pereira, introdução às Trovas de Luis Anrique^f a hiia moça, 

Pág. 7- 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. Si.» de Doações, fls. i3 v. e 14. 



i6o ^ Brasões 

quez» (i). O caso passou-se depois de 1495, porque se alude à morte de 
D. João II. 

Gomes Henriques fora escudeiro do dr. Rui Gomes de Alvarenga, chan- 
celer mor; tivera mercê de bens em Óbidos por carta de 25 de Novembro 
de 1472(2); e fora nomeado coudel daquela vila por carta de i5 de No- 
vembro de 1475 (3), e juiz das suas sisas por outra de 20 de Junho de 1482 (4). 
Este ofício já tivera s€u pai, Diogo Henriques, criado de el Rei D. Duarte, 
e pelos seus serviços e casamento foi outorgada ao filho, por sua morte, uma 
tença de três mil e tantos reais brancos de mantimento com o referido ofício 
de juiz das sisas de Óbidos, a qual lhe foi ratificada por carta de 26 de Ja- 
neiro de 1478, confirmada por outra de 16 de Fevereiro de 1498(5). 

O ramo principal destes Henriques do Bombarral veio a perder a varonia 
pelo casamento de D. Maria do Carmo Henriques de Melo, herdeira da casa, 
com D. Rodrigo de Lancastre, senhor dos coutos de Abadim e Negrelos, 
tenente general do exército, governador de Setúbal, falecido a 14 de Março 
de 1820. Era sobrinho do i.° conde da Louza. 



(i) Cancioneiro, fl. 207, col. 3. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 29.0, fl, 2i5 v. 

(3) Ibidem, liv. 6.°, fl. 58. 

(4) Ibidem, fl. 87. 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 40.% fl. 3. 



XXII 
FURTADOS DE MENDOÇA 



VOL. III 21 



xxu 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. III. 



I 



Pranchado: o i.° de verde, pala de vermelho perfilada de oiro; o 2.° de 
verde, banda de vermelho perfilada de oiro; ao 3.° e 4.° de oiro, S de negro, 
sendo o de sinistra volvido. Timbre: àsa de oiro carregada de um S de 
negro. 

Estas armas estão erradas no i.° quartel; e mesmo no 2.° a banda não 
está na devida posição. É provável, que estes erros datem da restauração 
feita na sala no reinado de D. Pedro II. 

As armas dos Furtados de Mendoça são: escudo franchado de verde e 
oiro, no verde, banda de vermelho perfilada de oiro, no oiro, S de negro, 
sendo o de sinistra volvido; timbre, àsa de oiro carregada de um S de negro. 
Assim se encontram no Livro do amieiro mor, fl. Sg v., no Livro da Torre 
do Tombo, fl. 12, no Thesouro da nobre\a de Francisco Coelho, fl. 28, e no 
Thesouro da nobreza de Frei Manuel de Santo António, F-45. 

As primitivas armas dos Mendozas eram: em campo verde banda de 
vermelho perfilada de oiro(i). Depois, devido a vários sucessos ou alianças, 
uns acrescentaram uma cadeia de oiro em orla; outros francharam o escudo, 
ou com a AVE MARIA dos de la Vega, ou com nove panelas de prata em 
vermelho; os nossos porém dispuzeram as suas armas pela forma descrita. 
Conjecturo todavia, que o móvel, posteriormente representado por um S, 
era primitivamente constituído por dois elos de corrente quebrados perto do 
ponto de contacto, cada um do seu lado, assim S. 



A 10 de Março de 1884 tinha el Rei de Castela saído de Santarém com 
um numeroso exército direito a Lisboa, onde se encontrava o mestre dje 
Aviz, Já então intitulado regedor e defensor do reino. Vinha el Rei com o 
intento de se apoderar da cidade, principal baluarte do partido nacional, e 
do mestre, que era o seu chefe. Parara porém em Óbidos aguardando a 



(i) Vejam-se os livros de Argote de Molina, I.opez deHaro, Salazar y Castro, e muitos 
outros. 



164 Brasões 

chegada da frota castelhana ao Tejo para, por terra e mar, pôr cerco a 
Lisboa. 

Sabedor o mestre de Aviz das intenções de el Rei de Castela tratou de 
se preparar para a resistência, e uma das providências, que determinou, foi 
a de mandar aparelhar uma esquadra com as naus e galés existentes na 
cidade. Foi precaução"* de grande alcance, não só, porque se opuzeram 
forças marítimas às de Castela, como sobretudo, porque se puderam intro- 
duzir mantimentos na cidade já sitiada. 

Foi encarregado da execução desta ordem o arcebispo de Braga D. Lou- 
renço, aquele que depois tanto se distinguiu na batalha de Aljubarrota, e 
cujo corpo incorrupto ainda hoje se mostra na Sé da sua arquidiocese, onde 
se lhe pode ver na cara a cicatriz da cutilada ganha na batalha. 

Esta ferida explicaria o entranhado ódio, que o arcebispo manifesta pelo5 
castelhanos na famosa carta do ruxóxô. . . (i) se ele a tivesse escrito. 

De boa vontade meteu o guerreiro prelado mãos à obra obrigando todos, 
mesmo os que pouca vontade disso tinham, a trabalharem no lançamento 
das embarcações ao mar, e no seu apercebimento. 

Em breve tempo armaram-se, e esquiparam-se sete naus e doze galés, às 
quais se juntaram outras embarcações, e de toda a frota foi nomeado capitão 
Gonçalo Rodrigues de Sousa, alcaide mor de Monsarás, a quem com grande 
cerimónia foi entregue o estandarte das armas de Portugal. 

A 14 de Maio saíram a barra as galés, não as podendo acompanhar então 
as naus por terem vento contrário. Na galé real ia Gonçalo Rodrigues de 
Sousa, capitão da frota, o qual depois traiu a causa nacional, e teria já talvez 
então entregado a esquadra aos castelhanos, se os portuenses não descon- 
fiassem dele, e não fizessem com que o conde D. Gonçalo Teles tomasse o 
comando. 

Na galé Santa Ana ia Gonçalo Vasques de Melo; na Betnaventurada, 
Vasco Martins de Melo, o Moço, irmão do capitão da precedente; na Santa 
Clara, Afonso Furtado; na S. João, Estêvão Vasques Felipe; na S. Jorge, 
o comendador Lourenço Mendes de Carvalho; na Vitória, Manuel Pessanha; 
na Santa Maria de Cacela, João Rodrigues de Guaday. Nas outras iam 
Antão Vasques de Alvalade e seu irmão Aires Vasques, Gil Esteves Fariseu, 
Aires Pires de Camões, e outros. 

Depois de próspera viagem surgiu a esquadra nas águas do Douro, e em 
ocasião bem azada para os moradores da cidade e comarcas próximas. 



(i) Transcrita na 2." parte da Historia ecdesiastica dos Arcebispos de Braga de D. Ro- 
drigo da Cunha, no cap. 49; na última página da 2.* parte da Chronica de D. João 1 de 
Fernão Lopes; etc. 



Furtados de Mendoça i65 

Com efeito pouco antes havia o arcebispo de Santiago, caudilhando tropas 
galegas e portuguesas afectas ao rei de Castela, entrado pela província do 
Minho, a roubar e assolar as terras dos contrários. Depois de alguma per- 
manência em Braga, avançara o arcebispo direito ao Porto e assentara o seu 
arraial no lugar de S. Romão, a meia légua das muralhas. 

Era pois crítica a posição dos portuenses, a quem faltavam cavalgaduras 
e homens de armas; mas não lhes minguava o ânimo, e só com os recursos 
da cidade se armaram e se dirigiram a pé a embargar o passo aos de Cas- 
tela. Quis a sorte, que logo no dia seguinte chegassem as galés de Lisboa, 
das quais desembarcou um numeroso contingente, que reúnindo-se aos deci- 
didos portuenses bastou para, depois de pequena escaramuça, fazer recolher 
os invasores a seus quartéis. 

Desvanecido este perigo trataram os da esquadra de comunicar aos do 
Porto a mensagem do mestre de Aviz, a qual dizia respeito ao armamento 
e esquipamentò das embarcações fundeadas no Douro, ao fornecimento de 
vitualhas, e ao empréstimo de uma determinada quantia. 

Anuíram prontamente os leais cidadãos aos pedidos do regedor e defensor 
do reino, e lembraram a conveniência de adquirir para o partido nacional 
o conde D. Gonçalo Teles, alcaide mor de Coimbra, onde se conservava 
neutral; o que se conseguiu mediante certa doação, pelo conde exigida. 

Entretanto aparelharam-se as galés, as quais, emquanto se acabavam de 
aprontar as naus, foram mandadas debaixo das ordens do conde de Trasta- 
mara a correr os portos de Galiza, a saquear e apresar quanto topassem. 
Com bastante presa regressaram elas ao Porto, onde na véspera de S. João 
festejaram a sua volta com um torneio, ficando nele o conde capitão ferido, 
a ponto de se impossibilitar de seguir depois na armada para Lisboa. 

Com estas ocupações de diferente género la-se demorando a esquadra 
no Porto, sendo a sua falta cada vez mais sentida pelos habitantes de Lisboa, 
que um apertado cerco tinha fechados dentro dos muros. Para remediar 
esta demora recorreu D. João, mestre de Aviz, ao seu dedicado Nuno Ál- 
vares, que logo se dirigiu ao Porto; bastou porém a certeza da sua aproxi- 
mação, para a esquadra sair da foz do Douro, ciosos os seus capitães de 
ceder a glória da empresa a outrem. 

Afinal, no domingo 17 de Julho (i), lançou ferro a esquadra em frente de 
Cascais. 



(i) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, parte I, pág. 225 da ed. do Archivo histó- 
rico poRTUGUiiz. Nas edições anteriores está Junho em vez de Julho, mas é erro, não só 
por o dia 17 daquele mês não ter caído, em 1884, num domingo, mas também porque a 23 
de Junho, como o mesmo cronista declarara na pág. 214, ainda a esquadra estava no Porto. 



l66 Brasões 

Não se decidindo os capitães portugueses sobre o plano a seguir, para 
entrar a barra e pelejar com a armada castelhana, resolveram enviar alguém 
ao mestre a tomar as suas ordens. 

Era empresa arriscada; nunca em tais lances faltaram porém portugueses 
animosos. Um rico mercador do Porto, homem atrevido no mar, por nome 
João Ramalho, incumbiu-se da mensagem. Em um batel, defendido por 
bons pavezes e tripulado por vigorosos remadores, meteu-se à noite o por- 
tuense. Mandou seguir encostado aos montes^ da Outra Banda e, passando 
sem ser pressentido da esquadra castelhana, pôde desembarcar em Lisboa. 
Comunicada a nova ao mestre de Aviz, recebeu dele as suas ordens, e embar- 
cando de novo tornou à esquadra com feliz sucesso; o que em parte deveu 
a estar-se perto do fim do mês lunar (i), e portanto nas noites escuras. 

E fácil de supor o alvoroço, em que ficou a cidade, com a noticia, num 
instante derramada. Sentia-se alegria e cuidado. Alegria pelo reforço e 
provisão que chegava; susto pelo resultado do inevitável combate. 

No dia seguinte, 18 de Julho, logo de manhã tratou o mestre de mandar 
aparelhar as naus e barcas aferradas na Ribeira, para com elas ir êle pró- 
prio em ajuda da esquadra do Porto, o que não pôde executar por ter vento 
e maré contrários e por a maior parte das embarcações não dar lugar pelo 
governo. Entretanto desciam rio fora, ajudadas pela maré e rebocadas pelas 
galés por causa da calma, as naus da esquadra castelhana, e iam formar-se 
em ordem de batalha em frente da ilheta de Restelo, com as popas viradas 
ao norte, lado donde esperavam, que pelo costume naquela época do ano 
viesse a soprar o vento passado o baixamar, e pudessem portanto investir de 
flanco com a armada de socorro. 

Pouco passava das nove horas da manhã, levantara-se a brisa do noroeste 
e a maré já enchia, quando apareceu, dobrando a ponta de S. Gião, a intré- 
pida esquadra portuguesa. A todo o pano, e a remos em estala vem avan- 
çando a frota disposta por esta orderti; A frente a nau Milheira capitaniada 
pelo valente Rui Pereira, e ladeada por quatro outras naus: a Estrela, de 
que era capitão Álvaro Pires de Figueiredo, a de Pedro Lourenço de Távora, 
a de Gil Vasques da Cunha, e a de João Rodrigues Pereira. Atrás destas 
naus as dezasete galés, empavezadas e embandeiradas, e todas em linha bem 
juntas; e, por último, as doze naus restantes carregadas de mantimentos. 

O vento, quási largo, enfunava as velas, e a esquadra deslisava rapida- 
mente sobre o azulado Tejo, o mais próximo possível da Outra Banda. 

Chegadas as naus da vanguarda em frente da armada castelhana orçaram, 
e no bordo, que fizeram, passaram-lhe bem próximas; apesar porém de a 



(i) A lua nova seguinte foi seis dias depois, a 23. 



Furtados de Mendoça 167 

provocarem, não conseguiram fazê-la avançar. E que o almirante castelhano 
queria deixar adiantar-se a esquadra inimiga, e atacá-la, quando já. a pudesse 
ter a sotavento. 

No momento oportuno desfraldam as velas as naus de Castela, e a todo 
o pano avançam direitas ao centro e à reclaguarda da armada portuguesa. 
Então Rui Pereira e os outros quatro capitães da vanguarda, decididos a 
sacrificarem-se para a salvação dos restantes, fizeram novo bordo e barlaven- 
tearam direitos às primeiras naus inimigas, com as quais aferraram, enras- 
cando-se pelos aparelhos três naus portuguesas com cinco naus e uma car- 
raca castelhana. Durante algum tempo combateram rijamente de umas para 
as outras, ficando as nossas tomadas e morto o intrépido Rui Pereira de um 
virotão, que lhe acertou na" testa, quando levantava a viseira para respirar 
desafogadamente. 

Mas entretanto o resto da esquadra passava quási incólume, e arrimava-se 
à Fftbeira, onde logo se encalharam as embarcações todas e se seguraram 
com fortes estacas e cabos, para as livrar de serem apresadas dos inimigos. 

Quási incólume acabei de dizer, e assim foi; porque a nau de Álvaro 
Gonçalves de Sá ferrara algum pano, quando ia já próximo à terra, e então 
aferraram-se a ela cinco gale's, que se esforçaram por a tomar à sombra do 
monte da Guba(i); conseguiu porém safar-se, chegando, ainda assirn, à 
Ribeira como um enorme paliteiro, em que os palitos eram virotões. 

Por esta forma, com pequena perda, conseguiu a esquadra portuguesa 
penetrar no Tejo e desembarcar em Lisboa as munições e os reforços. 

Com estas palavras comemora o nosso poeta cronista este feito: «Oo 
que fremosa cousa era de veer, em tam pouco espaço, através dhuu tam 
estreito rio veer cinquoenta e sete nãos, e triinta gallees, todas armadas e 
bem corregidas, com desejo de empecer huúas aas outras 1 Oo que dia de 
tanto cuidado! e moormente dos que na presente pelleja tinham gram parte 
de sua esperança, porque huúa cousa julgava o desejo, e outra hordenava a 
ventuira 1 » (2). 



Nesta armada vinha o anadel mor Afonso Furtado capitaneando a galé 
Santa Clara, na qual já tinha ido para o Porto. 

Em Lisboa continuou ele a servir com dedicação ao mestre de Aviz, e 
do seu valor deu provas no dia 27 de Agosto, quando as galés de Castela 
quiseram tomar as de Portugal, varadas na praia. 



(i) Não sei o moderno nome deste monte. Será o de Santa Catarina? 
(2) Chronica de D. João 1, parte I, pág. 23 1. 



i68 ■ Brasões 

Saltou ele para dentro de uma galé, que estava de través, e, fazendo-a 
tombar toda para o lado da terra, ofereceu ao encontro de duas galés caste- 
lhanas, que sobre aquela avançavam, a banda mais alta. Nela deram os 
castelhanos, mas foram repelidos com valor. 

Por estes e outros feitos nomeou D. João I, logo em seguida à sua acla- 
mação em Coimbra, em Abril de i385, a Afonso Furtado capitão mor do 
mar. 



Os Furtados portugueses procedem, diz-se, prova documental não en- 
contro, de Fernão Furtado, natural da província de Alava nas Vascongadas, 
donde passou para Portugal em tempos de Afonso III que em 1278, ao pôr 
casa a seu filho o infante D. Denis, para ela o nomeou, vindo êle a ser vas- 
salo daquele infante (i). Em Portugal casou com D. Guiomar Afonso, filha 
de Geraldo Afonso de Resende e de D. Tareja Soares Soldar (2). Geraldo 
Afonso de Resende, filho segundo de D. Afonso Rodrigues Rendamor, era, 
conjuntamente com seu irmão primogénito Martim Afonso de Resende, se- 
nhor da honra de Resende em i258, ao tempo das Inquirições gerais de 
D. Afonso 111(3), e Já tinha morrido em fins de 1290(4). 

SupÕe-se dever Fernão Furtado pertencer à família dos de Mendoza, 
visto que um bisneto seu acrescentou este apelido ao de Furtado e os seus 
descendentes de preferência se chamaram de Mendoça, vindo quási a ser 
posto de parte o antigo Furtado. Diz um considerado genealogista espanhol 
que Fernão Furtado fora filho de D. Diogo Lopez de Mendoza, senhor desta 
casa, e de D. Leonor Furtado, senhora de Mendibil, filha de D. Fernão Perez 
Furtado, irmão dos condes D. Manrique, D. Álvaro Perez e D. Nuno Perez 
de Lara (5). Depois, noutra obra, chama-lhe Fernão Iniguez de Mendoza, 
declara constar a sua filiação de uma escritura do ano de 1242 e terem-Ihe 
em Portugal chamado Fernão Furtado (6). É tudo bastante vago e de fun- 
damento pouco seguro. 

Conforme o citado Nobiliário deixou dois filhos dos quais proviesse des- 
cendência: Rui Furtado e Afonso Furtado. 

Rui Furtado, ou melhor. Rui Fernandes Furtado, como é nomeado no 



(i) Archivo histórico portuguez, vol. Xj pág. 58. 

(2) Nobiliário do Conde D. Pedro, nos Portugália monumenta histórica, Scriptores, 

vol. I, pág. 322. 

(3) Archivo histórico portuguez, vol. IV, págs. 14 e 41. 

(4) Ibidem, págs. 16 e Sg. 

(5) Salazar y Castro, Historia de la Casa de Lara, vol. I, pág, 106. 

(6) Salazar y Castro, Glorias de la Casa Farne\e, pág. 567. 



Furtados de Mendoça 169 

documento a seguir indicado, requereu em i32o, por intermédio de seu refe- 
rido irmão, traslado autêntico do instrumento da partilha celebrada, em 3 de 
Dezembro de 1 290, entre os filhos e netos de D. Afonso Rodrigues Rendamor, 
seu bisavô materno, e os procuradores da segunda mulher deste (i). Era 
então escudeiro e residia no Porto. Casou com D. Leonor Martins, filha de 
Martim Gil de Vilela, e dela teve, conforme o citado Nobiliário, dois únicos 
filhos: Fernão Furtado e D. Inês Rodrigues. 

Fernão Furtado, «escudeiro, filho de Roy Furtado», alcançou, por carta 
de Q de Janeiro da era de i38o (1342), em seguida ao édito geral de 
D. Afonso IV, relativo a terras privilegiadas, confirmação para si da sen- 
tença promulgada na corte em 1290, nas Inquirições da primeira alçada de 
D. Denis, sentença favorável aos privilégios inerentes à honra de Pedrosêlo, 
por ele então possuída e que era situada no julgado de Penafiel de Sousa e 
freguesia de Santa Maria de Pedrosêlo (2). 

Esta honra de Pedrosêlo provinha de uma quinta que fora de João Tenro 
e em 1290, ao tempo das Inquirições de D. Denis, era possuída por Alda 
Martins, talvez então viúva daquele cavaleiro. Em 1342, quando se publi- 
caram as sentenças de D. Afonso IV, estava a quinta repartida pelo menos 
por Fernão Furtado e Beringueira Anes, viúva e herdeira no prédio de 
Fernão Vasques Peixoto, como declara outra sentença de 14 de Janeiro da 
era de i38o (1342) (3). João Tenro, ou melhor, João Pires Tenro, era da 
linhagem dos Alcoforados e casara com D. Alda Martins Botelha, de quem 
tivera, além de outros filhos, a D. Mor Anes e D. Elvira Anes. A primeira 
casou com Vasco Gonçalves Peixoto e foi mãe, entre outros, do Fernão Vas- 
ques Peixoto acima nomeado (4); a segunda foi mulher de Gil Eanes de 
Ataíde, chamado de Vilela. Destes cônjuges foi neta D. Leonor Martins," 
mulher de Rui Furtado e mãe de Fernão Furtado (õ). Assim fica explicada 
a comunidade existente na posse dos privilégios da honra de Pedrosêlo entre 
descendentes de João Tenro. 



Afonso Furtado, irmão de Rui Furtado, apresentou, no paço dos tabe- 
liães de Lisboa, no dia 19 de Agosto da era de í355 (i3i7), em um rolo de 
pergaminho, a sentença^de partilha, à qual já lá acima aludi, e dela pediu 



(i) Archivo histórico portuguez, vol. IV, pág. 39. 

(2) Chancelaria de D. Afonso IV, liv. 4.», fl. 8G v. 

(3) Ibidem, fl. 87 v. 

(4) Nobiliário cit., págs. 296 e 3oo. 

(5) Ibidem, págs. 298 e 344. 

VOL. III 22 



lyo Brasões 

pública forma (i). Neste documento aparece nomeado Afonso Fernandes 
Furtado. Dali a anos tornou a pedir outro traslado da mesma escritura, 
então porém dirigiu-se a um tabelião de Vila Real que lho passou em i3 
de Fevereiro da era de i358 (i32o), declarando então precisar da certidão 
para a entregar a seu. irmão Rui Fernandes (2). Maria Gonçalves, viúva de 
Afonso Furtado, e sua filha Leonor Furtada, chamadas pelo édito geral de 
D. Afonso IV, relativo a terras privilegiadas, compareceram na corte e decla- 
raram possuir, na freguesia de Santa Maria de Louredo do julgado de Pa- 
nóias, em sucessão a seus avós, ininterrupta havia mais de sessenta anos, a 
honra de Louredo com as suas pertenças, a qual Já fora examinada, por 
ocasião das Inquirições julgadas por sentenças da era de i328 (t29o), man- 
dando-se-lhe então manter os privilégios. Foram estes agora confirmados 
às duas senhoras por sentença de 16 'de Janeiro da era de i38o, ano de 
Cristo de 1342 (3). Conforme o já citado Nobiliário teve Afonso Furtado, 
além da filha Leonor, outra chamada Senhorinha Furtada a qual já devia 
estar morta, quando foi publicada a referida sentença, pois nela não é men- 
cionada. 

De Fernão Furtado, senhor da honra de Pedrosêlo, acima nomeado, pa- 
rece haver sido irmão Afonso Furtado, pelo menos, e isso é o certo, a um 
Fernão Furtado e a um Afonso Furtado, irmãos, mandou D. Afonso IV dar 
rações no convento de Mancelos(4). 

Afonso Furtado foi da criação de D. Pedro I e muito dedicado a seu filho 
bastardo D. João, mestre de Aviz, a quem, já em i382, quando seu irmão 
D. Fernando o mandou prender, quis dar fuga do castelo de Évora (5). 
Noutra ocasião aludiu ele próprio à afeição dispensada por D. Pedro I a seu 
pai, a quem mandou como embaixador fora do reino. Nesta embaixada, 
apesar de muito novo ainda, acompanhou Afonso Furtado a seu pai, que 
não nomeia, e com ele esteve em Seuta, onde lhe profetizaram a conquista 
daquela cidade por D. João I (6). 

Este Afonso Furtado é aquele a quem D. João I, em i385, em seguida à 
sua aclamação nas cortes de Coimbra, nomeou capitão do mar (7). A carta 
desta nomeação não aparece, mas consta ela de vários documentos abaixo 



(i) Archivo histórico portuguez, vol. IV, págs. 39 e 40. 

(2) Ibidem, 

(3) Chancelaria de D. Afonso IV, liv. 4.°, fl. 87 v. 

(4) Frei Francisco Brandão, Monarchia lusitana, part. IV, fl. 35 v. 

(5) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, cap. 142. 

(6) Azurara, Chronica da tomada de Ceuta, ed. Esteves Pereira, págs, 56 e 57. 

(7) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, parte II, cap. I, 



Furtados de Mendoça 171 

apontados (i), referindo-se o último deles, do ano de 1414, ao ofício de anadel 
mor, outrosim confiado a Afonso Furtado. Também não sei quando para 
êle foi nomeado, mas sei que lhe pertencia capitanear os besteiros do conto 
e que ainda em 6 de Abril de 1 419 exercia os dois ofícios de anadel mor 
dos besteiros do conto e apurador dos homens do mar (2). 

Por carta de 23 de Junho de 1428, datada de Sintra,, nomeou D. João I 
a Álvaro Vasques de Almada « capitão mor da nossa frota polia guisa que o 
era Gonçalo Tenreiro em tempo delrei D. Fernando; ... e per a guisa que 
o foi Affonso Furtado em nosso tempo » (3). Deste documento concluo, que 
Afonso Furtado já então era falecido e que F^ernão Lopes, quando na Chro- 
nica de D. Fernando o intitula « capitam » (4), cometeu um leve anacro- 
nismo. 

No ofício de anadel mor dos besteiros do conto sucedeu a Afonso Furtado 
seu filho do mesmo nome e exercendo-o me aparece em 21 de Novembro de 
1433(5), posto que a carta do ordenado só lhe fosse passada a 14 de Abril 
de 1444, para o começar a receber do precedente Janeiro em diante (6). Foi 
este segundo Afonso Furtado, como acertadamente declara Frei Francisco 
Brandão, «o primeiro que em escritura publica vi com appellido de Men- 
doça» (7); com êle Já aparece na citada carta do ordenado. Em 1467 era 
do conselho (8), e já era falecido em Setembro de 1475, pois já então seu 



(i) Na Chancelaria de D. João I existem registadas as seguintes cartas de mercês a 
Afonso Furtado: doação, em satisfação de seus serviços, de duas quintas confiscadas a Gon- 
çalo Vasques de Azevedo e de outra no Paço do Lumiar que fora de Vasco Porcalho, 9 de 
Outubro de i384 (liv. i.°, fl. 53); legitimação de três filhos de Afonso Furtado, « capitão mor 
de Portugal «, havidos de várias mulheres durante a constância do matrimónio, 25 de Outubro 
de 1390 (liv. 2.°, fl. 5i); doação temporária ao « seu capitão » da lezíria de Alfirmara, 8 de 
Agosto de 1391 {ibidem, fl. 60); doação perpétua ao «capitão mor da nossa frota» de umas 
casas em Lisboa na freguesia da Sé, junto doutras suas, 8 de Fevereiro de 1402 (liv. 3.°, 
fl. 17); e em 3 de Abril da era de 1452 (1414) doação de uma lezíria acerca de Santa Maria 
de Valada ao «seu capitão e anadel mor» {ibidem, fl. 169). 

(2) Carta de privilégios para oito lavradores da quinta a par de Sarilhos pertencente ao 
mosteiro de Santa Clara de Lisboa. — Chancelaria de D. João I, liv. 4.% fl. 34. 

(3) Transcrita na de confirmação, datada de 5 Janeiro de 1434 e escrito pelo futuro 
secretário Rui Galvão (Liv. de Extras, fl. 170 v.)» 

(4) Cap. 65. 

(5) Carta de privilégios para os moradores de Vila de Rei, herdade no termo de San- 
tarém possuída por Catarina Fernandes de Bairros. — Chancelaria deD. Duarte, liv. i.»,fl. 17. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 24.°, fl. 39.— O ordenado era de 2.571 reais brancos, 
outro tanto como houvera seu pai. 

(7) Monarchia lusitana, parte V, fl. 35 v. 

(8) Carta de 17 de Setembrp de 20.000 reais brancos de tença. — Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 28.°, fl. 2. 



172 Brasões 

filho Duarte Furtado de Mendoça exercia o cargo de anadel mor dos besteiros 
do conto (i). 

Conforme os nobiliários casou por duas vezes: da primeira com Cons- 
tança Nogueira, filha de Afonso Anes Nogueira, senhor do morgado de 
S. Lourenço de Lisboa e alcaide mor desta cidade, e de sua mulher Joana 
Vaz de Almada; da segunda com D. Beatris de Vilarragut, valenciana, dama 
da infanta D. Isabel, mulher do infante D. Pedro de Alfarrobeira. 

Do primeiro matrimónio, realizado antes de 1453(2), nasceram: 

Nuno Furtado de Mendoça, ou simplesmente Nuno Furtado, fidalgo da 
casa de D. Afonso V e seu aposentador mor, cargo que já exercia em 1466(3), 
acompanhou-o na expedição a Castela e lá morreu em serviço antes de Ja- 
neiro de 1476(4). Foi progenitor dos Furtados de Mendoça comendadores 
das Entradas e Padrões, dos comendadores de Borba, dos comendadores de 
Loulé, conde do Rio Grande (5 de Março de 1689), dos senhores da quinta 
da Marateca, e de outros; e dos Mendoças condes de Vai de Reis (16 de 
Agosto de 1628), marqueses de Loulé (6 de Julho de 1799) e duques de 
Loulé (3 de Outubro de 1862), e ainda dos condes da Azambuja (21 de Maio 
de 1763), ramos daqueles e únicos em que subsiste a varonia. 

Duarte Furtado de Mendoça, do conselho de D. João II, comendador do 
Torrão na ordem de Cristo, senhor de Vilalva em duas vidas por carta de 
7 de Abril de 1486, anadel mor dos besteiros do conto em sucessão a seu 
pai, faleceu em 1494(6) e foi progenitor de um breve ramo de Mendoças, 
que terminou em Manuel de Mendoça, veador do duque de Aveiro. 

Violante Nogueira foi donzela da infanta D. Catarina, irmã de D. Afonso V, 
como consta da carta de vinte mil reais brancos de tença concedida, depois 
da morte da infanta, em satisfação e contentamento do serviço prestado (6). 
Entrou depois para o mosteiro de Santos, onde professou e no qual veio a 
ser comendadeira por carta de 16 de Março de 1486(7), devendo esta no- 
meação ao facto de ser tia da gentil D. Ana de Mendoça, mãe de D. Jorge, 



(i) Sepulturas do Espinheiro, pàg. 6i. 

(2) Liv. 2.° dos Brasões de Cintra, pág. 53o. 

(3) Carta de 10 de Março de 1466 pela qual se lhe mandaram pagar os dois terços das 
2.800 coroas de oiro de seu casamento, transcrita na de 24 de Maio de 1524 de confirmação 
a sua filha D. Joana de Mendoça. — Chancelaria de D. João III, liv. 37.» de Doações, fl. 176 v. 

(4) Carta de 23 de Janeiro de 1476, de 20.000 reais brancos de tença a seu filho Jorge 
Furtado {Chancelaria de D. Afonso V, liv. 6.», fl. i) e epitáfio no mosteiro de Santos, na se- 
pultura lá mandada erigir por sua filha a comendadeira D. Ana de Mendoça. — Critica e 
historia, pág. i5i nota. 

(5) Sepulturas do Espinheiro, pág. 61. 

(6) Carta de 29 de Maio de 1471. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16.», fl. 96 v. 

(7) Liv. 3.» do Cartório de Santiago, fl. 100 v. 



Furtados de Mendoça lyS 

futuro mestre de Santiago e duque de Coimbra, filho de D. João II, então 
ainda governador daquela Ordem à qual o mosteiro pertencia. Faleceu a 
comendadeira D. Violante em i5o8, sucedendo-lhe na prelazia sua referida 
sobrinha (i). 

Do segundo matrimónio de Afonso Furtado de Mendoça nasceram, se- 
gundo os nobiliários, dois filhos do sexo masculino dos quais proviesse des- 
cendência. 

Diogo de Mendoça, fidalgo da casa do príncipe D. João que o nomeou 
alcaide mor de Mourão por carta de 22 de Agosto de 1476(2), foi, em sucessão 
a seu irmão Duarte, anadel mor dos besteiros do conto, tendo obtido, em i5 
de Março de 1494, carta da tença inerente ao ofício (3). Foi este suprimido 
em seu tempo a requerimento dos povos nas cortes de 1499, recebendo Diogo 
de Mendoça, em satisfação dos perdidos proventos, uma tença vitalícia de 
oitenta mil reais (4). Diogo de Mendoça era já morto em 14 de Julho de 
i5i6, data da carta da alcaidaria mor de Mourão a seu filho Pêro de Men- 
doça (5). Diogo foi o progenitor dos Mendoças alcaides mores de Mourão, 
representados pela casa de Vila Nova de Souto de el Rei, e doutros ramos 
com a varonia extinta ou obscura. A formosa D. Joana de Mendoça, duquesa 
de Bragança, segunda mulher do duque D. Jaime, com quem casou já depois 
da morte do pai dela, era filha do i.° alcaide mor de Mourão, Diogo de 
Mendoça. 

João de Mendoça, o Cação, alcaide mor de Chaves e o mais novo dos 
filhos de Afonso Furtado de Mendoça, foi progenitor de vários ramos de 
Mendoças em todos os quais se extinguiu a varonia, creio. 



Existiram, tudo já lá vai ! várias casas de Mendoças derivadas desta por 
fêmea. Neste momento recordo-me das dos condes de Barbacena, dos vis- 
condes de Azurara, dos Mendoças de Palma, dos Mendoças Arrais, etc. 



(i) Critica e historia, pág. i5o. 

(2) Liv. I." do Cartório de Santiago, fl. 67 v. 

(3) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 33.°, fl. 3o v. 

(4) Carta de 11 de Março de i5oo de 92.000 rs, de tença, sendo 80.000 pelo ofício e 
12.000 pelo serviço dos expulsos Judeus de Mourão. — Chancelaria de D. Manuel, liv. i3.o, 
fl. 60. 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 37.0, fl. 64. 



XXIIl 



ALBERGARIAS 



xxai 



► 




Brasões dá Sala de Sintra, VoI. III. 



De prata, cruz fíorida de vermelho vazia do campo; bordadura cosida do 
mesmo, e carregada de oito escudetes de azul sobrecarregados cada um de 
cinco besantes também de prata. Timbre: dragão de vermelho armado de 
oiro. 

Apenas com variedade no número dos escudetes da bordadura encon- 
tram-se estas armas a fl. 6o do Livro do armeiro mor, a fl. i2 do Livro da 
Torre do Tombo, a fl. 28 do Thesouro da nobreza de Francisco Coelho e no 
Thesouro da nobreza de Frei Manuel de Santo António, A-i5. 

Nos dois Thesouros, e nalguns outros livros de armaria, encontra-se o 
dragão do timbre carregado de uma cruz de prata, como a do escudo; não 
parece porém haver razão para este acrescentamento. 



Por motivos ignorados rebentara a guerra entre Portugal e Leão pelos 
anos de 1167. O ataque fora dirigido contra Ciudad Rodrigo recentemente 
edificada, e as tropas portuguesas acompanhava o único filho de el Rei, o 
infante D. Sancho, que naquela campanha recebeu as primeiras lições da 
arte da guerra. Não fora porém bem sucedida a expedição, pois que O 
exército português padeceu um desbarato em Arganal próximo àquela 
cidade. 

Apesar da brandura usada por Fernando II, que concedera a liberdade 
aos numerosos portugueses aprisionados na batalha, irritou-se Afonso Hen- 
riques com o sucesso; e pondo-se à frente de um corpo de tropas invadiu 
por um lado a Galiza, emquanto por outro penetrava um segundo exército 
português. 

A conquista de Tuy seguiu-se brevemente a dos distritos de Toroiío e 
Limia, e D. Afonso mandou edificar junto a Celanova, para defesa de seus 
novos domínios, o castelo de Cedofeita, nome derivado da rapidês da cons- 
trução. , 

Julgaudo assegurada por esta forma a posse da sua nova conquista reco- 
Ihera-se Afonso Henriques a Portugal, deixando o conde Velasco como go- 
voL. m 23 



178 Brasões 

vernador daqueles distritos, os quais em breve, depois da entrega de Cedo- 
feita, voltaram em parte à posse de Fernando II. 

Entretanto tinha Afonso I invadido o Gharb, e na primavera de 1169 
acometia Badajoz, de que se apoderou com excepção do castelo, onde a 
guarnição se recolheu, e donde se defendeu tenazmente. 

Ao rei de Leão, que se achava na Galiza tratando de recuperar os terri- 
tórios conquistados pelo sogro, foram transmitidas estas noticias, justamente 
por ele consideradas ofensivas. Efectivamente, não só o governador de 
Badajoz por um tratado se tinha colocado debaixo da protecção de Fer- 
nando II, declarando-se seu vassalo, como também pelas convenções de 
limites celebradas entre os dois reis tinha ficado assente, pertencer aquela 
cidade às conquistas da coroa Jeonesa. 

Por estas razoes se pôs D. Fernando II a caminho de Badajoz seguido 
por numeroso exército, com o qual assediou a cidade, metendo o sogro entre 
dois inimigos. Acometidos por ambos os lados foram os portugueses desbara- 
tados, e procurando Afonso I a salvação na fuga bateu, ao sair por uma das 
portas da cidade, com a perna direita no ferrolho e quebrou-a. A dôr fez-lhe 
perder os sentidos, atirando-o do cavalo abaixo, e apesar dos seus o levanta- 
rem e levarem na fuga, foi pouco mais adiante aprisionado pelos leoneses. 

Prisioneiro do genro experimentou logo Afonso Henriques os efeitos do 
carácter generoso de el Rei de Leão. Este apenas o reteve cativo, se é 
que o foi, dois meses, o tempo necessário para a perna se compor; e por 
resgate unicamente lhe exigiu a restituição dos territórios, de que el Rei de 
Portugal se tinha apoderado. 

O valente guerreiro voltou para o seu reino, mas impossibilitado de con- 
tinuar a vida de combates, que tão gloriosa lhe fora. 

A corte do amir chegaram as notícias das rápidas conquistas de Afonso 
Henriques, e o cerco de Badajoz obrigou o imperador a mandar um exército 
auxiliar ao Gharb, a atalhar o incremento dos cristãos. 

As ordens militares, sobretudo à do Templo e aos adiantados das fron- 
teiras tinha confiado el Rei de Portugal a defesa dos seus estados do sul. 
Em Beja estava por então capitaneando o esforçado Gonçalo Mendes da 
Maia, o Lidador, velho guerreiro, em qpem os noventa e cinco anos não 
tinham reduzido o valor. 

Uma manhã saíra o fronteiro a correr campo a par de Beja, e topara 
com um troço de tropas sarracenas, caudilhado por Almoliamar(i). Era 



(i) Assim é ele nomeado no Nobiliário do Conde D. Pedro, onde no tít. 21, § 2.°, pág. 279 
dos Portugália monumenta histórica. Scriptores, vem referida toda esta lenda, que tem 
fundo de verdade. 






Albergarias 179 

este mouro de extraordinária força e não havia armadura, que resistisse ao 
embate da sua lança. 

Ferida a peleja enconiraram-se os dois capitães, e do choque vieram 
ambos a terra. Tratavam os homens de armas, cada um pelo seu lado, de 
livrar o seu chefe, e estava a vitória duvidosa, quando chegaram D. Egas 
Gomes de Sousa, D. Gomes Mendes Gedeão e os quatro filhos de Egas 
Moniz, que levantaram o velho lidador, e o puzeram de novo a cavalo. Com 
este reforço cobraram ânimo os cristãos e deram tão rijamente nos sarra- 
cenos, que em breve os desbarataram, ficando Almoliamar e muitos outros 
mortos no campo. 

As perdas dos cristãos foram consideráveis; o que porém mais os ago- 
niava, era verem muito mal ferido o seu valente caudilho. Ainda assim, 
transluzindo em todos os rostos a alegria da vitória, vinham seguindo o ca- 
minho de Beja, quando, ao alongarem a vista por uma dilatada charneca, 
enchergaram numerosa cavalgada de agarenos, que à desfilada os deman- 
dava. 

Pararam os portugueses à ordem de Gonçalo Mendes, e este, tendo em 
roda de si os mais fidalgos, lhes disse: 

— Vós bem sabeis, como foi vontade de Deus, que D. Afonso Henriques 
me puzesse comvosco por guarda desta fronteira; não pelo eu merecer, mas 
porque assim foi sua vontade. E, ainda que cada um de vós isto mais me- 
recesse, peço-vos por mesura, pois que os mouros vêm tão acerca e não 
posso haver conselho alongado, que aprouveis, que eu diga em isto, o que 
me parecer. 

Anuíram todos. Ele então, sentindo-se mortalmente ferido, continuou: 

— Senhores, peço-vos um dom, e espero me outorgareis, o que vos quer.ò 
pedir. 

— Sim — clamaram todos — sim! Não pode haver coisa, que vós nos 
demandeis, que nós vos não outorguemos; cá bem certos somos, que não 
demandareis, senão o que for aguisado, e pêra nossa honra. 

— Pois bem, senhores. Peço-vos, que, se eu desperecer nesta lide, fique 
D. Egas Gomes de Sousa em meu lugar, por ser de boa linhagem, e de 
grandes bondades. 

— Deus vos guardará, senhor, de todo o cajão e de todo o perigo — 
responderam eles — ; mas, se tal coisa acontecer, faremos como no-lo man- 
dais. 

E D. Afonso Ermiges de Baião, vendo que cada vez se transtornava mais 
o rosto do Lidador e entendendo o seu estado de fraqueza, disse-lhe: 

— Desarmai-vos, senhor, e assentai-vos no campo, cá nós todos morre- 
remos ante vós, ou venceremos. 



i8o Brasões 

— Não queira Deus — retorquiu Gonçalo Mendes — que eu esconda a 
minha força, emquanto ela me possa durar, entre tais amigos. 

No entanto avançavam ou mouros capitaneados por Alboacem, rei de 
Tânger (i), que passara àquem mar para cobrar o castelo de Mértola, que 
um seu tio lhe forçara. Não poderá el Rei, como desejava, acompanhar na 
primeira peleja a Almoliamar por este ter abalado ao romper de alva, mas 
viera no seu encalço, e agora corria a desafrontar as armas mahometanas. 

Vendo-os próximos, exclamou Gonçalo Mendes da Maia: 

— Senhores, estes mouros vêm com gran loucura, vamo-los receber. 

Arremeteram os portugueses com denodo; logo porém ao primeiro en- 
contro, caiu do cavalo o desfalecido Lidador. Não perderam contudo o 
ânimo os mais fidalgos; antes pelo contrário, vendo o seu caudilho naquele 
lastimoso estado, cresceram-lhes as forças, e pelejaram, não só para vencer, 
como para vingar a morte do seu querido chefe. « Alli se espedaçavam ca- 
pellinas e bacinetes e talhavam escudos e esmalhavam fortes lorigas, e feri- 
romsse de tam dura força de tamanhos golpes que os christãaos da Espanha 
e os mouros que desto ouvirom fallar dos talhos das espadas que naquel 
logar forom feitos disserom que taaes golpes nom podiam seer dados por 
homeens. E esto nom foy maravilha por assy teerem, ca hi ouve golpes 
que derom per cima dos ombros que femderom meetade dos corpos e as 
sellas em que hiam e gram parte dos cavallos; e outros talhavam per meyo 
que as meetades se partiam cada huuma a ssa parte » (2). 

Não admira, que em seguida o autor diga, ter havido quem pensasse, 
serem tais golpes dados pela própria mão de Santiago. 

Terminada a batalha e destroçados os sarracenos, voltaram os cristãos 
para o pé de D. Gonçalo Mendes da Maia; encontraram-no porém já morto. 



Os fidalgos, que acompanharam o Lidador nas duas batalhas do campo 
de Beja, encontram-se nomeados no Nobilario do Conde D. Pedro^ e entre 
os nomes lê-se o de Paio Delgado. 

Tinha-se ele já assinalado vinte anos antes, no de 1 147, no cerco e tomada 
de Lisboa, onde ficara herdado, isto é, com bens; e por um pouco não posso 
afirmar haver servido de testemunha no foral da mesma cidade. Foi este 



(i) Veja-se a nota precedente. O amir era então Yusuf Abu Yacub; o general das 
tropas auxiliares sarracenas, que nesse ano transpuzeram o estreito, era Abu Hafss; e o 
fronteiro mouro de Badajoz, Ibrahim Ibn Humuchk. — Historia de Portugal de Herculano, 
liv. 2." 

(2) Citado Nobiliário, pág. 280 dos Portugalice monumenta histórica. Scriptores. 



Albergarias 1 8 1 

feito no Maio da era de 1217 (ii79)(i), mas o facto de ter sido assinado em 
Coimbra e do nome de Pelagius Delgado vir entre as testemunhas, que não 
costumavam ser fidalgos de nomeada, faz-me duvidar da identidade dos dois 
Paios Delgados. 

Parece porém certo ter êle ficado por Lisboa, onde, diz-se, fundou uma 
albergaria, que do nome de seu fundador se ficou intitulando. 

Esta albergaria de Paio Delgado afirma Frei António Brandão (2), que 
fora situada, conforme as boas conjecturas^ na freguesia de S. Bartolomeu 
de Lisboa. Por estas palavras do douto cronista vê-se, que, não só em i632, 
quando êle escreveu, já não existia a albergaria, como também nem ao certo 
se sabia, onde ela fora situada. 

Da sua existência contudo não se pode duvidar, pois que se encontra no- 
meada em duas escrituras autênticas dos anos de iSgy e 1404(3). 

Paio Delgado, o fundador da albergaria, teve dois filhos, segundo dizem. 
Do segundogénito fazem proceder a família dos Rebêlos, e do primogénito, 
Pedro Pais, e por uma sua filha, a estirpe dos senhores da albergaria de 
Paio Delgado. 

Oferece-se-me bastante matéria para reparo nas gerações primeiras desta 
família na forma, como as escrevem os linhagistas; mas, como não posso 
esclarecer as dúvidas, julgo melhor não me alongar com elas. 

Em meado do século xiv era senhor da albergaria de Paio Delgado Lopo 
Soares de Albergaria (4), que possuía também o hospital de Santo Eutrópio 
na mesma freguesia de S. Bartolomeu de Lisboa, onde estava situada a alber- 
garia. 

Fora este hospital e capela instituído, por instrumento de 3i de Agosto 
de i3o8(5), por D. João, bispo de Silves, como êle se nomeia e intitula 
nesta escritura, ou D. João Soares Alão, como lhe chamam os historia- 
dores (6). 

Ordenou a capela na igreja de S. Bartolomeu sob a invocação de Santo 



(1) Portugalice monumenia histórica, leges et consuetudines, pág. 411, advertindo, que 
na tradução portuguesa do foral posta ao lado escapou, na pág. 415, o nome de Paio Del- 
gado. 

(2) Monarchia lusitana, parte III, liv. 10, cap. 29, fl. ijS. 

(3) Provas da Historia genealógica, tomo VI, pág. i5i, n.° 6, e pág. i52, n,° 7. 

(4) Sentença de 17 de Março de iSSg impressa a pág. 148 do tomo VI das Provas da 
Historia genealógica. 

(5) Impresso na íntegra a pág. 140 e repetido a pág. 143 do tomo VI das Provas da 
Historia genealógica. 

(ô) João Baptista da Silva Lopes, Memorias para a historia ecclesiastica do bispado do 
Algarve^ cap. 7." do liv. 2.» 



i82 Brasões 

Eutrópio, e o hospital nas suas casas situadas naquela freguesia, em frente 
da porta travessa da igreja (i). A esta instituição vinculou todos os seus 
bens móveis, semoventes e de raiz, e nomeou para a administrar, por morte 
do bispo de Lisboa D. Domingos Jardo, a seu neto Gonçalo Mendes, e depois 
deste ao clérigo seu parente mais próximo. Na falta de parente cle'rigo 
então sucederia na administração aquele, que o dito seu neto nomear. Os 
encargos eram a manutenção de dois clérigos, para celebrarem os ofícios 
divinos na capela, e a de quatro pobres envergonhados, assim homens como 
mulheres. 

Manda dar diariamente aos dois sacerdotes, além de pão e vinho, um 
arrátel de carne cosida, e ao domingo e quinta feira mais um assado. Nos 
dias de jejum terão um pescado, e às quintas e domingos dois. Os quatro 
pobres terão para todos a mesma ração, de carne, ou de peixe, dada aos 
clérigos. Todos seis receberão os remédios e tratamento necessários, quando 
enfermem, e cada um terá o seu leito com « hum colxão, e hum chumasso 
com pena, dous lençoes, huma colcha, e cobertor». Haverá um dormitório 
e refeitório comum, e serão servidos pelas pessoas necessárias. Receberão, 
além disso, e para vestuário: os clérigos, «dezasseis covados de sargia com 
dous pares de calças de estamenha, hou de brugia, e coatro livras e meia a 
cada hum delles pêra pennas», e mais o calçado; os pobres terão « honze 
covados de estamenha, ou de brugia, dous pares de camisas e de çapatos, 
os quaes çapatos se sollem quando for necessário». 

Lopo Soares de Albergaria herdara, segundo parece, a albergaria de 
Paio Delgado por sucessão a seus maiores, e o hospital de Santo Eutrópio, 
por ser parente de Gonçalo Mendes (2), o neto do bispo instituidor, que em 
Lopo Soares, ou em seu pai, nomeara a administração. 

Por morte de Lopo Soares, ou de seu filho Afonso Soares, sucedeu nestes 
bens Diogo Soares de Albergaria, irmão de Lopo. Foi este Diogo Soares 
alcaide mor de Arronches por carta de 10 de Outubro de 1869 (3), e dele se 
encontram várias memórias na Chancelaria de D. Fernando (4). A Diogo 
Soares sucedeu na administração dos bens sua filha Catarina Dias, a quem, 
pelo motivo de passar para Castela com sua mãe Urraca Fernandes, foram 
confiscados, e deles feita doação a Martim Vasques da Cunha por cartas de 
20 de Setembro e de 14 de Outubro de i386(5). 



(i) Critica e historia, pág. SSg. 

(2) Sentença de 17 de Março de iSSp já citada. 

(3) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. 46 v. 

(4) Ibidem, liv. i.», fls. 10 1 v., 117 v., etc. 

(5) Chancelaria de D. João I, liv. i.", fls. 177 e i85. 



Albergarias i83 

Era com efeito Martim Vasques da Cunha o representante da antiga fa- 
mília dos Albergarias por ser filho de D. Brites Lopes de Albergaria; e, 
como tal, lhe foram sentenciados os morgados em 17 de Março de 1389(1). 

Martim Vasques da Cunha, além de ser um dos maiores senhores de 
Portugal, era um dos mais ricos, não só pelos seus imensos bens próprios, 
como pelos de sua mulher D. Maria Giron, senhora da casa de Giron e das 
vilas de Tarouca e Valdigem. A todos estes bens, havia-se ainda de juntar 
a grande casa de seu pai Vasco Martins da Cunha, senhor de Táboa. Era 
pois para apetecer o casamento com qualquer de suas filhas, não só pela sua 
nobreza, como pelo grande dote, que poderia haver. Foi pois como prémio 
de seus serviços, que D. João I casou em Coimbra, no mês de Julho de 1889, 
o dr. João das Regras com uma das filhas do futuro conde de Valência 
de Campos. . 

Efectuado o casamento, e passando Martim Vasques da Cunha para Cas- 
tela, fez o mesmo rei doação dos hospitais e albergarias de Paio Delgado, 
Santa Bárbara e Santo Eutrópio ao genro do conde, o dr. João das Regras, 
por carta de 22 de Julho de 1897 (2). Veio pois a antiga albergaria de Paio 
Delgado, solar da família dos Albergarias, a pertencer ao célebre juriscon- 
sulto, que a transmitiu a seus descendentes. 

Os bens dos hospitais e albergarias, que João das Regras entrou a admi- 
nistrar, constituíam, já então, um todo, do qual hoje é impossível destrinçar 
as partes relativas a cada um dos vínculos. Uma das principais propriedades 
deles consistia num bairro coutado da antiga Lisboa, do qual D. Fernando 
pretendeu extinguir os privilégios, assim como os dos mais coutos, que então 
havia na cidade. Foram porém ineficazes os seus decretos, e só D. João I 
o conseguiu pela carta régia de 10 de Novembro de 1392, que mandou cum- 
prir o já precedentemente decretado (3). Perderam-se as regalias; mas con- 
servou-se ao bairro o antigo título de couto, com o qual ainda era conhecido 
em 27 de Setembro de 1754(4). 

Consistia nesta data o Couto em umas casas grandes de cinco andares 
junto ao poço do Borratém, as quais confrontavam pelo nascente com a rua 
direita que vai à Mouraria, para a qual tinham serventia, assim como a 
tinham para a rua dos Álamos. Abrangia a propriedade, hortas, picadeiro, 



íi) Provas da Historia genealógica^ tomo VI, pág. 148. 

(2) Ibidem, tomo VI, pág. i5i. 

(3) Freire de Oliveira, Elementos para a historia domunicipio de Lisboa, vol. I, pág. 294. 

(4) Escritura de 27 de Setembro de 1754 pela qual os marqueses de Louriçal subroga- 
ram ao hospital de Todos os Santos esta propriedade por certo padrão de juro. Cartório 
do hospital de S. José, liv. i.° de Escripturas de varias propriedades nos annos de ij52 a 
1^54, fl. io3. 



184 Brasões 

e vários outros logradoiros, e chegava pelo norte até à rua dos Canos junto 
ao muro de S. Domingos, e pelo lado do sul até à rua das Arcas e páteo 
das Comédias, para cuja ampliação havia cedido o marquês de Cascais, 
administrador do vínculo, doze palmos de chão. Foi este contracto feito 
por escritura de 4 de Outubro de 1699(1), e recebeu o marquês em troca 
outros doze palmos de chão, mas constituídos em dois camarotes da ter- 
ceira ordem do dito teatro. Ficou sendo o conde de Farrobo daquele 
S. Carlos. 

No Couto havia uma parte mais interessante, que o resto. Era a desi- 
gnada pelo quarto pequeno. Nele tinha vivido a última marquesa de Cas- 
cais, e nele estava a capela de S. Mateus e Santo Eutrópio mesmo defronte 
do actual beco dos Surradores(2);-e no lugar, que êle ocupava, edificou-se, 
depois do terremoto de 1755, a igreja dos Camilos, que durou até í834, 
quando se extinguiram as ordens religiosas (3). 

Ao tempo porém de João das Regras tomar posse da administração do 
hospital de Santo Eutrópio, não era êle tão importante, como depois se 
tornou pela anexação, que o privado de D. João I lhe fez, do morgado de 
S. Mateus por êle instituído, nem era situado no poço do Borratém, como 
logo mostrarei. 

O hospital de Santo Eutrópio foi, como fica dito, instituído pelo bispo 
D. João Alão com obrigação de sustentar dois capelães e quatro merceeiros. 
O hospital de S. Mateus, instituído por João das Regras e por êle anexado 
ao precedente, teve o encargo da manutenção de um capelão e de dezaseis 
merceeiros (4). Ficaram pois os dois hospitais obrigados a sustentar três 
capelães e vinte merceeiros. 

Para acomodar esta gente alcançou D. Luís de Castro, administrador 
dos hospitais, uma bula passada em 29 de Abril de 1541, pela qual se lhe 
facultou a acquisição de um espaçoso prédio situado nas vizinhanças do poço 
do Borratém, e foreiro em vidas à paróquia de S. Nicolau. Juntou êle este 
prédio ao seu morgado, e para lá transferiu o hospital (5). Por este título 
se vê, que até então permaneceu, como o declaram outros documentos (6), o 
hospital da freguesia de S. Bartolomeu, onde primitivamente fora instituído; 



(1) Cartório do hospital de S. José. 

(2) Júlio de Castilho, Lisboa antiga, parte 2.", tomo II, pág. 264. 

(3) Ibidem, pág. 299. 

(4) Cartório do hospital de S. José, Appenso 2." aos autos do processo intentado pelo hos- 
pital contra os marqueses de Ni^a: autos designados pelo n.° 786 do maço gS, n." 4. 

(5) Tudo isto se encontra no documento citado na precedente nota. 

(6) Entre outros os citados documentos da Chancelaria de D. João I, os quais são do 
ano de i386. 



Albergarias i85 

e só pelos anos de i54i, passando para o poço do Borratém, veio a pertencer 
à freguesia de Santa Justa. 

Parece pois poder-se concluir daqui, que João das Regras não morou 
nunca ao poço do Borratém, como alguns autores supuzeram. Com efeito 
ele habitou «huús paaços e casas. . . na cidade de Lixboa apar de sãta ma- 
rinha», cuja acquisição lhe foi confirmada por D. João I por carta de 25 de 
Setembro de 1390(1); e neles persistia ainda em 29 de Junho de 1403(2), 
isto é, dez meses antes da sua morte. 

Também alguns autores hesitam em declarar, de qual dos dois maridos 
de sua mãe Sentil Esteves foi filho o famoso chanceler; parece-me contudo 
poder-se afirmar, tê-lo sido do primeiro. Ignora-se o nome deste, mas 
sabe-se, que o segundo foi o bem conhecido Álvaro Pais, já viúvo quando 
contraiu estas núpcias. Ora em uma carta de certa mercê de 16 de Novembro 
de i388(3), diz-se: «E esta mercee lhe fazemos {se. a João das Regras) 
nõ enbargando que tenhamos dado em prestemo o dito reguego de valada a 
diogo aluarez filho de alvaro paaez etc». Se João das Regras fosse também 
filho de Alvaro Pais, é certo, que se declararia o seu parentesco com o Diogo 
Alvares, o qual seria designado por seu irmão, ou meio irmão. 

Houve já quem dissesse tudo isto? Talvez; mas eu ignoro-o; e, sej'a 
como fôr, na averiguação de factos históricos nunca há perissologia. 

Voltando ao hospital de S. Mateus e Santo Eutrópio, já transferido para 
o Poço do Borratém, direi, que dele encontro notícias na preciosa Estatística 
de Lisboa do anuo de i552 (4). 

Efectivamente, na íi. Ç>Ç> v. faz-se menção do hospital, no qual, diz, exis- 
tiam três capelães e vinte merceeiras, dando-se nesse tempo vinte mil reais 
por ano aos capelães, e por mês às merceeiras três alqueires de trigo e 
duzentos e trinta reais em dinheiro para conduto, e mais quinhentos e quarenta 
reais cada seis meses, para camisas e calçado. Acrescenta, que os capelães 
tinham obrigação de dizer três missas quotidianas, às quais as merceeiras 
haviam de assistir, e durante elas rezar pelas almas dos fundadores. 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 2.», fl. 49 v. 

(2) Instrumento desta data, que existia no armário sétimo do cartório de S. Vicente, 
onde Gaspar Alvares de Lousada Machado o viu, e dele tirou a ementa lançada no tomo 2.° 
dos seus Summarios da Torre do Tombo, ms. da Biblioteca Nacional. Em que elle hora 
mora, diz este documento. — Tenho atribuído a compilação daqueles Summarios a Manuel 
Severim de Faria, que foi apenas' o possuidor da obra. Dei com o erro e emendei-o no 
Archivo histórico portuguez, voI. II, pág. 484. 

(3) Chancelaria de D. João /, liv. i.°, fl. 192. 

(4) Ms. da Biblioteca Nacional, B. 11. lo, impresso, com o título mais apropriado de 
Majestade e grandezas de Lisboa, no vol. XI do Archivo histórico portuguez, prestes a 
sair do prelo. 

VOL. III 24 



i86 Brasões 

Num processo já citado vem uma lista das propriedades, que em 1840 e 
tantos compunham o vínculo, e por ela se vê, quão importante ele era(i). 

Neste tempo possuía-o a casa de Niza, que o herdara por morte da mar- 
quesa de Louriçal D. Maria Josefa da Graça de Noronha, senhora da casa 
de Cascais e uma das vítimas do terramoto do primeiro de Novembro de 
1755. Com respeito a esta senhora existe, nos autos do processo do padre 
Malagrida, um documento curioso, que vem a ser um recibo de duzentos 
mil réis por conta dos seiscentos mil prometidos a Nossa Senhora das Mis- 
sões, se a mesma Senhora lhe concedesse ao menos uma filha ! Foi o recibo 
passado em 26 de Junho de 1755, e está assinado pelo padre Gabriel Mala- 
grida. 

A data do recibo mostra, que a marquesa fora um tanto remissa no cum- 
primento da promessa, pois que a. filha pedida à Virgem das Missões lhe 
tinha nascido a 12 de Abril de 1762, ao cabo de perto de doze anos de ca- 
sada. Mas esta demora não indica falta de amor pela filha, não; a marquesa 
estremecia-a tanto, que foi vítima do seu amor maternal, e da sua fé. Pas- 
sado o primeiro choque do grande terramoto, prostrara-se a marquesa em 
oração dando graças a Deus por lhe ter livrado da morte a sua querida filha, 
quando abateram as paredes da sala e a feriram mortalmente. 

Volto ao hospital de S. Mateus e Santo Eutrópio e para concluir. 

Em 1745 sucedera nestes bens a marquesa de Louriçal ao 4.° marquês 
de Cascais seu irmão. Nos seus ascendentes em linha recta, ainda que não 
na varonia, se conservavam estes morgados desde o casamento de D. Álvaro 
de Castro, i.° conde de Monsanto, com D. Isabel de Cascais (2). Era a 
condessa filha primogénita e herdeira dç D. Afonso, senhor de Cascais (filho 
bastardo do infante D. João e neto de D. Pedro I), e de sua mulher D. Branca 
da Cunha, filha única e herdeira do dr. João das Regras, que foi senhor de 
Cascais e doutros muitos bens e entre eles da albergaria de Paio Delgado e 
dos hospitais de S. Mateus e Santo Eutrópio. 



Pelo que fica dito se vê, quão ilustres foram e são os representantes do 
velho Paio Delgado, cuja descendência, a não ser na linha referida, se deve 
considerar extinta: pois que dificilmente se poderão entroncar nos antigos 
senhores da albergaria da freguesia de S. Bartolomeu de Lisboa os vários 
ramos de Albergarias, quem tem existido. 



(1) Cartório do hospital de S. José, Appenso 2° aos autos, etc, fl. 244 v, 

(2) Assim se chamava, como se pode ver em certa escritura transcrita a pág. 164 do 
tomo 6.» das Provas da Historia genealógica. 



XXIV 

ALMADAS(0 



(i) [O A. não chegou a tratar do brasão dos Almadas. — Nota da revisão]. 



XXV 



AZEVEDOS 



XXV 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. III. 



Esquartelado: ao I e IV de oiro águia de negro; ao II e III de azul cinco 
estrelas de oito raios de prata, bordadura cosida de vermelho e carregada 
de oito aspas de oiro. Timbre: a águia. 

Assim se encontram estas armas, apenas variando no número dos raios 
das estrelas, no Livro do armeiro mor, a fl. 61, no Livro da Torre do 
Tombo, a fl. 12 v., na fl. 28 do Thesouro da nobre:{a de Francisco Coelho, 
que carrega a águia do timbre com uma das estrelas do escudo, no Thesouro 
da nobreza de Frei Manuel de Santo António a pág. Sy da cópia da Biblio- 
teca Nacional, etc. 



Corriam em Portugal tempos calamitosos. Uma guerra fratricida devas- 
tava o território português, entretanto que na Andaluzia, com brilhantes 
feitos e rápidas conquistas, ia Fernando III dilatando os domínios da coroa 
de Castela à custa dos sarracenos. 

Já várias cidades e povoações importantes lhe tinham caído nas mãos, 
quando, em 20 de Agosto de 1247, fechou o rei de Castela o cerco de Se- 
vilha por terra e pelo rio. 

Muitos cavaleiros portugueses engrossavam as fileiras do exército sitiante. 
D. Paio Peres Correia o famoso mestre de Ucles; D. Martim Fernandes, o 
valoroso mestre de Avis; D. Rodrigo Froiaz, o destemido senhor de Tras- 
tamara; D. Pedro Mendes, o esforçado senhor de Azevedo; D. Fernão Pires 
de Guimarães; D. Reimão Viegas de Sequeira, e vários outros pelejaram 
naquele memorável e prolongado sítio. 

Um dia, durante o cerco, convidou o prior do Hospital a jantar na sua 
tenda a D. Rodrigo Froiaz e a D. Pedro Mendes de Azevedo, que pousavam 
com as suas gentes além do Guadalquivir, sobre o arrabalde de Triana, no 
sítio em que capitaneava o nosso D. Paio Correia. 

O prior descuidado de qualquer correria dos sarracenos, tinha mandado 
parte dos seus homens de armas a tomar a erva necessária para as caval- 
gaduras, e só pensava, então, em festejar os seus convivas. Mas, como é 



192 Brasões 

bem certo que os trabalhos acodem, quando menos se esperam, foi a alegria 
do convite transtornada pelo aparecimento de quarenta cavaleiros mouros, 
que vieram à próxima veiga apresar as vacas do prior, que aí andavam pas- 
tando. 

Ao ver tal levantaram-se os três cavaleiros, e exclamou o mestre dos 
hospitaleiros: 

— Que é isto ? pois assim havemos de perder as nossas vacas ? 

— Mandai-nos dar armas e cavalos, a mim e a D. Pedro Mendes — lhe 
respondeu Rodrigo Froiaz — e vamos após eles : cá não é aguisado, se as 
vacas podemos haver, de as perdermos. 

— Mandai pelas vossas companhas — disse o prior — e assim iremos 
apercebidos, cá não sabemos se são mais mouros que os que parecem. 

— Nós os nossos têmo-los além da vila — lhe retorquiu Rodrigo Froiaz 
— e, se por eles atendêssemos, perder-se-iam as vacas: màs andai adiante e 
sigamo-los. 

Entretanto lhes iam afivelando os escudeiros as armaduras. Depois, 
cavalgando e empunhando as lanças correm os três fidalgos, seguidos pelos 
poucos freires do Hospital que por ali estavam; e, em breve, depois de dis- 
persos os sarracenos, recobram as vacas quási todas. 

Vendo isto observou o prudente prior: 

— Tornemos, pois perdemos pouco do nosso, cá poderá isto ser cilada. 
A que o temerário D. Rodrigo Froiaz logo respondeu: 

— Aqui não cumpre siso, pois os mouros levamos em encalço, e eles 
nos levam no rosto às vossas. 

Continuaram pois perseguindo os sarracenos, e, dentro em pouco, vi- 
ram-se realizados os receios do prior do Hospital, pois que foram cair em 
uma cilada de duzentos e sessenta cavaleiros agarenos, que encobertos os 
esperavam mais adiante. 

Então se feriu rija peleja, aguentando os cristãos com supremo esforço o 
ataque dos muito mais numerosos infiéis. ^ 

Aos hospitaleiros bradava Rodrigo Froiaz, animando-os com o exemplo 
e com a voz: 

— Senhores, e amigos, para isto é que foi estabelecida a vossa ordem 
de cavalaria, para exalçamento da cristandade e abaixamento da lei de Ma- 
famede. Sofrêde, e acometei-os, e não percais as bondades, que sempre 
houve nos hospitalários, nem as vossas vacas que vos levam; cá, se per- 
derdes, uma que seja, ireis com vergonha ao arraial ante el Rei D. Fer- 
nando. 

E, emquanto proferia estas palavras, não cessava de batalhar ferindo à 
direita e à esquerda, e de cada golpe, derribava um inimigo. 



A{epedos i g3 

No arraial da parte de Triana avistavam os sitiantes a peleja, e corriam 
pressurosos, o infante D. Afonso, o naestre de Ucles, e o senhor -de Biscaia, 
com as suas gentes a acudir aos hospitaleiros. Tinham, pore'm, de atravessar 
o Guadalquivir, e o vau apenas permitia a passagem a um de fundo, pelo 
que, quando puderam chegar ao campo da lide, já ela tinha findado com o 
desbarate dos mouros. 

Destes encontraram mortos sessenta e quatro, e dos freires treze. E 
acharam mqnalmente ferido a D. Pedro Mendes de Azevedo, « que fez muy 
grandes feitos aquel dia per sas mãos, ca elle era de muy gram coraçom e 
aventuvrado em todos mesteres em que entraua» (i). 



D. Pedro Mendes de Azevedo era filho de D. Mundo Bofino, rico homem 
importante da corte da rainha D. Teresa, conforme ao Nobilario do Conde 
D. Pedt^o, que, neste ponto, como em vários outros, erra. Com efeito a 
D. Mundo Bofino encontra-se confirmando uma escritura da era de 1 1.55, ano 
de Cristo 1117(2) e é portanto impossível que, cento e trinta anos depois, 
ainda seu filho pudesse dar tão rijas cutiladas em infiéis. 

E curiosa a referida carta em que D. Mundo Bofino confirma. Foi feita 
ela em terra Sancte Marie iibi vocant Feira no mês de Novembro da dita 
era, e, por ela, a infanta D. Teresa rainha de Portugal fez mercê a Gonçalo 
Eriz de lhe coutar a sua quinta de Osseloa (Ossela ?). Na carta declara a 
rainha, que lhe fazia esta graça por Gonçalo Eriz haver dado açor a D. Mundo 
Bofino, um rocim ao escudeiro Artaldo, e um gavião a Godinho Viegas, e 
por êle ir fundar juntamente com a rainha, uma albergaria à beira da es- 
trada que « currit de Portugal in directo de Petra de Aguila». 

De D. Pedro Mendes dizem que procedeu a antiga família dos Azevedos, 
que derivaram o seu apelido duma quinta deste nome, situada na freguesia 
de S. Vicente de Pereira de Jusã. 



Nas inquirições de 1290, as primeiras que D. Denis ordenou, foram os 
inquiridores ao julgado da feira, e, na freguesia de Pereira de Jusa, apenas 
encontraram uma quinta honrada, que então pertencia a uma D. Joana (3). 



(i ) Nobiliário do Conde D. Pedro^ tít. 21, § 4.°, pág. 282 e 283, donde extraí toda esta his- 
tória, e copiei o diálogo quási ipis verbis. 

(2) Documento n." XXXVl do apêndice ao tomo i.° das Dissertações chronologicas de 
João Pedro Ribeiro. 

(3) «Domingos perez de Pereyra Jurado e preguntado sse en esta freeguesia (S.Vicente 

voL. Hl a5 



194 Brasões 

Não nomeiam a quinta, mas pode ser fosse essa a de Azevedo, e que D. Joana 
fosse viúva de algum dos senhores da casa. Contudo, pede a verdade, se 
não encontra nos Nobiliários nenhum Azevedo de quem, a esse tempo, pu- 
desse, com bastante probabilidade, haver uma D. Joana viúva. 

D. Joana Vasques, filha de Vasco Martins da Cunha e mulher de Rui 
Vasques de Azevedo, não parece fácil ser viúva em 1290, pois que seu pai 
morreu não velho pelos anos de i3o8. 

Entretanto dá-se o facto singular de nas inquirições do mesmo ano de 
1290, na freguesia de Santa Marinha de Real do actual concelho de Castelo 
de Paiva, tererft encontrado os inquiridores um casal de Azevedo, que era 
honrado e pertencia a D. Berengária (i). 

Ora D. Joana Vasques, mulher de Rui Vasques de Azevedo, teve uma 
irmã chamada D. Berengária Vasques, que foi casada com Gonçalo Vasques 
de Azevedo irmão do Rui Vasques. Seriam estas duas irmãs Já então 
ambas viúvas ? Seria a quinta de Azevedo em Pereira de Jusã, que as in- 
quirições não nomeiam, o primitivo solar desta família, ou o casal de Aze- 
vedo em Real ? 



Doutras povoações denominadas Azevedos, que as inquirições nomeiam, 
se vê, pelo teor destas que não constituiam, a esse tempo nem honras, nem 
mesmo património de nobres (2). 



de Pereira de Jusã) ha casa de caualeyro ou de dona que.se defenda por onrra disse que no 
loguar que chama de Pereyra ha huã quintaã que foy de fernã perna e de sseus Irmaãos. E ora 
he de dona Johana e disse que soia sempre trager por onrra que no entra hi moordomo... pre- 
guntado se esta onrra foy feita por el-Rey disse que nõ que o el soubesse, preguntado de que 
tepo disse que o nõ sabia saluo que o uiu assy hussar bem dês quarenta anos » . . . (Advertirei 
que o X deste quarenta não está aspado, porém, pelo a que tem em cima, e pelo sentido, 
se vê que o devia ter sido). Liv. 4.» das Inquirições de P. Denis, fl. 5. Na Gav, 8, maç. 3, 
n.° 7 e no h'v. das Inquirições da Beira e Alem Douro a fl. 1 3 v. se diz o «lesmo. 

(i) «Item na aldeya que chamam amoo e em barreiros e em Azevedo e em penella e 
no logar que chamam quintaa e hum casal de carualho e em hum casal em fermill. Em 
todos estes logares he provado que soya entrar o moordomo e peitavam Ihy ende vooz e 
cooma. ssalvo en huu casal de aziuido de dona beringueira. E des tempo dei Rey dõ afonsso 
padre deste Rey tolheu ende a abadessa dourouca o mordomo e ffez ende hõrra e nom 
entra hy porteiro nem moordomo e trage hy seu chegador. Todos estes logares de ssuso 
ditos seiam devassos e entre hy o moordomo dei Rey por todoílos seus direitos ssaluo o 
casal de dona beringueira em quanto ffor de filhos dalgo ». Inquirição na freguesia de 
Santa Maria de Real do julgado de Panho, a fl. 22 do liv. de Inquirições da Beira e Alem 
Douro. 

(2) «Item no julgado de veera (Vieira) achamos em esse registo (inquirições d'Affonso II 
da era de izSg) na fryguesia de sa Johanne do Moisteiro de Veera do logar que chamam 



A^evedos 195 

Extinta a varonia dos primeiros Azevedos e passado o seu solar a outros 
donos, formou-se a nova família dos Azevedos, que alguns linhagistas pre- 
tendem deduzir, na sua varonia, dos antigos. Não encontro citados docu- 
mentos em abono desta pretensão, e, a dizer a verdade, nenhum dos Nobi- 
liários antigos meus conhecidos a confirma (i). 

Destes segundos Azevedos o certo, é que procedem de Lopo Dias de 
Azevedo, filho de Diogo Gonçalves de Grasto, senhor da quinta de Crasto 
na freguesia de Carrazedo concelho de Amares, e de sua mulher Aldonça 
Coelha, senhora da quinta do Souto da Ribeira de Homem no mesmo con- 
celho. 

Lopo Dias, estando em Guimarães a 6 de Agosto da era de 1429, ano 
do Senhor de iSgi, tendo procuração de Joana Gomes sua mulher, mandou 
fazer por Álvaro Anes tabelião daquela vila, uma escritura da troca ajustada 
com João Rodrigues Pereira. 

Por esta escritura venderam os primeiros outorgantes ao segundo a sua 
quinta de Pereira no julgado de Vermoim, recebendo em troca a quinta de 
Azevedo no julgado do Prado com todas as suas pertenças, coutos, maladias, 
e honras, com exclusão do casal que trazia Gomes Aranha, etc. A pro- 



Azevedo dam a El Rey três quarteirões de castanhas secas, e dizem que ora nó dam saluo 
sex talgas » (liv. 2." de Direitos reaes, fl. 2o3 v.), instrumento sem data, cujos artigos foram 
tirados da citada inquirição da era de 1259 (1221), como o assevera João Pedro Ribeiro na 
nota 2 a pág. io3 das Memorias das inquirições. 

« Martinus michaelis prelatus de Real iuratus dixit quod de villa de Carvalo et de quin- 
tana et de penela et de Aziuido et de Mola et de barreyros que sunt de Monasterio de arouca 
nuUum fórum faciunt Regi. . . interrogatus per quod sunt iste ville sic exepte. dixerunt quòd 
per donam famaldã fsicj Regina». Inquirições de t258 a fl. 99, col. 2.* do liv. 3° de Inqui- 
rições de D Afonso III. 

«Gonhoscam todos os que este strometo virem que en presença de mi Steuã pirez tabeliom 
no termho da terra de sta Maria e das testemuyhas en fumdo scritas preguntou Steuam 
lourenço clérigo del-Rey. Pedro steues Juiz de ffeyra que el dissesse verdade polo iurameto 
que fezera se ouvia homees das aldeyas de Zagães e de Carregosa e de Paaços e de vila nova 
e de Azevedo de humha con os mayordomos e com os prestameiros sobre la mateyga que os 
homees dos ditos logares dizia que non devia a dar e que dissesse ende verdade en que estado 
estava o preito quando ele veo da terra, etc». Liv. 2.° de Inquirições de D. Afonso III, 
fl. 47 v. Não são propriamente inquirições, mas diligências praticadas por certo inquiridor 
no ano de 1284; assim o diz João Pedro Ribeiro nos seus Aditamentos e retoques ás Memo- 
rias para a historia das inquirições, etc, pág. 14. 

(i) O Nobiliário do Conde D. Pedro, tít. 33, § 2.», pág. 3ii diz efectivamente, que Gon- 
çalo Vasques de Azevedo teve um filho chamado Diogo Gonçalves, mas não acrescenta mais 
nada. Xisto Tavares no seu Nobiliário, a fl. I2i da cópia da Biblioteca Pública, não nomeia 
o pai de Lopo Dias de Azevedo. O mesmo faz Damião de Góis, a fl. 242 v. da cópia do seu 
Nobiliário, que existe na mesma Biblioteca. 



I 



196 " Brasões 

curação de Joana Gomes foi passada na quinta de Crasto em 12 de Julho 
precedente (i). 

Parece, pois, ter sido esta quinta o solar destes Azevedos. 

Lopo Dias de Azevedo foi senhor de S. João de Rei (2), das terras de 
Bouro (3), Aguiar de Pena e Jales (4), todas de juro e herdade e das terras 
de Pereira, Abitureiras, Azoia, Vila Nova de Anços, Reguengo de Santa Leo- 
cádia e outras (5), e do reguengo de Alviela(6). Entrou na batalha de Alju- 
barrota, casou com Joana Gomes da Silva, e foi progenitor dos senhores de 
S. João de Rei, dos da quinta de Azevedo, dos da Ponte de Sor, etc. 



Rui Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alenquer e senhor de Salvaterra 
de Magos em tempo de D. João 1, entendem alguns linhagistas ter sido filho 
de Gonçalo Gomes de Azevedo, alferes mor de Afonso IV e filho segundo 
da primitiva casa de Azevedo. Foi Rui Gomes, progenitor dos Azevedos 
alcaides mores daquela vila, dos almirantes do reino, cuja casa passou para 
os Castros de Resende, e dos Azevedos de Elvas cuja varonia se extinguiu. 



Teresa Vasques de Azevedo, fi.lha de Vasco Gomes de Azevedo e sobrinha 
do alferes mor Gonçalo Gomes de Azevedo, foi monja de Lorvão e amante 
de D. Francisco Pires prior de Santa Cruz de Coimbra! Deste frade e desta 
freira nasceu um filho, que se chamou Gonçalo Vasques de Azevedo, e que 
D. Fernando mandou legitimar por carta de 27 de Fevereiro de 1375(7). 
Era senhor da Lourinhã desde i373, e cavaleiro, e, na carta de legitimação, 
é intitulado privado; facto desconhecido a Francisco Manuel Trigoso de 
Aragão Morato ao tempo em que escreveu a sua Memoria sobre a verda- 
deira significação da palavra Privado, no tomo 1 1 das Memorias da Aca- 
demia. 



(i) Documentos da capela de D. Briolanja de Castro lançados por ementa no tomo 2.* 
da Torre do Tombo, de Manuel Severim de Faria, ms. da Biblioteca Pública. 

(2) Consta da carta de 14 de Agosto de 142 1 (i383) em que D. Fernando manda ao 
almoxarife cie Guimarães, restitua a Lopo Dias a posse daquela terra {Chancelaria de 
D. Fernando, liv. 3 ", fl. 90). 

(3) Carta de 20 de Maio de 1422 (i384) a fl. i3 do liv. i.» da Chancelaria de D. João I. 

(4) Carta de i5 de Setembro de 1422 (1384) (Ibidem, fl. Sy v.). Confirmada esta mesma 
e as precedentes por carta de 24 de Agosto de 1423 (t385), a fl. 83 v. do mesmo livro. 

(5) Carta de 14 de Abril de 1423 (i385) (Ibidem, fl. ii3 v.). 

(6) Carta de 5 de Dezembro de 1425 (i387) {Ibidem, fl. 197). 

(7) Chancelaria de D. Fernando^ liv. 1.», fl. 178. 



Aj(evedos 1 97 

De Gonçalo Vasques dizem, que procederam os Azevedos de Castela, 
que naquele reino tiveram a grande casa dos condes de Moniei*ey, que 
usavam, contudo de bem diferentes armas. 



Estes são os principais ramos dos Azevedos. Há muitas casas derivadas, 
mais ou menos directamente, desta família, que se tem ramificado muito, e 
que seria fastidioso relacionar. 



XXVI 



CASTELOS BRANCOS 



XXVI 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. III. 



De azul leão de oiro linguado e armado e vermelho. Timbre: o leão 
das armas andante. 

Sem diferença no escudo se encontram estas armas a fl. 6i v. do Livro 
do armeiro mor, a fl. 12 v. do Livro da Torre do Tombo, a fl. 28 do The- 
soitro da nobre:{a, de Francisco Coelho, a pág. 76 da cópia da Biblioteca 
Nacional do Thesouro da nobreza, de Frei Manuel de Santo António, etc; 
porém, todos lhe assinam como timbre o leão rompente. 



Na quinta feira 25 de Julho de 141 5 saiu do Tejo a esquadra portuguesa. 
D. João I a comandava e nela iam seus filhos os infantes D. Duarte, D. Pedro 
e D. Henrique e o conde de Barcelos; seus sobrinhos D. Afonso de Cascais 
e D. Fernando de Bragança; o condestável Nuno Alvares Pereira, o mestre 
de Cristo D. Lopo Dias de Sousa, o prior do Hospital Álvaro Gonçalves 
Camelo, o almirante Lançarote Pessanha, o marichal Gonçalo Vaz Coutinho, 
o capitão do mar Afonso Furtado, o alferes mor João Gomes da Silva, o 
conde de Viana D. Pedro de Meneses, o guarda mor Martim Afonso cje 
Melo, o escrivão da puridade Gonçalo Lourenço de Gomide, o mestre sala 
Diogo Alvares Pais, o monteiro mor Lopo Vasques de Castelo Branco com 
seus seis irmãos, e outros oficiais mores. Dos fidalgos e nobres iam Cas- 
tros, Noronhas, Freires, Mouras, Silvas Cunhas, Sousas, Távoras, Nogueiras, 
Pereiras, Sás, Figueiredos, Silveiras, Santaréns, Barretes, Cerveiras, Abreus, 
Coutinhos, Lemos, Brites, Cabrais, Ocens, Almeidas, Albergarias, Masca- 
renhas, Alenqueres, Azevedos, Vasconcelos, Monises, Araújos, Fogaças, 
Carvalhais, Sequeiras, Arcos, Refóios, Almadas, Ataídes, Malafaias Ta- 
bordas Curutelos, Peixotos, Lobatos, Barbudas, Ribuins, Lobos, Cernaches, 
Ferreiras e outros. 

Acompanhavam a esquadra portuguesa vários estrangeiros distinguindo-se 
entre eles um inglês, a quem Pisano chama Muncudo e Azurara Mondo (i), e 



(i) Pisano, De bello Septensi, pág. 36, e Azurara, Chronica de D. João I, pág. iSy. 
estes autores sigo na minha narrativa. 

