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Full text of "Calabar. Historia brasileira do seculo XVII"

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ÍUNlVERSlTY o-MICHIGANÍ 

|fca., GENERAL LIBRARY .,^ 

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CAL ABAR. 








AIEIM 



DO 



SÉCULO XVII. 



POR 



Ç/âà/ aa QTí^wa t^Mf^^tearà ^^ea/^ Q/tí-^tor^. 



VOLUME I. 




RIO DE JANEIRO. 

Typ. do Correio Mercantil, rua da Quitanda n. 55. 



1808. 



ii 



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Ô69.Ô 

S Sô 6' 7 <i iL 



V. 



1-4 



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-M-^i^m 



AO LEITOR 



Reimprimindo hoje em livro esta bella e interessante com- 
posição, que sahio publicada em folhetim no Correio Mercantil^ 
cedemos ás repetidas solicitações de muitas pessoas, amigas das 
letras e ao mesmo tempo julgamos cumprir um dever nas cir- 
cumstancias actuaes. 

Cumpre explicar. 

E' sabido que nem todos podem dispensar diariamente o 
tempo necessário para a leitura de quanto publicão os jornaes : 
as horas fogem rápidas e as obrigações da vida são urgentes. 
Por outro lado os jornaes não podem offerecer com regularida- 
de a seus leitores certos artigos, que aliás pedem seguimento 
quasi sem interrupção. Da combinação destas duas causas re- 
sulta que a leitura de um interessante romance publicado nas 
folhas diárias é muitas vezes abandonado com pesar. 

Ora, este sentimento raramente teria mais razão para pro- 
duzir-se do que quando o folhetim publica um trabalho devido 
á penna elegante e justamente estimada do Sr. José da Silva 
Mendes Leal Júnior, distincto prosador e poeta portuguez ; do 
que quando a obra publicada relembra á maioria, — quasi á 
universalidade dos leitores do folhetim — um passado de gloria. 

Do que acabamos de dizer vê-seque não nos íaltarião solici- 
tações para darmos sob uma forma mais commoda, qual a de 
livro, o romance que o Correio Mercantil publicou em folhetim. 

Agora o nosso dever : 

O destemido pernambucano, cujo nome serve de titulo ao 
romance do Sr. Mendes Leal, é de certo, apesar de manchado 
pela traição, um vulto que merece estudo. Esse estudo abre diante 



à 



dos olhos do historiador uma das paginas mais brilhantes dos 
annaes brasileiros, pagina que honraria qualquer d'entre as mais 
poderosas nações, orgulhosas dos feitos heróicos de seus fundado- 
res. 

A guerra hoUandeza, essa luta de um punhado de valentes 
indisciplinados e quasi inermes contra as aguerridas forças da 
HoUanda, essa incessante peleja do patriotismo contra a domina- 
ção estrangeira, é um exemplo que hoje deve ser recordado. Os 
filhos daquelles bravos, que lutarão annos para não serem es- 
cravos de estranhos, relendo esta pagina gloriosa de sua historia, 
sentiráõ bater-lhes nos peitos os corações desses leões indouimi- 
tos e conheceráõ que também podem, chegado o momento, re- 
pellir de seu solo o estrangeiro ousado, que, fazendo vil empre- 
go da força, ha pouco pretendeo dobrar-lhes a cerviz, rebaixar- 
lhes a dignidade, insultar-lhes o pavilhão ! 

Mas, si esses factos em sua muda simplicidade despertão o 
enthusiasmo, qual não será oeffeitoque produsiráõ, quando para 
recontal-os se apresenta um engenho fecundo, uma imaginação 
rica de todas as galas da poesia, uma penna adextrada nos mi- 
mos do estyle e conhecedora de todas as bellezas da nossa lín- 
gua, o Sr. Mendes Leal emfim? 

Julgamos não estar enganados pensando que com a reim- 
pressão deste romance satisfizemos não só as solicitações de 
muitos amigos das letras, mas também o justo orgulho de todos 
os amigos da pátria brasileira. 

Rio de Jòneiro %*1 de Março de 1863. 

Os EDITORES. 



INTRODUCÇtO. 



tíin èiicnpb^ nóUTèl, lír. FeMinand Diniz, etprfitae^se, pcmco mais 
OQ isièbós» nèJEites tèrbioi : 

« A hisioriá Áò ttràstí, qàatido ée tionVefem reeòlhidò as antígai 
tráAiçdéà, ííéú Hm firedòHo mániiibial á ^tie á pbeslá &á dè ir ádceorrèr- 
se. » 

Etfectitamètítè ásitím è. O Brákil i wtn pait de âmÚÍTilhiii ^Mura o 

fihTÀ é á irèl^ò dè Ti^jlãHè , a còinniemotaç&o de e&ronistá , á 
págiáá ik iúsiotídiàòtj qtiè, référfndò-sè á éssás iíumetíítes regi^ tiio 
frromjpiá ém õm grito de admirado è de én^tisiàsmo. O humilde 
misáibnátiò (qúé éèòlaibara, aò dar cotti os olhos iiás seitas niagestosas 
das iiiárjfèiis de S. Ftáueitico : « qtié eloqneiite serttiãb é eáà terra ! » 
soltáta, cfétn o èabér, umá Aàqoellai phrases sublimes dè intensa verdade 
httkbáiia, (pie sãõ á gloria de Shàkspeare è a desesperaçãè dos seus 
imitedòres. Nãò encérrata em niais concrelo estyU) ntaiè grandiosa 
idéa o fBtao^o dito dè CDiiòlèno ás^rtas de Roma» na tragedia do poeta 
ih^tllez. O pobt^ £radè rivalisava iUTOluntariamente com o rei da seeini, 
e a expressão do assoinbro supremo não tinha qne inyejar á manifestado 
do sttprèDiío desdém. Tãò yerâsde ó que á simples inspirado da naturèssa 
áli vezes iguala de Uín Jãtto o làãis alto issforço da arte. 

Guiada apéflãá péM siíóliflbs dé^cripções dos primeiros yiafántes, 
acitódê-sé a imagiiia$ão, eneánàdo èm espirito aqueUes aspectos taríados 
e sôbéfbds áò sòld é dé oéb. Gomo que o raio de um astro mais puro 
iUumina ormyriadas dettiteniàspuivc^aUítitosãanossaicitiysaçãd eaduet 



e dissiiMi os nevoeiros da Telha Europa, inflammando um astro noTO, 
ardente como esses climas, vivaz como essa vegetação esplendente. Se 
lançamos os olhos á historia, outros homens, outro modo de ser, aconteci- 
mentos inesperados e subitaneos, outros fisictos, lendas teriiveis ou gra- 
ciosas, formSo um cumulo tal de materiaes para o romancista, que a sua 
única diificuldade é a da escolha. A luta da invasão europea com a 
possessão indigena,a variedade de castas e de raças, as peripécias de uma 
guerra de gigantes, as vicissitudes de uma existência toda composta de 
episódios dramáticos, a rara energia e o espirito aventuroso da primeira 
nacionalisação, taes sâo os principaes característicos da juventude histórica 
do Brasil. Ao passo que os séculos succedem-se, as feições mudão, mas 
o interesse nunca diminue. Ou ha aqui uma inexgotavel mina para o 
poeta, ou as condições da arte são diversas do que pensa o autor desta 
obra. Os riquíssimos elementos da historia brasileira, disseminados e 
dispersos, carecem de sercdligidos e coordenados, por mãos babeis, 
por umá cabeça forte, por um espirito systematico e philosophico. £' essa 
uma bella empreza, que de certo tentará algum homem de robusta vontade 
e consciencioso saber. O Brasil terá também o seu A. Herculano^ comp 
a França teve o seu A. Thierry. 

Algum filho do Brasil con^prehenderá que nenhuma nação é verda- 
deiramente grande e gloriosa sem ter firmado os impulsos do seu futuro 
nas bases do sen passado, porque, segundo diz um profundo pensador, 
as acções dos avós são o melhor estimulo dos descendentes. O homem de 
correspondente capacidade, que primeiro se convencer desta verdade; o 
homem bastante instruído eillustrado para saber que hoje a historia não 
se €<mtenta de estéreis datas, nem de meros hagiobgios, que analysa, 
campara e deduz, que leva o escalpello da philosophia ás entranhas de 
cada século, e procura abi a série de phenomeoos que produzirão uma 
dada série de successos, que nos hábitos, nos costumes, no modo de viver 
e de pensar, de operar e de co-existir, cuidadosamente investigados, 
afiíeridos e vuificados inquire a idéa geradora de cada cyclo civilisador ; 
a homem julga o autor bastante instruído e superior para avaliar este 
difiicil qomplexO) e dotará o seu paiz com um monumento que lhe falta, e 
que servirá assim de engrandecer o presente, como de prqpararQ porvir. 

E o Brasil possue homens desses* O éco da sua tribuna tem chegado 
á Europa, e mais uma apreciável manifestação revela o génio nascente 
de um povo que aspira a grandes destinos. As agitações politicas, as 
necessidades publicas podem ter dado mais u^qa do que oi|tr4 direcção 



á actividade dos espirites ; mas o governo existe. Desça um raio de sol 
que o fecunde, e cobrirá de productos magnificos esse torrão generofo 
tão favorável a todos, a cultura. 

Emquanto na Europa as sociedades vadllantes se alluem nos seus 
fundamentos, o novo mundo, vigoroso e juvenil, rico dos legados suc- 
cessivos da civilisação herdada, illustrado pelas lições da sua»e da alheia 
experiência , pôde avançar desassombrado , porque não soílre as 
preoccupações dos difficeis problemas que abalão o mundo velho. 

Tem o espaço, tem amplas e rasgadas as margens do futuro. A 
solução económica do grande principio da proporcionalidade das subsis- 
tências com as populações não o ha de affectar de pungentes cuidados; e 
é esta talvez a mais grave difficuldade em uma grande parte dos paizes 
europeus. O Brasil não ignora já as mais altas questões sociaes ; sabe 
que os seus desvelos são chamados a outro ponto ; e a Europa não vê 
sem admiração muitos hc«nens eminentes desse paiz perseverarem 
animosamente em uma vasta idéa colonisadora, que, estendendo as 
relações, multiplicando os braços, facilitando a communicabilidade, e 
dando unidade e consistência aos seus estados, o tomaráõ sem rival no 
continente americano. 

£ o autor desta obra espera que lhe relevem a ousadia com que elle, 
filho de outro paiz, posto que irmão, mesmo de leve, se atreva a.esboçar 
esta rápida digressão sobre tão elevadas questões. Todos lhe farão a 
justiça de acreditar que de nenhuma fórma pretende iogerir-se no que 
naturalmente está tão fora da sua alçada e do seu propósito ; mas é que 
esses grandf 8 interesses, quando se encarão de alto, tocão também 
as raias poéticas^ como tudo o que tem a grandiosidade suprema ; e 
elle não é dos que pensão que a poesia, mu«a brilhante, mas ociosa, 
recreativa, mas inútil, deve ficar indiíferente ao movimento humanitário, 
á semelhança do humilde menestrel que se conteafava de celebrar a 
victoria; entende, pelo contrario, que o seu dever é também ajudar o 
impulso, como o bardo que embocava a tuba para chamar ao combate. 
E que maiores e mais bellos combates podem inspirar o estro do que os 
da civilisação? E^ esta hoje a idéa universalmente aceita; é também o 
fructo de um exame consciencioso do passado. A época das academias 
discreteadoras e das arcádias redundantes acabou. A missão da arte é 
maior e mais proficua. 

Todos são operários da civilisação. Sabe- se que os rhapsodes 
gerarão os heroes, e quer-se que o poeta seja mais do que um cantor. 



A fAfàá dt Anphtdn, o mytho de Or{db€u é um symbolo e tem uma 
«H^licsçlo. Se a fratenidade do E?aDgelho é â emanação de Verbo 
Divino , o poeta deve ser o homem da humanidade pam ser yerdadeira- 
Utente o homéin de eeeulb e da arte. 

Fata erèar e gosto dos seteros estudos históricos é necessário excitar 
o íHkíjóí (Aamair a attenção e preadeií o interesse. 

£* ttiste ^e o poeta pôde fezlBr um grande sernço. 

São és coUecdonistas que dão subsiãios ao historiador. O romancista 
pôde f^cilitar-Uie o caminho, tomando-o deleitavel. Levantar o esqueleto 
útè tkm século es^iuecido no pô, reviveivthe as tradicções» retocar-ihe as 
gt^, ativar-Ifae as feições, insuflar-lhe a vida^ restituir-lhe o pensa- 
metílò e a àoçlo, pò-k) a respirar e mòver-se, franco e livre em um 
e^pdçò, limitado é verdade, mas creado e matizado para o coração e para 
ò espirito, é, julga o autor, um acto meritório, pi^lo intuito e pelos 
^èáultados infalíveis era toda a parte. Diz um critico moderno : « que a 
Escossia dete mais a Witlter Scott do que a todos os seus chronisfias.» 

O que, por ignorado» ninguém via parece vivo e de mais vivo sabor. 
Pouco a pouco a imaginação resuscita a antiguidade, familiarisa-se com 
eIla,eotra na sua intima contextura e popularisa o seu conhecimento : a 
curiosidade convida á investigação, e a historia está ereddff, a historia 
como a entende a philosophia ! 

Dizei se as coUecçÕes archeologkas dos laboriosos monges de S. 
Mauro, dos universitários allemães e dOs seus historiadores, com I^ebuhr 
á frente, forão nunca tão apreciados como hoje, que o*autor de Notre- 
Dàíne de Paris, o autor de Cinq-Mars e o bibliophilo Jacob têm feito 
tão frequentes excursões pdos seus opulentos dominios, que dantes erão 
épaâagio de raros, como os commentarios theologicos do século XV. 
Em Portugal òs conscienciosos trabalhos de João Pedro Ribeiro só tinhão 
valia aos olhos de algum académico sapienie, qèe, pòr acaso, nãtí dormia 
no séU telonio, conquanto A. Herculano não veiu revelar-lhes o inestima- 
yel préstimo. . 

O actor distingue diversas categoms na pbesia e no romance, e está 
longe de ligar a tudos a mesma importância, asidm aos olhos da aíte como 
aos da philosophia. Vô na musa jovial jb zombet^ra de Scarron jjíèl 
pai^àleoipo quando muito ; na affectação lalsamente coiíceituosá de M^^. 
de Scudery um ultraje á razão ; nos quadros de Florian, repintados de 
uma bucólica impossivel, a depravação do gosto; nos trocadilHbs de 
Gobgof a o abuso do engenho ; mas sabe que nas chronicas da eaváliaria, 



nas epopéas YafiftdM da raça de Aithuc, doa Amadia 9 doa Qm^undos, 
7ite coin á ttadicção po^ca o espirito daqualba asas yentiuosas de miISfi 
e amor, que, herdando em parte aq superstições do paganismo, prepariMi 
por duas' grandes idéas o culto da fiamilia eda patna, os primaifPS 
elos dá cadêa social; sabe que a J^Miui Comenta de Dante é a expressl^ 
de um seoulolterrivel, fundido em um mol(}e de bionze ; sabe emfim 
o que o mundo moral deve a Richardson e a Swift. Conhece tanri^em Qík 
perigos dò gaiio quando, como 6»the e Ugo Foscolo, irasflectidaflpiente 
se despenha nas aberrações de Werther ou Deisépolehri ; mas Bio igaoift 
que benigna inâuencia pôde exercer quandoí, como 6«!úardÍQ de Ssint 
Pierre» fiiz amar a^^virtude e a natureza. Que os semi-^deuaes de Uoimepo^ 
desçSo a Yiver com os homens» homens t^unbem pelas picões, miis 
superiores a eiles}pelas suas afinidades divinas, e vereis como t^dp f», 
lhe engrandece em tomo. Respira-se em uma a|mQ(y>hera mais limpida, 
mede^ um horizonte mús vasto, que os olhos se alegrão de cont^plar. 

Tudo no múndq é luta perenne entre os etomos princípios do bem 
6 do mal ; desenhai-lhe os episódios, e em cada um escondei uma lição; 
tereis feito alguma cousa pela educação dos povos. 

. E n|lo ^ V^^^ 9^6 9, ^Vp^ f^^^^i? ^^J^^^ '^^ <^^Ç^^3 ^.^ ^^ ^ W" 
y^ri^vQÍ ápo^hQçse dp ipia virtude banal, tríunjphando infalivelmente no 
qi)^ açfjf q^ ^çj vfl^o volume dos ar(^s grosseiros de um tyranno 
4P P|3^Becourj, fjj^ i^e yictpr Duçan^e. 

O ensino 4 i»aís elew*oi; ínrtF\jfi fio^ttyiiçttyQ d9s ççf^i^Qs p qi^ fqrça 
dos contiastes. Ji ní^ i^ftamçis, O^^s Ipuvado, nessas tvi^en^fi fi^- 
diosos da factuji^a cotineir^. 

Todos os que ávalião o poder da imaginação ealculão que ppd^Q^^ 
arma ella pôde ser nacivilisaçâo de um paiz. B^ aqui o caio sé da se dizqr 
como J. Reynaud: « Jerusalém, a magnifica, levaiitou-ae em rpd^ dP 
poema de Moysós ; e a Greeia nútria-^e do canto da Illiada* » &en| suave 
cantar como Horácio ou como Ànacreonte, oqiaa é maior e opais nobre 
erguer a voz como Tyrteu ou como Daniel. O poeta que dedica su4 
vida e as suas fiiculdades ao desenvolvimèiito de uma idéa concenciíoiia 
e proficua levanta o pendão, sustenta-o na luta, e, se tein de c^bi^i ç^e 
abraçado com elle, eòmo (tiz Long-Fellon do conde PulousU, sucumbindo 
â raiz das trinchdras^ de Savaiinh : 

ft No estandarte se envolve ante a metralha : 

t r 

tt Fof-lhe manto de guerra e foi mortalha I » 



A opulência do "solo brasileiro é justamenie céldiradfl e está, ^mpe- 
liosaioente exlgiodo um movimento inteUectual que lhe correpondas para 
aeabar de nobilitar o paiz. Era ali que os antigos viajantes procurayão 
o delirio do El-Dorado, a cidade das maravilhas e a fonte de Juvencio. 
A miragem enganou os exploradores ambiciosos, mas o £l-Dorado que dá 
a verdadeira riqueza de um povo existe ; as aguas que remoç&o uma nação 
estão U. 

Não busqueis realizar os sonhos de fontasia na abundância das suas 
minas preciosas. 

Buscai realiza-los^nos productos da terra, na sua grande cultura, 
que pôde tomar*se immensa na extensão de seu commercio; buscai-os» 
não sonhos, mas realidades, nessas outras minas, nas de ferro, mil vezes 
mais productivas do que as de ouro e diamantes, porque nellas achareis 
em tal quantidade, que podeis fornecer o mundo, — em casa mesmo, e 
sem dependência de estranhos-*os instrumentos e os motores do trabalho, 
os dous mais poderosos elementos de que um povo pôde justamente 
gloriar-se, o resultado mais fecundo a que pôde chegar uma nação. O 
maior e mais belloimonumento do Brasil é a simples cruz do Garassoava. 
Para se fazer ideada incalculável importância dessas montanhas de feiro, 
infinitamente superiores em valia ás daquelle outro metal, cuja raridade 
é a causa do seu apreço, leão-se estas concisas reflexões de um viajante 
que ultimamente percorreu o Brasil como investigador e como philosopho: 
« Apraz-se o espirito em voar á época em que, exploraado-se quanto o 
podem ser, as minas immensas de Gaspar Soares j de Bomfim e de Soro- 
caba^ todas as previsões dos economistas se começarão a realizar. Levantar- 
se-hão construcções gigantescas, as vias férreas cruzaráõ regiões hoje 
ermas, e as solidões sem fim hão de ser emfim povoadas. >» Juntai a esta 
gloriosa prophecia as nobres palavras de um publicista brasileiro, que 
ha poucos annos se exprimia pouco mais ou menos nestes termos : 

^ A exploração do ferro abre para o Brasil uma nova era de gloria 
e de prosperidade: só quando essa exploração tiver recebido[todo o seu 
desenvolvimento , ver-se-ha o Brasil subir á categoria das grandes 
nações.» £ a questão das grandes linhas de viação e do transporte 
accelerado, resultado talvez desta abundância de elementos, e causa 
segura de desenvolvimentos maiores, agita-se já no Brasil com ardor e 
proficiência ; formão- se companhias, comoção a verificar-se os augúrios 
felizes pela força e pela vontade nacional. 

Ora, nestas circumstancias será digno para o Brasil que o impulso 



litterario seja roenos TÍ^oroso que o impulso económico? Coro taesmeio^ 
de civilisaçào deverá elle estacionar ahi inferior á sua própria eltvaçfto ? 

Nâo pôde ser, n«m será. As nações não vivem só do pão do corpo. 
O Brasil marchará com passo igual por todas as sendas que s^e lhe abrem. 
Pois que ! Deixaria dormir no pó as suas glorias, como esquecidas na 
mortalha dos séculos? Nas horas que se seguem ao trabalho encostar-se- 
hia 0CÍ090 ás riquezas da sua producção, como um mercador cansado, 
pesado de membros e tardo de espirito? Não daria elle alguma cousa á 
alma e á fantasia do povo, educando-o nessa progressão, que, segundo 
a bella phrase de um orador francez, « vai do coração á cabeça ?» Deixaria 
apagar-se essa ardente imaginação inflamada do sol dos trópicos ? 
Impossível é de certo. Mil indícios o provão. Não mentirá o augur, eo 
autor espera que as suas palavras, por serem humildes, não serão por 
isso menos comprehendidas ! 

£' necessário fallar a verdade com lisura áquellesa quem sinceramente 
desejamos servir. O Brasil não tem ainda, que o autor saiba, o romance 
nacional. £ todavia poucos paizes poderão imprimir tamanho cunho de 
individualidade na sua litteratura. A plêiade brilhantes dos seus poetas 
cresce e fortiíica-se. A muitos faltão só as lições da experiência; em 
outros a musa virginal resente-se da incerteza de uma TocaçAo que 
hesita por falta de uma palavra ousada e firme que lhe aponte a verda- 
dadeira terra da promissão . 

Ha rnuito que Portugal admira, á frente da esperançosa mocidade 
brasileira, o Dr. Gonçalves Dias, poeta de génio e de inspiração, que em 
mais de um dos seus primorosos cantos entreviu já o glorioso futuro 
que está fadado á sua geração poética. O reflexo da litteratura europea 
domina,porém, frequentemente as creações balbuciantes. E' necessário 
tomar uma iniciativa podeirusa e arrojada. Para que se ha de arrastar 
na imitação quem pôde viver de originalidade? As scenas e os typosda 
nossa sociedade não podem, senão mediocremente, interessar os habitantes 
de outro hemispherio, seja qual far a sua origem, os seus hábitos e as 
suas tradicções. Basta o aspecto do solo paia lhes fazer achar descolorido 
e desaboroso o que tão abaixo fica do que a natureza quotidianamente 
lhes mostra. £* a côr local que o poeta deve antes de tudo procurar ; 
é delia que deve inspirar-se^ é ahi que o pintor deve compor as tintas 
da palheta, para que se mantenhão as leis dessa harmonia entre os 
homens e as cousas, que é a primeira condição de todas as verdades 
relativas. E ninguém julgue que o autor seja aqui o apostolo de nenhum 



iO 

exclusiViàiiid : se fora uecessario, iovocaria os seus precedentes, tiem pefó 
cootrário, elle Mesmo busca dar o exemplo da tiuiversalidadelitteraria. 
Não ignora elle, nem disfarça a sua posição especial neàte caso. Qúé 
Importa , porém ? Quando Guttemberg deu á iibprensa ao mundo, o 
mundo nào lhe perguntou onde ficava a sua pátria. Quando Tassò 
escrevia as admiráveis estancias da Jerusalém Libera ta, o orbelitterario 
espera va-as para as nacionalisar em todas as linguas. O autor não tem 
a louca pretenção de se comparar áquelles nomes illustrds; mas cita 
estes exemplos para demonstrar que, se uma idéa parece proficua, 
aceita->se por ella mesma sem inquirir qual mão foi a que a traçou. O 
poeta é da humanidade ; e sobre tudo quando dous povos falião o mesmo 
idioma, não ha distincções senão as que dá o préstimo ou o valor da obra. 

O autor sabe que deve estes favores ao publico brasileiro, e não 
duvida do seu bom senso, do seu espirito, nem das suas franquias ; em 
taea assumptos procura unicamente prevenir quaesquer melindres que 
eiie é o primeiro a respeitar, mas que nesse caso serião sem exemplo 
nos aunaes litterarios. . 

A nacionalidade poética não é etclusiva . A litteratura nacional não 
faz o individuo ^ é ella que lhe revela e cunha o seu sello nas elaborações 
do verbo. . 

A intuição popular ê para a apreciação um guia ^e se não deve 
esquecer. 

Face á face coiu a natureza, que lhe fiilía na simplicidade primitiva 
das suas magnifíciencias, só comprehenderá o que tiver a concordância 
da verdade com o que lhe dizem os sentidos. Os apuros do crisol são 
para os letrados e sabedores ; aquella verdade é para todos'. 

Para que uma nação inteira ápplauda as cópias tiradas ao espelho 
de um mundo que não é o seu, seria neceásaiio inicia-la previamente 
em todos os se^edos de uma existência diversa da siia e estranha para 
ellà ? Conhecerá a paixão, porque a paixião tem a unidade ; mas ignorará 
a sociedade/ porque a sociedade é essencialmente vária e dependente do 
logat e das circumstancias em que àe deseávolve : terá, pois, só metade 
do gozo e metade da instrucçào; não entendei^á parte, não se verá reflectida 
a si mesma; não se julgará, portanto» completamente satiàféita. 

O autor expõe aqui francamente estas theorias, porque fòrão áempre 
as suas, porque está profundamente penetrado delias, porque tem a intima 
convicção de sua verdade, tem-a tido toia applicação ao seu paiz ; iião 
' podia deixar de diza-ia quanpo se trata do paiz de seus írínãos. 



— u — 

Porque admiramos dós ainda tão yivan^ente os grandes modelos 
da anUguidade sobre o' seu pedestal de séculos ? Porque elles se dos 
mostrio fortemente cunhados daquelle caracter índMdual, que ó o 
rerdadeiro distinctiyo de toda litteratura de uma nação. Quereis achar 
o àogmn da fotalidade que tão yiyamente modelou a as809ibro8a socijedade 
helénica? Não o procureis nas Iphi^miçiSi^ nas MeropeSy nos OEdipasi 
contrafeitos da renascença clássica. Em Racine, Gomeille e ]^artÍDe2; 
de la Ro8(i admirais a pura edicção, o estudo do sentimento humano» 
a verificação brilhante ; mas, quanto á yida social da época evocada,^ 
sentireis como um gélido sápro de tumuíos, gemebunda aragem que 
dormia nos sycomoros funerários, esfriar-yos o espirito. A ToziníliexíveL 
do destino, procurai-a nas criações titânicas deEscbyllo: éaliqueyiTem. 
as fnrías de Orestes. Estudai a Greda em Sopbocles e Aristophanes, 
estudai Roma em Séneca e Planto, as suas lutas em Lucano, os seus. 
costumes, já imitativos, em Terêncio. As MesBalivMS e as Lais de hoje 
são retratos. £' bella a pintura, mas falta-lhe a yida. Além, o homem, 
fdlla, pensa, luta, existe eip um espaço seu, em uma atmosphera sua, sob 
08 astros da terra natal. A estatua anima-se e anda; o quadro surge e move- . 
se. E' que os poetas, em Tez de se fdtígarem debalde em busca de molde, 
quebrado pela mão dos tempos que levarão as sociedades extinctas , 
inspiravão-se do que os rodeava, projectavão sobre as multidões o que a 
imaginação lhes reflectia delias mesmas ; e esta reverberação que vinha 
delias, e ia para ellas. aquecias-as de um raio conhecido e sympathica. 
aos seus instinctos. 

O autor por mais de uma vez o tem escripto : em toda a obra de arte 
ha duas grandes idéas a considerar— a sociedade e a humanidade. A' 
humanidade pertence a verdade absoluta ; á sociedade a verdade relativa. 
F, pois, necessidade intuitira para um povo encontrar a segunda aliiada 
á primeira. Sem isso não pôde dizer que tem umajitteratur^ sua. 
Como Pygmali5o, pede que uma centelha cekste Jhe avivente as perfeiçõfi 
que o escropo e o cinzel lhe desenharão ; quer sentir palpitar o coração 

sob a forma. 

• • • ' 

O poeta, coaio Prometteu, deve ir roubar o fogo do céo : é por isso 
que nasceu, como elle, condemnado aos seus tormentos. 

» ' "••II 

Individualidade e actualidade são, pois, as duas primeiras coQdiçõfs 
de arte nesta applicação, como ella é hoje considerada, c como o autor 
a considera. Apossar-sc de uma época e idcntificar-sc com cila, eis t\ 
^sitoria; caracterisa-la do %:ivo sen ti mento de nacionalidade proprjai. c. 



~ 12 

da verdade local, eis a iodividualidade'; dS-la tão perfeita e acabada guaoto 
possa, como lição para os hom^^ns de hoje e como agente dos destinos 
futuros, eis a actualidade. Cada dia é o prologo de outro dia ; convém não 
esqnece-lo. Um critico enthusiasta escrevia em principies de 1834 , 
inílammado ainda dos três gloriosos dias de julho de 1830 : « Ai daquelle 
que, tendo a yoz robusta e juvenil, não tem uma energia mais activa do 
que a palavra inspirada dos homens de outra idade ! Ai delle , se , 
desprezando a sua hora, consente em fugir ao sol que nos aquece para 
descer ao tumulo dos antigos poetas, a cubrir-se de suas cinzas, e a copiar 
08 seus cadáveres I Se os prophetas dormem para sempre nos perdidos 
sepulchros, então é melhor evocar as suas grandes sombras e pedir-lhes 
o gemido sepulchral, um canto esquecido para animar a vida no ermue 
esteiar o ânimo no Tacuo da solidão. » £sta toz dbs prophetas herdarão- a 
os poetas hoje. Se toda a poesia é uma aspiração / porque não hão 
de eiles a<^pirar ao culto desta espécie de ensino superior, que a parábola 
bíblica substituo a educação das gerações? 

Dóe n'alma ver o Brasil, como Portugal, eivado de traducções sem 
escolha, que abasta rdeão a lingua e petveitem o gosto. Uma boa versão 
é summamente difficil e sobremodo apreciável; mas a naturalisação, 
muitas yezes imprudente ou irréfiectida de producçòes sem mérito, que 
falsificão todas as mções do justo e do injusto, que têm uma influen- 
cia poderosa na educação e noscostumes, que desvia a attençãodas creações 
typicas e nacionaes, para a distrahir sobre estas importações peregrinas, 
provocando assim imitações detestáveis de obras medíocres, e substituindo 
um paliido reflexo á luz germinadora ; essa naturalisação sem escrúpulo , 
julga o autor que é a praga de que adoecem as sementeiras litterarias 
nos dous paizes, o joio que deita a perder muita seara, que, sem elle, 
daria abundantes e proveitosas colheitas. A attençèo dos legisladores, dos 
estadistas e dos homens eminentes devena pois fixar-se também sobre 
esse importante objecto, que não é indigno dos seus cuidados, pela grande 
acção que exerce nas imaginações fervidas, na mocidade inexperiente, e 
nas turbas desprevenidas, pela sua influencia na vida de familia, e pelos 
males a que dá frequentemente origem. Todos os factos nascem de ioeas; 
e, na ordem dos phenomenos moraes,as razões determinativas hão de 
investigar-se na genealogia do pensamento. Sendo assim, não residirá na 
viciação Ue^e a causa primeira e efliciente de muitos escândalos, de 
muitas calamidades que afiligem um povo e retardão o seu desenvolvimento 
iQteliectual , c por cunsequcucia o seu progresso? Ora, o inconveniente 



f 



— 13 — 

iudicado d«o influirá activa e poderosameoie oaqueUa viciação? Problema 
6 esse que o autor Dão se propõe aqui discutir; mas que julgou dever 
«pontaraos homeos distiuctos , que no Brasil se occupão destas altas 
questões da educação moral e da educação social. 

E que o illustrado pullico brasileiro, se este trabalho lhe merecer 
algiíma atteoçâo, oãu accuse o autor de preteuçòes a pedagogo ! Não : 
seria commetter iDJustiça para com as suas leaes e rectas intenções. Os 
dogm»ti8adoies precederão sempre os homens de acção. Se a exposição 
destas doutrinas, fructo de algumas meditações sinceras, parecer sequer 
plaubivel aos cultores das boas artes, o intuito não seiá de todo baldado, 
nem a diligencia de todo estéril. 

No throno do Brasil assenta-se um monarcha, mancebo e illus- 
trado, que preza as letras, porque é prezado delias. 

«^ Pois só quem sabe a arte é quem a estima » 
como diz o nosso Camões, poeta universal, admirado eni todos os paizes 
e em todas as idades, porque também reflecte um século e um povo. No 
coração de todos os brasileiros ha aquelle sentimento interior do beilo, 
que, segundo o testemunho de um intelligente e moderno viajante, é um 
dos »eus distinctivos. Com taes elementos, com tantos recursos próprios, 
quem pôde dizer onde parará o Brasil na carreira da civilisação e da 
gloria? De resto, o paíz tem beguido o caminho usual. A lyrica éa 
primeira manifestação htterana dos povos, porque é com eíTeito a que toca 
inumediatameote na natuieza. Ua uma necessidade de poesia na alma de 
todas as nações, como na de todos os indivíduos : a sua progressão é 
lambem aoaloga. 

Na infância, as lendas, os contos de fadas, o esplendor das maravilhas 
alliadas á singeleza das crenças primitivas; na juventude os cantos 
de guerra e de amor; na virilidade a epopéa austera e grandiosa, o 
poema vasto e sapiente, que herda as prendas do passado e prepara 
os germens do futuro; as flores na primavera, as colheitas no estio. Assim 
se prova a harmonia divina do mundo, as affinidades mysteriosas, mas 
palpáveis, do hoinem, da natureza e da nação, das idades» das estações e 
dos povos I Primeiro, a expanção que irrompe espontânea ; depois os 
f^studos severos e complicados, que amadurecem o espirito, como o sol 
do meio-dia. Primeiro, a admiração; depois a reflexão £' a ordem natural, 
a ordem eterna, que não pôde ser invertida. O Brasil Obtá passando da 
juventude á virilidade. 

Basta sô que se compenetre de&tas verdades, que &ão princípios 




g«Deric09 9 constituerp yina dag lei^ itnmuta?eú dp roui)dô moral ]«i> 
que dpmiDão çoberaDas como as do miando pbysiço. 

K ha de compenetraX^ae !> 

Que seja agora j^eripií^ido ao ayjor pasjBar destas considerações, 
geraes, que apei;^.a9 esboça, çorqye f^oimmQOsaji as re^^i^ões qqe sqsqitão; 
que lhe seja p^rmiUído, diz elte, pas9.ar destas çoDsiderações geraesi 
a accrescentar ai^da alguma ço^sa sol^re a ol^ra, oq aqtes solfre a serie 
de obras que eutrão no seu iptuitç de chaipar a att^qçfto para os estudos 
históricos, de propaga-las e popu],arifa-l^s por n^eio da forma— roípance. 

Certamente parecerá esti;anho que a tan^ distancia das localidades, 
em que vão passar-se as diversas acções quç se prpppe historiar e des- 
crever, amenisando-a^., o autor tente uma empreza semelhante. I^lle nio. 
se disfarçou nunca ás diQctildades a)[)8.olqt^s de t^l^ obra, nem as que 
relativamente le lhe farião s çntir. 

Para a sua posiçSo são ellas dupjajs e duplicadamenta arduss; não. 
o ignota e francamente o confi^ssa. Mas o Brasil está longe de ser um 
paiz ignorado da Europa ; o Bi;a8il; viye, porqqe assim dlgaipos, nas 
descripções repetidas, numerosas e variadas dos viajantes e historiadores 
parciaes, que podem confrontar-se ç comp^a^-sQ, apurando-se o ei;9me 
pelo exercício de pqrsllelos, severos e conscienciosos at^ se chegar a i^ma 
verdade pelo menos aproximativa. Será j^ alguqia coqsa. A' letra rporta 
juntão-se os testemunhos vivos. Ha três seculpaemQÍo qqe o Brasil receba 
hospedes de todos ângulos da Ei^ropa ; e uma sipgqlar e talvez |!em 
exemplo é a quasi uniformidade do seq enthusiasmo ante esse fecundo, 
e pittoresco e abençoado torrão. Desde o velho Hans-Stade até Mr. de 
Langddorf, Fodrignes Ferreira, Soqthey e Auguste Saipt-HHaire, as. 
relações abundão em todos as línguas, e por homens cuja imparcialidade 
é abonada peh diversidade das suas nacionalidades : o trabalho é só veri- 
fica-las e coteja-las. 

Cada província tem tido os seus topographos e historiographos, 
cada especialidade o seu analysta. O autor menciona expressamente o 
principal estorvo que o pôde impedir de fazer b^^.m o que desejaria fjzer 
óptimo, aflm de lhe serem relevadas as imperfeições, nmas açcidentaes, 
outras oriundas delle mesmo, que seguramente não faltaráõ na sua obra. 

Todavia, julga poder assegurar que levou a consciência ao e5cmpulo, 
e que nenhuma descripção, nenhuns usos, nenhumas pcenas importantes 
introduziu que nSo possa authenticar por meio de autoridades universal- 
mente aceitas ou de documentos, ignorados fim, mas a que çrocuroq^ 



— 15 — 

abpÍic«r Ò8 rigorosos preceitos de severa hermeoeulica Histórica . N&o se 
]ulgue porém que elie enteiade por fidelidade histórica a escravidão á 
chronuiogia, servilismo iocomjpatiyel com esta qualidade de escriptos. 
y^jào-se os cootos do bom velho Yedediah Cleishotham^ como os chrismou - 
o pai do romance moderno, brilhão pelo rigorismo das dotas. O autor nfto 
quer dizer com isto que fará anachronísmos virgilianos, porque nem todos 
escrevem uma £neida para os resgatar; o que deseja explicar é que não 
duvidará enifeixar e grupar os fdctos dessiminados em uma grande super- 
flcie, para dar mais unidade, mais relevo, mais interesse, mais verdade 
typica á sua obra. £' assim que se mostrào as feições de uma época , 
ajustando-se nos quadros forçosamente limitados. De outro modo faria o 
que não teve . o arrojo de tentar, porque sabe que é para hombros 
mais robustos e para ânimos despreoccu pados de outros lavores ; isto 
é, faria a historia. Ora, todos conhecem hoje que o romance não é a 
historia, ioAS um incentivo para ella, ou um modo de a fazer comprehen- 
der, não ha sua chronologia, mas no seu pensamento e no seu espirito, 
oom o attractivo que lhe facilita a percepção. Ba historia expreme o poeta 
os suecos de que tempera ou compõe as tintas, sena todavia imitar a sua 
severidade. Ou6 lhe s^ja ainda peirmittida uma comparação. A historia 
envolve-se nas pregas magestosa^ do thánto, sóbria de gestos, como a 
casta musa aiitiga: o romance, como a Niobe plangente, Ou como a Vénus 
jpudica, chocou rf, dobrando-siB em curvas graciosas, mais flexível, 
mais valiádo, maib humano* 

I "... ,;i,^.'.' ' 

Os nossos archiVos estão cheios de inanuscriptos do máximo interesse 

■ , . ■■'.■• •.'»•' • • ' ■ ■ •■ 

e curiosidade relativos ao Brasil. Os numerosos trabalhos das missões 
deixarão longos vestígios ; e entre eUes figurão distinctamente os que o 
incansável espirito de investigação, a paciência e a sagacidade dos jesuítas 
nos legou. Çeria fabil ao autpr ostentar aqui úiua fastidiosa erudição, 
citando todos os* subsidies que procurou e as origens de que se serviu, 
assim em relação áòs colonos, compôs indigena8,nos séculos que inquiriu. 
Pod.çria rectificar mais de uma Inetactidão dos historiadores, que» como 
À. dé Beauchamp, por exemplo, nem sempre se guiarão por uma critica 
irreprehensiVel e por uma perfâta imparcialidade. • 

Entende elle, porém, que deve confiar bastante no testemunho da 
própria consciência, e na ilíustração dos seuu leitores, para dispensar 
este meio vulgar de recommendar a sua obra: prefere portanto entregar 
tildo ao exame dós entendidos. 

Coinò já fez observar, falta ao Brasil iim corpo de história que facilite 



16 — 

os trabalhos da arte. O poeta tem pois de ser siibiiltaneameote archeologo 
B colleccioiíista^ se quizer cunhar a sua obra de iodmdualidade e de 
verdade ; se lhe quizer dar aquella côr local, que é das primeiras condições 
da arte moderna ; se quizer emfim fazer mais do que uma especulação 
banal. E»pera portanto o autor que em favor das dlíBculdades allegadas 
lhe perdoarão os defeitos que» segundo disse, certamente arultaráõ nos 
seus trabalhos. 

E aqui julga ellè do seu dever declarar que na parte que respeita 

ás ppsquizas archeologicas, foi eíBcazmente coadjuvado pelo Sr. Rodrigo 
Ff llner , cuja vasta intelligeocia , cujo saber e competência ne»t«s 
matérias são universalmente reconhecidos em Portugal, e s6 tem por igual 
a sua rara modéstia. Se a nação brasileira acolher com algum favor estas 
publicações ; se alguma parcella de gloria delias resultar, por miniroa que 
seja, o autor cumpre uma obrigação de consciência, repartindo«a com o 
nome do amigo que a ella tem incontestável direito pelo prestantissicno 
auxilio que lhe dá. 

Ha muito que o autor pensava na tentativa de crear do Brasil e para 
o Brasil um género de litteratura, para que elle parece tão affeito, e que 
lhe pôde fazer tantos serviços reaes. O esclarecido zelo do director desta 
folha offereceu-lhe a occasião ; aproveitou-a avidamente como meio de 
realizar o que era ha tempos a sua constante preoccupação. 

Percorrendo as narrações daquella grande e dramática luta do Brasil 
nascente e entregue só a^i com a poderosa invasão hollandeza, um dos 
períodos mais brílhantes da historia nacional, o nome que fere roais 
vivamente o espiríto e o coração é o dç João Fernandes Vieira, o 
guerreiro, a alma, a inspiração, o génio, o vulto supremo da guerra da 
independência. Muitos caracteres eminentes e de não vulgar energia se 
lhe grupão em roda; mas o delle sobreleva a todos, como o cedro do 
Liba no entre as arvores da encosta. João Fernandes Vieira é um 
daquelles indivíduos excepcionaes que Deus fundiu de um jacto, arrojando 
para longe o molde; é um daquelles ^rpos extraordinários que dão já ã 
historia a apparencia de romance, e nascerão talhados para elle; 6 
um daquelles homens que se chamão César, Franklin, Súlly, Napoleão, 
Newton, ou James Wath, segundo a atmosphera em que se criarão, a 
opportunidade em que ao mundo vierão e a vastidão da scena em que 
figurarão. João Feroandes Vieira é sobretudo notável pelo maior de todos 
08 impérios, pelo império sobre as próprias paixões na época da sua máxi- 
ma grandeza. Nenhuma das grandes victorias que alcançou iguala esta. 



— 11 — 

A SIM admirável dedicação é a feição siogular do seu Dobre e raro 
caracter. AKek)4ando nesta figura eoUossal, o autor julgou ver nelia o 
Wasbington da America Meridional, não menos homem superior, não 
menos caracter eleTado, não menos lieróe do que o heróe dos Eslados- 
Unidos. 

A attençãe do autor fixou-se naquella grande época e naquelle 
grande vulto. A sua primeira idéa foi encerrar as príncipaes acções , os 
factos mais notareis, os caracteres mais singulares do homem e da época 
910 quadro áo seu primeiro romance. Sobejavão, porém, os materiaes e 
faltarão espaço : o heroe (em uma estatura que rompe as molduras, e para 
a qeal toda a teia é pequena. Resolveu, pois, dividir em dous romances 
diflinctos o assumpto, que tem também dous aspectos diversos. No 
primeiro, que é o que vai começar-se> propoz-^se a pintar o periodo da 
invasão» a guerra puramente defensiva, a mocidade e os amores do heróe, 
qut fazia já presagiar a sua gloria futura e a ^oria immortal de que 
-dotaria o Brasil, mas que oiTerecia uma face inteiramente differente com 
os sentimentos de outros annos. Este serve como de prologomenos 
^ de prefacio para o segundo, que desenvolve e completa a acção. Outro 
homem de uma energia, de uma sagacidade, de um instincto, de uma 
audácia e de uma violência de paixões que dão um typo soberbo, Fernando 
Calabaremfím, o transfuga, dão seu nome ao primeiro ensaio, como um 
dos mais vigorosos agentes da tremenda luta que veremos desenrolar- 
se. Este homem siligular iniciar-nos-ha para logo nos segredos terríveis 
daquélfir guerra formidável, que se não parecia em nada com as guerras 
da£m*opa, que envolvia e abraçava as raças indígenas, que participava 
dos mysterios da solidão e das sangrentas astúcias da selva e do deserto. 

Escolhendo, determinando e circumscrevendo o seu assumpto pre- 
sehte, o autor está longe de julgar esgotados os recursos immensos que 
a historia do Brasil ministra ao romancista e ao poeta. Com a abundância 
de dados que tem debaixo das mão8,o trntor concebeu « ordenou já o plano 
de outras obras análogas, que elie continuará a oíTerecer á nação brasileira, 
se a sua tentativa for benignamente aceita. Depois de Calábar e Vieira 
virtio ò Sertan^Of Bàrtholomm Bumo, "O Bandeira c Frei Tigre, cujos 
títulos indicio bem a índole e a intenção. 

A mina é inexaurível. Cada proviíicia, não se cansa de repeti-lo, 
tem o seu lypo, a sua feição distincta e o seu interesse local. Só esses 
homens de ferro, que formão a ascendência heróica dos bravos edhscretos 
paulistas, dão tantos assumptos ao poeta, quantas são aquellas excursões 

o 



ê 



— le — 

V 

maravilhosas para o.ioterior, e ao longo do immenso curso do Amazo- 
-nas, ás quaes tanto deve o Brasil. As intermináveis e ondulosas planiciet» 
do Ceará, do Piauby e do Rio-Grande, com os seus desertos; Minas- Geraes 
e os seus temerários forasteiros ; Mato- Grosso e as suas florestas profundas, 
onde o intrépido paulista abie ainda o theatro de mais de um drama 
ignorado ; a formosa ilha do Maranhão, que de Yaux colonisa, que 
La Ravadière disputa, e que Jercnymo de Albuquerque e Diogo de 
Campos illustrão ; Rio de Janeiro, primitivamente habitado pelas tribus 
mais bellicosas e mais civilisadas do litoral, denoiLioado no século XYI 
à França antárctica, região tão rica de vegitsção que até as arêas das 
suas montuosas margens se adornão da rosada fiôr da ipommoea, e 
tão formosa de aspectcs, com as suas rochas graníticas que, ao vêr 
tamanha opulência, e tão impocente disposição, o velho Lery exclamava: 
« Sus, sus, minha alma ; cumpre que digas a Deus o teu jubilo 1 » Rio 
de Janeiro, de quem escreveu um viajante moderno: « £^ este um paiz 
privilegiado entre todos os paizes do globo; a riqueza natural do seu 
território destiua-o a oçcupar o mais alto logar entre as nações juvenis, 
a que a Europa ha de ir um dia retemperar- se; i» finalmente Bahia, 
Pernambuco e as suas adjacentes, primeira sede e cabeça do estado 
brasileiro, berço do actual império, que o autor escolheu para primeira 
arena desta espécie de torneio, em que elle vai justar com os séculos o 
premio incógnito de que será juiz um povol Quantas zonas diversasl 
quantos productos diílerentesl quantas populações variadas, quer das 
aborígenes, quer das da invasãol quantos costumes novíssimos! quantas 
paisagens tremendas ou deleitosas! quantos rios ma gostosos! quantos 
bosques impenetráveis ! quantos horizontes encantados ! quantos climas ! 
quantos ^homens! quantas cousas! quantos factos! quantos dramas! 

£ tudo isto offerecido ao romancista, virgem, intacto, para escrever, 
{)ara animar, para reviver. Já se apresentou porventura á imaginação 
humana tamanho cumulo de riquezas, enfeixadas da historia de uma só 
nação ? 

A America Meridional tem o seu Washington, diz o autor; folta- 
Ihe, porém, o seu Cooper. Alexandre precisa de um Homero. O autor 
não presume chegar, nem remotamente,á altura do poeta norte americano; 
nem buscando seguir as suas pisadas, ou antes o »eu exemplo, quer de 
nenhuma forma dizer com isso que tenha a insensata jactância de o 
igualar. Tenta a empreza: os outros dirão como a desempenha. O autor 
sem applicar aqui uma critica extemporânea, mas fazendo uma distincção 



— Í9 — 

fusta, julga todavia que o ncme de Coupers serve m^iis para lembrar umar 
idéa do que para propor um modelo ; nâo porque lhe falte a perfeiçfio, em 
relação ao poTO e ao paiz de que elle é o poeta predilecto, mas^ por que 
uma imitação servil seria neste caso uma decepção funesta. 

Examinemos . 

A natureza que odeia Cooper, a que inspira a sui musa é menos vivaz, 
menos esplendida, menos luxuosa, menos arrojada e petulante do que 
esta que o autor se propõe a descrever; por consequência diverso e muito 
diverso deve ser o raio creador que ella projecta sobre o romancista. 
Ha mais uniformidade naquelles p^ainos a que ella se affeiçoou, e que 
uma leve ondulação raramente arqnêa ; ha mais paz e serenidade naquelles 
aspectos, que só o horizonte limita, e que, despertando a cada passo 
a idéa do infinito, chamãp repetidamente a musa para os attributos do 
Deus Grande, invisivel na immensidão do ermo. Osheróes de Cooper 
têm frequentemente uma tintura de asceticismo selvático e de theologia 
instinctiva. 

Cooper é essencialmente um homem do norte, é-o por influencia do 
clima, por hábitos de educação, por tradições herdadas pela sua origem, 
pelas tendências dos primeiros que forão colonisar a sua pátria. Está bem 
onde está: arriscar-se hia a definhar e a estiolar-se se o transplantassem 
para um terreno menos em haimoniacom a sua ascendência. Não quer 
dizer com isto o autor, repete-o, que elle não seja óptimo tal como é, 
mas acredita que se arriscaria a sahir péssima a cópia que delle tirassem. 
EradisQgurar o quadro e fazer delle um empastamento absurdo Si/nm 
cuique. 

A communidade da designação americana poderia seduzir os im- 
prudentes, e mostrar- lhes um molde onde apenas devem estudar um 
pensamento : é contra semelhante perigo que o autor, aproveitando a 
occasião de explicaras suas próprias tentativas, quer premunir quaesquer 
que se aventurarem na carreira, porque elle^ como disse, não trabalha 
aqui só para si. Na Europa mesmo o poeta allemão, por exemplo, 
tem caracteres distinctos de poeta peninsular ; é o homem de outra 
região, de outra raça, de outras influencias, de outra linhag^^m litteraria, 
de outra thecgonia mesmo. Os cantos dos Nicbelwngenn&o se confundem 
com as livres strophes do Romancer, nem os herdeiros de Ossian têm pa- 
rentesco poético com os feros descendentes daquelles namorados descan- 
tadores da Alhambra e do Generalife. A saga islandeza não se parece com 
o garrido e saUroso motcto andaluz. Cada qual reproduz o seu iypo 



#« 



— so 

naciíDiial. Um é brilhante como os rai^s do seu sol, rendado como os- 
monumeotos da sua terra ; o outro é vaporoso como os seus ueyoeiros, 
mysteriosio como as suas montanhas. £ todavia todos habitào uma das 
grandes divisões do mundo. O caso é o mesmo. A America do Norte 
possue o seu poeta. £' excellente para o seu povo ; o mundo admira- o, 
porque elle traz impressa naa suas obras a originalidade do seu paiz, 
o oceano e as suajs tempestades, os desertos e a sua solidão. Pois bem. 
Faça-se para o Brasil o que elle fez para os Estados-Unidos ; mas 
nào ciuno elle fez. E nisto resume o autor toda a sua idéa, porque, 
para fazer o que fez Gooper, é necessário não fiizer como elk^ porque 
desse modo o poeta seria o poeta de outra terra e de outro povo. Sigamo- 
lo, mas na intenção somente. O serviço que elle fez aos seus conterrâneos 

« 

procuremos íaze-lo a nossos irmãos ; mas» para que elle sqa completo, 
seja diverso o modo. 

Importa que o Gooper brasileiro, o que for bastante feliz para con- 
seguir iguaes resultados, dê ãs suas obras a individualidade que ad- 
miramos nas de Finimòre, rastejada apenas pelos cantos de Eac-Lellan. 
E' por isso, que para ser original como elle, lhe cumpre ser diverso delle. 

De resto, o que o autor aqui escreve não ó senão a applicação pratica 
das theorias geraes acima expostas : é a exemplificação de sua doutrina. 

Tanto é certo que a originalidade de um poeta nasce mais da 
originalidade das suas impressões e do assumpto que procura^ do que 
delle mesrrM), que o próprio Gooper é disso a mais segura prova. Yêde 
como eQe desce quando procura na Europa os seus typos : vôde se o poeta 
do Bravo é se quer comparável ao do Piloto, do EspiãOy do Derradeiro dos 
mohicanoa e do Corsário. Foi esta obra, e a sua sensível differença das 
outras, que fez dizer a Saint-Gharles : «Desastroso é para M. Gooper o 
não ter sentido que, buscando inspirações além do foco usual delias que 
elle para si creou, defeca-se-lhe e descora-se-lhe o génio, como a planta^ 
arrancada ao solo que a nutre, perde a seiva e a força, o brilho e o per- 
fume. » 

Methodico até nas expansões do seu enthusiasmo, a idéa de Gooper 
é de certo a que convém á America Meridional, porque eila ó o único 
que lhe pódc offereccr affiuidades ; mas a sua maneira não julga o autor 
que lhe seja proficuamcntc applicavol. 

Nesse poDto o poeta deve ser livre e tomar couceito unicamente do 
seu assumpto. O autor procura, porém, indicar o que não pode deixar 
de ser commum entre Gooper e us romancista^ especiaes do Brasil^ 



21 — 

para que melhor se possa avaliar o campo iofioito queíica á indiítidBa- 
iidade. 

Na luta da civilisaçào contra a barbaria no conílicto perenne e 
cheio de tempestades que põem, em frente um do outro, o homem social 
e x> homem selvagem, ha um ponto de intersecção, em que forçosamente 
o pensamento do poeta do Brasil se ha de cruzar com o do seu predecessor. 
Ali o encontro ó uma necessidade invencivel : a situação é igual ; o modo 
de macifestar-se é que pôde e deve ser diverso. 

No caracter primitivo do habitante das florestas ou do nómada do 
deserto, ha também uma taciturnidade e um stoicismo, que são como os 
traços geraes que o pintor ilel não pôde negar aos seus personagens deste 
género, sem oíTender a verdade. Ainda ahi o escriptqr, não podendo 
inventar outra natureza, tem de resignar-se á post-data que o subjuga. 
Ali não pôde crear porque veiu depois. Mas não é de Cooper exclusiva* 
mente o monopólio desta feição, de que o Berebére do Beni-Arose o 
Beduino do Sahará participão como o Tapuya da^ margens do Amazonas, 
ou o Meymure nos Ucmos da Colômbia ^ 

Na America do N'ort& mesmo os compatriotas do grande romancista 
não hesitarão em repetir um caracteristico de sobra evidente para ser 
alterado. No poema The fali of Indicms os três últimos Sachems do^ 
Wamponoags não desdizem do typo admirável do Gr€mde'SerpenU, £' 
porque ó aquella a verdade, a verdade única, e o poeta meridicmal não 
pôde, sem erro, desfigura-la ou esconde-la. Para evitar um eseolhaera 
fácil naufragar em outro: um propósito de absoluta emancipação, queultra- 
|)asse estes limites, descabiiia no absurdo. As mesmas cansas moraes 
produzem ordinariamente os mesmos eífeitos; o isolamento do homem com 
a natureza determina aquelle phenomeno geral em todos os que vivem em 
taes condições. Um analysta sagaz não provava modernamente as aíBni- 
dades que existião pela semelhança da inspiração originaria, entre 9 liver 
séptico de Thomaz Hope e a catachesis ardente de proselytismo de 
Rammahun-Roy, entre as argucias de um philosopho inglez e as pro- 
pagandas unitárias de umBrahmine convertido ? As aífinidades aqui são 
muito mais evidentes, a identidade está muito provada, para que esta 
se sacriGquQ a um vão desejo de siogularisação, neste caso intempestivo. 
Fica ainda muito á originalidade c á individualidade : fica tudo. 

Os elementos que se oiTerecem ao romancista do Brasil são infinita^ 
mente majis nuQierosos do que todos os que dispoz €oopor, c incomparavel- 
mente superiores, À historia da America do Norte póde-se dizer que data 



â 



— -24 — 

<Se hontem: a do Brasil já no século XYI chamava as aUeDções da Europa. 
O Brasil pôde pois jactar- se de uma antiguidade de ascendência, e de 
uma nobreza de origem, que o elevão muito acima das outras nações 
americanas. 

As suas glorias têm o prestigio e a consagração do tempo. 

Assim como os monumentos carecem daqaelle vetusto colorido que 
distingue sobre elles as idades devoMdas para brilliarem na sua veneranda 
magestade, assim os povos se nobilitão successivamente ao passo que as 
tradições dos actuaes se accumulão nos seus pergaminhos. São títulos 
de honra e fidalguia que o historiador e o poeta registrão cuidadosamente. 

Se é um expetacolo maravilhoso ver o rei de um pequeno paiz investir 
08 vassallos na possessão de tratos de terreno superiores em extensão 
e riqueza i própria metrópole ; se esse rei, como D. João III fez a João 
de Barros, recompensava os trabalhos do seu chronista das índias , 
repartindo-Ihe como o senhor donatário uma daquellas capitanias ao pé 
das quaes Portugal seria uma provinda, não é menos prodigioso observar 
a prodigiosa colonisação daquelles audaciosos aventureiros do século XYI 
e XYII, que firmavão o seu poder e assenta vão o seu dominio em luta 
constante com os homens e com a natureza, com os elementos e muitas 
vezes com as estranhezas o os perigos de um clima differente . 

Não será sem um secreto e justo orgulho que os brasileiros encon- 
trarão, nos grandes poemas dos seus antepassados, consignados os nomes 
de muitas famílias cujos descendentes occupão distinctos logares entre os 
seus concidadãos. 

E não é o poeta que os quer lisongear ; é a historia que, mesmo 
despida de ornatos, será sempre uma elevada e admirável epopéa. £' 
porque a vida dessa nação é já longa e afamada, e a poeira de moitas 
gerações tem cimentado o edificio das suas legitimas glorias. 

O Brasil está na rara situação de um paiz novo, com uma historia 
imponente como as mais velhas. Os rasgos de heroicidade muliiplicão-se 
com uma presteza incrível nas paginas dessa historia ; e se as suas fontes 
se não perdem na noite dos tempos, como as das antigas nações da 
Europa, em compensação os grandes caracteres grupão-se com uma 
frequência verdadei/amente assombrosa. O poeta não precisa como 
Gooper dissecar fibra por fibra o ornai de um fazendeiro perdido na 
orla dos bosques, e crear uma aureola nova para um nome, as mais das 
vezes obscuro : acha já círcumdados de um esplendor que fulge entre 
dous mundos grandes caracteres e grandes fastos. 




-^ $3 — 

£ dahi vem a fraternidade dos dous povos, brasileiro e potluguez 
que devem respeitar-se mutuamente, que podem mutuamente amar- se 
e admirar-se, porque sobra gloiia para ambos. O autor não confunde o 
que pertence a cada um, tão pouco renpga a sua nacionalidade de que se 
ufana, e confia nos seus irmãos brasileiros lhe leyaiáô a bem esse nobre 
sentimento, que elles mesmos por sua parte quinhoão ; mas porque sabe 
e confessa que desde a sua origem o Brasil tem uma larga paite de 
gloria propiiamente sua, julga poder celebrar essa gloria, sem nota de 
encarecimento ou de lisonja, conservando sempre intacto o seu affecto e 
o seu respeito *éi mãi pátria . 

Para confirmar as suas opiniões, o seu enlhusias mo mesmo, acerca 
desse paiz, acha elle numerosas autoridades, nlo só na grande copia de 
escriptores portuguezes que se occupárão da historia do Brasil senão 
nos próprios brasileiros e nos muitos viajantes das muitas nações que» como 
os que já citou e como muitos mais, são geralmente accordes nos pontos 
capitães. Seria uma observação curiosa ver a conformidade singular que 
em muitos objectos ha, por exemplo, entre a singela narrativa do padre 
C. de Abville e as viagens modernas do príncipe Wiede-Neuwied e dos 
sábios Spix e Martins. Atrayez dos progressos successivos das sciencias 
naturaes, os principaes caracteres das populações e do paiz appare<*em, 
apenas com as modificações de uma civilisação crescente. Quando a 
verdade se apura em taes experiências não é licito duvidar delia. 

Sem fallar nas monographias taes como o Castrioto LuziUmo e o mU}- 
roso Likcidemo infelizmente incompleto, ambas as quaes tratão do heroe 
da guerra da independência , sem ^fallar nas monographias, nas descrip- 
ções, nas cartas marítimas inéditas ainda, mas coetâneas daquella luta, 
e por isso de uma actualidade evidente, nas chronicas das províncias e 
descobertas, como a de Ferncmdes Pinheiro e do padre Cunha ; sem 
fallar nesses repetidos testemunhos, o Roteiro do Brasil , precioso manus- 
cripto que o autor tem debaixo dos olhos, e que tantas vezes é invocado 
na excellente obra do Brésil Pictoresque, é muitas vezes como a pedra de 
toque que serve para ferir a exactidão mais minuciosa, e por- lhe os 
sello de um contraste fidedigno. A admiração do autor pelo paiz a que 
vai consagrar os seus trabalhos nasceu-lhe estudando o seu assumpto. 

O Brasil pôde antever o que deve esperar da sua litteratura caracterís- 
tica e nacional lançando os olhos ao seu poema Caramurú do padre Du- 
rão, producção que se destingue mesmo ao pé dos Luziadas, que avulta 
acima demuitas das numerosas composições deste género, escriptas na 



— Í4 — 

lifigaâ portijgue7.a. Por entre a^ desnaturaes applicações de uma poe^ 
tka tradkioDal, e oriunda de outra literatura, o Carartiurú indica toda- 
via <ioe partido se pôde tirar das lendas e das tradições do paiz. 

Este mesmo assumpto está actualmente servindo de tetto a nm romanse 
que «epui^iea em Hespanha, e dere-se confessar que o romancista hes- 
panhol posto que demasiadamente occupado de imitsr Gooper compre- 
henden melhor o episodio nacional do liomem de fogo do que o próprio 
poeta brasileiro cingido ás praxes de outra idade iitteraria. 

O autor julga ter exposto despretenciosamente mas com sinceridade 
e clareza assim as suas opiniões em relação â lifteratura nascente do 
Brasil, principalmente na especialidade do romance histórico e nacional, 
oomo o plano que se propõe seguir, e o intuito qu€ juíga de^^er observar 
na serie de obras desta classe, de que o romance Oaíaòor será a primeira 
tentativa ou antes api^imeira parte da sua sequencia— Fteira. 

O autor solicita a indulgência necessária a todòS^ priineiros ensaios; 
mas expondo francamente o seu pensamento, assuasintetiçôes^osisetrs 
desejos, provando assim que mira a mais alguma cousa "dó que aò simptes 
deleite ; provando que tem tapabem em vista os progressos intellectuaes 
e moraes de um povo irmão, nSo se pense que elle procura lavrar 
antecipadamente a apologia dos seus taes ou quaes trabalhos, ou se abate 
a pedtr ^ais do que a benevolência que náo exdue a justiça. Elle desèjá 
ser julgado pelas suas obia», e para isso e por hi^q vai apresefetar o corpo 
<ie deMcto. Gonâa na ilustra çSo e bom espirito do povo toisileiro ; «, se 
alguna nou£a receia, é que a execução daqudle seu penseineuto pareça 
imiiio inferior á concessão que procure u explicar. £ ha de ser de certo ^ 
mas, para nio asr em tal culpa incriminado, conta que ninguan deixaiá 
de avaliar a inuneasa distaiicia que em todas as cousas humanas Yn 
sempre da aspiração á realkiaçio. 

Quanto ao em propósito em ai mesoM», elle só allega a naxin^a 
do philoaopho : Vikim impmdíMr íoeroJ 



FiMDAINTRODUCCÃO. 



i- 



CALABAR 




DO 



SÉCULO XVII. 



TOMO I. 

CAPITULO L 

BXPOSIÇÃO. 

Era pelos fins de fevereiro do anno do Senhor de 1680. Um homem, 
alto de estatura, meião de idade, tostado da tez, formoso de pres^eoça e 
fidalgo de porte, media a passos curtos e precipitados o payimento de uma 
vasta quadra, situada no a^dar superipr da morada nobre ^ ^erenper, 
na Teiga do Gapibaribe. 

A c(ibeça pendente sobre o peito indicava uma dolorosa meditação ; 
aquelle e;![ercicio impetuoso, incerto e q[ua9i maçl^nala revelava uma 
preoccupação profunda. O caracter dominante da sua phisiouomía, 
accentuada e meridional, era uma energia reflexiva, que não excluía um 
olhar rápido e sagaz, como de quem estava habituado a observar muito 
e a pensar mais. 

As fontes, já desguarnecidas nos ângulos de uma testa espaçosa^ 
realçavão-Ihe> magestade serena de um semblante em que se divisava a 
intrepidez fria. Era facil conjecturar, â vista deites indicies exteriores, 
que as resoluções de uma grande responsabilidade não surgirião pomptas 
naquelle espirito ponderativo, mas que, uma vez tomadas, serião inabalá- 
veis. Apezar do calor da estação , vestia couraça de aço brunido, por 
cim^ do corpete ou gibão de abas circulares, atacada nas costas com 
lar^ correias de anta , ou tapir, e grossas fivellas de prata lavrada . 
ealçiõea cactos de panno liso- de Y^s, eòf de canella, golpeados a 
direito e esbafados de vermelho ; botas de couro pardo, sul^do quasi 



á 



— 86 — 

ao joelho, e abrindo no alto á feição de um bocal, sem mais ornato ou 
guarnição do que as esporas curvas, de largas e agudas rosetas, ensan- 
guentadas ainda, signal evidente da precipitação ou da impaciência com 
que havia transposto o caminho. Um largo collarinho qu«drado, sem 
bordados, nem recortes, virava-se-lhe sobre os hombros e peito, atacado 
na garganta por um pequeno cordão de linho, com borlas pendentes. 
O chapéo, de forma aguda e de abas largas, revolto nos bordos lateraes, 
lançado ao acaso sobre uma cadeira, deixava tristemente arrastar por ella 
a longa pluma vermelha, que, nos dias de combate e de gloria, provavel- 
mente se encurvaria graciosa ^e altiva acima dos terços espessos. 

Vê-se, pois, que era cavalleiro, e pessoa de prol, o primeiro persona- 
gem em que pomos os olhos ao abrir da scena. Por armas defensivas 
trazia apenas, como dissemos, a couraça, a que parecia quotidianamente 
habituado, sem gorgeira , nem braçaes , nem as outras peças que de 
ordinário completavão o equipamento de guerra; e por armas oífensivas 
o longo florete de punho de roca, engradado de ferro, que lhe pendia de 
um talabarte de seda bordada a ouro, lançado a tiracollo do hombro á 
cinta. 

Era esta a peça mais rica de todo o vestuário. A singeleza de trajo 
do cavalleiro constituía uma excepção rara ás galas do luxo colonial , 
excessivo naquella época, e que fizera trovejar do alto do púlpito o 
commissario da inquisição, annunciando os invasores ímpios. Observava- 
se em toda a sua pessoa uma continência que revelava o soldado da 
Europa, mais useiro ás praticas do acampamento do que ás futilidades 
da corte. 

No desvão de uma janella gradada, aberta na espessura das paredes 
robustas, outro homem, que os annos começavão a curvar, posto que a 
sua apparencia senil mais parecesse provir dos cuidados do que da idade, 
interrogava avidamente as sinuosidades do caminho, que, por entre o 
enredado labyrintho dos cajuaes, colleava, seguindo as inflexões da mar- 
gem caprichosa do Capibanbe. O seu trage, semelhante em tudo ao que 
acabámos de descrever, se exceptuarmos a couraça, indicio de profíssão 
militar , e lhe accrescentarmos a diversidade de estofos adaptados á 
natureza do paiz e á estação, indicava o colono de alta gerarchia. 

Gonheda-se, porém, que a fortuna não o favorecera como áquelles 
opulentos senhores de engenho, cujas casas erão palácios e cujas officinai 
erão povoações. 



— Í7 — 

O orgulho do stirpe alteaya-lhe ainda a fronte; mas via-se que 
preoccupações dama ventura muitas vezes lh'aterião verfi:ado em segredo. 

No extremo opposto do amplo aposento, uma menina de 14 para 15 
annos, desenvolvida como se desenvolvem as mulheres sob o sol dos 
trópicos, misturava ao acaso os bilros, pendentes por fios de seda e prata 
dos angules reintrantes de uma semiconstellação de paroba vermelha, 
que dava ares de um diadema tombado , e ajustando-se ao vértice de 
uma haste comprida de goiabeira do inato, e firmada em um pedestal 
massiço da mesma madeira. Os fios variegados certamente os destinava 
a produzir uma daquellas franjas matizadas, que era de uso terminarem 
as fachas ou bandas que mais de um caralleiro gentil cingia por seu mal, 
e que Deus sabe quantas frechadas e pelouros lhes valerião. 

Não se deveria, porém» ficar pelo rigor simétrico da obra nesta occasião, 
porque a pobre donzella anciosa não despregava os olhos dos seus dous 
companheiros, cujo silencio agitado não ousava interromper. Os dedos, 
muito longe do espirito, continuavão-lhe ao acaso uma obra sem nome. 

Era ella uma daquellas virgens, de puras e deliciosas linhas, pallida 
de um alvor transparente e alabastrino , de cabellos azevichados e 
ondulantes, que fazem extasiar um pintor e enlouquecer um poeta. 
Um lume de estreitas em uns olhos negros avelludados sob as orlas das 
longas pestanas arqueadas, ora húmidos e languidos, ora ardentes e impe- 
riosos, que erào um mysterio quando os cerrava, que era um feitiço 
quando os abria. 

Uns lábios que desmaiavão o coral e uns dentes que envergonhavão 
aljôfares. Quando o sol lhe illuminava, como de vitrios reflexos, os anneis 
profusos que desciâo trémulos a immergir-lhe o coUo, como emumfiuido 
de ébano, e lhe distinguia fugitiva uma rosa em cada face, o Petrarcha 
tomâra-a pela «na Laura, e Raphael deixara por ella a Fornarina. No 
mais, um talhe esbelto e senhoril, fiexivel como a palmeira e elegante 
coipo ella ; e uma riqueza de contornos que poria em perigo os sentidos, 
se a candura de um rosto, todo innocencias, não tornasse a admiração 
temerária em respeitos de adoração, inaccessiveis á toda a idéa que não 
fosse de um culto. Um vestido de fina hollanda branca, contrastando pela 
singeleza com as amplas saias e vasquinhas de tellas e brocados, que 
provocarão depois as rigorosas leis sumptuárias de Felippe IV, descendo a 
apertar uma cintura de nympha, esmaltava as graças naturaes da gentil 
menina. 

Apenas um cabeção bordado e recortado em bicos, disputando alvura 



Jg 



a moÊL gargatita divina^ I10 oisata o dèaole alto a oaiKh^dof^ um panho 
igliaes renttaT&a as miÂgas Uirgm e tuftid». A arte isnata do coquetHêma 
ta»BÍDO ^appriria oom Tantagem a riqueza ausente, se a mocidade e a 
fo^tabsuia não pareiiessem dar ein vez de leceber «ncanlos. Os 18 aiuMS 
diBsIa criatura admirável serião o seu usib acabado enfeite^ O viço e o 
fpsseor da Jáventuée inadiavão be^za e não ci^ecilo deHa. Uma «eiiè 
de peqaenos amieis ciricBlavãe, engiadande^, o puro oval de ama íroBte 
elevada e «oirecta^ ceisio se a tivesae talbado o dnzel de fhidias. 

t)os lados debruçavão se-lhe em perfeita sjmetria, ao longo das faces 
até ao extremo delias» duas ondas luxuosas dacpielles formosos cábeDos 
de que já tentámos dar iàéa. O penteado é ordinariamente onde mais brilha 
o instincto artístico de ioda a mulher elegante de nascença. Todos os 
demais ornatos poderá ella dispensar, este é uma coroa que Deus mesmo 
lhe dngiu, e é rara a que não sabe a melhor maneira de a dispor. 

Depois de havermos travado ^conhecimento com a pbysionomia dos 
IndividuoS) obseivemos a do aposento em que os encontramos, porque 
também as cousas inanimadas iJèm a sua physionomia particular e 
característica. ^ 

E\ comoindiGànM, vrma vasta quadra g«ameddaaté quasi um terço 
da sua altura de um aHo rodapé de jacarandá atartarugado, com frisos de 
tdha , (estettniaiio 4a opulência primitiva da edificação. As paredes , 
caiadas de tabatinga, cegão de brancas, e resgatão os primor es da piatora 
e o etísto doe adeteços pelo ar ridente que imprimem á esptçesa sala, e 
de que eUa parece precisar bem. O tecto almdfodad» em grade para 
estabètecer aquella ventilaç&o refrigerante, tio neoessaiia em um dima 
de cefto mais fatofãvel aos europeus do que nraitos outros pontos do 
Brasil, mak ardente ainda, nrostrata vestígios de douraduras que devião 
de tor Visto ainda o seeiíâo adtertov, posto que maia parecessem detertora- 
das pda acçlR) simullanei da humidade e de uaa calor intonso, do que 
p^ sua antiguidade^ que não podia ser muito remota. Algumas cadeiras 
de 'couro lavrado e pés massi^ sobriamento torneados, guavoecidas 
de larga pregaria, tirando a bronzeado, acompanhando um bofete alto à» 
mesm<> igostov cot&|^!étav&o a nobilia *, e, centeoftplande-se, distantes e 
ermas, como ipie ItíàMrtavão a aolidão e ruminavão o epitaphie das 
cõiúpanheiíaj» ^que fllti^ão. Ao iaáo do bufete, appeniX) á parsde lascsada 
por élle, avultava um morrião de embutidos dourados do tempo do Prior 
de f!t^, ^tttt tetâ^ ionalgámada e uma láiga «epada deceiabato. 



— 3f — 

O teiápo, que tinliÉ tdfrez tetado « foiiliiiia, iwm âeixido iitaotM 
' 8S tnâições de gloria. 

A sklfly siUiaéa no «igi^ da haintaçSo, tí&ha timt só porta foe 
data para um coriedor escuroj no extremo do ^oal ficara a éfttrada 
exterior. Um reposteiro azul, que af^estara longos serriços, desframníAe 
até mais de meio, mostrava bordado no centro , em relevo de ratfos, 
escado partido em pala: o primeko em ^ampo vem^lho, banda axul^ 
cotieada ée ouro, carregada de três ííères de liz de prata; o segoitdo 
em campo verde, banda vermelha, eéUcada de ou!ro, saMndo das bodas 
de duáis serpes de ouro armadas de vetmelho, tendo por timl^e outras 
duas serpes de ouro voltadas emlngida^ Era o escudo de artnas dos 
B^^nguer de Andrada. 

O cavalleiro da couraça , menos pâdemte que «sias descnpçõee, 
amíBdava entretanto o seu pateeiò, encurtando succesaivamente o espaço 
que percorria, signal «vidente de uma inquietação que cbegava ao sett 
paroxismo. 

Gomo para i^dir a impaciência qne o devorava, « cavaleiro dirígiu- 
se ao ancião e diese-lhe ; 

— Eatão^ Sr. BerengueV) nada avistais? 

^ Nada , tornou o interpelado ^ dando um passo para o seu in- 
terlecutor, que se encostara â hombreira da janella para observar pesso- 
almente o caminho* 

— £ todavia, continuou o cavalleiro depek de Inreveiúlâicio^ como 
se respondera ás proprtaaobsen^vções; todavia cada minuto agora vale 
annos. 

•— Receiais alguma cousa p^ praça^ S^. Mathias de Aibin[uerf ae? 
perguntou o ancião^ desviando momentaneamente os olhos éo set tensa 
e mudo interloctitei 

•^ Se recdára, o meu kigar não rena aqulj-^replicou Jttatfaias de 
Albuquerque, o governador das armas da eapilania de Pernambuco, i^ 
que já sabinos que elle é. 

— Não reoeto por estes dias. Pelo mefaos emfoanto oe fortes se 
não renderem. 

^ E porque se hioder^df^os iòries I-»jredacgoi» Berengueri com 
uma intonação admirativa. 

— FaUais como um bomeaihoiioo e amante deeta terra, mas não como 
bomem de gu^ra, poeto que o tenhais sido, e dos bons, Sr». Serenguer,— 
accudiu o capitão-mór com o involuntário e leve sorriso 409 experientesi 



M 



— 30 — 

que da continuidade actira da sua profissão derívão uma perspicácia 
superior ao commum.— Estes scismaticos e hereges são engenhosos e 
práticos ná arte de defender e atacaras praças de guerra. Em Flandres 
o proTárão, contra escarpas e bastões, mais valentes e cobertos do que 
todas as nossas fortalezas sem alinhos, feitas em outro tempo mais para 
rechassar o gentio do que para esperar um ataque em regra. Os fortes hão 
de succumbir, porque não pôde úeixAt de ser. As estacadas não resistem 
ás bombardas e falcões que lhes sobejão a bordo. £ que pudessem resistir, 
robustas que fossem ! era mais (4ia menos dia. Afinal, aberta a brecha, 
quando dessem o assalto, que força temos nós para lhes oppòr ? 

— Não temos. . .«-atalhou o anciáo,erecto e firme como se o espirito 
fugaz do mancebo revivera nó corpo alquebrado do velho guerreiro;— 
não temos... porque nos deixarão para aqui desamparados de armas e 
soldados, a nós outros que já pagámos á pátria a nos:-a divida de sangue I 
Yêde se Olivares se moveu dos avisos que lhe não faltarão. Pois o caso 
não é novo. Mas nem o exemplo de S. Salvador da Bahia os ensinou. . . 

— Ahi não tendes que dizer, Sr.Berenguer,^tornou o capitào-mór, 
mais contente do que mortificado das violentas apostrophes do ancião, e 
como que secretamente lisongeado daquella generosa iodigoação. 

— O conde-duque armou galleões e caravellas^ eD.Fadrique de 
Toledo.... 

— D. Fadrique, dizeis vòs ?. , . Outro castelhano, outro — 

— Um cabo de guerra illostre. 

— lUustre seria, mas alheio ás nossas cousas e estranho aos nossos 
interesses. Que lhes custou a esses castelhanos esta terra, que nós temos 
regado de sangue e suor ? Forão eUes que a disputarão ao gentio, e 
levantarão essas villas, fizerão fiuir de plantações esses baldios, e puzerãp 
a alvejar na costa essa casaria de engenhos e aldêas ? Forão elles que 
arvorarão o signal da redempção nestas Américas , e baptisárão o torrão 
abençoado de Santa Cruz? D. Fadrique de Toledo, com todo o seu 
poder e sciencia, veiu só consummar a obra principiada e adiantada pelo 
nosso glorioso bispo de S. Salvador. Quando elle chegou já D. Marcos 
Teixeira, com a espada em uma das mãos e a cruz na outra, tinha dado 
esforço aos desalentados, brio aos que fugião, esperança aos que deses- 
peravão. Este, e não D. Fadrique, foi quem atalhou o pa?so a esses 
piratas da HoUanda e os encerrou nos muros da cidade consternada. . . 

•— D. Marcos — interrompeu Mathias de Albuquerque ^ era um 
prelado de bom conselho. ^ 



— 31 — 

— De conselho e de acção, Sr. governador das armas. Foi elle 
que levantou das matas e cavernas uma população de foragidos, e fez 
delia um exercito invencível, tornando o susto em fúria, os fázendcáros 
em soldados e os medrosos em heróes. O vosso D. Fadricpie veiu só 
recolher a gloria que elle semeara, como nos tem feito sempre ! . . • E 
o conde duque 1.... O que fez o conde-duque? Melhor do que eu o 
sabeis, Sr. Mathias de Albuquerque Fallai-me de um D. Affonso 
de Noronha , illustre na* Africa e na índia, que no ultimo quartel da 
vida mandou seu filho por si, porque o não deixarão trocar pelo 
arcabuz de soldado o seu bastão de commando. Fallai-me de um 
duque de Caminha, e de tantos outros dos mais grados e dos mais 
remotos, que todos á porfia querião vir em soccorro e defensão de seus 
irmãos, por honra e gloria desta terra e da nossa fé. Mas o conde-duque! 
Bem diz o dictado : « Ai Castella, Castella, que levas Portugal á vella I...» 
Portugal e Brasil é tudo 1 Que tem o ministro com o sangue que se nos 
esvae das veias, rotas de todos os lados ?£nfraquecemo-'nos assim-, éo 
que elle quer. 

« Se é castelhano I Bi nos regalos da sua côite, e mofii com os seus 
acontiados dos que se andio mofinos mfnando e cavando por lhe pagar 
suas páreas e quintos I Que vos derão a vós, Sr. Mathias de Albuquerque, 
para virdes por mares grossos e aparcellados defender esta capitania, a 
mais rica e opulenta de toda a costa? Uma pobre caravella mal armada e 
peior equipada, com poucos petrechos o menos soldados* 

« Isto vos derão para fazerdes frente ao poder dos estados e ás armadas 
temerosas de Flessioga. O conde-duque diverte-se em mandar as rezes 
ao matadouro. Que é o qiie se perde? Os Brasis. Que importa? Elle tem 
o Es curial e o Buen-Retíro, e as suas caçadas reaes a Aranjuez. Não é 
Castella que se descoDjuncta. » 

Ninguém diria que Bereuguer de Andrade, cuja ironia amarga, 
cuja vehemencia febril tirava maior autoridade das suas cans, e dos 
seus annos, era o mesmo ancião que parecia supportar a custo o peso 
da idade. O gesto rasgado e cmeaçador, a fronte erguida e imflammada^ 
dizião que uma fibra occulta se lhe distendera no intimo, ou que era 
elle como aquellas armas antigas de solida e modesta apparencia, de que 
só nos golpes se conhece a fina tempera. 

Passado um instante de pausa insistiu, como continuando uma pro- 
funda meditação interior: 

— Oh; se no ihrono de Bragança estivesse um rei nosso. . . . 




^ Alto «lu> Sr. B^reogiw, disse Vbíbm de Altaqo^rqqe; como 
IM)rtng»0a foliaria \9t^^ de ouvif^Tos ; um coai« g^etnadoir d«» ano^s 
d««4ii ci^»iaBia peto Sv. rei D. Phili^pe IV» oÃo de?o e8GU)(ar-¥Qs. Det^- 
eemgai aa T0869S iras..* , 

-^ Jitataa.... 

•-t Xahez. 

O caçitão^mór, oomio ham politico, eia drcumataiMíaa destaa ert, 
segundo se yd, exoBsahramenla aoaiitetodo a respeito de plirases ded* 
aivas, e preferia os termos d«bil9tiYos, que sallsbzem a muitos, e aio 
eomprometlem a mugaem. 

-^ Justa tahrez... contánuou. Gomo ia dizendo, desearvegai as 
vossas iras ]K> conde Duqike de Olirares; esse ião é mais do que pd- 
oaeíro mÍBisJtro.<. Mas é^ahipaaa cima... 

•*m S^ feilo, eoim> dázeis» Sr. eapitãormór. Os deTores da ^osse 
cargo, poréas, n£o aa oppõea queeupen^e.... comoTós cettamente 
pensaia« Cenvireia e^igo que se houTeranos sida soocorridos quando 
a infanta mandou aviso de Flandres. ... 

— AdQiiiQ a6 qued/^ tudQ este^^aia taa bm íofçi^jmioy cpudo se hou- 
yereis parte nos conselbos da gQYernan$A« 

— Çço9eU)ios I i:es{K)udeu o anciio qom uia sor^o pallido de sar- 
casmo. Ninguém pede çoqselho a um mojto. Mas o morto ou moribundo, 
que é o piesmp, estremece uq iiev ultimo leitQ, quaadQ a pátria dá um 
arranco destes. E yô^ e s^ibe mais que os çutros^ porque lhe andào 
já mais altos qs espirítçs. 

Aqui yiu-ae a mão da donz^ comprimir primeiro o seio, que 
Uieai{9.y^ como um pego em tempestade, e 9ubír depois a limpar uma 
lagrima fartiya; pobre parola perdida np mupdo. tbe^ouro inestimável 
pelos ineffaveis affectos que talvez a coqglobár$o e a soprarão ao cimo 
de um oceano de dôr. 

— Que quereis vós, Sr. Qerenguer? prpseguia o governador. Os 
aoQcorros n|o vierão ^ % pajca maipr d^r e vergonha os habitantes 
abandQn^Ho a cidadje, espalhando o terror e desalentando oe ânimos i^ 
a milicia mal organisada e bisonha ainda dispersou^se pela maior parte 
sem combater. . . Sem combater, Sr. Bereoguer I W pma ^qdoa de que 
ha d(e custar lavar-nos. 

MathiaçL de Albuquorque \Qxm violentamente o bigode, já em partes 
raiado de branco, e só a cortezia o forçava ^ e^ntipff a oiiípIo^&Qt fturtoaíi^ 
do soldado pundunorosQ feridq oof lami brios ^ 



— 88 — 

— - £nganais-yos, atalhou BcreDguer. . 

— Deusop^mlttal Para isso yim aqui 1... 

Vedes alguma cousa, Sr. Berenguer? accresçentou o capitílo-mór, 
preoccupado sempre das suas primeiras idéas. 

O ancião olhou novamente para fora ; e com um gesto de resi- 
gnação, qual obtida da impaciência, respondeu: 

— Nada ainda, Sr. governador. 

Mathias de Albuquerque reprimiu um movimento de insoffrida vi- 
vacidade, e continuou : 

— Dizeis vós que se nos não houverão abandon«ido. .. verdade é. 
Mas também se não fora tfsse contagio de terror, se não fora essa 
febre que se apoderou de todos, Olinda seria salva talvez. Era nas 
margens do rio Doce que os hereges podiâo achar o seu maior damno, 
se as trincheiras levantadas á pressa houverão sido defendidas. 

— Se não estáveis lá, Sr. Mathias de Albuquerque! 

— Obrigado, Sr. Berenguer, o bom conceito de homens como vós 
é conforto na má ventura. Não estava, é certo; mas estava o vosso 
nome, estava a salvação desta capitania, e é quanto bastava, se tivessem 
feito o seu dever. Ali naquelle terreno difficil e novo para elles, erão 
grandes as nossas vantagens, e podião cobrir o numero e a falta de expe- 
riência. Mas se eu não podia largar o Recife! Era preciso defender o 
posto da armada inimiga, que nos envestia do mar, e dar animo aos 
nossos bombardeiros do forte da barra Sabeis quantas riquezas ha no 
ancoradouro e nas tercenas: era ali o meu legar. 

— Todos nos fazem justiça, Sr. capitào-mór. 

— Eatão deveis também saber que mal tive conhecimento do de- 
sembarque dos hollandezes no porto do Páo Amarello, e da sua marcha 
sobre Olinda, corri logo ás estacadas do Rio Doce. . . . cheguei tarde. . . . 
tarde para a victoria; cedo, e de mais, para ver a nossa milicia em 
derrota, sem querer ouvir conselho nem ameaça. 

— - Sei já isso, como dizeis, Sr. Mathias de Albuquerque ; e sei 
mais com que esforço e bizarria, quasi só, tentastes ainda disputar 
a passagem do Tapado... 

—Ah ! Sr. Berenguer, interrompeu dolorosamente o capitão-mór, 

deixando cahir a mão sobre o hombro do ancião. Ah ! Sr. Berenguer, que 

fora ali o meu ultimo dia... Cahiria ao menos com a face para o 

^ inimigo, como deve morrer um bom soldado. . . Fora ali o meu ultimo 

dia, vos digo eu, se acaso só o dever de soldado tivera de cumprir I 

5 




— 34 — - 

«Não tendes outros .... 

— Tenho. Por isso resisti á indignaç&o e k tei^gdnha. 
^ Não é Tergonha ser vencido. 

— Mas é Tergonha nào tentar ayictoria^... Se elles^ão <iui2èrão I... 
-^ Eu fuil acrescentou o nobre guerr<^ro com a inflexão de quem 

aceita resignado a cruz de martyrio. Em fim o mal está feito. 

— E' remedia-lo I 

•^Bèm dito, dito dè fidalgo e soldado, Sr. Bêrenguer! E' reniedia-Io. 
Os lamentos inúteis são bons para as damas Telhas. . . . Maà nós temos 
tem^^ Tiito que nada apparece ainda. 

£ estendia os olhos âa direcção do rio. 

•*«- Nada» disse Bere&ger, depois de ter observado também. 

O capitão ^ór prodeguiu : 

— Fizess^â iodo» como Salvador de AteTedt), que sò apenas com um 
punhado de homens disputou o coUegio da companhk, até lhe arrumarem 

08 petardos aos muros, e lhe estallarem as postas Fizessem todos 

como elle, e veriamos ! 

— Não contais com a traição dos dous hereges ?... 

-- Adriano Frank e Gornelio Yan ? Forão esses que entregarão o 
fortim da entrada, que podia prolongar a defesa ; mas não sahrar a cidade. 
Que quereis? Era sina; parece que nos deitarão uma sorte. Ainda 
aquelles.... Estayão do nosso lado, ó certo, mas erão «cismáticos e 
calTinistas como os que vinhão : erão da sua tetra; não pudeíão resistir 
á tentação. Não forão ainda esses os mais culpados, vos repito. 

— Pois houve?. . . 

-^ Como, Sr. Bêrenguer I Sendo homem tão sabido e perspicaz, e 
conhecendo já a funesta historia destes últimos dias, não tinhas perce- 
bido.... 

•^ Mais traidores I acudiu Bêrenguer yibrandolhe tremente a indi*" 
gnação na voz e o furor naacçãol 

—Não dos nossos, tornou vivamente Mafliias de Albuquerque; não dos 
nossos, mercê de Deus I Sabei vós quem antes do perigo prégavt seguri- 
dade e favorecia a indolência ? Sabeis quem, depois dtílè, espalhou o ter-^ 
ror e o desalento, pintando aos homens da milícia o perigo de suas famí- 
lias, fazendo e promovendo por todas estas artes o abandono da cidade? 
Sabeis quem andou preparando esse espectáculo de um povo de velhos, 
de crianças e de mulheres fugitivas, que afroxou os ânimos, e quebrou 
os braços aquelles soldados de dous dias, que todm erão paii ou filhof, 



— 85 — 

ott maridos, ou irmãos? Sabeis qawi sa poz a segredar discursos 
artificiosos, que di?a<graçadameQtQ dayão éco em alfeetos e cuidados , 
que me não era dado cohibir ? Sabeis quem dispoz tantas vistas 
magoadas, que derretião olhos e corações ? Foi essa raça condem- 
nada dos judeus, que abi yierto do reino, com sua industria maldita, 
inundar a cidade e apoderar-se do commercio, oqiqo usão sempre eahir 
onde quer que lhes dá faro de ouro. Os rigores da santa inquisição pe- 
sarão-lbes nas consciências damnadas* Com outros hereges como elles 
esperão que os deixem livres em suas praticas abomináveis. Perd6e<-me 
Deus. . . bem que se trate aqui dos que pregarão a Christo Senhor Nosso 
em uma cruz, os excomungados!... Deus me perdoe, se é temerário 
este juizo ; mas se as minhas conjecturas me não enganão, elles forão 
que derão aviso aos piratas da HoUanda, e que por suas secretas manhas 
e arrazoados levarão os da cidade a este extremo de ignominia l 

— E vós que fizestes para os estorvar ? 

-*- Que podia eu contra estes inimigos occultos, que o povo sem re- 
flexão escutava, como quem lhe fidlava ás paixões ? 

-«- Razão tendes. Mas esses já estão castigados pelo saque desapie- 
dado que os scismaticos dérão á cidade. Foi a mão de Deus.... que 
tan^bem cahiu pesada sobre nós. Por toda a parte inimigos do santo 
nome de Christo e da sua fé. . . . 

— Que bem attestárão os seus ruins propósitos e cruelissima 
impiedade nas profanações e sacrilégios que em todo um dia commettêrão 
nas igrejas e sacrários. 

-^ Jesus 1 exclamou do seu legara gentil menina, que escutava at- 
tenta a conversação, não podendo suffocar um grito doloroso. 

Quem comprehender a exaltação do sentimento religioso desenvol- 
vido psla educação ascética daquella época avaliará e explicará facil- 
mente este catholico horror, que hoje foria talvez sorrir um incrédulo. 

— Sangue que não mente! murmurou Berenguer, cravando um 
longo e ternissiuH) olhar na donzella. Depois, como se qgizesse disfarçar 
esta demonstração de complacência e de affecto paternal, continuou : 

— £ consentirão tal ?. . . 

^ Quem o havia de impedir ? Tudo isto o sei de alguns escravos 
quevierão refugiar^se á fortaleza. Um homem houve... um heroe, Sr. 
Berenguer. . . Oremos ppr elle ! , , . um dos que havião ficado na cidade, 
André Pereira Themudo. . . Oh I esse, não podendo supportar a vista de 
tantas abominações, só e sçm esperança de soccorro, cahiu sobre os sa- 



# 



— 36 — • 

crilegos e malditos ; e quando succumbiu ás arcabuzadas e lançadas de 
centos delles, que se juntarão, tinha diante de si um parapeito de cadáve- 
res. 

— Deus o tenha em gloria, ao martyr, esclamou a donzella. £ er- 
gueuHse com o rosto de cera e dous fios de lagrimas pelas faces, juntando 
as mãos em uma oração fervorosa. 

O enthusiasmo e a piedade revelavão na mulher o anjo e no anjo 
descido aterra um daquelles caracteres excepcionaes que da fragilidade 
levantão o heroísmo . 

Berenguer contemplou-a coih io tenso amor, e proseguiu novamente 
electrisado daquelle exemplo e do próprio sentimento. 

— Ainda ha homens, Sr. Mathias de Albuquerque. 
-- Ha, e oxalá que os encontre. 

— Haveis de encontrar. . . . como os de S. Salvador, porque vós, Sr. 
governador das armas, sereis o nosso D. Marcos. 

— Se eu fora um santo prelado como eUe. • . tornou Mathias de Al- 
buquerque sorrindo, meio lisongeado da comparação. ^ 

— Sois como elle um grande cabo de guerra, replicou Berenguer; o 
molde está feito e o exemplo está dado .... 

— Segui-lo-hemos, assim é. Mas para isso cumpre saber. . . . 

— Uma resposta? Te-la-heis tal como a desejais, digo-vo-lo eu. . , . 
e senão. . . este braço ainda não vergou de todo para o chão. . . Mas não 
pôde ser. .. Esperai ainda, e vereis, ou antes ouvireis. 

O capitão-mór, que seguramente havia encetado esta longa conver- 
sação para distrahir a anciedade de uma espera, que é sempre penosa, 
e muito mais nas cousas graves, como vimos que era aquella, teve como 
um sorriso de jubilo errante nos lábios, ouvindo as ultimas palavras do 
ancião. Acada momento, pela direcção mesmo destas praticas, era natural- 
mente levado ás suas appiehensões impacientes. 

Continuou todavia: 

•— O que será desta terra se a abandonão seus filhos ? Tanto sangue 
perdido. , . . Tanta honra e tanta riqueza entregue assim. ., . dada quasi aos 
heréticos! £ que dirão de nós no mundo? Seremos o ludibrio das nações 
que nos apontarão com desprezo, dizendo : « Lá vão aquelles homens sem 
pátria, porque deixarão perder a pátria que escolherão! » 

Berenguer com a voz cortada, tremia como em uma sezão. 

O capitão-mór proseguiu : 

— Mas dizeis bem; eu também espero que assim não será. . . Se 



— 37 — 

fosse, a Bós outros só nos ficava a morte. Se as minhas esperanças, 
porém, se não realizào, sabeis, Sr. Berenguer, que bem iria ás vossas 
m&os uma gineta de capitão 1 Não vos faltará de certo o vigor para 
menea-la diante do inimigo. 

O nobre ancião , sem dizer palavra^ deixou pela primeira vez o 
seu ponto de observação, que Mathias de Albuquerque foi immediata- 
mente substituir, como quem não estava ali para outro íim. E dirigindo-se 
á parede fronteira despregou a velha espada dizendo em voz grave e 
convicta : 

— Capitão ou soldado, Sr. governador das armas, a espada de meu 
pai estava ainda ali, porque eu julgava que os moços bastarião. Olbai para 
ella, vereis que nunca ficou embainhada nos momentos decisivos. 

A donzella ergueu-se de novo, e deu alguns passos para Berenguer ; 
na angustia de uma solicitude que não pôde vencer, apezar do respeito 
que a immudecia. 

— Maria, continuou o ancião encarando-a, é a causa de Deus e da 
pátria. Nenhum braço pôde íicar ocioso. Não sabes o que devemos ao 
nosso sangue? 

A serenidade apparente desta advertência era temperada por um 
tom de aífecto meigo e protector, que fez baixar humedecidas as pálpebras 
da donzella. Um raio de enthusiasmo passou-lhe rápido nos olhos, e 
foi apagar-se na limpidez de uma lagrima envergonhada, brilhando como 
o íris na tempestade. Ou fosse que o terno iostincto feminino prevale 
cesse, ou fosse que as ultimas palavras do ancião lhe despertassem algum 
secreto e doloroso pensamento, a donzella cahiu pensativa na sua cadeira, 
e não levantou mais os olhos de um trabalho impossível. Em vez de 
urdir o trama complicado, quebrava machinalmente os fios : e a franja 
começada pendia tristemente como um aífecto desfolhado de esperanças, 
violentamente separado de illusões successivamente destruídas. 

-^ Bem, Sr. Berenguer, disse Mathias de Albuquerque, indo tomar 
a mão do ancião ; a espada de nosso pai está em boas mãos, e em mãos 
dignas delia, efio-vos que muita honra ha para nós, e muito proveito para 
esta terra, nessa resolução generosa. 

— Pois duvidáveis delia? 

Beranguer sorriu de um sorriso que era raro naquelle semblante 
austero. 

— De vós não duvidava, de vossos annos talvez. 



ã 



' — as — 

^MoéQ Qumero ó a qualidade d^lkai que j»e p^gf^, Sr« goveraa-* 
dor. 

£ um suspiro de eniranhado pexar lhe fugio entre as duas p^rases. 

— Mas não ha' annos nem cuidados que eitoryem um bopiem de 
acudir a este cuidiido maior 1 

«^ Eu sei o qua fora o nosso exei^plQ. ..... 

Nisto o tropear precipitado e surdo de um cavallo a galope sobre o 
terreno batido dos campos soou próximo, 

Os dous arremeçarão-se em um ímpeto unanime á janella. Maria 
estremeceu, fitou os olhos e deixou cdhir o (ragmento da franja inter- 
rompida pendente do seu ultimo fio, 

II. 

NOVAS PEASONAG^ffS. 

Um instante depois a pesada porta de yinhatico rangia nos gonzos, 
e o reposteiro da entrada, tufodo pela súbita ioTasão do ar exterior, e 
yi?amente anegaçado por mão juvenil , e pelo menos t&o impaciente 
segundo se via como os que esperavão, deixou ver um mancebo de 18 
annos, quando muito ; buço nascente, longos cabellos castanhos compridos 
e levemente annellados, ao uso do tempo ; boca larga e rasgada, mas de 
admirável firmeza de contornos ; alto, secco e de uma harmonia de 
proporções que denunciava um extremo vigor. Nos olhes pardo escuros, 
pequenos, mas vivos e penetrantes, fuzilavão como relâmpago do estio 
em céo sereno os clarões de uma vivida.intelligencia, que parecia ainda 
ignorar a sua superioridade. 

No seu todo, respeitoso, mas decidido, lia-se uma resoluç&o á prova 
e uma força de vontade daquellas que não conhecem obstáculos, eque, á 
semelhança de Napoleão, não admittem o impossível, porque a actividade 
febril da luta é o elemento do seu espirito. O seu trajo era elegante e 
esmerado, como de moço e galan, sem todavia indicar primazias de 
condição. O brilho e custo dos estofos erão compensados pelos escrúpulos 
do talhe, rigorosamente afmdo pelas ultimas modas flamengas chegadas 
do reino. 

O gibão, do mais escolhido e gracioso chamalo^ verde-eseuro, leve 
como o pedia a estação, descia, conchegado ao peito, á altura da boca do 
estômago, e ahi, abrindo, fugia um pouco para os lados, descrevendo 
duas diagonaes levemente divergentes até meio palmo abaixo da cinta, 



— 3& — 

ond^, foeendd dotis angúU)S agudos paralleloil, recuará enetiHatiâo ú 
citeulò das abas. As mangan, tuméstentas até ao eòtòtello, é)-ão)^te^ 
riotmente guarneéidail de bábdas òti passamaiíès de galào dê reb*oí 
tòt de rosa desvanecida, da largura de dòtis dedoâ, descendo tertical- 
taiente do franzido do hombrò ao franzido dppOsto da mesma manga. Úo 
cotorello até ao pulso, guamÉcidò de pUnhos bordados e recortados em 
longas tiras spheroidèos, o estofo cingia estreitamente o alite-braço 
para dar logar á grossa lura de pelie de tapir, cujos canhões, talhados 
eotno um cálice, subião bem meio palmo acima da munheca. 

A calça larga de panno de lilla listrado, abotoada do lado etteríor 
ao longo da perna, com uma pequena abertura ou golpe na altura dó 
joelho, rematava na direcç&o da curra por uma guarnição de fofos de 
fita da côr e da largura dos passamaneis. 

As botas, enrugadas sobre o peito do pé, moatravão , sahindo do 
largo bocal, uma^perna bem feita e nervosa, calçando meia branca de 
Guimarães, guarnecida defina espeguHhàde MaUinas. Pendia-lhe da 
mão esquerda, estendida pela costura da calça, o chapéo em que ondeava 
arrogante uma pluma também cÔr dè rosa, é na direita conservava ainda 
um fragmento delgado e âexivel de cipó térde do mato, que seguramente 
lhe servira para estimular õ ardor do seu ginete ; porque effectivamente 
era este o apressado corredor que no antecedente capitulo sentíramos 
avi2inhar-se á habitação. A sua physionomia, sem se recommendar pela 
formosura, nem pela regularidade, era todavia attrahente e distincta ; 
impressionava á primeira vista pelo raio superior que illuminava este 
conjuncto. 

O capitâo-mór examinou-o em um relancear de olhos prescrutador; 
e, seguramente pouco satisfeito da sua mocidade extrema^ disse para 
Berenguer em tom meio desapontado: 

— £* este o homem que me annunciaveis? 

No entanto o mancebo esperava respeitosamente i pòtta que lhe 
dirigissem alguma palavra; mas não parecia excessivamente mortificado 
de esperar, porque, sem perder de vista os dons homens, considerava 
com particular altenção^poder-se^hia mesmo dizer em longo embeveci- 
mento— o gracioso grupo da gentil menina no seu trabalho, que pelos 
modos a oecupava mais do que nunca^ sem maior fructo porém, porque 
os progressos do diíficil entrançado assemelhavão-se muito aos da tôa 
de Penélope. Não se poderia dizer aé era s obra se a obreira que o 
mancebo ardente e cautelosamente contemplava, nem nós o dizemos, 



40 

porque Deua nos defenda de juízos temerários ; nio se podia saber, 
repelimos, se era a obra ou a obreira que Ibe attraia os olhos, porque elia 
Dão levantara os seus da pequena machina que tinha diante, e que 
soffria uma locomoç&o estranha, Yiciima innocente de não sabemos que 
preocupações, visto que a linda mão de sua dona lhe imprimia a cada 
passo um movimento de translação difficil de explicar. O que só 
poderemos dizer é que as íaces da donzella brilhavão agora de um nacarado 
crystallino e leve como a primeira tintura rosada do oriente em madru- 
gada de primavera. Diríeis que o paniculo vermelho da ílôr da bromelia, 
despegado, nas silvas dos seus braços vegetaes , viera cahir sobre as 
pétalas tegumentosas do cacto alvissimo. 

Neste intervallo os dous continuavão a sua pratica; Berenguer 
respondendo á interrogação um pouco desabrida do capitào-mór, e 
aquelle observando. 

— £' este o que vos inculquei, sim, Sr. Mathias de Albuquerque ; e 
fio-vos que m*o heis de agradecer. 

— Mas que peso e influencia pôde elle ter em tão verdes annos para 
nos servir em obra que de tanta autoridade e prudência carece? 

— A influencia que dá o préstimo,— acudiu Berenguer. NaqueUes 
annos mesmo não o ha mais intelligente e de melhor conselho em cousas 
de commercio e de cultura, nem mais activo em cousas de serviço. Yôde 
ahi em toda a várzea do río se ha engenho que o não] consulte, ou na 
cidade mercador que o não chame. Mas para que é perder o tempo em 
vãos discursos ? Interrogai-o vós mesmo, e vereis. 

Effectivamente era o melhor alvitre, e Mathias do Albuquerque 
aceitou-o , inclinando-se com um gesto de tadto consenso. 

— Vinde aqui, Vieira, — disse o ancião para o mancebo, que 
obedeceu com mostras de summa deferência.— O Sr. capitão-mór quer- 
vos fdllar. Para isso vos mandei recado. 

O mancebo, sem affectação, nem servilismo, curvou-se respeitosa- 
mente na presença do capitão-mór, que já conhecia pelo ter visto na 
cidade ; e sem se intimidar, nem turbar da persistência do seu olhar 
incisivo e profundo, esperou em silencio que o capitão-mór houvesse ] 
por bem inquirí-lo, como lh'o annunciéra Berenguer. f-^ 

— Conheceis as pessoas de teres destas cercanias?—- perguntou] 
Mathias de Albuquerque. 

— - Todas, — respondeu o mancebo em tom de quem estava perfeita-] 
mente seguro do que affirmava. 



— 41 — 

«— E sabeis ondeparão os fugitivos da cidade e da milícia? 

•— As casas dos engenhos já não bastão para hospeda-los ; as choças 
dos escraros estão servindo de retiro e abrigo â famílias inteiras, que 
«li recolherão todo o precioso que salvarão. Outros, mais tímidos ainda, 
levantarão barracas no interior do mato. Olinda inteira passou para cá 
do rio. 

— Vôdes, Sr. Berenguer ? — ^ exclamou Mathias de Albuquerque, 
Benreguer tomou laconicamente : 

— Continuai. 

O capitão-mór continuou : 

— £ que dizem, que querem, que teutão fazer todos esses homens ? 

— Hontem, Sr. capitão-mór,— acudiu o mancebo, faiscando lume dos 
olhos, —hontem não se ouvia senão um grito de terror ; hoje. . . • 

— Hoje ? 

— Não se ouve se não um brado de guerra. 

Mathias de Albuquerque respirou como se lhe houvessem tirado de 
dma do peito os serros do Hymalaia. 

Berenguer, voltando-se com ar triumphante para o capitão-mór , 
exclamou : 

— Que vos dizia eu ? 

— Mas que esperão elles então?— acudiu Mathias de Albuquerque. 

— Um cabo e um exemplo—tomou o mancebo, sorrindo como quem 
estava certo de que uma e outra cousa não se achavão longe. 

— Se é só isso,— atalhou o ancião,— o cabo de guerra, sabedor 
como poucos, e, o que é mais, experiente das cousas da nossa terra, 
porque nella tem militado e nella tem sua fazenda; aquelle a quem todos 
obedecerão gostosos; o cabo de guerra... ei-lol 

E indicava o capitão-mór. 

— E o exemplo,— redarguiu este vivamente;— o exemplo... está 
aquil 

E apertou-lhe a mão. 
— Nesse caso temos homens ! — disse o mancebo — sem poder refrear 
um ímpeto de enthusiasmo. 

Depois, como se reconhecera que lhe não cumpria fallar deste modo, 
Bssociando-se aos desígnios de pessoas tão autorisadas, baixou os oUios 
«m silencio envergonhado. 

Mathias de Albuquerque fítou-o novamente e por largo espaço. 

— £ sabeis,— disse elle por fim,— quaes e quantas pessoas de prol 



6 



ã 



44 

capitão- mór, que entre os dous rios e áquem delles não ha uma só alm» 
de homem que não ancie para entrar em campo, uns com o fim do 
restaurar o perdido, outros com a idéa de remir o passado. 

— £ fostes TÓs, mancebo, que em tão verdes annos conseguistes 
reyirar assim aquelles ânimos ainda ha pouco timoratos ? —perguntou 
Mathias de Albuquerque, querendo apagar com a palavra o ultimo 
vestígio da duvida. 

— Não, Sr, capitão-mór, — tornou o mancebo y — não fui eu. Que 
homem ha que possa tanto ? Quem o ousara sequer na minha idade e 
condição? Não fui eu, foi o interesse. Os da cidade abandonarão tudo 
para salvar os haveres que puderão transportar; mas os engenhos e os 
plantios não se transportão, senhor. Se os hollandezes senhoieão livre- 
mente estas terras, o saque da cidade annuncía aos fazendeiros qual será a 
sua sorte, e os fugitivos sabem que perderão esses restos miseráveis de 
sua £8izenda,a que|elles,os allucinados, sacrificarão a honra. Esta voz e 
a da sua terra é que os chama e os ha de congregar, já outros, já 
resolatos,senhor; não a minha, que pouco mais sobe e pouco mais pôde 
que invocar o santo nome santíssimo de Deus e o santo nome da pátria. 

Mathias de Albuquerque não se fartava de contemplar aquelle moço, 
que ainda na adolescência dava provas de tão claro juizo, de tanta pers- 
picácia, e ao mesmo tempo de uma prudência e discrição tão raras 
naquelle periodo de petulância e florescência vital. Era com verdadeiro 
espanto que elle via os seus secretos designios de general experiente e 
consummado politico adivinhados e prevenidos com tal celeridade e acerto 
pelo instincto daquelle que reputara uma criança inhabil, mesmo para 
servir de correio e trazer informações. O dedo juvenil tinha encontrado a 
mão calejada do guerreiro ferindo a mesma corda sensível da população 
fugitiva. Quando este apenas tentava &ze-la vibrar, já o seu pensamento 
se achava convertido em facto, pela espontaneidade activa de um moço 
cuja existência nem suspeitava. 

Os que pretendem aferir e pautar os homens por uma certa craveira, 
tirada á medida de um dado numero de precedentes vu]gares,a que chamão 
regras, são propensos a negar estes desenvolvimentos precoces e intui- 
tivos, que são a aurorado génio. Esses taes terão de negar a existência de 
Conde e de Byron. 

Mathias de Albuquerque, homem superior, não julgava assim. Ficou 
por instantes pensativo no meio do silencio geral ; depois, em tom 
benévolo e affectuoso, perguntou ao mancebo : 



— 45 — 

— Sois daqui ? 

— Não Sr. capitão-mór«* redarguiu este.— Onze annostiaha quando 
vim da ilha da Madeira para esta terra que me acolheu desamparado 

O moço, posto que modesto como Timos, pareceu ferir esta palavra— 
desamparado -com certo orgulho. Era talvez aquelle legitimo sentimento 
de satisfação interior que involuntariamente se apodera de todo o homem 
que sem vergonhas, nem baixezas, se eleva por si mesmo, elevando-se aos 
próprios olhos. 

— Nesta terra me criei — continuou elle — nella tenho crescido e 
medrado. A minha terra é esta. 

— Bem respondido — atalhou Mathias de Albuquerque. 

£ depois como se resumira as suas tácitas ponderações, murmurou 
em tom sumido e pausado : # 

— Alma grande e engenho raro I Ninguém pôde dizer onde parará, se 
Deus o guardar de sua mão. 

— Mancebo — continuou, alterando a voz — de homens assim 
prscisamos, e contai que d'ora avante não tereis mais precisão de me 
contar os nossos feitos para terdes a minha confiança. 

Quem conhecia Mathias de Albuquerque sabia que valor tinhão taes 
palavras na boca de um homem apreciador de homens, cujo o único de- 
feito era a sua excessiva prudência. 

Um lampejo de supremo j ubilo, equasi de orgulho, fugiu nos olhos 
do mancebo e foi comcfum relâmpago reflectir-se nos da donzella, que 
assistia de parte a toda esta scena, como a imagem tocante e visivel da 
Providencia velando muda pelos homens. 

O ancião, apezar de ter visto com secreta satisfação o mancebo 
justificar tão plenamente o annuncio que delle dera ao capitão-mór, pa- 
recia extranhamentepreoccupado,e seu silencio era cheio de observações. 

— Obrigado, Sr. Berenguer — disse Mathias de Albuquerque, diri- 
gindo-sea este. 

— Já vedes que vos não enganei— tornou elle. 
O capitão-mór voltou de novo ao mancebo. 

— Gomo vos chamais ? -perguntou-lhe. 

— João Fernandes Vieira— acudiu o interpellado . 

— Tendes um nome que não ha de esquecer— retorquiu Mathias de 
Albuquerque, batendo-lhe no hombro# 

Algumas palavras de explicação não serão agora absolutamente inop- 
portunas. 




46 

Só motivos graves poderiào obrigar o capitão-mór, cabp de guerra 
poirduDoroso, como o attesta toda a sua vida, e escravo dos seus deveres, 
a deixar a praça do Recife ameçada pelos hollandezes, já senhores de 
Olinda. 

Francisco Bereoguer de Andraia, que servira com distincção nas 
guerfas da índia, descendente de uma família em que a profissão das 
armas era hereditária, aparentado com as principò es famílias da cepitania, 
e de todos respeitado e aòatado pelas praticas de uma virtude austera, 
pareceu a Mathias de Albuquerque a pessoa mais acommodada para dar 
começo a seus intentos . 

Sabia qual era a sua honra e caracter, e com quanto horror en- 
carava todo o dominio estrangeiro. 

Não duvidou, pois, dar-lhe parte de seus desígnios, mas quiz primeiro, 
por maior prudencia,sondar-ihe as disposições e com ellas as da população 
convizinha. Para isso fora á sua casa, como pessoa principal que era, e 
para isso também Francisco Berenguer mandara chamar Vieira, que, 
entre todos, lhe parecia o mais apto para quaesquer diligencias e infor- 
mações. 

Gomo offlcial experiente e entendido, o capitlo-mór conhecia q|u'e a 
defesa não se poderia prolongar no porto. Manteodo-se no Recife, o seu 
fim era ganhar tempo para organisar a resistência fora da cidade, e levantar 
os espíritos abatidos daquelle súbito golpe. A sua deliberiação era lenta, 
mas as suas decisões erão inflexíveis. Fixado no espirito o plano da 
guerra que apenas começava, não quiz deixar a ninguém es primeiros 
cuidados da execução, porque elle não ignorava que os princípios serião 
tudO'. Conhecia, além disso, que para firmar as grandes revoluções são 
necessários os grandes exemplos. Pela sua parte votado a tudo, tinha con- 
sagrado a vida ao serviço daquella terra. Nesse ponto nunca hesitara. 
Era, porém, necessário interessar na luta os principaes, e arrasta-los por 
um móbil poderoso. Como Vieira, contara também com o próprio inte- 
resse dos colonos abastados ; mas a politica dos hollandezes, passada a 
embriaguez e os excessos da fácil victoria, podia mudar, procurando 
attrahir os habitantes, fazendo-lhes esquecer as primeiras injurias, e, 
nesse caso, o sentimento nacional arriscava-se a succumbir diante do 
amor do lacro e do desejo natural de conservar a fortuna. 

Não fora, pois, sem premeditaçãxy que o capitão-mór recapitulara a 
Francisco^ Berenguer os dolaroscs siiccetfsos dos últimos dias. Era irritar 
o patriotismo ardente do respeitável ancião, estimular as suas recordações 



47 

guerreiras e força-lo a vir espontaneamente ao encontro dos seus secretos 

desejos. 

Quanto mais alvas fossem as cans do velho soldado da lodia, quanto 
maiores difficuldades parecessem oppor-se, ppr anno3, achaques e des- 
gostos a queelltí desprendesse de novo as arçnas que pendurara para se 
encostar no tumulo, tanto maior e maiseíficaz seria o impulso, porque 
aos veteranos obrigiva pela necessidade de imita-lo, e aqs moços pelo 
opróbrio de o não seguirem. 

Não era um soldado que Mathias de Albuquerque viera recrutar, era 
uma alavanca potente que diligenciava mover. A espada gasta de golpes 
do ancião valia um exercito. 

Em vez de uma alavanca achara duas! 

Comprehende-se que nesta ííituaçà3 o capitão-mór julgasse tão es- 
sencial a sua presença na veiga, e entendesse poder por algumas horas 
confiar aos capitães das suas bandeiras o cuidado de velar pela praça, 
que mal merecia e menos justificava esta pomposa designação. Como 
se vê, p resultado principiava a coroar os esforços da sua prudência e 
actividade. 

Francisco Berenguer de Andrâda, mais homem de guerra do que de 
commercip, tinha perdido todos os seus cabedaes em espieculações 
infelizes. Não havia nada de que nem mesmo a inveja o pudesse re- 
preheiíder ^ o seu infortúnio dobrára-lhe, pois, a autoridade, e as suas 
decisões erão oráculos para as familias nobres, que o consideravão 
como seu chefe. Orgulhoso de animo ecoosciencia, não quizera nunca 
aceitar soccorros, nem mesmo de seus parentes. 

O seu caracter severo e talhado pelo molde daquella raça de homens 
de ferrp, que pela maior parte foi abysmar-se nas arêas africanas com, o 
infeliz D. Sebastião e a desgraça, posto que suportada dignamente, jun- 
tando-se aos desgostos domésticos, bavião-lhe exacerbado certa melan- 
colia grave, que se traduzia por uma recrudescência de amor á solidão. 
As, circumstancias mesmo do terreno favoreciãto esta tendência natural. 
En^ uma população aiud^ rara e dsseipinada, bêm que dos feracissimos 
campos do litoral estivei sçm diariamenie convocando e aceitando colonos, 
a convivência não era ficll, e limitava-se, no uso ordinário, aos centros 
de movimento. 

Nos eng;enhos a tuíba da^ oíficinas e dependências bastava para cons- 
tituir uma pequena republica e alimentar as relações. Bjerenguer, 
porém, que não possuia aquelles vastos domínios, achava-se natural- 



t 



Ê 



— 48 — 

mente separado de todas as communicações frequentes, de que aliás 
voluntariamente se privava *, e esta mesma solidão contribuia para aug- 
mentar os respeitos e prestígios do seu nome, porque está na natureza 
humana acatar antes o incógnito, ou menos conhecido, do que prestar ho- 
menagem ao que familiarmente pôde ver e tratar. 

Distante muitas vezes de sua mulher, D. Antónia Bezerra, que 
vivia habitualmente com seus parentes, Francisco Berenguer concen- 
trava todas as suas affeições em uma única filha, que Deus lhe dé'-a, 
e com quem já travámos conhecimento na pessoa dessa gentil menina 
que achámos occupada em tramar aquella mal&dada franja, a mais 
difflcil de quantas franjas forão ainda tentadas por mãos femininas. Mas 
era o seu idolo, o seu enlevo, o raio de sol que lhe sorria nas trevas de 
uma vida negra e nas ne?oas que se lhe começavão a levantar do 
sepulchro. £ ella merecia-lh'o e pagava-lh'o. Era a companhia in- 
separável do ancião, e por elle recusava quantas festas e cannas, e esca- 
ramuças e saráos, que erão muitos e vistosos, se davão na cidade e por 
aquellas cercanias. Nos primeiros annos Berenguer preferira ter um filho, 
em quem pudesse continuar o exemplo que recebera dos seus. Depois 
vierão os dissabores e os desastres successivos ; vendo que um herdeiro 
não teria com que sustentar o lustre de sua casa, olhou pelo anjo que 
tinha ao pé de si. Âs suas graças infantis muita vez lhe desnuveavão o 
rosto sulcado de lagrimas silenciosas e acerbas. Viu-a crescer, e/ achando 
nella a suave e casta consolação dos dias cansados, no seu egoismo 
paternal quasi abençoou a pobreza que lhe permittia a esperança 
de conservar por mais tempo aquella a quem sobravão os dotes 
d'alma, mas em quem minguavão os da fortuna, que de ordinário se 
reputa o único para uma felicidade, que as mais das vezes se não acha 
nelle. Reflectia, porém, e tinha remorsos daquelle pensamento, e o seu 
pezar tornava-se mais pungente, porque, se para si já nada ambicionava 
no mundo, desenganado delle como estava, era todavia ambicioso por 
sua filha, a quem cedo fdtaria, e que assim ficava desamparada na terra 
e á mercê de coUateraes, género de dependência frequentemente mais 
custoso do que outro qualquer. Se uma caricia da formosa don- 
zella, que adivinhava sem lh'o dizer estas preoccupações, dissipava aquella 
tormenta de dôr e lhe serenava momentaneamente o semblante, era para 
senti-la mais funda quando a meditação o tombava na realidade cruelis- 
sima e lhe punha aos olhos o abandono daquella metade da sua alma, 
em que revivia e em que morto mesmo pensaria Um pai quando morre 



— .49 — 

nlo morre inteiro ; e se desce a descansar na pedra tumular, nem mesmo 

le?a o triste allivio de sepultar comsigo todo o seu coração. Acertafa 

algu ma rara vez de ir á cidade ou a visitar algum dos seus parentes, 

quasi todos abastados. A' volta, alvoroçado do ante-gozo de achar sua 

iilha esperando-o anciosa â sombra fragrantissima das embaubeiras, 

que por sua mão plantara â porta da habitação, sorprendia-se elle, o 

rude lidador, o homem de guerra, a pensar em brocados e maitinetes, 

em frisas e terciopellos, e a repintar na memoria os adereços e donaires 

que vira nas casquilhas. 

Um aceno de Maria fazia tentar impossíveis ao velho guerreiro. 

Sabia-o ella e não abusava. Só em uma cousa se mostrava indomável 

a alma rigida daquelle pai extremoso : era nos deveres de sua honra 

e nos preconceitos da sua estirpe. 

João Fernandes Vieira, o mancebo que jâ ouvimos, aos 18 annos 
tinha já um passado laborioso, activo, incansável, de uma intrepidez que 
chegava â temeridade, de uma intelligencia que presagiava o génio, de 
um juizo pratico que envergonhava os mais velhos; soube logo ao 
sahir da infanda tomar-se util,o que aliás não era diíBcil em um estado 
nascente, e no meio de uma população indolente e enervada, onde os 
serviços de uma energia provada erão sempre bem aceitos, eonde o prés- 
timo diligente e 06 braços decididos erão um seguro elemento^de fortuna. 
A fortuna efectivamente havialhe sorrido. 

Aportando ali aos 11 annos, como elle mesmo dissera, este homem 
admirável, sem] mais guia do que elle mesmo, quasi entregue a si e aos 
seus instinctos, rompera já a obscuridade ; e, na idade em que os outros 
nem pensão ainda no futuro, elle creára uma posição independente, gran- 
geáraas vontades de todos eíizera-se respeitar dos mais respeitados. 

Simultaneamente soldado, commerciante, fazendeiro e administrador, 
á força de paciência, de 'economia e trabalho, conseguira em poucos 
annos o que nem todos conseguiriâo em uma vida inteira. £ tudo isto na 
época da vida em que as paixões irrompem tumultuosas e tyrannicas no 
seuâmperio I 

Agora que já mais particularmente podemos apreciar os differentes 
personagens desta scena, vejamos o que se passa no logar em que os 
deixámos. 

O tempo que nós consumimos em dar estas informações ao leitor, 
tinha-o Mathias de Albuquerque empregado em concertar com Vieira 

e Berenguer a melhor maneira de aproveitar as boas disposições da 

7 



â 



— Sd — 

população, de modo qae, vigiando do Recife os movimentos dos hollan- 
dezes, disputando o posto em quanto tivesse meios defaze4o, elle pudesse 
entendendo-se com os cabos e eapitftes principaes, que a sua jerarchia na 
colónia estava j6 designando, dirigir os movimentos e preparar-se de 
ante-mão para uma resistência seria. 

-- Asam, pois, Sp. Berenguer, dizia o eapitão-mór, ireis ter com os 
Cavaleantis, e direis a Luiz Barbalho e a Ribeiro de Lacerda que faç&o a 
resenha dos terços da milieia, e lhe]untem as suas companhias. Recom- 
mendar-lhe-heis que se conservem pelo mato quanto possão : convém que 
o inimigo nada saiba das nossas forças. Que exercitem todos os dias a 
gente bisonha, e a acostumem aos saltos eás sorprezas. 

Mais arcabuzes e menos mosquetes. O mosquete é uma arma pesada, 
e precisa de muita bagagem, é bom para guerras e assédios regulares, 
mas nesses labyrintos de selvas, seria mais um estorvo do que uma arma 
efficaz. Mandareis um mameluco activo e fiel, pratico das matas e dos 
nos, ás aldêas dos gentios Taboyares, nossos alliados antigos. ... O pai 
do seu chefe actual, o Potyguarassú, foi também auxiliar de meu pai nas 
guerras de S. Luiz do Maranhão. Com esses podemos contar, creio. . . 

•— E com os Pitiaguares da Parahyba também, acudiu Berenguer. 
Os padres da companhia já os tem doutrinado e convertido, e por sua fé 
combateráõ como os outros. 

— Não é na fé e na christandade do caboclo que podemos fundar 
esperanças, Sr. Berenguer, tomou o capitão-mõr. Esses que dizeis são 
de uma raça indomável e feita a traições ; e mais certo estou eu de te-los 
por inimigos do que de have-los por auxiliares. Nem em sua amizade 
confiara nunca. Os da serra sim: são gente ferocíssima na guerra, mas 
de palavra, posto que gentios e máos christãos. Que vos parece, Vieira? 

— Parece- me que as uybas dos Taboyares são seguras como a sua 
alliança, respondeu Vieira visivelmente lisongeado de ser consultado 
assim pelo capitão-mór ; e creio que no interior do mato uma frecha vai 
mais do que um pelouro, porque não é menos certeira e faz menos 
estrondo. 

-* Isso é, retorquiu o capitão-mór satisfeito. Demais, não ha ninguém 
que possa igualar esses gentios em artes e manhas de guerra, em 
destreza e sagacidade delicadas,nem em modos de conduzir uma empreza. 
Meu pai, o Sr. Jeronymo de Albuquerque, que Deus em sua santa gloria 
haja, fazia grande caso delles. Se fechamos a milícia no interior da praça, 
deixamos os campos e es engenhos á mercê do inimigO) que cedo ou tardo 



— »1 — 

DOS renderá, ou pela força, porque as nossas trinebeiras não podem 
resistir aos seus canhões^ ou pela fome, porque bastará cortarem-uos as 
commuaicações, o que lhes será £»cil, desampardda a yarzea, para aos 
faltarem em breves dias os mantimentos. Sabeis, oomo eu, que os fortes 
n&o têm capacidades nem acommodações para tanta gente, que apinhada 
ali nos seria inútil, e mutuamente se embaraçaria, emquanio oá ióra.. « • 

— Pôde salvar esta terra» interrompeu Berenguer^ em vez de ir 
augmentar os trophéos dos calvinistas. Entendo bem a vossa idéa, Sr. 
capitão-mór. 

— Entendeis como homem de guerra que sois, tornou Mathias de 
Albuquerque. Além da difficuldade de passar com tanta gente os braços 
do rio, o que não podiamos evitar, occupando o inimigo a cidade, iríamos 
voluntariamente encerraí^nos. Seria como se uns aos outros nos atásse- 
mos os braços. O abandono do porto,continuou o capitão-mór em voz 
mais baixa e mais particularmente a Berenguer, o abandono do» porto é, 
bem o sei, um grande sacrificio. . . . 

— E' um sacriflcio necessário, atalhou o ancião. Aos que murmura- 
rem por suas perdas lembrar-lhes-hemos nós que a tal sacrificio nos 
forçarão quando em vez de defender a cidade. . . 

— Não, Sr. Bereoguer, interrompeu o capitão-mór, nada de recon- 
venções inúteis. E' preciso alentar, mas não irritar es ânimos. Con- 
vencei-vos da necessidade de tomar o passo aos invasores, e cobrir a 
capitania. INão tereis grande trabalho. Está nisso também o seu ioteresse. 
Verão facilmente que assim poderão [continuar seus amanhos e culturas. 
Mostrai4hes que é precisj íazer aos hollandezes o que os hollandezes 
nos farião se commettessemos o erro de fechar o melhor da nossa força 
em uma restinga de arêa, sem recursos para se alimentarem nem para se 
moverem os terços, senhoreando o inimigo Olinda, donde facilmente nos 
cortaria. Bem sei que os piratas têm o marflivre, epor elle|>ódem receber 
soccorros dos Estados, o que é am grande maL . . 

-^ Um mal irremediável, acudiu o fogoso ancião. 

•^ Mas tudo isso, continuou o capitão-mór^ lhes custará grossos 
capitães, porque terão por afai de se prover de tudo ; e esse povo de 
mercadores, vendo que a sui conquista lhes fica assim mais onerosa que 
productiva, facilmente se desgostarão delia. 

*— Gomo prudente e avisado arrazoais, Sr. capitão-mór, ponderou o 
ancião. Assim é. Tanto mais quaato pouco deveremos contar com os 
soccorros da eòrte. 




— 52 — 

— Veremos, vereinos, Sr. Berenguer, acudiu Mathias de Albuquer- 
que, que nunca se esquecia do seu caracter offidal, posto que interior- 
mente pensasse como o velho guerreiro ; veremos. Eotretaoto o nosso 
dever, o meu sobretudo, é dispor e preparar todas as cousas ; e como 
d'ora avante não poderei sahir da praça senão no ultimo caso, para dalli 
acudir ao mais urgente, e precatar-nos do mais immediato, de vós confio 
que heis de em tudo seguir estas instrucções e este concerto. 

— Entre pessoas como nós as acções é que respondem. Tudo será 
feito como dizeis, Sr. capitão-mór, replicou Berenguer. 

— E vós, mancebo, proseguiu Albuquerque dirigindo-se a este, 
continuai-nos a dar provas de prudência e actividade como até aqui ; 
concorrei-nos para que tudo o que fica disposto se execute e conclua a 
ponto, e vereis quanta honra se ganha em servir cada qual a sua terra. 
Os homens podem esquecer, mas ella não se esquece* Antes de tudo, 

Sr. Berenguer, preveni-me os gentios ou antes não 

loculcái-me alguém 

— Eu, acudiu Vieira. 

• — Vós ? respondeu o capitão-mór, sois preciso aqui. Para mais vos 
quero do que para correio. 

Mathias de Albuquerque tinha, como se vê, modificado excessiva- 
mente as suas opiniões em relação a Vieira. 

Depois continuou para Berenguer. 

— Inculcai-me alguém que tenha perfeito conhecimento do paradeiro 
dos gentios, que ihes falle em liogua tupi, e lhes leve as cartas que eu 
mesmo lhe entregarei para o seu chefe epara os padres. Quer-seum 
homem diligente e pratico, e.... 

— De um sei eu, atalhou Berenguer, de um sei eu que o não ha 
mais atrevido nem mais tratado com o gentio. 

— E coDhece elle as serras de Ibiapaba ? 

— Serras e florestas, enseadas e canhoeiras, barras e rios ; sabe 
tudo. Não ha, desde S. Salvadoraté Santa Maria de Belém, não ha ahi 
recanto do sertão ou recôncavo da costa que elle não saiba. O que ó 
difficil saber é o que elle ignora. Mas esse. . . 

Nisto estavão quando fora se sentiu uma rápida altercsção de vpzes, 
que percorrerão em um momento a escala inteira dodiapazão humano, 
desde o baixo profundo até ao sopra/no sffogato. Como o ultimo grito 
em tiple, puviu-se um baque surdo como de corpo que tombava, e quasi 
no mesmo instante, corrido violentamente o reposteiro, entrou/ ou antes 



— 5a — 

precipitou-se, um homem de altura colossal acobreado do rosto, visíveis 
nos braços nús uns músculos de ferro, e sobre uns hombros de Hercules 
Farnesio uma cabeça esculpida em bronze, que denunciava claramente 
o mixto do sangue indigena como sangue europeu nos typos modificados 
das duas castas. A sua entrada foi uma erupção. Maria não pôde suster 
um grito de sobresalto. O mancebo, encarando-o, recuou sem querer, 
comQ se tivera calcado uma cauda de jararaca. O capitão-mór levou 
machinalmente o mão ao punho da espada. 

Só Berenguer, encarando o recem-chegado, se não espantou desta 
súbita invasão. 

— Que ó isto. Domingos 1 disse o ancião em tom de quem já não 
estranhava as excentricidades do mameluco, nome que geralmente se dava 
aos homens daqueJla raça ; entrais-me em casa como os hollandezes 
entrarão em Olinda, ou os castelhanos em Lisboa? 

— E' que o vosso negro Simão queria impedirme o passo; e como 
vos trago novas que não soffrem demora, virme obrigado .... 

— A fazer do meu negro ponte, atalhou Berenguer. 

Este só replicou fazendo um gesto de assentimento soberbo. 

A figura tregeiteante do negro Simão Fróes, que tomara o appellido 
de seus senhores primitivos, segundo um uso frequente, apparecia no 
cngradamento da porta, sacudindo-ss ainda e preparando-se para um 
discurso justificativo ou exorobatorio, em que já se advinhara a mimica 
excessiva e a volubilidade de palavras particulares aos filhos da Africa. 
Esta appariç'o attestava aos menos perspicazes a origem do rumor que 
precedera e o baque que se sentira. Evidentemente o negro tinha sido 
victima de uma gymnastica, que elle toma va a liberdade de julgar um 
tanto extemporânea. Um gesto imperioso de Berenguer, a que o escravo 
se submetteu com a obediência passiva e machinal da sua classe, 
poz-lhe em debandada a eloquência, cheia de promessa, que desta vez 
ficou inédita, e privou o leitor de um curioso specimen das catilinarias 
do Congo . 

Desembaraçado da presença do negro, que ameaçava complicara 
scena, Berenguer fez um signal a Vieira, que se deu pressa a ir cerrar 
a porta e correr o reposteiro, e continuou para o memeluco : 

-— Não sabieis que estava aqui em particular conferencia com o Sr. 
capitão-mór ? 

— Sabia, meu sen hor -— respondeu Domingos, como quem par- 
ticipava da geral deferência que na capitania se tiaha para com o an- 



'>. 




— 54 — 

dão.*-^ Sabia, epor sabc-lo vim e entrei deste modo. £' oSr. capitâo- 
mór em pessoa quem eu precuro, porque só a sua autoridade pôde dar 
remédio a grandes males. 

^ £ em que estado, homem ! obserrou fierenguer attentando em 
Domingos. 

£ffectivamente o gibão redondo, largamente decotado e voltado, e de 
utn leve tecido de lã riscado, a que chamavão argelado ; as calças largas, 
curtas e soltas do mesmo estofo ; os borzeguins de pelle de avestru2 ou 
nandú, para resguardo dos fortes espinhos do mato, aceessorio precioso 
que naturalmente lhe vinha dos estabelecimentos do sul, tudo, até os 
grossos sapatos de vacca mal curtida, tudo lhe escorria agua, deixando-lhe 
um longo rasto passo a passo. O suor, que lhe gotejava em bagas de cada 
annel da den^^a coma, rente e crespa, e o^ limos que em partes lhe tinhâo 
ficado adherentes aos vestidos indicavão que o athleta americano, no 
Ímpeto de uma longa carreira, se inquietava pouco dos obstáculos do 
transito, e com igual facilidade vadeara os rios e ga]gára os matos. 

Um lançar de olhos bastou ao capitão-mór e aBereoguer, habituados 
ao paiz e a apreciar rapidamente as occurrencias, para verificarem a causa 
daquelle desalinho. 

Gomo complemento a este instantâneo exame, çollorario da anterior 
conversação, Berenguer disse para o capitào-mór : 

— £ste é justamente o homem de que vos estava fallando. 

— Bem, tornou terminantemente Mathias de Albuquerque. 

O capitão-mór prezava por extremo a concisão nas circumstancias 

graves,como as que presentia ali e exigia explicações rápidas quando as 
tinha á mão. 

Yoltando-se para o mameluco,e approximandc-se delie accrescentou 
laconicamente : 

— Fallai, e sô-de breve. 

— O inimigo mandou um parlamentario ao forte de S. Jorge, ia- 
timando-^lhe que se rendesse, se não iria logo investi-lo com tal poder, 
que fosse impossível a resistência. 

— Já o esperava. 

— Mas o que não esperáveis é que a maior parte da guarnição, 
acobardada dos fe^rros dos piratas, que já constavão antes mesmo da 
intimação, desertasse quasi toda. 

-*- Quasi toda ? 



— 85 — 

— Só sete homens ficarão com o Sr. capitão António de Lima, 
governador do forte. 

— Mais deserções ainda» disse o capitão-mór para Berenguer com um 
gesto de doloroso desconsolo. Vereis que nem tempo nos darão. 

Depois seguiu apertando com o mameluco : 

— E António de Lima gue respondeu, asçim desamparado como 
flcou? 

— Que a sua bandeira só se arriara qifandp um pelouro lhe partisse 
a hsste e lhe levasse o ultimo soldado. 

— Bravo, António de Lima I exclamou o ancião, como 9e o heróico 
governador o pudesse ou^ir. 

— Viste-lo ? perguntou o capitão-mór. 

— Chego do forte neste momento, meu senhor. 

— £ quaes são as suas disposições ? 

-— As que annuncia a sua resposta aos hoUandezes. Quando oparla- 
mentario veio, conservava ainda comsigo nove homens que teve o cuidado 
de distribuir todos em sentinellas para fazer crer ao inimigo que muitos 
lhe sobravão. 

O capitão-mó^ não pôde deixar de sorrir desta malícia militar. 

— Apenas o holbindez sahiu despaohou-vos logo um. . . 

— Não tornou a appar^cer ? 

— Não tornou, meu senhor. Passado quatro hoFas, enviou-nos outro. 

— E fez o mesmo ? 

— Fez peior. Em vez de tomar pelo pontal da arôa em direeção á 
praça, apenas sahiu ás portas, deitou-se a nado, seguindo a corrente, 
passou para a ilha de Santo António, e sumiu*se no mato. 

^ Gabardes I exclamou Vieira. 

— Vendo isto, continuou o mameluco, o Sr. capitão António de Lima 
fechou as portas por sua mão correu os ferrolhos, pendurou as chaves na 
garganta de um canhão, e sentou-se-lhe emcima, esperando o inimigo 
com tanta serenidade como se tivera ali dez terços para o soccorrerem. 
Quem quizer sahir, disse elle, ha de saltar a estacada. Ora, como a esta- 
cada é alta e as tranqueiras agudas, ninguém mais sahiu. £ em verdade 
os que ficarão, observando tal resolução, estão dispostos a acabar ali com 
o seu governador. 

