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Full text of "Camillo; a sua vida, o seu génio, a sua obra"

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CAMILLO 

H Sua Vida 
O Seu Gemo 
H Sua Obra 




PBOPERTY OF 




Mckigãn 

A K f E S SCI E NTI A VEKITAS 



'-"V.f"íKi:- 






i 



DO MESMO AUCTOR 



i^guilhadas, opúsculos de critica, 1 vol. (1903-1904). Eêg^ 
Historia d'um morto, conto (2.^ edição, 1904). 
Na casa de Garrett, opúsculo de critica (1905). 
Camillo Castello Branco, esboço de critica (190ô). 
A ultima ncite, novella (IDOõ). 

Camillo Castello Branco e o sr. dr. Bombarda» arti- 
gos de polemica (1905). 
Notas á margem, chronicas (1905). 
Criminosos loucos, estudo de luedicina-legal (1906). 
Lisboa, chronicas (1908). 

VariaçCes sobre um velho thema, contos (1908). 
Por am£r d'ella, peça enri 1 acto. No prelo. 



Histoíre d'un mort, trad. de Philéas Lebesgue (1904).. 



IgquCo ggoi:io 



CAMILLO 



ft SUft VIDft 

O SEU 6ENI0 

ft SUft OBRft 




MAGALHÃES ê, MONIZ, L."- Editore. 

II — L»Iío doa Loyo> — M 
1908 



é5'J^^líSl 



Ao Snr. Ramalho Ortigão 



«... o prosador degantisaimo, u fi<Ial(;o 
de raça senhoril, a revelação mais assigna- 
lada que ainda tivemos do espirito francês ». 

(Camillo : Noite* de Insçmnia). 



c A historia pablioa e iatimfi dos homens 
como elle uAo se escreve senão dopoid, assim 
como a jastíça inteira e o elogio sem. restri* 
cções não se concedem senfto á sna memoria. 
Emqaanto não restituem á terra tudo que os 
fez iguaes dos outros, a sua elevação opprime 
os medíocres, a sua voz assusta oâ emulos e 
o seu vulto assombra as vaidades invejosas 
que suppoem que elle lhes toma todos os 
passos e lhes fecha todas as estradas ». 

L. A. Bebbllo da Silva. 



€ Porventura virá um dia, quando Portu- 
gal não for mais que uma província da na- 
^ão invasora, e o grupo dos portuguezes nos- 
tálgicos, retrocedendo a magiia ás raoordações 
da pátria perdida, procure o symholo synthe- 
tico da nossa antiga vida livre, porventura 
virá um dia em que o espirito de CamiLlo se 
levantará do passado, como em 1880 viram os 
portuguezes levantar-se o espirito do Camões. 
Então os livros d'elle serão martyrio e con- 
solo para esses contempladores opprimidos 
«em remédio; avaltarão os seus desesperos 
como sentenças ; viverão os seus typos como 
•abstracções ; e toda a memoria do meu ado- 
rado paiz, saltando os annos, outra vez fará 
verter as lagrimas que eu tanta vez chorei de 
■o vêr tão pobre, tão indolentemente passivo» 
« tão mal guiado. Ninguém se lembrará dos 
histriões que ora o apedrejam, nem da caíila 
liquidante que nos negoceia e nos esmaga ; e 
o vulto de Camillo, sempre de pé no seu cerro 
minhoto, visível para toda a roza do espaço» 
parecerá dizer: — Fui eu o ultimo!» 

Fialho d'Almbida. 



PREFACIO. 



PREFACIO 



Em 1905, publiquei um livro intitulado Camillo 
CastelU) Branco (esboço de critica) ^ Escrevi esse 
livro precisamente dentro dos processos de apre- 
ciação critica, que presidiram á feitura doeste. A 
minha velha admiração por Camillo levou-me a 
estudar attentaménte essa figura grande de artista 
e desgraçado, fazedor de tragedias, e elle próprio 
protagonista d'uma bem dolorosa e bem intensa : a 
tragedia da sua vida inteira. A sciencia moderna 
impunha-me um methodo de estudo a que èu não 
poderia fagir, sob pena de fazer um trabalho este- 
ril. O doente, que a dor engrandece e purifica e do 
qual em Camillo a figura litteraria não representa 
mais que um coroUario, era sem duvida digno de 



Edição da Livraria Moderna, Lisboa. 



12 PREFACIO 

interesse. Estudei-o o melhor que pude, estudei-o 
com amor, procurei não dar um passo sem ir soli- 
damente apoiado em opiniões incontroversas ; n&o 
formulei uma conclusão que nâo assentasse numa 
base de factos ; quiz fazer um trabalho com todo o 
rigor, probo e consciente, nâo pelo medo que me pu- 
dessem inspirar os gládios dos pomposos ignorantões 
da minha terra, mas pelo respeito que devo ao nomo 
de Camillo e ao meu próprio nome. O trabalho que 
apresentei — mesmo a meus olhos ainda incompleto 
bastante para merecer o subtítulo de esboço — náo 
tinha direito a esperar um unanime e enthusiasmado 
coro de applausos. Expuz ali opiniões minhas que 
me seria agradável vêr discutidas e, se d'essa dis- 
cussão nascesse para o estudo da personalidade de 
Camillo uma conclusão diversa d'aquella que tào 
seguramente quanto possivel formulei, ficaria para 
mim ainda a honra de ter chamado para a figura 
tão interessante do maior escriptor português do 
nosso tempo a attenção de quem quer que fòsse 
mais competente do que eu para avalià-la. 

Logicamente, eu não poderia esperar que o meu 
trabalho provocasse um debate alevantado e útil. 
Em Portugal sabe-se pouco de psychiatria, as doen- 
ças mentaes não se ensinam nas escolas, um medico 
concluo o seu curso sem ter posto os pés num 
manicomio. E eu tinha ainda a contar com esse 
sentimento de defèsa que impede um diplomado em 
medicina de discutir com profanos assumptos que 
mais ou menos se relacionam com o seu modo d% 



PREFACIO 13 

vida, — náo vá ás vezes no decorrer do pleito o obser- 
vador ter o ensejo de cogitar na inutilidade dispen- 
diosa que, em muitos casos, por si só, um curso 
representa. Esperava o silencio, o desinteresse simu- 
lado, a affectação do desdém : mas não esperava a 
agress&o indocqmentada e violenta. E comtudo o 
alienista sr. Miguel Bombarda veio, não discutir, 
mas agredir-me. Disse-me que o meu livro tinha re- 
duzidos méritos e limitou-se a contrapor a sua opi- 
nião em questões de minúcia que não attingiam as 
conclusões finaes que procurei. E disse-o tão d 'alto, 
com um ar de despreso de tal modo lamentável, 
que eu, replicando, tive de lhe fazer notar que o 
trabalho dos outros é uma coisa que a mais elemen- 
tar correcção manda que se respeite. 

De então para cá, a minha maneira de vêr mo- 
dificou-se, ulteriores observações levaram-me a 
alterar um pouco as conclusões que formulei nesse 
primeiro esboço ; mas quero desde já registar que 
nenhuma d'essas alterações attingiu aquellas afir- 
mativas que provocaram a sobranceira contradicta 
do director de EilhafoUes. 



A propósito doesse meu primeiro trabalho sobre 
Camillo, o sr. Theophilo Braga dirigiu-me a se- 
guinte carta, publicada depois, com.auctorização 
sna, em jornaes do Porto e de Lisboa : 



14 PREFACIO 



« Lisboa, Í9 de junho de 1905. 

Caro è ilhistre amigo. 

Recebi honteni o seu livro — Camillo Cástello 
Branco — Esboço de critica — e honteni mesmo puz 
de lado todo o trabalho que me tinha destinado, e 
li-o de uma assentada. Quer pelo interesse que a 
individualidade de Camillo suscita, quer pelo pro- 
cesso critico do seu julgamento, o livro attrahiu-me 
e deixei tudo por elle. 

Desde já lhe confesso que ê esse o verdadeiro 
processo para estudar todas as individualidades 
que se destacam no seu tempo ou no fieu meio só- 
cia/: o estudo psYCHOLOGico traz uma nova luz para 
a comprehensão do génio creador em qualquer 
forma de actividade. Na historia litteraria tenho 
reconhecido praticamente o valor doesse instru- 
mento. Vou ainda mais longe, investigando a psy- 
chologia collectiva, da nniltidâo anonyma, do Povo, 
e è essa a luz que vivifica os factos concretos e mui- 
tas vezes banaes da Ethnologia. E, juntando estas 
duas psychologias, chega-se a uma comprehensão 
philosophica, indispensável para todo o historiador 
digno doesse titulo. 

Mas, voltando ao seu livro : apparece alli o Ca- 
millo fortemente explicado, com opulenta documen- 
tação. O meu amigo está em dia com os trabalhos 
de psychiaíria, e escolheu bem o Camillo como um 
caso complexo bem digno de interpretar-se ; e a 
sua conclusão, implícita em todo o livro, c que, tem- 
peramento profundamente desgraçado, tudo em 
Camillo, nas suas qualidades superiores e nos seus 
de^temperos, desperta uma grande sympathia. Che- 
guei tarde a esta conclusão e somente depois de ter 




PREFACIO lÕ^ 

lido perto de quinhentas cartas de Camillo ao Vis- 
conde de Ouguella (hoje perdidas?) 

O Camillo merecia um estudo assim. Se o meu 
amigo matizar o seu livro com trechos autohiogra- 
phicos de Camillo, e referencias d'elle á origem ou 
motivos da sua obra, faz uma obra definitiva que 
ficará como o monumento levantado ao excelso es- 
criptor. Deve fazel-o com vagar até ao momento 
em que lhe appareça ensejo de publicação. 

Parabéns pelo precioso livro; e pelas palavras 
affectuosas que o acompanham, o reconhecimento 
do 

seu am.^ ohg.»'<^ e adm.^^ 
Theophilo Braga ». 



Procurei seguir as indicações do sr. Theophilo 
Braga, revi o meu eòboço^ procedi a novas investi- 
gações, tentei novos estudos — e fiz, quer na essência 
quer na forma, um livro novo. Mas não permittiram 
03 modestos recursos do auctor que ficasse valendo 
mais que um subsidio aquillo que o illustre signa- 
tário d'essa carta generosamente quizera que fosse 
um monumento. 



^ 



<5ENEAL0âlA 



«Heredity is the law» 
Darwin. 



Ha fundadas razões para pôr em duvida a rigo-: 
rosa verdade histórica que se attribue á nobiliarchia 
d'uma familia trasmontana, pelo epitheto d'um dos 
seus varões mais recentes, conhecida por Os brocas. 

Parece-me, de resto, dispensável para o inte- 
resse pratico do meu intuito averiguar se tal linha- 
gem trazia integra a progenitura d^aquelle Fruela, 
irmào de Affonso i, genro de Palagio, fundador da. 
monarchia de Oviedo e Leão, dos reis Vermudo ou 
Bermudo, Eamiro i e Ordonho, ou então, por outras 
vias, do fidalgo solarengo D. Payo Mogudo de 
Sandim. Basta ter como elucidado mais ou menos 
que, olhando em âmbito mais curto para essa pre- 
tendida cadeia de transmissões de sangue azul, que 
se perde por uma dynastia de Ordonhos, nuns 
tempos vagos do rei Bermudo de Navarra, se nos 
depara um Domingos Correia Botelho a quem o 
mais illustre dos seus descendentes outhorgou a 
qualidade de estudante *y quando ao certo, e con- 



^ Gamilx.0 : Cousaè leves e pesadas. 



20 CAMILLO 

forme a afirmação de outros auctores, se sabe que, 
durante uma existência vagabunda, andou de terra 
em terra propagando as profecias do Bandarra e 
exercendo o mister de picheleiro ^. 

Espiolhando bem as costellas da creatura a quem 
genealogistas diversos tão varias profissões attri- 
buiram, vem-se a saber ainda que seu bisavô foi 
Domingos Eodrigues Pinto, filho de um almocreve 
e d "uma tendeira de mercearia, que prestou serviços 
patrióticos na revolução de 1640, cooperou em pri- 
sões do Santo Officio, e veio, segundo o testemunho 
de coevos, a servir «os mais nobres e honrados 
cargos da Republica»; que seu avô, filho de Isabel 
Machado, a quem se attribue o apellido de Botelho, 
foi Martinho Machado Pinto, cavalleiro de S. Thia- 
go: e que seu pae, filho natural d 'esse Martinho e 
de Isabel Mendes do Rocio, foi Lazaro da Costa, 
primeiro representante d'uma dynastia de marchan- 
tes que por muito tempo prosperou em Villa Real *. 
A ebsa dynastia pertenceram todos os filhos de 
Lazaro da Costa e de Francisca Mendes, salvante 
Domingos Correia Botelho, que enjeitou a profissão 



*.- ■ 



^ Alberto Pimentel: Os amores de CamillOy 1809. 

* Pedro A. D*Azevedo : Os antepassados de Camillo. No 
Archfvo Histórico Portuguez, Vol. v, 1907, n.os 5, 6, 9, 10 e 11 
e Vol. VI, 1908, n.os 1 e 2. A esse estudo, o mais completo 
e documentado que possuímos sobre a genealogia de Ca- 
millo, pertence grande parte das informações de que me 
sirvo neste capitulo do meu trabalho. 



CAMILLO 21 

e o appellido paternos preferindo-lhes uma onomás- 
tica mais nobre e as commoções e os benefícios de 
uma agitada carreira d'aventureiro errante. Mais 
d'uma vez se pôs em duvida na sua ascendência 
aquella pureza de sangue tão derimida nos prelúdios 
inquisitoriaes de tantos autos de fé; e se essa cir- 
cumstancia eu registo, náo é para fanaticamente 
lançar sobre Domingos Pinto e Lazaro da Costa o 
labéu de christãosnovos de que uma devassa bene- 
volente depois os illibou. Mas a sciencia afirma que 
a raça hebraica é, d'entre todas as raças, uma das 
que maior contingente fornecem para o cadastro 
da pathologia nervosa \ 

Domingos Correia Botelho casou duas vezes, 
ambas ellas com filhas de pedreiros, a primeira 
chamada Angela Fernandes, de quem teve, além de 
duas filhas que recolheram a um mosteiro e outra 
que casou, um filho. Frei José de S. Bernard*o, que 
professou como Agostinho descalço e outro, Manuel 
Correia Botelho, que foi escrivão em Villa Real, e 
a segunda, Maria Mou tinha, que lhe deu, entre ou- 
tros filhos e uma filha que também entrou para um 
convento, José Luiz Correia Botelho. Diz-se que o 



1 Servi : GU hraelUi di Europa, 1872 ; Verga : Ar- 
chivio di siatistica, 1880 ; Bouveret : La Neurasthente, 1891 ; 
LOMBROSO : Uhomme de génie (ed. francesa) 1903; Bulletins 
de la Societé d^anthropologiey t. iv; RieOT : Uherédité psycho- 
logique, 7.a ed. 1902 ; Fialho d*Almeida : Estudo sobre Ga- 
millo, publicado na Bevista Illustrada, de Lisboa, em 1896. 



22 CAMILLO 

filho de Domingos Botelho que professou «viera 
de longe propellido para uma grande catastrophe» 
.e que «a profissão era o acto final d' um a tragedia» ^. 
Certo é que esse religioso, que pertenceu ao con- 
vento de Nossa Senhora da Piedade, em Santarém, 
onde chegou a prior, nem sempre em documentos 
públicos gosou uma impoUuida fama de virtude. 
Numa certidão passada em 1780 por um frade da 
sua ordem, diz-se que elle, em certo convento d'Ex- 
tremoz, levava vida escandalosa «náo só para os do- 
mésticos como para os Estranhos, por acçoens que 
produzia indignos do habito e muito mais do cargo 
e ministério que ocupava», a ponto de o Vigário 
Geral, averiguando «serem verdadeiros os Enormes 
delictos que lhe impunhão» ter mandado «fechar 
de pedra e Cal a porta do Carro, por onde elle metia 
na Clauzura pessoas de sexo prohibido, E que as 
chaves da Clauzura não estivesse em seu poder». 

Domingos Botelho cahiu na miséria e Frei José 
, tomou conta da familia, instituindo-lhe umas rendas 
que mais tarde originaram litigies e fizeram que- 
brar as relações entre elle e o irmão José Luiz, de 
cujo proceder ingrato ao depois amargamente se 
queixava. 

Manuel Correia Botelho, nascido e residente em 
Villa Real, casou com D. Maria de Carvalho e Me- 
nezes, filha de Francisco Martins Menezes, christão- 



1 Gamillo : Bohemia do espirito. 



OAMPLLO 23 

noco. Ellé e a- mulher, pouco doces de tempera»- 
tnento, por via de repetidas contendas, malquista- 
Tam-se com a maioria da gente de Villa B»eal. Quatro 
•annos antes de morrer, foi perdoado do assassinio 
d'tim soldado numa questão em que entrou cora 
«eus .filhos Domingos José Correia Botelho e José 
Correia Botelho de Menezes. 

Domingos José Correia Botelho era um homem 
-extremamente feio. Formou-se em Coimbra. «Era 
ttlcançadissimo de intelligencia, e grangeâra entre 
os seus condiscipulos da Universidade o epitheto 
•de brocãfi com que ainda hoje os seus descendentes 
-em Villa Real são conhecidos. Bem ou mal derivado, 
o epitheto brocas vem de hrôa. Entenderam os aca- 
démicos que a rudeza do seu condiscípulo procedia 
•de muito pão de milho que elle digerira na sua 
terra» ^. Domingos Botelho foi nomeado juiz de 
iora de Cascaes, logar que exerceu durante nove 
meses e do qual foi suspenso, segundo informa sua 
«ogra, nas allegações d 'um processo que mais tarde 
lhe moveu em cau^a de partilhas, «pelo dezacato 
que fizera a sua Filha D. Francisca Julianna, cazada 
com José Joaquim de Proença e Sylva, Tenente do 
Regimento da dita Villa; por lhe querer dar com 
hiia faca; e pela escandaloso modo, cõ que injus- 
tamente fizera prender ao Padre António do Valle 
Capelláo do dito Regimento, e conduzir amarrado 
em hum jumento para o Aljube desta Cidade, dô 



1 Gamillo: Amor. de Perdição. 



24 CAMILLO 

donde por estar innocente, sahira solto, e livre» ^^ 
Esse Botelho era um excêntrico, com certo chiste 
nas maneiras rudes que lhe mereceu a alcunha á& 
doutor Bexiga, Se, coroo se pretende ', frequentou 
o paço, insinuando-se, por ignoradas buUas, na es- 
tima de D. Maria i e de D. Pedro, e aproveitando 
o ensejo para tomar d^assalto o coração d'uma for- 
mosa dama de nome Rita Thereza Margarida Cas- 
tello Branco, náo o sei eu dizer com precisão. Ha 
documentos comtudo que desfazem um pouco na 
pretendida nobreza d'essa D. Rita, depois mu- 
lher do bacharel, dizendo-a filha d^um capitão de 
infantaria de Cascaes, de nome José Pereira da 
Silva e de D. Thereza Ignacia Joaquina Castello 
Branco, a sogra furibunda, neta paterna de Domin^ 
gos Pereira da Silva e Francisca dos Anjos, a 
Benta, e bisneta d'um servente de pedreiro e sol- 
dado de artilheria, neta materna de Diogo Luiz de 
Mesquita Castello Branco, creado grave da condessa 
de Aveiras e de Isabel de Mattos, aia ou ereada da 
mesma titular. E a sogra D. Thereza, em documento 
respeitante ao litigio judicial jâ referido, reduz a 
proporções assas materialonas a historia do consor- 
cio que se dizia derivado d'um galanteio palaciana 
do modo sereno e limpido como deriva a agua de 
um arroyo: «Este supplicado Domingos José Cor- 
rêa Bottelho sendo natural de A'illa Real, filho de 



1 Doe. transcriplo pelo sr. Pedro d'Azevedo. 

2 Camillo : Amor de Perdição, 



CAMILLO 25 

hum nacimento escuro, e de baxa e pobro fortuna^ 
vendo-se condecorado com o honorifico emprego de 
Juiz de Fora da Villa de Cascaes, e sabendo que a 
caza da supplicante era das principaes, e das mais 
ricas daquela Villa, e que tinha filhas Donzellas, to- 
mou cazas para a sua habitação junto as da suppli- 
cante com quintal místico ao seo que só lhe servia 
de divizáo, hum pequeno muro, e por via de hua Es- 
crava, que comrrompeo, se intruduzio fora de horas 
na casa da supplicante deshonestando a dita sua 
filha menor de 20 ânuos, com a qual se aoha cazado^ 
recebendo se em 30 de Outubro de 1771 vindo a 
parir sua filha um filho, que naceo a 14 de Junho 
de 1772, 8 mezes depois de cazados como mostráo 
as certidoens do cazamento — n.® l.<* e Bauptismo 
n." 2.® esta verdade he incontestável, porque os 
filhos só nacem de 7 e 9 mezes, e raras vezes de 
11 e 14 mezes». Aparte o devaneio gynecologico,^ 
tenho a allegaçáo como digna de fé. 

. Anna Margarida Mourão, mulher de Lourenço- 
da Costa, tio de Domingos, moveu contra este uma 
acção por divida de quinhentos mil reis que o ba- 
charel lhe pedira emprestados quando estudante,^ 
introduzindo-se com ella «como sobrinho de seu 
deffunto marido e pella razão do dito parentesco e 
cavilação de que é dotado > , ^ e que depois não quiz. 
pagar. Nas suas allegações, a viuva credora disse 



1 Esta transcripção e seguintes pertencem a doe. re- 
produzidos ou citados pelo sr. Pedro d' Azevedo. 



2t) CAMILLO 

serem Domingos Botelho e seu irmáo José «valen- 
toens, desemvoltos e absolutos, sem temor ou res- 
peito aos Magestrados e oííeciaes de Justiça... 
descompondo de palavras aos mesmos. . . e oufanos 
por torem . . . feito híía morte as oras do dia a hum 
soldado de que lhe não resultou castigo, e porisso 
amiaoando os mesmos officiaes, e ainda paçando a 
excesso mayor que até os Magestrados ameaçào»; 
e mais (jiie «Tanto o dito Domingos Joze Corrêa 
como sou irmão se asocião ambos e armados de 
«orte (|ue nimguem se atreve a oporse a seos depra- 
vados intentos». A isso respondeu Domingos Bote- 
lho confessando se «homem cordato, prudente, civi- 
lizadí^, retirado de communicações com officiaes de 
Justit^ta tanto que os negócios os trata por Procu- 
radores sem escandalizar pessoa algíía » e alegando 
mais que sua tia afin nunca lhe emprestara dinheiro, 
nem podia emprestar «porque hé híía pobre mere- 
trix publica que de si nào tem couza alguma nem 
para se sustentar mais que o que adquire pelo ilicito 
trato que tem com muitos homens » e que essa 
mesma sua tia «tem filhos de vários homens e pre- 
mentemente d'hum José Manuel Teixeira de Novaes 
híía filha natural por andar com ella amigado». 
D 'onde se mostra que o doutor Bexiga não era 
muito gentil para com os seus próprios parentes. 
Nomeado em 1802 juiz de fora de Yizeu, Do- 
mingos Botelho soflfreu, alguns annos mais tarde, a 
accusação de venal. Arguiram-no de receber «por 
^i, sua mulher e. filhos e amigos quantias avulta- 



-CAMILLO '27 

das » . Feita a devassa, em consulta de 1 de março 
de 1806, a mesa do Desembargo do Paço conside- 
rando-o «gravemente indiciado de crimes enormes 
que pela lei do Reino tem pena de morte, ofere- 
cendo tão bem a impunidade aos malfeitores a pre- 
-ço de dinheiro e vendendo a justiça em publico 
leilão: provandose ja quanto basta para ser sus- 
penso, sequestrado e prezo, dando-se-lhe logo o le- 
gar por acabado, e mandando-se tirar sua residên- 
cia por Ministro exacto, a qual deverá ser julgada 
no Juízo dos Feitos da Fazenda com a assistência 
de Procuradores Régios». Assegurou-se que Do- 
mingos José Correia Botelho morreu em 18r!5 na 
-sua quinta de Montezellos, assassinado por saltea- 
dores ^ Ha, pelo menos, ahi um erro de data pois 
que a consulta referida é, como disse, de 1806. O 
sr. Pedro d^A^zevedo suspeita que elle se suicidasse 
para escapar a uma vergonha publica. 

O primeiro filho de Domingos Botelho, nascido 
oito mezes depois do seu casamento e que teve o no- 
me de José, morreu creança. Mais tarde, nasceram 
duas filhas e dois filhos, de nomes Simão e Manuel. 

Da vida de Simão Botelho existem duas versões : 
uma amplamente desenvolvida no Amor de Perdi- 
ção e outra, mais recente e mais incompleta, mas 
com o mérito da authenticidade garantida por do- 
cumentos que o sr. Pedro d'Azevedo exhumou da 
poeira dos archivos ^. Ambas, porém, são concordes 



1 Ver NOTA B, no fim d'este volume. 



28 CAMILLO 

na descri pçáo do caracter do íilho segando de Do- 
mingos Botelho. De Coimbra, conta-se no Amor de 
Perdição que «o filho mais velho escreveu a sea 
pae queixando-se de náo poder viver com seu ir- 
máo, temeroso do génio sanguinário d'elle... por- 
que Siraáo emprega em pistolas o dinheiro do» 
livros, convive com os mais famosos perturbadores 
da academia, e corre de noite as ruas insultando o» 
habitantes e provocando-os á lucta com assuadas». 
Sáo ainda do mesmo romance estas palavras: «Fi- 
nalizavam as ferias, quando o corregedor teve uns 
grave dissabor. Um dos seus creados tinha ido le- 
var a beber os machos, e, por descuido ou propó- 
sito, deixou quebrar algumas vazilhas que estavam 
á vez no parapeito do chafariz. Os donos das va- 
zilhas conjuraram contra o creado ; espancaram-no^ 
Simão passava nesse ensejo; e, armado d'um fueiro 
que descravou d'um carro, partiu muitas cabeças, 
e rematou o trágico espectáculo pela farça de que- 
brar todos os cântaros. O povoléu intacto fugira 
espavorido, que ninguém se atrevia ao filho do 
corfegedor; os feridos, porém, incorporaram-se e fo- 
ram clamar justiça â porta do magistrado». Em 
face dos documentos, o sr. Pedro d^Azevedo infor- 
ma que «em 3 de agosto de 1804, sendo um quarto 
de hora depois da meia noite, na Rua Direita de 
Vizeu foi ferido por um tiro de clavina Francisco 
José Ferreira, natural de Moimenta da Beira, crea- 
do de José Cardoso Cerqueira, de que lhe resultou 
ficar sem parte dos dedos das mãos e^ com uma 



CÀMILLO 29 

coxa atravessada, recolhendo-se os criminosos a 
casa do juiz de fora que morava no terreiro da Sé. 
I^oram accusados d'este crime Simão António Bo- 
telho e José Jeronymo, filho de Lourenço de An- 
drade e Seixas, que tinham sido vistos andar ar- 
mados por aquella rua e ameaçando o primeiro 
Fernando de Almeida, filho do referido Cerqueira. 
De Simão diz uma testemunha : sendo também pu- 
blico que o mesmo filho do Juiz atirara mais três Tiros 
a outras varias pessoas e que he verdade que sabe 
pello ver e ouvir que toda esta cidade (de Vizeu) an- 
dava com. temor e estavam em grande desasucego em 
quanto o ditto filho do Juix de Fora se achava n' es- 
ta Cidade pellos insultos que fazia e esperançado na 
falta de castigo por seu Pai ser Juiz, A devassa que 
se tirou, feita pelo vereador mais velho de Vizeu 
e pelo meirinho geral em 6 de agosto, resultou pela 
pressão exercida sobre as testemunhas como de 
nenhum valor, pelo que o desembargo do Paço 
ordenou em 21 de maio de 1805 se procedesse a 
outra. Entretanto os dois criminosos homens va'- 
dios costumados a commetter similhantes dei idos j e 
a andarem de noute e de dia dando tiros em varias 
pessoas tinham tirado cartas de seguro, sendo a de 
Simão datada de 17 de «etembro de 1804, augmen- 
tada por mais um anuo em 5 de setembro de 1805 
e ainda pór mais outro em 12 de agosto de 180tí, 
em consequência do seu livramento péla Relação ir 
muito atrazado ; e a de José Jeronymo de Loureiro 
6 Seixas também reformada por mais um anno por 



30 CAMILLO 

despacho de 11 de outubro de 1806». «Nos capi-, 
tuloi apresentados contra o pae de Simão — infor-) 
ma também o sr. Pedro d 'Azevedo — diz a teste- 
munha o bacharel António Cardoso de Sousa e Liz, 
Jie publico bem como que o referido filho (Simão) 
asuciado com o referido Quintas derão hum tiro e 
foram desafiar a porta hum irmão do Cappitam de 
San Salvador^ em ocazião que se queixava de lhe 
matarem as suas pombas; José Rodrigues Quinta» 
do logar da Travanca, ladrão publico que rouba pe- 
las Feiras e Mercados quanto pode, he da amisade 
do dito Juiz de Fora, e um caçador que muitas vezes 
acompanhava com seus filhos,» 

São asáim as duas versões concordes em dat 
Simão como um impulsivo, de maus instinctos, vio- 
lento e desordeiro. O romance dà-o também como 
um amoroso : « Amou, perdeu-se e morreu amando». 
Não me repugna crer que o fosse. Por amor perdeu 
também a carreira seu irmão Manuel ; culpas d'amôr 
tivera, ao que parece, Frei José de S. Bernardo seu 
tio-avô : fora, segundo alguns pretendem, o amor a 
causa do crime de que soflFreram accusações seu 
pae, seu tio paterno e seu avô. E, assente que da-» 
dos positivos nos asseguram uma tara mórbida lu- 
xuriante nessa suspeitissima linhagem, seria, sem 
duvida, de interesse averiguar até que ponto essa 
provável feição amorosa, ao manifestar-se ew^ suc- 
cessivas gerações, foi a causa do exacerbamento 
d'uma doença antiga ou apenas o resultado lógico 
do proprix) mal. 



CAMILLO 31 

A analogia que existe entre alguns caracteres 
objectivos do amor e aquelles que as obsessões con- 
scientes d'uma origem mórbida nos apresentam, a 
facto de os amorosos serem, em summa, seres de ex- 
cepção, num restricto numero dos quaes se encontra 
com frequência uma elevada proporção de crimino- 
sos, têm levado alguns philosophos e scientistas a 
attribuir ao amor uma origem puramente patholo- 
gica. ^ Depois, os aspectos mórbidos com que a pai- 
xão amorosa, em geral, se exterioriza vêm corro- 
borar até certo ponto uma tal opinião, e physiolo- 
gistas modernos * lembram a passagem de Plutar- 
cho em que se conta como o medico Erasistrata 
reconheceu pelos movimentos tumultuosos do pul- 
so que Antiocho amava Estratonica. ^ Gaston Dan- 
ville combate esta doutrina, e o seu argumento ca- 
pital baseia-se num critério de utilidade applicado 
à classificação das obsessões, separando as nocivas 
ao individuo e á espécie como as únicas a que ri- 
gorosamente compete a origem pathologica que se^ 
lhes attribue. Fincando nesse argumento todas as 
suas deducções e attribuindo ao amor normal o mera 
intuito da procreação da espécie, é claro que o phi- 
losopho não encontrou grande difficuldade para o 



1 GASTON DANVILLE : La Psychologie de Vamow\ 1894^ 
* DANVILX.E: Ob. ciL ; MOSSO : La peur (ed. francesa), 

1886. 

5 PLUTARCHO: Vida de Detnetrius^ xxvn ; gamões:: 

Auto d*El'Rei Sdeuco. 



132 CAMILLO 

pôr a salvo do seu capitulo de obsessões de origem 
mórbida. Eu julgo haver razào em negar ao amor 
uma origem pathologica : que a attracçáo «ntre dois 
indivíduos de sexo diflferente, verificável de resto 
em quasi toda a escala zoológica, não pôde por certo 
interpretar-se fora das leis que regem o mecanismo 
psychico no estado normal de cada um. O amor 
virá, tào só, pôr em preeminência, resultante d'uma 
intensa e quasi exclusiva actividade, o sentimento 
affectivo e, se a creatura fôr um psycopatha, a 
doença encaminliar-se-â irremediavelmente para o 
ponto em destaque da sua entidade psychica. Im- 
placável, a sciencia diz-nos que só é susceptível de 
íicar doido d 'amor aquelle que tiver um amor de 
doido. ^ 

Ora o amor dos Botelhos não foi decerto um 
áraôr normal : surgindo em creaturas presas d'uma 
nevrose herdada que a sequencia das suas vidas de- 
pois nos aclara, a paixão amorosa dominou-os com 
uns caracteres particulares, uma intensidade, um ex- 
clusivismo que fazem saltar aos olhos a sua maneira 
mórbida de ser. A vida romântica ou romantizada 
de Simão Botelho vem contada com lagrimas nas 
paginas dolorosas e intensas do Amor de Perdição. 
Ahi, ella apparece como a simples historia d^ima 
existência estúrdia que um certo dia se embaraçou 
e prendeu irremediavelmente^ num fino cabello de 



* FKANK : Traité de Pathologfe Interne, Irad. Bayle, t. 
Ill, p. 143. 



CAWILLO 36 

mulher ; e como esss desgraçado rapaz viesse, tal- 
vez por uma opportunidade mâ de nascimento, a 
acarretar, num equilíbrio falso, com uma herança 
mórbida que em seus maiores se foi accumulando, 
de geração em geração, em dezoito annos tinha es- 
gotada toda a razão de ser da sua vida de espirito, 
morrendo quando lhe faltava já a coragem para 
todo o esforço, mesmo atirado de golpe, nessa im- 
pulsão de vesânia que outr'ora fizera d'elle um 
desordeiro, depois um assassino, e o acompanhara 
passo a passo nos momentos de lyrica paixão. Diz 
o romance que Simão amava com loucura essa The- 
reza que morreu d^amôr, agitando o lençosinho 
branco no mirante de Monchique,, quando cortava 
as aguas do Douro, á vista do convento, a nau 
-que o conduzia ao degredo da índia. Os documentos 
até hoje pesquizados, apenas nos dizem «que elle 
foi criminado pelo estrupiamento que praticou com 
um tiro da sua carabina ou clavina na pessoa do 
criado de um individuo de Vizeu.» ^ 

Do irmão primogénito de Simão Botelho, Ma- 
nuel, que ficou doido e morreu d'uma congestão ce- 
rebral e de quem no Amor de Perdição se conta a 



* Pensa o sr. Pedro d'Azevedo que alguns esclareci- 
mentos sobre esse caso nos poderá dar o archivo da Re- 
lação do Porto « no caso que este ainda exista ^. E excla- 
rece: tO archivo da Relação conservava-se num subterrâ- 
neo, estando os papeis respecUvos, devido á humidade, 
-convertidos em pasta. Uma gloria para a magistratura!» 

3 



34 CAMILLO 

historia romanesca do adultério com uma açoriana^ 
conhece-se, através de dados cheios de incerteza, a 
accidentada uniào com D. Jacintha Kosa do Espi- 
rito Santo, filha de uma doida. * Sabe-se que essa 
mulher amou e soííreu — 

Que o sangue, derramado sem seu caminlio, 
Eu pude ainda vêr, como um vestígio 
Da marlyr que passou. ^ 

— e o facto de uma vida assim, levada entre lagri- 
mas, é natural que ficasse nitidamente marcado no 
caracter dos fructos doesse amor. 

A influencia do estado de espirito dos pães no 
momento de concepção sobre a maneira de ser 
psychica dos filhos, tinha sido observada já autes 
dos médicos se occuparem do seu estudo: Hesiodo 
prescrevia a abstinência do coito na volta das ceri- 
monias fúnebres, para se náo gerarem filhos melancó- 
licos. Erasmo punha na boca da sua Loucura estas^ 
palavras : «Eu não sou o fructo d'um aborrecido 
amor conjugal». Tnstam Shandy attribue as enfa- 
donhas particularidades do seu caracter a uma per- 
gunta que sua mãe, em momento muito inopportuno^ 



^ t Meu pae, minha avó materna e duas minhas tiâs^ 
morreram doidas» (camillo: Cartas ao Visconde de Ou- 
guella, publicadas pelo sr. Theophilo Braga na Revista Pof-^ 
tugueza^ 1895 p. 117).— Vêr a NOTa C. 

* CAMILLO : (^m //rro. 



CAMILLO 35 

formulou ^. Um dos filhos adulterinos de Luiz xiv, 
concebido durante uma crise de lagrimas de M.^® 
de Montespan que as cerimonias do jubileu tinham 
emocionado, conservou por toda a vida um caracter 
que o fez chamar « o filho do jubileu» *. E' conhe- 
cido o caso d^um pae, homem illustrado, que durante 
a vida inteira teve sensíveis tendências para um es- 
tado mental doentio, com períodos alternados de 
excitação e abatimento; dos numerosos filhos que 
teve, dois foram alienados : a época da sua conce- 
pção coincidia com os momentos em que o pae tinha 
manifestado em grau mais alto as suas tendências 
malsâs '. De Candolle, citado por Lombroso, faz no- 
tar a influencia d'um estado de paixão violenta dos 
pães, no momento da copula e lembra o numero con- 
siderável de bastardos de génio *. E' nas uniões illi- 
citas, mais que no casamento, que se encontra, no 
enthusiasmo da sua máxima intensidade, um amor 
violento; mil razões ha nesse caso para excitar, 
pela alegria, pelo medo, pela revolta ou pela an- 



1 Fere : Ob. cit, p. 17. 

* P. Lucas : Traité pratique et phyaiologique de Vherédité 
naturelle, 18Õ0, t. II, p. 504. 

* Este caso vem em Ribot (ob. cit. p. 255) como ten- 
do sido communicado ao auctor por um medico, e figura 
também, juntamente com o anterior, em Déjerine: Vheré- 
dité dans les maladies du ^ysteme nerveux, 1886, d*onde LoM- 
BROSO os tirou para o seu trabalho. 

^ De Candolle: Hi$toire des Sciences, 1883 ; LombrOSO 
OJb. Cit p. 217. 



36 CAMILLO 

gustia, o estado de espirito d^um dos progenitores 
ou d 'ambos elles. Isaac Disraeli escreveu na Memoria 
de Toland: «O nascimento fora do casamento cria 
os caracteres fortes e resolutos» ^. Também nas 
uniões illicitas, se o primeiro filho pôde sentir a 
influencia d'um pleno amor, o segundo jâ geral- 
mente nasce no doloroso período d^ima reacçào 
expiadora, de ainda mais impressiva influencia. 
M.^"® Roubinovitch communicou ao congresso de 
Amsterdam, de 1907, que, num estudo de 74 bio- 
grapliias de grandes homens, apenas encontrou 10 
primogénitos *. 

Da união de Manuel Botelho e de D. Jacintha 
Hosa nasceu primeiro uma filha e depois um filho, 
beijado talvez jà no seu berço pelas lagrimas do 
arrependimento e do martyrio. 

Ao descendente dos brocas e à sua companheira 
de aventuras podia bem caber a sorte de darem 
vida a uma creatura de caracter extranho, num 
momento mais intenso da sua vida de amores e de 
torturas. Mas um filho de D. Jacintha Rosa tinha 
já, por banda paterna, os f^ymptomas reveladores . 
d'uma nevrose herdada. Corremos a linha da sua 
ascendência e encontramos uma longa tradição de 
vesânia ^ D'ahi, porém, a concluir de rompante 



1 LoMBROSo: Ob. cit. p. 217. 

2 L'Encephale, 2.e année. N.° 10. Octobre 1907, p. 451. 
^ « Ambos nevropathas hereditários, Camillo e Júlio 

(Júlio César Machado) pois em ambas as familias havia a 



CAMILLO 37 

que o filho nascido d'essa união devesse forçosa-, 
mente ser um doido ou um criminoso, ainda mesmo 
sujeito à influencia mórbida hereditária, vae um 
abysmo. Difficil, se não impossivel seria mesmo 
prever qual a forma de psycose que quasi certo era 
vir junta a essa creaturinha posta no mundo com 
o carreto d'uma tào pesada herança. A variação da 
hereditariedade é um facto. «As doenças do syste-r 
ma nervoso, quer se manifestem por perturbações 
psychicas, sensoriaes ou motoras, offerecem entre 
si afinidades numerosas, pontos de contacto múlti- 
plos ; e, se bem que, nestes últimos annos, os estu- 
dos tanto clinicos como anatomo-physiologicos te- 
nham multiplicado as espécies, póde-se dizer que 
ellas constituem uma só familia, ligada indissolu- 
velmente pelas leis da hereditariedade» ^. Mas não 
ha uma regra precisa ; e o próprio schema que Morei 
formulou para a marcha da degenerescência pro- 
gressiva esbarra na pratica, a cada passo, por cir- 
cumstancias que se explicam mas que nem por isso 
se podem deixar sem nota, com casos que aberta- 
mente o contradizem ^. «Os alienados, os crimino- 
sos e os homens de génio trazem ingenitamente 
uma constituição muito análoga; todos são dotados 



dupla tradição da vesânia e do suicídio ». (Souza Martins: 
Nosographia d^AntherOy no Jn Memoriam. 

* FÉRÉ: Ob. cit., pag. 8. 

* G. Weygandt: Atlas-Manuel de Pst/chiatrie, ed. fr., 
por RouBiNOviTCH, 190J:, p. 26. 



38 CAMILLO 

d'uma tal excitabilidade que reagem fora das regras 
psycologicas ordinárias. Sào ás vezes as circum- 
stancias que determinam a especialização» ^. Por 
hereditariedade nào se entende exclusivamente a 
doença transmittida á progénie com a identidade 
de symptomas de ordem physica e moral observ^a- 
dos nos ascendentes. Comprehende-se no termo 
Jiereditariedade a transmissão de disposições orgâ- 
nicas de pães a filhos ... *. «A fixidez das ideias 
nos progenitores, pôde transforraar-se nos descen- 
dentes em melancolia, amor à meditação, aptidão 
para as sciencias exactas, energia de vontade. . • A 
mania dos progenitores pôde vir a ser nos descen- 
dentes aptidão para as artes, arrojo de imaginação, 
vivacidade de espirito, inconstância dos desejos, 
vontade brusca e sem tenacidade» '. «Assim como 
a loucura real pôde reproduzir-se hereditariamente 
sob a forma de excentricidade, não se transmittir 
senão com meias tintas, tons mais ou menos adoça- 
dos, assim um estado simples de excentricidade, 
que não vá além de certas extravagâncias de cara- 
cter, de certas singularidades de espirito, pôde ser 
para os filhos a origem d^um verdadeiro delirio» *. 
A historia nosologica das familias de homens ik)- 



^ FÉRÉ: Ob. cit, p. 41. 

* MOREL : Traité ães dégénérescences, 1857 ; RmOT : Ob 
cit, p. 247. 

3 RiBOT : Ob. cit., p. 249. 

* MOREAU (de Tours): La pnychologie morhide dans ses 
rapports avec la j^hilosophie de Vhistoire, 18Õ9, p. 187. 



CAMILLO 39 

taveis, traçada por alguns auctores, mostra- nos 
-com frequência a associação de psyco-nevroses com 
um alto desenvolvimento iatellectivo ^ Numa fa- 
mília estudada por Berti, em quatro gerações de 
-cerca de oitenta indivíduos, derivados de um doi- 
do melancólico, observaram-se três homens de gé- 
nio, trêá criminosos, dezenove nevroticos, e dez 
doidos *. Da linhagem de Carlos v, que teve alie- 
nados, lypemanos e excêntricos, nasceu um bas- 
tardo de génio : Alexandre Farnese ^. Beethoven 
era filho d'um alcoólico, Alexandre nasceu d 'um 
bêbado e d' uma mulher perversa e dissoluta, 
» mãe de Byron era desequilibrada e o pae um es- 
tróina bizarro e impudente *. O próprio Baudelaire 



* LÉi^UT : Le génie, la raison et la foWpy le dem^tn âe 
Socrate^ \^f) \ Galton : Hereditart/ Genius, 18G3; MOREAU 
(de Tours): Ob. Cit.; P. JacOBY : Étude snr la selection dans 
868 rapports avec Vheredité chez Vhomme, 1S81 : LuMBROSO : 
Ob. cit; Ribot: Ob. cit.; Mantegazza: De la nevrone des 
grande hommes^ (ed. fr.), 1881; H. JOLLY : Psi/chologie des grande 
hommes, 1883; E. Toulouse: Emile Zola, 1896; Grasset: 
La superiorité intellectaelle et la nevrose^ 1903 ; Gaston 
Loygue: Th'M. Dostoieivski, 190-1:; Marianxi: L. N. TolstoL 
T. XXI v, fase. IV, p. 369 do Archhio di Psichiatria, Sclenze 
penali e Antropologia criminale, 190i^; ArtURO Basano : 
Tommaso Hohhes^T. XXíV, fase. IV, p. 419 do Archivio di Psi- 
chiafria, etc, 1904. 

2 LoMBflOSO: Ob. cit p. 210. 

^ Ireland: The Blot npon ihe Brain, 1835, p. 147; DÈ- 
jÉr.iNE: Oh. cit; Lombroso: Ob. cit 

* Lombroso: Ob. cit; Emílio Gastelar: Vida de Lord 
Byron (trad. de M. Fernandes Reis), 18T6. 



10 CAMILXO 



-a'-! 



escreveu qne os seus antepassados, idiotas ou ma- 
niacos. foram victimas de terríveis paixões ^. Pedro^ 
o Grande e os seus dão á sciencia salientes casos 
de génio, imbecilidade, hábitos crapulosos, mortes 
prematuras, ataques epileptiformes, e virtudes e 
vicios levados aos últimos extremos *. Por ultimo^ 
Voisin cita o caso typico d'um pintor de talento, 
filho d'uma hvsierica e irmão de dois idiotas e de 
um alienado *. Xullum magnum ingenium niòi mis- 
tura quadam denientice^ disse nm antigo: e a sciencia 
moderna pôde concretamente concluir: o génio é uma 



necrose *. 



Na familia illustre cuja genealogia se perde no 
sendal dos tempos que mal deixa ver os vultos im- 
ponentes dos grandes senhores de Oviedo e de Leão^ 
o cadastro patliologico, já bem opulentado desde 
aquelle Domingos Pinto que desposou uma Botelho^ 
enriqueceu-se nesta altura com o exemplar mórbido 
mais nobre. De Manuel Botelho — um doido, des- 
cendente d'uraa familia de desordeiros, assassinos^ 
loucos moraes, libertinos e excêntricos — e de D. 
Jacintha do Espirito Santo — a filha d'uma doida — 
nasceu um homem de génio : Camillo Castello 
Branco. 



* E. Grepkt : (Euvres jjosthumes et correspondance iné- 
dite de Buuddaire. 

2 MORKAU (de Tours) : Ob. clt. 

3 Voisin: Ileredité^ no Dictionaire de medicine et ciiUU' 
gie pratique, 1875. t. xvii, pag. 473. 

* MoREAU (de Tours), Ob. cit 



BIOâf^APHIí^ 



« Quand la nature crée un homme 
de génie, elle lai secoae son ílambeau 
sur la tête el lui dit: Ya, sois malbea- 
reax! » 

DlDKROT 



I 



1825-1844 



Camillo Castello Branco nasceu em Lisboa, numa 
casa d© largo do Carmo, em 16 de março de 1825 
e foi baptizado na egreja dos Martyres em 14 de 
abril do mesmo anno. A máe morreu pouco tempo 
depois d'elle nascer e dos dez primeiros annos da 
sua vida apenas se sabe que em 1834 com o vis- 
conde de Ouguella e seu irmão Ricardo Sylles 
Coutinho, frequentou uma escola de João Ignacio 
Minas Júnior, na rua dos Calafates. «A meu lado 
— escreveu Camillo — no banco da escola de pri- 
meiras letras, em Lisboa, por 1834, sentavam-se 
dois meninos, filhos d'um amigo de meu pae. Estou 
vendo, além, para lá da cerração de trinta e oito 
annos, aquellas duas creanças loiras e formosas, 
pedindo comigo a Deus que nosso mestre João 
Ignacio Luiz Minas Júnior fosse para a guerra. 
Porque o nosso professor era guerreiro por aquelles 
tempos. Com uma das mãos na palmatória e outra 



44 CAMILLO 

na espingarda, acudia pelo decoro do Lobato e pela 
restauração da monarchia representativa. Nas bate- 
rias de campo de Ourique devia de ser um bravo 
Joáo Ignacio; e, no gyneceu modestíssimo da rua 
dos Calafates, era um apaixonado fautor da religião 
do participio, e das outras não menos respeitáveis 
partes da oração. Isto vae ha muitíssimos annos: 
era num tempo em que se aprendia syntaxe. Dos 
dois meus condiscipulos um chamava-se Carlos, o 
mais novo dos dois, que tinha seis annos. Caquella 
creança estou bosquejando hoje um perfil de bio- 
graphia. Vae nisto o que quer que seja para scismar 
e entristecer. E' a poesia melancólica — o funesto 
condão dos homens que vivem muito da vida intus- 
pectiva. Naquelle anno de 1834 nos apartamos. 
Meu pae morreu. E, como eu jâ não tivesse mãe 
nem fosse inteiramente pobre, a desgraça deparou- 
me parentes em Trâs-os-Montes onde vim a enten- 
der que não ha lagrimas bastantes a deplorarem o 
destino de um orphâo com oito annos de edade, e 
as faces quentes e húmidas dos últimos beijos e das 
ultimas lagrimas de seu pae» *. 

Camillo não é sempre rigoroso em datas nas 
suas evocações. Manuel Botelho Castello Branco 
moçreu em 22 de dezembro de 1835; e o próprio 
Camillo, no seu livro Duas horas de leitura, confessa 
que foi efíectivamente aos dez annos que ficou or- 



visconde de Ouguella. 



CAMILLO 4Õ 

phào de pae: «Aos meus dez aimos — conta — le- 
vantou- se uma tempestade no seio da minha fami- 
lia. Uma vaga levou meu pae á sepultura, outra ati- 
rou comigo de Lisboa, minha pátria, para um torrão 
agro e triste do norte; e a outra... Náo merece 
chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso 
património. Foi bem pregada peça para que eu náo 
tivesse a impudência de nascer, a despeito da moral 
juridica, filho bastardo de não sei que nobre. Dis- 
sera m-me que uma lei da Senhora D. Maria i me 
desherdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais 
cedo um certo bispo, náo legislaria tão cruamente 
para os filhos do peccado. Denominava-se — a pieda- 
.va, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a 
fogueira de vinte mil hebreus, se chamou — o pie- 
doso. A boa da historia é uma trapalhona». 

Por deliberação do conselho de familia, Ca- 
millo foi levado para Villa Real, entregue aos cui- 
dados de D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, 
irmã de seu pae. «Embarcamos no barco a vapor 
chamado Jorge IV — conta elle no livro Ko Bom 
Jesus do Monte — . Uma criada, que tinha ares de 
mestra de minha irmá, veio comnosco, estipendiada 
por conta do nosso património. A senhora Carlota 
Joaquina não me esquece. Era uma mulher gorda, 
façuda e frescalhona, que bolsava os figados do 
beliche abaixo, e gritava á d'el-rei de afflicta com 
o enjoo. Era immundo, sujo a mais não poder, o 
Jorqe IV. A camará era commum dos dois sexos, 
com menos resguardo que os mosteiros dúplices 



46 CAMILLO 

da edade media; mas os ânimos dos passageiros 
pareceram-me a negação de toda a ideia monástica. 
Os homens do beliche do segundo andar conversa- 
vam com as mulheres do primeiro diálogos entre- 
cortados de vómitos. A senhora Carlota, que ficou 
á minha esquerda, praguejava contra o seu destino; 
e o meu vizinho da direita, sujeito de grandes 
barbas, sahia do beliche em menores para lhe ter 
máo da testa. Esta caridade absolve a inconve- 
niência da mistura. Dos passageiros nenhum fala- 
va inglês, e o criado da camará, que também 
era fogueiro, attenta a negrura encarvoada da ca- 
misa e cara, quando lhe pediam chá, café, ou um 
caldo de gallinha, dava sempre agua por um canudo 
de lata. Carlota exclamava: — Eu morro! — Tenha 
paciência^ menina!^ acudia o homem das barbas. 
— Não ha-de morrer querendo os deuses. Devia de 
ser pagão o monstro! — Eu morro/ rebramia ella. 
Quero confessar-mef . . . — Não peça a confissão a 
estes b)*utos, observava-lhe o meu vizinho, que além 
de não terem Deus nenhum, se a menina lhes pede 
um padre, trazemlhe agua na lata sun'ada. Havia 
muito mar quando se avistou a barra do Porto : e 
por isso arribamos á Galliza. A nossa Carlota, as- 
sim que pôs os quatro pés e os dois estômagos na 
hospedaria de Vigo engordou outra vez. O pagão 
não sahia da beira d 'ella. No dia seguinte abalou 
a caravana para Tuy por uns caminhos que Deus e 
a civilização já fizeram desapparecer da face do 
globo. Ao outro dia passamos a Valença; depois a 



CAMILLO 47 

Ponte do Lima, e de lá a Braga em romagem ao 
Bom Jesus.» 

«Tinha eu nove annos, e era orphâo — escreve 
o romancista no capitulo que precede aquelle d'onde 
transcrevi a narrativa da viagem. — Dois meses 
depois doeste desamparo, com o tenro coração fis- 
tulado de saudade, a desbordar de lagrimas, e os 
ouvidos ainda resoando-me á alma o estertor da 
agonia de meu pae, é que eu, pela primeira vez^ 
entrei no Santuário do Bom Jesus. As lembranças 
gravadas pelas fugitivas impressões d^aquella edade, 
são poucas; mas assim mesmo, em todas as épocas 
ulteriores que ali fui, o tâo remoto passado, com as 
suas quasi delidas memorias, vinha entre-luzir-me 
nas commoções melancólicas do presente. Os grupos 
piedosos das capellas que prendem a curiosidade 
da creança, já enternecendo-a com o aspeito doce e 
affligido de Jesus, já apavorando-a com o gesto 
sanhudo e esgares ferozes dos soldados de Poncio,. 
pouco me lembram, salvo um rapaz do meu tama- 
nho de entáo, que chegava os pregos aos crucifica- 
dores do martyr. O que ainda indelevelmente diviso 
na tela do meu espirito dos nove annos, é as grandes 
arvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos,^ 
e, lá em baixo, um oceano de verdura ondulando 
entre outeiros, e á volta dos presbyterios, casalejos,. 
e edifícios de grande porte, que alvejavam d'entre 
a espessura dos arvoredos. Que devanear seria o 
meu naqnelle dia? Quando eu punha os olhos,. 
oarregados de lagrimas, no azul do «eu, que tfix> 



48 CAMILLO 

outro se me figura hoje, que aza de anjo da angustia 
levaria para lá a minha prece! Nella se me iria a 
alma, em anceios de saudade, procurar meu pae 
que, ao sahir do mundo, nem sequer me deixara 
mãe, que me ensinasse a orar por elle. Devo ajuizar 
da minha precoce sensibilidade, recordando que, 
dois meses antes, entrei, por noite alta, na sala onde 
meu pae estava amortalhado, sem mais companhia 
que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei, 
sem orar. Afastei da fronte do cadáver o capuz do 
habito, e beijei-lh'a. Puz também a boca nas mãos 
glaciaes; senti um frio de que ainda o coração me 
guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. 
Ao meu lado, ninguém. A irmá que eu tinha, alguns 
annos mais velha, encerrâra-se com a sua dor e com 
o seu terror de cadáveres. E eu estava ali, desteme- 
roso das sombras que desciam dos ângulos do tecto 
á penumbra do clarão oscillatorio das tochas. Largo 
espaço contemplei a face de meu pae, aformoseada 
pelo resplandor da aurora do dia eterno; e assim 
ponderei as ultimas palavras que lhe ouvira, con- 
fiadas ao frivolo espirito dos meus nove annos : 
Que será de tij meu filho, sem ninguém que te ame! . . . 
Poucas horas depois que m^as disse, fez-se noite 
naquella alma: dez dias volvidos, as trevas desata- 
ram-se ante o alvorecer da eternidade, E eu assis- 
tira, dia e noite, a esta agonia.» 

Na Bohemia do EspiHto vem, datada de 84, uma 
impressão da primeira viagem de Camillo. «Eu 
tinha dez annos quando, pela primeira vez, fui ao 



CAMILLO 49 

Bom Jesus do Monte — escreve o romancista — . 
Eu, com outros romeiros, vinhamos de Vigo onde 
nos aproara uma tormenta no alto mar. A minha 
criada, muito amante da vida, fizera uma promessa 
ao Bom Jesus; e, no cumprimento da sua palavra, 
de passagem para Trâs-os-Montes, convidara alguns 
companheiros de jornada a subirem ao alto da mata 
para agradecerem ao miraculoso Senhor o seu sal- 
vamento. Eu, como disse, tinha dez annos, e estava 
também ajoelhado na capella onde se venera a im- 
ponente esculptura. Emquanto os meus companhei- 
ros agradeciam com fervorosa uncçáo o prazer da 
vida, recordo-me que scismava, muito em deshar- 
monia com a acção de graças d'aquella gente. Pen- 
sava eu se me nâo teria sido muito mais benigno o 
Senhor do Monte deixando-me resvalar ao abvsmo, 
amortalhado em uma das suas ondas menos amargas 
que as lagrimas que eu havia de derramar em nau- 
frágios de maiores agonias. Porque eu, aos dez 
annos, vinha de perder meu pae, quando já não 
tinha mãe ; sahia do aconchego da casa pateríial 
desfeita como um ninho espedaçado por um favacrio ; 
e ia para uma terra desconhecida, enviado a parentes 
que nunca me tinham visto. Era por isso que eu, 
pensando na infelicidade da existência, scismava se 
Deus me seria mais benigno deixando-me ir procurar 
as almas de meu pae e de minha mãe. Ha cem 
annos que este Senhor crucificado vê umas poucas 
de gerações prostradas deante do seu altar— u^ns a 
agradecer, outros a supplicar. Po-is, talvez no trans- 



ÕO CAMILLO 

curso de um século, nenhuma outra creança de dez 
annos repetisse deante doesta sagrada imagem, as 
palavras de Job: Quare de viilna eduxisti m^f — 
Porque me deste o nascimento ? » 

Em Villa Real, D. Rita Castello Branco come- 
çou educando o sobrinho numa liberdade menos 
ampla que aquella a que o pequeno vinha acostu- 
mado da sua vida de Lisboa. EUe era o filho único 
d'uma aventura de romance em que o tédio veio, 
ao que parece, matar em breve o exaltado amor 
que a provocou, e como quer que os dois ficassem 
— pae e mãe — vivendo uma mesma vida, de rela- 
ções cortadas com o passado, sem enthusiasmo de 
amantes, unidos por uma ligação serena que veio 
tarde para transmudar na tranquillidade feliz d'um 
lar uma agitada existência de novella, percebe-se 
como ambos elles consagrassem ao filho, apaixona- 
damente, o affecto que d^um para o outro andava, 
incomprehendido ou despresado. Cercavam-no de 
mimos, faziam passar o primeiro período da sua 
educação sem uma rudeza, sem um estorvo, e o 
caso é que o futuro romancista, assim creado á 
larga, no melhor meio para o amplo desenvolvi- 
mento das tendências in natas do seu espirito, antes 
da época em que ficou sem pae, já, em namoricos, 
exhibia as tendências libertinas de pivete. 

Náo é assim por certo que se faz d'uma creança 
nm instrumento dócil, amoldavel pelas reprimendas 
d'uma tia severa e rabujenta. Camillo era travesso, 
irrequieto. «Quando eu tinha dez annos, e vivia 



CAMILLO 51 

em Villa Eeal — diz elle no primeiro volume das 
Memmnas do Cárcere — morava defronte d'um pro- 
curador de causas, que tinha um filho da minha 
edade, menino muito sisudo e galante. Se eu o con- 
vidava a apedrejar algum transeunte, Leonardo re- 
cusava-se a esta camaradagem ignóbil, e escondia-se 
para nâo dar suspeitas de cumplicidade nas minhas 
travessuras de fundibulario . , . Vi entrar na Rela- 
ção o meu vizinho de infância, e nào o conheci. 
Ouvi-lhe pronunciar o nome, e as circumstancias 
dos seus crimes: então vi a creança de 1836 e o 
perpassar d'aquellas risonhas scenas em que elle me 
apparecia com gestos de censura ás minhas trope- 
lias, e com grandes applausos e bons agouros da 
vizinhança, a quem eu era odioso » . A irmá do ro- 
mântico degredado do Amor de Perdição não tinha 
já edade nem paciência para supportar de boa som- 
bra as « travessuras de fundibulario » do sobrinho 
e, naturalmente revoltado contra uma rispidez bem 
diversa dos carinhos dos seus primeiros annos, 
num primeiro impulso d'aventura que bem ficava 
em quem viria a ser um exemplar completo de fa- 
talidade mórbida de herança, um bello dia, com um 
par de piugas e duas camisas atadas num lenço, 
Camillo abalou para Lisboa. 

«Pedi ao conselho de familia que me vestisse 
— diz elle no livro No Bom Jesus do Monte — e o 
conselho de familia, em reunião de 10 de julho de 
1837, deliberou que me vestissem num algibebe e 
me reenviassem para qualquer parte. . .» Essa qual- 



52 câmillo 

quer parte foi a aldeia de Villarinho de Samardan, 
«em Tràs-os-Montes, na comarca de Villa Real, so- 
branceiro ao rio Córrego, no desfiiadeiro de uma ser- 
ra sulcada de barrocaes » , ^ onde, em companhia de 
uma irmá casada cora um medico, irmão do padre 
António d 'Azevedo que o iniciou nos mysterios do 
latim, Camillo, levando a vida do campo, fazendo-se 
pastor do rebanho da casa, indo para o monte ar- 
mado, prorapto ao combate com o lobo, simulta- 
neamente aprendendo o cantochão e lendo Camões 
e o Mendes Pinto, passou então, como elle conta, 
o periodo mais feliz da sua vida. Ainda nas Duas 
horas de leitura, vêm descriptos, com todo o pit- 
toresco encanto d^uma prosa incomparável, esses 
episódios interessantes dos seus primeiros tempos. 
«Fui educado — diz elle — numa aldeia onde tenho 
uma irmã casada com um medico, irmão d'um pa- 
dre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar- 
me muita coisa que me falta ; mas eu era refractá- 
rio á luz da gorda sciencia do meu padre. Fugia 
de casa para a serra, dava muitos tiros ás galli- 
nholas e perdizes ; porém, louvado seja Deus, não 
me doe o remorso de ter matado uma ! O meu 
gosto era pascer o rebanho de casa por aquelles 
saudosos valles. Todavia, minha irmã oppunha-se 
a este humilde serviço. Dizia-me coisas que eu não 
percebia acerca da rainha dignidade ; reprehendia 



Camillo : Seroens de S. Miguel de Seide. 



CAMILLO 53 

OS meus baixos instinctos ; attrahia ao seu voto o 
marido e o padre e cortava-me o rasteiro voo es- 
condendo de mim a clavioa, o polvorinho, e os sal- 
picões, e a broa, e a cabacinha da agua-ardente. 
Não obstante eu pedia tudo de empréstimo, e' ia 
com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia in- 
teiro, sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fra- 
gosos, sempre sósinho, scismaado sem saber em 
quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenha- 
deiros». «Eu é que conheço a Samardaa, desde os 
meus onze annos — diz ainda Camillo no prefacio 
do Degredado, — Está situada na província trans- 
montana entre as serras do Mesío e do Alvão. Nas 
noites nevadas, as alcatéas dos lobos descem â al- 
deia e sevam a sua fome nos rebanhos, se vingam 
descancellar as portas dos curraes ; à mingua de 
ovelhas, comem um burro vadio ou dois ; consoante 
a necessidade. Se não topam alimária, uivam lugu- 
bremente, e embrenham-se nas gargantas da serra, 
illudindo a fome com rapozas ou gatos bravos ma- 
rasmados pelo frio. Foi ali que eu me familiarizei 
com as bestas-féras ; ainda assim, topei-as depois, 
cá em baixo, nos matagaes das cidades, taes e tan- 
tas que me irriçaram os cabellos. Na vertente da 
montanha que dominava a Samardan, havia um 
fojo — uma cerca de muro tosco de calhàos a esmo 
onde se expunha á voracidade do lobo uma ovelha 
tinhosa. O lobo engodado pelos balidos da ovelha, 
vinha de longe, derreado, rente com os fragoedos, 
de orelha fita e o focinho a farejar. Assim que dava. 



54 CAMILLO 

tento da preza, arrojava-se de um pincho para o 
cerrado. A rez expedia os derradeiros berros fugin- 
do e furtando as voltas ao lobo que, ao terceiro 
pulo, lhe cravava os dentes no pescoço e atirava 
com ella escabujando sobre o espinhaço ; porém, 
transpor de salto o muro era-lhe impossível, por- 
que a altura interior fazia o dobro da externa. A 
fera provavelmente comprehendia então que fora 
lograda; mas, em vez de largar a preza, e aliviar-se 
da carga, para tentar mais escoteira o salto, a es- 
túpida senta va-se sobre a ovelha e, depois de a es- 
folar, comia-a. Presenciei duas vezes esta carnagem 
em que eu, animal racional, levava vantagem ao 
lobo tão somente em comer a ovelha assada no for- 
no com arroz». * «Neste instante, vejo, palmo a 
palmo, aquelles sitios. Se eu ali for, vou sentar-me 
ao pé de uma rocha, no recosto de uma brenha, 
justamente onde recebi, ha quinze annos, dois anneis 
de missanga. Ora estes anneis ...» * 

Estes anneis têm uma historia que merece ser 
<3ontada, porque se relaciona com um dos mais in- 
tensos episódios da existência melodramática do 
romancista. Mas, antes de contá-la, eu tenho de re- 
ferir outras aventuras que, em ordem chronologica, 
antecederam essa. A historia dos seus primeiros 
versos — uma Ode ingénua, com o seu Alcino e a 
sua Elmena — anda ligada, como é natural, a uma 



1 GâMILLO : Novellas do Minho, 
^ Camillo : Duas horas de leitura. 



GAMILLO 5q 

treve historia de paixoneta infantil que Camillo 
conta do seguinte modo no seu livro Ao anoitecer 
da vida : 

«... Por esse tempo (1842) * fui eu a uma 
romaria da Senhora Apparecida *, duas léguas ao 
sul da mesma serra, na quebrada d'outra serra da 
mesma cordilheira. Jâ eu tinha dado algumas vol- 
tas em roda da ermida, ao lado do rabequista que 
era o mais atrevido imaginador de phantasias chu- 
las. Chulas chamam lá ao complexo do instrumen- 
tal que forma o essencial de taes festanças. Em 
outras partes da província dizem ronda e estúrdia 
noutras. Parara a ronda, como visse que outra lhe 
sahia à frente, mais galharda, com maior séquito 
de moças e sobre-excellencia de um clarinete que 
guinchava umas deliciosas variações algum tanto 
abafadas pelo retumbar do zabumba e grilharia 
dos ferrinhos. A ronda a que eu ia associado não quiz 
ceder o passo á outra que era de rópia e basofia. 
Esta, um pouco desconcertada, deteve-se momentos 
em conselho deliberativo; mandou as mulheres e 
rapazio para a rectaguarda; recolheu os músicos 
ao centro e cobriu a frente com quatro espadaúdos 



1 Deve ser 184:1. Já ficou dito que os erros de datas 
são frequentes nas evocações de Camillo. 

« Segundo o sr. Alberto Pimentel ( Os amores de Ca- 
millo) < a romaria não era da Senhora Apparecida, mas 
da Senhora da Pena, em Mouçoz, nas cercanias de Villa 
Real ». 



56 CAMILLO 

moços de pau ferrado. D'ahi a nada, as cabeças 
amolgadas eram mais que os paus; as rabecas iam 
soando pelos ares como harpas eólias ; os bombos 
gemiam roucos ao arrebentarem ; o homem do cla- 
rinete salva va-se no topo da serra com o inspirada 
instrumento, e a cantadeira mais insigne d'aquelles 
arredores, que sustentara desafio duas horas, amal- 
diçoava o estro fatal que a fez quinhoeira d 'uma 
bordoada que a deslombou. Parecia o dia de juizo! 
Devo â minha presença de espirito sahir illeso d'esta 
suprema provação. Estava ali perto uma pipa que 
os gladiadores respeitaram por náo sei que prodi- 
gioso instincto. Os paus travados desensarilhavam- 
se, quando, ao roçarem pela pipa, o taverneiro lhes 
gritava aos cegos da ira : — Ihipazes! não me hotéis 
a perder! Olhae que me abvides o vinho! Parecia 
coisa de milagre ! Desandavam logo como de logar 
sagrado e nào respeitavam as opas dos irmãos da 
confraria, muitos dos quaes sahiram moidos da fes- 
ta, por se metterem a pregoar pazes. Salvei-me 
pois, encostado à pipa, onde me acolhi depois de 
raciocinar friamente sobre as evoluções da tremenda 
batalha. D'aqui presenceei o triste espectáculo de 
dezenas d'homens esmoucados e centenares de mu- 
lheres, velhos e creanças, ajoelhados por aquellas la- 
deiras, pedindo clamorosamente á Senhora Appa- 
recida que tivesse mão d'aquelles homens que se 
matavam. Entrelembro-me de que estas supplicas 
aproveitaram, excepto a dois, que lá ficaram enter- 
rados no adro da ermida: um d'estes era o zabum- 



CAMILLO 67 

beiro da ronda agressora, e o outro era o violista 
da minha, engenhosissima creatura que tocava tudo 
quanto havia em dois bordões e uma prima, prima 
da viola, quero dizer. Deus os tenha a ambos noa 
coros angélicos, jâ que o mundo não era digno 
d'elles. Applacada a desordem, agradeci mental- 
mente á pipa aquelle como inviolável protectorado 
do pavilhão inglês (vem do ceu ao pintar todas as 
comparações com ingleses, quando cheiram a vinho) 
e fui procurar os destroços dos meus amigos. Um 
sacerdote de boa presença andava providenciando 
acerca dos mortos e dos feridos. Com este padre, 
vigário da freguezia próxima, andavam duas sobri- 
nhas, vestidas senhorilmente, com suas barretinas 
de palha de Itália, plumas escarlates e vestidos 
brancos de mangas perdidas. Eram umas tafulas ! 
No tocante a rosto, mais feiticeiras mulheres nunca 
meus olhos tinham visto, nem a minha devaneadora 
poesia as entre vira em sombra. Perguntou- me o 
padre quem era eu; e succedeu ser eu irmão de 
uma conhecida d'aquellas esbeltas senhoras. Feste- 
jaram-me com muitos cuidados pela minha segu- 
rança, e deram-me de merendar umas saborosas 
talhadas de salpicão e fructa seca, tudo condimen- 
tado pelos sorrisos supra-celestiaes de uma das duas 
mocetonas, que a estas horas. . . santo Deus! como 
isto é triste! devem ter netos e raros vestigios 
d'aquellas lustrosíssimas pérolas que lhes divinisa- 
vam o sorriso ! Ao lusco-fusco, o vigário sahiu da 
romagem com as sobrinhas, e eu, com os meus. 



68 CAlfILLO 

conterrâneos, caminhamos em direcção opposta, para 
os nossos sitios. Estive largo espaço no têzo d'am 
oiteiro, emquanto os olhos alcançavam, por entre o 
jâ carregado crepúsculo, as brancas visões que trans- 
moutavam a coUina próxima. Depois que de todo 
em todo desciam na quebrada invisivel do oiteiro, 
ainda ali me fiquei, vendo-as no arrebol do hori- 
zonte, e na estrella vesper. Depois, tomado em mim 
pelas vozes dos meus companheiros, que já me não 
enxergavam, dei tento então de estar chorando. 
Eram as primeiras lagrimas do coração. E quer 
agora ver o leitor o que fazem lagrimas aos quinze 
ânuos? Veja nas seguintes linhas a face irrisória de 
um primeiro amor. Olhem a ingenuidade com que 
eu quiz metrificar as minhas primeiras e parvoinhas 
innocencias e admirem-se da mais sandia ingenui- 
dade com que as divulgo, sem corrigi-las sequer. . .» 
«Riram-se? — escreve Camillo após a transcripçáo 
dos versos. — Agora saibam que esta cataplasma 
me foi um vesicatório no coração. Muita lagrima 
chorei naquelles meus quatorze annos ! Subia eu á 
<;rista d'um oiterio, d'onde se avistavam umas como 
névoas de fumo, a duas grandes léguas de distancia. 
Ali imaginava eu que devia ser a aldeia de Elmena, 
« presbyterio do tio, e a guarida das avesinhas que 
^ viam, e lhe annunciavam a madrugada. Do oiteiro 
me descia ao entardecer, chorando e escogitando 
na traça de lhe mandar a minha ode. De ninguém 
fiava a remessa, ou ninguém se encarregava do 
mandato. Uns riam de mim, outros escarneciam-me. 



CÂMILLO 69 

e os mais sizudos manda vam-me jogar o peáo ou 
conjugar um verbo da arte do padre Pereira. Pou- 
cas semanas volvidas, sahi d'aquella terra para outra, 
onde vivia um mestre de latim, sujeito de náo vul- 
gar liçào, pregador de fama, e bom velho sobretudo, 
o padre Manuel da Lixa. . .» 

A historia d'esses versos de Camillo lembra logo 
a d^uns outros, seus também, documento d^outra 
historia de castos amores da sua adolescência. São 
os que elle próprio recorda quando no Discurso 
Preliminar das Memorias do Cárcere conta a visita 
que fez a Samardan num dos mais dolorosos perío- 
dos da sua vida. «Ao seguinte dia da minha che- 
gada — escreve — parti para a aldeia onde passara 
alguns annos da minha infância na companhia de 
minha irmã. Ali era que me levavam memorias, que 
por ahi estão escriptas em livrinhos de que o leitor 

se náo lembra. Ali estava aquella Luiza. . . 

Ai! Luiza, 

... a ílôr d*entre as fragas, 

que eu cantei num poema, escripto com as minhas 
ultimas lagrimas, adoçadas de esperanças ! Passei 
por ella e não a conheci. Meu sobrinho ia murmu- 
rando ao meu lado: 

Luiza, ílôr d'entre as fragas 
Donairosa camponeza, 
Typo gentil de pureza, 
Lindo esmalte das campinas, 
Colhes, no prado, as boninas? 



60 CAMILLO 

Brincas, á tarde, na espalda, 
Onde verdeja a alameda 
Da viva côr da esmeralda? 
Brincas, Luiza, afagando 
O que mais amas no bando, 
O teu alvo cordeirinho ? 

Encarei, sorrindo tristemente, em meu sobri- 
nho, e elle disse-me: — Não a vê? — Luiza? — Sim, 
Aquella que tem os brados cinizados, Contemplei-a, 
e vi uma velha. — Aquella que me está olhando ?/— 
repliquei. — A mesma Luiza de ha quinze annos. 
E eu disse comigo : Rstará ella dizendo ás outras: 
— Elle é aquelle velho ? .' E passei avante. E meu 
sobrinho ia recitando com sentimental ironia os 
versos do meu poemeto, consagrado aquella Luiza, 
que fora nova e linda : 

E eu amei-a muito !. . . 

A' tarde. 
Quando o sol no occidente 
De escarlate as selvas tinge, 
Com o brilho refulgente 
Da floresta incendiada, 
Fui sentar-me pensativo, 
Sobre a agulha dos rochedos. 
Decifrando em minha alma 
Indecifráveis segredos. 

Além, nas várzeas do vai, 
Tinha quanto o coração 
Sonha de bello e immorlal 
Na sua ardente ambição. 
Nem mais formosa que ella. 



CAMILLO 61 

Nem mais pura o mundo a tinha ! 
Quizera vê-la, e não vê-la.. . 
Antes fugir-lhe. . . ofTendê-la. . . 
Mais valera não ser minha ! 

— E poisj aquella a Luiza ... — murmurei eu 
tão de manso, que só a minha alma podia ouvir-se. 
E na noite d^aquelle mesmo dia, quando a lua asso- 
mou das montanhas, fugi â aldeia da minha infân- 
cia e da infância de Luiza. . .» 

Quem era Luiza, a musa inspiradora d'esse ro- 
mântico amor de adolescente? «. . .Uma camponeza 
de encantar. Distinguia-se por bonitas feições : bran- 
ca, faces coradas, olhos castanhos muito vivos ; ca- 
bello abundante, da cor dos olhos ; estatura meã ; 
magra e flexível como se proviesse de raça fina. 
Alegre e folgazã, tinha comtudo maneiras senhoris, 
que completavam um conjuncto de perfeições raras 
em mulher nascida na Samardan, entre serras». 
« Estas informações — annota o sr. Alberto Pimen- 
tel no seu livro Os amores de Camillo, d'onde tam- 
bém as precedentes palavras são transcriptas — fo- 
ram colhidas em Yillarinho de Samardan, a meu 
pedido, pelo sr. conselheiro António d'Azevedo 
Castello Branco, sobrinho de Camillo » . 

Ora a aldeia para onde Camillo partiu, semanas 
depois da batalha da romaria e consequente paixão 
poética pela Elmena, sobrinha do presbytero, era 
Priume, povoação da margem esquerda do Tâmega, 
na freguezia de Salvador de Ribeira da Pena. Sua 
tia, D. Rita Castello Branco, fora de Villa Real visi- 



62 CAMILLO 

tar o genro que ali morava e Camillo acompa- 
nhou-a. ^ Na povoação havia a loja, a loja conhe- 
cida de todas as nossas aldeias, simultaneamente 
armazém de modas, mercearia e club, de que era 
proprietário um tal Sebastião Martins dos Santos, 
que, tendo nascido em S. Cosme de Gondomar e 
exercido na terra natal a profissão de alfaiate, para 
aquellas paragens trasmontanas depois se transfe- 
rira. Ali chegou Camillo, alegre e estróina, com a 
sua guitarra a tiracoUo e um arsenal bem sortido- 
das mais sonoras rimas e, desde logo, conquistou as 
boas graças de Luiz da Cunha Lemos, secretario 
da camará e da administração do concelho de Ri- 
beira da Pena, escrivão da fazenda e tabelliâo do 
julgado, que lhe deu um logar de escrevente, e da 
filha do tendeiro, Joaquina Pereira de França, que 
lhe deu o coração. Era a moçoila uma lavradeirona 
rija, de bella carnação sadia que excitava o tempe- 
ramento sensual do futuro do romancista e, como 
quer que o homem da loja logo ali farejasse um 
bom partido e aproximasse com prazer os namo- 
rados, Camillo, preso das graças da rapariga, não 
sabendo resistir — casou com ella. Era ainda em 
1841. Tinha elle então dezeseis annos. E Sebastião 
dos Santos, que à viva força queria ter um doutor 
na familia, mandou-o aprender mais latim para a 
Granja Velha, logar próximo de lá, onde o padre 
Manoel de Lixa residia. Foi ahi que diabruras me- 



* Alberto Pimentel : Os amores de Camillo. 



