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Full text of "Camillo : a sua vida, o seu genio, a sua obra"

^ctwPd ■ ^ lí>0orio 



CAMILLO 



A SUA 91DA 

O 3f ÍJ GEHiO 

A SUA OBRA 




1=» o R, T O 

MAGALHÃES & MONIZ, L,da-^- editores 

II — Largo dos Loyoa — 14 

19UÃ 



CAMILLO 



n SUA VIDA -O SEU ÕENIO-A SUA OBRA 



Edição de Magalhães & Moniz, Limitada 
Composto e impresso nas officinas da 
Empresa Litteraria e Typographica 
178, Rua de D. Pedro, 184 — Porto 



DO MESMO AUCTOR 



Aguilhadas, opúsculos de crilicp, 1 vol. (1903-1904). Esg^ 
Historia d'um morto, conto (2.*^ edição, 1904). 
Na casa de Garrett, opúsculo de ciilica (190õ\ 
Camillo Castello Branco, esboço de critica (1905). 
A ultima ncite, novella (1905). 

Camillo Castello Branco e o sr. dr. Bombarda, arti- 
gos de polemica (1905). 
Notas á margem, chronicas (1905). 
Criminosos loucos, estudo de inedicina-legal (1906). 
Lisboa, chronicas (190S). 

Variaçces sobre um velho thema, contos (1908). 
Por amor d'ella, peça em 1 acto. No livélc. 



Histcire d'un mort, trad. de Pliiléas Lebesgue (1904).. 




Camillo Castello Branco 



^aufo ©oorio 




^/-y^-AKT. 



CAMILLO 



A 5UA \?IDA 

O 5EU ÕENIO 

A 5UA OBRA 




I^O FITO 

MAGALHÃES & MONIZ, L.da _ Editore» 

II — Largo dos Loyos — 14 
1908 



PCT O 5 2000 



.\^ 



Âo Snr. Ramalho Ortigão 



«... o prosador elegantíssimo, o fidalgo 
de raça senhoril, a revelação mais assigna- 
lada que ainda tivemos do espirito francês». 

(Camii-lo: Noite» de Inso/nfiia). 



« A historia publica é intimii dos homens 
•como elle nao se escreve senão depois, assina 
como a justiça inteira e o elogio sem restri- 
•cções nao se concedem senão á sua memoria. 
Emquanto não restituem á texTa tudo qae os 
fez iguaes dos outros, a sua elevação opprime 
os medicarei, a sua voz assusta os emulos e 
■o seu vulto assombra as vaidades invejosas 
<iue suppoem que elle lhes toma todos os 
passos e lhes fecha todas as estradas». 

L, A. Rebello da Silva. 



« Porventura virá um dia, quaTdo Portu- 
gal não fôr mais que uma px-ovincia da na- 
ção invasora, e o grupo dos portugueses nos- 
tálgicos, retrocedendo a magua ás racordações 
da pátria perdida, procure o symbolo synthe- 
tioo da nossa antiga vida livre, porventura 
virá um dia em que o espirito de Camillo sa 
levantará do i)assado, como em 188J viram os 
portuguezes levantarse o espirito do Camões. 
Então os livros d' elle serão martyrio e con- 
solo para esses contempladores opprimidos 
sem remédio; avultarão os seus desesperos 
«orno sentenças ; viverão os seus typos como 
•abstracções ; e toda a memoria do meu ado- 
rado paiz, saltando os annos, outra vez fará 
verter as lagrimas que eu tanta vez chorei de 
o vêr tao pobre, tao indolentemente passivo, 
e tilo mal guiado. Ninguém se lembrará dos 
histriões que ora o apedrejam, nem da cáfila 
liquidante que nos negoceia e nos esmagj, ; e 
o vulto de Camillo, sempre de pé no seu cerro 
minhoto, visivel para toda a roza do espaço, 
parecerá dizer: — Pui eu o ultimo!» 

Fialho d'Almeida. 



PREFACIO 



PREFACIO 



Em 1905, publiquei um livro intitulado CamiU(y 
lastello Branco (esboço de critica) \ Escrevi esse 
ivro precisamente dentro dos processos de apre- 
íiação critica que presidiram á feitura d'este. A 
ainha velha admiração por Camillo levou-me a 
istudar attentamente essa figura grande de artista 
! desgraçado, fazedor de tragedias, e elle próprio 
)rotagonista d'uma bem dolorosa e bem intensa: a 
rao-edia da sua vida inteira. A sciencia moderna 
mpunha-me um methodo de estudo a que eu não 
)oderia fugir, sob pena de fazer um trabalho este- 
il. O doente, que a dor engrandece e purifica e do 
[ual em Camillo a figura litteraria não representa 
nais que um corollario, era sem duvida digno de 



* Edição da Livraria Moderna, Lisboa. 



VA PREFACIO 

interesse. Estudei-o o melhor que pude, estudei-o 
com amor, procurei não dar um passo sem ir soli- 
damente apoiado em opiniões incontroversas ; não 
formulei uma conclusão que não assentasse numa 
base de factos ; quiz fazer um trabalho com todo o 
rigor, probo e consciente, não pelo medo que me pu- 
dessem inspirar os gládios dos pomposos ignorantões 
da minha terra, mas pelo respeito que devo ao nome 
de Camillo e ao meu próprio nome. O trabalho que 
apresentei — mesmo a meus olhos ainda incompleto 
bastante para merecer o subtítulo de esboço — não 
tinha direito a esperar um unanime e enthusiasmado 
coro de applausos. Expuz ali opiniões minhas que 
me seria agradável vêr discutidas e, se d'essa dis- 
cussão nascesse para o estudo da personalidade de 
Camillo uma conclusão diversa d'aquella que tão 
seguramente quanto possível formulei, ficaria para 
mim. ainda a honra de ter chamado para a figura 
tão interessante do maior escriptor português do 
nosso tempo a attenção de quem quer que fosse 
mais competente do que eu para avaliá-la. 

Logicamente, eu não poderia esperar que o meu 
trabalho provocasse um debate alevantado e utih 
Em Portugal sabe-se pouco de psychiatria, as doen- 
ças mentaes não se ensinam nas escolas, um medica 
conclue o seu curso sem ter posto os pés num 
manicomio. E eu tinha ainda a contar com esse 
sentimento de defesa que impede um diplomado em 
medicina de discutir com profanos assumptos que 
mais ou menos se relacionam com o seu modo de 



PREFACIO 13 

vida, — não vá ás vezes no decorrer do pleito o obser- 
vador ter o ensejo de cogitar na inutilidade dispen- 
diosa que^ em muitos casos, por si só, um curso 
representa. Esperava o silencio, o desinteresse simu- 
lado, a aíFectação do desdém : mas não esperava a 
agressão indocumentada e violenta. E comtudo o 
alienista sr. Miguel Bombarda veio, não discutir, 
mas agredir-me. Disse-me que o meu livro tinha re- 
duzidos méritos e limitou- se a contrapor a sua opi- 
nião em questões de minúcia que não attingiam as 
conclusões íinaes que procurei. E disse-o tão d'alto, 
com um ar de despreso de tal modo lamentável, 
que eu, replicando, tive de lhe fazer notar que o 
trabalho dos outros é uma coisa que a mais elemen- 
tar correcção manda que se respeite. 

De então para cá, a minha maneira de ver mo- 
dificou-se, ulteriores observações levaram-me a 
alterar um pouco as conclusões que formulei nesse 
primeiro esboço : mas quero desde já registar que 
nenhuma d 'essas alterações attingiu aquellas afir- 
mativas que provocaram a sobranceira contradicta 
do director de Rilhafolles. 



A propósito d'esse meu primeiro trabalho sobre 
Camillo, o sr. Theophilo Braga dirigiu-me a se- 
guinte carta, publicada depois, com auctorização 
sua, em jornaes do Porto e de Lisboa: 



14 PREFACIO 

« Lisboa, 19 de junho de 1905. 

Caro e illustre amigo. 

Recebi honteni o seu livro — Camillo Castello 
Branco — Esboço de critica — e honteui mesmo puz 
de lado todo o trabalho que me tinha destinado, e 
li-o de uma assentada. Quer pelo interesse que a 
individualidade de Camillo suscita, quer pelo pro- 
cesso critico do sen julgamento, o livro attrahiu-me 
e deixei tudo por elle. 

Desde já lhe confesso que è esse o verdadeiro 
processo para estudar todas as individualidades 
que se destacam no seu tempo ou no seu meio so- 
cial : o estudo FSYCJWLOGico traz uma nova luz para 
a comprehensão do génio creador em qualquer 
forma de actividade. Na historia litteraria tenho 
reconhecido praticamente o valor d' esse instru- 
mento. Vou ainda mais longe, investigando a psy- 
chologia collectiva, da multidão anonyma, do Povo, 
e è essa a luz que vivifica os factos concretos e nuii- 
tas vezes banaes da Etimologia. E, juntando estas 
duas psychologias, chega-se a uma comprehensão 
philosophica, indispensável para todo o historiador 
digno d'esse titulo. 

Mas, voltando ao seu livro : apparece alli o Ca- 
millo fortemente explicado, com opulenta documen- 
tação. O meu amigo está em dia com os trabalhos 
de psychiatria, e escolheu bem o Camillo como um 
caso complexo bem digno de interpretar-se ; e a 
sua conclusão, implícita em todo o livro, é que, tem- 
peramento profundamente desgraçado, tudo em 
Camillo, nas suas qualidades superiores e nos seus 
destemperos, desperta uma grande sympathia. Che- 
guei tarde a esta conclusão e somente depois de ter 



PT5EFACIO 15^ 

lido perto de quinhentas cartas de Camillo ao Vis- 
conde de Oiujuella {hoje perdidas?) 

O Camillo merecia um estudo assim. Se o meu 
amigo matizar o seu livro com trechos autobiogra- 
phicos de Camillo, e referencias d'elle à origem ou 
motivos da sua obra, faz uma obra definitiva que 
ficará como o monumento levantado ao excelso es- 
criptor. Dece fazel-o com vagar até ao momento 
em que lhe apparcça ensejo de publicação. 

Parabéns pelo precioso livro; e pelas palavras 
affectuosas que o acompanham, o reconhecimento 
do 

seu am.o obg."'^ e adm.^' 

Theophilo Braga ». 



Procurei seguir as indicações do sr. Theophilo 
Braga, revi o meu esboço, procedi a novas investi- 
gações, tentei novos estudos — e fiz, quer na essência 
quer na fórma, um livro novo. Mas não permittiram 
os modestos recursos do auctor que ficasse valendo 
mais que um subsidio aquillo que o illustre signa- 
tário d'essa carta generosamente quizera que fosse 
um monumento. 



âENEALOõlA 



;Hereditj- is the law» 
Darwin. 



Ha fundadas razões para pôr em duvida a rigo- 
rosa verdade histórica que se attribue á nobiliarchia 
d'uma familia trasrnontana, pelo epitheto d'um dos 
seus varões mais recentes, conhecida por Os brocas. 

Parece-me, de resto, dispensável para o inte- 
resse pratico do meu intuito averiguar se tal linha- 
gem trazia integra a progenitura d'aquelle Fruela, 
irmão de Aífonso i, genro de Palagio, fundador da 
monarchia de Oviedo e Leão, dos reis Vermudo ou 
Bermudo, Ramiro i e Ordonho, ou então, por outras 
vias, do fidalgo solarengo D. Payo Mogudo de 
Sandim. Basta ter como elucidado mais ou menos 
que, olhando em âmbito mais curto para essa pre- 
tendida cadeia de transmissões de sangue azul, que 
se perde por uma djmastia de Ordonhos, nuns 
tempos vagos do rei Bermudo de Navarra, se nos 
depara um Domingos Correia Botelho a quem o 
mais illustre dos seus descendentes outhorgou a 
qualidade de estudante^, quando ao certo, e con- 



1 Camillo : Cousas leves e pesadas. 



20 CAMILLO 

forme a afirmação de outros auctores, se sabe que, 
durante uma existência vagabunda, andou de terra 
em terra propagando as profecias do Bandarra e 
exercendo o mister de picheleiro ^. 

Espiolhando bem as costellas da creatura a quem 
genealogistas diversos tão varias profissões attri- 
buiram, vem-se a saber ainda que seu bisavô foi 
Domingos Eodrigues Pinto, filho de um almocreve 
e d 'uma tendeira de mercearia, que prestou serviços 
patrióticos na revolução de 1640, cooperou em pri- 
sões do Santo Ofíicio, e veio, segundo o testemunho 
de coevos, a servir « os mais nobres e honrados 
cargos da Republica»; que seu avô, filho de Isabel 
Machado, a quem se attribue o apellido de Botelho, 
foi Martinho Machado Pinto, cavalleiro de S. Thia- 
go; e que seu pae, filho natural d'esse Martinho e 
de Isabel Mendes do Rocio, foi Lazaro da Costa, 
primeiro representante d'uma dynastia de marchan- 
tes que por muito tempo prosperou em Villa Real ^. 
A essa dynastia pertenceram todos os filhos de 
Lazaro da Costa e de Francisca Mendes, salvante 
Domingos Correia Botelho, que enjeitou a profissão 



1 Alberto Pimentel: Os amores ãe Camillo, 1899. 

2 PEÍ3R0 A. d'Azevedo : Os antepassados ãe Camillo. No 
Archivo Histórico Português. Vol. V, 1907, n.os 5, 6, 9, 10 e 11 
e Vol. VI, 1908, n.os 1 e 2. A esse estudo, o mais completo 
e documentado que possiiimos sobre a genealogia de Ca- 
millo, pertence grande parte das informações de que me 
sirvo neste capitulo do meu trabalho. 



CAMILLO 21 

e o appellido paternos preferinclo-lhes uma onomás- 
tica mais nobre e as commoções e os benefícios de 
uma agitada carreira d'aventureiro errante. Mais 
d'uma vez se pôs em duvida na sua ascendência 
aquella pureza de sangue tão derimida nos prelúdios 
inqaisitoriaes de tantos autos de fé ; e se essa cir- 
cumstancia eu registo, não é para fanaticamente 
lançar sobre Domingos Pinto e Lazaro da Costa o 
labéu de chnstãos novos de que uma devassa bene- 
volente depois os illibou. Mas a sciencia afírma que 
a raça hebraica é, d'entre todas as raças, uma das 
que maior contingente fornecem para o cadastro 
da pathologia nervosa ^ 

Domingos Correia Botelho casou duas vezes, 
ambas ellas com filhas de pedreiros, a primeira 
chamada Angela Fernandes, de quem teve, além de 
duas filhas que recolheram a um mosteiro e outra 
que casou, um filho. Frei José de S. Bernardo, que 
professou como Agostinho descalço e outro, Manuel 
Correia Botelho, que foi escrivão em Villa Eeal, e 
a segunda, Maria Mou tinha, que lhe deu, entre ou- 
tros filhos e uma filha que também entrou para um 
convento, José Luiz Correia Botelho. Diz-se que o 



1 Servi : GU Ismeliti di Europa, 1872 ; Verga : Ar- 
chivio di slatistica, 1880 ; BOUVERET ; La Neurasthenie, 1891 ; 
LOMBROSO : UJiomme de génie (ed. francesa) 1903; Biãletins 
de la Societé d'anthropologie, t. iv; Ribot : Uherédité psi/cho- 
logiqiie, 7.» ed. 1902; Fialho d'Almeida: Estudo sobre Ga- 
millo, publicado na Bevista Illustrada, de Lisboa, em 1896. 



22 CAMILLO 

filho de Domingos Botelho que professou « viera 
de longe propellido para uma grande catastrophe» 
e que «a profissão era o acto final d'ama tragedia» ^ 
Certo é que esse religioso, que pertenceu ao con- 
vento de Nossa Senhora da Piedade, em Santarém, 
onde chegou a prior, nem sempre em documentos 
pnblicos gosou uma impolluida fama de virtude. 
Numa certidão passada em 1780 por um frade da 
sua ordem, diz-se que elle, em certo convento d'Ex- 
tremoz, levava vida escandalosa «não só para os do- 
mésticos como para os Estranhos, por "acçoens que 
produzia indignos do habito e muito mais do cargo 
e ministério que ocupava», a ponto de o Vigário 
Geral, averiguando «serem verdadeiros os Enormes 
delictos que lhe impunhão» ter m*andado «fechar 
de pedra e Cal a porta do Carro, por onde elle metia 
na Clauzura pessoas de sexo prohibido, E que as 
chaves da Clauzura não estivesse em seu poder». 

Domingos Botelho cahiu na miséria e Frei José 
tomou conta da familia, instituindo-lhe umas rendas 
que mais tarde originaram litígios e fizeram que- 
brar as relações entre elle e o irmão José Luiz, de 
cujo proceder ingrato ao depois amargamente se 
queixava. 

Manuel Correia Botelho, nascido e residente em 
Villa Real, casou com D. Maria de Carvalho e Me- 
nezes, filha de Francisco Martins Menezes, chrhtão- 



Camillo : Bohemia do espirito. 



CAMILLO 



23 



novo. Elle e a mulher, pouco doces de tempera- 
mento, por via de repetidas contendas, malquista- 
ram-se com a maioria da gente de Villa E^eal. Quatro 
annos antes de morrer, foi perdoado do assassinio 
d'um soldado numa questão em que entrou com 
seus filhos Domingos José Correia Botelho e José 
Correia Botelho de Menezes. 

Domingos José Correia Botelho era um homem 
extremamente feio. Formou-se em Coimbra. «Era 
alcançadissimo de intelligencia, e grangeára entre 
os seus condiscípulos da Universidade o epitheto 
de brocas com que ainda hoje os seus descendentes 
em Villa Real são conhecidos. Bem ou mal derivado, 
o epitheto brocos vem de broa. Entenderam os aca- 
démicos que a rudeza do seu condiscípulo procedia 
de muito pãa de milho que elle digerira na sua 
terra» ^ Domingos Botelho foi nomeado juiz de 
fora de Cascaes, logar que exerceu durante nove 
meses e do qual foi suspenso, segundo informa sua 
sogra, nas allegações d 'um processo que mais tarde 
lhe moveu em causa de partilhas, « pelo dezacato 
que fizera a sua Filha D. Francisca Julianna, cazada 
com José Joaquim de Proença e Sylva, Tenente do 
Regimento da dita Yilla : por lhe querer dar com 
híia faca; e pela escandaloso modo, cõ que injus- 
tamente fizera prender ao Padre António do Valle 
Capelláo do dito Regimento, e conduzir amarrado 
«m hum jumento para o Aljube desta Cidade, de 



GamillO : Amor de Per dirão. 



24 CAMILLO 

donde por estar innocente, sahira solto, e livre» \ 
Esse Botelho era um excêntrico, com certo chiste 
nas maneiras rudes que lhe mereceu a alcunha de- 
doutor Bexiga. Se, como se pretende ^, frequentou 
o paço, insinuando-se, por ignoradas bulias, na es- 
tima de D. Maria i e de D, Pedro, e aproveitando- 
o ensejo para tomar d'assalto o coração d'uma for- 
mosa dama de nome E-ita Thereza Margarida Cas- 
tello Branco, não o sei eu dizer com precisão. Ha 
documentos comtudo que desfazem um pouco na 
pretendida nobreza d'essa D. Rita, depois mu- 
lher do bacharel, dizendo-a filha d'um capitão de 
infantaria de Casca es, de nome José Pereira da 
Silva e de D. Thereza Iguacia Joaquina Castello 
Branco, a sogra furibunda, neta paterna de Domin- 
gos Pereira da Silva e Francisca dos Anjos, a 
Benta, e bisneta d'um servente de pedreiro e sol- 
dado de artilheria, neta materna de Diogo Luiz de 
Mesquita Castello Branco, creado grave da condessa 
de Aveiras e de Isabel de Mattos, aia ou creada da 
mesma titular. E a sogra D. Thereza, em documento, 
respeitante ao litigio judicial já referido, reduz a 
proporções assas raaterialonas a historia do consor- 
cio que se dizia derivado d'um galanteio palaciano- 
do modo sereno e limpido como deriva a agua de 
um arroyo: «Este supplicado Domingos José Cor- 
rêa Bottelho sendo natural de Yilla Real, filho de 



^ Doe. transcripto pelo sr. Pedro d'AzeYedo. 
2 Gajiillo : Amor ãe Perdição. 



CAMILLO 25 

hum nacimento escuro, e de baxa e pobre fortuna, 
vendo-se condecorado com o honorifico emprego de 
Juiz de Fora da Villa de Cascaes, e sabendo que a 
caza da suppHcante era das principaes, e das mais 
ricas daquela Villa, e que tinha filhas Donzellas, to- 
mou cazas para a sua habitação junto as da suppH- 
cante com quintal mistico ao seo que só lhe servia 
de divizão, hum pequeno muro, e por via de him Es- 
crava, que comrrompeo, se intruduzio fora de horas 
na casa da supplicante deshonestando a dita sua 
filha menor de 20 annos, com a qual se acha cazado, 
recebendo se em 30 de Outubro de 1771 vindo a 
parir sua filha um filho, que naceo a 14 de Junho 
de 1772, 8 mezes depois de cazados como mostrão 
as certidoens do cazamento — n.° 1.° e Bauptisma 
n." 2.° esta verdade he incontestável, porque os 
filhos só nacem de 7 e 9 mezes, e raras vezes de 
11 e 14 mezes». Aparte o devaneio gynecologico, 
tenho a allegação como digna de fé. 

Anna Margarida Mourão, mulher de Lourenço 
da Costa, tio de Domingos, moveu contra este uma 
acção por divida de quinhentos mil reis que o ba- 
charel lhe pedira emprestados quando estudante, 
introduzindo-se com ella « como sobrinho de seu 
deffunto marido e pella razão do dito parentesco e 
cavilação de que é dotado » , ^ e que depois não quiz 
pagar. Nas suas allegações, a viuva credora disse 



1 Esta transcripção e seguintes pertencem a doe. re- 
produzidos ou citados pelo sr. Pedro d'Azevedo. 



26 CAMILLO 

serena Domingos Botelho e seu irmão José «valen- 
toens, clesemvoltos e absolutos, sem temor ou res- 
peito aos Magestrados e offeciaes de Justiça. . . 
descompondo de palavras aos mesmos . . . e oufanos 
por terem. . . feito hua morte as oras do dia a hum 
-soldado de que lhe não resultou castigo, e porisso 
amiaçando os mesmos officiaes, e ainda paçando a 
excesso niayor que até os Magestrados ameação » ; 
e mais que «Tanto o dito Domingos Joze Corrêa 
como seu irmão se asocião ambos e armados de 
sorte que nimguem se atreve a oporse a seos depra- 
vados intentos». A isso respondeu Domingos Bote- 
lho confessando se «homem cordato, prudente, civi- 
lizado, retirado de communicações com officiaes de 
Justiça tanto que os negócios os trata por Procu- 
radores sem escandalizar pessoa algiia » e alegando 
mais que sua tia afin nunca lhe emprestara dinheiro, 
nem podia emprestar «porque hé hua pobre mere- 
trix publica que de si não tem couza alguma nem 
para se sustentar mais que o que adquire pelo ilicito 
trato que tem com muitos homens » e que essa 
mesma sua tia «tem filhos de vários homens e pre- 
zentemente d'hum José Manuel Teixeira de Novaes 
hua filha natural por andar com ella amigado». 
D'onde se mostra que o dotitor Bexiga não era 
muito gentil para com os seus próprios parentes. 
Nomeado em 1802 juiz de fora de Yizeu, Do- 
mingos Botelho soífreu, alguns annos mais tarde, a 
accusaçáo de venal. Arguiram-no de receber «por 
si, sua mulher e filhos e amigos quantias avulta- 



CAMILLO '^< 

das». Feita a devassa, em consulta de 1 de março 
de 1806, a mesa do Desembargo do Paço conside- 
rando-ò «gravemente indiciado de crimes enormes 
que pela lei do Reino tem pena de morte, ofere- 
cendo tão bem a impunidade aos malfeitores a pre- 
ço de dinheiro e vendendo a justiça em publico 
leilão: provandose ja quanto basta para ser sus- 
penso, sequestrado e prezo, dando-se-lhe logo o le- 
gar por acabado, e mandando-se tirar sua residên- 
cia por Ministro exacto, a qual deverá ser julgada 
no Juízo dos Feitos da Fazenda com a assistência 
de Procuradores Régios». Assegurou-se que Do- 
mingos José Correia Botelho morreu em 1805 na 
sua quinta de Montezellos, assassinado por saltea- 
dores ^ Ha, pelo menos, ahi um erro de data pois 
que a consulta referida é, como disse, de 1806. O 
sr. Pedro d'Azevedo suspeita que elle se suicidasse 
para escapar a uma vergonha publica. 

O primeiro filho de Domingos Botelho, nascido 
oito mezes depois do seu casamento e que teve o no- 
me de José, morreu creança. Mais tarde, nasceram 
duas filhas e dois filhos, de nomes Simão e Manuel. 

Da vida de Simão Botelho existem duas versões : 
uma amplamente desenvolvida no Amor de Perdi- 
ção e outra, mais recente e mais incompleta, mas 
com o mérito da authenticidade garantida por do- 
cumentos que o sr. Pedro d' Azevedo exhumou da 
poeira dos archivos^. Ambas, porém, são concordes 



1 Ver NOTA B, no íim d'este volume. 



28 CAMILL.O 

na descripção do caracter do íilho segundo de Do- 
mingos Botelho. De Coimbra, conta-se no Amor de 
Perdição que «o filho mais velho escreveu a seu 
pae queixando-se de não poder viver com seu ir- 
mão, temeroso do génio sanguinário d'elle... por- 
que Simão emprega em pistolas o dinheiro dos 
livros, convive com os mais famosos perturbadores 
da academia, e corre de noite as ruas insultando os 
habitantes e provocando-os á kicta com assuadas». 
São ainda do mesmo romance estas palavras : « Fi- 
nalizavam as ferias, quando o corregedor teve um 
grave dissabor. Um dos seus creados tinha ido le- 
var a beber os machos, e, por descuido ou propó- 
sito, deixou quebrar algumas vazilhas que estavam 
á vez no parapeito do chafariz. Os donos das va- 
zilhas conjuraram contra o creado ; espancaram-no. 
Simão passava nesse ensejo; e, armado d'um fueiro 
que descravou d'um carro, partiu muitas cabeças^ 
e rematou o trágico espectáculo pela farça de que- 
brar todos os cântaros. O povoléu intacto fugira 
espavorido, que ninguém se atrevia ao filho da 
corregedor; os feridos, porém, incorporaram-se e fo- 
ram clamar justiça á porta do magistrado». Em 
face dos documentos, o sr. Pedro d'Azevedo infor- 
ma que «em 3 de agosto de 1804, sendo um quarto 
de hora depois da meia noite, na Eua Direita de 
Vizeu foi ferido por um tiro de clavina Francisco 
José Ferreira, natural de Moimenta da Beira, crea- 
do de José Cardoso Cerqueira, de que lhe resultou 
ficar sem parte dos dedos das mãos e com uma 



CAMILLO 



29 



coxa atravessada, recolheu do-se os criminosos a 
casa do juiz de fora que morava no terreiro da Sé. 
Foram accusados d'este crime Simão i^intonio Bo- 
telho e José Jeronymo, filho de Lourenço de An- 
drade e Seixas, que tinham sido vistos andar ar- 
mados por aquella rua e ameaçando o primeiro 
Fernando de Almeida, filho do referido Cerqueira. 
De Simão diz uma testemunha: sendo também pu- 
blico que o mesmo filhodo Juiz atirara mais três Tiros 
a outras varias pessoas e que he verdade que sabe 
peJlo ver e ouvir que toda esta cidade (de Vizeu) an- 
dava com, temor e estavam em grande desasucego em 
quanto o ditto filho do Juix de Fora se achava n'es- 
ta Cidade pellos insultos que fazia e esperançado na 
falta de castigo por seu Pai ser Juiz. A devassa que 
86 tirou, feita pelo vereador mais velho de Vizeu 
e pelo meirinho geral em 6 de agosto, resultou pela 
pressão exercida sobre as testemunhas como de' 
nenhum valor, pelo que o desembargo do Paço 
ordenou em 21 de maio de 1805 se procedesse a 
outra. Entretanto os dois criminosos homens va^ 
dios costuynados a commetter similhanfes delictos^ e 
a andarem de noute e de dia dando tiros em varias 
pessoas tinham tirado cartas de seguro, sendo a de 
Simão datada de 17 de setembro de 1801, augmen- 
tada por mais um anno em 5 de setembro de 1805 
e ainda por mais outro em 12 de agosto de 180G, 
em consequência do seu livramento pela Relação ir 
muito atrazado ; e a de José Jeronymo de Loureiro 
e Seixas também reformada por mais um anno por 



30 CAMILLO 

despacho de 11 de outubro de 1806». «Nos capi- 
tuloá apresentados contra o pae de Simão — infor- 
ma também o sr. Pedro d'Azevedo — diz a teste- 
munha o bacharel António Cardoso de Sousa e Liz 
he publico hem como que o referido filho (Simão) 
anuciado com o referido Quintas derão hum firo e 
foram desafiar a porta hum irmão do Cappitam de 
San Salvador, em ocazião que se queixava de lhe 
matarem as suas pombas; José Rodrigues Quintas 
do logar da Travanca, ladrão publico que rotdm pe- 
las Feiras e Mercados quanto pode, he da amisade 
do dito Juiz de Fora, e um caçador que muitas vezes- 
acompanhava com seus filhos.y> 

São assim as duas versões concordes em dar 
Simão como um impulsivo, de maus instinctos, vio- 
lento e desordeiro. O romance dá-o também como 
um amoroso : « Amou, perdeu-se e morreu amando». 
Não me repugna crer que o fosse. Por amor perdeu 
também a carreira seu irmão Manuel ; culpas d'amôr 
tivera, ao que parece. Frei José de S. Bernardo seu 
tio-avô : fora, segundo alguns pretendem, o amor a 
causa do crime de que soífreram accusações seu 
pae, seu tio paterno e seu avô. E, assente que da- 
dos positivos nos asseguram uma tara mórbida lu- 
xuriante nessa suspeitíssima linhagem, seria, sem 
duvida, de interesse averiguar até que ponto essa 
provável feição amorosa, ao manifestar-se em suc- 
cessivas gerações, foi a causa do exacerbamento 
d'uma doença antiga ou apenas o resultado lógico 
do próprio mal. 



CAMILLO 31 

A analogia que existe entre algun.s caracteres 
objectivos do amor e aquelles que as obsessões con- 
scientes d'uma origem mórbida nos apresentam, o 
facto de os amorosos serem, em summa, seres de ex- 
cepção, num restricto numero dos quaes se encontra 
com frequência uma elevada proporção de crimino- 
sos, têm levado alguns philosophos e scientistas a 
attribuir ao amor uma origem puramente patliolo- 
gica. ^ Depois, os aspectos mórbidos com que a pai- 
xão amorosa, em geral, se exterioriza vêm corro- 
borar até certo ponto uma tal opinião, e physiolo- 
gistas modernos ^ lembram a passagem de Plutar- 
cho em que se conta como o medico Erasistrato 
reconheceu pelos movimentos tumultuosos do pul- 
so que Antiocho amava Estratonica. ^ Gastou Dan- 
ville combate esta doutrina, e o seu argumento ca- 
pital baseia-se num critério de utilidade applicado 
á classificação das obsessões, separando as nocivas 
ao individuo e á espécie como as únicas a c[ue ri- 
gorosamente compete a origem pathologica que se 
lhes attribue. Fincando nesse argumento todas as 
suas deducções e attribuindo ao amor normal o mero 
intuito da procreação da espécie, é claro que o phi- 
losopho não encontrou grande difficuldade para o 



1 GASTON DANVILLE : La PsychoJogie de Vamour, 1894^ 

2 DANVILLE: Ob. cit. ; Mosso : La peiír (ed. francesa), 
1886. 

3 PLUTARCHO: Vida de Deiuetrius, xxvil ; CAMÕES L 
Auto d'El-Rei Seleuco. 



32 CAMILLO 

pôr a salvo do seu capitulo de obsessões de origem 
mórbida. Eu julgo haver razão em negar ao amor 
uma origem pathologica : que a attracção entre dois 
individuos de sexo diíFerente, verificável de resto 
em quasi toda a escala zoológica, não pode por certo 
interpretar-se fora das leis que regem o mecanismo 
psychico no estado normal de cada um. O amor 
virá, tão só, pôr em preeminência, resultante d'uma 
intensa e quasi exclusiva actividade, o sentimento 
affectivo e, se a creatura fôr \\m psycopatha, a 
doença encaminhar-se-á irremediavelmente para o 
ponto em destaque da sua entidade psychica. Im- 
placável, a sciencia diz-nos que só é susceptível de 
ficar doido d'amôr aquelle que tiver um amor de 
doido. ^ 

Ora o amor dos Botelhos não foi decerto um 
amor normal : surgindo em creaturas presas d'uma 
nevrose herdada que a sequencia das suas vidas de- 
pois nos aclara, a paixão amorosa dominouos com 
uns caracteres particulares, uma intensidade, um ex- 
clusivismo que fazem saltar aos olhos a sua maneira 
mórbida de ser. A vida romântica ou romantizada 
de Simão Botelho vem contada com lagrimas nas 
paginas dolorosas e intensas do Amor de Per^dição. 
Ahi, ella apparece como a simples historia d'uma 
existência estúrdia que um certo dia se embaraçou 
e prendeu irremediavelmente num fino cabello de 



^ FJiANK : Traité ãe Paúiologie Interne^ trad. T3ayle, t. 
III, p. 143. 



CAAllLLO 33 

mulher; e como essa desgraçado rapaz viesse, tal- 
A^ez por unia opportnnidade má de nascimento, a 
acarretar, num equilibrio falso, cora uma herança 
mórbida que em seus maiores se foi accumulando, 
de geração em geração, em dezoito annos tinha es- 
gotada toda a razão de ser da sua vida de espirito, 
morrendo quando lhe faltava já a coragem para 
todo o esforço, mesmo atirado de golpe, nessa im- 
pulsão de vesânia que outr'ora fizera d'elie um 
desordeiro, depois um assassino, e o acompanhara 
passo a passo nos momentos de lyrica paixão. Diz 
-o romance que Simão amava com loucura essa The- 
reza que morreu d'amòr, agitando o lençosinho 
branco no mirante de Monchique, quando cortava 
as aguas do Douro, á vista do convento, a nau 
que o conduzia ao degredo da índia. Os documentos 
até hoje pesquizados, apenas nos dizem «que elle 
foi criminado pelo estrupiamento que praticou com 
um tiro da sua carabina ou clavina na pessoa do 
criado de um individuo de Yizeu.» ^ 

Do irmão primogénito de Simão Botelho, Ma- 
nuel, que ficou doido e morreu d'uma congestão ce- 
rebral e de quem no Amor de Perdição se conta a 



^ Pensa o sr. Pedro d'Azevedo qjie alguns esclareci- 
mentos sobre esse caso nos poderá dar o archivo da Re- 
lação do Porto o no caso que este ainda exista t). E excla- 
rece: «O archivo da Relação conservava-se num, suliterra- 
neo, estando os papeis respectivos, devido á humidade, 
•convertidos em pasta. Uma gloria para a magistratura!» 

3 



34: CAMILLO 

historia romanesca do adultério com uma açoriana^ 
conliece-se, através de dados cheios de incerteza, a 
accidentada uíiiào com D. Jaciíitha Eosa do Espi- 
rito Santo, filha de uma doida. ^ Sabe-se que essa 
mulher amou e soíireu — 

Que o sangue, derramado sem seu caminlio, 
Eu pude ainda vêi', como um vesligio 
Da murlyr que passou. '^ 

— e o facto de uma vida assim, levada eutre lagri- 
mas, é natural que ficasse nitidamente marcado nO' 
caracter dos fructos d'esse amor. 

A influencia do estado de espirito dos pães no 
momento de concepção sobre a maneira de ser 
psychica dos filhos, tinha sido observada já antes 
dos médicos se occuparem do seu estudo: Hesiodo. 
prescrevia a abstinência do coito na volta das ceri- 
monias fúnebres, para se não gerarem filhos melancó- 
licos. Erasmo punha na boca da sua Loucura estas, 
palavras : «Eu não sou o fructo d'um aborrecido 
amor conjugal». Tristam Shandy attribue as enfa-- 
donhas particularidades do seu caracter a uma per- 
gunta que sua mãe, em momento muito inopportuno^ 



1 e Meu pae, minha avó materna e duas minlias tias- 
iiion'eram doidas» (camuflo: Carias ao Visconde de Ou- 
guella, puljlicadas pelo sr. Theopliilo Braga na liivistu Pqi-^ 
tugufzu, 1<S95 p, 117). — Vèr a nota c. 

2 CAMILLO : Vin Ih-to. 



CAMILLO 



3Õ 



formulou ^. Um dos filhos adulterinos de Luiz xiv, 
concebido durante uma crise de lagrimas de M.®° 
de Montespan que as cerimonias do jubileu tinham 
emocionado, conservou por toda a vida um caracter 
que o fez chamar « o filho do jubileu» ^. E' conhe- 
cido o caso d'um pae, homem illustrado, que durante 
a vida inteira teve sensíveis tendências para um es- 
tado mental doentio, com períodos alternados de 
excitação e abatimento; dos numerosos filhos qae 
teve, dois foram alienados : a época da sua conce- 
pção coincidia com os momentos em que o pae tinha 
manifestado em grau mais alto as suas tendências 
malsãs/'. De CandoUe, citado porLombroso, faz no- 
tar a influencia d'um estado de paixão violenta dos 
pães, no momento da copula e lembra o numero con- 
siderável de bastardos de génio *. E' nas uniões illi- 
citas, mais que no casamento, que se encontra, no 
enthusiasmo da sua máxima intensidade, um amor 
violento ; mil razões ha nesse caso para excitar^ 
pela alegria, pelo medo, pela revolta ou pela an- 



1 Fere: Ob. cit, p. 17. 

2 P. Lucas: Traiié pratique et lyliysiologique de Vherédité 
naturelle, 1850, t. II, p. 504. 

3 Este caso vem em Ribot (ob. cit. p. 255) como ten- 
do sido communicado ao auclor por um medico, e figura 
lambem, juntamente com o anterior, em Déjerine: Vheré- 
dité datis leu maludies du systeme nerveux, 1886, d'onde LoM- 
BROSO os tirou para o seu trabalho. 

* De Gandolle; Histoire des Sciences, 1883 ; Lombroso 
Ob. cit. p. 217. 



36 CAMILLO 

gustia, o estado de espirito d'urn dos progenitores 
ou d'ambos elles. Isaac Disraeli escreveu na Memoria 
de Toland : «O nascimento fora do casamento cria 
os caracteres fortes e resolutos» ^. Também nas 
uniões illicitas, se o primeiro filho pôde sentir a 
influencia d'um pleno amor, o segundo já geral- 
mente nasce no doloroso periodo d'nma reacção 
expiadora, de ainda mais impressiva influencia. 
M.^^^® Roubinovitch communicou ao congresso de 
Amsterdam, de 1907, que, num estudo de 74 bio- 
grapliias de grandes homens, apenas encontrou 10 
primogénitos ^. 

Da união de Manuel Botelho e de D. Jacintha 
Rosa nasceu primeiro urna filha e depois um filho, 
beijado talvez já no seu berço pelas lagrimas do 
arrependimento e do mar ty rio. 

Ao descendente dos brocas e á sua companheira 
de aventuras podia bem caber a sorte de darem 
vida a uma creatura de caracter extranho, num 
momento mais intenso da sua vida de amores e de 
torturas. Mas um filho de D. Jacintha Rosa tinha 
já, por banda paterna, os symptomas reveladores 
d'uma nevrose herdada. Corremos a linha da sua 
ascendência e encontramos uma longa tradição de 
vesânia ^. D'ahi, porém, a concluir de rompante 



1 

2 L' Encephale, 2.e année. N." 10. Octobre 1907, p. 451. 

3 «Ambos nevropatlias hereditários, Camillo e Júlio 
{Júlio César Machado) pois em ambas as famílias havia a 



CAMILLO 



37 



que o fillio nascido d'essa união devesse forçosa- 
mente ser um doido ou um criminoso, ainda mesmo 
sujeito á influencia mórbida hereditária, vae um 
abysmo. Difficil, se não impossivel seria mesmo 
prever qual a forma de psycose que quasi certo era 
vir junta a essa creaturinha posta no mundo com 
o carreto d'uma tão pesada herança. A variação da 
hereditariedade é um facto. «As doenças do syste- 
ma nervoso, quer se manifestem por perturbações 
psychicas, sensoriaes ou motoras, offerecem entre 
si afinidades numerosas, pontos de contacto múlti- 
plos ; e, se bem que, nestes últimos annos, os estu- 
dos tanto clinicos como anatomo-physiologicos te- 
nham multiplicado as espécies, póde-se dizer que 
ellas constituem uma só familia, ligada indissolu- 
velmente pelas leis da hereditariedade» ^. Mas não 
ha uma regra precisa ; e o próprio schema que Morei 
formulou para a marcha da degenerescência pro- 
gressiva esbarra na pratica, a cada passo, por cir- 
cumstancias que se explicam mas que nem por isso 
se podem deixar sem nota, com casos que aberta- 
mente o contradizem ^. «Os alienados, os crimino- 
sos e os homens de génio trazem ingenitamente 
uma constituição muito análoga; todos são dotados 



dupla Iradição da vesânia e do suicidio». (Souza Martins: 
Nosographia d'AntherOy no In Memoriam. 

1 FÉRÉ: Ob. cit., pag. 8. 

2 G. Weygandt: Atlas-Manuel de Psijcliiatrie, ed. fr., 
por ROUBINOVITGH, lOOi, p. 26. 



38 CAMILLO 

d'uma tal excitabilidade qne reagem fora das regras 
psycologicas ordinárias. São ás vezes as circum- 
stancias qne determinam a especialização» ^. Por 
hereditariedade não se entende exclusivamente a 
doença transmittida á progénie com a identidade 
de symptomas de ordem physica e moral observa- 
dos nos ascendentes. Comprehende-se no termo 
hereditariedade a transmissão de disposições orgâ- 
nicas de pães a filhos... ^. «A fixidez das ideias 
nos progenitores, pode transformar-se nos descen- 
dentes em melancolia, amor á meditação, aptidão 
para as sciencias exactas, energia de vontade. . . A 
mania dos progenitores pode vir a ser nos descen- 
dentes aptidão para as artes, arrojo de imaginação, 
vivacidade de espirito, inconstância dos desejos, 
vontade brusca e sem tenacidade» ^. «Assim como 
a loucura real pôde reproduzir-se hereditariamente 
sob a forma de excentricidade, não se transmittir 
senão com meias tintas, tons mais ou menos adoça- 
dos, assim um estado simples de excentricidade, 
que não vá além de certas extravagâncias de cara- 
cter, de certas singularidades de espirito, pôde ser 
para os filhos a origem d'um verdadeiro delirio» ^. 
A historia nosologica das famílias de homens no- 



^ FÉp.É: Ob. cit., p. 41. 

2 MOREL : Traiié des dégénérescences, 1857; Rtbot : Ob 
cit, p. 247. 

3 RiBOT : Ob. cit., p. 249. 

^ MOREAU (de Tours): La psychologie nwrhiãe dans ses 
rapports avec la jjhilosophie de Vhistoire, 1859, p. 187. 



CAMILLO 



39 



taveis, traçada por alguns auctores, mostra- nos 
com fi-equencia a associação de psyco-nevroses com 
um alto desenvolvimento intellectivo \ Numa fa- 
mília estudada por Berti, em quatro gerações de 
cerca de oitenta indivíduos, derivados de um doi- 
do melancólico, observaram-se três homens de gé- 
nio, três criminosos, dezenove nevrofcicos, e dez 
doidos ^. Da linhagem de Carlos v, que teve alie- 
nados, lypemanos e excêntricos, nasceu um bas- 
tardo de génio : Alexandre Farnese ^. Beethoven 
era filho d'um alcoólico, Alexandre nasceu d'um 
bêbado e d 'um a mulher perversa e dissoluta, 
a mãe de Byron era desequilibrada e o pae um es- 
tróina bizarro e impudente *. O próprio Baudelaire 



1 Lki.UT : Le ffénie, Ia raii^on et la fo^ip, le demon de 
Socrate, \Sbb \ Galtox : Hereãitarif Génina, 1868; ^^0RKAU 
{de Tours): Ob. cit.; P. Jacoby : Étude Kiir la sele^-.tion daus 
ses ropporfs arec Vheredité chez Vhomme, 1881 : Lombroso : 
Ob. cit; Ribot: Ob. cit.; ^íaNTEGAzza: De la nevrose des 
<ira>idsJioninie^,{eá. ff.), 1881; H. .lOLLY : P.<i/cJiofogie des {jrnndx 
honunes, 1883; K. TOULOUSR : Emile Zola, 1896; Grasskt: 
La siiperiorifé intdlectuelle et la nevrose, 1903; Gaston 
Loyguk: Th-M. Dostoiew.tki, 1904:; MariaNN!: L. N. Tulsfoi. 
T. XXIV, fase. IV, p. 309 do Archivio dl Psicliiatria, S-Jienze 
jyenali e Antropologia criminnle, 1901- ; AivrURO Basano : 
Tommaso Hobbes,T. XXIV, fase. IV, p. 4:19 do Archivio dl Psi- 
chiafria.etc, 1904- 

2 LOMBROSO: Ob. cit. p. 210. 

3 Irkland: llie Blot vprm íhe Braln, 1885, p. 147; Di'> 
JÉ; i\e: Oh. cit.; Lombroso: Ob. cit. 

* LOMBROSc: Ob. cit.; Emílio Gastelar; Vida de Lor^ 
Byron (trad. de >[. Fernandes Reis), 18^6, 



40 CAMILLO 

escreveu que os ,seus antepassados^ idiotas ou ma- 
niacos, foram victimas de terriveis paixões *. Pedro,. 
o Grande e os seus dão á sciencia salientes casos 
de génio, imbecilidade, hábitos crapulosos, mortes 
prematuras, ataques epileptiformes, e virtudes e 
vicios levados aos últimos extremos ^. Por ultimo,. 
Voisin cita o caso typico d'um pintor de talento, 
íilho d'uma hjsterica o irmão de dois idiotas e de 
um alienado ^. Kiillum magnum íngenium nisi mis- 
tura qiiadam dementice, disse nm antigo; e a sciencia 
moderna pôde concretamente concluir: o génio é uma 
nevi^ose *. 

Na famiiia illustre cuja genealogia se perde no 
sendal dos tempos que mal deixa ver os vultos im- 
ponentes dos grandes senhores de Oviedo e de Leão,. 
o cadastro pathologico, já bem opulentado desde 
aquelle Domingos Pinto que desposou uma Botelho,, 
enriqueceu-se nesta altura com o exemplar mórbido- 
mais nobre. De Manuel Botelho — um doido, des- 
cendente d'nma famiiia de desordeiros, assassinos, 
loucos moraes, libertinos e excêntricos — e de D. 
Jacintha do Espirito Santo — a filha d'uma doida — 
nasceu um homem de génio : Camillo Castello- 
Branco. 



^ E. GnEPKT : (Euvres po^lJmmes et correftpondance inê- 
dite de Bauddaire. 

2 MORKAU (de Tours) : Ob. cit. 

3 Yoisin: Jleredité, no Dicílonaire de medicine et ciriir-- 
gie pratique, 1875. t. xvil, pag. 473. 

4 MoRLiAU (de Tours), Ob. cit. 



BIOõf^APHm 



. « Quand la nature crée tin homme 
de génie, elle lui secoue son flambeau 
siir la tète el lui dit: Va, sois malhea- 
reax! » 

DiDEROT 



1825-1844 



Camillo Castello Branco nasceu em Lisboa, numa 
casa d@ largo do Carmo, em 16 de março de 1825 
■e foi baptizado na egreja dos Martyres em 14 de 
abril do mesmo anno. A mãe morreu pouco tempo 
depois d'elle nascer e dos dez primeiros annos da 
sua vida apenas se sabe que em 1834 com o vis- 
conde de Onguella e seu irmão Ricardo Sylles 
Coutinho, frequentou uma escola de João Ignacio 
Minas Júnior, na rua dos Calafates. «A meu lado 
— escreveu Camillo — no banco da escola de pri- 
meiras letras, em Lisboa, por 1834, sentavam-se 
dois meninos, filhos d'um amigo de meu pae. Estou 
vendo, além, para lá da cerração de trinta e oito 
annos, aquellas duas creanças loiras e formosas, 
pedindo comigo a Deus que nosso mestre João 
Ignacio Luiz Minas Júnior fosse para a guerra. 
Porque o nosso professor era guerreiro por aquelles 
tempos. Com uma das mãos na palmatória e outra 



44: CAMILLO 

na espingarda, acudia pelo decoro do Lobato e pela 
restauração da monarchia representativa. Nas bate- 
rias de campo de Ourique devia de ser um bravo- 
João Ignacio; e, no gyneceu modestíssimo da rua 
dos Calafates, era um apaixonado fautor da religiáa 
do participio, e das outras não menos respeitáveis 
partes da oração. Isto vae ha muitíssimos annos r 
era num tempo em que se aprendia syntaxe. Dos 
dois meus condiscípulos um chamava-se Carlos, o 
mais novo dos dois, que tinha seis annos. D'aquella 
creança estou bosquejando hoje um perfil de bio- 
graphia. Yae nisto o que quer que seja para scismar 
e entristecer. E' a poesia melancólica — o funesta 
condão dos homens que vivem muito da vida intus- 
pectiva. Naquelle anno de 1834 nos apartamos. 
Meu pae morreu. E, como eu já não tivesse mãe 
nem fosse inteiramente pobre, a desgraça deparou- 
me parentes em Trás-os-Montes onde vim a enten- 
der que não ha lagrimas bastantes a deplorarem o 
destino de um orphão cora oito annos de edade, e 
as faces quentes e húmidas dos últimos beijos e das 
ultimas lagrimas de seu pae » *. 

Camillo não é sempre rigoroso em datas nas 
suas evocações. Manuel Botelho Castello Branca 
morreu em 22 de dezembro de 1835; e o própria 
Camillo, no seu livro Duas horas de leitura, confessa, 
que foi efíectivamente aos dez annos que ficou or- 



visconde de Oaguella. 



CAMILLO 4Õ 

pilão de pae: «Aos meus dez aimos — conta — le- 
vantou- se uma tempestade no seio da minha famí- 
lia. Uma vaga levou meu pae á sepultura, outra ati- 
rou comigo de Lisboa, minha pátria, para um torrão 
íigro e triste do norte: e a outra... Não merece 
<jhronica a outra : arrebatou-me um esperançoso 
património. Foi bera pregada peça para que eu não 
tivesse a impudência de nascer, a despeito da moral 
juridica, filho bastardo de não sei que nobre. Dis- 
seram-me que uma lei da Senhora D. Maria i me 
desherdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais 
cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente 
para os filhos do peccado. Denorainava-se — apiedo- 
f>a, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a 
fogueira de vinte mil hebreus, se chamou — o pie- 
doso. A boa da historia é uma trapalhona». 

Por deliberação do conselho de familia, Ca- 
millo foi levado para Villa Real, entregue aos cui- 
dados de D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, 
irmã de seu pae. «Embarcamos no barco a vapor 
chamado Jorge IV — conta clle no livro No Bom 
Jesus do Monte — . Uma criada, que tinha ares de 
mestra de minha irjuã, veio comnosco, estipendiada 
por conta do nosso património. A senhora Carlota 
Joaquina não me esquece. Era uma mulher gorda, 
façuda e frescalhona, que bolsava os figados do 
beliche abaixo, e gritava d d'el-rei de afiflicta com 
o enjoo. Era immundo, sujo a mais não poder, o 
Jorge IV. A camará era commum dos dois sexos, 
com menos resguardo que os mosteiros dúplices 



46 CAMILLO 

da edade media; mas os ânimos dos passageiros 
pareceram-me a negação de toda a ideia monástica. 
Os homens do beliche do segundo andar conversa- 
vam com as mulheres do primeiro diálogos entre- 
cortados de vómitos. A senhora Carlota, que ficou 
á minha esquerda, praguejava contra o seu destino;. 
e o meu vizinho da direita, sujeito de grandes 
barbas, sahia do beliche em menores para lhe ter 
mão da testa. Esta caridade absolve a inconve- 
niência da mistura. Dos passageiros nenhum fala- 
va inglês, e o criado da camará, que também 
era fogueiro, attenta a negrura encarvoada da ca- 
misa e cara, quando lhe pediam chá, café, ou um 
caldo de gallinha, dava sempre agua por um canudo- 
de lata. Carlota exclamava: — Eu morro! — Tenha 
IMcienda^ menina!^ acudia o homem das barbas. 
— Não lia-de morrer querendo os deuses. Devia de 
ser pagão o monstro! — Eu morro! rebramia ella. 
Quero confessar-me! . . . — Não peça a confissão a 
estes brutos, observava-ihe o meu vizinho, que alénn 
de não terem Deus nenhum, se a menina lhes pede 
um padre, trazem-lhe agua na lata surrada. Havia 
muito mar quando se avistou a barra do Porto ; e- 
por isso arribamos á GaUiza. A nossa Carlota, as- 
sim que pôs os quatro pés e os dois estômagos na. 
hospedaria de Vigo engordou outra vez. O pagão- 
não sahia da beira d'ella. No dia seguinte abalou 
a caravana para Tuy por uns caminhos que Deus e 
a civilização já fizeram desapparecer da face do. 
globo. Ao outro dia passamos a Valença; depois a 



CAMILLO 47 

Ponte do Lima, e de lá a Braga em romagem ao 
Bom Jesus. » 

«Tinha eu nove annos, e era orphào — escreve 
o romancista no capitulo que precede aquelle d'onde 
transcrevi a narrativa da viagem. — Dois meses 
depois doeste desamparo, com o tenro coração fis- 
tulado de saudade, a desbordar de lagrimas, e os 
ouvidos ainda resoando-me á alma o estertor da 
agonia de meu pae, é que eu, pela primeira vez, 
entrei no Santuário do Bom Jesus. As lembranças 
gravadas pelas fugitivas impressões d'aquella edade, 
são poucas; mas assim mesmo, em todas as épocas 
ulteriores que ali fui, o tão remoto passado, com as 
suas quasi delidas memorias, vinha entre-luzir-me 
nas commoções melancólicas do presente. Os grupos 
piedosos das capellas que prendem a curiosidade 
da creança, já enternecendo-a com o aspeito doce e 
aííligido de Jesus, já apavorando-a com o gesto 
sanhudo e esgares ferozes dos soldados de Poncio, 
pouco me lembram, salvo um rapaz do meu tama- 
nho de então, que chegava os pregos aos cruciíica- 
dores do martyr. O que ainda indelevelmente diviso 
na tela do meu espirito dos nove annos, é as grandes 
arvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos, 
e, lá em baixo, um oceano de verdura ondulando 
entre outeiros, e á volta dos presbyterios, casalejos, 
e edifícios de grande porte, que alvejavam d'entre 
a espessura dos arvoredos. Que devanear seria o 
meu naquelle dia? Quando eu punha os olhos, 
carregados de lagrimas, no azul do oeu, que tão 



48 CAMILLO 

outro se me figura lioje, que aza de anjo da angustia 
levaria para lá a minha prece ! Nella se me iria a 
alma, em anceios de saudade, procurar meu pae 
que, ao sahir do mundo, nem sequer me deixara 
mãe, que me ensinasse a orar por bi.e. Devo ajuizar 
da minha precoce sensibilidade, recordando que, 
dois meses antes, entrei, por noite alta, na sala onde 
meu pae esta /a amortalhado, sem mais companhia 
que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei, 
«em orar. Afastei da fronte do cadáver o capuz do 
habito, e beijei-lh'a. Puz também a boca nas mãos 
glaciaes; senti um frio de que ainda o coração me 
guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. 
Ao meu lado, ninguém. A irmã que eu tinha, alguns 
annos mais velha, encerrára-se com a sua dôr e com 
o seu terror de cadáveres. E eu estava ali, desteme- 
roso das sombras que desciam dos ângulos do tecto 
á penumbra do clarão oscillatorio das tochas. Largo 
espaço contemplei a face de meu pae, aformoseada 
pelo resplandor da aurora do dia eterno; e assim 
ponderei as ultimas palavras que lhe ouvira, con- 
fiadas ao frivolo espirito dos meus nove annos : 
Que será de ti, meu filho, sem. ninguém que te ame! . . . 
Poucas horas depois que m'as disse, fez-se noite 
naquella alma: dez dias volvidos, as trevas desata- 
ram-se ante o alvorecer da eternidade, E eu assis- 
tira, dia e noite, a esta agonia.» 