— E a homens destes, que dizeis, Sr. capitão-mór ? bradou Berenguer 
Ecm se poder ter, emquanto um vivo raio de enthusiasmo iUuminava a 
nobre fronte de Vieira* 




86 -:- 

— Digo queelles é que hão de sahar esta terra, acudiu Albuquerque 
respondeudo ao ancião. 

O mameluco proseguiu a um signal do capitâo-mór : 

— Foi assim que o fui achar quando ha pouco o procurei... 

— E que fostes fazer ao forte? 

— Preveni-lo do que se passava na cidade. O Sr. capitão António 
de Lima, que me conhece, veio em pessoa abrir-me as portas, visto que 
lhe não sobejão homens para'escoltas e guarda- chaves. Como eu ali fora 
e com algum risco, sem m'o pedir ninguém, o Sr. capitão julgou que não 
tinha perigo de desertar, e enviou-me a vós. Eis a razão por que deste 
modo entrei em vosso aposento, senhor, accrescentou elle voltando-se 
para Berenguer. 

— Está bom, homem, ninguém vos reprehende por isso, acudiu 
este ; nem estamos agora em tempo de olhar por pontinhos. 

— Sabeis muitas cousas, observou o capitão-mór, medindo-o. 

— Sei, meu senhor, porque vou a toda a parte, e conheço toda a 
gente. 

— O que se passa tão singular na cidade que julgastes necessário ir 
prevenir disso ao forte ? 

— O inimigo prepara-se para vir pela restinga assalta-lo. 
Mathias de Albuquerque dirigiu-se rapidamente á janella. 

E, debruçando-se quanto o permittião as grades, bradou para baixo: 

-— Ayres Gil ! 

Instantes depois uma voz rouquenha, avinhada e jovial respondeu : 

— A^s ordens de sua senhoria ! 

— O meu cavaco I— bradou o capitão-mór com a inflexão que 
Schakspeare põe na boca de Ricardo III. O famoso— Ify/itw^dam for a 
horse -udiO era mais nervoso de impaciências. 

Depois, voltando ao grupo, continuou : 

— Não, não deixaremos assim entregues á fúria dos scismaticos 
hon;ieDS como aquelles. Tal não permitta Deus ! Importa acudir ao mais 
urgente. Mal posso agora desguarnecer a praça que... Não importa ! 
reforçar-nos-hemos depois, Sr. Berenguer. O essencial é isto. S. Jorge 
é a verdade^ chave do porto depois que o inimigo entrou a cidade. 

Vieira, dirígindo-se a Albuquerque, supplicando mais pelo gesto do 
que pela palavra : 

— Dais licença ?. . . • —ia elle começando a dizer. 

•— Fallai— atalhou o capitão-mór, que previa algum recurso novo* 



— 57 — 

— Não é necessário desguarnecer a praça. 

— Como ? 

— No engenho de D. Maria Paes ha vinte moços resolutos e de boa 
Tontade, caçadores dextros, e bem providos de mosquetes e arcabuzes, 
de pólvora e de pelouros. O forte não admitte guarnição numerosa. DeUes 
vos respondo, senhor ; esperão só uma palavra .... Bastarão estes ? 

— Bastão, se forem como vós. E quem os levará lá ^ 

— Eu, senhor ; e fio-vos que não hão de desertar diante do inimigo. 
Antes de Trindades lã estaremos todos. 

X- Vós também ? 

— Eu com elles. . . se m'o permittis. Mas não m'o negareis segu- 
ramente, senhor 1 Pois eu havia de mandar outros e ilcar I . . : 

Um suspiro profundo, intimo, doloroso, perdido no vasto âmbito da 
quadra, quasi um gemido adelgaçado em. crivo de angustias, passou 
desappercebido dos actores desta scena, menos de Vieira, que o sentiu 
no éco do mais recatado do peito. O sangue reíluido ao coração do 
mancebo deixou-lhe o rosto de cera ; e logo depois, ejaculando impetuoso 
ás faces, tingiu-lh'as de uma purpura incendida, que o fez vacillar como 
tomado de vertigem. 

— Não— respondia o capitão-mór — nao... Ireis.. Ide... Não se 
pôde perder nem um momento. 

— • Bem, Vieira!— disse o ancião, indo apertar-lhe a mão, favor que 
o mancebo agradeceu como quem pela primeira vez o recebia, e como 
quem lhe dava alto apreço. 

— João Fernandes Vieira — continuou o capitãomór, para o man- 
cebo — de ora avante tereis praça na bandeira da nobreza. Fazei por 
ganhar ali as vossas esporas de cavalleiro. 

— Sr. capitão-mór— tornou o mancebo, sacudindo para trás os longos 
e formosos cabellos castanhos com um movimento de orgulho soberano ; ^ 
justificarei essa honra, sendo digno delia. 

Vieira iDclinou-se diante do ancião e Albuquerque, e, dirigindo-se 
á formosa menina paralheofferecer os respeitos devidos á pessoa principal 
da casa, e tão senhora e tão bem nascida, perto delia, curvou-se também 
na sua presença sem dizer palavra, ou por acatamento ou por commoção 
interior. A vénia feita a uma santa no altar não seria r^ais religiosa. 

O fragmento da franja começada jazia no chão desprendida do seu 

ultimo fio. Gomo isto foi não seria fácil explica-lo. Quando o mancebo 

se ergueu desandar a donzella, a preciosa reliquia tinha desapparecido, 

8 




— 58 — 

e o mancebo apertava contra o seio a mão fechada. Ião rápido fora 
o movimento que ninguém apparentemenle deu por tal ; e ella, sem voz 
para soltar uma phrase, sem forças para fazer um gesto, immovel na sua 
cadeira, parecia a estatua da dôr na attitude de elevar a Deus o cálice 
da amargura. 

Ha objectos miuimos que são nadas no trato commum, mas que em 
um momento dado iomáo a significação de uma vida inteira. 

Ai dos que desprezão, rindo, aquelles talismans4)oderoso8 1 Átheus 
de coração, ignorão o mundo de sentimentos, que uma idéa suprema 
fecha nestes raysterios que fallão uma linguagem divina. Não soffrem 
esses, não gozão, e supõem que vivem ! 

Autómatos no mundo, movem-se ao acaso. Os dias para elles são 
a imitação fastidiosa de outros dias, revesão-se iguaes em uma^serie de 
funcções mechanicas. Assistem ao drama da humanidade sem lhe enten- 
derem uma palavra. A terra é o seu limbo. Não sabem o prazer, porque 
não sabem a dôr. E que sabem elles ? Deixão-se existir, andão para ahi ! 

Quando o mancebo, tremulo de uma agitação que nenhuma das 
graves peripécias desta scena pudera ainda excitar nelle; quando o 
mancebo, dizíamos, Toltou para sahir, os seus olhos encontrárão-se com 
08 olhos pardo-claros e vitrosos do mameluco immovel no seu logar. Um 
e outro cruzarão espontaneamente uma centelha medonha de tempestades, 
que como fuzila de nuvem para nuvem em noi^e de procella. 

Vieira sahiu. 

III. 

O PAI £ A FILHA. 

« 

Entretanto Berenguer e Mathias de Albuquerque, encarando atten- 
tamente o mameluco , parecião resolver entre si cousa que lhe dizia 
respeito. Este, immovel sempre, fitava um longo e persistente olhar na 
donzella, que o não podia ver, porque apenas sahira o mancebo que 
seguira quasi instinctivamente com a vista, cahira-lhe a cabeça pendente 
na mão, e a mão sobre a corda constellada da sua pequena machina, 
inútil agora, como se o ultimo sopro da vida se lhe tivera exhalado pelas 
ondas do reposteiro, ainda agitado do ar. 

Domingo Fernandes, conhecido por Calabar ou o Galabar, porque, 
segundo parece, este ultimo nome não lhe era pecuUar^ senão genérico 
a uma dada espécie de homens, alternadamente piloto da Costa, recoveiro 



— 89 — 

e um pouco contrabandista mesmo, era a expreseSo roais completa da 
prodigiosa actividade dos homens da sua raça. Ninguém tinha sondado 
ainda aquella alma profunda. Raramente um espontâneo signal exterior 
revelava o segredo tenebroso dos seus pensamentos. Tinha inflexíveis os 
músculos da face ; e quando queria sabia dar-lhes todas as expressões, 
como elle sabia tomar todas as apparencias. A's vezes passava-lhe uma 
lividez fúnebre sobre o rosto, quasi metallico, á semelhança da nuvem 
fugitiva que se antepõe correndo ao sol; mas era tão rápida, que não fora 
fácil perceber-se. Os olhos, pequenos e chanfrados, levemente inclinados 
sobre o angulo interior, herança do typo mongol, que por um estranho 
phenomeno predomina nas tribus indígenas, era de todas as feições a que 
mais revelava a sua origem selvática , transmittida atravez de duas ge- 
rações em que entrara apparentemente o sangue africano também ; era 
ali que os instinctos da ferocidade nativa se denunciavão mais claramente. 
Quando se sentia na ' liberdade da investigação própria, despedia delles 
uma setta luminosa, que varava como o venabulo, e quasi se sentia; 
quando se achava exposto á observação alheia, apagava-lhes o lume, e 
offerecia á analyse uma superficie de gelò, em que resvalava sem quebra-lo 
a mais aguda penetração. Desviavão delles a attenção? £rão de uma 
mobilidade que percorrião em segundos os mínimos detalhes. Fitavão- 
lh'os de novo ? Tornavão-se de uma' immobilidade de pedra. Parecia que 
a impassibilidade do selvagem lhe tinha entrado com o sangue , sem 
prejuaicar a petulância do africano e a energia do europeu . 

Os beiços grossos e carnudos accusavão-lhe os appetites sensuaes. 
Como que este homem singular reunia em caracteres mais oppostos de 
castas diversas^ e os alternava ou os misturava á vontade. Juntava a um 
vigor de alhleta uma aud«cia que não conhecia limites. Paciente e impe- 
tuoso, ardente e impenetrável, ninguém poderia dizer se nelle predominava 
o amor ou o ódio, a benevolência ou a inveja. Só Deus sabia os mysterios 
daquelle espirito, irritado pelo sentimento da inferioridade social da sua 
raça, que ainda tinha de lutar com os preconceitos de còr, com as 
distincções de gerarchia e com o exclusivo de classe. Carecendo por índole 
de uma actividade febril, exercia mais ou menos ostensivamente todas as 
profissões e todas as industrias. Amando a solidão para evitar o constran- 
gimento e paia respirar a sua liberdade instinctiva, tinha longamente 
interrogado os segredos das florestas, e, era familiar com o deserto. Na 
capitania coní^ideravão-o geralmente como uma espécie de fac totum, útil 
para muita cousa, apto para muitas mais, e, em todo o caso, melhor para 



i 



— 60 

amigo do que para inimigo. Nestas circumstandas n&o lhe seria diíBcil 
fazer fortuna, se de tempos a tempos, como levado de ímpetos estra- 
nhos, não consumisse em um só dia, em dessipações de uma prodigali- 
dade infrene , o fructo longamente accumulado das suas excursões 
aventurosas, para começar de novo a mesma vida. 

Tal era Domingos Fernandes Galabar, presente na pessoa deste 
novo personagem, que, ainda immovel, espera as ordens dos dous nobres 
amigos. 

O resultado da breve conferencia entre Berenguer e Albuquerque foi 
ir este direito ao bofete, e traçar â pressa algumas palavras sobre um 
papel que o ancião lhe apresentou. 

Nisto sentiu-se o galope de um cavallo afastando-se da habitação. 
Era Vieira, que partia para o eugenho de D. Maria Paes. 

A donzella ergueu-se, como se a impellisse uma occulta mola, e 
eácaminhou-se á janella. 

Berenguer percebeu-a, e, atalhando-lhe o passo a meio- caminho, 
tomou-lhe a mão e disse-lhe em voz baixa e tremula, em uma inflexão 
que fora impossível traduzir-se : 

— Não vês quem aqui está, Maria ? 

— Maria não respondeu; voltou a sentar-se como se levantara. 
Naquelle momento era o instincto enão arâzãoquea dominava. 
No entanto Mathias de Albuquerque terminara o seu escripto, e, 

íirmando-o com o sello das suas armas, aberto no punho da espada, 
foi a Calabar e disse-lhe : 

— Quereis encarregar- vos de uma distante e perigosa empreza, que 
dará também honra a quem a tentar? 

— A distancia nunca me assustou, e o perigo já me conhece — 
respondeu o impassível mameluco. 

— Tendes noticia das serras de Itiapaba ? 

— - £ da primeira até á ultima de suas aldêas. 

— Bem. Entregareis este escripto aos padres da missão. E' preciso 
não perder nem um dia, nem uma hora, nem um instante. 

Galabar por única resposta ioclinou-se e sahiu. 

Mathias de Albuquerque, recommendando anteriormente a Berenguer 
que lhe inculcasse um mameluco para aquella commissão, provava o seu 
longo conhecimento do paiz. As tribus indígenas vião nos indivíduos desta 
raça homens que ainda lhes pertencião pelo sangue; e o mameluco tinha 
mais probabilidades do que outro qualquer, não só de atravessar incólume 



— 61 — 

aquellas solidões immensas, onde a sua natureza meia selvaticai lhe era 
de um grande soccorro, mas de ser bem acolhido e attendido. O capitão- 
mór achara o homem que lhe convinha ; ulilisava-o. 

— Agora que tudo temos concertado e disposto —disse elle— des- 
pedindo -se de Berenguer, permitti-me que Yolte á praça. Já de mais me 
tenho demorado talvez . 

— De mais não, pois levais o que tinheis vindo buscar— acudiu o 
ancião. 

— E mais do que esperava, porque levo a certeza de vos ter por 
auxiliar. Não faltareis a dar-me aviso de quanto occorrer. 

— Deus vá comvosco , Sr. capitão-mór. Vereis que ainda me 
lembrào os meus tempos, e me esquecem.... os meus annos. 

O ancião correu a mão pela fronte, come se quizera expellir alguma 
idéa importuna. 

O capitão-mór apertou afifectuosamente a mão de Berenguer, cortejou 
Maria, e sahiu como homem que não pôde perder tempo, acompanhado 
do ancião, que fazia as honras de sua casa, como se estivera rodeado de 
escudeiros no antigo palácio de seus pai3 . 

A' porta, á sombra das embaubeiras, estava de rédea pela mão de 
um soldado^o ginete que pouco antes pedira o copitão-mór. Outro, preso 
ao tronco liso e esbranquiçado de uma das arvores, relinchava e escavava 
o chão, vendo o compauheiro próximo a partir. 

O soldado, que era o mesmo Ayres Gil, por quem anteriormente 
chamara o capitão-mór, apresentou-lhe respeitosamente o estribo ; e Ma- 
thias de Albuquerque, c< Ihendo as rédeas, saltou na sella com a dexireza 
de um cavalleiro con&ummado, e deu de esp oras . 

Berenger tinha já desapparecido no vestíbulo. 

— Estevinho, que fazeis, madraço? não v odes que o Sr. capitão- 
mór já lá vai ? - gritou para dentro o nosso amigo Ayres Gil. 

Um negro corpulento, coberto apenas, sahiu como um raio á voz de 
Ayres Gil, hybridamènte armado de piqne e arcabuz; e, eraquanto 
desatava á pressa o cavallo impaciente, voltando-se para o soldado, com 
o mesmo respeito cem que este se apresentara ao capitão-mór, disse-lhe 
na sua lingua mascavada . 

— Senho Ayras querê ruça? 

— Obrigado, tição ! — tornou este, estendendo desmesuradamente o 
beiço inferior, e respondendo peremptoriamente, com a inflexão desde- 



I 



— 62 — 

nhosa de um homem a quem se offerece uma cousa soberamenite 
desprezível. 

Ayres Gil era mosqueteiro. 

O negro, que provavelmeute conhecia as antipathias do infante, 
cavalgou de um pulo, sem sella, nem estribo; e, largando á desfilada, 
tomou em breve a dianteira ao capitão-mór, a quem servia de ex- 
plorador. 

De certo não parecerá estranho que Mathias de Albuquerque se 
aventurasse quasi só para longe da fortaleza, estando os hollandezes em 
Olinda. Se reflectirmos, porém, toda a estranheza cessará. Elle sabia 
que o inimigo não se atreveria a dispersar-se pelos campos, ignorando 
a situação do interior, nem destacaria columnas em quanto tivesse em 
frente os fortes e o porto occupados ainda, porque seria dividir as forças 
e expôr-se a qualquer tentativa sobre a cidade, ond?. antes de tudo tratava 
de se fortíGcar. Desembarcados de fresco, os hollandezes ignoravão os 
caminhos, e Matbias de Albuquerque era pratico no paiz. 

Portanto, mesmo no caso de encontro, ser-lhe-hia fácil evitar o pe- 
rigo, tomando pelos trilhos que lhe erão familiares. Para isso mesmo, 
quanto mais escoteiro andasse, melhor. Demais, constava-lhe que os 
invasores tinhão já por espiões alguns negros fugidos, e convinha-lhe 
esconder os seus passos á observação eás inferências do general contrario, 
o que seria mais difiScil rodeando-se de apparalo. Toda a sua escolta se 
compunha, pois, do negro explorador, que lhe ia abrindo caminho, e 
cuja fidelidade lhe era provada, e do mosqueteiro que lhe servia como de 
reserva. 

Ayres Gil era um homem baixo, reforçado, massiço, de nariz rubi- 
cundo e cara eíflorescente, circumstancia que indicava não serate^ii- 
perança asua virtude predominante. De resto, era companheiro folgazão, 
de uma jovialidade soldadescalnalteravel. Ayres Gil tinha visto todas as 
castas e ouvido fallar todas as linguas. Militara nos Paizes-Baixos contra 
os flamengos, em Africa contra os mouros e na índia contra os rumes. Era 
o typo do soldado velho, indiflferente ao perigo pelo habito quotidiano 
de aflfronta-lo, e o melhor bebedor das quatro partes do mundo, pois 
que actualmente fazia os seus ensaios bacchicos na America, com um 
êxito que não desdourava os passados louros . 

— Trazei-me lume— disse elle ao negro de Bsrenguer, que, ávido de 
todo o género de espectáculos, viera á porta vêraexigua cavalgada. 



— 63 — 

Emquanto o negro ia e voltava, examinou escrupulosameate a escorva 
do pesado masquete que tinha encostado â parede. 

Como o achasse em um estado âatislactorio, acendeu o morrfto em 
unia acha de mangue que lhe trouxe o negro; conchegou o sacco das 
halas, o frasco e polvarinho, sobraçou a forquilha, pôz a geito a espada e 
adaga, e, assopiando a corda, deitou o mosquete ao hombro como $e 
fora uma penna. Nas suas idéas de gerarchia social, Ayres Gil entendia 
geralmente que os negros não valiào a pena de um — guarde*te Deus.— 
Portanto desandou sem mais ceremonia por ali fora em um passo dobre, 
que o mantinha a uma distancia regular dos cavalleiros, silvando um 
p^^ourri incoher^te de todas as melopéas populares possíveis e im- 
possíveis, com o ar de uma creatura de Deus que não tem nada de de- 
sejar neste mundo ! 

Berenguer, voltando á sala, achou Maria encostada ao parapeito da 
janella, de olhos fitos no horizonte rendado pelas palmas immensas da 
pindoba distante, como se em um raio do sol, que se inclinava para o 
occidente, procurasse uma imagem conhecida e saudosa. 

Tâò habituados estavão todos a ver Maria sempre junto de seu pai, 
que ninguém pensava em lhe ocòultar estas conferencias de guerra, 
menos feitas para o seu sexo e melindres. Gonhecião também ó seu 
bom juizo e exaltados sentimentos; e Mathias de Albuquerque previra 
que a presença liiesmo da gentil menina influiria novos brios nos homens 
de que precisava, e o seu ascendente no anòião s«ria menos perigoso, 
estando ella constrangida pela presença de estranhos. Mais valia em todo 
o caso alcançar de um rasgo a palavra nunca desmentida 4o velho 
guerreiro, do que deixar ás reflexões o tempo de influírem na decisão. 
A politica não sente, calcula. 

A verdura dos annos, a timidez do sexo e o recato da educação 
haviào imposto á pobre menina, durante toda a conferencia, um silencio 
cheio de sensações. Berenguer, apezar dos seus extremos, como homem 
do seu tempo que era, julgaria faltar á dignidade do nome e posição, se 
nestas cousas uma só vez consultaese diante de todos sua (ilha. A qua- 
lidade e nascimento da gentil menina autorisava ali a sua presença, 
mas a sua situação forçára-a a ser muda testemunha do que tanto e tão 
directamente lhe interessava. Em poucas horas nublára-se-lhe o céo 
matutino da sua vida na aurora. Era outra existência, turvada de 
dôres e anciedades que se lhe desenrolava diante. £ ella sentia-o, e 
assistia como inerte ao fragor das armas que já the apontavão os tires 



J 



— 64 — 

ao peito ! Era uma posição cbeia de martyrios. O choque das nações 
esmagava no embate aquelle tenro coração. Emquanto os lábios callavâo, 
que paginas eloquentes de sensibilidade lhe não ião por dentro ! Fe- 
chava, porém, no seu pudico silencio a angustia e as lagrimas, como 
a sensitiva que ao primeiro sopro da tormenta cerra no cálice a ultima 
gota de orvalho. 

Berenguer entrou a passos lentos e circumspectos. O guerreiro 
cedera o logar ao pai. Encarando Maria, a nuvem habitual da sua 
physionomia enérgica e venerável carregou-se de mais luctos. Que idéa 
negra lhe projectava novas sombras pelas faces escurecidas deUas? Erão 
as apprehensões de uma vida cortada de lances e sobresaltos, como elle 
já não esperava vive-la nos seus annos? Era o receio do que seria de 
sua iilha naquellas agitações inesperadas ? Era a incerteza da sua sorte 
e o cuidado do seu futuro ? Seria ainda outro sentimento mais secreto 
e mysterioso ? 

Quem poderia explica-lo I 

•^ Maria — disse o ancião, depois de a contemplar com entranhada 
magua — Maria, filha, em que pensas tu ? 

P Havia na voz de Berenguer .um mixto de reprehensão austera e de 
queixume supplicante que fez estremecer a donzella. 

A sua resposta foi lançar-se-lhe nos braços debulhada em choro. 

O velho cingiu-a estreitamente ao coração, e, com a voz estran- 
gulada, com um olhar ancioso e profundo, exclamou : 

— Tu ama-Po? 

Maria descahiu-lhe dos braços para os pés convulsa de lagrimas. 

Berenguer teve um Ímpeto de ciúme furibundo, que seccou os 
praotos e immobilisou o assombro no rosto da donzella. 

Expliquem os physiologistas este phenomeno dos zelos patemaes ; 
mas digão se elle existe ou não, os pais que já sentirão accumulado 
em uma filha única um aífecto exclusivo. Estremece o coração até a 
raiz á primeira lembrança de entrega-la a outros braços e repartir a 
um estranho as suas caricias, E' a lei eterna e irrevogável ; é a condição 
humana ; é ver renovado nos filhos o próprio sentimento que os fez pais ; 
mas, se as paixões raciocinassem nos seus momentos de paroxismo, não 
erão paixões ; e o amor paternal, em condições dadas, é uma paixão 
também. 

O ancião affastou-se como insensivei á gemebunda attitudc de sua 



— 66 — 

filha e foi cahir em uma das largas cadeiras do aposento, com a cabeça 
fechada nas mãos. 

As relações habituaes daquelles dous entes estremosos erão as de 
uma intimidade sempre affectuosa, temperada de solicitude protectora da 
parle do velho guerreiro e de respeito carinhoso da parte da gentil don- 
zella. O severo rigor da educação daquelles tempos não admittia as fami- 
liaridades entre pais e filhos, que hoje, bem entendidas, mutuamente os 
apertão de mais laços de amor; mas, nas circúmstancias extraordi- 
nárias em que se achavão os dous, era para ambos uma necessidade ex« 
ceptuarem-se das praticas usuaes da época até ao ponto em que não ferião 
no âmago as idéas recebidas. Se erão quasi a única familia um do outro I 

Esta revelação, custosa em todos os casos, foi, pois, neste acerba 
e vic lenta. O movimento de Maria ao sentir Vieira partir não escapar* 
ao ancião, que todavia disfarçara, porque o orgulho e o sentimento do 
que devia a si mesmo lhe impunha a obrigação de occultar os seus dis- 
sabores domésticos. Fora um clarão que o ferira de súbita luz, tra- 
zendo-lhe uma idéa nova. O raio deixou -o de pó ante o mundo, mas 
entrou fundo pelo coração. Tinha pensado ás vezes na possibilidade 
deste acontecimento, e a sua razão dizia-lhe que Maria precisava de um 
protector na terra, pois que elle declinava para o sepulchro ; mas, como 
nunca lhe conhecera predilecção ou preferencia por nenhum dos moços 
nobres da capitania, como não julgava possivel,nem imaginável dar-lhe 
um esposo de outra classe, estava longe da suspeita que naquelle mo- 
mento iuopinadamente o fulminava. Ha crises assim na vida. Ladôa-se 
longo tempo uma realidade com os olhos fechados para ella, e um acci- 
dente leve ergue-a repentina ao facho que se acende relampeando. De 
ordinário a sorpreza é amarga. Berenguer estava nesta situação. Con- 
seryando-se impassível diante dos seus hospedes,tentâra illudir-se ainda. 
O gesto de Maria, quando lhe dirigira a interrogação decisiva, não lhe 
deixava duvidas. 

Quanto a esta, pela primeira vez na sua vida achava em seu pai 

um movimento de cólera, e pela primeira vez também via condemnada 

por aquella dòr uma acção da sua vida. Dizia-lhe o coração que não 

tinha parte nella a vontade; dizia-lhe a consciência que nella não 

havia culpa. Que importava ? Era um pai, objecto de uma longa vene- 

ração,que tacitamente lhe exprobrava o que ella nem podia achar erro. 

E8talava*lhe a alma apertada entre dous sentimentos diversos. 

9 



« 



— 66 — 

Mana, ainda 4e }oelhos, arrattou-se puM a eadf^ira do anciio. Toàtm 
as dores se reunião ali naquelle momento solemne. 

BereQguer reflectia lox^amente, e a donzelU lon|;amente soluçou a 
seos pés. Nâo predaa^âo &llarrse: erãp dous^spintos que se entendião 
cpnfuodi^do^e. 

Reflectiu Bereogueii e a razão prevaleceu. 

O or^culbo da stirpe é que estava ferido sem remédio. 

•^ Ama-Po I — bradou elle afinal com mds pledai^e que ira, mas 
ainda com uns restos de incurável pezar. 

Não precisava nomear o objecto deata a que o escriptor latino com 
3obf ja razão chamaria — feliz culpa : — Maria comprehendia-o perfei- 
tamente. 

— Ama-ro, filha I e teu pai não o sabia I . . . 

O vendaval serenava. O tom afi^ectuoso de Berenguer restituiu a voz 
â donzella : via já o pai atrás do juiz. 

•^ Nem n*o sabia eu, senhor pai— acudiu a pobre menina, erguendo 
para etle o rosto, aljofarado de lagrimas, formoso como o da Vénus sa- 
híndo do mar. — Tão pouco o sabia. Como vo-lo dissera èu, se a mim 
mesma o não tinha dito nunca ?. . . 

— Deus louvado I — exclamou o ancião, que sabia que sua filha 
nunca mentira. — Tem remédio ainda. Passará. 

— Ai I iâso não — atalhou vivamente a donzella.— Sois justo e bom 
como Deus; dír-vos-hei a verdade como a seus olhos a diria aos pés do 
confessor. ... Oh I perdoai-me, senhor pai, se fiz mal ; mas como havia 
de evita-lo, se, quando dei por elle, o mal estava feito? Encontrei -o, al- 
gumas vezes em casa dos nossos pai entes, quando se ia !á tratar 
negócios, e depois ouvia a cada passo o seu pome. Ai ! sabeis como 
aquelle nome é pronunciado por todos. De vós o ouvia também com 
louvores que, na vossa boca são attestações. Se o via, era um sobre* 
salto que me fazia fugir a luz dos olhos e m^os cegava da sua imagem. 
Se delle se fallava, não tinha já ouvidos para mais. Longe que estivesse, 
advinhava-o p^os passos. Distante qtre o nomeassem, presentia as 
palavras que fiie dizião respeito. Quem me havia de dizer que era isto 
amor 9 Criidei que eraí admiração e estima como todes lhe têm. 

-* Dobrado veneno que lhe entrou pelos olhos e pelos ouvidos ! •— 
mormuroa o ancião. 
Maria proeegHiu : 

— Sé conheci... té adivinhei que o amava quando ahi> ha poueo, 



— dl — 

vendou «ffastar-s« para correr a uma morte qvasi ífiirta, itiili qti» 
se me ia a alma com ^e. Foi ent&o que tl, ftefthor pú, qro ptra 
tal ' homem me fadara Deus, e que sem elle Dão posdo já tér ventura per- 
feita na terra. A iito chama amor porque é islo o que uma âeBzdla dere 
experimentar por aqneUe a quem vaút a sua vida. IKes seus olhos li 
sempre respeito e devoção; o que elle podia ler dos tím», iii»n'« sei, 
porque, rendo-o, não sabia pensar. O que ali amei, sem tlrhe-lo, foi 
a ahna grande, as generoias aeçôes, os alto» sesiÉBMntos. Amava-o 
nss llçòes que me déeles e vas virtudes que me recommendai^eie ; 
como não havia de ama-las onde as achava tão clatas, e tâe vivas^ e 
tão confessadas em toda a paite ? Não Mnava a pessoa, annva o exemplo. 
Agora não tem remédio. 

«^ Mai^ to nfto vès, mísera filha^ (foe é vm villão ! — exdamou 
o velho. 

r- Um villão ? —interrogou a donzella seai comprehender o sentido 
completo desta palavra* 

— • Maria, a nossa classe im^põe deveres sagrados. Es^e mancebo, 
que eu prezava e que entrou aqui por nosso mal, é como dizes, não 
t'o nego. Mas qual é sua casa e nobreza? 

— Nào lh'o perguntei, acudiu rapidamente a donzella^ quando 
minha tia contou qne ihe salvara elle, â força de zâio e diligencia, toda 
a sua fortuaa e fazenda ; não n'o perguntava quando via os escravos 
beijarem-lhe as mãos e abençoa-lo na sua passagem, um porque o tirara 
meio afogado do rio com risco da própria vida, outro porque o resgatara 
de um castigo cruel e injusto, e todos por alguma prova de um. coração 
inestimável. Não é itto nobreza, meu pai? 

— É... para estimar-se, não para desprezar o nosso nome. 

-^ Pois despreza-se um nome quanda se alliâ ao que faz e dá no- 
breza ?<.« Descamai, porém, seikhor pai. Farelo que ordenardes. Se 
para a gloiia e lustre de nossa casa julgais necessário que afogue na 
alma o qvie já seria uma ventura se pudera ser uma esperança... 
obedecerei^ morrerei... 

— Morreres I 

— Mas já afora deixar de ama4e, não posso. Vossa filha, se- 
nhor, será sempre digna de vós; nas feliz... não n'o espereis. 

-* Pois é a esse ponto 1 

-«• Na nossa casa e fisonilia ainda ninguém se inviUeeeu : eu farei 
como Dosaos passados, babeis o que eu pensei, quando o Sr. Hathias de 



é 



— 68 — 

Albuquerque lhe deu voz pela bandeira da nobreza?... Um homem 
daquelles não consente que a mulher que ama... 

— DÍ8se-t'o já? 

— Dis8erào-m'o unicamente á partida os seus olhos. . . . Não con- 
sente que a mulher que ama desça para se Igualar com elle : elle é que 
sobe para se igualar com ella. 

— Como ? 

— Gomo ? Ganhando a nobreza como nossos avós a ganharão, como 
vós mesmo a tendes conservado e accrescentado, senhor pai. Que tem 
brios para isso não o provou ellejâ?... Eu pensei que podia... Mas 
para que vos hei de estar mortificando, pai e senhor meu ? A sua e a 
mlDha sorte estão decididas. Como vós sacrificastes á pátria os vossos 
últimos annos, que tão descansados precisáveis, sacrificou elle a sua 
vida !•.. 

Um dilavio de novas lagrimas cortou aqui a phrase da pobre 
donzella : a alma da mulher sabia do coração d£c heroina . Resignava-se 
a sacrificar tudo pela pátria ; mas não podia ver sem prautos acerbos 
o sacrificio que lhe enviuvava prematuramente aquelle puro e casto 
amor. 

— E' dever de todos I — bradou o ancião . 

— E' — redarguia a donzelia. — Vede lá se é nobre quem o cumpre 
assim?... Ail eu sei-o. Do pcsto para onde vai é raro escapar. 

Maria pronunciou estas palavras como quem se encaminha ao mar- 
tyrio. Berenguer, invoiuQtariamente pungido daqiielia immensa dor, 
acudiu : 

— Não, filha, nem sempre se morre. Eu estive em muitos assédios 
e batalhas, e todavia. , . . 

O velho guerreiro parou de súbito e teve um pensamento de có- 
lera contra si mesmo. Havla-se armado de severidade para cortar em 
flor aquelles amores ; e pouco a pouco, insensivelmente, sem o querer, 
achava-se consolando a filha, das suas inquietações pelo objecto delias L 

— Basta — proseguiu depois de pausa— não é occasião esta de tratar 
de amores e galanteios. Outros são meus deveres agora, e outros devem 
de ser meus cuidados. Resolveremos depois. Quem sabe o que nos trará 
o dia de amanhã ? Conheceis, Maria, que muito vos amo e muito vos 
quero. Lembrai-vos também que tendes hoje em vossas mãos um brazão 
de três séculos de honrada gloria: vivo eu, não consentirei que lhe 
ponhão maocha. F impossível que possais ficar aqui nas circumstancias 



— 69 — 

actuaes. Partireis amanhS. Ireis para casa de minha senhora e cu^ 
nhada D. Isabel de Gces, onde está Tossa mâi 

Berénguer, terminando estas palavras, sahiu rapidamente para man- 
dar dispor as suas armas e cavailo, como se receiâra que Ihesuccumbisse 
ali á illha a rígida austeridade. 

Mana, erguendo os olhos e as mãos ao céo, resumiu toda a sua bella 
alma em uma daquellas orações ingénuas e ardentes, que os aojos yào 
depor no seio de Deus. 

IV. 

o FORTE DE S. JORGE. 

Para melhor se entender a sequencia das sce nas que vão passar-se, 
será conveniente procurarmos dar uma idéa das localidades em que ellas 
succedêrão. 

No século de que escrevemos, a povoação do Recife, ou Arrecife, 
como então lhe chamavão, estava longe de ser o que é actualmente. A im- 
portância commercial de que já gozava vinha-lhe de sua situação, quasi 
fronteira á barra priacipal, e admiravelmente accommodada aos armazéns 
que ali tinhào em grande cópia os commerciantes, por se achar sobre o 
porto, entre o surgidouro dos navios mercantes, formado pela confluência 
dos dous rios, Capibaribe e Beberibe, que se ínternavào pelas terras cm 
sentido divergente, e o ancoradouro das embarcações de maior porte, 
que ordinariamente fundeavào ao norte do Picão, defronte do logar onde 
os hoUandezes levantarão depois o forte de Brum. 

Naquella época era Olinda a sede permanente do governo da 
capitania. A sua posição, próxima do mar, tinha orígnariamente determi- 
nado a encolha daquelle ponto. Edificada no século anterior, a legenda 
do seu nome é graciosa como o paiz que domina. 

Esta porção do littoral fora primitivamente occupada por uma das 
nações mais feras e bellicosas da América meridional, os terríveis 
Cahetés, que fazião parte da grande raça dos Tupinambás, mas que, 
separando se da vasta federação, tinhào vindo estabelecer -se. naquella 
região, atiahidos pelo aprasivel do território e pela vizinhança da costa, 
o que sobretudo convinha ás suas tendências essencialmente marítimas e 
guerreiras, porque dali, nas jangadas que rapidamente improvisaTão, lhes 
era íacil levar a desolação e o exterminioia distancias consideráveis. Por 
muito tempo a colónia, theatro de luctas porfiadas c sangrentas, se achou 




— 7^ — 

exposta ás suas suintis excurções. A' final liverão de recuar ante a civi- 
lisação que avançava ; e, retírando-se em diversas direcções para o norte, 
derão origem ás tribos ôliaes dos Tobojares e Pitiaguares, acima no- 
meados, que missionaiios zelosos tinhão na época desta historia começado 
a doutrinar com vario successo. 

Nascião apenas os estabelecimentos que tanto devião prosperar, 
quando Duarte Coelho Pereira, o primeiro donatário da capitania, pene- 
trando pela enseada e subindo até ao sitio onde depois ae elevou a cidade, 
ao aportar na margem e ao dar com os olhos na forma e disposição 
daquelles terrenos formosissimos, exclamou : 

a^Oh! linda situação para se fundar uma villa . i> 

Olinda ficcu a povoação : a exclamação foi um baptismo. 

Dei^ois, como crescesse o tracto e negocio, e o porto se tornasse 
um dos mais frequentados e oppulentos daquellas paragens pelas razões 
jí ditas, cemeçou a formar-se o núcleo da povoação do Recife, que, nos 
tempos a que nos referimos, era apenas um pequeno burgo de cento e 
eíncoenta moradores, quando muito,p€la maior parte pescadores ou em- 
pregados no porto. Se a povoação, porém, era pequena em numero, eia 
grande em valia pela sua posição singular, que logo descreveremos, e 
porque ali, como dissemos^ tinhão os mais abastados habitantes da 
cidade as suas riquezas commerciaes. Poucos tempos arites da invasão, 
como já vagamente se £allasse dos armamentos dos holkndezes, o go- 
vernador geral do Brasil, Diogo Luiz de Oliveira, mandou ali o sargento- 
mór do eskado, Pcdio Corrêa da Gama, que, olhando á conveniência do 
porto, como pôde, o fortificou, rodeando-o de fortes palissadas das ri- 
gissimas madeiras da terra. 

Tal era então o Recife, que por um abuso de locução, que rapi> 
damente degenerara em habito geral, chamavão a — Praça. 

Para que se posia comprehender a importância do forte de S. Jorge, 
que vemos ameaçado pelos hollandezes, será ainda conveniente en- 
trarmos em mais alguns detalhes. 

O porto de Pernambuco, ou do Rccif<), é fechado por um immeuso 
recife natural, donde deriva o nome, que se estende de sul a norte, desde 
a Bahia de Todos os Santos até o cabo de S. Roque, aresta de rccba ser- 
vindo de immenso diadema a alguma s^rania submarina, cujas raizes 
Deus assentou no fundo do oceano. Neste pcnto, o recife, que mais 
parece molhe natural e obra intelligente de gigantes, toma uma confi- 
guração particular. Por espaço de uma légua, pouco mais ou menos, 



— n — 

corre elle em linha recta, a oem braçae da praia, na fónna de uma 
larga muralha, qnasi ao iiiTei das ondas na pre-«mar, e oousa da aeia pés 
sobranceiro na ^saote. Nos dias de tempestade, as T«gA9 irritadata 
infestem com a penedia unifònne ; e, ragiado como um If opel de leões 
titânicos, a sacudirem ás estreitas as jubas arttpiadas de neve, galgão este 
obstáculo eterno, opposto á aua colara, e predpitão^se aiám do «olbe, 
turbando as aguas tranquillas do poito como,inyejosas delias. A' pouca 
distancia do Recife, a muralha levantada pela natureza,interrompe-se, 
como se Deus mesmo quizera abrir uma porta áquella terra fecunda, e 
forma a barra principal, que nesta época era defendida por um forte 
denominado da Lagem, ou de S. Francisco, assente sobre um rochedo 
isolado da banda do sul. 

No interior do porto, entre este e o rio Beberíbe, corre uma restinga 
de areia, de cincoenta passos de largura proximamente, 6 maneira de 
comprida e estreita península, que parte de Olinda e se prolonga uma 
légua para o sul. No extremo desla península é que ficava o burgo fron- 
teiro â ilha de Santo António, e ainda separado delia pelas aguas com- 
binadas dos dous rios affluentes. Além da ilha estendilo-se as vastas 
planícies allagadiças, que o Beberifoe inunda, e que então erão designadas 
com o nome de Terrados Afogados. 

Quem já no século XVIII percorresse os três bairros da povoação 
que augmentâra e se fizera príncipal-^o Recifo que o ocupa o logar do 
antigo burgo, e que pela maior paite é devido aos hoUandezeS", «• Santo 
António, que se alarga pela ilha, desde o palácio das duas torres até o 
forte das Cinco Pontas ; — e Boa-Vista,que vai ainda do outro lado es- 
palhar as suas formosas casarias pelas veigas do continenteiquem, dizemos, 
já por fins do século XYIII visitasse os três bairros de povoaç&o, mutua- 
mente ligados pe^as duas pontes que a ilha estude como dous braços 
abertos, de um lado para a península do Recife, e do outro para ^ várzea 
de rio, difficilmente poderia fazer idéa do que Mathias de AU)uque(íque 
chamava praça, mais por ornato de linguagem do que por consciência mi- 
litar : as pontes não existião, e a ilha do Santo António estava ainda, pela 
maior parte, coberta da sua vegetação primitiva. Por consequência, o 
burgo Isolado só pela restinga de ar^ que elle terminava se ligava ao 
território, que Olinda, oceupada peles hollanéezes, fechava no extremo 
opposto da pequena península. 

O forte de S. Jorge, situado quasi a tiro do Recife, entre este e Olinda, 
interceptava, p(^, completamente todo o accesso ao inimigo, e protegia 




— 1f — 

as commnmcações que pelo rio se mantinhão entre o burgo e as terras 
do interior. Os hoUandezes, tendo desembarcado como no-lo disse Ma- 
thias de Albuquerque, no porto do Páo-Amarello, quatro léguas acima, 
havião penetrado pelo norte», o sul, e portanto o porto, estava livre ainda. 
Pelo que toca á sua armada, emquanto o forte da barra estivesse defendido, 
não podia senborear-se do porto, porque a entrada da barreira, á meia 
légua da barra e também defendida por um fortim , servia só para 
lanchas. 

Da península, porém, '^sobre a linha longitudinal do molhe, que o 
forte da Barra guardava, sahia um banco de areia, submergido nas marés 
cheias, mas de ordinário vadeavelna baixa-mar quando não havia aguas 
vivas. Era a commuoicação única entre o burgo e este forte, e por ella é 
que os hoUandezes poderião vir assalta-lo, afim de abrir caminho aos 
seus navios. 

Já se vê, portanto, qual era a importância do forte de S.Jorge, que, 
por um lado, protegia o da barra e impedia que lhe pudessem formar 
assedio, e pelo outro deffendia o burgo e as suas relações com o interior, 
onde pelos cuidados do capitão-mór e dos mais influentes da terra se ia 
organisando a resistência como vimos, e onde já algumas partidas de 
milícias percorrião o terreno, sem perderem occasião de saltear os ini- 
migos que se aventuravão fora da cidade. Mathias de Albuquerque 
dissera bem : era aquella a chave da posição. Perdida ella, torna va-se 
impossível sustentar o Recife. Senhores do forte de S. Jorge, os hol- 
landezes não faltarião a investir o da Lagem, de S. Francisco ou da 
Barra, que, levantado para defender o porto do lado do mar, era 
muito menos defensável do lado da terra ; logo que este ultimo es- 
tivesse rendido, a denominada praça ver-se-hia simultaneamente assal- 
tada pela armada no porto e pelo exercito de terra na restinga de arêa. 
Ora, a armada dos hoUandezes compunha-se de 60 velas, e subião a 
7,000 homens regulares as suas tropas de desembarque, 6,000 dos quaes 
guarnecião já Olinda, todas estas forças commandadas por Henrique 
Lonck, por Theodoro Yanderburge pelo almirante Pieter Adrian,distinctos 
já nos mares da Ásia. Mathias de Albuquerque não tinha para oppôr 
a todo este poder senão as estacadas de Pedro Corrêa, 2,000 homens de 
miUcias com poucos soldados regulares, e 100 cavallos, a mesma gente 
que se tinha dispersado na passagem do Rio Doce, e que eUe de novo 
tratava de reunir no interior. Não só era impraticável mante-lo naquella 
estreita liogua de arêa bloqueada de todos os lados, comoinfiilUvelmente 



— ^ 73 — 

O seria logQ que os hoUaiidezes yencessem o único obalacttio cpte se lhes 
oppunha; mas seria commetter uma imprudência que desde o principio 
entregaria a capitania inteira ao inimigo, sem mais toabalho do que 
formar uma pequena povoação que nem podia defender-se. Capitão pru- 
dente, ICathias de Albuquerque tinha, pois, razão sob^a quando pon- 
derava a Berenguer os inconvenientes que esta descripção melhor JEará 
comprehender. (*| 

ConservaQdo o burgo guarnecido com os poucos que no primeiro 
Ímpeto o não tinhão abandonado e com os soldados regulares que já ea- 
tavão 4b presidio na capitania, o seu fim era achar- se em estado de 
animar e socoorrer o forte de S. Jorge, afim de lhe prolongar a defesa 
quanto pudesse, porque elle bem via que era aquelle o ultimo parapeito 
do porto» e porque o seu único fito era, como ouvimos ganhar, o 
tempo necessário. 

£', pois, evidente que tamanho devia ser o empenho do inimigo em 
assalta-lo como o do capitão mór em i;onserva-lo quanto pudesse. 

Vejamos agora o que era em si mesmo o fameso forte. 

Afiastar-se^-hia da verdade quem imaginasse que naquelle século a 
arte que iliustrou Vauban tinha feito na America os progressos que fszia 
na Europa. Nesse tempo em que a estratégia, que o grande Frederico 
modificou e Napoleão revolucionou mais consistia em assédios e sur- 
prezas de praças do que em batalhas campaes, e em que as mesmas bata- 
lhas vulgarmente se davão para soccorrer as fortalezas sitiadas, ou para 
impedir os soccorros nesse tempo , dizemos , os hoUandezes e flamengçs 
aperfeiçoarão consideravelmente as fortificações, mas a scienda tinha 
ainda muito que andar, e as fortalezas de construcções americanas deste 
género, destinadas na origem a defender das invasões do gentio as novas 

{*) Beauchamp, na sua Histeria do Brasil^ diz que Mathias de Albu- 
querque abandonara o Recife, antes de relatar o ataque dos fartes. Cm 
presença da descripção que se acaba de ler, vê-$e que semelhante 
opinião é inadmissivel, porque se não pôde attribuir semelhante absurdo 
a um hcmetn como MaUiias de Alfruquerque, o vencedbr da batalha do* 
Mont^o^ primeira e uma das mais decisivas das guerras da acdanuição 
em Portuga], quando a historia é accorde em nos apresentar aquelle 
general como um militar intrépido, de consummada prudeoclà, e 
^tmimãmente hábil: e vergado na aite díoi guerra. Mias nãò é só a ratione 
que o erro se- demonstra. Ae particula;ridadês em que entra o padre 
Ca^o na sua iponographia, e o testemunho* au^orisado de Brito Freire, 
esctíptor de peso em taes matérias, por ser da profissão, desmentem 
pd^tiVMnènte histotiadòr íhBiricez» que parece ter citado a iVòvi» Lu- 
€itmí» sedi' ter p^rfmto conhecimento de tal obra. 

IO 




colouias, conierTaTào em moita parte as suas Mções prímitiyas» e por 
consequência os seus insanáveis defeitos. 

O forte de S.Jorge estará neste caso. Fora unia espécie de feitom 
fortificada, como as que os primeiros navegadores de Portugal levantavão 
na índia para segurança e protecção do seu commercio. Gercava-o unui- 
muralha quadrangular, com dous baluartes apenas para o lado do mar, 
sem escarpas, nem fossos , nem revelins e nem quasi espécie alguma de 
obras exteriores. Pouca resistência poderia, pois, offerecer. As cortinas 
ameaçavão luinas. O único obstáculo contra uma tentativa de assalto 
ei^o as grossas estacadas e as tranqueiras que ultimamente se haTÍãa 
construido. A artilharia desta fortificação informe e incapaz de uma 
resistência séria consi tia em três peças de ferro, montadas em trayes 
fortes de YÍohatico,que substituião as carretas. 

Já Timos que homem era António de Lima, o governador daqueHa 
singular fortaleza : o facto relitado por Calabar pintava o seu caracter. 
Perfeitamente decidido a sepultar-se debaixo dos muros velhos confiados 
â sua defensão; esperava o inimigo com a serenidade de um homem cuja 
resolução está fixada. Emquanto tivesse munições e um só dos seus sete 
homens em estado de pôr fcgo aos canhões , contava resistir aos faollan- 
dezes : quanto ao numero destes era cousa em que não pensava* A sua 
única preocupação fora dispor os parcos recursos que tinha de modo tal 
qtie melhor e por mais tempo pudesse offender os aggressores. A mais 
possante das três peças foi collocada na meia-go!la do baluarte que olhava 
8í>bre a prolongação da restinga, e as outras duas ao longo da cortina 
que dizia para o mesmo lado. Sabia que es hullandezes não podião tentar 
nem descer o rio peio Leste,nem internar se no forte pelo Oeste, por íalta 
de meios de transporte ; por consequência concentrava todos os seus 
esforços e attenção ia face ameaçada. Quanto acs lados, sendo estreito 
o fosso que o forte deixava, a artilharia era inútil. 

Desde que os hollandezes tlnhão desembarcado, o governador nãe 
fizera ainda seoão empregar, assim a parte da guarnição que podia dis- 
pensar do serviço, como todos os moços do porto que pudera achar, em 
coitar arvores nas matas da ilha de Santo António e em couduzír taboa 
e madeiras da povoação do Recife; as maiores e mais pesadas erão as 
que elle escolhia de preferencia. Os soldados, desejosos sempre de 
interpretarem as ordem de seus chefes, scismavão com esta accumulaçâo 
de taboas, troncos e vigas, a que não podião achar uma ^pplicação 
razoável ; alguns mesmos comeavão a murmurar, já se vê quando o 



75 

goyemadoT não estava presente. Os mais onsados dizião entre si» que 
melhor seria proverem-se de artifícios de fogo e de mais armas apetre- 
chos»» sem foliar no aitígo dos mantimentos, que elles discuUâo com ama 
severidade extrema Mas António de Lima, que era um homem sóbrio 
de palavras, deixava-os fallar, eia ordenando, comum escrúpulo syme- 
tricô que honraria qualquer dona de casa governada e ordeira, as pilhas de 
traves e os renques^ de madeiros, que destribuia com irreprehensivel 
equidade por vários pontos anteriormente designados. Desde que, para 
evitar as deserçõ* s, tomou o expediente de se sentar em ciam das chaves, 
para que ninguém tivesse tentação de sahir, não podendo augmentar a 
sua collecção, occupou a gente, cujo serviço de sentínellas simplificou 
engenhosamente para que lhe ficassem ainda alguns braços disponíveis, 
em favor das taboas anteparos para resguardar os artilheiros, e em 
transportar as vigas para cima dos parapeitos. 

Os restos da guarnição começa vão a perceber. 

Pelos fins da tarde daquelle mesmo dia em que Mathias de Albuquer- 
que fora á casa de Berenguer, ia o sol |á no occaso, parecendo mergu- 
Ihar-se na immensidade do occeano, entre as bandas espumadas do 
poente que se franjavão oppulentas de ouro e purpura ; já os últimos 
revérberos do astro-rei tingião de um rosado paUido o cimo das vagas 
e8pumosas,que se quebravão no molhe, vindo do mar alto, quando o 
governador, que passeiava na banqueta do parapeito que fozia face fron- 
teira a Olinda, como quem não tinha outros cuidados senão gozar deste 
espetaculo maravilhoso, no momento de voltar-se dando as costas para 
o lado do mar, parou soltando uma pequena exclamação, cujo sentido se 
figurou de bom agouro para a sentioella, que pouco distante media 
regularmente o inflexível numero de passos marcado pela disciplina. 

— Oh 1 . . . oh I — murmurou António de Lima, subindo acima do 
canhão, que ainda conservava pendentes da gola, em fórma de bentinhos, 
as chaves do forte, e fitando os olhos na direcção do Recife. 

O que assim chamava a attenção do governador era uma jangada, 
que, soltando-se da ponta das Salinas, atravessava para a povoação fron- 
teira, guiada por quatro negros do porto. A machina grosseira parecia 
l>em guarnecida degente armada. Um raio extremo de sol afifogueava 
no >lto o cano dos mosquetes, e tirava uma scentelha rubra da flamma 
de ferro dos piques apinhados. 

António de Lima proseguiu as suas observações em um solilóquio 
de notável concisão. 




— 76 — 

— Oh!., oh ! lemos gente nafiR 1 .. . 

Não se sabia se esta reflexão signiíicaTa descenOança ou esperan^. 

Antomo de Lima eoatinnoua 4>bseryar os moTÍmentos txun uma 
persistência que attestaya o ioleresse que toma?a neste incidente. 

A jangada apertou em breve á povoação, onde foi recebida eotto se 
}á fôm esperada, ea pequena ^opa, desembarcando em boa ordem, entrou 
nte chamada Praça. ^ 

O governador mão tirou mais os olhos daquella direcção. Dez mfaraitos 
depois, um f^rupo de SO homens proximamente, sahindo das estacadas do 
'Recife, caminhava pela Ungua de areia, dirigindoose ao forte. 

António de Lima^ que estava já mais habituado ás deserções do que 
aos soccorros, julgou este successo singular; e, contornando amuralha 
pêlo terrapleno, veiu postar-se na face opposta á que anteriormente per- 
corria, para observar de mais perto o que vinha do Recife. 

O governador, que não tinha nada de crédulo, via bem que o 
inimigo não viria ataca-lo em numero tão diminuto, nem passaria primeiro 
pelo Recife; mas gostava de verificar tudo com os seus olhos. 

Chegado o grupo ao alcance da voz, o grito da sentinella quevigiaiui 
daquelle lado soou, o cano do mosquete baixou sobre a sua forquilha, 
apotttandoá gente quese approxlmava, e a corda, assoprada rapidamente, 
brilhou como um ponto vermelho entre as primeiras sombras; que 
-desdão. 

O grupo estacou instantaneamente com uma firmeza e regularidade 
que attestava a perícia de quem o guiava. 

António de Lima chegava naquelle instante ao ^é da sentinella. 

— Bem — disse elle, vendo o zelo eboa continência do s(dda4o. 

-^ O' do foite! — gritou de €6rauma voz vibrante, posto c^ um 
tanto rouca. 

** E^ a voz de Ajjrres Gil-^exclamou a sentinella sem se poder ter. 
Silencio 1 ^ atalhou o governador. 

Depois, fornido das mãos, arqueadas em torno da boca, um tubo 
«moro, bradou para fóra : 

•^ < A que vindes ? 

•■^ Amigos ! — respondeu a mesma voz.— Ordens e soccorro do Sr. 
iuipi1S6-mór. 

—< Esperai I ides ser reconhecidos -r- redarguiu o tgoTernador de 
tmtk ídhus pretendidas muralhas. 

António de Lima observava minuciosamente as regns^como se 



\ 



77 — 

tiyeia um terço por guarnição e commandára uma praça de guerra de 
primeira ordem. 

Passado breve espaço» a porta situada na face da oortma respectiyat 
comdos^osÍBrrolhas, rangeu noa seus gonzos, b um sargento safaiu fóra 
a reconhecer os recem-ch^ados. 

Ayres Gid, que }á é nosso conhecido^ dif se-lhe como ykiha ali o 
Sr. João Fernandes Vieira, e mais vinte moços dos engenhos foe o 
acompanbavào para auiilio e defensão do forte emquanto não chegarão 
outros soceorros fue se ficarão preparando. Mathias de Albuquerque ba- 
tia encarregado o mosqueteiro deguiar e advertir os Toluntarios, porque, 
sabendo o rigor disciplinario de António de Lima, queria que elles 
levassem alguém capaz de lhes ensinar as obrigações do seu novo estado. 
Vieira commandava realmente a tropa, que lhe o«bedecia espontânea com 
cega confiança; mas Ayres servia como de uma espécie de instructor,cu]Os 
conselhos e experiência erão precisos naqueila occasião. O mosqueteiro 
havia obedecido com a possibilidade habituad a quem não tem por uso 
discutir ordens, e parecia summamente satisfeito do seu novo encargo. 

Gommunicadas as senhas, e recebida a resposta pelo sargento, sem 
Blais apparato, porque no forte nfto havia luxo de gents pam eseoltás, 
neeebérão os voluntários de Vieira, que elles erão cooh) vimos,a licença 
•de entrar. António de lima esperávamos áquem da porta, no ádito, 
cossoUete cingido, morrião na cabeça, rodella embaraçada e gineta em 
punho, á frente dos dons únicos homens disponíveis da guami^o, como 
se a tivera completa e perfeita. As quatro «entinellas das quatro faces, o 
sargento « es seus dous homens, perfilados como dous postes, era o que 
lhe restava. 

Ayres Gil, entrando, mastigou em um sorriso os bigodes espessos 
« revoltos. 

•Feitas as ceranonias do estyllo, e recebidas as ordens do capitão- 
m&r, António de Lima abraçou Vieira, que já conhecia; e, tomando- o 
«de parte, isse^lhe : 

-r- Jilaocebo, ides ser aprendiz onde muitos /mestres se não atrevd- 
lão a appaieoer. 

Vieita. inelinouTse em silencio. 

O governador fez a resenha das suas novas tropas. 

Gomprebondendo . o mancebo, o mosqueteiro e o. governador» adia- 
yão-»8e no forte trinta homens para fez» fece ás cdumoas dos 8<^s mil 
(hollaiiéeses qpue se aIlo|aivão na cidade. 




— 78 — 

AntODÍo de Lima pensou que tíuha ás suas ordens o exercito de 
Xerxes. 

O inimigo era esperado a cada bora ; mas a vigilância dos defensores 
do forte , que se suppunhào já poderosos em comparação da passada 
penúria, não se desmentia. Vieira pediu como favor especial a António 
de Lima o posto de maior risco ; coocedeulh^o este, como a quem tanto 
o merecera por sua devoção e anteriores feitos que pela iadiscripçâo dos 
companheiros não erão ignorados. O manc^b ^ fícou de sentinella á meia- 
gola do baluarte, vigiando o porto e a ling^a de areia, pois qtre já se 
podia augmentar o numero dos vigias. A^s horas de ser rendido, como 
António de Lima viesse convida-lo a tomar algum descanso, porque de 
certo em breve careceria de forças, respondeu : 

— E vós, Sr. governador, descançareis porventura ? 

— Eu — acudiu este — a minha obrigação é velar , pois que por 
todos velo. 

— E eu — redarguiu o mancebo— o meu poí^to é este. . . .se todayia 
m'o permittis — accrescentou, fazendo a vénia devida. 

— Olhai que não estaes aff^ito a taes fadigas. 

— Justamente. . . costumar-me-hei a ellas ; custarão menos depois. 

— Seja, pois que o desejaes. Tão boa vontade fora injuria recusa-la. 
A sentinelh de Vieira durou até ao dia. Caçador intrépido, endurecido 

nos trabalhos de todo o género, o mancebo estava longamente habituado 
ás vjgilias e ao cansaço. Queria dar o exemplo aos que trouxera, e 
desde as primeiras provas elevar-se na estima e conceito dos seus ca- 
maradas , para assim manter a sua influencia. Os raros que havião 
permanecido fieis ao governador, todos elies soldados velhos das compa- 
nhias de soldo, que tinhão feito a guerra nas quatro partes do mundo, 
admiravão como em tão verdes annos o moço colono envergonhava já 
a sua rude experiência. Vieira,sob a frescura juvenil da primeira mocidade, 
tinha uma organisaçâo de ferro e uma vontade ainda mais rija do que elle. 
Possuia mais, para lhe matar as horas da forçada e fatigante insomnia, o 
que aos outros faltava «um sentimento inefável que lhe trasbordava do 
coração, e lhe multiplicava as forças, e lhe fazia superabundar a vida. 
Solitário entre os dous infinitos, do céo e do mar, o sussurro das ondas, 
as aguas espelhadas do rio, as estrellas tremulas no céo transparente de 
uma noite estiva, a solidão murmurante das matas d^além, os mysteríos 
meditativos da terra adormecida, cortados apenas pelo grito compassado 
e rouco das sentinellas, tudo para elle se traduzia cm uma significação 



— 79 — 

que lhe enchia rápido o tempo. Cada objeclo lhe dirigia uma voz e cada 
Toz tinha um sentido. O seu caracter, emioentemente poético, como 
todos os caracterfs excepciooaes pela elevação do espirito, era familiar 
com a natureza e amava aquellas longas meditações que devoravão o 
silendoe o ermo. 

D. Maria César, a gentil donzella da casa de BereDguer, não se 
enganara. Vieira amava-a e amava-a como era amado delia, isto é unica- 
mente,exclusivamente como só uma vez se ama na vida. Para acompanha-lo 
e tê-lo desperto, bastava a imagem delia, que o ardente mancebo via em 
tudo e em toda a parte, sem contar o seu ardor de gloria e nome, a am- 
bição de subir a distancia que os separava, o seu fervoroso patriotismo, 
os seus sonhos de futuro, em que elle se via já a seus pés depondo ante 
elles quanto era e quanto alcançara, porque só por ella *e para ella o, 
quizera. Que mais seria preciso para fazer esquecer toda a £oidiga? Os 
que têm experimentado o poder incontrastavel de um destes sentimentos, 
de qualquer género, que abração e inflamào uma existência inteira, 
sabem que sobreexcitação e que força superior elle pôde imprimir e 
sustentar. 

Vieira amara D. Maria como esta o preferira entre todos, espontanea- 
mente, quasi sem o sa>^er. Esta paixão nascente nunca a revelara senão 
por aquelles dial gos sem palavras , que são mnitas vezes a ultima e 
snblime expressão da eloquência humana. Abrasado de enthusiasmo, 
prevendo a morte ou a gloria, quando se offerecêra a Mathias de Alba- 
querquQ para ir soccorrer o forte, ousara, pela primeira vez, manifestar 
mais claramente os seus sentimentos na simples e única acção de re- 
colher e guardar o fragmento cabido da franja começada. A occasião era 
solemne, e do logar para onde ia não seria fácil voltar. Queria levar ao 
menos uma relíquia, um talisman que o alentasse no perigo. Que alma 
dedicada e sensível não tem já conhecido uma destas innocentes supera-^ 
tições? Quem não sabe como Mão esses objectos inanimados na ausência 
da pessoa que se ama? Como elles são guardados e venerados no recatado 
culto do coração ? 

Por horas da antemanhã, quando, precursoras do crepúsculo, as 
sombras parecem condensar- se. mais como querendo cerrar-se contra 
a luz da aurora, houve quem visse o mancebo tirar do seio o que quer 
que fosse, que branquejou nas trevas com tenuissimo alvor, e chegal-o 
apaixonadamente aos lábios, permanecendo depois immovelno seu posto 
com redobrada vigilância até que raiou clara a manhã. 



— 80 — 

A noite passou-se, como Timos, sem o minimo incidente — fugindo 
raiada em devaneios para o maDcebo— alternada de descanso e de serlviço» 
longa e monótona para os outros. 

Os hollandezes não apparecião. António de Lima tinha teoções de 
os ir procurar á cidade, a sentia-se propenso a duvidar de sua existência. 

Já o sol ia alto, inflamando a attnosphera e fazendo «cintilar as aguas 
do portoy quando o nosso amigo Ayres Gil, surgindo do corpo do forte 
e subindo ao terrapleno da cortina do sul, saudava o dia com um bocc^jo 
capaz de desmantelar a mandibula de um cyclope, e estirava os braços para 
o céo como sequizera arrancar a cauda de um cometa. Ó mosqueteiro le- 
vantava-se de dormir um daquelles bons somnos de soldado, que Deus, 
na sua admirável providencia das compensações , Ibe dá oomo indem- 
nisação das fadigas que soffie. Desde o quarto de alva até as 9 horas 
da manh&y só revelara a sua existência neste baixo mundo por lun 
concerto de trompa nasaU que valia ainda menos do que as suas cantágas 
assobiadas, visto que os camaradas de quartel se não mostravão exire^ 
mamente lisongeados de o terem porvisinho. Justo é dizer-se que o bom 
do mosqueteiro correspondia a esta ingratidão com uma indifferença 
stoica. 

Ayres Gil>que sabia por experiência as innumeraveis maaoeiras de 
saltear por entrepreza uma praça» fizera por prudência o que Vieira tinha 
feito por devoção de patriotismo e para entreter meditações de namoradOi 
Em vez de oscular a mimosa relíquia de fraoja tecida por mãos adoradas, 
o honrado mosqueteiro, que entendia as paixões a seu modo^ abra* 
çará-se com exemplar (ervor a um bojudo pichel,de que previamente se 
munira ; e,8em perder tempo em longos coUoquios, depois de lhe pregar 
quatro sorvos que Pantagruel invejara, fora-se a espalhar cuidados para a 
banqueta do parapeito, no angulo da cortina opposta ao que Viwa 
occupava. 

Ayres não estava de serviço nessa noite. 

Chegando á muralha começou a ensaiar o systema de Pythagora» em 
um passeio lento, como de pessoa que não tem ^utra cousa que fiuser 
seaão tomar o fresco por desfastio. Não secuide, porém, que seentntffinha 
em fizer a nomenclatura das eslrellas. Emquanto , para< entret^ 9t 
imaginação^ recapitulais mentalmente a diversidade e a quantidade de 
toneis que podia ter bebido com os reytres de Allemanhà, com os noyres 
de Cocfaim,e nas adegas dos Fronteiros, decidindo no seu espirito,. que 
o estômago do homem era um vaso de diminutíssimas dimensões ; á idá. 




— 81 — 

e á volta destes exercicics peripatheiicos parava interrogando escrupulosa- 
mente com os olhos os quatro pontos car deães. Depois, satisfeito deste 
minucioso exame, seguia o seu giro em attitude indolente continuando 
o calculo interrompido, já augmentado de um soff rival transporte. 

E^te desenfado do mosqueteiro durou desde o primeiro quarto da 
noite até ao ultimo quarto da madrugada. 

Chamava elle a isto : « fazer sentinella por sua conta. » 

O governador que lhe sabia os costumes, nada absolutamente se 
inquietava de taes excentricidades. Ayres Gil padecia o singular achaque 
de não poder dormir de noite quando presentia o inimigo perto ; e, 
sobretudo, quando as muralhas das fortalezas, em que se achava de 
guarnição, lhe inspiravão uma confiança medíocre, humilhante conceito 
de que o forte de S. Jorge tinha a mortificação de ser victima. 

De dia era outra cousa. Sempre que tinha ocoasião dormia o somno 
do justo. 

Estava pois o nosso Ayres procurando restituir aperdida flexibilidade 
ás juntas um tanto contrahidas pela continuidade da mesma posição, 
quando estendendo o pescoço por cima do parapeito acabou um segundo 
bocejo mais vigoroso que o primeiro, em uma exclamação de jubilo. 
Do lado do Recife apparecia uma nova carayana. 

Evidentemente a deserção tinha-se convertido em romaria. 

António de Lima, que fora immediatamente chamado, assentou lá 
comsigo que, se aquella affluencia continuasse, acabaria a guerra com os 
hollandezes tomando-lhes Amsterdam. 

Desta vez o armamento era menos numeroso ; mas não menos 
importante. Um certo numero de canoas carregadas subia o rio na maré 
cheia ; e, seguindo a lingueta, acompanhava-as por terra uma escolta de 
sete homens, seis dos quaes completamente armados e equipados. As 
canoas viohão atacadas de munições de guerra e de boca, entre as quaes 
figuravão com distincção algumas vazilhas de vinhos do reino, que o 
capitão-mór extrahira dos armazéns, onde os importadores as conservavão 
para consumo da capitania. £' inútil dizer que nestes apuros Mathias 
de Albuquerque não perdera tempo emconsultar.a vontade dos proprie^ 
tarios; Ayres Gil não deixou de notar esta circumstancia cheia de 
promessas. 

A força principal da escolta compunha-se de quatro mosque&iips 

das companhias de soldo, acquisição preciosa nesta conjunctura peie seu 

habito da guerra e perícia nos exercidos de uma arma extremamente 

ii 




— «2 — 

utíl, onde tanto mingoaya a artUheria.^AestesdeTia-seaccrescentarum 
sargento do numero que es commandaya. Podia-se contar também um 
individuo esguio e direito como um caniço, montado em dous pés res- 
peitareis, erríçados em promontórios, com uma cara de pergaminho 
empastado, em que se podiào fazer minuciosas observações osteologicas, 
e um corpo desengatilhado, que dansava uma sarabanda perpetua no 
corpete e calções de estamenha a íluctuarem ironicamente peles contornos 
angulosos deste esqueleto ambulante. Completava o numero fttidico de 
sete um allemão de seis pés de altura, espadaúdo e ruivo» com o rosto 
da côr do cabello : este ultimo vinha fazer o officio de condestavel da 
artilharia. Em toda a sua vida e viagem Ayres Gil não tinha achado 
competidor semelhante com o cangirão á boca. A presença do allemSo 
esfriou consideravelmente o enthusiasmo que se apoderara do mosqueteiro 
á vista dás bemaventuradas vazilhas, posto que o seu magnânimo caracter 
fosse incapaz de baixos ciúmes. 

Ocapitão-mór remeltia quanto tinha disponível, e principalmente 
toda a pólvora que pudera juntar. Mantas, falcões e morteiros tão ne- 
cessários para defender os sitiados e offender os sitiantes, não os man- 
dava porque os nao havia; as machinas que erào de uso em ^taes 
casos £altavão igualmente. Mas tudo o mais que pudera dispensar- 
ia s^ vê que não era muito — enviava-o a António de Lima com muitas 
palavras de louvor e esforço. 

António de Lima não precisava de ser animado. 

O allemão era particularmente recommendado como homem hábil 
na direcção dos canhões, e por isso se lhe coipmettera o posto que refe- 
rimos. Quanto ao individuo de que adma demos idéa, e que, pela sua 
apparencia pacifica, protestava contra a altitude belicosa dos seus cama- 
radas, o capitão-mór inculcava-o como entidade de que se podia tirar 
summa utilidade, pois que, exercendo a profissão de fogueteiro, serviria 
para preparar e dispor os artificies que lhe fossem ordenados, como 
lanças de fogo e outras invenções usadas em casos análogos. 

Gomo se vê, Mathias de Albuquerque nada esquecia, e pensava em 
tirar partido de tudo. Não contente com isto, promettia novos soccorros 
de gente e armas. 

António de Lima na sua consciência accusava o capitão-mór de 
li^ de precauções. 

A escolta foi reconhecida com as formalidades da véspera, e como. 
o forte ficava na proximidade do porto, as canoas tiverão agua bastante 



— 83 >— 

para desembarcarem as suas provisões quasi aporta. Ires horas depois 
estava tudo recolhido. 

A guarniç&o subia já a triota e sete homens incluindo o estirado 
fogueiteiro. Vieira, tendo tomado apenas alguma refeição, voltara para a 
sua sentinella. 

Logo que pôde faze-lo sem infringir as regras da disciplina, Ayres 
Gil foi direito ao illustre pyrotechinico ; e> apertando-)he a mão com 
um excesso de amizade que lhe franziu a cara em uma visagem dolorosa, 
disse-Ihe : 

— Com que por cá também, mestre Marçal. 

O fogueteiro chamava-se Marçal. 

Mestre Marçal só respondeu com um suspiro, que indicada de sobejo 
quanto era involuntário o seu heroísmo. 

O honrado fogueteiro, tendo de representar nesta historia um papel 
conspícuo, merece que nos occupemos delle alguns momentos. 

Mestre Marçal era natural de Lisboa, onde exercera em tempos fe- 
lizes a já citada profissão de fogueteiro, com tal applauso» que não 
havia festa ou romaria um par de léguas em redondo que não invocasse 
o seu valioso auxilio, como hoje se diz. 

Desgraçadamente para elle, o governo de Felippe 111, na sua soli- 
citude paternal, n&o gostava de ver os portuguezes brincarem com pól- 
vora, de certo com medo de que se queimassem ; e a lei de 9 de janeiro 
de 1610 arruinou o oíficio, a que mestre Marçal, 200 annos adiantado 
do século em que vivia, chamava já a sua arte. Como a corte de Castella 
estivesse continuamente sonhando com revoltas e receiasse ver sahir 
de cada provinda um novo prior do Crato, ordenava a tal lei « que se 
não usasse de nenhuns fogos ou artifícios nas festas de santos, nem por 
outras occaslões, e que nenhuma pessoa, de qualquer qualidade (cali. 
dade dizia o texto) que fosse, os pudesse fazer ou mandar fazer ou 
lançar, sob pena de 3 annos de degredo para Angola, com baraço e 
pregão e vinte cruzados em dinheiro, etci » 

Nestas deploráveis circumstancias, já se vê que a sciencia pyrote- 
chnica de mestre Marçal, longe de lhe ser proveitosa, era-lhe causa 
de transes contínuos. 

Mestre Marçal, porám, não era só fogueteiro por i^ecessidade de 
ganhar a vida ; era fogueteiro por gosto, por paixão, por espirito de 
artista. Era o seu feitio aquelle. A manipulação da pólvora, do carvão, 
do salitre, do enxofre e da limalha; o fabrico das rodas e estopins ; 




— 64 — 

o preparo dos artífidos ert para elle uma necessidade da sua orga- 
nisação. Tinha a bossa ou protuberância da foguetindade desenvolvida 
como a bomba de um morteiro em tarde de procissão : era uma par- 
ticularidade que tinha escapado a Gall. Nos seus annos florescentes, 
a natureza havia -o dotado de uma rotundidade satisfactoria ; os desgostos 
produzidos por aquella maldita lei havião-lhe mirrado as carnes, e 
exerciâo de dia para dia uma depressão sensível na sua espessura. Em 
compensação parecia ganhar proporcionalmente em comprimento. 

Ao cabo de três annos, mestre Marçal não podia já tolerar a pri- 
vação imposta por Sua Magestade Gatholica, e preludiava a descoberta 
do spken. Estreitava a olhos vistos, e allongava do mesmo modo. Os 
seus amigos vendo-o passar da atonia ao marasmo, aconselharão-lhe 
distracções. 

A providencia, que vela pelos Marçaes como por outro qualquer, 
proporcionou-lhe uma distracção. 

Para ultimar o litigio, que havia oito annos trazia sobre umas reais 
de terra no Alemtejo, e um alfarrubal no Algarve, viera de Olhão, sua 
pátria, a Lisboa a Sra. Medéa Brandoa, viuva de um honrado commer- 
ciante de ílgos seccos. Tendo rematado com bom eiito a demanda, quiz 
a sua boa ou má estrella que encontrasse um dia em Cheias o nosso 
ex-fogueteiro, que estava então nos seus vinte e cinco e ainda não 
tinha attingido a perfeição de diaphaneidade e longura a que estava 
fadado. A viuva, que tinha cooservado saudosas reminiscências do 
matrimonio, pensava em deixar de o ser, e mestre Marçal, como 
dissemos, procurava distrahir-se. Para encurtarmos razões, a Sra. 
Medéa ioflammou-se, pela razão simplicíssima de que o mísero fora, 
depois da sua viuvez, o primeiro e único homem que se lembrara de 
olhar para ella. 

Ficou logo evidente aos olhos menos perspicazes que o fogueteiro, 
aposentado por ordem superior, conquistara de um golpe o coração, 
as geiras e o alfarrobal da Sra. Medéa. Era oveni vidiviciáeCesài* 

A «viuva não amava as moratórias e dilações : tinha-lhes tomado 
um asco decisivo nos oito annos da demanda. Ao cabo de um mez offe- 
recia-lhe a sua mão ; ao cabo de três semanas estavão casados ; e ao 
cabo de oito dias mestre Marçal achava que a lei dos Philipes era uma 
amostra do paraizo em comparação do seu novo estado. 

A Sra. Medéa, que jurava frequentemente pela santa de seu nome^ 
com grave escândalo do agíologio romano, realisava todas as fiuias do 



— 65 —^ 

homónimo mytologico. Amestrada pela experiência do primeiro marido, 
colheu o infeliz Marçal por uma doçura e submiss&o affectadaf , de que 
se indemnisou largamente aos primeiros três dias de consorcio. Mestre 
Marçal esteve a ponto de estourar como a melhor da suas bombas. Não 
podendo estourar, emmagreceu, cousa que espantou toda a gente. 

Estava claro como o dia que as distracções nào lhe aprovcitavão. O 
desgraçado fogueteiro foi esticando progressivamente até chegar ao bello 
ideal do género. 

Havião corrido annes ; e, por uma serie de circumstancias, cuja 
interessante e instructiva relação não queremos antecipar, achava-se ha- 
bitando Olinda, quando os hoUandezes a invadirão. Apenas constara 
a noticia do desembarque, fora extrema a confusão e borborinho na ci- 
dade ; e, por espaço de horas, a população consternada vacillára nas 
mais oppostas resoluções. Deve-se dizer em abono do illuitre pyrote- 
chnico que, pela sua parte, não hesitou. Mestre Marçal nunca tinha pen- 
sado senão em fugir. £' uma justiça que a historia imparcial lhe não 
pôde negar. 

Em que unicamente houvera divergência e duvida no seu espirito 
fora no modo por que fugiria. 

Mestre Marçal chegara á cidade no navio que trouxera o capitão- 
mór, por consequência havia pouco tempo e, como trazia de Lisboa a 
imaginação recheada de medonhas anedoctasde giboias, onças e ja- 
guares, não se tinha ainda atrevido a sahir duas braças fora da povoação ; 
era por tanto uma ignorância completa, tanto acerca dos caminhos, 
como a respeito da existência daquelles animaes carnívoros, que elle 
via pularem-lhe em bandos nos seus sonhos agitados. Os tapuyas antro- 
pophagos constituião um capitulo separado nos seus terrores. 

Diz- se geralmente de um homem belicoso : « gosta do chdro da 
pólvora 1 » Neste caso, mestre Marçal era um paradoxo vivo, sem o 
saber, como o Bovrgeois gentilhomme, que íallára vinte annos em 
prosa sem dar por Isso. 

Mestre Marçal morria-se pelo dito cheiro ; mas de certo não des- 
cendia da raça dos Bayards, e estava exactameote nos antípodas dos 
Nunos Alvares e Antooios de Faria. Apezar do seu desgosto da vida 
a morte, sob qualquer forma que fosse, achava nelle uma antipathia su- 
prema. Amava o estrondo e o fogo, menos na boca de uma bombarda, 
canhão ou mosquete, ou qualquer outra arma. offensiva. 

Quando todos fugirão, mestre Marçsl fugiu iambem» e mesmo pri* 




— 86 — 

meiro do que os outros. Gomo porém cada qual só tratasse de si, e 
como elle se não atevesse a interna r-se nos matos, resolveu na sua alta 
sabedoria transportar os penates, que o não carregavâo excessivamente, 
para o Recife, cujas estacadas, com a visiohança, e protecção do forte, 
lhe inspiravão muito mais confiança do que uma viagem na floresta, 
onde, perplexo entre dous perigos, se arriscava a travar conhecimento 
com 08 seus incógnitos tremendos habitadores. 

Dito e feito. 

Esta resolução foi a sua ruina. 

Mathias de Albuquerque, que o vira no burgo, e que, tendo nave- 
gado com elle desde Lisboa, conhecia já a sua historia e as suas aptidões, 
mandou-o chamar e disse^lhe em um tom que não admittia replica. 

— • Preparai-vo3 para exercer vosso officio . . . 

O fogueteiro julgou que se lhe abria o sétimo céo : ia entregar-sc 
de novo á sua arte querida, e de mai3 a mais toado o consenso da 
autoridade. Na sua lógica limitada, concluiu que os hoUandexes havião 
evacuado Olinda, e lhe encommendaváo o festejo desta fausta nova : os 
festejos erão a sua especialidade. 

O capitão-mór continuou: 

— Daqui a uma hora ireis para o forte. 

Mestre Marçal deu um pulo. O seu enthusiasmo tinha descido su- 
bitamente muito abaixo de zero. Com voz tremula e pouco segura, 
começou uma descripção pathetica do absurda e dos iaconvenient s de 
o encerrarem a elle, e mesmo de se encerrar qualquer entre quatro 
muralhas. 

Mathias de Albuquerque, porém, que, em certas oecasiões era como 
Henrique IV, inimigo de discursos longos , atalhou-o brutamente , 
virando-se para um sargento do numero. 

— Bem, disse elle, como não quer, e como não se podem ter por ahi 
bocas inúteis, deitem-mo do outro lado no matto* 

E voltou as costas. 

Mestre Marçal engaliu o resto do discurso abortado que se lhe 
petrificou de terror nas entranhas. Meditando maduramente a alternativa 
tatal, como no matto n^o tinha muralhas que o abrigassem das feras que 
o horrorisavão, e como se não achava decidido a renovar as proezas dos 
primeiros christãos, optou pelo forte. Passado pouco espaço, foi ter cora 
o sargento e pediu-lhe que dissesse da sua parte ao Sr. capitão-mór 
que elle estava resolvido a fazer parte da guarnição. 



V 



Mathias de Albuquerque mandou-lhe dar um morrião e um ar- 
cabuz, prodigalidade que mestre Marçal perfeitamente dispensava. 

Apenas sabido do burgo, o primeiro cuidado do nosso fogueteiro 
foi entregar o arcabuz a um negro. Quanto ao morrião, que por ser mais 
largo que a cabeça, lhe cahia nos olhos e o mortificava excessivamente, 
aprumou-o na testa, almofadando-o de dous lenço;, o que lhe dava a 
apparencia de um apagador esquecido sobre o morrão de upia vela de 
cera virgem. Mestre Marçal conservou-o porque já tinha decidido com- 
sigo converte-lo em um alguidar para uso das suas abluções ordinárias. 
Mestre Marçal era um homem de ordem e economia. 

Quando entrou no forte tinha o ar de uma victima conduzida ao 
suplicio. 

V. 

DE COMO MESTRB HARGAL, FYROTEGHNICO AFAMADO, FABR:COU UM FOGUBTB 

QUE SE TRANSFORMOU EM UMA GARAVELLA. 

O resto do dia passou-se como se tinha passado á véspera. Decidi- 
damente os hoUandezes ião passando ao estado de mytho. Vieira con- 
tinuava na sua sentinella que já andava per vinte e quatro horas. 

A' noite Ayres Gil, que passara boa parte do dia em exercícios com 
os voluntários, teve por companheiro, nas caricias ao bemaventurado 
pichei, micer Arnoldo Schwartz, o novo condestave da artilheria que 
os seus camaradas tinhão logo chrismado em Arná*jt Eituardo^ segundo 
o uso então frequente de aportuguezar-se todos os nomes. Hoje fazemos 
o contrario. 

Pobre pichei, apezar da sua capacidade respeitável, não pôde resistir 
aos esforços combinados de dous campeões desta força, e em breve 
rendeu o espirito inclinado e enxuto sobre os beiços ávidos de micer 
Arnoldo, a quem o mosqueteiro por cortezia cedera esta honra. 

Ayres teve remorsos da sua continência da noite antecedente, e 
pensou que a máxima do philosopho que ensina a^previsão era um dos 
maiores disparates que se tem dito neste mundo. 

Quanto a mestre Marçal, não largava o mosqueteiro. Estes dous 
caracteres t&o oppostos e contrários, sympathisavão mutuamente ; isto é, 
sympathisavão cada um a seu modo. A sympathiado mosqueteiro ma- 
nifestava-se ás vezes por um diluvio de pragas capazes de raxar o céu ; a 



sympsXlúà de mestre Marçal tinha ordinariaiuente por incentivo uma 
grande doze de medo, o que o fazia procurar a miúdo a protecção de 
Ayres em quem depositara a mais decidida confiança. Ora, a protecção 
de Ayres era uma cousa preciosa para um homem como mestre Marçal, 
que, pela singularidade da figura, atrahia de ordinário uma quantidade 
prodigiosa de chascos e chufas, mais ou menos salgadas, que por fim 
de contas punhão em apuros a sua phleugma habitual. 

Psychologistas ha que julgão extremamente naturaes estas affeições 
entre duas Índoles diversas, por que, dizem elles, possuindo uma o que 
falta á outra, mutuamente se completão. Sendo assim, cousa que não 
discutimos, como a mestre Marçal faltava muito para ser Ayres Gil, e 
como a Ayres Gil não faltasse menos para ser mestre Marçal, a sua 
união devia envergonhar a de Nizo e Eurído. Quanto a isso, não nos 
atrevemos a jural-o. Nem mestre Marçal o juraria também. 

O governador do forte de S. Jorge era tão inimigo da occiosidade, 
como o capitão-mór de oratória extemporânea. Por consequência mestre 
Marçal, a respeito do qual António de Lima recebera as competentes ins- 
trucções, fora todo o dia empregado em dispor uns artifícios de fogo 
sobre certos moldes dados pelo governador e pelo condestavel. A fallar 
a verdade não era aquella a especialidade de mestre Marçal. Se por um 
lado quasi chegara a esquecer a sua crítica situação trabalhando final- 
mente depois de tantas vicissitudes, na sua prezada arte ; pelo outro 
sentia de tempos a tempos um calafrío agudo percorrer-lhe os promon- 
tórios cortantes da espinha dorçal pensando no mortífero destino da- 
quellas peças, cujo risco desusado elle tinha a modéstia de julgar 
absurdo e bárbaro — mentalmente já se vê, porque Mathias de Albu- 
querque tivera a virtude de o desgostar da eloquência. Mestre Marçal via 
com horror profanados e revolucionados ali os preceitos tradicionaes da 
sua profissão. Todo o artista tem, nos limites mesmo da sua aite, uma 
parte a que se aifeiçoa mais particularmente. O objecto das predilecções 
artísticas de mestre Marçal era o foguete, especialidade que elle cultivava 
com um amor fatal, causa efficiente de todos os seus desastres, como 
adiante se verá. Por consequência , vendo que os foguetes, fabricados 
no forte, tinhão traves por cauda e erão armados de um ferro deala- 
barda , junto á cabeça , accessorío que elle sempre julgara perfeitamente 
dispensável, as idéas de mestre Marçal confundião-se, e dizia com os 
seus botões que, se na torre de Babel se £azião foglietes, devião de ser 
naturalmente assim. Na sua generosa indignação contra os sacrilégios 



attistieoB que o forçayão a commetter, ainda arriscou i\p principio ai 
gumas observações; mas uma enérgica e terminante replica de Antomo. 
de Lima que presidia aos trabalhos, obrigou-o a embainhar as suas 
reflexões e reduziu-o ao solilóquio em surdina. 

O que sobretudo preoccupaya mestre Marçal erão os singulares 
mixtos e as cargas enormes que lhe mandayão deitar nos seus foguetes 
e mais composições. Não que mestre Marçal, cujos sentimentos hu- 
manitários orçayio pelos de um phylantropo inglez, não que mestre 
Marçal, dizemos, se inquietasse exJtremamente do mal que dos seus ar- 
tificies, poderião receber os scismaticos e hereges que o punhão ali em 
trances ; mas porque, tendo meditado profundamente a prudente máxima '• 
« No que cuidaes, cuidamos », preyia que os hollandezes não deixariâo 
de corresponder a estes mimos com outros iguaes. Por muito inferior 
idéa que elle fizesse da aptidão dos seus fogueteiros, reflectia que, sendo 
os hollandezes gente de commercio e abastada, não olharião a mais 
ou menos umas arrobas de pólvora, e proporcionarião as suas cargas á 
generosidade e exuberanda das do forte. Esta idéa é que o inundava de 
suores frios e lhe espetava no craneo ponteagudo, como fragmentos de um 
sedeiro, os restos de uma cabeileira que fora farta no seu tempo. Em 
matéria de foguetes mestre Marçal não tinha cuidado pelos que ião : era 
pelos que podião vir. 

A' hora do jantar o martyrio de mestre Marçal mudou de forma. 
Os moços voluntários, que ainda se não havião habituado á estranha 
heteróclita estructura do fogueteiro, entenderão que devião aproveitar 
a occasião para alegrar um pouco os enfados do serviço. 

— E' um cipó mettido em um saco 1 -% dizia um d'ali. 

-^ Não : é um rabo de foguete enfiado em um gição ! — acudiu 
outro, fazendo uma allusão humilhante á sua arte. 

-« São as ultimas modas do reino, mestre ?— perguntava terceiro 
que tinha seus fumos de galan e bem ataviado. 

— Olhai, Pêro, — * atalhava um aspirante a feitor -— temos lá no 
Gorjan cannas doces mais grossas doque isto. 

« IstoY era mestre Marçal. 
' — Déixai-os fallar, D. Marçal Estouro —ponderou um que pre- 
sumia de discreto, em ares de quem lhe dava consolações — deixai-os 
fallar. De mim tos digo eu que me inclino diante dos yossos primores, 
e estou que hei de ser a gloria desta defensão contra os hollandezes, se 

é que ha hollandezes, mestre Estouro. 

1^ 



àftm Gil Min ^ne loeaTi luni oorda sainY«l, mestre Mnçal o 
qoe yiia mais doto na corte, antes da soa Tiagem, e o que eUe jnlgacia 
mais CQiioso e digno de attençdo» era o ^e pertieolarmente lhe dizin 
respeito. 

Pw conseqoenda, acabou de se sentar, Terificando primeiío se o 
tontíTo lhe excedia a Mnha protectora do parapeito, e preparon-se para 
contar as soas provias aTentnras. 

Péla nossa parte, poupando ao leitor as intenupções parasitas do 
mosqueteiro e dos seus camaradas, e as grosas de fitem Goik ! de que o 
alksmio exomon, entrecortando^ a narração de mestre Harçai, busca- 
remos resnmi-la e coordena-la segnndo as exactas informações do 
infdix fogueteiro. 

Os mosqueteiros e o aDemio grupa]^k>-8e em roda para wi i irem 
mdhor. Ayres Gil encostou-se ao seu obs^ratorio; mestre Marçal 
começou. 

NIo tendo achado no casamento as distracções de que tanto carecia, 
mestre Marçal entregou-se de noTo ás saudades da sua arte. Meslie 
Marçal não ccmúa, mestre Marçal ^quÍTaTa-se â companhia dos sens 
amigos ; mestre Marçal ia-se tomando a sombra de si mesmo. Ao prin- 
cipio julgarão que fosse a sua lua de md em segunda mão, lua que pan 
o triste era de fel ; mas o tempo cm^ria, e mestre Marçal cada tpz ema- 
grecia ainda mais, o que a todcs tinha parecido um phenomeno abso- 
lutamente inadmissiTel. Infeliz no consorcio, mestre Marçal rcfogiaTa-se 
Das reminiscências do passado, o que era aggrayar os seus pezares e 
as suas maguas. Pelas festas do anno, correndo todos os riscos (e não 
erão tão poucos) da objurgatorla conjugal, o mísero permittia-se o inno- 
cente desafogo de fabricar o seu Talrerde ou bicha de rabiar, simulachro 
dos attractÍTOS da sua cara e muito cara metade ; e, quando todos no 
bairro dormião a somno solto, calaf^das hermeticamente portas e ja- 
nellas, entregaTa-se ao prazer de as deitar no parimento térreo da sua 
morada, que esfaya muito longe de ser um pakdo. 

Mestre Mareai, ou antes a Sra. Medéa, porque eOa era quem figurara 
na casa, moraTa no becco da Amargura, nome que perfeitamente quadrara 
com a sua situação, ao pé da rua de Jerusalém, como quem ia das 
portas da AlMi para a antiga fireguezia de S. Bartholomeu òUramuns 
ou BerthoUmeu como se dizia nessa ^>oca. Os habitantes daqudla parte 
àíL cidade, que oocupara a localidade bc^e comprehendida, aproxi- 
madamente, entieacQstadoCastdIoeolaigodeSantaLozia,reoolldão-se 



98 

cedo ordinariameQte, e tinhão o somno pesado. Por cootequenda, pouco 
risco havia nesta infracção das ordenanças. Deus sabe, porém, quantos 
sermões, acompanhados de gesto um tanto exagerados» este momentâneo 
passatempo yalia ao pobre mestre Marçal ! 

Mas, que era um valente valverde e uma bicha de rabiar para um 
homem que elevava tão alto as suas aspirações ? Na occasíão em que a 
desastrosa lei o sorprendêra no melhor das suas manipulações, e das 
suas esperanças, estava elle, nem mais, nem menos, em vésperas de 
fazer uma revolução completa no systema dos foguetes! Estes pequenos e 
raros desenfados , conquistados por tão alto preço, não podião satis&zer 
as suas nobres ambições de artista. O tempo, em vez de metigar a paixão 
de mestre Marçal, cada vez mais a exacerbava, exactamente como o génio 
da Sia. Medéa* Afinal, o illiístre pyroteehnico perdeu a paciência. A 
famosa lei tinha perdido pouco a pouco os seus rigores primitivos. 
Havia já mais de um exemplo de pequenas infracções que havião ficado 
impunes, já se sabe, por falta de conhecimento dos seus autores ; mas 
o mundo nem por isso deixara de continuar do mesmo modo. 

Mestre Marçal pensava que poderia também escapar aos argos legaes. 

Resolveu, porlaato, iiisurreccionar-se, sem pedir o beneplácito da 
tutela femenina. 

O seu primeiro cuidado foi comprar uma porção de pólvora fraudada, 
que tratou de subtrahlr á vigilância meticulosa da Sra. Medéa. Vencida 
esta diíficuldade, que não era das menos graves, começou com delicias 
a pensar o que faria da sua matéria prima. Mestre Marçal, como dissemos 
prezava sobretudo a especialidade dos foguetes, e esperava por esse ramo 
alcançar uma fama estrondosa. Desde I6i0 foi este o único tempo em 
que se sentiu viver. Os vizinhos notavão-lhe um ar lépido e prazenteiro, 
que nelle se tornara um prodígio desde o segundo dia das suas núpcias ; 
etté se lhe poderião descobrir tendências nascentes para arredondar de 
novo A Sra . Medéa scismava com esta insólita mudança; mas, como elle 
cumpria com irreprehensivel oithodoxia e com uma recondescendencia 
de boa vontade , devida á melhoria do estado moral, os seus deveres 
conjugaes, e não fallava no mais pequeno valverde, nada havia que se 
lhe dissesse ; e a digna esposa do fogueteiro, pela primeira vez na sua 
vida, devorava em segredo as suas suspeitas, esperando assim sorprender 
o delinquente em flagrante, e desforrar-se de uma vez. 

Mestre Marçal entretanto ia amadurecendo o seu ptano, e pr«»parando 




— 94 

os meios de executa-lo, com um disfarce e astúcia diguos do mais fino 
diplomata. 

Mestre Marçal pensava desde muito que os simples foguetes de 
respostas, e mesmo os de lagrimas, erào a deshonra da arte, e que se 
toruaya urgente fazer avançar algum passo a este importante ramo dos 
conkecimentús humanes. Como todos os espiitos superiores^ mestre 
Marçal adivinhava outras, eras. 

Depois de longas cogitações, cálculos e combinações, mestre Marçal 
tinha achado a sua pedra philosophal. A ambição de mestre Marçal era 
realizar o raodo de fabricar um foguete, que nfto só estourasse, mas se 
transformasse em alguma cousa. Queria satisfazer simultaneamente es 
olhos e os ouvidos. 

Ninguém pôde imaginar com que desvello e ardor eUe se fechava cm 
um quarto, e, sacando de uma bolsa de couro , que tinha escondida em 
sitio recatado , todos os instrumentos e ingredientes necessários, se 
punha a trabalhar na complicada cabeça do seu foguete, que era o 
essencial, nas horas em que a âra. Medéa se ia a tratar das suas compras 
e mercados. 

Preparado tudo, e chegada a occasião propicia, um dia, pelos fins 
da tarde, pouco antes de Trindades, mestre Marçal levantou-se do canto 
do lume porque já principiava o inverno, pegou no seu ferragoulo pardo 
para encobrir a exuberância das algibeiras em que disfarçava os petrechos, 
e dispoz-se a sahir . 

— Onde vais ? — perguntou com voz estridente a Sra. Medéa, que 
vira com um certo assombro estes desusados preparativos. 

Mestre Marçal respondeu promptamente, sem se perturbar , nem 
hesitar, como quem havia muito previra esta objecção : 

— Vou ao celleiro do -tio Cosme buscar um sellamim de alpiste para 
o pinta-rôxo. 

— Pobre animalzinho ! — accrescentou em forma de peroração. 

A Sra. Medéa tinha a mania das aves, talvez por gritarem tanto 
como ella. O honrado fogueteiro, que previra tudo com uma sagacidade 
infernal, atacava-a pelo seu hraco. 

A carinhosa esposa do mestre Marçal foi verificar o facto ; c , não 
achando um bago no comedouro, pela obvia razão de que o nosso heróe 
o tinha despejado inteiro na gamella do porco que se criava no pateo, 
respondeu em tom mais brando e concessivo : 

— Não te demores 1 



— 95 — 

Com uma innocencía verdadeirameote pastoril, a Sra. Medéa tinha 
cabido no laço, sem deixar todavia de soltar, na solicitude da sua gerência 
económica, uma serie de exclamações sobre atoracidadedas aves caseiras. 

Mestre Marçal, que tinha meditado longamente este lance, e as artes 
de lograr sua mulher, retorquiu com o modo mais natural do mundo, e 
com geitos de quem queria largar o ferragoulo, como se não tivera o 
minimo empenho de sabir : 

-^ Não 1 se não queres. . . . 

Tanto bastava para que a Sra. Medéa insistisse. 

— Pois não vês que o pobre do animal não tem nem um grão para 
passar a noite ? Queres que morra de fome, desalmado ? - accudiu logo 
a irascivel matrona, subindo uma oitava na escalla. 

Mestre Marçal curvou a cabeça e ennovelou-se no ferragoulo com 
uma victima que Talleyrand lhe envejaria, e sahiu. 

Vencido este passo que elle por boas raiôes reputava sobre todos 
árduo, o resto parecia ao nosso heróe a cousa mais fácil deste mundo. 

Bem certo é o ditado : « o homem põe e Deus dispõe ! 

Sahindo de casa, comapparencia resignada e innocente de um homem 
que vai fazer um recado por condescendência, meitre Marçal seguiu pelo 
becco, na attitude lenta e morosa que tinha tomado na ultima parte do 
aeu papel, porque receiava ainda a vigilância desconfiada da Sra. Medéa. 
Apenas, porém, dobrou a esquina, foi outra cousa : caminhava ligeiro e 
expedito como se a lei dos Felippes viera de abrogar-se, e o seu casamento 
tivera sido aunullado em boa e devida fóima. 

Mestre Marçal , certo já de não ser observado , tomou ás portas das 
Alfofa ; e ahi não faltou ao religioso dever de se encommendar á devota 
imagem do bem-aventurado Santo António, que ficava por cima das ditas 
portas, e representava o sancto no acto de livrar o pai da forca, pintura 
em azulejo, de muito respeito e veneração, onde por um descuido ana- 
chronico do autor o padroeiro de Lisboa figurava rodeado de frades 
jesuitas, que só apparecêrão no mundo duzentos e setenta annos depois. 
O. nosso heióe, que não era versado em archeologios, nao reparou no 
lapso, e Eeguiu pela Íngreme ladeira de S. Chrispim, que ficava quasi 
fronteira ás portas referidas. 

Chegando abaixo, embrenbou-se em um labytintho de travessas, 
alfurjas e beccos immundos, e foi desembocar no Rocio pela rua da 
Bitesga, que era naquelle tempo tortuosíssima e toda em cotovellos e 
recantos. Sem hesitar, tomou pela rua que ficava á esquerda do hospital 



— 96 — 

de Todos os Santos, situado, pouco mais ou menos, no terreno qae 
hoje occopa o mercado da praça da Figueira, e dirige-se ao convento 
de S. Domingos, mystico ao dito hospital, a fozer sua yenia e oração ao 
Sr. S. Marçal, sancto do seu nome, e, como todos sabem, especial ad- 
regado e protector dos que professavão aquella arte perigrina, por cuja 
maior honra e esplendor elle ia affrontar as penas dos contraventoree e 
a cólera da Sra. Medéa, que não era somenos. Nisto, a noite tinha desdâo 
de todo, como era necessário e essencial ás experiências de mestre Marçal, 
e os frades estavão a vésperas. Só se o santo tivera ensurdecido no 
paraíso deixaria de ouvir a fervorosa oração do nosso heróe.- 

Sahindo de S. Domingos , mestre Marçal costeou o palácio da 
Inquisição, edificado no logar que tantas vicissitudes viu e passou, e em 
que hoje se levanta o theatro de D. Maria II. Entrou em seguida na ma de 
Valverde, titulo que o bom do fogueteiro, por uma interpretação qne 
tinha alguma cousa de ca {emòourg, julgou do melhor agouro para a sua* 
empreza . Caminhando e fazendo estas observações horoscopicas, mestre 
Marçal enfiou pela rua (hoje calradai do Duque. Finalmente deu comsigo 
em S. Roque ; e, sahindo da cidade pelo postigo do Gondestavel, en- 
caminhou*se ás terras da Cotovia e sitio de Yalentona. 

Tudo isto se passava á prima noite de um dia húmido de setembro 
do anno de i629. Por consequência muito erraria quem procurasse nesta 
descripção a Lisboa de hoje, tão mudada e tão diversa da Lisboa que 
então aiuda quasi se limitava á antiga cidade de D. Fernando. 

Este sitio da Yalentona enterras da Cotovia, cujos vestígios ainda 
apparecem e cuja ultima designação se conserva, erão, naquelles tempos, 
um descampado, e continuavão até onde fica actualmente o largo dò 
Rato e suas immediações, localidade em que, perto de 80 annos depois 
desta época, se fundou o convento de Nossa Senhora dos Remédios, da 
ordem trínitaria, theatro das proezas da celebre madre Theresa de. S. 
José. Ainda em i755, desde o alto da Cotovia até á travessa do Pomba], 
rua de S. Bento e Cardaes de Jesus, o terreno que hoje serve de assento 
a uma grande parte da cidade alta estava dividido em terras de semea- 
dura e applicado geralmente á cultura dos cereaes, com poucas casas, 
posto que entre ellas já avultassem — o edificio occupado agora pela 
imprensa nacional— o convento dos jesuítas, devorado ha poucos annos 
por um incêndio, conservando o titulo de coUegio dos Nobres e servindo 
á escola polytechnicâ, — e finalmente as casas da real fabrica das sedas, 
concluídas em 17iO. 



— 97 — 

Mestre Marçal, que se havia previdentemente munido dos ins- 
trumentos necessários , entregue todo ao seu projecto, internou-se pelas 
terras, alegrando-se daquella solidão, que em outro qualquer momento o 
teria arripiado de [medo. Por cumulo de precaução, tinha já por vezes 
visitado e examinado o sitio, e sabia com o que podia contar. Um 
caniço era um accessorio indispensável para fazer o maravilhoso foguete, 
escrupulosamente accommodado com todas as suas peitenças nos vastos 
bolsos dos seus largos calções de velludilho, já calvo em partes. Ora, se 
mestre Marçal sahisse de casa e atravessasse a cidade com um caniço 
na mão, não só provocaria da parte da Sra. Medéa uma serie de per- 
guntas a que lhe não seria fácil responder, mas attrahiria as vaias dos 
gaiatos do bairro e seus consócios, já demasiadamente dispostos a celebrar 
o todo alagartado do iUustre pjrotechnico, com um luxo de acclamações 
e uma prodigalidade de epithetos que poderião enriquecer admiravelmente 
o vacabulario nacional. 

Mestre Marçal prevenira a difficuldade. 

O terreno que se inclina para a actual praça da Alegria era quasi 
todo coberto de hortas, e esta circumstancia, minima na apparencia, não 
escapara a mestre Marçal, porque o génio tudo aproveita, e tivera uma 
influencia decisiva na sua escolha. 

Havendo hortas, necessariamente havia cannaviaes. Mestre Marçal 
dirigiu-se, portanto, a um dos canaviaes ; e, examinando minuciosamente 
aquelles arbustos, que já na mais remota antiguidade tiverão o privilegio 
de servir á fama do rei Mydas, cortou o que lhe pareceu mais accom- 
modado ao seu intento. Em poucos minutos, com uma pericia e presteza 
que attestavão um longo habito, estava este complemento da machina 
despojado das folhas e perfeitamente adaptado ao uso a que era destinado. 

Mestre Marçal possuia a cauda do seu foguete 

Voltando ás terras soltarias, mestre Marçal completou o apparelho, 
ajustando o tubo conductor e a cabeça do artifício, onde estava a sua 
futura gloria, ao caniço já preparado por meio de um barbante uoctu- 
oso e enrezinado. Com uma palpitação que é difficil de dizer, mestre 
Marçal feriu lume e acendeu o morrão. Depois interrogou longamente 
as trevas, para ver se algum curioso assistiria aos seus ensaios, não 
porque elle odiasse a publicidade, pelo contrario, mas porque a fatal or- 
denança assistia invisível aos vários actos do infractor, e a prudência 
era uma das suas virtudes. O exame, porém, foi satisfactorio. Mestre 

Marçal podia-se julgar em uma Thebaida. 

18 



^88 — 

Disposto tudo, cartista chegou o morrão com a ipãa tremula de uma 
andedade igual á de up autor que vê aproxioi^r-se, ^o 5» acto do sçq 
primeiro drama, o desenlace tão esperado e tão temido, e, eom elle^ 
uma pateada de metter os tampos dentro ou uma roda de palmas que 
ás Tezes mo yal mais do que ella. 

O foguete aubiu em uma curva graciosa, e estourou com as suas se4e 
respostas, que espantarão os ecos da vizinhança deshabituadts dÍA tal 
estrondo* Mas, oh I desgraça, o artificio interior, a nova tiansfornaaç&o 
com tanto amor preparada, o famoso desideratum^ o problema, a uUima 
ratio, ou por precipitação no arranjo, ou por má disposição doa estopins, 
em vez de arder, foi ao longe cahir incógnito em um campode cevada.* 

A estrella de mestre Marçal apagára-se entre os pés humildes d» 
um vegetal destinado para alimento dos quadrúpedes. 

O estouro das bombas no ar accordou todos os terrores que a paixão 
lhe adormecera na alma de artista, e mestre Marçal teve.horror da sua 
audácia. O mailogro de tantas esperanças acabava de desorientar o infeliz. 
Mestre Marçal infringira as leis , elle cidadão exemplar, só para se 
certificar da sua descoberta e empurrar a sciencia um passo adiante ; e 
ainda não podia fíxcr o seu espirito sobre o eíTeito e resultado de um 
invento, que tanto promettia á sua imaginação exaltada. 

Que desfecho I 

O. honrado mestre Marçal tinha perdido as azas de ícaro em umas 
leivas de cevada, e a realidade apparecia-lhe túmida de cardumes de 
beleguins e esbirros. 

Immovel no logar em que havia commettido o crime, compromettido 
nos seus deveres de vassallo obediente, e ferido nas suas aspirações de 
artista ambicioso, só uma idéa podia arrancar mestre Marçal aos pun- 
gentes remorsos da sua acção e ao desapontamento do seu fiasco : era a 
idéa da cólera da Sra. Medéa, que se accumularia em proporção da- 
quella prolongada demora. 

Quando esta lembrança terrivel atravessou o cérebro abalado de 
mestre Marçal, á immobilidade do terror succedeu uma fúria ambula- 
tória que o fa2la devorar o espaço. 

No tumulto dos seus pensamentos, mestre Marçal não refiectia que, 
apezar da solidão do sitio, o seu foguete illegal podia ter-se ouvido, a 
menos que uma surdez geral n^ó tivesse atacado ^s faculdades auricu- 
lares de todos por aquellas cercanias; e que por consequência a pre* 



— 99 — 

cipitaçãò do ^eu caminhar tibstniso, que se assemelhava a uma fuga, 
podia denuncia-lo excitando suspeitas. 

Mestre Marçal, desorientado, desceu ao acaso as terras de pão o as 
portas que se continuavão na direcção da cidade baixa* Mal recobrado 
ainda do sobresalto e desfecho da sua obra malaven tarada, e todo tur- 
bado da perspectiva assustadora da Sra. Medéa^ entrou pelas portas de 
Santo Antão, scismando no modo mais fiscil de conjurar a tempestade 
doméstica. 

Goiho havia de elie, pobre delinquente, ralado de remorsos^ des- 
culpar, aquella longa ausência aos olhos perspicazes e ás interpelíações 
irritadas da serera consorte? Que pensaria ella ? Qual seria a ultima pe- 
ripécia daquelle dia nefasto? Nada disto tioha lembrado a mestre 
Marçal, emquanto lhe durara a influencia e enthusiasmo artístico ; di- 
ante, porém, do des-successo todas estas amargas idéas afluiao em 
tropel, justificando o bom senso do ditado « um mal nunca vem só. » 

A sagacidade e astúcia, de que dera tão exuberantes provas nos 
pfOloqttios da snlemne ocoasiâo, havião-lhe completamente fugido com 
as suas illusões em debandada. Sentia-se desamparado de força e de 
invenção. O grande homem infeliz vergava sob o peso do infortúnio, e 
perdera o valor na derrota dos seus sonhos . 

Eogolphado nestas cogitações dolorosas, chegava elle defronte da 
igreja de S Luiz dos Francezes, quando sentiu que alguém lhe batia no 
hombro esquerdo como para lhe chamara attençào. Na sua consciência 
de criminoso, mestre Marçal deu um salto desmesurado, e proétirou des- 
cobrir, atravez do fechado escuro da noite, quem era o interruptor 
intempestivo do seu preoccu pado regresso. Mestre Marçal só descobriu 
um vulto, embuçado em ampla capa, e um largo sombreiro que se in- 
clinava levemente dianle delle. 

O honrado fogueteiro,que era naturalmente cortez, desc>irapuçou-se 
líasgadamente na presença desta afabilidade incógnita. 

— Boas noites, mestre Marçal — disse uma voz aflautada e me- 
liflua, destas que o vulgo designa com o epitheto caracteristico de « voz 
de sovelSo. » 

Mestre Marçal pasmou de se ver assim conhecido em um bairro tão. 
distante do seu. 

Todavia, como nem a voz, nem a palavra tivessem nada de amea- 
çadoras, correspondeu do melhor modo que pôde, dizendo para seu 
interlocutor : 




— 100 — 

— Muito boas noites.... A quem tenho eu a honra...? 

No mesmo ponto segunda pancada no hombro direito fez dar a 
mestre Marçal segundo pulo duas vezes maior que o primeiro. 

Outro Yulto, perfeitamente igual ao antecedente, com a uoica difTe* 
rença de que este parecia mais refeito e varonil do que se poderia 
dizer daquelle, cortejava do lado opposto o nosso heroe, cujo animo de- 
sabava de sorpreza em sorpreza. 

Uma nova cortezia reciproca, ainda mais urbana da parte do desco- 
nhecido e ainda mais humilde da parte de mestre Marçal, assignalou este 
repetido episodio. 

— Boas noites, mestre Marçal I — disse também a segunda voz como 
um éco da primeira, a não ser que o seu tom era mais cheio ea sua 
inflexão ainda mais benigna. 

Se já se tivessem inventado as Mil e uma noites, mestre Marçal 
cuidaria figurar em um dos contos fantásticos do bom Mr. Galland. 
Não sabia a que attribuisse esta súbita popularidade. 

— Muito boas noites — retorquiu elle, repetindc-se machinalmenie 
— a quem tenho eu a honra de. . . . 

— Sois um homem de préstimo e habilidade, mestre Marçal I — acu- 
diu o interlocutor da esquerda, sem se digoar responder á interrogação 
inquieta do honrado fogueteiro. 

— Mestre Marçal, sois um homem precioso ! — atalhou o da di- 
reita, encarecendo o elogio do seu companheiro. 

— Favores, favores, senhores meus — tornou o fogueteiro, estúpido 
de admiração. — Mas a quem tenho eu.... como tenho eu a honra.. . ? 

Mestre Marçal balbuciava como um camponio que vem â cidade 
servir de testemunha em uma causa crime. 

— Sois mais conhecido do que pensais, mestre Marçal — redarguiu 
o primeiro interlocutor. 

•— Quem é que não conhece mestre Marçal ? — observou o segundo . 

Decididamente esta vulgarisação do seu nome inquietava o digno 
mestre. 

•— Não vos demoreis por nossa causa -- continuou o primeiro* — 
Nós vamos acompanhar-vos. 

— Como I 

— Como se acompanha um homem. Áo lado, atraz, adiante ; como 
quizerdes. 

'- E* melhor ao lado — observou o segundo ; — conservaremos. 



— 101 — 

Mestre Marçal não achou que responder. 

— Com que então — proseguiu depois de breve espaço de silencio 
o ultimo que fallâra, — com que então, mestre Marçal, sois homem de 
tão boas prendas, e estáveis calado com ellas ! ^ 

Mestre Marçal procurou ler no rosto do seu forçado companheiro 
o sentido destas palavras. Era impossível. Primeiro estava a noite, 
debaixo da noite o longo sombreiro *, debaixo do sombreiro a capa 
negra do embuçado. 

— Ides apressa(Jo, mestre — disse o vulto da voz aflautada. 

— Confesso que estão á minha espera — respondeu mestre Marçal — 
moderando o passo, que machinalmente amiudara. 

— Ohl temos tempo 1 — accudiu o segundo embuçado. 

■— Temos tempo l Tempo de que ? — ponderou timidamente o 
fogueteiro, que não podia atinar com as razões desta ingerência, dos 
dous desconhecidos, na sua companhia, nem com os motivos desta ex- 
pressão de communidade que os seus interlocutores insinuavâo na con- 
versação. 

— De que? —retorquiu o da direita como admirado e quasi escan- 
dalisado. 

— E' uma pergunta — accrescentou mestre Marçal em modos de 
desculpa . 

— De que? — proseguiu o embuçado— de acharmos o que pro- 
curamos. 

— O que procuramos I — exclamou o fogueteiro completamente 
desnorteado. 

— Vindes de longe e tendes nos dado trabalho a seguir-vcs, mestre 
Marçal— disse em forma de commentario o primeiro vulto. 

— Ah I — murmurou o misero com voz abafada. 
Mestre Marçal sentia- se de gello. 

— Ha muito que estudais os artifícios de fogo, mestre — accudiu 
o segundo vulto . 

Mestre Marçal nem se atreveu a negar. Viu que o seu segredo es- 
tava descoberto; e, passados tempos, custou-lhe a perceber como es- 
capara áquelle trance. 

— Por quem sois, meus senhores — exclamou elle tranzido — por 
quem sois, não me deiteis a perder. 

— Perder-vos — respondeu, jogueteandò com as palavras, o pri- 




— 104 — 

paialella com a de Estevão Galhardo, >iinda hoje existente, posto que mui 
diversa do que era. 

Mestre Marçal não viu apparato de escudeiros e pagens; mas, não 
querendo desmoronar ainda o edifício laborioso de seu extravagante 
romance , pensou que talvez o quizessem receber com recato e segredo, 
porque a fínal o objecto para que o buscavão sempre era melindroso. 

O vulto mais baixo bateu, e uma velha escrava moura veiu abrir 
resmoneando. 

Mestre Marçal e o outro embuçado ficarão fora* 
Passados dous minutos de breve conferencia , o embuçado que 
entrara, sahiu, e disse para o seu companheiro : 

— Vamos ao pateo das Comedias. 

Sem mais observações, este ultimo travou novamente do braço de 
mestre Marçal , que nem idéa fazia do que era o pateo das Comedias, e 
todos juntos, desandarão o que tinhão andado. 

Mestre Marçal , cujas faculdades se perturbavão sensivelmente , 
íluctuava entre sinistras apprehensões e risonhas esperanças. 

O pateo das Comedias , onde se achava estabelecido o theatro 
publico, ficava para a rua das Arcas , a qual ia desembocar na da 
Bitesga. Este theatro pertencia ao hospital de Todos os Santos, que era o 
seu emprezario por um privilegio especial confirmado em 1595 por alvará 
deFelippe II. 

Chegados ao pateo das Comedias, o mesmo embuçado, que antece- 
dentemente fora explorar as casas da rua da travessa da Cruz, separou-se 
do grupo é sumiu- se em um corredor tortuoso e escuro, que, ornado 
a entrada de dous candis, appensos ás hombreiras interiores, abria uma 
boca de Adamastor em um dos ângulos do pateo. 

Mestre Marçal perdia a cabeça, para o que não contribuía pouco o 
borborinho de vozes de um ou dous grupos, que mal se distinguião no 
âmbito escuro, chilreando, rindo e chacoteando com tal desenfado e 
petulância, que fízerão pensar mestre Marçal. 

De vez em quando, os grupos cruza vão-se sm torno dos recém- 
chegados, pronunciando, uns :« oh I ... oh I ...» e uos :« ah I ah I ... » 
que provocavão um sorriso malicioso da parte do embuçado restante, 
e que mestre Marçal, apegado ás suas illusões, attribuia com toda a 
modéstia á sua nascente popularidade. 

Era evidente, porém, que só a presença, pelos modos, respeitável 



— II» — 

do coflópanheíro de mestre Marçal, impedia que esta hilaridade um 
pouco vaga, tiyesáe uma applicação directa ao nosso heróe. 

A disposição phisica de mestre Marçal fiszia o seu effeito costumado* 
Se os curiosos pudessem naquelle momento penetrar nas assarapantadas 
cogitações do^eu espirito não terião menos que rir. 

De repente uma voz esganiçada erà. falsete, cahindo do alto como 
um estilhaço de granada, yeiu dispertar mestre Marçal das suas pro- 
fundas preocupações. 

— Ohl . . . Oh I . . . ah ( ah I ... — dizia a toz , resumindo as di* 
versas expressões de cómica sorpresa que sussurravão ás orelhas de 
mestre Marçal. Voto a Belzebuth, que lobrigo ahi um entremez em 
carne e osso... em osso sobretudo. Boas noites, tio Longuinhos^ 
ou como <}uer.que é a vossa graça... Tio Longuinhos deveis ser. . . 
Para cá, tio. Bofe que nos estaes fazendo falta. Upat Álçaime para este 
lado uma dessas ripas e estaes cá em cima>. Precisamos de uns espeques 
assim para representar o cavalio de Troya. . . ao natural. Upa, tio Lon- 
guinhos. Uma pernada, vamos. Sereis dos nossos. Talhado sois para 
isso. Por Gil Vicente e sua filha Paula Vicente, que dera eu todas as 
comedias novas, e mesmo todos os autos e chacotas da moda antiga, por 
vos ter comigo em cima das tábuas. Fareis á maravilha o papel de 
Poliphemo entisicando de ciúmes. . . . Pois o de D. Lançarote I . . . 
Temos cá um poanto de Plutão presidindo aos infernos que vos iria a 
matar c Eh! ehl trepa, tio Longuinhos, trepa! 

Tudo isto era dito com uma volubilidade de palavras e uma varie- 
dade de intonações que não dava quasi logar á reflexão. 

Mestre Marçal, posto que familiarisado com os apodos populares, 
nunca na sua vida ouvira de um jacto uma serie tal de cousas esdrúxulas 
e absolutamente novas para elle. A's primeiras phrases levantou a 
cabeça com o espanto de um homem que ouvisse um pardal pronun- 
ciar-lhe um discurso, e com o gesto attonito que provavelmente faria 
o propheta Balaào escutando o exórdio da jumenta : o resultado deste 
movimento imprudente foi receber em cheio o resto da estranha apos- 
trophe. 

Mestre Marçal estava aturdido. 

Um coro de gargalhadas saudou a eloquência fuscuosa do orador 
aerio» 

— Silencio la farçanteí gritou debaixo o embuçado que ficara acom- 
panhando o fogueteiro. 

14 



— 106 — . 

No mesmo ponto as gargalhadas cessarão, e quem estivesse já acos- 
tumado á obscuridade teria visto sumir-se, atraz da fresta que lhe ser- 
vira de tribuna, uma cara jovial e maligna. 

Era o gracioso da companhia. 

Passado um quarto de hora, o outro embuçado sahiu, e veia ao 
encontro dos dous que se lhe aproximavão. Quando passara no cor- 
redor pelo raio vermelho que a luz dos candis projectava á entrada, 
mestre Marçal, apezar da sua perturbação, notou que a ponta de uma 
comprida espada lhe arregaçava o extremo inferior da capa. 

— São escudeiros, murmurou elle comsigo. 

Mestre Marçal, como se vé, estava disposto a observar tudo cona 
bons olhos. Quanto a perceber aquella serie de mysterios era cousa 
de que já não tratava. Duas horas de pratica tinhão-o habituado aos 
enigmas. 

— Voltemos á casa — disse o embuçado que sahira do corredor. 
Partiu ha pouco daqui, e já lá estará quando chegarmos. 

E sahirão todos do pateo. 

— Até a vista, tio Longuinhos, - gritou de cima da fresta a mesma 
voz, que pouco antes puzera em perigo a razão vacillante de mestre 
Marçal. 

— Maldito I tem pilhas de graça, — obvervou em voz baixa e sor- 
rindo o vulto que ainda não largara o braço de mestre Marçal. 

— Sabeis o que houve por cá I— Disse para este o seu companheiro 
— Mosquitos por cordas I O Barbas deu dous murros na Lacaya que lhe 
poz um inchasso em cada face, e a Lacaya rachou a cabeça ao imperador 
com um pedaço de gruta dos jardius de Babyionia que pilhou á mão. 

— Arrufos 1 Não vai nada — ponderou sentenciosamente o outro. 

— Para isso é que sua mercê foi chamado, continuou o primeiro. 

— E então ? Perguntou o segundo. 

— Está tudo accomodado; lá se compuzerão, retorquio aquelle. 
Não passou disto. Pelos modos não houve cousa de maior. 

Era claro que o embuçado que entrara se havia occupado larga- 
mente em esmiuçar os escândalos interiores do pateo das Comedias. 

Mestre Marçal, para quem tudo isto era absolutamente indecifrável, 
julga va-se em um mundo fantástico ouvindo contar, com tal natura- 
lidade como se fora uma cousa commum, a historia daquellas familiari- 
dades entre lacaias e imperadores. Todas as suas idéas hierarchicas se 



— 107 — 

abysmavão sob a narração destas anedoctas, que, pela forma porque 
erão contadas, paredão usuaes e correntes. 

Mestre Marçal pensou que o mundo podia muito bem ter dado uma 
volta desde o seu casamento com a Sra. Medéa. 

Quiz certificar-se. 

— Perdoae, observou elle attenciosamente ao que referira o facto. — 
Pelo que ouço teremos brevemente uma execução. 

— Uma execução ! 

— Certamente. 

— Que execução ? 

— A execução da lacaia . 

— A execução da lacaia ! Mas como entendeis a execução da la- 
caia, mestre Marçal ? 

— Com baraço, e pregão, e tudo o mais do costume, cousa muito 
para se ver e admirar. 

— Ahl 

— Presumo que não a esquartejarão. . . por decência. , . e como é 
pessoa de baixa condição não morrerá de garrote. Em todo o caso 
não falto lá. 

-— Mas porque ó que hão de executar a lacaia ? 

Os dous interlocutores estavão em poios oppostos: não podião en- 
tender-se. O segundo embuçado ria maliciosamente nas dobras da sua 
capa traçada. 

— Porque hão de executar a lacaia! ponderou mestre Marçal. 

— Porque hão de executal-a, sim! respondeu o embuçado im- 
paciente. 

— Perguntaes-me porque hão de justiçar e executar a lacaia ? in- 
sistiu mestre Marçal escandalisado. Porque? Pelo que fez. 

— Mas o que fez não é caso de forca. 

— Como ? não é caso de forca ! Não é caso de forca um crime de 
lesa magestade? Em que tempo que estamos ! 

Na ortbodoxia dos seus sentimentos, mestre Marçal esquecia-se 
de que também elle se podia considerar réo de infracção grave, e por- 
tanto incurso na severidade penal que parecia ser a base das suas opi- 
niões politicas. 

O embuçado replicou, procurando o sentido das palavras do fo- 
gueteiro : 

— Crime de lesa magestade ! Qual crime? 



iiO 

e talvez a origem da sud fortuna próxima, respondeu com o desdém da 
superioridade : 

— Aquillo não é nada. Um desenfado apenas . Se visseis .... 
O homunculo franziu o sobrolho espesso e grisalho, atalhando: 

— Ah! não é nada! 

Esta interrupção fez reflectir mestre Marçal sobre o modo por que 
se poderia ter sabido um segredo que elle julgava tão guardado e 
occulto. Como, porém, estivesse plenamente convencido de que não 
precisava guardar mysterios com uma pessoa em que elle via jâ um 
complice, quiz esclarecer as suas duvidas : 

— Mas como sabe Sm? — disse. 

— Nós sabemos tudo — accudiu laconicamente o homunculo. 
Depois de breve pausa continuou : 

— Esta noite, depois de Trindades, fostes ás terras da Cotovia. . « . 

— Experimentar um foguete — respondeu mestre Marçal, sem 
deixar termin8r a phrase e já a cem léguas das ordenanças — ó certo. 
Mas não pense Sm. que era um foguete como os outros. 

— Ah ! não era I 

— Se soubésseis, meu senhor, que artificio novo eu tinha prepa- 
rado! Havia de assombrar tudo. 

— Com que então preparastes um artificio que havia de assombrar 
tudo?- atalhou o homunculo recostando- se, pregando os olhos fais- 
cantes no fogueteiro e esfregando as mãos. 

— Falhou — redarguiu mestre Marçal— ; toda a gente se pôde en- 
ganar uma vez — accrescentou philosophicamente. 

— E mesmo duas vezes, digno mestre Marçal. 

— Duas não seria fácil — tornou este sorrindo . 

— Estais então disposto a tentar de novo ?. . . 

Mestre Marçal olhou em torno com ares de precaução, e, at^roxi- 
mando-se mais da mesa, disse em voz baixa, inclinando -se para o ho- 
munculo : 

— Se eu achasse alguém que se quizesse utilisar do meu préstimo, 
assim para cousa de maior... verieis, meu senhor. 

O artista punha cartazes ao seu mento. 

— Muito bem, mestre Marçal. . . . Sabeis em presença de quem 
estais ?— observou o velhinho. 

Mestre Marçal olhou interrogativamente para o individuo que o 
introduzira, e, como este não respondesse, replicou ao seu interlocutor : 



— 111 — 

«— N2o, meu senhor; nada me disserão pelo caminho. Mas eu 
estou prompto a.... 

— Sinto dizer-vo-lo , mestre Marçal : estais prompto a ir para 
a cadêa do Tronco, para onde yos mando já conduzir. 

— E' o senhor corregedor do crime — observou officiosamente o 
outro sujeito de negro, que era o escrivão da correição, com uma obse- 
quiosidade de modos que em outra occasião teria penhorado infinita- 
mente mestre Marçal. Neste momento, porém, todas as civilidades erão 
perdidas para elle. 

— Misericórdia! —bradou o infeliz, vergando-lhe as pernas como 
dous parenthesis. 

Um raio que lhe cahisse aos pés não o assombrara mais comple- 
tamente. 

Quando, defronte de S. Luiz, fora interceptado pelos dous embu- 
çados, mestre Marçal tivera seus longes de suspeita. O que depois lh'a 
dissipara, e successivamente o fora confirmando na commoda novella 
que se havia forjado, fora a urbanidade, que, por um acaso feliz e raro, 
achava nos quatro indivíduos com quem tivera de tratar. 

Na sua ignorância do mundo, mestre Marca fazia do trato social das 
justiças de el-rei a idóa mais desvantajosa possível. Como até ao malfadado 
momento, em que a paixão da aite o levou a commetter o seu primeiro 
crime, nunca tivera dares nem tomares com ellas, o honrado fogueteiro 
pintava-as na imaginação com as mais negras e medonhas cores. No seu 
conceito, um beleguim era sempre um cgre, um meirinho uma harpia 
e um juiz a cabeça de Meduza. A affabilidade e os bons termos erão 
para elle traços impossíveis no caracter dcs homens daquella classe. 

A fallar a verdade, mestre Marçal não. errava de todo, com appli- 
cação á sua época, e principalmente quando as relações da justiça des- 
cião a pessoas da sua condição. A cortezia não era o fraco dos homens de 
lei, e principalmente dos seus dependentes, os honrados agarradores. 
Mas toda a regra tem excepção. 

Ora, mestre Marçal tinha tido a phenomenal ventura de acertar com 
quatro excepções. 

£^ verdade que não estava mais adiantado por isso. 

Desde o momento em que mestre Marçal se convencera de que os 

mysteriosos desconhecidos não per tencião á justiça, seduzido por outra 

ordem de idéas, e subjugado do demónio da ambição e da vaidade, ti- 




— m — 

nhfto-lhe esquecido todas as regras da sua hablt^»^ pnidcncia. Mo só 
nSo julgava que ninguém tinha interesse em prejudica-lo, mas cuidara, 
como dissemos, ver um confidente em cada qual dos seus interlocutores, 
e em todos elles os complices discretos de uma acção que lhes interes* 
sava igualmente 

Póde*se imaginar qual foi o seu terror e assombro quando ouviu 
estas palavras in^peradas : 

— E' o senhor corregedor do crime ! 

Quanto ao modo por que a justiça estava já tao bem informada a seu 
espeito» era a cousa mais deste mundo. 

Tendo-se dado naquelles últimos tempos algumas infracções contra 
a lei proscriptiva dos fogos artificiaes, infracções cujos autores havião 
f cado ignorados, a governança de Castella, rcceiando que dò desuso da 
lei se seguisse o abuso de quaesquer clandestinas industrias deste género, 
que podia igualmente servir ou de signaes, ou de encobrir outro destino» 
tinha vivamente recommendado para Lisboa a maior vigilância e rigor. 

Em consequência o regedor das justiças passava as ordens conap^- 
tentes aos ttibunaes e aos dous corregedores do crime que então havia 
em Lisboa, magistrados quasi absolutos com alç^ida para prender e 
processar no recinto da cidade e cinco léguas em redondo. 

Do$ corregedores as apertadas ordens havião passado ao meirinho 
da correição e aos onze alcaides que fazião a policia da cidade. 

Descendo na escala, cada alcaide tioha-as igudlment3 transmittido 
aos doze homens, oito de chuça e quatro de capas e espada, que a lei e 
o uso lhes atribula para satisfação das suas funcções esmiuçantes e 
agarratorias. 

Um destes homens era vizinho de mestre Marçal, que, vivendo soli- 
tário e desgostoso, não só ignorava o seu tracto, mas nem se quer lhe 
fallára nunca. 

A mulher deste vizinho, que, em virtude do 5 eu ofiScio, pouco vivia 
no bairro, tivera uns ralhos com a senhora Medéa. A illustre matrona, 
na forma do seu louvável costume, bríndava-a com um diluvio de im* 
properios. Entre outras injurias grossas, charoára-lhe velha desdentada. 
Ora, como a respeitável esposa do beleguim passava jâ dos cincoenta, e, 
em consequência de uma constipação nos queixos, tinha só seis dentes 
em estado de servir, mas não de se apresentar , esta nunca perdoou 
a imperdoável afiOronta. 



113 — 

Não contente com aquella grave imprudência que a indispuoha com 
as justiças, a Sra. Medéa tivera a indiscripçao de dizer, em segredo, já 
se vê, á outra vizinha que o seu Marçal queimara uma duziar de val- 
verdes em casa, dia de Anoo Bom, acompanhando a conâdeocia com 
uma ioíioidade de queixumes sobre as prodigalidades e desperdícios 
daquelle homem, que era a sua desgraça, e terminando com a recom- 
mendaçào de não boquejar a ninguém sobre semelhante cousa, o que a 
vizinha lhe afiançou com um sem numero de protestos. O primeiro 
cuidado da discreta confidente, que receiava crear b^lor na lingua e 
na sua consciência, e entendia que a apreciação de um successó tão im- 
portante não era para sf r monopolisada, foi ir logo dizer a uma sua 
comadre que o vizinho Marçal deitava cada mez duas dúzias de valverdes 
na lareira, lamentando a triste sorte da pobre da mulher, que era vi- 
etima de taes extcavaga.oias. 

Quando a nova chegou ao fim do becco, de vizinha cm vizinha e de 
confidencia em confiJencia, dizia-se ao ouvido que mestre Març&l arrui- 
nara a Sra. Medéa, porque tinha o despropósito de deitar cada oito dias 
um fogo de vistas em casa. 

Uma noticia destas não podia escapar ao conh^-cimento da mulher do 
beleguim, que foi em continente dize-loao marido. O marido, que 
era um homem prudente, pondeí-ou que se não devia acreditar senão 
metade do que se dizia, e, sem perder tempo, foi prevenir o seu alcaide. 

Desde esse momento mestre Marçal tornou-se o objecto de uma 
vigilância persistente e activa. 

Mestre Marçal nem por sombras imaginava que dava tanto cuidado 
ao governo. 

A sua sabida a horas desusadas, e para longe do bairro,deu logo na 
vista ao seu vizinho beleguim, que fizera de casa o seu observatório 
e o seguia com as precauções do oíficio. Ao Rocio encontrara um con- 
frade da mesma esquadra, e aggregara-o a si, communicando-lhe a 
empreza. 

Depois disto nenhum dos movimentos de mestre Marçal lhes tinha 
escapado. 

Mestre Marçal, menos perspicaz, não tinha dado por isso , 

O que os dous honrados beleguins tinhão visto constituía um cu- 
mulo de provas suíficiente para se assegurarem daquella perigosa pessoa. 

A ingenuidade das suas confissões tinha confirmado tudo ! 

O corregedor do crime, em cujas mãos mestre Marçal cahira, era 

15 




114 

um homem que, apezar do seu modo aíTavo.l e adocicado, Unha um maço 
rio processos no logar em que os outros tôm o coração. A sua ambição 
ccnstante era chegar, o mais de pressa que pudesse, a desembargador . 
dos aggravos com assento na casa da suppl^cação, logar eqii]|0i|ftriir^: 
pingue, que era o alvo altrahente da magistratuni da época. Para con- 
seguir este âm tão desejado nada lhe custava, e anciã va por assigna- 
lar-se em algum serviço importante. O cr rregedor conhecia o eapirito 
descoTJÍi9do da governança de Castella ; e, se lograsse pôr o dedo em 
uma boa conspiração, ou mesmo em um simulacro delia, tinha como 
certo que abreviaria a distancia que o separava do termo dos seus 
desejos. 

Habituado a li jar com todas as aries e manhas dos criminosos, 
não pudera acreditar qu^, a ingenuidade de mestre Marçal fosse natura), 
(í proviesse unicamente da curteza do seu espirito. Comprazia-se em 
imaginar na simples occurrencia que tivera logar com o fogueteiro um 
problema judiei )1^ cuja solução lhe daria créditos de homem sagaz e 
zeloso, e o poria em bons termos com o coode-duque , primeiro mi- 
nistro. Em todo o caso, era o oricLeiro que se apossava de um infractor 
daquella famosa lei, que tamanha attcnção devia ú corte. 

Nesta disposição continuou o intejrrogatorio, fitando no pobre de 
mestre Marçal uns olhos que o traspassavão. 

Ébrio de terror, o primeiro movimento do fogueteiro foi lançar- 
se-lhe aos pés, exclamando em um tom de angustia, tão verdadeiro, 
que fazia desapparecor o ridículo da sua figura e commoveria outro 
qualquer : 

— Sr. corregedor, não me desgraceis ! Sr. corregedor, era uma 
experiência, era uma simples experiência. Que quereis, Sr. corregedor? 
Com isto nasci e com isto me criei. Era jâ a proflssão de meu pai : nunca 
tive outra. Era a minha enxada, e estava tão costumado que não podia 
passar sem ella. Foi o demónio que me cegou. Mas eu protesto-vos que 
nuufa mais, nunca por nunca ser, tornarei a bolir em um bago de 
pclvora. Sr. corregedor, amerceai-vcs de um pobre, que é a primeira 
vez que passa por esta desgraça e por esta vergonha ! Sr. corregedor. • . 

Mestre Marçal não sabia que era mais fácil mudar os celebres paços 
de Corte-Beal para Trafaria do que abalar aquella alma petrificada. 

O corregedor, se não tinha uma conspiração, possuia um infractor* 
Mão o drra por uma moradia em palácio, li 

Por única resposta, deu a fatal lei ao escrivão da correição : 




115 

— Lede — disse eiú tom secco e terminanie. 
O escrivão leu da primeira até a ultima sillaba. 
Era escusado. Mestre Marçal sabia-a decór. 

— Mas, Sr. corregedor, se nào foi pot mal •— murmurou mestre 
com um íibafador a tapar-lhe a garganta. 

éndes um modo de evitar maicr pena - disse o inflexível 
o. 

— Que modo, Sr. corregedor? - redarguiu o infeliz, erguendo-se, 
e respirando como o naufrago que deita a mão a uma prancha. 

— Dizei quem são os voisos cúmplices. 

— Sua mercê diz ? 

— Digo que reveleis o nome dos vossos cúmplices. 

— Cúmplices! De que? 

Mestre Marçal nào podia acreditar que fossem necessários cúm- 
plices para fabricar um foguete. 

— Com que fim fostes vós lançar um artificio de fogo ás terras 
da Cotovia? 

— Com o fim de experimentar uma nova transf irmação que julgo 
ter inventado. 

— E que artificio era esse? 

— Era... era uma transformação. Não sahiu bem desta vez', mas.. 
Mestre Marçal, na sua i^cor^igiTel cegueira, ia a dizer « Mas de 

outra melhor será » . Um gesto frio do corregedor seccou-lhe a palavra 
nos lábios. 

— Ou este homem é mentecapto, pensou este, ou é o mais fino 
conspirador que jamais cahírá em mãos de justiça. 

Depois continuou em Vv^z alta : 

— ^ssim, persistis nas vossas negativas e absurdas desculpas ? 
Não tendes cúmplices? 

Mestre Marçal daria tudo, com a Sra. Medéa inclusive, por ter um 
cúmplice ; mas, por mais que fizesse não podia achar senão a cumplici* 
dade de uma accusadora ponta de barbante que lhe pendia do bolso, 
resto do que lhe servira para montar a mal aventurada machina. 

Uma denegação muda foi a sua única replica. 

— A prisão o fará fallar, se é o que supponho— reflectiu o corre- 
gedor. Se é o que parece já temos, em quem punir a infracção. 

— Bem — proseguiu dirigindo-se ao escrivão *- Que o levem á 
cadôa do Tronco e que o deixem iricommunicavel. 



116 

- Sr. corregedor! bradou o misero em um esforço derradeiro. 

O corregedor fez ura signal. O escrivão abriu a porta e entregou 
o prepo aos dous homens de capa que tsp=»ravào na aote-sala» 

Mais morto que vivo mestre Ma»-çal s-ahiu com elles. 

As ruas estavào já desertas, porque uaquMle tempo os passeios 
nocturnos ttuhèo ainda graves inconveDirutes. Apenas algumas raras 
aod<ts ou liteiras de damas da côcte, piecedidas de um escraTO ^e 
allumiava o camiobo , e ladeadas dos seus pagens e escudeiros, se- 
gundo a sua qualidade e jerarchia, confuí me as regias provi-^ões, atra- 
vessavão a passo lento as ruas tortuosas que vinhão dar á fiaixa, ou 
algum embuçado, que igualmente occuUava o rosto e os intentos, cru- 
zava preocupado e rapiJo o grupo dos nossos conheci :os. 

Esle silencio aptrtou ainda 'mais o coração de mestre Marçal. 