CAMILLO 63^ 

tricas fizeram com que, aconselhado pela prudência 
do sogro, Camillo tivesse de partir para Lisboa. 
Quaes essas diabruras foram elle o conta, embora se 
não refira ao casamento, que, de resto, procurou sem- 
pre occultar. «Naquella terra — diz o prefacio do 
livro Ao anoitecer da vida — andavam ás más dois 
irmãos de fidalga prosápia, á conta do casamento 
desigual que um d'elles intentava fazer, contra a 
vontade do mais velho. Por parte dos sequazes d'este 
me foram pedidos uns versos, em que a noiva menos 
fidalga e o apaixonado mancebo fossem chanceados 
à coBta de m^ fiào l^x^bro que antecedeneias, mui 
ãgeitadas á galhofa métrica. Deu-me soberbas uma 
incumbência doeste género ! Poeta, e de mais a mais 
requestado para intervir com a minha opinião em 
casamento tão falado nas vinte aldeias circumpos- 
tas ! Escrevi uma folha de almaço em quadras, que 
os interessados na publicidade afixaram na porta 
da egreja, momentos antes da missa das onze horas. 
O boticário, que seguia as partes do morgado, lia a 
satyra á populaça, que ria ás escancaras. E eu de 
lado a rever-me na obra e a saborear-me nas alva- 
res cascalhadas do gentio ! Por um cabello que não 
fiii então martyr do génio ! A victima crucificada na 
porta da egreja não era das que dizem : Senhor, per- 
doae ao poeta, que não sabe as asneiras que diz! Ape- 
fias lhe constou que era eu o instrumento da vin- 
gança de seu irmão, preferiu quebrar o instrumento 
^ deixou não só o fidalgo, que também o boticário 
tim ipaz. Po«t& era eu só naquelle quadrado de de!^ 



^4 CAMILLO 

léguas : avisadamente conjecturou o homem que, 
esganando a musa que o verberara, abafaria aquelle 
respiraculo de detracçào inimiga. O padre-mestre 
avisou-me, horas antes, da espera e da sepultura. 
Fugi com o magniim lexicon debaixo do braço e 
com os ossos direitos que aquella terra ingrata me 
queria comer». 

De Lisboa, a breve praso, Camillo foi para o 
Porto e, de lá, um bello dia, porque as recordações 
dos tempos idos mais o incitassem, voltou para a 
Samardan. E foi então que recebeu os taes anneis. . . 
Romanticamente os recebeu d'uma máo de mulher. 

O casamento fora para elle uma passageira aven- 
tura. Se nos interrogarmos neste ponto sobre o 
motivo que o levou a um acto em que a paixão, 
dócil demais á vontade d'um sogro ambicioso, não 
havia de ser muita, temos de fixar o seu tempera- 
mento de sensual, um pouco grosseiro, sem uns 
requintes de delicadeza que fossem bem com o sentir 
d'um bardo que canta, um a um, os seus amores. 
Havemos de vê-lo assim pela vida fora, amando 
sempre, amando com a anciã soffrega da posse, o 
crepitar d 'um desejo irreflectido, arrebatado, que, 
satisfeito, nada deixa de si, e, por consequência, a 
incapacidade para uma vida tranquilla, de amorosa 
paz qiie não teria, mesmo que circumsfcancias outras 
não interviessem a impedi-la, na intimidade do seu 
primeiro lar. 

Na vida de Camillo ha a pôr em destaque, para 
um logar primeiro, a sua feição amorosa : elle foi 



CAMILLO 65 

ê 

um sacrificado ao amor, como jà o haviam sido, em 
linha de curta ascendência, os seus maiores, e como 
A mais que qualquer d'esses, elle tivesse ainda o 
amor ás letras, toda a pequenina paixão se engran- 
decia, enriquecida pela sua imaginação exuberante, 
romantizada pelo seu génio d'artista. Junte-se esse 
vidro d'augmento que existe vulgarmente na con- 
sciência do artista pelo que toca a assumptos de 
coração a uma pronunciada tendência hereditária e 
mais â anciã de procurar affectos fortes, natural 
em quem, como elle, cedo tenha ficado quasi só no 
inundo, e ter-se-á justificada a maneira preponde- 
rante como o amor influiu na vida inteira de Camillo, 
subindo a timoneiro das suas acções e arbitro supe- 
rior do seu destino. 

Emquanto Joaquina Pereira, em Friume, com 
uma filha nos braços, chorava a ausência do marido, 
Camillo, indo a Samardan matar saudades, deixa- 
va-se prender pelos encantos da Maria do Adro, 
camponeza do logar. A rapariga era triste, desde que 
uma doença lhe levara as louçanias melhores da 
niocidade, e como quer que ao romancista agradasse 
essa melancolia de 'sempre, que a fazia contempla- 
tiva, guardando-se com os seus pensamentos da 
alegria bulhenta das mais, ahi começou um honesto 
idyllio, conversas ao crepúsculo com extasis pan- 
theistas, promessas, juramentos, na ingénua poesia 
d'um singelo amor de adolescentes. 

«Estes anneis, meu caro Barbosa — escreve Ca- 
millo nas Duas horas de hitura — déramos a Maria 



€6 CAMILl.O 

do Adro. Spbes tu lá quem era a Maria do Adro?! 
Desce da elevada esphera por onde voejam as tuas 
preoccupações, cá abaixo, ao razo de uma mulher 
do povo. Maria do Adro era filha de uma viuva 
pobre. Tinha dezesete annos. Fora bonita até aos 
quinze; depois, uma enfermidade grave emmagre- 
ceu-lhe a face, amarelleceu-lhe a pelle, e sugou-lhe 
a seiva que viçava em flores por todo aquelle rir e 
olhar de descuidosa innocencia. A' mudança de 
semblante correspondeu a da alma. Fez-se melan- 
cólica e taciturna. Não arranchava para dançar de 
roda, nem cantava nas espadeladas de linho. Cha- 
mavam-lhe mona as azougadas companheiras, e ella 
o que respondia ás provocações era : — Andae^ andoe^ 
raparigas; eu também me diverti assim, quando 
tinha saúde, E muito divertida dizem que ella fora. 
Cantava ao desafio com muita graça, e até, dizia- me 
o padre- mestre, com versos certos e sentenciosos^ 
Minha irmã disse-me uma vez: — Esta Mana do 
Adro distinguese entre todas as outras. Tem um ar 
senhoril que não parece do seu tracto. Isto impres- 
sionou-me e eu reparei na moça, que até ali me fora 
índifferente. 

«Reparar, quando o coração repara mais que o 
juizo, é amar. Achei a tal distincção. Esqueci as 
perdizes e as ovelhas, ia, sempre que Maria estava 
em casa, sentar-me num toro de castanheiro à porta 
d'ella; visita va-a na leira, cortinha ou horta onde 
ella estivesse; dizia-lhe todos os dias a mesma coisa 
e ella respondia-me sempre com o seu sorriso meigo^ 



CAMILLO 67 

dando-me umas vezes uma flor do monte, outras um 
abraço de videira. Maria, de madrugada, nào faltava 
à primeira missa. A aldeia tinha cinco padres; e 
eu, por causa d'ella (Deus me perdoe a intenção), 
ajudava ás cinco missas, se Maria estava até à ulti- 
ma; se não, não. Na quaresma era certa todos os 
domingos â tardinha na. Via- Sacra, em redor do 
presbyterio. Lá ia eu para a Via-Sacra, ouvir o 
numero de gemidos que uma arithmetica piedosa 
fez gemer ao Salvador do mundo. Minha irmã, que 
devia á devoção a sua felicidade, era quasi sempre 
a que entoava as Estações. Tudo poesia para mim ! 
Comecei a quinhoar da fé que a divina graça repar- 
tia por ambos. Minha irmã Carolina, que eu vira em 
Lisboa preparando-se para entrar no golfão das 
delicias brilhantes, onde é necessário para haurir o 
goso completo esquecer a Deus ! . . . ali, depois, entre 
quatro montanhas, aos vinte e dois annos, com um 
livro de Via-Sacra, ajoelhada, deante de uma cruz 
tosca!. . . Entre nisto, meu amigo. . . 

« Nos dias de calma, pela estação das segadas, eu 
ia sentar-me debaixo d'um castanheiro vizinho da 
leira, à hora da sesta, conversando com Maria, em- 
quanto as outras dormiam, ou pulavam em redor 
de uma viola. Nunca lhe disse que a amava. Pare- 
ce- me até que não conhecia ainda este verbo, em 
cuja conjugação depois me exercitei tanto que lhe 
descobri um tempo novo : é o plusquam imperfeito. 
Que lhe diria eu?! Perdi a lembrança do colorido; 
retive, apenas, as imagens nuas d'aquelles quadros 



68 CAMILLO 

de imiocencia. Sei que encostava a cabeça ao regaço 
d'ella, e este grupo faziamo-lo com tanta singeleza, 
que a approximaçào d'alguem não nos assustava. 
Dado o signal do trabalho, Maria tomava a sua 
foucinha, e entrega va-me o ramo de boninas que 
andava colhendo e atando com um fio de cabello. 
Eu, depois, saudoso d*ella, subia ao cerro de uma 
collina afastada, d'onde nos viamos. Os segadores, 
se me enxergavam, faziam- me estridorosos apupos, 
á sua moda; e Maria, sem erguer-se do seu trabalho, 
entristecia-se por aquella falta de respeito a mim. 
Eu náo volvia ao povoado, sem esconder-se o sol, 
e os segadores sahirem do campo. Maria, por cami- 
nhos travessios, sahia-me ao encontro, e vinha co- 
migo, quasi sempre silenciosa ou recolhida em si. 
Enfastia-te a simplicidade do conto? Era assim a 
nossa vida. Quando eu inventar, arripiarei os cabellos 
às minhas imagens. 

«Três meses depois, mandaram-me sahir da 
aldeia. O padre-mestre não me podia aturar. Tinha 
razão . . . Minha irmã, boa para todo o mundo, me- 
nos para mim, era indififerente á minha sahida. 
Feriram-me todos o meu orgulho, e eu deliberei 
sahir sem despedir-me, excepto de Maria, que rece- 
beu o meu adeus num spasmo, que a não serem as 
lagrimas, tomá-lo-ias por insensibilidade estúpida. 
Demorei-me algumas léguas distante, em casa de um 
parente, poucos dias. De lâ foi para Lisboa, onde 
nunca recebi novas da aldeia. O meu conselho de 
familia, passados sete meses dos ociosos quinze 



OAMILLO 69 

annos com loucuras dos trinta, intimou-me a sahida 
de Lisboa, pena de considerarem o meu estômago 
uma viscera inútil». 

Voltou então Camillo para as aulas. Terminados 
os preparatórios, matriculou-se na cadeira de chimica 
da Polytechnica do Porto, em outubro de 43, e fez 
acto em 12 de julho do anno seguinte. Simultanea- 
mente, como o tempo lhe sobejasse, segundo elle 
mesmo declara, estudou anatomia. «Eu morava na 
rua Escura — diz, no opúsculo O general Carlos Ri- 
beiro — no bairro mais pobre e lamacento do Por- 
to, um beco fétido de coirama surrada em uma es- 
quina que olha para a viella dos Pellâmes. Éramos 
dois os estudantes que occupavamos o terceiro andar 
com uma retorcida varanda de pau, esmadrigada, 
num escalabro de incêndio, debruçada em ameaças 
sobre os transeuntes como a varanda de Damocles 
muito mais perigosa que a lendária espada, cujo 
gume deve estar* muito rombo e poído da esgrima 
dos eruditos em Damocles. No primeiro andar mo- 
rava a proprietária, uma adela que nos cozinhava 
certas iguarias dignas de ser expostas ao sevo das 
aves de rapinas no peitoril d^aquella varanda. Quanto 
a ratos era uma succursal de Montfaucon. O segundo 
andar tinha escriptos desde muito, e não havia ho- 
mem desesperado, cançado da vida, que ousasse ten- 
tar o suicídio naquellas ruinas minacissimas. Quem 
procurava casa olhava com terror, e seguia o seu ca- 
minho, como se ali morassem os leprosos de Xavier 
de Maistre». «De dois condiscipulos somente me re- 



70 CAMTLLO 

cordo bem —conta ainda Camillo no Cavar em Ruí- 
nas — : Um era o melhor estudante; o outro, ultimo 
da lista, seria o peor do curso se eu lá nâo estivesse. 
O primeiro era pharmaceutico : chamava-se Fran- 
cisco Pereira Amorim de Vasconcellos. O outro era 
alferes de infanteria, filho de gente notável do Porto, 
duellista, peralta, galã de muito boas tretas: cha- 
mava-se António Augusto de Macedo Passos Pimen- 
tel. O seu mais amigo condiscipulo devia ser o mais 
inimigo da chimica : era eu. O nosso lente, o senhor 
frei Joaquim de Santa Clara de Sousa Pinto, nunca 
teve o gosto de nos ouvir. Quando nos chamava, 
ou nâo nos via, ou nós não tinhamos visto o com- 
pendio, que por signal se chamava o Lassagne, 
parece-me que era; pela orthographia do nome não 
fico. Fugiamos da aula de cócoras, quando o sol de 
Deus nos estava incitando à rebellião. Com que 
tristeza eu via o sol e invejava a minha vida lá das 
serras d 'onde viera a estudar o sesquioxido de ferro 
e o bicarbonato de soda naquellas frias salas do 
convento da Graça! O meu condiscipulo Passos 
abundava nas minhas ideias lyricas acerca do sol. 
E por isso fugiamos ás recuadas, quando o nosso 
condiscipulo pharmaceutico tinha absorvidas as 
attenções com a sua eloquência recamada deprofos, 
de deutos^ de his, de sesqui, de pilhas^ de 7*etortas^ e 
varias coisas com que os homens entretém a vida 
para não morrerem de tédio. Não me lembra já se 
o alferes fez acto de chimica. Eu fiz. O meu ponto 
era o Kermes mineral e não sei que mais. Tirei-o 



CAMILLO 71 

• 

com outro infeliz da rainha tempera em chimica. 
Fui para um quarto andar onde morava na rua dos 
Pellámes. Do quarto andar subi ao telhado com o 
compendio e uma viola. A mulher que eu amava 
vivia numa trapeira da rua do Souto e estava là a 
mondar mangericões. Vi-a, sentei-me na espinha do 
telhado, e, ao arpejo da viola chuleira, cantei-lhe 
umas trovas, que eram a negação de toda a chimica, 
ou se pareciam .com as theorias da sciencia em for- 
marem no telhado o polo positivo com que as cor- 
rentes eléctricas se haviam de estabelecer, dado que 
a vizinha se constituisse polo negativo: como de 
facto. Assomou ao telhado o estudante emparelhado 
comigo para a hecatombe do dia seguinte: ia estu- 
dar, communicar-me os seus conhecimentos e parti- 
cipar dos meus. Que chalaça! Traduziu pessima- 
mente os prologomenos do compendio, e foi-se con- 
victo da sua perdição e da minha. Ao anoitecer 
ainda eu não sabia a que pagina do livro estava a 
matéria do ponto. Deliberei âs nove horas da noite 
não fazer acto, e fui ouvir musica á porta do quartel 
general. Estava eu embevecido na ária da Norma ^ 
quando senti no hombro pousar-se-me amigável mão. 
— O senhor por aqui? perguntou-me alguém. Voltei- 
me e vi o meu sábio condiscipulo Amorim de Vaí?- 
concellos, o estudante premiado, que, naquelle tem- 
po, devia orçar pelos seus trinta annos, e já era 
administrador da botica do hospital da Trindade, se 
bem me lembro. —Por aqui em véspera de ponto ?! tor- 
nou elle. — E' verdade. . . — Já estudou? — Nada,-^ 



72 CAMILLO 

Então ? / — Não vou fazer acto, — Porque não saoe o- 
ponto ? — Justamente, — Venha comigo^ que ensino- 
Wo, Venha, que é uma desgraça perder um anrw! 
E levou-me pelo braço. Escutei-o até ás duas horas^ 
da madrugada. Quando salii, sabia o ponto, sabia 
os rudimentos da chimica, sabia a historia e a phi* 
losophia da sciencia, conhecia Berzelius, Gay-Lus- 
sac, Orphila e nào sei quem mais. Adormeci como 
um justo e acordei com a cabeça mais pesada que 
uma igual porção do Kermes do ponto. Soou a 
hora do acto. Já de antemão os condiscípulos me 
davam os pêsames : dizia-se que eu, além de ser um 
parvo chimicamente falando, tinha quarenta e oito 
faltas, afora vinte e duas abonadas, sete negas e 
cinco fugidas, O senhor Santa Clara estava na 
presidência com ar fúnebre. O meu consócio do 
holocausto entrou como moribundo que não pudesse 
morrer sem fazer acto de chimica. Eu ia alegre 
com a minha sciencia e três cálices de licor de ca- 
nella. Que acto eu fiz ! Desenruguei a fronte do 
lente, enchi de jubilo os arguentes, espantei os 
condiscípulos e fui approvado nemine discrepante. 
E, o que mais é, salvei o meu condiscípulo, que 
tinha sido menos boçal do que eu, e frequentara 
exemplarmente... os bancos da aula. Se eu não 
fui reprovado, fora escandalosa a reprovação do 
outro. Deram-lhe um r, que elle agradeceu com o 
coração nos lábios não maculados de uma só pala- 
vra escorreita em matéria de chimica. Amorim 
abraçou- me, levantou-me á altura da sua óptima 



CAMILLO 7â 

cabeça e disse-me : — Se não fossem as negas e as 
fugidas, o premio devia ser seu ! Radiava de alegria 
o bom homem ! Tinha razáo ; fizera-me elle o assom- 
bro de todos; creara-me a reputação em quatro 
horas, com a sua linguagem tersa, clara, insinuante 
e amena, como devera ser o methodo de quem en- 
sinasse chimiça a senhoras». 

Emquanto, no Porto, Camillo ia levando uma 
vida estúrdia de estudante, Joaquina Pereira, em 
Friume, soffria toda a dor de um abandono quasi 
sem esperança e a Maria do Adro, sem novas d'elle, 
pensando talvez na inconstância do namorado, ia 
consumindo a vida, moendo-se de saudades pelos 
campos trasmontanos. Confessa Camillo que, no 
Porto, sentiu «vivas saudades de Maria e também 
remorsos de a ter esquecido quasi, em Lisboa» *. 
Esquecimento esse, talvez provocado por uma certa 
AmeHa lisboeta que mereceu o favor das suas ri- 
mas... 

Gomo aquelle amor nascera 
Tenho uma vaga lembrança. . . 
Da lua um raio descera, 
E, d'improviso, illumina 
As feições de jaspe, immoveis, 
D'anjô. . . não. . . nem de mulher. 
Moça, tão moça, e menina. 
Os seus segredos, se os tinha, 
Nem a arte os adivinha 
Quando sondá-los quizer. 



Camillo : J)ua9 hora» de leitura. 



74 CAMILLO 



A' noite, á beira do Tejo 
No explendido crystal 
D'aquellas ondas dormentes, 
Parecia a vista encantada 
Numa visão... 

Amélia, a filha dos sonhos, 
A rival dos anjos vinha 
Povoando aquelles mundos 
Para mim, que mundos tinha, 
No coração, para dar-lh'os. 

Como aquelle amor nascera. 
Tenho uma vaga lembrança. . . 

Amélia, recordas 
Aquellas noites do Tejo, 
Quando vinha dar-te um beijo, 
A brisa que te dizia 
O que não fazia o pejo? 
Em redor de nós viviam 
Vida diversa da nossa 
Teus irmãos e mãe, que viam 
Em nosso amor um gracejo. . . 

E quem diria, meu anjo 

Tutelar da minha infância, 

Quem diria os mil poemas 

D'aquella estática anciã? 

Se nos vissem sós. . . recordas?. . . 

Naquelles dias tão breves. 

Em que te disse... que disse?... 

Palavras, não, que não pude, 

Por mais que á alma as pedisse. 



CAMILLO 75 

Dizia-te o que era 'este ardor 

Este mysterio profundo, 

Este elevar-me tão alto 

Das coisas baixas do mundo !...»* 

Camillo teve depois saudades da Maria do 

Adro. Mas a pobresinha, lá longe, de cada vez mais 

débil e mais triste, não podendo sequer receber 

d'elle duas palavras d'amôr — porque não sabia lêr, 

entrou de adoecer, e peorar, peorar sempre, a 

ponto que, quando elle resolveu voltar, passados 

meses, já a não encontrou : — tinha morrido. Como 

elle soube a má noticia, vem contado ainda nas 

Duas horas de leitura: 

«Esperava com anciã as ferias-grandes, — escreve 
Camillo — e a figura va-me o jubilo com que ella 
me veria, depois de quinze meses. Quantas vezes 
eu ia do átrio do Bomfim pasmar os olhos naquellas 
«erras que ficam lá para o nascente ! Penso que fui 
poeta um dia. . . Chegaram as ferias, fiz acto de 
anatomia, e fui premiado com um indulgente R. De 
ooa vontade acceitava eu três, comtanto que me 
deixassem sahir mais cedo. Esperava-me o cavallo 
eom a magra mala. O arrieiro perdeu-me de vista 
em Vallongo, e encontrou a meio-caminho o cavallo 
aberto dos peitos, com não sei quantas sobrecanas 
<^e mais, e ferraduras de menos. Aluguei em Ama- 
rante uma égua muito nervosa ao estimulo da espora, 



^ Camillo : Um livro. 



76 CAMILLO 

e em dia e meio venci as oito léguas. Quando vi as 
montanhas da minha terra adoptiva, alvoreceu-me 
um arraiar de alegria n^alma, que náo sei dizer-te! 
Era nào sei que parecia com o trinar dos passari- 
nhos em aurora de estio. Tinha vontade de cantar, 
de rir, de poetar, de beber a longos sorvos um 
ambiente balsâmico em que o meu coração doude- 
java embriagado! Já via os castanheiros seculares 
a circumdarem a casa de minha irmã. Já tinha en- 
contrado duas pessoas vizinhas d^ella. Estive quasi 
a apear para abraçá-las! Náo sei que traços de pa- 
recença eu achava entre Maria e as duas moças que 
cegavam herva num lameiro contiguo á estrada. — 
Já nào conhece a gente ? ! — disse uma d'ellas. — 
Conheço, Luizinha, conheço, Anna ; pudera não co- 
nhecer! Como estão vocês? rijas, hein? — Como um 
ferro, graças a Deus. Então já sabe? — O quê? — 
— Pois não sabe que a Maria do Adro ... — Que 
tem? está doente? — Está com Deus. .. morreu faz 
amanhã um mês. 

«Meu caro Barbosa, tu crês nas lagrimas aos 
dezesete annos? O que eu senti primeiro foi uma 
como cegueira momentânea. Fugiu-me a rédea da 
mão, e apertei instincti vãmente os joelhos ao selim. 
Depois, saltaram-me dos olhos repentinamente as 
lagrimas, e ouvi, e senti no coração alguma coisa 
similhante a um estalo. Vi que as duas mulheres 
me contemplavam consternadas, e uma d'ellas disse 
á outra : — Eu não te disse que elle era muito amigo 
d'ella?^ 



CAMILLO 77 

Vinte e quatro horas depois, a convite de seu cu- 
nhado e com o auxilio d'elle, Camillo abriu a sepultu- 
ra de Maria, desenterrou-a, viu-a, e tal foi a impressão 
sentida que, quando, ao outro dia, o medico, sósinho, 
preparava o esqueleto da camponeza morta, o futuro 
romancista sofiFria no leito os primeiros assaltos de 
uma febre cerebral intensa que o prostrou. D 'esse 
facto nos apparece a narrativa na sequencia do ca- 
pitulo citado das Duas horas de leitura^ se bem que 
o decorativo d'um anoitecer de tempestade, com 
silvos de ventania e clarões trágicos de relâmpagos, 
possa ser um devaneio phantasista do romântico que 
se comprazia em pôr aquelle caso lúgubre num bello 
quadro de horror e de tortura. 

« Lembra-me — diz elle — que fuzilavam os re- 
lâmpagos d'uma trovoada de Agosto quando entra- 
mos na egreja, pela porta da sacristia. Já lá tinha- 
inos uma alavanca e uma enxada. Entrei na egreja, 
alumiada a espaços pelo lampejo azul dos trovões, 
com religioso terror. Ajoelhei machinalmente, e 
senti os sustos d'um sacrílego. Meu cunhado deu- 
me animo com um riso desdenhoso. Abalamos a 
pedra tumular com o ferro de monte. Sustentamo-la 
no pendor com o peito. Revezamo-nos a cavar, até 
encontrarmos as taboas lateraes do esquife. Não 
consenti d'ahi em deante o uso da enxada. Tirei a 
terra ás mâos-cheias, até sentir debaixo dos dedos, 
que cravava na terra, as formas de um corpo mole. 
Eu tinha a cabeça em lume : as pulsações do cora- 
ção eram tão fortes que me agoniavam : não senti 



78 CAMILLO 

cheiro mau, senão o da terra impregnada de ossadas 
em pó, de vértebras, e pedaços de hábitos mortuá- 
rios, comtudo angustiava-me uma sensação de nau- 
zea, mas toda moral, sensação que nunca mais 
experimentei. Meu cunhado, vendo-me descorar, 
offereceu-me um vidro de espirito que eu nàa 
acceitei. Prosegui na exhumaçáo, até encontrar as 
pontas do lenço que cobriam a face do cadáver. 
Segurei as quatro pontas nas mãos tremulas ; tirei 
devagar o panno, e vi Maria. Permaneci quieto 
não sei que tempo, com os joelhos enterrados e a 
face pendida sobre a face morta. Não sei dizer-te 
o que pensei. Talvez nada ! A alma nesses lances 
creio que se anniquila. Ha dores com que o homeni 
não pôde, e Deus, quando as dâ assim, permitte a 
lethargia, a morte passageira, a paralysia dos órgãos 
conductores da impressão. Meu cunhado ergueu-me 
pelos braços. Fitou-me com um sorriso ... de me- 
dico, e aflPectou um ar de extranheza que eu antes 
quizera não fosse fingida. 

«O resto do trabalho fê-lo elle. Eu sentei-me 
na cadeira parochial, procurando as minhas ideias^ 
que me fugiam aos turbilhões. Como privado d'al- 
ma, o estrondo exterior azoava-me os ouvidos : era 
o embate da saraiva nas vidraças da egreja, e o 
ranger das arvores que açoitavam as cornijas. Eu 
estava como tranzido de medo. Era no estio, e sen- 
tia uma espécie de serpente glacial cingir-me das 
costas para o peito. O cadáver foi lançado num 
cesto. Esperamos que anoitecesse, e eu tomei uma 



CAMILLO * 79 

aza do cesto, ajudando a transportá-lo para uma mina 
seca, na margem do rio. O dia seguinte fora o desi- 
gnado para dissecarmos o cadáver. Prepararam-se 
escalpellos, thesoiras e bisturis, durante a noite. 
Meu cunhado foi chamar-me de madrugada á ca- 
ma, e achou-me passeando no meu quarto. — Jd a 
pé! disse elle, admirado. — Ainda me não deitei, — 
Como?! E abriu uma janella para aclarar o quar- 
to. Observou-me, tomou-me o pulso, e mandou- 
me recolher ã cama. Quiz resistir á ordem : mas eu 
mesmo senti a necessidade de cumpri-la. Não sei 
que tempo estive doente. Quando me ergui, per- 
guntei que remédios me tinham dado, e soube que 
estivera oito dias com pannos ensopados em vina- 
gre na cabeça, fiecordo-me vagamente de ouvir 
dizer uma vez o padre-mestre a outros : — Diz mi- 
nha cunhada que muitas pessoas doesta família en- 
doideceram ...» 



II 



1845-1848 



Camillo, depois do episodio da Maria do Adro, 
findas as ferias, veio matricular- se no segundo anno 
<ia Escola Medica do Porto e, passado pouco, per- 
dido o anno por faltas, retirou para Villa Real, de- 
certo mais leve sem o encargo estopante d'aquella 
formatura. 

Percebe-se que assim fosse. Camillo levava por 
"^sse tempo umá vida alegre de bohemio, nessa al- 
tura o humorista revelou-se nuns folhetos satyricos 
hoje raros e no episodio espirituoso do duelo simu- 
lado na Torre da Marca, e essa vida que mais po- 
dia ser a d'um ocioso que procura divertir-se, passar 
o tempo, — com as suas serenatas românticas, os 
seus derriços, a tentação do botequim — não era 
decerto a que convinha a quem pretendia, para sa- 
tisfazer um sogro de Friume, estudar muito e ser 
doutor. Depois os cursos, entre nós, mal organizados, 
aterrando por uma complexidade toda materialona 

6 



82 CAMILLO 

que solicita o esforço das memorias mais bem do- 
tadas e nada quer das faculdades de intelligencia, 
aptas a uma clara comprehensáo mais racional e 
mais profícua, fizeramse de tal modo o privilegia 
de vocações esporádicas de intelligentes eruditos 
e da multidão dos menos lúcidos, cuja deficiência 
se acommoda sem custo ao trabalho material mai* 
torturante e os força a sinceramente encarar sem 
um sorriso o pedantismo vulgar nos professores^ 
Aqui, só muito tarde, o legislador que organiza 
e o mestre que ensina, percebem que não se trata 
jà precisamente d^aquella aula de primeiras letras, 
onde a disciplina é quasi tudo. Usando o metbedo 
socrático no decorrer d' um curso inteiro, é evidente 
que um desequilibrio se estabelece entre o que o 
ensino superior é e aquillo que em boa razão devia 
ser; e a pretenção de seleccionar naquelles cinca 
ou sete annos os indivíduos aptos a seguir na vida 
com proveito commum o seu mister, decerto falha ^ 
quando o acaso providencialmente a não ajuda. 
Basta vêr um regimen de frequência que impõe 
como uma obrigação, mal acceite como toda&y 
aquillo que espontaneamente deveria nascer pela 
consciência, mais cedo formada, do dever, ou da 
comprehensáo evidente d^uma positiva utilidade ; 
já para não falarmos da facilidade que sempre 
teve a estupidez, quando a bafeja a importância 
d'um nome ou a abjecção d'uma humildade, para 
se guindar alto, gatanhando no caminho dos galar- 
dõ3s escolares, ou pêlos degraus acima d'nma ca- 



GAMILLO 83 

thedra. Quando/ não ha muito, numa escola de me- 
dicina, alguns professores quizeram seguir numa 
orientação mais coherente com o caracter do curso 
e as modernas conclusOes da sciencia do ensino, 
baixou uma portaria, mettendo na ordem os discolos 
perturbadores d'uma tão apreciável harmonia ; em 
vista do que, se meámo assim os governos quizes- 
sem, em questões de pedagogia, obedecer a um 
plano lógico de orientação, melhor iriam outhor- 
gando ao mestre, nos estabelecimentos de instrucção 
superior, o direito de mandar pôr em cima do ban- 
CO, exposto á troça dos condiscipulos, o alumno 
irreverente (e, nesse caso, ter uma ideia seria irre* 
verencia), espetar o chapéu de bicos, como um 
estygma, pelas orelhas d'um cabula, ou lançar mão, 
em caso extremo, do recurso salutar da palmatória. 
Camillo Castello Branco, de indole avessa a 
docilidades de coUegial, intelligente demais para 
estar bem numa organização a tal ponto atrazada 
e deprimente, pouco estável, ainda, numa reso- 
lução ou num projecto, ficou sem o diploma d'um 
curso, como de resto homens eminentes como Her- 
culano e Oliveira Martins também ficaram, sem que 
por isso a sua obra fosse menos grande ou a falta 
da chancella official prejudicasse o seu saber. Era 
o que ignorava o tendeiro de Friume, insensivel 
aos rogos da filha, condemnada pela ambição d'um 
papelucho sellado, a essa viuvez que começou dias 
depois do casamento e havia de a acompanhar irre- 
mediavelmente até morrer. 



84 CAMILLO 

Falei do duelo simulado na Torre da Marca. 
Num artigo com a epigraphe Que saudade!.,. 
inserto no n.® 7 das Noites de Insomnia, dâ-nos 
Camillo a descripção d 'essa espirituosa scéna de 
comedia: «Folheando acaso a Revista Universal 
lÂsbonense de 1845 — escreve o romancista — li pela 
primeira vez a seguinte noticia: 

UM DUELLO DIGNO DE LOUVOR 

Tcarta) 

Porto, 10 de maio de íS4ô. 

Snr, redactor, — Peza-me o não ter sido testemu- 
nha ocular de um caso acontecido aqui, a 5, pelas 4 
horas da tarde, e em que se ha-de falar por muitos 
dias, 

Tinha-se espalhado que dous estudantes da arte 
ama,ndi, fortissimos no capittilo dos ciúmes e rivaes 
por íima triste fatalidade (porque segundo os srs. 
estatisticos ha mais mulheres do que homens, e por 
isso os zelos masculinos quanto a mim deviam ser 
prohibidos) ; estes dous meninos, digo, ambos com o 
sangue na guelra^ tinha-se espalhado que a essa hora 
combateriam em duello de morte (que sempre é obra 
mais asseada), sendo o sitio da execução o campo da 
Torre da Marca, padrinhos^ outros académicos, e as 
armas, pistolas. 



CAMILLO 85 

Concorreu toda a gente que pôde (eu só faltei por 
estar com um ataque de gotta, nos pés se entende) ; 
e não só o povo, mas dous regedores^ cabos de policia^ 
um destacamento de tropa e muitas mulheres (não 
admira^ a festa era em nome e louvor do sexo, nada 
prova tanto os seus feitiços como umas tripas ao sol); 
só faltojiíu a tumba da misericórdia^ diz hoje com 
muita graça o «Periódico dos Pobres» . Sôa a hora ; 
apparecem os dous Quixotes montados como dous 
Sanchos em burros lazarentos de albarda rota e freio 
de corda mas muito arrogantes na catadura (não os 
burros, porém os campeões); um dos regedores^ aliás 
bom homem, desapprovou com destempero que duas 
figurai d'aquelle feitio brigassem d pistola; man- 
doU'Os apear e aos soldados que os prendessem; o povo, 
que não queria perder as passadas^ murmurava 
contra o regedor, muitos estudantes jd começavam a 
wciferar, um dos duellistas procurava convencel-o 
em segredo; o magistrado via-se perplexo e creio que 
assustado. 

Apressou-se em passar por mão o negocio para 
superior instancia: acompanhou os zelosos á presença 
do administrador do bairro. Foi ahi que se descobriu 
a chave do enigma: — os maganões declararam que 
o seu único intuito fora fazer aos duellos a guerra 
do ridículo : mostraram que as suas pistolas levavam, 
pólvora mas não bala, e afjirmaram, o que era ver- 
dade, que entre os dous não havia nenhuma Dulcinéa. 
Afora o regedor^ todos riram muito; e o administra- 
dor mostrou ter pena de que se não tivesse chegado a 



86 CAMILLO 

representar uma farça que poderia ter talvez preve- 
nido algumas futuras tragedias. 

Um tripeiro velho que nunca brioou 
nem ha de brigar. 

« Fala-se ahi em dous meninos, — commenta Ca- 
millo — Ai! um d^esses meninos era o sr. Freitas 
Barros, actual secretario da administração do con- 
cellio de Coimbra. E o outro menino era ... eu ! 
Direi alguma cousa nos pontos em que o corres- 
pondente do Porto foi omisso. Eu vestia casaca 
preta de abas em triangulo isosceles com a gola em 
promontório, convexa, redonda e algum tanto seba- 
cea. Na lapela esfarpellada alvejava uma camélia, 
symbolisando tenção amorosa à mingua da cliarpa 
dos Amadis e Lancelotes, meus heróicos antecesso- 
res. Os coUarinhos de papel almasso embeiçavam 
com os arcos amarellos dos óculos. A gravata era 
britannicamente branca, e absorvia-me o queixo de 
baixo na circumspecta gravidade dos desembarga- 
dores d'aquelle tempo. Eecordo-me das luvas que 
eram de lá verde com um ante-braço que lhes dava 
uns longes de manoplas. Em uma das botas duvi- 
dosamente marialvas, luzia o espigão d'uma espora 
sem roseta. O chapéu de castor, derribado por ge- 
badas ad hoc, desformára-se nas formas caprichosas 
àe barretina de lanceiro. Se bem me lembro, o 
meu adversário Freitas Barros vestia o mesmo uni- 
forme, tirante o chapéu que era de bicos, em arco, 



CAMILLO 87 

m 

de alterosas badanas um pouco desengonçadas pelo 
attrito de meio século. E neste feitio, depois de 
presos, atravessamos a cidade, desde a Torre da 
Marca até á rua do Almada, bifurcados nos burros 
espavoridos pela grita do gentio que exultava na- 
quelle intervallo de imprevisto carnaval. Claro é 
que a minha postura e a plástica do trajar eram 
bastantemente ingratas aos eíFeitos oratórios, posto 
que a rhetorica náo fosse de todo parvoa. Dei ao 
meu braço direito, durante o discurso, um movi- 
mento pendular que depois vi perfeitamente arre- 
medado no parlamento pelo sr. Martens Ferrão. E, 
dado que, tanto nas posturas como nas expressões, 
eu mantivesse a seriedade compativel, o magistrado, 
que se chamava fulano Mendanha, náo sustentou a 
gravidade consentânea ao acto, porque me interrom- 
pia com espirros de riso assas funestos aos golfos 
da eloquência de quem quer que seja. Náo obstante, 
a authoridade compoz sisudamente o aspeito neste 
lanço do meu discurso : Si\ administrador! O ri- 
diculo, na questão sujeita, pôde contribuir para de- 
fecar a humanidade de um crime que a lei não evita 
nem pune, O duello, ill.*no sr., só deixa de ser ridi- 
culo quando ha uma victima, quando ha sangue e 
lagrimas; e, assim mesmo, ninguém sabe dizer qual 
é o honrado, se o que morre, se o que mata, etc, 
etc, etc, Lembra-me que me fiz forte com Voltaire, 
como se o tivesse lido. Eu náo tinha ainda 19 
annos; e, naquella edade, dou palavra d'honra 
que era estudante sem compêndios, e o mais igno* 



88 CAMILLO 

rante que podia ser um rapaz que entranhadamente 
execrava livros, e amava o sol e tudo quanto elle 
cobria, exceptuados os livros e os sábios. Final- 
mente, o jovialissimo Mendanha mandou-nos em- 
bora ; e nós d 'ali sahimos com a consciência con- 
victa de haver escripto um brilhante capitulo na 
ethologia nacional, e com o estômago palpitante de 
sorrisos para uma merenda condimentosa no Rainha 
da Praça Nova. Eu não me considerei então ridículo 
a despeito da hilaridade das multidões. Ridículo 
me vi eu dez annos depois, quando sahia de um 
duello com uma cutilada; e, olhando para ella, me 
acudia á memoria o meu discurso ao administrador 
Mendanha. . . Mas. . . que saudades ! » 

Camillo era um cabula. Elle próprio no-lo afir- 
ma sob a sua palavra d'honra. E, assim, fácil é com- 
prehender como, perdido o anno, sem coragem para 
apparecer ao sogro de Friume nem ao austero pa- 
dre Azevedo, correu a acolher-se â protecção d' um 
tio afim, residente em Villa Real e que elle próprio 
depois chamou analphabeto. Esse tio, João Pinto 
da Cunha, era miguelista ferrenho e tão conceituado : 
entre as hostes agitadoras dos defensores do rei 
proscripto, que o padre dr. Cândido Rodrigues Al- 
vares de Figueiredo e Lima, logar- tenente do sr. 
D. Miguel I, prometteu nomeá-lo corregedor da co- 
marca logo que se desse o grito em Trás-os- Mon- 
tes. ^ 



^ Camillo : Maria da Fonte. 



CAMILLO 89 

A politica, por esse tempo, era agitada e turbu- 
lenta. Nessa lucta continuada e persistente entre a 
idiosyncrasia d'um povo e um systema estrangeiro 
a que à força querem adaptá-lo, nessa successào 
de episódios inesperados e vários, com manchas de 
sangue e lances de comedia, que tem sido e conti- 
nuará sendo a campanha para a implantação per- 
feita do constitucionalismo em Portugal, surgia, 
nesse momento, um homem de qualidades extraor- 
dinárias, espirito vivíssimo e arguto, resistência in- 
quebrantável, imagem do cynismo insculpida numa 
lamina d'aço, sem força, ainda assim, para romper 
abertamente o despotismo das formulas, mas audaz 
bastante para, encarando-as bem de frente, se rir 
.d'ellas. Era Costa Cabral. E essas eleições de 45, 
: que elle venceu, constituem de per si o mais sar- 
cástico e esmagador libello contra um systema 
bastardo, que só logra sustentar-se na iramobilidade 
da impotência ou no cynismo da trapaça. « Vencer 
por fas ou por nefas as eleições, nesse anno de 45 
da decisiva batalha, era para Costa Cabral o mesmo 
que viver ou morrer. Lançou, pois, mão de tudo, 
e foi ás do cabo. Três camarás municipaes protes- 
taram, vindo a Lisboa os vereadores implorar à 
rainba: á de Évora voltou-lhe ella as costas, a de 
Villa-Franca foi presa, e ambas, com a de Faro, 

dissolvidas Nenhuma das conhecidas tricas 

para levar a Urna a dizer o que se deseja — como 
^08 velhos oráculos sagrados ! — fora esquecida 
pelo governo. Os recenseamentos eram taes que- 



í)0 CAMILLO 

nfto incluíam nomes como os do marquês de Niza, 
do Fonte-Arcada. do Telgueiras, juiz no supretno 
tribunal, de Garrett, etc. Incltiiam, porém, mendi- 
:g08 e lacaios, aguadeiros e defunctos ; incluíam no- 
mes imaginários, e soldados e marinheiros. As listas 
^ram marcadas : transparentes, pautadas, carimba- 
-das, tarjadas, numeradas. Os indivíduos influentes 

e perigosos eram presos arbitrariamente Os 

governadores-civis distribuíam aos galopins man- 
dados de captura em branco. E onde as tricas náo 

bastavam, apparecia a força bruta Por toda 

a parte houve prisões, mortes em muitos lega- 
res ...... Para forjar um simulacro de parla- 

rnento, para aguentar a sophis mação da doutrina. 
<;hegava-se à máxima tyrannia, atacando-se as mais 
necessárias garantias dos cidadãos». * As urnas 
•cercavam- se de bayonetas; a tropa atirava — a ma 
tar. E o rijo beirão, aprumado no primeiro degrar 
do throno, junto á soberana que o cummulava de 
honras, sorria, livido, com o seu amargo sorriso de 
triumphador insatisfeito, e pensava que, não poden 
do espatifar de prompto um regimen que insistia 
em viver sobre um inane pedestal de tropos e men- 
tiras, o melhor que tinha a fazer era empalmá-lo 
Um anno antes, Torres Novas quizera reagir, e c 
ministro, com alguns batalhões de vantagem, do- 
minara- a. Mas os políticos moviam-se irrequietos, 



Oliveira Martins : Portugal Contemporâneo, t ii. 



CAMILLO 91 

jporque aquelle homem, grande demais para um sys- 
tema que só demanda autómatos, calcava sem 
piedade os seus sonhos doutrinários ou destruía 
indifferente os seus interesses de ambição. Era um 
sceptico, vigoroso e rude, cahido numa sociedade 
de idealistas ingénuos e vaidosos impacientes. Tor- 
nava- se mister vencê-lo, annulá-lo, pô-lo fora da egre- 
jinha constitucional como um intruso. Mas como, 
se não havia soldados? como, se não havia sequer 
o dinheiro preciso para mandar vir de fora, sem di- 
reitos d'alfandega, nas cartucheiras de bandoleiros 
bêbados, prompta a servir — uma revolução ? Res- 
tava disponível, para explorar e torcer á mercê dos 
intuitos d'uma opposição politica levada ao paro- 
xismo, uma força formidável que o conde de Thomar 
e seu irmão José não cuidaram nunca de chamar 
a si : — o povo. O governo prohibira os enterra- 
mentos nas egrejas, quiz tornar maximamente pro- 
ductiva a colheita do imposto: e a população das 
aldeias minhotas, fanática e analphabeta, açulada 
pelos farrapos do legitimismo escasso, instigada 
pelos padres, fazia ouvir por todo o norte do reino 
esse surdo rumor que nos vulcões annuncia a ecclo- 
sáo d'uma cratera. 

Com as coisas neste pé, Camillo foi para Coim- 
bra estudar preparatórios de direito, regressando a 
Villa Eeal quando, por virtude da revolução popu- 
lar, as aulas se fecharam. Foi nessa altura que, á 
Cabida de Penafiel, Camillo e um seu companheiro 
^e viagem receberam aviso de terem pela vanguar- 



92 CAMILLO 

da uma guerrilha de realistas, capitaneada pelo te 
nente Milhundres. « Quiz o meu companheiro r^ 
troceder — conta o romancista nas Memonas do 
Cárcere — ; mas eu convenci-o da desnecessidade 
de fugirem aos realistas dois pobres académicos 
que se presumiam politica e socialmente indefini- 
dos neste mundo. Fomos avante. Exactissima- 
mente : lâ estava, na quebrada de um serro, densa 
mó de gente armada, com as armas embandeiradas 
de escarlate. A tiro de bala, mandaram-nos fazer 
alto, e nós paramos, fiados na lealdade dos parla- 
mentarios, que vieram a nós com as clavinas no 
braço. Eram dois, com o caudilho â frente. Milhun- 
dres era homem mal encarado. Cincoenta annos 
teria, e grisalhas as barbas. Vestia casaco de mili- 
ciano com insignias de tenente, e dragonas de ca- 
pitão mór. Trazia a banda a tiracolo, e uma longa 
espada de misericórdia enfiada num boldrié de 
coiro de anta. — Quem são, e d'onde vêm ? disse 
elle. — Somos estudantes e vimos de Coimbra. — 
Quem vive ? tornou elle. — O senhor U, Miguel 1 
respondemos. — O senhor D. Miguel primeiro ! re 
plicou o guerrilheiro, accentuando a palavra sup 
plementar, como se a nossa profissão de fé, sem i 
ad dição, ficasse equivoca. — O senhor Z>. Migue 
primeiro/ repetimos, sacudindo os gorros. — í^ntôCJ 
visto que são dos nossos, retrucou Milhundres, an 
dem lá para a recta-guarda, que nós vamos entra^ 
em Penafiel. Precisamos de quem escreva proclama 
ções ao povo, e os senhores, se são estudantes, hão d 



CAMILLO 93 

zer coisa que se veja. Consultei a mioha bossa das 
roclamações, e disse: — Vamos lá! O meu compa- 
heiro estava enfiado, porque receava que o gene- 
Bil guerrilheiro o nomeasse chefe de estado maior. 
Qu achava extrema graça a tudo aquillo. Entra- 
nos em Penafiel. Quando surgimos no cruzeiro, 
jue se ergue ao topo da primeira rua, os morado- 
res da cidade começaram a fechar as portas. — 
Que ovação! disse eu ao meu condiscipulo. — Dir- 
He-hia que somos malta de salteadores que irrom- 
pemos das brenhas ! — Se pudéssemos fugir / . . . 
murmurou o meu amigo. — Cala-te, que isso é serio f 
disse eu. Milhundres entoou os ^vivas aos quaes 
respondemos enthusiasticamente. Ao fim da rua 
engrossaram as nossas forças com três maltrapi- 
lhas armados de foices, e defronte da cadêa fize- 
mos juncçào coín um alferes de milicias montado, 
► € alguns pedestres em tamancos. Eepetiram-se os 
vivas. — Pnmeiro que tudo, disse o chefe, vamos d 
^9^ya dar graças a Deus, Era um Te-Deum econó- 
mico, com profusão de fervor religioso. Abriu-se 
de par em par o templo. E os valentes prostraram- 
se, e resaram o bemdito com grande estridor de 
vozes. Evacuado o templo, disse eu a Milhundres: 
— E necessário proclamar? — E, vá vocemecê es- 
crecer um edital, e o seu companheiro outro, respon- 
deu o caudilho. — Onde é o quartel general? per- 
guntei. — Não sei por ora. Vocemecês onde se vão 
aquartelar ? — Na estalagem do Mulato. — Pois en- 
^ào é lá. Eu vou nomear authoridades, e lá vou ter. 



94 CAMILLO 

Amanhã vem aqui fazer juncção comnosco o brigi 
deiro Bernardino. O Mac-DoneUjá está em camp 
e o Cândido de Anêlhe é seu secretario. Diga lá isi 
vocemecê na proclamação, — Muito bem, Gralopamc 
para o quartel general. — Vamos proclamar? disí 
eu ao meu companheiro. — Pois va£, que eu, «i 
chegando ao cimo da rua, enterro as esporas m 
ilhaes do macho, respondeu elle com as cores aind 
quebradas. — Pois não achas isto bonito? Acaso ei 
taras mais divertido na tua aldeia? Tiremos partia 
de tudo, emquanto não cheira a pólvora. Vamo 
coUaborar numa proclamação em estylo bíblico, - 
Pois fica, se achas graça a isto: eu de certo fujo,- 
Pois então também eu, que me parece estúpida < 
farça se me deixai em monologo. Era fácil e seguri 
a fuga, mas honrosa náo me pareceu muito. Eu i 
envergonhado do meu procedimento, e compade 
eido do cabecilha. Pareceu-me desgraçado aquell 
homem, e d'ahi vem o desvaneio da simpathia qti 
lhe ganhei. Além de que, de mim confesso set 
pejo que me não seria difficil escrever uma proclí 
maçáo sentida; grammatical náo direi. A minh 
família era miguelista, e festejava, como em syní 
goga recôndita, os dias solemnes da sua crençf 
Milhundres seria o bera-vindo e honorificado ei 
casa de minha familia. la-me por isso a conscienci 
recriminando de mau coração, de covarde animo, 
de apóstata villão. Tudo isto me esqueceu quand 
cheguei a Amarante, e só me tornou á memori 



OAMILLO 95 

quando vi, em 1861, entrar Milhundres preso nas^ 
cadeias da Relação.» 

Chegou Camillo a Villa Real hospedando-se em 
casa do Uo realista. Là, como em todo o norte^ 
ouviam-se já vozes^ de guerrilheiros que acclamavam 
D. Miguel. O general escossês Macdonell só meses. 
depois appareceu á frente das suas forças, mas os^ 
elementos do partido legitimista, que ainda eram 
importantes, de ha muito que vinham preparando a 
revolução. « Se ainda o não tinham conseguido é 
porque as desavenças e as rivalidades dos que esta- 
vam de fora, e de longe jogavam com a vida dos 
outros, creavam conflictos que não tinha sido fácil 
resolver ». Em carta-regia datada do Paço em Roma 
em 26 de maio de 1843, D. Miguel nomeia o es- 
cossês «General em Chefe e Director Militar, no 
Beyno » para que possa desde logo « tratar, inde- 
pendentemente, da organização dos elementos de 
huma força, que opere eífecti vãmente, como e 
quando as circumstancias o permittam » . E feita a 
nomeação, Macdonell não se conserva por muito 
tempo inactivo. «Já doesse mês de Maio de- 184íi 
apparecem cartas d'elle a um dos chefes miguelistas 
do Porto, João Ferreira Rangel, recommendando, 
mesmo de Londres, ser preciso trabalhar sem de- 
Diora, para um movimento militar, e pedindo aon 
directores da revolta dentro do paiz, que ajuntassem 
<inalquer força, po^ pequena que fosse, dentro da 
provincia do Minho, por modo a dar o exemplo m 
outras provindas. Escrevia em hespanhol e lem- 



1)6 CAMILLO 

brava que a oifmdia, quando guiada pela experiên- 
cia, tinha como resultado verdadeiras maravilhas, 
Pergiintaram-lhe de cá se a cousa estava para breve. 
EUe respondia : qtte seria jyara muito breve, porque 
era sua opinião que, naquelle anno, se decidiria da 
sorte de D. Miguel, Tan FIEME ESTOY EN ESTA 

CREXCIA QUE SI NADA SE EFECTUAR EN EL CUBSO 
DEL PRESENTE ANO, YO POR MI ABANDONO LA 
CAUSA » . ^ 

Camillo, «de pé, sobre o balcão do Zé-da-Sola, 
em Villa Real, um logista de cabedaes de bezerro 
e vacca, muito legitimista, declamava emphatica- 
mente e com os gestos mais violentos as procla- 
mações do Padre Casimiro estampadas no Periódico 
dos Pobres, e a carta, rica de conselhos em arte 
de reinar, dignos de Fénelon, enviada pelo correio 
á senhora D. Maria ir. Era — diz o romancista' 
— uma carta convulsionada de profecias trágicas, 
âs quaes eu dava toadas funéreas, expedições gut- 
turaes como diz Renan, valha a verdade, que faziam 
Ezequiel e Habacuc. A turba que me escutava, toda 
orelhas, tro voava urros de um vandalismo que 
sobrepujava as minhas cordas vocaes. Havia cabe- 
ças de granito que choravam como os penedos bibli- 



* Historia de Por(uf/al, popular e illustrada, de Manoel 
Pinheiro Chagas, continuada desde a chegada de D. Pedro 
IV á Europa até nossos dias por J. Barbosa Colen. Decimo 
primeiro volume, mdccccvl 

2 Camillo : Maria da Fonte. 



CAMILLO 97 

cos; e \celhos bacharéis formados, antigos juizes de 
fora, com o simonte engatilhado aos narizes e as 
ínandibulas num prolapso de espanto, diziam : — 
grande homem é o padre! é o 2.*' José Agostinho de 
Macedo! E en, na qualidade de declamador correcto, 
prosodico e muito mimico, attribuia-me um quinhão 
•d'aquellas ovações, muito menos explosivas quando 
o leitor era António Tiburcio, o meu amigo de in- 
fância que morreu ha muito, depois de ter gover- 
nado o districto muitos annos, mantendo-se, com 
JUin grande tino, na media, entre a Republica e o 
Absolutismo. Havia senhoras realistas, filhas de 
,capitães-mores, de desembargadores, de brigadeiros 
e morgados em decomposição, as quaes eu lia as 
peças do Oeneral das cinco chagas. Em algumas 
casas brazonadas accendiam-se castiçaes com bo- 
beches de papel verde nos oratórios de talha dou- 
rada, e faziam-se; preces votivas, bastante caras, a 
vários santos muito anteriores á formação do re- 
gimen parlamentar, e por isso talvez indifferentes 
i revolução de 1820 e á politica de Villa Eeal. De 
permeio com as jaculatórias, bebia-se muita gerq- 
piga capitosa para, por meio da etherizaçáo al- 
<iOQlica, dar alôr aos voad ouros da esperança. Que 
noites de alegria doida naquelle inverno de 1846 !» 
Inverno?! Não. Camillo precipita aqui um pou- 
<ío.., as estações. Por certo o seu melhor tempo 
<^e Villa Real foi aquelle que consumiu, não somente 
"empoleirado nos coiros do Zó-da-Sola a cantar a^ 
Joa^.do padrç.xninhoto com musica djO reichegou., 

7 



98 CAMILLO 

mas também gosando as noites de festa em casa de 
D. Rita Moreira, onde os serões eram animados e 
se fazia musica excellente. Por uma sobrinha d'essa 
senhora, Patrícia Emilia, apaixonou-se o romancis- 
ta. O drama Agosiinho de Ceuta, representado num. 
theatro que o próprio auctor improvizou, foi es- 
cripto para que ella o ouvisse e, como quer que, em 
pleno romantismo, o rapto coroasse, numa aureola 
de abnegação e heroismo, todo o devotado amor^ 
assim os dois fugiram, abandonando-se ao destina 
para que elle os protegesse, na vehemencia d'uma 
paixão que náo pensava : elle, pobre, seguindo a 
sua senda de aventura ; ella, deixando-se conduzir^ 
vencida, com o seu vestido de chita escura e a sua 
capinha cor de vinho, com riscas negras. . . 

A agitação politica náo cessara ainda, nào havia 
de cessar tão cedo. Os sinos minhotos tocaram a 
rebate, ò povo revoltou-se. Contra os tyrannos que 
sophismavam o systema representativo ? contra o» 
déspotas que calcavam o seu direito de fazer as lei* 
ou revogá-las ? Nào : importava-se elle bem com 
essas coisas! Revoltava-se porque o governo orde- 
nara um novo processo de cobrança do imposto e 
prohibira que sob as lageas dos templos se con- 
tinuassem a abrir as sepulturas. Revoltava-se, não* 
em defesa da liberdade, mas em defesa da distri- 
buição chaotica e iniqua dò imposto a que se pre- 
tendia dàrremediò^ em defesa da usança tradicional 
e fanática a que os principios da hygiene manda- 
vam pôr um tertíio. Et^a um movimento^de reacção^ 



CAIIILLO 99 

nâo de progresso. Mas a elle se prenderam, ávidos, 
insoffridos, barulhentos, de envolta com os paladi- 
nos d' ura passado morto, os apóstolos eloquentes 
da ideia-nova. Ergue-se 

a Maria da Fonte 
com as pistolas na mão, 

José Cabral, o Zé dos Cónegos, assusta-se, vacilla, 
recua ; a revolução triurapha; mas o paiz fica ainda 
e continua intranquillo, á mercê das paixões que se 
desencadeiam e entrechocam, mais desordenadas e 
violentas do que nunca. As guerrilhas continuara 
em armas, os triumphadores da véspera não sabem 
afinal o que pedir e, pelos cerros minhotos, ergue-se 
e domina o chãos, ameaçador como um remorso, se- 
reno como um escarneo, o espectro de D. Miguel. A 
8 de Outubro, a rainha dà o golpe d^Estado. Sal- 
danha é o chefe do governo. São os Cabraes que 
voltam, escondidos subtilmente sob os crachás bri- 
lhantes que coiraçam o arcaboiço valente d'um 
guerreiro velho ... 

Mas que importa a politica quando, a alguém 
que só a cultiva em dilettante, por um interesse todo 
de arte e pittoresco, domina violenta a paixão do 
amor? Indifferente aos Cabraes e aos setembris- 
tas, «em querer saber da Junta de Passos José 
B«m da prisào do Duque da Terceira, deixando ao 
Zé-d»^ola a defesa dos direitos do sr. D. Miguel 
primeiro, Camillo seguia com Patricia Emilia a ca- 



100 CAMILLO 

rainhu de Coimbra, quando, ao chegarem ao PortOj 
em 12 de outubro, a requerimento do tio. Pinto da 
Cunha a policia os prendeu. A essa prisão se refere 
Caraillo mais tarde, na Maria da Fonte : 

«Eu tinha sido preso a requerimento de minha 
familia — escreve elle — quando ia para Coimbra 
continuar, no Pateo, as minhas explorações scien- 
tificas, bebendo nos mananciaes latino e rhetorico 
do padre Cardoso e do padre Simões, Deus lhes 
fale nalma em latim ciceroniano. Os meus inimigos 
em letras, dois annos depois, farejavam delictos 
execrandos na causa mysteriosa d'aquella prisào de 
sete dias. E eu que, amordaçado pelo pudor, não 
podia esclarecer a opinião publica do botequim 
Gítichard e da Águia e das Hortas, mandei pedir 
â pessoa que requerera a minha captura, houvesse 
por bem explicá-la. Pode ser que o divulgar-se 
agora, na velhice extrema, este lance de uma ju- 
ventude jâ esquecida, venha a ser estorvo á inau- 
guração da minha estatua, uma coisa que eu havia 
de ter por força, sobre um pedestal de adjectivos 
plangentes com alto relevo de advérbios, nos oito 
dias immediatos ao do meu trespasse, Lamento 
pjuito e por antecipação esse dissabor que me hade 
ponsternar na minha individualidade cósmica- de 
iceniêlha de boi, de cauda de cometa ou de couve 
laií,it)arda ; mas já agora não posso esquivar-me a 
^€^' um pouco Santo Agostinho. . O bemfeitor que 
lup tinha feito prender. respondeu assim, njos.jor- 
iiao^i de 1849, á minha solieitaçàp ; 



CAMILLO 101 

Snr. Redactor^- Insto pelo favor de tranacreter 
no seu jornal as seguintes linhas : Quem fez prender 
na Relação d'essa cidade Camillo Castello Branco, 
fui eu que sou seu tio, A causa porque eu o prendi 
não é essa que os seus detractores lhe fulminam, E^ 
um rupto, não é um roubo. Para obstar a uma li- 
gação que o fana desgraçado^ busquei um pretexto; 
se é d'elle que se aproveitam os seus inimigos, de- 
duro que é falso, e authorizo meu sobrinho a tirar 
a desforra legal de qualquer lãtrage que se lhe faça 
com allusão d sua captura, Villa Real, 27 de feve- 
reiro de 1849 — João Pinho da Cunha, ^ 

« Este bom homem — continua Camillo — para 
me salvar de um enlace indiscreto, ordenava ao 
seu agente no Porto que me fizesse prender como 
raptor de uma mulher sem pae nem mãe e de maior 
edade, que me acompanhava expontaneamente para 
Coimbra; e, a náo ser este delicto efficaz para a 
prisão requerida por meu tio, como se eu fosse o 
raptado, entáo authorizava o agente a queixar-se 
de que eu o esbulhara de ricos valores em jóias e 
baixella, 20:000 cruzados, calculava-se no botequim 
do Guichard, Para que os genealogistas porvindou- 
ros da minha linhagem se não vejam embaraçados 
com esta vfergontea de Pintos e Cunhas na minha 
arvore, devo esclarecer que este homem não me 
era nada — era marido de uma tia minha. Prova- 



Nacional de 10 de março (Nota de Camillo). 



102 CAMILLO 

velmente, se eu teimasse em matrimoniar-me ^ hon- 
radamente com a raptada, seria pronunciado como 
ladráo de jóias e baixella, 30:000 cruzados — com- 
putava o botequim da Agida, Honrado e querido 
tio da minha alma! Uma semana depois que sahi 
do cárcere, era apertado nos braços carinhosos do 
meu salvador, que pagou generosamente o aluguer 
do macho que me conduziu sem difficuldade, por 
que eu ia tão leve que náo levava um pataco — 
nem a jóia d'um pataco, senhores, e logo saberão 
porquê. Que saudades me fazem estas alegres e 
explendidas misérias dos meus vinte annos ! Vejam 
que nem tenho pejo de contar as misérias nem as 
saudades, hoje que algumas centenas de contos 
levantam entre mim e esse passado pelintra uma 
alta muralha de ouro de lei ! Naquelle tempo, os 
rapazes tinham desvarios trágicos até ao ridiculo, 
e entravam muito cedo e depressa na previsão dos 
escolhos infamados em que haviam de ir a pique, 
sempre imperterritos e armados como Xerxes do 
tagante para azorragar as ondas aparcelladas . . . 
Mas que saudades eu tenho d'aquellas jóias e bai- 
xella — 50:000 cruzados, para cima que náo para 
baixo, conjecturava o botequim das Hortas/» 



1 Revela-se aqui mais uma vez em Gamilio o propó- 
sito de occultar o primeiro casamento. £Ue não poderia 
teimar em matrimoniar-se pela simples mas poderosa razão 
— de que era casado. Joaquina Pereira morreu em 47. A 
filhinha d*eUa e de Gamilio morreu também poucos meses 
-depois (Alberto Pimentel : Os amores de Camillo), 



CAMILLO 103 

Passados onze dias, Camillo e Patrícia Emilia 
eram postos em liberdade. E, d'ahi a pouco, nova- 
mente envolvido na contenda politica, então mais 
accêsa de que nunca, o romancista encorporava-se 
no séquito d'esse Reinaldo Macdonell, a quem mais 
tarde havia de chamar «extraordinário patife* ^ 
No Romance do romancista o sr. Alberto Pimentel 
publica uma carta que recebeu de Villa Real e cuja 
transcripção nesta altura é elucidante. Diz o se- 
guinte : 

«Na revolução de 1846, não me consta que o 

Camillo figurasse, nesta terra. Creio, até, que elle 

iiào residia por aqui ; porém, em 1847, depois do 

<lesastre de Valpassos, que esta villa ora estava 

governada pela patuléa da Junta do Porto, ora 

pelos cartistas e, até, alguns dias pela gente do 

^íacdonell, lembro-me que o Camillo, uma noite, 

^Di que esta villa estava sem auctoridades nem 

governo algum, porque os cartistas fugiram para 

C^haves, e os da Junta esta.vam na Amarante, o 

^'^millo appareceu ao escurecer^ de chapéu armado, 

^® espada á cinta, de esporas nas botas, fazendo 

^^ande barulho com a espada a rasto, de forma que 

^^da a villa ficou apavorada, todos os habitantes 

^®<^haram as portas, e, elle só, fez a policia da terra. 

■*^na seguida ao desastre que o Visconde de Sá da 

l^^ndeira soíFreu em Valpassos, recolheu ao Porto 



Maria da Fonie, 



104 CAMILLO 

O Governador Civil que aqui estava, António Au- 
gusto Teixeira de Vasconcellos, e todas as forcas 
populares d 'esta provinda e de quasi todo o reino. 
Ali, no Porto, se organizou de novo o exercito dar 
Junta, indo o mesmo Visconde de Sá da Bandeira 
com uma expedição para o Algarve, e nós com o 
General Guedes viemos para Villa Real. Foi nesse 
período que o Caraillo esteve empregado no Governo 
Civil como amanuense. O Governador Civil, se bem 
me recordo, era de Vizeu e chamava-se Thoma^ 
Maria Paiva Barreto, excellente pessoa que era. 
Depois do convénio de Gramito, veio para aqui o- 
José Cabral Governador Civil, e foi então que o 
Camillo escreveu alguns artigos poli ticos nos jornaes 
contra o José Cabral, de que resultou o conflicto do 
Olhos de Boi, de que o amigo já tem conhecimento- 
Pouco tempo depois do despótico acontecimento 
praticado pelo referido caceteiro. Olhos de Boi, ^^ 
ordens do Governador Civil, foi que o Camillo ^^ 
resolveu a ir para o Porto.» 

O que foi esse episodio com o caceteiro cabi^' 
Uno diz Camillo, num Commímicado de desaffroi^*'^ 
que então publicou, com data de 23 de agosto de ^* ' 

«Eu devia ter consultado os fastos do despotisrí* ^ ' 
para me convencer — diz elle — que, tarde ou cê^^ 
seria victima do sr. José Cabral, governador cí^* 
tJe Villa Eeal. Devia recordar-me, que me tin^^ 
chegado á bandeira dos livres, para temer o £^ 
rête de escravo, e o maior peso da oppressáo, -^ 
Todavia não sei que presentimento me trahiu! "^ 



CAMILLO 105 

ofiendidos^vile despoticamente os meus cúmplices 
em opinião, e uma vez pungido pela magna d'ellès, 
bradei ao oppressor Quousque tandem Catilina / . . . 
Este pensamento que se achava traduzido em uma 
única correspondência minha, impressa no Nacional^ 
bastante foi para que o dedo de s. ex.a me. apon- 
tasse a sepultura, e os seus orgáos procurassem 
um cadáver para ella ! Da porta do governador 
civil no dia 17 do corrente, pelas 10 horas da manhã, 
sahiu um homem armado de cacete: espancou-me, 
<ieitou-me por -terra, e, recolhido outra vez á casa 
<i'onde sahira, appareceu com uma espingarda, e 
oom um desgarre insultuoso, á porta de sua ex.*. 
Entregue ás mãos do assassino, ainda agora trema 
<3a posição em que estive, quando sei evidentemente 
que José Cabral tinha dito ao caceteiro: — mata-o! 
— e porque? José Cabral confessa que á sua ordem 
fui eu espancado^ e dá a razão d'este delicto, porque 
eu não lhe tiram o chapéu^ tendo-o visto d sua janella. 
— Risum teneatis, amici?.ÍIai casos, que o requinte 
da desvergonha chega a tal ponto, que as conside- 
rações sobre os seus actos se turvam, e confundem 
iia intelligencia de quem as medita M! Pois s. ex.* 
^anda espancar um homem, porque lhe não tira o 
chapéu! José Cabral arroga-se o direito de senhorio 
/lô Veneza, em terra que o conhece, e a um indivi- 
duo, que jamais lhe explora os escaninhos dos seus 
i^razões, inda no. chãos, e as phases da sua vida? 
"or ventura devo culto ao déspota, porque vejo um 
^^cete, qtte pôde. espancar-me? Como authoridade 



106 CAMILLO 

4)ue direito tem sobre o meu chapéu?! (Carta Consti- 
tucional. Artigo 14Õ § l,^) Ningtiem é obrigado a fa- 
zer ou deixar de fazer senão aquillo que a lei man- 
da, E a lei não legisla sobre chapéus. Itespeito as 
authoridades, e conheço que tenho cumprido esto 
dever, quando negócios de estado me pedem este ou 
aquelle acto; mas devo por isso descobrir-me, quau- 
do, mau grado meu, encaro o homem que detesto?! 
E assim vingada foi a susceptiblidade de s. ex.*; 
assim os encarregados pela Soberana conciliam as 
opiniões, e deslembram as injurias; assim novos cri- 
mes preparam novas dissenções, se d'esta arte a li- 
berdade se identifica com as disposições do proto- 
-colo. Seria bom, porém, que o governador civil de 
Villa Real, entrasse no conhecimento da seguinte 
verdade : — Que as nossas injustiças quasi sempre 
são julgadas pelos homens » . 

A agressão do caceteiro fez crescer em Camillo 
o ódio contra o despótico governador civil e seu 
irmão o conde de Thomar. E — liquidemos desde já 
a inglória passagem do romancista pelo jornalismo 
politico — foi essa ruim paixão que o fez entrar 
oom a sua penna nesse ultra-ridiculo debate do 
mais que todos grotesco caso do Caleche, enxova- 
lhando num folhetim a honra e o pudor d'uma mu- 
lher, esposa e mãe exemplar, que, com o facto de 
ser rainha, não perdeu nunca as qualidades mais 
nobres e respeitáveis do seu sexo. 

. . .Entretanto, em Villa Real, as relações entre 
■Camillo e Patrícia Emilia continuavam. O romance 



CAMILLO 107 

^'amôr porém não durou muito ; d'elle ficou uma 
:filha e, com ella, annos depois, apenas a recordação 
carinhosa d'uma paixão antiga. O próprio Camillo 
se encarregou de dizer um dia, ao traçar a biogra- 
phia d'um amigo, tão desgraçado como elle: « João 
Jacques, nas suas Confissões^ diz que vira os homens 
€ os costumes do seu tempo. Eu vi mais que âlle 
porque me estou vendo a mim. José Augusto, crê 
J)or fé no apostolo da experiência. O anjo que foge 
do seio de sua familia, deixa lá dentro as azas, e 
fora da porta é mulher » *. Patricia Emilia teve uma 
rival, exaltou-se ao presenti-lo, decerto fez lembrar 
ao amante o direito que elle não tinha de lhe pagar 
com o abandono o sacrifício da sorte e da honra 
por amor d^elle, e foi então que dois amigos evita- 
ram, por um acaso, que Camillo se matasse com 
^Qs grãos d^opio, depois de escrever A harpa do 
^cepticOj poesia hereje, como ultimo adeus a uma 
vida que lhe fora de agitações e d^amarguras. Conta 
^^ieira de Castro que, no lance, Camillo tinha sobre 
a banca setenta libras, para que se não dissesse, 
vendo-o morto, que a miséria tinha sido a causa que 
o levara a tal extremo. Nas Horas de lucta, Freitas 
í^ortuna assegura que, quando escreveu a poesia, 
Camillo tinha já engulido quantas pastilhas de ópio 
lhe haviam receitado para debellar a insomnia, e 
<iue os amigos (Miguel Nicolau Esteves Negrão e 



No Bom Jesus do Monte, 



I 



108 OAMILLO 

J4i>âé Augusto Pinto de Magalhães) o s< 
depois. A rival de Patrícia Emilia era, t 
rece, uma senhora da melhor sociedade 
cujo nome ainda hoje ali tem represeni 
millo, ora em Villa Real, ora no Porto, 
occultar de Patricia Emilia esses amôre 
cojiflicto sentimental que o ia levando à 
caminho romântico do suicídio. Numa 
que precedem a publicação da Harpa 
no jornal litterario A Semana, palavras t 
pelo sr. Alberto Pimentel no Romance 
cista, Camillo explica, com todo o orn 
rhetorica sentimental, o seu estado d'ali 
pôr essa poesia : 

«Era em julho de 1847 — escreveu e 
esses tempos que eu choro • . . de saudade 
que eu choro porque me revivem as d< 
e despedaçadoras das chagas da alma, qi 
restam . . . por esses tempos luctavam-m 
xões furiosas no espirito estreito, acai 
para duas tamanhas paixões como essas 
Eu devia sacrifícios tremendos a uma i 
:me estremecia de adoração cega, descom 

oaprichosa Não sei se a amava por es 

como devera amá-la sempre ; é certo qu 



1 a Nem artigo nem poesia vem assignac 
o sr. Alberto Pimentel — mas Ganiillo íirm 
poesia com o seu nome, e até se refere a ell 
peio menos ». 



k 



CAMILLO 1C)9 

■ lher havia abi no mundo tào fascinadorá, tão dés- 
pota dos seus encantos e da sua posição social, que 
«n, reptil orgulhoso, ouseji erguer-me.do rasto de 
«eus pés, para guindar-me á aUura do seu voo de 

l fl-njo. Essa mulher. . . otiviu-me. • . Deverei escre- 
ver aqui uma verdade "amát-guradissi ma que a con- 
sciência me diz?. . . Ámou-me E uma historia 

de muitas misérias impossiveis numa vida só, e 
«ssa apenas estreiada ! . . . Quem sabe se este livro 
será todo d'ella e para eUa ? E' o meu segredo, sa- 
crosanto como o mysterio da hóstia e do cálix. 
Eojei-me aos pés d'essa mulher; acurvei-me, annu- 
lei-me em toda a soberbia do falso oiro do meu or- 
gulho — amei-a perdidamente! Mas a mulher dos 
tremendos sacriflcios resentiu-se^ delirou, desman- 
douse até ao incrível diurna vingança senhoril. . . 
Era uma serpente de ferocidade como fora um anjo 
de amor ! Foi augusto, solemne e grandioso de santa 
i'esighação o aspecto com que supportei dissabores 
incompréhensiveis ! A ancora maldita do suicidió 
enéorajava-me de brios de infeliz por entre parceis 
de quantos infortúnios résaltam de uma vida tem- 
pestuosa. Determinei matar-me. . .» Parece que ao 
principio pensou em suicidar-se com um tiro. « Mor- 
rer â pistola — diz elle nesse mesmo artigo — pare- 
tia-me a maia rióbre, a ínais èxcellente, e, deixairme 
ôssim dizer, á mais significativa maneira de revelar 
^ desesperação». Por fim, escolheu o ópio.', .mor- 
rer sonhando, mergulhado num mundoinreal de 
coisas bellas. . 



lia. 



Zil 



Ali 



110 CAMILLO 

€ Vivera só neste mundo, 

Só, na campa, vae cahir, 1*^ 

O seu gemer moribundo m^^^ 

Ninguém lh'o ha de carpir. . . §5^ a 

Nem um Christo allumiado 

Pela tocha do finado 

Terá no leito a morrer!. . . 

Nas visões do paroxismo |^ ^ 

Vê de nada o torvo abysmo 

Sorver-Ihe o impio viver! 1 ^^ 

Um cadáver insepulto 

Ahi jaz do que morreu ! 

Deixai-o ! — é a Deus um insulto 

Dar sepultura ao alheu ! 

Deixai-o ! — ninguém o vele. . . 

Que os corvos pairem sobre elle 

Em voraz sofreguidão ! 

Não dobre fúnebre o sino ! 

Demónios ! rugi-lhe um hymno 

Ao morto sem contricção ! * 

Mas tudo isto que hoje nos faz sorrir, tem xt^ 
caracter que tão naturalmente deriva da época eJ^ 
que foi, tudo isto se nos apresenta d'um modo qií-^ 
a feição individual do escriptor, juntamente com»^ 
características tão salientes do meio, d'uma fórm^ 
tão perfeita nos explicam, que eu não saberia if 
mais além no meu estudo, sem rapidamente lançar 
os olhos para o aspecto da vida portuguesa — ou, 
mais restrictamente, portuense — nesse tempo, que, 
em tantos pontos e por vezes d'um modo ptttoresco, 



Da Harpa do scéptico. 



CAMILLO 111 

se afasta profundamente da maneira de ser do» 
nossos dias. Por esse tempo, para mais, Camillo vae 
começar a ser perfeitamente um portuense. Aban- 
dona a província. E na vida da cidade leva todo 
o sen tempo, — menos aquelle em que, afastado em 
Graya, cultiva, ao que parece, romanescos amores 
com uma costureira, num ninho idyllico escondido- 
i^as sombras discretas do CandaL ^ 

Quanto á romanesca tentativa de suicidio, ainda 

é licito dizer que tal desvairam ento é susceptível 

d'uma explicação, abstrahindo mesmo de tudo o que 

iielle se possa encontrar de pathologíco, porquanto 

Camillo era um homem, coUocado entre a mulher 

que elle seduzira e que abandonou o futuro para o 

seguir de olhos fechados, que lhe lembrava com 

desespero o amor antigo e, na voz, ora supplicante,. 

ora agreste, da dor e do ciúme, vinha gritar os seus^ 

direitos, — e essa outra á prestigiosa altura de cuja 

Wleza se rendera o pobre martyr d 'um coração 

que tinha de o tornar infeliz a vida toda. Porque 

^ra ainda esse homem que^ annos depois, pensava 

assim: «Ea de mim, se viesse da natureza privado 

de todos os dotes que habilitam para o trabalho,. 

sahiria de noite a pedir esmola para sustentar a 

mulher que se houvesse despenhado dos afagos de 

uma família ã deshonra dos meus braços » . * 



' ÂLBBRTO Pimentel : Os amores de Camillo, 
• Memorias do cárcere, t. I 



112 CAMILLO 

Um rápido escorço do meio dar-nos-â mar] 
a uma meliior comprehensào da complexa fij 
de Camillo, cuja historia, neste ponto do mer 
lato, vae entrar no seu período de líiaior activic 
como eseriptor, periodo dentro do qual se esb 
desenrola e fenece sob o peso da desgraça, i 
intenso e duradoiro que os outros, o derrad 
episodio d'amôr da sua vida. 