Na Bohemia do Espirito vem, datada de 84, uma 
impressão da primeira viagem de Camillo. «Eu 
tinha dez annos quando, pela primeira vez, fui ao 



CAMILLO 49 

Bom Jesus do Monte — escreve o romancista — . 
Eu, com outros romeiros, vinhamos de Vigo onde 
nos aproara uma tormenta no alto mar. A minha 
criada, muito amante da vida, fizera uma promessa 
ao Bom Jesus; e, no cumprimento da sua palavra, 
de passagem para Trás-os-Montes, convidara alguns 
companheiros de jornada a subirem to alto da mata 
para agradecerem ao miraculoso Senfior o seu sal- 
vamento. Eu, como disse, tinha dez annos, e estava 
também ajoelhado na capella onde se venera a im- 
ponente esculptura. Emquanto os meus companhei- 
ros agradeciam com fervorosa uncção o prazer da 
vida, recordo-me que scismava, muito em deshar- 
monia com a acção de graças d 'aquella gente. Pen- 
sava eu se me não teria sido muito mais benigno o 
Senhor do Monte deixando-me resvalar ao abysmo, 
amortalhado em uma das suas ondas menos amargas 
que as lagrimas que eu havia de derramar em nau- 
frágios de maiores agonias. Porque eu, aos dez 
annos, vinha de perder meu pae, quando já não 
tinha mãe; sahia do aconchego da c^isa paternal 
desfeita como um ninho espedaçado por um furacão ; 
e ia para uma terra desconhecida, enviado a parenteá 
que nunca me tinham visto. Era por isso que eu, 
pensando na infelicidade da existência, scismava se 
Deus me seria mais benigno deixando-me ir procurar 
as almas dé meu pae e de minha mãe. Ha cem 
annos que este f^enhor crucificado vê umas poucas 
de gerações prostradas deante do seu altar — uns a 
agradecer, outros a supplicar. Pois talvez no trans^ 



50 CAMILLO 

curso de um século, nenhuma o^itra creança de dez 
annos repetisse deante d'esta sagrada imagem, as 
palavras de Job: Quare de vulva edu.H.sti me! — 
Porque me deste o nascimento ? » 

Em Villa Real, D. Rita Castello Branco come- 
çou educando o sobrinho numa liberdade menos- 
ampla que aquella a que o pequeno vinha acostu- 
mado da sua vida de Lisboa. Elle era o filho único 
d'uma aventura de romance em que o tédio veio, 
ao que parece, matar em breve o exaltado amor 
que a provocou, e como quer que os dois ficassem 
— pae e mãe — vivendo uma mesma vida, de rela- 
ções cortadas com o passado, sem enthusiasmo de 
amantes, unidos por uma ligação serena que veio 
tarde para transmudar na tranquillidade feliz d'um 
lar uma agitada existência de novella, percebe-se 
como ambos elles consagrassem ao filho, apaixona- 
damente, o affecto que d'um para o outro andava, 
incomprehendido ou despresado. Cercavam-no de 
mimos, faziam passar o primeiro periodo da sua 
educação sem uma rudeza, sem um estorvo, e o 
caso é que o futuro romancista, assim creado á 
larga, no melhor meio para o amplo desenvolvi- 
mento das tendências innatas do seu espirito, antes 
da época em que ficou sem pae, já, em namoricos, 
exhibia as tendências libertinas de pivete. 

Não é assim por certo que se faz d'uma creança 
um instrumento dócil, amoldavel pelas reprimendas 
d'uma tia severa e rabujenta. Camillo era travesso, 
irrequieto. « Quando eu tinha dez annos, e vivia 



CAMILLO 51 

em Villa Real — diz elle no primeiro volume das 
Memorias do Cárcere — morava defronte d 'um pro- 
curador de causas, que tinha um filho da minha 
edade, menino muito sisudo e galante. Se eu o con- 
vidava a apedrejar algum transeunte, Leonardo re- 
cusava-se a esta camaradagem ignóbil, e escondia-se 
para não dar suspeitas de cumplicidade nas minhas 
travessuras de fundibulario ... Vi entrar na Rela- 
ção o meu vizinho de infância, e não o conheci. 
Ouvi-lhe pronunciar o nome, e as circumstancias 
dos seus crimes : então vi a creança de 1836 e o 
perpassar d'aquellas risonhas scenas em que elle me 
apparecia com gestos de censura ás minhas trope- 
lias, e com grandes applausos e bons agouros da 
vizinhança, a quem eu era odioso » . A irmã do ro- 
mântico degredado do Amor de Perdição não tinha 
já edade nem paciência para supportar de boa som- 
bra as « travessuras de fundibulario » do sobrinho 
e, naturalmente revoltado contra uma rispidez bem 
diversa dos carinhos dos seus primeiros annos, 
num primeiro impulso d'aventura que bem ficava 
em quem viria a ser um exemplar completo de fa- 
talidade mórbida de herança, um bello dia, com um 
par de pingas e duas camisas atadas num lenço, 
Camillo abalou para Lisboa. 

« Pedi ao conselho de familia que me vestisse 
— diz elle no livro No Bom Jesus do Monte — e o 
conselho de familia, em reunião de 10 de julho de 
1837, deliberou que me vestissem num algibebe e 
me reenviassem para qualquer parte ...» Essa qual- 



52 CAMILLO 

quer parte foi a aldeia de Villaririho de Samardan, 
«em Trás-os-Montes, na comarca de Villa Real, so- 
branceiro ao rio Córrego, no desfiladeiro de uma ser- 
ra sulcada de barrocaes » , ^ onde, em companhia de 
uma irmã casada com um medico, irmão do padre 
António d'Azevedo que o iniciou nos mysterios do 
latim, Camillo, levando a vida do campo, fazendo-se 
pastor do rebanho da casa, indo para o monte ar- 
mado, prompto ao combate com o lobo, simulta- 
neamente aprendendo o cantochão e lendo Camões 
e o Mendes Pinto, passou então, como elle conta, 
o periodo mais feliz da sua vida. Ainda nas Duas 
horas de leitura, vêm descriptos, com todo o pit- 
toresco encanto d'uma prosa incomparável, esses 
episódios interessantes dos seus primeiros tempos. 
«Fui educado — diz elle — numa aldeia onde tenho 
uma irmã casada com um medico, irmão d'um pa- 
dre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar- 
me muita coisa que me falta ; mas eu era refractá- 
rio á luz da gorda sciencia do meu padre. Fugia 
de casa para a serra, dava muitos tiros ás galli- 
nholas e perdizes ; porém, louvado seja Deus, não 
me doe o remorso de ter matado uma ! O meu 
gosto era pascer o rebanho de casa por aquelles 
saudosos valles. Todavia, minha irmã oppunha-se 
a este humilde serviço. Dizia-me coisas que eu não 
percebia acerca da minha dignidade ; reprehendia 



1 Gamillo : Seroens de S. Miguel de Seide. 



CAMILLO 53 

OS meus baixos instinctos ; attrahia ao seu voto o 
marido e o padre e corbava-me o rasteiro voo es- 
condendo de mim a clavina, o polvorinho, e os sal- 
picões, e a broa, e a cabacinha da agua-ardente. 
Não obstante eu pedia tudo de empréstimo, e ia 
com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia in- 
teiro, sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fra- 
gosos, sempre sósinho, scismando sem saber em 
quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenha- 
deiros». «Eu é que conheço a Samardan, desde os 
meus onze annos — diz ainda Camillo no prefacio 
do Degredado. — Está situada na provincia trans- 
montana entre as serras do Mesío e do Alvão. Nas 
noites nevadas, as alcatéas dos lobos descem á al- 
deia e sevam a sua fome nos rebanhos, se vingam 
descancellar as portas dos curraes ; á mingua de 
ovelhas, comem um burro vadio ou dois; consoante 
a necessidade. Se não topam alimária, uivam lugu- 
bremente, e embrenham-se nas gargantas da serra, 
illudindo a fome com rapozas ou gatos bravos ma- 
rasmados pelo frio. Foi ali que eu me familiarizei 
com as bestas-féras : ainda assim, topei-as depois, 
cá em baixo, nos matagaes das cidades, taes e tan- 
tas que me irriçaram os cabellos. Na vertente da 
montanha que dominava a Samardan, havia um 
fojo — uma cerca de muro tosco de calháos a esmo 
onde se expunha á voracidade do lobo uma ovelha 
tinhosa. O lobo engodado pelos balidos da ovelha, 
vinha de longe, derreado, rente com os fragoedos, 
de orelha fita e o focinho a farejar. Assim que dava 



64 



CAMILLO 



tento da preza, arrojava-se de um pincho para o 
cerrado. A rez expedia os derradeiros berros fugin- 
do e furtando as voltas ao lobo que, ao terceiro 
pulo, lhe cravava os dentes no pescoço e atirava 
com ella escabujando sobre o espinhaço ; porém, 
transpor de salto o muro era-lhe impossivel, por- 
que a altura interior fazia o dobro da externa. A 
fera provavelmente comprehendia então que fora 
lograda ; mas, em vez de largar a preza, e aliviar-se 
da carga, para tentar mais escoteira o salto, a es- 
túpida sentava-se sobre a ovelha e, depois de a es- 
folar, comia-a. Presenciei duas vezes esta carnagem 
em que eu, animal racional, levava vantagem ao 
lobo tão somente em comer a ovelha assada no for- 
no com arroz». ^ «Neste instante, vejo, palmo a 
palmo, aquelles sitios. Se eu ali for, vou sentar-me 
ao pé de uma rocha, no recosto de uma brenha, 
justamente onde recebi, ha quinze annos, dois anneis 
de missanga. Ora estes anneis. . .» ^ 

Estes anneis têm uma historia que merece ser 
contada, porque se relaciona com um dos mais in- 
tensos episódios da. existência melodramática do 
romancista. Mas, antes de contá-la, eu tenho de re- 
ferir outras aventuras que, em ordem chronologica, 
antecederam essa. A historia dos seus primeiros 
versos — uma Ode ingénua, com o seu Alcino e a 
sua Elmena — anda ligada, como é natural, a uma 



1 Gamillo : Novellas do Minho. 

2 Gamillo : Duas horas de leitura. 



CAMILLO 



55 



breve historia de paixoneta infantil que Camillo 
conta do seguinte modo no seu livro Ao anoitecer 
da vida : 

«... Por esse tempo (1842) ^ fui eu a uma 
romaria da Senhora Apparecida ^, duas léguas ao 
sul da mesma serra, na quebrada d'outra serra da 
mesma cordilheira. Já eu tinha dado algumas vol- 
tas em roda da ermida, ao lado do rabequista que 
era o mais atrevido imaginador de phantasias chu- 
las. Chulas chamam lá ao complexo do instrumen- 
tal que forma o essencial de taes festanças. Em 
outras partes da provincia dizem ronda e estiirdia 
noutras. Parara a ronda, como visse que outra lhe 
sahia á frente, mais galharda, com maior séquito 
de moças e sobre-excellencia de um clarinete que 
guinchava umas deliciosas variações algum tanto 
abafadas pelo retumbar do zabumba e grilharia 
dos ferrinhos. A ronda a que eu ia associado não quiz 
ceder o passo á outra que era de rópia e basofia. 
Esta, um pouco desconcertada, deteve-se momentos 
em conselho deliberativo ; mandou as mulheres e 
rapazio para a rectaguarda : recolheu os músicos 
ao centro e cobriu a frente com quatro espadaúdos 



^ Ueve ser 1841. Já íicou dito que os erros de datas 
são frequentes nas evocações de Camillo. 

2 Segando o sr. Alberto Pimentel ( Os amores de Ca- 
millo) « a romaria não era da Senhora Apparecida, mas 
da Senhora da Pena, em Mouçoz, nas cercanias de Villa 
Real ». 



56 CAMILLO 

moços de pau ferrado. D'alii a nada, as cabeças 
amolgadas eram mais que os paus; as rabecas iam 
soando pelos ares como harpas eólias ; os bombos 
gemiam roucos ao arrebentarem ; o homem do cla- 
rinete salvava-se no topo da serra com o inspirado 
instrumento, e a cantadeira mais insigne d'aquelles 
arredores, que sustentara desafio duas horas, amal- 
diçoava o estro fatal que a fez quinhoeira d 'uma 
bordoada que a deslombou. Parecia o dia de juizo ! 
Devo á minha presença de espirito sahir illeso d'esta 
suprema provação. Estava ali perto uma pipa que 
os gladiadores respeitaram por não sei que prodi- 
gioso instincto. Os paus travados desensarilhavam- 
se, quando, ao roçarem pela pipa, o taverneiro lhes 
gritava aos cegos da ira : — Rapazes! não 7ne bofeis 
a perder! Olhae que me abrides o vinho! Parecia 
coisa de milagre ! Desandavam logo como de logar 
sagrado e não respeitavam as opas dos irmãos da 
confraria, muitos dos quaes sahiram moidos da fes- 
ta, por se metterem a pregoar pazes. Salvei-me 
pois, encostado á pipa, onde me acolhi depois de 
raciocinar friamente sobre as evoluções da tremenda 
batalha. D'aqui presenceei o triste espectáculo de 
dezenas d'homens esmoucados e centenares de mu- 
lheres, velhos e creanças, ajoelhados por aquellas la- 
deiras, pedindo clamorosamente á Senhora Appa- 
recida que tivesse mão d'aquelles homens que se 
matavam. Entrelembro-me de que estas supplicas 
aproveitaram, excepto a dois, que lá ficaram enter- 
rados no adro da ermida: um d'estes era o zabum- 



CAMILLO 57 

beiro da ronda agressora, e o outro era o violista 
da minha, engenhosissima creatura que tocava tuda 
quanto havia em dois bordões e uma prima, prima 
da viola, quero dizer. Deus os tenha a ambos nos 
coros angélicos, já que o mundo não era digno 
d'elles. Applacada a desordem, agradeci mental- 
mente á pipa aquelle como inviolável protectorado 
do pavilhão inglês (vem do ceu ao pintar todas as 
comparações com ingleses, quando cheiram a vinho) 
e fui procurar os destroços dos meus amigos. Um 
sacerdote de boa presença andava providenciando 
acerca dos mortos e dos feridos. Com este padre, 
vigário da freguezia próxima, andavam duas sobri- 
nhas, vestidas senhorilmente, com suas barretinas 
de palha de Itália, plumas escarlates e vestidos 
brancos de mangas perdidas. Eram umas tafulas ! 
No tocante a rosto, mais feiticeiras mulheres nunca 
meus olhos tinham visto, nem a minha devaneadora 
poesia as entrevira em sombra. Perguntou-me o 
padre quem era eu; e succedeu ser eu irmão de 
uma conhecida d'aquellas esbeltas senhoras. Feste- 
jaram-me com muitos cuidados pela minha segu- 
rança, e deram-me de merendar umas saborosas 
talhadas de salpicão e fructa seca, tudo condimen- 
tado pelos sorrisos supra-celestiaes de uma das duas 
mocetonas, que a estas horas. . . santo Deus! como 
isto é triste! devem ter netos e raros vestígios 
d'aquellas lustrosíssimas pérolas que lhes divinisa- 
vam o sorriso ! Ao lusco-fusco, o vigário sahiu da 
romagem com as sobrinhas, e eu, com os meus. 



68 CAMTLLO 

conterrâneos, caminhamos em direcção opposta, para 
os nossos sitios. Estive largo espaço no têzo d'um 
oiteiro, emquanto os olhos alcançavam, por entre o 
já carregado crepúsculo, as brancas visões que trans- 
montavam a coUina próxima. Depois que de todo 
em todo desciam na quebrada invisível do oiteiro, 
ainda ali me fiquei, vendo-as no arrebol do hori- 
zonte, e na estrella vesper. Depois, tornado em mim 
pelas vozes dos meus companheiros, que já me não 
enxergavam, dei tento então de estar chorando. 
Eram as primeiras lagrimas do coração. E quer 
agora ver o leitor o que fazem lagrimas aos quinze 
annos? Veja nas seguintes linhas a face irrisória de 
um primeiro amor. Olhem a ingenuidade com que 
eu quiz metrificar as minhas primeiras e parvoinhas 
innocencias e admirem-se da mais sandia ingenui- 
dade com que as divulgo, sem corrigi-las sequer. . .» 
«Riram-se ? — escreve Camillo após a transcripção 
dos versos. — Agora saibam que esta cataplasma 
me foi um vesicatório no coração. Muita lagrima 
chorei naquelles meus quatorze annos ! Subia eu á 
crista d 'um oiterio, d'onde se avistavam umas como 
névoas de fumo, a duas grandes léguas de distancia. 
Ali imaginava eu que devia ser a aldeia de Elmena, 
e presbyterio do tio, e a guarida das avesinhas que 
a viam, e lhe annunciavam a madrugada. Do oiteiro 
me descia ao entardecer, chorando e escogitando 
na traça de lhe mandar a minha ode. De ninguém 
fiava a remessa, ou ninguém se encarregava do 
mandato. Uns riam de mim, outros escarneciam-me. 



CAMILLO 59 

e os mais sizudos mandavam-me jogar o peão ou 
oonjugar um verbo da arte do padre Pereira. Pou- 
cas semanas volvidas, sahi d'aquella terra para outra, 
onde vivia um mestre de latim, sujeito de não vul- 
gar lição, pregador de fama, e bom velho sobretudo, 
o padre Manuel da Lixa. . .» 

A historia d'esses versos de Camillo lembra logo 
■a d'uns outros, seus também, documento d'outra 
historia de castos amores da sua adolescência. São 
os que elle próprio recorda quando no Discurso 
Preliminar das Memorias do Cárcere conta a visita 
que fez a Samardan num dos mais dolorosos perío- 
dos da sua vida. «Ao seguinte dia da minha che- 
gada — escreve — parti para a aldeia onde passara 
alguns annos da minha infância na companhia de 
minha irmã. Ali era que me levavam memorias, que 
por ahi estão escriptas em livrinhos de que o leitor 

se não lembra. Ali estava aquella Luiza . . . 

Ai! Luiza, 

... a ílôr d'entre as fragas, 

que eu cantei num poema, escripto com as minhas 
ultimas lagrimas, adoçadas de esperanças ! Passei 
por ella e não a conheci. Meu sobrinho ia murmu- 
rando ao meu lado: 

Luiza, ílôr d'entre as fragas 
Donairosa camponeza, 
Typo gentil de pureza, 
Lindo esmalte das campinas. 
Colhes, no prado, as boninas? 



60 CAMILLO 



Brincas, á tarde, na espalda, 
Onde verdeja a alameda 
Da viva côr da esnaeralda? 
Brincas, Luiza, afagando 
O que mais amas no bando, 
O teu alvo cordeirinho ? 

Encarei, sorrindo tristemente, em meu sobri- 
nho, e elle disse-me: — Não a vê? — Luiza f — Sim. 
Aquella que tem os braços cruzados. Contemplei-a,^ 
e vi uma velha. — Aquella que me está olhando ? ! — 
repliquei. — A mesma Luiza de ha quinze annos. 
E eu disse comigo : Estará ella dizendo ás outras .- 
— Elle é aquelle velho ? ! E passei avante. E meu 
sobrinho ia recitando com sentimental ironia os 
versos do meu poemeto, consagrado aquella Luiza, 
que fora nova e linda : 

E eu amei-a muito !. . . 

A' tarde, 
Quando o sol no occidente 
De escarlate as selvas tinge, 
Com o brilho refulgente 
Da floresta incendiada, 
Fui sentar-me pensativo, 
Sobre a agulha dos rochedos. 
Decifrando em minha alma 
Indecifráveis segredos. 

Além, nas várzeas do vai, 
Tinha quanto o coração 
Sonha de bello e immortal 
Na sua ardente ambição. 
Nem mais formosa que ella. 



CAMILLO 61 



Nem mais pura o mundo a tinha! 
j Quizera vê-la, e não vê-la.. . 

Antes fugir-lhe. . . oíl'endê-la. . . 
Mais valera não ser minha ! 

— E pois^ aquella a Liiiza... — murmurei eu 
tão de manso, que só a minha alma podia ouvir-se. 
E na noite d'aquelle mesmo dia, quando a lua asso- 
lo ou das montanhas, fugi á aldeia da minha infân- 
cia e da infância de Luiza. . .» 

Quem era Luiza, a musa inspiradora d'esse ro- 
mântico amor de adolescente ? «. . .Uma camponeza 
de encantar. Distinguia-se por bonitas feições : bran- 
ca, faces coradas, olhos castanhos muito vivos ; ca- 
bello abundante, da cor dos olhos ; estatura meã ; 
magra e ílexivel como se proviesse de raça íina. 
Alegre e folgazã, tinha comtudo maneiras senhoris^ 
que completavam um conjuncto de perfeições raras 
em mulher nascida na Samardan, entre serras » . 
« Estas informações — annota o sr. Alberto Pimen- 
tel no seu livro Os amores de Camillo, d'onde tam- 
bém as precedentes palavras são transcriptas — fo- 
ram colhidas em Villarinho de Samardan, a meu 
pedido, pelo sr. conselheiro António d'Azevedo 
Castello Branco, sobrinho de Camillo » . 

Ora a aldeia para onde Camillo partiu, semanas 
depois da batalha da romaria e consequente paixão 
poética pela Elmena, sobrinha do presbytero, era 
Friume, povoação da margem esquerda do Tâmega, 
na freguezia de Salvador de Eibeira da Pena. Sua 
tia, D. Rita Castello Branco, fora de Villa Real visi- 



62 CAMILLO 

tar o genro que ali morava e Camillo acompa- 
nhou-a. ^ Na povoação havia a Joja, a loja conhe- 
cida de todas as nossas aldeias, simultaneamente 
armazém de modas, mercearia e club, de que era 
proprietário um tal Sebastião Martins dos Santos^ 
que, tendo nascido em S. Cosme de G-ondomar e 
exercido na terra natal a profissão de alfaiate, para 
aquellas paragens trasmontanas depois se transfe- 
rira. Ali chegou Camillo, alegre e estróina, com a 
sua guitarra a tiracollo e um arsenal bem sortida 
das mais sonoras rimas e, desde logo, conquistou as 
boas graças de Luiz da Cunha Lemos, secretario 
da camará e da administração do concelho de Ri- 
beira da Pena, escrivão da fazenda e tabellião do 
julgado, que lhe deu um logar de escrevente, e da 
filha do tendeiro, Joaquina Pereira de França, que 
lhe deu o coração. Era a moçoila uma lavradeirona 
rija, de bella carnação sadia que excitava o tempe- 
ramento sensual do futuro do romancista e, como 
quer que o homem da loja logo ali farejasse um 
bom partido e aproximasse com prazer os namo- 
rados, Camillo, preso das graças da rapariga, não 
sabendo resistir — casou com ella. Era ainda em 
1841. Tinha elle então dezeseis annos. E Sebastião 
dos Santos, que á viva força queria ter um doutor 
na familia, mandou-o aprender mais latim para a 
Granja Yelha, logar próximo de lá, onde o padre 
Manoel de Lixa residia. Foi ahi que diabruras me- 



* Alberto Pimentel : Os amores de Camillo. 



CAMILLO 63- 

tricas fizeram com que, aconselhado pela prudência 
do sogro, Camillo tivesse de partir para Lisboa. 
Quaes essas diabruras foram elle o conta, embora se 
não refira ao casamento, que, de resto, procurou sem- 
pre occultar. «Naquella terra — diz o prefacio do 
livro Ao anoitecer da vida — andavam ás más dois 
irmãos de fidalga prosápia, á conta do casamento 
desigual que um d'elles intentava fazer, contra a 
vontade do mais velho. Por parte dos sequazes d'este 
me foram pedidos uns versos, em que a noiva meno» 
fidalga e o apaixonado mancebo fossem chanceados 
á custa de me não lembro que antecedencias, mui 
ageitadas á galhofa métrica. Deu-me soberbas uma 
incumbência d'este género ! Poeta, e de mais a mais- 
requestado para intervir com a minha opinião em 
casamento tão falado nas vinte aldeias circumpos- 
tas ! Escrevi uma folha de almaço em quadras, que 
os interessados na publicidade afixaram na porta 
da egreja, momentos antes da missa das onze horas. 
O boticário, que seguia as partes do morgado, lia a 
satyra á populaça, que ria ás escancaras. E eu de 
lado a rever-me na obra e a saborear-me nas alva- 
res cascalhadas do gentio ! Por um cabello que nãa 
fui então martyr do génio ! A victima crucificada na 
porta da egreja não era das que dizem: Senhor, per- 
doae ao poeta, que não sabe as asneiras que diz! Ape- 
nas lhe constou que era eu o instrumento da vin- 
gança de seu irmão, preferiu quebrar o instrumento 
e deixou não só o fidalgo, que também o boticário 
em paz. Poeta era eu só naquelle quadrado de dez 



^4 CAMILLO 

léguas : avisadamente conjecturou o homem que, 
esganando a musa que o verberara, abafaria aquelle 
respiraculo de detracção inimiga. O padre-mestre 
avisou-me, horas antes, da espera e da sepultura. 
Fugi com o magniim lexicon debaixo do braço e 
com os ossos direitos que aquella terra ingrata me 
queria comer » . 

De Lisboa, a breve praso, Camillo foi para o 
Porto e, de lá, um bello dia, porque as recordações 
dos tempos idos mais o incitassem, voltou para a 
Samardan. E foi então que recebeu os taes anneis . . . 
Romanticamente os recebeu d'uma mão de mulher. 

O casamento fora para elle uma passageira aven- 
tura. Se nos interrogarmos neste ponto sobre o 
motivo que o levou a um acto em que a paixão, 
dócil demais á vontade d'um sogro ambicioso, não 
havia de ser muita, temos de fixar o seu tempera- 
mento de sensual, um pouco grosseiro, sem uns 
requintes de delicadeza que fossem bem com o sentir 
d'um bardo que canta, um a um, os seus amores. 
Havemos de vê-lo assim pela vida fora, amando 
sempre, amando com a anciã soífrega da posse, o 
crepitar d'um desejo irreflectido, arrebatado, que, 
satisfeito, nada deixa de si, e, por consequência, a 
incapacidade para uma vida tranquilla, de amorosa 
paz que não teria, mesmo que circumstancias outras 
não interviessem a impedi-la, na intimidade do seu 
primeiro lar. 

Na vida de Camillo ha a pôr em destaque, para 
um logar primeiro, a sua feição amorosa : elle foi 



CAMILLO 65 

um sacrificado ao amor, como já o haviam sido, em 
linha de curta ascendência, os seus maiores, e como 
a mais que qualquer d'esses, elle tivesse ainda o 
amor ás letras, .toda a pequenina paixão se engran- 
decia, enriquecida pela sua imaginação exuberante, 
romantizada pelo seu génio d'artista/ Junte-se esse 
vidro d'angmento que existe vulgarmente na con- 
sciência do artista pelo que toca a assumptos de 
coração a uma pronunciada tendência hereditária e 
mais á anciã de procurar aíFectos fortes, natural 
ém quem, como elle, cedo tenha ficado quasi só no 
mundo, e ter-se-á justificada a maneira preponde- 
rante como o amor influiu na vida inteira de Camillo, 
subindo a timoneiro das suas acções e arbitro supe- 
rior do seu destino. 

. Emquanto Joaquina Pereira, em Friume, com 
uma filha nos braços, chorava a ausência do marido, 
Camillo, indo a Samardan matar saudades, deixa- 
va-se prender pelos encantos da Maria do Adro, 
camponeza do logar. A rapariga era triste, desde que 
uma doença lhe levara as louçanias melhores da 
mocidade, e como quer que ao romancista agradasse 
essa melancolia de sempre, que a fazia contempla- 
tiva, guardando-se com os seus pensamentos da 
alegria bulhenta das mais, ahi começou um. honesto 
idyllio, conversas ao crepúsculo com e.xtasis pan- 
theistas, promessas, juramentos, na ingénua poesia 
d'um singelo amor de adolescentes. : : 

«Estes anneis, meu caro Barbosa —- esQr.eve Ca- 
millo nas Dua-b' horas de /e/^^^ra — déramos a Maria 

5 



66 CAMILLO 

do Adro. Sabes tu lá quem era a Maria do Adro?! 
Desce da elevada esphera por onde voejam as tuas 
preoccupações, cá abaixo, ao razo de uma mulher 
do povo. Maria do Adro era filha de uma viuva 
pobre. Tinha dezesete annos. Fora bonita até aos 
quinze ; depois, uma enfermidade grave emmagre- 
ceu-lhe a face, amarelleceu-lhe a pelle, e sugou-lhe 
a seiva que viçava em fiôres por todo aquelle rir e 
olhar de descuidosa innocencia. A' mudança de 
semblante correspondeu a da alma. Fez-se melan- 
cólica e taciturna. Não arranchava para dançar de 
roda, nem cantava nas espadeladas de linho. Cha- 
mavam-lhe mona as azougadas companheiras, e ella 
o que respondia ás provocações era: — Andae, andae^ 
raparigas; eu também me diverti assiin^ qtiando 
tinha saúde. E muito divertida dizem que ella fora. 
Cantava ao desafio com muita graça, e até, dizia- me 
o padre-mestre, com versos certos e sentenciosos» 
Minha irmã disse-me uma vez : — Esta Maria do 
Adro distingue-se entre todas as outras. Tem um ar 
senhoril que não parece do seu tracto. Isto impres- 
sionou-me e eu reparei na moça, que até ali me fora 
indifferente. 

«Reparar, quando o coração repara mais que O' 
juizo, é amar. Achei a tal distincção. Esqueci as 
perdizes e as ovelhas, ia, sempre que Maria estava 
em casa, sentar- me num toro de castanheiro á porta 
d^eila; visitava-a na leira, cortinha ou horta onde 
^lla estivesse; dizia-lhe todos os dias a mesma coisa 
e ella responcjia-me sempre com o seu sorriso meigo, 



CAMILLO 



67 



dando-me umas vezes uma flor do monte, outras um 
abraço de videira. Maria, de madrugada, nào faltava 
á primeira missa. A aldeia tinha cinco padres; e 
eu, por causa d'ella (Deus me perdoe a intenção), 
ajudava ás cinco missas, se Maria estava até á ulti- 
ma; se não, não. Na quaresma era certa todos os 
domingos á tardinha na Via-Sacra, em redor do 
presbyterio. Lá ia eu para a Via-Sacra, ouvir o 
numero de gemidos que uma arithmetica piedosa 
fez gemer ao Salvador do mundo. Minha irmã, que 
devia á devoção a sua felicidade, era quasi sempre 
a que entoava as Estações. Tudo poesia para mim ! 
Comecei a quinhoar da fé que a divina graça repar- 
tia por ambos. Minha irmã Carolina, que eu vira em 
Lisboa preparando-se para entrar no golfão das 
delicias brilhantes, onde é necessário para haurir o 
goso completo esquecer a Deus!. . . ali, depois, entre 
quatro montanhas, aos vinte e dois annos, com um 
livro de Yia-Sacra, ajoelhada, deante de uma cruz 
tosca!. . . Entre nisto, meu amigo. . . 

« Nos dias de calma, pela estação das segadas, eu 
ia sentar-me debaixo d'um castanheiro vizinho da 
leira, á hora da sesta, conversando com Maria, em- 
quanto as outras dormiam, ou pulavam em redor 
de uma viola. Nunca lhe disse que a amava. Pare- 
ce-me até que não conhecia ainda este verbo, em 
cuja conjugação depois me exercitei tanto que lhe 
descobri um tempo novo : é o plusquam imperfeito. 
Que lhe diria eu?! Perdi a lembrança do colorido; 
retive, apenas, as imagens nuas d'aquelles quadros 



68 CAMILLO 

de iniiocencia. Sei que encostava a cabeça ao regaço 
d'ella, e este grupo faziamo-lo com tanta singeleza, 
que a approximaçào d'alguem não nos assustava. 
Dado o signal do trabalho, Maria tomava a sua 
foucinha, e entregava-me o ramo de boninas que 
andava colhendo e atando com um fio de cabello. 
Eu, depois, saudoso d'ella, subia ao cerro de uma 
collina afastada, d'onde nos viamos. Os segadores, 
se me enxergavam, faziam-me estridorosos apupos, 
á sua moda; e Maria, sem erguer-se do seu trabalho, 
entristecia-se por aquella falta de respeito a mim. 
Eu não volvia ao povoado, sem esconder-se o sol, 
e os segadores sahirem do campo. Maria, por cami- 
nhos travessios, sahia-me ao encontro, e vinha co- 
migo, quasi sempre silenciosa ou recolhida em si. 
Enfastia-te a simplicidade do conto? Era assim a 
nossa vida. Quando eu inventar, arripiarei os cabellos 
as minhas imagens. 

«Três meses depois, mandaram-me sahir da 
aldeia. O padre-mestre não me podia aturar. Tinha 
razão. . . Minha irmã, boa para todo o mundo, me- 
nos para mim, era indiíferente á minha sahida. 
Eeriram-me todos o meu orgulho, e eu deliberei 
sahir sem despedir-me, excepto de Maria, que rece- 
beu o meu adeus num spasmo, que a não serem as 
lagrimas, tomá-lo-ias por insensibilidade estúpida. 
Demorei-me algumas léguas distante, em casa de um 
parente, poucos dias. De lá fui paíá- Lisboa, onde 
nunca recebi novas da aldeia. 0^ cpètl- conselho de 
familia, passados sete mêsee deé ociosos quinze 



CAMILLO ^3^ 

annos com loucuras dos trinta, intimou-me a sahida 
de Lisboa^ pena de considerarem o meu estômago 
uma viscera inútil». 

Voltou então Camillo para as aulas. Terminados 
os preparatórios, matriculou-se na cadeira de chimica 
da Polytechnica do Porto, em outubro de 43, .e fez 
acto em 12 de julho do anno seguinte. Simultanea- 
mente, como o tempo lhe sobejasse, segundo elle 
mesmo declara, estudou anatomia. «Eu morava na 
rua Escura — diz, no opúsculo O general Carlos' Ri- 
beiro — no bairro mais pobre e lamacento do Por- 
to, um beco fétido de coirama surrada em uma es- 
quina que olha para a viella dos Pellámes. Éramos 
dois os estudantes que occupavamos o terceiro andar 
com uma retorcida vaianda de pau, esmadrigada, 
num escalabro de incêndio, debruçada em ameaças 
sobre os transeuntes como a varanda de Damocles 
muito mais perigosa que a lendária espada, cujo 
gume deve estar muito rombo e poído da esgrima 
dos eruditos em Damocles. No primeiro andar ^mio- 
rava a proprietária, uma adela que nos cozinhava 
■certas iguarias dignas de ser expostas ao sevo das 
aves de rapinas no peitoril d'aquella varanda. Quanto 
a ratos era uma succursal de Montfaucon. O secundo 
andar tinha escriptos desde muito, e não havia ho- 
mem desesperado, cançado da vida, que ousasse ten- 
tar o suicídio naquellas ruinas minacissimas. Quem 
procurava casa olhava com terror, e seguia o seu ca- 
minho, conio sb ali morassem os leprosos de Xavier 
de Maistre» . «I^ do^is condiscípulos somente me re- 



70 CAMTLLO 

cordo bem —conta ainda Camillo no Cavar em. Ruí- 
nas — : Um era o melhor estudante; o outro, ultimo 
da lista, seria o peor do curso se eu lá não estivesse. 
O primeiro era pharmaceutico : chamava-se Fran- 
cisco Pereira Amorim de Vasconcellos. O outro era 
alferes de infanteria, filho de gente notável do Porto, 
duellista, peralta, galã de muito boas tretas: cha- 
mava-se António Augusto de Macedo Passos Pimen- 
tel. O seu mais amigo condiscipulo devia ser o mais 
inimigo da chimica : era eu. O nosso lente, o senhor 
frei Joaquim de Santa Clara de Sousa Pinto, nunca 
teve o gosto de nos ouvir. Quando nos chamava, 
ou não nos via, ou nós não tínhamos visto o com- 
pendio, que por signal se chamava o Lassagne, 
parece-me que era; pela orthographia do nome não 
fico. Fugíamos da aula de cócoras, quando o sol de 
Deus nos estava incitando á rebellião. Com que 
tristeza eu via o sol e invejava a minha vida lá das 
serras d'onde viera a estudar o sesquioxido de ferro 
e o bicarbonato de soda naquellas frias salas do 
convento da Graça ! O meu condiscipulo Passos 
abundava nas minhas ideias lyricas acerca do sol. 
E por isso fugíamos ás recuadas, quando o nosso 
condiscipulo pharmaceutico tinha absorvidas as 
attenções com a sua eloquência recamada de j9ro#o^^ 
de delitos^ de bis, de sesqui, de pilhas^ de retortas^ e 
varias coisas com que os homens entretém a vida 
para não morrerem de tédio. Não me lembra já se 
o alferes fez acto de chimica. Eu fiz. O meu ponto 
era o Kermes mineral e não sei que mais. Tireio 



CAMTLLO 71 

€om outro infeliz da minha tempera em chimica. 
Fui para um quarto andar onde morava na rua dos 
Pellámes. Do quarto andar subi ao telhado com o 
compendio e uma viola. A mulher que eu amava^ 
vivia numa trapeira da rua do Souto e estava lá a 
mondar mangericões. Vi-a, sentei-me na espinha do 
telhado, e, ao arpejo da viola chuleira, cantei-lhe 
umas trovas, que eram a negação 'de toda a chimica, 
ou se pareciam com as theorias da sciencia em for- 
marem no telhado o polo positivo com que as cor- 
rentes eléctricas se haviam de estabelecer, dado que 
a vizinha se constituisse polo negativo: como de 
facto. Assomou ao telhado o estudante emparelhado 
comigo para a hecatombe do dia seguinte: ia estu- 
dar, communicar-me os seus conhecimentos e parti- 
cipar dos meus. Que chalaça! Traduziu pessima- 
mente os prologomenos do compendio, e foi-se con- 
victo da sua perdição e da miiiha. Ao anoitecer 
ainda eu não sabia a que pagina do livro estava a 
matéria do ponto. Dehberei ás nove horas da noite 
não fazer acto, e fui ouvir musica á porta do quartel 
general. Estava eu embevecido na ária da Norma^ 
quando senti no hombro pousar-se-me amigável mão. 
— O senhor por aqui ? perguntou-me alguém. Voltei- 
me e vi o meu sábio condiscípulo Amorim de Vas- 
concellos, o estudante premiado, que, naquelle tem- 
po, devia orçar pelos seus trinta annos, e já era 
administrador da botica do hospital da Trindade, se 
bem me lembro. —Por aqui em véspera de ponto V. tor- 
nou elle. — Fj verdade, . . — Já estudou? — Nada. — 



72 CAMILLO 

Então ? ! — i\77o vou fazer acto. — Porque 7ião sabe o 
ponto? — Justamente. — Venha comigo^ que ensino- 
Wo. Venha, que é ama desgraça perder um anno ! 
E levou-me pelo braço. Escutei-o até ás duas horas 
da madrugada. Quando salii, sabia o ponto, sabia 
os rudimentos da chimica, sabia a historia e a phi- 
losophia da sciencia, conhecia BerzeHus, Gay-Lus- 
sac, Orphila e nãt> sei quem mais. Adormeci como 
um justo e acordei com a cabeça mais pesada que 
uma igual porção do Kermes do ponto. Soou a 
hora do acto. Já de antemão os condiscípulos me 
davam os pêsames : dizia-se que eu, além de ser uni 
parvo chimicamente falando, tinha quarenta e oito 
faltas, afora vinte e duas abonadas, sete negas e 
cinco fugidas. O senhor Santa Clara estava na 
presidência com ar fúnebre. O meu consócio do 
holocausto entrou como moribundo que não pudesse 
morrer sem fazer acto de chimica. Eu ia alegre 
com a minha sciencia e três cálices de licor de ca- 
nella. Que acto eu fiz ! Desenruguei a fronte do 
lente, enchi de jubilo os arguentes, espantei os 
condiscípulos e fui approvado nemine discrepante. 
E, o que mais é, salvei o meu condiscípulo, que 
tinha sido menos boçal do que eu, e frequentara 
exemplarmente. . . os bancos da aula. Se eu não 
fui reprovado, fora escandalosa a reprovação da 
outro. Deram-lhe um r, que elle agradeceu com o 
coração nos lábios não maculados de uma só pala- 
vra escorreita em matéria de chimica. Amorim 
abraçou- me, levantou-me á altura da sua óptima 



CAMILLO 7^ 

cabeça e disse-me : — Se. não fossem as negas e as 
fugidas, o premio devia ser seu ! Radia Va de alegria 
o bom homem ! Tinha razão : íizera-me elle o assom- 
bro de todos ; creara-me a reputação em quatro 
horas, com a sua linguagem tersa, clara, insinuante 
e amena, como devera ser o methodo de quem en- 
sinasse chimica a senhoras » . 

Emquanto, no Porto, Camillo ia levando uma 
vida estúrdia de estudante, Joaquina Pereira, em 
Friume, soífria toda a dôr de um abandono quasi 
sem esperança e a Maria do Adro, sem novas d'ejle, 
pensando talvez na inconstância do namorado, ia 
consumindo a vida, moendo-se de saudades pelos 
campos trasmontanos. Confessa Camillo que, no 
Porto, sentiu «vivas saudades de Maria e também 
remorsos de a ter esquecido quasi, em Lisboa» ^. 
Esquecimento esse, talvez provocado por uma certa 
Amélia lisboeta que mereceu o favor das suas ri- 
mas . . . 

Gomo aquelle amor nascera 
Tenho uma vaga lembrança.. . 
Da lua um raio descera, 
E, d'improvlso, illumina 
As feições de jaspe, immoveis, 
D'anjo... não... nem de mulher. 
Moça, tão moça, e menina. 
Os seus segredos, se os tinha. 
Nem a arte os adivinha 
Quando sondá-los quizer. 



^ Camillo: Duas horas de leitura. 



74 CAMILLO 



A' noite, á beira do Tejo 
No explendido crystal 
D'aquellas ondas dormentes, 
Parecia a vista encantada 
Numa visão... 

Amélia, a filha dos sonhos, 
A rival dos anjos vinha 
Povoando aquelles mundos 
Para mim, que mundos tinha, 
No coração, para dar-lh'os. 

Gomo aquelle amor nascera, 
Tenho uma vaga lembrança. . . 

Amélia, recordas 
Aquellas noites do Tejo, 
Quando vinha dar-te um beijo, 
A brisa que te dizia 
O que não fazia o pejo? 
Em redor de nós viviam 
Vida diversa da nossa 
Teus irmãos e mão, que viam 
Em nosso amor um gracejo. . . 

E quem diria, meu anjo 
Tutelar da minha infância. 
Quem diria os mil poemas 
D'aquella estática anciã? 
Se nos vissem sós. . . recordas?. 
Naquelles dias tão breves. 
Em que te disse... que disse?. 
Palavras, não, que não pude. 
Por mais que á alma as pedisse, 



CAMILLO 75 

Dizia-te o que era este ardor 

Este mysterio profundo, 

Este elevar-me tão alto 

Das coisas baixas do mundo !. . . » ^ 

Camillo teve depois saudades da Maria do 
Adro. Mas a pobresinha, lá longe, de cada vez mais 
débil e mais triste, não podendo sequer receber 
d'elle duas palavras d'amôr — porque não sabia lêr, 
entrou de adoecer, e peorar, peorar sempre, a 
ponto que, quando elle resolveu voltar, passados 
meses, já a não encontrou : — tinha morrido. Como 
•elle soube a má noticia, vem contado ainda nas 
Duas horas de leitura: 

«Esperava com anciã as ferias-grandes, — escreve 
Camillo — e afigurava-me o jubilo com que ella 
me veria, depois de quinze meses. Quantas vezes 
eu ia do átrio do Bomíim pasmar os olhos naquellas 
serras que ficam lá para o nascente ! Penso que fui 
poeta um dia. . . Chegaram as ferias, fiz acto de 
anatomia, e fui premiado com um indulgente R. De 
boa vontade acceitava eu três, comtanto que me 
deixassem sahir mais cedo. Esperava-me o cavallo 
com a magra mala. O arrieiro perdeu-me de vista 
em Yallongo, e encontrou a meio-caminho o cavallo 
aberto dos peitos, com não sei quantas sobrecanas 
de mais, e ferraduras de menos. Aluguei em Ama- 
Tante uma égua muito nervosa ao estimulo da espora, 



1 Camillo : Um livro. 



76 CAMILLO 

e em dia e meio venci as oito léguas. Quando vi as 
montanhas da minha terra adoptiva, alvoreceu-me 
um arraiar de alegria n'alma, que não sei dizer-te ! 
Era não sei que parecia com o trinar dos passari- 
nhos em aurora de estio. Tinha vontade de cantar, 
de rir, de poetar, de beber a longos sorvos um 
ambiente balsâmico em que o meu coração doude- 
java embriagado! Já via os castanheiros seculares 
a circumdarem a casa de minha irmã. Já tinha en- 
contrado duas pessoas vizinhas d'ella. Estive quasi 
a apear para abraçá-las! Não sei que traços de pa- 
recença eu achava entre Maria e as duas moças que 
cegavam herva num lameiro contíguo á estrada. — 
Já não conhece a gente?! — disse uma d'ellas. — 
Conheço, Luizinha, conheço, Anna ; jmdéra não co- 
nhecer/ Como estão vocês? 7'ijas, hein? — Como um 
ferro ^ graças a Deus. Então jd sabe? — O quê? — 
— Pois não sabe que a Maria do Adro ... — Que 
tem? está doente? — Está com Bens. ., morreu faz 
amanhã um mês. 

« Meu caro Barbosa, tu crês nas lagrimas aos 
dezesete annos? O que eu senti primeiro foi uma 
como cegueira momentânea. Fugiu-me a rédea da 
mão, e apertei instinctivamente os joelhos ao selim. 
Depois, saltaram-me dos olhos repentinamente as 
lagrimas, e ouvi, e senti no coração alguma coisa 
similhante a um estalo. Vi que as duas mulheres 
me contemplavam consternadas, e uma d'ellas disse 
á outra : — Eu não te disse que elle era. muito amigo- 
d'ella?» 



CA MIL LO ( ( 

Yiote e quatro horas depois, a convite de seu cu- 
nhado e com o auxilio d'elle, Camillo abriu a sepultu- 
ra de Maria, desenterrou-a, viu-a, e tal foi a impressão 
sentida que, quando, ao outro dia, o medico, sósinho, 
preparava o esqueleto da camponeza morta, o futuro 
romancista sofPria no leito os primeiros assaltos de 
uma febre cerebral intensa "que o prostrou. D 'esse 
facto nos apparece a narrativa na sequencia do ca- 
pitulo citado das Duas horas de leitura, se bem que 
o decorativo d'um anoitecer de tempestade, com 
silvos de ventania e clarões trágicos de relâmpagos, 
apossa ser um devaneio phantasista do romântico que 
se comprazia em pôr aquelle caso lúgubre num bello 
quadro de horror e de tortura. 

« Lembra-me — diz elle — que fuzilavam os re- 
lâmpagos d'uma trovoada de Agosto quando entra- 
mos na egreja, pela porta da sacristia. Já lá tinha- 
raos uma alavanca e uma enxada. Entrei na egreja, 
alumiada a espaços pelo lampejo azul dos trovões, 
com religioso terror. Ajoelhei machinalmente, e 
senti os sustos d'um sacrílego. Meu cunhado deu- 
me "animo com um riso desdenhoso. Abalamos a 
■pedra tumular com o ferro de monte. Sustentamo-la 
no pendor com o peito. Revezamo-nos a cavar, até 
encontrarmos as taboas lateraes do esquife. Não 
consenti d'ahi em deante o uso da enxada. Tirei a 
terra ás mãos-cheias, até sentir debaixo dos dedos, 
que cravava na terra, as formas de um corpo mole. 
Eu tinha a cabeça em lume : as pulsações do cora- 
ção eram tão fortes que me agoniavam : não senti 



78 CAMILLO 

cheiro mau, senão o da terra impregnada de ossadaíí 
em pó, de vértebras, e pedaços de hábitos mortuá- 
rios, comtudo angustiava-me uma sensação de nau- 
zea, mas toda moral, sensação que nunca mais 
experimentei. Meu cunhado, vendo-me descorar, 
oíFereceu-me um vidro de espirito que eu não 
acceitei. Prosegui na exhumação, até encontrar as 
pontas do lenço que cobriam a face do cadáver. 
Segurei as quatro pontas nas mãos tremulas ; tirei 
devagar o panno, e vi Maria. Permaneci quieto 
não sei que tempo, com os joelhos enterrados e a 
face pendida sobre a face morta. Não sei dizer-te 
o que pensei. Talvez nada ! A alma nesses lances 
creio que se anniquila. Ha dores com que o homem 
não pôde, e Deus, quando as dá assim, permitte a 
lethargia, a morte passageira, a paralysia dos órgãos 
conductores da impressão. Meu cunhado ergueu-me 
pelos braços. Fitou-me com um sorriso ... de me- 
dico, e affectou um ar de extranheza que eu antes 
quizera não fosse fingida. 

«O resto do trabalho fê-lo elle. Eu sentei-me 
na cadeira parochial, procurando as minhas ideias, 
que me fugiam aos turbilhões. Como privado d'al- 
ma, o estrondo exterior azoava-me os ouvidos : era 
o embate da saraiva nas vidraças da egreja, e o 
ranger das arvores que açoitavam as cornijas. Eu 
estava como tranzido de medo. Era no estio, e sen- 
tia uma espécie de serpente glacial cingir-me das 
costas para o peito. O cadáver foi lançado num 
cesto. Esperamos que anoitecesse, e eu tomei uma 



CAMILLO 79 

aza do cesto, ajudando a transportá-lo para uma mina 
seca, na margem do rio. O dia seguinte fora o desi- 
gnado para dissecarmos o cadáver. Prepararam-se 
escalpellos, thesoiras e bisturis, durante a noite. 
Meu cunhado foi chamar-me de madrugada á ca- 
ma, e achou-me passeando no meu quarto. — Já a 
pé! disse elle, admirado. — Ainda me 7ião deitei. — 
Como ? ! E abriu uma janella para aclarar o quar- 
to. Observou-me, tomou-me o pulso, e mandou- 
nie recolher á cama. Quiz resistir á ordem ; mas eu 
mesmo senti a necessidade de cumpri-la. Não sei 
que tempo estive doente. Quando me ergui, per- 
guntei que remédios me tinham dado, e soube que 
estivera oito dias com pannos ensopados em vina- 
gre na cabeça. Recordo-me vagamente de ouvir 
dizer uma vez o padre-mestre a outros : — Diz mi- 
nha cunhada que muitas pessoas d'esta familia en^ 
doideceram ...» 



II 



1845-1848 



Camillo, depois do episodio da Maria do Adro, 
findas as ferias, veio matricular- se no segundo anno 
da Escola Medica do Porto e, passado pouco, per- 
dido o. anno por faltas, retirou para Villa Real, de- 
certo mais leve sem o encargo estopante d'aquella 
formatura. 

Percebe-se que assim fosse. Camillo levava por 
esse tempo uma vida alegre de bohemio, nessa al- 
tura o humorista revelou-se nuns folhetos satyricos 
hoje raros e no episodio espirituoso do duelo sim.u- 
lado na Torre da Marca, e essa vida que mais po- 
dia ser a d'um ocioso que procura divertir-se, passar 
o tempo, — com as suas serenatas românticas, os 
seus derriços, a tentação do botequim — não era 
decerto a que convinha a. quem pretendia, para sa- 
tisfazer um sogro de Friume,. estudar niuito e ser 
.doutor. Depois os cursos„entre nós, mal organizados, 
-aterrando pQr. uma complexidade tod^ materialona 

6 



82 CAMILLO 

que solicita o esforço das memorias mais bem do- 
tadas e nada quer das faculdades de intelligencia^ 
aptas a uma clara comprehensão mais racional e 
mais profícua, fizeram-se de tal modo o privilegia 
de vocações esporádicas de intelligentes eruditos 
e da multidão dos menos lúcidos, cuja deficiência 
se acommoda sem custo ao trabalho material mais 
torturante e os força a sinceramente encarar sem 
um sorriso o pedantismo vulgar nos professores. 
Aqui, só muito tarde, o legislador que organiza, 
e o mestre que ensina, percebem que não se trata 
já precisamente d'aquella aula de primeiras letras^ 
onde a disciplina é quasi tudo. Usando o methodo 
socrático no decorrer d' um curso inteiro, é evidente 
que um desequilibrio se estabelece entre o que o- 
ensino superior é e aquillo que em boa razão devia 
ser; e a pretenção de seleccionar naquelles cinca 
ou sete annos os individuos aptos a seguir na vida. 
com proveito commum o seu mister, decerto falha^ 
quando o acaso providencialmente a não ajuda. 
Basta vêr um regimen de frequência que impõe 
como uma obrigação, mal acceite como todas,, 
aquillo que espontaneamente deveria nascer pela 
consciência, mais cedo formada, do dever, ou da 
comprehensão evidente d'uma positiva utilidade; 
já para não falarmos da facilidade que sempre 
teve a estupidez, quando a bafeja a importância 
d'um nome ou a abjecção d'unia humildade, para 
se guindar alto, gatanhando no caminha dos galar- 
dõ3s escolares, ou pelos degraus acima d'uma ca- 



CAMILLO 83 

thedra. Quando, não ha muito, numa escola de me- 
dicina, alguns professores quizeram seguir jiuma 
orientação mais coherente com o caracter do curso 
e as modernas conclusões da sciencia do ensino, 
baixou uma portaria, mettendo na ordem os discolos 
perturbadores d'uma tão apreciável harmonia ; em 
vista do que, se mesmo assim os governos quizes- 
sem, em questões de pedagogia, obedecer a um 
plano lógico de orientação, mellior iriam outhor- 
gando ao mestre, nos estabelecimentos de instrucção 
superior, o direito de mandar pôr em cima do ban- 
co, exposto á troça dos condiscípulos, o alumno 
irreverente (e, nesse caso, ter uma ideia seria irre- 
verência), espetar o chapéu de bicos, como um 
estygma, pelas orelhas d'um cabula, ou lançar mão, 
em caso extremo, do recurso salutar da palmatória. 
Camillo Castello Branco, de Índole avessa a 
docilidades de coUegial, intelligente demais para 
estar bem numa organização a tal ponto atrazada 
e deprimente, pouco estável, ainda, numa reso- 
lução ou num projecto, ficou sem o diploma d'um 
curso, como de resto homens eminentes como Her- 
culano e Oliveira Martins também ficaram, sem que 
por isso a sua obra fosse menos grande ou a falta 
da chancella official prejudicasse o seu saber. Era 
o que ignorava o tendeiro de Friume, insensível 
aos rogos da filha, condem nada pela ambição d 'um 
papelucho sellado, a essa viuvez que começou dias 
depois do casamento e havia de a acompanhar irre- 
mediavelmente até morrer. 



84 CAMILLO 

Falei do duelo simulado na Torre da Marca. 
Num artigo com a epigraphe Que saudade/,., 
inserto no n.° 7 das Acoites de Insomnia, dá-nos 
Camillo a descripção d'essa espirituosa scena de 
comedia: «Folheando acaso a Revista Universal 
Lisbonense de 1845 — escreve o romancista — li pela 
primeira vez a seguinte noticia: 

UM DUELLO DIGNO DE LOUVOR 

(carta) 
Porto, 10 de maio de 1845. 

Snr. redactor. — Peza-me o não ter sido testemu' 
nlia ocular de um, caso acontecido aqui, a ô, pelais 4 
horas da tarde, e em que se lia-de falar por muitos 
dias. 

Tinha-se espalhado que dous estudantes da arte 
amandi, fortíssimos no capitulo dos citimes e rivaes 
por uma triste fatalidade (porque segundo os srs. 
estatísticos haf mais mulheres do que homens, e por 
isso os zelos masculinos quanto a mim deviam ser 
prohibidos) ; estes dous meninos, digo, ambos com o 
•sangue na guelra, tinha-se espalhado que a essa hora 
Combateriam em duello de morte (que sempre é obra 
mais- asseada), sendo o sitio da execução o ca hipo da 
TôYrô da Marca, padrinhos] outros académicos, e 
armas, pistolas. .:.. . ' -. . . ,1 



CAMILLO 85 

Concorreu toda a gente que pôde (eu .vó faltei por 
estar com um ataque de gotta, nos pe's se entende): 
e não só o povo, mas dous regedores^ cabos de policia^ 
um, destacamento de tropa e muitas mulheres (não 
admira, a festa era em nome e louvor do sexo, nada 
prova tanto os seus feitiços como umas tripas ao sol); 
só faltava a tumba da misericórdia^ diz hoje com 
muita graça o «Periódico dos Pobres». Soa a hora ; 
apparecem os dous Quixotes montados como dous 
Sanchos em burros lazarentos de albarda rota e freio 
de corda mas muito arrogantes na catadura (não os 
burros, porém os campeões); um dos regedores , aliás 
bom homem, desapprovou com destempero que duas 
figuras d'aquelle feitio brigassem, á pistola; man- 
doU'Os apear e aos soldados que os prendessem ; o povo, 
que não queria perder as passadas, murmurava 
contra o regedor, muitos estudantes já começavam a 
vociferar, um dos duelUstas procurava convencel-o 
em segredo; o magistrado via-se perplexo e creio que 
assustado. 

Apressou-se em passar por mão o negocio para 
superior instancia: acompanhou os zelosos á presença 
do administrador do bairro. Foi ahi que se descobriu 
a chave do enigma: — os maganões declararam que 
o seu íinico intuito fora fazer aos duellos a guerra 
do ridiculo : mostraratn que as suas pistolas levavam 
pólvora mas não bala, e affirmaram, o que era ver- 
dade, que entre os dous não havia nenhuma Dulcinéa. 
Afora o regedor, todos riram muito; e o administra- 
dor mostrou ter pena de que se não tivesse chegado a 



86 CAMILLO 

)-epresenfar uma farça que poderia ter talvez preve- 
nido algumas futuras tragedias. 

Um tripeiro velho que nunca brigou 
nem ha de brigar. 

« Fala-se ahi em dous meninos. — commenta Ca- 
millo — Ai ! um d'esses meninos era o sr. Freitas 
Barros, actual secretario da administração do con- 
celho de Coimbra. E o outro menino era... eu! 
Direi alguma cousa nos pontos em que o corres- 
pondente do Porto foi omisso. Eu vestia casaca 
preta de abas em triangulo isosceles com a gola em 
promontório, convexa, redonda e algum tanto seba- 
cea. Na lapela esfarpellada alvejava uma camélia, 
symbolisando tenção amorosa á mingua da charpa 
dos Amadis e Lancelotes, meus heróicos antecesso- 
res. Os collarinhos de papel almasso embeiçavam 
com os arcos amarellos dos óculos. A gravata era 
britannicamente branca, e absorvia-me o queixo de 
baixo na circumspecta gravidade dos desembarga- 
dores d'aquelle tempo. liecordo-me das luvas que 
eram de lá verde com um ante-braço que lhes dava 
uns longes de manoplas. Em uma das botas duvi- 
dosamente marialvas, luzia o espigão d'uma espora 
sem roseta. O chapéu de castor, derribado por ge- 
badas ad hoc, desformára-se nas formas caprichosas 
de barretina de lanceiro. Se bem me lembro, o 
meu adversário Freitas Barros vestia o mesmo uni- 
forme, tirante o chapéu que era de bicos, em arco. 