VOL. Ill 26 



202 Brasões 

que veiu com quatro ou cinco naus, esquipadas e armadas à sua custa, a 
servir nesta empresa. 

Era soberbo o aspecto da esquadra, extraordinariamente numerosa para 
o tempo. Constava ela de sessenta e três naus, vinte e sete galés triremes, 
trinta e duas biremes, e cento e vinte fustas e embarcações pequenas. Ao 
todo duzentos quarenta e dois navios (i). 

Pelos muros da alcáçova, por todos os pontos elevados de Lisboa, e pela 
praia, se apinhava a gente a ver o deslumbrante espectáculo, que lhe pro- 
porcionava a saída da frota. E todos lhe desejavam boa sorte, e alguns, os 
abelhudos, que nunca minguam, jactanciosos desvelavam o segredo que igno- 
ravam. 

Porque ainda era segredo, quási para todos, o destino da expedição; e, 
dos que ficavam em terra, talvez só o soubesse o mestre de Avis Fernão 
Rodrigues de Sequeira, a quem D. João 1 confiara o regimento do reino 
durante a sua ausência. 

O vento escasso foi empurrando a armada, que, só no sábado à tarde, 
começou a dobrar o cabo de S. Vicente, ante o qual todas as velas se mesu- 
raram, em sinal de veneração. Continuando a sua derrota ainda nessa noite 
fundeou a esquadra em Lagos. 

No dia seguinte, 28 de Julho, pela manhã, desembarcou el Rei a ouvir 
missa por ser domingo, e então determinou publicar o alvo da expedição. 
Antes da consagração subiu Frei João Xira ao púlpito, e de lá declarou, que 
D. João I se puzera a caminho a fim de sujeitar a Seuta. Depois entrou a 
a persuadir diligentemente a todos, que se confessassem e comungassem, 
pois que de Deus é que dependia a vitória. E, por último, exibiu as cartas 
apostólicas que absolviam aqueles, que contritos morressem nesta guerra. 

Com a verdade te engano, diz o adágio; e, se esta fosse a tenção de 
D. João I, tinha-a completamente conseguido, pois que em todos continuou 
a persuasão, de que a Sicília era o fim da viagem. 

A quarta feira partiu a armada para Faro, onde, pela razão da calma 
que sobreveiu, teve de permanecer até 7 de Agosto; oito dias. Levantan- 
do-se então o vento puderam sair do porto; e, à tardinha do dia 9, avistaram 
terra de mouros próximo ao estreito de Gibraltar. Ordenou logo el Rei a 
toda a esquadra, que ficasse pairando a distância da costa, e só noite cerrada 
se meteram à foz do Mediterrâneo. Ao romper da manhã passaram em 
frente de Tarifa, cujos moradores foram acordados pelo som das trombetas 



( I ) Pisano, De bello Septensi, pág. 43. — Çurita no liv. 1 2.», cap. 52 dos Anales de Aragon, 
reduz a esquadra portuguesa a duzentos e dois navios, diminuindo-lhe trinta naus. A este 
não sei se com bom fundamento, tem seguido a maioria dos historiadores. 



Castelos Brancos 2o3 

portuguesas; e à tarde, entre Gibraltar e Tarifa, em frente de Algeciras, 
lançaram as âncoras ao mar. 

O aparecimento da armada portuguesa causou impressões bem diversas 
na cidade castelhana e na sarracena. Nesta cerraram-se as portas, guarne- 
ceram-se as muralhas, e o susto transluziu em todos os rostos; naquela tra- 
tou-se de aprontar um magnifico presente de vitualhas com que brindar a 
D. João I e a alegria se manifestou ruidosamente. De Algeciras mandaram 
embaixadores ao rei de Portugal a suplicar a paz. De Tarifa o alcaide mor 
Martim Fernandes de Portocarreiro, fidalgo português que ficara ao serviço 
de Castela, enviou seu filho a felicitar a D. João, e fazer-lhe oferecimento 
da soberba dádiva. 

No dia 12 levantou a armada ferro e aproou a Seuta; porém a cerração 
que sobreveíu, e a força das correntes lançaram as naus caminho de Málaga 
menos a de Estêvão Soares de Melo, que, com as galés, fustas e mais 
embarcações pequenas, ainda nesse dia foi surgir ante Seuta. 

Dois dias antes tinham os moradores da cidade visto passar ao largo a 
esquadra portuguesa, e agora viam-na em seu posto. Esta aparição confir- 
mou-lhes as suspeitas, que logo ao primeiro dia se lhes tinham gerado, de 
que era contra eles que o poder do rei de Portugal se dirigia. Suspeitas 
que levaram o alcaide Saléh ben Saléh a convocar todos os mouros dos 
lugares vizinhos para, com suas pessoas e armas, virem auxiliar a guarnição 
na defesa de Seuta. 

Durante o tempo que as galés permaneceram neste porto houve algumas 
escaramuças de pouca importância entre os cristãos e os infiéis. 

Entretanto esperava D. João I pelas naus para dar o assalto. Gomo elas 
tardassem, mandou no dia 14 de Agosto ao infante D. Henrique na sua 
galé a chamar o infante D. Pedro, que comandava os navios de alto bordo. 
Em seguida ordenou ao resto da esquadra que levantasse ferro, e foi fun- 
dear da outra parle de Seuta onde chamavam Barbaçote, a perto de mil 
passos (i). 

Os infantes avistaram-se e apressaram a marcha das naus, quando caiu 
sobre aquelas paragens uma violenta tempestade, que de novo as dispersou 
a todas, e obrigou el Rei a levantar-se com as galés e fustas donde jazia, e 
vir procurar abrigo Junto a Algeciras. 

Folgaram os habitantes de Seuta com esta partida, que julgaram defini- 
tiva, e aproveitaram logo para despedir as tribus do deserto, que tinham 



(i) Este porto de Barbaçote supõe Major que será a Baía do Desnarigado que fica situada 
depois de dobrada a ponte de Almina,um pouco mais para o poente. Life of prince Henry 
of Portugal, pág. 32. 



204 Brasões 

acudido em sua defesa, e cuja permanência na cidade se tornava pesada e 
perigosa. 

As naus que tinham aturado o temporal cruzando no alto mar, procura- 
ram, apenas serenada a tormenta, Juntar-se às galés em Algeciras; porém 
de novo as correntes as «levaram para Málaga. Ainda eram inexperientes 
então os nossos pilotos ! 

Outra vez foi o infante D. Henrique na sua galé chamar as naus, e, 
afinai, conseguiu trazê-las a Algeciras. 

Reunida a frota, achavam-se todos descorçoados, e só pensavam em 
voltar para Portugal; porém o rei e os infantes, a quem os transtornos não 
desanimavam conservavam o ânimo firme e resoluto de levar a cabo a 
empresa. 

Convocado o conselho e dividindo-se os votos, manteve D. João I oculto 
o seu pensamento, e, não mostrando a decisão, ordenou, contudo, os aprestes 
para uma próxima partida. 

Tudo a postos, saiu el Rei em terra no dia 20, na ponte do Carnero, e 
juntando em roda de si o seu conselho, todos sentados no chão, declarou a 
sua tenção positiva de acometer a Seuta, e expôs, em seguida o seu plano 
de ataque, o qual, depois de animada discussão, veiu a prevalecer. 

Tinha D. João I, durante o tempo que permaneceu no porto de Seuta, e 
depois no de Barbaçote, à espera das naus, examinado as fortificações e a 
posição da praça. Deste exame lhe resultou a convicção de que, ocupadas 
as alturas da Almina, sobranceiras pelo nascente a Seuta, poderia, sem 
grande trabalho ser a cidade entrada; pois que por esse lado não havia 
fosso que transpor, e, se havia o inconveniente de deixar desembaraçadas 
aos sarracenos as comunicações pelo poente, os reforços que viessem da 
África, não iriam, decerto, atacar o arraial português no alto da antiga 
Abyla(i). 

Os contratempos, que embaraçaram a expedição, foram afinal proveitosos, 
e viu-se que, decididamente, mais uma vez a fortuna favorecia a D. João I. 
E não favorecia a quem dela se não soubesse aproveitar, em que pese a 
certos historiadores modernos. 

A demora do rei sobre a cidade permitiu-lhe o exame das fortificações. 
A tempestade obrigando-o a levantar ferro despersuadiu do perigo os sarra- 



(i) No mapa de Seuta com que Major ilustra o seu texto se v8 designados por Almina 
os outeiros do sul da cidade ; mas das narrativas de Pisano e de Azurara combinadas com 
a descrição de alguns geógrafos modernos parece que a Almina era com efeito a grande 
montanha ao nascente de Seuta, também designada por coluna de Hércules, e a que no 
mapa de Major se dá o nome de Acho. 



Castelos Brancos 20 5 

cenos, e fê-los despedir os auxiliares numidas talvez em número de dez mil 
homens. Destes dois factos, a escolha do ponto para o assalto e ò desguar- 
necimento da praça, dependeu a sua rápida conquista. 

Dividiu D. João I a armada em dois corpos. Com o maior avançou êle 
direito a Seuta, e com o menor mandou ao infante D. Henrique dobrar a 
ponte de Almina. Determinou-lhe que a um certo sinal desembarcasse as 
suas tropas, e tratasse de ocupar a praia e às alturas próximas daquela 
parte, que os mouros decerto teriam menos guarnecida, pois que mais re- 
ceariam ser atacados pelo grosso da frota, que tinham à vista, do que pelo 
lado da montanha. 



Em frente de Gibraltar em terra africana está a segunda coluna de Hér- 
cules, o monte de Almina. Forma ele a extremidade de uma pequena penín- 
sula que sai da costa norte de Marrocos, em direcção ao oriente, na extensão 
de aproximadamente cinco quilómetros. 

No istmo desta península, em que há com o de Almina sete montes, está 
edificada a cidade de Seuta, a Septa dos Romanos, a Abyla dos antigos. 
Como a península tem uma forma aproximada a um S dá em resultado, que 
dos dois lados dela há portos de mar, ambos na verdade pouco profundos e 
pouco abrigados. 

Os nossos cronistas designam o porto do norte, o que fica fronteiro à 
ponta da Europa como sendo propriamente o de Seuta, e ao do sul aquele 
a que se chega depois de dobrada a ponte de Almina, chamam de Barba- 
çote. 

Entre estas duas baías, e ao poente de Almina a que se encosta é que 
Seuta está edificada. Era a cidade defendida por fortes muralhas e pro- 
fundos fossos sobretudo pelo lado do continente, pois que por aí havia mais 
perigo em ser atacada. 

Era então uma das cidades mais ricas e importantes do império de Mar- 
rocos, e o seu porto o centro do comércio do Oriente com a Europa oci- 
dental. 

Dele saíra a expedição dos primeiros árabes conquistadores da Espanha 
goda. Agora, decorridos tantos séculos, iam os descendentes dos godos 
encetar por ela as suas conquistas africanas. 

Quási ao pôr do sol de terça feira 20 de Agosto lançou ferro o grosso 
da armada portuguesa Junto aos recifes em frente da cidade de Seuta; e o 
resto da esquadra, formada pelos navios do Porto e capitaneada pelo infante 
D. Henrique, surgiu a perto de mil passos ao nascente/ fronteira ao monte 
Almina. 



Úó6 Brasões 

Os sarracenos alvoraçados com o evidente intento dos portugueses dis- 
puzeram-se nunnerosos, por ordem de Saléh ben Saléh, pelas muralhas e 
pontos da cidade visíveis da frota; e, em escurecendo, alumiaram todas as 
janelas, que para a mesma banda olhavam. Por esta forma esperavam ca- 
pacitar os inimigos, de que a praça estava bem guarnecida, e, incutindo-lhes 
receio pelo êxito do assalto, afastá-los definitivamente de suas passagens. 

Não conseguiram o intento e, unicamente, obtiveram o proporcionar aos 
da frota o deslumbrante espectáculo daquela iluminação reflectindo-se por 
noite serena sobre o brando mar. 

As ordens de D. João I estavam dadas. No dia seguinte havia de ter 
lugar a investida da cidade, começando o desembarque os da armada do 
Porto, que a um sinal dado pelo rei, arrumariam os batéis à praia, e desce- 
riam a ela após o seu caudilho o infante D. Henrique, a quem seu pai conce- 
dera, afinal, a apetecida prerrogativa de ser o primeiro a pisar terra africana. 

Assim que ancoraram começaram, portanto, os portugueses a preparar-se 
para a peleja do dia seguinte; e, ainda que depois o toque de recolher os 
mandasse descansar, não puderam conciliar o sono. Uns, tristes, acabru- 
nhados, pensavam com susto no que lhes traria o dia seguinte; outros, ale- 
gres, certos já da vitória, calculavam a glória e os despojos que adquiririam. 
A um lado os mais crentes segredavam os pecados a seus confessores; a 
outro lado os fleugmáticos partilhavam com os amigos as suas melhores 
viandas. E em todos a cogitação única, perseverante, era a luta próxima e 
os seus resultados. 

Amanheceu, finalmente, o dia 21 de Agosto de 141 5. Logo ao branquejar 
do céu foram os apitos despertando as tripulações dos navios do infante 
D. Henrique, as primeiras que haviam de entrar na peleja. Passada revista 
às armaduras, compostas as peças que aparentavam menos fortaleza do que 
deviam, começaram a armar-se os soldados, e uns com rápidos movimentos 
davam docilidade às charneiras das juntas das armaduras, em quanto outros 
brandindo as espadas e as faxas avigoravam os músculos. Em breve tempo 
foram prestes, e só esperavam pelo sinal combinado para começar o desem- 
b arque. 

Na armada real sucedeu o mesmo. Todos se preparavam para a peleja 
cada um consoante a sua índole. 

Então manda D. João I chamar à galé os capitães da sua esquadra, e 
reOnidos lhes dá as ordens para o ataque, prevenindo-os de que ninguém 
havia de pôr pé em terra antes de seu filho D. Henrique. Não contente com 
isto, veste a loriga, enfia o capacete, pega na espada, e, passando para uma 
galeota, percorre toda a armada animando os soldados com a voz e com a 
presença. 



Castelos Brancos 207 

Entretanto os mouros mancebos e aguerridos não desanimavam da defeza 
da sua cidade, apesar de verem o desalento de Saléh ben Saléh,.que já na 
noite passada quisera fugir abandonando Seuta. Com efeito a fama das 
grandes obras e venturas de D. João I passara além do estreito, e o alcaide, 
homem idoso e experimentado, achava sobejas razoes para se reputar per- 
dido em presença de uma expedição ordenada e capitaneada por tal rei. 
Procuraram agora de novo os defensores de Seuta ao seu senhor, e dizen- 
do-Ihe que o aparente intento dos cristãos era desembarcar, lhe suplicaram 
consentisse que eles, saindo à praia, lho embargassem. Concedeu-lhes o 
velho mouro a licença desejada, ordenando-lhes que a miúdo o fossem avi- 
sando dos sucessos. 

Ligeiros correm os sarracenos pela praia direitos à Almina, e, parando 
em frente da esquadra do infante, começam a provocar os portugueses com 
algazarras, apupos e arremessos. 

Havia já umas poucas de horas, que os soldados estavam debaixo das 
armas; o sol aquecia, o sinal tardava, e aqueles mouros defronte com seus 
trejeitos irritavam. As ordens eram terminantes, mas João Fogaça veador 
do conde de Barcelos que a bordo da nau 5. Cristóvão {i) capitaneava as 
gentes do conde não pôde por mais tempo sofrear a sua impaciência. Lan- 
ça-se com alguns companheiros em um batel, e manda remar para a praia. 

Acodem os mouros em cardume ao ponto para onde o batel aproava, e 
com pedras e dardos atacam os tripulantes. Chegada a embarcação à praia 
salta em terra um valente e esforçado soldado, Rodrigo Gonçalves, que, 
brandindo com vigor a facha de armas em torno a si, faz, em breve tempo, 
o suficiente terreiro para permitir o desembarque aos sócios. 

Vendo o infante D. Henrique já aqueles em terra, mete-se num batel 
com Estêvão Soares de Melo e Mem Rodrigues de Refoios seu alferes, e dá 
ordem às trombetas para tocarem o sinal do desembarque. De todas as 
embarcações começam logo a despejar-se os batéis carregados de homens de 
armas. Mas, entretanto, na praia o esforçado Rui Gonçalves acompanhado 
de um valoroso cavaleiro alemão, fazia grande destroço na chusma mourisca, 
e, desde que conseguira derribar um mouro de desmesurada grandeza, que 
à frente dos seus pelejava com esforço, incutira tal terror nos mais, que os 
afastou da beira mar facilitando grandemente o desembarque. 

O infante D. Duarte aprontara-se como os mais logo ao romper do dia, 
mas tivera a infelicidade de, ao armar-se, ferir-se em uma das mãos. Os 



(i) O nome da nau em que ia João Fogaça com os soldados do conde de Barcelos, 
consta do alvará de 7 de Março de 1416, registado a fl. 100 v. do liv. 5.» da Chancelaria de 
D. João /, pelo qual el Rei fez dela mercê a Gomes Martins de Lemos senhor de Góis. 



2o8 Brasões 

seus criados aconselharam-no a que, por esta razão, desistisse do combate, 
pois que a ferida com o exercício facilmente se agravaria. Não llio sofreu 
o ânimo brioso, e, mandando aprontar um batel, nele se mete aproveitando 
o ensejo de seu pai andar ainda visitando a armada. Leva comsigo a Fernão 
Gil seu tesoureiro, a Martim Afonso de Melo e a Vasco Anes Corte Real, e 
com eles salta em terra próximo ao sítio onde seu irmão pelejava. 

Seriam neste tempo já na praia uns cento e cinqíienta portugueses, que, 
animados pelo exemplo dos infantes, iam levando adiante de si os sarracenos 
cada vez mais numerosos, pois que a praça constantemente vomitava novos 
defensores. Chegados à falda do monte, e acrescentados os invasores com 
os soldados, que de contínuo desembarcavam, puderam, apertando rijamente 
com os mouros, ocupar de vez a montanha. 

Pouco antes havia o infante D. Henrique reconhecido seu irmão primo- 
génito, e, no meio da peleja, mal lhe pudera agradecer a sua presença e 
auxílio; porém, agora, nos momentos de repouso que lhes proporcionava a 
ocupação da Almina, se chegou a êle e lhe quis entregar o mando, que 
D. Duarte não aceitou. Contudo lhe aconselhou este, que não esperasse 
pelo desembarque das tropas do comando do rei, e que, proseguindo o ataque, 
fosse aproveitando o evidente receio, que o ardor dos cristãos, agora já em 
niímero de trezentos, incutira no ânimo dos íiéis. 

Assim se praticou. 

Guarnecida Almina e reunidos os portugueses avançam, novamente, após 
os infantes de encontro à chusma mourisca, que obrigam a recuar até um 
chafariz de alvenaria, por onde escorriam as águas, que a chuva lançava 
sobre a montanha, e que em seguida eram recolhidas em duas próximas cis- 
ternas. Chegados aqui reanimaram-se os sarracenos, e, com mais vigor do 
que antes, disputaram a passagem. 

Entre eles se estremava um membrudo negro de avultosa estatura; nu, 
coberto de carapinha, com grandes dentes alvos, grossos beiços vermelhos e 
revoltos, e olhos injectados de sangue. Sem mais armas do que a funda 
despedia, com a força e a certeza de um trom, enormes pedras, que causa- 
vam grande destroço na hoste do infante. De uma vez escolheu aquele para 
alvo a Vasco Martins de Albergaria, cujos temerosos golpes pretendia ata- 
lhar, e, fazendo sibilar a funda, lhe acerta com a pedra em cheio no elmo, 
cuja viseira voa em estilhas. Atordoado no primeiro momento com a força 
da pancada, recobra contudo sem demora o ânimo o denodado escudeiro, e, 
arrojando- se ao meio da multidão, chega-se ao agigantado negro e o traspassa 
com a lança, sem lhe dar tempo de segundar o tiro. 

A queda do mouro incutiu tal pavor na turba circunstante, que a obrigou 
logo a afrouxar a defeza, e, em breve, ante um novo esforço dos assaltantes, 



Castelos Brancos 209 

a procurar na fuga a salvação. De envolta com os fugitivos sarracenos cor- 
reram os portugueses direitos à porta de Almina, pela qual de tropel entra- 
ram uns e outros, sendo o primeiro dos nossos a penetrar na cidade o valente 
Vasco Martins de Albergaria, que, ao passar da porta, clamou: 

— Cá vai o de Albergaria 1 

Após este seguiram-se todos os mais, e logo se viram tremular, Já dentro 
da cidade, as bandeiras do infante D. Henrique e de Martim Afonso de Melo, 
e o estandarte de Gil Vasques da Cunha. 

Ocupada, por conselho de D. Duarte, uma pequena altura formada à 
parte de dentro das muralhas pela acumulação dos estercos, que de longos 
anos para ali se deitavam., esperaram os infantes que crescessem as tropas, 
pois que, ainda então, não passavam de quinhentos homens, os que com eles 
se achavam. A cidade era populosa, os seus defensores podiam cobrar 
ânimo, e, cerrando a porta, fazer pagar caro o arrojo dos invasores. 

Entretanto alguns sarracenos correndo para a alcáçova anunciavam a Saléh 
ben Sale'h, que a parte da cidade fronteira ao monte Almina, estava já 
ocupada pelos cristãos. Outros procuravam na fuga a salvação própria, e 
a dos filhos e mulheres. 

Debulhado em lágrimas saiu o velho alcaide com a guarnição do castelo, 
a ver se impedia nas vielas da cidade o progresso dos invasores, procurando, 
por esta forma, alcançar para os cidadãos o tempo necessário para se refu- 
giarem na parte ocidental da povoação, que era separada da restante por 
uma muralha, que do castelo partia em direcção ao norte até encontrar o 
muro exterior. Neste bairro, que comunicava com o sertão, esperava Saléh 
ben Saléh que se pudessem defender, até que, das próximas tribus, lhes- 
viesse socorro. 

Continuou com toda a actividade o desembarque, e a pequena tropa de 
D. Henrique a cada passo engrossava com os numerosos reforços, vindos da 
esquadra do seu comando, e que procuravam a bandeira do infante, .hasteada 
naquele outeiro. 

Vasco Fernandes de Ataíde, contudo, achando desprêso entrar na cidade 
pela porta, chamou alguns dos seus e outros de seu tio o marechal, e se di- 
rigiu com eles a outra porta, que ficava um pouco mais na montanha. Come- 
çaram a arrómbá-la, porém os mouros de cima com pedras e dardos lho 
embargaram, e, tendo ferido gravemente a Vasco Fernandes e morto a oito 
dos seus peões, obrigaram os restantes a abandonar a empresa. 

Era já perto do meio dia e o infante D. Henrique, vendo que a maior 
parte dos seus soldados estavam desembarcados, e que o tempo ia correndo, 
dividiu a sua tropa em vários corpos para, por diferentes partes, continuar 
a ocupação da cidade. Mandou por uma rua ao conde de Barcelos, por 

YOL. Ill 2J 



íio Brasões 

outra ao alferes do conde, e ainda por uma terceira a Martim Afonso de 
Melo, cada um com o seu troço de soldados. E ele e D. Duarte com os 
restantes homens de armas e peões dirigiram-se pelas muralhas fora a tomar 
todas as alturas. 

Como o calor apertasse muito, foi o infante D. Duarte largando as suas 
armas, e, mais leve que o irmão, se foi adiantando até que ocupou a mais 
alta parte da cidade, onde chamavam o Cesto. O infante D. Henrique per- 
dendo de vista o irmão tomou a sua direita. 

Todos eles foram sempre pelejando e rijamente, pois que os mouros eram 
muitos, e das janelas, e na rua, com dardos e pedras e outras armas se 
-defendiam com desesperação. 

Entretanto terminava D. João I a sua demorada visita e inspecção aos 
navios do grosso da armada, em que a disciplina se ia já começando a 
alterar (i), e recolhendo-se à sua galé encontrou já o infante D. Pedro apa- 
relhado para o desembarque. 

Mandou então o rei dar a ordem para o ataque geral da praça, e pressu- 
rosos saltaram todos nos batéis ávidos de glória e não menos de despojos. 

Por diferentes partes entraram na cidade os diversos corpos, em que se 
dividiu o exército. As gentes do infante D. Duarte com a sua bandeira, por 
um lado, por outro o infante D. Pedro com os seus, e, o condestável, o 
mestre de Cristo e os mais capitães, cada um seguiu pela primeira rua que 
viram desocupada de assaltantes. 

Rui de Sousa primo segundo do mestre de Cristo e não seu sobrinho, 
como inadvertidamente diz Azurara, entrou sòsinho por uma rua fora levando 



(i) Era natural a indisciplina em homens pouco afeitos a ela, e que, demais, havia 
tanto tempo, que andavam no mar sujeitos a contrariedades e incómodos, e que na grande 
maioria, não viam com gosto o ataque de Seuta. A indisciplina nos dá a conhecer Azurara 
em alguns lugares da sua narrativa e se depreende da grande demora que D. João I teve na 
inspecção à frota; mas, o que traz mais luz a este facto, são algumas palavras da carta de 
confirmação de privilégios e de regimento passado em Estremôs a 23 de Junho de 1416 a 
favor de João de Basto, vassalo criado do capitão Afonso Anes Nogueira, e morador em 
Lisboa. Esta carta está registada a fl. 99 do liv. 5." da Chancelaria de D. João I, e diz entre 
outras coisas, o seguinte: «... E outro sy nos disse o dito Joham do basto que quando 
agora fomos sobre a cidade de cepta que nós lhe demos nossas cartas pêra o Infante dom 
Henrique meu filho e pêra o conde estabre e pêra os que tinham emcarrego da armaçon 
e do pagamento do soldo que lleixassem escrepver o que pertencese a dita armaçon e ao 
pagamento do soldo aaquelles que ell dito Joham do basto possese em seu logo pêro que era 
ocupado em cousas de que lhe nos demos emcarrego em tall guisa que per sy nõ podia seruyr 
-o dito oficio. E que nÕ embargando esto alguns se trumeteram de escrepver na sua armaçon 
e fazer os alvaraas do soldo e cousas que ao dito oficio pertenciam asy escripuães da nossa 
fazenda per mandado de Joham AflFonso nosso veedorcomo outros na cidade do porto eno 
-algarve e em outros lugares honde sse o dito soldo pagava. . .». 



Castelos Brancos 2 1 1 

o tropel dos mouros adiante de si; porém, cresceram eles tanto sobre o cava- 
leiro, que o fecharam em uma torre, onde ele se defendeu até ser socorrido. 
Deste feito se derivou o nome do próximo postigo, qu€ os cristãos ficaram 
designando pelo de Rui de Sousa. 

Um alentado fidalgo evorense Nuno Martins da Silveira, que depois foi 
escrivão da puridade de D. Duarte, em cuja casa já então servia, distinguiu-se 
neste dia entre todos os homens de armas do dito infante, e foi um dos que 
mereceram ser armados cavaleiros, depois da conquista, pelo próprio amo. 

O marichal Gonçalo Vasques Coutinho, o herói da batalha de Trancoso, 
ainda que não o declarem os cronistas, também nesta empresa praticou feitos 
dignos da sua brilhante fama(i). 

Com outros muitos nomes de portugueses, que se assinalaram nesta con- 
quista, poderia eu ilustrar estes apontamentos, se não tivesse sido a fatal re- 
forma das chancelarias ordenada por D. Afonso V a requerimento das cortes 
de 1459, e executada sem critério por Gomes Anes de Azurara. 

Para se calcular o destroço feito por este guarda mor bastará dizer, por 
exemplo, que no alto da fl. i53 v. do liv. 3.° da actual Chancelaria de 
D. João /, se diz, que as cartas, que por ementa foram lançadas naquela 
página, estavam no liv. 49, da chancelaria original do mesmo rei. É certo 
que este liv. 49 não foi o último da chancelaria daquele reinado, e muitos 
mais houve, como se depreende pelas datas das cartas, que na dita página 
estão lançadas; pois sabe o leitor a quantos livros reduziu Azurara os cin- 
quenta e tantos da Chancelaria de D. João I? a quatro! E nestes quatro, 
em que quási tudo foi lançado por ementa, o que avulta mais são legitima- 
ções (2). 

Quando D. João I foi para Seuta, deixou como regente do reino o mestre 
de Avis D. Frei Fernão Rodrigues; pois a carta desta nomeação entendeu 
Azurara, que era escusada, e não a mandou trasladar. Quando D. João I 
veiu de Seuta criou duques os infantes D. Pedro e D. Henrique, pois o 
guarda mor também não julgou estas mercês dignas de se perpetuarem. 

Foi preciso, que à devastação escapasse truncado um livro original da 



(i) El Rei estando ainda em Seuta lhe confirmou por carta de 24 de Agosto (liv. 3." da 
Chancelaria de D. João /, fl. 149 v.), a doação de várias terras, que de juro e herdade lhe 
fizera D. Fernando por carta de 23 de Julho de i383; e manda mais, que essas terras seen- 
corporem no couto de Leomil, e que o marichal e seus descendentes se possam intitular 
senhores do couto de Leomil. É esta a única carta que er^^contrei na chancelaria datada de 
Seuta. 

(2) [O A. em outro estudo reabilitou Azurara da acusação de haver destruído estes 
livros, porquanto há notícia da existência deles, posteriormente à morte do guarda mor. — 
Nota da revisão']. 



2 1 2 Brasões 

Chancelaria de D. João I, para nós sabermos alguma coisa da forma porque 
este rei deixou ordenada a administração do reino durante a sua ausência. 
Efectivamente neste livro que, actualmente, é designado pelo número 5, se 
encontram a fl. 98 as duas seguintes cartas, que para aqui trasladarei afim 
de as salvar de novos vandalismos. 

« Carta do poder que Elrey deu a alvaro gonçalvez de freiías. 

« D. Joham pella graça de deus Rey de purtugal e do algarve a todollos 
nossos contadores E thesoureiros E almoxarifes E recebedores E escrivaães 
dos ditos ofícios E outros quaes quer nossos oficiaes E aos Juizes e Justiças 
dos nossos Reynos a que esta carta for mostrada, ou o tresllado delia em 
pubrica forma saúde sabede que nos entendendo por nosso serviço acordamos 
que alvaro gonçalves de freitas veedor da nossa fazenda (1) ficasse com a 
Ifante Dona isabel E Ifantes Dom Joham e Dom fernãdo meus filhos E nom 
fosse com nosco em esta armada per mujtas coussas que ha de fazer que a 
seu oficio perteecem E por mujtos encarregos que lhe leixamos que aia de 
fazer por nosso serviço de que em nenhua guissa o nÕ podemos escusar E 
porem uos mandamos E a cada hum de uos que quado pelo dito alvaro Gon- 
callvez fordes Requeridos ou per suas cartas E alvarás que façades todo 
aquello que uos elle mandar fazer per o nosso serviço E que seiades a ello 
bem diligentes e mandados senom seiã certos os que o contrario fezerem 
que lho estranharemos como a aquelles que nom fazem mãdado de seu Rey 
e senhor. Unde ai nom façades. Date em Restello xxiiij dias de Julho. Elrei 
ho mãdou bertoUameu goncallvez a fez Era de mil iiij*= liij anos. Concertada 
esta carta per mim Joham dominguez escrivam». 

« Carta do poder que El ReJ deu a bertolameu Gomez contador da casa 
de El Rej. 

« Dom Joham pella graça de deus Rej de portugal e do algarve A uos 
nossos contadores E ao Recebedor do nosso thesouro E aos nossos almoxa- 
rifes e escrivaães e Rendeiros e Recebedores das nossas sisas e Rendas e 
direitos ou a cada hum de uos E a outras quaes quer pessoas a que o conhe- 
cimento desto perteçer per qual quer guisa que seia Saúde sabede que nós 
fiando de bertolameu gomez contador da nossa casa Ihj demos ora emcar- 
rego de el per ssj arrendar e fazer Recadar todallas nossas sisas e Rendas 
e direitos Reaes da Cidade de Lixboa e comarca delia e ífazer outras mujtas 
cousas que nos co elle ffalamos e Ihj demos emcarrego per nosso serviço 
assj como fazem e podem ffazer os veedores da nossa fazenda E porem 
mãdamos a uos E a cada hum de uos que lh'o leixedes assy ffazer e ffaçades 



(i) Esta palavra falta no original. 



Castelos Brancos 2 1 3 

todo aquello que uos el per nosso serviço mandar íFazer. E por que poderá 
seer que pêra alguuas cousas do que Ihj asy leixamos emcarrego Ihj seram 
•cõpridoiros de se fazerem alguuas despesas mandamos a uos dito Recebedor 
do thesouro E a cada hum de uos almoxarifes ou Recebedores das ditas 
Rendas que os dinheiros e outras cousas que uos o dito bertolameu gomez 
mãdar dar ou despender per noso serviço que os dedes e despendades per 
seus mãdados e alvaraas asynaados per el honde e como uos el mãdar 
•daquello que asy per nos teverdes rrecebido ou Receberdes Ao deante E 
cobrade trallado desta carta e os dos Alvaraas e stromentos de cõfisom deses 
a que assy os ditos dinheiros e cousas derdes E mandamos Aos nossos con- 
tadores que uollo Recebam em despesa sem outro nenhum enbargo que Ihj 
sob ello ponhades E porque outrosy Ihy alguas vezes Ihy serom compri- 
doiros alguus Requeredores dessas Rendas pêra Ihy mandar ffazer alguas 
cousas per nosso serviço, mandamos uos que Ihj dedes aquelles que uos el 
Requerer pêra ello por quãto nos Ihj leixamos o Encarrego e logar de veedor 
da nossa ffazenda asy pêra o que suso dito he como pêra todalas outras 
cousas que a veedores da nossa fazenda pertencem e podem e devem âazer 
per nosso serviço. E ssede a ello todos em senbra e cada huu em espicjal 
bem diligentes e mandados sem outro embargo nem duujda nenhua que a 
ello ponhades E nõ o fazendo uos assy per esta carta Ihj damos poder que 
uos possa pêra ello prender e costranger e dar todallas outras penas e es- 
trumemos que el vir que compre e entender per nosso serviço. E por esta 
carta madamos Aas nosas Justiças que o ajudem a ello e façam o que lhes 
sobrello de nosa parte mãdar fazer cada que por el sobrello da nossa parte 
mandar fazer cada o que pêra ello forem requeridos. Seno seede certos que 
■qual quer que o contrairo dello fezer que nos lho estranharemos gravemente 
como a quelles que nõ fazem mãdado de seu Rey e senhor. Umde os huus 
e os outros ai nõ façades. Date em Restello xxiiij dias de Julho ElRey o 
mãdou affonso gonçalves a fez era de mil iiij^ L iij anos. » 

São notáveis estas duas cartas mandadas passar pelo rei já a bordo, e 
na véspera da sua partida. 

Por elas se vê, que não ficaram os jovens infantes entregues ao mestre 
de Avis, como dizem os historiadores; mas sim ao vedor da fazenda Álvaro 
Gonçalves de Freitas. Por elas se vê mais, que, se a D. Frei Fernão Ro- 
drigues foi entregue o governo militar do reino, deixou D. João a adminis- 
tração da fazenda e da justiça com latos poderes a cargo de Álvaro Gon- 
çalves de Freitas, seu vedor da fazenda, e a cobrança dos rendimentos 
públicos, assim como parte do seu dispêndio, ao contador Bartolomeu Gomes 
a quem foram concedidas, para este efeito, as atribuições de vedor da fazenda. 



214 Brasões 



Já vai longa a digressão; é tempo de lhe pôr ponto, e de continuar coní 
a narrativa. 

D. João I, durante os dias que permanecera em Barbaçote, que foram de 
14 a 17 ou 18 de Agosto, ferira-se numa perna ao entrar em certa ocasiaO" 
para a sua galé, ferimento que com o exercício, produzira a inchação de 
todo o membro por forma a impedir-lhe o uso das grevas e coxotes, e a 
obrigá-lo a manquejar. 

Foi por este motivo, e por saber que a cidade estava em parte tomada^ 
que êle, ao desembarcar, se foi assentar à porta por onde as tropas iam 
entrando, resolvido a, só na ocasião do assalto ao castelo, tomar parte activa 
na peleja. 

Assentado à sombra junto à muralha, e tendo a seu lado o alferes maior 
Diogo de Seabra que lhe segurava a bandeira, estava o rei vendo o desfilar 
de seus valentes soldados, uns que entravam, outros que saíam já carregados 
de despojos, quando assomou à sua presença o escrivão da puridade Gon- 
çalo Lourenço de Gomide, capitaneando quatrocentos homens todos da sua 
libré, e a maior parte da sua criação. Ao aproximar-se do rei lhe pediu a 
fiel servidor, que ali naquela ocasião, o armasse cavaleiro, ao que D. João I 
prontamente anuiu. 

Concluída a breve cerimónia, mais este troço de gente se embrenhou 
pelas tortuosas ruas de Seuta, onde o ruído era tão grande, que, dizem, se 
ouvia em Gibraltar daU a cinco léguas. E não admira, pois que a solda- 
desca desenfreada já não atendia senão ao saque, e, entrando em todas as 
casas, passava ao fio da espada os moradores, muitos dos quais, com o 
fatalismo da sua raça, preferiam esperar a morte nos seus lares, a procurar 
a salvação na fuga. 

Mas, entretanto, o infante D. Henrique tendo tomado, como disse atrás, 
a rua Direita, ia por ela fora em direcção ao castelo, quando começaram a 
passar por êle muitos portugueses, que fugiam ante um supremo esforço de 
resistência feito pelos da cidade. Abaixando a viseira foi o infante deixando 
passar os seus, até que chegaram os sarracenos, e então, como um leão se 
lançou a eles, e com o seu exemplo fez cobrar ânimo aos fugitivos, que re- 
conhecendo-o viraram a frente aos inimigos, e os repeliram até à porta da 
aduana. Aqui, contudo, cresceu de novo sobre os cristãos a força dos infiéis, 
e outra vez tornaram a fugir os portugueses abandonando o infante, que, 
sòsinho, numa estreita rua, onde o não podiam cercar, aparou os golpes da 
mourisma, até que, chegando reforço, tornaram a levar adiante de si aos 
mouros. 



Castelos Brancos • 2 1 5 

Próximo ao alcaçar entre três muros, o exterior ou de Barbaçote, o do 
castelo, e o que reparte os dois bairros da cidade, se viraram de novo os 
sarracenos contra os invasores. O ponto era azado para a defeza, pois que, 
pela estreiteza da rua, poucos portugueses podiam combater à frente, e os 
mouros do terreiro eram ajudados pelos que estavam sobre as três muralhas, 
que de lá arremessavam com dardos e pedras. 

A este tempo eram já apenas com o infante dezasete companheiros, por 
que os mais, a uns a cobiça, a outros a sede e o cansaço, foi afastando para 
várias partes. 

Com estes dezasete sustentou D. Henrique o ataque naquele sítio, durante 
mais de duas horas, debaixo de um ardente sol. Apesar de terem já caído 
em terra alguns dos defensores, não recuavam, é conseguindo derribar com 
uma grande ferida a Fernão Chamorro escudeiro do infante, sobre seu corpo 
se encarniçou a peleja, até que afinal os mouros dispersaram, e pela porta 
da muralha interior, por onde fugiram, entraram de envolta com eles D. Hen- 
rique e mais quatro valentes portugueses. Eram estes Álvaro Fernandes 
de Mascarenhas que depois foi senhor de Carvalho, Vasco Esteves Godinho, 
Gomes Dias de Góis depois senhor das saboarias de Alenquer, Arruda, e 
outras, e, finalmente, Fernão Alvares. Os três primeiros, fidalgos da casa 
do infante, o último escudeiro de el Rei. 

Era a muralha tão grossa, que na sua largura havia três portas, e durante 
duas horas, junto à terceira, pelejaram aqueles cinco heróis, sem poderem 
Umpar de mouros a passagem e, fechando a última porta, impedir-lhes a 
comunicação com o bairro oriental de Seuta. 

Aproximava-se a tarde e os portugueses começavam a procurar os res- 
pectivos capitães, de quem, no meio da confusão da jornada, se tinham sepa- 
rado. Em quanto uns procediam a estas buscas, indagavam muitos outros 
cheios de ansiedade pelo infante D. Henrique, cujo valor e galhardia capti- 
vara a todos. Ouviram, que êle com os seus soldados penetrara pela re- 
ferida porta, mas que, atrás dela, depois de combater desesperadamente, 
encontrara a morte. 

Como esta triste nova, felizmente falsa, chegasse aos ouvidos de D. João I, 
disse o rei para os circunstantes sem mudar de rosto nem aparentar tristeza: 

Este é o proveito que aos soldados valentes costuma cair em sorte. 

Porém Garcia Monis, que fora guarda do infante quando moço, e que 
•era homem resoluto e muito afeiçoado a D. Henrique, não lhe permitindo o 
ânimo a incerteza em matéria, que a todos tanto interessava, lança^-se ardido 
por aquelas portas dentro, por onde nenhum dos outros se atrevia a passar, 
■e junto à última com seus quatro companheiros encontra o infante. 

Conseguiu Garcia Moniz convencê-lo de que era inútil a sua permanência 



2i6 -» Brasões 

naquele ponto, pois que outras portas havia, por onde os mouros entravam 
e saíam, e que, ale'm de trazer a todos inquietos com a sua ausência, noutras- 
partes poderia aproveitar melhor o seu esforço. 

Assim o entendeu D. Henrique, e saiu por fim daquela porta. No re- 
trocesso encontrou ao seu escudeiro Fernão Chamorro, que os mouros ainda 
agora haviam ferido no rosto, já alevantado, ainda que muito pisado. 

Então chegou-se ao infante Nuno Antunes de Góis a participar-lhe, que 
o infante D. Pedro com as suas gentes e as dele D. Henrique se dirigia a 
forçar a porta de cima do muro interior. Para lá marchou imediatamente 
o infante, e de novo se achou quási só entre a multidão dos mouros. 

Aqui foi acirrada a peleja. A bandeira de D. Henrique teve a haste 
partida nas mãos do alferes Mem Rodrigues de Refóios, e o bom velho Aires 
Gonçalves de Figueiredo que apesar dos seus noventa anos, se apresentara 
no posto a servir o infante, e que, neste dia, andou sempre debaixo de armas, 
foi um dos poucos, que permaneceram combatendo ao lado de D. Henrique. 

Não se conseguindo forçar esta porta regressou o infante a outra, aquela 
onde Já pelejava durante tanto tempo. 

Junto à mesquita maior estavam em conselho os infantes D. Duarte "e 
D. Pedro, e outros capitães, discorrendo os meios de conquistar a alcáçova» 
Desejando eles conhecer o parecer de D. Henrique mandaram-lhe recado, 
para que viesse ali, ao que o infante se negou; porém, renovada a instância, 
compareceu afinal abandonando a porta. 

A ela chegou então Vasco Fernandes de Ataíde, fidalgo da casa de 
D. Henrique, em sua procura; porém, em hora tão aziaga se aproximou da 
muralha, que atirando-lhe os mouros de cima com uma grande pedra è dan- 
do-lhe com ela no capacete, o prostraram morto. Foi este o único cavaleiro, 
que nesta empresa teve tal sorte. 

Emquanto os infantes e os mais capitães deliberavam acerca do assalto 
do castelo, resolviam os sarracenos desampará-lo, pois que reputavam a sua 
defeza impossível. Consultado Saléh ben Saléh se prepararam todos, e 
chorando silenciosamente saíram carregados, o mais que podiam, pela porta 
fronteira ao ocidente, e, com suas mulheres e filhos, caminharam para o 
continente, procurando abrigo nas vizinhas aldeias e vilas. 

Penetrara, entretanto, D. João I em Seuta, e dirigira-se a uma mesquita, 
onde depois se edificou o mosteiro de S. Jorge. Aqui lhe chegaram novas, 
de como os infantes e os mais, que estavam reunidos na mesquita maior, 
haviam resolvido, visto ser já quasi sol posto, colocar aquela noite guardas 
em torno do castelo, e, só ao romper da manhã seguinte, proceder ao seu 
assalto. Porém, vendo alguns um grande bando de pardais pousado sosse- 
gadamente sobre o castelo, e inferindo daí o êle estar desabitado, o foram 



Castelos Brancos 217 

participar a el Rei. Mandou este logo chamar a João Vaz de Almada, 
alferes da bandeira de S. Vicente, e lhe ordenou a fosse arvorar na mais 
alta torre da alcáçova. 

Para lá se dirigiu João Vaz, acompanhado de muitos outros, e ao chegar 
à muralha, que divide as duas cidades, toparam a porta fechada. Come- 
çavam a arrombá-la, quando entre as ameias apareceram dois mouros, 
segundo Pisano, ou um biscainho e um genovês, segundo Azurara, e lhes 
disseram, se não cançassem, que eles lhes franqueariam a entrada. Efecti- 
vamente assim o fizeram, e, pouco depois, na mais alta torre do castelo de 
Seuta tremulava a bandeira da cidade de Lisboa. 

Tomada a alcáçova restava ainda ocupar a vila de fora(i), e com esse 
intento mandou lá o infante D. Duarte ao conde de Viana seu alferes, com 
ordem de hastear a sua bandeira sobre a torre de Fez. 

Estava ainda esta parte da cidade ocupada de muitos mouros, e não foi 
portanto fácil a empresa, que custou a vida do alferes de D. Henrique de 
Noronha, que morreu Junto à porta, que depois chamaram de Fernão Afonso, 
não sei se por ser esse o nome do escudeiro. 

Com o conde de Viana entraram, nesta derradeira peleja, alguns dos 
principais fidalgos, como foi D. Henrique e D. João de Noronha, Pêro Vaz 
de Almada, Álvaro Mendes e Mem Afonso de Cerveira, Álvaro Nogueira, 
Nuno Martins da Silveira, Vasco Martins do Carvalhal, um valente barão 
alemão que viera com a sua quadrilha a esta empresa, Nuno Vaz de Cas- 
telo Branco e cinco irmãos, Diogo Fernandes de Almeida e outros. 

Em quanto estes penetravam com custo até à torre de Fez, e nela arvo- 
ravam a bandeira do infante D. Duarte, acabavam D. Fernando e D. João 
de Castro de lançar fora os mouros desta parte da cidade pela porta, que 
depois se chamou de Álvaro Mendes. 

Passava das sete horas e meia da tarde deste dia 21 de Agosto de 141 5, 
quando a cidade de Seuta ficou completamente livre de mouros (2). 



I 



(i) Parece, que esta parte de Seuta se chamava Algezira, talvez por ser quási uma ilha, 
pelo menos é o que se pode conjecturar da carta de 20 de Setembro de 141 5, registada a 
fl. 148 V, do liv. 3.° da Chancelaria de D. João I. Por ela fez el Rei doação a seu filho na- 
tural o conde D. Afonso «dos nossos paaços que son na villa daljazira que s^a apar da nossa 
cidade de cepta etc.» 

(2) Diz João Pedro Ribeiro no Apêndice VI à Dissertação VI no tomo 2° das suas Dis- 
sertações chronologicas e criticas, que D. João I até à conquista de Seuta em 21 de Agosto 
de 1415 usara os títulos de rei de Portugal e do Algarve, « accrescentando desde então; e 
senhor de Cepta». 

Com o respeito devido ao mestre direi, que neste ponto me parece haver-se êle enga- 
nado. Com efeito na chancelaria vêem-se, posteriores àquela conquista, algumas cartas em 
voL. m 28 



21 8 Brasões 

Muitos feitos notáveis se praticaram durante a conquista desta cidade, 
porém o cronista, quási que calou os de todos só para exaltar os do infante 
D. Henrique, e depois deste os do infante D. Duarte. Do infante D. Pedro, 
certamente para não desagradar a Afonso V por cujo mandado Azurara es- 
crevia, pouco mais faz do que nomeá-lo. 

Entre os fidalgos da casa de D. Duarte, que pelejavam a seu lado, foi 
Nuno Vasques de Castelo Branco um dos que mereceram ser pelo infante 
armado cavaleiro no dia seguinte ao da conquista. 

Passara este fidalgo a Africa juntamente com seu irmão, o monteiro mor 
Lopo Vasques, Paio Rodrigues, Pêro Vasques famoso torneador, Gil Vasques, 
Diogo Soares e João Soares. 

Eram eles filhos de Gonçalo Vasques de Castelo Branco, senhor da 
honra do Sobrado e direitos reais de Paiva por carta de i5 de Abril de 
i386(i), e sobrinhos de Álvaro Vasques de Castelo Branco, alcaide mor da 
Covilhã e Monsanto, que morreu assassinado por Vasco Martins de Mon- 
santo (2), de Martim Vasques de Castelo Branco, vassalo de el Rei, e senhor 
dos direitos reais dos judeus de Penamacor (3), dos direitos e rendas reais 
e dos quintos da mesma vila e seu termo (4), e de Rui Vasques de Castelo 
Branco, senhor do primeiro morgado de Castelo Branco. 



que o rei continua a intitular-se como precedentemente, e a data mais antiga, em que o 
encontrei com o título de senhor de Seuta, é de 8 de Fevereiro de 1416 na carta, em que 
manda incluir no termo de Lisboa as terras do Alqueidão e Leirão, carta que está registada 
no liv. 3." a fl. 187. 

É verdade, que terfdo sido as chancelarias reformadas depois de 1459, pode atribuir-se 
a omissão daquele título nos novos registos a erro do copista. Porém, no único livro ori- 
ginal das mesmas chancelarias, que ainda se conserva, e que é hoje designado pelo n.° 5, 
existe, registada a íl. 99, uma carta de 23 de Junho de 1416, em que o rei se não intitula 
senhor de Seuta. 

Nesta também faltará o título por omissão ? Não parece provável havendo na carta, 
de mais a mais, referências à expedição, referências, que, decerto, avivariam ao escrivão a 
lembrança do novo título que el Rei adoptara. 

Mas esta carta de 23 de Junho de 141 7, em que não vem mencionado o título de senhor 
de Seuta é posterior à de 8 de Fevereiro, em que já encontrei aquele título ? É verdade; 
mas este facto parece-me servir para provar, que o título de senhor de Seuta se foi adoptando 
a pouco e pouco, sem ter havido lei especial, que mandasse alterar o ditado até então usado 
pelo rei nos seus diplomas. 

(i) Chancelaria de D. João I, liv. 1.°, fl. 174. 

(2) Carta de 29 de Agosto de 1369 de doação a Rui Castelo, comendador mor de Alcân- 
tara, de todos os bens de Vasco Martins de Monsanto, porque foi culpado na morte de Ál- 
varo Vasques de Castelo Branco. {Chancelaria de D. Fernando^ liv. i.», fl. 43 v.). 

(3) Carta de 8 de Agosto de 1384. {Chancelaria de D. João 7, liv. i.», fl. 5o). 

(4) Cartas de 21 de Agosto e 3 de Setembro de i385. {Ibidem, liv, i.°, fl. 114 v. e liv. 2.% 
fl. 26. 



Castelos Brancos 2 1 9 



Da origem e solar da família de Castelo Branco, ou Gastei Branco, como 
antigamente se escrevia, consta-me o seguinte. 

Nos fins do xni século, ou princípios do xiv, fundou Martim Esteves, 
burguês de Castelo Branco, um grande morgado,- a que anexou muitos bens 
obrigando-os à manutenção de uma capela e hospital naquela vila. Nomeou 
ele para primeiro administrador deste vínculo a Vasco Anes, não sei se seu 
parente. A Vasco Anes sucedeu na administração seu filho Rui Vasques, e, 
a este seu filho Rui Vasques de Castelo Branco, a quem o morgado foi con- 
firmado por carta de 2 de Abril de 1 393(1). 

Vê-se pois, que, por este morgado ser situado na actual cidade de Cas- 
telo Branco, é que seus administradores, tomaram para apelido o nome 
daquela povoação, e não por terem sido senhores de couto, honra, ou quinta 
denominada de Castelo Branco (2). 

Não sei a quem este morgado passasse por morte do mencionado Rui 
Vasques de Castelo Branco, porém consta-me que na casa Belas não há 
memória da sua existência (3). 

Nuno Vasques de Castelo Branco, aquele que foi a Seuta e que era filho 
primogénito de Gonçalo Vasques de Castelo Branco, irmão de Rui Vasques, 
instituiu em 3i de Outubro de 1442, juntamente com sua mulher Joana Zu- 



(1) É desta carta de confirmação, que está registada a fl. 24 v. do liv. 3.° da Chancelaria 
de D. João /, que consta todo o referido. Nela se lê: «... que martim stevez morador en 
outro tepo em castell branco fez hum morgado e sobcesson ao qual anexou e aplicou mujtos 
bees que auja e mandou manter hua capella e huu spital pollos fructos delles o qual moor^ 
gado leixara a vasco anes auoo do dito Ruy vaasquez com tal condiçom que elle dito vasco 
anes ouvese o dito moorgado e bees a elle anexos em dias de sua vida e aa sua morte que 
ficasse a huu seu filho qual elle scolhese que pêra esto fosse ydoneo e assy a outro filho 
que nom fosse sandeu nem desmomoreado e que aquelle que assy ouuesse o dito moor- 
gado nom pudesse vender os bees delle nem scambar nem emálhear. E per a rrenda delles 
manteuesse a dita capella no dito lugar de castel branco e o dito spital con certos leitos. 
E mandou outrossy que nenhuu bispo nen arcebispo nom tomasse coto nem recado dos 
ditos bees e das rendas delles ao dito vasco anes se nom tam soomente fique todo em seu 
alujdro e desposiçam.. .». Vasco Anes nomeou o morgado em seu filho Rui Vasques, e 
este em seu filho Rui Vasques de Castelo Branco. 

(2) Nas inquirições encontra-se, apenas uma vez, referência a povoação com o nome de 
Castelo Branco, e esta é a actual cidade. 

« Item dizem as testemunhas que o Rosmariar e saluaterra e Segura e Proença e hidanha 
A velha e hidanha a nova e Castel brãco que todo he da orden do tenprre e todo trage per 
onrra mais nó saben per que razão -\- estem comme estão ». Inquirições de D. Denis, liv. 9.% 
fl. 33. 

(3) Assim mo escreve o actual marquês. 



220 Brasões 

zarte, o novo morgado de Castelo Branco. A este morgado vinculou os 
seguintes bens: em primeiro lugar como cabeça dele a quinta e assentamento 
de Gastei Branco o Novo na freguesia de Santa Iria termo de Lisboa, os 
bens do Marmelar termo de Torres Vedras, o casal do Almarjem em Sintra, 
o casal da Louriceira na serra da Arrábida, e o casal da Torre na Cabeça 
de Montachique e Casaínhas. Chamou em primeiro lugar para a sua admi- 
nistração a seu irmão Lopo Vasques de Castelo Branco e à sua descendência, 
e, na falta deste então à de seu outro irmão Paio Rodrigues. Impõe o uso 
do apelido e armas de Castelo Branco sem mistura « porquanto este morgado 
que assim ordenaram é começo da honra da dita linhagem dos de Castello 
Branco » (i). 

Foi feito este instrumento na data referida e no lugar de Castelo Branco 
o Novo, onde existia então um castelo, de que hoje se vêem as ruínas, e 
sobre cuja porta vi, há anos, o escudo com o leão dos Castelos Brancos, 
que, posteriormente, foi arrancado. 

De Lopo Vaz de Castelo Branco, i." senhor deste morgado e alcaide 
mor de Moura, procederam os demais alcaides mores daquela vila. Destes 
o último foi Lopo Vaz de Castelo Branco, o Torrão, que em 1478 se levantou 
com a sua vila de Moura pelo rei de Castela, e se intitulou conde de Moura; 
porém pouco depois melhor aconselhado tornou outra vez a alçar o pendão 
de Portugal. D. Afonso V queria recompensá-lo, mas o príncipe D. João, 
que a isto se opunha, mandou-o matar, para que ele não tornasse a cometer 
traição. A Nuno Vasques de Castelo Branco filho primogénito do alcaide 
mor foi-lhe tirado o morgado de Castelo Branco por seu tio D. Pedro. 

De Nuno Vaz procedeu um ramo desta família senhores do morgado da 
Roliça perto de Óbidos, que passou aos Henriques. 

De Lopo Vaz de Castelo Branco, o Torrão, foi irmão D. Pedro de Cas- 
telo Branco, o que tirou por sentença o morgado de Castelo Branco ao seu 
referido sobrinho. Foi D. Pedro progenitor dos demais senhores de Castelo 
Branco, que por casamentos houveram os morgados de Pombeiro e de Belas, 
e que, em 25 de Setembro de 1649, receberam o título de visconde de Cas- 
telo Branco junto a Sacavém, em 6 de Abril de 1662 o de conde de Pom- 
beiro, e, em 17 de Dezembro de 1 801, o de marquês de Belas. Subsistem 
com a varonia de Vasconcelos, e deles são ramo os condes da Figueira. 

De Gonçalo Vaz de Castelo Branco filho segundo do primeiro Castelo 
Branco alcaide mor de Moura, procederam os senhores e condes de Vila 
Nova de Portimão cuja casa passou aos Silveiras condes de Sortelha, e 
depois aos Lencastres condes de Vila Nova e marqueses de Abrantes. Pro- 



(i) Cartório do hospital de S. José, Capellas do Carmo, liv. 166.°, fls, 257 e seguintes. 



Castelos Brancos 221 

cederam igualmente dos condes de Vila Nova, os condes de Sabugal depois 
Mascarenhas, os condes de Redondo depois Sousas, e os morgados de Vila 
Pouca, cuja varonia também se extinguiu. 

Antes de passar adiante referirei o privilégio, que tinham os senhores de 
casa de Vila Nova de Portimão, de manterem, exclusivamente, o alcouce 
daquela vila, e de gozarem dos seus rendimentos. Foi feita esta mercê ao 
i.° conde por carta dada em Almeirim em 6 de Maio de i5i6, por quanto 
« na dita villa he necesarya huua mancebia » ! e lhe foi confirmada por 
alvará de 24 de Julho de 1622 (i). 

De D. Afonso Rodrigues de Castelo Branco, outro filho do primeiro Lopo 
Vasques de Castelo Branco procederam os destes apelidos em Portalegre. 



Tem havido muitas famílias de Castelo Branco, umas, como foram os 
modernos senhores do Guardão, que talvez se possam entroncar nos verda- 
deiros, outras que procedem destes por fêmea, outras enfim, completamente 
destroncadas. 



(1) Chancelaria de D. João III, liv. 47.', fl. 11 3. 



APÊNDICE 



CATALOGO CRONOLÓGICO 
DE TODOS OS títulos HAVIDOS EM PORTUGAL 



i.o PARTE 



ATE À OCUPAÇÃO DOS FELIPES 

Venho cumprir com a minha promessa da nota primeira a pág. 296, do 
livro segundo. Não adivinhava então a tarefa em que me metia; mas, o pro- 
metido é devido. 

Este catálogo não tem presunções a ser biográfico; é cronológico apenas. 
Compreende ainda assim, me parece, todos os indivíduos que legalmente 
possuíram títulos em Portugal no período indicado. Além dos mencionados 
não existiu mais nenhum, julgo, desde a criação do condado de Barcelos, 
em 8 de Maio de 1298, ate' à posse definitiva do reino por Felipe II em Se- 
tembro de i58o; três séculos. Além disto, creio também, que ministrará o 
catálogo muitas notícias, e sobretudo muitas datas, bem convenientes e 
necessárias para quem quizer, ou tiver de estudar as vidas dos titulares do 
reino, que naqueles remotos tempos eram não só homens de esfera superior, 
mas dos quais muitos exerceram influência activa na governação do reino. 
Serão aqueles dados o único merecimento do meu trabalho. 

Para os alcançar recorri sempre aos monumentos e documentos que 
directamente busquei, aproveitando, só na impossibilidade de investigação 
directa, as indagações alheias. Cito-as sempre, quando as adopto; e indi- 
co-as raramente nas muitas vezes que as corrijo. Não gosto de fazer alardo 
do meu estudo; e nada me regosijo em deprimir no alheio. 

O estudioso encontrará neste catálogo muitas datas pouco precisas; a 
culpa é da ausência de documentos por mim encontrados, que as restrinjam 
mais. Quiz antes deixar determinados, em alguns casos, prazos dilatados 
dentro dos quais sucedeu o facto a que me refiro, do que sobre conjecturas 
encurtar esses prazos, e arriscar-me a que a existência de algum documento, 
de mim ignorado, venha mostrar que errei. Não pretendo apresentar obra 
sem erros; isso seria estultícia; mas espero que eles sejam apenas dos ine- 
vitáveis em todo o labor humano. O que desejo, e para o alcançar procedi 
com rigoroso escrúpulo, é que não haja correcções importantes que fazer; 
voL. ai 29 



226 Brasões 

muito acrescentamento, muito mais precisão nas datas, é evidente que docu- 
mentos de mim desconhecidos hão de trazer; mas espero que mais nada, e 
para melhor ser entendido exemplificarei. 

Lá adiante, querendo marcar o tempo da morte do 2° conde de Penela, 
digo que ela havia de ter sucedido entre o dia 16 de Dezembro de iSSg, em 
que ao conde na qualidade de vedor da fazenda foi ordenado que efectuasse 
certo pagamento, e o dia 20 de Abril de i543, data de uma carta de seu 
filho a el Rei, na qual êle se refere à morte do pai já sucedida. Este largo 
prazo, é evidente, pode ser encurtado pelo aparecimento de algum docu- 
mento; mas, o que se não encontrará, é prova que assinale a morte do 
conde antes ou depois das referidas datas. Ainda a propósito deste caso: 
eu poderia restringir o período dentro do qual o ponho, visto encontrar refe- 
rência a um documento que dá o conde vivo em 1642(1); mas este docu- 
mento, como o acho, não é original, é cópia de cópia; não posso portanto 
pôr nele grande confiança, e prefiro desprezá-lo a arriscar-me a errar, ainda 
que por conta alheia. 

Nos volumes seguintes espero ir continuando, já que o comecei, com 
este catálogo, dividindo-o em períodos restritos para me poupar trabalho de 
investigação. No livro terceiro irão os titulares do tempo dos Felipes; no 
quarto os do resto do xvii século, e assim sucessivamente. Por este motivo 
encontrará o leitor nos últimos artigos desta primeira parte, referências a 
títulos que nela não vêm, mas que deverão aparecer na segunda. Assim 
por exemplo no 5.° conde de Alcoutim mando ver os artigos do 6.° marquês 
de Vila Real e do 1.° duque de Caminha, os quais, pela ordem cronológica 
que continuarei seguindo, entrarão nos anos de ibgo e 1620, já muito depois 
do período que estudei. 

Também me esforcei por averiguar quais as mulheres dos diferentes 
titulares, que gozaram dos títulos de seus maridos. E tanto maior cuidado 
pus nisto, quanto é certo que sobre o caso enxameiam os erros. 



O primeiro título que houve em Portugal foi o de Conde. 

Teria aqui bom cabimento uma erudita dissertação sobre a origem, pri- 
vilégios, honras, imunidades, regalias, dos condes antigos, em Portugal e lá 
fora, donde vieram para cá; mas nem eu a saberia fazer, nem é esse o meu 
propósito, e até, com franqueza, não estou para te massar, amigo leitor. 



(1) Lousada, Torre do Tombo, vol. II, fl. 447 v., extractos de um papel que êle en- 
controu no cartório da casa de Penela, e no qual o conde fez um rol da fazenda que dei- 
xava para pagamento de suas dívidas. 



Apêndice 227 

Aqueles condes antigos eram temporários, governadores de províncias, 
ou senhores de grandes estados, como dizem; não foram pois muita vez vita- 
lícios, e hereditários nunca. Reíiro-me, note-se, exclusivamente aos portu- 
gueses depois de constituído o condado de Portugal. Deles se encontra 
muita relação na Monarchia lusitana nas partas compostas pelos dois Bran- 
dões, que ainda hoje são os melhores autores que discorreram sobre esta 
matéria. 

O primeiro conde vitalício com determinado condado, de que se encontra 
memória autêntica, é o conde de Barcelos D. João Afonso. D. Denis fê-lo 
conde em Santarém, e depois disso, e por essa razão, lhe doou a vila de 
Barcelos, e seu termo, por carta de 8 de Março da era de i336 (1298 A. D.), 
a qual vai integralmente transcrita na nota(i). Das próprias palavras do 
documento ficamos sabendo, que à feitura de um conde precedia uma ceri- 
mónia de investidura: «que eu per serviço que me D. João Afonso fez, e 
por que o fi\ conde, dou-lhe a minha villa de Barcellos etc». ignoramos no 
que a cerimónia consistiu: sabemos contudo que se realizou. 

Durante o reinado do mesmo rei por duas vezes repetiu ele a concessão 
do condado de Barcelos, único então existente, e de ambas elas, como se vê 
das respectivas cartas de condado, a mercê precedeu a investidura no título. 
No reinado de D. Afonso IV não se criou nenhum conde, existindo apenas 
durante grande parte dele (i325-i3Õ4) o conde de Barcelos D. Pedro, meio 
irmão do rei. 

Subindo o infante D. Pedro ao trono a 28 de Maio de i357, logo no 
Outubro seguinte criou conde a D. João Afonso, seu vassalo e alferes mor; 
e, «por que o fizera conde», lhe doou a vila de Barcelos por carta de 10 do 
referido mês. Fez el Rei por esta ocasião uma festa rija à sua moda, isto 
é, popular; mas a narração do cronista pouco, ou nada, nos adianta, e 
ficamos ainda ignorando no que especialmente consistia a cerimónia da inves- 
tidura do condado. Juntamente com o título recebeu D. João Afonso o grau 
de cavaleiro, e para o alcançar velou as armas em Lisboa no mosteiro de 
S. Domingos, havendo nessa noite, desde aqui até ao paço da Alcáçova, 



(i) Carta per que ElRey deu ao Conde Joham A.° A vila de barçelos. Dom denjspela 
graça de deus Rey de Portugal e do Algarue. A quantos esta carta virem, faço saber que 
eu por seruiço que me dom Joham A.° fez, E por que o fiz Conde, doulhe a minha vila de 
barçelos com seu termho, que el que a aia en todolos dias de sa vjda bem e compridamente 
com todolos meus dereitos que eu hj ey e de dereito deuo auer e mando aos moradores 
dessa vila que o tenham no logar que terriam o meu corpo, E por esta cousa seer mais 
certa e nom vijr pois en douida, dey ende ao dito dom Joham A.» esta minha carta, aberta 
e seelada do meu seelo pendente. Dada em Santarém, oyto dias de Mayo, ElRey o mandou. 
A.° raiz a fez. E.M.CCG.xxxvj. anos {Chancelaria de D. Dini^, liv. 3.», fl. 3). 



228 Brasões 

cinco mil homens postados com tochas acesas formando alas pelas ruas. 
Por entre eles andou el Rei, com seus fidalgos e cortezaos, bailando e 
folgando grande parte da noite. Ao outro dia no Rossio havia montes de 
pão e lagos de vinho dentro em grandes tendas para o efeito armadas, e 
fora delas pela praça assavam-se vacas inteiras ao espeto. Toda Lisboa 
tomou uma barrigada. Nesta festança porém foram outros, além de D. João 
Afonso, armados cavaleiros, e por isso parece ter sido ela organizada mais 
para este acto, do que para a investidura do condado (i). 

No reinado de D. Fernando começaram a multiplicar-se os condados, e 
os condes. Nos três reinados precedentes o conde era sempre um só, e o 
condado exclusivamente o de Barcelos. Agora, além deste, criaram-se de 
novo os de Ourém, Arraiolos, Viana, Neiva, e Seia; e, quando el Rei 
morreu, existiam na corte com o título de conde as seguintes seis pessoas: 
D. Álvaro Pires de Castro conde de Arraiolos, D. João Afonso Telo conde 
de Viana, D. Gonçalo Teles conde de Neiva, D. Henrique Manuel de Vilhena 
conde de Seia, o almirante D. João Afonso Telo conde de Barcelos, e 
D. João Fernandes de Andeiro conde de Ourém. 

Alguns destes condes, os de Arraiolos, Neiva e Seia, enfileiraram-se de 
princípio no bando do mestre de Avis; mas o seu apego a este partido era 
pouco seguro. O Arraiolos não teve tempo de desertar, porque morreu em 
1884 fechado no cerco de Lisboa; o Seia em i386 já tinha passado para 
Castela; o Neiva porém prestou alguns bons e valiosos serviços a D. João I, 
mas ainda assim com intermitências, pois que el Rei o teve preso os anos 
de i385, 86 e parte de 87, e depois em iSgi por novo desserviço lhe con- 
fiscou as terras. 

D. João I logo nos princípios do seu reinado deu os condados de Ourém, 
Barcelos e Arraiolos ao seu grande condestável. Conta-se que este aceitara 
os títulos com a condição de em sua vida não criar el Rei outros condes. 
Não pode ser exacto, porque a 7 de Julho de 1887, cinco meses antes de 
dar o último condado a D. Nuno Alvares Pereira, confirmou el Rei o con- 
dado de Neiva a D. Gonçalo Teles (2); em 3i de Outubro de iSgi deu este 
mesmo condado a seu filho bastardo D. Afonso, que só dez anos depois foi 
genro do condestável; e em princípios de 1424 já fizera conde de Vila Real 
a D. Pedro de Meneses. Não menciono os condados de Barcelos, Ourém 
e Arraiolos, que ainda em vida do condestável passaram a outros posstrt- 



(i) Fernão Lopes, Chronica d'el-rei D. Pedro, pág. 36. 

(2) Não faço aqui citações, porque os documentos, que indico, irão todos citados nos 
artigos dos diferentes titulares a que se referem. 



Apêndice 22^ 

dores, porque foram por eles doados a seu genro e netos, e apenas confir- 
mados por el Rei. 

Foi também D. João I quem, imitando o costume inglês, introduziu em 
Portugal o titulo de duque, criaado-o em 141 5 nas pessoas de seus filhos o 
infante D. Pedro, que "fez duque de Coimbra, e o infante D. Henrique, a 
quem nomeou duque de Viseu. 

No curto reinado de D. Duarte apenas se encontram os títulos de conde 
de Viana dado ao conde de Vila Real, e o de conde de Vila Real cedido 
pelo novo conde de Viana a seu genro. 

Seguiu-se D. Afonso V em cujo reinado se prodigalizaram os títulos. 
Fez êle sete duques, criando de novo os ducados de Bragança, Beja, e Gui- 
marães; e trinta e nove condes- para os quais instituiu dezanove condados 
Hovos, a saber: Marialva, Odemira, Atouguia, Monsanto, Guimarães, Valença, 
Atalaia, Faro, Penela, Loulé, Santa Comba, Arganil, Penamacor, Aveiro, 
Abrantes, Caminha, Olivença, Cantanhede, e Feira. A estes ainda acresce 
o reconhecimento do condado de Avranches dado a um português pelo rei 
de Inglaterra na Normandia. 

Aos dois títulos de duque e de conde, que já existiam, acrescentou 
D. Afonso V, em 1451 o de marquês, em 1475 o de barão, e no ano se- 
guinte o de visconde (i). Marqueses fez quatro: o de Valença, dois de Vila 



(i) Como já fiz para os títulos de visconde e de conde, transcreverei aqui na íntegra as 
cartas do primeiro marquês, e do primeiro barão: 

Dom Affomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos vendo e consi- 
rando os muytos e grandes serviços que nos e nossos regnos avemos Recebidos do conde 
dourem meu muyto prezado e amado prymo e os que aodiante delle esperamos que nos 
faça e querendo lhe fazer graça e mercee do nosso Moto propio livre vontade poder absso- 
luto o fazemos Marques da Nossa Villa de Vallença e lhe damos em sua vida delle dito 
conde a dita villa de Vallença com todos seus termos lemytes Rendas e dereitos foros tra- 
butos e padroados de igreijas delia que a nos e aos Reis que ante nós forom na dita villa e 
termo pertenceram e pertencer podem e com toda sua jurdição civell e crime mero misto 
ynperio Resalvando pêra nos a curreiçõ e alçadas e que elle posa tirar e poer todollos ofi- 
ciaaes d'a dita villa e Termo asy os que pertencem aa Justiça como os que pertencem aas 
Rendas e dereitos que elle ouuer e lhe pertencem aver em a dita villa e termo e se pêra 
eUe Recadarem, outro sy queremos e outorgamos que o dito conde posa poer na dita villa 
taballiaes asy de pubryco como judiçiaaes quando quer que se vagarem ou os posa de novo 
poer ou remouer quando quer que lhe bem parecer os quaes taballiaes queremos que se 
chamem seus e em seus nomes faço todallas scripturas que a seus ofícios pertencerem nó 
Embargando a hordenação e queremos que o dito conde se posa chamar Marques da dita 
villa de Vallença e per esta nosa carta lhe damos lecença e lugar que elle posa per sy ou 
per outrem tomar a posse autoall corporall natural civell e quasi posse da dita villa e seu 
termo e da jurdiçõ e Senorio delia e mandamos a todollos cavalleiros fidalgos Regedores 
oficiaaes e Menistradores da dita Villa e aos scudeiros e povos delia que recebam na dita 



23o Brasões 

Viçosa, e o. de Montemor; barões um só, o i.° de Alvito; viscondes também 
um só, D i." de Vila Nova da Cerveira. 



villa e seu termo o dito conde por seu senhor em dias de sua vida e lhe façam feu e o re- 
cebam por seu senhor e Marques da dita villa sem outra contradiçÕ alghuã por quanto asy 
he nosa mercê nom embargante os dereytos canonycos civys hordenaçõ do Regno façanhas 
grosas openiõoes de doutores que em contrairo desto fallarem e que embarguem esta doaçõ 
a nom valler ou menos valler cá nossa mercê he de seer firme e valledoira em vida do dito 
conde como suso dito he asy em noso tempo como de nossos soçesores que depôs nos 
vierem aos quaes Rogamos e encomendamos que a conpram e guardem como nella he con- 
teúdo e nom vaaõ contra ella em nenhuã maneira que seja e mandamos ao nosso contador 
da dita comarca e ao nosso almoxarife de ponte de lima e ao scpriuam do dito oficio e aos 
que depôs elles vierem por nossos contadores almoxarifes scripuaes que leixem ao dito 
conde aver e pêra sy recadar todallas ditas Rendas e dereitos foros e trabutos da dita villa 
e termo que nos em ella avemos e nos de dereito perteencem por quanto em sua vida lhe 
fazemos de todo mercê como dito he resalvando pêra nos as sisas jeeraaes panos vinhos 
dízimos novos do pescado e das cousas que per mar vêem a nossos Regnos de fora delles e 
em testemunho dello lhe mandamos dar esta nosa carta asynada per nos e seellada do nosso 
seello do chumbo per a qual mandamos ao dito contador almoxarife escripuam que a faç5 
registar no livro do dito almoxarifado por se saber de como esto teemos outorgado ao dito 
conde e elle tenha a pêra sua guarda, dada em Lixboa xj dias doutubro. Martim Gill a fez 
anno do nacimento de Noso Senhor Jesus xpo de mill iiijc e cinquenta hum. {Chancelaria 
de D. Afonso F, liv. ii.°, fl. 140 v.). 

Dom Afomso etc. fazemos saber que comsiramdo nos como o doutor Joham fernamdez 
da Silveira do nosso comselho e escpriuam que ora he da puridade chamceler moor e 
veeador' da fazemda do príncipe meu sobre todos mujto amado e preçado filho ao quall o 
nos com os ditos cargos demos por o conhecermos por tall quaees queriamos que fossem 
os que seus oficios ouuessem de teer e açerqua delle ouuessem dandar. Nos teer feitos 
mujtos e estremados servjços assy em continos eixerçiçios daamanjstraçam Regimento da 
justiça da nossa casa da sopricaçam de que per mujtos tempos por nos foy rrejedor em o 
quall carrego nos sempre serujo bem e saãmente que numca contra elle achamos cousa per 
que delle deuessemos teer alguu queixume nem pessoa alguuã se a nos delle com rrezam 
agrauou. Gomo em mujtas enbaixadas em que o, mandamos per desuairadas partes do 
mundo aos padres samtos Rex princepes e senhores das quaees e de todo o que lhe per ellas 
cometemos e mandamos nos deu senpre muy booa comta como homem de mujta descripçam 
e que tinha voontade e sentido de nos bem e lealmente serujr e assy meesmo nos serujo 
gramdemente e com mujtos homeens e despesa em a tomada da nossa cidade de tanger e 
villa darzilla. E queremdo nos por os ditos servjços e outros que nos teem feitos acrecentar 
sua honrra como a todo virtuoso princepe perteence fazer a aquelles que o bem seruem. 
Teemos por bem e nos praz que todallas terras que ora elle de nos traz as quaees elle ouue 
per dote e casamento de dona maria de sousa sua molher a que a eramça delias pertemcia, 
sejam feitas baronja, daquy em diamte pêra sempre em vida sua delles ambos e de todos 
seus erdeiros descendentes que segundo a nossa ley mentall ajam derdar as ditas terras. E 
queremos e outorgamos que ele se intetulle e chame baram da villa dalujto que he a prim- 
cipall villa e cabeça das ditas suas terras. E assy mesmo a dita sua molher acontecendo do 
dito baram primeiro fallecer que ella se chame baronessa da ditta villa, depois de seu falle- 



Apêndice 23 1 

Foram pois cinquenta e três ao todo os títulos dados por D. Afonso V, e 
recaíram, por isso que algumas pessoas gozaram de mais de um, em trinta 
€ seis indivíduos. 

Nos reinados seguintes continuaram as concessões de títulos, com menor 
prodigalidade do que no tempo de D. Afonso V, mas muito mais numerosas 
de que no de seus predecessores. 

Pondo de parte os condes de Arganil, e os títulos anexos ao ducado de 
Bragança e ao marquesado de Vila Real, concederam estes títulos os reis 
seguintes: D. João II fez um duque, um marquês, o de Vila Real, e quatro 
condes, dos quais os novos foram 'o de Borba e o de Guazava. D. Manuel 
fez três duques, Bragança, Coimbra e Beja; dois marqueses. Vila Real, e 
Torres Novas; quinze condes, instituindo de novo os condados de Alcoutim, 
Portalegre, Tarouca, Valença, Redondo, Tentúgal, Vila Nova de Portimão, 
Vimioso e Vidigueira; dois viscondes; e um barão. D. João III fez seis 
duques, Barcelos, Guarda, Bragança, Aveiro e dois de Guimarães; dois 
marqueses de Vila Real e um de Ferreira; quinze condes, sendo os criados 
de novo os de Linhares, Prado, Sortelha e Castanheira; e um barão. D. Se- 
bastião fez dois duques de Barcelos, um de Bragança e um de Aveiro; um 
marquês de Torres Novas e outro de Vila Real; sete condes, sendo o da 
Calheta o único novo; dois viscondes; e um barão. No reinado do cardial 
D. Henrique tomou o 3.° conde do Vimioso o seu título em virtude de um 
alvará do precedente rei; foi confirmado o título ao 6." conde de Odemira; 
e dado alvará de lembrança para haver o título, com o qual se ficou logo 
chamando, ao 6.° visconde de Vila Nova da Cerveira. Também o mesmo 
rei deu o assentamento ao 5." conde de Alcoutim, o que no caso especial 
deste correspondia à confirmação do título que nele podia ceder o marquês 
seu pai quando quizesse; mas mandou-lhe ter a mercê em segredo durante 
um ano, e por isso a carta só foi passada pelos governadores do reino. 



cimento e dy em djamte todollos ditos seus descendentes que pella dita gujsa as ditas terras 
ouuerem derdar. Sem mais pêra ello nenhaú delles aver de rrequerer outra carta nem licemça 
nem lhe ser feita outra cirimonja nem solepnjdade. E per esta damos e outorgamos ao dito 
baram e aos ditos seus descendentes que assi a dita baronja herdar que ajam todallas 
homrras priuillegios liberdades e priheminencias que a baroões de baronja p.erteemcem e 
de direito deuem de perteencer e aveer e lhe avemos por cortados os cabos a seus stan- 
dartes pêra que daquy em diamte poderem trazer bandeiras quadradas e que feitas todallas 
cerimonias que a tall auto de fazer baram se rrequerem e de costume se soõe e deuem fazer 
e por certidam e lenbramça de todo lhe mandamos dar esta nossa carta synada per nossa 
maão e seellada do nosso seello do chumbo, dada em portallegre a xxbij dias dabrill xpouam 
de bairros a fez anno de Ixxb annos. E esto todo outorgamos e fazemos com consenti- 
mento e outorga do dito meu filho a que dello prouue. ( Qiancelaria de D. Afonso F, liv. 3o.°, 
fl. 66). 



232 Brasões 

Estes confirmaram a baronia de Alvito ao 5." barão e o condado da Calheta 
ao 2." conde. 

E outros títulos não houve até à ocupação dos Felipes, pois que errada- 
mente são postas anteriores a ela a criação do condado de Matosinhos e a 
terceira renovação do de Linhares. 



Não houve outros títulos; é certo; mas houve outros condados. Estes 
porém, posto que doados a diferentes pessoas, não lhes davam contudo o 
título de condes. 

Citarei alguns exemplos: por carta de 20 de Dezembro da era de 1410 
(1372) fez D. Fernando doação em préstamo, e em vida, da renda do con- 
dado na vila de Torres Vedras a Guiomar Fernandes sua cuvilheira(i). Por 
carta de 5 de Fevereiro da era de 1424 (i386) fez D. João I mercê do con- 
dado da pescaria do Douro a João Gil (2); e a 27 de Outubro da era de 1427 
(iSSg) deu ao seu eíscrivão João Gonçalves as rendas e direitos do condado 
de Alverca (3). Existiu também o condado de Massarelos, que, com a dízima 
de Crestuma e das outras aldeias de redor do dito lugar, foi doado tempo- 
rariamente a João Rodrigues de Sá por carta de i5 de Março de 1469, com 
a condição de pagar em cada ano três mil reais a Branca Denis e do rendi- 
mento excedente a seis mil reais ser para a coroa (4). Aparece em leitura 
nova outra carta, errada talvez na data, mas ampliada, pela qual el Rei doou, 
só com a restrição dos três mil reais, o condado de Massarelos e S. João 
da Foz ao mesmo João Rodrigues de Sá, neste documento declarado alcaide 
mor do Porto (5). Aquele fidalgo foi confirmada a precedente doação em 6 
de Maio de i5oi (6). 

Também existiu o condado de Barcarena, ou Brequerena, como lhe 
chama o documento, que me mostrou o meu estudioso amigo Pedro A. de 
Azevedo. Era o condado no lugar que chamavam Valejos a par de Bra- 
gança da parte do Mogo (7), e nele foi João Esteves, vizinho de Lisboa e 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.», fl. no v. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. i.», fl. i52 v. 

(3) Ibidem, liv. 2.°, fl. 3y v. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 28.°, fl. 99. 

(5) Alem Douro, liv. 2,°, fl. 22. Neste a carta tem a data de 29 de Dezembro de 1469, 
e determina que o agraciado receba as rendas do primeiro de Janeiro que ora passou de 
1470. 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. 21.°, fl. 17. 

(7) Não sei se no caso referido a palavra Mogo seria nome próprio ou serviria apenas 
para designar algum marco. 



Apêndice 233 

genro de D. Afonso Martins Trigueiro, autorizado a abrir e aproveitar a 
lagoa, no condado existente, por carta de 12 de Novembro da era de 1370, 
ano do nascimento de i332(i). 

Serve isto em parte para esclarecer o que acima disse do condado de 
Barcelos ser em tempos romotos o único existente. Era o único existente 
que ao seu possuidor dava o título de conde; mas outros condados havia, 
como fica provado pelos exemplos apontados. 