Ladeando a rua dos Escudeiros, e passada a freguezia deS.Nicoláo, 
os capas do alcaide entra ião com o prc- ^ • Tereiro do Paço, pela 
porta do Arco dos Barrotes, e seguirão por dttraz do palácio real, pela 
porta do Arco das Pazes. Os motejos dos arcabuzeir(s da guarda do 
paço acompanháião o pobre fogut^teiro até quasi ao torreão novo da casa 
da ladia, donde os seus companheiros o levarão ao outro lado pela porta 
dos armazéns, dirigindo-se em seguida á Tanoaria, e enfianao pela porta 
dos Cobertos, até o encerrarem na prisão do Tronco, espécie de enxovia 
destinada aos malfeitores, situada na mesma rua dos Cobertor, que ficava 
pouco mais ou menos fronteira ao sitio onde boje existe o arsenal da 
marinha. 

Quando mestre Marçal ouviu ranger os ferrolhos e cerrar sobre elle 
as grades grossíssimas, pensou que o fecharão em um sepulchro ; quando 
ouviu as blasphemias e as vozerias que lá ião dentro, cuidou que dava a 
sua entrada no inferna, 

Ftlizmente, o espirito móbil de mestre Marçal não guardava a inten- 
sidade das suas sensações. 

Pela madrugada mestre Marçal adormeceu, dizendo comsigo — 
que afinal de contas, iuferno pot inferno, o de sua casa não era mjito 
preferível. Cpmo tudo ne-te mundo tem comp«n?açòes, mestre Marçal 
reputava uma compensação o ter a^sim eviíado as catilinariap coiijugaes, 
que elle via ergueiem-se ameaçadoras com um « continuar-se-ha » 
eterno. 

Ao outro dia, quando acordou, a primeira cousa que ouviu foi a yoz 
da Sra. Medéa, a quem a mulher do beleguim, esquecendo rancores na 



117 

apparencia, fora oí&ciosamente prevenir, para saborear pessoalmente a 
TÍDgança, que é o prazer dos deuses e das Tizinhas velhas. 

Á Sra. Medéa desfazia-se em imprecaçõds contra o parvo de seu 
marido, que por culpa sua estava entre ferros d'el-rei, e regalava de uma 
apostrophe furibunda os guardas, que, sob o pretexto de que o preso 
se achava incommunicavel, não a deixarão enirar para dizer o muito 
que tinha p^ra dizer áquelle desalmado que era a vergonha da sua casa I 

Mestre .Marçal abençoou os rigores da justiça, que lhe parecerão 
então o cumulo da benevolência. 

O empenho do corregedor do crime, incansável em procurar a sua 
conspiração, fez jazer mestre Marçal mais de um anno no cárcere. Des- 
enganadas a final de que o suppasto conjurado era, quando muito, um 
monomaniaco, as justiças d'el rei dehbeiárào-se a dar lhe um destino. 

Attendendo á prisão que já soffrêra, a justiça teve a benignidade 
de lhe commutar a pena de degredo para Angola em degredo para o 
Brasil ; e, quando Mathias de Albuquerque partiu, approveitou-se a 
opporiunidade de enviar alguns degredados entre os quaes mestre Marçal 
tinha a honra de figurar I 

Apenas posto o pó no navio, que se preparava para levantar ferro, 
mestre Marçal tinha resolvido todas as suas duvidas acerca do desgra- 
çado artificio que um anno antes fora perder-se infructifero e ignomi- 
nioso em umas leivas de cevada. 

Estava desenganado. O seu foguete tinha-se transformado em uma 
caravella. 

Uma cousa consolava extremamente mestre Marçal no meio dos seus 
Infortúnios : era a ausência da senhora Medéa. 

Mestre Marçal tinha a malícia de ípensar que esta só vantagem com- 
pensava, e, feitas bem as contas, excedia mesmo todos os seus desastres I 

YI. 

S. JORGE PELOS BRASIS I 

Tres dias e três noites haviào quasi passado desde que Vieira en- 
trara no forte. A sentineHa do incansável moço durava ainda, inter- 
rompida unicamente nos curtos momentos em que tomava alguma 
refeição. A siia vigilância não se desmentira um instante. Tres diase 
tres noites erão passados sem que uma só vez tivesse dado signal ,de 
f&diga ou desalento, nem cerrasse os olhos um minuto. 

Os maneebos voluntários exaltavâo-o até ás estrellas ; os soldados 




* 



1*8 

velhos pasmavào daquelle exemplo de coDStanci^, e fraacamente confes- 
sa vão que não tinhão memoiia de outro igual. 

Àotonio de Lima dizia lá comsigo que, se elie fosse no combate 
como no serviço, e todos os mais o iguallâssem, iria com os seus 
trinta e sete homens deitar os hoUandezes ao mar. 

Yanderburgo no entanto não atacava. O âm do general batavo era 
estancar as forças aos do forte por meio de uma vigilia continua, espe- 
rando surprende-los quando o cansaço us tivesse rendido de animo 
e a espera baldada houvesse relaxado os cuidados da defensão. Por isso 
demorava o choque decisivo depois da iotimação. 

Yanderburgo nâo sabia que homens estavào atraz daquellas cortinas 
baformes que elle soberbamente desprezava. 

Na terceira noite, por horas de ante-manhâ, serião três depois da 
m^^ noite, quando as soâbras se carregão mais, e o peso do somno 
eda' uoite se faz sentir irresistivel sobre os corpos, Ayres GU, na 
forma do costume, passeava na banqueta do parapeito do norte, com 
umajpersistenciaque attestava a firmeza das suas opiniões. Desta vez o seu 
pasdisio abrangia desde o baluarte em que Y ieira se conservava desco- 
berto até ao angulo opposto da muralha. Uma nebrina do mar toldava 
o isthmo, e não deixavaperceber nada a quatro passos de distancia. 
Ây^ <7Íl era tod(> olM^ ouvidos, e interrompia frequentemecte o seu 
passeio por long^ paradas, ^^ue afiava os sentidos, como se quizera 
penetrar as trevas dens^ssintraf y*^ 

Mestre Marçal dormia i^rqgcàdo ao lado de Vieira, como se todos os 
' anjos do paraizo véSlaâsem pelasua tranquillidade. 

Andando e paranàó, b m6i|queteiro coçava de vez em quando o 
sitio onde devia ter a <»rettia ^tf^ita, que lhe havia ficado na alabarda 
de um sargento zelandez em uiifiçcontro sobre os polders de Anvers. Este 
gesto era nelle um signal dç vo^yreoccupação extrema. 

Em uma destas idas e vindáájr como chegasse ao pó de Yieira, es- 
tacou de repente, e, dissimulando o busto atraz da muralha, applicou o 
ouvido vivamente ao nivel do parapeito. Yieira estava immovel e 
atteuto. ' \ ' > 

Dqpois de alguns segundos iipatienção, em que parecia concentrar 

todas as suas faculdades naquellá suprema auscultação, virando-se para 

o mancebo e fazendo da mão esquerda um ante-paro á boca, vibrou -lhe 

^^ ao ouvido naqueUe tom breve e agitado que geellmente se toma nas 

occasiôes dicisivas : 



H9 — 

— Desta vez creio que os temos comnosco. 

— Creio que sim, respondeu tratHfii&imeDteyieira. ^ 

£, arrumando o seu mosquete,^! afeito a um feixe de armas de 
toda espécie, anticipadamente disposta j^l^Hiàrte em frente do es- 
paldão praticável, que o previdente goiNerâa^|fe|zera levantar parallelo 
ás muralhas, para poupar a sua gente ^|HHN»*la dos fogos do 
inimigo. Chegando ali, escolheu um daqu^n^^R&es lancinantes, ar- 
mados na base do ferro de um harpeu robusto, a^Bwe cortante, á feição 
dos croques dos nossos barqueiros, que principalmente serviâo aos sitiados 
nos assédios. -* 

— Ide avisar o governador — accrescento^j, voltando ao seu posto, 
o ipancebo, que neste momento parecia avaro de palavras. 

Ayres Gil seguia-o com os olhos pasmado*. 

— E o vosso mosquete ? — disse elle para Vieira,apont3ndo para a 
arma e a corda que este encostara ao parapeito para em todo o caso lhe 
ficar á mão» 

— Para que ? — redarguiu o mancebo com uma concisão digna de 
Cicero.— Não se vê nada. 

— Diabo ! — murmurou Ayres com uma expressão admirativa, 
que encerrava um discurso apologético, mais eloquente do que se fora 
pautado pelos preceitos de Longino. 

Nisto, um rumor ténue, abafado, contrahido, que se podia julgar o 
sussurro crescente do vento dobrando as copas dos arvoredos da mar- 
gem, cortou, turbou perceptível o silencio da noite. 

— Ide prevenir o governador — repetiu Vieira ao mosqueteiro. 

— Desamparar-vcs agora aqui, nSo 1— tornou este. 

E disparou um pontapé, capaz de estourar um búfalo, em mestre 
Marçal, que lhe dormia aos pés como um bem aventurado. 

— Heim?— respondeu o fogueteiro Marçal, que estava já costumado 
a estas maneiras. 

— Ide me já dizer ao governador que temos es hollaadezes aqui I 
— Os hoUandezes I Que hollandezes ?- perguntou mestre Marçal, des- 
atinado e ainda meio adormecido. 

— O inimigo, bruto ! — assoprou-lhe Ayres Gil ás orelhas paia ver 
se o resolvia. 

— Então onde eilá o bruto. . . inimigo ?— murmurou o fogueteiro, 
sacudindo a cabeça e voltando se para o outro lado. 



— 120 — 

— O inimigo que nos vem atacar I— rugiu o mosqueteiro entredentes, 
le^antando-lhe desesperadamente o cabeça peio gasnete. 

Mestre Marçal comprehendeu e accordou. 

— Oh I -~ murmurou o misero com voz estrangulada. 
£ recahiu apopletico de medo. 

— Animal ! — disse Ayres, empurrando-o com supremo desdém. 
— E' precizo ir eu mesmo avisar o Sr. António de Lima para tocar 
alarma! " * 

Dizia e fazia. 

N^ ultima parte deste solilóquio rápido sentiu descer-lhe sobre 
o hombro a mão armada de ferro do próprio governador. 

— Não é preciso. Cada um ao seu posto. Um silencio de mortos. 
Deito os miolo fora ao primeíroque me boquejar uma palavra. 

O mosqueteiro soltou lá comsigo outro 

— Diabo ! 

não menos expressivo que o primeiro. Tinha visto muitas guerras, mas 
nenhuma assim. 

Olhando para o interior do forte, viu surgir em boa ordem por di- 
versas direcções, pelas ladeiras dos terraplenos, os homens da guarnição 
já promptos e armados, divididos em grupos silenciosos como sombras. 

A sua admiração ia em escala ascendente. 

No forte de S. Jorge havia dous homens que nâo dormião de noite. 
Era o mosqueteiro e o governador. Quanto a Vieira, esse, como vimos, 
nem de noite, nem de dia. 

António de Lima como que tinha o dom da multiplicidade. Estava 
em toda a parte. 

O forte parecia profundamente adormecido. Somente as feentinellas 
se mostravão descnbertas como para convencer o inimigo da perfeita ne- 
gligencia do resto da gente. António de Lima bem sabia que não as ar- 
riscava; porque, se os hollandezes realmt^nte se aproximavão para sor- 
prender o forte, não disparai ião um só tiro de mosquete ou arcabuz. 

O rumor longiquo e vago, que pouco antes se sentira, subiu um 
tanto, ganhando intensidade, mas sem quasi se differençar dos mugidos 
da ventania nos cafezaes. 

Uma linha mais escura condensava gradualmente as sombras á su- 
perfície da terra em frente do forte. 

Pouco depois, podia-se dizer que se sentira come um leve ranger de 
objecto pesado que se fixava na arêa. 



— i^ — ? 

Um dos volantaríos curvados na banqueta quiz erguer-se e obser- 
var. O condestavel aproximou machinalmente o morrão ao ouvido do 
canhão que tinha próximo. 

Um revez da espada do governador cortou a corda acesa, tão rente 
da mão, que miscer Arnaldo, indo silenciosamente apanhar o fragmento 
inflammado que saltara a dous passos, verificou pelo caminho se tinha 
o punho no seu logar. Ao mesmo tempo o outro braço do governador 
fazia vergar o voluntário sobre os joelhos. 

Mal 86 ouvia em torno dos parapeitos o resfolegar apressado e an- 
cioso daquelles homens que a vontade àe um só immobilisava assim e^^ 
um momento su-premo. 

Passado .um momento de solemne anciedade, que para alguns valeu 
séculos, na altura da muralha do baluarte occupado por Vieira surgirão 
de repente dous morriões, que rapidamente se alteavão como se forão 
impellidos do solo sem auxilio humano. Sereno como em uma situação 
commum da vida, silencioso como se passara em um mundo de espec- 
tros, o mancebo vibrou um bote irresistível no rosto, do primeiro vulto 
que subia, e, em um immediato e rápido movimento de rotação, cravou 
o agudo farpão do pique afiado, aproveitando o intervallo das armas defen- 
sivas, na garganta do segundo, que já deitava as mãos á muralha, e se 
debruçava para galgar para dentro. Depois, retrahindo o braço com vigor 
hercúleo, arrojou o hollar^dez lacerado e agonisante aos pés do governa- 
dor. Quanto ao primeiro, um gemido e um baque annunciárão que não 
tivera que invejar ao seu infeliz camarada. 

Ayres Gil, a quem nada escapava, não se pôde ter que não mur- 
murasse : 

— Asseiado modo de pescar, por minha fé ! 

Nisto ouviu-se um brado immenso erguido em frente das muralhas, 
como se das entranhas da terra subitamente rebentara uma população 
frenética : 

— HoUanda e Orange l 

— S. Jorge pelos Brasis 1— bradou António de Lima no tom em 
que o Ajax desafiava os deuses. 

•— S. Jorge pelos Brasis 1 — clamou a guarnição, electrisada pela voz 
e attitude de seu chefe e pelo exemplo de Vieira, que a todos assom- 
brara. 

•— A elles, filhos!— continuou o governador. 

lo 



tf 



— in — 

E, juntando á palavra a acção, metteu os hombros a um tronco 
inteiro deangelim, cuja superfície enorme tomava quasitoda a largura 
e comprimento da muralha. 

Ayres Gil e mais vinte braços secundarão o impulso, de um a outro 
extremo da cortina, fazendo unanimes um esforço sobre-humano. 

Apparecião já em toda a extensão da cortina os morriôes dos hol- 
landezes, que subião precipitados áescallada, depois de haverem hesitado 
um momento, vendo, no desastre dos seus dous companheiros, que 
estavão descobertos. 

O madeiro monstruoso gemeu e oscillou no declive do parapeito. 
Cedendo depois á anciã redobrada dos impulsores, rolou e precipitou-se 
ecoando na escuridão. O vigor das almas e dos braços suppria as maqui- 
nas de guerra. 

Um grito indefinível, composto de cem gritos de angustia, subiu da 
base do forte. Sentiu-se também um estallar secco e múltiplo. 

Duzentos hollandezes, confiados na longa e inalterável mudez do 
forte, favorecidos além disso da névoa e do escuro da noite, estavão api- 
nhados nos degráos e ao pé de oito escadas que havião arrumado ás 
muralhas, suppondo fácil a victoria e a surpreza completa. Até ao mo- 
mento em que Vieira precepitára os dous mais apressados e audazes, 
julgarão que não terião mais que degollar as sentinelias e apossar-se 
do resto da guarnição adormecida. Presentidos 43 surpresos estes mesmos, 
não lhes era todavia já possível recuar. 

As escadas cahirão lascadas e os assaltantes derribados com ellas 
gemião mutilados. Metade da columna de ataque fícára esmagada ao sopé 
da cortina em toda a linha. A outra metade recuou em debandada sobre 
o grosso da força. 

Esta força era composta de 1,500 homens. Fiada também nas trevas 
espessas, tiaha imprudentemente avançado até menos úe tiro de mosquete 
do forte para supportar as companhias de assalto. 

O corpo de batalha dos hollandezes, cerrado e compacto, por uma 
disposição imprevidente, — occupava toda a largura da pequena penin- 
sula. Recebendo os fugitivos da malograda tentativa, aquella molle, mais 
negra no meio do negror da noite, agitou -se confusamente, accusando a 
sua direcção. 

«— Pontarias baixas, bombardeiros I — bradou António de Lima.— 
Fogo todos os canhões l 



— èSi3 

£, arrancando a corda deis mãos do condestavel, chegou-a elle 
mesmo ao rastilho da peça montada no baluarte. 

Uma detonação formidável despertou os ecos da margem e foi per- 
der-se ao longe na immensidão do oceano. Os três canhões troarão quasi 
unisonos. 

Era impossível distinguir o effeito da descarga ; mas devia de ser 
terriyel, penetrando naquellas massas unidas. 

— Bombardeiros, outra salva como esta I — clamou o impetuoso 
governador.— E vós, filhos, aos mosquetes ! 

O fuzilar da mosquetaria, seguido quasi immediatamente pelo estam- 
pido dos canhões, foi continuar o estrago nas bastas fileiras do inimigo. 

Quando a fumarada se dissipou, os hoUandezes tinhão-se tornado 
invisíveis na profundidade das sombras. 

•— Bravo I— exclamou Ayres-Gil, depois de observar attentamente.— 
Os harenques de HoUanda mergulhão . 

— Elles voltaráõ— disse António de Lima.— Estamos ainda no prin- 
cipio da festa. Animo, filhos, e tudo prestes ! 

Depois, dirigindo-se a Vieira, continuou para este, apertando-lhe 
afectuosamente a mão. 

— íMancebo, sereis grande ou morrereis com gloria. E' um soldado 
velho que vo-lo diz, e as prophecias nos campos de batalha não mentem 
quasi nunca. 

— Procuro imitar o vosso exemplo, Sr. governador — atalhou Vieira 
com as faces incendidas de rubor, de nobres esperanças e de modéstia 
não menos nobre. — Onde vós estais quem ousaria voltar o rosto ao 
inimigo ? 

— Na vossa idade ter-vos-hia inveja— respondeu António de Lima.—- 
Na minha presagio-vos o futuro. Conheço os homens de guerra... Não 
digais nada... Acabemos... cumprimentos não são para nós... Apro- 
veitemos esta breve pausa. . . Olhai-me para esse gente. Toda ella fez 
o seu dever... 

— Maisl 

— Mais talvez, porque a luta é desproporcionada. —Não: mais, não. 
O dever do soldado é morrer no seu posto. . . . Como vos dizia, toda essa 
gente cumpria o que se podia esperar de forças humanas ; mas o que 
nella não vereis é a frieza de animo no meio do conflito, a firmeza 
igual de braço e coração, o esforço que mede o golpe em frente do perigo, 



r 



1Í6 

ambas as mãos e voltando vivamente o rosto para dentro do forte, — 
puuuh! que peste! 

Era um foguete, que, passando a dous dedos do rosto de Vieira, 
voara por cima da cabeça do mosqueteiro, e fora pregar-se no espaldão 
de terra, onde se incendiou. Composto de mixtos extravagantes, reben- 
tara espalhando um cheiro insuportável. Se mestre Marçal fosse visivei, 
cahir-lhe-hião no chão, em vez das foices ausentes, os ossos maxillares, 
de pura vergonha por aquella dçshonra da arte. 

Os fogueteiros hoUandezes tinhão querido regalar todos os sentidos 
o— olphato como os olhos, os olhos como o tacto. 

— Ehl... ehl lál... Conheço. Como em Flandres— gritou o mos* 
queitero. 

£, levando da sua curta e larga espada, com o ferro em uma das 
mãos, e a outra cobrindo-lhe meia cara, foi direito ao incommodo arti- 
ficio, cortou de um revez o espontão que se fixara na terra batida, e foi-se 
á muralha restitui-lo aos hollandezes com um escrúpulo que fazia o elogia 
da sua probidade. 

— Tomai, Iscariotes ! brando — , debruçando-se do parapeito, sem 
já se inquietar das nuvens de peloiros e alcanzias que lhe sibilavâo e 
zumbião aos ouvidos. — Tomai, Iscariotes I Provai-me lá também destes 
perfumes do Oriente. Hein ? São como rosas de Alexandria .... 
Puuuhhh ! 

E voltou tranquillamente para o seuposto de observação, sacudindo 
o rosto com um milhar de visagens e esgares de enojo e repugnância. 

Nada mais burlesco e heróico ao mesmo tempo do que a simples 
acção do mosqueteiro. Faria tremer os mais bravos e rir os mais me- 
rencórios vê lo caminhar desembaraçadamente, de espada em punho e 
mão no nariz, através de uma procella de ferro e fogo, só para restituir 
ao inimigo o seu mimo. 

Vieira desatou em gargalhadas. O governador mesmo, apezar da 
sua gravidade e da attençào que prestava aos movimentos dos hollan- 
dezes, não pôde suster um frouxo de riso. 

O mosqueteiro correu escrupulosamente a folha da espada pela aba 
esquerda do gibão, como para a lustrar do impuro contacto ; e, embai- 
nhando-a com perfeita paz de espirito, foi outra vez agachar-se atraz do 
parapeito, attonito da hilaridade súbita dos seus companheiros . 

Como se vê, Ayres Gil desprezava soberanamente o perigo , mas 
não gostava de o affroutar inutilmente. 



— 127 — 

No entanto o fogo continuava horroroso de parte dos hollandezes. 
Parecia que o anjo das batalhas cobria das suas azas o intrépido 
António de Lima. Por Vieira velava sem duvida o bom anjo dos seus 
castos amores. 

O governador poupava o seu fogo para resguardar a gente, que nào 
abundava. Esperava friamente o momento opportuno. 

Ao signàl que deu, um foguete subiu aos ares detraz dos espaldões 
do forte, e, espalhando uma viva claridade, mostrou uma nova columna 
de ataque, próxima já da base da muralha, e, nas banquetas do forte, 
a nobre estatura do governador e a figura elegante de Vieira, im- 
pávidas anchas como o velho melastomo e a palmeira crescente afron- 
tando o raio na serrania. 

Os hollandezes ião de novo ao assalto. Duas ou três escadas tinhão 
escapado ao primeiro desastre. Das outras aproveitarão as que puderão 
concertar. 

Era o que António de Lima queria saber. E^ inútil dizer que logo 
que a luz momentânea do arteficio poz evidentes aos olhos do inimigo 
aquelles dous vultos soberbos, todos os mosquetes se dirigirão sobre 
elles. 

António de Lima ladeou dous passos, dizendo para Vieira : 

— Preveni- vos, mancebo. Váo atirar sobie nós. E' tentar a 
Deus buscar a morte quando nos vai ser precisa a vida para esforço 
daquelles e cumprimento do nosso dever. 

—Preciso aguerrir-me, Sr. governador,— respondeu Vieira, sorrindo 
e ficando immovel no seu logar. 

O furacão de ferro passou deixando- o incólume. De certo, emquanto 
o mancebo consagrava ali um pensamento, que podia ser o ultimo, ao 
objecto do seu culto, as[orações de Maria subião ferventes e puras ao 
throno de Deus, que se dignou estender a mão sobre elle. 

O fogo do grosso dos hollandezes, destinado a varreras muralhas, 
afim de proteger a approximação da columna de ataque, havia de infai- 
livelmente cessar quando os assaltantes arrumassem as escadas, porque 
não poderia continuar sem oíTender os seus. 

António de Lima esperava-os ali. 
• — Mosqueteiros, fogo 1 —gritou elle, vendo a ceícanna a cem passos. 

A guarnição impaciente precipitou-se sobre o parapeito e desfechou 
uma descarga terrível sobre os hollandezes, que já erão quasi visíveis. 

— Aos canhões, bombardeiros I -« continuou o governador. 




— 128 — 

As peçasMo forte responderão energicamente ao fogo dos hollandezes. 
Um dos voluntários cahiu ao lado de António de Lima. 

— Oremos peb primeiro martyr desta defensão — disse ©gover- 
nador, estendendo a cruz da sua espada sobre o peito roto e ensanguen- 
tado do infeliz moço, que expirou sem um gemido. Oremos por este pri- 
meiro martyr, e juremos vingar-lhe a morte I 

Vieira, impassível diante do perigo, limpou a furto do rosto ama la- 
grima, formosa como a pérola que sobrenada nas tempestades do 
oceano. 

— Façamos-lhe um sudário de gloria, irmãos I—accrescentou im- 
petuosamente o mancebo. — Que o seu espirito leve â presença de Detu 
as preces e as acções dos que estão promptos a segui-lo pela pátria. 

António de Lima sabia todo o poder da idéa religiosa, e conhecia a 
sua exclusiva influencia naquelle século. Religioso elle mesmo, porque a 
religião [estava entào em todas as classes— como cbristão^ não esquecia nm 
pio dever ; como chefe, combatia aquella primeira impressão de terror em 
homens pela maior parte ainda não aíTeitos aos horrores da guerra, d>os- 
trando-lhes Deus e avivando-lhes um sentimento, poderoso sempre, mas, 
em taes occasiões e em tal tempo, omnipotente. 

Um apontava o céo, o outro a gloria. 

'Quanto a Ayres, esse era assas indifferente a taes espectáculos. 

Tinha-os presenciado tanta vez que se havido tornado um episodio 
commum na sua vida. O mosqueteiro era também devoto, e mesmo 
um pouco supersticioso ; mas o habito de guerra tioha-lhe mesclado 
com estas qualidades genéricas uma leve tintura de incredulidades ou 
antes de indifferença. Ayres só via em um cadáver um mosquete de 
menos, com uma alteração grave na symetria das fileiras, e na morte um 
accidente ordinário da guerra. 

Por isso a compuncçào profunda de Vieira, em quem o valor não 
entibiavaa sensibilidade, e aexhortação religiosa, um tanto calculada, 
de António de Lima forão para elle uma cousa sem significação. 

Não succedeu o mesmo com os voluntários que tinhão visto cahir 
o seu camarada. £rão leões. 

• 

Nisto o fogo dos hollandezes cessou de. repente. 

— A elles, filhos I — gritou o governador. — Eis a occasião de o vin- 
garmos I 

O inimigo, apezar da mosqueteriado forte, subia de novo ao assalto, 



1S9 — 

não já surprendidona sua teotatiya de surpreza, mas com a consciência 
da resistência que acharia. 

O verdadeiro combate principiou. 

Da base até ao cimo o furte parecia incendiado com as granadas 
e artifícios que dos parapeitos erão arremeçados sobre os assaltantes. 
Estes, renovados sem cessar pelo eommandante das forças hollandezas, 
assemelhavão-se a ondas humanas , affluindo contra as muralhas e 
refluindo delias. Os madeiros e os troncos chovião sobre a turba em- 
penhada no ataque, decepando os longos anneis daquella serpente de 
mil corpos a coUear anciosa e irritada na foce do débil obstáculo. Os 
cadáveres e os feridos, igualmente abandonados, apinhavão-se á raiz da 
faital cortina. Na fúria cega da investida os que sobrevinhão faziâo um 
novo degráo dos corpos truncados ou gementes dos seus camaradas der- 
rubados. Muitas vezes as escadas, applicadas de novo, erão firmadas em 
um pobre mutilado, que ellas acabavão de esmagar. Por uma hora não 
se ouviu senão o stertor dos moribundos, os gemidos das victimas e as 
imprecações dos combatentes. Era um inferno de gritos^ um inferno de 
fogo , um inferno de armas a embaterem-se. Era um concerto hor- 
risono, do ferro contra o ferro e de provocações contra provocações, 
ecoando tremendo na escuridão da noite. De espaço a espaço, António 
de lima, para observar os movimentos e os progressos do inimigo, fazia 
subir do forte um foguete, que momentaneamente esclarecia de uma luz 
livida esta scena de horror. Então as arvores enormes da margem de 
al^ projectavão oscillantes uma sombra incerta e i<Zimensa pelas 
clareiras pallidas, como gigantes que ugissem assustados e trémulos 
desta cólera humana. Os roncos do mar, mugindo do outro lado no dique 
do rochedo, formavão a base desta harmonia pavorosa. Quando os 
diversos arteficios se inflammavão, a cumiada das vagas tingia-se alter- 
nativamente de reflexos rubros como sangue, ou alvacentos como mor- 
talhas. 

Os exploradores de paixões, que arremeção os homens uns sobre 
os outros, devião ao menos uma vez presenciar estes hórridos quadros, 
para serem mais avaros dessas excitações, que só um grande senti- 
mento ou uma severa convicção pôde justificar. 

O governador e Vieira erão os primeiros no logar do maior risco. 
Solícitos, incansáveis, audaciosos ambos, como o deus dos combates, 
exhortavão com a voz e davào o exemplo com o braço. Cada qual dos 

17 




— i^ — 

defensores era um heroe. De todos se poderia coniar algum feito qae 
illustraría uma vida. 

Os do forte não cansayão, mas o inimigo n&o desistia. Qaasi que 
já se pelejava corpo a corpo nos parapeitos. Três vezes linhão sido 
precipitados os hoUandezes ; outras tantas havião tornado, â voz dos seus 
oíHciaes, ébrios de furor, estimulados do pejo de baldarem os esforços 
de tantos contra o denodo de tão poucos. 

A noite fugia, levando comsigo as esperanças dos assaltantes, que 
o escuro protegia. A névoa dissipara- se e uma leve cinta clareava ao 
nascente, annunciando a aurora próxima, a aurora rápida daquelles^ 
climas. 

Os boUandezes tentarão um supremo lance. 

O baluarte era defendido por Vieira, por Ayres Gil, e por António 
Borges, alferes da bandeira do governador, moço de formosa presença 
de brilhante valor e casado recentemente. 

O inimigo havia conseguido plantar uma escada do lado do mar, 
onde era menor a attenção, porque todos os cuidados se concentravão 
sobre a cortina, ponto mais accessivel, mais exposto e ameaçado. 

Emquanto o ataque proseguia vivamente em face do forte, um troço 
de hollandezes ladeou- o e subiu precipitado. 

O alferes, que estava mais perto da muralha, sentindo rupuor, vol- 
tou -se rapidamente. 

Um hollandez saltava já do parapeito sobre a banqueta gritando : 

— Hollanda e Or 

Não acabou. O espolitão do alferes cortou-lhe a um tempo o grito 
e a vida. 

Quasi no mesmo instante o infeliz mancebo estendeu ambos os 
braços, recuou cambaleando até ao extremo do forte, e cahiu redondo. 

A alabarda de um segundo hollandez, mesmo de cima da muralha, 
Law.vo atravesssado pela garganta; o hollandez avançou. No momento 
de faltar. Vieira recebeu-o no gume do pique e deixou-o pregado de 
í ní:ontro á trave do canhão. Depois, condoído, curvou-se para soccorrer 
« alferes que refolegava o sangue em borbotões pela ferida medonha. 

O desgraçado, arquejando ja nas anciãs da morte, com uma das 
mãos fez- lhe signal da inutilidade de todos os soccorros, e com a 
outra, que tinha fechada no peito , apontou-lhe o parapeito e entre- 
gou-lhe uma pequena medalha. 

A medalha continha um annel de cabello de sua mulher. 



o que o mancebo apontava no parapeito erão três holl&ndezes que^ 
saltayão atraz dos primeiros e que fazião parte dos cinco mais affoutos 
qwe primeiro se hanão aventurado na escada. 

Os derradeiros pensamentos do moço tinhão sido pela sua pátria e 
por sua esposa. 

Tudo isto foi instantâneo. 

— A elles, Ayres I — gritou Vieira, paliido, não da eminência do 
perigo, mas da commoção daqueUa rápida scena. 

Ayres Gil, vendo cahir o alferes, encolhera os hombros, excla- 
mando com uma ironia que, em casos de necessidade, podia attestar 
a perfeita lucidez das suas idéas: 

— - Eu sempre disse que estas armas não yaliào nada. 

E, como se quizesse confirmar a doutrina como exemplo, largou 
o pique e [agarrou pelo cano de um mosquete ás mãos ambas, l)ran- 
dindo-o como se fosse uma hacha de armas. 

Nisto os três hollandezes saltavão. 

EmquantOy toniando-lhes a frente, se empenhava em demonstrar na 
pratica a excellencia das suas theorías, Vieira correu á muralha. A 
extremidade da escada sobrepujava alguns dedos a altura do parapeito. 
Uma nova onda de hollandezes estava já em meio delia, correndo em 
auxilio dos seus camaradas. Vieira, sem dizer palavra, pegou-se com 
a mão esquerda ao rebordo do parapeito, lançou a direita a um dos 
barrotes lateraes da escada , e, prolonganào quasi meio corpo fora da 
muralha, com vigor homérico sacudiu um momento no espaço aquelle 
cacho humano, appenso aos degráos, e arremessou-o para fora como 
se o impellira uma machina possante. A escada, neutralisado este im- 
menso esforço pelo impulso dos que subião já para cima do seu centro 
de altura, pareceu hesitar um instante na perpendicular, e cahiu para 
o lado do porto, aggravando a queda como seu próprio peso e arras- 
tando comsigo os inimigos para as aguas, que se abrirão. 

Ayres Gil, mesmo pelejando, gritou-lhe: 

— Caça de armadilha depois da pesca de anzol. Bravo I 
£ deu C4>m um hollaiuiez em terra. 

Vieira sentiu como um: sorriso de satisfação, vendo o pego fe- 
chara remoinhando sobre aquella hecatomba, immolada aos manes 
do infeliz alferes. 

Não era, porém, a hora para meditações. O mancebo voltou rapi- 
damente para ir em auxilio do mosqueteiro. 




— 182 — 

Não era preciso. Dous dos bollandezes jazião aos pés de Ayres cod» 
os morriões e os craneos partidos em dous pelo formidável mosquete. 
No momento em que Vieira ToMa, o terceiro dava alguns passos insen- 
satos, e cahia á pouca distancia, consideravelmente reduzido de cor- 
pulência. 

Ayres, que chupava fortemente um dedo quasi decepado pela adaga 
do ultimo hollandez, fazendo um gesto de suprema in^ifferença, deu 
com o pé em um volume roliço, que saltou como animado a dous eu 
três palmos. 

Era a cabeça do terceiro aggressor, que um revez de espada de 
António de Lima separara cercea do tronco. 

António de Lima vira a luta desigual do mosqueteiro, compre- 
hendèra tudo, e voara calado em seu soceorro, para não desanimar a; 
guarnição, occupada com igual successo em repellir o assalto da cortina^ 

Frustrados ainda neste ataque, os hollandezes recuarão com maior 
perda do que antes. 

Vinha já raiando a manhã. O nevoeiro rareava. Os objectos tor" 
Bavão-se cada vez mais distinctos. 

António de Lima observava attentamente. 

— Filhos, ireparai-Tos. Teremos novo assalto, mas será o ultimo. . . . 
por hoje— accrescentou em voz baixa para Vieira. 

Vieira não o escutava. Carregava o seu mosquete com as cauteilas 
minuciosas de um caçador apaixonado daquelie divertimento. 

O fogo todavia rompera de novo entre o forte e o corpo de batalha 
do inimigo. A' frente das suas companhias distinguia-se já, pela cellada 
emplumada, o commandante dos hollandezes, dispondo galhardamente 
as suas forças para repetir o assalto. 

Indiferente aos pelouros que lhe assobiavão bastos em redor , 
Vieira assentou o seu mosquete sobre o parapeito, e mirou longamente^» 

Ayres Gil, que já tinha delle a mais alta idéa, olhando-o com uma 
curiosidade preocupada, murmurou lá comsigo : 

— Por su IHos'y por su dama I 

O mosqueteiro, que sabia um pouco de todos os idiomas, confun- 
dia-os frequentemente, sobretudo quando não queria pôr todos na con- 
fidencia das suasidéas. Pelos modos, a sua longa experiência tinha-lhe 
feito divisar em Vieira taes ou quaes ares de namorado. 

Tendo assegurado bem a pontaria, o mancebo chegou com mão 
rápida e firme a corda á escorva, -;'; .• '^ 



— i?3 

Otíro partiu, e o cabo dos hollandezes cafaiu nos braços dos seus 

aoklados. 

Poupastes-nos um assalto — clamou o governador. 

— Bom olho e mão segura I — ponderou o mosqueteiro, accres- 
centando modestamente : — Bofe que o não fizera eu melhor ! 

Effectiyamente, os hollandezes > descarçoados e privados do seu 
ehefe, começayão a retirada. 

— A vós as honras da victoria, Sr. Vioiral — continuou António de 
Lima. — Levai doze dos vossos, e sahi a recolher os prisioneiros 

Em vez de doze apresentarão-se todos os voluntários restantes. 

As portas do lado do Recife abrirão- se, e Vieira com os seus doze 
voluntários, ladeando rapidamente a muralha, delirantes de enthusiasmo, 
Bao se contentarão de recolher os prisioneiros, ousáião, quem o creria ! 
ousarão cahir sobre a retaguarda dos hollandezes, e, o que mais é, 
precipitar-lhes a retirada em fuga ao brado heróico : 

— S. Jorge pelos Brasis I 

Quando recolherão trazião trinta e tantos prisioneiros, três vezes 
o seu numero I 

Os hollandezes deixarão tresentos dos seus e grande cópia de armas 
a trophéos l A guarnição h^via perdido um terço da sua força, cinco 
mortos e outros feridos, sem contar o nosso amigo Ayres Gil, que nãò 
olhava para bagatellas. A historia conservou o nome de alguns destes 
valentes. Todos elles merecião um monumento immortal. Entre os 
mortos avultavão o alferes António Borges e Francisco Guedes Pinto ; 
entre os feridos Pedro Corrêa da Silva e o sargento Luiz Fernandes. 

O Brasil tinha já as suas Thermopylas I ^ 

Como Ayres continuasse a chupar furiosamente o seu dedo, micer 
Amoldo observou-lhe que, em toda a parte, uns parches imbebidos 
em vinho erão remédio eificaz para aquelle género de feridas. 

Esta applicação era infinitamente do agrado do mosqueteiro. 

Terminado o combate, o governador ordenara logo distribuição de 
dobrada raç|o de vinho aos homens validos. Mas a ração dobrada era 
um gargarejo para o nosso Ayres Gil. Aproveitando a idéa de micer 
Amoldo, foi-sein continenti requisitar uma porção para curar o seu dedo, 
observando que para ser proveitoso o remédio era necessário repeti-lo 
miúdo, o que exigia uma quantidade de liquido considerável. O gover- 
nador mandou-lhe dar uma malga cheia. 

O allemão, como bom camarada, não o desamparava. 




134 

Diri^do-se ás yazilhas, para fiizer encher a sua malga, qae tivera» 
cuidado de escolher entre as mais alentadas, Ayres oqtíu uns gemidos 
surdos, que paredão sahir do interior dos pipotes. 

Quanto mais se aproximavão mais se distinguião os gemidos, con- 
yertendo-se em exclamações. 

•^ Nie me mateis por «piem sois, senhores hereges I — dizi^ a yoz 
gemebunda.— Eu n&o estou aqui por minha vontade, eu. . . . 

— Aposto que é mestre Marçal ! — exclamou o mosqueteiro, ferido de 
uma súbita lembrança. 

E, estendendo o braço livre, pescou dentre as vazilhas o infeliz 
fogueteiro, pouco mais ou menos, como Vieira pescara o hollandez, 
salva a difterença do anzol. 

Mestre Marçal tremia como um cannavíal. De amarello tinha*-se 
tornado verde; a aplopexia degenerara em sezão. 

Mestre Marçal, não podendo acreditar que os hoUandezes tivessem 
feito tanto arruido para não entrarem, pasmou de se achar face â face 
com o mosqueteiro, e ainda mais de estar são e escorreito. Verdade 
seja que tinha escolhido um asylo sagrado. 

— Vamos, homem 1 tirai-vos dahi, que me estais deshonrando esses 
quartos I^disse o mosqueteiro, pregando tal safanão no aturdido mestre, 
que lhe fez dar uma serie de gyros, rematados em uma cabriola muito 
pouco gymnastica. 

£^ pegando na malga já cheia, por uma distracção desculpável e in- 
noeente, bebeu-a de um trago. 

— E o remédio? -rponderou o allemão com suas vistas interesseiras. 

— Ah! é verdade ; o remédio ?— accudiu o mosqueteiro, estendendo 
de novo a malga. 

-^ Não ha ordem para mais ~ retorquiu o encarregado da desiri- 
buição. 

-^ Por dentro ou por fora.... é o mesmo •— replicou Ayres. 

£ começou a micer Amoldo um discurso, no qual lhe provou exube- 
raatemente que, se o vinho d podia alliviar como applicação exterior, 
mmto mais o reco^òrtaria como tisana interna. 

O doca contestável ficou plenamente convencido. 

O apparelho do dedo limitou-se,pois, a um pedaço de panno dobrado 
em quatro, e atado em roda com uma guita. O mosqueteiro era pelas 
operações simplices e pelas preparações expeditas. 

Ires horas depois, d capttão-mór, que vinha pessoalmente visitar a 



135 

guarnição, era recebido no fotte com uma enthusiastica e immenaa accla- 

mação ! 

— Sr. governador-^disse Mathias de Albuquerque para António de 
Lima, abraçando-o —quem vos poderá pagar tal serviço ? 

— A consciência do meu dever — respondeu o intrépido cíEcial. 
-^Pouco porém vos mereço. Aqui tendes a quem deveis a conservado 
do forte I 

— Nào me enganei com elle -^ disse-lhe o capitão-m<3r, abraçando 
também o moço voluntário, confuso de tanta honra. •* Nem vos enganareis 
comigo, Vieira. 

O mancebo pensou em Maria e sentiu-se pago e tudo* 

VIL 

CALABAR. 

Emquanto no forte aguardão um novo ataque, e se prepario zelo- 
samente para prolongar esta heróica defesa, vejamos o que se passa 
entretanto na veiga de Gapibarive. 

Os hdlandezes achavâo-se limitados á povoação de Olinda, Os re- 
cursos de mantimentos, que ali tinhão encontrado estav&o a ponto de 
exhaurir-se, e as communicaçõcâ com a armada erão difficeis, porque as 
partidas, organisadas no entauto percorrião o campo; e, peifeitanaente 
conhecedores do terreno, aiacavio os destacamentos que pusavão sahir 
da cidade a forragear. Se a superioridade dos invasores era incontras- 
tavel, e^tas partida3 evitavão sem custo o immigo internando-se no 
Qiato, de onde, se eÚe se atrevia a persegui-las, sahia escarmentado. 
Mais de um recontro tivera já logar, e sempre com desvantagem dos hol- 
landezes. A audácia e o numero crescião na proporção destas victorias 
parciaes. A brilhante defesa do forte, excitando e estimulando todos os 
ânimos, deu maior desenyolnmento aquella milicianascente, que fazia a 
guerra de um modo absolutamente noTO para oa soldadoa da Europa. 

O plano defensivo de Mathias de Albuquerque, graças á fmm e ao 
denodo dos bravos defensores do forte de S. Jorge, ia-se reaUzande ã 
medida de seus desejos. Os hollandezes senhoreavão só o terreno que 
pisavão, e começavão já a lutar com um inconveniente qi^e não ha^ião 
previsto— a dificuldade de obter viveres. 

O velho soldado da Azia, Berenguer de Andrada, dirigia na cam- 
pina estes movimentos rápidos e subitaneos, que enfraquecião successi- 




— 136 — 

yamente o inimigo, emquanto o capitão mór, mantendo-se no Recife 
para yigiar o porto e soccorrer o forte, lançava as bases daqueUa admi- 
rável campanha que veremos desenvolver-se ao diante. O intrépido 
ancião, superior aos seus annos e aos seus dissabores domésticos, mos- 
trava uma actividade e uma abnegação, dignas dos seus passados feitos 
e das suas gloriosas tradições. A alma do guerreiro velava no corpo 
quebrantado de trabalhos e desgostos. 

As suas preocupações de £amilia não fazião senão imprimir upcia agi- 
tação febril áquelle pai solicito. Berenguer aparecia a toda a hora e em 
toda a parte. 

Até seu fiel murzello, antigo companheiro de muita acção de £una, 
como que participava do ardor generoso de seu dono. Berenguer defendia 
sua terra e sua âlha. A noticia do pasmoso combate do forte, que inau- 
gurava tão bem a guerra, refrescara -lhe o sangue e avivára-lhe o enthu- 
siasmo. Apesar da sua prevenção contra Vieira, fundada apenas na in- 
flexibilidade dos seus preconceitos, o magnânimo ancião fora o primeiro 
a fazer-lhe justiça e a proclamar os seus méritos. Ouvindo da boca do 
capitão-mór a narração daquelles feitos, dignos certamente dos heroes 
da índia, Berenguer, na sinceridadade da sua exaltação exclamara : 

— Ainda temos homens ! 

£ o mancebo não fora excluido. 

Quanto a Maria é fácil imaginar em que transes passara estes longos 
dias de incerteza.; e com que mixto de anciedade, de terror e de or- 
gulho, escutava as commemorações enthusiastas que já percorrião a 
veiga inteira. O nome de Vieira repetido e applaudido por todas as 
bocaSy quasi a par do de António de Lima, soava-lhe incessantemente 
aos ouvidos, ébrios de excuta-lo. 

£ra sua, parte dessa gloria ; e a timida donzella, esquecendo mo- 
mentaneamente os seus dolorosos receios, muitas vezes se admirava 
de si mesma quando attenta áquellas maravilhosas acções, alteava a fronte 
e sentia inflamar-se-lhe o coração, como se legitimamente se ufanara 
de uma pagina da própria historia. No silencio das suas noites, penadas 
de cuidados acerbos, redizia comsigo os castos e ardentes pensamentos 
do mancebo \ e quasi sentia, atravez do espaço, nos raios dos seus olhos, 
reverberados dos mesmos astros que ella contemplava, virem ao en- 
contro da sua alma as fervorosas aspirações, e os ineffaveis sonhos da- 
quella outraialma — tão parecidas, tão irmãs, tão gémeas, tão uma erão 
ambas! E— admirável magnetismo da paixão ! — raras vezes se engana- 



— i87 — 

Tão. Separadas e ausentes» aqueUas duas creaiura3 eacolhidas yítíSq 
de uma vida commum. 

Os hollafidexes todayi», apertados pela Beoessidade, gahiâa áa vezes 
em tal Bumero a^saquear os eugenhofi^ que mtã forgoio recuar ante elles, 
e evacuar as habitações mais próximas do inovado* 

Apezar do arrojo e ti|;ilancia doe cabos das partidas, sendo ellas 
insuffideutes ainda para cobrir ioda a campina, mais de uma sorpreaa 
tinha tido logar, e mais de uma scena de confusão fora o seu resultado i 

Gomo vimos anteriormente, Berenguer, tendo de entregar-se todo 
á trabalhosa missão que lhe íôra confiada pelo capitão-mór, e não po* 
dendo abandonar sua filha na modesta habitação que elle ia deixar, en« 
viára-a para casa de sua cunhada D. Isabel de Góes, onde já se achava 
sua mulher. 

O engenho de Góes era dos mais avançados na veiga para o lado 
da povoação. 

Uma noite, a horas já adiantadas, um tiro di9tante poz a habitação 
em sobresalto. Immediatamente forão enviados exploradores em todas 
as direcções. Um dos escravos, que ficavão constantemente de atalaya, 
appareceu subitamente á porta, lançando para dentro, com voz aífogada, 
este grito terrível: 

— Os hoUandezes I 

— De que lado ? — bradou o feitor do engenho, encarregado de 
acudir a qualquer occurrencia grave, na ausência dos principaes. 

Só lhe responderão os gemidos do vento nos cajuaes. . 

— De que lado ?— repetiu correndo, para o escravo, com uma im- 
precação desesperada. 

O fiel negro tinha cabido morto ao limiar da porta. 

O tiro que se ouvira fora o dos hollandezes sobre elle, quando se 
descobrira para observar a sua direcção. Ferido no peito, ha,via apenas 
conservado a força necessária para salvar seus senhores e morrer. 

Nesta guerra prodigiosa, o heroísmo ent de todas as classes ; e as 
acções memoráveis tinhão-se tornado incidentes vulgares. 

O feitor, vendo o escravo sem vida, banhado no seu sangue^ previu 
^ue os hollandezes vinhão perto, e ficou desorientado. 

•—Os hollandezes, os hollandezes, fujamos I 

£ fugiu ! 

O grito &tal resoou por todos os ângulos da habitação, da« ^- 
einai e das dioças. Era um quadro de tumulto impossível de descrever. 

i8 




— 138 — 

€ada qual tratara unicamente de si. Nas almas do commum, o egoísmo 
humano reyela-se implacarel nesses supremos lances. 

Mana, abandonada nesta confusão, achou, nas lembranças adoradas 
de seu pai e de Vieira, e no receio dos ultrajes a que se arriscava, fl- 
cando, o yalor de fagir também. 

Seguindo ao acaso os grupos que se disseminayão no campo, to- 
mando cada qual o caminho que o seu instincto lhe apontava, a me- 
lindrosa donzella achou-se em breve isolada e perdida, á beira do mato . 
As vociferaoões que se ouvião do lado da habitação derão-lhe animo de 
ir avante; e deu a andar na floresta, chagando os pés nos espinhos 
agudos e espedaçando os alvos vestidos nos rudes galhos dos ramos 
entrelaçados. 

Dentro em pouco achou-se só com Deos e o silencio medonho da 
selva, no meio de um labyrintho de fitas arborescentes de cipós emma- 
ranhados e de arvores gigantescas. Não pedia penetrar mais além 

No centro daquella natureza formidável onde tudo lepetia o gran- 
dioso do pavor, a gentil menina rendida de cançasso, sentiu coar-lhe as 
veias um gelo de terror. Diante da immensidade da creação é que o 
homem se reconhece pequeno, quando se vê a sós com a sua fraqueza. 
Nesses momentos, a intelligencia, que o torna senhor e dominante ; 
quando por ella íaz concorrer os outros entes subalternos ao seu ser- 
viço e vontade, a intelligencia, dissemos, não serve frequentemente senão 
para lhe tornar mais evidente o inSmo das suas forças, em presença 
daquelles colossos da terra virgem e daquelles povoadores temerosos da 
solidão ? 

Se o corpo, affeito a desvelos, era débil para tal prova, a alma de 
Maria era porém superior. A nympha do Capibarive pensou na morte; 
mas pensou que, se morresse ali, morreria pura, e teve um sorriso de 
consolação no meio dos temores da noite e do ermo. £m horas destas, 
não ha akna bem formada que não creia, e se não eleve ao Senhor, 
eterno soberano destas grandezas terríveis. Com a uncção natural do 
seu angélico espirito, com os sentimentos da sua educação, e com as 
idéãs religiosas do seu tempo, esta tendência nativa não podia deixar de 
prostra-la na oração. 

Maria prostrou-se e orou, orou com o coração em Deus, e o pen- 
samento nos ausentes ; orou como devia de orar, no cimo do Golgotha, 
a mãe do redemptor offerecendo pelos homens com as suas dores, «s 



— 139 — 

dores de seu filho, e esperando do céo o que já não podia esperar da 
terra. 

De repente os olhos da donzella fitarão-se com desmaiada fixidade 
no mais denso da seka, para onde os Tolvêra como procurando Deus 
nos mysterios do seu sanctuario. O susto prtndeu-lhe a \oz e immobi« 
lisou-lhe o gesto. A branca estatua do terror não seria mais pallida e ex- 
pressiva. 

Dous olhos, scintiUando vítreos o lume fosforecente da raça felina, 
falguravão a trinta passos de distancia. Um som guthural e cavernoso 
despertou medonhamente os ecos da floresta. 

Era o tremendo jaguar, a panthera do Brasil. Atrahidas pelos ca- 
dáveres, muitas vezes insepultos nos frequentes conílictos que se pelejavão 
na proximidade das habitações, as feras do mato tinhão-se avisinhado do 
povoado, e espreitavao a presa, sem susto do caçador, que, feito soldado, 
não podia ir agora, como dantes, accossa-las para o sertão. 

Maria pedia a Deus que a livrasse daquella angustia ; pediu-lhe que 
recebesse a sua alma I 

Dous pulos desmesurados approximárão a fera vinte passos mais 
da victima, immovel de terror : quasi que sentia a respiração do ani- 
mal sedento de sangue. 

Maria lembrou-se da orphandade dos dous entes, que deixaria in- 
consoláveis ; e ergueu ao céo uma daquellas orações supremas que se 
resumem em um relancear de olhos, mais patético do que todas as de- 
precações. 

Vendo o jaguar arremeçar-se de nsvo, depois de ter feito breve 
pausa, como para medir o espaço, Maria fechou os olhos e cahiu, re- 
signada a ir esperar na eternidade a presença dos que tanto amara na 
terra . 

Um ronco espantoso abalou, os recôncavos da seka, e suspendeu 
a ultima rogativa na boca livida de Maria, no momento em que ella espe- 
rava sentir as garras aduncas da fera rasgarem-lhe o corpo tão mimoso. 

Seguiu -se um silencio profundo e solemne. Passados momentos de 
uma anciedade que se não descreve, Maria acreditou em um milagre da 
providencia, e ousou levantar o rosto da terra. A. fera, atravessado o co- 
ração dô uma frecha, jazia aos pés da donzella, como um tropheu da om- 
nipotência divina. 

— Louvado sejaes porelles e por mira, Senhor Deus de misericor- 




— 140 — 

dial — soluçou em um diluTÍo de lagrimas Haria, que vira sem elles 
approximar-se aquella morte terrível. O olhar de reconhecido enterneci- 
mento que yibrou ás estrellas, plácidas testemunhas desta scena, só igua- 
laya a supplice fé com que, instantes havia, as encarara. 

A poucos passos da virgem prostrada, um homem de elevada estata- 
ra, encostado ao enorme arco das tríbus brasileiras, parecia eontionpla-la 
com olhos quasi tio ardentes como os da panthera. 

Gumprído o pio dever de agradecer a Deus a sua inesperada salva- 
ção, Mana voltou-se para vêr quem servira de instrumento áquelle pro- 
digio. Foi então que reparou no vulto immoyel. 

— Quem quer que vós sejaes— disse ella, encaminhando-se ao des- 
conhecido — não vos agradecerei o terdes-me Ii?rado deste horror : a 
vossa boa acção vol-o agradecerá. 

— Agradecer-me, não, gentil menina. Podeis pagsr-me. ... e de 
sobra.... dessa vida que me deveis. 

— E quem sois vós ? 

— Não me conheceis, D. Maria Gesar! 
O vulto avançou um passo. 

— Galabar!— exclamou a donzella com instinctivo receio. 

— O Galabar, o mestiço, o mameluco, o filho perdido desta terra, o 
homem... se é que homem o julgão.... que também sente como os 
brancos. • . como elles não hão de muito sentir. £' o Galabar, senhora, 
que tem também como elles sangue e coração ! 

— Oh ! Domingos Fernandes, em meu pai sabendo t&l acção ! . . . 

— Vosso pai, D. Mana! Quereis dizer que me pagará a vida de 
sua filhai.... Que me pôde eile dar cem um pé na sepultura? Dma 
só cousa lhe pedira, e essa nunca m^a dera.. Seio-o, senhora. • . . Sei 
mais que vos espantareis da minha audada. Mas que me importa ? Que é 
que tem o Galabar? Aqui sou eu hvre e rei. Olhae ahi em redor. Que 
fedes vós que vos possa recordar essas differenças de jerarchia e de côr ? 

, — Domingos, que quereis? 

— A differença está neste braço que vos pôde salvar das garras 
das feras, ou prestrai-vos nesse chão lude, mais transida e mais humil- 
de do que antes. 

Galabar, livre de todo o constrangimento, abandonando- se á sdra- 
gem energia das suas paixões, deixara de ser o homem que era habi- 
tualmente, para se revela? como eUe se revellava na solidão. 



— 141 — 

Faiscando-lhe os olhos impuras ardências, proseguiu para a don- 
zella tremula e attonita 

— Que quero eu, D. Maria ? Não o tiuheis adivinhado? NãOTÍeis 
que vos amava ?. . . Oh ! vós, os brancos, nada vedes. O filho das flo- 
restas sabe fechar no peito os mysterios de que vive e morre e o segredo 
que faria rir a seus senhores ! Agora estais em meu poder. Quem virá a 
vós no desamparo deste ermo?... Quando vi o jaguar remetter, tive 
tentações de tos entregar ao pasto desse companheiro do deserto. Tinha 
debaixo dos olhos a vingança de tantos desprezos e tantas humilhações 
com que me têem amargurado os da vossa raça. • . . Não ; disse : é presa 
digna de um homem! ... Amo-vos, D. Maria, amo-vos 1 Cuidei que 
morreria sem vo-lo poder dizer como agora vo-lo digo, e morrera ou 
matara para dizervo-lo ! A paciência premeia os que sabem esperar. 
Amo-vos, senhora; e tanto vos amaoCalabar, queestâ aqui...esup- 
plica! 

Maria assombrada nem forças tinha para responder. 

Galabar continuou : 

— • Nas vossas habitações, cem braços se erguerião para castigar o 
arrojo do mameluco, e serieis-vós a primeira a invoca-los. Aqui só 
Yos respondei ao os rumores da floresta que não intendeis, ou os rugidos 
que vos desmaiarão. Posso. . . hei de fallar-vos sem rodeios, porque nesta 
hora está quanto eu esperava ha muito. Devei s-me a vida ; a vossa vida 
pertence-me. Vinde comigo, senhora... vireis... Nas planícies do 
sertão, em que não ousarão ainda penetrar os vossos, ha tribus onde 
o Galabar será chefe. Dar-vos-hei um povo. Sereis soberana entre os 
meus. Sereis a companheira do homem errante e livre. Sereis a rainha 
dessas magnifícencias da natureza, que vos porei aos pés. O C8çador 
sem rival trará á sua companheira o melhor de suas presas. E, se 
tiverdes saudades dos brocados, e dos adereços, o Galabar conhece as 
cidades como ss selvas ; quando volver de suas longas excursões, pôr- 
vos-ha a mais lustrosa e garrida de quantas nas capitanias arrastão gallas 
de piinceza. 

— Oh I Deus 1 Saoto Deus 1 porque me não deixastes morrer, gri- 
tou Maria, Tendo que ainda tinha que receiar peior que a morte. 

Galabar encarou-a com um riso strideutee convulso. 

— Bem vejo ; proseguiu elle, a sorte que vos offerece o mameluco, 
a sorte que todas as da minha raçainvejariâo provoca desdéns e encher de 




— 44Í — 

terrorafilhi das cidades. Antes vos queríeis morta do que em meu poder, 
D, Maria César — porque outros amores vos trazem preso o coração ! O 
Galabar yê aberto o coração dos brancos, emquantoelles ignorão se o 
sangue lhe ferve debaixo da tez bronzeada. .. Outro amais ! . . . Sabia-o 
também. . . Se tudo é para elies !.. . £ cuidais que tendo-yos aqui, vos 
deixaria ir para uma criança, que este braço vergaria como uma sócca 
nascente I Ohl D. Maria, como liries com elle, contando-lhe as atre- 
vidas phantasias do mestiço!... Um maluco a ter amores I.... como se 
isto tivesse alma!,., como se isto pudesse levantar olhos para afilha de 
um branco ! . . . . como se lhe fora dado esperar sequer ! . . .. 

— Ouvi-me, Domingos, ouvi-me ! clamou a virgem deitando -se-lhe 

aos pés. 

— Dizei ! tornou o mestiço com súbita e terrível impassibilidade. 

— Se tendes penas, Domingos, se haveis sottrido desprezos ©hu- 
milhações dos homens, não achastes sempre em nossa casa um refugio, 
não achastes sempre em meu pai um protector ? 

— Vosso pai fizera como os outros, se soubera que eu ousara amar 

sua filha. 

— E eu, Domingos, eii que mal vos fiz ?... Achastes alguma vez em 
mim altivezas que vos mortificassem?. . . Perdoai-m'as ! 

— Sois boa, por isso vos amei. Amais outro por isso... Olhai, 
D, Maria César, estaes ahi de joelhos á meus pés; vós, filha da Europa, 
vós, descendente de gente fidalga ; vós, sangue de príncipes... estaes ahi 
prostrada e supplicante, porque na solidão e na selva só a força se dis- 
tingue da fraqueza*, mas, lá no vosso coração, lá dentro, senhora, 
odiaes-me, chamaes contra mim um milagre, coroo o que julgastes 
haver-vos livrado da fera . . Vede se o milagre vem ! 

— Não blasphemeis, Domingos !.... Que culpa tenho eu das vossas 
amarguras ? se não concorri para ellas ? Acaso vos alimentei eu esse 
amor ...Oh! Deus, Senhor Deus, porque me condemnastes a ouvir e 
padecer o que nunca os meus ouvidos escutarão?. . . Não I. . . Do vosso 
amor vos fallarei, pois que não temeis oífender a filha de vossos pro- 
tectores e superiores. . . 

— Vôdes? — observou Calabar rindo em um riso tempestuoso de 
ironia. 

Maria proseguiu, vencendo os melindres do seu recato natural e 
da sua immaculada candura. Ha lances na vida em que o espirito vio- 



— i43 — 

lentamente arremeçado dos seus trilhos ordinários, onsa encarar, nas 
grandes occasiões o que na existência commum lhe pareceria um para- 
doxo e um impossível. 

— Percebia eu sequer essas penas e paixões de que Mais 

— Vós outros que percebeis ? 

— Sorri-vos esperanças? Estimulei- vos aflfectos? Aceitei-vos ren- 
dimentos ? Em que sou eu pois culpada ?. . . . O coração nào. se obri- 
ga.... Rende-se, não se conquista, Domingos. 

— Que me importa ? 

— Se me forçásseis a seguir-vos, amar-vos-hia eu por isso ? . . . . 

— Qae me importa? Nào serieis d'outrem. 

— Não teria então verdadeiros motivos para odiar- vos ? 

— O ódio é já um sentimento. 

— Não, Domingos. Sempre vos conheci paciente e humilde 

Calabar sorriu encolhendo os hombros. 

— Estaes em um momento de vertigem. Cahireis em vós. Prole- 
ger-me heis, como já me salvastes, e levar-me-heis ameu pai. Esta vida, 
que me tornastes, não haveis de vós querel-a cortar de eternas desespe- 
rações. ... De que vos servira ter m'a restituido ? Quereis que eu mal- 
diga a providencia que vos trouxe aqui, Domingos? Nada direi na 

capitania ; prometto-vos. . . 

— A capitania não pôde mais do que olhar por si. Quem sabe em 
que ella se tomará? A guerra começa. No meio dos seus lances e 
acasos, o homem resoluto não tem que temer... Olhae, ouvis? Os ecos 
da mosquetaria chegão aqui... Os hoUandezes e os vossos estão ás mãos. 
—Quem sabe se a esta hora tereis já quem vos proteja e defenda nessa 
capitania I 

EíTectivamente ouvia-se a crepitação distante do tiroteio. 
Maria continuou com redobrada anciã. 

— Deus velará por meu pae I 

— E por. . . 

— Galae-vo8 Domingos I Não profaneis o nome dos ausentes, nem 
me façaes sentir o horror do sacrilégio, no meio de tantos horrores 
juntos ! 

Maria fitou o mameluco sublime de indignação e enthusiasmo. 
Ninguém reconheceria naquella expressão, ao mesmo passo varonil e pu- 
dica, a mimosa donzella, mal sahida da infância. Momentos ha que en- 



— 444 — 

sinão uma vida. Maria via a palavra fria e irónica do mestiço cahir-lhe 
como nódoa asquerosa sobre o viçoso candor dos seus castos amores^ 
e repelliu-a como quem pela primeira vez comprehende a abomina^U> 
de um desacato. Revoltavão-se-Ihe os pios instinctos da sua gene- 
rosa alma , e a timidez da donzella cedia ao sentimento da mulher 
ultrajada no que tem de mais recatado e mais puro. 

Ergueu -se lentamente, mas com gesto fírmee attitude de mages- 
tade. A. virgem supplicante era bella como a Magdalena de Canoya ; 
alçando imponente o rosto e o braço assemelhava-se á Palias grega nos 
poemas dos rbapsodes. 

•— I-vos, Domingos I — disse ella com um aceno de rainha, apon- 
tando a Calabar as clareiras cruzadas — I-vos ! Quero-me antes com 
as feras. I-vos e deixai-me só. Pela vida que me salvastes, juro a Deus 
que hei de esquecer quanto aqui se passou e me dissestes. Mas i-vos ! 

— E eu como hei de esquecer ? — replicou o mameluco. 

A voz e a palavra, as lagrimas que oscillavão nas pálpebras da virgem, 
reflectindo os astros, a magestade do logar, a autoridade da innocencia 
e da viitude em uma boca formosa e juvenil, todo este coDJuncto de cou- 
sas, que ordinariamente exercem tamanho ascendente nos homens, 
teria subjugado qualquer outro que não fosse Calabar. O mameluco 
ficou de psdra no coração. Batia-lhe só como bate o martello na forja, 
irradiando-lhes aos olhos scentelhas de ira e desordenada paixão. 
Maria proseguiu em um arrebatamento heróico : 

— I-vos, se tendes mãi a quem honreis ; i-vos. Domingos, se ten- 
des irmão do vosso sangue ; i-vos, se podeis ainda crer em Deus ! 

— Creio que sois bella e eu sou forte ; creio que vireis comigo e 
sereis minha companheira ou minha escrava— respondeu Calabar. 

£ adiantou-se contra a donzella, abrindo os brados para cingi-la. 

Maria, veloz como o relâmpago, esquirou-o, curvando-se, lançou as 
mãos á frecha, aguda como um punhal, cravada ainda no cadáver do 
jaguar, e, recuando rapidamente alguns passos, arrancou-a escorrendo o 
sangue negro da fera. 

Era um espectáculo maravilhoso ver como a exaltação do perigo 
transformara a gentil menina. Maria podia resigoar-se á morte ; á des- 
honra não. Afogueada de pudor, repetia a simplice heroicidade das mar- 
tyres christães. Op^o coloria-lhe as faces de carmim; a indignação 
fuzilava-lhe nos olhos incendidos. Entre as flores profusas» adormecidas 



i45 

sob Q manto da noite, nenhuma flor se lhe poderia comparsr. Fulgia-lhe 
daquella formusura suprema, independente, de forma que só á alma 
communica. 

Para o mameluco era mais um estimulo. 

— Também ha palmeiras que se armão de espinhos , e n&o podem 
sumir os fructos ao homem das seWas. 

— Um passo mais, e cravo-a no coração . 

Maria apontou ao peito a longa frecha, tomando-a pela taquara pene- 
trante, manchando as mãos aristocráticas e as vestes rasgadas com o 
sangue queyertia. 

Galabar zombava da resistência ; mas não contava que a yictima se 
refugiasse na morte. Diante daquella resolução extrema, hesitou um 
instante. O mameluco, porém, não era homem para vacillações. 

-^ Morta ou viva, sereis minha ! 

— Morta, sim ; viva, não I 

£, com sobre-humano esforço, levantou contra o coração a taqaura 
aguda. 

Quando desfechava o golpe, a mão robusta do mameluco des- 
viou-lh'Oy apertando-lhe como em algemas o braço liso e assetinado . 

Ao sentir o impuro contacto, Maria soltou um grito angustioso e 
lulgou-se perdida sem remédio. 

As folhas seccas que juncavão a terra rangerão e estalarão surda- 
mente sob um passo precipitado. 

Galabar largou subitamente a donzella com um rugido abafado. 

Ao lado de Maria surgira, como o archanjo vingador, um braço e 
um ferro que, vibrado ao peito do mestiço, o fizera recuar instantâneo, 

Segundo prodígio livrara a donzella da segunda fera, mais terrível 
que a primeira. 

«— Meu pai I — clamou ella, indo para se lhe lançar ao pescoço. 

O velho guerreiro afastou-a brandamente, e caminhou direito e, 
firme, terrível de cólera e ameaças sobre o indómito mameluco. 
Nisto a selva innundou-se de homens e fachos. 

Erão as partidas que, reunindo-se, haviSo batido os hollandezes, e 
juntamente com Berenguer procuravão anciosos a donzella pelo mato. 
O gríto agudo de María havia-os guiado. O rumor dos seus passos, amor- 
tecido pelo espesso tapete de folhas cabidas, não havia chegado aos 

dous, absorvido pelo trance em que se.achavão empenhados. O susurro 

19 



146 

doveíito nds copas immensas do arvoredo não diixára ouvir as yrote» 
destes aos que os buscuvão, emquanto aquella brado penetrante não 
subiu acima da inflexão ordinária. 

Os mosquetes dos voluntários e os cassoUetes dos cabos reluzião na 
selva alastrada de claridade. 

Galabar viu tudo em um lanço de olhos, e deixou cahir a mão que 
tinha já sobre a cruz da sua adaga núa no cinto. Estaya impenetrável 
de rosto e de gesto. 

—Senhoresl— clamou o velho para os que affluião attentos— em 
quanto derramávamos o nosso sangue em defensão desta terra, este 
homem, filho delia, tentava deshonra-la, deshonrando-nos a todos I 

Mais de um mosquete e alabarda fotão dirigidos sobre Galabar, que 
ficou impassível. 

— Não, senhores,— bradou Berenguer , ihterpondo-se-lhe . — Um 
homem como este não pôde ultrajar o sangue de Berenguer. ' Era 
honra-lo e manchar as nossas armas, empregando-as nelle. Outro qual- 
quer não se levantaria daqui. A ti, mestiço , basta marcar-te. Não 
vales um golpe da minha espada. 

E com a lamina de ferro fustigou -lhe o rosto de um açoute, que lhe 
macerou a face em um largo vergão roxo sobre o fundo bronzeado da pelle . 

Os que presumião conhecer Galabar tremerão por Berenguer e gni- 
páião-se em roda do ancião, como para o defenderem. 

O mameluco, porém, não fez o mais leve movimento. Os olhos 
apagados nem tiverão um reflexo de cólera. Nas mãos inertes nem um 
musculo tremeu. Ficou-lhe a face como a de uma estatua em que o 
pincel do artista houvesse traçado o stigma fatal. Deixou unicamente 
pender a cabeça sobre o peito, como se aceitasse resignado o castigo 
justo, devido; ao erro momentâneo de que se arrependesse. 

Maria, que o vira havia pouco, cahiu desmaiada nos braços de seu 
pai. 

Neste estado foi conduzida ao engenho de Góes, que escapara ao 
incêndio e â devastação. 

Quanto a Galabar, ficando no ermo, nenhuma agitação exterior re- 
velou o estado daquella almd, nem mesmo na solidão. Deu o andar 
apressado pela floresta* Os seus pensamentos só Deus os podia saber. 

A apparição do mameluco ali fora um mero acaso. Voltando da serra 
de Ibiapaba, precedia os taboyares que se aproximavão com o seu chefe, 



--^ i47 —n. 

Potyguarassú. Seguia a direcção do Recife, para annuuciar a Mathias 
de Albuquerque o cumprimento da sua missão. No caminho soubera os 
altos feitos de Vieira, e, por maior que fosse a importância do seu próprio 
serviço, os perigos do transito que vencera e as maravilhas da sua ac- 
tividade, sentiu que ficaria sempre inferior ao mancebo, em quem adivi- 
nhara rival; mais ainda, um rival preferido ; peior do que tudo, um rival 
á quem seria talvez permittida a esperança que elle nem podia sonhar. 
Calabar caminhava precipitado para acalmar a febre interior do seu 
sangue, escaldado de ciúmes frenéticos e de invejas desesperadas. 

Nesta disposição de espirito, o encontro fortuito de Maria fora a 
faísca de um incêndio. 

Calabar vira» para logo a satisfação dos seus desejos, o triumpho 
inesperado de uma paixão irritada por obstáculos quasi insuperáveis, a 
desesperação do seu feliz competidor e a vingança de uma raça cuja 
superioridade odiava com todas as forças daquella alma tenebrosa. 

Chegando sem ser presentido» vira o perigo eminente de Maria, e 
calculára-ihe a anciedade para tornar mais meritória a acção. Caçador 
dextro, manejando com igual facilidade as armas da Europa e as dos 
indígenas, estava certo do tiro, e esperou friamente o instante em que a 
sua intervenção parecesse mais miraculosa . O jaguar, aò arremeçar-se 
para cahir sobre a victiipa prostrada, encontrou no pulo a setta que o 
varou. 

Calabar, com a rápida perspicácia e presença de espirito que erão 
as suas feições, medira tudo e levantara logo nm ^ plano que mudava 
inteiramente a sua yida e anniquilava as suas intenções de instantes ante- 
riores. Queria captar Maria pela gratidão, hslacina-la ou desvaira-la pela 
audácia dos discursos, e, por força ou por vontade, rouba-la aos seus, 
internar-se com ella pelas tribus, que o receberião como homem da sua 
raça, e ali fundar um poder que os seus conhecimentos das cidades, a 
sua meia instrucção e o seu arrojo podião tomar terrível. Tudo isto fora 
meditado em momentos. 

Calabar não contara com a alma heróica da donselia. 

O mameluco andou todo o resto da noite sem parar. Ao amanhecer 
Qstava no acampamento dos taboyares. 



m 



•^ — 143 

YIU. 

ASSEDIO. 

Theodoro Vanderburg raivara furioso sabendo o destroço dos seus 
oa investida baldada de um obstáculo que lhe excitava tantos desprezos. 
O forte, que elle julgara insusceptivel de uma resistência séria, dera -lhe 
um desmentimento solemne. E nem mesmo podia accusar a frouxidão 
dos seus. A morte do commandante da expedição, e tresentos homens 
fora do combate, isto é, um quinto das forças atacantes, attestavão qual 
f5ra a sua tenacidade e como o assalto se pelejara porfiado e bem ferido. 

Vanderburg começou a reflectir no que erào aquelles homens, que, 
em numero assim diminuto, repellião tão cruamente forças consideráveis 
e os soldados velhos da Hollanda. 

Tendo passado oito dias em preparativos, como se tratara de levar 
uma praça regular da Europa, sahiu elle em pessoa com quatro mil 
homens das suas melhores tropas a pôr cerco formal ao pequeno forte, 
com o trem de artilharia e os preparos e apparatos convenientes. A^s iê 
horas da noite abalou-se de Olinda e veiu assentar os seus arraiaes em 
frente do forte, fora do alcance dos canhões. 

YeriOcando o movimento e o numero dos inimigos, a única de-* 
monstração de António de Lima foi esfregar as mãos e dizer em um tom 
prazenteiro que lhe não era vulgar : 

— Fazem-nos a honra de nos pôr assedio ! 

O governador lisongeava-se daquelle desenvolvimento de forças 
para tão pequeno recinto como o que elle defendia. 

Pela sua part|| Mathias de Albuquerque não dormira também. 
A guarnição do forte fora reforçada successivamente, e chegavão já a 
oitenta os seus defensores, entre os quaes figuravão muitos da bandeira 
da nobreza, conmiandados por Affonso de Albuquerque, irmão do 
capitão-mór. O forte, que o general hollandez assediava com quatro 
mil homens, julgando assim mesmo necessário plantar baterias e seguir 
os trabalhos regulares para bater em brecha ; o forte, dizemos, não 
podia accommodar mais. As provisões e municiamentos tinhão sido 
augmentados na mesma proporção com grande cópia daquellas aben- 
çoadas vasilhas do vinho do reino, tão abundantes no Recife, que fazião 
ao mesmo passo as delicias e a mortificação de Ayres Gil e micer 
Amoldo, po) que António de Lima, que pelos modos não entendia a 



i49 

mesa como Balthazar, destribuia os líquidos com uma parcimonia que 
aos dous illustres confrades se affigurava de uma exageração tirannica. 
Dizendo — os líquidos — entendemos somente os líquidos espirituosos. 
Quanto á agua, tinhão-a â sua descripçâo no Blberibe, que as ordenanças 
do governador de nenhunl modo economisavao. O mosqueteiro, porém, 
professava tamanho horror á agua como mestre Marçal ao fogo dos 
canhões. Ayres explicava esta aversão por um accidente da sua infância, 
no qual tinha sido pescado das ondas do Tejo, exactamente como o fora 
Moysás das do Nillo. Deve-se dizer, em abono do honrado veterano, 
que não tirava o mínimo orgulho desta semelhança com o legislador 
dos hebreus. Longe de a recordar como brazâo, fugia cuidadosamente 
de repeti-la, bem Cvimo de tudo quanto lh'a podia lembrar. 

Jâ que falíamos de mestre Marçal, cumpre dizer que, se fora inútil 
na acção, não tivera mãos a medir nos oito dias que havião decorrido 
depois do assalto ; como se vê, tinha muito mais crescido numero de 
freguezes, cousa que em outro tempo o tivera transportado de jubilo, mas 
que naquella occasião possuía o privilegio de o fazer exhalar diariamente 
grosas de suspiros, único des&bafo que a severidade de António de 
lima lhe permittia. Mestre Marçal achava, lá de si para si, que o 
governador não só fôra de uma prodigalidade excessiva na noite do 
ataque, mas se mostrava de um luxo mais que oriental na abundância 
e fabrico dos novos artíficios. Os foguetes que se preparavão no forte, 
em razão inversa do preocupado mestre, ião engordando progressiva- 
mente, o que intumecia em uma escalla proporcional as apprehensões do 
febrícante. Mestre Marçal conhecera pela experiência a utilidade das 
vasilhas, e folgara com o reforço delias, enviado pdo capitão-mór, por 
uma razão absolutamente diveisa das razões de Ayres Gil ; mas não 
tinha naquelle precário refugio tamanha confiança que o fizesse esquecer 
dos seus terrores. Depois, vira que o numero dos defensores, só no pri- 
meiro assalto, ficara reduzido a um terço, e receiava igualmente duas 
cousas : — ou ser comprehendido nesse terço, principalmente sabendo 
que os hollandezes se havião generosamente prevenido de bons canhões 
— outjue o implacável governador, que, no seu conceito, estava possuído 
do demónio, se lembrasse de o substituir para algum serviço aos defuntos. 
A alternativa não sorria nada ao honrado mestre, que.se tinha tornado de 
uma admirável lucidez de previsão. Além disto, quem podia prever a 
duração do assedio com um homem como António de Lima? Era evi- 



M 



— i52 — 

dlmente embaraçar. Os fogaréos, illuminando o plano em que se enfilei- 
rayão os cestões dos referidos aproches e deixando na obscuridade o alta 
das muralhas, favorecia os defensores, que podião, sem serem yistos do 
inimigo, atirar com mais certeza. 

Vieira e Afifonso de Albuquerque examinarão a estreita península, 
cuja arêa reverberaya, afogueada pelos reflexos sanguinolentos da chanca 
ma. Ayres Gil, um pouco affastado, com os cotovellos fincados no para- 
peito, e a barba sumida entre as mãos cruzadas, contemplava aquelle 
espectáculo na indolência philosophica de um homem para quem tudo 
o que via, e mesmo o que não via, era uma cousa trivial e commum. 
Atraz do mosqueteiro mestre Marçal, absolutamente eclipsado pelo vulto 
do seu amigo, esperava que este se dignasse olhar para elle. 

Ao longe ouvia-seo rumor surdo dos trabalhadores na galeria, avan- 
çando contra o forte, lentos, mas inflexíveis, em linhas tortuosas, os pre- 
paros da sua obra de destruição, apezar do fogo daquelle. A artilharia ' 
disparava sem cessar. A galeria já por vezes servira de leito e de sepul- 
tura a mais de um dos seus pacientes obreiros, derribadas sobre elles, 
com a morte» as trincheiras laboriosamente alentadas. Mas os braços 
desfallecidos erão logo renovados por dutros validos e diligentes, e o 
estrago produzido era sem detença reparado. Seiscentos gastadores 
abrião caminho para um exercito. A sciencia vinha em auxilio da força, 
e dispunha com implacável certeza os elementos de terríveis resultados. 

Vieira, que pela primeira vez assistia a este espectáculo, observara, 
cm um silencio cheio de reflexões. Mestre Marçal não podia perceber por- 
que razão trovejava só a artilharia do forte quando todos dizião que 
08 hollandezes tinhão trazido também poderosos canhões. Entretanto 
aproveitava-se desta abstenção para guardar o momento opportuno de 
inquirir o seu amigo. 

No fim de largo espaço o mancebo, que fizera umq reflexão aná- 
loga a de mestre Marçal, posto que tivesse diversos motivos, perguntou 
ao capitão de bandeira da nobreza : 

— Dir-me-heis, senhor capitão, porque os hollandezes deixão cal- 
lados os seus canhões, emquanto os nossos lhes estão fazendo taldamno? 

— E' um damno de homens que lhes não dá cuidado — respondeu 
Affonso de Albuquerque. — Sobrão-lhes muitos. Estes mercadores da 
Hollanda são gente poupada : não esperdição tiros. 

— Mas Be elles atirassem. . . 



— im — > 

— ^ Âtirayão ao acaso. Não reparais que es vemos muito melhor do 
^tieelles a nós? 

— Assim é. Para que lhes serre então esse trem de quehontem com 
tanta arrogância andavão fazendo alarde ? 

— Para que? 

— Afflgura-se-me que, a não ser para nos bombardear. . . 

— Esperai, e desenganar- vos-heís. 

— Esperar 1 E que hei de eu esperar, Sr. Afonso de Albuquerque ? 

— O que certamente Tereis. Na guerra, amigo, fazei como S. Tho- 
mé: vêr para crer. 

— Fio-vos que não se me dará de vêr. 

— Oh 1 Ninguém yo4o duvida, 

— Quizera, porém, instruir-me. Não nos dão por ora muito mais 
que fazer. 

— Esperai também, e sobrar vos-ha. 

— Quanto a isso, para o crer não é preciso ve-lo. 

— Mas em que vos desejais intruir, Vieira? 

— No que ainda ignoro por inexperiente , e no que vós, por ex- 
perimentado, tão bem sabeis. 

— Dir-vos-hei que me tenho andado por uma «scola onde ao me- 
nos se aprende depressa. 

— Nem a sei eu mçlhor do que a de V. S. E haveis fama de ser 
digno discipulo de tal mestre. 

— Tão extremado sois em cortezia, Vieira, como é já voz geral que 
o sois em feitos de guerra. Dizei, pois, o que desejais saber, e, se a vossa 
instrucção depender de mim, não vos desgostareis por mingoa della« F 
<;umprir as ordens de meu irmão, que mui particularmente vos lecom- 
mendou aos meus cuidados. 

— AS. S. e a vós beijo as mãos portal mercê. Quizera, porém, 
fiaber para que servem estes trabalhos dos hollandezes. Cuidei que nos 
irião assaltar de novo*com todo esse podw de gente e de bombardas. . . . 

— Gostais da parábola? 

— Conforme. 

— Da parábola explicativa ? 

— A parábola explicativa tem suas vantagens. Sempre ouvi dizer 
que o exemplo.... 



— 154 

— E' o melhor raodo da esclarecer. Tendes visto alguma tci um 
formigueiro 1 

— DiíeiJ ? 

— Digo se já tendes obierralo um formigueiro. Niu ra'Utr) elles ahi 
por esses matos. 

— C-jnfeiso, com todo o respeito que tos devo, que nem pir isso 
percebo muito bem a relação que póle haver entre um formigueiro..., 

— E os hollandezes ? Puruebereis. Emflm, tíndes observado ? 

— A diier-vo3 a verdade, nunca reparei. 

— Fazeis m*l, Vieira, fazeis mat. Aprende-se muito no estudo do» 
auimaes. 

— Mesmo das formigas? 

^ Sobre tudo das formigas. Sabereis, piis... Atteuiei bem. 

— NSo m3 eacapi uma palavra. 

— Sabereis, pois, que as fjrmigas trazem também suas guerras e 
batalhas. . . 

— Abl 

— Eiaclamenle como os homens. A guerra é um mal que pelos mo- 
dos níio 6 privativo da espécie humana . 

Vieira pensou que a moral do seu capitão era eiceasivamente rigoro- 
sa. Se a guerra era um mal, em certos casos podia ser um bem. Por 
exemplo, se o fizesse alcançar a mão da lioda menina de Berenguer. 

Affonso <te Albuquer^e proseguiu : 

— ■ Como TOB dizia, as formigas, que são animaes mui curiosos, ape- 
zar de pequenos, trazsm frequentemente suai guerras ebitalhas. Acon- 
tece As veies que um bando esfaimado labe pelos seus eiploralores. . . . 

— As formigas tôoi eiploradores ? 

— r sobremodo diligfnles e perspicazes. Sabe pelos seus eiplora- 
dores, dizia eu, que nas vizinhanças ha um formigueiro, provido de bons 

leitos e Mo de provisães para mantimenlo da tribu que ali habita. . . 
lãt curioso ? 
-Cniíosil Achoeroinuit;) eitrem-) interessante. 

mitaformigasesraimadasparantilisaTem os ce- 
a na abundância? 



tflMtIrtdúrBs. aproveitX) a hirra em que as suas 




i55 — 

inimigas repousào, e alevantào um conducto de terra, de tal arte ccn. 
struido, que se lhes aprcximào sem perigo. 

— Sem perigo ? 

— Com o menor perigo possivel. 

— E as de dentro não se defendem ? 

-«Deifendem. Fazem mesmo suas sortidas, emquo se peleja encar- 
niçadamente de parte á parte, umas para resguardarem suas riquezas, 
outras para se Apossarem da presa disputada. 

Vieira começava a achar não só curiosa, mas summamente instructi- 
va, a parábola, ou antes o capitulo da historia natur&l do seu capitão. 

— O conducto— observou o mancebo— serve para proteger os insec- 
tos que assaltão, não ? 

— Justamente. Ora, como as que se defendem não podem peUjar 
sempre, as que atacão, sendo ordinariamente mais numerosas, nos inter- 
vallos vão adiantando o seu tubo ou galeria, donde podem facilmente 
rechassar as que pretendem impedir-lhe o trabalho. Percebeis? 

— Vou percebendo. 

— Não era para^um moço de agudo engenho como yós deixar de per- 
ceber I Desta forma, vão pouco a pouco estreitando as sitiadas, até que, 
dando-lhes assalto,lhe8 desmanchão as suas defensas» entrando-as com 
muito mais facilidade do que se o fizerão a descoberto. 

— Nesse caso estamos nós como as formigas que defendem seus cel- 
leirose riquezas. 

— Pouco mais ou menos. 

— £ os hoUandezes ir-nos-hão estreitando até nos poderem atacar 
a salvo ? 

— A salvo não digo. 

— Isto é, cem menos risco de suas pessoas ? 

— Como dizeis. 

— Ah! occorre- me agora uma duvida. 

— Que duvida ? 

— As formigas, que eu saibv, não têm armas de ariemcço. 

— Reflectis bem I E depois? 

— Depois. . . como que esta circumstancia diminue um pouco a força 
da parábola e deve alterar a conclusão delia. 

— Nem por isso. 

— Como ? 



156 

— W uma pequena differença ; mas o resultado é o mesmor 

— O mesmo ? 

— Ordinariamente. Tendes curiosidade de saber por que forma. 

— Não peço senão que vos digneis completar a minha instrucção. 

— Pois eu Yos digo a differença. Como nas batalhas de homens. • . . 
entre nós e es hollandezes por exemplo. . . , 

— O exemplo é bem escolhido — 

— Gomo nos nossos combates ha essas armas que chegão longe, taes 
como a artilharia — 

— Isso mesmo, a artilharia. 

— A differença é que os hollandezes, em yez de aFongarem o seu 
tubo até á entrada do formigueiro até ás portas do forte, quero di- 
zer. .. . parão por ahi á distancia de meio tiro de canhão, e, chegados a 
esse ponto, basta-lhes uma noite para levantarem as suas baterias e 
plantarem os seus pedreiros e mais peças de bater. 

— De sorte que..... 

— De sorte que, em pouco tempo, como os tiros de mais perto são 
mais certeiros e fazem maior damoo, as muralhas que nos defendem 
desabão e eonvertem-se em talude por onde elies podem facilmente mar-» 
char ao assalto. Nas praças de maior força, com obras regulares e 
fortificações exteriores, a cousa é um tanto mais complicada... São pre- 
cisas circumvallaçòes, pârallelas, galerias cobertas, trincheiras de terra 
e madeira, em vez das fachioas de cestões que são mais rápidas e me- 
nos solidas... Ma?, afinal, tudo yem a dar na mesma... Comprehendeis 
gora a minha parábola ? 

— Gomo as da escriptura. Restâo-me unicamente uns pequenos es- 
crúpulos, que a vossa bondade, por seguro tenho, me desculpará. 

— Dizei. Para saber bem é necessário saber tudo. 

— E com quem tão bem sabe instruir, ó gosto ter de aprender. 

— Dizei, dizei. 

— Os hollandezes não poderião igualmente atirar-nos de longe. . . . 
ou mesmo para proteger os seus trabalhos ? 

— Dizeis bem, e em um assedio com todas as regras assim seria ; para 
isso, porém, fora-lhes preciso montar baterias na circumvallação, e elles 
não querem perder tempo... Assim vão mais depressa. 

De longe poderião apenas levar-nos alguns homens , e lascar-nos 
algumas pedras* Os homens, vêem outros para o seu logar -j as pedras, 



— 157 — 

com algum fragmento de menos, nfto deixSo de ficar em pé. Estes 
hoUandezes são ambiciosos. O que elles querem é yer as muralhas em 
baixo e os homens descobertos. Deixai-os chegar ao ponto desejado, e 
notareis como esses canhões, cujo silencio nos dava em que pensar, fall&o 
alto e claro. 

— Bom : responde-se-lhes. 

^ Responde-se-lhes ; mas elles gritão por muitas bocas * e podem 
muito bem calar-nos. 

— Dessa forma estaremos descobertos em pouco tempo. . . 

— E' provável . 

— Amanha? 

— Anuinhã ou depois. . . não se pôde dizer bem ; mas não tardará. 

— £ para abrir brecha bastão ?. . . . 

— Horas, ás vezes. Conforme a força das muralhas e o numero e 
a qualidade dos tiros. 

— Penso que não teremos então qae esperar muito. 

— Pensai, pensai, é prudente. 

— Outra observação. 

— Ouvirei. 

— E porque não seguem os hollandezes uma linha direita ? Seria 
mais breve do que as sinuosidades que me parece ver-lhes daqui. 

— Porque em linha recta bastaria apontar-lhe um canhão bem á 
boca da galeria para lhe varrer tudo quanto lá estivesse. 

« Assim, de lado ou de flanco, como nós dizemos, em vez de atirar 
aos homens temos de atirar á trincheira, e a gente pôde circular por 
dentro com menor perigo. 

— Ahl 

— £' a cousa mais simples deste mundo. 

— Quanto mais viver, mais aprender, Sr. capitão. E não se podem 
embaraçar aquelles predictos conductos? 

» 

— > Faz-se o que se pôde, como vedes, mas nem por isso deixão de 
continuar. São teimosos, os sysmaticos. De vez em quando lá se lhes 
desfaz um pedaço de obra já feita, e sempre atraza. ... oh ! por exemplo, 
como agora, olhai. 

Eflfectivamente duas balas successivas, recochetando no isthmo e 
levantando nuver» de arêa,tinhão cavado profundamente a trincheira ; a 




158 

terceira JustameDte aquella cujos eíTeitos Ailonso de Albuquerque apontava 
ao mancebo, fizera vcar em estilhados um lanço da galeria. 

Ayres Gil voltou-se esfregando as ncãcs e dizendo com um ar de 
profunda satisfação : 

— Bom I £' uma hora de trabalho mais, e um par de hoUandezes 

menos. 

Mesfre Marçal sabia que os antigos pint&vão a occasião calva com 
uoca só madeixa no alto: lançou avidemente a mão á madeixa da 
occasião. . 

— Sr. Ayres — disse o fcgueteiro — não me explicareis vós por 
que razão vos mostrais tâo contente ? 

— Porque? 

— Não se me dava de saber. ^ 

— Vinde cá. 
-Eul 

Mestre Marçal recuou dous passos. 

— Vinde— continuou Ayres, travando-lhe do braço e aproximaa- 
do-o do parapeito com irresistivel impulso. 

— Jesus I Santo nome de Jesus ! — exclamou o fogueteiro, transi- 
do de medo, só com a idéa de deitar a cabeça fora da muralha.— £ se 
os hoUandezes atirarem ? 

Ayres Gil encolheu os hombrcs. 

— Olhai,— insistiu elle com um laconismo peremptoiio. 

— Para que? 

— Prova Ivelmenle para vêr. Não ha perigo, homem, se ó que 
sois um homem, o que eu duvido. 

Mestre Marçal, sem se indignar da apostrophe aviltante do mosque- 
teiro, estendeu prudentemente a cabeça por cima do hombro de Ayres. 

— Que observais ? — interrogou este. 

— Nada. 

— Nada ? 

— Ohl... esperai... vejo lá em baixo uns vultos... 

— Tendes bons olhos, mestre EUouro. 

— Aisim... como se fora mó de gente a rolar barris... 

— Gestões I 

— Credo I — bradou o fogueteiro, mergulhando atraz do seu amigo. 



159 

Uma nova bala tioha batido na face da trincheira que os hollande- 
zes procuravão reparar. 

— Bom! E' isso mesmo, — acudiu fleugmaticamente o mosque- 
teiro. 

— Isso mesmo, que — inquiriu mestre Marçal timidamente. 

— E' que os picaros, como se áhh lá pDr Flandres, remoinh&o e 
brac9jão como endemoninhados que são. Não lhes agrada a dapsa, pe- 
los modos. 

— Retirào?r acudiu o crédulo mestre, acolhendo uma esperança 
súbita. 

Ayres Toltou-se attonito. 

— Retirão, quem? 

— Oáherejes. 

— Retirão? pelo contrario, avanção. 

— Oh! 

Mestre Marçal sentou se desfallecido na banqueta . 

— Descançai, mestre —tornou Ayres. —Teremos ainda um ou dous 
dias. !Não se avança contra cortinas e bastiões, como um fogueteiro ou 
uma lebre avança â toca. Ainda lhes podemos dar um tanto que fazer. 

Esta expressão coUectiva desagradou muito mais a mestre Marçal do 
que os epigrammas desdenhosos do seu amigo. O honrado fogueteiro, 
que se sentira desmaiar á palavra avanção^ porque a interpretava á 
letra, tranquillisava-se porém sabendo que o risco maior não era imme- 
diato. 

— Então assegurais-me que não ha perigo ainda? 

— Não, não, mestre — retorquiu Ayres. — E dai graças a Deus 
quando o houver. * 

— Porque ? — perguntou mestre Marçal espantado, porque não via 
naquelle successo nenhum motivo para acções de graças. 

— Porque? porque estareis em companhia de gente honrada e 
de esforço.... o que, entrenós, mestre, nem por isso merecíeis mui- 
to. Que demónio ! Todos havemos de morrer, e a melhor morte para 
um homem é cahir de cara para o inimigo, principalmente quando 
o inimigo se compõe de scismaticos e herejes, como esses da Hollanda, 
porque assim acaba em serviço de Deus e da sua terra. E' verdade, mes- 
tre Estouro, que vós não sois homem senão na figura .... E ainda 
essa ! . . . 







160 

Ayres enfastiado voltou as costas ao fogueteiro e poz-se de novo 
a considerar os estragos que fazia a artilharia do forte nas linhas dos 
sitiadores 

Mestre Marçal já se não estimulava dos sarcasmos do mosqueteiro. 
Em compensação, as suas máximas philosophicas erão soberanamente 
antipathicas. 

— Obrigado. Antes quero viver só do que morrer acompanhado — 
murmurou elle, baixando cautellosamente a voz, e retirando com uma 
certa paz de espirito. 

O fogueteiro, que não tinha ido ali só para se dístrahir em col- 
loquios, sabia já o que lhe impoite^va saber. Poderia ainda dormir uma 
noiíe descansado : não queria averiguar mais. 

Entretanto continuava a conversação entre Vieira e Affonso de Al- 
buquerque. 

— Com effeito — dizia Vieira — agora vejo para que são todas estas 
delongas e.trabalhos. Mas quereis que vos diga uma cousa, Sr. capitão ? 

— Folgarei de ouvir-vos. 

— A arte da guerra é uma bella arte, não o negarei eu ; mas con- 
fesso-vos que me ferve o sangue quando vejo com estes artifícios zom- 
bar-se friamente do esforço maior e do maior coração. Parapeitos, apro- 
ches e trincheiras, quando tudo se pôde decidir braço a braço e rosto a 
rosto ! Que arnezes e defensas e muralhas valem um peito valeroso e 
uma boa causa ? Acobertar-se da morte quem pôde ir desafia-la de olhos 
fitos e cabeça levantada! Ahl Sr. Affonso de Albuquerque, as vossas 
artes... 

— Não digaes mal delias ; se servem para o ataque, servem tam- 
bém para a defifensão. 

— Não dizeis que os hollandezes nos hão de entrar? 

— Ohl isso é quasi certo... Salvo um caso. 

— Que caso? 

— No caso em que Deus nos mande um esquadrão de anjos a pele- 
jar por DÓS, como já tem succedido« ou ponha tal medo nesses here- 
jes que elles dêm a fugir sem mais nem menos, como os exércitos 
de Senacherib, o que, sem duvidar nada da Providencia e do seu poder, 
não me parece muito provável. ^ 

— Não me destes a entender que se podia calcular dia por dia a 
resistência da guarnição mais valente e esforçada ? 



— i61 

— Dia por dia e hora por hora. 

— £' estar espreitando a agonia e as convulsões desesperadas de 
uma pobre cidade ou fortaleza, lentamente suffocada entre os braços 
disso a que chamais arte. £' quasi como o algoz a contar impiamente 
os supirós da victima. 

— Nem sempre é assim. A victima ás vezes estalla os braços ao 
algoz. . . Fallâis como mancebo, Vieira. A intelligencia multiplica a força 
e é justo. Vós mesmo, por mais robusto que sejais, que vos dá o vosso 
arrojo ? Quem faz os heroes e os capitães ? não é a alma que vela em 
vós, que vos guia o braço e vos infla mma de raios que deverão ? A 
sciencia dos cabos é a alma nos exércitos. Olhai para António de Li- 
ma . Despreza elle os artiflcios que podem resguardar mais os seus e 
ofifender mais os contrai ios ? Pois homem de guerra mais impávido 
não sei éu que o haja. Se fxpuzestes os vossos dias quando o po- 
dieis dispensar, aflrontando a morte sem utilidade . . . . e sei-o já. . . . 
fizestes mal, foi temeridade de mancebo, de que nos annos maduros 
vos arrependereis. Como amigo, que não como capitão, vos folio. Sois 
admirado, satisfaz se-vos o orgulho; mas não vos diz nada a consciên- 
cia ? Zelar a vida quanto é possivcl, sem desdouro, ó tamanha obri- 
gação como sacrifica-la quando é necessário. Um é dever que vera de 
Deus, o outro é dever que vem da honra I . . . 

O miincebo ficou pensativo. As reflexões profundas do homem luta- 
vão com as ardências instinctivas e os ímpetos fogosos do sangue ge- 
neroso e da mocidade irreflectida. 

Passados instantes, que Affonso de Albuquerque não sentia correr 
contemplando aífectuosamente aquelle caracter juvenil tão dócil como 
nobre, o mancebo prosf^guiu : 

-— A propósito. 

-: O que ? 

— Uma lembrança. 

— Uma lembrança vossa ? Dizei. 

— Assim como os hoUandezes põem todo o seu empenho em 
adiantar os trabalhos, o nosso deve ser estorvar-lh'os. 

— Incontestavelmente. Creio, porém, ter-vos^ já explicado. . . 

— Perdoai, Sr. capitão. Bem sei que me não cabe a mim, moço e 

inexperiente, dar conselhos onde estão pessoas de tanta autoridade o 

razão. Mas eu só faço observações para aprender. 

21 



— 162 — 

— Oh ! podeis faliar. 

— Parece-me, pois, qiie, além da artilharia e dos artificios, devem 
dinda haver outros modos, não só para impedir o que se está fazendo, 
mas para desfazer o que está feito. 

— Dizeis bem ; ha. 

-— Uma boa sortida, por exemplo. Julgo, ter percebido na vossa 
parábola ine as formigas sitiadas muitas vezes... 

— E' certo. £' um modo esse, e mesmo um modo mais efficaz 
doqueneufaum. Mas disso concordareis que nem vós nem eu somos 

juízes. 

— Assim é. 

— E nfto seria muito ousar, com tão diminuta guarnição, iraffron- 
tar todo esse poder. . . 

— Que nem todo está sobre as trincheiras. Elles não podem veilar 
todos, nem esperar sempre.. . Emíim, menos éramos aqui no primeiro 
ataque, e todavia... 

— E todavia fostes um dos primeiros a sahir, sem temor do nu- 
mero, porque maior era e maior é o vosso animo. 

— Oh ! não digo isso I 

— Dizem-o todos. A vossa lembrança não é para desprezar. 

— Nem será desprezada, senhores I —interrompeu a voz serena e 
: heia de António de Lima, que se approximára por detrás dos dous 
interlocutores, acompanhado de um dos voluntários de Vieira, que 
havia uma hora o seguia como a sua sombra. 

•— Oh 1 senhor governador 1 -^ murmurou omancebo confuso. 

— Observando se aprende, perguntando se sabe. -*Disse o gover- 
va!or.— E' boa a vossa lembrança, Sr. Vieira, mas estava prevenida. 
Ksciitai. 

António de Lima fitou os olhos na direcção do rio. Atravez do 
;^Lissurro do arvoredo como que se ouvia ao longe um rumor ténue, 
inexplicável, indefinivel, mas que nem era o sibillar do vento, nem o 
rumorejar das arvores. * 

De repente um grito, doloroso e penetrante, cortou os ares, elevan- 
dO'Se da margem opposta er^etíndo-sepor tre» vezes a espaços irre- 
Sií.lares. 

— Ouvis ?'^ disse António de Lima para 06 dous. 

-» E' o pio do kamichi -- observou Vieira, sorrindo. 



/^ 



— 163 — 

António de Lima sorriu também. 
<— Respondei — ordenou elle ao voluntário que o seguia* 
O mesmo grito, exactamente modulado, vibrado co<ú uma per- 
feição imitativa que assombrou o próprio mancebo, apezar da sua 
pratica das florestas, foi repetido pelo voluntário. 

— Ah I — bradou Vieira . 

No mesmo ponto, António de Lima, voltandoHse para ojrmão do 
capitão-mór, disse-lhe em voz baixa,! mas imperiosamente accentuada : 

— Sr. Affonso de Albuquerque, tomai a companhia da vossa ban- 
deira; trinta homens vos esporão promptos no corpo do forte; sahi, la- 
deai a muralha com a maior presteza, e dai sobre os hoUandezes. 
De nada mais cuidareis, golpeai, acossai, destrui. . . inutilisai o que es- 
tiver feito. Amanhã será talvez um dia de gloria. 

— E eu, Sr. governador?— disse Vieira, faiscando-lhe os olhos. 

— O vosso logar é na bandeira do Sr. Affonso de Albuquerque : 
tomai-ol 

A artilharia redobrou em fúria, á voz estimulante do governador. 

Minutos depois dncoenta homens corrião cegamente sobre os apro- 

ches com um arrojo e uma audácia como se atacarão com forças iguaes. 

IX. 

VICTRIX CAUSA \ 

No momento em que os do forte, com impeto irresistível, davão so- 
bre as companhias dos gastadores hoUandezes, cortando, destroçando , 
derribando quanto encontraTão diante, um grito immenso , que pouco 
tinha de humano, soou da outra margem. * 

A artilharia havia callado para não offender o próprio troço de sor- 
tida já a braços com os sitiantes. Por entre o estrondo da mosquetaria 
dos supportes inimigos que se organisavão para repellir a furiosa inves- 
tida, ouvia-se o baque successivo de muitos corpos, que, do outro lado, se 
arremessavão ao rio. O escuro da noite augmentétva a confusão, porque 
o pipimdbro cuidado de António de Lima fora apagar com baldes os foga- 
reos^, logo que a pequena columna ladeando o forte, avançara sobre a linha 
dós hoUandezes. 

Mathias de Albuquerque tiitha concebido e executava um golpe de 
inerivel atrevimento. O pio, que se ouvira no forte, era um signal previa" 



- — 1(54 — 

mente eoncertado entre oxapitàj-mór e o governador. Conhecendo a 
posição dos hollandezes, Mathias de Albuquerque reunira as com- 
panhias da mihcia , alguns poucos soldados veterduis que Ih-i restayâo 
no Recife, e os gentios taboyares que lhe trouxera Calabar ; e, á frente 
de 700h(m9ns, ao todo, imaginara sorprender os arraiaes de Vander- 
burg, dispersa-los, recobi ir Olinda e inutilizai assim as primiâras vantagens 
dos hollandezes. 

Era um plano audacioso, mas prudentemente combinado. O segredo 
profundo de que envolvera as suas operações fazia com que os hollandezes., 
desprevenidos, não se houvessem acautdlado senão do forte. Atacados 
simultaneamente de frente, de flanco e pela rectaguarda, de pequena van- 
tagem lhes seria o numero no estreito logir em que erão forçados a concen- 
trar-se; e o tumulto, asorpresa e o inopinado do lance erão já meia victo- 
ria. As milícias haviào ganho coniiança eas armas dos gentios com a estra- 
nheza e novidade dos seus trages e flguras erão de ura soccorro precioso. 
A sortida fora um movimento delineado com antecipação. 

Mathias de Albuquerque previra e concertara tudo. Uma circums- 
tancia, apparentemente secundaria, mas essencial em tal empreza, bastou 
para inutilisar tão generosos esforços. 

As aó'uas do Biberibe erão vadeáveis na baixamar. O capitão-mór 
contara fazer passar as suas forças por diversos pontos simultaneamente e 
cahir sobre os hollandezes, quando a columna de soitida avançasse aos 
approches, atrahindo paraaliaattenção. O brado que se elevara na oc- 
casião do ataque fora o grito de guerra dos taboyares, animados pelos 
padres da missão, e exaltados pelo exoroplo do seu chtfe Potyguarassvl 
que fora o primeiro a tentar o váo. 

— Avante, avante, por S. Jorge e por nossa terra- chamava Mathias 
de Albuquerque, voando de uma a outra companhia e estimulando a todos 
com a voz e a presença. 

Nada poderia igualar o ardor com que todos se arrojavao ás aguas 
e se entranhavão por ellas, levantando as armas e os mosquetes acima das 
cabeças. 

A poucos passos, porém, faltou o pé. Não era um váo, era una 
pego, que, em um passo mais, podia submergir quantos a elle se arriscas- 
sem . 

Diversos incidentes havião retardado as companhias, dispersas na 
yeiga para não excitar deseonfiança. Passara a hora opportuua. A maré 



IdS 

enehia e os pontos vadeáveis tinhão-se tornado invencíveis. Mathias de 
Albuquerque não lutava já com os homens, lutava com um elemento 
implacável. Ao seu arrojo oppunha-se o largo fosso do rio, voragem 
aberta sob os pés daquelles homens que raivavão impotentemente, vendo 
baldado o lance em que elles ião ganhar talvez uma gloria immortsl. 

Os da frente recuando ante o p go inexorável imprimirão ás compa^ 
nhias um movimento retrogrado que foi o primeiro sigoal de desalento 
piara os menos aguerridos e audazes. Por diflferentes vezes e por diversos 
pontos Mathias de Albuquerque tentou a passagem com desesperado 
esforço. Por toda a parte as ondas, mais poderosas do que os hollandezes, 
repellião os intrépidos expedicionários. Os que sabiâo nadar pdiào atra- 
vessar o obstáculo ; mas o capitào-mór não consentia que elles fossem 
sacrificar-se inutilmente. Alguns mesmo levados do Ímpeto, ousarão pôr 
o pé na outra margem, e misturar-se com os hoUandezes que de todos 
os lados affluiâo, dando e recebendo feridas temerosas. Mas de que ser- 
vião aquelles esforços isolados, sem ordem e sem concerto ? Destes teme- 
rários o maior numero succumbia ; o resto só pôJe achar salvação, ar- 
remessando-se ut) vãmente ao rio que foi fatal a muitos . 

Mathias de Albuquerque cão podia resolver-se a abandonar a em- 
preza. Qaizera, como Moysés, poder dividir as aguas. Os hollandezes 
estavão já prevenidos, organisavão-se, e o seu experimentado chefe pre* 
parava-se para repellir vivamente o ataque. O capitáo-mór contava, porém, 
como esforçado ardor dos seus, e sobretudo com a ira impetuosa que 
se manifestava nas fileiras dos taboyares. 

£ agua a crescer I e os perigos a multiplicarem-se I 

No entanto o troço da sortida avançava, avançava, degollando e 
destruindo sem piedade. Vieira e Affonso de Albuquerque davão o 
exemplo, e como que rivalisavão em denodo e vigor. Cada" golpe abatia 
um inimigo. Os approches mais próximos do forte, derrocados pelas 
mãos diligentes dos voluntários, servião de valia aos cadáveres, accu- 
mulados pelas armas da companhia da nobreza, que não cessava a 
carnificina . 

No primeiro impulso, os holhndezes fugirão lari^o espaço sem po- 
derem sustentar o choque. Yendo-se ameaçados da outra margem, 
perderão o accordo, e, na confusão cahião, como espigas cortadas pela 
fouce dos segadores, sob as longas espadas e os piques dos soldados de 
Affonso de Albuquerque. As companhias de gastadores, recuando 



— 166 — 

precipitadas sobre os supportcs, tumultuavâo com estes e não faziâo 
senão accrescentar o numero de victimas. A própria mosquetaria lhes era 
quasi inútil, porque não podia disparar sem se arriscar a ferir igual- 
mente amigos e inimigos, baralhados no conílicto. Ignorando o numero 
dos atacantes,v a quantidade dos ataques e a direcção delles, os hol- 
landezes fazião frente com frouxidão, olhando sempre para a outra mar" 
gem onde presentião noTOs e incógnitos perigos. 

Vanderburg, porém, accudiu. As suas fortes reservas, guar- 
necendo a península e fazendo voltar o rosto aos fugitivos, envergonha- 
dos daquelle terror panico,re3tituirão a estes a confiança. Gomo era natural 
aquella mole desproporcionada em breve oppoz um dique insuperável 
aos heróicos aggressores. Por mais que estes ferissem e carregassem, 
já não podião avançar senão lentamente, e estavão elles mesmos a ponto 
de serem envolvidos. Alguns dos seus havião já cahido. 

Vieira em nada reparava. Onde o seu braço chegava abria-se uma 
brecha na multidão recrescente. Os do forte, que estavão já em mais de 
meio dos approches, parecerão hesitar. Alçando-se nos bicos dos pés, 
Vieira viu em distancia a artilharia dos hollandezes, que Vanderburg 
fizera aproximar da margem para a assestar contra o baldado ataque 
do capitfto-mór. 

— Aos canhões, aos canhões— bradou o mancebo com voz tro- 
vejante. 

£ arremessou-se para a frente prostrando de um só revez dous dos 
inimigos que sobre elle cruzavão as partazanas. 

Nisto um braço possante puxou-o vigorosamente para trás. 

— Quem ousa.. . -^ gritou o mancebo, voltando como attonito. 

— Eu — tornou -lhe rapidamente Affonso de Albuquerque, segu- 
rando-o com a mão esquerda, emquanto com a direita vibrava um bote 
furioso a um offlcial hollandez que mais adiantado levantara a espada 
sobre o mancebo. 

Notou-se nas fileiras do inimigo um movimento, que em tal mo- 
mento não seria fácil de explicar. 

Vieira aproveitou este intervallo para dizer ao capitão, que mais o 
tratava como amigo : 

— Se chegamos ali, estamos senhores da artilharia. 

— Se passaes daqui -^ retorquiu viwimente Aifonso de Albuquer- 
que «* nenhum de nós voltará ao forte. Vôde. 



\ 



167 

£ indicou a outra margem 

EffectiTamente naquella distancia distioguião-se as massas das com- 
panhias da milícia e dos gentios auxiliares retirando lentamente por 
ordem 4o capitão-mór, desesperado do máo êxito desta tentativa mal^ 
lograda. 

— O que podíamos fozer está feito. Retiremos — accrescentou 
Affonso. 

— Retirar, senhor capitão! disse Vieira quasi indignado. 

A outro qualquer, Affonso de Albuquerque não toleraria a mínima 
obseryação. A' Vieira, tal era já o ascendente do mancebo, contentou-se 
de responder: 

-7 Não vos digo que fujamos; digo-vos que retiremos. Somos 
necessários ainda. Ordeno; obedecei. Fazei como eu, eyereis se é 
vergonha retirar. 

Os hollandezes havião estacado ao mando dos seus officiaes. Era 
o que se não podia explicar, mas logo se comprehendeu. O moyimento 
que se seguiu a este, foi abrirem fileiras sobre os lados. 

Vendo esta evolução, Affonso reuniu rapidamente a sua pequena 
força^ cujas manobras erão muito fáceis e rápidas pelo diminuto do 
numero e imitou o inimigo. 

— Aos lados, amigos — bradou -« e nem uma palavra. 

No momento em que as duas columnas contrarias se abrião quasi 
simultaneamente, por detrás das filias divididas dos hollandezes appare- 
ceu, em batalhão cerrado, um troço considerável destes. 

No mesmo ponto um torbilbão de fumo e fogo sahiu desta muralha 
viva, e passou como um vendaval de pelouros por entre as columnas 
prolongadas pela língua dearêa. 

A vivacidade e perícia dos movimentos do capitão salvara metade 
da gente do forte que certamente seria ^ictima desta descarga inesperada. 
AsBÍDi mesmo alguns lorão alcançados pela tempestade de ferro e cahirão 



•— Levantar os feridos, e mardiar — clamou o intrépido capitão. 
Vieira reflectiu que effectivamente a arte da guerra tinha suas uti^ 
lidados. 

Mathias de Albu^erque, voltando ^ se para Vieira, accrescentou : 
— Agora vereis como vos eu disse que retirássemos. 



168 — 

Os hollandezes, uniodo-se de doto, começário uma persogaiçAo 
proporcional â fúria que sentião pelas suas perdas. 

Na rectaguarda da columoa, que recolhia em boa ordem transpor- 
taado os seus feridos, AíTonso de Albuquerque e Vieira^ como deus homens 
acossados, voltavão o rosto a cada passo, deixando atrás de si um rasto 
de cadáveres. A compauhia da bandeira do capitão, composta de vinte 
homens ao todo, carregando rapidamente os seus leves arcabuzes, fazis 
de espaço em espaço descargas regulares e moiliferas, que moderavãò 
singularmente os Ímpetos dos perseguidores. 

Chegados estes â distancia conveniente^ a artilharia e mosquetaria 
do forte, passando por cima do trcço de sortida, começou á varejar os 
hollandezes por tal forma que Vanderburg ordenou em breve a retirada. 

António de Lima observava e vigiava tudo. 

A columna entrou no fotte, entristecida do mallogro da tentativa 
que muitos havião já confusamente adivinhado ; mas com a consci- 
ência de ter consummado um feito brilhante. 

Tudo o que delia se tinha exigido estava feito. O trabalhos dos hol- 
U^dezes havião sido consideravelmente damniflcados. Nem uma só arma 
nem um só ferido ficara nas suas mãos. Apenas deixara por tropheos ao 
inimigo alguns cadáveres, osculando gloriosamente a terra da pátria, 
como signal extremo do seu amor por elia. 

Affonso de Albuquerque, tomando de parte o mancebo, disse-lhe 
apertando-lhe affectuosamente a mão : 

— Sabeis combater; sabei obedecer.' Vistes de que serviria o 
valor sem a pruiencia ? Seriamos agora outros tantos de menos na de- 
fensão deste ultimo baluarte que detém o inimigo. 

Vieira curvou a cabeça sem responder. Lembrou-lhea morte, porque 
viu levantar-se-lhe diante a imagem de Maria lacrimosa e dolorida 
como o anjo dos sepulchros I 

Vanderburg era um homem que não cedia facilmente. Os approches 
dos hollandezes continuarão com vigor novo. Os trabalhos derruídos 
forão recomeçados com ardor ; e, a final, as baterias, montadas na dis- 
tancia çtnveniente, apezar dos heróicos esforços dos sitiados, come- 
çarão a jogar contra o forte. 

Pouco tempo bastou para reduzir a ruinas as frágeis muralhas 
daquella imperfeita fortificação. O coração dos defensoves era, porém, 
mais robusto do que os parapeitos que os resguardavão. 



^ 



— 169 — 

Nlo basearemos r^roduzir as scenas desta luta hetoica. Senão 
precisos volumes. Os lances diversos, os episódios pasmosos encherião 
as paginas dé nm poema. Ha factos, que a iiistoria levaíita como um 
padrão diatite do séculos: as gerações, que lho chegão â base, alção ol 
olhos e emmudecem de admiração. 

Por três dias successivos 80 homens somente, combatendo já peito 
a peito, no alto daquellas ruinas ftimíegantes, sustentarão o peso de 4,000 
assaltantes repellindo ataques sobre ataques, cansado o numero isas não 
cansado o valor. 

António de Lima, Vieira, AlTonso de Albuquerque no cimo dos des- 
troços do forte, igual a uma cratera inflamada, rodeados de fogo, arre- 
messavão elles mesmos sobre o inimigo as granadas, as rodas, os barris 
fulminantes e todo o género de artiâcios; parecia cada um o anjo áok 
flagícios pre&idindo á conflagração das cidades maldictas. 

Ao terceiro dia, depois de aberta a brecha, ou, antes, depois de der- 
rocado o forte, o governador reuniu em conselho os officiaes, e as pes^ 
soas mais gradas da guarnição. 

— Senhores, — disse António de Lima — , não vos reuni aqui para 
vos participar o estado em que nos achamos... todos o vedes. 

— Metade da guarnição morta, as defesas completamente no chão— 
acudiu 4ffonso de Albuquerque, o mais autotlsado ali depois do gover- 
nador, assim pelo seu posto como pelo seU t>arentesco còm o capitão- 
mór. 

— Isso é — tornou António de Lima — Metade da guarnição morta 
e as defesas por terra. . . , Não é, pois, para vos descrever o que tendes 
debaixo dos olhos, que vos reuno ; é para cumprir o dever que neste caso 
determina a ordenança, e para vos declarar o que por parte do seu 
general me fui communicado pelo ofScial hollandez, que ha pouco nos 
veiu ver como parlamentario. 

— Propõe-nos o rendimento á discrição^— observou o capitão da com- 
panhia da nobreza; sabia perfeitamente que,no estado em queestavãoas 
cousas, a submissão do forte seria apenas uma questão de tempo* 

— Ohl isso não... se m'opermittis dizô lo — acudiu Vieira em um 
ímpeto generoso •— Acabem-nos, mas não nos deshobrem. 

António de Lima soniu com um certo orgulho. 

— Enganais-vos, senhores. Os herejes offerecem-nos capitulação ; 



— i70 

sahindo pela brecha, com armas e iosignias, e a liberdade de dispormos 
de nossas pessoas. 

Muitos dos circumstantes ficarão pensativos. Vieira teve um momento 
de interna alegria, de que se envergonhou; aquella solução inopinada era 
a esperança milagrosa de tornar a ver Maria. 

Micer Arnold que, na qualidade de condestayel da artilharia, assistia 
á conferencia, esquivou-se cautelosamente sem que ninguém desse por 
tal. Não era cousa difficil, passando-se a reunião ao ar livre, como effec- 
tiyamente se passava, visto que dentro do forte não havia já tectos nem 
paredes'. 

— Quanto a mim, senhores, —continuou António de Lima— a minha 
opinião digo-a francamente em duas palavras. A minha bandeira nunca 
S8 rendeu ; não quero começar agora. 

O governador expunha este parecer, que era a morte infallivel de 
todos com uma franqueza de expressão, uma serenidade de animo, e uma 
paz de espirito, como se fora a cousa mais simples e natural deste 
mundo. 

Vieira hesitava entre a vergonha do rendimento e o amor que lhe 
inundava o coração. Custava-lhe deixar o mundo, mesmo com tamanha 
gloria, ás portas do paraíso terreal que Maria lhe descerrara. 

— Essa bandeira, senhores — proseguiu o governador— viste-lo 

todos ha pouco também. < • uma só vez cahia . . . 

— Espedaçada a haste por um pelouro — observou o capitão da 
nobreza. 

— Mas cahiu nos braços de um mancebo, que os seus feitos tor- 
narão já um homem ; e sahiu delles para se levantar de novo, mais 
gloriosa do que antes. 

António de Lima indicou Vieira. Vieira baixou os olhos, vermelho 
de orgulho e de modéstia simultaneamente ancioso de colher novos louros, 
e, ao mesmo passo, de ir espalhar estes aos pés da gentil menina (Je 
Bereoguer, a quem mentalmente os consagrava. 

E' preciso explicar a allusão de António de Lima. De véspera ainda, 
no meio de sua heróica defesa, como estivesse o mancebo no bastião do 
norte, que por baptismo unanime, era já chamado o bastião de Vieira, 
um pelouro cortara a haste da bandeira do forte, que tombou sobre 
o mancebo, vestindo-o das suas largas dobras, como de um manto 
régio. 



171 — 

Póde-se imagÍDar quantas diligencias não faria o inimigo para se 
apoderar daquelle trophéo. Do lado dos hollandezes partira um grito de 
triumpho inesperado ; do lado da guarnição um brado de furor e des • 
peito. António de Lima) sereno no meio da tempestade, clamou para os 
que os rodeavão : 

— Descançai, filhos. A outra haste quebrou; aquella n&o. 

« £ apontou para Vieira, que inyolto na bandeira, e como se ella lhe 
communicára brios e forças novas, derribava os hollandszes uns sobre 
outros, e fazia ondular, na agitação dos braços, ferindo sempre, o 
immortal pendão. Todo o esforço de combate se concentrara sobre o 
intrépido moço que não arredou um pé. Uma hora depois a bandeira 
fluctuava de novo â brisa fresca do mar, açoutando sonora os ares, e 
projectando a longa sombra, aos raios do sol no poente, sobre os corpos 
dos hollandezes, que dormião a seus pés o ultimo somno, comoho- 
locausto oiferecido á sua isenção. 

Evocando aquella lembrança recente, António de Lima sabia que ia 
estimular os brios dos seus subordinados. O governador punha tanta 
habilidade para consumar o sacrifício, como outros empregarião para 
evita-lo. 

— Senhores, disse Affonso de Albuquerque, emittindo o seu voto aos 
projectos e planos do capitão-mór, convém que demoremos o passo aos 
hollandezes ; por quanto mais largo tempo o fizermos, melhor teremos 
cumprido o nosso dever. 

Alguns ficarão em silencio. O maior numero, porém, bradou : 

— Não; não aceitamos a capitulação. Sepultem-nos debaixo das 
ruinas do forte. 

— Ou abra-se caminho por entre o inimigo até á veiga. 

Esta opinião era de Vieira, que julgava assim conciliar os inte- 
resses do seu amor, com os da sua terra e da sua gloria. 

Para completar a verdade do quadro cumpre accrescentar que 
esta conferencia se passava á pouca distancia das vasilhas, onde 
mestre Marca), que não podia explicar muito bem o phenomeno da 
prolongação da sua existência, tivera artes para dispor uma espécie de 
ninho. E' claro que nem uma palavra dos rápidos debates havia escapado 
ao honrado mestre, pessoalmente interessado nelles como se achava. 
O uvindo da boca de António de Lima as proposições dos hollandezes, 
admirou a magnanimidade destes. Pouco sensível á honra de sahir pela 



— i» — 

breeba com armas e insigoits, só admirava na proposta a clausula de o 
deixarem sahir, a elle Marçal, com a pelle intacta. O illustre pyroiQchnico 
jurava a si mesmo occultar cuidadosamente os seus talentos aos hollaa-> 
dezes, receiando que algum delles se lembrasse de Ibe agradecer de um% 
ou de outra forma, os mimos, para os quaes, bem que involuntária* 
mente, concorrera. Mestre Marçal acolhera cedo de mais as suas 
esperanças. A opinião apresentada pelo governador e acolhida pela 
maioria fe-lo dar a iodos os diabos aquella gente insensata que se 
lembrava de tu jo menos da agonia em que o deixavão, com a desigual- 
dade flagrante de o não consultarem. 

Emquanto no interior do forte o conselho continuava, como vimos, 
outra scena linha logar nos terraplenos desmantelados. 

Micer Arnold, que era um soldado velho e valente ; micer Arnold, 
que procurava ganhar conscienciosamente o seu soldo, mas para quem a 
palavra pátria não tinha significação, e a quem estas cousas não .tocavão 
tão de psrto como aos outros ; micer Arnold, dizemos, pareceu-lhe que 
a proposta de capitulação naquelles termos era ainda mais do que ra- 
scavelmente se podia esperar em taes apuros ; e, lá de si para si, ficou 
reputando Vanderburg um sandeu. 

Na sua opinião tinha feito, elle conestavel, quanto devia fazer 
e lhe podião exigir. Por consequência não se julgava obrigado a mais. 
Conhecendo António do Lima por experiência, previu qual seria o 
resultado da conferencia; e, como elle se achasse também individual- 
mente interessado na questão, entendeu que lhe devia ser permettido ex- 
primir uma opinião. Reservou-se unicamente o modo de exprimi-la. 

Ora o modo por que micer Arnold pensou dever exprimir a sua 
opinião, foi separar-se do grupo dos cíficiaes, sem dizer palavra, subir ao 
bastião e arriar a bandeira. Em quanto as autoridades deiiberavâo, -micer 
Arnold aceitava por sua conta a oíferta dos seus camaradas do norte. 

Esta operação não se fez todavia sem algumas observações por parte 
da guarnição. Quando micer Arnold se dispunha a desatar a aderiça que 
sustinha a bandeira, Ayres Gil e alguns voluntários correrão a elle com 
a sentinella. 

— Que ó isso? Que fazeis?— perguntou Ayres. 

— Os hollandezes offerecem capitulação e dão as honras da guerra, 
acodiu laconicamente o allemão, julgando prudente não acrescentar 
quaes erão as suas apprehensões acerca do resultado provável da 



— tf^ — 

eoDfereflcia . Como o condestayel fora admittido ao conselho e delle Tinha, 
iacil foi á guarnição interpretar as palavras de micer Arnold como a ex« 
plicação e o cumprimento de uma ordem, emanada do mesmo conselho. 
Não estava muito nas regras ; mas, nestes lances, as regras perdem ex- 
cessivamente da sua força. 

Querendo ser historiador fiel, devemos acrescentar que, de muitos 
a circumstancia de s»lvar a vida com as honras da guerra fora ouvida 
com uma certa benignidade. Ayres Gil admirou -se unicamente, porque 
julgava conhecer o governador e tinha já feito a sua conta. Viu com 
um certo abftlo descer magestosamente a bandeira ao longo da haste ; 
mas, por fim de contas, achava este um incidente commum da sua vida 
e não era já a primeira voz que lhe succedia. Em Flandres, piincipal- 
mente, fora a cousa mais vulgar do mundo. 

£' inútil dizer que os hollanjezes não perderão um instante. 

Desfeito o conselho, e voltando cada qual ao seu posto, na perfeita 
disposição de vender cara a vida que definitivamente sacrificava, António 
de Lima, subindo com Vieira e Aífonso de Albuquerque ao terraj^eno, 
ficou admirado de não ver a bandeira. 

Jazia aos pés de micer Arnold . 

Um grito unisono sahiu da boca dos três. Vieira , arremessando-se 
primeiro entrd todos, arrancou o pavilhão das mãos do eondestavel , 
bradando-lhe* 

— Nâo lhe toqueis, que a infamais . 

António de Lima, lívido de cólera, e sem dizer palavra, tirou da 
espada e marchou direito sobre o allemão. 

Chegando ao pé, desça rregou-lhe um golpe, que provavelmente 
seria o ultimo para o misero mercenário, senão encontrasse o ferro 
de Affonso de Albuquerque, sobre o qual resvalou. 

— Este homem não é da nossa torra, observou o capitão da no- 
breza* 

António de Lima embainhou a espada murmurando : 

— E' a fatalidade 1 

Os hollandezes estavão já alojados no djt^o 'Ja brecha. 
Era forçoso ceder ao que já se nâo podia evitar ; e com isso mesmo 
contara o allemão. 

Terminados os preleminares entre os chefes, e ratificada de parte 
a parte a capitulação, a guarnição sahíu, como w Qstipulou. 



á 



— 174 — 

Era por um formoso dia, explendido e calmoso As forças sitiantes 
formavào em batalha á raiz do forte, prolongando-se pelo isthmo. Pela 
Tolta do melodia, dispostos em boa ordem, os quarenta homens de 
António de Lima assomarão ao alto da brecha, guiados pelo governador, 
sereno e tranqaillo como em um dia de victoria. No ro^to dos soldados 
lia-se o pezar inseparável destas occasiões , mas, ao mesmo tempo, o 
orgulho, comparada a exiguidade de seu pequeno numero com o exercito 
que os esperava. Oá tambores rufarão na frente da pequena companhia ; 
o sol fazia brilhar os piques, os espontões, as espadas e mosquete; a 
bandeira da nobreza ia arvorada. No bastião via-se apenas, triste e 
solitária, a haste, viuva do seu pavilhão glorioso. O inimigo procurou-o 
de balde. Vieira fizera delle um cinto,e, unindo-o ao coração, tomava 
aquella relíquia como um arnez contra o despeito de rendido. 

As longas e profundas filas dos holiandezes viao com admiração 
aquelle punhado de homens, que, sobre destroços, por três dias detivera 
os seus aguerridos terços e coronelias. 

Ayres Gil, aprumando o mosquete e acertando o passo com uma 
recrudescência de desempeno marcial, vibrava olhares furibundos a um 
e outro lado, como quem dizia aos holiandezes : 

— Vai aqui um homem costumado a ver-vos as barbas sem temor 
nem vergonha . 

O honrado mosqueteiro acompanhava este solilóquio mental de um 
diluvio de pragas ruminadas entre dentes. 

Na rectaguarda de todos apparecia mestre Marçal, o episodio burles- 
co desta pugna gigantesca, amável, risonho, cortejando á direita e á 
esquerda com um ar de satisfação que lhe teria valido provavelmente 
uma girandola de pontapés por parte de Ayres, se este pudesse ser o 
seu digno amigo. 

Mestre Marçal não podia acreditar ca boa fortuna de sahir são e 
salvo depois do que ouvira a António de Lirua Na sua humildade pensou 
que Deus fizera expressamente um milagre por sua causa. 

A* base do áspero talude formado pelas ruinas de brechas, Van- 
derburg esperava cortezmente o governador. Chegados ao centro das 
columnashoUandezas, o general batavo ordenou que parasse a diminuta 
tropa; e, dirigindo- se a António de Lima, disse-lhe, fazendo interpretar 
as suas palavras por um judeu de Olinda, que sabia igualmente as duas 
linguas, tendo communicado em Lisboa e Amsterdam. 



— i7» — 

— Agora, senhores, deporeis as vossas armas 1 

António de Lima obrigou o interprete a repetir duas vezes a inti- 
mação. 

•—Depor as armas?— respondeu elle afinal, suffocado de cólera. 
— Pois não estipulastes sahir com armas e insígnias? 

— Sahir a brecha — tornou civilmente o hollandez — mas não os 
nossos arraiaes. 

António de Lima viu que havia perfídia no modo de cumprir a 
capitulação, e deitou um olhar de leão sobre os seus soldados, firmes e 
immoveis a poucos passos, e sobre a turba immensa que o rodeava cu- 
riosamente. Pensou porém que, para satisfação do seu orgulho, não 
tinha direito de sacrificar tantos homens generosos e tantos corações 
heróicos. 

O governador não era caracter que em casos destes descesse a dis- 
cussões. Desde que viu a impossibilidade absoluta de abrir caminho á 
ponta de espada, contentou-se de encolher os hombros em signal do seu 
profundo desprezo por aquellas subtilezas de palavra , e, entregando a 
espada ao general, deu aos seus a voz de deporem as armas. 

Os soldados de António de Lima, pasmados da voz e do gesto do 
governador, fitátão nelle os olhos assombrados. 

António de Lima, que tinha a consciência de cumprir um dever, 
repetiu a ordem em tom claro e resoluto. Por mais estranha que fosse 
semelhante ordem, estavão todos tão habituados a obedecer-lhe que as 
hesitações acabarão. AfTonso de Albuquerque, entendendo o governador, 
foi o primeiro a dar o exemplo ; Vieira imitou-o com visivel repugnân- 
cia. 

Mais de uma lagrima cahia silenciosa por aquelles rostos tostados e 
formosamente enegrecidos de fogo, ao entregar as armas de que tão bem 
se haviào todos servido. Os voluntários batiâo com os arcabuzes no chão 
com ira concentrada e imprecações surdas. Um alferes sem bandeira 
fez voar o espontão ao rio, tào rente da cabeça de um hollandez, que foi 
necessário este abaixar-se rapidamente. Ayres manobrou de modo que, 
ao pôr em terra o seu mosquete, o cano foi para um lado e a coronha 
para outro. 

— Perros hereges ! — resmoneou o honrado mosqueteiro, mascando 
o bigode hirsuto. 

^ Falta uma pequena ceremonia— disse ainda o general hollandez 



— l^ — 

a AntoDÍo de Lima, que mostraya pressa de se esquivar a estas ines- 
peradas humilhações. 

— Uma ceremonial Que ceremonia?— tornou o governador attonito. 

— Quasi nada— retorquiu o general pela boca do oiScioso interpre- 
te. — £' dar um juramento de nio pegardes todos mais em armas con* 
tra nós. 

— Dizeis ? 

O judeu repetiu a noya exigência de Yanderburg, recuando pru- 
dentemente um ou dpus passos. Era inútil ; António de Lima estava nos 
seus dias de paciência. 

— Sr. Yanderburg, cuidei que tratava com um gentil-homem e um 
leal cabo de guerra — tornou o governador com um sorriso de desprezo. 

— Que é o que elie diz ?— perguntou Afifonso de Albuquerque. 

— Yamos, senhores, algum de vós quer prestar o juramento de 
não pegar mais em armas em defesa da sua terra ? 

Um grito de indignação sahiu unanime das fileiras dos rendidos. 
O maior numero levou machinalmente a mão ao lado desarmado. 
Yieira adiantou-se c bradou : 

— Porque nos não fizerão tal proposta antes de nos tirarem as 
armas ? 

António de Lima sorriu. Já tinha pensado o mesmo. O governador 
tentou ainda uma observação, única por defferencia aos seus valorosos 
soldados. 

— Tinhão promettidu deixai-nos livres de nossas pessoas. 

O interprete traduziu a replica a Yanderburg. 
-— Mas não de vossas armas —disse este tranquillamente. 
António de Lima, que não era, como vimos, para finuras de lingua- 
gem, tornou a encolher os hombros. 
Yanderburg proseguiu: 

— Se não prestais o juramento, ver-me hei obrigado a considerar- 
vos a todos prisioneiros de guerra. 

— • Considerai! -- respondeu friamente o governador. 
^ E ficareis sujeitos a todas as consequências da vossa obstinação. 
António de Lima voltou as costas ao interprete, e disse, com toda a 
serenidade, para Affonso d« Albuquerque: 

— £* um hollandez traidor I 

— Não admira-» observou philosophicamente o capitão da nobreza. 



— 111 — 

— Eu sempre disse que os hereges não tiohào alma— gritou Ayres 
do seu logar. 

António de Lima podia muito bem imitar o exemplo de Yanderburg : 
jurar e não cumprir; mas nem semelhante idéa lhe passou peia cabeça. 

— Pela ultima Y6Z vol-o pergunto,— disse Vanderburg- recusais? 

— Vieira, — interrompeu António de Lima — dizei a esse homem- 
que está perdendo tempo. 

— Se deitássemos o interprete ao rio como resposta? — ponderou 
o ardente mancebo . 

— Seria baptisa-lo, e elle não o merece, o Barabâo — tornou Affonso 
de Albuquerque, rindo. 

-~ Muito bem! — concluiu Yanderburg, vendo que nada obtinha*-^ 
Sabei então que ides para os cárceres. Depois yeremos se podereis 
contar com a vida, ou se tos enviaremos aos estados. 

António de Lima assobiou por entre os dentes uma cantiga, ma- 
nifestação que, em homem tâo grave, era o signal do supremo desprezo. 

Já se vê que toda a discussão era inútil. 

Divididos, e dous e dous, os desgraçados restos, da guarnição do 
forte do S. Jorge caminhavão entre escoltas de quatro homens armados, 
precedidos e seguidos de numerosas companhias de mosqueteiros. 

Yanderburg passou a tomar posse das pedras que tinhão sido 
forte. Os prisioneiros, prisioneiros contra a fé jurada, erão conduzidos 
ás prisões de Olinda. 

Mesmo desarmados, os hoUandezes tremião daquelies poucos homens 
que havião aprendido a conhecer. 

Tinhão ainda de aprender á sua custa que erão da mesma raça os 
outros. 

De todos o só a quem derão plena e inteira liberdade foi a mestre 
Marçal. Pelos modos não tinhão tomado em grande conta as suas 
qualidades guerreiras, e o seu rigosijo no meio da tristeza dos camara- 
das havia-lhe para logo conciliado a benevolência dos hollandezes, 
que parecião estimar mediocremente a aptidão bellica do nosso fogue- 
teiro. Mestre Marçal perdoou christãmente a injuria feita ao seu amor 
propio e aproveitou-a em continente. 

FIM DO FRiMBIRO VOLUME. 

23 



CAL ABAR. 




mm 






I 





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DO 



SÉCULO XVII. 



POR 



Q^oàe oáe o/a^ia ,^/M>^^G^à j£ga€ (2^^^€Of^, 



VOLUME 11. 




RIO DE JANEIRO. 

Typ. do Correio MBRCAirriL, rua da Quitanda n. 5$. 



1903. 



CAL ABAR. 




TOM IMiElM 



DO 



SÉCULO XVIL 



TOMO II. 

CAPITULO I. 

06 RIAIS DO BOH JESUS. 

Malhias de Albuquerque havia-se recolhido ao Recife ; e por detrás 
das suas estacadas, observava os progressos do inimigo e a ruina total do 
forte. O porto estava-perdido, porque o forte de S. Francisco, inteiramente 
accessivel e absolutamente indispensável depois dos successos que aca- 
bamos de narrar, nem horas poderia resistir. 

No dia immediato ao rendimento do forte de S. Jorge, dos dous lados 
da ribeira dos Âffogados passava-se uma scena, que reunia uma an- 
tithese ormidavel. 

Além da sobredita ribeira, que se pôde considerar como um braço do 
Capibaribe, esteudia-se a larga planeira chamada a várzea, affectando a 
fórma circular, onde, á quasi igual distancia do Recife e de Olinda, se 
elevava um montículo do qual era fácil descobrir o porto. A partir deste 
eentrd, começavão a levantar-se, em umvasto hemicyclo, abrangendo de 
margem a margem, algumas fortificações informes, cujo desenvolvimento 
glorioso teremos occasiâo de observar, porque a historia no-lo conservou 
minuciosamente. Nesta pequena eminência, ao romper do sol do dia que 
citamos, avultava um grupo silencioso e solicito. Era o capitão-mór e os 
principaes cabos da milícia ; isto é, os mais abastados e poderosos co- 
lonos, e no meio delles, ao lado de Mathias de Albuquerque, Berenguer 
taciturno, mas erecto e firme como nos dias dos seus antigos combates. 



No mar altodivisavSo-se as náos e galeões hollandezas fazendo-se áe 
Ytla para demandar o porto, pois que o forte de S. Francisco da Barra 
haTia cedido já á intimação do inimigo, como quem não podia ter nenhu- 
ma esperaoça de soccorro. Faltayão-Ihe além disso um António de Lima 
e um Vidra para tornar em heróes os seus deflfensores. 

No porto ancoravâo cerca de trinta navios, já quaí^i todos carregardes 
de productjs do paiz ; e, nos armazéns do Recife, riquezas ainda mais 
aTultadas ião ser presa do vencedor, pagar os seus esforços e abastece-los 
talvez pára longo t'?mpo. 