CAMILLO 



87 



de alterosas badanas um pouco desengonçadas pelo 
attrito de meio século. E neste feitio, depois de 
presos, atravessamos a cidade, desde a Torre da 
Marca até á rua do Almada, bifurcados nos burros 
espavoridos pela grita do gentio que exultava na- 
quelle intervallo de imprevisto carnaval. Claro é 
que a minha postura e a plástica do trajar eram 
bastantemente ingratas aos eífeitos oratórios, posto 
que a rhetorica não fosse de todo parvoa. Dei ao 
meu braço direito, durante o discurso, um movi- 
mento pendular que depois vi perfeitamente arre- 
medado no parlamento pelo sr. Martens Ferrão. E, 
dado que, tanto nas posturas como nas expressões, 
€U mantivesse a seriedade compatível, o magistrado, 
que se chamava fulano Mendanha, não sustentou a 
gravidade consentânea ao acto, porque me interrom- 
pia com espirros de riso assas funestos aos golfos 
da eloquência de quem quer que seja. Não obstante, 
a authoridade compoz sisudamente o aspeito neste 
lanço do meu discurso : Sr. administrador! O ri- 
dículo, na questão sujeita, pode contribuir para de- 
fecar a humanidade de um crime que a lei não evita 
nem pune. O duello, ill.mo sr., só deixa de ser ridi- 
eulo quando ha uma víctima, quando ha sangue e 
lagrimas; e, assim mesmo, ninguém sabe dizer qual 
é o honrado, se o que morre, se o que mata, etc, 
etc, etc. Lembra-me que me fiz forte com Voltaire, 
como se o tivesse lido. Eu não tinha ainda 19 
annos; e, naquella edade, dou palavra d'honra 
que era estudante sem compêndios, e o mais igno 



88 CAMILLO 

rante que podia ser um rapaz (|ue entranhadamente 
execrava livros, e amava o sol e ^tudo quanto elle 
cobria, exceptuados os livros e os sábios. Final- 
mente, o jovialissimo Mendanha mandou-nos em- 
bora ; e nós d'ali sahimos com a consciência con- 
victa de haver escripto um brilhante capitulo na 
ethologia nacional, e com o estômago palpitante de 
sorrisos para uma merenda condimentosa no Rainha 
da Praça Nova. Eu náo me considerei então ridículo 
a despeito da hilaridade das multidões. Ridiculo 
me vi eu dez annos depois, quando sahia de um 
duello com uma cutilada ; e, olhando para ella, me 
acudia á memoria o meu discurso ao administrador 
Mendanha. . . Mas. . . que saudades ! » 

Camillo era um cabula. Elle próprio no-lo afir- 
ma sob a sua palavra d'honra. E, assim, fácil é com- 
prehender como, perdido o anno, sem coragem para 
apparecer ao sogro de Friume nem ao austero pa- 
dre Azevedo, correu a acolher-se á protecção d'um 
tio afim, residente em Yilla Eeal e que elle proprio' 
depois chamou analphabeto. Esse tio, João Pinta 
da Cunha, era miguelista ferrenho e tão conceituado 
entre as hostes agitadoras dos defensores do rei 
proscripto, que o padre dr. Cândido Rodrigues Al- 
vares de Figueiredo e Lima, logar-tenente do sr. 
D. Miguel I, prometteu nomeá-lo corregedor da co- 
marca logo que se desse o grito em Trás-os-Mon- 
tes. ^ 



^ Camillo: Maria da Fonte. 



CAMILLO 81> 

A politica, por esse tempo, era agitada e turbu- 
lenta. Nessa lucta continuada e persistente entre a 
■idiosyncrasia d'um povo e um systema estrangeiro 
a que á força querem adaptá-lo, nessa successào 
de episódios inesperados e vários, com manchas de 
-sangue e lances de comedia, que tem sido e conti- 
nuará sendo a campanha para a implantação per- 
feita do constitucionalismo em Portugal, surgia,, 
nesse momento, um homem de qualidades extraor- 
dinárias, espirito vivissimo e arguto, resistência in- 
quebrantável, imagem do cynismo insculpida numa 
lamina d'aço, sem força, ainda assim, para romper 
-abertamente o despotismo das formulas, mas audaz 
bastante para, encarando-as bem de frente, se rir 
d'ellas. Era Costa Cabral. E essas eleições de 45, 
que elle venceu, constituem de per si o mais sar- 
cástico e esmagador libello contra um systema. 
bastardo, que só logra sustentar-se na immobilidade 
da impotência ou no cynismo da trapaça. «Vencer 
por fas ou por nefas as eleições, nesse anno de 45 
da decisiva batalha, era para Costa Cabral o mesmo 
que viver ou morrer. Lançou, pois, mão de tudo, 
e foi ás do cabo. Três camarás municipaes protes- 
taram, vindo a Lisboa os vereadores implorar .-á 
rainha: á de Évora voltou-lhe ella as costas, a de 
Villa Franca foi presa, e ambas, com a de Faro^ 

dissolvidas Nenhuma das conhecidas tricas 

para levar a Urna a dizer o que se deseja — coma 
nos velhos oráculos sagrados ! — fora esquecida 
pelo governo. Os recenseamentos eram taes que 



"90 CAMILLO 

não incluiam nomes como os do marquês de Niza, 
do Fonte-Arcada. do Felgueiras, juiz no supremo 
tribunal, de Garrett, etc. Incluiam, porém, mendi- 
gos e lacaios, aguadeiros e defunctos ; incluiam no- 
mes imaginários, e soldados e marinheiros. As listas 
«ram marcadas : transparentes, pautadas, carimba- 
das, tarjadas, numeradas. Os individuos influentes 

e perigosos eram presos arbitrariamente Os 

governadores-civis distribuíam aos galopins man- 
dados de captura em branco. E onde as tricas não 

bastavam, apparecia a força bruta Por toda 

a parte houve prisões, mortes em muitos lega- 
res Para forjar um simulacro de parla- 
mento, para aguentar a sophisraação da doutrina, 
chegava-se á máxima tyrannia, atacando-se as mais 
necessárias garantias dos cidadãos». ^ As urnas 
cercavam se de bayonetas; a tropa atirava — a ma- 
tar. E o rijo beirão, aprumado no primeiro degrau 
do throno, junto á soberana que o cummulava de 
honras, sorria, livido, com o seu amargo sorriso de 
triumphador insatisfeito, e pensava que, não poden- 
do espatifar de prompto um regimen que insistia 
em viver sobre um inane pedestal de tropos e men- 
tiras, o melhor que tinha a fazer era empalmá-lo. 
Um anno antes, Torres Novas quizera reagir, e o 
ministro, com alguns batalhões de vantagem, do- 
minara- a. Mas os políticos moviam-se irrequietos, 



*^ Olivehia MartínS : Portugal Contemporâneo, t. II. 



CAMILLO 91 

porque aquelle homem, grande demais para um sys- 
tema que só demanda autómatos, calcava sem 
piedade os seus sonhos doutrinários ou destruía 
indifferente os seus interesses de ambição. Era um 
sceptico, vigoroso e rude, cahido numa sociedade 
de idealistas ingénuos e vaidosos impacientes. Tor- 
nava-se mister vencê-lo, annulá-lo, pô-lo fora da egre- 
jinha constitucional como um intruso. Mas como, 
se não havia soldados? como, se não havia sequer 
o dinheiro preciso para mandar vir de fora, sem di- 
reitos d'alfandega, nas cartucheiras de bandoleiros 
bêbados, prompta a servir — uma revolução ? Res- 
tava disponivel, para explorar e torcer á mercê dos 
intuitos d'uma opposiçáo politica levada ao paro- 
xismo, uma força formidável que o conde de Thomar 
e seu irmão José não cuidaram nunca de chamar 
a si : — o povo. O governo prohibira os enterra- 
mentos nas egrejas, quiz tornar maximamente pro- 
ductiva a colheita do imposto: e a população das 
aldeias minhotas, fanática e analphabeta, açulada 
pelos farrapos do legitimismo escasso, instigada 
pelos padres, fazia ouvir por todo o norte do reino 
esse surdo rumor que nos vulcões annuncia a ecclo- 
são d 'uma cratera. 

Com as coisas neste pé, Camillo foi para Coim- 
bra estudar preparatórios de direito, regressando a 
Yilla Keal quando, por virtude da revolução popu- 
lar, as aulas se fecharam. Foi nessa altura que, á 
sabida de Penafiel, Camillo e um seu companheiro 
de viagem receberam aviso de terem pela vanguar- 



í)2 " CAMILLO 

da uma guerrilha de realistas, capitaneada pelo te- 
nente Milhundres. « Qaiz o meu companheiro rer 
troceder — conta o romancista nas Memorias do 
Cárcere -r- ; mas eu convenci-o da desnecessidade 
de fugirem aos realistas dois pobres académicos 
que se presumiam politica e socialmente indefini- 
dos neste mundo. Fomos avante. Exactissima- 
•mente : lá estava, na quebrada de um serroj densa 
mó de gente armada, com as armas embandeiradas 
de escarlate. A tiro de bala, mandaram-nos fazer 
alto,- e nós paramos, fiados na lealdade dos parla- 
•mentarios, que vieram a nós com as clavinas no 
braço. Eram dois,, com o caudilho á frente. Milhun- 
dres era homem mal encarado. Cincoenta annos 
teria, e grisalhas as barbas. Vestia casaco de mili- 
ciano com insígnias de tenente, e dragonas de ca- 
pitão mór. Trazia a banda a tiracolo, e uma longa 
espada de misericórdia enfiada num boldrié de 
coiro de anta. — Quem são, e d'onde vêm? disse 
elle. — Somos estudantes e vimos de Coimbra. — 
Quem vive? tornou elle. — O senhor D, Miguel! 
respondemos. — O senhor D. Miguel primeiro ! re- 
plicou o guerrilheiro, accentuando a palavra sup- 
plementar, como se a nossa profissão de fé, sem a 
addição, ficasse equivoca. — O senhor D. Miguel 
primeiro! repetimos, sacudindo os gorros. — jE/z^ão, 
visto que são dos nossos^ retrucou Milhundres, an- 
dem lá para a recta-guarda, que nós vamos entrar 
em, Penafiel. Precisamos de quem escreva proclama- 
ções ao povo, e os senhores, se são estudantes^ hão de 



CAMILLO 93 

fazer coisa que se veja. Consultei a minha bossa das 
proclamações, e disse: — Vamos lá! O meu compa^ 
nheiro estava enfiado, porque receava que o gene- 
ral e-uerrilheiro o nomeasse chefe de estado maior. 
Eu achava extrema graça a tudo aquillo. Entra- 
mos em Penafiel. Quando surgimos no cruzeiro^ 
que se ergue ao topo da primeira rua, os morado- 
res da cidade começaram a fechar as portas. — : 
Que ovação! disse eu ao meu condiscípulo. — Dir^ 
i^e-liia que somos malta de salteadores que irrom- 
pemos das brenhas ! — Se pudéssemos fugir / . . . 
murmurou o meu amigo. — Cala-te, que isso é serio! 
disse eu, Milhundres entoou os ^vivas aos quaes 
respondemos enthusiasticamente. Ao fim da rua 
engrossaram as nossas forças com três maltrapi; 
lhas armados de foices, e defronte da cadêa fi^iCr 
mos juncçào com um alferes de milicias montado^ 
■e alguns pedestres em tamancos. Repetiram-se os 
vivas. — Primeiro que tudo, disse o chefe, vamos â 
egreja dar graças a Deus. Era um Te-Deum econor 
mico, com profusão de fervor religioso. Abriu-se 
de par em par o templo. E os valentes prostrara m- 
se, e resaram o hemdito com grande estridor de 
vozes. Evacuado o templo, disse eu a Milhundres; 
r— E nece^^-sario proclamar?— E, vá vocemecê eA- 
crecer um, ediial, e o seu companheiro outro, respou^ 
deu o caudilho. — Onde é o quartel general? pert 
•guntei. — Não sei por ora. Vocemecês onde se vão 
aquartelar ? :— Na estalagem do Mulato, -r- Pois em- 
tão é lá. Eu vou nomear authoridades, e lá vou ter. 



94 CAMILLO 

Amanhã vem aqui fazer Juncção comnosco o briga- 
deiro Bernardino. O Mac-Donell já está em campo, 
e o Cândido de Anêlhe é seu secretario. Diga lá isto 
vocemecê na proclamação. — Muito bem. Galopamos 
para o quartel general. — Vamos proclamar? disse 
eu ao meu companheiro. — Pois vae, que eu, em 
chegando ao cimo da rua, enterro as espoyms nof^ 
ilhaes do macho, respondeu elle com as cores ainda 
quebradas. — Pois não achas isto bonito í Acaso es^ 
taras mais divertido na tua aldeia? Tiremos partido 
de tudo, emquanto não cheira a pólvora. Vamos 
collaborar numa proclamação em estylo biblico. — 
Pois fica, se achas graça a isto: eu de certo fujo. — 
Pois então também eu, que me parece estúpida a 
farça se me deixas em monologo. Era fácil e segura 
a fuga, mas honrosa não me pareceu muito. Eu ia 
envergonhado do meu procedimento, e compade- 
cido do cabecilha. Pareceu-me desgraçado aquelle 
homem, e d'ahi vem o desvaneio da simpathia que 
lhe ganhei. Além de que, de mim confesso sem 
pejo que me não seria difíicil escrever uma procla- 
mação sentida; grammatical não direi. A minha 
familia era miguelista, e festejava, como em s^^na- 
goga recôndita, os dias solemnes da sua crença. 
Milhundres seria o bem-vindo e honorificado em 
casa de minha familia. la-me por isso a consciência 
recriminando de mau coração, de covarde animo, e 
de apóstata villão. Tudo isto me esqueceu quando 
cheguei a Amarante, e só me tornou á memoria 



CAMILLO 95 

quando vi, em 1861, entrar Milhundres preso nas 
cadeias da Relação. » 

Chegou Camillo a Villa Real hospedando-se em 
casa do tio realista. Lá, como em todo o norte, 
ouviam-se já vozes de guerrilheiros que acclamavam 
D. Miguel. O general escossês Macdonell só meses 
depois appareceu á frente das suas forças, mas os 
elementos do partido legitimista, que ainda eram 
importantes, de ha muito que vinham preparando a 
revolução. « Se ainda o não tinham conseguido ó 
porque as desavenças e as rivalidades dos que esta- 
vam de fora, e de longe jogavam com a vida dos 
outros, creavam conílictos que não tinha sido fácil 
resolver». Em carta-regia datada do Paço em lloma 
em 26 de maio de 1843, D. Miguel nomeia o es- 
cossês «General em Chefe e Director Militar, no 
Reyno » para que possa desde logo « tratar, inde- 
pendentemente, da organização dos elementos de 
huma força, que opere eftectivamente, como e 
quando as circumstancias o permittam». E feita a. 
nomeação, Macdonell não se conserva por muito 
tempo inactivo. «Já d'esse mês de Maio de 1848 
apparecem cartas d'elie a um dos chefes miguelistas 
do Porto, João Ferreira Rangel, recommendando,^ 
mesmo de Londres, ser preciso trabalhar sem de- 
mora, para um movimento militar, e pedindo aos 
directores da revolta dentro do paiz, que ajuntassem 
qualquer força, por pequena que fosse, dentro da 
província do Minho, 'por modo a dar o exemplo ás 
outras provindas. Escrevia em hespanhol e lem- 



D6 CAMILLO 

-brava que a ousadia, quando guiada pela experiên- 
cia, tinha como resultado verdadeiras maravilhas^ 
Perguntáram-lhe de cá se a cousa estava para breve. 
Elle respondia: que seria para muito breve, porque 
era sua opinião que, naquelle anno, se decidiria da 
sorte de D. Miguel. Tan FIRME ESTOY EN ESTA 
-CRENCIA QUE SI XADA SE EFECTUAR EN EL CURSO 
BEL PRESENTE ANO, YO POR MI ABANDONO LA 
-CAUSA » . ^ 

Camillo, «de pé, sobre o balcão do Zé-da-Sola, 
em Yilla Real, nm logista de cabedaes de bezerro 
^ vacca, muito legitimista, declamava emphatica- 
mente e com os gestos mais violentos as procla- 
mações do Padre Casimiro estampadas no Periódico 
dos Pobres^ e a carta, rica de conselhos em. arte 
de reinar, dignos de Fénelon, enviada pelo correio 
á senhora D. Maria jr. Era — diz o romancista ^ 
— uma carta convulsionada de profecias trágicas, 
ásqnaes eu dava toadas funéreas, expedições gut- 
turaes como diz E,enan, valha a verdade, que faziam 
Ezequiel e Habacuc. A turba que me escutava, toda 
orelhas, trovoava urros de um vandalismo que 
sobrepujava as minhas cordas vocaes. Havia cabe- 
ças de granito que choravam como os penedos bibli»- 



* Historia ãe Por tu i/al,, popular e illustraãa^ de Manoel 
.Pinheiro Chagas,, .continuada desde a chegada de D. Pedro 

ly á Europa até nossos dias por J." Barbosa Colen. Decima 
'primeiro volume. Mijccccvr. ■ i 

-'-' '^ ' GAmí.liQ: 'MaiHa-daFônte. ■ - ''■ > 



CAMILLO 97 

cos; e velhos bacharéis formados, antigos juizes de 
fora, cora o simonte engatilhado aos narizes e as 
mandibnlas num prolapso de espanto, diziam : — 
grande homem é o padre! é o 2.^ José Agostinho de 
Macedo! E eu, na qualidade de declamador correcto, 
prosodico e muito mimico, attribuia-me um quinhão 
d'aquellas ovações, muito menos explosivas quando 
o leitor era António Tiburcio, o meu amigo de in- 
fância que morreu ha muito, depois dè ter gover- 
nado o districto muitos annos, mantendo-se, com 
um grande tino, na media, entre a Republica e o 
Absolutismo. Havia senhoras realistas, filhas de 
capitães-mores, de desembargadores, de brigadeiros 
€ morgados em decomposição, ás quaes eu lia as 
peças do General da.s cinco chagas. Em algumas 
casas brazonadas accendiam-se castiçaes com bo- 
beches de papel verde nos oratórios de talha dou- 
rada, e faziam-se preces votivas, bastante caras, a 
vários santos muito anteriores á formação do re- 
gimen parlamentar, e por isso talvez indifferentes 
á revolução de 18'20 e á politica de Villa Real. De 
permeio com as jaculatórias, bebia-se muita gero- 
piga capitosa para, por meio da etherização al- 
coólica, dar alôr aos voad ouros da esperança. Que 
noites de alegria doida naquelle inverno de 1846!» 
Inverno?! Não. Camillo precipita aqui um pou- 
co. . . as estações. Por certo o seu melhor tempo 
de Villa Real foi aquelle que consumiu, não somente 
empoleirado nos coiros do Zé-da-Sola a cantar as 
loas do padre minhoto com musica do reichegou^ 



*J8 CA MIL LO 

mas também gosando as noites de festa em casa de 
D. Kita Moreira, onde os serões eram animados & 
se fazia musica excellente. Por uma sobrinha d'essa 
senhora, Patricia Emilia, apaixonou-se o romancis- 
ta. O drama Agostinho de Ceuta, representado num 
theatro que o próprio auctor improvizou, foi es- 
cripto para que ella o ouvisse e, como quer^que, era 
pleno romantismo, o rapto coroasse, numa aureola 
de abnegação e heroismo, todo o devotado amor^ 
assim os dois fugiram, abandonando-se ao destina 
para que elle os protegesse, na vehemencia d'uma 
paixão que não pensava : elle, pobre, seguindo a 
sua senda de aventura ; ella, deixando-se conduzir,, 
vencida, com o seu vestido de chita escura e a sua 
capinha côr de vinho, com riscas negras. . . 

A agitação politica não cessara ainda, nào havia 
de cessar tão cedo. Os sinos minhotos tocaram a 
rebate, o povo revoltou-se. Contra os tj^rannos que 
sophismavam o systema representativo ? contra os 
déspotas que calcavam o seu direito de fazer as leis- 
ou revogá-las? Não: importava-se elle bem com 
essas coisas ! Pevoltava-se porque o governo orde- 
nara um novo processo de cobrança do imposto e- 
prohibira que sob as lageas dos templos se con- 
tinuassem a abrir as sepulturas. Eevoltava-se, não- 
em defesa da liberdade, mas em defesa da distri- 
buição chaotica e iniqua do imposto a que se pre- 
tendia dar remédio, em defesa da usança tradicional 
e fanática a que os principios da hygiene manda- 
vam pôr um termo. Era um movimento de reacção^ 



CAMILLO 99 

não de progresso. Mas a elle se prenderam, ávidos, 
insoffridos, barulhentos, de envolta com oS paladi- 
nos d'um passado morto, os apóstolos eloquentes 
da ideia-nova. Ergue-se 

a Maria da Fonte 
com as jnstolas na mão, 

José Cabral, o Zé dos Cónegos^ assusta-se, vacilla, 
recua ; a revolução triumpha; mas o paiz fica ainda 
e continua intranquillo, á mercê das paixões que se 
desencadeiam e entrechocam, mais desordenadas e 
violentas do que nunca. As guerrilhas continuam 
em armas, os triumphadores da véspera não sabem 
afinal o que pedir e, pelos cerros minhotos, ergue-se 
e domina o chãos, ameaçador como um remorso, se- 
reno como um escarneo, o espectro de D. Miguel. A 
8 de Outubro, a rainha dá o golpe d'Estado. Sal- 
danha é o chefe do governo. São os Cabraes que 
voltam, escondidos subtilmente sob os crachás bri- 
lhantes que coiraçam o arcaboiço valente d'um 
guerreiro velho ... 

Mas que importa a politica quando, a alguém 
que só a cultiva em dlletfarite, por um interesse todo 
de arte e pittoresco, domina violenta a paixão do 
amor? IndiíFerente aos Cabraes e aos setembris- 
tas, sem querer saber da Junta de Passos José 
nem da prisão do Duque da Terceira, deixando ao 
Zé-da-Sola a defesa dos direitos do sr. D. Miguel 
primeiro, Camillo seguia com Patricia Emilia a ca- 



1(X) CAMILLO 

minho de Coimbra, quando, ao chegarem ao Porto, 
em 12 de outubro, a requerimento do tio Pinto da 
Cunha a policia os prendeu. A essa prisão se refere 
Camillo mais tarde, na Maria da Fonte : 

«Eu tinha sido preso a requerimento de minha 
famiUa — escreve elle — quando ia para Coimbra 
continuar, no Pateo, as minhas explorações scien- 
tiíicas, bebendo nos mananciaes latino e rhetorico 
do padre Cardoso e do padre Simões, Deus lhes 
fale nalma em latim ciceroniano. Os meus inimigos 
em letras, dois annos depois, farejavam delictos 
execrandos na causa mysteriosa d'aquella prisão de 
sete dias. E eu que, amordaçado pelo pudor, não 
podia esclarecer a opinião publica do botequim 
Guichard e da Águia e das Hortas, mandei pedir 
á pessoa que requerera a minha captura, houvesse 
por bem explicá-la. Pode ser que o divulgar-se 
agora, na velhice extrema, este lance de uma ju- 
ventude já esquecida, venha a ser estorvo á inau- 
guração da minha estatua, uma coisa que eu havia 
de ter por força, sobre um pedestal de adjectivos 
plangentes com alto relevo de advérbios, nos oito 
dias immediatos ao do meu trespasse. Lamento 
muito e por antecipação esse dissabor que me hade 
consternar na minha individualidade cósmica de 
cernelha de boi, de cauda de cometa ou de couve 
lombarda; mas já agora não posso esquivar-me a 
ser um pouco Santo Agostinho. O bemfeitor que 
me tinha feito prender respondeu assim, nos jor- 
naes de 1849, á minha solicitação : 



CAMILLO 101 

Snr. Redactor — In^to pelo favor de tramcrecer 
no seu jornal as seguintes Vmhas: Quem fez prender 
na Relação d' essa cidade Catnillo Casfello Branco, 
fui eu que sou seu tio. A causa porque eu o prendi 
não é essa que os seus detractores lhe fulmina m. E' 
um rapto, não é um roubo. Para obstar a uma li- 
gação que o faria desgraçado, busquei um pretexto ; 
se é d'elle que se aproveitam os seus inimigos, de- 
claro que é falso, e authorizo meu sobrinho a tirar 
a desforra legal de qualquer ultrage que se lhe faça 
com allusão d sua captura. Villa Real, 27 de feve-r 
reiro de 1849 — João Pinho da Cunha. ^ 

« Este bom homem — continua Camillo — para 
me salvar de um enlace indiscreto, ordenava ao 
seu agente no Porto que me fizesse prender como 
raptor de uma mulher sem pae nem mãe e de maior 
edade, que me acompanhava expontaneamente para 
Coimbra ; e, a não ser este delicto efficaz para a 
prisão requerida por meu tio, como se eu fosse o 
raptado, então authorizava o agente a queixar-se 
de que eu o esbulhara de ricos valores em jóias e 
baixella, 20:000 cruzados, calculava-se no botequim 
do Guichard. Para que os genealogistas porvindou- 
ros da minha linhagem se não vejam embaraçados 
com esta vergontea de Pintos e Cunhas na minha 
arvore, devo esclarecer que este homem não me 
era nada — era marido de uma tia minha. Prova- 



Nacional de 10 de março (Nota de Camillo). 



102 CAMILLO 

velmente, se eu teimasse em matrimoniar-me ^ hon- 
radamente com a raptada, seria pronunciado como 
ladrão de jóias e baixella, 30:000 cruzados — com- 
putava o botequim da Águia. Honrado e querido 
tio da minha alma ! Uma semana depois que sahi 
do cárcere, era apertado nos braços carinhosos do 
meu salvador, que pagou generosamente o aluguer 
do macho que me conduziu sem difíiculdade, por 
que eu ia tão leve que não levava um pataco — 
nem a jóia d'um pataco, senhores, e logo saberão 
porquê. Que saudades me fazem estas alegres e 
explendidas misérias dos meus vinte annos ! Vejam 
que nem tenho pejo de contar as misérias nem as 
saudades, hoje que algumas centenas de contos 
levantam entre mim e esse passado pelintra uma 
alta muralha de ouro de lei ! Naquelle tempo, os 
rapazes tinham desvarios trágicos até ao ridículo, 
e entravam muito cedo e depressa na previsão dos 
escolhos infamados em que haviam de ir a pique, 
sempre imperterritos e armados como Xerxes do 
tagante para azorragar as ondas aparcelladas . . . 
Mas que saudades eu tenho d'aquellas jóias e bai- 
xella — 50:000 cruzados, para cima que não para 
baixo, conjecturava o botequim das Hortas ! >^ 



1 Revela-se aqui mais uma vez em Gamillo o propó- 
sito de occultar o primeiro casamento. Elle não poderia 
teimar em matrimoniar-se pela simples mas poderosa razão 
— de que era casado. Joaquina Pereira morreu em 47. A 
filhinha d'ella e de Gamillo morreu também poucos meses 
depois (Alberto Pimentel : Os amores de Camiiio). 



CAMILLO 



loa 



Passados onze dias, Camillo e Patrícia Emilia 
«ram postos em liberdade. E, d'ahi a pouco, nova- 
mente envolvido na contenda politica, então mais 
accêsa de que nunca, o romancista encorporava-se 
no séquito d'esse Eeinaldo Macdonell, a quem mais 
tarde havia de chamar «extraordinário patife >■> ^ 
No Itomance do romancista o sr. Alberto Pimentel 
publica uma carta que recebeu de Villa Tíeal e cuja 
transcripção nesta altura é elucidante. Diz o se- 
guinte : 

«Na revolução de 1846, não me consta que o 
Camillo figurasse, nesta terra. Creio, até, que elle 
não residia por aqui ; porém, em 1847, depois do 
desastre de Valpassos, que esta villa ui-a estava 
governada pela patuléa da Junta do Porto, ora 
pelos cartistas e, até, alguns dias pela gente do 
Macdonell, lembro-me que o Camillo, ir.na noite, 
em que esta villa estava sem auctoridades nem 
governo algum, porque os cartistas fugiiam para 
Chaves, e os da Junta estavam na Amarante, o 
Camillo appareceu ao escurecer^ de chapéu armado, 
de espada á cinta, de esporas nas botas, fazendo 
grande barulho com a espada a rasto,, de iórma que 
toda a villa ficou apavorada, todos os habitantes 
fecharam as portas, e, elle só, fez a policia da terra. 
Em seguida ao desastre que o Visconde de Sá da 
Bandeira soífreu em Yalpassos, recolheu ao Porto 



* Maria da Fonte. 



104 



CAMILLO 



O Governador Civil que aqui estava, António Au- 
gusto Teixeira de Vasconcellos, e todas as forças 
populares d 'esta provincia e de quasi todo o reino. 
Ali, no Porto, se organizou de novo o exercito da 
Junta, indo o mesmo Visconde de Sá da Bandeira 
com uma expedição para o Algarve, e nós com o 
General Guedes viemos para Villa Real. Foi nesse 
periodo que o Camillo esteve empregado no Governo 
Civil como amanuense. O Governador Civil, se bem 
me recordo, era de Vizeu e ciiamava-se Tiiomaz 
Maria Paiva Barreto, excellente pessoa que era. 
Depois do convénio de Gramito, veio para aqui o 
José Cabral Governador Civil, e foi então que o 
Camillo escreveu alguns artigos políticos nos jornaes 
contra o José Cabral, de que resultou o confiicto do 
OlJios de Boi, de que o amigo já tem conhecimento. 
Pouco tempo depois do despótico acontecimento 
praticado pelo referido caceteiro. Olhos de Boi^ ás 
ordens do Governador Civil, foi que o Camillo se 
resolveu a ir para o Porto.» 

O que foi esse episodio com o caceteiro cabra- 
lino diz Camillo, num Communicado de desaffronta 
que então publicou, com data de 23 de agosto de 47: 

«Eu devia ter consultado os fastos do despotismo, 
para me convencer — diz elle — que, tarde ou cedo,, 
seria victima do sr. José Cabral, governador civil 
de Villa Peai. Devia recordar-me, que me tinha 
chegado á bandeira dos livres, para temer o fer- 
rete de escravo, e o maior peso da oppressáo . . .. 
Todavia não sei que presentimento me trahiu! Vi 



CAMILLO 105 

offendidos vil e despoticamente os meus cúmplices 
em opinião, e uma vez pungido pela magua d'elles, 
bradei ao oppressor Qiiousque tandem Catilina / . . . 
Este pensamento que se achava traduzido em uma 
nnica correspondência minha, impressa no Nacional,. 
bastante foi para que o dedo de s. ex.a me apon- 
tasse a sepultura, e os seus órgãos procurassem 
um cadáver para ella ! Da porta do governador 
civil no dia 17 ^o corrente, pelas 10 horas da manhã, 
sahiu um homem armado de cacete: espancou-me, 
deitou-me por terra, e, recolhido outra vez á casa 
d'onde sahira, appareceu com uma espingarda, e 
com um desgarre insultuoso, á porta de sua ex.®. 
Entregue ás mãos do assassino, ainda agora tremo 
da posição em que estive, quando sei evidentemente 
que José Cabral tinha dito ao caceteiro: — mata-o! 

— e porque? José Cabral confessa que á sua ordem 
fui eu espancado^ e dá a razão d'este delicto, porque 
eu não lhe tirara o chapéu^ tendo-o visto á sua janelku 

— Risum teneatis, amici? Ha casos, que o requinte 
da desvergonha chega a tal ponto, que as conside- 
rações sobre os seus actos se turvam, e confundem 
na intelligencia de quem as medita!!! Pois s. ex.'^ 
manda espancar um homem, porque lhe não tira o 
chapéu! José Cabral arroga-se o direito de senhoria 
de Veneza, em terra que o conhece, e a um indivi- 
duo, que jamais lhe explora os escaninhos dos seus 
brazões, inda no chãos, e as phases da sua vida? 
Por ventura devo culto ao déspota, porque vejo um 
cacete, que pôde espancar-me ? Como authoridade 



106 CAMILLO 

■qne direito tem sobre o meu chapéu?! (Carta Consti- 
tucional. Artigo 145 § 1.*^) Ninguém ('obrigado a fa- 
zer ou deixar de fazer ,senão aqiiillo que a lei man- 
da. E a lei não legisla sobre chapéus. E-espeito as 
authoridades, e conheço que tenho cumprido este 
dever, quando negócios de estado me pedem este ou 
aquelle acto; mas devo por isso descobrir-me, quan- 
do, mau grado meu, encaro o homem que detesto?! 
E assim vingada foi a susceptiblidade de s. ex.'^; 
assim os encarregados pela Soberana conciliam as 
opiniões, e deslembram as injurias; assim novos cri- 
mes preparam novas dissenções, se d'esta arte a li- 
berdade se identifica com as disposições do proto- 
colo. Seria bom, porém, que o governador civil de 
Villa Real, entrasse no conhecimento da seguinte 
verdade: — Que as nossas injustiças quasi sempre 
são julgadas pelos homens » . 

A agressão do caceteiro fez crescer em Camillo 
o ódio contra o despótico governador civil e seu 
irmão o conde de Thomar. E — liquidemos desde já 
a inglória passagem do romancista pelo jornalismo 
politico — foi essa ruim paixão que o fez entrar 
com a sua penna nesse ultra-ridiculo debate do 
mais que todos grotesco caso do Caleche, enxova- 
lhando num folhetim a honra e o pudor d'uma mu- 
lher, esposa e mãe exemplar, que, cora o facto de 
ser rainha, não perdeu nunca as qualidades mais 
nobres e respeitáveis do seu sexo. 

. . .Entretanto, em Villa Real, as relações entre 
-Camillo e Patrícia Emilia continuavam. O romance 



CAMILLO 



107 



d'amôr porém não durou muito; d'elle ficou uma 
filha e-, com ella, annos depois, apenas a recordação 
carinhosa d 'uma paixão antiga. O próprio Camillo 
se encarregou de dizer um dia, ao traçar a biogra- 
phia d'um amigo, tão desgraçado como elle: «João 
Jacques, nas suas Confissões^ diz que vira os homens 
e os costumes do seu tempo. Eu vi mais que elle 
porque me estou vendo a mim. José Augusto, crê 
por fé no apostolo da experiência. O anjo que foge 
do seio de sua familia, deixa lá dentro as azas, e 
fora da porta é mulher » ^. Patrícia Emilia teve uma 
rival, exaltou-se ao presenti-lo, decerto fez lembrar 
ao amante o direito que elle não tinha de lhe pagar 
com o abandono o sacrifício da sorte e da honra 
por amor d'elle, e foi então que dois amigos evita- 
ram, por um acaso, que Camillo se matasse com 
uns grãos d'opio, depois de escrever A harpa do 
sceptico^ poesia hereje, como ultimo adeus a uma 
vida que lhe fora de agitações e d'amarguras. Conta 
Vieira de Castro que, no lance, Camillo tinha sobre 
a banca setenta libras, para que se não dissesse, 
vendo-o morto, que a miséria tinha sido a causa que 
o levara a tal extremo. Nas Horas de lucfa, Freitas 
Fortuna assegura que, quando escreveu a poesia, 
Camillo tinha já engulido quantas pastilhas de ópio 
lhe haviam receitado para debellar a insomnia, e 
que os amigos (Miguel Nicolau Esteves Negrão e 



'' No Bom Jesus do Monte. 



108 CAMILLO 

José Augusto Pinto de Magalhães) o soccorreram 
depois. A rival de Patricia Emilia era, ao que pa- 
rece, uma senhora da melhor sociedade portuense,, 
cujo nome ainda hoje ali tem representantes. Ca- 
millo, ora em Villa Real, ora no Porto, não podia 
occultar de Patricia Emilia esses amores. D'ahi o 
conílicto sentimental que o ia levando á morte pelo 
caminho romântico do suicídio. Numas palavras 
que precedem a publicação da Harpa do sceptico 
no jornal litterario A Semana, palavras transcriptas 
pelo sr. Alberto Pimentel no Romance do roman- 
cista, Camillo explica, com todo o ornato da sua 
rhetorica sentimental, o seu estado d'alma ao com- 
por essa poesia : 

«Era em julho de 1847 — escreveu elle ^ — Por 
esses tempos que eu choro ... de saudade — não ! . . . 
que eu choro porque me revivem as dores surdas 
e despedaçadoras das chagas da alma, que de lá me 
restam. . . por esses tempos luctavam-me duas pai- 
xões furiosas no espirito estreito, acanhadíssimo, 
para duas tamanhas paixões como essas eram ! . . . 
Eu devia sacriíicios tremendos a uma mulher que 
me estremecia de adoração cega, descomposta, e. . . 

caprichosa Não sei se a amava por esses tempos, 

como devera amá-la sempre ; é certo que outra mu- 



1 « Nem artigo nem poesia vem assignados — regista 
o sr, Alberto Pimentel — mas Camillo firmou depois a 
poesia com o seu nome, e até se refere a ella num livro, 
pelo menos ». 



CAMILLO 109 

Iher havia alii no mundo tão fascinadora, tão dés- 
pota dos seus encantos e da sua posição social, que 
eu, reptil orgulhoso, ousei erguer-me do rasto de 
seus pés, para guindar-me á altura do seu vôo de 
anjo. Essa mulher... ouviu-me... Deverei escre- 
ver aqui uma verdade amarguradissima que a con- 
sciência me diz?. . . Amou-me E uma historia 

de muitas misérias impossíveis numa vida só, e 
e«sa apenas estrelada ! . . . Quem sabe se este livro 
será todo d'ella e para ella? E' o meu segredo, sa- 
crosanto como o mysterio da hóstia e do cálix. 
Hojei-me aos pés cFessa mulher; acurvei-me, annu- 
lei-me em toda a soberbia do falso oiro do meu or- 
gulho — amei-a perdidamente! Mas a mulher dos 
tremendos sacrifícios resentiu-se, delirou, desman- 
dou-se até ao incrível d'uma vingança senhoril. . . 
Era uma serpente de ferocidade como fora um anjo 
de amor! Foi augusto, solemne e grandioso de santa 
resignação o aspecto com que supportei dissabores 
incomprehensiveis ! A ancora maldita do suicídio 
encorajava-me de brios de infeliz por entre parceis 
de quantos infortúnios resaltam de uma vida tem- 
pestuosa. Determinei matar-me...» Parece que ao 
principio pensou em suicidar-se com um tiro. « Mor- 
rer á pistola — diz elle nesse mesmo artigo — pare- 
cia-me a mais nobre, a mais excellente, e, deixai-me 
assim dizer, a mais significativa maneira de revelar 
a desesperação». Por fim, escolheu o ópio. . . mor- 
rer sonhando, mergulhado num mundo inreal de 
coisas bellas. 



110 CAMILLO 

«Yivêra só neste mundo, 
Só, na campa, vae cahir, 
O seu gemer moribundo 
Ninguém lli'o ha de carpir. . . 
Nem um Ghristo allumiado 
Pela tocha do finado 
Terá no leito a morrer ! . . . 
Nas visões do paroxismo 
Vê de nada o torvo abysmo 
Sorver-lhe o impio viver! 
Um cadáver insepulto 
Ahi jaz do que morreu ! 
I)eixai-o ! — é a Deus um insulto 
Dar sepultura ao atheu ! 
Deixai-o ! — ninguém o vele. . . 
Que os corvos pairem sobre elle 
Em voraz sofreguidão I 
Não dobre fúnebre o sino I 
Demónios! rugi-lhe um hymno 
Ao morto sem contricção ! ^ 

Mas tudo isto que hoje nos faz sorrir, tem um 
caracter que tão naturalmente deriva da época em 
que foij tudo isto se nos apresenta d'um modo que 
a feição individual do escriptor, juntamente comas 
caracteristicas tão salientes do meio, d'uma forma 
tão perfeita nos explicam, que eu não saberia ir 
mais além no meu estudo, sem rapidamente lançar 
os olhos para o aspecto da vida portuguesa — ou, 
mais restrictamente, portuense — nesse tempo, que, 
em tantos pontos e por vezes d'um modo pittoresco, 



Da Harpa do scepti 



CAMILLO 111' 

se afasta profundamente da maneira de ser dos 
nossos dias. Por esse tempo, para mais, Camillo vae 
começar a ser perfeitamente um portuense. Aban- 
dona a provincia. E na vida da cidade leva todo- 
o seu tempo, — menos aquelle em que, afastado em 
Gaya, cultiva, ao que parece, romanescos amores- 
com uma costureira, num ninho idyllico escondido 
nas sombras discretas do Caudal. ^ 

Quanto á romanesca tentativa de suicidio, ainda 
é licito dizer que tal desvairamento é susceptivel 
d'uma explicação, abstrahindo mesmo de tudo o que 
nelle se possa encontrar de pathologico, porquanto 
Camillo era um homem, coUocado entre a mulher 
que elle seduzira e que abandonou o futuro para o 
seguir de olhos fechados, que lhe lembrava com 
desespero o amor antigo e, na voz, ora supplicante, 
ora agreste, da dof e do ciúme, vinha gritar os seus 
direitos, — e essa outra á prestigiosa altura de cuja 
belleza se rendera o pobre martyr d'um coração 
que tinha de o tornar infeliz a vida toda. Porque 
era ainda esse homem que^ annos depois, pensava 
assim : «Eu de mim, se viesse da natureza privado 
de todos os dotes que habilitam para o trabalho, 
sahiria de noite a pedir esmola para sustentar a 
mulher que se houvesse despenhado dos afagos de 
uma familia á deshonra dos meus braços » . ^ 



' Alberto Pimentel: Os amores de Camillo. 
2- Memorias do cárcere, t. I 



112 CAMILLO 

Um rápido escorço do meio dar-nos-á margem 
a uma melhor comprehensão da complexa figura 
de Camillo, cuja historia, neste ponto do meu re- 
lato, vae entrar no seu periodo de maior actividade 
como escriptor, periodo dentro do qual se esboça, 
desenrola e fenece sob o peso da desgraça, mais 
intenso e duradoiro que os outros, o derradeiro 
episodio d'amôr da sua vida. 



III 

1849-1890 



In illo tempore, a cidade da Virgem já não era 
apenas o amontoado interessante de casas, tre- 
pando sobre o Douro, num declive, até ás alturas 
do severo Paço Episcopal. O Porto d'outros tempos, 
tão característico no pittoresco dos seus aspectos, 
de ha maito se alargara e, na altura em que o meu 
estudo o encontra, já, com os seus theatros, o seu 
passeio publico e a posse do coração do rei D. Pedro, 
entrara, de par e passo, na civilização e na gloria. 
Foco, pela historia adeante, das reivindicações 
do terceiro estado, baluarte das liberdades pátrias 
no nosso tempo, o Porto de ha quarenta e tantos 
annos tinha, porém, mais o aspecto sombrio e so- 
cegado de velho burgo que o bellicoso ar de tor- 
rão fadado ao fermento de revoluções e á génese 
de heroes. Atrás dos balcões da rua das Flores e 
dos Clérigos havia uma sociedade pacata e laboriosa 
que monotonamente levava a sua vida de trabalho, 

8 



114 CAMILLO 

presando a sua honra, cuidando os seus callos, não 
se importando de politica, arrecadando com usura, 
gulosamente, as libras que o negocio lhe dava em 
seu provento; e, comtudo, esses homens, curtos d'as- 
pirações, poupados no saber, correctamente metti- 
dos nas suas longas sobrecasacas negras, trabalhan- 
do o dia inteiro, deitando ao domingo, regrada- 
mente, a sua merenda pelo rio ou o seu camarote 
no theatro, longe a longe, — eram velhos comba- 
tentes do cerco do Porto, que fizeram frente audaz 
ás tropas miguelistas, ou dos que sustentaram depois, 
nas inconstancias d' um regimen adaptado á força 
a uma terra que o não queria, as luctas varias que 
por muito tempo seguiram, em contínuas rebelliões, 
imposições armadas, um mal-estar constante, uma 
maneira de ser instável, o advento do constitucio- 
nalismo em Portugal. 

« Da politica propriamente dita — escreveu o sr. 
Ramalho, no Estudo critico que precede a edição mo- 
numental do Amor de perdição — tinham uma ideia 
longínqua e nebulosa a que a palavra ladroagem 
servia de vaga synthese » , mas dos seus deveres de 
cidadãos — mesarios da Misericórdia, irmãos de 
confrarias, juizes de paz, cotizando-se para festejar 
os santos padroeiros, comparecendo pontualmente, 
como a bons catholicos cumpria, a procissões e ro- 
marias, d'esses deveres tinham elles a consciência 
mais nitida, como nitida tinham também, e intran- 
sigente, a sua ideia de moral. A dissolvencia dos 
costumes não entrara na pacatez honesta da rua das 



CAMILLO 115 

Flores, nem tampouco a arte corrompera os cândi- 
dos espíritos, emquanto os amantes de boas-letras 
soletravam em seus oeios as historias de cordel^ 
com cavalleiros e princezas, e A Virgem da Polónia 
do conselheiro Bastos. Nem o palheiro da Assem- 
bleia encontraVa farto assumpto nas suas nocturnas 
sessões de maldizer. 

A sociedade portuense, sem pretensões aíidal- 
gadas, era quasi exclusivamente composta dos 
mercadores que já lembrei e da colónia inglesa 
que, vivendo á parte, espantava os burgueses com 
a garridice dos seus trajos e a maneira, adeantada 
já, dos seus costumes. Isso quando uma mocidade 
endiabrada veio, com todas as arrogâncias e todas 
as infantilidades que o romantismo francês lhe en- 
sinara, a pôr uma nota inédita, com a novidade do 
escândalo e o pittoresco da aventura, num meio 
em que os bons costumes eram norma e reinava 
ainda o carroção. Começaram então a ser frequen- 
tados os cafés, a correrem as ruas os trens e os ca- 
valleiros, a sublevarem-se as plateias em manifesta- 
ções nunca mais vistas, a dormirem em sobresalto 
maridos de joanetes e pães com filhas novas ; a lit- 
teratura romântica venceu, dos livros passou o rapto 
para a historia de todos os amores contrariados e, 
em frente da má-lingua do palheiro^ ergueu-se, de 
sangue na guelra, travessa, mais moça e mais cortan- 
te, a má-lingua do Guichard. Já menina em termos 
não havia' que desposasse o caixeiro lorpa do papá, 
sem levar, a dentro d 'alma, como folhas murchas 



116 CAMILLO 

pelo outomno das esperanças illudidas, as cinzas 
d'uma paixão romanesca, com personagens de bi- 
godes encerados e musas capazes de enternecer as 
mais esquivas. Já o casamento não era para os 
bons mercadores do velho Porto o sacramento que 
lhes dava a posse da mulher, por mais gentil, ex- 
clusiva á face de Deus e dos homens, por deter- 
minações respeitadas dos cânones, da moral e da 
justiça. Era a edade de oiro dos Manfrêdos, jovens e 
tristes, de longos cabellos negros, pallidez de cera, 
olheiras fundas, com um diccionario de rimas no 
bolso e a alma de Musset no coração. E essa mo- 
cidade portuense, não desprezando as suas tradi- 
ções de valentia, esmurrando-se em pugilatos, pu- 
gnando a cacete e a tiro por uma tirada em folhetim 
ou a voz d'uma cantora, era, no fim de contas, uma 
legião de creaturas exaltadas, pelos modelos da épo- 
ca, importados da França de Lamartine, e que, no 
ardor das suas aventuras, pondo a mascara d'um 
cynismo que triumpha, nem sempre deixavam de 
ser, por seu mal, apenas uns sinceros. 

A população da cidade ficava assim, na parte 
que me interessa, dividida em duas facções : d'(im 
lado os homens de acção, trabalhando de manhã 
até noite nos seus armazéns e nas suas lojas, do 
outro, uns moços estróinas, desbaratando patrimó- 
nios, aproveitando a seu modo a vida, fazendo gala 
de aventuras, se bem que mettendo o coração em 
todas ellas, e, por essas e por outras, conquistando 
a granel as suas damas. Manda a verdade dizer que 



CÁMILLO 



117 



se não comprehendiam uns aos outros, e que, apre- 
ciando-se de tal modo, foram, por vezes, deplora- 
velmente injustos, — porque nem o mercante era 
sempre e em absoluto abjecto e desprezível, nem 
os rapazes eram tão maus nem tão perversos como 
o terror dos pães e consortes os pintava. Pelo que 
respeita a damas sensiíicadas e cavalheiros que lhes 
mitigavam com o alcide do amor a sua aplestia de 
caroaveis aíFeições, é de saber que estavam nesta 
afinação : Elias, se tinham certos dotes litterarios, 
escreviam coisas d'estas : 



« . . .Eu amei-o, oh meu Deus! era um anjo ! 
Era um anjo o mortal qu'eu amei; 
Mas que digo? infeliz inda o amo 
Só por morte de o amar deixarei. 

Tem uns olhos castanhos escuros, 
Quasi negros. . . que lindos que são ! 
Expressivos, tão ternos, tão meigos !. . . 
Iguaes olhos não ha — isso não... 

Nunca amara— era livre e ditosa, 
Esses olhos mal vi logo amei. 
Feiticeiros ! . . . fascinam e matam ; 
Doidejando por elles fiquei. 

Fiquei doida por olhos divinos, 
Tão divinos como eu nunca vi, 
Longos tragos d'amor ineíTavel, 
N'aura taça por elles bebi. 



118 CAMILLO 



E O cabello ? Ião negro, tão negro, 
Sua tez? tão morena e tão. pura, 
E os cientes? tão brancos, de neve, 
E a gentil tão esbelta figura ? 

He poeta o meu anjo !. .. no peito 
Coração de poeta lhe bate ; 
Gomo nunca, ó poeta eu fadoro 
Pois tu hes cá na terra o meu vate. 

Ai eu famo co' estremo e doçura! 
Ai eu t'amo com idolatria ! 
A um mortal tanto amor consagrado 
Tanto amor. . . só a Deus pertencia. 

O bom Deus castigou-me por isso : 
O meu anjo infiel se tornou ! 
Gosta d'outra. . . e a mim — malfadada — 
Tão infliz e tão só me deixou. 

Gosta d'outra esse ingrato querido ? 

Gosta d'outra ! e agora ai de mim ! 

Que tormento me rala minh'ahTia, 

Que tormento, meu Deus. . . e sem fim I ^ ^ 

E os homens iam dizendo magnas e amores 
naquelle estado, hoje morto, em que João de Lemos 
gemia os seus tormentos : 



1 Pertencem estas quadras a uma extensa composi- 
ção que, com o titulo de O meu viver e assignada por Uma 
portuense, vem inserta no t. V da Lista poética ou collecção 
de iwesias modernas de andores portuguezes, publicada por 
José Ferreira Monteiro, em 1817, no llio de Janeiro. 



fr 



CAMILLO 119 

« Ouves além no retumbar da serra, 
O som do bronze, que nos causa horror ? 
Foi mais um ente que voou da terra 
Mais um poeta que morreu d'amôr. » 

Porque n<^sse tempo morria-se d 'amor, lyrica- 
mente, fora das imagens dos poetas e das paixões 
de má ventura das chronicas medievaes. E morria- 
se por vezes de modo tão extranhavel para a ma. 
neira de ver materialona dos nossos dias, que eu 
terei de encarar sem um gracejo, d 'entre o grupo 
dos novos então em evidencia, alguns cuja sorte, 
com certeza, merece, pelo que tem de doloroso, o 
nosso respeito, antes mesmo de, pelo seu interesse 
como documento d'uma época e, de modo mais res- 
tricto, como caso mórbido curioso, reclamar o nosso 
estudo. 

Assim esse Jorge Arthur, versejador e enamo- 
rado, que ouvindo, da rua, cantar, entretendo as 
visitas de casa, a creatura amada que, por elle ser 
pobre, lhe não davam, se foi deitar da ponte abaixo, 
levando junto ao coração um boné de velludo, bor- 
dado pela mulher por quem morria ^ 

Assim esse D. João d'Azevedo, poeta e roman- 
cista, que, amando uma mulher rebelde, fez impri- 
mir e mandou-lhe um só exemplar d'um livro a 
descompô-la, o que lhe acarretou o ódio d'ella e um 
maior motivo ás suas amarguras ^. 



* Camillo : A mulher fatal e Oholo ás creangas. 
2 Camillo : No Bom Jesus do Monte. 



12 o CAMILLO 

Assim Jacintho Navarro d'Andrade que, depois 
de desbaratar o património, casou, e um dia, no 
tempo da febre amarella, já doente, ao ver a mulher 
morta, foi ao estabelecimento do Nilo, tomou um 
banho frio e entrou em casa moribundo para expirar 
horas depois ^ 

E esse José Augusto que, sabendo, entre o rapto 
e o casamento com Fanny Owen, que essa senhora, 
já depois de o conhecer, escrevera a um amigo, di- 
zendo que não tinha achado ainda coração que a 
comprehendesse, deixou-a, passados meses, morrer 
virgem ^. Quando dias depois, uma febre cerebral o 
levou, dentro da única mala que condiwira para o 
hotel de Lisboa onde morreu, encontrou-se apenas 
um vestido de noivado e uma coroa de flores de 
laranjeira ^. 

E, além d'estes, que Camillo nos mostra disper- 
sos na sua longa galeria, ainda esse outro antigo 
militar que, segundo o sr. Ramalho nos conta, «des- 
enganado de todas as glorias, descrido de todas as 
illusões com que se pode illuminar uma existência 
de mundano, fazia periodicamente uma peregrina- 
ção de nove léguas a pé, para ir a uma montanha 
da província do Douro ver uma rapariga do campo 
que tinha os olhos verdes e uma longa trança de 
cabellos louros. As paredes do quarto em que per- 



1 Camillo : No Bom Jesus do Monte. 

2 Ramalho Ortigão: Log. cit. 



CAMILLO 121 

noitava, por occasião d'essas romagens, encheram-se 
de versos á que denominava, A deusa dos olhos 
garços». O original amante «morreu no Porto pros- 
trado pelo abmso do álcool, em que tentava afogar 
o seu longo e pesado tédio, num quarto de dormir 
armado em barraca de campanha, tendo por deco- 
ração duas múmias trazidas do Egypto, e uma jaula 
em que se debatia e uivava um leão» ^. 

E, a par d'isso, se corrermos, de passagem, as 
causas da morte da maior parte dos que nesse tempo 
figuravam na arte e no dandysmo e espantavam, 
com os seus princípios e as suas arrogâncias, a pa- 
catez dos bons e honestos mercadores, iremos ver 
preponderantes a tysica, o alcoolismo, a demência 
e o suicídio. 

Nasceram esses homens num período de agitação 
politica, em que as tentativas de Napoleão ainda 
não tinham esquecido e o liberalismo rompia por 
toda a parte, berrando os seus direitos pela boca 
dos tribunos ou pela intimação das bayonetas ; Por- 
tugal vinha a ser, dentro em pouco, um reino sem 
rei, sujeito ao mando de todos, á mercê do alvedrio 
d'um bretão ou das ameaças d'um francês, ou das 
represálias violentas d'um povo revoltado. Não vem 
isto para demonstrar que nos invictos Saint-Preux 
medrasse o furor d'esse constitucionalismo que, en- 
tre nós, nunca foi mais que um inattingido ideal 



Ramalho Ortigão : Log. cit. 



r22 CAMILLO 

para meia dúzia e, sob o sendal de hypocrisia, um 
suculento íilào para a maior parte. A sciencia, po- 
rém, ensina que os individuos concebidos em cer- 
tas épocas agitadas apparecem muito vulgarmente 
malformados ou soíFrendo perturbações nutritivas 
e nervosas ^; e, por esse lado, não espanta, mesmo 
que circumstancias individuaes nos não convençam, 
concluir que, afinal, com todo o seu ruido de escân- 
dalo, as suas arremettidas de D. Juans e de Quixo- 
tes, — a mocidade estúrdia de ha cincoenta annos 
não passava de uma infeliz geração de nevropathas. 
Para esses bons rapazes, se alguma coisa de alto e 
respeitável havia na vida era o amor, esse amor 
que os lançava sem medo nos braços da aventura, 
esse amor que elles contavam e cantavam nas ingé- 
nuas paginas dos seus livros. O amor era a re- 
dempçáo, a fortuna, o destino, e a morte. . . 

Um facto basta que o comprove : Quando foi á 
scena, no Porto, pela primeira vez, a Dama das ca- 
melia.s^ a gente moça deu em procurar por toda a 
parte, já não pelos salões, mas nas ruelas da misé- 
ria e do vicio, a Margarida Grauthier que o seu 
amor redimiria. E o caso é que, na febre rehabi- 
litadora, alguns d'esses homens desposaram, salvan- 
do da tysica romântica no ultimo lance, garridas 
damas que lá foram, no correr do tempo, envelhe- 
cendo e encarquilhando, em charra prosa, como 
qualquer matrona honesta. 