III 



1849-1890 



In illo temp(yi*e, a cidade da Virgem jâ não era 
apenas o amontoado interessante de casas, tre- 
pando sobre o Douro, num declive, até âs alturas 
do severo Paço Episcopal. O Porto d'outros tempos, 
tão característico no pittoresco dos seus aspectos, 
de ha muito se alargara e, na altura em que o meu 
estudo o encontra, jâ, com os seus theatros, o seu 
passeio publico e a posse do coração do rei D. Pedro, 
entrara, de par e passo, na civilização e na gloria. 
Poço, pela historia adeante, das reivindicações 
do terceiro estado, baluarte da^ liberdades pátrias 
no nosso tempo, o Porto de ha quarenta e tantos 
annos tinha, porém, mais o aspecto sombrio e so- 
cegado de velho burgo que o bellicoso ar de tor- 
rão fadado ao fermento de revoluções e â génese 
de heroes. Atrás dos balcões da rua das Flores e 
dos Clérigos havia uma sociedade pacata e laboriosa 
^ue monotonamente levava a sua vida de trabalho, 



114 CAMILLO 

presando a sua honra, cuidando os seus callos, não 
se importando de politica, arrecadando com usura, 
gulosamente, as libras que o negocio lhe dava em 
seu provento; e, comtudo, esses homens, curtos ({'as- 
pirações, poupados no saber, correctamente metti- 
dos nas suas longas sobrecasacas negras, trabalhan- 
do o dia inteiro, deitando ao domingo, regrada- 
mente, a sua merenda pelo rio ou o seu camarote 
no theatro, longe a longe, — eram velhos comba- 
tentes do cerco do Porto, que fizeram frente audaz 
ás tropas miguelistas, ou dos que sustentaram depois, 
nas inconstancias d'um regimen adaptado ã força 
a uma terra que o não queria, as luctas varias que 
por muito tempo seguiram, em contínuas rebelliões, 
imposições armadas, um mal-estar constante, uma 
maneira de ser instável, o advento do constitucio- 
nalismo em Portugal. 

€ Da politica propriamente dita? — escreveu o sr. 
Eamalho, no jEstudo critico que precede a edição mo- 
numental do Amor de perdição — tinham uma ideia 
longinqua e nebulosa a que a palavra ladroagem 
servia de vaga synthese » , mas dos seus deveres de 
cidadãos — mesarios da Misericórdia, irmãos de 
confrarias, juizes de paz, cotizando-se para festejar 
08 santos padroeiros, comparecendo pontualmente, 
como a bons catholicos cumpria, a procissões e ro- 
marias, d'esses deveres tinham elles a consciência 
mais nitida, como nitida tinham também, e intran- 
sigente, a sua ideia de moral. A dissolvencia dos 
costumes não entrara na pa catez honesta da rua das 



> -í 



u^i- 



CA^nLLO 115 

Flores, nem tampouco a arte corrompera os cândi- 
dos espíritos, emquanto os amantes de boas-letras 
v3%i soletravam em seus ócios as historias de cordel, 
com cavalleiros e princezas, e A Virgem da Polónia 
do conselheiro Bastos. Nem o palheiro da Assem- 
bleia encontrava farto assumpto nas suas nocturnas 
sessões de maldizer. 

A sociedade portuense, sem pretensões afidal- 
gadas, era quasi exclusivamente composta dos 
Mercadores que já lembrei e da colónia inglesa 
qne, vivendo á parte, espantava os burgueses com 
a garridice dos seus trajos e a maneira, adeantada 
ja, dos seus costumes. Isso quando uma mocidade 
endiabrada veio, com todas as arrogâncias e todas 
«8 infantilidades que o romantismo francês lhe en- 
sinara, a pôr uma nota inédita, com a novidade do 
escândalo e o pittoresco da aventura, num meio 
em que os bons costumes eram norma e reinava 
ainda o carroçáo. Começaram então a ser frequen- 
tados os cafés, a correrem as ruas os trens e os ca- 
valleiros, a sublevarem-se as plateias em manifesta- 
ções nunca mais vistas, a dormirem em sobresalto 
maridos de joanetes e pães com filhas novas ; a lit- 
teratura romântica venceu, dos livros passou o rapto 
para a historia de todos os amores contrariados e, 
em frente da má-lingua do palheiro, ergueu-se, de 
sangue na guelra, travessa, mais moça e mais cortan- 
te, a mà-lingua do Guichard, Já menina em termos 
nâo havia que desposasse o caixeiro lorpa do papá, 
sem levar, a dentro d'alma, como folhas murchas 



116 CAMILLO 

pelo outomno das esperanças illudidas, as cinzas 
d' uma paixão romanesca, com personagens de bi- 
godes encerados e musas capazes de enternecer as 
mais esquivas. Jà o casamento não era para os 
bons mercadores do velho Porto o sacramento que 
lhes dava a posse da mulher, por mais gentil, ex- 
clusiva á face de Deus e dos homens, por deter- 
minações respeitadas dos cânones, da moral e da 
justiça. Era a edade de oiro dos Ma nfrêdos, jovens e 
tristes, de longos cabellos negros, pallidez de cera, 
olheiras fundas, com um diccionario de rimas no 
bolso e a alma de Musset no coração. E essa mo- 
cidade portuense, não desprezando as suas tradi- 
ções de valentia, esmurrando-se em pugilatos, pu- 
gnando a cacete e a tiro por uma tirada em folhetim 
ou a voz d'uma cantora, era, no fim de contas, uma 
legião de creaturas exaltadas, pelos modelos da épo- 
ca, importados da França de Lamartine, e que, no 
ardor das suas aventuras, pondo a mascara d'um 
cynismo que triumpha, nem sempre deixavam de 
ser, por seu mal, apenas uns sinceros. 

A população da cidade ficava assim, na parte 
que me interessa, dividida em duas facções : d'um 
lado os homens de acção, trabalhando de manhã 
até noite nos seus armazéns e nas suas lojas, do 
outro, uns moços estróinas, desbaratando patrimó- 
nios, aproveitando a seu modo a vida, fazendo gala 
de aventuras, se bem que mettendo o coração em 
todas ellas, e, por essas e por outras, conquistando 
a granel as suas damas. Manda a verdade dizer que 



CAMILLO 117 

não comprehendiam uns aos outros, e que, apre- 
ndo-se de tal modo, foram, por vezes, deplora- 
imente injustos, — porque nem o mercante era 
npre e em absoluto abjecto e desprezível, nem 
rapazes eram tão maus nem tão perversos como 
terror dos pães e consortes os pintava. Pelo que 
speita a damas sensificadas e cavalheiros que lhes 
tigavam com o alcide do amor a sua aplestia de 
roaveis affeições, é de saber que estavam nesta 
nação: Elias, se tinham certos dotes. li tterarios, 
sreviam coisas d'estas : 



« . ..Eu amei-o, oh meu Deus! era um anjo! 
Era um anjo o mortal qu'eu amei ; 
Mas que digo ? infeliz inda o amo 
Só por morte de o amar deixarei. 

Tem uns olhos castanhos escuros, 
Quasi negros . . . que lindos que são ! 
Expressivos, tão ternos, tão meigos ! . . . 
Iguaes olhos não ha — isso não. . . 

Nunca amara— era livre e ditosa, 
Esses olhos mal vi logo amei. 
Feiticeiros!... fascinam e matam; 
Doidejando por elles fiquei. 

Fiquei doida por olhos divinos, 
TILo divinos como eu nunca vi, 
Longos tragos d'amor ineffavel, 
N'aura taga por elles bebi. 



118 CAMILLO 

E O cabello ? tão negro. Ião negro, 
Sua tez? Ião morena e tão pura, 
E os dentes ? tão brancos, de neve, 
E a gentil tão esbelta íigura? 

He poeta o meu anjo !. .. no peito 
Coração de poeta lhe bate : 
Como nunca, ó poeta eu t'adoro 
Pois tu hes cá na terra o meu vate. 

Ai eu t'amo co' estremo e doçura! 
Ai eu famo com idolatria I 
A um mortal tanto amor consagrado 
Tanto amor. . . só a Deus pertencia. 

O bom Deus castigou-me por isso : 
O meu anjo infiel se tornou I 
Gosta d'outra. . . e a mim —malfadada — 
Tão infliz e tão só me deixou. 

Costa d'outra esse ingrato querido ? 

Costa d'outra ! e agora ai de mim ! 

Que tormento me rala minh'alma, 

Que tormento, meu Deus.. . e sem fim ! i> ^ 

E os homens iam dizendo magnas e amor 
naquelle estylo, hoje morto, em que João de Lem 
gemia os seus tormentos : 



1 Pertencem estas quadras a uma extensa compo 
ção que, com o titulo de O meu viver e assignada por 1/ 
portuense^ vem inserta no t V da Lista poética ou collec^ 
de poesias modernas de auctores portuguezes^ publicada p 
José Ferreira Monteiro, em 1847, no lUo de Janeiro. 



CAMILLO 119 

« Ouves além no retumbar da serra, 
O som do bronze, que nos causa horror ? 
Foi mais um ente que voou da terra 
Mais um poeta que morreu d'amôr. » 

Porque nesse tempo morrria-se d^amôr, lyrica- 
^ente, fora das imagens dos poetas e das paixões 
de má ventura das chronicas medievaes. E morria- 
se por vezes de modo tão extranhavel para a ma- 
cieira de ver materialona dos nossos dias, que eu 
terei de encarar sem um gracejo, d'entre o grupo 
dos novos então em evidencia, alguns cuja sorte, 
com certeza, merece, pelo que tem de doloroso, o 
iiosso respeito, antes mesmo de, pelo seu interesse 
como documento d^uma época e, de modo mais res- 
tricto, como caso mórbido curioso, reclamar o nosso 
estudo. 

Assim esse Jorge Arthur, versejador e enamo- 
i^ado, que ouvindo, da rua, cantar, entretendo as 
visitas de casa, a creatura amada que, por elle ser 
pobre, lhe não davam, se foi deitar da ponte abaixo, 
Wando junto ao coração um boné de velludo, bor- 
dado pela mulher por quem morria ^. 

Assim esse D. João d'Azevedo, poeta e roman- 
cista, que, amando uma mulher rebelde, fez impri- 
Diir e mandou-lhe um só exemplar d^um livro a 
descompô-la, o que lhe acarretou o ódio d'ella e um 
maior motivo ás suas amarguras ^. 



* Camillo : A mulher faial e Óbolo ás creanças, 

* Camillo : No Bom Jesus do Monte, 



BSSES 



12 O CAMILLO 

Assim Jacintho Navarro d'Andrade que, depois 
de desbaratar o património, casou, e um dia, no 
tempo da febre amarella, já doente, ao ver a mulher 
morta, foi ao estabelecimento do Nilo, tomou um 
banho frio e entrou em casa moribundo para expirar 
horas depois ^. 

E esse José Augusto que, sabendo, entre o rapto 
e o casamento com Fanny Owen, que essa senhores -a 
já depois de o conhecer, escrevera a um amigo, dí^^ 
zendo que não tinha achado ainda coração que 
comprehendesse, deixou-a, passados meses, morre 
virgem ^. Quando dias depois, uma febre cerebral 
levou, dentro da única mala que conduzira para C^ 
hotel de Lisboa onde morreu, encontrou-se apena^ 
um vestido de noivado e uma coroa de flores de^ 
laranjeira *. 

E, além d'estes, que Camillo nos mostra disper- 
sos na sua longa galeria, ainda esse outro antigo 
militar que, segundo o sr. Ramalho nos conta, «des- 
enganado de todas as glorias, descrido de todas as 
illusões com que se pode illuminar uma existência 
de mundano, fazia periodicamente uma peregrina- 
ção de nove léguas a pé, para ir a uma montanha 
da provincia do Douro ver uma rapariga do campo 
que tinha os olhos verdes e uma longa trança de 
cabellos louros. As paredes do quarto em que per- 



1 Camillo : 'No Bom Jesus do Monte. 

2 Ramalho Ortigão: Log. cit 



CAMILLO 121 

noitava, por occasião d 'essas romagens, encheram-se 
de versos á que denominava, A deusa dos olhos 
garços». O original amante «morreu no Porto pros- 
trado pelo abuso do álcool, em que tentava afogar 
o seu longo e pesado tédio, num quarto de dormir 
armado em barraca de campanha, tendo por deco- 
ração duas múmias trazidas do Egypto, e uma jaula 
em que se debatia e uivava um leão» ^. 

E, a par d'isso, se corrermos, de passagem, as 
causas da morte da maior parte dos que nesse tempo 
figuravam na arte e no dandysmo e espantavam, 
com os seus principios e as suas arrogâncias, a pa- 
catez dos bons e honestos mercadores, iremos ver 
preponderantes a tysica, o alcoolismo, a demência 
e o suicidio. 

Nasceram esses homens num periodo de agitação 
politica, em que as tentativas de Napoleão ainda 
não tinham esquecido e o liberalismo rompia por 
toda a parte, berrando os seus direitos pela boca 
dos tribunos ou pela intimação das bayonetas ; Por- 
tugal vinha a ser, dentro em pouco, um reino sem 
rei, sujeito ao mando de todos, á mercê do alvedrio 
d'um bretão ou das ameaças d'um francês, ou das 
represálias violentas d' um povo revoltado. Não vem 
isto para demonstrar que nos invictos Saint-Preux 
medrasse o fiiror d'esse constitucionalismo que, en- 
tre nós, nunca foi mais que um inattingido ideal 



Ramalho Ortigão : Log. cit. 



122 OAMILLO 

para meia dúzia e, sob o sendal de hypocrisia, um 
suculento filão para a maior parte. A sciencia, po- 
rém, ensina que os indivíduos concebidos em cer- 
tas épocas agitadas apparecem muito vulgarmente 
malformados ou soflfrendo perturbações nutritivas 
e nervosas *; e, por esse lado, não espanta, mesmo 
que circumstancias individuaes nos não convençam, 
concluir que, afinal, com todo o seu ruido de escân- 
dalo, as suas arremettidas de D. Juans e de Quixo- 
tes, — a mocidade estúrdia de ha cincoenta annos 
não passava de uma infeliz geração de nevropathas. 
Para esses bons rapazes, se alguma coisa de alto e 
respeitável havia na vida era o amor, esse amor 
que os lançava sem medo nos braços da aventura, 
esse amor que elles contavam e cantavam nas ingé- 
nuas paginas dos seus livros. O amor era a re- 
dempção, a fortuna, o destino, e a morte. . . 

Um facto basta que o comprove : Quando foi à 
scena, no Porto, pela primeira vez, a Dama das ca- 
ineliasj a gente moça deu em procurar por toda a 
parte, jà não pelos salões, mas nas ruelas da misé- 
ria e do vicio, a Margarida Gauthier que o seu 
amor redimiria. E o caso é que, na febre rehabi- 
litadora, alguns d'esses homens desposaram, salvan- 
do da tysica romântica no ultimo lance, garridas 
damas que lá foram, no correr do tempo, envelhe- 
cendo e encarquilhando, em charra prosa, como 
qualquer matrona honesta. 



1 Fere : Ob. cit., p. 18. 



CAMILLO 123 

E' opportuno agora recordar a interessantíssima 
evocação que, em 1885, Camillo fez d^alguns episó- 
dios da sua vida no Porto d'aquelle tempo. Vem 
no segundo volume dos Serões de S, Miguel de Seide 
e diz assim : 

«A esta hora, na egreja de S. Ildefonso, no 
Porto, uns presbyteros de larynge sadia garganteam 
responsorios á beira do cadáver de um que ainda 
hontera era Juiz da Relação, e se se chamava João 
Roberto de Araújo Taveira. O concurso dos assis- 
tentes, quer official quer espontâneo, deve ser lison- 
jeiro para o benemérito defuncto. João Roberto, 
diz o Diário que me trouxe a dolorosa noticia, 
e?*a muito estimado pelas suas excellentes qualidades 
e respeitado pela inquebrantabilidade do seu caracter 
e rectidão de consciência. Entre tantos assistentes a 
©ssa derradeira scena muda e cega que o corpo re- 
presenta na crosta do planeta, nesse berrado lyris- 
ncLo de cantochão que apenas tem para o morto a 
V€i.ntagem de elle o não ouvir, posso jurar que 
r^iiiguem se lembrou do que foi no Porto, ha 35 
a.i:inos, aquelle velho que ali está na eça, rigido e 
iriflexo, amortalhado na toga de desembargador. 
Exn 1849 era João Roberto de Araújo Taveira um 
^08 mais galhofeiros e satyricos rapazes da pha- 
lange do Café Guichard — que eu chamaria uma 
<^olmeia onde se emmelavam doces favos de espirito, 
s^ aquelle botequim não fosse antes um vespereiro 
4^6 desferia, às revoadas, ferretoando os bócios dos 
gordos philistinos da Assembleia o as macias espa- 



124 GAMILLO 

daas lácteas das suas consortes no coração e nos 
ádypos. Foi Joáo Roberto sempre magro e de 
feições angulosas, typo cas telhado de raça musul- 
mana, olhos phosphorescentes e umas risadas estri- 
dulas quando tinha de castigar, rindo como Horácio, 
um inepto desvanecido ao victoriar uma boa e lusi- 
tana chalaça. A isso que hoje por ahi se inculca 
subtil remoque, arranque de espirito, chamávamos 
nós chalaçojí ; e às agudezas que actualmente cele- 
brizam os Stemes e Pirons das Havanexas chamá- 
vamos, nesse tempo, babuzeiras, provavelmente — 
umas facécias aziumadas de velhice e expostas nos 
trottoirs betuminosos das tabacarias. Na mocidade 
de João Roberto e na minha, os estanques eram 
sentinas delecterias, umas colónias de micróbios 
virgulados ainda então inéditos, pestilenciaes escân- 
dalos onde os viciosos, por medo da opinião publica, 
não paravam. Os Contractadores do Tabaco eram 
umas espécies peoradas de Mellos do Casacão (Deus 
perdoe a todos!) que viviam medradamente das 
agencias d'aquelles bordeis de nicotina. A tabacaria 
ainda não tinha usurpado â botica a concorrência 
de individues, pletóricos de anecdotas lúbricas, e 
archivistas dos maus costumes das familias de suas 
relações. A botica era o queimadeiro subalterno 
dos créditos, uma espécie de patibulo succursal do 
Palheiro, grande centro constituído em uma sala 
especial da Assembleia da Trindade, Fazia-se ali a 
Pall Mali Gazette verbal do Porto, e esboçava-se a 
preexistência do Daily News, de Chicago. A male- 



CAMILLO 125 

dicencia do Café-Guicliard era a vingadora das 
^ctimas do Palheiro em particular e da botica em 
geral. Nós profligavamos a corrupção dos velhos, a 
putrilagem purulenta que infeccionava, com a lingua, 
t:oda a florescência das almas novas. Compunha-se 
o Palheiro de veteranos estropiados^ um contuber- 
iiaculo de argentarios inválidos com fêmeas espaven- 
tosas muito communistas, egressos, causidicos, or- 
laamentes da magistratura, e até desembargadores 
^ bastantes cónegos, todos cabralistas e alguns, 
salvo seja, catholicos. Contavam, â vez, historias 
oantaridadas das Vénus au rábais da sua mocidade, 
rapaziadas terríveis, particularizando miudezas ana- 
t:omicas, musculaturas, curvas de carne, boleios de 
c][uadris e maciezas de epiderme, como se do craneo 
cie cada qual estivesse a explosir o futuro Zola. 
Tal era o Palheiro^ hoje provavelmente substituído 
-»tavicamente por uns calvos, com dentaduras pro- 
blemáticas, que, ha 36 annos, encalamistravam os 
l3Ígodes e naroisavam as cabelleiras frizadas nos 
espelhos do Café-Gruichard. O certo é que o Palheiro 
«ubsiste. As trombetas do progresso ainda não vin- 
caram baquear aquelle pedaço da velha Jericó. E 
"uma escrophula hereditária do burgo de D. Moninho. 
cNo qual tempo, João Roberto escrevia chroni- 
cas semanaes no Ecco Popular com um pseudo nymo. 
lEstylo um pouco derramado, aziatico, mas adubado 
de picantes especiarias levantinas. Mordacidade 
felina, bastante delicada, mas com unhas sempre 
desembainhadas para impor respeito nas brincadei- 



126 CAMILLO 

ras. Havia guerra de adjectivos percucientes i^ow: 
causa das actrizes lyricas. Elle alistara-se no estan^ 
darte da Dabedeille, esvelta mulher. Um clássico, 
sem medo do calembour, diria que toda a juventudes 
portuense seguia as partes da cantora aphrodysiaca. 
Morgados da provincia arrebanhavam-se, como cer- 
dos, à volta d'aquella Circe. Eu e poucos mais jurá- 
ramos levar pancada até morrer, sendo preciso, fiéis 
à bandeira da Belloni, uma creatura enfesada, feia, 
veletudinaria, casada e de mais a mais honesta. 
Anastácio das Lombrigas^ um pseudonymo espiri- 
tuoso que prognosticava a tenia, era o meu nome 
de guerra no Jornal do Porto, João Roberto arcou 
valentemente comigo e de modo tal que sahiu doeste 
mundo com as contas bem saldadas em moeda de 
epigramma, de insolência e de troça. Ninguém sa- 
bia, nem o proprietário do jornal, o João Coelho, 
que morreu ministro em Berlim, quem era o Anas- 
tácio das Lombrigas, Quando eu tive, no momento 
physiologico de pancadaria imminente, a lenidade 
de o declarar em defesa de alguma supposta victima 
sem culpa nem grammatica, Joáo Roberto applaudiu 
a minha franca lealdade, modificando para melhor 
a sua opinião impressa a respeito das minhas par- 
voiçadas lyricas, muito accentuadas na estólida 
pretensão de fazer-me mestre de esthetica portu- 
guesa, o Véron da Rua das Flores. D'ahi em diante, 
nos poucos meses que convivemos no Porto, terça- 
mos ainda as pennas de pato no campo do folhetim 
honrado, sem nos tratarmos de ptilhas, de patifes^ 



CAMILLO 127 

e nem sequer de bestas — um caso my thologico nas 
polemicas indígenas. E entretanto deu-se uma causa 
irritante para voltarmos â cascalheira lamacenta em 
que os fundibularios carregam as fundas. Ainda 
hontem a li no Nacional d'aquelle anno: e, quando 
cheguei ao fim, as lagrimas não me deixaram dele- 
trear as ultimas linhas. Saudade de tantos amigos 
mortos, e saudade de mim mesmo, da minha alegria, 
das minhas doidices, dos meus 23 annos. 

cFoi assim. Os paladinos da Dabedeille, em 
numero passante de vinte e quatro, deram-lhe um 
jantar na Ponte-de-Pedra. Concorreram damas da 
primeira extracção com os seus pérfidos esposos. 

Ditosa condição, ditosa gente 
Que não são de ciúmes offendidos. 

Casualmente passeava eu por aquelles sitios. Ia 
comigo Aloysio Ferreira de Seabra, um hellonista^ 
fallecido ha muitos annos, conjurado também em 
deixar-se bater e matar por ella, que era feia, doente, 
casada e de mais a mais honesta. A fileira especta- 
culosa dos trens á porta da taverna beliscou-me a 
curiosidade. Quando soubemos que se festejava a 
cantora, apeamos com a innocente cobiça de ouvir 
08 brindes. O taverneiro serviu-nos um quarto e 
amas enguias de caldeirada, ao pé da sala do ban- 
quete. Um dos commensaes que ainda vive e nào 
podia ser senão o festival João Guimarães, que 
Deus conserve dilatados annos na recebedoria de 



128 CAMTLLO 

Belém, vira-nos curvados ugolinament^ sobre as 
enguias rescendentes de colorào, e chamou, de lon- 
ge, a nossa attençáo com uma palmatória que um 
prospero acaso deparara ao seu espirito magistral; 
e, daudo palmatoadas na sua mão esquerda, expri- 
mia o symbolista imaginoso que o jantar dado pelos 
dabedeillistas á sua dama eram ideaes palmatoadas 
nos menestréis, a sêcco, da Belloni. Não soubemos 
estheticamente apreciar a symbolica de Joáo Gui- 
marães, sob aquella forma pedagoga — uma ratice 
genial, com todas as irresponsabilidades de um or- 
ganismo esquisito, como era o do nosso jovial amigo. 
Capitulou-se pois de rept© o acto; e, sem prévio 
debate, entramos, os dois, de copo em punho, na. 
quadra do banquete, e brindámos á nossa dama, a 
dessorada Belloni, feia, enfermiça, casada e de mais 
a mais honesta. Entre aquelles vinte e tantos con- 
vivas havia rapazes muito valentes. Estavam os 
quatro famosos Guedes, da casa da Costa, o terror 
dos caceteiros cabralistas; os Leites de Paço de 
Sousa; bastantes morgados de Riba-Douro e Rib<» 
Corgo e E/iba Tâmega — uma gente bravia com ares 
de recem-vindos da Palestina, fartos de fluminar o 
montante, espostejando mós de turcos. Conhecia-se 
apenas que eram nossos contemporâneos, pelas mi- 
rabolantes cores com que vestiam — pittorescos como 
araras. Pois d^esses façanhosos nenhum se insurgiu 
contra nós. Er^ueram-se apenas, floreando as facas 
do talher, com^ cabo de osso sujo, os três ou quatro 
únicos poltrões da companhia. Aloysio de Seabra 



GAMILLO 129 

retirara ferido em uma das mãos pela ponta de um 
estoque de bengala; e eu, que entrara resoluto a 
morrer, inutilizado o copo na cabeça do mais co- 
barde, cruzei os braços esperando a morte numa 
attitude romana ; e, se não cobri o rosto como César, 
em vista de vários brutos sem maiúscula, foi por- 
que a aba do frak náo me chegava à cabeça. Parece 
que entre os três ou quatro carnifices havia hesita- 
ções : se me rebentariam de encontro á parede, ou 
se seria mais exemplar enforcarem-me em um galho 
do pinhal. Uma senhora hysterica, com uns soluços, 
dava-se geitos de querer desmaiar. Outra matrona 
^nctuosa, frescalhona, de caracóes postiços, com ares 
de muito emancipada de etiquetas, dardejava-me 
olhos exophtalmicos furiosamente e vociferava : — 
Pouca vergonha/ pouca vergonha/ EUa parecia do- 
minada do cruel appetite de me dar meia dúzia de 
facadas nas entranhas. — Que eu tinha-lhe pe7i;ur- 
hado a digestão, dizia, muito azeda, com flatulências, 
pondo as mãos espalmadas no alto ventre tympa- 
nizado. João Roberto d'Araujo Taveira e António 
Guedes Infante perfilaram-se comigo. O Guedes 
ria-se — aquelle gentilissimo rapaz que, damas e ho- 
mens, todos amávamos pela graça incomparável do 
seu rosto e pelos encantos do seu riso sarcástico. 
EUe tinha inventado o itálico na palestra oral ; era 
pôr o dedo sob o lábio inferior quando a palavra 
era expedida. — E^ preciso, disse-me elle então, 
dar uma satisfação a madame Dahedeille, que éuma 
virtuosa senhora^ q griphava com o dedo debaixo 

9 



130 OAMILLO 

* 

do beiço a virtuosa senhora. Entretanto, Joào Eo- 
berto, voltado contra o grupo dos cannibaes, perorava 
com gestos forenses e 5 razões: 1.* Qae era indeco- 
roso atacarem um homem só e inerme. 2.* Que o 
nosso brinde romanesco a mad. Belloni, se não era 
uma expansão de corações sensiveis, também ná4 
podia considerar-se explosão d efinitiva do vinho dá 
Ponte-de-Pedra que não prestava para nada. 3. 
Que mad. Dabedeille, com o seu rico, saluberrim* 
sangue e marmóreas carnes, a rebentar de sadia 
não poderia levar a mal que dois cytaredos da sua 
rival anemica propusessem um brinde á saúde d- 
mad. Belloni, uma dama que expedia dos gorgomi 
los infelizes notas cacheticas a pedirem misericordis 
e óleo de fígados de bacalhau. 4.*- Que o sangu 
derramado per causa das duas primas-donas naquell 
recinto, ou taberna, era uma orgia de sentimenta 
lismo que envergonhará Portugal, um paiz serie 
perante as nações da Europa culta e talvez na prc 
pria Tartaria. 6.* e ultima razão, que me deixasser 
ir em paz e incólume, a digerir a minha paix;à.o oi 
o meu vinho, se elle fora o elixir que fizera retrc 
ceder o meu espirito até á edade media, enchendc 
me a cabeça de S/olandos, de Amadizes, de Clari 
mundos e Cavalleiros da Triste figura, isto num. 
época de prosa em que as Dulcineas se festeja var 
a 3 pintos por cabeça numa estalagem de almocr€ 
ves. E, curvando-se ao meu ouvido : — ; Vá-se embor^ 
emquanto elles mastigam o meu discurso. Lembres 
você qus a rhetorica de CUcero nem sempre salvoi 



CAMILLO 131 

08 seus clientes; nem elle próprio com toda a sua 
eloquência se eximiu de o levar o diabo. Achei razáo 
a João E/Oberto e fui-me embora. E no dia seguinte 
inventei uma vingança estrondosa — uma corneta 
de lata feita na Rua Escura que expedia berros 
atroadores; e, no theatro de S. Joào, inaugurei pa- 
teadas á Dabedeille com trompa. Nem inventei mais 
nada em toda a minha vida, na região do lyrismo. 
O martello já estava inventado pelo Diogo Maria, 
conde de Casal, o príncipe dos elegantes, que hoje 
esconde os destroços da sua vida atormentada nas 
brenhas de uma quinta no Alto Minho, sem saudade 
do que foi, porque entre as pompas da sua juven- 
tude e a sua velhice obscura está a imagem de uma 
fillia morta a nublar-lhe o passado com tamanha 
paixão que todos os horizontes lhe fecha e aperta 
st Tolta de uma sepultura. Quem são os que ainda 
vi^em d'aquelle banquete ? seis ou sete dos vinte e 
tatntos, quando muito. Ha seis meses acabou de 
morrer um, nas angustias da ataxia: elle era o mais 
irrequieto e alegre de todos nós — o António Duarte 
Gluimarâes. Que desconto acerbo o dos seus últimos 
^Tinos, confrontados com os júbilos imperturbáveis 
da sua mocidade, e pela vida fora, sempre honrada, 
*té que os cabellos lhe encaneceram, e a doença 
entrou a esphacelá-lo por todas as fibras ! Um dos 
restantes, era esse, o juiz da Relação João Roberto 
í^e a esta horEj hirto na sua mortalha de tafetá, em 
S. Ildefonso, inicia a putrefacçáo transformista do 
seo quinhão de matéria que ali serve de pretexto ^ 



l 



132 CAMILLO 

algazarra latina fanhoseada por algumas dezenas de 
presbyteros com mercenária uncçáo e grande apro- 
veitamento. 

«Restamos poucos d^aquelles genuínos de 1849, 
sinceramente rapazes, pouco dinheirosos, nada con- 
vencionalistas; mas desinfectantes e imputreciveií^ 
no seio das familias, porque eram românticos, cas- 
tamente românticos. Guedes Infante ó cônsul 
Gallisa. Quando nos encontramos, com interposta 
ausências de annos, conversamos de uns sujeito 
que tiveram o nosso nome. Se os nossos risos pu 
dessem ser liquidados, davam uma lagrima. Cons 
tantino de Souza Guedes, um dos restantes, segui 
immaculadamente a magistratura. Antes de enve 
Ihecer, quando o vulgar dos magistrados se arre 
dondam e arrotam boas digestões, elle adelgaçava-s 
e estorcia-se nas dilacerações da nevralgia. Do 
outros, náo sei ; ou, se os encontro, não os conheço, 
nem me reconhecem. Este que hontem morreu, en— 
contrei-o, ha poucos meses, pelo braço da esposa^ 
que lhe era um anjo bom em paga de uma adoração 
de muitos annos e sem intermittencia. Eu disse-lhe 
que ia morrer; e elle, com um sorriso animador: — 
você está a ir morrer ha tHnta annos, 

«E as primas-donas o que efeito d'ellas? Onde 
tiritam essas duas velhinhas que trouxeram ahi de 
escantilhão, de asneira em asneira, a juventude 
doesta cidade, medieval nos seus amores, e os cora- 
ções dom-juanescos dos morgados de Riba-Douro, 
Kiba-Corgo e Riba-Tamega ? A Belloni nunca mais 





CAMILLO 133 

cantou. Morreu logo. A Dabedeille poucos annos 
sobreviveu à sua pobre rival no proscénio. Lâ fo- 
ram ambas desafinar no coro dos anjos » . 

Nesse mesmo theatro de S. João, ha pouco des- 
truido por um incêndio, deu-se um episodio inte- 
ressante que o sr. Ramalho Ortigão nos conta no 
seu jâ citado Estudo critico. Foi assim : 

« O jornalista Novaes Vieira, o Novaes dos óculos 
ou Novaes da Pátria^ como variadamente lhe cha- 
mavam, publicou um artigo de maledicência, em 
que três homens, Camillo, Faustino Xavier de No- 
-vaes e um outro cujo nome me esquece, viram 
allusões pessoaes que resolveram punir. No dia 
â'essa publicação malfadada, Faustino, chegando 
fito theatro de S. João, onde o redactor da Pátria 
ia todas as noites, encontrou no pateo da entrada 
Camillo, rebuçado no plaid, com o casse-tête bam- 
boleando pendente da sôga. — Quem lhe dá aqui 
sou eu, que cheguei primeiro^ disse Camillo. Faus- 
tino subiu á .primeira ordem, onde Novaes Vieira 
assistia de um camarote ao espectáculo. Á porta 
d'es8e camarote, sobraçando uma longa chibata de 
picaria, paisseava o anonymo a que acima alludi. 
Este personagem dirigiu-se attenciosamente a Faus- 
tino Xavier de Novaes : — Se v, ex,^ vem também 
pdra espancar o sr. Novaes Vieira, rogo4he o obse- 
Çwio de esperar de preferencia lá em baixo ... — Lá 
^wi haixo está-o esperando já com logar tomado o sr. 
Camillo Castello Branco, — Nesse caso supplicar- 
the-hei que me faça a fineza de ir para esse pnmeiro 



134 CAMILLO 

patamar. Eu encaminharei para lá os passos do sr, 
Novaes Vieira, para cujo primeiro encontro sou eu 
que tenho a vez. Ha dez minutos que aqui estou. 
Assim, bem vê, , . O drama de expiação, em que o 
pobre Novaes da Pátria estava destinado a figurar 
nessa noite infausta, foi pungente mas breve. Den- 
tro de poucos minutos, o desventurado sahia do 
camarote em que se achava, era rapidamente es- 
treiado com duas chibatadas, galgava como um 
gamo o primeiro lanço de escada; d'ahi rechassado 
a socco, vinha de um só pulo cahir sob o ca^se-tête 
de Camillo, no esteiráo do fundo, e era conse- 
cutivamente levado em braços á botica próxima, 
com uma brecha na cabeça e duas costellas par- 
tidas » . 

Mas sempre esses doidivanas atiravam para um 
regaço de mulher, entre as pétalas do galanteio, um 
pedaço de coração, de forma que, se era aquella a 
mulher fatal de que falam as chro nicas do tempo, 
assim o namorado, num instante, iniciava a sua sina 
de amor e de desgraça. Elles faziam versos, ellas 
liam-n'os, e os bons papás mercantes, vivendo num 
positivismo que não excluia, de vez em quando, a 
sua historia de coração, não queriam saber de musas 
e olhavam de soslaio para os endiabrados pertur- 
badores da sua paz. De resto, a época, por qual- 
quer lado que a encaremos, apparece-nos com um 
certo ar de ingenuidade, toda de enthusiasmos 
espontâneos, uma maneira sinceramente simples em 
tudo, sem sombras d'uma preoccupaçáo pelo gro- 



CAMILLO 136 

tesco, que incommode, ou que constranja. Ia ser 
ainda essa a geração do 

t Senhor Rei, ac ceita o preito » 

arroto lyrico-patriotico que um bardo enthusiasta 
arrojou, no S. Joáo, ás regias faces do monarcha 
D. Luiz, — quando aos reis se falava em oitava ri- 
ma e a Carta não gemia ainda o fado da desillu- 
são. Ao ver agora, já de longe, num meio tão di- 
verso e, valha a verdade, táo menos interessante, 
essa sociedade pittoresca, com as suas usanças cu- 
riosas e a sua maneira, tão outra, de tomar a vida 
a serio, — a gente sorri, como Camillo, nos últimos 
annos da sua vida, sorria, doesse passado depressa 
desfeito, com a estabilidade ephemera das épocas 
de transição . . . 

Foi comtudo nesse periodo, quando o feitio ro- 
manesco triumphava em toda a linha, que, num 
baile da Assembleia, Camillo deixou preso num 
olhar de mulher o seu destino. 

« £ra num baile. Ondulava 
De ouro e sedas o salão : 
O ar que ali se aspirava 
Escaldava o coração. 
Tinha fogo o olhar da virgem, 
Fogo de amor, de vertigem 
Desse que inflama o pudor ; 
Tinha a mulher, anjo ou fada. 
Uma existência encantada. 
Um condão fascinador ! 



136 CAMILLO 



Que líQda noute, que vida 
No salão se não viveu ! 
Que existência tao florida 
Nessa quadra rescendeu ! 
Que sorrisos tao mimosos 
Se trocaram carinhosos 
Nesse angélico festim ! 
Um galanteio era um hymno. 
Que soava um som divino 
Nos lábios d'um cherubim. 

Era um folgar incessante, 

Era um delirio febril ! 

Cada qual cinge da amante 

Breve cintura gentil ; 

V6a com ella, embebido 

No lindo collo pendido. 

No ebúrneo peito ao desdém. .. 

Sente arfar tão junto d^ella 

O coração que revela 

Ventura... e magoas?... também ! 

E, depois, lá murmuravam 
Brandas, doces expressões. . . 
Cada palavra que davam 
Besumia mil paixões . . . 
Uma só, um só sorriso, 
Um olhar terno indeciso. 
Uma supplica. . . talvez !. . . 
E, no fim do baile, a pena. . . 
A saudade. . . Âi! tão pequena 
Foi a noite desta vez ! » ^ 



V 



^ Caxillo : Duas épocas na vida. 



CAMILLO 137 

« Quando entrei na sala, em que ella estava, ia 
triste. A escuridade interior do espirito vinha fora 
espessar em volta dos olhos da face uma zona, cor 
das minhas imaginações, negra como a desespe- 
rança, como os vinte e dois annos sem amor, como 
o tédio das delicias da vida apenas provadas. Vi, 
como se vê num sonho, sem conhecimento da alma 
pensante, o quadro confuso de espectáculos agra- 
dáveis. Giravam as valsas, sentia nas faces o hálito 
das mulheres offegantes de cansaço, os vestidos em 
rodopio agitavam o ar tépido, rossavam-me o braço 
hombros nus, seios alvos e duros como alabastro, 
6 náo sei se mais animados pela vida do coração 
que o mármore das estatuas. Se eram Galatheas 
náo o sabia eu ; Pigmaliões, no ardor do olhar pa- 
reciam-me todos os que as levavam cingidas no 
pular vertiginoso da dança. E ellas deixavam-se 
apertar e elanguesciam, ageitando as feições de 
modo que pareciam envergonhadas da lubricidade 
d'elles. O espectáculo devia ser deleitoso para todo 
o homem que estivesse em paz comsigo e com os 
outros. Para mim era triste. Ali foi que eu conheci 
o que é o doer da solidão moral. Cessaram as dan- 
ças. Um homem deume o braço e disse-me : — 
Venha ver as três mulheres mais lindas d'esta terra. 
Da que primeiro vi mal me recordo. Se a procurar 
hoje, depois de doze annos, para acordar as remi- 
niscências d^então, não a encontro, que morreu. 
Da segunda nunca poderei esquecer os olhos. A 
luz que elles tinham, como o fogo das vestaes 



138 CAMILLO 

nunca se apaga: a terra da sepultura abafa o reci- 
piente da alma que chammejava nelles, mas e^ 
flamma vive sempre na memoria do coração que os 
contemplou um momento. Morreu também essa. A- 
terceira eras tu. Vestias de branco, cahia-te da cin- 
tura aos pés uma faxa de sedas em ondulações^ 
ennastravam-te os cabellos enfeites de fitas escar- 
lates tão graciosos como singelos. Aqui tenho deante 
de mim o teu retrato. Eras assim. Aqui me estás, 
no estio da vida, florindo a primavera d'entáo. 
Doze annos, e nem uma pétala murcha doestas flo- 
res ! Frescura, graça, meiguice, o sorrir caricioso, o 
olhar mórbido, a voluptuosidade innocenfe, os teus 
dezeseis annos aqui neste retrato, que me está 
dizendo : Se queres achar os estragos do tempo, pro- 
cura-m'os no espirito, A formosura em mim é dura- 
dou7'a como a dadiva funesta de um destino irrevo- 
gável, Deixa-me recordar aquella noite. Eu contem- 
plei-te. Viste-me; e, d'ahi a momentos, procuraste o 
desconhecido que ouviras dizer-se em sua consciên- 
cia : Com esta impressão alimenta-se uma longa vida. 
Não me viste já. O restante d'aquella noite passei-a 
lendo Werther e comprehendi-o. Imaginei- te amada, 
imaginei- te esposa d'aquelle que disputava a tantos 
um sorriso teu, comprehendi a paixão que nega o 
dever, que acovarda a dignidade do homem, e o 
desata das correntes da vida. A um relâmpago dos 
teus olhos, vi todos os arcanos tenebrosos do cora- 
ção humano. Ao outro dia, puderas vêr impressa 
a historia de um cinerario que se abrira, para que 



CAMILLO 139 

s cinzas de um coração revivessem. Leste-a. Fa- 
iva-se ahi de um anjo que puzera o dedo sobre 

urna funérea. Os traços debuxados da creatura 
3lestial eram os teus; mas nessa sala estavam três 
lulheres bellas, e tu renunciavas o primor á mais 
mbiciosa. Has-de crêr-me. Vêr, nos extasis scisma- 
ores da juventude, uma imagem, um aggregado 
e feições que raro se nos deparam complexas de- 
ois, e que se vão encontrando separadas e acaso 
3 amam do amor reflectido do typo imaginário, 
áo é mentira nem mera visualidade de poeta, i * 
Anna Plácido, senhora somaticamente dotada 
e preclaros méritos e sua tendenciasinha mórbida 
ara as letras, era, ao tempo em que, segundo 
onta a historia, sentiu em si uma paixão intensa 
or Camillo, a noiva promettida do brazileiro Al- 
es. Casou, dizem que depois de chorar muito, e 
e os annos que viveu com o marido, gosando em 
rente ao mundo o aspecto d'uma vida de tranquilla 
az, passaram sem um reparo para o chronista me- 
iculoso de percalços do coração, não o sabe nem 

quer saber quem estas linhas escreve com algum 
.m mais alto que divulgar, em phrase limpa, as 
Qais divertidas blandinas. Por esses annos andou 
yamillo, embora trabalhando sempre, numa vida 
Qcerta, em que o propósito de se afastar da crea- 
ura que espiritualmente o prendera não conseguiu 
vencer a tentação, mais forte, de ficar. Pensa em 



^ C4AMILLO : Scenas innocentea de comedia humana. 




140 CAMILLO 

ir para o Brazil e não vae; retira-se para o Minho 
e logo volta : matricula-se no Seminário e, no mo- 
mento de tomar ordens, vem-se embora. 

Esse impulso de romantismo ardente, que o 
ia levando á vida de padre, influiu, durante iim 
certo periodo, na sua obra. O mysticismo de Ca- 
millo era aquelle de que tantas vezes se acompanha 
a paixão amorosa. Na carta ao visconde d^Azevedo 
que vem inserta no volume da edição, feita onze 
annos depois, dos artigos sobre a Divindade de Jesm^ 
escriptos nessa época, o próprio romancista nos for- 
nece elementos bastantes para ajuizar do seu estado 
psycologico d'então. «Quando eu escrevi os arti- 
gos, que me foram testemunho da minha ignorân- 
cia ou hypocrisia nas praticas dos meus julgadores 
imprudentes, — diz Camillo — me estava eu dando 
a mim as razões da minha crença. Não sei se foi 
algum ingente infortúnio que me fez ir alliviar o peso 
de minha cruz ao pé da cruz do Homem-Deus: 
devia de ser ; umas quasi delidas reminiscências do 
coração d'aquella edade me dizem que foi. O aperto 
da dor espertou-me na memoria as orações da in- 
&ncia. A mãe, que eu não conhecera, devia falar-me 
nessa hora. A luz que depois me guiou no rasto 
dos grandes infelizes, caminho do Calvário, devia 
de preluzir-m'a ella no animo conturbado e affligido, 
antes que o estudo me volvesse á serenidade da fé 
e ás fontes novas das aguas bemditas da esperança. 
Vi então rasgarem-se-me os horizontes da vida em 
annos de paz. Contava com a graça divina para 



OAMILLO 141 

ctar e vencer, vencer-me a mim, o mais inexora- 
íl inimigo que ainda tive. Enganei-me : as paixões 
>praram rijas do lado do inferno ; os vislumbres 
j. graça deixei-os apagar no coração replecto de 
laus sedimentos. Volvi ás angustias antigas, ás tre- 
as d'uma cegueira em que, por vezes, umas visões 
orno os lampejos dos amauroticos, me dav^m reba- 
3s de saudade da luz perdida». 

Sobre o modo como a opinião publica ajuizou a 
ua conducta neste lance, também o depoimento de 
5amillo nos não deixa duvidas. São ainda palavras 
uas, da carta ao visconde d'Azevedo: «O fervoroso 
esejo de entranhar a minha fé no animo de amigos 
•em inclinados, que se dispensavam d^ella, emquanto 
s miragens da vida, moça e enganada, lhes basta- 
ram á lisonja d'olhos, e o coração, de grado, se en- 
regava á cadeia doirada das esperanças : — aquelle 
ervoroso desejo, digo, foi grande parte no publi- 
iarem-se os argumentos com que eu respondia á 
philosophia indócil dos espantados da minha con- 
versão. Conversão chamaram alguns o que mera- 
Biente devera chamar-se reflexão, A juizo d'outros 
a minha religiosidade era hypocrisia. Os amigos 
arguiam-me de inepto ; os inimigos de impostor. . . » 

No Seminário, em 51, Camillo perdeu o anno 
por faltas. E^ nos annos seguintes, a sua preoccupa- 
;âo dominadora era fugir d'esse amor de mulher 
[Ue o attrahia como um abysmo e assustava como 
im peccado. Por algum tempo, isolou-se num arra- 
alde de Vianna do Castello, em S. João de Agra. 



142 CAMILLO 

Depois voltou. E era tal o seu empenho em con- 
vencer os outros, e porventura em convencer-se a si 
próprio, do mj^^sticismo em que debalde procurava 
repoisar o espirito, que uma noite, no theatro de 
S. João, confuso deante do conselheiro Guilhermino 
de Barros, pretendeu desculpar-se da sua estada ali: 
— Venho ouvir o Moysós, que é uma opera de assum- 
pto bíblico ^ Está dito que Camillo era um sensual; 
a imagem d'aquella mulher, esculpturalmente per- 
feita, que o attraia, náo esquecera nunca; nos seus 
romances d^então apparece uma mulher idealmente 
linda, que o destino sacrifica a um brutamontes, e, 
nas entrelinhas, a cada figura, por maior diversidade 
de caracteres que as scindam, a gente vê, bem * 
claro, Anna Plácido — a creatura amada sempre -^ 
e o marido atirado para a galeria dos bobos que ^ 
romancista mostrava ao publico ridente, — coma 
mais precioso exemplar e o mais grotesco. 

Se me náo arreceasse da banalidade miserriocií 
da imagem, eu diria que Anna Plácido attraia Ca- 
millo como a luz attrae a borboleta. E foi afinal em 
1858, no Bom Jesus do Monte, que a borboleta 
irremediavelmente queimou as azas fugidias. EUe 
viu-a, quando ella, junto ás arvores do Bom Jesus, 
acompanhava uma irmã doente. Elle viu-a; correu 
o lance do maior perigo e foi vencido. De volU 
d'ali, Anna Plácido recebeu de Camillo a confissà< 
do seu amor nestas quintilhas : 



* Alberto Pimentel: 0$ amores de Camillo. 



CAMILLO 143 



Quem ha ahi que possa o cálix 
Dos meus lábios apartar? 
Quem, nesta vida de penas, 
Poderá mudar as scenas 
Que ninguém pôde mudar ? 

Quem possne nalma o segredo 
De salvar-me pelo amor? 
Quem me dará gota d*agua 
Nesta angustiosa fragua 
D'um deserto abrazadôr? 

Se alguém existe na terra 
Que tanto possa, és tu só ! 
Tu só, mulher que eu adoro. 
Quando a Deus piedade imploro, 
E a ti pego amor e dó. 

Se soubesses que tristeza 

Enluta meu coragão. 

Terias nobre vaidade 

Em me dar felicidade, 

Que eu busquei no mundo em vão. 

Busquei-a em tudo na terra. 
Tudo na terra mentiu ! 
Essa estrella carinhosa 
Que luz á infância ditosa 
Para mim nunca luziu. 

Infeliz desde creança, 
Nem me foi risonha a fé ; 
Quando a terra nos maltrata, 
Caprichosa, acerba e ingrata, 
Ceu e esperança nada é. 



144 CAMILLO 



Pois a ventura busquei-a 
No vivo anceio do amor, 
Era ardente a minha alma ; 
Conquistei mais d'uma palma 
A' custa de muita dòr. 

Mas estas palmas taes eram 
Que, postas no coragão, 
Fundas raizes lançavam, 
E nas lagrimas medravam 
Com fructos de maldição. 

Em anciãs d'alma, a ventura 
Nos dons da sciencia busquei. 
Tudo mentira ! A sciencia 
Era um signal de impotência 
Da vã razão que invoquei. - . 

Era um brado, um testemunho 
Do nada que o mundo é. 
Quanto a minha mente erguia 
Tudo por terra cahia. 
Só ficava Deus e a fé. 

Lancei-me aos braços do Eterno 
Com o fervor de infeliz ; 
Senti mais fundas as dores, 
Mais agros os dissabores. . . 
O próprio Deus não me quiz ! 

Depois, no mundo, cercado 
Só de angustias, divaguei 
De um abysmo a outro abysmo 
Pedindo ao louco cynismo 
O prazer que não achei. 




CAMILLO 



Tristes correram meus annos 
Na infância que em todos é 
Bella de crenças e amôresv 
Terna de risos e flores 
Santa de esp'rança e de fé. 

Assim negra me era a vida 
Quando, oh luz d'alma, te vi 
Baixar do ceu, onde outr'ora 
Te busquei, mão redemptora, 
Procurando amparo em ti. 

Serás tu a mão piedosa, 

Que se estende entre escarcéus 

Ao perdido naufragado? 

Serás tu, ser adorado. 

Um premio vindo dos céus? 

E eu mereço-te, que immenso 
Tem já sido o meu quinhão 
De torturas não sabidas. 
Com resignação soffridas 
Nos seios do coração. 

Que ternura e amor e afagos 
Toda a vida te darei ! 
Com que jubilo e delirio, 
Nova dôr, novo martyrio 
De ti vindo, acceitarei ! 

Se na terra um ceu desejas 
Como ceu que eu tanto quiz, 
^e d'um anjo a gloria queres. 
Serás anjo, se fizeres, 
■Contra o destino, um feliz. 



145 



10 



um CAHILLO 



Faz que eu veja nestas trevas 
Um relâmpago de amor, 
Que eu não morra sem que diga : 
t Tive no mundo uma amiga, 
t Que entendeu a minha dòr. 

t Deu-me ella o estro grande 
t Das memoráveis canções ; 
t Accendeu-me a extincta chamma 
c Da inspiração que inflamma 
c Regelados corações. 

t Os segredos dos afTcctos 
« Que mais puros Deus nos deu^ 
< £nsinou-m'os ella um dia 
a Que d'entre archanjos descia 
c Com linguagem do ceu. 

t Os mimosos pensamentos 
a Que, de mim soberbo, leio, 
€ Inspirou-m'os, deu-m'os ella, 
• Recostando a fronte bel la 
« Sobre o meu ardente seio. 

« Morta estava a phantasia 
«Que o gelo d'alma esfriou ; 
t Tinha o espirito dormente, 
« Só no peito um fogo ardente, 
€ Quando o ceu m'a deparou. 

« Agora morro no goso 
a D'uma saudade immortal. 
a Foi ditosa a minha sorte ; 
« Amei, vivi ; venha a marte, 
« Que morte ou vida é-me eguaK 



CAMILLO 147 

tEgnal sim, que o amôr profundo, 
« Gomo foi na terra o meu, 
« Nào expira, é sempre vivo, 
« Sempre ardente e progressivo 
« Em perpetuo amor do ceu ». 

Asâim, querida, meus lábios, 
Já moribundos, dirão, 
Nas agonias supremas. 
Essas palavras extremas. 
Do meu ao teu coração. 

Sabes quem é, neste mundo, 
Quasi igual ao Redemptor? 
É quem diz : « Sou adorada 
c Pela alma resgatada, 
c Por mim das anciãs da dôr i>, 

« Estes versos chegaram ao seu destino, — diz o 
^^. Alberto Pimentel no seu livro Os amores de Ca- 
"^illOj depois de transcrevê-los — foram lidos, encon- 
traram echo affectuoso num coração de mulher que 
^s decorou». E assim, porque tal amôr sahisse da 
reserva platónica em que confrangi da mente se em- 
*^renhára, oito annos depois do primeiro encontro no 
^Q-l baile, Anna Plácido abandonou o marido, se- 
guindo, com Camillo, por esse Portugal fora, a 
exhibir vaidosamente aos olhos de censores e mal- 
dizentes o interesse picante da aventura. Pinheiro 
A-lves, ferido pelo escândalo, processou por adultério 
* mulher e o amante ; a consorte foi presa no justo 
praso em que a justiça assim o quiz, e o romancista, 
mcapaz, como em todas as épocas da vida, de tomar 



14S CAMILLO 

com firmeza uma resolução, deixou-se levar, ora por 
conselhos precavidos de amigos, ora por instancias 
da saudade, numa peregrinação pelas terras em que 
logares ou creaturas estavam presos a um episodio 
inolvidado da sua agitada vida de outros tempos. 

Lá foi a essa Samardan e viu a*Luiza que em 
novo amara, seguindo com os seus filhos e as suas 
rugas o caminho da velhice, a Villa Beal, onde a 
irmà de seu pae, decrépita e cadavérica, lhe disse 
que era necessário ser desgraçado, para náo contra- 
dizer os fados da familia, ^ e ainda ao Bom Jesus 
do Monte, onde recentes recordações lhe traziam ao 
espirito, num nimbo de doirado idealismo, o seu 
amor de entáo. Até que, instável na própria posição 
de fugitivo, nào podendo supportar por muito tempo 
a mesma orientação, destituido de toda a equilibrada 
força de vontade, passados quatro meses, Camillo 
entregou-se ao carcereiro da Relação do Porto, ^ 
para que, sem entrave, a justiça resolvesse da incer- 
teza do seu destino, porque se lhe não pedia já que 
dissesse da boa ou má razão da sua causa. 

Na véspera (30 de setembro de 1860), tinha es- 
cripto a Vieira de Castro uma carta que principiava 
assim: «Meu V. de C. — Amanhã entro na Relação, 
Uma d'estas noites, impellido pela saudade, pela 
paixão e pelo remorso de ter ofícndido a martyr, 



1 Camillo : Ao anoitecer da vida» 
* Camillo : Memorias do cárcere. 



CAMILLO 149 

entrei »a Kelaç&o, subi, abrirara-se três portas, fui 
até a encontrar, abraçar, chorar, e salvar-me da de- 
mência. No dia seguinte, era um inferno na Relaçáo : 
Presidente, procurador régio, guarda-mór, carcerei- 
ro, chaveiros, toda aquella cafraria endiabrada con- 
tra o meu arrojo. Que importa ! eu tinha-me salvado, 
salvando-a. . •» ^ 

O julgamento de Camillo e da sua cúmplice no 
crime d'adulterio começou em 15 de outubro de 
1861, um anno e quinze dias depois da entrada 
d'elle na cadeia, e terminou, no dia immediato pela 
absolvição dos accusados. Uma das testemunhas de 
defesa, o medico Joaquim José Ferreira, declarou 
que náo podia depor na presença do reu, em virtude 
do que, com a acquiescencia do tribunal, Camillo 
saiu da sala. « Meu pae, que ouviu este depoimentoj 
— diz o sr. Alberto Pimentel num dos seus livros * — 
contava que fora notável e causara profunda im- 
pressão no jury. Ferreira entrara em minudencias 
physiologicas, discursara sobre a fatalidade dos 
temperamentos e os impulsos irreprimíveis da na- 
tureza em certos organismos. O seu depoimento 
foi o de um psychiatra. Surprehendeu então pela 
novidade». E assim, a eloquência de um advogado, * 



* J. C. Vieira de Castro : Camillo Castéllo Branco (No- 
ticia da 8ua vida e obras), 1863. 

* Oa amores de Camillo, 

' Marcellino de Mattos, pae do illustre alienista sr. 
dr. Júlio de Mattos. 



150 GAMILLO 

as razões de um medico e a consciência de uns jura- 
dos, conseguiram que o tribunal perdoasse aos adúl- 
teros e elles pudessem seguir, agora juntos para 
sempre, numa vida que já náo tinha certamente o 
encanto que lhe dera, esmaltando-a com aspectos 
novos de mais brilho, a illusáo de um amor que 
despontava. 

A partir d'ahi, a historia da vida de Camillo ^ 
a historia da sua doença, que permenorizadament^ 
eu contarei reatando o fio da narração dos incider^' 
tes curiosissimos da sua herança mórbida. Afóir^ 
isso e abstrahindo do trabalho insano, constante ^ 
infatigável do escriptor, essa vida decorre sem 
ctos salientes sobre os quaes mereça deter, nesi 
altura do meu estudo, a attenção dos que o lêei 
Basta que se diga, embora escusado fosse dizê-l« 
por estar em linha de lógica irrecusável, que esf 
vida náo foi feliz, e a melancolia de um amor mort- 
sem que, do lado do romancistaj ficasse arreigad 
mente a estima ou o respeito, e depois o ciúme, ® 
o remorso, e a doença — sobretudo a doença, co: 
genita, fatal e irreparável — fizeram bem do decliní 
da vida aventureira doesse homem de génio um p 
riodo triste de tortura: Camillo foi um desgraçad 

A hora em que morreu Pinheiro Alves, elle, r ^* 
costado no leito, a lêr, sentiu que mão hercúlea ^ 
estrangulava^ e, depois, na solidão da casa de S^^' 




Alberto Pimentel : Os amores de Camillo. 



CAMILLO 151 

e, rodeada de pinhaes, que pertencera ao brazilei- 
o', os espectros, povoando-lhes as noites de ne- 
rose, acabaram para todo o sempre a passageira 
az da sua vida. 

Quiz ser visconde e foi-o: ficou cego; aceitou 
ímunerações dos cofres públicos; sentiu o azedu- 
e dos que o malqueriam calcá-lo, quando o seu 
Lcete formidável já náo tinha um pulso que o bran- 
sse; casou, foi pae de um filho doido e, de dor 
a dor, presa da fatalidade que parecia pesar, co- 
o de chumbo, por sobre a tara que má herança 
e deixou, nào podendo já trabalhar — o seu su- 
perno consolo, — aos 75 annos, na tarde do primei- 
* dia de junho, em S. Miguel de Seide, no seu ga- 
nete de trabalho, já inútil, comprehendendo que 
ira sempre o seu mal era sem cura: — matou-se. 



^ Vôr NOTA I). 



n0506RAPHl(^ 



«Pareoe-me, meu querido amigo, 
que nfto fugi ás heranças de pae, 
d' avó materna e duas tias». 

(Carta de Camillo ao sr. Padre 
Senna Freitas) 



I 



Os factos 



lillo Castello Branco foi gorado no período 
tenso d'um amor violento, e esse facto ó im- 
e na determinação etiológica do seu genio- 
la casa em que dois doentes revolviam com 
ra as oinzas da paixão que os unira e be- 
lente encaravam, através das lagrimas, as 
IS infantis d^aquelle filho, Gamillo viveu até 
e annos, sem uma educação que de co- 

orientasse na vida ou corrigisse na ma- 
e ser do seu espirito qualquer nativo mal, 
9 o tinha. Nessa idade, começou a vida apo- 
a, aos empurrões d'um conselho de familia 
levou para Villa Real e foi a causa da sua 
da terreola, quando a rispidez da tia que o 

começou a asphixiar no sobrinho irrequieto 
laturas tendências do homem livre. Homem 
ise que aos dezeseis annos se julgou preso 
ícajatos da filha do tendeiro que fez do rapaai 



166 CAIIILLO 

leviano um mau marido e marcou o primeiro passo 
na sua accidentada carreira de aventuras. 

Na vida de Camillo, que ahi começa, com os 
seus dramas, os seus triumphos, os seus combates 
e as suas amarguras, ha um symptoma mórbido que 
salta aos olhos d'aquelles mesmos que não busquem 
na figura do romancista todo o interesse novo e 
elucidante d'um caso de doença. É a abulia, a falta 
de energia moral que trouxe esse homem de geaio 
pela vida fora numa hesitação de cada instante, 
que o fez iniciar diversas carreiras abandonadas 
logo, recorrer á vida de padre, cheio de fé, e, no 
momento de tomar ordens, vir-se embora, e que, 

• 

alastrando para todas as faculdades do seu espi- 
rito, foi mais tarde a origem diurna existência d® 
vagabundo, de terra em terra, e d'uma mutabili- 
dade constante na maneira de julgar as coisas e os 
homens. As diversas tendências litterarias a que 
elle a cada passo amoldava os recursos extraordi- 
nários do seu génio, a variação dos géneros de 
litteratura ao serviço dos quaes punha a sua phan- 
tasia inexhaurivel e a sua erudição ampla e firnaô? 
entram aqui propriamente como symptoma denuft* 
ciador d'essa abulia. Era bem aquelle estado dolo- 
roso de irresolução constante que Leopardi definii^ 
MiUe dtibbietà nel deliberare e mille ritegni nelVes^' 
guire, como bem o comprova o periodo errante q^^ 
precedeu a entrada de Camillo na cadeia após * 
aventura de Anna Plácido e as palavras que eU^ 
deixou espalhadas, como a mais preciosa^ documeí^" 



CAMILLO 167 

?ão, na sua obra. Em 1881 escrevia numa carta ao 
Silva Pinto : «Recolhi antes de hontem de Vizella 
resolvi ir para Ancora no dia 24. Ainda assim, 

me escrever, faça-o para Seide, porque eu não 
nto comigo». ^ Pode-se aqui presuppor, na mente 

romancista, um receio de doença, esse receio 
e o obsecou durante a maior parte da sua vida, 
IS o facto é que o doente da vontade tem sem- 
e essas e outras coisas a que recorrer para tor- 
r explicáveis, aos olhos dos outros e aos seus 
oprios, aquillo que não passa de uma malsani- 
de que elle na maior parte dos casos desconhece. 
3 modo que o symptoma da pathologia da von- 
le que se observa nos nevropatas é, no nosso 
so, d'uma nitidez absoluta. 

Entrando por assim dizer no mecanismo d'esse 
il, vemos que em todo o phenomeno volitivo 

a distinguir a acção excitante, a percepção com 
associação de ideias consequente e a determina- 
à qual na normalidade se segue mecanicamente 
execução ; mas, nos casos de abulia, o influxo ori- 
aado numa dada excitação ou se dispersa num 
'ande numero de direcções e dâ origem a outras 
ntas determinações contradictorias, e irresolução 
ortanto, ou conduz a uma resolução única que se 
ào chega a executar. ^ Mas toda essa hesitação, que 



* Cartas de Camillo Castello Branco^ com um prefacio 
notas de Silva Pinto. 1895. 

* Le Dantec: Traité de Biologie, 1903, p. 481-484. 



168 CAMILLO 

é torturante, enfileira bem, por suas origens e con- 
sequências, ao lado da infinidade de terrores doen- 
tios que JoUy, poupando-se ao passatempo de bus- 
car palavras gregas para os baptizar um a um, 
conglobou na designação geral caírophohia, A. abu- 
lia poder-se-à mesmo chamar bouletienphobia (medo 
de querer) entendendo-se neste caso por querer o 
exercicio amplo e perfeito d'uma vontade sã. E 
nem por essa concretização, que simplifica o estu- 
do, o processo mórbido se altera. 

Vamos assim seguindo, passo a passo, a noso- 
genia de um estado neurasthenico, não perdendo 
de vista que a neurasthenia é sempre o indicio de 
uma tara nervosa profunda^ e que «ella constitue 
o terreno mais próprio para o desenvolvimento das 
nevroses, das vesânias e mesmo das affecções or- 
gânicas cerebro-spinaes, a ponto de se poder con- 
siderar como a origem commum da maior parte 
das doenças nervosas. Em summa, a neurasthenia 
cria a opportunidade mórbida do systema nervoso»- 

Enunciando os symptomas da nevrose de CamillO) 
eu tenho, em certa altura, de me afastar do quadro 
neurasthenico ; a própria actividade prodigiosa de 
romancista, contrastando com a fadiga e a mà dis 
posição para todo o esforço, que é a caracteristicí 
primeira do exgotamento, nos indica de comôÇ 



1 Rémond: Précis des maladies mentales, 1904, 
110. 

« FÉRÉ : Ob. cit., p. 80. 



CAMILLO 159 

que o diagnostico se não pôde fazer aqui por um. 
meio simples, grosseiramente, sem entrar no mais 
delicado estudo d'essa mesma actividade. Se bem 
que alguns symptomas, e entre elles a inaptidão 
para o trabalho intellectual, communs quando a 
neurasthenia é adquirida, muitas vezes faltem na 
neurasthenia hereditária, embora nos doentes doeste 
mal o trabalho sustentado e perseverante seja, as- 
sim mesmo, superior ás suas forças. * 

Camillo não tinha, realmente, esse methodo re- 
gularissimo de trabalho que é apresentado como 
exemplo em alguns escriptores de grande nome.; 
elle não tinha as suas horas de labuta fixadas nem 
tao pouco uma tarefa contada em cada dia ; escre- 
via por assim dizer aos jactos, num impulsOj e ó 
certo ainda que os seus períodos de intenso labor 
correspondem sempre a crises mais ou menos gra- 
ves numa vida de aventuras, com a excitação con- 
sequente da sensibilidade malsana dos seus ner- 
vos. Annos havia em que a producção litteraria de 
Camillo se limitava a compilações de coisas feitas^ 
e nunca essa producção foi mais copiosa que após 
a prisão por adultério, quando a consciência do 
grande homem se impoz o dever de sustentar com 
08 únicos recursos do seu trabalho uma familia que 
o destino fizera chamar sua. São tempos de dispên- 
dio d'ama energia nervosa meia exhausta, seguidos 



-A^ 



Bouveret: Ob. cit, p. 204. 



160 CAMILLO 

<[uasi sempre d'iim período de abatimento, com 
mais um passo andado para a liquidação final que 
^e avizinha. 

E' opportuno citar aqui uma observação curiosa 
de Weygandt ^ que se adqua perfeitamente ao nosso 
caso. Esse professor da Universidade de Wúrzbourg 
procurou avaliar pelo methodo psycometrico a ca- 
pacidade para o trabalho de intellecto na neuras- 
thenia constitucional, e, para isso, os doentes de- 
viam fazer, durante um tempo determinado, pe- 
quenas addiçôes de números de um só algarismo, 
marcando entre cada uma o espaço d' um minuto, 
depois do que se podia, fixando © qtiantum de tra- 
balho eífectuado na unidade de tempo, estabelecer 
a chamada curva de trabalho, Constatou-se que, 
ao passo que em creaturas normaes a producção 
cresce ordinariamente durante os três ou quatro 
primeiros quartos d'hora, por consequência do au- 
gmento de exercício, para baixar em seguida, pouco 
a pouco, à medida que a fadiga se manifesta, — nos 
neurasthenicos constitucionaes se verificavam brus- 
cos saltos no decorrer da producção, modificando- 
se por vezes no intervallo de cinco minutos, de 5^ 
a 100 p. 100, e nos neurasthenicos por exgota- 
mento a capacidade productiva desde o começo d» 
experiência ia baixando. 

Neurasthenico constitucional era Camillo e ^^^ 



Ob. cit., pag. 239. 



CAMILLO 161 

que o seu trabalho prodigioso, irregularmente 
o, aos solavancos, longe de nos afastar do dia- 
)Stico aventado, no-lo vem justificar por sua vez. 
resto, mais d'uma vez, Camillo se sentiu e con- 
30U incapaz de trabalhar. Cito dois exemplos, 
rahidos das cartas a Vieira de Castro. « A minha 
>nça — escreveu Camillo — tem tido algumas in- 
oadencias de abatimento ; mas a cabeça peora 
indo o restante parece melhorar. Eu náo tenho 
leranças algumas de cura. Poderei viver alguns 
los, mas sempre atormentado e incapaz de tra- 
har ou pensar uma hora» . E noutra carta : « Pas- 
a-se semanas sem que eu tenha sequer animo para 
lir da cama. Não posso trabalhar ...» ' 
Entrando agora no estudo das phobias, cumpre 
;istar perturbações profundas na sensibilidade 
erna. Effectivamente, emquanto que, num indivi- 
normal, a sedsibilidade não alcança as vias 
ascientes de associação que residem na corticali- 
de e neurones superiores, nos casos.de doença 
tinge-as dolorosamente depois de, auma super- 
:citação, passar os neurones inferiores, refl^exos e 
itomaticos. A essas sensações cenesthesicas, que é 
>88ivel considerar o pi^imum moiJen-s^ da neurasthe- 
^a,.que chamam toda a sua attenção e unicamente 
çreoccupam, o doente, capaz apenas d-uma reacçãjo 



* QQrre&pondencia Epii^fQlar entre José Carçtúso Vieira de 
'^iro e Camillo Castello Branco. 1874. T, ii, p.-73 ^'98^ 



11 



1G2 CAMILLO 

insufficiente e dolorosa, náo oppõe as suggesíões 
solidas das acquisições sensitivas e sensoriaes ante- 
riores, entra num estado de angustia, quer e nâo 
quer, tem desequilibrios de sensibilidade e intelli- 
gencia, e apenas as sensações cenesthesicas e as 
ideias que ellas evocam occupam, em plena posse, 
o campo da consciência *. E' a opportunidade de 
todas as perturbações adstrictas ao estado neuras- 
thenico ; vem entào, entre outras, a arithmomankf 
tào vulgar nos grandes homens e denunciada em 
Zola pelo medico Toulouse, a onomatomania^ possí- 
vel de encontrar num estudo attento d^alguns dos 
mais salientes mattoides da litteratura symbolista, 
uma serie longa de obsessões e impulsões que po^ 
dem levar até ao crime, a loucura da duvida de 
Legrand du SauUe e as phobias. 

E digo obsessões e impulsões apesar dos reparos 
que possa suscitar a propositada associação d'estes 
dois termos. Porque realmente a coexistência do 
dois syndromas em alguns estados mórbidos náo é 
facto que tenha passado sem reparo por parte de 
alguns auctores. Ainda náo ha mnito Soukhanov 
publicou na Rousski Vralch * um estudo sobre a» 
ideias obsidentes e actos impulsivos (Naviazt mysli 
i impuUivnya deYstvia) pondo em contradicçáo çis 
duas ordens de phenomenos e constatando, em caso 



* J, ViRÉs : Maladies nerreusesj 1902, p. 404-410. 
« T. 11, n.° 15, p. 561. 



CAMILLO 163 

excepcional de existência simultânea, uma fraqueza 
congénita das inhibições moraes ou um enfraqueci- 
mento de senso moral. Mas o facto irrecusável, se- 
jam quaes forem as razões que o justifiquem, é que 
obsessões e impulsões apparecem associadas em 
alguns processos mórbidos, completando-se. Tal o 
caso, vulgarissimo nos estados neurasthenicos, d'um 
doente que, obsidiado pela ideia de não praticar um 
certo acto, a meio da sua angustia e não podendo 
resistir a uma impulsão^ o effectua. « Muitas vezes 
a obsessão — diz Weygandt ^ — estende-se ao do- 
mínio psycomotor e torna-se então uma. impulsão^ . 
«Todos estes phenomenos, obsessão e impulsão — 
observa Rémond * — são em realidade da mesma 
natureza; comportam uma fraqueza de vontade». 
«A questão está em saber — argumentam outros 
illustres psychiatras * — se as obsessões caracteri- 
zadas pela phobia d'um acto, isto é, por uma repul- 
são anciosa por esse acto, se relacionam de qualquer 
modo com as obsessões impulsivas, ás quaes, ao 
primeiro aspecto, parecem oppôr-se inteiramente- 
Em theoria, a questão não offerece duvidas e, pois 
qne toda a ideia d'um acto é um movimento que 
começa (Fébé), o medo de effectuar um acto deve 
ser uma teadencia para esse acto ... Os próprios 



* Ob. cit, p. 245. 
« Ob. ciU p. 117. 

' A. PlTRÉS et E. RÉGIS : Les ohsessions et les impidsions^ 
M\ p. ltl.113. 



164 CAMILLO 

doentes, que em geral se observam bem, dizem indif- 
ferentemente : Tenho medo de ser obrigado a fazer 
isto ou Sou impelUdo, sinto vontade de fazer isto- 
Noutros ha a coexistência de phobia e propensão 
impulsivas, e em alguns, finalmente, a phobia ter- 
mina pela impulsão.» «A impulsão mórbida — con- 
clue Dallemagne na sua Pathologie de la volonté— 
não é mais que o ultimo acto de uma espécie de 
drama cerebral que começa pela obsessão e continua 
pela ideia fixa. 

Assente pois a opportunidade das perturbações 
nevrasthenicas, preparado o terreno, inutilizada de 
vez a resistência, a nevrose pode, á larga, coin- 
quinar o espirito. Na obra de Camillo, e nomeada- 
mente nas suas cartas, preciosas como documentos 
de analyse noologica, ha a revelação, mais ou menos 
precisa, d'um numero avultado de phobias. As que 
mais notavelmente predominam são a pathophobia 
ou nosophobia (horror ã doença) que, tomando por 
vezes o caracter obsessivo, nelle chegou quasi a 
constituir uma verdadeira nosomania^ e a thanato- 
phobia (horror â morte), consequência natural da- 
quella, que actuou com uma intensidade se é pos- 
sível superior ainda e correu a par d'essa mórbida 
tendência para o suicidio que em Camillo se revelou 
desde bem cedo. Assim, folheando a Correspondência 
epistolar entre José Cardoso Vieira de Castro e Ca- 
millo Castello Branco na parte qué contém as cartas 
de Camillo, escriptas no periodo decorrido de 70 a 
72, encontram-se phrases como estas : <r Bj-çito-me no 



CAMILLO 165 

cabo da vida Estou táo doente que á uma 

hora da noite passada dei um beijo no meu Jorge 
cuidando que ia morrer. Foi uma ameaça de con- 
gestão cerebral que mais hoje mais amanha^ me 

fulmina Esta noite passei peor ; mas ainda 

assim conservei-me na cama. A grande desgraça é 
quando lâ nâo posso estar. Parece que me faz horror 

a posição horizontal da sepultura Não me 

consideres encarecedor dos meus padecimentos. Eu 
estou gravissimamente doente e decerto te não vejo 
mais Agora, depois que estas creanças brin- 
cam felizes na minha negra atmosphera e á respi- 
ram com delicias, a morte apavora-me Esta 

infelicidade de doença não me deixa ir vêr-te. Fi- 
gura-se-me que me ha-de apanhar longe de casa 

uma febre cerebral Comprehendo que as 

moléstias te dobrassem mais cedo que as desgraças 
moraes. Se eu ha doze annos, quando comecei a ser 
tão infeliz, padecesse como hoje, ter-me-ia mata- 
do. . . . . Se ainda a muito custo escrevo d'isso 
que vês, antevejo a completa paralysia do cérebro, 

e em seguida a morte A cura é impossivel. 

Não se regenera o sangue em circumstancias de 

vida táo deletérias A minha enfermidade 

não cessa nem me deixa esperar melhoras » * « Te- 
nho — dizia elle, em novembro de 79, numa carta 



u— --» 



> Corr. Epist. T. i, p. 32 ; T. n, p. 21, 51, 62, 109, 133^ 
144, 145, 173 e 177. 



1G6 CAMILLO 

ao sr. Silva Pinto * — a, não sei se triste se alegre 
convicção de que vou emfim descançar brevemen- 
te». * «A preocupação da morte — diz o sr. padre 
Senna Freitas no seu estudo biographico* — é ain- 
da mais familiar na sua penna. Chega a ser uma 
obsessão, como o precipicio de Pascal». «A cada 
passo — conta o sr. Alberto Pimentel num dos seus 
livros ' — Camillo, imaginando os symptomas d'uma 

doença grave, chamava afflicto por D. Anna 

Uma vez, Camillo estava no periodo de se julgar 
muito doente e não querer sahir de casa. D. Anna 
Plácido pediu, instou, supplicou a Camillo que 
fosse dar um passeio com um dos amigos que o 
visitava. Camillo resistia, dizendo que não tinha 
forças, que iria morrer de inanição no meio da rua, 
porque havia muito que se alimentava mal. — Vou 
dar-lhe o desgosto de mo)*rer na rua^ disse elle ao 
amigo.» Quando, depois da morte do romancista, 
o sr. Alberto Pimentel esteve em S. Miguel de 
Seide, um vizinho de Camillo e seu dedicado ami- 
go, o sr. Francisco Correia de Carvalho, observou 
a alguém que rememorava as circumstancias em 
que se deu o suicidio : « — Na véspera tinha an- 
dado a passear pelo meu braço ali no largo, em 
frente da egreja. Como começasse a soprar uma 



» Ob. cit., p. 23. 

2 Perfil de Camillo Castello Branco. Nova edição, 1888, 

p. 29-30. 

^ Os amores de Camillo. 