Uma grande parte destas riquezas, que erão também preciosos re- 
cursos para os contrários, pertencia aos oppulentos cultivadores que na- 
quelle momento circumdavão o capitão raór,. todos gente de prol e no- 
breza, e da principal da capitania : algumas carregações mesmo, e não 
das menos importantes, erão propriedade immediata de Mathias de Al- 
buquerque e de seu irmão, que ambos tiohão vastas possessões naquellas 
*erras. 

Sentindo avisiohar-se o momento, em que o fructo de tantas fadigas e 
a perspectiva de tantas esperanças, ia enriquecer, e, porque assim diga- 
mos, fortificar os invasores, os próprios que até aquelle pontos e havião 
mostrado sempre magnânimos, desmaiarão, e um grito de pezar e desa- 
"iento fugiu doloroso e unanime dos lábios de todos. Pois erão grandes 
corações e espíritos vigorosos os que rodeavão o capitão-mór, e, compre- 
hendendo o seu grande pensamento, se bavião associado com elle para 
uma guerra que não tivera modello e devia ficar sem imitadores ; erSo 
António Ribeiro de Lacerda, Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, Luiz 
Barbalho Bezerra, e outros dç igual fidalguia e nome que todos havião 
convertido em soldados heróicos es fugitivos moradotes da várzea. 

Só Mathias de Albuquerque torvo de olhar, mas inteiro de animo 
não dava signal exterior de attenção. 

— Malditos— exclamou Lourenço Cavalcanti mais impetuoso e menos 
scíTrido -— malditos que nos levão sem trabalho o que a nossos braços 
e ás nossas espadas devemos ! E com isso tudo se vão enriquecer os 
mendigos da Hollanda para arrumarem contra nós noves galcõea, e nos 
mandarem aqui mais scismaticos. 

O capitão-mór sorriu e estendendo a mão conientou-se de delxsuç 
C^bir esta palavra breve e simples : 

— Esperai. 



— Que latueotem mercadores a perda do suas mercadorias, ata- 
lhou o velho e rude Bereogner, que mercadores se alegrem de conquista- 
las; o que faz saugrar aalma de quem cinge ao lado um ferro, que lhe 
legarão sfus pais ó ver que onde brilhou uma bandeira nossa, campôa 
agora aquella. 

E apontava o pavilhão hollandez, ondeando a aragem matutina nos 
topes soberbos das nãos empavezadas que endireitavão aproa sobre a 
barra, já sem obstáculo para ellas. 

Alguns dos circumstantes raurmuravSo comsigo « que fácil era a 
Berenguer ostentar taes desapegos por fortuna e riqueza, pois que nada 
tinha que f<^sse ás mãos dos herejes. » 

Mas o maior numero, mas ( s homens illustres que citamos, senti- 
rão a estas palavras, ferver lhe no coração o sangue generoso. 

— E' palavra de soldado e cavaileiro, Sr. Berenguer— atalhou o he- 
róico Luiz Barbslho— graças vos damos por ella, porque nella vingais 
a nobreza d^sta terra. 

— E'— aflSrmou Lourenço Cavalcanti. E, voltando-se para o capitão- 
mór, accrescentou : 

— Perdão vos peço pelas que proferi ha pouco. Não deve lamentar 
aqui a perda dos bens quem tem que deplorar a da pátria. 

— Bem dito, acudiu Berenguer Todos temos que sentir em par- 
ticular; mas saibamos esconderas perdas de nossas casaspara melhor sen- 
tirmos a da nossa terra. 

Ninguém melhor do que Berenguer podia attestar que era muito o 
que se perdia; porque, se outros presenciavão eminente cata strophe que 
ameaçava as suas riquezas temporaes, elle via em risco um thesouro muito 
superior. Os que indicavão a sua pobreza como causa efficiente de um 
desinteresse fácil, não sabião que terriveis cuidados retalhavão o coração 
affectuoso do nobre guerreiro, nem como elle preferia a todos os bens 
da terra outro bem, tão grande que só Deos lhe pudera ter dado. Aquelies 
homens vião só exposta sua fazenda e senhorio : elle via em perigo o san_ 
gue do seu sangue, a filha dos seus extremos, o fructo de suas entranhas» 
E tinha animo para suffocar o grita da solicitude paternal ! 

Coberto de flâmulas e galhardetes, soltando aos ares festivos o pavi* 
Ihão dos Estados, e troando o brado da victoria pela boca das bombardas e 
canhões, a armada hollandeza atravessava ufana o passo da barra devorando 
com os olhos aquelle cumulo de riquezas que fora o alvo primeiro de tão 
poderoso commettimento. 



Era um espectáculo imponente e magestoso. Um sol esplendido re- 
partia com a indiíTerença de todas as cousas superiores os raios profusos 
que iSo dourar o triumpho a uns e teverberar nas lagrimas desespe- 
radas de outros. De um lado erão tudo cânticos, reclamações, e estrondos 
de festa. Do outro o silencio, cheio de agonias das supremas dores. 

Em roda do capitão-mór tumultuava a exaltação de uma cólera angus- 
tiosa. Só elle, sereno e imparldo, encostado ao punho desguarnecido da sua 
larga espada, contemplava tranquillo este quadro de terríveis contrastes 
como se lhe fora absolutamente estranho. 

Apenas um como leve sorriso de ironia se lhe desenhava tremendo 
nos lábios desdenhosos. 

Atraz delle, mais de um, em impecto furioso, quebravão a espada 
sobre o joelho e arremessavão os pedaços com uma imprecação ou uma 
blasphemia. 

O iofiexivel Berenguer, imitando a impassibilidade do seu amigo, 
voltou o rosto e disse para os moços impacientes ; 

~ Mais valera te-ias quebrado antes sobre os peitos dos herejes 

— £ ha quem duvids de que estamos todos promptos a empre- 
ga-las contra elles ? acudiu dali de entre a turba uma voz tremula de des- 
peitos. 

~ Então é guarda-las para a cccasião.Não nos hão de abundar ar- 
mas ; loucura é estraga las. E^ como abrir a porta ao inimigo. 
Todos sentirão a verdade da reflexão e curvarão as cabeças confusos. 
O generoso Cavalcanti redarguiu : 

— Paliais como avi3ada que sois, e mestre de nós todos, Sr. Be- 
renguer; mas tal espectáculo não é para olhos christãos. Ter assim di- 
ante de nós, vencedor quasi sem batalha o estandarte de Holíanda!. . . 

— Não tendes visto ha annos, do mesmo modo, os leões de Gas- 
tella ? — replicou Berenguer. 

A observação era ainda perfeitamente exacta ; mas a propriedade 
de applicação podia irritar os ânimos. O capitão-mór, que neste funesto 
lance conservava toda a sua prudência e presença de espirito interveiu. 

•» Sem batalha dizeis, Sr. Lourenço Cavalcanti? Já não dizem o 
mesmo os de Holíanda, que a esta hora estão enterrando mais de quatro- 
centos dos seus melhores soldados, que o valente António de Lima lhes 
estendeu, como nova muralha de cadáveres, diante dos seus parapeitos, 
menos espessos do que os renques dos mortos. Justiça a todos, senhores I 
A valia que os hollandezes neste momento abrem aos que perderão ha 



(le ser mais larga do que os terraplenos que os seus canhões prpsirárão 
de longe, mas que os seus braços não puderão render ao perto. Honra e 
gloria aos que ali forão gloria do seu nome e honra desta terra, e que a 
estas horas Deus sabe qual sorte é a sua. Descansae. O vencedor já ahi 
nao entra sem respeito pelos vencidos. Olhai de outro lado para vos 
consolardes. Yêdes aquellas minas ainda fumegantes ? £' a primeira e 
heróica cicatriz, impressa pela frente nos seios desta terra, que servirá 
para attestar ao mundo e aos vindouros que ella se não rendeu covar- 
demente. Se os que vedes triumphando fossem bons catholicos ; como um 
éco fúnebre das bombardas vangloriosas, ouviríeis em Olinda o dobre 
dos finados, pelas vidas que lhe custou o limitado terreno, em que apenas 
cabem as suas sepulturas. 

Nunca mais heriocas nem mais hábeis palavras sahirão dos kbios 
de um general na posição de Mathias de Albuquerque. Recordando o feito 
immortal da gloriosa defensão do forte de S. Jorge, o capitâo-mór lançava 
o gérmen de um poderoso estimulo futuro e reprehendia tacitamente o 
passado, porque, no contraste daquella acção, recordava, sem o citar, 
o vergonhoso abandono e o pânico inexplicável do primeiro momento^ 
Era evidente que se todos houvessem imitado os do forte, Olinda não 
teria cahido nunca nas mãos dos hollandezes. 

Todos sentirão instinctivamente o golpe, e nos olhos faiscantes 
lia-se-lhes simultaneamente o pejo e o enthusiasmo. 

— Sempre ó tempo de morrer pela pátria •« accudiu Cavalcanti, 
lançando mão á espada com o rosto incendiado e o gesto provocador. 

— Sempre — - atalhou Berenguer que lhe advinhou o pensamento, 
e que exercia entre aquelles homens uma autoridade indizível . 

— Sempre; mas não agora. £' nobre e é grande um sacrificio pela 
pátria; mas não basta que seja sacrifício, é preciso que lhe aproveite. 

— Quem sabe ?. . . observou Luiz Barbalho. 

— Presmnis vós o que se diria se neste momento se tentasse um 
commettimento insensato e inútil? tornou Berenguer. Dirião que a terra 
do Brasil é povoada só de commerciantes, ávidos de ouro, que virão 
indiferentes a invasão dos seus lares e que só forão desesperados a aca- 
bar sobre as suas riquezas perdidas, como o avarento sem alma que 
não pôde resistir á ruina de seus thesouros. 

-^ K lerião tempo para tal dizer? retorquiu Cavalcanti. Tendes 
razão, Luiz. Quem sabe? Quem sabe o que pôde uma resolução suprema 
em homens que se consagrão á morte ? 



M 



— Pôde privar essa mesma sua pátria de defensores generoâos, que 
lhe serião preciosos no momenlo opportuoo : pôde perde-la de todo — 
tornou o austero Berenguer. 

— Mas, olhai •— continuou Cavalcanti — nào é semelhante vista 
um desar eterno, um opprobrio para os nossos brazões, que nenhaoià 
gloria alheia poderá cobrir? 

£ indicava a armada, que, venceado a barra, aproava sobre o 
ancoradouro, e aprestava as lanchas para ir tomar conta da presa. 

Mathias de Albuquerque, depois da fogosa allocuçào que lhe ou- 
vimos, voltara â sua attitude sereno e contemplativo. 

Ouvindo estas palavras e presenciando o movimento desordenado 
que se lhes seguira entre es que o cercavão, estendeu o braço na 
direcção do porto, e levantando o rosto para os fitar a todos, exclamou 
em voz incisiva e fjrte: 

— Vôde. 

Era uma só palavra, mas podia servir de correspondente ao mysie- 
rioso «esperai» que pouco antes soltara. O capitâo-mór que, em dadas 
occasiões, sabia ter a eloquência de um politico, dadas outras tinha a 
concisão de um philosopho . 

Os olhos do grupo iitárão-se longos, como diz o poeta, seguindo 
a indicação de Mathias de Albuquerque. 

A scena havia instantaneamente mudado de aspecto. Uma densa 
e opaca nuvem de fumo, interpondo-se ao sol, cobria a superfície do 
Recife. No porto mesmo, de trinta lados diíTerentes, volumosas co- 
lumnas, elevando-se como do seio das aguas, subindo primeiro perpen- 
dicularmente na inerte diaphaneidade do? ares, torcendo*se depois em 
gigantescas espiraes» que, aflnal, se desfaziao em névoas immensàSy 
toldavão os ares, e formarão uma cortina escura do lado da terra, em- 
quanto o mar e o céo na linha opposta, brilhavão da pura claridade do 
dia e dos reflexos deslumbrantes do sol. Pouco a pouco, estas nuvens de 
formas diversas e pavorosas que trajavão o luto de uma grande des- 
truição, que parecião rebetitar e alimentar-se do solo em vez de pararem, 
no ar e descerem do firmamento forão enrubescendo e clareando â base 
até que, do porto e do Recife, mil serpentes de fogo arremessando-se 
impetuosas e irrisistiveis invadirão a atmosphera que se tornou candente. 

Um grito immenso de desolação partiu da armada, do forte jâ occu- 
pado pelos hollandezes, e das alturas de Olinda, onde o inimigo con- 



tômplAYa ^ e&trAda das suas liáos pfe]^ftraiido-íe ]^a 1^ eoàiiftiiiniâàl^ 
bteVemente bom éllas. 

Um sòMsô dê satisfação pàssoU fugitivo pêlo tcfôto do capitão^mó^, 
que adivitihavd, tiuè cúria ^uasi este grito artancado das entranhas p^io 
senúmento da ambição coúttailada e da avidez illudida. 

£m torao do capitãó-mór ouvirão-se alguns gemidos abafados ^ 
surdos. Muitos dos ((Ue mais deplotavão que tantas riquezas cahissetn 
bas mâoS doS hollandeiEés n&ò podião deixar de deplorar ainda mais quo 
lèllas fòssém totàlínetité aniquiladas, ião fotte é a idéa da possessão nó 
maior nuibéró de cãra6tej'es, e tão cfa^io de eont^adicções é o espirito é 
o coração do homem. A rtfça guerreira já era também raça òommerciétite. 
HàthiaS de Albuquerque encatoti-os eietéramente. 
— Querieis antes que fossem ás mãos dos hòllandezes t 
Disse elle, e, apontando o vasto incêndio cóiíi tim gesto de iái- 
mitavêl íiòbre^â, accreséetitou : 

-« Também ali me está ardendo a fozenda é fortuna. . • e mais. . . 
foftuna e fiizenda áe meu irmão! 

Entretanto aS chammas lavravão com utaã Víoenda e intensidade 
que não davão aôs hoUaíidezèá esperança dè salvar a minima parte de tãd 
ricos despojos. No Recife, os grandes depósitos de matérias alkoolicas, 
vindas do reino, davão ao incendid novafbria e aspecto phantastico. Nos 
armazéns como nos navios, as carregações é an^écádações erão com|>o8- 
tas dê Substancias facilmente inflammáveis e poderosamente combustí- 
veis. 

Mathíáiâ de Albuquerque iíavia deixado úo Recife alguns mosquei- 
ros das companhias de soldo^Veterános das guerras de Flandres, seus an- 
tigos coiápanhêiros dé armas, cuja lealdade conhecia, podendo affot- 
tamefnte contar tom eltes. A estes homens escolhidos, habituados, isA 
sua passibilidade heroitítamente áutômatiCá , a não discutir Ordens, á 
estes homens que reputavão ò capitãò-âiór uma espécie de imagem vi^ 
sivel do destino; a estes homens, dizemos, cOmmettéra elle o encargo níe^ 
Cndroso de lançar fogo semnltanêamente aos navioii é armilzens, h^à 
que o inimigo fizesse menção de querer foi^çar ti barra. Qttanto a êlle, 
Hatiiias de Albuquerque, conhecendo A índole dos colonos com qnéin ti- 
nha de contar para continuar a giiêrra, sabia que erá uTgentê éstíír tola 
elles no momento da caiastrophe, para os conter on animar. 

Como se té, as ordens do capitão-mór forão éxecutadias coiií uina i^ 



10 

gularidade e exactidão que attestavão a excellencia da disciplina das cosh- 
panhias de soldo e os seus hábitos de, obediência. Aquelies homens, cott* 
demnados a uma vida de fadiga, de risco e provação continua, tinhão 
debaixo dos olhos e â sua inteira disposição mais riquezas do que nunca 
poderião haver sonhado Passando- se aos hollandezes obterião facilmente, 
em troca de tamanho serviço, e, com a possibilidade de impor condições, 
quinhão avultado daquellas riquezas, isto é, a abundância e o descanso. 
Mas foi cousa em que nenhum pensou sequer. Para elles aquelle cumulo 
immenso de bens não tinha signifícação defíoida nem dava uma idéa 
possitiva. Se fosse propriedade do inimigo e se occultasse em uma cidade 
entrada de assalto, saqueadoies audazes, saberião perfeitamente desco- 
bri-lo, e não teriao escrúpulos em extorqui-lo ; mas assim, armazéns 
atacados de valores preciosos, navios regorgitando de mercadorias, 
nada disso lhes representava se não a obrigação de uma sentiaella e 
uma palavra de ordem. O extraordinário das circumstancias em que se 
achavão não alterava em nada os instinctos de subordinação daqueíles 
homens de ferro, naturezas inestimáveis, sem as quaes nenhum grande de- 
sígnio pôde ser cumprido, como nenhum prodigioso machinismo íiinc- 
ciona sem o concurso complicado das rodas e engrenagens em que está 
a sua acção. 

Gravemente sentados ás portas dos armazéns^ escancarados e paten- 
tes como outras tantas tentações, ou passeando descuidosos no convez 
dos navios diante das escotilhas abertas a deixarem ver os vastos bojos 
túmidos de fardos não menos tentadores, os mosqueteiros de Mathias 
de Albuquerque não cura vão senão de avivar a corda ardente dos seus 
mosquetes, e de examinar os fachos dispostos pela própria mão do ca- 
pitão -mór, os quaes fachos, por meio de um vasto systema de rastilhos, 
devião communicar e propdgar o incêndio rapidamente a todos os pon- 
tos que elle queria destruir. Durante a noite anterior, no meio da soli- 
dão do Recife e do sileucio do porto, os mosqueteiros, immoveis ou pas- 
seando compassadameute, parecião formar a população rara e phantastica 
de alguma necropolis abandonada. Dous delles vigiavão constantemente 
para o lado do mar e das ruinas. do forte. Ao miaimo indicio da aproxi- 
mação dos hollandezes, por qualquer dos pontos indicados, davão o sí- 
gnal, e as chammas ateavão-se senhoreando incontrastaveis a presa ma- 
lograda. Entre as muitas tentações que se offerecião aos olhos dos^ 
mosqueteiros, a que reunia maiores condições de seducção, era a copia 
de vinhos generosos accumulados nas tercenas. Santo Antão no deserto 



^ ♦ 



— 11 — 

líSo foi mais provado. Em um caso ordinário, tamanhas facilidadí's da- 
riào em resultado uma serie interminável de scenas de ebriedade; mas o 
capitão-mór havia-lh^s demonstrado que um soldado ébrio não podia 
cumpiir restrictamente as ordens recebidas ; e ell^s fazendo as suas 
longas sentmellas, havião-se Jimitado a uma contemplação eloquente 
daquellas delicias prohibidas. Os saldados de Malhias de Albuquerque 
fazião sem o saberem o oíBcio do dragdO das Hespérides. 

E effectivamente o oíBcio foi cumprido até ao cabo, com uma 
pontualidade que desesperou os deHollanda. Apen.^is a armada deu mos- 
tras de avizinhar-se ao porto, os heróicos incendiários consummárão a 
sua missão, contentes determinarem um serviço que se lhes ia tornando 
pesado pela monotonia. Irílammados os rastilhos, deitarão* se a nadoe 
passarão á várzea como se tiverão cumprido a obra mais ordinária deste 
mundo. Quando aportarão na margem, admirando o rápido efíeito do 
incêndio, não tinhão sentimento que não fosse o de estudante em ferias 
ou o de soldado rendido em uma guarda trabalhosa. Havião tido cem 
fortunas debaixo da mão, e anniquilárão-as com suprema indifferença; 
A uoica memoria que trazião era um cangirão de vinho superior, que 
um delles mais previdente, fora encher em um tonel, disputando-o já ás 
chammas, e disputando-o depois ás aguas, na passagem do varadouro,' 
pois que (dizia elle) o capitão*m6r havia lhes prohibiio beberem daquelle 
vinho antes de findo o serviço, mas não lhes prohibira depois. As dis- 
tincções e subtilezas, como se sabe, estavão já em moda naquelle século. 

Passado o primeiro momento de torpor e assombro no centro dos 
reaes do Bom-Jesus os cabos principaes medindo tcdas as consequências 
da inesperada fogueira com que Mathias de Albuquerque saudava as pri- 
meiras vantagens das armas contrtirias, e admirando a generosa abnegação 
do seu chefe, romperão em uma acclamação entbusiastíca , e desta vez 
sincera, posto que ainda cortada dos gemidos de alguns. 

O Recife e o porto parecião já um vasto brazéiro. A atmosphera, 
mesmo naquella distancia» suffocava. O ar estava inftimmado. A travez 
dos torbilhões de fumo avermelhado, as enormes línguas de fogo, ora 
se crusavão variegadas, ora parecião querer ir lamber os astros. Como 
que se sentia o crepitar das chammas ; e, de espaço a espaço, a brisa 
trazia aos capitães o acre e variado perfume das suas riquezas, oíferecidas 
em sacrificio ao grande principio da isenção e da nacionalidade. 

Debalde as lanchas hollandezas, forçando os remos, tentarão atalhar 
os progressos do incêndio e ver se podião salvar ainda uma parte . dos 




— \% — 

^utentof de9po}os. Era impossível, senão arriscado, permaijiecer iêq 
circulo rubro tratado, em despeito da claridade do dià, pelo clarão daf 
chanunas á roda dos nariov iofiammados até á liuha de fluctuaçio; e no 
Recife, s^ccedi|o-ae amiudadas as explosões das vasilhas cheias de^es- 
piritos, como se forào morteiros expressamente preparados. As náos não 
podiâo prestar rápidos soccorros, e muito menos aproximar-se ao$ pontpa 
incendiados, assim pelo perigo de tomarem iogo também, con^o por Q9* 
tarem confioados no seu ancoradouro pela própria natureza deUe, nãa 
yodendu navios de maior porte montar o pontal e subir até ao varadoura 
onde ancoravão as embarcações mercantes. 

Nestes termos, oshollaodezesassistião desesperados á ruína das si|«s 
primeiras esperanças, e antevião as preoccupações de uma guerra que i& 
selhesannunciava por taes rasgos de constância e abnegação. 

O capitàormór, vendo o incêndio na sua força e reconhecendo a ioQp 
possibilidade de poder já o inimigo salvar a mais leve porção de ti^es^ 
riquezas, voltando-se para os cabos, ei^claqQOu com gesto autorisado e p^ 
lavra sonora : 

— Sr. Cavalcanti, Sr. Barbalho, Sr. Lacerda, vós todos, senl^ores^ 
i-vos cada qual aos vossos quartéis» e apresaaí-lhes dia e noite bã obraa 
de defesa, sem deií^ardes de exercitar de contínuo os homeos das vossaa 
covipanhias. D'ora avante o meu posto éaqui. OsreaesdQ3oinr]eaim 
estão assentes. A guerra da ind/ependencia começa l 

DTJPX.A APPARIÇÂO. 

-^ Pois é como vo-lo digo, D. Isabel de Góes. A estas horas já osí 
hollandezes estão senhores do Recife e entrarão o porto. 

— Mas o forte? 
-r- Qual forte? 

— O forta de S. Jorge ? 

-^ O forte de S. Jorge. . . eaástiu. 
i — Jesii3 í 
-^ Agora sem diificil reconhecer que houve aH um lòrte. 
-TT- £ a guarnição? 

-^ Obl a guarnição!.... Boa gente! valorosa i^i^t... mas eu 
f^pre <Msse que eri^um despropósito rematiido querer reisistir a tamanho 



% 



„ 19 — 

poder de homens e de canhões.. . Tudo prisioneiro, menos os que flcá- 

rôo. . • 

— Menos os que ficarão. . . onde ? 

— Sepultados debaixo das ruinas... Se ouvissem o que eu dizia... 
-— Mariquinhas , Mariquinhas da minha alma, que tens, sobrinha, 

que tens tu? Olhem, yejão como ella se desmaia. . . Ai que se me vai 
redonda ao chão.. Amparem-m'a, acudão-lhe ... Agua, tragão-me 
depressa agua de flor, vinagre, o que acharem mais á mão... Sobri- 
nha, sobrinha, que isso?... Que contas hei de eu dar delia a seu pai... 
Yão-me chamar já minha irmã ,. Que venha em um credo. .. Credo, digo 
eu também. . Em nome da Benta-Hora) . . , Pois se vós, Francisco Be- 
zerra, vindes, sem tir'-te nem guar'-te, fallar-nos ahi de guerras e ma- 
tanças capazes de assustar e pôr em delíquio uma communidade. . . 
Também as donzellas de agoral... Yejão: nem dá accordo de si... Está 
perdidinha mesmo . . Ponhão-lhe essa almofada debaixo da cabeça. . . 
Esfrega-lhe as mãos, Anninhas. Fria, fria de pedra, as faces de cera. . . 
As raparigas do meu tempo não se deixavão desmaiar assim. . . Pois não 
é que lhe faltassem narrações de combates e assaltos. . , Fagulhavão-lhes 
08 olhos. Uma vez, quando El-Rei de Gambaya se recusou a pagar as 
páreas, ouvi eu que no cerco temeroso queforão pôr a. . . Respira t Ainda 
bem! E bate-lhe o coração... Seja Deus louvado Fraquezas, fraque- 
zas destas creaturinhas melindrosas de hoje, que por um nada lhes dá 
em perder o tino. . . Desatinado seja a inimigo que nos mandou cá esses 
herejes para nos melterem pavor ás raparigas sem experiência.... Que fa* 
z«is ahi, Anninhas? Ghegai-me esse copo aboca de vossa prima.... 
Bastarão algumas gotas de agua para a tornarem do todo a si. . . . Na 
meu tempo. ... 

— Que é isto ? Que tem Maria ? 

—Não é nada, mana da minha alma« Vossa filha ouvindo contar que 
o fopte de S. Jorge se rendera... 

— Eu cá sempre disse. . . 

— Faríeis melhor se tá estivésseis, Francisco Bezerra. Vossa filha, 
mana, ouvindo contar que o forte de S. Jorge se rendera, entrou a áw- 
mMar, a desm^siar, e. . . Passou. Ei-^la que recobra animo... Suspim..* 
E' bom «igual... Não ó nada, sobrinha, não é nada. Aqui estamos todos, 
e, (luereado Deus e o Sr. capitão-mór, os hereges não viráõ mais ter 
oonuiosco, posto que ninguém sabe o que pódé acontecer. 

— Gomo jé «;init6íceúf 



M 



— 14 

A eloquência um tanto exuberante desta creatura de Deus, que temos 
ouvido, multiplicando ordens e applicando cuidados, ameaçava prolon- 
gar-se interminavelmente, se a nova figura que vimos entrar Ibe não 
atalhasse os voos ambiciosos. 

Estamos no engenho de Góes. D. Isabel, a senhora que tanto fal- 
lára e se aíTadigára, é mulher de D. António Bezerra, um dos homens 
notáveis ó^ capitania, e irmã da mâi de Maria; por consequência 
travamos conhecimento com aquelle cunhado de Francisco Berenguer, 
a quem elle enviara e conflára o seu thesouro, logo que teve de entrar 
em campanha. Fora aquelle mesmo o engenho qae os hollandezes 
havião tentado atacar e donde Maria fugira desorientada quando teve 
logar o seu encontro com o Gala bar nas matas próximas. 

Nada mais diverso physica e moralmente do que as duas irmãs. A 
mãi de Maria, toda ella modos senhoris e donairosos, era de uma frieza 
que tocava na indififerença e de uma seccura que orçava pelo egoismo. 
Entre esta natureza pautada e methodica, e a franqii^^za austera, mas ca- 
lorosa, do velho soldado da índia não havia grandes sympathias. Por 
isso ella preferia habitualmente a opulenta habitação de sua irmã á sua 
modesta morada. Vivendo habitualmente separada de sua filha, consagra- 
va- lhe justamente a porção de amor, que, no seu código particular de 
conveniências próprias e mundanas, julgava poder-lhe dispensar. Eraua>a 
dessas organisações especiaes em que o coração é morto, ou funcciona só 
como entranha. Alia, severa, de nobre porte, movia-se, pensava, sentia, 
tudo symetricamente : via-seque, nascendo, ficara moralmente incomple- 
ta. Faltava-lhe o que quer que fosse. Dizia-se na capitania que fora em 
outro tempo uma formosura, e conhecia-se ainda ; mas aquelle tempo já 
ia longe, e não era talvez esse um dos menores dissabores escondidos 
sobaquella apparencia glacial, que disputava immobilidade á mulher de 
Loth, depois que Deus a punira dacuriohidade. No intimo d'alma jul- 
gava iniquá adifferença da sua fortuna á de sua irmã, posto que se 
gozasse mais delia do que a mesma possuidora. Sem faltar a nenhum 
de seus deveres de esposa, havia uma cousa que ella não podia per- 
doar ao marido:— era a sua pobreza relativa. A idéa da dependência ha« 
via>lhe endurecido o caracter naturalmente altivo, sem lhe dar animo 
para se libertar dessa dependência, que todavia ninguém lhe fazia 
sentir. Padecia secretamente de orgulhos e não tinha forças para imitar 
Berenguer, encerrando-se como elle em um recolhimento imponente e 
digno. Custava a acreditar que de tal mãi pudesse ter nascido tal filha. 



t' 



— 15 — 

D. Isabel de Góes era, como dissemos, exactameDte o contrario de 
isua irmã, no corpo e no espirito. Baixa, repleta, florescente, conser- 
vando um vigor e frescura de tez que devia ao exercicio, a uma actividade 
rara naquelle clima^ e á sua constante serenidade de animo, era tio 
avessa aos ares cortezãos e medidi s como a mãi de Maria lhes era aíTecta . 
Tudo nella era movimento e espontaneidade. Dona de casa, não a havia 
mais completa. Fora formosa também, mas de um género de formosura 
diíTereute da de &ua irínã. Quanto esta era e se mostrara sempre iucommu- 
nicavelmente roagestosa, tanto ella fora jovial, folgazã, dt^liciosamente 
maliciosa eaccessivel. £ todas estas qualidades se reflectiâo em sua filha, 
a prima de Maria, chistosa moreninha de 15 annos, a quem já ouvimos 
dar o nome de Anniohas, e a quem todas as escravas do engenho, 
sorrindo das suas diabruras entre lagrimas de reconhecimento, chama^ 
vão yayásinha Ânuinhas, quando ella as ia vêr ao campo ou nas choças, 
onde nunca apparecia debalde. Trastejadora, vigilante, sempre em acção, 
D. Isabel presidia activamente á ordenança económica daquelle vasto es- 
tabelecimento, e dizia António Bezerra que lhe valia dez mordomos e fei- 
tores. 

Nos moveis não se via um átomo de poeira— pois não é que faltasse^ 
e, desde as sallas até ás oíBcinas, cada cousa e cada familiar sentia o im- 
pulso da sua gerência, ao mesmo tempo rígida e maternal. 

Que lhe de^apparecesse da dispensa um sacco de farinha de páo ou 
da copa uma garrafa de vinho do reino! A ausência era logo conhecida 
a causa era logo averiguada, o inquérito era quasi sempre eíBcaz, e rara-* 
mente deixava de apparecer o dessipador ou detentor dos objectos eli- 
minados sem sua licença do effectivo da casa , crime que lhe provocava 
torrentes de oratória proflígante, escutada pelos culpados com uma 
compuncção, que nem sempre tioha muito de sincera , mas que de 
ordinário obtinha a pacifica possessão do thema originário desta fo- 
cundia irritada . 

D. Isabel governava os seus lares com uma autoridade despótica e 
todavia incontestada, porque era uma autocracia admiravelmente bene^ 
vola e solicita a sua. Vivia para vigiar e de vigiar pelos outros, eera 
este o seu prazer supremo. Fora do circulo da sua casa e do estreme- 
cimento por sua filha, em quem se revia e por quem se morria, não havia 
cousa no mundo exterior de que fizesse idéa cabal. A invasão mesmo 
dos hollandezes, que aballava toda a capitania , inquietára-a medíocre- 
mente, apezar mesmo do assalto que lhe havião dado; porque, no 



16 

seu conceito, mais dia menos dia, os hereges seriâo todos arrojadoft 
ao mar por Mathias de Albuquerque, cuja era a obrígaçào de assim o fa^ 
zer. Criada com as narrativas dos grandes feitos da índia e da Africa^ 
embellezados pela traâicção , pertencendo a uma familia oriunda dos 
grandes homens que por taes feitos se haTÍ&o illustrado, julgava absolu- 
tamente invenciveis os seus descendentes, e não podia acreditar que os 
de HoUanda se demorassem muito; porque, abaixo de Deus, tudo com*- 
fiava no capit&o-mór. Neste ponto o seu raciocioio era tão singello coUio 
lógico. Na sua opinião Mathias de Albuquerque estava incumbido de 
reger a capitania como ella mesma de reger o seu interior. Ora, como 
ella certamente não admittiria ali um intruso, contra a vontade soberana 
dos donos da casa, e o fdzia incontinenti expulsar com ignominia por dons 
ou três negros robustos, era claro que o Sr. ca pitão-mór devia fazer o 
mesmo com pequena dififerença . O que ella só extranhava é que não estil* 
vesse já feito. 

Francisco Bezerra, o outro interlocutor, no dialogo com que abrimos 
este capitulo, era cunhado de D. Isabel e um destes homens ociosos, habi- 
tuados a viver descuidosos, censores inactivos die tudo quanto se passa 
em roda delles, sem darem nunca o exemplo por si mesmos. Francisco 
Bezerra podia ter os seus 50 annos. Fora dos primeiros a espalhar o 
terror, na aproximação dos hollandezes. Inerte por habito e por Índole, 
contentava- se de ser espectador, eternamente descontentente, dos suc-^ 
cesses até ali consummados. Prompto em dar pareceres e offerecer al- 
vitres, na acção ninguém o achava. A idéa da pátria preoccupava-o msè* 
diocremente. Em compensação, a dos interesses enraizára-se-lhe pro* 
funda edominava-o constante. O que elle via quasi exclusivamente era 
a sua pessoa. O máximo inconveniente da invasão era para elle a pertur- 
bação do seu negocio e o obstáculo presumível á livre sabida dos pro^ 
duetos. 

Por mais rijamente 'temperado que seja o sentimento de um século 
e de um povo, ha sempre destes caract^.res que resumem e personificâo 
tudo em si, e, sem serem positivamente malévolos, não fazem senão estor- 
i«r e murmurar, achando muito mais commcda a critica do que a acti- 
vidade. A sciencia intolerante de Francisco Bezerra compunha-se de um 
—se— continuo e exclusivo. A responsabilidade de tudo o que não ia se- 
gundo os seus desejos, attribuio-a elle ao facto de o não attenderem, sem 
pôr nada em pratica para ser útil á communidade e tornar-se digse de 
stftenção. Sa fize$um o que elle dixia, tudo iria ás mil maravilhas; mas 



— 1^ — 

mmca podia cHar o que Unha feito. No circulo puramente individuai 
^a sua estreita comprehensão não fazia senão impor aos outros as 
condições do próprio modo de ser e de existir. Era incapaz de apreciar 
as acções que tinhão origem na abnegação por incapacidade de com- 
prehender este motor nobilissimo. De resto, um pobre homem, no sentido 
igurado da palavra, impaciente da sua nullidade e sem energia para sa- 
hir delia. Depois da sua veia satyra e mordaz, que elle tinha a condes- 
cendência de julgar excellente e superior a todos os juizos humanos, o 
que mais prezava no mundo era a mesa, isto é, o estômago ; e, como em 
casa de seu cunhada, graças á superintendência intelligente desta , a 
mesa era óptima, e não só óptima senão gratuita, e não sé gratuita senão 
isenta de toda a vigilância que se parecesse com trabalho , Francisco 
Bezerra frequentava-a assiduamente , na sua qualidade ãe parente 
proxbno, reservando-se todavia o prazer mabgno de intervir na analyse 
dos guizados com observações culinárias nada benignas, <;ousa que o 
tornava excessivamente impopular na cozinha e um tanto antipathico 
á própria dona da ^sa. Mais de um dos seus mordentes epigrammas, 
propagado pelos serventes, percorrera a população negra das officinas, 
que via nelles uma offensa á corporação. 

Fora o seu espirito critico e ávido de todas as novidades em que 
pudesse exercer aquellas faculdades hostis que o levárji a contar o 
' rendimento recente do forte, tão sem cautela , diante da sociedade femi ' 
mna do engenho de Góes. E' verdade que não podia adivinhar a impres- 
são desastrosa que se arriscava com a sua narração a produzir em alguém 
daquella sociedade ; mas cumpre fazer-lhe a Justiça de acreditar que, se 
o soubesse, faria exactamente o mesmo, e talvez com uma certa recru- 
descência de prazer. 

António Bezerra havia-se reunido a Mathias de Albuquerque e a seu 
concunhado Berenguer, e, na penúria de ouvintes, que lhe resultava das 
disposições bellicosas do geral dos habitantes na capitania , Francisco 
recorria ao auditório do outro sexo, em quem estava certo de achar uma 
certa attenção , curiosa para com as suas novas e censuras, que eUe 
linha o <;uidado de ornar de todos os episódios, mais ou menos verídicos/ 
susceptíveis de sobre-excitar aquella attenção. 

Naquella occasião o novellista tivera um êxito superior ás suas 
mesmas esperanças. O desmaio de Maria, que attribuira modestamente 
ao vigor do seu talento descriplivo e ao receio de ver que se não 
adoptavão os seus planos salvadores, foi um acontecimento que marcou 



M 



18 

albo lapide, apezar das tristezas da causa, o que, se fosse preciso, conílr-» 
mariana cooTicção do seu supremo e absoluto merecimento. 

Não faremos á perspicácia dos nossos leitores a injuria de suppòr 
que se IHudem do mesmo modo. Paraelles é já de certo perfeitamente 
clara a verdadeira razão daquelle incidente, que momentaneamente 
consternou a todos, salvo ao nosso Francisco Bezerra, que não teve tempo 
de olhar senão para o seu imaginário triumpho . 

Maria tinha certeza de ser Vieira um dos últimos que se rendessem, 
e antes o julgava moito que prisioneiro. Prisioneiro, esperaria resignada 
dias melhores, fosse qual fosse o tempo. Morto, sentia que lhe morrera 
lá dentro o melhor de si mesma. A nova fatal já ella a esperava, porque 
não se queria illudir, bem que involuntariamente a illudisse o desejo ; 
znad, por mais esperada que íosse, a sua participação feriu-a de um golpe 
a que nenhum esforço humano resistiria naquellas circumstancias. 

Maria, mesmo na previdência do amor, não contava com o poder da 
sua própria imagem. Se Vieira preferira o captiveiro á honra de sepultar- 
se nas ruinas do forte, no duello desesperado contra um exercito, fora 
por ver diante dos olhos aquella imagem que lhe povoava o coração e lhe 
apparecia como á porta de um paraizo. 

Na solicitude que D. Isabel mostrava pela sobrinha provavão-se os 
seus extremos para com ella. Bastava que a boa Anninhas lhe quizesse 
como lhe queria para ser adorada também; mas D. Isabel sabia instinctiva. 
mente apreciar as qualidades eminentes de Maria, e amava-a por si 
mesma com aífeição inquieta e maternal. Era para ver como lhe acudira 
rápida, como lhe assoprava o rosto e lhe batia nas palmas das mãos, e 
lhe conchegava almofadas, e distribuía ordens, e lhe applicava soccorros, 
e lhe volteava em torno, repartindo com sua filha o carinhoso cuidada 
de fazer cessar e delíquio repentino, cuja causa determinativa tinha em 
Anninhas um interprete muito mais sagaz do que em Francisco Bezerra. 

A mãi de Maria, que fora chamada no primeiro momento de susto, 
viera com a pressa que era possivel á sua dignidade. Chegando a pé 
de Maria, correu-lhe a mho pela testa, tomou-lhe o pulso, e contentou- 
se de repetir as palavras tranquillisadoras de sua irmã , menos assustada 
já por vôr o resultado dos seus desvellos. . 

— Não é nada. 

Toda a attenção, como é de suppôr, estava concentrada em volta da 
cadeira de Maria, que, exhalando um fraco suspiro carregado de dolorosa 
compressão, começava eífectivamente a recobrar os sentidos. 



— 1» — 

dialogo restabeleceu- se. 

— Por que fui isto ? — perguntou a senhora Bercnguer. 
Outra mãi diria : 

— O que poderá resultar disto ? 

— Passou— insistiu D. Isabel, depois de ter minaciosamente veri- 
ficado a situação da pobre menina. 

— A culpa foi do Sr. meu cunhado com as suas noticias de má 
morte. 

-- Pois querieis, mana, que me caliasse com o que todos sabem ? 
—> Ruins novas sempre chegão depressa, e mal vindo é ^uem as 
traz. 

— Boas vo-las traria e não ruins, se me tivessem ouvido ; mas é 
que não querem. Julgão que ninguém mais sabe de cousas de guerra ; 
e por fim de contas, ahi está o resultado I . . . 

— Deixai lá cada cousa a quem compete, que é o melhor. Para que 
temos nós ahi o Sr capitão-mór senão para .tratar dos casos da governança? 
Olhe cada um por sua coitada, como ]á se diz no reino, que nao lhe irá 
peiorcom isso. £ que sabeis vós de cousas de guerra para estardes a 
fallar ? £' como aquelle estufado de jacupema, que no outro dia todos 
acharão excellente, e a que só vós tivestes que dizer Forte liogua • 

— Que sei eu de cousas da guerra ? Perguntas tendes, mana. . . -> . 
Bem se vê que só trataes dos estufados das vossas cozinheiras. 

— E vós de lhes pôr pechas, o que não tira que os devoreis... Sim, 
pergunto o que sabeis vós de cousas de guerra. 

— ■ Não ó preciso saber muito para ver que tudo isto vai mal ; e se 
me ouvissem.... 

— Porque não ides então faze-lo melhor ? Como quereis que vos 
oução, se estaes longe do inimigo ? não pôde chegar a vossa voz aos que 
lhe andão perto. 

A setta feria directamente o alvo. Francisco Bezerra contento u-se 
de encolher os hombros com um ar de profunda commiseração pela 
inferioridade de uma censura que não podia attingir a sua alta capaci- 
dade. 

— Olhai-me lá o exemplo dos voluntários que se forão metter no 
forte— continuou D. Isabel — se todos fizessem como vós, terião os 
hollandezes tempo de ir até S. Salvador sem toparem mais do que o 
éco perdido do vosso discorrer e reparar, e fio-vos que não voltarião 
o rosto por isio, com serem hereges como são. Faliai-me de Vieira* 



— 20 

Vieira era conhecido em quasi todos os eDgeuhos mais importante»^ 
aos quaes a sua inteiligeote e laboriosa actividade prestava habitualmente- 
coosideraveis serviços em arranjos de contabilidade , então pouco 
desenvolvida, e em que elle parece que singularmente primava. 

— Fallai-mo cá de Vieira Esse sim. Já naquelles annos mostra o 
muito para que é. Pobre Vieira, que será feito delle ?... Que é isso, sobri-* 
aha ? Tornas -me a descorar ? 

Maria fez um esforço qua^i sobrenatural, e murmurou : 

— Nâo, minha tia, não, estou melhor, estou boa. 

Sentia que atraiçoaria o seu segredo, succumbindo á dôr que st 
retalhava a cada palavra que lhe cahia no coração. 

Anniohas, por instincto feminil , adivinhando quasi a sua situação, 
veiu em soccorro de sua prima e accudiu : 

— O que ella precisa é descanso. Queres vir até ao teu quarto, 
prima? 

A Sra. Berengcr, vendo sua âlha empallldecer ao nome de Vieira,, 
carregou de trevas o olhar já carregado de gelo. 

— Dizes bem Anninhas— observou D. Isabel—. Vamos, sobrinha, 
dá-me o braço. E vós, Francisco Bezerra, já que tanto de novas gostais,, 
iratai-me de saber que novas ha de Vieira. 

•— Pelo menos está prisioneiro. São fáceis de saber as novas. 

— Pelo menos, dizeis I Mas não seja mais que prisioneiro. Já seria 
consolação sabe-lo. De uma prisão sahe^se, e elle tem tempo para 
esperar. O peior é dizeremnos que esteve sempre no posto de maior 
perigo. Coitado I tão moço I... Vamos, sobrinha. Estaes fraca ainda ? 

Maiia vaciKou ; masy amparada por sua tia e sua prima, continuou 
a andar. 

— Que nos importa a nós esse moço , mana? « disse a Sra. 
Berenguer. 

— Que nos importa? E^ que não sabeis qae esta casa lhe é obrigada^ 
e como lhe ó obrigada 1 E que não fosse senão por humanidade, não seria 
pena ver acabar tão cedo um rapaz de tanta valia. . . e de tanto valor 
também. . . se é certo quanto asseverarão que elle tem feito ? 

— E' certo, ó — atalhou Anninhas, corando da sua própria ousa-* 
dia» —Não é a primeira vez que Vieira dá provas do seu grande animo 
d esforço. 

. -^ E tudo por ambição •* replicou Francisco Bezerra.— Tudo poc 



— tf — 

(pterer ser ma» do que é. Eu bemlh'o disse muita vez. Mas se não 
querem ! . . . Estes rapazes ! . . . 

— Calai-vos ahi, — acudiu D. Isabel.— Melhor faríeis procurando 
tratar do seu resgate se está prisioneiro, ou de lhe mandar dizer missas^ 
por alma se está morto. 

Maria não podia mais. Sentia de noTO abandonarenwi as forças, 
apezar da sua eoergica vontade. 

Nisto dJrigião-se á poita de um corredor eommum, que dizia para 
o interior da casa, e que servia também de conducto para uma entrada 
particular da habitação, conhecida dos Íntimos delia. • 

Quando ali chegava o grupo feminino, que ia conduzindo Maria, e na 
meio do qual figurava, como por ceremonia, a figura rigida e erecta de 
sua mèí, a aldrava levantou-se do lado de fora com um movimento de 
desusada precipitação. 

O grupo achou-se em face de dous homens que entravào. 

O primeiro era o próprio Vieira ; atraz delle, na penumbra do cor- 
redor apparecia o rosto bronzeado e fulgião os olhos vidrentos de 
Domingos Fernandes. 

III. 

DB COMO os SEGREDOS SE PERDEM NOS DESMAIOS. 

A donzella não pôde resistir ao subtil e inesperado apparecimento 
daqueltes dous homens, que, por causas diversas e oppostas, tinhão 
tomado na sua vida uma influencia tão decisiva. Paraella, Vieira era 
uma espécie de visão celestial, uma resurreição quasi, uma transfiguraçãt) 
da sua alma : o Galabar, acompanhando o mancebo no meio de um 
mysterio que ella não podia nem sabia explicar, parecia-lhe o aojo máo 
da sua vida em luta invisível com o seu aDjo da guarda. Foi uma sensação 
ao mesmo passo deliciosa e terrível. Maria estremeceu toda vendo juntos 
estes dous homens que uma palavra arremessaria um contra o outro como 
dous tigres. Aprendera a conhecer ambos, e apreciava o que faria em 
um a ferocidade, emoutro avingauça do ultraje. Que a sua aventura da 
matta era ainda ignorada de Vieira, advinhava-o ella, porque não sendo 
assim ji não estaria ali mais do que um delles. Sobresaltava-a de 
ubilo ímmenso a presença querida do mancebo ; tomava-a de um terror 
indisível a audácia temerosa do Galabar que ousava apresentar-se ali. 




IS 

Todas estas idéas surgirão súbitas no espirito agitado da donzeUa^ 
ainuindo-lhe cumulatiyamente. 

Era de mais para quem já passara por tantas e t&o differentea 
provações. Soltaiido um grito agudo, cahiu de novo em profundo 
deliquio. 

Vieira avançou precipitadamente um passo, como para Toar em soc- 
corro daquella metade da sua alma, e assaltado também da vertigem, 
encostou-se á umbreira quasi tão desfallecido como ella. 

-> Ah! como se amão I — susurrou Domingos, abafando um rugido 
de fera em um murmúrio ininteLgivel, sem que exteriormente um mus- 
culo se Ibe contrahisse. 

A sua attitade era a de um 'respeito discreto e cootricto. 

No tumulto causado pelo noYO e mais assustador desmaio de Marias 
os incidentes momentâneos desta rápida scena passarão inapercebidoí 
dos '^que lhe ignoravão as causas. Vieira mesmo, em quem por esta 
razão se fez menos reparo, sentiu que era stricto dever seu fazer refluir para 
o coração a torrente impetuosa que delle trasbordava, ainda que ali lh'o 
affogasse ; e tal era a força daquella suprema vontade que, no próprio 
momento em que a Sra. Berenguer vibrava sobre elle um olhar in- 
vestigador e penetrante, teve animo para se adiantar cortezmente e dizer, 
curvando-se, tanto para sauda-la com o acatamento devido á sua jerar 
chia, como para occultar o rubor que nas faces lhe acendia esta dissi- 
mulação que lhe repugnava : 

— Espero, senhora minha, que a imprudência com que me atrevi 
a apresentar-me em uma casa, onde me costumarão á lhaneza de um 
recebimento que mal posso merecer, não terá consequências funestas. 
Voltámos quasi de outro mundo, os que não estamos a estas horas sepulta- 
dos no pontal do Recife, ou em ferros de um inimigo sem palavra, que 
são mil vezes peiores. 

Vieira com o artificio delicado da verdadeira dedicação, insinuava a 
desculpa mais plausiveldo incidente occorrido. 

Lançando em um relance os olhos a Maria logrou continuar : 
— Nada mais natural em pessoa de tanto melindre do que um sobre- 
salto violento, quando se encontrão assim inesperadamente o que era hon~ 
ra cre-los mortos. . . Oh! aculpa nãofoinossa! . . • Se eu pensara, senhora 
minha, que tal sobresalto poderia ser funesto, preferira jazer nos cárceres 
de Olinda, posto que fora roubar a esta terra o braço de um soldado que^ 



á falta de outra yalia, é dos que mais ardem em desejos de cenrer nora* 
mente em seu serfiço. 

Com esta ultima phrase, generosamente calculada. Vieira desvanecia 
quaesquer suspeitas que se pudessem ter suscitado: era expor natural- 
mente a sua resolução de deixar brevemente o engenho para iraventa- 
rar-se de novo nos azares da guerra. Os que se ausentão expoem-se me- 
nos ás interpretações, e Yieira queria salvar Maria de uma vigilância 
injuriosa por demasiadamente severa. 

Tudo isto foi dito com tal sentimento e tacto das conveniências que 
a própria Sra. Berenguer, admirando aquelk Índole feliz em que o ardor 
da mocidade se alliava á prudência mais consummada e onde todos os no- 
bres instinctos se revelavão accordes, nfto p6de deixar de corresponder 
com algumas palavras menos hostis do que os seus olhos podiSo fazer re- 
ceiar. 

Yitlra respirou, e pôde a furto contemplar a foce angélica da donzella 
reclinada nos braços de sua tia e prima entre longas madeixas íluctuan- 
tes, como a estatua de jaspe de uma deusa antiga na attitude de adorme- 
cida e semi-velada pelos crepes da noite. Disputavão-lhe o coraçio suffo* 
o^do a solicitude, o reconhecimento e a alegria ; a alegria por ve-la a final 
quando tão peito estivera de não a tornar a ver ; a solicitude por vô-la 
em taes lances sem poder acompai^a-^la esoccorre-la; o reconheeimento, 
porque de vô-la assim colhia elle aprovado modo por que erão pagos os 
seus extremos. Deus salúa, porém, quanto elle daria para lhe ter poupado 
uma affecção que lhe despertava quasi remorsos. 

£ via, e sentia tudo, como o não vira nem sentira ninguém ; e assis- 
tia, imitando um estranho, a este espectáculo em que se lhe devorava a 
alma I 

Não sabe os tormentos de um constrangimento destes quem nunca 
algemou, como escravas feitas em um combate, as suas sensações justa- 
mente rebelladas, impondo a vontade á paixão, para obedecer 6voz in- 
flexível de um dever impreteriv^. 

— Anninhas, segura-abem. Lavemo-la paraose«^arki-*dizia a so- 
licita D. Isabel. 

— Não, minha mãi, n&o. Já vai abrindo 06 olhos; e Buelhi» agora 
seria conduzi-la para o pé de uma janella; ella é sujint» a, estas deliqmos: 
o ar é o melhor remédio. . . Essa. . . ahi.... essa justamenlek Luita. . . 
Assim I 

A boa e intelligente Anninhas, com aqaellai subtil e caridosa porcep- 



. -14 

^So íeminiBa que é um dos attributos principaes da mulher, verdadeira*' 
mente mulher, sabia, como se Tê, accommodar os seus remédios ás cir> 
cumstancias. 

— Mas é que dous desmaios seguidos, tornou a boa D. Isabel, são 
jâ para dar.cuidado. . . Mariquinhas n&o (está boa, bem se Tê. . . Luzia^ 
Anninhas, com cuidado. . . Olhem não seja ar de mais. . . E logo quer 
a fortuna que não haja na várzea nenhum]physico para lhe acudir. . . 
Ainda o primeiro delíquio, vá... mas este... 

— Este foi resultado do outro, atalhou a previdente Anninhas. 

E depois, em voz baixa, conduzindo Maria á janella, proseguiu ao 
ouvido desta: 

— * Animo, animo» querida; animo, não teadvinhem^.. 

Um colorido ardente escaldou as faces habitualmente pálidas « agora 
hvidas de Maria. Sentia que lhe tinhão penetrado um segredo que ella 
julgava impenetrável, e a sua susceptibilidade virginal até de tal confi- 
dente se envergonhava. 

— Que é isso, primai — Continuou Anninhas. — Arreceias-te de 
mim? 

Maria abaixou os olhos confusa. 

— Yêde como lhe voltão já as cores — disse a menina Góes,jhabil 
em tirar partido de tudo e dirigindo-se a todos. Está já boa, prinoia, 
não ó verdade ?. . . E está linda como nunca. 

E tornou a segredar-lhe curvando-se para lhe dar um beijo. 

— Linda, e tão linda que justifica o arco íris que ali passa pelo rosto 
daquelle pobre moço. ... vê. 

Vieira effectivamente tinha o semblante sob a infiuencia de um cam- 
biante inexplicável. 

Nada mais poético e suave do que o feiticeiro quadro daquellas duas 
deliciosas cabeças juvenis, de caracteres tão^diversos, de typos tão con- 
trastantes» unidas por um osculo sincero e fraternal e cheio de confiden- 
cias. Em só duas cousas se assemelhavão as duas primas; era na bon- 
dade de coração., era na côr dos cabellos^ Nunca, de certo, enquadradas 
em moldura igual brilharão imagens mais diíferentemente formosas. 
Uma era a graça languida, outra a petulância encantadora; uma a me- 
lancolia, outra a vivacidade » e a qual mais seductoraj! 

D. Isabel» mais descançada» voltou-se para Vieira, com um gesto^de 
aíTectuosa benevolência. 

No meio destes multiplicados incidentes , a Sra. Berenguer fizera 



«5 — 

unidamente os movimentos indispensavéis^e pronunciara as paíárras sâ-^ 
cramentaes do seu ritual, que não sahião muito do trilho commum eiíi 
taes casos. 

O Calabar conseryaya se á poita, como se não ousara entrar. A' 
primeira yista pode-lo-ião tomar pelo mordomo da casa, que ali acconêra 
sem se esquecer da siia posição subalterna. 

Quanto a Francisco Bezerra, em vez de occupar uma cadeira, como 
ainda não deixara de fazer^ occúpava dUaà, encostando a uma o busto 
que tinha honra á liiiba recta, e espreguiçando péla otitrá as pernas pen- 
dentes . 

— Bem vindo sejais. Vieira — disse D. Isabel —'.Todos aqui vos fa- 
zíamos prisioneiro. . . senão peior 1 Cousas do senhor meu cunhado! . . . 
O forte resiste? 

— Sé O Sr. Francisco Bezerra vos disse, áenhora tnihha, que o forte 
cahiu em ruínas abrazadas, não fez senão dizer a verdade, como cumpre 
a uma pessoa da sua linhagem e fídõlguia^ 

Francisco Bezerra inclinou-se sorrindo, mas nãag.ostou, porque este 
comprimento dava-lhe seus ares de ironia. 

— Ah ! já sei — tornou D. Isabel — o Sr. capitâo-mór poi final- 
mente por esses mares fora os scísmaticos ? 

— Prouvera a Deus, Sra. D. Isabel de Góes; mas receio muito 
que os hoUandezes se não demorem aqui mais tempo do que seria con^ 
veniente para segurança de todos e interesse da capitania. 

— Então como é que vos achais nesta casa. Vieira, quando Franôisco 
vos dava pelo menos como prisioneiro em Olinda ! 

— Sào-o infelizmente os meus camaradas, excepto um ; é o va-- 
lente António de Lima, o mais esforçado capitão, o mais generoso ho- 
mem de guerra e o cavalheiro mais digno de o ser que jamais recebeu as 
santas aguas do baptismo ; é, se o não sou eu também, senhora minha 
por humilde presa que fôra, dé certo a culpa não é dos de Hollanda. 

Um vivo movimento dé curiosidade apertou todos os grupos; Maria 
mesmo achou forças para levanta r-se. Um sorriso, entre melancólica e 
alvoroçado, lhe rompeu nos lábios rubros, como o primeiro raio da au- 
rora rompe do oriente entre nuvens de purpura. 

— Como dizeis? — interrompeu D. Isabel. 

— Digo, senhora minha — acudiu Vieira, notando o motimento de 
Maria e sentindo abrir-se lhe o paraizo em uma sensação deliciante 
digo, Sra. D. Isabel, que me fizerão raaiis honra do que eu merecifl- 



m 



â6 

— Em que ? Muito mereceis e para muito sois ; mas não é de here^- 
ges sem alma p apreciarem almas christãs. 

— Nesse caso tomareis o seu empenho por uma injuria. 

— Que empenho ? 

— O da minha companhia. 

— Pois fazião empenho na vossa companhia. Vieira? 

— Parece-me ^ue a desejavão particularmente. 

— Não os julgava de tão bom gosto 

— Permitti que vos agradeça, Sra. D. Isabel, a boa opinião com 
que vos dignais honrar-me; mas, no caso presente, concedei-me também 
que não me ufane muito daquella preferencia. 

— Porque? 

— Porque, se os hoUandezes me fazião a mercê de se interessar pela 
minha humilde companhia, eu mostrei-me indigno de tamanha distinc- 
ção, pois, em minha alma e consciência, penso que lhes paguei com 
grande ingratidão, ingratidão que de certo hão de avaliar, e talvesr 
desculpar, todos os que se acharem nas mesmas circumstancias. 

— Explicai- vos, homem, que vos não entendo. 

Vieira, despreoccupado já das suas inquietações pelo estado de 
Maria, e vendo renascer a serenidade e o jubilo no rosto adorável da don- 
zella, entregava* se francamente ao alvoroço daquelle momento, e nem a» 
suas palavras» nem os seus pensamentos tinhão nada de fúnebre. Abrião- 
se-lhe todas as fontes da vida. Brilhavão-lhe os olhos de prazer. O senti*- 
mento dos perigos vencidos, a esperança de novas glorias, a certeza de 
ser amado por uma angélica mulher comum amor comoella, atranquil- 
fídade da consciência e o testemunho brilhante que esta lhe não negava, a 
audácia dos commettimentos heróicos, tudo contribuía para lhe esmaltar 
de contentamentos visíveis aquella malícia innocente e folgasã, insepará- 
vel dos primeiros annos, mesmo nos caracteres mais graves e precoces. 

—Oh! quanto a explicar-vos, senhora minha— respondeu o maa- 
cebo— não será tão fácil. . . Gomo direi eu?. . . Ah I. . . Sr. Francisco 
Bezerra, vós que sois homem, e portanto caçador. . . 

— Caçador, eu I... — exclamou Francisco Bezerra, escandalisado 
como se ouvisse uma heresia grossa ou um desses absurdos inverosimei» 
que fazem saltar de assombro. — Caçador, eu I . . . Fora. . . Andar um 
homem todo o santo dia por montes e valles, po^ matas e devezas, atraz 
de uma triste macuca, que não tem senão pelle e pennas, ou passar horas 
esquecidas á espreita de uma manada de pecaris, arriscado a passarem-lhe 



27 

todos 1)or cima, como se um christão nascesse para servir de tapete 
^quellas alimárias immundas. . . isso é bom para gentios e mestiços, que 
não têm outra cousa que fazer senão procurar-nos a caça que pôde ser 
regalo das boas mesas .. Caçador um bomem decente e grave, . . Se me 
quizessem ouvir. . . 

Vieira, senão fora o respeito devido á dona da casa, pagaria com 
uma gargalhada as grosserias pulullantes na indignação buslesca d^ 
nosso commodista. 

Privado derte pequeno prazer, continuou todavia : 

— Pois senão sois caçador, sois homem, Sr. Francisco Bezerra, de- 
vemos crê-lo, e como homem sabereis provavelmente o que.vou dizer^ 
vos. 

— Dizei. 

— O vaqueiro do Geará, quando encontra um ou mais nandús nos 
campos, tem empenho de o ter comsigo, não tem ? 

— Pudera I— respondeu Francisco Bezerra, qué já tinhafeíto seus ne- 
gócios com os productos industriaes desta caça. — Tem-lhe empenho na 
pelle, D«ft pennas e nos ovos. 

-^ E acreditaes que o nandú, que pelos modos outros chamão ema, 
seja eartremamente grato a esta preferencia do seu amigo vaqueiro ? 

— Naturalmente como o nosso capitão-mór está agradecido aos 
hoUandezes, que lhe vierão fazer visita em sua casa — tornou D. Isabel, 
principiando aperceber. 

liaria sorria, e os olhos faiscantes e as granisas covinhas das faces 
de Anninhas accusavão um desejo excessivo de intervir também com o 
seu contingente, se não íêra a reserva natural do seu sexo e a etiqueta 
implacável, que presidia viva áquella deseafastiada pratica na pessoa de 
sua tia Berenguer. 

— Gomo dizeis, senhora minha- atalhou o mancebo — exactamente 
do mesmo modo. Quo faz o nandú, Sr. Francisco Bezerra, quando o 
vaqueiro, para lhe provar os seus extremos, se lhe chega mais do que o 
ingrato animal julga prudente para si ? 

—Boa pergunta I Foge, se antes disso uma boa frechada, ou mesmo 
uma bala de arcabuz, havendo-o, o não estende no chão.... o que não 
6 uma grande desgraça, porque neste caso apparece mais um par de p o 
lainas e borzeguins onde não entrão os espinhos do mato. . . E ven- 
dem-se por bom preço I 

-- Pois úú. está o que explica o meu caso. 



M 



— 28 

OnaBdú? 

— Nem malg, nera menos, o nandú. 

Francisco Bezerra não tinha nma intelligencia muito proropta. 

— Estais no caso de um nandú ? 

— Estive. Parece que os hol]andez<?s têm o quer que seja dos ins- 
tinctos do vaqueiro, e eu imitp.i o nandú; fui ingrato, como elle, ás ins- 
tancias e deligencias do caçador,., quero dizer, do Sr. Vanderburg. 

— Qae nomeé esse? 

— E' o nome de um homem excellente, que nos pediu a todos quan- 
tos oramos, ou antes quantos escapáramos do forte, a honra da nossa 
companhia, na qual se comprazia tanto, dizia aquella alma deíDeus, que 
só para nos ter mais certos nos queria fechai nos cárceres de Olinda.. . 
E fechou a muitos.— Deus lhes acuda! que praguejSo agora a sua credu- 
lidade. Eu p.la minha parte, julgando-me indigno de tamanha honra, 
preferi... 

— Fugir? — atalhou Francisco Bazerra, encantado de achar esta pa- 
lavra, que podia ferir um piuco a susceptibilidade do moço soldado. 

— Fugir, é verdade, tornou Vieira com um ar de altiva soberania 
que metteu o censor dez varas pelo chão; n^as ficai descansado pela gloria 
desta terra, que tanto cuidado vos dá, como vejo... Conheço muitos 
que não se atreverião a fugir assim. 

O refle ro do incendido olhar de Vieira passou nos olhos de Maria» 

— Ohl contai-nos, contai-nos como foi, exclamou Anninhas, esque- 
cendo tudo e saltando de contente, na esperança de ouvir uma historia 
maravilhosa com a vantagem de lhe conhecer os heroes. 

— Contai-nos isso, Vieira — , insistiu D. Isabel, quasi tão impa- 
ciente como sua filha. 

Francisco Bezerra grunhiu e estendeu-se ainda mais. 
-- Oh I se quereis ouvir, minha senhora — redarguiu Vieira — 
ali tendes quem vo-lo poderá contar pelo menos tão bem como eu. 
E apontou para o Calabar. 
Maria tremeu toda. 

IV. 

EM QUÇ AYRES GIL SB ILLUSTBA POR NOVOS FBITOS. 

Effectivamente Domingos Fernandes podia dizer muito da fuga de 
Vieira que não fora nunca fuga ordinária ; e o que elle não podia dizer 
ç^ão seria preciso muito para obrigar o mancebo a conta-lo. Bastava a 



29 

presença de Maria. Ha um certo attractivo em recordar os riscos passados, 
sobre tudo quaudo ha a consciência perfeita de verdade e dadiíUculdade, 
e quando se sabe que entre os ouvintes se acha quem os tome como pró- 
prios. Na extrema juventude, é tanto maior esta seducção da própria 
vaidade quanto menos se tem vivido. 

Aproveitaremos, pois, as revelações doquelles dous oppostos cara- 
cteres, e ensaiaremos uma narração retrospectiva, em todo o caso ne- 
cessária á intelligencia dos successos. 

Deixámos os prisioneiros do forte de S. Jorge desarmados e en- 
tregues á guarda de um numero duplo de hollandezes. 

O seu destino era as cadêas de Olinda onde a má fé execranda de 
Vanderburg ia sepulta-los contra a palavra jurada. Gomo vimos, cfi- 
minhavão dous a dous pelo espreito pontal de arôa que levava á cidade. 

Além do Biberibe, corria quasi paralella á rezinga, a orla verde- 
jante da Várzea, que se tinha tornado para os pobres prisioneiros em 
uma espécie de terra promissão, tão inaccescivel como desejada. O acaso, 
ou antes a escolha do mosqueteiro Ayres, tinha collocado ette nosso an- 
tigo conhecimento ao lado de Vieira. A poucos passos dos reaes do ge- 
neral, o commandante da escolta que acompanhava os prisioneiros, 
achando-se separado do grosso das forças, teve por prudente multiplicar^ 
as precauções-, e, neste intuito, deu algumas ordens em voz baixa a um 
dos seus subordinados que partiu em continente com dous camaradas 
por elle escolhidos, e voltou minutos depois com um certo volume de 
cordas. 

A intenção tornava-se visivel, o precatado hollandez não se conten- 
tava de os levar desarmados; queria-os manietados. A vizinhança da Vár- 
zea e a estreiteza do rio, dava-lhe pelo modo sérios cuidados. 

A operação não se effectuou sem excitar alguns murmúrios ; e em 
muitos mesmo violentas reclamações ; mas um duplo renque de mosque- 
tes de um e outro lado, Olinda na frente e Vanderburg na retaguarda, 
inspiravão uma resignação, a que os mais insofridos não tiverão remédio 
senão sujeitar-se. 

Ayres deixou-se atar solidamente as mãos atraz das costas, pouco 
mais ou menos como um jaguar colhido no laço deixaria vestir um co- 
lete de barbas. 

Quanto a Vieira, assim pelos seus verdes annos, como pela defe- 
rência que lhe mostravão os camaradas, o que indicava ser pessoa de 
maior consideração, como porque o hollandez entendesse que três ^u 



â 



30 — 

quatro homens soltos Dão ousarião nada, rendo os seus companheiros 
absdutamente impossibilitados ; quanto^ a Vieira, repetimos, foi isenta 
desta humilhação bem como António de Lima, AfTooso de «Albuquerque 
e algum outro officiai, os quaes todos marcharão na frente, sob a rigilan* 
cia immediata do commandante. 

Satisfeitos estes preliminares, a escolta poz-se a caminho com o 
passo lento, indispensável a quem acompanhara homeos, que, nSo po- 
dendo fazer uso dos braços, tiobão os morimentos mais contrafeitos. 

A pouca distancia, Vieira notou que o seu vizinho reflectia pro- 
fundamente. Ora, Vieira tinha aprendido a conhecer suíficientèmente o 
mosqueteiro para saber que este nunca reflectia debalde. 

Como a reflexão em certos casos parece tornar-se commanicatira, o 
mancebo oomeçou a reflectir também . 

Mas, ambos elies erão homens de acção. O resultado desta dupla 
cogitação foi cruzarem dali a instantes um rápido olhar. Ayres obserrou 
nos olhos de Vieira um como raio de prazer, que não era rasoarelmente 
admissird em semelhante ooojunctura, circumstancia que o fez scismar 
mais profundamente ainda. Vieira, pela sua parte parecia-lhe ter risto 
nos olhos de Ayres como um signal quasi imperceptirel de malicioso e 
resoluto assentimento. Gomo lhes não era prohibido faliar e os hollandezes 
não podião entende-los, e como, além disso, o commandante da escolta, 
em virtude das suas precauções, que elle julgara suflicientes para poder 
sem receio conduzir os prisioneiros até Bataria, como, dizemos , o 
commandante na marcha houresse afrouxado um pouco os rigores da 
rigilancía, exemplo seguido logo de boa rontade pelos seus soldados, 
Vieira julgou opportuno fazer certas indagações prudentes acerca do es- 
tado do espirito do nosso mosqueteiro. Ayres no entanto assobiara por 
entre dentes uma solfa mesclada, o que nelle era, como se sabe, não só 
um indicio de satisfactorias preocupações, mas o annuncio de uma idéa 
luminosa e dirertida. Vieira conhecia no mosqueteiro uma certa dose de 
pbylosophia pratica; mas não lhe suppuoha tanta que elle encarasse com 
tal desapego a sua nora posição. 

Por consequência, mais se confirmou nas suas duridas^ e resolreu 
esclarece-las. Para isso verificou primeiro se o judeu interprete ca- 
minhara a uma razoarei distancia, e tere a cautela de dar á roz uma 
intonação que não pudesse transpor as filas mais próximas dos soldados 
que os ladearão, marchando indifferentes como se as orelhas se lhes ti- 
ressem tornado imperraeareis a todos os sons humanos. 



— 31 

— Heim, Gil I — disse elle<!om um expressivo e rápido movimenta 
de olhos. — Formoso rio é o Biberibe e hcje mais formoso do que nunca: 
me parece. 

— U)nfesso que menos formoso me pareceria se elle tivesse a 
largura lá do nosso Tejo de defronte de Lisboa ou se uma corrente en- 
diabrada como a do Douro em cheia de inverno. O que mais me captiva 
nelle é o seu commedimento e a modéstia das suas aguas. Não é desses 
rios ambiciosos que levão tudo adiante de si e estendem os braços a per- 
der de vista. Por um desses não dava eu agora um ceitil. 

— E por este? 

— Oh ! por este ó outra cousa. Tive sempre uma queda pajpticular 
para os rios assim. Em duas braçadas, um homom acostumado a passar 
as ribeiras da índia que não são para graças, e a guerrear por terras de 
charcos e alagôas, em duas braçadas, digo eu, está da outra banda, e, 
depois, com ser um rio poupado, sempre é um rio, ou, quando menos, 
um fosso que nem todos atravessão. Heim, Sr. Yieir* ? 

Vieira tinha resolvido as suas duvidas, desde aquf lie momento 
havia entre elles uma complicidade que só os dons entendião. 

Mas n^isto o mancebo lançou os olhos aos braços de Ayres fortemen- 
ligados e crusados atraz das costas, e uma sensação de extrema piedade, 
apertando4he o coração , lhe contrahiu o semblante. 

Ayres observou nestes indicies e sorriu. 

Vieira» que não cessara de observar o seu companheiro, começou a 
notar-lhe um movimento desusado. Parecia que uma legião de insectos 
se lhe havia apoderado do busto, tal era a vivacidade com que cingia ao 
corpo a parte superior dos braços coina se em uma frenética fricção qui- 
zera livrar-se de uma impres&ão incommoda, tendo cuidado todavia de se 
não fazer muito reparado dos hoUanikzes. 

Vieira havia já amadurecido o seu projecto; mas repugnava-lhe pô-lo 
em pratica, abandonando o mosqueteiro. Além disso, dous homens reso- 
lutos reunião muito mais probabilidades de executa-lo do que um só. 

Por outro lado, decepar elle as cordas que sujeitivão os pulsos de 
Ayres, era denuncia-los a ambos sem aproveitar a nenhum ; nem seria 
possível fozê-lo com a necessária velocidade, porque os hollandezestinhão 
tido o cuidado de os privarem a todos de qualquer género de arma cor- 
tante. 

A imaginação inventiva de Ayres Gil não cedia porém facilmente 
a taes obstacuk>s. Pesava também todas as difficuldades, e, emquanto 



ê 



32 — 

Vieka pensava sobre a sua sorte, que se lhe íiguraTa irremediável, já 
elle tinha concettado comsigo mesmo um plano tão simples como enge- 
nhoso. 

No cinturão de couro-, que lhe apertava o gibão, e&tava solidamente 
fixado um gancho de ferro, destinado a trazer suspensa a forquilha j e 
em certas occasiões a servir-lhe de auxiliar para suster o peso do mos- 
quete. As arestas polidas deste pequeno instrumento, de que elle nunea 
pensava poder tirar utilidade tamanha, gastas pelo attrito continuo e 
pelo tempo, havião-se afilado como o gume de uma faca ordinária. Era o 
que lhe bastava. 

Havia tô um pequeno obstáculo, que nesta occasião, era de uma 
importância decisiva. O gancho collocado sobre a frente, um poueo 
latteralmente para a direita, ficava na direcção opposta ao laço da corda 
que lhe prendia as mãos nas costas,e a aproximação saltadora paiecia ab- 
solutamente irrealisavel. 

Ayres, estratégico experimentado, calculara todas as eyentuaUdades* 
Gomo trouxesse o cinturão suficientemente largo para o não comprimir, 
não só porque em tempo de guerra a uniformidade cede muitas vezes 
logar ao commodo e ao desejo natural de facilitar os movimentos, mas 
porque a situação em que se achava, depois do rendimento do forte, o 
dispensava das etiquetas da disciplina rigorosa, como se desse, dizemos 
esta circumstancia accidental, o nosso mosqueteiro fundou sobre aquella 
particularidade, minima na spparencia, um projecto audacioso, mas 
razoaveh 

A agitação de braços, que Vieira admirado lhe observava, e única 
acção possível naquelle estado, tinha por fim imprimir ao cinturão bas< 
tante lasso para poder girar, um movimento de rotação lento mas po- 
gressivo, que era naquelle momento a base de todas as suas esperanças . 

Tão verdade é que não ha nada grande nem pequeno, sendo tudo 
relativo, porque geralmente tudo tira o seu valor das hypotheses. 

Eflfectivamente, todo o destino de um homem, de dous homens tal- 
vez,— e Deus sabe quantos outros e quantas cousas depen lentes delias 1 — 
estavão naquelle instante exclusivamente attinentes a um instrumefito 
insignificante, que o soldado robusto muita vez julgara perfeitamente dis- 
pensável, e a uma acção vulgar, que em outro caso fora ridícula. 

A' força de tempo e paciência, Ayres estava a ponto de conseguir 
a coUocação ardentemente desejada. Mas no entanto ião caminhando, 
e, sendo curto o trajecto, o mosqueteiro sentia redobrar-lhe a anciedade 



— 33 — 

«O passo que se aproximarão dos muros da cidade. As probabilidades de 
bom êxito não estavão senão no tracto do caminho em que o rio era mais 
estreito e os mattos fronteiros mais espessos e cerrados. Vieira sabia-o 
também, e incaraya o mosqueteiro com inquietação crescente medindo 
avidamente o espaço com os olhos, como quem em alguns passos mais 
veria fugir-lhe uma occasião preciosa e com elia esperanças mais pre- 
siosas ainda. 

Ayres suava em baga e o observador attento lerlhe-bia no rosto a 
feidiga que provém, tanto de um movimento penoso por ser contrafeito, 
eomo de uma violenta tensão de espirito. 

— Be fosse possivel ganhar alguns momentos - murmurou elle em 
voz apenas perceptível para o seu companheiro — Mas esses desalmados 
desses herejes nem um credo nos deixão. 

— E bastar-vos-hia isso, Ayres ?— perguntou o mancebo no mesmo 
tom, cóm uma inflexão de dclorofa incredulidade, apezar de toda a sua 
confiança nos recursos do velho soldado. 

— Por cinco minutos de paragem dera eu agora todas as adegas do 
reino, e toda aeerv^a de Flandres «nda em dma, redarguiu o mosque- 
teiro , faUando como em um confessionário e resfolegando como um 
cacfaalote. 

Como se vê, Ayres nos seus momentos de apuro era de uma^rodi- 
gfflidade magnificente. 

Deste momento em diante. Vieira, que nada respondera, começou a 
demorar ainda mais o passo, apezar de estimulado pelos hoUandezes, 
mostrando um semblante abatido e queixoso. 

Ayres agradeceu-lhe em um lanço de olhos eloquente de gratidão. 
A impressão que o incommodava tão estranhamente, havia quasi produ^ 
zido um delírio : tamanha era a sua agitação. O mosqueteiro tinha-se jã 
lembrado do meio empregado por Vieira ; mas, além de ter boas razões 
para fugir de chamar a attençãO sobre si, sabia perfeitamente quem 
mesmo em tal caso, a categoria superior de Vieira d«Va a este, muito 
mais probabilidades de resultados. 

A poucos passos Vieira parou como desfallecido, e em voz fraca pe- 
diu para fallar ao commandante da escolta. Os hoUandezes que o tinhão 
visto no oombate, respeitavão-o involuntariamente. Alguns condoião-se 
eattribuião eita súbita fraqueza ás consequências de tantos trabalhos, se 

não ao desconsolo da sua posição presente. 

5 



34 

O desejo de Vieira foi em breve commuuicado ao commandanie. da 
escolta, que marchava ao lado de António de Lima. 

A palavra de um prisioneiro de certa consideração é sempre atten- 
dida, porque se^esperão delle revelações, ou concessões devidas á refle- 
xão, que na guerra nunca são para desprezar. 

Nas instrucções do commandante havia a semelhante respeito moa 
recommendação expressa. Este, portanto, não hesitou em ceder ao pedido 
de Vieiía, que parou por Lão poder dar mais um passo. 

Ghegâra-se ao ponto em que o rio se arqueava em uma ligeira 
curva, sobre modo favorável ao projecto dos nossos amigos. 

O commandante veiu, pois que Vieira declarara positivamente que, 
vivo, não avançaria nem uma linha, attenta a sua absoluta impossibi- 
lidade, pelo menos, emquanto não fallasse com aquelle official. Mas aqui 
apparcceu a verdadeira diíficuldade ; porque, fallando linguas diversas, 
nem Vieira se entendia com o commandante, nem o commandante com 
Vieira. 

Foi preciso, pois, recorrer ao interprete judeu, que, desejoso de 
rever os seus lares, ia na frente, circumstancla que demorou ainda al« 
guns minutos a conferencia que tinha todos em espectativa. 

No entanto, parada toda a linha, as illds mais próximas gropavâo-se 
curiosamente em torno dos futuros interlocutores, encostado qual ás suaa 
arma^f 

Ayres, á sombra desta parede viva, reparando que a aitenção geral se 
concentrava exclusivamente em Vieira e no official hollandez, continuava 
deseperadamente as suas diligencias. 

Apenas sentiu a aresta aguda do gancho de ferro em conveniente 
contacto com a surpeficie áspera e orbicular do laço, o movimento do» 
braços de horisontal que era tornou-se vertical, mas sempre com a 
mesma fúria de acção, salvo quando os olhos indolentes de algum 
dos circumstantes cahião descuidados sobre elle que activamente os 
investigava, porque então a immobilidade do desalento succedia imme- 
diatamente áquelle singular prurido, de modo que não seria tacil achar 
na physionomia astuta do soldado habitualmente tinta de uma certa ma- 
lignidade, impressão que não fosse a de uma apathia profunda. 

Chegado que foi o interprete, o official dirigiu a palavra a Vieira 
nestes termos, que o sectário de Moysés traduziu logo fielmente. 

•— Aos vossos desejos cedo, mancebo. Tereis de certo reflectido 
melhor. Os incommodos que padeceis são para vós de bom conselho* 



\ 



— 35 — 

O general não quer ostentar crueldades inúteis. A sua condição única, 
]i a ouvistes, assim vós como es vossos camaradas. Jurai não pegarem 
armas contra os Estados em toda esta campanha, e sereis livre. Todos 
vos daremos os soccorros de que precisardes. Heis de ter seguramente 
parentes e amigos e familia qud se consomem por vós. ^ão é o primeiro 
soldado que tal juramento dá. Dai-o, e minha palavra vos dou também 
que podereis retirar-vos para onde vos a ppi ou ver. 

Ayres, mesmo naquella situação desesperada , não se pôde ter que 
não sacudisse expressivamente os hombros. 

Quanto a Vieira, ao ouvir de novo a ousada proposição, fitou no hol- 
landez uns olhos cheios de sarcástica resignação, e contentou-se de trans- 
mittir pelo judeu esta resposta ao oíEcial. 

— Os trabalhos acabârão-me. Um muribundo não carece de dar 

juramentos inúteis. Quero um confessor. 

O próprio Ayres Gil recuou involuntariamente de sorpresa. 

A voz lenta e examine de Vieira era a de um moribundo ; mas a côr 
do rosto e a vivacidade dos olhos desmentião um pouco esta apparencia 
mórbida. 

O pedido de Vieira pareceu ao commandante tão disparatado e fora 
de todo o propósito, que lançou em roda de si um olhar investigador e 
inquieto. Mas o rio estava deserto, o mato fronteiro silencioso, os prisio- 
neiros na impossibilidade de qualquer tentativa, e os seus soldados ar- 
mados e prestes rodeavão-o de todos os lados, fechando o passo â des- 
graçada guarnição do forte. 

Quando o oíficial suspeitoso fez a sua inspecção circular, Ayres, 
{precavido, tomou um ar tão penalisado e contricto, que este excesso de 
prudência esteve a ponto de lhe ser fatal. O hollandez, que havia anterior- 
mente notado a petulância soldadesca do mosqueteiro, pasmou de ver a 
cara mortificada com que vinha acho-lo, o que provocou da sua parte 
um exame mais aturado e minucioso do que podia convjr ao nosso amigo! 
Felizmente o hollandez, que era propenso á philosophia, contentou-se 
de registrar em uma observação mental cheia de reflexões criticas — que 
os homens de seção, privados delia, crão os qile mais facilmente succum- 
bião á desgraça. 

Descalçado neste aphorismo, que se lhe figurou da mais fina me- 
thaphysica, e sobre tudo de uma verdade concludente, o hollandez vol- 
veu novamente a sua attenção para Vieira, que so julgava propinquo a 
render o espirito, segundo elle dizia. 



— 36 — 

Um confessor não era cousa que se pudesse achar â mSo. Do Recife a 
Olinda não seria muito fácil achar um ; e, quanto a procura-lo no interioF, 
não era cousa em que um hollandez pensasse. Ora, o que neste mund»^ 
menos o preoccupaya era que um dos seus prisioneiros morresse ou não 
sem confissão. Por humanidade quizera sal?ar4he a yida, mas a alma 
não lhe dava o mínimo cuidado. 

Reflectindo bem, e attentando nos poucos annos de Vieira, não es- 
tava looge de pensar que o despeito inspirava a Vieira a maligna desforra 
de zombar delle. Nesta supposição, roltou-se para o seu sargenio em 
tom breye e peremptório : 

— Que o facão andar; e, se absolutamente não puder, conduzãoo^ 
Mas a caminho promptamente. 

£ afostou-se, confiando ao seu subalterno a execução desta ordem. 

O interprete judeu communicou-a a Vieira, e perguntou-lhe se pode- 
ria caminhar. 

Vieira soltou um gemido, que parecia o ultimo de sua vida. 

O sargento ordenou a dous dos seus mosqueteiros que trayassem 
cada um do seu braço ao mancebo, e, por força ou por vontade, se- 
guissem com elle para a cidade. Vieira, pelo movimento que se operou 
nos soldados, percebeu a ordem, e fitou anciosamente os olhos em Ayres^ 
Ayres correspondeu-lhe com um leve movimento de cabeça, que se podia 
muito bem tomar por uma affirmativa. 

Sentia elle a corda por um fio, e a aresti afiada do gancho morder 
já tão*profundameDte o liaho, que em alguns pontos nao respeitava mesmo 
a epiderme do prisioneiro. Mas o mosqueteiro não era homem a quem 
servissem de obstáculos algumas arranhaduras mais ou menos, e nem^ 
por sentir o ferro funccionando menos regularmente do que f6ra para de- 
sejar, deixava de continuar cada vez com maior impecto. 

Cumpre agora explicar a posição respectiva das nossas personagens. 
Vieira está á esquerda do mosqueteiro, e quasi á orla da restinga sobre 
o rio. A' sua direita , na mesma Hnha o nosso Ayres que se ia 
insensivelmente aproximando. Junto de Ayres o inter^Nrete judeu, que 
o sargento forçara a ficar ali para se entender com o supposto moribundo. 
Ifais acima, para a banda de Olinda, o sargento, doctrinando os mos- 
queteiros para obedecerem á ordem recebida; e próximo delle os dous 
soldados escolhidos. Um pouco mais aquém e além o resto da escolta, em 
filas irregulares, distrahidos todos para um e outro lado, e oppressos di> 
calor do dia e da monotonia do serviço. 



— 3T — 

De repente, o supposio enfermO) derribando com os braços dou9 
hollandezes que lhe interceptayão a communicação, de um pulo de 
jaguar arremeçou comsigo ao rio, bradando em ar de proTOcação e 
desafio â escolta inteira. 

— S. Jorge pelos Brasis I 

No mesmo momento uma yoz lastimosa clamou : 

— Deus de Isaac e de Abrahão, yalei-me ! 

Ayres, vendo aberto o caminho, estallára em um esforço ultimo os 
derradeiros fios da corda, quasi de todo gasta. 

Vendo isto, as filas dos hollandezes tentarão agglomerar-se sobre 
elle ; mas o robusto mosqueteiro, travando do mísero interprete, fez delle 
um escudo, avançando em dous saltos até â beira do rio. Ahi, sempre 
abraçado ao infeliz hebreu, gritou-lhe : 

— Dá graças a Deus, que morres baptizado, cão judeu I 

£, empurrando o interprete, atirou comsigo á agua como Vieira. 

Dous baques soarão quasi simultâneos. 

Em um momento um renque de mosqueteiros hollandezes guarneceu a 
orla da restinga. 

Passado um instante, as cabeças de Vieira e do mosqueteiro, a pou- 
cos passos de distancia um do outro, apparecôião á cousa de vinte braças 
da margem, no meio de um redomoinho, e, coitando direitos á várzea, 
surgião á superfície para respirar. 

— Fogo I bradou instantaneamente o commandante da escolta, des- 
esperado. 

Uma descarga regular acompanhou quasi a ordem do hoUandez . 

Mas já os nossos amigos haviào mergulhado de novo, nadando entre 
duas aguas, como dizem os marítimos. 

As balas recochetavão ao lume d^agua, saltando de distancia em dis- 
tancia além dos fugitivos. 

— Qual de vós outros sabe nadar?— perguntou anciosamente o 
commandante. 

Quatro mosqueteiros de Flessingue, que havião servido na armada, 
apresentárão-se em continente. 

— Um mez de soldo, em nome do general, se m'os trazeis aqui 
vivos ou mortos ; um anno de cárcere e cem bastonadas se appareceis 
sem elles. 

O hollandez tinha comprehendido que seria pouco útil fazer fogo sobre 
os prófugos, attenta a sua admirável presença de espirito e a facilidade 



38 

de mergulharem. Além disso, as armas de fogo daquella época não per- 
mittiâo descargas tão velozes e tão rápidas como as de boje. Todavia, oi 
mosquetes descarregados forão logo substituidos por outros para que se 
pudesse fazer fogo immediatamente sobre a margem opposta, apenas o& 
nossos heroes ali quizessem aportar. 

Os quatro scldados, &em deixarem os mosquetes que traçarão, ar- 
remessarão-se á agua, mostrando desde logo que er2o nadadores de 
uma força pelo menos igual á de Vieira e Ayres. 

O israelita vinha á ^upeiflcie quando o primeiro dos antigos marí-> 
timos de Flessingue entrava no rio Assim, com aquelle instincto de 
conservação que nunca abandona o homem, o primeiro cuidado do in- 
terprete foi segurar-se com a aocia do naufrago áquelle inesperado soe- 
corro. Paralysando os movimentos do soldado, corrião perigo de se af- 
fogarem ambos. 

O hoUandez, vendo que os seus companheiros lhe tomavão a dinDteir^, 
murmurou uma praga horrivel, procurou no cinto a sua adaga para se 
livrar daquelle estorvo incommodo. 

— Trazei-o á terra— bradou o commandante condoído 

O soldado obedeceu, posto que não muito por sua vontade. 

O judeu, tomando pé, desatou em uma torrente de acções de graças 
a todos os prophetas. 

O soldado «rremessou-se de novo, bracejando com um vigor que 
justificava as suas esperanças de ser o primeiro em cantar victoria. 

Começou então uma espécie nova de perseguição, tão cheia de inte- 
resse que, na margem guarnecida, todas as respirações estavão suspensas 
e todos os peitos anhelantes. 

As armas pesadas dos hoUandezes demoravão os seus movimentos; 
mas, por outro lado, os nossos amigos, sendo obrigados a mergulhar 
frequentemente, com receio do fogo da margem, perdião um tempo pre- 
cioso. O mosqueteiro hollandez que estivera a ponto de ser viclima do 
judeu, apezar de ter perdiio um considerável avanço, parecia já o mais 
próximo ao triumpho* Era um daquelles antigos marinheiros dos esta- 
dos, que então quasi não tinhão rivaes, a não ser entre os ousados nave- 
gadores, cuja escola com tanto esmero formara o inJEante D. Henrique. 
Podiase dizer que nascera no mar, e sé passara a servir no exercito de 
terra porque, tendo-se decidido ao casamento, julgara que lhe convinha 
uma vida que suppunha mais sedentária. O destino e a companhia das 
índias haviào decidido outra cousa. 



— 39 — 

Achando-se no seu elemeotò, todos os antigos hábitos e instinctos 
rosurgiào no marinheiro soldado com vigor noYO. Os seus companheiros 
estayão pouco mais ou menos em casos análogos. Estimaláya-os a re- 
compensa promettida, o temor do castigo e sobretudo a emulação. Os 
seus camaradas assistiào reunidos áquella estranha e improvisada luta, 
e cada qual tomava a peito mostrar a sua superioridade , não só sobre os 
que havião ficado em terra, senão também sobre os que o acompanhavão 
em uma empreza que fixava a attenção geral. 

Quanto aos nossos heroes, todos sabem já que homens erão. Tinhão 
atraz de si o captiveiro e a morte ; adiante a vida e a liberdade. 
António de Lima, estreitamente vigiado com todos os outros presio- 
neiros, tivera tentações de applaudir o rasgo^heroico dos dous fugitivos, 
e muito mais de os seguir. Militara, porém,sempre em terra e não estava 
no caso de Vieira, habituado ao paiz, para quem os rios e lagoas erão 
pequenos embaraços, nem o posto lhe dera occasião nunca de provar 
forças, como Ayres, naquelle elemento. 

Vieira era naturalmente o mais adiantado. Os nossos dous fbgi- 
ti?os, por uma táctica semelhante, a cada mergulho obliqua vão, ora a 
um, ora a outro lado, tanto para illudír a direcção dos mosquetes, cuja 
pontaria não era fácil de fixar rapidamente, como para fazer perder a sua 
direcção aos nadadores hollandezes, que por amor próprio de certo 
parecião empenhados em prea-los mesmo no rio. Estes circuitos, porém, 
posto que salutares, retardavão singularmente a sua arribada ao porto 
de salvamento, e augmeniiiva os perigos. 

O hoUandez marinheiro, que mais particularmente mencionámos, 
ganhava espaço visivelmente sobre Ayres, que lhe ficava mais próximo ; 
e, animado pelos gritos e applausos dos seus camaradas, multiplicava os 
esforços para se assenhorear da presa. Os outros seguia» Vieira com 
porfia não menor, cemo a pessoa de maior consideração. 

Estavão já á distancia minima da margem ; mas Ayres perecia per- 
dido sem remédio. Sentindo a respiração violenta do seu adversário, 
viu-o junto a si estendendo já o braço para segura-lo. Mergulhando 
de repente, emquanto o impulso que o hoUandez levava o fazia avançat 
involuntariamante contra o vácuo, por uma inesperada e atrevida ma- 
nobra, surgiu justamente atrás delle, e, impellindo-o irresistivelmente 
com um dos braços, emquanto nadava com o outro, levou-o de um 
jacto insta&taneo até tomarem ambos pé, quasi simultaneamente, com 
agua até aos peitos. O hoUandez traçara o mosquete sobre o pescoço, 



40 

e ieyaya a corda acesa segura nos dentes. Ás armas datto-lhe, poh 
uma vantagem incontestável em terreno firme ; mas, tendo conservado a 
bocca serrada por tempo considerável, estava a ponto de suffocar, o 
qae lhe tirava parte das forças. 

Sentindo tomar pé, e tomando-o elle mesmo, Ayres lançou a 

« 

m&o ao mosquete do hollandez, e, puxando-o fortemente a si, fez perder 
novamente o pé a este ; e, correndo pela agua quanto lhe permittia este 
obstáculo, arrastou-o apoz si, sem que o hollandez aturdido lhe pudesse 
obstar. Chegando ao alto da riba, que descia em plano inclinado, largou 
instantaneamente o seu contrario, que, tombando de bruço, procurou 
logo levantar-se. Quando este, sem ter tempo de empunhar as armas, 
se arqueava para erguer-se, enlaçou-o por meio corpo, tomando*-lhe 
ambos os braços, e alçou-o ao ar, voltando-o para o fogo dos seus cama- 
radas, pouco mais ou menos como Milon de Crotona faria perder a arena 
aos athletas rivaes, ou como Hercules se assenhoreou de Authes. 

O commandante da escolta, que via tudo, raivava desesperado; mas 
08 mosqueteiros hoUandezes não ousavão fazer fogo, porque não po- 
derião tocar em Ayres sem sacrificar o seu camarada. Ayres, que se dera 
bem com o ensaio deste novo género de escudo, experimentado na pessoa 
do interprete, repetia a tentativa em uma prova mais digna delle. 

O hollandez forcejava por se desembaraçar do mosqueteiro com a 
desesperação da vergonha ; mas o mosqueteiro, cujos músculos ei&o 
de ferro, recuava lentamente, sem vacilar todavia. Em poucos mo- 
mentos Ayres triumphante, com o seu perseguidor, tomado seu pri-> 
sioneiro, desappareceu atraz do mato espesso, cujo conhecido abrigo 
não cessara de procurar com os olhos. 

No mesmo tempo em que esta scena se passava, outra não menos 
prodigiosa tinha logar a poucas varas de distancia. 

Vieira, que tinha também formado o seu plano, procurara expres- 
samente um ponto em que a margem, não em talude como mais abaixo, 
mas abrupta e cavada pelas aguas refluídas da conv^fexidade fronteira, 
descia a prumo sobre o rio. A extremidade flexivel de um cipó verde, 
que engrinaldava, a alguns passos para o interior, o tronco gigantesco 
de um vinhatico, colleando pela terra, vinhar pender sobre as aguas como 
procurando beber a frescura delias. Vieira nadou direito áquelle sitio. 
Atraz delle vinhão os três hoUandezes como os três Curiacios, distan- 
ciados reciprocamente pela medida das suas forças e indiflferentes a tudo 
o mais. A caça humana parece ter também a sua attracção enebriante. 



— 41 — 

Vieira lançou a mão ao cipó, estendido eomo um braço soccorredor^ 
e respirou largamente. O hollandez mais próximo julgou-o extenuado 
e avançou com mais ardor. Vieira deixou-o aproximar-se, e, largando 
o cipó, voltou-se subitamente para elle. O bollandez, que não podia 
pensar em um ataque, estupefacto um momento, sem pensar na sua pró- 
pria conservação^ quiz segurar nos braços, cingindc-o, o mancebo, 
que vinba por assim dizer lançar-se nelles. Mas já a mão experta e 
veloz de Vieira lhe arrancara a adaga do cinto, e lh'a cravara na gar- 
ganta por cima da gorgeira. O hollandez soltou um gemido abafado, 
agitou as mãos contra a agua com um movimento insensato, e dahi 
a pouco afundiu-se como um peso inerte. Vieira, qua&i do mesmo 
golpe, havia cortado a correia que lhe sustinha o mosquete ao pescoço, 
e na própria mão com que segurava a adaga tomara um dos extremos 
delia, de sorte que o pobre hollandez, indo ao fundo, deixou-lhe natural- 
mente nas mãos, livre da sua prisão, a arma de que o misero pela 
ultima vez usara. 

Tudo isto foi passado em um credo. Oi outros dous hollandezes, 
sem bem perceberem ainda o que succedêra, avançavão rapidamente. 
Vieira, segurando nos dentes a correia cortada d'onde o mosquete pendia, 
e rebocando-o por assim dizer, sem largar a adaga da mão direita, 
voltou-se de novo para a margem. Segurando-se com a esquerda ao be- 
maventurado cipó, arremeçou com a direita a adaga para cima, onde 
foi cahir de ponta, cravando se na terra ; e, tendo já ambas as mãos 
livres, subiu á força de pulsos por meio da planta filamentosa, cuja con- 
sistência conhecia, como poderia fazer o mais experimentado marinheiro 
pelas cordas conhecidas de um navio, levando comsigo, preso nos den- 
tes pela correia cortada, como dissemos, o mosquete conquistado. 

No mesmo ponto um chuveiro de balas veiu interrar-se-lhe aos 
lados, com a rara felicidade de só uma lhe roçar o hombro. O movi- 
mento oscillatorio desta ascensão gloriosa contribuiu de certo para 
salva-lo. 

Quando Vieira, pendente ainda sobre as éguas, attingia quasi a 
margem superior, os dous hollandezes nadavão lilteralmente no sangue 
do seu companheiro, que tingia a superfície do rio. Rugindo de furor 
e vendo a disposição do terreno, es dous perseguidores restante sepa- 
rarão-se e forão tomar pé cada um do seu lado do ponto em que 
Vieira subira. 

O commandante bollandez soltou uma blasphemia. António de lima, 

e 



4S 

junto delle, sorria com a(iaelle sorriso tranqnillo que têm os mftrtyres 
e os heroes. 

— - Fogo! — br&dou o hoUandez aos seus mosqueteiros. 

Chegado ao cimo, Vieira arrancou do chãa a adaga que ficara 
cravada na terra; e, levantando- a em uma das mãos, emquanto na outra 
agitava o mosquete como um trophéo, clamou em voz clara e distincta 
com a face v( Itada para os hoUandezes. 

— Sào Jorge pelos Brasis I 

Uma nova descarga respondeu a esta acclamaçâo heróica. Quando 
o fumo se dissipou, os holhndezes virão o mancebo, que, de mosquete 
ao hombro, se internava socegadamente pelo mato no seu passo ordinário. 

Os nossos dous amigos tinhão já adiantado bastante a sua salvação; 
mas faltava-lhes ainda não pouco. 

Dos seus quatro perseguidores um só ficara absolutamente impos- 
sibilitado de prejudicar-lhes. Bestavao pois Ires, completamente armados. 
O que Ayres convertera de offensor em defensor conservava a adaga no 
cinto e o mosquete ao pescoço, e não parecia homem que fizesse um uso 
tibio daquellas armas desde que reassumisse o movimento dos braços e 
tocasse o chão com os pés. Perdera é verdade a corda ou morrão do mos- 
quete, o que inut^lisava este como arma de fogo ; mas seria difiicil im- 
pèdi-Io de servir- se delle como se fora uma hacha de armas ou massa 
de guerra. Ora, o mosqueteiro do forte não podia ficar eternamente abra- 
çado com o hollandez, e quanto a armas estava absolutamente despro- 
vido delias. Era glorioso o fardo com que se carregara ; mas Ayres, que 
em certas occasiôes sabia ser superior ás tentações da gloria, meditava 
seriamente no modo por que se havia de desembaraçar delle. 

Pelo que toca a Vieira possuía a adaga e o mosquete que tirara como 
legítimos despojos ao hoilandez defunto, e, posto que lhe faltasse também 
a corda acesa, podia considerar- se como razoavelmente armado. Dos dous 
que se haviào separado na intenção visi?el de cortarem o passo ao man- 
cebo e o colherem ás mãos, um, o que aportava para o lado debaixo, 
estava exactamente no caso do moço voluntário, tinha uma adaga e um 
mosquete sem corda porque esta não só se apagara na agua, mas en- 
xarcára-se de modo qu^ fora impossível tomar fogo. O outro, o que 
tomara pé superiormente, tivera a precaução de enrolar a corda em volta 
da roda do mosqueie ; e, como não entrara no rio de mergulho, e con- 
servava sempre fora da agua os hombros em que sustinha a sua arma na 
qual era ezcellente, conseguira preservar igualmente o mosquete eo mor- 



— 43 — 

rão. Erâo, quanto a homens, dous contra três ; e, quanto a meios de 
ataque, uma adaga e um mosquete quasi inútil contra três adagas e três 
mosquetes, dous impossibilitados de fazer fogo como aquelle, mas outro 
em perfeito estado de serviço. 

Vieira, abrigando-se no mato, não estava fora totalmente do alcance 
das bailas da escolta postada na restinga fronteira, porque esta insistia, 
á vez do commandante, em fazer um fogo continuo e ierrivel naquella di- 
recção. Cortados pelas bailas os ramos seccos dos arbustos estallavâo-lhe 
em torno. Vieira, porém, não se inquietava desta mosquetaria incohe- 
reote e sem alvo determinado, destinada só a satisfazer um furor cego, ou 
quando muito confiada no accaso. 

O movimento dos dous hoUdndezes que o perseguião não lhe havia 
escapado. Vira também, no momento em que se suspendia ao cipó, a 
retirada brilhante de Ayres. Entendeu por consequência que o primeiro 
íito das suas operações devia sereffectuar a juacção com o mosqueteiro do 
forte, cujajposição, posto quetriumphante, lhe parecia um tanto precária. 
Orientando-se cuidadosamente, em breve fixou o seu novo prcjecto. 

Ayres aportara algumas braças abaixo, isto é, mais para a foz do rio: 
era portanto nesta direcção que Vieira se devia encaminhar. Um dos hol- 
landezes, porém, tomara a margem daquelle mesmo lado, isto é, entre 
Vidra e Ayres: por consequência havia interceptação de forças e ne- 
cessidade de encontro e conflicto. 

Conhecendo admiravelmente os trilhos do mato, vantagem que lhe 
dava uma superioridade iramensa sobre os hollandezes, Vieira podia fa- 
cilmente evita-los, internando-se, o que assegurava ao menos relâtiva- 
meote a sua segurança. 

Mas o mancebo não era soldado que desamparasse um camarada 
na situação em que se achava Ayres, sem armas, carregado de um hol- 
landez, e com a perspectiva de encontrar mais dous. Ainda que o nosso 
mosqueteiro fosse de uma velocidade na carreira, igual á da princeza 
Crimhilde, como, cm vez de punhados de pedrarias para espalhar na 
liça, tinha nos braços um marinheiro robusto, que perneava soffrivel- 
mente e sacudia o seu antagonista pouco mais ou menos como um qua- 
drumano sacudiria um ramo de coqueiro, oão lhe seria fácil continuar 
* retirada. 

Tudo isto calculou Vieira mentalmente, e, fazendo um pequeno cir- 
cuito, para evitar o encontro do hollandez interceptaote, o que nesta oc- 
côsião lhe seria particularmente desagradável, dirigiu-se para o lado 



— 44 

onde presumiu encontrar o nosso mosqueteiro, que não iM)dia estar muito 
loDge. A altura e espessura do mato não deixaya descobrir bem o terreno; 
mas de repeote uma praga formidável, cuja iutODaçâo conhecia, soando- 
lhe a pouca distancia, o guiou attrahindo-lhe e estimulando-lhe o ardor. 

Ayres recuando com a sua presa, que o fatigava consideravelmente, 
explorava, a um e outro lado, o terreno com os olhos, até onde podia 
chegar o raio visual, cahindo em um angulo tão agudo quanto o permit- 
tia o obstáculo da sua presa ; mas, por isso mesmo não podia descobrir 
os estorvos que lhe íicavão immediatamente debaixo dos pés, semelhante 
neste caso, posto que involontriamente, ao philosopho que, investigando 
os astros, não viu o poço onde cahiu . 

Não fui um poço, mas foi uma raiz de cacto sylvestre que se achou 
atraz do novo Eneas ajoujado de um Ancbises de contrabando, cujas 
entranhas paternaes ells morria por não experimentar. Quando erguia o 
pé para continuar o seu movimento retrogrado, examinando se a sua 
boa fortuna lhe depararia uma ribanceira , caverna ou charco onde 
pudesse atirar o hollandez, única meio de se desembaraçar delle um pouc« 
mais commodamente ; quando ia a levantar o pé, dizemos, descuidose 
dos pequenos accidentes, o maldito cacto oppondo-se inopportunamente 
ao calcanhar fe-lo perderão equilíbrio, como elle o fizera perder ao hoUan- 
dez ', e, por uma inversão frequente na vida, ficou esto, não só por cima 
do seu contrario estendido de cestas em um leito pouco macio, mas de face 
a face com elle, tendo conseguido voltar-se, posto que não soltar-se, no 
momento em que ambos tocavão no chão. £' inútil dizer que o hollandez 
sentiu uma certa satisfação interior com este reviramento de foi tuna, 
cuja primeira consequência era que o nosso Ayres não esperdiçava*nem 
um escrópulo das seis ou sete arrobas que o marítimo de Flessiogue, en- 
gordado a arenque e cerveja, podia pesar, cousa de que elle neste mo- 
mento dava graças a Calvino. 

A posição de Ayres, além de excessivamente iucommoda, tornava-se 
cada vez mais grave. Ayres Gil, cahindo, conservou a presença de es- 
pirito de não soltar o hollandez, e, sentindo-o voltado, teve o accordo de 
o apertar mais contra si ; sem o que estava infallívelmente perdido, porque 
este não deixaría de fazer uso das suas armas. 

Na solidão do mato empenhou-se então uma nova luta verdadeira- 
mente temerosa. 

O hollandez, achando um ponto de apoio, apertou com os joelhos os 
joelhos de Ayres, para evitar que este, arqueando-se sobre as costas, o 



-=^ 45 r=- 

derribasse de lado ; e, tomando elle mesmo a curvatura potente de uma 
abobada, fiocando a cabeça na cabeça de Ayres, fazia esforços terríveis 
para romper aquella cadêa dos dous braços do seu ioimigo, que lhe pa- 
ralysava completamente o movimento dos seus. Era difficil resistir á força 
combinada desta espécie de alavanca humana. Só uma prodigiosa tensão 
de músculos impossível de continuar por muito tempo, fazia com que 
Ayres não tivesse já succumbido. 

Era tremendo ver aquèUes dous homens, em que á robustez natural 
se unia o ímpeto das paixões e a anciedade dos sentimentos mais tumul- 
tuosos ; era tremendo ve-los assim, froot^ contra fronte, os olhos ÍDÍla- 
mados e dilatados em ambos, cada tendão incrustado por assim dizer 
no corpo do inimigo. Se não fora a posição, julgara-se abraço fraterno 
o que era abraso mortal. D'aquelle esforço hercúleo, supremo e deci- 
sivo, resultava uma imniobilidade pavorosa de ver. Neutralisavao-se as 
forças reciprocas, porque a vantagem da posição era do hoUandez ; mas 
era fácil prever, um desenlace próximo, e desenlace terrível. 

Ayres, ao cahir, soltara a imprecação que servira a Vieira, como a 
estrella aos reis magos. 

O nosso mosqueteiro, meio suíFocado pelo peso do hollande?, e não 
podendo resistir ao impulso tenaz do seu adversário, dava já a todos 
os diabos a excução iofeliz de um plano tão bem traçado, quando do 
lado do interior, o meto ramalhando abiiu píSfogem a Vieira. 

Mas ao mesmo tempo, da banda da margem, accorria o segundo hol- 
landez restante, atrahiJo também pelo som da praga furiosa de Ayres. 

A posição de Ayres cootinuava, pois, a ser excessivamente precária. 
A intervenção de Vieira ser-lhe-hia decisiva, se não fora a appariçâo 
inopportuna do outro hollandez. O Címbètc continuava, pois, uas 
mesmas condições: havia unicamente mais dous combatentes. 

O mosqueteiro, ouvindo a voz conhecida do mancebo, Julgou-se 
salvo, e, querendo decidir a vietoria por si só, tal impulso deu que esteve 
a ponto de arremeçar de kdo o seu contendor, circurnstancia que infalii- 
velmeute lhe grangearia o triumpho. 

Esta vantagem, porém, foi momentânea : a presença do segundo 
hollandez, produzindo no animo do competidor de Ayres o mesmo 
efifeito que neste fizera a de Vieira, em breve restabeleceu o equilíbrio. 

Quanto a Vieira, o mesmo foi dar com os olhos'naqueUe novo 
inimigo que pukr para elie com a agilidade do jaguar ferido na seiva. 
Tudo dependia da rapidez com que se dccilissc a nova luta, que re- 



— 46 — 

solveria também a primeira. Sentião-o igualmente o mancebo e o seu 
contrario ; sentião-o do mesmo modo os dous athletas, que a poucos 
passos conccDtravão tod^s as suas forças em um enlace mortal. 

O hollandez opposto a Vieira, conQando na sua robustez e exercícios 
das armas, mediu prudentemente o espaço, e, acbando-se mais perto 
do grupo jacente dos dous lutadores, pensou que teria tempo de esmagar 
a cabeça ao mosqueteiro Ayres, antes de se achar ao alcance do moço 
voluntário, o que lhe daria um auxiliar contra este. Dito e feito. Corre 
para òs dous, levanta o mosquete ás mãos ambas pelo cano, e Ayres, 
sem largar o inimigo, vê sobre si a coronh i pesadíssima, julgando im- 
minente a ultima hora da sua vida, sentimento que traduziu em uma 
praga das mais enérgicas. 

As pragas de Ayres parecião ter uma certa virtude preservativa. 
A arma, descendo, eucontrcu o mosquete de Vieira, que, mais veloz e 
não menos vigoroso que o hollandez, estava já sobre este. 

O choque foi terrivel. As coronhas vcárão em pedaços, como as 
lanças de dous justadores antigos topando-se na arena. 

Ambos recuarão por um sentimento unauime, e mtttêrão simulta- 
neamente mão ás adagas, fitando-se mútuos. ^ 

O hollandez espumava de raiva. A vergonha, o dezar, uma luta 
tão prolongada e cheia de incidentes, havi5o tornado naquelles homens 
rudes os primeiros estimules em paroxismo de fúria. 

Ayres no entanto cedia pouco a pouco, como um Lào poderia ceder 
á tensão pertinaz do seu inimigo, que ia cada vez ganhando mais espaço, 
e p.r consequência maior força impulsiva. Erão dous duellos horrorosos 
ao lado um do outro; erão duas agonias que pendião uma da outra. 

Ayres viu que dentro em segunúos a sua yida estaiia nas mão do 
hollandez, e lançou os olhos a Vieira. Vieira notou que o mosqueteiro 
não poderia por mais tempo sustentar aquella horrivel posição, e voou 
de adaga feita sobre o seu contrario. 

O hollandez tevo apenas tempo de parar com o braço esquerdo: 
o ferro ardente e furibundo atraves8ou-lh'o de lado a lado. Ao mesmo 
tempo, Vieira recuou de um salto prodigioso : sentira contra o peito 
o frio contacto da lamina inimiga. 

O sangue corria de ambos até o chão. O hollandez estava livido. 
Vieira*, que raramente perdia a sua habitual serenidade, sorria de um 
sorriso cobtrahido e medonho. 

Aquelle combate de arma branca, o braço ao alcance do braço, o 



L 



— 47 — 

peito sob o gume do ferro, tão próximos, quasi sentindo cada um a 
respiração anciosa e infla mmada do seu inimigo, não era menos teme- 
roso que o dos dous athletas, que ao pé se agitayão em um abraço 
convulsivo. Julgâra-se ver os lutadores e dimacbarios dos sangrentos 
jogos romanos disputando no circo a taça de ouro, ou os applausos 
bárbaros do povo rei. 

Vieira e o hollandez recuarão do mesmo ímpeto, faiscando-lhes 
lume os olhos, para se assaltarem de novo. Desta vez, porém, cada qual 
calculava o golpe e a astúcia, para que o encontro fosse decisivo, pois 
que delle dependia, não só a própria vida, mas a vida do companheiro 
que tinha debaixo dos olhos, lutando e agonisando como elle. Era uma 
posição suprema, que, ceotralisando as faculdades do» contendores, as 
multiplicava por todos os grãos da sua anciedade. 

Nisto, a cadêa dos dous braços de Ayres rebentou, soltando-se as 
mãos que lentamente haviâo desenlaçado pelo impulso successivo e irre- 
sistiFel. O hollandez soltou um grito de triumpho , Ayres uma im- 
precação terrível. Dahí por diante a sua vida e a de Vieira talvez 
estava na mão daquelle inimigo que se levantava, da longa compressão 
e do opprobrio da derrota, vingativo e armado. 

O piimeiro movimento do hollandez foi apoiar-se unicamente na 
mão direita, e, ainda curvo como estetva, levar a esquerda â adaga que 
tioha no cinto. Foio que o perJeu. Ayres, rápido como o pensamento 
que adivinhava a idéa e a imprudência do contrario, acuiiu com a 
mão dírtiita a âxar contra o punho de ferro da adaga a mão do seu 
inioQigo, não só para o impedir de tirar a arma do cinto, senão para lhe 
esmagar ali os dedos se pudesse; ao mesmo tempo com a esquerda 
retrahia a si a direita do hollandez, em que este firmava o corpo, porque, 
se elle perdesse o tal apoio, recahitia de novo no tremendo abraço do 
mosqueteiro, que no intervallo ganhara novas forças. Para melhor se 
comprehender este lance cumpre não perder de vista que o mosqueteiro, 
lançado de costas, tinha livres os braços ambos, ao passo que o holladez, 
subjuga ndo-lhe meio corpo com os joelhos, carecia de apoiar na terra 
uma das mãos, ao menos para não descer outra- vez â posição horizontal, 
que paralysaria de todo, e conservar o grão de curvatura que depois de 
tantos esforços obtivera. 

Ayres, pois, com uma das mãos segurava a do seu contrario sobre o 
punho da adaga que este tentara arrancar, e com a outra procurava 
afastar da linha vertical a que elle apoiava no chão, porque assim o 



/ 




— 48 -i- 

hm perder a yantagem ganha, ludo estava em saber se o hoUandez 
conseguiria arrancar do cinto a adaga : os esforços que tinha de em- 
pregar, pira conser?ar o braço direito na sua posição vertical, affrou- 
xavão sensivelmente o impulso que precisava dar á m&o da adaga. 
Ayres, pelo contrario, concentrava neste ponto todas as suas forçss, 
porque, se o hollandez, cedendo á dôr, largasse a adaga, ôcar-lhe-hia 
esta arma ao alcance, e, na situação em que se achava, era porventura 
a sal 7a ça o. ' 

O hollandez gemeu daquelle novo género de tortura. Um suor frio 
aljofarava-Ihe a extremidade dos cabellos hirtos. Sentia como um véo 
que lhe toldava a vista, condensando se sob a pressão furiosa de Ayres. 
Nos lábios entreabertos, mostrando nos dente? cerrados, havia a dupla 
pressSo do ódio e do martyrio. £ Ayres apertava, apertava, triturando 
os dedos do hollandez entre os copos da adaga e a mão delle, não menos 
rija e angulosa ; apertava, apeitava, como se em tenazes de íerro sufifo- 
cara contra o ferro a ultima esperança de um inimigo implacável. . 

A sede de vingança immediata cegara o hollandez. Se elle se erguesse 
promptamente, achar-se-hia armado e fora do terrivel alcance do mos- 
queteiro, antes que este pudesse ser senhor de si. 

— Animo, Ayres — bradou Vieira, que tudo observara em um re- 
lancear de olhos, sem todavia perder de vista o seu adversário pessoal. 

O hollandez, que combatia o mancebo, julgando este distrahido, 
Côhiu sobre elle. Vieira esperava o ataque. 

Dando vivamente um passo de lado, o hollandez só feriu o vácuo : 
ao mesmo passo a adaga do mancebo desapparecia até ás guardas no lado 
desarmado do infeliz, que cahiu, sem um suspiro, ao pé do compa- 
nheiro que lutava, salpicando-o de sangue e tomando-o de horror 

— S. Jorge pelos Brasis I —gritou o mancebo triumphante, cor- 
rendo a Ayres. 

— Victoria I — bradou este, mostrando a adaga arrancada ao hol- 
landez, que finalmente a largara, pendendo sobre o lado quasi, des- 
maiado de dôr. 

Este clamou plangente na sua língua : 

— Dai-me a vida, e rendo-mel 

Vieira comprehendeu-o pela anciã e pelo gesto, e accudiu. 
— Não derrameis sangue inútil, Ayres I Este homem é prisioneiro. 

— Prisioneiros sois vós ambos, se quereis salvar as vidas — bradou 
uma terceira vóz, em hollandez. 



^ 



Ds nossos dons amigos, voltandp-se, adiyiDhârâo a sígnfíicaiçSo 
^stas palanas pela altitude do inesperado interlocutor. 

Era o mosqueteiro, que aportara ^cima do ponto em que Vieira 
subira, e que, se os nossos leitores bem se lembrão, conseryaya o seu 
mosquete em estado de servir. 

Effectiyamente o hollande^, a pouco mais de cincoenta passos, 
tinha o mosquete armado e o morrão próximo â escorva. Procurando 
Vieira atravez do m&to. pressentira ali o rumor da Iuta> e accorrêra 
a tempo de poder intervir ainda. Era mais um lance nesta luta compli- 
cada e qnaú inteiininavel. 

O outro hollandez, que se julgava perdido, reaQÍmou-£e á voz do 
companlieiro, e, lançando mão ao mosquete, que ainda conservava tra. 
çado, poz-se em pé de um sô pulo. 

A posição dos nossos dous amigos,que passara por tantas alternativas, 
parecia agora desesperada de todo. 

•^ Rendei- vos •— gritou de longe o terceiro hollandez, assoprando 
expressivamente o morrão do mosquete. 

A acção dispensava interpretes. 

Ayres coçou a orelha e apertou a adaga na mão. 

Vieira sorriu daquelle seu sorriso firme e pálido, que nas occasiões 
de crise como esta o fozia tão differente do que elle se mostrava no trato 
da vida. 

Era evidente que um, pelo menos, provavelmente seria a victima do 
mosqueteiro hollandez,que o fuzilaria a salvo, e que o restante teria 
contra si dous homens armados ; mas não era menos evidente que nem 
um, nem outro dos nossos faeróes parecião dispostos a oeder ao convite. 
Os dous camaradas havião já passado por tantas aperturas que uma certa 
confiança instinctiva parecia dizer-lhes que nenhum perigo os poderia 
fazer succumbir. 

Ayres, pela sua parte, meditava no modo por que seria possível 
tomar a fazer do seu antigo contrario um novo escudo, cousa que, a 
failar a verdade, lhe não parecia &cil. 

Os hollandezes virão a resolução dos nossos dous amigos e con- 
cluirão que não havia que hesitar. 

O adversário de Ayres avançou sobre este ; ò do mosquete chegou 
o morrão, apontando na direcção de Vieira. 

Tudo isto era passado sob um sol esplendido e um céo de annii. Os 




— 50 

ekmenlos, na soa serenidade, como que riâo, iadiíferente«, das IxKiàà 
pequenas dos homens. 

Era, pcréo), o dia das peripécias súbitas. 

No momento em que o mosqueteiro hollandez ia chegar o manik> á 
escorTa, ouyIu se um silvo agudo no meio do silencio mortal da an- 
ciedade, e, em vez de partir o tiro, yiu-se cãmb&ler o hollandez e cahir 
para traz currando o braço. Yieira conhecia aquelle género de silros, e 
gritou de novo : 

— Victoria! 

No mesmo ponto sahia do mato Calabar, cujo olhar Titreo não se 
podia saber se exprimia jubilo ou pezar. 

Uma daquellas frechas, que elle arremeçava com a dextreza que já 
lhe conhecemos, atraressando a mào com que o hollandez chegara o 
morrão, havia-lh^a pregado no hombro onde fora craTar-se, 

Domingos Fernandes assistira inTÍn?el áquelles diversos lances. 
Conhecidas as suas paixões, sabendo-se do seu ódio a Vieira, poderia 
estranhar-se aquella int-.rrenção que o salraTa. Mas Calabar lá tinha os 
seus projectos, que só Deus e elle conhecião. 

Apezar da repulsão que sentia para o mestiço Yiein agradeceu-lhe 
com effusão aquelle decisivo e opportuno auxilio, que já até certo ponto 
justificaya a sua apresentição na casa de D. Isabel de Góes, e aquella 
possibilidade de contribuir para as explicações, que Vieira generosa- 
mente lhe attribuira. 

£' inútil dizer o resto O hollandez ferido, e o seu camarada, ptisio- 
neiros sob a guarda de Ayres Gil, forâo enviados aos reaes do Bom-Jeaus. 
O commandante da escolta hoUandeza foi apeado de suas hoiuras» por ter 
deixado fagir os nossos dous amigos, e Aiitonio de Lima nos multiplioea 
rigores do captiveiro, íiel sempre ás suas resoluções, pagou por todos. 

DE UM TUGÚRIO SURGE UM TEMPLO. 

A narração da heróica fuga de Vieira e do mosqueteiro fez, cobk> 
se pôde suppòr, uma sens3ção profunda nos habitintes da casa de Góes. 
Francisco Bezerra, ou faltasse Vieira ou Domingos, interrompia de vez 
em quando o narrador p&ra ihe applicar os seus repares ciilicos, tudo 
com a opportunidade e pertinência que já lhe admirámos, o que provo- 
cava, da j)arte de D. Isabel, attenta e solicita, admoestações sevem, 
cheias de indignação e impaciências : a boa da senhora, maravilhada e 



— &I — 

Ioda terrores nas peripécias deste drama singular, mantinha a desci- 
plina dos ouvintes indóceis, posto que ella mesma a cortasse por fre- 
quentes exclamações de sorpreza, de pavor, ou de alvoroço, conforrtie as 
differentes phases da luctu 

Quanto á formosa donzeila de Bdrenguer, nada dizia. Mesmo 
querendo, tremula, não acharia voz; feda ella era coração, e todo o 
coração lhe estava nos ouvidos, que avidamente bebião o palpitante 
discurso. Sentada no desvão da janells, meio corpo debruçado fora do 
braço da larga cadeira de Flandres, que lhe pudera servir de leito, a 
cabeça reclinada no espaldar^ como se nem forças tivera para suste-la, a 
gentil menina ora levantava ao céo as mãos frementes, ora comprimia 
com elias o seio que se intumecia convulso, arfando em ondas como um 
mar tempestuoso, ora o ardente reflexo do enthusiasmo lhe inflammava 
os olhos languidos e húmidos, como as primeiras gotas do rocio da 
manhã, onde o sol acende outros soes. 

Anninhas vira a agitação muda de sua prima, e pouco a pouco se 
lhe fora collocando diante para lhe servir de resguardo, e de anteparo as 
interpretações malignas e ás conjecturas temerárias, bem que o interesse 
da historia contada absorvesse todas as attençõss, deixando em liberdade 
as impressões individuaes. 

A noticia do inesperado apparecimento de Vieira circulara rapida- 
mente na habitação de Góes, onde o mancebo, como em quasi todos 
03 engenhos comvizinhos, era adorado de escravos e fâmulos, para 
quem fora sempre affavel e generoso. Haviào-o julgado prisioneiro ou 
moito, e, antes mesmo de sabido o modo da sua prodigiosa redempção, 
já por choças e offlcinas corrião versões miraculosas. O meio de verificar 
estas versões era ir ver o heróe delias, e, a ser possivel, ouvir da sua 
boca a desejada confirmação. Como vimos, a sorte foi mais que propicia 
aos curiosos. Quando Vieira e Domingos, alternando-se, começai ão a 
sua dupla narração, já uma e cutra Cdbeça de negro apparecia timida- 
mente aos humbraes das portas. Pouco a pouco o gesto silencioso, mas 
eloquente de attração, dos primeiros ouvintes foi chamando os compa' 
fiheiros. Para o meio a maré M subiado, subindo, e os largos repos- 
teiros, franzidos sobre o centro, eião substiluid\.s por uma banqueta 
de figuras escuras, onde os olhos fuzilavão, onde ^Ivejavão os dentes, 
onde se arregaçavão os lábios espessos, onde se rasgavâo em expressões 
diversas as bocas fendidas de um a outro angulo facial. No fim, era 
um cumulo de cabeças humanas, grupadas pyramídalmente dos lados 




— 52 

dos batentes como cachos de antigas gorgonas tregeiteantes, escolpidasr 
em pâo santo, servindo de accessorio ornamentoso ás hombreiras. 

E' cousa corrente e ayerigiMida o amor dos negros a tudo o qae dár 
visos de maravilhoso. Imagene-se que efifeito produziria naquellas nato-- 
rezas simpUces, naquellas imaginações impressionareis e quasi infantis, 
a exposição de lances tão rápidos e variados, cujo principal actor lhes 
era assim conhecido o sympathico. Todo o respeito que inspirava » 
Sra. de Góes e todo o interesse mesmo da narração era apenas sufi^ 
eiente para que esta não fvsse interrompida pelas manifestações ruidosas» 
da sensibilidade afácana. 

Apezar de todos os perares, um coro de gargalhadas freneticasv 
significando o applauso, em despeito dos olhares severos e repressivos 
de D. Isabel, interrompia o orador no melhor de uma scena, sobretudo 
quando os hollandezes leva vão a peior. BenevoJ^ nas suas relações com 
os escravos e familiares, D. Isabel tolerava estas invasdcs, nas occasiões 
supremas, principalmente quan io. como neste caso, o motivo lhe parecia, 
a ella mesma desculpa bastante 

Quando Domingos Fernandes ultimou as explicações pedidas, não, 
só as portas estavão apinhadas de expectadores e auditores, seoão que,, 
das portas aos corredores, e dos corredores ao vistibulo e officinas, a 
narração era communicada por interpretes ofScioscs aos que havião che- 
gado muito tarde, ou estavão muito longe, para poderem participar do. 
discurso. A' noite a população negra do engenho de Góes não fallava em 
outra cousa. Os que andavão trabalhando nos campos, apenas reco- 
lhidos, forão logo consultar os respectivos oráculos, que, ceitos dQ- 
serem instados, se fazião rogar, posto que, lá no seu foro intimo^, 
morressem por dar á luz uma nova edição da maravilhosa historia. No, 
dia seguinte as aventuras de Vieira, que nem elle mesmo podia já 
reconhecer, deixavão a perder de vista a epopéa grega e os episódios de, 
Orlando. Ajsx Telamon era um Jão-ninguem, comparado com o mos- 
queteiro Ayres Gil ; e o próprio Achilles um maricas ao pé do moço vo- 
luntário. Os ornatos affogárão o assumpto, e a musa humilde da choça 
nos serões longos do hinverno perpetuou-o em vilancetes grosseiros, 
de lingua bastarda, que o nosso Vieira, na innocencia da sua alma»., 
ouviu depois muita vez sem ao menos suspeitar que era elle o heró^ 
e o protogonista destas rhapsodias hyperbolicas. 

— Ir-vos-beis agora a descamar, Veira — disse a senhora de Goes^. 



— 53 — 

lermiziada a narraçSo, ainda commovida delia. — £ tós, Domingo^ 
contai que ficastes com jus ao reconhecimento de nós todos. 

D. Isabel ignorara a aventura da mata. 

O Galabar inclioou-se agradecendo humildemente, e retirou-se dís- 
ereto, como se entendera que a sua presença n&o era já ali necessária. 

Maria reconhecia que a interyenção de Domingos Fernandes salrárs 
talvez a vida de Vieira; mas esta mesma intervenção £Bizia-a tremer, sem 
saber porque. 

— Senhora minha, — disse o mancebo, respondendo ao convite de 
P. Isabel — graças vos dou por tanta mercê que me fazeis ; mas> já o disse 
á Sra. Berenguer^ esta terra precisa agora de todos os seus defensores : 
não poderei, pois, demorar-me, nem mesmo sob um tecto tão amigo, 
nem mesmo sob este vosso tecto, cuja benévola hospitalidade em outra 
occasião de tamanho contentamento me fdra. 

Yieira não invocava sem intenção o testemunho da Sra. Berenguer; 

— Pois que, homem t — redarguiu vivamente D. Isabel, que, nos 
seus hábitos de dominação absoluta, não supportava facilmente a contra- 
riedade; — pois quel De partida já, apenas chegais I No meu tempo 
não se davão menos feros golpes, nem havia menos renhidas luctas . . . 
posto que a vossa com os hollandezes maravilha foi... como ia dizendo, 
no meu tempo, faria^se o que se não faz hoje, e havia horas para tudo. 
Oihem-me o estado em que elle vem. Todo espedaçado do mato e coberto 
de limos^..: Ih ! Jesus do céo I ainda agora reparo !... Estes rapazes !... 
Cabeças leves, sempre cabeças leves t Pensão que têm a vida na mão... 
Olá, vamos, negraría... Que estais vós outros ahi fezendo de boca aberta, 
estafermos?... Vamos, apromptai-me já um banho de agua tépida e 
vestidos decentes, e emfim o que for preciso. . . Lourenço, tomai vós 
conta em tudo... ^lão, o melhor será ir eu mesma. 

A pilha de cabeças, ainda accumuladas ás portas, desabou como se 
um terremoto houvera derrocado as suppostas e^culpturas. Seguiu-se um 
momento de confusão vociferante, em que um aceno imperioso de D. 
Isabel fez o effeito de quos ego de Virgílio. Precipitava-se cada um dos 
ouvintes, movido pela ambição de ser o primeiro a desempenhar as or- 
dens dadas e a ter a honra de servir o heroe. 

Socegado o tumulto com a presença de D . Isabel á porta principal, 
Francisco Bezerra, que ainda não tivera logar de fazer uma observação e 
sentia declinar a sua estrella, tentou murmurar: 

— Se Yieira me quizesse ouvir. . . . 



i 



— u 

D. Isôbel, que o ouviu mesmo da porta, atalhou-o: 

— Ides dizer que se vá aos reaes já I . não querem ver?., em quanta 
\ós ficais ahi esiirado, como, como... Nem eu sei que diga... 

Francisco Bezerra levou a mão á perna estendida, como para atteslar 
ft impossibilidade proveniente dè uma dôr que n&o sentia. 

D. Isabel preseguiu : 

— Não ha assaltos, nem combates boje; e um dia uão são dias.. . 
Era não ter alma, nem consciência, deixa-lo partir neste estado. Escusais 
de dizer mais nada, mano... Ainda que não fora senão para vos fazer 
callar as vossas criticas e contradições, havia de ficar o pobre do rapaz. ,, 
Ficais-nos, não é assim, Vieira? Ficais. 

Um olhar involuntário, mas eloquente, de Maria, e um pequeno e 
gracioso tregeito de enfado impaciente, que escapou á petulante An^ 
ninhas, resolverão todas as hesitações do mancebo, que nos não atre- 
vemos a dar por absolutamente sinceras. 

— Ficarei^ pois que tão instantemente m'o ordenais, Sra. I>. 
Isabel de Góes. Por alguriias horas somente, o tempo que for neces- 
sário para me refazer de forças. 

— Bem — replicou laconicamente D. I^^abel. 

E sahiu atrás da negraria, já toda em movimento, para regular 
aquella ruidosa e difusa actividade, sem se inquietar das meninas, a quem 
ficavão Francisco Bezerra e a Sra. Berenguer por salva-guarda e 
companhia. 

Vieira comprehendeu que seria indiscreta prolongando' ali a sua 
presença. Saudou cortezmente as senhoTas, e sahiu com o coração cheio 
de vagas esperanças. 

Momentos depois, Anninhas dizia á sua prima : 

— Porque não chega um pouco á janella. Mariquinhas? Olhenok 
como ella está vermelha. Ar, ar é o que tu precisas, meu amor. 

£ um sorriso loalicioso, fugindo-lhe dos lábios de coral, foi morrer 
nos olhos radiantes da gentil menina de Berenguer, que assomava á 
janella, dócil ao conselho. 

Os extremos e cuidados de que Vieira foi objecto no resto do dia 
não se descrevem. O zelo hospitaleiro de D, Isabel do Góes não ca- 
recia de ser esUmi^lado ; mas a solicitude inquieta da gentil menina 



— 55 — 

ÚG BereDguer yelaya como inyisivel proyidencia, officiosamente ister^ 
pretada por AnDÍnhas, que lhe suppria a intervenção activa. A comida 
foi das mais animadas : e o sombrio Calabar nas officinas tornou-se um 
objecto de veneração e cunosidade para a população negra. A' mesa dos 
senhores, a que Vieira era já admittido sem diíiiculdade, a intolerância 
de Francisco Bezerra exacerbára-se em criticas pungentes ; mas as ad« 
moestações severas de D. Isabel em breve o reduzirão a um silencio 
cheio de desdéns. Francisco Bezerra teve sérios receios de adoecer de 
um accesso de máo humor contrafeito. 

Dadas as graças, os convivas sepaiárão-se. Vieira sahiu. Obtida a 
necessária licença. Anninhas convidou D. Maria para irem juntas, pas- 
sado o calor, ver a mãi Margarida velha, uma negra entrevada, que 
habitava a choça do engenho mais vizinha no vasto paralellogramo em 
que ellas se enfileira vão. 

A mãi Margarida fdra uma espécie de criada grave de D. Isabel^ 
quando ella era noiva. Se vivia fora da habitação senhorial é porque o 
desejava, amando a independência do seu cantinho, A mãi Margarida, 
que não tinha a lingua presa como as pernas, passava por um oráculo 
entre as da^ sua raça, e tinha por enfermeiras alternadas todas as negras 
raparigas do engenho, a quem atrahia por uma coUecção copiosa de 
historias, que ella contava em uma linguagem, que não tinha a correcção 
florida do conde da Ericeira, mas a que não faltava o pittoresco das hy- 
perboles, semeadas no discurso com mão nada escassa» A própria D. 
Isabel dignava-se, de vez em quando, ir em pessoa saber se faltava 
alguma cousa á sua enferma, e esses dias erão de festa para a pobre 
negra, que a estremecia e teimava em achar ainda, na rotundidade 
crescente da estimável senhora, a frescura melindrosa da noiva de 
quinze annos. Anninhas, essa quasi se não passava dia em que não fosse 
ver a mãi Margarida, que se benzia de a ver tão perfeita, e lhe deitava 
sortes em segredo em cima do cobertor, para que D cus lhe desse um 
noivo que a merecesse. 

O sol ia a declinar no horizonte. Era aquella hora suave, que pie- 
cede o crepúsculo rápido das regj<ões tropicaes, e não é menos poética e 
melancólica do que elle. O sussurro longínquo da aragem da tarde no» 
cajuaes era como um hynmo mehfluo da natureza, que respira harmonia 
na solidão. Um capricho da brisa trazia, a espaços, o écho das cantigas 
doa negros, trabalhando nos campos vizinhos, porque, sob a dominação 
benigna de D. Isabel, o escravo não esquecia o canto selvático da terra 



r 



— u — 

fiatál. £ni um desses momentos de quietação em 4ue tudo se retina 
para inspirar serenidade e convidar á meditação. O idyllio americaiio, 
que é sem riyal em poesia respirarei, vivia ali. 

As duas meninas, ligeiras como duas sylphides, graciosas como 
duas palmeiras nascentes, atravessarão o terraço magestoso da habitação, 
dirigindo-se á morada humilde da entrevada, patente a todas as horaii. 
Esta communicabilidade entre escravos e senhores, que não dera poUco 
que fanar na capitania, em compensação grangeava aos segundos todÀd 
as bênçãos dos primeiros. 

Anninhas entrou sem hesitação. D. Maria, menos habituada, sem 
saber se era presentimento ou preconceito, sobresaltou-se-lhe o còraçko ; 
mas, crendo isto um impulso de vaidade latente, envergonhou-se e 
entrou resolutamente atraz de sua prima. 

A choça era dividida em dous quartos. O segundo e mais inteiíot 
servia de alcova á entrevada e cerrava por uma cortina de algodão 
listsdo. 

€omo as duas meninas transpuzessem a primeira porta, detraz da 
cortina surgiu a expressiva e nobre figura de Vieira, sahindo da alcova. 
O mancebo nunca vinha ao engenho de D. Isabel que não fosse ver a 
mãi Margarida de Góes, ou Magalóes, como lhe chamavão as suas antigas 
companheiras, por ^pia abreviatura e inversão que, a não saber-se o 
nome, tornaria impossível toda a decifração racional. Esta visita e en- 
contro erão, pois, uma consequência ordinária dos seus hábitos; ínad 
naquella occasião, além do costume, o mancebo fora levado á choça pelas 
instancias da velha entrevada, a quem uma das negras da cozinha fora 
logo relatar, profusamente ornada, a maravilhosa historia do mancebo, 
que excedia todas as da mãi Magalóes, a qual intimou em continente a 
diligente corretora que fizesse todo o possível para lhe trazer ali sem 
demora o moço, para eUa ter o gosto de o ver ainda, pois que, na sua 
opinião, não podia deixar de ser um príncipe encantador, cousa que ella 
sempre suspeitara. A negra aspirante a cozinheira, que morria por este 
género de commissões, se bem Ih^o disserão melhor o fez ; e Vieira 
recebeu a embaixada em forma de mãi Magalóes, cuja lisongeira am- 
bição se apressou a satisfazer sorrindo, com grande regozijo da mensa- 
geira que secretamente nutria a esperança de que a velha entrevada po- 
deria á noite desengana-la na grave questão de decidir se Vieira era 
ou não o tal príncipe encantado que a velha prophetisãra ; pela sua 
parte também se inclinava â ajQSmativa. Vieira, como já dissemos, 



I 



— 57 — 

doccoffia fret^uentemeate os negtoà nas suas ejtfflicfôes, e ei*a por issd 
adorado de todos. As suasuliimas aventuras havião accreiscentado áaffel^ 
ção cordeal uma tintura mysteriosa e sobrehumanã, que, na imaginação 
infiintil e impressionâVel dá raça africana» ia até â estravagancia. A 
velha Margarida, sobretudo, vivendo í6 pelo espirito, sem acção exterior, 
fizera das lendas da Europa, que ouvira a suas senhoras, combinadas es- 
tranhamente com as tradições confusas do seu paiz, um amalgania phan- 
tastico, parto de conjecturas nas suss crises de enthusiasmo. Oia, como 
ella tinha autoridade entre os seus, o commuoicativo oráculo da entre- 
vadinha exercia uma influencia decisiva nestes ingeiiuos admiradores do 
heróe adolescente. 

Maria, reconhecendo Vieira, viu que fora presentimento o sobre- 
salto do seu coração ; mas sobrt salto delicioso. Quanto a Anninhas, que 
nos nào atrevemos a julgar isempta de premeditação, suriiu com malícia 
da estupefacção dos dous, a travessa -— e introduziu-se furtivamente na 
alcova, que immedi&tamente se encheu da voz risonha e melodiosa da 
linda morenioha e da faíla roufenha e tremula da entrevada, travadas em 
um dialogo cheio de contrastes, que, em breve, cortado das risadas de An- 
ninhãs, attingiu as mais altas notas do diapasão femenino. 