Também se encontram por estes tempos alguns portugueses com títulos 
estrangeiros, além do conde de Avranches, e de outros que, perdendo a 
nacionalidade portuguesa, passaram para Castela, onde foram agraciados 
com títulos; e alguns titulares estrangeiros mencionados em documentos 
portugueses. De ambos os casos apresentarei amostras. 

D. Afonso V por carta de 29 de Julho de 1452 nomeou presidente da 
Casa da Suplicação ao dr. Rui Gomes de Alvarenga, cavaleiro, do conselho 
de el Rei e conde palatino (2); ao mesmo, declarando-o doutor em leis, 
nomeia-o el Rei chanceler mor por carta de 10 de Agosto de 1468(3). Nos 
documentos aparece muita vez sem o nome, e apenas intitulado o presidente 
conde palatino. Possuiu bens em Santarém e Torres Vedras, donde parece 
que era natural; os primeiros foram-lhe contados por duas cartas ambas de 
8 de Abril de 1462 (4), e os segundos privilégios por outra de 27 de Abril 
de 1475 (5). Rui Gomes de Alvarenga que devia ter alcançado o título de 
conde palatino nalguma das suas embaixadas, foi sepultado na igreja da 
Graça de Lisboa (6), e deixou filhos, um dos quais foi Lopo Soares de Alva- 
renga, governador da índia. 

O dr. Vasco Fernandes de Lucena numa sentença de 20 de Abril de 
1487 (7) intitula-se do conselho e desembargo de el Rei, conde palatino e 
cronista mor do reino (8). Conjectura o autor citado, que o título teria sido 

(i) Livro próprio dos Reis e Rainhas, fl. 42 v. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.°, fli. 85. 

(3) Ibidem, liv. 9.°, fl. 146. 

(4) Ibidem, liv. i.", fl. 9 e 23 v. 

(5) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 66. 

(6) Frei António da Purificação, Chronica da ordem dos eremitas de S. Agostinho ^ 
parte 2.*, fl. 127, onde transcreve o epitáfio, o qual, para não falhar à regra geral, tem o ano 
da morte, 1415, errado. — O dr. Rui Gomes de Alvarenga morreu nas proximidades de 11 
de Agosto de 1475; assim o declara a carta daquela data de mercê a D. Álvaro do ofício de 
chanceler mor do reino, que «ora vagou por morte do dr. Rui Gomes de Alvarenga» {Extras, 
fl. i5o v., impresso nas Provas da Historia genealógica, vol. 5.°, pág. 475, n." 2). 

(7) J. P. Ribeiro, Memorias do Real Archivo, pág. 59. 

(8) Leitão Ferreira, Noticias da Universidade, pág. 4o3 ; Pereira de Figueiredo, Portu- 
gueses nos Concilios Gerais, pág. 56. 

[A pág. 299 do tomo I do Elucidário, de Viterbo, encontram-se mais notícias a respeito 
VOL. ni 3o 



234 Brasões 

concedido a Vasco Fernandes pelo papa Inocêncio VIII em 1485, quando foi 
da embaixada de obediência de D. João II (1). Também foi guarda mor da 
Torre do Tombo e livraria de el Rei, ofício que exerceu nos anos de 1486 
a 1496, recebendo por alvará de 4 de Julho do ano seguinte doze mil reais 
de tença em compensação do lugar de cronista mor, e sete mil reais pelos 
emolumentos de guarda mor (2). Ainda vivia a dr. Vasco Fernandes em 
1499(3). Era êle natural de Castela, donde passara para Portugal no 
reinado de D. Duarte, ao que parece, trazendo comsigo seus irmãos, o 
dr. mestre Rodrigo, físico mor que foi de D. João II, e mestre Afonso, 
que suponho ser o «dr. de Lucena», físico da infanta, nomeado por Garcia de 
Resende (4). 

Doutro conde palatino tenho notícia. Foi êle Pêro Rodrigues do Amaral, 
a quem D. Manuel por carta de 3o de Agosto de i5o3 confirmou outra do 
imperador Andreas Paleologos, déspota dos romanos, pela qual íizera fidalgos 
a Pêro Rodrigues, seus irmãos, filhos e descendentes. Na carta é intitu- 
lado protonotário, conde palatino, administrador perpétuo do mosteiro de 
S. Pedro das Águias, e arcipreste da igreja de Santa Maria da vila de 
Almeida (6). 

Ainda me consta da existência por estes tempos dum quarto conde pala- 
tino (6), pessoa bem modesta, e que serve para mostrar a pequena valia do 



do condado. Gama Barros na Historia da Administração, III, pág. 610, escreve: «Ligam-se 
varias significações á palavra condado... Diremos o que nos parece, em relação a todos 
os sentidos que se davam ao vocábulo, quando tratarmo» da divisão de território». Não 
chegou a cumprir a promessa. Júlio Puyol nas Origines dei reino de Leon, 1926, trata no 
cap. IV extensamente das origens dos condados. — Nota da revisão]. 
(i) Leitão Ferreira, Noticias da Universidade, pág. 418. 

(2) J. P. Ribeiro, Memorias do Real Archivo, págs. 58 e 60. 

(3) Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, vol. 3.°, pág. 772. 

(4) Resende, Vida de D. João II, fl. 122 v. 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 21.°, fl. 20 v. 

(6) Ainda com outro conde palatino fui fazer conhecimento a Évora, e por sinal que 
julgo ter êle sido personagem pouco respeitável : 

A fl. 78 v. do liv. 1.° do Registo da Câmara de Évora, códice hoje de lá desaparecido 
por esquecimento, segundo parece, de restituição da pessoa a quem foi emprestado, existia 
um mandado do Corregedor da comarca, o qual se encontra contudo copiado pelo bene- 
mérito Rivara no 4° vol. dos Documentos do Archivo municipal eborense. Extractá-lo hei 
por curioso : 

«O licenciado Pares Dias de Araújo, Corregedor por el Rei nesta comarca e correição 
de Entre Tejo e Odiana e Alem de Odiana, faço saber a todolos juizes, etc, que vindo a 
minha noticia como nesta villa de Montemor, e assim por outros muitos logares desta 
comarca e fora delia, um dr. João Rodrigues, Conde Palatino, andava com uma bulia fazendo 
doutores, licenciados, e bacharéis, e dava os taes graus a pessoas que os não mereciam, eu 
lhe fui a ello á mão, e lhe tomei a dita bulia, per cuja virtude fazia e dava os ditos graus, e 



I 



Apêndice 235 

tal título, a respeito do qual se pode ver o que diz Leitão Ferreira nas 
Noticias chronologicas da Universidade de Coimbra, a pág. 404 e seguintes. 
Na igreja de Santa Cruz de Coimbra, à mão esquerda, debaixo do coro, 
está, ou estava, este letreiro: Sepultura do nobre Fernand' Affonso^ man- 
tieiro{i) que foi da Imperatriz, conde palatino, e de seus herdeiros {2). 

Acerca de títulos estrangeiros também se encontram documentos destes 
tempos. Apresentarei alguns. 

A D. Pedro Ponce, conde de Medellin, que depois o foi de Arcos, deram 
os tutores de D. Afonso V, em 16 de Março de 1439, uma carta de seguro 
para certo carregamento de trigo (3). 

Ao duque de Medina Sidónia conde de Niebla, e ao filho primogénito do 
duque de Arévalo, se lhes concedeu análogo seguro por carta de 6 de Agosto 

de 1471(4)- 

Uma ilustre e varonil senhora castelhana de família originariamente por- 
tuguesa, pois que era filha bastarda de D. João Pacheco, i.*' marquês de Vi- 
lhena, neto de Martim Vasques da Cunha, 1° conde de Valência de Campos, 
D. Beatris Pacheco, condessa de Medellin e de Cifuentes, recebia uma tença 
anual de cento e setenta e oito mil trezentos e vinte sete reais brancos em 
prémio de ter entregado, para serviço de D. Afonso V, a sua cidade, vila e 
fortaleza de Mérida ao bispo de Évora D. Garcia de Meneses. Foi-lhe con- 
cedida a pensão por carta de i de Maio de 1480, confirmada em i5 de 
Março de 1486 (5). D. Beatris era viúva de D. Rodrigo Portocarrero, 



a mandei a S. A., e S. A. me enviou uma carta: — Corregedor Pares Dias. . . vimos a letra 
que tomastes ao dr. João Rodrigues que andava por essa comarca fazendo bacharéis, e 
porque não possa delia mais usar, havemos por bem o que nisso fizestes; porque aquelles 
que fez bacharéis não usem do dito grau, nem se chamem, havereis informação de todolos 
logares por onde veiu e andou, e de nossa parte mandareis ao juiz por vossa carta, que noti- 
fique logo a todolos aquelles que o dito grau de bacharel tomaram, não usem delie, nem 
se chamem bacharéis, por ser todo o que fez falso, e não poder fazer, sob pena que qualquer 
que depois da notificação fizer o contrario, ser preso e degradado por quatro annos, etc. 
Lisboa, i3 de Agosto de i5i8». Continua em seguida o Corregedor dirigindo-se aos juízes, 
mandando-lhes executar o alvará, e data a ordem de Montemor o Novo a 1 1 de Setembro 
do referido ano. Leitão Ferreira nas Notas ds Noticias da Universidade (vol. XIV do Ins- 
tituto, pág. 259) escreveu: «Dizem-me que neste anno de 1732 se acha em Portugal com o 
título de conde Palatino um filho do desembargador António de Freitas Branco». 

(i) Era manteeiro da Imperatris em Novembro de 1451 quando se passou a carta de 
quitação ao responsável pelo enxoval dela (Archivo histórico portuguez, vol. VIII, pág. 35). 

(2) Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 173 v. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. iS.*», fi. 23. 

(4) Ibidem^ liv. 22.", fl. 2. 

(5) Ibidem, liv. 32.", fl. 16 v., e Chancelaria de D. João II, liv. 8.', fl. 189 v. 



236 Brasões 

i.** conde de Medellin, que morrera em 1464(1), e de D. Afonso da Silva, 
2.* conde de Cifuentes que falecera em 1469 (2). 

Mencionarei mais um titular estrangeiro, e bastará. 

Foi ele o conde de Trevento, italiano provavelmente, mas meu desconhe- 
cido, a quem foi concedido por três anos, por carta (3), dada em Setúbal a 
3o de Setembro de 1488, o poder mandar doze barcos de seus vassalos, que 
êle nomeará, pescar coral aos mares dos cabos de S. Vicente e de Espartel, 
pagando somente a dízima a el Rei (4). 



Agora tornarei atrás, à cerimónia da investidura do condado. 

Continuou ela ainda no reinado de D. Afonso V. Assim nos consta pela 
Chronica deste rei, e por um documento da sua Chancelaria, Na Chronica 
conta-se que el Rei teve em Miranda do Douro a festa do Corpo de Deus 
do ano de 1476, e que durante ela «com a ceremonia devida fez primeiro 
conde de Abrantes a Lopo de Almeida» (5). Na carta de 3 de Junho de 
1445 de conde de Vila Real a D. Pedro de Meneses diz-se, que o agraciado 
se poderá « chamar logo conde da dita villa, posto que ainda lhe não tivesse 
feito aquella ceremonia que se costuma aos que são feitos condes, a qual, 
prazendo a Deus, lhe fará depois que a elle vier « (6). Continuava portanto 
a haver a cerimónia da investidura; mas continuo também sem saber em 
que ela consistia. 

Chegámos porém ao reinado de D. João II, e à criação do marquesado 
de Vila Real, e então sabemos pelos cronistas como el Rei fazia um mar- 
quês, e por analogia pudemos ficar aproximadamente entendendo como eram 
investidos os condados. 

Conta o cronista: «E no anno de 489, estando el Rei em Beja, no pri- 
meiro dia de Março com muita honra e grande solenidade, fez marquez de 
Vila Real e conde de Ourem a D. Pedro de Meneses, que era conde de Vila 
Real, nesta maneira. 

o El-rei estava ricamente vestido em uma sala armada de rica tapeçaria 
e docel de brocado, e sua cadeira real em alto estrado muito bem alcatifado. 
El-rei em pé, com a mão posta na cadeira encostado ao docel, e com elle o 



(i) Haro, Nobiliário de Espana, vol. I, pág, 3o i. 

(2) Salazar y Castro, Casa de Silva, vol. I, pág. 269. 

(3) Impressa no Archivo histórico portuguez, vol. I, pág. 320. 

(4) Chancelaria de D. João 11^ liv. 14.", fl. 33. 

(5) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 566. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 25.°, fl. 44 v. 



Apêndice 23 j 

príncipe, e o duque (de Beja), e muitos senhores, e nobre gente,' todos ves- 
tidos de festa. E o marquez veio de suas poisadas a pé, acompanhado de 
■muitos, honrados e nobres fidalgos, e com trombetas, tambores, charamelas, 
e sacabuxas, e muita gente. E diante d'elle, homens do conselho d'el-rei, 
fidalgos de muita autoridade. E um trazia nas mãos o estandarte de suas 
armas com pontas; outro uma sua espada mui rica, metida na bainha, com 
a ponta para cima, alta na mão direita; e outro uma carapuça de seda for- 
rada de arminhos posta em um bacio de prata, grande, lavrado de bastiães. 
N'esta ordem entrou na sala, e foi assim até chegar ao estrado, onde estava 
el-rei; e depois de feitas suas mesuras, os officiaes fizeram calar a casa. E 
■calada, o chanceller mór João Teixeira fez uma arenga, em linguagem, dos 
louvores d'el-rei, e dos grandes merecimentos do marquez, e seus muito 
assinalados e bons serviços, e assim dos de que descendia; e declarou que 
el-rei o fazia novamente marquez de Villa Real e conde de Ourem. 

« E acabada a oração, que foi muito bem dita, el-rei fez chegar o mar- 
quez ante si, e tomou a carapuça do bacio e poz-lh'a na cabeça; e tomou a 
a espada, e cingiu-lh'a por cima dos vestidos, e da cinta lh'a tirou nua, e 
€om ella lhe cortou as pontas do estandarte, e ficou em bandeira quadrada 
como de príncipe ; e tomou um annel de um rico diamante e por sua mão 
lh'o metteu em um dedo da mão esquerda. Acabado isto, o marquez com 
os joelhos em terra beijou a mão a el-rei e ao príncipe; e o príncipe, e o 
duque, beijaram a mão a el-rei, e assim todos os outros, e pessoas princi- 
paes que ahi eram. 

a E o marquez foi aquelle dia convidado d'el-rei, e comeu com elle a 
mesa, que assim era ordenada em a sala»ricamente armada com docel de 
brocado e grande baixella, com todos os officiaes e ministros, e muitas igua- 
rias, tudo em muita perfeição. El-rei estava assentado no meio do docel, o 
príncipe á mão direita e alem do príncipe o marquez, e á outra parte d'el-rei 
á mão esquerda estava o duque; e assim comeram todos com grande festa. 

« E acabado de comer, e el-rei recolhido, o marquez com muita honra, 
e muito acompanhado de senhores e nobre gente, muitas trombetas, tambores, 
charamellas, e sacabuxas, se recolheu a suas poisadas. E depois houve em 
casa do marquez muitos dias festas de danças, e mui "abastados banquetes. 
E como nobre, e grande senhor, deu algumas dadivas honradas aos officiaes 
-que fizeram seus despachos» (i). 



(i) Resende, Vida de D. João II, cap. LXXVIII. O mesmo conta Rui de Pina, no 
-cap. XXXVII da sua Chronica de D. João 11. — Quando D. Pedro de Meneses foi feito mar- 
quês, na cerimónia da investidura do título apareceu, conforme conta o cronista, «uma 
carapuça de seda forrada de arminhos posta em um bacio de prata»; e el Rei, depois da 



238 Brasões 



Pouco mais acrescentarei; só mencionarei algumas minúcias relativas aos 
títulos por estes tempos. 

D. Afonso V em Agosto de 1472 tomou em conselho certas determina- 
ções com respeito às precedências dos titulares (i). D. João III por um^ 
alvará de 29 de Junho de i556 alterou o anterior regulamento sobre as prece- 
dências, e modificou os assentamentos (2). Consistiam estes em determinada 
quantia, que anualmente se dava ao titular, e que variava conforme a gra- 
duação do título, o parentesco com o rei, e o arbítrio deste. Geralmente 
era o assentamento de setecentos e cinquenta mil reais para os duques, de 
trezentos e vinte e dois mil oitocentos e cinquenta e dois reais para os mar- 
queses, de duzentos e setenta mil reais para os condes parentes, de cento e 
dois mil oitocentos e sessenta e quatro reais para os outros condes, de cin- 
quenta mil reais para os viscondes, e para os barões não sei de quanto, 
pois que não encontro clareza nos documentos. 

Na concessão dos títulos tambe'm havia grande variedade. Uns erarn 
concedidos por carta especial, e assim sucedia geralmente com os que eram 
feitos de novo. Outros, os por sucessão, eram às vezes publicados por 
el Rei, que só muito depois assinava as cartas; aconteceu isto, por exemplo, 
ao 2.° conde de Linhares, a quem D, João III declarou conde a i5 de Se- 
tembro de i556, mas que só teve carta a 14 de Agosto de i558. Também 
sucedia às vezes dar el Rei um alvará de lembrança ao titular, ou directa- 
mente ao seu filho herdeiro, para este por morte do pai lhe suceder na 
título; e assim que o facto se dava, logo aquele passava a chamar-se com o 



arenga do chanceler mor, chamando para junto de si ao marquês, « tomou a carapuça do- 
bacio e poz-lh'a na cabeça ». 

Não se esqueceu o marquês de Vila Real deste episódio, e recorda-o numas trovas que 
dedicou à gangorra (grande carapuça) de Lopo de Sousa: 

£u houve outra tal tiara, 
quando fui feito marquês; 
mas, se tão caro custara, 
marquezado não tomara, 
se não fora em que me pez. 
Ante outra vez tomaria 

Tutuáo 
que tomar esta na mão (•). 

(i) Livro vermelho^ pág. 474 do vol. III da Collecção de inéditos da historia portugua^a^ 
(2) Andrade, Chronica de D. João III, parte IV, cap. 119. 

(•) Cancioneiro de Resende, vol. III, pig. 127. 



Apêndice 289 

título paterno. Nos títulos de Juro e herdade alguns havia, em que, logo à 
morte do possuidor, seu filho herdeiro sem mais carta se podia começar a 
tratar pelo título.- Nas casas de Bragança, e Aveiro, os primogénitos eram 
logo, uns, duques de Barcelos, os outros, marqueses de Torres Novas. Na 
casa de Vila Real existia o condado de Alcoutim, do qual o marquês podia 
dispor, quando lhe aprouvesse, a favo^ de seu filho maior. Tudo verá o 
leitor no catálogo. 

Os duques e marqueses eram todos, no período a que me refiro, parentes 
mais ou menos próximos do rei, e outro tanto sucedia a muitos condes 
Todos estes fidalgos já se chamavam de dom, antes de receberem os títulos 
O mesmo não acontecia a alguns dos restantes condes, mas todos estes inva 
riàvelmente, ao receberem os títulos, tomavam logo o dom; e não era só 
isto que faziam, pois que, se até então usavam do patronímico, largavam-no; 
isto os do tempo de D. Afonso V por diante. 

A esta regra encontro meia excepção logo no princípio, e uma excepção 
inteira no fim. Vasco Fernandes Coutinho, criado conde de Marialva em 
1440, passou a chamar se D. Vasco, mas conservou o Fernandes; Simão 
Gonçalves da Câmara, feito conde da Calheta em iSyõ, nem tomou o dom, 
nem largou o patronímico. Foi esta a primeira casa em que o dom não 
entrou com o título; a ela seguiram-se muitas outras. 

Apresentadas as excepções, darei os exemplos da regra. 

Álvaro Vaz de Almada, feito conde de Avranches, passou a chamar-se 
D. Álvaro de Almada; Álvaro Gonçalves de Ataíde, depois de conde da 
Atouguia, foi D. Álvaro de Ataíde; Pêro Vaz de Melo foi D. Pedro de Melo 
conde da Atalaia; Rodrigo Afonso de Melo, ou Rui de Melo, foi D. Rodrigo 
de Melo conde de Olivença; Rui Pereira, foi D. Rodrigo Pereira conde da 
Feira. Os primeiros condes de Penamacor, Abrantes, Portalegre, e Sor- 
telha, tomaram o dom que não tinham. Os filhos primogénitos do i.° conde 
de Marialva, e do i.° conde de Abrantes, e que se chamavam Gonçalo Vas- 
ques Coutinho e João Lopes de Almeida, passaram a nomear se D. Gonçalo 
Coutinho e D. João de Almeida logo que os pais houveram os títulos. 

A Leonel de Lima, quando foi feito visconde de Vila Nova da Cerveira, 
deu-se o título de dom para ele e seu filho herdeiro e durante algum tempo 
nem todos os outros filhos e descendentes dos viscondes se chamaram de 
dom, depois porém generalizou-se, sem que me conste de concessão espe- 
cial. 

O dr. João Fernandes da Silveira, recebendo em 1475 o título de barão 
de Alvito, passou a chamar-se D. João da Silveira, por isso que «por ser 
barão se pode e deve chamar, e chama dom, e 'assim seu filho que sua 
baronia espera por seu fallecimento herdar, e os outros seus filhos não ». 



240 Brasões 

D. João II porém, por carta de 6 de Outubro de 1488, concede que todos 
os filhos e netos legítimos do barão se chamem de dom. 



Agora mais duas palavras àcêrca dos condes de Arganil, e das armas 
-que atribuo aos diferentes titulares, e acabarei. 

A respeito daqueles condes pouco, ou nada, adianto ao que já se sabe. 
Na Torre do Tombo, nas colecções que têm índices, escassos documentos 
se referem aos bispos de Coimbra e desses aproveitei o que pude. Existem 
contudo umas poucas de gavetas cheias de pergaminhos, que vieram de 
igrejas daquele bispado; nestes documentos decerto muita coisa haverá, que 
precise mais algumas datas respeitantes aos condes de Arganil; mas aqueles 
diplomas não têm índices, não estão por ordem, são um inare magnum. 
Consultá-los, percorrê-los, seria minha obrigação, se tratasse exclusivamente 
dos condes de Arganil, ou se absolutamente nenhuns dados sobre eles pos- 
suísse; mas num catálogo geral como este e', e com as notícias que posso 
apontar, e que com suficiente precisão marcam o tempo da posse do condado 
que cada um dos bispos teve, creio que se me não deverá levar a mal o dis- 
pensar-me de uma busca que muito demoraria a impressão deste volume. 

Quanto às armas atribuídas aos titulares devo dar uma explicação ao 
leitor, pois que este notará certamente a falta quási constante de citações 
que fundamentem o meu dito. 

Sabe o leitor porque é que elas faltam ? É pela dificuldade de as fazer 
na maioria dos casos. 

Tenho a certeza dos antigos Meneses, condes de Barcelos, Ourém, Neiva 
e Viana, terem usado do escudo de oiro liso. Qual é, onde está, o documento, 
ou monumento, que eu possa citar para confirmar o meu dito ? Do conde 
de Ourém, Barcelos e Arraiolos, D. Nuno Alvares Pereira, todos nós sabemos 
as armas; que fonte segura, contemporânea, temos porém que no-lo garanta? 
O mesmo que sucede com estes, acontece com outros. Tenho a certeza de 
quais foram as armas de que usaram os Marialvas, os Atouguias, os Mon- 
santos, os Vila Reais, os Avranches, os Odemiras, os Abrantes, os Feiras, 
e por isso as apresento sem dúvida, apesar de não fundamentar a descrição 
que delas dou, ainda que para algumas o poderia fazer. Mas não o farei, 
a não ser quando haja variedade grande, ou dúvida que convenha esclarecer. 

E mais nada. Segue o catálogo. 



2.» PARTE 

CATÁLOGO 



i.° Conde de BARCELOS— 1298, Maio 8. — D. JOÃO AFONSO, 

senhor de Alburquerque. — Doação da vila de Barcelos e seu termo, por que 
o fizera conde; carta da data acima, 8 de Maio da era de i336, que é ano do 
nascimento de 1298(1). D. João Afonso de Albuquerque cfr. (confirma) em g 
de Dezembro de i333 (1296) (2). Em Trancoso, a 10 de Novembro de 1296(3). 
Donus Johanes Alfonsi majordomus curte cfr. em Santarém a 20 de Abril 
de i335(4). Em Santarém a 3 de Abril de i335 (1297) (5). Em Santarém 
a 22 de Abril de i335 (1297) (6). Em Santarém a 2 de Maio de 1355 
(1297) (7). Em Coimbra a 25 de Maio de i355 (1297) (8). Conde D. João 
Afonso cfr. em Portalegre, a 22 de Novembro de i337 (1299) (9). Em Es- 
tremes a 9 de Dezembro de i337 (1299) (10). Em Lisboa a 4 de Julho de 
i338 (i3oo)(ii). Em Coimbra a 25 de Abril de i339 (i3oi)(i2). Em 
Santarém a 18 de Julho de 1340 (i3o2)(i3). Mordomo dei Rei, cfr. em 
Estremôs, a 20 de Março de 1340 (i3o2)(i4). Em Santarém, a 20 de Feve- 
reiro de 1342 (i3o4)(i5). Em Lisboa, a 18 de Abril de 1342 (i3o4)(i6). 



(i) Chancelaria de D. Denis, liv. S.", fl. 3. 

(2) Ibidem, liv, 2.°, fls. 116 v. e 117 v. 

(3) Ibidem, fl. 128 v. 

(4) Ibidem, fl. 1 34. 

(5) Ibidem, ú. i34v. 
{6) Ibidem, fi.\35. 

(7) Ibidem, fl. i36. 

(8) Ibidem, fl. 187 v. 

(9) Ibidem, liv. 3.», fls. 8 e 8 v. 

(10) Ibidem, fl. 9 v. 

(11) Ibidem, fl. 11. 

(12) Ibidem, fl. i3 v. 
{i3) Ibidem, fl. 20 v. 
(14) Ibidem, fl. 23. 
(i5) Ibidem, fl. 3o v. 
(16) Ibidem, d. 32. 

VOL. m 



3i 



242 Brasões 

Morreu logo depois de 5 de Maio de 1804 (1). Foi sepultado em Pom- 
beiro. 

Armas: de oiro, castelo de vermelho (2). (Meiieses). 

Casou com D. Teresa Sanches, condessa de Barcelos, filha bastarda de 
D. Sancho IV de Castela, a qual tornou a casar com D. Rui Gil de Vilalobos, 
rico homem (3). 

Tiveram descendência. 

2.« Conde de BARCELOS — 1 804, Outubro iB. — D. MARTIM GIL, 

alferes mor, genro do precedente (4). — Doação da vila de Barcelos e seu 
termo, por que o fizera conde, dada em i5 de Outubro da era de 1842 (5). 
Era este fidalgo dos de Riba de Vizela, e também é nomeado com o apelido 
de Sousa, casa a cuja sucessão se opôs. IVLartim Gil cfr. em 19 de Setembro 
de i323 (1285) (6). A 11 de Março de 1324 (1286) já cfr. na qualidade de 
signifer (j). Vai confirmando até 24 de Junho de 1342 (i3o4), sempre como 
alferes (8). Em 6 de Dezembro de 1342 (i3o4) cfr. como conde D. Martim 
Gil (9). Cfr. pela última vez a 19 de Outubro de 134b (i3o7)(io). E a 7 
de Outubro de i353 (i3i5) já cfr. como alferes o conde D. Pedro (11). 

Morreu depois de 23 de Novembro de i3r2 (12). Foi sepultado em Santo 
Tirso (1 3). O epitáfio vem na Betiedictina, II, 46. 

Armas: não sei. 

Casou com D. Violante Sanches, condessa de Barcelos, filha do i.° conde 
D. João Afonso. 

Não tiveram descendência. 

3.° Conde de BARCELOS — i3i4, Maio i. — D. PEDRO AFONSO, 
filho bastardo de el Rei D. Denis. — Doação da vila de Barcelos e seu termo, 



(i) Monarchia Lusitana, parte 6.», liv. 18.", cap. 8.° 

(2) Argote deMolina na Noble^ia diz que o conde trazia por armas em campo de oiro, 
uma cadeia de azul em brando. 

(3) Livro j.° dos Brasões, pág. 107. 

(4) Monarchia Lusitana, VI, 367. 

(5) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.°, fl. 33 v. 

(6) Ibidem, liv. i.», fl. 149. 

(7) Ibidem, fl. i63 v. 

(8) Ibidem, liv. 3.°, fl. 33 v. 

(9) Ibidem, fl. 34 v. 

(10) Ibidem,^. 58 v. 

(11) Ibidem, fl. 97 v. ; 

(12) Monarchia Lusitana, parte 6.% liv. 18°, cap. 43.° 
(i3) Historia seráfica, parte 3.", pág. 29, § 49. 



Apêndice 248 

por que o fizera conde, i de Maio da era de i352(i). Morreu em i354(2), 
deixando o seu nome ao famoso Nobiliário. Foi sepultado em S. João de 
Tarouca. 

Armas: não sei. 

Casou a 1/ vez com D. Branca Peres, filha de D. Pedro Anes de Portel 
e de D. Constança Mendes de Sousa (3). Casou a 2.*^ vez com D. Maria 
Coronel, condessa de BARCELOS, dama da rainha D. Isabel (4). Eram 
casados em i322. Viveram separados: a condessa não sei onde; o conde 
D. Pedro nos seus paços de Lalim com Teresa Anes, que alguns querem que 
tivesse sido sua terceira mulher, no que se enganam. A condessa é nomeada 
pelo marido no seu testamento, que foi lavrado a 3o de Março de i35o poucos 
meses antes da morte de Teresa Anes (5). 

Não tiveram descendência. 

4.» Conde de BARCELOS — 135;, Outubro 10. — D. JOÃO AFONSO, 
vassalo dei Rei, e alferes mor. —Doação da vila de Barcelos, por que o 
fizera conde; carta de 10 de Outubro da era de 1395 (6). Foi depois 
/.* conde de Ourém. 

Vide o seguinte. 

«Ao concelho e moradores de Barcelos, a rogo de D. João Afonso Telo, 
conde da dita vila, lhes dá por termo os julgados de Penafiel, de Bastos 
(Bastuço) e o couto de Boigeão. Coimbra, 5 de Fevereiro de 1410 (1372) (7). 
— Aos moradores da Vila do Conde, lugar do conde D. João Afonso, nosso 
vassalo e nosso fiel conselheiro, e a sua petição, isenção da portagem, cos- 
tumagem e passagem de nenhumas mercadorias suas que eles levarem ou 
trouxerem. Coimbra, 5 de Fevereiro de 1410 (1372)» (8). 

Ainda o encontro conde de Barcelos, já depois do titulo ter sido dado ao 
filho, na carta de doação do julgado de Freitas e terra de Guimarães feita 
em Braga a i5 de Agosto de 1410 (1372), no mesmo dia em que foi dado 
Gondomar ao conde de Barcelos D. Afonso (9). 

<iD. João Afonso Telo, conde de Barcelos, nosso vassalo e nosso mui 



(i) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.», fl. 86 v. 

(2) Historia genealógica, vol. 1°, pág. 263. 

(3) Livro i." dos Brasões, pág. 262. 

(4) Ibidem, pág. 5i5. 

(5) Provas da Historia genealógica, vol. i.°, pág. i33, n." 20 e pág. i38, n.» 22. 

(6) Chancelaria de D. Pedro I, liv. i.°, fl. i5. 

(7) Chancelaria de D. Fernando, liv. i .°, fl. 94. 

(8) Ibidem. 

(9) Ibidem, fl. 110 v. 



244 Brasões 

fiel conselheiro, doação da jurisdição da honra de Britiande. Coimbra, 5 
de Julho de 1405 (iSôy) (i). — Doação do padroado de S. Lourenço do Bairro 
para si e sucessores. Santarém, 12 de Junho de 1406 (i368)(2). — Doação 
para si e sucessores da terra de Paus em terra de Nóbrega. Lisboa, 5 de 
Outubro de 1406 (i368)(3). — Doação para si e sucessores do quinhão real 
e direitos da aldeia de Ois da Ribeira. Requeixo de Coimbra, 22 de Se- 
tembro de 1407 (1369) (4). — Doação da lezíria do Galego, termo de San- 
tarém, para si e sucessores. Lisboa, 17 de Julho de 1409 (1371) (5). — 
Doação da vila do Peral, para si e sucessores. Lisboa, 17 de Julho de 1409 
(1371) (6). — Doação da vila do Cadaval, para si e sucessores. Tentúgal, i 
de Dezembro de 1409 (i37i)(7). — Doação pelos muitos serviços a el Rei, a 
seu pai, e à casa de Portugal, da vila de Ançã para si e sucessores. Ten- 
túgal, i3 de Dezembro de 1409 (1371) (8). — Conde D. João Afonso, doação 
da lezíria do Galego no almoxarifado de Santarém, 1 de Agosto de 1405 
{1367) (9). Desta lezíria se lhe fez nova doação para si e sucessores em 17 
de Julho de 1371, acima apontado. — D. João Afonso, conde de Barcelos, 
doação de Torres Novas e seu termo. Santarém, 25 de Janeiro de 1408 
(1370) (10). 

i.° Conde de OURÉM — Entre 5 de Janeiro de 1370 e 25 de Dezembro 
de 1371. — D. JOÃO AFONSO TELO, 4.° conde de Barcelos. — Tqyq 
carta de doação de Ourém em pagamento de sua quantia em 5 de Janeiro 
da era de 1408(11); e na carta de doação da quinta de Vilarinho, em 25 de 
Dezembro da era de 1409, já é intitulado conde de Ourém (12). 

Morreu pelo natal de i38i (i3), e foi sepultado na igreja da Graça de 
Santarém (14). 

Armas: de oiro liso. (Meneses). 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. 14 v. 

(2) Ibidem, fl. 28. 

(3) Ibidem, fl. 33. 

(4) Ibidem, fl. 46. 

(5) Ibidem, fl. 70. 

(6) Ibidem, fl. 76. 

(7) Ibidem, fl. 89. 

(8) Ibidem, fl. 88 v. 

(9) Ibidem, fl. i5 V. 

( 10) Ibidem, fl. 5o v. 

(11) Ibidem, fl. 52. 
(i2) Ibidem,^. i55. 

(i3) Livro i." dos Brasões, pág. 118. 

(14) Ibidem, pág. 119, onde se transcreveu o epitáfio. 



Apêndice 245 

Casou com D. Guiomar de Vilalobos, como é nomeada no epitáfio; foi 
também chamada D. Guiomar Lopes e D. Guiomar de Ferreira; nos 
documentos, porém, e' tratada geralmente por condessa D. Guiomar. Em 
i382, sendo Já viúva, foram-lhe doados as jugadas do Cadaval (i); ainda 
era viva a 22 de Agosto de 1404 (era de 1442) em que lhe foi dada quitação 
do resto do preço da compra que da quinta de Palma havia feito seu 
marido (2). Foi filha de Lopo Fernandes Pacheco, senhor de Ferreira, e de 
D. Maria de Vilalobos; e foi sepultada ao lado do marido, e no túmulo se 
puzeram também as armas da condessa (3). 

Tiveram descendência. 

Conde de VIANA DA FOZ DO LIMA, CAMINHA DE RIBA DE 
MINHO, e ALDEIA GALEGA apar de Alenquer — iSyi, Junho i. — 
D. ÁLVARO PIRES DE CASTRO a quem foram doadas aquelas vilas 
e seus termos, que formariam o condado, por cana de i de Junho da era 
de 1409(4). — Foi condestável de Portugal e i.° conde de Arraiolos. 

Vide o seguinte. 

i.** Conde de ARRAIOLOS — De fins de 1871 a princípios de iSyS. — 
D. ÁLVARO PIRES DE CASTRO, conde de Viana, Caminha e Aldeia 
Galega. — Em 4 de Novembro de iSyi foi-lhe feita doação de Arraiolos e 
Pavia em pagamento de sua contia(5); em 19 de Março de 1373 já outro 
fidalgo era conde de Viana, como abaixo direi. Entre estas datas se há de 
pôr a da criação do condado de Arraiolos. Da existência dele há a certeza 
pela carta de escambo de 8 de Julho de i375, na qual se declara que el Rei 
havia trocado com D. Álvaro as vilas de Viana e Caminha pela de Arraiolos 
com o seu castelo, e por Pavia, Aldeia Galega e reguengo de Campores do 
Rabaçal, o que tudo ficara constituindo o novo condado, que tornou agora a 
5er modificado, substituindo-se o referido reguengo pela vila de Odemira e 
seu termo, tirado ao almirante Lançarote Pessanha por desserviço, e o re- 
guengo de Cantanhede (6). Depois, por carta de 3 de Maio da era de 1422 
(1384), foi tirada ao conde D. Álvaro Pires a jurisdição da vila de Arraiolos (7). 
Foi este conde o primeiro condestável de Portugal, e morreu pouco depois 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.°, fl. 93 v. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 5.°, fl. 38 v. 

(3) Livro i.° dos Brasões, pág. 1 19. 

(4) Chancelaria de D. Fernando, liv. i .°, fl. 73. 

(5) Ibidem, fl. 82 v. 

(6) Ibidem, fl. 171. 

<7) Chancelaria de D. João I, liv. i.», fl. 18 v. 



246 Brasões 

de II de Junho de 1384(1), e antes de 3o de Agosto do mesmo ano (2). Foí 
sepultado na igreja de S. Domingos de Lisboa (3), conforme dispôs no sea 
testamento de 7 de Junho de 1 384 (4). 

Armas: de prata seis arruelas de azul. (Castros). 

Casou com D. Maria Ponce, condessa de Arraiolos, que lhe sobreviveu (5).. 
Era filha de D. Pedro Ponce, rico homem, senhor de Marchena, e de D. Bea- 
tris de Xerica. Foi a condessa sepultada junto ao marido. 

Tiveram descendência. 

5." Conde de BARCELOS — 1372, Março 20. — D. AFONSO TELO 
DE MENESES, filho do conde de Ourém. — Carta de 20 de Março da era 
de 1410 de doação em sua vida da vila de Barcelos, de que o fizera conde (6). 

Por carta da mesma data, 20 de Março de 1410 (1372), e também dada 
em Tentúgal, lhe foi feita doação das terras e julgados de Refóios, Santo- 
Tirso, Aguiar de Sousa, Lousada, Felgueiras, Vila Boa, Roças, Vieira,^ 
Lanhoso, Entre Romem e Cávado, e do julgado de Regalados (7). 

No mesmo dia, i5 de Agosto de 1410 (1372), passaram-se em Braga, 
duas cartas: uma de doação do julgado de Freitas, e terra de Guminhães, a 
D. João Afonso Teio, conde de Barcelos, nosso vassalo; e outra de Gon- 
domar a D. Afonso, conde de Barcelos. Estão ambas na fl. iio v. do liv. i.*^ 
da Chancelaria de D. Fernando, e ficamos sabendo que pai e filho eram ao- 
mesmo tempo intitulados conde de Barcelos. 

Morreu em vida do pai a quem regressou o condado de Barcelos. 

Armas: de oiro liso. 

I." Conde de VIANA DO ALENTEJO— i373, anterior a 19 de Março 
desse ano. — D. JOÃO AFONSO TELO, filho do conde de Ourém.— 
Declara o cronista que um dos reféns das pazes de 19 de Março de i373, 
firmadas entre os reis de Castela e Portugal, fora o conde de Viana filho da 
conde de Ourém (8). O primeiro documento contudo em que o encontro 
intitulado conde de Viana, é na carta de 10 de Abril da era de 1414 (1376) 



(i) Chronica de D. João I, parte I, cap. 117. 

(2) Na referida data foi feita doação de Arraiolos e Pavia a Fernão Alvares Pereira^ 
como se vê na Chancelaria de D. João I, liv. 1.°, fl. 62. 

. (3) Livro i.° dos Brasões, pág. 69, onde se transcreve o epitáfio. 

(4) Provas da Historia genealógica, vol. 6.°, pág. iSj, n." 10. 

(5) Chronica de D. João J, parte II, pág. iSg. 

(6) Chancelaria delD. Fernando, liv. 2.°, fl. 28 v. 

(7) Ibidem, fl. 28. 

(8) Chronica de D. Fernando, cap. 82. 



Apêndice 247 

<la alcaidaria de Beja em pagamento de sua contia (i). Em i3S2 sucedeu 
em parte da casa de seu pai (2), mas não nos condados de Barcelos e de 
Ourém, que foram dados a outros. 

D. João conde de Viana, mercê dos direitos reais da vila da Lousa, 
empréstimo. 17 de Fevereiro de 141 5 (i377)(3). — Conde de Viana, alcaide 
de Beja mercê dos direitos reais da alcaidaria da dita vila em preço de tre- 
zentas e cinquenta libras que tem em tença. 14 de Janeiro de 1419 (i38i) (4). 
— Conde de Viana, filho do conde de Ourém agora falecido, mercê do se- 
nhorio e honra de Canaveses e Britiande, para o qual senhorio foi escolhido 
■pelos habitantes. Elvas, 16 de Julho de 1420 (i382)» (5). 

Foi morto em princípios de 1384 pelos seus vassalos de Penela por 
seguir a parte do rei de Castela (6). 

Armas: de oiro liso; ou cortado de um traço e partido de dois, que faz 
seis quartéis: o i.°, 3.° e õ.° de oiro, dois lobos passantes, sotopostos, de 
púrpura; o 2.°, 4." e 6.° de oiro, quatro palas de vermelho; e sobre o todo 
de oiro liso (7). (Meneses. 1° Vilalobos; 2.° Limas. Meneses). 

Casou com D. Maior de Portocarreiro, condessa de Viana, que sobreviveu 
■ao marido, e era filha de João Rodrigues de Portocarreiro, senhor de Vila 
Real. 

# 

Tiveram descendência. 

i.« Conde de NEIVA— 1373, antes de 16 de Julho. — D. GONÇALO 
TELES. — Conde de Neiva e senhor de Faria é êle intitulado numa carta 
de doação de 16 de Julho da era de 1411(8); porém só. no último dia do 
mesmo mês é que teve carta de conde de Neiva (9), vila de que era senhor 
•€ alcaide mor por duas cartas ambas de 22 de Outubro do ano precedente (10). 

Gonçalo Teles, nosso vassalo, por muito serviço, doação por juro de 
herdade do julgado de Faria, pela guisa por que o nós ora havíamos. 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.*, fl. 192. 

{2) Ibidem, liv. 2°, fl. gS, ambas de 1 5 de Julho de i382 das honras de Canaveses e Bri- 
tiande que vagaram por morte do pai. 

(3) Ibidem, liv. 1.°, fl. 200 v. 

(4) Ibidem, liv. 2.», fl. 74 v. 

(5) Ibidem, fl. gS. 

(6) Chronica de D. João I, parte II, pág. 5o, confirmada pela carta de 16 de Maio da 
•era de 1422 (1384) da aprovação da eleição que para seu senhor, por morte do conde, haviam, 
feito os da behetria de Canaveses {Chancelaria de D. João /, liv. i.", fl. 71 v.). 

(7) Livro 1° dos Brasões, págs. 121, t22, 124. 

(8) Chancelaria de D, Fernando, liv. i.», fl. 128. 

(9) Ibidem, fl. 143 V. 
(10) Ibidem, fl. ii3 v. 



248 Brasões 

Quiaios, i8 de Novembro de 1409 (i37i)(i). — Doação a Gonçalo Telo da 
terra de Aguiar de Pena em pagamento de sua contia. Leiria, 22 de 
Outubro de 1410 (1872) (2), — Doação da terra de Mirandela do almoxari- 
fado de Torre de Moncorvo em pagamento de sua contia. Leiria, 22 de 
Outubro de 1410 (1372) (3). — Doação do castelo de Leiria. Leiria, 12 de 
Novembro de 1410 (1372) (4). — Conde D. Gonçalo, entrega dos castelos 
de Valença e Lapela. Santarém, i de Julho de 1413 (1875) (5). — Doação da 
terra de Vermoim em pagamento de sua contia. Santarém, i de Julho de 
1413 (1375) (6). — Doação de Vermoim. 9 de Setembro de 1414 (1376) (7), 
— As freiras de Vila do Conde tinham entregado a jurisdição de Vila da 
Conde, Póvoa de Varzim, etc, a D. João Afonso Teles conde de Ourém em 
sua vida, agora depois da morte deste conde fizeram doação da jurisdição 
ao conde D. Gonçalo e el Rei confirma-lha em 12 de Agosto de 1420 
(i382)(8). — Sendo alcaide mor de Coimbra recusou abrir as portas da, 
cidade a sua irmã a rainha D. Leonor e ao rei de Castela, declarando-se 
pouco depois, em Maio de i384, com a cidade pelo mestre de Avis, a quem 
serviu, capitaneando a armada do Porto, e combatendo nos cercos de 
Alenquer e Torres Vedras. Aqui por desconfianças do mestre foi preso 
em J^aneiro de i385, e remetido para Évora, em cujo castelo permaneceu 
sob prisão até 1887. Em quanto durou a prisão parece não ter perdido o 
título. Encontra-se uma carta porque el Rei confirma a doação que o conde 
D. Gonçalo fizera do reguengo de Arcos em terra de Faria que dera em 
casamento a João Afonso. S. Pedro de Gastei, 9 de Janeiro de 1424 
(i386)(9). 

Neste ano foi restituído à liberdade e à graça de el Rei, que por carta 
dada nos paços do Curvai em Castela, a 7 de Julho da era de 1425 (1387), 
fez doação ao conde D. Gonçalo de iodas as terras e lugares que ele havia 
em tempo de el Rei D. Fernando, posto que já fossem dados a algumas 
pessoas de juro e herdade, não embargando cartas nem alvarás que sobre 
isso tivessem estas pessoas (10). Pelos muitos serviços de João Fernandes 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.», fl. 84. 

(2) Ibidem, fl. 114. 

(3) Ibidem, fl. 1 14. 

(4) Ibidem, fl. 1 1 5 V. 

(5) Ibidem, fl. 171. 

(6) Ibidem, fl. 170 v. 

(7) Ibidem, fl. 188. 

(8) Ibidem, liv. 2.°, fl. 92 v. 

(9) Chancelaria de D. João I, liv. i.", fl. i52 v. 
(10) Ibidem, liv. 2.°, fl. 3. 

I 



[Apêndice ' 249 

Pacheco, nosso vassalo e guarda mor, doação e escambo do lugar de Faria 
com toda a sua terra como sempre a honraram os reis nossos antecessores, 
pela terra de Lanhoso que lhe havíamos dado. Chaves, 16 de Janeiro da 
era de 1428 (i386)(i). Restituído à liberdade serviu o conde a el Rei no 
cerco de Melgaço em i388; depois porém sobreveiu novo desacordo, pois 
que D. João I em carta de 3i de Outubro da era de 1429 (iSgi) declara ter 
confiscado ao conde por desserviço as suas terras (2). 

Morreu o conde D. Gonçalo a 28 de Junho de 1408 (3). 

Armas: de oiro liso. (Meneses). 

Casou, antes de 23 de Outubro de 1372 (4), com D. Maria Afonso, que 
foi condessa de Neiva, e era filha legitimada de D. João Afonso, senhor de 
Alburquerque. A condessa ainda vivia em 1429. Consta desta carta: a 
condessa D. Maria tenha de nós em sua vida as terras de Azurara e Fao que 
ora pediu fize'ssemos mercê das ditas terras a D. Beatris de Meneses sua neta, 
nossa criada. — Carta de doação a D. Beatris das ditas terras em sua vida. 
Lisboa, 17 de Outubro de 1429 (A. D.) (5). 

Tiveram descendência. 

I.» Conde de SEIA — Erítre 1373 e i38i.— D. HENRIQUE MANUEL 
DE VILHENA, senhor de Cascais. — Em documento de 9 de Agosto de 
1373 ainda não é nomeado conde; em 12 de Julho de i38i já é intitulado 
conde D. Henrique (7). Foi conde de Seia, como consta do que fica dito no 
lugar citado, e como já o asseverara Fernão Lopes (8). Também foi senhor 
dos paços de Sintra, e daí virá o engano de alguns o declararem conde desta 
vila, de cujos paços lhe fez doação D. João I por carta de 4 de Dezembro 
de i38õ, pelo que se vê que ainda seguiu seu partido por algum tempo; 
porém no ano seguinte já estava em Castela, onde o fizeram conde de Mon- 
talegre e senhor de Meneses (8). 

Ainda vivia em 141 2 (9). 

Armas: esquartelado: o i.° e 4.** de vermelho, asa de oiro terminada por 



(i) Chancelaria de D. João I, liv. 1.», fl. i5o. 

(2) Ibidem, fl. 46. 

(3) Memorias do cartório de S. Vicente de Fora citadas por Lousada na Torre do 
TombOt vol. 2.°, fl. 53i. 

(4) Data da carta de legitimação de Maria Afonso na Chancelaria de D. Fernando, 
liv. 1.", fl. 166 V. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 11.", fl. 32 v. 

(6) Vide atrás na pág. 7. 

(7) Chronica de D. Fernando, pág. 261. '' 

(8) Vide atrás na pág. 8. 

(9) Haro, Nobiliário, vol. i.% pág. 94. 

VOL. III 3a 



25o Brasões 

uma mão de encarnação, segurando uma espada alçada de prata, guarnecida 
de oiro; o 2.° e 3." de prata, leão de púrpura, armado e linguado de azul, e 
coroado de oiro. (Manuel). 

Casou em Portugal com D. Brites de Sousa, condessa de Seia (i), filha 
de D. Pedro Afonso de Sousa, rico homem, e de D. Elvira Anes da Nóboa. 

Tiveram descendência. 

6.° Conde de BARCELOS — 1882, anterior a 27 de Janeiro. — D. JOÃO 
AFONSO TELO, almirante. — Ainda não é intitulado conde na carta de 
privilégios do almirantado passada em 6 de Julho de i38o(2), porém na 
doação da terra da Feira e outras, em 27 de Janeiro de i382, já é nomeado 
conde de Barcelos (3). Conjecturo ser-lhe-ia dado o condado em seguida ' à 
morte de seu tio D. João Afonso Telo, conde de Ourém e de Barcelos, suce- 
dida pelo natal de i38i. Passou para Castela onde foi feito conde de 
Major ga em Setembro de 1384. 

João Afonso Telo — Doação para si e herdeiros do lugar de Jarmelo 
que foi de João Afonso de Albuquerque, e depois de D. Martinho seu filho, 
e ora era de D. Isabel, mulher que foi do dito D. João Afonso, e mãe do 
dito D. Martinho, o qual está em desserviço de el Rei. Santarém, 20 de 
Janeiro de 1408 (1370) (4). — Doação do castelo de Lisboa a João Afonso 
Telo. Leiria, 22 de Outubro de 1410 (1372) (5). — João Afonso Telo, almi- 
rante, nosso vassalo, doação das terras de Bemposta, Penarroias, etc. San- 
tarém, i5 de Abril de 1414 (1376) (6). — Doação das terras de Samodães, 
Ribeira de Gondim, etc. Santarém, i5 de Abril de 1414 (1376) (7). — En- 
trega do castelo de Monsanto. Alenquer, 17 de Julho de 1414 (1376) (8). — 
Doação das terras de Poças, Aragais, e Carregosa no julgado da Feira. 
Leiria, 19 de Novembro de 1415 (1377) (9). — D. João Afonso Telo, almi- 
rante, doação das terras de Mossâmedes, Laborim e Lavadores. 23 de Maio 
de 1414 (1376) (10). — Doação de terras de Vilasboas e Vilarelhos em paga- 
mento de sua contia. Santarém, 19 de Julho de 1414 (1376) (u). — D. João 



(i) Chronica de D. João I, parte I, pág. 127. 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.", fl. 66 v. 

(3) Ibidem, liv. 3.°, fl. Sg v. 

(4) Ibidem, liv. i.", fl, 5i. 

(5) Ibidem^ fl. 1 14. 

(6) Ibidem, fl. 192. 

(7) Ibidem. 

(8) Ibidem, fl. igS v. 

(9) Ibidem, liv. 2.°, fl. 23. 

(10) Ibidem, liv. 1.°, fl. 172 v. 

(11) Ibidem, fl. 195 V. 



Apêndice 25 1 

Afonso, almirante, doação das rendas da alcaidaria de Lisboa. Alenquer, 
20 de Março de 1417 (1379) (i). — D. João Afonso Telo, conde de Barcelos 
nosso vassalo, doação das freguesias de RebordÕes, S. Martinho do Campo, 
Santa Maria de Negrelos, Santo Isidro, Virões, Santiago, S. Salvador que 
soiam ser do julgado de Refóios, e freguesia de Sanguinhedo que soia ser 
da jurisdição de Aguiar de Pena e que foram dadas ao infante D.. João, 
sendo então apartadas das ditas jurisdições, e depois foram dadas à infanta 
D. Beatris, etc, mando que tornem à jurisdição antiga, etc. Almada, 26 de 
Junho de 1421 (i383)(2). — Carta para Refóios, Roriz, S. Martinho, etc, 
serem de jurisdição de Refóios. Almada, 26 de Junho de 142 1 (i383)(3). — 
Conde de Barcelos, nosso vassalo, entrega do castelo da Feira. Almada, 3o 
de Junho de 1421 (i383)(4). 

Morreu na batalha de Aljubarrota a 14 de Agosto de i385. 

Armas: de oiro liso. (Meneses). 

Casou com D. Brites de Albuquerque, condessa de Barcelos, que lhe 
sobreviveu (5), e era irmã de sua cunhada a condessa de Neiva. 

Não tiveram geração. 

2.° Conde de OURÉM — 1382, nos princípios do ano. — D. JOÃO FER- 
NANDES DE ANDEIRO. — Teve o título depois da morte do conde de 
Ourém e de Barcelos, D. João Afonso Telo, sucedida pelo natal de i38i (6). 
Ser-lhe-ia dado o condado pela mesma ocasião em que se deu o de Barcelos 
ao almirante ? E certo tê-lo êle possuído, porque claramente o diz a carta de 
doação (7) do mesmo condado a Nuno Alvares Pereira; mas também é certo 
que em nenhum documento da Chancelaria de D. Fernando há referência 
alguma a semelhante facto. Parece que na desgraçada reforma das chance^ 
larias daquele rei, de caso pensado, se suprimiram todos os documentos 
respeitantes ao Andeiro. Nelas hoje só se encontram em data de 3i de 
Julho da era de 1407 (1369) a doação dos direitos reais da Charneca, termo 
de Lisboa (8); e em 3 de Outubro da era de 1419 (i38i) a doação de juro 



I 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.", fl. 41 v. 

(2) Ibidem, fl. io3 v. 

(3) Ibidem, liv. 3.°, fl. 72 v. 

(4) i^íiem, fl. 84. 

(5) Chronica de D. João I, parte II, pág. iSg. 

(6) Chronica de D. Fernando, pág. 417. 

(7) Não só nesta carta de doação, mas também no contracto do casamento da infanta 
D. Beatris com D. João I de Castela em Abril da era de 142 1 (i383), se nomeia entre os 
fidalgos portugueses que juraram, a D. João Fernandez, conde de Ourém {Provas da His- 
toria genealógica, I, pág. Sog). 

(8) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. 43 v. 



2 52 Brasões 

e herdade por muitos serviços dos lugares de Alvaiázere e Rabaçal com as 
jurisdições, e do julgado e terra de Figueiredo de Sequins pela guisa que o 
tinha o infante D. João(i). 

Morreu o conde de Ourém a 6 de Dezembro de 1 383 (2). Ainda por 
estes tempos existiu cá por Portugal um outro Andeiro. Foi ele Fernão 
Rodrigues de Andeiro, a quem D. Fernando fez doação em 17 de Outubro 
de 1412 (1374) de todas as herdades de pão e vinho, que na Moita havia 
Pêro de Capela, tabelião na Atouguia(3). 

Armas: não sei. 

Casou com D, Maior, condessa de Ourém, que era viúva de Fernão Be- 
zerra, cavaleiro muito honrado da Galiza (4). 

Tiveram descendência. 

3.» Conde de OURÉM— 1384, Julho i.-NUNO ÁLVARES PE- 
REIRA. — A êle por carta de i de Julho da era de 1442 fez o mestre de 
Avis, defensor e regedor do reino, doação do condado de Ourém e de todas 
as vilas e lugares, que ao dito condado pertenciam, de todas as terras que 
o conde D. João Fernandes Andeiro havia, e de muitas outras mais vilas e 
lugares (5). Sendo já rei ratificou D. João I a referida doação, ainda, 
ampliada, a D. Nuno Álvares Pereira, condestável, por carta de 20 de 
Agosto do ano seguinte (6). Foi também conde de Barcelos e de Arraiolos. 

Morreu recolhido no convento do Carmo de Lisboa, fundação sua, em i 
de Novembro de 143 1, e lá foi sepultado. 

Armas: de vermelho, cruz florida de prata, vazia do campo. (Pereira). 

Casou em i5 de Agosto de 1376 com D. Leonor de Alvim, condessa de 
Ourém, viúva de Vasco Gonçalves de Barroso, e filha de João Pires de 
Alvim e de D. Branca Pires Coelho. 

Morreu a condessa em fins de 1387, ou princípios de i388. 

Tiveram geração. 

7.0 Conde de BARCELOS— 1385, Outubro 8.— O condestável D. NUNO 
ÁLVARES PEREIRA, conde de Ourém. Carta daquela data (7). 
Vide acima. 



(i) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.°, fl. 87. 

(2) Chronica de D. João 1, parte I, pág. 21. 

(3) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. 154. 

(4) Chronica de I). Fernando, pág. 418. 

(5) Provas da Historia genealógica, vol. III, pág. 5i5, n.» 84. 

(6) Chancelaria de D. João I, liv. i.% fl. 82 v. 
7) Ibidem, liv. i.°, fl. 76. 



Apêndice 253 

2.0 Conde de ARRAIOLOS — 1 387, Dezembro 16. — O condestável 
D. NUNO ÁLVARES PEREIRA, conde de Ourém e de Barcelos. — Por 
carta de 16 de Dezembro da era de 1425 ratificou el Rei um contracto de 
escambo, que fizera com o condestável, que entre outras terras e rendas re- 
cebeu o condado de Arraiolos (i). Foi também em virtude desta troca que 
a Vidigueira entrou para a casa de Bragança da qual veiu a sair, século e 
meio depois, para constituir o condado de Vasco da Gama. 

Para o conde de Arraiolos vide os dois precedentes artigos. 

2.'^ Conde de NEIVA— iSgi, Outubro 3i. — D. AFONSO, «meu filho 
que se ora cria em Leiria». — Teve doação, por carta de 3 1 de Outubro da 
era de 1429, das terras de Neiva, Aguiar de Neiva, Crelhal (?), Faria e Ver- 
moim, que haviam pertencido ao conde D. Gonçalo, e que foram doadas a 
D. Afonso para as ter como o referido conde as houvera (2). Constituía isto 
o condado de Neiva, e por êle é que decerto era dado a D. Afonso o título 
de conde, com o qual o encontro na carta de legitimação de 20 de Outubro 
da era de 1439 (i4oi)(3), quando ainda não tinha recebido o condado de 
Barcelos. Nesses tempos não havia conde sem condado; e ainda que não 
tenha encontrado nunca a D. Afonso chamando-se conde de Neiva (4), é certo 
que seu filho D. Fernando, 2.° duque de Bragança, aparece com o titulo, 
como abaixo direi, e não o podia ter senão por sucessão de seu pai. As 
cartas destas doações de condados eram então pouco explícitas, mas parece 
que juntamente com as terras, e anexos a elas, iam os títulos. 

O condestável D. Nuno Alvares recebeu os três condados de Ourém, 
Barcelos e Arraiolos, sem nunca ter carta especial para usar do título de 
conde a não ser de Barcelos, e contudo é certo que o logrou. Depois dispôs 
em 140 1 do condado de Barcelos para seu genro, e em 1422 dos de Ourém 
e Arraiolos para seus netos, e todos estes fidalgos começaram logo a usar 
dos títulos, que aos segundos, os netos, só lhe foram confirmados por el Rei 
onze anos depois. As referidas terras de Neiva, Aguiar de Neiva, Perelhal, 
Faria e Vermoim, juntamente com as de Darque e Rates, e outrosim a de 



(1) Rivara, Memorias da villa de Arraiolos, citando o cartório da casa de Bragança, 
Livro dos Contractos, fl. 5i, a pág. SgS do vol. X do Panorama. 
(a) Chancelaria de D. João I, liv. 2.*, fl. 46. 

(3) Ibidem, fl. 187. 

(4) Já encontrei. Numa procuração passada em Chaves, a 3 de Janeiro de 1446, na 
qual dá poderes a Gonçalo Pereira para o representar nas cortes de Lisboa desse ano, intitu- 
la-se D. Afonso, « filho do mui nobre e sempre virtuoso Rei D. João de escrarecida memoria. 
Duque de Bragança, e conde de Barcelos e de Neiva, e senhor de Penafiel {Chancelaria de 
D. Afonso F, liv. 5.°, fl. 5). 



254 Brasões 

Penafiel de Bastuço, e o couto da Várzea, foram confirmadas umas, e doadas 
outras, ao referido D. Afonso, já então conde de Barcelos, por carta de 8 
de Novembro da era de 1439 (i4oi)(i). 
Vide 8.° conde de Barcelos, a seguir. 

8.° Conde de BARCELOS— 1401, Novembro 8.— Conde D. AFONSO, 
filho legitimado de D. João I. — É nomeado conde de Barcelos na carta de 
8 de Novembro da era de 1489 de confirmação da doação a êle, e à con- 
dessa D. Brites sua mulher, feita pelo condestável D. Nuno (2). A con- 
firmação é do próprio dia do casamento. Foi o i.° duque de Bragança 
em 1442. 

Casou a i.^ vez, em 8 de Novembro de 140 1, com D. Brites Pereira, 
condessa de Barcelos, que morreu em 1414 talvez. Era filha herdeira do 
condestável D. Nuno Álvares Pereira, conde de Ourém, Barcelos, e Arraiolos. 
Deste casamento ficou geração. 

Casou a 2.* vez, era 1420, com D. Constança de Noronha, condessa de 
Barcelos, e depois duquesa de Bragança. 

Vide em i.** duque de Bragança 6 2." conde de Neiva. 

i.'' Conde de PENAFIEL— 140 1, Novembro 8. — D. AFONSO, conde 
de Barcelos. — Pela mesma carta acima citada no artigo do conde de Neiva 
foi doada a D. Afonso a terra de Penafiel (3). Na procuração de 3 de Janeiro 
de 1446 na nota 4 da pág. 253 apontada intitula-se D. Afonso simplesmente 
senhor de Penafiel. Esta terra, que eu saiba, nunca havia até então consti- 
tuído condado algum; encontro porém repetidas vezes a referência a terem 
os duques de Bragança sido condes de Penafiel. Tinha contudo resolvido 
não incluir tal titulo no meu catálogo, por supor serem apenas ditos vagos 
os que indicavam a existência do condado; mas aparece-me o duque D.Teo- 
dósio II em uma procuração por êle passada em Vila Viçosa a 10 de Se- 
tembro de 1595, intitulando-se duque de Bragança e de Barcelos, marquês 
de Vila Viçosa, conde de Ourém, conde de Arraiolos, conde de Penafiel (4). 
Apesar disto não ter grande valia, porque pode até já ser resultado dos tais 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv, 5.°, fl. 186, onde a carta vem incompleta, faltando- 
-Ihe o final e portanto a data; mas vem inteira com a data e tudo, transcrita na de 
confirmação a D. Fernando duque de Bragança na Chancelaria de D. João III^ liv. 7.», 
fl. 211. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. III, pág. 448, n.» 3, 

(3) Chancelaria de D. João 1, liv. 2.°, fl. 186, incompleta, sem a data, e completa na 
Chancelaria de D. João III, liv. 7.°, fl. 21 1. 

(4) Provas da Historia genealógica, vol. V, pág. 397. 



Apêndice 255 

ditos, entendo porém dever, pelo menos aqui e por esta só vez, mencionar 
tal titulo, cuja existência legal não garanto. 

Este conde de Penafiel, suposto talvez, é o que foi em 1442 i.° duque de 
Bragança. 

Vide. 

i.° Duque de COIMBRA— 141 5, Setembro. — Infante D. PEDRO.— 
Na volta da empresa de Seuta deu-lhe el Rei seu pai em Tavira o título de 
duque de Coimbra (i). — Doação ao infante D. Pedro, duque de Coimbra, 
seu filho em quanto for sua mercê do castelo de Coimbra. Estremôs, 18 
de Fevereiro de 1434 (1416) (2). Foi regente do reino na menoridade de 
D. Afonso V até Maio de 1447. 

Morreu na batalha da Alfarrobeira a 20 do mesmo mês de 1449. 

Armas: de prata, cinco escudetes de azul, apontados em cruz, e carre- 
gados cada um de cinco besantes do campo; bordadura de vermelho carre- 
gada de dez castelos de oiro, e entre eles as quatro pontas de uma cruz 
florida, cosida de verde. Diferença: banco de pinchar de três pendentes (de 
prata ?), cada um dos pendentes das pontas carregado de duas peças, que 
parecem pintas de arminhos postas em pala. Empresa: uma balança acom- 
panhando exteriormente o chefe e os flancos do escudo. 

Divisa: Desir (3). 

Casou em 1429 com a infanta D. Isabel de Aragão duquesa de Coimbra, 
que morreu em 17 de Setembro de 1459(4), e era filha de I). Jaime II, conde 
de Urgel. Esta última data está errada. O testamento da infanta D. Isabel 
foi feito èm Pombal, a 16 de Dezembro de 1466(5). 

Tiveram descendência (6). 

i.° Duque de VISEU— i4i5, Setembro. — Infante D. HENRIQUE.— 
Foi criado duque de Viseu por el Rei seu pai em Tavira na volta da con- 



(i) Chronica de D. João I, parte III, pág. 376. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 3.", fl. 179. 

(3) Assim estão na frente do túmulo do infante na Batalha, vendo-se mais claras as 
pintas de arminhos nos bocados, que se guardam no refeitório, da pedra antiga do mausoléu 
que foi substituída. 

(4) Historia Seraphica, vol. II, pág. 49. 

(5) Torre do Tombo, Mosteiro de Odivelas, tomo S.», fl, 266. 

(6) Na Historia genealógica, na pág. 88 do vol. 2.°, diz-se que D. João, filho do infante 
D. Pedro, fora duque de Coimbra depois da morte de seu pai. Em nenhum documento se 
encontra referência a este título, com o qual, é óbvio, D. Afonso V não ia agraciar a este 
seu primo. Lá por fora, por onde ele andou, chamavam-lhe D. João de Coimbra; mas daí 
a ter sido duque vai muito. 



I 



256 Brasões 

quista de Seuia, na mesma ocasião em que foi dado o título de duque de 
Coimbra ao infante D. Pedro (i). 

Morreu o infante D. Henrique solteiro a i3 de Novembro de 1460. ' 

Armas: de prata cinco escudetes de azul apontados em cruz, e carregados 
cada um de cinco besantes do campo; bordadura de vermelho carregada de 
dez castelos de oiro, e entre eles as quatro pontas de uma cruz florida, cosida 
de verde. Diferença: banco de pinchar (de prata?) de três pendentes (2). 

Divisa: Talant de Bien Fere. 

Não deixou geração, mas perfilhou a seu sobrinho o infante D. Fernando, 
que em 146 1 era 2.® duque de Viseu. 

4.° Conde de OURÉM— 1422, Abril 4. —D. AFONSO, filho primogé- 
nito do 8.° conde de Barcelos ao depois i.° duque de Bragança. — O conde 
de Ourém era nejo materno do condestável D. Nuno Alvares Pereira, que 
por carta daquela data lhe fez doação de muitos bens, e entre eles do con- 
dados de Ourém, carta que só foi confirmada por el Rei anos depois, a 24 
de Novembro de 1433 (3). Advertirei que em um alvará de 24 de Agosto 
de 1422 encontro a D. Afonso intitulando-se apenas «neto d'el-rei, filho do 
conde de Barcellos » (4). 

Foi em 145 1 o j." marquês de Valença. Vide. 

3." Conde de ARRAIOLOS — 1422, Abril 4. — D. FERNANDO, filho 
segundogénito do 8.° conde de Barcelos e i.° duque de Bragança posterior- 
mente. — D. Fernando era neto materno do condestável D. Nuno Alvares 
Pereira, que na data referida lhe fez doação, juntamente com muitos outros 
bens, do condado de Arraiolos, o qual só lhe foi contudo confirmado por 
carta régia de 9 de Dezembro de 1433 (5). Esta carta de confirmação tem 
efectivamente esta data no liv. i.° da Chancelaria de D. Duarte, fl. 26 v.; 
encontro-a porém com a data de 9 de Outubro no liv. 6.° das ConJirmaçÕes 
Geraes, fls. 5 e 102, e no liv. 38.° de Doações de D. João III, fl. 97. Não 
parece ter D. Fernando começado logo a intitular-se conde de Arraiolos, 
pelo menos em um seu alvará de 22 de Agosto de 1422 aparece declaran- 



(1) Chronica de D. João /, parte llí, pág. 276. 

(2) Na pedra antiga da frente do túmulo do infante na Batalha, pedra que se guarda 
hoje no refeitório, não aparece, como naquela que a substituía, uma sorte de brica no canto 
sinistro da ponta de cada um dos pendentes do banco de pinchar. 

Prefiro muito o desenho da pedra antiga. 

(3) Místicos, liv. 4.», fl. 78 V. 

(4) Livros do Carmo de Lisboa, n.° 10, Alvarás antigos, fl. 11. 

(5) Provas da Historia genealógica, vol. 3.», pág. 5 18, n.° 37. 



Apêndice 257 

do-se «D. Fernando, neto d'el-rei, filho do conde de Barcellos t (i). Contudo 
numa carta régia de i de Dezembro de 1424, portanto muito anterior à con- 
firmação do título, é D. Fernando intitulado conde de Arraiolos (2). Daqui 
se deve concluir que o título foi reconhecido a D. Fernando em virtude da 
doação do avô, e por isso o ponho na data dela. O mesmo havia de ter 
sucedido com D. Afonso, conde de Ourém, irmão do conde de Arraiolos. 

Foi este em 1465 o /."'marquês de Vila Viçosa, e em 1461 o 2.° duque 
de Bragança. Vide. 

Casou em 1429 com D. Joana de Castro, condessa de Arraiolos, e 
tempos depois marquesa de Vila Viçosa e duquesa de Bragança. 

i.° Conde de VILA REAL. — Existente já nos princípios de 1424. — 
D. PEDRO DE MENESES, capitão e governador de Seuta. — É muito 
difícil precisar datas quanto ao primitivo condado de D. Pedro. « E pêro 
que elle fosse conde feito em Castella, el-rei (D. João I) nunca lhe quiz dar 
semelhante autoridade, nem o chamou conde senão depois que por algum 
tempo regeo aquella capitania» (3), a de Seuta. D. Pedro de Meneses era 
filho do i."" conde de Viana D. João Afonso Telo, que morreu em princípios 
de i384, e portanto, se D. Pedro foi feito conde por D. João I de Castela, 
devia tê-lo sido logo depois da morte de seu pai, que por partidário daquele 
rei fora assassinado. Não lhe foi reconhecido em Portugal o título, que o 
cronista diz ter sido de um lugar chamado Ilhó, o que não obstou contudo a 
que êle fosse tratado por conde D. Pedro; e até num documento público de 
I de Março da era de 1445 (1407) julgo encontrá-lo com o título (4). Não 
havia nestes tempos condes sem condados, nem sem reconhecimento de el Rei, . 
e portanto não devo antecipar neste catálogo cronológico a menção do conde 
D. Pedro, que se já antes de o ser de Vila Real, era nomeado conde, repre- 
sentava isso apenas um tratamento de cortesia. 

Tomada Seuta a 21 de Agosto de 1415, ficou lá por capitão D. Pedro de 
Meneses, que só em 1424 tornou ao reino com licença. Foi então que 
D. João I lhe deu Vila Real com o título de conde. Confirmando a asserção 
do cronista (6) direi que se encontra a D. Pedro com o título de conde 
de Vila Real em duas cartas ambas daquele ano de 1424. Uma de 14 de 



(i) Livros do Carmo de Lisboa, n.» lo, fl. lo. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. 3.% pág. 525, n.» Sg. 

(3) Chronica do conde D. Pedro, pág. 222, repetido por outras palavras a pág. 52 1. 

(4) No instrumento da compra da quinta de Pousafoles que está a fl. 87 v. do liv. i." da 
Chancelaria de D. Duarte, mas em resumo, e por isso não posso ter a certeza de no docu- 
mento original se dar o título de conde a D. Pedro, 

(5) Chronica do conde D. Pedro, pág, 52 1. 

VOL. ni ^ 33 



258 Brasões 

Fevereiro de confirmação da lezíria do Galego em Santarém (i); a outra de 
19 de Maio de licença para fazer na ribeira do Almonda junto a Torres 
Novas, desde a queda de água que saia dos seus moinhos, até à mãe de 
água da ribeira, os artifícios de azeite e moendas que lhe aprouver (2). Em 
princípios de 1484 Já D. Pedro de Meneses era conde de Viana, e seu genro 
D. Fernando de Noronha conde de Vila Real, a quem com aprazimento do 
sogro foi dado o senhorio desta vila por carta de 7 de Setembro do mesmo 
ano (3). 

Para as restantes modificações acerca do conde D. Pedro vide o artigo 
seguinte. 

CONDADOS DE VIANA (4) 

Houve dois. O primeiro foi o de Viana de Foz do Lima ou Viana de 
Caminha; o segundo, o de Viana do Alentejo, ou Viana de apar de Alvito. 

Do primeiro foram condes os seguintes fidalgos: D. Álvaro Pires de 
Castro por carta de i de Junho de iSyi, e que conservou o condado até 
proximidades de i375, em que já era conde de Arraiolos; D. Duarte de Me- 
neses, por carta de 6 de Julho de 1460, e que possuiu o condado até Janeiro 
de 1464 em que morreu; e D. Henrique de Meneses, filho de D. Duarte, 
que é intitulado conde de Viana em Março e Junho de 1464, e que foi ainda 
conde de Valença em 20 de Julho do mesmo ano. 

Do segundo foram condes: D. João Afonso Telo, que já possuía o con- 
dado em 10 de Abril de iSyô, não havendo a certeza de quando nele fosse 
investido, e que o teve até morrer em Janeiro de 1384; e D. Pedro de Me- 
neses, filho de D. João Afonso, que Já era conde de Viana em 20 de Janeiro 
de 1434 apesar de só ter carta do condado em 18 do seguinte Abril, e que, 
como seu pai, o disfrutou até à morte, que foi a 22 de Setembro de 1437. 

Quanto ao primeiro condado, e os de Viana do Minho, são duas as cartas 
de criação dele a favor de D. Álvaro e de D. Duarte, sabendo-se que 
D. Henrique, o pouco tempo que o teve, foi por sucessão a seu pai. Quanto 
ao segundo, o de Viana do Alentejo, também não há dúvida, apesar de faltar 
a carta de doação dele a D. João Afonso Telo, porque se sabe pela carta 
de doação que Viana dada em condado a D. Pedro de Meneses, era a per- 
tencente às capelas de D. Afonso IV, e a mesma de que seu pai, D. João 



(1) Chancelaria de D. João /, liv. 4 °, fl. 66 v. 

(2) Ibidem, fl. 83. 

(3) Chancelaria de D. Duarte, liv. i», fl. 84. 

(4) [O A. colocou nesta altura esta nota, que antecede o artigo relativo ao 2.° conde de 
Viana do Alentejo, D. Pedro de Meneses. — Nota da revisão]. 



Apêndice 259 

Afonso Telo, já fora conde, como também expressamente o declara o refe- 
rido documento, que serve de prova, e bastante, para os dois condados. 

Viana do Alentejo havia pertencido ao 2.° conde de Barcelos, D. Martim 
Gil, e por sua morte, em fins de i3r2, ou pouco depois, regressara para a 
coroa. Pouco tempo depois D. Denis, por carta dada em Torres Vedras 
a 9 de Novembro da era de i35i (i3i3), criou vila a Viana, dando-lhe por 
terras Alvito, Vila Nova, Vila Ruiva, Malcabrão, Benalbergue e Oriola. 
Então obrigaram-se, o concelho e moradores da nova vila, a lhe fazer cerca 
de muro, em que seja a vila, no lugar que lhe el Rei mandar, e que recolha 
dentro a fonte grande de que então se servia a povoação. Deverá o mesmo 
ter quatrocentos braças de circuito, uma de ancho, e em alto ser quanto 
puder atingir um cavaleiro em cima de um cavalo com uma lança de nove 
côvados, que não possa ferir nem dar com ela ao que estiver entre as ameias. 
Terão de fazer a essa cerca três portas em lugares convinháveis, e a cada 
porta dois cubelos bons, um duma parte da porta, outro da outra. Para a 
obra dá-lhe el Rei prontamente mil libras de ajuda, obrigando o concelho a 
meter logo mãos a fazer e lavrar o mesmo, e a não alçar dele mão até que 
lhe dê cabo (i). 

Menos de um ano depois fez D. Denis doação das vilas de Viana e de 
Terena, que haviam sido do conde D. Martim Gil, e que eram situados no 
bispado de Évora, a seu filho primogénito herdeiro, o infante D. Afonso. A 
carta foi dada em Lisboa a 16 de Outubro da era de i352 (i3i4), e a doação 
foi feita ao infante para ele e sucessores, com a condição de não poderem 
dar a vila a ninguém, salvo a sua mulher a infanta D. Beatris (2). 

Vinte e tantos dias antes de morrer, em Lisboa a 4 de Maio de iSSy, fez 
D. Afonso IV doação a sua mulher a rainha D. Beatris, para a sua capela 
da vila de Viana em Entre Tejo e Guadiana, com suas terras, padroados e 
jurisdição cível (3). 

Entrou portanto nesta ocasião a vila de Viana para a posse das capelas 



(i) Chancelaria de D. João 11^ liv. ly.", fl. 70, Collecçao de diplomas e mais documentos 
e titulos respectivos á instituição, dotação, privilégios das Capellas e Merciarias instituidas 
por o Senhor Rei de Portugal D. Afonso JV, e de sua mulher a Senhora Rainha D. Beatris, 
ms. em meu poder, fl. 119. 

(2) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.», fl. 88 v., cit. Colleção, fl. 117 v. 

(3) Chancelaria de D. João IJ, liv. 17.», fl. 64 em diante onde se encontram muitos 
documentos respeitantes às capelas, cit. Collecçao, fl. 23 v. Um dos primeiros actos do rei- 
nado de D. Pedro I foi confirmar em Lisboa, a 8 de Junho do mesmo ano de i357, à rainha 
sua mãe a referida doação {Chancelaria de D. João II, liv, 17.°, fl. 88 v., e cit. Collecçao, 
fl. 24 v.). Esta senhora no ano seguinte, pousando emFontelo na câmara do bispo de Viseu, 
fez, em 1 1 de Janeiro, doação entre outros bens da vila de Viana à capela e mesquital que 
■com seu finado marido, havia ordenado de fazer em Lisboa {Ibidem, e cit. Collecçao, fl. 22). 



26o Brasões 

de D. Afonso IV e de D. Beatris; mas nem sempre nelas persistiu, apesar 
da doação ter sido feita em perpetuidade. 

Nas capelas se conservava ainda a vila em 20 de Abril da era de 1402 
(i364) data de uma carta, em que D. Pedro I manda que as apelações dos 
feitos civis de Viana venham ao provedor das capelas (1), que a possuíram até 
ao ano de iSyS ou ainda por mais alguns, pois que certeza só tenho da vila 
constituir já o condado de D. João Afonso Telo em 10 de Abril de 1376(2). 
Saiu então pela primeira vez esta rica povoação da piedosa instituição, que 
vinculada, para ir constituir o condado de um protegido e parente da rainha 
D. Leonor Teles. Pouco tempo porém o possuiu ele, pois que tragicamente 
perdeu a vida, em princípios de 1884 assassinado pelos seus vassalos de 
Penela por seguir o partido castelhano. 

Havia Viana sido trocada por certos bens, não sei quais, mas de muito 
menor rendimento do que a vila, como se infere da carta de 2 de Abril da 
era de 1424 (i386), pela qual D. João I no arraial de sobre Chaves ordenou 
que as capelas voltassem e fossem restituídos todos os prédios delas alheadas 
no reinado de D. Fernando (3). Já então era morto, como fica dito, o 
i.° conde de Viana do Alentejo, e no senhorio da vila parece que lhe havia 
sucedido sua mãe, a condessa D. Guiomar, com quem ainda trazia demanda 
em 1402 o provedor das capelas (4). 

Meio século certo depois da morte do i." conde de Viana tornou esta vila 
a ser desmembrada das capelas, e a formar novamente condado, o de 
D. Pedro de Meneses, que foi 2.° conde desta Viana, que era filho do i.®, e 
que já com o título se encontra em documento de 20 de Janeiro de 1434(5). 
Também por pouco tempo possuiu 02.° conde a vila, por isso que morreu a 
22 de Setembro de 1437, havendo, durante a sua posse, sido confirmados 
ao concelho e homens bons de Viana de Alvito todos os seus privilégios, 
foros, liberdades, e bons costumes, por carta de 21 de Dezembro de 1434(6). 

Morto o conde a 22 de Setembro, logo a 9 do mês seguinte mandou 
el Rei D. Duarte que a vila de Viana com seu termo, rendas e jurisdição 
fosse retornada às capelas de D. Afonso IV e de D. Beatris (7). 

Ainda desta vez não ficaram eles na posse da sua cobiçada Viana, por 
isso que D. Afonso V, por carta dada em Lisboa a 27 de Janeiro de 1460, 



(1) Git. Collecção, n. 84. 

(2) Livro 3." dos Brasões f pág. 246. 

(3) Git. Collecção, fi. 86, 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 17.°, fi. 64, e cit. Collecção, fl. 21 v. 

(5) Livro 3° dos Brasões, pág. 263. 

(6) Chancelaria de D. Duarte, liv. 1.°, fl. 48 v. 

(7) Git. Collecção, fl. 71 v. 



Apêndice 26 r. 

fez doação a D. João, seu sobrinho, filho do marquês de Vila Viçosa seu 
primo, da vila de Viana em troca da renda dos tabeliães de Lisboa, que era 
de 1 17.500 reais brancos, e de metade da quinta de Ilhas no termo de Mafra, 
que rendia 9.000 dos mesmos reais (i). 

Pouco mais de um ano pertenceria a vila ao seu novo e último senhor, 
■visto que D. Afonso V, por carta de 4 de Setembro de 146 1, mandou ao corre- 
gedor da comarca de Entre Tejo e Guadiana, que se não intrometa na eleição 
-de juízes que em Viana fizera nesse ano Pêro de Abreu, cavaleiro de sua 
<:asa e alferes mor da bandeira de S. Jorge, que tinha cargo de provedor 
das capelas (2). 

Algum tempo depois mandou D. Afonso V uma bem notável carta régia, 
da qual transcreverei o substancial. 