CAMILLO 167 

aragem fresca, o sr. visconde disse-me: Vamos em- 
bora^ que tenho medo de uma pneumonia. Ainda na 
véspera do suicidio temia tanto a morte!» * 

Eu disse que a thanatophobia correu a par da 
tendência para o suicidio, que em Camillo se re- 
velou desde bem cedo. Essa circumstancia, appa- 
rentemente paradoxal de o horror â morte condu- 
zir com frequência ao suicidio, citada por alguns 
auctores, mereceu a Nicolau um desenvolvido es- 
tudo. * E um facto sem duvida interessante mas 
para encontrar um paradoxo no qual nós teríamos 
em boa razão de considerar o suicidio resultante 
d'um raciocínio são, cahindo assim num paradoxo 
tanto maior quanto elle aqui se dà num caso con- 
fesso de desequilíbrio anterior que as phobias des- 
cortinam. 

Entre estas notarei mais a celaphohia (horror 
aos ruidos), consequência natural da peresthesia 
dos seus ouvidos hyperacusicos, que durante a vida 
toda lhe fez um dos maiores dos seus tormentos. 
« Cá tenho o ferro em braza na cabeça » — escreve 
«lie em carta a Vieira de Castro. E ainda : « Es- 
erevo-te com cabeça empanada em parches de vi- 
nagre. O que eu sinto ha doze noites seguidas é um 
«strondo infernal nos ouvidos, uma zoeira de cata- 



1 



Alberto Pimentel: Os netos de Camillo^ 1901. 
* Thanatophohie et suicide. Annales méd. psychol. 18í)2, 
T. XV. 



168 CAMILLO 

dupas que me náo deixa estar sequer cinco minutos 

deitado. Tenho phrenesis que me despedaçam 

O peor é este rolar de trovões que me estruge na 
cabeça. Ora vê tu, meu caro José, que desesperação 
náo poder eu um instante fazer calar estes estron- 
dos, e tamanhos que me acordam em sobresaltolA 
medicina náo tem nada para isto ! Tunào ima- 
ginas os dolorosos caprichos doesta enfermidade 
que me está despedaçando. Lá vejo no ceu a lua 
serenissima. O estrondo que me reboa nos ouvidos 
náo me deixa ouvir o mar. Assaltam-me ímpetos de 
loucura quando penso que este inferno não ha-de 

passar Escrevo devagar porque tenciono con- 

centrar-me quanto possa e porque acho difficuldade 
em escrever. Este incessante estrondo na cabeça 
dia e noite, chega ao extremo de me pôr deante a 

morte como único remédio Este tormento do» 

ouvidos é d 'uns que eu d'antes imaginava que ine 
endoideceriam se durassem uma hora. Como se nâo 
bastassem vinte meses de ouvir incessantemente 
uma zoeira de mar tempestuoso e um silvo de va- 
por, accresceu agora a dor penetrante de lado ^ 

lado Hoje estou soflfrendo muito da zoeira ® 

d'uns vagados que me assustam... Se me diss^^ 
«3m antes de eu adoecer que havia de estar assi^ 
dois annos, eu cuidaria que ao fim de poucos di^^ 
preferiria a morte». * 



Corr. Episi. u p. 27, 33, 58-59, 62, 69, 97 e 133. 



CAMTLLO 169 

Poderei ainda citar a, antropophobia (horror á 
multidão) e a monophobia (horror a estar só) oppos- 
tas, alternando-se nos períodos de abulia mais inten- 
sos. « Aquelle que escreve estas linhas — disse um re- 
dactor d'0 Mundo, dando noticia do meu esboço de 
crítica sobre o grande romancista ^ — viu, uma vez^ 
receber-se numa estação telegraphica de Lisboa um 
telegramma lancinante de Camillo. Era dirigido a 
Fernando Palha, com quem o illustre escriptor se 
relacionara, cremos que em virtude de investiga- 
ções históricas a que ambos se dedicavam. O tele- 
gramma dizia pouco mais ou menos, isto : Estou 
aqui, na Povoa (sería na Povoa? não temos a cer- 
teza) só e abandonado. Venha v, ex,^ ver se me salva,, 
levando-me para Lisboa, O resto é textual, de tal 
forma se gravou no nosso cérebro, então de creança^ 
este gríto de mortal desamparo. Este telegramma 
deve ser de 1888 ...» 

Poderei citar a photophobia (horror á luz) coin- 
cidiu com os primeiros assomos das perturbações 
visuaes. «Basta dizer-te — confessa o próprio Ca- 
millo nas Vinte horas de liteira — que escrevo sem- 
pre àluz do crepúsculo. Os meus olhos não compor- 
tam outra luz. Quando os dias estão lucidissimos do 
brilhantismo do sol, eu tomo do favor de Deus a 
frouxa claridade de um raio coado por transparen- 
tes negros. O meu gabinete de trabalho, durante os 



N.e de 26-6-1900. 



170 CAMILLO 

meses explendidos do anno, e um continuado co- 
meço de noite » . 

Poderei citar ainda a keronauphobia (horror á 
obscuridade) manifestada, mais tarde, quando a 
affecçào visual tomou caracter grave. Em 1885 — 
conta o sr. Alberto Pimentel ^ — estive em casa de 
Camillo, na Povoa de Varzim, e ahi lhe li o ori- 
ginal dos IdylUos dos reis, Quatorze luzes, em duas 
serpentinas de sete castiçaes cada uma, illumina- 
vam a sala, que aliás era pequena. Era assim que 
Camillo queria afugentar as trevas que avançavam». 

Depois, ainda, a phóbophóbia (horror ao medo), 
com os seus terrores mórbidos, c Esgotado de for- 
<;as — diz ainda o sr. Alberto Pimentel * — exal- 
tada a imaginação como fornalha accêsa, CamiUo 
«ra dominado por tenebrosos pavores, visões tor- 
turantes ...» 

Por fim, a pantophobia (horror a tudo) e, restn- 
ctamente a biophobia (horror â vida) antecedente 
natural do suicidio. 

Como signal d'um estado pathologico mais g^' 
ve, as obsessões e as impulsões fizeram-se sentia 
no romancista, mas d'uma forma velada, revela'^' 
do-se apenas num ou noutro ponto mais salient® 
da sua vida publica e não dando margem, poriss<^ 



'^ O romance do romancista. 
* Os amores de Camillo, 



CAMILLO 171 

é 

mesmo, a uma anályse perfeita. Talvez a manifes- 
tação obsessiva mais perfeitamente caracterizada 
fosse o amor, esse amor mórbido que corre de- 
finido em livros como «a hypertrophia d^im sen- 
timento verdadeiro e, por consequência, um caso 
pathologico» ^ Camillo foi nitidamente um ne- 
vropatha amoroso. Não teve perversões, é certo, 
mas amou á doida, com um exclusivismo que em 
certas épocas da sua vida punha de parte qual- 
quer consideração d^uma outra ordem e bem se 
pode, sem esforço, comparar, em quadro de noso- 
logia, á ideia fixa. EUe não seguiu aquelle con- 
selho d'um personagem de Musset: «Usae do amor 
como um homem sóbrio usa do vinho ; não vos 
embriagueis». * Embriagou-se, exagerou: e a ten- 
dência para a exageração de todas as sensações 
penosas ou agradáveis, nos doentes neurasthenicos, 
procede da própria natureza da doença, d'essa dimi- 
nuição de energia moral que é um dos seus cara- 
<iteres mais salientes '. Violento e inconstante, ^ 
soffrendo todo o dispêndio nervoso d^essa violência 
^ toda a dor moral d^essa inconstância, elle escreveu 
íium romance * estas palavras, que são um precioso 
documento para o estudo da maneira de ser do seu 
amor: 



^ Emile Laurent: Vamour morhide, 1896, p. 82. 

* A. DE Musset: La confession d^un enfant du siècle* 
^ BouvERET : Ob. cit, p. 74. 

* Onde está a felicidade ? 



172 CAMILLO 

« Moralistas, dae-nos uma £gà de azeviche para 
afugentar o demónio da tentação : traze-la-hemos 
devotamente sobre o espirito fraco, o espirito ma- 
leável, que se presta a todas as formas, esse cama- 
leáo intimo que varia de cor a cada novo raio de 
luz dos últimos olhos que o fixam. Corrigi os de- 
feitos do sj^stema nervoso de Guilherme. Transfaa- 
di-lhe um sangue mais sereno, menos irritável, nas 
artérias. Dae-lhe o remanso da paz no regaço de 
uma mulher, seja ella rainha, ou costureira. "Remi-o 
da infelicidade que traz comsigo a inconstanci»»- 
Fazei que elle não chegue aos trinta annos detes- 
tando as vinte variedades de mulheres ^ que c^^' 

• 

nheceu, e detestando-se por ter abusado das fac^^^ 
regalias, que o oiro, a juventude, e a seducção Ifc»© 
serviam em mesa de risos e venenos, como il^^^ 
festins dos Borgias. Arrancae-lhe do fundo do s^i^ 
o espirito inquieto, que principia por travessura^^y 
e acaba em ciúmes rancorosos : insufflae-lhe lá urd^ 
alma nova, pacifica, fácil de nutrir-se, parca ^ 
susceptivel de adormecer na paz podre de um^ 
amisade burguesa, e estupidamente feliz . . . Mora- 
listas, quando tiverdes descoberto o processo da 



^ «D. JoãOf num momento de humor sotnbrio dizia-m, 
em Thorn : Ha só vinte variedades de mulheres, e logo que se 
conhecem duas ou três de cada variedade, começa o fastio, — 
Stendhal, Physiologia do amor, cap. Lix. — O auctorconhec» 
vinte e uma variedades ». 

(Nota de Camillo). 



CAMILLO 173 

encadear o espirito, devereis erguer um cadafalso 
para os iufames voluntários, que arremessarem a 
mulher ao abysmo ...» 

Nessa mesma paixão por Anna Plácido, a mais 
violenta talvez, com ser a ultima, a saciedade veio 
dentro em pouco, e a vida seguinte, com ciúmes, 
recordações de tempos idos, insultos até, a essa 
nulher em quem elle teve, ao que se diz, uma en- 
fermeira dedicada, — foi toda ella uma expiação 
truciantissima. Não é preciso recorrer ao relato mais 
>u menos fiel de testemunhas para conhecer a his- 
oria d^essa ligação com Anna Plácido, depois do 
:>eriodo romanesco da prisão e do idyllio; basta 
transcrever algumas paginas do livro de Camillo 
!Vò Bom Jesus do Monte. Nesse livro, publicado pela 
Drimeira vez em 64, e no qual o auctor evoca todos 
Ds periodos da sua permanência no Bom Jesus, vêm 
elementos bastantes para a reconstituição d^essa 
historia maguada e melancólica de desillusão e des- 
alento. São palavras d'elle, na parte relativa a 1858: 
«Estava ella sentada num cômoro ta pecado de 
relva. Ao seu lado, com a fronte pendida ao hombro 
d' ella, estava a irmã, quinze formosos annos, um 
<íoraçáo de Deus. Olhavam ambas contra as agulhas 
do Gerez toucadas de névoas. E eu, que pedia ao 
Senhor um sorriso d^aquella mulher, e depois o 
somno do infinito esquecimento, abria uma letra 
num tronco e dizia, no recesso de minha alma: EUa 
hu de vê'la, Ouvi-lhaa voz: cantava no tom abafado 
de quem quer ser somente ouvida em seu coração. 



174 CAMILLO 

Onde podia ir aquella toada saudosa? Eu estava 
ali, eu, que Ibe daria o meu seio, a minha juventude, 
a minha honra para escabello dos seus pés ! Onde 
podia ir aquella toada saudosa? Oh Belleza eterna 
e Verdade eterna! oh Suprema Inteliigencia, que 
bafejaste á minha alma o calor das inextinguíveis 
paixões, rompe essa represa de lagrimas, e lavem- 
me ellas a nódoa do crime, se em amâ-la injurio as 
vossas leis e postergo os deveres da humanidade! 
Assim orou o meu espirito ao Espirito do Senhor. 
E, adormecendo com a face encostada ao musgo 
do rochedo, sonhei este sonho: Era num cárcere; 
eram tresentas e noventa noites de cárcere. Eu 
estalejava de frio e horror. As multidões premiam- 
se ás rexas das minhas grades e cuspiam-me no 
rosto, conclamando : Maldito! E eu, debulhado em 
lagrimas, dizia : — Deixai-me a honra do coração, e 
macerai-me as carnes, e triturai-me os ossos. E o 
sonho continuou. Era no hospital. Eu inclrnava o 
peito, crivado de dores, sobre uma banca para ga- 
nhar, escrevendo e tressuando sangue, o pão diurna 
familia. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas 
precursoras da cegueira. E eu escrevia, escrevia 
sempre. E das fadigas incomportáveis do lavor ia 
a refrigerar-me a fronte ao espirar reanimador da 
mulher amada, e servida com a immolação de todos 
os desejos, das esperanças todas. E era esta mulher 
a que eu vira sentada no cômoro tapeçado de ver- 
dura no Bom Jesus do Monte. E ella repellia-me, 
dizendo : — Tenho direitos d luz dos teus olhos, ao 



CAMILLO 17& 

sangue das tuas arteriaSy e ao ar dos teus pulmões. 
Trabalha, escravo / E o sonho continuou : Cahia o 
derradeiro bago da ampulheta do sexto anno de 
martyrio. Era por noite horrenda... O anjo ré- 
probo da perdiçào d^aquella mulher com um stylete 
de fogo, avincou-lhe na fronte um lemma ignomi- 
nioso! E o anjo da salvação, triste, ajoelhado, com 
os olhos no ceu, chorava. E o réprobo, numa toada 
de infernal escarneo, levantava este cantar: 



E o anjo bemdito, num suspriar de gementes no- 
tas, dizia: 



Não és culpada ; és escrava 
Da tua estreita funesta. 
A sorte abysnws te cara 
E tu pões o pé na aresta ! 



E o anjo precito : 



E és cega ! e nessa lama. 
Em que te vês immergida. 
Ainda tua voz clama : 
€ Gloria á mulher perdida ! » 



Assim, no original. 



176 CAMILLO 

Acordei ! O ceu estava lindo e sereno como a 
terra ! Gloria a Deus ! que estes horrores só pode 
concebê-los a alma sonhando. Oh ! a mulher for- 
mosa, a santa do meu amor, a immaculada que eu 
manchei num sonho, aquella mulher. . . Morreu!» 

E, na referencia a 1863 : 

«Já outro coraçáo, outra alma e outra luz! Es- 
tavam apagadas as lâmpadas eléctricas dos meus 
arvoredos. As arvores... eram troncos e folhas. O 
<jeu era o espaço interposto aos corpos luminosos e 
opacos. A agua das fontinhas era a combinação de 
88,91 partes de oxigénio com 11,09 de hydrogenio. 
O sol era o centro do systema planetário. A noite 
era um processo escuro de bronchites. E eu... 
^ra o homem da natureza. E, por. isso, naturalmente 
me constipei, assim que da calma do caminho pas^ 
sei á frescura das sombras. E eu d 'antes não me» 
constipava. Era clima de Parãizo terreal para mim, 
aquelle ! Bastava-me a lava interior para reagir 
ás frialdades da periferia. A sombra dos meus 
plátanos nunca me havia instillado aos bronchios 
uma gota de peçonha. As almofads-S de relva, 
quando me eu deitava por aquelles combros, nunca 
me coaram aos ossos o rheumatismo. E agora, arra- 
zado o viveiro d 'oiro d 'onde me sahiam as pombas 
cândidas das minhas chimerás, todo o meu ser ali 
era um gemer de entrevado, que se contorce em 
angustia. Ao meu lado, á cabeceira do meu leito 
de enfermo, com o cotovêllo appoiado ao traves- 
seiro húmido de minhas lagrimas, estava, uma visão 



CAMILLO 177 

maldita do Senhor, o ministro da flagellação expia- 
tória dos erros de minha vida. A sua boca extra- 
vasava de sarcasmo ; dos olhos corusca vam-lhe as 
faúlas, que resaltavam do coração feito braza in- 
fernal; o bafo rescaldava, como lingua de fogo. 
Era assim a visão maldita do Senhor. E eu, com o 
peito arquejante de anciãs, punha aos lábios o tra- 
vor d'aquelle cálix, e dizia: Amplius, amplitis, 
Domine! Quando eu, através da vidraça, expraiava 
os olhos por aquelle ceu, dizia abafando os soluços : 
Oh ceu das minhas alegrias ! oh alva nuvem onde vos 
zyejo ir amortalhadas ! oh cantoras das selvas, os vos- 
sos regorgeios já me soam como o gemer da ave 
7ii/be}*nal sobre um tumulo. E chorava sem vexames 
dos meus cabellos brancos. E o Senhor, depois que 
«XI chorei muito, mostrou à minha escuridade um 
eomo lampejo de gladio na mão de um archanjo 
de semblante formidável de pavor. Estremeci até 
á medula dos meus ossos, e ouvi : — Expia ! E, 
desde aquella hora^ as minhas agonias tem a do- 
çura do escravo, que conta os dias do captiveirp 
remissivel. Bemdito sejaes. Senhor Deus de Saulo, 
que vos amerciaes do delinquente, afogando-o na 
onda da agua amaríssima de expiaçãp ! » 

E numa pagina das Scenas innocentes da comedia 
humana: 

*Eu pedira a Deus a paixão em que um dia de 
prazer custa annos de agonia. Pedi-lhe o flagellp 
do ciúme, e o Senhor pôs a meu lado o anjo mal- 
dito que matara Desdemona,^ e anojara um cadáver 

12 



178 CAMILLO 

aos pés de Carlota. Unia tortura para cada fibra, 
um rugido de homicida para cada homem que a 
contemplava, e, podia, no secreto da sua phantasia, 
imaginar o sabor de um beijo dos lábios d'ella» 
Tinha amigos, e injuriei-os e perdi-os para que m'a 
náo vissem. Escutava-lhe anciado as palavras do 
sonho, e contemplava-lhe o seio com o amor verti- 
ginoso de um louco, e a insânia furiosa de quem qui- 
zera na ponta de um punhal roubar-lhe o segredo 
do coração. E, se ella balbuciava, num vagido in- 
fantil, o meu nome, os meus lábios convulsivos res- 
pondiam-se com um beijo em que me sahia da alma 
o inferno incomportável da duvida. Ella dissera-me 
um dia: Sou a tua mulher fatal! Eu fitei-a com o 
assombro de homem, afíeito a vêr na mulher a 
creatura frágil, a linda e quebradiça argila que náo 
podia conter seis lagrimas sinceras de um coração 
varonil. Sou a tua mulher fatal! Contemplei-a^ 
ouvi-me da voz da consciência que nunca invocara 
para as chimeras do amor, e a consciência disse-me: 
Será*, 

Finalmente na Becapitulação, ainda do livro 
No Bom Jesus do Monte: 

«... circumvaguei um extremo olhar ás minha» 
arvores. Depois, no cercado da ultima capella, en- 
costei a face ao musgo de uma rocha, puz o meu 
espirito no remoto ponto dos vinte e sete annos 
passados, desde a primeira vez que ali viera, e 
desci discorrendo até áquella hora derradeira. A 
•cada passo tropeçava num tumulo 



CAMILLO 179 

« A mulher da paixão, que eu, no pavor da minha 
soledade, pedira ao Senhor; 

«A mulher que me acorrentou a um cadafalso 
de supplicios ignominiosos ; 

« A mulher que me levou as virtudes da alma e 
o pudor do coração, quando eu já não tinha lagri- 
mas, que me ella pedisse ; 

«A mulher, a quem a Providencia divina, em 
sua ira justiceira, atirara aos gryphos do dragão do 
mundo, contra o qual eu puzera o peito, emquanto 
o coração teve sangue que expedir; 

« A mulher que me fez odiar a justiça de Deus, 
e insultar a providencia dos homens ; 
« Essa mulher morreu. » 

Essa mulher morrera de facto, porque o amor de 
Camillo por ella entrara para o numero d^aquellas que 
elle mesmo chamava as «afifeições cahidasà voragem 
infernal do desengano» *. Deixara-lhe a saudade, é 
certo, a saudade d^uma paixão arrebatadora e ar- 
dente, mas essa mesma envenenada pelo remorso, 
um remorso doentio que imperou como uma obses- 
são de terror nos derradeiros annos da vida de 
Camillo. Em todas as suas amarguras elle via o 
castigo de Deus e na tranquillidade que buscava para 
o corpo e para a alma, longe dos ruidos das cida- 
des, na serena quietidão d'um recanto minhoto, 
ali mesmo, em Seide, * havia a atormentarem-n^o 



Camillo: Atnôr de salvação. 



180 CAMILLO 

— diz um seu biographo ^ — espectros sinistros, 
sombras, phantasmas, visões de remorso, e nos 
pinhões gementes^ que rodeavam a casa, gritos de 
maldição, clamores de vingança, que elle, desde a 
morte de Pinheiro Alves, jamais deixara de ouvir». 
Em 9 de março de 88, Camillo desposou finalmente 
Anna Plácido. Cerimonia breve e muito intima 
realizada de noite na casa da rua de Santa Catha- 
rina, no Porto, onde, ao tempo, estava residindo. 
Pensa o sr. Albert® Pimentel que o grande escri- 
ptor casou a instancias de amigos seus e cita mesmo 
os nomes dos srs. Joaquim Ferreira Moutinho e 
cónego Alves Mendes ^. A mim me quer parecer 
que ao remorso de Camillo e aos seus escrúpulos ao 
aproximar da morte se deve attribuir essa reso- 
lução. De facto, jâ em 1879, nove annos antes, 
Camillo pensara em se casar com Anna Plácido 
quando, sabendoa com uma angina-pectoris, a con- 
siderou perdida. «Se ella morre —dizia elle então 
numa carta ao sr. padre Senna Freitas ' — a sau- 
dade ha de pungir-me com o remorso de a não ter 
honrado aos olhos dos filhos e do mundo.» Em 88, 
Camillo estava atravessando uma mais intensa crise 
de desanimo atroz. O sr. Alberto Pimentel afirma 
no Romance do romancista^ referindo-se a esse anno, 
que Camillo « numa hora de maior desalento, resol- 



^ Alberto Pimentel: Os amores de Camillo. 

2 Os amores de Camillo, 

3 Cartas inéditas. (Vôr nota è). 



CAMILLO 181 

veu partir para o Porto. Nào era entào Anna 
Plácido que se podia considerar perdida ; era elle 
que a si próprio, com a consciência perfeita do mal 
que o perseguia, se considerava assim. De novo 
apparecia o perigo de aquella ligação se quebrar 
pela morte antes que elle houvesse «honrado aos 
olhos dos filhos e do mundo» a mulher que por 
amor d 'elle se perdera. 

As transcripções que ha pouco fiz de trechos da 
obra de Camillo, em que mais ou menos isoladamente 
se allude ao seu caso d^amôr, dão-me o azado ensejo 
de dizer que Camillo, como quasi todos os neuras- 
thenicos, vivia muito do passado, comprazia-se em 
Tecordar os mais gravativos incidentes da sua agi- 
tada vida de aventuras, e por tal forma que d'esse 
facto, junto com a qualidade, mórbida também, da 
inconfidência, deriva o fundo de uma grande parte 
das suas obras. 

Tinha ainda Camillo, bem marcada, essa tendên- 
cia pathologica para a auto- observação de que quasi 
sempre a neurasthenia se acompanha, e pena foi 
que a falta de conhecimentos de psycopathia, o tenha 
iahibido de dar a esse inquérito de cada instante 
uma orientação mais proveitosamente scientifica. 
Se algum medico, amigo de Camillo e jâ versado 
ua maneira moderna de considerar os males da 
alma, colheu d'uma observação directa e minuciosa 
os dados preciosíssimos que só uma observação 
assim nos pode dar, o resultado do seu trabalho 
ficou occulto ; de modo que quem hoje queira con- 



182 OAMILLO 

scienciosaraente fazer a critica, encontra a cada 
passo lacunas insuperáveis, abertas a hypotheses 
sempre vagas pela impossibilidade de as verificar 
com segurança. Assim, se nem sempre o quadro 
nosographico nos apparece mais ou menos integro, 
náo é bem porque Camillo deixasse de ser aquillo 
que em medicina se costuma chamar um bom caso, 
mas porque a documentação de certos symptomas 
não é tão completa, que por si só nos consinta, sem 
escrúpulos, registá-los. De resto, para o estudo 
perfeito d^um exemplar como Camillo, haveria a 
pôr em pratica, durante a sua vida, um certo nu- 
mero de methodos de observação cujos dados seriam 
d'um valor indiscutível. Seria mister recorrer á 
anthropologia, effectuando as mensurações cranea- 
nas, á analyse das urinas, ao hydrophymographo e 
ao myographo, para o exame do apparelho circula- 
tório e da emotividade do doente, seria mister 
estudar rigorosamente os phenomenos da sensibili- 
dade geral e também os órgãos dos sentidos, espe- 
cializando no nosso caso o campo visual, e, além de 
tudo isso, fazer mil outras observações que se torna- 
ria longo e fastidioso enumerar inutilmente. Mas o 
facto de faltarem elementos de importância não po- 
deria nem deveria impedir que eu dirigisse o meu es- 
tudo com a única orientação compatível com o rigor 
scientifico da critica moderna. Seria improductivo 
fazer psycologia sã num homem como Camillo, em 
quem os stygmas mórbidos se accentuam d'um modo 
tal que fere mesmo aquelles menos versados em coi- 



CAMILLO 183 

sas d'essas, e a própria critica litteraria da obra gera- 
da nos períodos exacerbados d'uma nevrose intensa 
havia, por força, de sair falsa, convencional, posti- 
ça, a debater-se em meio de adjectivos incolores e 
de afirmações incom provadas. 

Neste capitulo do meu trabalho, ficam jà regis- 
tados vários symp tomas mórbidos que me auxiliarão 
a fixar d'aqui a pouco um diagnostico provável : a 
abulia, as phobias, as obsessões e as impulsões, a 
irregularidade característica do trabalho, o exagero 
de todas as sensações, a inconfidência, as tendências 
para recordar o passado e para a auto-observaçáo, 
os pavores nocturnos e os phenomenos peresthesl- 
-cos. Citarei ainda as insomnias, as vertigens, os 
estados hypocondricos, a vagabundagem, e também 
as dores nevrálgicas, a atonia gastro-intestinal, a 
dispepsia, a surdez, toda a serie longa das pertur- 
bações visuaes, manias persecutória e das grandezas, 
e ainda certos caracteres que Lombroso e outros 
auctores attribuem aos homens de génio, taes como 
a procura constante do termo raro, a perda de senso 
moral, as desigualdades psychícas, a interpretação 
mystica dos factos mais simples e o misoneismo. 
Todos estes últimos são phenomenos complexos que 
necessitam d^uma mais detida prova. Para a de- 
monstração dos primeiros é fácil encontrar docu- 
mentos na sua própria obra. 

Para as insomnias, por exemplo, occorrem-me 
algumas phrases de cartas a Vieira de Castro, in- 
sertas no segundo tomo da Correspondência episto- 



184 CAMILLO 

lar^. «Só duas linhas — escreve Camillo ao seu 
amigo — porque a minha doença me náo permitte 
mais. Ha cinco dias e noites que apenas consegui 
dormir a somma de seis horas A noite pas- 
sada foi das taes medonhas. Náo consegui dormir. 
Já náo descanso sem narcóticos que cada vez mais 
me desafinam os nervos. As minhas cartas estão 
sendo para ti, meu filho, um boletim sanitário. Eu 
sei que em verdade te interessas na minha vida^ 
porque tenho de consciência que me julgas um dos 

teus mais affligidos amigos Ha quatro noites 

que apenas durmo instantes». 

Para prova da vagabundagem, servem precisa- 
mente estas palavras d'uma carta escripta ao sr. 
padre Senna Freitas : ^ « Se vou para o Porto, com 
intensão de lá estar 15 dias, apenas lá estou uma 
noite cruel de insomnia e anciedade de me safar». 
E ainda estes periodos de cartas ao Visconde de 
Ouguella: «Amanhã volto para o Bom- Jesus ; mas 
se me escreveres seja para Famalicáo. Náo paro. 

Custa-me a immobilidade Já náo sei onde 

hei de estar. Em 15 dias ensaiei quatro paradeiros^ 
uns nas montanhas, outros nas praias. Em toda a 

parte o tédio, o asco das cousas e das pessoas 

Vim de Vizella hontem, e náo sei para onde irei 
amanha». 



1 P. 32, 47 e 63. 
« Ob. cit. p. 139. 



CAMILLO 185 

Sobre os outros aymptomas mencionados, posso 
citar ainda alguns trechos das cartas de Camillo, náo 
esquecendo também a sua phrase da Maria da Fonte: 
«Eu vim d'ahi, de cólica em cólica intestinal, até 
esta ruina gástrica que sou hoje ». «Eu ha dez dias 
q^ue passo as horas a contorcer-me numa nevralgia 
que jà me tem posto deante dos olhos o recurso 
do suicídio — escreve elle a Vieira de Castro — 
Os meus padecimentos voltaram. Estou escre- 
vendo ás seis da manha. Passei toda a noite com 
a cara nos vidros à espera do dia. Imagina, meu 
íilho, um espasmo nervoso no esophago que só com 
xnuito custo me deixa respirar e á força de anti- 
Itistericos. Por cima d'isto, o estrondo de uma azenha 
:11a cabeça, aquillo que Henry Heine sentia quando 
escrevia no Livro de Lazaro: No fundo do meu 
M^rébro vae um ruidoso desmancho. Depois a fra- 
<iueza que me náo deixa ter em pé e a impossibili- 
dade de estar quieto. Náo se pode viver assim 

A noite passada deitei-me com esperanças de ador- 
mecer. Ergui-me logo e vi romper o dia e esperei 
que me deixasse uma dor nevrálgica que veio so- 
bredourar a insomnia, o espasmo, a zoeira e toda 

esta admirável cadeia de nevroses Antes de 

hontem reuni aqui três médicos. Náo sei o que 
pensam de mim. O de Braga chama gastralgia á 
moléstia. O de Guimarães também. E o das Taypas^ 

que cura ha 60 annos, ainda não sabe o que é 

A noite passada dormi regularmente. De oito em 
oito dias tenho assim um remanso As noites 



186 CAMILLO 

«ão as mesmas e atribuladas. Hoje veio uma sobre- 
carga de dores nervosas nas pernas que me pri- 
vam de andar Estou de cama : perdi ambos 

os ouvidos: ficaram-rae horrendas dores que me to- 
mam toda a face Ha cinco dias que padeço 

mais e muito. No dia quinze d'este mês faz um anno 
que eu tive a primeira congestão. Náo creio que estes 
ataques tenham prasos fataes ; mas ó certo que os 
padecimentos se agravam com a aproximação do 

calor A minha enfermidade até já me faz 

angustias se me demoro segundos a escrever. Não 
ha palavras para o que soffro ; é a anemia mais 
desgraçada que pôde dar-se. O meu cérebro está 
ralado e dissolvido em sangue Os meus pra- 
zeres neste antro chamado o viver são as poucas 
horas em que durmo se as não sobresaltam as ne- 
vroses súbitas ou os sonhos horrendos que me 
prostram a alma». ^ <yHontem estive de cama a 
curtir um começo de bronchite e a cevar as dores 
da perna com o Pain-Killer, uma mixordia ameri- 
cana que me leva a epiderme e me deixa as dores 

— escreve elle ao sr. Silva Pinto — Estou de 

cama, com as mesmas dores de velhice. ..... Já vê 

que lhe escrevo na cama, moido de dores, e ancioso 

por isto acabado FaJcir soa como pobre nas 

linguas semíticas. Escrevo-lhe desama com muitas 



1 Corr, Epist, t. II p. 16-17, 40, 43, 44, 49, 64, 96, 158, 
174 e 183. 



CAMILLO 187 

dores de olhos e de pernas, como um fakir da peor 
raça estropiado». ^ «Estranhei pois — diz o roman- 
cista numa carta á sr.* D. Maria AmaUa Vaz de Car- 
valho publicada na Bohemia do espirito — que V. Ex.* 
me nâo felicitasse por estar surdo, quasi cego, trô- 
pego, com duas nevroses em cada nervo, com duas 
atonias formadas, uma no estômago, outra no fígado, 
e a terceira a principiar no cérebro » . « Estou cada 
dia mais doente, mais triste e mais convencido de 

que acabei — diz Camillo ao sr. padre Senna 

Freitas * — Logo que me sinta com forças ahi estou, 
3íáo imagina o meu estado de fraqueza. Qualquer 
xnudança de ar, uma nuvem, um bocejo de vento, 
Tima pequenina convulsão nas arvores despedaça- 
:ine os nervos. Parece que se vae fazer noite na mi- 

:iiha alma Esperava eu que a mudança de terra 

:3ne suavisasse umas cruéis dores nervosas que me des- 

-esperam. Vou procurar remédio noutra parte 

Estou quasi paralytico, e quando a atrophia me 
-subir á região peitoral, decerto, e felizmente, aca- 
barei de penar Ainda vivo no ultimo acto da 

decomposição. As pernas já estão na campa; mas 
ainda as sinto nos estorcegões das nevralgias. Eu 
esperava isto ha muitos annos, quando experi- 
mentei os prodromos da ataxia. Agora jà diíficil- 



1 Ob. cit. p. 48, 82, 85 e 114. 

« Ob. cit. p. 126, 132, 133, 144, 147 e Cartas inéditas 

<Vôr NOTA E). 



188 CAMILLO 

mente me arrasto d 'uma cadeira para outra; mas, 
assim mesmo, vou até onde pôde levar-me uma 

sege Afinal a seiencia descobriu que a minha 

enfermidade inexorável é uma myelite. A paraJysia 
por emquanto está nas extremidades inferiores. Se 
a lesão da columna vertebral chegar âs vértebras 
cervicaes, tenho de morrer asphixiado». c Estou 
doente como uma enfermaria de S. José — diz ainda 
Camillo ao visconde de Ouguella. — Cheguei à prosa 
da dor de barriga Sinto-me vivo de nevral- 
gias. Tenho andado por todas as praias do norte 
sem tomar um banho; quando soíFro até cahir, venho 
para a piedade inútil da familia». «Ha trinta dias 
que não durmo com atrozissimas dores nas pernas » 
— afirma elle a um amigo, em carta publicada 
numa revista do Porto. ^ 

Nos seus delírios de megalómano e perseguido, 
Camillo seguiu o typo clássico : é um caso perfeito, 
posto que notavelmente attenuado. E nelle se po- 
deria talvez encontrar aquella passagem raciocinada 
do delirio de perseguições para o de grandezas que 
alguns alienistas pretendem e outros, não menos 
illustres, como entre nós o sr. dr. Júlio de Mattos, se 
recusam, pelo resultado das suas observações, a 
confirmar *. Quando Camillo foi para Lisboa com 
Anna Plácido e a opinião publica os agredia, o 



1 A Illustração Moderna, Porto, 1901, 2.o aono, n.os 8 e 9. 

2 JuLio DE Mattos : A Loucura, 1902. 



CAMILLO 189 

romancista julgou-se victima de tenebrosos conci- 
liábulos dos amigos de Pinheiro Alves, que contra 
elle tramavam projectos de assassínio. « Assim foi 

— diz o sr. Alberto Pimentel nos Amores de Camillo 

— que de Lisboa escrevera para o Porto a seguinte 
carta, que está junta ao processo e que reputamos 
completamente infundada nas suspeitas que lhe 
servem de assumpto: 

niiistinssimo Senhor — F. S.<^ e eu reduzimos 
sua sobrinha á extrema miséria. Ha no crime ainda 
a possibilidade da virtude, A minha, se alguma me 
concede, é trabalhar noite e dia para alimenta-la e 
a seu filho. Os projectos de assassinio tramados por 
V. >S.a contra mim, não vingaram no Porto, Se con- 
.seguir que elles vinguem em Lisboa, glorie-se V, aS.» 
de ter quebrado o ultimo esteio d^uma senhora des' 
valida. Não se espante da liberdade que tomo de es- 
crever-lhe. Espero que V, S.^ seja um dia o primeiro 
a djzer que eu não era tão infame como a sociedade 
me julga, — 20 de fevereiro de 1869, — De V, S,^ 
attento venerador e creado, — Camillo Castello 
Branco. » 

É claro que taes projectos não existiam. O ma- 
rido atraiçoado vivia num meio em que essas reso- 
luções violentas só com muito custo poderiam ger- 
minar, e, mesmo que a sua dor fosse tamanha que 
o allucinasse, os respeitabilissimos amigos que o 
cercavam, gente conselheiral e ordeira, haviam de 



190 CAMILLO 

fazer-lhe escutar a voz da prudência e da razào. 
Pinheiro Alves instaurou um processo, metteu os 
amantes na cadeia e, embora o seu soflfrimento fosse 
muito e lhe encurtasse uma vida amargurada, o 
certo é que a isso se cifrou e a isso se deveria cifrar 
logicamente a exteriorização do seu rancor. 

Mais tarde, dizia o sr. António d'Azevedo Cas- 
tello Branco, numa carta a seu primo Nuno, visconde 
de S. Miguel de Seide, referindo-se a Camillo : < O 
que eu lhe ouvi foi as palavras em que elle me 
exorava para dar-lhe o revolver comprado, dizen- 
do-se cercado de pessoas que o odiavam. . .» ^ E o 
próprio Camillo, num opúsculo da questão da Se- 
benta, escreveu : « Afinal, este doutor é mais um dos 
ignorantes maus da quadrilha formidável que me 
sahiu quando eu jà ia no fim da estrada, estropia- 
do, amparado ao bordão do caminheiro que vem 
de uma assas trabalhosa peregrinação» *, quando, 
em verdade, se os ódios occultos contra ell© eram 
bastantes, a quadrilha que sahiu em linha de ataque 
estava longe de merecer o epitheto de formidável 
que a nevrose de Camillo lhe assacou. 

Sabe-se que o grande escriptor teve sempre em 
grau altíssimo a preoccupaçâo nobiliarchica e, ave- 



^ Nuno Castello Branco : (Visconde de S. Miguel 
de Seide). Protesto contra a supposta filha de Camillo Cas' 
tello Branco, 1890. 

2 Notas á Sebenta do dr, Avelino César Callisto, 1883a 
p. 15. 



CAMILLO 191 

riguado como parece estar que a sua ascendência 
se nào enfeita com o sangue azul dos pergaminhos^ 
é de concluir uma accentuada megalomania. Essa 
arvore genealógica, cheia de nomes vistosos, que 
entra galhardamente e com solemne entono pelas 
dynastias remotas de Oviedo e de Leáo, a que me 
refiro no começo doeste livro, foi organizada pelo 
próprio Oamillo e veio ter em manuscripto ás máos 
do sr. Alberto Pimentel, que a publicou no Romance 
do romancista. Mais tarde, este mesmo auctor^ 
mais bem informado, emittiu a opinião de que essa 
illustre estirpe nada mais fosse que uma novella de 
linhagens escripta por Camillo sob a influencia do 
seu delirio dominante. ^ E foi ainda indubitavelmente 
esse delirio que o levou a acceitar o titulo de vis- 
conde que, sob o rotulo d'uma nobreza de brasileiro 
minhoto, vinha encobrir todo o brilho do seu nome 
de gloria. Dizem que era uma antiga aspiração sua, 
satisfeita depois pela influencia d'uns amigos e é 
ainda o sr. Alberto Pimentel que nos conta a tal 
respeito este episodio. «Toda a gente estranhou 
que elle quizesse trocar o seu nome por um titulo 
de visconde ; só elle náo estranhou. Em Seide dis- 
se-lhe eu : — 8e eu fôsae ministro^ teria introduzido 
uma innovação no seu titulo, meu querido inestre. 
— Q^alf perguntou Camillo. — Agraciá-lo-ia com 
o titulo de — visconde Camillo Castello Branco, Assim ^ 



^ Oê 'Omàrtê âe Camillo, 



192 CAMILLO 

€1 mercê não eclipsaria um nome glorioso, antes lhe 
^seria homenagem, Camillo náo gostou e respondeu 
de prompto : — Coi*reia Botelho são appellidos nobres 
da minha familia,f> ^ 

Planeando, nos últimos annos da sua vida, escre- 
ver um romance sobre os seus antepassados, intitu- 
lado Os Brocas^ Camillo dirigiu-se ao visconde de 
Sanches de Baena solicitando-lhe algumas indica- 
"Ções que o pudessem auxiliar no seu trabalho. 
«Como V. Ex.* possue muitos conhecimentos ge- 
nealógicos e dados infalliveis que lhe fornecem as 
velhas inquirições do Santo Officio que Deus haja 
em sua Santa guarda — escreveu Camillo numa 
<;arta ao erudito investigador, datada de Seide, em 
23 d'outubro de 1881 — tomo a liberdade de lhe 
enviar um traslado de certidão baptismal, de familia 
de Villa Real de Trás-os-Montes, a ver se porventura 
V. Ex.* me pôde dar alguma informação dos ante- 
passados do Dr. Domingos José Correia Botelho 
-de Menezes, fallecido em 1805, desembargador apo- 
sentado da Relação do Porto, e de José Luiz 
Correia Botelho, cavalleiro professo da Ordem de 
Christo, que me. parece ser tio paterno, irmão de 
Manuel Correia Botelho, avô do baptizado. Tam- 
bém desejaria saber se o capitão José Pereira da 
Silva, casado com uma senhora Castello Branco, de 
Cascaes, tem representante nesta yilla.» * 



^ Os amores de Camillo, 

* Alberto Pimentel: O romance do romancista. 



CAMILLO 193 

Noutra carta, posterior, também dirigida ao vis- 
conde de Sanches de Baena, escreve Camillo: «Pelo 
que respeita a Correias Botelhos, estou plenamente 
satisfeito, graças às illucidações prestantissimas de 
V. Ex.*. O que muito me interessava era saber 
quem fosse D. Rita Castello Branco, senhora com 
quem casou o dr. Domingos José Correia Botelho, 
em Cascaes, sendo ahi juiz de fora. Os pães d'ella 
constam da certidão do baptismo que enviei a 
V. Ex.*, e o dr. Domingos José Correia Botelho, 
segundo calculo, casou entre 1760 e 1765. Em Cas- 
caes existe um indigena general reformado, de 
appellido Castello Branco : pode ser que elle pro- 
ceda d'essa familia. Conheci uma filha do dr. Do- 
mingos José Correia Botelho que se assignou Cal- 
deirão, Porque? Entre os meus papeis manuscriptos 
ha umas trovas propheticas d'um physico Caldeirão 
de Cascaes, espécie de Bandarra do século xvi. Po- 
deremos espiolhar o Caldeirão nessa familia de Cas- 
caes que ha 60 annos assignava Castello Branco ? » 

Registei em Camillo a constante procura do 
termo raro, e fácil se me torna justificar o asserto. 
Não ha em toda a litteratura portuguesa linguagem 
mais exuberante, mais fornida e ao mesmo tempo 
mais pura que a d'elle. Mas a grande parte do seu 
vastissimo vocabulário são termos por elle creados 
ou feitos reviver d 'entre a prosa obsoleta dos car- 
tapacios velhos, de modo que muitas são as pa- 
ginas da sua obra em que para uma comprehensào 
litteral o uso d 'um diccionario ou d'um elucidário 

13 



194 CAMILLO 

se nào dispensa e rara será aquella em que não 
encontremos uma palavra nova, derivada sempre se- 
gundo a Índole e o mecanismo da lingua, para que 
esta deforma alguma deixe de ser ainda e sempre o 
mesmo instrumento autónomo, vivendo â custa dos 
seus recursos próprios, vernáculo e purissimò. E' 
claro que se não trata aqui apenas d 'uma neces- 
sidade urgente de expressão, mas da exigência 
d'um temperamento de colorista, num homem de 
génio que possuia, como todos, a tendência para a 
originalidade. 

Mas, falemos do senso moral de Camillo, tão 
discutido... e tão injuriado; falemos do seu cara- 
cter que ainda ha pouco um articulista dizia não 
ser « precisamente o de Smiles » * e vejamos até 
que ponto esse modo de sêr moral se integra no 
esboço de physio-psycologia malsá que estou tra- 
çando. 

Não houve infâmia que lhe não attribuissem, 
monstruosidade moral que não servisse para, a olhos 
de idiotas meticulosos, diminuir a grandeza do seu 
génio e o valor colossal da sua obra. O certo é que 
Camillo, como nevropata, tinha desigualdades de 
caracter por vezes exteriorizadas d'ura modo sa- 
liente e, assim, de envolta com um ou outro modo 
de proceder pouco correcto, actos de bondade que 
francamente o nobilitam. Numa carta a Silva Pinto 



^ Pedro A. de Azevedo : Log. cit. 



CAMILLO 19Õ 

escreveu elle : « Os seus Realismos deviam ser bem 
acolhidos ; agora com novo prefacio veja là o que 
faz. Eu não lhe inculco a pujança dos seus inimi- 
gos ; advirto-lhe simplesmente que ó melhor não 
os ter, porque a gente de coração normal até mesmo 
quando fere os adversários se magoa. Eu sou des- 
graçado até me entristecer quando firo alguém : 
prefiro que a retaliação seja cruel para me não fica- 
rem escrúpulos». ' 

Tendo ardido a casa do editor de Um homem 
de brios, Rodrigo d'01iveira Guimarães, dias depois 
da publicação d'esse romance, Camillo, condoído 
da miséria do livreiro, não só não acceitou o preço 
da edição como ainda escreveu o drama Espinhos e 
flôreSj fê-lo representar no S. João e cedeu todo o 
producto da recita em favor d'elle. Annos depois, 
Camillo era insultado no jornal d'esse mesmo ho- 
mem que tão bizarramente soccorrera. 

Em favor d'um velho soldado de D. Miguel, 
Thomé Cabral, cedeu o romancista uma edição do 
folheto O Clero e o sr. Alexandre Herculano. Tem- 
pos depois, o homem foi levar-lhe 40$000 réis, me- 
tade do producto liquido da publicação. Camillo 
não os acceitou e Cabral, sahindo de casa d^elle, 
comprou um bilhete de loteria que foi premiado 
com vinte contos. • 

Estava com Camillo no mesmo hotel, na Povoa 



1 Silva Pinto : Ob. cit, p. 52. 

* J. G. "Vieira de Castro: Ob. cit, p. 148-150. 



196 CAMILLO 

de Varzim, um medíocre pintor hespanhol, que 
perdeu ao jogo tudo o que levava, deixando por fim 
de pagar à dona da casa. Quando, semanas depois, 
esta, que era uma tal D. Ernestina, despediu o 
hospede, á hora do jantar, explicando o motivo 
porque assim procedia, Camillo levantou-se do seu 
logar e disse: 

« — A D. Ernestina é injusta. Eu trouxe do Porto 
cem mil réis que me mandaram entregar a esse 
senhor e ainda o nâo tinha feito por esquecimento» 
Desempenho-me agora da minha missão » . 

E entregou ao pintor os cem mil réis. Mais 
tarde, como o artista lhe declarasse que nào tinha 
meios para pagar aquella divida, Camillo encarre- 
gou-o, como saldo de contas, de pintar o retrato do 
filho e do cão, o que o pobre homem fez com toda 
a impericia notável que possuia. ^ 

Na sua Auto-biographia, publicada posthuma- 
mente no Diário de Noticias, conta Trindade Coe- 
lho, o illustre e mallogrado homem de letras: 

< . . . vim a Lisboa a dois concursos : para con- 
servador do registo predial e para delegado do 
Procurador Eegio, mas regressei a Coimbra sem 
esperança de ser despachado, porque não tinha 
ninguém que me protegesse . . . Mas um dia de 
manhã recebo uma carta de Camillo Castello Bran- 
co, o grande escriptor, que eu nunca tinha visto. 



^ Primeiro de Janeiro^ de 3 de junho de 1890 ; A. Pi- 
mentel : O Romance do romancista^ p. 369. 



CAMILLO 197 

nem elle a mim : dizia-me que vira nos jomaes que 
eu fôra a concurso e que escrevera ao ministro pe- 
dindo-lhe que me despachasse ! Cahi das nuvens ! 
Mas d'ahi a poucos dias estava effecti vãmente des- 
pachado delegado do Procurador Régio do Sabugal, 
e eu ia ao Minho visitar o grande escriptor, vel-o 
pela primeira vez (primeira e ultima!) e beijar-lhe 
as mãos pelo seu tâo grande favor. Mais tarde eu 
soube como as coisas se tinham passado : Camillo 
estava casualmente numa livraria do Porto, quando 
viu num jornal o meu nome, entre os dos outros 
que tinham vindo também a Lisboa fazer concurso. 
Constou- me que dissera : — Ora aqui está um rapaz 
que provavelmente vae ser preterido por esses todos ! 
Perguntaram-lhe : — Quem é? — Um rapaz que es- 
creve : Trindade Coelho, Disse-lhe o livreiro (que 
era precisamente aquelle redactor do jornal onde 
eu publicara o Scepticismo, o editor Costa Santos): 
— Ninguém melhor do que V, Ex.^ para o despa-» 
char f — Como? — Escrevendo ao Ministro. Camillo 
calou-se ; e o resto jâ nós o sabemos. Sabugal era 
a melhor comarca de 3." classe ; mas era quasi uma 
aldeia, na Beira : e Camillo disse-me numa carta 
que me escreveu para lâ que receava que eu me fi- 
zesse ali um reinicola pavoroso; — e em menos de 
um mez estava transferido para Portalegre, que era 
jâ uma pequena mas linda cidade, capital de dis- 
tricto, no Alemtejo. » ^ 



Diário de Noticias, de 18 de setembro de 1908. 



198 CAMILIX) 

O certo é que um homem normal que praticasse 
acções doestas náo seria capaz de injuriar grossei- 
ramente a mulher que por causa d^elle tinha per- 
dido a consideração da grande parte, e o desafogo 
de uma situação social invejável, fosse qual fosse, 
perante a sua consciência, o valor moral d'essa mu- 
lher, nem tampouco de ir viver para uma casa que 
ella tinha conseguido á custa d'esse casamento que, 
depois, para o seguir, repudiou. 

Pouca gente conhece a razão por que o romance 
Annos de Prosa appareceu abruptamente cortado 
no mais emaranhado da acção, com estes periodos 
íinaes que algumas edições posteriores eliminaram: 

« Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda 
esta gente com as costumadas voltas do mundo. O 
livro complementar doestas biographias ha-de deno- 
minar-se Reacção da Poesia. E' o natural segui- 
mento dos Annos de PIiosa.» 

Ora tal Reacção não sahiu nunca e o motivo é 
fácil de comprehender, contada a historia. O edi- 
tor tinha contractado com Camillo a publicação 
d'uma novella d\im certo numero de paginas e, 
nessas condições, abriu a assignatura. Da quantia 
do ajuste deveria entregar metade no começo da 
impressão, tal como fez, e o resto no fim. Camillo, 
em certa altura, suspendeu a remessa do original, 
que ia em meio, e declarou que a não continuava 
isem lhe darem o resto do dinheiro, pretenção com 



CAMILLO 199 

a qual, a muito custo, o editor se conformou, sem 
que comtudo a remessa do original continuasse. E 
foi após reiteradas instancias feitas pelo proprietá- 
rio da edição em todos os termos, que Camillo man- 
dou a metade que faltava. . . numa pagina. Ora tal 
editor, fallecido ha annos e de quem eu ouvi a 
narração de toda a historia, tendo-se compromettido 
a dar um certo numero de paginas aos seus assi- 
gnantes, resolveu dâ-las a todo o transe, fazendo 
seguir os Annos de Prosa de dois outros romances 
traduzidos livremente por um pharmaceutico de 
Lisboa, ^ com o titulo de A Gratidão e O Arrepen- 
dimento^ e a acção transportada para Portugal. O 
frontespicio prestava-se a uma dúbia interpretação 
que a escolha dos locaes da acção — S. Cosme e o 
Candal — mais avolumava, e alguém, que desco- 
briu o truc, não tardou em lançar sobre Camillo o 
labéu de plagiário. Camillo exigiu do editor uma 
declaração que elle, com effeito, fez inserir nosjor- 
naes do Porto, redigida cautelosamente, em termos 
<que encobriam a fraude do romancista. De bem com 
€1 sua consciência e pensando de certo de si para si 
f^ue a magnanimidade é virtude que pouco custa, 
estava o bom do editor, quando Camillo lhe entrou 
pela porta dentro barafustando que lhe exigira a 
herdade para desfazer uma accusação falsa, mas não 



* Henrique Marques : Bihliographia camilliana. Pri- 
meira parte, mdcccxciv, p. 32. 



2(X) CAMILLO 

lhe pedira que contasse uma historia para desculpar 
a incorrecção do seu procedimento: 

« — U que o senhor deveria ter dito era o se- 
guinte: o sr. Camillo tinha combinado comigo a 
publicação d'um romance de tantas paginas, recebeu 
o dinheiro e faltou á sua palavra; e eu então fiz 
traduzir os outros contos para completar o volume.» 

E' possível que estas palavras não sejam tex- 
tuaes, mas o facto é authentico com certeza. O pró- 
prio editor, que m'o contou, era um honrado homem 
incapaz de mentir e que tinha por Camillo uma 
grande admiração. 

Entre os papeis soltos que durante annos esti- 
veram a monte na Bibliotheca da Ajuda e que, sob 
a gerência do sr. Ramalho Ortigão, se coordenaram, 
existe uma carta de Camillo que pela primeira 
vez appareceu publicada no trabalho do sr. Pedro 
d'Azevedo sobre Os antepassados de Camillo a que, 
por mais d'uma vez, no decorrer doeste trabalho, me 
tenho referido. Ignora-se qual fosse o destinatário 
d'essa carta ; o endereço deveria achar-se no en- 
veloppe, que desappareceu. O sr. Azevedo, classi- 
ficando-a de «lamuriante» e reveladora do caracter 
do futuro romancista, o tal caracter que «não é 
precisamente o de Smiles», pensa que ella tenha 
sido dirigida a Herculano, que no mesmo anno da 
sua data publicou o primeiro volume da Historia 
de Portugal. Em todo o caso, a carta não é apo- 
crypha. « Ninguém que conheça a letra de Camillo 
— dÍ5se-me o illustre bibliotecário de Ajuda numas 



CAMILLO 201 

informações que teve a bondade de me prestar a 
tal respeito — hesitará sobre esse ponto * . E, nesse 
caso, é irrecusável a opportunidade da publicação 
d'esse documento nesta altura do meu estudo em 
que procuro dizer imparcialmente, arredando- o 
muito embora da teia de lendas injuriosas que ca- 
lumniosamente o conspurcam, o que foi o cara- 
cter do grande romancista. Diz o seguinte : 

« 111."™° Sr. — Os virtuosos sentimentos por V. 
S.a proclamados em suas obras ; — essas obras que 
eu julgo fieis reflexos da bondade, religião, e amor do 
próximo, que dominam seu auctor, — me incitam 
com arrojada confiança e temeridade, a dirigir á 
presença de V. S.* esta minha carta, não mensa- 
geira de talentosas frazes, antes pura copia da 
magoa que inspira seu desconhecido escriptor. Um 
licito desejo de fazer algum vulto nas letras, se 
bem que incompativel com as minhas circumstan- 
cias, me excitou a frequentar o curso de Direito 
na Universidade de Coimbra. Encetei-o ; e, depoi& 
que colhi victoriosas palmas das fadigas do meu 
primeiro anno, a morte me roubou o protector 
Xinico, que ali me mantinha com as suas parcas,^ 
toas para mim, filho das circumstancias, abundantes 
posses. Absolutamente privado de meios para a 
continuação do meu corriculo literário, olho para 
o meu futuro, e prevejo um futuro calamitoso, qual 
pode sobrevir a um moço de 20 annos, despido de 
protecçoens. Em' meu abono, a resignação me tem 



a 



a 



202 CAMILLO 

conservado, até hoje, entre os limites da honra e 
da prudência ; por que, no meio de minhas amar- 
guras, lembra-me que ha um Deus, assiduo vigi- 
lante por suas creaturas, e representado na terra 
por alguns homens — honra da sublime idéa da 
creaçáo. Não temo enganar-me, se disser, que V. &. 
he um dos Apóstolos a cumprir a mais divina das 
missoens : — valer aos afflictos — He pois a V. S. 
que me dirijo: — serei eu feliz nesta minha atre- 
vida inspiração? ! Meios de subsistir com honra — 
única herança de meus pães — he, o que procuro, 
« pelo que suspiro. N'esta Provincia, Senhor, não 
vive o homem probo, por que a calumnia, de mãos 
dadas com a politica, vão denegrir o homem que 
ma^s lhes foge. N^esta Provincia, o homem, quer de 
médio, quer de transcendente talento, senào segue 
€L máxima geral — o vaivém das opinioens he ente 
nuUo. Quizera, eu, Sr., fugir a este ar mefítico, e 
procurar n'essa cidade, em paga do meu trabalho, 
seis vinténs para o pão de cada dia, e viver tran- 
quillo — ahi, onde ninguém conhece os meus prin- 
cipies tão bellos, e tão esperançozos para admirar 
a minha subjeiçáo de hoje — ahi, onde ninguém 
motejará a minha casaca jâ velha, nem me apontará 
dizendo por escarneo : Ali vae o filho d'um que foi 
corregedor em Vizeu! Pode V. S.a valer-me ; pode- 
rei eu ir a Lisboa esperançado na caridade de V. 
S.*? Eis aqui, meu protector, cumprida a mensagem 
doesta carta. Se ella he digna da resposta de V. S.» 
^u a aguardo anciosamente — Favorável, Deus 



CAMILLO 203 

irmittirá que seja. Conceda-se-me a honra de me 
fsignar de V. S.* — servo muito venerador Camillo 
'erreira Botelho Castello Branco, V.a Real deTras- 
s-Montes — 28 de agosto de 1846 » . 

Quem desconhecer certos pormenores da biogra- 
>hia de Camillo estranhará deveras o puritanismo de 
[uem procura discutir o caracter d'um homem, num 
entido pouco lisonjeiro, pelo facto de esse. homem 
er pedido trabalho — seis vinténs para o pão de 
íada dia — no estylo humilde que naturalmente se 
napõe á epistolographia implora tiva d 'um homem 
que náo possue esses 'seis vinténs. Ha porém, mais 
alguma coisa. E' que Camillo afirma nessa carta que 
colheu as victoriosas palmas das fadigas do seu pri- 
meiro anno de Direito ua Universidade de Coim- 
bra — e Camillo nunca frequentou a Universidade 
de Coimbra. E' que Camillo afirma nessa carta de 
1846 que a morte lhe roubou o protector único que 
o mantinha nos estudos com as suas parcas posses 
— 6 esse protector, um tio chamado João Pinto da 
Cunha, em 1849 ainda vivia. E isso é facilmente 
«omprovavel. No Romance do romancista, o sr. Al- 
berto Pimentel conta que um amigo seu, a quem 
pediu informações sobre a vida de Camillo em Coim- 
bra, lhe respondeu o seguinte: «Percorrendo as 
listas impressas ou Relações de estudantes matricu- 
las na Universidade e lyceii de Coimbra^ desde o 
anno lectivo de 1840-1841 até ao de 1860-1861 não 
encontrei o nome de Camillo Castello Branco. Além 



i 



204 CAMILLO 

d'isto, falando com varias pessoas que me pode- 
riam informar a este respeito, todos me disseram 
que elle não frequentou a Universidade nem o lyceu.» 
Por meu lado, procurando informar-me ainda a tal 
respeito, dirigi-me a um amigo residente em Coim- 
bra, que me confirmou nestes termos as palavras do 
informador do sr. Alberto Pimentel: «Tive occa&ião 
de percorrer o archivo das matriculas desde 1839 
até 1849, e nesse período de dez annos, posso ga- 
rantir-lhe que absolutamente nada existe relati\'a-j 
mente ao nosso Camillo, sendo portanto inexacto 
que elle houvesse frequentado esse estabelecimento 
de ensino superior . . . São estas pois as informações 
officiaes e fidedignas que, com a mais absoluta cer- 
teza, lhe posso fornecer». Quanto ao tal tio — em 
casa de quem elle se hospedou em 45 quando re^ 
gressou a Villa Real depois de perdido o auno na 
Escola Medica do Porto — a prova de que em 49 
ainda vivia está no facto de, nesse mesmo anno, ter 
escripto aos jornaes do Porto, por solicitação de 
Camillo, uma carta explicativa da prisão do futuro^ 
romancista em 46. 

Fica assente, pois, que, nesse anno de 46, ÇamillO" 
deturpava a verdade, — romantizando a sua propri* 
vida á custa d 'algum dos seus heroes de novella^ 
como, de resto, tantas vezes romantizou alguns dofl 
seus heroes de novella á custa da sua própria vida, 
— mas deturpava-a, não para se desculpar d'uma 
mâ acção, não para prejudicar interesses d^outreiai 
não para mendigar um empréstimo ou uma esmol»" 



CAMILLO 205 

nas para pedir trabalho. E a essa religião do tra- 
balho foi elle sempre escrupulosamente fiel. Se a 
sarta transcripta d'isso ó uma prova incontestável, 
nutras que vou transcrever o sáo também e d'uma 
Eorma mais nobre, mais eloquente e, de todo em 
bodo, immaculada. 

A primeira d 'essas cartas a que me refiro, fo^ 
eseripta em 61, das cadeias da Kelaçáo do Porto, e 
publicada nos jornaes d'então. Camillo estava preso. 
cDissera-se que eu recebera dois contos de réis> 
dadiva do soberano (D. Pedro V) — conta elle pró- 
prio nas Memorias do cárcere, — Os meus amigos 
perguntavam-me se eu os recebera, como certíssimos 
de que eu os enganava, respondendo negativamente. 
Dei o boato como inventado no Porto, e ponderei-o 
como todas as calumnias que por aqui me assaltam, 
e eu esmago entre a sola e a lama. Quando, porém, 
um respeitável cavalheiro e amigo, António Joaquim 
Xavier Pacheco, me asseverou que vira uma carta 
de Lisboa dizendo que o sr. Conde da Ponte me ia 
enviar dois contos de réis por ordem do rei, apres- 
sei-me a desmentir a calumnia, ou a rebater a esmola 
sem mais vaidade que a do trabalho, que a si se 
basta». A carta de desmentido era a seguinte: 

« Sr. redactor. — Muita gente me tem pergun- 
tado por dois contos de réis, que mandou dar-me 
o Senhor D. Pedro v. Pessoas circumspectas aco- 
lheram e divulgaram o boato, commentando-o de 
diversos modos, mas nenhum lisonjeiro para mim.' 



\ 



2C)G CAMILLO 

Eu creio que o Senhor D. Pedro v é infinitamente 
delicado, e só dâ esmolas a quem lh'as pede. Quando 
S. M. me fez a honra de perguntar, na cadêa, em 
que me occupava, respondi a S. M. : qiie trabalhava. 
Ou o Senhor D. Pedro v entendesse que eu me 
occupava em chapeiis de palha, ou em romances, 
ou em caixinhas de banha, a minha posição ficava 
definida para o intelligente Monarcha: o homem 
que trabalha não pede nem acceita esmolas ; e, se 
a pedisse ao Rei, julgar-me-hia tão humilhado como 
se a pedisse ao Ínfimo dos homens. A cousa é 
outra. Ha muita gente que se diverte comigo. E 
bem feito, porque eu também me divirto com muita 
gente. Eogo a v. a publicidade doestas linhas. De 
V. etc. — Camillo Castello Branco. Porto, cadêas da 
Relação, 11 de fevereiro de 1861.» 

A outra carta foi escripta um mês antes da sua 
morte. Um jornal de Famalicão disse que Camillo 
contratara com um editor do Porto a publicação de 
dois romances e de um livro referente â questão 
com a Inglaterra. Dias depois, o Primeiro de Janeiro 
publicava o seguinte : 

« Meu presado Oliveira Ramos : Alguns jornaes 
transcreveram de uma folha periódica de Famali- 
cão, a meu respeito, uma noticia inexacta. Nào 
contratei com algum editor a publicação de livros 
novos. Em cousas de litteratura, deve falar-se de 
mim como se fala de um escriptor morto. Logo 



CAMILLO 207 

jue eu acceitei do Estado uma pensão, é que eu 
Qão podia trabalhar e manter a minha laboriosa 
independência de 40 annos. Ceguei na lucta e fi- 
quei vencido. Sirva isto de exemplo a futuros es- 
criptores. De v. etc. Camillo Castello Branco. S. C. 
— S. Miguel de Seide, 30-4-90». 

Certo, nessa lucta de 40 annos, Camillo teve ho- 
ras de desanimo — e largos motivos para as ter. 
Em 28 de abril de 62, dizia elle a José Gomes 
Monteiro, numa carta que vem em parte trans- 
cripta no Romance do 7'omancista : «Escrevo ro- 
mances, e que remédio senão escrevê-los sempre?» 
Em Lisboa tenho editor que me paga o volume a 
1441000 reis. Se dentro de um anno me não paga- 
rem a propriedade de cada vol. a ÕO libras, creio 
que abrirei uma tenda, e acabarei tranqTiillo, hon- 
rado, e estúpido como convém». E, em lõ de 
maio de 1868, em carta também a Gomes Monteiro, 
que vejo ainda no Romance do romancista : « Di- 
zem- me que vou ser não sei que na secretaria da 
Marinha. Acceitarei, para mais facilmente poder 
conseguir collocação no norte, Barcellos que seja » . 
Em 16 de maio de 1904, Carlos Malheiro Dias 
publicou no Século estas palavras : 

. « Camillo foi sempre um calumniado e um per- 
seguido. Teve, é certo, quem o reverenciasse. Mas 
á maneira de quem reverenceia um tyrano : — te- 
mendo-o. Esse grande infeliz gozou uma realeza^ 



208 CAMILLO 

mas de onde só lhe derivaram amarguras. EUe foi, 
<3om Garret e Herculano, o terceiro homem que 
presidiu, sem contestação de poder, ao movimento 
litterario do seu século. Camillo passou, com o seu 
casacáo de gola de pelles, a luneta de aro de tar- 
taruga, a fealdade de varioloso, como passam os 
dominadores e os déspotas, numa tormenta de 
impropérios e num clamor de applausos. Arreme- 
^aram-lhe flores e escorias. Foi injuriado e accla- 
mado. Mas eram acclamações de pardaes saudando 
uma águia e injurias de mosquitos incommodando 
o somno de um leào. Nem de umas lhe vieram, 
durante a vida, os prazeres orgulhosos que consolam, 
nem das outras as fúrias sagradas que exterminam. 
A sua realeza acabou no suicidio, que é o tédio da 
vida. As flores feneceram e as escorias deixaram 
nódoas. A ingratidão humana procurou, depois da 
«ua morte, abafar a sua obra. Mas a obra era im- 
mensa e as mãos dos ingratos pequenas. Por ultimo, 
€oncordou-se que elle era grande. Mas insinuou-se 
que elle fora mau. Todos o admiram, mas poucos 
o amam. Ninguém contesta que elle escreveu admi- 
ráveis livros ; mas muitos afiançam que elle com- 
metteu abomináveis acções. As almas cândidas 
visionam-o como um espirito do Mal, desregrado e 
satyro, mysto de Belzebuth e Casanova, violador 
de ooaventos e perturbador dos lares, adulterino e 
sceptico, usando de poderes infernaes de seducção, 
com segredos de philtros conturbadores quando 
falava nos livros ao coração ingénuo das mulheres. 



CAMILLO 209 

Os que, sem lhe negar o génio imperativo, lhe 
obscurecem o caracter e disformam a memoria, 
sabem que os escriptores só podem perdurar pelo 
amor no coração dos que os lêem. Todo o seu ta- 
lento não o rehabilitarà perante os que o não amem. 
E hoje, que morreram quasi todos os homens que 
com elle mais intimamente conviveram, não se 
pôde apellar para os corações d'aquelles que o 
estimaram. O corpo d'esse pobre desherdado está-se 
consumindo num alheio jazigo, no pequeno e triste 
cemitério da Lapa. Elle morreu longe de todos, 
numa solidão que a cegueira tornava maior, onde 
o não foram confortar os affectos de meia dúzia de 
homens, com os nobres corações d'esses outros a 
cujo culto piedoso de saudade Lisboa deve hoje o 
monumento do Largo do Quintella. Esse grande 
infeliz conheceu todos os soffri mentos. E para que 
nenhuma voz o accusasse de ser injusto nas raras 
horas em que a sua penna, molhada em lagrimas, 
se transformou num flagício. Deus não lhe poupou 
a mais cruciante, a mais intolerável, a dor mais 
atroz que as fibras de um coração humano podem, 
sem estalar, consumir e soffrer : a recusa affrontosa 
d^, esmola, quando quem a rejeita ó uma mulher e 
quem a s«pplica é. . . um Camillo ! Yive ainda a 
uobré e arrogante senhora, que se divertiu com a 
desgraça e a humilhação de um homem glorioso e 
pobre, exercitado no desengano, que ainda conser- 
vava a illusão mentirosa de que o coração da mu- 
lher é . refugio da piedade. A velhice deve ter 

14 



210 CAWILLO 

abrandado a antiga crueldade d'essa senhora, que 
é hoje avó. Era fácil tornar transparentes os véos 
que lhe occultam o nome. Mas nem é meu propó- 
sito vhigar o pobre otfendido, nem reparar, com 
o castigo, a tremenda falta de que a deve accusar 
a consciência. A historia d'esta amargura é singela 
como a de todas as grandes dores humanas e de- 
pressa se conta. Era em 1872, no Porto. Camillo 
vivia então na rua do Bomjardim, pobre como sem- 
pre e mais do que nunca queimando as pestanas a 
escrever. A exterminadora tarefa d'esse homem 
durava havia meses, sem que elle houvesse até 
essa hora conseguido assegurar para o inverno a 
lenha e o prato do lar modesto. Foi numa hora de 
afflicção e de fadiga, em que a penna se negava a 
trabalhar pela gloria e pelo sustento, transformando 
a tinta em radiosas idéas, que Camillo afastou de 
si o manuscripto do romance incompleto e escreveu 
a um amigo a carta que vae lêr-se : 

Ulmo £ir.^"« Sr. 

Classificam-se de confidenciaes umas cartas d^ 
natureza doesta; eu porém deixo a V. Ex.** detei'' 
minar o que nella deve haver de reservado. 

Recebi ha annos, uma taça de prata, brinde d^ 
colónia portuguesa em Hong-Kong, Dizem sei' wtf^ 
trabalho primoroso^ que lá custou cem libras. Crei^ 
qiie materialmente não vale isto; e estimativamet^^^ 
poderia valer mais se eu pudesse ter baixela. 



CAMILLO 211 

Tem o meu nome e uma dedicatória em caracte' 
^s chinezes. Isso que monta'? Vendo-a, porque taças 
i prata em casa de esoiptores portugueses são como 
ças de amargura, quando o vácuo d'ellas é como 
da gloria em Portugal, Vendo-a por S00$000 réis, 
^ote V, Ex.^ que ella não tem um terço d'aquelle 
ilor em prata. Parece, porém, que os lavores são 
iimaveis, 

— Então que qtier você? — pergunta F. Ex.** 

Pedir-lhe que apresente esta alfaia d Exj>ta Sr,** 
)***. que tem riqueza e gosto superabundantes. Se 
', Ex.^ a quizer, pôde aspar-lhe o meu nome; e se 
ão lhe importar que a sua posteridade encontre esta 
lemoria de um homem que passou um dia a querer 
uzir nesta escuridão ahafadora de Portugal, 8, 
?íc.« honrará a minha memoria conservando-a in- 
icta, 

V. Ex.a se dignará dizer-me para onde devo re- 
letter-Wa, se me quizer obrigar fazendo-a enviar d 
^peitavel senhora de quem V. Ex.ct é considerado 
>mo merece. 

De V, Ex.a 
affectivo e obrigjno criado 
Camillo Castello Branco, 

Casa de V, Ex,"* 

Rua do Bomjardim, 860, 
20 de Novembro de 1872, 



212 CAMILLO 

A esta carta, cuja grandiosa e melancólica tristeza 
oommove até às lagrimas, essa senhora, que era 
poderosa e rica, respondeu com a recusa de com- 
prar a taça, sob o pretexto irónico e especioso de 
que entre a sua baixela aquelle primor de arte 
avultaria demasiado. A taça de prata voltou ao lar 
pobre, de onde sairá cheia de esperança na apre- 
goada caridade d'essa mulher. Voltou transbor- 
dando o fel que a pérfida máo feminina lhe entor- 
nara. Camillo esvaseou até ao ultimo trago essa 
peçonha. E de tào affeito ao veneno e ao infortú- 
nio, não morreu ! » 

Fechado este largo parenthesis a que a discussão 
d'uma peça comprovativa deu logar, cumpre-me 
proseguir no relato do que, nos phenomenos do 
espirito e da matéria, se me afigura de molde a 
comprovar na individualidade de Camillo a exis- 
tência d'iima nevrose em que porventura se hajam 
de integrar as qualidades summas do seu génio. Eu 
citei já as desigualdades psychicas, a interpretação 
mystica dos factos mais simples e o misoneísmo, 
como caracteres que Lombroso e outros auctores 
attribuem aos homens de génio e que ó possivel 
encontrar em Camillo Castello Branco. Do primeiro 
d'elles, eu penso que já no decurso doeste estudo 
tenho feito uma prova eloquente. Da interpretação 
mystica dos factos mais simples julgo também 
que deve estar convencido todo o que tenha lido a 
sua obra e muito principalmente aquella que foi 



CAMILLO 213 

escripta no tempo em que a descrença cedeu o passo 
a um mysticismo que o ia levando á vida de padre 
e o arrastou ainda â frequência do Seminário. Mas 
depois mesmo : a loucura do filho (e é claro que 
isto não entra nos factos mais simples, posto que 
seja bem dos lílais explicáveis) a attribuiu elle a um 
castigo de Deus, e, no decorrer das suas novellas, 
essa mesma ideia da intervenção da Divindade no 
destino dos homens se nota a cada passo. Deter- 
me-ei pois apenas no misoneísmo, antes de entrar 
no estudo das perturbações visuaes, que deixei para 
o fim, porque seria immethodico separá-las do facto 
capital de que ellas foram a causa immediata : o 
suicidio. Já ficou dito que o misoneísmo é vulgar 
nos grandes homens. « Os homens de génio, escreve 
Lombroso, são : como a gente do povo, as creanças 
e os idiotas, essencialmente misoneístas ; possuem 
uma energia incrível para recusar as descobertas 
d'outrem, seja porque a saturação, por assim dizer, 
dos seus cérebros lhes não permitta novas acquisi- 
ções, seja porquê, possuindo uma grande sensibili- 
dade para as ideias próprias, se não possam impres- 
sionar com as dos outros» ^ Camillo foi, sem duvi- 
da, misoneísta. E, se a sua indifferença por coisas 
de politica nos não deixa facilmente, por esse lado, 
colher elementos demonstradores d'essa verdade^ 
os Ímpetos de reaccionário, evidentes nos seus es- 



Ob. cit, p. 3õ. 



*2lá CAMILLO 

criptos de doutrina e a opposição, mais ou menos 
franca, com que recebeu a escola de Coimbra e 
mais tarde o realismo, sáo elementos que só de si 
corroboram bastante a minha afirmação. 

E, posto isto, chega o ensejo de, abandonando 
por instantes o lado puramente ps/chico da doença 
de Camillo, me referir ás perturbações visuaes que 
nelle foram crescendo do simples enfraquecimento 
neurasthenico a amaurose, que me arrasta a um 
diagnostico mais grave. Foi na cadeia, em 1861, 
que o grande escriptor começou a soflfrer da vista. 
Nessa altura, como sempre aconteceu nas variadas 
manifestações do seu mal, exaggerou, e assim, nas 
Memorias do cárcere, contando a serie longa dos 
trabalhos a que consagrou, durante a prisão, a sua 
actividade, deixou escripto que tamanho esforço 
«era de mais para quem não via nada.» E o seu 
biographo Vieira de Castro, com todo o amor rhe- 
torico ás hyperboles e phrases de pompa, apostro- 
phavao no começo d'uma tirada romanesca: «Di- 
zem-me que estás quasi cego. . .» Mas, volvidos três 
annos, o incommodo, que até ahi não fora mais que 
uma pouco pronunciada perturbação neurasthenica, 
que o «horror á doença» de Camillo exaggerou, 
mostrou progressos, a photophobia appareceu e 
Camillo poderia então dizer como Daudet, numa 
das suas Notes sur la vie : « Mes yeux, três affaiblis, 
ont peur de la lumière éblouissante, fermés surtout ; 
le dessus des paupières est d 'une sensibilité incroya- 
ble. On sait que, dans le demi-sommeil, un coup de 



CAMILLO 216 

sonnette esfc comme un dechirement de Toreille, ou 
se ramifient tous les nerfs. La trop vive lumière 
nip cause une impression analogue, aíFectant les 
yeux de la même manièrè » . Dez annos mais tarde, 
as perturbações visuaes tomaram um aspecto alar- 
mante e, desde então, a doença caminhou sempre, e, 
successivamente, as crises de lagrimas, a nevrite 
óptica, a diplopia e a amaurose vieram, em todo o 
tempo que decorreu desde essa data até ao suicidio, 
coUaborando com as nevralgias, os ruidos nos ou- 
vidos e todos os males do espirito, na formidável 
desventura que o prostrava. De todos esses males, 
ou melhor dizendo, da marcha aterradora d'um 
grande mal que uma sobrecarregada herança lhe 
marcara, ha larga documentação nos seus escriptos. 
Não citarei toda; seria difficil e fastidioso. Mas não 
deixarei de mencionar um ou outro exemplo que, 
sobretudo pela ordenação chronologica que procuro, 
íse me afigure de mais vivo interesse. 