Entretanto os dous havião ficado estáticos olhando-se como fascina*- 
dos. Quando a reflexão recobrou o seu império, o primeiro movimento 
de Maria foi retirar-se para o pé de Anninhas; mas um'gesto supplicante 
de Vieira pregou- a ao pavimento térreo da humilde choça, que a ambos 
parecia agora um paraizo. Nos olhos avelludados de Maria correu um 
relâmpago de prazer allumiando duas lagrimas de ternura, debruçadas 
pelas faces todas cariíiim. O sentimento da sua austera educação dizia-lhe 
que fosse logo refugiar-se ao lado dk sua prima : o coração implorava-lhe 
que ficasse. E o coração vencia, sem ella o querer e sem o saber. Quem lhe 
resiste, quando elle falia deveras áquelles a quem Deus deu o amor para 
lhes fazer supportar ojnundo? 

O seio da donzella ondulava fremente, e quasi se lhe sentiào as pul- 
sações suffocadas e febris do coração. JNào menos agitado, não menos 
convulso, não menos presa a voz e suspensos os sentidos naquelle 
entevo que não tem palavras, o mancebo despedia a paixão e a vida 
nos raios férvidos dos olhos, que ião, como as aves na madrugada, iazer 
cantar todos os júbilos innocentes na alma da donzella, illuminada de 

incógnitos esplendores. 

8 



â 



— 58 — 

Mas este silencio não podia durar sempre, bem que ambos o dese- 
jassem por eternidades. 

Vieira quebrou-o emfim. 

Avançando alguns passos para a formosa donzella vacillaute> o man- 
cebo dobrou o joelho ante ella eom respeito incomparável, e com voz 
estrangulada do abalo interior balbuciou : 

— D. Maria César não perdoará um acaso? 

— O acaso. . . sim ; a postura, nào — redarguiu Maria vivamente, 
recuando um passo. 

Vieira comprehendeu que seu enthuiiasmo o leyára longe, e que esta 
prova importuna de acatamento podia compromelte-la mais do que uma pra- 
tica vulgar. 

Quiz murmurar uma desculpa e não pôde. Maria não via sem secreto 
orgulho a timidez daquelle moço que era um leão no combate. O heroe 
juvenil, que sf ontára imp&vido tamanho cumulo de perigos, tremia do seu 
descontentámecto, e quasi não ousava encara-la. A donzella acreditava 
na lealdade de Vieira, e sabia como a sua adoração era sincera. Tudo, pois, 
se reunia para lhe lisongear o coração e o espirito. 

Maria era de muito grande alma para recorrer á dissimulação. Des 
conhecia os prolegomenos baoaes do galanteio, e não cria que, para con- 
fessar um sentimento puro e nobre, fossem necessários reticencias e ro- 
deios. As suas hesitações primeiras tinhão nascido só dos melindres da 
educação e dos instinctos femininos. Chegada a situação suprema que 
(Ua não provocara, aceitáva-a francamente. 

Assim, pois, estendendo a mão ao mancebo com adorável e gracioso 
abandono, disse-lhe, afogada em rubor, mas com voz firme e clara : 

— Não me julgueis agastada contra vós, Sr. Vieira. — Sei o que vos 
dictou a vossa acção e sei em que mão ponho esta mão. Mas ajoelhar só 
a Deus e ao rei. Homens como vós não têm que dobrar-se a ninguém. 

Maria, pronunciando estas generosas palavras, considerava- se já, 
á face de Deus, como se julgava nas suas solitárias meditações,^ noiva ' 
do mancebo, de quem seria ou de ninguém. Esquecia-se do presente e 
abraçava o futuro, como querida e sonhada imagem que uma inesperada 
ventura aproxima instantes. 

Vieira, escutando-a, sentiu-se penetrado de um santo e religioso fer- 
vor. Por mais que tivesse feito e por mais que se sentisse capaz de tentar, 
parecia-lhe que nunca poderia merecer aquella gentil menina cuja tocante 
formusura era o dote menor, aquelle espirito radioso que tão piedosamente 



— 59 — 

Qnia á candura virginal a grave dignidade de um sentimento profundo, 
que se manifesta livre, porque tem a consciência da sua força. 

Que diria clle com palavras ? Meiteu a mão no peito, e tirou delle o 
pequeno fragmento da franja, que, despedindo-se na casa^^de Berenguer, 
levantara do chão no momento de partir para o forte de S. Jorge. Ali esta- 
vão resumidas todas as promessas dos olhos da donzella, todas as tácitas 
esperanças do mancebo, todas as angustias que ambos havião soffrido 
pelo cuidado reciproco, e toda a grandeza do sacriQcio qne fazião â sua 
terra, ligando-os mais este bço poderoso de uma afíeição commum, ac- 
crescenlada á mutua paixão. Naquelle penhor» dado sem palavras, colhido 
em face da morte, eUava realmente a primeira declaração destas almas cas- 
tas efortss. Nunca se tinhão confessado nas falias o amor que adivinhavao 
irresistível nos olhos um do outro. Mas, se o adivinhavao, para que era 
exprimi-lo? Tinhão a mesma confiança e as mesmas aspirações Amavão-se 
porque se conhecião; amavão-se depois de se terem estimado. A solução do 
seu futuro, nadistancia que os separava, era ainda um problema. Ambos 
esperavão, porém, e, respeitando o dever, a esperança floreavalhes oamor. 

Maria, vendo o fragmento da franja que Vieira lhe apresentava 
como prova de que a sua imagem nunca deixara de lhe andar e>iver no 
coração, tomou-lh'a em silencio também ; e, observando-lhe as cores 
brilhantes, preciosamente ennegrecidas pelo uso quotidiano, pelo fumo 
da poWora, e talvez por alguma gota do generoso sangue do mancebo, 
estendendo a outra mão, disse para este : 

— Confiais-me a vossa adaga ? 
Vieira recuou assombrado. 

— Dizeis ? — accudiu elle. 

— Que me confieis a vossa adaga —redarguiu Maria, sorrindo.— • 
Receiais que vos prive delia, ou temei la mais nas minhas mãos do que 

na dos holiandezes ? 

— Temo. Nas mãos de inimigos pôde só matar ; e nas vossas 

— Nas minhas pôde ? . . . 

— Pôde fazer amar demais a vida. 

Vieira, incapaz de resistir a um desejo de Maria, fallando, apresen- 
tara-lhe pelo gume a adaga afilada, que elia tomou pelo punho. 

— Amai-a, pois. . . por amor dos que vos amão— redarguiu a donzel- 
la, coitando com a adaga um longo annel dos cabellos de ébano, atando 
com elle a franja desbotada, e restituindo tudo a Vieira. 

Vieira beijou o dom e a mão, como se fora uma relíquia benta em 



à 



60 

Roma; e, tirando do pescoço uma cruz de prata, pendente de uma fita 
preta, lançou-a ao alTO collo da donzella . 

—Esta cruz, senhora, recebi a na infância, de joelhos junto ao leito 
que me deixou orphão. Herdei-a de minha mâi: não a receberei senão de 
minha esposa, para a votarmos a Deus com o thesouro que me dais, 

— Aceito, Vieira — respondeu Maria.— Senão vo-la restituir a es- 
posa, orai a Deus pela martyr. 

Estas singelas e solemnes palavras dispensavão protestsções. Erão 
noivos. Amavão-se, crião-se. Tinhâo fé e esperança. Mas qual é o amor 
contente, que em uma hora de liberdade, passado o sobresalto, senado 
exhala profuso. 

— D. Maria César— exclamou afinal o manceba, vencendo a Umide^ 
em uma rercçâo de enlhusiasmo expansivo e fervido;— nào vos direi que 
sois um anjo ; basta que ô sinta. Digo-vos que vos amei desde que vos vi. 

— Sabia-o. 

-^Digo-vos que vos adoro desde que vos conheço... 

— Sei-o. 

— Digo-vos que só peço a Deus uma occesiâo de saciificar a vida 
para vos provar este amor. . . 

— Julgais prova de amor matar- nos a ambos? 

— Digo-vos... 

— Nào digaiá nada. Para que? 

— Mandou-vos Deus ao mundo para me encher de felicidades ? 

— Quem sabe? Talvez . . para recompensar com a dedicação de queoa 
vos conhece. 

— D. Maria César, os momentos são preciosos.. 

— São. 

— Esteçncontro. . .. casual, podeis cre-lo.... 

— Creio. 

— O primeiro para nós. . . . takez se não repita, tão breve. . . . talvez 
mesmo. . . . Não : fora descrer da Providencia. 

-^ Sim, talvez seja o derradeiro. Pensei-o já. A Providencia póde- 
nos destinar a coiôa do martyrío em vez dos contentamentos da terra .v. . 
Vieira, a vossa noiva morrerá de saudades como hoje vive delias. En- 
contrar-nos-hemos aos pés de Deus, lieis ambos á nossa mutua fé. 

— Também creio. Mas já agora deixai-me dizer tudo. Ouvindo-me, 
apezar da minha condição. . . 

— Da vossa condição I Quem tem ahi maior nobreza? 



— «1 — 

i^ Aos vossos olhos, talvez; mas aos de ypssopai... 

— Vieira, c^Uai-vos. Meu pai pode mandar-me que vos não espose. 

NãQ vç-lo disfarço ; o meu dever é oj;)edecer-lhe. O que elle não pôde é 

çaandar-^^ esposar outro. Em tal C£(90 também é dever, e não menor^ 

guardar 9 fé voluntariamente jurada, para não dar a outro, enganando-o, 

uma falsa fé, fazendo a própria desgraç/çi, e ^ipa desgraça eterna. Deus e a 

natureza impuzerão-me 9, gratidão ; a natureza e a honra impoem-me a 

sinceridade 

Vieira, admirando cada vez mais a grandeza daquella alma, dedicada 

p mo a de uma mulher, forte como a de um homem, e sentindo crea« 

eer-lhe o affecto com a admiração, redarguiu : 

-» Sei o que valeis, senhora. D. Maria Gesar não terá que descer 

para se igualar com João Fernandes Vieira. 

— Pois já vos fiz prescntir que desceria ? , 

— Ohl vós não.... Mas nem o ha de d'zer ninguém. 

— São orgulhos. Nào ha mulher que não tenha de suhir para ver 
a altura do vosao coração. 

-n- São esperanças. Fora indigno da vossa preferweía, senhora mi^ 
nha, se ViO-la aceitasse para vos abater. ...não no vosso conceito, sei. . 
menos ainda, porém, no conceito do mundo..., 

— O mundo que me importa? 

-^ Menos do que tudo no conceito de vosso pai, 
-T Ail e^tel... 

— Tem direito de exigir no esposo de sua filha o nome que elle 
conserva intacto como um deposito de séculos. Não me compete )u1ga-lo, 
mas acata-lo. 

— Nobre alma I 

*- Sigo-vos o exemplo e o preceito. Nobre será Qom effeito, porque 
vós a inspirais, e nobre Uiái o nome, se Deua a coDfiervar ligada a elle. 
Tenho nas mãos a espada que dá fidalguia. . . 

— E' esse o meu terror. 

•^ Se não herdei um brasão, posso gravado. . . Escutai-me aluda. . . 
Ott^indo-me coím mç tendes ouvido, senhora minha, não fizestes senão 
realizar.uma esperança. 

T- Ohl especareis? 

•— Esperava. Quando, não sabia. Mas esperava. Espera^ra, porque 
via, sabia qu» exm uma nobie e ella donzelto, incapaz de mentir com 
os olhos ao Gosação. 




— 64 — 

de iotendidade einteresise. A mtiMagalóes esUVa no centésimo canto 
dos louvores de Vieira. 

AnDinhas sorriu das vivas cores de Maria ; e, abrindo a cortina^ 
disse com a mSo utú malicioso Ad^us a Yiei]réí> qu«> «itatico ainda, não 
se podia separar da pottâ. 

O mancebo, conhecendo que M&tia não )[K)dia ou não qttt»ría dizer 
mais, e receiando excitar suâj^éitai demoraíido-se ali, affástcu-se rapi- 
damente. 

Os dous noivos encontrarão-se ainda napreisença da familia, trocando 
olhares de inteliigenòia, sob as vistas obãefyâdõras e tt-avêsías de Anni- 
nhas ; mas, logo que anoiteceu, Vieira montou a cav&llo, e, dekando o 
engenho de Góes, como proinettêra, picou direito aos teaes do Bom- Je- 

cus. 

Uma hora depois Maria, affogada em lagrimas, orava pelo ausente 
aos pés do seu crucifixo, e, junto delia, a boa Anniohas já não teoria. D. 
Isabel dera as ultimas ordens da noite com desabrimento não Tttlgar. 
Francisco Beierra, livre de toda a concorrência, dava largas á sua cáustica 
oratória com evidente satibfdção,tendo por ouvinte única a mãi de Maria, 
que o escutava com a sua ueual e digna frieza. , 

V. 

DB COMO SB FAZEM NEGÓCIOS QUB DÃO DUZENTOS POR NADA 

Dias depois das scenas que temos descripto, um velho, que fora 
de alta estatura, mas que sem duvida a idade curvara, abordoando -se 
penosamente, atravessava as ruas tortuosas de Olinda, cheias de sol- 
dados hoUandezes. O trajo hebreu servia-lhe de salvo conducto. Sa- 
bia- se que estes, ávidos de ganho e temendo a inquisição seguião o 
partido de hoUanda, e era constante que nenhum bom catholico ves- 
tiria as roupas distinctivas da raça abominada coto receio de incorrer 
no desprezo de sétii irnliãos, e de perder h. alma ainda ein cima. O 
ancião passava pois sem 4ue ninguém teparasse, o ou inquietasse ó 
qutí não etã fácil n^utna cidade recentemente occui^ada , é onde á t!^ 
liinhança do inimigo fazia eicercei" uma vigilanòià inquieta e austera. 
A apparencia quebrada e inotosa do velho^ qtie mal se aríifstavá, tíãò 
contribuia pouco tambeto paia lhe facUitat a fivíe citcolação. Uma krt^à 
barba branòa ponteaguda, que lhe descia até tio peito, Snmia-lhe ttèit> 



I 

í 



65 — 

rosto , è bem que o typo judaico não estivesse perfeitameate juâti- 
fícado, a soldadesca nào ia tão loDge nas suas observações pbytiiono- 
micas, nem os guardas se prezavão de ccnbecer pontualmente as ragiois 
pela inclinação dos olhos ou pela linha do nariz. O velho ia, pois, e de 
vez em quando parava tenteando a rua e inquirindo as portas. 

Mnal, engolphando-se em uma viella escura e menos frequentada, 
foi direito a um easebre de infímasJnculcas, e bateu a uma porta carun- 
chosa, que fora vermelha nos seus tempos» e que parecia, pelas largas 
fendas rir dos viandantes raros, ameaçando desabar sobre elles. 

Ò velho bateiu primeira, segunda e terceira vez, antes que de 
dentro se sentisse um multiplicado ranger de fechaduras e, ferrolhos, 
pouco em harmonia com o abandono exterior e com a apparencia negli- 
gente da porta vaoiliante. Antes que esta se abrisse, uma voz rouca e 
íimida fez, do interior, um interrogatório formal^ a que o velho res- 
pondeu n'uma lingoa desconhecida, e n'um tom de impaciência que 
desdizia dos seus ares lentos e mórbidos. A ônal a singular porta abriu-se 
com grandes mostras de pasmo dadas pelo morador suspicioso desta 
habitação humilissima ; e, sendo introduzido o velho, foi logo fechada 
sobre ambos. 

Pediremos aos nossos leitores que nos sigão âqueile recinto e 
assistào comnosco â scena curiosa que lá se passa . 

— Vós... vós aqui 5 — dizia o dono da casa dilatando ém circulo os 
dotis olhos, de que a dissimulação fazia habitualmente duas frestas. 
Yalha-me o Deus de Abrahão, de Isaac, e Moysés ! 

— Valha- te uma legião de diabos, usurário. Não te calarás I 

— Ái ! que é chegada a minha ultima hora... As taboas da lei me 
acudão ! 

— Racho-t*dS no espinhaço, as taboas velhas da tua caverna dis- 
farçada se te não calas I 

-» Mas é que se os hollandezes sabem 4pnde vindes... 

— Enforcào-te provavelmente. Então que tem ? 

O interrogado achava pelos modos que tinha muito, porque le- 
vantava sobre o interrogante uns olhos tão cheios de dolorosa admiraçãtr 
que ^te não pôde deixar de rir. 

— Rides ?'- ponderou o dono da casa. 

— Rio — acodiu o outro. — Pois quem não ha de rir ! 

— Bom é o caso para rirdes. Olhai que se me enforcarem. 

— Enforcar l Eu disse enforcar, só ? 



• 4 » 



I 



66 — 

— Sói 

•*- Perdie : queria dizer qae te esquartejayão. 
O mísero tremeu todo; mas, tirando animo do próprio terror, 
proseguiu : 

— Pois sim, se me esquart^arem.». Deus defenda Israel... se 
Bie esquartejarem, olhai que não ficareis meSior amanhado. 

— Quem sabe ? 

— Gomo ! quem sabe ? 

— Quem sabe, sim ? Tem-se visto tanta cousa f Mas nada de 
perder tempo. Vamos lá para dentro, Samuel. Temos que fisJlar em^ 
ncjgocio de importância. 

Dizendo isto, o nosso ancião yaletudinario, que tinha crescido um 
terço, e que no desembaraço dos modos e das fiillas não mostrava oe 
achaques da idade, arrancava com mão lépida as barbas venerandas, 
forrando dçUas o gorro que tirara. 

Vendo isto, o dono da 'casa, que j ia a conduzir o estranho hos-^ 
pede, parou eiclamando : 

«• £ depois ? 

— Depois, o que ? 

- A' sabida ? 

— - A' sahida, veremos. Ainda agora m entrei. 

O iaféliz curvou a eaboça resígoado, como quem aceita um fiagetto^ 
porque o não pôde eyitar. 

Gomo o leitor intelligopte terá já adviniiado, estamos em casa da 
judBu Samuel, o interprete de Vanderburg, que encontrámos na restinga 
do Recife. 

O seu interlocutor é nem mais nem menos o mameluco Domingos 
Fernandes» que, no seu trato ordinário, adoptava muita vez esta mh- 
guagem brutal, meio mais apto para encobrir a astúcia e subtileza que 
seiúpre lhe convinha manifestar. O Galabar sabia mudar de maneiras 
c<nno de rosto. Samuel, que exercia a industria eccletiea dos seus, 
tíàbà tido com elle frequentes relações de um oonmierclo , que • 
fazenda publica defraudada poderia não achar escrupulosamente legais 
Dahi vioha a intimidade do mestiço e do judeu. A língua «n que os 
dous havião communicado de dentro para ióra , e que logo revelara 
a Samuel quem vinha visita-lo era a tupi^ de que ambos, por maior 
segurança, usavão servír-se nas suas negociações secretas. Esta cir- 



Qumaitaiicia apressána as communicaçòes, porque Samuel tinha una ye- 
neração profunda pelo seu hospede. 

Odiando moitalmente as distincçõ^s de casta, o Galabar tratava 
«({uelle membro de upift raça proscripta eomo acabamos dé ver. Yin- 
gaya-se nelle das humilhações a que estaya exposto; e, inexdratel para 
<som o etemplo que imitava, appticáva praticamente o mesmo que lá por 
dentro o irritava. Não são raros estes phenomeáos phiâlotogicos. Todos 
os dias os endontramos. 

Samuel, que ficara consagrando um respeito intotopataTel aos pa- 
triotas brasileiros, desde o baptismo ini^Iuntario que lhe inftiii(0ra Ayres 
Crfl, conhecia sufficiententeitte o €al8f)ar pata saber que este era ho- 
âiem de lhe não deixar recurso senão o da invocação tacita dé todos 
os seus patriarcas. 

O intei|>Tete cedeu, pois, ao destino, e foi condudndo o tiospede 
qucf dle de bom grado mandaria, naqudla occasião, de preseute aos 
leões de Daniel Primeiro atravessotr um quarto pequeno, mal anu- 
miado por uma fi^sta cavada no muro esípesso, tendo o cuidado de 
ir fechando atrái^ de si todas as portas solidamente chapeadas de ferro 
como um epigramma á da entrada. Á este quarto seguiá-se mna vasta 
quadra, abobadada e ainda mais escura, onde na penumbra, dopavi* 
mento até ao tecto se encastellavão as mais estranhas coUecçòes de ob- 
jectos disparatados, reunidos como em um pandemonio. Sanrael, sempre 
pttceás;úátí ó Catabar, que parecia conhecer perfeitamente a casa, passou 
iflém, abrindo e cerrando como dissemos as portas macissas. Por fim 
parái^ em uma espécie 4e cosinha sem fanellas, allumiada phantastica- 
menfe pelos te&^es reflex<>s riíbrós de unia lareira indigente. 

-^ E'8 Como oti Vampiros: gostas da noite — disse o Galabar. 

-- As luzes fozem calor — redarguiu timidamente Samuel. 

DottíifigcHl úBO respondeu palavra. Pegou de uma candeia, appensa 
á cortina da chaminé, e accendeu-^ á chama da única acha de mai:tgué 
que ardia no lar. 

Uma ban«a tosca e áspera cabeceava sobre três pés; dous escabellos 
rasos reunião cinco pernas quasi taHdai^. Era o a£q>ecto desconsolado 
€ nú da miséria infima. 

— Vinho — gritou o €alabar. 

— Vinho 1 — tomou o judeu a quem a prodigalidade déí fuz fizera 
já wUâr um suspiro. - Vínho ! Valha-me Deus de Abraham, de. . . . 

-~ Adiante, adiaAle. 



# 



— 68 — 

r- Vinho nesta pobre casa | . . . Pelos prophetas da lei vos juro. . • 

— Não jures que é escusado. Vinho, e yinbo do Reino. 

Samuel conheceu que era inútil insistir. Foi á vasta quadra que 
havião atravessado e que parecia ser o deposito geral, e voltou de lá 
com uma garrafa pulverulenta. A garrada passou custosamente dàs 
mãos do judeu ás do Calabar, escoltada de um olhar saudcso, e, não de 
um, mas de vinte suspiros. 

— Três destas — murmurou o mísero — postas em São Salvador 
valião bem um cruzado. 

Domingos fez voar o gargallo com um revez da sua faca de. m^ito, 
o que accrescentava a perda do continente á do conteúdo, e poz a 
garrafa á boca por um espaço razoável. Samuel, com dous olhos que 
erão dous dardos, passava-o naquella attitude beatifica. 

Domingos satisfeito deu um trinco significativo com a lingua, fin- 
cou sem cerimonia o cotovello na banca, e a barba na mão, e fitou 
largamente o judeu, para quem çUe, naquelle dia, era um enigma. 

— Samuel, queres fâzer um negocio ? — disse Calabar, deixaado 
cahir as palavras com ar negligente. 

»— Hein ? — redarguiu o jqdeu, sentado defronte de Domingos no 
outro escabello mais enfermo. 

— Pergunto se queres fazer um negocio ? 

Samuel que tinha ouvido perfeitamente alçou o rosto de pergaminho 
^ esgazeou os olhos esverdeados, amortecidos pelas excentricidades dis- 
pendiosas do seu antigo agente. Q honrado commerciante nesta occasião 
qão tinha, pelos modos, uma grande confiança nos negócios propostos 
pelo Calabar. Distendendo com um certo desdém os beiços delgados, 
sem côr, fransidos e sorvidos, movimento que nãq escapou a Domingos 
Fernandes, o israelita respondeu : 

— Nfgocios, homem, negócios agora I Quem é que pensa em fazer 
liegocios?..- 

— Mais gente do que te parece. 

-rr Como? '. 

— Yanaos, F/ tomar ou largar. 

— Tomar ou largar o que? 
■— O n?gocio. 

— Que negocio ? 

— Micer Samuel, envelheces amigo. Não és já o mesmo. Pois tu, 
que tens trato c uso das cousas de commçrcio; tu que deves co- 



— 69 

nhccer-me, imaginas que te voo dar parte do roeu segredo. . porque 
é um segredo, sabe... sem termos concertado as nossas condições I 
Oade está a tua perspicácia antiga, D. Samuel, ou Belzebuth, queó o 
mesmo. 

— Ah 1 elle ha condições ! . . . - 

— Suppirasl Porque? Não tens razão. 

— E vindes tratar das condições ? 

— Veuho prop3r-t'as, ingrato. 

— Obrigado. 

Samuel estava no seu centésimo suspiro Domingos íontinuou : 

— Ingrato te digo. . . porque podia impor-fas as coildições. 

— ImpôrJ 

— Positivamente. Mas nâq questionemos palavras. Passemos ás 
cousas quG valem mais. ^ 

— E imporieis condições ao vosso amigo antigo, Do ? ingos ? 

— A menos que não prefiras vêr-rae ir tratar com o rabino Pilatos, 
ou com o teu Vizinho Ben-Çalá, ou com. . . 

— • Bista, basta, Domingos da miqha alma. 

— Desde quando tens tu alma, micer Saipuel ? 

O Calabar, enumerando lentamente a lista dos concurrentes do 
honrado hebreu , soiprendeia o olhar incisivo que este vibrou sobre a 
porta e comprehendera-o. Se puzesse o pé fora daquella porta, sem 
lerar um penhor que lhe respoodesse do seu hospedeiro. Domingos 
estava perdido sem remédio. Samuel era homem para o denunciar aos 
l^ollandezes, quer fosse para ]]xb arrancar o anuunçiado segredo, quer 
para evitar que elle fosse ás mãos dos seus rivaes. 

Ora, se Domingos conhecia bem a Samuel, Samuel não conhecia 
menos a Domingos. O judeu sabia perfeitamente que o audaz mameluco 
não iria assim melter-se nas mãos dcs hollandez<>s, sem ter em reserva 
grandes recursos, ou sem ser por cousa que valesse bem a pena. Era 
isso principalmente o que lhe enleiava o espirito. O receio e a curiosi- 
dade disputavão-lhe a alma, sensivel só do lado do lucro. 

Quanto a Domingod, impávido, impassivel e impenetrável, como o 
Conhecemos, era evidente que jogava com os fios ccmplicados de um 
trama que só elle conhecia. 

Adivinhando nos olhos do judeu as suas intenções, continuou a 
conversação correndo con^ ar de distracção o dedo pelo ílo assacalado da 



— TfO — 

faca ée mato, que Urára debtins da roupeta para decapitar o presente 
obrigado do |ad^, e como para Imucar comella. 
Os «ospiros de Samuel já não tinbão conta. 

— Samuel, amigo ^ disse o Calabar — socega. Lembrei-^me dos 
nossos negócios passados, e dei-te preferencia. £' verdade que o rabino 
era também um freguez. . . oh I aquiilo é que é um Ireguez, Samuel L • . 
Em fim, que queres? São fracos. Nio yales uma unha dos outros, e 
preferi-te. Agora podes contar que não saio daqui sem termos ludo tra. 
tado e prompto. 

— Mas sem saber 8e« posso. . . 

—Poderás, poderás, D. Samuel. Afianço-te que has de poder. Qae 
diabo !£' uma miséria... ese não puderdes, eu conheço receitas sobe- 
ranas para... 

Domingos apalpara a ponta da lanéoa aguda, afilada como uma lan- 
ceta. 

Samuel recuou vivamente oescabello, que se conservou perpendicu- 
lar por um milagre de equilíbrio; e passando da cós de camurça que era a 
sua tintura habitual, á côr de ocre fechado, exclamou: 

— Pois usareis de violência, Domingos? 

— Que remediei Ha cabeças tão rijas e almas tão forradas de solla 
que nem o seu próprio bem lhe entra, senão violentado... Neste caso, 
os amigos, reduzidos á extremidade, fazem*lhes serviço, mesmo apezar 
dasstías repuguanciss parvas. 

Samuel julgou-se sinceramente perdido, e murmurou em voz inin- 
telligivel: 

-^ Comigo sefa a santa arca da atliança, que os profonos e ím- 
mundos não podião tocar sem lhes seccarem as mãos t 

-«- Que estás tu abi resmoneando entre dentes, oendennado? Plensas 

tfaê 08 hoUandezes terão minta fireimaf eom ' tu eocoBmieBdares a alma a 

Ánnaz ou a Ga^az \ Se desapparecer o teu esqueleto desdentado, quem 

peif^tasá por íssa? Bem se lhe dá o micer Yanderburg que haja mais ou 

omos um jodeu em (Hinda. 

Estas ponderações terríveis erâo de uma logi<ea e de uma verdade 
Inresíslivid^. 

Samuel IRmzido lNin>ueiou : * 

— Mas que me quereis. Domingos? Vindes aqui pura assassinar um 
potee velho sem defesa, q«e}ár vos tem dado boas di-las a ganhar, e que 
baje está arrastado e por portas como o »nto {«Marcha Job ? 



— n — 

o CaUbar soniu do seu wttí» Imito e enigmatíeo, mpondendo: 

— Assassinar-te l paia que ? Se o qpiixesse já eetava feito, e aem 
tantos preâmbulos. 

O judeu esfdou. Domingos proseguiu : 

— - Quero só couTencer-te.... por todas as fórmas... deqtie o teu 
ÍQteresse mesmo está em tratar comigo. Percebes? Vamos, deixa-te de 
choradeiras de regatão. As condições que ye&ho propor.... 

-<- Oa impor. 

^ Ou impôr-te . . . não estão no caso de um mercado ordinário. 
Poupemos o tempo que é precioso» NAo ganhas nada, meltendo de capa. 
eu te farei largar todas as Telas e eom ?ento em popa. Esp^o que acharás 
toda a yantagem nas minhas condições. 

— E se nSo achar ?... 

— £' absolutamente como se achasaes. « . Nào^ é peior. « . Samuel, 
tu apanhas algum spasmo com tanto suspirar. Porque n&o estabelecei 
ahi um moinho ? Fazfs a economia do yento. 

— Emfim, diseilá. Ouyiiei^ poia quea&o tenho outro remédio. 

— Ora, ainda bem. £u bem sabia que o meu Samuel era um homem 
cordato, que por fim se hayia de chegar á razão. Vamoe, poia» ao caao. 

Exclamando e perorando, o Galabar daya um rápido gfto em torno 
da casa, explorando com os olhos de lince todos os recantos e accesaoriá)8 
delia. Apezar das lamentações dolorosas» da attitude humilde e!dá ap- 
parencia rachitica do judea» Domingos julgaya prudente yerificaf se eUe 
poderia ter ali á mão algum arcabuz, ou cousa que o yaleíae. Domingoa 
sabia como a parcimonia cautelosa oooduz ás yezea á desesperação, e 
presumia bem que os hollandezes se não inquietarião muito dmís do 
seu desapparecimento, do que da apotheose forçada do filho de IsraeL 

O exame, porém, foi satisfatório, porque tornando ao seu logar» em 
yez de encostar um cotoyello á banca como antes, eocosteit ambos Og 
cotoyellos, enquadrando com as mãos o rosto bipartido -* cte de cobre 
na parte do angulo fisicial, que as barbas dantes escondião -<• coberto de 
uma espessa crusta, imitando o pallido baço e a p«lle rugosa de um yelho 
ayaro em todo o lado apparente do rosto, singuUuidade que lhe daya um 
aspecto ao mesmo passo burlesco e terriyel, terriyel de certo, olhando-se 
á poderosa musculação do coloaso* 

Samuel recolheu oe seus eapiâtos» como se dáz^ e preparou, tatdendo 
todas as foculdades astuciosas de que Deus o dotara prodigamente para 
escutar as proposições do Galabar. 



— Samuel, amigo,— disse o mameluco, medindo as palavras — que- 
rei tu fazer a acquisição de algumas partidas de ássucar? 

Samuel arredondou os olhos em dous orbes disparatados, attentas an 
suas dimensões ordinárias, e respondeu em tom de duvila: 

— Dizeis? 

— Pergunto se quereis comprar algumas partidas de assucar. Acasa 
não fallo eu em iingua do teu conhecimento? 

O desgraçado interprete lembrou-se do banho forçado que Ihe^custâra 
o conhecimento alludido, e teve um calafrio prolongado. 

— N&o se pôde fallar com mais clareza- redarguiu elle, procarandd 
socegar-ie ; —mas é que faltando as communicações. . . 

— Quaes communicações? 

— Entre o porto e os engenhos. 

— £ desde quando 6e inquieta o meu amigo Samuel* com as dif- 
ftculdades das communicações ? 

Era outra aUu&ão pungente ás mercadorias fraudadas que tinhão^ 
sido causa desta ii^tlmidade, que o bom do judeu começava a reputar pe« 
rigosa. 

O Calabar proseguiú : 

— Ora, vamos. Sabes a regra : quem nto se arriscou íiein perdeu' nem 
ganhou. 

— Parece-me que percebo— tornou o judeu. 

— Ahl percebes I - retorquiu Domingos em um tom de quasi ironia y 
que deu que pensar a Samuel. 

— Julgo.. . Entretanto, se soubésseis... 
— - O que, amigo Samuel? 

— Se soubésseis... Tenho pena de perder tal occasião; mas deveras,» 
não é Domingos, deveras, que não posso. 

— Sim? Ora historiasf 

— Deveras não. 

— Porque? 

— Porque não tenho um só cruzado disponível. 

— Procurando bem.. . 

— Nem um. Juro... 

— Não jures. Para que? Examinaremos. 

E Domingos levantou-se como quem se dispunha a proceder a utíi in- 
quérito rigoroso. 

Samuel tomou-lhe o passo, se ntindo renascer todos os seus terrores» 



_ 73 -^ 

— Pois não sabeis <iue os hoUandezes puzerão tudo a saque f 

— Tudo, amigo Samel ? 

— Tudo. Deixsrão-me apegas os taiecos. Dinheiro, meu bom Do- 
mingos, o pouco que podia ter um pobre homem como eu.. . isso nem 
fallar em tal. . . Foi um dia de juizo, meu querido Domingos I 

— Ora, o pobre Samuel I 

£ Domingos pegava na candêa, visivelmente disposto a ir com o seu 
intuito por diante, como se o tremulo Samuel não tivera dito uma palavra. 

Eífectivamente o digno usurário mentia, como um judeu que era. 
Havia muito que elle se correspondia com os seus ca-ieligionarios de 
HoUanda, e os avisos secretos que mandavalnão tinhão sido indiferentes 
á invasão. Apenas os hoUandezes penetrarão em Olinda, o seu primeiro 
cuidado fora apresentar-se ao general, que, por isso, o nomeara seu in- 
terprete. Com taes protecções e antecedentes não lhe tinha sido difficil 
preservar a sua casa, que, além disso, pelaapparenda mais que modesta, 
não tentava a cobiça. Nestes termos, em vez de perder no saque, apro- 
veitira-o, para ir fazendo silenciosamente o seu negocio, comprando pela 
centésima parte do seu valor as alfaias preciosas dos habitantes fugitivos 
aos soldados, ávidos de numerário. Domingos, que talvez ignorava estas 
particularidades, conhecia a fundo todavia o caracter do seu amigo. 

Samuel, vendo a resolução do Galabar, exclamou: 

— Pela vinda do Messias, meu bom Domingos, que fazeis ? 
Domingos nem se dignou responder. Affastou-o parajdiante com 

um impulso sem esforço, que naapparenciase julgaria brando, mas 
qu6 fez ir o pobre judeu abraçar se involuntariamente com uma hom- 
breita. Depois abriu a tramella da porta que dava para o casarão im- 
mediato, por onde já havião passado, levando sempre diante de si o filho 
de Israel» todo transido. 

Entrando, a luz vacillante do candil afamado, cahindo incerta sobre 
as pil}ias de objectos disparatados, fez reluzir, como um sonho fantástico, 
as arestas brilhantes dos crystaes e a superfície polida das jarras da 
índia, emquanto uma penumbra chíeia de mysterios deixava adivinhar as 
esculpturas caprichosas dos armários, as espiraes torneadas dos bofetes, 
os suaves reflexos dos estofos e os marchetados riquissimos dos aparado- 
res. Finalmente, naquella Babel insondável, agglomerados em uma con- 
fusão insidiosa, vião-se os despojos opimos de uma população oppulenta 
e luxuosa, que o velho Samuel, aproveitando a occasião, adquirira porv4l 

iweço, com discernimento e escolha. 

10 




— u — 

Domingos não mostrou admiração, nem çstranfaeza. lATAntou a lu:í 
acima da cabeça para melhor apreciar o coDjuncto destas riquezas, e, 
baixando-a depois ao ni^el do rosto consternado de Samuel, disse p&ia 
este com uns ares que traspassayão de sarcasmos : 

— Com que então, micer Samuel, nem um cruzado te deixarão com 
o saque os malditos piratas ? 

Samuel, confaso> não achou que responder. 

— Não te dizia eu que bom era examinar sempre... Ver e crer,eomo 
S. Thomé, segundo dizem os padres das missões... Ai! não me lembrara 
que S. Thomé, posto ser teu compatriota, pouco mais ou menos, não tem 
lá grandes créditos de santo na toa raça... tem padencia. 

— Mas que fareis, que fareis, meu bom Domingos? 

— Nada. Talvez pelos falsos e gavetas destes bofetes e contadores 
ficasse algum ducado de Flandres ou alguma dobra de Hespanha. 

E o Calabar, abrindo e revolvendo tudo, aproximava a laz dos es-^ 
tofos pendentes, tão sem cautela que o nosso hebreu, tremendo do noTO 
e imprevisto perigo que ameaçara os seus tfaesouros patentes^ era obrigado 
a seguir Domingos para desviar do contacto da chamma os chamaloles 
e brocados custosos. 

Era um suplicio maior do que o podia supportar o velho avaro. 

— Não procureis mais. Domingos»— disse elle com voz estrangu- 
lada, - não procureis mais. Faremos negocio. 

— Ah t -* respondeu seccamente o mestiço. 

£, precedido sempre do judeu, desandou do vasto armaz«m. 

Domingos retomou a sua anterior posição á mesa claudieante, e Sa- 
muel, fazendo-se minimo, esperou em silencio os resultados deste novo 
episodio. 

—- íamos nós dizendo— proseguiu o mameluco, como se nada se 
tivera passado— iamos nós dizendo que estás prompto, micer Samuel ,' 
a comprar algumas partidas deassucar, não? 

Samuel fez um gesto de mudo assentimento. 

— E verás que nunca em tua vida fizeste negocio de tanto lucro • 
O judeu inguliu duas ou três pragas em secco, e balbuciou: 

— As amostras? 

— Quaes amostras? 

— As do assucar... para ajustarmos. 

— Ah I as amostras do assucar I Micer Samuel .. 
-~ Meu bom Domingos ? 



15 — 

-^ Ffize me & fairar de procurar bem no fando dos escaninhos de 
\im daquelles formosos contadores das índias, ião cuTiosaraento embutidos 
de madrepérola e marôm^.. 

— Para (|iíe ? 

— £' imposêtvel <itte nãa encontres perdido algures, lá para um ou 
outoo caAto^ um aáçoliei eom duzentos a treaentos cruzados de ouro... 
Faie-me o &yor de m^'os trazeres sen&a preferes que eu mesmo os vá bus- 
car. 

Samud flcett tão aterrado, que, procedendo por ntachinel imitação, 
esteve a ponto de traçar o signal da crâz^sen» saber oque íazi8,como vka 
« muátos cbristães, victimas das suas usuras exorbitantes. 

Samuel todavia era homem de conselho. Ponderando lá eofiasigo que 
todas as observações serião peifeitamente imiteis, e receiando maior pcr- 
da, levantou-se para obedecer, sem deixar comtudo de mtirmurar por 
habito inveterado: 

— Para que são os cincoenta cruzados ? 

— Tresentos, tresentos, pelo menos. . . São para amostra. 
Mbznentoá depds, como Samuel voltasse. Domingos desapertava a 

garganta franzida de uma longa bolsa de couro, que rematava emf uma 
protuberánòia satisfatdiiá ; e, extrablndc-as complaceátemente, empi- 
lhava as' m<)édas sonoras em coluttínas luzentes, com o acompanhamento 
obrigado de uma escalía áe gemido^, que o judeu modulava éià todos os 
tons da angustia. , 

YerMeadtf a somma, Domingios achou duzentos e sessenta cruzados. 
Ntf sUd mag&anittiidade, perdoou mentalmento ao antigo corsário os 
quarenta que ãiltftvão para diegar ao seu uUimatum, Samuel, que, sa- 
bendo perfeitamente a conta, ainda esperava reclan)dçõeiÉ> ao ver Doitiitf- 
gos metter na algibeira a bolsa e o dinheiro tfem mais extigencias, posto 
assentar lá comsigo que estava ^jíòiilivammite roubado, fiicou satisfeito 
comose' tivera' cobrado uni» usura. Peks seos cálculos ganhara ainda 
({uarénta ciuaados^. 

Restituidp assim ao curso ordinário das suas idéas, quiz tent&r ainda 
o que era possível em caso tão desesperado. 

— £ as amostra» ? — pergunto» elle. 

— Bom lAs^ amostras cá as levo ~ tornou pcmit g !s«, ea:guendo-se 
parasahir.— £»tou^ contente, miocF Samtiel. 

— Não duvido, senhor Domingos... Mas as amjostrasdo assucar? 

— Ahl peneas ainda nmo, SiOiHiel amigo ? Pois bem, dir-te-hei 



— 76 

sempre que fazes talvez um negocio que tu mesmo d&o podes calcular* 
Samuel teve a coragem de sorrir. 

— Não — continuou Domingos seriamente— nem tu mesmo sabes t- 
As feições do mameluco, desfiguradas pelo seu disferce, contrahi- 

rào-se-lhe impetuosas em um movimento convulsivo. Mas foi um instante. 
A vontade de ferro serenou-lhe de novo o semblante bipartido. Domingos 
domava as suas paixões como o ovalleiro consumado que di momente- 
neamente a mão ao ginete f jgoso para o sofrear melbor colhendo as rédeas. 
Sabia que não tinha que receiar ali deste desabafo passageiro, e queria 
eiperimentar até onde chegara a força do seu espirito sobre os seusmus- 
culos. Satisfeito da prova, proseguiu com o mesmo desplante e ironi» 
que até ali havia conservado.: 

— Não sabes. . . Nem é preciso que saibas. Basta dizer-teque é ne- 
gocio de ganhar muitos mit por cento... Que tem riscos, tem; mas. 
quem não se arriscou. . . 

— Sei, sei ! 

— Tem, pois, seus riscos ; e, em boaverdade^nem eu sei di^er-te, 
amigo Samuel, se as partidas serão de assucar, ou páo» ou manim, ou... . 
Mas, emfím, que mais queres tu do que achar occasião de preparar uma 
boa carregação por baixo preço, vista a necessidade dos engenhos, que 
se venderá por cem vezes mais em qualq^8r porto de França ou de H0I- 
landa. 

— Se os hoUandezes não preterirem fãzer a carregação por sua conta. 

— E* possível. . . e até provável. £' mais um perigo» micer Samuel; 
conta com elle. Ekitretanto não serão as primeiras difficuldades que te eu 
tenha vencido, hein ? ,,, Coma te ia pois dizendo, ha seus riscos ; mas 
verás que vale apena tenta-los. 

— Sim, e os tresentos cruzados ? 

— • Duzentos e sessenta, amigo Samuel. . . Os duzentos e sessenta 
cruzados são para« . . olha cá : em faltando as vendas. . . que hão de fâV- 
tar... 

— Faltào já. 

— Faltàojá ; é verdade. . . Em faltando as vendas, e em os senhores 
dos engenhos vendo. . . Mas para que precisas to saber mais ? 

— Para que preciso saber?.. Parece me que tenho um certo interesse, 
senhor Domingos. 

— Adeus, micer Samuel. Levo o que vim buscar. Oreslo sabe-fobas. 



MM 

quando for tempo. Mieer Samuel, adeus, se é que se te pôde fallar em 
Deus* 

£ Domingos sahiu, atravessando de noTO o armazém até chegar á 
porta chapeada, tão fraca eiteriormente e tào robusta da parte de dentro. 
O Galabar tinha tido o cuidado de entregar o candil a Samuel, para que 
este o precedesse, allumiando-o* 

Gomo chegasse á porta, o mameluco ageitou as barbas venerandas 
ao rosto, tomou os modos com que tinha entrado, e, virando-se já trans- 
formado para Samuel, disse-lhe em tom de cortezia fraternal : 

— Agora, irmão Samuel, far-me-heifl a mercê de me dar as vossas 
ehaves ? 

— €omo ! As minhas chaves T 

— As vossas chaves, certamente. 

— Para que? 

-» Provavelmente para me servir delias. 

— Pois quereis servir- vos... E para que vos quereis servir das mi-r 
nhãs chaves ? 

— Oh! para nada^ para uma ninharia. Para vos encerrar com ellas 
um certo espaço de tempo. 

— A mim, meu bom Domingos? 

— Em primeiro logar eu agora não sou Domingos, percebeis? Sou 
um vosso confrade, o judeu mais judeu de Olinda. . depois de micer 
Samuel, bem entendido. 

— Mas porque fazeis semelhante cousa? 

— Porque vos poderia dar na cabeça começar a chamar-me.. . a 
chamar por esse maldito nome de Domingos... que não é o meu... ahi 
por essas ruas fora, posto poderdes ser suspeito de cúmplice... e eu não 
gostaria de ser tão popular entre os hoUandezes, ao menos porem quanto. 

Samuel, que aprendera a conhecer a força das resoluções do mame- 
luco> • que o via mettera mão nas profundidades da sotaina, passou-lhe 
as ehaves, ponderando-lhe : ^ 

— O que ha de ser de mim aqui encerrado l 

— Ohl quanto a isso, descangai. Chamareis de dentro, e desgraça 
grande será se por esta meia hora não passa por ahi alguém que venha 
Hbertar-vos. 

-- Como? 

-9» Buscai^ micer Samuel, buscai, Qaando buscais bem aehais. 



— T8 — 

— Armnbaiido as poFtas, pava ^ a miuhà pobre eboi^nai fique 
á mrílcê do primeiro vadio curioso. . . Por Moysés e Aarào que. . . 

--' Nio será preciso tanto, ooíicer Samuel. .. quefro dizer : irmi» Sa- 
mtxú. Panaiid pw ecst^ do velho Jonatiias aapé do collegio, e diref .... 
-^ Nlo, ii!0, nao, mea bom Damwgd». 

— Outro Dorre, outro nome, irmão Snsuel. ... Estão deixar-ro- 
latf-hei ftO' pataoMir, e de voasa janetta poéerais chtaar o* pfknein) vian- 
danle e pedir-lAe' que Vos abra. 

Samuel re^i|gfnou-se. Bomifigos sahiu, fechou euidadosaiiieiit» a 
porta, dlhoíi para a Ifi^esta esguia que a ladeava, e, venéo jái a dlá a figura 
mais esguia ainda de Samuel, poz no limiar as grossas chaves, é Mxdu 
a estreita viella, uão sem examinar precatodasMnte de todos as lados. 

Meia hora depois estava fora da povoação^ com tanta feUeidade como 
entrara. 

O Galabar juntava a pruéekici^e á atrdada, e previa toiAs as eveutua- 
lídladês, assegurando' as fefiraáur como um hábil estràt^ed. 

CAPITULO VI. 

Entretanto a guerra proseguia. O plaaa die defosa concebida por Ma- 
tbias de Albuq|Lier(^ era activoer ínieltí^entemente etecutado*^ Os- habi- 
tantes da eaipitfltnia, restebelecidbs do pnmeiro pânico, tinhio seatído á 
sua voz renascer vivaz e poderoso o amor patrioy de q|ue a histoaia nos 
conserva tão brilhantes exeiflplos. 

Quando os bollanJezeapensaitão dominar o paiz, achárão^se bloquea, 
dos pd» linha de fortificações grosseiras, ma» perfeitameate disiríbuídaftw 
que o prudente capitão^ em quasi um» légua de exitensão^ levantara^ ia« 
terceptando-lhes: todo o aceesso patra o interior. Desta forma osinvasores 
senlroreavão* só o pai^ que pisavão^ e aem niiesmo tubsístião d* terra 
eiOMfuistnda,. porque eifto forçado» a recorrer quotidiaBaiiente aos vi- 
veres da esquadra. A admirável resistência doíbris- de S. Jorge^ (íomo 
o desejara e previra Mathias de Albuquerque, tinha priíicipalmente cou* 
corrido para alcançar estes lesultadq^ 

Aamiliciasv oi^anisadas raptdomEBte pelos* cuidados dos priíioípaa» a 
notáveis da terra, instigados pelo exemplo do venerando BsreDguer de 
Andrada, guarnecião os differentes pontos ; e, meio cultivadorèli, meio- 
soldados, alternando o servi^ dás armas e o da agriculturar, aquelles 



— T 99 — 

hdmeni denodados Acodi&o tirdfti]^ aoictiiibate, jreifXtUiBdo h^oicaiiiejDto 
um momeato de &lliiein«çio e pii8ÍlanioQÍdAda« 

AléoQ dftg guarnições q^e se reT^savIo so serviço de^ta linha de blo- 
queio, o capitio-jmór haTÍa creado uma espécie de pelotões yplantes, dç 
doze a Tinte homens, destinados a percorrer ineessantemeute os inter- 
Tallos, e a aproToitar o seu grande conhecimento do terreno e os inci- 
dentes delle, para armar ciladas ao inimigo e impedi-lo de forrag«ar e 
penetrar no paiz« Aos chefes destes pelotdes ou patrulhai, que se ooi&o 
e diTÍdi&o rapidamente, ehamavão-se capitães de embuscada^, figurando 
entre elles Vieira, João do Amorim, Francisco Vianfist^ Aitosôo Vianna, 
Fianciseo Soares R< bks e o yalrate Francisoo Rebello, confaec^o em 
toda esta guerra pela designação de R^ellinho, oogsome popular sob o 
qual se illustrou por feitos de uma audácia inerif ei. Notaya-se nestas com" 
panhias uma, composta de ires irmãof^ de que ao diante teremos occasiio 
de foliar. 

Um nayio do iniimgo, explorando temerariamente Ji casta, fiora a 
pique á entrada da barreia na linha exlerior do m^lhe de rochedos* Ma- 
thias de Albuquerque, attento ao mais ieye incidente de que podia tirar 
partido, fixara immediatamenteapfoveitar quatro canhões de fierro, de bala 
de quatro libras, como então se dassifieayão, que, á força de dilbgeneia, 
se tinhão podido salyar do naufrágio. Artilbando com estas quatro peças 
os reaes do Bom Jesos, guaraoeidos de fgrtes palissadas, conseguira 
dar a esta posição cei^ral, onde etleestaya sempre prestes com as %im 
roseryas, uma apparen^ yerdadeiramente iQilitar, temando-^i um ponto 
de apoio e uma base formidayd de todas as operações e dos postos secun- 
dários, que para um e outro lade seprohmgayap em meÍA ka, eijrcumi»l«> 
lendo o inimigo do ladp de terra. Três companhias de soldo e alguos yo* 
Kintftrios,''em numero de peu^ mais de duzentos home&fi fof nMtyão n 
guarnição permanente deste ponto essencial. 

Dislante dos reaes um qwerio áe legue psyre o sul, Aotôiiio Ribeiro 
de Lacerda defesitia a passagem do rio dos Afagados C9m Mi9l;o e trinta 
homens dss companhias da wtioía. Na mergem do Bibof ibe, e tiro ^ 
oanhão do po^to de Lacerdft, equai»La alcance de mosquete do Recôle, fi* 
o«fa a posição das salinas, guardada pov Uuronço Ceyeloaoti dí9 Albu- 
qiii^que^ 4 frente de setenta infentm»^ Gojm poiíc^^ differeAç^ d^^ dísteAcia 
e de numero seguia-se Uú^ BarbaUio Beze^era, alojadi) nas casas d(^ J^o9o 
Velho Barr^« Cer^^ndp 9 mm «jreip ao porte, 4 quAtrocentos paMOX de 
Olinda, na ermida de Santo Amaro, estaaceayao soccorro que já de Pai;a- 



— 80 — 

byba mandara o capitãomór daqueila capitania, António de Albuqaer<iiie« 
ás ordens de seu irnio. Debaixo da artilbaria dos reaes, fiuendo frente ao 
rio,alQjayão-se os tresentos taboyaros de Potyguarassú, o Grão-Lamarão, 
que Domingos Fernandes fóratM)n70car por ordem do capitão-mór, e que 
já bavião cbegado, como se vê. Nos espaços intermédios os capitães de 
emboscadas, como fica dito, percorrí&o incessantemente o campo com a 
sua gente, acoberto do mato, disseminando-se, reunindo-se, atacando de 
súbito, dissolyendo-se de repente, accrescentando a astúcia do gentio 
^ aos seus próprios ardis e praticado terreno, fatigando assim o inimigo e 
causando*lbe um damno quotidiano e irreparável . 

Taes erão os pontos mais importantes e as disposições principaes 
de Ifatliias de Albuquerque, disposições que dayão á luta um caracter 
particular; que se fandaYão principalmente na natureza do solo e do 
clima ; que multiplicarão os recursos e supprião o numero ; que attes- 
tavão uma grande sagacidade, auxiliada de uma dedicação incompararel 
da parte dos colonos ; e, finalmente, que mutilisayão todas as vantagens 
anteriormente ganhas pelos boUandezes. 

Estes, posto terem liyres a restinga, não podião comnmnicar de 
Olinda para o Recife senão em columnas numerosas e com grandes pre- 
cauções ; aliás as companbias de emboscada, que dia e noite yigiayão nos 
matos fronteiros, passando a nado o rio, cahião sobre os destacamentos 
ou escoltas isoladas, interceptando tudo e yingando em represálias ter- 
ríveis a falta de fé commettida contra a valente guarnição do forte de 
' S. Jorge, pela maior parte prisioneira em Olinda, ou no porão dasgal- 
lós hollandezas. A audácia destes assaltos sobre o terreno mesmo do ini- 
migo cbegára a tal ponto que> para atravessarem de Olinda pahi o Recife 
e viceversa, prevenião-se mutuamente dos dons pontos com uns tantos 
tiros de canbão, e sahia uma parte das forças a fazer um reconbecimentõ 
e proteger oscombojos. 

Já se vê quanto este género de serviço bavla de ser penoso aos 
invasores, que, em vez de gozarem e utilisarem a sua conquista, achavão 
uma guerra nova, tenaz e prolongada, longe da pátria e fimilia, em um 
cHma tão diverso. A embriaguez primeira passara. Não era já um trium- 
pho, era um desterro. Não era a dominação e o lucro fácil, era uma luta 
diária, permanente, sem descanso, renascendo sob formas variadas, que 
enfraquecia continuamente os invasores, emquanto nos habitantes o 
enthusiasmo crescia com o êxito, multiplicando- lhes as forças e os estí- 
mulos. 



— ^ »1 -— 

E tudo surgira terrível, ameaçador, inesperado, em poucos dias 
emquanto a intrepidez dé um punhado de homens fechava o accesso 
do porto ás columnas numerosas e aguerridas da expedição dos estados. 
Quando Yanderburg , debelladã esta frágil barreira, julgou encontrar 
ajoelhados e submissos aquelles homens que vira abandonar sem com- 
bate os seus lares, aehou diante de si uma população de heroes, que offe^ 
recia o corpo como nova e mais íoite muraUisr para cerrar a sacrosanta 
terra da pátria ao aggressor impio. Sentirão que tinhão ali o berço de 
seus filhos e o tumulo de seus pais ; e, inflammados de zôlo pelos dous 
maiores amores humanos, pátria e família, forão guerreiros quantos tinhão 
no peito um coração susceptivel e generoso. 

£ erão todos— quasi todos. Quasi, sim *. custa a dizer quasi; mas 
ver se-ha. Oh ! que importa ? O erro de alguns não deslustra, exalta os 
outros pela comparação. Onde ha quadro sem sombras? Onde ha regra 
sem excepções ? Onde ha homens sf m paixões ruins ? Occultem-se-lhes 
ao menos os nomes, para só lhes condemnarem as acções, que parecem 
mais negras talvez, porque figurão em contraste com outras taes e tantas 
que as não tem maiores a historia de nenhum povo. 

Vereis ! 

A descripção, que tentámos esbcçar, comquanto imperfeita, era to- 
davia necessária para melhor se poder apreciar os incidentes que vão 
seguir*se. 

Agora é tempo de voltar a alguns dos nossos antigos conhecimentos, 
que, forçados pela variedade dos successos, temos por muito tempo aban- 
donado. 

Lembrados estarão os nossos leitores do modo insultuoso para a 
sua coragem, mas favorável á sua commodidade, com que os hollande- 
zes, ignorando o préstimo de mestre Marçal, e julgando-o pela sua ap- 
parencia inoffeosiva, o despedirão com uma ignominia, á qual a severi- 
dade histórica nos obriga a dizer que elle foi muito pouco sensível. 

Abandonado no meio da restinga de arêa, mestre Marçal tremia i6 
coín a idéa de voltar ao forte desmantelado. Tão pouco ousava entrar em 
Olinda, onde os gritos da soldadesca desenfreada o gelavão de teihror, 
e onde, de mais a mais, não só corria grave perigo a sua seriedade, mas 
nem sequer se podia dar muito pela sua vida, se um acaso fatal des- 
cobrisse ao inhnigó a paite, involuntária, mas efficaz, que elle tivera 

na confecção dos projectís que tão caros tínhão custado aos assaltantes. 

11 



\ 



— 82 — 

Por ultimo, se encaraYa os matos froDteiros, seu terceiro expediente, pa- 
recia-lhe que uma plêiada de olhos chamejantes o espreitava já, e uma 
inflnidade de garras e dentes afiados se preparava emboscada para o atas- 
salhar e devorar. O alvoroço que sentira com a inesperada nova da sua li- 
berdade atenuava-se, pois, consideravelmente na presença destas hesita- 
ções cbeias de terrores. Estava fechado em uma trindade £atsl, não po- 
dendo na alternativa decidir-se por uma escolha. 

Felizmente para elle, a favor da confusão e antes de entrar no porto 
a esquadra, algumas canoas de negros audaciosos descião o rio por 
ordem do capitão-mór para observarem as disposições do inimigo e os 
movimentos da armada. Uma destas canoas, aportando a restinga^ recebeu 
o pobre mestre, vacilante como a jumenta de Buridan, e conduziu-o aos 
leaes de Bom Jesus, onde o capitão-mór, conhecendo-lhe as prendas, 
folgou de velo e não tardou em emprega-lo. 

Dizer que mestre Marçal sentiu igual satisfação fora faltar á ver- 
dade. Mas, em todo o caso, o seu bom senso dizia-lhe que de todas as 
soluções possíveis fora esta certamente a menos desfavorável nas criticas 
circumstancias em que se achava. 

Depois, o apego de mestre Marçal â sua arte era o que sabemos, 
e ia-se habituando ás extraordinárias fabricas a que António de Lima 
o forçara. O enthusiasmo com que ouvia fallar na guarnição do forte li- 
songeava-o em tanto, e sentia-se com vontade de tomar para si boa porção 
daquelles louvores, posto saber quão pouco os merecera, tentação que 
todavia o seu amigo Ayres lhe fazia passar, popularisando nos reaes as 
suas ultimas aventuras. 

O mosqueteiro, como se TÔ,8eivia também no Bom Jesus. Conduzindo 
os prisioneiros hollandezes, atravessara a veiga, dando a sua entrada 
triumphal no acampamento do capitão-mór, que incorporou logo o va- 
lente mosqueteiro nas companhias de soldo. 

Desta forma, os dous amigos tinhão eífectuado a sua juncção, não 
sem incidentes variados ; e era á sombia protectora de Ayres Gil que 
mestre Marçal, nas suas horas vagas, se ia familiarisando— de dia, já se 
vê— com os trilhos do mato, onde todavia nunca se aventurava só. 

Emquanto, pois, DomiDgos Fernandes, para fins que só elie sabia, 
penetrando em Olinda -através dos hollandezes, como arrojo e astúcia 
que estavão no seu caracter, figurava na scena anteriormente descripta, 
passava-se o seguinte em uma das clareiras do mato, entre o rio e o 
campo dos Taboyaros, com quem é tempo de travarmos conhecimento. 



— 83 — 

Mais delicioso logar não podia yer-se. Nunca de certo os raios frou- 
xos do sol que despontara se refrangerão em tão formoso espectáculo I 

As necessidades da cultura não tlohão ainda lançado fogo a todas 
as selvas virgens das margens. Em muitos logares a natureza, vestida de 
galas, brilhava como nos primeiros dias da creação. Se alguma cousa 
pudesse dar idéa do paraizo terreal, da-Ia-hia aquelle conjuncto admi- 
rável de perfeições, cuja reunião era um prodígio. A população, disse- 
mo-lo, rara e disseminada, amanhava e desbravava o terreno predigo, 
em torno das localidades em que levantara as suas habitações ; mas dei- 
xava forçosamente grandes espaços incultos, em que a acção simultânea 
da humidade e de um sol ardente, em um torrão generoso, perpetuava 
uma vegetação sem rival pelo esplendor, pela riqueza, pela profusão 'e 
variedade. 

Terra núa, plano descoberto, não o havia, Apezar de adiantada a 
estação, um fofo tapete de ílôres juncava a relva vasta e alta. Cintas odo- 
ríferas vestião os troncos. As grinaldas florentes, baloiçadas suavemente 
pela aragem matutina, ondeavão suspensas dos topes mais elevados, sa- 
cudindo uma chuva de pétalas cambeantes e perfumadas sobre as ou- 
tras que jazião. A floresta, povoada de rumores mysteriosos, cheia de 
cantos infinitos, graciosa na sua energia e potente na sua graça, sorria 
ao astro do dia, como quando sahira ornada das mãos do Creador. As 
mais bellas e antigas matas da Europa nem restrear podião esta opulência 
potente e ao mesmo passo feiticeira. 

Era de um lado a sapucaya elegante, erecta como donzella que, na 
ardente atmosphera do baile, presume ser a rainha da festa. Era do outro 
]ado o beijcim, a jangada de tronco poroso e quasi recto, e a brahuna 
annegrada, avivando pelo contraste as trepadeiras que a vestem de cores 
brilhantes. Aqui o araçazeiro imitando a macieira na casca e na folha, 
com o fructo á feição de nesperas e maior do que estas. Ali o cajueiro, 
tão útil e por tantos modos elevando-se até á altura das maiores figueiras, 
fazendo brilhar os fructos ssborosos, agora compridos e vermelhos, 
logo redondos e almecegados, em outras variedades amarello e imitante 
ás peras, por entre uma folhagem densa como a da cidreira, alternada 
de ramúsculos de flor como a do sabugueiro, e coroadas todas estas for- 
mosuras pelo frescor ddeitoso da sua sombra, inapreciável naquelle 
clima. Finalmente, ' acima de todas, dominando-as como o cedro domina 
os arbustos, o mcnarcha daquellas selvas , tronco verdadeiramente real. 



O maçaranduba {ureciao aoi engeuhos, cujo cimo o tiro do caçador muita 
yez não pôde alcsDçar. 

Peiíjsais que é tudo ? Ohl não. Mas quem poderia resumir em um 
quadro coEpparativamente estreito essa lariedade iofíoita que uma na- 
tureza pródiga ali accumul^i no espaço mais limitado? As formas mui- 
tiplicâose, desde a fulha lanciolata aié aospennachos naagestosos da pal- 
meira; destacão-se mil côres; confundem-se mil ramos; não é um jardim, 
é um prysma immenso; é uma tela gigantesca, onde o pintor mais inven- 
ti?o esgotou as combinações dos arabescos e das tintas. 

£ toucando, estreitando, enlaçando, enredando tudo isto ; florindo, 
trepando, guarnecendo todas as arvores; torcendo se em volta de todos 
os troncos, debruçando- se em festões de todos os braços virentes» a fii- 
milia immensa e original dos cipós, a granadilha, o caladio, o dracontio, 
as begónias, as baunilhas, sem contar os fetos, as licbens e os musgos 
diversíssimos. 

No meio desta profusão, quem pôde já adivinhar a que ramo, a que 
arvore e a que planta pertencerão as flores em que os pés se enterrão? 
Olhais em detalhe? Vedes surgir do terreno pantanoso, em grupos aper- 
tados, as agigantadas e formosas flores elypticas da heleonia, que chegão 
ás vezes a medir oito a dez pés de altura, ornadas de flores extravagan- 
tes, côr de fogo e vermelho escuro. Na bifurcação dos ramos nas ar- 
vores maiores achais as bromelias enormes, cuja flor se talha em espiga 
ou em paniculo, de um escarlate purpurino. Dali pendam meadas de 
raizes, grossas como cordas, que vêm arrastar pelo chão e abraçar novos 
troncos. 

Que poderemos dizer mais, se a estas riquezas de vegetação juntais 
uma população variada e soncra de aves, como não ha outra em nenhuma 
parte do mundo, flores animadas que, reproduzindo todas as côres, mo- 
dullão todas as notas, desde o guará de plumagem ígnea até ao beija-flôr, 
que também merece o seu nome poético, sem fdllar nessas espécies mais 
conhecidas na Europa que ajudáiào a revelar-lhe as maravilhas do novo 
mundo? Não vedes aquelle povo aliado, saltitante, harmonioso, dourado 
em reflexos metálicos aos raios do sol nascente? Dizei senão tendes 
agora compMo o quadro, completo pela vossa imaginação, a quem offere- 
cemos este esboço ? Dizei se diante de tanta grandeza e perfeição, vos 
não sentis tomados de um religioso respeito ? Dizei se, dmirando a sa- 
bedoria 6 o poder divino, que tantas cousas fez umas para as outras, 
e todas para vôs, príncipe da criação, dizei se não sorrides do incrédulo. 



— 85 — 

compadecido delle, e, elevando o espirito, n&o oonfessais o Senhor? 
Admirai, e ser-vos-ha necessidade o sentir; senti, c ser-vos-ha neces- 
sidade o crer I 

E que nos perdoem ainda esta digressão. \ imaginação aventurosa 
do poeta não está sujeita ao strictos preceitos do mero histoiiadcr. Se 
um foimoso panorama o arrebata, se com os olhos do corpo ou do 
espirito, encontra no seu caminho um desses pitorescos aspectos que 
enthusiasmão o viajante, apaixona- se descrevendo, pintor lambem, pre- 
para a palheta e as tintas, e, fazendo o epilogo da natureza, como das 
paixões, resume em um painel as bellezas dispersas, e sobe as azas da 
inspiração a própria origem delia, até que a necessidade o força a descer 
a prosa usual da vida Mas que o historiador não zombe do poeta, nem 
e^te daquelle. iJêm-se as mães que são mut'JOS e naturaes auxiliares. 
Toda a poesia tem uma historia e toda a historia tem uma poesia. Al- 
liem-as: esse é o segreda. 

E, tornando á historia, agora somos obrigados a confessar, que esse 
espectáculo — delineado apenas em linhas grosseiras porque a palavra 
mal pôde obedecer ao pensamento e quasi sempre o atraiçoa por impo- 
teocia— parecia mcdiocremente interessar o grupo que vamos apre:eDtar 
aos olhos dos leitores» Nêste ponto, porém, certo toda a estranheza cessará 
quando dissermos que naquelle grupo ÍJguravão cm logar conspícuo os 
nossos antigos conhecidos mestre Març?^! e Ayres Gil. Como é sabido, os 
instinctos artísticos de mestre Marçí»! linhào' uma direcção porlicubr 
que nada se aproximava da lyrica, e quanto ao mosqueteiro, temo-lo fre- 
quentado bastante para presumir que o idyilio não era o seu forte. 

A razão porque Ayres se achava tão cedo neqaelle logar, sem ser paia 
admirar as bellezas da natureza, idéa extravagante, que nem lhe asso- 
mava ao cérebro, tinha suas analogias com a philosophia peripathetíca 
que o levara a passar as noites nos parapeitos do forte de S. Jorge. 
Da clareira onde esta vão podia-se perfd^amrnte observar , sem ser 
visto, assim a restinga de areia, como um largo tracto da margem. 
Pelo decurso desta historia temos visto qoe o honrado mosqueteiro não 
era absolutamente indiferente ás vantagens destes observatório, s naturaej. 

Quanto a mestre Marçal, não tinha tido outro motivo senão respirar 
um pouco o ar puro da manhã e acompanhar o seu Pylaies, se é que 
não entrava nisso uma tal ou qual velleidade de se subtrahir á vigilância 
do capiíão-mór, a ôm de começar o mais tarde qu") pudesse os seus tra- 



1 



— 86 — 

balhos, porque a paixSo da arte, satisfeita pela sociedade, já oão preva- 
lecia nelle a tal ponto que lhe fizesse esquecer os cuidados da sua cod- 
servacão, e mesmo da sua commodidade. 

No momento em que levantámv.s o yóo á scena, Ayres Gil, roais 
taciturno do que era seu costume, aloQgava os olhos pela margem do rio 
com uma persistência e fíxidade que denotavão ceita preoccupaçâo ou 
pelo menos meditações demasiadamente aturadas. Sabido que Ayres não 
era dado a contemplações, este exame tácito e prolongado podia dar 
que pensar. Mas Ayres não examinava só, examinava com uma miau- 
ciosidade de precâuções que principiava a inquietar deveras o seu amigo. 
Ayres, cui iadcsamente sumido atraz da copa baixa de um muricy; tinha 
o rosto pregado no enquadramento foimado pela leve divergência de 
dous ramos. O corpo como que lhe fdzia porte do tronco, e a mào des- 
cançava-lhe na boca do inseparável mosquite que parecia como elle for- 
mar um todo com a arvore. Uma coilina de cipós florentes descendo 
agitada pela frente sem lhe interceptar a vista' facilitava a observação^ 
protegendo a invisibilidade do observa ior. Em Ayres só os olhos vivião, 
tal era a immobilidade do resto do C'rpo. 

A poucos passos do mosqueteiro, m&is para o interior do mato, e 
fora do alcance de quaesquer investigações ou curiosidades no troço las- 
cado de tronco enorme de pikiy estava gravemente assentado um indi- 
viduo, que apparecendo agora pela primeira vez aos olhos dos leitores, 
merece uma descripçâo particular E4rejtfis cintas disgonaes, em que 
a tintura da geoipa e do vermelhão alteinâo o preto azeviche e o côr de 
sangue dào um aspecto terrível áquelle homem impassivel. E' a pintura 
de gutrra das tribos bellicos?s descendentes dos antigos tupinambás. A 
fronte dísenvolvida, em que se não nota a depressão vulgar nas castas 
sekageos, é cingida pelo yempenambi de combate, circulado de peonas 
vermelhas de arara. A aresoya de longas plumas desce-lhe da cintura 
formando como um saio variegado. Os cabellos compridos, corredios e 
negros, e os olhos da mesma côr accusão no xanfrado destes últimos o 
typo Moogo), menos pronunciado todavia do que na raça tapuya. A es- 
tatura deste homem ó mais elevada do que ordinariamente costUQoa ser 
a dos indígenas da America meridional. Os membros proporcionidos 
e nervosos, revellão uma fcrça pouco vulgar. Não temos lábios nem 
as faces fendidas e atravessadas de pedras, conchas ou pedaços de páo, 
ornamentes extravagantes que de ceito furão o orgulho de seus pais: 
vê se que a mão dos missionários preparou já a geração a que elle per- 



— 87 — 

tence. A burá, ou loDgo collar de conchas, cortadas em discos muUi- 
plices, cahe-Ihe em voltas sobre o peito, e cega de alvo ; mas o yad 
de osso não lhe brilha no seio : é que esse não é mais que um ornato 
de festa 1 Segura na mão direita o longo e pesado arco das tribus brasilei- 
ras, mais alto que um homem, e na esquerda enfeixa uma porção de 
flexas compridas, ornadas da tacoara penetrante, comprido dardo de can- 
na, aguçada coma se fora uma lanceta. Ao lado, encostado ao tronco rude 
que lhe serve de asssento, avulta lhe a terrivel tamarâna, massa pepadis* 
sima de páo-ferro, faceada em quatro arestas coilptes, mais estreita no 
cabo e mais larga na extremidade opposta, arma cujos golpes rachão ou es- 
pedação. Uma franja de algodão vermelho cinge este instrumento de morte 
a um terço da sua altura. 

Como vêdes,é um chefe A sua apparencia é grave, reflexiva e silen- 
ciosa, tal como convém a um homem que tem seguido o trilho da guerra 
e feito ouw a sua voz nos conselhos. 

O leitor nSo advinhou já? tem diante o famoso Potiguarassú, que na 
capitania, denominão popularmente o Grfto-Camarão, quasi versão do nome 
que lhe dá a sua tribu, e provavelmente applicado em consequência da 
prodigalidade com que elle usa da côr vermelha. 

O exterior do chefe dos taboyâres, como pompa selvagem das suas 
armas e ornatos, é ao mesmo passo terrivel, imponente e magestoso* 
Entre os seus é commum o uso de uns broqueis de madeira leve cobertos 
depelle detapir. Potyguarassú , que hoje na Europa podia, muito bem 
passar por um reformador, despreza aquelle instrumento de defesa, posto 
que o gentio não seja de ordinário excessivamente escrupuloso nos meios 
de se resguardar sempre que pôde. Este meio inicia no seu caracter. O 
chefe distingue-se por uma tintura cavalheiresca de sentimentos, tal como 
lhe permittem ainda os hábitos, as tradições do seu povo e a meia ins- 
trucção que deve aos padres das missões e que ainda lhe não ftz perder, 
posto ter modiflcado, o natural selvático. 

Quanto ao moral teremos em breve accasião de observa-lo 

Uma das causas que mais impressionara mestre Marçal- fora a pre- 
sença dos taboyâres no campo do capitão-mór. Mestre Marçal eahia da 
tenda de Mathias de Albuquerque, onde fora conduzido pelos negros que 
o havião transportado da restinga, quando ao pé de um canhão ainda 
desmontado, viu, encostado ao seu morucú (lança) um daquelles gentios, 
cujo aspecto se bem que menos magnificente, era pouco mais ou m^os, 
o do chefe que acabamos de ver. 




— 8» — 

O mesmo foi tô-1o que dar um pulo desmesurado e cahir n^m 
spasmo de terror, tudo tão violento que os próprios negros se assustárfto, 
sem saber de que, porque para elles não era nova a figura de um taboyar. 
Mestre Marçal esfregou os olhos e beliscou fortemente as cartilagens flá- 
cidas que elle se gabava de serem as polpas dos braços. Julgavisi-se vi- 
ctima de um pezadello horroroso . 

O leitor intelligente já sem duvida apreciou bastante a candura da 
alma e a lógica estreita do honrado fogueteiro, para fazer idéa das extra- 
vagâncias a que podia leva-lo uma preocupação nascida de taes circusús- 
tancias. 

Nas suas imaginações mais disparatadas nunca se quer suspeitara 
que um homem se pudesse vestir senão de gibão, golpelhas, e o resto, 
como elle até ali tinha visto toda a gente, fosse qual fosse a sua natu - 
ralidade. Verdade seja, o trajo habitual dos negros tinha desarranjado 
um pouco as leis sumptuário- mentaes do nosso amigo; mas. a final a 
differeaça não era tão sensiv^el que elle, depois de habilitado, não pu- 
desse admittil-a na qualidade de variante. O que mestre Marçal não 
concebia como possivel, é que um homom, fosse qual fosse a sua côr, 
se vestisse de pennas e elevasse á categoria de cbapéo um cocar de rabos 
de arara . 

£, a respeito de côr, as hesitações e terrores de mestre Marçal su- 
bião de ponto ; pois que por msis que attentasse, subjugado o medo 
pda curiosidade, era cousa que no caso de que se trata não podia do- 
minar. O guerreiro gentio, que era mancebo, tinha tido a phantasia de 
debuxar na cara sobre um fundo de vermelhão, duas cobras negras en- 
roscando-se nas faces, imitadas da natureza com uma ingenuidade pri- 
mitiva : coroava este desenho seductor uma serie de pequenos arcos ogi- 
vaes desde o sobrolho até a raiz do cabcllo, o que lhe dava um ar de 
espantado , que nenhuma expressão poderia reproduzir. 

Mestre Marçal na innocencia do seu espirito não sabia decidir qual 
das duas cores era a predominante daquella raça, novíssima para elle, 
e custava lhe a comprehender como é que uma creatura de Deus, pois 
ainda assim julgava o gentio, opinião que depois corrigiu com as illus- 
tradas prelecções de Ayres Gil, custava-lhe a comprehender^ dizíamos, 
como é que uma criatura de Deus podia ter nascido bicolor tão horroro- 
samente serapÍBtadt pela natureza. 

Aevolacionadas deste modo todas as suas idéas de trajos e tez de 
homens, mestre Marçal acreditou piamente que tinbt diante de si um 



— 89 — 

«pte sobTenatural, um monstro exoctico, um a^imal sem nome, cujo 
contorno, mas o contOTDO só, tinhpas maipres analogias com o. homem. 
£sta única lembrança empalli^eci^ todas as memorias dos seus passados 
^rmentos. As scenas do forte^ a j)risão do tronco, o gracioso entempes- 
tÍYO do Pateo das Comedias, os beleguins das portas (j^e Santo Antãp , 
e mesmo a Sra. Medéa, apigado tudp na distancia, erâo nada avista 
desta app^ção de nova espécie. 

De lepente uma idéa lumim^a atravessou -lhe o cérebro deserto: 
I^estre Marçal assentpu lá coinsígo que a grande e terrível âgura, erecta 
e immovel diante delle, não era outra cousa, seoã^tim disfarce do diabo. 
JEm boa verdade, elle não sabia conjecturar ju3 cousa lhe poderia querer 
p. diabo, nem pôr que razões o fora logo pref rir, a n^o ser em desem- 
penho do, seu oj^io de tentar o género hunç^ino^ a que elle mestre Marçal 
per^ncia ; mas, como j)or fim d6 .coptas esta explicação lhe parecia 
assas plausível, piestre Marçal deu .por infalliveis as suas conclusões. 

Desde que a natureza da appariçãp era conhecida, o remédio contra 
ella não eta tão diíficil ; , mestre Marçal^ que de ordinário exercia uma 
critica interior Qada benigna, chegou n^çpmo a ter dó da pouca esperteza 
4o diabo que lhe appareda em um acampamento» quando, se lhe appa- 
recQSse na restinga, emquanto e.^tivera só, te-lo-hia provavelmente matado 
de inedo, sepa elle ter tempo, mç^mo bom chrístão f^omo era, de distin- 
gui-lo e aprecatarTse. 

Feitas est^s judiciosas reflexões, mestre l^rçal, que se gabava de 
conhecer perfeitamente as manhas ao diabo, fez o sigoal da cruz, persi- 
gnandor^e com toda a devoção, e murmurando umas palavras latinas, 
que elle não eiitendia, e que lhe ensinara o sachiistão de S. Crisprim, 
,qu As não entendera melhor, p qual sachriatão as aprendera de um co- 
ne|;o da Sé, que as.çomp^hiendia ainda menos. 

Mestre Marçal cria firmemente que o diabo, sem poder resistir á 
i>e]:?ignação e ao terrível exconjuro, ia dissolver- se em fumo ; e, na sua 
pr&vid<ençi& minuciosa, preparava-se já para preservar o nariz do cheiro 
do enxofre, que lhe fazia mal ao miolo. 

Mas, o. moço taboyar» a quem era familiar o signal da cruz e a toada 
4p latim, porc^ne ouvia esta e via aquelle frequentemente aos padres 
.4as missões, eitendeu a mHo para ton^ar a de mestre Marçal e beijar- 
Ui*a, como Ihetinhão ensinado, dizendo com gravidade respeitosa: 

— Ir^ão branco é piaya , (espécie de sacerdote gentio), da sua 

4ribu, vem de além do mar grande, da terra do poderoso chefe branco 

12 




— ôo — . 

qae alcança cem o braço as serras de Ibiapaba. Bem yiado se|a o 
meu irmfto piaya. O signal de meu irmão é um signal de paz ; e o 
guerreiro taboyar ?ai eatrar no tiilho da guerra. O piaya dos brancos 
tem o privilegio de agitar a maraca sagrada ; mas u guerreiro yermelho 
vem do Tupi exterminador, o poTo da divindade terrível. Quando o tupan 
(trovão) se faz ouvir, o guerreiro vermelho prostra-se e adora, porque ó a 
voz de cima. Os guerreiros brancos imitão o tupan, eos seus piayas repre- 
sentão o senhor do tupan do céo, e são como os assoioné (génios bons) 
para o guerreiro vermelho quando vuha do combate. Por isso o guerreiro 
yermelho beija a mão do piaya branco. 

Neste discurso, recitado com a solemnidade selvagem pelo moço 
taboyar, atravez das imagens familiares ás suas tradições, notavão-se já 
os primeiros fructos da educação dos padres das missões e n&o era pe- 
queno resultado redazir pela persuasão estes guerreiros ferozes a dar 
tal signal de acatamento a outro homem. Além disso, o moço goer- 
reiro, como se vê, julgando indigno de si fozer perguntas e mostrar cu- 
riosidade, apresentava sob a forma de epiphonemas, as suas próprias 
conjecturas acerca de mtstre Marçal, cujo todo não deixava de lhe causar 
estranheza. 

Mestre Marçal era, porém, mediocremente sensivel a esta prora de 
respeito intempestivo. Pasmado do effeito do seu exconjuro, tão aresso 
ao que esperava, estupefacto das palavras barbaras que pela primeini vez 
lhe soavão aos ouvidol, qualificado de piaya em um português que não 
brilhava pela pureza, julgou sinceramente, ou que o diabj possuía um 
sortilégio superior aos remédios conhecidos, ou que o sachristão de S. 
Chdspím o embaçára*, e, possuido de um pânico insensato e^ses- 
parado, dcsanddu a fugir ás carreiras em um paroxismo de mede, que 
se aproximava muito de um ataque de aliena^pto. Os negros espantados 
tomarão o p^^rtido de rirás gargalhadas da grotesca figura dofogise- 
teiro O tdboyar, julgando indigno de um guerreiro admirar-se ou pedir 
explicações, continuou a exsminar a campina como se nada se tiveni 
passado. 

Quanto a mestre Marçal, só parou nos braços do seu anJgo Ayres 
Gil, que nessa meMU^ ccc^rião frzia a sua entrada solemne no acoa- 
pamtnto, esó tornou a si daquelle delirio de terror, quando o ni08q[ueteiio 
caoibaleando con\ v> eh. que inopinado, attonito daquelle desusado acoesso 
de actividade do ív^ueteiro, c psrDu eom um mum que o deitou ao chio 
srR^mbandxi-lho um hombro. 



— 91 — 

Esta impressão de terror, que tentámos descrever, havia comtudo 
cedido, em mestre Marçal, á frequência e ao cosluire. Habituado a ver 
todos os dias os Taboyares nos rêaes de Bom Jesus, jâ não tinha es 
mesmos sobresaltos na sua presença ; mas no intioio da consciência conti- 
nuava a achar de uma ^extravagância inaudita o tr^jo bárbaro dos gentias, 
o que o fazia cahir em contemplações impertinentes. 

Assim, na situação em que encontramos os jiossos ires personagens, 
Ayres Gil do seuobseryatoiio contemplava afincadamente a restinga 
e margem do rio ; mestre Marçal comtemplava a pompa guerreira do 
selyagem , que lhe dava voltas a 4ins restos de miolo ; e o Taboyar, so- 
berbo e impassível como um chefe,não contemplava nada, ou antes dissi- 
mulava, nas apparencias de uma absorpção profunda e de uma impassi- 
bilidade inflexível, a exploração rápida que de vez em quando fazia com 
os olhos sobre as ramadas que limimitavão a clareira. A expressão 
inquieta e furtiva destas investigações do gentíe não terião escapado 
a um observador mais perspicaz do que mestre Marçal. O honrado 
fogueteiro, porém, meditava no triumpho que elle obteria para a sua arte, 
se algum dia, voltando ao reino, realizado o trípb'ce desejo que elle em 
segredo nutria, pudesse offerecer, em um arraial, â admiração dos 
curiosos, uma cópia fiel daquelle original, recheado de valverdes, bombas 
e rodas de fogo. Para sermoi^hi^toriadores escrupulosos, devemos dizer 
que os três desejos de mestre Marçal crãp : — regressar á pátria sem 
avaria,— ver abolidas as ordenanças de Gastella-e achar-se viuvo da 
Sra. Medéa Brandoa, que elle, apezar da distancia, estava descaridosa- 
mente propenso a julgar ainda o mais temível dos seus flAgellos. Gomo 
se vâ0o objecto das meditações de mestre Marçal não era extremamente 
lisongeiro para a grave diffnidade do selvagem. 

O silencio durara laifi espaço ; mas o silencio era um estado ne 
gativo, que não podia convir ao caracter facilmente apprehensivo de 
me tre Marçal; por mais estimulante que fosse o espirito curioso das 
suas observações technicas, o nosso fogueteiro não sympathisava muito 
com a mudez mysteriosa das florestas, e gostava de fallar, ainda que não 
fosse senão para se ouvir. 

Nestas disposições fez um esforço sobre si mesmo para se dirigir ao 
taboyar, torcendo a linguagem, convencido de que assim se faria com- 
prehender melhor. 

-^ Estar dia bonito, gentio ! 

Mestre Marçal, pouco fértil em expedientes oratórios, começava por 



— 92 - 

um Ibgar commum, tão freijuente nos ío'gtieteiros que não sabem o que 
hão de dizer, como nos Daxoraéos que éusaião requebros noviços ém 
sa3as de saráo. 

O selvagem fitou mestre Marçal com um olbar tfn que se confundia o 
desdém e a commiseraçao, e contentou-se de abaixar a cabeça em signal 
affirmaiivo. O gentio julgava mestre Març«l pouco oppulento de jolzo, 
e, como se sabe, a alienado é um objecto de respeito em todos os povos 
primitivos. 

O foguettíro, julganído que se não fizera perceber, repetiu a formuk, 
variando-a : 

— Gentio, estar muito sol, boèito dia l 

Aíestre Marçal tratava com uma certa sem-cefemonia os tabojares, 
depois que lhes perderá o medo, porque nem um momento duvidara dai 
superioridade de um homem que vestia calções sobre outros que se eti- 
feitavão de pennas de papagaio. 

— Irmão branco - respondeu o taboyar, no tom ^catencioso habitiil^ 
aos da sua raça, julgando (jué era dever seu dar esta pro^a de deferência 
ao estado mental do áeu interlocutor. — Irmãò brãneb, não fecha sem 
olhos á luz do grande Tupâ. Se o Cuspirá (génio db i^nsaménto) Ibe 
fugiu turbándo-lhe o espirito, o espirito decima desce ás vezes a illami- 
na-L>, coDco e grande Tamaidaré teiu visita/ ol homens vermelhos para 
que a sua raça não se acdbassé. 

Mestre Marçal, qué não entendia niúa palavra (íestes aphorismos 
da mythologia selfagen^, mál desbaMda dnda pela propaganda dos 
missionários, ficou fazendo dó chefe gentio o mesmo conceito qufl^e 
queria exprimir acerca da sua honrada péssoa^D fogueteiro julgava, po- 
rém, iLÍerior á siia catbegoria de homem ^ilifado deixar perceber 
que não entendera. Tomando, portanto, um ar de gravidade meditativa, 
que lhe ficava a matar, résmoneou, abanando a cabeça em m(ydos de ho- 
mem que nãò aprova completamente o que outro lhe diz : 

— Huml... hum!... Tem que se lhe digaiàso qué dizer, vós. . . Há 
seus mais e ha seus menos... mas vamos ao qué impcrta, oB herejes 
de Olinda nunea chegarão até aqui, não ser verdade ? 

Os hollandezes continuado a sér a eterna préoccupação de mestre 
Marçal. A presença do seu amigo Ayres Gil ea fera catadura do selvagem 
erào apenas bastantes para lhe adormecerem momentaneamente estes 
leocios, sempre renascentes, e, se elle se S3 affwtSra a acompanha-los 



—^93 — 

até aquelle ponto, é pof que irâo havia noiícia de se terem os holhmdezes 
approximado dos reaes. 

O táboyaT, ouvindo esta ioterpellaçl^o, que trahia as apprehensões 
dominantes do fogueteiro, replicou : 

— Os espirito» fracos do meu irmão branco povoão as florestas d» 
visões que os assustão. £' a mão inimiga do Gorupary (geni» do mal) que 
lhe estremece o coração. O guerieiro vermelho tem eo^âanga no grande 
Tupá, e os Playas brancos ensinarão -lhe que é delle 'que vem todo o 
poder. As tribus que atravessarão de além das grandes aguas hão de ^ 
cahir no trilho da guerra, e a taquara do homem vermelho é quanto 
basta para ás fazer succumbir. 

Mestre Marçal, que tinha uma fé multo medioere no» initrumeiítros 
belicosos da raça indígena, oontiiHiott a manifestar as »ua» duvidas por 
um movimento significativo de cabeça. Potyguarassú pn)segiiia com 
apparente indifferença : 

-^ Meu irmão branêo, bem o sei, conhece a arte de iábricatr o mio ; 
maa d seu espiíito innoeente não está affeito a encara-^lo, e, no meia 
da seilra, o áeu braço eniaqúeddo treme como a folha da palmeira 
qUándo 6 vedto a agita. 

A verdade destas observações era suficientemente clara para que 
mestre Itarçala entendesse; mas o fogiieteit^ era de um caracter su- 
perior éi aHusõed e não «e oâbndia facikúente dom a severidade da 
critica. O ^ae elle via aas respostas pomposas do selvagem era uma 
evasita que lhe não sofHa. lêtopostOi insistiu» esquecendo-se já de afTei- 
90ar a sua Itnguageiâi á intelligeneia que suppunha no interlocutor. 

— Mas ha petigo de apparecérem por aqui oê hollandezes? 

— O trilho da gjlkrra é semeado^ de perigos e de èiladas— retorquiu 
o talN)yar; -^ a floresta tem s^redos que o meu irmão branco nio pôde 
entender. 

Nisto o taboyat fitava, eom uma pen^stencia áémáo agouro» as 
ranMldaiis da margem, como se quizera interrogar até ás suas profundi- 
dades aquelles segredos a qvte attudia. Mestre Marcai, que principiava a 
ver éousas pouco lisengdrtii através das metaphofas do selvagem, fez-se 
c6r de ocre, calculaiido meutalmeale a velocidade das suas pernas e a 
distancia què o separava dos reaes. 

Ayres-Gil em todo este tempo, contra o seu costukne, não dissera^ 
uma palavra Afinal par^eu aborrecer-se da sua longa e infructifer 



j 



-^ «4 . — 

scmUnella ; e, arrastando negligentemente apoz si o pesado mosquete 
aprozimou-se do grupo. 

— Que diz esta gallinha depennada ? —observou Ayres com a sua 
usual franqueza 

Mestre Marçal nfto julgou a propósito refutar a facécia um pouc) 
abrutada do seu amigo; e, abaixando a cabeça com humildade, poz-se 
a considerar attentamente os joanetes, 

— O meu irmão branco— acodiu o taboyar— tem o espirito cheio de 
apparições . 

— Logo Ti->ataIhQU o mosqueteiro %ie não daya muitas liu^gas & 
eloquência prolixa dos indígenas.— Se tens medo, mestre Estoiro, por 
que yieste aqui ? 

NLesiie Marçal, achando perfeitamente justa e judiciosa a refI«zão do 
seu amigo, arrependeu-se em toda a sinceridade da sua alma da impru- 
dência commettida, e protestou comsigo nãa tornar a cahir em outra 

O mosqueteiro, sem attenção ao ar compungido de mestre Marçal, 
ia continuar em uma serie de imprecações pouco amayeis, o elogio do 
seu protegido, quando o taboyar, levantando-se gravemente e com modos 
de perfeita indifferença, disse para o fogueteiro em voz sem altera^.ão : 

— O meu irmão branco ha de ter os seus trabalhos no campo da. 
sua tnbu. 

— Bons trabalhos são ellcs 1 — dispunha-se a exclamar o fogueteiro* 
— quando um gesto rápido e enérgico de Poliguarassú f<^ lhe volver so- 
bresaltado os olhos para o lado da ramada, que este, havia tempo, pa- 
recia absorver particularmente a disfarçada attenção do gentio. Sem 
dizer palavra, Ayres Gil alçou o mosquete ; mas o taboyar, segurando^^ 
lhe o braço, vibtou-lhe ao ouvido estas palavras, que de todo contras- 
ta vão com os seus moios indolentes : % 

— O trom das armas dos homens de fogo accorda-os ecos da flo- 
resta e attrahem os inimigos. Os olhos do guerreiro vermelho estão 
abertos para as ciladas, e vêm mais que os de meu irmão branco. Di- 
zendo, eatendeu-se no chã® de costas, como se seixo ou raiz lhe tivera 
feito perder o equilíbrio. • No mesmo ponto, Ayres Gil lançcu-se de lado 
contra um gigantesco tronco de vinhatico. Mestre Marçal, que parecia 
ignorar a causa desta súbita desordem, dirigiu machinalmente os clhos 
para o lado que o taboyar indicara, e cahiu de joelhos gritando : 

^ Misericórdia I 

Por entre a ramagem basta da selva sabia o extremo de um mos- 



— 95 — 

quete apoiado em um festão de cipós. Um raie indiscreto do sol fazia 
brilhar o instrumento hcmicida. 

Mestre Marçal, jugando que a sua longa estatura, mesmo diminuída 
metade, era ainda um alro satisfactorio, deixou-se ir com a face contra 
a terra, imitand > o taboyar, mas em sentido inverso. 

Seguiu-se um momento de silencio angustioso e terrível. 

O fatal mosquete, movido por braço invisível, parecia procurar um 
ponto de mira qi|e repentinamente lhe desapp^recôra. Seu dono in- 
quiria seguramente a rozão deste transtorno inesperado ; e, na avidez 
da impaciência, uma cabeça surge por entre os ramos. 

Gahindo, o taboyar mettéra os pés no arco immense. Com a mão 
esquerda segurava a corda ; na direita, negligentemente estendida, 
tinha a frecha armada da temível taquara. O mesmo foi descobrir o ini- 
migo que levantara os pés na direcção da linha visual, adaptar a frecha 
ao arco, retira-lo com o duplo e divergente impulso dos pés e da mão, 
e fezer voar a frecha silvando. 

Um geoQido prolongado respondeu do interior do matto e um corpo 
baqueou surdo sobre o solo húmido. 

Ayres Gil, que, esquecido de si, observava os movimentos do gentio 
com uma ceita curiosidade, eoçou a orelha, supremo indicio das suas 
mais vehementes sensações. Ayres vira sempre, com um desdém que 
não procurava encobrir, os instrumentos bellicos dos gentios, que lhe 
parecião puerilidades comparados com as armas da Europa ; e, lá no seu 
foro intimo, custava-lhe acreditar que o capitão-mór tivesse commettido 
a estravaganda de chamar taes j^uxiliares Estf prova da utilidade pratica 
daquelles instrumentos em certas occasiões, dava-lhe portanto que scis- 
mar ; e, se não estava de todo convencido inclinava se todavia a aceitar 
a denH)nstração de tima cousa que a principio lhe parecera fsbulosa e 
Tisivfil. O seu primeiro movimento foi, pois, o do caçador que despreza 
tudo para ir verificar o resultado d^ um tiro feliz. Pondo de parte as suas 
habituaes regras de prudência, arremessou-se para a clareira. O taboyar, 
porém, que se erguera de salto, com uma agilidade igual á sua destreza, 
pôae dete-lo ainda a tempo, e travando-lhe ener^&amente do braço, to- 
mou logar com elle atraz do tronco protector. 

£ bem lhes foi a ambos, porque, ao mesmo tempo, levantou-se do 
mato um grito immenso; e, ao som.de violenta descarga, uma chuva 
de pelouros veiu lascar ou cortar em torno delles os ramúsculos das 
arvores proxinas. 



\ 



— «6 — 

— Ah! cSes de heiejes i -- bradou o ^nosquetei^ — ^ue hm s(í9l 
Dhão aqui. Mas Ayres Gil não se enti^ega a^im I 

£ fazendo de um ramolorquilhii, apontou o mosquete na dtiecçlo» 
donde eaperuva o inimigo. 

O ardor guerreiro de Ayres era uma ^ppq^i^ão nvà icomi « liia 
placidez do gentio. 

-^0 meu irmão brancp.^ disse lOste/— não conia osíúiimigos no 
combate. O guerreiro briinco é .um goande gueinreiro; mas o dbefe 
taboyar escuta e ifô quando íOs «eus ftmigOdtômos.idhosiidQriueoidoi e 

os ouvidos cerradoiGi. 

O mosqueteiro jdaya a ;tedos os diiibos os discursos ^paraíboUcos do 
índigena» ei^preiitando o, primeiro dos mystericsos advenNifioff^que ouifAMe 
mostrar-se a djescob^to. Ueatre Heirçal, no epUatOnencommendiem a 
4lma a Bens ; e, ouTindo as detonações, «umira meio costo .no H^bio 
itreento^ fòrcejoiído por espalmar-se «o mais que Ibe era possivdl, e 
desejando nivelai-se absolutamente com Oisólo» abraçayAiattfnra como 
Antheo; mas» seja feita Justiça, «pão ora paca jlhe pedir {^rçiis jpara o 
combate. 

Niio .tardou em ser^iatisfei^ aimpaqieneia dompsquetQicq. Cres- 
cendo o abirido, desembocou de tiodos os pontos fronteiros da flov^ta 
uma turba de boliandezes, procurando doudamente o matador dfi.stta 
vedeta, cujo ^deaastre ainda Ibea cuatava n compr^n^er, ;par/me €#M, 
vendo só três individues, ^acenárft-lbes sepi julgar raKpropositpprof:^- 
ni-los, e, cabindjq, não pudera mais proferir palavra. 

A presença dos inusares msste Iqgar explioarse fecilmente. ,{!iii- 
quanto Ajrres , que frequentava jaqueUe sitio como favorável 4 obser- 
vação, se entretinha a explorar qualquer movimento.na restir^ga, C0|n 
o intuito de participa- lo, para os reaes, aiim de facilitar as^oper^Ções dAs 
companhias de emboscada, um deijtaçamento numerosode bpllaii4<^a^s 
sahira de Olinda, e.fazepdo um lopg0;ci]:c;aito, vijera.hateromatoiwira 
forragear fructos^e dar ca.ça áquellas companhias, queianto^^Qs^nocoi- 
modavão. Como se vê, osholbudezes iâo-sebabi^ndoáguçrra. de ci- 
ladas, e a campanha complicava-Sie de incidentes novos. 

O pobre de mestre Marçal, que nada \ia, nem queria jer, i^ag 
que perfeitamente sentia approximarrseo tropel e. as vozes, iazia votos 
ambiciosos para t^r naquelle mojnento a ei^pes^ura das folhas que lhe 
servião de leito, ou possuir o privil^o da inviçibiUdade. Por mais 
diaphano, porém, que fosse o bom do fugueteiro e por mais que se. açlia- 



— 97 — 

tasse, a*sua estirada figura deu logo nos olhos aos hoUandezes, que de 
todos os lados aíllairão bravos ao pODto em que elle moQopolisaya as 
ôltinções contra sua vontade. De certo mestre Marçal não feria mais 
foguetes e artiflcios ao capitão-njór, se o seu amigo Ayres Gil chegando 
a corda ao mosquete, não mostrasse em ar triumphante ao taboyar um 
dos inimigos mais avançados, cabido no chão com um pelouro no peito. 

O gentio não approvou, nem desapprovou. Contentou-se de dizer 
ao mosqueteiro, damnado com esta indilTefenç» : 

— O guetreiro branco tem a experiência dos anciãos, e a verdura 
de um mancebo. 

Ayres Gil replicaria cora uma valente catilinaria, se os hoUandezes, 
giupando-se em torno do ferido, não tomassem por alvo das suas peri- 
gosas investigações a arvore que servia de abrigo aos nossos dousheroes. 

Nisto o chefe taboyar fez ouvir um sylvo agudo e prolongado, que 
so perdeu nas profundezas do mato. No momento em que os hoUan- 
dezes, certos já do que procuravào, se movjào em massa contra a arvore, 
cinco ou seis delles cahiráo em terra como feridos por mão invisivel. 
Potyguarassú então, transformado subitamente, fez retumbar os ares com 
o grito de guerra dos taboyares ; e, empunhando a tamarana que appen- 
dôra ao ciuto, cahiu sobre os hoUandezes seguido de Ayres, cujo pe- 
sado mosquete não era menos terrível. O grito do chefe fchou um 
éco multíplice. De cada ponto da clareira surgia um guerreiro taboyar ; 
detrás de cada balseira levantava- se um vulto armado e feroz. Parecia 
que a seiva inteira se havia anioQado, e que ojs troncos venerandos da 
floresta, revestindo figuras humanas, cabiào sobre os atrevidos aggres - 
sores para lhes punir o sacrilégio. 

Os hoUandezes sorprendiios nem pudeião fazer fogo. O ataque 
impetuoso e inesperado dos gentios determinou logo uma derrota pânica 
seguida de uma carnificina >horrenda. Os taboyares não davão quartel, 
e Ayres Gil, ferindo sempre e estendendo de cada vez um inimigo, gri- 
tava debalde que lhe voltassem o rosto. 

Potyguarassú soubera da aproximação dos hoUandezes pelos seus 

espias no mato, e dispuzera a cilada com o sangue frio e astúcia, ha- 

bituaes á sua reça. Os seus guerreiros espcravão invisíveis e immoveis 

nos escondrijos conhecidos o signal do chefe ; e, como se vê, o êxito 

íA completo. Poucos dos hoUandezes tornarão a entrar em OHnda, e 

esses farão ahi derramar o terror dos inimigos, novos ainda para alguns 

que tinhão encontrado nos taboyares. 

13 



^^ 98 — 

Ouando os guerreiros de Potyguarassií, com Ayres-Gfl a íteíiÊ& 
ToUárâo em busoa do pobre fogueteiro, acbarão -o aioda na mesma po- 
sição, julgarão o morto, e eile mesmo pão estava louge desta opiniio. 
,Palpandp-ee, po^ém» logo que o erguerão, sentiu-se yíyo eom a dôr de 
uma qua^tida4e prodigiosa de contusões, que lhe zebrayão as costa». 
As costas de mestre Marçal tiuhão sorrido de chão a uom parte da 

juta. 

No dia seguinte mestre Marçal, forrado de emplastos juraya que o 
pingassem como a judeu, ou lhe restituíssem a companhia da Sra. Me* 
déa, se o tornassem a apanhar três covados fóra das trincheiras. 

VIL 

os HOMENS SEM MOHE. 

Temos visto até aqui nobres exemplos, acções audazes, rasgos 
atrevidos. Um momento de desaecordo é resgatado por effeitos herói- 
cos. O invasor acha a resistência onde esperava encontrar o doBuoio. 
As almas, embrandecidas pela longa pro' paridade, retemperão-se nas hoiat 
adversase refazem uma raça nova e sem rival. O escravo^ o iudig^aa, o 
colono grupão-se no sentimento commum, e^.á.luz da mesma glQría, qui- 
nhoão os mesmos sofifrimentos e os mesmos triumphos. ^ . . , 

Mas o quadro tem suas sombras ; e nos episódios variados dest^ época 
fecunda, as sombras comoção a despontar, quaes involuntárias, sob o 
pincel que prccara combinar a poesia e a historia. 

Que importa, porém? Os filhos degenerados de uma terra géneros»^ 
podem acaso macular sua mãi? Os exemplos da traição não avivão mai» 
as memorias de lealdade ? O contraste da infâmia não faz sobresahir os 
lances da honra? Se a perfeição fosse humana, que atributos restarião á 
divindade ? A gloria é maior quanto mais combatida. Era sábio o poyo 
que mostrava aos filhos os exemplares do vicio para os corrigir dellé. 

Vamos abrir aos olhos do leitor soerias novas,enredos tenebrosos, 
paixões ruins ; vamos mostrar*lhe a sordidez do egoismo, a avidea; do 
lucro e a depravação do espirito. Escondemos unicamente os nome^ dos 
novos personagens, porque é inútil perpetuar a nódoa onde basta o 
'exemplo. Fiquem sem nome esses homens, que o perderão para a p^tn^i, 
edeixem-o aquelles que pela pátria o ganharão. £' honra a uns e é 
justiça a outros! 



li 



Era dias depois da refrega dos taboyares. A campanha continuava 
<x>m vária fortuna, mas em gebl com vantagem dos defensores da ca* 
pitania. Privados da commúnicação com o porto e dos recursos do com- 
mercio, os colonos come^^avão a sentir aâ consequências da invasão ; 
mas, na grande maioria delleíí, o patriotismo suppria tudo. Se por um 
lado os hoHandez6s,não podendo dominar a colónia coino esperavão, lhes 
amargava ô fructo da conquista, peio outto os habitantes |da provinda 
não padecião menos, maspadecião pelos seus lares. 

Dos productos da cultura só erão úteis os que serviâo á alimen- 
tação. Os outros accumulavão-se, riqueza occiosa, sobrecarregando os 
seus possuidores e avivando-lhes o pezar. Dahi nascia em uns um novo 
rasgo de abnegação, em outros, e esses erão es menos, um amor de in- 
teresse, que a <M)mpar8ção tornava sórdido. 

Era, como dissemos, poucos dias depois da refrega dos taboyares. No 
pavimento térreo de uma pequena e erma habitação da várzea estavão 
reunidos alg^ins homens, em discussão animada. Quem os visse para ali 
entrar com o largo sombreiro carregado nos olhos e envoltos nos amplos 
mantos, como se tiverão de resguardar-^se de um inverno da Europa, sus- 
peitaria que pouco des(^'ava explicar os seus passos quem por modo tal 
os recatava. Effectiv«meDte soffre mal que os outros o vejâo quem não 
pôde olhar fito para a própria consciência, ' 

Todavia um intuito c(»nmum parecia ter aii reunido aquelles homens 
mysteriosos. Ouçamo-los, e saberemos. 

— Digo vos, senhores — exclamava um delles, homem de meia idade, 
que parecia caduco antes de tempo, peio abuso ou pelo excesso dos pra- 
zeres, e que pelas cãs precoces exercia uma certa influencia e auto- 
ridade sobre os outros.— Digo- vos, senhores, que isto assim não pôde 
continuar. A pertinácia louca do capitão-mór perde-nos a todois, sem 
utilidade para ningueln. Vós que fareis ao vosso assucar ? Vós para oM^ 
podeis mandar o vosso cafô 1 £' perdermos iodos os nossos haveres e fa- 
digas. E tudo pára que ? Para sustentar a gloria vã de tim general, que 
nl^ soube conservar-se no seu posto. Defendeésifm Olinda; mantive 
sem ò porto aberto. Que vimos nóst 

«Todos os armazéns em fogo,e as nossas carregações e òs nossos na- 
vio8| incendiados, também perdidos. E que pesem agora sobrd nós tódaS 
as consequiencias desta guerra! Que mais nos importa o e»taiidarte do 
reino do que o pavilhão dos estados ? A HoUanda é um paiz commer- 



100 

ciante. Se nos^ujeilaísemos, pois que Dão puderào proteger-nos, Tende- 
ríamos 08 nossos productos.... quem sabe?., talvez melhor I« 

Assim, estes homeDs,[que tinhão sido os primeiros a abandonar a ci- 
dade, atre?iâo-se a exprobrar ao chefe, de quem se tinhão retirado na 
hora do perigo, os resultados da própria pusilanimidade. 

— Mas deixar-nos ião os vencedores a posse dos nossos bens e pro- 
priedades ?— Observou um doi circurastantes, mancebo em quem não 
se havia apagado de todo o sentimento nacional, c quo, pela confusão 
de falsas noções, confundia com elle os estimules do lucro. 

— Os de Hollanda não podem despovoar suas terras para^iren^ 
cultivar a conquista —redarguiu o primeiro intei locutor, familiar com 
as subtilezas do sophisma^ 

— E agora que remédio I — reíiectlu outro. 

— Que remédio ? — ponderou o primeiro ~ um só h<)mem é causa 
dos nossos prejuízos. 

— Mas esse homem move a um aceno quasi toda a capitaoia • 

— Bem dizeis. Se elle nâo pudesse fazer mais aceoos, não se movia 
a província. 

— Que I Pois ousais f . . . 

— Eu, nada. Exponho o que todos estão vendo. Digo síj que,, se 
houvesse um homem de resolução, um homem que intendesse os inte- 
resses desta terra 

O orador, siaspendoodo o discurso, consultou com os olhos a assem- 
bléa. Um resto do pudor curvou para aterra as frontes envergonhadas. 
Interdicto e hisitando diante deste silencio o que parecia exercer maior 
ascendência sobre os seus companheiros continuou, dirigi ndo-se a uta 
vulto de possante estatura que até ali se conservara de pai te, tm pé, e 
como estranho ao debate. 

— Que dizeis a isto. Domingos ? Vós, que sois homem de actividade 
c conselho, tendes já pensado na sorte desta terra ? 

— Que quereis que eu pense, senhores ? Os meus interesses não são 
os vossos. A minha raça é outra. &:ou um homem das florestas. O meu 
braço basta-me. Tolerais-me quando vos sou útil- chamais-me quando 
julgaes que tendes precisão de mim. Que quereis que vos diga ? 

O individuo que assim fallava, como os nossos leitores já terão adi- 
vinhado, era Domingos Fernandes, o Calabar. As suas palavras exprir 
mião uma ironia que já ninguém estranhava ; mas o seu rosto (icára de 
bronze. Introduzindo-se com os descontentes, que elle conhecia, como 



s 



101 

conhecia todos com quem travara interesses mais ou menos lícitos, con- 
seguira fazer parte das suas conferencias. Dominando-os pelo ascendente 
da sua energia e pela dependência em que os tinha,abstinba-se todaria de 
emittir opinião, e não os poupava, porque sabia que os tinba em seu poder. 

— Pois sim, Domingos -accudiu o primeiro que ouvimo8>-sois um 
homem útil e por serdes útil vos coDvocámos. Mas, se não approvais o 
procedimento docapitão-mór.... 

— £ quem vos disse que eu o não approvava ? Consulta alguém o 
Calabar! Os da vossa raça servem-se dos da minha e pagão-lhes... 
quando lhes pagão. Se lhes parece, mettem^os um arcabuz na mão, e 
dizem-nos : atira. Pouco importa a quem. As nossas injuries, ninguém 
as sente. As nossas paiiões fazem rir de desprezo. Sabem lá se senti- 
mos I 

— Injusto sois, Domingos. Não estais vós comnosco e não vos es- 
tendemos todos a mào ? 

— £' que esta mão não treme, e as vossas fraque jio até apertando-ff. 
Vim, porque me chamastes ; mas nada vos peço. 

— Não, nós somos que pedimos o vosso conselho. Qual é elle? 

— Nenhum. O Calabar obedece e não aconselha. 

— E a quem obedeceis ? 

— A quem me tem até agora mandado. Indagai quem enviou o ma-* 
meluco ao acampamento dos taboyares, quem galgou os matos e corren- 
tes em menos tt mpo do que vós outros gastaríeis em calcular as diíficul- 
dades do caminho. 

— Assim, no vosso conceito, o capitão-mór. . . 

— O capitão-mór faz o que deve um cabo prudente. 

— Nesse caso, julgais que devemos também resignar-nos a ver per- 
didos todos os nossos haveres ? 

— Nada julgo, já vo-^b disse. Cada qual consulta os seus interesses. 
O interesse do capitão-mór é defender a capitania, porque vai nisso a sua 
gloria e augmentos. O meu não é nenhum desses. 

O primeiro interlocutor consultou irresoluto os oircumstantes. Houvo 
um momento de largo silencio. 

— ~Que dirieis vós. Domingos, - disse afinal o que parecia dirigir a 
assembléa— que dirieis vós, se, junto com o nosso, estivesse o vosso inte- 
resse ? 

O Calabar sorriu desdenhosamente e tornou-lhc : 

— Explicai-vos. 



ãá 



— los ' — 

— Que queremos nós ? O socegò desta terra e a sua prolperidade* 
Os hollandezes tém o mar livro, e as suas poderosas armadas em brere 
liies darfto modoS de nos subjugar. O reino nem pensa em nós. Já tudo 
escassôa. Daqui a pouco tudo nos faltará. E^ loucura prolongar a féiis- 
tencia^e que náo fax senão derramar sangue e perder Vidas e fazendas. 
Fora ser?iço grande atalhar o mal na origem, e o homem que tal ousaste' 
mereceria as bênçãos da capitania, e poderia contar com uma Recompensa 
que satisfaria todas as suas ambições. 

^ Sabeis vós se podereis satUfazer as ttiinhas? Peréebo. Dissestes 
lá com TOSCO 3 « o Galèbar precisa de ouro) eompramos-Ihe o braço e o 
animo que não telDOS. Que é que se não conàpfa a esta gente! » INo vosso 
calculo, senhores, ha só fiitt pequeno engano. O capitão-naóf dilpõe da 
maior parte da capitania. Mais ouro do que vós todos me podieis dar 
me dariSo os seus amigos, se eu lhes fora contat o que sé pãsèa aqui. 
Olhai os Gavalcantis, os Bezerras, os de Góes, e tafitos outros, e Vôde ^' 
eUes não pagárião bem tim segredo que. põe em perigo suas fiimilías 
6 haveres, porque os 4« Hollanda não serião benignos para os chefes 
que lhes têm noíovido tão-brava guerra. Máos calculadores serieis se, ne^ 
gociando com o inimigo, não negociásseis para vós dé pr^erencía. 

Os circumstantes olharão pallidos uns para os outros, e maia de um 
braço desceu ao cinto armadd. 

— Descansai, senhores contínueu Domingos impassível. -^ Se ios 
quisera trahir^ te-^to-hia feito ha muito, porque ha muito vos tinhc adi* 
vinhado. Se vos temera, não fullára assim. Julgáveis tentar-me com o 
que vos tenta ; mas é porque não ponderastes que o mameluco lucraria 
mais com as vossas privações do que mesmo com as vossas recompensas. 
Guardai eu% ouro^ que vos não basta. Quereis augnlenta-lo ? Aqui tendes. 

£ o mameluco, puxando da larga bolsa do judeu, atirou sobre a mesa 
tosca qud servia de eéatro aomjsterieso consiltorioi orcruzados de ouro 
suados e chorados do usurário. 

Os circumstantes attonitos abrirão avidamente os ouvidos ao soAi 
metaUko e fitarão o» olhos pasmados no Galaber. 

—Não comprehendeis- disse este— de que modoò mameluco possuo 
rtalidades maiores talvez! que as vossa» ptonessas? Que diríeis vós se 
soubésseis que esle ouro abolorecia ha dias ainda no mais seguro da ci- 
dade, que não soubestes guardar ? 

— Estivestes em Olinda? -*• clamarão unisonosot da conferencia, 
erguendo meio corpo. 



— EstlTe em Olioda-^returquiu sereiíameDte oCakbar. 

, Os tentadores ju]garSo-se preTeDÍdot por dle e empaliidecérão de 
novo. 

-*- Eeste dinheiro rem doa hollandezea?— perguntou o mais yelfao. 

— Vem do meio dos hoIkmdOFes*^ respondeu o mameli^o. 

— £^ o preço da eompra 7. , . 

— £' o preço da compra, . .de algumas partidas de assuear oueafó, 
queprometti. E* um adiatamentoá conta. 

vf- Os hollandezes abrem eni&ocommunieações. . « 

•rr- Os hollandezes, se me tomassem títo ás mios, arcabuxaTio-me 
nas arêas da restipga ou preeipitavão-me do filto do Holhe. 

Os interlocutores de Domingos , enleiades de tsi saogue-íiio, não 
sabião o que pensassem. 

Q Calabar continuou : 

— Pois julgais que um soldado da capitania seria assim acolhido pela 
expedição de HoUanda, e que os seus generaes deixarião voltar são e salvo 
ao acampamento. 

— Não dizeis que estivestes em Olinda? 

— Estive. 

«p- Was como... 

— Gomo não podeis imaginar. Estive e]n Olinda^ Tratei com o cor- 
rector Samuel, recebi ^.deUe este ouro; e, por seu intermédio, podia 
tornar-me em breve mais rico e poderoso do que vós todos. Os géneros 
abundão ^0B çi^geolios e não têm compradores. Âdquirindo-»os por vil 
preçoy quem tivesse lelaçdes na cidade e soubesse onde poderia ir carre- 
ga-los na Gosta, ganharia cento por um. Qual de vós, senhores, tem poe- 
ses para me ofiérecer mercado igual? 

Os interlocutores do mameluco abaixarão as cabeças. A demonstra- 
ção era evidente. Ninguém podia competir com Domingos Fernandes «n 
auda<^aa na pratica do litoral. SabiãoHodemBi8..Esterasgo assombrávamos. 
Que interesse havia de mover aquelle homem, que na miséria de todo» 
aebava thesouros ? 

rr Tendes razão— murmurou um delles-^ao menoa não nos atraí^ 
çoereu. . 

w? Para que? 

— Tendes razão; o vosso interesse não é o nossa* 

— Qutm sabe? 

— Como? 




^— lOi 

— l)c Olinda uào trouxe este ouro sómento. Colhi também infor** 
mações preciosas. Os hollaudezes reúnem todas as suas forças para dar 
assalta ás linhas e aos roaes. 

Os circumstdDtes erguôrâo-se todos com impulso UDanime. Brilha- 
va-lhes nos olhos uma esperança impia . 

— Mathias de Albuquerque não poderá rcsi&tir com a milícia aos 
terços aguerridos dos estados em batalha regular -disse o mais Telho. 

— Enganais- vos— tornou Domingos— Mathias de Albuquerque está 
prestes para tudo. Os seus soldados sabem que ou hão de yencer ou mor- 
rer, deixando seus filhos, suas mulheres e suas casas entrt^gues á fúria d(» 
inimigo. Pensais quo sr ja &cil derrotar quem peleja por tudo o que é seu ? 
Quando a viciotia é uiLa necessidade, póde-se prover quem será o 
vencedor. 

— Mas então não ha esperaiiça — murmurou dali um, na ingenui- 
dade atroz do seu egoísmo. 

-— Que esperança ? inquiriu Domingos. 

Minguem ousou formular aquelle «sentimento que era uma blas- 
phemia. 

O mameluco proseguiu : 

'— Não sei se ha quem tenha taes esperanças; mas, se ha, só 
uma ciicumstancia desgraçada poderia realiza- ks. 

Fitarão todos os olhos nelle : nada lhes admiraTa já da sua parte. 

— Qual circumstancia ? 

— Um accidente pussivel.... mas pouco proYáyel) porque o nosso 
capitão-mór é um cabo de guerra experimentado, que tem a vigilância 
em conta da primeira virtude do soldado. 

— - Um tumulto nos reaes na occasiâo do combate ?. . . . 

— Um tumulto ? Nem pensar nisso. Quem ousaria fazo-lD ? E, se 
ousassem.... raros serifto.... um bom capitão tem sempre reservas 
que o suíFocarião, justiçando ali Inesmo os traidores. Imaginai, porém, 
que um incêndio se ateava nas tendas em que muitos guardão os seus 
thesouros ... um incêndio pôde nascer de um acaso.... seria desas- 
troso em tal occasiâo, porque, para se salvar a fortuna, poucos reflectem 
e poderião muito bem âcar desguarnecidas as trincheiras.... Mas para 
que havemos prever desastres ? A guerra é certamente uma desgraça ; 
mas esta seria ainda maior. 

Estremecerão alguns, mas iodos comprehendôrão. Depois disto, 
a conferencia estava por si mesma terminada . Nenhum ousou coramu- 



— 105 — 

mear mutaâmeaie as suas idéas, tanto cada qual se horroiisava detias. 
£ra inútil, porque entendiâo-se ! 

A reunião perdeu o seu caracter solemne, e a conversação tor- 
Qou-se geral, e na a^parencia indifferente. 

Pouco a pouco os my^teriosos associados forão-se despedindo e sa- 
hindo com o mesmo recato com que tinhão entrado. Cada um deHes foi 
apertar ao Galabar a mão, que, á luz do dia, se envergonharia talvez 
ÚQ receber nas suas. Mais de um lhe murmurou ao ouvido palâT/as que 
os outros não ouvirão. O que primeiro feUára foi o ultimo. 

— Que pedireis vós, Domingos, se aguerrai acabasse ? — susurrou- 
Ihe elle em voz sumida. « 

— Di-lo-hei quando for tempo — respondeu a Calabar , scintil- 

lando-lhe os olhos nas orbitas profundas. 

Depois sahiu, deixando ao ancião o cuidado d« fechar a casa das 
eaysteriosas conferencias. 

CAPITULO VIIL 

«UERRA £ AIIOR« 

As interpões e manejos daquelies filhos degeneradois fião erão abso- 
lutamente estranhos ao capitão-mõr. Raramente lavra um incêndio de 
rebeldia, sem que algum fumo se levante e o accuse. Mathias de Albu- 
querque julgara atalhar o mal, castigando com severidade em três ou 
quatro casos mais conhecidos, que não erâo todavia senão vestígios leves 
de conspiração latente. Aquella severidade, poíém, estimulara o animo 
aos descontentes, e exacerbara nos desqos da vindicta os Ímpetos do 
egoísmo. 

Ao mesmo passo, crescião as difficuldades de todo o género. Mtdtis 
iamilias da várzea, repuiando-se pouco seguras na planície, tiirhão vindo 
acolher-se aos reaes, julgando-se ali mais abrigados dos hoUandezes, 
que, apezar de todas as desvantagens, favorecidos do numero e recen- 
temente reforçados, ião alargando as suas excurâões. 

Esta accumulação produzia necessariamente escassez oos viveres 
e tornava mais grave a posição do capitão-m<5r, sem todavia abatw a sua 
eonstancia. 

— Que me dizeis. Vieira — dizia este, vellando a horas já adiantadas 
4a noite no mais recôndito da sua tenda de campanha, e endereçando 

44 



^ 



m 



— lOÔ 

a palavra ao mancebo, quê apressadamente lhe fizera as suas commtt'- 
nicações, ainda afogueado de uma longa carreira. — Que me dizeis ! A 
escaramuça degenera em batalha ? 

— Bem vinda seja ella, Sr. capitão-mór — acudiu Vieira com os 
seus Ímpetos costumados — bem vinda seja, que menos corta o ferro do 
inimigo do que damnão estas ciladas de casa: 

— Ássim« notastes movimento para as bandas de Olinda ? 

— A companhia dos treze irmãos adiantou-se nas sombras até quasi 
«o rez das muralhas. Os tambores dos terços batião a chamada. 

— £ vós estáveis na companhia dos treze irmãos ? 

— Estava, -— respondeu Vieira, baixando modestamente os olhos, 
como se tivera que desculpar-se de um delicto. 

— Deixais- vos levar demasiadamente do vosso ardor. Não quero 
dessas leviandades. Preciso me sois para mais. Na guerra a prudência 
não vai menos do que o valor. Perd6o-vos por esta vez. Dissestes 
alguma cousa? 

— Nada, e a ninguém. 

— Fizestes bem. E do lado do Recife notase algum movimento ? 

— Fui ver. Nenhum. 

•— Dahi é qu^ nos virá o mal. Ide prevenir o chefe dos taboyares. 

— Não é preciso, senhor. Poiyguarassú e alguns dos seus mais 
esperimentados guerreiros, rojando -se como serpentes por entre os 
cdjuaes da margem, eapreitão o silencio e interrogão a obscuridade 

— Bravo, meu fiel gentio I — exclamou o capitão-mór, que mudo 
estudava com os olhos as minimas disposições do terreno sobre a carta 
topographica do paiz, estendida sobre a mesa grosseira a que se encos- 
tava, e onde se vião energicamente indicados em traços rudes todos os 
accidentes locaes. 

O capilão-mór proseguiu: 

— O instincto nestes homens das selvas é mais do que a arte. 
Continuai, Vieira. 

— Pensei que, se os hoUandezes sahissem em força de Olinda, não 
deixarião de tentar um movimento combinado. 

— Pensastes com acerto. 

— Como desejasse trazer-vos informações completas, percorri as 
linhas ao longo da margem. 

— Vigiavào? 

- Estava tudo a postos. Acoberto do mato, encaminhei-me na di- 




— 107 — 

recção do pontal. De repeutô topei com o pé em udi corpo humano, que 
Bem vira, nem sentira. Leva?a já a mão á adaga quando vejo erguer-se 
diante de mim outro vulto, impondo-me silencio. 

— Era Potyguarassú? 

— Era. Reconheci'0 por algumas palavras. Com uma das mSos 
indicou-me o Recife, donde nada transpirava, com a outra csreaes. 

— Intendeste-lo? 

— Por entende-lo me vistes correr tão apressado. Ao romper da alva 
teremos provavelmente novas dos hollandezes. 

— Antes disso. 

— Mandais então... — atalhou o ardente mancebo, interrogando 
com os olhos ávidos e como prestes a executar qualquer ordem. 

— Que me escuteis — ponderou serenamente Mathias de Albu- 
querque. — Previa ha muito este ataque. Admira-me só que o tenhão 
tentado tão tarde. Os hollandezes, limitados á cidade, não tirão fructo 
da conquista* 

tt Ao principio ser Ihes-hia m^is fácil a investida. Agora as milicias 
ganharão confiança, as linhas aperfeiçoão-se, os soldados bisonhos fa- 
zem-se aguerridos. Os postos podem ser e serão immediatamente refor- 
çados. Ao mais leve signal a milicia e as companhias de soldo estarão 
em armas. Estava prevenido para todas as occurrencias e prompto para 
todos os azares. Cada qual tem já o seu logar determinado. 

— Qual é o meu ? — interrompeu Víeira,sem poder conter-se» 

— Nenhum— tornou o general com animo inteiro. 

— E porque me castigais com rigor tamanho, Sr. capitão-mór ? — 
tornou o mancebo consternado. 

— Não castigo, ordeno. Ficareis no interior dos reaes. Será o vosso 
po&to. Se elles fossem entrados, saberíeis qual era o. vosso de?er. Mas 
não serão, tenho fé. Cada homem tem o seu dia e cada couza a sua 
opportunidade. Não vos desconsoleis. Tereis companheiros. Cem homens 
da milicia e quarenta das companhias de soldo ficaráõ também. Quem 
vos diz que não ha perigo aqui? O que abandonasse o logar que lhe as- 
signo, ainda que fosse para correr á batalha, desertaria do seu posto. 
Perdoei-vos a temeridade, que desta vez foi útil ; não me forceis a punir 
a desobediência. 

Vieira resignou-se. Presentlu que o general tinha algum deâignio 
que lhe não convinha explicar. As suas ultimas palavras impoitavão 
quasi a confidencia de uma missão e a confiança de um commando. 



— 108 — 

Deixa Ddo-lhe muito para adivinhar, entregava lambem muilo â perspi- 
cácia do manceba. Entendeu o elle, e entendeu que não Feria Mve% 
menos gloriosa a parte que lhe fora talhada. 

Depois, havia umi circumstancia, que também concorria poderosa- 
mente para influir nesta conformidade, que não estava muito no seu 
caracter. As senhoras de Góes, ameaçada» na soa habitação pelas cor- 
rerias dos hcllaniezes, bavião-se refugiado nos reaes. Maria estava com 
ella. As idéas de gloria e ás diligencias de precaução de Vieira associa- 
vào-se algumas apprehensões instinctivap. Não era menor que o ardor 
bellico a solicitude de um amor desvelado. Colher novos louros, ou 
morrer quasi debaixo dos olhos daquella que tanto idolatrava, era para 
o mancebo o ídéal da ventura. Mas, ao mesmo tempo, quem a defenderia^ 
quem a protegeria, quem a salvaria no caso de um desastre ? Seu pai 
qaizera para si a direcção dos postes avançados ; e a experiência e a au- 
toridade do velho soldado da lodia era oeste caso muito útil para q[ue a 
prudente Mathias de Albuquerque pudesse ter idéa de a despensar. 

Nestes termos. Vieira, reflectindo, ioclinou-se em signal de assenti- 
mento, meio forçado, meio voluntário. 

O capiião-mor, adivinhando talvez os sentimentos que se aparcelayãa 
na alma do mancebo, continuou modificando o tom imperioso em cor- 
diaes pianeiras. 

— Ficareis, pois. Deixai também logar aos outros. Nem todos a 
tiveram no forte de S. Jorge. Os que primeiro colherão não devem ser 
ambiciosos xio quinhão alheio. Prezo essas emulações que fazem bons 
soldados ; mas, não quero que ellas saião os seus limites. A guerra será 
longa. Ha de haver occasiôes para tod js os homens ; deixai. Assim haja 
homens para todas as occasiôes I 

Nisto, um som estridente e rouco ao mesmo tempo rompeu & 
silencio dos reaes, coitado apenas pelo grito cauteloso das sentineilas . 

— Conheceis? Perguntou o.capiíão^mór tranquillamente. 

— Conheço — respondeu o mancebo, cujos olhos scintilárão. 

— Que vos dizia eu ? 

-^ £' a janubia dos taboyares. 

— E elles não fiizem soar assim os seus instrumentos de guerra sen» 
estarem ás mãos com o inimigo. 

Dizendo, o capitão-mór apertava o cossolctc burnido, c afivelava a 
«íspada -no cinto. 



^ 



— 100 — 

— A^ora, mãos á obra — accresceatou, com a serenidade que se 
oào alterava em nenhuma circum&tancia. 

Sentiu-se então relinchar nas sombras o ginete de batalha do ge- 
neral ; e a cara avinhada e jovial de Ayres Gil assomou á entrada com 
visíveis mostras de impaciência. Alguns tiros soarão distantes. 

— Vamos, Ayres, disse o capitão-mór, é o «rcabnz d^s avançadas. 
Os nossos hospedes de Hollanda vêm fazer-nos visita ás camarás in- 
teriores. Fio-vos que lhes agradeceremos tal fineza e os receberemo» 
como convém. 

O tom zombeteiro do capitão-mór, que de ordinário não era homem 
de ehaseos e graças, annunciava uma confiança que não estava talvez no 
seu coração *, mas que ú\e sabia communicar a propósito. 

Mathlas de Albuquerque, sahindo, disse ainda a Vieira estas duas 
palavras, qne resumião todas as suas recommendações anteriores : 

— Cuidado, mancebo t 

Pouco depois ouviu -se o tropear do ginete galopando nos reaes. 

Vieira, cerrando as cortinas, deixou a tenda. Na frente passeava 
regularmente a sentinella como se nada se passasse. 

O mancebo, momentaneamente livre de responsabilidades, appli- 
cou-se a observar tudo. As companhias de soldados guarnecião perma- 
nentes os reductos. Os terços da milícia que residiâo no acampamento 
reunirão- se em boa ordem em um silencio profundo ; os cossoletes ou 
piqueiros na frente -, os acabuzeiros em fianeo; em reserva os mosque- 
teiros. Os sargentos- mores e mestres de campo percorrião ns filas. 
As alabardas dos sargentos alinhavão-se aos lados. Os capitães de gf- 
neta e rodeUa, porapeavão á esquerda de cada companhia, como se 
estiverão em parada . No centro, os alferes empunhavão os espontões e 
as bandeiras de divisas variadas. O silencio da noite, interrompido a 
espaços pelos rumores longiquos do ataque, preliminares da batalha, 
augmentava a solemnidade desta scena, mais imponente na sua tran- 
quilidade terrível. 

Quantos ali estavão que não voltaríão ? Oiiantos corações generosos 
não se achavão já predestinados a fecundar om jorros de sangue o torrão 
glorioso da pátria ! 

O mancebo admirava a profunda previsão do capitão-mór. Nenhuma 
confusão, nem a minima incerteza. Tudo estava providenciado, todas 
as ordens passadas. ExpUcav^-se o socego de Maàiias de Albuquerque 



\ 



— Ui — 
tal gente. O que me adoodra é a paciência do capit&omór. Se fosse 

COfflígO .. 

A Teia v^bosa de D. Isabel era superabundante, como se SAbe, e 
não haTía razfto para se interfomper, se Vieira não aataibára cortou- 
mente, mas decidido ft aproveitar o tempo. 

— Perdoai, senhora minha. £' mais do que umft correria e multo 
mais do que uma escaramuça. Culpado fôrà eti se vos não prevenirar. 
£' um ataque Sério. 

— Contra todos os pontos ? - perguntou D. Isabel, reduzida a ora- 
tória pela snciedade. 

^ Sobie toda a linha, e provavelmente sobre os reductos dos reaes. 

— Ai 1 meu pai \ ~ clamarão a um tempo as duas donzellas, pálidas 
como estatuas e mais formosas de terror^ lamentando cada uma aqueUe 
que lhe dera a vida e se achava exposto a perde-la. 

— Vossos pais, senhoras — acudiu o mancebo com firmeza — 
estão no seu posto. 

— £ vós estais aíquí, Vieira 1 — interrompeu D^ Isabel. 

£sta pergunta envolf ia uma reprehensão ou uma duvida. O mancebo 
corou; mas, fitando Maria, cujos olhos, nadando em lagrimas, seerguião 
ardentes para o céo, respondeu sem sossobrar : 

— Eitaria eu aqui, minha senhora, se me não encadeassem orâens, 
a que nenhum soldado pode faltar? 

D. Isabel, que nãa tinha menos franqueza que vivacidade estendeu 
a mão a Vieira e torfaou-lhe simplesmente. 

— Perdoai 1 

Depois, forte e varonil como as heroinas de Diu, voltou- se para os 
escravos, bradando-lhes com maior animo do que as fraquezas do seu 
sexo: 

— Que fazeis ahi, madraços ? Ha lá dentro ainda dous arcabuzes, 
<lou8 piques e um mosquete Arme-se cada um com o que melhor souber 
menear. Sabeis onde está a companhia de Henrique Dias. Vamos, ó 
despachar. 

£ a nobre senhora voltou após instantes trazendo abraçados en^ 
feixe arrastado a custo, os terríveis instrumentos de guerra, que sacudia 
da poeira com os seus desvelos hafoituaes de boa e escrupulosa go- 
vernante. 

£lla mesma distribuiu as armas aos escravos, que pulando de coa- 



— lU — 

tentes, desandarão ás carreiras para o logar do combate. Êra o prologue 
das Philippas de Vilhena. 

Na destribuição deixara de ser contemplado 'um dos negros, que se 
chegou a D. Isabel, triste e cablsbaixor, com modos de quem supplicata 
em silencio uma permissão, que não ousava formular em voz alta. 

— Que queres, EsiteTÍnho ? — perguntou D. Isabel. 

Esteyinlio era um colosso negro que Mathias de Albuquerque dera 
de presente a Berenguer, e com quem Já travamos conhecimento nopriur 
€Ípio desta historia. 

— Preto não ter arma — ponderou o escravo mostrando detaponiado 
as mãos enormes e vazias. 

— Que lhe havemos de fazer ? — Tornou D. Isabel — Ficas para nos 
defender. 

— Preto tira a arma a branco hereje — replicou sentenciosamente 
escravo, julgando decisiva a peroração.— Senho estar lá em baixo, preto 
não poder estar aqui. 

— Pois vai, homem, vai, e avem-te como poderes — tornou D. Isabel 
abrindo-lhe passagem. 

O negro bateu as palmas e em dous pulos estava no meio dos reaes. 
Já ia longe e ouvião-se-lbe ainda as gargalhadas estrepitosas, signal do 
seu regosijo. 

Emquanto durara esta scena, Vieira não perdera a occasião. 

Ouvia-se mais amiudado o crepitar da arcabusada, e sentião-se já 
as descargas regulares dos mosquetes . 

— Ai Deus 1 meu Deus I e meu pai! — murmurava Maria unindo 
as mãos convulsas em um ímpeto doloroso. 

•^ Jesus, Senhor, que será delles ! — - accrescentava Anninhas, não 
menos commovida. 

— Felizes são aquelles que podem a esta hora cumprir o seu' 
dever, pois que taes lagrimas provocão, e taes rogos merecem— atalhou 
Vieira em tom profundamente penetrado. 

— Merecem todos — acudiu a menina de Góes. 

-*- Merece-lo-hão aos vossos olhos os mesmos que uma ordem, dif- 
ficil de cumprir encadeia na ociosidade, emquanto, ali, seus irmãos 
põem o peito a bala inimiga ? 

Maria adivinhara qual sentimento forçara o mancebo a aceitar taes 
ordens, e conhecia que sacrifício era para semelhante alma resignar-se 
A cumpri-las. 



— il4 

Um olhar eloquente recompensou o impetuoso mancebo desse sa-» 
crificio, que, naquelle momento, era em verdade doloroso. 

O coração de Vieira abria-se ás ineffaveis doçuras de uma paixãa 
sincera e retribuida. Quizera cahir-lhe aos pés, e nem a presença da 
amayel e consternada Ânninbas o detivera, se, após a erupção fogosa 
dos negros que paitiâo para o combate, não apparecesse o rosto ameno 
de D. Isabely grave então como as circumstancias. 

— Agora âcamos sós — disse ella — seja o que Deus quizer* 

— Sós, não — redarguiu Anninhas, apertando em segredo a mão de 
sua prima. 

Vieira balbuciou tremulo uma aíBrmativa banal. Aquelle coração, 
rijo no perigo, amollecia aos raios mais poderosos do amor. 

CAPITULO VIII. 

BATALHA» 

Gomo previra o capitão-mór, a maior força do ataque concentrava-se 
do lado do Recife. Dous mil homens commandados pelo coronel Fulkes 
Meurik tinhão sabido de Olinda , crendo-se protegidos pelo escuro da 
noite, e havião-se dirigido em columnas sobre a vasta meia lua de 
postos fortificados que tinhão os hollandezes como em bloqueio. Guiadas 
por Adriano Frank, gue explorara longamente o terreno, estas columnas 
procuravão penetrar pelos intervallos das linhas, convergindo contra os 
reaes do Bom Jesus, que se elevavão no centro deste extenso arco, cujas 
secções, afastando-se para os lados, lhes servião como de braços. A com- 
panhia dos treze irmãos havia, porém, prevenido a tempo os comman- 
dantes. Lacerda, os Bezerras e os Cavalcantis, sabendo que Mathias de 
Albuquerque estava prestes para tudo e não tardaria em soccorre-los , 
multiplicavão-se, apparecião em toda a parte, e com a voz e o exemplo 
dobravão o ardor das suas milícias, suppoitadas por alguns destaca- 
mentos das companhias de soldo, que lhes enviara o capitão-mór. 

Os capitães de emboscadas, unindo as suas esquadras, oceupavão 
os differentes accessos, e a coberto do mato, rareavão as filas dos hollan- 
dezes, em um tiroteio, cuja direcção variavão á vontade por súbitas 
evoluções, ora atacando- os de frente, ora dispersando-se rápidos e 
cahindo-lhes de fianco. 

Do lado do Recife, Vanderburgo em pessoa commandava o ataque. 



— il5 

muito mais violento neste ponto» ataque de ante-m&o combinado com as 
forças que tinhão sahido de Olinda, e simultaneamente começado. 

Cumpre saber a razão destes movimentos, a sua causa e o seu intuito. 

Mathias de Albuquerque fizera levantar novas fortificações na^mar- 
gem do Biberibe, que summamente inquietavão o general hoUandez: 
Yanderburgo via que, tanto mais se consolidassem as linhas dos da 
capitania, tanto mais forte seria a sua base de operações, tanto mais lhes 
permittiria estreitar-lhe o terreno, e avançar contra a cidade. Era 
comprometter a sua posição*; e, de conquistador tornando-se assediado, 
converter em uma defensiva estéril o commettimento de que se encarre- 
gara. 