Em seguida a um largo preâmbulo, diz el Rei « a nossa noticia veio, 
■que sendo a instituição das capellas assim dotada por D. Afonso IV e D. Bea- 
tris de algumas terras, e possessões para seu mantimento e governança. .., 
e entre ellas assim foi a villa de Viana do Alemtejo com toda sua jurisdição; 
a qual por ser muito boa e de frutos avondosa, de muitos fidalgos e nobres 
foi sempre desejada, em tanto que nos tempos passados muitos delles reque- 
riam aos reis d'ante nós que lhe fizesem d'ella mercê. E pêro alguns por 
suas importunidades tal mercê fosse feita, e a dita villa de Viana por vezes 
da dita instituição individamente foser desmembrada e apartada e lhes fosse 
outorgada, vendo Nosso Senhor Deus, que tal desmembração e apartamento 
contra serviço seu e saúde das bemaventuradas almas do dito rei e rainha 
era feita, assim como aquelle que pode ferir e dar saúde, e de cuja mão 
nenhum pode escapar querendo-os da sua vara ferir por seus indébitos re- 
querimentos, permitiu serem punidos por tal, que, os que depois viessem, 
podessem de elle tomar o exemplo; o que não só por uma vez mas por 
muitas, foi visto e experimentado em aquelles que a pediram em vida de 
>el-rei D. Fernando, e assim no tempo de el-rei D. João e eí-rei D. Duarte. 
Pelas quaes causas os reis, que, assim das ditas capellas desmembraram 
«m seus tempos, muito eram arrependidos. E, sendo assim a dita villa vaga 
em tempo de el-rei meu senhor e padre por morte do conde D. Pedro, que 
o proveu e pesuiu e não sem muita e grande enfermidade, o dito rei meu 
padre a fez logo ás ditas capellas restituir com tenção de nunca mais ser 
tirada ás ditas capellas; e tendo assim as capellas delia a posse, sendo nós 
com grande instancia requerido. . .» (3). 



(i) Místicos, liv. 3.», fl. 53. 

(2) Cit. Collecçâo, fl. 139. 

(3) Chancelaria de D. João II, liv. 17.», fl. 83, e cit. Collecçâo, fl. 140 v. 



202 Brasões 

Até aqui são idênticos nas duas fontes citadas os dizeres deste documento; 
<laqui em diante porém diferem muito, e a razão parece-me ser de fácit 
alcance. A Chancelaria era um registo oficial ; para êle não convinha neste 
caso trazer o nome de um próximo parente do rei, ao qual em virtude da 
sua cobiça a ira de Deus ferira. Por isso, ao trasladar-se ali o documento 
passou a referência a ser impessoal: «requerido depois de alguma outra 
pessoa etc. ». Na Colleção dos documentos das capellas não tinha de haver 
o mesmo resguardo, até convinha não o haver para conservar a ameaça do 
castigo afugentando outros cobiçosos, e por isso se transcreve a carta na ín- 
tegra e como fora originariamente escrita. Adoptarei pois no restante da 
transcrição, em toda a parte onde difere da Chancelaria a cópia da ColleçãOy 
não só por ser mais interessante, mas também porque me parece mais verda- 
deiro e conforme com os documentos lá em cima citados. 

Continuo pois: «... sendo nós com grande instancia requerido de D. João 
nosso muito amado sobrinho, que lhe desemos a dita villa de Viana em es- 
cambo por outra tanta renda em esta cidade de Lisboa para a dita instituição 
apropriada por nos parecer coiza honesta e fazedoira lho outorgamos, e con- 
sentindo no dito escambo, prouve ser feito. E, não embargando que em 
escambo, por autoridade ordinária e do prelado a que pertencia, e apostólica 
do Santo Padre Pio sendo que ora é na egreja de Deus presidente fosse con-^ 
firmado, não é de duvidar depois da posse da dita villa por sua parte tomada,^ 
querendo o Nosso Senhor Deus em ello mostrar seu milagre, mui doridas e 
trabalhosas enfermidades padeceu, sendo-lhe dito por homens de boa vida, 
que não leixando a dita villa não poderia d'elle guarecer. E, havendo o dita 
D. João esta noticia das coisas que aquelles, que a dita villa pediram no 
tempo dos reis ante nós aconteceram, e sendo em verdadeiro conhecimento 
que suas infermidades e dores não era somente a admoestação de Noso 
Senhor Deus ao qual não prazia a dita villa ser tirada ós Gapellos..., com 
a carta do escambo e confirmação do Santo Padre, e com todalas outras 
escrituras que sobre ello tinha, por [Fernão de Lemos, seu escudeiro, que 
nós todas suas infermidades e paixões de sua parte contou em a nossa villa 
de Santarém onde emtão estávamos, em nossas mãos mandou renunciar 
enviando-nos pedir por mercê, que pello amor de Deus lhe outorgássemos 
que este logar nunca mais em nossos dias o déssemos a alguma pessoa, e 
qye asim o leixassemos por benção a nosos filhos e herdeiros, e descendentes. 
Sendo a isto presente o infante D. Fernando, meu muito presado e amada 
irmão, e certos do nosso conselho, e sendo outrosi presente Pêro de Abreu, 
cavalleiro da nossa casa e noso alferes mór da bandeira de S. Jorge, e pro- 
vedor das ditas Capellas, o qual sempre nos requereu que a dita villa ás ditas 
capellas não quizesemos tirar, e que a ello não daria nunca seu parecer e 



Apêndice 26? 

consentimento. E nós vendo e consirando sobre as coizas tão maravilhozas 
-que o Nosso Senhor Deus tão milagrozamente por conservação da dita insti- 
tuição quiz obrar, querendo-nos conformar com sua vontade que pellas coisas 
susoditas manifestamente nos declarou, conhecendo quanto com razão nós 
nem o que depois de nós vierem contra ello em parte alguma não devemos ir, 
desejando em todo e por todo em sua posse liberdade e jurisdição o manter, 
■como somos teudo por esta presente mandamos e defendemos ao principe 
D. João, meu sobre todos presado e amado filho, e ao infante D. Fernando, 
"duque de Vizeu e de Beja e senhor de Covilhã e de Moura, meu muito pre- 
sado e amado irmão, e a todos os que de nós descenderem, sob pena de 
nossa benção, e maldição, se o contrario fizerem, que depois de nossos dias 
não tentem, nem presumão tentar mais o Senhor Deus de em este caso, nem 
«m coisa alguma contra que em desfasimento, apartamento, nem desmem- 
bração das rendas, liberdades, jurisdição da dita instituição seja; nem dêem, 
nem consintam dar, trocar, nem alhear, nem escanlar a dita villa de Viana, 
terras, possessões, nem heranças que á dita instituição pertençam, a nenhuma 
pessoa; porque, conhecendo nós verdadeiramente, que a Deus aprás de o 
conservar manter, nossa ultima vontade de o conprir assim a Elle prometemos 
por nossa fé real. . .» 

Foi passado este interessante documento, que atesta bem a fé viva e pura 
crença daqueles tempos, em Lisboa a 2 de Outubro de 1461. 

2." Conde de VIANA [do Alentejo] — Anterior a 8 de Maio de 1433, se- 
gundo consta de uma carta daquela data para se lhe passar uma certidão da 
Torre do Tom.bo(i), e a 12 de Janeiro de 1434. — D. PEDRO DE MENE- 
SES, conde de Vila Real, almirante do reino, capitão e governador de Seuta, 
e alferes mor. — Encontro a D. Pedro com o título de conde de Viana na 
carta de nova confirmação da lezíria do Galego em 20 de Janeiro de 1434(2); 
porém já antes o era, pois que numa carta de^i2 desse mesmo mês nos 
aparece seu genro intitulando-se conde de Vila Real (3), condado que o sogro 
lhe não largaria sem ter já o outro. A carta de conde de Viana contudo é 
só de 18 de Abril (4). Nela diz D. Duarte que faz esta mercê ao conde 
D. Pedro, considerando o grande desejo que D. João I tinha de lhe dar e 
doar a vila de Viana para haver por ela título de conde, assim como já em 
outro tempo teve seu pai; mas que por ela pertencer às capelas de 



(i) Historia genealógica, vol. IV, pág. Si-Sa. 

(2) Chancelaria de D. Duarte^ liv. i.°, fl. 86. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34.», fl. 63 v. 

(4) Chancelaria de D. Duarte^ liv. i.°, fl. 88. 



264 Brasões 

D. Afonso IV entendeu não poder dispor do seu senhorio sem autoridade do 
papa, que só agora lha deu, etc. 

Encontro referência a uma carta de D. João I de 8 de Maio de 1433, em 
que se dão a D. Pedro os títulos de conde de Viana e senhor de Vila Real (i); 
mas o autor que a cita engana-se tão frequentemente, que em vista do que 
se declara na carta de mercê do condado, julgo ter havido mais uma vez má 
leitura. 

Morreu o conde de Viana em Seuta, depois de vinte e dois anos de ca- 
pitão desta cidade, a 22 de Setembro de 1437 (2), e foi trasladado para o 
convento da Graça de Santarém. 

Armas: cortado de um traço, partido de dois, o que faz seis quartéis: o 
i.°, 3.® e 5." de oiro, dois lobos passantes e sotopostos de púrpura; o 2.", 4.** 
e 6." de oiro, quatro palas de vermelho; e sobre o todo de oiro, liso. 
Timbre: cabeça e pescoço de um dos lobos, saindo duma cabeça de cervo 
com sua pele que reveste o elmo à moda de paquife. (/." Vilalobos; 2.^ Limas. 
Meneses). Divisa: Aleo. 

Casou a i.* vez com D. Margarida de Miranda, que jaz no mesmo túmulo 
do marido, e a quem o epitáfio chama condessa. Era filha de D. Martinho 
de Miranda, arcebispo de Braga. Deste casamento ficou descendência em 
que se continuou a casa. 

Casou a 2.* vez em 1420 com D. Felipa Coutinho, filha do marichal 
Gonçalo Vasques Coutinho (3). Parece, pelo que diz Azurara no lugar 
citado, que este casamento se não consumou, porque a noiva, vindo ter com 
o marido a Seuta morreu no mar pouco afastada da costa do Algarve. O 
cronista faz algumas confusões com os casamentos do conde D. Pedro; eles 
também foram tantos ! 

Casou a 3.* vez a 17 de Agosto de 1426(4), com D. Beatris Coutinho, 
que foi condessa de Vila Real (5). Assim o diz o cronista, e efectivamente 
numa carta de 26 de Agosto daquele ano fez D. João I mercê a D. Beatris 
Coutinho, que herdara a terra de Aregos por falecimento de seu pai Fernão 
Martins Coutinho, de por morte dela passar a dita terra a suas filhas, caso 
não tivesse filhos do conde D. Pedro, com quem el Rei a casava (6). Fernão 
Martins Coutinho, pai da condessa, também foi senhor de Mafra e Ericeira,. 



(i) Historia genealógica, vol. 4.°, pág. 3i. 

(2) Assim o declara o epitáfio de acordo com a Chronica do conde D. Pedro, no capí» 
tulo final. 

(3) Ibidem, pág, 496. 

(4) Vide no Archivo histórico portuguez, vol. IV, pág. 166. 

(5) Chronica do conde D. Pedro, pág. 568. 

(6) Chancelaria de D. Duarte, liv. !.• fl. 87. 



Apêndice 265 

senhorios que, com o de Aregos, passaram à filha que deste casamento teve 
o conde de Viana, a qual os levou aos Vasconcelos condes de Panela e 
senhores de Mafra, que por esta via se chamaram de Meneses. Viveu a 
condessa D. Beatris pouco tempo depois de casada, e já era morta em 
1430(1). 

Casou pela 4." vez, antes de 8 de Maio de 1433 (2), com D. Genebra que 
foi condessa de Vila Real e depois de Viana, e que era filha do almirante 
Carlos Pessanha, que deu em dote a esta sua filha o almirantado, ofício que 
o conde D. Pedro exerceu, mas que voltou para o sogro por deste casamento 
não terem vindo filhos (3). 

Do 2.° conde de Viana foi filho bastardo o 3.° 

2.® Conde de VILA REAL. — Anterior a 12 de Janeiro de 1434. — 
D. FERNANDO DE NORONHA (4), sobrinho de el Rei, do seu conselho 
e camareiro mor do infante D. Duarte. — Numa carta de confirmação da 
referida data encontra-se a D. Fernando com o título de conde de Vila 
Real (5); por estes tempos já o sogro, o i.° conde, era conde de Viana, e 
quando recebeu este condado pode-se crer que largaria o outro ao genro. 
Esta suposição é confirmada pela carta de 7 de Setembro do mesmo ano de 
1434, pela qual, com aprazimento do conde D. Pedro, foi feita mercê do 
senhorio de Vila Real ao conde D. Fernando (6). Foi este o 2.° capitão de 
Seuta, em que sucedeu a seu sogro, dizem que por carta de 18 de Outubro 
de 1437(7). Serviu oito anos de capitão de Seuta, e lá morreu (8) pouco 
antes de 3 de Junho de 1445 (9). A 2 de Junho já tinha morrido (10), 

Armas: esquartelado: a i." e 4.° das armas do reino diferençadas por 
um filete de negro sobreposto em barra; o 2.° e 3.° de vermelho, castelo de 
oiro, o campo mantelado de prata com dois leões batalhantes de púrpura, 
armados de vermelho, e bordadura de escaques de oiro e veiros. 



(i) Chronica. do conde D. Pedro, pág. 568. 

(2) Historia genealógica, vol. 4.", pág. 3i. É a carta a que já no texto me referi com 
algumas dúvidas sobre a sua leitura, mas não sobre a data. 

(3) Livro de Extras, fl. io5 v. 

(4) Loronha é que está escrito neste documento, e noutros desses tempos. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34.°, fl. 63 v. 

(6) Chancelaria de D. Duarte, liv. i .", fl. 84. 

(7) Historia genealógica, vol. 5.°, pág. 194, que ainda não encontrei noutra parte. 

(8) Assim o diz a carta de 6 de Abril de 1451 do condado de juro a seu filho, nas Con^ 
firmações gcraes, liv. 5.", fl. 94 v. 

(9) Data da carta do título em vida ao filho por morte do pai, na Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 25.°, fl. 44 v. 

(10) Carta de perdão dessa data, nos Documentos das Chancelarias Reaes, vol. I, pág. 577. 
VOL, III 34 



^66 Brasões 

Casou depois de i8 de Outubro de 1480 (data da carta de aprovação do 
contracto esponsalício na qual se declara que ele «entende ora casar») com 
D. Beatris de Meneses (i), condessa de Vila Real, filha primogénita do 
2.° conde de Viana e i.° de Vila Real. A condessa ainda vivia, a 28 de 
Maio de 1435 (2). 

Tiveram descendência. 

i.° Conde de MARIALVA — 1440, em Setembro. —VASCO FER- 
NANDES COUTINHO, marichal. — Em 3o de Julho de 1440 expediu-se 
um alvará para se pagar a tença e moradia ao marichal (3); e pelo mesmo 
documento citado consta, que a 29 de Agosto se passou carta, dando certa 
quantia de graça a Gonçalo Vasques Coutinho, filho do marichal. Vê-se 
pois que até então ainda este não era conde. A 28 de Setembro porém 
desse mesmo ano de 1440 foi nomeado procurador dos resíduos no almoxa- 
rifado da Torre de Moncorvo um criado do conde de Marialva (4). A juris- 
dição desta vila foi dada a D.Vasco Fernandes Coutinho, conde de Marialva, 
«uma das notáveis pessoas de nossos reinos», por carta de 2 de Outubro 
de 1440 (5). Foi ele encarregado do corregimento do castelo da, vila de 
Trancoso, de que era alcaide mor, e para custeio das obras lhe foi feita 
doação, em 2 de Outubro de 1441, da colheita da mesma vila desde o i.° de 
Janeiro do referido ano (6). 

Morreu o conde em 1450, e foi sepultado no mosteiro de Salzedas (7). 

Armas: de oiro cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. (Coutinho). 

Casou, sendo ainda vivo seu pai o marichal Gonçalo Vasques Coutinho, 
e precedendo contracto aprovado por el Rei em 12 de Maio da era de 1450 
(141 2), com D. Maria de Sousa, filha de D. Lopo Dias de Sousa, mestre de 
Cristo (8). Foi, D. Maria condessa de Marialva, e havia sido legitimada por 
carta de 3 de Janeiro da era de 1436 (1398) (9). O contracto de casamento 
foi confirmado em 3i de Março de 1462 à condessa já viúva (10), a quem 



(1) Chancelaria de D. João I, liv. 4.°, fl. 118. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. i5.°, fl. 53. 

(3) Carta de quitação de 18 de Maio de 1442 a João Louvado, almoxarife de Lamego 
(Ibidem, liv. 27.», fl. i33). 

(4) Ibidem, liv. 2.°, tí. 63. 

(5) Ibidem, n. 63 \. 

(6) Místicos, liv. 3.», fl. 148 v. 

(7) Chronica de Cister, liv. 5.", cap. 2.». 

(8) Chancelaria de D. Afonso V, liv, 12°, fl. 3o. 

(9) Chancelaria de D. João I, liv. 2.°, fl. 167. 
(ro) Chancelaria de D. Afonso V, liv. i2.">, fl. 3o. 



V Apêndice 267 

por carta de i5 de Abril seguinte foram concedidos privilégios cte vassalo 
para a correição da Beira, «por quanto é dona viuva e generosa» (1). 

Morreu a condessa em 1472, e foi sepultada junto ao marido (2). A 28- 
de Julho de 1466 ainda vivia (3). ^ 

Tiveram descendência. 

i.° Duque de BRAGANÇA — 1442, muito antes de 3o de Dezembro. — 
D. AFONSO, 8." conde de Barcelos, filho bastardo e legitimado de D. João I. 
— A 28 de Outubro de 1442 ainda D. Afonso assinava ho conde numa carta 
dirigida ao cabido de Guimarães (4). Ainda se pode encurtar mais este 
período. Efectivamente aos 8 de Novembro de 1442 ainda D. Afonso era 
simplesmente conde de Barcelos; consta da carta daquela data de nomeação 
de capitão e coudel mor dos besteiros e vassalos de cavalo dado a Fernando 
Alvares de Sernache a pedido do conde de Barcelos tio de el Rei (5). Em 
Janeiro de 1442 tiveram lugar as cortes de Évora, e terminadas elas partiu 
D. Afonso V com o regente para o Porto. Estando eles em Évora morreu 
D. Duarte, senhor de Bragança, e o senhorio desta vila foi dado ao conde 
de Barcelos, que logo pelo regente foi feito e intitulado duque de Bragança (6). 
Aparece porém uma carta datada de Sacavém a 3 de Março de 1440, pela 
qual é feita certa concessão a João Veloso, escudeiro do duque de Bra- 
gança (7). Esta carta contudo só foi registada bastante depois de ser conce- 
dida, por isso que se encontra transcrita a seguir a um documento de 1443. 
Neste ano já o conde de Barcelos era duque de Bragança, e o escrivão que 
trasladou a carta de 1440 pôs o novo título em lugar do antigo. É a única 
explicação plausível do facto, porque dúvida nenhuma pode haver de que em. 
1440 ainda não existia o ducado de Bragança. Para o provar bastará citar 
a carta de 3i de Julho de 1441 de confirmação do senhorio do couto e honra 
de Vila Marim ao « conde de Barcellos meu muito amado tio » (8). Existe 
também a carta dos privilégios dos boticários, que foi impetrada pelo duque 



(i) Chancelaria de D. Afonso F, liv. i5.», fl. 84 v. 
(a) Chronica de Cister, liv. 5.», cap. 2.". 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 38.», fl. 49. 

(4) Documentos da collegiada de Guimarães, maç. 12. 

(5) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 23.", fl. 112. 

(6) Chronica de D. Afonso V, págs. 335, 33/ e 342. 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 27.», fl. 17. 

(8) Impressa na íntegra por J. A. de Figueiredo nas Memorias sobre as Behetrias, do- 
cumento n.° II a pág. 177 do vol. i.» das Memorias de litteratura da Academia, Para re- 
forço citarei também uma carta dirigida pelo infante D. Pedro ao conde.de Barcelos {Provas 
da Historia genealógica, vol. 3.°, pág. 493, n.<* 17. 



268 Brasões 

de Bragança, e que J. P. Ribeiro trás com a data de 17 de Março de 1442(1); 
mas não adianta nada, visto que a referida data não está certa. Alegra-se 
um humilde discípulo vendo o grande mestre enganar-se, porque espera com 
isso alcançar para si benevolência. A carta dos boticários encontra-se no 
lugar citado por J. P. Ribeiro, com a data porém de 22 de Abril de 1449(2), 
e acrescentarei que é documento de nenhuma valia, consistindo apenas numa 
cópia tosca sem autenticidade. O certo é D. Afonso ser já nomeado duque 
de Bragança na carta de 3o de Dezembro de 1442, na qual lhe é concedida 
autorização régia para dar a terra de Castro Daire a Fernão Pereira (3). 
Por carta de 4 de Julho de 1449 teve o duque a mercê de, logo que morra 
o senhor cia casa, se poder chamar o sucessor duque de Bragança e conde 
de Barcelos (4). 

Morreu D. Afonso em Dezembro de 1461, e foi sepultado na igreja ma- 
triz de Chaves, sendo daí trasladado depois para a capela mor do convento 
de S. Francisco da mesma vila. 

O duque de Bragança nunca teve o título de infante, como alguns desa- 
certadamente lhe dão. 

Armas: de prata, aspa de vermelho, carregada de cinco escudetes de azul 
sobrecarregado cada um de dez besantes de prata. Timbre: cavalo branco 
de sua cor, nascente, com três lançadas em sangue no pescoço, bridado de 
oiro, e com a cabeçada e rédeas de vermelho. (Braganças, primeiras). 

Casou a i.*^ vez, a 8 de Novembro de 140 1, com D. Brjtes Pereira, con- 
dessa de Barcelos, como fica dito, de quem teve geração. 

Casou a 2.^ vez em 1420 com D. Constança de Noronha, condessa de 
Barcelos, e duquesa de Bragança, que morreu em 26 de Janeiro de 1480, 
tendo depois de viúva tomado o hábito de terceira de S. Francisco, e dei- 
xando perfilhado a seu sobrinho o 3.° conde de Vila Real. Era filha dos 
condes de Gijon e Noronha, D. Afonso e D. Isabel. Deste segundo casa- 
mento do duque não houve descendência. 

•3.« Conde de VILA REAL— 1446, Junho 3. — D. PEDRO, sobrinho 
de el Rei, filho de D. Fernando de Noronha, «nosso primo que Deus haja». 
— Por carta da referida data mandou el Rei que D. Pedro de Meneses fosse 
conde de Vila Real, podendo-se chamar logo conde da dita vila, posto que 
ainda lhe não tivesse feito aquela cerinjiónia, que se costuma, aos que são 



(i) Aditamentos á Synopse Cronológica, pág. 120. 

(2) Corpo Chronologico, parte i.*, maç. i.', doe. 17. 

(3) Misticos, liv. 3.0, fl. 162 V, 

(4) Provas da Historia genealógica, vol. 3.°, pág. 409, n.» 25. 



Apêndice 269 

feitos condes, a qual, prazendo a Deus, lhe fará depois que a el Rei vier(i), 
O título foi-lhe dado em vida; por carta porém de 6 de Abril de 1461 faz- 
Jhe mercê da vila de Vila Real com seu termo com nome e título de con- 
<dado de juro e herdade; isto em atenção aos serviços de seu avô D. Pedro 
<le Meneses conde de Viana, especialmente em requerer e ter a capitania de 
Seuta por espaço de vinte e três anos, e aos de seu pai D. Fernando de 
Noronha, conde de Vila Real, que depois da morte do sogro teVe a dita ca- 
pitania por oito anos, morrendo ambos lá (2). Por carta de 3o de Junho de 
1460 foi nomeado capitão de Seuta pela maneira como o haviam sido seu 
avô e pai, e depois deste o marquês de Vila Viçosa e o conde de Odemira, 
primos de el Rei, que houve por levantada a homenagem ao último (3). Por 
outra carta de 12 de Abril de 1462 foi ampHada ao conde de Vila Real a 
precedente mercê, sendo-lhe dada a governança da cidade de Seuta pelo 
modo como a houveram os infantes D. Henrique e D. Fernando, isto é, 
podendo dar todos os ofícios da cidade, assim de vedor da fazenda dela, 
tesoureiro mor, contadores, escrivães da fazenda e contos, e recebedores, 
como outros quaisquer que pelos infantes eram dados, assim na cidade como 
no reino (4). Ainda a 24 de Agosto de 1463 se lhe concedeu a faculdade de 
poder deixar, ou nomear, a capitania a qualquer seu filho ou irmão (5); o 
que lhe tornou a ser confirmado em 16 de Janeiro de 1467 (6). Em 5 de 
Abril de 1474 foi por Fernão de Magalhães, fidalgo da casa, e Beatris de 
Mesquita, sua mulher, como procuradores da duquesa de Bragança D. Cons- 
tança, que lhes dera poderes especiais para o caso; foi, repito, perfilhado e 
instituído herdeiro da dita duquesa o conde de Vila Real, seu sobrinho, 
5endo o instrumento de perfilhação, aprovado por el Rei em 14 de Setembro 
ÚQ mesmo ano (7). « O conde D. Pedro de Meneses, do nosso conselho, 
por cargo e mandado foi juiz no feito em que D. Fernando, que foi duque 
■de Bragança, foi julgado á morte», ordena el Rei, por carta dada em 
Abrantes a 17 de Junho de 1483, que este facto não possa trazer nenhum 
prejuízo ao conde (8). Finalmente por carta de 27 de Fevereino de 1489 foi 
criado conde de Ourém^ e a i de Março seguinte feito marquês de Vila 
Real. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 25.°, fl. 44 v. 

(2) Confirmações geraes, liv. 5.°, fl. 94 v. 

(3) Místicos, liv. 3.°, fl. 57. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. i.», fl. 9 v. 

(5) Ibidem, liv. 9.", fl. i32 v. 

(6) Místicos, liv. 3.», fl. 26 v. 

(7) Ibidem, fl. i. 

(8) Chancelaria de D. João Jly liv. 26.°, fl. 1 3o. 



27C> Brasões 

Armas: vide em marquês de Vila Real. 

Casou a 6 de Agosto de 1462 no altar da igreja de Santo Tirso de Riba 
de Ave com D. Beatris, filha do 2.' duque de Bragança D. Fernando (i). 
Para este casamento havia el Rei doado ao conde vinte mil dobras de oiro 
por carta de 22 de Dezembro de 1461 (2). Foi condessa e depois marquesa 
de Vila Real. 

Vide j.° marquês de Vila Real. 

I.» Conde de AVRANCHES — 1446, Agosto 4. — D. ÁLVARO DE 
ALMADA, cavaleiro da Jarreteira. — Por carta da referida data criou Hen- 
rique VI, rei de Inglaterra e França, a D. Álvaro de Almada, já eleito por 
unanimidade e investido na ordem da Jarreteira, conde «Davarans» (Avran- 
ches) no ducado da Normandia (3); e por outra de 9 do mesmo mês mandou 
pagar-lhe em toda a sua vida, em duas prestações iguais, cada ano, a quantia 
de cem marcos (4), sendo logo por outro documento do dia i3 entregues ao 
conde os primeiros cem marcos dentro de uma taça de oiro do valor de 
quarenta marcos (5). Na segunda das cartas apontadas se diz que D. Álvaro 
de Almada era do conselho do rei de Portugal, capitão mor de seus reinos 
e senhorios, e alcaide mor de Lisboa. Este insigne português chamou-se 
antes de conde Álvaro Vasques de Almada, como é nomeado na maioria 
dos documentos, ou Álvaro Vaz de Almada, como o encontro em 28 de 
Agosto de 1444 numa doação de bens em Abrantes (6). Depois de conde 
passou a chamar-se D. Álvaro de Almada, fazendo como vários outros 
condes, que depois de o serem largaram o patronímico, os que o tinham, é 
claro. Com o nome de D. Álvaro de Almada, conde de Abranches (à por- 
tuguesa) o encontro em cartas de 22 de Junho e 22 de Julho de 1449(7), só 
com o título em documento de 29 de Maio de 1450(8), todos posteriores ao 
seu falecimento. Servem estas citações não só para provar a mudança de 
nome, mas também para nos certificar de que o título estrangeiro foi reco- 
nhecido em Portugal ainda que se não encontre carta de confirmação dêie^ 
nem mesmo do assentamento que como conde lhe pertencia (9). 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.", fl. 94. 

(2) Místicos, liv. 3.», fl. 255. 

(3) Carta transcrita no Panorama, vol. 13.», pág. 66. 

(4) Ibidem, pág. 67, e na Historia chronologica de Alcobaça, Provas, pág, 48. 

(5) Panorama, cit. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 25.°, fl. 68. 

(7) Misticos, liv. 3.°, fl. 1 14 e Chancelaria de D. Afonso V, liv. i5.", fl. 167. 

(8) Ibidem, \iy. 34.», fl. i32. 

(9) A única pensão, que encontro registada a favor de Álvaro Vásques de Almada, é a 



Apêndice 27 r 

Álvaro Vasques de Almada, cavaleiro e vassalo, havia sido. nomeado, 
por carta de 23 de Junho de 1423, capitão mor da frota, pela maneira por 
que o era Gonçalo Tenreiro em tempo de el Rei D. Fernando, e por que o 
havia sido Afonso Furtado em tempo de D. João I (i). Depois, por carta de 
9 de Abril de 1440, a Álvaro Vasques de Almada, capitão mor, rico homem, 
€ do conselho, atendendo aos seus serviços aos reis D. João I e D. Duarte, 
« aos muitos trabalhos e perigos em que foi « assim fora dos nossos reinos, 
•como em elles», por honra deles, fá-lo D. Afonso V alcaide mor do castelo 
de Lisboa (2). Logo um mês depois a 12 de Maio, encontra-se uma carta 
de D. Afonso V declarando à Câmara daquela cidade, que não tinha permi- 
tido ao alcaide mor, que intentasse acção para se desagravar do que contra 
ele tinham dito e feito alguns oficiais da cidade e a estes recomendou que 
■usem de boa maneira e civilidade. Depois de conde, voltou D. Álvaro 
de Almada para Portugal, onde já estava em Junho de 1446(3). A sua 
estreita amisade com o infante D. Pedro levou-o a acompanhá-lo até ao 
ífim, mesmo na morte nos campos da Alfarrobeira em 20 de Maio de 1449. 
Foi trasladado o seu corpo para a capela de Santo António, ou dos Avran- 
ches, no convento de S. Francisco de Lisboa, onde foi sepultado no chão, no 
meio do pavimento, com este singelo epitáfio: Aqui ja\ um cristão {^. 

Morto o conde de Avrançhes foi-lhe confiscada a casa, e os bens de Ca- 
parica e Almada, doados por carta de 25 de Agosto de 1449, a Álvaro Pires 
<le Távora (5), que era casado com uma irmã da primeira mulher do conde. 
E muito interessante este documento, mas não posso extractá-lo aqui; ficará 
para ocasião mais oportuna, se Deus me der vida, visto que os Almadas 
•constituem o XXIV artigo dos Brasões de Sintra, e deverão ir no livro 3.*. 
Da confiscação só escaparam os bens pertencentes ao espólio da primeira 
mulher, e um morgado instituído por Vasco Lourenço, avô do conde, que 
tudo passou aos filhos do primeiro casamento deste. Dos bens da coroa 
foram muitos confirmados ao filho do segundo matrimónio, como depois 
direi. Na carta de confirmação expressa-se D. Afonso V a respeito do 



de um conto de libras de tença que el Rei D. Duarte arbitrou ao capitão mor por carta de 
29 de Dezembro de 1437, para começar no próximo primeiro de Janeiro, e que foi confir- 
mada no reinado seguinte, a 9 de Março de 1439. Está na Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. 19."', fl. 5i. 

(1) Extras, fl. 170. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 20.°, fl. 85 v., e Freire de Oliveira, Elementos pafa 
a historia do município de Lisboa, vol. i.», pág. 822. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.°, fl. 66 e Archivo histórico portuguez, vol. III, 
pág. 426. 

(4) Historia seráfica, vol. i.", pág. 246. 

(5) Místicos, liv. 3.», fl. 186. 



372 Brasões 

morto da Alfarrobeira por esta forma: «D. Álvaro conde de Abranches^ 
capitão mór dos nossos reinos, rico homem, e do nosso conselho, senda 
nosso vassallo e nosso natural, recebendo, em cada um dia, de nós muitas 
mercês, veio contra nossa pessoa e real estado na batalha que comnosca 
houve o infante D. Pedro á Alfarrobeira, termo de Alverca, no que notoria- 
mente commeteu traição e deslealdade. Por bem do qual malefício, assim 
por leis especiaes, como por ordenações de nossos reinos, alem da pena 
corporal, que por tal erro, traição, e maldade, merecia, seus bens todos a 
nós, e á coroa dos nossos reinos, foram por esse mesmo feito confiscados, 
sem se outra sentença em ello mais requerer. E por assim serem nossos, 
e a nós pertencem, os podemos dar etc. ». 

Armas: de oiro, banda de azul, carregada de duas cruzes floridas do 
campo e vazias da banda, que é acompanhada de duas águias de vermelho, 
armadas e membradas de negro. 

Casou a i.* vez, antes de 2 de Janeiro de 1436(1), com D. Isabel da 
Cunha, que ainda vivia em Dezembro de 1441 (2), mas que não chegou a 
ser condessa de Abranches, pelo menos não aparece com o titulo na carta 
de confiscação, acima citada. Era filha de Álvaro da Cunha, 3.° senhor de 
Pombeiro. Deste casamento descenderam os Abranches, cuja varonia legí- 
tima se quebrou nos fins do xvi século, ou princípios do xvii, D. Álvaro de 
Abranches, capitão de Sofala, passando a casa aos Câmaras, e por último 
aos Noronhas, condes de Valadares. 

Casou a 2.* vez com D. Catarina de Castro, condessa de Abranches, e 
parece que se efectuou o matrimónio já depois de D. Álvaro ser conde, pois 
<iue na carta em que a ela se mandam entregar para pagamento das suas arras 
as casas do conde que estão em Lisboa, se declara ter a condessa apresen- 
tado uma escritura de arras assinada ppr D. Álvaro de Almada, conde de 
Abranches, seu marido (3). O casamento havia sido tratado por el Rei, que 
prometeu à noiva em dote quatro mil e quinhentas coroas de oiro, e, para 
lhas pagar, arbitrou-lhe uma tença por carta de 29 de Maio de 1450 (4), 
Anteriormente a 22 de Julho de 1449, fizera D. Afonso V doação à condessa 
em sua vida, e por sua morte a seu filho maior, dos direitos e rendas do 
sizão dos judeus, de que houvera feito mercê a D. Álvaro de Almada, conde 
de Abranches, seu marido, « que ora morreu na batalha, onde veio com o 



(i) Chancelaria de D. Duarte, liv. i.", fl. i3o v. 

(2) Escritura de escambo extractada por Lousada no vol. 2.° da Torre do Tombo,. 
fi. 54 V. 

(3) Místicos, liv. 3.", fl. 1 14. 

(4) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 34.°, fl. i32. 



Apêndice 27$ 

infante D. Pedro contra nosso serviço» (i). A condessa de Abranches era 
filha de D. Fernando de Castro, governador da casa do infante D. Henrique; 
foi irmã do i." conde de Monsanto, e em 145 1 já tinha tornado a casar com 
D. Martinho de Ataíde, que em 1462 foi o 2.° conde da Atouguia, como logo 
direi. 

Do segundo casamento do conde de Abranches nasceu um filho, que, 
apesar de lhe não ter herdado o morgado, lhe sucedeu no título. 

i.° Conde de ODEMIRA— 1446, Outubro 9. — D. SANCHO DE NO- 
RONHA, primo de el Rei e do seu conselho. — Foi-lhe doada para ele e 
todos os seus herdeiros lídimos a vila de Odemira, e seu termo, da qual o 
faz conde (2). Foi capitão de Seuta por carta de 3o de Maio de 146 1 (3), 
lugar que exerceu até 3o de Junho de 1460, em que lhe foi levantada a 
homenagem (4). Já era falecido em 6 de Maio de 147 1, como declara a 
carta do corregedor de Entre Tejo e Odiana e Diogo Varela, como haviam 
sido os outros corregedores, e como ele o tinha em ouvidoria pelo conde de 
Odemira, adiantado na dita comarca, que se ora finou (5). Em 10 de Janeiro 
de 1475, sua viúva ajusta as contas das partilhas de certos bens do marido 
com os testamenteiros deste (6). 

Armas: as do 2.° conde de Vila Real seu irmão. 

Casou ainda no reinado de D. João I, que lhe fez o casamento, com 
D. Mecia de Sousa, filha de Gonçalo Anes de Sousa, senhor de Mortágua. 
Por cartas de 17 e 25 de Janeiro de 1434 foram confirmados a D. Sancho e 
a D. Mecia os respectivos dotes (7), e por outra de 26 do mesmo mês e ano 
o senhor de Mortágua (8). 

Foi D. Mecia condessa de Odemira, e sobreviveu ao marido, mas já tinha 
falecido a 10 de Novembro de 1497, em que as suas tenças foram confir- 
madas a sua filha a condessa de Faro (9). 

Tiveram descendência. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. iS.", fl. 167. 

(2) Místicos, liv. 3.°, fl. iSgTv. No mesmo livro, a fl. i25 v., está outra carta de criação 
do condado de Odemira passada em 2 de Julho de 1449. A explicação é porque na primeira 
figurava o nome do infante D. Pedro, que foi suprimido na segunda. 

(3) Chancelaria de D. Afonso F, liv. ii.°, fl. 69. 

(4) Místicos^ liv. 3.», fl. 57. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16.», fl. 89. 

(6) Ibidem, liv. 26.% fl. 170 v. 

(7) Ibidem, liv. 34.°, fl. 82 v. 

(8) Misiicos, liv. 3.°, fl. 168 V. 

(9) Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.», fl. 76. 

YOL. ni 35 



274 ' Brasões 

i.° Conde da ATOUGUIA — 1448, Dezembro 17. — ÁLVARO GON- 
ÇALVES DE ATAÍDE, do conselho de el Rei. — Por carta daquela data 
fez-lhe D. Afonso V doação da vila da Atouguia, com seu castelo, têrmo, 
toda a jurisdição, e padroado, e o fez conde da mesma vila(i). , Fora aio 
daquele rei, e depois de conde passou a chamar-se D. Álvaro de Ataíde (2). 

Álvaro Gonçalves de Ataíde, do conselho, e governador da casa do in- 
fante D. Pedro, e alcaide do castelo de Monforte de Rio Livre, carta para 
cinquenta homisiados poderem viver nessa vila para a povoarem. Tentúgal, 
10 de Outubro da era de 1458 (i42o)'(3). 

Álvaro Gonçalves de Ataíde, nosso aio e do infante meu irmão, do nosso 
conselho, mostrou privilégio que lhe foi dado por D. João L — Álvaro Gon- 
çalves de Ataíde, do nosso conselho e regedor da casa do infante D. Pedro 
seu íilho, carta de privilégio para seus caseiros, lavradores, amos e mor- 
domos. Lisboa, 8 de Outubro de 1425. — Confirmada em Santarém, 24 de 
Outubro de 1440 (4). 

D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, conde da Atouguia, mostrou uma carta 
de D. Duarte, e quatro do infante D. Pedro. — Infante D. Pedro, duque de 
Coimbra, etc. pêlos serviços de Álvaro Gonçalves, meu cavaleiro e do con- 
selho de el Rei meu padre, e meu governador da minha casa, doação das 
casas de Chança e do Carvalhal, no têrmo da minha vila de Penela. Lisboa, 
i5 de Junho ano de 1425. — Infante D. Pedro, duque de Coimbra, pelo ser- 
viço de Álvaro Gonçalves de Ataíde, governador de minha casa, doação do 
lugar de Sernache para sempre. Lisboa, i5 de Junho da era de 1425. — 
D. Duarte o infante D. Pedro disse que D. João I lhe fez mercê do lugar de 
Sernache com a jurisdição e padroado, o qual foi de Gonçalo Nunes Barreto 
e de certos direitos e casas que o mesmo tinha no têrmo de Alvaiázere e na 
Albergaria Velha, e do padroado da igreja de Pelmá no têrmo de Alvaiázere; 
os quais bens D. João I houvera de Gonçalo Nunes por escambo doutros no 
Algarve; e outrosim lhe fez mercê das casas e herdades da Chança e do 
Carvalhal, têrmo de Penela, confiscados a Gonçalo Lourenço, escrivão que 
foi da puridade de D. João I. E considerado os muitos serviços de Álvaro 
Gonçalves de Ataíde, do nosso conselho, e governador da sua casa, lhe fez 
doação de Sernache e de todos os mais bens e padroados; mas como na 
doação que D. João I dele lhe fizera fora sob condição de os não poder 
doar etc. Confirma as doações feitas. Santarém, 3 de Dezembro de 1433. 



(i) Místicos, liv. 3.», fl. no. 

(2) Consta da carta de 5 de Março de 1450 de confirmação do contracto de casamento 
{Ibidem, fl. 74), e doutras. 

(3) Chancelaria de D. João 1, liv. 4.', fl. 12 v. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 2.», fl. 84. 



Apêndice, 275 

— InfaAte D. Pedro, duque de Coimbra, tendo feito doação a Álvaro Gon- 
çalves das casas de Chança e do Carvalhal, e sendo ele casado longos anos 
havia com D. Guiomar de Castro, e não o tendo declarado na carta, « e consi- 
rando e trazendo à memória como a dita D. Guiomar casou com o dito Álvaro 
Gonçalves a meu requerimento por encomendamento de el Rei meu padre 
e da rainha minha madre » vem expressamente declarar que a ela tambe'm 
foi feita doação etc. Lisboa, 18 de Fevereiro de 1439. — D. Pedro, duque 
de Coimbra, outra análogo à precedente para Sernache. Lisboa, 17 de Feve- 
reiro de 1439. Cfr. em Évora, 26 de Janeiro de 1450(1). 

D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, conde da Atouguia, apresentou carta. — 
Álvaro Gonçalves de Ataíde, do conselho, regedor e governador do infante 
D. Pedro meu irmão, mostrou carta dada à condessa D. Guiomar que Deus 
perdoe. — A condessa D. Guiomar nos disse que tem uma quinta no termo 
de Benavente, que chamam a Foz, que parte com o rio Tejo, etc. Carta 
de couto para a dita quinta. Lisboa, 2 de Junho de 1431 (i393). — Apresen- 
tada a carta por Álvaro Gonçalves ele nos disse que a dita quinta era ora 
sua, etc. Cfr. Aviz, 28 de Julho de 1438. — Cfr. Évora, i de Dezembro 
de 1449(2). 

Morreu antes de 14 de Fevereiro de 1462 (3). 

Armas: de azul, quatro bandas de prata. 

Casou em Lisboa, em 141 2, com D. Guiomar de Castro, condessa da 
Atouguia (4). Era filha de D. Pedro de Castro, senhor do Cadaval, e de 
D. Leonor de Meneses. Foi a condessa a fundadora do convento de 
S. Francisco de Xabregas, edificado nuns antigos paços reais com sxm torre, 
e em parte do laranjal junto aos mesmos, que tudo lhe doou D. Afonso V 
por carta de 17 de Outubro de 1455 (5). Ainda era viva a i5 de Julho de 
1468 em que fez certa doação a seu filho o conde D. Martinho (6). A con- 
dessa da Atouguia parece que ainda era viva a 16 de Julho de 1469, pelo 
menos na carta de aprovação de el Rei de uma tpoca feita entre os filhos 
da condessa, o 2." conde e D. Álvaro de Ataíde que a quinta do Judeu que 
D. Álvaro houve « que ora trás sua madre » (7}. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34.°, fl. 104 v. 

(2) Ibidem, fl. io3. 

(3) Consta da carta de título ao filho que é da data referida, e na qual se declara *que 
o pai se ora finou. 

(4) Consta das confirmações do contracto esponsalício {Ibidem, livs, 18.°, fl. 44, e 34.», 
fl. 74. 

(5) Ibidem, liv. i5.», fl. 118. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 5i.", fl. 142. 

(7) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 28.*, fl. 91. 



276 Brasões 

Morreu em 1473 (i). 
Tiveram descendência. 

I.® Marquês de VALENÇA— 1451, Outubro 11. — O conde de Ourém, 
«meu muito amado e presado primo». — Carta daquela data a D. Afonso, 
4.® conde de Ourém, filho primogénito do i.° duque de Bragança, pela 
qual foi feito marquês daquela vila, cujo senhorio lhe foi dado em sua 
vida (2). 

Morreu solteiro em 29 de Agosto de 1460(3), deixando um filho bas- 
tardo. 

Armas: as do i.° duque de Bragança, tendo por diferença em chefe um 
banco de pinchar de três pendentes (4). 

2." Conde da ATOUGUIA— 1452, Fevereiro 14. — D. MARTINHO 
DE ATAÍDE, «nosso capitão e do nosso conselho». — Foi feito conde e 
senhor da Atouguia por carta da referida data, em sucessão a seu pai 
D. Álvaro de Ataíde, i." conde da Atouguia (5). Em 28 de Dezembro de 
1464 teve D. Martinho alvará de mercê da vila da Atouguia para o seu filho 
primogénito herdeiro ao tempo do seu falecimento; mercê que lhe foi confir- 
mada por carta de 25 de Junho de 1487 (6). Por alvará de 27 de Fevereiro 
de 1479 foi ordenado aos juízes, etc, da vila de Vinhais, que dessem ao 
conde da Atouguia, senhor da vila, a quem el Rei mandava acabar o castelo 
dela, toda a serventia de que houvesse mister, pagando o conde os mestres 
segundo o costume nas obras que el Rei mandava fazer (7). Parece que 
não estava ainda acabado o castelo em 21 de Julho de 1487, em que ao 
conde foi confirmado o referido alvará (8). O condado da Atouguia foi con- 
firmado a D. Martinho a 3i de Maio de 1482 (9), e o tornou a ser a 11 de 
Maio de 1487 (10). Parece que o conde ainda viveu bastantes anos, pois que 
só a 24 de Março de i5o4 é que foi confirmada a seu neto pane da casa, na 



(i) Archivo histórico portuguez, vol. IV, pág. 63. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 11.", fl. 140 v., impressa na íntegra no começo da 
primeira parte deste Catálogo. 

(3) Historia genealógica, vol. 10.", pág. 533. 

(4) Selo {Ibidem, vol. 4.°, estampa M, n.° lviii). 

(5) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 2.», fl. 7. 

(6) Misticos, liv. 3.», fl. 187. 

(7) Chancelaria de D. João II, liv. 18.°, fl. 33. 

(8) Ibidem. 

(9) Ibidem, liv. 7.», fl. 74. 

(10) Ibidem, e liv. 3." dos Misticos, fl. 243. 



Apêndice 



277 



qual sucedera directamente ao avô(i) e no ano de i52i não havia ainda 
23 anos que era falecido o conde D. Martinho seu avô (2). 

Morreu portanto o 2.° conde da Atouguia em 1498 ou 99. 

Armas: de a2ul, quatro bandas de prata. 

Casou a i.* vez, precedendo contracto de 22 de Setembro de i4Í)i, com 
D. Catarina de Castro, condessa de Avranches (3). Foi condessa da 
Atouguia, e era viúva de D. Álvaro de Almada, i.° conde de Avranches, e 
filha de D. Fernando de Castro, governador da casa do infante D. Henrique. 
Durou pouco tempo este casamento, do qual não ficou geração. 

Já era falecida em 3 de Dezembro de 1453 (4) e parece ter morrido a i 
de Novembro desse ano. 

Casou a 2.* vez em 1457, depois de 18 de Abril, com D. Felipa de Aze- 
vedo, donzela da infanta D. Catarina, e filha de Luís Gonçalves tesoureiro 
de el Rei, do seu conselho, e vedor da sua fazenda (5); é o chamado Luís 
Gonçalves Malafaia. 

Foi D. Felipa condessa da Atouguia, e ainda era viva a 2 de Agosto de 
1474 (6). 

Tiveram descendência. 



2.° Conde de MARIALVA— Anterior a 28 de Junho de 1452.— D. GON- 
ÇALO COUTINHO, do conselho de el Rei, meirinho mor. — Já era conde 
de Marialva em 21 de Abril de 1452. Nesta data se passou uma carta régia 
I ordenando se inquirisse do conde D. Gonçalo se ele queria pagar as dividas 
do pai, ou desistir da herança, e no caso de as querer pagar, se lhe marcasse 
|l prazo para o cumprir. Ele a 3 de Maio, em Lisboa, no castelo, numa torre 
onde pousava declarou que i^ão só queria herdar, como Já tinha pago a maior 
t parte das dividas do pai, etc. (7). 

Sucedeu a seu pai no condado de Marialva encontrando^se já com o título 
de conde na data apontada numa escritura de confirmação do seu contracto 
I' de casamento (8). Chamou-se ele, antes do pai ser feito conde, Gonçalo 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. Si.", fl. 142. 

(2) Archivo histórico portuguez, vol. IV, pág. 61. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.», fl. 7. 

(4) Ibidem, liv. 4.», fl. 74, e Archivo histórico portuguez, vol. III, pág. 234. 

(5) Consta da carta da tença de vinte mil reais ao conde da Atouguia a fl. 91 do liv. 3i.** 
da Chancelaria de D. Afonso V. 

(6) Consta de uma escritura de venda transcrita numa carta de confirmação a fl. 21 do 
liv. 19."» da Chancelaria de D. João III. 

(7) Corpo Chronologico, parte 2.*, maç. i, doe. 24. 

(8) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.°, fl. 62 v. 



278 Brasões 

Vasques Coutinho, e com êst^ nome recebeu certos dinheiros no ano de 1440» 
em Janeiro e Agosto, no almoxarifado de Lamego (i). Ainda então não era 
meirinho mor. Já era meirinho mor em i3 de Janeiro de 144 1 (2), mas 
havia de ter sido nomeado por esses tempos, pois que, se a data da nomeação 
me não é conhecida, consta-me contudo a da exoneração, que não tardou, e 
que veio por carta de 21 de Abril de 1445, em que Martim de Távora foi 
nomeado meirinho mor, assim como era D. Gonçalo Coutinho, que foi exo- 
nerado « per erros e coisas que fez em o dito oficio per que mereceu de ser 
privado d'elle » (3). Tornou contudo a ser reintegrado, e já com a designação 
de ser meirinho mor lhe foi mandada pagar certa quantia no almoxarifado 
da Guarda por carta de 5 de Julho de 1449(4). Continuou exercendo o 
ofício nos anos seguintes, ate que por carta de 12 de Julho de 1452, sendo 
já conde, foi dada ordem às justiças da cidade de Lamego, da vila de Tran- 
coso, e doutras terras na Beira, para deixarem ao conde de Marialva distri- 
buir a todos os moradores daquelas povoações e seus termos, dumas das 
quais êle era alcaide mor e das outras senhor, lanças e dardos, ou escudos 
e remessÔes, o que êle mais vir que e' do serviço de el Rei, e outrosim 
bestas e armas (5). Abusou o conde desta faculdade. Rodeou-se de um 
bando de homens armados, alguns deles malfeitores culpados em grandes 
crimes, a quem a complacência, e talvez a instigação do senhor, dava 
ousadia para cometerem toda a casta de malefícios com perfeito desprêso 
pelas justiças reais. Vieram as coisas a ponto de D. Afonso V mandar 
prender ao conde meirinho mor; privá-lo de todos os castelos de menagem, 
chegando a dar a alcaidaria mor de Lamego por carta de 24 de Setembro 
de 1464 a Vasco Martins da Cunha (6); e tirar-lhe as jurisdições das suas 
terras, conservando-o preso até que, a pedido da rainha de Castela, irmã de 
el Rei, perdoou este ao conde por carta de 28 de Janeiro de 1455 (7), e lhe 
restituiu a casa por outra de 3 de Maio seguinte, exceptuando Lamego (8). 
Não se emendou porém o meirinho mor, e continuou praticando excessos, 
tanto que em 1463, para se eximir ao pagamento de certa dívida, apresentou 
uma escritura falsa de quitação. O credor, aflito por ter de intentar a 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 27.°, fl. i33 na carta de quitação a João Louvado 
alqpoxarife de Lamego. 

(2) Vide adiante na pág. 279. 
' (3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.", fl. 70. 

(4) Ibidem^ liv. 11.", fl. 47, na carta de quitação ao almoxarife da Guarda. 
(5) /éiiew, liv. 12.0, fl. 85 V. 

(6) Ibidem, liv. i5.°, fl. 83. 

(7) Ibidem, fl. 6 v. 
* (8) Ibidem, fl. 17. 



Apêndice 279 

demanda nas terras do conde perante as suas Justiças, recorre ao rei, que 
em 3o de Janeiro daquele ano manda passar uma carta de perdão para o 
conde, tabelião e testemunhas, que na escritura falsa intervieram, a ver se 
assim se apurava a verdade (i). Este conde de Marialva apresenta-se-nos 
como uma boa amostra do que era a alta fidalguia naqueles tempos do bona- 
cheirão D. Afonso V, e quanto era precisa a mão de ferro de D. João II 
para a reduzir. Note-se que o conde era meirinho mor; isto é, um dos 
chefes da Justiça. 

Morreu 02." Marialva no escalamento de Tânger em 20 de Janeiro de 
1464(2). 

Armas: as do i.° conde. (Coutinho). 

Casou com D. Beatris de Melo, ainda em vida de seu pai pois já eram 
casados em i3 de Janeiro de 1441 data de um instrumento pela qual D. Brio- 
lanja de Sousa, viúva de Martim Afonso de Melo, confessa dever a Gonçalo 
Vasques Coutinho meirinho mor, 58o. 000 reais brancos que lhe prometeu em 
dote de casamento com sua filha D. Beatris de Sousa (3). Noutros documentos 
é chamada D. Beatris de Melo. Portanto muito antes de 28 de Junho de 1452, 
dia em que, na cidade de Lisboa no castelo de menagem, onde os condes pou- 
savam, celebraram um instrumento pelo qual ele confirmou a ela o contracto 
de casamento tratado entre o conde seu pai e D. Briolanja de Sousa sua 
sogra (4). Foi D. Beatris condessa de Marialva, e era filha de Martim Afonso 
de Melo, guarda mor de D. João I. Sobreviveu a condessa a seu marido, 
pois que por carta de 22 de Junho de 1464 lhe foi confirmada uma tença (5). 

Tiveram descendência. 

i.° Duque de BEJA — 1453, Fevereiro.— O infante D. FERNANDO, 
filho de el Rei D. Duarte, e posteriormente duque de Viseu. — No verão de 
1462 partiu o infante do reino em busca de aventuras, desgostoso por seu 
irmão D. Afonso V lhe não satisfazer os aumentos que pretendia. Batido 
€m Seuta pelo capitão da praça, convenceu-se a voltar à corte, avistando-se 
pela primeira vez com el Rei em Beja, na primeira sexta feira da quaresma 
do ano de 1453. Poucos dias depois el Rei satisfez-lhe os desejos, dando- 
Ihe as vilas de Beja, Serpa e Moura (6). 

Foi duque de Viseu em 1461. Vide. . ' 



( 1 ) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9.», fl. 33. 

(2) Chronica de D. Afonso V, pág. 5o8. 

(3) Corpo Chronologico, parte 2.», maç. i, doe. 20. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.», fl. 62 v. 

(5) iWiem, liv. S.», fl. 118. 

(6) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. 134. Convém advertir que o cronista 



28o ' Brasões 

i.° Marquês de VILA VIÇOSA — 1455, Maio 25. — O conde de Arraiolos, 
primo de el Rei. — Carta daquela data a D. Fernando, 3.° conde de Arraiolos, 
filho segundo do i.° duque de Bragança (i). Sendo Já marquês, o que se 
não declara no documento, foi-lhe marcado o assentamento de cento e setenta 
mil reais brancos a começar do primeiro de Janeiro de 1456, como diz a 
respectiva carta que é de 29 de Maio do mesmo ano (2). 

Foi 2.° duque de Bragança em 146 1. 

Armas enquanto marquês: as de seu irmão o marquês de Valença com a 
diferença do banco de pinchar ser só de dois pendentes. (Bragança^ pri- 
meiras). 

Casou em 1429 com D. Joana de Castro, marquesa de- Vila Viçosa e 
depois duquesa de Bragança. 

Vide o 2.° duque de Bragança. 

i.° Conde de MONSANTO — 1460, Maio 21. — D. ÁLVARO DE 
CASTRO, senhor de Cascais, camareiro mor. — Por carta daquela data foi- 
-Ihe dado em vida o senhorio da vila e castelo de Monsanto com o termo, a 
jurisdição civil e crime, e os padroados, e foi feito conde da mesma vila (3). 
Por outra de 20 de Maio de 1464 foi ampliada a doação do senhorio de 
Monsanto a juro e herdade (4); já então era fronteiro e alcaide mor de 
Lisboa. 

Morreu na tomada de Arzila a 24 de Agosto de 147 1. 

Armas: de prata, seis arruelas de azul (5). (Castro). 

Casou entre 10 de Junho de 1436 e 20 de Abril de 1444(6) com D. Isabel 
DE Cascais (7), condessa de Monsanto, senhora de Cascais, filha dos senhores 



põe a primeira sexta feira de quaresma do ano de 1453 no dia 17 de Fevereiro, quando ela 
foi a 16. Também direi que de Serpa só se passou carta do senhorio ao infante em 18 de 
Fevereiro de 1457, e que por sinal é o primeiro documento em que o encontro intitulado 
duque de Beja {Místicos, liv. 4.°, fl. 21 v.). Aparece intitulado duque de Beja, senhor de 
Moura, condestável e governador da ordem de Santiago no instrumento de 25 de Junho de 
1455 do juramento do príncipe D. João (Provas da Historia genealógica, vol. 2.", pág. 86> 
n.» 19). 

(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. i5.°, fl. 5o. 

(2) Ibidem, liv. i3.°, fl. 78 v. 

(3) Místicos, liv. 3.", fl. 23o. 

(4) Chancelaria de D. João 11, liv. 6.", fl, 2. 

(5) Vide Livro /.» dos Brasões, I, pág. 63. 

(6) A D. Isabel sendo solteira, foi-lhe confirmado o senhorio de Cascais na primeira 
data apontada, e na segunda já D. Álvaro era senhor de Cascais. Coiista do liv. i." dos 
Místicos, fl. 294 e da Chancelaria de D. Afonso V, liv. 24.*, fl. 58 v. 

(7) Com este apelido é a condessa nomeada no contracto de casamento de sua filha o 
qual está nas Provas da Historia genealógica, vol, VI, pág. 164, n.» 12. 



Apêndice 281 

de Cascais, D. Afonso e D. Branca da Cunha. « D. Duarte, quando nós 
casámos D. Álvaro nosso cavaleiro, com D. Isabel minha sobrinha, filha de 
D. Afonso, meu primo etQ. Carta garantindo-lhe pelo marido 2.000 dobras 
valedias velhas de arras. Montemor o Novo, 3i de Maio de 1436. Destas 
2.000 coroas fez a condessa D. Isabel doação em dote e casamento, por ins- 
trumento a 4 de Fevereiro de 1475 a sua criada Inês Cerveira, moça da câmara 
da infanta D. Joana, a quem casara com Jorge de Sousa, cavaleiro da casa 
de el Rei e comendador de Merles. Carta de padrão das 2.000 coroas à refe- 
rida Inês, em Évora a 12 de Março de 1475 (i). Sobreviveu a condessa a 
seu marido, e por carta de 8 de Setembro de 1478 teve licença régia para 
comprar bens de raiz até à quantia de sessenta mil reais, e legá-los ao mos- 
teiro de S. Jerónimo de Peralonga (2). 

Morreu nas proximidades de 5 de Janeiro de 1482, em que o senhorio 
de Cascais foi confirmado a seu filho o 2.° conde de Monsanto (3). 

Tiveram descendência. 

2.° Conde de VIANA [DO MINHO] —14Õ0, Julho 6.— D. DUARTE DE 

MENESES, do conselho, alferes mor, capitão e governador de Alcácer. — 
Por carta daquela data foi criado conde de Viana de Caminha, com o senhorio, 
jurisdição e alcaidaria em sua vida (4). No mês de Abril de 1460 deixou 
D. Duarte por capitão de Alcácer a seu sobrinho Afonso Teles, e veiu a 
Lisboa ter com el Rei, e dali se foi el Rei a Santarém, onde com solene 
arenga de seus serviços e merecimentos, e com a devida cerimónia, o fez 
conde de Viana de Caminha (5). Era filho bastardo de D. Pedro de Meneses, 
2.° conde (Je Viana, e fora legitimado em i5 de Março de 1424(6). Por 
carta de 6 de Agosto de 1444 havia sido nomeado alferes mor (7); e por outra 
de 16 de Janeiro de 1469 capitão e regedor de Alcácer (8). 

Morreu numa batalha na serra de Benacofú, em Africa, nos princípios 
do ano de 1464, defendendo a rectaguarda do exército de D. Afonso V (9), e 
pelas razões que vou expor julgo que seria nos primeiros dias de Fevereiro. 

A morte do conde D. Duarte anda assinalada modernamente no dia 20 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.", fl. 149 v. 

(2) Ibidem, liv. 33.», fl. 216. 

(3) Estremadura, liv. 12.°, fl. 87. 

(4) Místicos, liv. 3.°, fl. 57 V., impressa no fim da Chronica do conde D. Duarte. 

(5) Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. 143, pág. 484. 

(6) Chancelaria de D. João I, liv. 4.% fl. 74. 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 25.°, fl. 10. 

(8) Ibidem, liv. 36.», fl. 11. 

(9) Chronica do conde D. Duarte, cap. 154. 

voL. ni 36 



, -1 



282 Brasões 

de Janeiro de 1404, mas a esse dia com certeza sobreviveu o conde. O in- 
fante D. Fernando partiu de Alcácer para ir acometer a Tânger em 19 de 
Janeiro (i). D. Afonso V estava então em Seuta preparando-se para ir a 
Gibraltar avistar-se com os reis de Castela. Levaram-lhe a noticia do ma- 
logro da expedição do irmão; mas, apesar disso partiu. Avistou-se com os 
castelhanos, tornou a Seuta, donde marchou para Alcácer com o fito de 
atacar Arzila. Por causa das chuvas não prosseguiu, e voltou para Alcácer, 
donde pretendeu novamente sair em incursão no « dia de Santa Maria de 
Candeloz», 2 de Fevereiro (2). Já por aqui se vê que o dia 20 de Janeiro 
estava passado havia muito. De Alcácer regressou el Rei a Seuta, onde foi 
ter com êle o conde D. Duarte, e aí lhe ordenou que o acompanhasse à serra 
de Benacofú. Partiram; e ao terceiro dia da expedição é que morreu o 
conde (3). 

Encontro el Rei em Seuta em várias cartas de Janeiro até o dia 28; 
depois há um intervalo, torno porém a encontrá-lo em todos os dias do mês 
de Fevereiro, mas só de 8 em diante, e a 4, 6, 7, 10 e i3 de Março (4). 
Neste dia estava certamente o conde D. Duarte falecido, pois que nele foi 
nomeado em sua sucessão capitão de Alcácer seu filho o conde D. Hen- 
rique (5). Será pois muito inverosímil supor que naquele intervalo do prin- 
cípio de Fevereiro é que teve lugar a expedição à serra de Benacofú, e a 
morte do conde D. Duarte ? 

Por muito notáveis transcreverei em seguida as palavras da carta do 
título de conde de Valença a seu filho: Atendendo aos serviços de D. Duarte 
de Meneses, que Deus haja, conde de Viana, que foi do nosso conselho e 
nosso alferes mor, e capitão por nós em a nossa vila de Alcácer em África, 
e vendo como êle por nosso serviço duas vezes foi cercado, em a dita vila 
de Alcácer, de el Rei de Fez em espaço de dez meses. E cento e sete dias 
que duraram os ditos dois cercos, sendo combatido de três mil e duzentas 
pedras de bombarda, e doutra muita artilharia, que no poderio dos ditos 
dois cercos traziam; e por graça do Senhor Deus a defendeu como valente 
e esforçado cavaleiro, sendo por muitas vezes fora da dita vila a pelejar com 
os mouros; e com ajuda do Senhor Deus sempre os venceu, sendo no pri- 



(i) Chronica do conde D. Duarte, pág. 354, onde se designa o dia por véspera de S. Se- 
bastião, e na Chronica de D. Afonso V, pág. 5o5. 

(2) Chronica do conde D. Duarte, pág. 358. 

(3) Ibidem, cap. 154. 

(4) Liv. 8." da Chancelaria de D. Afonso V, onde há uns poucos de cadernos de registos 
começados em Seuta, por exemplo nas fls. 47, me i83, É claro que poJem existir cartas 
com outras datas, porque eu não corri a Chancelaria toda. 

Í5) Ibidem, fl. 108. 



Apêndice 



283 



meiro cerco ferido no rosto por nosso serviço. E como isso mesmo antes 
dos ditos cercos, e depois deles, com desejo de nos servir fez outras muitas 
pelejas, e cavalgadas. E vendo nós isso mesmo, como estando ora em as 
partes de África, conquistando a dita terra, aconteceu os mouros dela nos 
virem buscar; e, pelejando nós e a nossa gente com eles, mandámos ao dito 
conde D. Duarte, que acudisse por si àquelas partes, que mais sentimos na 
dita peleja que êle era necessário a nosso serviço; e quis Deus, que por seu 
serviço e nossa ventura, o dito conde falecesse na dita peleja. No qual feito 
outra coisa delo não pudemos conhecer, assim pelo que vimos, como pelo 
que nos foi dito por outros, que eram no dito caso, que por êle olharam, que 
morreu como cavaleiro de grande coração, que êle era. No qual tempo, e 
auto de peleja, nós notificámos a todos que êle nos serviu tão grandemente, 
que por muitos louvores que lhe de'ssemos em nossas crónicas de seus feitos 
e mercês que mandássemos fazer a sua mulher e filhos e criados, lhe não 
galardoaríamos seus grandes merecimentos, etc.(i), «... estando sua Senhoria 
(D. Afonso V) em a cidade de cepla ao tempo que faleceu o conde D. Duarte 
na pelleja de Benycofuy. . .» (2). 

Levantou-se-lhe um sumptuoso mausoléu no cruzeiro de S. Francisco de 
Santarém, hoje no museu distrital, porém nele apenas se guardou um dente 
do herói. 

Armas: cortado de um traço, partido de dois: o 1.°, 3." e 5.° de oiro, 
dois lobos passantes, sotopostos, de púrpura, armados de vermelho; o 2.°, 
4.° e 6.° de oiro, quatro palas de vermelho; sobre o todo de oiro liso. 
(j.° Vilalobos, 2.° Limas. Meneses). 

Casou a i.* vez em 1438 com D. Isabel de Melo, já morta em 1444, 
viúva de João Rodrigues Coutinho (3), meirinho mor, que no ano antecedente 
morrera em Seuta de ferimentos. Era D. Isabel filha de Martim Afonso de 
Melo, guarda mor, e alcaide mor de Évora. D. Duarte de Meneses, do nosso 
conselho, e nosso alferes mor, e D. Isabel de Melo sua mulher, mostraram 
cana. — Tratámos e firmámos casamento entre D. Duarte de Meneses, do 
\nosso conselho e alferes mor, e D. Isabel de Melo, e para eles terem com 
que se melhor manterem lhe pomos a tença ao dito D. Duarte do dia que 
filhar sua casa 12.000 reais, além de um conto que era ao presente de nós 
a tença o qual queremos que tenham hoje. No contracto do casamento 
é contado"^me D. Isabel hai^^.000 coroas, falecendo D. Duarte primeiro. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8.°, fl. 87. 

(2) Carta de 6 de Novembro de 148 1, concedendo brasão de armas a João Garcês, Mís- 
ticos, liv. 2.°, fl. J43. 

(3) Chronica do conde D. Duarte, pág. 82 e Chronica d'el-rei D. Duarte, pág. 186, 



2184 Brasões 

praz-nos pagar por ele 2.000 coroas etc. Avis, 5 de Junho, Rui Galvão a 
fez era do nascimento de 1438. — D. Isabel eu vos disse, que me prazia 
D. Duarte haver de mim em sua vida sua moradia além do conto e dos 
12.000 reais que lhe dou de tença, e pois o vosso propósito era andar mais 
tempo em minha corte, que, ainda por cinco ou seis anos não andásseis 
graciosamente lhe dava, e porque disto nos demandáveis certidão, vos dou 
esta. Avis, 5 de Junho de 1438. — Confirmação a D. Duarte e D. Isabel 
em Almada, 21 de Março de 1439(1). Vimos uma carta — a precedente — 
ora nos enviou pedir o dito D. Duarte, que lhe confirmasse a dita carta e 
escrito etc. Óbidos, 26 de Agosto de 1449(2). D. Duarte de Meneses do 
conselho e alferes mor, disse que a ele era dito que certos bens de raiz e 
casas que estão na vila de Santarém e seu termo, e que Martim Afonso de 
Melo, e alguns seus herdeiros deram assim em casamento, como em paga- 
mento de algumas dividas a D. Isabel de Melo, filha do dito Martim, com 
João Rodrigues Coutinho, e deles (bens) lhes (herdeiro) ficam de haver 
depois da morte de João Rodrigues, os bens que eram da coroa, e posto 
que ele (D. Duarte) estivesse de posse deles pelos haver em casamento com 
a dita D. Isabel, por êle morrer sem filho macho, que os ditos bens pudesse 
herdar, se teria por nossa parte etc. Pede que se os ditos bens são da coroa 
lhes façamos deles doação. Carta de doação deles a D. Duarte de Meneses. 
Viseu, i5 de Fevereiro de 1454(3). 

Deste casamento nasceu unicamente a condessa de Monsanto, mulher do 
2.° conde. 

Casou a 2.* vez em 1449 com D. Isabel de Castro, condessa de Viana, 
que foi irmã do i.° conde de Monsanto. Para este casamento dotou o in- 
fante D. Henrique a D. Duarte de Meneses com certa quantia, e el Rei 
aprovou o instrumento em Santarém a 20 de Setembro de 1449 (4). Neste 
mesmo ano em Óbidos, a 25 de Agosto, havia D. Afonso V mandado passar 
padrão da tença que dera em casamento a D. Isabel (5). Já estava casado 
a 19 de Abril de 1449. Consta duma verba da carta de quitação de Gonçalo 
Monteiro, almoxarife da Guarda: «deu a D. Duarte de Meneses 45.000 reaes 
e a sua mulher D. Isabel da sua tença, por carta de 19 de Abril de 1449...» 
Almeirim, 12 de Maio de 1452(6). A condessa de Viana ainda era viva a 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 18.", fl. 47 v. 

(2) Ibidem, liv. 34.», fl. 14. 

(3) Ibidem, liv. io.°, fl. 21 v. 

(4) Místicos, liv. I.», fl. 64 V. 

(5) Ibidem, fl. 58. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. ii.», fl. 47. 



Apêndice 285 

i3 de Maio de 1497 em que se lhe confirmou o referido casamento (i); porém 
já tinha morrido a i5 de Junho desse mesmo ano em que se confirmaram 
bens, que da sua partilha ficaram, a sua nora a condessa de Loulé D. Guio- 
mar (2). 

Tiveram descendência. * 

5.° Conde de OURÉM— 1460, depois de 29 de Agosto. — D. FER- 
NANDO, i.° marquês de Vila Viçosa. — Sucedeu no condado de Ourém por 
morte de seu irmão D. Afonso, 4.° conde, e numa carta de dez moios de 
trigo ao convento do Carmo de Lisboa, a qual foi dada em Sacavém a 25 
de Setembro de 14Õ0, se^intitula D. Fernando, neto de el Rei D. João, cuja 
alma Deus tenha, marquês de Vila Viçosa, conde de Ourém e Arraiolos, e 
senhor de Monforte (3). 

Foi o 2.° duque de Bragança em 146 1. Vide. 

2.° Duque de VISEU — Depois de 7 de Fevereiro de 14Õ1. — O infante 
D. FERNANDO, duque de Beja. — Havia ele sido perfilhado pelo infante 
D. Henrique seu tio por alvará feito em Estremôs a 7 de Março de 1436, 
confirmado por D. Duarte no mesmo dia, e por D. Afonso V a 23 de No- 
vembro de 145 1 (4). 

Morreu o infante D. Henrique i." duque de Viseu, a i3 de Novembro 
de 1460, e na casa lhe sucedeu o infante D. Fernando, a quem foi feita 
mercê das ilhas da Madeira e outras, que haviam sido do tio, por carta de 
3 de Dezembro de 1460(5). 

Neste documento contudo não se dá título nenhum ao infante, e na carta 
da alcaidaria mor de Viseu em 7 de Fevereiro de 1461 é apenas intitulado 
duque de Beja e senhor de Moura (6); porém na de 19 de Setembro de 1462, 
de doação de certas ilhas, encontra-se com os títulos de duque de Viseu e 
de Beja (7). 

Morreu o infante a 18 de Setembro de 1470(8). 

Armas: as do reino com alguma diferença, mas não sei qual. 



(i) Chancelaria de D. João lII, liv. i5.», fl. i25. 
(3) Místicos f liv. 1°, fl. 66. 

(3) Alvarás antigos, liv. io.% fl. ii v., Documentos do Carmo de Lisboa na Tôrre do 
Tombo. 

(4) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 6.°, fl. ii8 v. 

(5) Místicos, liv, 3.», fl. 58 v. 

(6) Ibidem, fl. 249 v. 

(7) Alguns documentos da Torre do Tombo etc, pág. 3 1. 

(8) Chronica de D. Afonso V, pág. 521. 



286 Brasões 

Casou em 1447 com D. Brites que foi infanta e duquesa de Viseu e de 
Beja. Era filha dos infantes D. João e D. Isabel, e morreu a 3o de Setembro 
de i5o6. 

Tiveram descendência. 

2." Duque de BRAGANÇA — 1461, Dezembro. — D. FERNANDO, ?Jiar- 
quês de Vila Viçosa, e conde de Ourém e de Arraiolos. — Na carta de fron- 
teiro mor a seu filho D. Fernando, a qual é de i5 de Janeiro de 1462, já 
aparece intitulado duque de Bragança (i). Sucedeu no ducado por morte 
de seu pai em virtude da citada carta de 4 de Julho de 1449. Senhor da 
casa, também se intitulou cottde de Barcelos e Neiva, senhor de Monforte e 
Penafiel (2). 

Morreu a i de Abril de 1408, e foi sepultado no convento de Santo Agos- 
tinho de Vila Viçosa. 

Armas: as do i.° duque de Bragança. 

Casou em 1429 com D. Joana de Castro, duquesa de Bragança, senhora 
do Cadaval, que morreu em 14 de Fevereiro de 1479. Era filha herdeira 
de D. João de Castro, senhor do Cadaval e Peral. 

Tiveram descendência. 

^° Conde de BARCELOS — 146 1, Dezembro. — D. FERNANDO, mar- 
quês de Vila Viçosa. — Sucedeu na data apontada a seu pai o i." duque de 
Bragança em toda a casa, na qual se compreendia o condado de Barcelos, 
isto em virtude de uma carta de 4 de Julho de 1449 (3). Com o titulo de 
conde de Barcelos, e outros, é mencionado no contracto de casamento da 
filha D. Brites em 6 de Agosto de 1462 (4). 

Vide 2.° duque de Bragança, • 

3.° Conde de NEIVA— 146 1, Dezembro. — D. FERNANDO, marquês 
de Vila Viçosa. — Na data apontada sucedeu a seu pai na casa de Bragança, 
na qual se compreendia o condado de Neiva, e com o título de conde de 
Neiva se encontra D. Fernando em documento de 6 de Agosto de 1462 (5). 
Também se encontra com o título de conde de Neiva no instrumento de 7 de 
Abril de 1467 em que o duque, com a duquesa e seus filhos D. Fernando 



(i) Místicos, liv. 4.", fl. 5 V. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. 3.°, pág. 58i, n.» 69. 

(3) Ibidem^ pág. 499, n.« 25. 

(4) Ibidem, pág. 58 1, n.» 69. 

(5) Jbidem. 



Apêndice 287 

conde de Guimarães, D. Afonso casado com D. Maria de Noronha, e D. Ál- 
varo fez doação a seu fillio D. João de certas rendas incluindo as' pensões 
dos tabeliães de Lisboa (i). 

i.** Conde de GUIMARÃES — Entre 4 de Fevereiro de 1464 e 29 de 
Setembro de 1463. — D. Fernando sobrinho de el Rei, filho maior do 2.° duque 
de Bragança. Uma escritura de 22 de Setembro de 1463 foi lavrada por 
um tabelião de Guimarães «pelo senhor conde D. Fernando» (2). 
— Em carta de 21 de Agosto de 1462 intitula-se D. Fernando «primogénito 
herdeiro do duque de Bragança marquês e conde, etc. meu senhor». Não era 
portanto ainda conde de Guimarães. No selo vê-se um escudo pendente 
com uma aspa carregada de cinco escudêtes, elmo, paquife, e timbre uma 
cabeça e pescoço de cavalo (3). 

Em carta de 4 de Fevereiro de 1462, pela qual se lhe concedem os 
mesmos privilégios que seu pai tem, ainda não é intitulado conde (4); em 
carta porém de 29 de Setembro de 1463 se manda pagar, desde o primeiro 
de Janeiro que passara, a D. Fernando conde de Guimarães sobrinho de 
el Rei, trezentos mil reais brancos de seu assentamento (5). DÍz-se que 
D. Fernando fora criado conde de Guimarães logo depois de Junho de 1460(6); 
mas parece engano. Foi o 1.° duque de Guimarães em 1470. 

Casou a i.* vez em 1447 com D. Leonor de Meneses, que morreu a 7 de 
Maio de 1452, e era filha do 2.° conde de Viana. Deste casamento não ficou 
descendência. 

Casou a 2.* vez sendo Já duque de Guimarães. 

Vide i.° duque de Guimarães. 

3.^ Conde de VIANA [DO MINHO]— 1464, no mês de Fevereiro.— 
D. HENRIQUE DE MENESES, capitão de Alcácer. — Em princípios de 
Fevereiro de 1464 morreu, como julgo, o 3.° conde de Viana pai do 4.° Em 



(i) Está a carta no liv. 26.° da Chancelaria de D. Afonso V, fl. 178 v., e copiada de lei- 
tura nova a fl. 27 v. do liv. 3." de Místicos com o erro de fazer a D. Fernando conde de Viana, 
e não de Neiva, como se lê no original e com o mesmo erro nas Provas da Historia genealó- 
gica, vol. 5.*, pág. 467, n.*> I. Não é só na leitura nova, também se encontra no liv. 25.» da 
Chancelaria de D. Manuel, fl. 36 na transcrição da carta de 20 de Novembro de 1478 da 
doação das terras do Cadaval e Peral feita pelo duque D. Fernando II a seu irmão D. Álvaro. 

(2) Catálogos dos pergaminhos da collegiada de Guimarães, no Archeologo portugue!^^ 
vol. XIII, pág. 119, n.» 3o2. 

(3) Documentos da collegiada de Guimarães, maç. 12. 

(4) Místicos^ liv. 4.», fl. 1 1 V. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8.°, fl. i53. 

(6) Chronica de D. Afonso V, pág. 490. 



288 Brasões 

i3 de Março do mesmo ano é este nomeado capitão e regedor de Alcácer 
em Africa por uma carta dada em Seuta, e na qual se cliama ao agraciado 
D. Henrique de Meneses conde de Viana (i). Ainda se lhe torna a dar o 
título em outro documento de i3 do mês de Junho seguinte (2). Por aqui 
se vê, e já Azurara o disse (3), que logo em seguida à morte do pai renovou 
D. Afonso V o título no filho, a quem contudo por carta de 20 de Julho 
ainda de 1464 criou conde de Valença. 
Vide o seguinte. 

i.° Conde de VALENÇA — 1464, Julho 20. — D. HENRIQUE DE ME- 
NESES, capitão de Alcácer, filho de D. Duarte de Meneses, conde de Viana, 
alferes mor, e capitão de Alcácer. — Já era D. Henrique intitulado conde de 
Viana^ como ficou dito no precedente artigo; mas por carta da referida data 
é que foi feito conde, querendo el Rei que ele dali em diante se chamasse 
conde de Valença e senhor de Caminha, , vilas de cujo senhorio recebeu 
igualmente doação em sua vida (4). D. Henrique de Meneses, conde de 
Valença e senhor de Caminha, em atenção aos seus serviços, faz-lhe mercê 
de por seu falecimento seu filho herdeiro haver as duas vila« de Valença e 
de Caminha, e o senhorio delas, se chame conde e senhor delas, como o 
dito seu pai, e Juntamente por doação aos dois dos direitos reais que Álvaro 
Pires de Távora, do conselho, havia em Caminha e Vila Nova da Cerveira, 
direitos que el Rei houvera por escambo em dinheiro. Santarém, 3o de 
Março de 1466(5). Por carta de i3 de Março de 1464 havia sido nomeado 
capitão de Alcácer (6), e depois também o foi de Arzila por outra de 27 de 
Agosto de 147 1 (7). 

Foi alferes mor em sucessão a seu pai em virtude de uma carta, que este 
alcançara em 20 de Julho de 1462 para o efeito do filho lhe herdar os cas- 
telos e terras da coroa e o ofício de alferes mor (8). Por carta dada em 
Sintra a 12 de Novembro de 147 1 fez com el Rei troca das vilas de Valença, 
Caminha e Vila Nova da Cerveira, pela de Loulé, e D. Afonso V dererminou 
que dali em diante se ficasse chamando conde de Loulé (9). 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8.°, fl. 108. 

(2) Alguns documentos da Torre do Tombo etc, pág. 33. 

(3) Chronica do conde D. Duarte, capítulo final. 
»4) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 8.°, fl. 87. 

(5) Místicos, liv. 3.", fl. 276 V. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8.°, fl. loS. 

(7) Ibidem, liv. 22.», fl. 17 v. 

(8) Ibidem, liv. 12.°, fl. 34. 

(9) Ibidem, liv. 21.", fl. 85 v. 



Apêndice 2 89 

Armas: as do 3.° conde de Viana. 

Casou com D. Guiomar, filha dos 2.°* duques de Bragança. 

Foi condessa de Valença e depois de Loulé. 

Vide i." conde de Loulé, 

3.» Conde de MARIALVA— 1465, Abril 8 ou i3. — D. JOÃO COU- 
TINHO. — Foi feito conde de Marialva por carta da referida data, por haver 
agora morrido em Tânger, em serviço de el Rei, D. Gonçalo Coutinho, 
conde de Marialva, seu pai(i). 

Morreu solteiro na tomada de Arzila em 24 de Agosto de 147 1 (2). Foi 
sepultado no mosteiro das Salzedas da ordem de Cister junto a Lamego (3). 

Armas: de oiro, cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. (Coutinho). 

Estava desposado com D. Catarina, filha dos 2.°* duques de Bragança, 
não se chegando a realizar o casamento em virtude da morte do conde. Não 
obstou isso contudo a que a noiva ficasse sendo intitulada condessa, pois que 
encontro em 12 de Fevereiro de 1494 uma carta régia concedendo licença à 
condessa D. Catarina para comprar bens que rendessem anualmente vinte 
moios de trigo, cinco tonéis de vinho e um de azeite, para despesa e provi- 
mento do mosteiro de Santa Ana, que então se estava levantando em Leiria (4). 
Foi a condessa a fundadora do referido convento, que já se estava edificando 
em 1494, para onde entraram freiras em 1496, começando porém a clausura 
só em 1498; a fundadora e a bemfeitora, pois que a ele deixou todo seu 
património (5). 

i.° Conde da ATALAIA— 1466, Dezembro 21. — PÊRO VAZ DE 

MELO, do conselho do el Rei. — Foi feito conde da Atalaia por carta da 
referida data, dando-se-lhe em vida o senhorio da mesma vila e o da Assei- 
ceira (6). Era regedor da Casa do Cível de Lisboa, senhor da Casta- 
nheira, Povos e Cheleiros, e depois de conde passou a chamar-se D. Pedro 
de Melo. 