Em 70 e 71, Gamillo escrevia, em cartas a Vieira 
de Castro, coordenadas na Correspondência Episto- 
lar: «. . .a felicidade é luz coruscante que oíFende as 
almas quasi cegas de chorar. Esta comparação deu- 

m'a o desgosto de mal poder hoje fitar a luz 

Estou enfraquecidissimo da vista e da cabeça 

Os olhos não me deixam escrever, filho. Estão afo- 
gados em lagrimas, mas olha que são de ophtal- 
mia.» Em 1878 (agosto) ao Visconde de Oiiguella: 
«Não posso lêr nem escrever»; e ao mesmo, no 
mesmo anno (novembro): «Estou com uma con~ 




216 CAMILLO 

juntivite ha dois meses. Agora mal posso encarar 

a luz artificial Continuo a padecer de tudoe 

principalmente dos olhos. Tenho de volta de mitiv 
14 luzes, para ver o que te escrevo. Desde que o 
sol se esconde, estou cego; e não apresento synv^ 
ptomas de amaurose nem de cataratas!» Em j^' 
neiro de 80, ao sr. Silva Pinto : « Eu, mal de tud 
e principalmente dos olhos. Yejo só com um, par 
não ver tudo duplicado. Absurdos da óptica. Ch 
ma-se a isto uma coisa grega. » No mesmo anno a 
sr. padre Senna Freitas : « Tenho os olhos razos d — ® 
lagrimas». Em março de 81, ao sr. Silva Pinto •^•• 
«O peor é que lhe escrevo com um dos dois olh 
fechado, para não vêr duplicado. Um inferno!... 
Um mês depois, ao sr. padre Senna Freitas : « 
meu padecimento de olhos promette demorar 
como costuma quando vem com este préstito 
perversões nervosas.» Em outubro d'esse mesm^i^^^^^ 
anno, ao sr. Silva Pinto: «Desconfio que vou fic d^s^ ^ 
cego. Ha muitos dias que nem lêr posso.» Er" ^^ 
julho de 82, também ao sr. Silva Pinto: «A lu-^'"^^ 
dos meus pobres olhos creio que se apaga. !E^^3-a 
três meses que choram sempre.» Em setembrr -^rc 
de 85, numa carta a Thomaz Ribeiro inserta n» 
Amores de Camillo: « Se eu viver em novembro, 
de vêr se posso ser apresentado por ti á sciencia 
á caridade d'alguns médicos de Lisboa. O que 
queria, meu querido amigo, era que me dessenr=a ^ 
vista que eu tinha ha 4 meses, para poder trabalhr:»^^ 
até morrer. Nào me podia ser inflingida maior t ^^^- 





CAMILLO 



217 



tura que isto de não poder escrever sem grande 
mortificação. » Em setembro de 86, ao sr. padre 
Senna Freitas : « Estou quasi cego desde que o meu 
Jorge, em delírio furioso, entrou no hospital do 
Conde de Ferreira.» Nesse mesmo anno, ao sr. Al- 
)erto Pimentel : « Ha dois meses que não escrevo 
lem leio por falta de vista. O menor esforço pro- 
!iiz-ine vertigens. Suspendi todos os meus trabalhos, 
íoncorreu muito para esta perversão nervosa o es- 
ado do meu pobre Jorge. » Em março de 87, ao 
aesmo: «Depois veio um periodo de quasi ceguei- 
a ; e agora com muita difficuldade e quasi em tre- 
las lhe escrevo.» Em abril de 87, ao Visconde de 
)uguella: «Estou quasi cego, porque algumas horas 
le escripta me cegaram a circumferencia da iris, de 
nodo que apenas vejo um circulo mais estreito que 
iste papel. Todas as minhas infelicidades do corpo 
5 da alma eram delicias antes de eu sentir esta su- 
prema desgraça. Se isto progredir resolverei de- 
pressa a crise.» Em outubro doesse mesmo anno, ao 
3r. Francisco Martins Sarmento : « Dou-lhe a triste 
nova de que estou quasi cego. E a anemia dos 
olhos congénere da anemia geral. Faço ainda o sa- 
crifício de ir a Lisboa e sem esperanças, ouvir os 
especialistas. Se os de lá não souberem mais do que 
os do Porto, estou prompto. » Ainda nesse mesma 
anno (novembro) ao sr. padre Senna Freitas : « Es- 
tou a escrever a trote, porque não vejo. Tenha 
apenas algumas fibras contrateis em uma das reti- 
nas. » Finalmente, em abril de 90, na carta, já tran- 



218 CAMILLO 

scripta, a Oliveira Ramos: «Ceguei na lucta e fiquei 
vencido.» ^ 

O velho luctador, sentiu-se realmente vencido. 
E a sua energia doente, a sua vontade oscillante 
mas imperiosa ás vezes, os recursos do seu belissimo 
espirito, nada podiam contra aquelle novo assomo 
da desgraça, que lhe vinha roubar impiedosamente 
o supremo bem de trabalhar. Queria ler, queria 
escrever — sobretudo escrever! — e não podia. Uma 
vez, num momento de desanimo, mandou leiloar a 
preciosa bibliotheca que possuía, desistiu de todas 
as investigações históricas a que se entregava nos 
últimos tempos — e pôs-se a fazer versos. Num so- 
neto ao filho doido, escreveu isto : 

« Nem goso nem paixão te altera a vida! 
Eu choro sem remédio a luz perdida. . . 
hem mais feliz és tu, que vés o sol.» 

E num outro : 

«E eu que tanto carpia os condômnados, 
Os cegos— os supremos desgraçados ! 
.lá lagrimas não tenho para mim ! » 



^ Correspondência epistolar, t. if, p. 49,55 e 114; Cartas 
ao Visconde d'Ouguella, log. cit. p. 116, 115 e 119 ; Cartas a 
Silva Pinto, ob. cit. p. 28, 119, 71 e 115; Cartas a Senna 
Freitas : Perfil de Cam. C. Branco, p. 136, 139 e 149 e Cartas 
inéditas, Vôr nota e; Amores de Camillo, p. 418; Rom,^^ 
rom.y p. 289 e 290 ; Cartas de C, C, Branco a Francisco Ma^' 
tins Sarmento^ com prefacio e notas de João de Meira. Se- 
parata de A Revista^ Porto, 1905, p. 15. 



CAMILLO 219 

Augmentaram as impaciências da sua vida er- 
rante. E começou a consultar médicos de toda a 
parte. Voltava-se para a religião como para um 
auxilio. Escrevia ao padre Sebastião de Vascon- 
cellos (hoje bispo de Beja), íl pedir -lhe os Padre- 
nossos dos seus educandos da Officina de S. José. 
«Commovido até ás lagrimas, ouvi ler a sua carta 
• — dizia, em setembro de 88, Camillo ao sacerdote 
— Senti fazer-se a luz da esperança na minha alma 
em trevas ; mas, considerando-me indigno das suas 
preces e da Misericórdia Divina, a escuridão da 
alma volveu ao estado em que se acham os meus 
pobres olhos. Entretanto espero que as orações de 
"V. Ex.* e dos seus innocentes protegidos consigam 
aligeirar a minha agonia de modo que a morte me 
«eja menos tormentosa. Deus Nosso Senhor lhe dê 
^3aude para amparo de outros infelizes a quem V. Ex.* 
ensina o caminho do trabalho e da virtude.» E 
ainda de outra carta do mesmo mês e anno, tran- 
scripta, como a precedente, no Romance do roman- 
cista : « Cresce o meu agradecimento quando vejo 
que V. Ex.* recorre ao poder divino para que se 
opere o milagre que a sciencia não fez nem poderá 
fazer. Eu tenho muita confiança nas suas preces, 
acompanhadas da voz innocente dos seus filhos 
adoptivos, cuja alma V. Ex.^ regenerou.» Sentia-se 
perdido, queimava os últimos cartuxos, procurava 
tacteante uma ultima esperança e recorria a tudo, 
6 acreditava em tudo . . . até na medicina ! 

Dez dias antes de morrer, dirigiu ao medico 



220 CAMILLO 

especialista de doenças dos olhos dr. Edmundo Ma- 
galhães Machado, esta carta, que é um dos mais 
extraordinários documentos da dor que tenho visto 
escriptos : 

« 111.'"^ e Ex."^^ Sr. — Sou o cadáver represen- 
tante de um nome que teve alguma reputação 
gloriosa neste paiz, durante 40 annos de trabalho. 
Chamo-me Camillo Castello Branco e estou cego. 
Ainda ha quinze dias podia ver cingir-se a um 
dedo das minhas máos uma flammula escarlate. 
Depois, .sobreveio uma forte ophtalmia que me 
alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Ha poucas 
horas ouvi lêr no Commercio do Porto o nome de 
V. Ex.^ Senti na alma uma extraordinária vibração 
de esperança. Poderá V. Ex.* salvar-me ? Se eu pu- 
desse, se uma quasi paralysia me não tivesse 
acorrentado a uma cadeira, iria procural-o. Não 
posso. Mas poderá Y. Ex.^ dizer-me o que devo 
esperar d'esta irrupção sanguínea nuns olhos em 
que não havia até ha pouco uma gotta de sangue ? 
Digne-se V. Ex.^ perdoar á infelicidade estas per- 
guntas feitas tão sem cerimonia por um homem 
que não conhece». 

E, em 26 de Maio, ainda esta outra carta a 
Mello Freitas : 

€ Ex."^^ Sr. Joaquim de Mello Freitas : Em 
tempos relativamente felizes me deu V. Ex.® a honra 



CAMILLO 221 

das suas relações. Hoje que a minha desgraça e 
enorme, recordo-me do seu nome, da sua intelli- 
gencia e do seu coração para vir pedir-lhe um favor. 
Escrevi ao Dr. Magalhães Machado, patrício de 
V. Ex.'**, acerca da minha cegueira, na esperança de 
que elle pudesse operar o milagre de me restituir 
não a vista que tive, mas a bastante para me des- 
condensar a treva que haverá dois meses se fez 
completa nos meus olhos. O Dr. Magalhães Ma- 
chado respondeu-me de modo que me deixou sentir 
a delicadeza do seu espirito e a sua commiseração 
pelos meus padecimentos. S. Ex.^ pedia-me um re- 
latório da minha doença ; ella porém é tão compli- 
cada e variada no transcurso de 40 annos, que eu 
só interrogado por um medico, poderia responder 
e esclarecer satisfatoriamente o exame. Disse-me 
S. Ex.^ que, sendo curavel a minha enfermidade, eu 
iria tratar-me para Aveiro. Seria para mim, nesta 
conjunctura, suprema felicidade, ir para Aveiro na 
esperança de ser curado ; isso porém só eu poderia 
pratical-o, no estado de prostração em que me 
encontro, se o senhor doutor depois de me visitar 
em S. Miguel de Seide, achasse possivel a minha 
cura. Elle fez-me sentir a impossibilidade actual 
de abandonar os seus clientes para se encarregar 
de um doente tão afastado e carecido da presença 
do medico e tratamento vagaroso. Mas se a visita 
que eu peço ao medico é só uma e decisiva, quer 
para o tratamento, quer para o abandono da mo- 
léstia incurável, essa visita poderá talvez o senhor 



222 CAMILLO 

doutor prestrar-m'a sacfificajdo-se ao mais infeliz 
dos doentes que se teem soccorrido de S. Ex.^ No 
caso feliz de que V. Ex.^ pudesse movel-o e com- 
movel-o a vir a S. Miguel de Seide, teria V. Ex.* 
a bondade de me prevenir do estipendio com que 
me cumpre remunerar táo trabalhosa jornada em 
que além do ' caminho de ferro ha uma légua de 
mau caminho, comquanto se faça de carruagem 
desde Famalicão até Seide. Estou certíssimo de 
que V. Ex*^ dará toda a consideração a esta carta 
dictada por um cego, e na volta do correio, se for 
possivel, me dará a resposta que me levante d 'este 
desalento que me vae levando ao suicidio, se a 
Divina Providencia me não deixar morrer como 
em geral morrem os felizes e os desgraçados. De 
V. Ex.^ admirador aíFectivo e muito obrigado — Ca- 
millo Castello Branco, 

«Fui logo procurar o dr. Edmundo Magalhães, 
— conta Mello Freitas no artigo d'onde transcrevi 
as duas cartas * — pedindo-lhe com instancia que 
fosse visitar Camillo Castello Branco, o que elle 
me prometteu fazer dentro d'aquella semana. Res- 
pondi ao grande romancista, dando-lhe parte do 
que succedera. A impaciência de Camillo mani- 
festa-se no telegramma que recebi a 28 do alludido 



* Mello Frp:itas : Camillo Castello Branco, (Para a 
historia dos seus últimos dias). No n.o 6 da Berista Illus- 
trada — 30 de Junlio de 1890. 



CAMILLO 223 

mês : Peço favor avise chegada Dr, para mandar 
carro estação, Enderecei-lhe segunda carta com- 
municando-lhe a boa noticia de que no domingo, 
às 11 horas da manhã, o dr. Edmundo Magalhães 
estaria em Villa Nova de Tamalicáo, e reiterava-lhe 
os meus votos de felicidade e profunda estima. No 
dia 30 recebi outro telegramma, cujo texto é o se- 
guinte : Bem haja pelas suas cartas » . 

Afinal, em 1 de junho, a visita fez-se ; e como o 
dr. Machado, depois de detido exame, puzesse de 
parte a ideia primeiro aventada d^um tratamento 
em Aveiro e aconselhasse o doente a ir algum tempo 
para o Gerez, onde, em outros ares, colheria de 
certo algum allivio, Camillo, comprehendendo nessas 
meias palavras consoladoras a sua condemnaçáo 
irrevogável, insistiu com a esposa para que acom- 
panhasse o medico até ao pateo e, ficando só 
matou-se. 

E isso afinal não era mais que a realização, um 
pouco tardia, d'um projecto que desde cedo começou 
a germinar no seu espirito. E se tardia ella foi 
como eu digo, lance-se isso em conta d'aquella 
indecisão — mille ritegni neWeseguire — de que fala 
Leopardi. O suicidio é vulgar nos nevropathas, 
como de resto o é em todos os que soffrem de certas 
moléstias sem cura. Mas, nos casos de perversão 
nervosa, todo o raciecinio se torce numa feição 
doentia, e quando as esperanças de melhora vão 
morrendo de desillusão em desillusão e a psychialgia 
tortura, a cada passo exacerbada, o doente resolve 



ÍÍ2J: CAMILLO. 

morrer. Se ó uin neurastheuiço, um doente da von- 
tade, nem sempre consegue reunir o quantum de 
energia necessário para executar a sua resolução e 
ou não a executa nunca ou vae levando, entre uma 
variedade de considerações dilatórias, meses e annos, 
a encher-se de razão. ^ Passa esse tempo todo a 
convencer-se, numa auto-catechese lenta, cheia de 
minúcia, laboriosa, destruindo um a um todos os 
argumentos que no seu espirito se vão oppondo à 
ideia dominante. Se é um crente, procura justificar 
a morte violenta dentro dos principios religiosos 
que professa, se se lembra do que dirão os outros, 
argumenta que o suicidio não é uma cobardia, mas 
o recurso ultimo e legitimo dos que têm sobre os 
hombros o peso da desgraça. Tal é o caso de Camillo. 
Eu já falei da tentativa de suicidio romântico 
«om os grãos d'opio, a poesia de despedida e as 
libras em cima da mesa para afastar a razão mate- 
rialona da falta de dinheiro, e a palavra suicidio 
por vezes tem apparecido nas citações que até esta 
altura tenho feito dos seus livros. A referencia de 
resto é vulgarissima, a cada passo se encontra, e, 
segundo a afirmação de Sousa Martins, as tentati- 
vas de execução foram mais repetidas do que se 
pensa: «...antes do tiro decisivo, no decurso de 
annos, mais de cem vezes — 4 ou 6 á minha vista 



1 A phrase é de Sousa Martins, na referencia a um 
<;aso idêntico. 



CAMILLO 225 

— sacou do revolver, que, a meio da cabeça, pendia 
da mão paralysada pelos instinctos conservadores.» ^ 
cO suicídio — escreveu Camillo nas Memorias do 
iMi*cere — é uma ideia tao habitual que jâ nem poesia 
nem grandeza tem para mim. No livro do sr. Al- 
berto Pimentel Os netos de Camillo^ vem o seguinte 
trecho de dialogo entre o auctor e a sr.* D. Anna 
Rosa Correia, a mãe dos filhos de Nuno Castello 
Branco, na visita, feita em agosto de 1901, a S. 
Miguel de Seide: « — O sr. visconde (Camillo), per- 
guntei eu, trazia sempre comsigo o revolver? — 
Sempre; jâ o levara a Lisboa, onde um dia o expe- 
rimentou, disparando para o tecto. Mas o filho (Nuno) 
tinha substituído as balas por uns projecteis inof- 
fensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu 
isto. Todavia não largara mais o revolver, nem 
consentia que lh'o tirassem. — De tanto o apalpar, 
observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída. 
A sr.* D. Anna Correia concluiu a sua dolorosa 
narrativa, dizendo: — Estávamos longe de imaginar 
que tivesse adquirido balas verdadeiras. Todos sup- 
punhamos o revolver vazio. Foi uma surpreza ter- 
rível. » Numa carta, já citada, a Martins Sarmento, 
Camillo define precisamente com todos os antece- 
dentes próximos e remotos, o estado de espirito 
que o levou á morte : «Eu bem queria poupar-me 
ao suicídio ; mas desde os 18 annos que presinto a 
uecessidade d'essa evasiva, sem me lembrar que a 



Sousa Martins, Ob. cit., p. 304. , . 



15 



226 CAMILLO 

cegueira seria o impulso justificadissimo da catas- 
trophe.» 

São dò Livro de Consolação estas palavras: 

«Aturdido pela apostrophe e coberto de lagri- 
mas, Eduardo ajoelhou, 'referindo os infortúnios 
que o levaram por necessidade e gratidão a servir 
o seu libertador. Com o soccorro da mãe compa- 
decida, conseguiu commover o velho até ao extre- 
mo de prometter-lhe não o denunciar á justiça, com 
a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de 
Barroso em casa de parentes. Foi; mas poucos dias 
permaneceu na soledade agra de uma serrania onde 
o desejo de morrer o debruçava sobre os despenha- 
deiros, implorando â sua desgraça a coragem do 
suicidio. A coragem ! Porque não hei de, acostado 
a moralistas de grande tomo, charmar-lhe antes 
cobardia? E' porque ha mister enorme coração 
quem dentro d'elle se abre um tumulo. E' porque 
vae esforçada valentia nisto de um infeliz se ani- 
quilar com a certeza de que, em vez de lagrimas, 
lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, 
o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da 
demência — suprema injuria a essas pobres almas 
que a divina justiça não mandaria ás penas eternas 
sem lhes descontar os terribillissimos paroxismos, 
aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da 
desgraça, aquelle relance d'olhos ao céo e o grito 
d'alma nesta dilacerante pergunta : « Quando te 
pedi eu a vida, ó Creador?» 



CAMILLO 227 



Também^ num dos artigos publicados em folhas 
tholicas, nos seus tempos de mysticismo,e reunidos 
ais tarde nos vulumes das Horas de paz, Camillo 
sse: «Não chamem ao suicídio o resultado d'uraa 
>mencia, O homem que se mata é responsável da 
a morte: é arbitro d'aquelle ferro que empunha, 
aquelle braço que ergue e d'aquelle sangue que 
srrama. » 

Nunca se escreveu falsidade maior, e nesse 
esmo artigo, vem um dos argumentos que, se 
lesse a pena, lhe serviria de irrespondivel con- 
adictat EV quando, depois de muitas citações, ten- 
entes a demonstrar a sua afirmativa, Camillo quer 
Imiuar os incrédulos com esta ultima prova : «Po- 
?râ alguém suspeitar demência em Napoleão? E, 
)mtudo, este seguro pensador três vezes attentou 
mtra a sua existência». Mal pensava Camillo que, 
inos volvidos, toda a gente saberia que o grande 
aparador foi declarada e provadamente um epi- 
ptico. 

No livro Horas de lucta, colligido por Freitas 
'ortuna, vêm alguns pensamentos de Camillo so- 
re o suicídio, escríptos em Abril de 88. Trans- 
revo-os : 

«A vida dos desgraçados irremediáveis seria 
^ pérfido escarneo do Creador se o suicídio lhe 
>S8e defeso. 



228 CAlfILLO 

« Qaando confronto a minha covardia com as 
tentações redemptoras do suicidio, então compre- 
hendo a grandêsa d'animo dos qae se matam. 

« Invectivar de covarde o suicida é escarrar na 
fronte d'um morto. Não se pode ser mais cruel nem 
mais infame. 

€ Um dos cânticos do Inferno de Dante é um 
poema de lagrimas. Sâo os suicidas que passam 
gementes. 

« Se a alma do suicida pudesse subir à presença 
de Deus, a divina Magestade esconderia a face en- 
vergonhada ou condoída da sua obra ; porque o 
suicida lhe diria como Job : « Porque me tiraste do 
ventre materno?» — Quare de vulva eduxisti mef,,.* 

Numa carta a Freitas Fortuna, inserta nas notas 
aos Delidos da Mocidade: 

« Pergunta-me o meu amigo : Chegado a esse 
extremo de extraordinário soffrimento, porque te 
não matas ? — Respondo : — Não posso ; Deus não 
quer». 

E numa carta ao Visconde d'Ouguella: 

« Passo mal, não paro. As noites são intolerá- 
veis. Se eu fosse só, como devia ser se tivesse juizo, 
já tinha resolvido isto summariamente » . * 

Sempre um pretexto: uma vez a fé em Deus, 



1 Log. cit. p. 116. 



CAMILLO 229 

outra os deveres da família e, em ambas ellas, fan- 
damentalmente, a mesma indecisão do neurasthe- 
nico que se prende á menor ideia, ao menor facto 
que lhe forneça uma explicação plausivel. Mas a 
preoccupaçáo de sempre, retrahindo-se um instante 
para irromper depois mais violenta, vae caminhando 
para a fatalidade d'um destino, creando forças novas 
a cada passo andado, accelerando-se com um inci- 
dente, por vezes fútil, mas caminhando sempre, 
mas continuamente progredindo. «A premeditação 
mede- se por dias, por meses, por annos até, escreveu 
Sousa Martins ^ ; haja vista o por isso celebre H 
Cousteux, que em 1863 se suicidou em Castellamare, 
decepando a cabeça numa guilhotina por suas pró- 
prias mãos construida, dia a dia, durante o longo 
período de dois annos.» 

No prologo da 3.* edição do Romance de um 
homem rico, datado de 1 de* julho de 1889, Thomaz 
Ribeiro descreve o estado de Camillo nessa época» 
próxima do fim. «A medicina acode-lhe desvelada 
■ — escreve elle — ; ensaia seus prodigiosos meios de 
acção, mas pede-lhe paciência! e o homem que es- 
creveu este livro, que soube dar tantos conselhos e 
offerecer tantos exemplos de resignação, não pôde 
xesignar-se. Como todas as casas lhe dão trevas, 
foge de todas as casas, de todas as terras, e até de 
todo o convivio, porque ouvir, somente, aquelles 



Ob. cit., p. 300-301. 



230 CAMILLO 

que o procuram, é ter multiplicados testemunhos 
da cegueira, que mais, dia a dia, vae julgando incu- 
rável. Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o 
irrequietismo da nevrose pôde mais que a sua razão; 
e dilacera-se no ergástulo. Alguma vez, de longe 
em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dà-lhe 
fugidia esperança; e elle pensa então e fala nas 
Chronicas das duas rainhas que trazia em laboração 
e tanto deseja concluir. A medicina promette-lhe, 
com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle 
escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, 
espera ! Esperança fugidia como o relâmpago que 
lhe cruzara pela retina ! A descrença volta inexorá- 
vel e com ella o inferno e os tratos do sempiterno 
horror. Então a anciã do suicídio toma-o de novo e 
elle afaga o revolver, como seu ultimo recurso. 
Tristíssimo. Assim vive, se é vida esta dilaceração 
angustiosa mil vezes peor que a morte, o nosso 
grande romancista, a hora em que escrevo estas 
linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em 
júbilos que a morte lhe venha num spasmo. Os seus 
raros e curtos somnos trazem-lhe pezadellos afflicti- 
vos; por isso pede muitas vezes que o não deixem 
dormir. Acorda em gritos lancinantes, estendendo 
convulsivamente os braços a procurar mão vale- 
dora. . .» 

E' um faoto^ conclusão natural do que está dito, 

que o suicídio é vulgar nos grandes homens, mas 

d'entre os grandes homens ó nos escriptores que 

4Blle colhe em maior parte as suas viotimas. A lista 



OAMILLO 231 

> longa e seria ocioso transladà-la dos livros de 
ciência que a divulgam, mas basta que se diga que 
ima estatistica italiana informa que nesse paiz a 
•roporçâo de suicidas litteratos por um milhão é 
e 619, emquanto a dos professores primários, que 
lais se lhe approxima é 355,3 apenas, a dos com- 
lerciantes 272, a dos moços de fretes 36, dos in- 
ustriaes 80 e dos padres 53 '". Geralmente os que 
xercem profissões liberaes suicidam-se com armas 
8 fogo, e os suicidas por armas de fogo visam na 
laior parte dos casos a cabeça. Sempre o tempo 
uente foi o mais propicio aos suicidas *. 

Toi numa tarde de Junho que, depois d^uma 
esillusão mais forte, Camillo Castello Branco, em- 
unhando com a mão direita o revolver e segu- 
Bindo-o com a esquerda para que a pontaria não 
ilhasse no ultimo momento, perfurou o parietal 
irei to com uma bala que, atravessando o encephalo, 
3Í bater contra o parietal do lado opposto. Soffreu 
inda duas horas, jâ sem fala. E, como não fosse 
íossivel encontrar por ali perto um padre que lhe 
desse prestar os últimos soccorros religiosos, sem 
ílles acabou de morrer tragicamente esse homem 
le génio que a desgraça acompanhou passo a passo 
i vida inteira. 



1 MossÉLLl : Del Suicídio, 1882 ; LéGOYT : Le Suicide. 
1881 ; LoMBROSO : Ob. cit, p. 71. 

« Sousa Martins: Ob. cit, p. 308. 



II 



Discussão 



Até aqui, os factos. Cumpre, para que toda esta 
longa exposição não fique estéril, classificá-los, fa- 
zendo um trabalho de synthese que permitta che- 
gar ás conclusões geraes que nos interessam. «As 
disposições d'espirito que fazem que um homem se 
distinga dos outros homens pela originalidade dos 
seus pensamentos e das suas concepções, pela sua 
excentricidade ou pela energia das suas faculdades 
afiectivas, pela transcendência das suas faculdades 
intellectuaes — afirmou Moreau (de Tours) no seu li- 
vro sobre a Psycologia mórbida, publicado ha cin- 
coenta annos e ainda hoje tâo moço como na primei- 
ra hora — têm a sua origem nas mesmas condições 
orgânicas que as diversas perturbações moraes, de 
que a loucura e a idiotia são a expressão mais com- 
pleta». Está sabido que Camillo foi um nevropatha 
e por concluso se pode ter também que a ess^ 



234 OAMILLO 

maneira de ser doentia anda adstricta toda a pri- 
marcial grandêsa do seu génio. 

Mas — occorre perguntar — adstricta de que mo- 
do? Sobre as relações do génio com a pathologia 
nervosa a sciencia náo disse ainda a sua ultima pa- 
lavra. Nesse problema, como em tantos outros que 
continuam irresolvidos no largo campo da sciencia 
psychiatrica, os tratadistas vacillam, de hypothese 
a hypothese, num terreno incerto e oscillante. É, 
com effeito, o génio um resultado de nevrose e con- 
sequentemente uma forma mórbida especial, cara- 
cteristica ? E antes a nevrose a resultante do génio, 
pelo uso excessivo de certas cellulas nervosas? Ou 
€ntáo o génio e a nevrose são as confinantes paral- 
lelas d^uma construcçáo mental anormalissima ? 
Ainda náo ha muito a questão foi posta nesses ter- 
mos, num interessante estudo medico-psycologico, 
em que o auctor concluo com as seguintes pala- 
vras, que resumem todo o seu modo de conside- 
rar o problema: «Applicando ao espirito a lei 
da evolução, vem-se a considerar o génio como 
a realização antecipada d'um typo superior de hu- 
manidade ou de intelligencia que náo apparecerà, 
normal e adaptado a uma existência nova, senão 
num estado ulterior de evolução. A doença resulta 
da inadaptação do génio ás condições actuaes que 
só permittem um imperfeito esboço d'esse typo 
futuro de humanidade». * E' afinal o desenvolvi- 



Gaston Loygue : Ob. cit p. 181. 




GAMILLO 235 

lento da conhecida phrase de Goethe : « O génio 
ão é do seu tempo senão pelos defeitos». 

Diga-se em verdade que o problema é complexo 
quasi impossível de resolver satisfatoriamente no 
stado actual dos conhecimentos scientificos. Moreau 
e Tours considera o génio como uma nevrose sem 
)rma determinada, Lombroso afirma-a de natureza 
pileptica; e, depois de lermos um e outro, uma 
bservação aflora ao nosso espirito : é que a duvida 
asce da ignorância em que estamos d 'essas nevro- 
es com que queremos relacionar o génio, levados 
►or factos positivos que realmente impressionam, 
intrar na destrinça das psyconevroses para vêr 
m qual d'ellas o génio melhormente se integra, é 
ranspôr os limites d'um campo vago de incerteza. 
Jâo nos illudamos : depois de milhares de observa- 
ões e centenas de volumes, a psychiatria está ainda 
aetade por fazer, e náo é sem razáo que Sergi 
«creve no seu livro sobre as JE moções : « Penso 
[ue em psychiatria existe ainda a convenção e 
íxistirá até que a psycologia normal faça um pro- 
presso mais accentuado nas relações da base physica 
íom os phenomenos mentaes.» * A expressão sine 
nateria que pretende servir de rotulo a um certo 
lumero de importantes e ainda quasi desconhecidas 
loenças do espirito, tem, mais tarde ou mais cedo, 
le desapparecer ; e só então, fazendo-se sobre as 



1 S. Sergi: Les Émotiona, 1901, p. 282. 



236 CAMILLO 

jocalisações uma mais clara luz, será possível entrar 
em caminho firme na investigação de certos ramos 
da psychiatria até hoje obscuros. 

Lombroso é um homem de sciencia notabilissimo 
e o seu livro sobre o génio vale muito, mas eu julgo 
nào errar afirmando que a poucos logrou convencer 
a sua theoria. O seu trabalHo é uma coordenação 
de anecdotas interessantes, n^ais ou menos compro- 
vadas, mais ou menos deturpadas pela tradição que 
as conduziu à sua banca de sábio ; e embora a essas 
historias se procurasse appUcar com toda a boa- 
vontade o melhor dos critérios, parece-me que ar- 
rancar-lhes uma theoria é um arrojo que extravasa 
um pouco dos methodos rigorosos que á sciencia 
compete seguir sempre. Haverá realmente uma cor- 
relação forçosamente mysteriosa entre a epilepsia e 
o génio? Occorrem-me as palavras de um illustre 
escriptor português, e medico, o sr. Júlio Dantas, 
no seu lúcido trabalho sobre Pintm^es e poetas de 
Rilha folies ; « O morhus sacer^ nevrose banalissima 
a que se quiz vestir o pontifical do génio, nada de 
valioso produz sob o ponto de vista d'arte. Entre 
tantos epilépticos que tem Bilhafolles, nem um 
génio só, sendo a epilepsia o ventre creador dos 
génios ! E que admira, se todo o comicial o e aÍM)Wy 
terreno maldito para toda a raça de educação, se a 
grande massa dos «sagrados» são verdadeiros dé- 
beis, e se a decadência intellectual, no morhus sacer, 
é uma verdade clinica que fere todos os observado- 
res? Recorrendo á documentação doeste trabalho 



OAMILLO 237 

encontramos a íina flor das obras d'arte que nos 
tem dado, nos últimos tempos, a população epilé- 
ptica de Rilhafolles: incoherencias, predilecção pela« 
formas externas do culto, religiosidade excessiva e 
hypocrita, symetria, cacochromia e abuso d^oiro nos 
documentos picturaes, figuras desbragadas e escur- 
rílidades torpes d'envolta com imagens devotas e 
latins de ritual, tendências para a figuração de ani- 
maes fabulosos, — nos documentos escriptos, os 
offertorios de feitio bajulo e meloso, os diminuitivos 
constantes, os característicos vossa excellentissu 
ma, vossa reverendíssima, e, por derradeiro, ainda 
nas menos toscas manifestações d'arte, a afirmação 
d'uma inteira invalidade psychica. Se o mal sagrado 
fosse realmente o grande seio creador do génio, 
como Rilhafolles se desentranharia em luminosas 
creações, em estupendas riquezas plásticas e imagi- 
nativas, e como estaria deslocada, là em baixo, nos 
muros fradescos de S. Francisco, a nossa beata 
academia de Bellas Artes ! » * 

Porventura seria mais defensável relacionar o 
génio com a fievrose hysterica. Os homens superio- 
res são, em geral, egoistas, irritáveis, de caracter um 
tanto pueril e bizarro como os hj^-stericos, sugges- 
tionaveis como elles, sujeitos a esses desvios de 
senso moral que tão salientemente resaltam no 
estudo das caracteristicas psychicas dos nevropathas 



1 JULIO Dantas : Pintores e poetas de Rilhafolles y 1900 
P..45.46. 



238 CAMILLO 

d 'essa cathegoria. O poder creador dos hystericos^ 
táo vivamente imaginativos, poderia mesmo servir 
de argumento-base na defesa de tal hypothese. Mas 
poder-se-ào relacionar com segurança dois estados 
mórbidos só porque, em parte, e curvando um pouco 
á mercê da nossa boa- vontade a realidade verificável 
das coisas, o seu quadro de symptomas se confunde? 
Será scientificamente correcto filiar o génio na 
hysteria, ou vice-versa, se em verdade nós funda- 
mentalmente ignoramos quer o que seja a hysteria, 
quer o que seja o génio ? Desde os tempos remotos 
em que se attribuia aos deslocamentos do útero 
(S(TT£pa) todos os phenomenos hystericos, até aos 
modernos continuadores da obra de Charcot, — 
Gilles de la Tourette, Pitres, Babinsky, Strumpel, 
Grasset, Eaymond, Fleury, SoUier e tantos outros 
— quantas theorias, quantas hypotheses, quantas 
observações, quantos estudos, para saber ao certo 
a génese e a natureza d 'essa nevrose caprichosa e 
esquiva ! . . . E, comtudo, ainda em agosto do anno 
ultimo, o XVII Congresso dos médicos alienistas e 
neurologistas de França e dos paizes de lingua 
francesa, reunido em Genebra-Lausanne, gastou uma 
longa sessão a discutir a definição e a natureza da 
hysteria. O primeiro a usar da palavra nessa assem- 
bleia a que presidiu Eaymond, foi o dr. Claude que, 
num extenso relatório afirmou, entre muitas outras 
coisas, que «na ausência de constatações anatómi- 
cas ou biochimicas precisas, a interpretação dos 
factos clinicos, mesmo esclarecida pela physiologia 



CAMILLO 239 

e pela psychologia, é uma base bem frágil» e que^ 
portanto « no estado actual da sciencia, convém 
observar uma certa reserva na descripção da hyste- 
ria, cujas definições conhecidas nos não permittem 
desenhar o quadro ^ « A hysteria é uma diathese, 
como avançou Bernheim ? — inquiriu ainda o mesmo 
relator. — Se se dá a essa palavra o sentido que lhe 
attribue o professor Bouchard, a hysteria pode ser 
considerada como uma disposição mórbida para as 
«loenças dependendo d'uma perturbação preliminar 
da nutrição? Poderemos tentar-nos a estabelecer 
um parallelo entre a diathese gottosa e a diathese 
hysterica: esta apparece sobre o terreno mal defi- 
nido do nervosismo como aquella sobre o do arthri- 
tismo. . .» * Ao dr. Claude seguiu-se o medico siiisso 
Jlí. Schnyder que começou logo por dizer que « todos 
os esforços tentados até aqui para fazer entrar as 
innumeras perturbações qualificadas como hystericas 
Ho quadro d^uma entidade mórbida tem sido infru- 
fstiferas » e que a « hysteria considerada de tal modo 
«ipparece como um proteo gigantesco e escapa a 
<jualquer definição.» ^ Na discussão tomaram parte 
Haymond (de Paris), Bernheim (de Nancy), Pailhas 
(d'Albi), Terrien (de Nantes), Babinsky (de Paris),. 
Clarapède (de Genebra) e Mendicini Bono. Bernheim 



* Congrés de Genève-Lausanne, Supplémént de VEncé^ 
phale. 2e Année. 1907. p. 208. 

* Log. cit, p. 211. 
' Log. cit , p. 215. 



^40 CAMILLO 

disse que « a entidade mórbida descripta sob o nome 
de hys teria náo existe»; que ca designação de hys- 
teria deve ser supprimida ou reservada para os 
doentes apresentando crises de nervos» e que «essas 
crises não são mais que uma reacção emotiva, des- 
envolvendo-se em certos casos no seguimento de 
emoções accidentaes ou de emoções enxertadas em 
doenças psychicas, toxicas ou diversas.» ^ Babinsky 
afirmou: «Um ponto sobre o qual os neurologistas 
parecem d'accordo desde ha um certo tempo é que 
a questão da hysteria necessita absolutamente de 
ser revista e que se tem reunido sob essa denomi- 
nação phenomenos discordantes.» ' SoUier concluiu: 
« A hysteria não é uma entidade mórbida. Tenho-o 
dito desde 1893. E um modo especial de reagir do 
systema nervoso e particularmente da crosta cere- 
bral que tende a fixar-se nos estados de menor acti- 
vidade, em que se encontra em virtude de diversas 
causas physicas ou moraes.» ' Ora uma questão que 
«e apresenta nesse pé não parece aproximar-se d'uma 
breve e concludente solução. 

Moreau de Tours, no seu livro de ha meio sé- 
culo que é ainda hoje o que de mais perfeito existe 
sobre o assumpto, caminhou só até onde pôde pisar 
terreno firme. Afirmou que «todas as vezes que 
virmos as faculdades intellectuaes elevarem-se acima 



1 Log. cit., p. 222. 

2 Log. cit., p. 227. 

3 Log. cit., p. 230. 



CAMILLO 241 

dp nivel commum, sobretudo nos casos em que 
ellas attingirem um grau de energia absolutamente 
excepcional, podemos estar certos de que o estado 
nevropathico, sob uma forma qualquer, terá influen- 
ciado o orgáo do pensamento, quer idiopaticamente, 
quer por via de hereditariedade, isto é, umas vezes 
em virtude da lei da ingenidade, outras em vir- 
tude da lei de imitação; o que equivale a dizer 
que 08 homens excepcionaes reconheceráo as mes- 
mas condições d^origem ou de temperamento que 
os alienados e os idiotas » . ^ E concluiu : < Em re- 
sumo, parece-nos sufficientemente estabelecido que 
a preeminência das faculdades intellectuaes tem 
por condição orgânica um estado malsáo especial 
do centro nervoso». * 

Essa opinião, solidamente deduzida e nitida- 
mente exposta ha tantos annos, vale bem mais que 
a hypothese moderna de Gastão Loygue já atrás 
condensada nos períodos transcriptos de sua obra, 
aliás, por mais d'um titulo, digna de interesse. Com 
effeito, esse auctor entende que a nevrose nos gé- 
nios ó uma resultante da inadaptação ao meio de 
typos moldados para a existência numa época fu- 
tura da evolução da espécie humana. Por conse- 
quência, segundo o seu modo de vêr, a crea,tura 
que apparece dotada de génio realiza um typo mais 
perfeito de humanid3.de e, como, nesse caso, se nào 



^ MOREAU (de Tours): Ob. cit. p. 463.: ^ 

« MOREAU (de Tours) : Ob. cit. p. 481. 



242 CAMJLLO 

adapta às coadiçOes ambientes, toriia-se presa de 
estados morbibos mais ou menos acceiítuados. E 
iim uevropatha porque é um inadaptado, é um 
inadaptado porque é um génio, ó consequentemente 
um nevropatha porque é um génio. Mas se está? 
por pormenores de interpretação, sujeito a contro- 
vérsia o facto das relações da superioridade intel- 
lectual com as nevroses, o mesmo não succede com 
esse outro facto compro vadissimo da ancestralidade 
nevropathica dos homens de génio ; e, de tal modo, 
o individuo nessas condições é por via de regra, 
mercê da fatalidade da herança, um nevropatha,- 
antes ainda de ser um génio. Seria em qualquer 
caso um tarado e poderia dar num neurasthenico, 
num epiléptico, num histérico . < . mesmo usufruindo 
um restricto desenvolvimento de intelligencia. Já 
aqui a afirmação do medico francês claudica. Po- 
derá o génio não derivar da doença nervosa, mas 
o que é positivo é que a doença nervosa não re- 
sulta do génio, pela razão comesinha de que, mesmo, 
sem elle, existiria. 

O génio anda adstricto, ou se quizerem mesmo, 
na dependência de manifestações doentias do sys- 
tema nervoso. Se essas manifestações revestem uma 
feição própria e característica, ou entram no qua- 
dro symptomatico d'alguma das nevroses ([ue co- 
nhecemos, é que se torna difiScil afirmar^ pela razão 
jà dita, de que essas nevroses, classificadas um 
pouco arbitrariamente, não nos apresentam os li- 
mites precisos para podermos isola-la^ e cotejar 



CAMILLO 243 

com ellas, uma a uma, as manifestações morbidaí» 
do génio. Mesmo entre o estado que chamamos 
normal e a loucura ha uma transição insensível. 
Escreve um medico francês — Dubois: «E' impos- 
sível &zer dos estados pathologicos de espirito, 
entidades mórbidas, classificá-los, segundo a sua 
symptomologia, em compartimentos nitidamente se- 
parados uns dos outros. Ha ao contrario, uma fusa o 
de tintas, como num esbatido photographico que 
passa do branco brilhante ao negro mais retinto. 
Nenhum de nós pode ter a pretençáo de tomar 
logar nessa zona de branco que representa a saúde 
ideal, inaccessivel ; estamos todos no branco apa- 
gado, no cinzento claro. O nevrotico que nos con- 
sulta póde-ôstar tranquillo : náo está tão longe de 
nós como imagina. Estendamos-lhe a mão, a esse 
pobre doente, não receiemos confessar-lhe sincera- 
mente as nossas fraquezas, as nossas taras innatas: 
aproximemo-nos d'elle». * 

O que é a neurastenia de que tanto se fala en 
de que tão pouco se entende? o facto é que nós, 
os sãos, estamos juntos d'ella e ella vae até bem' 
longe. De modo que ha quem a colloque nesse 
branco sujo de que fala Dubois e ha também quem 
a ponha ameaçadoramente nas fronteiras da lou- 
cura. Depois, quando a nevrose é simples e quadra 
mais ou menos rigorosamente num dos modelói?' 



^ Dubois : Les Pa^ehonévroses et leur traitement moral, 
1904, p. 184. 



244 CAMILLO 

conhecidos, ainda o caso se facilita; mas eu estou 
em crer que essas formas simples são raras. A pró- 
pria neurasthenia, estado mórbido tão vasto, d'uma 
elasticidade tamanha, pau para toda a colher, doença 
para todos os symptomas, tem de clinicamente accei- 
tar fusões, já com a hysteria, já com outras nevro- 
ses. E, assim por deante, ahi temos nós essas ne- 
vroses a cruzarem-se, a fundirem-se, a mascarar 
caracteres próprios acolhendo os alheios, acoitan- 
do-se, náo já somente sob psycoses diversas, mas 
ainda sob as doenças orgânicas do cérebro, do bolbo 
e da meduUa, a formar um conjuncto de novos sym- 
ptomas que, emancipando-se, nos definem a cada 
passo estados mórbidos autónomos. E nem sempre 
se trata nestes casos de adjuncções, como alguém 
pretende, mas muito nitidamente de associações mor- 
hidas, 

Adjuncções ou associações, o certo é que esses 
casos são frequentes. Abro, neste momento, ao acaso 
uma revista scientifica francesa * e vejo, apresentado 
pelos médicos Ernest Dupré e Leopold Levi, a 
citação d'um caso de delirio hypocondriaco de zoo- 
pathia interna, segundo a denominação por elles 
escolhida, num débil tabetico, hysterico e gastro- 
patha. E concebe-se que, embrulhadas frequente- 
mente as coisas d^esta maneira, se clinicamente o 
diagnostico é difficil, para especulações theoricas 



Bevue neurologiqtie, 30 de setembro de 1903. 



CAMILLO 245 

d'uma outra ordem é pouco seguro contar com elle. 
Mesmo uma estatística que, com toda a possível 
certeza nos viesse dizer a nevrose especial de cada 
homem de génio, correria ainda o risco de conduzir 
a conclusões pouco exactas. 

Nos homens de génio tem-se diagnosticado exem- 
plares de quasi toda a serie da pathologia nervosa. 
Ainda em 1907, no jâ citado Congresso de Genebra- 
Lauzanne, o íllustre psychiatra belga Eégis apre- * 
sentou uma interessante communicaçâo relativa à 
phase de presenilidade de Jean-Jacques Rousseau, 
e sáo doesse trabalho estas palavras : « Como já 
mostrei numa publicação anterior, destinada a um 
"volume próximo, mais pormenorizado e mais com- 
pleto, o auctor do Emile foi, antes de tudo, um 
neurasthenico arterioscléroso, no typo arthritico e 
constitucional. Sobre este estado pathologico fun- 
damental, que durou a sua vida inteira e se tradu- 
ziu pelas mais variadas manifestações physícas e 
psychicas, veio enxertar-se na edade madura, como 
um episodio paroxystico, um delirio de perseguição 
melancólica, isto é, com predominância de inquieta- 
ção, de anciedade, de reacções tristes e amedronta- 
das.» ' Mais recentemente ainda, no Congresso de 
Amsterdam (27 de setembro de 1907) m.«^^« Pascal 
(de Ville-Evrard) afirmou que Robert Schumann 
soffreu, dos vinte e três aos quarenta annos, de 



Log. cit., p. 247. 



246 CAMILLO 

Psychasthenia constitucional, e dos quarenta annos 
até á morte, de Paralysia geral. ^ £ abstenho-me 
de mencionar a longa serie dos homens de génio 
citados por Moreau de Tours na documentação do 
seu trabalho. 

Em vista de tudo o que fica dito, parece-me 
podei' considerar o génio como um symptoma, muito 

POUCO VULGAB, QUE ACOMPANHA NO QUADRO NOSO- 

OBAPHico UMA NEVROSE. Tal legitimamente o consi- 
dero, sem comtudo dar a essa maneira de vêr, aUás 
bem cautelosa e bem simples, a pretensão pedante 
d'uma verdade scientifica. E tal o considerando, e 
restringindo todo o raciocinio anticrior ao caso que 
me interessa, resta averiguar qual a nevrose que 
em Camillo se manifestou por toda a serie dos 
phenomenos mórbidos já largamente enunciados — 
€ peh génio. 

Segundo Charcot, «as nevroses resultam de 
«dois factores: um essencial e invariável: a heredi- 
tariedade nevropathica; o outro contingente e po- 
lymorpho: os agentes provocadores» havendo ainda 
a juntar á hereditariedade nevropathica os factores 
congenitaes, adquiridos na vida fetal, que a exces- 
siva concisão d^aquella formula exclue. Quanto ao 
primeiro factor, essencial e invariável, é notório 
como em Camillo elle influiu. Eu penso que difi- 
cilmente se encontrará estirpe mais opulenta para 



VEwséphale, 2.e Année. N.o 10. Octobre 1907. p. 451. 



CAMILLO 247 

a gaarda avançada d'ain caso esplendido de génio. 
E pelo que se refere aos factores adquiridos na vida 
fetal, basta recordar as primeiras palavras doesta 
nosogr^phia: «Camillo Castello Branco foi gerado 
no período mais intenso d'um amor violento...» 
Citar agora, um a um os agentes provocadores 
seria repetir o que está dito, contar de novo toda 
essa biographia accidentada, essa vida errante, de 
paixão e de amargura, que num periodo d'uma 
carta ao visconde de Ouguella, o próprio roman- 
cista synthetizou precisamente: «Eu, que nào co- 
nheci minha máe, e aos dez annos jâ não tinha 
pae, vê tu que mocidade tive, e como toda a mi- 
nha vida se havia de sentir da esterelidade de emc- 
Ções, com que passei a juventude. :t * 

Os symptomas mórbidos observados em Ca- 
tdillo podem dividir-se methodicamente em três 
ígrupos: Ao primeiro pertencem as nevralgias, a 
impressão do ferro em braza na cabev^a, a insomnia, 
^s phobias, a abulia, as obsessões e impulsões, 
^ irregularidade no trabalho, a tendência para a 
'U.u to- observação, a vagabundagem, e as primeiras 
J>erturbações visuaes. Ao segundo, o spasmo ner- 
"Voso no esophago, á versatilidade, a instabilidade, 
■o egoismo, o grande poder imaginativo, a inter- 
pretação mystica dos factos mais simples, as desi- 
:gualdades psychicas, o exagero de todas as sensa- 



Log. cit. p. 7. 



248 CAMILLO 

ções, as perturbações auditivas, ainda algumas 
perturbações visuaes (como a diplopia), os assomos 
de megalómano e perseguido, os sonhos, os payo- 
res nocturnos, os pesadellos e a tendência para o 
suicidio. Ao terceiro, finalmente, as dores fulgu- 
rantes, os silvos nos ouvidos, a surdez, a ataxia, as 
perturbações visuaes mais adeantadas (taes como a 
epiphora, a amblyopia, a nevrite óptica, a immobi- 
lidade da pupilla e a aínaurose). Esses grupos nào 
são, como facilmente se verifica, perfeitamente autó- 
nomos. Alguns symptomas que figuram no primeiro 
poderiam citar-se entre os do segundo, e vice- 
versa. E isso habilita-nos desde já a suppôr em 
Camillo a existência d'uma associação mórbida como 
as que referi. 

Os symptomas que juntei no primeiro grupo 
denunciam-nos claramente o neurasthenico ; os do 
segundo afiguram-se-me como pertencendo ao qua- 
dro de hysteria ; os do terceiro devem, a meu vêr, 
attribuir-se a uma doença orgânica do systema 
nervoso — o tabes, na sua forma clinica cerebro- 
bulbar. 

Pelo que respeita á neurasthenia, eu ponho de 
parte a ideia d'um erro de diagnostico resultante 
dos symptomas de formas neurasthenicas que mui* 
tas vezes, na opinião de alguns auctores, acompa- 
nham o tabes incipiente. Eu penso que, em taes^ 
circumstancias, é bem a neurasthenia que existe,^ 
como bom terreno acolhedor de todos os males do^ 
corpo e do espirito. Quando, ha annos, me referi pel 



CAMILLO 249 

primeira vez ã doença de Camillo, houve quem con- 
testasse o diagnostico da neurasthenia, dizendo-me 
illudido pelas perturbações cerebraes da ataxia que 
«adquiriram uma intensidade descommunal e accen- 
tuaram-se num sentido neurasthenoide » . * Mas — por 
Deus ! — nâo será entrar num caminho de subtileza 
demasiado. . . theorica, querer distinguir, sobretudo 
a distancia, um symptoma neurasthenico d\im sym- 
ptoma neurasthenoide? Eu comprehendo que um 
medico fale afoitamente d^ima pseudo-tuberculose^ 
d'uma pseudo-dipliteria, d'um pseudo- tabes; nos dois 
primeiros casos presuppõe-se a investigação negativa 
dos bacillos caracteristicos, no ultimo considera-se 
concludente o depoimento da anatomia pathologiça. 
Mas na neurasthenia, doença — se doença é ! — tão 
mal conhecida, tão mal limitada sobretudo, doença 
que só se define pelos symptomas, como distinguir 
os casos reaes d'aquelles que se pretende apresentar 
como apparentes? Neurasthenoide?... Mas quem 
afirma ao meu critico que não é a própria neuras- 
thenia, só ou ainda acompanhada de outra nevrose, 
q^ue se sobrepõe ou mesmo se associa ao tabes nos 
<5asos em que elle julga descobrir «as perturbações 
Cierebraes da ataxia»? quem lhe afirma que essas 
J>erturbações que não são constantes, que não são 
ftttaes, inevitáveis, nos ataxicos se podem integrar no 
Quadro d'essa doença, independentemente de qual- 



1 Vér NOTA F. 



25() CAMILLO 

quer associação ou adjuncçâo? Certamente, não é 
Dupré que, no artigo Psyohopathies organiques do 
tratado de Gilbert Ballet, escreve: «Os tabeticos 
puros, aquelles em que se nâo pôde suspeitar a 
existência de lesões paralyticas, só raramente apre- 
sentam perturbações psychicas» nem sáo também 
Déjerine e André Thomas que, no seu artigo Máln- 
dies de la moelle, no tratado de Brouardel-Gilbert, 
náo fazem a taes perturbações a mínima allusâo *. E 
Dupré náo só considera raras as perturbações psy- 
chicas nos tabeticos puros, como escreve mais o 
•seguinte, que eu posso trazer em apoio da hypo- 
these que suggeri : « . . . Entre as perturbações psy- 
chicas observadas nos tabeticos é preciso conceder 
íiqui uma breve menção aos accidentes hystéricos e 
neurasthenicos. A hysteina associa-se muitas vezes 
uo tabes, principalmente nas mulheres. Esta asso-^ 
•ciaçáo hystérotabetica, rica em perturbações sobre- 
postas à da serie tabetica nos dominios da sensibi--- 
lidade e da motilidade, é notavelmente pobre em— 
accidentes psycopaticos propriamente ditos. Apenas^ 
menciono a intervenção da hysteria por motivo d 
natureza psychica doestes accidentes, que testemu 
nham perturbações ainda mal conhecidas, e ale 
d 'isso muitas vezes latentes, do automatismo psy - 
cologico e dos elementos inconscientes da menta^- 



1 Traité de Pathologie Mentale, publié sous la directií^n 
de M. Gilbert Ballet, 1903, p. 1193. 



GAMILLO 251 

iade. A associação do tabes com a neurasthenia é 
lais frequente, sobretudo nos homens e em parti- 
liar nos doentes cultos: os artistas, os médicos, 
uc. A reunião dos accidentes tabeticos e das per- 
irbações neurasthenicas, sobre as quaes não insis- 
), compõe um quadi*o clinico^ variável segundo 
3 casos, e que pode simular muito de perto o da 
aralysia geral post-tabeHca. A semelhança entre os 
ois quadros clinicos é ainda levada mais longe 
ciando o tabes se complica com a hystero-neuras- 
\enia: em tal caso certos accidentes hystericos 
mulam os signaes somáticos da paralysia geral, 
specialmente a dysarthria ; e ó necessária uma 
aalyse minuciosa dos elementos dos diversos syn- 
romas tabetico, hysterico e neurasthenico para 
vitar um erro de diagnostico e prognostico. Certos 
ibeticos neurasthenicos tomam-se nosophobos e 
ypochondriacos : entre estes doentes, sobretudo 
08 médicos, desenvolve-se por vezes um estado 
lelancolico durante o qual o tabetico pôde suici- 

Registei entre os symp tomas de natureza hys- 
erica a tendência para o suicidio. Hão-de sem du- 
^da citar-me a descripção tão impressionante que 
fhomaz Ribeiro fez da vida do romancista num 
>erioclo vizinho da sua morte e perguntar-me se 
©rè preciso recorrer á hys teria para justificar o 



Ob. cit, p. 1195. 



252 CAMILLO 

desespero d^um homem que se vê torturado pela 
doença, impossibilitado de continuar na sua labuta 
indefensa de mais de quarenta annos. Mas eu lem- 
brarei a espectaculosa tentativa de 49, com os ver* 
SOS da Harpa do sceptico e as libras sobre a banca 
para que ao suicidio romântico ninguém pudesse 
dar a razão grosseiramente material da falta de di- 
nheiro. Esse foi bem um esboço de suicidio à ma- 
neira hysterica, com esse ar theatral das tentativas 
de género táo espalhafatoso que faz com que Tar- 
dieu, Huchard, Taguet e Legrand du Saulle, con- 
tradictando as opiniões de Colin, Pitres, Ritti, Solier, 
Gilles de la Tourette e tantos outros, insistam em 
não vêr no suicidio hysterico mais que uma co- ■ 
media. * 

« Um grande facto — diz Henri Colin no artigo 
Etat mental des hysteriques no tratado de Gilbert 
Ballet • — domina a historia da hysteria masculina, 
qual é o da associação frequente, poderíamos quasi 
dizer forçada, da neurasthenia com a grande ne- 
vrose». ^ Charcot designou por hysterio-neurasth- 
nia essa combinação * e os continuadores da sua 
obra, entre os quaes posso mencionar Gilles de Ia 
Tourette ^ põem a relevo a sua frequência. Bodeus- 



1 Paul Courbon : Histérie et suicide. Na Bevue di 
psychiatrie. Janeiro de 1907. p. 17. 

« Ob. cit. p. 828. 

3 Charcot: Leçons du mardi à la Salpatriere : poli di' 
nique 1888-1889. Notes de cours de Blin, Charcot, II. Colin. 



GAMILLO 253 

], em 122 casos de hysteria masculina regista a 
pressão melancólica da hysteria como caracter 
minante ' 

Pelo que ao tabes de Camillo diz respeito, eu 
o hesito em confessar que o quadro clinico está 
age de ser completo. Mas a lição dos factos diz-nos 
le o tabes cerebro-bulbar se manifesta quasi exclu- 
iramente por perturbações visuaes e auditivas, * 
le aos tabeticos cuja affecçáo começa por attingir 
neurone óptico acontece parar o mal na evolução, ' 
le não ha tabetico que apresente todos os sym- 
x)mas attribuidos a essa doença, * que nada mais 
i&cto que a phrase de Marie, afirmando que cli- 
Lcamente não existem dois tabeticos que se pare- 
im. G dr. André Léri, no congresso de médicos 
ienistas e neurologistas de França e dos paizes 
elingua francesa, realizado em Pau, em agosto de 
Í04, apresentou uma communi cação sobre as re- 
ições da cegueira com a paralysia geral e o tabes. 
latre outras afirmações que menos directamente 
08 interessam, concluiu que a cegueira é rara no 
abes confirmado, com grandes symptomas, e só 
requente no tabes com symptomas minimos de 



^ Bodeustein: Uysterie hei mannlichen Geschlecht 
^úisertatio Wurzhurg. 1889. 

* Maurice de Fleury : Manuel pour Vetiide des mala- 
^'« du système nerveux, 1904, p. 325. 

* VmÉs : Ob. cit., p. 3õ8. 

' * Flisury : Ob. cit., p. 234. 



254 CAMILLO 

lesào dos cordões posteriores; que a cegueira, quan- 
do vem, é geralmente antes da maior parte dos^ 
symptomas tabeticos; que a affecção a que se dâ o 
nome de tahes com cegueira é caracterizada por uma 
a trophia pupillar de evolução rápida, acompanhada 
frequentemente, náo só de perturbações tabeticas 
mínimas, mas também de perturbações mentaes 
minimas, em tudo análogas ás do começo da para- 
lysia geral; e que a cegueira dita tabetica, poderia 
ser também considerada como uma cegueira para- 
lytica, se as perturbações mentaes minimas da 
meningo-encephalite diffusa ligeira tivessem na 
nosographia a mesma importância que as pertur- 
bações physicas e funccionaes minimas dà méningo- 
my elite spinal posterior ligeira; e que o tabes,a 
paralysia geral e a amaurose tabetica representam 
simplesmente três localisações d'um mesmo pro- 
cessus, talvez de origem syphilitica terciária, que 
podem associar-se ou ficar mais ou menos com- 
pletamente isoladas. Além d^isso, anatomicamente, 
disse ainda o mesmo congressista, a atrophia optic» 
do tabes, é semelhante á da paralj''sia geral : trata-se 
da atrophia secundaria em lesões de meningite e 
de nevrite intersticial com ponto de partida vas- 
cular (endo e peri-arterite e phlebite). ^ Num livro 
sem responsabilidades scientiíicas, P<e?i«ewr^ et sa- 
vants, assignado pelo dr. Gélineau, afirma este 



Journal de Neurologie, 5 de Outubro de 1904yp. 3^ 



CAMILLO 255 

medico que só encontrou entre os pensadores um 
exemplo de tabes, em Aubryet. * Mas jà Pierret, 
na sua memoria Sia* la pathogenie du tabes, apre- 
sentada ao congresso de Moscow, em 97, nos diz 
que : c A sensibilidade é muito grande nos futuros 
tabeticos. Romancistas, artistas, homens políticos, 
artífices muito bem dotados, são sensitivos». De 
resto é sabido que o grande pintor Manet e o gran- 
de poeta Henri Heine, para mais não citar, eram 
tabeticos. 

Fournier pretende que o tabes é sempre de 
origem syphilitica. Charcot inclina-se mais para a 
perversão nervosa. Grasset relaciona-o com uma 
doença mais geral que se pôde chamar a sclerose 
múltipla disseminada. O que está fora de duvida é que 
o tabes suppõe um terreno anteriormente preparado, 
perturbado, diminuido nas suas reacções, viciado, 
degenerado, sendo essa degenerescência funcçâo 
da hereditariedade e traduzindo-se pela sensibili- 
dade excessiva, doentia, anormal, que caracteriza 
os predispostos. ^ Quanto ao papel etiológico da 
syphilis, os homens de sciencia continuam em des- 
accôrdo. E uma questão remota e debatida, que 
contínua ainda e na qual eu não pretendo de nenhum 
modo entrar. Segundo a maioria dos tratadistas, a 
syphilis tem um logar importante, de evidente 
preponderância, embora não exclusivo, n^ etiologia 



^ GÈLINEAU: Penseurs et êavantê, 1904, p, 190. 
s YiHÉs : Ob. cit, p. Õ41. 



256 CAMILLO 

tabetica. E esse mesmo logar primacial, mas não 
excluisivo, ha ainda hoje quem appareça a contes- 
tar-lh'o (Lancereaux). ^ Camillo era um syphilitico? 
Não sei. Náo me repugna acreditar que o fôsse. Foi 
um sensual, foi um estróina, e durante o seu pe- 
riodo de estudante, um amoroso que decerto ho não 
prendia demasiado em escrúpulos de escolha. Náo 
tenho porém elementos que me habilitem a afirmar 
a existência doesse importante factor etiológico. 

Poderia citar outros, de somenos importância: 
a variola, por exemplo, que atacando-o em creança 
deixou no romancista vestigios que concorreram 
para que elle pudesse ser considerado como sempre 
realmente foi — um homem feio. Assim como poderia 
citar também o descarrilam ento de que Camillo foi 
victima em 81 na linha do Minho, próximo a S. Eo- 
máo * e do qual, como elle próprio confessa no 
prefacio do seu livro de versos, sahiu «com a cabeça 
oito vezes fendida» . No inicio das uranifestações 
hystero-neurasthenicas esse caso serviria para regis- 
tar um dos traumatismos provocadores vulgarissi- 
mos nas origens d 'essa doença. Mas naquella altura, 
se podia influir no desenvolvimento do mal, já estava 
livre de acarretar com as culpas de agente provo- 
cador. Da syphilis é que, porém, se me náo depara 
o minimo indicio. Camillo, tão useiro em contar e 
em exagerar os seus males physicos, náo fala d'ella; 



* Vêr NOTA F. 

i 

• Alberto Pimentel: O romance do romancista. 



CAMILLO 255 

medico que só encontrou entre os pensadores um 
exemplo de tabes, ejn Aubryet. ^ Mas jà Pierret, 
na sua memoria Su7^ la pathogenie du tabes, apre- 
sentada ao congresso de Moscow, em 97, nos diz 
que : « A sensibilidade é muito grande nos futuros 
tabeticos. Romancistas, artistas, homens políticos, 
artífices muito bem dotados, são sensitivos». De 
resto é sabido que o grande pintor Manet e o gran- 
de poeta Henri Heine, para mais não citar, eram 
tabeticos. 

Fournier pretende que o. tabes é sempre de 
origem syphilitica. Charcot inclina-se mais para a 
perversão nervosa. Grasset relaciona-o com uma 
doença mais geral que se pode chamar a solerose 
múltipla disseminada. O que está fora de duvida é que 
o tabes suppõe um terreno anteriormente preparado, 
perturbado, diminuído nas suas reacções, viciado, 
degenerado, sendo essa degenerescência funcção 
da hereditariedade e traduzindo-se pela sensibili- 
dade excessiva, doentia, anormal, que caracteriza 
os predispostos. ^ Quanto ao papel etiológico da 
sypbilis, os homens de sciencia continuam em des- 
accôrdo. Ê uma questão remota e debatida,* que 
continua ainda e na qual eu não pretendo de nenhum 
modo entrar. Segundo a maioria dos tratadistas, a 
sjrpbilis tem um logar importante, d^ evidente 
preponderância, embora não exclusivo, n^ etiologia 



^ GÈL1NEAU : Penseurs et êavants, 1904, p< 190. 
* YiH^s : Ob. cit, p. õ4l. 



III 



Conclusões 



«o que dissemos nos capítulos precedentes, com 
ipeito à influencia exercida pelos estados nevro- 
bicos sobre as faculdades intellectuaes propria- 
^nte ditas é applicavel, sob todos os pontos de 
Jta, às faculdades affectivas, a esta virtualidade 

alma humana que é a origem das nossas emoções^ 
s nossos instinctos, dos nossos desejos e em parte 
libem da vontade, pela qual amamos ou odiamos, 
>s inclinamos para o bem ou para o mal, somos 
irados a ser úteis aos nossos semelhantes ou a* 
ejudicâ-los, a cumprir ou transgredir o que pres- 
eve o dever absoluto ou convencional, etc. O es- 
rito humano, na sua parte sentimental, experi- 
enta taes modificações, taes mudanças passagei- 
L8 ou duradoiras, que em vão se procuraria fora da 
-reditariedade a origem d'ellas. Em outros termos : 

^h organização particular dos pães, e não fora 
©Ha, que se encontra o principio ou a causa pri- 



26U CAMILLO 

meira de certos estados affectivos e moraes que 
se observam em alguns indivíduos. Esse prin- 
cipio náo poderia residir, como se pensou e escre- 
veu, nas formas exteriores ou plásticas do organismo 
(conformação, volume, peso) mas na própria vitali- 
dade dos órgãos, na sua actividade funccional. A 
accrescentar que, se elle se nos apresenta envolto 
em obscuridade e completamente imperceptível nas 
condições materiaes, jà o mesmo nào acontece en- 
carando-o nas suas condições dynamicas. D'isto a 
natureza inorgânica pôde fornecer-nos um exemplo. 
Pela maneira como vemos funccionar duas machi- 
nas quaesquer, podemos avaliar o que existe de 
commum entre ellas, sem que nos seja necessário 
inspeccionar-lhes as rodagens nem penetrar-Uies o 
mecanismo interior. As paixões affectivas são as 
mesmas em todos os homens. As differenças que 
apresentam em cada individuo sob o ponto de vista 
da energia e do desigual desenvolvimento de cada 
rima d^ellas não conseguiriam romper a uniformi- 
dade da natureza na espécie. Mas por vezes acou- 
tece que, em virtude d 'uma sobreexcitação resen- 
tida por todas igualmente ou de agitações parciaes 
devidas a uma desigual distribuição de Sensibilidade, 
ellas são a'rrastadas para uma esphera d'actividade 
absoltitameiitè excepcional. D*ahi a extranha asso- 
ciação, num mesmo individuo, das paixões mais 
diversas e mais oppostas, um mixto inexplicável de 
vicio e de virtude, de «levação e de baixeza, de 
egoismo, de generosidade, de pusillanimidadej de 



CAMILLO 261 

oragem, de doçura e de ferocidade. Em circum- 
tancias diversas, toda a energia vital parece con- 
entrar-se num pequeno numero de paixões boas ou 
aàs, d'onde dimanam os prodigios de virtude ou 
le depravação. Ordinariamente, faculdades intelle- 
tuaes pouco communs, uma imaginação viva, virão 
m auxilio da actividade desordenada das paixões 
-ffectivas. Mas noutros casos, ao contrario, esta 
ctividade fará contraste com uma fraqueza intelle- 
!tual que por vezes vae até á imbecilidade. E em 
►utros emfim, é a essa mesma debilidade de espirito, 
.0 mutismo da consciência, a uma espécie de atonia 
la vontade que as paixões deverão o seu poder 
tnpulsivo, mais que â sua violência natural. A que 
utra causa, se não à acção da hereditariedade, nos 

licito attribuir as disposições moraes d'excepção 

que nos acabamos de referir?» ^ 

Essas palavras do auctor do melhor trabalho 
ue possuimos sobre as relações da psycologia mor- 
ida com a philosophia da historia, fazem uma per- 
3Íta e clara luz sobre o caracter de Camillo, tão 
omplexo e inexplicável aos olhos dos que preten- 
iem vê-lo fora do critério que as observações da 
)sycologia mórbida permittem. 

Camillo Castello Branco, degenerado heredita- 
io, soffreu na sua vida agitada, de trabalho e de 
nartyrio, uma nevrose — a Jiystero-neuraMhenia e 



MOREAU (de Tours): Oh. cit, p. 248-250. 



262 CAMILU) 

uma doença orgânica do systema nervoso — o tabe 
Ao desvio patholog^co da soa Aincção nervosa d< 
vem attribuir-se os sens males physicos, as sm 
desigualdades de caracter e a sua superioridac 
intellectoal eminentíssima. 

Na saa descendência, indo até onde as natura< 
reservas nos permittem, encontramos, na geraçí 
immediata, além d'uma filha morta creança e d'uD 
outra que vive ainda, o filho Nuno, estroinaço, n 
vralgico e alcoólico, e o Jorge, passando a vida o: 
bebendo e masturbando-se, ora em accessos de lo 
cura extrema. Biographos, levados talvez por un 
phantasia que força um pouco, à mercê dos sei 
bons desejos optimistas as leis da herança morbid 
descobrem já na descendência d^esses filhos a aui 
de novos génios. . . 



r~ 



A OBRA 



« Ora, dos desequilíbrios da funcçao ner- 
vosa de Camillo, nasceria tulvez para o tra- 
cto intimo, o homem de brusquerias phre- 
neticas, de vulcânicos amores physicos, do 
reviravoltas de humor, intractavel, cruel 
e caprichoso — demos que Camillo Castello 
Branco fosse tudo isto — mas precisamente 
esta mobilidade de caracter é que fex <> 
artista genial dos t-ens romances, dos seus 
estudos irónicos, das suas verrinas littera- 
rias; deu-lhe o oondAo de forjar a obra prima 
d*um jacto, com todos os symptomas d'um 
retalho de vida palpitante ; de modelar almas 
tão diversas e tantas, numa prosa plástica 
como a cera e numa lingua rija como o 
bronze; e espargiu na sua obra emfim, todii 
essa porção de sangue insubmisso, d'inde- 
pendência forte, e de sonho miguelangesoo, 
que as litteraturas só de século a século re- 
gistram, e que o cosmopolitismo hodierno 
de todo está hoje sonegando ás nacionalida- 
des mortas que invadiu». 

Fialho d'Almeida. 



I 



Disse Armand Garrei que a vida de um grande 
íiâptor é o melhor commentario das suas obras^ 
explicação e, por assim dizer, a historia do seu 
eiito. ^ A ninguém melhor que a esse desgraçado 
grande Camillo se pode, com justeza, applicar a 
iceito, de tal modo os multiplices incidentes da. 
' vida accidentada influiram na génese da sua 
a, quer indirectamente originando os estados. 

espirito que deram terreno ás suas creações,. 
■r d'um modo directo suggerindo assumptos que 
'lia phantasia exhuberante depois romantizou» 

assim, essa obra sahiu irregular, desordenada, 
igual, por vezes até incoherente, como irregular^ 
ordenada, desigual e incoherente foi a vida do 
tide artista que a creou. E' o psycopatha a re-' 
=ir-se a cada pagina: aqui, atirando para os olhos 



* A. Carrel: Essai sur la vie e les ecrita de P. L. Cow^ 
'; Camillo: Maria da Fonte. 



266 CAMILLO 

do publico a sua própria vida, no que ella tem de 
mais secreto e de mais intimo; além, repudiando 
opiniões na véspera defendidas, com a mesma con- 
vicção e o mesmo ardor; ora fazendo da penna 
um instrumento de vindicta, numa arremettida in- 
dómita de orgulho que se náo deixa impunemente 
magoar ; ora procurando no leitor o confidente das 
suas horas de desalento e extrema angustia; esgri- 
mindo hoje contra a palha d'uns monos, na illusão 
megalómana de que por trás d 'ella existe a cota 
d^armas de luctadores dignos d'elle ; accumulando 
amanhã provas contra uma dynastia, pela vaga 
suspeição de que o representante da linhagem piil- 
luida lhe náo quer dar um titulo ; umas vezes, 
escalpellizando com o bisturi do sarcasmo, amo- 
rosamente, cruelmente deliciado, como uma fera do 
Santo Ofiicio a commandar uma tortura ; outras 
vezes, arrancando da vida real os personagens dos 
seus livros para os exalçar aos extremos românticos 
<lo amor, da abnegação e da ventura, por onde se 
librava, nas horas calmas, a phantasia alada do seu 
sonho. E' a vaidade, o orgulho, o misoneismo, o des- 
peito, a inconfidência, a impulsividade, a phantasia 
romanesca, a imaginação febril e poderosa, a facul- 
dade creadora soberba, admirável, succedendo-se, 
fundindo-se, associando-se, formando no conjuncto 
essa figura extraordinária de homem de génio e 
desgraçado que a incomprehensáo hesitante de 
ooevos e de pósteros nem sempre tem deixado 
-serena e justiceiramente avaliar. 



CAMILLO 267 

«Na litteratiira portuguesa contemporânea — 
jcreveu o sr. Theophilo Braga — Camillo Castello 
ranço é a mais poderosa organização esthetica, 
cercida em uma prolongada e continua idealização, 
iflectindo na sua obra todo o estado moral de uma 
30ca perturbada pela falta de uma doutrina.» ^ 
'as porventura não será a essa falta de doutrina, 
-o claramente reflectida na sua obra, que nós deve- 
os a expansão libérrima e admirável do seu génio? 
o reler, pagina a pagina, essa obra desconnexa e 
Jossal, imperfeita e assombrosa, eu pergunto a 
im próprio se uma systematizaçào de toda ella, 
>edecendo a um claro programma de doutrina, 
ubaudo tudo que ali existe de admiravelmente 
poiítaneo, por um acaso lhe augmentaria a gran- 
za. Porque de sobra eu sei que subordinar uma 
rga obra d'arte como essa a um corpo doutrina- 
), alinhando-a d^antemáo, por uma ordem, como 

capitules regrados, rigorosos, d^um trabalho de 
iencia, é correr o risco de pôr em debandada 
do o que á emotividade do artista tal obra d 'arte 
m de pedir, para ser grande. A critica não pôde 
mscientemente lamentar a descoordenação d'uma 
)ra como a de Camillo : tem de explicá-la como 
na consequência inevitável e lógica das caracte- 
sticas dominantes do génio que a creou. 



* Theophilo Braga : As modernas ideias na litteratura 
ortugiiêsa, 1802, v. i, pag. 240. 



268 CAMILLO 

E certo que Camillo Castello Branco viveu, lit- 
terariamente, numa época de transição, incerta e 
vacillante. Quando começou, o romantismo, semi- 
soito das màos de Garrett e prestes a cahir na 
rhetorica vasia de Castilho, entrava rasgadamente 
no caminho da decadência. A desorientação tomava 
posse dos espirites mais cultos : já se não sabia ao 
certo quaes as firmas litterarias, d'aqui e lá de fora, 
dignas de admiração e de respeito. Os próprios mes- 
tres, como Herculano, não hesitavam em reunir na 
mesma citação Balzac e Kock e em falar, com todo o 
seu empertigado desprezo cathedratico «das fabri- 
cas parizienses de novellas, dramas, viagens, come- 
dias, romances, folhetins, physiologias raoraes ou 
immoraes, e não sei de que outros productos das 
fabricas de Balzac, Sue, Sand, Arlincourt e C.*» ^ 
Porque para a opinião do solitário de Val-de-Lobos, 
que já por esse tempo falava sempre em tom so- 
lemne e era ouvido de joelhos como summo-ponti- 
fice da sciencia e da litteratura lusitanas, a ComediO' 
humana valia tanto como os productos do onanismo 
de olhos em alvo do alambicado visconde d'Arlin- 
court. Estavam as coisas, pouco mais ou menos, 
nesse pé, quando Camillo começou. Quatorze annos 
mais tarde, Theophilo e Anthero, rompendo fogo 
contra o elogio-mutuo, inveterado vicio d 'essa litte- 



1 Alexandre Herculano: Opúsculos, 1873, t. ii, ?• "^^ 
e 101. 



CAMILLO 269^ 

bura official de que Castilho era o arbitro supre- 
3, derribaram de vez o romantismo, rudemente, 
Lm ataque violento em que a audácia e o irrespeito 
m sempre infelizmente iam servindo um erguido 
pirito de justiça^ Fundou-se assim a chamada es- 
la de Coimbra, precursora do realismo, que dez 
mos depois surgiu, exclusivista, intolerante, finca- 
) nas suas apregoadas bases philosophicas e na irre- 
tavel justeza dos seus principios, colhidos no ma- 
incial da pura sciencia. Nesses modernos tempos, 
doutrinas positivistas, pendão de revolta doá 
;uerridos espiritos militantes — pendão que o sr. 
leophilo Braga, ficando só em campo, tem galhar- 
.mente segurado com as mãos ambas ha quasi meio 
culo — nem sempre os impediam de discorrer erra- 
mente. Assim, .por 1880, quando os recemvindos 
' arraial das boas-letras julgaram que lhes era pre- 
jo derribar o velho glorioso para conseguirem 
de acoitar os seus talentos a abarrotar de Ideias- 
)vas, um moço de real aptidão, que em mais se- 
no ramo d^arte nos deixou algumas pequenas e 
asi ignoradas obras-primas, envergou um pseu- 
>nymo para dirigir a Camillo uma carta-aberta 
1 que se lêem períodos assim : « V. Ex.a terá na 
teratura portuguesa o papel de Hugo, Dumas, 
iaubert. Sue, Feuillet, Zola, reydeau, Claretie, 
acpherson, Klopstock, Schuchart, etc, etc, nas 
.fferentes litteraturas dos diversos paizes? Cremos 
lie não » . Elle sabia lá, o bom e ingénuo apostolo 
e Comte, que diabo de papel tinham em França 



270 CAMILLO 

Feydeau e Claretie ou o arrevesado Macphersou 
nas nevoentas terras da sua Escócia ! Era, afinal^ 
o mesmo facciosismo de escola que fizera a hosti- 
lidade de Lopes de Mendonça e de Herculano quan- 
do Camillo litterariamente ensaiou os seus primeiros 
passos. Sempre o circulo de ferro de meia dúzia 
de ideias talhadas pelo figurino era moda, a acor- 
rentar a liberdade d'um juizo sem paixão, empa- 
nando inconscientemente um equitativo critério de 
justiça. 

Ora o que ha de mais admirável na personali- 
dade litteraria de Camillo é o modo como atraves- 
sou tão diversos períodos de combate, sem lhes 
soíFrer sensivelmente a influencia, firme sempre no» 
seus processos d'arte, realizando insensivelmente 
um meio termo que seria difficil conseguir d'outra 
maneira. Realista demais para ser romântico, ro- 
mântico demais para realista, mas camillesco sem- 
pre, elle só, inconfundível, é assim que temos de 
considerâ-lo, fora de todas as escolas, de que ape- 
nas corticalmente, quando muito, soffreu influencia. 