' Estas considerações havião determinado o general dos Estados, 
que aprendera a conhecer e a respeitar o seu adversário. Era o seu 
fim levar de assalto os reaes se pudesse, certo de que, se lograsse tal 
intento, os outros postos cahirião sem esforço, aniquilando de um 
golpe todas as defesas da capitania. No caso, porém, de não o poder 
conseguir, porque já se não illudía, Yanderburgo, desejando utilisar 
tamanha tentativa , contava ao menos destruir as novas fortificações 
começadas. Era, pois, com este duplo intento qae elie reunira sobre 
um ponto único tão numerosa columna das suas melhores tropas , 
reservando-se a direcção especial deste ataque, e deixando aos seus 
subalternos o desempenho das demais operações no restante da linha 

Gommandava, porém, aquelle posto o valente Barbalho, que este 
combate devia illustrar para sempre, auxiliado pelos taboyares, que a 
prudência de Potyguarassú attrahira em silencio do seu campo. 

Yanderburgo fizera com antecipação sondar cautelosamente o rio. 
Tinha achado váo entre as insuas, a uma certa hora, e essa fora a 
aprazada. 

Em frente do pontal era tudo mudo e sereno. Dos reaes nenhum 
rumor solevantava. Yanderburgo, que passara a primeira parte da noite 
interrogando os ecos da margem opposta, julgou que a entrepresa era 
certa e a sorpresa completa. Chegado o momento, seiscentos homens, 
commandados por Lonck, e destinados a servir de reserva aos que ião 
passar o rio, desenvohêrão-se lentamente ap longo da restinga, favore- 
cidos pela escuridão e no mais absoluto silencio. Por detrás delles 
desfilarão até ao váo os 1,500 homens da columna do ataque. Uma 
nebrina espessa protegia estes movimentos e mulõplicava as esperanças 
ao hollandez. 



116 

Yanderbnrgo, porém, não contara com os recursos do instincl^ 
'selvagem. Na margem selvosa do rio, Antoiíio Camarão e alguns do9 
chefes taboyares vigiavão attentos, como Vieira contara ao capitão-mdr. 
Potyguan^sfeú, que não abandonava aquellas paragens, vira sem ser 
visto os trabalhos de sondagem do inimigo ^ e, com a finura que dâ 
a longa pratica das ciladas, adivinhara para logo a melhor parte do 
plano do geoeral hoUandez. Com a sua taciturnidade habitual, dirigiu-se 
a Barbalho ; e, no tom seoteo cioso que lhe conhecemos, revelou-lhe o 
que devia acontecer. Batbalho riu. A empreza tinha graves difãcul- 
dades ; e, como vimos, havia tempos que Mathias de Albuquerque, em 
tentativa semelhante, havia frustrado igual passo. Ora, no conceito do 
valoroso commandante, o que Mathias de Albuquerque não lograra, era 
decididamente impossível que um bollandez o conseguisse, ainda que 
fosse o próprio stathouder dos estados. 

Potyguarassú deixou-o rir sem perder um átomo da sua gravidade 
de chefe, e foi-se direito ao capitãoinór. Contou-lhe o que vira, disse- 
lhe o que pensava e esperou a resposta. 

O capitãc-DDÓr não riu. Fez-lhe repetir a pittores ca narração, no 
que o gentio condescendeu com impertubavel tranquillidade -, e desen- 
rolando a carta que nunca o deixava, poz-se a observar e a refiectir 
profundamente. 

Passado algum tempo, Mathias de Albuquerque assentou o dedo 
em uma larga e tortuosa linha azul do mappa ligeiramente ondeada ô 
dfsse pára o selvagem : 

— Sabeis o que é isto ? 

Era a primeira vez que semelhante objecto feria os olhos do gentio, 
Potyguarassú não mostrou admiração nem pasmo. Percorreu a 
caita com os olhos, absorvido em uma meditação profunda, recolheu-se 
alguns instantes e disse por fím com a mesma serenidade : 

— Por aqui deve passar o rio que vem das terras altas do norte, 
vai desembocar nas grandes aguas. 

Posto que habituado á perspicácia extrema dos gentios, o capitão- 
mór é que se admirou. Conhecendo, porém, o modo de tratar com tal 
gente, e de lhes impor a sua superioridade, guardou para si a impressão^ 
e continuou como se tudo fora perfeitamente natural. 

-^ Pcdei8-4ue dizer onde os hollandezes querem passar? 



117 

Potyguarassú scismou ainda alguns segundos, é, sem hesitar, in - 
dk^u exactamente o logar ameaçado, dizendo: 

— Ahi ! 

Mathias de Albuquerque enrolou a carta e tornou ao chefe : 

— Potyguarassú, já sabeis o que vos cumpre fazer. Que os yossos 
olhos se não fechem de dia nem de noite, de noite sobretudo. 

— Os olhos do chefe taboyar são como os da onça do mato — re- 
darguiu o chefe, e sahiu sem accrescentar palavra. 

Quanto a recommendar-ihe segredo, o capitão-mór nem pensou 
nisso. Sabia que um guerreiro da classe de Potyguarassú se julgaria 
deshonrado commettendo uma indiscrição. 

A recommendação de vigilância era também escusada. O ta- 
boyar vigiava por habito e por in&tinctp ; e agora também per amor 
próprio, porque, lá no seu interior a confiança e a attenção que lhe 
mostrara o capitão-mór, penhorava-o sobremo4p, e a risada intempestiva 
de fiarbalho nâo lhe esquecia. 

Desde então o campo dos tòboyares apresentara um aspecto sin-^ 
guiar. Cada guerreiro dormia encostado ao seu broquel, uma das mãos 
sobre o arco e as tacuáras enfeixadas, a outra pendente e ainda em so- 
nhos apertando a terrivel tacapa. Do campo á margem uma longa fila 
dos chefes mais experientes da thbu velava, em permanente sentinella, 
todos prestes a communicarem reciprocamente as suas observações ; 
e, quasi cadèa eléctrica, a irem de voz em voz, sem abandonarem o 
posto, despertar em um momento o grosso dos guerreiros. Nos csjuaes, 
onde Vieira o encontrara, Potyguarassl espreitava as trevas, quando 
ellas erão mais densafi ou a névoa mais cerrada, passando com alguns 
dos seus horas e horas em uma immobilidade que o assemelhava aos 
troncos circundantes. 

Entretanto Mathias de Albuquerque fazia activar os trabalhos das 
fortificações e estimulava a admirável coragem de Barbalho^ demasia- 
damente confiante, com recommendações de prudência e precaução, que 
não erão inúteis ao impetuoso chefe. 

Nestas disposições ia, pois, Yanderburbg achar o ponto que julgava 
sorprender. Como nos reaes, tudo estava de antemão disposto e pre- 
venido. 

Tendo desfilado por detrás da sua reserva as forças de ataque, 
VanderburgOy antes de tentar o váo, interrogou de novo a linha sombria 
da margem fronteira. Ouvia-se apenas o ramalhar sonoro da folhagem, 



\ 



— 118 — 

iMitoiçada pelo yento húmido da noite, O hoUandez deu em toz baixa 
a ordem de passar, que foi transmittida da rectaguarda á frente peloi 
sargentos das companhias. Os soldados batavos cuidayão marchar se- 
guros á yictoria e á conquista definitiva daquella terra de promissão. 
Bem que estremecidos da solemnidade da hora e da ousadia do commet- 
timento, obedecerão alegres ao commando. e entrarão n^agua procu- 
rando resguardar as armas. 

A mais de meio rio e já fora das insuas, a testa da columna 
parou de súbito. Os mais avançados tinhão agua até á cinta ; firma- 
yão-se nas hastes das alabardas, para poderem luctár com. a corrente, 
e, quebrando-lhe a força, fâcflitarem o accesso aos companheiros. Os 
capitães, ignorando a causa desta irresolução, intimarão com mal con- 
tida energia a ordem de continuar a marcha. Um murmúrio, surdo, 
abafado, mas como procelloso , leyantou-se das primeiras filas. Al- 
guns soldados da yangu«^da tinhão cabido de repente, ehayiãosido 
arrastados p«íla corrente, sem que se yisse a razão que os fizera suc- 
cumbir. Julgarão os immediatos que lhes faltara o pé; e, adiantan- 
do-se a tentear com os piques a areia do fundo, tiyerão a mesma sorte. 
A uns succedião outros. E todos cahião de igual forma. £ o rio carreava 
os cadáveres, no curso tranquillo e £&tal, como se um raio invisível ful- 
minasse cada um ao tocar um abysmo inexperado e inevitável. 

A marcha da columna, instigada pelos chefes, impellia os da frente. 
Mal chegavão éqaelle ponto, as filas ^cabifto lobre as filas, multiplicando 
o estrago. A columna, que já estava n'agua pela maior parte, parou de 
um extremo a outro, porque a noticia fora communicada da frente á 
rectaguarda. Ninguém sabia o que pensasse ; e esta indidsão não era 
menos nociva, porque as mortes não cessavão. 

Afinal, como todos callassem para investigar a causa do estranho 
successo, o sylvo das flechas taboyares no meio do silencio absoluto 
veiu denuncia-la aos soldados attonitos, e já tomados de supersticioso 
temor. Os hollandezes vacillárão em um movimento retrogrado. Re- 
troceder em tal momento era, porém, baldar toda a tentativa, e deixar 
compromettida a força que sahira de Olinda. Gommunicado o aconte- 
cido, Vanderburgo viu que estava descoberto, e renovou a ordem de 
avançar a todo transe, fazendo cobrir a testa da columna por uma 
companhia de arcabuzeiros. Marcharão estes com ardor a occupar a 
sua posição, e tentarão abrir o fogo sobre a margem opposta. As es- 
corvas estavão húmidas da nebrina, que principiava a resolver-se em 



— 119 — 

uma chuya miúda e copiosa. O tiroteio dos hollandezes era incertOy 
e nuUo em resultados, porque o inimigo permanecia inyisiyel entre o 
mato, e as frechas dos taboyares, para as quaes não era inconveniente 
nem a chuva nem a humidade, continuavão a dizimar horrorosamente 
as fileiras da expedição. 

Então, Yanderburgo, querendo supprir pelo Ímpeto do ataque as 
cautelas da sorpresa, mandou tocar á investida. Os clarins hollandezes 
fizerão estremecer os ares, e o clamor dos soldados, que se animavão 
mutuamente, correspondeu-lhe com um alarido ameaçador. 

No mespiò ponto a janubia dos selvagens ecoou do outro lado em 
sons gemebundos e prolongados, misturando-se com o sybillo agudo das 
flautas feitas de ossos humanos. Rufarão os tambores e o conhecido 
grito de: — S. Jorge pelos Brasis I —atroou os ecos da floresta. A 
linha obscura do ma{o illuminou-se como por encanto á claridade íuzi- 
lante. Um fogo rolante de arcabuseria, cortado pelas descargas com- 
passadas dos mosquetes, rompeu mortífero sobre a columna apinhada, 
que lutava simultaneamente contra os esforços do inimigo e contra os 
obstáculos da passagem O relampear das armas deixava ainda mais 
carregadas as tre?as nos rápidos intervallos. Ao silencio temeroso sue- 
cedera um tumulto e grita, ainda mais cheios de pavor. Era uma dessas 
scenas em que a morte se cruza com a blasphemia, os gemidos de dôr 
com as imprecações de vingança — uma dessas scenas, em fim, que re- 
tração ao vivo a imagem terrífica dos drculos infernaes. 

Yanderburgo todavia não podia hesitar, precipitava companhias 
sobre companhias ; e, mandando callar o fogo, arremeçava os seus cos- 
soletes e piqueiros para a frente, oppondo á energia da repulsão a im- 
petuosidade aggressiva, afim de vencer a primeira e principal diffi- 
culdade. 

A vanguarda hollandeza tocava já a margem, aprestando-se para 
carregar. De repente, como tinha rompido, o fogo dos atacados cessou ; 
e o matto volveu á sua escuridão e silencio como se houvera sido 
unicamente habitado por phantasmas. 

Os defensores das linhas do Bom Jesus tinhão-se esvaecido nas 
sombras, sem deixar rastro. As avançadas hoUandezas, occupando a 
margem inimiga, formarão esperando a columna. Yanderburgo, que 
passara também o rio, tratou de operar com precaução. Lonck na 
restinga supportava as forças de ataque, e cobria por aquella banda 
as posições de Olinda e do Recife. Yanderburgo, depois de tomar 



— 120 — 

poise da margem com toda a colurana, dSo ousou ayançar contssR o 
mato, sem tomar primeiro as medidas de prudência que as circaai-' 
standas prescreyião. O desapparecimento súbito do iuimigo iiiquie- 
taya-o tanto pelo menos como a siia preseoça o incom modera. O moral 
dos soldados estava já um pouco abalado pelas piimeiras perdas ; « 
pisando um terreno desconhecido, faltaya-lhes a confiança necessária. 
Recordando-lhes então a honra nacional, o general hoUandez animou *os 
com breves e vehementes palavras. Depois, corrigiu a disposição óê 
batalha. Ao centro coUocou em massa profunda os cossolete&.e.piqueiros» 
protegidos pelos mosquetes e pelos arcabuzeiros de mafeUto» e prece- 
didos da uma forte avançada. Nos flancos estendeu diMp[álas de ex- 
ploradores para baterem o mato. 

Nesta ordem, certamente a mais racional que se podia adoptar, 
avançarão todos, direitos ás trincheiras. Nem um só inimigo appa^ 
recia. Infinitamente inferior em numero, a milicia teria de certo perdido 
todas as suas vantagens, se esperasse fundar trincheiras a cargo dos 
hollandezes. Tudo havia sido previsto pelas instrucções do capitão- 
mór, e pela acertada direcção dos chefes. Os taboyares havi&Qhse tam- 
bém dissipado com a mesma presteza com que se havião reunido. Os 
hollandezes, marchando recobravão pouco a pouco o animo abatido* 

Ao avistarem as linhas das primeiras fortificações soltarão um grito 
de iriumpho: parecia lhes que pouco lhes restava já. O ataque foi 
ardente : a defesa foi proporcional, fiarbalho mostrou ali para quanto 
era. Tudo dependia talvez de tempo em sustentarem a sua posição con- 
tendo os aggressores. Expondo-se como o ultimo dos da milicia, apre- 
sentava-se no maior perigo. Impaciente por se manter na defensiva, col- 
loeava-se á testa de algumas esquadras de emboscada reunidas, e com 
um punhado de homens, cahia sobre os hollandezes com impulso io'- 
crivei, chamando sobre si os esforços, e atenuando a intensidade do 
assalto. Depois, retirava com a mesma rapidez, e ia percorrer a trin- 
cheira combatendo como soldado e ordenando como cabo de guerra. 

Por trez ou quatro vezes, estas sortidas desesperadas de Barbalhof 
fizwão recuar o inimigo; mas, a cada uma delias, alguns dos seus 
ficavão por terra, e o numero dos contrários crescia 

Uma forte colupana de hollandezes conseguiu emfim insinuar -se 
pelos intervallos da linha, e a posição de Barbalho, ameaçado na reta- 
guarda, era sobremodo precária. Podia ficar cortado dos reaes e o es- 
forçado commandante, sem deixar de combater nem de animar os seus 



— m — 

«^daáM, €Oiiieç«?a a dei confiar dos aoccorrof promettidos pelo eapitio«> 
mór« Ao mesmo passo, onvianse o estrondo da arcabnzería nos outros 
pontos atacados, e o escuro da noite augmentava o paTor. Só os reaes 
permanecião nuidos e pareeião indiferentes. Nem uma luz vislumbrava 
a, A aftilharia dos reductos calava e não se salna de onde provinha 
tão estranha tranqniUidade. Os chefes dos postes, apezar de todas as 
recommendaçdes, afrouxavio. Quanto a Barfaalho, se nao pudesse ven* 
cer, resolvera morrer! 

Nisto, um clamor maior que todos os antecedentes, ergueu-se 
do Jado da restinga. Atacados e atacantes pararão a escutar. Cumpre 
explicar o que ahi se passava. 

Potyguarassú) <com os seus trezentos taboayres, mal vira os hoUan- 
dezes próximos da margem» internáva-se, correndo pelas devesas co- 
nhecidas do mato ; e, fazendo um longo circuito, voltara em uma rápida 
centra-mardia ao ponto em que os hollandezes já distantes havião refor- 
mado a sua linha de batalha. A coberto das arvores^ o fraco piquete, 
^pie na sua rectaguarda havia deixado a cohunna de ataque, Í6ra fre- 
chado e aniquilado sem piedade. Bepois, os tabelares metterio-se ao váo 
e cahirão com desusado impeto sobre a reserva commandada por Lonck. 
£ste, ouvindo longínquo o rumor do ataque a proseguir, nada esperava^ 
Quando a linha dos taboyares se tomem visivel nas sombras, nem quasi 
era tempo de correr ás armas. Apertados na restinga, o numero de 
pouco valia aos hoUandezes. G grito de guerra dos gentios só se fez 
sentir quando já a tacapa derrubava os que existião* A investida foi tão 
súbita e tão inesperada que nenhuma ordem se podia conservar. Gs 
pelotões que seformavâo isolados e á pressa cahião mutilados ao mesmo 
ponto. A carnificina era horrível. A derrota foi immediata. Lonck assim 
assaltado, ignorava o que se passava na sua frente. Os soldados, sem 
ihe escutarem a voz, fogiio assombrados na direcção de Olinda e do 
Recife. Quasi um terço dos hoUandezes estiara já prestado. A resis- 
tência era impossível. Assim mesmo, o chefe batavo procurava ainda 
reunir os fugitivos e fazer-lhes vdtar o rosto ao inimigo. Potyguarass« 
vê-o» voa para eUe, lança^lhe mão á sella, despede-lhe um golpe que seria 
sem duvida o ultimo se o ginete de Lonck, espantado do estranho aspecto 
do guerreiro selvagem, quebrando as rédeas e tomando o írdo noa 
dentes, não partisse em um galope vertiginoso atravez de aggressores, 
e fugitivos, salvando seu dono apezar delle. 



\ 



-^ 1^ — 

Em breve Bém um só hollandeí resistia na restinga, e asjanubias 
selrageiís entoayão o hymno da victoria. * 

Yanderbargo outíu estes sons, que já conhecia por seu mal. 
A'q[uelle tempo flanqueava el(e as linhas, a meio caminho dos reduetos» 
julgando certa a posse e destruição das trincheiras. Percebendo ^e 
na "sua retaguarda se passava algum acontecimento com que nio con- 
tara, fez aKo, consultando a prudência. Entre o ataque incerto dos 
reductos e a segurança da sua reserva não podia hesitar. 

Qualquer demora comprometteria a retirada, que era talvez de 
prever. £ra7orçoso retrogradar, por mais que lhe pezasse. Vander- 
borgo retrocedeu, pois, sem ter tido tempo se quer para verificar a 
menor parte do seu plano. 

O general hollandez reconheceu em breve a extensão de desastre. 
Os gritos dos fugitivos amiudavão^se. Ma própria columna que comman- 
dava era necessária toda a sua energia para que a retirada não degene* 
rasse em debandada. Os primeiros que chegarão á margem acharão 
08 cadavereer do piquete sorprehendido e destroçado. Do outro lado 
não havia já signaes de vida. Os taboyares, como demónios das trevas 
havião novamente desapparecido nas sombras. 

A este tempo, as cdumnas de Henríck tinhão também rompido 
atravez as trincheiras na direcção do acampamento. Era esta a oecasiãaf 
que ocapitão-mór aguardava para tomar decisiva a sua intervenção* 
A longa resistência havia esgotado as forças aos atacantes. O canhão 
sôa. A cinta dos reductos clarea de uma facha de Iqz. a'8 descargas 
dos mosquetes succedem-se vivas e rápidas. A's fileiras cáhem sobre as 
fileiras a meia encosta. As columnas hesitão e redemoinbão. 

Nesta situação, Malhias de Albuquerque toma ao lado o alferes da 
sua bandeira, solta elle mesmo o heróico brado que era já o signal da 
victoria ; e, á ttôta dos seus terços, precipita-se como uma torrente do 
talude dos reductos ao declive da eminência, involvendo, destruindo e 
dissipando quanto encontra de diante. 

Yanderburgo ouve o estrondo do canhão e adivinha o movimento 
do capitão^-mór. Passar o váo era já difficil, porque as aguas havião 
crescido. Além disso do outro lado podia haver inimigos. A dispersão 
da sua reserva havia de torna-lo necessariamente cauteloso. Neste estado 
desesperado, tenta uma manobra atrevida. Faz f<ente á lectaguardae 
arroja-se para retomar o espaço perdido, com o fim de atacar de flanco 
o capitão-mór. Mas Barbalho, que presentira como elle o que se passava 



— i«8 -^ 

Aa eoKna, iíQha \k reunido aa suas milícias novamente enthusiaamadas, 
e eom rara intrepidez feeha-lhe o passo. Ao mesmo tempo ajanubia 
selvagem torna a soar no mato. O terrível das evoluções dos i&boyares 
era a eelerídade com que as executavão. Desconhecendo a disciplina dos 
movimentos,' regulares mas lentos, daquella época, avançavão sem ordemt 
grupaváo^se sem methodo, destroçavão, como se a terra se abasse com 
elles. A vivacidade e o ímpeto, porém, supprião tudo etornav&o-os.dupli* 
cadamente perigosos. Não marchavão, eorrífto ; não retiravão, voavão. 
Determina<ki a derrota da reserva, tíinhão repassado o rio, conhecedores 
áo^pmgo da demora, sem se demorarem. Depois, retrahindo-se ao malto 
peio mesmo circuito que havião feito, e congregando-se sobre o flanco 
da columna de Vanderburgo, affluião infatigáveis e terríveis contra aquellas 
forças exhanstas. 

Nesta extremidade o general hollandez^ que por aqueUe lado já não 
podia pentar em aggredir sraão em defender^^e, tomou uma resolução 
decisiva. Por uma contramarchahabil, fez desfilaras suas tropas obliquando 
ao longo das trincheiras, e cortou direito ás coluHmas que tinbão sabido 
de Olinda. 

Se considerarmos que a sequencia dos postos fjrmava um longos 
semkircQlo de que o posto de Barbalho era um dos extremos, ver-se^ha 
que a manobra de Vanderburgo era a que unicamente o podia tirar de 
apuros. Avançando em linha recta afastava-se do alcance dos fogos, podia 
respirar para rectificar v sua forma de batalha, e aproximando-se do resto 
das forças, a quem ia levar um soccorro útil, leunia ainda um todo com- 
pacto, capaz de tentar novo golpe ou de resistir aos esforços do vencedor. 

A manobra íòi executada com tanto vigor» como iôra concebida. 
Fazendo face com uma forte rectaguarda aos ataques simultâneos das 
milícias de Barbalho e dos taboyares, o general hollandez, expondo-se 
em pessoa, conseguiu conter o iuimigo e proteger o movimento, mar- 
chando em boa ordem, e combatendo em r^rada. 

Mathias de Albuquerque, por outro lado, sabendo que as forças 
hollandezas, apezar da derrota geral/ erão ainda imponentes e supe- 
riores As suas em numero e disciplina, continha o ardor immoderado 
doi soldados noviços, prohibindo expressamente que ultrapassassem 
os limites dos postos. 

« A batalha então tomou^^se geral. As esquadras de emboscada, as 
milícias das trindieiras, os terços do campo, os poldados regulares da 
capitania da Parahyba, as companhias de soldo, e os auxiliares gentios 




-—- 1«4 -^ 

pék^iio em fodá a eitflndk» da linha.' A «teroU éu éohmtíÈtm ám 
Hauiek era complela. Os hoflaodeEef fogiio effNrrorídos. Qmaenâo 
etitar o feno e o fogo dos cassoleCes e areabozes das reseiras do Beoii- 
JezQS, ião cahir nas mãos da miUda dos postos, que, reanimada de 
loBgo cançaaso pelo transporte da Tictoiia, cahião sobra eUea de ioáaa 
oè kdoa, baialbando-ot, e ímpediodo-os de formarem de noto aa a«M 
fileiras na ditee^ dos redoetoa. 

Adriano Frank procnraTa debalde manter o terreno |á eonqnialado. 
Benrick empenhafa até ao nltimo dos seas soldados, tentando organiaa g 
a nelirada, todos os esforços exèo pendidos. Os hollandezes nào pantio 
nem se jullgaf âo segnros em quanto se não adurrâo largo espaça aláaa 
das trínidÉeiías. Muilos mesmo tamà» a feio§iar-se em Olinda, 
ali o terror e fuendo pôr em armas o reato da expedição, e a:: 
nbagem da esquadra. 

Nisto ch^goa a cohmma de ¥anderi>Qrgo. A soa presoiça 
farton nm pouco os fogitiTos, e os soldados de Henrick afflniiio de 
todos oa lados aeoIheBdo-ae áqaella inesperida prolec^. 

Yandertiargo nem mesmo podia repreheoder os seus subalteEBoa ; 
não fora mais íeMi do qae elles. A batalha estará perdida. O que 
ímportaTa era s^ar os restos da infeliz expedição, e conter o iaimigo^ 
efitando que eUe,* de atacado tornado atacante, procurasse eatnr « 
ddade deeDTito com as tropas denotadas, perseguindo-as. 

Neste intuito, Vaoderburgo procurou unir os dispersos em um m& 
carpo, e, retirando-ae a distanda daatriocbeÍFas, fezer aifioem oídent 
de batalha, esperando que as columnas mutiladas se lhe aggregaaseoà 
para eflèctuar a retirada sobre Olinda. 

A primeira idéa do general hoUandez, conrergindo sobre as forças 
de Henrick, fôra tentar um uoto assalto, marchando todos reunidos», 
e tornando a infesiida seguramente terrivel pela unidade do iaipniso. 
O estado, porém, em que TÍera achar aB tropas dos doua chefes não 
lhe permittía já concebo: tal esperança. Demais, a massa que elle 
pudesse juntar Matinas de Albuquerque opporia as guarnições das 
soas linhas, conoentrando-a também, e reforçando-as com as res^ra» 
do campo, Tietoriosaa e pouco fatigadas. Aa tropaa da eapttaoia, com- 
batendo, tínhio necessariamente seguido os seus mofimantos, e defião^ 
achariíe em poaiçio de lhe fezerem feee rapidamente. Demais todas 
aquallas tropas estayão cheias de enthnsiasmo pelas Tantagena obtádasy 
a elle respeitaiFa já a hahHídade do diefe que as commandanra. 



— i25 

Por lua partQi o capitio mór, naUiralmeiíte prudente e ignorando 
o que a escuridade da noite lhe efiçobria, eontontava-se dos gbrioios 
resultados que alcançara, e, melhor conhecedor das forças inimigaii 
nào queria aventurar-se na campina^ íóra do âmbito das suas drcum- 
Tallações. Aquelles resultadi» erão já bastantes para assegurar a sua 
autoridade, tornar mm cjLrcumspecto o inimigo e infundir noyos brios 
nos seus : querer mais fora arriscar o que estava ganho. 

Mathias de Albuquerque Toltava, pois, aos reaes, depois de limpar 
de contrarios todo o espaço das suas linhas e de prescrever aos 
eommandantes quanto deiriâo ainda fiizer, e Yanderburgo tratava de 
organisar as suas columnas fora do alcance das trincheiras, para em'- 
prehender definitívamente a retirada^ quando um acontecimento ines** 
perado o fe£ mudar de resolução. 

IX. 

DB COMO HBSTRB HâRÇAIi SB COBRIU VÊ lOiORU. 

Vejamos no entanto o que se passava no acampamento. Gomo sen^' 
tisse aproximar o rumor da batalha, Vieira, vencendo todos os deséjoe 
de gozar a presença da sua adorada Maria, julgara prudente fistzer 
recolher as senhoras, aconselhando-lhes que se apromptassem para 
qualquer eventualidade, e assegurando-lhes que velaria por ellas, o 
que nAo era^ difficil de acreditar. Depois, o mancebo, percorrendo ein 
todas as direcções o interior dos reaes, applicava o ouvido aos ecos do 
combate, procurando adivinhar as differentes phases delle, ora impa- 
ciente, ora ancioso, fervendo4he o sangue pela forçada inactividade a 
que se achava condemnado» e, ao mesmo tempo, exultando de jubilo 
por ter em suas mãos a guarda e defensão daquellaque tanto amava. 
N'uma destas rondas perscrutantes e febris que tinhão por ponto de 
partida a habitação das senhoras de Góes, Vieira julgou tomar a vôr 
«quelle vulto que anteriormente lhe tinba ferido aattenção. Desta vez 
estava immovel; e, mais próximo da tenda do capitão-mór, parecia co- 
sido G<»n a terra e n'uma attitude ao mesmo passo attenta e cauteloM. 

Despreoccupado de outro atractivo, o mancebo notou a reinei-^ 
denda e determinou-se a verificar o que lhe dava logar. Depois de 
fitar longamente o vulto, como se lhe aproximasse com a mão no punho 
da espada, cuidou ouvir coma o murmúrio suffocado de uma praga 



— 1S56 — 

diesespertda, e viu o objecto indicifrayel, que rojava o chão, ergner-se 
á altura de nm homem, e derapparecer em saltos de jaguára kdeanda 
a tenda. 

E^ inútil dizer se o mancebo, sorprendido por estes movimentos 
buscaria ou não seguir o que quer que era fugitivo. Mas, então o rumor 
de uma viva altercação sobreveiu altrahindo-lhe a attenção. Era de uma 
parte uma voz lastimada e suspirosa; da outra ameaças impadenle- 
mente abafadas. 

Vieira não temia por si; mas o perigo daquellas que desejava pro- 
teger 8 a segurança dos reaes, que Mathias de Albuquerque tacitamente 
lhe confiara, fazia-o prudente. Desembainhando a espada foi direito éc 
guarda do acampamento e participou ao capitão da miUda» que a com-? 
mandava, o que tinha observado. A]guas voluntários offerecérão-se para 
acompanha-lo. Ao mesmo tempo, por ordem do capitão, varias patrulhas 
fòrão destacadas em diíferentes direcções a explorar os circuitos dos 
reaes. 

Vieira, com es vohintarios, partiu direito ao.ponto em que ouvira as 
vozes. Chegando, virão todos um homem estendido no chão ao com* 
prido, e a pouca distancia, fugindo, outros três vuUos. Vieira tomou 
rapidamente o arcabuz de nm dos voluntários e mettendo-o á cara eiH 
clamou : 

-* O que não pára, morre. 

Os três vultos estacarão logo. 

A um aceno de Vieira, outros dous voluntários, igualmente ar- 
mados, accoriêrão e cada um tomou posse de seu fugitivo. 

Todos três erão eolonos; todos ties paredão transidos de snsto^ 

— Qoe fazíeis aqui ? — perguntou Vieira com autoridade. 

rr Somos habitantes da várzea — respondeu um delles balbuciando, 
e tínhamos vindo visitar uma de nossas purentas que esta refugiada no 
campo. 

<*- Quando viestes? 

— Esta tarde. 

— E porque permanecestes nos reaes ? 

— Porque, demorando-nos até á hora adiantada. da noite, não no» 
ddxárão sahir delle. 

— Não sabieis as ordens ? 

— Não sabiamos. 

-*- Porque vos não tinhds recolhido ? 



-^ m — 

«» Porq«ie na confosio das tendas tínhamos perdido o tino á moíéda 
da nossa parente. 

— O nome dessa parente ? , 
Todos três hesitarão. 

Vieira prosegniu: 

— Sabendo que as linhas erão atacadas, porque tos não fostes unir 
aos voluntários da milkáa ? 

•— Não tínhamos armas •*-< acudiu um dos interpelUdos, aprovei- 
tando ra^damente a^escapatoria qi» se lhe offereda. 

— Que altercação ora «ssa que ouvi? . 

Nisto, o resto dos voluntários que tinhão seguido Vieira, conduzia 
quasi arrastrado um objecto longo, gemel^ondo e inerte. 

Era mestre Marçal! Era mestre Marçal, moido, contuso, com uma 
enorme protuberância roxa na testa. Mestre Marçal gemia, mas não fal- 
lava. Mestre Marçal parecia mais um feixe de ossos do que uma creatura 
humana. 

Gomo se pôde prever, nio ftn lacil restitidr o uso da palavra ao 
honrado fogueteiro; e^ quando o recobrou, foi- necessário prim^ro 
ter a paciência de escutar as longas exclamiações em-que dte afirmava 
ser aquella a ultima hora da sua vida e em que jurava que deterto não 
escaparia a sova com que acabava de ser regalado. 

As tribulações de mestre Marçal tinhão sido tantas e tão amiudadas 
que não se podia negar uma certa commisera^o ás suas lastimas. 

Passadas estas ejactdações de ddr, e quando já o fogueteiro parecia 
um pouco reanimado, Vieira impaciente dirígiu-ihe estas palavras : 

— Quem vos pez nesse estado, mestre Estouro ? 

O apellido caractmstico do mestre passái« já ao uso commum. 

-^ Aif meus ricos senhores da minha alma — respondeu este con- 
torcendo-se dorido— não me pergunteis quem me poz neste estado. 
Malditos sacripantes que... 

E mestre Marçal, tentando o equilíbrio, levantou 00 olhos e pò-loa 
nos três presos que lhe estavão adiante. 

— Jesus ! Santo nome de JesUs I — gritou espavorido. 
Dizendo, recuava trôpego, como espantado, e baquearia de novo no 

chão se 08 voluntários o não amparassem. 

Os capturados estavão pallidos como defuntos. 

— i Forão estes ? — interrogou Vieira. 

A presença de espirito não era o forte de mestre Marçal-, mas, como 



— 1»— . 

teria diffidl resohrer le erio eDes que estarão mais treoraloe, se era o 
fogueteÍFO que estaTa mais assustado, este respondeu : 

— Forão. . . . Parece-me que forão. Como é noite, não estou bem 
c«rto. 

— Conhecei-los? 

— Ah ! isso conheço. 

Tieira fltoa os presos com se?eridade. 

— Para que maltrataste este homen, senhores? — disse dle. 

«i Eu perdôo-Ihes -* murmurou mestre Marçal, que nio tta homem 
de reservas. 

— Porque tos maltratarão, mestre Estouro? — redargmu o man*^ 
cabo ^ que TOS disserâo? Olhai que é mais grare o caso do que pensais. 
Tendes talvez nas mios a sorte da capitania. 

Mestre Marçal, que não suspeitava ter tanta cousa nas mãos, admi- 
rou-se de si mesmo. Os três enfiaríão mais se pudessem. 

— Pois então eu conto — disse mestre Marçal, mais senhor de ai 
por achar uma protecção, vista a sua importância. — Quando senti of 
tíroe desses malditos herejes... que Deus confunda !.... tratei logo de 
ver se achava um sitio em que estivesse em resguardo, porque, aehan- 
do-me eu incumbido dos artifícios de pohora, como sabeis» trago ás 
vezes comigo, para os acabar e aperfeiçoar nas horas vagas, algumas 
salchichas e estopins, que senrem para os ditos artifidos. 

— Ah ! trazeis 1 — interrompeu Vieira, encarando os presos. 

— Trago— afirmou ingenuamente mestre MarçaL— Como tinha a 
honra de vos ir dizendo, sendo &cil nisto de fogo saltar alguma fagulha 
e. . • estragar os estopins que o Sr. capitão-mór me tem sempre recom- 
mendado que sejão bem perfeitos e seguros, procurava eu logar em 
que estivesse bem ao abrigo... -*>e, em boa verdade, não tinha IA a 
melhor vontade, cá por certas razões, de me encontrar com os artefoctoe 
dos bombardeiros de Hollanda. 

— Adiante. 

— Adiante não, meu senhor. Atrás. . .atrás ó que eu procurava o 
tal abrigo. . . Atrás de alguma barraca mais forte, ou mais desviada dos 
reductos.... porque eu não tenho nenhuma sympathia com os re^ 
duetos. . . vai se não quando, e topo com estes senhores. Um deUes. • , 
foi aquelle, o mais alto e de mais idade. . • 

>— Ameaçou-vos? 



— 119 — 

^ Não, iQDhor. Sfto pesoas muito eottezat. ClMgoa-^se t mim, 
e di8se-me : 

« — Nfto és ta mestre M «rgal ? 

« — Para yos tel^fir. * . 

« — Lá istranikei lratar-<me pw ta ; mas, coma tstamoe em guerra, 
bIo fiz repara 

« -^ Trabalhas nos aitâides 4e pol?ora ? 

« -^ £' « meu (^kio, posto fte nesta tem t itfto«etá ainda múto 
atrazáda* 

« ^ Traces «Ignma tomtigo ? 

« — Alguma que ? 

< — Alguma polro^a, palerma. » *- Devo dizer^TOS que também 
não me escapou a aspereza desta palayra; mas ooiítinuei a não Umt 
reparo, yisto estarmoi em guerra -*- « Poitora, nÂo senhor, respondi 
eu. A polTora dá-se por conta e guarda-^ no depoiito. » 

t — Apálpeme>-lo, > -adisse otitro entl»..«. Foi aqdelle, o mais 
magro e maia noTO. 

-^ B^otí ? ^ céum Vidra impade&tt. 

— Depois, como quem mal não usa, mal não cuida. • • (Súm perdia 
de suas mettsèB, . . d«ixd-me apalpar. 

« — Que é isto ? -^ difserfto» 

«c — São umas yaras de estofto que levo pesa aoàbar, 

a — Dá eá. 

« — Queirâo suas mercês perdoar, não posso. 

« ^ Também t*M dão por conta ? 

« — Não senhor : dão*m'as polr medida ; tantas Varas IcTo, tantas 
Taras hd de apresentar. 

« — Não importa. 

« — Gomo não importa 1 á mim é que me importa ; quem haria de 
outir o Sr. capitão-mór? 

ce -r- O capitão-mór não te fará mal. » 

-r- Disserão isso? — atalhou Vieira. 

Os três fizerão mração de reclamar. 

O mancebo impoz-lhes silèndo com o gesto e insistiu para o 
íbguetdro : 

— Disserão ? 

— A yerdade manda Deuâ que se diga : diiserão. 

— £ deste-lhe o que tos pedirão ? 

17 



130 

— Se eu não podia. Por isso é que tivemos aquella pequ^ia alter- 
cação. 

— £ elles arrancárão-yos os estopins ? 

— Pelos modos tinhão tanto empenho n'aquiIlo !.. 

— Foi então que tos espancarão e vos derrubarão ? 

— Quem é que disse que me espancarão ? No calor. . • do argu* 
mento... um destes senhores. . • o mais baixo.*, por distracção.. . met- 
teu-me un punho pelo estômago... Perdi a respiração. Outro... o mais 
gordo... sem reparar... estendeu-me o braço pelas costellas... Cam- 
baleei. O terceiro. . . o mais alto... como tinha nas mãos um bastão. . . 

-Ah! 

-^ Escapou-lhe por descuido... e yeiu bater-me na testa. Cahi. 
Aqui está o que foi» sem mais, nem menos. Deus me livre de accusar 
estes honrados senhores, que, pelos modos, gostão de dlvertir-se e são 
amantes de artifidos de fogo. 

— BemI — disse Vieira ; e, voltando-se para os voluntários, accres- 
centou : — 

— Guardai-me estreitamente estes homens. Vós outros que fendes 
que dizer ^ 

Os presos entretanto tinhão tirado animo das aperturas mesmo 
da sua situação. O que primeiro fallára dirigiu-se a Vieira : 

— Quereis ouvir-nos? — disse elie. 

— Fallai. Podeis explicar para que fim desejáveis pólvora ou con- 
ductos de fogo ? 

—> Posso. A pólvora era para irmos, atravez do matto, abrir um 
fornilho debaixo dos pés dos hoUandezes ; os estopins erão para lhe 
communicar fogo. 

— E porque vos escondíeis ? 

— Achais que fora mais efficaz o projecto divulgando-o. 

— Não receia traidores quem não concebe traições. O Sr. capitão- 
mór vos ouvirá e decidirá. Em seu nome vos digo, mestre Marçal, que 
bem fizestes em negar o que negastes. 

Mestre Marçal confuso nem sabia agradecer. De sua natureza mo- 
desto, espreitando a furto os olhares fulminantes que lhe vibravão os 
presos, teria voluntariamente renunciado á honra com que o feivorecião. 

— Bravo, mestre Marçal — gritou então a voz bem conhecida de 
Ayres Gil, derreando-lhe o hombro, que lhe ficara illeso, com um gesto 
amigável. 



— m — 

Mestre Marçal gemeu debaixo do peso do seu triumpho. O mos- 
queteiro, quevoltava da batalha, ouvira parte da narração do seu amigo. 
Ayres, i^irando-se para o mancebo, disse-lhe : 

— Segurai-me bem os pássaros, Sr. Vieira. Teuho para mim que 
não é esta das menores presas que hoje fizemos. 

Não erão necessárias as recommeodações de Ayres Gil. Os Yolun- 
tarios que, durante o ioterrogatoiio, se hayíão respeitosamente conser- 
vado distantes do grupo, apoderérão-se de novo dos presos, e, acom- 
panhados de Vieira, que os não perdia de vista, forão, para maior se- 
gurança, mettel-os entre as filias da guarda do acampamento. 

Um d*aquelles presos era o primeiro *dos homens sem nome que 
ouvimos perorando na casa solitária. 

,0 horizonte cintava-se de purpura e ouro. Clareava Já a aurora, e 
a luz meiga do crepúsculo, contrastando horrores da noite, começava a 
fazer destinguir os objectos. 

Dadas as ultimas ordens, o capitão*mór, precedendo os terços, 
entrava na sua tenda de campanha, e, atirando comsigo, cansado de 
corpo e de espirito, acima de um cstrado> que era o sen rude leito de 
batalha, murmurava interiormente: 

— Effifim, está acabado por hoje. A nossa bandeira fluctuarâ ainda 
por algum tempo nesta terra. 

O somno do soldado satisfeito é prompto e pesado. O capitão-mór, 
que tantas noites velara, carecia bem delle. Achara o acampamento tran- 
quillo, e para completar o que faltava bastavão os seus subalternos. 

Mas as peripécias desta noite, fecunda em acontecimentos, não es- 
tavão ainda de todo terminadas. 

A retaguarda do campo que dava sobre os matos do interior era 
apenas defendida por um parapeito de pouca altura. Vieira não pensava 
mais em investigar qual era o vulto que o preocupava antes do seu en. 
contro com os presos. Ouvindo a narrativa de mestre Marçal, reflectira 
que provavelmente era o mesmo mestre Marçal que procurava abrigo, 
como elle dizia, e que, receiando as censuras ao seu invencível medo, 
lhe fugira, indo cahir nas mãos dos presos, passando-se toda a scena 
emquanto elle Vieira, sem ser visto dos mesmos, fora buscar o soccorro 
dos voluntários. Esta explicação era plausível, mas infelizmente falsa. 

Outro inimigo peior, mais perigoso, mais audaz, mais terrível, vi- 
giava também no centro do acampamento como o génio da destruição. 

O mesmo vulto, que por duas vezes se esquivara ao mancebo, fugira 



- 1» — 

dirigindo-se ao angulo do parapeito que descrevômos, algumas varas 
distaoie das fileiras da guarda, que ainda não tinha deixado a forma. 
Ahi parou, attonito de não ser perseguido. Agachou-se então e ob- 
servou. Esquecidos, junto ao parapeito, estavão o arco de caça e as fre- 
chas curtas de algum taboyar que ali tinha deixado taes objectos. To- 
pando-os com as mãos que encostara ao solo, passou-lhe um sorriso 
feroz pelo rosto acobreado. Rasgou um pedaço das yastas bragas de ai* 
godão raiado, e enfiou-o pela ponta da tacuára barbellada, até algumas 
pollegadas abaixo da extremidade aguda. Por detraz das fileiras "da 
guarda, alinhada de cottâs contra o parapeito, jazia acesa a corda de um 
D^osquete, cujo extremo infiammado brilhava nas sombras. 

Segurando na mão o arco e a frecha, o vulto, protegido ainda peio 
escuro da noite, sufTocando a respiração, rastreando como a serpente, 
evitando o mais ligeiro ruido, avançou lento e lento, imperceptível, si- 
lencioso, fatal, até chegar com a mão ao alcance da corda inflammada. 
Ahi alongou o braço e aproximou a corda do algodão adaptado á £recha« 
A matéria inflamável tomou fogo rapidamente. 

Os primeiros alvores da manhã branqueavão já as coberturas de 
tella da barraca do capitão-mór. 

Então, o Tulto, erguendo-se de um salto, com o mesmo movimentO| 
mirou direito a barraca por cima das fileiras, e despediu a frecha ia« 
flammada. De outro salto estava sobre o parapeito. 

Yoltárão-se todos assombrados. Era o Galabar. 
Vieira correu direito a elle. Em novo pulo Domingos Fernandes 
achava-se em baixo do outro lado. 

— Ao mameluco, fogo ! - bradou Vieira. 

Vinte arcabuzes, e o seu primeiro que todos, desfecharão sobre o 
mato. Uma gargalhada respondeu lá debaixo. 

Vieira quiz saltar atraz delle. Um dos voluntários, travando-lhe do 
braço e apontando-lhe para a barraca de Mathias de Albuquerque, 
bradou : 

- Olhai ! 

O tecto da tenaa estava já em chammas. Era por aquelle methodo 
que os gentios em guerra destruião mutuamente as suas aldeias. A frecha 
communicára rapidamente o incêndio. O vento matutino activava o. 

Occorreu logo a Vieira que Hathias de Albuquerque poderia ter 
voltado, e a possibilidade de se propagarem as chammas ás outras tendas- 



— ilfâ 

Vim Maria em petigo. Reyelou-se-lhe a idéa de uma traição concer*- 
tada. Achava explicadas as recommendações do capitão-mór. 

Todas estas reflexões forão instantâneas . 

Voou á cabana das senhoras de Góes e bradou para dentro : 

— Incêndio nos reaes I 

Depois, no mesmo ímpeto, galgou a tenda do capitão-mór. Ayres 
Gil estaya á porta, conduzindo nos braços o seu general, que inquiria a 
razão deste estranho movimento. 

— Traição, senhor I — bralou o mancebo. 

Mathias, yendo o clarão, voltou-se, e, descobrindo a sua barraca 
incendiada, murmurou com a serenidade habitual : 

— Já o esperava. 

Nisto o tecto abatia. Ayres, vendo livre o capitão«mór, desappa- 
receu. 

— Tendes que me dizer alguma cousa, Vieira? — accresoentou 
Mathias de Albuquerque. 

•*— Tenho que vos apresentar ires presos. 

—-Logo. Abaixo tudo — e indicava á barraca. — Que se não com- 
munique o incêndio. Agora, Vieira, ide desforrtr-voa do tempo perdida. 
O meu ginete. Uma espada. Voltemos á batalha. Teremos o sol por 
testemunha. 

Os olhos de Vieira, bem que inílammados de esperanças guerreiras, 
voltárão-se instinctivos para a cabana das senhoras de Góes, que se api- 
nhavão transidas á porta. 

O capitão-mór percebeu-o, e, virando-se para algnns voluntários, 
disse-lhes : 

— Vigiai por essas senhoras. Respondeis-me pela sua segurança. 
Daqui a uma hora traremos a noticia de outra victoria. 

Mathias de Albuquerque estava já a cavallo. 

— Ide dizer aos taboyares e ás miiicias de Barbalho que avancem 
sobre o centro ~ gritou elle a Vieira, e deu de esporas. 

O mancebo não escutou maia. Ghamava-o a gloria aos olhios daquella 
que amava. 

Gomo para dar razão ás previsões do capitão-mór, a arcabuzeria 
estallou de novo. 

As três senhoras cahirão de joelho ao limiar da porta, unindo as 
vozes lacrymosas em uma oração pelos combatentes. 

Efectivamente, como anteriormente o fizemos notar, VanderburgD 



m 



— IM — 

TÍra o clarão do i&cendio ; e, suspeitando a causa, ou tendo já occultas 
intelligencias, mudando subitamente de resolução, decidira um noro 
ataque, esperando que a confusão dos reaes, lhe daria desta vez fiacil 
o triumpho. 

Enganou-se. As forças do Bom Jesus e das linhas, unidas todas, 
sem aguardarem o choque, sahir3o-lhe ao encontro com mais ardor. 

Uma hora depois o hollandez recolhia- se corrido a Olinda, tendo 
dobrado as perdas ; Mathias de Albuquerque regressava aos reaes, con- 
tando segunda victoria. Pela sua parte, Vieira, desforrando em uma hora 
a inactividade de uma noite, não contribuirá pouco para decidir a 
contenda. 

Ayres-Gil, contra o seu costume, não voltara ao cambate : em 
compensação fizera outro serviço. 

Na precipitação com que os voluntários e a guarda tinhão accorrido 
a suffocar e limitar o incêndio, os presos havião ficado abandonados. 
Aproveitando a occasião, tentavão já escalar o parapeito como o Calabar» 
menos ágeis que elle todavia. O mosquete de Ayres Gil, que sobreviera 
previdentemente, forçou -os porém a tomar outro caminho. Desde então 
não os deixara um minuto o mosqueteiro. 

Naquelle mesmo dia, os três presos forão apresentados por Vieira 
80 capitão-mór, diante dos chefes, e mestre Marçal obrigado a repetir, 
ornada de pequenas variantes, a sua historia nocturna. 

Terminada ella,o capitão-mór, com pasmo de todos, expressou-se 
nestes termos : 

-- Louvo o vosso zelo, mestre; mas podíeis, por essa vez somente, 
dar o que vos pedião. Estes senhores cumprião uma otdem minha. 
Ide, estais em liberdade vós outros. Tornai aos engenhos. Aproveitai a 
lição. Os vossos serviços não são já aqui precisos. 

Os três apressárão-se a obedecer, mais assombrados do que ne- 
nhum. 

Retirados todos. Vieira ousou dizer ao capitão-mór : 

— Pois que, senhor, acreditastes I . , 

— Se não acreditasse, mancebo — redarguiu este — a quantos não 
teria de castigar I 

No fim do dia corria já por todo o acampamento que os três presos 
tinhão salvado a pátria, preparando uma vasta mina, em que todos os 
hollandezes havião de ficar sepultados, e que o êxito só se baldara, 




— i85 — 

porque mestre Marçal fizera falhar a execução do plano, disputando he- 
roicamente para si a honra de deitar fogo ao rastilho. 

Lameotou-se geralmente que abortasse tão bem concebido projecto ; 
mas o innocente fogueteiro começou a ser considerado como um heróe 
de modéstia e dedicação. 



FIM DO SEGUNDO VOLUME. 



^ 



CALABAR 







DO 



SÉCULO XVII 



POR 



6/od/ eui Q/ií^a L^^^ncurà ^^(Ui€ (2/€én€c^ 



VOLUME ni. 




RIO DE JANEIRO- 



Typ. do GoRRBio Bíxrcantil, rua da Quitanda n. 55. 



1868. 




CALABAR 



MIE' 



DO 

SÉCULO XYII 




TOMO ni. 

CAPITULO I. 

ANNUXCIO DB TEMPESTADES. 

Era dia claro. O velho Bereoguer, recostado em uma poltrona de 
couro de Flandres, que não esquecera á previdência de D. Isabel de Góes» 
dormia aquelle somno transparente dos últimos annos, que annuncia a 
despedida de uma existência cansada. As cortinas da principal quadra da 
choupana dos refugiados, corridas cuidadosamente, recommendavão 
o silencio. A fronte veneranda do velho soldado da índia estava cingida 
de uma larga tira de linho branco. O ginete do guerreiro cahira na batalha, 
e o velho murzello» antigo e fiel companheiro de fadigas e combates, 
succumbira voltando para seu dono, na agonia da morte, um olhar de 
saudade. O rigido ancião sentira uma lagrima humedecer-lhe as pálpebras 
e uma dôr verdadeira atravessar-lhe o coraç&o, como precursora de 
outras maiores. O nobre animal fôra-lhe por muitos annos como \\m 
amigo. O que lhe faltava em razão sobrava^lhe em instincto. A separação 
não podia ser indifferente. 

Esta perda enlutava até os próprios louros de que o velho Berenguer 
se cobrira na batall^. Por entre os alvoroços do triumpho uma nuvem 
de tristeza lhe sombreava o semblante; e, quando lhe davão os emboras 
do largo quinhão que lhe coubera na victoria, respondia com a menção 
da perda. 

Na ultima refrega uma bala de arcabuz sulcara a fronte do ancião, 



I 



que se lançara ao mais fortedft pel^a*, lomera f io ^como os mancebof, sou 
tomar a prevenção de cingir a sna cdada de aço. Uma ferida destas para 
o yeterano era menos qae nada ; mas para as pobres senhoras, que o 
espera)r}0;ínqui#s6 Oras^tes^f) í^% ol^ectc^.df rtranfpprt^ e, d^m^os. 
Era p^ Tor. C91M P< l9a)>$) s% a£|djgay# dispondo os ba)^qs|0|L e un- 
guentos preparados por suas mãos ; como Anninhas suspirava e exhalaya 
a petulância dos seus annos em col^)^ imprecações contra a ferocidade 
dos hollandezes; como a linda Maria, pallida como estatua da dòr« 
borbulhando-lhe nos olh^dy^; fo9les;,dç^li\gjrUí^as, se apressava silen- 
ciosa, não consentindo quf kAÍi|g;aea|;iQp|t p^UKIse a chaga, e forçando 
o vdho guerreiro, com brandas intimações, a sujeitar-se a um tratamento 
que elle julgava uma superfluidade pueril; 

Havia uma hora que Frrrnuf i jiV|fniyynTii Encostada ao espaldar 
da cadeira , Maria vellava com angélica solicitude, agitando o lenço 
branco para lhe refrescar a frfi^,er|re8gtprdar-lh'a dos insectos. D. 
Isabel a um canto apromptava um novo apparelho, ponderando em toz 
bdixa a Anninhas as nuB;kf99f^i<]VÍ4Q4v A^ sevi miriíicos emplastros. 

Nada mais tocante do que esta singela scena I Com o rosto serero 
do ai^ciãQ« co];oà<^o , de annos, contrastava o alvo rosto da donzella , 
coroado de innocencia. Era como o primeiro raio de uma aljofiaradi^ 
aurora sobr^as^ folhas mortas do inverno. A mão solicita conchegava asi 
almofadas, cujo affago o veterano não soffria. Os olhos negros, filtrando 
amor através de un^ fluido crystalino, cravavãose interrogativos nos 
olhos encovados do guerreiro, semi-velados e ainda feros Era emfiiu 
o qua^iro da graça juvenil e da força patriarchal, na sua mais pura e 
m^^ n^re expressão. 

Havia. uma hp^,. dizíamos,, que Bereiíguer de^xi^va, quando a 
cortuia d^.eojtn^da^ fóni.da qua} uma .sei)ti|iell{if exteriormente passeava, 
foi desc^rra4a por n^ãp familiar e ssd^ duirida autoij^da. D. Isabel, 
e Aimii^^ voltájção^p ròs(o enti^ cu^oi^fi e inquietas. Miaria levou im- 
periosamente o dedo aos lábios, impondo silenjc^jf,. jC^o.quem não rece» 
nheôa.di^i^, igual, ao da sui^.pfedade. . 

Q . p e nsoi^^m, ai;sterq e^ray e, qi^e assixn oi^sáTOt^uMíar na habita-^ 

ção,, adiaçtou-s^ |M)riipdo e incl^iai^da-se cortie;^, 9em £izef casq^das 
n^a«.fdmpf^s^asõ^ ^ jdps pll|f^re9 qua^i pole^cpadas^^enhora^^ 
Era o capitão-mór I 

Junto ájpo]Ai<ficaiâtòutmMfigaiayextatíeaelodi^confte«pIM 



9efii9^to69 nem >paiayns^ <ôzei« baixar. á).d9iae]4ai08 olbo» httnâdoa^! 
de ternura, acendende^lhe nasríacesorpudio^trQtbcm. 
Eras Vieira 1 

Leve fora o rumor que Matbias de Albuqaetquev elitrfrndo, ptô^ ' 
movera, imn todana bastante paraMnterr^mfrercy^sobriBSaHadò^omno 
de Efèreffguer. O primeiro moTimento déstò^tinha stèò erguer-isef dé uta^'^ 
lado, porém/ Maria com' meiga Tiohmiia; e do otitro o capitSo^mfér ccM 
af[!&íyei autoridade; obfayião forçado* a permanecer no seu logàra 

— Idès-me cfêí, senhor capit&è^mfób-K^isâè^ o ai^fãè ^ qtte^ jáu 
nada posso, e para na ia presto/ Va)ha-téDetts^'Marla^lÍl^^Jdo9^iâetMií> 
peccados I por uma arranhadura, que se não sente, igualas teu* pal^uciv' 
desses galans de agora de calções esbofadès-e corpete^ide^chamalote, 
trescalandoa piyêtes. Viva Deus I^enl^r^capitào-mórf que não ert as^im^i 
no nosso bom* tempo. Donas ^ donzelias pensáTão feridas ' quando ellaS' 
erão fundas e de?éráf9« MasH istd<i;. 

E o guerreiro encolhia os hombros com desdenhosa icòinmiseração, 

— Seniior Berenguerdé Andrada,- respondeu d ca pitâo-mór.— Viva 
Deus I dir-Yos-hei também que sou menos razoável do qde esses moços' 
que censurais. Louvado seja océo, não é nadanma^ feífida dessas ptfta^ 
quem- tem outras tão gloriosas, e tão honradas cicatrizes. Maã, se itíimos 
e regalos não são parados que os despr^ai?, meu yelho cdtnará^a , o 
descanso é para todos, e delle careceis mais que nenhum. PeHoal, 
senhora D. Maria César, se venho tomar-vos de súbito ^emfiagraíite 
deljcto dé cuidados íiliaes. Deiiai^^allar vossO pai, que lá poridentro se 
alegra de yos yer tãóamorayel e gentil. Váô bem desyelo)^ desses ao« 
mol^ndres de uma menina como sóis. Oscabèllds brancos^nem sempre 
têm rdzão. Aquiestà aSra. D. Isabel de Goés,' como poucâs "entetidliJá 
em feridas e batalhas, que tomará de certo yoz pelo nosso partido, e nos 
ajudará a persuadir o Sr. Berenguer. 

D. Isabel, singularmente lisongeada desta appellação de Malhías de 
Albuquerque ás suas pretenções viris, não desmaliciosa, ia exercer a 
na tu ral| facúndia, intervindo com uma jaculação oratória, que não 
terminaria facilmente, se o yelho Bereng^er lhe não cortasse o fio logo 
ás primoisa» palavsras» 

—-Seia como. quiserdes, Sr. capitão- móry^ disse o ancião ;— a ^sta 
terra pertence a minb»/vida até aoultimo suspire^ ^e o meu «sangue até á 
umma>fgftVi.* NàOi é 4naUf>do>que'Umsfdivida; pa997TlhW<De6canso?... 




Nos meus annos aproveitão-se avidamente os dias extremos e o derra- 
deiro 7Ígor, porque já não é possível senão um descanso. 

Maria fez um movimento de iudescríptivel dôr. O ancião continuou 
em tom mais brando : 

— Descansa, filha; ha de ser; é lei da natureza. Sei que te afflijo. 
Mas que queres? São apprehensões de pai, que não dormem, nem des- 
cansão nunca, e lembrão mesmo entre o fragor das armas. Mais dia menc s 
dia, ha de ser. Pesa-mepor ti ..Perdoai, Sr. capitão-mór. Não são taes 
praticas para agora. Preoccupações da idade, que fazem esquecer tudo, e 
que até esquecer me flzerão o agradecimento que vos devo pela honra 
desta visita. 

— £nganais-vds , Sr. Berenguer — respondeu o capitão-mór. — 
Nunca seria motivo de agradecimento a satisfação de um dever; e eia 
dever testemunhar-vos altamente quanto vos devem todos pelo muito 
que haveis feito. Longe, pois, de me agiadecer, desculpai-me. 

— Desculpar-vos I 

— Desculpai-me, porque não venho ver-vos só por obrigação de 
coitezia e attenção a quem sois, senão recorrer ao vosso conselho , 
como ha poucas horas ainda recorri ao vosso braço e ao vosso saber. 

A autoridade e gravidade da pessoa que assim fallava lisonjeava 
sobremaneira o velho guerreiro , apezar da sua rígida austeridade. 
Naquellas eras e no trato franco de soldados , estas demonstrações tinhão 
uma significação sincera, e valião tanto quanto espressavão. 

— Dizei, Sr. capitão-mór— redarguiu o ancião;— honrais-me em 
demasia, e pouco pôde valer o meu conselho para quem tanto realça 
o esforço com a prudência. Todavia, Sr. Mathias de Albuquerque, a 
minha experiência, está ao vosso dispor, como esteve sempre a miftia 
espada. 

— Sei-o, Sr. Berenguer- atalhou o capitão-mór e por sabe-lo não 
receiei que vos parecesse intempestiva esta visita . 

— Intempestiva, nunca! 

— Se-lohia, depois de tantas fadigas, senão contara com o vosso 

zelo e boa vontade. 

Ainda se não tinha inventado a palavra patriotismo^ tantas vezes 
banal ou sacrílega. As pompas da linguagem ainda não doiravSo tanto 

o vácuo do coração. Os sentimentos, designados em termos mais mo- 

destos, ganhavão todavia em profundidade e verdade. 

— Escutai^ne attento, Sr. Berenguer. Ninguém aqui está que não 



possa ouyir o que tenho para dizer-vos e á vossa família interessa talvez 
em sabe-lo. 

Berenguer, que se dispunha a intimar ás senhoras o seu desejo de 
ficar só com o capitão-niór, pensando que as communicações, annun- 
ciadas por este exclusivamente, affectarião algum plano de guerra, de- 
sistiu do intento, e contentou-sede responder a Mathias de Albuquerque, 
com modos de perfeita acquiescencia: 

'^ Fallai, Sr. capitão-mór. 

— Ganhámos uma grande yictoria — começou Mathias de Albu- 
querque— e as suas consequências, como haveis de ter previsto, podião 
ser ainda maiores do que a honra de uma gloriosa defesa. 

— Certamente. As milícias ganharão confiança , e, tomando o pulso 
ao seu esforço, sabem o que podem fazer. As vantagens moraes são muito 
superiores ao triumpho material. A guerra defensiva tornar-se-ha guerra 
offensiva ; e, se da corte nos mandão reforços como devem e como sem 
duvida farão, os hollandezes não pízaráõ por muito tempo o solo do Brasil. 
Sei que vos não dou novidade, Sr. capitão-mór. Para um cabo de guerra 
da vossa experiência, não faço senão repetir o que os vossos altos espíritos 
têm já previsto e preparado; mas isso mesmo é grande honra para mim. 

—Enganais- vos, Sr.Berenguer« Assim fora como dizeis, se do cen- 
tro mesmo da victoria não houvera rebentado um contra-tempo, que pôde 
transtornar tudo o que ponderais, com tanto acerto e sagacidade como eu 
de vós esperava. 

«-^ Um contra-tempo I Que contratempo ? 

•— Vejo que o não sabeis ainda. O Calabar fugiu. 

O ancião fitou o capitão-mór, sem poder comprehender a importância 
que elle dava ao sucessD, na sua opinião, tão pqgueno, e repetiu,- como se 
a memoria lhe não retraçasse exactamente o individuo indicado: 

— O Calabar I . . . 

— O Calabar, sim — proseguiu Mathias de Albuquerque especifi- 
cando.— Sabeis ? Domingos Fernandes. 

Berenguer torceu-se em um gesto de nojo profundo, e replicou 
simplesmente. 

— £' um traidor ; não faz falta. Poupou-nos a necessidade e o 
desgosto de esmaga-lo se ousasse mais. . . 

Maria, turbada e aífiicta, ia como para atalhar seu pai. 
Ao ouvir o nome de Calabar, estremecera violentamente. O capitão, 
mór, por desígnio ou acaso, preveniu-a, interrompendo o velho Beren- 



*goef , «que na<Bii»alt]iir#z nathra, temiMqueeer o-utMge, mão pedia todsvia 
acreditar que um homem, tantoabaixo da sua condição, occupasie ^a lUl 
ponto ^as 'atten^õ«i<âo cbefe «da capitania. 

— - NSo conheceis de xerto o Qalabar —disse o capitão-mdr «^ a^sua 
foga, 'repito^Yos, ^transtoina iodos os nossos planos. 

•— Pois que importa? Umhomemsó, Qm'miteekico.<^. um esbrffTDl... 

— Um homem só, éterdade*; mas^oqui «Btíí Vieifa,fm nàsfpóde 
dizer qual é a audácia desse mameluco, e^ muito que cdle^plkle ir xontar 
e fazer. 

Vieira aâiantou-4e. A interpeUnçâo indiíecta do capátfto^mór foâiwM 
tomar por um-cottvile a participar da conferenda. Um tremor siajgQlar 
agitara omancebo. Ar^-&e nos olhos umraioainistro; e, natronto, de 
ordinariodesafogada, como que pesarva a sombra de uma nurom carregada 
de tempestades. 

Yielra notara o estremedmento de Maria, ouvindo o nome de CHk- 
l)ar; Tira a expressão do tédio, quasi de iic^ror no roste do ancião ; 
reparara no mo?imento andoso da donzella e na intetrupção do capitão- 
mór. Posto que iodos estes Indidos pudessem ser <explieados de mil 
formas pflausiTeis,por um daquelles prodígios depresentlmenio, ^e-caiab- 
torisão o amor extremo, o mancebo adivinhara subitamente que daquella 
phrase cortada fié&ra pendente algum mystork) tenivel , que entre o 
Calabar e os personagens presentes liaria alguma corrdação tenebrosa. 
Estas revelações do seu espirito não as podia elle etpMcar, não <lui 
justificava perante a sua rasão; mas stonfia-as, e sentil-ai era um 
martyrio. Tão pouco suspeitava a pureza immaeulada de Maria, essa 
adorava-a como a virgem^do seu nome, e t> amor que lhe lia nol^ olhos 
1)a8ta?a para lhe servirjle fiança. As coincidências, porém, que o ha- 
vião ferido tinhão-lhe relampeado na alma como um desses clarões, que, 
nas noites procellosas, descobrem abysmos, sem que, cerradài de novo 
as trevas, ae posiÂo ver os horrores que lá jazem no fondo. 

Gomo o leitor se lembrará, entre elle e Domingos Fernandes hã^ 
uma hostilidade ínstiuctiva, apenas modificada, por parte do malicebo, 
pelo soccorro calculado que o mameluco lhe prestara na sua iucte cem 
os hoUandezes, depois da fuga da restinga. Este ódio, mal adormeddo, 
despertara agora com fúria nova. Era um sentimento vago, cuja violada 
admirava o próprio mancebo. 

Dali avante o encontro daquelles doui homens devia forçosamente 
ser fatal a um delias. 



ChMBiâo pelo capitão^HMSr» VMra nanou cJrenmiitiw^iiffdimwijUi Mos 
os incidente» da «stranba Ioga de Galabar, com taea oonvulsões do m na 
Yoz, que Nant, advinbaedo^o também pelo myileríoso magnetismo da 
paijão» sentiQ-se esfriar lá no intimo tomada de um tQiror cheio de 
appxehensõea. Á andaoia iactifel do mamduco assomhraia-a. A sua 
primeira tentativa no matto dera4lie a medida do qne elle ousaria • Unicii 
entre to^v») ^m eUa o 900 e^ a paix2o na<iuell6 rosto de bronze. Só ella 
sahia que Túlcfto ardia sob aquella superílcie de geb* Ioda a scena 
anterior ae lhe r^>etlu idYa na phanissiaj os arrojados commettimentos 
de tal hoQsem, o castigo insultante que lhe infringira seu pai, e o que 
Vieira sentiria e faria sabendo o acontecido. Per uma hallueinação 
inexplicável, via o sulco roxo que a eipada de Berenguer traçara no roíto 
ao Galabar teansportado em sangue para a &ce de seu pai ; via o mancebo, 
peraeguindoho furioso, cahir sob os golpes irresistíveis do mamelucOf 
Foi-lhe necessário chamar a si toda a sua razão para nio cahir ali em 
delíquio cismando por aoccorro . 

No entanto, Berenguer escutara friameute o manciebo. Gomo se sabe, 
Berenguer conhecia quaes erão os sentimentos de sua filha por Vieira, e 
não ignorava a adoração deste. Estimando o seu caracter, avaliando o 
seu esforço, e apreciando altamente a nobreza e a lealdade da sua alma, 
estava todavia firmemente disposto a não consentir em uma alliança 
que, segundo as suas idéas, era incompatível e absurda. De ceito, se 
Vieira tivera nascido nobre, fosse qual fosse a sua posição e fortuna, 
Berenguer houvera-lhe entregado sua filha com alvoroço. ProxUno da 
campa seria aqaelle o esteio que elle lhe escolhera» e vencendo ee zelos 
paternos encarregâra-o, cheio de confiança, de continuar depois delle a 
missão de vela-la, protege-la e ama-la. 

Tal era, porém, a força do preconceito, tal a rigidez de uma convic- 
ção herdada com o sangue e bebida com o leite, que a feita de um mero 
incidente era bastante para lhe determinar inabakv^mente uma resolução 
em que elie mesmo previa a desventura da filha que estremecia e o tor- 
mento do homem a quem fezia justiça. 

E não se pense que taes idéas poderião ser censura ao velho 
guerreiro. O culto da nobreza era para elle sagrado couk) o da reMgião ; 
e immolava-lhe scientemente como os martyres desta a melbor parte 
de si e do seu coraçãov Sentia sobre a sua consciência uma respotuBabili" 
dade de séculos •, e por hábitos, por educação , pela atmosphera que 
sempre respirara, mais adstrictõ á letra do que ao espirito , estava 



I 



— 10 -^ 

profundameote coQTencido de que a fniroducção do saDgtie pleben na 
sua família era a ruiua total da única herauça que lhe restaya, e da 
soite que podia legar. Queria antes a sua raça extincta do que mesclada. 
Sacriâcaya o futuro ao passado, a geração yÍTa ás gerações mortas, e 
media a extençAo do sacrifido.Era uma crença cheia de prejaizos, 
mas respeitável como todas as crenças. Nestas disposições de espirito, 
a presença do mancebo, pesando-lhe quasi como um remorso, affectava-o 
como úm objecto repugnante. Sabia que nada tinha a temer da sua 
lealdade ; mas, considerava^o como um obstáculo â felicidade de sua filha. 
Não podia accusa-lo, e desejava fugir-lhe. Aquelie amor que nascera 
involuntário e crescera irreprehensivel , era-lhe tamanho pezar como 
o presentimento do abandono em que deixaria a orphS se lhe faltasse. 

Todavia, as circumstandas em que todos se achavfto forçayão-o a 
uma convivência, ou pelo menos a uma condescendência, que elle em 
outra conjunctura teria de certo procurado evitar. 

•— £' um homem ousado esse mameluco— disse Berenguer terminada 
a narração— e, no que este moço acaba de contar, vejo eu que havia uma 
traição preparada. 

Vieira percebendo talvez o que se passava na alma do ancião, e 
respeitando neile o cavalleiro sem macula, o soldado heróico, e o pai de 
Maria» affastouse alguns passos, como se m?is lhe não competira entrar 

na conversação. 

— Qual é o vosso parecer 1'^ disse para Berenguer o capitão-mór. 

— Qae se castiguem os traidores. 

— Estão castigados. 

— Como ? 

^ Como elles não esperavão. Confundindo- os, perdoando-lhes. 

— Podeis fazer o que vos approuver, e a vossa sabedoria sem duvida 
dicidiu o melhor. Mas o exemplo? 

— Seria exemplo bastante o castigo ? Não iria elle lembrar a traição 
que se ignora; e, em vez de suffocar a tentação, estimular os desejos 
en outros ânimos? Crêde-me, Sr. Berenguer, o rigor parcimonioso é 
utilidade» repetido é damnoso. Exemplar de crimes é o crime ; e muitas 
vezes, é mais proveitoso esconde-lo do que puni-lo. 

Berenguer inclinou-se sem responder. O capitão mór continuou: 

— Dizei, porém, o que pensais da fuga do mameluco ? 

— Penso que é um traidor de menos. 

— Mas um inimigo de mais. 



— Inimigos daqueUes dãp-TOs cuidado ? 

— Dão. 

— Um Albuquerque receia-os ? 

— £ receia-los-ha também um Bereuguer , em pesando as 
consequências. 

— Quaes? 

— Estais convencido de que as nossas tropas , apezar de seu 
esforço e confiança, poss&o por longo tempo medir- se em condições 
iguaes com as de HoUanda, abastecidas e soccorridas pelas suasarmadas? 

— Não, Sr. capitão-mór. Bem queherejes e scismaticos os hollan- 
dezes, justiça é dize-lo, são bons soldados, e os seus cabos peritos e 
experimentados em artes de guerra. Aindahontemo seu Vanderburgo 
no-lo provou. Se outro fora, houvera succumbido. 

— • Isso é. A nossa força está, pois, na estranheza do methodo, na 
novidade do terreno e no inesperado das ciladas. Senhores do mar, 
podem fazer um desembarque em qualquer outra parte da costa, e então 
Sr. Berenguer. . . . 

— Já o tinha pensado. Mas os pontos mais accessiveis estão guar- 
necidos. 

— Nem todos. E como fora possível guarnecer tão dilatadas e 
extensas praias com tão pequenas forças ? O que falta aos hoUandezes é 
um homem conhecedor e pratico das enseadas e portos, muitos dos quaes 
ou estão frouxamente guardados, ou de todo esquecidos. 

•—Razão tendes. 

— £ esse homem é o Galabar. Que outro melhor do que o mestiço 
contrabandista sabe entradas, desembarcadouros, e refagios praticáveis 
da costa? 

— Por Deus que tendes razão — exclamou o velho guerreiro , 
erguendo-se impetuoso sem respeito aos conjuros das senhoras. 

Os olhos de Vieira faiscárfto na meia obscuridade do canto a que se 
retirara, mal allumiado da luz externa. 

— E não é só isso, continuou o capitão-mór. O segredo das nossas 
emboscadas está descoberto. Gombater-nos-hão com outras iguaes , 
e a nossa vigilância , que até aqui podia exclusivamente ccncentrar-se 
neste ponto em que os tínhamos fechados, terá de estender-se, e sabe 
Deos se fructuosamente, por todas as capitanias, para que nos não ache- 
mos também sitiados. Ahi tendes porque eu queria poupar o mameluco. 

Vieira apertou o punho da espada. 



—- tf — 

-» E fogfria elle para os holhfidezes ? intenogoo o snciM. 

— Pois para onde? redarguiu o capitão-mór. Nio To-^lo diz«n m 
f obra of indidos do trama ? 

-^ Ahi Tèdea qttefilrA melhor casligar. 

— Não podia prero-Io. Aqaelle homem tinha-nos Mto aarfiçoi 
importantei. Se qnizera Tíngar-se. . . . 

— Vingar-se de <iue ? atalhou '^efra esquecendo tudo. 

— O que se trata não Yos diz respeito, ponderou sereramente Ma- 
thias de Albuquerque. 

Vieira, chamado assim â obediência e ao respeito, conteve os im- 
pulsos da sua impaciento curiosidade. O capitão-mór proseguin : 

— Se tivera querido yingar-ae não lhe havião faltado occasiões. 
Quem havia de suspeita-lo I 

— Meditava mais epeior, observou Berenguer. 

— £* verdade. Por isso vos digo que a sua fuga é uma calamidade 
verdadeira. 

— Não importa. Os taboyares são âeis alliados e fecundos nessas 
manhas e ciladas, que mais são para gentios do que para gente cavalleira 
e soldados christãos. Provaremos as forças em campo aberto ; e, se o 
nosso destino é ceder, cederemos cahindo, enão será já agora sem honra. 

— Mas assim não se salva esta terra, perde-se. Importa pouco a 
morte do soldado: acaba no seu oíficio. £*-lhe consoladora na agonia 
a ctuz da espada, e Deus recebe nos braços os que morrem por sua fé. 
Não 6 isso o que dá cuidados. Mas os que ficão ? mas os que eUe deixar 
orphãos do seu amor e do seu braço ?. . Fallais dos taboyares I São bons 
e fieis alliados, ó verdade. O Calabar, porém, é familiar em todas as 
tribus ; irá aos tapuyas e pitiagoares, como foi á serra das mis&òes, e 
volverá de lá trazendo os inimigos como trouxe os amigos. Opposto 
assim o gentio ^o gentio, ficaráõ só as nossas milícias, mal armadas, 
mal equipadas, apenas instruídas, e faltas de tudo, em preseoça dos terços 
numerosos e das possantes frotas dos Estados. Esta é a nossa situação, 
verdadeira, Sr. Berenguer : e já vedes agora que não íiz muito desse 
homem quando vi na sua fuga um contratempo terrível. 

— £ julgais o mal sem remédio ? 

^^ O nosso dever é pelejar até á ultima. O remédio está no esforço 
e na constância ; está sobretudo nos homens como vós, Sr. Berenguer. 
Por isso vim buscar-vos, mal acabado ainda o primeiro bnce. As nossas 



— 18 

profaç5ef estSo fin'com«$o< Sois mais do que nnaca pneiflo» Estais 
disposto e appercebido? 

*-P«ra tudo - respondeu o antíão, procurando « Hspada para ciogi-la . 

Depois Tibrando de Maria a Vieira ura rápido oUiar em qiie se 
retumião todos os leos oQidadoi patersaes, accrescentou sacriâcandfiHMB 
mentalmente : 

— E* preciso marchar ? 

^ £8ta noite o sabereis ^redaijguiu o capitão-m6r. Gonfiai-mea 
guarda de yossa filha e f^miiia. Podeis ir descansado. Por agora tomai o 
descanço necessário... nem eu vol-o interrompera se o tempo me 
sobrara. . . e perdoai-me se, após uma fadiga, tos offereço outra fodiga. 

— E* honrar-me— tornou Berenguer. 

O capitào-mór cumprimentou as senhoras com o donaire e graça 
cortezã, que nào esquecia a um soldado educado no tmto dos piços ; e 
fdzendo signal a Vieira, accrescentou, como se, prevendo tudo, tivera 
a secreta intenção de soctgar as inquietaçiíes combatidas do ancião. 

— Viode, mancebo, tereis também o vosso quinhão. Aprestai* 
vos para partir. 

II. 

DESPEDIDAS. 

A' prima noite do mesmo dia, Bereuguer, sem mais cuidar da sua 
ferida, marchava com vinte mosquetes das companhias de soldo, guiado 
por um dos chefes taboyares, em direcção á ilha de Itamarica, cousa de 
oito léguas ao sul de Olinda, tomando pelo interior das terras. Antes de 
partir, o velho soldado conferenciara largamente com o capitão-mór, 
e, na sua presença. Vieira havia recebido o encargo de uma perigosa 
missão que muito tempo o havii de trazer longe. 

Deste modo^ a prudência de Mathias de Albuquerque utilisava todos 
os incidentes e prevenia todos es obstáculos. Sabia que Berenguer, 
despreoccupado o animo dos cuidados paternos, seria o homem próprio 
da empreza que lhe confiava; portanto socegava-lhe os escrúpulos* 
Quanto a Vieira, era talvez o único, pela sua aptidão especial, capaz de 
satisfazer o &m de que era incumbido. Vieira, encarregado de um com- 
meltimento importante diante do pai de Msiria, via nisso um novo esti- 
mulo ás suas amorosas ambições, e no ardor da gloria, esqueceria as 
magoas da saudade. Berei^uer^ sabendo que Vieira aadaria distante do 



campo, desviaria do espirito as suas habituaes preoccupações, e entre- 
gar-se-ia sem reserva ao cumprimento dos seus novos deveres. 

Mathias de Albuquerque para obter de cada homem o máximo pro- 
dueto do suas forças era necessário levar-lhes em conta as paixões ; 
sabia que importava dar aos velhos a tranquillidade e aos moços a espe- 
rança, para alcançar daquelles iodas as luzes da experiência e destes 
todos os resultados da audácia. 

A ilha de Itamarica, estabelecimento importante pelo numero e ri- 
queza dos seus engenhos, era o ponto mais exposto. Admirava mesmo 
que os hollandezes n&o se tivessem já lembrado de occupa-la, e não era 
de esperar que ò seu ataque se demorasse muito, depois que o inimigo 
tinha â sua disposiç&o um homem conhecedor da sua importância e dos 
seus meios de defesa. Na parte mais elevada da ilha levantava-se a cha- 
mada praça da Conceição, fortificada como quasi todas as defesas da^ 
quellas regiões em tal época. Cento e trinta habitantes» e sessenta sol - 
dados» commandados por Salvador Pinheiro, official destemido, for-^ 
mavão a sua guarnição. £' evidente que esta força não podia proteger 
a ilha na sua circumferencia de dez léguas, nem impossibilitar um des- 
embarque. Muito faria se conseguisse sustentar a sua posição abri- 
gando a cultura riquíssima dos terrenos circumstantes. 

Enviando ali Berenguer, Mathias de Albuquerque explorava ainda 
nelle mais a influencia e o caracter do que a valia individual. Mandando 
tão pequeno reforço, porque não podia dispor de mais sem enfraquecer 
as suas linhas, o capitão-mór queria compensar esta deficiência com a 
autoridade da pessoa que ia á testa delle. EffectivameQte, os colonos da 
Conceição e o seu commandante não podião deixar de ficar lisongeados 
vendo entre si um homem do nome, da stirpe, e do mérito de Be- 
renguer. Era uma prova da attenção que merrcião ao capitão-mór. A 
fama da su^ participação nos recentes triumphos havia-se espalhado ra- 
pidamente, accrescentando os titulos de respeito, que já anteriormente o 
recommendavào. As narrações do velho guerreiro inflammariào também 
os ânimos dos colonos ameaçados, previnirião qualquer pusilanimidade, 
e crearião uma útil emulação. A sua instrucçâo militar e a sua presença 
serião ao mesmo passo um estimulo para o commandante da praça, evi- 
tando a sua reconhecida superioridade e elevada condição todo o pretexto 
de rivalidades perigosas. Além disso, o seu conselho seria de muito 
momento na direcção das novas fortificações que era urgente preparar* 
Não podendo cerrar as fileiras, o capitão-mór fortalecia os ânimos. Sa- 



— 15 — 

bstituia a força material pela força moral e multiplicaTa a sua previdenta 
actividade para fazer frente ao inimigo em toda a parte. 

A missão de Vieira não era menos arriscada nem menos própria 
delie. Como temos dito muitas vezes, o mancebo, caçador infatigável,' 
conhecia todo o território da capitania, quasi como o próprio Calabar. 
A sua audácia não era menor. Os estímulos de seu gçneroso esforço 
tornavão-o menos precatado, mas inspiravão-lhe arrojos para os maiores 
commeitimentos. As esperanças da sua paixão ligavão-se ao êxito das 
suas emprezas. Robusta e ágil, por organisação e pelo exerdcio con- 
tinuOy era, também como o Calabar, destríssimo nas armas, affeito ás 
fadigas, habituado á solidão dds selvas e incansável sempre. Já se vô) 
portanto, que nenhum mais apto do que o mancebo para vigiar as ten- 
tativas do mameluco, e oppôr se-lhe promptamenta. 

Cumpria examinar de perto o movimento das ferozes tribus pytia- 
goares, da raça tapuya, inimigos irreconciliáveis dos alliados da capi- 
tania : era provável que o primeiro serviço de Calabar aos hollandezes 
fosse angariar-Ihes aquellas tribus para ás contrapdr ás companhias 
de emboscadas e á guerra dos tabciyares. Era, pois, da primeira im- 
portância, ou tomar o passo ao emissário, ou estar prevenido da marcha 
dos pytiagoares para evitar, se fosse possível, a sua juncção com os 
hollandezes. 

Tal era o encargo que recebera Vieira. Devião acompanha-lo dous 
dos chefes taboyares, escolhidos pelo próprio Potyguarassú entre os mais 
astuciosos e intrépidos. Ayres Gil foi dado também pelo capitão-mór por 
companheiro a Vieira como soldado velho e exercitado, e o padre Manoel 
de Moraes, missionário, como um servo de Deus, desejoso de fazer ouvir 
a palavra divina aos gentios, afim de ver se era possível o què tantas 
vezes se tentara de balde, e em caso de necessidade muito capaz também 
de empregar outros argumentos. Por ultimo, o nosso conhecido mestre 
Marçal foi addicionado á pequena expedição, com o destino especial de 
conduzir, guardar e applicar uma parte dos seus artifícios de fogo mais 
innocentes, para, em caso urgente e apertado, impressionar, por meio de 
cousas absolutamente novas e miraculosas para elles, os espirites bár- 
baros dos gentios. Com esta condição o capitão-mór consentira em pri- 
var-se temporariamente dos serviços do honrado fogueteiro. Cumpre 
advertir que a lembrança viera do reverendo padre, de quem teremos 
occasião de fallar mais detidamente na sequencia desta historia. 

Devemos também accrescentar que mestre Marçal» ao revez de todos 



— Ift — 

01 MIM coppinheiro», nSo ficou extreaQ^inente lisoDgead» dâ confiaaça 
do capitão-mór. Gomo m sabe, mestre Marçal, em cousas de pmidimor, 
era de seu aatiirtl muito modesto, e esta virtude havia subido de ponto, 
depoi» da sua recente glorificação. Na exiguidade das suas ambições» 
dava-se por satisfeito com ter salvado a pátria uma vez : tudo e nuds Dw 
pareda loio* 

O que unicamente o consolava, na sua forçada obedienda, era ter 
por companheiros Vieira e o seu amigo Ayres Gil. 

A perspectiva seduzia a iodole aventurosa de "^^eira. As oçesaiõet 
de fazer algum assigoalacto serviço á capitania erão no seu eonceito, 
outros tantos degráos, que o aproximavão de felicidade, porque o mui- 
cebo, na idade das iUuiões e das fáceis crenças, não podia parsuaduMO 
da invencibilidade do preconceito no velho Berenguer. Uma só oeasa 
o preoceupava : era o desejo de vèr Maria, de ter com ella uma expli- 
cação, que reputava indispensável, antes de tentar um arro}o, cujos re- 
sultados não podia prever. A imagem do Galabar não lhe sahla do sen- 
tido, e agora, que ia talvez aehar-se na sua presença, mail do que nunca 
ardia em desejos de le desuganar» verificando as suspeitas vagas que e 
assaltavão. 

A missão de Vieira, que era quasi uma peregrinação pelos nsatos, 
exigia maiores preparativos pessoaes. Por isso o mancebo ficara ainda no 
acampamento, depois da partida de Berenguer. Gomo se pôde prever, 
Vieira não se mostrava muito apressado nestes preparativos. 

O mancebo não pertencia áquella inventiva classe de amantes enge- 
nhosos, que sabem multiplicar os lances e as occasiòes de ver o objecto 
amado, enredando scenas, dispondo laços e traçando expedientes. A sua 
táctica, toda fabiana, reduzia se a espreitar pacientemente os acasos favo- 
ráveis, que erão para elle verdadeiros aeasoõ da ventura. Por outra parte, 
D« Maria César não se descuidava de fazer nascer estas acasos inno-^ 
ceotes. Qaasi sem o saberem, aquellas duas almas seguião o instincto 
que as impellia e que invariavelmente as aproximava. De resto, nenhum 
intento reservado, nenhuma idéa que não fosse illuminada da mais pura 
e mais clara cbamma de um amor immaculado. Assim, não lhe cabendo 
a vaga anciedade no estreito recinto, Maria vinha frequentemente á 
respirar a perfumada frescura da noite ; Vieira, mn suas sinceras evo- 
luções, tinha sempre que passar por aquella porta, que lhe era como a 
do paraizo. 

Era quasi mtia<«noitÍH, hora, como se sabe, 4e<imQreaemy8tedios. 



Â*s 3 da alforada, a carayana de^ia pôr-se a caminho. Vieira nlo poderá 
^da Ter Maria. Esta pritação, em momento para eÚetão decisito, eta-^ 
C9rbaya-lhe a impaciência, e fazia-lhe sentir os primeiros accessos dá 
quelias crises nervosas, que tornão tudo importuno e provocante. 

Afres Gil, chamado pelas necessidades do serviço, seguia Vieira 
sorrindo malicioso. 

Mestre Marçal, pela força de uma attracç&o invencível, seguia Ayres 
Gil, cabisbaixo e meditativo* 

Vieira passava e tornaVa a passar pela porta das refugiadas. Agora, 
precisava ir ver o penso dos ginetes que devião conduzi-los» para maior 
brevidade, até aos confins da várzea. Logo, carecia de examinar as 
armas. Mais tarde, lembrava-se de verificar os viveres. Eraummotu 
continuo de idas e tindas, é cempre na mesma linha. Ayres Gil asso- 
viava um módulo impossível; e, de vez em quando esquecido da obscuri- 
dade» piscava um olh&r a meitre Marçal, que o não via. 

Em uma destas voltas, uma cândida figura branqueou á porta da 
cabana, como se ali alvorecesse nma aurora. 

Vieira transportado voltou se para Ayres Gil. 

— Agora me lembra Ayres — disse elle — ir-me-heis ver se os ta- 
boyares estão promptos a partir. Parece-me que daqui a pouco podemos 
estar a caminho. 

— Também a mim me parece. Mas os^ gentios esta vão eslendidoá 
ao pé dos ginetes ; e, como n&o têm que vestir, bastará desperta-los para 
se acharem prestes a seguir-nos. 

^ Sim, mas os ginetes. . ; 

— Estão apparelhados também. £' sd^valgar. 

— £ as armas? 

'^ Acabamos de examina-las. 

— Pois sim, tim ; mas não seria máo irdes ver. . . « 
Ayres Gil respondeu cantarolando : 

— Deixai-me ver se me esporão 
Nas muralhas de Marvão ; 
Ddxái-m'a8 ver, que. os meus olhos 
Vão-se atrás do coração. 
*^ Que é ? — atalhou Vieira atónito das tendências philan&ozlicál 
do mosqueteiro. 

— Nada. E' uma cantiga da minha terra. 




-^ ÊsUiiH á^ora muito iaelinado a trovas e motetos, Âytes. 

i— Desenfados de um pbbre soldado. . . Não rai á escatiâalidar, Sité 
TMrá. Tendes que fazer pára esta banda ? INós ramos para aqi^^lii. ' 
£hl lá!, mestre Estouro, que estais ahi pregado 6omo um cepo ? Pani 
(ãàhUf. Tftmos dar uma ToRa pela bagAgem. Não é agora occaãiSò para 
reflexões. 

ttestife Marçal, que sabia de que género erão ordinariamente ád ad- 
moestações do seu amigo, e temia a sua mímica exagerada, quadi lanto 
còilio os encontros do mato apíessou o pasáo, passando do ad^io ao 
àttgro òom uma presteza qúe não deixava nada a desejar. 

Yi^irã percebeu a intenção um pouco maligna do mosqueteiro ; ey 
|Mttec(stido-lhe profanação daquelle culto o advinbar-lbe qualquer, e so 
breludò gente t&o Vulgar, disse para Ajres em tom colérico : 

-^ Que ousai» vós pensar? 

— Eu? eu nadli-*- respondeu em ares de admirado o mosifueteiro. 

Vieira reflectiu que a sua insistência em tal ponto seria dobrada 
accusação; e, como se remeiiarU tudo, accrescentou, com o modo ma^ 
indifferente que pôde atfectar: 

^ Diteis que é preciso éxakninar as bajBfiagens ? 

•^ Preciso. . . Ipreciso... Examinadas estão jã, mas não sé perde tnt 
tbrnar a ver. 

-^ Êslá bom, vamos lá. 

u*. Víndefe também? 

^ Vou. 

Ayres não disse mais palavra, comprehendendo o pud<^ amoroso do 
mancebo, e continuou a assobiar a sua òániata sem nome. 

Pode-se imaginar quanto custaria a Vieira dar aSsim as costas a uma. 
occasião tão ardentemente desejada, e que, de^te modo se ai^iscava a 
perder. Pôde mais nèlle, porém, aquelU adoração que juljgava dever seu 
guardar intemerata com religioso cuidAdo. Todavia, a poilcos paSiefos da 
cabana, prevaleceu o animo insoffrido, e pretextando iima desculpa futil, 
dirigiu-se por um rodeio ao sitio que o cbamava. 

£' inútil dizer que o bom de Ayres nem por um inistante poz em 
duvida a direcção que levaria o mancebo ; mas, conhecendo qne seria 
c^ntraia-lo; f^petir o mais leve signal de desconfiança, proseguiu o seu 
caminho, apressando mestre Marçal, que, pela sua parte, nada percebia 
senão que estava em vésperas de novas tribulações. 

Velho é^somo a verdade o dizer-se que o amor é cego. Era cegueira 



Qo maBcebp imagiqar qu6 iUudim nm i^omem perspicaz (^o|i}o Ayres 
e experiente, apezar do seu grosso tracto. Mas são assim o^ n^mora^os;, 
julgão que ninguém Tê os s.eus enleTOS, pprq^ip elleii não yi^m çeo&p q 
seu amor. 

Maria esperava o mancebo apezar de o ter vjsto rçtirar. Sem pe^ t 
ceber a causa daquella intempestativa manobra, contava queelle voltaria. 
Expliquem, lá estes mysterios 1 Mas quem é que não os tem observado ? 

A sentinelia, que, em honra a Berengu^r, um dos principaes cabos 
da inilicia, lhe velava a porta, fora retirada, ausente el}e. Assim, poi^^ 
os dous moços tinhão po^ únicas testemunhas, comp a amante? convém, 
o céo puro como as suas almas, e as estrellas brHhantes como os seus 
olhos, banhados de inefável ternura. 

Dizendo que o céo e as estrellas erão as suas únicas testemunhas 
não somos perfeitamente exactos. No recanto da porta, meio envohida 
no corti nado, via se a inquieta Anniohas com uns ares de grave pro** 
tecção, que Ihefícavão a matar, contrastando com a viveza graciosa do 
semblante buliçoso. Mas Aoninhas não era uma testemunha incommoda, 
nem a sua presença assustava o pudibundo mancebo. D. Isabel e todos 
os familiares descansavão das fadigas e sensações anteriores. Anninhas 
exercia, pois, ali uma salutar vigilância, e ao mesmo tempo fortaleeia 
a tremula donzella, que absolutamente exigira a sua companhia, como 
se receitara a intensidade das próprias impressões. Estes receios 8ã« 
sempre os symptomas de um amor sincero e ardente. Quantos e quantos 
de heróicos espíritos, que sabem querer e ousar muito, tremem todavia 
quando se achão sós, com a paixão que os attrahe I Emmudecem itú- 
beveeidos em contemplação reciproca ; mal ousio respirar ; balbucião 
palavras incoherenteS) e o mundo de sensações que se lhes confrange no 
peito, apenas irradia nas vistas fogosas, qifiando ousão levanj^)-|i9~8e 
ousão 1 Querem fallar e não achão o termo próprio do smUm^vUít 
porque o sentimento é maior que a linguagem humana ! A exprieAsflQ 
despoeiisaria a idéa. As^ustão-se do que experimtentâo edoqueadi^ 
vinhão ; e sentindo-se frágeis sob o peso da felicidAde, quieerão adi^r q 
momento e a occ^isião tão anciada, porque a soledade, em que sie Ih^s 
expande com toda a sua força o apor, lhes tira aa forças para supp(Hiiff 
a ventura, ^eia de alvoroços, que os opprime. Digão todos os que 
amarão deveras, se não sentirão, ao menos uma vez em sua vida, t^ 
sensações, na apparencia contradictorias, que íó entende a lógica do 
coração, e que a penna mal pôde bosqu^ar. 



— 30 

NemlMaria nem Vieira tinhão ainstado, peio mais leye indicio, 
entrefista ; mas ambos a esperaTão e contayio com ella como se fon mm 
emprazamento fiital. Na explosão sincera dos sentimentos qae os agir 
tfivão não forão necessários grandes circumloquios para que os dona 
chegassem ao ponto essencial. 

— Sra. D. Maria Gesar, disse Vieira — parto denoTO; e pois qa.<; 
p aecaso permitiiu qae ora aqui vos encontrasse, permitti também ^e 
TOS diga o qne não poderá levar no coração sem que m^o fizera rel»entar. 
Grande honra é para mim que o meu braço possa ser util a esta terra.. . 

— - Ide... — atalhou Maria, com uma resignação cheia de heroiamo^ 
Depois accrescentou, como se Iheestalára o coração no peito. 

— Ç Tollail 

Vieira comprehendeu quantas solícitas recommendações hayia nes^ 
9imples palavras, e respondçiu, inclinando-se commovido, com uma 
exaltação de intima fé, que chegava quasi ao sublime i 

— Yoltareil Mas, antes de partir, deixai que vos faça uma só per- 
gunta; tendes alguma offensa de D.omingos Fernandes? 

— Que nome dizeis l — exclamou a dona^ella, estremecendo como ^ 
olha ao sopro do vendaval, apei^ar de esperar o golpe. - E|m que podia 
um mameluco offender a filha áotk Berengueis ?. Esquecei esse homem l 
Esquecei até o sçu nome I £, se alguma vez o encontrardes, f^gi dell,e.. .. 

— Fugir I 

— Deixai-o passar como um reptil venenoso. 
T- Os rep^ esmagão-SQ. 

— Quando não matão» mordendo. . . Deixai-o ir aonde o leva o seu 
destino, fia uma justiça no céo. 

Vieira sabia o que desejava saber. A exaltação de Maria completada 
involuntariamente as anteriores revelações. Entre eUa e o Calabar havia 
algum segredo de iniquidade que lhe tornara odiosa a memoria daqueUe 
homem. Pouco importava qual era, sabido que o havia Uma suspeita 
acerca da donzella não era cousa que o mancebo sequer discutisse no seu 
espirito; e sobravão-lhe os injstinctos da delicadeza para insistir em per 
netrar um mysterio, que ella parecia querer reservar. 

Vieira contentou-se, pois, de responder, impondo silencio ao tu- 
multo de seus pensamentos : 

— Basta, senhora minha. Desculpe se não fui discreto. Nada maia 
peiíguntarei, nem mais é precisç saber. 



— Si — 

Qaem reparasse deipveoccapado, leria a sentença do Calabar es* 
cripta nos olhos do mancebo. 

Não contaremos o resto da entrevista. Adivinhasel Em ambos, 
porém, a consciência da dignidade e a severidade da consciência com- 
primia os Ímpetos do coração ; mas ambos se comprehendião atravez 
da palavra, pautada naquelles tempos por medida diversa da incontinente 
oratória dos amores descabellados. 

Ao primeiro alvcr da madrugada» a caravana descia a encosta. Vi- 
eira cavalgando ao lado do padre» acompanhando os taboyares, a pé, o 
mosqueteiro, que nunca tinha podido perceber o préstimo de um cavalio, 
e um pouco atrás mestre Marçal, sem poder achar posição conveniente 
^o seu derrançado e mais que pacifico ginete. 

III. 

blÔRBSSÂO. 

Emquanto Vieira e Berenguer se encamínhão aos seus destinos» 
demoremo-nos instantes, confirmando e verificando no exame a verdadeira 
situação da capitania. 

Os hoUandezes» desenganados de poder levar de assalto as linhas 
do Bom Jesus, tratarão de lhes oppor outras, que os protegessem , e 
donde pudessem dominar, ao menos, o terreno circumstante. Senhores 
do mar, dissemol-o, de dia em dia se lhes fortalecia todavia a esperança 
de assentarem pé naquella terra abençoada, para elles verdadeira terra da 
promissão, tanto mais apetecida» quanto mais diificultada. 

A constância de Mathias de Albuquerque, e o esforço e a perseverança 
dos colonos, disputavão palmo a palmo a conquista ; mas a cobiça esti-* 
mulava a índole commercial dos invasores, que, sem desistirem da sua 
obra, a proseguião, bem lentos e pacientes, activos e laboriosos, como o 
caracter da sua nação. 

A invasão hollandeza deixou longos vestígios em Pernambuco. 
As fartíficações prindpaes da sua linha de corações ao longo do 
Beberibe e na Ilha, que hoje é a parte principal da cidade» conservando- 
Ihes os nomes primitivos, attestão ainda ás gerações presentes o que foi 
aquella guerra gloriosa, escrípta nestes monumentos. 

Na Restinga, o forte do Brum é o sello da dominação dos Estados. 
Ainda nos iscados do século passado a tenalha» chamada a cidadella, á 



— 22 — 

pouca distsncia da igreja de Nossa Senhora do Pilar, cooserY^ya a 
denominação primitiva. No ceotro da actual cidade, o forte (ka Cinco 
Pontas (uome derivado dos seus cinco baluartes), construcção situada 
junto ao angulo da ilha de Saoto Antooio, dominando uma larga inflexão 
do rio, denuncia um [dos mais completos trabalhos de Yanderburgp. 
Na extremidade do terreno da povoação de hoje, junto ã ponte do 
Recife, deverão-se ao mesmo chefe os fundam^otos de uma fortaleza, que 
depois foi conhecida pela invocação de Santo António, que lha d^ão os 
moradores 

Finalmente, quem percorrer agora es ambitoi da cidade qu9 os 
séculos alargarão, quem estudar aquellas localidades, que são para aeus 
filhos outros tantos padrões do seu nome, poderá ahi estudar as dis- 
posições estratégicas do inimigo, que seus avós por tantos annos comr 
baterão até os expulsarem. 

£ que nos perdoem estas miouciosidades. Antes de entrarmos nas 
pbases novas desàa luta porfiada, justo é qae procuremos fazer conhecer 
bem ao leitora posição reciproca dos contendores. 

Yanderburgo conhecera que as operações defensivas de Maânas de 
Albuquerque lhe não davão esperança de reilissr de xoíre a occopa^o 
do paiz, como os primeirus successcs lhe h^vião feito esperar. Portanto, 
mudara de taetks. 

Todas estas fortificações tiobão sido cimentadas com o fangoe de 
um e de outro partido. Mais de uma vez, destruídos os trabalhos pelas 
sortidai foriens das milícias da capitania, e general hoUandes, portando 
em ooestâDcia eom o seu adversário, de novo o havia feito kisaUr e 
continuar finahsaiido^» entre cmnbates. 

O capilioHBór não Ih^os pudera obstar de todo porque a soa poaíção, 
eoHK> já filemos sentir, cada dia se tornava mais precária. A gJ^AO 
adquirida não impedira que se exhannssem os recnnos. 

Nos «HMelhos de Philippe, a politica do eonde dnqne de Oiiviice 
era exclusivamente castelhano. Por consequência , o enfcaqnfcimenio 
das capitaoias brasileiras era nelie, nào só um Imcto da indolência 
nativa e da corropção tia c^te, le não também um caicnio ^yalenatíeo. 
Ao pasao qoe os hollandezes recebiâo constantemente rt&rços, a me>- 
ttopõle doe Biazis, como então se dizia, enviáiB apoias a Mailúas de 
Albuquerque, em seis caraveUas, quatrccenU:» homens e ponccs ftísef 
dne e muniçòe?. Estes mesouis parccs socccrrcs, paraevitarem o encontro 
d» armadas hottandezas, erão obdgad*>s a «Itsembirear em poiklt^ disi- 



t3 

taDteá éBõche^vão ao dcáúipatn^úto enfraquecidos e dizimados pelas lon- 
gas marchas e pelas multiplicadas diificuldades do transito. 

Fui neste periodo sobretudo que principiou a brilhar aquella força de 
animo e aqueiie patriotismo incontrastavel, que recommendâo á historia^ 
co^ tamaoho lustre, os homens de tal época. 

A falta de munições de guerra era principalmente uma causa penLa^ 
nente de appreheosões. Um rasgo esplendido deu então a medida do 
espirito, verdadeiramente heróico, das defensões de Pernambuco. Mathias 
de Albuquerque applicava todos os seus esforços a encobrir a indigência 
real dos meios de continuar a guerra. A verdade todavia transpirava, 
e o valor n&o se abatia. Para economisar o resto dos municiamentos, o 
capitãomór preferia os combates de arma branca . Empenhados estes todos 
os dias, as bravas milicias, arrojando mosquetes e arcabuzes, precipi- 
tavão-se por baixo do fogo dos hollandezes, que as fuzilavào a salvo, e 
ião corpo a corpo, vingar sanguinolentamente as primeiras feridas. 

Um dia, Mathias de Albuquerque^ inspeccionando as linhas, chegou 
aos quartéis de Barbalho, assentes sobre o rio Biberibe ; depois de confe- 
renciarem momentos debaixo da mosqueteria inimiga, Barbalho tomou 
de parte o capitão-mór, e travou com elle o seguinte dialogo : 

>- Sabeis— disse o moço commandante->que se aínanhã nos atacarem 
os hollandezes, tetémos^ de áefender-^nos á lança e á frecha, coAo dizem 
que f&zião os romanos I 

— INão tendes pólvora ? —Perguntou o capitãomór. 

— Pólvora ha. F^ltão as balas. Antes de bontem nm voluirtario de 
Bfttàhyba, nSò achando t^om que atitar, metteuum seixo no seu ibosquete. 

*- E qual f jí o resultado ? 

-^ O resultado foi atreben^at <> mo<squete e ficar ferido o homem» 

^ Pedis balas, então ? 

— Peço-as como os israelitas pedião o maná no deserto. > 

— Ah ! meu querido Barbalho, sô^s israelitas não houtessMn obtido 
úielhor despacho á sua supplica, terião provavelmente monidodefome. 

-*- Ah I não ba balas i 

— Balas, poderia haver. . • se honTesse €bumbe% 

— Falta chumbo ? 

— Falta de todo, Sr. Barbalho. Occultai a nova. Que o não saiba, 
que o nao suspeite nenhum dos nossos. 

—Que eu lh'o não direi, afianço-o ; mas que onão^suspeitem» dundo. 

— Porque? 



$4 

— Porque I Dignae-Yos escutar-me, e talvez nfto teja inulil o qutf 
terei a honra de dizer-vos. 

Nisto, Barbalho affastou-se ainda mais com o capitão-mór, e, total- 
mente separado da turba, proseguio nestes termos : 

— Pois que não ha balas, e pois que as balas s&o essenciaes contra 
esses damnados hereges, propor- yos-hei um meio de as haTor e com 
pouco despendio. 

— Qual meio ? 

— £* tao. simples como focil. Tendes reparado que os nossos 
pescadores usão de grandes pesos de chumbo para fitar a posição das suas 
tedes ? 

*— Tenho. Mas nfto percebo ... 

— Tende a paciência de ouvir-me. Não é preciso muito para iiúá- 
ginar que esse chumbo pode ier outra applicaçfto. 

— Mas tirar o chumbo aos pescadores era descontental-os. 

— Não importa. 

— Era prÍTal-o de lucros certos e grandes, porque as pescariaâ sáo 
agora nosso principal alimento. 

— Nfto importa I 

— Era augmentar a escassez dos mantimentos que já não são abun- 
dantes. 

— Não importa. 

— Como ? Dizeis-me a tudo que não importa! 

-^ Não importa, porque importa muito mais a deffensão d'esta 
terra. Se a corte nos abandona, se tudo nos desfavorece, ninguém sabe o 
que pode ser e o que pode valer uma resolução firme em peitos generosos* 

— Fallae por vós, Sr. Barbalho. Com homem da vossa tempera, 
sim; mas... 

— Más 1^0 todos o mesmo, Sr. capitão-mór. 

— Comol 

— Pensais qae assim vos failaria se contara só comigo ? Todos 
tôm direito de pesar os seus sacrificios ; os dos outros, não. • . . 

— Nesse caso bem vôdes. . . . 

— Vejo que ha o mesmo coração em; todos, e qué esse coração nent 
verga nem sossobra. 

— Explicai-vos. 



- — 25 — 

Pois não me explico I Os pescadores tirarão o chumbo das snaâ 
ledes e vierão offerece-lo, como já offerecôrão os seus braços. 

— Oh ! almas heróicas I — murmurou o capitão-mór, aflfastando o 
rosto para esconder a sua commoção. 

— Bem Têdes, pois, que é já suspeitado o que se não diz ; mas nin- 
guém desfallece. Aceitai, Sr. Mathias de Albuquerque. Recusar íôra 
offender esses homens que nem se atrevião a apresentar esta prova da 
sua devoção. Não teremos peixe ; mas teremos balas, e na primeira oc- 
casião, daremos um bom desengano a esses marinheiros de Hollanda, 
que já talvez nos julgão desarmados. 

Mathias de Albuquerque nem pôde replicar. 

Dous dias depois, as guarnições das linhas recebião inesperada- 
mente o desejado reforço de balas. 

Taes erão os homens que abandonados de tudo, oppunhão a firmeza 
dos seus corações ás difiíicul Jades crescentes. 

Afinal, as instancias reiteradas e as descripções anciosas do perigo 
urgente despertarão a corte de Gastella. O abatimento das colónias bra- 
sileiras entrava nos seus planos ^ mas não a perda total daquellas pos- 
sesiões immensas. O conde-duque previu que seria preciso fazer alguns 
esforços. 

Constou então o rumor de um novo e considerável armamento, 
que os Estados de Hollanda prepararão, A sua segunda armada devia 
compor-se de 26 navios, com três mil e quinhentos homens de desem- 
barque. A bordo delles ião também algumas famílias hollandezas e vá- 
rios mercadores judeus que destinavão os seus grandes cabedaes a ex- 
plorar aquella recente mina. 

Estas disposições indicavão claramente que os hollandezes proje- 
ctavão firmar ali o seu poder e continuar a colonisação e grangeio do 
paiz em seu proveito. Este engrandecimento dos Estados, á custa da 
vasta dominação hespanhola, não podia convir ao orgulhoso monarcha. 
A indiferença tornou- se, pois, em diligeDcia, e, bem que á pressa e 
depois de longo lethargo, o conde-duque trate u de organisar uma ex- 
pedição auxiliar proporcionada á tentativa dos hollandezes. 

A armada destes era commandada pelo almirante Adrião Patry, ma- 
rítimo de provada intrepidez. Dlrigindo-se ás costas do Brasil, o al- 
mirante levava ordem para, ao mesmo passo, atacar e capturar os galeões 
do México, que se esperavão carregados de thesouros. Já se vê que 
tantas e tão poderosas causas reunidas não podião deixar por fim é0 

4 




26 

excitar a solicitude da administração bespanhola. Õ ultimo perigiv 
sobretudo fez tanta impressão em Madrid que o conde-duque passM 
logo determinações terminantes ao almirante D António Oquendo pan 
que este fizesse a toda pressa equipar em Lisboa uma frota de TÍale 
yelas, particularmente destinada a combojar os galeões. 

A nobreza e o commeicio de Portugal representara entSo á corte de 
Castella que se as despezas deste armamento pesavão todas sobre o reioo 
|usto era que tal armamento fosse também applicado a soccorrer o BraaíL 
Não era possiyel fechar os ouvidos a tal supphca, e â equidade, como í^ 
zemos ver, juntava o interesse. Q conselho decidiu que embarcassem na 
esquadra 2,000 homens de reforço, 1,000 para augmentar as guarnições 
das capitanias e outros i,000, sob as ordens do conde Bagnnolo, genetú 
napolitano, para soccorrer Mathias de Albuquerque. Dos primeiros mil, 
duzentos homens devião desembarcar em Santa Maria de Belém, hoje 
Grão Pará, e oitocentos sob o commando do mestre de campo Boca 
Negra, na Bahia. 

A armada recebeu ordem positiva de ir, antes de tado, lançar 
ferro na Bahia de Todos os Santos. Desta forma dava-se tempo ao M- 
migo de alcançar o Recife, desembarcar ahi os colonos, municiamenfos 
e provisões que levava e de fazer-se depois ao mar com os seus nayios 
de alto bordo desempachados e promptos para o combate. 

Era fugir aos holiandezes em vez de procura-los era ceder-lhes toda» 
as vantagens e desíávoreeer-se de todas as legitimas condições de bom 
êxito. 

Os resultados desta disposição tlverão de certo uma grave infiu- 
encia na luta que se achava travada ; e, ao diante veremos quaes forlo 
as suas consequências. 

Terminada esta breve excursão pelos domínios da historia enropéa, 
continuemos a nossa especial tarefa ; e, voltando atrás, examinemos em 
que lances se achavão os nossos heróes, e em quaes scenas se desen^ 
volvem. 

CAPITULO IV. 

RO MATO. 

AS tribus pityaguares e as tribus taboyares, bem como os tamojos, 
goairazes, papanazes, ajmorés, carijós, tupiniquins, guoiazazes, caheté» 
ott caités erão quasi todas descendentes dos velhos tnpinambás, a antig» 



— 27 — 

raça dominadora do paiz. Tapuias e tupÍDambás formão, parece-noB 
a DÓS, as duas grandes divisões da raça indígena originaria. Retiran- 
do-se do litoral ao sertão diante da invasão europea, estas nações co- 
meçarão a fraccionar-se habitando districtos diversos, e ao passo que 86 
fraccionavão tornandò-se mutuas e encarniçadas inimigas. Assim, con- 
servando as tradicções da sua origem e os signaes característicos da as- 
cendência commum, foliando dialectos analcgos, e conservando costumes 
cuja aífinidade era evidente, essas tribus guerreavâo todavia as tribus 
limitrophes com uma pertinácia e uma sôde de destruição, que só podem 
explicar os instinctos bellicosos. 

A' testa destas differentes ramificações estavão de um lado os ta- 
boyares das serras de Ibiapaba, já em parte aldeados pelos padres da 
missão. A docilidade da sua indóle e uma lealdade nativa, que os extre- 
mava entre iodos os da sua raça, tiobão-os tornado mais aptos do que 
nenbuns para receber o primeiro gérmen da religião e civilisação, gér- 
men apenas imperfeitíssimo, é verdade, não 'bem comprebendido, nem 
apreciado por elles, mas comtudo bastante para lhes inspirar uma grande 
confiança na sua superioridade. De outro lado, os pityaguares, inimigos 
irreconciliáveis destes, f^zião se notar pela barbaridade do seu natural 
indomável, e p^Ia ferocidade e crueza, que era o seu primeiro brazão. 
Por mais de uma vez os tab )yares, alliados dos colonos, tinhão prestado 
a estes notáveis serviços. Tanto bastava para que os pityaguares lhes 
fossem adversos: tudo o que os taboyares preferião lhes era odioso. 
Assim, vemos em todas as chronicas estas tribus indómitas unirem-se 
constantemente aos differentes invasores da costa brasileira contra os 
povoadores primeiros. Já em mais de uma tentativa os francezes havião 
achado nos pityaguares, que lhes erão grandemente affeiçoados, auxílios 
poderosos. 

O Calabar conhecia perfeitamente as tendências daquella raça, ou 
antes daquella fracção ; e, como bem previra Mathias de Albuquerque, o 
seu primeiro conselho aos hollandezes, fora — que procurassem antes 
de tudo a alliança das tribus pityaguares. 

No século anterior, as capitanias de Itamarica, ou Itamaráca, e de 
Parabyba tinhão sofírido consideravelmente com as excursões deste gen^ 
tio, com quem ellas confinavão. Já se vê, portanto, que dahi se origi- 
narão longas lutas, exacerbando os ódios. Repellidos para o sertão,os 
pityaguares espreitavão todas as occasiões de se vingar. Offerecer-lhès, 
pois, a símultanjBa opportunidade de se ligarem acs estrangeiros, e 




— 28 — 

g€m os quaes nada poderiâo, e de combaterem os seus dous m»iprei 
inimigos — os taboyares e os habitantes das capitanias — era ter a 
certeza de os convocar e de poder oppôr és astúcias da raça indigeoa, 
nesta gaerra singular, um adversário affeito a eilas, não menos sagas, 
não menos belicoso e ainda mais feroz. 

Yanderburgo apreciara para logo todas as razões do mameluco, e 
vira de um golpe que partido podia tirar de tal conselho e de tal homem. 
A difficuldade era poder chegar até ás tribus pityaguares, tratar com 
ellas, e attrahil-as ao theatro da guerra. Dos hollandezes nenhum sabia 
a paragem de taes tribus, e muito menos o trilho dos matos. Os judeus, 
que havião ficado em Olinda, erão demasiadamente timidos, e também 
nada conhecedores do sertão. Quanto aos poucos escravos, que, fagin(to 
a seus senhores, se tiuhão refugiado juoto aos invasores, nem se devia 
pensar na sua cooperação : o gentio odiava- os ainda mais do qua aos 
brancos, e um emissário daquella côr seria provavelmente regalar com 
um almoço inesperado os pityaguares, naturalmente pouco observa- 
dores do direito das gentes. 

Domingos Fernandes calculara bem todas estas objecções, e bem 
presumira que a primeira prova a que exporião a sua nova fidelidade 
á causa que abraçara seria aquella enviatura applic&da a grangear a 
allíança, que elle mesmo aconselhara. 

Foi justamente o que aconteceu. 

Muitas razões de prudência se poderiâo certamente oppôr á escolha 
de tal pessoa. Não deixarão ellas de lembrar ao general hollandez ; mas 
a todas essas razões respondia victoriosa mente um argumento incon- 
testável. Pois que havia um gentio para neutralisar cutro gentio, o con- 
selho do Ca^âbar era excellente, aproveita- lo era essencial, e, não ha- 
vendo outro para o tornar realizável, forçoso era correr o risco de lhe 
confiar a sua txucução. Quanto ao Calabar, vira que a traição feita aos 
seus, mesmo sendo útil ao inimigo (e este é o primeiro castigo de todos 
os traidores) devia inspirar aos hollandezes uma confiança medíocre 
no seu caracter. Resolvera, portanto, por mtio de um grande serviço, 
inaugurar a sua influencia e conquistar essa confiança, para mais fa- 
cilmente poder levar avante os seus designios. 

Sabido isto, é fâcil concluir que Domingos Fernandes aceitou sem 
hesitação o encargo de ir ás tribus pilyaguares obter para os hollan- 
deles o mesmo que nas serias de Ibiapaba alcançara para Mathias de 
Albuquerque. Unicamente os perigos desta empreza, comparada com 



— 29 — 

a piimeira, Unhão crescido na proporção de dez para cem. Não erão 
só as diíficuldades naturaes do mato, o encontro das feras e dos reptis, 
o ligor e as inclemências do tempo : de tudo isso zombava elle. Era ter 
que atrayesíar um largo espaço, senhoreado e de certo batido pelos co- 
lonos e gentios alliados, que a sua fuga do acampamento tornara 
inimigos moFtaes; era, suppondo que chegava são e salvo ás tribus 
dos pityaguares, a contingência do acolhimento que estes lhe farião, se, 
porventura, como não era difiicil, lhe tivesse chegado a noticia da sua 
primeira missão junto aos taboyares. 

Este cumulo de perigos e incertezas teria quebrado qualquer outro 
animo. Sabemos, porém, qual era a audácia do Calabar, qual a sua acti- 
vidade e recursos, qual a sua anciedade de vingança. A tempestade, fe- 
chada no interior daquella alma, rebentara com espantosa violência. 
Como na temerosa allegoria mythologica, rompia o cárcere que por 
tanto tempo a encerrara e galgava, espumando, todos os obstáculos. 

A solidão do mato era a atmosphera própria das enérgicas facul- 
dades do mestiço. Ali, na liberdade da sua força e na força da sua li- 
berdade, sentía-se rei. Ali era para elle um prazer a luta. £zaliava-se 
medindo os riscos e provocava-os impaciente. 

A conferencia do Calabar com o general hollandez passára-se quasi 
ao mesmo tempo em que tivera logar a conversação entre o capitão-mór, 
Berenger e Vieira. Accordados, porém, todos os pontos, a execução, por 
parte do mameluco, foi rápida como o seu desejo. Domingos Fernandes 
ganhara algumas horas sobre Vieira, porque Vieira ia saudoso separar-se 
de quanto amava, e o Calabar corria ardente atrás da su9 vingança I 

As tribus dos pityaguares occupavão o terreno comprehendido desde 
os confins da capitania de Itamaracá até ás fronteiras do Rio-Grande. 
Disseminados sobre um solo, ás vezes selvoso, ás vezes cortado de pân- 
tanos e algares, a sua vida era essencialmente nómada, e, posto que 
tivessem algumas noções de cultura, depressa abandonavâo um campo 
para irem a seu modo arrotear outro. 

Partindo de Olinda, o Calabar tinha de fazer um largo circuito 
para chegar áquellas tribus, com o fim de evitar os engenhos e povoados. 

Vieira, tendo sabido depois conára, direito ás margens do Igua- 
rassú, onde deixara os cavallos, vadeando o rio, para se internar com 
os seus companheiros no mato. 

E' ahi que vamos encontrar uns e outros. 

Cortando ao longo da ilha de Itamaracá, Vieira» seguindo a linha 




30 -— 

rocia, tÍDha a certeza de ir dar com mais rapidez ás fronteiras do paii^ 
habitado pelos pityagaares; mas o mancebo era já bastante pratico dos 
costumes e do terreno, e fora sufficlentemeate instruido pela previdência 
do capitão -mór para antever qual seria a direcç&o que levaria o Galabar, 
Tomara do acampamento direito ao rio para adiantar caminho e restaurar 
o tempo perdido. Dahi para diante, porém, a sua exploraç&o carecia de 
outras precauções. £* sabido com que sentimectos de entranhado rancor 
contra o mestiço Vieira deixara os reaes. Os conselhos da prud^icia e 
os seus instinctos de ciosa rivalidade reuni&o«se neste caso para lhe indi- 
carem que a primeira cousa de que devia tratar era tomar o passo a Do- 
mingos Fernandes. Effectiramente, se o emissário dos hollaQdezes nào 
chegasse ás tribus dos pityaguares, estava preenchido o fím principal da 
sua missão, e podia-o contar que, ao menos por algum tempo, Yand^- 
burgo não traria a si estes terríveis auxiliares, p^la dificuldade das com- 
municações. Por outro lado, era perigoso approximar se do paiz habitado 
por aquellas tribus, porque todos quantos formavão a pequena caravana 
erão por ellas considerados como seus iuimigos natos. 

Portanto o primeiro cuidado de Vieira devia ser dirigir a sua batida 
no sentido do caminho que levava o Galabar, 

Mas como se havia de effectuar semelhante batida ? Esta era a difi- 
culdade. 

Quem hoje habita as povoações florescentes da costa, quem percorre 
os vastos campos cultivados e as villas da província, e ouve dizer que no 
sertão, a i50 léguas para o interior, é que vivem talvez alguns vestigios 
do gentio, precisa recordar, para comprehender estas scenas, que mais 
de dous séculos passarão por cima dos successos que narramos, e que 
o paiz tomou outro aspecto muito diverso. Naquelle tempo o sertão fi^* 
cava ás portas mesmo das capitanias, e as capitanias apenas se estendião 
ao longo da costa. Terra a dentro, desenvolvião-se as longas solidões, 
onde a vegetação, robusta na sua florescência original, era cheia de 
mysterios. 

£ era através destes desertos incultos, destes labyrinthos de ver- 
dura, que o moço guerreiro se propunha encontrar um homem hahil 
em apagar até o rastro dos seus passos, afleito a todas as astúcias da 
selva, e fomiliar com os segredos destas regiões. Para os homens da 
Europa a empreza pareceria risivel : aos filhos da natureza figurava -se um 
commettimento, difficil sim, mas não extraordinário. Vieira, bem que 
sahindo d'entre a civilisação, não era tão estranho pelos seus hábitos a 



— ái — 

essa âatureaía que julgasse ímpraticayel o que para outro seria impossitef . 
Sem ter a perfeição dos instinctos, ou antes das faculdades selvagens, 
excitados os sentidos pelo ardor daquella espécie de caça humana em qufe 
empenhava, por assim dizer, toda a sua alma, adquiria uma perspicácia 
intuitiva, que não ficava muito inferior á do seu companheiro gentio. 

Nas pittorescas e sempte tão interessantes descripçòes de Gooper ha 
de o leitor muita vez ter admirado a agudeza dessa sagacidade, a que 
as circumstancias, na apparencia mais insignificantes, servem frequen- 
temente de seguro indicio. Mas os grandes phinos da America do 
Norte, a natureza do seu terreno e a uniformidade delie conservão com 
muito mais facilidade os vestigios. Semelhante sagacidade será, portanto, 
muito mais admirável em um solo ainda primitivo, atapetado de folhas, 
onde os pés quasi não deixavão pegadas, e por entre os mil rodeios do 
mato, dédalo em que se perde a própria imaginação. 

Atravessando o rio e abandonados os cavallos, Vieira e os seus com- 
panheiros seguirão por algum tempo^subindo pelos contornos da margem 
esquerda. Passada uma hora de marcha,todos os signaes de habitaçãa 
havião desapparecido, e a floresta virgem surgia aos olhos na sua 
magestosa solemnidade. 

A pequena caravana estava face á face com a natureza. 

O sol ia \k alto e o calor apertava. Vidra aspirava largamente o ar e 
os acres perfumes da seWa^ O padre Moraes, arregaçado o habito, ca- 
minhava com o desembaraço de um caçador, murmurando alegremente 
as resas do seu breviário, que não lhe esquecera. O taboyar precedia 
com a gravidade de um chefe. Quanto a mestre Marçal, bem quenãa 
visse ainda motivos para grandes sustos,arripiava'8e todo a cada rumor 
estranho que sentia, lançando a um e outro lado longos olhares pers- 
crutadores e espantados. Ayres Gil limpava o suor resfolegando, e, de 
espaço a espaço, apressava com uma praga a marcha mais lenta do seuf 
amigo. 

Vieira via bem que o honrado fogueteiro Hie serviria de embaraço; 
mas eomprehendia igualmente as intenções do capitão-mór, e avaliava 
o partido que podia tirar dos serviços de mestre Estouro. Gomo ak 
guem havia de carregar com oa necessários aprestos, mais valia ser um 
homem que, apezar de tudo, em uma occasião dada podia ter a sua 
itjiidade. 

Ao eabo de duas horas, o ch^k taboyar parou em uma clareira do" 



! 



— da — 

mato, esperando que se lhe reunissem os seus companheiros. Vieira 
correu ancioso. 

— Yôdes alguma eousa? — perguntou o mancebo. 

— O que os olhos do guerreiro taboyar hão de Têr não pôde estar 
tão perto — respondeu o gentio. 

— Então marchemos — proseguiu o mancebo impaciente. 

— O meu irmão branco — tornou sentenciosamente o chefe -^ 
mede as suas forças pelo seu desejo; mas as forças do homem acabSo 
e é preciso renoya-las. 

A observação era exacta. Vieira olhou para traz. O padre estava ao 
pé delle, rosado, contente e bem disposto, como se a fadiga lhe fosse uma 
cousa ordinária e não a sentisse. Mas as longas pernas de mestre Marçal, 
desmentindo o seu alcance, arrastavão-se ao longe,trahindo o cansaço ; 
e o próprio Ayres Gil já alongava a custo o passo de soldado. Vieira 
viu que era necessário fazer alto, em attençào principalmente ao con- 
ductor das bagagens. Além disso, considerou que uma refeição era con- 
Teniente para se fortalecerem todos e continuarem com a mesma aeti- 
vidade. 

Mestre Marçal convidado para depor a soa carregação, yaríadamente 
composta, não se fez rogar, e estendeu-se ao lado delia, depois de ín- 
yestígar miudamente o terreno. 

Mestre Marçal a par dos diversos artificios fabricados por suas mãos, 
trazia comsigo como se disséramos um celeiro commum. Além disto, 
Ayres Gil, e principalmente o padre, não se tinhão esquecido de lazer 
as suas provisões particulares para o que desse e viesse. 

A refeição começou, pois, alegremente. A natureza ria na selvas 
Uma harmonia, composta de mil gorgeios e trinados differentes, parecia 
saudar a presença do homem naquelle ermo pouco aifeito a ella. 

Os primeiros momentos forão dados a satisfação da necessidade im^ 
periosa. O mosqueteiro devorava com uma consciência que não soffiria 
distracções. Mestre Marçal honrava as suas pnormes maxUlas com uma 
actividade digna delias sem deixar todavia de suspirar examinando as 
profundezas incógnitas do bosque. Nesta porfia mastigatoria o padre Ma- 
noel, que não desmentia o proverbial appetite fradesco, levava ainda 
a palma aos seus companheiros. O chefe taboyar meditava ruminando, 
e Vieira impressionavel como todas as almas sensíveis, admirava o ma- 
gestoio. painel que tinha diante dos olhos, e de vez em quando dei- 



— 33 

xif a*fe esquecer a*uin loogo icismar de que o leUor bem pdde yer qoai 
seria o objecto. 

Não pasearemos adiante eeoi tragarmos conbecimeato cgm o oosio 
íra^anoel, oom quem teremos de passar algum tempo. . 

Frei Manoel de Moraes era um singular religioso, um frade como 
talvez hoje se não imagine que frades fossem. Antes de tudo, diremos 
que pertencia á ordan dos Jesuítas. Ora actualmente, graças a muita 
exageração e ás descrípçdes apaixonadas, que tendem a dar alguns typos 
excepoíonaes oomo regra geral, actualmente, diiemos, quando se falia 
em jesuíta, imagina-se logo uma daqudks figuras potentes, iníquas e 
dominadoras» ou astutas» bypocrítas e cheias de casuísticas e Ímprobas 
distincçôes como no-las piota o autor âo Jíidm Errante. N&o scmos nem 
pro nem contra. Somos pdos fiictos, pela verdade e pela historia. 

Perante esta ó para nós fóra de duvida que o Brasil deve áquella 
ordem grandes serriços. De certo, nas altas regidcs da companhia, como 
algulnas Teaes nas elevadas espheras da politica, as virtudes erão um 
instrumento de que zombava a vontade inflexível e a aml»ç&o de domínio 
superior aos escrúpulos. Sem duvida, ranáficada pelo mundo aquella 
espede de republica secreta, formava um verdadeiro itaíuê in ítatu. Mas 
esta força de soeptioiamo armada de religião quasi se observa unicamente 
nos altos gráos ; e, dahi mesmo» se longas perturbações se orígioárão» 
também muitos beneficies nascerão; porque é indubitável que a sciencia 
e a intelligencia forão as armas principaes dos padres da companhia^ 

Parece-nos ser esta a verdadeira imparctatidade — salvo sempre 
melhor juizol 

Nos gráes inferiores» nos padres» que erão agentes das vontades su- 
premas» que iHustrado selo e cpie absoluta abnegação não encontramos 1 
Bastará aqui recordar o nome do padre Ajichieta para offerecer um 
grande e conhecido exemplo dessa abstenção total de toda a idéa de 
pesseaHsmo, que formava « principal feição do caracter genérico éo§ 
fflissieiiarios. Absorvidos pela grande idéa da conununídade, aqndtes 
hoBiena individuaMsavão nella tudo quanto nos outros significava o 
— ftt. — Este «ra, quanto a néê^' o segredo da grande força da com- 
panlúa. Taes homens oossideBavão^se apenas muleculas daquelle todo. 
Asam sacrificados de ante-mão á communidade, a vida, os bens e a 
gloria não erão próprios, senão partes conponentes. A obediência pas- 
siva não iàsi deixava ver senão o filo único» a mira geraL O seu esforço 
sem appasato vinha*4hes desta abnegação completa, que era, por assim 




— 34 — 

dizer, a qualidade crigÍDatia que lhes impunhão, com o sello da confrv 
teroidade, apenas erão admittidos a fazer parte da companhia. Era esta 
quem yivia por todos. Morrião mas d&o acabaTão, porque se perpe- 
tuav&o unificados no espirito delia, com que esiaTão consubstanciados 
na vida e na morte. £ra preciso para a companhia cviminhar que muitos 
ficassem na estrada, como a sandália que se gasta sob os pés do yian* 
dante ? ImmolaTão-se alegremente, e est e holocausto de si meamos eia 
para eUes uma cousa simples e natural. 

Internando -se pelos desertos, abandonando todos os goios da yida 
ciTilisada, para catechisarem o gentio nos sertões, os {>adres da missão 
sabido perfeitamente que Se expunhão ao martyrio — e que martyrio 
muitas Tezes! —Mas era yontade da companhia, que lhes ordenarão 
serviço de Deus; e elles ião, á força de constância, de £sdigas affron- 
tadas, de trabalhos yencidos, á força do seu sangue derramado e de cui- 
dados pacientes, domar, com o ascendente evangélico, as tríbusi do que 
o jugo das armas só conseguia fazer escravos, e de que a persuasão ca- 
tholica sabia fazer homens. 

Nem era só na ferocidade selvagem que estes homens de paz en- 
contravão obstáculos : acha?ão-os também no espirito guerreiro e na 
avidez dos colonos. Ao grangeio pacifico das almas preferião estes a ser- 
vidão dos braços, mais promptamente conquistados na guerra» para os 
substituírem no trabalho. £' verdade que as colónias nascentes ^mais 
de uma vez estiverão em risco eminente de mina, por tomarem inimigos 
aquelles povos bárbaros. £' verdade que por cada escravo obtido á 
custa de muitas fçridas, se ievantavão cem combatentes novos* £* ver- 
dade que os padres das missões, por diversas occasiões, sahárão as 
povoações recentes, que trabalharão com uma das mãos e pele]avlo com 
a outra, intervindo com a intrepidez abnegativa, que já fizemos notar, 
nestas porfias sanguinolentas. £' verdade que os cultivadores forçados 
não valião, mesmo em proveito real» a submissão voluntária daquelle 
gentio, que, attentas as longas tradições da vida selvagem, os hábitos 
naturaes e a influencia do clima, só lenta e gradualmente se attrahirião 
ao trabalho. £ra verdade tudo isto. Mas a cobiça não raciocinava ',0, 
rebelde aos esforços paciQcos, recorrendo, atrahia-os muitas vezes aos 
meios mais expeditos da violência, que, não poucas também, provocarão 
as medidas repressivas da metrópole. 

Contra estas difficuldades igualmente havião por muito tempo lotada 
os padres das missões com uma tenacidade invencivel,até que os resuU 



— 85 — 

Mol práticos de seu systema começário a penetrar o espirko4aaco^ 
lonias. 

O padre Manoel de Moraes era um reâezo desta grande laz. Me- 
dianamente instruído, estivera addido por muito tempo das missões^e 
Ibiapaba. Correra grandes riscos ; mas nem elle mesmo adiyinhaya que 
bayia uma parte de yerdadeiro heroismo nos seus longos serviços. Esses 
riscos faziào parte integrante da sua existência, entrayão na regra,, nem 
presumia que pudesse ser de outro modo. Não raciocinaya a sua obe- 
diência : exereia-a. Seguia o impulso que lhe fora dado, ena sua pessoa 
não se reputara senão como entrando em um mechanismo, cuja força 
motriz não curava de indagar, nem julgava necessário comprehender 
estas existências, voluntariamente condemnadas a uma espécie de fata- 
lismo; o momento actual, pelo que dizia respeito ao mundo terrestre, 
era tudo : alem vião um mundo eterno, e, nelie o premio sem fim da- 
quella obediência absoluta. Portcito, abandonavão-se ao perigo sem 
temor, e, no que lhes «ra permittido, gozavão sem cuidado. A mor te 
era o termo de uma peregrioação. Nesta peregrinação o que lhes não 
fòtà defeso tomava-se-lhes origem de verdadeiro prazer. O prazer de 
frei Manoel, como outros muitos por iguaes causas, era a mesa, quando 
podia ter mesa. 

Deitas origens naturaes se deduzia logicamente o caracter de fvei 
Manoel. De uma piedade rigorosa nas praticas da religião» crente, so- 
bretudo e em todas as cousas» na eficácia da palavra do evangelho en- 
tendia que as armas espirituaes erM> incontrastaveis, e que o verbo di- 
vino tarde ou cedo triumpharia. 

Quanto á sua vida era um incidente pouco importante, porque, ou a 
perdesse ou a conservasse, a grande obra havia de proseguir, pois que 
atraz delle, e fundidos no mesmo molde, virião outros para a continuar. 
Temperando a austendade ascética pelos modos joviaes, aliiando a uma 
singular brandura de palavras uma intrepidez cheia de coragem, como 
dissemos, grande gastronomo em tendo occasião^ «oQrendo as privações 
com rara constância quando era. preciso ; lhano e chão em maneiras e 
Mnguagem, o padre Manoel de Moraes adqutrijfa notável influencia sobre 
as tribús taboyares. O seu espirito inlevado na loBga contemplaçã<Kda 
natureza, casára-se facilmente ás formulas* pitteirescas dos selvagens, e 
formara, peio habito, um segundo caraeter, ^ 

Nas guerras frequjntes entre oe jpttyaguMes' etàboyâres, frei Manoel 
acompanhara naturalmente estes ultimos,comò um pastor que não ahan- 



— S6 — 

dona o seu rebanho. Ora, como o paslor de oídinario deíBiide as eabeçm 
que lhe são confiadas, frei Manoel por uma dialéctica que lhe pancii a 
mais legitima do mundo , pouco a ponco tomara o aroeboz e inaen- 
sifelmente se exercera nefle a ponte que pouco tinha que iiiTejar «oe mali 
destros e experimentadof* Deste modo, frei Manoel pregundo ^iucen- 
mente a paz e citando as palarras de misericórdia, iadi flér e a t a ãOB pe- 
rigos, apparecia na primeira Hnha, e a sua arma era terrbnA aoe iú" 
mfgos. Semelhante aos monges soldados da meia idade diiieti, abra{afi 
o eraugelho, empunhando a crua com uma das mãos, e eoot « outiu gel- 
peaTa impávido, sem reflectir sequer do desmentimeuto qoea díiuíli 
d^ra á esquerda. Oe selvagens, seus tolelisdos não reftectiio mais ás 
que elle, e vião sohretudo uesla pro?a puramente material m ctoaii^ 
espedal da sua superioridade, e, por ella, lhe ebedecBlo mais firii— irti 
do que a outra qualquer. 

A simples mas succulenta rÚtAçho estava terminando. AyTCS €0 
renovara a escorva do seu mosquete, como quem presentia q«e a paris 
séria da empresa ia começar. Alestre Marçal deleitava-so uesaei reiios 
de carne ensaecada do reino, prefsvindo levar no estômago o qpe, eem 
isso, teria de levar ás costas. Com as longas pernas encruaadaathriui 
ao lado um grande pedaço de bolaxa e do outro sobre uma foHia do hana 
neira^umas rodas de paio de lombo que merecera os dogioa iatelligentes 
de frei MftQoel. 

A poucos passos, Yleira, o tahojar e o padre conferendavio* 

^ Qoe avanço nos poderá levar o mamekico ?— perguntavia o msn- 
cebo ao chefe ? — Se elie sahiu de Olinda antes de née, eemo é de 
suppôr, .deve já ter feito bom caminho, mesmo apezar do circuito a que 
foi sem duvida forçado. Entretanto, seguindo quanto pudermos em tinha 
recta, teremos todas as probabilidades de eneontrar vestígios da sua 
passagem. 

O chefe pôz-se a considerar o curso do sol, como pouco mais ou 
menos o faria um nauta no mv idto ; e, depois de contar varina Tnes 
pelos dedos, respondeu : 

— Se o guerreiro tabojar nio deixou a prudência nos conselhoa da 
sua nação, ha knais de quatorze horas que o homem degenevado d^xou o 
campo dos inimigos. Elle é ágil e robusto, a ainda que tenha ieito 
grandes rodeios, quando chegarmos ao ponie em que podiamoe achar oa 
deus vfstigios, já elle estará a tal distancia, que não será peeaiirt ai- 
eança»Io. •, 



— 87 — 

•— £' verdade — redarguiu Vieira ; mas entii» eQ€amiBhai-^oi, e 
não percamos tempo. 