1 Fere : Ob. cit., p. 18. 



CAMILLO 123 

E' opportuno agora recordar a interessantíssima 
evocação que, em 1885, Camillo fez d'alguns episó- 
dios da sua viíia no Porto d'aquelle tempo. Vem 
no segundo volume dos Se)'ões de S. Miguel de Seide 
e diz assim : 

«A esta hora, na egreja de S. Ildefonso, no 
Porto, uns presbyteros de larynge sadia garganteam 
responsorios á beira do cadáver de um que ainda 
hontem era Juiz da Eelação, e se se chamava João 
Eoberto de Araújo Taveira. O concurso dos assis- 
tentes, quer official quer espontâneo, deve ser lison- 
jeiro para o benemérito defuncto. João Roberto, 
diz o Diário que me trouxe a dolorosa noticia, 
era muito estimado pelas suas excellenfes qualidades 
e respeitado pela inquebrantahilidade do seu ca?'acter 
e rectidão de consciência. Entre tantos assistentes a 
essa derradeira scena muda e cega que o corpo re- 
presenta na crosta do planeta, nesse berrado lyris- 
mo de cantochão que apenas tem para o morto a 
vantagem de elle o não ouvir, posso jurar que 
ninguém se lembrou do que foi no Porto, ha 35 
annos, aquelle velho que ali está na eça, rigido e 
inflexo, amortalhado na toga de desembargador. 
Em 1.849 era João Roberto de Araújo Taveira um 
dos mais galhofeiros e satyricos rapazes da pha- 
lange do Café Guichard — que eu chamaria uma 
colmeia onde se emmelavam doces favos de espirito, 
se aquelle botequim não fosse antes um vespereiro 
que desferia, ás revoadas, ferretoando os bócios dos 
gordos philistinos da Assembleia e as macias espa- 



124 CAMILLO 

daas lácteas das suas consortes' no coração e nos 
ádypos. Foi João Roberto sempre magro e de 
feições angulosas, typo castelhado de raça musul- 
mana, olhos phosphorescentes e umas risadas estri- 
dulas quando tinha de castigar, rindo como Horácio, 
um inepto desvanecido ao victoriar uma boa e lusi- 
tana chalaça. A isso que hoje por ahi se inculca 
subtil remoque, arranque de espirito, chamávamos 
nós chalaças ; e ás agudezas quer actualmente cele- 
brizam os Sternes e Pirons das Havanezas chamá- 
vamos, nesse tempo, babuzeiras^ provavelmente — 
umas facécias aziumadas de velhice e expostas nos 
trottoirs betuminosos das tabacarias. Na mocidade 
de João Roberto e na minha, os estanques eram 
sentinas delecterias, umas colónias de micróbios 
virgulados ainda então inéditos, pestilenciaes escân- 
dalos onde os viciosos, por medo da opinião publica, 
não paravam. Os Contractadores do Tabaco eram 
umas espécies peoradas de Mellos do Casacão (Deus 
perdoe a todos!) que viviam medradamente das 
agencias d'aquelles bordeis de nicotina. A tabacaria 
ainda não tinha usurpado á botica a concorrência 
de indivíduos, pletóricos de anecdotas lúbricas, e 
archivistas dos maus costumes das famílias de suas 
relações. A botica era o queimadeiro subalterno 
dos créditos, uma espécie de patíbulo succursal do 
Palheiro^ grande centro constituído em uma sala 
especial da Assembleia da Trindade. Fazia-se ali a 
Pall Mali Gazette verbal do Porto, e esboçava-se a 
preexistência do Daili/ News, de Chicago. A male- 



CAMILLO 125 

diceiícia do Café-Guicliard era a vingadora das 
victimas do Palheiro em particular e da botica em 
geral. Nós profligavamos a corrupção dos velhos, a 
putrilagem purulenta que infeccionava, com a lingua, 
toda a florescência das almas novas. Compunha-se 
o Palheiro de veteranos estropiados, um contuber- 
naculo de argentarios inválidos com fêmeas espaven- 
tosas muito communistas, egressos, causidicos, or- 
namentes da magistratura, e até desembargadores 
e bastantes cónegos, todos cabralistas e alguns, 
salvo seja, catholicos. Contavam, á vez, historias 
cantaridadas das Vénus au rahais da sua mocidade, 
rapaziadas terríveis, particularizando miudezas ana- 
tómicas, musculaturas, curvas de carne, boleios de 
quadris e maciezas de epiderme, como se do craneo 
de cada qual estivesse a explosir o futuro Zola. 
Tal era o Palheiro^ hoje provavelmente substituído 
atavicamente por uns calvos, com dentaduras pro- 
blemáticas, que, ha 35 annos, encalamistravam os 
bigodes e narcisavam as cabelleiras frizadas nos 
espelhos do Café-Guichard. O certo é que o Palheiro 
subsiste. As trombetas do progresso ainda não vin- 
garam baquear aquelle pedaço da velha Jericó. E 
uma escrophula hereditária do burgo de D. Moninho. 
« No qual tempo, João Roberto escrevia chroni- 
cas semanaes no Ecco Popular com um pseudo aymo. 
Estylo um pouco derramado, aziatico, mas adubado 
de picantes especiarias levantinas. Mordacidade 
felina, bastante delicada, mas com unhas sempre 
desembainhadas para impor respeito nas brincadei- 



126 CAMILLO 

ras. Havia guerra de adjectivos percucientes por 
causa das actrizes lyricas. Elle alistara-se no estan- 
darte da Dabedeille, esvelta mulher. Um clássico, 
sem medo do calembour, diria que toda a juventude 
portuense seguia as partes da cantora aphrodysiaca. 
Morgados da província arrebanhavam-se, como cer- 
dos, á volta d'aquella Circe. Eu e poucos mais jurá- 
ramos levar pancada até morrer, sendo preciso, fiéis 
á bandeira da Belloni, uma creatura enfesada, feia, 
veletudinaria, casada e de mais a mais honesta. 
Anastácio das Lomòrígas^ um pseudonymo espiri- 
tuoso que prognosticava a tenia, era o meu nome 
de guerra no Jornal do Porto. João Roberto arcou 
valentemente comigo e de modo tal que sahiu d'este 
mundo com as contas bem saldadas em moeda de 
epigramma, de insolência e de troça. Ninguém sa- 
bia, nem o proprietário do jornal, o João Coelho, 
que morreu ministro em Berlim, quem era o Anas- 
tácio das Lombrigas. Quando eu tive, no momento 
physiologico de pancadaria imminente, a lenidade 
de o declarar em defesa de alguma supposta victima 
sem culpa nem grammatica, João Roberto applaudiu 
a minha franca lealdade, modificando para melhor 
a sua opinião impressa a respeito das minhas par- 
voiçadas lyricas, muito accentuadas na estólida 
pretensão de fazer-me mestre de esthetica portu- 
guesa, o Véron da Rua das Flores. D'ahi em diante, 
nos poucos meses que convivemos no Porto, terça- 
mos ainda as pennas de pato no campo do folhetim 
honrado, sem nos tratarmos de pulhas, de patifes, 



CAMILLO 127 

e nem sequer de bestas — um caso mythologico nas 
polemicas indígenas. E entretanto deu-se uma causa 
irritante para vMtarmos á cascalheira lamacenta eni 
que os fundibularios carregam as fundas. Ainda 
hontem a li no Nacional d'aquelle anno; e, quando 
cheguei ao fim, as lagrimas não me deixaram dele- 
trear as ultimas linhas. Saudade de tantos amigos 
mortos, e saudade de mim mesmo, da minha alegria, 
das minhas doidices, dos meus '23 annos. 

«Foi assim. Os paladinos da Dabedeille, em 
numero passante de vinte e quatro, deram-lhe um 
jantar na Ponte-de-Pedra. Concorreram damas da 
primeira extracção com os seus pérfidos esposos. 

Ditosa condição, ditosa gente 
Que não são de ciúmes oíTendidos. 

Casualmente passeava eu por aquelles sitios. Ia 
comigo Aloysio Ferreira de Seabra, um hellonista^ 
fallecido ha muitos annos, conjurado também em 
deixar-se bater e matar por ella, que era feia, doente, 
casada e de mais a mais honesta. A fileira especta- 
culosa dos trens á porta da taverna beliscou-me a 
curiosidade. Quando soubemos que se festejava a 
cantora, apeamos com a innocente cobiça de ouvir 
os brindes. O taverneiro serviu-nos um quarto e 
umas enguias de caldeirada, ao pé da sala do ban- 
quete. Um dos commensaes que ainda vive e não 
podia ser senão o festival João Gruimarães, que 
Deus conserve dilatados annos na recebedoria de 



128 CAMTLLO 

Belém, vira-nos curvados ngolinamente sobre as 
enguias rescendentes de coloráo, e chamou, de lon- 
ge, a nossa attenção com uma palmatória que um 
prospero acaso deparara ao seu espirito magistral; 
e, dando palmatoadas na sua mão esquerda, expri- 
mia o symbolista imaginoso que o jantar dado pelos 
dabedeillistas á sua dama eram ideaes palmatoadas 
nos menestréis, a sêcco, da Belloni. Não soubemos 
estheticamente apreciar a symbolica de João Gui- 
marães, sob aquella forma pedagoga — uma ratice 
genial, com todas as irresponsabilidades de um or- 
ganismo esquisito, como era o do nosso jovial amigo. 
Capitulou-se pois de repto o acto; e, sem prévio 
debate, entramos, os dois, de copo em punho, na 
quadra do banquete, e brindámos á nossa dama, a 
dessorada Belloni, feia, enfermiça, casada e de mais 
a mais honesta. Entre aquelles vinte e tantos con- 
vivas havia rapazes muito valentes. Estavam os 
quatro famosos Guedes, da casa da Costa, o terror- 
dos caceteiros cabralistas; os Leites de Paço de 
Sousa; bastantes morgados de Riba-Douro e Riba 
Corgo e Riba Tâmega — uma gente bravia com ares 
de recem-vindos da Palestina, fartos de fluminar o 
montante, espostejando mós de turcos. Conhecia-se 
apenas que eram nossos contemporâneos, pelas mi- 
rabolantes cores com que vestiam — pittorescos como 
araras. Pois d'esses façanhosos nenhum se insurgiu 
contra nós. Ergueram-se apenas, floreando as facas 
do talher, com cabo de osso sujo, os três ou quatro 
únicos poltrões da companhia. Aloysio de Seabra 



CAMILLO 129 

retirara ferido em uma das mãos pela ponta de um 
estoque de bengala; e eu, que entrara resoluto a 
morrer, inutilizado o copo na cabeça do mais co- 
barde, cruzei os braços esperando a morte numa 
attitude romana ; e, se não cobri o rosto como Gesar, 
em vista de vários brutos sem maiúscula, foi por- 
que a aba do frak não me chegava á cabeça. Parece 
que entre os três ou quatro carniíices havia hesita- 
ções : se me rebentariam de encontro á parede, ou 
se seria mais exemplar enforcarem-me em um galho 
do pinhal. Uma senhora hysterica, com uns soluços, 
dava-se geitos de querer desmaiar. Outra matrona 
unctuosa, frescalhona, de caracóes postiços, com ares 
de muito emancipada de etiquetas, dardejava-me 
olhos exophtalmicos furiosamente e vociferava : — 
Pouca vergonha! pouca vergonha! Ella parecia do- 
minada do cruel appetite de me dar meia dúzia de 
facadas nas entranhas. — Que eu tinha-lhe pertur- 
hado a digestão^ dizia, muito azeda, com flatulências, 
pondo as mãos espalmadas no alto ventre tympa- 
nizado. João Roberto d'Araujo Taveira e António 
Guedes Infante perfilaram-se comigo. O Gruedes 
ria-se — aquelle gentilissimo rapaz que, damas e ho- 
mens, todos amávamos pela graça incomparável do 
seu rosto e pelos encantos do seu riso sarcástico. 
Elle tinha inventado o itálico na palestra oral ; era 
pôr o dedo sob o lábio inferior quando a palavra 
era expedida. — E^ precisão, disse-me elle então, 
dar uma satisfação a madame Dahedeille, que éuma 
vií^tuosa senhora^ e griphava com o dedo debaixo 

9 



130 CAMILLO 

do beiço a virtuosa senhora. Entretanto, João Ro- 
berto, voltado contra o grupo dos cannibaes, perorava 
com gestos forenses e 5 razões: 1.^ Qae era indeco- 
roso atacarem um homem só e inerme. 2.* Que c 
nosso brinde romanesco a mad. Belloni, se não era 
uma expansão de corações sensíveis, também nãc 
podia considerar-se explosão definitiva do vinho da 
Ponte-de-Pedra que não prestava para nada. 3.* 
Que mad. Dabedeille, com o seu rico, saluberrimc 
sangue e marmóreas carnes, a rebentar de sadia 
não poderia levar a mal que dois cytaredos da sus 
rival anemica propuzessem um brinde á saúde dí 
mad. Belloni, uma dama que expedia dos gorgomi 
los infelizes notas cacheticas a pedirem misericordií 
e óleo de fígados de bacalhau. 4.^ Que o sangue 
derramado por causa das duas primas-donas naquelh 
recinto, ou taberna, era uma orgia de sentimenta 
lismo que envergonhará Portugal, um paiz serio 
perante as nações da Europa culta e talvez na pro 
pria Tartaria. 5.* e ultima razão, que me deixassen 
ir em paz e incólume, a digerir a minha paixão oi; 
o meu vinho, se elle fora o elixir que fizera retro 
ceder o meu espirito até á edade media, enchendo 
me a cabeça de E/olandos, de Amadizes, de Clari 
mundos e Cavalleiros da Triste figura, isto numí 
época de prosa em que as Dulcineas se festeja van 
a 3 pintos por cabeça numa estalagem de almocre 
ves. E, curvando-se ao meu ouvido : — Vá-se emborc 
emquanto elles mastigam o meu discurso. Lembre-st 
você que a rhetorica de Cicero nem semj^re salvo t 



CAMILLO 



131 



os seus clientes; nem elle próprio com toda a sua 
eloquência se exiíniu de o levar o diabo. Achei razão 
a João Roberto e í^ii-me embora. E no dia seguinte 
inventei uma vingança estrondosa — uma corneta 
de lata feita na Rua Escura que expedia berros 
atroadores; e, no theatro de S. João, inaugurei pa- 
teadas á Dabedeille com trompa. Nem inventei mais 
nada em toda a minha vida, na região do lyrismo. 
O martello já estava inventado pelo Diogo Maria, 
conde de Casal, o principe dos elegantes, que hoje 
esconde os destroços da sua vida atormentada nas 
brenhas de uma quinta no Alto Minho, sem saudade 
do que foi, porque entre as pompas da sua juven- 
tude e a sua velhice obscura está a imagem de uma 
filha morta a nublar-lhe o passado com tamanha 
paixão que todos os horizontes lhe fecha e aperta 
á volta de uma sepultura. Quem são os que ainda 
vivem d'aquelle banquete ? seis ou sete dos vinte e 
tantos, quando muito. Ha seis meses acabou de 
morrer um, nas angustias da ataxia: elle era o mais 
irrequieto e alegre de todos nós — o António Duarte 
Guimarães. Que desconto acerbo o dos seus últimos 
annos, confrontados com os júbilos imperturbáveis 
da sua mocidade, e pela vida fora, sempre honrada, 
até que os cabellos lhe encaneceram, e a doença 
entrou a esphacelá-lo por todas as fibras! Um dos 
restantes, era esse, o juiz da Relação João Roberto 
que a esta hora, hirto na sua mortalha de tafetá, em 
S. Ildefonso, inicia a putrefacção transformista do 
seu quinhão de matéria que ali serve de pretexto ^ 



132 CAMILLO 

algazarra latina fanhoseada por algumas dezenas de 
presbyteros com mercenária uncção e grande apro- 
veitamento. 

«Eestamos poucos d'aquelles genuínos de 1849, 
sinceramente rapazes, pouco dinheirosos, nada con- 
vencionalistas ; mas desinfectantes e imputreciveis 
no seio das familias, porque eram românticos, cas- 
tamente românticos. Guedes Infante é cônsul na 
Gallisa. Quando nos encontramos, com interpostas 
ausências de annos, conversamos de uns sujeitos 
que tiveram o nosso nome. Se os nossos risos pu- 
dessem ser liquidados, davam uma lagrima. Cons- 
tantino de Souza Guedes, um dos restantes, seguiu 
immaculadamente a magistratura. Antes de enve- 
lhecer, quando o vulgar dos magistrados se arre- 
dondam e arrotam boas digestões, elle adelgaçava-se 
e estorcia-se nas dilacerações da nevralgia. Dos 
outros, não sei ; ou, se os encontro, não os conheço, 
nem me reconhecem. Este que hontem morreu, en- 
contrei-o, ha poucos meses, pelo braço da esposa 
que lhe era um anjo bom em paga de uma adoração 
de muitos annos e sem intermittencia. Eu disse-lhe 
que ia morrer; e elle, com um sorriso animador: — 
você está a ir morrer ha trinta annos. 

«E as primas-donas o que é feito d'ellas? Onde 
tiritam essas duas velhinhas que trouxeram ahi de 
escantilhão, de asneira em asneira, a juventude 
d'esta cidade, medieval nos seus amores, e os cora- 
ções dom-juanescos dos morgados de Riba-Douro, 
Riba-Corgo e Riba-Tamega? A Belloni nunca mais 



CAMILLO 133 

cantou. Morreu logo. A Dabedeille poucos annos 
sobreviveu á sua pobre rival no proscénio. Lá fo- 
ram ambas desafinar no coro dos anjos». 

Nesse mesmo theatro de S. João, ha pouco des- 
truído por um incêndio, deu-se um episodio inte- 
ressante que o sr. Ramalho Ortigão nos conta no 
seu já citado Estudo crítico. Foi assim : 

« O jornalista Novaes Vieira, o Novaes dos óculos 
ou Novaes da Pátria^ como variadamente lhe cha- 
mavam, publicou um artigo de maledicência, em 
que três homens, Camillo, Faustino Xavier de No- 
vaes e um outro cmo nome me esquece, viram 
allusões pessoaes que resolveram punir. No dia 
d'essa publicação malfadada, Faustino, chegando 
ao theatro de S. João, onde o redactor da Pátria 
ia todas as noites, encontrou no pateo da entrada 
Camillo, rebuçado no plaid, com o casse-tete bam- 
boleando pendente da sôga. — Quem lhe dá aqui 
sou eu, que cheguei primeiro^ disse Camillo. Faus- 
tino subiu á primeira ordem, onde Novaes Vieira 
assistia de um camarote ao espectáculo. A porta 
d'esse camarote, sobraçando uma longa chibata de 
picaria, passeava o anouymo a que acima alludi. 
Este personagem dirigiu-se attenciosamente a Faus- 
tino Xavier de Novaes : — Se v. ex.^ vem também 
para espancar o sr. Novaes Vieira, rogo-lhe o obse- 
quio de esperar de preferencia lá em baixo. . . — Lá 
em baixo está-o esperando já com logar tomado o sr. 
Camillo Castello Branco. — Nesse caso supplicar- 
Ihe-hei que me faça a fineza de ir pa7'a esse primeiro 



134 CAMILLO 

patamar. Eu encaminharei para lá os passos do sr. 
Novaes Vieira, para cujo primeiro encontro sou eu 
que tenho a vez. Ha dez minutos que aqui estou. 
Assim, bem vê. . . O drama de expiação, em que o 
pobre Novaes da Pátria estava destinado a figurar 
nessa noite infausta, foi pungente mas breve. Den- 
tro de poucos minutos, o desventurado sahia do 
camarote em que se achava, era rapidamente es- 
treiado com duas chibatadas, galgava como um 
gamo o primeiro lanço de escada; d'ahi rechassado 
a socco, vinha de um só pulo cahir sob o casse-tête 
de Camillo, no esteirão do ^ndo, e era conse- 
cutivamente levado em braços á botica próxima, 
com uma brecha na cabeça e duas costeilas par- 
tidas » . 

Mas sempre esses doidivanas atiravam para um 
regaço de mulher, entre as pétalas do galanteio, um 
pedaço de coração, de forma que, se era aquella a 
mulher fatal de que falam as chronicas do tempo, 
assim o namorado, num instante, iniciava a sua sina 
de amor e de desgraça. EUes faziam versos, ellas 
liam-n'os, e os bons papás mercantes, vivendo num 
positivismo que não excluia, de vez em quando, a 
sua historia de coração, não queriam saber de musas 
e olhavam de soslaio para os endiabrados pertur- 
badores da sua paz. De resto, a época, por qual- 
quer lado que a encaremos, apparece-nos com um 
certo ar de ingenuidade, toda de enthusiasmos 
espontâneos, uma maneira sinceramente simples em 
tudo, sem sombras d'uma preoccupação pelo gro- 



CAMILLO 135 

tesco, que incommode, ou que constranja. Ia ser 
ainda essa a geração do 

a Senhor Rei, acceita o preito » 

arroto lyrico-patriotico que um bardo enthusiasta 
arrojou, no S. João, ás regias faces do monarcha 
D. Luiz^ — quando aos reis se falava em oitava ri- 
ma e a Carta não gemia ainda o fado da desillu- 
são. Ao vêr agora, já de longe, num meio tão di- 
verso e, valha a verdade, tão menos interessante, 
essa sociedade pittoresca, com as suas usanças cu- 
riosas e a sua maneira, tão outra, de tomar a vida 
a serio, — a gente sorri, como Oamillo, nos últimos 
annos da sua vida, sorria, d'esse passado depressa 
desfeito, com a estabilidade ephemera das épocas 
de transição . . . 

Foi comtudo nesse periodo, quando o feitio ro- 
manesco triumphava em toda a linha, que, num 
baile da Assembleia, Camillo deixou preso num 
olhar de mulher o seu destino. 

« Era num baile. Ondulava 
De ouro e sedas o salão : 
O ar que ali se aspirava 
Escaldava o coração. 
Tinha fogo o olhar da virgem, 
Fogo de annôr, de vertigem 
Desse que inflama o pudor ; 
Tinha a mulher, anjo ou fada, 
Uma existência encantada. 
Um condão fascinador ! 



13' 



CAMILLO 



Que linda noute, que vida 
No salão se não viveu ! 
Que existência Ião florida 
Nessa quadra rescendeu ! 
Que sorrisos tão mimosos 
Se trocaram carinhosos 
Nesse angélico festim ! 
Um galanteio era um hymno, 
Que soava um som divino 
Nos lábios d'um cherubim. 

Era um folgar incessante, 

Era um delirio febril ! 

Cada qual cinge da amante 

Breve cintura gentil ; 

Vôa com ella, embebido 

No lindo collo pendido, 

No ebúrneo peito ao desdém. .. 

Sente arfar tão junto d'ella 

O coração que revela 

Ventura... e magoas?... também ! 

E, depois, lá murmuravam 
Brandas, doces expressões... 
Cada palavra que davam 
Besumia mil paixões. . . 
Uma só, um só sorriso, 
Um olhar terno indeciso. 
Uma supplica. . . talvez ! . . . 
E, no fim do baile, a pena. . . 
A saudade. . . Ai! tão pequena 
Foi a noite desta vez ! » ^ 



Gamillo : Duas épocas na vida. 



CAMILLO 137 

« Quando entrei na sala, em que ella estava, ia 
triste. A escuridade interior do espirito vinha fora 
espessar em volta dos olhos da face uma zona, côr 
das minhas imaginações, negra como a desespe- 
rança, como os vinte e dois annos sem amor, como 
o tédio das delicias da vida apenas provadas. Vi, 
como se vê num sonho, sem conhecimento da alma 
pensante, o quadro confuso de espectáculos agra- 
dáveis. Giravam as valsas, sentia nas faces o hálito 
das mulheres offegantes de cansaço, os vestidos em 
redopio agitavam o ar tépido, rossavam-me o braço 
hombros nús, seios alvos e duros como alabastro, 
e não sei se mais animados pela vida do coração 
que o mármore das estatuas. Se eram Galatheas 
não o sabia eu ; Pigmaliões, no ardor do olhar pa- 
reciam-me todos os que as levavam cingidas no 
pular vertiginoso da dança. E ellas deixavam-se 
apertar e elanguesciam, ageitando as feições de 
modo que pareciam envergonhadas da lubricidade 
d'elles. O espectáculo devia ser deleitoso para todo 
o homem que estivesse em paz comsigo e com os 
outros. Para mim era triste. Ali foi que eu conheci 
o que é o doer da solidão moral. Cessaram as dan- 
ças. Um homem deu-me o braço e disse-me : — 
Venha ver as três mulheres mais lindas d'esta terra. 
Da que primeiro vi mal me recordo. Se a procurar 
hoje, depois de doze annos, para acordar as remi- 
niscências d'então, não a encontro, que morreu. 
Da segunda nunca poderei esquecer os olhos. A 
luz que elles tinham, como o fogo das vestaes 



138 CAMILLO 

nunca se apaga: a terra da sepultura abafa o reci- 
piente da alma que chammejava nelles, mas a 
ílamma vive sempre na memoria do coração que os 
contemplou um momento. Morreu também essa. A 
terceira eras tu. Vestias de branco, cahia-te da cin- 
tura aos pés uma faxa de sedas em ondulações, 
ennastravam-te os cabellos enfeites de fitas escar- 
lates tão graciosos como singelos. Aqui tenho deante 
de mim o teu retrato. Eras assim. Aqui me estás, 
no estio da vida, florindo a primavera d'então. 
Doze annos, e nem uma pétala murcha d'estas flo- 
res ! Frescura, graça, meiguice, o sorrir caricioso, o 
olhar mórbido, a voluptuosidade innocente, os teus 
dezeseis annos aqui neste retrato, que me está 
dizendo : Se queres achar os estragos do tempo^ prO' 
cu7'a-m'os no espirito. A formosura em mim é dura- 
doura como a dadiva funesta de íim destino irrevo- 
gável. Deixa-me recordar aquella noite. Eu contem- 
plei-te. Viste-me; e, d'ahi a momentos, procuraste o 
desconhecido que ouviras dizer-se em sua consciên- 
cia : Com esta impressão alimenta-se uma longa vida. 
Não me viste já. O restante d'aquella noite passei-a 
lendo Werther e comprehendi-o. Imaginei-te amada, 
imaginei-te esposa d'aquelle que disputava a tantos 
um sorriso teu, comprehendi a paixão que nega o 
dever, que acovarda a dignidade do homem, e o 
desata das correntes da vida. A um relâmpago dos 
teus olhos, vi todos os arcanos tenebrosos do cora- 
ção humano. Ao outro dia, puderas vêr impressa 
a historia de um cinerario que se abrira, para que 



CAMILLO 139 

as cinzas de um coração revivessem. Leste-a. Fa- 
lava-se ahi de um anjo que puzera o dedo sobre 
a urna funérea. Os traços debuxados da creatura 
<;elestial eram os teus ; mas nessa sala estavam três 
mulheres bellas, e tu renunciavas o primor á mais 
ambiciosa. Has-de crêr-me. Vêr, nos extasis scisma- 
dores da juventude, uma imagem, um aggregado 
de feições que raro se nos deparam complexas de- 
pois, e que se vão encontrando separadas e acaso 
se amam do amor reflectido do typo imaginário, 
não é mentira nem mera visualidade de poeta. » ^ 
Anna Plácido, senhora somaticamente dotada 
de preclaros méritos e sua tendenciasinha mórbida 
para as letras, era, ao tempo em que, segundo 
conta a historia, sentiu em si uma paixão intensa 
por Camillo, a noiva promettida do brazileiro Al- 
ves. Casou, dizem que depois de chorar muito, e 
se os annos que viveu com o marido, gosando em 
frente ao mundo o aspecto d'uma vida de tranquilla 
paz, passaram sem um reparo para o chronista me- 
ticuloso de percalços do coração, não o sabe nem 
o quer saber quem estas linhas escreve com algum 
fim mais alto que divulgar, em phrase limpa, as 
mais divertidas blandinas. Por esses annos andou 
Camillo, embora trabalhando sempre, numa vida 
incerta, em que o propósito de se afastar da crea- 
tura que espiritualmente o prendera não conseguiu 
vencer a tentação, mais forte, de ficar. Pensa em 



^ Camillo : Scenas innoceníes de comedia humana. 



140 CAMILLO 

ir para o Brazil e não vae; retira-se para o Minha 
e logo volta; matricula-se no Seminário e, no mo- 
mento de tomar ordens, vem-se embora. 

Esse impulso de romantismo ardente, que o 
ia levando á vida de padre, influiu, durante um 
certo periodo, na sua obra. O mysticismo de Ca- 
millo era aquelle de que tantas vezes se acompanha 
a paixão amorosa. Na carta ao visconde d'Azevedo 
que vem inserta no volume da edição, feita onze 
annos depois, dos artigos sobre a Divindade de Jesus, 
escriptos nessa época, o próprio romancista nos for- 
nece elementos bastantes para ajuizar do seu estado 
psycologico d'então. «Quando eu escrevi os arti- 
gos, que me foram testemunho da minha ignorân- 
cia ou hypocrisia nas praticas dos meus julgadores 
imprudentes, — diz Camillo — me estava eu dando 
a mim as razões da minha crença. Não sei se foi 
algum ingente infortúnio que me fez ir alliviar o peso 
de minha cruz ao pé da cruz do Homem-Deus : 
devia de ser ; umas quasi delidas reminiscências do 
coração d'aquella edade me dizem que foi. O aperto 
da dor espertou-me na memoria as orações da in- 
fância. A mãe, que eu não conhecera, devia falar-me 
nessa hora. A luz que depois me guiou no rasto 
dos grandes infelizes, caminho do Calvário, devia 
de preluzir-m'a ella no animo conturbado e affligido, 
antes que o estudo me volvesse á serenidade da fé 
e ás fontes novas das aguas bemditas da esperança. 
Vi então rasgarem-se-me os horizontes da vida em 
annos de paz. Contava com a graça divina para 



CAMILLO 141 

luctar e vencer, vencer-me a mim, o mais inexorá- 
vel inimigo que ainda tive. Enganei-me: as paixões 
sopraram rijas do lado do inferno ; os vislumbres 
da graça deixei-os apagar no coração replecto de 
maus sedimentos. Volvi ás angustias antigas, ás tre- 
A^as d'uma cegueira em que, por vezes, umas visões 
como os lampejos dos amauroticos, me davam reba- 
tes de saudade da luz perdida». 

Sobre o modo como a opinião publica ajuizou a 
sua conducta neste lance, também o depoimento de 
Camillo nos não deixa duvidas. São ainda palavras 
suas, da carta ao visconde d'Azevedo: «O fervoroso 
desejo de entranhar a minha fé no animo de amigos 
bem inclinados, que se dispensavam d'ella, emquanto 
as miragens da vida, moça e enganada, lhes basta- 
vam á lisonja d'olhos, e o coração, de grado, se en- 
tregava á cadeia doirada das esperanças : — aquelle 
fervoroso desejo, digo, foi grande parte no publi- 
carem-se os argumentos com que eu respondia á 
philosophia indócil dos espantados da minha con- 
versão. Conversão chamaram alguns o que mera- 
mente devera chamar-se reflexão. A juizo d'outros 
a minha religiosidade era hypocrisia. Os amigos 
arguiam-me de inepto ; os inimigos de impostor. . .» 

No Seminário, em 51, Camillo perdeu o anno 
por faltas. E, nos annos seguintes, a sua preoccupa- 
ção dominadora era fugir d'esse amor de mulher 
que o attrahia como um abysmo e assustava como 
um peccado. Por algum tempo, isolou-se num arra- 
balde de Vianna do Castello, em S. João de Agra. 



142 CAMILLO 

Depois voltou. E era tal o seu empenho em con- 
vencer os outros, e porventura em convencer-se a si 
próprio, do mysticismo em que debalde procurava 
repoisar o espirito, que uma noite, no theatro de 
S. João, confuso deante do conselheiro Guilhermino 
de Barros, pretendeu desculpar-se da sua estada ali: 
— Venho ouvir o Moysés, que é uma opera de assum- 
pto bíblico ^. Está dito que Camillo era um sensual; 
a imagem d'aquella mulher, esculpturalmente per- 
feita, que o attraía, não esquecera nunca; nos seus 
romances d'então apparece uma mulher idealmente 
linda, que o destino sacrifica a um brutamontes, e^ 
nas entrelinhas, a cada figura, por maior diversidade 
de caracteres que as scindam, a gente vê, bem a 
claro, Anna Plácido — a creatura amada sempre — 
e o marido atirado para a galeria dos bobos que o 
romancista mostrava ao publico ridente, — como o 
mais precioso exemplar e o mais grotesco. 

Se me não arreceasse da banalidade misérrima 
da imagem, eu diria que Anna Plácido attraia Ca- 
millo como a luz attrae a borboleta. E foi afinal em 
1858, no Bom Jesus do Monte, que a borboleta 
irremediavelmente queimou as azas fugidias. EUe 
viu-a, quando ella, junto ás arvores do Bom Jesus, 
acompanhava uma irmã doente. EUe viu- a; correu 
o lance do maior perigo e foi vencido. De volta 
d'ali, Anna Plácido recebeu de Camillo a confissão 
do seu amor nestas quintilhas: 



* Alberto Pimentel: Os amores de Camillo. 



CAMILLO 143 



Quem ha ahi que possa o cálix 
Dos meus lábios apartar? 
Quem, nesta vida de penas, 
Poderá mudar as scenas 
Que ninguém pôde mudar? 

Quem possue nalma o segredo 
De salvar-me pelo amor? 
Quem me dará gota d'agua 
Nesta angustiosa fragua 
D'um deserto abrazadôr? 

Se alguém existe na terra 
Que tanto possa, és tu só ! 
Tu só, mulher que eu adoro, 
Quando a Deus piedade imploro, 
E a ti peço amor e dó. 

Se soubesses que tristeza 

Enluta meu coração, 

Terias nobre vaidade 

Em me dar felicidade. 

Que eu busquei no mundo em vão. 

Busquei-a em tudo na terra. 
Tudo na terra mentiu ! 
Essa estrella carinhosa 
Que luz á infância ditosa 
Para mim nunca luziu. 

Infeliz desde creança, 
Nem me foi risonha a fé ; 
Quando a terra nos maltrata. 
Caprichosa, acerba e ingrata, 
Geu e esperança nada é. 



144 CAMILl.O 



Pois a ventura busqtiei-a 
No vivo anceio do amor, 
Era ardente a minha alma ; 
Conquistei mais d'uma palma 
A' custa de muita dòr. 

Mas estas palmas taes eram 
Que, postas no coração, 
Fundas raizes lançavam, 
E nas lagrimas medravam 
Com fructos de maldição. 

Em anciãs d'alma, a ventura 
Nos dons da sciencia busquei. 
Tudo mentira ! A sciencia • 
Era um signal de impotência 
Da vã razão que invoquei. . . 

Era um brado, um testemunho 
Do nada que o mundo é. 
Quanto a minha mente erguia 
Tudo por terra cahia. 
Só ficava Deus e a fé. 

Lancei-me aos braços do Eterno 
Com o fervor de infeliz ; 
Senti mais fundas as dores, 
Mais agros os dissabores. . . 
O próprio Deus não me quiz ! 

Depois, no mundo, cercado 
Só de angustias, divaguei 
De um abysmo a outro abysmo 
Pedindo ao louco cynismo 
O prazer que não achei. 



CAMILLO . 145 



Tristes correram meus annos 
Na infância que em todos é 
Bella de crenças e amores, 
Terna de risos e flores 
Santa de espVança e de fé. 

Assim negra me era a vida 
Quando, oh luz d'alma, te vi 
Baixar do ceu, onde outr'oi'a 
Te busquei, mão redemptora, 
Procurando amparo em ti. 

Serás tu a mão piedosa, 

Que se estende entre escarcéus 

Ao perdido naufragado? 

Serás tu, ser adorado, 

tJm premio vindo dos céus? 

E eu mereço-te, que immenso 
Tem já sido o meu quinhão 
De torturas não sabidas, 
Com resignação soíTridas 
Nos seios do coração. 

Que ternura e amor e afagos 
Toda a vida te darei! 
Com que jubilo e delirio, 
Nova dòr, novo martyrio 
De ti vindo, acceitarei ! 

Se na terra um ceu desejas 
Como ceu que eu tanto quiz, • 
Se d'um anjo a gloria queres, 
Serás anjo, se fizeres, 
Gôntra o destino, um feliz. 



10 



146 . CAMILLO 



Faz que eu veja nestas trevas 
Um relâmpago de amor, 
Que eu não morra sem que diga : 
«Tive no mundo uma amiga, 
« Que entendeu a minha dôr. 

c Deu-me ella o estro grande 
« Das memoráveis canções ; 
« Accendeu-me a extincta charnma 
«Da inspiração que inflamma 
« Regelados corações. 

« Os segredos dos aíTectos 
« Que mais puros Deus nos deu, 
« Ensinou-m'os ella um dia 
« Que d'entre archanjos descia 
« Com linguagem do ceu. 

«Os mimosos pensamentos 
« Que, de mim sobetbo, leio, 
« Inspirou-m'os, deu-m'os ella,. 
« Recostando a fronte bella 
« Sobre o meu ardente seio. 

« Morta estava a phantasia 
« Que o gelo d'alma esfriou ; 
«Tinha o espirito dormente, 
« Só no peito um fogo ardente^ 
« Quando o ceu m'a deparou. 

« Agora morro no goso 
« D'uma saudade immortal. 
« Foi ditosa a minha sorte ; 
« Amei, vivi; venha a morte, 
« Que morte ou vida é-me eguah 



CAMILLO 147 

«Egnal sim, que o arnôr profundo, 
« Gomo foi na terra o meu, 
(' Não expira, é sempre vivo, 
«Sempre ardente e progressivo 
« Em perpetuo amor do ceu ». 

Assim, querida, meus lábios. 
Já moribundos, dirão. 
Nas agonias supremas. 
Essas palavras extremas, 
Do meu ao teu coração. 

Sabes quem é, neste mundo, 
Quasi igual ao Redemptor? 
K quem diz : « Sou adorada 
a Pela alma resgatada, 
a Por mim das anciãs da dôr ». 

« Estes versos chegaram ao seu destino, — diz o 
sr. Alberto Pimentel no sen livro Os amores de Ca- 
miUo, depois de transcrevê-los — fôrara lidos, encon- 
traram echo aíFectuoso num coração de mulher que 
os decorou». E assim, porque tal amor sahisse da 
reserva platónica em que confrangidamente se em- 
brenhara, oito annos depois do primeiro encontro no 
tal baile, Anna Plácido abandonoti o marido, se- 
guindo, cora Camillo, por esse Portugal fora, a 
exhibir vaidosamente aos olhos de censores e mal- 
dizentes o interesse picante da aventura. Pinheií^o 
Alves, ferido pelo escândalo, processou por adultério 
a mulher e o amante ; a consorte foi presa no justo 
praso em que a justiça assim o quiz, e o romancista, 
incapaz, como em todas as épocas da vida, de tomar 



148 CAMILLO 

com firmeza uma resolução, deixou-se levar, ora por 
conselhos precavidos de amigos, ora por instancias 
da saudade, numa peregrinação pelas terras em que 
logares ou creaturas estavam presos a um episodio 
inolvidado da sua agitada vida de outros tempos. 

Lá foi a essa Samardan e viu a Luiza que em 
novo amara, seguindo com os seus filhos e as suas 
rugas o caminho da velhice, a Yilla Real, onde a 
irmã de seu pae, decrépita e cadavérica, lhe disse 
que era necessário ser desgraçado, para não contra- 
dizer os fados da familia, ^ e ainda ao Bom Jesus 
do Monte, onde recentes recordações lhe traziam ao 
espirito, num nimbo de doirado idealismo, o seu 
amor de então. Até que, instável na própria posição 
de fugitivo, não podendo supportar por muito tempo 
a mesma orientação, destituido de toda a equilibrada 
força de vontade, passados quatro meses, Camillo 
entregou-se ao carcereiro da Relação do Porto, ^ 
para que, sem entrave, a justiça resolvesse da incer- 
teza do seu destino, porque se lhe não pedia já que 
dissesse da boa ou má razão da sua causa. 

Na véspera (30 de setembro de 1860), tinha es- 
cripto a Vieira de Castro uma carta que principiava 
assim: «Meu V. de C. — Amanhã entro na Relação. 
Uma d'estas noites, impellido pela saudade, pela 
paixão e pelo remorso de ter ofíendido a martyr, 



1 Camillo : Ao anoitecer da vida. 

2 Camillo : Memorias do cárcere. 



CAMILLO 149 

entrei na Eelação, subi, abriram-se três portas, fui 
até a encontrar, abraçar, chorar, e salvar-me da de- 
mência. No dia seguinte, era um inferno na Relação : 
Presidente, procurador régio, guarda-mór, carcerei- 
ro, chaveiros, toda aquella cafraria endiabrada con- 
tra o meu arrojo. Que importa ! eu tinha-me salvado, 
salvando-a . . , » ■' 

O julgamento de Camillo e da sua cúmplice no 
crime d'adulterio começou em lõ de outubro de 
1861, um anno e quinze dias depois da entrada 
d'elle na cadeia, e terminou, no dia immediato pela 
absolvição dos accusados. Uma das testemunhas de 
defesa, o medico Joaquim José Ferreira, declarou 
que não podia depor na presença do reu, em virtude 
do que, com a acquiescencia do tribunal, Camillo 
saiu da sala. «Meu pae, que ouviu este depoimentoj 
— diz o sr. Alberto Pimentel num dos seus livros ^ — 
contava que fora notável e causara profunda im- 
pressão no jury. Ferreira entrara em minudencias 
physiologicas, discursara sobre a fatalidade dos 
temperamentos e os impulsos irreprimíveis da na- 
tureza em certos organismos. O seu depoimento 
foi o de um psychiatra. Surprehendeu então pela 
novidade». E assim, a eloquência de um advogado, ^ 



* J. C. Vieira de Castro : Camillo Castello Branco (No- 
ticia da sua vida e obras), 1863. 

* Os amores de Camillo. 

3 Marcellino de Mattos, pae do illastre alienista sr. 
dr. Júlio de Mattos. 



150 CAMILLO 

as razões de um medico e a consciência de uns jura- 
dos, conseguiram que o tribunal perdoasse aos adúl- 
teros e elles pudessem seguir, agora juntos para 
sempre, numa vida que já não tinha certamente o 
encanto que lhe dera, esmaltando-a com aspectos 
novos de mais brilho, a illusão de um amor que 
despontava. 

A partir d'ahi, a historia da vida de Camillo é 
a historia da sua doença, que pormenorizadamente 
eu contarei reatando o fio da narração dos inciden- 
tes curiosissimos da sua herança mórbida. Afora 
isso e abstrahindo do trabalho insano, constante e 
infatigável do escriptor, essa vida decorre sem fa- 
ctos salientes sobre os quaes mereça deter, nesta 
altura do meu estudo, a attenção dos que o lêem. 
Basta que se diga, embora escusado fosse dizê-lo, 
por estar em linha de lógica irrecusável, que essa 
vida não foi feliz, e a melancolia de um amor morto, 
sem que, do lado do romancista, ficasse arreigada- 
mente a estima ou o respeito, e depois o ciúme, e 
o remorso, e a doença — sobretudo a doença, con- 
génita, fatal e irreparável — fizeram bem do declinar 
da vida aventureira d'esse homem de génio um pe- 
ríodo triste de tortura: Camillo foi um desgraçado. 

A hora em que morreu Pinheiro Alves, elle, re- 
costado no leito, a lêr, sentiu que mão hercúlea o 
estrangulava ^ e, depois, na solidão da casa de Sei- 



* Alberto Pimentel: Os amores de Camillo. 



CAMILLO 151 

•de, rodeada de pinhaes, que pertencera ao brazilei- 
roljOS espectros, povoando-lhes as noites de ne- 
vrose, acabaram para todo o sempre a passageira 
paz da sua vida. 

Quiz ser visconde e foi-o: ficou cego; aceitou 
remunerações dos cofres públicos; sentiu o azedu- 
me dos que o malqueriam calcá-lo, quando o seu 
cacete formidável já não tinha um pulso que o bran- 
disse; casou, foi pae de um filho doido e, de dor 
em dôr, presa da fatalidade que parecia pesar, co- 
mo de chumbo, por sobre a tara que má herança 
lhe deixou, não podendo já trabalhar — o seu su- 
premo consolo, — aos 75 annos, na tarde do primei- 
ro dia de junho, em S. Miguel de Seide, no seu ga- 
binete de trabalho, já inútil, comprehendendo que 
para sempre o seu mal era sem cura; — matou-se. 



1 Vér NOTA I). 



T7050õRAFHIí^ 



«Pareoe-me, meu querido amigo^ 
que não fugi ás heranças de pae^ 
d' avó materna e duas tias » . 

(Carta de Camillo ao gt\ Padre 
Senna Freitas) 



Os factos 



Camillo Castello Branco foi gorado no período 
mais s ím^^o d'um amor violento, e esse facto é im- 
portante na determinação etiológica do seu génio. 

Nama casa em qus dois doentes revolviam com 
amargura as cinzas da paixão que os unira e be- 
nevolamente encaravam, através das lagrimas, as 
diabruras infantis d'aquelle filho, Camillo viveu até 
aos nove annos, sem uma educação que de co- 
meço o orientasse na vida ou corrigisse na ma- 
neira de ser do seu espirito qualquer nativo mal, 
se é que o tinha. Nessa idade, começou a vida apo- 
quentada, aos empurrões d'um consalho de familia 
que o levou para Villa Real e foi a causa da sua 
evasão da terreola, quando a rispidez da tia que o 
cuidava começou a asphixiar no sobrinho irrequieto 
as prematuras tendências do homem livre. Homem 
livre esse que aos dezeseis annos se julgou preso 
pelos encantos da filha do tendeiro que fez do rapaz 



156 CAMILLO 

leviano um mau marido e marcou o primeiro passo 
na sua accidentada carreira de aventuras. 

Na vida de Camillo, que ahi começa, com os 
seus dramas, os seus triumplios, os seus combates 
e as suas amarguras, ha um symptoma mórbido que 
salta aos olhos d'aquelles mesmos que não busquem 
na figura do romancista todo o interesse novo e 
elucidante d'um caso de doença. É a abulia, a falta 
de energia moral que trouxe esse homem de génio 
pela vida fora numa hesitação de cada instante, 
que o fez iniciar diversas carreiras abaudonadas 
logo, recorrer á vida de padre, cheio de fé, e, no 
momento de tomar ordens, vir-se embora, e que, 
alastrando para todas as faculdades do seu espi- 
rito, foi mais tarde a origem d'uma existência de 
vagabundo, de terra em terra, e d'uma mutabili- 
dade constante na maneira de julgar as coisas e os 
homens. As diversas tendências litterarias a que 
elle a cada passo amoldava os recursos extraordi- 
nários do seu génio, a variação dos géneros de 
litteratara ao serviço dos quaes punha a sua phan- 
tasia inexhaurivel e a sua erudição ampla e firme, 
entram aqui propriamente como symptoma denun- 
ciador d'essa abulia. Era bem aquelle estado dolo- 
roso de irresolução constante que Leopardi definiu 
Mille duhhietà nel delíherare e mílle ritegní nelVese- 
guire, como bem o comprova o periodo errante que 
precedeu a entrada de Camillo na cadeia -após a 
aventura de Anna Plácido e as palavras que elle 
deixou espalhadas, como a mais preciosa documen- 



CAMILLO 157 

tacão, na sua obra. Em 1881 escrevia numa carta ao 
sr. Silva Pinto : «Recolhi antes de hontem de Vizella 
e resolvi ir para Ancora no dia 24. Ainda assim, 
se me escrever, faça-o para Seide, porque eu não 
Conto comigo». ^ Pode-se aqui presuppor, na mente 
do romancista, um receio de doença, esse receio 
que o obsecou durante a maior parte da sua vida, 
mas o facto é que o doente da vontade tem sem- 
pre essas e outras coisas a que recorrer para tor- 
nar explicáveis, aos olhos dos outros e aos seus 
próprios, aquillo que não passa de uma malsani- 
dade que elle na maior parte dos casos desconhece. 
De modo que o symptoma da pathologia da von- 
tade qae se observa nos nevropatas é, no nosso 
caso, d'uma nitidez absoluta. 

Entrando por assim dizer no mecanismo d'esse 
mal, vemos que em todo o phenomeno volitivo 
ha a distinguir a acção excitante, a percepção com 
a associação de ideias consequente e a determina- 
ção á qual na normalidade se segue mecanicamente 
a execução : mas, nos casos de abulia, o influxo ori- 
ginado numa dada excitação ou se dispersa num 
grande numero de direcções e dá origem a outras 
tantas determinações contradictorias, e irresolução 
portanto, ou conduz a uma resolução única que se 
não chega a executar. ^ Mas toda essa hesitação, que 



* Cartas de Camillo Castello Branco, com um prefacio 
e notas de Silva Pinto. 1895. 

2 Le Dantec: Traité de Biologie. 1903, p. 481-484. 



158 CAMILLO 

é torturante, enfileira bem, por suas origens e con- 
sequências, ao lado da infinidade de terrores doen- 
tios que Jolly, poupando-se ao passatempo de bus- 
car palavras gregas para os baptizar um a um, 
conglobou na designação geral ccurophobia . A. abu- 
lia poder-se-á mesmo chamar houleuenphobia (medo 
de querer) entendendo-se neste caso por querer o 
exercício amplo e perfeito d'uma vontade sã. E 
nem por essa concretização, que simplifica o estu- 
do, o processo mórbido se altera. 

Vamos assim seguindo, passo a passo, a noso- 
genia de um estado neurasthenico, não perdendo 
de vista que a neurastnenia é sempre o indicio de 
uma tara nervosa profunda^ e que «ella constitue 
o terreno mais próprio para o desenvolvimento das 
nevroses, das vesânias e mesmo das afíecções or- 
gânicas cerebro-spinaes, a ponto de se poder con- 
siderar como a origem commum. da maior parte 
das doenças nervosas. Em summa, a neurasthenia 
cria a opportunidade mórbida do systema nervoso» .^ 

Enunciando os symptomas da nevrose de Camillo, 
eu tenho, em certa altura, de me afastar do quadro 
neurasthenico : a própria actividade prodigiosa do- 
romancista, contrastando com a fadiga e a má dis- 
posição para todo o esforço, que é a característica 
primeira do exgotamento, nos indica de começo 



1 RÉMOND : Précis des maladies mentales, 1904, p. 
110. 

2 FÉRÉ : Ob. cit., p. 80. 



CAMILLO 151) 

que o diagnostico se nãó pôde fazer aqui por um 
meio simples, grosseiramente, sem entrar no mais 
delicado estudo d'essa mesma actividade. Se bem 
que alguns symptomas, e entre elles a inaptidão 
para o trabalho intellectual, communs quando a 
neurasthenia é adquirida, muitas vezes faltem na 
neurasthenia hereditária, embora nos doentes d'este 
mal o trabalho sustentado e perseverante seja, as- 
sim mesmo, superior ás suas forças. * 

Camillo não tinha, realmente, esse methodo re- 
gularissimo de trabalho que é apresentado como 
exemplo em alguns escriptores de grande nome : 
elle não tinha as suas horas de labuta fixadas nem 
tão pouco uma tarefa contada em cada dia ; escre- 
via por assim dizer aos jactos, num impulso^ e é 
certo ainda que os seus períodos de intenso labor 
correspondem sempre a crises mais ou menos gra- 
ves numa vida de aventuras, com a excitação con- 
sequente da sensibilidade malsana dos seus ner- 
vos. Annos havia em que a producção litteraria de 
Camillo se limitava a compilações de coisas feitas,, 
e nunca essa producção foi mais copiosa que após 
a prisão por adultério, quando a consciência do 
grande homem se impoz o dever de sustentar com 
os únicos recursos do seu trabalho uma familia que 
o destino fizera chamar sua. São tempos de dispên- 
dio d 'uma energia nervosa meia exhausta, seguidos 



BouvERET : Ob. cit., p. 204. 



160 CAMILLO 

quasi sempre d'um periodo de abatimento, com 
mais um passo andado para a liquidação final que 
se avizinha. 

E' opportuno citar aqui uma observação curiosa 
de Weygandt ^ que se adqua perfeitamente ao nosso 
caso. Esse professor da Universidade de Wúrzbourg 
procurou avaliar pelo methodo psycometrico a ca- 
pacidade para o trabalho de intellecto na neuras- 
thenia constitucional, e, para isso, os doentes de- 
viam fazer, durante um tempo determinado, pe- 
quenas addições de números de um só algarismo, 
marcando entre cada uma o espaço d' um minuto, 
depois do que se podia, fixando o qtiantum de tra- 
balho effectuado na unidade de tempo, estabelecer 
a chamada curva de trabalho. Constatou-se que, 
ao passo que em creaturas normaes a producção 
cresce ordinariamente durante os três ou quatro 
primeiros quartos d'hora, por consequência do au- 
gmento de exercício, para baixar em seguida, pouco 
a pouco, á medida que a fadiga se manifesta, — nos 
neurasthenicos constitucionaes se verificavam brus- 
cos saltos no decorrer da producção, modificando- 
se por vezes no intervallo de cinco minutos, de 50 
a 100 p. 100, e nos neurasthenicos por exgota- 
mento a capacidade productiva desde o começo da 
experiência ia baixando. 

Neurasthenico constitucional era Camillo e eis 



Ob. cit., pag. 239. 



CAMTLLO 161 

porque o seu trabalho prodigioso, irregularmente 
feito, aos solavancos, longe de nos afastar do dia- 
gnostico aventado, no-lo vem justificar por sua vez. 
De resto, mais d'uma vez, Camillo se sentiu e con- 
fessou incapaz de trabalhar. Cito dois exemplos, 
extrahidos das cartas a Vieira de Castro. «A minha 
doença — escreveu Camillo — tem tido algumas in- 
tercadencias de abatimento ; mas a cabeça peora 
quando o restante parece melhorar. Eu não tenho 
esperanças algumas de cura. Poderei viver alguns 
annos, mas sempre atormentado e incapaz de tra- 
balhar ou pensar uma hora» . E noutra carta : « Pas- 
sam-se semanas sem que eu tenha sequer animo para 
sahir da cama. Não posso trabalhar...» ' 

Entrando agora no estudo das phobias, cumpr© 
registar perturbações profundas na sensibilidade 
interna. Effectivamente, emquanto que, num indivi- 
duo normal, a sensibilidade não alcança as vias 
conscientes de associação que residem na corticali- 
dade e neurones superiores, nos casos de doença 
attinge-as dolorosamente depois de, numa super- 
excitação, passar os neurones inferiores, reflexos e 
automáticos. A essas sensações cenesthesicas, que é 
possível considerar o prírmim movens da neurasthe- 
nia, que chamam toda a sua attenção e unicamente 
o preoccupam, o doente, capaz apenas d'uraa reacção 



* Correspondência Epistolar entre José Cardoso Vieira de 
€aHro e Camillo Castello Branco, 1874. T. II, p. 73 e 98. 

11 



1G2 CAMILLO 

insufficiente e dolorosa, não oppõe as snggestões 
solidas das acqiiisições sensitivas e sensoriaes ante- 
riores, entra num estado de angustia, quer e não 
quer, tem desequilibrios de sensibilidade e intelli- 
gencia, e apenas as sensações cenesthesicas e as 
ideias que ellas evocam occupam, em plena posse, 
o campo da consciência ^. E' a opportunidade de 
todas as perturbações adstrictas ao estado neuras- 
thenico ; vem então, entre outras, a arithinomania, 
tão vulgar nos grandes homens e denunciada em 
Zola pelo medico Toulouse, a onomatomania^ possi- 
vel de encontrar nam estudo attento d'alguns dos 
mais salientes mattoides da litteratura symbolista, 
uma serie longa de obsessões e impulsões que po- 
dem levar até ao crime, a loucura da duvida de 
Legrand du Saulle e as phobias. 

E digo obsessões e impulsões apesar dos reparos 
que possa suscitar a propositada associação d'estes 
dois termos. Porque reaJmtnle a ccexisíencia do 
dois syndromas em alguns estados mórbidos não é 
facto que tenlia passado sem reparo por parte de 
alguns auctores. Ainda não ha muito Soukhanov 
publicou na Rousski Vralcli ^ um estudo sobre as 
ideias obsidentes e actos impulsivos (Nariazt niysli 
i im/pulsivnya deutvia) pondo em contra dicção as 
duas ordens de phenomenos e constatando, em cas6 



1 J, YlRÉS : Malaâies nerveufes^ 1902, |». 404-410. 

2 T. u, n.« lõ, p. 561. 



CAMILLO 163 

excepcional de existência simultânea, uma fraqueza 
congénita das inhibições raoraes ou um enfraqueci- 
mento de senso moral. Mas o facto irrecusável, se- 
jam quaes forem as razões que o justifiquem, é que 
obsessões e impulsões apparecem associadas em 
alguns processos mórbidos, completando-se. Tal o 
caso, vulgarissimo nos estados neurasthenicos, d'um 
doente que, obsidiado pela ideia de não praticar um 
certo acto, a meio da sua angustia e não podendo 
resistir a uma impulsão^ o efíectua. «Muitas vezes 
a obsessão — diz Weygandt ^ — estende-se ao do- 
minio psycomotor e torna-se então uma. impulsão» , 
« Todos estes phenomenos, obsessão e impulsão — 
observa Rémond ^ — são em realidade da mesma 
natureza ; comportam uma fraqueza de vontade » . 
« A questão está em saber — argumentam outros 
illustres psychiatras ^ — se as obsessões caracteri- 
zadas pela phobia d'um acto, isto é, por uma repul- 
são anciosa por esse acto, se relacionam de qualquer 
modo com as obsessões impulsivas, ás quaes, ao 
primeiro aspecto, parecem oppôr-se inteiramente* 
Em theoria, a questão não oíferece duvidas e, pois 
que toda a ideia d' um acto é um movimento que 
começa (Féhé), o medo de effectuar um acto deve^ 
ser uma tendência para esse acto ... Os próprios 



1 Ob. cit, p. 245. 
« Ob. cit, p. 117. 

3 A. PiTRÉS et E. RÉGIS : Les obsessions et les impulsions, 
1902, p. 111-113. 



164 CAMI LLO 

doentes, que em geral se observam bem, dizem indif- 
ferentemente : Tenho medo de ser obrigado a fazer 
isto ou Sou impellidOj sinto vontade de fazer isto. 
Noutros ha a coexistência de phobia e propensão 
impulsivas, e em alguns, finalmente, a phobia ter- 
mina pela impulsão.» «A impulsão mórbida — con- 
cluo Dallemagne na sua Pathologie de Ia volonté — 
não é mais que o ultimo acto de uma espécie de 
drama cerebral que começa pela obsessão e continua 
pela ideia fixa. 