E a razão primeira d'esse isolamento, deve bus- 
car-se na phase inicial da sua educação : o tempo 
da Samardan em que viveu com esse padre Antó- 
nio d'Azevedo, «nome que os pobres, seus irmãos, 
reverenceiam, e os enfermos da alma abençoam; 
ancião virtuoso ; operário infatigável em serviço de 
Deus e da humanidade», como o próprio Camillo 
escreveu mais tarde, na dedicatória de O bem e o 
mal. Num dos volumes dos sSeròes de S, Miguel de 



CAMILLO 271 

Seide é assim que o romancista se refere a essa 
época, que elle próprio confessa ter sido a melhor 
da sua vida; 

«Uma vidraça do nosso quarto náo tinha por- 
tadas. Elle queria ver o repontar da aurora. Quan- 
do a lua nascia por alta noite, eu acordava, ás. 
vezes, e via-o sentado no seu leito banhado de 
luar, rezando os doze mysterios, por umas contas 
monásticas. Depois, chamava-me. Resavamos ma- 
tinas com luz artificial. íamos para a egreja. Eu 
tangia à missa e acolitava, pingando mais somno 
que devotas lagrimas. De volta do Presbyterio, fa- 
zíamos chá ; depois, lia-se a versão de Alexandre 
Garrett, os Annaes da propagação da fé, as Xoite,^ 
de Joung, a Miscellanea curiosa e proveitosa, os 
tnxiadct^, o- Theatro de los dioses, as Viagens de 
Cyro^ as Perigrínaçôes de Fernão Mendes Pinto, 
e a HistoHa de Portugal por uma sociedade de 
inglezes » . 

No Ao anoitecer da vida, fazendo a historia da 
sua primeira poesia — uma ode ingénua, á maneira 
árcade, com seu triste Alcino e sua doce Elemena. 
enamorados — Camillo escreve : 

« Creio que tinha eu então entre os quinze e os. 
dezeseis annos. Scismava mais do que lia, e Ha. 
mais poetas que compêndios escolares. Porém, c[ue 
poetas eu conversei na minha infância ! O pecúlio 
das riquezas rithmadas que enthesourava a pe- 
quena bibliotheca da minha familia de aquelle tem- 
po, bibliotheca de padies lá em cima na serra da 



^72 CAMILLO 

Mesío em Trás-os-montes, eram dois volumes de 
Bocage, um Camões, e umas trovas de não sei quem, 
dispersas nuns cinco tomos denominados Miscellanea 

poética Já então e de muito antes, se liam e 

tomavam para molde as poesias de Castilho, Garrett 
-e Herculano ; avultavam os Lamartúiistas ; balbu- 
ciavam os bardos novos aquellas meiguices e ama- 
neirados dizeres, nunca ensaiados entre nós com 
tanta louçania como, poucos annos depois, os admi- 
ramos na plêiade de moços que, em Coimbra, es- 
creveram o Trovado)', Ora, eu, em 1842, nâo 
conhecia alguns d'aquelles nomes, nem aquellas 
montanhas, onde u^e fiz homem, havia chegado 
livro de poeta, que merecesse enfileirar-se entre 
Bocage e um sermonario de José Agostinho de 
Macedo, com o Theatro dos Deuses â esquerda e o 
Fernão Mendes Pinto á direita, e as Viagem do 
€yro por cima, e a theologia do Lugdonense por 
baixo » . 

Litterariamente, educou-se pois Camillo fora da 
atmosphera do seu tempo, começou a ler român- 
ticos na altura jà em que o seu espirito estava apto 
^ recebê-los sem esse enthusiasmo vulgar na gente 
nova pelos nomes aclamados; ao contrario de todos 
os outros incipientes plumazes do seu tempo, elle 
soube que existiu um Bocage, um José Agostinho 
c um Fernão Mendes Pinto, antes de boquiabrirse 
ao estyl(5 "floribundo do visconde de Castilho, ado- 
rar o visconde Garrett na Lyrica de João Minimo, 
^ em Herculano, humildemente, saudar o Mestre. 



CAMILLO 273 

Tahi o seu amor aos clássicos, que depois foi lendo 
estudando com interesse e, mais tarde, a sua paixão 
e papelista, proporcionando-lhe excellentes meios 
e investigação de factos históricos deturpados ou 
ontroversos; e ainda, como natural consequência 
'essas leituras, a acquisiçáo d'um vocabulário vas- 
ssimo que lhe permittiu levar a nossa liiigua, que 
esde o século dezoito se viera depioravelmente 
mpobrecendo e abastardando, a um grau de mal- 
eabilidade e a um poder de expressão nunca attin- 
idos. De tal modo, a orientação litteraria de 
)amillo entra como elemento importante na justi- 
ícação critica da sua obra. Orientado já com se- 
[urança quando conheceu o romantismo, elle que 
>ni outro caso amesquinharia talvez o seu talento 
ia corriqueira reproducçáo de moldes feitos, soube 
la escola que* o recebeu aproveitar apenas as vir- 
tudes. Facciosismos de seita, exageros deploráveis, 
exclusivismos deprimentes — no que respeita, não 
ios seus pontos de vista criticos, mas aos proces- 
sos da sua arte — não os tinha elle nem os podia 
ter d'essa maneira, e eis porque, começando du- 
rante a febre romântica, acabando no enthusiasmo 
realista, os românticos achâ-lo-iam avançado de- 
íaais nos seus principies e os realistas haviam de 
vê-lo sempre, em seu trajar antigo, como velha reli- 
<iuia de tempos já distantes. 

Mas quaes eram esses processos da sua arte? 
Será possivel concretizá-los numa definição? Ou 



18 



274 CAMILX.O 

coordei)á-los em grupos, marcando a sua evolução 
no largo percurso de mais de quarenta annos? 

Em rigor, na evolucaoiitteraria.de Camillo não 
é possível marcar phase;s distinctas, com caracteres 
de diíferenciaçào perfeitamente definidos; antes, essa 
evolução, um pouco sinuosa, é apenas a resultante 
das contingências da vida aventureira do artista e 
d^i transformação social do meio, durante o largo 
periodo da sua actividade. Só um artificio pode 
fazer a divisão do seu trabalho em periodos autó- 
nomos; um. estudo completo de cada uma das suas 
o\)ras explica-nos a sua razão de ser, a origem da 
feição mais ou menos exiranha que porventura ella 
revista, esclarece-nos suppostas contradicçòes, mas 
não nos dà, nem pode dar, os elementos para uma 
classificação que não redunde em passatempo mera- 
mente ocioso. De resto, a obra de Camillo não 
resultou, nem podia resultar, d^um trabalho metho- 
dico, regular, ordenado; a sua actividade era aOíJ 
altos e baixos, como geralmente acontece nos ne- 
vropalhas como elle. E eu vou mesmo até ver na 
lealização das suas obras todo o processo d'nm* 
obsessão impulsiva, tanto mais que a sua psychoser 
amplamente provada, me auctoriza""a pensar assim- 
Pois do mesmo modo que, se fosse um kleptomanOy 
num impulso irresistível nos roubaria a carteira, s® 
fosse um py romã no nos lançaria fogo á casa, ^ 
fosse um dipsomano não resistiria aí>eber, seiôss^ 
um dumomano se veria força d o,, contra toda a séri^ 
de inhibições, apôr-se em fuga, e se fosse um coprolal^^ 



CAMILLO 27Õ 

ião teria outro remédio senão proferir inconvenien- 
ias lamentáveis, — sendo um homem de geniõ, 
íamillo havia de irresistivelmente fazer-se admirar 
m obras-primas. Teimo em considerar o processo 
dentico, fundando-me nos factos que me elucidam 
i sua maneira de trabalho. Cerlas obras suas, pla- 
leadas muito tempo antes de serem escriptas, ira- 
3uzeram-se talvez todo esse tempo ao seu espirito, 
3omo uma obsessão : havia de por força hesitar mil 
vezes em escrever um livro, antes de traçar a pri^ 
meira linha, esse homem que hesitou sempre em 
todos os actos da sua vida. Em alguns casos porém, 
essa hesitação se esclarece: alguns seus livros, inu- 
tilizados depois de impressos, por escrúpulos de 
varias ordens, appareciam mais tarde com altera- 
ções que só muito superficialmente lhes tiravam o 
mal que os tinha condemnado. Mas, vencidas todas 
as resistências do doente da vontade, a obra, ro- 
mance ou historia, escrevia-se com uma rapidez 
prodigiosa, d'um só jacto, — num impulso: o Licro 
Negro do Padre Diniz foi feito em vinte dias, ^ o 
Amor de Perdição em quinze, «os mais atormenta- 
dos da ^e^a vida». * 

Nessas condições, a obra forçosamente havia de 
ser irregular no género, na concepção e no processo, 
e ao estylo teria de faltar essa perfeição regrada e 



* H. Marques : Ob. cit. 

• Gamillo: Memorias do cárcere. 



^76 CAIIILLO 

uniforme que é o privilegio dos que fazem do tra- 
balho da forma uma tortura. E, não obstante, é 
precisamente na forma que é possível marcar na 
obra do romancista uma marcha regularmente evo- 
lutiva. A cada passo, o estylo se torna mais dúctil, 
mais harmónico, lucrando na sonoridade do período 
e no corte moderno da phrase o que porventura, 
até certo ponto, em espontaneidade e leveza ia 
perdendo. A comparação do Anafhema^ dos Myste- 
rios de Lisboa^ das Scenas contemporâneas e d'eutros 
romances dos primeiros tempos com a BrazUeira 
de Prazins ou com os capitules conhecidos da no- 
vella incompleta Via-sacra, ó, sob esse aspecto» 
elucidante. 

No género, já essa evolução se complica. O 
romance da actualidade, a novella histórica, os 
bosquejos eruditos, as peças theatraes, os versos e 
os volumes de compilação, apparecem-nos alternan- 
do-se durante todo o período da sua cfcctividadô 
litteraria. Nem sempre, porém, a elaboração d'essas 
obras preside o acaso : os artigos religiosos reunidos 
nos dois volumes Divindade de Jesus e Horas depa^ 
foram feitos durante a crise de mysticismo que o 
levou ao Seminário ; os estudos históricos appare- 

• 

ceram quando elle, pela supposição de que o rei 
D. Luiz se oppunha a que lhe dessem o viscondado, 
coordenou um libello de tremer contra os Bragan- 
ças ; as brochuras de fragmentos appareceram sem- 
pre nos períodos da sua vida em que a obra original 
não era monetariamente tão proveitosa que dispen- 



CAMILLO 277 

Basse o recurso d'uma exploração, mais ou menos 
guarnecida, do seu nome glorioso, na capa de um 
volume de coisas triviaes. Esse trabalho de coor- 
denador de coisas minimas foi quasi exclusivamente 
todo o emprego da sua actividade quando, no fim 
da vida, a doença lhe embotou, pelo cansaço, pela 
dor, pela cegueira, os derradeiros recursos do ar- 
tista. Os livros de polemica violentíssima vêm quan- 
do, mais que o ataque do adversário, a doença 
nervosa o exaspera, e eis porque então da sua penna 
espirram ódios e a sua prosa despedaça cruelmente, 
como se esse homem soffredor quizesse provar aos 
que gozavam a saúde que lhe faltava, o bem-estar 
que nào tinha, a fortuna que o trabalho lhe não 
dava, que, se não usufruia como elles esses bens, que 
Deus sabe com que grande ambição desejaria!, tinha 
o génio que os aniquilava, brincando, em meia dúzia 
de paginas demolidoras. 

Seria também inexacto, dizer que a obra de Ca- 
xnillo vae, em successão chronologica, numa ordem 
de mérito crescente. Não. A filha e A neta do 
drcediago, publicados em 65 e 66, são jâ duas no- 
vellas interessantíssimas, feitas com arte, archite- 
ctadas sem esforço, d 'uma graça espontânea que as 
faz lêr com agrado. Onde está a felicidade?, d'essa 
época também, corre como sendo uma das sua» 
obras-primas e foi aquella que fez desanuvear a 
, Herculano a carranca duvidosa do talento prima- 
cial do romancista. Esse livro foi, ate então, o maia 
ftpplaudido, e Camillo, animado com o successo^ 



278 CAMILLO 

fez-lhe a continuaçáo em Um homem de brios que o 
iiáo vale, e ainda, annos depois, nas Memorias de 
Guilherme do Amaral^ notavelmente inferior a am- 
bos os outros. O Amor de salvação, publicado em 
<>4, uào chega,, nem por sombras, ao Amor de per- 
dição, publicado dois annos antes e cujo êxito re- 
tumbante na semelhança de rotulo explora. O Litro 
de consolação, feito a propósito do caso Vieira de 
Castro e publicado em 72, As três irmãs, enco- 
menda do Commercio do Porto, em 61, e as Coisas 
espantosas, do anno seguinte, não figurariam, numa 
ediçáo selecta, ao lado do Romance d'um homem 
ricOj de 61, de O hem e o mal, de 63, do Esquekto, 
de ()5, e d^essa maravilhosa collecçáo das Novellas 
do Minho, impressa de 75 a 77. Depois da CorjOf 
do Eusébio Macário, e da Brazileira de Prazins, 
veio o romance mediocre Vulcões de lama. E eis 
como a producçáo litteraria de Camillo, irregular 
-em quasi todos os seus aspectos, artificializa, des- 
valorizando-a, toda a tentativa para £xar rigorosa- 
mente, adentro d'ella, os estádios de uma regular 
evolução. 

Mas a sua maneira de considerar o romance, 
o seu processo? Fixar-se-ia esse processo em ter* 
mos rigidos e intransigentes? seguiria, esse ao m®' 
nos, as phases d^uma successão evolutiva? E bem 
difficil responder a taes perguntas. A observação 
do critico, procurando uma solução, a certa altura, 
desorienta-se e hesita. Sente-se a tentação de fili*'" 
os primeiros romances de Camillo na maneira ro- 



CAMTLLO 279 

intica de Sue; de passar depois à observação de 
stumes e typos portugueses ; de registar a phase 
' romance histórico, a do romance moralizador, 
da transigência com os modelos naturalistas. Mas, 
►s próprios Mystenos de Lisboa nào é já a indivi- 
lalidade de Camillo que se destaca, superior a 
dos os modelos, acima de todos os propósitos de 
litaçáo? Acaso, nos chamados romances realistas 
)s seus últimos tempos, essa mesma individualidade 
ijante e victoriosa não amesquinha e inutiliza 
da a convicta ou simulada intensáo de transigen- 
a? Porventura os capítulos adoráveis da Via- 
cra nào sâo tão românticos ou tão naturalistas 
•mo os das Nonellas do Minho ou do Romance de 
n homem rico ? 

Vejamos então qual o juizo que ao próprio Ca- 
illo mereceram algumas das suas obras e procu- 
mos descobrir, por entre os traços enganadores 
uma ironia subtil, como, falando dos seus proces- 
s, mais d'uma vez contradictoriamente, o próprio 
•mancista os definiu. 
Era 18Õ6, no prefacio de Um Homem de Brios: 
«...Eu desejo escrever o romance de modo 
16 o meu leitor — se Deus me deparar um com 
cperiencia do mundo, e alma capaz de crear, pela 
íminiscencia de illusões extinctas, novas illusões 
-possa dizer: a vida é isto. . . Se posso espalhar 
Iguma flor sobre a chaga do vicio asqueroso, antes 
uero que os experimentados me taxem de imper- 
BÍto nos traços, e que os innocentes vejam asimper 



280 CAMILLO 

feições sem conhecê-las. Creio que me entenderam ; e 
se não entenderam, ea não sei explicar-me melhor. 
Desejo, outrosim, náo crear visões de virtude exagera- 
da, porque dou tanto pela immoralidade de Vautrin, 
como pela resignação da Angélica, como pela paixão 
suicida da Dama das Camélias. Na natureza não ha 
d'isto; e eu penso que a realidade é de si tão fortil, 
que náo precisa pedir de empréstimo à imaginação. 
E náo vejo outro modo de desmentir esta judiciosa 
sentença de Boiste : Les romans ne peuvent être que 
dangereux soit par les exhalaisons du vice et de la 
comiption^ soit par les fantômes d'une perfection 
idéale. Por consequência, verdade e mais verdade.- 
Vivamos neste mundo com os nossos heroes e os 
nossos leitores, para que o critico citado nos náo 
venha dizer, que quem tem a cabeça cheia de ro- 
mances não vive neste mundo*. 

Em 1858, 110 Discurso proemial dos Annos de 
prosa, publicado cinco annos depois: 

« Ha cincoenta annos que as senhoras não liam 
romances, por uma razão cujo descobrimento me 
custou longas vigilias : — não sabiam lêr. Algumas, 
rebeldes á vontade paternal, conseguiam soletrar e 
escrever á tia uma carta em dia de annos, copiada 
do Secretario português de Cândido Lusitano. Os 
pães acceitavam com repugnância aquelle abuso de 
intelligencia, e castigavam a filha, forçando-a a um 
trabalho litterario semanal : escrever em cada se- 
gunda feira o rol de roupa. Este systema penal 
tinha só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites 



CAMILLO 281 

da intelligeiícia, reduzindo-o ã essência bruta de sua 
nudez primitiva. Já nào era pouco para exempla 
e edificação das almas. O melhor moralista será 
aquelle que despir o delicto do coração das galaa 
que lhe veste o desejo e o cobrir de farrapos repulsi- 
vos. Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os 
prapagomtistas da corrupção tentaram exercitar a 
seu maleficio, vertendo para péssima linguagem 
portuguesa novellas francesas, que transpuzeram 
as fronteiras no couce da bagagem do Junot. Em 
1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela. 
impertinente virtude das novellas, taes como A vir- 
tude recompensada e o Escravo das paixões, quebrou 
as ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão 
de Tom Jones, o Sophá, o Cândido, e quejandas, 
faúlas incendiarias, que pegariam nos corações, se 
a manteiga e o paio das tendas não esfriassem a 
força comburente d^essa droga que acirrava os pa- 
ladares antropóphagos d'aquelle festim de 1793. 
Bemdita e louvada seja a ignorância ! Os romances 
franceses, até 1830, encontraram as almas portu^ 
guêsas hermeticamente calafetadas. Até esse anno 
infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da 
despensa,* a providencia da piuga, e sobre tudo, a. 
fêmea do homem, qual Jehovah a fizera d'uma cos- 
tella do mesmo. O salão era como trintario cerrado 
onde, a espaços, uma gosmenta matrona espirrava, 
e a sociedade, a cabecear de somno, surgia estre- 
munhada, dizendo : Dominus tecum, A menina ca- 
sadeira não se erguia de ao pé da mãe. O noiva 



2H2 CAMILLO 

mirava-a de longe em felina beatitude; e, no ange da 
sua casquilha audácia, piscava-lhe a furto o olho, 
onde reslumbrava a paixão. Náo havia então d'esses 
homens molherengos, que alambicam a parlènda 
assucarada, coando por ouvidos incautos o veneno 
do ostylo, que é o mais corrosivo do quantos ha 
na toxicologia do amor. A mulher actual é quasi 
sempre victima da rhetorica requentada do ro- 
mance, que estéril peralvilho lhe encampa como 
-cousa de sua alma. Algumas conheço eu que resva- 
laram ao abysmo da perdição pela rampa de um 
adverbio euphonicamente intruso num período arre- 
(>oiidado. Este sortilégio da linguagem que enfeitiça 
e dá quebranto às mulheres, é apanhado no ro- 
mance. O corarão de certos individuos acha-se, 
muitas vezes, a paginas tantas da tal novella. Sem 
figurinos e romances nào haveria corpos apresen- 
táveis nem espíritos insinuantes. Muita gente se 
espanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos 
pyramidalmente tolos. Eu nâo. Tal ha que se- vos 
afigura mazorro (Falma, e, náo obstante, ao lado de 
mulheres, dispara descargas de phrases amorudas 
ijue é um pasmar. Asneira, dita em nome do cora- 
ção, não ha uma só que não seja laureada. Cada 
Petrarcha lòrpa tem, a final, o seu capitólio. A mu- 
lher, por via de regra, é de seu natural tão boa, 
sensível e generosa que chega a recompensar a 
pertinácia do homem que, primeiro, a nauseou : o 
segredo d'este panidoxo está na influencia conta- 
giosa da tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e 




CAMILLO 283- 

TÍu rebentar lagrimas de uma cabeça de granito, 
cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de 
Horeb. AUiciada pela serpente da vaidade, suc- 
cumbe como Eva. Que mudanças! D'antes o caixeiro 
principiava sempre a carta de namoro por : Meu 
amado bem! Agora jâ diz: Anjo! ou Serafim! 
Era d'antes a phrase sacramental do exórdio: Ver-te 
e amarte foi obra de um momento. Agora não é raro 
encontrar d'estes arrojos : Amar e morrer é meu 
deMino ! E, depois, o malefício do romance não 
está somente no plagiato irrisório; o peor é quando 
as imaginações frivolas ou compassivas se entalham 
nos lances da vida phantasiosa da novella, e crêem 
que a norma geral de viver é essa. Emquanto a 
mulher estuda somente a phrase que applica, bera 
ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer 
ò que não ó, bem vae. Dá-se um exemplo: A apai- 
xonada de um amigo meU, ao recebê-lo pela pri- 
meira vez em sua casa, no patamar da escada, an- 
tes de deixar-se beijar a mão, estendeu o braço di- 
1'eito em magestosa attitude, deu â fronte a regia 
altivez de uma Phedra de aguas-furtadas, e disse 
em tom cavo e solemne : Juraes levar-me ds aras ? 
O meu amigo, que balbuciara um prefacio de longo 
estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu 
as escadas por não poder com o espectáculo da 
dama corrida do insulto. Eis aqui uma que os ro- 
mances de Arlincourt salvaram ; quantas, porém, 
perdidas por guardarem as phrases ridiculas para o 
final?... Grande mal é o identificar-se o espirito 



284 CAMILLO 

às visualidades do romance. Quando a leitora se^ 
ri das crendices da sua infância e dos absurdos 
principios que lhe apoucaram o imaginar e o voar 
do espirito, vem-lhe os enfados, o escutar as men- 
tiras do coração que se emancipa, o crer que a 
vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e 
que o viver da alma, assim^ será como o do arbusto 
bravio que dá flores semaroma^ e fructos sem sa- 
bor. Seja, outra vez, bemdita e louvada a igno- 
rância de nossas mães, e nossas irmãs, e nossas 
esposas ! A vida caseira, esta deliciosa monotonia, 
que a poucas é já saborosa no viver intimo, requer 
muita estupidez, muito somno a toda a hora, um es- 
tômago exigente e forte, muita digestão soporosa de 
substancias pesadas. Esta bemaventurança ha-de res- 
taurá-la a ignorância supina, não háo-de ser as pa- 
lavrosas theorias de Michelet ácêrca do amor e da 
mulher. Comecem os pães de família por circum- 
valarem*suas casas de um cordão sanitário contra 
a peste do romance, que não se abonar com a pro- 
mettida pudicícia d'este, e de outros com que o 
auctor, coração aberto a todas as chimeras, e de 
entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronca 
carcomido da humanidade toda a casta de virtude:>» 

Em 1862, no prefacio da segunda edição dos 
Doze casamentos felizes : 

€ Cuidou o auctor que este livro, á custa da sua 
muita simpleza e naturalidade, desagradaria ao má- 
ximo numero de pessoas, que aferem, ou d'antes 
aferiam o quilate d'uma obra de phantasia, con- 



CAllILLO 285 

soante os lances surprehendentes e extraordinários. 
Não foi assim. A época é outra, e melhor. O mara* 
vilhoso teve sua voga, seu tempo e sua catastrophe. 
Também o auctor foi tributário da moda, quando, 
mais que a arte, o seduzia e subornava a gloria de 
ser lido. Ahi estão os Mysteríos de Lisboa e o Livro 
negro e que taes volumes, cujas reimpressões são 
o proporcionado castigo de quem os fez. Não ousa 
o auctor dar-se algum dos seus livros como modelo 
a si mesmo: sem-razão seria pensarem que elle dà 
esta, ou outra obra, como pauta e exemplar a estra- 
nhos. Pediria, isso sim, que se fizessem romances 
como se pintam paisagens, de modo que o mereci- 
mento de taes escríptos assentasse na fidelidade da 
cópia, tal que cada leitor visse nella um seu modo 
de sentir, ou a reminiscência d'algum quadro, mais 
ou menos análogo, que, alguma vez, se lhe offereceu. 
O auctor tem -se empenhado em averiguar se a lei- 
tura dos Doze casamentos felizes daria azo a que elle 
pudesse escrever mais um decimo terceiro. Vem a 
propósito agora pedir-se ao leitor, prosperamente 
casado, que, se este livro lhe melhorou o coração ou 
a razão, se não peje de o revelar ao auctor, que 
nenhum maior premio ambiciona. A revelação 
seria coisa original; mas animadora para quem 
escreve. Pois se dizem que alguns romances, inflo- 
rando o crime, e aconselhando o divorcio, corrom- 
peram as almas, será desatino esperar que o romance, 
conselheiro e panegyrista das virtudes conjugaes, 
produza salutares contentamentos?» 



2S() CAMILLO 

No prologo das Ksirellas fNiie^sfas, romance pu 
blicado nesse mesmo anno de 1802: 

«Esta historia è innocente. Podem lê la senhoras 
de imagina(^*áo impressionavel, e os moços descon- 
tentes da vida incolor e monótona que a sociedade 
lhes prescreve. O auctor, quando era rapaz, não 
enganou alguém escrevendo : ahi estão uns trinta 
volumes a defendê-lo da calumnia, se alguém o argue 
de romancista corruptor. Agora, que está velho, 
dobrada obrigação lhe corre de desvanecer precon- 
ceitos, que disparam em desordem da vida, e sacri- 
ficam os thesouros da paz ao pobre do coração que 
tào mal os paga, por não ter cousa boa que dar 
por elles. Crê o auctor que ha, no caminho da vida, 
muitas paragens alegres, se o caminheiro as sabe 
ver com os olhosr já cançados de perseguir as fugi- 
tivas visões. Nem podia deixar de ser assim, a menos 
que a verdade, tilha do ceu, não fosse um mal. E a 
verdade, para uns têmpora, e serôdea para outros, 
a final, a todos alumia, como o sol do Senhor, que 
primeiro doura a colmada choça do montanhez, e 
depois desce os flancos da serra, doura e lustra os 
zimbórios dos palácios, e verte do seu zenith nin 
raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre 
as unhas do leão. Aquellas paragens verdadeiras do 
caminho da vida, são hospedagem commum ; toda- 
via, os mais dilectos do anjo bom, que ali recebe 
os peregrinos, são os mais infelizes, os mais que- 
brantados da jornada, os que subiram até lá o desfi- 
ladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do 



CAM1.T.L0 2S7 

njo, rebaptisados na agua de suas lagrimas. Sentado 
uma d 'essas paragens é que eu conto esta historia 
s pessoas que a quizerem ouvir por complacência 
om a minha velhice, e porque eu lhes assevero que 
ste e todos os meus romances olham a prevenir o 
3Ítor contra os infortúnios procedentes da mentira 
o coração.» 

Em 1863, prefaciando a segunda edição do 
tomance de um homem rico: 

«Este foi o mais querido dos meus romances e, 
3 o vaticinio, que aventuro sobre o meu futuro de 
scriptor, me sae exacto, este romance prevalecerá 
quantos a minha imaginação já desluzida, e como 
força, der de si. Com tristeza sincera confesso 
ue no que fui já mal me reconheço. As rn^as da 
ronte empecem, ao coar d^aquella tlamma, que me 
quentava a phantasia, e dentro me alumiava, como 
m lâmpada magica, lances da vida exterior, uns de 
iso, outros de lagrimas. E eu entrava em espirito 
) em coração neste interior mundo, e lá me sentia 
âver, soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar 
nspiraçáo; mas sem modéstia de vaidade, podia 
íhamar-Ihe feliz capacidade para engenhar obras 
l'um dia, leituras de duas horas, recreio a ócios de 
}uem os não sabia gastar melhor e mais aproveita- 
los. Como se foi amortiçando a luz da minha 
mocidade, e aquelle incansável amor ao trabalho, 
languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte 
esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? 
A.cabou-se como tudo t]ue principia, e mais depressa. 



"288 CAMILLO 

•que o deperecer commam das fÍEM^iildades inventivas. 
Esta é a sorte immerecida d'aqaelles qne não pude- 
ram ou nào qnizeram poupar o vigor do coração em 
vantagem do vigor da intelligencia. A mais ardente 
cabeça de homem empedrou debaixo da mão glacial 
da desfortuna. Foi este romance escripto nas cadêas 

da Relação do Porto em 1861 Viveram no 

meu ergástulo da Itelação do Porto, comigo, noite 
e dia, o padre Álvaro d'este romance, e Maria da 
Oloria, e Leonor, e a santa de Vairão; e Thereza, e 
Marianna, e meu tio desterrado do outro livro cha- 
mado Amor de perdição. Viveram comigo aquelles 
ditosos pares que eu casei, e o publico hospedou 
alegremente, com o livro Doze casamentos felizes. 
E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que 
ijs via sentados em volta do meu leito. Cá fora, á 
luz em cheio do sol, não os encontro.» 

Nesse mesmo anno de 1863, no prefacio da 
Filha do Doutor Negro: 

« . . . A historia de Albertina no trajecto de vinte 
annos, muitas vezes me acudiu á lembrança, nas 
horas em que eu combinava na palheta as cores 
com (|ue bosquejei os quadros tristes e alegres da 
humanidade, que m'os acceitou benignamente, não 
porque fossem bons, mas porque eram fieis: das 
deformidades da natureza seria injustiça irrogar*me 
censura a mira. Desaproveitei o romance de Alber- 
tina, em todas as vezes que me lembrou, porque 
me alistara na laureada e gananciosa milicia dos 
romancistas do terror gi^osso, como d'elles dizia JuUo 



^ 



CAMILLO 289 

Janin, o celebrado folhetinista, que escreveu O 
burro morto, romance que começa a aterrar a gente 
desde o titulo, e, lá pelo meio adeante, mette a 
humanidade num banho de sangue, de muita gente 
e do burro citado. A final, e muito a tempo, desertei 
Ás bandeiras dos mestres franceses, e entendi no 
melhor modo de descrever os usos e costumes da 
minha terra, os sentimentos bons e maus como por 
cã os tenho visto, as paixões como ellas são cá, e 
como creio que ellas sâo em toda a parte, tirante 
as composturas, artifícios e maravalhas de lingua- 
gem, com que, para maior gloria do género pestilen- 
cial, corruptor das almas, os pintores da sociedade 
adulteram a verdade das coisas e pessoas. Cae a 
propósito neste ponto declarar eu á critica bem 
intencionada de alguns dos avaliadores dos meus 
últimos livros, editados em folhetins do Coynmercio 
do PoHo, que nem levemente me constrangem as 
condições que me pauto e imponho, no desenvolvi- 
mento da ideia moralizadora, ou, pelo menos, intuito 
social e humanitário de cada um dos romances. 
Taes são os publicados com os títulos : Três irmãs, 
JEst relias funestas , Eit relias propicias, O bem e o 
mal. E, afora estes, que a critica irreflectida cui- 
dou me haviam sido assim prescripto? e agoren- 
tados pela seriedade d'aquelle jornal, escrevi com 
igual intento e desassombrada espontaneidade o 
Amor de perdição, o Romance de um homem rica, e 
outro, que está no prelo, chamado Amor de sjalva- 
ção. De nenhuns outros me ficou tão cheio o animo 

19 



2yO CAMILLO 

de contentamento, contentamento sem vaidade, sa- 
tisfação de ter povoado a minha phantasia de ima- 
gens, que seriam ainda sublimes e bellas, quando 
nâo fossem imitáveis e verdadeiras. A esta serie 
de romances pertence a Filha do Doutor Negro, 
bem que o titulo prometta scenas escuras, e se dê 
um geito de engodo á curiosidade. Não vem para 
isso. Faço pouco finca-pé em títulos, e não dou nada 
pela cousa que traz logo um rotulo de negocio, no 
modo como se intitula. Chamei ao livro assim, por- 
que a heroina do romance, como já se vae dizer, 
tinha muita honra em ser assim conhecida. A razão 
por que eu esperei vinte annos esta hora, hora de 
infinita dor, em que principio a escrever tal roman- 
ce, é que eu, nesse longo termo de meia existência, 
cuidei que, sem intercalar de episódios imaginários 
a historia de Albertina, mal ou de nenhuma maneira 
lograria dar- lhe vida, interesse, variedade, e numero, 
como diria um correcto juiz com o Quintiliano era 
mente. Agora, revirou-se o meu entendimento em 
cousas d'esta ordem, como em quasi todas as cousas 
ordenadas ou desordenadas pela gente. Estou apto 
para trasladar o que vi e vejo, sem pedir empres- 
tado á imaginativa o que a natureza me não dá. Se, 
alguma vez, falsifico as tintas, ou derramo a mãos 
cheias fiôres sobre as ulceras, é is^o um excesso da 
generosidade que uso com o mundo e comigo. Bas-, 
tam as misérias vistas : poupemo-nos á estampa, qae 
não corrige nem condemna. Para juiz lá está Deu^i 
Para algoz, basta que cada um o seja de si próprio.» 




CAMILLO 291 

Ainda em 1863, no prefacio á segunda edição 
do Amor de perdição: 

«Este livro, cujo êxito se me antolhava mau, 
quando eu o ia escrevendo, teve uma recepção de 
primazia sobre todos os seus irmãos. Movia-me á 
desconfiança o ser elle triste, sem interpolação de, 
risos; sombrio, e rematado por catastrophe de 
eonfrangir o animo dos leitores, que se interessam 
na boa sorte de uns e no castigo d^outros persona- 
gens. Em honra e louvor das pessoas que estima- 
ram o meu livro, confessarei agradavelmente que 
julguei mal d'ellas. Não aprovo a qualificação; mas 
a critica escripta conformou-se com a opinião da 
maioria que antepõe o Amôi' de pei*diqão ao Ro- 
mance de um homem rico e ás Estrellas propicias^ 
E grande parte neste favorável, embora insusten- 
tável juizo, a rapidez das peripecií^s, a derivação 
concisa do dialogo para os pontos essenciaes do 
enredo, a ausência de divagações philosophicas, a 
lhaneza da linguagem e desartificio das locuções. 
Isto, em quanto a mim, não pôde ser um mereci*- 
mento absoluto. O romance que não estribar em 
outras recommendações mais solidas, deve ter uma 
voga mui pouco duradoura. Estou quasi convencido 
de que o romance, tendendo a apellar da iniqua 
sentença, que o condemna a fulgir e apagar-se, tem 
de firmar sua duração em alguma espécie de utili- 
dade, tal como o estudo da alma, ou a pureza do 
dizer. E dou mais pelo segundo, merecimento : que 
a alma está sobejamente estudada e desvelada nas 



292 CAMILLO 

Ittteraturas antigas, em nome e por amor das quaes 
muita gente abomina o romance moderno, e jura 
morrer sem ter lido o melhor do mais apregoado 
auctor. Dou-me por suspeito nesta questão. Graças 
a Deus, ainda nã.o escrevi duas linhas a meu favor, 
nem sequer nas locaes do jornalismo. Até escrupu- 
lizo em dizer que devem lêr-se romances : náo vâo 
cuidar que eu recommendo os meus. E certo que 
tenho querido imprimir em alguns dos meus livros 
o cunho da utilidade com o valor da linguagem sã 
e ageitada á expressão de ideias, que pareciam 
estranhas, como de feito eram, e não se nos depa- 
ram nos escriptos dos Sousas, Lucenas e Bernardes. 
Em verdade foi isto mirar muito longe com vista 
muito curta; assim mesmo, fiz o que pude; e neste 
livro direi que fiz menos do que podia. Nos quinze 
atormentados dias, em que o escrevi, falleceu-me o 
vagar e contensáo que requer o acepilhar e brunir 
períodos. O que eu queria era afogar as horas, e 
afogar talvez a necessidade de vender o meu tempo, 
as minhas meditações silenciosas, e o direito de me 
espreguiçar como toda a gente, e o prazer ainda de 
sertão lustroso na linguagem, quanto, em diversas 
circumstancias, podia ser.» 

Prefacio do Esqueleto, publicado em 1866, pela 
primeira vez : 

«Em quanto á influencia do romance nos cos- 
tumes, estou mais que muito desconfiado de que o 
romance não morigera nem desmoraliza. Porém, 
admittida a ponderação que lhe alvidram os ex- 



CAMILLO 293 

hortadores dos pães de família, não sei decidir como 
se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São 
dois os expedientes : levar os personagens viciosos 
ao despenhadeiro ; ou crear anjos num paraizo sem 
serpente. Na primeira espécie, mostra-se a lucta de 
virtude e crime; natural e concludentemente trium- 
pha a virtude. E o costume com sacrifício, âs vezes, 
da verosimilhança. Na segunda forma de romancear, 
a virtude recebe as ovações sem batalha. O roman- 
cista põe peito á reformação das obras de Deus, e 
corrige-as. Quando os seus personagens se avizinham 
de algum sujo aguaçal, em que é de uso a gente 
commum salpicar as botas, atam-lhe azas de sera- 
fins, e largam-lhe trella por esse azul dos céus den- 
tro até lhes vir a geito poisá-los em alegretes de 
flores. São estes os romances que moralizam, ou os 
outros? E' a minha duvida. Convém mostrar as 
repulsões do crime lá em baixo, onde a providen- 
cia social lhes cavou a paragem ; ou é melhor con- 
duzir, por eofere hortos ameníssimos, os nossos 
personagens engrinaldados, e mettê-los no ceu fi- 
nalmente? Um homem de bem, proprietário de um 
dos primeiros jornaes doeste pai?, costuma editar 
os meus romances, com a previa clausula de não 
serem historias de crimes, que toque directa ou 
indirectamente com a probidade da vida conjugal,, 
ou revelem desdouros da honra domestica. Ha 
poucos dias, tivemos esta pratica : — Querem os pães 
de famílias que suas filhas ignorem a corrupção y que 
lavra nos pântanos da sociedade^ observou-me o meu 



294 CÁUiLLO 

amigo. — Os pães de famiUa, contestei, não conseguem 
issOj em quanto não acharem o caminho da lua, onde 
presumo que não ha costumes, nem romances, Eserá 
preciso que se mudem para Id com as filhas, menores 
de dez annos, e não levem as mães, porque as mãesj 
maximamente virtuosas, sempre têm que contar ás 
filhas a historia escandalosa das mães culpadas, — 
Mas não se ganha moralizado para os espíritos 
brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes noveUas 
de adultérios, redarguia o cavalheiro. — Ganha, 
quando se lhes mostram os infortúnios acapdlados 
em volta da mulher ^ue se deshonra. Ganha, porque 
íis filhas do pae acautelado sabem que as ha, conJie- 
cem-nas, e apertam a mão das deshonradas; con- 
correm aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa 
do homem que as requesta; óbservam-lhes uns exte- 
riores de felicidade; e espantam*se de as verem 
ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, aca- 
tadas com uma urbanidade, que as não estrema das 
honestas. Então é que o romance ganha muito, le- 
vando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto 
innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apa- 
vo7*ou nos salões, tem angustias secretas, e infâmias 
estrondosas. Parece-me isto, meu amigo, — Acho-lhe 
razão, obtemperou o honrado e illustrado editor 
dos meus livros, mas que qtier, se os pães de familia 
intendem que suas filhas desconhecem a ecdstenda 
de certos cHmes? e desadoram romances que revoU 
"vam essas sentinas hediondas? Aqui ficou a contenda 
amigável. Não procurei pae de familias nenhum 



CAMILLO 29Õ 

para argumentarmas. Fíquei-íne a soismar se devia 
queimar este volume que estava escrípto, no intuito 
de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a 
minima pretençfto de lhe pôr o cauteôo. Náo quei- 
mei; mas protesto extrahi-lo da circulação, se um 
dia me persuadir de todo em todo que esta coisa 
de roítiances, escriptos assim, peoram a humanida- 
de, e alvorotam a quietação dos pães de familia». 
Também em 1865, no prologo da Lucta de gi- 
gantes: 

«Farto estou eu, leitor, de lhe denunciar boas e 

xaks paixões do tempo de agora. E já horas de lhe 

iàlar de umas paixões do tempo que foi. Nem ellas 

oiem elle podem tornar a ser. Eram paixões de uma 

filasse, que por sua culpa envelheceu e morreu 

intempestivamente. Este livro trata de frades. Não 

lhe chamo romance, porque é historia authenticada 

3)or documentos; não lhe chamo historia, porque 

«eria presumpçâo imprópria de minha humildade 

^forar-me em fidalguias tamanhas. Os catálogos das 

livrarias dêem-lhe o nome que muito quizerem; e o 

leitor, segutído a indigestão que lhe fizer o livro, 

qualifique-o, e áte-o, se lhe parecer, á capa surrada 

<ie alguma chronica de franciscanos. Será esse o 

<íaiDÍnho da immortalidade do meu livro, porque, 

<1© hoje a tresentos annos, será lida a Historia de 

^' Domingos e ninguém lerá o Frei Luiz de Sousa, 

^^ Almeida Garrett. Assim m'o faz pensar vêr eu 

Pesados a onro os in-folios antigos, e o desdenhar-se 

^oux abominável descortezia o livro amaneirado^ 



296 CAMILLO 

correcto, lustroso e florido de fabrica moderna. Os 
Miseráveis, de Victor Hugo, já esqueceram; um 
exemplar do romance de Vasco de Lobeira, vendeu- 
se um doestes dias por trinta libras. A Vida de 
Christo, por Ernesto Ilenan, por Strauss, por Veuil- 
lot, andam por ahi ao desbarato; ora a Vida de 
Chrísto, insulsissimo poema de Manuel das Povoas, 
é livro raro ; e a Vida de Chrísto, por frei Bernardo 
de Alcobaça, vendida por 600$000 réis, será barata^ 
Qualquer doestas jóias de bibliotheca, tão encareci- 
das, é bastante para matar d'enfado e aborrecimento 
duas academias; ao passo que, na leituia dos livros 
ménóspresados, se opulenta o entendimento ou agita 
a alma vivamente curiosa de lances de phantasia e 
movimentos do coração. Comprehendam lá esie 
desconcerto do nosso capricho ! Isto me induz a 
pensar que não será de todo engeitado um livro 
que relembra cousas esquecidas, e vai entrajado de 
velhas roupas um pouquinho sacudidas do pó de 
duzentos annos.» 

Na dedicatória «Ao 111.™° e Ex.mo Sr. Manoel 
de Freitas Costa, Meritissimo Juiz da Relação do 
Porto» do romance A Engeitada, de 1866: 

«Neste romance encontra v. ex.» o desenvolvi- 
mento da historia que me communicou. Se alguma^ 
cores do quadro substitui por outras, obedeci a uma* 
regras d 'arte que prescrevem ao romancista a dura 
lei de recompor o que parecia estar bem feito das 
mãos da natureza. D'onde havemos de inferir q^^ 
o verdadeiro, erii romances, nem sempre é o bello» 



CAMILLO 297 

e raríssimas vezes é o bom. Noutro paiz, noutros 
costumes e com mais hábil colorista, a historia^, 
referida por v. ex.*, seria uma perfeita urdidura de 
óptimo romance. Aqui na nossa terra, exceliente,. 
mercê de Deus, em muitos sentidos, requer-se me- 
lindroso geito nisto de contar vicios. Não discuto 
se o contà-los ó fomentá-los, e se a ignorância d'elles 
é fingimento. Seja o que for. Se ha innocencia, é 
dever santo conservá-la. Se dissimulação, é obsequio 
à historia das nossas virtudes dissimularmos tam- 
bém.» 

Prefacio da segunda edição da Doida do Candaly 
datado de 1867: 

«Reconhece o auctor que este livro seria deíi- 
cientissimo, se assentasse em aJguma ideia funda* 
mentalmente philosopbica. Não estamos em terra 
onde se invista a novella de missão que não seja 
espairecer o animo de estudos attentos, ou desen- 
fastiá-lo dos enojos da ociosidade. Os lettrados, 
que baixam até ao romance, querem-no, dizem 
elles, philosophico, e apontado a discutir alguma, 
transcendente questão social. Nada mais nem me- 
nos que encommendarem ao romancista os ser- 
viços que aos legisladores incumbe prestar á so- 
ciedade. Fazem-lhe muita honra, dão-lhe grande 
foro nas coisas da republica; mas o peor é que 
os editores recommendam a menos philosophia que^ 
ser possa nestes livros, e queixam-se da mingua 
de concorrência dos lettrados ao balcão, onde a 
novella discreteadora e pedagógica não ousa me- 



298 OAHILLO 

dir-se com as facécias da soena-comica. E' vêr 
i\uem leva mais os olhos na sala das mascaradas 
— se Sócrates sobraçando a túnica e mesurando 
os poderosos passos, se o palhaço tilintando os 
guisos . . . Não obstante, os famintos de romances 
com recheio de sucosas cabidelas, insistem que o 
romancista deve immolar ao agrado e contente- 
mento da critica o gosto destragado da maioria dos 
leitores. Pensam e aconselham discretamente. Eu 
por mim tenho querido contentá-los; e, se alguma 
vez o consegui, foi pontualmente nos livros qne 
esperam no limbo das estantes dos editores a re- 
dempçáo do gosto fino, a segunda luz das intelligen- 
cias esclarecidas. Por onde havemos de concluir 
que o escrever para a posteridade é um sacratissimo 
dever tão somente a uns bem-sorteados da fortuna 
<}ue tem segura a vida presente, e se esmeram em 
prolongar a futura pela eternidade fora até encon- 
trar uma geração que lh'a perpetue no bronze da 
estatua. Bonito destino, quando os contemporâneos^ 
•se não persuadem que o aparelho digestivo do es- 
criptor é de bronze também, e como tal, descare- 
cido da refeição das moléculas que dão calor vital 
ao sangue, ao musculo, à massa que forma os ca- 
marins de espirito, esta coisa chamado engenho. 
Engenho de bem escrever! Palavra oca de que ri 
galhofeiramente quem tiver um de fazer assucar ou 
serrar madeira. Tornando ao ponto : estive inten- 
tado a interpor nesta segunda edição da Doida do 
Mandai uns discursos acerca do duelo, como quem 



CAMILLO 299 

c^ulca tendências a desbravar o género humano 
\ tão bratal selvageria. Nesse campo de mortos 
&mados e jà também chorados, acharia eu que 
rte tristissimas flores com que aformosear trage- 
as. Nfto o ha tão abundante para lagrimas e da- 
.voso às menos inspiradas phantasias. Dei, todavia, 
a mão ao intento, quando o meu editor e amigo 
le disse que A Bruxa de Monte Córdova era menos 
da que a Doida do Caudal. Entrei a comparar os 
ois romances para entender a desigualdade dos 
aeritos, e vim ao convencimento de que um pou- 
ninho mais de philosophia estragara a Bruxa. 
fada, pois, de tirar à novella a inutilidade que a 
az preciosa. Seja cada um do seu tempo e do seu 
)aiz. O melhor romancista em Portugal, por em- 
luanto, ha de ser o que tiver mil leitores que lhe 
comprem o livro e o applaudam, contra dez que o 
eiam de graça e o critiquem em folhetins a dez 
iostões. 

No pre&cio do Cavar em ruínas, escripto em 
1866: 

<0s livros antigos pagam liberalmente a quem 
58 atura. Não ha velhice mais dadivosa e agrade- 
cida do que a d'elles. Sentam- se comnosco à sombra 
le arvores, suas coevas, e contam-nos coisas que 

Piram os plantadores das arvores O que ahi 

i^ae por ohronicas de frades, por livros menos lidos 
lo que as chronicas, bons para historia, óptimos 
Mira philosophia, e, melhor de tudo, balsâmicos 
^ vivificantes para corações despegados do hoje em 



dia e do nebuloso amanhã que a sciencia a cidi 
hora vae ennoitando mais, apagaado-lhe explendoni 
que já uum tempo entreluziram á espiritualidade do 
santo ou ã candideza do poeta! O Presente é 
sincero dee^gosto de muitos e intermittente embiit- 
guez da felicidade de poucos. O Futuro é um des- 
cuido do maior numero e uma afBicçào de poncoí 
e^pirítos que vieram s&os a um mundo cheio dl 
aleijados. O Passado, o passado, é já agora o umco, 
seguro e abençoado refiigio de quem pôde ir pa 
trevas dentro a bater azas de luz e a poiser-ES li 
sobre minas, onde n&o chega a pedra d'esses fot 
dibularios que tâm seus arsenaes nos enxurdeirM 

das cidades florentes Também tenho o 

refugio do passado. Algumas dúzias de livros levio- 
tados em cerco á volta de dez palmos de taboado 
de pinho sem alcatifa nem xadresado, marcam H 
fronteiras das minhas delicias. E o que tenho. E 
dentro d'isto, nuns dias de saudade do ir.eu querido 
Castilho, que ainda ali se me figura dizeudo-nx 
como Virgílio teria poetado se houvesse nascido 
Portugal, na ausência d'elle continuei a onvi-K 
na locução diamantica de Fern&o Mendes e Bn- 
nardes. . .1. 

Aviso ds pessoas incautas, que precede os ilfi- 
ieíios de Fafe, impresso em 1878 : 

■ £sta novella contém adultérios, homicidiot) 

. missionários e outros scirros sociaes. Almas em ã'' 

t d» innocencia e candura, n&o leiam isto que tresoil» 

^e gafaria, em que forçadamente a leit«i*i 




CAMILLO 301 

iffeita ao ar puro das regiões vizinhas do ceii, ha-de 
sentir nausear-se-lhe a alma. Nalgumas quintas do 
Minho, ameaçadas de ladrões^ erguem-se uns postes 
qae dizem : aqui ha ratoeiras. Os ladrões, graças á 
instrucção, lêem e passam. Neste livro inverte- se o 
estylo : os salteadores da pudicícia levantam bem 
alto o letreiro que diz : aqui ha ladrões. Sem o qual 
letreiro, este livro seria um abysmo. » 

• Da Infroducçõo do romance A mulher fatal, que 
appareceu em 1870: 

«... A minha raiva ao planeta em que estou é 
acerba; mas fica muito aquém da misanthrophia. 
Em rapaz fiz de Heraclito, quando não conhecia 
melhor do que hoje este grego que aforou as lagri- 
mas com honras de escola de philosophia. De tal 
philosopho, coisa que sirva só temos o boato de que 
declamava e chorava em publico. Hoje em dia, um 
homem com esta sensibilidade era levado ao com- 
missario de policia. Por mim e pelos meus vizinhos 
também eu chorei. Eis que desce a geada de muitos 
invernos a nevar-me, o frio a filtrar, a temperatura 
dos liquidos a descer, o sangue a coagular-se e logo 
o crystalizar das lagrimas no coração como as con- 
creções vitreas d'uma caverna. Principiei a rir, às 
vezes. Rir é contrairem-se o diaphragma e os mús- 
culos faciaes. Operação materialissima, muscular, 
carnal, e que nenhum outro animal exercita. Claro 
é que o rir é attributo do ser racional. A par e 
passo que a razão se allumia e fecunda, as contra- 
dições musculares amiudam-se. Eaciocinar é rir. O 



302 CAMILLO 

m 

acume da sabedoria humana é vêr os reversos da» 
tragedias sociaes; là está por força a comedia. A 
ignorância que esteriliza, e mirra, e encalvece, ó & 
que só deixa vêr uma face da medalha. Eu nào 
.cheguei ainda aos pináculos da sabedoria. Vou 
subindo, .... Era meu propósito dizer espalmada* 
mente que, ha vinte annos, comecei a vêr as duas 
faces dos lances tristes: uma que intende com as 
glândulas lacrimaes, outra com o diaphragma. Pri- 
meiramente, se não choro, condôo-me; depois, esga- 
ravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi 
ou sedimento de perversidade ou ridicularias mise- 
rabilissimas. Então é o rir. E, afim de que os pade- 
centes me desculpem, rio primeiro de mim. D'alií" 
se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, 
realçam em um que tem ferido a benevolência da 
critica : o é que não conservo, sem intercadencias 
desvanecidamente faceciosas, uma situação plan- 
gente, e amarguro com o acerbo da ironia a dulcidáo 
das lagrimas. E justo o reparo. E neste livro me 
quer parecer que tal defeito subirá de ponto; por- 
que vou intender em tragedias amorosas, nesta 
edade de quarenta e três annos feitos, velhice em 
que nenhum escriptor sincero, obediente a Horácio, 
deu aos seus leitores o exemplo das lagrimas. Si 
vis me flerej etc. ...» 

Da dedicatória «A D. António da Costa», da 
nooella do Minho — O commendador^ impressa cofl^ 
data de 1875 : 

«. . .0 que D. António da Costa não teve temp<> 



CAMILLO 303^ 

de vêr e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas, 
românticas do Minho ; quero dizer — os costumes, a 
viver que por aqui palpita no povoado d 'estes arvo- 
redos onde assobia o melro e a philomella trilla* 
Ah ! meu amigo ! Romances, tecidos de casos cân- 
didos e innocentes, apenas os fazem por aqui os 
pássaros em abril, quando urdem e afofam os seus 
ninhos. O restante dos animaes não oviparos vista- 
m'os V. ex.* no Catarro ou no estabelecimento da 
&mosa senhora Cecilia Fernandes, da Travessa de 
Santa Justa, que eu lh'os farei representaf ao vivo 
no próprio coração do Minho, entre Fafiâo e S„ 
João do Kalendario, as scenas contemporâneas, 

da fina Baixa e peores É neste meio que eu 

me abalanço a esgaratujar novellas. Ha trêse annos 
que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo 
dos pinheiraes e das fragancias das almas innocen- 
tes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro 
baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, 
nivellados com os saloios da Extremadura, eram os 
cândidos pastores da Arcádia comparados aos ma*, 
landrins de Gomorrha. Um dos meus estudos, no in- 
tuito de me habilitar para o confronto do saloio com 
o minhoto — da raça sarracena com a gallega — é 
esta historinha que lhe dedico, meu nobre amigo.» 
De 1879: a Dedicatória e a Advertência do Eu^ 
sdrio Macário: 

r 

« Dedicatobia. — Minha querida amiga : Per- 
g^taste-me se um velho escriptor de antigas no- 



B04 CAMILLO 

vellas poderia escrever, segando os processos novos, 
um romance com todos os tics do estylo realista. 
Respondi temerariamente que sim, e tu apostaste 
que nôo. Venho depositar no teu regaço o romance, 
e na tua mão o beijo da aposta que perdi. » 

« Advertência. — A historia natural e social de 
uma familia no tempo dos Cabraes dá fôlego para 
•dezesete volumes, compactos, bons, d 'uma profunda 
Kjomprehensão da sociedade decadente. Os capitulos 
inclusos neste volume sào prelúdios, uma symphonia 
offenbachiana, a gaita e birimbau, da abertura de 
um grande charivari de trompões fortes bramindo 
pelas suas guelas concavas, metálicas. Os processos 
do auctor são, jâ se vê, os scientificos, o estudo 
dos meios, a orientação das idéas pela fatalidade 
geograpliica, as incoercíveis leis physiologicas e 
climatéricas do temperamento e da temperatura, o 
despotismo do sangue, a tyrannia dos nervos, a 
questão das raças, a ethologia, a hereditariedade 
inconsciente dos aleijões de familia, tudo, o diabo! 
O auctor trabalha desde antes de hontem no enca- 
deamento lógico e ideológico dos dezesete tomos da 
sua obra de reconstrucçâo, e já t«m promptos dez 
volumes para a publicidade. Mas é necessário a 
quem reedifica a sociedade saber primeiro se ella 
quer ser desabada a ponta-pés de estylo para depois 
ser reedificada com adjectivos pomposos e advérbios 
rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua, 
escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes . actas das 



CAMTLLO 305 

chagas encontradas, esvurmar as bostellas que cica- 
trizaram em falso, excoriá-las, muito cautério de 
phrases em braza. E o que se faz nas folhas preli- 
minares d'esta obra violenta, de combate, destinada 
ã entrar pelos corações dentro e a sahir pelas mer- 
cearias fora.» 

Também em 1879, prefaciando a quinta edição 
do Amor de perdição : 

«Publiquei, ha vinte e dois annos, o romance 
Onde está a felicidade f — Pouco depois, Alexandre 
Herculano, republicando as Lendas e narrativas, 
escrevia na Advertência: ...Nestes quinze ou vinte 
annos, creou-se uma litteratura, e pôde dizer-se que 
não ha anno que lhe não traga um progresso. Desde 
as Lendas e narrativas até o livro Onde está a feli- 
cidade? que vasto espaço transposto! — Se comparo 
o Amor de perdição, cuja 5.* edição me parece um 
êxito phenomenal e extra-lusitano, com O crime do 
padre Amaro e O primo Basilio, confesso, volunta- 
riamente resignado, que para o explendor d'estes 
dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos 
primores lavrados no transcurso de dezeseis annos. 
O Amor de perdição, visto á luz eléctrica do criti- 
cismo moderno, é um romance romântico, declama- 
tório, com bastantes aleijões ly ricos, e umas idéas 
«celeradas que chegam a tocar no desaforo do sen- 
timentalismo. Eu não cessarei de dizer mal d'esta 
novella, que tem a boçal innocencia de não devassar 
alcovas, a fim de que as senhoras a possam lêr nas 
«alas, em presença de suas filhas ou de suas mães^ 



306 CAMILLO 

e nâo precisem de esconder-se com o livro no seu 
quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de 
perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como 
indemnisaçâo, faz rir; tornou-se cómico pela serie- 
dade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço 
das velhas historias do Trancoso e do padre Theo- 
doro d^Almeida. E por isso mesmo se reimprime. 
O bom senso publico relê isto, compara com aquillo, 
e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista 
as paginas que ha dez annos aljofarava com lagri- 
mas românticas. Faz-me tristeza pensar eu que 
floresci nesta futilidade da novella quando as dores 
da alma podiam ser descriptas sem grande desaire 
da grammatica e da decência. TJsava-se entáo a 
rhetorica de preferencia ao caláo. O escriptor ante- 
punha a frequência de Quintiliano á do Collête-en- 
carnado. A gente imaginava que os alcouces náo 
abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. 
Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje com 
os punhos arregaçados para espremer o pus de 
muitas escrófulas á face do leitor! Naquelle tempo, 
enflora va-se a pústula; agora, a carne com vareja 
pendura-se na escapula e vende-se bem, porque 
muita gente nâo desgosta de se narcizar num espelho 
fiel. Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da 
morte, já nào verei onde vae desaguar este enxurro, 
que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honesti- 
dade é a alma da vida civil, e o decoro ó o nó dos lia- 
mes que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e 
sociedade ruirão ao mesmo tempo por effeito de uma 



OAMILLO 307 

grande evolução rigolboche. A logioa diz isto ; mas a 
Providencia, que usa mais da metaphysica que da 
lógica, provavelmente fará outra coisa. Se, por vir- 
tude da metempsycose, eu reapparecer na sociedade 
do século XXI, talvez me regosije de vêr outra vez 
as lagrimas em moda nos braços da rhetorica, e esta 
5.? edição do Amor de perdição quasi exgotada. » 

Num artigo A respeito da Caveira da Martyr, 
publicado sem assignatura, ainda em 79, na Bíblio- 
graphia portugueza e estrangeira, do editor Ernesto 
Chardron : 

«A Caveira da martyr foi tirada das livrarias 
não por conter peçonha de impiedade que derran- 
casse as profundas idéas religiosas que lavram no 
espirito publico, nem tão pouco por ataque ao pu- 
dor virginal, que é ainda uma coisa que conserva 
a virgindade até muito tarde. O romance foi reti- 
rado pelo seu proprietário, pessoa honrada mas es- 
crupulosa até ao extremo de suspeitar que seria 
irreligioso um livro onde se pintavam no mosteiro 
de Odivellas algumas freiras frágeis em amor e 
uma d'ellas amante d'el-rei D. João v, A historia 
contara isto ; e o romancista cuidou que lhe não 
corria o dever de guardar aos maus costumes das 
bernardas de Odivellas acatamento mais reveren- 
cioso que o dos historiadores. O editor expoz os 
seus escrúpulos ao auctor, que lh'os respeitou e 
consentiu que os três tomos * fossem queimados, 



Em 1902, reimpressos, num só volume. 



308 CAMILLO 

tirando a salvo que o nâo queimassem a elle. O ro- 
mance mereceu providencialmente o destino ar- 
dente que teve, nào porque fôsse impio, mas porque 
era uma composição ordinária, com alguns adjecti- 
vos velhos dos antigos processos.» 

Em 1880, no prefacio da segunda edição do 
Eusébio Macário: 

« Cumpre-me declarar que não intentei ridicula- 
rizar a escola realista. Quando appareceram o Crime 
do padre Amaro e o Primo Bazilio, e os romances 
de Teixeira de Queiroz, admirei-os e escrevi inge- 
nuamente o testemunho da minha admiração. Creio 
que hoje em dia novella escripta d^outro feitio não 
vinga. » 

Dos artigos da polemica com Alexandre da Con- 
ceição, a propósito da Corja, em 1881 : ^ 

«. . .Assevera o critico que eu, no Eusébio Ma- 
cário, tive por intuito confessado a pretensão de 
lançar o Hdicnlo sobre a escola realista, O sr. Con- 
ceição de certo não pode citar phrase minha que o 
justifique. Assevera que eu me deixei obsecar (queria 
talvez dizer obcecar) por pequenas vaidades de seita 
até ao ponto de ter do auctor do Primo Bazilio 
somente esta estreita comprehensão : de que é apenas 
um romancista ridículo. Não me conformo indiffe- 
rentemente com esta aleivosia, porque admiro e 
releio os romances do sr. Eça de Queiroz. No Can- 



Golligiios na Bohemia do espirito» 



OAMILLO 309 

cioneiro alegre, pag. 11, digo do Primo Bazilio : O 
romance mais doutrinal que ainda sàhiu dos p}'elos 
portugueses. — Doutrinal, escrevi como synonymo 
de moralizador. Em minha consciência entendo que 
se já houve livro que pudesse e devesse salvar uma 
mulher casada, na aresta do abysmo, é o Primo 
Bazilio. O sr. Eça de Queiroz fez esse raro milagre, 
porque pintou o vicio repulsivo e nojento. As mes- 
mas delicias do delicto emporcalhou-as, pondo as 

angustias parallelas com as torpezas O sr. 

Conceição diz que a Co7*ja é uma banalidade. Pois 
que outra coisa ha de ser a minha novella senão 
uma frioleira? O meu romance náo tem o desva- 
necimento de avantajar-se ás banalidades da sua 
espécie. E com effeito uma bagatella risonha que 
náo ha de augmentar o numero dos tolos; nem tão 
pouco estorvar que a luz do sr. Conceição penetre 
as camadas escuras que envolvem a ignorância 
publica. Nem os futuros livros scientificos do sono- 
roso poeta sr. Conceição, nem os meus romances 
banaes hão de acrescer nem diminuir o numero dos 
parvos — a incommensuravel maioria, como diz o 
philosopho Schopenhauer. Acho de uma grande 
Verdade aquillo de Voltaire: Nous laisserons ce 
Tnonde-ci aussi sot et aussi mèchant que nous Vavons 
trouvé en y arrivant ...» 

«... Se escrevi Eusébio Macário em 1880, como 

escrevera as Scenas da Foz e a Filha do Arcediago 

em 1853, num estylo nú, de galhofa, mostrando 

espáduas brunidas de mulheres sem ulceras, e feição 



310 CAIIILIAÍ 

por feiçáo, a psycologia de alguns argentarios, que 
se deduz d'ahi na hermenêutica do sr. Conceição? 
Que tenho uma rhetoríca atrazada, que sou um 
velho catholico^ um litterato auctointmno e quinhen- 
tista. Quer dizer que as diversas obras d'arte estão 
todas subordinadas a um principio, ou náo quer 
dizer nada? Taine, o legislador dos ideaes moder- 
nos, nào me jarreta as pernas para eu me ageitar 
ao leite procusteano de mestre Conceição. EUe diz 
que toutes les oeuvres d'art sont de niveau et que h 
champ est ouvert à Varbitraire. E accrescenta : En 
effet, si Vóbjet devient ideal par cela seul qu'il est 
conforme à Vidée, peu impoHe Vidée; elle est au choix 
de Vartiste; il prendra celle-ci ou celle-lá, à sont gout: 
nous n'auron8 point de reclamation à faire. Escrevi 
a Corja, sem previamente alinhavar os personagens 
consoante os moldes do sr. Eça de Queiroz, nem 
saberia destrinçá-los entre os que servem á obra 
evolutiva francesa desde Manou Lescaut até Nana; 
e, se cotejo as novellas modernas com os praxistas 
sociológicos em que se estriba a esthetica da ultima 
hora, persuado-me que esses romances podem fazer- 
se com observação e estylo, sem que aos auctores 
urja a necessidade imprescindível de manusearem 
a Biologia de Herbert Spencer, a Evolução humana 
de Hseckel e o Positivismo de Comte. Para que se 
ha de assoprar com tamanho empyrismo de scien- 
cias pingues uma coisa tão oca e fútil como a no- 
vella? O burguês sensato pode rir-se do nosso char- 
latanismo. Sejamos francos. A gente faz romances 



CAMILLO 311 

sujos porque a sociedade nos pede a historia con- 
temporânea : é ella que faz os nossos romances. Náo 
partimos de uma renovação de Moral; emergimos 
d'um lodaçal de inveterados vicios. Se algum de 
nós, politico ou romancista, nutrir o desvanecimento 
parvoinho de defecar o humor mórbido da sociedade 
com o sudorifero dos artigos ou dos romances, deve 
começar por si a cura com os sedenhos ; em vez de 
consultar Augusto Comte e Hartmann, cinja-se âs 
prescripções de Dagonet e de Maudsley. O sr. Con- 
ceição sabe ...» 

cAbro um parenthesis para uma pessoa discreta 
que me vae ler e deplorar. Esta substanciosa con- 
trovérsia com o sr. A. da Conceição originou-se da 
injustiça com que fui accusado de hostilizar pela 
irrisão dois escriptores que descrevem as cousas e 
as pessoas como ellas são ou podem ser. Contestei 
com provas escriptas que admirava os dois escri- 
ptores realistas e outros da mesma phalange ; mas 
nem me perfilei immodestamente ao seu lado, nem 
me gabei de usar os modernos processos com conhe- 
cimento de causa. Pareceu-me que o realismo se 
podia exercitar sem estudos prévios, por ser fácil 
tarefa com observação e estylo descrever a verdade 
das cousas physicas e ter das moraes uma intusce- 
pção mais ou menos aproximada da realidade. 
Oflfereci esta opinião, e ouzei dizer que as minhas 
ultimas novellas, tirante os vicios acintosos do estylo 
•estragado pela imitação, não significavam apostasia 
da minha velha escola ; mas sim a reincidência de 



312 CAMILLO 

um mau género que eu tinha ensaiado ha muitos 
annos com desagrado do publico. Replicou o sr. 
Conceição que eu náo entendia o realismo, que era 
. um inepto se pretendia mudar de systema, alistan- 
do-me com os positivistas, com os evolucionistas, 
uns porque eram psycologos, outros porque eram 
physiologistas, e eu náo podia ser isto nem aquillo, 
porque era um velho romântico, catholico e qui- 
nhentista. Refugadas as chocarrices e as toleimas, 
a questão é isto. Ora eu não tinha o desvaneci- 
mento de formar hombro a hombro de quem quer 
que fosse. Fiz esses dois frívolos livrecos cuidando 
que sociologicamente ninguém lhes dava mais im- 
portância do que eu dou aos romances banaes dos 
escriptores eminentes; porque eu não creio que as 
novellas desde Lúcio de Patras até Emilio Zola 
tenham feito bem nem mal ao género humano...» 



II 



Ao lêr a longa serie das novellas de Camillo^ 
íom suas paixões infelizes, suas meninas envelhe- 
íidas penando peccados d'amôr na soledade dos 
nosteiros, seus pães tyrannos e seus brasileiros 
çrotescos de joanetes, apercebe-se o estudo inteiro 
i'um meio e d'uma época e, dentro d'elle, a com- 
)rehensão singularmente feliz do caracter de cada 
ima das figuras que vivem intensamente através 
ias paginas aventurosas dos seus livros. Completa 
usteza de scenario, em cada personagem um estuda 
3sycologico perfeito e, sobre tudo isto, um certo ar 
lesartificioso, familiar, na narração inimitável e um 
igor muito sóbrio no desenho d'um typo ou d'um 
ogar. Ha personagens em Camillo que meia pagina 
ó define e maravilhas de intuição no traço d'um 
aracter que nos revelam desde logo no artista 
minente um velho sabedor da sciencia das almas. 

Camillo possuia no grau mais alto os dois po- 



314 CAMILLO 

deres supremos de evocar e comtnover. Certas sce- 
nas dos seus livros — como essa, já celebre, da 
morte do lobo, no Eusébio Macário^ a sabida do 
Melro na Brasileira de Prazins e o incêndio no 
Retrato de Ricardina, fixam-se para sempre como 
se nós próprios as bouvessemos visto, e ba paginas 
suas que se não lêem sem lagrimas, como essas 
sublimes cartas finaes do Amor de perdição, E assim 
como a evocação é sóbria, não distraindo a attenção 
em ninharias, mas fazendo gravar indelevelmente o 
aspecto geral que se pretende, assim também a 
commoção ali se consegue com simplicidade, nas- 
cendo da própria essência das coisas descriptas e 
não dos mais ou menos plangentes termos em que 
as lemos. . . Sob esse aspecto, sob todos os aspectos, 
as Novellas do Minho são, fora de toda a duvida, 
uma coUecção de preciosas e inimitáveis obras-pri- 
mas. D'uma d'ellas, O commendador, eu traslado 
uma pagina que é um modelo de sobriedade intensa, 
conduzindo direito, sem uma palavra a mais, sem 
uma virgula inútil, ao effeito emocional que se pre- 
tende. E esta: 

«Em março de 1852, fez-se à vela de Villa do 
Conde a Barca Conceição, Entre os passageiros ia o 
desertor. Chamava-se ahi Manuel José da Silva 
Guimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome. 
Quando a policia deitava inculcas no concelho de 
Famalicão procurando a paragem da tiá Bernabé, 
rendia ella a alma ao seu Creador em Villa do 



CAMILLO 315 

Conde. Vira desapparecer as velas da barca Con- 
ceição, ajoelhada no terraço do Castello. Depois, 
quedára-se de bruços a chorar. Levaram-a nos bra- 
<;o8 a casa do cunhado. As lagrimas seccaram-se. 
Veio a febre e o delirio. Chamou, chamou por seu 
filho, até que Deus a chamou a ella. Não foi con- 
fessada nem ungida; mas morreu santa porque 
vivera santamente. Achara aquelle engeitadinho, 
creâra-o, amára-o, vendera um cordão para o vestir 
geitosamente a fim de o mandar à escola, vendera 
as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi 
á primeira confissão, vendera a casa e o tear e o 
leito onde morrera sua mãe para o remir de soldado. 
Padeceu grandes angustias quando soube que o 
filho do seu coração era culpado na desgraça de 
uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o pre- 
gador da caridade e da igualdade dos servos de 
Jesus Christo, iria admoestar o lavrador abastado 
a conceder a filha para esposa do pobre. Esta santa 
cegueira da ohristà é de crer que Deus lh'a per- 
doasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dor 
em dor, logo que aos setenta annos de edade viu 
sumir-se para sempre o seu querido engeitado, pe- 
diu a Deus por elle, por si, e. . . morreu. » 

Dir-me-ão, eu sei, que esses typos predilectos 
dos romances de Camillo, fogem, correndo, da ver- 
dade, pelo atalho resvaladiço do romantismo idea- 
lista. Não é precisamente assim. E, não obstante, 
jà mais d' uma vez essa accusação se formulou. 



316 CAMILLO 

Lembra-me agora que, prefaciando o Brasileiro 
SoareSj do sr. Luiz de Magalhães, — historia ingénua 
d 'um Joaquim de suissas que, de volta do Brasil, 
onde ganhou dinheiro, veio negociar em papel, casar 
com uma linda rapariga, ser trahido por um admi- 
nistrador de concelho e suicidar-se com um tiro 
de pistola — Eça de Queiroz vestiu o libello com 
toda a pompa gaulesa do seu estylo d'oiro. E, nesse 
prefacio, interessante, como tudo quanto escreveu 
esse grande homem de talento que salvou o natu- 
ralismo português do grotesco d'uma morte inglória, 
lese isto: 

€,..8e ha um typo de que o Romance e o 
Theatro, em Portugal, tenham usado immoderada- 
mente é, decerto, esse lavrador Minhoto, enrique- 
cido e vQstido de panno fino, a que nas aldeias se 
chama o brasileiro! Ha mais de trinta annos, em 
novella, em drama, em poemeto, o Romantismo (ou 
antes o Maneirismo Sentimental que entre nós 
representou o Romantismo) tem utilizado o brasi- 
leiro como a encarnação mais engenhosa e mais 
comprehensivel da sandice e da materialidade» 
Sempre que o enredo, como se dizia nesáes tempos 
vetustos em que as Musas viviam, necessitava um 
^er de animalidade inferior, um boçal ou um gro- 
tesco, o Romantismo lá tinha no seu poeirento 
deposito de figuras de papeláo, recortadas pelos 
Mestres, o brasileiro — já engonçado, jâ enfardelado, 
com todos os seus joanetes e todos os seus diaman- 
tes, crasso, glutão, manhoso, e revelando plácida- 



OAMILLO 317 

mente na linguagem mais bronca os sentimentos 
mais sórdidos. Bastava só coUar-lhe na nuca um 
Qome bem plebeu, arranjar-lhe uma aldeia d'origem 
c^ue cheirasse bem a curral, atirá-lo para o meio de 
paginas tremulas e regadas de lagrimas, — e elle 
começava logo a ser bestialmente burlesco e a eno- 
jar os delicados. Nisto, os Mestres do Romantismo 
náo procederam, originariamente, por animosidade 
contra uma classe cujos modos, gostos, interesses, 
lhe repugnassem: obedeciam d'instincto a um Idea- 
lismo nevoento, á theoria da Alma profundamente 
separada do Corpo, e à consequente divisão dos 
typos litterarios em Ideaes e Materiaes, segundo 
elles personificavam o Sentimento, cousa nobre e 
alta da Vida, ou representavam a Acção, que ao 
Romantismo apparecera sempre como cousa subal- 
terna e grosseira. Ora em Portugal o homem que 
mais evidentemente symbolisava a Acção aos olhos 
turvos do Romantismo era esse labrego, que, 
largando a enxada, embarcava para o Brasil num 
porão de galera, com um par de tamancos e uma 
caixa de pinho, e annos depois voltava de lá, na 
Mala Real, com botas novas de verniz, grisalho e 
jocundo, a edificar um palacete, a dar jantares de 
leitão ao abbade, a tramar eleições e a ser barão. . . 
E note V. que este mesmo cavador endinheirado 
commovia e Romantismo até á Elegia, quando elle 
€ra ainda o triste emigrante, parando uma derradeira 
Vfiz na estrada, para ouvir o ruido do açude entre 
^s carvalheiras da sua aldeia; quando elle era o 



318 CAIÍILLO 

pobre embarcadiço, de noite, no mar gemente, 
encostado á borda da escuna Amélia, erguendo os 
olhos chorosos para a lua de Portugal . . . Apenas 
voltava, porém, com o dinheiro que juntara carre- 
gando todos os fardos da servidão, — o saudoso 
emigrante passava logo a ser o brasileiro, o bruto, 
o reles, o alvar. Desde que elle deixara de soluçar 
e ser sensivel, para labutar duramente de m arcano 
nos armazéns do Rio, o Romantismo repellia-o como 
creatura baixa e soez. O trabalho despoetizára o 
triste emigrante. E era entáo que o Romantismo 
se apossava d'elle, já rico e irasileiro, ^ra o mos- 
trar no livro e no palco, em caricatura, sempre 
material, sempre rude, sempre risivel, — não por um 
justo ódio social contra um inútil que engorda, mas 
por aversão romanesca ao burguês positivo, videiro 
e ordeiro, que não lê versos, que se occupa de câm- 
bios, só olha a lua quando ella annuncia chuva, e 
só repara em Beatriz e Elvira quando ellas são 
roliças e fáceis. Em contraste com este mateina- 
Ião estava o homem de poesia e de sonho, magro, 
altivo, malfadado, eloquente, e trazendo (como di- 
ziam a serio os estylos d^então) um inferno dentro 
do peito. Este permanecia pobre, ou desdenhava 
lyricamente o dinheiro : a sua occupaçâo especial e 
única era a Paixão : por elle as mulheres pallidas, 
tojdas de branco, iam chorar, agarradas às grades 
dos mosteiros. Nos íinaes d 'actos, elle, só elle lan- 
çava, num gesto sombrio, a^ palavras sublimes, 
dolentemente sublinhadas pelos violoncellos, ao 



OAMILLO 319 

rumor dos prantos abafados. O h^asileiro, esse dizia 
as sandices, que nas farças mais francas eram tam- 
bém sublinhadas — com um estoiro sobre o tam- 
bor. Estes dois typos, insipidamente falsos como 
generalização, pareciam ainda mais postiços, niais/ 
distantes da vida e da realidade, como factura. O 
homem ideal era invariavelmente um grande boneco 
esguio, com longos e tristes bigodes de crepe, uma 
agoada de amarellidão na mascara de cera sempre 
contrahida de amargura, e umas luvas brancas que 
elle torcia na tortura perpetua do seu atroz destino : 
por dentro, para lhe dar uma apparencia d'alma^ 
mettia-se-lhe, ao acaso, como se machuca a palha 
para dentro dos Judas d^Alleluia, um molho secco 
de phrases lacrimosas e balofas. O homem material,, 
o hrasileiro, esse consistia num outro boneco, acham- 
boado, tosco, com um coUete amarello, pellos nas 
orelhas, e joanetes — os immensos joanetes que a 
Romantismo, de pé pequeno, nunca deixava de 
accentuar, com um traço de sarcasmo e asco. Este 
boneco por dentro nâo tinha nada, nem phrases, 
nem palha. E o curioso, meu caro Luiz, é que, de 
todos os typos habituaes do nosso romance român- 
tico — só o brasileiro tem origem genuinamente 
portuguesa, de raiz. O homem fatal e poético ; a 
mulher de negros cabellos revoltos que perde ; a 
mulher de pestanas baixas que salva ; o arrogante 
fidalgo, com longos nomes e hostil ao século; a 
padre risonho que bemdiz e afiaga — todos esses 
vieram importados de França : e as suas dores, as. 