— Não é traapo perdido - aeadiu o padre — o tempo que empre- 
gardes em oufir as advetteoeias deate homem. Fio^voa que Toa não 
dareis mal eom ellas ' 

— ' Fallai pois -^ disse o mancebo para o geatio. 
O taboyar descreyeu, com a taquara da frecha, um arco de circulo 
BO &r, dizendo em iórma de commeiNtario : > 

— Aqui está o camisho que< ha te te? si^gui^o a homem degenerado, 
( era assim que eMe desígnaTa o Galabait (-Para nfto aei yiato doa en- 
genhos, nem do pe^foate, ham deaahir der noite, e depois ele?«r-fe 
até ás ahas das sema pai» ir dtaeendOj áascahir no paii dos pytya- 
guarei. Se caminhannoa direiloa terá }6 pMS«do«< Paia nAe pt rdeimoa 
tempo e podermos achar-lhe o rasto aluiremos assim. « . • 

" E o taboyar diyidia o eapaço em diagonal, 4e modo qnkê este raio de 
drculo, em relaçfto á Unha |Hrimâra k quasi eertar na extremidade j 
o traço parabólico, anleriormente riscad*, obliquando na direcf&o do 
sudoeste. Assim : -^ conlinuafa elle em uma linguagem que não lepe- 
tiremoa aqui para eritarmos pr^xidades -^ assim) teremoa a certeza de 
encontrar indicioa delle, e e^taremot maia perto. 

A demonstraçfto era evidente. Yieira, que aabia apreciar eatas proTas 
de sagacidade, acquitsceu e preparou-se para dar o signal de partirem. 

Nisto soou atrás dellea um giito de desolaç&o indíseriptlTel. Mestre 
Marçal firmado meio eoi^o em um» das mãos, e com a outra levairtada 
para a copa do coqueiro que lhe servia de abrigo, tinha no roíto, noa 
olho» fitos e na boca escancarada^ unsaiea espantadiços, que erão a 
imagem yiva do assombro. < . . . 

Interrompido assim 4> coUoquio doa nossos expedicíonaiios, todas as 
attenções se voltarão para mestre Marçal. 

A attitttde pasmada do honrado fogueteiro eiprimia uma admiração 
tio profunda, que, no primeira momento, todos julgarão grave o caso. 

Immediatamente Ayres Gile Yieira se offerecÂrão para exploradores. 
O padre Moraes examinava os feehos do seu arcabuz, asseverando quei 
se fossem gentíos,o melhor sari» evitar «confliotos e pregar-lhes a palavra 
do evangelho. No^entauto, mestre Marçal, que se via exposto a ficar só, 
eom uma das mãos ftirâ dnesperadameate um gesto negativo^ com a 
outra, úidicava a- ramagem da arvoroL a ^que se abrigam, .dand« a en- 
tender que não era prtdao ir longe para aehar a causa do seu espanto. 



I 




— 98 — 

Esta pantomima frenética obrigou a pequena caravana a aproxi^ 
mar-se e a levantar os olhos para a densa ramada. 

Reparando, o chefe taboyar olhou para mestre Marçal com signi- 
ficatiya piedade e afastou -se alguns passos, como se tal scena fosse in- 
digna de lhe atrahir a attençto. Vieira e Ayres Gil desparárão uma gar- 
galhada estrondosa, que duplicou o assombro ao fogueteiro. 

O caso não era para mencs 1 

Em quanto durara a conferencia dos seus companheiros, mestre 
Marçal, cuja previsão gastronómica era excessiva, tinha ficado, como 
dissemos, consumindo a maior porção possiyei de comestireis. Neste 
exercido, que lhe absorvia todas as faculdades, mestre Estouro por mais 
de uma occasião* se maravilhara da prodigiosa £icilidade comi que Ike 
desapparedão do ledo as fatias de paio de lombo, que elle accumulára 
com minucioso cuidado. Primeiro admirara a força digestiva que lhe 
permittia devorar sem incommodo tamanhas quantidades, e applaudkn-se 
interiormente deste expediente que lhe diminuía consideravelmente a car- 
regação exterior. Depois começara a notar uma certa desproporção entre 
o seu consumo individual e a desaccumulação successiva que se efff ctna?a 
com uma presteza capaz de derrotar os cálculos mais sólidos. Em con- 
sequência dessas reflexões, mestre Marçal resolvera tentar um reconheci- 
mento em forma» e proceder a uma investigação curiosa, porque, de- 
vendo todos os effeitos ter as suas causas, não se lhe dava de averiguar 
a causa deste effeito. Dito e feito. Mestre Marçal, não sem tal ou qual 
inquietação, fez o circuito da arvore; e, para dizer a verdade, natki 
achou que pudesse assustar a sua prudência. Gomo este tal ou qual exer* 
cicio lhe tivesse demonstrado que o seu estômago tinha ainda capa- 
cidade para mais, assentou-se de novo, dispondo-se a aproveitar util- 
mente o tempo que lhe davão os seus consócios. Para maior segurança, 
mestre Marçal contara escrupulosamente as fatias de lombo e os quartos 
de pão das suas provisões. Quando tentara a exploração restavão sete 
nacos de paio de respeitáveis dimensões, e dons quartos de pão, flan- 
queado tudo de uma dúzia de bananas apettitosas, e em conveniente 
grande maturidade. Regressando da sua viagem á roda da arrore, 
mestre Marçal, tomando a contar os municiamentos de boca, achou de 
menâ um quarto de pão, duas fatias de paio, e quatro bananas. Evi- 
dentemente o illustre artista tinha um associado incógnito, que se fizera 
seu conviva. Mas qualera esse conviva? A que espécie pertencia f 
Havia uma certa probabilidade de fazer parte das raças intelligentes 



k 



— 30 — 

pelo cuidado com que tratara de se proyer de alimentos análogos aos dos 
consumidores bipedes. 

O espirito de mestre Marçal ficou cbeio de duvidas. Estendeu o rosto 
em ponto de admiração, e começou a cogitar profundamente, n&o sem 
um principio de terror, no estranho successo de que erâo yictimas elle e 
a sua mesa. Esta meditação, que não tinha nada de agrada?el, era acom- 
panhada, como se deve suppôr, de longos olhares investigatorios. To* 
dayia de um e outro lado nada se descobria que pudesse incutir temor. 
A poucos passos o grupo dos seus companheiros assegurava mestre 
Marçal contra qualquer sorpreza ou ataque inesperado. Além disto» a 
própria natureza do roubo, porque mestre Marçal já não podia duvidar 
de que fosse um roubo, assegurava ao honrado fogueteiro que as in- 
tenções do usurpador não erão excessivamente temerárias. 

Fazendo estas e outras reflexões semelhantes, mestre Marçal sentiu 
de jrepente cahir-lhe na testa uma cousa leve, mas viscosa, que lhe faz 
levar promptamente a mão ao sitio atacado. Retirando-a, achou-se pos- 
suidor de uma larga tira da pelle do paio. Aqui é que as reflexões 
de mestre Marçal, dispartindo-se nas trevas do seu espirito, começavâo a 
divergir de um modo verdadeiramente fobulosOé Por mais curtas que 
fossem as suas idéas em botânica, mestife Marçal não podia compre- 
hender que, mesmo naquella terra para elle extravagante, houvesse ar- 
vores que, em vez de folhas ou frutos, deixassem cahir pelies de paio ; 
e, se Deus estivesse resolvido a renovar em proveito dos viajantes o mi- 
bgre do manná do deserto, sob a forma de salpicões de Melgaço, também 
lhe parecia a elle, mestre Marçal, que a Providencia não começatia 
por lhes enviar i^ pelle em vez do miolo. Além disso, as dimensões do 
fragmento que tinha nas mão9, examinando-o com meticulosa curiosi- 
dade, fozião-o assemelhar-se furiosamente aos despojos das suas rodas 
de paio roubadas. Daqui seguia-se uma conclusão perfeitamente lógica. 
A* menos que as arvores do Brasil não prpduzissem paios, e estiveisse no 
cahir da folha, era deplpravelmente certo que o roubador se achava perto, 
e arremeçava ao ioterdicto mestre aquelles restos, como uma ironia de 
máiO gosto, e não menos certo também que habitava as regiões aerias. 
Em resultado deste radocinio, mestre Marçal passou a investigar as al- 
turas com a mesma pertinácia com que investigara o solo. Nos^res, 
como no solo, não apparecia o mínimo signal suspeito. Mas, oh 1 cu- 
mulo de espanto I No momento em que.mais fito examinava os astros, um 
objecto estranho cae de cima, sem saber-se dondoí e tapa-lhe os olhos. 



40 

M «atito foe ttetlie liai^d fQÍto« • giite agvdoqM «llnftm 
dot sem companheirot. Meio morto de susto, por qbmi tçÊo mrttnctfn 
e nndniiil, leroii, eomo já llien, a mãú lo rosto pm desulitiaii oi 
olhoo, oietinnidellfliiiBacnndobiiuuii. Ettnmko pus, reUeclH eo» 
•igo o «tordido meitre, eatrulio put, onde choven pelles da pm, e 
codo as tMUiaiMS túnmk das «rores redmxidas ao infolncio 
Afatlla tona de promíssio eni, para aaoslre Maiça), oumo «• 
gnunmas politieos : nio tinha seafto apparmiciis. 

TodaTia mestre Msrçal, desembaraçando os olhos da coberfora lutr- 
çada fue lhe ebotôrá em dma, coosegoira descobrir a cansa dos phe- 
nomenos que o preoccoparlo, e essa cansa derára a mn gráo byper^ 
bolico os terrores «pie já lhe haTiio começado no espirito. 

Sem força para ezhalar o sen snsto em palsTras, a attitode e o gesto 
exprimiio exclusiyamente o espanto qne o tomara. 

E não era qne tÍTesse nada de leni?d o que ello deaoolHin. Hás 
a singularidade, a estranheza e a novidade haviie-lhe feito uma ssi- 
prassfto, qne não sahUi nem podia^ traduzir. As suu idéas, natiiral- 
mente obscuras, iiafiàoHM) bandhado. Nio sabia sb estava no mimdo oa- 
nheddo,ou se iòm transportsdoa foniastkas regiões. Era para elle una 
sitoaçio tio nofa^ tão desusada e tão ineomprehensiTd, que oão le- 
nuissimo da sua lógica estaHáia de diofrOi e o pobre fogueteiro não aalúa 
senão pasmar. 

Tempo é de acabar com taes inceitesas, e explicar ao leitor os mo- 
tivos liesta casual peiipeda. 

Mestre Marçal,' desimpedindo os olhos do ol^ecto que subitamonfe 
Ih^os toldara, vira tregeiteando, na bifurcação dos ramos que lhe esta^rlk» 
sobranceiros, uma face felpuda e móbil, que o gelara até á mednlfai dee 
ossos. Mão era diffidl prever nos matos da America a apparíção do om 
hospede destes, e não faremos ao leitor a injuria de imaginar que éHe 
não tenha já adivinhado qual era a sua espécie. Mestre Marçal, poié», 
nunca fOra forte em histoiia natural. Nas selvas próximas ás habitações 
vira ]á,é'terdade,' alguns ilaquelles pequenos individues da grande fíunilia 
dos quadrumataos, geralmente conhecidos pelo nome de saguis ; más, bêl 
variedade, os de maior talhe erão^^Die de tal íórma estranhos, que a 
amostra que tinha presente lhe parecera uma cousa inconcebrvel eia- 
bulosa-. Esta amostra eta o ftunoso gigeou mono pardo, que o leitor 
pratico muito melhor conhecerá do que nós. 



o 



— 4i — 

Mestre Marçal, cujas idéas acerca das castas humanas tinh&o já 
iicado em uma certa desordem com a yista dos gentios, e que tinha 
presenciado nos seus congéneres tantas variedades, não sabia como pu- 
desse definir e limitar a humanidade ; descobria naquella visão re- 
pentina a possibilidade da existência de uma raçai incógnita, e por isso 
tanto mais terrível. Naquelles paizes novos ignorava elle onde acabava 
o homem e onde principiava o bruto ; e, nas suas apprehensões multi- 
plicadas, estava propenso a acreditar que entre o bruto e o homem nfto- 
exístião as difíerenças que a principio ingenuamente suppozera, tantas 
erão as gradações diversas que sorreteiramente observara na cadôa dos 
entes, desde ò capitào-mór Mathlas de Albuquerque até ao chefe taboyar, 
seu taciturno companheiro. Sabia que a pequena caravana ia em de- 
manda dos selvagens pityaguares e tapuyas, de quem ouvira as cousas 
mais estupendas e temerosas. Quem lhe dizia a elle que entre o tapuya 
e o taboyar não havia a mesma differeoça que se dava entre um taboyar 
e um mosqueteiro das companhias de soldo, como Ayres Gil, por 
exemplo ? 

£, dado este phenomeno, quem lhe assegurava que o individuo 
que tinha eminente não era um daquelles famosos tapuias, cuja fero- 
cidade e habito selvagens passavão em proverhio na colónia ? 

Eis o que paralysâra todas as faculdades de mestre Marçal, e o que 
promovera a críse de terror que estava fozendo as delicias dos seus 
companheiros. 

Agora não será diíficil aos leitores comprehendeJ: a origem dos 
furtos que tanto havião intrigado o nosso mestre Marçal. O gigo, com 
a voracidade e instioctos da sua raça, tinha querido provar do fructo 
prohibido. Achando gosto ncs referidos roubos, renovara por mais 
de uma vez as tentativass esquivando-se com a agilidade da espécie sui- 
niana ás investigações morosas de mestre Marçal. Quando este levantara 
os olhos, deleitava-se elle nos derradeiros despojos da rapina, esfre- 
gando o lado e revirando os olhos com um frenezi, niilicioso que 
attestava a sua profunda beatitude. A principio trincara o paio com 
delicada desconfiança, como quem não se fiava muito nesses productos 
peregrinos. Depois achâra-lhe sabor apettitoso. Naquelle momento era 
o gigo o mais feliz dos quadrumanos e mestre Marçal o mais espantado 
dos bipedes. 

O quadro, portanto, desafiava uma daquelías gargalhadas inextia 
guiveis de que falia Homero. 




43 

Esta hiliridade, extremamente intempestifa segunda o fogaeteira, 
serenou-o todaTia um tanto. Não era possiyel que os seus compa-^ 
nheiros lissem de tã? boa vontade se houvesse razão para sérios temores. 

— £' um tapuia? —perguntou elle, recob/andoa £alla, mas ainda 
ineerto. 

— £' um gigo — acudiu o padre Moraes, que tinha por momentos 
esquecido a gravidade do seu caracter. 

As duvidas de mestre Marçal recrescerão. Conhecia a teiga ou 
cesta, baptisada no reino com o feminino deste nome ; mas o objecto de- 
signado tinha tão poucas relações com o seu masculino, que o £nieo 
bestunto do mestre ameaçou de novo a fugir em debandada . 

— Um gigo I — exclamou attonito, forcejando por levaotar-se. — E 
que vem a ser um gigo? £' outro gentio? 

Nisto, como encurvasse o dorso para se erguer, a queda de um 
vulto pesado prostou-o no chão, de face contra a terra, em uma aitítada 
absolutamente inversa a que d té ali conservara. A arvore era fatal a 
mestre Estouro: primeiro chovera-lhe peliiculas, depois cascas, epor 
ultimo o próprio ladrão, que terminou as suas obras tombando-lhe em 
cima, varado de uma frecba. Para fructo pendente, melstre Marçal achava 
o quadrumano suíficientemente assalvajadõ. 

Vendo o animal, o tabcyar recuara alguns passos e, deitudo-se, 
despedira o tiro que o prostrara. Mestre Marçal estava destinado para 
victima, tanto dos roubos do mono, como do seu castigo. 

£^ escusado dizer que um novo accesso de terror assaltou o fogue- 
teiro naquelle episodio. 

Restabelecido já e explicado todo o caso, mestre Marçal examinou 
curiosamente o gigo expirante, e levou a audácia até ao commettimenta 
de lhe leventar a cabeça com a ponta do pé. 

O resultado da sua analyse foi um desdém profundo pela peça de 
caça que o taboyar recolheu com todo o disvello. 

— Para que serve isto?— perguntou com uma indifferença cheia 
de tédio. 

— Gigo bom para comer — acudiu o taboyar. 

— Verá que tal é o nosso calJo de macaco — observou o padre 
Moraes, como habituado aos recursos da cczinha indigena. 

— Caldo de macaco I — exclamou mestre Marçal com uma careta, 
mais cómica do que a do defuncto. — Voto a Deus... 



43 — 

— Não Yote — fttalhou o padre — assf guro-lhe que ó delicioso, 
Nioguem sabe o que pôde acontecer. 

O mestre sentiu revoltar-se-lhe no estomsgo o paio do reino como 
um protesto contra o herético manjar, cuja perspectiva o ameaçava. 
Bem qlTe nunca a tivesse provado, sentiu náuseas e fícou-lhe no paladar 
o tal caldo exótico. Em todas as tribulações por que passara depois do 
seu casamento com, a senhora Medéa Brandoa, era o desapontamento 
maior que nunca soffíêra. O próprio Ayres Gil, apezar de experiente 
em muitas composições culinárias extravagantes, pareceu disposto a 
apoiar as repugnancias do seu amigo. 

Indiíferente a estas demonstrações , o taboyar atou o gigo de pés 
e mãos com as fibras verdes de um dpõ, e, enfíando-o no arco, deitou-o 
ao hombro. 

CAPITULO V. 

INCIDEirrES. 

Terminado o episodio, jem breve se pôz a caminho a caravana, 
refeita de forças, marchando com boa vontade, e ainda alegre e com as 
reminiscências da burlesca scena em que principalmente havião figu- 
rado mestre Marçal e o mono defunto. 

O taboyar guiava os companheiros. De espaço a espaço orientava-se 
nos labytinthos do mato, e seguia sem hesitar, como se lhe fosse fami- 
liar e perfeitamente marcada, a direcção que lhe competia seguir. 

Caminhando, Ayres Gil chegou-se a Vieira e disse-lhe em voz 
baixa: 

— Confesso-vos, senhor Viíira, que antes me quizera com dez mil 
hollandezes pela frente nas nossas linhas de Bom Jesus, do que nestes 
mares de verdura, que não têm fim, e isto sem rumo, nem bússola, 
como acontece nos mares verdadeiros. 

— Rumo levamos e bússola temos, Ayres, não o vedes ? 

— Qaanto ao rumo, Deus sabe onde nos levará * e pelo que toca 
â bússola Uaum I . . . Tendes muita fé nella, senhor Vieira ? 

— O gentio taboyar é firme e leal como nenhum outro. 

— Mas sempre é gentio ; e, cá de mim para mim, apezar da dou- 
trina dos padres, esta gente côr de cobre parece-me tão hereje como 
os mais herejes. Ora, hereje por hereje, antes os quero pela frente do 
que ao lado. 



I 



— 4d — 

— Não teodes razão, Sr. mosqueteiro -- accudiu dali o padre Hor- 
racs. ^ Qaando um taboyar jora liança e amizade, a sua palavra é 
tão verdadeira como a deste breviário que estou lendo. 

— Será, será ; uão digo — continuou o mosqueito. — Mas são fés ; 
e nestes pontos, muita mais teria eu no yosso arcabuz, que me parece 
uma arma guapa, do que no bret iario, se lhe medis a verdade pela desses 
gentios, vossos predilectos. 

— E' que os nao conheceis, Ayres— ponderou Vieira. 

— Pois sim ; se quereis q\h^ vos diga, não me prazem aquellas armas 
que ferem sem se saber donde vem o tiro. Não vistes esta manhã 
como o nosso taboyar deitou abaixo o mono, sem ninguém dar por isso ? 

— Haveis de convir que taes ariras são muita vez de utilidade. 

— Eu sei. . . Armas traiçoeiras por fim de contas I . . . São dextros, 
não o nego. . . certeiros, não ha duvida. . . e direi mesmo que não pen- 
sava. . . Mas com armas destas, que não dão signal de si, tanto se mata 
um inimigo pela frente como um amigo pelas costas. 

— Yôde. . . as costas é elle que no-las dá. 

— Dá. Mas sabeis por onde nos leva ? 

— Por bom caminho, estai certo. 

— Senhor Vieira, o branco pucha para o branco e o negro para o 
negro. Quem vos diz que estas pelies vermelhas não puxão umas para 
as outras? 

— São os maiores inimigos entre si. 

— Emquanto se lhes não mettem estranhos de permeio. Olhai lá 
o exemplo do pardo. 

— Do Calabar ? 

— Do traidor. Mal lhe cheirou a cilada, tomou logo voz pelos 
inimigos. 

Os olhos de Vieira relampeárão ; e, sem responder, apressou o passo, 
como se tivera anciã de vôr immediatamente aquello a quem o mosque- 
teiro tão imprudentemente alludira. 

— Ha tempo para tudo — continuou Ayres ; — descansai, que che- 
garemos, 6 Deus permitta qu9 cheguemos de modo que não tenhamos 
de arrepender-nos. 

— Arrependimento seria se o não encontrássemos — acudiu Vieira, 
cerrando os dentes. 

— Pevagar se vai ao longe, com di^ o dictado. Sabeis que me não 



«9su8to por cousas poucas; mas nestes labyrinthos, a prudência é razfio 
e deyer. 

— Vedes porventura inimigos ? 

— Aqui yejo-os em toda a parte. Tudo por estes sítios me é sus- 
peito. Cada tronco pôde ser uma embuscada. Fallai-me de subir á brecha 
por entre a metralha, ou de deitar ao mar um cacho de boUandjezes como 
YÓs fizestes, Sr. Vieira, no forte de S. Jorge ! Isso sim, que são feitos 
dignos de homens de guerra e de gente catholica. Mas estas correrias 
por deyezas de matos e brenhas selvagens cQfuo qnem se esconde, isso. . . 

— Náo é menor o perigo e não será menor a gloria. 

— A gloria de ficar varado de uma frecha por detraz das nv)ita8, 
não a invejara eu. Mas enfim manda quem pôde. Reparai, vem des- 
cendo a noite e as sombras galopão por estas arcadas de arvoredo, que 
cegão a gente. Oh! lá parou o nosso guia... Que será? 

Effectlvamente, o taboyar parara; e, curvado, examinava attenta- 
mente um macisso de verdura, que obstruía o passageiro. 

Não é preciso dizer que em breve toda a caravana se reuniu em volta 
do selvagem, exceptuando mestre Marçal, que se conservava a uma dis- 
tancia prudente e que tremia como um cannaveal a cada lumor da fo-^ 

Ihagem. 

Não era raro achar destes impedimentos no bosque não trilhado. 

Surgião mesmo a cada passo, como era natural naquella natureza oppu- 
lenta, e, mais do que oppulenta, pródiga. Em casos taes, se trm obstá- 
culo offerecia difficuldades snperaveis,só á custa de muito tempo tornea- 
va-se, procurando, um circuito ; se era unicamente necessário abrir ca- 
minho, atravez dos ramos e dos cipós enlaçados, o machado trabalhava, 
e em poucos momentos a passagem ficava livre. 

A caravana, reunindo-se, achou o taboyar em profunda contem- 
plação diante de um destes obstáculos. De ordinário o selvagem, quando 
os encontrava, começava o trabalho necensario, e os seus companheiros, 
ajudando-o, completavão-o. Portanto foi grande a estranheza vendo-o em 
uma inacção que deste modo se tornava extremamente significativa. 

— Estais cansado ? -- Disse para eUe o padre Moraes, que, segundo 
já pendíamos, exercia sobre aquellas gentes uma grande autoridade. 

O taboyar abanou a cabeça em signal de negação, e continuou a 
mirar e a remirar o enlaçamento da vegetação com tal pertinácia como 
ainda até ali não mostrara. 

Os e^^pediccionaiios Unhão andado mais de oito horas a fio, e acha-i 



46 

Tâo-se pouco mais ou menos nas alturas designadas pelo selvagem. A 
noite descia rapidamente ; e, no interior da seiva, as sombras condensa- 
yão-se com a presteza que o mosqueteiro, na sua phrase ás vezes pitto- 
resca, assemelhara a um galope. 

— Vamos, liomem, — insistiu o padre impaciente ; — cortai-me 
essas janças e ramadas. Impedimento tão miserável não vai a pena de 
nos deter aqui o passo por mais tempo. Mister é que cheguemos a 
alguma clareira para tomar descanso. 

£ o padre Moraes, levantando o arcabuz peio cano, preparava-se 
para demolir a architectura vegetal, juntando â exortação o exemplo. 

O gentio, percebendo-lhe o movimento, levantou-se e suspendeu-lhe 
o braço. 

O padre Moraes conhecia já os modos daquella gente ; e, por isso, 
sem se escandalisar da acção, descansou a arma e perguntou-lhe : 

— Achais alguma cousa? 

■— Çalabar passou por aqui — observou tranquillamente o gentio. 

Vieira de um salto estava junto do guerreiro vermelho. Todos os 
outros se apinharão em roda curiosamente. Mestre Marçal tinha-se feito 
caudatário do seu amigo Ayres Gil. 

— Por aqui, dizeis I — exclamou Vieira. 

— Por aqui. — Asseverou com plena confiança o gentio. 

— Gomo o sabeis? — reflectiu o padre. 

— Vedes estes ramos entrelaçados de cipós? — disse o selvagem* 

— £ncontrão-se a cada passo — atalhou Ayres, e não nos dão pouco 
trabalho. Se isto não é terra de christãos I 

O taboyar repetiu o seu signal negativo ; e, dobrando-se de novo, 
começou a desenleiar pacientemente os cipós, em vez de os decepar a 
machado. 

Vieira mordia- se de impaciência. 

— Que fazeis I Que tempo nos não leva assim! 
O padre murmurou : 

— Deixai- o, dexai-o. Vejamos. 

Só a vista perspicaz do selvagem poderia acertar, á luz baça do 
crepúsculo rápido, com aquelle dédalo de nós e laçadas. Passados mi- 
nutos, os ramos,que, na apparencia, se encurvavào naturalmente, soba 
pressão dos cipós, libertos destas prisões, retomarão uma posição de 
que evidentemente havião sido desviados por mão humana. Vieira soltou 



47 

um grito admirativo, e o próprio Ayres Gil não pôde reprimir Um signal 
de approvação. 

— Yêdes? —disse simplesmente o selvagem. 

— £' claro — accrescentoo o padre em ares de triumpbante com- 
mentario. 

— Mas como se pôde conhecer ? — observou Ayres.— Por mim vos 
digo que não achava differença dos outros tapumes do mato. 

— £' que não estais costumado — replicou frei Manoel. — Já per- 
cebo. Não vistes como os cipós estavão tendidos e retezados ? Se elles 
se tivessem enlaçado aos ramos, naturalmente curvos, ondularião fluctu- 
antes. 

— Ah l — murmurou Ayres maravilhado, 

— Assim — disse Vieira •— seguindo as investígasões do gentio, 
tendes certeza de que o mestiço pasçou por aqui ? 

— Bem vistes — disse o taboyar. 
E continuou examinando o solo. 

— Que buscais agora ? insistiu Vieira. 

— Esperai I — observou o taboyar. 

O gentio explorava curiosamente a terra accumulada de folhas 
seccas, rastejando por debaixo da abobada de verdura que obstruía o 
caminho. 

Vieira no entanto bradava : 

— Agora, que já está reconhecida a passagem do mestiço, porque 
não desembaraçamos o trilho e não seguimos avante ? 

— Esperai — repetiu ainda o padre, que tinha fé maior do que os 
outros na sagacidade do selvagem. 

Momentos depois, os demais ramos, que se entrelaçavão por ali 
adiante formando aquella densa ramada, levantárão-se como por si mes- 
mos, e o taboyar appareceu do outro lado com um gesto triumpbante. 
Todos os ligamentos convergião a um nó i^ue o selvagem cortara de um 
golpe. 

Depois o taboyar, affastando a camada de folhas que juncava o solo, 
em quantidade mais que ordinária, tenteou uma parte do terreno em 
que outra camada inferior havia sido calcada. Os vestígios não erão 
claros como o serião em terras movediças ; mas as primeiras folhas 
jacentes, incrustadas no terreno húmido, attestavão uma pressão es- 
tranha. Não apparecia bem patente o indicio dos passos ; via-se, porém, 
que por um excesso de previsão a terra tinha sido batida, e com todas 



i 



48 



as probabilidades, expressamente. Para a direita, tiaçando «nfiife, #- 
tendÍA*se uma yereda facil e accessi^el por entre dons renqaesdeai^ 
Yores ; e, ao longe, no extremo delia, yia-se correr uma ribeira limfida. 
Para a esquerda os ramos, coitados ainda de frosco, assigoalavto a pis^ 
sagem recente de alguém que assim se abrira caminho por entre o arii 
fechado do mato. 

O artificio de quem ali passara ficaya, pois, manifesto. 

Enredando a selya naquelle logar, obrigava oa qae ali podensa 
afluir a fazer um longo circuito para o lado opposto á direcção que la^ 
mára ; escondia o passo que levava á ribeira, e evitava qne se déssapeis 
estrago que podia servir de segura indicação. Em ultimo caso, aqoidle 
obstáculo artificial, que nfto se distinguia focilmente dos obstacaloa na- 
turaes, demoraria mais ou menos quaesquer perseguidores» e seria outuo 
tanto tempo ganho. Gomo se vê, o Galabar contava também com i 
astúcia. 

O gentio foi examinar o córte dos troncos decepadados ; e, sem va- 
cilar, tomcu a direcção da ribeira. 

Vieira respirou á larga. Comprehendeu tudo, e via que se tinha 
vencido a principal difficuldade : estavão na pista do fogitiro. 

Só Ayres Gil» menos habituado ao paiz, conservava duvidas. 

— Que por ali passou gente, — dizia elle a frei Manoel, apressando 
o passo em seguimento de Vieira que por ali passou gente pareee-me 
fora de duvida ; mas quem nos diz que, em vez de ser o mestíçOi não 
fossem esses malditos pjtiaguares? 

Frei Manoel respondeu-Ibe : 

— Não vistes como o taboyar examinou cuidadosamente os cipds 
e ramos cortados ? 

— Yi, e examinei eu também. 

— E com que instrumento vos parece que foi executada a operação? 

— Com faca de mato cu cutello, é claro. O córte era certo e igual| 
e bom pulso devia ser o que tão bem cortava. 

— Pois a tacapa e armas do gentio estallão e rachão os braços das 
arvores, mas não os decepão cerceos assim. Os seus melhores ikftru- 
mentos de destruição são menos acerados, e o golpe é mais largo e mais 
rude. Caminhemos, que já nos levão dianteira. 

Ayres Gil coçou a orelha, segundo o seu costume, e não respondeu. 
Tinha visto muito ; mas tudo o que via era novíssimo para elle. 

Mestre Marçal também não dava palavra. Observara comprofdada 



Tumsido^o^thio Mm aeiiMt c aiMUsâonra iofcn^otf çitidfis, tmtiiiaBlo 
o» deiitef Um bátíio como castanhola! « Aquélle guará oh lobo oar* 
Tal .4a Aioerifia era 4o9 da maior eapede. A sua íbrça dona sar 
pvodigiofla» e « audaci* tamaiAa qae n&o laoèiaíva aiaMrohmnemw 
Atrateifaadd a aátra, o (klabar afiigentaia^o dosau ootíI, qQeraooB* 
trâra no eamiobo. como faem aio et dignara combater tal ininiigo. 
A fera aegoira-o oitotialalámènia^ e^^Miidof o JÉeitiço ancontiando o 
obaiaenlo da tonante, paiáfa ali, ou para daaoanaar^ cu paia diapôr oa 
meios de atnnressar para o ontro l«dõv sentira defronte de at o anima); 
prepartado^se paia aocomjnette-lo. Domingos Femande» aonrín como 
de piedade. Daqnellas vicias não as queria. O mestiço ia armado de 
lim longo arcabuz ; mas era demasiado: prudente para revdlar com o 
estrondo de um tiro a sua presença naquelias paragens. Encostado a 
umt das palmeiraa, espera^ a pé firme o assalto. Erecto, imponente 
e farOy parecia o rei da» sdTss. 

A idéa de Vieira, illuminando a paisag^i com os artifidos de 
mestre Marçal, > fora descobrir a verdadeira posição- do mestiço. Não 
reflectira, porém, que para o desòdlirir por este meio se descobria também 
a si. .£ffecti?amente, sbrprendidQ pela súbita claridade, o Cidabarrolreu 
08 olhos para o ponto donde ella surgira, e em um relance adivinhou 
tudo. A intensidade do mutuo- ódio era tal nos dous contendores, que 
mesmo nesta distancia, em tão rápido instante, e oom tão subitanea luz, 
ambos se reòonhecêrão» ou antes se presentirão. 

Tudo isto se passara em monos tempo do que temos levado a esbo- 
ça-lo. 

: Apagada if os ares a levechaiximâ,a obscuridade ficou ainda mais 
profunda qtie antes. No mesmo po&to Yieira séntíu que um braço pos- 
sante o affastava para óladOi Era otaboyar, que, sem perder tempo 
éffl' censurar a imprudência do mancebo, o arrastava poderosamente 
sobre o flanco 4a seita. Immediatamente o estrondo de um tiro cortou 
os ares, e um petoáro sybifiou aos ouvidoa de Vieira. Se tívera penâa- 
neddo um instante mais no mesmo legar, aU fora sem remédio atra- 
vessado. 

'Ou?la*se então um uivo temeroso. O homem fera dera signal de 
si i' ff ItHá entre a fera e o homem começava . 

Vieira, apezar da Tiolencia do rancor, era assas leal para não apro- 
veitar o confllcto. Quoria a vingança ; más queria-a braço a iraço, peito 
«peito.. Ardia em desejos de medir-se com AqueUe homem, em quem 



\ 






a fm, 
• ÍMMm,a 

Uiyúi 
bbir* Ma fttola tíite cile • tewdnrd 
afua pif f ipijiriia áa citiiipi cm crtadapae qpc 
a flflaa» 4^ímfcrriii a titairtir áê Mnafírala, l a tUf 
qaãniú donva a Inti^ • apcrtv o cervo, de Bodo qaa o 
aeiíeiiecatto pneo por um a eo ikii calo temida pelaa 
eemádreolo eoja eorda teria a liaiui da toneote. 

O tabojar, cooi o sea imtíndD sdragem, compnheiíádai fada M» 
em um flMmieDto. Empoaeai eeoadMf palanasorganiaoa 
a bitída. Vieira eseolhea pára si a direita, porque Ifiilui de 
por espaço descoberto mi direcção do monticolo. 

Immadiatamente a eUe, eoiua de trinta passos paia o lado, 
ó missionário, ipie renofára a esorara e annáxa os fieciíoa do 
sem descontúniar das soas resaa matutinas. Depois do imníoBariDi 
eá ígoiddistaBda, caminhara Ayres Gílj Cisendo as mesmas djapoaíçõei^ 
moito meoos orthodoxamente porém. A* sna goarda e ▼igilancía tiaba 
sido eotrefoe mestre Marçal, com o competente carrqpmeiílo de aifi- 
fidos. Na extrema esqnerda, prolongando-se pda orla da aclfa» na 
parta snperior ao grapo das banaaeirasi arançava o goeneiro Tabojari 
aproTdtando todos os accidentes do terreno, todos os troncos e balsas, 
pan examinar, sem ser yisto, segando o caracter da sua raça, quaesqner 
indícios qoa lhe pudessem levellar a posição exacta do ininaigo. 

Estes preparativos haTíão sido íaitos com presteza incrÍTel, emqiiaii- 
to, segundo todas as presnmpções, se effectuTa o encontro da fera com 
o homem» Os expedicionários harião combinado parar,mar<diaiiâo da 
drcumferenda para o centro, apenas a cada nm fosse Tisiyei o vitlto 
do monticolo p<Nr entre as sombras da noite. 

Passái^o-se alguns minutos, em que nem se ouTÍão os passos aos 
exploradoras nocturnos. Ao cabo delles sentiu-se, partindo doaM>nti- 
culo, um como stertor conyuUo. Era o homem -ou a féra que estafa 
agonisante ? Qual delles seria ? Sabia-o Deus ! 

VieírSif naturalmente maia avançado que os outros, imitando o uiva 
do guará, qu^ era o aíi^l conveiuúo&ado entre t^dos, avançou .cos- 



etciaerda i niaiaiaBdo-se' affv suiiiiiliKíi^fQnde éà agvat des- 
penhada, j. -'^ ». r^ -. í •!■■•••; . • . ^ .. ■ : ■ 
^^ . <0 Ubeyu «tcançou Ainda aiguiu. passoi para a ícente«. £ra o 
\imi%a ditjelfa. Além delia, de«4Biifcdvia-ie^;«ia laigo etiMÇO areeatd 
e aberlo!^ No. fundo- preoipitaYa-aey' de cachoeira em cachoeira, um 
dos paqaenes afflttOBtea áo Párahyha^ iBTadaavel naipieUa kigar^pela 
vkrleiíeúiiatqiiedaad^goa. Tctdawat era tão tehado o escoro que o 
raio Tisnai iXlipaliDasçAfft ao fifto a pouca distancia ao areal alrejaute* 
Um noyo gemido, eoTò e zoucoy ..o ao mesmo tampo ameaçador^ temeu 
a soar no. «spafo* ' : ' . . .< 
'^ífiae M=—: Perguntou Vieira. 

— Não conheceis ?'-Murmurou baixinho o padre. 

— E' o uivo do guaiá. 

— Pois por tão pouco nos detemos ? — exclamou o mancebo. 
£ preparara- se para seguir avante. 

O selvagem tomou-o pelo braço e puxou-o atraz. 

— E' o guará ; mas ó o guará ameaçando a presa — disse o guer- 
reiro sempre com as mesmas precauções. ' 

-*- Alguma cotia ou paca — replicou Vieira. -^ Que importa ! 
-* Não -^ fovnou o gentio.— Empresa em quem presente resistência, 
e ptesa qe« o espera'. 

-* Deixa-lo. Perdemos tempo: 
•^ E* ui)à'hómei&. 

— Como o sabeis? 

^ O guatá uiva O geme. 

— Ah! éeHe?éoCalabar? 

-- Provayelmente — interrompeu com s^enidode frei Manoel, que 
entre dentes psahneava as suas matinas, de cór. 

^ A Vante •=?- bradou o mancebo, sem poder conter se.. 
O gentio atalhou estoicamente : 

— Ainda ó cedo. No escuro facilmente nos escaparia. 
T- Os uivos da fera nos guiaráõ. 

— Já não uiva. — Vai assaltar. 

-« Não era assim que elle devia morrer *-* clamou Vieira». ' 

— Nem morro -^ observou o padre. Um guará não ó-difficuldadis 
grande para hemem tal como é o mameluco. 

— Então de que serve esperarmos ?>- insistiu o mancebo, batendo 
S!tt4amente o pó. : < 



— 84 

-^ Peraebo o ómàgÊà» áo imm gnia-^ndiifila M; UmêbM* 

Serve para fixarmos bem a posição do mestiço. ' " - 

-^ Ali 1 «^ pioiompea o BiaMseto^ como feriâo de am« ssAdtá lem- 
brança. £ iodo rapidamente a metlve Marçali que estafa aalgniii' paseei 
atiaz, esoendido por un tronco^ disse«*lhe algvnas palavras ao mtááOê 

Instantes depois, uma In, rápida a brilhante, tevantaTa-ee.ape aisi, 
6 diffandla pelas eopas das arvorai • pêlo espaço 4esMtarl»WMi!eBnso 
claridada bMoalj iixendor sniigir do fando da» trevas^ distnelneaiRn* 
davel, a peyiagem inteira qne paredA como phantasika; v 

Esta luz durou apenas segundos; mas foi bastante para fiuer eo-< 
nhecer oh objectos . Era como o levantar do panno nfnm thealro^ D 4nma 
começava. 

Mestre Marçal era o contra-regra. 

* • - I 

CAPITULO, VI. 

s 

■' ■ '• •■ ;•■>.' 

O BRAHIHA SBLVá. 



»» I 



O honrado fogueteiro fâra incumbido por Vieirt de Sw bune e 
deitar fogo a um daquelles pequenos tubos bem conhecidos nas . nossas 
vésperas deS. João e Santo António e dengnades pelo nome 4e piitol^ 
las. Estes encargos entravão especialmente nas suaa attríbuições. Mestre 
Marçal obedeceu, e o resultado foi o que vimos. .^ , 

^ A* cousa de duzentos passos de distancia ^evave-se um montículo 
sobre a riba escarpada que formava o leito da torrente. Na ponta- mais 
avançada- do montículo, quesi debruçadas sobre as aguas, eseaelão algu- 
mas palmeiras novas. £rão dessa bella espécie das muâquiSfitãt 
elegante como utih £* sabido que estas errores nasceu ordinariamente 
em grupos, eamão as orlas dos bosquea e a vizinhança dasi aguas, 
rebentando ás< vezes dentre ellas como aquellas graciosaa 'nymphas 
antigas, que, banhando os pés em nm lago, soltavão as tranças ao sol 
e á brisa. .. ■ - 

Na base desta .ondulaçlo de terreno, outro grupo da- bananeiras 
formava como um isthmo entre á selva e o montículo. i 

Effectivamenie era o Galabar, que, junto ás' paio «itas, esperava 
tranquUlamente a fera, que ali julgsva seu único inimigo. O guará, 
sabindo dentre au bananeiras, avançava obliquamente, isrefando a teraa, 



0*JMes/. Aka¥e9Wi4o.otaiiip(^ ê/i 4úi«t ima 

dettrui-lo, não deixavão indícios por aqueUe I149. 

., Q taboyar . descobrira, a clareira trepando aa cimo de. uma arvore 
míds elevada. Depois de todos se terem reunido no ponto indicado, o 
§BniioTPltou a cobrir, de fblhas os pontos por onde bavião passado, náò 
foi peqneqo o pasmo de mestre Uarcal, guando o via cabir junito de si, 
saltando dp Jbronco de uma arvore que se debruçava sobre a cbteira. 
Obonrado foguefeiro, julgando que era outro animal estranbo, ia a 
soltar um grito, que o seu amigo Ayres tííl atalbpu mettendò-lbè o 
ponibo pela boca. Frei Manoel lecommendára o m^aior silendp, visto 
achaiem-se,< segunda todas ai probabilidades, perto do inimigo. Quanto 
ao taboyar,. fia^era caminbo pelas copas das arvpres, passando jíe ramo 
para ramo. Este trajecto aéreo era um modo de viação perfeitamente 
estranbo ao nosso fogueteiro, cujas apprebensões se augmentârão com a 
idéa de poder talvez ainda ser obrigado a tentar uma viagem aeiea neste 
género. 

A obscuridade tomava-se profanda, como dissemos, e o silencio 
magestoso e terrífico da selva era apenas cortado pelos uivos distantes 
dos azúmaes ferozes, pelos sons guturaes dos [aguares que rondavãb 
maiis próximos, e pelos silvos agudos dos reptis que se refogiavão assus- 
tados nas cavidades dos troncos carcomidos. 

Os expedicionários reunirão-se em conferencia no centro dá cla- 
reira e conversarão alguns momentos em voz baixa. Depois de breve 
espaço, eoncordárão em repousar ali quatro ou cinco boras. Foi a maior 
concessão que se pòdiB obierda impaciência de Vieira. Metade deste 
tempo, o mancebo e o misnonario percorreri&o incessantemente os dous 
lados daquelle âmbito, vigiando tudOj emquanto os seus companbeiros 
dormião. Na outra metade, Ayres e o Taboyar flcarião por seu turno 
de sentinella. Quanto a mestre Marçd n&o merecia bastante confiança 
para.se ibe entregar tal ¥igilaneia; e era reservado aoutvos destinos. 
Resolvidos «stes pontos essenciaes, passarão; a tomar alguma refeição 
com o appetita que lhes excitara a longa marcha ; e mestre Marçal via 
com um certo desapontamento que o banquete de Sardanapaio que se 
havia permittido, de sociedade com o gigo defunto, bavia por UX modo 
diminuído as provisões, que terminada a refeição, nada absolutamente 
restava. Faraós seus companbeiros destros na caça, e mais ou menos 
affeitos á vida das selvas, este inconveniente era de mínima importância, 
mestfe Marçali porém, que não tinha igual fenos seus recursos, via 



— w — 

com terror «proximan-w a realiiaçSo do protpeeto cnHRario qii#Ao 

promettera caldo de macaco. • >r 

Frei Manoel só con8e§(uira decidir Vieira a conceder aqúellai 
horas, pruderando-llie, com o gentio, que, por maior que fosse a adi- 
TÍdade do Çalabar, e mais provada a sua robustez, forçosamente éOs 
havia de ter descançado também ; d^onde se seguia qa e, ayàiiçahdò 
assim ás cegas, se arriscây&o a perder-lbe a pista. Vieira, poréçi, sabia 
qual era a presteza e a audscia do mestiço ; e bem què a áuròra' ainda 
estivesse muito distante, mal expirara pouco mais ou menos o praico 
ajustado, já elle sacudia o braço ao missionário a quem conbetaasaa 
yez de descançar. A noite, ou para melhor dizer aquellas horas da 
noite, haria-se passado sem novidade. Somente, na linha que per- 
corria o taboyar, jazia frechada uma onça que mais temerária ousara 
saltar do matto á clareira attrahida pela tentação da presa. 

Em breves momentos, reunida a caravana, sahiu do escondrijo 
como tinha entrado, e continuou a sua marcha avançando lentamente, 
em consequência das precauções minuciosas que o taboyar dâo ces- 
sava de aconselhar.! Este pela sua parte indicava o caminho, onentan 
dO'Se nos mais leves iadicios. Quanto a mestre Marçal, que fechav- 
a excpdição sob a vigilância immediata do mosqueteiro, recebera a 
naiss&o especial de sacudir as ramadas que se arqueavâb «aquelles 
labyrínthos para fazer cahir as folhas seccas sobre os vestígios dos 
passos. 

Caminharão assim um hora pouco mais ou menos. Ao cabo delia, 
as arvores começarão a rarear. Ao longe ouvia-se o estrépito de uma 
torrente. Nas suas frequentes pelejas com as tribus pythiaguares, o 
guerreiro taboyar, descendo das serras até as margens do Parahyba, 
tinha por mais de uma vez explorado aquellas regiões. 

As trevas condensando-se annunciavão próxima a alvorada. ■ De 
reponte, o selvagem parou, e atraz delle a fila inteira dos expedicio- 
nários. Vieira chegou-se ao pé do chefe taboyar, com a mão nos 
fechos do arcabuz, e perguntou-lhe, em voz quasi imperceptível, mas 
palpitante de anciedade : 

— Que sentis ? 

O guerreiro impoz-lhe silencio com o gesto, e continuou a escutar 
atlentamente. 

Um como gemido prolongado e agudo soou a pouca distancia 



iMmo&q .(piaoto le ht^it paAitáa, e affiu «fpíriio €omteni9da«ncliia*ie 
de pareisAgioi funestos. 

No fim de «Iguni minutof 4^ marcha imp^oosa, cjiagáj&o á mar- 
gem da ri^a. Era uma vaia de agua claza; mas rápida e profunda: 
passaria na EuroiMi por um rio de honestas dimensões. Na riba fronteira 
seguia um trilho aberto, quasi paralldo ao que os nossos wjantes ha- 
vião. percorrido. .. 

— Pauou aqui de certo*-' exclamou Vieira.— Deyem-se conhecer 
ainda os Tcstígios. 

£.abaixQU»8e procurando. 

O taboyar e o padre nada.disserão e subitílaao longo da margem. 

— Aqui — murmurou laconicamente o gentio. 
Eírecti?amente, acima do logar em que desembocara a caravana, no 

ponto designado pelo taboyar, a relra da margem estava calcada» e, 
apezar do escuro já fechado da noite, o taboyar palpando o terreno 
conhecera o vestígio dos pés que, na sua precipitação em se lançar á 
agua, o fugitivo não tinha podido apagar. 

Com eífeito, o melhor meio de aportar no ponto parallelo da outra 
margem, para seguir a vereda, era subir alguns passos na linha donde 
se partia, afim de descontar a acção da corrente.^ 

Frei Manoel queria que se passasse a noite ali, para evitar qualquer 
cilada e os perigos nocturnos da sel?a. Este parecer era de certo mais 
prudente. Vieira, porém, não qoiz attende-lo ; e, arremeçando-se á 
agua, atravessou. Obstáculos desta natureza não erão para assustar frei 
Uanoel, que se havia habituado a veoce-los nas suas correrias meio sel- 
vagens. Ayres estiva também costumado ás terras pantanosas dos Paizes- 
Baizos ; e, quando servira na lodia, não poucas vezes fora obrigado a 
vadear aguas mais caudalosas. Só mestre Marçal, completamente inhabil 
nestes exercidos, que não tinbão nenhuma affloidade com a sua pro- 
fissão, corria perigo de ficar» como Dido, chorando saudades dos que 
partião. E' dever confessar que, apezar da sublimidade épica desta 
comparação virgiUana a perspectiva nada lhe sorria. Mestre Marçal 
estava sioguhirmente preoccupado acerca dos casos que podião sobrevir; 
nijas, de todas as cousas sublunares a que maior terror lhe infundia 
era a solidão e o abandono no meio daquella selva povoada de entes 
phantasticos e incomprehensiveis. Felizmente para elle, a sua cooperação 
reputava-se necessária, o taboyar era forte, e frei Manoel fecundo em 
expedientes. 




BtetUre Harçal operoa tfinmpluntiflitBto a-siia puMgtai te Mte 
do gentio, e aportou na ontra margem como um dem maxmfao^' Uato* 
mèntej a extenã&o desmesurada das tíbias hatia-lhe' sido^caiisa de aio 
podei" etitar-Ihe mxi banho inferior, qúe lhe refrescoa prodf giomoMé 
asidéas. 

Esta operado lerára nm tempo qae ao impetnMo mlmcebo se 
aflgorou interminaTel. Quando a carayana se reunira de iH>to na mar- 
gem d*além i& eDe lhe lerara considerayel distancia. Ao chamamento do 
padre» Yieira parou e jnntárão-se todos. 

Por algum tempo seguirão o trilho aberto aité se enotbrenliaieftn de 
nOYO nas densidades inextricáveis da floresta virgem. 

Vieira incansável queria romper para diante a todo o eústò ; mas 
o taboyar, detendo-o, fez-lhe observar que estavão ezhanftoli de 
forças ; que na escuridSo profanda que os rodeava se arriscav&ò a perder 
todos os vestígios que os guiav&o ; que o seu inimigo lhes podia então 
escapar com segurança ; e que por fim ião loucamente, e sem firaetò, 
cntregar-se a quaesquer ciladas e traições. As reflexões de frei Ma- 
noel, o cansaço de A^rres, e o extenuamento visivel do pobre' fogueteiro 
acabarão de resolver o mancebo. 

Tratou-se, pois, de achar um logar conveniente para passar a noite 
ou pelo menos parte delia. 

Depois de alguns minutos de exploração, o taboyar voltou para 
guiar os seus companheiros. A poucos passos o taboyar, dizendo aos 
mais que o imitassem, introduziu-se como uma cobra pelo estreito ori- 
ficio de uma densa ramagem, que se entrelaçava fortemente descendo 
quasi até aò solo. O padre seguiu-o immediatamente. Ao padre se- 
gaiú-se Yieira com a agilidade de um caçador experimentado. Contra 
ò seu costume mestre Marçal precedeu o seu amigo Ayres, arraston-ie 
facilmente, graças á exiguidade das suas dimensões orbicnlares. O 
mosqueteiro» que lhe levara muita vantagem em circumferencia, passou 
também ; mas, não sem rosnar uma groza de pragas contra agnella 
terra e ás suas estranhas praticas. Além do macisso de verdura ^e 
os expedicionários havião atravessado, alargava-se, no interior da selva, 
uma vasta clareira, toda rodeada de arvoredo, denso e fechado como 
um muro. A razão que o taboyar tivera para escolher este logar era 
fadl de adivinhar. Sob as ary ores havia o perigo dos reptis. Cada tronca 
podia ser uma emboscada. Ficando no trilho sujeiavão-se a encontros e 
sorpresas que era bom eyitar. Naquelle local era quasi impossível piar- . 



tmsit^wtíaím moatienl». Otfde eoiifpaiilMiR»liilliVlo*K>; preÉmiiiido 
afOilltmoTimeAl». BAbi«reefpH{!D| tedotfaitio se aéhtfSo miaídot 
^m loroodofrapo da» paliiwífaa. A aurpra ?iDhâ ekreando. o Ortonte. 
£' totttij^disar qjia tOltitre^Harcd, aproTeiiui^Q o aathoaiaimo do i#u 
amigOi se ddxán ficar pacificamente á consideraTel diitancia. 

Os expedidoBaiioi acharão o gaará arquejando nas ultimas eon- 
TúIsoéSi espumando o sangue pdas fauces ; mas sem o mais leye signel 
de brimenlo. O Calabari , como Hercules, tinliA-o suffocado entre pa 

^ • • ' . ■ * 

bragos, Vieira, raiyando, contornou rapidamente o. grupo das palmeir 
ras. Do meslijo nem aignaes. 

Vieira iuTestigoueicrupuloiamente o espaço comprel^endido entro 
arvore e arvore. O Calabar havia desapparecido. 

Mas como? Eis o que ninguém podia dizer. 

Defronte estava a cachoeira preçipitando-se, com fragor immenso, 
de uma altura perpendicular de quinze a vinte pés; A violência da queda 
e da tenente tomavão impossível que nenhum esforço humano pudesse 
vadea-la, sem se espedaçar o temerário nas anfractuosidades anglilosas 
do leito de rocha. A agua, precipitada das vertentes da sené, desda 
c<mi ímpeto irresistivel. A espadana tumultuosa, arrojada sobre uma 
espécie de bacia, formada pela continuidade, resaltava em turbilhões de 
neve, que humedeciftoo ar. Parecia uma amplíssima fita de prata que se 
revirasse em franjados e flocos turbulentos, como para assaltar a sua 
origem. Era ao mesmo tempo terrível e magnifico. 

Via-se claramente que Domingos Fernandes não podia ter atraves- 
sado para o outoo lado. 

O mancebo nip perdeu tempo em considerações inúteis. Em voz 
baixa e nítida congregou os seus companheiros, ordenando-lhes que 
eiploranem a margem, abaixo e adma do montículo. 

O taboyar abanou a cabeça com ar de incredulidade, eaflMou-st 
alguns passos^ concentrando todas at suaa faeuldades^m uma observa- 
ção profunda. 

Quasi ao meraao tempo a palmeira: mais próxima da torrente 
paneeu osdllar estranhamente. Era um tronco ainda de poucos annos^ 
já robusto, mas ainda flexível. Uma gargalhada stridente soou então, 
como viJ^iada dentre as nuvens, dístínguindo-se entre o rumor teme* 
roso da cadioeira. 

Os ouvtdoa de Vieira erâo bastante. exercitados e elle eonheda de 

mais aquelle riso diahoUco para que pudesse conservar duvidas. 

8 



— £MoI— nghi o imiieebo, jòhmíáo piiri|iil«ihiMiti ildLi 

pcoGoniido eom 01 olhoi eolie a lúga Mhag^ 4MpdMÍBi« 

Niíto o tnmeo; da qae adm bUámof , morido ecMio poí^ tai 
fbiçt iiiTiBifd, defcrerai nina com gndoia, arquianflo-M «M"qM 
tocar á o^rtra mttigeiíi. 

Todos of arcabnzesi inclasÍTeo do padre, leapontánònafii^- 
^ da nioadi que se dobrara, e uma descarga partia. À arrore, coou 
se comprehendcsf e aqnella intimação de fogo, retomou fmfnedfata- 
mente a soa posição vertical, testando-Ihe somente uma agifaú^ò jg^od 
á qpie lhe poderia produzir, tocando-a, a aza das tempeitada. Se t 
loz fosse nuds distincta, Ter-se-lhe-hia tremer, como fiamola triomplial 
no cimo do tronco, a flecha do taboyar, cujo sibylo se não ttnha wpOài^ 
coberto pelo estrondo da descarga. 

A estas rapiday peripécias segtiia-se um silendo profando ente oi 
homens da carayana, signal certo da estapebcção ínseparaTel ,á^ tau 
lances. 

TodaTia o expediente de <iae se sorrira o Calabar para CMapar as 
aperto do drcolo qae o cingia era tão simples, como natural, uae pfitioa 
sdTigens. 

Presentindo a approximação da caravana, e yendo qm a lota oom 
semelhantes homens era designai e extremamente arriscada, com agili- 
dade incrível, abraçando*se com o tronco mais apto ao sem fim, frepin 
por elle até tocar á coroa da arvore. 

Domingos Fernandes, quasi suspenso no ar, dominando a torrents 
que lugla a seus pés, e em uma altura que daria vertigens a outro qual- 
quer, reproduzia bem a idéa de um desses demónios da noite, que os 
poetas do norte nos pintão, pairando entre as nuvens e reinando lobie 
os predpicios. 

Tudo isto, na sua assombrosa realidade, era fantâatieo • tenifel 
como um conto de Hoffman. 

Chegado ao cimo do tronco, o Calabar, lançando as mSos ápa(rte 
mais elevada que pudera attingir, e desenlaçando os joelhos, fisera 
currar a arvore, cedendo ao súbito impulso, produzido pelo peso do 
corpo ; e, desta forma o tronco flexível, encurrando-se, fora depo-lo são 
e salvo na outra margem, salvando por dma da torrente. AH, no 
momento em que a descarga dos arcabuzes partia, o Calabar soltara as 
mãos e cabia em terra sem o mais lere acddente. 



' ^ '^Ubéya^^^t^lttfbâ'^^^^ mèatfmdo ieiarto; Vitint lé ò 

-éMí^ièlitoâêiw,^T#â11o>«nide«r*«e sfulm^tt; 

r'Os^ que^U^^eat^Milido o que é pòr qnaai as^ mãos na aatUlaç&o de 
«m desejo «lâentey e yer de -siilMito a esperança anlielante ooaTirterHn 
érá ieêêpotUamênUí tanto mais cniel; os qne tirarem sentido esta sensa- 
ção, diasemot» poderio sdsapieciar as ilfas aos transportes de Vieira, 
Tendo assim fogir-lhe orna occasiio preciosa. 

O seu primeiro monm^[ito íbiartoiar-se á palmeira atentar na 
peÉMegfá^ amesmo caminho que Dominas Fenundea tomara na; fuga. 

■ Desta TSK não foi o taboyar, foi o padre Manoel que se atreveu a 
deter o impaciente mancebo no seu insensato arrojo. O guerreiro gentio 
sentia que não tinha autoridade, nem influencia, para domar uma cólera 
que chegara ao seu paroxismo. 

— Onde ides?'— perguntou frei Manoel com a sua fleugma habitual» 
segurando fortemente Vieira pelo dnto. 

— Deixai-me^ padre ! -^replicou este, querendo dssembaraçar-se 
delle«— Quereis que nos escape ainda ? 

— Bom ( Se tomais por ali para o alcançardes, fio-res que tos 
alcançará eUe primeiro. 

Ayres Gil, que também estava impaciente e tinha suas tentações de 
imitar Viei)ra , oomprehendeu immediaiamente o gesto eloquente do 
padre e coçou a orelha, exprimindo a profunda preoccupaç&e que as refle* 
xdes do padre lhe fakvilo Busdtado* 

-^ Òlhai*me bem ahi para dianta «^ eontiauou frei Manoel ;-HBe 
fosseterreuodescobertOy ainda poderíamos djudar-^Tos o Cobrir'-Yoa com o 
nosso fogo. Mas no mato espesso, que além se estende, o picaro achou 
já escondrijo seguro contra frechas e pelouros. Não tos succederia o 
mesmo a tós quando chegásseis ao outro lado, suppondo mesmo que 
éreis tãò dextro como elle no improvisar pontes destas. Descendo a 
tmeno descoberto, e,. com as mtes jqguras, nio. podendo fazer uso 
das vossas hrmas, ainda virieis pelo ar e já lhe serverieis de alvo dauGod- 
Hvel, previnido como elle está. 
r ^^ Que importa ? 

'\ f«if'. Go^a fidEtuaa 1 Importa muito. Pensais. q^e é o mesmo ctíhet 
owãK ooUiido? Que conta daríeis do encargo que vos oommettçu o capi- 
t&o-mórí .. . , , 

Vieira tinha suficiente razão para não resistirás demonstrições 
concludentes do missionário. Conhecia o Calabar e sabia que não era 



h«iBflni pára ia etqoBCir 4e aprof«itajr as, iiaa yantagiM.^ IMadi 
pelo sen o ódio delle, antevia tembem que DoodafOi ffwrninàwx fito 
liado eiá bom terreno e com a retirada^ U?re, Bte4eapi»iaxte » 0|f«v- 
tnnidade 4e tirar orna desforra completa ; por comÊqfÊõuàmMmfUSki 
do padre ganhava neitas ooniideraçòea nma antoridadA iMMitiiirtifiL 
Uma irreiolução e perplexidade aiognlarea fiiocedAria-4 toBeato» 
ridade do mancebo. 

— Maa entfto que se ha de £»er ?— disaeeete. 

O gnerreiro taboyai^ qoe onvint tudo com uma ImpnaalhilMiilii 
exemplar, por tmica resposta fez signal para oaefttiffenS) •aalíaio 
longo da corrente. 

A poucos passos Vieira não pôde deixar de fiiaer aiipim^ ebw- 
Tações. Quanto mais subia o terreno mais se amindanio as eadimeim, 
e, portanto, continuava a difficuldade de atravessa-las» 

— Damos-lhe tempo de fugir!— exclamou elle, parand». 

Ayres Gil lançon os olhos de revéz ao taboyar; o ]»Qpiio frá 
Manoely meio abalado pelas considerações de Vieira, dirígiu*8« «o gentio. 
Depois de breve conforencia, voltou ao mancebo, e, com una gealodieio 
de confiança, disse-lhe : 

— Continuemos. 

Vieira, por deferência ao padre^ nãd fez mais observasôet, e prose- 
guia ainda por mais algum tempo. 

Mas as quedas da agua seguião aa ondulações do^terrenoi e as mar- 
gens cada vez se mostravio mais desertas de arvores aptas para frzer 
o que fizera o Calabar. 

"- Declaro-vos, Sr. frei Manoel, que n&odou mais mm passo— bradou 
Vieira, annunciando desta vez uma resolução decisiva. — Psra onde 
vamos DÓS assim ? Gomo havemos de passar e seguir o mameluco ? Mais 
nos affastamos do que nos chegamos. Mais parece traição do que lealdade. 

— Calai-vos, mancebo» que não sabeis o que dizeis—interrompeu 
frei Manoel. * 

— £xplicai-vos então. 

— Attendei. O Calabar conhece, tão bem como v^ e como nós 
todos, que é impossível passar a torrente pelo lado superior delia. Por 
consequência , quando estiver desenganado de que não a galgamos , 
imitando-o , encaminhar-se-ha pela outra margem na direcção dos 
terrenos mais altos. 

-AAhl 



.i<.tuei»diidilr»miatoiwi afiMtari^moi 4o mu irílho. Percebeu agpip? 

•^ Pwceb^^. HM-oomo o alícaMçwa^ emjtodo caso, ^08 Hpara 
delle eite obitBAido? asiim, bem Ttdei «p «• 

•^ SipaiaL iMide nuds ié 90 noMo^fiiiar , 

.^ A propoiiki» ovide oBiá tUet : 

•^-^Ssptraii «isperai. * 

-r Eiperur semjpsei. • • £ no «Btonto. é* 
. . Itífto^ aoclarão da alTorada» Tieira, qoo intajffiogaia o aapaçQ, yifi 
a QBf liiata pasaoi pouco maia ou menoi o gentio que lhe acenaya. 

Correrão todos a elle. 

No ponto em que.estaya o Taboyar o mato prolongaya-se até quasi 
á margem. Do outro lado a floresta densa quasi banhai^ os pés na 
torrente. Ali, porém, n&o havia palmeiras; por consequência era impos- 
siyel o methodo de passagem adoptado pelo mameluco.. Ninguém, pois, 
sabia qual era o. projecto do. gentio. < 

Este, em breye^ palavras, segundo o seu costume, recommendou 
attenç&o e silencio a todos» pedindo que lhe deiJUissem exacutar o seu 
pkno. 

O plano era como se vai ver. 

O guerrdro gentio escolheu no feixe dtf suas frechas a nuds forte 
e possante, e, fozendo-lhe um leve xanfrado para n&o escorregar, atou- 
Ihe ao centro umdaqueUes cipós delgados e fibrosos, extensos e consis- 
tentes, que pjrofiísamenta ondeav&o pelo mato, O seu primeiro cuidado 
foi desenlaçar a haste immensa das mil voltas e festões que a 
embaraçav&o. Depois, tendo-o enrolado cuidadosamente, em um plaino 
descoberto, como um cabo em um navio de guerra, verificou de novo. se 
a extremidade estava bem segura na taquara da frecha. Foi^ isto, 
appUcou esta, e depois de mirar longamente despediu-a, dando á corda 
do arco o maior gráo de tensio quo era possível imprimir-lbe. A frecha, 
voando, foi cravar-se obliquamente no tronco de uma arvore fronteira,na 
outra mugem, passando atravez de dous ramos biforcados, que marca- 
rav&o o mesmo tronco. O impulso dado á frecha fizera deseavol?er os 
krgoa anneis agglomeradoa do cipó que lhe ia pieso e a acompaiAav&o, 
do modo que n oscilação do. iiror communicando-se ã- longa hute, 
vinha lepercutir-se na margem que os companheiros ^de Vieira occu- 
pavão. Convencido de que acertara o alvo desejado, o gentio^ reunindo 
todas as suas forças» imprimiu um violento sacão ao cipó, que arrastava 



drbdn Iteraiie, tiom> IntuRo de desenercrár áMAav A^naébreedia 
effeetfTÃneiite , e ahattè delia, iniMida fia pòii^ iHMriMlifai fdt 
Inforca^ dos Ibite» tamot já méadoDâdos^ flcM «nlhil^ai nellai, 
asfegurando assim do ontro lado tim forte ponto de appo&t: "■ - *'* '■'* 

Vieira começaTa a perceber e Ayres Gil era toto* «ttioâdadr 
Qaanto ao padre Moraes, esfregaTa as mioe eoin mn a^dè^o^Méntamals 
triamphal, qae distanciaTa 100 hguas a saa mão eTa]igelkfr:'^S6iiieftie 
Marçal parecia medioeremente satisfeito. O honrado fogii€Msé|' que nio 
dizia p!iltf<hra, inftií qfiie òbserrata mnito qtiando na obserração là lotetes- 
sada a ena pessoa ; o honrado mestre, dizemos, pensán toe» Imwàdtf ^uài 
obstáculo insuperaTcl, os seus companheiros desistiriio da edipma e 
regressarião ao accampamento, o que lhe sorria infioitameiíté ttiais do 
que proseguir na carreira destas estranhas ayehturas. 

Mestre Marçal nio conhecia ainda bem os usos da maio, nem os 
recursos dos gentios. 

Continuando o trabalho começado , o taboyar como Tieeeí <{ne a 
haste do dpó, presa do outro lado; estava ainda muito ionge ^ ter 
adquirido o gráo de tensão que elle julgara conreniente, cortoana fniifo 
á raiz e veiu ata-la no tronco mais próximo da margem em uma sdfam 
pouco mais ou menos parallela á da arrore fronteira; de modo que o 
cipó, assim retezado e leriíntado, figurava scffriTelmente a éorda de um 
arlequiítt. ' - 

As preocupações de mestre Marçal crescfãò de memento 'para 
momento, e a attenção de Ayres Gil seguia minuciosamente todas as 
evoluções do gentio. Este, occupando-se com extrema actividade na 
promptificação destes detalhes, parecia executar a cousa mais natural 
deste mundo, è não percebia a razão por que estava sendo objecto de 
uma curiosidade tão profunda da parte dos^c^us companheiros. 

Vieira não precisou longas explicações. Dirigindo-se ao chefe aei- 
vagem, offereeeu-se-lhe para ajudar os seus trabalhos e apressar assim 
o complemento delles. ... 

Não é preciso-dizer que o gentio aeeitou sem hesitar uma ^oop^raçãe 
que se ia tornar verdadeiramente indispensável. 

O Gakbar improvisara nm viaducto: o guerreiro, taboyar achara 
uma ponte. A difficuldade era passar por ella, cousa que mestre Marçal 
nos seus maiores arrojos de imsginaçfto jamais se lembraria de julgar 
praticável* 

O taboyar trepou á aírvore, e, deitau^lo as mãos ao i^, enlaçou 



-r 68 — 

Mlk^ '(Hl ^ttlhoBf crQzftdof masobzeo a\^rp».^.d^d(| hoQ^ontalmenle,, 
com o rptto part o céo, Q0i|tqgou«9 kajecto difftciU Pat b^iio a tprr^utç 
««pai(iaira MB^Çadora, cjuoEdeç^^ QUKÂdpS; T9do8 aqu^e^liomens 
robustos seguião com andedade «xtraordinaria os movimei^tas 4o gOAtio 
%MV!^9f9^9^M9a^^* Sd.^8gimpaTid(v,qQUeaz^o>Auaai.eomo 
reptil) avançava á força de pulsos. Diríeis um dos juncos, acrobatas JOfh 
dwiosy idind^ff^ €Ul|»e«^^^ ^|(^ieias.InaIf|yMhflda9:as mpcemas 
difikQl^adea dar j^nnasticfi. Ali» poiépa, . os expectailorea erão Deun a 
a^selTar^m púmeiro togar; erão^lh^ concerto, e sympbonia os^inil tii- 
imdos 4as «r^ saudando a madrugada, caaados ao fragor horrisono das 
sguas daapenbiidas. £m poucos minutos o guerreiro gentio estava do 
outro/lado* 

— Yôdes?-^ disse Vieira para os seus companheiros. 7- E* uma 
cousa facílima; e verdadeirameute este gentio é hJomem de boas ajcten e 
a^itucias^ 

Ó p^e fez um signal de assentimento. Ayres Gil ponderou que 
não tisbA muito o habito daquella espede de inanobras ; mas que, por 
fim de contas, em honra do capitão-mór e do rdno, tentaria, 
t ' ^Mestre Marçal nlFo disse nada^ Estava passado, & pioteitaira,.lá de si 
pa?a si,' que antss-ò verião tomar caldo de macaco do que eniregar-se a 
um exercício que nfto era para gente catholica e assisada. 

Dizendo as poucas palavras que lhe ouvimos, em modos de exhor- 
tacão, Vieira "preparava-se para imitar oaeu guia. Este, do lado oppostoy 
em uma pantomina expressiva^ hzAka signal que não. 

— Gomo l Não ! *-^ murmurotu iVieira comsig» descontente. — Nunca 
se ébtende este homem. Parece-m& que não ha outra cousa que íazer, e 
toda a demora é prejudidal. 

No eintanto continuava a mímica do sdvagem, que se resumia tod^ 
em^ponlarobstinadameuto pára mestre Marçal. Vidra oomprehendeu. 
Eífeeiivamente^ fosse fualfoese a impadenda do mancebo^ elle reco- 
nhecia fue seria muito difficil persuadir mestre Marçal a tentar um 
^]ecto semefliantei Quanto a ãbandona^-lo, nem a espirito de caridade 
o consentia em Vieira, nem as ordens expressas do capitão-mór 4> 
pentetttião. 

' O mancebo chamou o foguetdro. 

' '-<- Vinde eá, mestre>— ' disse elle. -« Não vos atrevereis vós a passar 
para o outro>!iado como o fez o gentio e como nós todos feremos? 
Vamos, não é agora nenhuma cousa grscnde. Basta só ter bom pulao 



e boas petoas*.. é, tpunio a íflb, ai tiHnmíi meiM, 'pedem eitfrTirte 
uma dar duas laçadas. Em nio perdendo a eabiça, nlo é nada. 

^ Dizeisr. . • Acudia mestre Marca!, estendendo o loeto tm puM 
de admiAi{lo. 

— Pei^pmto se podeis passar asSim, para etKarmee ttckMi <t 
longas; Podeis, não ? 

Heitre Marçal des(éz-se em nmsem muneto de elòhiliBçMi • Inier-' 
jeiçdes, que todas tinli&o por único fim dedarar que lhe era iAedlofa- 
mente impos8ÍTe\ semelhante modo de locomoçlo. YMra batia o pé; 

Nisto o taboyar fez-lhès signal para se afastarem. Afastariu>4e, eott 
effetto; e uma nora fredka, partindo de suas mftos, reiti fizar-ee no 
mesmo tronco a que já estava preso 6 primeiro cipó conductdr. Na ta- 
quara da frecha Tinha preso um noro dpó, quasi igual ao qae |á estava 
preparado. Vieira segurou-o parallelamente ao outro, emquanto o tabojar, 
no outro lado, fazia o mesmo de modo que os dous juntos formatlo 
uma superfície, sen&o isenta de riscos, ao menos perfeitamente aácesaiyel 
a um pé firme e adestrado. Tudo isto para Vieira era já luito da prè^ 

cauções. 

Todavia o taboyar, não contente ainda,arrem^u tereeira freeiía, j& 

se TÔ, conduzindo terceiro cipó. £* inútil dizer que Vieira deeeiíeravanra 

cuidadosamente as frechas com o fim de economisar provisões de gaena^ 

cuja serventia era tão variada e tio útil nas suas diversas emprezas. 

DMta vez Vieira não pôde bem perceber qual era o fito do tabo3rar, 

sccreseentando um acoessorio novo á ponte peniil já estabelecida; mas 

a mimica do gentio em breve lhe explicou qual era o intuito* 

FrendendO"0 mais alto do seu lado, o taboyar indicou a Yieira 
que, pela sua parte, havia de fazer outro tanto. O novo dpó ezerda as 
funcções de parapdto ou de corremão da ponte. Como se vé, o gentio 
tinha tomado a respeito de mestre Marçal todas as cautelas meticulosas 
que se poderião ter com uma donzella. Não contente, procurou ainda 
fortificar a sua obra, enlaiando fortemente outros ligamentos. Só ao in- 
grato mestre tudo pareda pouco, e dava ao diabo a invenção e o 
inventor. 

Quando lhe pareceu que a sua construcção tinha attingido a solidez 
necessária, fez signal aos seus companheiros para que passassem. Yi^ 
eira pauou de pé, sem se dignar segurar-se sequer ao corremão. O in- 
trépido moço tinha muita vez percorrido as arestas das rochas lan- 
çadas em cornijas sobre os predpidos,e muita vez também contemplara 



— 68t -— 

b Atianitep do «Itp dos recifes escorregadios e sgados, homidos ainda 
das algas marinhas. Estes perigos erão para elle puros brinquedos* Sal- 
tando do outro ladO) começou logo a explorar o mato, A Vieira seguiu-sé 
O padre, com igual serenidade e desassombro , mas com muito mais pre- 
cauções* Frei Manoel estava costumado a todos os expedientes da vida 
selvagem 3 mas, naquelles lances communs, empregava um certo cuidado 
pela soa; pessoa^i Chegou também ao outro lado sem acddente. 

Por inais que Ayres Gil instasse, n&o houve forças humanas que obri- 
gassem mestre Marçal a precede-lo. O bom do fogueteiro esperava 
ainda algum successo inopinado que obrigasse os seus companheiros a 
repassarem a f^tal ponte, cujo aspecto o arripiava da cabeça até aos pés. 

JNão succedeu porém assim ; segurando-se com ambas as mãos 00 
corremão» e iirmando-«e a cada pssso nos doús cipós, não levant&ndo 
um pó sem ter escrupulosamente veridcado que o outro estava solida- 
mente apoiado, o mosqueteiro passou. Unicamente, em vez de dar a 
iace á margem fronteira, mostrara-lhe o perfil; por maior prudência 
tinha feito o trajecto de lado, com o fim de abranger ambas as cordas 
vegetaes a cada passada. 

Restava mestre Marçal. A mimica dotaboyar tornava<-se. cada Vez 
miis int^natlva para com este. Por grande que fosse a igoorancia coreo- 
graphica do fogueteiro, era-lhe todavia manifesto que o ameaçavão de o 
dei]^^ abandonado no logar onde estava, perspectiva que o enchia de 
terrores, porque elle no mato, sozinho, antes de voltar aos reaes, sup- 
pondo mesnio que pudesse atinar com o caminho, morreria vinte vezes, 
ainda que não fosse senão de medo. 

.. Ijesta extremidade mestre Marçal resol?eu tentar a passagem. Como 
pôde, engatinhou pela arvore até chegar ao nivel dos cipós. Ahi, vendo 
trepier estes e achando-se já a uma certa distancia do solo, as suas hesi- 
tações crescerão. Todavia os gestos do taboyar erão cada vez mais ur- 
gentes e instantes. Pondo o pé no» dous cipós e sentindo que ellesse lhe 
dobravão debaixo da pressão, mestre Marçal não pôde suster um grito, 
e retirou com precipitação a toeza temerária que tivera a audácia dê 
avançar.. 

Mestre Marçal sentia uma vontade fariosa de descer e mandar os 
seus companheiros aos quintos infernos. O que tinha mão nestes seus 
ímpetos Interiores era o aspecto medonho da solidão e da upite^ quando 
élle 90 achasse só ^o mato. Mestre Marçal renovou as suas tentativas 
obstinadamente, mas serppre com igual resultado. O mesmo era pôr ud 



V M 

pis, que retrahir logo todo o corpo, como se hotiTen tocado tfmtt éoboi 

Cascavel. 

O gentio, impaciente, atraressoa de nòro a ponte e Teia daríke a 
m&o, com um gesto de prof anda comiseração, Hais animado com este 
socorro, mestre Marçal arriscon-se heroicamente ao trajecto. 

A poncos passos, porém, seatindo oscillar-lhe debaixo dos jpés os 
dpós ]& um pouco distendidos pela passagem dos Outros, e ochaiidonn 
por cima das aguas que refervia > precipita las, o honrado fogaeteíro de- 
clarou positivamente que não sa sentia, por nenhuma forma, coma 
yacação de clowa, e que,sendo para elle cousa areriguada queiofalIÍTel- 
mente iria parar á torrente, não dava nem mais uma passada. O tabojar 
sabia que o instincto da conservação é omnipotente contra todas estas 
hesitações, e procurou desembaraçar-^se delif. Mestre Marçal segaron-o 
com uma força que não suspeitava em si, eicl^mando : 

— Por alma das yossas óbrigaçõ3s vos dig ) que, se me abandonalli 
aqui, sou um homem perdido. 

— O meu irmão branco tem pés e braços como o guerreiro la-^ 
boyar. 

— > Assim parece ; mas na realidade. . . 

— O meu irmão branco pôde servir-se dos seus pés e dos seta 
braços como todos os outros. 

— Não é absolutamente assim. Haveis de permittír-me qtre vos ob- 
serve... ail isto não está seguro. 

— Está. O guerreiro taboyar Bà^ treme. 

— Louvado seja Deus 1 Tudo faz o costume... Já eu n&osotro 
mesmo. . . Emfim, o que eu vos afiirmo que não p:)sso.. • e não posso... 
é dar um só passo mais. 

— Então o irmão branco póie voltar para traz e tomar para os 
reaes. 

— Não posso. Voltar para traz I. . . Por nenhum modo. 

. — Mas se o meu irmão branco não anda para diante, nem volta 
para traz, o que quer que lhe faça?... Ohí 

— O que é ? 

— Uma lembrança. 

— Vamos a vôr a lembrança. 

— > O meu irmão branco pôde segurar-se ao pescoço do guerreirb 
vermelho e firmar-se nas suis costas. O guerreiro vermelho é forte e' 
transportará o seu irmão branco ao outro hdo sem perigo. 



— 67 — 

Uestre Marçal fíccu pensativo. 

— Não me parece de todo máo— disse elleem mntomqaen&o 
attestava um grão de contentamento igual á sua espressão.— Não me pa« 
lece de todo máo ; ramos. . . Mas tem seus contras. . • Desse modo se- 
remos dous a pezar no mesmo ponto, e. . . Nada, não, senhor gentio., 
decididamente n2o adopto o vosso expediente. . • 

->- Então o meu irmão branco de?e deixar ir o guerreiro vermelho, 
que está já fazendo falta aos seus companheiros. 

— Olhai cá, «judai-me aqui a sentar. 
-^ A sentar ? I . . . 

— A sentar^ sim. 
^ Ahi?J 

— Aqui. Pois onde ? 

— Emfim, comoquizerdes. 

— Assim. . • Devagar.. 1 com geito. . • Olhai. . . segurai-vos bem.U 
não vos falte opí... cahiríamos ambos. 

Dizendo, mestre Marçal, com o auxilio do taboyar, tinha efíectuado 
orna evolução que não era sem perigo na sua posição, ô honrado fo- 
gueteiro, em vf z de se conservar de pó scbre os cipós, tioha-se escarran- 
chado nelles, sem largar das mãos, já se Té, o outro que lhe ficava ser- 
vindo de principal ponto de apoio. Depois, elle mesmo aconselhara ao 
taboyar que voltasse á outra margem. Mestre Marçal, desde que o seu 
Qspirito pon^deiára o e:(cesso de um peso duplo e a fragilidade do que 
se tinha convencicnado chamar ponte, sentira o maior desejo de ver o 
taboyár pelas costas. Quanto a este, não se fez rogar. Previra 4ual 
era a idéa de mestre Marçal, e estava certo do seu profícuo resultado. 

A consequência de todas estas manobras foi que mestre Marçal 
sempire passou a ponte ; com uma só diíTerença, porém: — os seus com- 
panbeircs tinhãò- a passado a pé, — elle passou-a a cavallo. 

Dahi a poucos minutos estavão todos internados no mato, procu-; 
rando Vieira, que, menos soíFrido, havia já desapparecido. 

CAPITULO VII. 

MESTRB MARÇAL VICTIMA DOS ULTUKOS ACONTECIMENTOS. 

Vieira não podia estar muito longe. A sua desapparíção causou 
i>or isso mediccres inquietações, Em pouco tempo de pesquizas, o guer- 



— 68 — 

7fúro tabcy^r foi encontra-lo onde o mato começam « 

O mancebo, Tendo-o, fez-lhe signal para qne se acercasse depressa, e, ci- 

tendendo, o braço, indicon-lhe o horizonte. 

A posição em qae todos já se icbavâo reonídos era f a r ofa f el i 
observação. AÍTistando os ramos densos di floresta, deseobria-se oaa 
estc^niissima porção de terreno, quasi nú e leremeote ondulado, alé á 
base das serras azuladas, que, na distancia, pared&o fediar a piâtíàê, 

O objecto que Vieira mostrara ao tiboyar poderia pavecer Inn^iii' 
ficante em qualquer outra occasião, mas, naquella conjunchum e nas 
circumstandas em que se achara a pequena caraTana, meredft ngo» 
mente uma certa attenção. 

Na (xtreanidade da planície elevaya-se aos ares, pcmoo dâCnda 
unda entre os nevoeiros da manhã, nma ténue columna do fanou S6 
os olhos exercitados de Yieira e os do tabc jar, ainda mais eiqierlos, 
ãeriio dar significação áquelle pequeníssimo indido. Apezar de 
^p^os da soa impaciência, o mancebo julgara a propoõto 
companheiros e participar-lhes a observação que fizera. 

O guerreiro tiboyar, fitando o objecto designado, aeeno 
em ar de intelligenda, e ficou por alguns momentos meditativo. Ajns, 
o padre IfoFMS e Vieira comtemplavão-o anciosos. Evidenl 
vagem tinha ganho consideravelmente no espirito doa 

— Que VGS parece?^ interrogou o mancebo. 

— Que não é predao ir mais longe para acharmos o qae ptoee- 
nuBoa — redarguiu o guerreiro. 

— São os pityaguares? 

— São. 

— Pois estamos ji tão pK-ximos das suas aldèas? 

— Das aldêas, não. O forno que vôdes é de algum acampamento. 

— Mas quem nos diz que seja acampamento desses barbaras ? 

— Meus irmãos taboyares nunca descem das serras parm se apro- 
ximarem destas regiões seoão em numero muito mais considcnTeL 
Quando é necessário pr^irar a comida, as suas fogueiras cobr^ toda 
a planicie* Demais, os guerreiros taboyares tém odos os seos chc£s no 
campo do Bom-Jesus. iSão sendo elles, só podem ser os pi^^a^naies, 
porque só uns ou outros se encontrão em taes paiageos. 

— Não ha duvida. 

— As aldôis dos pitjaguaies ficão pua além áo ri^ qoe 
ZQ mar por deti» das serras. O forno qoe vistes é da algma 



pçadores que se adiantoB dás aldeias e desceu por aqualle lada d^ 

serras* 

-^ Nesfse caso o aranço que tem sobre nós o Gslabar é bastante 
para lhe dar tempo de se reunir aos bárbaros ? 

^ £' { u^ Mpondeu láeonieamente o çéDfio. 

— HaMlto! — acudiu Vieira^ rangendo os dentes de eolcra. -« 
Ainda desta vez me escapará | N&o importa ! eom boa diligencia talyez 
seja ainda possiyel colhe-lo áe mãos. Marchamos. 

— Coma? "— interropoipeu o padre Moraes, que seguira attenta- 
mente o dialogo. — O Galabar não é tão inexperto que tenha já aban- 
donado o seu íystema de precaução. Para o acharmos ó necessário pro- 
cura-lo. Procurando-o, consumiremos um tempo que elle utilisará com 
tanto mais empenho quanto mais sabe que estamos proi^imoã. Se to- 
camos pela horta da seWa, que é a sua direcção pro?ayel, IcTa-nos 
elle uma dianteira, que já não poderemos yencer.... 

-t- E se cortamoa pel^ planície direitos ao campo, des pi^aguares ? -^ 
exclamou Vieira, como se tiyesse achado um expediente triumphante. 

-^ Se tomamos pela ^anieie — firoseguiu ^anquâlamente o padre 
aereBKia des6(teitos antttque possamos yer qual é o numero doa nos* 
SOB inimigos e antes que determinemos se os deyemes atacar eu ey!- 
taivlbeso enconirov e, desçobeitoa nós» Dc^s sabe se poderemos já re- 
tirar-nes. 

^ Retirar-noai "*• bradoiz Vieira indignado. 

m" Retírar não é yergonha quando nada se pôde conseguir. Muitoa 
cabos de guerra, do» melhores, o têm feito, e o próprio capitãooBfiór, se 
ftqui esiíyera, yo-le aconselharia como eu. Vencer o impossivel sjó Deus, 
é tentatlo e querer mais do que é dado ao esforço humano» Ifeste caso, 
poi8«.» 

— Neste caso, áyante até ywmos o rosto ao inimigo 1 -r-ridAlhou o 
inancebo. 

O taboyar, que estiyera escutando grayemente, interfompea : 
^ -rr Não tardará que o não yf}amos, ficai certo. 

-«* Julgais então que deyonoa Continuar ft persegoiçãè da mestiço ? 

"iw Pelo oentrario« 

*>n Pelo contrario ! 

— ' ¥úo eontrarie, sim, Não se trata aqui já de perseguir, mas de 
eyitar. Dentro em pouco nós é que seremos os perseguidos, e os meus 
iimãoe brancos hão4e ptecizar dia todo q ardor que yejo brilhar em sf<;s 



eMendal é caniwvar. iu|. camfflanicaçõef. Ayxes e o fagoeteigiow ém 
caso de perseguição, leyari&o muito tempo a passas «Bur ponto enie 
iiquella. Nenhum de nós, p^o coBtranOi tem nissa, dlflçqldaá»» Por 
conse([ueDcia, a primeira operaç&o, que se deve effectuar,'ó tomar a 
passar ambos para ootro lado» Eeito isto^ Ayres Gil embosniir se há 
entre o grupo das palmeiras, e dali yigiará todos os movunentos da mar^ 
gemdecá, eonosso mosqueteiro não éhomem que deixo aproximar-ae 
dali ninguém impunemente. Se formos perseguidos, o alcanço do seâ 
mosquete e a certeza dos seus pelouros poião distantiM ob agreaioies. 
Que dizeis agora, Sr. Vieira ? 

—Digo que o tosso plano é mais de um cabo de guerra .do fhe de 
úm sacerdote, e que é preciso executa-lo }á • 

Esta deliberação foi cotaimunicada ao mosqueteiro, que se ooiulenrání 
ao pé demostre Marçal, Tendo que os três seaffastavão para oonTtrsar 
laais particularmente. Ayres Gil não sa resignaya facilmente a una papel 
inactiro, quando se tratara de perigos imminentes, e a dispoução adop- 
tada tinha seu tanto ou quanto de humilhante para o seu amor< próprio. 
todayia o nussionario soube pintar com tão vivas çôrea a grandaia do 
serviço, que se lhe pedia, e a importância do posto qiie lhe fdradeatiiiado, 
que oAosso Ayres submetteu-se convencido. Mestre Marçal^, essodeií 
inteiramente graças a Deus com um fervor propordonal aoa seoi terniires. 

Em poUco tempo Ayres passava a torrente, como ^á a havia alraieã- 
sado, e o próprio fogueteiro, auxiliado pelo taboyar, fazia o meamo tfiiecto 
com uma presteza que elle pouco antes não julgava possível. 0tseansado 
por este lado, e feitas novas recommendações ao mosqueteiro, que tomara 
uma posição estrategica no montículo das palmeiras, o padre^ YiaUa e 
o taboyar avançarão pela orla do mato, espreitando todòs.os vestígios, 
em demaiida do acampamento dos pityaguares. Chegando ao ponto que 
servira já de obsertatorio a Vieiía, como interrogassem avidamente o 
horisoate com os olhos, não virão a columna de fumo que d'ai^es se er- 
guia aes ares. O sol tinha já rompido, na magestade dosscus resplendores, 
por entre as vivas purpuras do oriente, e o hymno barinenioso da aelvá 
saudava o rei dos astros, indilferente ás lutas huma^as^ 

Gamii^iaiMilo, o padreMoraes dizia para o tsboyar : 

— Bá-vos que entender aquelle fmno que desappaieoeu ! 

— - Elles que escoodem o que podia deouoçiar a suapresença, é <;(iie 
já estão prevenidos da nossa —redarguiu o guerreiro impectvrbaveL 

— Mas é qoaai impossivel que o mamduco, seguindo esta direog&o ^ 



— rt — 

Áegftflie ao acampamento, — acudiu Vieira. Se úãJ me eDjg^aiio, nftl> 
é menos de uma legUa de planicie daqui lá, e pelo mato maito mais. E^ 
verdade que temoj perdido tempo bastante; mas. . . 

— Mas Domingos Fernanjies sabd aproveita-lo— atalhou o padre. 

— Oi pityagoaires — obiervou o goérreiru— não se affastào para tào 
Ipngd das Qoas aldeãs sem grandes precaaçòes. Provavelmente o Calabar 
encontrou alguma das suas sentiaellas: e, se c^nseguiti fazer-se af tender, 
estas passariào rapidam^te voz até ao campo De tal forma não admira 
que estejão prevenidos, ea estas horas andaráò já em nossa busca. 

Na situaç&o precária em que se achavão òs nossos expidiciona» 
rios» urgia sobretudo verem sem serem vistos \ mas este empenho offe- 
redar difficuldades sem numero bom ioimigos t&o perspicazes, e tào 
affeitos ás ciladas do mato , como erào os picyagoares. 

,A idéa de Vieira, proseguindo naquella temerária descoberta, era 
poder levar ao capitào-mér noticias exactas da postçâo e numero daquellas 
tribus. Contando com a sua audácia, com a astúcia do taboyar, e com á 
experiência do padre Moraes, que elle perfeitamente sabia que nas oc- 
casiões era l^omem para muito, esperava colher âs mãos algum daquelle» 
genliosi conhecer por elle q que desejava, e, em ultimo caso, leva lo 
ao capitào-mór como prova da sua boa diiigenciia. Todos os projectos arro- 
jados iniammavfto naturalmente a imaginêção do fogoso mancebo. Se 
o grupo dos cifçadortfi não fosse excessivamente numeroso, Vieira não 
duvidaria também saltear estes a favor de algum bom ardil, e, se pu- 
desse, extermina-los até ao ultimo, para que não pudessem communicar 
ás tribus a misslio do Calabar. Por outra parte, a imagem importuna 
deste não se lhe tirava do seotido, e de boa vontade arriscaria tt^o pàtà 
se medir com elle. 

£i&ctivamente importava por eltremo ao capitão mór ter informações 
exactas e detalhadas ; é^ se a íorça de audácia, o mancebo conseguisse 
interceptar o enviado dos hollandezes e o grupo dos caçadores já prova- 
velmento reunido com elle, haveria feito maior serviço á capitania, e 
cobrir-se-hia de gloria aos olhos de uma populaçâo,que podia cabalmente 
avaliar o arrojo de tal coimmetúmento. 

Depois das breves palavras, que os três haviâo trocado entre si, 
guiados sempre pelo taboyar, avançár&o em silencio, lentamente, inves- 
tigando o solo % o labyrintho do mato. O gentio tioha o maior cuidado 
em aprovfl[itar todos os incidentos do torreno para se subtrahir a qual- 
quer vnta importuna. Muitas vezes andavão e desaod^vão para muki- 

10 



— 74 — 

plicar e coafandir «s pegadas, e a direcção delias, não tendo tenotpò dte 
apagar totalmente os ycstigios. No meio destas mettcnlosas cantelfli^ 
tomadas mais necessárias pela propinqoidade do inimigo, o padre Mlt» 
noel de Moraes lamentava a oegaeira daqnelles gentios brafVos e rerolvia 
lá no seu espifito que eloquentes razões lhes poderia daf para òs con- 
▼erter sem se descuidar todairia de ir de tempos em tempos ètan^nalido 
a escorva do arcabuz. 

Andarão assim obra de uma milha, gastando perto de hoitt e meik. 
Chegando a um dos ppntos mais espessos do mato, o laiJoyár âbítoti^^6& 
com o ouvido contra a terra, applieando-o longamente ao solo. Dtpois 
lerantou-se e proseguiu o seu caminho. 

— Percebeis alguma cousa? — Murmurou- lhe o pad^è ao oafUo. 

O taboyar fez-lhe um signal negativo. 

A poucos passos repetiu a mesita operação ; lâas pelds modos sem 
resultado também. Ahi, voltando-se para os seus cdmp^hhêiròB qtle o 
seguião de perto com um gesto «bsoluto, indicou-lhes que ò ftadUsâfeâi, 
impondo-lhes o mais completo silencio. 

Achavãose no mais denso do arvoredo. Os cipós florescentes ^éÉr-' 
leiavão-se ein festões multiplicados. Os ramos abraçavão oH mmoii, Ma- 
mando uma abobada continuada de Verdura. Otaboyarsuftiu^d pri- 
meiro tronco accessivel, com a agilidade de um jaguar, e fbi {iMuaúAd 
de arvore em árvore» sem fiizer mais ruido do que o rumdi^árdò itíi^ 
nas copas írondentes. Os seus companheirdis lilégliião^ pâa %iè!tolh 

forma. 

Era uma cousa realmente maravilhosa ver aquelles três Ivomeits 
silenciosos através dos ares,, proseguindo no seuiilitQitò, como^opo-' 
derião bzer as feras. Era para ver como a natureza e as ciréuàistiindff»^ 
havião Igualado ao individuo, quasi no estado yrlmítivd, o sádèMote, 
missionário de paz, e o mancebo generoso, cujo coração magnânimo s9 
tinha nobres instinctos. Tão verdade é qué as impressões extetiòtes iiftb 
omnipotentes sobre todos os caracteres ! 

Esta espécie de correrias aéreas durou quanto podia dutar, iikto 
éy quanto o permittia o entrelaçamento dasâtvores. Se enContrávãô 
alguma clareira, os três expedicioníarios iadéávãõ^^ òãutélòsaniiiiiie sus- 
pendendo a respiração, e, arrastados como serpentes, ròmpiãò por entre 
o mato fechado, ferindo as mãos e o ron^ nois espinliCh acerados. 
Depois tomavão o mesmo caminho, logo que itò lhe olhrécJão propbrçõèk 
para isso, e assim avanfavão lentos, lentos ínás s^inj^re n^ dit^cção á\> 



^ 



— «ys — 

ioimigò. A maior parte do dia foi conramida nestes páeientei eiforçoi . 
Dos pilyagpares nem rasto. 

Ãi sombras começavão já aalongar-sepelomalo. Segundo os cál- 
culos, ordinariamente infalliveis do t«boyar, denão achasse nas alturas 
do campo dos pityagoares. Os três estarão extenuados de fadiga. Um 
yinhatico enorme lerantaTa-se no meio da floresta, dominando*a. De- 
pois de ter examinado em todos os sentidos o gigante vegetal, o guer- 
reiro gentio congregou os seus companheiros debaixo da arvore ; e, fal- 
iaodo-ihes em um tom apenas perceptíTsI, disse-lbes : 

«^ Esperai aqui, e vigiai attentamente. 
Depois, affastou-se como uma sombra, internando-se pelas espessuras, 
e parando detrás de cada tronco immovel como elle. No emtanto Vieira 
e o padre Moraes, com as mãos nos fechos dos arcabuzes, interrogavão 
para um e outro lado os recantos da selva. 

Ao cabo de meia hora, o gentio voltando acenou aos dous para que 
o seguissem. Vieira e o padre pensarão que o seu guia tinha feito 
alguma descoberta importante e (^edecôrão ao gesto sem hesitar, prem- 
ia aempre para qualquer eventualidade. A' cousa de cem passos, o 
gentio parou indicando-lhes uma espede á^ terreiro, úaturalmente aberto 
no mato. No centro, distinguião-se ainda, ao luscofuseo, alguns pedaços 
de troncos meiorconsumidos pelo fogo ; e, cortado pelo pé, jazia no 
chão um coqueiro em parte despojado dos seus fruetos. Evidentemente 
os pityagoarjBS tinhão estado ali ; mas o terreiro achava-se completa- 
mente solitário. 

Vieira ia exprimir a sua admiração ; o taboyar, porém, impoz-lhe 
silencio com .9 gesto rápido e firme, que lhe era familiar em taes 
ocpasiões. 

Nisto» um vulto, semelhante na forma ao guará, mas no qual olhos 
experientes de prwa reconheceiáão o cachorrp do mato, ou a raposa 
«merioana, atravessou como iuioa flecha o terreiro. 

PT Sentiu gente— sussurrou Vieisa ao ouvido do padre. 

— Sentiu — replicou este laconicsjnente. 
-— £' que deu por aós. 

— Não. Vinha presentinho de mais longe. 

O taboyar, em vez de interrogar o sok),. sumido atrás de um tronco, 
esprràtava, todo plhos, as arvores fronteiras. Opadreimitava-o. Só 
Vieira não vendo o minimo indicio de ii^migos, mostrava-se descoberto, 
apeiar das miúdas e repetidas instancias do sen companheiro. 



— ^75—. 

Pe itp^Dte o padre excl8in<m : 

— Ysi-te, teotação ! Se bas de oa^ir a palarra de Chff sio, 

E nreitia á cara o arcabuz, com uma celeridade e destreza quê de»? 
9i«ntí9o um pouco a mansidão destas palavras. 

Vieira apenas teve tempo de levantar os olbos na direeçSo indicada 
pela pontaria 4p padre. 

Um corpo baqueou na terra, antes que o pacifico missionário iivefse 
tempo de desfechar o tiro. 

— Louvado s(ja o santo nome de Dieus I. •» murmurou frei MaDoel 
descançando na terra a coronha do arcabuz. Se ao menos tivera tempo 
de ser bap^sadf) I - ^- 

E, esquecendo toda a prudência, atravessou o terreiro, direifo ao 
ponto em que tombara o corpo.- 

Vieira atónito não com][>rehendia bem ainda o que se passara. €( 
padre mais familiar com o gentio, pelos modos percebera tudo. Nenhum 
rumor se ouviu mais : nem um só gnto soará. 

Chegando encontrarão o cadáver de um pityagoar; Não podia harer 
equivoco. As suas armas e adornos de guerra attesta^ão^lhe claramente 
a origem. Tinha uma frecha no c^ynpção, e expirara sem um gemidou 
Este primeiro golpe representava á imaginação o quer que fosse dè mysí- 
terioso ; mas para fquem estivesse habituado aos costumes dos geaUoii, 
não seria difficil explitía-lo. 

O pityagoar vigiava, em observação nos ramos de uma arvore no 
flanco do iogar que os expedicionários occupavão. O padre nhó se en^ 
ganára : o cachorro do mato, aspirando ot ares com o fino instincto da 
sua raça, preseotira a presença de um animal de outra especie,e o terror 
natural fizera-o fugir espavorido do seu cotíL Este fora o primeiro in- 
dicio. O taboyar imroovel na sua posição, conhecerá para logo que al- 
gum inimigo estava próximo. Desde então a sua attenção duplicou de 
íQtensidade. O pityagoar descobrira também pela ondulação dos ramosa 
a aproximação^ dos nossos amigos ^ mas^ queria sem duvida verificar o 
5tpu numero e examinar os seus passos, para formar um }uizo cabal. 
Era tal a fua immobilidade, e tão bem occulti se achava entre a ra- 
mada, que, por algum tempo, o próprio taboyar de nada desconfiara, 
e só> a prudência intuitiva, que lhe era peculiar, motivara os excessos, 
nelle usuaes, da vigilância. Pela sua parte, o pityagoar, como nada 
mais sentisse, e ^isse a descoberto o mancebo, pensou que este se aven^ 
.lurara até ^U como explorador, e dispoz-se a frecha-b) impunemente dQ 



77 -^ 

seu escoodHSo. Para isto affastou bragdameote os ramos, para fazer; 
mais certeira a pontaria, e avançou meio- corpo por entre o bracejar 
dos troncos. T^nto bastou para que o taboyar^ j^ preparado, o Tarasse 
no próprio momento em que elle encurrava o arco. Fora naqoella mesma 
occásiáo qoe o padre, descobrindo o, exclamara o que lhe ouvimos, 
lembrado a um tempo do risco do mancebo, e do perigo daquella 
alma, próxima a pérder-se. O padre Moraes nfio sabia separar, oos seus 
juízos, a caridade christã, como élle a entendia, das obrigações mili- 
tantes a que se via forçado. A frecha do taboyar prereniu, porém, o 
arcabuz do missionário — , e b^m lhe foi, porque, nas circumstancias 
em que se achav^o os expedicionários, o estrondo de uma explosão 
seria gravissíma imprudência. 

Currando-se sobre o que ]i era cadáver, mas em cujo rosto se lia 
ainda a expressão de uma ferocidade ameaçadora, o padre Moraes deixou 
cahir estas palavras que resumião o seu caracter: 

— Deus te perdoe, porque não sabias o que fazias! 

. ■ * . .•■ ■ . , 

Aquelle homem, simples de CQraçâo, incitava o ei^emplo doRedem-; 
ptor^ repro^uzipdo o verbo do perdão. 

Uma cousa preoccupava sobremodo Vieira: o taboyar não sé mos- 
trava* Voltarão ao ponto donde tinhão partido, e debalde procurarão 
através de todas as ramadas próximas. Esta desapparição data que en- 
tender aos nossos dons heroes, e seguramente lhes suscitaria fortes 
apprehensões se não vissem, o guerreiro gentio romper d^entre os arvo- 
rcídòs mais^fTastados^ no extremo do terreiro* 

O prudente taboyar fizera por entre o mato o circuito de todo 

o espaço descoberto, investigando meticulosamrate cada ramada e cada 

tronco. Avistando-o» os seus companheiros foião-lhe ao encontro. O 

taboyar contebtou-se de apontar para o cadáver do espia tapnya. Erão 

-todas as suas explicações. 

— Pereebeste-lo, e varaste-lo I Por grande fntuna o lenho. Senão 
jfV)ra isso, o meu arcabuz teria dado signal de nós — disse o padre, foi- 
^^ndo cautelosamente. .. 

-^ Os olhos do guerreiro vermelho rompem as trevas — responde^ 
::p taboyar sem já guardar resguardo. 

Os dous admirárão-se desta tírcumstancia, rara em homem tio 
► ^^cavido. 

— Não receiais jã que nos presslaião ? — observou Vieira . 



— w — 

— For agova, ião (em perlgQ «r- tornou o taboyar a>in ^àaàasiú 
•fl^aiiça -^ «8 piiyagoares esAão» longe. 

-«^ Como o sabeif ? 

-* O gufiTMiia iabtyar adyinha o que não se yè. Se oa pity^gQini 
eatmMiem proxunos, o im etpia não tomaria tantai precauções. Esotti^ 
di8i^4a4da «trta de qualqfaer tronco, pan poder mais Ctcilmenie pawtf 
eiiao de sentiiiella em aeptinella. O cuidado que elle fHuiha em occril- 
tar-ae ammnçin que se achava isolado. 

— E quf penaais disto ? — < atalhou o. padre* 

*-• não é crivei nr o})servou o nuncebo— que um hoioeBLSóii' 
casse em um ponto em que os aeos companheiros, preveiudoe pcfoCa* 
kbar, podiào desconfiar que nós viríamos procura-los. 

.— QaaQto a isso estais enganado — observou frei Mano^.— De 
Iodas as hypotheses, era essa. a menos provável por ser; a majs 
audaciosa. 

O mancebo sorriu : o padre continuou. 

— £* evidente que o mestiço conseguiu ser attendido, aliás feriamos 
achado indiciei de luta ê vestigios de morte, anteade chegaimoa aquL 
Sendo uma visita nossa a este sitio a conjectura menos prevarel» é muilo- 
de crer que o nnanelucQ formasse algum plano e os coubduzisse a outro 
ponto* 

O Uboyar confirmou k Msarção do padre com um sigoalaffirmativo. 
••- Mas como ? ^ contestou Vieira — se nada observámoa no noeso 
caminho. 

— £' que tomarão seguramente uma direcção diversa -*pimderovi 
Imi Manoel. 

•— Para que ? i-* replicou o mancebo. '* 

O padre encdheu os homhro^ : tinha exhaurido a sua provisão de 
piDkabilida4e0. 
Vieira insistiu. 

— E porque ficaria este aqui?— disse apontando para o cadáver do 
pifyagoar. 

— £' fácil de perceber — replicou frei Manoel — profavélBMiita 
para observar, em todo o caso se teríamos emprehendido o eenuncti- 
mento mais temerário, e dar avisa aos seus eoBqpaahciros. O famo 
do campo dos pitgragoares era o único indicio que nos podia ter reve- 
lado a sua presença. Por consequência, na supposiçâo, diffiafaneate 
acreditavd, mas perfim de costas possiid, de que bisássemos áemi 



tlal-^s, "em «vidente q\ie noè AirígiHBmM áqtd.OéílanddHinefplavtiis 
pityàgoares, seta prejaizo de (ju^esquer planos que pèasão ler, e que 
sem duvida 'ò mestíço lhes itf^pira, os pityagoa^s, diga, nSo nos perdem 
de yista ( plélo menos assim o esperayâo 1 ) e prosegtiem Ho Wéu ifftatto. 
Bem que trsbidor o Calabar é capaz de prewr muito « de eteéutâft 
atrevidos desígiiáos. 

— Vejo qae sois também homem de tão bol!il óotíselbò cMàm ^ptomptà 
resolução, meu Rev. padre — dâbe Vidra. Vttíà só cousa tti^ adihira, 
porém. £' qué, estando ú Galabat reutiido coiú 6S gentioU, « pf^étúò 
a nossa direcção, não tivesse procurado sabir ao 'encontro. £, se em 
vez de termos tomado esta direcção nos bòuVeratíids retirado, c<riEno a 
piudencia exigia, não era natural que elle tdmasse Com o grbSSO dos ca- 
çadores o caminho mais breve para nòs-^átalbar o piíkòd Nfto é ttj^smo 
isso o mais natural, porque àsidin aptoteita t obcalrf&o qtM Hie podia 
fagir, e também os meios de nos cortar dos re&ès. 

O taboyar, que até ali estivera escutando attento, pátétvnAo re- 
flectir gravemente, tomou então a palaV^. 

— O meu irmão piaya ( sacerdote ) é inspirado pelo grande *tupá ( o 
omnipotente). As sute pdSíVctesSo um relâmpagos de^sabeitnlfa. Deve 
ter succedido tudo como diz. 

— E podeis antèV^r quaes sejão os desígnios do CMabar"? •— per- 
guntou o mancebo. 

— Os dáigftios de um ' traiiidor ^ão tão tiegMS comoa saa alma, 
mas a vi^ta dO guerreiro vermèftio potietra feíãs sombras. <Por agora é 
essencial recobrar forças. Taremos lahez qno Ii2«r «fo Mftii. 

— O taboyar tem razão — observou o padre — > seria convoíleiite 
tomar alguma refeição, emquanto o podemos fiizer >áesoançadaii»nte. O 
corpo pôde menos que o espirito. - 

— Sé ab mebOs éonsegtdsMmios «Míbar qual <é ^v numero^ dos pi- 
tyágólMs 1 . .*. — obseryiott omSMioebOé 

— £' &cil — tomou o thboyàr. ^ Desde já l%li'pofBO«fimiçnH)ifiB 
se julgão bastante numerOíOs para julgat que nlb tem «ae^ildade de 
escòáder ossétis veélfgiOs. 

— £ se os multiplicassem para noè !ll«dit«m? 

-^ A téíXiO 'do weu irmão <branoo btíilia por eiítiè sens Ímpetos 
JúVeifls. 

DiÉe&dd, o 'tábojfÉr 'deitou^ por tenfa^nxaminanÉlo ás uUinásdi^ 
rídades do cr^miculo, as numerosas' pegadas impresiai «o «erreao 



— 80 — 

húmido, em torno 4a fogueira apagada. Mediado escropuiosamente cadÉ 
uma, contou até Tinte. Os passos do CaUbar distingui&o-se também 
pela íórma um pouco difltereoie, pelo artelho menos pronunciado epeli 
direcção que elles accusaTão. Evidentemente o Calabar náo fizera apagar 
afuelles indidos, ou por julgar menos proTayel a visita doe expedicio- 
nários, ou para os affastar pela superioridade do numero. Vieira s^hii 
quanto queria e podia saber. 

Os cocos, que ainda resta?&o na arvore cortada, o£ferecôr&o m» 
nossos heroes uma refeição bastante para quem estava habituado a Iodai 
as alternativas da vida selvática. 

Dada pouco mais ou menos i hora ao descanso, os nossos amigos 
preparavão-se de novo a partir.. 

Vieira perguntou ao taboyár : 

'- !E agora que direcção nos cumpre tomar? 

— Pela campina emqaanto se não levanta a loa. 

— Avante? 

'— Não ; voltamos a torrente. 

— Para traz? 

— Para traz, le quereis ver o Calabar e os tapuias. 

— Julgais que elles se dirigiráò ali ? 

— Os pityagoares são astuciosos, e o Galabar sabe giúa-los. Nia 
podião fdzer outra cousa. 

— £ pensais que os encontraremos nessa paragem ? 

— £' quasi certo. Elles sabem que a torrente é diOGLcil de vadear, 
e provavelmente esporão colhemos na passagem delia, ou tomar-nos abi 
o t>aáso. 

— Mas, se intentão per4egair-<nos, terão ladeado o obstáculo, e s6 
em outra direcção poderemos ver. 

— Faremos como elles» Não é provável, porém. O nieu irmão 
branco pódd estar certo que os pityAgoares eu o Galabar acharáõ indicios 
de termos ou não teiúos passado já a torrente. 

— Não pensais em uma cousa — acudiu o padre: 

Sendo assim, como pensaes (e pensais bem), que terá sido a estas 
horas dos nossos companheiros ? 

— Ayres GJ — tornou Vieira — não é homem que, em tal posição 
como a que está occupando, deixe aproximar impunemente um inimigo. 
Óê. pelouros do seu mosquete vão longe, e, emquanto tiver pôlvera e 
bala, nenhum passará vivo a ponte. 



— 81 — 

^ £m todo o caso apressemos o passo -^ reflectiu frei Manoel^ 
. -^ Apressemos» accr^fcentou laconicamente o taboyar. 

E, jontaiido ao conselho a pratica, todos três derão a andar açoda- 
^amente, atrsvessi^ndo a solidão e as sombras como fantasmas, com as 
armas* sempre promptasi e os olhos e os ouvidos sempre alerta. Em 
pouco mais de uma hora Tencôrão assim a distaocia. Quando se lhes 
tomou sensiyel o rumor longiquo das cachoeiras^ fízerão meia volta e 
inteniurio*se na floresta. Abi o taboyar reoom«çou as investigações mais 
detalhadas e minuciosas. Nenhum iodido appareda dos pityaguares. 

.. ^«" £ agora?-* murmurou frei Manoel aos seus companheiros, de- 
tttfto .0 passo. 

— Pafra a torrente — respondeu resolutamente Vieira. — £' maior 
cuidado este silencio do que a pnsença dos tapuyas. 

Não havia refrear. Os três avançarão com a maior preHeza (pie lhes 
consentia a necessidade de precauções eo emaranhado do mato. Nenhum 
incidente lhes detsve o passo. A torrente estava próxima. Sentia-se pelo 
fragor das aguas. O taboyar fez signai aos seus companheiros para o 
agaardarem, e desapparec^u nas ramadas. 

Ninguém poderia adiviohar que um homem caminhava por entre 
aquettas sombras e tortuosidade». 

Passados poucos, momentos, o guerreiro voltou ; e, com o mesmo 
silencio, chegou-se aos seus companheiros e indicou-lhes a passagem. 
Dahi a um instante estavlo todos três na extremidade da selva, perfeita- 
mente encobertos pehs ramadas e em frente das cachoeiras. 

Vieira e o padre conhecôrão o sitio. £ra o mesmo por onde tinhão 
passado e donde havião partido em demanda do campo dos pityaguares. 

O taboyar tocou levemente o hombro do mancebo, e indicou-lhe o 
grup(> fronteiro das palmeiras. 

)k lua havia-se erguido, e a sua claridade tornava distinctos todos os 
objectos atravez de um céo diapliano. 

Do outro lado não se percebia signai ès vida. Unicamente ou- 
viaseo estrondo da torrente despenhada, que tombava succéssiva, como 
08 séculos cahindo sobre os séculos na eternidade. 

Vieira seguiu com os olhos a indiesção do guerreiro* gentio, e por 
pouco lhe não irrompeu involuntária dos lábios uma exclamação furiosa. 

A ponte de cipós, cortada da margem fronteinl, remoinhava fluctu- 

ante nas agoaSf presa unicamente do lado que os nossos amigos occu- 

pavão. A perplexidade dos expedicionários era extreipa. A comma- 

11 



— «3 — 

oíeaçio etUf a emtida. MasqacmaeoilánTIliihiofidACspitjagouaf 
Pân isso en necessário que ti? essem passado á ootn maigg a â y e m. asH 
preza Dão en ladl diante das b»las do mosqutteiío. Soecunliin csleT 
Na soa posíçio não en também mnito proriTel, ponhas podfia insr 
fogo a eobfiito. Gommettén eUe alguma impmdeneia, cm imm ílm iasi 
algum acaso? Ayres Gd en taiáaáo wdko eiennina nn^valor 
mado consumada eanleUa. 

Por outro lado, era pessif d lambem qoe elle m râ 
cortar a ponte, se os agf^ressores mostmsscm demasiada ttoacidnte, 
tal recorso só na nllima extnmidade lançaria mio deOe o moistuil^iio, 
porque sabia quanto era essencial conserrar a passagwn aoe mmm aan^gos^ 
se elies fossem perseguidos, como en nttonL 

Perdido nestas conjsctnras, o espirito impadenle e «rtsitaraio de 
Viein, estimulado por ellas, perdeu totalmente o aeootdoí, e o maacdio 
tentou adiantar-se pan o daro da margon, afim da aiamiiuir dn 
:'erto o que poderia ter acontecido. 

Nisto, dous bnços robustos carr^ndo-lbe de cada lado nos 
bros, fizer&o-o vergar e cabír de joelhos atrás do tronco a qua nn 
gaTão 08 três companheiros. 

Quasi no mesmo instante» vdu uma bala da margem oppoila 
as raraificaçdes dos troncos no próprio logar em que Tieira, mwwmfÊEÈâo 
o rosto, estiTon obserfando a localidade. Se não fite o 
impresso ao mancebo, a baila ter-lhe-hia atravessado o craneo. 

O padre e o taboyar ó quem o tínhão €eito cahir no ehãopor 
inatiiiclo unanime. 

Vieira quiz defender se, suppondo ser Tictima de um ataque i 
perado ; mas o padre, pondo também um joelho em tern, mumiiiran-lhe 
ao ouvido: 

- • Não vos haliudneis, senhor Yidra ; somos nós. Se quereis fizer 
ii;;0 das vossas armas, creio que a occasião é chegada. 

Não se enganava o padre. 

Do lado áqoem da torrente lavantou-se o formidável grito de geen» 
dos pityaguares, como vindo das nuvens* 

— Não hesiteis, e segoi-me 1 — sussurrou o taboyar aos ciMnpa- 
nhdros, sem perder de nenhuma forma o accordo. 

Quem o visse não poderia dizer que aquelle homem se achava ena 
uma dessas supremas situaçõei, em que toda a energia par;ece infeitar 
á figitalidade. 



i 



— 83 — 

O taboyar galgou de um pulo ao pequeno intervalio, aberto oo 
bosque pek queda de uma arrote morta. Vieira e o padre, quasitão 
ágeis oomo elle, em um relance estaco a seu lado.^ 

O gentio abrangeu, em um olhar que faiscava, a profundidade do 
arvoredo em tomo, e rompeu por entre o mato, terra a dentro, pulando 
como* a onça ferida. A cousa de tresentos passos parou : os compa- 
nhfnros ecbavão-se com elle. Tinha sido umu carreira impectuosa e fre- 
netica^! Mais do que em tal sitio se defia esperar de homens. Podiào 
respirar um momento. Esta vão fora do alcance das balas do Galabar. 
Ante eBes estendia* se um claro pantanoso, atraz a selva profunda, en- 
redada de liames, ainda não tocados por mão humana. 

— - Aqui — disse d taboyar com a sua concisão ordinária. 

Todos havião comprehendido. Sabião que se ia pelejar um combate 
mortal, e aquelles três homens, de tempera tão diversa, mas tão igual- 
mente intrépidos, encaravão com uma serenidade de animo que só pôde 
dar o perigo continuo, as contingências da luta, sem mesmo saberem o 
numaro dos inimigos. Vieira Unha recobrado tod» o seu sangue frio, 
e sentia dilatarHre^lhe o peito, aspirando longamente a aragem acre e 
perfumada da floresta. Frei Manoel murmurava entre dentes a oração 
dominical por alma dos que ião morrer, descuidado de si e sem ver mais 
do que os riscos d^alma para o próximo. 

Era verdadeiramente sublime. Por um momento a solemne mages- 
tade da noite nãd ioi tuHmda por nenhum rumor desusado. Apenas o 
stridor sQido da torrente e as harmonias mysteriosas da selva. O suave 
palor ^da lua prateava a superficie descoberta, e insinuava algum raio 
tremulo por ^itre a folhagem densa. Disséreis uma daquellas virgens 
do norte, que, nas lendas populares, sahem á meia«noite dos túmulos 
assistindo sem vidras pelejas em que muitas vidas se arriscão por ellas. 
Gardimies de insectos volteavão em turbilhões, zumbindo a superficie 
embarcada. A seikião era grande e temerosa como a divindade que nella 
presidia* O grito dos tapuias soou de novo; mas, desta vez, compacto e 
horrisono. Então da copa de cada arvore saltou um pityaguar, e, unin- 
diMHi ism massa, avanç&cão direitos aos nossos Ues heróes. Osdous 
partidos^ tabíão que estavâo mutuamente descobertos ; e os pityaguares, 
confiando talvez na superioridade do numero^ pensarão, em um ataque 
impelaoM>,8uffo€ar 68 seus contrários. Erio dez ao todo. Apenas juntos, 
fiancftò uma descarga de fffecha» tão regnbr e certeira, como se obede- 
cessem á voz die um commando. 



84 

Por um moTimeDto unanime, oi& nossos três heróes.deixarão-se oafair 
de costas, e as frechas forão todas pregar-se nos troncos yizinhos. : Na^ 
mesmo ponto, e com uma dextreza maravilhosa, os expedidonarios^dei^ 
tados mesmo, responderão ; três pityaguares cahirão. Não espeiando 
a replica tão prompta, não se havião acautelado. 

Este effeito produziu uma certa hesitação nq grupo atacante. A hesi- 
taçãOy porém, durou apenas um instante. >Jçando um novo brado, mai» 
clamoroso e feroz que os primeiros, metterão-se ao matagiiF, cegos de 
fúria e anciosos de vingar o desastre da estréa. 

Os expedicionários aproveitarão este intervallo para se arrastarem 
até ás arvores. Ahi, ao abrigo delias, Vieira e o padre carregarão de 
novo os arcabuzes. O taboyar, com a sacapá enfiada no punho, despediu 
outra frecha : outro pityaguar cahiu. 

— Agora a partida é igual I — bradou Vieira — ; sonsos três contra, 
seis. 

— E Gs mais que forem— observou philosophieamente opadre-^- 
apontando com todo o cuidado, como quem não queria perder o seU' 
trabalho. 

Outros dous tiros deixarão mais dous inimigos fdra de combate. 

O taboyar então separou-se um pouco dos seus companheiroSi la- 
deando por entre o mato. 

Evidentemente os pityaguares não esperavão uma defesa tão ener-> 
gica. Pararão de novo, como se consultassem o que devião fozer. Re- 
cuando, porém, o perigo era ainda maiòrj porque terião de rètifUr ex< 
postos ao fogo dos seus adversários. Avançárão,pois, com* dobrado im* 
pecto, mas já desordenadamente. 

O matagal era profundo e os quatro que ainda restavio sãoe aoha- 
vão-se distanciados uns dos outros, segundo o diferente vigor e deli- 
gencia de cada um. Esperar era dar tempo a que o inimigo carregasse 
as armas. O ataque neste caso não era }á umalratativa» erfruma ne»* 
cessidade. 

Vieira correu direito ao encontro dos pityisguares, e o paâBe,que: 
remorsos de não faz^r ao menos um ensaio conciliador, chegando á fiaUa^ 
gritou-lhes de longe, no seu próprio dialecto, que o ouvissem e eacu»* 
tassem a palavra de Deus. A única vaidade de frei Manoel tara aeretitar. 
na efficacia da sua eloquência; o gentio por única resposta, sentindo oal^ 
firme o terreno, dísparou-lhe uma frecha. Vendo a acção^ Vieira Julgoa 



,1- • 



— 85 

O padre perdido é predpltou-se ao encontro d^pityagaar, qiie era o inaist 
ayançsdo. .. . i 

— Não tenhais btddsido, Vidra \ olhai jpor tós. Este santo hnbito 
protege -T bradbú^Ihe o padre, qoe meneara o seuarcabnz como se fora 
nm bastão. 

^ Effectivànlente assim fora. O habito tinha ntteralmente protegido 
o ^dre. Vieira aUònito honyera-lhe pedido a explicação, se tivera 
tempo para isso, ou?indo-o fallar tão serenamente, e Tendo-o correr 
com tanto desembaraço, com nina frecha cravada no corpo. Todavia 
era a çonsa majis simples. A frecha fôra-lhe disparada ao peito ; masi 
como já fizemos notar, o frade, para conservar a liberdade e agilidade 
dos movimentos, arregaçara o habito, enrolando-o na cintura. A taquara 
penetri&ra profundameote ; mas, embotado o golpe nas dobras multipli- 
cadas, apenas levemente lhe arranhara a pelle. Frei Manoel não era 
homem que reparasse por tão pouco. Dando idéa, até certo ponto, de 
um ensaio de S. Sebastião, nem mesmo se distrahiu arrancando a 
frecha, e,conscio da inutilidade da sua oratória, tratou de empregar ar- 
gumentos mais dicisi?08. O padre e o pityaguar encontrarão-se em chão 
solido. Mais impectuoso, Vieira achou-se a braços com o segundo, a 
borda mesmo do matagal. Começou então um combate desesperado, 
desses apenas concebidos pela imaginação» em que a fúria cresce au- 
gmentando as forças, como quem sabe que, de parte a parte, não ha a 
esperar mercô^ nem misericórdia. , 

A' terrivel tacapa dos gentios Vieira e o padre oppunhão os seus 
arcabuzes, A ppsição dos nossos amigos era excessivamente critica. 
Qualquer delles era bastante para sustentar o ataque do seu competidor ; 
mas restayão outroa dons, que se apressavão.em soccorro dos seus ca- 
maradas, (esperando emfim colher uma presa que tão cara lhes custava 
já. Nisto q que era verdadeiramente, inexplicável era a ausência do t&- 
boyar; e o próprio padre Moraes, mesmo dando e recebendo golpes, 
não pôde deixar de recordar mentalmente as observações de Ayres Gil 
relativamente ao seu guia. .» ^ 

-O' taboyar, porém, nãa merecia estas desconfianças. Sabia dle per- 
feitamente ^ com quem lidava, ^, prevendo que embaraço lhe séria à su- 
periondide numérica «los assaltantes, em um combate corpo a corpo, 
em vez de caminhar, direito aos pikyaguares,' flanqueou o arvoredo efoi 
safair do -flanco á baiCa do matagal, nomomento em que um dosdous 



— 86 — 

'gintfof miif atrazadot, desembaraçando-se dá tem lodosa, ia cahír 

fobre Vieira, já mais que occupado com o outro antagonista. 

Vieira, que ha?ia recuado um pasfo, remoinhando com o sen ar- 
cabuz seguro pek) cano, e preparando-se para fazer frente a este nove 
inimigo, tíu-o de repente estender os braços e cahir de bruços. A 
frecha infalliyel do taboyar igualara verdadeiramente a peleja . 

Só neste momento o taboyar soltou o grito de guerra da soa na^. 
Ameaçado assim, o ultimo dos pitjaguares desyiouHM da linha que 
seguia para acudir ao imprevisto choque. O conflicto tomou -se enfio 
geral, e o combate das armas succedia-se com incrível rapidez no mdo 
do silencio do ermo. A agilidade dos pityaguares frustrava a maior 
parte dos golpes que Vieira e o padre descarregavão com admirável 
presteza. 

Já o adversário de Vieira, colhido de uma forte cronhada, Mra ao 
chão ; mas o mancebo, demasiadamente generoso para acabar um Inimigo 
prostrado, hesitara um momento. Tanto foi bastante para o gentio se 
recobrar, volvendo á luta com fijría maior. Vieira sentiu quasi re- 
morsos. Por uma delicadeza, extemporânea em tal crise e com tal gente» 
perdôra a occasião de ir soccorrer os seus amigos e compromelfôra talvez 
o êxito do combate. 

Não era, porém, opportunidade para reflexões. 

O pftyaguar, estimulado pela d6r, apertava com o mancebo. No mo- 
mento em que este oppunha o seu arcabuz ao choque datacapa, a coronha 
da arma, já fendida dos numerosos golpes, voou espedaçada. Vieira es- 
tava desarmado. 

Era sobretudo nestas occasiões desesperadas que o heróico anfmo 
de Vieira se revelava com mais energia. De um salto, o mancebo achou- 
se fora do alcance do terrível instrumento inimigo. Mas o pityaguar 
não era menos ágil. Quasi no mesmo ponto estava sobre ellé. Lançando 
mão do machado de mato, que lhe pendia da cinta, continuou assim 
em retirada, espreitando um momento favorável. O tapuia conhecia, 
porém, as suas vantagens, e nem o deixava respirar. 

O taboyar, que não perdia de vista os seus companheiros, coidieceu 
o risco imminénte em que se achava Vieira, e viu que era uigente soe- 
corre-lo. No mais aceso da briga, deitou-se por terra, cstorcendo-ss 
como se houvera sido tocado da arma inimiga. O pityaguar soltou um 
grito de tríumpho. No momento, porém, em que este se preparava para 
o acabar, o taboyar, firmando-se de repente na mão esquerda, despediu 



— 87 — 

Gom a direita tio tremendo golpe de tacapa que o lea inimigo cafain 
com o craneo aberto em dout. No mesmo momesto o taboyar ¥ooa 
em auxilio do mancebo. 

Vieira não bayia perdido o accordo. Furtando o corpo ao choque 
do adTersaiiOy pulou de lado e descarregou o machado ás mãos ambas. 
Se o pityaguar não fosse tão dextro, teria tido logo a sorte de seu com* 
panheiro.: Goardou-se Tcom a tacapa ; mas o golpe Tinha de tal modo 
Yíolento que a arma saltou-lhe das mãos a una poucos passos de dis- 
tancia. Por sua Tez o sdyagem estava perdido. 

Gomo dissemoSi Vieira tinha recuado até junto ás arTores. No pró- 
prio mon^ento em que eUe leyantaTa de noTO o machado, dispondo-se a 
acabar com ò adversário, um Tulto cahiu de entre os ramos, ficando lhe 
o cayalleiro nos hombros» e puchando a si com extremo Tigor o machado 
inimigo. O mancebo, sob o peso inesperado, e ante o súbito ataque, 
cahiu com um joelho em terra. Era ainda um pityaguar. Com os joelhos 
apertaTa-lhe rijamente a garganta, suffocando-o ; com as mãos procuraTa 
arrançar-lhe o machado, deixando-o exposto ao primeiro contendor 
Quanto a este, saltara sobre a sua arma, que jazia por terra e ToItaTa 
contra o mancebo. 

O taboyar, que sobroTinha, não lhe deu tempo. Sem perder um 
segundo, Tibrou a tacapa direita á cabeça do pityaguar que seguraTa 
Vieira, e a rude arma, Tolteando nos ares, espedaçoulhe as maxillas» 
derrubando^) sem acordo. Vieira, como mn relâmpago, ergueu se liTre, 
descarregando o machado sobre o outro pityaguar, que o não esperaTa 
assim. O ferro cahiu sobre o braço da arma, decepando-Ihe quasi cerceo^ 
e o gentio baqueou também mal faxido. Era tempo. Um noTo pityaguar 
saltaTti neste instante das ramadas ao chão, Tindo em soccorro dos com- 
panheiros. Attonito por se achar só em presença de dons contrários da 
tal ordem, o tapuia tentou fugir ; mas não contaTa com a astuta preri* 
denda do taboyar. Quando aquelte,daiado as costas a Vieira, quiz embre- 
nhar-se nó mato» achou já nâ sua frente o guia dos espedidonario», 
cortando-lhe o passo. Menos escrupuloso e mais prudente talfez, o ta-. 
hçfpx houTora-o infallÍTelmente morto,se Vieira não tiTease interrindo. 
O mancebo quciia um prisioneiro e contemtou-se de o desarmar. O 
gmáSÀi conhecendo á inutilidade da resistência, nem se quer tentoH ftii-la 
e aceitou a sua sorte com a resignação feroz, Tulgar ntqueUas raçaa. Em 
broTO) ligado fortemente por liames robustos, ficou absolutamente im- 
possibilitado de bzer um moTimento. A sua impassiUHdade^ porém, não 



I 



m liiMH iitii Mudo e killenfel, nem nau só Unha do im!» IhetriMia 
miaíiiui ^^lívnM^ inlerior. ReiUva Uô. JUaiiod. O ecMBfaale doto fln 
longo ; mas estava tenninado eom resnUado nio meann feliz. 

Tendo qoe erio baldados es seus esforços pin thegãr ao pilja- 
goar, frei Manoel atiroa foca o arealmz; e» em riíeo de fienr dri í íio di 
toespa do gentio, abriçoo-se subitamente a este, eoIheDdo-Ilie os bfaços. 
O ^tyagoar nio esperara semdhante eommettimento, e fteon 
mento indeeiso. O ptdre tinha aproreítsdo este momento pma 
das dobras do habito a taqoara, imbebida nelle. Armando dèUa a 
direita, começon assim a dngir estreitamente o gentio. 

A lata foi porfiada e temerosa. Dons atfaletas no dreo dflirilwifnte 
desenTolyeriio tamanho Tigor. O pityagaar, com o braço da taeapa 
preso no braço es^jaerdo do padre,como em nma tenaz de ferrOi {Hoconra 
com o peso do corpo lera-lo debaixo de si. O padre, oom a taqoaim hn- 
mioente sobre as costas do gentio, hesitara em serrir-se desta arma, es- 
perançado ainda de poder eritar o derramamento de Miigoe. 

O pityaguar era robutto ; mas o padre era um Hercoles. laigo 
tempo se estreitarão por esta forma, snffocando-se mutuamente, Yadl- 
lando algumas yezes, mas sempre de pé« Afinal o gentio, ena um ím- 
peto prodigioso, conseguiu curvar o padre sobre os rins. Perdida a (inha 
recta, a defesa de frei Manoel tomafa-se extremamente arriscada. Q 
missionário então, em um relance de olhos, abrangeu o campo dÍo 
combate, e tíu o perigo urgente em que se achava Vieira, no momento 
C[ue acima descrevemos. Toda a hesitação, neite caso, fora já descabida. 
£otre a perda dp gentio e a do seu companheiro não havia duvida pos- 
sível. Fiei Manoel, pedindo mentalmente perdão a Deus para o bárbaro 
que o (orçava a tal acção, com pulso firme cravou a taquara no costado 
do pityaguar, que tentou ainda estrangula-lo nas convulsões da agonia. 
Perdida, porém, a força com a violência do golpe, expirou-lho, porque 
assim digamos, nos braços, de um modo bem diverso do que devia ea- 
perar-se do santo ministério do padre. 

Livre também, frei Manoel apressou-se em ir auxiliar Vieira, Feliz- 
mente, como vimos, este auxilio tornara-se inútil pela opportuna enwgia 
do taboyar. Chegando, e vendo o resultado geral do combate, frei Ma- 
noel não achou senão esta observação : 

— Se eu adivinhasse... podia-se ter poupado também aqueUe 1 

E indicava o cadáver do seu antagonista. 



De doze pityagaares onze estavão morto8,ou perigosamente ferkloi ; 
\im era prisioneiro. 

O numero dos inimigos, a julgar pelos indícios do seu acampa- 
mento, achava-se consideravelmente diminuido. Ires homens sótinh&o 
consumado aqiuelle commettimento audacioso ; e todos três julgavão 
acção vulgar a empreza gigantesca. Podião reputar-se, até certo ponto, 
senhores do deserto, senão restara ainda o mais terrivél de seus ini- 
migos, e que por si s6 era infinitamente superior . ás hordas seljagcns. 
No meio da peleja, uma das mais fortes preoccupações de frei Hanoéi 
íòra esperar, a cada momento, ver surgir entre elles o Galabar. Emquanto 
este não fosse aniquilado, toda a heroicidade dos expedicionários era 
perdida. 

Custava com effeito a compréhender a razão por que Domiogos 
Fernandes não apparecèra. A intervenção do arcabuz do mameluco 
houvera sido necessanamente funesta aos expedicionários . 

Reunidos que forão todos três, a attenção do padre recahiu primeira- 
mente sobre o prisioneiro : 

•— Ainda pudestes colher este? — Perguntou elle. 

— Nem quasi resistiu » observou Vieira •— e se eu não fora não 
seria já vivo. 

-— Conheço bem ahi a mão do nosso amigo taboyar— redarguiu 
frei Manoel — Não perdoão a inimigos seus, principalmente pestes. 
Que quereis? Roma não se fez em um dia. £ bem que se vão appro- 
xiniando da igreja e dos costumes de gente cathoHca, ainda tôm muito 
que desbastar. Olhae, filho— continuou dirigindo-se ao taboyar— é triste 
necessidade derramar sangue, porque, afinal, todos são filhos do mesmo 
Deus. 

— Um pityaguar — refleetiu o gentio— e um traidor^ não podem 
ser filhos do mesmo Deus, porque Deus, que sé faz tudo o que é bom, 
não podia produzir gentes que unicamente fazem mal. Os pityaguares 
são filhos dos Ouiaoupia (Grenios do mal). 

— Restos da cegueira de suas primeiras crenças — ponderou a 
Vieira o padre Manoel. Custão a extirpar; mas, com itoansidão eboa 
vontade, tudo se ha de conseguir. Pois sim, filho — proseguiu elle^' 
endereçando a palavra ao taboyar, não sem um certo embaraço, resultante 
da ingénua observação do selvagem. Pois sim ; os pityaguares são 
inspirados seio dunonio ; mas todas as creaturas receberão a vida das 
mãos de Deus, e é feio peccado roubar-lh'a, palvo por necessidade de 

12 



— M — 

defaia própria oa por Hiaior honra e gloria da fé. Tirado diste, qmado 
w pôde eTítar, é melhor ter misericórdia do que rigor. 

» E que fsreis ddie? — PergiiBkm o taboyar, iedicaiido o iMúio- 
iieiro. 

A pergimta era sim]def; mai a resposta dÍo eraftcJ. 

Na situaçio em que se achaTaòos expedidonarios, o piíyêguãt 
captiTO era -lhes grande embaraço. A suaconducção retardaTa-Dies os 
morimentos e caredão empregar nelle uma Tigilanda, qae nio eia 
já de mais para si mesmos. Por outro lado, sacrificar am piMoneíio 
era consa qoe devia necessariamente repugnar a quem íftra educado 
entre hábitos caralheirosos, e se inspirara das noções de wêul fida 
cirilisada. 

•— Verdade é que o prisioneiro nos serrirá de estorro^disse Vieira; 
— mas também nos pôde ser de utilidade. Antes de tudo in^oiri-o 
Tôs, firei Manoel, que sois versado nestes dialectos bárbaros. Por efle 
podemos saber o numero exacto dos seus companheiros, OBde se achio 
os que ainda íáltfto, a paragem e disposição das suas tribos. Isto é 
cortar o passo ao Calabar, é o que mais importa ao eapitão-inór. 

Frei Manoel começou então um interrogatório minucioso, ornado 
de admoestações erangelicas, e até lardeado de algumas citaçõeslatinas, 
que escapavão candidammte á erudição, um pouco mecânica, do bom 
do frade. Frei Manoel, que ja tinha certa difficuldade em se fazer enteo- 
der do rebelde neophito, não reflectia que os seus latins lirigaTio 
extraTagantemente com os barbarismos daquetta lingua inculta. 

O taboyar, no entanto, acenava a cabeça com expreeiivo ar do 
duvida . 

O pityaguar não respondeu uma palavra. A's inquirições do padre 
oppunha um sikncio stdco. 

Mais cançado' do sermão inútil, do que do seu combate anterior, 
o padre levantou-se limpando o euor com a manga, um pouco humilhado 
deste desastre oratório. 

— Nem que o atenaiasssem I — disse. São perros estes geatios 
bravos. Conheço-os. Não se tira nada delles. Os próprios tratos não o 
fárião (aliar I 

O taboyar encolheu os hombros e murmurou : 

— Bem vôdes que não nos servirá senão de estorvo. 
-« Servir-nos-ha também de reiens — atalhou Vieira. 



— w — 

«- Isso é — aoeudiii a padre — este responderá pelos nossos ami- 
gos qne não sabemos onde parão. 

— É é por isso qnó é necessário procural-os —tornou Vieira. 

— £' necessário procural-os e soccorrel-os, custe o que custar— 
accrescentou frei Manoel— Os pityaguares dÍYidirão-$e eyidentemente 
em duas partidas. £ é isto o que me faz ainda ter esperanças de que 
Ayres Gil e mestre Marçal estarão ainda yivos. Se os houvessem morto 
atacar-nos-hião reunidos, que não são elles homens para desprezarem as 
▼antagens do maior numero. Neste caso, o bando de que nos custou 
tanto a ser livres, foi escolhido para nos saltear, e òs restantes vão sem 
duyida de guarda aos seus prisioneiros. 

O taboyar approTou. 

Vieira interrompeu : *- Por isso mesmo nos importaria saber que 
direcção levou o outro grupo. £^ claro que não está próximo, aliás 
teria accorrido ao rumor do combate. Não vos parece ?* 

O gentio, interpeliado directamente por Vieira, respondeu também 
affirmativamente. 

O mancebo continuou : 

— O que em tudo isto não posso advinhar é como os pityaguares se 
aehavão nesta mM*gem e a ponte de cipós appareceu cortada na outra. 