Assente pois a opportunidade das perturbações 
nevrasthenicas, preparado o terreno, inutilizada de 
vez a resistência, a nevrose pôde, á larga, coin- 
quinar o espirito. Na obra de Camillo, e nomeada- 
mente nas suas cartas, preciosas como documentos 
de analyse noologica, ha a revelação, mais ou menos 
precisa, d'um numero avultado de phobias. As que 
mais notavelmente predominam são a pathophobia 
ou nosophobia (horror á doença) que, tomando por 
vezes o caracter obsessivo, nelle chegou quasi a 
constituir uma verdadeira nosomania, e a thanato- 
phobia (horror á morte), consequência natural da- 
quella, que actuou com uma intensidade se é pos- 
sivel superior ainda e correu a par d'essa mórbida 
tendência para o suicídio que em Camillo se revelou 
desde bem cedo. Assim, folheando a Correspondência 
epistolar entre José Cardoso Vieira de Castro e Ca- 
millo Castello Branco na parte que contém as cartas 
de Camillo, escriptas no periodo decorrido de 70 a 
72, encontram-se phrases como estas : « Sinto-me no 



CAMILLO 165 

cabo da vida Estou tão doente que á uma 

hora da noite passada dei um beijo no meu Jorge 
cuidando que ia morrer. Foi uma ameaça de con- 
gestão cerebral que mais hoje mais amanhã, me 

fulmina Esta noite passei peor ; mas ainda 

assim conservei-me na cama. A grande desgraça ó 
quando lá não posso estar. Parece que me faz horror 

a posição horizontal da sepultura Não me 

consideres encarecedor dos meus padecimentos. Eu 
estou gravissimamente doente e decerto te não vejo 
mais Agora, depois que estas creanças brin- 
cam felizes na minha negra atmosphera e a respi- 
ram com delicias, a morte apavora-me Esta 

infelicidade de doença não me deixa ir vêr-te. Fi- 
gura-se-me que me ha-de apanhar longe de casa 

uma febre cerebral Comprehendo que as 

moléstias te dobrassem mais cedo que as desgraças 
moraes. Se eu ha doze annos, quando comecei a ser 
tão infeliz, padecesse como hoje, ter-me-ia mata- 
do Se ainda a muito custo escrevo d'isso 

que vês, antevejo a completa paralysia do cérebro, 

e em seguida a morte A cura é impossível. 

Não se regenera o sangue em circumstancias de 

vida tão deletérias A minha enfermidade 

não cessa nem me deixa esperar melhoras» ^ «Te- 
nho — dizia elle, em novembro de 79, numa carta 



» Corr. Epist. T. i, p. 32; T. Ii, p. 21, 51, 62, 109, 133, 
144, 145, 173 e 177. 



166 CAMILLO 

ao sr. Silva Pinto * — a, não sei se triste se alegre 
convicção de que vou emíim descançar brevemen- 
te». ^ «A preocupação da morte — diz o sr. padre 
Senna Freitas no seu estudo biographico ^ — é ain- 
da mais familiar na sua penna. Chega a ser uma 
obsessão, como o precipício de Pascal». «A cada 
passo — conta o sr. Alberto Pimentel num dos seus 
livros ^ — Camillo, imaginando os symptomas d'uma 

doença grave, chamava aíEicto por D. Anna 

Uma vez, Camillo estava no periodo de se julgar 
muito doente e não querer sahir de casa. D. Anna 
Plácido pediu, instou, supplicou a Camillo que 
fosse dar um passeio com um dos amigos que o 
visitava. Camillo resistia, dizendo que não tinha 
forças, que iria morrer de inanição no meio da rua, 
porque havia muito que se alimentava mal. — Vou 
dar-lhe o desgosto de morrer na rua, disse elle ao 
amigo.» Quando, depois da morte do romancista, 
o sr. Alberto Pimentel esteve em S. Miguel de 
Seide, um vizinho de Camillo e seu dedicado ami- 
go, o sr. Francisco Correia de Carvalho, observou 
a alguém que rememorava as circumstancias em 
que se deu o suicídio : « — Na véspera tinha an- 
dado a passear pelo meu braço ali no largo, em 
frente da egreja. Como começasse a soprar uma 



* Ob. cit, p. 23. 

2 Ferfã de Camillo Castello Branco. Nova edição, 1888, 
p. 29-30. 

3 Os amores de Camillo. 



CAMILLO 167 

aragem fresca, o sr. visconde disse-me: Vamos em- 
hora^ que tenho medo de uma pneumonia. Ainda na 
véspera do suicidio temia tanto a morte!» ^ 

Eu disse que a thanatophobia correu a par da 
tendência para o suicidio, que em Camillo se re- 
velou desde bem cedo. Essa circumstancia, appa- 
rentemente paradoxal de o horror á morte condu- 
zir com frequência ao suicidio, citada por alguns 
•auctores, mereceu a Nicolau um desenvolvido es^ 
tudo. ^ E um facto sem duvida interessante mas 
para encontrar um paradoxo no qual nós teriamos 
em boa razão de considerar o suicidio resultante 
d'um raciocinio são, cahindo assim num paradoxo 
tanto maior quanto elle aqui se dá num caso con- 
fesso de desequilibrio anterior que as phobias des- 
cortinam. 

Entre estas notarei mais a celaphobía (horror 
aos ruidos), consequência natural da peresthesia 
dos seus ouvidos hyperacusicos, que durante a vida 
toda lhe fez um dos maiores dos seus tormentos. 
« Cá tenho o ferro em braza na cabeça » — escreve 
elle em carta a Vieira de Castro. E ainda : « Es- 
crevo- te com cabeça empanada em parches de vi- 
nagre. O que eu sinto ha doze noites seguidas é um 
estrondo infernal nos ouvidos, uma zoeira de cata- 



* Albp:rto Pimentel: Os netos de Camillo, 1901. 
2 Thanatophohie et suicide. Annales méd. psychol. 1892, 
T. XV. 



168 CAMILLO 

dupas qne me não deixa estar sequer cinco minutos 

deitado. Tenho phrenesis que me despedaçam 

O peor é este rolar de trovões que me estruge na 
cabeça. Ora vê tu, meu caro José, que desesperação 
não poder eu um instante fazer calar estes estron- 
dos, e tamanhos que me acordam em sobresalto ! A 
medicina não tem nada para isto ! Tu não ima- 
ginas os dolorosos caprichos d'esta enfermidade 
que me está despedaçando. Lá vejo no ceu a lua 
sereníssima. O estrondo que me reboa nos ouvidos 
não me deixa ouvir o mar. Assaltam-me Ímpetos de 
loucura quando penso que este inferno nào ha-de 

passar Escrevo devagar porque tenciono con- 

centrar-me quanto possa e porque acho dificuldade 
em escrever. Este incessante estrondo na cabeça 
dia e noite, chega ao extremo de me pôr deante a 

morte como único remédio Este tormento dos 

ouvidos é d'uns que eu d'antes imaginava que me 
endoideceriam se durassem uma hora. Cumo se não 
bastassem vinte meses de ouvir incessantemente 
uma zoeira de mar tempestuoso e um silvo de va- 
por, accresceu agora a dôr penetrante de lado a 

lado Hoje estou soffrendo muito da zoeira e 

d'uns vagados que me assustam... Se me disses- 
sem antes de eu adoecer que havia de estar assim 
dois annos, eu cuidaria que ao fim de poucos dias 
preferiria a morte». * 



1 Corr. EvUt. ii p. 27, 33, 58-59, 62, G9, 97 e 133. 



CAMILLO 16í> 

Poderei ainda citar a antropophohia (horror á 
multidão) e a monophobia (horror a estar só) oppos- 
tas, alternando-se nos periodos de abulia mais inten- 
sos. «Aquelle que escreve estas linhas — disse um re- 
dactor d'0 Mundo, dando noticia do meu esboço de 
critica sobre o grande romancista ^ — viu, uma vez^ 
receber-se numa estação telegraphica de Lisboa um 
telegramma lancinante de Camillo. Era dirigido a 
Fernando Palha, com quem o illustre escriptor se 
relacionara, cremos que em virtude de investiga- 
ções históricas a que ambos se dedicavam. O tele- 
gramma dizia pouco mais ou menos, isto : Estou 
aqui, na Poi^oa (seria na Povoa ? não temos a cer- 
teza) só e abandonado. Venha v. exJ* ver se me salva,, 
levando-me para Lisboa. O resto é textual, de tal 
forma se gravou no nosso cérebro, então de creança^ 
este grito de mortal desamparo. Este telegramma 
deve ser de 1888 ...» 

Poderei citar a photophobia (horror á luz) coin- 
cidiu com os primeiros assomos das perturbações 
visuaes. «Basta dizer-te — oonfessa o próprio Ca- 
millo nas Vinte horas de liteira — que escrevo sem- 
pre á luz do crepúsculo. Os meus olhos não compor- 
tam outra luz. Quando os dias estão lucidissimos do 
brilhantismo do sol, eu tomo do favor de Deus a 
frouxa claridade de um raio coado por transparen- 
tes negros. O meu gabinete de trabalho, durante os 



1 N.o de 26-6-1905. 



170 .■ CAMILLO 

meses explendidos do anno, é um continuado co- 
meço de noite » . 

Poderei citar ainda a keronauphobia (horror á 
obscuridade) manifestada, mais tarde, quando a 
aííecção visual tomou caracter grave. Em 1885 — 
conta o sr. Alberto Pimentel ^ — estive em casa de 
Camillo, na Povoa de Varzim, e ahi lhe li o ori- 
ginal dos Idyllios dos reis. Quatorze luzes, em duas 
serpentinas de sete castiçaes cada uma, illumina- 
vam a sala, que aliás era pequena. Era assim que 
Camillo queria afugentar as trevas que avançavam». 

Depois, ainda, a phohophobia (horror ao medo), 
com os seus terrores mórbidos. «Esgotado de for- 
cas — diz ainda o sr. Alberto Pimentel ^ — exal- 
tada a imaginação como fornalha accêsa, Camillo 
era dominado por tenebrosos pavores, visões tor- 
turantes ...» 

Por fim, a pantophobia (horror a tudo) e, restri- 
ctamente a biophobia (horror á vida) antecedente 
natural do suicidio. 

Como signal d'Qm estado pathologico mais gra- 
ve, as obsessões e as impulsões fizeram-se sentir 
no romancista, mas d'uma forma velada, revelan- 
do-se apenas num ou noutro ponto mais saliente 
da sua vida publica e não dando margem, porisso 



^ o romance do romancista. 
^ Os amores de Camillo. 



CAMILLO 171 

mesmo, a uma anályse perfeita. Talvez a manifes- 
tação obsessiva mais perfeitamente caracterizada 
fosse o amor, esse amor mórbido que corre de- 
finido em livros como «a hypertrophia d'um sen- 
timento verdadeiro e, por consequência, um caso 
pathologico» ^ Camillo foi nitidamente um ne- 
vropatha amoroso. Não teve perversões, é certo, 
mas amou á doida, com um exclusivismo que em 
certas épocas da sua vida punha de parte qual- 
quer consideração d'uma outra ordem e bem se 
pôde, sem esforço, comparar, em quadro de noso- 
logia, á ideia fixa. EUe não seguiu aquelle con- 
selho d'um personagem de Musset: «Usae do amor 
como um homem sóbrio usa do vinho ; não vos 
embriagueis». ^ Embriagou-se, exagerou: e a ten- 
dência para a exageração de todas as sensações 
penosas ou agradáveis, nos doentes neurasthenicos, 
procede da própria natureza da doença, d'essa dimi- 
nuição de energia moral que é um dos seus cara- 
cteres mais salientes ^. Violento e inconstante, e 
soífrendo todo o dispêndio nervoso d'essa violência 
e toda a dor moral d'essa inconstância, elle escreveu 
num romance ^ estas palavras, que são um precioso 
documento para o estudo da maneira de ser do seu 
amor: 



1 Emile Laurent: Vamour morhide, 1896, p. 82. 

2 A. DE MussÊt: La confession d'un enfant du siècle- 

3 ROUVERET : Ob. cit, p. 74. 
* Onde está a felicidade ? 



172 CAMILLO 

« Moralistas, dae-nos uma figa de azeviche para 
afugentar o demónio da tentação : traze-la- hemos 
devotamente sobre o espirito fraco, o espirito ma- 
leável, que se presta a todas as formas, esse cama- 
leão intimo que varia de côr a cada novo raio de 
luz dos últimos olhos que o fixam. Corrigi os de- 
feitos do systema nervoso de Guilherme. Transfan- 
di-lhe iim sangue mais sereno, menos irritável, nas 
artérias. Dae-lhe o remanso da paz no regaço de 
uma mulher, seja ella rainha, ou costureira. Eemi-o 
da infelicidade que traz comsigo a inconstância. 
Fazei que elle não chegue aos trinta annos detes- 
tando as vinte variedades de mulheres ^ que co- 
nheceu, e detestando-se por ter abusado das fáceis 
regalias, que o oiro, a juventude, e a seducção lhe 
serviam em mesa de risos e venenos, como nos 
festins dos Borgias. Arrancae-lhe do fundo do seio 
o espirito inquieto, que principia por travessuras, 
e acaba em ciúmes rancorosos : insufflae-lhe lá uma 
alma nova, pacifica, fácil de nutrir-se, parca e 
susceptível de adormecer na paz podre de uma 
amisade burguesa, e estupidamente feliz . . . Mora- 
listas, quando tiverdes descoberto o processo de 



^ « Z). João, num momento de humor sombrio dizia-me, 
-em Thorn : Ha só vinte variedades de mulHeres, e logo gue se 
conhecem duas ou três de cada variedade, começa o fastio. — 
Stendhal, Physiologia do amor, cap. Lix. — O auctor conhece 
vinte e uma variedades ». 

(Nota de Camillo). 



CAMILLO 17B 

encadear o espirito, devereis erguer um cadafalso 
para os infames voluntários, que arremessarem a 
mulher ao abysmo. . .» 

Nessa mesma paixão por Anna Plácido, a mais 
violenta talvez, com ser a ultima, a saciedade veio 
dentro em pouco, e a vida seguinte, com ciúmes, 
recordações de tempos idos, insultos até, a essa 
mulher em quem elle teve, ao que se diz, uma en- 
fermeira dedicada, — foi toda ella uma expiação 
cruciantissima. Não é preciso recorrer ao relato mais 
ou menos fiel de testemunhas para conhecer a his- 
toria d'essa ligação com Anna Plácido, depois do 
periodo romanesco da prisão e do idjdlio; basta 
transcrever algumas paginas do livro de Camillo 
No Bom Jesus do Monte. Nesse livro, publicado pela 
primeira vez em 64, e no qual o auctor evoca todos 
os periodos da sua permanência no Bom Jesus, vêm 
elementos bastantes para a reconstituição d'essa 
historia raagu.ada e melancólica de desillusão e des- 
alento. São palavras d'elle, na parte relativa a 1858: 

«Estava ella sentada num cômoro tapeçado de 
relva. Ao seu lado. com a fronte pendida ao hombro 
d'ella, estava a irmã, quinze formosos annos, um 
coração de Deus. Olhavam ambas contra as agulhas 
do Gerez toucadas de névoas. E eu, que pedia ao 
Senhor um sorriso d'aquella mulher, e depois o 
somno do infinito esquecimento, abria uma letra 
num tronco e dizia no recesso de minha alma:^/Z« 
lia de rê-la. Ouvi-lhe a voz : cantava no tom abafado 
de quem quer ser somente ouvida em seu coração. 



174 CAMILLO 

Onde podia ir aquella toada saudosa? Eu estava 
ali, eu, que lhe daria o meu seio, a minha juventude, 
a minha honra para escabello dos seus pés ! Onde 
podia ir aquella toada saudosa? Oh Belleza eterna 
e Verdade eterna ! oh Suprema Inteliigencia, que 
bafejaste á minha alma o calor das inextinguíveis 
paixões, rompe essa represa de lagrimas, e lavem- 
me ellas a nódoa do crime, se em amá-la injurio as 
vossas leis e postergo os deveres da humanidade ! 
Assim orou o meu espirito ao Espirito do Senhor. 
E, adormecendo com a face encostada ao musgo 
do rochedo, sonhei este sonho : Era num cárcere ; 
eram tresentas e noventa noites de cárcere. Eu 
estalejava de frio e horror. As multidões premiam- 
se ás rexas das minhas grades e cuspiam-me no 
rosto, conclamando : Maldito! E eu, debulhado em 
lagrimas, dizia: — Deixai-me a honra do coração, e 
macerai-me as carnes, e triturai-me os ossos. E o 
sonho continuou. Era no hospital. Eu inclinava o 
peito, crivado de dores, sobre uma banca para ga- 
nhar, escrevendo e tressiiando sangue, o pão d'uma 
familia. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas 
precursoras da cegueira. E eu escrevia, escrevia 
sempre. E das fadigas incomportáveis do lavor ia 
a refrigerar-me a fronte ao espirar reanimador da 
mulher amada, e servida com a immolação de todos 
os desejos, das esperanças todas. E era esta mulher 
a que eu vira sentada no cômoro tapeçado de ver^ 
dura no Bom Jesus do Monte. E ella repellia-me^ 
dizendo : — Tenho direitos d luz dos teus olhos, ao 



CAMILLO 



17n 



sangue das tuas artérias, e ao ar dos teus pulmões. 
Trabalha, escravo! E o sonho continuou: Cahia o 
derradeiro bago da ampulheta do sexto anno de 
martyrio. Era por noite horrenda... O anjo ré- 
probo da perdição d'aqaella mulher com um stylete 
de fogo, avincou-lhe na fronte um lemma ignomi- 
nioso! E o anjo da salvação, triste, ajoelhado, com 
os olhos no ceu, chorava. E o réprobo, numa toada 
de infernal escarneo, levantava este cantar: 



E o anjo bemdito, num suspriar de gemou tes no- 
tas, dizia : 



Não és culpada ; és escrava 
Da ína estiella funesta. 
A sorte ahysnws te cara 
E tu pões o pé na aresta í 



E o anjo precito : 



E és cega! e nessa lama^ 
Em que te vês imwergida. 
Ainda tua vos clama : 
« Gloria d mulher perdida ! » 



^ Assim, no original. 



176 CAMILLO 

Acordei ! O ceu estava lindo e sereno como a 
terra ! Gloria a Deus ! que estes horrores só pode 
concebê-los a alma sonhando. Oh ! a mulher for- 
mosa, a santa do meu amor, a immaculada que eu 
manchei num sonho, aquella mulher. . . Morreu!» 

E, na referencia a 1863 : 

«Já outro coração, outra alma e outra luz! Es- 
tavam apagadas as lâmpadas eléctricas dos meus 
arvoredos. As arvores . . . eram troncos e folhas. O 
ceu era o espaço interposto aos corpos luminosos e 
opacos. A agua das fontinhas era a combinação de 
88,91 partes de oxigénio com 11,09 de hydrogenio. 
O sol era o centro do systema planetário. A noite 
era um processo escuro de bronchites. E eu... 
era o homem da natureza. E, por isso, naturalmente 
me constipei, assim que da calma do caminho pas- 
sei á frescura das sombras. E eu d'antes não me 
constipava. Era clima de Paraizo terreal para mim 
aquelle ! Bastava-me a lava interior para reagir 
ás frialdades da periferia. A sombra dos meus 
plátanos nunca me havia instillado aos bronchios 
uma gota de peçonha. As almofadas de relva, 
quando me eu deitava por aquelles combros, nunca 
me coaram aos ossos o rheumatismo. E agora, arra- 
zado o viveiro d'oiro d'onde me sahiam as pombas 
cândidas das minhas chimeras, todo o meu ser ali 
era um gemer de entrevado, que se contorce em 
angustia. Ao meu lado, á cabeceira do meu leito 
de enfermo, com o cotovêllo appoiado ao traves- 
seiro húmido de minhas lagrimas, estava uma visão 



CAMILLO 177 

maldita do Senhor, o ministro da flagellação expia- 
tória dos erros de minha vida. A sua boca extra- 
vasava de sarcasmo ; dos olhos corusca vam-lhe as 
faúlas, qae resaltavam do coração feito braza in- 
fernal; o bafo rescaldava, como liitgua de fogo. 
Era assim ã visão maldita do Senhor. E eu, com o 
peito arquejante de anciãs, punha aos lábios o tra- 
vor d'aquelle cálix, e dizia : Amplius, amplius, 
Domine! Quando eu, através da vidiaça, expraiava 
os olhos por aquelle ceu, dizia abafando os soluços: 
Oh ceu das minhas alegrias ! oh alva nuvem, onde vos 
vejo ir amortalhadas f oh cantoras das selvas, os vos- 
sos regorgeios já me soam como o gemer da ave 
hybernal sobre um tumulo. E chora vm sem vexames 
dos meus cabellos brancos. E o Senhor, depois que 
«u chorei muito, mostrou á minha escuridade um 
como lampejo de gladio na mão de um archanjo 
de semblante formidável de pavor. Estremeci até 
á medula dos meus ossos, e ouvi : — Expia! E, 
desde aquella hora^ as minhas agonias tem a do- 
çura do escravo, que conta os dias do captiveiro 
remissiyel. Bemdito sejaes, Senhor Deus de Saulo, 
que vos amerciaes do delinquente, afogando-o na 
onda da agua amaríssima de expiação ! » 

E numa pagina das Scenas innocenfes da comedia 
humana: 

« Eu pedira a Deus a paixão em que um dia de 
prazer custa annos de agonia. Pedi lhe o ílagello 
do ciúme, e o Senhor pôs a meu ladc o anjo mal- 
dito que matara Desdemona, e arrojara um cadáver 



178 CAMILLO 

aos pés de Carlota. Uma tortura para cada fibra^ 
um rugido de homicida para cada homem que a. 
contemplava, e, podia, no secreto da sua phantasia^ 
imaginar o sabor de um beijo dos lábios d'ella. 
Tinha amigos, e injuriei-os e perdi-os para que m'a 
não vissem. Escutava-lhe anciado as palavras da 
sonho, e contemplava-lhe o seio com o amor verti- 
ginoso de um louco, e a insânia furiosa de quem qui- 
zera na ponta de um punhal roubar-lhe o segreda 
do coração. E, se ella balbuciava, num vagido in> 
fantil, o meu nome, os meus lábios convulsivos res- 
pondiam-se com um beijo em que me sahia da alma 
o inferno incomportável da duvida. Ella dissera-me 
um dia: Sou a hia mulher fatal ! Eu fitei-a com a 
assombro de homem, affeito a ver na mulher a 
creatura frágil, a linda e quebradiça argila que nãa 
podia conter seis lagrimas sinceras de um coraçáa 
varonil. Sou a tua mulher fatal! Contemplei-a^ 
ouvi-me da voz da consciência que nunca invocara 
para as chimeras do amor, e a consciência disse-me : 
Será » . 

Finalmente na Recapitulação, ainda do livra 
No Bom Jesus do Monte: 

«... circumvaguei um extremo olhar ás minhas 
arvores. Depois, no cercado da ultima capella, en- 
costei a face ao musgo de uma rocha, puz o meu 
espirito no remoto ponto dos vinte e sete anno» 
passados, desde a primeira vez que ali viera, e 
desci discorrendo até áquella hora derradeira. A 
cada passo tropeçava num tumulo 



CAMILLO 179 

« A mulher da paixão, que eu, no pavor da minha 
soledade, pedira ao Senhor; 

«A mulher que me acorrentou a um cadafalso 
de supplicios ignominiosos ; 

« A mulher que me levou as virtudes da alma e 
o pudor do coração, quando eu já não tinha lagri- 
mas, que me ella pedisse ; 

«A mulher, a quem a Providencia divina, em 
sua ira justiceira, atirara aos gryphos do dragão do 
mundo, contra o qual eu puzera o peito, emquanto 
o coração teve sangue que expedir ; 

« A mulher que me fez odiar a justiça de Deus, 
e insultar a providencia dos homens ; 

«Essa mulher morreu.» 

Essa mulher morrera de facto, porque o amor de 
Camillo por ella entrara para o numero d'aquellas que 
elle mesmo chamava as «affeições cahidasá voragem 
infernal do desengano» ^. Deixara-lhe a saudade, é 
certo, a saudade d'uma paixão arrebatadora e ar- 
dente, mas essa mesma envenenada pelo remorso^ 
um remorso doentio que imperou como uma obses- 
são de terror nos derradeiros annos da vida de 
Camillo. Em todas as suas amarguras elle via o 
castigo de Deus e na tranquillidade que buscava para 
O corpo e para a alma, longe dos ruidos das cida- 
des, na serena quietidão d'um recanto minhoto, 
ali mesmo, em Seide, «havia a atormentarem-n'o 



^ Camillo; Amor de salva^jão. 



180 CAMILLO 

— diz um seu biographo ' — espectros sinistros, 
sombras, phantasmas, visões de remorso, e nos 
pinhaes gementes^ que rodeavam a casa, gritos de 
maldição, clamores de vingança, que elle, desde a 
morte de Pinheiro Alves, jamais deixara de ouvir». 
Em 9 de março de 88, Camillo desposou finalmente 
Anna Plácido. Cerimonia breve e muito intima 
1'ealizada de noite na casa da rua de Santa Catha- 
rina, no Porto, onde, ao tempo, estava residindo. 
Pensa o sr. Alberto Pimentel que o grande escri- 
ptor casou a instancias de amigos seas e cita mesmo 
os nomes dos srs. Joaquim Ferreira Moutinho e 
cónego Alves Mendes ^. A mim me quer parecer 
que ao remorso de Camillo e aos seus escrúpulos ao 
aproximar da morte se deve attribuir essa reso- 
lução. De facto, já em 1879, nove annos antes, 
Camillo pensara em se casar com Anna Plácido 
quando, sabendo-a com uma angina-pectoris, a con- 
siderou perdida. «Se ella morre —dizia elle então 
numa carta ao sr. padre Senna Freitas ' — a sau- 
dade ha de pungir-me com o remorso de a não ter 
honrado aos olhos dos filhos e do mundo.» Em 88, 
Camillo estava atravessando uma mais intensa crise 
de desanimo atroz. O sr. Alberto Pimentel afirma 
no Romance do romancista^ referindo-se a esse anno, 
que Camillo « numa hora de maior desalento, resol- 



^ Alberto Pimentel: Os amores de Camillo. 

2 Os amores de Camillo. 

3 Cartas inéditas. (Vêr nota e). 



CAMILLO 181 

veu partir para o Porto ». Não era então Anna 
Plácido que se podia considerar perdida ; era elle 
que a si próprio, com a consciência perfeita do mal 
que o perseguia, se considerava assim. De novo 
apparecia o perigo de aquella ligação se quebrar 
pela morte antes que elle houvesse «honrado aos 
olhos dos filhos e do mundo » a mulher que por 
amor d'elle se perdera. 

As transcripções que ha pouco fiz de trechos da 
obra de Camillo, em que mais ou menos isoladamente 
se allude ao seu caso d'amôr, dão-me o azado ensejo 
de dizer que Camillo, como quasi todos os neuras- 
thenicotí, vivia muito do passado, comprazia-se em 
recordar os mais gravativos incidentes da sua agi- 
tada vida de aventuras, e por tal forma que d'esse 
facto, junto com a qualidade, mórbida também, da 
inconfidência, deriva o fundo de uma grande parte 
das suas obras. 

Tinha ainda Camillo, bem marcada, essa tendên- 
cia pathologica para a auto-observação de que quasi 
sempre a neurasthenia se acompanha, e pena foi 
que a falta de conhecimentos de psycopathia, o tenha 
inhibido de dar a esse inquérito de cada instante 
uma orientação mais proveitosamente scientifica. 
Se algum medico, amigo de Camillo e já versado 
na maneira moderna de considerar os males da 
alma, colheu d'uma observação directa e minuciosa 
os dados preciosíssimos que só uma observação 
assim nos pode dar, o resultado do seu trabalho 
ficou occulto ; de modo que quem hoje queira con- 



182 CAMILLO 

scienciosaraente fazer a critica, encontra a cada 
passo lacunas insuperáveis, abertas a hypotheses 
sempre vagas pela impossibilidade de as verificar 
com segurança. Assim, se nem sempre o quadro 
nosographico nos apparece mais ou menos integro, 
não é bem porque Camillo deixasse de ser aquillo 
que em medicina se costuma chamar um bom caso, 
mas porque a documentação de certos symptomas 
não é tão completa, que por si só nos consinta, sem 
escrúpulos, registá-los. De resto, para o estudo 
perfeito d'um exemplar como Camillo, haveria a 
pôr em pratica, durante a sua vida, um certo nu- 
mero de methodos de observação cujos dados seriam 
d'um valor indiscutível. Seria mister recorrer á 
anthropologia, eífectuando as mensurações cranea- 
nas, á analyse das urinas, ao hydrophymographo e 
ao myographo, para o exame do apparelho circula- 
tório e da emotividade do doente, seria mister 
estudar rigorosamente os phenomenos da sensibili- 
dade geral e também os órgãos dos sentidos, espe- 
cializando no nosso caso o campo visual, e, além de 
tudo isso, fazer mil outras observações que se torna- 
ria longo e fastidioso enumerar inutilmente. Mas o 
facto de faltarem elementos de importância não po- 
deria nem deveria impedir que eu dirigisse o meu es- 
tudo com a única orientação compativel com o rigor 
scientifico da critica moderna. Seria improductivo 
fazer psycologia sã num homem como Camillo, em 
quem os stygmas mórbidos se accentuam d' um modo 
tal que fere mesmo aquelles menos versados em coi- 



CAMILLO 183 

sas d'essas, e a própria critica litteraria da obra gera- 
da nos periodos exacerbados d'uma nevrose intensa 
havia, por força, de sair falsa, convencional, posti- 
<3a, a debater-se em meio de adjectivos incolores e 
de afirmações incomprovadas. 

Neste capitulo do meu trabalho, ficam já regis- 
tados vários symptomas mórbidos que me auxiliarão 
Sj fixar d'aqui a pouco um diagnostico provável: a 
abulia, as pliobias, as obsessões e as impulsões, a 
irregularidade característica do trabalho, o exagero 
de todas as sensações, a inconfidência, as tendências 
para recordar o passado e para a auto-observação, 
os pavores nocturnos e os phenomenos peresthesi- 
<jos. Citarei ainda as insomnias, as vertigens, os 
-estados hypocondricos, a vagabundagem, e tambsm 
as dores nevrálgicas, a atonia gastro-intestinal, á 
dispepsia, a surdez, toda a serie longa das pertur- 
bações visuaes, manias persecutória e das grandezas, 
€ ainda certos caracteres que Lombroso e outros 
auctores attribuem aos homens de génio-, taes como 
a, procura constante do termo raro, a perda de senso 
moral, as desigualdades psychicas, a interpretação 
mystica dos factos mais simples e o misoneismo. 
Todos estes últimos são phenomenos complexos que 
necessitam d'uma mais detida prova. Para a de- 
monstração dos primeiros é fácil encontrar docu- 
mentos na sua própria obra. 

Para as insomnias, por exemplo, occorrem-me 
algumas phrases de cartas a Vieira de Castro, in- 
sertas no segundo tomo da Corre.s-pondencia episto- 



184 CAMILLO 

lar'^. «Só duas linhas — escreve Camillo ao seu 
amigo — porque a minlia doença me não permitte 
vinais. Ha cinco dias e noites que apenas consegui 
dormir a somma de seis horas A noite pas- 
sada foi das taes medonhas. Não consegui dormir. 
Já não descanso sem narcóticos que cada vez mais- 
me desafinam os nervos. As minhas cartas estão 
sendo para ti, meu filho, um boletim sanitário. Eu 
sei que em verdade te interessas na minha vida^ 
porque tenho de consciência que me julgas um dos 

teus mais affligidos amigos Ha quatro noites 

que apenas durmo instantes » . 

Para prova da vagabundagem, servem precisa- 
mente estas palavras d 'uma carta escripta ao sr. 
padre Senna Freitas : ^ « Se vou para o Porto, com 
intensão de lá estar 15 dias, apenas lá estou uirn, 
noite cruel de insomnia e anciedade de me safar». 
E ainda estes períodos de cartas ao Visconde de 
Ouguella: «Amanhã volto para o Bom- Jesus ; mas 
se me escreveres seja para Famalicão. Não paro. 

Custa-me a immobilidade Já não sei onde 

hei de estar. Em 15 dias ensaiei quatro paradeiros^ 
uns nas montanhas, outros nas praias. Em toda a 

parte o tédio, o asco das cousas e das pessoas 

Vim de Vizella hontem, e não sei para onde irei 
amanhã». 



1 P. 32, 47 e 63. 

2 Ob. cit. p. 139. 



CAMILLO 185 

Sobre os outros symptomas mencionados, posso 
citar ainda alguns trechos das cartas de Camillo, não 
esquecendo também a sua phrase da Maria da Fonte: 
«Eu vim d'ahi, de cólica em cólica intestinal, até 
esta ruina gástrica que sou hoje ». «Eu ha dez dias 
que passo as horas a contorcer-me numa nevralgia 
que já me tem posto deante dos olhos o recursa 
do suicídio — escreve elle a Vieira de Castro — 
Os meus padecimentos voltaram. Estou escre- 
vendo ás seis da manhã. Passei toda a noite cgm 
a cara nos vidros á espera do dia. Imagina, meu 
filho, um espasmo nervoso no esophago que só com 
muito custo me deixa respirar e á força de anti- 
histericos. Por cima d'isto, o estrondo de uma azenha 
na cabeça, aquillo que Henry Heine sentia quando 
escrevia no Livro de Lazaro: No fando do meu 
cérebro vae um ruidoso desmancho. Depois a fra- 
queza que me não deixa ter em pé e a impossibili- 
dade de estar quieto. Não se pôde viver assim 

A noite passada deitei-me com esperanças de ador- 
mecer. Ergui-me logo e vi romper o dia e esperei 
que me deixasse uma dôr nevrálgica que veio so- 
bredourar a insomnia, o espasmo, a zoeira e toda 

esta admirável cadeia de nevroses Antes de 

hontem reuni aqui três médicos. Não sei o que 
pensam de mim. O de Braga chama gastralgia á 
moléstia. O de Guimarães também. E o das Taypas, 

que cura ha 60 annos, ainda não sabe o que é 

A noite passada dormi regularmente. De oito em 
oito dias tenho assim um remanso As noites 



186 CAMILL9 

são as mesmas e atribuladas. Hoje veio uma sobre- 
carga de dores nervosas nas pernas que me pri- 
vam de andar Estou de cama : perdi ambos 

-os ouvidos : ficaram-me horrendas dores que me to- 
mam toda a face Ha cinco dias que padeço 

mais e muito. No dia quinze d'este mês faz um anno 
que eu tive a primeira congestão. Não creio que estes 
ataques tenham prasos fataes ; mas é certo que os 
padecimentos se agravam com a aproximação do 
calor. ..... A minha enfermidade até já me faz 

angustias se me demoro segundos a escrever. Não 
ha palavras . para o que sofPro ; é a anemia mais 
desgraçada que pôde dar-se. O meu cérebro está 
ralado e dissolvido em sangue Os meus pra- 
zeres neste antro chamado o viver são as poucas 
horas em que durmo se as não sobresaltam as ne- 
vroses súbitas ou os sonhos horrendos que me 
prostram a alma » , ^ <' Hontem estive de cama a 
curtir um -começo de bronchite e a cevar as dores 
da perna com o Pain-Killer, uma mixordia ameri- 
cana que me leva a epiderme e me deixa as dores 

— escreve elle ao sr. Silva Pinto — Estou de 

cama, com as mesmas dores de velhice Já vê 

que lhe escrevo na cama, moido de dores, e ancioso 

por isto acabado Fakir soa como fobre nas 

linguas semíticas. Escrevo-lhe de cama com muitas 



1 Corr. Epist. t. ii p. 16-17, 40, 43, 44, 49, 64, 96, 158, 
174 e 183. 



CAMILLO 187 

dores de ollios e de pernas, como um fakir da peor 
raça estropiado». ^ «Estranhei pois — diz o roman- 
cista nnma carta á sr.^ D. Maria Amália Vaz de Car- 
valho publicada na Bohemía do esyÍ7'ito — que V. Ex.»- 
me não felicitasse por estar surdo, quasi cego, trô- 
pego, com daas nevroses em cada nervo, com duas 
atonias formadas, uma no estômago, outra no fígado, 
e a terceira a principiar no cérebro». «Estou cada 
dia mais doente, mais triste e mais convencido de 

que acabei — diz Camillo ao sr. padre Senna 

Freitas ^ — Logo que me sinta com forças ahi estou. 
Não imagina o meu estado de fraqueza. Qualquer 
mudança de ar, uma nuvem, um bocejo de vento, 
uma pequenina convulsão nas arvores despedaça- 
me os nervos. Parece que se vae fazer noite na mi- 
nha alma Esperava eu que a mudança de terra 

me suavisasse umas cruéis dores nervosas que me des- 
esperam. Vou procurar remédio noutra parte 

Estou quasi paratytico, e quando a atropina me 
subir á região peitoral, decerto, e felizmente, aca- 
barei de penar Ainda vivo no ultimo acto da 

decomposição. As pernas já estão na campa ; mas 
ainda as sinto nos estorcegões das nevralgias. Eu 
esperava isto ha muitos annos, quando experi- 
mentei os prodromos da ataxia. Agora já difíicil- 



1 Ob. cit. p.48, 82,85 e 114. 

2 Ota. cit. p. 126, 132, 133, 144, 147 e Cartas inéditas 

( Vêr NOTA E). 



188 



CAMILLO 



mente me arrasto d'uma cadeira para outra; mas, 
assim mesmo, vou até onde pôde levar-me uma 

sege Afinal a sciencia descobriu que a minha 

enfermidade inexorável é uma myelite. A paraJysia 
por emquanto está nas extremidades inferiores. Se 
a lesão da columna vertebral chegar ás vértebras 
cervicaes, tenho de morrer asphixiado». «Estou 
doente como uma enfermaria de S. José — diz ainda 
Camillo ao visconde de Ouguella. — Cheguei á prosa 
da dor de barriga Sinto-me vivo de nevral- 
gias. Tenho andado por todas as praias do norte 
sem tomar um banho: quando soffro até cahir, venho 
para a piedade inútil da familia». «Ha trinta dias 
que não durmo com atrozissimas dores nas pernas» 
— afirma elle a um amigo, em carta publicada 
numa revista do Porto. ^ 

Nos seus delirios de megalómano e perseguido, 
Camillo seguiu o typo clássico : é um caso perfeito, 
posto que notavelmente attenuado. E nelle se po- 
deria talvez encontrar aquella passagem raciocinada 
do delirio de perseguições para o de grandezas que 
alguns alienistas pretendem e outros, não menos 
illustres, como entre nós o sr. dr. Júlio de Mattos^ se 
recusam, pelo resultado das suas observações, a 
confirmar *. Quando Camillo foi para Lisboa com 
Anna Plácido e a opinião publica os agredia, o 



A Illustração Moderna. Porto, 1901, 2.o anno, n.os 8 e 9. 
JuLio DE Mattos : A Loucura, 1902. 



CAMILLO 189 

romancista julgou-se victima de tenebrosos conci- 
liabalos dos amigos de Pinheiro Alves, que contra 
elle tramavam projectos de assassinio. « Assim foi 

— diz o sr. Alberto Pimentel nos Amores de Camillo 

— que de Lisboa escrevera para o Porto a seguinte 
carta, que está junta ao processo e que reputamos 
completameííte infundada nas suspeitas que lhe 
servem de assumpto: 



lUustrissimo Senhor — V. >S.« e eu reduzimos 
sua sobrinha d extrema miséria. Ha no crime ainda 
a possibilidade da virtude. A minha, se aJguma me 
concede, é trabalhar noite e dia pai^a alimenta-la e 
a, seu filho. Os projectos de assassinio tramados por 
V. S.fi^ contra mim, não vingaram no Porto. Se con- 
seguir que elles vinguem em Lisboa, glorie-se V. aS^.« 
de ter quebrado o tdtÍ7no esteio dhinia senhora des- 
valida. Não se espante da liberdade que tomo de es- 
crever-lhe. Espero que V. ã" seja um dia o primeiro 
a dizer que eu não era tão infame como a sociedade 
me julga. — 20 de fevereiro de 18õ9. — De V. S."- 
attento venerador e creado. — Camillo Castello 
Branco. » 



É claro que taes projectos não existiam. O ma- 
rido atraiçoado vivia num meio em que essas reso- 
luções violentas só com muito custo poderiam ger- 
minar, e, mesmo que a sua dor fosse tamanha que 
o allucinasse, os respeitabilissimos amigos que o 
cercavam, gente conselheiral e ordeira, haviam de 



190 CAMILLO 

fazer-lhe escutar a voz da prudência e da razào. 
Pinheiro Alves instaurou um processo, metteu os 
amantes na cadeia e, embora o seu soífrimento fosse 
muito e lhe encurtasse uma vida amargurada, o 
certo é que a isso se cifrou e a isso se deveria cifrar 
logicamente a exteriorização do seu rancor. 

Mais tarde, dizia o sr. António d'Azevedo Cas- 
tello Branco, numa carta a seu primo Nuno, visconde 
de S. Miguel de Seide, referindo-se a Camillo : « O 
que eu lhe ouvi foi as palavras em que elle me 
exorava para dar-lhe o revolver comprado, dizen- 
do-se cercado de pessoas que o odiavam. . .» ^ E o 
próprio Camillo, num opúsculo da questão da Se- 
benta, escreveu: «Afinal, este doutor é mais um dos 
ignorantes maus da quadrilha formidável que me 
sahiu quando eu já ia no fim da estrada, estropia- 
do, amparado ao bordão do caminheiro que vem 
de uma assas trabalhosa peregrinação» ^, quando^ 
em verdade, se os ódios occultos contra elle eram 
bastantes, a quadrilha que sahiu em linha de ataque 
estava longe de merecer o epitheto de formidável 
que a nevrose de Camillo lhe assacou. 

Sabe-se que o grande escriptor teve sempre em 
grau altíssimo a preoccupação nobiliarchica e, ave- 



^ Nuno Gastello Branco : (Visconde de S. Miguel 
de Seide). Protesto contra a supposta filha de Camillo CaS' 
tello Branco. 1890. 

2 Notas ú Sebenta do dr. Avelino César CallintOy 1883^ 
p. 15. 



CAMILLO 191 

rigiiado como parece estar que a sua ascendência 
se não enfeita com o sangue azul dos pergaminhos, 
é de concluir uma accentuada megalomania. Essa 
arvore genealógica, cheia de nomes vistosos, que 
entra galhardamente e com solemne entono pelas 
dynastias remotas de Oviedo e de Leão, a que me 
refiro no começo d'este livro, foi organizada pelo 
próprio Camillo e veio ter em manuscripto ás mãos 
do sr. Alberto Pimentel, que a publicou no Romance 
do romancista. Mais tarde, este mesmo auctor,, 
mais bem informado, emittiu a opinião de que essa 
illustre estirpe nada mais fosse que uma novella de 
linhagens escripta por Camillo sob a influencia do 
seu delirio dominante. ^ E foi ainda indubitavelmente 
esse delirio que o levou a acceitar o titulo de vis- 
conde que, sob o rotulo d' uma nobreza de brasileiro 
minhoto, vinha encobrir todo o brilho do seu nome 
de gloria. Dizem que era uma antiga aspiração sua, 
satisfeita depois pela influencia d'uns amigos e é 
ainda o sr. Alberto Pimentel que nos conta a tal 
respeito este episodio. «Toda a gente estranhou 
que elle quizesse trocar o seu nome por um titula 
de visconde ; só elle não estranhou. Em Seide dis- 
se-lhe eu : — Se eu fosse ministro^ teria introduzido 
uma innovação no seu titulo, meu querido mestre. 
— Qual ? perguntou Camillo. — Agraciá-lo-ia com 
o titulo de — visconde Camillo CasteUo Branco. Assim,. 



^ Os amores <ie Camillo. 



192 CAMILLO 

n mercê não ecUpsaria um nome glorioso, antes lhe 
seria homenagem. Camillo não gostou e respondeu 
de prompto : — Correia Botelho são appeUidos nobres 
da minha família.» ^ 

Planeando, nos últimos annos da sua vida, escre- 
ver um romance sobre os seus antepassados, intitu- 
lado Os Brocas^ Camillo dirigiu-se ao visconde de 
Sanches de Baena solicitando-lhe algumas indica- 
ções que o pudessem auxiliar no seu trabalho. 
« Como V. Ex.* possue muitos conhecimentos ge- 
nealógicos e dados infalliveis que lhe fornecem as 
velhas inquirições do Santo Officio que Deus haja 
em sua Santa guarda — escreveu Camillo numa 
carta ao erudito investigador, datada de Seide, em 
23 d'outubro de 1881 — tomo a liberdade de lhe 
enviar um traslado de certidão baptismal, de familia 
de Villa Real de Trás-os-Montes, a ver se porventura 
V. Ex.'^ me pode dar alguma informação dos ante- 
passados do Dr. Domingos José Correia Botelho 
de Menezes, fallecido em 1805, desembargador apo- 
sentado da E-elaçào do Porto, e de José Luiz 
Correia Botelho, cavalleiro professo da Ordem de 
Christo, que me parece ser tio paterno, irmão de 
Manuel Correia Botelho, avô do baptizado. Tam- 
bém desejaria saber se o capitão José Pereira da 
Silva, casado com uma senhora Castello Branco, de 
Cascaes, tem representante nesta villá. » ^ 



^ Os amores de Camillo. 

2 Alberto Pimentel : O romance do romancista. 



CAMILLO 193 

Noutra carta, posterior, também dirigida ao vis- 
conde de Sanches de Baena, escreve Camillo: «Pelo 
que respeita a Correias Botelhos, estou plenamente 
satisfeito, graças ás illucidações prestantissimas de 
V. Ex.'''. O que muito me interessava era saber 
quem fosse D. Rita Castello Branco, senhora com 
quem casou o dr. Domingos José Correia Botelho, 
em Cascaes, sendo ahi juiz de fora. Os pães d'ella 
constam da certidão do baptismo que enviei a 
V. Ex.*, e o dr. Domingos José Correia Botelho, 
segundo calculo, casou entre 1760 e 1,765. Em Cas- 
caes existe um indígena general reformado, de 
appellido Castello Branco : pode ser que elle pro- 
ceda d'essa familia. Conheci uma filha do dr. Do- 
mingos José Correia Botelho que se assignou Cal- 
deirão. Porque? Entre os meus papeis manuscriptos 
lia umas trovas propheticas d'um physico Caldeirão 
de Cascaes, espécie de Bandarra do século xvi. Po- 
deremos espiolhar o Caldeirão nessa familia de Cas- 
caes que ha 50 annos assignava Castello Branco?-» 

Registei em Camillo a constante procura do 
termo raro, e fácil se me torna justificar o asserto. 
Não ha em toda a litteratura portuguesa linguagem 
mais exuberante, mais fornida e ao mesmo tempo 
mais pura que a d'elle. Mas a grande parte do seu 
vastíssimo vocabulário são termos por elle creados 
ou feitos reviver d 'entre a prosa obsoleta dos car- 
tapacios velhos, de modo que muitas são as pa- 
ginas da sua obra em que para uma comprehensào 
litteral o uso d 'um diccionario ou d'um elucidário 

13 



194 CAMILLD 

se não dispensa e rara será aqiielia em que não 
encontremos uma palavra nova, derivada sempre se- 
gundo a Índole e o mecanismo da língua, para que 
esta deforma alguma deixe de ser ainda e sempre o 
mesmo instrumento autónomo, vivendo á custa dos 
seus recursos próprios, vernáculo e puríssimo. E^ 
claro que se não trata aqui apenas d 'uma neces- 
sidade urgente de expressão, mas da exigência 
d'um temperamento de colorísta, num homem de 
génio que possuía, como todos, a tendência para a 
originalidade. 

Mas, falemos do senso moral de Camillo, tão 
discutido. .. e tão injuriado; falemos do seu cara- 
cter que ainda ha pouco um articulista dizia não 
ser «precisamente o de Smiles » ^ e vejamos até 
que ponto esse modo de ser moral se integra no 
esboço de physio-psycologia malsã que estou tra- 
çando. 

Não houve infâmia que lhe não attribuissem, 
monstruosidade moral que não servisse para, a olhos 
de idiotas meticulosos, diminuir a grandeza do seu 
génio e o valor colossal da sua obra. O certo é que 
Camillo, comonevropata, tinha desigualdades de 
caracter por vezes exteriorizadas d'um modo sa- 
liente e, assim, de envolta com um ou outro modo 
de proceder pouco correcto, actos de bondade que 
francamente o nobilitam. Numa carta a Silva Pinto 



1 Pedro A. de Azevedo: Log. cit. 



CAMILLO 195 

escreveu elle : « Os seus EeaUsmos deviam ser bem 
acolhidos ; agora com novo prefacio veja lá d que 
faz. Eu não lhe inculco a pujança dos seus inimi- 
gos ; advirto-lhe simplesmente que é melhor não 
os ter, porque a gente de coração normal até mesmo 
quando fere os adversários se magoa. Eu sou des- 
graçado até me entristecer quando firo alguém: 
prefiro que a retaliação seja cruel para me não fica- 
rem escrúpulos». ' 

Tendo ardido a casa do editor de Um homem 
de brios, liodrigo d'01iveira Gruimarâes, dias depois 
da publicação d'esse romance, Camillo, condoído 
da miséria do livreiro, não só não acceitou o preço 
da edição como ainda escreveu o drama Espinhos e 
flores, fê-lo representar no S. João e cedeu todo o 
producto da recita em favor d'elle. Annos depois, 
Camillo era insultado no jornal d'esse mesmo ho- 
mem que tão bizarramente soccorrera. 

Em favor d'um velho soldado de D. Miguel, 
Thomé Cabral, cedeu o romancista uma edição do 
folheto O Clero e o sr. Alexandre Herculano. Tem- 
pos depois, o homem foi levar-lhe 40I0CMJ réis, me- 
tade do producto liquido da publicação. Camillo 
não os acceitou e Cabral, sahindo de casa d'elle, 
comprou um bilhete de loteria que foi premiado 
com vinte contos. * 

Estava com Camillo no mesmo hotel, na Povoa 



1 Silva Pinto : Ob. cit., p. 52. 

2 J. G. ^'lEiRA DE Castro: Ob. cit, p. 148-150. 



196 CAMILLO 

de Varzim, um medíocre pintor hespanhol, quô 
perdeu ao jogo tudo o que levava, deixando por fim 
de pagar á dona da casa. Quando, semanas depois, 
esta, que era uma tal D. Ernestina, despediu o 
hospede, á hora do jantar, explicando o motivo 
porque assim procedia, Camillo levantou-se do seu 
logar e disse: 

« — A D. Ernestina é injusta. Eu trouxe do Porto 
cem mil réis que me mandaram entregar a esse 
senhor e ainda o não tinha feito por esquecimento- 
Desempenho-me agora da minha missão » . 

E entregou ao pintor os cem mil réis. Mais 
tarde, como o artista lhe declarasse que não tinha 
meios para pagar aquella divida, Camillo encarre- 
gou-o, como saldo de contas, de pintar o retrato do 
filho e do cão, o que o pobre homem fez com toda 
a imperícia notável que possuia. ^ 

Na sua Auto-hiographia, publicada posthuma- 
mente no Diário de Noticias, conta Trindade Coe- 
lho, o illustre e mallogrado homem de letras : 

«...vim a Lisboa a dois concursos: para con- 
servador do registo predial e para delegado do 
Procurador Régio, mas regressei a Coimbra sem 
esperança de ser despachado, porque não tinha 
ninguém que me protegesse... Mas um dia de 
manhã recebo uma carta de Camillo Castello Bran- 
co, o grande escriptor, que eu nunca tinha visto, 



^ Primeiro de Janeiro, de 3 de junho de 1890 ; A. Pi- 
mentel : O Romance do romancista, p. 369. 



CAMILLO 197 

nem elle a mim : dizia-me que vira nos jornaes qu© 
eu fora a concurso e que escrevera ao ministro pe- 
dindo-lhe que me despachasse ! Calii das nuvens ! 
Mas d'ahi a poucos dias estava effectivamente des- 
pachado delegado do Procurador Régio do Sabugal, 
e eu ia ao Minho visitar o grande escriptor, vel-o 
pela primeira vez (primeira e ultima!) e beijar-lhe 
as mãos pelo seu tão grande favor. Mais tarde eu 
soube como as coisas se tinham passado : Oamillo 
estava casualmente numa livraria do Porto, quando 
viu num jornal o meu nome, entre os dos outros 
que tinham vindo também a Lisboa fazer concurso. 
Constou-me que dissera: — Ora aqui está tim rapaz 
que provável tnente vae ser preterido por esses todos ! 
Perguntaram-lhe : — Quem éí — JJm rapaz que es- 
creve : Trindade Coelho. Disse-lhe o livreiro (que 
era precisamente aquelle redactor do jornal onde 
eu publicara o Scepticismo, o editor Costa Santos) : 
— Ninguém melhor do que V. Ex."" para o despa- 
char ! — Como? — Escrevendo ao Ministro. Camillo 
calou-se ; e o resto já nós o sabemos. Sabugal era 
a melhor comarca de 3.'' classe ; mas era quasi uma 
aldeia, na Beira ; e Camillo disse-me numa carta 
que me escreveu para lá que receava que eu me fi- 
zesse ali um reinicola pavoroso; — e em menos de 
um mez estava transferido para Portalegre, que era 
já uma pequena mas linda cidade, capital de dis- 
tricto, no Alemtejo. » '^ ^ 



Diário de Noticias, de 18 de setembro de 1908.. 



198 CAMILLO 

O certo é que um homem normal que praticasse 
acções d'estas não seria capaz de injuriar grossei- 
ramente a mulher que por causa d'elle tinha per- 
dido a consideração da grande parte, e o desafogo 
de uma situação social invejável, fosse qual fosse, 
perante a sua consciência, o valor moral d'essa mu- 
lher, nem tampouco de ir viver para uma casa que 
ella tinha conseguido á custa d'esse casamento que, 
depois, para o seguir, repudiou. 

Pouca gente conhece a razão por que o romance 
Annos de Prosa appareceu abruptamente cortado 
Xio mais emaranhado da acção, com estes periodos 
íinaes que algumas edições posteriores eliminaram : 

« Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda 
esta gente com as costumadas voltas do mundo. O 
livro complementar d'estas biographias ha-de deno- 
minar-se Reacção da Poesia. E' o natural segui- 
mento dos Annos de Prosa.» 

Ora tal Reacção não sahiu nunca e o motivo é 
fácil de comprehender, contada a historia. O edi- 
tor tinha contractado com Camillo a publicação 
d'uma novella d'um certo numero de paginas e, 
nessas condições, abriu a assignatura. Da quantia 
do ajuste deveria entregar metade no começo da 
impressão, tal como fez, e o resto no fim. Camillo, 
em certa altura, suspendeu a remessa do original, 
que ia em meio, e declarou que a não continuava 
.sem lhe darem o resto do dinheiro, pretenção com 



€AMTLLO 199 

a qual, a muito custo, o editor se conformou, sem 
que comtudo a remessa do original continuasse. E 
foi após reiteradas instancias feitas pelo proprietá- 
rio da edição em todos os termos, que Camillo man- 
dou a metade que faltava. . . numa pagina. Ora tal 
editor, fallecido ha annos e de quem eu ouvi a 
narração de toda a historia, tendo-se compromettido 
a dar um certo numero de paginas aos seus assi- 
gnantes, resolveu dá-las a todo o transe, fazendo 
seguir os Âmios de Prosa de dois outros romances 
traduzidos livremente por um pharmaceutico de 
Lisboa, 1 com o titulo de A Gratidão e O Arrepen- 
dimento, e a acção transportada para Portugal. O 
frontespicio prestava-se a uma dúbia interpretação 
que a escolha dos locaes da acção — S. Cosme e o 
Candal — mais avolumava, e alguém, que desco- 
briu o triic, não tardou em lançar sobre Camillo o 
labéu de plagiário. Camillo exigiu- do editor uma 
declaração que elle, com eíFeito, fez inserir nosjor- 
•naes do Porto, redigida cautelosamente, em termos 
que encobriam a fraude do romancista. De bem com 
a sua consciência e pensando de certo de si para si 
■que a magnanimidade é virtude que pouco custa, 
€stava o bom do editor, quando Camillo lhe entrou 
pela porta dentro barafustando que lhe exigira a 
verdade para desfazer uma accusação falsa, mas não 



* HlíNKiQUE Marques : Bibliogmphia camilliana. Pri- 
«neira parte, mdcccxciv, p. 32. 



2(X) CAMILLO 

lhe pedira que contasse uma historia para desculpar 
a incorrecção do seu procedimento: 

« — O que o senhor deveria ter dito era o se- 
guinte : o sr. Camillo tinha combhiado comigo a 
publicação d'um romance de tantas paginas, recebeu 
o dinheiro e faltou á sua palavra ; e eu então fiz 
traduzir os outros contos para completar o volume.» 

E' possivel que estas palavras não sejam tex- 
tuaes, mas o facto é authentico com certeza. O pró- 
prio editor, que m'o contou, era um honrado homem 
incapaz de mentir e que tinha por Camillo uma 
grande admiração. 