Morreu a 24 de Agosto de 1478, sendo sepultado em S. Domingos de 
Lisboa (7). 



(i) Místicos, liv. 3.°, fl. 2885 advertindo que no liv. 1.°, fl. 102 se encontra a mesma carta 
com a data de 1 3 de Abril. 

(2) Chronica de D. Afonso V, cap. i65, 

(3) Chronica de Cister, pág. 565. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 52.°, fl. 21. 

(5) Historia de S. Domingos, vol. 2.", fl. 252. 

(6) Místicos, liv. 3.", fl. 276. 

(7) Livro j.° dos Brasões, pág. 417 onde se transcreve o epitáfio. 

VOL. m , 37 



290 Brasões 

Armas: de vermelho, seis besanies de prata entre uma dobre cruz e bor- 
dadura de oiro. (Melo). 

Casou com D. Maria de Noronha, condessa da Atalaia, filha natural de 
D. Henrique de Noronha, irmão do 2.° conde de Vila Real e do i,° de 
Odemira. ' Sobreviveu ao marido, ficando por sua morte de posse de todas 
as terras de que êle havia sido senhor, posse que, por contracto de 10 de 
Fevereiro de 1481 feito em Lisboa nas casas da condessa, ela passou a seu 
genro D. Álvaro de Ataíde, do conselho de el Rei, que confirmou por carta 
de 2 de Março seguinte (i). A condessa da Atalaia já era morta em 21 de 
Janeiro de i5o2, como se declara numa carta de 26.000 reais de tença a 
D. Martinho de Castelo Branco (2). 

Sucedera a condessa nas terras ao marido por ser idiota o filho que este 
deixou, D. Pedro de Melo, de quem a mãe foi nomeada tutora e curadora, 
no lugar da mulher D. Guiomar de Castro que renunciara o encargo, por 
carta de 28 de Abril de 148 1 (3). 

Tiveram geração. 

1." Conde de FARO — 1469, Maio 22. — D. AFONSO, sobrinho de 
el Rei. — Por carta daquela data foi feito conde da vila de Farom (Faro), e 
senhor dela em sua vida (4). Depois, por carta dada em Samora a 23 de 
Outubro de 1475, foi ampliada a doação a um seu filho varão, que por sua 
morte ficar, o qual logo se poderá chamar conde de Faro, e ter o senhorio 
da vila (5). D. Afonso, conde de Farom, nosso primo, lhe cometemos a cor- 
reição da vila de Lagos. Lisboa, i de Maio de 1478(6). Também foi 
conde de Odemira como direi nos respectivos títulos, e alcaide mor de Es- 
tremes por carta de 2 de Janeiro de 1463 de doação do duque de Bragança 
seu pai (7). 

Morreu o conde de Faro em 1483 em Sevilha, fugindo à sanha de 
D. João 11(8). Em i de Junho de 1485, data da sentença que o condenou 
como cúmplice pa primeira conspiração contra D. João II, já o conde de 
Faro tinha morrido (9). 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.°, fl. 12 v. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 4.", fl. 5. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.°, fl. Sg v. 

(4) Misticos, liv. 2.% fl. 40. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 7.°, fl. 98. 

(6) Cartório de Santiago, liv, i.", fl. 134. 

(7) Chancelaria de D. João III, liv. 49.", fl. 14 v. 

(8) Historia genealógica, vol. 9.», pág. 201. 

(9) ArCHIVO histórico PORTUGUEZ, vol. II, pág. 68. 



Apêndice 29 1 

Armas: as do 2.° duque de Bragança, as quais o conde traria com alguma 
diferença, como já seu pai fizera emquanto marquês de Vila Viçosa. 

Casou em Junho de 1465, precedendo contracto feito em Odemira a 10 
daquele mês, e confirmado a D. Afonso a i5 (i), com D. Maria de Noronha, 
filiia herdeira de D. Sancho de Noronha, 1.° conde de Odemira, senhor de 
Aveiro, e da condessa D. Mecia de Sousa, senhora de Mortágua. Foi 
D. Maria de Noronha condessa de Faro e senhora de Mortágua e do Vi- 
mieiro, e tambe'm se expatriou para Castela, donde, já vitjva, mandou em 
1484 emissários a D. João II (2) com quem se compôs, e que dizem lhe res- 
tituíra a casa em 1488(3) sendo certo ter a 2 de Outubro de 1400 feito com 
ele troca de certos bens (4). Por carta de 23 de Março de i5i3 foi confir- 
mado ao barão de Alvito uma tença de i65o reais que havia comprado a 
D. Maria de Noronha condessa de Faro (5). Sobreviveu a condessa a seu 
filho o 3.° conde de Odemira, que morreu em 1620, sucedendo a ela direc- 
tamente, em virtude de uma sentença de i532, no senhorio de Mortágua, 
seu bisneto o 4° conde, e no do Vimieiro, seu filho D. Fernando de Faro (6). 
A condessa de Faro ainda vivia em 20 de Maio de i523, data do Somarjo 
de Afonso Mexia (7). 

i.° Duque de GUIMARÃES— Já em 4 de Julho de 1470. — D. FER- 
NANDO, conde de Guimarães^ filho primogénito do 2.° duque de Bragança. 
— Na procuração para o contracto do seu casamento, passada em 4 de Julho 
de 1470, já D. Fernando se intitula duque de Guimarães (8). Por carta de 
18 de Julho de 1476 teve mercê de por sua morte logo o filho maior se 
poder intitular duque de Guimarães (9). Em 1478 veio a ser o 3.° ditque 
de Bragança. 

Armas: as do 2.° duque de Bragança com alguma diferença, não sei qual. 

Havia casado a i.* vez, em 1447, com D. Leonor de Meneses, que morreu 
a 7 de Maio de 1452, e era filha do primeiro casamento de D. Pedro de 
Meneses, 2.° conde de Viana. 

Dela não ficou descendência. 



(i) Místicos, liv. 3.», fl. 35. 
. (2) Chancelaria de D. João II, liv. 23.°, fl. i33. 

(3) Historia genealógica, vol. 9.°, pág. 201. 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 9.», fl. 49 v. 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 42.°, fl. 39. 

(6) Historia genealógica, vol. 9.°, págs. 568 e 587. 

(7) Archivo histórico portuguez, vol. II, pág. 119. 

(8) Provas da Historia genealógica, vol. III, pg. &07, n. 70. 

(9) Ibidem, pág. 627, n." 78. 



292 ^ Brasões 

Casou a 2/ vez em 1470 com D. Isabel, que foi duquesa de Guimarães, 
e depois de Bragança. 

Vide 3.° duque de Bragança. 

3.° Duque dê VISEU e 2.° de BEJA — 1470, depois de 18 de Setembro. 
— D. João, sobrinho de el Rei, filho do infante D. Fernando, duque de Viseu 
e Beja. — Parece ter logo sucedido no título a seu pai, que morreu na data 
apontada. E D. João intitulado duque de Viseu e de Beja, na carta de fron- 
teiro de entre Tejo e Guadiana e reino do Algarve, a qual é de 23 de Março 
de 147 1 (i). Bem assim o é noutra de 2 de Julho do mesmo ano em que se 
lhe concedem os privilégios e liberdades, que pela ordenação do reino são 
outorgados aos infantes (2). Ainda no mesmo ano a 4 de Agosto, determinou 
D. Afonso V que, morrendo o duque seu sobrinho sem deixar filhos, lhe 
suceda seu irmão D. Diogo (3). i 

Morreu D. João moço e solteiro entre 3 de Julho de 1472, e 12 de Janeiro 
de 1473 (4). 

Armas: as do reino com alguma diferença, não sei qual. 

2.° Conde de MONSANTO — 1471, Agosto 24. — D. JOÃO DE CAS- 
TRO, fidalgo da casa e do conselho. — Sucedeu no título por morte de seu 
pai em virtude de uma carta de 8 de Dezembro de 1469, para lhe poder 
logo suceder no condado por seu falecimento, e chamar-se conde de Mon- 
santo sem necessidade de outra carta (5) ; o que lhe foi confirmado já conde 
em 22 de Dezembro de 148 1 (6). Teve o tratamento de sobrinho, e foi 
alcaide mor de Lisboa, senhor de Cascais, etc. O seu .assentamento foi 
acrescentado a cento e trinta mil reais brancos por carta de 21 de Outubro 
de 1475 (7), e depois por outra de 19 de Abril de 1487 subiu ainda mais 
vinte mil reais (8). Ainda era alcaide mor de Lisboa a 28 de Outubro de 
1495 como declara o instrumento de menagem pelo levantamento de el Rei 
D. Manuel (9). Tinha já morrido sem deixar filhos em 19 de Abril de 1496, 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16.", fl. i36; Historia genealógica, vol. 5.°, pág. 56. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16.", fl. i25 v. 

(3) Ibidem, liv. 22.°, fl. 21 v. 

(4) Consta pela data de dois documentos a pág, Sj de Alguns documentos da Torre do 
Tombo, etc. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16.°, fl. 118. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv. 6.°, fl. 2 v. 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.», fl. 43. 

(8) Chancelaria de D. João II, liv. 20.% fl. i. 

(9) Elementos para a historia do município de Lisboa, vol. i.% pág. 369. 



Apêndice 



293 



em que o senhorio de Monsanto^ foi confirmado a sua irmã D. Joana de 
Castro (10). 

Armas: de prata, seis arruelas de azul. (Castro). 

Casou por contracto, aprovado por el Rei em 22 de Outubro de 1468, 
com D. Maria de Meneses, donzela da casa da infanta D. Joana (11). Voi 
condessa de Monsanto, e era filha de D. Duarte de Meneses, 3." conde de 
Viana e de sua primeira mulher D. Isabel de Melo. A condessa ainda vivia 
a 18 de Maio de i5o2, em que nas suas casas de Lisboa, acerca de Santo 
Eloi, fez doação a seu irmão o conde de Tarouca de certos bens no termo 
de Seia, ficando a condessa com o usufruto deles em sua vida (i). Este 
instrumento de doação foi confirmado por el Rei em 4 de Julho do mesmo 
ano, e na carta de confirmação não se declara ser a condessa de Monsanto 
já falecida (2). 

Não tiveram descendência. 



i.° Conde de PENELA — 1471, Outubro 24. — D. AFONSO DE VAS- 
CONCELOS, «nosso bem amado sobrinho». — Foi feito conde de Penela 
por carta da referida data, com todas as honras e preeminências que são e 
devem ser outorgadas aos condes, que de sangue real como ele descendem (3).- 
Por carta de Julho de 1476 fez-lhe el Rei mercê da sucessão na vila de 
Penela para seu filho mais velho por sua morte (4). D. Afonso de Vascon- 
celos, conde de Penela, acrescenta-lhe o seu assentamento em cada um ano 
55.000 reais brancos deste Janeiro que vem de 1476 em diante, e com estes 
que ora lhe acrescenta fazem 200.000. Samora, 23 de Novembro de 1475(5). 

Faleceu o conde a i de Novembro de 1480 (6). 

Armas: esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de azul, sobre- 
carregados cada um de cinco besantes do campo, bordadura de vermelho 
carregada de oito castelos de oiro; o II e III terçados em pala: o i.° de 
negro, quatro faxas veiradas de prata e vermelho; o 2." e 3.° reunidos, for- 
mando um só quartel, que é cortado de um traço e partido de dois que 
fazem seis novos quartéis: a, c e e, de oiro, dois lobos passantes, sotopostos, 
de púrpura, armados e linguados de vermelho; b, d Qf de oiro quatro palas 



( 1 ) Místicos, liv. I .°, fl. 290 V. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3i.<», fl. 7. 

(3) Beira, liv. 2.», fl. 141 e Misticos, liv. i.», fl. 217 v. 

(4) Chancelaria de D. Manuei^ liv. 4.», fl. 23 v. 

(5) Misticos, liv. 3.°, fl. 4. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 6.', fl. 45 v. 

(7) Misticos, liv. 4.», fl. 26. 

(8) Livro j." dos Brasões, pág. 36 1, onde vem o epitáfio. 



294 ^ Brasões 

de vermelho, e sobre o todo destes seis quartéis de oiro liso (i). (I do reino; 
/.** do II, Vasconcelos; 2.° e 3." do II, Meneses do conde de Viana). 

Casou com D. Isabel da Silva, condessa de Penela, filha dos 1.°^ condes 
de Abrantes. Já era casado em 12 de Outubro de 1467 quando foi feita 
doação do reguengo de Campores a D. Isabel da Silva mulher de D. Afonso 
de Vasconcelos, a que fora doado, quando por qualquer forma vagar (2). 
Sobreviveu a seu marido, e ainda vivia em ^17 de Abril de 1483, em que lhe 
foi confirmado o reguengo de Campores (3); era porém já morta a 20 de 
Outubro de 1498, em que o sobredito reguengo foi confirmado a seu filho (4). 

Morreu a 12 de Agosto de i522 (5). 

Tiveram descendência. 

i.« Conde de LOULÉ— 1471, Novembro 12.— D. HENRIQUE DE 
MENESES, conde de Valença, senhor de Caminha, capitão e governador 
de Alcácer e Arzila em Africa, e alferes mor. — Por carta da referida data 
trocou o i.° conde de Valença com el Rei as vilas de Valença, Caminha, e 
Vila Nova da Cerveira, pela de Loulé, e se ficou chamando conde de 
Loulc(6). Por duas cartas, ambas de 27 de Junho de 1476, lhe foi feita 
doação do senhorio de Loulé de juro e herdade e mercê de na casa poder 
suceder uma filha na falta de filho varão (7). 

Morreu em Africa, sendo capitão de Arzila, numa peleja às mãos dos 
mouros (8) antes de 17 de Fevereiro de 1480(9). Por carta de 24 de Abril 
de 1480 foi nomeado capitão de Alcácer Rui Vaz Pereira, pela maneira que 
o era o conde D. Henrique «que ora naquellas partes faleceu » (10). 

Armas: as do 3.° conde de Viana. 

Casou com D. Guiomar, condessa de Valença e depois^ de Loulé, primav^ 



(j) Livro 1.° dos Brasões, págs. 36 1, 368. ^ 

(2) Místicos, liv. 4.°, fl. 10 V. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 21.°, fl. 32. 

(4) Ibidem. 

(5) Torre do Tombo, vol. II, fl. 445 v. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 21.'», fl. 85 v. 

(7) Ibidem, liv. 7.», fl. 36. 

(8) Consta de uma carta de D. Manuel ao papa, pejjindo o priorado do Grato para oj 
conde de Tarouca, irmão do conde de Loulé. Não tinha ela data, mas era de i5o8, desdí 
i3 de Maio a princípios de Junho. Existia na Torre do Tombo, onde hoje se não encontra,^ 
mas lá a viu Lousada, que dela fez largo extracto a fl. 901 v. do 3.o vol. da sua Torre do 
Tombo. 

(9) Data de carta de confirmação da casa à filha {Chancelaria de D. Afonso V, liv. 32.",| 
fl. 81. 

(10) Ibidem, fl. 19 v. 



Apêndice 295 

de el Rei, e filha de D. Fernando, 2.° duque de Bragança. A condessa já 
viúva, foi-lhe confirmada uma tença de assentamento de cento e trinta mil 
reais em 23 de Abril de 1482 (i); e em i5 de Junho de 1497 foram-Ihe con- 
firmadas certas rendas que lhe ficaram em partilha dos bens de sua sogra a 
condessa de Viana (2), e bem assim a referida tença (3). Por este último 
documento sabe-se que D. Afonso V dera um alvará ao duque de Bragança 
para o casamento desta filha. 

Era a condessa Já morta, havia muito talvez, em 19 de Novembro de 
i533, em que sua filha, a condessa de Marialva e Loulé, se compôs com os 
condes de Linhares acerca dum legado que a uma filha destes deixara sua 
mãe (4). 

Efectivamente era já morta a i3 de Abril de iSiy, data de uma carta de 

D. António (o futuro i.° conde de Linhares), escrita de Lisboa a Frei Brás 

• de Góis, guardião de S. Francisco de Alenquer, para lhe remeter o dinheiro, 

que já lhe teria dado o almoxarife, de um desembargo da condessa de Loulé, 

sua tia já falecida, de que ele é testamenteiro (5). 

Vide 1° conde de Valença. 

Tiveram descendência. 

Conde de SANTA COMBA — Anterior a 25 de Novembro de 1471. — 
D. JOÃO GALVÃO, bispo de Coimbra. — Em uma sua provisão da data 
acima referida intitula-se D. João Galvão conde de Santa Comba (6). Anos 
antes, em Santarém a ib de Abril de 1468, mandara D. Afonso V que 
D. João Galvão bispo de Coimbra tivesse, desde o primeiro de Janeiro desse 
mesmo ano em diante, cento e cinquenta mil reais brancos de assentamento 
por ano, sendo cento e vinte cinco mil do seu assentamento, e os outros 
vinte e cinco mil pelo que havia de haver do seu ofício de escrivão da puri- 
dade (7). Pode ser que já então êle tivesse o titulo, e que o assentamento 
fosse o a êle pertencente. Em Coimbra a 18 de Agosto de 1472 é D. João 
Galvão, bispo de Coimbra, conde de Santa Comba, do conselho de el Rei, 
escrivão da sua puridade, e veador mor das obras e resíduos do reino, 
nomeado vedor mor das obras e alcaide mor das sacas das comarcas da 
Beira e Riba de Côa, que até então tivera Diogo Soares de Albergaria, 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 2.«, fl. 145 v. 

(2) Místicos, liv. I.», fl. 66, 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. So.", fl. loa v. 

(4) Gaveta g.*, maç. 10, n.° 16. 

(5) Corpo Chronologico, parte i .*, maç. ai, doe. 81, apud Saraiva, Obras, vol. 4.°, pág. 28 1 . 

(6) J. P. Ribeiro, Reflexões históricas, vol. i.», pág. 42. 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 28.% fl. 14 v. 



296 Brasões 

que se ora finara (i). Quarenta e oito dias depois, a 25 de Setembro, era 
D, João Galvão criado conde de Arganil. 

Armas: partido: o i.° de prata, águia de negro carregada de um crescente 
de oiro sobre o peito; o 2." de vermelho, seis costas de prata, postas em 
faxa, dispostas em duas palas, e firmadas nos flancos do escudo. (Galpão) {2), 

As armas do conde de Santa Comba, D. João Galvão, bispo de Coimbra, 
não seriam talvez as que eu lhe dou, fundado no Livro do Armeiro mor; 
mas da descrição que João Pedro Ribeiro faz de um selo do bispo, não se 
pode contudo inferir que fossem diversas. Diz êle: «Lugar 4o sello pen- 
dente, redondo, de cera vermelha, com imagem sentada em throno, no 
fundo. Armas da familia. Leão á direita, á esquerda chapeo episcopal, 
ao redor legenda — S. lohanis Galvani Episcopi Colubr. » (3). O leão à 
direita, e o chapéu episcopal à esquerda, haviam de estar fora do escudo, 
como insígnias, ou suportes; dentro no escudo não se metia um chapéu de 
bispo; a pôr-se lá alguma cousa seria uma mitra, o que é bastante vulgar 
em escudos de armas de prelados. 

Era preciso ver o documento, que o nosso mestre de diplomática encon- 
trou no Cartório da Colegiada do Salvador de Coimbra, e que eu hoje não 
sei onde para. 

Vide i.** conde de Arganil. 

4.° Duque de VISEU e 3.® de BEJA — Entre 3 de Julho de 1472 e 12 
de Janeiro de 1473. — D. DIOGO, sobrinho de el Rei, irmão do 3.° duque 
de Viseu e 2.° de Beja. No contracto de casamento de 16 de Outubro de 
1473, de sua irmã D. Leonor com o príncipe D. João é D. Diogo intitulado 
duque de Viseu (4). — A seu irmão, que morreu sem filhos, sucedeu D. Diogo 
na casa em virtude de uma carta de 4 de Agosto de 147 1 que para este 
efeito lhe outorgara D. Afonso V(5). Tinha os privilégios e liberdades dos 
infantes, que'lhe haviam sido concedidos por carta de 2 de Julho de 147 1 (6). 
Em cartas de 4 de Março e 12 e 20 de Maio de 1474, sendo menor e pupilo 
de sua mãe, é intitulado duque de Viseu (7). Na carta de 7 de Agosto de 
1476, em que se permite suceder-lhe na casa, se morrer sem filhos, qualquer 
dos seus irmãos, D. Duarte ou D. Manuel, é D. Diogo intitulado duque de 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 29.", fl. 206. 

(2) Livro do Armeiro mor, fl. 95. 

(3) Dissertações, vol, 2.°, pág. 262, doe. XVIII. 

(4) Provas da Historia genealógica, vol. II, pág. 182, n.* 3o. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 22.", fl. 21 v. 

(6) Ibidem, liv. i6.°, fl. i25 v. 

(7) Archivo dos Açores, vol. \.^, pág. io3, i5 e 18, 



Apêndice 297 

Viseu e de Beja(i). A carta de confirmação de Beja e ilha da Madeira de 
juro e herdade perdeu-se e passou se-lhe outra a 10 de Agosto de 148 1 (2). 

Morreu às mãos de D. JoÕo II em Setúbal a 28 de Agosto de 1484, sol- 
teiro, mas deixando um filho que foi o condestável D. Afonso. A data da 
morte do duque de Viseu vem expressamente declarada na sentença a Yoce 
Abravanel (3). Aí lê-se: «mandáramos matar em nossa presença o dita 
D. Diogo aos 28 dias do dito mes de agosto, e tanto que o dito rréo soubera 
que o dito D. Diogo era morto, posto que sabbado fosse, elle se amorara 
logo e fugira » (4). 

Armas: as do reino com alguma diferença. 

i.° Conde de ARGANIL— 1472, Setembro 25. — D. JOÃO GALVÃO, 
bispo de Coimbra, do conselho de el Rei. — Por carta daquela data, pelos 
seus serviços, e em especial pelos que prestara na filhada de Arzila e 
Tânger, «onde nos mui grandemente e com muita diligencia e mui bem 
serviu... queremos, assim por honra e memoria sua e de sua linhagem,, 
como por maior prerogativa e preeminência de sua cathedral egreja, alem 
da dignidade pontifical, haja e tenha dignidade de condado, e que elle dito 
bispo e por seu respeito e memoria todos seus sucessores bispos de Coimbra, 
sejam e se chamem e intitulem condes da villa de ^rganil» (5). Já era, 
como fica dito, conde de Santa Comba, ainda que nesta carta nenhuma refe- 
rência a tal título se faça. O assentamento que D. João Galvão tinha ficou 
mencionado no título de Santa Comba. Foi escrivão da puridade, prior mor 
de Santa Cruz de Coimbra, vedor mor das obras e resíduos do reino, e arce- 
bispo eleito de Braga em 1482, de que nunca chegou a alcançar as bulas. 

Em Novembro de 1482 ainda era bispo de Coimbra, mas a 2 de Junho- 
do ano seguinte já outro prelado ocupaVa a sede conimbricense (6); e a 23 
de Julho desse mesmo ano de 1483 foi Nuno Martins da Silveira nomeada 
vedor mor das obras, sacas e resíduos do reino (7). 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 7.°, fl. 52 v. 

(2) Ibidem, liv. 26.", fl. i36 v. 

(3) Gaveta 2, maç. i.°, n.° i5. Archivo histórico portuguez, vol. lí, pág. 346. 

(4) Rui de Pina, pág. 59 da Chronica de D. João II, trás a data certa; aparece porém 
errada na Vida de D. João II, de Garcia de Resende, cap. LII, erro de impressão provavel- 
mente pois que diz: «sesta feira xxij», por sexta feira xxvij, faltando o v. — Na Viaje de 
Nicolas de Popiclovo, já estava em Portugal em 1486, na pág. 36, diz ter sido a morte da 
duque a i3 de Setembro; mas à vista do declarado pela sentença não há dúvida de se ter 
enganado. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 29.", fl. 187. 

(6) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. 5.», pág. i65. 

(7) Chancelaria de D. João II, liv. 26.°, fl. 121. 

VOL. III 38 



ngS Brasões 

Morreu D. João entre 27 de Julho e j i de Agosto de 1485(1). Porque 
é que D. João Galvão, transferido para a Sé de Braga, foi logo substituído 
na de Coimbra, nunca foi confirmado na outra e morreu pobre e obscura- 
mente ? Nos autores encontro isto: «Sem aguardar as letras e consenti- 
mento do Summo Pontifice. . . começou (D. João Galvão) a exercer em Braga 
os actos que temos referido. . . o papa Xisto IV. . . o sentiu de maneira que 
lhe não quiz passar as bulias, pelo que nem tomou posse d'esta egreja nem 
gosou os rendimentos d'ella, e. . . ficou sem o bispado de Coimbra. . . e era 
prior de S. Cruz D. João de Noronha... Assim ficou o arcebispo D. João 
Galvão pobre, e só com o rendimento de uma igreja que elle mesmo se 
tinha annexado (2). O mesmo declaram outros historiadores » (3). 

Em 25 de Maio de 1488 já estava eleito arcebispo de Braga, como se lê 
num breve de Xisto IV (4). Este papa, por uma bula de 6 de Fevereiro de 
1484, citou o ex-bispo de Coimbra perante a Santa Sé, por ter tomado 
conta do arcebispado de Braga sem esperar as letras de transladação, e 
por conspirar com os ministros de D. João II contra as imunidades ecle- 
siásticas. Declara-lhe também, que já tinha as letras prontas, mas que 
mandou arrancar-lhes os selos, reputando o bispo' indigno da graça que lhe 
fazia (5). 

Não me posso convencer de que o motivo fosse só aquele, por que não 
foi unicamente o papa que o castigou; el Rei também o privou do ofício que 
exercia, e parece que também do assentamento, se é verdade ter-lhe ficado 
para sua subsistência apenas o rendimento da tal igreja. 

Encontrei um documento que julgo vir esclarecer muito o caso. É uma 
carta de perdão passada em Viana de apar de Alvito a 2 de Outubro de 
1490. Diz ela: «Diogo Gonçalves, cavaleiro, çreado do arcebispo de Braga 
D. João Galvão, morador em Coimbra, me envia dizer que a elle culparam 
na tirada de um Garcia Gomes, escudeiro do dito arcebispo, que foi na 
morte de um João de Freitas, dizendo que o dito arcebispo, sendo bispo da 
dita cidade, o mandara matar pelo dito Garcia Gomes e outros, e que, sendo 
assim preso em poder de Fernando Alvares de Freitas, elle suplicante com 
outros lho tirava do poder. Pela qual rasão elle suplicante fora preso, e 



(i) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. 5.°, pág. i65. 

(2) D. Rodrigo da Cunha, Historia de Braga, vol. 2.", págs. 263 e 264. 

(3) D. Nicolau de Saata Maria, Chronica dos cónegos regrantes, vol. a.", pág. a63; Frei Fer- 
nando da Soledade, Historia Seraphica, 3." parte, pág. 166 mihi, e Leitão Ferreira, Catalogo 
Aos bispos de Coimbra, pág. i5o. 

(4) Visconde de Santarém, Quadro elementar, vol. lo.*, pág. 99. 

(5) Ibidem, pág. 10 1. 



Apêndice 299. 

fora dada sentença contra elle em que o haviam por degredado por um ana 
para os portos de àllem em Africa eic. » (i). 

Não podia ficar em Coimbra um bispo que mandava matar gente, nem 
o papa depois disto o podia confirmar num arcebispado. 

Aquele João de P^reitas morava em 1464 em Coimbra, na rua da Calçada^ 
e ante as portas das suas casas foi apresentada, em 22 de Junho, uma pro- 
curação de Diogo de Azambuja, cavaleiro de Avis, comendador de Alter 
Pedroso e de Seda, guarda roupa e guarda mor de D. Pedro, rei de Aragãa 
e conde de Barcelona, procuração passada ao pai de Diogo, Pêro da Azam- 
buja, na referida cidade de Barcelona, a 8 de Maio do mesmo ano (2). 

Armas: vide em conde de Santa Comba. 

Marquês de MONTEMOR O NOVO — Entre 25 de Abril de 1478 e 
i5 de Abril de 1478. — D. JOÃO, sobrinho de el Rei, condestável, filho do 
2." duque de Bragança. Na carta de 17 de Novembro de 1476 de doação 
em vida de pensão dos tabeliães de Lisboa, além de outra que o duque de 
Bragança tinha, e que já este seu filho arrecadara, é ele nomeado D. João> 
condestável, senhor de Montemor o Novo (3). Por carta de 3o de Outubros 
de 147 1 foi-lhe dado o senhorio de Montemor o Novo (4); em 25 de Abril 
de 1473 foi feito condestável, como havia sido seu bisavô D. Nuno Álvares- 
Pereira(5). Em nenhuma destas cartas é intitulado marquês; aparece porém 
com o título na carta de i5 de Abril de 1478 em que é nomeado fronteiro- 
mor da comarca de Entre Tejo e Guadiana e Além do Guadiana (6). Des- 
terrado de Montemor por D. João II, fugiu depois das Alcáçovas com seu. 
irmão o conde de Faro, e acolheu-se a Castela. Foi sentenciado à morte, e 
em estátua executada a sentença em Abrantes a 12 de Setembro de 1483. 

El Rei nesta carta diz o seguinte: «Fazemos saber que por nós foi 
posta defesa, que nenhuma pessoa, de qualquer estado e condição que fôsse^ 
se não partirá destes reinos para os de Castela para andar com D. João, 
que foi marquês de Montemor, sob pena de perdimento de bens, e de cair 
no caso maior, visto como ele era fugido e lançado em os ditos reinos de 
Castela por causa da traição que cometeu contra nossa pessoa real e em 
perdimento de nossos reinos; e ora a nós foi dito etc. » Carta de confiscação- 



(i) Chancelaria de D. João 11^ liv. i6.", fl. 90 v. 

(2) João de Freitas em Coimbra, vide Documentos de Évora, vol. III, pág. i5, n." 3. 
Ver breves de 1483 no vol. X do Quadro elementar, págs. 99 e loi. 

(3) Místicos, liv. 3.°, fl. 279 V. 

(4) Provas da Historia genealógica, voI. 3.", pág. 572, n.» 64. 

(5) Misticos, liv. 3.», fl. 291 V. 

(6) Extras, fl. 159. 



Soo Brasões 

de bens a um criado do marquês, o qual se fora para êle haveria um mês, 
Abrantes, 22 de Setembro de 1488 (i). 

Morreu em Sevilha a 3o de Abril de 1484. 

Armas: provavelmente as que seu pai usara emquanto marquês de Vila 
Viçosa. (Braganças, primeiras). 

Casou antes de 25 de Julho de 1460; comoconsta da carta de 45.000 reais 
brancos de tença a sua mulher pelas 4.500 coroas de ouro que lhe foram 
dadas em casamento (2), com D. Isabel de Noronha, filha do arcebispo de 
Lisboa, D. Pedro de Noronha, legitimada por carta de i3 de Agosto 
de 1444 (3). Teve a marquesa de tença desde i de Janeiro de 1480 
100.000 reais brancos (4), e de assentamento outros 100.000 reais desde 
igual dia do ano seguinte (5). Parece não ter ela decaído da graça de 
D. João II, que em Abrantes, onde fora a execução do marido, e poucos 
dias depois dela, a 23 de Setembro, lhe deu a renda das pensões dos tabe- 
liães de Lisboa, que havia sido do marquês (6). A sua tença dos 45.000 reais 
do casamento foi-lhe confirmada por carta de 1 1 de Janeiro de i5oo, para a 
começar a receber desde o i.° desse mês (7), pelo que parece que por 
ausência, ou outro motivo, houvera interrução no pagamento. Em 4 de 
Junho de i5ii D. Isabel Henriques (sic)^ marquesa de Montemaior em Por- 
tugal vivia em Sevilha (8). Em i5i4 no caderno da sisa do pescado e 
madeira de Lisboa se incluiu como tença de 100.000 reais para ser pago num 
ano à marquesa de Montemor (9). 

Não tiveram descendência. 

i.° Barão de ALVITO — 1475, Abril 27. — DR. JOÃO FERNANDES 
DA SILVEIRA, do conselho de el Rei, escrivão da puridade, chanceler 
mor e vedor da fazenda do príncipe, regedor por muitos tempos que foi da 
■casa da suplicação, e muitas vezes embaixador por desvairadas partes do 
mundo aos Padres Santos, reis, príncipes e senhores. — Por carta da referida 
<data mandou el Rei que todas as terras que então o doutor trazia da coroa, 
« que houvera por dote e casamento de D. Maria de Sousa sua mulher, 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 26.°, fl. 107 v. 

(2) Místicos, liv. 4.°, fl. 101 V. ' 

(3) Provas da Historia genealógica, vol. 3», pág. 58o, n." 68. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 32.°, fl. i58 v. 

(5) Ibidem, liv. 26.°, fl. 141. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv. 23.°, fl. 5o v. 
{7) Misticos, liv. 4.°, fl. 101 v. 

{8) Provas da Historia genealógica, vol. 3.°, pág. 576, n.» 67. 

(9) Archivo histórico portuguez, vol. VIII, pág. 72. 



Apêndice 3o i 

sejam feitas baronia de então em diante para sempre em vida deles ambos, 
e de todos seus herdeiros e descendentes segundo a lei mental. Determinou 
mais que ele se intitule e chame barão da vila de Alvito, que é a principal 
vila e cabeça das ditas terras, e assim mesmo sua mulher, acontecendo o 
barão falecer primeiro que ela, se chame baronesa de Alvito depois do seu 
falecimento; e dai em diante todos os seus descendentes, que as ditas terras 
houverem de herdar, sem mais nenhum deles haver de requerer outra carta, 
nem licença, nem lhe ser feita outra cerimónia, nem solenidade, se chamem 
barões de Alvito. Outrosim houve ao barão por cortados os « cabos » a 
seus estandartes, para de então em diante, êle e seus sucessores poderem 
trazer bandeiras quadradas (i). Após esta data passou a chamar-se D. João 
da Silveira. — Por carta de 12 de Setembro de 1463 havia sido o doutor João 
Fernandes nomeado regedor da casa da suplicação (2). Pelo seu casamento 
era senhor de Alvito, Vila Nova, Aguiar e Oriola, lugares para os quais 
alcançou carta de privilégios em 8 de Maio de 147 1 (3), no mesmo dia em 
que o senhorio fora confirmado a sua mulher. A ele próprio foram os re- 
feridos lugares confirmados por carta de i de Abril de 1482 (4). No último 
dia deste mesmo mês em carta régia diz D. João II, que o sítio da vila de 
Alvito, que então pertencia a D. João da Silveira, barão dela, e a D. Maria 
sua mulher, era muito disposto a se fazer lá, acerca da fonte, um castelo, e 
autoriza o barão a que o faça (5). Ainda foi feita outra mercê ao barão por 
carta" de 6 de Outubro de 1488, pela qual, considerando como êle por ser 
barão se pode e deve chamar e chama dom, e assim seu filho que sua 
baronia espera por seu falecimento herdar, e os outros seus filhos não, con- 
cede el Rei o título de dom a todos os filhos e netos do barão por linha 
direita (6). E esta a última notícia que tenho do barão de Alvito, que já era 
falecido a 9 de Abril do ano seguinte, quando foi confirmada a seu filho 
D. Diogo a autorização para a edificação do castelo de Alvito (7). 

D. João da Silveira, i.° barão de Alvito, já tinha morrido a 24 de Março 



(i) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 3o.°, fl. 66, e impressa na íntegra a pág. 23o deste 
volume. 

(2) Z^íiem, liv. 9,°, fl. 146. 

(3) Chancelaria de D. João 11^ liv. 6.», fl. 126 v. 

(4) /^'/íÍÉfm, fl. 125 V. 

(5) Ibidem, liv. 3.», fl. 42 v. 

(6) Ibidem, liv. 19.», fl. 46. 

(7) Chancelaria de D Manuel, liv. 41.°, fl. gS. Advertirei que neste lugar ao transcre- 
"ver-se a primitiva carta de D. João II de autorização para a edificação do castelo de Alvito, 
se lhe errou a data, pondo-a no ano de 1489, que era o da confirmação, em vez de 1482. 
<Dom a data certa já acima ficou citada. 



3o2 Brasões 

de 1489, data de uma carta passada em Beja a favor de D. Maria de Sousa,, 
baronesa de Alvito, e dirigida a Pedro Álvares, cavaleiro da casa de el Rei, 
comendador dos Colos, e anadel mor dos besteiros do monte. Por ela, 
querendo fazer mercê a baronesa, determina-se que se não peçam de então 
em diante mais de dez besteiros nas suas terras, sendo quatro em Alvito, 
três em Vila Nova, dois em Oriola e ura em Aguiar (i). 

A referida D. Maria de Sousa sucedera a seu pai, Diogo Lopes Lobo,, 
nas terras de Alvito, Vila Nova de Alvito e ribeira de Nisa, que lhe foram 
confirmados por carta de 8 de Maio de 147 1, como deixei dito. Dele também 
herdara os termos de Aguiar e Oriola, que já lhe haviam sido confirmados 
de juro e herdade, como os outros, por carta de 11 de Setembro de 1470(2).. 

Dr. João Fernandes da Silveira, do conselho, carta de regedor da casa 
da Suplicação. 12 de Setembro de 1463 (3). 

Fernão da Silveira e João da Silveira, filhos do doutor (?) do nosso con-^ 
selho e regedor da Casa da Suplicação, e de Violante Pereira, sua primeira, 
mulher, partiram ora com êle os bens que por morte de sua mãe ficaram, 
tendo um 19 e oufro 18 anos etc. Autorização para receberem e darem 
quitação a seu pai da prata e dinheiros da legítima materna. 3o de Agosto- 
de 1469(4). 

Considerando el Rei D. João meu avô, os muitos e grandes serviços que 
Diogo Lopes Lobo, o Velho, cavaleiro e alcaide mor que foi da cidade de 
Évora, já tinha feitos a êle e a seus reinos nas guerras que houve com el Rei 
de Castela, lhe fez mercê e doação para filhos e netos e todos seus descen- 
dentes das vilas de Alvito, Vila Nova de Alvito e da Ribeira de Nisa que é 
em termo da vila de Alcácer, as quais eram e são da coroa; e êle as pos- 
suíam em toda a sua vida continuando sempre no serviço do dito meu avô; 
por falecimento da qual as ditas terras e ribeira vieram a Rui Dias seu filho,, 
que isso mesmo em sua vida serviu sempre o dito meu avô, e as possuiu até 
fim de seus dias, e por sua morte ficaram a Diogo Lopes seu filho, do nosso 
conselho, que ora vive, o qual fez muitos serviços a el Rei meu pai e a nós, 
como bom servidor e leal vassalo, a quem sempre tivemos e temos vontade 
de fazermos honra e mercê segundo seus merecimentos; ao qual Diogo 
Lopes de três filhos varões que houve de D. Isabel de Sousa filha de D. Lopo 
Dias de Sousa, que foi mestre de Cristo, os dois, a saber, Rui Dias e Pêro 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 17.°, fl. 7, transcrita na de confirmação à mesma 
D. Maria de Sousa, dada em Torres Vedras a 5 de Outubro de 1496. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 6.°, fl. 127. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9.», fl. 146. 

(4) Ibidem, liv. Si.», fl. 114. 



Apêndice 3o3 

Dias morreram por serviço de Deus e nosso em guerra de moiros, e o outro 
filho se veio depois a finar de sua morte, e assim êle ficou sem alguns que 
as ditas terras pudesse suceder, posto que filhas tivesse, e de algumas delas 
netos varões, as quais por serem fêmeas e seus filhos virem por fêmeas 
segundo as nossas ordenações não podiam ser as sobreditas coisas herdar. 
Considerando nós emsembra com o príncipe D. João, de cujo prazer e consen- 
timento, fazemos mercê ao dito Diogo Lopes, como entre todas suas filhas 
D. Maria sua filha era a mais velha de todos os filhos e filhas, e que dela 
tenho netos varões lídimos filhos seus e do dr. João Fernandes da Silveira, do 
nosso conselho e regedor da nossa Casa da Suplicação.. . queremos que fale- 
cendo o dito Diogo Lopes suceda nas sobreditas coisas sua filha D. Maria e os 
filhos e netos varões que ela tiver do dito seu marido. . . Portalegre, 22 de 
Julho de 1470. — D. João da Silveira, barão de Alvito, do conselho e escrivão 
da puridade, apresentou esta carta, pedindo em seu nome e da dita D. Maria 
sua mulher que lhe fosse confirmado, o que &1 Rei deferiu. Viana de Alvito, 
3o de Março de 1482(1). — Confirmado a D. Maria de Sousa em Torres 
Vedras a 6 de Outubro de 1496 (2). 

Fizemos mercê a D. Maria de Sousa, filha de Diogo Lopes Lobo, do 
nosso conselho, e mulher do dr. João Fernandes da Silveira, do nosso con- 
selho e regedor da Casa da Suplicação, que ela pudesse suceder a seu pai, 
por êle não ter filho varão, nas coisas que êle tinha da coroa, e nos foram 
mostradas cartas de doação a Diogo Lopes Lobo, o velho, das vilas de 
Alvito, Vila Nova e Ribeira de Nisa, de juro e herdade, das quais lhe man- 
dámos logo dar cartas, e das terras de Aguiar e Oriola, que são à cerca de 
Évora, lhe não mandámos então dar cartas, posto que as o dito seu pai de nós 
tivesse, por nos não ser mostrada carta alguma, por que lhe delas tivéssemos 
feita mercê, a qual se então não achara. Nisto se veio o dito Diogo Lopes 
a finar, e depois de ser finado nos foi mostrada uma nossa carta pela qual 
lhe fizemos mercê das terras de Aguiar e Oriola de juro e herdade, etc. 
Temos por bem que ela haja e suceda nas ditas terras como nas outras de 
Alvito e Vila Nova. Lisboa, 11 de Setembro de 1470. — Confirmada a 
D. João da Silveira, barão de Alvito, do conselho e escrivão da puridade, 
«m Viana a 4 de Junho de 1482 (3). — Confirmada a D. Maria em Torres 
Vedras, a 4 de Outubro de 1496(4). 

D. Maria de Sousa, mulher do dr. João Fernandes, do nosso conselho e 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 6.», fl. 126 v. 
(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. Sy."», fl. 4 v. 

(3) Chancelaria de D. João 11, Hf. 6.", fl. 127. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 37.», fl. 4. 



3 04 Brasões 

regedor da Casa da Suplicação, tinha de juro e herdade a vila de Alvito, e 
Vila Nova, e os moinhos e possessões de Viana na Ribeira de Nisa, termo 
de Alcácer, de que estava de posse por morte do pai Diogo Lopes, do con- 
selho etc. Confirma-lhos em Santarém, 8 de Maio de 147 1. — Confirmada 
a D. João da Silveira, barão de Alvito,, do conselho e escrivão da puridade^ 
em Viana de Alvito, a i de Abril de 1482 (i). 

Dr. João Fernandes da Silveira, do conselho, regedor da Casa da Suplica- 
ção, disse que tínhamos feita mercê de Juro e herdade a D. Maria de Sousa 
sua mulher, filha de Diogo Lopes Lobo já finado, das terras de Alvito, Vila 
Nova, Aguiar e Oriola, lugares em que havia muitas herdades e terras que 
não eram lavradas nem coutadas, e muitas vinhas que não eram adubadas 
nem corregidas, e isso mesmo olivais e pomares, que outro sim não eram 
adubados nem davam frutos, e também casas, pardieiros e chãos que já 
foram casas, etc, etc. Possa pôr por um ano em pregão as ditas terras 
para seus donos as lavrarem e adubarem, e não o fazendo as possa dar de 
sesmaria etc. Almeirim, 8 de Maio de 147 1. — Confirmada a D. João da 
Silveira, barão de Alvito, do conselho e escrivão da puridade, e a D. Maria 
sua mulher, em Viana de Alvito, a i5 de Abril de 1482(2). — Confirmada a 
D. Maria em Torres Vedras, 4 de Outubro de 1496(3). 

Dr. João Fernandes da Silveira, do conselho, regedor da Casa da Supli- 
cação, carta de privilégio para os rendeiros das suas terras. Coimbra, 4 de 
Setembro de 1472. — Confirmada a D. Maria de Sousa em Torres Vedras, 
5 de Outubro de 1496(4). 

Dr. João Fernandes da Silveira, do conselho de el Rei, escrivão da puri- 
dade, chanceler mor e vedor da fazenda do príncipe, carta de barão de Alvito, 
dada em Portalegre, 27 de Abril de 1475(5). — Confirmada a D. João da 
Silveira, do conselho, escrivão da puridade, em Viana de Alvito, i de Abril 
de 1482. — Confirmada a D. Maria de Sousa em Torres Vedras, 6 de 
Outubro de 1496(6). ■< 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do nosso conselho, escrivão da puri- 
dade e chanceler mor do príncipe, autorização para conhecer por sUa própria 
pessoa por aução nova de quaisquer demandas, contendas, etc. que em suas 
' terras agora há, ou ao diante houver, e as apelações das sentenças que êle 
der queremos que logo vão directamente a cada uma das nossas casas de re- 



(i) Chancelaria de D. João II, liv, 6.", fl. i25 v. 

(2) Ibidem, fl. 126 v. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 17.», fl. 7 v. 

(4) Ibidem, fl. 7. 

(5) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 3o. ", fl. 66. 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. 37.°, fl. 3 v. 



Apêndice s 3o 5 

lação, qual a qualidade da causa requerer etc. Torres Novas, 3a de Abril 
de 1481 (i). 

D. Maria de Sousa, filha de Diogo Lopes Lobo, do nosso conselho, e 
mulher que ora é do dr. João Fernandes, nos disse que tinha de juro e her- 
dade a vila de Alvito, e que em termo dela havia uma coutada antiga» que 
era do senhorio, a qual chamavam Monte do Coelho, no qual andavam cervos 
coelhos e outras alimárias... mando coutar e impor coimas aos defrauda- 
dores etc. Lisboa, 20 de Julho de 148 1 (no número do ano há engano por 
força). — D. João da Silveira, barão de Alvito, do conselho e escrivão da 
puridade, apresentou a precedente carta, que lhe foi confirmada a ele e a 
sua mulher D. Maria em Viana de Alvito a i5 de Abril de 1482 (2). 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do nosso conselho e escrivão da 
nossa puridade, haja de i de Janeiro que passou de 1482 de tença 12.000 reais 
brancos em satisfação da metade de todo o dinheiro que os escrivães da 
nossa comarca houvessem do feitio de toda. a escritura que fizéssemos, que 
êle alegava pertencer-lhe e ser foro do seu ofício: «Havendo nós respeito 
e folgarmos sempre que nossos oficiaes tenham bem com que possam suportar 
seus carregos e por lhe fazermos graça e mercê». Montemor o Novo, 25 de 
Fevereiro de 1482 (3). 

D. João da Silveira, barrão de Alvito, do conselho e escrivão da puridade, 
por ter deixado o ofício que tinha de regedor da justiça da Casa da Suplica- 
ção em tempo de el Rei meu pai, haja desde o i.° de Janeiro de 1482, 
3o.ooo reais brancos como os até aqui houve. Viana de Alvito, 17 de Março 
de 1482 (4). 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do conselho e escrivão da puridade, 
por respeito de certa tença que havia do bispo de Coimbra e o leixr por 
nosso mandado, temos por bem e queremos que êle haja de. nós de tença 
em cada ano, emquanto nossa mercê for, do i." de Janeiro que passou de 
1482 em diante 11.000 reais brancos. Viana de apar de Alvito, 18 de Março 
de 1482(5). 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do conselho e escrivão da puridade 
apresentou carta. — Diogo Lopes Lobo, fidalgo de nossa casa, disse que em 
termo da vila de Alcácer tem uma terra e ribeira que chamam de Nisa, que 
é da coroa, etc. Carta de privilégios para 10 homens que nela quiserem. 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 26.«>, fl. 53 v. 

(2) Ibidem, liv. 6.», fl. 126. 

(3) Ibidem, )iv. 3.°, fl. 23. . 

(4) Ibidem, liv. 6.», fl. \i5. 

(5) Ibidem, fl. 125 V. 

voL. in 39 



3o6 Brasões 

viver e povoar. Sintra, 9 de Outubro de 1450. — Confirmada ao barão em 
Viana de Alvito, i de Abril de 1482(1). 

Considerando nós o sítio da vila de Alvito que ora é de D. João da Sil- 
veira, barão dela, e de D. Maria sua mulher, ser muito disposto a se aí 
àcêrca da fonte, fazer um castelo etc. Autoriza o barão para o fazer. Dado 
em 3o' de Abril de 1482 (2). 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do nosso conselho, e nosso escrivão 
da puridade, doação desde o 1.° de Janeiro que veni de 1485 das Jugadas 
de Coimbra e seu termo, para ele em toda sua vida, e para um seu filho 
varão lídimo, qual ele quizer, depois do seu falecimento, as quais jugadas 
lhe damos com 60.000 reais em parte dos Soo. 000 que temos ordenado haver 
de nós etc. Abrantes, 24 de Setembro de 1483. E logo o dito barão 
declarou que o filho seu que queria que houvesse as jugadas depois 
de seu falecimento seria Felipe de Sousa, seu filho e de D. Maria sua 
mulher (3). 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do conselho, escrivão da puridade, 
lhe damos de renda em cada um ano para bem poder suportar sua vida e 
manter sua honra, 3oo.ooo reais brancos, contando-lhe a moradia que de 
nós há por esta guisa, 60.000 reais pela sua moradia, 60.000 reais pelas 
jugadas de Coimbra, 108. i36 reais pelas rendas de Lagos, e os 71.844 reais 
se lhe assentaram agora por esta carta de padrão nos livros da fazenda, e 
haja desde o 1.° de Janeiro que virá de 1484. Abrantes, 27 de Setembro 
de 1483(4). 

D. João da Silveira, barão de Alvito, do nosso conselho, escrivão da 
nossa puridade, sendo como ele por ser barão se pode e deve chamar e 
chama dom, e assim o seu filho que sua baronia espera pòr seu falecimento 
herdar, e por outros seus filhos não, segundo disto tem nossa carta etc. 
Concede o título de dom a todos os seus filhos e netos por linha direita. 
Abrantes, 6 de Outubro de 1488(5). 

A vós Pêro Alvares, cavaleiro de nossa casa, comendador dos Colos e 
anadel mor dos besteiros do monte, sabede que querendo fazer mercê a 
D. Maria de Sousa, baronesa de Alvito, queremos que em Alvito, Vila Nova, 
Aguiar e Oriola, terra da dita D. Maria, se não façam daqui em diante mais 
de dez besteiros, quatro em Alvito, três em Vila Nova, dois em Oriola, e 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 6.», fl. 127 v. 
(2) Ibidem^ liv, 3.", fl. 42 v. 
{3).lbidemy liv. 26,», fl. 91 v. 

(4) Ibidem, fl. gS. 

(5) Ibidem, liv. 19.", fl. 146, 



Apêndice 307 

um em Aguiar etc. Beja, 24 de Março de 1489. — Confirmada a D. Maria 
de Sousa em Torres Vedras, a 5 de Outubro de 1496(1). 

Armas: não sei. 

Casou a i.* vez com Violante Pereira, viúva de Marlim Afonso Valente 
senhor do morgado da Póvoa, e filha de João Mendes Aguado, corregedor 
da corte. Deste casamento, que já estava dissolvido em 3o de Agosto de 
1469(2), houve descendência, que não sucedeu na varonia de Alvito. 

Casou a 2.* vez, antes de 22 de Julho de 1470, com D. Maria de Sousa, 
filha herdeira de Diogo Lopes Lobo, senhor de Alvito, Vila Nova de Alvito, 
e ribeira de Nisa, terras em que D. Maria, por carta da referida data, sendo 
já casada, foi autorizada a suceder por morte de seu pai. D. Maria de 
Sousa teve carta para suceder a seu pai nas outras terras da casa que eram 
Aguiar e Oriola, tudo de juro e herdade em 11 de Setembro de 1470, con- 
firmado ao barão em 4 de Julho de 1482 (3). A 8 de Maio de 1471 já essa 
sucessão tinha tido lugar, e as terras foram confirmadas a D. Maria (4). 
Como acima referi foi a baronia de Alvito criada não só para o dr. João 
Fernandes da Silveira, mas também para sua mulher D. Maria de Sousa, 
que enviuvando, teve confirmação da baronia por carta de 6 de Outubro de 
1496 (5). Deu a baronesa em sua vida a seu filho D. Diogo a renda das 
judiarias das suas vilas de Alvito, Vila Nova e Oriola, e quando foi da 
expulsão dos judeus, mandou D. Manuel dar a D. Diogo, em satisfação da 
perdida renda, certa tença de que se lhe passou carta de padrão em 18 de 
Janeiro de 1498(6). Ainda então vivia a baronesa, e creio que a sua morte 
teve lugar entre 12 de Agosto e 4 de Setembro de 1499, pois que, como no 
seu lugar mostrarei, na primeira data ainda o filho não era barão, e na 
segunda já tinha o título, no qual podia suceder sem mais carta nem licença, 
como declara a mercê da criação da baronia. O testamento de D. Maria 
de Sousa é de 26 de Julho de 1489(7). 

Tiveram descendência. 

i.« Conde de PENAMACOR — 1475, Maio. -^ LOPO DE ALBU- 
QUERQUE, camareiro mor. — Em Placência por ocasião do desposório de 
D. Afonso V com a princesa D. Joana criou el Rei conde de Penamacor ao 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. ly.» fl. 7. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3r.», fl. 114. 

(3) Chancelaria de D. João II, liv. 6.% fl. 1 27. 

(4) Ibidem, fl. 125 V. 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 37.«', fl. 3 v. 

(6) Ibidem, liv. 41.*, fl. 67 v. 

(7) Lousada, Torre do Tombo, vol. 2.°, fl. 69. 



3o8 ^ Brasões - 

seu camareiro mor Lopo de Albuquerque (i). Teve lugar a cerimónia em 
Maio de 1476, porque a proclamação lançada pelos esposos aos reinos de 
Castela, logo depois das bodas, é de 3o do referido mês (2). Em carta de 8 
de Agosto de 1476 a D. Lopo de Albuquerque, conde de Penamacor, é rati- 
ficada a doação que já por outra precedente carta lhe havia sido feita, a êle 
e a seu filho maior por sua morte, da vila de Penamacor (3). A 24 de 
Agosto do mesmo ano, por duas cartas dessa data, foram-lhe dadas a alcai- 
daria mor da mesma vila (4), e mais uma vida no título de conde para o 
filho (õ). Era Lopo de Albuquerque camareiro e guarda roupa de D. Afonso V 
desde 18 de Outubro de 1463, em que fora nomeado por consentimento de 
seu tio o camareiro mor conde de Monsanto (6), a quem sucedeu no ofício 
de camareiro mor por carta de 22 de Setembro de 147 1 (7). Recebia o 
conde de Penamacor de assentamento e tenças a importante verba de 
674.800 reais, sendo 200.000 reais pela regedoria da casa do cível de Lisboa, 
que D. Afonso V lhe dera, e lhe tirou D. João II, que com o conde fez 
contas, confirmando-lhe a referida quantia por carta de 8 de Janeiro de 
1482 (8). Implicado em 1484 na conspiração do duque de Viseu e mais 
fidalgos, e descoberta ela, fugiu, vindo meter-se em Penamacor, de onde 
com um seguro real veio falar a D. João II às Cortiçadas junto ao Tejo 
abaixo de Vila Velha de Rodam. Não convindo nas condições propostas, 
retirou-se o conde para Castela com sua família. Viajou muito em seguida, 
e passou ultimamente para Inglaterra, onde com o nome de Sedro Nunes 
comprava mercadorias para o trato da Guiné, e andava desafiando para o 
mesmo a negociantes e armadores ingleses. D. João II, desesperado, mandou 
lá para prenderem ou matarem secretamente ao conde; mas não o conse- 
guindo, solicitou a prisão do rebelde directamente do rei inglês, que ainda 
chegou a ter o conde preso uns dias na torre de Londres. Solto, embarcou 
para Barcelona, onde se avistou com os reis de Castela, que aí estavam por 
causa da entrega de Perpinhão, que se realizou em 1493. Da Catalunha 
passou para Sevilha, onde tinha sua mulher e filhos, e pouco tempo depois 
de lá estar morreu. > ' 

Armas: esquartelado: o i.° e 4.° das armas do reino diferençadas por 



(i) Chronica de D. Afonso V, cap. 178. . 

(2) Anales de Aragon, liv. 19.°, cap. 27. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 7.°, fl. 48. 

(4) Místicos, liv. 4.°, fl. 20 V. 

(5) Ibidem, liv. 3.», fl. 219 v. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9.», fl. 1 56 v. 

(7) Ibidem, liv. 22."», fl. 24 v. 

(8) Chancelaria 4^ D. João II, liv. 2.», fl. 2. 



I 



Apêndice Sog 

um filete de negro em barra; o 2.° e 3.° de vermelho, cinco flores de Hz de 
oiro. (Albuquerque), 

Havia casado por contracto de 7 de Março de 1467 (i) com D. Leonor 
DE Noronha, filha do arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha. Foi 
D. Leonor condessa de Penamacor, e parece ter passado privações depois 
da morte do marido, durante o reinado de D. João IL Depois veio D. Ma- 
nuel que por alvará de i5 de Dezembro de 1496, por ter sabido que à con- 
dessa lhe não ficara tanta fazenda quanta bastasse para o pagamento das 
suas arras, lhe manda dar as rendas e a jurisdição da vila de Abiul, rendas 
que pelo contracto de casamento haviam ficado obrigadas às arras (2). Para 
mais prova da penúria em que se encontrava a condessa, transcreverei 
algumas palavras de outro documento: A condessa de Penamacor, D. Leonor 
de Noronha, foram desembargadas por D. Afonso V, 4.500 coroas de 120 reais 
do motu de seu casamento, pelas quais houve, emquanto lhe não foram 
despachadas a tença a elas ordenada, e a seu requerimento, por nos dizer 
que estava em necessidade, nos prouve de o ano trespassado de 98 lhe 
mandarmos despachar 180.000 reais do i.° terço, e o ano passado de 99 
lhe despachamos outro terço, do qual 2.° terço ela não fçi paga, e ora ela 
nos pediu porquanto estava concertada com o barão de Alvito sobre uma 
quinta que tem em termo desta cidad* por a qual lhe dá 2.000 coroas, nos 
aprouvesse que dos sobreditos 36o. 000 reais que lhe ainda assim são por 
pagar, lhas apartássemos e mandássemos por eles assentar os 20.000 reais 
de graça ordenada até lhe serem pagos. Temos por bem que do 1.° de 
Janeiro que virá de i5oo em diante o dito barão tenha de tença emquanto 
lhe as ditas i.ooo coroas não forem pagas aos 20.000 reais por elas orde- 
nadas, e dos 120.000 que sobejam foram logo despachadas, por desembargo 
apartado à dita condessa etc. Lisboa, 3o de Dezembro de i5oo(3). A 6 
de Setembro de lõoi já a condessa tinha vendido estas rendas (4); mas el Rei 
continuou a acudir-lhe, mandando-lhe dar por alvará de 14 de Setembro de 
i5io seis moios de trigo de mercê (5), e por provisão de 17 de Setembro 
de i5i8 mais cinco moios de tença (6). Era já falecida a 9 de Março de i52o, 
data de um mandado para se pagar certa quantia ao testamenteiro da con- 
dessa para descargo da sua alma (7). Parece que já era falecida em 21 de 



(i) Místicos, liv, 3.°, fl. 25. , 

(2) Ibidem, liv. 5.", fl. 45 v. 

(3) Ibidem, liv. 4.», fl. 187, e Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.*», fl. 1 19 v. 

(4) Místicos, liv. 5.», fl. 45 V. 

(5) Corpo Chronologico, parte i.*, maç. 9, doe. 68. 

(6) Ibidem, parte 2.% maç. 161, doe. 44. 

(7) Lousada, Torre do Tombo, vol. 2.°, fl. 26 v. 



lio Brasões 

Fevereiro de ibig. Vide carta de 20.000 reais de tença ao filho D. Garcia 
de Albuquerque. 

Tiveram descendência. 

4.^ Conde de MARIALVA — 1475, entre 4 de Outubro e 5 de Novembro^ 
— D. FRANCISCO COUTINHO, meirinho mor. — Em carta da primeira 
daquelas datas foi autorizado a apresentar as igrejas de Santiago e S. Pedra 
de Trancoso, não sendo ainda intitulado conde (i); na carta porém da 
segunda data, na qual lhe foi feita doação das pensões dos tabeliães da 
mesma vila, já aparece com o titulo (2). A carta de assentamento de 
102.864 reais é contudo de oito dias depois, de 12 de Novembro de 1475(3). 
Sucedera D. Francisco directamente a seu pai, o 2.° conde, no ofício de 
meirinho mor, que lhe foi dado por carta de 11 de Junho de 1464(4); houve 
porém a casa só por morte de seu irmão o 3." conde, e em 1496 já era 
também conde de Loulé, e sempre com os dois títulos se encontra mei^.cio- 
nado de então em diante, pelo que continuarei com as notas a seu respeito 
no arúgo Marialva e Loulé. D. Francisco Coutinho, conde de Marialva e 
Loulé, só em 5 de Abril de 1497 é que teve confirmação do condado de 
Marialva, tendo êle então apresentado a carta de i3 de Abril de 1465 da 
confirmação do mesmo a seu irmão o 3.° conde D. João Coutinho (5). 

Armas: de oiro, cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. Timbre: 
uma figura com cara humana. Divisa: Segui Me Pois Qve Sigo To Digo» 

Casou o conde de Marialva a i.^ vez em 147Ó com D. Maria de Ichoa,. 
condessa de Marialva, filha de D. João de Ichoa, que fora do conselho e já 
era falecido, e de sua mulher D. Maria Sarmiento. Advertirei que os cro- 
nistas, tanto espanhóis como portugueses, a D. João chamam de Ulhoa (6), e 
não de Ichoa, como dizem os documentos. Consta o casamento do conde 
de uma carta dada em Toro a 4 de Junho de 1476, pela qual D. Afonso V, 
atendendo ao singular cargo que tem de D. Maria Sarmiento, mulher de 
D. João de Ichoa, que foi do conselho, e que Deus perdoe, e pelo respeito 
dos mui grandes e assegurados serviços, que em sua vida dele recebeu 
depois que entrou no reino de Castela (refere-se à entrega da cidade de 
Toro, de que o Ulhoa era capitão), os quais o obrigam a acrescentar e fazer 
honra e mercê à dita D. Maria e a todas suas coisas; por estas razões tratou 



(i) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 9.°, fl. i3 v. 

(2) Ibidem, logo a seguir. 

(3) Ibidem^ antes das outras. 

(4) Ibidem, liv. 8.°, fl. 116 v. 
(3) Misticos, liv. I.», fl. 102. 

(6) Anales de Aragon, vol, 4.», fl. 240 v., e Chronica de D. Afonso V, pág. 566. 



Apêndice 3 1 1 

o casamento de sua filha D. Maria de Ichoa com o conde de Marialva 
D. Francisco Coutinho, do seu conselho -e seu meirinho mor. Agora, pelo 
casamento se achar concluído, faz doação ao conde e a D. Maria da vila de 
Castelo Rodrigo com o seu castelo, e jurisdição cível e crime, assim como a 
havia Vasco Fernandes de Gouveia, que se ora finara, e com reversão para 
D. Maria, se o conde falecer primeiro (i). Deste casamento, se nasceram 
filhos, pouco viveram. 

Em 1496 já o conde estava pela 2.* vez casado com D. Beatris de Me- 
neses, 2.^ condessa de Loulé. 

Vide Loulé, e Marialva e Loulé. 

2.° Conde de ODEMIRA — Anterior a 20 de Outubro de 1475. — 
D. AFONSO, sobrinho de el Rei. — E intitulando conde de Faro, Odemira e 
Aveiro, numa carta da referida data de isenção dos capítulos de cortes que 
digam respeito a suas doações (2). Noutra carta da mesma data pela qual 
foi nomeado adiantado da comarca de Entre Tejo e Guadiana, como o foram 
D. Sancho de Noronha conde de Odemira que Deus haja, chama-se-lhe 
D. Afonso conde de Faaram e de Odemira, senhor de Aveiro meu muito 
amado sobrinho. Na mesma carta mais adiante, é o conde de Odemira 
D. Sancho nomeado pai do conde de Faro, quando êle foi seu sogro (3). — 
Era casado com a filha herdeira do i." conde de Odemira. 

Vide conde de Faro. 

Conde de AVEIRO. — Este condado não existiu (4). Anterior a 20 de 
Outubro de 1475. — D. AFONSO, sobrinho de el Rei. — É intitulado conde 
de Faro, Odemira e Aveiro numa carta da referida data de isenção dos 
capítulos de cortes a respeito de suas doações (5). A i3 de Junho de 1449 
havia sido feita doação da vila de Aveiro, com os padroados e jurisdições, a 
seu sogro o i.° conde de Odemira (6); e por outra de 20 de Maio de 1467 
foi ampliada a doação a um seu neto varão que nascer dentre D. Afonso, 
sobrinho de el Rei, e D. Maria, sua mulher, filha do conde de Odemira (7). 



(t) Chancelaria de D. João III, liv. 3g.', fl. 91 v. 

(2) Místicos, liv. 3.°, fl. 209. 

(3) Gabriel Pereira, Documentos de Évora, liv. 2.», pág. 128, n," 66, advertindo que o 
conde de Faro nunca se chamou D. Afonso de Noronha, como na epígrafe deste documento 
se escreveu. 

(4) Vide liv. 3.", pág. 272. 

(5) Místicos, liv. 3.», fl. 209. 

(6) Ibidem, n. n8. 

(7) Ibidem, liv. 2.», fl. 164 v. 



3 12 Brasões 

Este já era morto a lo de Janeiro de 1475, como disse no seu lugar, naa 
admira pois que na data acima apontada seu genro tivesse sucedido no se- 
nhorio de Aveiro. 

Vide co7ide de Faro. 

Apesar de o ter incluído no meu catálogo, hoje, reflectindo melhor, nãa 
creio que ele tivesse já mais existido. 

O documento em que D. Afonso é intitulado conde de Faro e de Odemira 
e de Aveiro, a carta de 20 de Outubro de 1476 de isenção de capítulos de 
cortes, além de ser único naquela afirmação, existe apenas em cópia na 
chamada Leitura nova onde os erros abundam. E, se já isto leva a crer 
que houve engano na transcrição da carta, dá-nos a certesa do erro a exis- 
tência de outro documento, passado exactamente na mesma data no qual 
p. Afonso é intitulado conde de Faro e de Odemira, senhor de Aveiro (1). 
E pois evidente que ao copiar a primeira carta no livro dos MisticoSy onde 
ela se encontrava, o escrivão saltou a palavra senhor, escrevendo conde de 
Faro, de Odemira e de Aveiro, quando no documento original, o que estava, 
era conde de Faro, de Odemira e senhor de Aveiro, como se encontra em 
■vários outros diplomas confirmando a minha asserção. 

Não foi portanto D. Afonso conde de Aveiro, mas possuiu o senhorio 
daquela vila, que em tempos remotos pertencera à rainha D. Leonor Teles, 
a quem D. Fernando a doara, juntamente com outras muitas vilas, terras e 
lugares, pela famosa carta dada em Eixo a 5 de Janeiro da era de 1410 
(1372), na qual el Rei publicou o seu casamento (2). 

Sobrevindo a revolução em seguida à morte de D. Fernando, doou o 
Mestre de Avis, regedor do reino, a João Rodrigues Pereira, por carta feita 
em Lisboa a i3 de Abril de 1422 (i384), todos os direitos e rendas da vila 
de Aveiro, assim como os havia a rainha D. Leonor (3). Depois, já rei, fez 
nova doação da referida vila com as jurisdições ao mesmo João Rodrigues, 
seu vassalo, para ele e todos seus filhos, netos e descendentes legítimos por 
linha direita. Foi a carta passada no arraial de sobre Chaves, a 5 de Feve- 
reiro de 1424 (i386), e nela se declara, que só no caso de João Rodrigues 
não ter filhos, ou de se extinguir a sua descendência legítima, é que a vila 
regressaria à coroa (4). 

João Rodrigues Pereira, que em iSgi por troca feita com o condestável 



(i) Carta de 20 de Outubro de 1475 de nomeação de D.Afonso para adiantado no reino 
do Algarve {Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.°, fl. 170). 
(2} Chancelaria de D. Fernando, liv. i.», fl. 107. 

(3) Chancelaria de D. João I, liv. i.°, fl. 7 v. 

(4) Ibidem, fl. 169. - 



Apêndice 3 1 3 

veio a ser senhor de Cabeceiras de Basto (i), e que em 14 de Novembro de 
1423 já era falecido (2), deixou descendência varonil legítima; mas, apesar 
disso e das condições da doação, a vila de Aveiro voltou então, ou já em 
vida dele linha voltado, para a coroa, porque ainda por D. João I foi ela 
doada a seu filho o infante D. Pedro em sua vida, e a este mesmo confir- 
mada por seu irmão el Rei D. Duarte. Consta da carta lavrada em San- 
tare'm a 12 de Julho de 1448, pela qual D. Afonso V doou para sempre ao 
referido infante D. Pedro, duque de Coimbra e a seus descendentes, a 
vila de Aveiro (3). 

Morto o infante na batalha da Alfarrobeira a 20 de Maio de 1449, e con- 
fiscada a sua casa, fez D. Afonso V mercê da vila de Aveiro ao conde de 
Odemira em sua vida, por carta dada em Lisboa a i3 de Junho do mesmo 
ano (4). ■* 

Depois, por escritura de 10 de Junho de 1465 deu o conde de Odemira 
em dote a sua filha D. Maria, em casamento com D. Afonso, filho do duque 
de Bragança, as vilas de Odemira, Aveiro, Vimieiro e .outros bens que trazia 
da coroa, reservando para si o usufruto durante a sua vida. E por carta 
feita em Portalegre a i5 de Junho de 1465, na qual se transcreve a prece- 
dente escritura, confirma el Rei a D. Afonso a referida doação, na qual se 
compreendia a segunda vida na vila de Aveiro (5). Mas não ficou ainda por 
aqui, porque dois anos depois, por carta escrita por Pêro da Alcáçova em 
Salvaterra a 20 de Maio de 1467, fez D. Afonso V mercê ao conde de Ode- 
mira de lhe dar mais em terceira vida no senhorio de Aveiro para o neto 
varão, que nascesse de entre sua filha D. Maria e seu marido D. Afonso, 
aquele que este nomear, e, não o nomeando sucederá o mais velho (6). 

Já era o conde de Odemira falecido a 6 de Maio de 147 1, como deixei 
dito a pág. 273 deste livro e portanto já então lhe tinha sucedido seu genro 
nos bens doados pela escritura acima referida. Não admira pois que 
D. Afonso, que já era conde de Faro desde 22 de Maio de 1496, apareça 
em documentos de 20 de Outubro de 1475 intitulado conde de Faro e de 
Odemira e senhor de Aveiro. 

Implicado na conspiração de seus irmãos Montemor e Bragança, expa- 
triou-se o conde de Faro, e foi morrer a Sevilha em 1483, tendo-lhe sido a 



(i) Instrumento de 3o de Outubro de 1429 (iSgi), feito em Barcelos {Chancelaria de 
D. João III, liv. 7.», fl. 197. 

(2) Ibidem. 

(3) Místicos, liv. 2.*, fl. 26 V. 

(4) Ibidem, liv. 3.°, fl. 1 18. 

(5) Ibidem, fl. 35. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 28.0, fl. 1 2 v. 

VOL. m 40 



3 1 4 Brasões 

casa confiscada por D. João II, que por carta dada no mosteiro de Alcobaça 
a 19 de Agosto de 1485, e escrita por António Carneiro, doou a vila de 
Aveiro a sua irmã a infanta D. Joana, em sua vida (i). 

Ao conde de Faro sobreviveu porém muitos anos sua viúva, que se con- 
graçou com D. João II, que dizem ter-lhe restituído a casa em 1488, sendo 
certo ter com ela feito troca de certos bens por carta de 2 de Outubro de 
1490(2). Na restituição da casa a condessa de Faro não se compreendeu 
contudo o senhorio da vila de Aveiro, que nunca foi dela, que a infanta 
D. Joana possuiu até 12 de* Maio de 1490 em que morreu, e que D. João II 
no seu testamento de 24 de Setembro de 1495 doou a seu filho o Mestre 
D. Jorge, doação que não teve logo efeito. A restituição limitou-se provavel- 
mente aos bens patrimoniais, porque mesmo a vila de Mortágua, de que a 
condessa foi senhora, só a houve em 1497 P°^ sucessão a sua mãe a con- 
dessa de Odemira, falecida antes de 10 de Novembro daquele ano (3), e que 
no citado contracto de casamento da filha reservara para si, no caso de 
enviuvar, o senhorio da referida vila em todo o restante da sua vida. 

Nem mesmo à condessa de Faro podia pertencer nunca o senhorio da 
vila de Aveiro, a não ser por mercê nova, porque o direito a êle passara 
por morte do conde de Faro a seu filho primogénito, como expressamente 
estipulou a carta acima citada de 20 de Maio de 1467. 

Mas isto não é exacto. A condessa de Faro foi realmente senhora de 
Aveiro. Encontra-se uma escritura de aforamento feita a 16 de Março de 
1496, em Montemor o Novo, nas casas onde pousava D. Maria de Noronha, 
condessa de Faro, a qual disse que tinha a vila de Aveiro, com todo o seu 
termo e Jurisdição, de juro e herdade, no qual termo estava uma ilha, que 
aforava a João do Porto (4). 

Provavelmente D. Manuel, no empenho de restituir todos os bens aos 
Braganças, fizera nova doação da vila de Aveiro à condessa, por carta que 
se não encontra hoje registada na mutilada Chancelaria. É possível tercm-se 
passado as coisas assim, mas não se entende bem, como tendo a condessa 
sobrevivido ao filho, 02.° conde de Faro, aparece este em documentos de 
i5o4, i5o9 ^ i5i3, citados adiante quando trato do 3.° conde de Odemira, 
intiiulando-se senhor de Aveiro; e menos se compreende, o haver logo por 
morte do conde transitado o senhorio da vila para o duque de Coimbra, con- 
servando-se ainda por uns poucos de anos viva a condessa, primitiva dona- 



(i) Místicos, liv. 2.", fl. 120 V. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 23.°, fl. i23. 

(3) Livro 3° dos Brasões, pág. 273. 

(4) Chancelaria de D. João III^ liv. 39 °, fl. 71. 



Apêndice 3i5 

tária. O destroço padecido pelos livros de registo, quando o terremoto de 
17Õ5 deitou a terra a Torre do Tombo, torna difíceis, se não impossíveis, 
outras averiguações. 

Morto D. João II a 25 de Outubro de 1495, logo no ano seguinte, passada 
a Páscoa, que fora a 3 de Abril, chegaram os Braganças a Setúbal chamados 
por D. Manuel, e entre eles veio o filho da condessa, D. Sancho de Noronha, 
a quem el Rei mudou o título de conde de Faro em conde de Odemira (i). 

É sabido, e está provado por muitos documentos, citados noutros livros 
e nestes, e apontados por outros autores e por mim, que D. Manuel tratou 
logo de restituir a todos os Braganças tudo quanto lhes havia pertencido, 
bens patrimoniais e da coroa, não se prendendo com as indemnizações a 
dar em resultado das doações de muitos desses bens Já feitas a diversos, 
provindo deste exagero um tal desperdício que o próprio Damião de Góis 
ousou censurá-lo claramente na sua Chrontca (2). Começaram pois a pro- 
duzir logo efeito para D. Sancho todas as mercês outorgadas a seu pai e 
avô, que a êle podiam aproveitar. 

Dera D. Afonso V em Samora, a 23 de Outubro de 1475, uma carta ao 
conde de Faro, na qual lhe fazia mercê do título de conde e do senhorio 
daquela vila para um seu filho varão, o qual logo por seu falecimento se 
poderia chamar conde e ter o senhorio de Faro (3). Em virtude desta carta 
intitulava-se D. Sancho conde de Faro desde a morte do pai; e continuou 
sempre a fazê-lo, como se vê, por exemplo, num alvará passado em Ode- 
mira a 21 de Julho de i5i2 em nome de D. Sancho de Noronha, conde de 
Faro e de Odemira, que nele se assina simplesmente conde de Faro (4). 

Ficamos por tanto certos de que D. Sancho, se não chegou a possuir o 
condado de Faro, foi unicamente porque o senhorio daquela outra vila estava 
doado à rainha D. Leonor desde 1491; mas a acima citada carta de 23 de 
Outubro de 1475, pela qual havia sido concedida a D. Afonso mais uma 
vida no condado, dava a seu filho D. Sancho tal direito a êle, que D. Ma- 
nuel para lho tirar definitivamente, teve de lhe dar em satisfação o condado 
de Odemira por carta de 10 de Junho de lôog, condado em que, nem ao 
pai nem ao avô de D. Sancho, havia sido feita mercê de mais nenhuma vida 
além da sua. 

O mesmo que sucedeu com o senhorio de Faro, aconteceu com o de 
Aveiro. Restituídos os bens a D. Sancho, entrou êle na posse daquela vila 
(então devoluta à coroa) em virtude da acima citada carta de 20 de Maio de 



(i) Góis, Chronica de D. Manuel, fl. 8. 

(2) Parte I, cap. XIII. 

(3) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 7.», fl. 98. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 42.", fl. 55 v. 



3 1 6 Brasões 

1467, pela qual a seu avô fora feita mercê da vila de Aveiro para o neto, 
filho de seu genro D. Afonso. Não existe registada, se chegou a fazer-se, 
a carta de confirmação do senhorio de Aveiro ao 2.° conde de Faro, mas isso 
não impede de haver a certeza dele o ter possuído. É êle intitulado senhor 
de Aveiro numa carta de 3 de Agosto de 1604 (1); na de 23 de Maio de 1009 
de confirmação da alcaidaria mor de Estremôs (2), numa procuração de 19 
de Março de i5i3(3), e ainda noutros documentos que é inútil apontar. 

Já neste tempo havia sido doado o senhorio de Aveiro ao Mestre D. Jorge, 
duque de Coimbra, a quem D. Manuel fez mercê da casa, na qual se com- 
preendia aquele senhorio, por carta dada em Lisboa a 27 de Maio de i5oo, 
escrita por António Carneiro. 

Nesta carta de doação declara porém el Rei: «E porque algumas cousas 
das sobreditas são dadas a algumas pessoas por cartas e doações dos reis 
passados e nossas, até feitura desta carta, pelos merecimentos das pessoas 
que as houverem, esta queremos que se guardem, sejam guardadas inteira- 
mente, como nas ditas cartas e doações se contem; pêro queremos, que 
quando quer que vagarem, e as taes- cartas e doações que até aqui são feitas 
expirarem, que logo por esse mesmo feito fiquem ao dito Duque, segundo 
forma desta doação, e por virtude delia possa tomar, e tome logo, delas 
posse D (4). 

Eis aqui o motivo por que depois de i5oo e durante vinte anos, houve 
um senhor efectivo de Aveiro, o conde de Odemira e outro em expectativa, 
o duque de Coimbra. 

Conservou portanto o conde de Odemira o senhorio de Aveiro durante 
lodo o resto da sua vida, que terminou em 1620, antes de 25 de Setembro (5), 
e foi só então que o Mestre D. Jorge tomou posse do senhorio da vila, da 
qual continuaram a ser donatários até 1769 os duques de Aveiro, seus des- 
cendentes. 

i.° Visconde de VILA NOVA DA CERVEIRA— 1476, Maio 4.— 
LEONEL DE LIMA, vassalo de el Rei e do seu conselho. — Por carta 
daquela data foi-lhe feita mercê dos títulos de dom e de visconde de Vila Nova 
da Cerveira (6). Era alcaide mor de Ponte de Lima por carta de 26 de Abril 
de 1464, e senhor de Vila Nova da Cerveira desde 21 de Outubro de 147 1. 



(i) Chancelaria de D. João IIJ, liv. 7», fl. 27. 

(2) Ibidem, liv. 49.°, fl. 14 v. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 42.", fl. 55 v. 

(4) Místicos, liv. I.", fl. 252 V. 

(5) Livro 3° dos Brasões, adiante. 

(6) Ibidem, pág. 82, onde se transcreve a carta. 



Apêndice 317 

Morreu a i3 de Abril de 1495(1). 

Armas: terçado em pala: o i." de oiro, quatro palas de vermelho; o 2.* 
cortado: a de prata, Leão de púrpura, armado e linguado de vermelho, b de 
de prata, três faxas enxequetadas de vermelho e oiro de três tiras; O 3.° cor- 
tado do b do 2.° sobre o a do mesmo (2). f/.°, Aragão; a do 2.° Silva\ 
b do 2.° Sotomaior). 

Casou em 1432 com D. Felipa da Cunha, viscondessa de Vila Nova da 
Cerveira, que morreu a 7 de Setembro de 1486, e era filha de Álvaro da 
Cunha, 3.° senhor de Pombeiro (3). ^ 

Tiveram descendência. 

i.» Conde de ABRANTES— 1476, Junho i3. — LOPO DE ALMEIDA, 

mordomo mor da chamada rainha de Castela D. Joana, a Excelente Senhora. 
— Era senhor de Abrantes desde 8 de Novembro de 147 1, e alcaide mor do 
seu castelo por sucessão a seu pai, e havia sido vedor da fazenda. Já era 
vedor da fazenda pelo pai em 3 de Novembro de 1446 (4). Lopo de Al- 
meida, do nosso conselho e vedor da fazenda, atendendo à grande criação 
que nêle fizera el Rei D. Duarte, e aos muitos serviços que a êle e a nós 
fez, lhe entregamos em sua vida, e depois de seu falecimento em vida de 
João Lopes de Almeida seu filho, a lezíria do corte de Cavalos em termo 
da Azambuja que ora o dito Lopo de nós tem de mercê. Santarém, 17 de 
Novembro de 1450. Confirmado a D. Lopo de Almeida conde de Abrantes, 
e o seu filho D. João de Almeida, do conselho e vedor da fazenda em San- 
tarém a 7 de Abril de 1484(5). 

Ao tempo que o infante D. Pedro tratou o casamento a Lopo de Almeida, 
do nosso conselho e vedor da nossa fazenda, com Beatris da Silva sua 
mulher, lhe prometeu todas as coisas que Diogo Fernandes seu pai de nós 
trás em Abrantes e seu termo que as haja por seu falecimento. Pedindo-nos 
o dito Lopo confirmação daquele prometimento, nós lho confirmámos por 
dois alvarás, um antes que tomássemos o regimento, o outro depois. Ora 
pede carta, para que .tanto que o pai falecer êle possa tomar posse 



(i) Livro 3." dos Brasões, págs. 82 e 85. 

(2) Na Chronica da Conceição, vol. 1.", pág. 29, § 48, diz-se que o visconde dera ao con- 
vento de Santo António de Ponte de Lima um sinete com as suas armas, as quais eram es- 
quarteladas, tendo no i." umas palas, no 1." um leão, no 3.» flores de liz em aspa, e no 4.» três 
faxas enxequetadas. 

(3) Livro 2 ° dos Brasões, págs. 80 e 85. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.">, fl, 24, e Archivo histórico tortuguez, vol. III, 
pág. 407. 

(5) Chancelaria de D. João II, liv. 22.», fl. 48. 