— Pois nãe é diOãdl de entender-se, accudiu frei Manoel — £' que 
pccupárão ambas. Não vo-la explica de sobra a presença do Gakbar 
além da torrente? 

— Assim é —replicou Vieira«-*e já vamos a esse ponto. O que sobre 
tudo precisamos agora conhecer, repito, é onde se achão os outros pitya- 
guares. Se este perro filiasse ! . . . 

-« Não fialla— atalhou frei Manoel. 

— Veremos ainda— tornou Vieira. Dizei-lhe vós na sua algarvia 
que, se elle recusa ás informações que exigimos, aqui o degolamos já, 

-«- Nem assim conseguireis nada— observou o padre. Mas, pois que 
o desejais, assim se fará. 

Frei Manoel exprimiu ao^ guerrdro as mais terríveis ameaças. 
Vieira, juntando a acção á palavra, tinha-lhe sobre a garganta a 
adiBiga Bua. O gentio não soltou nem o mait leve som. Parecia im- 
môvet. -. • 

yiéin, deseoroçoadOj metteu a adaga no cinto. Quanto ao captivo, 
eó se admirava déumá oeosa— èès' n&ò estar já éspedaçado. Pensava, 



1 



— «3 — 

fHorém, lá de si para si, que o reservaillo para algum fsstim os XuçuHos 
da selfa. Os seus hábitos e idéAS não podião admittir outra hypaOím^ 

— Um pityaguar, disse gravemente o guia dos expedicionários, 
não abre a boca senão para mentir. Se elle fallasse, as suas palams 
serião uma cilada. 

Uma scentelha rancorosa passou pe}os olhos do selvagein mani- 
etado, untco signal de intelligencia e de vida que deu em toda esta 
scena. 

-- Não vos dizia eu ? -reflectiu a Vieira o padre n'am tom, que 

e;sprimiaao mesmo tempo uma certa persuasão da infalibilidade dos-, 

seus juízos, e uns como ares de triumpho, por ver que a mesma cniexa 
das ameaças não fôra mais efficáz e feliz do que as suas exhoriaçòés 

apostólicas. 

— Bem— disse Vieira, agora não temos tempo a perder. Pois que 
à Galabar não nos procurou, procuremo-lo nós. 

Os expedicionários atarão fortemente às mãos atrás das costas 
áò prisioneiro, cnizando-lhe por baixo dos braços um grosso ramo que 
despirão das folhas. Depois restituirão-lhe o uso das pernas para que dlé 
pudesse acompanha-los. Deste modo a fuga éra quasi impossível , 

Invertida a ordem da marcha, o padre e o taboyar cuniuha- 
vão-lhe aos lados, vigíando-o e fbrçando-o a andar. O taboyar espiei- 
táva-Ihe attèntamentè a phisionomia, procurando advinhar-Ihe na 
impressão mais fugitiva que lhe passasse pelo rosto, o minimo indicio 
capaz de lhe fazer conhecer onde poderíão estar seus companheiros. Vi- 
eira avançava na frente, instigado pelo seu ódio, momentaneamente ador- 
mecido pelo desejo de colher informações, que lhe erão tão necessárias ; 
mas de novo estimulado pela conhecida vizinhança doGalabar. 

Caminhando, o padre passando para o lado do taboyar, disse-lht ao 
ouvido: 

— Não receiais novo ataque ? 

— Não— respondeu o gentio em voz baixa. O guerreiro branco 
disse bem : se houvera mais pityaguares na selva, tinhão de certo cosrida 
ao combate. 

£stas ultimas palavras forão pronunciadas em voz alta e no dialecto 
das tribus do oeste, de ordinário intelligivel aos pityaguares, de medi- 
que o prisioneiro pudesse percebe-las. Proferindo-as o taboyar não tirava 
05 olhos delle. O rosto do captLvo era, porém, impenetrável. 



— *93- — 

A P9UC08 ptiuqê «cbárãoHM de novo á bára da torrente. Vieini^ 
observou longamente, e nio tíu signaes de Domingos Fernandes. Im^ 
paciente já, o melhor meio qne achou para se' desenganar a respeito da 
presença do Calabar, ki, apresentar-se descoberto á borda mesmo da ca- 
choeira. Era sem- duvida uma grande imprudência ; mas, ss uma baila 
não viesse do outro lado, era signal in&llÍTel de estar já longe o mestiço. 
Vieira, como todâa as almas fadadas a grandes cotisas confiava na sua 
eetrella ; e, dando provas de grande tino e bom conselho em outras 
cousai, no que lhe era pessoal se mostrava d^ uma tçmeridade, que ás 
Yozes pareda insensata. 

A boa estreUa de Vieira não lhe mientiu nesta occasifto. Nenloima 
aggressão respondeu á eiçperiencia descautelosa do mancebo . £m tomo, 
e aléin, a p^^ solemne do ermo, e a sevendade augusta de uma natu- 
reza gigante. 

— Não está já ali— disse tranquillaaiente Vieira, volvendo ao en- 
cjontro dos seua, cdmpfnheiro^. 

— Nesse éaao — respondeu o padre — o essencial agora é passar- 
1^08 á outra margjsm. 

«f Como?'— observou Vieira -^ como hayemos de passar, se temos 
esta communieaç&o cortada e se importa conduzir o prisioneiro. 

— - Abaixo e adma dás cachoeiras ha vào — disse o taboyar. Qualquer 
delles fk» distante, mas pode-se passar. 

— Qual 6 mais fácil? «-perguntou Vieira. 

— E' o dê baixo — respondeu o taboyar. 

— Tememos peb de dma— redarguiu o mabcebo, 
"- Levar4ioe-ha mais tempo^ ponderou o padre. 

—Mas, com todas as probabilidades, disse Vieira, aproximar-nos* 
hemos do Calabar. O.váo inferior fica necessariamente mais na direc^^o 
dos reaes do Bom-Jesus, é esta sobre tudo que desfará evitar o mestiço 
Por isso mesmo que ó mais ficUj Doniingos Femandes* deve suppôr 
que o demandaremos de preferencia por ali. São outras tantas razões 
para que marchemos sobre o váo superior. Não nos pôde levar ainda 
grande distancia, e ê provável que seguindo-o^ consigamos saber noticias 
dos ou^ pityaguares, e por consequência dos nossos amigos. 

' ii «^ Quando quereis, Sr. Vieira, reflectiu frei Manoel, sois de tão 
consummada razão, como provado valor. Estou certo que e nosso 
t^aboyar é do vosso parecer. . ^ 

O. giáa pjM^wka mposta.tpmeu»diaBtelfa,' poli quewa necessário 



deMobrir irilbot oorot. Esta acçio fiprenii« ngBáfieara qve "urgior 
poiem-ie a camánho. 

Todoi três, levando comaiga o ptiyaguw, forio, pois, araatando» 
^ao aMgo do arroredo, para evitar qualquer emboscada que do outro 
lado Ibe piAdesso* baiter pr^rado o Calabar. Com lai han^em eiu 
procif o deseoQfifii^ do tndo^ 

.< £mqoanio oa oipedicioBaríos ossioi vfto proseguindo^ oumpro^nos 
C](pUcar a^raslo poc que o meatiço nâo apparecéra no logar do coaibatft< 

O CUabar,desfechftQdo o sainarcabux sobro Vieira, quAperfoitamento 
reconhecera á luz da lua, yira-o desipparecer atráa da arvoro «quoso 
abrigava. Por oonaequenciat julgou tolo ferido mortalmonto. Gomo o 
taboyar 0. o padi^o estivesioia.malbor encobertos, Domingos Fernandes 
não pud#?a adivinhar qu# o mancebo id cahira sob oi^pulao destes, 
evitando a morte. 

Nesta conviccio, amoitiço sestiu um rcgoslfo indisivel. O único 
homem, que os seus iostinctos lhe dizião que Ibe podia ser fttal, estava, 
segundo elle eria, para sempre inutilisado* 

Satisfeita, ou julgando satisfeita, a anda do odio, do abi pèr por 
diante a attençfto do mestiço tocnára«se menos intensa e mais. Mígligente. 

Domingos Fernandes viu eonfusamonte uns vultos separarem^e 
dos tronoos, e correrem por entre o arvoredo. Nàe os oonton, porém ; 
nem era facil^ entre as projecções tremulas da soflAni das arvotes^ 
agitadas pela aragem. Pouco depois ouviu o grito de guerra doi> pitysgu- 
ares, soando mais alto do que^oCragor da torrente, que tinha aos pés. 
Pensou que o taboyar e o pa<bPO, amedrontados pelo desastre de Vieira, 
íugiio soba impressão do pânico^ o imaginou, com ezií^smaplan^ilidade, 
quenãopodião esoapar áperseguif&o e ás eB&daa dos tapuyas. Por 
algum lampo escutou ainda; mas o^mmor da torrente impQdia*o< de 
ouvir o combate que se afiásiára. 

Houve um momento em que julgou pereeber também e giito de 
guerra dos.taboyares. 

Como timos, nfo se engafiára.. Mas a hypethcse dt ima tiinmidMi, 
por parte dos expedic&onarioiy ena tio > improvável e pareeia-HM de^ 
tal moda absurda, que nem um instante se demorou em* tal eonjectura. 
Por outro lado mais de um chefe, ferido de morle^ soltam, «D oahir, 
aquelle grito^ e eia O' si^)pQSiçíM> que mais visos tUha de verdade^ se 
porventura, fora real o que lhe parecera distinguir. 

009 ihífluirfantela e asestiga suUa aa jdio áapatamimr qie já 



lhe Miiriíi^e poiil»vfani ver tt dmcobriÉ «Igona^ eoiM^ins^ etítí^ã 
outra margim loiie maii baiia, lamento te Tião «• OQ^asIdm «rf^rèi, 
ea fttetenqpojáe combate ae^pafaaya debaixo delkus icanâo^aofitario o 
matagal^ wdeo eapaço descoberta. Além diaio, nlo era £idl apreday^ 
deaoile ea ol^eetoa a uma distancia de auii de treeenles passos. Pèir 
um instante, o mestiço tSTe idéa de se lançar de on^o lado para T^fieaf 
todo pcAos se» pionvios oHies« Genheoendo, porfai, as diiOealdadei. 
de repassar a torrente, no mesmo ponto, por^e do^oulro lado-irilaèaifto 
palmeíiis tão próximas qne Ihepodessom propotoionar a ooBmtt«ioaç&o, 
e lepu tando iniitU semelhante minuciosidade, o Qslabar desceu] tran'*^ 
qoiUamente* Não perdia de fista qu&tinha outra missão a cumpriVj efu» 
todo o seu credito para com os hoUandezes depeodia desta primeiía 
empreaui. O importante para o mameluco era juotac-ie aos lôtyagttaresf 
queeffectlTamentetinhão ficado a quem da torrente, e voltar com eUes áS' 
SUAS tnbus, afim de os resoWer a acompanha-lo até Olinda. Sem se 
inquietar, po^í, de mai« nada< affastou-se, internando-se pelo mato, em 
uma direcção que de antemão indicara . 

Qoanto aos dous últimos pityaguares que vimos intervirem no 
combate, era uma cilada» previamente disposta para.assegurar oexito do 
combate.. Gomo, porém, o taboyar ^ qs expediciuqAríos, pela rapidez 
dos seus movimentos, havião mudado o terreno delle, a aggressão 
tinha perdido a unidade combinada. Os dez pityaguares, que primeiro 
vimos apparecer, confiando no numero, como jA se foz ver, havião 
commettido a iauprudencia de se descobrirem arremeçando-se ao matagal* 
Os outros dous mais cautelosos tinhão sido forçados a um circuitos; e^ 
ayançandp pelas ramadas, tinhã/O chegado mais tarde. , Estes dous 
encarregados de cortar a retirada ou cahir pelas costas sobre op. 
expedidonasios» ^raustoruada m ordem 4o .^M^^O) ■. achar|io-se colhidos 
no próprio laço que armarão. 

Volvamos agora um pouco 4trã8, e procuremos saber neticias de 
Ayres Gil e mestre Uarça]» de^em jãnos temos Mpamdo um taptoti 

O fogueteirp aceiliou com um certo prazer as disposíçères .tomadas 
pelos expedicionários. Era para. elle quasi «ma resurreição. A com^ 
paiihia de Ayres inspirava-lhetoda a.confiança, porque o mosqueteiro 
se era um pouco brutal nas demonstrações da s«a amizade», em eomr. 
pensação, chegadas as occasiões, era um protector .efijoaz*. Nestas 
disposições da espirito, mestre Estouro acampou com delida ã sombra 
do eva^ çU|s|ialmeM^as,. linha ;a consciência de â^ai; Jooge d9<theatro da ^ 



— n — 

(nena, 60010 ie diz «ateie de jomil; e, «oáiettíia teoipO) nio ti 
mettia pelei eipeieiuas eelvoías, coma que não era tomham omito da 
sua paiJKÂo. Uma ió cooia o jenleíavaf eia a tenas preoccaiMiçio do leu 
aopdgQ Ayres, e es euidados da stta ▼igílancia, que iDdica¥io luna tal 
o« qual ap|iidieDsSa« No euAanto o £ogueleiio attcibuia tado ieie aes 
baJtiitos miiitaies do soldadOí è procurava serenar a inquietação qm de 
lez em quando se lhe lerantava confusa no cérebro alinlndo, ooma as 
nuveiisíebas quejeo horisonte presagiio.a tormenta. 

Mesbre Marçal pensou priíoriro que lado, em aproreiCar nqneOlts 
heras de descanço para dormir um pedaço, o que ou6ro quaiqMr firria 
também no seu logar ; mas no reino tinh&o-ihe contado tantas ideteins 
de serpentes, de vampiros e de lásectos cuja ferroada erti nuMrtid, qne 
o nosso niestre já nfto uÉara wtrégarnM ao somkie', sem ^ ftniimdáns 
preeanções. 

— Dizei-me y69^ Âyres^dissé elle no tom insinuante deqaém quer 
saber mais do que pergunta— pois que tendes visto (taiata cousa, sabeis 
se é verdade o que se diz [de umas certas cobras destas terras, que 
são verdes, côr da folhagem das arvores e que, em apanhando uma 
pessoa descuidada, pendurão-se os ramos pela cauda, e depois em 
menos de um sanctiamen. . . credo I 

Um calafrio involuntário cortou a palavra ao mestre, tomado de 
terror das suas próprias reflexões. 

— O que é ?— perguntou o mosqueteiro, que não lhe tínlia dado 
muita attenção. 

— • Despachão a gente para o outro mundo — continuou mestre 
Marçal, terminando a sua phrase. 

— Historias I— observou laconicamente o mosqueteiro, sem des- 
pregar 08 olhos da margem opposta. 

— Mas é que ha historias destas, que sãO capazes de dar terçãs 
no pino do inverno. Uma velha conheci eu que.... por sigoal 
vizinha da Sra. Medéa Brandoa, que Deus tenha por muitos annosiooge 
de mim. Dão porque eu lhe queira mel, mas porque, em verdade vos 
digo, que sempre é um génio maia damnado que o demónio encaixon 
no corpo de uma mulher. . . 

— Já sei : adiante. 

— Pois lá vai. Como eu tos ia contando, a vizinha, que |á tinha 
ue seus quarenta puxados, e com isto uma ponta de lingua, que era 



mesmo um kmtAPaDeos^é.lá nisso nlo^ActtfKtteWM^i^^ttiiilM 
mulh^».. ... ' . .. , 

— Adiante^ aâísnte^ homem^ i . ;.« 

— De Tagar se tsí ao longe. . . Como tos ia eònUmdo^ < a wii^ 
era casada toía um eak&le da Ribeira, é foi nm' dòmiiigo de tarde 
passear coiii<K marido ás hM!» de' Chellan.;. sabeis. .« no reino 
é muito o oostumé. .^' tai se nSo aquando, ^miBtletf-se em um eanafad^ 
e não sei que artes ieve o diabo (abrentmeio, iuiittigol \ qucf thè mofdái 
um lieránço ao pé de um tonloze]lo>^. quamioTeio para easa^ tinha 
o pê como um trambolho... Deus me livre de desejar miai ao 'proidmõ-; 
mas, se ateim tivera a língua, jurara que era castiga de Detts . . • o^<|iie 
lhe valeu foi uma mulher 4e virtude, 1& do bairro, que lhe ' poz em 
dma da fetída um pedaço de isca de uma meia de Nossa Senhora,* q<i»i- 
mada á lur de um cirio pascal. . « se não fosse isto, a mulher estava nos 
anjinhos... nos anjinhos, a bem dizer não, porque... mar^ emflm 
tinha-a levado a breca, isso é que não entra em • duvida. 

Mestre Marçal, nestas divagações, procurava distrahir os próprios 
temores e ver se soltava a língua ao seu amigo» o que naquella oceasião 
nãoerabcil. «. 

— Acabaste ?— perguntou este todavia, depois de ter interrogado 
attentamente todos os objectos circumstantes. 

— A historia da mulher do calafate ? Acabei. £* de arripiar, não é ? 

— Pois sabes o que eu tiro de tudo isso? £^ que mestre Marçal, 
por alcunha mestre Estouro, é um asno chapado, não tem mais alma 
que uma gallúiha. 

O mestre ficou aturdido. Não esperava aquella conclusão ao pon- 
deroso argumento de autoridade, que tinha adduzido. 

O mosqueteiro continuou desejoso de se desembaraçar de impor- 
tunidades do seu companheiro. 

— Se queres dormir, dorme, e não gastes palavreado» não tenhas 
medo; se houver novidade eu te acordarei. 

— E as cobras? 

— As cobras tém outra cousa que £biz», e não vém agora eaiLi^ 
t«r-se com uma carcassa velha. Onde diabo tens tu a cabeça ? 

— Em cima dos hombros, e desejo conserva-la o mais tempo que 
seja possível nesta posição. Não acho outra que me sirva tão bem. 

— Basofi9' Yês ahi por ventura rasto de cobra, ou parece-to 

que eu deito a fugir como tu desses animaes in^undos? . 

i3 



qae o leu tmigo eipiimisse em mais ou menos ieimof fm^$e(9$ 
détrellofl; mu, em lodo o easo, Mbia ^pie podia eonUr cone eUe. O 
meeqBetMjn>liiikft-]te dilo^pie leliouTeiiie nondade o aoofteia- Mestre 
Mnfal c<«]ieda já oemo Ayies eaitiuna?i icoidarlo ; anp leflet^i fsp 
ML mrthor. isso do qo» ser Tietímado .algoma sor^osa. . Poitanto^ 
imiosenu le ledekí a pomos momentos lesonaTa. comQ «e nfto. e|ds- 
lissem pi^ragniies oem « senhon Ifedéa Brandoa. 

A msier paite do dia pessoa-iN^ asiim. O sol ahra^ ; ' ntuuk a aondin 
das palmeiris modifioafa es seos arâo9es« De yes em qjoiíi^a* Ajres ex- 
plfraTaa maKgem da torrente psra ir saciar a sede fóin.4o àLeanoedas 
cachoeirui. sem perder de yista o arroredo fnmteiro. Afiotl £ez-|m. sentir; 
uma necessidade, que não era menos urgente emestomi^oa qtm a iiyãga 
4efnára necessariamente famintos. O próprio mestre Marçal, a^ooidsndo, 
fnaxoQ-ss de cúmbras no peito« 

— Yê lá, mestre Estouro —disse o mosqueteiro—* que trazes ta abi 
no alforge? Procura. 

Mestre Marçal procurou, efez oinyentariodasua bagagem. 

— Uma dúzia de valverdes, dúzia e meia de pistolas, .trem Taisas de 
est^ins e dons arráteis de pólvora. 

— Mais nada ? 
•— Mais nada. 

» De comer, homem, de comer? 

— Digo*vo8 que nada. 

—A culpa tem quem te entregou os mantimentos. Fartaste-te, mestre. 
Agora é fizer cruzes na boca. Assim não estivera eu no mesmo caso. 
Atolaste o dente no lombo do padre%.. 

— Anjo bentol que dizeis. Era lombo de porco. 

— £* 8Ó para o que serves, bruto. Nem um pedaço de pão se qnar! 
£ a fome a apertar^nos. Parece cousa do diabo. Agora ainda eu sinto 
mais appetite. 

Mestre Marçal desculpou-se com os roubos do macaco. O réo n&o 
podia justificar-se, bem que estivesse presente. O fogueteiro tinha tido 
tentações de se desembaraçar do mono na passagem da torrente; mas, 
como lhe tínhão vivamente reconunendado o seu trani^rte, não 
ousara. 

O mosqueteiro lançou os olhos por instineto ao cadáver do animal 
mas afutou^os com ledio. 



fc 



Ayteê eratbTum a si» MoUeftHa. Ibitrf Mtsgúi (w4t ?wudi 
tadtolio, porqae d&o tini» enonndo a sitoaçSò por esto tfpecto, mbííii 
renascer as suas apprdiaaeõat; é| a sen pezar, lembrara^se oom laudade 
do feJBtim pantagnielico eom qua so tinha Tegibdo no mato. O tatamago 
do ip>ol)re mestre viVia ée reoorâaçfiei. -x i t, ... 

l^aHadá nina hora,' Ayrea dirigiu demovo a paJatra ao Sogn^eiíOf 
fitando o fuadiúmatío, - estendido na rdfB, já com mMios rapognanaia 
do qne pela primeira vez. 

» OVbà lá, mestre; o padre Hoiaes', i;im bm deixa da ler amigo 
dos boas hoMtõê, não dizia lá tenito mal de caldo de aoacaeo. > 

— Caído de maeaco ! « • . Pnnhl^reapondeu mestre Virçal fitaeBdo 
uma ^isagem de nauseado — antes . • . • ! 

-^ Antei;nm naco de pretnnto de Melgaço ou uma enfiada de trutas 
do Miliho, isso digo éu'tamb(Hn e não é preciso ir a Coimbra, Mas quem 
sabe, homem? A's vezes debaixo de (uma ruim capa está um bom be- 
bedor. Não é ínais asseiado o porco do que o macaco ? e, como lá diz o 
ditado «asno com fome cardos come. » 

— Cardos ainda, [ainda. Guisaya-os a Sra. Medéa Brandoa, que era 
de se lamber ' os dedos. • • também era a única cousa boa que lhe co- 
nhecia. ... £Kz-me crescer agua na boca só lembrar^medelles... mas 
macaco I... 

^ £m> Flandres comia eu uma caldeirada de rãs, que ninguém diria 
senão que era de èoixas de fraogões* Homem, na guerra não ha me- 
lindres.... 

Os nossos companheiros não apparecem, e mais vai comer macaco, 
do que morrer sem comer. Não é a primeira vez que tomo gato por 
lebre, nem tu também, mestre. v 

Mestre Marçal já olhava também para a caça do taboyar com muito 
mais complacência do que até ali. O apetite afugentava os escrúpulos. 
O mestre mirou e remirou o quadrumano. O que sobretudo repugnava 
a ambos era a similhança daquelle animal com q homem. 

— Se esperássemos mais um pedaço I --- disse mestre Marçal para 
o mosqueteiro. Os outrejs sabem que eatamoa sem viveres, e talvez não 
tardem. 

Ayres ree^inou-so, porque também não lhe inspirava muitaa sym- 
pathias aquellegenerò de alimento. 

O sol^ porém, ia já declinando, e por mais que o mosqueteiro aUon- 
gasse 08 olhos nada descohriai nem inimigo» que o distrahissem, nem 



— toa— 

ani%oi ^ BevataMèm* A f orne apcrtafa aedaiiifalt. A|(ni tei^ 
resolução extrema, e piorompea impetaomneota pant a ft^s^ietoísor; i , 

^ HeiCre Mar$tl:«eeende tome e €fli»k o macaco. 

M e i l re Itojatjá tínha tido a maamaidéa, apeiar dose leraUn 
contra ella toda a oonadenda dasaaas tradições cqlin«riM,. O nastsi 
sacoo do sea eoxilbo, e lançou mio do animai, não sem algnmai tarita- 
çõa»^ Letantando^, porém, fns nm tregeito honiird. 

— Que é isso ?— pergimtoa o mosqueteiro. 

Mestre Marçal pamoa«Ih'o sfleudosamente desfiando o lopto. Ayies 
pegou-lhe por um ino?imenlo marJiinal e apeou o apioziíiioii 4b a^ 
arremeçòu-o á tcvreote com uma dozia de prigas» 

— Pauhl diabo que peste!... 

O cadaTor do quadrumano estâfera por umas poucas de hamm exposto 
ao sol e nem a bordo da jangada da fragata Meàuta seriarjá aHbwdIo 
possível. - 

» £ agora ?-»-perguDtou mestre Marçal consternado, paieeendo^e 
já que macaco assado, no seu perfeito estado de conserraçSe, podia ser 
um alimento muito soíMvel. 

O mosqueteiro reflectiu profàndamente. Passados alguns segundos 
respondeu : 

•— Afinal, Deus faz tudo pelo melhor. Os nossos companheiros 
conhecêriio qoe havia gentios no mato pelo fumo das suas fogueiras. Se 
accendessemos lume, podião os gentios dar por nós. N'uma terra deetss 
não ae morre de fome. fia fructos por essas arvores. 

— Qaem sabe se são venenosos I 

— Lembra-me ter visto, não muito longe, umas bananeiras. £' por 
além, pouco mais ou menos. Vai depressa e traz quantas puderes. 

— Pois sim ; mas os bichos ? 

— Então deixa-te morrer de fome — respondeu o mosqueteiro que 
conhecia o seu amigo. 

Mestre Marçal deliberòu-se por fim, vendo que não havia outro 
remédio, e foi-se em demanda das bananeiras indicadas. 

Passarão perto de duas horas ; as sombras descião precipitadas, 
e mestre Marçal não apparecia • 

O mosqueteiro esfaimado impadentou-se primein^ e preguajou as 
lenidades de mestre Marçal e a sua inhabilidade absoluta para cousas de 
urgência. Depois começou a conceber apprehensões, ao passo que se 
prolongava a demora ínconcebivel dd fo^eteiro. Ayres Gil, porémi, por 



^ 144 — 

neiíhom. essa Bcstt nrando abaadonarit o po&io que fora conflua á 9áa 
irfgUanw. 

Uestra Uarçal partirai deixando a sua bagagem para ir mais leve^ 
mas por um instincto de prudência q[ue nunca o abandopaTa> mettôra 
nos bolsos dous òu três valferdes e outras tantas pistolas.- Os valverdes 
deitinaTa-os elle a afogentar quaesquer animaes damninhos, se por 
yentura os encontrasse ; porc[ue tinba outido dizer que as feras temião 
o fogo. As pistolas guardava- as para dar signal de si ao mosqueteiro, 
no casO) aliA& muito possível, de se perder nos bbyrinthos da selva% Erão 
as unioas armas de que mestre Marçal sabia servir- se. 

O fogueteiro, guiado pela necessidade, não tardou em descobrir as 
desejadas bananeiras. Nestas situações, o bomem mais tímido esquece 
em breve todas as preoccupações, aguilboado pela urgência que o 
aperta. O nosso mestre, ajudado pelas suas longas pernas, trepou com 
mais agilidade do que se podia esperar dos seus hábitos, a uma das ba- 
naneiras, que se lhe offerecia á vista carregada de um formoso cacho, 
contando fazer delle provisão amplíssima. Como avançasse os olhos 
e a mão para elle estacou subitamente como a estatua da [estupefacção. 
Nem todas as cobras cascavéis dos Brasis lhe poderião fazer mais 
eifeito. Mas desta vez os terrores de mestre Marçal erão justificados. 
Na arvore fronteira, em posição, pouco mais ou menos análoga â sua» 
só com a única difíerença de mostrar muito menos pacifica attitude, 
apreseiAava-se um pytyaguar. A frecha apontada não deixava duvida 
sobre as suas intenções. As pinturas medonhas e o aspecto feroz do gentio 
gelarão o pobre mestre até á medulla dos ossos. 

O fogueteiro olhou para baixo instinciívamente, procurando a der- 
radeira e insensata esperança. Por baixo e á raiz da arvore estava outro 
pityaguar com a tacapa empunhada. Por todos os lados para onde vol- 
vesse as vistas, não via senão pityaguares. Tiobão surgido sem, se saber 
d'onde. Mestre Marçal estava colhido como em uma rede de tacoaras 
agudas e de maças ameaçadoras. 

Então, me&tre Estouro' perdeu totalmente o accordo. Julgou se 
sinceramente perdido, e encommendou a alma a todos os santos do 
kalendario. Atacado da vertigem, cada tronco se lhe figurava um pi- 
tyaguar gigantescp, e cada ramo um sedeiro de frechas. No excesso do 
terror, faltárão>lhe as forças, e, largando as mãos sem tino, baqueou 
no solo atapetado de folhas. 

O pityaguar, que o esperava ao sopé da arvore, acreditando em 



— - 101 — 

unta aggrei sio por parte do inofféiudTO mesiroi Mlton Ób Itdo, e préfi* 
raya-se para o atacar. Mas o fogueteiro estava realmente sem acendei l 
es genttos, gmpindo-sc-lhe em roda, eonhecti&o bieremente qêe do 
tal homem nfto tinhfto a esperar resistinâa. 

Em um abrir e fech» de olhos mestre Marçal estava eoUdazáfints 
manietadOí pouco mais ou menos como os expedidonarios havi&o fBâo 
ao pityaguar prisioneiro. A impressão dos liames, ^e o comprimiãOi fti 
tomar a si o nosso mes^e. 

E* impossirel contar que desesperadas lastimas este laiíea anancoa 
ao pobre de mestre Marçal. Quantas deprecaçOes lhe lembriílo paia 
exorar corações de pedra, todas lhe afflui&o aòs lábios com a TeÉbosí- 
dade eloquente , que dá a desesperação ; mas, - além de Kie nio m- 
tenderem uma palavra os pityaguares, fora mais fácil conjurar a onça no 
arremeço» do que abrandar aquelles homens mais feras do que as fons. 
Os gentios não comprehendião as lagrimas, e um homem a chorar en 
para elles um phenomeno, que não tinha nome na sua lingua. 

Uma só consideração evitava a mestre Marçal o golpe derradeiro— 
era o desejo de colherem um prisioneiro. O destino do fogueteiro 
reservava-o para regalo da mesa daquelles cannibaes. 

Se mestre Marçal pudesse advinhar a sua sorte, teria, sem duvida,' 
acabado ali de uma apoplexia do susto. O cândido mestre tinha 
ouvido fallar, é verdade, na existência da antropophagia; mas, lá de si 
para si, guardara sempre uma certa incredulidade a respeito de um uso 
tão contrario a todas as suas idéas gastronómicas. Fora tamanho o seu 
terror, julgara tão firmemente achar-se já espedaçado, que, vendo os gen- 
tios contentarem-se de prende-lo, precaução que elle mesmo reputava 
absurda, pensou comsigo que afinal o demónio não era tão feio como o 
pintdvão,emalpormal que tanto valia ser prisioneiro dos pityaguares, 
como bagagem dos expedicionários. Feitas bem as contas, talvez mesmo 
valesse mais, porque^ se os pityaguares quizessem mata-lo, já o teriâo 
feito; e, por consequência» era muito provável que lhe fornecessem 
algum alimento para o não verem esticar á fome, cousa que naquelle 
instante era a preoccupação do honrado mestre. Consolado com estas 
idéas, mestre Marçal recobrou uma tal òu qual serenidade de animo. 

O grupo dos pityaguares separou-se, deixando dous de guarda ao 
fogueteiro, que forão com elle iaternando-se pelo bosque. 

Ayres Gil, no entanto, não sabia que pensasse. A sua impa- 
ci<encia tinha passado a frenesi. Todavia, advertido por estas mesmas 



— W3 — 

nqnietflçSes, moliipIieaTa a lua vigilância. Segundo as zeconunencla- 
çõês de Vieira, devia esperar o perigo do outro lado da torrente; e, a seu 
pezar, todas as apprehensões se lho applicavão no espirite á margem 
que oocupava. Por mais que procurasse explicar o desapparecimento de 
mestre Marçal pelo encontro de algum Jagoar ou guará, o que lhe fazia 
tefr remorsos de haver enviado o pobre fogueteiro, não se lhe tiravão da 
idéa as artes e astúcias do Galabar, e a possibilidade de andarem na- 
quillo os pityagnares. Fiel, comtudo^ ás instrucsõee recebidas, nio 
arredava pauo. 

Qoapdo mais embebido se achava nestas cogitações, pareceu-lhe 
^er ondear de um modo desusado os arvoredoslfronteiros. A sua atten- 
ç&o redobrou. Passados instantes, apezar do escuro da noite, divisou na 
outra margem uns vultos que parecião querer aproximar-se da ponte, 
ainda suspensa. Este movimento Jôra precedido de um silvo agudo, 
que, por entre o fragor da torrente, para o mosqueteiro, pouco habilitado 
aos rumores da selva, parecôra o de algum reptil. O silvo, ou signal, se 
o era, partira da margem d^aquem. 

Ayres estava preparado. Agachou-se mais, atraz das palmeiras, e 
sacudindo a cinza da corda^ dispozse para fazer fogo. 

Os vultos tornavão-se cada vez mais distinctos. Ia o mosqueteiro 
a chegar fogo, quando uma dôr agudíssima no braço direito lhe fez 
involuntariamente largar corda e mosquete. Ayres sentiu que estava 
ferido; mas, não podia advinhar donde lhe vinha o mal. Sem perder o 
accordo, tenteou o braço. Fora passado por uma frecha ; a rama fica- 
va-lhe na recta-guarda. Evidentemente era atacado pelas coitas. O 
mosqueteiro, cujo animo não succumbia facilmente, quebrou a frecha 
® arrancou do braço a tacoára. Quatro ou cinco pityagnares estavão já 
a poucos passos deUe, na própria margem em que estanceava. Formavão 
parte dos que havião aprisionado mestre Marçal. O mosqueteiro acha- 
va-se colhido entre dous fogos. 

Ayres, então, cprtou a ponte, porque o caso era extremo, e procu- 
rou fazer frente aos novos inimigos. Dando as costas ao grupo das palmei- 
ras, para evitar os tiros de fronte, teve tempo ainda de levantar do 
chão a corda aceesa«Tudo isto foi feito em um abrir e fechar d^olhos. As 
taeapas dos gentios já estavão, porém, eminentes sobre elle. Ayres lan- 
çou-se por terra para ver se podia arrastar-se até ao seu mosquete, com 
o qual, apezar do numero dos inimigos e de achar-se ferido» o heróico 
soldado não desesperava de sustentar a posição, ou, pelo menos, vender 



— 104 — 

etnia vida. Cahlndo, Ayres encontroa com a m&o of aHffidoi de logo 
qne mestre Marçal amontoara ali no sen infentario. Uma idéa MpeaUnt 
átraTesson-lhe- o espirito. Gomo ainda conserrasse na mio a corda éi 
tnosqnste, chegon-a rapidamente aos estopins enCdxadoi. Oi irtíílcios 
tiomárão fogo, e oii talrerdes e pistolas, inflammando-se, ptiUriío cm dif- 
rentes' direcções. 

Foi indizivel o efieito qne esta explos&o inesperada, qnasi debaixi 

de sens pés, prodttiin nos pliji^ares. O pe^eno grupo difpersoiHe 

dando alaridos temerosos. AqaeUe phenomeno que não sal^o foq^at 

parecia-lhes de tal modo sobrenatoral que nenhum delles ousou ficar em 

frente do mosqueteiro. 

Era o que este desejava. No mesmo ponto saltou sobre o teu mos- 
quete ; e posto que perdesse abundantemente o sangue pela ferida, pre- 
parou-se para dar caça aos pityaguares fugitivos. 

EnUlo uma voz bem conhecida damou-lhe ainda de longe. 

— Rende-te ou estás morto. 

A lua Tinha surgindo. A' luz delia e das pistolas que continnavio 
a disparar, rastreando o solo, o mosqueteiro distinguiu o mestiço que 
avançaya sobre elle com o arcabuz apontado. 

— Render-me, cão 1» bradou o mosqueteiro rangendo os dentes. 
Espera I 

Por um esforço prodigioso alçou o pesado mosquete á altura do 
hombro e chegou-lhe fogo. 

O tiro partiu desatinado, porque o braço ferido Ido mosqueteiro não 
podia firmar pontaria. Ao mesmo tempo o couce da pesada arma derru- 
bou-o em terra tomando-o enfraquecido. 

O Galabar tinha já corrido sobre elle. Nesta posição, e no estado em 
que se achava Ayres, a luta não podia ser longa. Com o esforço qua 
fazia, com a perda de sangue e o excesso da cólera, Ayres perdeu os sen- 
tidos. Em tal estado fácil foi ao Galabar atar-lhe as mãos com a bando- 
leira do arcabuz, e segura-lo de modo que todo o movimento lhe foss^ 
impossível. Depois pensou^lhe a ferida. Domingos Fernandes também 
queria ter reféns. 

Tomando a si, o mosqueteiro desabafou em um diluvio de pragas 
como era seu costume. 

O Galabar contentou-se de lhe redarguir com um sorriso des- 
denhoso. 

— Cala-te : responderás quando eu te interrogar. 



— ^ lOÔ — ^ 

A^rei sorria também. Tinha percebido que o mesti{ò desejara iníòr- 
mações, e resolvera já no seu espirito yingar-se, contando-lhe as cou- 
sas mais estupendas que lhe podião passar pela imagÍQ(^ção escande- 
cida. Nesta disposição, Ayres, quando o mestiço lhe ordenou que ò 
acompanhasse, por que tinha tido a cautela de conseiryar as pernas 
livres, mostrou muito mais docilidade do que natúrahnente esperava o 
seu inimigo. 

Domingos Fernandes seguiu pelo mato na direcç&o que já tinh&o 
levado os pityaguares que ião de guarda a mestre Marçal. Esperava 
achar no caminho os outros gentios dispersos, ou encontral-os em algum 
sitio dado. 

O Calabar havia passado o vau superior da torrente, e, prevendo 
todas as hypothesesy deixara na outra margem os pityaguares, que vimos 
atacar Vieira e ameaçar Ayres, facilitando a sua captura. 

Todas estas combinações se não havião sortido um efifeito absolu- 
taihente completo, não fora falta de vontade. 



hn DO 30 VOLUME. 



14 



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CALABAR 














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DO 



SÉCULO XVII 



POR 



<2/e>à/ CM y/íi^a (^/^ifftíu-ií Jzfeac^ Q/u*zto*^, 



VOLUME IV. 




mo DE JANEIRO. 



Typ. do Correio MiRCÀicTit, ma da Qjitanda n. &B« 



ftiftOS. 



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t 




CALABAR 







DO 

SÉCULO XVII. 



TOMO IV. 

CAPITULO I. 

ITRIO E ROSA. 

MqRos dkf hariSo decorrido desde a partida de Vieira. No aeam- 
pamenio, o eapitão-m^r e os chefes, c[ae tioh&o coDhecimento da sua 
missão, esperay&o-o com impaciência, e inqnietavão-se da demora. 
Mas esta inquietaçio e impaciência nem comparação tinh&ocom outras, 
que, por serem menos apparentes, não erão menos intensas. 

Por baixo daquelle ruido^ de homens e armas, de combates e mano- 
bras, de peripécias sangrentas e commettimentos arrojados, uma dôr 
funda lavraya anciosa. Era saudade, era tristeza, era solicitude, era 
ternura, era affecto e paixão. E tudo isto, todo este mundo de poesia 
ede amor, jazia semi-yendadoe occulto no coração de uma donzdla, 
que entre a dôr de tantas dores sé yiyia de Qutra d6r mais sua, mais 
interior, mais aguda e pungente. 

Deixemos es nossos expedicionários nas yastas solidões do sertão 
e nas agruras incultas da selva. Saberemos depois o que foi feito delles, 
no mi^ das ciladas, rodeados de inimigos, tendo só por si Deus e a sua 
coragem. AppHquemos agora a attenção á quadra mais suaye na sua 
pura melancolia. Vamos, não hesitemos. Descerremos a porta da prori- 
soria habitação de D. Isabel de Góes nos reaes de Bom- Jesus. Ouse- 
mos leyantar as colgaduras pendentes, emquanto a proyidente senhora, 
emumambHomals limitado^ renoyaas seenas de agitação domestica, 



perenne occupação da i|Q9 YÍd&.PeDetreiQO& ató ao intimo sanctoario, 
até á camará mais recatada, até ao aposento das duas meninas, <iQa 
serião ainda a alegria daquella fsmilia traosplaotada dos seus lares, 
86 a tristeza de uma dSo yellasse de dolorosos crepes a vivacidade 
inquieta da outr«» 

Sl-las. £m uma atiya-se de rubor a Ut morena, rerellauiéo aidn 
abundante Na outra, sob a psllidez transparente como a das pérolas, 
dir-se-ha que palpita a magua. £' verdadeiramente o lyrio e a rosa, 
como inscrevemos na frente deste capitulo, ambas flores, ambas formo- 
sas, ambas puras e perfutnadas;^ mas esta - péò^nte e laoguida, sntor- 

r 

nando do cálice um orvalhtt de Idgrímas, suíjpirando ausências, des- 
maiada de terrores; aquella—sorriodo ainda eotre os pezares, dando á 
amizade o calor da psixào, luxuosa de yida, estendendo os ramos 
viçosos, que das tempestades njio sabiâo.ssniio o nome, a que se lhe rea- 
lentava nelles curvada já pelo sopro do vendaval que lhe devassara 
o seio. Lyrio debruçado, rosa florescente, enlaça^râo-se pois, revendo 
mais graças no contraste, servindo de reciproco relevo á mutua for- 
mosura. 

Tereis já adivinhado nas duas flores, que pleiteavão mimo e íceseor, 
as dua9 primas da casa de Góes e Bereoguer, Anninhas e Maria. £- 
inútil dizer porque o lydo se inclinava laci imante; occioso seria explicar 
porque a rosa borrifava também de prantos as magmficencias de sem 
lustre e côr. 

Anninhas nunca amara; mas, como todas as meninas da sua idade, 
adivinhava o amor. Presentia-o nas vagas aspirações da sua mesma 
innooencia. Compadecia o nas lagrimas que elle arrancava deoufccosi 
olhos. Maria era verdadeiramente a fílha da America, ondulante, melin- 
drosa, quasi indolent<d como as noites suaves do seu paiz ; mas lá dentro 
uma superabundância vivaz sob a pallidez alabastrioa, um vulcão como 
ps que rebentão de entre pedreiras preciosas. Maria era come uma har- 
monia viva, como um éco melodioso da harpa eólica, como o symbolo 
de toda a graça feminina, como um aDJo sob as vestes brancas, como as 
alvas fllhas das nuvens na terra de Fingal. Anninhas tinha ainda n^is 
veias, vivo, ardente, impectuoso, indomado, u herdado sangue do 
Meio-Dia. Debaixo^ da maotilba da andaluza ninguém lhe adivinhara 
a naturalidade. O sol dos trópicos puzera em ebulição aquella veia 
magnificente. Havia em todas as suas feições eomo a irradiação de 
tiim reverbero dourado. Quando das longas pestanas se lhe debruçavi^ 



• * 



uma lagrima, não era a pérola, era o diamante estrellando as corei 
do prisma. As suas magnas mesmo tinhão sorrisos. E que feiticeiros 
sorrisos erão ! Os seus prantos, como os chuveiros de estio, fulgião 
aos raios do sol. 

£ todavia Anninhas, impreisionayel como sua prima, accessiyel 
como ellá a quanto era nobre e grande, tinha, como ella também, 
seintillações de enthusiâsino e effusões de affecto. Erão unicamente 
indeterminados estes sentimentos. Yibraya-lbe a alma á mínima com- 
moção; mas os sons perdiào-se-lhe no espaço, e yoaVão ao infinito, 
immersos naquelle scismar sem nome, que, nos primeiros annosou 
nos verdadeiros amores, é como o cr^pu«iculo matutino dos corações. 
Os seus pensamentos ancíavão pnr tomar corpo ; mas não sabião dar- 
lh'o. As suas idéas tendíão a Inearnar-se em um verbo ; mas a boca 
balbuciante não atioava com elle. Seotia levantar-se lhe no coração um 
desejo incompreheosivel e inquieto ; mas não sabia dtífioi-lo, nem podia 
explica-la. Todos os pe^íares do amor achafão éco no seu peito, sem 
ella saber porque. Todo o soffrimeoto da paixão lhe era ^ympathico, e 
ou lhe mandava ao rosto uma nuvem mais rosada, ou lhe vertia nos 
olbÀs húmidos uma laogaidez mais bella. Naturalmente jovial e turbU' 
lenta, tinha distrações sem causa e melancolias sem razão. 

Todavia o frescor jubiloso da doozella realçava-se destas sombras 
passageiras ; e a necessidade de amar, que lhe amanhecia lá dentro, 
revelava-se apenas exteriormente na multiplicidade dos seus carinhos 
para todos a quem dedicava affectos. 

Nestas disposições de espirito, fácil é prever quão ptofandamente a 
interessavão as magnas de sua prima. 

Maria, por muito tempo, fechara no coração o casto segredo dos 
seus amores com Vieira. AIomis ha l[ue levão o pudor das suas sensa* 
ções até ao extremo, e que temem a revelação delias, como se fora uma 
profanação. Maria era uma deitas almas. As suas susceptibilidades ião tãQ 
longe em taes pontos, que muita vez qualquer palavra indifferente se 
lhe figurava allusão, e os estremecimentos de uma delicadeza, qoe ftfzia 
lembrar a sensitiva, trabião a cada momento a preoccupação e os senti- 
mentos que ella mais desejava occultar. 

A sensibilidade é um dom ás vezes funesto. O excesso delia, subindo 
aeima da apreciação vulgar, torna incomprehensiveis aquelles a quem 
Deus fsdõu assim. No coração desses ha fibras mais delicadas, ha 
instinetos mais subtis, ha cordas que vibrão «penas toeadas. Os que 



— 6^— 

até a existência détaes cordas ignorão, os qae n&o as sentem em si» 
os qne não comprehendem o senso moral a qae ellas correspondem, 
estranhão, repar&o, e quasi sempre censurão; porque o homem é assim, 
propende sempre a reprehender o qae não entende. A posse desta 
qualidade mais distincta, este fino toque, ele?a acima da turba, mas 
eleva para o martyrio, como um Golgotha noYO. Dá gozos que a multi- 
dão não percebe; mas dá tormentos também que o vulgo Hão avalia^ e a 
somma destes é talvez maior. 

O espirito, voando em regiões mais altas, quando as necessidades 
humanas o forção a descer á terra, sente as azas manchadas da poeira 
do mundo, e cada grão de arêa, que os outros sacodem indifferentes 
do seu grosseiro invólucro, é para elle uma ferida e uma dôr. Assim, o 
que para o commum ó complexo de accidentes usuaes, para essas 
almas é crucificação continua, ó a percepção do seu desterro no mundc 
£' por isso que taes almas aspirão sempre Deus e o infinito. A sua 
atmosphera é outra, a sua pátria diversa. A sua vida entre os homens 
não é vida própria, é uma passagem transitória. Aquella suscepti- 
bilidade, que as caracteriía, parece, na existência ordinária, um vicio 
da sua constituição ; e dahi se originão mil dores intimas, penadas no 
silencio, sepultadas no próprio mysterio que as envolve, e mais acer-^ 
bas, por isso mesmo, mais fundas, porque não podem yir á superficie, 
com receio de encontrarem a gélida ironia que as escarnece. Dahi 
nascetambem esse pu dor assomadiço que se espanta de tudo e de tudo 
se refugia no sacrário da alma. 

Maria, já o dissemos, pertencia a esta classe escolhida e rara» ouja 
organísação era toda melindres. Uma confidencia repugnava-lhe como 
umattentado. 

Todavia como poderia ella resistir á intimidade carinhosa de sua 
prima? Gomo havia de esconder-lhe o que a sua propia susceptibilidade 
a cada pasto revelava ? A semelhança das idades, a analogia de tendên- 
cias, a mesma propensão enthusiastica estabeleceu pouco a pouco 
entre ellas uma commuoidade de idéas que facilitava a caminho das 
confissões. A alma de Anninhas ia, porque assim digamos, ao encoatro 
da alma de Maria, offerecendo-lhe o coração, que era como um yaso em 
que a pobre danzella pelo seu pendor natural devia deixar trasbordar a 
plenitude de sentimentos longamente comprimidos. Anainhas ni^ 
solicitava confidencias de sua prima, mas fazia-a ella mesma confidente 
daquellai aspirações vagas, daqueUas melancolias da solidão, daquet 



las Tííiòes incomprebenfireif, de que procurara e nlo saUá a eaosá; 
Assim, estes dons espíritos ipâltravão-se um no oatro, misturaTão a 
candidez sem se turbarem, e lentamente se ideniificay&o em um s6 moda 
de sentir. Naqueilas intimas e seductoras conyeraações das duas virgens, 
a que um anjo podia assistir sem ter que desviar o rosto uma uniea vez ; 
nesta longa e affectuosa permutação de ternuras e commoçOes, o segredo 
de Maria vinha frequentemente a seus lábios, até que um dia cahiu 
delles, quasi involuntário, meio instinctivo, sem ella saber como e sem 
se arrepender disso. Dahi por diante o amor de Maria ficou fazendo 
parte da vida espiritual de Anninhas. As apprehensões, os receios e os 
terrores de sua prima er&o seus também. Nem era preciso fallarem-se. 

Inoccupado o seu coração, Anuiabas temia e esperava com o 
coração de Maria. Sem ter preferencias próprias, todas as faculdades 
amantes da sua alma, anciosas de expandirem-se, se havião concentrada 
nesta paixão congénere que dera um objecto e um fim aos seus indefi^ 
nidos sentimentos. Maria cedôra • também ao attractivo ii resistível 
daquellè desvello. Na absoluta innocencia de suas intenções nem uma 
podia conceber suspeitas de rivalidade,nem a outra,se quer, a possi- 
bilidade delia. Era uma sensação repartida, era uma existência dupli' 
cada, era uma dessas dedicações puras e sem macula, que rompem ás 
vezes o chagado sudário humano, e» irradiando para o céo, attestão a 
origem divina do espirito. 

Maria estava recostada em uma daqueUas largas cadeiras de es- 
paldar, que erão então o ornamento das casas nobres, e que D. Isabel 
de 6ói^, na sua solicita provisão, não se esquecera de trazer comsigo. 
Com a face encostada ao punho e o cotovello firmado em um dos braços 
da cadeira^ a menina de Berenguer parecia a estatua da dôr na attitude 
da meditação. O lenço de fina hoUanda, menos alva do quê o setim 
da cútis, pendia-lhe de entre os dedos levemente nacarados na extre- 
midade, que uma inflexão graciosa arqueava gentilmente. Dous fios de 
lagrimas corrião-Die silenciosos atravez das faces de jaspe, sem que cila 
pensasse em enxuga-las. 

A seus pés, çncruzada em uma almofada de chamalote côr de café, 
Anniphas, eem um livro aberto sobre os joelhos, erguia para ella os 
olhos, húmidos também, em um gesto solicito e supplicante ao mesmo 
passo it fira um grupo cdeste *, dava consolaigjio ve-lo e admira-lo* 

40 livco em apeeniitdasaiadfldes, tlíefiNi»eJÍ«fa, alyrieamais 
suaye, a emanação mais aiSsetuosa da poesia do seéuló XVI, aqueHv 



ènhelante deyaoeio rebentado da alma apsixonada do P^rarcha por^ 
tuguez. Um dos avós da meniaa de Gó'S obtivera cópia do precioM 
menuscripto ; e, desde então, o livro fora conservado oa família como 
nm yerdadeiro thesouro. £' escusado dizer que a parte feminina deDfl 
a a que lhe dava culto mais fervente. 

£m nenhuma parte o 

« gosto amargo d'infelizes , 

Delicioso pungir de acerbo e» pinho » 
como tão inspiradamente lhe chama o visconde de Almeida Garrett, a 
Bernardim do século XIX, em nenhuma parte, dizemos, esta chorosa 
companheira de todo o affecto contrariado se acha mais ao viro retratada 
e sentida. 

Compreheude se, pois, a razio por qiie Anninhas escolhôra esta kí- 
tara e por que Maria se pranteava de ouvi-la. 

Quantas vezes a letra immort4 do poeta eitincto é eomplice invo- 
luntária dos sentimentos que atravéz dos séculos se encontrão unanimes 
entre o livro e o coraçâul A sociedade muda ; a paixão é a mesma. A 
fócma modiflca-se ; o sentir não. Quando o espirito acha a eonsonaiida 
das próprias sensações com as sensações escriptas, nesse ponto de inter- 
secção opera-se uma espécie de uuiiicação moral ; os olhos do corpo 
affostão-se da pintura, porque os da alma revêm-se na realidade. Não se 
lé ; scisma-se, sente-se. A imagem fisiz-se visão ; o canto inspirado passa 
a povoar o coração e acorda nelie as notas que direòtamente lhe corres- 
pondem. O poeta transfigura-se. A sua voz é a mesma que se ouvia no 
crepúsculo da alma. A poesia torna-se o amor. A strophe encaroa-se no 
sentimento. Ha uma intimidade tal entre as faculdades divioatorias do 
génio, os vestígios do seu sentir e as impressões da paixão, que não 
se distinguem umas das outras. E' uma çonsubstanciação completa. 

Anninhas, vendo o effeito que esta leitura produzia em sua prima, 
tinha deposto o livro e interrogava-a com piedoso desvello. 

~ Que é isso, meu amor t — Dizia ella — Peza-te que Lamentor 
ficasse bem na justa, e que o pobre do cavalleiro da ponte tão malsahisse 
delia, e sobretudo de seus pacientes amores ? (*) 

l'^) Q<iem tiver lido o livro da Menina e Moça perfeitamente com- 
preh»'nd^iá estes f^xtrAct s A^s que o oao conh«'cem. para lá os remet- 
teii»08, e fí«mo8-lh^s que nãi perderáõ o tempo na leitura. Não usamos 
tambtiui da ortographia origioaria, e vertemos, porque assim digamos, 
alguns termos obsoletos para facilitar a intelligenda de ttxto ás péisoas 
menos versadas na archiologiada Ungua. 



?• 



^ ^lo — respondeu Maria, entre meditabunda e distrahida. — Qae 

ú\% o liyro ahi ? Não é isto : « Que desconeertoa da fortuna s&o estes ? 

Para verdes outrem tomáveis vós esta empreza : e eu para ver a y6% 

parti de casa ; e tudo era para não vermos o que desejávamos ! > £' 

assim, minha boa Anninhas ? 

— Assim é cdmo dizes, querida, tens já de cór o meu poeta. 

— Não tenho ; estas palavras é que me anilavão já no coração. Erão 
minhas eonhecidas : adivinha va-as. Adiviahou-as este homem, que amou 
muito por força, para saber como se lamenta a alma quando ama. 

— Entendo. Essas lagrimas não são penas do poeta : são maguas 
do. . • do teu cavalleiro da ponte, ((ue também se anda por ti sustendo 
pasttos difflceis e correndo aventuras perigosas. Ora, pois, este ha de 
ser mais feliz ; socega. 

E Anninhas limpava-lhe as lagrimas com infantil carinho. 

-r Mais feliz 1 Quem sabe ? — torndu Maria, deixando cahir a mão 
frouxa de desalento entre as mãoS de sua prima» é pendendo o rosto no 
hombro delia, que se erguera para ampara-la. — - Quem áabe ? Qqie mais 
esperanças tenho eu^ é que menos perigos corre ellel O cavalleiro 
do livro via ao menos um termo ao seu desejo. Succumbiu quaàdo ia 
a toca-lo. £' triste. Mas podia consolar-se» porque sabia o dia em que 
as provações acabarião. O meu cavalleiro e eu que sabemos ? E' um fu- 
turo sem norte, 6 uma úoite Sem estrellás. Eu não posso senão ama-lo. 
EUe não sabe senão servir-me. E nem elle nem eu prevemos ém que 
hão de dar estes amorèi^. 

A imagem austera de seu pailevantava-se ante os olhos da donzella, 
veneranda, mas implacável. Era a dttr e o desengano ao pé dos extremos 
e afifectos. 

— Muita cousa, que parece' impossível, —acudiu Anninhas, pene- 
trando o pensamento dé siiá prima, —muita cousa que parece impossivel 
se tem visto realizada. Quem é inais éávalleiro que d teu cavalleiro ? 
quem tem mais generosos espirites? quemtèm ousado malotes com- 
mettimentos ? Não vôs tu que d St. eapitão-mór ]á lhe déu voz àa ban- 
deia da nobreza ? 

— Mas não nasceu nella. 

•^ Que importa, se delia nãd deserta ? 

-^ Para ti não importa, não, nem para inim ; mas para outros... 

— Teu pai ha de abrandar ; de rocha qué tivesse o coração, não 
podia res!istir ás tuas lagrimas, nem a tantas ptotas. 



-* -■" 



10 

— A sua vontade é tagrada. 

»- Mas o seu amor é maior q[ue a sua yontsde. Fazes mal em t^ 
affligir. Tenhas antes motivo para orgulho. Nenhum cayalleiro, neot 
mesmo nenhum destes do meu poeta... em annos tão Terdes, fez acçto 

tamanhas. 

— Ai ! não. £ isso que tu me dás para consolação me faz maii 

triste ainda, que eu veja tanto estorço perdido... 

— Não verás. Não te dizem também as suas folias tanto como ai 
trovas mais formosas ? 

— Dizem mais os seus olhos. 

— Dizem ? — tomou Anninhas — suspirando sem motiro e dando 
um momento de pausa aos presentimentos que o mais lere toque deBpe^ 
tava em sua alma. — Deye de ser esse um trovar bem doce e bem para o 

coração. 

-> £'!... Nem tu sabes, minha jóia. Doce e agro ao mesmo tempo, 
quando como eu.... Oxalá não o saibas nunca. 

— Porque? 

» Porque I Para que o queres saber, se tens a Tentara de igno- 
ra-lo ? 

— Pois julgas-te desgraçada ? 

— Ail não! isso não. Peno ; mas privar-me destas penas fora pena 
maior. Soffro; mas, se não soffrêra, é que de todo me julgara desgra- 
çada. Não nos ouve ninguém, Anninhas ? Um amor destes é ventura que 
se não compara, e é ao mesmo tempo um martyrio que se ama. 

— Como ? 

— Vão lá entender o coração !. . . Quer muito, elle. . . e do muito 
querer lhe vem o muito padecer 1 £' que o querer assim, imagino eu» 
é querer por dous. £ esta ventura, que se sente na alma, não se podendo 
repartir segundo o desejo, era mais do que uma desgraça sem deixar de 
ser ventura. . . . Olha bem não nos escutem, Anninhas. . . . 

— Não, não; continua. 

— O desengano é um golpe : ou cura ou mata. A desgraça ó uma 
dôr : ou a gasta o tempo, ou se morre delia. Mas este querer e não 
poder ; este anciar continuo ; este sentir que temos a faculdade de dar 
e receber uma ft^licidade que não é já felicidade quando é só para nós ; 
este guarda-la inútil e perdida na sua mesma immensidade ; estes affectos 
todos, que se comprimem, estallão o coração e são a sua delida. 

^ Ai I é isso, deve de ser isso — murmurou Anninhas pensativa. 



— li — 

— Mas que te estuu eu dizendo ? -^ continuou Maiia. — Não podes 
i^ntenderme. 

LNos lábios de Anninhas floriu um sorriso, como o botão que se abre 
ao rodo da manhã. Era a intelligencia fundida em tristeza. 

— Não são para ti estas cousas, — proseguiu ainda sua prima. — 
Serão um dia. Hão de ser. Nem sei se é bem, se é mal. Não sei se t'o 
deseje, se peça a Deus que t'o poupe.. .. Porque não segues na tua lei- 
tura, Aoninhas? 

— Muito amou também o homem que escreveu este livro, disseste. 

— Disse. Vê se. 

-— Ouyí a meu tio que são tudo isto historias enfeitadas, mas ver- 
dadeiras, de cavalheiros e damas de outro tempo. Se serão? — Aifir- 
mãoo. Até alguns nomes são os próprios, dis&rçados em anagramas, 
como lhe chamão. E a pintura das saudades é a saudade mesma, que 
em lagrimas se verte no livro. 

— Longa saudade foi, bem se conhece. Correu pela penna sangue 
do coração sobre o papel... £ consta que foi pessoa de prol este 
homem ^ 

— Foi. Criado desde pequeno nos paços, diz-se que serviu com 
honra de governador de S. Jorge de Mina e capitão-mór das armadas da 
índia. 

— Dos paços lhe veiu o seu mal : tinha os espíritos ainda mais 
altos que o nascimento. 

— Queimou- se de olhar para o sol. £ como não ha de assim 
acontecer aos que só sabem olhar para cima. £' sina. 

— Mas não te parece que ha de ser prazer grande e grande orgulho 
para uma mulher ter o seu Bernardim? 

— Foi o para a que Bernardim amou tanto, diz-se. Mas era orgulho 
só. Se fora outra cousa. . . . 

— Se fora?... 

— Não o desprezara depois. 

— E pôde? 

. — Pôde. Dahi vierão as saudades que o finarão. Dahi veiu também 
a prohibição dos inquisidores, que por. muito tempo lhe proscreveu o 
livro. 

— Quizerão matar-lhe o espirito depois de lhe matarem o corpo. 

— Não era já possível*. O espirito viviai em outros espirites, gémeos 
4elle« 




— n — 

— £ como sabes tantas cousas ? 

— Ouvi-o a meu pai. Meu pai condemnaya*o; mas eu. • • 

— Tu?... 

— Mesmo querendo, não podia. Hayia uma ycz cá de deoko qoa 
me fallava por elie. 

— £ tinha raz&o essa voz. Que throno yal um affecto destes ? 

— Ail Annínhas, não ó só com degráos de um throno que o 
mundo leyanta distancias, que a razão e o coração não sabem medir. 

— Que distancias ? Pois se Deus fez duas almas igaaes, se ellasie 
encontrão e de encontrar-se são attrahidas uma para a ontra, que Ihei 
pôde a terra oppôr? 

— O deyer da obediência, £ste não se trahe, para ficarmos dignas 
daquelle que nos preferiu, para continuar suas iguaes ; porque, se a 
honra ioi que nos igualou, em que peze a falsos juizos humanos^ oqae 
faltasse a ella perderia o seu titulo, e a sua justificação. £a Dãojalgo 
descer Annínhas ; nunca o julguei, entregando a minha alma a quem já 
não podia cega-la, porque nelle buscaya o braço capaz de me amparar 
nas alturas a que o seu coração me tinha leyantado. Mas, por mais do- 
loroso que seja aquelle deyer, se me affastasse del}e um só passo, ó qoe 
yerdadeiramente desceria, e, não sendo digna de mim mesma, não o 
seria do seu amor. 

— £ não tens receios pela sua sorte? Dize^m que é sumniam^nte a^ 
riscada a em preza que lhe confiou o Sr. capitão* mór -, pôde grangear-lhe 
muita honra, mas pôde também correr muito perigo. 

— Deus sabe se tenho leceiado I Deus siabe quantas Yez9M lhe orei 
no meio da angustia. A' força de muito cuidar e de muito pensar, yim 
quasi a não temer. 

— Porque ? 

— Porque no fundo do coração leio que já não tenho que pensar^ 
nem que cuidar. 

— Não tens ? 

— Não. Yôs como elle se demora? Yês como todos penderão os 
seus riscos e sentem a sua íalta ? Pois eu cheguei a este extremo de nem 
já ter maior pezar por isso. 

— Não te entendo. 

— £ntendes. Pois não entendes que, 'se eu, de dia para dia, não 
tenho mais hgrimas nos olhos e mais dores no coração, é porque me 



— 43 — 

cortou as incertezas uma resoluçto dscisi^, iupteoa, a única verdadei- 
ramente consoladora? 

— Qual? 

— Se elle morrer... 

— Não morre. 

— Se elle morrer, morro eu também : sinio^o, e quasi que já nem 
tenho cuidados. Se o permittir Deus assim, é porque a terra não era 
para nós ; ó porque nos reserva «utra patrto, e nessa tenho eu certeza 
de encontra-lo, sem que ninguém nos separe. 

— Oh ! Maria, minha prima, minha irmã, que dizes tu ? 
Anninhas lançara os braços ao pescoço de Maria e cingia-a aç peito, 

a osculara-a com uma eflusãQ que aittesjtaya a bondade da sua alma. 

Maria, que principiara recebendo consolações, era ji forçada a con- 
sola-la. 

— Ora vamos — dizia ella.— Que é isso, AnDÍnhas7 Peza-te de me 
ouvir fallar de um fim que todos havemos de ter mais tarde ou mais 
cedo, e que talvez seja o unicp po^sivel para estes amores ? Não me aco- 
barda elle, nem nos deve desgostar em tempos como estes. Orávamos, 
se me queres fozer a vontade, lê-me aquelle soláo que a ama cantava a 
Aonia de Bimnarder. 

•— O da menina dos olhqp. verde? ? 

•— Esse mesmo. Lê. 
Anninhas leu como se segue : 

Pensando vos estou; lllha. 
Vossa mãi me está leasbrando. 
Enchem- se -me os olhos d^agua, 
Nella vos estou la?ando. 

Nascestes, fflha, entre inagm. 
Para bem ioda «vos seja. 
Pois em vosio nascimento 
Fortuna vo9 houve inveja. 

Morto era o contentamento. 
Nenhuma alegria ouvistes. 
Vossa mãi er» finada. 
Nós qutoof «nsiBos tristes. 



— li — 

Nada em ddr, em dôr criada» 
Nfto sei onde Isto ha de ir ter, 
Yejo-Yos, filha formosa, 
Com olhos yerdes crescer. 

Não era esta graça Yossa 
Para nascer em desterro, 
Mal haja a df sayentura 
<}ae pôz mais nisto que o erro. 

Tinha aqui sua sepultura 
Vossa mãi, e magua a nós, 
Nfto éreis yós, filha, nfto 
Para morrerem por yós. 

Não houye em íados raz&o, 
Nem se consente rogar, 
De Yosso pai hei mór dó. 
Que de si se ha de queixar. 

Eu TOS ouvi a YÓS só 
Primeiro que outrem ninguém. 
Não fôreis yós se eu nfto fora, 
Nfto sei se fiz mal, se bem . 

Mas não pôde ser, senhora, 
Para mal 'nenhum nascerdes. 
Com esse riso gracioso ' 

Que tendes sob olhos Yerdes. 

Conforto mais duYidoso 
Me é este que tomo assi, 
Deus Yos dê melhor Yentura 
Do que tlYestes té aqui. 

A dita e a formosura 
Dizem patranhas antigas 
Que pelejarão um dia, 
Sendo dantes muito amigas. 



— 15 — 

Muitos hão que^é fantasia ; 
Eu, que yi tempos e annos, 
Nenhuma cousa duvido 
Como ella é azo de damnos. 

Nem nenhum mal n&o é crido, 
O bem só é esperado 
£ na crença e na esperança , 
Em ambas ha hi cuidado, 
£m ambas ha hi mudança. 

CAPITULO n. 

o TRONCO E AS PLÔRBS. 

— Que bem diz o romance — acudiu Maria, já findo o soláo — , 
que bem diz elle, e como parece que o diz para mim ! 

« £ na crença e na esperança 
« Em ambas ha hi cuidado 
« Em a^p:ibas ha hi mudança! » 

— Mudança na crença ? 

— Nisso não, que se ella é verdadeira não muda ; mas cuidado Jia 
esperança. Esta é a verdade de que te fallo, meu amor. Pois não é toda 
a esperança um cuidado ? 

— E eu acho, para ti, ainda mais verdade nisto : 

c Não era esta graça vossa 

a Para nascer em desterro : 

« Mal haja a desaventura 

« Que pdz mais nisto que o erro. » 

— Pa desaventura, dizes bem, menina. Mas pôde haver graça em 
quem vive em tristezas ? 

— Triste é a lua e não ha cousa mais graciosa no céo. Triste é a 
palmeira no ermo e não ha cousa mais graciosa na terra. A graça nem 
sempre ériso. 

— Deixa, minha boa Anninhas ; não são para mim lisonjas agora. 

— Pois que só tristezas queres, vou ler-te as que te serão quasi 
alegria. Queres ouyir a cantiga do pastor? 



16 — 

— DízU. 

— Ctnao triítexaB UmlMBi ai tr«TAs de meu poete. Nemtílepinee 
fue sabia cantar ootca cousa. Mas tfto tristesat de iiwsne o affecto, inâ 
das toas, ás taas lespoodeoi» e a triilesa, dtsli fónna repartida, é mb 
doce que muitos praieres. 

— Lê, lê. 



— Ottve : 



A mim» nem quando o sol sahe. 
Nem depois qne se taí pOr, 
Nem quando a cálma mór eahe 
Não me deixa a minha ddr, 
Dôre outra cousa mdr; 
Comrosco hoje adonneci 
Comyosco hontem anoiteci. 

Crendo que assi acabaria 
Dei-me fodô ao qne padeço ; 
Um dia leyou ontro dia» 
Por um mal outio conheço : 
Se o fim responde ao começo, 
Ai quio mal que me proti» 
Que no começo o fim yi. 

9e nasói por meu mal rer, 
£ tího por yê-ld acaback», 
Melhor fora não nascer, 
Que yer-me desespei^do ; 
£, pois, que neste cuidado, 
Me traz tào oego apóz si 
Inda mal que o soube assi. 

Entre lagrimas e pranto 
Nasceu^o meu pensameiito. 
Cresceu em tão pouco tanto 
Que é mais alto que ó toilotiento : 
Passo o que p^sso aò que sento [*), 
Mal faz quem m'esquece assi, 
Que apoz mi não ha outro mi. 



n Sinto. 



' ' "" — • • t ■ -" I , ^ 



— 17 — 

» E' orgulho isto, não achas?— disse Anninhas, terminando a 
leitara. 

. ^^0 _ contestou Maria. — £' a consciência de si. Nem eu, nein 
ta temos experiência bastante destas cousas. Mas o coração tem ins- 
tinctos que não errão e presentimentos que não falhão* Não fallo de 
mim, nem sou eu, pobre donzella, sem mais riqueza que o nome de 
meu pai, crealura para fallar-se. Fallo de ti, Anainhas. Quem tem for- 
mosura e um dote como tens ha de encontrar muitos amores na sua 
vida. Mas olha, Anninhas da minha alma, o amor que nos pôde fazer 
felizes é um só ; e es&e, por ser único, tem razão de saber o que vale. 
Para haver" felicidade completa nestes amores, é necessário dar a alma 
toda, e a alma que toda se dá, pôde lamentar com justiça que lhe não 
dêm tanto como ella deu^ Se lhe negao a divida na moeda que só pôde 
paga-la, desconsolase e queixasse. £' natural. Sabe o que perdeu e sabe 
que lhe não dão outro tanto. Contar a valia piopria é, neste caso, avaliar 
a própria crença. Se uma alma se entregou inteira e outra lhe não cor- 
responde igual, essa é a desgraça maior ; porque não ha já bem que 
pague o bem perdido. Se duas almas se trocarão de sorte que uma fica 
tendo o logar da outra, essa é a ventura perfeita, porque por tudo o que 
se deu tudo se recebe, e a desgraça então é lastimar que viva separado 
o que nasceu para viver unido, porque um todo e outro todo não são já 
de um só, mas de ambos, e ambos juntos é que formão verdadeiramente 
a vida. 

— Pois não é fftzer muito de se dizer um homem como este pastor : 
« Apoz mi não ha outro mi ? » 

— Não é. Nós outras, daodo a alma, não temos mais que dar. Um 
homem tem a alma e tem a gloria e, quando nos consagra tudo, quando 
para si nada reserva, é justo dizendo que nenhum apoz elle dará mais, 
nem tanto. Ail Anninhas, muito poucas encontrão isto, e as raras que 
o achão £azem mal se desprezão o thesouro. . 

— Mas tu^que o encontraste, como o desejavas, deves de então jul- 
gar-te ditosa. 

— Sim, julgo. Ditosa como nenhuma, e ao mesmo passo desgra-- 
cada como poucas. 

-» Estais me íallando por enigmas ? 

— Estou a fallar-te com o coração. Sou ditosa, porque sei quanto 
me derão e sei que me derão tudo. Sou desgraçada, porque ló pojiso 
pagar e^m lagrimas e eom amor. e não obras eom ebfM. Este é o me 



I 



— IS — 

ifial, Aúniohas. Peréebe^me agotaf Tem ta jft imag^do o ^e é 
aqui, goardada e defendida, ociosa e sem termais em meu poder que ai 
minhas preces, emquanto algnem ha que para merecer-me e alcaoçaMN 
arrisca a Tida a cada hora, faz impossÍTeis em cada dia ? Não é iafai • 
martyrio da minha própria felicidade? Que ó este amor estffril de la- 
grimas impotentes, ao pé daqueUe amor que brilha em cada acçio ? 
Que é este }azer paisif o ao pé de um sacrificio continuo ? Ai I Aa- 
ninbas, nós podemos muito, muito Talemos, quando, ao limiar da poita, 
esperamos o soldado, coberto de sangue e pd^, e em nome da patifa, 
nossa m&i commum, lhe damos, em troca dos seus lotiro^, os noasos 
afifogos e nelles os nossos corações. A mão amada que lhe limpa afronte 
e lhe conchega os regalos da casa é a sua recompensa melhor. QiiaBdo, 
poréta, o destino e o dcTér no-lo impedem, sentimos qoe nada podemoi, 
e este sentir é tormento, crô-me. 

— És injusta comtigo, Maria — disse Anninhas tentando, para a 
consolar, etprinoir uma coutícç&o que ella própria não sentia. -^Nie^ 
(azes tu quflhQto podes t 

— £ ó nada o que posso; nlo tos tu, não Vo disse já? não o se&iil^ 
também em ti mesma? 

Anninhas baixou os olhes sem responder. Aquella toz era a própria 
T<!iz da sua consciência, e esta dizia-Ihe que, se ella estiyeese nó togar 
de Maria, hayia de effectiTamente seniir e penar do mesmo modo. 

OuTÍu-se então um grande rumor e alToroço nos contidos eom- 
partimentos da habitação. 

Grande devia de ser a noTa, pois que a Sra. D. Isabel de Góes, 
mais agitada que de ordinário, e, pospostas todas as etiquetait, clamaTa 
em grandes yozes: 

— Anninhaft I Maria! onde estão, filhas ? Yenhão, yenhão aqui jfi, 
Meninas I 

Maria e Anninhas erguerSo-se Sobresaltadas, nos braços uma da 
otitra. Nisto correu-se o reposteiro, e Ifaria achou-se nos braços de seu 
pai. 

No enquadramento da porta, o capit&o-mór Mathias de Albuquerque, 
com Terdadeira cortezia de csTalleiro, parecia TÍTamente òccupado em 
animada c o nTersaç&o com a dona da casa, de certo para que o telho sê 
dado tivesse tempo de dar largas àos transportes de amor paterno noa 
braços da piedade filial. 

Berénguer estreitou longamente ao seio a filha que ãdoMTa. 1^» 



Mê» do perigo, quando neubiim guerreiro f abe sq Terá a seguiute au- 
rora, todas as ausências valem aunos, porque a separaçio 6 a inperteza ; 
todo o regressa é um jubilo iacomparaYal, porque é senipre mais apre- 
ciado o que se toriiou mais contiu^uie. Bereuguer estiveia pouco tempo 
£6ra dos reaes ; mas, quando partira, dIu> sabia se ypltaria ; e, voltando, 
saboreava eite prazer cojdo cousa que já pouco devia esperar. Abraçai:^ 
a filba com um aSecto sem voz ; mas fdUayáo por elle duas lagrimas, 
que lhe descião mudas pelos sulcos da face i7enei;anda. GalUra-se, ^- 
ceiando trabir^se; mas a anciã opm que apertava a íllha ao coração, 
dizia bem o que Ibe ia dentro delle. 

Quanto á Maria, o pranto, degenerando em soluços, não achava 
outra expresf fto para revelar o que tinha de afectuoso aquelle momento 
de inopinada ventura. Se, nt ^sonv^rsição que lhe ouvimoa, ella não 
havia feito allusão aos cuidados por seu pai, não se pense que isstes f^ho 
lOenores. Desses não precisava fallar, tão sólidos e ostensivos erão. Naa 
suas longas orações, e nos seus devaneios ainda mais iongos, duas 
Wgens e dous nomes andavão sempre juntos, o de seu pai e p de 
Yieira^ unicaoiente um era fervorosamente proferido, eo outro, reme- 
morado no coração, Uíem vinha aos labios« £, depois, não di^em qb pro^ 
prios livros santos : « por este deixarás pai e mii? » Não vfa, portanto, 
de admirar que uma preocupação coostante e as tendencia3 da leitura 
que originara a conversação antecedente guiassem ^sta em um sçpiido 
em que a idéa do mancebo predominava. 

Passados os prií^ieiros mo;n«ntos de entemecímejito e commoção, 
momentos que o velho guerreiro da Judia tratou de abreviar, como se 
nelles perigasse a sua dignidad^ de homem, Mathias de Albuquerque adi- 
antou-se, coiúo corjtezão, a cemprimentar as donzellas. 

— Já aqui entrei, minhas senhoras — disse elle *— para levar q^en^ 
levava çomsig^ as vossas almas : j^sjto era que voltasse para vos res- 
iituir quem traz cóipsi^fo tan,ta ale|fria. Outrem que pôde ijoiais que eu p 
mandava, o devei*. Perdoar-me he^ sem duvida p mal involuntário que 
TQS fiz pelo ben) que tão gostoso voç trago. 

P. Isabel de £óes quiz introduzir ^^^ phrase; mas Berenguer, 
que sabia come as phrases da boa senhora ordinariamente ;ie ajox^vãp, 
accttdiu ssim lhe dar tempo : 

^ Sr. capitão-mor, aqui todos sabem os deferes que imppe o nojiso 
nome. Quer pertin^p^ qu^r voltAndp^ b^ um sentim^to que sobrepuja 
a iodos 4B ppt^eoSi • apor da upssa terra e a obrigação dp npsso «angue. 



— to 

liinlia filha, esper» em Deus, não se ha de esqneeer nonea do que» 
deve a si mesma. 

— Nem o pôde fazer — tomou o eapit&o-mór — quem tem tal fá, 
jQsto é qne saibais, minhas senhoras, como yolta o Sr Bdrengner, e 
que noYos títulos ganhou para accrescentar aos títulos «Dtf gos com qii 
já se constituiu credor de todo o nosio reconhecimento e Teneraçâo. Noi 
tempos que Tio correndo esta é a única recompensa do soldado yalente 
e fiel, e fora injusto oceuUa-la. 

— Nem meu pai —^ respondeu Maria, vencendo a timidez em um 
pulso de nobre orgulho, — nem meu pai, nem nenhum doa meoa espen 
recompensas por servir a pátria : é um sentimento que ae não rende. 

— Bem, minha filha ; bem, meu sangue, bem ! «— prorompeu a ve- 
terano. £ quem nos havia de dar recompensas, a nós ontroa, filhos 
desta terra? De um rei nosso podíamos recebe-las. Não pegava, agra- 
decia em nome dessa pátria, que era também sua. Mas de ontros... 

— Nenhum rei — observou Mathias de Albuquerque, cortando dci- 
affectamente o fio ás manifestações do velho soldado, que exprímião um 
amor nacional perigosamente indiscreto naquella época — nenhum rtí 
tem com que pagar servidores como vós, Sr. Bereoguer de Andrada, a 
serviços como os que se tem feito nesta terra. Consenti, porém, que es 
relate a estas damas, para sua satis&ção, o que vós de certo nunca lhes 
diríeis. Sede indulgentes e não as priveis deste prazer, a ellas primeiro 
e a mim depois. 

D. Isabel de Góes, que avidamente escutava, e que morria pelas 
narrações de guerras e aventuras, chegou as cadeiras e convidou o ca- 
pitão-mór a tomar logar, aproveitando a occasião para lhe endereç ar 
um preambulo cheio de digressões, cuja prolixidade pouparemos ao 
leitor. 

— Sabereis, pois, minha senhora — disse o capitão-mór, dirgindo-se 
á dona da casa logo que o flaxo verboso desta lh'o consentiu — sabereis 
que o Sr. Berenguer, que deveis ter ufania em contar por vosso parente , 
salvou a maior parte das riquezas e engenhos de Itamaracá. O coronel 
Ganefelt, com as suas vinte embarcações, baldou o principal fim da sua 
expedição, que era apoderar-se dos estabelecimentos da Conceição. 

— Essa honra, Sr. capitão-mór — atalhou o veterano — compete ao 
governador Salvador Pinheiro. 

•— Salvador Pinheiro — tornou o capitão-mór — é um bom e leal 
soldado ; ninguém o contesta. Mas, em que peze á vossa modéstia, todoa 



— 31 — 

sabem!, Sr. BereDguer, como os tossos conselhos íor&o essenciaes fará o 
dirigir, e como a yossa presença e exemplo infuodir&o brios heróicos á 
sna limitada guarnição. O caso é, minhas senhoras, queo hollaodez nem 
se quer se atreveu a atacar a poyoação, contentsudo se de escaramuças, 
e fio-Yos que dessas escaramuças leyou memoria, que nào se lhe var- 
rerá facilmente. 

— Os homens da ilha — accudiu Berenguer — fizerão quanto po- 
dião fazer. Nem era dado mais âs forças humanas. Todavia, pérmittiu 
Deus que nem todos os seus esforços, nem os nossos, pudessem total- 
meÀte inutilisar a expedição dos scismhticos. Não tínhamos forças para 
oppôr-lhes em rasa campina, e elies conseguirão ainda, posto que não 
sem trabalho, levantar e artilhar um forte na ponta de terra em frente 
de Guarassú Grande mal é este, porque dahi p jdem frequentemente in- 
cemmodar os habitantes e os estabelecimentos. Não foi possível ter- lhes 
mão ; e já vêd^s, Sr. capitão-mór, que não ha motivo para levantar tão 
alto o pouco que se logrou fazer. 

— O que se fnz - pfndcrou. o capitão-mór— raros o farião; e 
baldada a tentativa principal, será causa para que esses hereges de Hul- 
landa tão depressa não projectem outra. 

— Duvido — reflectiu o ancião. 

Mathias de Albuquerque também duvidava; mas cumpria o seu 
dever de chefe, procurando inspirar ali uma tranquilidade e confiança 
que elle mesmo não tinha. 

— O que ha de vir a Deus pertence — continuou elle.— Seja como 
fôr, deveis accrescentar que, por yossas diligejicias deflronte do novo 
forte dos hellandezes, que elles chamão de Orange, o pequeno fortim 
de Guarassií está posto em tal estado de defesa, que bastará para fazer 
frente ao seu vizinho e impedir Imgas correrias. Para lhes não dar 
descanso é que devemos contar com a intrepidez de Salvador Pinheiro. 
O honrado veterano é experimentado nestas guerras e não se apraz no 
repouso. 

— Com elle e com a sua espada — redarguiu Berenguer — devem 
contar que não sei eu de alma nem folha de mais fina tempera; e não 
me parece que nenhum fizesse mais, a não ser o valente António de 
Lima .... 

— Que lá jaz em mãos de hoUandezes — atalhou o capitão-mór — 
por não querer jurar ócios que ião mal ao seu esforçado coração eá 
sua p«ra eonscien(Sla. Deus se compadeça delle, e seja o seu exemple 




— »2 — 

«orno o TOMO Inceatifo para ser imitado. E ha de sô^lo, n&o só por Sai- 
Tador Pinheiro, senão por omtros que, se tôqi menos aonos e eiperiendi, 
fiHo lêm menos footade e valia. Sem irmus mais loog^^ um conheces 
vós, Sr, BtíreoRuer, que.apezar da idade ainda verde, para tanto ó, qoe 
nà<> será £scil ser para mais. De Vieira vos Lllo. Ou muito ma engino, 
on altos destinos tem esie. Vereis que não falha o prognostico. 

Berenguer ficou mudo. A sua lealdade não lhe copsentía fax 
oMecções. Os seus sentimentos de pai prohibião-lhe a demonstração ée 
va assentimento que pudesse animar esperanças. Maria, ao Done^ 
Vieira, fitou no capitão mór uns oihos involuntariamente cbeios de»- 
dosas inierrcgições. Anuinhas pela sua parte pareceu ioteressif-tt 
lambem soais vivamente na conversação. Qaanto á Sra. P. Isabel 4s 
Góes, a mais desmalieiada creatura deste mundo, ftiz o elogio do maacelK) 
em termos taes qoe dilatarão o coração á menina de Betenguer. 

Maria ardia em desejos de aproveitar a occasiãq par» pergwitar 
fictícias de Vieira* Mas a sua submissão de filha e as reservas- naturaes 
do seu sexo e educação fizerão-lhe expirar fss palavras nos lábios. 

Ou porque percebesee a doasellat ou porque proseguisae aecretes 
desígnios, o capitão-mór continuou, como se nada tivera observado : 

— Sabeis que Vieira foi por mim encarregado de uma empireza /pe^ 
<doar-me heis que vo-lo diga, Sr. Berenguer) no seu tanto não menos 
importante que a da ilha 4e Itamaracá ; e^ se são certos oa indieios qoe 
me chegão, tem-se havido nella de um modo que honraria os majúi 
nobres e esforçados. Por menos se calçarão esporas a muitos que têm 
hoje nome e brazões. Ha de ir longe, digo-vo-lo eu 

Berenguer continuou a guardar um silencio carregado e sombrio. 
Mathias de Albuquerque «viu que taría mal insistindo em um assumpto 
que parecia anojar o ancião, e, tomando-ihe familiarmente o braço, 
cousa que a raros &zia, levantou-se com elle, dJrigindo-,$e para OJtxte- 
licr, como pana afiíastar toda a idéa da pratica precedente 

— Tenho ainda que vos dizer cousas sérias e de segredo ; maa essas 
importão mesos á vossa gloria passada do que ã vossa gloria futura. 
Haveis de permitttr que vo-lo ro\d>e ainda, niinbas senhoras. líãoserã 
por «Kttilo tempo. 

— Senhor capitão-mór — tornou o veterano — a toda a hora do 
dia OU da noite que julgardes opportuno requerer o serviço ie um do 
noma de Berenguer hm de fidKonttraf asse pro»ptò. Estou éia vosms 
ordens. 



— 23 — 

BereDgtier e Mathlas de Albuquerque sahirâo parado aposento im- 
ínediato. Abi, cerradas as colgaduras, e bem certos de que oão serifto 
escutados, a pbysionooíia do capitftoDQÓr perdeu a serenidade amena que 
até ali conservara em presença das senhoras, e a placidez do cortesão 
eedeu o logar ás graves apprehençõe^ do general. 

— Yêdes me agora mais cuidadoso do que ha pcuco yos devia 
dé parecer, Sr. Berenguer. 

— Esperava o — respondeu fieredguer. -7 Não são cousas de pon^ 
deração para se tratarem diante de damas e donzellaS. 

— Conforme. Importa^ porém, não assusta-lâs antes de tempo. 
As cousas vão mal, Sr. Beienguer, vão mal. 

— • Iremos com ellas, e com ellas nos perderemos se for preciso. 

— Não. Vale mais tratar de pôr a salvamento o que pôde ser salvo. 
O que nisto é maior dôr é que vamos mal, nfto por culpas do destino, 
mas por erros dos homens. Sabereis que ^ conde-duque nos manda 
emôm reforços. 

— £ por isso dizeis que vão mal as c^ usas t Não me admira, sendo 
dirigidhs por um castelhano. 

— Digo vos que vão mal, porque esses reforços poderião servir de 
muito, se fossem bem aproveitados ; mas, do modo por que a empreza 
é guiada, âcaráò perdidos, e será maior o descoroçoamento. 

— Tendes já noticias exactas ? 

-> Tenho. Chegou & Nszareth tim caravellão de Cabo-Yerde. Ahi 
encontrou elle uma armada de vinte vellas, commandiída pelo almirante 
Oquendo, e úella dous mil homens de desembarque. 

— Dois mil homens de reforço bastão-nos para levar de assalto 
todas as fortalezas dos scismatlcos. 

-^ Bastarião, se viessem unidos. Mas, ás ordens da côrte, distri- 
buem-os por diíferentes pontos, e deitão a perder os resultados que se 
poderião tirar deste armamento, l!^ voz constante na armada que irão 
priíúeiro â Bahia desembarcar oitocentos homens ás ordens do mestre 
de campo Bocanegra. Esta demora é fatal. 

^ Porque? Não poderemos resistir até chegarem os soccorros? 

— I^odemos ; mas, no entanto, avizinha-se a frota hoUandeza do al^ 
ttilrante Patrikô, que já vem no mar» e directamente se encaminha ao 
porto do Recife. Os de Hotlanda são hábeis nautas, e quem pôde prever 
as consequências de uma luta, que fora mais prudente evitar ou aceitar 
em melhores condições? 



\ 



— Oi nossos nayios tôm combatido, sem dtSTantagoai, inimífif 
muito mais temi? eis. 

— Terào. Mas reparai bem, Sr. Berengaer. Patríke tem tempo di 
desembarcar no ftocife as suas tropas e munições; e« depois, com úi 
seus navios desembaraçados e apparelbados denoYO, é proTaTelquen 
dirija contra a nossa frota. Esta, t^ndo apenas desembarcado na Bahii 
oitocentos homens, encontrará a inimiga, inteiramente livre de suas mi- 
nobras, com os navios ainda empachados e carregados de gente vio 
afteita ás pelejas marítimas. O menor mal é disseminar aem necessidads 
os soldados de terra, que tão úteis nos poderi&o ser aqui. P> ae a ftod 
se perdesse, c^ual seria a nossa situação, sem ajuda efflcaz, ou apeoai 
com um auxilio insufficiente e mutilado, tendo em frente eontrarioi 
que recebem os seus soccorros inteiramente frescos e completos? De 
precária, que hoje é, esta situação tornar-se-hia desesperada, Sr. Be- 
renguer. 

-— Assim é, Sr. Mathias de Albuquerque — tomon o veterano, de- 
pois de breves momentos de meditação. 

E accrescentou depois, em modos taciturnos, que attistaT&o bem as 
inquietações interiores daquella alma inflexival : 

— Só nos restaria morrer, para não morrer comnoscó a nossa hoiut. 
Nestas palavras estava toda a desobdora perspectiva do abandono de 

sua filha. 

Mathias do Albuquerque via claramente todas as difficuldades e erros 
que já de passagem tinha indicado. Nas suas communicações a Be- 
renguer, havia não só o despeito natural de um cabo de guerra expe- 
riente, que vê baldarem- se, por ordens superiores absurdas, exforços 
que poderião ser salutares ; havia, dizemos, não sÓ este natural despeito, 
senão também a offensa de um justo pundonor. Tinha elle animo grande 
bastante para sacrificar taes offmsas ao bem commum ; mas o espirito 
de justiça, e ainda os interesses desse mesmo bem, havião sido profun- 
damente feridos, e este sentimento, de que nenhum homem se esquiva, 
ressumbrava na amargura das confidencias que vamos ouvir-lhe. 

^ No meio de todos estes desconcertos — perguntou Berenguer, 
como para dar diversão aos seus próprios pensamentos — no meio de 
todos estes desconcertos, e para coroa delles, apostara que nem a corte, 
nem o conde-duque se lembrarão dos vossos swiços, senhor capi- 
táo-mór. 

— Lembrarão. 



— Vi — 

^Ahl lembrarão 1 Não o esperara delles. Que vos mandarão então? 
-— Mandão-nos um commandante. 

— Gomo I Cuido que não percebi bem» Dizeis . . . 

» DJgo^ Sr. Berenguer, que nos mandão um commandante. 

— A vói ? 

-~ A tíâxsiy como a todos, porque este que elles mandão é meu 
superior em cargo. 

— E quem melhor do que yós entende das artes da guerra, e é mais 
prudente, mais aceito e bemquisto em toda a capitania ? Yôdes, senhor 
capitio-mór ? A isto chegão estes tempos calamitosos, que não ha senão 
ingrKIiddes e affrotítas para quem bem serve a sua terra. 

— Não esperava tenças, nem commendas, que não é para isso o 
pouco qué tenho feito. Fiz o meu dever como pude; e, ha pouco o dis- 
sestes, Sr. Berenguer, o cumprimento do dever é a recompensa do sol- 
dado. Se não fui mais longe, não foi feita de desejos e boa vontade. 
Deus sabe que me não custa ceder o logar a outro. £l-Rei manda, e eu 
jurei obediência. Não me custa por mim ; custa-me por toda essa gente, 
qtie já me cónheèia e tinha confiança. Custa-me pelos destinos desta 
guerra que se tinha até aqui sustentado com ttiuito trabalho, mas com 
alguma honra, e que tão máo geito vai levando agora. Custa-me, 
porque tudo isto é differente do que se foz na Europa, e quem vem de 
lá, ia tugefB^ porque assim digamos, corre mais perigo de desacertar. 

* ^'É qtiein é esse Cabo que vós envião ? 

— Diiséiíi que é ò conde Bagnuolo, um napolitano. 

— Um naípolitano ! um estrangeiro I para vir pôr os pés em cima 
de tanto sangue vertido de nossas veias I Um estrangeiro para dar or- 
dens a quem tem o rosto queimado do sol da Ásia e da America, e mais 
feridas no corpo do que elle provavelmente tem em annos e serviços ! 

i 

— Não, Sr. Berenguer, cumpre ser justo. O conde Bagnuolo.... 
c<HAeço-o de nome. . . é um cabo de guerra experimentado^ e que tem 
servido honradamente. Sabe do seu officio, e dizem -me que é' sum- 
mamente entendido e engenhoso em fortificações. Não estaria fora dò 
seu logar, commandando um exerdio òu uma praça em Flandres ou em 
Milão. Mas esta guerra é outra, e é preciso conhecê-la. Agora sobre- 
tudo que os hollandezes se vão afazendo a ella, e que de dia para dia se 
tornão mais ousados ; agora sobretudo, digo eu, importava nsar de muito 
tino e astúcia, « para isso é necessário saber o que todas as artes da Eu- 



1 



— 2« — 

ropa nao ensioão. Qaem yier com outros projectos ha de eoganar-se^ 
e esses enganos somos nós que os pagamos. 

— Ah 1 Gastella, Casteila 1 que bem se vê o teu dedo em tudo isto t 
Ingratos e invejosos, a quem quebra os olhos o mesmo mer^m^nto que 
os serre r.. Perdoai estes transportes. £* um yelho que estonteia. Não 
deyifto ser já da minha idade ; mas o sangue está ainda quente no co^* 
ração, e este sangue não se misturou. 

— Disse-Tos quanto cumpria que soubésseis — acudiu o capitfo-mdr 
— e espero que me guardeis o segredo, em quanto disponho oi aoimoi da 
soldadesca e dos cabos da milicia, que é o mais diffidl* A um homem, 
como Tós, n&o se fazem recoinmendações. Sejamos fieis ao nosso dever, 
e façamos tudo o que estiver nos nossos meios: esta será a noisa uUs- 
foção. Não dobra a cabeça quando o animo e a consciência estão firmes. 
Deus vos guarde, meu nobre e velho amigo : deixo-vos entregue ao 
carinho dos vossos, que bem preciso vos é elle em taes momentos. 

O ancião suffocado indinou-se sem responder, e acompanhou até |k 
porta o seu illustre hospede, que se despediu com estas palavras. 

Voltando aos aposentos, Berenguer encontrou Maria, que d^ novo 
lhe cahiu nos braços, com essas avidu e puras cazieiAS que mmcn te 
fartão. 

O soldado da índia, enternecido, deixou cahir em liberdade abun- 
dantes lagrimas sobre a fronte angélica da doniellA, vergando lobre 
aquelle rosto mimoso o rosto carregado de cuidados, e misturando, com 
os anéis profusos e assetinados dos seus longos cabellos negras, as raraa 
madeixas que o tempo e o infortúnio havião branqueado.' 

Assim pendem os íloeos de neve, nos últimos dias do inverno^ doa 
ramos bracejantes do arbusto que já sentiu os primeiros baftios da pri^ 
mavera I 

D. Isabel e Anninhas contempbvão de parte est0 quadro, çom re- 
ligioso enternecimento, e com instinctiva mudez. 

D. Isabel, que não era para longos silêncios, perguntpu emíUn 
ao andão : 

— Sereis agora ao menos alguns dias comnosco ? Já ó tempo. . . • 

Berenguer voltou-se para o seu fiel negro, que esperava á porta Pt 
sias ordens, e, sem redarguir directamente á sua cunhada, disN para 
a^Ue, séparando-se com doce violência dos braços de Uaria : 

— Bomi-me essas armas, e dai-me um fio nessa espada. 



— 517 — 

— Partis de notO) lenhor pai? ^ atalhou Maria, juntando as mlot» 
tem poder proferir mais palavra. 

— Para onde? — accrescentou timidamente Anninhas, com os olhos 
razos de agna da nova ddr de sna prima* 

O ancião murmurou : 

— Deus sabe para onde e para que ! 

O vendaval tinha soprado rijo. Ao longe uma linha de espuma, alve- 
jando em longas inflexOes, marcava a costa. O oceano ar&va ainda, le- 
vantando as ondas, como seios palpitantes de uma commoção recente. 
Todavia o sol, falgindo, repetia-se em astros scintillantes, multiplicados 
no dmo fagaz das vagas. 

O almirante Oquendo, conformando-se ás ordens recebidas» desa 
ferrara da Bahia, e seguia, a todo o panno, a procurar um desembarca- 
douro fiivoravel na costa de Pernambuco, o mais próximo que lhe fosse 
poisivel dos reaes de Bom Jesus, para que as tropas do c(mde Bagnuolo, 
que a seu bordo conduzia, podessem, com menos perigos e menos pe- 
nosas marchas, ir em soccorro de Mathias de Albuquerque. Estas, com- 
postas de^SOO castelhanos, 300 napolitanos e 406 portuguezes, com os 
respectivos aprestos dei guerra, i&o repartidos pelos navios da frota e mais 
doze caraveUas mercantes. 

Cum{ffe observar que a marinha naquella época era infinitamente 
infuior ao que hoje a vemos. Nem a manobra se havia simplificado» nem 
ft scieneia tinha ainda introduzido os desenvolvimentos que actuahnenle 
dio tamanha importância nos destinos âo mundo a este ramo dos conhe- 
cimentos humanos. £' preciso, pois, não medir pelos modelos actuaesas 
construcçôes marítimas daquelie tempo, nem imaginar nas suas evo- 
luções a presteza admirável, que, segundo estamos observando!, dão um 
aspecto tão sidgular ás emprezas náuticas. 

Não se penáe todavia que a marinhar se achava em um estado de com- 
pleta infanda : attestão-o os audazes òommettimento^ dos capitães portn- 
gueâes e hespanhces do século XYI. Pedro Nunes • o infante P. Hen- 
ilqoe havião dado já á navegação longiqua o impildeo maravilhoso, que 
preparou tantas descobertas é serviu como de prologo a todos os meffliora- 
mentos faturos. Havia cosmographos hábeis, pilotos experimentados e 
cApitães de mar de um arrojo prodigioso. 

Estas observações não serão totalmente inúteis para nos aproxi- 
marmos da verdade, e para que o leitor possa diètinguir entre duas sup- 



-^2» 

potições igualmente exageradat, a de uma ignorância alMn^oU^ide 
nm deaenvolnmento prematuro. • 

O transporte daquellas forças e de seus municiamento>L lena kjt 
uma cousa de tal modo lacil, que nem yaleria a pena failar delia. A 
grande lotação dos navios modernos, as grandes forças motrizes di foe 
dispõe a civilisaçâo actual tocnio as construcções marítiaias nns com» 
arsenaes fluctuantes, que, regalados pela ordem distribnitiTa, pelaeconfr» 
mia de espaço e pela perfeita disciplina dos navios de guerra, pwmitai, 
sem inconveniente e sem prejudicar a acceleraç&o do moyimenlisi 
translação e accommodaçio de consideráveis massas. 

Naquella época, porém, os terços do conde Bagnnolo erão um to- 
dadeiro embaraço. As dimensões muito mais acanhadas, os appaieiloi 
e mastreaçio menos propordonaes, a manobra mais oonfosà s miii 
necessitada de braços tomavfto incòmmoda a presença de gente estarin 
á vida do mar. Naquelles âmbitos, muito mais dreurnscripCos, toda t 
invaslo era um obstáculo, toda a accumulaç&o uma desordem. ■ 

A esquadra, em numero de trinta e dons navios, doze dos qSMi 
as earavellas mercantes de que já falíamos, absolutamente inefieaies no 
combate, a esquadra, dizemos, navegava de conserva como admi flea 
relatado. O almirante Oquendo, mais previdente que a ena cdrte, con- 
tava com o inimigo e tinha tomado as suas precauções. Apenas saUn 
da Bahia^ organisára as suas linhas de batalha. A esqoadm protegida, 
por uma brisa fovoravt 1, caminhava debaixo de todas as ^elas^ leinado 
no centro os navios mercantes. Os caravellõss guarda via entre si a dis- 
tancia necessária para a communicaç&o das ordens e avisos. Na frssle 
duas earavellas ligeiras tinhio ordem de explorar, o horisonie em todos 
os sentidos. 

A' pouca distancia da Bahia, e ainda nos mares daqaélla costa, a 
caravella mais avançada deu signal de avistar a frota hollandeza. 

Immediatamente, na náo almirante subiu tremulando o pavíUiáo do 
chefe. Um momento depois, ao longo dos flancos de todos os navios da 
esquadra, descerão os escaleres dos commandantes, e âzenão força da 
remos para a náo, que fechava a marcha. Ao cabo de meia hora, os çaboi 
de guerrd estavào reunidos na camará do almirante. 

— Senhores -«- disse — este •— a armada dos estados está á vista. 
'^9% circumstancias em que nos achamos, dar combate é uma resolufio 
grave \ e, antes de toma-la, quiz ouvir-vos a todos. Se pensais que os 
navios empachados não podem íaster frente ás náos holkndezas, desem- 



— ^ — 

bancadas e lirreS) estampa ain4a a Umpo de TOttar & Bahia ; e todos os 
noasos nayios se acharád a salvo antes qae o primeiro desses scismatico» 
[M)8sa diiparar uma bombarda. 

Um silencio gladal acolheu as palavras do almirante, visivelmente 
ditas com pouca tenção de as cumprir, e empregadas mais para estimular 
o ardor do que para reoommendar a prudência. 

Yeodp que pinguem respondia, D. António Oquendo proseguiu : 

— Bã casos em que a maior gloria deve ceder á força imperiosa das 
diíBcinldades. Seria a primeira vez que o estandarte real de Gastella desse 
as costas ao inimiga ; mas. « . 

«— £ o de Portugal, Sr. almirante^retirou \i ajgnma vez ? — re- 
darguiu dali Gosme do Couto Barbosa, capitão ainda mancebo, de uma 
physionomia enérgica e o rosto já crestado de. muito fogo e de muito 
temporal. — Perderião a sua valia as quinas do reino? Não serão ellas 
as mesmas que percorrerão triumphantes os mares da índia e appare- 
cêrão sempre com a victoria, desde o estreito de Mombaça até ao Grolpho 
Pérsico? 

— £ o estandarte 4e Portugal também -- acudiu o almirante.-7-Dizer 
um ó dizer outro, porque ambos estão nas mãos do nosso glorioso rei o 
Sr. D. Philippe. 

—Uma retirada, Sr. almirante, — atalhou João Carvalho, ofiãcial ex- 
periente e antigo, que havia illastiado o seu nome em todos os mares, e 
neste momento, com summa prudência, pretendia evitar os conflictos, 
que estaa imelindrosas questõea de ordinário auscitavão entre os cfficiaes 
dos douA pAJizes. — Uma,, retirada agora de nada nos servia. A frota ini- 
miga se mais não ousasse,, bloqueiava-nos no porto, e, quando julgasse 
opportuno, ia ao encontro dos galeões do México, fazendo nelles ficii 
presa. Desta forma nem os nossos serião soccoridos por terra,nem os ga- 
leões guardados por. mar. 

— £* a vossa opinião ? —insistiu o almirante. 

— £' a minha opinião — replicou firmemente o yelho capit^OA 

.. . — £ a vosssa?—. perguntou D. António Oquendo, dirigindo-se ao 
grupo em, geral. . , , 

Levantarão-se todos, e Cosme do Couto per todos faUoqi _} 

— A nossa opinião é que esperamos as vossas ordens para o 
co]i4>ate. 

— §eia assim -- tornou D,. António.— £ra a minha também ; mas 
não queria pAr em risco, por minha única deliberação, as ridas preciosas 



\ 



— to — 

de tantos TAtebtét e flf ii vaiiallot de Sua Mageitade Catholiet o Itel da» 
U«6pânhas e das ladiaSi Nem o paTílhão castelhano, nem o pavilhão por- 
tuguez recuário nunca, é yerdade. Mostrai -o agòra^eseja esse o só senti- 
. mento de emulaçào e malidade que tos inspire. Fatiastes como homem, 
experiente e autórisado que sois, Sr. Joào Csryalho^ e espero que oon-^ 
tinuareis a dar exemplo aos moços na acção, como o destes no conselho. 
Uina retirada agora não tinha em i^esultado senão condemnar-nos a 
uma inacção vergonhosa. Ide. A xM^ioha recomméndação óeéta : — o 
combate de^é ser corpo a corpo. Uma batalha de artilharia sacrifica- 
ya-nos mais gente e promovia-nos mais estra|[o. Procurai afferrar as^ 
náos liòUandezak* A gente de terra esquecera os incommodos do mar 
étii presença do inimigo, e é preciso utilisar os seus piques e arcàbutes. 
Ide. Yet-me-heis onde for maior o perigo. Deus seja com os que de- 
fejddem á buá santa causa. Depois da batalha, abraçarei os que estírefem 
"^ivoéi se vilro me achar tambeni. Ide. 

Dito iitOy os capitães èáúdáriio o seu almirante, e sahirilo todos, bri* 
Ihando-lhe nos olhos o fogo de um nobre enthusiasmo. 

Os commahdaDtes, descendo da náo almitante, e timuHirãd o ardor 
dos ssus remeifoSf annundàndo-lheá o combate próximo ; e, ém poucòis^ 
minutos, eataTão a bordo dos respectlTOS navios. 

Paít aquélles rddès inaribheiros a Èbaxima apprehensko' eta toltarem 
ao porto. Alfeitos ao áòl dos trópicos é aos tufões do oceano indioo, t 
luta òom os homens era um incidente volgar da suà vida incerta e a 
tempestade dos canhões úm éco acenas da tempestade de Deus. 

Em breve reinou sobre o convez de cada navio uma icèkka dè oon-^ 
fusão e actlTidade impossível de descrever. Gomo o almirante hatiã pre- 
visto, as tro^ de terra, apenas soou a noticia do combate, recobrarão 
toda a sua enet'gia. Os qae }azlão mareados erguerão-se aquecidos do 
seu padecimento. As vozes do commando e da matiobra cruzavão-se 
eom as recommendaçoes instantes dos capitães de mosquetes e piqueiros. 
Aqtil tins escohráváo os arcabuzes ; outros aléái subião ás ehxardas, 
preparando os cabos, Aispondo os ai^óos, estendendo as mantas, arman- 
do-se para a batalha, aos gritos trocados de S. Jorge e S. Thiago, que 
tanta vez hávlho soado frente & frente, e que, naqoelle instante, se er- 
guião lado a lado. 

Fez-se ou?ir o rufo do tambor, e os clamores yarios cahirão eomo 
pdt ettcanto. A agitação continuava, mas ein um silencio absolnto. Só a. 
espaços a voz do cotumandãnte, no òahtsUo de popa, subia aos atèSt )íe- 



---31 — 

sendo os mòvãiMBtos do hatío, que obededa, ^mo un) g^iete «d^tiado, 
tob a pressão do &eip. 

O momfnto scdemne aproxiwava-se* As fils^as dos soldados de 
terra apertayfto-se oas toldas, guarnecendo a amurada de cada nayio e 
conservando a custo a regularidade das suas linhas^ com a ondulação 
das Tugis. Os bombardeiros, na coberta, esperarão mudos, junto dos 
seus eanfades, a ordem de romper o fogo, com a impassil^lidade habi- 
tual de komeny costumados a ser algentes de destruigio com cefi obedi- 
eiicia. 

RealmentOi nada pôde haver mais terrivelmente ei:pectaqte do que a 
pa^ instincttva e.medonba que precede um. combate naval, especialmente 
para os encarregados do mais tremendo serviço destas lutas. Ali não ha 
refugio possível A bala quQ ^entra lascando os madeiramentos fiiz de 
cada íjrapaento um novo pro|eçtil, igualmepta morUfsrpr ^ão se sabe 
onde está a morte e onde a salvação « A iátalidade é a uniç^ esperança. 
O marinheiro 4ss guarnições interiores aguarda o perigo, sem saber 
quando, nem donde virá, senão pela oidsm do commandante, que ^ 
como a alma daquelja grande msebioii de madeira, 4e linho, de ferrp e 
de homens. Os que ezscutão a manobra espairecem a vista, obfwrflijqi^s 
progressos do inimigo, reflectem, calculão e oocupão os sentidçs. Os 
outros, com o monão em punbQ>são instrumentos de ?uina, iimnpveís 
como os seas cenhj^ e como^Ues esporão taoitos que «ima ruina igual 
lhes redargua n^tas recpnveoçôes funes^s. 

O coovez estava ÍA aguado, jSS efçotilhas abertas, cada quftl ne sen 
posto. As láos hoBa^devas erfto já visíveis, como mopftiçif piarinhos, 
surgiiulo do seio do occeaWr 

D. António Oquendo manobrara no sentido de coneervar #s y#p.- 
tagens do vepto, para poder cebir com mais facilidade sobfea Irot^ hol- 
landeza, mascarando ap mesmo tempo o fogo mq inimigo, eow o fçm^ de 
sua artilharia. 

A eaquadra dos estados vipha mu|to mais 90 largo. D, António 
fn-M tambei^iBo mar, para lhe ppHpef 9 paisônhO) e pasa que, se algim 
dos seus iMvios desaryorasse, não fosse jtão £icilmente bater na ci^tR* 

Passeu*s^ a(nda uma hora de silencio jinsnbre e temsroso. Podia-se 
já verificar ip bprdo para bordo todos os detalhes da oMitreação § (pdQs 
os movineiitQs 4u tripolaçôes. As náais bojudu dos hgUandeves avan- 
çavão como quam tinha anda de dscMlr a nostte dsqneila dia. Os galf èss, 
caravellôfls e nãos da aoaetropele hespapbeifi méis carregadas, mostoa^ 



32 

v&OHM menos déUgentes Da apppareotia ; mas, na realidade^ comaqoe 
se lhes rebelara um ímpeto conitrangido sob o arbr das veilas tvfiidfes. 
Dissera-se que as paixões dos homens animaTão os caTenuunes daqndlii 
possantes machinu. 

Cosme de Conto Barbosa, que montaya uma das canréBaM de 
gnerra, ftvoreddo pela marcha mais ligeira do sen naTio.foi o piioMiRi 
que se achou a tiro. ImmediatameDte a primeira náo hollalktfeMi %i tiim 
sobre elle os seus núncios de ferro, disparando-lhe a banda intein du 
suas bombardas. A descarga troou pavorosa nas solidões do oceano; 
mas os projectis, mal calculados, vierto morrer reooehetando na cstôra 
do Teilóro nayio. O andas mancebo, de pé,na popa, agitou no ar o chi- 
péo, ondeante de plumas, como em um dia de festa, bradando t 

— S. Jorge por Pòrtngal I Filhos, mostremos a eiaei eastélhansB 
e a estes heiejes 4^e somos os descendentes de Tasco daGaaaal 

Seguiria-se depois as foaes da manobra. 

A carsTcUa, descrerendo um largo scmi-circub, yirou de bordo sem 
responder ao fogo dos hollandezes, e Toltou sobre a nAo inimiga, qoe, 
tendo feito pela sua parte igual morimento, reduziu considoaTelBieBle 
distancia. 

Foi o signal da batalha. 

As linhu romperão-se,^ porque naquéile tempo mais so coidavada 
luta pessoal do que da combinaçlo dos fogos, que hoje subordina o êxito 
& regularidade, e até certo ponto neutralisa a coragem IndifidnaL 

Cada um procurou o inimigo que lhe ficava mais de feição, arro- 
jando-se mutoamente com um encarniçamento que estimulava a repu- 
tação dos contendores, a gloria dos seus pavilhões e a grandeza dos inte- 
resses que i&o ali pleitear. 

As descargas repetidas atroavão os âmbitos do mar, e ião repercor- 
tir-se com medonho estampido nos recôncavos da costa. A pouco espaço, 
a brisa cahiu, deslocado o ar pelas detonações. 

Era um expectaculo solemne e horrendo. O homem sobre quatro 
taboas frágeis afrontava a um tempo o ferro, o fogo e os dementos. Não 
sabemos que possa ir mais longe a energia ou a demenda Iraniana! 

No meio do fragor da batalha, os dons almirantes procuravfto-se com 
empMiho, desprezando qualquer outro inimigo. Distinguião-os os res- 
pectivos pavilhões, e não era preciso muito para se encontrarem. As náos 
avançarão uma contra a outra, como impelidas pelo ardor dos sins 
chefes. D. António Oquendo^ por uma rápida manobra, tentou cortar o 



í 



qmn^nha. «o seu adveriario, e engajar logo a alK>rdag6ni ^ mas o hol^ 
iaadez Dão era menos ttftbil, o desejava manter a sua vantagem. Confi- 
ando na dextrçza da sua tripolaç&o, parece esperar o choque, evita-o a 
tempo, e enfla com o seu fogo, de pòpi á proa, a náo de Oquendo, 
aèríndo. largos sulops.de sangue aa gente accumulada no convez, e pro- 
longBrse com a náo portugueza,. lançando -lhe, a meio alcance, uma 
banda mortífera. 

.tP; navio de Oqumdo estremeceu das cavernas aió ós topes, fio in- 
tenpr da^coherta sahiu .um grito horiivel, composto de todos os gemidps. 
dos.feri4ps •« ^igonisantes ;.mas a voz do almirante, que dominava o tif- 
nm^o, clamou; ,. 

— Fogo I fogo e pontarias altas I 

A náOy que pareoôra momentaneamente estoptòcta, respondeu im- 
mediatamente conr todo 6 fogo dos seus canhões, dirí^dos contra a 
mastreação do bollandez» « . 

Os valentes bombardeiros de O^piendo, dizimados pelas balas ini-' 
migis, tuihão visto, pdas> canhoneiras» o corpo da náo contraria inter^ 
ceptar-lhes o céo, e os vivos, arrancando os monões das mãos dos mo* 
ribundos, havifto obedecido, como se os nSo houtessem visitado os 
mensageiros da morte* 

A descarga do almirante Oquendo produziu todo o effeito que este 
desejava^' Dissipado o famo, viuHie a náo hollandeza com as vdaâ itòtas, 
as oDixarciaf partidas, as cordas pendentes, e o mastro real rendido k um 
terço da sua Altura. Em breve o peso do próprio velame, apezar de- 
todas as dilifeneiBs da tripola(^, completou pi obra começada, e o mas^^ 
tro vciu abaixo, alastrando o convez e paralisando todos os movimentosM 
do navio. O bravo Patry não perdeu todavia o acordo. A'8 suas ordena; 
a guarnição aceorre^ cortando, desembaraçando,' arrojando ao mar o 
tronooinutU, edesempedindo-ò navio. Estas operações, porém, exigem 
tempo, e Oquendo não. a perde» Aproveitando a immóbilidade nlativa 
da náo contraria, vira de bordo, e criva-a com uma nova banda, a que 
o navio hollandez só responde frouxamente. Depois ganha espaço, «, 
voltando por través,afim de evitar o fogo da bateria opposta, laoça os 
arpées á p6pa do bollaodez, e dispõe-se á abordagem. 

Já 08 mosqueteiros e arcabuzeiros dos terços de terra tinhão aberto 
ofogosobreoctmveidanáo át Patry;' já os piqueiros e a tiipolação, 
annadado machades, preoípitanâo-ao^^das vergas,. e por todos os ponMw 
^eooataçto enibfe o» dous navios, se arremeçavlo ao- assalto,a que o 



tlninmte báltyo procoraTa iuer frente com a watt gúãrni^ wumí í i ^ t 
com os leos pedttlroe afiestadot, ]i emfim o derraddio hmtes p atw fc 
immJnente com fantagem de Oqaendo, que podia deale modb nliliiv i 
gente qne o sobrtcarregata, quando ontia náo hoUandoa» ^venio • fttí^ 
do aen ehefe, fai lòrça de feia em ten ioeeorro, e ehega m tempe di 
ae aftobar pdo flanco da náo portognen antea qne cetn poam iaiv>> 
dagem render o uayio contrario. 

Sentindo-se tio poderoaamenie anzlfiado, FHry, iempre y/^ifitak^ 
tenta deaembaraçai^se dos arpéoi, e, aproreitando aa T^nn ée fM 
pdde diapiVr, e nm reato de aragon, soltar aobre o inimigo pnn • 
entre dona fogos, e por eitaitfrma decidir a acçloeeollM4o no j^efria 
laço. 

Maa Joio Carfaliio, o t^rilmeapltlo, tatá abordo da mio pottagnoa. 
Gom a promptfdãe inftillifel de nm maritimo ezptrimenftado^ 
designios de inimigo, arroja-ae ao conyez da náe boOandexa, e 
passar nm cabo ao sen maatro de ré. A morte era infoUíTBl ena tal 
matliBMnto. A andada cmta-lbe afllaetiTamente a vida ; mae a aáohoi» 
landen está come manietada, e mnit» faz em defender-ae ninda. 

A hita oontinda aH, de perto, emqnanto o na?io p orio g u ei, fanao» 
Tel também, sustenta o dnplo conflictOi e procura re^omdar aa foge 
tenlvd do aen noTo adreraarie* 

Todatia, a pesiçio do abairanta da armada pea t ogaaaa awi a jUMU S l ■ 
maate preoaria. A sna náo faiiaagna portou oabdoe. OaegiisidoW* 
kndea» kne noa sansmoviaientoa, repetia a cada paaso aa bandaa rnnli- 
kndo bonivehnente a equipagem. Os bombardalroa raveayio na bataifi, 
eooombateencamiçaâocom o almirante contrario nlo deixam gente 
dt^eaitel para Vies preatar soceorre. 

Coime do Couto fèi8ledelèBge,e, sem calcular a auperioridade 
de iDiçaa da náo boUandeia, sem Ibe lembrar a rivalidade doa oaãldba* 
noa, attendende sósMote ao perigo do seu cbefe, meUe ae onsadamenfe 
de permeio entre o almirante Oqaendoe a náo boUandeaa, eaaha afaelle 
com Cite manobra temerária. 

Em pouco tempo a carardla de Cosme do Conto, esmagada pela aa» 
tilheria superior doa bollaadeies, fmde-aeportodof os ladea^ e^^eaii 
pHueoomoaenintre^doeommandante, qaeatéaoaMImcK^aBanMDte ae 
conserva no seu poeta» e, qneafloeli buscando refagtaf«ee a aada<*«a 
onMe naviea da atmada^ é coMdo pr ia ieaei í apdaa Imwfcaa MaUpa. 

Noeatanle, Oqnendojlifrede aen segando adtenafio, 



— 3$ — 

lodof o« «iforços sobre o fuimdro, a lasça-lhi dentro um ooto gotpe de 
gente. Patry dftfeade palme a palmo o comrei do sea naWo coaa 
esforço heróico. Batem-se uds e outros corpo a corpo, como em 
terra. Os pelpuDoe ckoyem recíprocos, os pedreiros troyejão, o ma- 
chadOKOpiq,ijía,oespontAoe4tspadafloreião-8e tia tos de sangue, e o 
saiigue tinge os pós «os contendones misturados. Os combatentes saitto 
por cimiL doe cadáveres confusos, para arcarem brago a braço. 

De repente ^nm grito borroroso. 

^ Fi9golfcgol 

A esta Toz, que só « podorfto cemprcbender quantos já tiverem ima'* 
gínado o que é um incêndio em tal situação ;— a esta vos, que resumia 
ali a morte inevitável, ameaçadora, espantosa, nas chammas, nas ondas 
ou na explosão;— a esta voz, diremos, suspsndem-se os golpes, para- 
iyúo os braços^ e u turbas contrarias recuão espontâneas, /iJ>riado largo 
es^çQ entuf si. 

Úm bombardeiro castelhano dos terços de terra havia arremeçado 
um «torrão aceso pelas escotilhas. O fumo sahia já delias denso e 
negro. Um clarão avermelhado, ruboreicendo a base daquellas aqdraes 
temidav^, annundavaqueii chamma se havia ateado nos madeira- 
mentos interiores do navio. 

Patry, conservando ainda esperanças de -salvar a sua náo, bradou 
aos marinheiros que ocereavãot 
. — Ao €Dge^ filhes, ao fioge ! 

Quasi no mesmo ponto, Oquendo, que pelejava como um soldado^ 
clamou aos sena, apontando para o navio portognes : 

— Todos a bordo I 

£' sabido como em taes situsções tudo serve de eonductOi Gordas, 
pranchas, vergas, cobrirão-se rapidamente de marinheiros e soldados. 
Não havia .i( perder wi instante^ O fogo instava* O foge era o perigo 
cammum. Era a destruição de ambos o^ navios. Era a.victoria e ader** 
rota» comprehendidas no mesmo desastre. : 

..De um navio para o outro, ainbos qaasi inteiramente rasos da faria 
te P^i^iMieHie.e ouvia-se tudo., 

, Pqfép^fí>i o ultimo, que fubiu,, para a sua n&o; e, apenas p6z o 
pé na amurada, arrancando o machado 4^8 ViàoB de um robusto aJgàrve 
cpitptt elle m^B|no« cabo que ligarai oa.dous navios» ■. 

Dep^ saltando^ao oaslello de p<^a, deu vecde aeltair as poucae ver- 
ias fue Um havilo ficado, paia se affutar do mi tecrivel vizinho. ' 



— 8S — 

O miriíilittro sentia debaixo dos |tós a crepitação do inomdlo. Lu- 
(ou ot olhos em redor, pallido e desflgaiado, como le tamesiift qoe ds 
um imUnte para o outro lhe feUasseaqaelle chio moTediço ; e, podeõie 
mais nelle o instinçto da contenraçào do ^9 os eztremoB do allede^ 
arremesson-se ao mar. 

Patrj sf goie-o um foflante com os oBios, disfarçando a- romiyiotiai • 
Yoltdu a fica-lo« oas chammas, que o rodeavão, parecendo repta-las a ^ 
Ibe filassem ter Igtal fraqueza. A sua atitude era imponente . e aotobs, 
sobraçando^oomoacheamidedenm spartanoi as dobrai do aen |Nifi' 
Mo, florioiamenie loio das bailas e pelourQS contrarioi* 

O almirante da aroiada portuguesa indinou-se de longe no çaslilo 
do seu nafio, e tiro«-lhe o chapóo saadaoda aquelle nobre fim, ««i^piaiito 
■io lhe chegara a sua Tee. Eia a cortesia eaTalheicosa da noiÉe á mortel 

Admiramos hi>íe, e eom raalo, oa actos heruioea que o eapiílfo anil» 
tar inspira noa eoDercilai modernos ; mas, se oa poYoa imáos^ qna aa 
assentfto a uma e outra margem do oceano, lançarem oa olkoa á aaa 
historia e ao seu pasaada, aèo terãe que invejar a aingueaci. Faiftoa edestes 
erão Talgares naqnelles tempos de fó ^tà, da crença zobasta^-. da 
enda do nosao fakNr. 

Passada um instante, aa oadas parioMia rasgar-se an fo^* a^ 
horroroio eiCampido, a nÍo halldádeza yaou, desfeita^ aaa «reS| aba^ 
tnindo o mar^ por largo espaço em tomo, deeadayeres a útMíxoçm l 

O nayio de Oquendo parecia esperar sómenie este instante saprena, 
pam attestar, em am momento de sobrevifencia, uma sombra da vidaria» 
Oofôssequea desleoaçãaée maier Yolume de agna predfiitasaa pdoa- 
rcmbus abertos jactos mais impetuosos, ou fdase qae o peso do líquido 
InTasor honresse excedido muito a linha de flaetuaçio, a náo japaUoa^at 
nas entranhas do oceano, abrindo um sorvedouro immeaso. D. Aala- 
nio Oquendo sentía que se lhe ra!>gafa o abismo debaixo doa pés; e, 
volvendo oa olhos ao ponto eaoi que Patry voara, sorriu, oqmo aa, 
tendo invejado a sorte de £ien inimigo, se alegraase com o sepolcfaro fna 
08 ia uoir a ambos no mesmo destino. 

Os feridos portngafzes.foeMiihio ficado a b(«do do malfodaia na- 
TÍo, percebendo que elle mergulhava, soltarão unisonoa, cooae aaaia* 
çio derradeira e tremenda, o grito que já naquellas paragens ae tomara 
immortal : 

— 5. 4arge por Poriagal a peloa Bsaaia I 

Disserão e morrerão I 



— 39 — 

Era o QMma adeot % pátria. IhÊCtítão com a morte ao fiiBâo de 
elemento a que hayifto^dado a Tida, nfto tinhão Tima qiMixa; acha?ãofdo 
brado de enthusiastna I. . . 

No entaoto aé lanchas e escaleres de todos os Dárlos da armada cor- 
rião ao I( gar dó desastre, atravez do combate <nie ainda dnraYa. 

D. António Oqnendo, tragado' pela toragem que se abrira, mas re- 
peUido para a snperflcie.pela mesma elasticidade das agnas, Toltando ao 
seu nível, mais feliz que o seu competidor, boiara ainda, nadando 
meio desacordado. 

João do Prado recolheu-o; é, conduzindo-o a seu bordo, fòi conti- 
nuar a peleja. 

Só á noite sej[iarou os combatentes, terminando abafoliia que prin- 
cipiara ás primeiras horas do dia. 

Nessa mesma noite a claridade pálida e frouxa dai èstrelias allumiava 
uma scena bem dSfferente. As enseadas e abrigos são frequentes nas 
costas brasileiras. As armadas, sepsfando-se, estarão de tal modo ara- 
riadas que lhes era impossirerccntinuar uma lon^ naregação. Os hol- 
landezès acofterão-se aò porto do Recilb para se restaurarem e relbzerem. 
O almirante Oquendo aproou a um daquelles abrigos escolhendo o mais 
próximo afim de calafetar os seus narios e concertar os seus apparelhos. 

Na enseada acharão-se unicamente os rasos da armada. Em tomo a 
solidão. AqueUes, os feros galledles^ abertas as chagas recentes balou- 
çarão-se moliemente nas ragas adormecidas como o guerreiro índio qu# 
depois de mutilada se recosta na rode eaHando às áòres, Nobie eria rer 
aquelles reteranos do mar eon oamastaréos partidos, as rergaa lascadas, 
as relas lotas^as fiaúiulas e galhardetes ennegrecidos do flamo ; era bello, 
dizemos, re-los [com os flancos retalhados ainda tristemente pompeiando 
os restos das suas gallas de guerra por entre as sombras da ndie silen- 
ciosas e rigiantes, compararei» ao soldado, que, finda a batalha^ rela 
encostado âs armas. 

Mais de um de seus irmãos se haria aftrndido nos entranhas do 
ocêeano, sen glorioso sepulchro. Os que restarão, indinasdoHie sobre as 
anéorat, paiedio mèdirHie e passar-se em rerista, deplonnde oi fue 
tikihtò suôenurbiSo. 

O^priíneirp cuidado do almirante' ftlra risítar os feridos em todos os 
narios. A quantidade delles em cada um attestara a briosa parte que todos 
harlfto tomado na batalha; e, mais d^ umarez, o rudeí marinheiro da 
I>idia> ourimfo que a outro bordo o estrago lôra maior que no sen, 



40 -r- 

esquecia as feridas pain soltiur uma furibunda imprecação de gaoeroia 
lUYf ja, tão indjífereuie lhe parecia a própria individualidade, e tanto o seu 
espirito se havia identificado com as t&boas em que passara a vida. 

O primeiro elemento da superioridade marítima ó de certo o longo 
habito, a tnutua confiança, a emulação reciproca e o espirito de corpo- 
ração que mormenie se cria quando astripolflçdei, desde o commandante 
até ao ultimo pagem, conLecem tanto o seu navio come este, porque 
assim digamos, as conhece. 

A noite ia já adiantada; estes essendaes desvelos havião absorvido 
a primeira parte delia, assim ao almirante como «os capitãee. 

O galeão de João do Prado, arvorara o pavilhão do commandante. 
Do vigamento affumalo da camará deste pendia uma lantern^i, CDjo^]raio8 
avermelhados espargião uma luz ténue e sanguínea no estreito reduto» 

D. António Oqoendo, como antes da batalha, tinha ali convocado a 
conselho os seus capitã0i. Jcão do !^rado estava.a seu lado. O ramalh^p 
dos remos nas agoas silndosas da enteada fez-se ouvir suecipiivameiíte. 

■ ■ ■ 

Oe capitães forão entrando. O conde Bagnuolo foi presente. Raro era o que 
não sabia das mãos dos physicos, e não trazia o signal da intrepidez que 
esguiara. 

Reunidos que forão, eocarárãç-se todos com olhos em que a^a 
brilhava o fulgido ardor da peleja. Gontando-se, uma nuvem de tristeza 
apagou aquelle resto de chanunas, e toldou 09 enérgicos semblantef doe 
filhos do mar. 

A gloria custava-lhes a saudade de seus irmãos. 

— Ninguém mais se espera ? — Perguntou o ahnirante. 

— Ninguém. «- Respondeu o seu capitão de bandeira. 

— Senhores -* proseguiu D. António Oquendo -^ antes de tudo, 
oremos pelos que nos fiiiltão ! 

£ a assembléa inteira, voltando-se para um crudfixo,.que a piedade 
de João do Prado appendera no topo da camará, dobrou o joelho» e orou 
longamente, fórvida e recol^iida. 

Era aquella uma épuca de grande íó, e por isso acabava grapdee 
cousas pelo só esforço da vontade. Esses homens, que affrontavio a morte 
a cada pasio, não se envergonhavão de ser chri8tãos.f ,inelif)av|o,a 
fronte que se não vergava aos tufões, e baizavãp os dhoa que se cru- 
zavão com o raio, prostrados diante da pallida imagem do cmciflcado 
na piedosa humildade, que dá tanto realce ao guerreiro. Nobomeifado 
mar, isolado nas solidõeB doojçceano com as grandiosas ímaj^^ens do po4^ 



i 



41 

nifiiiito, Tisiveis sempre na iiuoieD»idão das yagas e na immensidão do 
céo; no homem do mar, dizemos, a convicção e o enthusiatmo do 
sentimento religioso ó o attributo natural . 

Observamo-lo ainda Ihoje quando vemos uma tripolação inteira con- 
duzindo o traquete enramalhetado em voto ao templo, quando a ouvimos 
entoar, na sua sincera crença, descobeita a cabeça, os cânticos siogellos 
da igreja. Se passão esses homens, de rudes phisyonomias, crestados 
do sol e^do mar, nem o próprio atheu acha sarcasmos, e cada qual se 
descobre, comoeiles, saudando a ardente fé que com elles vai. £^ que 
nas agonias da proceDa foi essa fé que lhes sustentou o vigor e a espe 
rança. £^ que não ha impiedade que não comprehenda e venere a energia- 
do corpo abraçando á religião do espirito. 

Foi longa» dissemos, foi longa e intima a oração dos ]hos guerreiros* 
ajoelhados em frente da cruz redemptora. Nenhum refutem podia ser 
mais solemne, e nenhumas exéquias mais augustas do que esta depre- 
eaçio funerária, sobre e oceano, pelas almas dos companheiros, cujos 
cadáveres o mesmo oceano recebera no seu seio. 

Ao cabo da oração o almirante levantou-se, e cada qual tomou o seu 
logar. A* esquerda estava o capitão JoãodoPrado, queói^alvára. A' 
direita o conde Bagnuolo, commaadante das forças de terra. Seguião-se 
os capitães em semi- circulo. 

Ao longo das faces rugosas de Oquendo corrião dous fios de lagrimas. 
O seu valor na acção, a sua piedade depois da batalha, haviâo feito calar 
todas as rivalidades nacionaes. Quando os capitães se erguerão, em mais 
de. uns olhos, que a nada se fechavâo, boibulhavão prantos, escoando 
mudamente pelas barbas emmaranhadas, ^á ^semelhança dos aljôfares 
matutinos perlando a silvestre espessura dos m^tos. 

-«- Senhores, — disse o almirante commovido, — promeiti abraçar- 
vos a Ltodos, depois da batalha. . • a todos que nos pudéssemos ainda ver 
neste mundo. . . e concedeu^ne a Divina Providenda que me fosse dado 
cumprir a promessa. Sr. conde Bagnuolo, destes o exemplo aos vossos ; 
dai Ucwça que p^ vós comece. 

E 08 dous veteranos, de mar e terra, abraçárão-se com uma cordia- 
Mdadet 9w «ugmentou a compunção geral. 

— * Sr. João do Prado— continuou D. António — esqueci em um 
momento da orgulho que a minha vida não era só minha, e que, emquanto 
Deui m*a deizasie, pertencia & minha pátria e ao meu rei. Viestes lem- 
brar-m'o a tempo no turbilhão das ondas. Para vós, ó mais do que uq^ 



abraço, é nm agradecimento, com uma penitencia. FIzeale» o 
derer, e eu ia abandonando o meu. 

João do Prado inclinou-se com respeito, recebendo o ■jm^ho ia 
seu commandante, e nio achando palavras para lhe respoodcr. 

Depois, cada um dos capitães veiu colher igual recompensa . Giogiâs- 
sebiaços que mutuamente se tinhâo apreciado; e aquellei homens jil- 
gt?ão esta franca demonstração do guerreiro premio baetanle paf» teili 
perigo e fadigas. 

Terminada a imponente e siogella ceremonia, D. AntonietaM 
novamente a palavra: 

— Oremos pelos inimigos, senhores! Posto que apartado» da seb 
da igreja, erão homens, e como homens se houvorSo. Sernào eeno oái 
a sua pátria e a sua bandeira. Oremos sobretudo pelo es foiçado Miy, 
que, se tinha os olhos fechados á luz, tínha também o maior • adi 
forte coração que nunca pulsou no peito de um soldado. 

Nenhuma objecção se levantou. A homenagem extremai trlbobda 
á memoria do adversário que todos tinhão visto e admirado era o doo 
da opinião de cada um. 

Os joelhos eahirão segunda vez sobre o pavimenta mofediçada 
camará, cujas taboas desconjuntadas erão a mais eloquente demoBstssçia 
da justiça de tal tributo . A oração não foimenos fervorosa que a paim s iia ; 
porque estes homens sabião orar lãso lealmente, como lealmente tarrifto 

pelejado. 

Assim, a fraternidade da religião abraçava igualmente amigos e ini- 
migos; Çy terminado o combate, achava as mesmas vozes para iiomara 
memoria dos contrários, após o antagonismo que o impelHra. Não seri- 
este o mais poderoso caracter das excellendas [da crença legislada as 
evangelho I 

Goncluindo-se a tocante commemoraçâo do almirante hoUiiidev, 
Oquendo disse para os capitães : 

— Agora deliberemos. 

Um silencio profundo succedeu a estas palavras. Cada qualieflectit 
na posição em que se achava, aguardando que os chefes lhe Ihetton 
conhecer os seus desígnios, promptos todos para uma obedfendflòhdade 
confiança. 

— Senhor almirante — prorompeu o conde BagBuolb -* êtm 
encargos destinctos nos íbrãò commettidos. Um, comboiar os grietardb 
Heiieo, para que as suas opulentas carregações não calão eia poder dos 



— 4S — 

iMlUadezes áTidos delias : es80 pertence -tos. O outro loccorer e capi- 
tania de Pernambuco, para que estas ricas possessões não contlnueBi 
expostas ás emp^ezas do inimigo que senhoreia Olinda: «ste compete-me. 
Eis a situação respectiya em que nos achaxnos. Tereis certameaie pen- 
sado nos meios de 4ar compriaiento ás ordens recebidas. Aguardo a 
voisa o[Ânifto ,^ depois darei a minJba. 

•—A nossa situação é tal como a resumistes, senhor conde Bagnudo-^ 
IMiou oalttiifante. Os hollandezes sahirão da bataliia tão maltratados, 
que terão de refazer as suas aTaifas antes de poíem'de noTO « pr6a ao 
itter. Mes devenos contar que nAo perdefáõ lempo, • q«e, apenas 
refeitos voltaráô em demanda dos galeões 

— Assim é-af&rmárão os capitães. 

— Portanto — continuou B. António— o primeiro séTor da armada 
é restaurar quanto antes o mais essencial e prevenir o inimigo. 

— Mas o soccorro da capitania é também urgente — reflectiu o 
conde Bagnuolo. ^ nem á armada pôde convir conservar os navios 
carregados depois do que soffrêrão» nem as minhas ordens me consentem 
demorar um auxilio, que assim se tornaria inutU. 

— Perdoai-me-*atalhoú o almirante - deixai-me expor até ao fim os 
meus projectos, e vereis se julgaes prudente concordar nelles. Em 
quanto os hoUandezes reparão no porto o seu destroço, a costa está 
livre. Podereis embarcar nas cara?ellas mercantes, que padecerão menos, 
e aos navios que precisem menores concertos os vossos terços de terra. 
Tomareis o commando da expedição e ireis fundear no porto da Barra 
Grande^tonde vos será mais fácil irSectuar o desembarque. E^ verdade que 
esse porto dista ainda trinta legoas dos xeaes do capitão-mór; mas no 
estado om que nos achamos não penso que haja outro alvitre, e de certo 
não seria.prudente buscar um ancoradouro mais próximo do Recife,. Eu 
ficarei aqui, como me cumpre, pai'a vigiar Jia promptidão dos reparos ne- 
cessários, e aguardarei os navios de guerra que levardes comvosco. Se 
alguém pensa que se pôde combintt^ftfaláòi^tono, apresente-o francamente, 
e não duvidarei adopta-lo se ofl#rec<ir juais vantagens. 

Os c(;pitães manifestárãp x> seu assentimento. O conde Bagnuolo, 
depois. de refiec^r, disse para o. almirante ; 

— O vosso plano é em tudo conforme á vossa longa experiência e 
não penso qfs» se pudeste apresentar i^ejeclte que melhor coadliasse os 
nossos encargos . Assim, ppjs, Aignaí-^vof paasar «as competentes ordenai 



44 



para qtxe tudo seja prestes, e amanh& ainda, se puder ser, seguirei miah 
derrota. 

-*De quantos homens validos podeis ainda dispor?— intaxogot» 
almirante. 

— De setecentos— respondeu o conde Bagnuolo^ 

A batalha tínha custado pouco menos de um terço da sua totaUdaii, 
sé ás forças de terra. 

— Fio-Yos que anianhi apparelhareit, -» tomou o alnôiante— e «» 
pouco podereis effectular o tosso desembarque. 

Q conselho separou-se eom as mesmu provas de mntuji estima os» 
que havia começado 

Durante a noite, apezár de reunidos de cansaço, todos os boneai 
disponíveis da armada se occupirão nos preparos mais urgentes. 

Era com estes exemplos de energia e actividade qae os nossos aiói 
firmavão o seu poder e se fozião espeitar das nações. Depois do comhiU, 
o árduo lavor : era esta a sua tarefa ordinária. 

O conde Bagnuolo desembarcou effectivamente ns Barra Grande; e, 
apenas os seus terços forão em terra, os navios de gaerr