Entre os papeis soltos que durante annos esti- 
veram a monte na Bibliotheca da Ajuda e que, sob 
a gerência do sr. Ramalho Ortigão, se coordenaram, 
existe uma carta de Camillo que pela primeira 
vez appareceu publicada no trabalho do sr. Pedro 
d 'Azevedo sobre Os antepassados de Camillo a que^ 
por mais d'uma vez, no decorrer d'este trabalho, me 
tenho referido. Ignora-se qual fosse o destinatária 
d'essa carta ; o endereço deveria achar-se no en- 
veloppe, que desappareceu. O sr. Azevedo, classi- 
ficando-a de «lamuriante» e reveladora do caracter 
do futuro romancista, o tal caracter que « não é 
precisamente o de Smiles», pensa que ella tenha 
sido dirigida a Herculano, que no mesmo anno da 
sua data publicou o primeiro volume da Historia 
de Portugal. Em todo o caso, a carta não é apo- 
crjrpha. « Ninguém que conheça a letra de Camillo 
— disse-me o illustre bibliotecário de Ajuda numas 



CAMILLO 201 

informações que teve a bondade de me prestar a 
tal respeito — hesitará sobre esse ponto /> . E, nesse 
caso, é irrecusável a opportunidade da publicação 
d'esse documento nesta altura do meu estudo em 
que procuro dizer imparcialmente, arredando-o 
muito embora da teia de lendas injuriosas que ca- 
lumjiiosamente o conspurcam, o que foi o cara- 
cter do grande romancista. Diz o seguinte : 

«111."^° Sr. — Os virtuosos sentimentos -por V. 
S.a proclamados em suas obras ; — essas obras que 
eu julgo fieis reflexos da bondade, religião, e amor do 
próximo, que dominam seu auctor, — me incitam 
com arrojada confiança e temeridade, a dirigir á 
presença de V. S.** esta minha carta, não mensa- 
geira de talentosas frazes, antes pura copia da 
magoa que inspira seu desconhecido escriptor. Um 
licito desejo de fazer algum vulto nas letras, se 
bem que incompatível com as minhas circumstan- 
cias, me excitou a frequentar o curso de Direito 
na Universidade de Coimbra. Encetei-o ; e, depois 
que colhi victoriosas palmas das fadigas do meu 
primeiro anno, a morte me roubou o protector 
único, que ali me mantinha com as suas parcas, 
mas para mim, filho das circumstancias, abundantes 
posses. Absolutamente privado de meios para a 
continuação do meu corriculo literário, olho para 
o meu futuro, e prevejo um futuro calamitoso, qual 
pôde sobrevir a um moço de 20 annos, despido de 
protecçoens. Em meu abono, a resignação me tem 



202 CAMILLO 

conservado, até hoje, entre os limites da honra e 
da prudência : por que, no meio de minhas amar- 
guras, lembra-me que ha um Deus, assiduo vigi- 
lante por suas creaturas, e representado na terra 
por alguns homens — honra da sublime idéa da 
creação. Não temo enganar-me, se disser, que V. S.* 
hie um dos Apóstolos a cumprir a mais divina das 
missoens : — valer aos aíEictos — He pois a V. S.* 
que me dirijo : — serei eu feliz nesta minha atre- 
vida inspiração? ! Meios de subsistir com honra — 
única herança de meus pães — he, o que procuro, 
« pelo que suspiro. N'esta Província, Senhor, nã» 
vive o homem probo, por que a calumnia, de mãos 
dadas com a politica, vão denegrir o homem que 
mais lhes foge. N'esta Província, o homem, quer de 
médio, quer de transcendente talento, senão segue 
«, máxima geral — o vaivém das opinioens he ente 
nullo. Quizera, eu, Sr., fugir a este ar mefítico, e 
procurar n'essa cidade, em paga do meu trabalho, 
seis vinténs para o pão de cada dia, e viver tran- 
quillo — ahi, onde ninguém conhece os meus prin- 
cípios tão bellos, e tão esperançozos para admirar 
a minha subjeição de hoje — ahi, onde ninguém 
motejará a minha casaca já velha, nem me apontará 
dizendo por escarneo : Ali vae o filho d'um que foi 
corregedor em Vizeu ! Pode V. S.a valer-me ; pode- 
rei eu ir a Lisboa esperançado na caridade de Y, 
S.*? Eis aqui, meu protector, cumprida a mensagem 
d'esta carta. Se ella he digna da resposta de V. S.a 
•eu a aguardo anciosamente — Favorável, Deus 



CAMILLO 203 

permittirá que seja. Conceda-se-me a honra de me 
.assignar de V. S.^ — servo muito venerador Camillo 
Ferreira Botelho Castello Branco. V.a Real de Tras- 
;OS-Montes — 28 de agosto de 1846 » . 

Quem desconhecer certos pormenores da biogra- 
■phia de Camillo estranhará deveras o puritanismo de 
quem procura discutir o caracter d'um homem, num 
-sentido pouco lisonjeiro, pelo facto de esse homem 
ter pedido trabalho — seis vinténs para o pão de 
cada dia — no estylo humilde que naturalmente se 
impõe á epistolographia implorativa d'um homem 
que não possue esses seis vinténs. Ha porém, mais 
talguma coisa. E' que Camillo afirma nessa carta que 
■colheu as victoriosas palmas das fadigas do seu pri- 
meiro anno de Direito na Universidade de Coim- 
bra — e Camillo nunca frequentou a Universidade 
de Coimbra. E' que Camillo afirma nessa carta de 
1846 que a morte lhe roubou o protector único que 
o mantinha nos estudos com as suas parcas posses 
— e esse protector, um tio chamado João Pinto da 
Cunha, em 1849 ainda vivia. E isso é facilmente 
comprovavel. No Romance do romancista, o sr. Al- 
berto Pimentel conta que um amigo seu, a quem 
pediu informações sobre a vida de Camillo em Coim- 
bra, lhe respondeu o seguinte: «Percorrendo as 
listas impressas ou Relações de estudantes matricu- 
lados na Universidade e lyceu de Coimbra^ desde o 
anno lectivo de 1840-1841 até ao de 1860-1861 não 
encontrei o nome de Camillo Castello Branco. Além 



204 CAMILLO 

d'isto, falando com varias pessoas que me pode- 
riam informar a este respeito, todos me disseram 
que elle não frequentou a Universidade nem o lyceu.» 
Por meu lado, procurando informar-me ainda a tal 
respeito, dirigi-me a um amigo residente em Coim- 
bra, que me confirmou nestes termos as palavras do 
informador do sr. Alberto Pimentel: «Tive occasião 
de percorrer o archivO das matriculas desde 1839 
até 1849, e nesse periodo de dez annos, posso ga- 
rantir-llie que absolutamente nada existe relativa^ 
mente ao nosso Camillo, sendo portanto inexacto 
que elle houvesse frequentado esse estabelecimento 
de ensino superior. . . São estas pois as informações 
officiaes e fidedignas que, com a mais absoluta cer- 
teza, lhe posso fornecer» . Quanto ao tal tio — eca, 
casa de quem elle se hospedou em 45 quando re- 
gressou a Villa Real depois de perdido o anno na 
Escola Medica do Porto — a prova de que em 49 
ainda vivia está no facto de, nesse mesmo anno, ter 
escripto aos jornaes do Porto, por solicitação de 
Camillo, uma carta explicativa da prisão do futuro 
romancista em 46. 

Fica assente, pois, que, nesse anno de 46, Camillo 
deturpava a verdade, — romantizando a sua própria 
vida á custa d 'algum dos seus heroes de novella^ 
como, de resto, tantas vezes romantizou alguns dos 
seus heroes de novella á custa da sua própria vida, 
— mas deturpava-a, não para se desculpar d'uma 
má acção, não para prejudicar interesses d'outrem, 
não para mendigar um empréstimo ou uma esmola, 



CAMILLO 205 

mas para pedir trabalho. E a essa religião do tra- 
balho foi elle sempre escrupulosamente fiel. Se a 
carta transcripta d'isso é uma prova incontestável, 
outras que vou transcrever o são também e d'uma 
forma mais nobre, mais eloquente e, de todo em 
todo, immaculada. 

A primeira d 'essas cartas a que me refiro, fo^ 
escripta em 61, das cadeias da Kelaçáo do Porto, e 
publicada nos jornaes d'entáo. Camillo estava preso. 
«Dissera-se que eu recebera dois contos de réis, 
dadiva do soberano (D. Pedro V) — conta elle pró- 
prio nas Memorias do caí^cere. — Os meus amigos 
perguntavam-me se eu os recebera, como certíssimos 
de que eu os enganava, respondendo negativamente. 
Dei o boato como inventado no Porto, e ponderei-o 
como todas as calumnias que por aqui me assaltam, 
e eu esmago entre a sola e a lama. Quando, porém, 
um respeitável cavalheiro e amigo, António Joaquim 
Xavier Pacheco, me asseverou que vira uma carta 
de Lisboa dizendo que o sr. Conde da Ponte me ia 
enviar dois contos de réis por ordem do rei, apres- 
sei-me a desmentir a calumnia, ou a rebater a esmola 
sem mais vaidade que a do trabalho, que a si se 
basta». A carta de desmentido era a seguinte: 

« Sr. redactor. — Muita gente me tem pergun- 
tado por dois contos de réis, que mandou dar-me 
o Senhor D. Pedro v. Pessoas circumspectas aco- 
lheram e divulgaram o boato, commentando-o de 
vdiversos modos, mas nenhum lisonjeiro para mim. 



206 CAMILLO 

Eu creio qae o Senhor D. Pedro v é infinitamente 
delicado, e só dá esmolas a quem lli'as pede. Quando 
S. M. me fez a honra de perguntar, na cadêa, em 
que me occupava, respondi a S. M.: que trabalhara. 
Ou o Senhor D. Pedro v entendesse que eu me 
occupava em chapéus de palha, ou em romances, 
ou em caixinhas de banha, a minha posição ficava 
definida para o intelligente Monarcha : o homem 
que trabalha não pede nem acceita esmolas ; e, se 
a pedisse ao Rei, julgar-me-hia tão humilhado como 
se a pedisse ao Ínfimo dos homens. A cousa é 
outra. Ha muita gente que se diverte comigo. É 
bem feito, porque eu também me divirto com muita 
gente. Rogo -a v. a publicidade d'estas linhas. De 
V. etc. — Camillo CasteUo Branco. Porto, eadêas da 
Relação, 11 de fevereiro de 1861.» 

A outra carta foi escripta um mês antes da sua 
morte. Um jornal de Famalicão disse (jue Camillo 
contratara com um editor do Porto a publicação de 
dois romances e de um livro referente á questão 
com a Inglaterra. Dias depois, o Primeiro de Janeiro 
publicava o seguinte : 

«Meu presado Oliveira Ramos: Alguns jornaes 
transcreveram de uma folha periódica de Famali- 
cão, a meu respeito, uma noticia inexacta. Não 
contratei com algum editor a publicação de livros 
novos. Em cousas de litteratura, deve falar-se de 
mim como se fala de um escriptor morto. Logo 



CAMILLO 207 

que eu acceitei do Estado uma pensão, é que eu 
não podia trabalhar e manter a minha laboriosa 
independência de 40 annos. Ceguei na lucta e fi- 
quei vencido. Sirva isto de exemplo a futuros es- 
criptores. De v. etc. Camillo Castello Branco. S. C. 
— S. Miguel de Seide, 30-4-90». 

Certo, nessa lucta de 40 annos, Camillo teve ho- 
ras de desanimo — e largos motivos para as ter. 
Em 28 de abril de 62, dizia elle a José Gomes 
Monteiro, numa carta que vem em parte trans- 
cripta no Romance do romancista : «Escrevo ro- 
mances, e que remédio senão escrevê-los sempre? J 
Em Lisboa tenho editor que me paga o volume a 
1441000 reis. Se dentro de um anno me não paga- 
rem a propriedade de cada vol. a 50 libras, creio 
que abrirei uma tenda, e acabarei tranquillo, hon- 
rado, e estúpido como convém». E, em 15 de 
maio de 1863, em carta também a Gomes Monteiro, 
que vejo ainda no Romance do romancista : « Di- 
zem- me que vou ser não sei que na secretaria da 
Marinha. Acceitarei, para mais facilmente poder 
conseguir collocação no norte, Barcellos que seja». 
Em 16 de maio de 1904, Carlos Malheiro Dias 
publicou no Século estas palavras : 

« Camillo foi sempre um calumniado e um per- 
seguido. Teve, é certo, quem o reverenciasse. Mas 
á maneira de quem reverenceia um tyrano : — te- 
,mendo-o. Esse grande infeliz gozou uma realeza, 



208 CAMILLO 

mas de onde só lhe derivaram amarguras. Elle foi, 
com Garret e Herculano, o terceiro homem que 
presidiu, sem contestação de poder, ao movimento 
litterario do seu século. Camillo passou, com o seu 
casacão de gola de pelles, a luneta de aro de tar- 
taruga, a fealdade de varioloso, como passam os 
dominadores e os déspotas, numa tormenta de 
impropérios e num clamor de applausos. Arreme- 
çaram-lhe flores e escorias. Foi injuriado e accla- 
mado. Mas eram acclamações de pardaes saudando 
uma águia e injurias de mosquitos incommodando 
o somno de um leão. Nem de umas lhe vieram, 
durante a vida, os prazeres orgulhosos que consolam, 
nem das outras as fúrias sagradas que exterminam. 
A sua realeza acabou no suicídio, que é o tédio da 
vida. As flores feneceram e as escorias deixaram 
'nódoas. A ingratidão humana procurou, depois da 
sua morte, abafar a sua obra. Mas a obra era im- 
mensa e as mãos dos ingratos pequenas. Por ultimo, 
concordou-se que elle era grande. Mas insinuou-se 
que elle fora mau. Todos o admiram, mas poucos 
o amam. Ninguém contesta que elle escreveu admi- 
ráveis livros ; mas muitos afiançam que elle com- 
metteu abomináveis acções. As almas cândidas 
visionam-o como um espirito do Mal, desregrado e 
satyro, mysto de Belzebuth e Casanova, violador 
de conventos e perturbador dos lares, adulterino e 
sceptico, usando de poderes infernaes de seducção, 
com segredos de philtros conturbadores quando 
falava nos livros ao coração ingénuo das mulheres. 



GAMILLO 209 

Os que, sem lhe negar o génio imperativo, llie 
obscurecem o caracter e disformam a memoria, 
sabem que os escriptores só podem perdurar pelo 
amor no coração dos que os lêem. Todo o seu ta- 
lento não o rehabilitará perante os que o não amem. 
E boje, que morreram quasi todos os homens que 
com elle mais intimamente conviveram, não se 
pode apellar para os corações d'aquelles que o 
estimaram. O corpo d'esse pobre desherdado está-se 
consumindo num alheio jazigo, no pequeno e triste 
cemitério da Lapa. Elle morreu longe de todos, 
numa solidão que a cegueira tornava maior, onde 
o não foram confortar os aífectos de meia dúzia de 
homens, com os nobres corações d'esses outros a 
cujo culto piedoso de saudade Lisboa deve hoje o 
monumento do Largo do Quintella. Esse grande 
infeliz conheceu todos os soffrimentos. E para que 
nenhuma voz o accusasse de ser injusto nas raras 
horas em que a sua penna, molhada em lagrimas, 
se transformou num ílagicio, Deus não lhe poupou 
a mais cruciante, a mais intolerável, a dôr mais 
atroz que as fibras de um coração humano podem, 
sem estalar, consumir e soífrer : a recusa afFrontosa 
da esmola, quando quem a rejeita é uma mulher.® 
quem a supplica é. . . um Camillo ! Vive ainda a 
nobre e arrogante senhora, que se divertiu com a 
desgraça e a humilhação de um homem glorioso e 
pobre, exercitado no desengano, que ainda conser- 
vava a illusão mentirosa de que o coração da mu- 
lher é refugio da piedade. A velhice deve ter 



210 OAIIILLO 

abrandado a antiga crueldade d'essa senhora, qu 
é hoje avó. Era fácil tornar transparentes os véo 
que lhe occultam o nome. Mas nem é meu propc 
sito vingar o pobre oífendido, nem reparar, con 
o castigo, a tremenda falta de que a deve accusa 
a consciência. A historia d'esta amargura é singeli 
como a de todas as grandes dores humanas e de 
pressa se conta. Era em 1872, no Porto. CamilL 
vivia então na rua do Bomjardim, pobre como serc 
pre e mais do que nunca queimando as pestanas i 
escrever. A exterminadora tarefa d'esse homen 
durava havia meses, sem que elle houvesse at 
essa hora conseguido assegurar para o inverno i 
lenha e o prato do lar modesto. Foi numa hora d 
afílicção e de fadiga, em que a penna se negava i 
trabalhar pela gloria e pelo sustento, transformandi 
a tinta em radiosas idéas, que Camillo afastou d 
si o manuscripto do romance incompleto e escrevei 
a um amigo a carta que vae lêr-se : 

III mo Ex."'" Sr. 

Classificam-se de confidendaes umas carias eh 
natureza doesta; eu porém deixo a V. Ex." detei 
minar o que nella deve haver de reservado. 

Recebi ha annos, uma taça de prata, brinde di 
colónia portuguesa em Hong-Kong. Dizem ser u?) 
trabalho primoroso, que Id custou cem libras. Crei 
que materialmente não vale isto; e estimativamenl 
poderia valer mais se eu pudesse ter baixela. 



CAMILLO 211 

Tem o meu nome e uma dedicatória em caracte- 
res chinezes. Isso que monta f Vendo-a, porque taças 
de prata em casa de escriptor es portugueses são como 
taças de amargura, quando o vácuo d'ellas é como 
o da gloria em Poi'tugal. Vendo-a por 300$000 réis. 
Note F.. Ex."^ que ella não tem um terço d'aqueUe 
valor em prata. Parece, porém, que os lavores são 
estimáveis. 

— Então que quer você? — pergunta V. Ex.^ 

Pedir-lJiQ que apresente esta alfaia á Ex.ina Sr."* 
J9#*#. que tem riqueza e gosto superabundantes. Se 
S. Ex." a quizer, pode aspar-lhe o meu nome; e se 
não lhe importar que a sua posteridade encontre esta 
memoria de um homem que passou um dia a querer 
luzir nesta escuridão aba f adora de Portugal, S. 
Ex.a honrará a minha memoria conservando-a in- 
tacta. 

V. Ex.ci se dignará dizer-me para onde devo re- 
metter-Wa, se me quizer obrigar fazendo-a enviar â 
respeitável senhora de quem V. Ex.n é considerado 
como merece. 

De V. Ex.a 
affectivo e obrig.mo criado 
Camillo Castello Branco. 

Casa de V. Ex." 

Bua do Bomjardim, 860. 
20 de Novembro de 1872. 



212 CAMILLO 

A esta carta, cuja grandiosa e melancólica tristeza 
commove até ás lagrimas, essa senhora, que era 
poderosa e rica, respondeu com a recusa de com- 
prar a taça, sob o pretexto irónico e especioso de 
que entre a sua baixela aquelle primor de arte 
avultaria demasiado. A taça de prata voltou ao lar 
pobre, de onde sairá cheia de esperança na apre- 
goada caridade d'essa mulher. Voltou transbor- 
dando o fel que a pérfida mão feminina lhe entor- 
nara. Camillo esvaseou até ao ultimo trago essa 
peçonha. E de tão affeito ao veneno e ao infortú- 
nio, não morreu ! » 



1 



Fechado este largo parenthesis a que a discussão 
d'uma peça comprovativa deu logar, cumpre-me 
proseguir no relato do que, nos phenomenos d 
espirito e da matéria, se me afigura de molde 
comprovar na individualidade de Camillo a exi 
tencia d'uma nevrose em que porventura se hajani 
de integrar as qualidades summas do seu génio. Et 
citei já as desigualdades psychicas, a interpretaçàS 
mystica dos factos mais simples e o misoneismo 
como caracteres que Lombroso e outros auctore! 
attribuem aos homens de génio e que é possive 
encontrar em Camillo Castello Branco. Do primeir< 
d'elles^ eu penso que já no decurso d'este estud 
tenho feito uma prova eloquente. Da interpretação 
mystica dos factos mais simples julgo tambei 
que deve estar convencido todo o que tenha lido 
sua obra e muito principalmente aquella que fc 



CAMILLO 213 

escripta no tempo em que a descrença cedeu o passo 
a um mysticismo que o ia levando á vida de padre 
e o arrastou ainda á frequência do Seminário. Mas 
depois mesmo : a loucura do filho (e é claro que 
isto não entra nos factos mais simples, posto que 
seja bem dos mais explicáveis) a attribuiu elle a um 
castigo de Deus, e, no decorrer das suas novellas, 
essa mesma ideia da intervenção da Divindade no 
destino dos homens se nota a cada passo. Deter- 
me-ei pois apenas no misoneísmo, antes de entrar 
no estudo das perturbações visuaes, que deixei para 
o fim, porque seria immethodico separá-las do facto 
capital de que ellas foram a causa immediata : o 
suicídio. Já ficou dito que o misoneísmo é vulgar 
nos grandes homens. « Os homens de génio, escreve 
Lombroso, são : como a gente do povo, as creanças 
e os idiotas, essencialmente misoneístas ; possuem 
uma energia incrível para recusar as descobertas 
d'outrem, seja porque a saturação, por assim dizer, 
dos seus cérebros lhes não permitta novas acquisi- 
ções, seja porque, possuindo uma grande sensibili- 
dade para as ideias próprias, se não possam impres- 
sionar comas dos outros» *. Camillo foi, sem duvi- 
da, misoneista. E, se a sua indifferença por coisas 
de politica nos não deixa facilmente, por esse lado, 
colher elementos demonstradores d'essa verdade, 
os Ímpetos de reaccionário, evidentes nos seus es- 



Ob. cit., p. 35. 



2 14 CAMILLO 

criptos de doutrina e a opposição, mais ou menos 
franca, com que recebeu a escola de Coimbra e 
mais tarde o realismo, são elementos que só de si 
corroboram bastante a minha afirmação. 

E, posto isto, chega o ensejo de, abandonando 
por instantes o lado puramente psychico da doença 
de Camillo, me referir ás perturbações visuaes que 
nelle foram crescendo do simples enfraquecimento 
neurasthenico á amaurose, que me arrasta a um 
diagnostico mais grave. Foi na cadeia, em 1861, 
que o grande escriptor começou a soflfrer da vista.' 
Nessa altura, como sempre aconteceu nas variadas 
manifestações do seu mal, exaggerou, e assim, nas 
Memorias do cárcere, contando a serie longa doS' 
trabalhos a que consagrou, durante a prisão, a sua 
actividade, deixou escripto que tamanho esforço 
«era de mais para quem não via nada.» E o seu 
biographo Vieira de Castro, com todo o amor rhe-| 
torico ás hyperboles e phrases de pompa, apostro--^ 
ph.ava-0 no começo d 'uma tirada romanesca : « Di< 
zem-me que estás quasi cego. . .» Mas, volvidos trêa^ 
annos, o incommodo, que até ahi não fora mais que 
uma pouco pronunciada perturbação neurasthenica, 
que o «horror á doença» de Camillo exaggerou, 
mostrou progressos, a photophobia appareceu e 
Camillo poderia então dizer como Daudet, numa 
das suas Notes sur la vie : « Mes yeux, trós aífaiblis, 
ont peur de la lumière éblouissante, fermés surtout; 
le dessus des paupières est d'une sensibilité incroya- 
ble. On sait que, dans le demi-sommeil, un coup de 



CAMILLO 215 

sonnette est comme uti decliirement de l'oreille, ou. 
se ramifient tons les nerfs. La trop vive lumière 
nip cause une impression analogue, aífecfcant les 
yeux de la même manière » . Dez annos mais tarde, 
as perturbações visuaes tomaram um aspecto alar- 
mante e, desde então, a doença caminhou sempre, e^ 
successivamente, as crises de lagrimas, a nevrite 
óptica, a diplopia e a amaurose vieram, em todo o 
tempo que decorreu desde essa data até ao suicídio, 
collaborando com as nevralgias, os ruidos nos ou- 
vidos e todos os males do espirito, na formidável 
desventura que o prostrava. De todos esses males, 
ou melhor dizendo, da marcha aterradora d'um 
grande mal que uma sobrecarregada herança lhe 
marcara, ha larga documentação nos seus escriptos. 
Não citarei toda; seria difficil e fastidioso. Mas não 
deixarei de mencionar um ou outro exemplo que, 
sobretudo pela ordenação chronologica que procuro, 
se me afigure de mais vivo interesse. 

Em 70 e 71, Camillo escrevia, em cartas a Vieira 
de Castro, coordenadas na Correspondência Episto- 
lar: «. . .a felicidade é luz coruscante que offende as 
almas quasi cegas de chorar. Esta comparação deu- 

m'a o desgosto de mal poder hoje fitar a luz 

Estou enfraquecidissimo da vista e da cabeça 

Os olhos não me deixam escrever, filho. Estão afo- 
gados em lagrimas, mas olha que são de ophtal- 
mia.» Em 1878 (agosto) ao Visconde de Ouguella: 
«Não posso lêr nem escrever»; e ao mesmo, no 
mesmo anuo (novembro) : « Estou com uma con- 



216 CAWILLO 

jiintivite ha dois meses. Agora mal posso encarar 

a luz artificial. Continuo a padecer de tudo e 

principalmente dos olhos. Tenho de volta de mim 
14 luzes, para vêr o que te escrevo. Desde que o 
sol se esconde, estou cego; e não apresento sym- 
ptomas de amaurose nem de cataratas!» Em ja- 
neiro de 80, ao sr. Silva Pinto : « Eu, mal de tudo 
e principalmente dos olhos. Vejo só com um, para 
não vêr tudo duplicado. Absurdos da opticy. Cha- 
ma-se a isto uma coisa grega.» No mesmo anno ao 
sr. padre Senna Freitas : « Tenho os olhos razos de 
lagrimas». Em março de 81, ao sr. Silva Pinto: 
«O peor é que lhe escrevo com um dos dois olhos 
fechado, para não vêr duplicado. Um inferno!. . .» 
Um mês depois, ao sr. padre Senna Freitas: «O 
meu padecimento de olhos promette demorar-se 
como costuma quando vem com este préstito de 
perversões nervosas.» Em outubro d'esse mesmo 
ànno, ao sr. Silva Pinto: «Desconfio que vou ficar 
cego. Ha muitos dias que nem lêr posso.» Em 
julho de 82, também ao sr. Silva Pinto: «A luz 
dos meus pobres olhos creio que se apaga. Ha 
três meses que choram sempre.» Em setembro 
de 85, numa carta a Thomaz Ribeiro inserta nos 
Amores de Camillo: « Se eu viver em novembro, hei 
de vêr se posso ser apresentado por ti á seiencia ou 
á caridade d'alguns médicos de Lisboa. O que eu 
queria, meu querido amigo, era que me dessem a 
vista que eu tinha ha 4 meses, para poder trabalhar 
até morrer. Não me podia ser inílingida maior tor- 



CAMILLO 



217 



tura que isto de não poder escrever sem grande 
mortificação. » Em setembro de 86, ao sr. padre 
Senna Freitas : « Estou quasi cego desde que o meu 
Jorge, em delirio furioso, entrou no hospital do 
Conde de Ferreira.» Nesse mesmo anno, ao sr. Al- 
berto Pimentel: «Ha dois meses que não escrevo 
nem leio por falta de vista. O menor esforço pro- 
duz-me vertigens. Suspendi todos os meus trabalhos. 
Concorreu muito para esta perversão nervosa o es- 
tado do meu pobre Jorge. » Em março de 87, ao 
mesmo: «Depois veio um periodo de quasi ceguei- 
ra ; e agora com muita difficuldade e quasi em tre- 
vas lhe escrevo.» Em abril de 87, ao Visconde de 
Ouguella: «Estou quasi cego, porque algumas horas 
de escripta me cegaram a circumferencia da iris, de 
modo que apenas vejo um circulo mais estreito que 
este papel. Todas as minhas infelicidades do corpo 
e da alma eram delicias antes de eu sentir esta su- 
prema desgraça. Se isto progredir resolverei de- 
pressa a crise.» Em outubro d'esse mesmo anno, aa 
sr. Francisco Martins Sarmento : « Dou-lhe a triste 
nova de que estou quasi cego. E a anemia dos 
olhos congénere da anemia geral. Faço ainda o sa- 
crifício de ir a Lisboa e sem esperanças, ouvir os 
especialistas. Se os de lá não souberem mais do que 
os do Porto, estou prompto.» Ainda nesse mesmo 
anno (novembro) ao sr. padre Senna Freitas : « Es- 
tou a escrever a trote, porque não vejo. Tenho- 
apenas algumas fibras contrateis em uma das reti- 
nas. » Finalmente, em abril de 90, na carta, já tran- 



^18 . CAMILLO 

scripta, a Oliveira E-amos: «Ceguei na lucta e fiquei 
vencido.» ^ 

O velho luctador, sentiu-se realmente vencido. 
E a sua energia doente, a sua vontade oscillante 
mas imperiosa ás vezes, os recursos do seu belissimo 
espirito, nada podiam contra aquelle novo assomo 
da desgraça, que lhe vinha roubar impiedosamente 
o supremo bem de trabalhar. Queria lêr, queria 
escrever — sobretudo escrever! — e não podia. Uma 
vez, num momento de desanimo, mandou leiloar a 
preciosa bibliotheca que possuia, desistiu de todas 
as investigações históricas a que se entregava nos 
últimos tempos — e pôs-se a fazer versos. Num so- 
neto ao filho doido, escreveu isto : 

« Nem goso nem paixão te altera a vida! 
Eu choro sem remédio a luz perdida. . . 
Bem mais feliz és tu, que vês o sol.» 

E num outro : 

«E eu que tanto carpia os condemnados, 
Os cegos — os supremos desgraçados ! 
Já lagrimas não tenho para mim ! » 



' Correspondência epistolar, t. lí, p. 49,55 e 114; Cartas 
BO Visconde d'Ouguella, log. cit. p. 116, 115 e 119 ; Cartas a 
Silva Pinto, ob. cit. p. 28, 119, 71 e 115; Cartas a Senna 
Freitas : Perfil de Cam. C. Branco, p. 136, 139 e 149 e Cartas 
inéditas, Vêr nota e; Amares de Camillo, p. 418; Rom, do 
rom., p. 289 e 290 ; Cartas de C. C. Branco a Francisco Mar- 
tins Sarmento, com prefacio e notas de João de Meira. Se- 
parata de A Revista, Porto, 1905, p. 15. 



OAMILLO 219 

Augmentaram as impaciências da sua vida er- 
rante. E começou a consultar médicos de toda a 
parte. Voltava-se para a religião como para um 
auxilio. Escrevia ao padre Sebastião de Vascon- 
cellos (hoje bispo de Beja), a pedir-lhe os Padre- 
nossos dos seus educandos da Officina de S. José. 
« Commovido até ás lagrimas, ouvi lêr a sua carta 

— dizia, em setembro de 88, Camillo ao sacerdote 

— Senti fazer-se a luz da esperança na minha alma 
:em trevas ; mas, considerando-me indigno das suas 
preces e da Misericórdia Divina, a escuridão da 
alma volveu ao estado em que se acham os meus 
pobres olhos. Entretanto espero que as orações de 
V. Ex.** e dos seus innocentes protegidos consigam 
aligeirar a minha agonia de modo que a morte me 
í^eja menos tormentosa. Deus Nosso Senhor lhe de 
saúde para amparo de outros infelizes a quem V. Ex.* 
«nsina o caminho do trabalho e da virtude.» E 
ainda de outra carta do mesmo mês e anno, tran- 
scripta, como a precedente, no Romance do roman- 
cista: «Cresce o meu agradecimento quando vejo 
que V. Ex.* recorre ao poder divino para que se 
opere o milagre que a sciencia não fez nem poderá 
fazer. Eu tenho muita confiança nas suas preces, 
acompanhadas da voz innocente dos seus filhos 
adoptivos, cuja alma V. Ex.^ regenerou.» Sentia-se 
perdido, queimava os últimos cartuxos, procurava 
tacteante uma ultima esperança e recorria a tudo, 
€ acreditava em tudo . . . até na medicina ! 

Dez dias antes de morrer, dirigiu ao medico 



220 CAMILLO 

especialista de doenças dos olhos dr. Edmundo Ma- 
galhães Machado^ esta carta, que é um dos mais 
extraordinários documentos da dôr que tenho visto 
escriptos : 

«111."^^ e Ex."^^ Sr. — Sou o cadáver represen- 
tante de um nome que teve alguma reputaçãa 
gloriosa neste paiz, durante 40 annos de trabalho. 
Chamo-me Camillo Castello Branco e estou cego» 
Ainda ha quinze dias podia ver cingir-se a um 
dedo das minhas mãos uma íiammula escarlate. 
Depois, sobreveio uma forte ophtalmia que me 
alastrou as córneas de tarjas sanguineas. Ha poucas 
horas ouvi ler no Commercio do Porto o nome de 
Y. Ex.* Senti na alma uma extraordinária vibração 
de esperança. Poderá V. Ex.^ salvar-me ? Se eu pu- 
desse, se uma quasi paralysia me não tivesse 
acorrentado a uma cadeira, iria procurai- o. Não 
posso. Mas poderá Y. Ex.^ dizer-me o que devo 
esperar d'esta irrupção sanguínea nuns olhos em 
que não havia até ha pouco uma gotta de sangue ? 
Digne-se Y. Ex.^ perdoar á infelicidade estas per- 
guntas feitas tão sem cerimonia por um homem 
que não conhece » . 

E, em 26 de Maio, ainda esta outra carta a 
Mello Freitas : 

« Ex.^^° Sr. Joaquim de Mello Freitas : Em 
tempos relativamente felizes me deu Y. Ex.''^ a honra. 



CAMILLO 



221 



Ias suas relações. Hoje que a minha desgraça é 
enorme, recordo-me do seu nome, da sua intelli- 
gencia e do seu coração para vir pedir-lhe um favor. 
Escrevi ao Dr. Magalhães Machado, patricio de 
Y. Ex.'\ acerca da minha cegueira, na esperança de 
que elle pudesse operar o milagre de me restituir 
não a vista que tive, mas a bastante para me des- 
condensar a treva que haverá dois meses se fez 
compl'eta nos meus olhos. O Dr. Magalhães Ma- 
chado respondeu-me de modo que me deixou sentir 
a delicadeza do seu espirito e a sua commiseração 
pelos meus padecimentos. S. Ex.'* pedia-me um re- 
latório da minha doença ; ella porém é tão compli- 
cada e variada no transcurso de 40 annos, que eu 
só interrogado por um medico, poderia responder 
e esclarecer satisfatoriamente o exame. Disse-me 
S. Ex.^'^ que, sendo curavel a minha enfermidade, eu 
iria tratar-me para Aveiro. Seria para mim, nesta 
conjunctura, suprema felicidade, ir para Aveiro na 
esperança de ser curado : isso porém só eu poderia 
pratical-o, no estado de prostração em que me 
encontro, se o senhor doutor depois de me visitar 
em S. Miguel de Seide, achasse possível a minha 
cura. Elle fez-me sentir a impossibilidade actual 
de abandonar os seus clientes para se encarregar 
de um doente tão afastado e carecido da presença 
do medico e tratamento vagaroso. Mas se a visita 
que eu peço ao medico é só uma e decisiva, quer 
para o tratamento, quer para o abandono da mo- 
léstia incurável, essa visita poderá talvez o senhor 



222 CAMILLO 

doutor prestrar-m'a sacrificando-se ao mais infeliz 
dos doentes que se teem soccorrido de S. Ex.^ No 
caso feliz de que V. Ex." pudesse movel-o e com- 
movel-o a vir a S. Miguel de Seide, teria V. Ex/'* 
a bondade de me prevenir do estipendio com que 
me cumpre remunerar tão trabalhosa jornada em 
que além do caminho de ferro ha uma légua de 
mau caminho, comquanto se faça de carruagem 
desde Famalicão até Seide. Estou certíssimo de 
que V. Ex*^ dará toda a consideração a esta carta 
dictada por um cego, e na volta do correio, se for 
possível, me dará a resposta que me levante d'este 
desalento que me vae levando ao suicídio, se a 
Divina Providencia me não deixar morrer como 
em geral morrem os felizes e os desgraçados. De 
V. Ex.^ admirador aífectivo e muito obrigado — Ca- 
millo Castello Branco. 

«Fui logo procurar o dr. Edmundo Magalhães, 
— conta Mello Freitas no artigo d 'onde transcrevi 
as duas cartas ^ — pedindo-lhe com instancia que 
fosse visitar Camillo Castello Branco, o que elle 
me prometteu fazer dentro d'aquella semana. Res- 
pondi ao grande romancista, dando-lhe parte do 
que succedera. A impaciência de Camillo mani- 
festa-se no telegramma que recebi a 28 do alludido 



^ Mello Freitas : Camillo Castello Branco. (Para a 
historia dos seus últimos dias). No n.o 6 da Revista Illus- 
trada — 30 de Junho de 1890. 



CAMILLO 



223 



mês : Peço favor avise chegada Dr. para mandar 
carro estação. Enderecei-lhe segunda carta com- 
municando-lhe a boa noticia de que no domingo^ 
ás 11 horas da manhã, o dr. Edmundo Magalhães 
estaria em Villa Nova de Famalicão, e reiterava-lha 
os meus votos de felicidade e profunda estima. No 
dia 30 recebi outro telegramma, cujo texto é o se- 
guinte : Bem haja pelas suas cartas » . 

Afinal, em 1 de junho, a visita fez-se ; e como a 
dr. Machado, depois de detido exame, puzesse de 
parte a ideia primeiro aventada d 'um tratamento 
em Aveiro e aconselhasse o doente a ir algum tempo 
para o Gerez, onde, em outros ares, colheria d© 
certo algum allivio, Camillo, comprehendendo nessas, 
meias palavras consoladoras a saa condemnação 
irrevogável, insistiu com a esposa para que acom- 
panhasse o medico até ao pateo e, ficando sá 
matou-se. 

E isso afinal não era mais que a realização, um 
pouco tardia, d'um projecto que desde cedo começou 
a germinar no seu espirito. E se tardia ella foi 
como eu digo, lance-se isso em couta d^aquella 
indecisão — mille rítegni iielVeseguire — de que fala 
Leopardi. O suicídio é vulgar nos nevropathas, 
como de resto o é em todos os que soífrem de certas 
moléstias sem cura. Mas, nos casos de perversão 
nervosa, todo o raciecinio se torce numa feição 
doentia, e quando as esperanças de melhora vão 
morrendo de desillusão em desillusão e a ps^xhialgia 
tortura, a cada passo exacerbada, o doente resolve 



224 CAMILLO 

morrer. Se é um neurasthenico, um doente da von- 
tade, nem sempre consegue reanir o quantiim de 
energia necessário para executar a sua resolação e 
ou não a executa nunca ou vae levando, entre uma 
variedade de considerações dilatórias, meses e annos, 
a encher-se de razão. ^ Passa esse tempo todo a 
co.ivencer-se, numa auto-catechese lenta, cheia de 
minúcia, laboriosa, destruindo um a um todos os 
argumentos que no seu espirito se vão oppondo á 
ideia dominante. Se é um crente, procura justificar 
a morte violenta dentro dos princípios religiosos 
que professa, se se lembra do que dirão os outros, 
argumenta que o suicídio não é uma cobardia, mas 
o recurso ultimo e legitimo dos que têm sobre os 
hombros o peso da desgraça. Tal é o caso de Camillo. 
Eu já falei da tentativa de suicídio romântico 
com os grãos d'opio, a poesia de despedida e as 
libras em cima da mesa para afastar a razão mate- 
rialona da falta de dinheiro, e a palavra suicídio 
por vezes tem apparecido nas citações que até esta 
altura tenho feito dos seus livros. A referencia de 
resto é vulgarissima, a cada passo se encontra, e, 
segundo a afirmação de Sousa Martins, as tentati- 
vas de execução foram mais repetidas do que se 
pensa: «...antes do tiro decisivo, no decurso de 
annos, mais de cem vezes — 4 ou 5 á minha vista 



1 A phrase é de Sousa Marlins, na referencia a um 
caso idêntico. 



CAMILLO 225 

— sacou do revolver, que, a meio da cabeça, pendia 
da mão paralysada pelos instinctos conservadores.» ^ 
«O suicídio — escreveu Camillo nas Memorias do 
cárcere — é uma ideia tão habitual que já nem poesia 
nem grandeza tem para mim. No livro do sr. Al- 
berto Pimentel Os netos de Camillo^ vem o seguinte 
trecho de dialogo entre o auctor e a sr.^- D. Anna 
Rosa Correia, a mãe dos fiUios de Nuno Castello 
Branco, na visita, feita em agosto de 1901, a S. 
Miguel de Seide: « — O sr. visconde (Camillo), per- 
guntei eu, trazia sempre comsigo o revolver? — 
Sempre; já o levara a Lisboa, onde um dia o expe- 
rimentou, disparando para o tecto. Mas o filho (Nuno) 
tinha substituído as balas por uns projecteis inof- 
fensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu 
isto. Todavia não largara mais o revolver, nem 
consentia que lh'o tirassem. — De tanto o apalpar, 
observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poida. 
A sr.* D. Anna Correia concluiu a sua dolorosa 
narrativa, dizendo: — Estávamos longe de imaginar 
que tivesse adquirido balas verdadeiras. Todos sup- 
punhamos o revolver vazio. Foi uma surpreza ter- 
rível. » Numa carta, já citada, a Martins Sarmento, 
Camillo define precisamente com todos os antece- 
dentes próximos e remotos, o estado de ^espirito 
que o levou á morte: «Eu bem queria poupar-me 
ao suicídio : mas desde os 18 annos que presinto a 
necessidade d'essa evasiva, sem me lembrar que a 



^ Sousa Martins, Ob. cii, p,30i. ' 

15 



226 CAMILLO 

cegueira seria o impulso justificadissimo da catas- 
trophe.» 

São do Livro de Consolação estas palavras: 

«Aturdido pela apostropbe e coberto de lagri- 
mas, Eduardo ajoelhou, referindo os infortúnios 
que o levaram por necessidade e gratidão a servir 
o seu libertador. Com o soccorro da mãe compa- 
decida, conseguiu commover o velho até ao extre- 
mo de prometter-lhe não o denunciar â justiça, com 
a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de 
Barroso em casa de parentes. Foi ; mas poucos dias 
permaneceu na soledade agra de uma serrania onde 
o desejo de morrer o debruçava sobre os despenha- 
deiros, implorando á sua desgraça a coragem do 
suicidio. A coragem ! Porque não hei de, acostado 
a moralistas de grande tomo, charmar-lhe antes 
cobardia ? E' porque ha mister enorme coração 
quem dentro d'elle se abre um tumulo. E' porque 
vae esforçada valentia nisto de um infeliz se ani- 
quilar com a certeza de que, em vez de lagrimas, 
lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, 
o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da ' 
demência — suprema injuria a essas pobres almas 
que a divina justiça não mandaria ás penas eternas 
sem lhes\descontar os terribillissimos paroxismos, 
aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da 
desgraça, aquelle relance d'olhos ao céo e o grito 
d'alma nesta dilacerante pergunta: «Quando te 
pedi eu a vida, ó Creador?» 



CAMILLO 227 



Também^ num dos artigos publicados em folhas 
çatholicas, nos seus tempos de mysticismOje reunidos 
mais tarde nos vulumes das Horas de paz^ Camillo 
disse: «Não chamem ao suicídio o resultado d'uma 
demência. O homem que se mata é responsável da 
sua morte: é arbitro d'aquelle ferro que empunha, 
d'aquelle braço que ergue e d'aquelle sangue que 
derrama. » 

Nunca se escreveu falsidade maior, e nesse 
mesmo artigo, vem um dos argumentos que, se 
valesse a pena, lhe serviria de irrespondivel con- 
tradicta. E' quando, depois de muitas citações, ten- 
dentes a demonstrar a sua afirmativa, Camillo quer 
fulminar os incrédulos com esta ultima prova : «Po- 
derá alguém suspeitar demência em Napoleão? E^ 
comtudo, este seguro pensador três vezes attentou 
contra a sua existência». Mal pensava Camillo que, 
annos volvidos, toda a gente saberia que o grande 
imperador foi declarada e provadamente um epi- 
léptico. 

No livro Horas de luda, colligido por Freitas 
Fortuna, vêm alguns pensamentos de Camillo so- 
bre o suicídio, escriptos em Abril de 88. Trans- 
crevo-os : 

«A vida dos desgraçados irremediáveis seria 
um pérfido escarneo do Creador se o suicídio lhe 
fosse defeso. 



â28 CAMILLO 

« Quando confronto a minha covardia com as 
tentações redemptoras do suicidio, então compre- 
hendo a grandêsa d'animo dos que se matam. 

« Invectivar de covarde o suicida é escarrar na 
fronte d'um morto. Não se pôde ser mais cruel nem j 
mais infame. * 

«Um dos cânticos do Infer?io de Dante é um 
poema de lagrimas. São os suicidas que passam 
gementes. 

« Se a alma do suicida pudesse subir á presença 
de Deus, a divina Magestade esconderia a face en- 
vergonhada ou condoida da sua obra ; porque o 
suicida lhe diria como Job : «Porque me tiraste do 
ventre materno? » — Quare de vulva eduxisti me?. . . » 

Numa carta a Freitas Fortuna, inserta nas notas 
aos Delidos da Mocidade: 

« Pergunta-me o meu amigo : Chegado a esse 
extremo de extraordinário soffrimento, porque te 
não matas ? — Respondo : — Não posso ; Deus não 
quer». 

E numa carta ao Visconde d'Ouguella : 

«Passo mal, não paro. As noites são intolerá- 
veis. Se eu fosse só, como devia ser se tivesse juizo, 
já tinha resolvido isto summariamente » . ^ 

Sempre um pretexto: uma vez a fé em Deus, 



1 Log. cit. p. 116. 



CAMILLO 



229 



outra os deveres da família e, em ambas ellas, fun- 
damentalmente, a mesma indecisão do neurasthe- 
niço que se prende á menor ideia, ao menor facto 
que lhe forneça uma explicação plausível. Mas a 
preoccupação de sempre, retrahindo-se um instante 
para irromper depois mais violenta, vae caminhando 
para a fatalidade d'um destino, creando forças novas 
a cada passo andado, accelerando-se com um inci- 
dente, por vezes fútil, mas caminhando sempre, 
mas continuamente progredindo. «A premeditação 
mede-se por dias, por meses, por annos até, escreveu 
Sousa Martins * ; haja vista o por isso celebre H. 
Cousteux, que em 1863 se suicidou em Castellamare, 
decepando a cabeça numa guilhotina por suas pró- 
prias mãos construída, dia a dia, durante o longo 
período de dois annos.» 

No prologo da 3.» edição do Romance de um 
homem rico, datado de 1 de julho de 1889, Thomaz 
Ribeiro descreve o estado de Camillo nessa época, 
próxima do íim. «A medicina acode-lhe desvelada 
— escreve elle — ; ensaia seus prodigiosos meios de 
acção, mas pede-lhe paciência! e o homem que es- 
creveu este livro, que soube dar tantos conselhos e 
oíferecer tantos exemplos de resignação, não pode 
resignar-se. Como todas as casas lhe dão trevas, 
foge de todas as casas, de todas as terras, e até de 
todo o convívio, porque ouvir, somente, aquellea 



Ob. cit., p. 300-301. 



230 CAMILLO 



que o procuram, é ter multiplicados testemunhos 
da cegueira, que mais, dia a dia, vae julgando incu- 
rável. Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o 
irrequietismo da nevrose pode mais que a sua razão ; 
e dilacera-se no ergástulo. Alguma vez, de longe 
em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe 
fugidia esperança; e elle pensa então e fala nas 
Chronicas das duas rainhas que trazia em laboração 
e tanto deseja concluir. A medicina promette-lhe, 
com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle 
escuta, provoca a demonstração, comprehende-á, 
espera ! Esperança fugidia como o relâmpago que 
lhe cruzara pela retina ! A descrença volta inexorá- 
vel e com ella o inferno e os tratos do sempiterno 
horror. Então a anciã do suicídio toma-o de novo e 
elle afaga o revolver, como seu ultimo recurso. 
Tristíssimo. Assim vive, se é vida esta dilaceração 
angustiosa mil vezes peor que a morte, o nosso 
grande romancista, á hora em que escrevo estas 
linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em 
júbilos que a morte lhe venha num spasmo. Os seus 
raros e curtos somnos trazem-lhe pezadellos aíflicti- 
vos; por isso pede muitas vezes que o não deixem 
dormir. Acorda em gritos lancinantes, estendendo 
convulsivamente os braços a procurar mão vale- 
dora. . .» 

E' um facto, conclusão natural do que está dito, 
<jue o suicídio é vulgar nos grandes homens, mas 
d'entre os grandes homens é nos escriptores que 
elle colhe em maior parte as suas victimas. A lista 






CAMILLO 



231 



é longa e seria ocioso transladá-la dos livros de 
sciencia que a divulgam, mas basta que se diga que 
uma estatistica italiana informa que nesse paiz a 
proporção de suicidas litteratos por um milhão é 
de 619, emquanto a dos professores primários, que 
mais se lhe approxima é 35õ,3 apenas, a dos com- 
merciantes 272, a dos moços de fretes 36, dos in- 
dustriaes 80 e dos padres 53 ^ Geralmente os que 
exercem profissões liberaes suicidam-se com armas 
de fogo, e os suicidas por armas de fogo visam na 
maior parte dos casos a cabeça. Sempre o tempo 
quente foi o mais propicio aos suicidas ^. 

Foi numa tarde de Junho que, depois d'uma 
desillusáo mais forte, Camillo Castello Branco, em- 
punhando com a mão direita o revolver e segu- 
rando-o com a esquerda para que a pontaria não 
falhasse no ultimo momento, perfurou o parietal 
direito com uma bala que, atravessando o encephalo, 
foi bater contra o parietal do lado opposto. Soffreu 
ainda duas horas, já sem fala. E, como não fosse 
possível encontrar por ali perto um padre que lhe 
viesse prestar os últimos soccorros religiosos, sem 
elles acabou de morrer tragicamente esse homem 
de génio que a desgraça acompanhou passo a passo 
a vida inteira. 



1 MossÉLLi : Del Suicídio, 1882 ; LÉGOYT : Le Suicide. 
1881 ; LOMBROSO : Ob. cit, p. 71. 

2 Sousa i\Iai\tins: Ob. cit, p. 308. 



II 

Discussão 



Até aqui, os factos. Cumpre, para que toda esta 
longa exposição não fique estéril, classificá-los, fa- 
zendo um trabalho de synthese que permitta che- 
gar ás conclusões geraes que nos interessam. «As 
disposições d'espirito que fazem que um homem se 
distinga dos outros homens pela originalidade dos 
seus pensamentos e das suas concepções, pela sua 
excentricidade ou pela energia das suas faculdades; 
aíFectivas, pela transcendência das suas faculdades 
intellectuaes — afirmou Moreau (de Tours) no seu li- 
vro sobre a Psycologia mórbida, publicado ha cin- 
coenta annos e ainda hoje tão moço como na primei- 
ra hora — têm a sua origem nas mesmas condições- 
organicas que as diversas perturbações moraes, de- 
que a loucura e a idiotia são a expressão mais com- 
pleta». Está sabido que Camillo foi um nevropatha 
e por concluso se pode ter também que a essa 



234 CAMILLO 1 

maneira de ser doentia anda adstricta toda a pri- 
marcial grandêsa do seu génio. 

Mas — occorre perguntar — adstricta de que mo- 
do ? Sobre as relações do génio com a pathologia 
nervosa a sciencia não disse ainda a sua ultima pa- 
lavra. Nesse problema, como em tantos outros que 
continuam irresolvidos no largo campo da sciencia 
psychiatrica, os tratadistas vacillam, de hypothese 
a hypothese, num terreno incerto e oscillante. É, 
■com effeito, o génio um resultado de nevrose e con- 
sequentemente uma forma mórbida especial, cara- 
-cteristica ? E antes a nevrose a resultante do génio, 
pelo uso excessivo de certas cellulas nervosas? Ou 
-então o génio e a nevrose são as confinantes paral- 
lelas d'uma construcção mental anormalissima ? 
Ainda não ha muito a questão foi posta nesses ter- 
mos, num interessante estudo medico-psycologico, 
em que o auctor conclue com as seguintes pala- 
vras, que resumem todo o seu modo de conside- 
rar o problema : « Applicando ao espirito a lei 
da evolução, vem-se a considerar o génio como 
a realização antecipada d'um typo superior de hu- 
manidade ou de intelligencia que não apparecerá, 
normal e adaptado a uma existência nova, senão 
num estado ulterior de evolução. A doença resulta 
da inadaptação do génio ás condições actuaes que 
só permittem um imperfeito esboço d'esse typo 
futuro de humanidade». ^ E' afinal o desenvolvi- 



1 Gaston Loygue : Ob. cit. p. 181. 



€AMILLO 



235 



mento da conhecida phrase de Goethe : « O génio 
não é do seu tempo senão pelos defeitos » . 

Diga-se em verdade que o problema é complexo 
e quasi impossível de resolver satisfatoriamente no 
estado actual dos conhecimentos scientiíicos. Moreau 
de Tours considera o génio como uma nevrose sem 
íórma determinada, Lombroso afirma-a de natureza 
epiléptica; e, depois de lermos um e outro, uma 
observação aflora ao nosso espirito : é que a duvida 
nasce da ignorância em que estamos d 'essas nevro- 
ses com que queremos relacionar o génio, levados 
por factos positivos que realmente impressionam. 
Entrar na destrinça das psyconevroses para ver 
em qual d'ellas o génio raelhormente se integra, é 
transpor os limites d'um campo vago de incerteza. 
Não nos illudamos : depois de milhares de observa- 
ções e centenas de volumes, a psychiatria está ainda 
metade por fazer, e não é sem razão que Sergi 
escreve no seu livro sobre as Emoções : « Penso 
que em psychiatria existe ainda a convenção e 
existirá até que a psycologia normal faça um pro- 
gresso mais accentuado nas relações da base physica 
oom os phenomenos mentaes.» ^ A expressão sine 
matéria que pretende servir de rotulo a um certo 
numero de importantes e ainda quasi desconhecidas 
doenças do espirito, tem, mais tarde ou mais cedo, 
de desapparecer; e só então, fazendo-se sobre as 



1 S. Sergi: Les Émotions, 1901, p. 282. 



236 CAMILLO 

localisações uma mais clara laz, será possível entrar 
em caminho firme na investigação de certos ramos 
da psychiatria até hoje obscuros. 

Lombroso é um homem de sciencia notabilissimo \ 
e o seu livro sobre o génio vale muito, mas eu julgo 
não errar afirmando que a poucos logrou convencer 
a sua theoria. O seu trabalho é uma coordenação 
de anecdotas interessantes, mais ou menos compro- 
vadas, mais ou menos deturpadas pela tradição que 
as conduziu á sua banca de sábio ; e embora a essas 
historias se procurasse applicar com toda a boa- 
vontade o melhor dos critérios, parece-me que ar- 
rancar-lhes uma theoria é um arrojo que extravasa 
um pouco dos methodos rigorosos que á sciencia 
compete seguir sempre. Haverá realmente uma cor- 
relação forçosamente mysteriosa entre a epilepsia e 
o génio? Occorrem-me as palavras de um illustre 
escriptor português, e medico, o sr. Júlio Dantas, 
no seu lúcido trabalho sobre Pintores e poetas de 
Rilha folies : «O morhus sacer^ nevrose banalissima 
a que se quiz vestir o pontifical do génio, nada de 
valioso produz sob o ponto de vista d'arte. Entre 
tantos epilépticos que tem Rilhafolles, nem um 
génio só, sendo a epilepsia o ventre creador dos 
génios ! E que admira, se todo o comicial o é ab-ovOy 
terreno maldito para toda a raça de educação, se a 
grande massa dos «sagrados» são verdadeiros dé- 
beis, e se a decadência intellectual, no morhus sacei% 
é uma verdade clinica que fere todos os observado- 
res? Recorrendo á documentação d'este trabalho 



CAMILLO 237 

tMicontramos a fina flor das obras d'arfce que nos 
tem dado, nos últimos tempos, a população epilé- 
ptica de Rilha folies : incoherencias, predilecção pelas 
íórmas externas do culto, religiosidade excessiva e 
li ypocrita, symetria, cacochromia e abuso d'oiro nos 
documentos picturaes, figuras desbragadas e escur- 
lilidades torpes d'envolta com imagens devotas e 
latins de ritual, tendências para a figuração de ani- 
niaes fabulosos, — nos documentos escriptos, os 
oifertorios de feitio bajulo e meloso, os diminuitivos 
i< instantes, os caracteristicos vossa excellentissi- 
iiia, vossa reverendíssima, e, por derradeiro, ainda 
nas menos toscas manifestações d'arte, a afirmação 
d'uma inteira invalidade psychica. Se o mal sagrado 
fosse realmente o grande seio creador do génio, 
como Eilhafolles se desentranharia em luminosas 
creações, em estupendas riquezas plásticas e imagi- 
nativas, e como estaria deslocada, lá em baixo, nos 
muros fradescos de S. Francisco, a nossa beata 
academia de Bellas Artes ! » * 

Porventura seria mais defensável relacionar o 
génio com a nevrose hysterica. Os homens superior 
res são, em geral, egoístas, irritáveis, de caracter um 
tanto pueril e bizarro como os hystericos, sugges- 
tionaveis como elles, sujeitos a esses desvios de 
senso moral que tão salientemente resaltam no 
estudo das características psychicas dos nevropathas 



1 JULlO Dantas : Pintores e poetas de RilhafoUes, 1900, 
p. 45-46. ■ ■ ' ' - V' . . 



238 CAMILLO 

d'essa cathegoria. O poder creador dos hystericos^ 
tão vivamente imaginativos, poderia mesmo servir 
de argumento-base na defesa de tal hypothese. Mas 
poder-se-ã.o relacionar com segurança dois estados 
mórbidos só porque, em parte, e curvando um pouco 
á mercê da nossa boa-vontade a realidade verificável 
das coisas, o seu quadro de symptomas se confunde ? 
Será scientificamente correcto filiar o génio na 
hysteria, ou vice-versa, se em verdade nós funda- 
mentalmente ignoramos quer o que seja a hysteria, 
quer o que seja o génio ? Desde os tempos remotos 
em que se attribuia aos deslocamentos do útero 
(SçTspa) todos os phenomenos hystericos, até aos 
modernos continuadores da obra de Charcot, — 
Gilles de la Tourette, Pitres, Babinsky, Strumpel, 
Grasset, Raymond, Fleury, SoUier e tantos outros 
— quantas theorias, quantas hypotheses, quantas 
observações, quantos estudos, para saber ao certo 
a génese e a natureza d'essa nevrose caprichosa e 
esquiva ! . . . E, comtudo, ainda em agosto do anno 
ultimo, o xvir Congresso dos médicos alienistas e 
neurologistas de França e dos paizes de lingua 
francesa, reunido em Genebra-Lausanne, gastou uma 
longa sessão a discutir a definição e a natureza da 
hysteria. O primeiro a usar da palavra nessa assem- 
bleia a que presidiu Raymond, foi o dr. Claude que, 
num extenso relatório afirmou, entre muitas outras 
coisas, que «na ausência de constatações anatómi- 
cas ou biochimicas precisas, a interpretação dos 
factos clinicos, mesmo esclarecida pela pbysiologia 



CAMILLO 2B9 

e pela psychologia, é uma base bem frágil» e que, 
portanto « no estado actual da sciencia, convém 
observar uma certa reserva na descripção da hyste- 
lia, cujas definições conhecidas nos não permittem 
desenhar o quadro. > ^ « A hysteria é uma diathese, 
como avançou Bernheim ? — inquiriu ainda o mesma 
relator. — Se se dá a essa palavra o sentido que lhe 
attribue o professor Bouchard, a hysteria pode ser 
considerada como uma disposição mórbida para as 
doenças dependendo d'uma perturbação preliminar 
da nutrição? Poderemos tentar-nos a estabelecer 
um parallelo entre a diathese gottosa e a diathese 
hysterica: esta apparece sobre o terreno mal defi- 
nido do nervosismo como aquella sobre o do arthri- 
tismo. . .* ^ Aa dr. Claude seguiu-se o medico suisso 
L. Schnyder que começou logo por dizer que « todos 
os esforços tentados até aqui para fazer entrar as 
innumeras perturbações qualificadas como hystericas^^ 
no quadro d'uma entidade mórbida tem sido infru- 
ctiferas » e que a « hysteria considerada de tal moda 
apparece como um proteo gigantesco e escapa a 
qualquer definição.» ® Na discussão tomaram parte 
Raymond (de Paris), Bernheim (de Nancy ), Pailhas 
(d'Albi), Terrien (de Nantes), Babinsky (de Paris), 
Clarapède (de Genebra) e Mendicini Bono. Bernheim 



* Congrés de Genève-Lausanne. Supplément de VEncé^ 
phale. 2e Année. 1907. p. 208. 