3i8 Brasões 

das ditas coisas. El Rei outorga, declarando serem elas o castelo de 
Abrantes e todas as terras e direitos que o pai tem na vila e termo etc 
Lisboa, 25 de Junho de 1401. — Confirmado a D. Lopo de Almeida, conde 
de Abrantes, do conselho, em Montemor o Novo a ii de Fevereiro de 
1481(1). 

Lopo de Almeida, do conselho e vedor da fazenda mostrou certas cartas 
e uma sentença dadas a Diogo Fernandes de Almeida seu pai. — D. Duarte, 
a vós João de Orneias, nosso contador que tendes cargo de arrendar as 
nossas rendas e direitos do almoxarifado de Santarém e de Abrantes... 
sabendo que Diogo Fernandes de Almeida, nosso reposteiro mor disse que 
trás de nós dois canais de pescaria em Abrantes etc. isenta-o do pagamento 
da dízima nova do pescado. Santarém, i3 de Novembro de 1433. — 
D. Afonso, fazemos saber que Diogo Fernandes de Almeida, rico homem, 
do nosso conselho, mostrou carta de D. Duarte: Diogo Fernandes de Al- 
meida, cavaleiro de nossa casa, nosso reposteiro mor, filho de Ferrando 
Alves de Almeida, que foi nosso aio a que Deus perdoe, disse que houvera 
sentença de D. João I para que ninguém no rio Tejo, desde o porto de 
pedra onde chamam a Foz do Tejo, até Abrantes, deite redes etc. Confirmou 
el Rei nos paços de Almeirim a 7 de Maio de 145 1.— D. Afonso, sabei que 
Lopo Dias, morador em Santarém, escudeiro do infante D. Henrique, veio 
a nós por mandado do dito infante, dizendo ter cargo de receber do direito 
da avarga da travessa que o dito meu tio tinha na Cardiga, e estando ele 
Lopo na Cardiga, que Diogo Fernandes de Almeida, rico homem, do nosso 
conselho, viera ao dito lugar com alguns batéis e gente, e sem dar razão 
alguma mandara tomar a travessa da dita avarga, mandando logo tirar a 
pedra dela, e tomar todo o pescado, e o mandara vender logo a almocreves 
castelhanos, recebendo o dinheiro, e lhe mandara tomar isso mesmo a barca 
da dita avarga, fazendo tudo que lhe prouver... Mandado instruir o pro- 
cesso, mantem-se a Diogo Fernandes o direito de ninguém lançar redes no 
Tejo etc. Évora, 10 de Março de 1453. — Alvará a D. Fernando de Almeida, 
nosso reposteiro mor, ainda sobre o caso das redes, dado em Almeirim 
a 6 de Janeiro de 1434. — Confirmando tudo a Lopo de Almeida, em 
Évora, 25 de Fevereiro de 1460. — Confirmado a D. Lopo de Almeida, 
conde de Abrantes, do conselho, em Montemor o Novo, a i5 de Fevereiro 
de 1482 (2). 

Lopo de Almeida, do conselho e vedor da fazenda, nós lhe quitámos o 



(i) Chancelaria de D. João 11, liv. 6.», fl. 33 v. 
(a) Ibidem, fl. 109 v. 



Apêndice 



3i9 



juro do quarto que nos havia de pagar da várzea de Abrantes, e.ora nos re- 
quereu que o quitássemos também a seu filho João Lopes que lhe há de 
suceder etc. Évora, 3 de Junho de 1464(1). 

Lopo de Almeida, do conselho, vedor da fazenda, carta de privilégios 
para três lavradores nas suas terras de Azambuja. Avis, 29 de Fevereiro de 
i^(5c). — Confirmação a D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, 
€m Montemor o Novo a 21 de Fevereiro de 1482 (2). 

Lopo de Almeida, do conselho e vedor da fazenda, doação em vida da 
vila de Abrantes e seu termo, jurisdição cível e crime ressalvado a correição 
€ alçada. Sintra, 8 de Novembro de 147 1. Confirmação a D. Lopo de 
Almeida, conde de Abrantes, do conselho, em Montemor o Novo a 16 de 
Fevereiro de 1482 (3). 

Beatris da Silva, mulher de Lopo de Almeida, senhor de Abrantes, do 
conselho e vedor da fazenda, tença e moradia 57.1 53 reais com o cargo de 
aia e camareira mor da rainha de Castela D. Joana. Évora, 11 de Abril 
de 1475. — Confirma o alvará a D. Beatris da Silva, condessa de Abrantes, 
€m 18 de Abril de 1482(4). 

Lopo de Almeida, senhor de Abrantes, do conselho, mordomo mor e 
contador mor da rainha D. Joana, minha esposa, e seu chanceler mor, gover- 
nador das suas terras e seu escrivão da puridade, tenha em todos os dias de 
sua vida e bem assim seus criados, amos e apaniguados, e todos seus com 
que nos serviu e serve, os provimentos de vedor da fazenda. Arévalo, 5 
de Outubro de 1475. — Confirmação a D. Lopo conde de Abrantes, em Mon- 
temor a 21 de Fevereiro de 1482(6). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, mordomo mor da rainha minha 
esposa, o acrescento de 2.562 reais além dos 72.000 reais que tinha de 
moradia, de guisa que sejam 8.562 reais, que vem por ano 102.864 reais. 
Miranda, 16 de Julho de 1476. — Confirmação ao mesmo em Viana de Alvito, 
18 de Abril de 1482(6). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, queremos que ele e a condessa 
D. Beatris da Silva sua mulher,, tenham ambos e cada um emquanto nossa 
mercê for, os lagares de azeite e azenhas de pão que havemos em a vila 



(1) Chancelaria de D. João JI, liv. 2a.», fl. 48 v., e Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.% 
fl. 53 V. ' • 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 6.», fl. 34. 

(3) Ibidem, fl. 34 v. 

(4) Ibidem, liv. 6.», fl. ii5 v. 
. (5) Ibidem, fl. 34. 

(6) Ibidem, ú. 11 5. 



320 Brasões 

de Torres Novas junto com os moinhos do Caldeirão. Montemor o NovOy 
22 de Fevereiro de 1482(1). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, fazêmo-lo alcaide 
do nosso castelo de Torres Novas pela guisa que o era por carta de 
D. Afonso V. Mpntemor o Novo, 24 de Fevereiro de 1482 (2). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, tenha de nós 
emquanto nossa mercê for, o serviço novo dos judeus da dita vila, e seu 
termo. Montemor o Novo, 25 de Fevereiro de 1482 (3). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, tenha de nós 
emquanto nossa mercê fôr, a lezíria da corte dos Cavalos em termo da 
Azambuja, pela guisa que a tinha por carta de D. Afonso V. Montemor o 
Novo, 20 de Fevereiro de 1482 (4). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, tenha emquanto nossa mercê 
fôr a renda do mordomado e direitos da alcaidaria de Torres Novas, pela 
guisa que a tinha e havia em vida da rainha minha mãe, por carta de 
D. Afonso V. Montemor o Novo, 25 de Fevereiro de 1482 (5). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, tenha emquanto 
nossa mercê fôr, a renda dos moinhos do almoxarifado de Santarém, con- 
tando em eles os que foram do bispo de Évora, e os direitos das Chantas, 
e o serviço novo dos judeus de Torres Novas, pela guisa que já o tinha do 
tempo de D. Afonso V. Montemor o Novo, 25 de Fevereiro de 1482 (6). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, tenha emquanto 
nossa mercê fôr, o quarto das novidades da várzea que c acerca da dita vila 
o qual quarto lhe tinha quite por sua carta el Rei D. Afonso V. . . mandamos 
que não constranjam nem mandem constranger o dito conde pelo dito quarto, 
porque nos praz de lho quitarmos, porquanto fomos certos que Nuno Fer- 
nandes de Almeida seu tio e Diogo Fernandes de Almeida seu pai, a que 
Deus perdoe, que a dita várzea trouveram, nunca dela pagaram o quarto. 
Viana de Alvito, 1 1 de Março de 1482 (7). 

D. Lopo conde de Abrantes, senhor da dita vila, damo-lo por sesmeiro 
da vila e termo, assim como o foÍ em tempo de D. Afonso V. Viana de 
apar de Alvito, 26 de Março de 1482 (8). 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 6.», fl. 33. 

(2) Ibidem, fl. 33 v. 

(3) Ibidem, fl. 33. 

(4) Ibidem. 

(5) Ibidem, fl. 32 v. 

(6) Ibidem, a. ii5 v. 

(7) Ibidem, fl. 33. 

(8) Ibidem, d. ii5 v. 



Apêndice 3 2 1 

Nós tínhamos um celeiro em Abrantes, em que se recolhia o pão dos re- 
guengos da dita vila, o qual está no cabo da rua da Feira, e tínhamos feito 
mercê a D. Lopo de Almeida conde de Abrantes, e ora êle nos disse que 
tinha tenção de fazer um hospital na dita vila, e nos pedia lhe de'ssemos por 
escambo o dito celeiro para nele o fazer, e que êle ou seus herdeiros fariam 
outro tão bom celeiro na vila quando fosse necessário arrecadar para nós 
o verde dos ditos reguengos etc. Aceitou el Rei o escambo em Santarém 
a 3 de Dezembro de 1482 (i). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, tenha desde Janeiro que ora 
passou de 1483 de assentamento 102.864 reais, outro tanto como tinha em 
casa da Excelente Senhora. Santarém, 23 de Abril de 1483 (2). 

D. Beatris da Silva, condessa de Abrantes, que deste Janeiro que ora 
passou de 1483, tenha dé assentamento 81.142 reais brancos, outro tanto 
como havia da Excelente Senhora com o ofício de aia e camareira, os quais 
dinheiros mandamos do assentamento da dita senhora etc. Santarém, 23 de 
Abril de 1483 (3). 

D. Beatris da Silva, condessa de Abrantes, moradia e tença de iSy. 143 reais 
com cargo de aia da Excelente Senhora e mais 24.000 reais com o cargo de 
camareira mor da mesma senhora. Santarém, 3o de Dezembro de 1483 (4). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, queremos que os 102.864 reais 
que tem de assentamento que os haja um ano depois do seu falecimento 
aquele logo primeiro seguinte. E porquanto este assentamento lhe é pago 
no dinheiro do assentamento da senhora D. Joana, minha prima, queremos 
que vindo ela a falecer primeiro que o conde, ou êle não haja de haver seu 
assentamento por qualquer caso que a vir possa, sempre nós queremos qué 
o conde haja os ditos dinheiros por descargo de sua alma etc. Santarém, 
6 de Março de 1484(5). 

Condessa D. Beatris tinha uma carta de D. Afonso V, de mercê em sua 
vida dos moinhos, na ribeira de Pernes e do serviço dos judeus de Torres 
Novas, confirma-lhes a 26 de Novembro de 1489(6). Confirmado em 11 de 
Maio de 1497 (7). 

D. Beatris da Silva, condessa de Abrantes, enviou dizer que tinha de 
tença 40.000 reais, emquanto nossa mercê fosse, e pedia que o trespassás- 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 3.», fl. loo. 

(2) Ibidem, liv. 24.», fl. 92. 

(3) Ibidem. 

(4) Ibidem, liv. 26.*, fl. 109 v. 

(5) Ibidem, liv. 22.°, fl. 86 v. 

(6) Ibidem, liv. 26.°, fl. 126. 

{7) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.*, fl, 67 v. 
VOL. ni 41 



\ 



322 . Brasões 

semos em D. João de Almeida, conde de Abrantes seu filho etc. Este o haja 
desde o i.° de Janeiro que ora passou deste ano de i5oo. Lisboa, 3i de 
Janeiro de lõoo(i). 

Morreu com 70 anos a 16 de Setembro de 1486(2). 

Armas: de vermelho, seis besantes de oiro entre uma dobre cruz e bor- 
dadura do mesmo. (Almeida). 

Casou em 1442 com D. Brites da Silva, condessa de Abrantes, filha de 
Pedro Gonçalves Malafaia, rico homem, vedor da fazenda, e embaixador a 
Castela (3). A condessa era viva a 1 1 de Maio de 1497 (4) e ainda vivia em 3 1 
de Janeiro de i5oo, data de uma carta em a qual el Rei aprova o trespasse que 
ela fizera em seu filho o conde D. João de uma tença de 40.000 reais (5). A 
condessa já tinha morrido em 14 de Agosto de i5o2, data de um mandado 
para se dar aos herdeiros da condessa de Abrantes 10.000 reais em pane dos 
40.000 reais que há de ter de graça separada (6). Por outro documento 
sabe-se que já tinha morrido a 17 de Julho de i5o2, data de uma carta a sua 
neta D. Isabel, mulher de D. Francisco de Lima, para haver uma tença de 
100.000 reais por falecimento de sua avó a condessa D. Beatris (7). 

Tiveram descendência. 

Conde de CAMINHA— 1476, anterior ao mês de Julho. — D. PEDRO 
ALVAREZ DE SOTOxMAlOR. — Por carta 'de 5 (?) de Julho de 1476 
mandou D. Afonso V dar ao conde de Caminha visconde de,., (está apa- 
gado, mas deverá ser Tui) 100.000 reais de tença a contar do i.° de Janeiro 
do referido ano (8). Pedro Alvarez de Sotomaior, conde de Caminha, entrou 
na batalha de Toro, em i de Março de 1476, seguindo a parcialidade de 
D. Afonso V(g). Não admira ter D. Pedro tomado o partido português: 
convinha-lhe a desordem, porque dentro dela vivia há muitos anos. Era 
D. Pedro senhor da grande casa de Sotomaior na Galiza, e um fidalgo in- 
quieto e turbulento. Apossara-se ele da cidade de Tui pelos anos de 1456, 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv.. 13.°, fl. 2 v. 

(2) Livro 2." dos Brasões, pág. 352, mas parece que o ano da morte do conde está 
errado no seu epitáfio, pois que o filho já era conde de Abrantes em 6 de Fevereiro de 1486, 
como adiante direi. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.°, fl. 67 v., na confirmação dos moinhos da ribeira 
de Pernes e do serviço dos judeus de Torres Novas. 

Í4) Ibidem, liv. i3.°, fl. 2 v. 

(5) Ibidem, liv. iS.", fl. 2 v. 

(6) Corpo Chronologico, parte i.*, maç. G.», doe. 1 16. 

(7) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 2.", fl. 29 v. 

(8) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 38.°, fl.,93. 

(9) Chronica de D. Afonso F, pág. 56o. 



Apêndice 323 

expulsando o bispo, e intitulando-se visconde de Tui, e na posse da cidade 
permaneceu por trinta anos ou mais(i). Além disso, aproveiíando-se da 
guerra, destruiu, saqueou, arrazou na sua província tudo que pôde perten- 
cente a inimigos seus (2). Cliegou o excesso ao ponto de traiçoeiramente, 
nos próprios paços do bispo D. Diogo de Mures, o prender e trazer para 
Portugal, « donde estobimos preso quince meses en jaula, e en fierros » (3). 
Terminada a guerra, voltou o conde logo, ou pouco depois, para a Galiza, 
conservando contudo o condado, pois que em 1479 o encontro cedendo o 
padroado de Cristelo a Fernão Pereira (4). Em 1482 terminaram emfim as 
contendas com o bispo de Tui, a quem foi entregue tudo que lhe pertencia, 
sendo o conde de Caminha condenado a uma pesada indemnização. A con- 
córdia celebrada entre os dois magnates foi confirmada pelos reis católicos 
a 6 de Junho daquele ano (5). Em 1488 já era morto o conde de Caminha, 
pois que a 16 de Outubro seu filho e sucessor D. Álvaro de Sotomaior 
outorgou certas coisas ao cabido de Tui (6). D. Álvaro parece que se inti- 
tulava também conde de Caminha; este título contudo não o posso incluir 
no meu catálogo, porque, se existiu, foi castelhano. Este D. Álvaro foi o 
que veio a Portugal em 1486, e D. João II, por denúncia que dele teve de o 
querer matar, mandou prender e pôr a tormento, e depois soltar por se re- 
conhecer a sua inocência, sendo o delator por justiça degolado e esquartejado 
em Santarém (7). Para prova de que D. Álvaro de Sotomaior se intitulou 
conde de Caminha e por ser interessante referir-me hei a um documento 
que existe na gaveta i5, maç. i3, n." 7. E um instrumento feito em Salva- 
terra de Galiza, de que era senhor o filho de D. Álvaro, no domingo 2 de 
Maio de i5i8 (foi realmente domingo), assinado pelo licenciado Ronquilho, 
e sobrescrito pelo escrivão Francisco de Rosales e que transcreve o que cons- 
tava do processo acerca da morte de D. Inês Henriques de Sotomaior e 
Monroi, condessa de Caminha. Parece que uns criados e amigos de D. Pedro 
de Sotomaior, filho da condessa de Caminha, e por mandado dele, à traição 
e aleivosamente e sobre «azechanças», em um dia de semana Santa, vindo a 
condessa salva e segura em um caminho real da sua terra que é junto ao rio 
Minho, em terra de San Martin no reino de Galiza, os sobreditos detrás de 
umas matas atiraram à condessa a « silvas saetadas », das quais a feriram de 



(i) Espana Sagrada, vol. 22.°, pág. 227, % 106 e seg. 

(2) Nobiliário de Galicia^ pág. Sog. 

(3) Espana Sagrada, cit., % 142. 

(4) Livro /.» dos Brasões, pág. 439. 

(5) EspaHa Sagrada, cit., § i36. 

(6) Jbidem, vol. 23 •, pág. 3, § 3. 

(7) Chronica de D. João II, pág. 72. 



324 Brasões 

duas setas, e não contentes com isto estando a condessa em uma casa de 
um seu lugar, os sobreditos, tisnadas as caras, entraram onde a condessa 
estava na cama acabando de curar, e lhe deram muitas cutiladas entre as 
quais lhe «hendieron a cabeça, e cortaron os braços, e lhe deram outras 
setadas pellos peitos «hasta camino», que morreu sua morte natural. E os 
sobreditos juntamente com o dito D. Pedro e sua mulher se foram e estão 
nos Marcos em Portugal. Aquela pobre senhora, vítima de um horrível 
matricídio era viúva de D. Álvaro de Sotomaior, e por tanto, se ela em 
documento público era intitulada condessa de Caminha, é que seu marido 
usara deste título, o qual contudo nunca foi reconhecido em Portugal. 

Em i3 de Outubro de 1490 foi dada carta de perdão a Lopo Dias, escu- 
deiro, criado do conde de Caminha, que Deus haja(i). 

Armas: de prata, três faxas enxequetadas de vermelho e oiro de quatro 
tiras, cada peça carregada de uma cotica em faxa de negro. (Sotomaior) {2), 

Casou com D. Teresa de Távora, condessa de Caminha, filha de Álvaro 
Pires de Távora, senhor do Mogadouro. Vivia a condessa em 1496 em 
Laredo no reino de Castela, e em 17 de Agosto lá passou uma procuração 
para se vender uma tença de 29.600 reais, que em Portugal recebia pelas 
3.600 coroas, a 120 reais cada uma, que lhe haviam sido despachadas de 
moto de seu casamento (3). Do documento citado consta também que a con- 
dessa havia perdido o primitivo padrão, e que lhe fora passado um novo em 
21 de Novembro de 1497. 

Tiveram descendência em Espanha. 

Conde de OLIVENÇA— 1476, Julho 21. — RUI DE MELO, do con- 
selho, guarda mor, e capitão de Tânger. — Por carta da referida data foi 
criado conde de Olivença (4), de que já era alcaide mor desde 16 de Feve- 
reiro de 1469(5). Rui de Melo, que também se chamou Rodrigo Afonso de 
Melo, depois de conde passou a ser D. Rodrigo de Melo. Por carta de 17 
de Janeiro de 1487 foi habilitada a suceder-lhe na casa sua neta D. Catarina, 
filha de D. Álvaro, genro do conde, e de sua filha D. Felipa, apesar destes 
estarem expatriados em Castela (6). Esta carta não surtiu efeito completo, 
pois que, voltando para Portugal em 1496 os expatriados, quem sucedeu na 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 16.», fl. loo v. 

(2) Nobiliário de Espana, vol. 2.", pág. 61, e Nobiliário de Galicia, pág. 5 16. 

(3) Chancelaria de D.João III, liv. 19.°; fls. 3i v. e 44, liv. 25.°, fi. 142 e liv. 38.% fis. 77 v. 
e 107 V. ' 

(4) Chancelaria de D. Afonso F, liv. 7.°, fl. 46 v. 

(5) Ibidem, liv. 35.°, fl. i. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv. 21.°, fl. 6i v. 



Apêndice 325 

casa do conde de OUvença foi sua filha D. Felipa, que a transmitiu a seu 
lilho o 1.° conde de Tentúgal como direi. Nela declara-se ser a mercê feita 
■ao conde de Olivença «por não ficar d'elle filho nem neto varão». 

Morreu o conde de Olivença a 25 de Novembro de 1487(1). Vide carta 
de II de Fevereiro de 1488 da alcaidaria de Olivença por morte do conde 
a Manuel de Moura. 

Armas: de vermelho, seis besantes de prata, entre uma dobre cruz e 
bordadura de oiro. (Melo). 

Casou, precedendo escritura de dote de 19 de Abril de 1457(2) com 
D. Isabel de Meneses, condessa de Olivença, que morreu a 12 de Agosto de 
1482 (3). Era filha de Aires Gomes da Silva, 2.° senhor de Vagos, e de sua 
mulher D. Beatris de Meneses. 

Tiveram descendência. 

2.° Conde de AVRANCHES — No outono de 1476, ou em fins de 1477. 
— D. FERNANDO DE ALMADA, «do nosso conselho, e capitão mór em 
todos os nossos reinos». — Em Tours fez o rei de França conde de Avran- 
ches a D. Fernando, quando lá esteve com D. Afonso V em 1476(4). Pode 
ser certo, porque nesse tempo já a Normandia pertencia à coroa de F^rança. 
Encontro porém uma carta mandada passar por D. João, por graça de Deus 
príncipe pnmoge'nito herdeiro dos reinos de Portugal e dos Algarves, em 7 
de Maio de 1478, pela qual declara ter mandado ora assentar em seus livros 
a D. Fernando de Almada, conde de Abranches, e quer que tenha de seu 
assentamento em cada ano, desde o i.° de Janeiro passado em diante, 
102.864 reais brancos (5). Era D. Fernando filho do segundo casamento do. 
1.° conde de Abranches, D. Álvaro de Almada, a quem sucedera no ofício 
de capitão mor do reino por carta de 28 de Fevereiro de 1456 (6). 

Morreu o 2.° conde de Abranches nas proximidades de 29 de Abril de 
3496, em que se andava confirmando a casa a seu filho (7). 

Armas: as do i.° conde de Avranches. 

Casou em 1463, antes de i3 de Julho (8), mas por contracto aprovado 

( 1 ) Ceo aberto, pág. 499. 

(2) Lousada, Torre do Tombo, vol. 3.", fl. i56. 

(3) Brasões, i.» vol., pág. 433. 

{4) Chronica de D. Afonso V, pág. 573. 

(5) Místicos, liv. 3.", fl. 188. A carta de assentamento de 7 de Maio de 1478, encontra-se 
transcrita na de confirmação do referido assentamento ao mesmo conde em 18 de Março 
de 1489; está registada só por si nç liv. i.° do Cartório de Santiago, fl. i35. 

(6) Ibidetn, fl. 18S v. " 

(7) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 34.'', fl. 47 v. 

(8) Ibidem, liv. 2.", fl. 196. 



320 Brasões 

por el Rei só em 24 de Setembro, com D. Constança de Noronha, sobrinha 
de el Rei, e donzela da casa da infanta D. Joana (i). Foi D. Constança con- 
dessa de Abranches, como consta de uma escritura de 3 de Dezembro de 
1491 (2), e era filha de Rui Vaz Pereira, e de sua mulher D. Beatris de No- 
ronha, bastarda do conde de Gijon. 
Tiveram descendência. 

3.° Duque de BRAGANÇA— 1478, Abril. — D. FERNANDO, duque 
de Guimarães. — Sucedeu por morte de seu pai no ducado de Bragança em 
virtude da citada carta de 4 de Julho de 1449. Também foi marquês de 
Vila Viçosa, conde de Barcelos, Arraiolos, Ourém e Neiva. 

Morreu degolado em Évora a 20 de Junho de 1483. 

Armas: as dos i.°* duques, seu pai e avô. As armas não são já bem 
iguais às dos 1.°^ duques. No selo de uma carta missiva do duque ao cabido 
de Guimarães, datada de Vila Viçosa a 20 de Fevereiro de 1482, os cinco 
escudetes sob a aspa são das armas do reino (3). 

Casou a i.* vez em 1447 com D. Leonor de Meneses, que morreu em 7 
de Maio de 14Õ2, antes do marido ser titular. Era filha de D. Pedro de 
Meneses, 2.° conde de Viana. 

Casou a 2.* vez em 1470 com D. Isabel, filha do infante D. Fernando, 
duque de Viseu e de Beja. Foi duquesa de Guimarães e de Bragança, e 
morreu em Abril de i52i. «A duquesa, que Santa Groria h^ja, minha 
irmã, tinha em cada ano, 3o arrobas de açúcar pagas no almoxarifado dos 
quintos da ilha da Madeira da parte do Funchal, das quaes nos ora aprouve 
fazer mercê ao Duque de Bragança pelo que mando ao almoxarife ou Rece- 
bedor que lhas paguem de Janeiro que vem de 1622 em diante». Lisboa, 
16 de Outubro de i52i(4). 

Só houve descendência do segundo casamento (5). 

2.» Marquês de VILA VIÇOSA. — 1478, Abril. í- D. FERNANDO, 
3,° duque de Bragança. — Sucedeu no marquesado que houve junta- 
mente com a mais casa, e aparece com o título de marquês em vários 
documentos. 

Vide 3.° duque de Bragança. 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9.», fl. i5o v. 

(2) Lousada, Torre do Tombo, vol. a.", fl. 54 v. 

(3) Documentos da collegiada de Guimarães, maç. 12. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 18.», fl. 44. 

(5) Historia genealógica, vol. 5.», liv. 6.", cap. 7.» 



Apêndice 327 

IO.» Conde de BARCELOS, 6.» de OURÉM, 4.» de ARRAIOLOS, e 

4.» de NEIVA.— 1478, Abril. — D. FERNANDO, 3." duque de Bragança. 
— Por morte de seu pai o 2.° duque sucedeu D. Fernando nestes condados 
incluídos na mais casa de Bragança (i). 
Vide 3.° duque de Bragança, 

i.° Conde de CANTANHEDE— 1479, Agosto 6. — D. PEDRO DE 

MENESES, do conselho de el Rei. — Na referida data por carta, que se 
não acha registada na Torre do Tombo, foi D. Pedro de Meneses criado 
conde de Cantanhede (2). A i5 de Julho do ano seguinte deu-se-lhe carta 
de assentamento com o título de conde de 102.000 reais que já recebia de 
tença (3), carta que lhe foi confirmada em 1 1 de Maio de 1497(4). Foi 
3.° senhor do reguengo de Cantanhede e da terra de Melres, de que teve 
carta de confirmação em 19 de Agosto de 1497(5), tendo a posse havia já 
muito. A estes bens juntou o morgado de Cantanhede e o padroado de 
Melres, que, também de juro e herdade como o restante, lhe foram doados 
por D. Afonso V em Toro a 6 de Março de 1476, e confirmados por D. Ma- 
nuel em 20 de Agosto de 1497 (6). 

Morreu o conde de Cantanhede em Novembro de i5i8, pouco antes de 
22, dia em que a Coimbra chegou a notícia da sua morte (7)* 

Armas: esquartelado: o 1.° e 4.° das do reino diferençadas por um filete 
de negro em banda; o 2.° e 3.° de vermelho, cinco flores de lis de oiro. 
Sobre o todo de oiro liso. (Albuquerque, Meneses). 

Casou a i.* vez, precedendo contracto de 10 de Outubro de 1466(8), com 
D. Leonor de Meneses, que julgo não ter chegado a ser condessa de Canta- 
nhede, e que era filha de D. Álvaro de Castro, i.° conde de Monsanto. A 



(i) Numa pública forma de 19 de Julho de 1482, tirada pelo tabelião de Vila Viçosa, apa- 
rece D. Fernando intitulado duque de Bragança e de Guimarães, marquês de Vila Viçosa, 
conde de Barcelos, Ourém, Arraiolos e Neiva, Provas da Historia genealógica, vol. 3.% 
pág. 63o, n." 80. 

(2) Teodósio de Santa Marta, Elogio histórico da casa de Cantanhede, pág. 263. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, Hv. 32.°, fl. i52, 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.», fl. 65. 

(5) Ibidem, liv. 28.°, fl. 118 v. 

(6) Ibidem, fl. 99 v. 

(7) Carta do contador de Coimbra a el Rei datada de 27 de Novembro de i5i8, dando- 
-Ihe parte que no dia 22 chegara àquela cidade a nova da morte do conde, e que se apres- 
sara a tomar posse de certas rendas que ele tinha era vida. Está no Corpo Chronologico, 
parte i.*, maç. 23, doe. 141. 

(8) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 21.», fl. 28. ' 



328 Brasões 

D. Leonor foi confirmado o contracto de casamento em 3 de Novembro de 

147» (O- 

Casou a 2.^ vez depois de 1475, ano da morte de D. Álvaro Coutinho 

primeiro marido desta mulher do conde (2), com D. Brites Soares, filha de 

Rui Gomes de Alvarenga, presidente, conde palatino, e chanceler mor. 

Foi Ú. Brites condessa de Cantanhede, e jaz sepultada na Graça de Lisboa 

sem a data da morte no epitáfio. 

Casou o conde a 3.* vez antes de 1 1 de Maio de 1492 (3) com D. Guiomar 
Coutinho, condessa de Cantanhede, filha de D. Tristão Coutinho Sobre- 
viveu a condessa a seu marido, e a ela foi confirmada em 9 de Setembro 
de 1626 a compra que fizera de um paul no termo de Coimbra, prédio que 
em 23 de Outubro de i632 foi autorizada a deixar a seu neto (4). Era já 
morta em i558 (6). 

De todos estes três casamentos houve descendência. 

2.* Condessa de LOULÉ— 1480, Fevereiro 17. — D. BEATRIS, filha 
do conde D. Henrique de Meneses, conde de Loulé. — Por carta daquela 
data foi-lhe confirmado o condado de Loulé por morte do pai, e no final do 
documento já D. Beatris de Meneses é tratada por condessa (6), e bem assim 
o é noutra carta da mesma data de confirmação do paúl de Trava (7). Em 
1496 já era casada e condessa de Marialva e Loulé, como consta de uma 
carta de 23 de Julho, pela qual seu marido lhe obrigou as rendas de certas 
terras às 20.000 coroas que lhe prometera de arras (8). 

Armas: em lisonja, partido: o i." das do 4.° conde de Marialva; o 2.° das 
do i.° conde de Loulé. 

Vide 4." conde de Marialva e conde de Marialva e Loulé. 

2.*' Conde de PENELA — 148 1, Abril 16. — D. JOÃO DE VASCON- 
CELOS, filho primogénito de D. Afonso de Vasconcelos, conde de Penela, 
«pois a Nosso Senhor prouve 'de o tão cedo levar para si». — Foi feito 



{i) Chancelaria de D. Afonso V,\\v. 'í\.'^,^. 1%. 

(2) Chronica de D. Afonso V, pág. 547. 

(3) Consta da cana de 2.000 coroas que o duque de Beja dera então a D. Guiomar Cou- 
tinho, condessa de Cantanhede, para ajuda do seu casamento. Está incorporada na de con- 
firmação a fl. 106 V. do liv. 42.° da Chancelaria de D. Manuel. 

(4) Chancelaria de D. João II ly liv. 19.», fl. 21. 

(5) Da tença do ano de i558 das 2.000 coroas do casamento dispuzeram os herdeiros 
da condessa {Ibidem, liv. Si.", fl. 167 v.). 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 32.», fl. 81. 

(7) Ibidem, fi. 80. 

(8) Místicos, liv. I .", fl. 4 V. 



{ 



f 



Apêndice 829 

conde por carta da referida data, na qual se declara que D. João já era 
senhor de Penela(i). Este senhorio foi-Ihe confirmado em 22 de Fevereiro 
de 1482, chamando-lhe a carta D. João de Vasconcelos e de Meneses, conde 
de Penela, sobrinho; e o tornou a ser a 6 de Novembro de 1497, e a 24 de 
Setembro de i528(2). Foi vedor da fazenda, por carta de 3o de Setembro 
de 1627 (3), oficio em que morreu com 76 anos de idade, depois do cerco 
de Safim(4), que teve lugar no verão de i534. Não há dúvida do conde ter 
morrido depois disto; mas que não foi logo a seguir também é certo, por 
isso que em i6 de Dezembro de i539 exercia ainda o cargo de vedor da 
fazenda (5). O positivo é estar já morto a 20 de Abril de 1643(6). Quando 
este conde de Penela morreu, já seu irmão D. Fernando de Vasconcelos e 
de Mçneses era arcebispo de Lisboa. Consta de uma carta sem data diri- 
gida pelo marquês de Vila Real, D. Pedro, ao arcebispo dando-lhe os senti- 
mentos pela morte do conde. Está na Biblioteca de Évora no Cód. ciii-2, 26, 
fl. 40; e no mesmo na fl. 39 v. se encontram outras duas cartas do marquês, 
também de jiésamçs pelo mesmo sucesso dirigidas à condessa de Penela, e 
a D. Afonso filho do conde. — D. Fernando teve bula do arcebispado de 
Lisboa a 16 de Setembro de 1540, e tomou posse em 8 de Novembro 
seguinte (7). Teve portanto lugar a morte do conde de Penela desde fins 
de 1640 e princípios de i543. O conde de Penela ainda vivia a 18 de 
Dezembro de i539(8); e 6 de Março de 1640(9); e ainda a 21 de Outubro 
de 1640(10). 

Morreu em 1643 antes de Abril (11). 

Armas: esquartelado: o I e IV de prata, cinco escudetes de azul em cruz. 
carregados cada um de cinco besantes do campo, bordadura de vermelho 
carregada de dez castelos de oiro; o II de negro, três faxas de veirado de 
prata e vermelho; o III cortado de um e partido de dois traços, que faz seis 
quartéisc o i.% 3.° e ô.*' de oiro, dois lobos passantes, sotopostos, de púr- 
pura; o 2.°, 4.° e 6.° de oiro, quatro palas de vermelho, e sobre o todo 



(i) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.», fl. 73. , 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 47.», fl. 22. 

(3) Doações de D. João 111, liv. 3o.°, fl. 160 v. 

(4) Annaes de D. João III, pág. 383. 

(5) Corpo Chronologico, parte 3.% maç. 14, doe. 63. 

(6) Ibidem, parte i.% maç. 73, doe. 76. 

(7) J. B. da Castro, Mapa de Portugal, vol. S.", pág. 139. 

(8) Archivo histórico portuguez, vol. IX, pág. 456. 

(9) Ibidem, pág. 457. 

(10) Ibidem, pág. 458. 

(11) ièiiem, vol. X, pág. 116. 

VOL. m 42 



33o Brasões 

deste quartel, de oiro liso(i). (I do reino, H Vasconcelos, III Meneses do 
conde de Viana). 

Casou a i.* vez, antes de 5 de Abril de 1492(2), com D. Maria de 
Ataíde, condessa de Penela filha de João de Sousa, capitão dos ginetes, 
e sepultada na casa do capitulo do Seminário do Varatojo. Por carta de 6 
de Setembro de 1496 foi o conde autorizado a obrigar certos bens às arras 
que à condessa havia prometido (3). Vivia ela ainda em 23 de Setembro 
<ie 1528, em que lhe foram confirmados certos privilégios (4) ; Já tinha porém 
morrido em 21 de Setembro de i53i, em que ao viúvo foi dada uma tença 
que por morte da condessa vagara (5). 

Casou a 2.* vez, antes de 5 de Abril de i533(6), com D. Joana Henri- 
ques, condessa de Penela viúva de Rui de Melo, alcaide mor de Alegrete, e 
filha de D. Carlos Henriques, comendador de Proença. Encontra-se uma 
carta de padrão de uma tença de 14.233 reais dado à condessa de Penela 
D. Joana Henriques, por lhe ter cabido em partilhas por morte de Rui de 
Melo e para o começar a receber de i de Janeiro de 1542 em diante. Foi 
passada a carta em Lisboa a 23 de Março de 1542(7). E preciso reparar 
para a data desta carta e da de 5 de Abril de i533 citada no texto, porque é 
difícil supor que as partilhas de Rui de Melo levassem dez anos, ou mais a 
fazer. Sendo já segunda vez viúva, foi-lhe confirmada em 18 de Outubro 
de 048 uma tença de 5o. 000 mil reais, e por uma verba posta à margem desta 
confirmação consta ter a condessa morrido a 20 de Abril de i556(8). 

Do primeiro casamento ficou descendência. 

i.° Conde da FEIRA — Existia em 16 de Maio de 148 1.— O conde 
D. RODRIGO PEREIRA, do conselho de el Rei, teve, por alvará da data 
acima, mercê dos bens de certos moradores de terras suas (9). Na carta de 
confirmação da casa da Feira a D. Diogo Pereira, em 7 de Dezembro de 
1486, se declara que haja ele as terras como as houvera o dito conde seu 



(i) Livro do Armeiro mor, fl. 47. 

(2) Título de aforamento de águas em Condeixa feito ao conde e à condessa, e confir- 
mado por el Rei a 11 de Dezembro de 1493 {Místicos, liv. 2,°, fl. 99 v.). 

(3) Ibidem, liv. i.», fl. i3. 

(4) Chancelaria de D. João 111, liv. 47.°, fl. 20 v. 

(5) Ibidem, liv. 9.», fl. 98 v. 

(6) Data do padrão de uma tença de 5o 000 reais, que o marido então nela trespassara, 
como se diz na cartja de confirmação da mesma no liv. 60.» da Chancelaria de D. João 111, 
fl.77. 

(7) Ibidem, liv. 38.°, fl. 74 v. 

(8) Ibidem. 

(9) Chancelaria de D. João 11, liv. 3."», fl. 43 v. , 



Apêndice 33 1 

pai, D. Rodrigo Pereira (i). Por estes documentos já fica certo ter ele tido 
o título de conde; agora vamos a ver que o foi da Feira, e de juro é herdade, 
advertindo primeiro que êle em documentos, antes de receber o título se 
chamava umas vezes Rui Vaz Pereira, outras Rui Pereira. Existe uma sen- 
tença de D. João II, da qual a data é hoje infelizmente impossível ler, mas 
que é posterior ao ano de 1485, porque nela el Rei já se intitula senhor de 
Guiné, sentença em que se nomeia a Rui Vaz Pereira conde da Feira, e, 
determinando a forma de sucessão da casa, se manda que seu filho D. Diogo 
Pereira lhe suceda nos morgados e terras, e nas rendas vinculadas, recebendo 
tudo com o título que há de conde da Feira de juro e herdade (2). Encon- 
trei a data desta sentença no Cód. cix 2-5 da Biblioteca Eborense num tras- 
lado de todo o processo que se guarda na Torre do Tombo, e que ou foi 
copiado deste em tempo em que ainda se lia a data ou foi tirado doutra 
colecção em melhor estado. Foi a sentença dada em Évora a 21 de Janeiro 
de 1493. Esta sentença é pore'm falsa, como averiguei agora. Nota-se grande 
confusão nos autores que se referiram ao título de D. Rodrigo Pereira. 
Xisto Tavares e Damião de Gois nos seus Nobiliários dizem que êle fora o 
primeiro que se chamou conde da P^ira sem vontade de el Rei. D. António 
de Lima melhor informado, acrescenta porém que D. Afonso V lhe dera 
depois o seu consentimento. Outros mais modernos afirmam, sem grande 
fundamento, que aquele rei fizera a Rui Pereira conde de Moncorvo, mas 
que êle não quizera usar de tal título, e ordenara a seus vassalos que lhe 
chamassem conde da Feira (3). Não é opinião aceitável: em primeiro lugar, 
porque os documentos são mudos a respeito do condado de Moncorvo, ao 
passo que claramente falam no da Feira, em segundo lugar, porque não 
creio que o capricho de Rui Pereira fosse tão grande, que o levasse a repu- 
diar as rendas da vila de Moncorvo, que havia de receber com o título. E 
então estes senhores da Feira, Rui e Diogo, que foram grandes opressores 
dos seus vassalos, e, sobretudo o primeiro, apaixonado agenciador dos pró- 
prios interesses por causa dos quais teve uma bem sabida e grave contenda 
com os burgueses do Porto (4). — Era o conde D. Rodrigo o 4.° senhor das 
terras de Santa Maria da Feira, CabanÕes de Ovar, Cambra e Refoios, que 
lhe haviam sido confirmadas por sucessão em 21 de Dezembro de 1467(5); 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. 8.% fl. 226 v. 

(2) Gaveta 2.\ maç. 9, n.» 5. 

(3) Historia genealógica, vol. 3.*, pág. 28. 

(4) [No Boletim da Segunda Classe da Academia das Sciências de Lisboa, vol. VII (1919), 
publicou o autor o seguinte artigo : Condados de Moncorvo e da Feira. Ousada falsificação 
de documentos desvendada por Anselmo Braamcamp Freire]. 

(5) Chancelaria de D. João II, liv. 8.", fl. 226 v. 



332 Brasões 

e o 2." senhor do castelo da Feira, que lhe fora confirmado por outra carta 
da mesma data(i). Já tinha morrido o conde da Feira, em 7 de Dezembro 
de 1486, quando foi confirmada a casa a seu filho D. Diogo Pereira, depois 
2.® conde da Feira (2). O conde da Feira parece ter morrido no próprio 
ano de 1486. Numa carta de 6 de Dezembro desse ano manda-se pagar, do 
I." de Janeiro de 1487 em diante, a D. Diogo Pereira uma tença de 
17.000 reais brancos, «os quaes havia o conde D. Rodrigo seu pai pela 
jurisdição da terra de Refoios, que lhe foi dada e se tornou á sé da cidade do 
Porto» (3). Deverá entender-se que a tença do ano de 1486 ainda o conde 
D. Rodrigo recebeu. 

Armas: de vermelho, cruz florida de prata, vazia do campo. (Pereira). 

Casou, precedendo contracto de 20 de Junho de 1456, em que el Rei 
declara ser Rui Pereira pessoa «de que mui grande carrego temos» por 
muito serviço de sua linhagem e dele com- D. Leonor de Berredo, donzela 
da casa da falecida rainha D. Isabel, e filha de Gonçalo Pereira (4). Que- 
rendo fazer mercê a D. Maria de Berredo e a D. Leonor, sua irmã, don- 
zelas da casa da rainha minha mulher, hajam desde o i.° de Janeiro que foi 
de 1460 de mantimentos e vestires, 82.172 reais brancos, a saber: 9.943 reais 
de seu mantimento a cada uma, e 9.460 reais a cada unxa de' seu vestir con- 
tando aí i.Soo reais de vestir para um homem- e uma mulher que as servem, 
e de sua cevada a cada uma delas por ano 1.193 reais. Évora, i5 de Março 
de 1460 (5). D. Leonor casou em 1456 com Rui Pereira, e D. Maria já desde 
145 1 que era sua madrasta por ser a segunda mulher de seu pai Fernão 
Pereira (6). Este Gonçalo Pereira é o dos Armas, senhor de Cabeceiras de 
Basto, nomeado por vezes na Chronica de D. Afonso V. 

Tiveram descendência. 

2.° Conde de ARGANIL — Anterior a 2 de Junho de 1483. — D. JORGE 
DE ALMEIDA, bispo de Coimbra. — No seu epitáfio diz-se que morrera 
em 1643, e que fora sessenta e dois anos bispo, o que punha a sua nomeação 
do ano de 148 1. É engano porque até Novembro de 1482 encontram-se 
documentos de seu predecessor, e só a 2 de Junho de 1483 é que aparece 
D. Jorge como bispo de Coimbra (7). O bispo D. Jorge morreu a 24 de 



(i) Estremadura, liv. i.°, fl. 81 v. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. 8.°, fl. 226 v. 

(3) Ibidem, fl. 122. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 44.°, fl, 92. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12.», fl. 122 v. 

(6) Livro 1° dos Brasões, pág. 3 12. 

(7) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. 5.», pág. i65. 



1 



Apêndice 



333 



Julho de 1548. Consta das seguintes palavras do Livro dos Acordos do 
Cabido: «A 24 dias do mez de Julho de mil quinhentos corenta e três em 
3.* feira véspera do AposioUo Santiago faleceo o Bispo de Coimbra D. Jorge 
de Almeida que Santa Gloria haja amanhecendo quasi a uma hora depois 
da mea noite » (i). Por carta de 25 de Abril de 1497 foram-lhe confirmadas 
as honras, privilégios, graças, etc, de seus predecessores (2); o que tudo lhe 
tornou a ser confirmado em 26 de Novembro de 1527 (3)'. Em 19 de Outubro 
de 1602, confirmado a 19 de Junho de i523, alcançou privilégios para a co- 
brança das rendas do bispado (4). Concedeu-lhe o papa uma bula para 
poder testar, a qual D. Manuel aprovou por alvará de 12 de Abril de i5io, 
que D. João III confirmou por carta de 5 de Dezembro de i525 (5). No ano 
antecedente, a 3 de Junho, obtivera carta de couto para o termo da sua vila 
de Côja(6). Durante o seu bispado, a 12 de Setembro de i5i4, foram dados 
os forais a Arganil, Barro, Aguada, etc. (7). 

Morreu D. Jorge em i543, a 21 de Julho (8), e não a 25, como diz o epi- 
táfio na Sé Velha de Coimbra (9). 

Armas: esquartelado: o i.° e 4.° de vermelho, seis besantes de oiro entre 
uma dobre cruz e bordadura do mesmo; o 2.° e 3.° de prata, leão de púr- 
pura, armado e linguado de vermelho (lo). Divisa: neqvid nimis. Consta do 
frontispício das Constituições do bispado de Coimbra ordenadas por este 
bispo, e disso me avisou o referido Simões de Castro na citada carta. 

As palavras da divisa tiradas de Terêncio foram interpretadas pelos fran- 
ceses num destes dois versos: 

Faut de la vertu, pas trop n'en faut, 
Uexcès en tout est un défaut. 

Nò que D. Jorge de Almeida foi excessivo, foi no amor e culto da Afte. 
O altar mor da Sé Velha de Coimbra, a custódia no Museu Episcopal, e 



(i) Carta de Augusto Mendes Simões de Castro, de Coimbra, a i5 de Abril de 1901. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 27.°, fi. 70. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 2°, fl. i23 v. 

(4) Ibidem, fl. 117 v. 

(5) Ibidem, liv. iS.», fl. 80 v. 

(6) Privilegias de D. Felipe I, liv. i,°, fl. 91 v. 

(7) Originais na Torre do Tombo. 

(8) Carta de João III a Baltasar de Faria impressa a pág. 229 do vol. 5.® do Corpo diplo- 
mático. 

(9) Impresso no Instituto a pág. 261 do vol. 42. 

(10) Sinete numa carta do bispo ao secretário António Carneiro, datada de i5 de No- 
vembro {Cartas missivas, maç. 2.", n." 239). Nos forais citados aparecem as armas compostas 
só com o 1.° quartel das descritas. 



334 Brasões 

tantas outras obras artísticas mandadas fazer por aquele ilustre prelado, a 
estão ainda hoje atestando. 

4.° Duque de BEJA e 5.° de VISBU — 1484, depois de 28 de Agosto. — 
D. MANUEL, irmão do 4.° duque de Viseu e 3.° de Beja. — Contam os cro- 
nistas que em seguida à morte do duque D. Diogo mandara D. João II chamar 
a seu irmão D. Manuel, e lhe dera a sucessão, havendo por melhor que ele 
se intitulasse duque de Beja e senhor de Viseu (i). Não é isto perfeitamente 
exacto, ou não se cumpriu à risca, pois que D. Manuel nalguns diplomas, 
que passava como regedor e governador da ordem de Cristo, se intitulava 
duque de Beja e de Viseu, senhor da Covilhã e de Vila Viçosa, etc. (2). E 
não era só êle que desta maneira se intitulava a si próprio. O mesmo 
D. João II numa carta de i de Junho de 1489 doa as ilhas Terceira e Gra- 
ciosa a D. Manuel duque de Beja e de Viseu, senhor da Covilhã e de Vila 
^ viçosa (3). Foi portanto D. Manuel também duque de Viseu. Noutras cartas 
contudo é apenas intitulado duque de Beja, senhor de Viseu, Covilhã, etc. (4). 
Teve carta de assentamento a 28 de Abril de 1489(5). D. Manuel, duque 
de Beja, senhor de Viseu, etc, doação de juro e herdade do castelo e renda 
da Guarda e do castelo de Portel com todos seus foros, etc. Beja, 5 de 
Junho de 1489(6). Com os mesmos títulos de duque de Beja e de Viseu se 
encontra D. Manuel nomeado na carta de 28 de Abril de 1489 do seu assen- 
tamento de um milhão de reais brancos (7). D. Manuel, meu primo, duque 
de Beja e de Viseu, senhor da Covilhã etc. carta de doação de Vila Viçosa, 
termo e castelo, alcaidaria, jurisdição etc. com todas as rendas actuais « e 
assi por vaga do que na vila e termo tivermos dado». Beja, 24 de Maio 
de 1489(8). Foi rei de Portugal em 25 de Outubro de 1496. 
. Armas emquanto duque: as do reino com alguma diferença, que ignoro. 
Armas de D. Manuel duque de Beja e de Viseu: de prata cinco escudetes 
de azul, postos em cruz e carregados cada um de cinco besantes do campo. 



(1) Chronica de D. João II, pág. 60 e Vida de D. João II, fi. 35 v. 

(2) Por exemplo na carta de 12 de Maio "de 1495 atrás citada na segunda nota de pág. 29» 

(3) Archivo dos Açores, vol. 3.", pág 16. 

(4) Por exemplo na carta de doação de Penalva e Gulfar a D. João de Meneses, a qual 
incluída noutra vem na Chancelaria de D. João III, liv. 40.0, fl. i85, com a data errada, pois 
que não podia ter sido do ano de 1482, como lá se lê. 

(5) Historia genealógica, vol. 5.°, pág. 5y. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv. 26.», fl. 7 v. 

(7) Está nas Provas da Historia genealógica, vol. 2.", pág. 208, n." 39, citando o liv. 2.* 
de Místicos, fl. 110. 

(8) Chancelaria de D. João II, liv. 24.", fl. 1 5 v. 



Apêndice 335 

bordadura de vermelho carregada de nove castelos de oiro, e por diferença 
um banco de pinchar de dois pendentes franchados, sendo os campos alto e 
baixo de vermelho com três palas de oiro, e os dos flancos, de prata com 
águia de negro. Por cima uma cruz da ordem de Cristo. Encontram-se 
estas armas no Mestre das sentenças de Pedro Lombardo, ms. que se guarda 
na Torre do Tombo, e que foi acabado nos idos de Dezembro do ano da 
Encarnação de 1494. Na Bíblia chamada dos Jerónimos, que está no 
mesmo arquivo, o 1.° vol. foi acabado a 11 de Dezembro de 1495 da Encar- 
nação e os outros vols. até ao 5." inclusive são todos do mesmo ano. 
Foram portanto começados ainda em vida de D. João II, e dados por findos 
depois da sua morte. Neles, nas portadas, pintaram as mesmas armas com 
a mesma diferença, pois que então ainda D. Manuel era duque; sucedeu 
depois na coroa, e apagaram a diferença, que contudo ainda se distingue em 
partes, vendo-se perfeitamente o travessão do banco de pinchar. E até no 
i." vol. se vê ainda na portada dentro de uma concha, pintada a claro escuro, 
um pequeno escudo com o banco de pinchar e os dois pendentes franchados 
de Aragão-Sicília, como estão 110 Mestre das sentetiças. No 6.° vol. da Biblia, 
no alto da portada, puseram estas letras EMA.REX. O brasão é o escudo 
das armas do reino com os nove castelos, sem diferença nenhuma, nem sinal 
de o ter jamais tido. O 7.° vol. tem a data de Julho de 1497 ^^ Encar- 
nação, e o brasão é igual ao do 6." Em ambos estes, a coroa, que sobrepuja 
os escudos, tem maior número de florões, e é mais ornado do que nos 
outros. Todo este conjunto de circunstâncias deixa a certeza que as armas 
são as de D. Manuel, antes e depois de rei, porque de nenhuma outra pessoa 
podiam ser naqueles tempos, e provam que os ms. foram mandados fazer 
por êle, ou para ele. 

Casou por três vezes depois de rei, e teve descendência. 

Conde de BORBA— 1485, Fevereiro 3. — D. VASCO COUTINHO. 

— A investidura foi porém alguns dias antes: «El Rei... foi com toda sua 
corte a Montemor o Novo, em que esteve até ao Janeiro de 1485. Em 
Montemor o Novo fez el-rei novamente conde de Borba D. Vasco Coutinho 
pelo assignalado serviço do descobrimento da segunda e desleal desaventura 
do duque de Vizeu. . .» (i). Foi criado conde de Borba por carta da referida 
data pelos seus muitos serviços «assim nas guerras passadas de Castella, 
em que nos elle mui bem serviu, sendo comnosco em a batalha de Touro, 
em que el-rei meu senhor e padre, cuja alma Deus haja, venceu el-rei de 
Castella, na qual elle dito conde prendeu D. Henrique Manrique, conde de 



(1) Pina, Chronica, pág 63-64. 



336 - . Brasões 

Alva de Lista, tio do dito rei de Castella, pessoa de grande autoridade e 
valia nos ditos reinos, e no-lo entregou preso; e depois, continuando-se a 
dita guerra, nos serviu em ella como extremado cavalleiro, sendo ferido e 
preso por nosso serviço em defenssao d'estes reinos, e assim nos serviu 
sempre depois bem e lealmente como bom vassado e criado »(i). Foi 
constituído o condado para ele, e todos seus herdeiros e sucessores, pela 
vila de Borba, e alcaidaria mor de Estremôs com as rendas da portagem 
e outras desta vila e mais bens no seu termo e fora; porém tendo êle 
feito uma troca pela qual adquirira a alcaidaria e direitos do Redondo e 
Pavia, foi rota a primeira carta, fazendo-se-lhe uma segunda com estes 
bens acrescentados ao condado, em i6 de Março de 1486(2). Finalmente 
por carta de 2 de Junho de i5oo foi-lhe tirada a vila de Borba para 
ser restituída ao duque de Bragança, e deram-se ao conde em troca as do 
Redondo e Pavia para com outros bens formarem o condado (3). Foi por- 
tanto o i.° conde do Redondo; mas continuou quási sempre a ser tratado 
por conde de Borba, mesmo em documentos régios, pelo que direi neste 
lugar mais alguma coisa a seu respeito. A 9 de Junho de 1490 fôra-lhe 
feita doação da capitania de Arzila (4), sendo autorizado por carta de 23 do 
mesmo mês a obrigar as rendas de Borba ao dote e arras da condessa (5); 
e por outra de 29 do mês seguinte a entregar a el Rei, antes de partir para 
Arzila, as suas rendas dos três anos seguintes, para pagar muitos dinheiros 
que devia (6). D.Vasco Coutinho, conde de Borba, capitão de Arzila, disse 
como estava em obrigação de muitos dinheiros, que devia a algumas pessoas, 
e por seu descargo, antes que partisse para Arzila onde ora o enviamos, 
queria dar forma como se pagasse o que devia; e por quanto esta coisa não 
se podia fazer salvo por suas rendas, êle nos apresentava para isto todalas 
que tinha em Estremôs e seu termo, as quais nos pedia mandássemos tomar 
em nós por três anos que vem de 91, 92 e 93, e que se o seu rendimento 
em estes três anos não bastasse para as dívidas, que se tomassem por mais 
até acabar assim de todo de pagar, do que fazia fundamento que poderia 
ser i.3oo.ooo reais pouco mais ou menos, etc. El Rei aceita em Évora a 29 
de Julho de 1490(7). 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. i.", fl. Sg. 

(2) Ibidem. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 38.», fl. 88 v. 

(4) Chancelaria de D. João 11^ liv. i6.°, fl, 43, e Corpo Chronologico, parte i.% maç. i, 
doe. 44. 

(5) Ibidem, fl. 43 v., e Místicos, liv. 2.°, fl. 97. 

(6) Chancelaria de D, João II, liv. 16.% fl. 43 v. 

(7) Ibidem. 



Apêndice ^ 33 j 

D. Vasco Coutinho, conde ^e Borba, capitão de Arzila, disse como era 
devedor a certas pessoas nestes reinos em i.Soo.ooo reais, pouco mais ou 
menos, e porquanto estava para partir para Arzila, e se queria primeiro des- 
quitar das ditas dívidas, para que nos dava as rendas e direitos que ele tinha 
em Estremôs e seu termo por tempo de três anos, que se começarão no ano 
que vem de 91, e acabarão no de gS, e se mais anos para as ditas dívidas 
requeresse para todo oferecia as ditas rendas, segundo mais cumpridamente 
é conteúdo em uma escritura que se sobre elo fez, que há em nossa fazenda 
entregue ao porteiro dela. Pede, por não saber quando morrerá e por 
poder ainda então não ter pago suas dívidas fiquem as referidas rendas e 
direitos obrigados sempre ao dito pagamento. El Rei a confirma em Évora 
29 de Julho de 1490(1)'. 

Morreu o conde de Borba no ano de i522, consta de uma declaração 
posta em seguida à carta de assentamento de seu filho, a quem se pagáram- 
os anos de i523, 24 e 25(2). No livro das tenças diz-se ter morrido em 
i523(3). 

Armas: de oiro, cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. (Coutinho). 

Casou com D. Catarina da Silva, condessa de Borba, irmã do i.° conde 
de Cantanhede. El Rei D. Manuel, por carta de 3o de Novembro de i5o5, 
havendo respeito aos muitos serviços do conde de Borba, determinou que, 
falecendo ele primeiro do que a condessa, lhe sucedesse esta numa tença de 
quarenta moios de pão terçado que o conde tinha em Pombal (4). Foi a 
tença confirmada a D. Catarina, que em todos estes documentos é sempre 
intitulada condessa de Borba, em 26 de Novembro de 1529 (5), e 24 de 
Outubro de i532(6). 

Tiveram descendência. 

2." Conde de ABRANTES — Em fins de 1485, ou princípios de 1486. — 
D. JOÃO DE ALMEIDA, vedor da fazenda. — Sucedeu ao pai no título em 
virtude da carta que para esse efeito alcançara de D. Afonso V em 4 de 
Janeiro de 1480, e que D. João II confirmara em 8 de Abril de 1484. Em 
6 de Fevereiro de 1486 era já conde de Abrantes, como consta da carta 
daquela data do assentamento de 102.864 reais para receber desde Janeiro 
desse ano em diante. 



(i) Chancelaria de D. João II, liv. i6.", fl. 44. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 36.°, fl. i52. 

(3) Archivo histórico portuguez, vol. II, pág. i32. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 4 1 .", fl. gS v. 

(5) Ibidem. 

(6) Ibidem, liv. 16.°, fl. 170. 

VOL. III . 43 



338 Brasões 

Morreu a 9 de Outubro de i5i2(i). 

Armas: as do i." conde de Abrantes. Timbre: hidra de sete cabeças 
postas de frente (2). 

Casou em 1467 com D. Inês de Noronha, condessa de Abrantes, irmã 
- da marquesa de Montemor, ambas filhas de D. Pedro de Noronha, arce- 
bispo de Lisboa (3). A condessa ainda vivia em 17 de Janeiro de 1494, em 
•que outorgou no contracto de casamento de seu filho D. Lopo (4); era porém 
Já morta em 14 de Agosto de i5o2 (5). Era já morta em 11 de Janeiro de 
1496 data da carta régia em que ao viúvo é concedida licença para comprar 
bens até ao valor de 120.000 reais para a capela que a condessa, já falecida, 
instituíra pelo seu testamento na igreja de Santa Maria do Castelo de' 
-Abrantes (6). 

7.° Conde de OURÉM— 1489, Fevereiro 27. — D. PEDRO DE ME- 
NESES, cojide de Vila Real, senhor de Almeida, capitão e governador de 
Seuta, primo de el Rei. — Foi por carta da referida data feito conde de 
Ourém (7), vila de cujo castelo e fortaleza já lhe havia sido feita mercê em 
22 de Outubro de 1487 (8). Conservou o condado durante todo o resto da 
sua vida, pois que, quando por carta de i3 de Julho de 1496 D. Manuel con- 
firmou ao duque de Bragança D. Jaime a doação, em que se compreendia o 
condado de Ourém, que o condestável D. Nuno Alvares Pereira fizera a seu 
neto D. Afonso depois de Conde de Ourém e marquês de Valença exclue 
terminantemente a vila de Ourém por estas palavras: «tirando somente a 
villa de Ourem, que queremos que fique fora » (9). Por morte de D. Pedro 
de Meneses, conde de Ourém, sucedeu-lhe no senhorio desta vila seu filho o 
marquês de Vila Real D. Fernando, o qual contudo ainda não encontrei inti- 
tulado conde de Ourém, posto que conservou o senhorio até ao ano de i5io. 
Consta da carta de 4 de Dezembro de i5ro, em que D. Manuel declara ter- 
-Ihe o marquês deixado a fortaleza de Ourém e as rendas da vila, que tudo 
herdara por morte de seu pai, para el Rei as dar ao duque de Bragança, 



(i) Livro 2." dos Brasões, pág. 356. v 

(2) Ibidem. 

(3) Ibidem^ 

(4) Chancelaria de D. João 111, liv. 30.", fl. 39 v. 

(5) A condessa de Abrantes a que este documento se refere, é a viúva do i.» conde 
■{Corpo Chronologiço, parte 2.", maç. 6, doe. 116). 

(6) Extremadura, liv. 2.», fl. 143. 

(7) Misíicos, liv. 2.°, fl. 118. 

(8) Chancelaria de D. João II, liv. 2i.">, fl. 34 v. 

(9) Místicos, liv. 4.°, fl. 78 y. 



Apêndice 



339 



pelo que faz ao marquês mercê em duas vidas de uma tença de 463.280 
reais (i). 

Este conde de Ourém foi dois dias depois feito marquês de Vila Real, 

Vide. 

i.° Marquês de VILA REAL— 1489, Março i. — D. PEDRO DE ME- 
NESES, conde de Vila Real e de Ourém, capitão de Seuta, primo de el Rei. 

— Na referida data, estando D. João II em Beja, criou com muita soleni- 
dade marquês de Vila Real ao conde D. Pedro (2). O marquês de Vila Real 
apresentou alvará. — Marquês, conde de Ourém, senhor de Almeida, primo, 
haja de seu inteiro assentamento 322.858 reais, a saber: 242.000 reais 
que já antes tinha do seu 1." assentamento e 8o.858 reais que lhe novamente 
acrescentámos quando o fizemos marquês, etc. Évora, 6 de Abril de 1490. 

— E porquanto entre nós e o dito marquês foi feito um concerto quando lhe 
dêmos a vila de Ourém com a jurisdição, rendas e direitos, que o marquês 
nos leixasse 1 3o. 000 reais pela portagem de Santarém dos 322.858 do assen- 
tamento, mandámos romper o dito alvará, e lhe mandámos dar este de 
192.858 reais. Lisboa, -27 de Janeiro de 1494. — E porquanto este desconto 
houvesse de ser feito em começo do ano de 89, em que lhe foi dada a dita 
vila, e ficam cinco anos atrás, nós lho mandamos fazer dos 240.000 reais de 
suas tenças que tinha em Santarém, de que lhe foram tirados 1 3o. 000 reais 
em cada ano das ditas cinco, e ficaram ao marquês 1 10.000 em cada um 
daqueles anos, e era feito no assentamento como dito é (3). Dele fica já 
referido o suficiente nos títulos de 3.° conde de Vila Real e 7.° conde de- 
Ourém, restando-me apenas para declarar agora que o marquês acabou os- 
seus longos dias erri Lisboa no ano de 1499(4), antes de 12 de Dezembro, 
com certeza, e, talvez antes de i de Setembro. Tenho esta dúvida porque 
encontro o filho já intitulado marquês numa carta, que está copiada com a 
data de i de Setembro (5), e transcrita noutra de confirmação com a data 
de 12 de Dezembro (6). Confio mais nesta, mas como ambas são cópias 
não posso decidir. Ainda assistiu ao juramento do príncipe D. Miguel no 
mosteiro de S. Domingos de Lisboa em 7 de Março de 1499 (7). 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 8.», fl. 104 v. 

(2) Chronica de D. João II, pág. 95, e Vida de D. João II, fl, 5 1 v. 

(3) Misiicos, liv. 2°, fl. 239. 

(4) Chronica de D. Manuel, fl. 20 v. 

(5) Misticos, liv. 4.", fl. 102 V. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 5o.°, fl. 33. 

(7) Provas da Historia genealógica, vol. 2.', pág. 394, n.» 68. 



340 Brasões 



..MT^yÇ''^ 



Em 20 de Maio de 1499 ^^'^ confirmado ao marquês a mercê de poder 
pôr juiz nas suas terras (i). 

Armas: esquartelado: o i." e 4.° de prata (Noronha)^ cinco escudetes de 
azul em cruz, carregados cada um de cinco besantes do campo, bordadura de 
vermelho carregada de oito castelos de oiro, e por diferença um filete de 
negro sobreposto em banda; 02.° e 3.° de vermelho, castelo de oiro, o campo 
mantelado de prata com dois leões afrontados de púrpura, armados e lin- 
guados de vermelho, bordadura de escaques de oiro e veiros de dezoito 
peças. Sobre o todo, escudete cortado de um traço, partido de dois, o que 
faz seis quartéis: o i." de azul (Capitania de Ceuta, Meneses do Conde de 
Viana), estoque de prata, empunhado de oiro, posto em pala; o 2.°, 4.° e 6.° 
de oiro, quatro palas de vermelho; o 3.° e 5.° dé oiro, dois lobos passantes, 
sotopostos, de púrpura. Sobre o todo do todo, de oiro liso. Timbre: um 
dos leões, nascente (2). 

Havia casado a 6 de Agosto de 1462, como fica dito, com D. Beatris, 
que foi condessa e marquesa de Vila Real, e morreu meado maio de 149 1 (3). 
Era filha dos 2.°* duques de Bragança. 

Tiveram descendência. 

Conde^de GUAZAVA— 1493, Agosto 11. — D. REINALDO DE XA- 
TEOBRIÃ, do nosso ^conselho, barão de Lomguy, etc. — Por carta dada em 
Torres Vedras na data apontada fez D. João II conde e senhor da vila e 
terra de Guazava (Taza ?), nas partes de Africa e reino de Fez da nossa 
conquista, a D. Reinaldo (René) de Chauteaubriand, barão de Loigny, senhor 
du Lyon d'Angers, de Chalain, des Roches-Buritaut, de Chavannes, etc, e 
visconde de Remalart; «e porquanto ella (a vila e terra), ao presente é ocu- 
pada pelos inimigos de nossa Santa Fé, nos praz que elle haja de nós de 
assentamento em cada ano, desde o primeiro de Janeiro de 1494 em diante 
duas mil coroas de cento e vinte reaes a coroa» (4). Rui Gil é o xMagro, 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.», ti. 96 v. 

(2) Livro da Torre do Tombo, fl. 9, acrescentando conforme o Livro do Armeiro mor, 
fl. 41, os dois lobos no 3.° e 5." quartel do escudete, que no outro livro se esqueceram de pintar. 

(3) Chronica de D. João II, pág. i3o, e Vida de D. João II, fl. 81 v. 

(4) Ilhas, fl. 102. — Por curiosidade porei aqui o nome e todos os títulos com que Rei- 
naldo de Ghateaubriand é designado nesta carta de condado in partibus infidelium, e na de 
capitão. Começarei pelos nomes como se acham na primeira carta, em seguida porei entre 
parênteses as variantes da segunda, e finalmente em itálico os correspondentes franceses, 
aqueles que encontrei na Histoire généalogique do Pére Anselme, vol. 8.% pág. 706 D. 
Seguem: Reinaldo, René; de Xateobria (Xateobriam), Chaíeaubriand; barão de Lomguy 
(Longuy), Loigny; de Chullam (Ghallam), Chalain; dos Roches (des Roches), des Roches 



t 



I 



Apêndice 841 

como se diz no documento 42 do mesmo maço, mandamos-vos . que deis a 
João de Binf (talvez seja João de Bui f., abreviatura de francez, vide o se- 
guinte), nosso moço fidalgo, pagem que foi de mon S*"" de liam, um jubão 
de selim preto, um pelote de veludo preto dobrado, uma carapuça do mesmo 
veludo, umas calças de merim, um 'gabão de contrai frizado, e um par de 
camisas de holanda, tudo feito e tirado da costura, e assentai-o em vosso 
caderno. Feito em Torres Vedras a 10 dias de Agosto, João Pais o fez, 

de 1493(0- 

Rui Gil, mandamos-vos que deis a João Bui francês, um capuz, pelote, 
calças de merim, Jubão de setim com meias mangas e colar de veludo preto 
dobrado, e um barrete preto dobrado, tudo feito e tirado de costura, e assen- 
tai-o em nosso caderno para vo-lo depois assinarmos. Feito em Torres 
Vedras a 17 de Novembro, Pedro da Mota o fez, de 1493(2). 

Este francês «MÕseor de lião», como lhe chama Resende, ou como lhe 
chama Rui de Pina, «Monseor de Liam d'Amjos» (seigneur du Lyon d'An- 
gers)y chegou a Torres Vedras, onde então estava D. João II, em Junho de 
1493 (3). Vinha acompanhado de muita gente, oferecer-se para ajudar a el Rei 
na guerra de Africa, o que expôs em uma fala pública que lhe fez, e a que 
ele respondeu. Ainda em Torres Vedras o criou el Rei conde de Guazava(4), 
como fica dito, e no mesmo dia mandou outra carta na qual dirige estas 
palavras ao recem-agraciado: « considerando nós, como, por serviço de nosso 
Senhor Deus e zelo de acrescentamento de Sua Santa Fé, nos movestes a 
nós de tão longe por vossas cartas, e mensageiros enviardes oferecer, e ora 
por vós oferecestes para com vossa pessoa, casa, e gente, e com outros que 
para ello se vos tem oferecido, virdes a nos servir em nossa passagem, e 
conquista de Africa e reino de Fez, quando com ajuda de nosso Senhor 
Deus nós em pessoa por Seu serviço, acrescentamento de Sua Santa Fé, 
proseguimento d'esta tão santa guerra e nossa conquista, e tão honrada 



(— Baritant) ; de Ghamphroy; senhor Dullion, du Lyon (d'Angers); de Ghancimes (Cha- 
uannes), Chavannes; Verners (Vernes); Chãpargue; Descorcres; de Sambris (Samtbrijs) ; de 
-Montisãbris (Montisenbris) ; de Doguy (Duguy) ; e visconde de Regmalares, Remalart. 
(i) Corpo Chronologico, parte i,», maç. 2, doe. 45. 

(2) Ibidem, doe. 60. 

(3) Vida de D. João II, fl. io5, e Chronica de D. João II, pág. 180. 

(4) No próprio nome da terra, de que o fizeram eonde, não estavam bera certçs. Na 
carta do título vem Guazava; na de*eapitáo, Gazava; na Chronica, Gazana; e na Vida, 
Gazaa. O eurioso é que, assim eomo nós estropiamos e ignoramos o estrangeiro, paga-nos 
este na mesma moeda e liberalmente. O Père Anselmeno lugar já eitado diz que o pai do 
nosso eonde, um Théaude de Ghateaubriand, havia sido eonde de Gasan no reino de Nápoles. 
É provável ser confusão do genealogista francês, e o condado de Gasan no reino de Nápoles 
5er o de Guazava no de Fez, ou melhor, no de Portugal. 



342 Brasões 

empresa, precisarmos; a nós apraz que vós sejaes então capitão principal de 
todas as pessoas e gentes, que trouxerdes d'aquellas partes de França e de 
Ailemanha, e terras d'ella comvosco vierem, que serão as que por nosso es- 
cripto levaes; e elles haverão o soldo; e os navios que trouxerem, e em que 
elles vierem, haverão o frete, depois que em Lisboa fizeram o alardo e 
mostra, e os navios sahirem do monte espalmados e prestes, segundo levaes 
por nosso escripto; e a paga do dito soldo e fretes se fará por nossos oficiaes 
segundo costume de nossos reinos; e antes do tempo da nossa passagem 
vo-lo faremos saber por nossa carta, tanto tempo primeiro em que vós, e os 
que houverdes de trazer e comvosco houverem de vir, vos possaes, e se 
possam, bem fazer prestes» (i). — Na carta do condado dissera el Rei, que 
uma das razões por que lhe fazia mercê, era « por algum divido que com- 
nosco tem ». Onde o francês foi desencantar este parentesco, não sei. 
Mr. du Lyon d'Angers era de um ramo obscuro e modesto da casa de Cha- 
teaubriand, e, nem pelas suas alianças nem pela sua origem, entroncava em 
parentes da casa real. Talvez êle quizesse derivar o parentesco das flores 
de liz das suas armas, e D. João II ignorasse que elas haviam sido conce- 
didas por S. Luís a Godofredo, barão de Chateaubriand, pelos serviços 
prestados na cruzada de 1249, e não por nenhuma consanguinidade. — Este 
«Monsior de Liam d'Arajos)) faz-me lembrar o 

. .. monsieur de tal 
Chimico em Pariz formado 

do nosso Tolentino, que 

Tira pelo amor de Deus 1 

Os dentes a todo o mundo. 

D. João II também assim o entenderia, e tanto que lhe deu um condado 
na Outra Banda, lá muito além de Palmela, arbitrando-lhe a boa tença 
unicamente para ter um espião na corte francesa (2). Em todos os casos o 
homem nunca mais voltou, ou porque fosse servir na guerra do ano seguinte, 
a da conquista de Nápoles, ou porque se aproveitasse dela como desculpa, 
e entretanto morria o primo D. João II. — Ignoro quando o conde faleceu, 
mas já não era criança em 1498, pois que três anos depois lhe nascia um 
neto (3), que não sei se seria o primeiro. 



(i) Ilhas, fl. 102 V, 

(2) Assim se infere do que diz Resende no fim do cap. 168 da Vida de D João II. 

(3) Felipe de Croy, que tinha dezaseis anos em i5i2, segundo diz o Père Anselme no 
vol. 5.°, pág. 640, 



Apêndice 343 

Armas: de vermelho semeado de flores de liz de oiro (Chateaubriand). 
Casou com Helena d'Estouteville, senhora du Tronchay, que não sei se 
foi condessa de Guazava. 
Só tiveram filhas. 

4." Duque de BRAGANÇA e 2.» de GUIMARÃES— 1496, antes de 26 
de Abril. — D. JAIME, filho do 3.*^ duque de Bragança e 1." de Guimarães. 
— Foi também marquês de Vila Viçosa^ conde de Barcelos, Ourém, Neiva e 
Arraiolos. Tomou posse da casa quási toda em 1496, independente de con- 
firmações posteriores; e, ainda antes disto numa carta missiva, da data 
apontada, já D. Manuel trata a D. Jaime por duque (i). Carta de confir- 
mação da doação de condestável ao conde de Arraiolos, em Vila Franca a 
16 de Agosto de 1496 (2). Confirmação da compra da Vila Boim, Torres 
Vedras, 22 de Agosto de 1496 (3). Em carta de 18 de Junho de 1496 é 
intitulado duque de Bragança e de Guimarães (4). Por esta carta lhe foi con- 
firmada a de 18 de Julho de 1475, acima citada, pela qual se concedeu a seu 
pai, que o filho primogénito se intitule logo duque de Guimarães à morte do 
pai. Análoga mercê à que já andava na casa com respeito ao ducado de 
Bragança, e que fora concedida ao i." duque, como ficou dito. Conta-se que 
foi jurado herdeiro da coroa em particular no ano de 1498, e que desde 
então mudou o escudo das armas da casa (5). Efectivamente D. Manuel, 
por exemplo, numa carta dirigida ao papa em i5o2 diz que «nam temos 
outro herdeiro salvo o dito duque (de Bragança) meu sobrinho que ha sob- 
4:essam destes reinos he mães chegado e a que direitamente vêem se filhos 
Nosso Senhor nos nam der» (6). Em 3 de Abril de 1626 alcançou um 
alvará para poder dar a seu filho primogénito qualquer dos seus títulos (7). 

Morreu o duque D. Jaime a 22 de Dezembro de i532 (8). 



(i) Chronica de D. Manuel, fl. 8 e 8 v., onde vem transcrita a carta de 26 de Abril, que 
-el Rei de seu próprio punho escreveu para Castela. 

(2) Confirmações Geraes, liv. 6."», fl. 102. 

(3) Chancelaria de D. João 111, liv. 7.», fl. 214. 

(4) J. A. de Figueiredo, Memoria das behetrias, prova n." i3. » , 

(5) Historia genealógica, vol. 5.°, págs. 483 e 486. 

(6). Corpo diplomático portugue\,y o\. ii.°, pág. 18. ■- 

(7) Provas da Historia genealógica, vol. 4.', pág. 73, n.» 120. 

(8) Frei Jerónimo de Belém, Chronica Seráfica, vol. 4.*, 578. Aí se emenda, e com 
^toda a razão, o erro de muitos que declaram ter o duque morrido a 20 de Setembro do dito 
ano de i523. Ele só a 21 de Dezembro é que fez o seu testamento, e ainda nesse dia» 
perante o duque, se obrigaram a duquesa de Bragança, e o duque de Barcelos a dar inteiro 
cumprimento às cláusulas do testamento que conheciam {Provas da Historia genealógica, 
TTol. 4.», pág. 83, n.» 128 e pág. 88. n.» i3o). 



344 Brasões 

Armas: de prata cinco escudetes de azul em cruz carregados cada um de 
cinco besantes do campo, bordadura de vermelho carregada de oiro castelos 
de oiro; e por diferença um banco de pinchar de três pendentes de prata, 
posto em chefe, sendo cada pendente, que tem a forma quadrangular, fran- 
chado de oiro, com quatro palas de vermelho, e de prata, com uma águia 
de negro (i). Encontram-se as armas com lo castelos na bordadura, e um 
banco de pinchar de dois pendentes que caiem sobre o campo de prata, não 
se diferençando o que neles há, em carta missiva dirigida à colegiada de 
Guimarães, datada de Torres Vedras a i6 de Setembro de 1496, assinado 
ho duque {2) (Bragança, segundas). 

Casou a 1/ vez em i5o2 com D. Leonor de Mendoça (3), duquesa de 
Bragança, que êle matou em 2 de Novembro de i5i2. Era filha dos 3.°* du- 
ques de Medina Sidónia, e deixou geração. Epitáfio em Belém (4). 

Casou a 2.* vez em 1620 com D. Joana de Mendoça, duquesa de Bra- 
gança, que morreu em 1680. Epitáfio (5). Era filha de Diogo de Mendoça, 
alcaide mor de Mourão, e de D. Brites Soares, sua mulher. Também deixou 
geração. 

3.» Marquês de VILA VIÇOSA— 1496, Abril ou Maio. — D. JAIME, 
4.° duque de Bragança e 2.° de Guwiarães. — Foi-lhe restituída a casa 
por D. Manuel, e na data apontada já aparece intitulado duque. Tam- 
bém usou do título de marquês com o qual se encontra em alguns do- 
cumentos. 

Vide 4.° duque de Bragança. 

II.» Conde de BARCELOS — 1496, Abril ou Maio. — D. JAIME, 

4.'* duque de Bragança, casa que já lhe havia sido restituída na data apon- 
tada, e na qual se compreendia o condado de Barcelos, com que se encontra 
intitulado numa bula de i5i4. Parece ter acabado o título de conde de 
Barcelos em D. Jaime, tendo passado este condado a formar o ducado de 
Barcelos com que foi agi-aciado o filho primogénito de D. Jaime, D. Theo- 
dósio, em 1527. 

Vide 4.° duque de Bragança e i .° duque de Barcelos. 



(i) Livro do Armeiro mor, fl. 45. 

(2) Documentos de Guimarães, maç. 12. 

(3) No epitáfio chama-se a duquesa D. Leonor de Gusmão {Chronica Seraphica, vol. 4.", 
pág. i65), e assim deveria ser, porque esse era o apelido de sua casa de que era herdeira aa 
tempo do casamento. 

(4) Ibidem, pág. i65. 

(5) Ibidem, pág. 562. 



Apêndice 3/^5 

5." Conde de NEIVA— 1496, Abril oq JMaio. — D. JAIME, 4.° duque de 
Bragança. — Neste ano tomou posse de toda a casa, em que se compreendia 
o condado de Neiva. 

Vide 4.° duque de Bragança. 

5." Conde de ARRAIOLOS — 1496, Abril ou Maio. — D. JAIME, que 
naquele -ano tomou posse de toda a casa de Bragança, sendo-liie confirmado 
o condado de Arraiolos a 16 de Agosto (1). 

Foi 4.*' duque de Bragança. Vide. 

3.° Conde de ODEMIRA— 1496, em Abril ou Maio. — D. SANCHO, 
sobrinho de el Rei, filho do conde de Faro e neto do i.° conde de Odemira. 
Também se intitulou conde de Faro. Num alvará de 21 de Julho de i5i2, 
feito em Odemira, intitula'-se D. Sancho de Noronha, conde de Faro e de 
Odemira, e assina-se conde de Faro. Numa procuração de igj de Março 
de i5i3, feita em Odemira nos paços do mui ilustre e mui magnífico senhor 
D. Sancho de Noronha, conde de Faro e de Odemira, senhor de Aveiro es- 
tando aí D. Angela condessa de Faro, sua mulher, etc. Documentos Juntos 
ao contracto de casamento de seu filho D. Afonso de Noronha com D. Maria 
de Ataíde (2). Chamados por D. Manuel, chegaram a Setúbal depois da 
Páscoa de 1496, que havia sido a 3 de Abril, vários membros da casa de 
Bragança que andavam expatriados, e entre eles D. Sancho, a quem el Rei 
mudou o título de conde de Faro em conde de Odemira (3). O dito do 
cronista vai de acordo com os documentos. D. Afonso V dera ao conde de 
Faro em 23 de Outubro de 1475, uma carta já citada para, por sua morte, 
logo seu filho maior se poder chamar conde de Faro. Restituídos os Bra- 
ganças todos ao favor régio, adquiriu D. Sancho o direito de se intitular 
conde de Faro, título que el Rei mudou para conde de Odemira. O con- 
dado só lhe foi confirmado por carta de 10 de Junho de 1509(4), porém 
com o título Já me aparece D. Sancho na carta de 3 de Agosto de 1604 na 
qual é escusado de pagar dízimo de todas as suas coisas, que para sua casa 
vierem por mar ou por terra (5). Nesta carta também é intitulado senhor 
de Aveiro, e não se lhe dá apelido. Porém na carta de confirmação da 
alcaidaria mor de Estremôs, de 23 de Maio de 1609, e em vários outros 



(1) Provas da Historia genealógica, vol. 4.°, pág. 2, n.» gS. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 42.°, fl. 55 v. 

(3) Chronica de D. Manuel, fl. 8. 

(4) Confirmações geraes, liv. i2.«>, fl, 3i'. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. i», fl. 27. 

VOL. m 44 



346 Brasões 

documentos, se lhe chama D. Sancho de Noronha (1). Por carta de 8 de 
Outubro de i5i6 foi-lhe acrescentado o assentamento que Já tinha de 
77.678 reais, a 270.000(2). O conde de. Odemira morreu em i520, antes 
de 25 de Setembro (3). 