320 CAMILIX) 

«uas descrenças, os seus murmúrios d'amôr, tudo 
chegou pelo paquete, e pagou direitos na Alfan- 
dega, misturado aos couros ingleses e ás peças de 
panno Sedan. O nosso Romantismo não ó respon- 
sável por essas gentis creações d'além dos Pyrineos. 
Elias já aportavam ao Tejo e ao Douro, assim falsas 
e mal feitas, fora da natureza e da verdade. O 
Romantismo acolhia-as com uma submissa reve- 
rencia provinciana: e assim as mandava imprimir 
á Casa More e á Casa Roland, taes como as recebia, 
traduzindo-lhes apenas em vernáculo os martyrios 
-e os júbilos. O brasileiro, porém, era só nosso, todo 
nosso, doeste solo que pisamos, castiço e mais origi- 
nalmente português que a chalaça e a louça das 
Caldas. Mais que nacional, era local. Era do Minho, 
como o vinho verde. Ora o Romantismo, que sendo 
triste amou sempre essa provincia verde-triste, 
encontrava lá o brasileiro constantemente, na feira, 
na romaria, na egreja, na várzea, na villa. No mi- 
rante caiado d^amarello, que elle avistava entre as 
ramadas, estava tomando o fresco o brasileiro: na 
caleche forrada de reps azul, que elle cruzava na 
estrada e que o empoeirava, vinha o brasileiro, de 
perna estendida. Muitas vezes o Romantismo (inco- 
herencias inevitáveis da vida terrestre) jantava com 
o brasileiro. Assim, profusamente, acotovellando 
por essa provincia brasileiros innumeraveis, vira-os 
de todos os feitios exteriores : seccos, obesos, de 
barba, rapados, miudinhos, espadaúdos, calvos, 
guedelhudos, fracos, e fortes como os bois de Bar- 



CAMILLO 321 

roso. Vira-08, homens vários, com as varias, múlti- 
plas qualidades humanas : bons e velhacos, ridiculos 
e veneráveis, generosos e torpes, finos e suinos. . . 
Que importa ! O Romantismo deduzira uma vez do 
seu ódio á Acçáo e ao homem que sua um typo 
symbolico de brasileiro gordalhufo e abrutado — e 
assim o apresentava invariavelmente, implacavel- 
niente, em novella, em drama, em poema, como se 
nào houvesse existido jamais senão aquelle brasi- 
leiro, e fosse táo impossivel mostrá-lo sem os attri- 
butos de materialidade que o individualizavam, 
como é impossivel pintar Marte sem a sua arma- 
dura, ou contar . Tibério sem esboçar Capreia ao 
longe, nas brumas do mar. . . O brasileiro da rua a 
cada passo desmentia o brasileiro do livro ? Que 
importa ! O bom Romântico nào cuida da rua : se 
é um Mestre, marcha altivamente, com os olhos 
alçados ás nuvens; se é um discipulo, segue caute- 
losamente, com os olhos attentos ás pegadas dos 
Mestres. Extraordinários, estes Românticos ! E bem 
sympathicos, os primeiros, os grandes, os que 
tinham talento e uma veia soberba, com este 
inspirado, magnifico desdém pela natureza, pelos 
factos, pelo real e pelo exacto ! Os discipulos esses, 
louvado seja Nosso Senhor, são bem pêcosinhos, e 
bem chochinhos ! 



> 



1 



* Garta-prefacio ao romance de Luiz de Magalhães 
O Brasileiro Soares, 1886, pag. v-XíU. 

21 



322 CAMILLO 

Um «inspirado, magnifico desdém pela natureza, 
pelos factos, pelo real e pelo exacto»?.. . E, com- 
tudo, o maior d 'esses românticos era aquelle mesmo 
que, já em 62, pedia «que se fizessem romances 
como se pintam paysagens, de modo que o mere- 
cimento de taes escriptos assentasse na fidelidade 
da copia, tal que cada leitor visse nella um seu 
modo de sentir ou a reminiscência d'algum quadro 
mais ou menos análogo que alguma vez se lhe 
offereceu » ! . . . 

Não. Se o grande artista dos Maias quizesse 
olhar, com olhos de vêr, para a sociedade portuense, 
tal qual ella era no tempo dos brasileiros de Ca- 
millo, teria de concordar em que nem essa vulgar 
encarnação do grotesco, nem tão pouco os apaixo 
nados românticos, eram «typos insipidamente fal- 
sos como generalização » . Não eram tal. Toda a 
gente recorda, ainda hoje, historias d'esse tempo, 
com seus amores infelizes, suas meninas reclusas, 
olhando o ceu através das grades dos mosteiros, 
e o namorado, quasi sempre magro e pallido, 
sabendo Musset de cór e trazendo «um inferno 
dentro do peito» — segundo a phrase que o chro- 
nista da sensação nova decerto não poderia escrever 
sem se sorrir. Essa figura de namorado foi rareando 
e não haveria quem a descortinasse, nesta enorme 
confusão dos tempos d'hoje em que os poetas lyn- 
cos são vinhateiros e os homens de sciencia se 
fizeram sonhadores. O brasileiro é que ainda existe, 
sem a preponderância d'outros tempos, mas sempr® 



CAMTLLO 323 

m a camada de grotesco que lhe deu afinal todo 
interesse. 

Diz Eça que o romantismo carpia o brasileiro 
ando elle era apenas o triste emigrante e «e cu- 
stado á borda da escuna Amélia^ erguia os olhos 
orosos para a lua de Portugal», troçando-o sem 
edade quando voltava com o dinheiro que, ã 
sta de duros esforços, conquistara. Mas, por Deus !, 
tão infantil o reparo que a maldosos olhos poderia 
»recer sem boa-fé. O emigrante, que ia com uma 
ca ao hombro, deixando a sua terra, deixando a 
milia, buscar a fortuna na obscuridade d'um des- 
10 incerto — era um humilde. Ignorante, alvar, 
)rutado — tanto importa ! — nunca fazia rir. Na 
a terra era um filho de lavrador, moirejando de 
1 a sol na labuta áspera dos campos ; depois, a 
obiçào arremessava-o desamparado, só, ao acaso 
) seu destino, para a riqueza ou para a morte, 
as, se resistiu âs inclemências do clima, e se luctou 
)m tenacidade e se venceu, ei-lo então que entra 
i sua aldeia entre repiques de sinos e musicas de 
sta, com seu corpo de lavrador mettido numa 
tio ta nova de mau gosto, as mãos callejadas dos 
istéres grosseiros arrombando a pellica cor de 
nario d'umas luvas, todo elle impando o grosso 
,deado d'oiro com medalhão cravejado de bri- 
antes. Depois ó commendador, mesario de todas 
; confrarias, bemfeitor da Santa Casa e influente 
3litico de vulto; passa o inverno no Porto ou em 
isboa e tem assignatura no lyrico e relaciona-se 



324 CAMILLO 

com gente fina, viaja, toma uma mulher para mon- 
tra de jóias e cabide de velludos, come lombo de 
porco, bebe vinho verde, arrota abundantemente, 
soífre do figado, e um bello dia estoira, quasi sem- 
pre antes de velho, porque a conquista de todas 
essas coisas magnificas lhe tem custado annos de 
vida. E, de tal modo, uma figura notada nas cida- 
des e um rei nos logarelhos, pertence á alta roda, 
lida com gente rica, frequenta os salões, — sem que 
comtudo, muitas vezes, em todo o seu tempo de 
Brasil houvesse tido o ensejo de adquirir essa edu- 
cação superior que não tinha quando os pães o 
mandaram, num porão de navio, em busca da for- 
tuna. E vulgarmente um inculto, um grosseiro, 
com toda a rudeza do trabalhador de enxada do 
seu Minho e do marçano do Brasil, socialmente 
arrogante d^uma importância arranjada á custa dos 
seus cobres, dizendo em salões plebeísmos torpes, 
escrevendo com erros, e sem essa mesma cnltura 
toda artificial que nas relações de cada dia permitte 
a um imbecil fazer d^homem de espirito um quarto 
d'hora. D'ahi o grotesco. E grotesco esse que, mes- 
mo depois de Camillo, tem sido explorado, pelos 
próprios que seria injusto acoimar de seus imitado- 
res. Releio agora um precioso trecho, escripto por 
um grande escriptor, que tem no lance uma viva 
opportunidade e mereço por isso ser transcripto, se 
não na integra, porque é bastante longo, pelo me- 
nos na sua parte de mais incisiva e originalíssima 
ironia. Diz elle assim : 



CAMILLO 325 

«De facto, o pobre hrasileírOy o rico torna via- 
gem, é hoje para nós o grande fornecedor do nosso 
riso. Pois bem ! E uma injustiça que assim seja. E 
nós, os portugueses que cá ficamos, nào temos o 
direito de nos rirmos dos brasileiros que de lá vol- 
taram. — Por que, emfim, o que é o Brasileiro? E 
simplesmente a expansão do Português. Existe 
uma lei de retracção e dilatação para os corpos, 
sob a influencia da temperatura. (Apprende-se isto 
nos lyceus, quando vem o buço). Os corpos ao calor 
dilatam, ao frio encolhem. A mesma lei para as 
plantas, que ao sol alargam e florescem, ao frio 
acanham e estiolam. A bananeira, nos nossos climas, 
é uma pequena arvore timida, retrahida, estéril 
no calor do Brasil é a grande arvore triumphante 
de folhas palmares e reluzentes, tronco possante 
seiva insolente, toda sonora do sabiás e outros, es 
caudalosa de bananas. Mesma lei para os homens 
O hespanhol das Astúrias, modesto, humano, dis 
creto e grave — ^passando para o sol do Equador 
nas Antilhas Hespanholas, torna-se o sul-americano 
"vaidoso, ruidoso, ardente, palreiro e feroz. Pois 
bem ! O Brasileiro é o Português — dilatado pelo 
calor. O que elles são, expansivamente — nós so- 
mo-lo, retrahidamente. As qualidades internadas 
em nós, estão nelles florescentes. Onde nós somos 
á sorrelfa ridiculitos, elles são â larga ridiculões. 
Os nossos defeitos, aqui sob clima frio, estão retra- 
hidos, nào apparecem, ficam por dentro : là, sob um 
sol fecundante, abrem-se em grandes evidencias 



326 CAMILLO 

grotescas. Sob ceu do Brasil a bananeira abre em 
fnicto d o português rebenta em brasileiro. Eis o 
formidável principio ! O Brasileiro é o Português 
desabrochado. E o sol de lâ que nos fecunda. O 
Chiado sob os trópicos dá inteiramente a rua do 
Ouvidor. Rirmo-nos do brasileiro é rirmo-nos de 
nós sem piedade. Nós somos o gérmen, elles são o 
fructo : é como que se a espiga se risse da semente. 
Pelo contrario ! o brasileiro é bem mais respeitável, 
porque é completo, attingiu o seu pleno desenvol- 
vimento: nós permanecemos rudimentares. Elles 
estão já acabados como a abóbora, nós embryona- 
rios como a pevide. O Português é pevide de Bra- 
sileiro. Que somos nós ? Brasileiros que o clima não 
deixa desabrochar. Sementes a que falta o sol. Em 
cada um de nós, no nosso fundo, existe em gérmen 
um brasileiro entaipado, afogado — que para cres- 
cer, brotar em diamantes de peitilho, callos e pré- 
dios sarapintados de verde, só necessita embarcar 
e ir receber o sol dos trópicos. Cada lisboeta, sa- 
bei-o, traz em si a larva d'ura brasileiro. Nós aqui 
vestimos cores escuras, lemos B»enan, repetimos 
Paris, e no em tanto cá dentro, fatal e indestructi- 
vel, está aboborando — um brasileiro. Quem o não 
tem sentido agitar-se, como o feto no seio da mãe? 
— Fita es ás vezes uma gravata verde com pintas 
escarlates? E o Brasileiro a remecher por dentro. 
— Desejaes inesperadamente uma boa feijoada co- 
mida em mangas de camisa ? E o Brasileiro. — 
Appetece-vos ir visitar a Memoria do Terreiro do 



CAMILLO 327 

Paço ? É o Brasileiro, là dentro. — Lembra-vos 
reler uma ode de Vidal ou uma fala de Melicio ? E 
o Brasileiro! EUe está dentro de vós lisboetas! Ah 
sabei-o ! vós, estaes sempre no vosso estado interes- 
sante — d'um Brasileiro ! E quereis uma prova ? E 
o verão ! E o cruel verào ! Entào, sob a tempera- 
tura germinadora, — o Brasileiro interior tende a 
florir, a desabrochar, a alastrar em cachos. Então 
começaes a deitar o chapéu para a nuca, a usar 
quinzena de alpaca, a passear depois do jantar com 
o palito na boca, a exigir dos vendedores a agua 
do Arsenal, a freqentar a Deusa dos Mares ! Sabeis 
o que é? E o Brasileiro, que là tendes dentro na 
entranha, attrahido pelo sol, a querer romper ! Por- 
tanto quando nos rimos d'elle — intentamos a nós 
mesmo um processo amargo. No inverno a pevide 
contém a abóbora : mas, quando a abóbora cresce no 
verào, é ella que contém a pevide. Nós cá contemos 
o brasileiro ; elle lá, chegado ao Brasil, germina, 
brota em fructo, e nós ficamos-lhe dentro. Ora se 
esmagarmos a abóbora a grandes golpes de chacota, 
é sobre a nossa própria e rica pessoa que descarre- 
gamos o riso fero. Tenhamos juizo ! B»econheçamo- 
nos nelles como nós mesmos — ao sol ! » 

Pensarão decerto os senhores que esta satyra 
cheia de vivacidade, chispando espirito, d'uma 
graça fina e adorável, ó obra d'algum d'esses ro- 
mânticos a quem o espirito de justiça do auctor 
da Reliquia não perdoa. Pensarão talvez que o ho- 



328 CAMILLO 

mensinho, numa hora de bom humor, se serviu 
dos instrumentos habituaes de troçar os di U 
para jogar por tabeliã a sua maliciosa bisca aos 
de cá, tudo com aquelle facciosismo que contundia 
os delicados nervos do brilhante auctor do Manda- 
rim.,. Puro engano. Eça de Queiroz não podia 
dizer mal d'esse pedíiço de prosa, porque ella nasceu 
do seu próprio engenho ! Vem num numero das 
Farpas e foi reproduzido depois na obra Uma 
campanha alegre (ii vol. pag. 97-100), que reúne a 
coUaboraçáo do grande escriptor no pamphleto seu 
e de Ramalho. E, de tal modo, a sua Carta-prefacio 
do Brasileiro Soares, escripta quatorze annos mais 
tarde, é, não apenas um libello accusatorio, mas 
ainda um sentido e eloquente acto de contricção. 

Mas, na qualidade de regra, que lhe tem sido 
attribuida, pode esse modelo de brasileiro que fixei 
soífrer as suas excepções? Nada mais certo, e tanto 
que o próprio Camillo assim pensava, traçando al- 
gumas das suas figuras de torna-viagem nas Notei- 
las do Alinho, cheias de acções nobres, de abnega- 
ção, de amor e de bondade. Mas a lenda a que deu 
curso a conhecida diatribe d 'uma princesa nympho- 
maniaca, fez dos brasileiros de Camillo apenas ty- 
pos toscos ; e Eça de Queiroz preferiu citar de ou- 
vido, sem ter o incommodo de solidamente fazer 
primeiro a prova. Se bem que elle falou de uin 
modo vago de romantismo, sem sequer citar o no- 
me do romântico de S. Miguel de Seide. Mas rp- 
man ticos grandes que em novellas troçassem o bra- 



CAMTLLO 329 

sileiro e que fizessem duettos d'amôr entre jovens 
pallidas e mancebos languiâos, de melena ao vento, 
houve em Portugal apenas um. E nem o próprio 
Eça iria gastar táo prolixamente as gemmas do seu 
estylo numa longa referencia a meia dúzia de su- 
balternos obscuros. A não ser que o illustre ironista 
se lembrasse da carta de Jacaré-Paguà na charge 
de Garrett O Brasileiro em Lisboa ou do Spiridião 
Cáòsiáno di Mello i Mátoss, do incompleto romance 
Helena do mesmo auctor, — o que ainda assim não 
excluiria da referencia o nome de Camillo. De resto, 
Eça de Queiroz não cuidou nunca de pôr a figura 
do seu grande antecessor na gloria litteraria a co- 
berto das ferroadas d 'uma ironia discreta e contun- 
dente. Jà nos Azulejos, do sr. Bernardo Pindella, 
hoje conde de Arnoso, outra referencia apparece 
sem rebuços : 

« Os discipulos do Idealismo, para não serem 
de todo esquecidos, agacliam-se melancolicamente 
e, com lagrimas represas, besuntam-se também de 
lodo! Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de 
Unho puro, que táo indignadamente nos arguiram 
de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante 
pé enlabusar-se com a nossa lama ! Depois, erguen- 
do bem alto as capas dos seus livros, onde escre- 
veram em grossas letras este lettreiro — romance 
realista, — parece dizerem ao Publico, com um sor- 
riso triste na face mascarrada : — Olhem também 
•para nós, leiam-nos também a nós. . . Acreditem que 



330 CAMILLO 

também somos muitissimo grosseiros, e que também 
somos mtiifissimos síijos ! * ^ 

D'esta vez, o próprio Camillo acudiu â chamada, 
tão clara era a referencia, e, no final de um artigo 
ácêrca do pae do romancista da Eeliquia, depois de 
citar as palavras impressas no livro do sr. Pindella, 
respondeu assim : 

« Ora aquillo é comigo. O sr. Eça de Queiroz 
desembestou aquella frecha apontada ao meu peito 
innocente ; mas alvejou com o seu olho mais myope, 
ou sacrificou a verdade a umas pittorescas phrases 
azedas e jà bastante puídas que não valiam a pena 
do holocausto. Em primeiro logar, eu nunca censu- 
rei a pouca limpeza dos livros do sr. Eça; e, sempre 
que de passagem os indiquei, foi para os elogiar 
incondicionalmente, porque para mim livros sujos 
são somente os mal escriptos. Em segundo logar, 
nenhuma novella minha se inculca na capa romance 
realista. Alguém arguiu, com razão, um meu editor, 
que nos annuncios da 4.* pagina dos jornaes espe- 
cializava a factura realista da novella. D^ahi proce- 
deu talvez o equivoco importuno e flagellador do 
sr. Eça de Queiroz. Se s. ex.* me julgasse menos 
irracional do que o seu modo de ler os frontispicios 
dos meus livros sem os vêr (eu é que vejo tudo 



* Carta-jirefacio aos Azulejos^ do sr. Bernardo Pinhei- 
ro, Pindella. 1886, p. xx-xxi. 



CAMILLO 331 

uanto o insigne romancista imprime) duvidaria 
ae eu fosse capaz d'essa parvoiçada para chamar 
os meus romances a attençáo dos leitores de s. ex.». 
!rédo! Pois eu precisaria, para ser visto, de me 
ivelar com a espádua litteraria do sr. Eça? Mas, 
3 o fizesse, era essa a maneira de me tornar invi- 
vel, como diz a sentença d© nâo sei que grande 
ibio . . . Talvez seja do grande sr. Eça de Queiroz 
sabia sentença. ^ » 

Camillo começava a ser irónico no fim d'esses 
eriodos e é, com esforço, apparentemente calmo 
cn todo o artigo. Era preciso que elle tivesse por 
Iça uma consideração enorme para não responder 
Dm a brutalidade de um ataque violento — elle, 
ae não perdoava nunca. Não sei mesmo se Eça o 
Dmprehendeu mais tarde quando, arrefecidos os 
rdores de combatente, desfeitos facciosismos de 
5cola, recordando os tempos moços, decerto pe- 
)u, com magua, os desatinos da juventude, numa 
ora calma de justiça. 



^ Camillo : José Maria d^ Almeida Teixeira de Queiroz, 
ío Ohulo ás Creanças. 1887, pag. 142. 



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III 



Português antes de tudo, encarando as coisas e 
os acontecimentos com o modo de vêr da sua raça, 
Oamillo nâo pôz nem seria capaz de pôr todas as suas 
iminentes qualidades ao serviço d'uma causa -ou 
l'uma doutrina; nos seus romances não ha aquillo 
. que hoje se convencionou chamar — a these, mas 
empre, na boca do auctor ou dos seus personagens, 
►s considerandos d'uma philosophia um poucochi- 
iho burguesa, brilhando de onde a onde pela novi- 
lade do paradoxo e conduzindo as mais das vezes 
. conclusões moraes de pouco arrojo. Mas essa 
QBsma moralidade varia de livro para livro, é de 
ynisino ou de crença, de bondade ou de sarcasmo, 
, mercê da instabilidade do caracter do artista. Ha 
lovellas de Camillo em que rara é a scena inven- 
-ada : uma das suas características litterarias é, 
íomo já disse, a inconfidência. E eis porque, em 
;rande parte dos livros seus, nos apparecem, mais 



334 CAMILLO 

OU menos velados, episódios da sua própria vida. 
Toda a gente sabe, por exemplo, que nos Annos de 
prosa e no Ultimo acto figura Anna Plácido, que o 
Amor de perdição e a Mulher fatal são verdadeiros 
ou, pelo menos, assentam num fundo de verdade, 
e que o episodio macabro da Maria do Adro arran- 
cada do tumulo pelo romancista apaixonado, deu 
assumpto para um trecho do livro Scenas contem- 
porâneas e figura episodicamente em alguns outros. 
Nos seus últimos annos, era com prazer que recor- 
dava o passado, a sua mocidade, os seus amores, 
toda a historia vivida de uma existência tumultuosa. 
E assim, no General Carlos Ribeiro, na Maria da 
Fonte, nos Serões de S, Miguel de Seide, na Bohemia 
do espirito, nos derradeiros versos, apparecem a cada 
passo reminiscências d^um passado distante; e o 
romancista, escrevendo os seus últimos livros sob a 
inspiração melancólica da saudade, lembra-nos Rous- 
seau interrompendo a sua ultima obra incompleta, 
as Réveries, quando, retrocedendo o seu espirito á 
mais viva e mais cara recordação da sua juventude, 
de novo contava o seu primeiro encontro, tão poé- 
tico e tão fresco, com M me de Warens. ^ 

Mas, ainda mesmo nos casos em que o auctor nào 
entra na própria acção da novella, nunca elle cede 
o seu logar de espectador que commenta, elucida e 



1 RÉGIS : La phase de presenilité ches J. J, Rousseau. 
Log. cit. 



CAMILLO 335 

observa ; e essa posição, que dâ um certo pittoresco 
ás suas narrativas, favorece a opportunidade das 
largas divagações do psycologo. Toda a acuidade 
do seu espirito de analysta apparece então nitida- 
mente. Esses mesmos que lhe recusam os dotes de 
observação noologica, não o fazem senão porque o 
seu processo de analyse os desorienta. As grandes 
crises dos romances de Camillo nunca se limitam a 
violentos estados d^alma, exteriorizam-se sempre, 
concretizando se, materializando-se em factos. De 
modo que, como é natural d'essa maneira, o roman- 
cista faz o estudo dos seus personagens de fora 
para dentro: observa-lhes os actos e investiga de- 
pois as razões intimas que os determinaram a agir 
de forma tal. E, por esse processo, chega â reali- 
zação de typos admiráveis. Apenas, em certa altura, 
uma vez por outra, o sarcasta intervém, surprehende 
a figura em meio, com uma gargalhada, arremessa- 
Ihe o escopro em meia dúzia de traços diabólicos e 
faz d'aquillo uma caricatura. Taes os personagens 
do Morgado de Fafe^ tal o typo, aliás admirável, de 
Calisto Eloy de Barbuda da Queda d'um anjo, ou, 
nos Annos de prosa, o de José Francisco Andraens. 
E pois que falei do seu sarcasmo, e pois que 
consequentemente ia falar da sua graça, opportuno 
será referir- me ao aspecto, se não o mais brilhante, 
se não o mais valioso, pelo menos o mais inimitá- 
vel e inconfundivel do seu alto espirito. E o traba- 
lho de humorismo adstricto ás suas obras de critico 
e de polemista, que constitue o mais admirável 



336 CAMILLO 

documento de génio em obras-primas de irreverên- 
cia grosseira e rude crueldade. 

Em Camillo existia a negação completa de todas 
as qualidades que para o critico em geral se pre- 
ceituam. Falta va-lhe a visão serena das coisas e dos 
homens e o poder de serenamente julgar ; via tudo 
através das sympathias ou dos ódios que favores 
ou oflfensas enxertavam na sua natural bondade — 
tamanha quanto o pôde ser a bondade num nevro- 
patha da sua força — e via a mesma coisa contra- 
dictoriamente, segundo a variabilidade habitual do 
seu espirito. 

«Uma tarde, em S. Miguel de Seide, — escreve 
o sr. Silva Pinto —7 sahiramos a passeiar pela aldeia: 
Camillo Castello Branco e eu. Num caminho de 
atalho, um velho, sentado a uma porta, ergueu-se 
respeitosamente e cortejou : — Tenham vossas se- 
nhorias muito hoa tarde! Correspondemos, e Camillo, 
interrompendo a palestra, informou-me : — E iim 
homein venerável este ancião. Tem sido uma esponja 
de amarguras. A filha deu em mulher perdiãúf o 
filho em ladrão, e a mulher morreu-lhe de dor,,. 
Mas, concluiu com movimento brusco, Detis lá 
sabe o que faz. Um quarto d^hora depois, passáva- 
mos novamente pelo velho. Este ergueu-se outra 
vez. Tirei o chapéu ; e Camillo, attentando no caso, 
perguntou-me: — Quem foi que V, cortejou ? — Foi o 
velho de aÍ7ida agora. — Qual velho? — Aquelle des- 
graçado de qiieííi V, Exs^ me contou a historia. O 



,CAMILLO 337 

• ■ 

ae do ladrão e da, . . — Ahf sim: um borrachãof, 
ortou elle, encolhendo os hombros.» ^ 

« A deliberação da ida para Lisboa — assevera 
lamillo numa das cartas a Vieira de Castro — só 
►oderá desfazê-la a gravidade da doença. Eu vivi 
empre mal ahi. . .» ^ E em cartas a Silva Pinto: 
: Grita-se contra Lisboa ; eu quando ahi vou pare- 
e-me que bebo saúde nessa atmosphera, tão boa 
ue transforma esse oxy génio a gazes do Arro- 
bas Estive no Porto com a familia uns dias. 

lini doente, como se sahisse d'uma cloaca. O Porto 
em m. . . por dentro e por fora. Lisboa é só por 

lentro Invejo-lhe a vida de Lisboa. Tenho 

nuitas saudades d 'isso tudo e sei que não torno a 
^êr a minha querida Lisboa. » ' E em cartas colli- 
çidas na Illtistração Moderna, do Porto, sem des- 
gnaçáo de destinatário: « O Porto seria uma sentina 
■étida a toda a Europa, se a notoriedade do Porto, 
íom as suas bandeirolas coçadas e a sua limonada 

le cavallinhoSj passasse além de Campanhã 

Eu abomino essa Praça de D. Pedro, esses Clérigos, 
boda essa algazarra a fingir terra civilizada com 
ares de New-York. Acho tudo melhor que o Porto, 
desde a O velhinha até Barcellos.» E, numa carta 
ao auctor do^ Romance do romancista: «O Alberto 



' Silva Pinto: Cartas de Lhhooy na Voz Publica de 20 
3 21 de junho de 1902. 

2 Correspondência epistolar^ t. n, p. 50. 

3 Ob. cit., p. 115, 102 e 106. 

23 



*àí8 CAMILLO 

Pimentel lambem foge do Porto? Essa terra é in- 
taliibie paia iodos os que lespiíam pela alma; e 
eu, a dizer a verdade, em r.enhuma outra me dou 
tão bem, quer do corpo quer do espirito. > ^ 

Comprehende-se que uma volubilidade de opi- 
niões de tal feitio náo pode ser qualidade que atteste 
a excelleiícia d'um critério. Não: Camillo nunca 
poderia ser um critico: nunca o foi. E elle mesmo 
o reconhece, embora por outra espécie de motivos, 
quando escreve nos seus Eò-hoços de apreciações lit- 
terariati^ em 186B :. «Dei-^ne pouco a este género de 
escriptos, temeroso das difficuldades. Poderia, por- 
ventura, vencer algumas das vencíveis a todo o 
escriptor applicado; mas a. minha safara era outra, 
e o tempo escasso para me sahir acceitavelmente 
diambas. A critica em Portugal é quasi impraticá- 
vel por duas causas; a primeira é que somos poucos 
a escrever, e nos apertamos cordialmente a mào 
todos os dias; a segunda é que, por este theor de 
vida, nenhum escriptor se faria um nome que o 
compensasse dos dissabores e da pouquidade dos 
lucros. » 

Camillo nunca desprezava uma aggressáo — par- 
tisse ella d'onde partisse. Elle próprio o confessou 
a Silva Pinto : 

« Sempre que um dos novos me aggride, ha quem 
me acoiselhe a não fazer caso. Foi asbim quando V- 



* Alberto Pimentel : O remai ce do rowancisiaf iSl"^ 



CAMILLO 339 

me provocou. O Teixeira de Vasconcellos escreveu- 
me de Lisboa : Não responda. Este sujeito não 
guarda o decoro, E eu respondi ao Teixeira: Nem 
eu. Quem melhor as tiver y melhor as joga! E claro 
que os meus quarenta annos de serviços, ou quantos , 
são, concedem-me o direito de silencio quando um 
rapaz faz negaças com muito phrenesi á minha 
innocente pachorra. Mas que quer o meu amigo? 
Eu vi o pobre Castilho e o pobre Herculano sahi- 
rem d 'esta vida com muitas nódoas negras no corpo. 
Não surgiu luctador novo que não fosse ali ensaiar- 
se, applicando dois pontapés âquelles dois velhos. O 
Herculano creio eu que á força de orgulho chegasse 
a persuadir-se de que os não levara : mas o pobre 
Castilho sentia-os bem, e tanto, que logo, pelo tele- 
grapho e pelo correio, me avisava do sacrilégio — 
para que eu o desaggrçivasse. Acudi pelo nome 
d'aquelle sublime ingénuo duas vezes, que me lem- 
bre : na questão coimbrã e na do Fausto, Mas pela 
minha parte resolvi não me deixar contundir sem 
usar de represálias. Os rapazes dão-me; mas eu 
reajo, como se vê. . .» * 

Os criticos do Cancioneiro, a Questão da sebenta 
e a polemica com Alexandre da Conceição, a pro- 
pósito da CQ)ja, são documentos admiráveis de 
aggressâo, em que o humorismo se alliava â violen- 



1 Silva Pinto : Cartas da Lisboa, Log. cit. 



340 CAMILLO 

cia, garantindo para o lado do romancista, ao pri- 
meiro assalto, a absoluta certeza da victoria. O 
adversário podia argumentar com erudição ou re- 
correr ao mais despejado vocabulário do insulto. 
Camillo pegava nas suas phrases uma a uma, ex- 
punha-as numa gargalhada que fazia rir também 
os que o liam, punha em cada argumento conside- 
rável do adversário o barbicacho do sarcasmo e 
depois fazia-o pular, em divertidas cabriolas, â custa 
dos beliscões, com que, num cynismo cruel, o tor- 
turava. De tal modo, a dois passos do começo, 
já se via o adversário apopletico, debatendo-se, 
vomitando injurias, descomposto, desconcertado, 
perdido, © Camillo gozando o prazer de o aniquilar 
de todo, de o arrazar, de lhe fazer pagar bem cara 
a audácia de profanar, mesmo ao de leve, a intan- 
gibilidade do seu nome e da sua obra. Era bem o 
representante litterario d'essa geração de Botelhos, 
violentos, provocadores, desordeiros, que espalhara 
o terror em Villa Real ; era bem o sobrinho de Si- 
mão António, derribando, de penna em punho, re- 
putações litterarias, como outrora seu tio, com um 
fueiro, punha em cacos os cântaros do chafariz. 

Essa polemica da Corja é modelar e define bem 
em absoluto a sua maneira de combate. No primeiro 
artigo de resposta, Alexandre da Conceição escrevia: 

«Uma ultima observação. O sr. Camillo Castello 
Branco, pelos excessos da sua bilis palavrosa, adqui- 
riu neste paiz a reputação lendária dé um polemista 



CAMILLO 341 

temeroso e intractavel. Nós queremos prevenir o sr. 
Camillo de que emancipámos ha muito o nosso es- 
pirito do terror sagrado de todas as lendas e do 
temor pueril dos grandes homens, depois que nos 
resolvemos a tocar-lhes com um dedo e reconhece- 
mos que estavam cheios de palha, como os espan- 
talhos. Em homenagem por isso ao glorioso nome 
do romancista e á seriedade da imprensa, procura- 
mos manter esta resposta nos limites que nos sáo 
impostos pelos preceitos mais communs da decência 
e da urbanidade. Se porém os assomos olympicos da 
vaidade irritada do sr. Camillo o levarem a repli- 
car-nos em tom e por forma que exceda as raias da 
boa educação, nós não teremos duvida em o seguir 
a esse terreno e em converter esta inoffensiva pole- 
mica no mais divertido e decotado escândalo que 
tem entretido ha muito a ociosidade indigena. Como 
temos sobre s. ex.^, apesar de velhos, a vantagem 
de menos vinte annos seguros, afiançamos-lhe que 
havemos de ser o ultimo a falar, porque d'aqui a 
vinte annos, escrevendo todos os dias, ainda tare- 
mos muito que lhe dizer. Neste ponto, a nossa ima- 
ginação ó d'uma fecundidade illimitada e o nosso 
pulchro arminho d'uma pureza relativamente exce- 
pcional. Agora. . . Tirez le premier, Monsieur rAn- 
glais.» ^ 



1 Bibliographia portuguesa e estrangeira, terceiro anno^ 



1881, n.** 1, p. 6 e 7. (Transcripto do Século), 



342 CAMILLO 



Nunca combatente algum entrou em campo com 
mais denodada decisão, e a muitos pareceu nesse 
momento que Camillo ia ter emfim o contendor 
digno d'elle. Pois bem : escriptos mais três artigos 
contra outras tantas respostas de Camillo, obras- 
primas de ironia insolente, o adversário que com 
•tão altisonantes propósitos entrara, bate em retirada 
sem serenidade, sem argumentos, níam ironia, nem 
mesmo insultos que o salvem. 

«Esta questão está terminada — escreve elle 
então. — Não é possivel discutir com um insensato 
num tal estado de allucinação. Quebramos aqui o 
protesto de continuar indefinidamente esta pole- 
mica. Contávamos com todas as torpêsas ; com o 
que não contávamos, porém, foi com a tolerância 
do nosso estômago para supportar a presença do 
torpe. Vencem-nos o nojo da sua baixêsa e não o 
receio do seu valor.» ^ 

E claro que isso teve resposta e, como ainda 
depois, numa carta publicada, Conceição se lhe 
referisse ligeiramente, Camillo, ao vêr que o adver- 



^ Bibliographia portuguesa e estrangeira^ L® anno, n.o 5, 

jp. 81 . 



CAMTLLO 34â 

sarlo derrotado ainda bulia, aniqmllou-o de vez num 
ultimo artigo. 

Nessas polemicas violentas, o grande escriptor 
sentia-se sempre á-vontade. Tinha ao seu dispor os 
elementos d'uma erudição que mais d'uma vez lhe 
proporcionava sahidas livradoras nos lances de maior 
perigo, tinha a verve soberba, extraordinária, mara- 
vilhando pela naturalidade, pela vehemencia e pelo 
imprevisto, tinha um estylo dúctil, elástico, soberbo 
que a cada passo desabrochava em formas novas, de 
uma mais vigorosa expressão e d^um mais brilhante 
colorido. EUe só se indignava, por dentro ; por fora, 
á vista do publico, era a personificação da sereni- 
dade, confiada e omnipotente, que pára, sorrindo, os 
golpes mais certeiros e responde com a impiedade 
<íynica d'um executor. 

O sr. dr. Manuel Maria Rodrigues, hoje lente da 
Universidade e, apesar de tudo, esse mesmo Ale- 
xandre da Conceição, foram os adversários de mais 
valor que terçaram armas com o grande polemista. 
EUe próprio o reconheceu quando, feitas as tréguas, 
serenamente o seu espirito pôde avaliar os factos e os 
homens. Mas afinal o ódio caía com a ultima pala- 
vra dos seus artigos de combate. Atacou o sr. Theo- 
philo Braga com extrema violência e quando este 
•escriptor perdeu dois filhos e João de Deus orga- 
nizou um álbum de homenagem, Camillo deu-lhe o 
4soneto A maior dor humana^ que é a sua melhor 
obra rimada. E, na morte de Alexandre da Concei- 
ção, escreveu versos assim : 



34:4 CAMCLLO 

Bem me lembra que o vi, na juventude, 
Rosado pela aurora d*essa edade. 
Eram prismas d'amôr e d'amizade 
Os carmes do seu myslico alahude. 

Sendo fatal quo degenere e mude 
A crença e o aíTecto e o bem da mocidade^ 
Sangram-lhe o peito espinhos de vaidade 
Nos arranques da briga azeda e rude. 

Mais tarde o encontrei. Já era o homem 
Ralado por desgostos que consomem, 
E põem na face um gesto acre e severo.. 

Se o seu bondoso riso era apagado, 
Restava-lhe este honroso predicado: 
Pregando o Socialismo, era sincero. 



IV 



Fazendo historia, Camillo foi um investigador 
honesto, erudito e intelligente, com a faculdade 
notável de dar ás narrativas todo o relevo da sua 
prosa d'arte. Náo tinha talvez a sciencia das gran- 
des generalizações, mas sabia como poucos acingir- 
se á verdade, averiguando os factos com um minu- 
cioso e paciente critério que bastava a garantir-nos 
a sua probidade. Corrigiu velhos erros consagrados, 
aclarou duvidas antigas e disse-nos trechos de his- 
toria aos quaes a sua prosa suggestiva deu um so- 
berbo poder de evocação. Tal, por exemplo, no 
livro sobre o Marquês de Pombal, a scena da morte 
dos Tavoras no supplicio. 

Dos seus escriptos de theatro, salientarei as 
comedias, algumas das quaes ainda hoje se ouvem 
com agrado. Os dramas, que fizeram época, corres- 
ponderam ao seu tempo, e passaram com elle, na 
vida ephemera das obras a que o génio náo marca 



546 CAMILLO 

uma grandêsa imperecível. Camillo não foi um 
grande dramaturgo, como também não foi um gran- 
de poeta : dir-se-ia que as regras do palco e das 
rimas comprimiam, suffocavam a inspiração do 
artista, como um circulo de ferro dentro do qual 
o seu engenho se não sentia bem. 

Os seus versos. . . O próprio Camillo se definiu 
como poeta no seu implacável Cancioneiro alegre: 
« No cérebro d'este sujeito, — diz elle num artigo 
•que tem por titulo o seu próprio nome — nunca 
phosphoreou pyrilampo de poesia bem medida. 
Não perpetrou grandes delictos de romantismo im- 
presso, porque foi de uma roda de homens práti- 
cos, scepticos, desconhecidos da lua, mais amigos 
do theatro que das florestas rumorosas e mais dados 
^o ponche queimado do que ao remugir das vagas 
>e ás brisas fagueiras do mar, do qual principal- 
mente apreciavam as ostras nà Águia d 'Ouro. Foi 
muito parco em trovas aos objectos dos seus ais. 
Poesia parturejada com dor e não contada syllabi- 
camente pelos dedos fez uma só e foi a ultima. Nas 
' outras inflammava-se a frio. Quando tinha saúde e 
dinheiro, regrava elegias, debulhava-se em lagrimas 
de consoantes. Se ás catarrhaes se ajuntavam as 
angustias da fallencia, entrouxa va-se nos cobertores 
re vingava-se da therapeutica e dos capitalistas, flu- 
minando o lápis d'onde rutilavam coriscos de cha- 
laças salobras. De certo tempo em deante começou 
a dizer que morria e mandava adeante d'elle um 
volume de versos á voragem do esquecimento. Isso 



CAMTLLO 347 

nelle era presuuipção ; porque aos funeraes do seu 
EU de poeta já elle thilia assistido em pes.soa o de 
saúde perfeita. Quando estava sinceramente velho, 
acabou por onde começara. » 

E já antes tinha escripto, na prosa que vem a 
acompanhar o seu livro de rimas Ao anoitecer da 
vida : « Os meus versos estão dizendo que eu nunca 
estudei os rythmos variados e elegantissimos da 
poesia moderna. A minha sede de ideal e de infi- 
nito não se apagava com a sciencia das graças ca- 
denciosas, em que funda a sublimidade do poema. 
Achava eu mais consolação em poetar pelas velhas 
artes, e consoante o arpejar chão e monótono dos 
mestres, que eu tinha acceitado, ao sahlr da pro- 
vinda, sem saber que havia outros melhores. Quan- 
do, mais tarde, dei tento do atrazo e anachronismo 
das minhas oitavas rimas, e superabundância de 
hendecassylabos, era fora de tempo o reformar-me. 
Continuei a versejar sem arte e a pensar que o 
muito do coração suppria bem o desatavio, ou o 
demasiado alinho da forma. Se alguma vez me 
desci da minha pertinaz ignorância, tentando mo- 
delar os meus versos pela accentuação métrica e 
rythmica dos melhores poetas contemporâneos, sa- 
hia-me o dizer tão amaneirado e contrafeito, que 
acabava comigo em persuadir-me que não havia 
corrigir o rachitismo da mocidade. . . Assim pois, 
de boa mente e má vontade me apartei da escola 
do meu tempo, e, por bem não saber qual havia de 
■seguir, fiquei fora de todas. » 



348 CAMILLO 

Mas, ou porque as tentativas rimadas coincidis- 
sem com os periodos de maior abatimento moral, 
ou porque ao senso-critico do. grande escriptor não 
escapasse a noção nitida da sua inferioridade, o 
certo é que em alguns dos seus livros de versos 
vem, em sub titulo, a promessa infantil de não tomar 
a fazer outra. Em 1874, sob o titulo do livro Ao 
anoitecer da vida, lê-se a designação — últimos ver- 
sos. Em 1888, as Nostalgias apresentam-se como a 
sua ultima prosa Hmada. 

E de justiça comtudo mencionar que a melhor 
parte da obra poética de Camillo se contêm no seu 
ultimo livro — Nas trevas. O paroxysmo da des- 
graça fazia o milagre de entremostrar -nos o génio 
do grande escriptor num género litterario que tâo 
avesso â aptidão d'elle se demonstrara no decorrer 
da sua vida inteira. 



E analysada succintamente, em todos os seus 
aspectos, essa obra grande, soberba e inconfundivel, 
é tempo de dizer como a pátria, que esse homem 
extraordinário tanto honrou, soube corresponder ao 
esforço monumental do seu trabalho. 

Em 188Õ, foi Camillo Castello Branco agraciado 
pelo rei D. Luiz com o titulo de visconde de Cor- 
reia Botelho e, por deliberação das cortes, dispen- 
sado do pagamento de emolumentos, direitos . e 



CAMILLO 349 

sello de que se constituía devedor, apeei tando essa 
mercê. 

Em 1889, como «reconhecimento publico dos 
relevantissimos serviços prestados âs letras pátria» 
pelo visconde de Correia Botelho» foi, com o voto 
das camarás, concedida a seu filho Jorge Camillo 
Castello Branco a pensão annual e vitalícia de um 
conto de réis. 

' Em 1907, o parlamento approvou uma pensão 
annual de 400$000 réis, em favor dos netos de Ca- 
millo, filhos de Nuno Castello Branco, que luctavam 
cDm falta de recursos para a sua subsistência e edu- 
cação. 

Por mais d'uma vez, grupos de homens de letras, 
grandes commissões com representação de todas as 
classes, e associações litterarias, têm procurado in- 
teressar o publico e o Estado na ideia de se levan- 
tar um monumento em honra do grande escriptor. 
E comtudo ainda hoje, por vergonha nossa, Camillo, 
como Herculano, não tem uma estatua em Portugal. 

Eu não quero neste momento investigar qual o 
verdadeiro motivo do insuccesso de tão insistentes 
tentativas, nem procurar as vergonhosas razões 
occultas que fizeram com que não merecesse sequer 
a sancção camarária, no município portuense, o pa- 
dido que ha annos fez a Associação dos Jornalistas 
d^aquélla cidade para que o nome do glorioso es- 
criptor fosse dado a uma rua. Mas seria absurdo 
contestar a existência d'uma má-vontade que vem 

^Ê• 

de longe e que nem- a morte de Camillo, nem o 



350 CAMILLO 

tempo decorrido depois d'ella, conseguiram ainda- 
apagar inteiramente. Ódios semeados pelas suas 
palavras d'azedume, ódio ainda d^ima sociedade a 
que elle arrancou os seus melhores grotescos, o ódio 
das vaidadesinhas feridas e do amor próprio que o 
ridiculo fulmina, — tudo isso veio deitar raizes de 
calumnia, intrigar na sombra, difamar, servindo-se 
da arma covarde do desprezo, esquecendo-se do res- 
peito que primeiro se deveu ao nome do maior ar- 
tista da nossa terra, e depois ainda se deve em ho- 
menagem â sua memoria altissima. 

Camillo morreu, e morreu d'uma maneira trági- 
ca. Era um homem cego que se matava, era o fim 
cruel de um desgraçado. Pois quando o cadáver 
d'esse homem chegou ao Porto, havia na gare ape- 
nas um cento de pessoas que o esperavam, e, entre 
essas, nem um único escriptor, nem um único ar- 
tista! Estavam reporters por dever de officio, o 
cónego Alves Mendes, o padre Sebastião e Freitas 
Fortuna por amizade, estava o editor Costa San- 
tos e mais um pequeno grupo anonymo que a 
admiração humilde ou a curiosidade banal levou 
ali. «O cortejo era composto apenas de 18 trens e 
atravessou a cidade no meio da indiíFerença geral 
e quasi despercebido», diz o telegramma do Porto 
para um jornal da época. * Mas, aqui e além, o 
mercante saltava o balcão e vinha âs per tas — rir. 



Correio da Manhã, de 4-6-90. 



CAMILLO 351 

O Porto rancoroso, incivil, materialão e ignorante 
— vinga va-se. E vingava-se cuspindo o fel do seu 
ódio sobre a face de um morto. Ia ali, emmudecido- 
para todo o sempre, o sarcasta que escreveu a Filha 
e a Neta do ArcediagOy os Brilhantes do Brasileiro^ 
toda essa galeria em que os seus grotescos vivem 
e a sua sociedade egoista, plebêa, utilitária, sem 
intelligencia e sem nobreza, anima os bellos qua- 
dros que a fixam, com o poder gravativo d'um 
artista de génio, na parte mais deprimente e cari- 
catural dos seus aspectos. Ia ali Camillo, esse en- 
demoninhado que, pilhando-os bem ridiculos, com 
as suas sobrecasacas do domingo e os seus cartolòes 
velhos, lhes agarrava pelas suissas e os fazia ca^ 
briolar no ar, como fantoches; e toda a rua de S^ 
Joào vomitava injurias sobre o corpo morto que 
aquelle féretro continha, que lhe fizera andar á roda 
a cabeça das mulheres nos seus tempos gloriosos 
de velho leão das salas, que lhe corrompera as fi- 
lhas com as paixões romanescas dos seus livros.. 
E, atrás do cadáver d'esse homem de génio que- 
fez na sua terra, durante quarenta annos de inde- 
fesso trabalho, quasi toda a litteratura d'uma época^ 
d'esse supremo artista, dos maiores da sua pátria,., 
o maior decerto do seu tempo, — nem ao menos uni 
único escriptor, nem sequer um único artista : um 
editor, os amigos, reporters dos jornaes e curiosoá. .^ 

Maio e Junho de IIJOS. 









f "I ' r'|l4?!llri 

Í|ÍtfíM7"P|7T 



Bí^íog ?fl 



NOTA^ 



O «Amor de Perdição» 



O que ha, afinal, de verdade na historia da 
fauiilia de Camillo, tal como vem contada no mais 
celebre e mais vulgarizado dos seus livros? Nào 
tenho elementos que me permittam responder com 
segurança. Estou porém em crer que o auctor doirou 
ali, com o brilho romântico da sua phantasia, os 
episódios fundamentaes alicerçados num irrecusável 
fundo de verdade ; e que, mais de uma vez, deslo- 
cou do seu logar chronologico distante factos com 
que guarneceu, artisticamente valorizando-a, a tra- 
ma essencial do seu romance. Nâo me detenho a 
citar as inexactidões em tudo quanto diz respeito 
aos antepassados do protagonista da sentimental 
novella. O leitor, se conhece o livro e se leu este 
trabalho, já está sufficientemente habilitado para 
ajuizar d 'essas contradicçòes. Quanto a Simão Bo- 
telho é que alguma coisa ainda ha que dizer. 

«Folheando os livros de antigos assentamentos, 
no cartório das cadeias da relação do Porto — es- 
creve Camillo na Introdiicção do seu romance — lí^ 



CAMILLO 3ÒÕ 



no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a 
folhas 232, o seguinte: 

<í Simão António Botelho, que assim disse chamar- 
se, ser solteiro, e estudante na Universidade de Coim- 
bra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na 
occasião da sua primo na cidade de Vizeu, edade de 
IS annos, filho de Domingos José Corrêa Botelho e 
de Z>. Rita Preciosa Caldeirão Castello Branco; es- 
tatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, ca- 
bello e barba preta, vestido com jaqueta de baetão 
azul, collête de fustão pintado e calça de panno pe- 
drez, E fiz este assento, que assignei. — Filippe Mo- 
reira Dias. 

«A' margem esquerda doeste assento está escripto: 
«Foi para a índia em 17 de Março de 1807». 

Esse é o documento official que figura no Amor 
de perdição. O resto é a historia que me abstenho 
neste momento de contar detidamente: o amor de 
Simão por Thereza, a opposiçáo das familias, a 
reclusão de Thereza num convento, as pretensões 
do primo Baltjiazar, o assassinio d'este por Simão, 
o auxilio do ferrador João da Cruz, a abnegação 
apaixonada de Marianna, a morte de Thereza no 
mirante de Monchique, a morte de Simão a bordo 
da nau que o conduzia, a morte de Marianna nos 
braços do cadáver do homicida arrojado ao mar 
no caminho da índia. 

A versão do caso, escudada em documentos, e 
a que me referi com detença nas paginas 28 a 30 
e 33 d'este trabalho, diz apenas que Simão Botelho 
foi criminado pelo estrupiamento que praticou com 
um tiro de clavina na pessoa do criado de um indi- 
viduo de Vizeu, de parceria com um homem de 
péssima reputação, de nome José Jeronymo de Lou- 
reiro e Seixas. O criado ferido chamava-se Francisco 



.tj» 



356 CAMILLO 



José Ferreira e o patrão José Cardoso Cerqueira. 
Sabe-se também que Simão era useiro em acompa- 
nhar com um ladrão publico e caçador, de nome 
José Rodrigues Quintas, do logar de Travanca. 

O sr. Pedro d' Azevedo, auctor do interessan- 
tissimo trabalho sobre os Antepassados de Camíllo^ 
náo viu o processo de Simão, que suppõe estar 
feito em pasta no archivo da Relação do Porto. 
Eu também náo o vi. E, nessas condições, tenho 
forçosamente, nesta altura, de quedar-rae no terreno 
movediço das h3'potheses incomprovadas. 

E' possivel que, exceptuando a scena do assas- 
sinato do morgado de Castro Daire, o resto que 
constitue o enredo do romance seja essencialmente 
verdadeiro: que Simão amasse realmente uma me- 
nina, que poderia ser filha d'esse Cardoso Cerqueira; 
que, por amor d'ella, se visse na situação do en- 
contro com os criados, narrado no romance ; que 
fosse um dos seus companheiros o outro accusado 
do processo, e que ou esse ou o tal Quintas da Tra- 
vanca fosse o que Camillo designa pelo nome de 
João da Cruz. E' possivel que tudo isso seja assim 
e que Camillo modificasse a acção, attendendo a 
que, fora de duvida, é muito mais romanesco assas- 
sinar um rival que estrupiar um criado, e morrer 
d'amôr pela filha de um fidalgo que pelo rebento 
d'um tal Cerqueira que ninguém sabe quem é. 

Mas isto tudo são hypotheses, meras hypotheses, 
talvez inconsistentes e que, em todo o caso, eu não 
saberia comprovar. O que eu quero deixar acceií- 
tuado é que, dada embora provadamente como 
falsa a versão que o romancista attribue ao crime 
de Simão, nem por isso nos é licito concluir pela 
falsidade da maioria dos episódios do romance. 

Referindo:se a Thereza, seu pae, seu primo, o 
ferrador João da Cruz e a filha doeste, figuras que lhe 



CAMILLO 357 



parecem ter sido creadas pela fantasia de Camillo, 
o sr. Pedro d'Azevedo escreve que «não seria toda- 
via muito improvável que o amor de Simão tivesse 
sido consagrado a uma rapariga pobre e de tão 
baixa condição, que ao juiz de fora sobreviesse 
repugnância em a admittir por nora, a qual todavia, 
praticado o crime pelo amante, o tivesse acompa- 
nhado ate â morte, quer nas profundidades do 
oceano, quer nas regiões do oriente.» 

Sim, pôde ser. . . tudo pôde ser. Mas se não ha 
documentos officiaes que comprovem a existência 
real dos personagens a que o sr. Azevedo se refere, 
também, pelo menos que eu saiba, ainda até hoje 
não appareceram quaesquer que neguem essa exis- 
tência. De resto, a averiguação, pelo que diz respeito 
ao ferrador e á filha, seria, em qualquer caso, inútil, 
porque nenhum d'elles tinha mesmo que figurar no 
processo. A versão documentada que o illustre in- 
vestigador nos apresenta, apenas inutiliza a pre- 
sumpção de realidade de certos nomes de persona- 
gens e d'um dos episódios do romance — a morte 
do morgado. Nada mais. 



Depois de escripta e composta esta nota, appa- 
receu no Diário de Noticias (n." de 6-X-1908) o se- 
guinte, que entendo dever archivar como valioso 
subsidio : 

« Simão Botelho — Suppunha-se com bom fun- 
damento que o Amor de perdição era uma espécie 
de memorial de familia, uma auto-biographia dos 
ascendentes de Camillo Castello Branco. Tal sup- 
posição vae-se desvanecendo em presença do resul- 
tado das pesquizas archivistas, a que ultimamente 
se tem procedido. Verifica- se que as tradições de 



3Õ8 CAMILLO 



familia, traiismittidas ao eminente escriptor, che- 
garam muito obliteradas ou adulteradas. A parte 
fundamental do Amor de perdição pôde affirmar-se 
«té certo ponto que continua a manter-se, o quejà 
não succede com alguns factos e episódios impor- 
tantes e até com o caracter das personagens que 
mais ou menos salientemente figurara no trama 
urdido pelo eximio estylista. E' necessário applicar, 
em mais de um incidente, em mais de um logar, os 
devidos coefficientes de correcção, os embargos d 
jphantasía, para nos servirmos de uma phrase do 
próprio Camillo. Este diz que Simão Botelho, o 
iieroe da sua epopeia amorosa, fora atirado ás ondas 
na sua viagem de degredo para a índia. Ora o sr. 
Ismael Gracias encontrou, no archivo do governo 
d'aquelle estado, documentos pelos quaes se prova 
que Simão Botelho, longe de fallecer no caminho, 
chegara a Goa. O distincto investigador indiano 
vae publicar no Oriente portuguez um artigo sobre 
o assumpto. Ceste facto, que não é único, aliás 
muito frequente, se deduz quanto cuidado, quanto 
critério e discernimento deve haver na interpreta- 
ção, como documento biographico, das obras de 
certos auctores. Se não se tivesse procedido,* como 
se está procedendo, a averiguações minuciosas acer- 
ca da vida de Camillo Castello Branco é de seus 
antepassados, quanto não se teria phantasiado a 
seu respeito, nos séculos vindouros, como. tem sue- 
cedido e está succedendo com Bernardim Ribeiro, 
Camões, Gil Vicente e muitos outros. Quaesquer 
que sejam as inexactidões históricas que se encon- 
trem no Amor de perdição, este romance continuará 
a ser a obra-prima de Camillo, uma das mais bellas 
jóias da nossa litteratura, e um dos espelhos, onde 
mais nitidamente se reflecte a sentimentalidade 
portuguesa.» 



NOTA C 



 mãe de Camillo 



No seu citado e valioso estudo sobre Os ante- 
passados de Camillo, o sr. Pedro d'Azevedo diz, 
referindo-se a Manuel Joaquim Botelho Castello 
Branco : 

«Uma senhora cora a qual não tinha impedi- 
mento canónico, deu-lhe uma filha e o grande Ca- 
millo. Aquella senhora, de quem ainda não estão 
bem averiguados os nomes, pois umas vezes se lhe 
■dá o nome de Jacintha Rosa d'Almeida do Espirito 
Santo, outras de Jacintha Emilia Rosa do Espirito 
Santo e ainda outras de Jacintha Rosa de Proença, 
«uspeita-se que era açoreana e casada, formando as 
relações d^ella com seu pae um episodio que Ca- 
millo introduziu no Amor de perdiqão». 

Devagar. . . Ainda se não sabe hoje ao certo 
•quem foi a mãe do romancista. Tem-se procurado 
relacionar com episódios prováveis da vida d'essa 
senhora, algumas passagens da obra de Camillo, e 
tem-se também procurado descobrir na historia do 



B6() CAMILLO 



adultério do Manuel Botelho com a açoreana, con- 
tada no Atifôr de perdic^ão, a narração verídica do 
episodio amoroso que deu origem ao auctor do 
livro. Para mais complicar as coisas, em 1905 ap- 
pareceu numa folha do Porto a citação d'um docu- 
mento, da existência do qual era licito inferir que 
D. Jacintha liosa do Espirito Santo chegou a casar 
com o pae de Camillo. O auctor do artigo em que 
apparece essa referencia é um velho condiscipulo 
e amigo meu, João de Meyra, hoje lente da Escola 
Medica do Porto, e a quem se devem algumas inte- 
ressantissimas investigações sobre episódios da vida 
do grande escriptor. A elle me dirigi recentemente, 
pedindo-lhe que me dissesse tudo quanto soubesse 
sobre o caso, e são da carta com que teve a ama- 
bilidade de responder ao meu pedido estes periodos, 
que vêm collocar a questão nos seus devidos termos: 

«... O que sei sobre o assumpto em que me 
fala a pouco se reduz. E' verdade que, em 1905, 
criticando na Folha da Noite (n." 87, de 19 de abril) 
a Auto-lnographia de Camillo colligida pelo sr. Ta- 
vares Proença, escrevi que o pae do romancista 
fallecera em 22 de dezembro de 1835 e que chegara 
a casar com D. Jacintha Eosa do Espirito Santo. 
Você deve recorda r-se d'isto porque, em nota á pag. 
24 do seu Camillo Cadello Branco — Esboço de 
critica, diz : João de Meira, num artigo publicado na 
Folha da Noite, do FortOj em 19-4-09, oitavo de uma 
serie intitulada Para a biographia de Camillo^ 
afirma o casamento dos pães do romancista, facto 
que ainda nenhum outro biographo tinha mencionado. 
Também, nesse mesmo artigo, vem a afirthação, que 
se diz escudada com provas, de que o pae de Camillo 
morreu em 1H35, ficando elle assim orphão aos dez 
e não aos nove annos. . .» 



CAMTLLO 361 



«O documento em que me baseei para fazer 
aquellas duas afirmativas nào é actualmente iné- 
dito, pois o publiquei no 2.° numero da revista 
lisbonense Cosmos, conjuiictamente com um pequeno 
artigo sobre Camillo, que não era mais do que a 
abreviação de outros já publicados no Independente, 
de Guimarães (n.^ 19, de 16 de março de 1902), na 
Germinal, do Porto (n.^^ 11 e 12, de julho de 1902), 
6 na Alma nova^ também do Porto (n,^ 1, de maio 
de 1903). O documento é o seguinte : 
^^_ «Em os 22 dias do mez de Dezembro do anno de 
l J^§^ falleceu com o Sacramento da Extrema- Uncção 
Manoel Joaquim Botelho Castello Branco, vinco de 
Jacintha Rosa do Espirito Santo, morador na rua 
dos Douradores, e no mesmo dia foi sepultado no 
Cemitério do Alto de S. João, do que fiz este assento 
que assignei. O Prior José António Durães. (Livro 
d' Óbitos da freguezia de Santa Justa, de ÍS*Uj ; fls. 
20 V.) 

«Não posso dizer que esse assento me desse 
muito trabalho a obter, nem me custasse longas 
pesquizas. Eu havia pedido para a freguezia dos 
Martyres, onde Camillo nasceu, o assento d 'óbito 
de Manuel Botelho ; mas as buscas feitas não tinham 
dado resultado. Foi então que se me deparou, a pag. 
207 do Romance do romancista , de A. Pimentel, a 
transcripção de uma petição para que lhe fossem 
concedidas ordens menores, onde Camillo se dizia 
natural da freguezia de Santa Justa. Occorreu-me 
logo que o engano só podia provir do facto de 
Camillo residir nessa freguezia á data da morte do- 
pae. Escrevi então para lá e veio-me o assento de 
que você pode agora, se quizer, pedir uma certidão 
com as formalidades legaes. 

«Mas, já depois que escrevi aquellas duas afir- 
mativas na Folha da Noite, entrei a pensar que, se a 



^02 CAMILLO 



•data da morte de Manuel Botelho ficava definitiva- 
«lente assente, o mesmo não succedia com o seu 
casamento. De facto podia ter havido erro de in- 
formação, propositado ou casual, tanto mais que o 
-assento de casamento, apesar de subsequentemente 
procurado em Santa Justa, náo appareceu. E' bom 
•todavia notar que não appareceu também o asseuto 
<l'obito de D. Jacintha, e que os dois factos podiam 
ter-se dado na área d^outra freguezia. Eu, como 
vivia no Porto quando esses factos me preoccupa- 
vam, estava mal collocado para continuar em ave- 
riguações que difficilmente podem tratar-se por 
-carta. Desisti por isso de pesquizas. Você que está 
^lú em Lisboa é que as podia fazer » 

As investigações a que até hoje procedi no fito 
•de alcançar o assento d'obito da mãe de Camillo, 
têm dado resultado negativo. Nas freguezias cen- 
traes que percorri — Sacramento, Martyres, Santa 
Justa — esse assento não existe. Mas é forçoso con- 
vir em que ainda ha largo campo aberto para lon- 
;gas inquirições. Quanto á relacionação possível do 
nascimento de Camillo com o adultério narrado no 
romance, diz a carta de João de Meyra: 

«O adultério de Manuel Botelho com uma aço- 
riana é narrado no fim do cap. ii e no cap. xvi do 
Amor de perdição. Este episodio tanto pôde ser 
verdadeiro como de pura invenção do escriptor; 
mas dada a predilecção de Camillo para roman- 
cear factos basilarmente veridicos e dada a pouca 
relacionação d'essa narrativa com o seguimento do 
enredo (a ponto que seria ocioso inventá-la se não 
tivesse succedido), inclino-me para acceitar a sua 
veracidade. O que me é impossivel admittir é que 
d'essa ligação extra-matrimonial de Manuel Botelho, 



CAMILLO 363 



tal como é contada no Amor de perdição, nascesse 
Camillo e sua irmã mais velha. O cadete Manuel 
Botelho, no anuo lectivo de 1802 a 1803 (ou 1803 
a 1804?, você verá já- porque tenho a duvida) e, 
ao que parece, antes de fevereiro (Amor de perdi- 
ção, cap. I e ]i) fugiu com a esposa de um estu- 
dante de medicina, natural dos Açores, primeiro 
para Lisboa e depois para a Curuiia, onde viveram 
um anno e tanto (Amor de perdição, cap. xvi), 
voltando ao Porto lõ dias depois da entrada de 
Simào Botelho na Relação. Segundo Camillo, foi 
^m fevereiro de 1803 que o de Castro Daire come- 
çou a pretender a mão de Thereza d'Albuquerque, 
em junho que Simão Botelho o matou (Amor de 
perdiçãOy cap. x) e em março de 1805 que Simào 
entrou na B/elação. Como o mesmo Camillo, em 
mais de um logar, conta que medearam 7 mezes 
entre o assassinato e a entrada na Relação, é claro 
que ha um engano de um anno ou na data do as- 
sassinato para menos, ou na data da entrada da 
Relação para mais. De um modo ou de outro, 
Manuel Botelho estava de volta a Portugal o mais 
tardar em março de 1805. Do Porto, onde visitou 
o irmão, seguiu para Vilia Real com a amante. Ahi, 
foi logo denunciado ao pae, que chamou a açoriana 
a casa do juiz de fora e lhe propôz reenviá-la para 
a familia á sua custa, proposta que foi immediata- 
mente acceita, partindo a adultera para Lisboa e 
d' ali para a sua terra e para o abrigo de sua mãe, 
que a julgara morta, e lhe deu annos de vida, se não 
ditosa^ socegada e desilludida de chimeras. (Amor de 
perdição, cap. xvi, in fine). Como pôde ser que esta 
açoriana adultera, reenviada á familia em 1804 ou 
180Õ, venha a ser justamente 20 annos depois a mãe 
de Camillo? Só pode afirmá-lo quem não attentar 
nos pormenores e na data do episodio inserto no 



364 CAMILLO 



Amor de perdição. Alberto Pimentel diz também 
(Os amores de CamiUo, pag. 27, nota 3): A mãe de 
CamillOj que hoje snpponho natural dos Açores, foi 
raptada por Manuel Botelho Castello Branco, Ha 
quem suspeite que era casada ao tempo do rapto. 
Mas, perguntado por mim sobre as bases das suas 
presumpções, em carta que náo tenho presente 
agora, respondeu-me, se bem me recordo, que tinha 
esses factos do conselheiro António d'Azevedo, 
sobrinho do romancista. E' de crer que António 
d 'Azevedo não saiba mais do que vem no Amor de 
perdição. 

«Quanto à veracidade da narrativa, independen- 
temente de qualquer relação com o nascimento de 
Camillo, sò lhe posso dizer que estudantes açoria- 
nos frequentando medicina em Coimbra de 1801 a 
1806 só houve dois: 1.°) Joaquim António de Paula 
Medeiros, filho de Francisco de Paula Medeiros, 
natural da ilha de S. Miguel, que de 1801 a 1802 
frequentou o 2.° anno, de 1802 a 1803 o 3.o, de 
1803 a 1804 o 4.^ e de 1804 a 1805 o 5.^—2.^) José 
Ignacio da Silva, filho de José Rodrigues Concel- 
las, natural da ilha do Fayal, que frequentou de 
1801 a 1802 o 4.^ anno, de 1802 a 1803 outra vez 
o 4." anno e de 1803 a 1804, o 5.^ Este José Igna- 
cio é do Fayal, como a açoriana de Camillo, e re- 
petiu o quarto anno de 1802 a 1803. Náo trazem 
os annuarios da Universidade o estado civil dos 
alumnos, nem o dizem os documentos precisos para 
a matricula, como informou o secretario Silva Gayo 
á pessoa que a meu pedido lh'o perguntou. . .» 

Em virtude de informação posterior, João de 
Mevra fez o favor de me informar em carta re- 
cente que esse José Ignacio da Silva, único estu- 
dante do Fayal que por aquelle tempo andou na 



CAMTLLO 365 



Universidade, que era o n."^ õ do curso e morava, 
-em Coimbra, na rua da Alegria, teve por máe D. 
Helena Rosa d^Oliveira e casou-se com D. Maria 
de tal, irmã de um capitão António Manuel, da ilha 
do Pico. Foi pessoa respeitável e, após uma vida 
sem sobresaltos domésticos, morreu Physicomór 
da ilha Terceira. 

Ora, falso o episodio do romance na época em 
que vem contado, sê-lo-ia menos vinte annos de- 
pois, em data visinha do nascimento de Camillo? 
Eis o problema. De resto essas transposições chro- 
nologicas são, como jâ disse, muito vulgares na 
obra do romancista. 

E é talvez este o ensejo do reproduzir aqui um 
documento que pó.de ser um bom auxiliar para 
investigações que procurem illuminar esta questão 
ainda obscura. Vem no trabalho do sr. Pedro de 
Azevedo sobre os Antepassados de Camillo, e diz 
assim : 

« Carlos Augusto Scola, Notário da Comarca de 
Lisboa, por Sua Magestade Fidelissima que Deus 
Guarde 

<< Certifico — Que em meu poder e cartório exis- 
tem os livros de notas dd tabellião que foi d'esta 
<;idade José Manoel d'Antas Barboza, o entre elles 
encontra-se um com o numero duzentos quarenta e 
cinco, com principio em dois de abril de mil oito- 
centos vinte e nove e fim em vinte e quatro de 
julho do mesmo anno; e n'elle a folhas cento e oito 
verso está o instrumento do theor seguinte: 

«Saibáo quantos este instrumento de Legitima- 
çjão e Preflfilhação, qual em direito mais firme seja 
c obrigação virem, que no Anno do Nascimento de 
Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos vinte 
e nove, aos vinte e sete dias do mez de Junho, 



366 CAMILLO 



nesta Cidade de Lisboa, no meu Escritório na rua 
Bella da Kaynha, appareceo presente Manoel Joa- 
quim Botelho Castel branco que vive dos seos B-en- 
dimentos e morador na rua da Oliveira, numero 
três, freguezia do Sacramento. 

«E por elle Outorgante Manoel Joaquim Bote- 
lho Castel branco foy dito a mim Tabelião perante 
as testemunhas abaixo asignadas: 

«Que elle tem dois filhos naturaes e de May 
incógnita, por nomes Carolina Eita Botelho Castello 
Branco e Camilo Ferreira Botelho Castelo branco, 
os quaes forão baptisados o primeiro aos dois de 
Abril do anno de mil oito centos vinte e hum, na 
freguezia de Nossa Senhora do Soccorro, por filha 
de pais incógnitos, cujo assento depois o fizera 
declarar e averbar aos nove dias do mez de Junho 
do anno de mil oito centos vinte e cinco, declaran- 
do então ser a dita Carolina Rita Botelho Castello 
branco sua filha e de May encognita; e o segundo 
fora baptizado aos quatorze do mez de Março do 
anno de mil oito centos vinte e cinco por seu filho 
natural e de May incógnita ; e porque pertenda 
ultimar este acto com todas as declaraçoens e 
meios necessários para a sua validade afim de 
que os ditos seus filhos a elle Outorgante sucer 
dão em todos os seus bens, direito e acçoens, e 
em tudo o mais que pelas Leis do Keyno em di- 
reito devão de herdar, por isso dice que desde já 
por esta Escritura reconhece a elles seos filhos 
Carolina B/ita Botelho Castelo branco e Camilo 
Ferreira Botelho Castelo branco por seos legitimos 
filhos afim de que em tudo e por tudo lhe possào 
suceder e herdar até em qualquer Grau que Sua 
Magestade se digne pelos serviços delle Outorgante 
atendelo por a«im ser a sua vontade e nào ser para 
isto conitraiigldo por pessoa alguma podendo am- 



CAMILLO 36r 



bos elles oii qualquer deles requererem a Sua Ma- 
p^estade pelo Eegio Tribunal do ÍDesembargo do 
Paço a competente Provisão de confirmação para 
cujo fim lhe presta toda a faculdade necessária e 
pela sua validade promete responder aonde se re- 
querer o seu cumprimento para o que renuncia o 
Juízo do seu foro domecilio e previlegios presentes 
e futuros que alegar possão. 

«Assim o outorgou pedio e aceitou e eu Ta- 
belliáo o aceito em nome de quem deva tocar au- 
zente, sendo testemunhas presentes Thomaz Roiz 
Anão o Fábio Camilio Reisi que rezidem no meu 
cartório que todos afirmamos o ser elle Outorgante 
o próprio que assignou e testemunhas depois de 
lida. E eu José Manoel d 'Antas Barboza, TabelHãa 
o escrevy. 

«Manoel Joaquim Botelho Castelbranco — Tho- 
maz Koiz Anão — Fábio Camilo Beisi. Está con- 
forme ao original a que me reporto; e declaro que 
no transcripto instrumento estão riscadas as seguin- 
tes palavras : « Cal » — « ultima » — « Camilio » ,— o- 
que não está resalvado. — Lisboa, seis de setembro 
de mil novecentos e seis. — Kasa novecentos e ses- 
senta réis, — Sello trezentos réis. — Total mil du- 
zentos e sessenta réis. — Carlos Augnsfo ScoIa.i> 



NOTA D 



A casa de Seide 



Em nota á Antohtographia, de Caraillo Castello 
Branco, coordenada e annotada pelo sr. F. Tavares 
Proen(,'a Júnior, (Coimbra, 19()5), apparece a afir- 
mação de que «a casa de S. Miguei de Seide per- 
tencia ao pae de D. Anna Plácido». Como essa afir- 
mação brigasse com os informes que eu colhera 
sobre o assumpto para escrever o meu esboço de 
vritica, pretendi certificar-me com segurança e para 
isso recorri ao sr. Alberto Pimentel, que preceden- 
temente também a elle se referira por um modo 
diiferente d'aquelle por que o fazia o sr. Tavares 
Proença. Com uma amabilidade que muito me pe- 
nhorou, apressou-se o sr. Alberto Pimentel a res- 
ponder-me: «Estou convencido de que a quinta de 
Seide era do marido de D. Anna, tanto mais que 
elle nasceu ali perto, em S. Payo de Seide. Mas 
vou escrever a pessoa que poderá fazer fé no as- 
sumpto, e dentro de 3 ou 4 dias terá V. uma cer- 
teza absoluta.» E, dias volvidos, essa certeza che- 
^ou-me realmente nestas novas palavras do sr. 



CAMILLO 369 



Alberto Pimentel: «Não ha duvida nenhuma: a 
casa 6 quinta de S. Miguel de Seide era do marido 
de D. Anna, Manoel Pinheiro Alves, que já a havia 
herdado dos pães. D. Anna, por sua vez herdou-a 
do filho, Manuel Plácido. Este rapaz, como V. sabe, 
viveu sempre affectuosamente com Camillo». 



H 



NOTA E 



Cartas inéditas 



O sr. cónego Seniia Freitas teve a extrema 
geutileza de expontaneameiite tne facultar a pu- 
blicação d'a]gunias cartas que recebeu de Camillo 
e que até hoje tem conservado inéditas. Essas car- 
tas a que mais d'uma vez faço referencia no decor- 
rer do meu estudo, sào as seguintes : 



Meu presado amigo 

A urgência de o ver é grande; mas não tenho 
forças que me levem; não durmo, náo como, estou 
na prostração mais desgraçada d'alma e corpo que 
dar-se pode. Anna Plácido tem uma angina pectoris. 
Eu coufeidero-a perdida. Tenho dois filhos doesta 
senhora. Um d'elles é adulterino, está privado de 
Jhe succíder nos bens. Além d'isso, se ella morre, 



CAMILLO . 371 

a saudade hade pungir-me com o remorso de a não 
ter honrado aos olhos dos f.®^ e do mundo. 

Eu queria que V. Ex^ me obtivesse licença do 
seu arcebispo para eu a poder receber. Isto é exe- 
quivel sem os preparativos do costume? Dá-lhe isto 
m*^° incommodo, meu am^? Ou por ser um acto 
religioso nâo será m*<^ custoso alcançar-se a licença? 
Será como poder. Escrevo-lhe às 2 da manhan ou- 
vindo-a gemer nas agonias do coração. 

Do de V. Ex^ 



tão grato como infeliz 



am^ 



22/11/79 



Camião Cast^ Branco 



II 



Meu m**' querido amigo 

A nubente requereu hontem a convocação do 
Cons.^ de fam.^ Espera-se que a decisão seja favo- 
rável. Se o não for, o q V. Ex^ alcançou do Cardeal 
não só é mt*^, mas tudo. 

Principio a sentir a prostração sequente ás rijas 
commoções que me abalaram os nervos com este, 
com q}^ a mim, desgraçado episodio. O que eu pre- 
cisava era socêgo e que á volta de mim não tuinul- 



372 CAMILLO 

tuássem as ambições dos que olham para a vida sem 
verem d^ella mais que a lama estrellada de lante- 
joulas. O q eu preciso — jâ Ih 'o disse, meu caro 
am^ — é morrer. Envio-lhe uns livros. A Correspd,^ 
e 2 sobre Darwin. 

De V. Ex* 

C de V. Ex* m^ grato am^ 



13/5/81 



Camillo Castello Branco 



ni 



Meu querido amigo. 

Forçarei os olhos â escripta de poucas linhas 
que representem a m* grande vaidade agradecida 
pelo seu táo lisongeiro quanto magistral livrinho. 
Ha n'elle lanços extremadamente verdadeiros. Sáo 
uns em que V. Ex* faz publica a inalterável ami- 
sade que lhe dedico, e que me parece jâ existir 
antes de o conhecer. Depois da m* morte, é natural 
que os estylistas se preoccupem com a m* vida e 
os meus recursos de Artista. Nunca se escrevera um 
livro como este de V. Ex*, e com táo rara destresa 
e táo superior engenho escripto por um padre J 

Quào melindroso era o asjsumpto! E, se o Perfil 
chegasse a Portugal, quantos clérigos desejanam 



OAMILLO 3.73 

quebrar o perfil de V. Ex^, e a mim os dois 
perfis ! 

Beijo-lhe as màos, sagradas pelo talento. 

B,oe o livro do sr. Dr. Almeida. Ainda não o pude 
ler, nem sei se já o lerei. Reservo os meus agrade- 
cimentos áquelle cavalheiro para quando posssi 
conscienciosam*® applaudir a sua obra que pelo 
índice me parece proficuamente histórica. 

A final, a sciencia descobriu que a m^ infermid® 
inexorável é uma myelite. A paralysia por em q*^° 
está nas extremid*^^ inferiores. Se a lesáo da columna 
vertebral chegar ás vértebras cervicaes tenho de 
morrer asphyxiado. Quod Deus avertat. No princi- 
pio jle Agosto, se ainda viver, vou p^ a Povoa. 
Melhorei ali um pouco ha 2 annos ; no anno passa- 
do peorei. Vou ver agora. Ha 10 annos, 17 de 7tbr^ 
de 1877, (4 setes!) morreu o meu Manoel. Talvez 
lá me esteja esperando. 

Desculpe as m^^ faltas p^ commiseraçáo com as 
m^s angustias. 



Seu do c. 



Camíllo, 



IV 



Meu querido amigo 

Ainda pude ver o seu retrato que me alvoroçou 
alegremente. Náo me podia restar outra esperança 



374 CAMILLO 

de o ver. Acho-o n'um hon point de saúde e socêgo 
de corpo e alma. M*° lhe agradeço este novo favor, 

por que desejo que os meus netos o conheçam. 