2 Log. cit, p. 211. 

3 Log. cit, p. 215. 



240 CAMILLO 

disse que « a entidade mórbida descripta sob o nome 
de hysteria não existe»: que «a designação de hys- 
teria deve ser supprimida ou reservada para os 
doentes apresentando crises de nervos» e que «essas 
crises não são mais que uma reacção emotiva, des- 
envolvendo-se em certos casos no seguimento de 
emoções accidentaes ou de emoções enxertadas em 
doenças psychicas, toxicas ou diversas.» ^ Babinsky 
afirmou: «Um ponto sobre o qual os neurologistas 
parecem d'accordo desde ha um certo tempo é que 
a questão da hysteria necessita absolutamente de 
vser revista e que se tem reunido sob essa denomi- 
nação phenomenos discordantes.» ^ Sollier concluiu: 
« A hysteria não é uma entidade mórbida. Tenho-o 
dito desde 189B. E um modo especial de reagir do 
í>ystema nervoso e particularmente da crosta cere- 
bral que tende a fixar-se nos estados de menor acti- 
vidade, em que se encontra em virtude de diversas 
causas physicas ou moraes.» ^ Ora uma questão que 
«e apresenta nesse pé não parece aproximar-se d'uma 
breve e concludente solução. 

Moreau de Tours, no seu livro de ha meio sé- 
culo que é ainda hoje o que de mais perfeito existe 
sobre o assumpto, caminhou só até onde pôde pisar 
terreno firme. Afirmou que «todas as vezes que 
virmos as faculdades intellectuaes elevarem-se acima 



A Log. cit., p. 222. 

2 Log. cit., p. 227. 

3 Log. cit., p. 230. 



CAMILLO 241 

do nível commum, sobretudo nos casos em que 
ellas attingirem um grau de energia absolutamente 
excepcional, podemos estar certos de que o estado 
nevropathico, sob uma forma qualquer, terá influen- 
ciado o órgão do pensamento, quer idiopaticamente, 
quer por via de hereditariedade, isto é, umas vezes 
em virtude da lei da ingenidade, outras em vir- 
tude da lei de imitação ; o que equivale a dizer 
que os homens excepcionaes. reconhecerão as mes- 
mas condições d'origem ou de temperamento que 
os alienados e os idiotas » . ^ E concluiu : « Em re- 
sumo, parece-nos sufficientemente estabelecido que 
a preeminência das faculdades intellectuaes tem 
por condição orgânica um estado malsáo especial 
do centro nervoso». ^ 

Essa opinião, solidamente deduzida e nitida- 
mente exposta ha tantos annos, vale bem mais que 
a hypothese moderna de Gastão Loj^gue já atrás 
condensada nos períodos transcriptos de sua obra, 
aliás, por mais d*um título, digna de interesse. Com 
eífeito, esse auctor entende que a nevrose nos gé- 
nios é uma resultante da inadaptação ao meio de 
typos moldados para a existência numa época fu- 
tura da evolução da espécie humana. Por conse- 
quência, segundo o seu modo de ver, a creatura 
que apparece dotada de génio realiza um typo mais 
perfeito de humanidade e, como, nesse caso, se não 



^ MOREAu (deTours): Ób. cit. p. 463 
2 MoREAU (de Tours) : Ob. cit. p. éSí. 

16 



242 CAMILLO 

adapta ás condições ambientes, torna-se presa de 
estados morbibos mais ou menos accentuados. É 
um nevropatha porque é um inadaptado, é um 
inadaptado porque é um génio, é consequentemente 
um nevropatha porque é um génio. Mas se está» 
por pormenores de interpretação, sujeito a contro- 
vérsia o facto das relações da superioridade intel- 
lectual com as nevroses, o mesmo não succede com 
esse outro facto compro vadissimo da ancestralidade 
nevropathica dos homens de génio; e, de tal modo^ 
o individuo nessas condições é por via de regra^ 
mercê da fatalidade da herança, um nevropatha^ 
antes ainda de ser um génio. Seria em qualquer 
caso um tarado e poderia dar num neurasthenico^ 
num epiléptico, num histérico. . . mesmo usufruindo 
um restricto desenvolvimento de intelligencia. Já 
aqui a afirmação do medico francês claudica. Po- 
derá o génio não derivar da doença nervosa, mas 
o que é positivo é que a doença nervosa não re- 
sulta do génio, pela razão comesinha de que, mesmo^ 
sem elle, existiria. 

O génio anda adstricto, ou se quizerem mesmo, 
na dependência de manifestações doentias do sys- 
tema nervoso. Se essas manifestações revestem uma 
feição própria e característica, ou entram no qua- 
dro symptomatico d'alguma das nevroses que co- 
nhecemos, é que se torna difficil afirmar, pela razão 
já dita, de que essas nevroses, classificadas um 
pouco arbitrariamente, não nos apresentam os li- 
mites precisos para podermos isolá-las e cotejar 



CAMILLO 248 

com ellas, uma a uma, as manifestações mórbidas 
do génio. Mesmo entre o estado que chamamos 
normal e a loucura ha uma transição insensivel. 
Escreve um medico francês — Dubois: «E' impos- 
sivel fazer dos estados pathologicos de espirito, 
entidades mórbidas, classificá-los, segundo a sua 
symptomologia, em compartimentos nitidamente se- 
parados uns dos outros. Ha ao contrario, uma fusào 
de tintas, como num esbatido photographico que 
passa do branco brilhante ao negro mais retinto. 
Nenhum de nós pode ter a pretenção de tomar 
logar nessa zona de branco que representa a saúde 
ideal, inaccessivel ; estamos todos no branco apa- 
gado, no cinzento claro. O nevrotico que nos con- 
sulta pode estar tranquillo : não está tão longe de 
nós como imagina. Estendamos-lhe a mão, a esse 
pobre doente, não receiemos confessar-lhe sincera- 
mente as nossas fraquezas, as nossas taras innatas: 
aproximemo-nos d'elle». * 

O que é a neurastenia de que tanto se íala e 
de que tão pouco se entende? o facto é que nós, 
os sãos, estamos juntos d'ella e ella vae até bem 
longe. De modo que ha quem a colloque nesse 
branco sujo de que fala Dubois e ha também quem 
a ponha ameaçadoramente nas fronteiras da lou-- 
cura. Depois, quando a nevrose é simples e quadra 
mais ou menos rigorosamente num dos modelos" 



^ DuBOlS : Les Psychonévroses et leur traitement moraly 
1904, p. 184. 



244 CAMILLO 

conhecidos, ainda o caso se facilita ; mas eu estou 
em crer que essas formas simples são raras. A pró- 
pria neurasthenia, estado mórbido tão vasto, d'uma 
elasticidade tamanha, pau para toda a colher, doença 
para todos os symptomas, tem de clinicamente accei- 
tar fusões, já com a hysteria, já com outras nevro- 
ses. E, assim por deante, ahi temos nós essas ne- 
vroses a cruzarem-se, a fundirem-se, a mascarar 
caracteres próprios acolhendo os alheios, acoitan- 
do-se, não já somente sob psycoses diversas, mas 
ainda sob as doenças orgânicas do cérebro, do bolbo 
e da medulla, a formar um conjuncto de novos sym- 
ptomas que, emancipando-se, nos definem a cada 
passo estados mórbidos autónomos. E nem sempre 
se trata nestes casos de adjuncções, como alguém 
pretende, mas muito nitidamente de associações mor- 
hidas. 

Adjuncções ou associações, o certo é que esses 
casos são frequentes. Abro, neste momento, ao acaso 
uma revista scientifica francesa * e vejo, apresentado 
pelos médicos Ernest Dupré e Leopold Levi, a 
citação d'um caso de delirio hypocondriaco de zoo- 
pathia interna, segundo a denominação por elles 
escolhida, num débil tabetico, hysterico e gastro- 
patha. E concebe-se que, embrulhadas frequente- 
mente as coisas d 'esta maneira, se clinicamente o 
diagnostico é difíicil, para especulações theoricas 



Bevue neto-ologique, 30 de setembro de 1903. 



CA MIL LO 245 

d'uma outra ordem é pouco seguro contar com elle. 
Mesmo uma estatística que, com toda a possível 
certeza nos viesse dizer a nevrose especial de cada 
•homem de génio, correria ainda o risco de conduzir 
a conclusões pouco exactas. 

Nos homens de génio tem-se diagnosticado exem- 
plares de quasi toda a serie da pathologia nervosa. 
Ainda em 1907, no já citado Congresso de Genebra- 
Lauzanne, o illustre psychiatra belga Eégis apre- 
sentou uma interessante communicação relativa á 
phase de presenilidade de Jean-Jacques Rousseau, 
e são d'esse trabalho estas palavras : « Como já 
mostrei numa publicação anterior, destinada a um 
volume próximo, mais pormenorizado e mais com- 
pleto, o auctor do Emile foi, antes de tudo, um 
neurasthenico arterioscléroso, no typo arthritico e 
constitucional. Sobre este estado pathologico fun- 
damental, que durou a sua vida inteira e se tradu- 
ziu pelas mais variadas manifestações physicas e 
psychicas, veio enxertar-se na edade madura, como 
um episodio paroxystico, um delírio de perseguição 
melancólica^ isto é, com predominância de inquieta- 
ção, de anciedade, de reacções tristes e amedronta- 
das.» ^ Mais recentemente ainda, no Congresso de 
Amsterdam (27 de setembro de 1907) m.®^^*^ Pascal 
(de Ville-Evrard) afirmou que Eobert Schumann 
soífreu, dos vinte e três aos quarenta annos, de 



Log. cit, p. 247. 



246 



CAMILLO 



P6'ycha.s'thenia constitucional, e dos quarenta annos 
até á morte, de Paralysia geral. * E abstenho-me 
de mencionar a longa serie dos homens de génio 
citados por Moreau de Tours na documentação do 
seu trabalho. 

Em vista de tudo o que fica dito, parece-me 
poder considerar o génio como um symptoma, muito 

POUCO VULGAR, QUE ACOMPANHA NO QUADRO NOSO- 

ORAPHico UMA NEVROSE. Tal legitimamente o consi- 
dero, sem comtudo dar a essa maneira de ver, aliás 
bem cautelosa e bem simples, a pretensão pedante 
d'uma verdade scientifica. E tal o considerando, e 
restringindo todo o raciocínio anterior ao caso que 
me interessa, resta averiguar qual a nevrose que 
em Camillo se manifestou por toda a serie dos 
phenomenos mórbidos já largamente enunciados — 
e pelo génio. 

Segundo Charcot, «as nevroses resultam de 
dois factores: um essencial e invariável: a heredi- 
tariedade nevropathica; o outro contingente e po- 
lymorpho: os agentes provocadores» havendo ainda 
a juntar á hereditariedade nevropathica os factores 
congenitaes, adquiridos na vida fetal, que a exces- 
siva concisão d'aquella formula exclue. Quanto ao 
primeiro factor, essencial e invariável, ó notório 
como em Camillo elle influiu. Eu penso que diffi- 
cilmente se encontrará estirpe mais opulenta para 



UEncéphale, 2.e Année. N.o 10. Octobre 1907. p. 451. 



CAMILLO 247 

i guarda avançada d' um caso esplendido de génio. 
K pelo que se refere aos factores adquiridos na vida 
fetal, basta recordar as primeiras palavras d'esta 
nosographia: «Camillo Castello Branco foi gerado 
no periodo mais wtíSL^ d'um amor violento...» 
Citar agora, um a um os agentes provocadores 
seria repetir o que está dito, contar de novo toda 
-essa biographia accidentada, essa vida errante, de 
paixão e de amargura, que num periodo d'uma 
carta ao visconde de Ouguella, o próprio roman- 
cista synthetizou precisamente: «Eu, que não co- 
nheci minha mãe, e aos dez annos já não tinha 
pae, vê tu que mocidade tive, e como toda a mi- 
nha vida se havia de sentir da esterelidade de emo- 
ções, com que passei a juventude. » ^ 

Os symptomas mórbidos observados em Ca- 
millo podem dividir-se methodicamente em três 
grupos: Ao primeiro pertencem as nevralgias, a 
impressão do ferro em braza na cabeça, a insomnia, 
as phobias, a abulia, as obsessões e impulsões, 
a irregularidade no trabalho, a tendência para a^ 
auto-observaçáo, a vagabundagem, e as primeiras 
perturbações visuaes. Ao segundo, o spasmo ner- 
voso no esophago, a versatilidade, a instabilidade, 
o egoismo, o grande poder imaginativo, a inter- 
pretação mystica dos factos mais simples^ as desi- 
gualdades psychicas, o exagero de todas as sensa- 



Log. cit. p. 7. 



248 CAMILLO 

ões, as perturbações auditivas, ainda algumas 
perturbações visuaes (como a diplopia), os assomos 
de megalómano e perseguido, os sonhos, os pavo- 
res nocturnos, os pesadellos e a tendência para o 
suicidio. Ao terceiro, finalmente, as dores fulgu- 
rantes, os silvos nos ouvidos, a surdez, a ataxia, as 
perturbações visuaes mais adeantadas (taes como a 
epipliora, a amblyopia, a nevrite óptica, a immobi- 
lidade da pupilla e a amaurose). Esses grupos não 
são, como facilmente se verifica, perfeitamente autó- 
nomos. Alguns symptomas que figuram no primeiro 
poderiam citar-se entre os do segundo, e vice- 
versa. E isso habilita-nos desde já a suppôr em 
Camillo a existência d'uma associação mórbida como 
as que referi. 

Os symptomas que juntei no primeiro grupo 
denunciam-nos claramente o neurasthenico ; os do 
segundo afiguram-se-me como pertencendo ao qua- 
dro de hysteria ; os do terceiro devem, a meu ver, 
attribuir-se a uma doença orgânica do systema 
nervoso — o tahes, na sua forma clinica cerebro- 
bulbar. 

Pelo que respeita á neurastbenia, eu ponho de 
parte a ideia d 'um erro de diagnostico resultante 
dos symptomas de formas neurasthenicas que mui- 
tas vezes, na opinião de alguns auctores, acompa- 
nham o tabes incipiente. Eu penso que, em taes 
circumstancias, é bem a neurasthenia que existe, 
como bom terreno acolhedor de todos os males do- 
corpo e do espirito. Quando, ha annos, me referi pela 



CAMILLO 249 

primeira vez á doença de Camillo, houve quem con- 
testasse o diagnostico da neurasthenia, dizendo-me 
illudido pelas perturbações cerebraes da ataxia que 
«adquiriram uma intensidade descommunal e accen- 
tuaram-se num sentido neurasthenoide » . ^ Mas — por 
Deus! — não será entrar num caminho de subtileza 
demasiado. . . theorica, querer distinguir, sobretudo 
a distancia, um symptoma neurasthenico d 'um sym- 
ptoma neurasthenoide? Eu comprehendo que um 
medico fale afoitamente d'uma pseudo-tuberculose, 
d'uma psendo-diphteria, d'um pseudo- tabes; nos dois 
primeiros casos presuppõe-se a investigação negativa 
dos bacillos caracteristicos, no ultimo considera-se 
concludente o depoimento da anatomia pathologica. 
Mas na neurasthenia, doença — se doença é ! — tãa 
mal conhecida, tão mal limitada sobretudo, doença 
que só se define pelos symptomas, como distinguir 
os casos reaes d'aquelles que se pretende apresentar 
como apparentes? Neurasthenoide?... Mas quem 
afirma ao meu critico que não é a própria neuras- 
thenia, só ou ainda acompanhada de outra nevrose, 
que se sobrepõe ou mesmo se associa ao tabes nos 
casos em que elle julga descobrir «as perturbações 
cerebraes da ataxia»? quem lhe afirma que essas 
perturbações que não são constantes, que não são 
fataes, inevitáveis, nos ataxicos se podem integrar no 
quadro d'essa doença, independentemente de qual- 



1 Vêr NOTA F. 



2Õ0 CAMTLLO 

quer associação ou adjuncção? Certamente, não é 
Dupré que, no artigo Psychopathies organiques do 
tratado de Gilbert Ballet, escreve: «Os tabeticos 
puros, aquelles em que se não pode suspeitar a 
existência de lesões paralyticas, só raramente apre- 
sentam perturbações psychicas» nem são também 
Déjerine e André Thomas que, no seu artigo Mala- 
dies de la moelle, no tratado de Brouardel-Gilbert, 
não fazem a taes perturbações a mínima allusão ^. E 
Dupré não só considera raras as perturbações psy- 
chicas nos tabeticos puros, como escreve mais o 
seguinte, que eu posso trazer em apoio da hypo- 
these que suggeri : «. . .Entre as perturbações psy- 
chicas observadas nos tabeticos é preciso conceder 
aqui uma breve menção aos accidenfes hy-siericos e 
neurasthenicos. A hystena associa-se muitas vezes 
ao tabes, principalmente nas mulheres. Esta asso- 
ciação hystéro-tabetím, rica em perturbações sobre- 
postas á da serie tabetica nos dorainios da sensibi- 
lidade e da motilidade, é notavelmente pobre em 
accidentes psycopaticos propriamente ditos. Apenas 
menciono a intervenção da hysteria por motivo da 
natureza psychica d'estes accidentes, que testemu- 
nham perturbações ainda mal conhecidas, e além 
d'isso muitas vezes latentes, do automatismo psy- 
cologico e dos elementos inconscientes da menta- 



1 Traité de Pathologie Meniale, publié sons Ia direction 
de M. Gilbert Ballet, 1903, p. 1193. 



CAMILLO 251 

lidade. A associação do tabes com a neurasthenia é 
mais frequente, sobretudo nos homens e em parti- 
cular nos doentes cultos: os artistas, os médicos, 
etc. A reunião dos accidentes tabeticos e das per- 
turbações neurasthenicas, sobre as quaes não insis- 
to, compõe um quadro clinico^ variável segundo 
os casos, e que pôde simular muito de perto o da 
paralysia geral post-tahetica. A semelhança entre os 
dois quadros clinicos é ainda levada mais longe 
quando o tabes se complica com a hystero-neuras- 
tlienia: em tal caso certos accidentes hystericos 
simulam os signaes somáticos da paralysia geral, 
especialmente a dysarthria ; e é necessária uma 
analyse minuciosa dos elementos dos diversos syn- 
dromas tabetico, hysterico e neurasthenico para 
evitar um erro de diagnostico e prognostico. Certos 
tabeticos neurasthenicos tornam-se nosophobos e 
hypochondriacos : entre estes doentes, sobretudo 
nos médicos, desenvolve-se por vezes um estado 
melancólico durante o qual o tabetico pôde suici- 
dar-se.y> ^ 

Registei entre os symptomas de natureza hys- 
terica a tendência para o suicídio. Hão-de sem du- 
vida citar-me a descripção tão impressionante que 
Thomaz Ribeiro fez da vida do romancista num 
periodo vizinho da sua morte e perguntar-me se 
será preciso recorrer á hysteria para justificar o 



1 Ob. cil.. p. 1195, 



252 CAMILLO 

desespero d'um homem que se vê torturado pela 
doença, impossibilitado de continuar na sua labuta 
indefensa de mais de quarenta annos. Mas eu lem- 
brarei a espectaculosa tentativa de 49, com os ver- 
sos da Harpa do sceptico e as libras sobre a banca 
para que ao suicidio romântico ninguém pudesse 
dar a razão grosseiramente material da falta de di- 
nheiro. Esse foi bem um esboço de suicidio á ma- 
neira hysterica, com esse ar theatral das tentativas 
de género tão espalhafatoso que faz com que Tar- 
dieu, Huchard, Taguet e Legrand du Saulle, con- 
tradictando as opiniões de Colin, Pitres, Ritti, Solier, 
Gilles de la Tourette e tantos outros, insistam em 
não ver no suicidio hysterico mais qiae uma co- 
media. ^ 

« Um grande facto — diz Henri Colin no artigo 
Etat mental des Jiyste?%ques no tratado de Gilbert 
Ballet* — domina a historia da hysteria masculina, 
qual é o da associação frequente, poderíamos quasi 
dizer forçada, da neurasthenia com a grande ne- 
vrose». ^ Charcot designou por hysterio-neurasthe- 
nia essa combinação * e os continuadores da sua 
obra, entre os quaes posso mencionar Gilles de la 
Tourette ^ põem a relevo a sua frequência. Bodeus- 



I 



1 Paul Gourbon : Histérie et suicide. Na Revue de 
psijchiairie. Janeiro de 1907. p. 17. 

2 Ob. cit. p. 828. 

^ Gharcot : Leçons du mardi à la Salpatriere : poli cli- 
nique 1888-1889. Notes de cours de Blin, Gharcot, H. Colin. 



CAMILLO 2Õ3 

tein, em 122 casos de hysteria masculina regista a 
depressão melancólica da hysteria como caracter 
dominante ^ 

Pelo que ao tabes de Camillo diz respeito, eu 
não hesito em confessar que o quadro clinico está 
longe de ser completo. Mas a lição dos factos diz-nos 
que o tabes cerebro-bulbar se manifesta quasi exclu- 
sivamente por perturbações visuaes e auditivas, ^ 
que aos tabeticos cuja aíFecção começa por attingir 
o neurone óptico acontece parar o mal na evolução, ^ 
que não ha tabetico que apresente todos os sym- 
ptomas attribuidos a essa doença, ^ que nada mais 
exacto que a phrase de Marie, afirmando que cli- 
nicamente não existem dois tabeticos que se pare- 
çam. O dr. André Léri, no congresso de médicos 
alienistas e neurologistas de França e dos paizes 
de lingua francesa, realizado em Pau, em agosto de 
1904, apresentou uma communicação sobre as re- 
lações da cegueira com a paralysia geral e o tabes. 
Entre outras afirmações que menos directamente 
nos interessam, concluiu que a cegueira é rara no 
tabes confirmado, com grandes symptomas, e só 
frequente no tabes com symptomas minimos de 



1 BODEUSTEIN : Hysterie hei mannlichen Geschlecht 
Dissertatio Wurzhurg. 1889. 

2 Maurice de Fleury : Manuel pour Vetude des mala- 
dies du système nerveux, 1904, p. 325. 

3 VmÉs : Ob. cit., p. 358. 

4 Flelihy: Ob. cit., p. 234. . 



'2Ô4 CAMILLO 

lesão dos cordões posteriores; que a cegueira, quan- 
do vem, é geralmente antes da maior parte dos 
symptomas tabeticos; que a aíFecção a que se dà o 
nome de tahes com cegueira é caracterizada por uma 
atrophia pupillar de evolução rápida, acompanhada 
frequentemente, não só de perturbações tabeticas 
minimas, mas também de perturbações mentaes 
minimas, em tudo análogas ás do começo da para- 
lysia geral; e que a cegueira dita tabetica, poderia 
sèr também considerada como uma "cegueira para- 
lytica, se as perturbações mentaes minimas da 
meningo-encephalite difFusa ligeira tivessem na 
nosographia a mesma importância que as pertur- 
bações physicas e funccionaes minimas da méningo- 
myélite spinal posterior ligeira; e que o tabes, a 
paralysia geral e a amaurose tabetica representam 
simplesmente três localisações d'um mesmo pro- 
cessus, talvez de origem syphilitica terciária, que 
podem associar-se ou ficar mais ou menos com- 
pletamente isoladas. Além d'isso, anatomicamente, 
disse ainda o mesmo congressista, a atropbia óptica 
do tabes, é semelhante á da paratysia geral : trata-se 
da atrophia secundaria em lesões de meningite e 
de nevrite intersticial com ponto de partida vas- 
cular (endo e peri-arterite e phlebite). ^ Num livro 
sem responsabilidades scientificas, Penseurs et sa- 
vants, assignado pelo dr. Gélineau, afirma este 



* Journal de Neurologie, õ de Outubro de 1904, p. 378. 



♦! CAMILLO 25Õ 

iiiedico que só encontrou entre os pensadores um 
exemplo de tabes, em Aubryet. * Mas já Pierret, 
i;;i sua memoria Sur la pathogenie du tahe,s, apre- 
s.^ntada ao congresso de Moscow, em 97, nos diz 
que: «A sensibilidade é muito grande nos futuros 
tabeticos. Romancistas, artistas, homens políticos, 
artifices muito bem dotados, são sensitivos». De 
resto é sabido que o grande pintor Manet e o gran- 
de poeta Henri Heine, para mais não citar, eram 
tabeticos. 

Fournier pretende que o tabes é sempre de 
origem syphilitica. Charcot inclina-se mais para a 
perversão nervosa. Grasset relaciona-o com uma 
doença mais geral que se pôde chamar a sclerose 
múltipla disseminada. O que está fora de duvida é que 
o tabes suppõe um terreno anteriormente preparado, 
perturbado, diminuído nas suas reacções, viciado, 
degenerado, sendo essa degenerescência funcçào 
da hereditariedade e traduzindo-se pela sensibili- 
dade excessiva, doentia, anormal, que caracteriza 
os predispostos. ^ Quanto ao papel etiológico da 
syphilis, os homens de sciencia continuam em des- 
accôrdo. É uma questão remota e debatida, que 
continua ainda e na qual eu não pretendo de nenhum 
modo entrar. Segundo a maioria dos tratadistas, a 
syphilis tem um logar importante, de evidente 
preponderância, embora não exclusivo, na etiologia 



GÈi.iNEAUr Penseurs et savants, 1904, p. 190. 
ViRÉS; Ol3 cit, p. 541. 



256 CAMILLO 

tabetica. E esse mesmo logar primacial, viaíí não 
exclusivo, ha ainda hoje quem appareça a contes- 
tar-lh'o (Lancereanx). ^ Camillo era um syphilitico? 
Não sei. Não me repugna acreditar que o fosse. Foi 
um sensual, foi um estróina, e durante o seu pe- 
ríodo de estudante, um amoroso que decerto se não 
prendia demasiado em escrúpulos de escolha. Não 
tenho porém elementos que me habilitem a afirmar 
a existência d'esse importante factor etiológico. 

Poderia citar outros, de somenos importância : 
a variola, por exeínplo, que atacando-o em creança 
deixou no romancista vestigios que concorreram 
para que elle pudesse ser considerado como sempre 
realmente foi — um homem feio. Assim como poderia 
citar também o descarrilamento de que Camillo foi 
victima em 81 na linha do Minho, próximo a S. Ro- 
mão ^ e do qual, como elle próprio confessa no 
prefacio do seu livro de versos, sahiu «com a cabeça 
oito vezes fendida». No inicio das manifestações 
hystero-neurasthenicas esse caso serviria para regis- 
tar um dos traumatismos provocadores vulgarissi- 
mos nas origens d 'essa doença. Mas naquella altura, 
ae podia influir no desenvolvimento do mal, já estava 
livre de acarretar com as culpas de agente provo- 
cador. Da syphilis é que, porém, se me não depara 
o minimo indicio. Camillo, tão useiro em contar e 
ein exagerar os seus males physicos, não fala d'ella ; 



1 Vèf 'NOTA F. 

* Alberto Pimentel: 0-romance ão rowancista. 



CAMILLO 257 

«O que de resto é explicável, porque elle tinha ainda 
o cuidado romântico de cobrir com o manto discreto 
do lyrismo antigo as misérias realistas do amor. 

Mas, mesmo sem o diagnostico da syphilis, eu 
ouso pensar — com vénia da intransigência radical 
de certos sábios — que a ataxia, a atropbia óptica, 
cuja bilateralidade é tão caracteristica nos tabeticos, 
-e o symptoma de Argyll-Roberston, que me parece 
poder afirmar-se sem grande perigo de errar, sào 
elementos bastantes para um diagnostico provável. 



III 



Conclusões 



«O que dissemos nos capítulos precedentes, com 
respeito á influencia exercida pelos estados nevro- 
paticos sobre as faculdades intellectuaes propria- 
mente ditas é applicavel, sob todos os pontos de 
vista, ás faculdades aífectivas, a esta virtualidade 
da alma humana que é a origem das nossas emoções, 
dos nossos instinctos, dos nossos desejos e em parte 
também da vontade, pela qual amamos ou odiamos^ 
nos inclinamos para o bem ou para o mal, somos 
levados a ser úteis aos nossos semelhantes ou a 
prejudicá-los, a cumprir ou transgredir o que pres- 
creve o dever absoluto ou convencional, etc. O es- 
pirito humano, na sua parte sentimental, experir 
menta taes modificações, taes mudanças passagei- 
ras ou duradoiras, que em vão se procuraria fora da 
hereditariedade a origem d'ellas. Em outros termos: 
é na organização particular dos pães, e não fora 
d'ella, que se encontra o principio ou a causa pr-i- 



260 CAMILLO 

meira de certos estados affectivos e moraes que 
se observam em alguns indivíduos. Esse prin- 
cipio não poderia residir, como se pensou e escre- 
veu, nas formas exteriores ou plásticas do organismo 
(conformação, volume, peso) mas na própria vitali- 
dade dos órgãos, na sua actividade funccional. A 
accrescentar que, se elle se nos apresenta envolto 
em obscuridade e completamente imperceptível nas 
condições materiaes, já o mesmo não acontece eri- 
carando-o nas suas condições dynamicas. D'isto a 
natureza inorgânica pôde fornecer-nos um exemplo. 
Pela maneira como vemos funccionar duas machi- 
nas quaesquer, podemos avaliar o que existe de 
commum entre ellas, sem que nos seja necessário 
inspeccionar-lhes as rodagens nem penetrar-lhes o 
mecanismo interior. As paixões affectivas são as 
jmesmas em todos os homens. As diííerenças que 
apresentam em cada individuo sob o ponto de vista 
■da energia e do desigual desenvolvimento de cada 
uma d'ellas não conseguiriam romper a uniformi- 
dade da natureza na espécie. Mas por vezes acon- 
tece que, em virtude d'uma sobreexcitação resen- 
tida por todas igualmente ou de agitações parciaes 
devidas a uma desigual distribuição de sensibilidade, 
ellas são arrastadas para uma esphera d'actividade 
absolutamente excepcional. D'ahi a extranha asso- 
ciação, num mesmo individuo, das paixões mais 
diversas e mais oppostas, um mixto inexplicável de 
vicio e de virtude, de elevação e de baixeza, de 
egoismo, de generosidade, de pusillauimidade, de 



CAMILLO 261 

de doçura e de ferocidade. Em circum- 
stancias diversas, toda a energia vital parece con- 
centrar-se num pequeno numero de paixões boas ou 
más, d'onde dimanam os prodigios de virtude ou 
de depravação. Ordinariamente, faculdades intelle- 
ctuaes pouco communs, uma imaginação viva, virão 
em auxilio da actividade desordenada das paixões 
affectivas. Mas noutros casos, ao contrario, esta 
actividade fará contraste com uma fraqueza intelle- 
ctual que por vezes vae até á imbecilidade. E em 
outros emfim, é a essa mesma debilidade de espirito, 
ao mutismo da consciência, a uma espécie de atonia 
da vontade que as paixões deverão o seu poder 
impulsivo, mais que á sua violência natural. A que 
outra causa, se não á acção da hereditariedade, nos 
é licito attribuir as disposições moraes d'excepção 
a que nos acabamos de referir?» ^ 

Essas palavras do auctor do melhor trabalho 
que possuimos sobre as relações da psycologia mór- 
bida com a philosophia da historia, fazem uma per- 
feita e clara luz sobre o caracter de Camillo, tão 
complexo e inexplicável aos olhos dos que preten- 
dem vê-lo fora do critério que as observações da 
psycologia mórbida permittem. 

Camillo Castello Branco, degenerado hereditá- 
rio, soffreu na sua vida agitada, de trabalho e de 
martyrio, uma nevrose — a hystero-neurasthenia a 



MOREAU (de Tours): Ob. cit., p. 248-250. 



262 CAMILLO 

uma doença orgânica do systema nervoso — o tabes. 
Ao desvio pathologico da sua fiincção nervosa de- 
vem attribuir-se os seus males physicos, as suas 
desigualdades de caracter e a sua superioridade 
intellectual eminentissima. 

Na sua descendência, indo até onde as naturaes 
reservas nos permittem, encontramos, na geração 
immediata, além d'uma filha morta creança e d'uma 
outra que vive ainda, o filho Nuno, estroinaço, ne- 
vrálgico e alcoólico, e o Jorge, passando a vida ora 
bebendo e masturbando-se, ora em accessos de lou- 
cura extrema. Biographos, levados talvez por uma 
phantasia que força um pouco, á mercê dos seus 
bons desejos optimistas as leis da herança mórbida, 
descobrem já na descendência d'esses filhos a aura 
de novos génios. . . 



f\ OBRA 



t Ora, dos desequilíbrios da funcsçRo ner- 
vosa de Camillo, nasceria tilve^ para o tra- 
cto intimo, o homem de briisqiierias plire- 
neticas, de vulcânicos amôrés pliysioos, de 
reviravoltas de humor, intractavel, cruel 
e caprichoso — demos que Camillo Castello 
Branco fosse tudo isto— mas precisamente 
esta mobilidade de caracter é que fez o 
artibta genial dos teus romances, dos seus 
estudos irónicos, das suas verrinas littera- 
rias; deu-lhe o condão de forjar a obra prima 
d'um jacto, com todos os symptomas d'um 
retalbo de vida palpitante ; de modelar almas 
tão diversas e tantas, numa prosa plástica 
como a cera e numa lingua rija como o 
bronze; e espargiu na sua obra emíim, toda 
essa porção de sangue insubmisso, d'indo- 
pendencia forte, e de tonho miguelangesco. 
que as litteraturas só de século a século re- 
gistrar», e que o cosmopolitismo hodierno 
de todo está hoje sonegando ás nacionalida- 
des mortas que invadiu». 

FiAi-HO d' Almeida. 



Disse Armand Garrei que a vida de nm grande 
escriptor é o melhor commentario das suas obras, 
a explicação e, por assim dizer, a historia do seu 
talento. ^ A ninguém melhor que a esse desgraçada 
e grande Camillo se pode, com justeza, applicar o- 
conceito, de tal modo os multíplices incidentes da 
sua vida accidentada influíram na génese da sua 
obra, quer indirectamente originando os estados 
de espirito que deram terreno ás suas creações,, 
quer d 'um modo directo suggerindo assumptos que 
a sua phantasia exhuberante depois romantizou. 
E, assim, essa obra sahiu irregular, desordenada, 
desigual, por vezes até incoherente, como irregular,, 
desordenada, desigual e incoherente foi a vida do 
grande artista que a creou. E' o psycopatha a re- 
velar-se a cada pagina: aqui, atirando para os olhos. 



^ A. Carrel: Essai sur la vie e les ecrit^ de P. L. Con- 
rier; GamíLLO: Maria âa Fonie. 



266 CAMILLO 

do publico a sua própria vida, no que ella tem de 
mais secreto e de mais intimo; além, repudiandc 
opiniões na véspera defendidas, com a mesma con 
vicção e o mesmo ardor; ora fazendo da penní 
um instrumento de vindicta, numa arremettida in 
domita de orgulho que se não deixa impunementt 
magoar ; ora procurando no leitor o confidente daí 
suas horas de desalento e extrema angustia; esgri 
mindo hoje contra a palha d'uns monos, na illusãc 
megalómana de que por trás d 'ella existe a cotí 
d'armas de luctadores dignos d'elle; accumulandc 
amanhã provas contra uma dynastia, pela vag£ 
suspeição de que o representante da linhagem pui 
luída lhe não quer dar um titulo ; umas Vezes 
escalpellizaiido com o bisturi do sarcasmo, amo 
rosamente, cruelmente deliciado, como uma fera de 
Santo Officio a commandar uma tortura ; outras 
vezes, arrancando da vida real os personagens dos 
seus livros para os exalçar aos extremes >::^?»^nticos 
do amor, da abnegação e da ventura, por on^e se 
librava, nas horas calmas, a phantasia alada do\^eu 
sonho. E' a vaidade, o orgulho, o misoneismo, o des 
peito, a inconfidência, a impulsividade, a phantasií 
romanesca, a imaginação febril e poderosa, a facul 
dade creadora soberba, admirável, succedendo-se 
fundindo-se, associando-se, formando no conjunctc 
essa figura extraordinária de homem de génio í 
■desgraçado que a incomprehensão hesitante d€ 
coevos e de pósteros nem sempre tem deixadc 
serena e justiceiramente avaliar. 



CAMILLO 267 

«Na litteratnra portuguesa contemporânea — 
escreveu o sr. Theophilo Braga — Camillo Castello 
Branco é a mais poderosa organização esthetica, 
exercida em uma prolongada e continua idealização, 
reflectindo na sua obra todo o estado moral de uma 
época perturbada pela falta de uma doutrina.» ^ 
Mas porventura não será a essa falta de doutrina, 
tão claramente reflectida na sua obra, que nós deve- 
mos a expansão libérrima e admirável do seu génio? 
Ao reler, pagina a pagina, essa obra desconnexa e 
colossal, imperfeita e assombrosa, eu pergunto a 
mim próprio se uma systematização de toda ella, 
obedecendo a um claro programma de doutrina, 
roubando tudo que ali existe de admiravelmente 
expontâneo, por um acaso lhe augmentaria a gran- 
deza. Porque de sobra eu sei que subordinar uma 
larga obra d'ai'%e como essa a um corpo doutriná- 
rio, alinhando-a d'antemão, por uma ordem, como 
os capitulos regrados, rigorosos, d 'um trabalho de 
sciencia, é correr o risco de pôr em debandada 
tudo o que á emotividade do artista tal obra d'arte 
tem de pedir, para ser grande. A critica não pôde 
conscientemente lamentar a descoordenação d'uma 
obra como a de Camillo : tem de explicá-la como 
uma consequência inevitável e lógica das caracte- 
rísticas dominantes do génio que a creou. 



' Theophilo Braga: As modernas ideias na litteratnra 
2)ortuffuêsa, 1802, v. I, pag. 240. 



268 CAMILLO 

E certo que Camillo Castello Branco viveu, lit- 
terariamente, numa época de transição, incerta e 
vacillante. Quando começou, o romantismo, semi- 
solto das mãos de Garrett e prestes a cahir na 
rhetorica vasia de Castilho, entrava rasgadamente 
no caminho da decadência. A desorientação tomava 
posse dos espiritos mais cultos : já se não sabia ao 
certo quaes as firmas litterarias, d'aqui e lá de. fora, 
dignas de admiração e de respeito. Os próprios mes- 
tres, como Herculano, não hesitavam em reunir na 
mesma citação Balzac e Kock e em falar, com todo o- 
seu empertigado desprezo cathedratico «das fabri- 
cas parizienses de novellas, dramas, viagens, come- 
dias, romances, folhetins, physiologias moraes ou 
immoraes, e não sei de que outros productos das 
fabricas de Balzac, Sue, Sand, Arlincourt e C.^»"* 
Porque para a opinião do solitário de Val-de-Lobos, 
que já por esse tempo falava sempre em tom so- 
lemne e era ouvido de joelhos (^omo ^mmo-ponti- 
íice da sciencia e da litteratura lusitanas^^a Comedia 
humana valia tanto como os productos do^onanismo 
de olhos em alvo do alambicado visconde d'Arlin- 
court. Estavam as coisas, pouco mais ou menos, 
nesse pé, quando Camillo começou. Quatorze annos 
mais tarde, Theophilo e Anthero, rompendo fogo- 
contra o elogio-mutuo, inveterado vicio d'essa litte- 



1 Alexandre Herculano: Opúsculos, 1873, t u, p. 7^ 
e lOi. 



CAMILLO 269 

ratura official de que Castilho era o arbitro supre- 
mo, derribaram de vez o romantismo, rudemente, 
num ataque violento em que a audácia e o irrespeito 
nem sempre infelizmente iam servindo um erguido 
espirito de justiça. Fundou-se assim a chamada es- 
cola de Coimbra, precursora do realismo, que dez 
annos depois surgiu, exclusivista, intolerante, finca- 
do nas suas apregoadas bases philosophicas e na irre- 
futável justeza dos seus principies, colhidos no ma- 
nancial da pura sciencia. Nesses modernos tempos, 
as doutrinas positivistas, pendão de revolta dos 
aguerridos espiritos militantes — pendão que o sr. 
Theophilo Braga, ficando só em campo, tem galhar- 
damente segurado com as mãos ambas ha quasi meio 
século — nem sempre os impediam de discorrer erra- 
damente. Assim, por 1880, quando os recemvindos 
no arraial das boas-letras julgaram que lhes era pre- 
ciso derribar o velho glorioso para conseguirem 
onde acoitar os seus talentos a abarrotar de Ideias- 
Novas, um moço de real aptidão, que em mais se- 
reno ramo d 'arte nos deixou algumas pequenas e 
quasi ignoradas obras-primas, envergou um pseu- 
donymo para dirigir a Camillo uma carta-aberta 
em que se lêem periodos assim : « V. Ex.a terá na 
litteratura portuguesa o papel de Hugo, Dumas, 
Flaubert, Sue, Feuillet, Zola, Feydeau, Claretie, 
Macpherson, Klopstock, Schuchart, etc, etc, nas 
•differentes litteraturas dos diversos paizes? Cremos 
que não». Elle sabia lá, o bom e ingénuo apostolo 
de Comte, que diabo de papel tinham em França 



270 CAMILLO 

Feydeau e Claretie ou o arrevesado Macphersoii 
nas nevoentas terras da sua Escócia ! Era, afinal, 
o mesmo facciosismo de escola que fizera a hosti- 
lidade de Lopes de Mendonça e de Herculano quan- 
do Camillo litterariamente ensaiou os seus primeiros 
passos. Sempre o circulo de ferro de meia dúzia 
de ideias talhadas pelo figurino em moda, a acor- 
rentar a liberdade d'um juizo sem paixão, empa- 
nando inconscientemente um equitativo critério de 
justiça. 

Ora o que ha de mais admirável na personali- 
dade litteraria de Camillo é o modo como atraves- 
sou tão diversos periodos de combate, sem lhes 
soíFrer sensivelmente a influencia, firme sempre nos 
seus processos d'arte, realizando insensivelmente 
um meio termo que -líériâ -^ifiicil conseguir d'outra 
maneira. Realista demais p^ra ser romântico, ro- 
mântico demais para realista • mas camillesco sem- 
pre, elle só, inconfundível, é assim que temos de 
considerá-lo, fora de todas as escolas,. de que ape- 
nas corticalmente, quando muito, soffreu influencia. 

E a razão primeira d'esse isolamento, deve bus- 
car-se na phase inicial da sua educação : o tempo 
da Samardan em que viveu com esse padre Antó- 
nio d'Azevedo, « nome que os pobres, seus irmãos, 
reverenceiam, e os enfermos da alma abençoam ; 
ancião virtuoso ; operário infatigável em serviço de 
Deus e da humanidade», como o próprio Camillo 
escreveu mais tarde, na dedicatória de O bem e o 
mal. Num dos volumes dos Serões de S. Miguel de 



CAMILLO 271 

>( ide é assim que o romancista se refere a essa 
«'[)Oca, que elle próprio confessa ter sido a melhor 
(ia sua vicia : 

«Uma vidraça do nosso quarto não tinha por- 
tadas. Elle queria ver o repontar da aurora. Quan- 
• a lua nascia por alta noite, eu acordava, ás. 
vezes, e via-o sentado no seu leito banhado de 
luar, rezando os doze mysterios, por unias contas 
monásticas. Depois, chamava-me. E-esavamos ma- 
tinas com luz artificial. íamos para a egreja. Eu 
tangia á missa e acolitava, pingando mais somno 
que devotas lagrimas. De volta do Presbyterio, fa- 
ziamos chá ; depois, lia-se a versão de Alexandre 
Garrett, os Annaes- da propaga(;ão da fé, as Noiten 
de Joíing, a Miscellanea curio.sa e proveitosa, os 
Luxiodas, o Theatro de los dioses, as Viagens de 
Cyro^ as Perigrinações de Fernão Mendes Pinto, 
e a Historia de Portugal por uma sociedade de 
inglezes » . 

No Ao anoitecer da vida, fazendo a historia da 
sua primeira poesia — uma ode ingénua, á maneira 
árcade, com seu triste Alcino e sua doce Elemena 
enamorados — Camillo escreve : 

« Creio que tinha eu então entre os quinze e os 
dezeseis annos. Scismava mais do que lia, e lia 
mais poetas que compêndios escolares. Porém, que 
poetas eu conversei na minha infância ! O pecúlio 
das riquezas rithmadas que enthesourava a pe- 
quena bibliotheca da minha familia de aquelle tem- 
po, bibliotheca de padres lá em cima na serra do 



272 CA MIL LO 

Mesio em Trás-os-moates, eram dois volumes de 
Bocage, um Camões, e umas trovas de não sei quem, 
dispersas nuns cinco tomos denominados Míscellanea 

jjoetica Já então e de muito antes, se liam e 

tomavam para molde as poesias de Castilho, Garrett 
e Herculano ; avultavam os Lamartinistas ; balbu- 
ciavam os bardos novos aquellas meiguices e ama- 
neirados dizeres, nunca ensaiados entre nós com 
tanta louçania como, poucos annos depois, os admi- 
ramos na plêiade de moços que, em Coimbra, es- 
creveram o Trovador. Ora, eu, em 1842, não 
-conhecia alguns d'aquelles nomes, nem aquellas 
^ontanhas, onde me fiz homem, havia chegado 
liwo de poeta, que merecesse enfileirar-se entre 
Bclcage e um sermonario de José Agostinho de 
Ma\jedo, com o Theatro dos Deuses á esquerda e o 
Fernão Mendes Pinto á direita, e as Viagens do 
Cyro por cima, e a theologia do Lugdonense por 
baixo » . 

Litterariamente, educou-se pois Camillo fora da 
atmosphera do seu tempo, começou a lêr român- 
ticos na altura já em que o seu espirito estava apto 
a recebê-los sem esse enthusiasmo vulgar na gente 
nova pelos nomes aclamados; ao contrario de todos 
os outros incipientes piumazes do seu tempo, elle 
soube que existiu um Bocage, um José Agostinho 
•e um Fernão Mendes Pinto, antes de boquiabrir-se 
-ao estylo íloribundo do visconde de Castilho, ado- 
rar o visconde Garrett na Lynca de João Minimo, 
e. em Herculano, humildemente, saudar o Mestre. 



CAMILLO 273 

D'ahi o seu amor aos clássicos, que depois foi lendo 
« estudando com interesse e, mais tarde, a sua paixào 
de papelista, proporeionando-lhe excellentes meios 
de investigação de factos históricos deturpados ou 
controversos ; e ainda, como natural consequência 
d'essas leituras, a acquisição d'um vocabulário vas- 
tíssimo que lhe permittiu levar a nossa lingua, que 
desde o século dezoito se viera deploravelmente 
•empobrecendo e abastardando, a um grau de mal- 
leabilidade e a um poder de expressão nunca attin- 
gidos. De tal modo, a orientação litteraria de 
Camillo entra como elemento importante na justi- 
ficação critica da sua obra. Orientado já com se- 
gurança quando conheceu o romantismo, elle que 
«m outro caso amesquinharia talvez o seu talento 
na corriqueira reproducção de moldes feitos, soube 
da escola que o recebeu aproveitar apenas as vir- 
tudes. Facciosismos de seita, exageros deploráveis, 
•exclusivismos deprimentes — no que respeita, não 
aos seus pontos de vista críticos, mas aos proces- 
sos da sua arte — não os tinha elle nem os podia 
ter d'essa maneira, e eis porque,, começando du- 
rante a febre romântica, acabando no enthusiasrao 
realista, os românticos achá-lo-iam avançado de- 
mais nos seus principies e os realistas haviam de 
vê-lo sempre, em seu trajar antigo, como velha relí- 
quia de tempos já distantes. 

Mas quaes eram esses processos da sua arte? 
•Será possível concretizá-los numa definição? Ou 



18 




274 CAMiixõ 

coordená-los em grupos, marcando a sua evolução 
no largo percurso de mais de quarenta annos? 

Em rigor, na evolução litteraria de Camillo não 
é possível marcar phases distinctas, com caracteres 
de differenciação perfeitamente definidos; antes, essa 
evolução, um pouco sinuosa, é apenas a resultante 
das contingências da vida aventureira do artista e 
da transformação social do meio, durante o largc 
periodo da sua actividade. Só um artificio pode 
fazer a divisão do seu trabalho em periodos autó- 
nomos ; um estudo completo de cada uma das suas 
obras explica-nos a sua razão de ser, a origem da 
feição mais ou menos extra nha que porventura ella 
revista, esclarece-nos suppostas contradicçòes, maí 
nos dá, nem pode dar, os elementos para ume 
lassificação que não redunde em passatempo mera 
ente ocioso. De resto, a obra de Camillo nác 
resultou, nem podia resultar, d 'um trabalho metha 
dico, regular, ordenado; a sua actividade era aoí 
altos e baixos, como geralmente acontece nos ne 
vropathas como elle. E eu vou mesmo até vêr nj 
realização das suas obras todo o processo d'umí 
obsessão impulsiva, tanto mais que a sua psychose 
amplamente pro\ada, me auctoriza a pensar assim 
Pois do mesmo modo que, se fosse um kleptomano 
num impulso irresistível nos roubaria a carteira, s* 
fosse um pyromano nos lançaria fogo á casa, s< 
fosse um dipsomano não resistiria a beber, se fôss< 
um dumomano se veria forçado, contra toda a séri« 
de inhibições, apôr-se em fuga, e sefôsse um coprolah 



CAMILLO 27Õ 

não teria outro remédio senão proferir inconveniên- 
cias lamentáveis, — sendo um homem de génio, 
Camillo havia de irresistivelmente fazer-se admirar 
em obras-primas. Teimo em considerar o processo 
idêntico, fundando-me nos factos que me elucidam 
a sua maneira de trabalho. Certas obras suas, pla- 
neadas muito tempo antes de serem escriptas, im- 
puzeram-se talvez todo esse tempo ao seu espirito, 
como uma obsessão : havia de por força hesitar mil 
vezes em escrever um livro, antes de traçar a pri- 
meira linha, esse homem que hesitou sempre em 
todos os actos da sua vida. Em alguns casos porém,, 
essa hesitação se esclarece: alguns seus livros, inu- 
tilizados depois de impressos, por escrúpulos de 
varias ordens, appareciam mais tarde com altera- 
ções que só muito superficialmente lhes tiravam o 
mal que os tinha condemnado. Mas, vencidas todasí 
as resistências do doente da vontade, a obra, ro- 
mance ou historia, escrevia-se com uma rapidez 
prodigiosa, d'um só jacto, — num impulso: o Livro 
Negro do Padre Diniz foi feito em vinte dias, ^ o 
Amor de Perdição em quinze, «os mais atormenta- 
dos da sua vida». ^ 

Nessas condições, a obra forçosamente havia de 
ser irregular no género, na concepção e no processo, 
e ao estylo teria de faltar essa perfeição regrada a 



* II. Marques: Ob. cit. 

^ Camillo: Memorias do cárcere. 



276 CAMILLO 

uniforme que é o privilegio dos que fazem do tra- 
balho da forma uma tortura. E, não obstante, é 
precisamente na forma que é possivel marcar na 
obra do romancista uma marcha regularmente evo- 
lutiva. A cada passo, o estylo se torna mais dúctil, 
mais harmónico, lucrando na sonoridade do periodo 
6 no corte moderno da phrase o que porventura, 
até certo ponto, em espontaneidade e leveza ia 
perdendo. A comparação do Anathema, dos Myste- 
rios de Lisboa^ das Scenas contemporâneas e d'0utros 
romances dos primeiros tempos com a Brazileira 
de Prazins ou com os capítulos conhecidos da no- 
vella incompleta Via-sacra, é, sob esse aspecto? 
elucidante. 

No género, já essa evolução se complica. O 
romance da actualidade, a novella histórica, os 
bosquejos eruditos, as peças theatraes, os versos e 
os volumes de compilação, apparecem-nos alternan- 
do-se durante todo o periodo da sua actividade 
litteraria. Nem sempre, porém, á elaboração d'essas 
obras preside o acaso : os artigos religiosos reunidos 
nos dois volumes Divindade de Jesus e Horas dépaz, 
foram feitos durante a crise de mysticismo que o 
levou ao Seminário ; os estudos históricos appare- 
ceram quando elle, pela supposição de que o rei' 
D. Luiz se oppunha a que lhe dessem o viscondado, 
coordenou um libello de tremer contra os Bragan- 
ças ; as brochuras de fragmentos appareceram sem- 
pre nos períodos da sua vida em que a obra original 
não era monetariamente tão proveitosa que dispen- 



CAMILLO 277 

sasse o recurso d'uma exploração, mais ou menos 
guarnecida, do seu nome glorioso, na capa de um 
volume de coisas triviaes. Esse trabalho de coor- 
denador de coisas minimas foi quasi exclusivamente 
todo o emprego da sua actividade quando, no fim 
da vida, a doença lhe embotou, pelo cansaço, pela 
dôr, pela cegueira, os derradeiros recursos do ar- 
tista. Os livros de polemica violentissima vêm quan- 
do, mais que o ataque do adversário, a doença 
nervosa o exaspera, e eis porque então da sua penna 
espirram ódios e a sua prosa despedaça cruelmente, 
como se esse homem soífredor quizesse provar aos 
que gozavam a saúde que lhe faltava, o bem-estar 
que não tinha, a fortuna que o trabalho lhe não 
dava, que, se não usufruia como elles esses bens, que 
Deus sabe com que grande ambição desejaria!, tinha 
o génio que os aniquilava, brincando, em meia dúzia 
de paginas demolidoras. 

Seria também inexacto,, dizer que a obra de Ca- 
millo vae, em successão chronologica, numa ordem 
de mérito crescente. Não. A filha e A neta do 
arcediago, publicados em Õ5 e 56, são já duas no- 
vellas interessantíssimas, feitas com arte, archite- 
ctadas sem esforço, d 'uma graça espontânea que as 
faz lêr com agrado. Onde está a felicidade?, d'essa 
época também, corre como sendo uma das suas 
obras-primas e foi aquella que fez desanuvear a 
Herculano a carranca duvidosa do talento prima- 
cial do romancista. Esse livro foi, até então, o mais 
applaudido, e Camillo, animado com o successo, 



278 CAMILLO 

fez-lhe a continuação em Um homem de brios que o 
não vale, e ainda, annos depois, nas Memorias de 
Guilherme do Amaral^ notavelmente inferior a am- 
bos os outros. O Amor de salvação, publicado em 
64, não chega, nem por sombras, ao Amor de per- 
dição, publicado dois annos antes e cujo êxito re- 
tumbante na semelhança de rotulo explora. O Livro 
de consolação^ feito a propósito do caso Vieira de 
Castro e publicado em 72, As três irmãs, enco- 
menda do Q)mmercio do Porto, em 61, e as Coisas 
espantosas, do anno seguinte, não figurariam, numa 
edição selecta, ao lado do Romance d'um homem, 
rico, de 61, de O bem e o mal, de 63, do Esqueleto, 
de 65, e d'essa maravilhosa coUecção das Novellas 
do Minho, impressa de 75 a 77. Depois da Corja, 
do Eusébio Macário, e da Brazileira de Prazins, 
veio o romance medíocre Vulcões de lama. E eis 
oomo a producção litteraria de Camillo, irregular 
em quasi todos os seus aspectos, artificializa, des- 
valorizando-a, toda a tentativa para fixar rigorosa- 
mente, adentro d'ella, os estádios de uma regular 
evolução. 