Armas: de prata, aspa de vermelho carregada de cinco escudetes das 
arnjas do reino diferençadas por um filete de negro em banda (Norojihas do 
conde de Odemira). 

Casou a i.* vez com D. Francisca da Silva, filha de Diogo Gil Monis, 
vedor da fazenda do infante D. Fernando. Foi este casamento decerto 
de inclinação, e D. Francisca não sei se chegaria a ser condessa de 
Odemira. 

Casou a 2.* vez "nas proximidades de 12 de Abril de i5o2 com D. Angela 
Fabra, aia da imperatriz D. Isabel, filha de Gaspar Fabra, embaixador de 
Espanha em Portugal. Foi D. Angela condessa de Odemira, e, sendo já 
casada recebeu de el Rei na data apontada, doação de 100.000 reais de tença 
como arras para receber por morte do conde, e mais outra tença de 
200.000 reais para o filho maior que do seu casamento nascer (4). A tença 
dos 100.000 reais trespassou-a a condessa a seu filho D. João de Faro, apro- 
vando el Rei o trespasse em 12 de Maio de i533 (5), pelo que se vê ser ela 
ainda então viva. 

De ambos os casamentos ficou descendência. 

2.° Visconde de VILA NOVA DA CERVEIRA — 1496, Abril 27.— 
D. JOÃO DE LIMA, filho do i.° visconde. — Sucedeu a seu pai no título 
de que teve carta na data apontada. Já era falecido nos princípios do ano 
de i5o8. 

Morreu a 18 de Janeiro de i5o8, como se declara num mandado dirigido 
ao almoxarife de Ponte de Lima, para pagar à viúva e herdeiros do visconde 
as suas tenças por inteiro do dito ano (6). 

Armas: as do pai. 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 49.°, fl. 14 v. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 25,°, fl. i56 v. 

(3) Por carta de 12 de Abril de i5o5 {Chancelaria de D. Manuel, liv. lo.", fl. 92) foi 
dada uipa tença de 100.000 reais à. condessa para a receber depois da morte do conde; por 
carta de 25 de Setembro de i520 manda-se pagar à condessa a referida tença do primeiro 
de Janeiro de i52i em diante, recebendo à parte o que tinha a haver desde o dia da morte 
do marido até ao tal primeiro de Janeiro (Chancelaria de D. João III, liv. ig.», fl. 154). 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. lo.», fl. 9a. 

(5) Chancelaria de D. João III^ liv. 19.», fl. 154. 

(6) Corpo Chronologico, parte i.", maç. 7, doe. 98. 



1 



Apêndice 347 

Casou a i.* vez antes de 9 de Setembro de 1472 com D. Catarina de 
Ataíde, donzela da casa da infanta D. Joana. 

Casou a 2/ vez antes de 6 de Julho de 1494 com D. Isabel de Melo, 
viscondessa de Vila Nova da Cerveira que morreu a 2 de Abril de i536, e 
era filha de Martim Afonso de Melo, 7.° senhor de Melo. 

Teve geração de ambos os casamentos (i). 

4.° Conde de MARIALVA e 2.° de LOULÉ — Em 1496, anterior a 23 
de Julho. — D. FRANCISCO COUTINHO, 4.° conde de Marialva, meirinho • 
mor. — Foi conde de Loulé pelo seu casamento, e na data apontada foi auto- 
rizado por el Rei a obrigar a sua mulher as rendas de certas terras por 
20.000 coroas que lhe tinha prometido de arras (2). Neste documento já é 
D. Francisco intitulado conde de Marialva e Loulé, títulos de que ficou 
sempre usando até à morte. O condado de Loulé contudo só lhe veio a ser 
confirmado em 24 de Novembro de 1497 (3). Aos condes de Marialva e 
Loulé concedeu D. Manuel, por carta de 18 de Junho de i5o4, que lhes 
pudesse suceder nos condados, terras, e ofício de meirinho mor, uma filha, 
caso não deixassem filho varão (4). A casa dos condes era enorme, no 
Algarve, no Alentejo, no Minho, mas sobre tudo na Beira, onde os senhorios, 
padroados e castelos eram às dúzias; e estava eminente vir a herança toda 
a cair numa menina. Não quiz D. Manuel perder a ocasião de bem dotar 
um dos seus filhos, tratou o casamento com o conde de Marialva, e no seu 
testamento deixou recomendado que casassem ao infante D. Fernando com 
D. Guiomar Coutinho, casamento que depois de várias peripécias se veio a 
realizar em princípios de i53o, posteriormente à morte do conde D. Fran- 
cisco. Fez este o seu testamento na Azinhaga, termo de Santarém, em i de 
Outubro de 1820 (5); mas ainda viveu uns poucos de anos, vindo a morrer 
a 19 de Fevereiro de i53o(6). 

Armas: as descritas em conde de Marialva. 

Havia D. Francisco casado a i.* vez em 1476, como já fica dito, com 
D. Maria de Ichoa, condessa de Marialva. 

Casou pela 2.* vez, antes de 23 de Julho de 1496, com D. Beatris de 



(.1) Livro 3° dos Brasões, de págs. 85 a 87; e para a data da morte da viscondessa 
D. Isabel vide o seu epitáfio, no cruzeiro do Varatojo, transcrito a fl. i6o das Memorias 
sepulchraes, de Sousa. , 

(2) Misticos, liv. I.», fl. 4 V. 

(3) Ibidem, fl. i65. 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. Sg.", fl. gS v. 

(5) Gaveta 9, maç. 2, n.° 16. 

(6) Gaveta 9, maç. 10, n.° 14. 



348 Brasões 

Mi-NESES, 2.* condessa de Loulé, como em seu título referi. Pela carta 
acima citada de 18 de Junho de i5o4 foi concedido aos condes de Marialva 
e Loulé que nos condados lhes pudesse suceder filha. Deu-se o caso; e por 
carta de i de Novembro de i63o, com anuência da condessa D. Beatris, foi 
confirmado o condado de Loulé à filha a infanta D. Guiomar, duquesa da 
Guarda (i). Sobreviveu a condessa de Marialva e Loulé à extinção completa 
da sua família, tendo a desgraça de ver em pouco mais de dois meses, 3 de 
Outubro a 9 de Dezembro de i534, morrer sua filha, genro e neta (2). Fez 
o seu testamento em Santaréqi a 17 de Maio de i535, achando-se « orfan 
d'estas esperanças, e viuva». Deixou por seu herdeiro ao infante D. Luís, 
e contemplou com um avultado legado ao convento de Santo António de 
Ferreirim, onde foi sepultada junto do marido (3). Parece que a condessa 
ainda vivia em iSSy. 

i.° Conde de ALCOUTIM— 1496, Novembro i5. — D. FERNANDO 
DE MENESES, primo de el Rei, e filho do marquês de Vila Real. Nasceu 
em 1463 (4). Por carta da referida data foi-lhe feita doação de juro e her- 
dade da vila de Alcoutim, que em sua vida tinha D. Maria Freire, sua • 
mulher, e o fez conde da referida vila. Determinou mais el Rei, que, tanto 
que D. Fernando herdar e suceder na casa do marquês seu pai, seu filho 
mais velho D. Fernando se possa logo chamar, e chame, conde de Alcoutim, 
sem mais outra carta, e sem embargo de D. Fernando ter e haver a dita 
vila a qual êle poderá dar e deixar ao filho quando lhe aprouver. Mandou 
também que da mesma maneira se faça em todos os seus descendentes, os 
quais logo que herdarem e sucederem na casa de Vila Real, o filho maior, 
varão, legitimo, que ao tempo tiverem, se possa chamar, e chame, conde de 
Alcoutim, sendo porém obrigado, o que possuir a casa, a deixar o senhorio 
da vila ao dito seu filho, tanto que êle tiver quinze anos; e, morrendo o filho 
em vida do pai, deixando neto, sucederá este no condado de Alcoutim (5). 
Tinha 200.000 reais de assentamento desde 8 dê Maio de 1483(6), o qual 
lhe foi confirmado depois de conde em i3 de Julho de 1497(7). Assim que 
sucedeu, em 1499, ^^ ^^^^ ^^ ^^^^ Real, deixou de se intitular conde de 
Alcoutim, passando o título para seu filho primogénito 'herdeiro D. Pedro de 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 3 9.", fl. 88 v. 

1(2) Annaes de D. João III, pág. 37. 

(3) Lousada, Torre do Tombo, vol. 3.°, fl. 456. 

(4) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso F, pág. 493. 

(5) Místicos, liv. i.°, fl. 286 e Chancelaria de D. João III, liv. So.», fl. 36 v. 

(6) Chancelaria de D. João II, liv, 24.°, fl. 90. 

(7) Místicos, liv. I.*, fl. 69 V. 



Apêndice 349 

Meneses. Consta de documentos, que serão citados nos lugares competentes. 
Ainda como conde de Alcoutim figura no Juramento do príncipe D. Miguel 
em S. Domingos de Lisboa a 7 de Março de 1499(1). Este conde de Al- 
coutim D. Fernando foi em 1499 ° 2.° marquês de Vila Real. 

Armas: (Meneses) esquartelado: o i.° e 4.° das armas do reino diferen- 
çadas por um filete de negro sobreposto em banda; o 2.° e 3.° de vermelho, 
castelo de oiro, o campo mantelado de prata com dois leões afrontados de 
púrpura armados e linguados de vermelho, bordadura de escaques de oira 
e veiros de dezoito peças. Sobre o todo, escudete cortado de um traço, 
partido de dois, o que faz seis quartéis: o i.°, 3.° e 5.° de oiro, dois lobos 
passantes, sotopostos, de púrpura; o 2.°, 4." e 6.° de oiro, quatro palas de 
vermelho. Sobre o todo do todo, de oiro liso. 

Casou em 1496, ou pouco antes, com D. Maria Freire, senhora e con- 
dessa de Alcoutim, filha herdeira de João Freire de Andrada, senhor de 
Alcoutim e aposentador mor, e de sua segunda mulher D. Leonor da Silva. 
O senhorio de Alcoutim havia sido confirmado a D. Maria Freire em 22 de 
Setembro de 1474(2) e a i3 de Julho de 1481 fez-lhe D. Afonso V doação 
da dízima de todos os espelhos, aguilhós, pentes, cofres, arcas e de todas as 
outras coisas de que el Rei havia dízima na alfândega de Alcoutim, assim 
como se tinha dado à infanta D. Joana na alfândega de Lisboa (3). Era bem 
cabida galantaria que os direitos sobre espelhos, aguilhós e pentes, tudo 
coisas para toucados, pertencessem a senhoras. A condessa de Alcoutim 
foi posteriormente marquesa de Vila Real. 

Vide 2.° marquês de Vila Real. 

i.° Conde de PORTALEGRE — 1498, Fevereiro 5. — D. DIOGO DA 

SILVA DE MENESES, escrivão da puridade, senhor de Celorico. — Foi 
criado conde de Portalegre de juro e herdade por carta da referida data, 
dando-se-lhe pela jurisdição da mesma vila, de que foi feito alcaide mor bem 
como do Assumar, i. 000.000 de reais de renda em cada ano (4). Na carta 
diz-se que êle servira nas guerras de Castela e Africa com muito perigo de 
sua pessoa, ficando cativo na cidade de Tânger, quando na entrada dela se 
perderam os fidalgos. E assim mesmo na conquista das ilhas de Canária, 
onde foi enviado por capitão com grande frota e muita gente; onde tomou 



(i) Provas da Historia genealógica, vol. II, pág. 394, n," 68. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.°, fl. 1 32. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 40.°, fl. 22. 

(4) Chancelaria de D. Manuel , liv. 31.», fl. 9 v., e Chancelaria de D. João III, liv. Sg.*^ 
fl. I ; esta carta em livros de leitura nova aparece com a data de 6 de Fevereiro. 



35o Brasões 

duas fortalezas que lá havia; e prosseguiu por alguns anos com muita honra 
na conquista delas para estes reinos, até que foi mandado que dela cessasse. 
A expedição às Canárias parece ter sido no ano de 1466(1). E também 
lhe foi feita a mercê, considerando, como desde o tempo da mocidade de 
el Rei, cm que por sua grande linhagem e discreçao lhe fora dado como aio, 
o tem muito servido, com tanto amor, bom conselho e lealdade, quanto em 
algum muito fiel amigo e bom servidor se possa achar, isto não só nos reinos 
de Castela, onde el Rei andara por cumprir à paz e sossego destes reinos de 
Portugal, como depois que a eles tornou até agora, na governança da sua 
casa e terras, e nas coisas que neste meio tempo vieram, que à pessoa e es- 
tado de D. Manuel tocavam. Com idênticas expressões, e por carta do dia 
seguinte, 6 de Fevereiro de 1498, fez-lhe el Rei doação de Juro e herdade 
das vilas de Celorico, Gouveia, S. Romão, e outras (2). Ainda usando das 
mesmas expressões fez-lhe doação também de juro e herdade por carta d^ 
3o de Março de 1498 da dízima nova do pescado de S. João da Foz e Mato- 
sinhos (3). Sendo -do conselho de el Rei D. João II, e aio do duque de Beja 
e seu vedor da fazenda, tivera mercê de uma tença de 5o. 000 reais, a contar 
do primeiro de Janeiro de 1485, por carta de 29 de Abril do mesmo ano (4). 

Morreu o conde a 20 de Fevereiro de 1604 (5). 

Armas: de prata, leão de púrpura, armado e linguado de vermelho 
(Silva). 

Casou com D. Maria dk Aiala, condessa de Portalegre, que lhe sobre- 
viveu. O casamento efectuou-se nas Canárias durando a conquista, e por 
tanto pelos anos de 1466(6). Em 17 de Julho de i5o6 foi feita vizinha de 
todas as ilhas dos Açores, dando-se-lhe carta dos privilégios, franquezas e 
liberdades de que gozavam os moradores das referidas ilhas (7). Por outra 
de 28 do mesmo mês foi relevada da obrigação em que puzera a sua terça 
e bens à segurança do contracto de casamento de seu filho (8). Foi a con- 
dessa de Portalegre senhora de quatro duodécimos das ilhas de Forteventura 
e Lançarote, e era filha de Diogo Garcia de Herrera, senhor das ilhas Caná- 
rias. Das ilhas recebia D. João da Silva, 2.° conde de Portalegre, de renda 
até Soo. 000 reais, «ao presente». 



(i) Sousa Viterbo, 7>íi3íj//20S >i<7W/ico5, vol. I, pág. 254. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3i.<», fl. 9. 

(3) Transcrita a carta por Sousa Viterbo, Trabalhos náuticos, vol. I, pág. 253. 

(4) Chancelaria de D. Manuel^ liv. Sa.», fl. 24. 

(5) Ceo aberto, pág. 445. 

(6) Sousa Viterbo, Archivo histórico portuguez, vol. I, pág. 345. 

(7) Ilhas, fl. 174. 

(8) Chancelaria de D. Manuel, liv. 38.°, fl. 9 v. 



Apêndice 3 5 1 

i.« Conde de TAROUCA— 1499, ^bril 24.— D. JOÃO DE MENESES, 

do conselho, mordomo mor. — Por carta da referida data foi feito conde da 
sua vila de Tarouca (i), a qual, bem como as de Lalim e Lazarim, e as 
terras de Penalva e Gulfar, que todas lhe estavam empenhadas por certos 
pagamentos, lhe foi doada em vida por carta de 3o do mesmo mês e ano (2). 
Fora nomeado capitão de Arzila por carta de 27 de Abril de 148 1, e daí 
transferido para Tânger por outra carta de 6 de Outubro de 1486(3). Desta 
vez teve a capitania daquela cidade até 9 de Junho de 1489. Em i5 de Dezem- 
bro de 1489 era capitão e governador de Tânger e Almirante (4). Tornou 
porém a ser provido nela de propriedade por carta de 18 de Janeiro de i5oi(5), 
quando vagou pela exoneração dada ao almirante Lopo Vaz de Azevedo. Pela 
carta acima citada, de 9 de Junho de 1489 foi D. João nomeado governador 
da casa do príncipe, servindo também junto a ele os ofícios de mordomo 
mor, vedor da fazenda, e escrivão da puridade, e largando a capitania. 

Morreu o príncipe a 12 de Julho de 1491, e pouco depois se finou D. Pedro 
de Noronha, mordomo mor de el Rei, ique proveu neste ofício a D. João de 
Meneses (6). D. Pedro de Noronha, mordomo mor, ainda vivia em 7 de 
Setembro de 149 1 (7). Depois de viúvo foi ele nomeado prior do Crato por 
bula de i5 de Junho de i3o8, que só chegou a Portugal a 1 1 de Dezembro (8). 
Finalmente, nos últimos tempos da sua longa vida, foi feito alferes mor, por 
carta de 3i de Maio de i52i (9). O conde prior mordomo mor, como 
geralmente é nomeado, ainda tomou parte na cerimónia do auto de levanta- 
mento de D. João III a 19 de Dezembro de i52i (10); porém no ano seguinte 
morreu. Consta ter ainda vivido neste ano de 1622 de um mandado para se 
pagar a seus herdeiros a parte das tenças e assentamento do referido ano., 
que o conde vencera até seu falecimento (11). Era já morto a 12 de Julho 
de 15-22, data de uma carta de el Rei ao papa, em que lhe pede para prover 
um dos infantes no priorado do Crato vago pela morte do conde (12). 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.°, fl. 93. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 40.°, fl. 85. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26.°, fl. io3 v. 

(4) Carta de escusado de vassalo de Afonso Domingues, lavrador, morador em Estremôs, 
a respeito de Almirante (Chancelaria de D. João II, liv. i3.°, fl. 45), Místicos, liv. 2.', fl. i !8 v» 

(5) Chancelaria de D. Manuel, liv. 37.°, fl. 2. 

(6) Vida de D. João //, cap. 141. 

(7) Corpo Chronologico, parte i.% maç. i.', doe. 49. 

(8) Nova Malta, vol. 3.°, págs. 112 e 116. 

(9) Chancelaria de D. João III, liv. 51.°, fl. 4 v. 

(10) Annaes de D. João III, pág. 21. 

(11) Ementas, \i\. i.°, fl. 66. 

(12) Corpo diplomático, vol. 2.°, pág. 83. 



352 . Brasões 

Armas: as do 3." conde de .Viana, seu pai (Meneses). 

Casou com D. Joana, de Vilhena, e teve lugar o acto depois de i8 de 
Maio de 1478, em que aos noivos foi pelos seus parentes prometido certo 
dote em matrimónio, e antes de 16 de Junho de 1480, em que se assentaram 
as condições com que se efectuara o casamento (i). Era D. Joana de Vilhena 
filha de Fernão Teles de Meneses, mordomo mor da princesa D. Leonor, e 
de D. Maria de Vilhena, camareira mor da mesma rainha. Parece-me que 
D. Joana não chegou a ser condessa de Tarouca, não só porque seu marido 
èra viúvo, havia muitos anos, quando em i5o8 foi proposto para prior do 
Crato, mas porque no epitáfio de seu neto o 4.° conde da Feira aparece-nos 
ela sem o título (2). Entretanto ainda era viva a 16 de Fevereiro de 1498 
em que teve licença régia para trespassar uma tença em sua filha depois 
condessa de Abrantes (3). 

Tiverlam descendência. 

2.° Barão de ALVITO — 1499, entre 12 de Agosto e 4 de Setembro. — 
D. DIOGO LOBO, do conselho de el Rei e vedor da fazenda. — Numa 
carta de^i2 de Agosto de 1499, de doação de umas casas na rua de Marvila 
em Santarém, é apenas chamado D. Diogo Lobo, sem o título (4); noutra 
porém de 4 de Setembro do mesmo ano de certos privilégios nas suas terras, 
já é intitulado barão de Alvito (5). Sucedeu portanto na baronia, não a seu 
pai, mas a sua mãe, a favor de quem ela também fora criada. Nos privilé- 
gios, que, para a edificação do castelo de Alvito, haviam sido concedidos a 
seu pai o i.° barão, sucedeu-lhe directamente D. Diogo por carta de confir- 
mação de 9 de Abril de 1489.(6), que tornou a ser confirmada em 4 de 
Outubro de 1497(7). Inscrição do castelo de Alvito copiada em 24 de Março 
de 1901, letra gótica do tempo. 

Esla fortaleza se começou a xiij da 

gosto de mil cccc l R iiij per mãdado 

delRey dõ Joam o segundo noso sõr 

e acabouce em tf o dei Rei dom Manoel 

o permeiro noso Snr feia per seus mãdados ' 

dom diogo lobo baram dalvito. 



(i) Místicos, Ws. 2.», fl. 128 V. 

(2) Ceo abçrto, pág. 536. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 3o.°, fl. 134. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 41.°, fl. 104. 

(5) Ibidem, fl. no. ^ 

(6) Chancelaria de D Manuel, liv. 41.°, fl. 93. 

(7) Ibidem. 



Apêndice 353 

Por cima da inscrição, que está sobre a porta da entrada principal dó castelo, 
vêem-se as armas reais esculpidas em outra pedra, tendo dez castelos na 
bordadura, e estando sobrepujadas por uma coroa de quatro (oito) florões. 
Na rampa que conduz à porta, onde tudo isto se vê, existe uma cortina de 
alvenaria, e nela ingerida uma pedra com as armas dos barões, escudo car- 
regado de cinco lobos o» de uma bordadura com nove aspas. Existem porém 
outras duas pedras com escudos também do tempo da fundação, nas quais 
só se vêem oito aspas na bordadura. Uma das pedras está na escada no 
corrimão no alto do primeiro lanço, e a outra na parede sobre a porta que 
no fim da escada dá ingresso ao andar nobre do castelo. Continuou com as 
obras do castelo, as quais parece estarem já concluídas em 20 de Janeiro de 
1Õ04, data em que o barão alcançou para os moradores das suas terras de 
Alvito, Vila Nova, Aguiar e Oriola o privilégio de não serem constrangidos 
a trabalhar em nenhumas outras obras de castelos ou muros por isso que 
sozinhos, sem ajuda de dinheiro nem de serventia de ninguém de fora, supor- 
taram com muito' trabalho e despesa a obra do castelo de Alvito (i). Era o 
barão vedor da fazenda, ofício para que havia sido nomeado por carta de 23 
de Março de 1496(2), e que por sua morte foi dado a seu filho D. Rodrigo 
Lobo por carta de 4 de Dezembro de i526 (3). 

Morreu portanto o barão D. Diogo por estes tempos e em Janeiro do ano 
seguinte se fazia em Almeirim o inventário da sua fazenda (4). Conta-se 
que em 1622 havia sido feito conde de Alvito para dali a certo tempo, mas 
que a mercê nunca chegara a pubhcar-se, e isto é certo. 

Armas: de prata, cinco lobos passantes de negro, armados e linguados 
de vermelho, bordadura de azul carregada de oito aspas de oiro (5). (Lobos). 

Numa carta de D. Diogo Lobo (ainda não era barão) a el Rei datada de 
Lisboa a 20 de Junho de 1498, o selo do sinete são cinco lobos com a bor- 
dadura das aspas (6). 

Casou a i.f vez, precedendo contracto feito em Agosto de 1483(7), com 



(i) Guadiana, liv. 7.°, fl. 3o. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, Mv. 26.°, a.' io5 V. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 8.°, fl. 144 v. 

(4) Lousada, Torre do Tombo, vol. 2.°, fl. 237. 

(5) Não tenho a certeza deste barão usar já no escudo a bordadura das aspas; tenho-a 
contudo para o 3." barão pelo que no seu lugar citarei. Usou, porque são estas as armas 
que ele mandou pôr sobre a porta, que no alto da escada principal dá ingresso ao andar 
nobre do castelo de Alvito. E para maior prova, são também aquelas armas as que se dife- 
rençam no selo do seu sinete numa sua carta a el Rei D. Manuel, datada de Lisboa a 20 de 
Junho de 1498 {Corpo Chronologiço, parte i.", maç. 2, doe. 122). 

(6) Ibidem, doe. 22. 

(7) Lousada, Torre do Tombo, vol. 2.°, fl. 237. . 

VOL. III 45 



354 Brasões 

D. Joana de Noronha, filha dos 2."* condes de Abrantes. Devia D. Joana 
ter sido baronesa de Alvito, ainda que nos documentos não encontro com o 
titulo nem a esta senhora, nem à mulher do i.° barão, nem à segunda do 2.°, 
nem à do 3.°, e não sei explicar o caso. Morreu a baronesa em i5o8, entre 
10 de Fevereiro e i de Agosto, como se vê das cartas de confirmação das 
rendas de certas saboarias (i). Encontro D. Joana de Noronha com o título 
de baronesa em 18 de Janeiro de i5oi no instrumento de venda que a 
D. Álvaro e sua mulher D. Felipa fizeram o barão e a baronesa de Jurisdição 
nas terras e quintas de Água de Peixes, termo de Alvito. Foi confirmada 
por el Rei a 12 de Setembro de i5oi (2). 

Casou a 2." vez com D. Leonor de Vilhena, irmã do i.° conde da Sor- 
telha. Efectuou-se este casamento em i5i2 depois de 14 de Julho, ou em 
i5i3 antes de 26 de Fevereiro; mas, do que diz o documento que citarei, 
posto que não seja muito claro, parece mais provável a primeira data (3). 
Encontro a notícia da escritura deste casamento ser de 19 de Outubro de 
i5ii (4), mas houve engano na data, ou o contracto precedeu muito o casa- 
mento. Devia ter sido D. Leonor baronesa de Alvito, ainda que a não en- 
contro mencionada com o título, e sobreviveu muito ao marido, pois que, 
segundo parece, só morreu no ano de i56i (5). 

Tiveram descendência. 

2.° Marquês de VILA REAL — 1499, antes de 12 de Dezembro. — 
D. FERNANDO DÈ MENESES, conde de Alcoutim, primo de el Rei.— 
O i.° marquês morreu naquele ano, e na data apontada já seu filho é intitu- 
lado marquês na carta do condado de Valença (6). O marquês D. Fernando, 
além de conde de Alcoutim, também foi conde de Vila Real e de Valença, 
demitindo porém logo de si o condado de Alcoutim, ou pelo menos o título, 
para o seu filho primoge'nito, como no seu lugar direi. Por esta causa, pelos 
serviços do marquês, e pela afeição que D. Manuel lhe tinha, é que este lhe 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. i5.°, fl. 18. 

(2) Ibidem, liv. 17.", fl. 83. 

(3) Guadiana, liv. 7.°, fl. 55. 

(4) Lousada, Torre do Tombo, vol. 2.°, fl. 238. 

, (5) Chancelaria de D. João III, liv. 19.°, fl. 106 na verba à margem, na qual se declara 
que ao herdeiro de D. Leonor de Vilhena se pagou certa tença do i.° de Janeiro de i566 em 
diante, e que assim há de haver o herdeiro, os quatro anos passados, que também lhe per- 
tenceram. 

(6) Oiancelaria de D. João III, liv. 5o.», fl. 33 incluída numa carta de confirmação 
advertindo que, com a data de i de Setembro do mesmo ano, se encontra no liv. 4.» de. 

Místicos, fl. 102 V. 



Apêndice 355 

daria o condado de Valença, para andar unido ao marquesado nos senhores 
da casa logo que nela sucedessem, o que adiante mencionarei. Foi o mar- 
quês o quarto capitão de Seuta, e morreu em Almeirim no ano de i523 (i). 
Se morreu no ano de i523, foi depois de i8 de Julho porque nesta data se lhe 
passou carta de padrão de 1 5o. 124 reais resto de uma tença de 175.124 reais 
a que então se fez abatimento de 25. 000 reais (2). E mais provável haver só 
morrido em 1224 (3). 

Armas: as do marquês seu pai. (Meneses). 

Havia D. Fernando casado antes de 1496, e depois de 1481, com 
D. Maria Freire, senhora de Alcoutim, que foi condessa desta vila e mar- 
quesa de Vila Real. Já disse que a D. Maria Freire havia sido doada em 
1481 a dízima dos espelhos, aguilhós, pentes e outros objectos que entrassem 
pela alfândega da sua vila, isto sendo ainda solteira; e lhe foi confirmado, 
já depois de casada, em i3 de Julho de 1497(4). Também D. Manuel lhe 
fez doação, sendo marquesa, em 7 de Janeiro de i5i6, de doze arrobas 
de açúcar por ano (5). Sobreviveu a seu marido, como consta da carta 
de confirmação de uma tença em 17 de Abril de i526(6); era porém já 
morta a 3 de Junho de i532, em que seus herdeiros venderam a referida 
tença (7). 

Vide i.° conde de Alcoutim, 4." de Vila Real, e 2." í/e Valença. 

Tiveram descendência. 

4.° Conde de VILA REAL — 1499, ^ntes de 12 de Dezembro. — ^D. FER- 
NANDO DE MENESES, co«£/e de Alcoutim. — Sucedeu no condado de 
Vila Real ao marquês seu pai, a quem êle havia sido doado de juro e her- 
dade, com o senhorio da vila, por carta de 6 de Abril de 145 1 (8). É certo 
que não conheço, passada ao marquês D. Fernando, carta de confirmação 
do condado; mas também é positivo, que êle foi confirmado a seu filho o 
marquês D. Pedro, como no seu lugar direi, e isto basta para provar a posse 
na pessoa de D. Fernando. 

Vide 2." marquês de Vila Real. 



(i) Historia genealógica, voL 5.°, pág. 202. 

(2) Transcrito com outros documentos a fl. 45 v. do liv. i4.« da Chancelaria de 
D. João III. 

(3) Vide adiante no 3.° marquês de Vila Real. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 40°, fl. 22. 

(5) Ibidem, liv. 25.», fl. 35. 

(6) Chancelaria de D. João 111, liv. i6.°, fl. 137. 

(7) Ibidem. 

(8) Confirmações Geraes, liv. 5.», fl. 94 v. 



356 Brasões 

2.» Conde de VALENÇA.. — 1499, Dezembro 12. — D. FERNANDO DE 
MENESES, marquês de Vila i?^a/,^ primo de el Rei. —-Por carta da refe- 
rida data foi feito conde e senhor de Valença, e senhor de Caminha e terra 
de Valadares, «e queremos que a dita villa de Valença para sempre seja 
condado, e a hajam e herdem com o dito titulo todos seus herdeiros e suces- 
sores,. . . e tanto, que por sucessão vierem, se chamem logo condes. . . sem 
mais lhe ser para isso necessário outra nossa autoridade » (i). 

Era o 2." marquês de Vila Real. Vide. 

2.« Conde de ALCOUTIM — Em fins de 1499. — D. PEDRO DE ME- 
NESES, filho primogénito e herdeiro do 2." marquês de Vila Real e 
i.° conde de Alcoutim. — Foi D. Pedro, logo que seu pai sucedeu na casa 
de Vila Real, conde de Alcoutim, em virtude do determinado na carta, já 
citada, de criação do condado. E certo ter o marquês largado íogo o título 
de conde de Alcoutim, porque sem êle o encontro em todos os documentos 
posteriores que tenho visto. Nem na carta de conde de Valença, que é de 
12 de Dezembro de 1499(2); nem na de confirmação da tença arbitrada pelas 
rendas das judiarias, em 10 de Dezembro de i5oo(3); nem na de outra tença, 
em 6 de Dezembro de i5oi (4); nem em nenhum documento torno a encon- 
trar ao marquês com o título de conde de Alcoutim. E pelo co|;itrário sei 
que o filho já em 1 5 12 é intitulado conde, quando foi ^exercer a capitania de 
Seuta pelo pai (5); em i5i7 numa carta deste a el Rei (6); e em 1620 no seu 
contracto de casamento. E preciso que isto fique marcaçio, porque como a 
D. Pedro de Meneses só foi confirmado o condado de Alcoutim em i5 de 
Novembro de 1524(7), portanto depois da morte do pai, pode-se supor que 
em sua vida não havia D. Pedro sido conde. Veio a ser o 3." marquês de 
Vila Real era i523. 
' Armas: as do i.° conde de Alcoutim, seu pai. 

Casou em i52o, procedendo contracto de i5 de Setembro (8), com 
D. Beatris, que foi condessa de Alcoutim, e depois marquesa de Vila Real. 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. So.", fl. 33, e liv. 4.» dos Místicos, fl. 102 v. com a 
data de 1 de Setembro do mesmo ano. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 50.", fl. 33. 

(3) Ibidem, liv. 8.°, fl. io5. 

(4) Ibidem, liv. 16.», fl. iSj. ' - 

(5) Chronica de Di Manuel, fl.. 2o5. 

(6) Corpo Chronologico, parte i.*, maç. 22, doe. 8. 

(7) Chancelaria de D. João III, liv. So.», fl. 36 v. 

(8) Ibidem, \\y. 39.», fl. 41. 



Apêndice 357 

Era filha única do condestável D. Afonso, e da condestablesa D. Joana de 
>Joronha (i). 

Vide 3.° marquês de Vila Real, 

2.° Duque de COIMBRA— i5oo, Maio 26. — D. JORGE, mestre de 
Santiago, filho bastardo de D. João II. — No auto do juramento do príncipe 
D. Miguel em S. Domingos de Lisboa a 7 de Março de 1499 ainda D. Jorge 
é nomeado sem o título de duque e só com os mestrados de Avis e San- 
tiago (2). Seu pai deixou-o nomeado duque de Coimbra no seu testamento (3), 
e isto se encontrou quando ele foi aberto, no próprio dia da morte, a 25 de 
Outubro de 1496 (4). Não foi porém o título logo reconhecido por D. Ma- 
nuel, que só ao tempo do casamento de D. Jorge o declarou duque na data 
apontada (5). Na carta de doação da casa, depois chamada de Aveiro, em 
27 de Maio de i5oo, já D. Jorge aparece intitulado duque de Coimbra (6), 
apesar da carta do título ser só de 16 de Março de 1509(7). 

Morreu o duque de Coimbra a 22 de Julho de i55o. 

Armas: as do reino com oito castelos na bordadura, e diferençadas por 
uma cotica de negro sobreposta em barra às peças do escudo. Timbre: 
pelicano de oiro com o bico tirando do peito sangue com que alimenta os 
filhos, tudo posto sobre um ninho de vermelho (8). 

Casou em 3i de Maio de i5oo com D. Brites de Vilhena, duquesa de 
Coimbra, que morreu em Outubro de i535, e era irmã do i.° conde de 
Tentúgal (9). 

Tiveram descendência (10). 

E sabido que o mestre D. Jorge, duque de Coimbra, e filho bastardo de 
D. João II, veiu a apaixonar-se aos 67 anos por uma formosa dama da rainha 
D. Catarina, D. Maria Manuel, jovem de 16 anos, filha de D. Fernando de 



(i) Gil Vicente, de Teófilo Braga, pág. 21 5 e seguintes. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. 2.», pág. 894, n.<* 68. 

(3) Ibidem, pág. 167, n.» 28. 

(4) Vida de D João II, fl. 122 v. 

(5) Chronica de D. Manuel, fls. 33 e 212. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 71."», fl. Sog. 

(7) Ibidem, liv. 24.», fl, 73. 

(8) Selo na Historia genealógica, vol. 4.", estampa N, n.° lxx, e Livro da Torre do 
Tombo, fl. 8 V. 

(9) Historia genealógica^ vol. 11.", pág. 33 com uma rectificação na primeira página da 
Advertência. 

(10) Para o projectado 2.» casamento vide Anaes de D. João III, pág. 421. 



358 Brasões 

Lima, senhor de Castro Daire; e com ela pretendeu casar, se é que a furto, 
como então diziam, não casou. 

Opôs-se D. João III ao projectado enlace, que na realidade era dispara- 
tado, e que muito contrariava os filhos de D. Jorge, que viam na sua reali- 
zação a ruína de sua casa. Chegou el Rei a mandar o mestre desterrada 
para Setúbal no outono de 1648, e pelos seus agentes em Roma alcançou a 
bula de 9 de Novembro desse ano, anulando, por serem ob e subreptícias, 
e mandando que fiquem sem valor, ainda quando já executadas, as bulas de 
dispensa que haviam s'ido expedidas para o casamento do mestre D. Jorge 
com D. Maria Manuel (i). Eram parentes em quarto grau de afinidade. 

Ainda quando já executadas, etiam si ad illarum exequutionem jam pro- 
cesseritis, diz a referida bula. Consumara-se pois o matrimónio ? O mestre, 
num papeJ que de Setúbal mandou a D.João III em 12 de Outubro, afirma 
que sim: «casei em janeiro», declara ele (2) ; o cronista refere, «que se 
disse que um dia que D. Maria houve licença para ir a casa de sua mãe, a 
recebera (o mestre) lá por mulher» (3); e finalmente D, António de Lima, 
tio de D. Maria Manuel, escreveu isto no seu Nobiliário: «D. Maria Ma- 
nuel, que andando no Paço casou com ella o mestre de Santiago, no qual casa- 
mento houve tantas contradições por el rei D. João o 3.°, e pela Rainha, 
por se casar no Paço contra sua vontade, e pelo Duque de Aveiro, seu filho, 
e mais irmãos, a quem Suas Altezas antes quiseram favorecer, que aguardar 
o que diz a Sagrada Escritura: quos Deus conjungit liomo non separai; e 
tendo o Núncio despachado, lhes tomaram a dispensação com muito rigor, e 
o mesmo fizeram em Roma, e se usaram com ela tantas exorbitâncias, que, 
depois que el Rei faleceu, á maior cautela, se houve absolvição de Roma, por 
dizerem que incorrera em excomunhão, e lhe deram (a D. Maria) quinhentos 
ou seiscentos mil reaes de renda; e ella casou segunda vez çom Manuel de 
Sousa, aposentador mor dei Rei D. Sebastião, nosso Senhor, que fora primeiro 
casado com D. Francisca de Vilhena, sua sobrinha (de D. Maria Manuel), 
aos quaes tinha perfilhados, e por isso houve tantos trabalhos na dispensação; 
e quando chegou a achou falecida». Mais atrás, tratando do mestre D. Jorge, 
deixara escrito: «Casou segunda vez no Paço contra vontade dei Rei com 
D. Maria Manuel, . . . pelo qual casamento lhe fez el Rei D. João o 3.° 
tantas avexaçÕes, que morreu do desgosto sem ter efeito o casamento, nem 
a dispensação que duas vezes houve do Núncio, e uma do Papa, por ser 
D. Maria parenta da primeira duquesa». 



(i) Corpo diplomático, vol. XI, pág. 538. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. 6.°, pág. 21, n." 6. 

(3) Francisco de Andrada, Chronica de D. João III, parte IV, cap. 48, fl. 5o. 



Apêndice 35g 

E certo porém, que o casamento, se chegou a realizar-se, como se 
depreende da bula de revogação de dispensa e do papel mandado pelo mestre 
a D. João III, contudo não prevaleceu. 

Diz uma verba do testamento do mestre D. Jorge, perto de dois anos 
depois de passarem os casos sobreditos: «Deixo a D. Mfiria Manuel, pela 
obrigação que lhe tenho em lhe prometer de casar com ela, se o Santo Padre 
dispensar, mil cruzados, . . . que quero que haja não casando ella e casando 
se distribua em obras pias» (i). 



Apontamentos que o mestre de Santiago D. Jorge 

enviou a el-rei D. João o 3.° por lhe estranhar o casamento, 

que devia ter feito com D. Maria Manoel, dama da rainha D. Catharina, nossa Senhora. 

Isto é o que vós, Foão haveis de dizer a el-rei, meu senhor: 

Que S. A. me mandou degradar de sua corte pelo dr. Gaspar de Carvalho, o qual me 
disse, que por eu dizer que era casado com D. Maria Manoel, tendo-lhe prometido de o não 
fazer; no que recebi muito grande agravo, assim no degredo, como no modo, e em tempo 
que por seu confessor lhe eu descobria, e mandava falar no negocio. Porque, ainda que 
o dr. Gaspar de Carvalho seja do seu conselho e desembargador do paço, em ser por elle 
como desembargador é agravo no modo, porque em casos maiores e mais graves não se 
costumou assim nestes reinos a pessoa de minhas qualidades em tempo algum; e S. A. o 
guardou em mim, quando pelo casamento do Duque (de Aveiro) com a filha do conde de 
Marialva, que mais importava a seu serviço, e com partes que o requeriam, me mandou 
sohir da corte; e então mo mandou dizer pelo secretario António Carneiro com muitas pa- 
lavras boas de consolação para bem do mesmo negocio, e sem me limitar logares, nem 
legoas, somente sahir de Lisboa para minhas terras; e Gaspar de Carvalho disse-me que 
para Setúbal, ou tão longe, mostrando-me um papel, e lendo-mo, de como S. A. mo assim 
mandava, e lhe pedi que o traslado delle me desse para o cumprir na forma que S. A. 
mandava, sem mo querer dar, dizendo que S. A. não havia por bem mo desse. Ora como 
me não havia de dar o traslado do, por onde dizia, que mo S. A. mandava. E por isso me 
mostrou outro papel, que trazia escripto, e mo leu, dizendo-me que S. A. me rogava que 
assignasse, cuja substancia era o contrario do que lhe tinha mandado dizer por seu con- 
fessor; do que me muito espantei, poder S. A. cuidar que havia de passar por mim tamanha 
vergonha, que havia de assignar uma coisa, tendo dito outra. 

Dos quaes modos recebi tanto agravo, como do principal, pois para mim e em tal 
caso fora razão terem-se outros, e não semelhantes termos. 

No mesmo degredo o recebi tamanho, póJe ser, pprque o principal intento que S. A. 
mostra, por que me mandou degradar da corte, é que casei, tendo-lhe prometido de o não 
fazer. Se V. A. se afirma, que eu lho prometi, tão afirmadamente, assim será; mas, o que 
me lembra, de como passou: S. A. me mandou chamar a primeira vez aos 23, ou 24, de 
março; o que então colhi, do que me S. A. falou, foi querer-me fazer mercê em me acon- 
selhar pelo que tocava a minha pessoa, e a esse propósito lhe respondi; o mesmo entendi 
da segunda vez que me chamou S. A. e me falou nisso. E na terceira vez, que foi aos 5 de 



(i) Provas da Historia genealógica, vol. 6.», pág. 29, n.« 8. 



36o , Brasões 

julho, em que S. A. me falou mais apertadamente em não -casar, eu lhe disse, que de ali por 
diante o não faria, e que se lembrasse S. A. do dia em que mo dizia. E bem se mostrava 
nestas palavras embuçadas tel-o feito ; e ainda o poderia S. A. entender mais claro, no que 
lhe disse que puzesse a D. Maria livre em casa de sua mãe,,e lhe diria a verdade do que era 
passado. Não posso eu entender como por esta via se possa dizer, que passei o mandado de 
S. A. pois que me falava era por meu proveito e não por ai, que para cumprir seus man- 
dados cuido que ninguém me pode fazer vantajem; e, se o não descobri a S. A. em todas 
estas vezes que me falou, a vergonha me fez nisso embaraçar, e confiando nas muitas vir- 
tudes de S.A. que pela qualidade do negocio, e as de minha pessoa, mo passaria levemente. 
E se S. A. houve por aqui que eu lhe tinha prometido que o não faria, ainda que o eu pro- 
metera e jurara de o não fazer, visto como passava do modo que digo não era em caso de 
prejuiso de seu serviço, nem de seus reinos, pois não era com pessoa que pudesse ajuntar 
casas nem tinha coisa grande nem pequena da coroa real. Há S. A. de olhar que não estava 
em minha mão podel-o cumprir, pois era casar com quem tinha muita afeição. E com isto 
me ha S. A. de levar em conta o erro que cometesse eu o fazer sem sua licença, e mais pois 
foi fora do paço, quando esteve em casa de sua mãe e parentes quanto mais que foi antes 
de S. A. me falar coita alguma, e alem dos assinados que disso ha passados ante mim e elle 
porque se pode ver, ha também testemunhas per que S. A. pode ser certificado que foi no 
tempo que digo, e se o por elles quizer saber segurem-as e haja por bem -haver eu minha 
mulher, e nomear-lhas hei. 

Dizem que pedia dispensação para casar em duas maneiras, a i." licença para o poder 
fazer, a 2.» como o tinha feito, e por aqui querem inferir que o não tinha feito no tempo 
que digo. 

Respondo que a primeira informação eu a fiz d'uma maneira pelo querer ter encoberto, 
e o poder descobrir quando me parecesse tempo conveniente, e que S. A. me. receberia 
melhor, e com saber que assim abastava tanto em direito a tal licença, consentindo elle e 
eu depois de vinda, como se falava de o ter feito, porque muitos que casam a furto no 
paço, assim o tem encoberto, e o descobrem quando lhe vem bem, assim para com S. AV 
como para com as partes para seus concertos, depois que vi como o duque e seus irmãos o 
não tomaram bem, e me eram contrários, e o favor que achavam em S. A., e que já não era 
tempo de o ter encoberto, mandei pedir a dispensação na verdade de como era feito. Nem 
se pode dar por razão que se casei em janeiro, como não procurei logo a dispensação a que 
já está respondido que o queria ter em secreto, que um ano e dois tem os homens que casam 
desta maneira guardados seus negócios, e hão que estão seguros para quando vem o tempo 
disposto o descobrirem, e por se não saber primeiro não procurei mais cedo a dispensação. 
A qual eu já tivera na mão pelo núncio ou pelo papa se S. A. mo não estorvara pelos capí- 
tulos que meus filhos lhe deram de mim, e exclamações que lhe tepi feito, porque as coisas 
dispensáveis e tão costumadas como esta, não pode por direito o papa deixar de o dar, pois 
nao é contra direito divino que encarregaria nisso sua consciência e o mesmo cargo tem 
S. A. se ma contraria em fazer por si e não deu. E por mui certo tenho que S. A. me 
deixara haver, e tivera isto acabado a meu contentamento, se não fora a muita importância 
do duque, que tem d'isto feito tanto caso, como se fora destruição do reino, em que alem 
de obediência e obrigação de filho me paga bem o que por elle tenho feito, assim em três 
contos de renda ou perto delles que agora come de mim, como nos trabalhos que havia por 
elle em seus casamentos passados, tanto tempo tão continuo na corte e essa seria donde se 
seguia mais certo a destruição de minha fazenda do que elle agora diz e publica que o será 
se eu estiver casado, e alem d'isso está muito enganado nesta parte da fasenda que quanto 
mais se me dilatar tanto mais a heide destruir em apeitar e gastar por todas as vias sobre 



Apêndice 36 1 

isto que até a morte hei de durar na demanda. Pois pela honra quanto mais durar a dilação, 
mais se estende e sabe pelo mundo e menos me posso desdizer, e fazendo-o seria maior 
deshonra e menoscabo de minha pessoa ^que é coisa tão estranhada a qualquer homem 
negar uma mulher com que casou, quanto mais me seria a mim por todas minhas qualidades 
peias quaes o duque quer que eu a negue, e porque esta desaventura e fadiga vejo claro 
que me vem pelo duque e por S. A. lhe querer fazer nisto mais mercê e contentamento que 
a mim o sofro com maior pena, e encurta-me o duque a vida com paixão e dá a entender 
que o fez por me ser prejudicial a elle o que quero que melhor será dizer-me que morri eu 
por casar que dizerem que me matou elle por me perseguir e contrariar. 

Eu nunca Deus queira que o negue pois o tenho feito, a culpa que o duque quer que eu 
tenha não são para deixar de merecer no mesmo caso S. A. me consolar e fazer morto pois 
não pode já ter outro remédio, e S. A. perdoa semelhantes casos e mais graves aos que casam 
no paço, o que eu não fis, e dá-lhe remédio por suas grandes virtudes, e é mui bem e as 
diferenças que ha em mim são por mais levemente o merecer. Pelo que beijarei as mãos 
de S. A. haver-se por satisfeito de qualquer culpa que eu nisto possa ter com a pena que já 
tem dada, e me fazer tanta mercê que me permita haver minha dispensação para que não 
viva agastado e afadigado como ando que pois S. A. he que me faz mercê em me afastar 
deste negocio porque me hade fazer senão do que lhe peço, que nisto me fará, e no ai me 
matará, e saiba certo que cada vez se me dobra mais a vontade e afeição e que em toda a 
minha vida hei de proseguir este negocio até acabar n'elle E lhe direi o mais que comvosco 
pratiquei mais largo. A 22 de outubro de Setúbal 1548 anos. 

E se por cima de todas minhas razões el-rei meu Senhor houver que tenho culpa digo 
que a tenho, e não quero mais estar em dar razões se não que lhe peço perdão. V. A. me faça 
esta mercê que me perdoe pois não consiste o caso em mais que ter lho prometido e depois 
o fazer sem sua licença e consentimento que para as culpas é o pedir perdão, e se dão cada 
hora em maiores casos. O mestre (i). 



Carta do Mestre para el-rei quando lhe mandou estes apontamentos. 

Por que me parece que a pena que V. A. tem dado de meu degredo da corte e por tal 
modo, já agora bastava para maior culpa e de mais qualidade, e que se haverá por servido 
do passado, e por me fazer mercê terá esquecido o desprazer que recebeu do meu casamento, 
envio Foão falar algumas coisas a V. A. a que beijarei as mãos querello ouvir e crer no que 
de minha parte lhe disser por uns apontamentos meus que leva, e se querer lembrar com 
quanta vontade e amor folguei sempre servi-lo no que se oferecem que foi mui pouco para 
os desejos que para isso tenho, e me querer fazer mercê em me consolar, e dar algum des- 
canço para que seja fora de tamanho trabalho em que estou, o qual em mim não tem outro 
cabo senão com o da vida, em quanto esse fôr tão mofino que V. A. não use comigo de sua 
clemência e muita virtude como o tem usado com todos. Nosso Senhor a vida e real estado 
de V. A. guarde e acrescente como por elle é desejado. De Setúbal a xxij de outubro 
de 1548(2). 



(i) Biblioteca de Évora God. -^ fi. 17 v. 
(2) Ibidem, fl, 19 v. 
voL. ni 46 



362 Brasões 



Outra carta do Mestre de Santiago para a rainha sobre o mesmo caso. 

« 

V. A. sabe como sempre a tomei valedora antre el-rei meu senhor para meus negócios 
passados com muita confiança de me nelles valer, e fazer toda a mercê que nelle fosse, por 
isso no menos o espero neste em que me vae a vida e honra, e que hei por muito maior 
que os outros inda que fossem de filhos, pois isto é de minha pessoa e em que se trata de 
poder eu viver com algum descanso, sendo a minha vontade, ou com muitos trabalhos e 
desgostos em quanto se me não permitir e juntamente acabarem com a vida, e creia V. A. 
por certo que não tem em mim outro termo, por tudo isto e ver que o castigo que el-rei 
meu senhor me tem dado em me mandar degredar da corte, e por taes modos não costu- 
mados nestes reinos a pessoa de minhas qualidades, era para maior culpa. Envio foão falar 
a el-rei meu senhor pelo que beijarei as mãos a V. A. querer ser em minha ajuda para que 
minha vida não seja em tantos trabalhos e desconsolação, e lembrar-se quanto sempre fol- 
guei de a servir, e que fora mais rasão procurar V. A. o castigo que me é dado casando eu 
com uma vossa dama (se a negara) que por dizer que é minha mulher e o pedir que nisso 
recebe V. A. serviço pois neste tempo mostra tanto gosto de suas damas casarem com os 
herdeiros e homens de maiores casamentos que ellas podem haver, e o mesmo em casa da 
Senhora infiinte que tendo os pais seus filhos herdeiros para com suas casas agasalharem 
suas filhas, quando ellas casam a furto no paço com tanta perda e desconsolação dos pais 
e das irmans que por isso ficam por casar, V. A. recebe contentamento e lhes procura o 
perdão, e as honras e mercês. Não sei por que eu por mim desmereço o mesmo não 
havendo os prejuizos e danificamentos que ha nas outras, antes quantas mais qualidades ha 
em minha pessoa devem ser para V. A, se haver por mais servida de assim agasalhar uma 
dama sua e eu merecer mercê e contentamento, e não querer V. A contentar o duque e 
seus irmãos tanto á custa de minha vida com tanto meu trabalho, e sem elles quererem 
olhar a obrigação que me tem de o procurar pelo contrario. E da parte de D. Maria não 
sei que menos ella merece a V. A. que as outras assim como D. Isabel de Mendoça a que 
fez tanta mercê, e deixou a irman do capitão por casar estando elle e sua irman concertados 
com os filhos do conde do Redondo, e que d'essa troca a irman do capitão foi tão desviada, 
ao menos pois não era a de sua vontade e querer V. A. mostrar que este trabalho me dá 
per me faser mercê e pelo amor que me tem, eu o não sinto por tal, pois com elle me dá 
tanta paixão e encurtamento da vida, nem- sei como se possa chamar mercê o que a parte 
recebe de esta maneira, como também o vi nos casamentos do duque de Bragança com 
minha filha que tinha concertado e me ficou por casar em um mosteiro. Certo que não 
vejo razão nem na ha para V. A. querer antes fazer mercê ao duque meu filho e seus irmãos 
tanto em meu perjuizo que a mim, pois, no que tenho feito, a elles não vem nenhum, e a 
mim, de se me não permitir, põem em tantos trabalhos e perigos da vida. E se receiam 
que casado terei menos fazenda, muito menos heide ter, e toda heide destruir quanto mais 
tardar seu impedimento, porque toda, e a vida em cima, heide gastar sobre isto; e isto 
podem ter por sem duvida e não o que cuidam, e V. A. assim por certo, e que heide fazer 
todos os extremos, e a tudo tomo a Deus por testemunha. 

E alem de estas e de outras muitas razões que poderia dar, olhe V. A. o muito cargo 
de sua consciência que tem em quanto m'o impedir porque o papa por direito não pode deixar 
de dispensar naquellas coisas que são costumadas a fazer e não são defezas por direito 
divino. E esta o é mais 'que todas, e negando- o Sua Santidade encarregaria nisso sua cons- 
ciência. 



Apêndice 363 

Pelo que beijarei as mãos de V. A. haver dó de mim e não me querer chegar a extremo 
de morrer com paixão que mais certo será por esta via que por onde o duque mostra que 
me quer estender a vida com não se me dar minha mulher, e me ajudar com el-rei meu senhor 
a perder o desgosto se ainda o não tiver de todo gastado, e consentir haver por bem que 
haja minha dispensaçáo no que V. A. fará a maior mercê que neste mundo posso delle re- 
ceber, e o mais que foão lhe disser á cerca de isto lhe beijarei as mãos o querer. Nosso 
Senhor a vida e real estado de V. A. guarde e acrescente como por elle se deseja. 

De Setúbal a 12 de outubro de 1548 (i). 



^ Resposta d'el-rei a estes apontamentos do mestre de Santiago. 

O que vós, foão, direis ao mestre, meu muito amado e presado primo, em resposta de 
seus apontamentos que me destes, é o seguinte : 

Primeiramente lhe direis que eu não posso deixar grande espanto tendo ainda muito 
presente tudo o que neste negocio é passado, de como nelle está cego e como não quer ver 
nem olhar o que eu faço, e quer chamar agravo ás mercês que lhe eu nisto fis e faço. 

A sustancia dos primeiros apontamentos do papel que me destes, e falar no agravo que 
o Mestre diz que recebeu em o mandar de aqui, pondo-lhe nome de degredo com outras 
coisas que não são de esta matéria e ha muito que são passadas, eu não hei que tenha feito 
agravo ao Mestre em lhe mandar dizer que se fosse d'aqui, nem se pode julgar por deshonra 
o que eu fis, lembrando-me muito de sua honra, e querendo evitar as coisas que passavam, 
e que eu mui bem sabia, tão contrarias a elle e á sua consciência e idade, vida e descanso. 
Nem da pessoa por que lho mandei dizer se pôde isto cuidar, porque, posto que lhe chame 
desembargador é do meu paço e petições do meu conselho, pessoas de que eu confio coisas de 
grande meu ser.viço e importância que ante mim são de grande autoridade, pela qualidade 
de seus cargos. E se elle entendia que era deshonra quem o obrigou a publica-lo, antes, 
se o Mestre não está esquecido de tudo o que lhe mandei dizer e do amor e boa vontade 
com que o fis, lembrar-se ha que assim me lembrou sua honra que logo lhe mandei dizer, 
que se elle para se ir entendesse que era melhor tomar algum bom achaque por se não 
cuidar que eu o mandava o fizesse, porque o encobriria. Ora quem esta lembrança tinha 
nisto, é que^não entendia fazer senão o que era melhor para sua honra, mas que hão de fazer 
amores tão impróprios, senão tomar elle por agravo o em que lhe eu fis mercê, e o em 
que me eu mostrei mui agradecido de sua boa vontade e serviços, e mui lembrado do amor 
que lhe sempre tive. Nos mais apontamentos cortou diser-me que é casado. Isto é ainda 
de maior espanto, porque parece que esqueceu qnantas vezes me disse, e mandou dizer que 
o não era nem havia de ser, e quem tanta conta fás de haver por deshonra mandar-lhe 
4izer que se fosse d'aqui da maneira de que passou, como se não lembra que não é honra 
ir contra o que comigo passou, nem trabalhar por concordar tempos para provar que o que 
lhe eu dizia em uns que não fizesse, tinha elle já feito em outros, ao que, ?e fosse assim, 
em que ha muito que dizer, porque me não disse então que era casado ? que receio podia 
ter para me não falar nisso claro ? se entendia que cumpria a sua consciência e a seu des- 
canso, mas justo é que o arreciaria por o casamento não entrar por estas portas. E elle será 
lembrado que me disse que o fazia por destruir seus filhos que era boa presumpção para eu 
nelle vir. Ha nesta matéria tanto que dizer que quando eu a estes apontamentos houvesse 



(i) Biblioteca de Évora God. ^^ fi. 20. 



364 Brasões 

de mandar responder, arredar-me-hia do caminho que até agora tenho levado com elle que 
é de muita lembrança de sua honra, e do amor que lhe tenho, porque seria forçado apontar 
muitas coisas que seriam muito contra ella. Ora chamar-se casado quem não tem facul- 
dade para o fazer em grau prohibido pela Santa madre egreja, e dizel-o tão determinada- 
mente parece que o não considerou bem, assim quem pois o não é, nem o pode ser, algum 
fiel christão sem dispensação onde ella é necessária, não acerta em se assim chamar, nem 
em assim o cuidar. 

Já no que diz que o papa não pode deixar de dispensar as coisas dispensáveis e costu- 
madas a dispensar parece que não deve de ter bem sabido isto por letrados, porque alguns 
se afirmam tanto no contrario, que disem que se o papa dispensasse com elle neste caso, 
sendo informado das coisas que ha para o não fazer que pecaria em o dispensar, cjue é bem 
longe de dizer que não pode por direito deixar de o fazer. Dizem letrados a isto, que o 
que ha mister dispensação, que se não deve ou pode dispensar sem causas, e dispensando 
sem ellas que não acerta o papa, ou que por ventura não vale a tal dispensação segundo 
alguns doutores. 

Isto quiz aqui apontar, porque assim como me lembra muito a honra do Mestre tempo- 
ralmente, não quero deixar de dizer o que cumpre para seguridade de sua consciência que 
é mais principal que tudo e também porque pode ser que os letrados com quem elle estas 
matérias pratica, se tomem tanto das afeições que lhe aconselhem o menos seguro para elle, 
e nas coisas da alma não se devem permitir afeições que a ponham em perigo. 

Direis ao mestre que eu tenho escripto a S. S* de que já tenho sua resposta, como vos 
mandarei mostrar por cartas do dr. Baltasar de Faria de 2 de setembro, e que alem d'isto 
S. S.* me mandou dizer por seu núncio que depois lhe fora pedido a dispensação por parte 
do mestre, e lha não concedera, nem o faria pelas razões que lhe eu mandei para isso. Assim 
que nem S. S.* tal concedera, nem eu consentirei por quão feia coisa é, e por quão mal lhe 
está a elle fazel-o, e por quão extranho seria assim do mundo e mal julgado de Nosso Senhor 
consenti-lo, e elle me deu conhecer a mercê que lhe nisso faço, pois o respeito por que o 
assim o faço, não é requerimento de seus filhos, que me pouco lembrariam, e mais sendo 
injusto quanto mais se fosse contra elle, por cujo respeito seus filhos teem o logar ante mim, 
que é razão que tenham, que me não lembra senão só o seu respeito, e o que toca a sua alma 
e á minha, e assim espero que o elle verá como fôr fora d'esta paixão; e por mui grande 
mercê devia já de estimar aparta-lo d'el!e, e depois vê claro que o é e não se desculpa senão 
com ser feito, o que não é, elle mesmo devia folgar de se apartar d'isso, e buscar os meios 
para o fazer, e não querer deixar-se estar, no que lhe é tão prejudicial, e crer os que nisso 
estão sem paixão e lhe tem amor, que lhe rogo muito que não cuide mais nisto porque toma 
petia e fadiga sem proveito, e que eu não hei-de consentir tal coisa, pelo que pode escusar 
de me mandar mais falar sobre isso, nem creia o que lhe nisso disserem, os que lhe disserem 
que me falam, se lhe não falarem este propósito e que nisto não ha mais que dizer. 

De Lisboa a 6 dias de novem.bro de 1548 annos (i). 



I.» Conde do REDONDO- i5oo, Junho 2. — D. VASCO COUTINHO, 
conde de Borba, capitão de Arzila. — Por carta da referida data deixou o 
senhorio de Borba a el Rei que, em troca o fez conde do Redondo e senhor 



(i) Biblioteca de Évora Gód. -^^ fl. 20 v. 



2-30 



Apêndice 365 

de Pavia com duzentos e ^noventa mil reais de renda (i). Apesar disso con- 
tinuou quási sempre a ser tratado por conde de Borba, e também às vezes 
por conde do Redondo, como por exemplo na carta de i3 de Outubro de 
i5i4 de duzentos mil reais de tença vitalícia (2). 

Casou com D. Catarina da Silva, condessa de Borba, que, apesar de 
ter sobrevivido bastante ao marido, ainda não encontrei intitulada senão 
condessa de Borba e nunca do Redondo. 

Vide conde de Borba. 

2.» Conde da FEIRA — Anterior ao ano de iSoi. — D. DIOGO PE- 
REIRA, do conselho de el Rei, filho do i." conde. — Existe uma sentença 
de D. João II, à qual já me referi, e que foi lavrada em Évora a 21 de Ja- 
neiro de um ano impossível de se ler no documento (3). Como na sentença 
el Rei no ditado se intitula senhor de Guiné, adiantamos o saber que ela foi 
feita no ano de 1486, ou nos nove seguintes (4), mas mais nada. Encontrei 
a data desta sentença no Cód. ~ da Biblioteca de Évora, numa cópia de todo 
o processo que se guarda na Torre do Tombo; é pois a data da sentença, 21 
de Janeiro de 1498, como já esccrevi a pág. SSg. Conforme o que a seguir a 
ela vem transcrito no mesmo Cód., foi a sentença confirmada a D. Álvaro Pe- 
reira em Setúbal a 1 1 de Maio de 1496, e depois a seu íilho, D. Miguel Pereira 
Coutinho, em Lisboa a 11 de Dezembro de i522. — Esta sentença é falsa, 
como agora, 1920, averiguei. No seu arresto faz el Rei a partilha da casa da 
Feira entre D. Diogo Pereira, filho maior legítimo do i.° conde da Feira, e 
D. Álvaro Pereira Coutinho, representado por sua mãe D. Leonor Coutinho, 
neto do i." conde por seu falecido filho D. João Pereira, que fora havido 
antes do casamento, e legitimado. O despacho foi todo favorável a D. Diogo 
Pereira, a quem el Rei mandou entregar os morgados, terras e rendas vin- 
culadas, para tudo possuir com o título que há de conde da F'eira de juro e 
herdade. Parecia pois que o título de conde da Feira ficara desde então 
reconhecido a D. Diogo Pereira, mas não sucedeu comtudo assim, pelo que 
se vai ver. Nas confirmações da casa e castelo da Feira e do couto da Cas- 
tanheira, todas de 7 de Dezembro de 1486, não é D. Diogo Pereira intitulado 
conde (5); noutra sentença de D. João II, de 29 de Abril de 1489, é D. Diogo 
Pereira intitulado conde da Feira. Aparentemente está tudo bem: as cartas 
de confirmação são anteriores ao decreto que deu o título a D. Diogo; a se- 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. 38.°, fl. 88 v. 

(2) Corpo Chronologico, parte i.», maç. 16, doe. 35. 

(3) Gaveta 2.% maç. 9, n.» 5. 

(4) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. 2.°, pág. 240. 

(5) Chancelaria de D. João //, liv. 8.», fis. ii5 e 226 v., e Extremadura, liv. i."», fl. 81 v. 



366 Brasões 

gunda sentença e' posterior ao mesmo que se vê ter surtido efeito completo (i). 
E nesta ocasião surtiu-o; mas vem depois D. Manuel, e nas cartas de con- 
firmação da casa a D. Diogo Pereira, em 9 e 10 de Março de 1496, não lhe 
dá outro titulo além do do conselho (2). Em i5oi, porém, a ib de Janeiro, 
num auto do corregedor da Estremadura (3), a i de Setembro numa sen- 
tença (4), e a 23 de Dezembro noutra (5), é D. Diogo Pereira sempre intitu- 
lado conde da Feira. Bem assim o é em cartas régias dos anos seguintes, 
a 26 de Setembro e 3 de Dezembro de iõo3, e a i5 e 23 de Janeiro de 
1 504(6). — Em 25 de Outubro de i5o2 hospedava o conde D. Diogo no seu 
castelo da Feira a el Rei D. Manuel, ao marquês de Vila Real e seus dois 
irmãos D. Diogo e D. Henrique, e ao conde de Cantanhede (7). N,os prin- 
cípios de i5ii era já falecido, pois que a 16 de Abril (a 10 já o fora o cas- 
telo) foi confirmada por sucessão a casa da Feira a seu filho (8), e encontro 
a notícia de que morrera a 17 de Agosto de 1509(9). 

Armas: de vermelho, cruz florida de prata, vazia de campo. (Pereira). 

Casou, precedendo contracto. No dia 5 de Dezembro de 1486 em que 
el Rei a requ-erimento de D. Joana de Castro aprovou o contracto de casa- 
mento de sua filha D. Beatris de Noronha com D. Diogo Pereira fez el Rei 
mercê a este de poder obrigar, caso morra primeiro que sua mulher, as 
rendas das suas terras de Cambres e de Refóios às 5.333 e terço de coroa, 
das de 120 reais cada uma, das ambas que lhe arbitrou correspondentes ao 
terço das 16.000 coroas que êle houve do seu dote (10). O contracto foi 
aprovado por el Rei em 5 de Dezembro de 1486, como já disse (11). Neste 
documento vem D. Branca de Noronha (12). D. Beatris era filha de D. João 
de Noronha, o Dentes, e de D. Joana de Castro, senhora da casa de Mon- 
santo; foi condessa da Feira, e sobreviveu a seu marido, pois que a 27 de 
Agosto de i523 se lhe passou provisão para certo pagamento (i 3). 

Tiveram descendência. 

-: r . • 

(i) Transcrita noutra que se guarda na Gaveta 10.", maç. 12, n. 16. 

(2) Estremadura, liv. 1°, fls. 79 v., 81 e 81 v. 

(3) Corpo ChroHologico, parte 2.*, maç. 3, doe. 63. 

(4) Gaveta )0.®, maç. 12, n.° i6. 

(5) Gaveta iS.", maç. 6, n.° i3. 

{6) Chancelaria de D. Manuel, Wv, 21.", íi. 2^. 
{7) Gaveta 10.», maç. 12, n.» lõ. 

(8) Chancelaria de D. Manuel, liv. iS.", fl. 134. 

(9) Figueiredo, Nobiliário.. 

(10) Chancelaria de D. João II, liv. 8.», fl. 122. 

(u) Ibidem, fl. 11 5. 

(12) Ibidem, fl. 122. 

(i3) Corpo Chronologico, parte 2.», maç. 101, doe. 29. 



Apêndice ' 367 

2.° Conde de PORTALEGRE — Depois de 20 de Fevereiro de i5o4. — 
D. JOÃO DA SILVA DE MENESES. — Sucedeu a seu pai no título, do 
qual contudo só teve carta de confirmação em 23 de Dezembro de i5o6(i); 
mas já com ele se encontra a 11 de Julho de i3o5(2). De 26 de Setembro 
desse mesmo ano é uma carta para, do primeiro de Janeiro passado em 
diante, receber uma tença de i3o.o5o reais, que fora do pai (3). Na mesma 
data foi expedida outra carta na qual se lhe chama D. João de Meneses, conde 
de Portalegre, de confirmação de So.ooo reais de tença que tinha o conde 
seu pai (4). Por carta de i de Janeiro de i522 foi feito mordomo mor da 
casa de D. João 111(5). Deve ter morrido em fins de i55o, princípios de 
1 55 1(6). 

Morreu a 3i de Maio de i55i. Consta da confirmação de uma tença de 
10.000 reais a seu filho D. Álvaro da Silva, 3.° conde, carta de confirmação 
que se encontra trasladada com outras (7). D. João da Silva parece ter sido 
nomeado mordomo mor do príncipe D. João por carta de 23 de Setembro 
de i5o2(8). 

Armas: as do i.° conde seu pai. 

Casou com D. Maria de Meneses, irmã do i.° conde de Tentúgal. Teve 
lugar o matrimónio depois de i í de Julho de i5o5, em que se firmou o con- 
tracto de casamento (9), e antes de 28 do mesmo mês do ano seguinte (10). 
Foi 'D. Maria condessa de Portalegre. 

Tiveram descendência. 

i.° Conde de TENTÚGAL— i5o4, entre 4 e 10 de Março. —D. RO- 
DRIGO DE MELO, sobrinho de el Rei. — D. Rodrigo ainda não era nas- 
cido em Janeiro de 1487(11). Não encontro a carta do título. A 10 de 
Março de j5o4, porém, foram dados a D. Rodrigo, conde de Tentúgal, pelos 
muitos serviços de seu pai D. Álvaro, que Deus haja, primo de el Rei, 
259.241 reais de assentamento (o mesmo que o pai houvera), a começar no 



(i) Chancelaria de D. João III^ liv. 39.°, fl. i. 

(2) Místicos, liv. 5.°, fl. 5i V. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. Sg.", fl. i v. 

(4) ChiVKelaria de D. Manuel, liv. 20.", fl. 25 v. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 5i.°, fl. 24 v. 

(6) Veja-se o que direi cm 3.» conde de Portalegre. 

(7) Doações de Felipe I, liv. 14."*, fl. 76 v. 

(8) Corpo Chronologico, parte 3.% maç. 2, doe. 26. ^ 

(9) Místicos, liv. 5.», fl. 5i V. 

(10) Chancelaria de D. Manuel, liv. 39.*, fl. 9 v. 

(11) Veja-se em conde de Olivença, pág. 325 deste volume. 



368 Brasões 

primeiro de Janeiro desse ano(i); assentamento que foi elevado a mais 
loo.ooo reais por outra carta de 25 de Setembro do mesmo ano (2). D. Ál- 
varo havia morrido a 4 do dito mês de Março; é pois plausível supor a 
criação do título, ou no próprio dia 10, ou pouco antes. Note-se que em 11 
de Março de 1604 foi feita doação da vila de Alvaiázere a D. Rodrigo de 
Melo, meu sobrinho, filho de D: Álvaro etc. (3). Ainda no mesmo ano e 
mês, a lõ, foram confirmadas a D. Rodrigo as terras que haviam sido de 
seu pai, salvo certas rendas com que ficara sua mãe (4), que por instrumento 
de 28 de Abril de i5i2, aprovado por el Rei no mesmo dia, lhe cedeu a 
alcaidaria mor de Olivença (5). Neste documento é o conde de Tentúgal 
chamado D. Rodrigo de Portugal, apelido com que também é nomeado seu 
pai. Também é chamado D. Álvaro de Portugal no contracto de 3o de 
Novembro de 1496 de casamento de D, Manuel com a princesa D. Isabel (6). 
Em i5i6, por cartas de 28 de Fevereiro e 3 de Março, são confirmadas ao 
conde, por morte de sua mãe D. Felipa de Melo, as terras de Ferreira de 
Aves, Garapito, Vila Maior, Cadaval e Peral, e a alcaidaria mor de Oli- 
vença (7). Por carta de 18 de Outubro de 1619, confirmada a 14 de Abril 
de 1624, teve o conde mercê de lhe poder suceder o filho por sua morte em 
todas as precedentes terras e mais a vila de Tentúgal (8). Em i533 era 
marquês de Ferreira. 

Armas: esquartelado: o i." e 4.° de prata, aspa de vermelho carregada 
de cinco escudetes das armas do reino; o 2.° e 3.° de vermelho, seis besantes 
de prata entre uma dobre cruz e bordadura de oiro. (Bragança de Ten- 
túgal, Melo). 

Em i5 de Março de i5io estava o conde contractado a casar com D. Maria 
de Portocarrero^ filha de D. Pedro de Portocarrero, senhor de Moguer, o 
que consta de uma carta daquela data em que el Rei dá licença ao conde 
para empenhar certas rendas à segurança do dote e arras (9). Este casa- 
mento não se chegou a efectuar. 

Ainda neste ano de i5io, ou nos princípios do seguinte, casou o conde 
de Tentúgal a primeira vez, precedendo contracto de 20 de Novembro de 



[i)- Chancelaria de D. Manuel, liv. 19.', fl. 3o. 

(2) Ibidem, fl. 32. 

(3) Ibidem, liv. 20.", fi. 26. 

(4) Guadiana, liv. 7.°, fi. 14. 

(5) Ibidem, fl. 58. 

(6) Provas da Historia genealógica, vol. 2.°, pág. 384, n.» 66. 

(7) Chancelaria de D. Manuel, liv. 25.°, íls. 39 e 36. 

(8) Chancelaria de D. João III, liv. 37.'», fi. 33, 

(9) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3.", fi. 12. 



Apêndice 369 

i5io(i), com D. Leonor de Almeidx\, viúva de Francisco de Mendoça, 
alcaide mor de Mourão, e filha herdeira de D. Francisco de Almeida, vice 
rei da índia. Foi D. Leonor condessa de Tentúgal, e, por instrumento de 
18 de Novembro de i5i4, se compuzeram ela e seu marido, com respeito à 
herança do vice rei, com seu primo o conde de Penela, que ficara por tes- 
tamenteiro (2). 

Morreu no ano de i525(3). Parece que não chegou a ser marquesa de 
Ferreira por morrer antes de i533. 

Casou D. Rodrigo de xVIelo pela 2/ vez com D. Brites de Meneses, que 
foi marquesa de Ferreira. 

Vide I." maluques de Ferreira. 

3.» Visconde de VILA NOVA DA CERVEIRA— i5o8, Abril 7.— 
D. FRANCISCO DE LIMA, filho do 2." visconde. — Sucedeu a seu pai no 
título de que teve carta na referida data. 

Morreu a 24 de Dezembro de i55o(4). 

Armas: as de seu pai. (Lima). 

Casou a 1.^ vez antes de 17 de Julho de i5o2 com D. Isabel de Noronha, 
filha dos 2.°* condes de Abrantes (5). F^oi D. Isabel viscondessa de Vila 
Nova da Cerveira, e morreu antes de 3o de Setembro de i523 (6). 

Casou a 2.* vez com D. Felipa da Silveira, viscondessa de Vila Nova 
da Cerveira, filha de Henrique da Silveira. D. Felipa da Silveira, viscon- 
dessa, recebeu 7.680 reais de tença pelo caderno do almoxarifado de Ponte 
de Lima de i53i, tença que se não encontra no de 1029(7). No caderno da 
Casa dos Escravos de i53i foi pago a D. Felipa da Silveira, viscondessa, a 
quantia de 140.000 reais do segundo terço do seu casamento (8). 

Houve descendência do primeiro matrimónio. 

8.° Conde de OURÉM — i5io. — D. JAIME, 4.° duque de Bragança e 
2.° de Guimarães. — Por carta de i3 de Julho de 1496 havia alcançado o 



(i) Provas da Historia genealógica, vol. 5.°, pág. 509, n." 11. 

(2) Afonso Mexia, Livro das tenças dei rei, fl. 120, 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 24.^, fl. 25 v. 

(4) Livro 3." dos Brasões, pág. 88. 

(5) Jbidem. 

(6) Consta de uma carta de certa tença a sua filha D. Catarina de Noronha, documento 
citado por Lousada a fl. 214 do vol. 3.° da Torre do Tombo, e que à mesma foi confirmado 
por el Rei em 19 de Outubro de 1 53o, como se vê na Chancelaria de D. João 111, liv. 9.", fl. 20. 

(7) Archivo histórico portugueZj vol. X, pág. 118. 

(8) Ibidem, pág. 128. 

VOL. Ill 47 



370 Brasões 

duque de el Rei D. Manuel a confirmação da doação, que o condestável 
D. Nuno Álvares Pereira tinha feito em 4 de Abril de 1422 a seu neto 
D. Afonso, que depois foi conde de Ourém e marquês de Valença, « tirando 
somente a villa de Ourem, que queremos que fique fóra))(i). Era então 
conde de Ourém o i.° marquês de Vila Real. Recorreu logo o duque a 
el Rei pedindo-lhe a confirmação completa da referida doação do condestável 
incluindo a vila de Ourém, e D. Manuel lha deferiu imediatamente por carta 
de 19 do mesmo mês (2). Não surtiu contudo efeito esta carta; não sei o 
motivo, mas sei que o marquês conservou a posse da vila de Ourém, e 
que nela lhe sucedeu seu filho o marquês D. Fernando, que a deixou a 
el Rei para este a dar ao duque de Bragança, recebendo em troca por carta 
de 4 de Dezembro de i5io, em que tudo isto vem declarado, uma avultada 
tença era duas vidas (3). 

Vide 4.° duque de Bragança. 

3." Conde de ABRANTES — i5i3, Janeiro 7. — D. LOPO DE AL- 
MEIDA, filho do 2.° conde. — Por carta da referida data foi feito conde da 
sua vila de Abrantes (4), senhorio de que houvera confirmação por sucessão 
a seu pai em 19 de Novembro de i5i2(5). Ainda vivia a 14 de Setembro 
de 1529, em que lhe foi confirmada a alcaidaria mor e rendas de Abrantes (6); 
era porém já morto a 8 de Dezembro do ano seguinte, em que ao infante 
D. Fernando foi doado o senhorio de Abrantes que vagara por falecimento 
do conde D. Lopo (7). 

Com consentimento do príncipe queremos que por falta de D. João de 
Almeida conde de Abrantes, fiquem a D. Lopo seu filho maior, o castelo e 
reguengo, e canais, quarto de pãó, e todos os outros direitos nas da vila de 
Abrantes e seu termo pela guisa que o temos dado ao dito conde. Santarém, 
17 de Outubro de 1487 (8). 

O conde e condessa de Abrantes, e D. João de Meneses do nosso con- 
selho e mordomo mor, e D. Joana de Vilhena sua mulher, tinham tentado 
casarem D. Lopo de Almeida, filho maior do dito conde e condessa, com 



(i) Místicos, liv. 4.°, fl. 78 V. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. 4.°, pág. 7, n.° 96. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 8», fl. 104 v. 

(4) Ibidem, fl. 76 v. 

(5) Ibidem, fl. 75. 

(6) Ibidem, liv. 48.°, fl. 76. 

(7) Ibidem, liv. Sg.", fl. ii3 v. 

(8) Chancelaria de D. João II, liv. 16.", fl. 27 v. 



Apêndice 3^1 

D. Maria de Vilhena, donzela da rainha minha mulher, filha dos ditos D. João 
e D. Joana etc. Aprova el Rei em Lisboa a 17 de Janeiro de 1494(1). 

O conde de Abrantes pede para trespassar 5o. 000 reais de uma tença 
que tinha em seu filho D. Lopo, porque lhos dá em casamento etc. S. Bento, 
10 de Março de 1494. — Conf. a D. Lopo de Almeida, do conselho, em 22 
de Abril de 1497 (2). 

D. Maria de Vilhena, mulher de D. Lopo de Almeida, do conselho, mercê 
a ela, caso sobreviva ao marido, dos 100.000 reais que ora o dito D. Lopo 
de nós tem e houve de D. Diogo Lobo pelo ofício da vidoria real que por 
eles Khe deixou. 14 de Julho de 1496. — Conf. a D. Maria de Vilhena, con- 
dessa de Abrantes em i5 de Fevereiro de 1627 (3). 

^ Conde de Abrantes tinha de tença, emquanto nossa 'mercê fosse, 
100.000 reais que lhe foram dados por D. João II em 86, pediu para tres- 
passar deles em D. Lopo seu filho 20.000 reais. Padrão dos 80.000 res- 
tantes. Lisboa, I de Fevereiro de 1498 (4). 

D. Joana de Vilhena, mulher de D. João de Meneses, linha de nós de 
tença 20.000 reais em pagamento de 2.000 coroas do seu casamento que 
dera o infante D. Fernando a Fernão Teles seu pai, e foram depois trespas- 
sadas nela e ora pediu ela para os trespassarmos em D. Maria de Vilhena 
sua filha, mulher de D. Lopo de Almeida, porquanto lhos dava em casa- 
mento etc. 16 de Fevereiro de 1498. — Conf. a D. Maria condessa de 
Abrantes em 7 de Agosto de 1527 (5). 

D. Lopo de Almeida, filho de D. João de Almeida, que Deus perdoe, 
conde de Abrantes, carta de senhor de Abrantes. 19 de Novembro de 
i5i2. — Conf. a D. Lopo de Almeida, do conselho, conde de Abrantes, em 
4 de Maio de i525(6). 

D. Lopo de Almeida, do conselho, que de muito pequena idade foi criado 
de D. João II com muito amor, e connosco de moço pequeno em muita fami- 
lariedade e afeição, e que a êle e a nós sempre serviu com muita lealdade e 
inteiro amor em todalas coisas em que por nós foi encarregado, assim 
nestes reinos, como fora deles, e havendo isso mesmo respeito à sua antiga 
linhagem e a seus avós, e aqueles de que descende serem pessoas de muitos 
merecimentos e que sempre grande e lealmente serviram aos reis deste reino 
nossos antecessores, especialmente ao conde D. João de Almeida, seu padre. 



(O Chancelaria de D. João 111, liv. 3o.°, fl. 3g v. 
(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.°, fl, 54. 
(3^ Chancelaria de D. João III, liv. So.", fl. Sg. 

(4) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 3i.°, fl. 41. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. So.", fl. 134. 
(ó) Ibidem, liv. 8.°, fl. 75. 



372 Brasões 

e D. Lopo de Almeida, seu avô, cujas almas Deus haja, serem nestes reinos 
pessoas mui principais e de títulos, que por seus grandes merecimentos e 
serviços foram sempre com razão estimados e havidos em grande estima, e 
que aos reis passados e a nós e a nossos reinos tem feitos^muito e assinados 
serviços, assim na paz como na guerra de Castela e contra os mouros inimigos 
da nossa Santa Fé em todalas partes onde se acharam, e foram por seus ser- 
viços e destes reinos, e sendo nós em verdadeiro conhecimento. . . o fazemos 
conde da sua vila de Abrantes, como o foram os condes seu padre e avô, e 
de hoje em diante se possa chamar e chame conde de Abrantes etc. Évora 
7 de Janeiro.de i5i3 (i). — Conf. a D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, 
do conselho, em 4 de Maio de i525 (2). 

D. Lopo de Almeida, conde de Abrantes, do conselho, mercê de ele 
dispor as pautas das eleições dos juizes, vereadores, procuradores, oficiais 
de Abrantes, Pinhel, Sardoal, Mação e de todos os outros lugares de que 
lhe temos feito doação, etc. Almeirim, 8 de Janeiro de i5i4(3). 

D. Maria de Vilhena, condessa de Abrantes, apresentou a carta de con- 
tracto do seu casamento, e foi-lhe confirmado em Lisboa. i5 de Fevereiro 
de 1 527 (4). 