No «Cancioneiro alegre» não ha referencia al- 
guma a q. por nome não perca. Publicado que 

foi o referido livro, esse homem promiscuam*® com 
alguns litteratos brazileiros, jogou-me umas chalaças 
que vão compendiadas no escripto impresso que 
envio a Y. Ex^. Nada mais escrevi, depois da pro- 
vocação, contra esse sujeito: Se alguma coisa esti- 
vesse no « Cancioneiro » que o incommodasse, seria 
aspada a pedido de V. Ex*. 

Estou a escrever a trote, p^' que não vejo. Tenho 
apenas algumas fibras contracteis em uma das reti- 
nas. Quanto ao padre que lhe ladrou, não podia 
deixar de ser. Se os de cá o não lapidaram é p^ que 
o não leram, nem lerão. Enfream a má lingua com 
a serrilha de burros. 

Estou em preparativos p* voltar a Lisboa onde 
estive ha dias em consultas de ophtalmologistas. 
Não me fazem nada, mas tem a pied*^ de me illudir. 
Inútil pied° ! 

Adeus, meu caro amigo. Heide enviar-lhe de 
Lx^ o meu retrato — o ultimo, o mais convisinho 
da podridão. 

Do seu m*° grato 

C. Cctstello Branco. 
11/11/87. 



CAMILLO 37Õ 



Refere-se a segunda d'estas cartas aos episódios 
<|ue precederam o casamento d'am dos filhos do 
romancista. A historia d'esse casamento ó assim 
contada pelo sr. Alberto Pimentel, no seu livro Cs 
aniôres de Cu ni III o: 

«Gosando de melhor saúde que o irmão, isto é, 
sendo menor nelle a tara hereditária, Nuno Plácido 
Castello Branco não tinha habituahnente o brilho 
de intelligencia que o Jorge revelava nos momentos 
lúcidos. Comtudo, também às vezes escrevia des- 
leixadamente em prosa e verso, mas sem paixão 
pelas letras, e sem possuir maior illustração do que 
■o Jorge. Educara-se á guisa de marialva minhoto, 
■e a sua paixão eram cavallos, trens, o jogo, as fei- 
ras, as conquistas amorosas. Tinha, principalmente, 
n mania da dissipação, de que já padecera o seu 
irmão uterino, Manuel Plácido. Camillo não via 
para este filho outro caminho a seguir senão o de 
um casamento rico. Elle havia nascido para mor- 
:gado, sem o ser. E Camillo bem sabia que na vida 
dos antigos morgados o casamento vantajoso, sem 
previa consulta do coração, era o salvaterio de 
todas as dissipações e estroinices — era o único 
emprego possível. Portanto, o romancista pediu á 
43ua imaginação mais um capitulo de romance es- 
sencialmente nacional; encarregou-a de descobrir 
um bom casamento para o Nuno. Não lhe foi pre- 
•ciso dar muitos tractos á imaginação, porque havia 
ali perto, em Villa Nova, uma menina rica, a quem 
o próprio Camillo chamava a tricentenária, pois sô 
lhe calculava a riqueza em 300 contos de réis. 

«Esta menina chamava-se D. Maria Isabel da 
Oosta Macedo. Era filha de António Joaquim da 
Costa Macedo, natural de Famalicão, que em tempo 
tinha ido para o Brazil, onde casara com uma 
fcrasileira, D- Thereza Martins Marques, que trou- 



376 CAMILLO 



xera um grande dote. Tendo-lhe morrido os pães 
em Famalicão, D. Maria Isabel vivia naquella villa 
em casa de um vogal do seu conselho de familia, o 
sr. António Joaquim Ferreira Tinoco. Era muito 
pretendida em casamento. Os pintalegretes de 
muitas léguas ao redor disputavam-lhe os trezeiUos^ 
contos, e a difficuldade da conquista estava em 
evidenciar qualidades que supplantassem a rivali- 
dade dos concorrentes. Essas qualidades faltavam 
ao Nuno, que náo era gentil nem doce de maneiras: 
que nào era loquaz, nem insinuante; e que, apesar 
de marialva, tinha, em cerimonia, uma timidez que 
o embaraçava. Camillo traçou na sua phantasiaum 
plano audacioso, uma novella, que não era para 
lêr-se, mas para representar-se. Velho romântico de 
acção, e conhecendo por experiência própria no 
amor que a fortuna ajuda aos audazes, reconheceu 
ser indispensável que o ultimo capitulo terminasse 
por um rapto, como nos bons tempos das grandes 
paixões românticas. Para chegar mais facilmente 
ao epilogo, lembrou-se de ser elle próprio quem 
escrevesse pelo filho as cartas d'amôr, e, molhando 
a penna no tinteiro, promptamente encontrou o 
opulento filão d'aquellas missivas exhuberantes de 
apaixonado lyrismo, que ficaram na memoria de 
quantos leram o Amor de perdição. Abalado o espi- 
rito de Maria Isabel por a mais vehemente corres- 
pondência que em tempo algum tinha estonteado- 
a cabeça de uma menina minhota, isto é, depois de 
Camillo ter estado em scena por detrás do filho, e 
preparado convenientemente o terreno, chegara o 
momento opportuno de pôr em acção o rapto. O 
assumpto de uma das cartas era o convite e o plano 
da fuga, que ambos foram acceitos. Na véspera do 
dia que Maria Isabel julgasse ser o mais próprio 
j)ara a evasão, devia dar signal panda uma flor uo 



CAMILLO 37? 



peitoril de uma janella, que deitava para a rua de 
Santo António. Uma flor! Aqui se conheceu mais 
uma vez o dedo romântico de Camillo. Qualquer 
prosaico amante de Lisboa lembrar-se-ia de recom- 
mendar um — trapo ; Camillo propôz uma flor. E a 
flor appareceu no dia 3 de maio de 1881. 

«Logo os emisísarios de Camillo, que andavam á 
espreita, correram a Séide a annunciar a appariçàa 
do signal combinado. O romancista deu a ultima 
demâo ao plano do rapto. Preveniu a hypothese de 
quaesquer contrariedades supervenientes. Uma d'es- 
sas contrariedades seria a do raptor e os seus 
auxiliares encontrarem uma mulher de mâ vida, de 
nome Maria da Conceição, por alcunha a Marcada^ 
que andava de noite a embebedar-se pelas tabernas 
de Famalicão e era capaz das ultimas torpezas. 
Esta rameira chegou a merecer a confiança de 
alguns administradores do concelho, pois que ella 
valia por si mesma todo um corpo de policia civil 
em serviço nocturno. Era, sobretudo, um espião 
vigilante. Camillo acudiu logo com um alvitre: — 
Se <ipparecer a Marcada, }evem-n'a papa o** ladoa de 
S, Thiago de Antas, a pretexto de beber uma pinga; e 
dêem lhe ali uma sova, de modo que ella grite bem alta 
Aqui d'el-rei, afim da attenção dos habitantes da 
villa se voltar para esse lado e vocês poderem fugir 
a salvo pelo lado opposto. Retocado o plano do rapto^. 
Camillo fez- se sahido para uma estação da linha 
do Douro. Na noite de 4 de maio, os auxiliares de 
Nuno estiveram comendo á tripa forra e bebendo a 
rêgo cheio, numa taberna da villa. A hora aprazada 
para o rapto era a meia noite, consoante o estylo 
do romantismo. Ouvidas as doze badaladas, sahiram 
os homens da taberna e, de bacamartes aperrados, 
foram, cosidos com as paredes, postar-se nas em- 
bocaduras das ruas que davam para a casa da bra- 



878 CAMILLO 



sileira. Nessa mesma occasiáo avançava lentamente 
um carro, vindo do Porto, tirado por uma valente 
parelha, com as patas çntrapadas, para evitar o 
fazer tropel. O trem parou á barreira da villa, na 
estrada de (luimaràes, e- ahi esperou ordens. Nano 
Castello Branco, em trage disfarçado, foi coUocar-se 
atrás da praça do peixe, e adormeceu. Essa infor- 
mação é exactissima : pode ser confirmada por todas 
as pessoas de Famalicão. Adormeceu ! Se Camillo 
teria adormecido em lance idêntico! Era que entre 
o filho e o pae estava o tumulo do romantismo. 
Aquelles dos auxiliares do rapto que deviam rece- 
ber nos braços a fugitiva, quando se deixasse es- 
■corregar da janella, ficaram contrariados ao vêr 
ainda luz nas janellas da Assembléa, fronteira á 
casa de Tinoco. Era que nessa noite o voltarete se 
tinha enremissado muito, e os parceiros da bisca 
sueca foram remanchando a partida até que os do 
voltarete acabassem. — Diabo/ praguejavam os 
emissários de Camillo. Finalmente, ás duas horas 
da noite, apagou-se a luz na Assembléa; os últimos 
parceiros tinham sahido, a occasiáo era propicia. — 
E' agora y D. Isabel inha, deixe-se escorregar pela 
janella y que nós a receberemos nos braços, disseram 
de baixo os auxiliares do rapto. A brasileirinha 
assim fez. Escorregou, descalça, como se havia 
^aproximado da janella. Colhida nos braços -des- ra- 
ptores, foi ao coUo de um transportada ao trem. 
-Outro dos auxiliares teve algum trabalho para des- 
pertar o Nuno, que dormia a somno solto, Ah! 
pobre Isabelinha dos trezentos contQs! se ella sou- 
besse que fora preciso acordar o seu raptor, teria, 
apesar de ingénua, voltado para casa num Ímpeto 
de indignação, numa fúria de raiva. O carro latgou 
-á desfilada até á Portella de Requiào, sem que nin- 



CAMILLO 379 



guem desse pelo acontecimento. A Marcada não 
appareceu, felizmente para ella. 

«Quando o raptor e a raptada chegaram a Seide, 
Camillo, que nes.sa mesma tarde se dera como re- 
gressado, sentiu-se decerto contente do snccesso 
d'este romance em acção, que tão habilmente havia 
planeado, e que era seguramente a mais productiva 
das suas novellas. Imagine-se a sensação causada 
no outro dia, em Villa Nova, por este estupendo 
acontecimento, tão perturbador dos patriarchaes 
hábitos da provincia do Minho. Nas casas, nas lojas, 
na praça, não se falava de outra coisa. E toda a 
gente attribuia a Camillo o plano e o êxito da 
empresa.^ Os pretendentes fallidos ainda por cima 
recebiam os chascos e os epigrammas dos commen- 
tadores alegres. Não lhes bastava o julgarem-se 
roubados em 300 contos, cada um ! A's seis horas 
da manhã d'esse mesmo dia apparecia Camillo em 
Santo Thyrso a procurar o filho, que, dizia, lhe 
tinha fugido. O conselho de familia da hraslleínnha, 
que era composto do dr. João Bernardo do Valle 
Vessadas, Camillo de Lellis Ribeiro de Campos, 
Silvério Ferreira de Macedo, Manuel Bento de 
Sousa, além de Albino Joaquim Ferreira Tinoco, 
já mencionado, reuniu a requerimento da menor 
raptada e deliberou, por maioria, que ella casasse 
cora o raptor. O tutor, que era o dr. Theotonio 
José Rodrigues d'Abreu Fontes, de Braga, também 
transigiu. Em Villa Nova causou impressão o facto 
de alguns dos vogaes do conselho de familia se 
terem opposto ao casamento, malquistando-se com 
Camillo. D. Maria Isabel voltou de S. Miguel de , 
Seide para Famalicão, onde ficou depositada em 
casa de Adriano Pinto Basto e de sua esposa D. 
Florinda de Carvalho Sá Miranda. Conheci muito 
bem Adriano Pinto Basto, fallecido ha annos. Era 



380 CAMILLO 



O maior influente regenerador d'aquelles sitios, e 
intimo amigo de Lopo Vaz. O casamento realizou-se 
em Braga, na egreja de S. Pedro de Maximinos^ 
no dia 2 de julho, sendo padrinhos Jeronymo da. 
Cunha Pimentel, ao tempo governador civil do 
districto, e D. Araelia Castello Branco de Carvalho,^ 
a filha de Camillo, cuja filiação o Nuno havia de 
pôr em duvida alguns annos depois!» 



Na terceira carta, Camillo allude ao seu Manuel. 
Era o filho de Anna Plácido e de Pinheiro Alves, 
morto d'uma pneumonia, na Povoa de Varzim, com 
dezenove annos. Camillo estimava deveras esse 
rapaz. «Adoptei-o no coração extremoso de pae — 
disse elle ao sr. padre Senna Freitas — e senti então 
que o sangue nada é e nada conclue.» Sào ainda de 
Camillo, nas Scenas da hora final, os seguintes pe- 
riodos: 

«Nas horas mais cruéis que a Providencia me 
ha dado, quando a saudade de um morto a quem 
o meu coração chamava filho, me quebrava o res- 
tante pulso com que tantas e grandes desgraças 
dobrei, li, nessas horas, este opúsculo nas co- 
lumnas de um periódico inglês, a Quàrterly Re- 
víew. Eu tinha assistido aos paroxismos de Manuel 
Plácido, aquelle moço gentil que, cinco dias antes, 
era ainda a exhuberante alegria da felicidade sem 
intercadencias de tristeza, a flor dos dezenove annos 
com a raiz já ferida de morte e a corola cheia de 
perfumes. A sua doença, e ao mesmo tempo agonia,, 
durara quatro dias. Cheguei á beira do seu leito 
cercado de amigos, quando a febre cerebral deixara 
entrar em sua alma um raio de luz, uma intermit- 



CAMILLO 381 



tencia da razão. Manuel viu sua màe e cuidou que 
«ella poderia dar-lhe segunda vez a existência. Mas 
•elle não acreditava na morte. Quem tem dezenove 
annos, e nunca chorou, nem duvidou dos contenta- 
mentos infinitos da mocidade, não receia que um 
súbito calafrio, uma dor de cabeça, uma convulsão 
a espaços, e uma anciedade febril sejam a vanguarda 
de moléstia mortal. Julguei- o salvo quando a scien- 
cia o considerara perdido. Beijara-me com expan- 
ííiva ternura, fitara-me com os seus bellos olhos 
negros e brilhantes, conta va-me os descuidos da 
sua saúde, mostrava-me a epiderme lacerada pelos 
cáusticos, e pedia-me que o trouxesse para o seu 
quarto de S. Miguel de Seide. Mas, uma vez, 
amparei-o nas braços e senti na rigidez inflexa 
d'aquelle corpo, que a vida se lhe despedaçava 
nas convulsões do cérebro, e o restante corpo era 
jâ algido como deve ser a sua mortalha nesta fria 
noute de novembro. Dez horas antes de expirar, 
vestiu-se em anciãs com umas fadigas apparen- 
temente afflictivas. Queria vêr o sol, queria es- 
friar-se no vento do mar, sentia-se forte; se era a 
morte que o assaltava na escuridão de um quarto 
infecto, queria affrontà-la, desafiá-la para a grande 
luz d'aquelle bello dia de 17 de setembro. Tinha 
dezenove annos, e via-me vivo, a mim, velho, co- 
berto de cans e lagrimas, alanciado de dores, e 
assim me vira sempre, desde creancinha, quando 
os meus braços o erguiam até aos lábios, e o 
meu coração lhe chamava filho. Vestiu-se pois, e foi, 
amparado apenas, até á extrema de um corredor, 
onde recebeu o ultimo beijo da luz. Aqui, obede- 
cendo aos meus rogos, pediu-me agua, bebeu-a sof- 
fregamente, arquejando, e disse-me: — Eu já sabia 
que não me deixavam sahir. Contavam que eu cahisse 
de fraco. Enganaram-se. Eu não caio. Queria dizer 



382 CAMILLO 



que aos dezenove annos não podia morrer. Deitei-o 
lia minha cama e despi-o. Pediu-me que chamasse 
sua mãe. EUa cahiu de joelhos deante d'elle, que a 
contemplava com torvo spasmo, ou a chamava com 
as meigas palavras da sua amimada infância, ou 
retinha a respiração estortorosa para ouvi-la soluçar, 
como se aquelles gemidos lhe soassem extranhos^ 
inexplicáveis. Quando ella o transportava, sósinha, 
nos braços robustecidos pela angustia e pelo amor, 
de uma cama para outra, o moribundo dizia-lhe 
sorrindo : — A mama pode Id com este Hercules l E 
olhava espavorido para o seu corpo escoriado, roxo 
de pus e sangue. Depois, nas ultimas sete horas, 
tartamudeava gemidos longos, oíFegantes. Parecia 
debater-se em angustias enormes, íntimas, da alma, 
da saudade da vida, como se, afinal, conhecesse 
que era forçoso morrer aos dezenove annos. O res- 
pirar arquejante abateu; enxuguei-lhe o rosto ba- 
nhado de suor pegajoso e frio, curvei-me sobre os 
seus olhos fixos embaciados, senti-lhe a derradeira 
vibração de todo o corpo, e no dedo sobre o pulso 
a ultima contracção da artéria. Voltaram-no morto, 
com os olhos ainda abertos para mim. Havia nos 
seus lábios uma expressão doce semelhante a um 
sorriso de conformidade com a vontade da Morte 
que, aos dezenove annos, o fulminara. Desde aquelle 
instante, as minhas lagrimas só pode estancâ-las o 
pejo de as mostrar. Houve para mim uma consola- 
ção : a certeza que me deu a sciencia de que Manuel 
não soube que morria, não teve consciência da sua 
dilaceração, anciava sem dores, não sentiu as vibra- 
ções que o convulsionavam quando os seios do cé- 
rebro se iam esphacellando, queimados pela febre. 
Este beneficio, que pouco vale â minha eterna sau- 
dade, devo-o a este livrinho. Ha confortos aqui 
para os que temem os transes iiltimos da vida, e 



CAMILLO 883 



confortos, ainda mais necessários, para os qne as- 
sistem ás agonias inconscientes de um amigo, de- 
um íilho ! Ah ! . , . ver morrer um filho ! Meu que- 
rido Manuel, acabaste sem saber o qae são dores 
da alma. Não chegaste a vêr morrer tua mãe. Pa- 
rabéns ! oh minha santa saudade ! Se Deus fe pedisse 
contas da tua vida, dir-lhe-ias : — Eu tinha deze- 
nove annos! Se fosses condemnado e repulso da 
presença do teu creador, as lagrimas que te choram 
aqui moveriam o juiz das acções da tua infância a 
uma piedade que, para ser misericordiosa, não pre- 
cisaria ser divina. Adeus, Manuel! filho do meu 
coração. » 

Numa carta ao visconde de Ouguella, Camillo 
escreveu ainda: «Mataram-me as saudades de Ma- 
nuel Plácido, que pouco se lhe dava de mim». 



Nes^a mesma terceira carta, as referencias amá- 
veis do grande escriptor, são para o livro Perfil de ' 
Camilh CMtello Branco, pelo padre Senna Freitas,, 
publicado, em S. Paulo, em 87 e, no Porto, um annc> 
depois. 



NOTA F 



Camillo e o sr. dr. Bombarda 



Reproduzo seguidamente os meus artigos de resposta á 
digressão de que fui victima, por parte do sr. Miguel Bombarda, 
quandOf ha três an nos, publiquei o meu primeiro livro sobre Ca- 
millo, E reproduzo também, a titulo documental e com a de- 
vida vénia, os termos da agressão. 

Não abandonou o sr. Bombarda neste ligeiro pleito os pro- 
cessos de critica que já alguns dissabores lhe têm valido. Para 
esse psychiatra são questões decididas todas aquellas sobre as 
quaes sua ex.<*^ fixou uma opinião. Rebatendo essa sua illuzão 
teimosa, já um dia o sr. Júlio de Mattos lhe disse que em psy- 
chiatria não ha nem pode haver questões decididas: € Nesta 
sciencia ( em activo trabalho de remodelação^ como sua ex,<* su- 
periormente sabe) tudo se discute^ tudo se examina^ tudo se 
revê.> * O sr. Bombarda^ comtudo^ não se convenceu, cotno^ d'esta 
feita, também por cei'to se não convencerá, E* tarde já para 
mudar. 

Seguem, pela ordem em que foram publicados, os artigos 
■de sua ex,^ e os meus: 



1 Estudo polemico do sr. dr. Júlio de Mattos ao Qpntoalo do sr. 
4r. Mendes MartinH, Ju»ta d^eza^ 19J3. Pag. 10. 



CAMTLLO 385 



Fsychologia do soffrímento ... nos que não soffrem 

o soflVimento, debaixo dos seus múltiplos aspectos, — 
<jondiçÕes, modalidades, eíleilos, — tem sido objecto de 
muitas e profundas analyses. Mas onde os psychoiogistas 
teem parado é no estudo da acção que a dòr, qualquer que 
seja a sna forma, vem a exercer sobre aquelíes que lhe são 
meros espectadores. O logar commum de que a dòr alheia 
move á própria dnr e a bondade d'um coração 6 aferida pelo 
«eu compadecimenle é, nos parece, o extremo limite até 
onde se tem ido n'este campo que se ofíerece hoje á nossa 
consideração e que ante vemos fértil em observações illus- 
trativas. 

Uma ha que se pôde já marcar, não menos notável que 
inesperada, e é que para o mesmo assistente, para o mesmo 
« receptor », o compadecimento não depende tanto da inten- 
sidade do sotlrimento alheio, como de elementos que lhe 
são inteiramente accessorios. Quer se trate de soíTrimento 
physico, quer de sotTrimento moral, ha uin dominante — é 
a diuturnidade combinada com a persistência. Reflecte-se 
aqui uma lei psychologica, que mostra a intensidade da 
sensação ou da commoção decrescendo com a habituação. 
Mas ao lado ha outro, que julgamos poder-se fixar nitida- 
mente e nos parece digno de attenção. 

Dores physicas e mesmo dores moraes de condiciona- 
mento normalmente determinado movem á piedade. Mas 
soíTrimentos ha, horrorosos acima de toda a expressão hu- 
mana, que não encontram senão a inat tenção e a indifferença 
e que, mesmo no meio o mais sympathico, apenas conduzem 
ao tédio, quando não á irrisão. Taes são os softrimentos da 
neurasthenia. 

N'um neurasthenico constitucional, n'aquelle em que a 
doença chega a ser uma alienação mental e em que ella ex- 
prime tão somente uma defeituosa construcçao cerebral, o 
que o espirito padece chega a ser pavoroso. A obsessão e a 
phobia, a idéa fixa e a confusão mental, mesmo quando se 
tomem em toda a sua terriflca significação, constituem pal- 
Jidas expressões das tempestades que se passam num cra- 
neo, como nunca Victor Hugo as pôde sonhar. É preciso 
que junto de taes doentes tenha havido o interesse scienti- 

25 



c 



386 CAMILLO 



fico e que se tenha tentado analysar o tumultuar do seu cé- 
rebro balido por todos os horrores, para que se consiga 
medir em toda a sua grandeza a intensidade de um soflri- 
mento que só á anciedade de um melancólico se deve equi- 
parar. Tenho-os \islo endoidecer, por que elos, por que 
encadeamentos, nrio sei, mas endoidecem apoz mezes e an- 
nos de atroz soíTrimento, e endoidecem na mais furiosa das 
loucuras. Também os tenho visto que terminam pelo suici- 
dio, puramente movidos pela atrocidade da «dòr psychica» 
e sem que um factor de occasião, moral ou outro, leve á 
final determinação. 

Ora, todo este medonho soflri mento 6 por assim dizer 
sem echo. A insensibilidíido da íamilia corre parelhas com 
a indiflerença do medico de clinica commum, que, tendo 
consíigrado a sua vida aonllivio dos padecimentos physicos, 
nunca tentou penetrar n'estes insondáveis arcanos, nem 
mesmo para lhes avaliar os etVeilos. Para elie, por melhor 
que tenha sido a libertação do seu pensamento, por mais 
que saiba, de sciencia certa, que a mentalidade não resulta 
senão do funccionamento cerebral, para elle ainda vigora 
um residuo que figurativamenle se diria atávico e o leva a 
adinittir um «medico da alma» que não é elle. Não o con- 
fessa, é ceito, mas por tal modo se isola no dominio das 
chamadas doenças physicas, por tal modo se separa de toda 
a penetração psychologica, que é como se o corpo humano 
se dividisse em duas partes — uma para o seu estudo e in- 
terferência, a outra para o estudo e interferência de outrem. 
E todavia a acção do medico em estados d'esses é tão alta- 
mente poderosa que faz lastima andem ao abandono tantos 
miseráveis, que uma psychotheiapia regrada, longe das 
brutalidades da suggestão theatral e do hypnotismo, poderia 
resuscitar á felicidade da vida. 

Qual a razão d'essa inditíerença da familia e do medico? 
Por que motivo aquella desdenhosamente encolhe os hom- 
bjos e este trata os seus doentes de « enfermos de imagina- 
ção »,e por isso niosmo mais lhes acirra o' soíTrimento? 

É que não ha uma base physica que se possa apalpar, 
nem ao menos uma base que se figure como representação 
do espirito. Se alguma vez se tivesse penetrado n^estes do- 
mínios, se estes factos do cérebro mórbido alguma vez ti- 
vessem interessado, se se tivesse chegado a conquistar a 
convicção de que neurasthenias d'essas vêem d'um cérebro 
vicioso como architeclura, ahi se teria um elemento de fir- 
me apoio e os médicos communs não se mancommunariam 
com os não médicos no desprezo de doentes que só «de 



CAMILLO 387 



imaginação » padecem, mas que na verdade são tanto mais 
interessantes quanto teem a plena consciência da extranhe- 
za do seu mal. 

Que é esta ausência de objectividade a origem do des- 
prezo, a razão mesma do franco dominio do egoismo dò 
entourage, tira-se d'este facto — que em muitos males phy- 
sicos acompanhando-se de confusos soíTrimentos mentaes, 
estes, que muitas vezes são incomparavelmente superiores 
aos outros, vão desdenhados por aquelles mesmos que mais 
lamentam o padecimento physico do doente. 

Ha pouco appareceu um livro — e foi elle que veio sus- 
citar estas considerações — em que, n'um esboço critico, se 
procura aquilatar a individualidade de Camillo e principal- 
mente se lhe ventila a nosologia ("Cowilío Ccslello Branco, 
esboço de crilica, por Paulo Osório ; Lisboa 1905). O A. pro- 
cura demonstrar que Camillo era um neurasthenico, e para 
isso vale-se, valha a verdade, do avolumamento de muito 
pormenor que não contém, longe d'isso, a significação que 
se lhe quer conceder. E' assim que se faz um montão de 
phobias onde nem uma talvez se possa apurar: porque a 
verdade é que a phobia não é só o simples horror á doença 
ou á morte, porque então seria neurasthenico, mais ou me- 
nos, todo o ser humano, do mesmo modo que não é phono- 
phobo quem não tem ouvido musical, como emfim se não 
acha possuído do neurasthenico horror á luz aquelle que 
d'ella foge, physicamente soílrendo dos órgãos visuaes. Isto 
mesmo teria de ser dito para toda a symptomatologia arma- 
da no livro com coisas verdadeiras, é facto, mas que só 
muito pela rama se podem tomar á conta de pliobias, obses- 
sões ou delirios (grandeza, perseguição). 

CamiPo não era um neurasthenico. 

Bastaria, para o pensar, esta phrase que elle escreveu : 
« Ha quatro noites que apenas durmo instantes». Qual é o 
neurasthenico que confessa que dormiu instantes? 

Psychicamente era outra coisa, que se me antolha, mas 
que não quero pronunciar, porque não possuo o conheci- 
mento bastante do homem nem da sua obra. E physica- 
mente, como doença que o levou ao desespero final, julgo 
não poderá haver duvida para nenhum medico que Camillo 
era um ataxico. A ataxia acorrentou-o á dôr nos últimos ân- 
uos da vida, e foi ella que o conduziu ao suicídio. E a ataxia 
não é, como pensa o sr. Paulo Osório, um mal neurasthe- 
nico ou que por qualquer modo se ligue a este padecimento. 
Citações, em que da letira se possam tirar quaesquer illações 
contrarias, não teem valor algum por mais eminentes quo 

* 



388 CAMILLO 



sejam os que as subscrevem. A verdade é que hoje, a bem 
dizer para todos os médicos, a ataxia locomotora, ào mesmo 
modo que a parai ysia geral, não é mais do que um derra- 
deiro golpe da syphilis. 

Apenas, em Camillo, as perturbações cerebraes da ata- 
xia, de resto Iho communs, adquiriram uma intensidade 
descommunal e accentuaram-se n'um sentido neurasthenoi- 
de, que só pôde valer como neurasthenico para quem não 
conheça a fundo o valor d'esta palavra. E digo-o bem de 
certeza, não só pelo que elle descreveu e serve ao A. para 
fundar as suas asserções, mas ainda pela observação de 
casos similares, como o d'aquelle nosso pobre collega que 
ainda ha pouco trepou o mesmo calvário de Camillo e como 
elle veio a acabar. 

Ora, a citação d'este livro, que medicamente tem um 
valor diminuto, perdõe-nos o A. dizer-lh'o, veio para mos- 
trar como nelle está o reflexo da demonstração que acima 
inquirimos. É o A., e como elle outros que cita, o padre 
Senna Freitas, por exemplo, a tratar a Camillo como um 
doente de imaginação. Vê-se um homem a soíTrer coisas 
temerosas e lançam-n'o á conta d'um nosomaniaco e d'um 
thanatophobico. Que nosophobia é esta quando a doença é 
muito real e muito grave! que phobico horror á morte é este 
num doente certamente e irremediavelmente condemnado 
á morte ! 

Bombarda. 

(D'^i Medicina Contemporânea, de 9 de julho de 1905). 



II 

Camillo Castello Branco e o sr. dr. Bombarda 

• 

Em um dos números recentes da Medicina Contemporâ- 
nea, num artigo intitulado Psychologia do soffrimento . , , nos 
que não so/frem, o sr. dr. Miguel Bombarda, professor da 
Escola Medica de Lisboa e director do Hospital de Rilha- 
folles, refere-se ao meu livro (^amillo Castello Branco ("esboço 
de criticaj em termos que não prescindem de uma resposta. 

Alguém, um dia, em polemica com esse illustre psy- 
chialra, lembrou a phrase de Barbey d'Aurevilly : «11 est 
des renommées qui durent par leur vague même; en les 
prccisant, oq les ruine » e nem eu sei que diatX)lica tentação 



CAMILLO 389 



me deu agora de pôr em epigraphe do meu artigo essas 
palavras. Mas não; fugindo á analyse da sua bizarra prosa, 
cheia de prelençÃo e de ridiculo, e não tentando imittergir 
no denso emaranhado da sua philosophia abstrusa, ea limi- 
tar-me-ei a demonstrar — e facilmente — que o artigo do 
sr. Bombarda, afirmando coisas vagas que nAo prova, attrí- 
buindo-me asserções que nunca fiz, desprezando os pontos 
capitães do meu trabalho para limitar as suas referencias a 
um ou outro pormenor de menos monta — longe de me con- 
vencer^ longe de me dar uma lição que eu avidamente es- 
cutaria, apenas veio apresentar em publico o inesperado 
documento d'uma comprehensão pouco lúcida e d'uma scien- 
cia pouco em dia. 

O sr. Miguel Bombarda começa assim o seu libello ac- 
cusatorio : 

«O A. procura demonstrar que Camillo era um neuras- 
thenico, e para isso vale-se, valha a verdade, do avoluma- 
mento de muito pormenor que não contém, longe d'isso, a 
significação que se lhe quer conceder. É assim que se faz 
um montão de phobias onde nem uma talvez se possa apu- 
rar : porque a verdade é que a phobia não é só o simples 
horror á doença ou á morte, porque então seria neurasthe- 
nico, mais ou menos, todo o ser humano, do mesmo modo 
que não é phonophobo quem não tem ouvido musical, como 
emfim se não acha possuído do neurasthenico horror á luz 
aquelle que d'ella foge, physicamente soíTrendo dos órgãos 
visuaes. Isto mesmo teria de ser dito para toda a sympto- 
matologia armada no livro com coisas verdadeiras, é facto, 
mas que só muito pela rama se podem tomar á conta de 
phobias, obsessões ou delirios (grandeza, perseguição).» 

E diz, mais adeanle, definindo a obra: 

«É o A., e como elle outros que cita, o padre Senna 
Freitas, por exemplo, a tratar a Camillo como um doente 
de imaginação. Vê-se um homem a soíTrer coisas temerosas 
e lançam-n'o á conta d'um nosomaniaco e d'um tanatopho- 
bico. Que nosophobia é esta quando a doença é muito real 
e muito grave! que phobico horror á morte é este num 
doente certamente e irremediavelmente condemnado á 
morte ! » 

D'onde, o sr. Bombarda entende que toda a symptoma- 
tologia do meu livro está armada em bases que sua ex.* 



390 CAMILLO 



poderia, se qiiizésse, deitar a terra, mas que não deita para 
nSo assustar ninguém com o barulho ; atirma que eu trato 
iMimiUo como um doente de imaginação, quando é certo 
que lhe diagnostiquei duas doenças, pelo menos, e ambas 
graves ; e dá a entender depois que a phobia nunca tem uma 
razão de ser que essencialmente a justifique. 

Se um alumno da Escola Medica apresentasse ao sr. 
Bombarda uma these com conclusões do feitio d'essas e 
d'oulras que se lêm no decorrer do seu artigo, sua ex.* 
tinha um dever profissional a cumprir : reprová-lo. 

No livro Leu Ohsessio^is e les Impuhions de que são au- 
ctores A. Pilres e E. Régis, o primeiro professor de Clinica 
medica e o segundo encarregado do curso dò Psychiatria na 
faculdade de medicina da Universidade de Bordeaux, vem 
mencionada uma phobia em que provavelmente sua ex.* já 
ouviu falar : a psychopalhophohia. Se o doente em que tal 
phobia se verifique fòr declaradamente um psychopata, o 
sr. Bombarda exclamará: «Que psychopatophobia é esta 
num doente em que a psychopathia é mais que demons- 
trada!» E comtudo, se o doente não fôr um psychopatha, 
como se ha-de explicar a existência da phobia que é, sem 
duvida, um phenomeno de natureza palhologica? 

O sr. Bombarda sabe decerto que a phobia (dando ao 
termo a accopção scientifica) não é o horror normal, vulgar, 
de toda a gente : é o horror mórbido, justificado ás vezes 
fundamentalmente, mas nunca no seu exagero nem na sua 
anciedade. O sr. Bombarda sabe decerto o parentesco que 
a phobia tem com a obsessão e sabe que Magnan define a 
obsessão: «um modo de actividade cerebral em que uma 
palavra, um sentimento, uma imagem, se impõe ao espirito, 
independentemente da vontade com uma angustia dolorosa 
que a torna irresistível » e sabe decerto ainda que o mesmo 
eminente professor do Asylo de SanfAnna marcou para as 
phobias estes dois caracteres essenciaes : a impossibilidade 
para o doente de vencer o sentimento de medo que experi- 
menta em presença d'um phenomeno, d'um objecto ou de 
uma substancia e o estado de consciência completa que 
acompanha esse sentimento. 

Assim, as observações do sr. Bombarda a respeito de 
phobias, que, feitas por um seu alumno, seriam simples- 
mente um disparate, dimanando de sua ex.* são um docu- 
mento comprovativo do velho latim de Horácio : « Quando- 
que bónus dormitai Homerus ». O sr. Bombarda por vezes 
não se limita a dormitar : dorme — e resona de tal modo 
que chega a incommodar os transeuntes. 



CAMILLO 391 



Mas, no seu artigo, que é mais um fructo d'esse resonar 
impertinente, o illustre psychiatra lusitano atira uma afir- 
ina(jão,solemnemente : «Camillo não eraumneuraslhenico». 
E para deinonstrar essa asserção, sua ex.* oppõe a toda a 
prova laboriosa e cuidadosamente feila do meu livro esta 
phantastica razão: 

« Bastaria para o pensar, esla phrase que elle escreveu : 
« Ha quatro noites que apenas durmo instantes ». Qual é o 
neurasttienico que confessa que dormiu instantes?» 

> Se o sr. Bombarda não escreveu isso zombando, dever- 
se-<á dizer-lhe que foi d'uma infi3licidade lamentável. Em 
que se funda o illustre psychiatra para dizer que um neuras- 
thenico nunca confessa que dormiu instantes? Se sua ex.*, 
para ser original, quizesse provar o contrario, teria talvez 
mais argumentos. O nenrasthenico, em consequência mes- 
mo da abulia que geralmente o caracteriza, foge das afir- 
mações cathegoricas, absolutas. É raro ouvi-lo dizer: « vou 
amanha a tal parte ». prefere formas menos positivas: « ten- 
•ciono ir», «vou se Deus quizer». Uma afirmativa formula- 
da com a mais absoluta certeza, por vezes, perlurba-o como 
uma obsessão e não é raro inutilizar uma carta, por exem- 
plo, para pòr uma nota de duvida em qualquer coisa que 
-cathegoricamente haja dito antes. Um nenrasthenico dirá 
mais facilmente « dormi aoenas instantes » do que « não 
dormi um só instante». Mas pode dizer d'uma forma ou 
<i'outra, que isso nada influe para um diagnostico em ter- 
mos. Afirmar o contrario, é uma subtileza do sr. Bombarda 
-que só conseguirá èpater alguns incautos admiradores das 
-apregoadas prendas de sua ex.*. 



O sr. Bombarda diz — • e muito bem — que « não poderá 
haver duvida para nenhum medico que Camillo era um ata- 
xico». Eu não sou medico, mas também não tenho duvida. 
Mas sua ex.* escreve ainda : 

«... a alaxia não é, como pensa o sr. Paulo Osório, um 
mal nenrasthenico ou que por qualquer modo se ligue a 
-este padecimento. » 

E, pouco depois: 



392 CAMILLO 



« A verdade é que hoje, a bem dizer para lodos os mé- 
dicos, a ataxia locomotora, do mesnio modo que a paralysia 
geral, nno é mais que um derradeiro golpe da sypiíilis. » 

Em primeiro logar, eu nunca afirmei que a ataxia, ou^ 
mais propriamente, o tabes, fosse um mal neuraslhenico. 
Admiti i a possibilidade da associarão das duas doenças e 
adnjillo a neurasthenia como origem da predisposição que 
é o primeiro elemento etiológico lanto da paralysia geral 
como do tíites. Posso fazer ludo isso em boa companhia. 
Ch. Fór(^, iliustre alienisfa francês, medico de Bicêtie, es- 
creveu qre a neurasthenia pôde ser considerada como um 
estado mórbido, constituindo o terreno mais próprio para o 
desenvolvimento, não só das outras nevroses e vesânias, 
como das atíecções orgânicas cerebro-espinaes, e Clavelier 
e A. Rémorid, este ultimo professor de clinica das doenças 
nervosas na Faculdade de Toulouse, escreveram, nas addi- 
ções á traducção do Atlas áe Jacob: « A hysleiia é mais que 
um estado, é uma doença, uma doença por vezes mal dis- 
lincta, dissimulada, mas sempre uma doença. A neurasthe- 
nia, ao contrario, é um fundo commum, um terreno, uma 
predisposição mórbida no que ella tem de mais geral. » 

Quanto ao papel etiológico da syphilis no [a\\es e na 
paralysia geral, eu não me dispenso de dizer ao sr. Bombarda 
o que actualmente se pensa a tal respeito e que sua ex.% 
pelo visto, ignora ou finge ignorar. 

J. Vires, professor na faculdade de medicina de Mont- 
pellier, afirma a pioposito do tates, no seu livro sobre 
doenças nervosas (1902) : « A syphillis n?o é a causa exclu- 
siva: é anti-scientifico pretender que sem syphilis não ha 
tates e inversamente». Lancereaux diz que a influenciada 
syphilis na etiologia tabetica é i.uUa. Pieriet, na sua memo- 
ria sobre a pathogenia do tabes, apresentada em 4897 ao 
congresso de Moscou, afirma que os tabeticos sPo urs pre- 
dispostos para a syphilis e não inversamente, como pensa 
Fournier. Rémond, no seu livro AJaladies nientales, publica- 
do em 1904, dá o primeiro loj^ar á syphilis entre as causas 
da paralysia geral, não a admittindo porém num papel ex- 
clusivo. Grassefattribue ao tabes uma etiologia muito com- 
plexa, contrariando assim, é claro, a opinião de Fournier. 
Charcot, Landouzy, Ballet e Plinchon sustentam que a he- 
reditaiiedride nervosa é a causa primordial da ataxia loco- 
motora e que a syphilis, excessos de todos os géneros, trau- 
matismo, etc, apenas representam o papel de causas de- 
terminantes. Féré faz notar quanto é fallivel a estatística 



CAMILLO 393^ 



em que os partidários da etiologia syphilitica assentam as 
suas asserções, por isso que, emquanto uns auclores têm 
concluído, dos dados estatísticos, que a proporção de para- 
lyticos geraes syphiliticos é de 0,7 ou 1,7, outros, em face 
d'esses mesmos dados, sobem a percentagem a 93 por 100. 
Em artigos publicados no Journal of mental pathologij, em 
1903: Sobre a paralysia geral progressiva, segundo o$ esludos^ 
feitos no hospital Zemskoi de Kharholf durante um período de 
doze annos, o dr. Greidenberg regista casos de paralysia 
geral em que a syphilis não entra como factor etiológico. 
Num Ensaio das investigações medico-eslatisticas cm 93fJ casos 
de parahjsia geral publicado pelo dr. G.-A. DiedoíT em 
agosto e novembro de 1904 na Obozrienie psijhhiairii iievro- 
logii i experiyyientahwi psykhologii, esse medico afirma que 
a paralysia geral é uma consequência da « surmenage » ce- 
rebral, na lucla peia vida; que a syphilis, o alcoolismo, a 
hereditariedade, nada mais são que factores da predisposi- 
ção ; que cada um d'esses factores não dá origem a doença 
senão combinado com outros ou graças á intervenção de 
phenomenos provenientes quer d'um estado de fadiga, quer 
d'outras causas occasionaes. Maurice Faure, no 13.® con- 
gresso dos médicos alienistas e neurologistas de França e 
dos paizes de lingua francesa, realisado em Bruxellas, em 
agosto de 1903, disse que a syphilis não exerce na génese e 
evolução do tabes uma influencia essencial e exclusiva. A 
propósito da communicação de Fournier sobre a Parahjsia- 
geral da syphiliá, apresentada á Academia de medicina de 
Paris nas sessões de 13 e 28 de fevereiro d'este anno, tra- 
vou-se, nas sessões de 7, 14 e 28 de março, uma grande 
discussão em que tomaram parte, além de Fournier, JoíTroy, 
Haymond, Pinard, Halopeau, Lancereaux, Gomil, etc. Nessa 
discussão, JoíTroy chegou a afirmar que a paralysia geral e 
a syphilis são duas attecções distinctas, tendo cada uma a 
sua individualidade, a sua essência, e não podendo qualquer 
d'ellas originar a outra, em virtude da sua difterente natu- 
reza. 

Ora é depois de tudo isto que um sr. Bombarda, psy- 
chiatra lisboeta, nos declara no seu jornal que, « a bem di- 
zer para todos os medicas, a ataxia locomotora (ou tabes), do 
mesmo modo que a paralysia geral, não é mais do que unv 
derradeiro golpe da syphilis». 

Mas, depois de nos dizer que Camillo não era um neu- 
rasthenico, o curioso alienista assim se exprime : 

<r Psychicamente era outra coisa, que se me antolha^ 



394 OAMILLO 



iiins (jue nno quero pronunciar, porque nSo possuo o conhe- 
ciiueuto hastante do homem nem da sua obra. » 

Não il(Mxando de notar que esle modo de considerar 
lun doenttí psychica e physicamenle, em separado, contra- 
diz os preceitos scientificos de que o próprio sr. Bombarda 
se faz éco cm outros pontos do seu artigo, — eu sincera- 
mente lamento que sua ex.* se não resolva a dizer o que, se- 
gundo o seu modo de vêr, Camillo era. Ninguém mais do 
que eu estimaria conhecer a opinião de tão sabia persona- 
gem sobre um caso que muito me interessa, como de resto, 
segundo creio, deve interessar a toda a gente. Se o sr. 
Bombarda me demonstrar que estou em erro, curvar-me-ei 
vencido e jubiloso ainda por ter feito surgir a opinião de 
tamanha summidade medica sobre um dos maiores escri- 
ptores do meu paiz. 

Mas. diga o sr. Bombarda o que é essa tal coisa. Nâo se 
faça rogaiio; não leve para o tumulo comsigo esse segredo. 
Meio Portugal está de olhos postos em sua ex.*. E' um dever 
de homem de sciencia tornar publica tal revelação. E esse 
dever, não será sua ex.* tão mau què deixe de cumpri-lo. 

Paulo Osório. 

(DY) Priyneiro de Janeiro, do Porto, de 2 e 3 de agosto 
de 1905). 



m 

OscillaçOes 

Em 9 de julho appareceu na M. C. um artigo em que 
tio de leve se apreciava um livro do sr. Paulo Osório, inti- 
tulado Camillo Castello Braywo, Esboço de critica. Agora, em 
2 e 3 do agosto, apparecem no Primeiro de Janeiro dois ar- 
tigos em que o mesmo A. pensa rebater o que aqui foi es- 
<3ripto. O sr. Paulo Osório evidentemente deseja polemica. 
Ora nós temos simplesmente a dizer a s. ex.* que não temos 
tempo para lhe ensinar, a elle que não é medico, nem o 
que sejam phobias, nem qual o estado da sciencia na ques- 
tão das relações da syphilis com a ataxia locomotora. Isto 
mesmo, ha alguns mezes, antes da publicação do livro, tive- 
mos de lhe dizer, quando s. ex.*, depois de nos ter cônsul- 



CAMILLO 395 



lado sobre a sua idêa da alaxia nascendo d'um fundo neu- 
rasthenico, quiz abrir discussão por cartas, quando lhe 
affirmámos que a suá idéa nSo estava na sciencia de hoje. 
Se o sr. Paulo Osório tiver meios de nos arranjar algumas 
horas mais para o nosso dia, muito lhe agradeceremos; ti- 
rar-DGS minutos que sejam do nosso tempo para figurar em 
discussões com médicos, é que está de todo fora do nosso 
programma. 

Por isso, apenas diremos que s. ex.* nem sempre pen- 
sou assim quando teve a tentação de pôr eomo epigraphe 
dos seus artigos alguma coisa que já nos tinha sido dirigida 
em polemica, por que de todo não demos, e é a phrase de 
Barbey d'Aurovilly : « II est des renommées qui durent par 
leur vague même; en les précisant on les ruine». Com 
eíTeilo, em 17 de junho ultimo, ainda o sr. Paulo Osório 
hos fazia o favor de escrever em dedicatória do seu pu- 
nho : « Ao Ex.^^ Sr. Miguel Bombarda com a mais alta admi- 
ração pelo seu hrilhaníissimo espirito ...» 

M. B. 
{D' A Medicina contemporânea, de 13 de agosto de 1905.) 

TV 

A fuga d'um psychiatra 

« II est des renomées qni dureut par 
leur vHgue môme ; ea les précisant, on 
les mine. » 

(Palavras de Barbey d'Aurevilly, ci' 
tadas pelo sr. Mendes Martins ein polemi- 
ca com o sr. Miguel Bombarda) ^ 

Na secçSo de Variedades do ultimo numero da Medicina 
Contemporânea, * o sr. dr. Miguel Bombarda fez inserir, sob 
o titulo de «Oscillações», estas palavras: 

(Segue a transcripção do artigo precedente) 



1 N.o de 13 de agosto, ultimo publicado na data em que este artigo 

Íòi escripto, data que dista 8 dias da de sna publicação, retardada por 
alta de espaço, conforme foi dito em local do Primeiro de Janeiro do 
dia 20. 



396 CAMILLO 



Precisemos os factos. 

Eu apenas conhecia o sr. Bombarda de nome e como 
auclor d'um livro de vulgarização scientifica intitulado A 
consciência e o livre arhilrio, quando sua ex.* teve a amabili- 
dade de desenvolver e applaudir idéas minhas, expostas 
num dos números das AgiiiUuidas, em três longos artigos- 
insertos na sua Medicina. Agradeci em carta a que sua ex.* 
respondeu declarando que sempre lhe era a muito agradável 
acompanhar e applaudir aquelles que trabalham em prol da 
nossa terra, tSo. desamparada de todo o progresso » e que 
eu fazia « um grande serviço tocando nestas questões capi- 
tães para a nossa vida como sociedade civilizada». Tudo 
isso disse sua ex.*, na sua prosa solemne de conselheiro 
Accacio, terminando por se confessar « com a maior consi- 
deração » meu admirador. 

Tempos depois, tendo eu chegado ás conclusões, que 
expuz no meu livro, sobre a nosographia de Camillo, in- 
quiri do que d'ellas pensava a magna sciencia do sr. Bom- 
barda e, como quer que s. ex.* me respondesse expondo 
ideias com as quaes eu não podia concordar de forma 
alguma, respeitosamente lhe expuz, numa carta amabilis- 
sima, as minhas objecções. Sua ex.*, que, no fim da sua pri- 
meira missiva, se declarara « sempre ao yneu dispor e muito 
feliz por me ver encarar tão interessante assumpto » e se 
confessava ainda meu « admirador obrigadissimo », num 
simples cartão de visita me falou depois, doesta maneira: 

« Só hoje posso responder á sua carta e tenho muita 
pena de não o poder fazer como desejaria. Foi um esforça 
ter 10 minutos para os esclarecimentos que me pediu ; agora 
seria impossível enviar-lhe novos porque seriam precisos 
largos desenvolvimentos. Apenas ihe digo que se quizer 
pode publicar as suas affirmações». 

No fim d'esse bilhete, o snr. Bombarda dizia-se apenas 
« muito attento e venerador ». Desde que discordei das suas 
opiniões, sua ex.* deixou de me admirar. O que eu perdi ! 



O sr. Miguel Bombarda, todo impando a sua magiste- 
ratica magestade, vem agora de novo declarar que não tem 
tempo, — expediente que sua ex.* usa, pelo visto, todas as 



CAMILLO 397 



vezes que se engasga. E diz mais que não sou medico e 
que á custa de discussões com médicos como sua ex.* pre- 
tendo figurar. E' uma esperteza saloia, que n^o collie. 

Em primeiro logar, se q sr. director de nilliafolles 
rebatesse triumphanlemente o que afirmei, a figura que 
eu fazia era bem triste ; em segundo logar, notarei que, nos 
meus artigos, me abstive de expor a descoberto ideias 
minhas. 

No seu primeiro artigo, o sr. Bombarda, depois de 
varias calinadas de caloiro tobie phobias e neuratsthenia, 
declarou que « hoje, a bem dizer para todos os médicos, a 
ataxia locomotora, do mesmo modo que a paralysia geral, 
não c mais que um derradeiro golpe da syphilis». Não lhe 
disse se sim ou não realmente a ataxia, do mesmo modo 
que a paralysia geral, é o tal ultimo golpe. Limitei-me a 
provar-lhe irrefutavelmente que, ao contrario da afirmação 
de sua ex.*, nem todos os médicos pensam de tal modo. 

Se é certo que hoje se altribue á syphilis um papel 
imporlante na etiologia do tabes e da paralysia geral, certo 
é também qjie, no modo de vêr da maior parte dos psy- 
chiatras, esse papel não é de forma alguma essencial^e 
exclusivo .lá citei muito em comprovação do que afirmo, 
e posso citar ainda mais. Depois de publicado o meu artigo, 
tive occasião de lèr na integra os discursos de Fouinier, 
pronunciados na Academia de Medicina de Paris em sessões 
de fevereiro e março do anno corrente, e pude vêr que, 
entre os muitos auctores que o oiador citou em abono das 
suas opiniões, só um lhe deu a afirmação de qre a paralysia 
geral é « uma aíTecção d'origem exclusivamente syphilitica ». 
E sabem quem foi esse auctor? Um português que falou, 
ha dois annos, no congresso de medicina de Madrid :— o 
snr. dr. Bombarda. 

O que Fournier não disse — porque llic não convinha — 
foi que, nesse mesmo congresso de Madrid, um illustre psy- 
chiatra, nosso compatriota também, o sr. dr. Magalhães 
Lemos — se levantou rebatendo as afirmações do sábio lis- 
boeta e declarando, apoiado em observações suas e do seu 
eminente coUega sr. dr. Júlio de Mattos, que não podia 
admittir a opinião de que todos os paralyticos geraes fossem 
syphiliticos. De resto, já o illustre director do Hospital do 
Conde de Ferreira, no seu livro A Loucura, fala de paraly- 
sias geraes sem precedentes syphiliticos e menciona inci- 
dentemente um caso publicado por Tuczek e em que laes 
precedentes também se n?o observam. 

A questão, porém, não merece mais detença, já que o 



398 CAMILLO 



sr. Bombarda não hesita em dar a publico dislates, mas 
não tem lempo para responder a quem lh'os contraria. 



* * 

Diz o sr. Jlombarda que eu registei numa dedicatória 
as qualidades fulgentes do seu espirito. Não o contesto. O 
espirito de sua ex.* indubitavelmente brilha. Mas brilha como 
os diamantes do « Bera» da esquina da rua Nova do Carmo 
e do Chiado : á custa das lamparinas que em redor os alu- 
miam. Oh diamantes da loja são de vidro e espelho, o espi- 
rito de sua ex.* 6 de pechisbeque. 

Tinha o sr. Bombarda agora um óptimo ensejo de fazer 
obra útil e de demonstrar que tudo isto não passa d 'uma 
aleivosia que só o meu azedume e a minha vaidade ferida 
justificam. Sua ex.* disse que, a seu ver, Camillo, psychica- 
mente, era unia coisa diversa d'aquillo que eu pensava. 
Convidei-o a dizer qual é a coisa qual é ella que o grande e 
infortunado Camillo foi em sna alma. Invoquei a bondade do 
sr. Bombarda, os seus indeclináveis deveres de scientista ; 
e sua ex.*, em vez de responder, pòs-se a fugir. 

Sr. dr. Miguel : venha cá ; diga o que pensa ; diga sem 
medo, que ninguém lhe faz mal, se fôr tolice ! Pois não vê 
V. ex.*, que, se eu sei quão profunda e copiosa é a sua 
sciencia, outro pode vir menos instruido e que, em frente 
ao silencio de v. ex.*, desprezando os seus titules, os seus 
cargos e as suas honrarias, se lembre de lhe chamar parla- 
patão? 

Paulo Osório. 
(D'0 Primeiro de Janeiro, de 23 de agosto de 1905.) 



NOTA G 



lÂHta doH ohm» originaes de Camillo, pela ordem 
ihronologica da xmi publicação, uegundo os 
elementos fornecidos pelo snr Henrique Mar- 
ques, na sua excellente « Bibliographia Cainil- 
liaiia»: 













if 


a~^ 


1 


tuia 


lilt-Torio 


ObBervB^BM 




=> " 










~1 


IriJÕ 1 03 




PgemBto aa- 
[j-rico 


ptodQoçAo impr^afl», Cn- 












milio, ta» trofu 11'uni pro- 












jeotodo dueUo outra dou 
























qnella épuDa. 


a 


1U45 


J 


nl»n Fi. 


PoBiuBlo ea 


,...I.«ra du uma b*- 






Ullll \ 


o íjODllD 


tyrlco 


BantHdBífÍ!!erTT.n!d8tc.d» 






•lolnf 






a gaaW — BBcrsvB Ch- 

AnoiUcfr da vida rola- 
rlndc~se a eisa mis u.lyra 

peemo, em que descrevia 
a vida que vívíilki no iii- 
rerao todaii aS aiasses da 






Agi 
Ceultt 


sliotioJp 




Esta primeira rompo- 
si«fto dromatlcH de Cu- 

Emilia. Paru i»e eUa J 



Msria! yiio 






pieilHile e Urniira íiliasa: 

«uii Ifía mãe. Fnlnódo do 
i^A(0 Tbt>TU&2 Bibeironár- 

falEnmeDte jittrihaida à 
íilha (Ia aBiAasinncU. Em 
lodo <J <uiao Cmíllo «■ 
plo^n^«ntÍQy.ilnlmente 

cobre o preijo do trabslto 
e. como ao Br. Alberto 
Pi mental, elle próprio 
oonfea.oo, . fni grtoSe > 



'J 


s 


Tllnio 


■í=. 


ObwrraçSea 










o..a «omeçoo « d» el.r 










a«a]gÍbeira8°atolha^ de 










pntaoo... 


B 


ISIS 


A Harraça 


Poemeto sK- 
tyrioo 


CamUlo mette a rídi- 
cQlo um <i!iiifli"to entro 
(, piiJíii Jofto Bernardo, 






toT^^Ò^ " 


Drama 


A primeira ediçAo 








d'est« drnpia era offera- 










olda -A ei."ar. D. Hn- 










ria íolicidade de Coulo 










Browne. • Conta Vieira 










de Caatro qae a Ceiííit™ 










drnmaliea. que ao t«mpo 






























T^ÇB do Onmillo .Nfto 










iiodiT* represe nlar-ao o 










drama lUarq<.ti de Torrn 










Novat emqnanto o seu 










ouctor nio emendar com 










letraamain^palMapala- 






























queno, . 


' 


18« 


oaUohe 


Opnsculo po 




« 


■ SI» 


O ílero e 


'"L.. 




• 


18S1 


In.pi.aç5*. 


Poe.ia» IjTÍ 


Vtot. d'e»Ba« poeeia. 
é a Uarpa do ,ttptic«. 


io 






Itomance 




" 


ma 


Salve, Kei \ 


Poesia d* 
«andaçio 


mento de D. Uignel de 


12 


18» 




OpOBCUlo 


TCsU. truliiillio. pnbli- 
i-nd.} sem nome do au- 

o conde do BBlbaò e sua 
mnlhar. Conta o ar. Ita- 
malho Ortigio, no Ettaãa 
critieo que precede a edi- 



402 



CAMILLO 




Oenero 
lilterarlo 



Observações 



18 



U 

15 



1852 



1854 



16 


» 


17 


» 


18 


> 


19 


» 


20 


1855 



nosanna ! 



Um livro 



Dnas épocas 
na vida 



Poesias reli- 
g^iosas 



Poesias lyri- 



cas 



Poesias lyri- 



cas 



Folhas cabi- 
das, apanbadas 
na lama 

Mysterios de 
Lisboa (8 vol ) 

 Signora 
Laara Geordano 



Á Senhora 
Laara Geordano 

A filha do 
Aroediiago 



Poesias saty- 
ricas 



Homance 



Poesia 
saudMção 



de 



Poesia de 
sandaçfto 

Bomance 



ção monumental do Amor 
de Perdição: c Espancado 
na raa de Santo António, 
em reivindicaç&o de um 
arti^ de jornal contra a 
família de Constantini, 
então em demanda com 
a família Bolhflo, Camil* 
lo, já por terra, com uma 
larga ferida na cabeça, 
antes de ser levado para 
casa do alfaiate Augusto 
de Moraes, desfechou ao 

Seito do agressor um tiro, 
e que elle escapou pela 
circumstanoia de traser 
em couraça um espesso 
collete de pelles. > 

Este opúsculo foi a 
origem d' uma polemica 
entre o auotor e o profes* 
sor portuense Amorim 
Yianna. 



Este volume contem 
as poesias do Hotaima e 
outras divididas em doas 
partes: Preceito* do cora- 
ção e Pteeeitoi da eonêcien- 
da, que um editor mais 
tarde publicou em vola- 
mes separados. 



5 quadras distribui- 
das no theatro de S. Jolo^ 
na noite do beneficio da 
cantora. 

Um soneto distribui- 
do na mesma oocasiAo. 



CAMILLO 



403 



s 


Data da 
ediçfto 


• 

Titulo 


Género 
litterario 


Observações 


21 


18Õ5 


Scenas con- 
temporâneas 


Miscellanea 


Romances, poesias, 
um drama, narrativas his- 
tóricas, eto. Camillo publi- 
cou vários livros doeste gé- 
nero, que flgararao nesta 
lista sob egual designa- 
ção genérica. No romance 
A caveira apparece a sce- 
na de Maria do Adro. 


22 


» 


Livro negro 
do padre Diniz 


Romance 


Continnaçfto dos Myi- 
terioi de LUboa, 


2S 


1856 


A neta do 
Arcediago 


» 


Continnaçfto da Filha 
do Arcediago. 


24 


» 


Onde está a 
feUcidade? 


> 




25 


» 


Um homem 
de brios 


> 


Continuação do pre- 
cedente. 


23 


> 


Justiça 


Drama 




27 


1857 


Duns horas 
d» leitura 


Miscellanea 




28 


» 


Lagrim as 
abençoadas 


Bomance 




29 


> 


Espinhos e 
flores 


Drama 




80 


» 


Purgatório e 
paraizo 


> 




31 


» 


Scenas da Foz 


Komance 




32 


1858 


Carlota An- 
gela 


» 




33 


» 


Vingança 


» 




34 


> 


O que fazem 
mulheres 


» 


No flm do romance 
vêm a primeira poesia 
offerecida por Camillo a 
Anna Plácido, designada 
ahi por Ludovina. 


S5 


1861 


Abençoadas 
Lagrimas ! 


Drama 




36 


» 


O Morgado de 
Fafe em Lisboa 


Comedia 





404 



CAMILLO 




Género 
litterario 



Observações 



87 



S8 



1861 



b9 



40 
41 



1862 



42 



Doze Casa- 
meditos Felizes 

O romance 
d'nm homem 
rico 



Poesia ou di- 
nheiro ? 



As três ir- 
mãs 

O ultimo 
acto 



Amor de per 
diç&o 



Bomanoes 
Eomance 



Drama 



Romance 
Drama 



Eomance 



Um dos personagens 
d'est« romance de Camil- 
lo à uma evooaç&o do pa- 
dre António d' Azevedo, 
que foi, na Samardan, o 
primeiro educador do ro- 
mancista. 

Este drama já tinha 
sido incluído em 55 no 
volume das Seeruu eon- 
i&mp&raneas, Menciono-o 
aqui, porque elle desap- 
pareceu das edições sub- 
bequentes d' esse Uvro, 
correndo depois impresso 
em separado. Nesse dra- 
ma reproduE-se, ao que 
se diz, a historia do ca- 
samento de Anna Pláci- 
do, que lá appareoe sob o 
nome de Henriqueta, 



Diz-se que este dra- 
ma reproduz uma das 
scenns da -agitada vida 
do romancista. £' natu- 
ral; tanto mais que lá 
appareoe Anna Plácido, 
já sem o disfarce de qual- 
quer pseudonymo, ma^ 
apenas designada pelos 
seus nomes de baptismo: 
Anna Augusta. 

£' ocioso recordar 
que este vuli^rarizadissimo 
romance é todo baseado 
em episódios era que íi- 
ffuram pessoas da familia 
de Camillo. Foi escripto 
na cadeia. Este livro re- 
presenta o maior sucops- 
so de livraria que até 
hoje se tem registado em 
Portugal. Vae na líi.' 
ediçflo o que> em cal- 
culo aproximadoí nos au- 



4 


— 
11 


Tili.lo 


li^-r^íTo 


Olisi.rvi.iues 










otoriza a aiipiHir qae 
d'Bll8 JH H. hajam ooDan- 

plarSB. £ iasD entre nãB 
è extraordinário. 


13 


ite> 


MemoriHe do 










Tr«.'«3pL- 


Bomance 


Nos Amôru de Ca- 
-míUo, o ar. AUioMo l'i- 
mentel pcew.ul,> qnn no 
primeiro cnpiti^lo d'esle 

postos, a melhor biogra- 
phia da mfte do roman- 


Í5 




Coraçlin. on- 
beçB, e enlomsgo 




ra dt CamUlo. o >r. Al- 
berto Pimentel: .No 
livro Curufrt.., caèífO « 

ShIvm a edade, n c6r doa 
oabnUns. o nílo saber 16r. 
B algnma phantasia no 
vestir, a Thnmairia do li- 
vin A 11 .ronqiuuH da reo- 
lid-de. .. 


46i . 


EsrrelUi tu- 






H- 


pi™» 




Camin- "«""«nTo" Im 
V-.JSO Vflnas 


*«' . 


des K»jterlBdo 






49 




b«m e o 
mnl 







— 


M 


TKnlo 


luterano 


OLMrfíÇiOe» 


■» 


■» 


,„?,:i:*"" 


«•--• 




Gl 




Onil™™" do 
AmuAl 






na 




■nego 






GS 




dia k!liiiiin> 




Naate Urro encon- 
tram -m mula Qm» vM 

PUoido. 


M 




lifllhíSo ' ™ 






GB 


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vsçno 






H 




Duutdr Nenro 




«r.™. Marques" ««!•« 
flsse fiiclo. 


m 




No Bom .le 

BHa ao Monta 


■"""-- 


Oa trecboi antobio- 

livro. An^ fllicido p- 
wt a cbamar-se nallt 


Bg 




Viole horiia 
de l.teirn 






U 


IMÕ 




EscriptoB ra- 

]ig[0>OB 


pSBir. esta volnmB haviam 
sido piiUlicadoB em jol^ 


eo 




EsboQos dii 


Critic» 




ei 






BomanFe 


Kesta livro, appanoa 
do novo H t.»«,.íva do 

Adro. 



CAMILLO 



407 



a 



Q * 



Titulo 



Género 
littorario 



Observações 



&2 



63 



64 



1865 



Horas de pfus 



65 


» 


66 


» 


C7 


» 


68 


1866 


69 


» 


70 


» 


71 


» 


72 


» 


73 


» 



Luota de gi- 
gnntes 

O Morgado 
de Fafe amo- 
roso 

A sereia 

Preceitos do 
coração 



Preceito da 
consciência 



A engeitada 

O Judeu (2 
vols.) 



O Olho de vi- 
dro 

A queda 
d'um anjo 



O santo da 
montanha 

Vaidades ir- 
ritadas e irri- 
tantes 



£soripto8 re- 
ligiosos 



Bomance 



Comedia 



Bomanoe 



Poesias lari- 



cas 



Poesias lyri 



cas 



Bomance 



Critica 



A maior parte dos ar- 
tigos inolaidos neste li- 
vro tinham sido também 
publicados em jomaes no 
mesmo período dos a Di- 
vindade de Jetui e tradir 
ção apostólica. 



É o 1.« võl. da 2.» ed. 
das Duat epoeai da vida, 
oonstitaindo também vol. 
autónomo. 



É o 2.0 vol., nas mes- 
mas condições do prece- 
dente. 



O protagonista d*este 
romance hist.orioo é o es- 
criptor português do se- 
oulo xviu, António José 
da Silva, O Judeu^ morto 
nas fogueiras do Santo 
Officio. 



O protagonista d'este 
romance satyrico é, ao 
que parece, um conhe- 
cido personagem que oc* 
cupa logar aistincto no 
episcopado português. 



Foi a contribuição 
de Camillo para a celebre 
Qaestfto Coimbrft. 



4(J8 



CAUILLO 






C8 

•c 



«^ V- ^ 

SI 

Q 






Titulo 



Género 
litterario 



Observações 



74 
7õ 

70 
77 
78 
79 



1867 I A braxa do 
! Monte Córdova 



A doida do 
Caatlal 

Cavar em 

raitias 



I 



1868 



80 

81 

82 
83 



» 



84 



86 



86 



1869 



1870 



j Coadas leves 
e pesadas 
i 

O Senhor do 
paço de Niufies 

Mosaicos e 
sylva de curio- 
sidades histori- 
ca», litterarias 
e biograpbioas 



Mysterios de 
Faíti 

O retrato de 
Ricardina 

O sangue 

As virtudes 
Hutigas ou a 
: freira que fazia 
chagas e o fra- 
de que fazia 
reis. — Um poe- 
ta portugu#!s... 
rico ! 

Os brilhan- 
teâ dobrazileiro 



D. 
Alves Martins, 
Bispo de Vi/.eu 



Romance 



Miscellanea 



Romance - 



Miscellanea 



A publicaç&o d'est« 
livro den orisem a ama 
Questfto judicial e, annos 
depois, a uma escandalosa 
polemica entre o auctor 
e o editor Anselmo de 
Moraes. Vôr KoUtê de In- 
iomnia. 



Romance 



Miscellanea 



Romance 



António, Esboço 
graphico 



bio- 



do 



O condemna- 



Drama 



Este drama foi escri* 
pto a propósito da trage- 
dia em qae foi prota^- 
tiista-José Cardoso Vieira 
de Castro, « quem elle é 
dedicado. tTantamente com 



■4 




Género 


Obnervaçíe. 










este ilrainn. igan tem trSa 




















p" hT cou-rum oTwo em 










nm acto, (S.B.O c. <Ht)o< •• 








■ 


Tinffom que, mais tarde, 










foi pnaCo È. venda em as- 










pargo. 


87 


1870 


A mallier 
'faUl 


Bomanoe 


Diu o ar. H. Marques 
que. .aoquejmreceeste 

phHntaaiii mBH aimples- 

hisWrift verdadeira.. 


88 




Theatro oo- 


CoraediM 


iltirgadinha ^ Vai d'Amo- 

Víell ib/^n''dep^i8'"vln'í 
dída. em .aparado. 


S8 


1871 


Vollareis, ò 
CbriBW? 


Narrativa 


™,ovie!«"drcKtrí:: *"' 


«J 


1872 


capellisla 


Eomsnoa 


Escreve o ar. H. Mar- 
que» ; . Está inl^<•mplet« 




























mula tAta de Camilla « 










historia delis areio ÍM* 








seguinte KsUva Cnirlllo 








ee^reveudo-o quando foi 








viíitadn pelo sr. D. V»- 










úio 1, ao le.iipo Impera- 










dor do Uruil ; esto «u- 










^o'^8a''dr°uTò%Í^ií^ 




























































Camillo B«Qedeu. parti- 




















fnntilizar aa follias im- 


















presnaa, e cde carcegoa 










com ellaa um» carroan 
que n.ar.dou para ohbh liu 










auotor; Ca mi Ho - oonta- 










se — ofto sabendo o que 










faier de taiiti pupolada. 










den-a ao seu barbeiro. 



Í4 


Titulo 


lltlanTio 












qUB l«t"U logo do . Ç.^ 

■ftf a patacos, vanilenao-u 




























de Ssnlr. António. A qns 










eittivn âH^tÍHNdo um li- 










vro dB Camillo ! Emhro- 




















Undi, aa folhas d» InfaoU 




























qu6 algnmas lonini parar 










t. mftoa de B«Dta eMla- 










iBi-ids. quB tentou píf 
oobro á prof,in»5tto. Foi 


















porím tatde, porqna «pi- 




















piares oonpletoB (ai 1^ 










psBinua publicadas) u 










consBEain aponr. Pbbí- 
doa meafia. Csmillo, ura- 










Fe''B"io'qno tVbáEOmmBtó- 










d", inutilizando s si.a 




















nletou.a um volnine, KU- 










daodo-lhB os n«>ea d. 










alguns psraoniàgBns, alte- 




















rna, arredondando CFTtoa 








periodoa. e Jou-DO-la iu- 




















a..!)«JMÍJI«.,ouia pro- 










tagonista, ne ..ao i pBF- 










teruimente uma /ly-anla 










caprttiila. é, como em al- 






























Palma,' em Lisboa. Eis, 




















rloi aiDlso* d» (JnmiUo, a 
onrioaa hiaturia do maii 




















ml^ciiú^. " ^ """" "" 


Sã 




oarraaoo 

<ÍB Victor Hago 
JoBé Alvei 

LLvtodBoen- 


Romuice 


ver «b: preF«dfliile. 

Ainda a ptopoaiio do 
caso Tieir. de Castro. 








Parto d'o»e romaDoo aa- 








hiQ no Pria-riTO ie Jawi- 








™, oom o titnlo de f>pí- 













4 


M 


„... 


OaiMio 


Obeerro^s 


98 


llj72 


iaaòòT^^'"'''" 


Mi<c.ellaiie& 




SI 




A eapadn 
d' Alexandra 


Opascnlo »»- 
tyriuo 


Boàímio do íipiTito. 


es 


1873 


d,^„Bualu"'^ 


Perfil biogr*- 
pLloo 




S6 


78.71 


O Demónio 
do Ouro f2 vol.) 


Komaa» 




87 


,874 


Ao anoite- 
oer d(L vida 


Poesias lyri. 




m 




entre Jr«é Cur- 
doBo ViBira da 
OastroACnmillo 
Culello Brui«> 


DiltHVÕBB 




e» 




som^Va^vola"' 


Misnellanea 


Publicação meiíMl 


100 




O regínidn 


Roraonce 




101 


1875 


A tilba do 
rogii^idn 




sedente 


102 


75T6 


A CHVoir. d« 

marljT ,3 vol». 




CentinuaoRo dos pre- 
cedentes. 


lOÍ 


75 77 


XovolUs do 
Miuho.iavols. 


Raiuanctu 


FabUcAtío meosal 


IM 


18T8 


Cur-Q de iit- 


Hislori. Ut 


ContlDnacSo a com- 
Ferrei n. 


m 


1B79 


Cnnoioneiro 
alagre Ua poe- 
tas portoRueBeii 

«legro 


Folemio» 








SeutimonU 
lismo o hUlorlH 


UiseellaiM» 


Vem inaliiido neste 
Tolmne o ronUDoe Eutt- 



— 


H 


Titulo 


fienero 


UbaervsçCes . 

Aio irocarCn, quennnoaa» 
publicou eiu separado. 


m 


im 


SnicidH 


NamtiTik 


J*].iibli^jiaanaaJfoi- 
ttla: 


'" 




Luii de C«- 
mães 


NoUabiOfirH- 


É o profaoio da 7,' 
ed. do Camõrt de Oiu-fett. 
Foi depois Ttunbem io- 
Dloido na Bohimia do 
cipirítB. 






Historia « 


Miecellnnea 


Vem incluid-. nesíe 
coctinuaçAn do EiiMíbio 


lOB 




Eohoe humo- 
rislítofl do Mi- 
nho {i opaaca- 
los, 






:; 




lUttniii 


Critica 
Historia 


mia da apiTÍtn. 


IH 


' !jo,';="«m"" 


Draoia 


Vêr ob,. ao n.« 87 
d-esta lísiu. 


'" 


ires 


Como.lii. 


d'eBt« Hatft.' 


,u 


. 1 Eutre H flan- 




Vér ob,. ao D.» Sí 
d'e5t;t lista. 


115 


. : SMoolÍPoa 


Miar.6llBDDa 






. 1 A b™«lleita 






1,7 


ma 


D. Luiz de 
Portugal 


Hiatoria 




118 




QntstAo da 
Bebanta 


PolemicH 





M4 


Titulo 


li«"Z 


ObsMvnçSea- 


■•is = 
















o'"ar"'3rr Juí^ÍI^Ó Ca^ 










drlgiiea. ao terapn ainda 
aluDinD da faculdade de 
TtieoloEÍa. Ai leplú-as da 
Camillo fonm reprodo- 




1 




pirito. 


11» 




General 

CirlM Klbeiro 

Tinha do 
Porto 


Hiatoria 




■ni 




Maria da 

FBBle 




vro do pfáte Catiralro. 


m 


1885 1 SerwB lie S. 
iMiBHíl de Seide 


Hiecollanea 






lESa 


A L)rn Ueri. 


Critica 


d"»vedo''cl.BtoUÕ Bintico 


I» 


• 


íipirLto 


UluellBDea 




12S 




do * IW^eTíSÍ" 

IÍ'r"B™r*Chilr* 
druu 




A propoilto d'uma 
questão Jadlclul entra o 


128 




H»l«çodecri- 
tk-a 


Crilka 


e ono detida analyM 
da tradiicv»» <'" f """" ■!« 


IST 




Vulcue» de 
Lama 


"•"•«• 




ISS 


,m 




rwiii» Ijri- 





414 



CÁUIUjO 



â 


i-4 


Titalo 


Género 
litterario 


Observações 


•o 


o • 








120 


1880 


Delictot a a 
Mocidade 


Miscellanoa 


£ a compilação, feita e 
annotada por Freitas For* 
tuna, das primeiras compo> 
sições de Gamillo. 


130 


» 


Vida do José 
do Telhado 


Narrativa 


£ aro folheto reproda* 
slndo as paginas que Ca» 
roillo consagra nas Memo* 
riai do cárcere ao celebre 
salteador. 


131 


» 


Kevista do 
Porto 


Folhetim 


É a reprodncçSo, feita 
por Freitas Fortuna, d'om 
folhetim publicado no Xa- 
cional, em 23 de fevereiro 
de 1850. 


132 


1890 


Nas trevas 


Sonetos 





O sr. H. Marques menciona mais^ com escrupuloso des- 
envolvimento, ainda que advertindo de que não pretende 
dar essas listas como completas : 

— Livros traduzidos por Camillo .... 14 

— Livros de diversos auctores, acompanha- 
dos de advertência, analyse, annotHÇões, 
apreciação, carta, introducção, juizo cri- 
tico, nota, preambulo, proemio ou prefa- 
cio de Camillo 87 

— Outros livros illuslrados com escriptos de 
Camiílo, inéditos ou reproducções ... 88 

— Revistas litterarias, periódicos, jornaes e 
publicações de género idêntico, redigidas 
ou collaboradas por Camillo (inéditos ou 
reproducções) 129 

Mencionando nas obras originaes um livro de cartas 
ao sr. Joaquim d'Araujo, dividindo os opúsculos da Questão 
da sebenta e mencionando em separado as edições do Mnria 
não me mates que sou tua mãe! que sahiram com os títulos 
de Maria José e Matncidio sem exemplo, o sr. H. Marques 
regista 456 números na sua Bibliographia, 



índice 



Pag. 

Prefacio 9 

Genealogia 17 

Biographia : 41 

I— 1825-1844 43 

11 — 1845-1848 81 

III — 1849- 189Ô . 113 

Nosographia : 153 

I — Os factos 155 

II — Discussão 233 

III — Conclusões 259 

Aobra: 263 

I 265 

II 313 

III 333 

IV 345 

Nol«is : 

A — A fíenealogia de Camillo 353 

B — O « Amor de Perdição » 354 

c: — A mãe de Camillo 359 

D — A casa de Seide 368 

K — Cartas inéditas 370 

F — Camillo e o sr. dr. Bombarda . » . . . 384 

G — Lista das obras 399 



ERRATA 



Kíitro «íRuns tnpsfw de revido fticilmGiile coinprcbotl 

Nâ [lagloa Is.'), tinlta 1 do primeiro pnrntfrnplin, onde™ 
1 m IA i«i(n«.j, (Jove lAr-sii iíoÍ4i-r)M. Nb 1 rnit«orlt>cAo do tiitíaini 
k||ttnnUii, cm jm^. 317. Iinl;n fi, iltiv» fnzKi-MO jfiiul cniciija. 




|«iiPl«»-'S67 



1