D. Lopo de Almaida, conde de Abrantes, apresentou carta. — D. João de 
Almeida, conde de Abrantes, apresentou carta. — D. João de Almeida, conde 
de Abrantes, vedor da fazenda, por seu falecimento fique a D. Lopo seu filho 
o castelo, reguengos e canais, quarto do pão. . . e todos os outros direitos 
nas de Abrantes etc. 17 de Outubro de 1487. — Conf. 9 de Novembro de 
1497. — Conf. 14 de Novembro de 1629 (5). 

Ao infante D. Fernando mercê em vida da vila de Abrantes com as 
rendas da alcaidaria, tirando o lugar do Sardoal, com todas as rendas que 
tinha o conde D. Lopo por cujo falecimento a dita vila vagou, ao qual lugar 
do Sardoal, fazendo-o vila, darei aquele termo que fôr bem posto que seja 
do termo de Abrantes etc. 8 de Dezembro de i53o(6). 

Os 100.000 reais de tença que a condessa de Abrantes que Deus perdoe, 
tiaha para serem pagas por tempo de dois anos a seus testamenteiros para 
ajuda de se pagarem suas dívidas, por mercê feita por D. João III depois do 
falecimento da condessa, etc. Dá alvará aos testamenteiros para haverem 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv, 42.°, fl. 2 v. 

(2) Chancelaria de D. João 111, liv. 8.°, fl. 76 v. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 15.°, fl. 6. 

(4) Chancelaria de D. João 111, liv. So.", fl. 3g v. 

(5) Ibidem, liv. 48.% fl. 76. 

(6) Ibidem, liv. 39.°, fl. 1 13 v. 



Apêndice . 3 7? 

os ditos 100.000 reais por dois anos, este presente de SSy e o que vem de 558, 
em 14 de Setembro de i557 (i). 

Armas: as de seu pai. 

Casou, precedendo contracto de 17 de Janeiro de 1494, com D. Maria 
DE Vilhena, donzela da rainha D. Leonor, filha de D. João de Meneses, 
mordomo mor, e depois i." conde de Tarouca (2). Foi D. Maria condessa 
de Abrantes, e o contracto de casamento lhe foi confirmado a i5 de Janeiro 
de i527(3). Havia-lhe el Rei concedido por carta de 14 de Julho de 1496, 
confirmada a i5 de Fevereiro de 1527, que uma tença de 100.000 reais, que 
o marido disfrutava e houvera pelo oficio da vèdoria real que vendera, pas- 
sasse a ela no caso de ficar viúva (4). Depois por outra carta de 14 de Se- 
tembro de 1557, em que esta tença é confirmada por dois anos, para paga- 
mento de dívidas, aos testamenteiros da condessa, se pode conjecturar ter 
ela morrido no decurso daquele ano (5). 

Tiveram descendência. 

i.° Conde de VILA NOVA DE P0RTL\1Ã0— i5i4, Fevereiro 12.— 
D. MARTLNHO DE CASTELBRANCO, do conselho de el Rei e seu 
vedor da fazenda. — Este título tem uma história. — Em Janeiro de 1804 fez 
D. Manuel conde de Vila Nova de Portimão a D. Martinho de Castelbranco 
para dali a quatro anos (6). Desta mercê se passou a carta, que não encontro 
registada, mas da qual subsiste a memória em um alvará e duas minutas, 
uma um pouco mais extensa do que a outra (7). Dos três documentos citados 
apura-se o seguinte: A mercê foi feita a D. Martinho atendendo à muita 
criação que dele fizera D. Afonso V, a quem ainda de muito pouca idade já 
serviu nas guerras de Castela com escudeiros, cavalos e armas, e como 
homem de maior idade, aventurando sua pessoa tanto, que foi preso na 
batalha de Toro. Seguidamente acompanhou o mesmo rei a Franca, persis- 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 65.", fl. 3-jo. 

(2) Ibidem, liv. So.", fl. 39 v. 

(3) Jbidem. 

(4) Ibidem, fl. 39. 

(5) Ibidem, liv. 65.", R. Z-j3. 

(6) Consta de um alvará de i de Janeiro de i5i3 transcrito na carta de confirmação 
do mesmo em 18 de Agosto de 022 a fl. 108 do liv. 47.° da Chancelaria de D. João III. 

(7) Corpo Chronologico, parte 2.", maç. 8, doe. 72; Cartas missivas, maç. 3.», n." iio. 
Na primeira colecção encontra-se o documento escrito sobre pergaminho e datado de Lisboa 
a 3 de Maio de i5o4; mas pelas emendas, entrelinhas e notas à margem que tem, se conhece 
que não é a carta definitiva. Lê-se lá esta resaWa: «com este titulo de conde não haverá 
(D. Martinho) outro mais assentamento, salvo aquelle que agora já tem». Por este motivo 
é que se não encontrará carta de assentamento deste condado. 



374 Brasões 

tindo no seu serviço até êle morrer, sendo já então vedor da fazenda. Neste 
cargo ficou com D. João II, que sempre confiou os conselhos e negócios par- 
ticulares de D. Martinho, que com muita fidelidade, verdade e lealdade o 
serviu; e bem assim nas « coisas de alem », que no seu reinado se ofereceram, 
em que serviu com sua pessoa e gasto de sua fazenda. Por último veio 
D. Manuel que, julgando o serviço de D. Martinho muito necessário, o 
chamou à efectividade, estando êle já aposentado com o ofício de governador 
da Casa do Cível, o qual a el Rei, para o servir, largou incondicionalmente, 
deixando à sua disposição e vontade a satisfação que por isso deveria receber. 
Por todos estes motivos prometcu-lhe el Rei, e ficou por sua fé real, de 
dentro dos primeiros quatro anos seguintes, que começavam a correr de Ja- 
neiro de i5o4 em diante, lhe dar, e de feito lhe dá, o título de conde de Vila 
Nova de Portimão. Acrescenta mais que, se êle morrer antes dos quatro 
anos decorridos, todos os seus filhos e filhas que ficarem, gosarão em tudo, 
assim nos casamentos como nas moradias, das honras, privilégios, graças e 
liberdades, como filhos de conde. Passados os quatro anos rogou el Rei a 
D. Martinho por alguns respeitos de muito seu serviço que não tomasse o 
título, ao que êle anuiu. Depois, a i de Janeiro de i5i3, mandou-lhe el Rei 
passar um alvará em que declara, além de parte do já referido, que nunca 
foi sua tenção ir contra a mercê feita, e que pelo contrário determina, que, 
posto faça algumas pessoas condes antes de D. Martinho tomar o título, 
quer que êle preceda a todos os outros que tiverem sido feitos condes, assim 
como o fizera se no fim dos ditos quatro anos tomara o título, como o podia 
fazer. — A data da publicação do condado é marcada precisamente a 12 de 
Fevereiro de i5i4, como acima deixei declarado, pelo cronista na nota 
citada (i) e não está ela em oposição com os documentos meus conhecidos. 
Está inteiramente confirmado pelos .documentos. Em 8 de F^evereiro de 
i5i4 foi mandada livrar uma carta régia por D. Martinho de Castelbranco, 
vedor da fazenda (2); em 12 de Fevereiro de manhã, lavra o escrivão Diogo 
Vaz, na qual ainda declarou que el Rei a mandara passar por D. Martinho 
de Castelbranco (3); nesse mesmo dia à tarde, o próprio Diogo Vaz ao es- 
crever outra declara que el Rei o mandara pelo conde de Vila Nova, seu 
vedor da fazenda (4). A i3 encontra-se outra também sobscrita pelo conde 
de Vila Nova (5), e de então por diante são inúmeras. 



.(i) Góis, Chronka de D. Manuel, parte 3.«, cap. 54. 
(a) Chancelaria de D. Manuel, liv. i5.o, fl. 10. 

(3) Ibidem, fl. 9. 

(4) Ibidem, fl. 8. 

(5) Ibidem. 



Apêndice SyS 

Num alvará de 7 de Dezembro de i5i3 ainda D. Martinho aparece sem 
o título (i); numa carta porém de 12 de Maio de i3i4 é confirmada certa 
tença à condessa de Vila Nova de Portimão (2). Há um alvará de 4 de 
Maio de i5i4 mandando fazer certo pagamento pelo conde de Vila Nova 
vedor da fazenda (3). Daqui se vê que por então é que foi realmente publi- 
cado o título, o que é confirmado também por uma carta do marquês de 
Vila Real a el Rei, datada do convento da Insua de Caminha a 7 de Agosto 
desse ano de i5i4, na qual o marquês se queixa de D. Manuel não ter feito 
conde a seu irmão D. António, e principalmente por ter dado o título a 
D. Martinho, « posto que seja bom e honrado, e vos mereça honra e mercê » (4). 
A explicação de tudo isto estava em D. Maninho não ser fidalgo da primeira 
plana. Não o era; mas os seus serviços )á datavam de longe, pois que 
êle exercia o espinhoso cargo de vedor da fazenda desde 23 de Fevereiro de 
1481 (5); havia trinta e quatro anos. Nesta carta de vedor da fazenda ainda 
êle é nomeado Martim Vaz de Castelbranco; passou porém a chamar-se 
D. Martinho, desde que o pai em 1485 recebeu o título de dom. Por duas 
cartas de 3i de Dezembro de 1497 foramlhe confirmados o senhorio de 
Vila Nova de Portimão com a Jurisdição, os direitos reais desta vila e da de 
Santarém, e o reguengo das Chantas, tudo em sucessão a seu pai (6). Em 
i5i6 vendeu o conde de Vila Nova o ofício de vedor da fazenda ao conde 
do Vimioso, a quem el Rei o confirmou a 28 de Junho (7), e a 4 de Julho do 
mesmo ano foi feito camareiro mor do príncipe (8), ofício em que o continuou 
a servir depois de rei, e que lhe foi confirmado a 7 de Agosto de 1522(9). 
Poucos dias depois, a 18 do mesmo mês, foi-ihe confirmado o condado (10). 
Em Lisboa a 24 de Julho de i322 foi confirmada a carta dada em Almeirim 
a 6 de Maio de i5i6 para o conde de Vila Nova estabelecer na dita vila uma 
mancebia, outorgado a pedido do conde que diz: «per quanto na dita villa é 
necessário haver mancebia...» e que só êle o possa fazer e gosar da renda 
dela etc. (i i). Fez o conde de Vila Nova o seu testamento a 26 de Novembro 



(i) Chancelaria de D. Manuel, liv. io.°, fl. 16 v. 

(2) Ibidem. 

(3) Corpo Chronologico, parte 2.% maç. 46, doe. 208. 

(4) Gaveta i8.*, maç. 5, n.° i, 

(5; Chancelaria de D. Afonso V, liv, 26.°, fl. 16. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 47.», fls. 107 e 102 v, 

(7) Chancelaria de D Manuel, liv. 25.°, fl. i33 v., 

(8) Ibidem, liv. 10», fl. 7 v. 

(9) Chancelaria de D. João III, liv. 47.°, fl. 104 v. 

(10) Ibidem, fl. 108. 

(11) 7^/í/em, liv. 47.», fl. n3. 



376 Brasões 

de i526(i), e morreu no ano seguinte (2) antes de 14 de Novembro (3). 
Já era falecido a 28 de Outubro desse ano, como se vê da carta desta data, 
de confirmação à condessa de certas lezírias na Azambuja, que eram do 
marido e ficaram a ela (4). Existiram dois epitáfios de D. Martinho: um, 
que não trás datas nem individuações, era relativamente moderno, pois 
que nele se cometia o erro de intitular conde ao filho (5); o outro, trás 
algumas particularidades, mas infelizmente erróneas como muita vez sucede. 
Dizia êle que D. Martinho de quinze anos servira em Toro, de sessenta e 
dois levara a infanta a Sabóia, e de setenta e um morrera (6). Quem tinha 
quinze anos em 1476, não podia ter sessenta e dois em i52i, e para qual- 
quer destas datas, que estivessa certa, vinha a ser o falecimento do conde, 
aos setenta e dois anos, em i533 ou i53i, e já lá acima ficou dito que êle 
morreu em 1527(7). 

Armas: esquartelado: o i.° e 4.° de azul, leão de oiro, armado e linguado 
de vermelho; o 2.'' e 3.° de vermelho, leão de oiro, armado e linguado de 
azul, e carregado de três faxas do mesmo, amaniihadas do segundo. Timbre: 
o leão do i.° (Castelo Branco, Valente). 

Casou com D. Mecia de Noronha, filha de João Gonçalves da Câmara, 
2.° capitão do Funchal. Foi D. Mecia condessa de Vila Nova de Portimão; 
já era casada em 3o de Maio de 1488, quando comprou uma tença; e ainda 
vivia a 14 de Agosto de 1622, quando ela lhe foi confirmada (8), a 23 de 
Outubro de 1627 (vide acima) mas parece que já era morta a 25 de Novembro 



(i) Original no cartório da casa de Abrantes. Não posso deixar de agradecer aqui ao meu 
amigo e vizinho D. João de Lancastre e Távora, actual representante dos marqueses de 
Abrantes, dos condes de Vila Nova de Portimão, Sortelha, Penaguião e outros, a amabili- 
dade com que hontem^ 18 de Outubro de 1900, me permitiu examinar alguns documentos 
do precioso arquivo que guarda na sua bela casa da quinta da Piedade (antigo morgado dos 
Valentes na Póvoa de Santa Iria), onde também vi uma das mais belas, senão a melhor, 
colecção de retratos de pessoas da alta fidalguia portuguesa do século de quinhentos, e daí 
para baixo. L um tesouro ! 

(2) De um mandado que constitui o doe. 6.» do maç. i56 da 2.» parte do Corpo Chro- 
i}ologico, consta ter D. João III ordenado que se desse para descargo da alma do conde nos 
dois anos seguintes ao do seu falecimento certa quantia em cada um, e que Gsses dois anos 
haviam sido os de i528 e 1529. 

(3) Data da carta de camareiro mor a D. Francisco de Castelbranco em sucessão a 
seu pai o conde D. Martinho, que Deus haja (Chancelaria de D. João IIJ, liv. 3o, fl. iSó. 

(4) Chancelaria de D. João 111, liv. 30.", fl. 2o3. 

(5) Castilho, Lisboa antiga, parte 2.% vol. 5.», pág. 264. 

(6) Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 83. ^ 

(7) Epitáfio na Lisboa antiga, parte 2.*, vol. 5.», pág. 264. 

(8) Chancelaria de D. João III, liv. 47.°, fl. 106 v. 



Apêndice 377 

de i52g, em que ao filho D. Francisco de Castelbranco, camareiro mor, foram 
doadas as três lezírias que haviam sido do pai e depois da mãe(i). ' 
Tiveram descendência. 

3.° Conde da FEIRA— i5i5, Janeiro 2. — D. MANUEL PEREIRA, 
senhor da terra da Feira e de Santa Maria, e filho de D. Diogo Pereira, 
conde da Feira. — Por carta da referida data foi criado conde da Feira (2), 
terra de que era 6.° senhor por carta de confirmação de 16 de Abril de ' 
i5ii (3), e bem assim 4.° senhor do seu castelo por outra de 10 do mesmo 
mês (4), que foi confirmada a 29 de Agosto de i532 (5). 

Morreu o conde da Feira a 4 de Outubro de i552. (Pereira) {Çi). 

Armas: de vermelho, cruz florida de prata, vazia do campo. 

Casou a 1 .* vez com D. Isabel de Castro, filha de D. João de Meneses, 
i.° conde de Tarouca. Parece não ter chegado D. Isabel a ser condessa da 
Feira, pois que sem o título se encontra nomeada no epitáfio de seu filho 
04.° conde (7), o que não é confirmado pelo epitáfio do seu marido abaixo 
publicado (8). 

Casou a 2.* vez em fins de i524, ou princípios de i525 (9), com D. Fran- 
cisca Henriques, condessa da Feira, filha de António de Miranda, monteiro 
mor do infante D. Luís, e viúva de copeiro mor Artur de Brito. 

Morreu a condessa da Feira a 24 de Dezembro de 1 585 (10). 

Houve descendência de ambos os casamentos. 



(i) Chancelaria de D. João III^ 11^. 42.", fl. 19. - 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 24.", fl. 8. 

(3) Ibidem, liv. i5.°, fl. 134. 

(4) Ibidem, fl. i33. 

(5) Confirmações geraes, liv. 3.°, fl, 45. 

(6) A data da morte do conde vem declarada na confirmação de certa tença a seu filho 
D. Diogo na Chancelaria de D. João III, liv. 59.°, fl. 77. 

(7) Ceo aberto, pág. 536. 

(8) «Aqui jaz o muito Illustre Senhor D. Manoel Pereira Conde da Feira, filho do conde 
D. Diogo Pereira e da condessa D. Brites de Meneses, f. a 4 de outubro de i55o, e a con- 
dessa D. Isabel de Castro sua primeira mulher, filha do Conde de Tarouca e Prior do Crato, 
f. no castello da Feira em Julho de 1 522 anos » (Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 169). O ano 
da morte do conde está errado, mas o da condessa pode estar certo, e não se lhe daria o título 
se o não tivesse chegado a lograr. Vide outro epitáfio muito diferente no Archeologo por- 
tuguês^, vol. IV, pág. 247. 

(9) Por carta de 20 de Dezembro de 1 524 foi o conde autorizado a obrigar a terra de 
Refoios às arras que tinha prometido a D. Francisca para casar com ela {Chancelaria de 
D. João III, liv. 8.", fl. 37). 

(10) Consta esta data de uma verba posta à margem de certa carta de padrão de tença 
nas Doações de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 14.°, fl. 147. 

VOL. ui 48 



3 78 Brasões 

i.° Conde do VIMIOSO — i5i5, Fevereiro 2. — D. FRANCISCO, filho 
do bispo de Évora, D. Afonso, primo de el Rei. D. Francisco filho de 
D. Afonso bispo de Évora, meu primo, apresentou um instrumento feito em 
6 de Fevereiro de i5o6, em Évora, nos paços de D. Afonso bispo da dita 
cidade, pelo qual instrumento ele bispo fazia saber a el Rei que tinha um 
filho chamado D. Francisco, havido, quando ele era secular, de mulher sol- 
teira ao tempo do nascimento, e pedia a el Rei que o legitimasse. Confirma 
D. Manuel a legitimação em Lisboa a i5 de Fevereiro de i5o3(i). Se é ver- 
dadeira a declaração, que foi havido sendo secular seu pai, como se lê na 
carta de legitimação, nasceu D. Francisco pelos anos de 1483, porque depois 
da morte do duque de Bragança (21 de Junho de 1483) obrigou D. João II 
D. Afonso a receber ordens sacras e nomeia-o bispo de Évora em 1485. 
Se D. Francisco foi o primogénito, porque teve mais dois irmãos, nasceu 
ainda antes de 1483. Pela carta de 2 de Fevereiro de i5i5, pelos seus ser- 
viços e grande parentesco que com o pai e êle tinha, fê-lo el Rei conde do 
Vimioso (2), vila de que lhe deu o senhorio em vida por carta de i3 do 
mesmo mês (5). Esta vila tinha alcançado de el Rei, por carta de 9 de 
Março de i5io, a concessão de ser sempre realenga e da coroa, prometendo 
de a não dar a ninguém, pelo que ela reclamou contra a doação ao conde em 
requerimento de 17 de Fevereiro de i5i5(4). Por carta de 17 de Agosto 
de i53o teve D. Francisco de assentamento de conde 270.000 reais (5). Ao 
conde de Vila Nova havia êle comprado o ofício de vedor da fazenda o 
qual el Rei confirmou ao conde do Vimioso em 28 de Junho de i5i6(6). Em 
i534, a 27 de Março, na caria em que lhe é dado o apelido de Portugal, sem 
o qual é geralmente nomeado nos mais documentos, foi-lhe feita doação de 
Aguiar da Beira em sua vida (7); e a 24 de Abril teve a mercê de por sua 
morte lhe poder suceder seu filho no condado do Vimioso, no senhorio da 
mesma vila e da de Aguiar da Beira, na alcaidaria mor de Tomar, no ofício 
de vedor da fazenda, em todas as tenças dele e da condessa, e nas saboarias 
do Porto (8). 



(i) Legitimações de leitura nova, liv. 3.», fl. 187; impressa nas Provas da Historia 
genealógica, vol. 5.*, pág. 63o. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 24.«>, fl. 12 v. e liv. 25.», fl, i33. 

(3) Jbidem, liv. 24.°, fl. 12 v. 

(4) Corpo Chronologíco, parte i.", maç. 17, doe. 82. ' 

(5) Chancelaria de D. João 111, liv. 43.% fl. 107 v. 

(6) Chancelaria de D. Manuel^ liv. 25.», fl. i33. 

(7) Chancelaria de D. João 111, liv. 21.°, fl. 10. 

(8) Doações de D. Sebastião e D, Henrique, liv. 6.», fl. 297 v. ' 



Apêndice 3yg 

Faleceu o conde em 1549(1), a 8 de Dezembro (2). 

Armas: de prata, aspa de vermelho carregada de cinco escudetes das 
armas do reino diferençadas por um filete de negro sobreposto em barra .e 
de quatro cruzes floridas de prata, vazias de vermelho, alternando com os 
escudetes. (Portiigais). 

O epitáfio da sua sepultura é o seguinte: 

AQVI lAZ DOM 
FRANCISCO DE 
PORTVGAL CÕDE 
DO VIMIOSO . POR 
AMOR DE DEOS HV PATER 
NOSTER . E HVA . AVE 
MARIA. POR SVA-ALMA 

FALECEO . A . VIII DIAS 
DO MES DE DESEM 
DRO . NO . ANNO DE 
M . D . XL . I.X. 

Na pedra encontram-se estas armas: escudo pendido com uma aspa car- 
regada de cinco escudetes das armas do reino com sete castelos na borda- 
dura, e de quatro cruzes floridas, alternando com os escudetes. Timbre: 
pescoço de cavalo bridado. A 1 1 de Dezembro de 1549 enterrou a irman- 
dade da Misericórdia de Évora, o conde do Vimioso, e deram 10.000 reais 
de esmola (3). 

Casou a i.* vez com D. Brites de Vilhena, filha de Rui Teles de Meneses, 
senhor de Unhão, mordomo mor das rainhas D. Maria e D. Leonor. Não 
chegou D. Brites a ser condessa do Vimioso, e teve só uma filha. 

Casou a 2.* vez em i5i5 com D. Joana de Vilhena, irmã do i." conde 
de Tontúgal. Por alvará de i de Fevereiro de i5i5, dado em Almeirim, foi 
concedida licença a António Carneiro, secretário de el Rei, e notário geral, 
para poder fazer a escritura do casamento entre D. Fra,ncisco e D. Joana de 
Vilhena, com juramento, sem embargo da Ordenação (4). Foi D. Joana 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 57°, fl. 20a 

(2) Ckronica da Graça, vol. 2.°, fl. 258. 

(3) Livro dos de/untos de i54j a i550, fl. 98 v. 

(4) Corpo Chronologico, parte i.», maç. 117, doe. 68, apud Saraiva, Obras, vol. 4.% 
pág. 224. 



38o Brasões 

condessa do Vimioso, e no seu epitáfio se diz ter ela morrido a 24 de Julho 
de 1559(1), mas não pode ser, porque a 9 de Março desse mesmo ano se 
passou um alvará a seus herdeiros para pagamento das suas tenças (2). Não 
há dúvida nenhuma da condessa do Vimioso haver morrido a 29 de Julho 
de 1559, porque assim o declara terminantemente o termo de óbito lançado 
a íi. ii3 V. do liv. 4.° da freguesia de Santo Antão de Évora, hoje no car- 
tório do Seminário; errada está por tanto a data do alvará referido transcrita 
na carta de confirmação citada. 

O epitáfio a que me refiro, a meio do qual figuram as armas da condessa 
iguais às do marido, com a única diferença do escudo ser em lisonja, é o 
seguinte: > * 

AQVI JAZ DONA 

JOANA DE VI LHA 

NA CONDESSA 

DO VIMIOSO POR 

AMOR DE DEOS HV PATER 

NOSTER E HVA . AVE 

MARIA . POR SVA ALMA 

FALECEO . A XXIIII DE 
JULHO DE M . D . L . IX . 
E ACABOV NA . ORDÊ 
DE . SANTO AGOSTINHO 

Ambas estas inscrições estão numa enorme lápida de muito boa pedra, 
estando o epitáfio do conde à esquerda, e o da condessa à direita do espec- 
tador. Guarda-se no museu da Biblioteca de Évora, onde copiei os letreiros 
no dia 22 de Março de 1901. 

Tiveram descendência. 

i.« Conde da VIDIGUEIRA— i5 19, Dezembro 29. — D. VASCO DA 

GAMA, almirante das índias, e do conselho. — Por carta da referida data 
foi criado conde da Vidigueira (3), vila de que Já era senhor por compra 
feita ao duque de Bragança em escritura de 7 de Novembro de i5i9, con- 
firmada de Juro e herdade por el Rei a 17 de Dezembro seguinte (4). Por 



(i) Chronica da Graça, vol. 2.°, fl, 259 v. 

(2) Doações de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 11.», fl. 56 na carta de confirmação de 
tenças ao conde do Vimioso D. Afonso. 

(3) Teixeira de Aragão, Vasco da Gama e a Vidigueira, pág. 258, doe. 24. 

(4) Ibidem, págs. 261 e 267, doe. n.°' 26 e 27. 



Apêndice 38 1 

carta de lo de Janeiro de lõoo havia Vasco da Gama, fidalgo da casa de 
el Rei, sido feito almirante da índia com as preeminências do almirante do 
reino, e lhe havia sido dado o título de dom(i). Em 20 de Janeiro de i52o 
teve carta de assentamento de conde de 102.864 reais (2). 

Vasco da Gama foi nomeado almirante da índia por carta de ip de Ja- 
neiro de i5oo e não de i5o2 como disse na i.* edição; e pela mesma lhe 
foi dado o título de dom e Soo.ooo reais de renda, de juro e herdade. 

Rectificando aquele erro, já tive ocasião de escrever um artigo (3) que 
para aqui trasladarei. 

Por carta de 10 de Janeiro de i5oo, e não de i5o2 como se tem dito, foi 
Vasco da Gama, fidalgo da casa de el Rei, e descobridor do caminho marí- 
timo para a índia, nomeado «Almirante da dita índia com todalas honras, 
preeminências, liberdades, poder, jurisdição, rendas, foros e direitos, que, 
com o dito almirantado, per direito deve haver e os tem o nosso almirante 
destes nossos reinos » (4). ^ 

Qual é a razão por que, sendo este documento de 10 de Janeiro de i5oo, 
se tem sempre posto a data da nomeação de Vasco da Gama para almirante 
em 10 de Janeiro de i5o2, erro em que tambe'm já incorri? Porque a carta 
foi trancada, e riscada se encontra no respectivo registo de chancelaria, e 
«porque se fez outra que se corregeu», e esta tem data de 10 de Janeiro de 
i5o3 (5). Mas, se a primitiva carta de doação foi trancada, não deixou por 
isso de ter desde logo inteiro efeito. 

Será isto que, fírmando-me em documentos, tratarei de provar, depois de 
declarar a causa que motivou a substituição da primeira carta pela segunda. 

Naquela, além do almirantado e do título de dom, doou D. Manuel a 
Vasco da Gama, para êle e todos os seus descendentes, de juro e herdade, 
Soo.ooo reais de renda anual. Para pagamento deles arbitrou-lhe a dízima 
nova do pescado de Sines e de Vila Real de Mil Fontes, computada em 
60.000 reais; e consignou-lhe 100.000 reais nas sisas de Sines, e mais 



(1) Teixeira de Aragão, Vasco da Gama e a Vidigueira, pág. 224, doe. n." 14. 

(2) Brito Rebelo, Navegadores e exploradores poríugue:^es, doe. n.° lxxix. 

(3) O Almirantado da Índia, data da sua criação, no vol. I do Archivo histórico por- 

TUGUEZ, pág. 2 5. 

(4) Carta de 10 de Janeiro de i5oo registada a fl. 3 do liv. 2.° da Chancelaria de D. Ma- 
miei, e impressa na íntegra a pág 28 do eitado Archivo histórico portuguez. 

(5) Imprimiram-na por extenso: Teixeira de Aragão sob o n.° 14 a pág. 224 do seu 
livro Vasco da Gama e a Vidigueira, copiando-a do liv. i," de Misticos, fl. 204; e o General 
Brito Rebelo sob n.» xxxv dos seus Navegadores e descobridores portugueses, a pág. 148 do 
vol. XIII da Revista de educação e ensino, trasladou-a do liv. 3.» das Doações de D. João III, 
fl. 16Õ v. 



382 Brasões 

40.000 nas de Santiago de Cacém; ao todo, 23o.ooo reais. E depois diz: 
« e quanto é aos setenta mil reaes que faliecem pêra comprimento dos ditos 
trezentos mil reaes, nós liios daremos despois em outras Rendas» (i). 

Na segunda carta, a de i5o2, que é em todo o restante idêntica à pri- 
meira, depois de ter D. Manuel consignado as mesmas referidas rendas no 
valor de 280.000 reais para pagamento de parte dos Soo.ooo a Vasco da 
Gama, declara: «e quanto é aos setenta mil reaes que faliecem pêra com- 
primento dos ditos trezentos mil reaes, lhe mandámos logo dar, e assentar, 
assim de juro e herdade, em casa do Paço da Madeira desta cidade de 
Lisboa, e houve dello nossa carta patente » (2). 

Existiria neste período uma falsa asserção, se fosse verdadeira a data de 
ló dé Janeiro de i5o2 posta no documento; mas julgo, que, propositada ou 
inadvertidamente, ela está errada. Assevera a carta que dos 70.000 reais 
que faltavam, já Vasco da Gama houvera carta patente para ser pago no 
Paço da Madeira; ora esta carta é com efeito do ano de i5o2, mas de 2 de 
Maio (3), e portanto não estava passada em 10 de Janeiro. 

Provavelmente João Fernandes (escrivão de Pêro Borges, que o era da 
chancelaria), que no final do registo da primeira carta declara ter ela sido 
com êle concertada (4), isto é, conferida, tinha ordem para inteiramente a 
trasladar, a fim de por ela se fazer a segunda, com a única alteração da 
parte relativa aos 70.000 reais, e levou o servilismo na cópia ao ponto de 
conservar o dia e o mês da data, mudando nesta apenas o ano. 

Em todos os casos, o certo, porque assim o declara a verba posta à 
margem da primeira carta, é que esta, a da primitiva doação feita a D. Vasco 
da Gama, « se riscou, por quanto se fez outra que se corregeu no pagamento 
dos setenta mil reaes para comprimento dos trezentos mil aqui conteúdos, 
que nesta (a primeira) dizia que lhe seriam dados em outras rendas sem 
declarar onde, e na outra que se fez (a segunda), vai declarado onde ha de 



(i) Citada carta de 10 de Janeiro de i5oo. — As palavras que no texto vão em itálico, 
foram substituídas na segunda carta pelas seguintes: lhe mandamos logo dar e ascntar asy 
de juro e derdade em a casa do paaço da madeira desta cidade de Lixboa, e ouve dello nossa 
carta patente (Liv. 1° de Místicos, fl. 204). É pois esta a única diferença que existe entre 
as duas cartas de 10 de Janeiro de i5oo, e 10 de Janeiro de i5o2, no resto absolutamente 
iguais. Esta quási perfeita conformidade em documentos tão extensos desculpa um tudo 
nada a inadvertência com que procederam, confundindo, ou antes, não destrinçando as duas 
.cartas, todos que especialmente trataram do caso mais ou menos directamente. Desculpa 
um tudo nada, repito, e, como já me incluí no rol, ninguém se pode melindrar. 

(2) Místicos, liv. i.», fl. 204. — Vide nota 3 de pág. 294. 

(3) Brito Rebelo, Navegadores e exploradores poríuguei;es, doe. xxxvi. 

(4) Citada carta de 10 de Janeiro de i5oo. 



Apêndice 381 

haver o pagamento dos ditos setenta mil reaes. A qual doação, que assim 
se corregeu, é registada no livro das doações deste anno de 5o2 »(i). 

Foi pois a segunda carta passada unicamente para nela declarar o sitio 
onde Vasco da Gama havia de reber os 70.000 reais, resto da sua renda de 
Soo. 000. Foi só por este motivo, e não porque a primeira carta não tivesse 
ficado desde logo produzindo todo o seu efeito. 

Sabe-se isto com certeza, porque entre 10 de Janeiro de i5oo e igual dia 
de i5o2 encontram-se pelo menos oito documentos, em todos os quais é 
dado a Vasco da Gama o título de dom, o qual lhe havia sido conferido pela 
mesma carta em que lhe fora doado o almirantado da índia. 

Os oito documentos são os seguintes por ordem cronológica: 

I — Carta de 7 de Fevereiro de i5oo, pela qual foi concedida a D. Mar- 
tinho de Castelbranco a satisfação devida pela dizima nova do pescado de 
Sines e Mil Fontes, que cedera a el Rei «pêra o darmos a Dom Vasco da 
Gama » (2). 

II — Carta de 23 de Fevereiro de i5oo, de 4.000 reais de tença a Afonso 
Gonçalves, piloto, pelo serviço feito na Guiné e no descobrimento das índias,^ 
« onde o enviámos com Dom Vasco da Gama » (3). 

III — Carta de 24 de Fevereiro de i5oo, de 5o. 000 reais de tença a Ni- 
colau Coelho, fidalgo da casa de el Rei, pelo serviço feito na viagem e des- 
cobrimento da índia, « onde enviamos Dom Vasco da Gama por capitão 
mór )) (4). 

IV — Carta de i de Fevereiro de i5oi, de privilégios a Álvaro de Braga, 
escudeiro da casa de el Rei, pelos seus serviços, « especialmente no desco- 
brimento da Índia, em que elle foi com Dom Vasco da Gama, fidalgo da 
nossa casa e do nosso conselho » (5). 

V — Alvará de 22 de Fevereiro de i5oi, de mercê «a Dom Vasco da 
Gama, do n"osso conselho, de mil cruzados" de oiro em cada anno, alem dos 
trezentos mil reaes de renda que lhe temos dado » (õ). 



(i) Vide verba à margem da citada carta de lo de Janeiro de i5oo. E advertirei que 
todo o livro da chancelaria, onde a segunda carta foi registada, ou pelo menos a parte dele 
onde o registo ficou, desapareceu. Existe contudo copiada no liv. i.» de Místicos, a fl. 204, 
e trasladada no liv. 3." da Chancelaria de D. João III (como ficou já dito) e ainda noutras 
partes. 

(2) Esta carta encontra-se registada a fl. 11 v. do liv. i3.» da Chancelaria de D. Manuel, 
e impressa na íntegra a pág. 3o do vol. I do Archivo histórico portuguez. 

(3) Brito Rebelo, Navegadores e exploradores portugueses, doe. xiv. 

(4) Ibidem, doe. n." xxvi. 

(5) Ibidem, doe. xv, e Teixeira de Aragão, Vasco da Gama e a Vidigueira, doe. n.» i5, 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. 38.», fl. 90; Archivo histórico portuguez, vol. I, 
pág. 3i, onde vem impresso na íntegra. 



384 Brasões 

VI — Carta de 29 de Março de i5oi, de perdão a Álvaro Afonso, que 
entrara num « arruido que sobre razões houveram uns criados de Dom Vasco 
da Gama » (i). . . 

VII — Carta de 25 de Setembro de"i5oi, de padrão de cruzados de oiro 
-de tença pela vila de Sines a «Dom Vasco da Gama do nosso conselho» (2). 

VIII — Carta de 5 de Outubro de i5oi, de 5o. 000 reais de tença a 
D. Catarina de Ataíde, « mulher de Dom Vasco da Gama, do nosso con- 
selho » (3). 

Parece-me por tanto não poderem restar dúvidas, de que a carta de 10 
de Janeiro de i5oo teve logo todo o seu efeito, e que desde então passou o 
descobridor da índia, de simples fidalgo da casa de el Rei, a ser D. Vasco 
da Gama, almirante da índia. 

E é preciso também fazer neste ponto justiça a D. Manuel, mostrando 
que ele não foi tão remisso, como se tem dito, em dar ao intrépido nave- 
gador o justo prémio da sua arrojada façanha. Menos de meio ano depois 
do seu regresso a Lisboa, recebia Vasco da Gama generosa paga do seu ser- 
viço. 

Morreu em Cochim, sendo vice rei da índia e com mais de setenta anos, 
na noite de 24 para 25 de Dezembro de 1524(4). 

Armas: enchequetado de oiro e vermelho de três peças em faxa e cinco 
em pala, sendo as vermelhas carregadas cada uma de duas faxas de prata; 
e no ponto de honra do escudo um escudete de prata carregado de cinco es- 
cudetes de azul postos em cruz, e sobrecarregados cada um de cinco besantes 
de prata. Timbre: naire nascente, vestido ricamente ao modo da índia, de 
brocado com alamares de pedraria, na cabeça trunfa e bolante, que cai pelas 
costas, tudo do mesmo brocado guarnecido de pedraria, os braços nús, segu- 
rando com a dextra um escudete das armas, e com a sinistra um ramo de 
canela da sua cor. (Gama) (5). 

Casou depois de Setembro de 1499, na volta do descobrimento da índia, 
por isso que quando partiu era solteiro (6j, e antes de 5 de Outubro de i5oi, 
com D. Catarina DE Ataíde, filha de Álvaro de Ataíde e irmã de Nuno 
Fernandes de Ataíde, que nela, sendo já casada, trespassou uma tença de 
5o. 000 reais, o que el Rei aprovou por carta da referida data, 5 de Outubro 



(i) Brito Rebelo, Navegadores e exploradores portugueses, doe. xvii. 

(2) Teixeira de Aragão, Vasco da Gama e a Vidigueira, doe. n."» i3, É a carta de con- 
firmação do alvará acima citado na nota. 

(3) Brito Rebelo, Navegadores e exploradores portugueses, doe. lxxi. 

(4) Teixeira de Aragão, Vasco da Gama e a Vidigueira, pág. 141. 

(5) Livro da Torre do Tombo, fl. 18 v. O T. é um gamo. Vide Armaria. 

(6) Chronica de D. Mamiel, parte i/, cap. aS. 



Apêndice 385 

de i5oi (i). Foi D. Catarina condessa da Vidigueira, e sobreviveu a seu 
marido, tanto que por escritura de i5 de Julho de 1529 comprou para si e 
seus filhos ^menores um juro de Soo.ooo reais, do qual se lhe deu carta de 
padrão em 4 de Outubro de i53o(2). Era a condessa já falecida a 26 de 
Junho de i536, e parece ter morrido no ano antecedente (3). Já era falecido 
a 3 de Fevereiro de i532 data da carta de certa mercê a Paulo Nunes Es- 
taco, a qual lhe foi feita por respeito da condessa da Vidigueira que Deus 
perdoe (4). 

i.° Marquês de TORRES NOVAS— 1620, Março 27. — D. JOÃO, 
sobrinho de el Rei, filho maior e herdeiro de D. Jorge, mestre de Avis e 
Santiago, e duque de Coimbra. — Por carta dá referida data foi feito mar- 
quês de Torres Novas D. João de Lancastre (5), a quem, por outra de 29 
de Maio do mesmo ano, foram dados 400.000 reais de assentamento com o 
titulo de marquês (6). 

Era o i.° duque de Aveiro em i535. Vide. 

5.° Duque de BEJA — Anterior a i3 de Dezembro de i52i. — Infante 
D. LUÍS, filho do 4.° duque, el Rei D. Manuel, que morreu na data apon- 
tada, tendo criado a seu filho duque de Beja', título de que só se lhe passou 
carta em 5 de Agosto de 1527(7). 

Morreu o duque sem geração legítima á 27 de Novembro de i555. 

Armas: as do reino com oito castelos na bordadura, e diferençadas 
por um banco de pinchar de prata de três pés, tendo sobre o primeiro 
um quadrilongo em ar de brica, o qual é esquartelado" de vermelho e 
prata, no vermelho castelo de oiro, e na prata leão de púrpura coroado de 
oiro (8). 



(i) Brito Rebelo, Navegadores e exploradores portuguei^es, doe. n.° lxxi. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 41.°, fl. 97. 

(3) Ibidem, liv. 21.°, fl. i55, onde se encontra uma carta de i3 de Julho de i536 de con- 
firmação de certa tença a uma filha da condessa. Neste documento está transcrita uma 
certidão de 26 de Junho do mesmo ano com o teor de uma verba da partilha que se havia 
feito por morte da condessa; e da confirmação consta que a filha já recebera toda a tença 
do ano de i536. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 16.°, fl. 54 v. 

(5) Místicos, liv. 6.», fl. 5i. Notarei que D.João foi o primeiro de sua família que usou 
do apelido de Lancastre, com o qual alguns autores já nomeiam a seu pai. É engano; este 
nunca usou de apelido, e nomeou-se sempre D. Jorge, somente. 

(6) Ibidem, fl. 53 v. 

(7) Historia genealógica^ vol. III, pág. 358 e Provas, vol. 5.°, pág. 2:. 

(8) Livro da Torre do Tombo, fl. 7 v. 

VOL. in 49 



386 Brasões 

2° Corfde do REDONDO — Antes de 4 de Setembro de i523.— D. JOÃO 
COUTINHO, do conselho de el Rei, capitão de Arzila. — Por uma carta 
de 10 daquele mês lhe foi confirmado o condado do Redondo em sucessão 
a seu pai(i), e por outra do mesmo dia a capitania de Arzila (2). Com os 
títulos de conde e de capitão já seis dias antes lhe havia sido feita uma con- 
firmação de privilégios nas vilas do Redondo e Pavia (3). A carta de assen- 
tamento de 102.864 reais foi-lhe passada em 6 de Julho de i526, e no fim 
dela se declara, que os três anos de i523, 24 e 26, que lhe eram devidos 
lhe foram pagos por um alvará (4). Por aqui parece que D. João Coutinho 
fora conde do Redondo já durante todo o ano de i523, o que pÕe a morte 
do conde de Borba seu pai, em princípios dêsrte ano, ou fins do precedente. 
O conde do Redondo era falecido em i de Janeiro de 1Õ49, pois que desde 
esse dia se começou a contar o assentamento de conde p^ra seu filho (5). 
Morreu a 27 de Setembro de 1548(6). ' 

Armas: de oiro, cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. (Coutinho). 

Casou com D. Isabel Henriques, filha de D. Fernão Martins Mascare- 
nhas, capitão dos ginetes. « A nós enviou ora dizer D.Vasco Coutinho, conde 
do Redondo, que elle tiilha concertado de casar seu filho D. João Coutinho 
com D. Isabel Henriques, filha de D. Fernando Mascarenhas, capitão que 
foi dos ginetes, e entre as condições de seus contractos assim era que falle- 
cendo D. João, primeiro que ella D. Isabel, em tal caso houvesse de arras 
5.000 coroas, pedindo-nos que para segurança lhe queria obrigar os 
108.000 reaes de tença que tem assentados em Estremoz por carta geral, etc. 
Carta de licença, com tal entendimento, que só no caso de pelos bens mo- 
veis de D. João não pudesse ella ser paga das arras, etc. Lisboa, 10 de 
Março de i5o3 » (7). Por carta de 9 de Março de i5o3 foram seguradas as 
arras de D. Isabel (8), que foi condessa do Redondo, como consta de uma 
carta de seu marido a el Rei, datada de Santarém em 6 de Dezembro do 
ano de 1541 (é o que parece), na qual se refere a sua mulher e filhos, e em 
que agradece a el Rei o tê-lo mandado visitar e curar por Leonardo Nunes (9). 

Tiveram descendência. 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 36.», fl. i53. 

(2) Ibidem, liv. 3.°^ fl. 174. 

(3) Ibidem. 

(4) Ibidem, liv. 36.", fl. 1^2. 

(5) Ibidem, liv. 61.°, fl. 100 v. 

(6) Ibidem, liv. i5.°, fl. 129 v., verba à margem. 

(7) Chancelaria de D. Manuel, liv. 2i.°, fl. 9. 

(8) Ibidem. 

(9) Corpo Chronotogico, parte i.", maç. 71, doe. 27. 



Apêndice 387 

S.» Marquês de ViLA REAL — Em i523, ou 24. — D. PEDRO DE 
MENESES, conde de Alcoutim^ filho do 2.° Marquês. — Sucedeu D. Pedro 
a seu pai, que dizem ter morrido em i623; contudo a carta mais antiga, em 
que o encontro com o titulo de marquês, é na de 5 de Novembro de 1624 
de confirmação das rendas de Tavira (i); numa apostila porém que se pôs 
em seguida a esta carta, e que se refere não só a ela, mas também às pre- 
cedentes de outras confirmações ao mesmo D. Pedro, se lhe mandam pagar 
as tenças, em que sucedeu a seu pai, só do ano de ibib em diante, pelo que 
parece que a morte teria tido lugar em i524. Frei Luís de Sousa, repor- 
tando-se decerto a um documento, que com tudo ainda não encontrei, diz que 
em 6 de Março de 1624 já o conde de Alcoutim D. Pedro era marquês de 
Vila Real (2). Foi o 5.° capitão de Seuia, que exercitou em vida de seu 
pai nos anos de i5i2 a i5i7, e de que teve depois a posse. Foi também 
5.° conde de Vila Real, e 3.° de Valença. 

Morreu o marquês em fins de Junho de 1643 (3). 

Armas; esquartelado: o i.° e 4.° as do reino diferençadas por um filete 
de negro sobreposto em banda; o 2.° e 3.° de vermelho, castelo de oiro, o 
campo mantelado de prata com dois leÕes afrontados de púrpura, armados 
e linguados de vermelho, bordadura de escaques de oiro e veiros de dezoito 
peças. Sobre o todo, escudete cortado de um traço, partido de dois,-o que 
faz seis quartéis: o i.° de azul, estoque de prata, empunhado de oiro, posto 
em pala; o 2.°, 4.° e 6.° de oiro, quatro palas de vermelho; o 3.° e 5.° de 
oiro, dois lobos passantes, sotopostos, de púrpura. Sobre o todo e do todo, 
de oiro liso. Timbre: um dos lobos nascentes. (Meneses). 

Casou em i52o, precedendo contracto de i5 de Setembro (4), com 
D. Beatris, filha única do condestável D. Afonso e da condestableza D. Joana 
de Noronha. Numa carta de 10 de Agosto de i5i5 escrita pelo 2.° marquês 
de Vila Real a sua irmã D. Joana de Noronha, se fez já referência ao casa- 
mento do filho do marquês com a filha de D. Joana (5). 

Foi D. Beatris condessa de Alcoutim e marquesa de Vila Real, e ainda 
vivia em 17 de Novembro de 1541 (6), e em 3i de Agosto de 1540(7). 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 5o.°, fl. 35 v. 

(2) Annaes de D. João III, pág. 114. 

(3) Consta da carta de assentamento de marquês a seu filho, a qilal está a fl, 1Z2 v. do 
liv. 55.0 da Chancelaria de D. João III. 

(4) Ibidem, liv. 39.°, fl. 41. 

(5) Corpo Chronologico, parte i.", maç. 18, doe 43, apud Saraiva, Obras, vol. 4.°, pág. 235, 

(6) Livro i." dos Brasões, pág. 225. 

(7) Numa escritura de venda feita pelo mui ilustre príncipe e muito ilustre princesa, o 
marquês e a marquesa {Chancelaria d ; D. João III, liv. 40.°, fl. 241). 



388 Brasões 

Vide 2.° conde de Alcoutim e os dois seguintes artigos. 
Tiveram descendência. 

5.» Conde de VILA REAL — Em i523, ou 1624.— D. PEDRO DE 
MENESES, conde de Alcoutim. — Sucedeu ao marquês seu pai no condado 
de Vila Real, do qual teve carta de confirmação em 6 de Agosto de i534(i). 
Pelo teor desta carta parece ter D. Pedro sucedido no condado directamente 
a seu avô, mas não, porque nela própria se diz que D. Pedro haverá o condado 
tirando a renda da judiaria, que o marquês seu pai tivera na vila, o que prova 
que este houvera a posse do senhorio ao qual andava anexo o condado. 

Vide 3." marquês de Vila Real. 

3.° Conde de VALENÇA — Eni i523, ou 1524. — D. PEDRO DE ME- 
NESES, marquês de Vila Real, conde de Alcoutim. — Por carta de 6 de 
Novembro de 1624, na qual já é intitulado conde de Valença, foi-lhe confir- 
mado este condado em que sucedera logo por morte de seu pai na confor- 
midade da carta de 12 de Dezembro de 1499(2), já citada. 

Foi 3.° marquês de Vila Real. Vide. 

i.° Conde de LINHARES — Em i525, Outubro 20. — D. ANTÓNIO, 
primo de el Rei, e seu escrivão da puridade. — Na referida data, por uma 
carta passada em Torres Novas, foi D. António de Noronha feito conde de 
Linhares, revogando el Rei o privilégio que a vila tinh^ de não ser dada em 
senhorio e ser realenga (3); por outra lhe foi feita doação da jurisdição da 
mesma vila, de que ora lhe fora dado o titulo de conde (4); e finalmente por 
um alvará de lembrança lhe foi feita a mercê de por sua morte lhe suceder 
no título e jurisdição da vila seu filho maior ao tempo de seu falecimento (5). 
Antes de ser conde tinha já, desde o primeiro de Janeiro de i5i8, 160.000 reais 
de assentamento (6), a que el Rei acrescentou mais 1 10.000, elevando-Ihe a 
pensão a 270.000 reais por carta de 26 de Agosto de 1527(7). A 7 de 
Agosto de 1614 havia escrito, do convento de Nossa Senhora da ínsua da 
vila de Caminha, o marquês de Vila Real uma carta a el Rei reprochando-lhe 



(i) Confirmações Geraes, liv. 5.", fl. 94 v. 

(2) Chancelaria de D. João II J, liv. 5o.°, fl, 33. 

(3) Gaveta 2, maç. 4, n.° 28. Vide um documento era Saraiva, Obras, vol. 4.», pág. 23o, 
n.» 3, pág. 234, n.° 40, e pág. 236, n.» 68. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 36.°, fl. 40 v. 

(5) Gaveta 2, maç. 4, n.° 28. 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. i8.°, fl. ai. ^ 

(7) Chancelaria de D. João III, liv. 14.», fl. 193 r. 



Apêndice 389 

com bastante inteireza, não ter ainda feitg conde a seu irmão D. António 
«com os dentes britados, e os narizes cortados, por serviço de Deus e vosso», 
e que era escrivão da puridade e oficial mui familiar de S. A. E tanto mais 
lho exprobrava, por quanto el Rei fizera então conde de Vila Nova ao seu 
camareiro mor(i). A resposta de D. Manuel a eista carta do marquês está 
na Biblioteca de Évora (2). D. Manuel, a quem a linguagem do marquês 
devia ter desagradado, não se convenceu, e nunca em sua vida teve D. An- 
tónio o título; foi porém seu escrivão da puridade, e parece que nomeado 
no ano de i5o3, pois que por carta de 28 de Abril lhe foi mandada pagar, 
desde o primeiro de Janeiro precedente, certa tença com o referido ofício (3). 
Na 3.* parte do Corpo chronologico, maç. 2.°, doe. 26, existe a minuta da 
carta de nomeação de D. António para escrivão da puridade, declarando-se 
em letra do tempo, que a carta foi passada em Sintra a 22 de Setembro de 
i5o2. Continuou com êle no reinado de D. João III, que em i52i nomeou a 
D. António provedor mor da rendição dos cativos (4). Por carta de 16 de No- 
vembro de i525 foi D. Miguel da Silva nomeado escrivão da puridade «como 
todo tinha e de todo usava dom António que foi escrivão da puridade etc. ». 
Morreu o conde de Linhares a 10 de Março de i65i(5) com oitenta e 
sete anos (6). 



(i) Gaveta i8, maç. 5, n.<» i. 

(2) A resposta de el Rei D. Manuel a esta carta de agravos do marquês de 7 de Agosto 
de i5i4 acima indicada, é a seguinte: «Honrado Marquez, primo, amigo, nós el-rei vos en- 
viamos muito a saudar, como aquelle que muito presamos. Vimos a carta que nos escrevestes 
sobre o que toca a D. António vosso irmão, e certo que todas as coisas, que por ella ngs 
lembrais, assim largamente como por ella o fizestes, nós não somos esquecidos, ante,s muito 
lembrado; nem os grandes merecimentos do Marquez vosso pai que Deus haja, que nos lem- 
braes, e os vossos té os de D. António, e a boa vontade que sempre vos tivemos e temos, nos 
poderão dar para outra coisa logar. E neste caso de D. António temos feito tudo aquillo, que 
nos pareceu que deviamos pelo que a nós toca, pelo que é razão que acerca de vós e de vossos 
irmãos façamos; e tanto, como alguma hora podereis saber, e como por nenhuma outra 
pessoa fizéramos, nem vos pareça que até aqui houve outro maior impedimento, para todo 
o que toca ao bem e descansso de D. Antonio,^que sua grande e desarrazoada paixão. Pêro 
comtudo não nos abastava o que temos feito, mas pelo vosso, e pela boa vontade que a vós 
e a elle temos, ainda folgaremos de fazer mais todo o que com. razão devemos, e tanto que 
o não faríamos pela ventura por nem huma outra pessoa, nem nos parece agora que a esta 
carta vossa convém outra mais resposta. Escripto em Lisboa a 3o de agosto Ag.° (síc) o 
secretario o fez. El Rey». Bibliotheca de Évora, Cód. ^^, fl. i33. Vide Catalogo, vol. 2.% 
j)ág. 178. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 22.°, fl. 73 v. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 47.°, fl. i5o. 

(5) Gaveta 2.% maç. 4, n. 28. 

(6) Ceo aberto, pág. 484. 



3 90 Brasões 

Armas: esquartelado: o i.** e 4.° as do reino diferençadas por um filete 
de negro sobreposto em banda; o 2.° e 3.° de vermelho, castelo de oiro, o 
campo mantelado de prata com dois leões afrontados de púrpura, armados 
e linguados de vermelho^ bordadura de escaques de oiro e veiros de dezoito 
peças. Timbre: um dos leÕes, nascente. (Noronha). 

Casou com D. Joana da Silva, filha dos 1.°* condes de Portalegre. Por 
este documento também consta que por aqueles tempos se celebrara o casa- 
mento de D. António, por isso que o ofício de escrivão da puridade lhe fora 
dado em dote pelo sogro. Foi D. Joana condessa de Linhares, e morreu 
com setenta anos em Outubro de i554(i). ' 

Tiveram descendência. 

i.° Conde do PRADO— i525, Novembro 22. — D. PEDRO DE SOUSA, 

do conselho de el Rei. — Por duas cartas daquela data foi-lhe dado em sua 
vida o senhorio da vila e terra do Prado, e foi feito conde da mesma vila (2); 
e por uma terceira de 17 de Dezembro de i526 se lhe concedeu o assenta- 
mento de 102.864 reais (3). Era senhor de Beringel, que lhe foi confirmado 
por sucessão a seu pai em 22 de Abril de 1499 (4). E este o mais antigo 
documento em que o tenho encontrado com o título de dom, do qual 
me não consta a data da concessão, e nem mesmo sei se não seria 
tomado por arbítrio próprio. Já apareceu com o título de dom na carta 
de 26 de Março de 1494 de 40.000 reais de tença (5). Foi capitão de 
Azamor e Alcácer Seguer. A 27 de Fevereiro de 1622 foi-lhe confirmada 
a carta da alcaidaria mor de Beja, em que lhe sucedeu seu neto por sua 
morte, que foi anterior a 16 de Setembro de i555, data da carta de confir- 
mação da sucessão (6). 

Morreu a i3 de Março de i555; assim o declara a carta de padrão de 
i3o.ooo reais de tença ao neto D. Diogo de Sousa, carta que fai passada a 
2 de Agosto de i555 (7). 

Armas: esquartelado: o 1.° e 4.** de prata, cinco escudetes de azul postos 
em cruz e carregados cada um de cinco besantes do campo; o 2.° e 3.° de 
prata, leão de púrpura, armado e linguado de azul. (Sousa). 



(i) Ceo aberto, pág. 484. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 36.°, fls. 187 e 188 v. 

(3 ) Ibidem, fl. 1 79. 

(4) Confirmações geraes, liv. 3.°, fl. i85 v. 
(4) Livro i.° dos Brasões, pág. ai 3. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 54.°, fl. 1 17 v. 

(7) Ibidem, n. 81. 



Apêndice 39 1 

Casou a i.* vez antes de Abril de 1487(1) com D. Mecia Henriques, 
filha do coudel mor Fernão da Silveira. D. Mecia não foi condessa. 

Casou a 2.* vez antes de 25 de Setembro de i5o5(2) com D. Margarida 
DE Brito, filha herdeira de Estêvão de Brito, alcaide mor de Beja, alcaidaria 
que D. Pedro de Sousa por este casamento veio a possuir. Não sei se 
D. Margarida chegou a ser condessa, mas sei que por adúltera morreu às 
mãos do marido depois de 6 de Janeiro de i5o8(3). 

Casou a 3.* vez com D. Joana de Melo, filha do dr. João Afonso de 
Aguiar, provedor de Évora. Não sei se foi condessa. Num documento de 
i56i há referência a uma condessa do Prado, que não pode ser outra senão 
esta (4). 

AQVI . JAZ . A MVI . MANIFÍC-^ . SRA . DONA . JOANa'. DE . MELLO 

COMDESA . DE PRADO . MOLHER . QVE . FOI . DO . MVI . MA - 

NIFICO . SÓR . DOM . PEDRO . DE . SOVS A . COMDE . DE . PRADO - 

Q . DEI XOV . ESTA . CASA . HVA • ERD ADE . EM . MACHEDE . CÓ . OBRIGVACÃO 

DE . HVA . MIS A . COTI DIANA . E HV . NOTVRNO . DFINADOS . ACABA 

DAS . AS . MATINAS . DAS ,. FESTAS . FA LECEO . II . D . NOVEBRO . DE . 1 53 I . 

Estava no demolido convento de S. Domingos de Évora, e guarda-se 
hoje no museu do passeio da mesma cidade. Não tem armas nem ornatos 
nenhuns. Copiado a 3 de Abril de 1901. Passou depois para o museu da 
Biblioteca Eborense. 

Só do i-.° casamento hoave descendência. 

3." conde de ALCOUTIM — De fins de i525 a princípios de i528. — 
D. MIGUEL DE MENESES, filho sucessor do 3.» marquês de Vila Real. 
— O marquês a 12 de Setembro de i525 ainda se intitulava conde de Alcou- 
tim (5); a 28 de Abril de i528 já largara o título (6). 

Armas: as do i.° conde de Alcoutim. (Meneses). 

O conde de Alcoutim foi 4.° marquês de Vila Real em i543. 

Vide. 



(i) Nota na pág. 21 5 do Livro /.• dos Brasões. 

(2) Data da carta de alcaide mor de Beja^ em que sucedeu ao finado sogro (Chancelaria 
de D. João III, liv. 54.», fl. 1 17 v). 

(3) Data da carta de padrão de certa tença a D. Margarida {Ibidem, liv. 3.", fl. 101). 

(4) Documentos de Évora, vol. 2°, pág. 191, n." 63. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 8.°, fl. 1 17 v. 

(6) Ibidem, liv. 14.», fl. gS. 



392 Brasões 

2.» Conde da VIDIGUEIRA — 1 626, antes de 4 de Maio.—. D. FRAN- 
CISGO DA GAMA, filho do i." conde. — Por carta do referido dia, na 
qual Já é intitulado conde, foi-lhe confirmado o oficio de almirante do mar da 
índia (i). Foi este conde que começou a edificação do palácio no largo de 
S. Roque, para" o que D. João III lhe fizera mercê em 15^3 do uso e ser- 
ventia do muro e das duas torres, que estavam ao postigo de S. Roque, 
para poder nelas edificar casas ou fazer outras quaisquer bemfeitorias o que 
foi confirmado, por se haver perdido a primitiva, por outra carta de 5 de 
Março de i563 (2). Por então começaram as obras, por isso que, por alvará 
de 3 de Maio de i565, foi aprovado por el Rei o contracto celebrado entre 
os oficiais da câmara de Lisboa, o prior e frades da Trindade, e o conde 
Almirante, com a declaração de que a torre, que estava no centro do muro 
defronte do mosteiro de S. Roque, esteja sempre tapada, de maneira que 
por ela se não sirva o conde, para de lá não descobrir os mosteiros de 
S. Roque, e dá Trindade (3). 

Morreu o conde a 8 de Janeiro de 1567(4). 

Armasi as do i.° conde seu pai. (Gama). 

Casou com D. Guiomar de Vilhena, condessa da Vidigueira, filha do 
i.° conde do Vimioso. Em 3 de Janeiro de i53o fez el Rei mercê à con- 
dessa da Vidigueira, pelos serviços de seu pai o conde do Vimioso, de uma 
.tença de 100.000 reais (5). Escreveu um livro místico, que dizem ter sido 
impresso. Dizem taníbém que morreu a condessa em i585; o certo porém 
é ser já falecida em 16 de Junho de lôgo, data da verba em que se declara 
ter ela disposto da referida tença em seu testamento (6). 

Tiveram descendência. 

i.« Duque de BARCELOS — 1627, Fevereiro. — D. TEODÓSIO, filho 
primogénito do 4.° duque de Bragança. — Seu pai foi, como fica dito, auto- 
rizado por alvará de 3 de Abril de i526 a dar, do mês de Fevereiro do ano 
seguinte em diante, qualquer dos seus títulos ao seu primogénito (7). Ainda 
que na casa houvesse só o título de conde de Barcelos, e não o de duque, 
foi contudo deste que o presuntivo sucessor usou, pois que com êle se en- 



(i) Doações de D. Sebastião é D. Henrique, liv. 28.°, fl. 7. 

(2) Ibidem, liv. 12.°, fl. i25. 

(3) Ibidem, liv. 16.», fl. 290. 

(4) Ibidem, liv. 23.", fl. 7. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 43.°, fl. 1 18 v. 

(6) Ibidem. 

(7) Provas da Historia genealógica, vol. 4.», pág. 78, n.» 120. 



Apêndice SgS 

contra nomeado no já citado instrumento de concerto celebrado em 21 de 
Dezembro de i532 com a madrasta, perante o moribundo pai. 
Foi o 5.° duque de Bragança em i532. Vide. 

3.° Conde de MONSANTO — 1 628, Agosto 19. — D. PEDRO DE 
CASTRO, do conselho de el Rei. — Foi feito conde de Monsanto por carta 
da referida data(i). Sucedera na casa a sua mãe D. Joana de Castro, a 
quem foram confirmados os senhorios de Cascais a 18, e de Monsanto a 19 
de Abril de 1496(2), em sucessão a seu irmão o 2.° conde de Monsanto. 
A D. Pedro foram confirmadas as referidas vilas em 18 de Abril de i5i9(3). 
Foi do conselho, vedor da fazenda, caçador mor, fronteiro mor e alcaide 
mor de Lisboa, e morreu a 6 de Fevereiro de 1529(4), ano em que, a 22 de 
Abril, já era confirmado o senhorio de Monsanto a seu filho D. Luís de 
Castro (5). 

Armas: de prata, seis arruelas de azul. (Castro). 

Casou a i.* vez com D. Joana de Meneses, filha de D. Fernando de Me- 
neses, o Nari\eSj degolado em Setúbal em 1484. Este primeiro casamento 
já estava feito em 22 de Março de 1492, data de uma carta em que el Rei 
houve por bem em emancipar os irmãos de D. Joana, todos menores, afim 
de poderem dar seu consentimento ao contracto do casamento, já efectuado, 
de sua irmã com D. Pedro de Castro (6). D. Joana era já falecida em 14 
de Maio de 1497 como consta de uma carta de padrão daquela data a sua 
mãe D. Isabel, por quanto a dita D. Joana sua filha era falecida e fora sua 
herdeira (7). Também se vê que não ficaram filhos deste casamento. 

Casou a 2.* vez com D. Inês de Aiaia, condessa de Monsanto, filha dos 
i."^ condes de Portalegre. Sobreviveu a condessa a seu marido, como consta 
do epitáfio em Penhalonga. 

Do segundo casamento houve descendência. 

5."* Condes de MARIALVA e 3." de LOULÉ— i53o, em Março, antes 
de 23. — D. GUIOMAR COUTINHO, filha do 4.° conde de Marialva e 
2.* de Loulé, e mulher do infante D. Fernando, duque da Guarda, conde 
de Marialva e Loulé. — Numa procuração passada por D. Guiomar na data 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 14.°, fl. i85. 

(2) Místicos, liv. 8.», fls. 294 e 290 v. 

(3) Beira, liv. 3.», fl. 140 v., e Exíremadura, liv. 12.°, fl. 87. 

(4) Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 140. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 16.", fl. 177 v. 

(6) Místicos, liv. 2.°, fl. 293 v. 

(7) Chancelaria de D. João III, liv. 3.°, fl. 120 v. 

VOL. III 5o 



5^4 Brasões 

referida já ela se intitulava infanta, duquesa e condessa (i). O condado de 
Marialva foi-lhe porém confirmado só por carta de 4 de Setembro de i53o(2), 
e o de Loulé, ainda em vida de sua mãe, e com sua anuência, em i de 
Novembro do mesmo ano (3). Foi infanta e duquesa da Guarda pelo seu 
casamento. 

Armas: em lisonja, partido: ao i.° as do duque da Guarda; ao 2.° de 
oiro cinco estrelas de cinco pontas de vermelho. (2.° Coutinho). 

Gasou em Março de i53o com o Infante D. Fernando, duque da 
Guarda. 

Vide duque da Guarda. 

Duque da GUARDA— i53o, Março. — Infante D. FERNANDO, conde 
de Marialva e Loulé. — Numa sua procuração de i3 do mês e ano referidos 
ainda se não intitula duque nem conde, porém sua mulher a 23 do mesmo 
mês já era duquesa e condessa (4). A carta de duque da Guarda de juro e 
herdade só lhe foi passada a 5 de Outubro daquele ano, porém nela se 
declara, que no contracto do seu matrimónio ficara determinado fazê-lo duque 
da Guarda logo que o casamento se efectuasse (5), Foi pois o infante duque 
da Guarda desde este acto. No mesmo ano foi feito senhor das vilas de 
Trancoso, Sabugal, Alfaiates e Abrantes (6), alcaide mor da cidade de 
Lamego, e das vilas de Trancoso e Marialva (7), além de várias outras mercês, 
incluindo as confirmações a sua mulher de toda a grande casa dos sogros. 
A 3 de Outubro de i534, em Abrantes, morreu-lhe, criança ainda, o último 
filho; a 7 de Novembro, na mesma vila, faleceu o duque; e a 9 de Dezembro 
finou-se a duquesa. Em dois meses, na mesma terra, extinguiu-se completa- 
mente esta casa. 

Armas: as do reino diferençadas por um banco de pinchar de prata de 
três pés, tendo no primeiro um quadrilongo esquartelado de vermelho com 
um castelo de oiro, e de prata com um leão de púrpura coroado de oiro; o 
no terceiro noutro quadrilongo em campo de oiro quatro palas de ver- 
melho (8). 

Casou em princípios de Março de i53o com D. Guiomar Coutinho, con- 



(i) Gaveta 9.*, maç. 5, n.» 28. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. Sg.», fl. 108 v. 

(3) Ibidem, fl. 88 v. 

(4) Gaveta 9.*, maç. 5, n.° a8. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 39.°, fl. 108 v. 

(6) Ibidem, fls. 106 e ii3 v. 

(7) Ibidem, fl. io3. 

(8) Livro da Torre do Tombo, fl. 8. 



Apêndice 3g5 

dessa de Marialva e Loulé, e pelo seu casamento infanta e duquesa da 
Guarda. Em fins de Fevereiro ainda D. Guiomar era solteira (i); a i6 de 
Março Já o infante passava uma procuração para tomar posse das igrejas 
que haviam sido do sogro (2). 

Morreu a infanta como fica dito, a 9 de Dezembro de i534. 

Vide 5.°* condes de Marialva e 3.°* de Loulé. 

i." Conde da CASTANHEIRA — 1 532, Maio i. — D. ANTÓNIO DE 
ATAÍDE, senhor da Castanheira, Povos e Cheleiros, do conselho, vedor da 
fazenda. — Foi feito conde da Castanheira por carta da referida data (3), e 
por outra de 12 do mesmo mês se lhe deram de assentamento 102.864 reais (4). 
Era senhor das terras da Castanheira, Povos e Cheleiros, que de juro e 
herdade haviam sido confirmadas em sucessão a seu pai por carta de 19 de 
Junho de 1622 (5). Apesar da carta o não declarar, não foi em sucessão a 
seu pai que ele houve as terras. Sucedeu nelas a seu sobrinho D. Fernando, 
filho de seu meio irmão D. Pedro. A D. Fernando havia sido confirmada 
em 3o de Abril de 1609 a jurisdição daquelas terras, como legitimo sucessor 
por ser neto de D. Álvaro de Ataíde (pai do conde). E na confirmação das 
mesmas jurisdições a D. António de Ataíde, em i de Janeiro de i526, se 
declara que por falecimento do dito D. Fernando, a ele D. António vieram 
as ditas vilas pela doação e mercê que el Rei delas lhe fizera (6). Foi muito 
aceito a D. João III, que por carta de 11 de Abril de i53o o havia nomeado 
vedor da fazenda (7). 

Morreu o conde da Castanheira a 7 de Outubro de i563 (8). 

Armas: de azul, quatro bandas de prata. 

Casou com D. Ana de Távora, filha de Álvaro Pires de Távora, senhor 
do Mogadouro. Já estava casado em i de Outubro dè 1 554, quando D. An- 
tónio de Ataíde, conde da Castanheira, vedor da fazenda, e a condessa 
D. Ana de Távora, apresentaram o compromisso de morgado feito por 
D. Violante de Távora, mãe de D. António, e na data apontada obtiveram 
confirmação e aprovação régia. O morgado era da quinta da Foz de Bena- 



(i) Gaveta 9.% maç. 10, n.» 14. 

(2) Gaveta g.% maç. 5, n.» 28. 

(3) Chancelaria de D. João III, Iím. 16°, fl. 53. 

(4) Ibidem, fl. 61. 

(5) Ibidem, liv. 36.°, fl, i, e liv. 72.», fl. 86 v. 

(6) Ibidem, liv. 6.», fl. 36 v. 

(7) Ibidem, liv. 42.°, fl. 94. 

(8) Escola de penitencia, pág. i35, e Chronica Seraphica, parte 4.*, pág. 166. 



396 Brasões 

vente (i). Foi condessa da Castanheira, e morreu a 2 de Dezembro de 
1590(2). 

Tiveram descendência. 

i.« Conde da SORTELHA — Antes de 8 de Junho de 1 532. — Nos 
Anaes de D. João III transcreveu Frei Luís de Sousa na pág. 875 uma carta 
de Carlos V ao seu embaixador em Lisboa dando-Ihe ordem para declarar 
a D. João III que folgara muito com a mercê que este fizera a Luís da Sil- 
veira do título de conde de Sortelha, e para dar ao novo conde os parabéns. 
A carta é datada de Bruxelas, 22 de Outubro de i53i. — Luís da Silveira, 
do conselho de el Rei e seu guarda mor. — Este título, como o de conde de 
Vila Nova de Portimão, também tem uma história. — Por carta de 1 1 de 
Novembro de i5ii foi Luís da Silveira nomeado guarda mor do príncipe 
D. João (3). No seu ânimo se insinuou Luís da Silveira por forma tal, e 
tão seu aceito foi, que conseguiu alcançar dele, para quando fosse rei, um 
alvará de promessa nestes termos: «Sabendo nós o que devemos a Luiz 
da Silveira, nosso guarda mór, e querendo-lhe em parte galardoar, como a 
todo o virtuoso rei pertence, lhe fazemos mercê da nossa villa de Penamacor 
d*este dia para todo o sempre para elle, e para todos os que d'elle descen- 
derem, de juro e herdade, a qual villa lhe damos com todos seus termos 
etc, e assim nos praz de o fazermos, como de feito por este fazemos, conde 
da dita villa de Penamacor, e lhe damos o titulo d'ella e queremos que, da 
feitura d'este nosso alvará em diante, o dito Luiz da Silveira seja conde da 
dita villa, como acima é dito, e gose de todolos privilégios etc, \ haja o 
ordenado e assentamento por razão do dito titulo, e isto posto que logo se 
se não chame conde, porque, sem embargo d'isso, queremos que da feitura 
d'este alvará em diante elle o seja tão inteiramente, como se logo se cha- 
masse, o que deixamos n'elle chamar-se quando quizer, e queremos que este 
nosso alvará valha... sem outra duvida nem embargo». Seguem-se de 
outra mão estas palavras: «para sua segurança assignamos aqui -a 7 de fe- 
vereiro de i52i»; às quais pÕe remate uma assinatura, que não pude ler 
beíTi, mas que me pareceu dizer «Príncipe» (4). Alguns meses depois, a i3 
de Dezembro, subiu este ao trono; e em 2 de Outubro de i522 confirmou o 
ofício de guarda mor a Luís da Silveira (5), que por esses tempos, na quali- 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 53.», fl, i33. 

(2) Escola de penitencia, pág. i35, e Chronica Seraphica, parte 4.*, pág. 170. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 8.°, fl, io3 v. 

(4) Original no cartório da casa de Abrantes, maç. 4.° de Silveiras. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 36.", fl. 129 v. 



Apêndice 3gj 

dade de embaixador a Carlos V, partiu para Espanha muito contra o parecer 
de seu velho e astuto pai, Nuno Martins da Silveira, senhor de Góis, que 
lhe dizia ser temeridade alongar-se de el Rei, pois que os príncipes são 
vários e mudáveis ao perto quanto mais ao longe (i). O facto é que, nem 
então, nem depois, confirmou D. João III ao que fora seu muito dilecto 
criado o alvará de conde de Penamacor, parecendo que em satisfação lhe 
fez logo, a 3 de Outubro, mercê em duas vidas da alcaidaria mor da Sor- 
telha com os direitos reais e reguengo da rnesma vila (2). — Finalmente em 
carta de 22 de Julho de 1627 declarou D. João III que, «considerando o 
muito amor e fieldade com que sempre me serviu Luiz da Silveira, do meu 
conselho e meu guarda mór, e como em todas as coisas que se ofereceram 
de meu serviço, des que me começou a servir, sempre o fez como quem 
mui verdadeiramente amava meu serviço e pelas obras e serviços sempre 
assim m'o mostrou com muito trabalho de sua pessoa, e gasto de sua 
fazenda; e havendo respeito assim mesmo aos muitos serviços que fez a 
el-rei meu senhor e 'padre que santa gloria haja, assim, na corte como fora 
do reino, onde o enviou, e em Africa na guerra dos moiros, assim no socorro 
da entrada que elles fizeram em Arzilla, como na tomada da cidade de 
Azamor, onde elle o foi servir com homens e cavallos, em que muito do seu 
gastou, e em que deu de si aquella conta que devia; e esguardando isso 
mesmo os grandes merecimentos de seus avós, e d'aquelles de que elle des- 
cende, e como sempre serviram os reis d'estes reinos mui leal e verdadeira- 
mente, e alguns morreram em seu serviço... por esta presente carta lhe dou 
titulo de conde da villa da Sortelha, e o faço conde d'ella. . .; porem por alguns 
respeitos que me movem, e porque assim o hei por muito meu serviço, elle 
não tomará o dito titulo de conde, nem se chamará conde, salvo depois de 
passados cinco anos cumpridos, que se começarão a correr da feitura d'esta 
carta em diante; e, acabados os ditos cinco anos, me praz que elle se possa 
chamar conde da dita villa da Sortelha, e tomar o dito titulo sem ser obri- 
gado a m'o fazer saber, nem para ello haver meu consentimento, nem outro 
mandado, porque hei por bem que não espere para isso por nenhum meu 
recado ou mandado » (3). Não se chegou contudo a completar o praso de 
■cinco anos de espera, pois que na carta de 8 de Junho de i632, de mercê 
dos foros de umas casas à porta do Mar em Lisboa, já o guarda mor nos 



(i) Annaes de D. João JII, pág. 41. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 3.°, fl. jS v. 

(3) Original no citado cartório da casa de Abrantes, maç. 4.° de Silveiras. Desta carta 
^ do alvará fiz largos extractos por serem documentos que se não encontram registados na 
Torre do Tombo. 



SgS Brasões 

aparece intitulado D. Luís da Silveira, conde da Sortelha (i). Pouco tempo- 
gosou ele do seu título, por isso que a i6 de Julho de i533 já era morto (2). 
Na carta de guarda mor dada a 10 de Junho de i533 a D. Diogo da Silveira 
já se declara que seu pai, o conde da Sortelha era morto (3). O seu testa- 
mento é muito anterior; foi feito a 12 de Março de 1629, e aprovado a 22 do 
mesmo mês, não se lhe tendo juntado o termo de abertura (4), motivo por 
que não posso precisar a data da morte do conde. 

Armas: esquarielado: o i.° e 4.° de azul, seis cadernas de crescentes de 
prata; o 2." e 3.° de prata, três faxas de vermelho. 

Timbre: dragão de verde, armado e linguado de vermelho, e carregado 
de um minguante de prata sobre o peito. 

Casou antes de 6 de Novembro de i5i4(5) com D. Beatris de Noronha, 
filha do marichal D. Fernando Coutinho. Não chegou D. Beatris a ser con- 
dessa da Sortelha, porque morreu a 26 de Fevereiro de i526(6). 

Tiveram descendência. 

5.° Duque de BRAGANÇA e 3." de GUIMARÃES — 1 532, Dezembro 
23. — D. TEODÓSIO, i.° duque de Barcelos. — Era filho do 4.° duque de 
Bragança e 2.° de Guimarães, em cuja casa e estados sucedeu por sua 
morte, intitulando-se já duque de Bragança em documento de 5 de Feve- 
reiro de i533(7). Foi também marquês de Vila Viçosa^ conde de Ourém e 
de Arraiolos (S). Tirou cartas de confirmação de casa em 1542(9). Confir- 
mação da compra de Vila Boim, Évora, 22 de Novembro de i533(io). 
Deu a sua irmã D. Isabel por escritura de 23 de Agosto de i536, para casar 
com o infante D. Duarte, o ducado de Guimarães com reversão para a 
casa de Bragança, se não houvesse descendência (11); o que se veio a rea- 
lizar muito depois na pessoa do seu bisneto, D. João, 8.° duque de Bra- 



(i) Chancelaria de D. João III, liv. 16.", fl. 80 v. 

(2) Ibidem, liv. 17..*, fl. 172. 

(3) Ibidem, liv. 19.°, fl. 119 v. 

(4) Original no cartório da casa de Abrantes. 

(5) Carta daquela data em que são confirmadas a Luís da Silveira as terras de Segadães 
e Recardães, para pelas suas rendas, ser D. Beatris de Noronha paga do que se lhe prome- 
tera em casamento. Cartório da casa de Abrantes, maç. 4.° de Silveiras. 

(6) Padre António Franco, Imagem da virtude no noviciado de Coimbra^ vol. 2.», pág. 2» 

(7) Provas da Historia genealógica, yo\. 4.°, pág. 89, n.° i3i. 

(8) Ibidem, pág. i33, n.» 141. 

(9) Confirmações geraes, liv. 6.», fls. 5 e 102. 

(10) Chancelaria de D. João III, liv. 7.", fl. 214. 

(11) Provas da Historia genealógica, vol. 2.°, pág. 599, n." 106. 



Apêndice 399 

gança, que teve o título de duque de Guimarães por alvará de 4 de Junho 
de i638(i). 

Morreu o duque D. Teodósio em 20 de Setembro de i563 (2). 

Armas: as do reino com onze castelos na bordadura e um banco de 
pinchar de dois pendentes de prata sobreposto no chefe da bordadura, e no 
chefe do campo duas bricas, cada uma partida: a de oiro, com quatro palas 
de vermelho; b franchado de oiro e prata, tendo no oiro quatro palas de 
vermelho, e na prata águia de negro (3). 

Casou a i.* vez em 26 de Junho de ib^b com D. Isabel dd Lancastre, 
duquesa de Bragança, sua prima com irmã, que morreu em 24 de Agosto 
de i558. Faleceu em Lisboa no ano de 1668 diz o seu epitáfio (4). Era 
filha de D. Denis de Portugal, e de sua mulher D. Brites de Castro, 3." con- 
dessa de Lemos, em Castela. 

Casou a 2.* vez em 4 de Setembro de lôõg com D. Brites de Lancastre, 
duquesa de Bragança, que morreu em 5 de Junho de i623, e era filha de 
D. Luís de Lancastre, comendador mor de Avis, e de sua mulher D. Mada- 
lena de Granada. 

De ambos os casamentos houve geração. 

4.° Marquês de VILA VIÇOSA — 1 532, Dezembro 23. — D. TEO- 
DÓSIO, 5.° duque de Bragança, 3.° de Guimarães e i.° de Barcelos. — 
Sucedeu na casa e no marquesado a seu pai. 

Vide 5.° duque de Bragança. 

9.° Conde de OURÉM— i532, Dezembro 23. — D. TEODÓSIO, 

5.° duque de Bragança, 3.° de Guimarães e 1.° de Barcelos. — Veio-lhe o 
conda-do em sucessão da casa. 

õ.» Conde de ARRAIOLOS— i532, Dezembro 23. — D. TEODÓSIO, 
duque de Barcelos. — Na data apontada sucedeu por morte de seu pai na 
casa de Bragança, na qual se comprendia o condado de Arraiolos. 

Foi 5.° duque de Bragança. Vide. 

6.» Conde de NEIVA — 1532, Dezembro 23. — D. TEODÓSIO, 5.» duque 



(i) Provas da Historia genealógica, vol. 2.°, pág. 607, n." 109. 

(2) A data da morte consta positivamente pela da abertura do testamento, a qual se 
vê nas Provas, vol. 4.», no alto da pág. 245. 

(3) Selo na Historia genealógica, vol. 4.°, estampa M, n.° lvi. 

(4) Belém, Chronica seráfica, vol. IV, pág. 166. 



400 Brasões 

de Bragança. — Sucedeu no condado, bem como na mais casa, na data 
apontada. Advertirei porém que no auto de posse de Guimarães, acima 
citado, entre os mais títulos se não dá a D. Teodósio o de conde de Neiva» 
Contudo mencioná-lo hei ainda neste catálogo. 
Vide 5." duque de Bragança. 

i.° Marquês de FERREIRA— 1 533, antes de 6 de Março. — D. RO- 
DRIGO DE MELO, conde de Tentúgal^ primo de el Rei. — Em 6 de Março 
de i532 obrigou-se o conde de Tentúgal, a não declarar dentro de um ano 
a mercê que el Rei por um alvará lhe fizera, do título de marquês (i). Com 
êle o encontro numa carta de privilégios de'i2 de Fevereiro de i534(2). 

Morreu o marquês a 17 de Agosto de 1645 (3). 

Armas: esquartelado: o i.° e 4.° de prata, aspa de vermelho carregada 
de cinco escudetes das armas do reino; o 2.° e 3.° de vermelho, seis^besantes 
de prata entre uma dobre cruz e bordadura de oiro. 

Casou a i.* vez em i5io, como fica dito em conde de Tentúgal, com 
D. Leonor de Almeida, condessa de Tentúgal, filha herdeira de D. Francisco 
de Almeida, vice rei da índia. 

Casou a 2.* vez com D. Brites de Meneses, marquesa de Ferreira, filha 
de D. Antão de Almada, capitão mor do reino.