Mas a sua maneira de considerar o romance ? 
o seu processo? Fixar- se-ia esse processo em ter- 
mos rigidos e intransigentes? seguiria, esse ao me- 
nos, as phases d'uma successão evolutiva? E bem 
difficil responder a taes perguntas. A observação 
do critico, procurando uma solução, a certa altura, 
desorienta-se e hesita. Sente-se a tentação de filiar 
os primeiros romances de Camillo na maneira ro- 



CAMILLO 279 

inantica de Sue ; de passar depois â observação de 
costumes e typos portugueses ; de registar a phase 
do romance histórico, a do romance moralizador, 
a da transigência com os modelos naturalistas. Mas, 
nos próprios Mysterios de Lisboa não é já a indivi- 
dualidade de Camillo que se destaca, superior a 
todos os modelos, acima de todos os propósitos de 
imitação ? Acaso, nos chamados romances realistas 
dos seus últimos tempos, essa mesma individualidade 
pujante e victoriosa não amesquinha e inutiliza 
toda a convicta ou simulada intensão de transigên- 
cia? Porventura os capitules adoráveis da Via- 
j^acra não são tão românticos ou tão naturalistas 
como os das Novellas' do Minho ou do Romance de 
um homem rico ? 

Vejamos então qual o juizo que ao próprio Ca- 
millo mereceram algumas das suas obras e procu- 
remos descobrir, por entre os traços enganadores 
d'uma ironia subtil, como, falando dos seus proces- 
sos, mais d'uma vez contradictoriamente, o próprio 
romancista os definiu. 

Em 18Õ6, no prefacio de Um Homem de Brios: 
«...Eu desejo escrever o romance de modo 
que o meu leitor — se Deus me deparar um com 
experiência do mundo, e alma capaz de crear, pela 
reminiscência de illusões extinctas, novas illusões 
— possa dizer: a vida é isto. . . Se posso espalhar 
alguma flor sobre a chaga do vicio asqueroso, antes 
quero que os experimentados me taxem de imper- 
feito nos traços, e que os innocentes vejam asimper 



280 CAMILLO 

feições sem conhecê-las. Creio que me entenderam ; e 
se não entenderam, eu não sei explicar-me melhor. 
Desejo, outrosim, não crear visões de virtude exagera- 
da, porque dou tanto pela immoralidade de Vautrin, 
como pela resignação da Angélica, como pela paixão 
suicida da Dama das Camélias. Na natureza não ha 
d'isto; e eu penso que a realidade é de si tão fértil^ 
que não precisa pedir de empréstimo á imaginação. 
E não vejo outro modo de desmentir esta judiciosa 
sentença de Boiste : Les romans ne petivent être que 
dangereux soit par les exlialaisons du vice et de la 
conniption, soit par les fantômes d'une perfedion 
ideale. Por consequência, verdade e mais verdade. 
Vivamos neste mundo com os nossos heroes e os 
nossos leitores, para que o critico citado nos não 
venha dizer, que quem tem a cabeça cheia de ro- 
mances não vive neste mundo». 

Em 18Õ8, no Discurso proemial dos Annos de 
prosa, publicado cinco annos depois : 

« Ha cincoenta annos que as senhoras não liam 
romances, por uma razão cujo descobrimento me^ 
custou longas vigiHas : — não sabiam lêr. Algumas^ 
rebeldes á vontade paternal, conseguiam soletrar e 
escrever á tia uma carta em dia de annos, copiada 
do Secretario português de Cândido Lusitano. Os 
pães acceitavam com repugnância aquelle abUso de- 
intelligencia, e castigavam a filha, forçando-a a um 
trabalho litterario semanal : escrever em cada se^ 
gunda feira o rol de roupa. Este systema penal 
tinha só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites 



CAMTLLO 281 

da intelligencia, reduzindo-o á essência bruta de sua 
nudez primitiva. Já não era pouco para exemplo 
e edificação das almas. O melhor moralista será 
aquelle que despir o delicto do coração das galas 
que lhe veste o desejo e o cobrir de farrapos repulsi- 
vos. Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os. 
propagandistas da corrupção tentaram exercitar a 
seu malefício, vertendo para péssima linguagem 
portuguesa novellas francesas, que transpuzeram 
as fronteiras no couce da bagagem do Junot. Em 
1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela 
impertinente virtude das novellas, taes como A vir- 
tude recompensada e o Escravo das paixões, quebrou 
as ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão 
de Tom Jones, o Sophrí, o Cândido, e quejandas 
faiilas incendiarias, que pegariam nos corações, se 
a manteiga e o paio das tendas não esfriassem a 
força comburente d'essa droga que acirrava os pa- 
ladares antropóphagos d'aquelle festim de 1793. 
Bemdita e louvada seja a ignorância! Os romances 
franceses, até 1830, encontraram as almas portu- 
guesas hermeticamente calafetadas. Até esse anno 
infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da 
despensa, a providencia da piuga, e sobre tudo, a 
fêmea do homem, qual Jehovah a fizera d'uma cos- 
tella do mesmo. O salão era como trintario cerrado 
onde, a espaços, uma gosmenta matrona espirrava, 
e a sociedade, a cabecear de somno, surgia estre- 
munhada, dizendo : Dominus tecum. A menina ca- 
sadeira não se erguia de ao pé da mãe. O noiva 



■282 CAMILLO 

mirava-a de longe em felina beatitiide; e, no auge da 
■sua casquilha audácia, pisca va-lhe a furto o olho, 
-onde reslumbrava a paixão. Não havia então d'esses 
homens molherengos, que alambicam a parlenda 
-assucarada, coando por ouvidos incautos o veneno 
■do estylo, que ó o mais corrosivo de quantos ha 
Tia toxicologia do amor. A mulher actual é quasi 
sempre victima da rhetorica requentada do ro- 
mance, que estéril peralvilho lhe encampa como 
•cousa de sua alma. Algumas conheço eu que resva- 
laram ao abysmo da perdição pela rampa de ura 
íidverbio euphonicamente intruso num periodo arre- 
dondado. Este sortilégio da linguagem que enfeitiça 
-e dá quebranto ás mulheres, é apanhado no ro- 
mance. O coração de certos individues acha-se, 
muitas vezes, a paginas tantas da tal novella. Sem 
figurinos e romances não haveria corpos apresen- 
táveis nem espíritos insinuantes. Muita gente se 
«spanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos 
pyramidalmente tolos. Eu não. Tal ha que se vos 
afigura mazorro d'alma, e, não obstante, ao lado de 
mulheres, dispara descargas de phrases amorudas 
•que é um pasmar. Asneira, dita em nome do cora- 
ção, não ha uma só que não seja laureada. Cada 
Petrarcha lôrpa tem, a final, o seu capitólio. A mu- 
lher, por via de regra, é de seu natural tão boa, 
sensivel e generosa que chega a recompensar a 
pertinácia do homem que, primeiro, a nauseou : o 
segredo d'este paradoxo está na influencia conta- 
.^iosa da tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e 



CAMILLO 283 

viu rebentar lagrimas de uma cabeça de granito, 
cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de 
Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, suc- 
cumbe como Eva. Que mudanças! D'antes o caixeiro 
principiava sempre a carta de namoro por : Meu 
amado bem! Agora já diz: Anjo! ou Serafim! 
Era d'antes a phrase sacramental do exórdio: Ver-te 
e amar-te foi ohm de um, momento. Agora não é raro 
encontrar d'estes arrojos : Amar e morrer é meu 
destino ! E, depois, o malefício do romance não 
está somente no plagiato irrisório; o peor é quando 
as imaginações frívolas ou compassivas se entalham 
nos lances da vida phantasiosa da novella, e crêem 
que a norma geral de viver é essa. Emquanto a 
mulher estuda somente a phrase que applica, bem 
ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer 
« que não é, bem vae. Dá-se um exemplo: A apai- 
xonada de um amigo meu, ao recebê-lo pela pri- 
meira vez em sua casa, no patamar da escada, an- 
tes de deixar-se beijar a mão, estendeu o braço di- 
reito em magestosa attitude, deu á fronte a regia 
altivez de uma Phedra de aguas- furtadas, e disse 
em tom cavo e solemne : Juraes levar-me ás aras í 
O meu amigo, que balbuciara um prefacio de longo 
estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu 
as escadas por não poder com o espectáculo da 
dama corrida do insulto. Eis aqui uma que os ro- 
mances de Arlincourt salvaram ; quantas, porém, 
p-erdidas por guardarem as phrases ridículas para o 
final?... Grande mal é o identificar-se o espirito 



284 CAMILLO 

ás visualidades do romance. Quando a leitora s& 
ri das crendices da sua infância e dos absurdos 
princípios que lhe apoucaram o imaginar e o voar 
do espirito, vem-lhe os enfados, o escutar as men- 
tiras do coração que se emancipa, o crer que a 
vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e 
que o viver da alma, assim, será como o do arbusto 
bravio que dá flores sem aroma, e fructos sem sa- 
bor. Seja, outra vez, bemdita e louvada a igno- 
rância de nossas mães, e nossas irmãs, e nossas 
esposas ! A vida caseira, esta deliciosa monotonia^ 
que a poucas é já saborosa no viver intimo, requer 
muita estupidez, muito somno a toda a hora, um es- 
tômago exigente e forte, muita digestão soporosa de 
substancias pesadas. Esta bemaventurança lia-de res- 
taurá-la a ignorância supina, não hão-de ser as pa- 
lavrosas theorias de Michelet ácêrca do amor e da 
mulher. Comecem os pães de familia por circum- 
valarem suas casas de um cordão sanitário contra 
a peste do romance, que não se abonar com a pro- 
mettida pudicícia d'este, e de outros com que o 
auctor, coração aberto a todas as chimeras, e de 
entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco 
carcomido da humanidade toda a casta de virtude». 

Em 1862, no prefacio da segunda edição dos 
Doze casamentos felizes : 

« Cuidou o auctor que este livro, á custa da sua. 
muita simpleza e naturalidade, desagradaria ao má- 
ximo numero de pessoas, que aferem, ou d 'antes, 
aferiam o quilate d' uma obra de phantasia, con- 



CAMILLO 285 

soante os lances surprehendentes e extraordinários. 
Não foi assim. A época é outra, e melhor. O mara- 
vilhoso teve sua voga, seu tempo e sua catastrophe. 
Também o auctor foi tributário da moda, quando, 
mais que a arte, o seduzia e subornava a gloria de 
ser lido. Ahi estão os My.sterios de Lisboa e o Livro 
negro e que taes volumes, cujas reimpressões são 
o proporcionado castigo de quem os fez. Não ousa 
o auctor dar-se algum dos seus livros como modelo 
a si mesmo: sem-razão seria pensarem que elle dá 
esta, ou outra obra, como pauta e exemplar a estra- 
nhos. Pediria, isso sim, que se fizessem romances 
como se pintam paisagens, de modo que o mereci- 
mento de taes escriptos assentasse na fidelidade da 
cópia, tal que cada leitor visse nella um seu modo 
de sentir, ou a reminiscência d'algum quadro, mais 
ou menos análogo, que, alguma vez, se lhe ofPereceu. 
O auctor tem-se empenhado em averiguar se a lei- 
tura dos Doze casamentos felizes daria azo a qae elle 
pudesse escrever mais um decimo terceiro. Vem a 
propósito agora pedir-se ao leitor, prosperamente 
casado, que, se este livro lhe melhorou o coração ou 
a razão, se não peje de o revelar ao auctor, que 
nenhum maior premio ambiciona. A revelação 
seria coisa original; mas animadora para quem 
escreve. Pois se dizem que alguns romances, inflo- 
rando o crime, e aconselhando o divorcio, corrom- 
peram as almas, será desatino esperar que o romance, 
conselheiro e panegyrista das virtudes conjugaes, 
produza salutares contentamentos?» 



2bG CAMILLO 

No prologo das Estrellas funestas, romance pu 
blicado nesse mesmo anno de 18G2 : 

« Esta historia é innocente. Podem lê-la senhoras 
de imaginação impressionavel, e os moços descon- 
tentes da vida incolor e monótona que a sociedade 
lhes prescreve, O auctor, quando era rapaz, não 
enganou alguém escrevendo : ahi estão uns trinta 
volumes a defendê-lo da calumnia, se alguém o argue 
de romancista corruptor. Agora, que está velho, 
dobrada obrigação lhe corre de desvanecer precon- 
ceitos, que disparam em desordem da vida, e sacri- 
ficam os thesouros da paz ao pobre do coração que 
tão mal os paga, por não ter cousa boa que dar 
por elles. Crê o auctor que ha, no caminho da vida, 
muitas paragens alegres, se o caminheiro as sabe 
ver com os olhos já cançados de perseguir as fugi- 
tivas visões. Nem podia deixar de ser assim, a menos 
que a verdade, filha do ceu, não fosse um mal. E a 
verdade, para uns têmpora, e serôdea para outros, 
a final, a todos alumia, como o sol do Senhor, que 
primeiro doura a colmada choça do montanhez, e 
depois desce os flancos da serra, doura e lustra os 
zimbórios dos palácios, e verte do seu zenith um 
raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre 
as unhas do leão. Aquellas paragens verdadeiras do 
caminho da vida, são hospedagem commum ; toda- 
via, os mais dilectos do anjo bom, que ali recebe 
os peregrinos, são os mais infelizes, os mais que- 
brantados da jornada, os que subiram até lá o desfi- 
ladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do 



CAMILLO 287 

anjo, rebaptisados na agua de suas lagrimas. Sentado 
numa d 'essas paragens é que eu conto esta historia 
ás pessoas que a quizerem ouvir por complacência 
com a minha velhice, e porque eu lhes assevero que 
este e todos os meus romances olham a prevenir o. 
leitor contra os infortúnios procedentes da mentira 
do coração.» 

Em 1863, prefaciando a segunda edição do. 
Romance de um homem rico: 

«Este foi o mais querido dos meus romances e, 
se o vaticinio, que aventuro sobre o meu futuro de 
escriptor, me sae exacto, este romance prevalecerá 
a quantos a minha imaginação já desluzida, e como 
á força, der de si. Com tristeza sincera confesso- 
que no que fui já mal me reconheço. As rugas da 
fronte empecem ao coar d'aquella ílamma, que me 
aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, coma 
em lâmpada magica, lances da vida exterior, uns de 
riso, outros de lagrimas. E eu entrava em espirita 
e em coração neste interior mundo, e lá me sentia 
viver, soífrer e amar. A isto não ousaria eu chamar 
inspiração; mas sem modéstia de vaidade, podia 
chamar-lhe feliz capacidade para engenhar obras 
d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ócios de- 
quem os não sabia gastar melhor e mais aproveita- 
dos. Como se foi amortiçando a luz da minha 
mocidade, e aquelle incansável amor ao trabalho, 
languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte 
esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? 
Acabou-se como tudo que principia, e mais depressa. 



^288 CAMILLO 

que o deperecer commum das faculdades inventivas. 
Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não pude- 
ram ou não quizeram poupar o vigor do coração em 
vantagem do vigor da inteliigencia. A mais ardente 
€abeça de homem empedrou debaixo da mão glacial 
da desfbrtuna. Foi este romance escripto nas cadêas 

da Relação do Porto em 1861 Viveram no 

meu ergástulo da Relação do Porto, comigo, noite 
« dia, o padre Álvaro d'este romance, e Maria da 
Gloria, e Leonor, e a santa de Vairão; e Thereza, e 
Marianna, e meu tio desterrado do outro livro cha- 
mado Amor de 'perdição. Viveram comigo aquelles 
ditosos pares que eu casei, e o publico hospedou 
■alegremente, com o livro Doze casamentos felizes. 
E eu tenho saudades d'elles, e das noites era que 
■os via sentados em volta do meu leito. Cá fora, á 
luz em cheio do sol, não os encontro.» 

Nesse mesmo anno de 1863, no prefacio da 
Filha do Doutor Negro: 

«. . .A historia de Albertina no trajecto de vinte 
annos, muitas vezes me acudiu á lembrança, nas 
horas em que eu combinava na palheta as cores 
com que bosquejei os quadi'os tristes e alegres da 
humanidade, que m'os acceitou benignamente, não 
porque fossem bons, mas porque eram fieis: das 
deformidades da natureza seria injustiça irrogar-me 
censura a mim. Desaproveitei o romance de Alber- 
tina, em todas as vezes que me lembrou, porque 
me alistara na laureada e gananciosa milícia dos 
roman"&istas do terror grosso, como d'elles dizia Júlio 



CAMILLO 289 

Janin, o celebrado folhetinista, que escreveu O 
hurro morto, romance que começa a aterrar a gente 
desde o titulo, e, lá pelo meio adeante, mette a 
humanidade num banho de sangue, de muita gente 
e do burro citado. A final, e muito a tempo, desertei 
ás bandeiras dos mestres franceses, e entendi no 
melhor modo de descrever os usos e costumes da 
minha terra, os sentimentos bons e maus como por 
cá os tenho visto, as paixões como ellas são cá, e 
como creio que ellas são em toda a parte, tirante 
as composturas, artifícios e maravalhas de lingua- 
gem, com que, para maior gloria do género pestilen- 
cial, corruptor das almas, os pintores da sociedade 
adulteram a verdade das coisas e pessoas. Cae a 
propósito neste ponto declarar eu á critica bem 
intencionada de alguns dos avaliadores dos meus 
últimos livros, editados em folhetins do Commercio 
do Porto^ que nem levemente me constrangem as 
condições que me pauto e imponho, no desenvolvi- 
mento da ideia moralizadora, ou, pelo menos, intuito 
social e humanitário de cada um dos romances. 
Taes são os publicados com os titulos : Três irmãs, 
Estrellas funestas^ Eitrellas propicias, O bem e o 
mal. E, afora estes, que a critica irreflectida cui- 
dou me haviam sido assim prescriptos e agoren- 
tados pela seriedade d'aquelle jornal, escrevi com 
igual intento e desassombrada espor^^aneidade q 
uimôr de perdição, o Romance de um homem rico, e 
outro, que está no prelo, chamado Amor de salva-^ 
^ão. De nenhuns outros me ficou tão cheio o animo^ 

19 



290 CAMILLO 

de contentamento, contentamento sem vaidade, sa- 
tisfação de ter povoado a minha phantasia de ima- 
gens, que seriam ainda sublimes e bellas, quando 
não fossem imitáveis e verdadeiras. A esta serie 
de romances pertence a Filha do Doutor Negro,. 
bem que o titulo prometta scenas escuras, e se dê 
um geito de engodo á curiosidade. Não vem para 
isso. Faço pouco íinca-pé em titulos, e não dou nada 
pela cousa que traz logo um rotulo de negocio, no 
modo como se intitula. Chamei ao livro assim, por- 
que a heroina do romance, como já se vae dizer, 
tinha muita honra em ser assim conhecida. A razão 
por que eu esperei vinte annos esta hora, hora de 
infinita dôr, em que principio a escrever tal roman- 
ce, é que eii, nesse longo termo de meia existência, 
cuidei que^ sem intercalar de episódios imaginários 
a historia de Albertina, mal ou de nenhuma maneira 
lograria dar- lhe vida, interesse, variedade, e numero, 
como diria um correcto juiz com o Quintiliano em 
mente. Agora, revirou-se o meu entendimento em 
cousas d'esta ordem, como em quasi todas as cousas 
ordenadas ou desordenadas pela gente. Estou apto 
para trasladar o que vi e vejo, sem pedir empres- 
tado á imaginativa o que a natureza me não dá. Se, 
alguma vez, falsifico as tintas, ou derramo a mãos 
cheias flores sobre as ulceras, é isso um excesso de 
generosidade que uso com o mundo e comigo. Bas- 
tam as misérias vistas : poupemo-nos á estampa, que 
não corrige nem condemna. Para juiz lá está Deus. 
Para algoz, basta que cada um o seja de si próprio.» 



CAMILLO 291 

Ainda em 1863, no prefacio á segunda edição 
do Amoi' de perdição: 

«Este livro, cujo êxito se me antolhava mau, 
quando eu o ia escrevendo, teve uma recepção de 
primazia sobre todos os seus irmãos. Movia-me á 
desconfiança o ser elle triste, sem interpolação de 
risos; sombrio, e rematado por catastrophe de 
confrangir o animo dos leitores, que se interessam 
na boa sorte de uns e no castigo d'outros persona- 
gens. Em honra e louvor das pessoas que estima- 
ram o meu livro, confessarei agradavelmente que 
julguei mal d'ellas. Não aprovo a qualificação; mas 
a critica escripta conformou-se com a opinião da 
maioria que antepõe o Amor de perdição ao Ro- 
mance de um. homem rico e ás Estrellas propicias. 
E grande parte neste favorável, embora insusten- 
tável juizo, a rapidez das peripécias, a derivação 
concisa do dialogo para os pontos essenciaes do 
enredo, a ausência de divagações philosophicas, a 
lhaneza da linguagem e desartificio das locuções. 
Isto, em quanto a mim, não pôde ser um mereci- 
mento absoluto. O romance que não estribar em 
outras recommendações mais solidas, deve ter uma 
voga mui pouco duradoura. Estou quasi convencido 
de que o romance, tendendo a apellar da iniqua 
sentença, que o condemna a fulgir e apagar-se, tem 
de firmar sua duração em alguma espécie de utili- 
dade, tal como o estudo da alma, ou a pureza do 
dizer. E dou mais pelo segundo merecimento: que 
a alma está sobejamente estudada e desvelada nas 



292 CAMILLO 

litteratiiras antigas, em riome e por amor das qimes 
muita gente abomina o romance moderno, e jura 
morrer sem ter lido o melhor do mais apregoado 
auctor. Dou-me por suspeito nesta questão. Graças 
a Deus, ainda não escrevi duas linhas a meu favor, 
nem sequer nas locaes do jornalismo. Até escrupu- 
lizo em dizer que devem lêr-se romances: não vão 
cuidar que eu recommendo os meus. E certo que 
tenho querido imprimir em alguns dos meus livros 
o cunho da utilidade com o valor da linguagem sã 
e ageitada á expressão de ideias, que pareciam 
estranhas, como de feito eram, e não se nos depa- 
ram nos escriptos dos Sousas, Lucenas e Bernardes. 
Em verdade foi isto mirar muito longe com vista 
muito curta: assim mesmo, fiz o que pude; e neste 
livro direi que fiz menos do que podia. Nos quinze 
atormentados dias, em que o escrevi, falleceu-me o 
vagar e contensão que requer o acepilhar e brunir 
períodos. O que eu queria era afogar as horas, e 
afogar talvez a necessidade de vender o meu tempo, 
as minhas meditações silenciosas, e o direito de me 
espreguiçar como toda a gente, e o prazer ainda de 
ser tão lustroso na linguagem, quanto, em diversas 
circumstancias, podia ser.» 

Prefacio do Esqueleto, publicado em 1865, pela 
primeira vez : 

«Em quanto á influencia do romance nos cos- 
tumes, estou mais que muito desconfiado de que o 
romance não morigera nem desmoraliza. Porém, 
admittida a ponderação que lhe alvidram os ex- 



CAMILLO 293 

hortadores dos pães de família, não sei decidir como 
se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São 
dois os expedientes : levar os personagens viciosos 
ao despenhadeiro ; ou crear anjos num paraizo sem 
serpente. Na primeira espécie, mostra-se a lucta de 
virtude e crime; natural e concludentemente trium- 
pha a virtude. E o costume com sacrifício, ás vezes, 
da verosimilhança. Na segunda forma de romancear, 
a virtude recebe as ovações sem batalha. O roman- 
cista põe peito á reformação das obras de Deus, e 
corrige-as. Quando os seus personagens se avizinham 
de algam sujo aguaçal, em que é de uso a gente 
commum salpicar as botas, atam-lhe azas de sera- 
fins, e largam-lhe trella por esse azul dos céus den- 
tro até lhes vir a geito poisá-los em alegretes de 
flores. São estes os romances que moralizam, ou os 
outros? E' a minha duvida. Convém mostrar as 
repulsões do crime lá em baixo, onde a providen- 
cia social lhes cavou a paragem ; ou é melhor con* 
duzir, por entre hortos ameníssimos, os nossos 
personagens engrinaldados, e mettê-los no ceu fi- 
nalmente? Um homem de bem, proprietário de um 
dos primeiros jornaes d'este paiz, costuma editar 
os meus romances, com a previa clausula de não 
serem historias de crimes, que toque directa ou 
indirectamente com a probidade da vida conjugal, 
ou revelem desdouros da honra domestica. Ha 
poucos dias, tivemos esta pratica : — Querem os pae» 
de familiãs que suas filhas ignorem a corrujpção, que 
lavra nos pântanos da sociedade^ observou-me o meu 



294 CAMILLO 

amigo. — Os pães de familia, contestei, não conseguem 
isso^ em quanto não acharem o caminho da lua, onde 
jpresumo que não ha costumes, nem romances. E será, 
preciso que se mudem para lá com as filhas, menores 
de dez annos, e não levem as mães, porque as mães, 
maximamente virtuosas, sempre têm que contar ás 
filhas a historia escandalosa das mães culpadas. — 
Mas não se ganha moralização para os espíritos 
brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes novellas 
de adultérios, redarguiu o cavalheiro. — Ganha, 
quando se lhes mostram os infortúnios acapellados 
em volta da mulher que se deshonra. Ganha, porque 
as filhas do pae acautelado sabem que as ha, conhe- 
cem-nas, e apertam a mão das deshonradas ; con- 
correm aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa 
do homem que as requesta; observam-lhes uns exte- 
rim^es de felicidade; e espantam-se de as verem 
ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, aca- 
tadas com uma urhanidade, que as não estrema das 
honestas. Então é que o romance ganha muito, le- 
vando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto 
innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apa- 
vorou nos salões, tem angustias secretas, e infâmias 
estrondosas. Parece-me isto, meu amigo. — Acho-lhe 
razão, obtemperou o honrado e illustrado editor 
dos meus livros, mas que quer, se os pães de familia 
intendem que suas filhas desconhecem a existência 
de certos crimes? e desadoram romances que revol- 
vam essas sentinas hediondas? Aqui ficou U contenda 
amigável. Não procurei pae de familias nenhum 



CAMILLO 



295 



para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia 
queimar este volume que estava escripto, no intuito 
de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a 
minima pretenção de lhe pôr o cautério. Não quei- 
mei; mas protesto extrahí-lo da circulação, se um 
dia me persuadir de todo em todo que esta coisa 
de romances, escriptos assim, peoram a humanida- 
de, e alvorotam a quietação dos pães de familia». 

Também em 1865, no prologo da Liicta de gi~ 
gantes: 

«Farto estou eu, leitor, de lhe denunciar boas e 
más paixões do tempo de agora. É já horas, de lhe 
falar de umas paixões do tempo que foi. Nem ellas 
nem elle podem tornar a ser. Eram paixões de uma 
classe, que por sua culpa envelheceu e morreu 
intempestivamente. Este livro trata de frades. Não 
lhe chamo romance, porque é historia authenticada 
por documentos ; uão lhe chamo historia, porque 
seria presumpção imprópria de minha humildade 
aforar-me em fidalguias tamanhas. Os catálogos das 
livrarias dêem-lhe o nome que muito quizerem ; e o 
leitor, segundo a indigestão que lhe fizer o livro, 
qualifique-o, e áte-o, se lhe parecer, á capa surrada 
de alguma chronica de franciscanos. Será esse o 
•caminho da immortalidade do meu livro, porque, 
de hoje a tresentos annos, será lida a Historia de 
■S. Domingos e ninguém lerá o Frei Luiz de Sousa^ 
de Almeida Garrett. Assim m'o faz pensar vêr eu 
pesados a ouro os in-folios antigos, e o desdenhar-se 
€om abominável descortezia o livro amaneirado, 



296 CAMILLO 

correcto, lustroso e florido de fabrica moderna. O» 
Miseráveis^ de Victor Hugo, já esqueceram; um 
exemplar do romance de Vasco de Lobeira, vendeu- 
se um d'estes dias por trinta libras. A Vida de 
Christo, por Ernesto Renan, por Strauss, por Veuil- 
lot, andam por ahi ao desbarato; ora a Vida de 
Christo, insulsissimo poema de Manuel das Povoas^ 
é livro raro; e a Vida de Christo, por frei Bernarda 
de Alcobaça, vendida por 5001000 réis, será barata- 
Qualquer d'estas jóias de bibliotheca, tão encareci- 
das, é bastante para matar d'enfado e aborrecimento- 
duas academias; ao passo que, na leituia dos livros 
menospresados, se opulenta o entendimento ou agita 
a alma vivamente curiosa de lances de phantasia e 
movimentos do coração. Comprehendam lá este 
desconcerto do nosso capricho! Isto me induz a 
pensar que não será de todo engeitado um livro- 
que relembra cousas esquecidas, e vai entrajado de 
velhas roupas um pouquinho sacudidas do pó de 
duzentos annos.» 

Na dedicatória «Ao Ill.^^o e Ex.mo Sr. Manuel 
de Freitas Costa, Meritissimo Juiz da Relação do 
Porto» do romance A Engeitada, de 1866: 

«Neste romance encontra v. ex.» o desenvolvi- 
mento da historia que me communicou. Se algumas 
cores do quadro substitui por outras, obedeci a umas 
regras d'arte que prescrevem ao romancista a dura 
lei de recompor o que parecia estar bem feito das 
mãos da natureza. D'onde havemos de inferir que 
o verdadeiro, em romances, nem sempre é o bellor 



CAMILLO 



29T 



e raríssimas vezes é o bom. Noutro paiz, noutros 
costumes e com mais hábil colorista, a historia^ 
referida por v. ex.*^, seria uma perfeita urdidura de 
óptimo romance. Aqui na nossa terra, excellente,. 
mercê de Deus, em muitos sentidos, requer-se me- 
lindroso geito nisto de contar vicios. Não discuta 
se o contá-los é fomentá-los, e se a ignorância d'elles 
é fingimento. Seja o que fôr. Se ha innocencia, é 
dever santo conservá-la. Se dissimulação, é obsequia 
á historia das nossas virtudes dissimularmos tam- 
bém.» 

Prefacio da segunda edição da Doida do Candot, 
datado de 1867: 

«Reconhece o auctor que este livro seria defi- 
cientissimo, se assentasse em alguma ideia funda- 
mentalmente philosophica. Não estamos em terra 
onde se invista a novella de missão que não seja 
espairecer o animo de estudos attentos, ou desen- 
fastiá-lo dos enojos da ociosidade. Os lettrados,^ 
que baixam até ao romance, querem-no, dizem 
elles, philosophico, e apontado a discutir alguma 
transcendente questão social. Nada mais nem me> 
nos cjue encommendarem ao romancista os ser- 
viços que aos legisladores incumbe prestar á so- 
ciedade. Fazem-lhe muita honra, dáo-lhe grande 
foro nas coisas da republica; mas o peor é que 
os editores recommendam a menos philosophia que 
ser possa nestes livros, e queixam-se da mingua 
de concorrência dos lettrados ao balcão, onde a 
novella discreteadora e pedagógica não ousa me- 



298 



CAMILLO 



dir-se com as facécias da scena- cómica. E' vêr 
quem leva mais os olhos na sala das mascaradas 
— se Sócrates sobraçando a túnica e mesurando 
os poderosos passos, se o palhaço tilintando os 
guisos... Não obstante, os famintos de romances 
com recheio de sucosas cabidelas, insistem que o 
romancista deve immolar ao agrado e contenta- 
mento da critica o gosto destragado da maioria dos 
leitores. Pensam e aconselham discretamente. Eu 
por mim tenho querido contentá-los; e, se alguma 
vez o consegui, foi pontualmente nos livros que 
«speram no limbo das estantes dos editores a re- 
dempção do gosto- fino, a segunda luz das intelligen- 
cias esclarecidas. Por onde havemos de concluir 
que o escrever para a posteridade é um sacratíssimo 
dever tão somente a uns bem-sorteados da fortuna 
que tem segura a vida presente, -e se esmeram em 
prolongar a futura pela eternidade fora até encon- 
trar uma geração que lh'a perpetue no bronze da 
estatua. Bonito destino, quando os contemporâneos 
se não persuadem que o aparelho digestivo do es- 
criptor é de bronze também, e como tal, descare- 
cido da refeição das moléculas que dão calor vital 
^o sangue, ao musculo, á massa que forma os ca- 
marins de espirito, esta coisa chamado engenho. 
Engenho de bem escrever! Palavra oca de que ri 
galhofeiramente quem tiver um de fazer assucar ou 
serrar madeira. Tornando ao ponto : estive inten- 
tado a interpor nesta segunda edição da Doida do 
Candal uns discursos ácêrca do duelo, como quem 



CAMTLLO 



299 



inculca tendências a desbravar o género humano 
de tão brutal selvageria. Nesse campo de mortos 
infamados e já também chorados, acharia eu que 
farte tristissimas flores com que aformosear trage- 
dias. Nào o ha tão abundante para lagrimas e da- 
divoso ás menos inspiradas phantasias. Dei, todavia, 
de mão ao intento, quando o meu editor e amigo 
me disse que A Bruxa de Monte Córdova era menos 
lida que a Doida do Caudal Entrei a comparar os 
dois romances para entender a desigualdade dos 
méritos, e vim ao convencimento de que um pou- 
quinho mais de philosophia estragara a Bruxa. 
Nada, pois, de tirar á novella a inutilidade que a 
faz preciosa. Seja cada um do seu tempo e do seu 
paiz. O melhor romancista em Portugal, por em- 
quanto, ha de ser o que tiver mil leitores que lhe 
comprem o livro e o applaudam, contra dez que o 
leiam de graça e o critiquem em folhetins a dez 
tostões. 

No prefacio do Cavar em ruínas, escripto em 
186.6: 

«Os livros antigos pagam liberalmente a quem 
os atura. Não ha velhice mais dadivosa e agrade- 
cida do que a d'elles. Sentam-se comnosco á sombra 
de arvores, suas coevas, e contam-nos coisas que 

viram os plantadores das arvores O que ahi 

vae por chronicas de frades, por livros menos lidos 
do que as chronicas, bons para historia, óptimos 
para philosophia, e, melhor de tudo, balsâmicos 
e vivificantes para corações despegados do hoje em 



300 CAMILLO 

dia e do nebuloso amanhã que a sciencia a cada 
hora vae ennoitando mais, apagando-lhe explendores 
que já num tempo entreluziram á espiritualidade do 
santo ou á candideza do poeta ! O Presente é este 
sincero desgosto de muitos e intermittente embria- 
guez da felicidade de poucos. O Futuro é um des- 
cuido do maior numero e uma afflicção de poucos 
espirites que vieram sãos a um mundo cheio de 
aleijados. O Passado, o passado, é já agora o único, 
seguro e abençoado refugio de quem pôde ir por 
trevas dentro a bater azas de luz e a poisar-se lá 
sobre ruinas, onde não chega a pedra d'esses fun- 
dibularios que têm seus arsenaes nos enxurdeiros 

das cidades florentes Também tenho o meu 

refugio do passado. Algumas dúzias de livros levan- 
tados em cerco á volta de dez palmos de taboado 
de pinho sem alcatifa nem xadresado, marcam as 
fronteiras das minhas delicias. É o que tenho. E 
dentro d'isto, nuns dias de saudade do meu querido 
Castilho, que ainda ali se me figura dizendo-me 
como Virgílio teria poetado se houvesse nascido em 
Portugal, na ausência d'elle continuei a ouvi-lo, 
na locução diamantica de Fernão Mendes e Ber- 
nardes. . .» 

Aviso ás pessoas incautas, que precede os Mys- 
terios de Fafe, impresso em 1878 : 

«Esta novella contém adultérios, homicídios, 
missionários e outros scirros sociaes. Almas em flor 
de innocencia e candura, não leiam isto que trescala 
podridão de gafaria, em que forçadamente a leitora, 



CAMILLO 301 

affeita ao ar puro das regiões vizinhas do ceii, ha-de 
sentir naiísear-se-lhe a alma. Nalgumas quintas do 
Minho, ameaçadas de ladrões^ erguem-se uns postes 
(|ae dizem : aqui ha ratoeiras. Os ladrões, graças á 
instrucção, lêem e passam. Neste livro inverte-se o 
estylo : os salteadores da pudicícia levantam bem 
alto o letreiro que diz : aqui ha ladrões. Sem o qual 
letreiro, este livro seria um abysmo. » 

Da Introducção do romance A mulher fatal ^ que 
appareceu em 1870: 

«... A minha raiva ao planeta em que estou é 
acerba: mas fica muito aquém da misanthrophia. 
Em rapaz fiz de Heraclito, quando não conhecia 
melhor do que hoje este grego que aforou as lagri- 
mas com honras de escola de philosophia. De tal 
philosopho, coisa que sirva só temos o boato de que 
declamava e chorava em publico. Hoje em dia, um 
homem com esta sensibilidade era levado ao com- 
missario de policia. Por mim e pelos meus vizinhos 
também eu chorei. Eis que desce a geada de muitos 
invernos a nevar-me, o frio a filtrar, a temperatura 
dos liquides a descer, o sangue a coagular-se e logo 
o crystalizar das lagrimas no coração como as con- 
creções vitreas d 'um a caverna. Principiei a rir, ás 
vezes. Rir é contrairem-se o diaphragm.a e os mús- 
culos faciaes. Operação materialissima, muscular, 
carnal, e que nenhum outro animal exercita. Claro 
é que o rir é attributo do ser racional. A par e 
passo que a razão se allumia e fecunda, as contra- 
cções musculares amiudam-se. Eaciocinar é rir. O 



302 CAMILLO 

acume da sabedoria humana é ver os reversos das 
tragedias sociaes ; lá está por força a comedia. A 
ignorância que esteriliza, e mirra, e encalvece, é a 
que só deixa vêr uma face da medalha. Eu não 
cheguei ainda aos pináculos da sabedoria. Vou 

subindo Era meu propósito dizer espalmada- 

mente que, ha vinte annos, comecei a vêr as duas 
faces dos lances tristes: uma que intende com as 
glândulas lacrimaes, outra com o diaphragma. Pri- 
meiramente, se não choro, condôo-me; depois, esga- 
ravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi 
ou sedimento de perversidade ou ridicularias mise- 
rabilissimas. Então é o rir. E, afim de que os pade- 
centes me desculpem, rio primeiro de mim. D'ahi 
se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, 
realçam em um que tem ferido a benevolência da 
critica : e é que não conservo, sem intercadencias 
desvanecidamente faceciosas, uma situação plan- 
gente, e amarguro com o acerbo da ironia a dulcidão 
das lagrimas. E justo o reparo. E neste livro me 
quer parecer que tal defeito subirá de ponto; por- 
que vou intender em tragedias amorosas, nesta 
edade de quarenta e três annos feitos, velhice em 
que nenhum escriptor sincero, obediente a Horácio, 
deu aos seus leitores o exemplo das lagrimas. Si 
vis me fle7'e, etc. . . .» 

Da dedicatória « A D. António da Costa», da 
nooella do Minho — O commendador^ impressa com 
data de 1875 : 

«. . .0 que D. António da Costa não teve tempo 



CAMILLO 303 

de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas 
românticas do Minho ; quero dizer — os costumes, a 
viver que por aqui palpita no povoado doestes arvo- 
redos onde assobia o melro e a philomella trilla. 
Ah ! meu amigo ! Romances, tecidos de casos cân- 
didos e innocentes, apenas os fazem por aqui os 
pássaros em abril, quando urdem e afofam os seus 
ninhos. O restante dos animaes não oviparos vista- 
m'os V. ex.'^ no Catarro ou no estabelecimento da 
famosa senhora Cecilia Fernandes, da Travessa de 
Santa Justa, que eu lh'os farei representar ao vivo 
no próprio coração do Minho, entre Faíião e S. 
João do Kalendario, as scenas contemporâneas 

da fina Baixa e peores É neste meio que eu 

me abalanço a esgaratujar novellas. Ha trêse annos 
que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo 
dos pinheiraes e das fragancias das almas innocen- 
tes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro 
baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, 
nivellados com os saloios da Extremadura, eram os 
cândidos pastores da Arcádia comparados aos ma- 
landrins de Gomorrha. Um dos meus estudos, no in- 
tuito de me habilitar para o confronto do saloio com 
o minhoto — da raça sarracena com a gallega — é 
esta historinha que lhe dedico, meu nobre amigo.» 
De 1879: a Dedicatória e a Advertência do Eu- 
sébio Macário: 

« Dedicatoeia. — Minha querida amiga : Per- 
guntaste-me se ura velho escriptor de antigas no- 



■B04 CAMILLO 

vellas poderia escrever, segundo os processos novos, 
um romance com todos os tics do estylo realista. 
Respondi temerariamente que sim, e tu apostaste 
que não. Venho depositar no teu regaço o romance, 
■€ na tua mão o beijo da aposta que perdi. » 

«Advertência. — A historia natural e social de 
uma familia no tempo dos Cabraes dá fôlego para 
dezesete volumes, compactos, bons, d 'uma profunda 
«omprehensão da sociedade decadente. Os capítulos 
inclusos neste volume são prelúdios, uma symphonia 
■oífenbachiana, a gaita e birimbau, da abertura de 
um grande charivari de trompões fortes bramindo 
pelas suas guelas concavas, metálicas. Os processos 
do auctor são, já se vê, os scientificos, o estudo 
dos meios, a orientação das idéas pela fatalidade 
geographica, as incoercíveis leis physiologicas e 
climatéricas do temperamento e da temperatura, o 
despotismo do sangue, a ty^rannia dos nervos, a 
•questão das raças, a ethologia, a hereditariedade 
inconsciente dos aleijões de familia, tudo, o diabo! 
O auctor trabalha desde antes de hontem no enca- 
deamento lógico e ideológico dos dezesete tomos da 
sua obra de reconstrucção, e já tem promptos dez 
volumes para a publicidade. Mas é necessário a 
quem reedifica a sociedade saber primeiro se ella 
quer ser desabada a ponta-pés de estylo para depois 
ser reedificada com adjectivos pomposos e advérbios 
rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua, 
escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes actas das 



CAMTLLO 305 

chagas encontradas, esvurmar as bostellas que cica- 
trizaram em falso, excoriá-las, muito cautério de 
phrases em braza. É o que se faz nas folhas preli- 
minares d'esta obra violenta, de combate, destinada 
a entrar pelos corações dentro e a sahir pelas mer- 
cearias fora. » 

Também em 1879, prefaciando a quinta edição 
do Amor de perdição: 

«Publiquei, ha vinte e dois annos, o romance 
Onde está a felicidade? — Pouco depois, Alexandre 
Herculano, republicando as Lendas e narrativas, 
escrevia na Advertência: .., Nestes quinze ou vinte 
annos, creou-se uma litteratura, e pôde dizer-se que 
não ha anno que lhe não traga um progresso. Desde 
as Lendas e narrativas até o livro Onde está a feli- 
cidade? que vasto espaço transposto! — Se comparo 
o Amor de perdição, cuja 5.^ edição me parece um 
êxito phenomenal e extra-lusitano, com O crime do 
padre Amaro e O primo Basilio, confesso, volunta- 
riamente resignado, que para o explendor d'estes 
dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos 
primores lavrados no transcurso de dezeseis annos. 
O Amor de perdição, visto á luz eléctrica do criti- 
cismo moderno, é um romance romântico, declama- 
tório, com bastantes aleijões lyricos, e umas idéas 
«celeradas que chegam a tocar no desaforo do sen- 
timentalismo. Eu não cessarei de dizer mal d'esta 
novella, que tem a boçal innocencia de não devassar 
alcovas, a fim de que as senhoras a possam lêr nas 
salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, 

20 



306 CAMILLO 

e não precisem de esconder-se com o livro no seu 
quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de 
jjerdíção fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como 
indemnisação, faz rir; tornou-se cómico pela serie- 
dade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço 
das velhas historias do Trancoso e do padre Theo- 
doro d'Almeida. E por isso mesmo se reimprime. 
O bom senso publico relê isto, compara com aquillo, 
e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista 
as paginas que ha dez annos aljofarava com lagri- 
mas românticas. Faz-me tristeza pensar eu que 
floresci nesta futilidade da novella quando as dores 
da alma podiam ser descriptas sem grande desaire 
da grammatica e da decência. Usava-se então a 
rhetorica de preferencia ao calão. O escriptor ante- 
punha a frequência de Quintiliano á do CoUête-en- 
carnado. A gente imaginava que os alcouces não 
abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. 
Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje com 
os punhos arregaçados para espremer o pús de 
muitas escrófulas á face do leitor! Naquelle tempo^ 
enflora va-se a pústula; agora, a carne com vareja 
pendura-se na escápula e vende-se bem, porque 
muita gente nâo desgosta de se narcizar num espelho 
fiel. Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da 
morte, já não verei onde vae desaguar este enxurro^ 
que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honesti- 
dade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos lia- 
mes que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e 
sociedade ruirão ao mesmo tempo por efíeito de uma 



CAMILLO 307 

grande evolução rigolboche. A lógica diz isto ; mas a 
Providencia, que usa mais da metaph^^sica que da 
lógica, provavelmente fará outra coisa. Se, por vir- 
tude da metempsycose, eu reapparecer na sociedade 
do século XXI, talvez me regosije de vêr outra vez 
as lagrimas em moda nos braços da rhetorica, e esta 
5.^ edição do Amor de perdição quasi exgotada. » 

JSTum artigo A respeito da Caveira da Martyr, 
publicado sem assignatura, ainda em 79, na Blhlio- 
graphia portugueza e estrangeira, do editor Ernesto 
Cbardron : 

«A Caveira da martyr foi tirada das livrarias 
não por conter peçonha de impiedade que derran- 
casse as profundas idéas religiosas que lavram no 
espirito publico, nem tão pouco por ataque ao pu- 
dor virginal, que é ainda uma coisa que conserva 
a virgindade até muito tarde. O romance foi reti- 
rado pelo seu proprietário, pessoa honrada mas es- 
crupulosa até ao extremo de suspeitar que seria 
irreligioso um livro onde se pintavam no mosteiro 
de Odivellas algumas freiras frágeis em amor e 
uma d'ellas amante d'el-rei D. João v. A historia 
contara isto ; e o romancista cuidou que lhe não 
corria o dever de guardar aos maus costumes das 
bernardas de Odivellas acatamento mais reveren- 
cioso que o dos historiadores. O editor expoz es 
seus escrúpulos ao auctor, que lh'os respeitou e 
consentiu que os três tomos ^ fossem queimados, 



Em 1902, reimpressos, num só volume. 



308 CAMILLO 

tirando a salvo que o não queimassem a elle. O ro- 
mance mereceu providencialmente o destino ar- 
dente que teve, não porque fosse impio, mas porque 
era uma composição ordinária, com alguns adjecti- 
vos velhos dos antigos processos.» 

Em 1880, no prefacio da segunda edição do 
Eusébio Macário : 

« Cumpre-me declarar que não intentei ridicula- 
rizar a escola realista. Quando appareceram o Crime 
do padre Amaro e o Primo Bazilio, e os romances 
de Teixeira de Queiroz, admirei-os e escrevi inge- 
nuamente o testemunho da minha admiração. Creio 
que hoje em dia novella escripta d'outro feitio não 
vinga. » 

Dos artigos da polemica com Alexandre da Con- 
ceição, a propósito da Corja, em 1881 : ^ 

«. . .Assevera o critico que eu, no Eusébio Ma- 
cário, tive por intuito confessado a pretensão de 
lançar o ridiculo sobre a escola realista. O sr. Con- 
ceição de certo não pôde citar phrase minha que o 
justifique. Assevera que eu me deixei obsecar (queria 
talvez dizer obcecar) por pequenas vaidades de seita 
até ao ponto de ter do auctor do Primo Bazilio 
somente esta estreita comprehensão : de que é apenas 
um romancista ridiczdo. Não me conformo indiffe- 
rentemente com esta aleivosia, porque admiro e 
releio os romances do sr. Eça de Queiroz. No Can- 



CoUigiios na Eohemia do espirito. 



CAMILLO 309 

cioneiro alegre, pag. 11, digo do Primo Bazilio: O 
romance m,ais doutrinal que ainda sahiu dos prelos 
portugueses. — Doutrinal, escrevi como synonymo 
de moralizador. Em minha consciência entendo que 
se já houve livro que pudesse e devesse salvar uma 
mulher casada, na aresta do abysmo, é o Primo 
Bazilio. O sr. Eça de Queiroz fez esse raro milagre, 
porque pintou o vicio repulsivo e nojento. As mes- 
mas delicias do delicto emporcalhou-as, pondo as 

angustias parallelas com as torpezas O sr, 

Conceição diz que a Corja é uma banalidade. Pois 
que outra coisa ha de ser a minha novella senào 
uma frioleira? O meu romance não tem o desva- 
necimento de avantajar-se ás banalidades da sua 
espécie. E com eíFeito uma bagatella risonha que 
não ha de augmentar o numero dos tolos ; nem tão 
pouco estorvar que a luz do sr. Conceição penetre 
as camadas escuras que envolvem a ignorância 
publica. Nem os futuros livros scientificos do sono- 
roso poeta sr. Conceição, nem os meus romances 
banaes hão de acrescer nem diminuir o numero dos 
parvos — a incommensíiravel maioria, como diz o 
philosopho Schopenhauer. Acho de uma grande 
verdade aquillo de Voltaire: Notis laisserons ce 
monde-ci aussi sot et aussi mèchant que nous Vavons 
trouvé en y arrivant. . .» 

«... Se escrevi Eusébio Macário em 1880, como 
escrevera as Scenas da Foz e a Filha do Arcediago 
em 1853, num estylo nú, de galhofa, mostrando 
espáduas brunidas de mulheres sem ulceras, e feição 



310 



CAMILLO 



por feição, a psycologia de alguns argentarios, que 
se deduz d'ahi na hermenêutica do sr. Conceição ? 
Que tenho uma 7''hetorica atrazada, que sou um 
velho cathoUco^ um litterato auctoritario e quinhen- 
tista. Quer dizer que as diversas obras d'arte estão 
todas subordinadas a um principio, ou não quer 
dizer nada? Taine, o legislador dos ideaes moder- 
nos, não me jarreta as pernas para eu me ageitar 
ao leite procusteano de mestre Conceição. Elle diz 
que toldes les ceiívres d'art sont de niveau et que le 
champ est ouvert à V arhitraire, E accrescenta: En 
effet, si Vohjet devient ideal par cela seul qu'il est 
conforme à Vidée, peu importe Vidée; elle est au choix 
de l'a7'tiste; il prendra celle-ci ou celle-ld, à sont goút: 
notis n'aurons point de reclamation à faire. Escrevi 
a Corja, sem previamente alinhavar os personagens 
consoante os moldes do sr. Eça de Queiroz, nem 
saberia destrinçá-los entre os que servem á obra 
evolutiva francesa desde Manou Lescaut até Nana; 
e, se cotejo as novellas modernas com os praxistas 
sociológicos em que se estriba a esthetica da ultima 
hora, persuado-rae que esses romances podem fazer- 
se com observação e estylo, sem que aos auctores 
urja a necessidade imprescindivel de manusearem 
a Biologia de Herbert Spencer, a Evolução humana 
de HaBckel e o Positivismo de Comte. Para que se 
ha de assoprar com tamanho empyrismo de scien- 
cias pingues uma coisa tão oca e fútil como a no- 
vella? O burguês sensato pode rir-se do nosso char- 
latanismo. Sejamos francos. A gente faz romances 



CAMILLO 311 

«ujos porque a sociedade nos pede a historia con- 
temporânea : é ella que faz os nossos romances. Não 
partimos de uma renovação de Moral; emergimos 
d'um lodaçal de inveterados vicios. Se algum de 
nós, politico ou romancista, nutrir o desvanecimento 
parvoinho de defecar o humor mórbido da sociedade 
com o sudorifero dos artigos ou dos romances, deve 
começar por si a cura com os sedenhos ; em vez de 
consultar Augusto Comte e Hartmann, cinja-se ás 
prescripções de Dagonet e de Maudsley. O sr. Con- 
ceição sabe ...» 

«Abro um parenthesis para uma pessoa discreta 
que me vae ler e deplorar. Esta substanciosa con- 
trovérsia com o sr. A. da Conceição originou-se da 
injustiça com que fui accusado de hostilizar pela 
irrisão dois escriptores que descrevem as cousas e 
as pessoas como ellas são au podem ser. Contestei 
com provas escriptas que admirava os dois escri- 
ptores realistas e outros da mesma phalange ; mas 
nem me perfilei immodestamente ao seu lado, nem 
me gabei de usar os modernos processos com conhe- 
cimento de causa. Pareceu-me que o realismo se 
podia exercitar sem estudos prévios, por ser fácil 
tarefa com observação e estylo descrever a verdade 
das cousas physicas e ter das moraes uma intusce- 
pção mais ou menos aproximada da realidade. 
Offereci esta opinião, e ouzei dizer que as minhas 
ultimas novellas, tirante os vicios acintosos do estylo 
estragado pela imitação, não significavam apostasia 
da minha velha escola; mas sim a reincidência de 



312 CAMILLO 

um mau género que eu tinha ensaiado ha muitos 
annos com desagrado do pubhco. Replicou o sr. 
Conceição que eu não entendia o realismo, que era 
um inepto se pretendia mudar de systema, aUstan- 
do-me com os positivistas, com os evolucionistas, 
uns porque eram psycologos, outros porque eram 
physiologistas, e eu não podia ser isto nem aquillo, 
porque era um velho romântico, catholico e qui- 
nhentista. Refugadas as chocarrices e as toleimas, 
a questão é isto. Ora eu não tinha o desvaneci- 
mento de formar hombro a hombro de quem quer 
que fosse. Fiz esses dois frivolos livrecos cuidando 
que sociologicamente ninguém lhes dava mais im- 
portância do que eu dou aos romances banaes dos 
escriptores eminentes; porque eu não creio que as 
novellas desde Lúcio de Patras até Emilio Zola 
tenham feito bem nem mal ao género humano ...» 



II 



Ao ler a longa serie das novellas de Camillo^ 
com suas paixões infelizes, suas meninas envelhe- 
cidas penando peccados d'amôr na soledade dos 
mosteiros, seus pães tyrannos e seus brasileiros 
grotescos de joanetes, apercebe-se o estudo inteira 
d'um meio e d'uma época e, dentro d'elle, a com- 
prehensão singularmente feliz do caracter de cada 
uma das figuras que vivem intensamente através 
das paginas aventurosas dos seus livros. Completa 
justeza de scenario, em cada personagem um estuda 
psycologico perfeito e, sobre tudo isto, um certo ar 
desartificioso, familiar, na narração inimitável e um 
rigor muito sóbrio no desenho d'um typo ou d'um 
logar. Ha personagens em Camillo que meia pagina 
só define e maravilhas de intuição no traço d'um 
caracter que nos revelam desde logo no artista 
eminente um velho sabedor da sciencia das almas. 

Camillo possuia no grau mais alto os dois po- 



314 CAMILLO 

deres supremos de evocar e commover. Certas sce- 
nas dos seus livros — como essa, já celebre, da 
morte do lobo, no Eusébio Macário^ a sabida do 
Melro na Brasileira de Prazins e o incêndio no 
Retrato de Ricardina, íixam-se para sempre como 
se nós próprios as houvéssemos visto, e ha paginas 
«uas que se não lêem sem lagrimas, como essas 
sublimes cartas íinaes do Amor de perdição. E assim 
como a evocação é sóbria, não distraindo a attenção 
em ninharias, mas fazendo gravar indelevelmente o 
aspecto geral que se pretende, assim também a 
commoção ali se consegue com simplicidade, nas- 
cendo da própria essência das coisas descriptas e 
não dos mais ou menos plangentes termos em que 
as lemos. . . Sob esse aspecto, sob todos os aspectos, 
as Novellas do Minho são, fora de toda a duvida, 
uma collecção de preciosas e inimitáveis obras-pri- 
mas. D 'uma d'ellas, O commendador, eu traslado 
nma pagina que é um modelo de sobriedade intensa, 
conduzindo direito, sem uma palavra a mais, sem 
uma virgula inútil, ao effeito emocional que se pre- 
tende. E esta: 

«Em março de 1852, fez-se á vela de Villa do 
■Conde a Barca Conceição. Entre os passageiros ia o 
desertor, Chamava-se ahi Manuel José da Silva 
Guimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome. 
Quando a policia deitava inculcas no concelho de 
Famalicão procurando a paragem da tia Bernabé, 
rendia ella a alma ao seu Creador em Villa do 



CAMILLO 315 

Conde. Vira desapparecer as velas da barca Con- 
•ceição, ajoelhada no terraço do Castello. Depois, 
quedára-se de bruços a chorar. Levaram-a nos bra- 
ços a casa do cunhado. As lagrimas seccarara-se. 
Veio a febre e o delirio. Chamou, chamou por seu 
filho, até que Deus a chamou a ella. Não foi con- 
fessada nem ungida; mas morreu santa porque 
vivera santamente. Achara aquelle engeitadinho, 
creára-o, amára-o, vendera um cordão para o vestir 
geitosamente a fim de o mandar á escola, vendera 
as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi 
á primeira confissão, vendera a casa e o tear e o 
leito onde morrera sua mãe para o remir de soldado. 
Padeceu grandes angustias quando soube que o 
filho do seu coração era culpado na desgraça de 
uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o pre- 
gador da caridade e da igualdade dos servos de 
Jesus Christo, iria admoestar o lavrador abastado 
a conceder a filha para esposa do pobre. Esta santa 
cegueira da christã é de crer que Deus lh'a per- 
doasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dor 
em dor, logo que aos setenta annos de edade viu 
sumir-se para sempre o seu querido engeitado, pe- 
diu a Deus por elle, por si, e. . . morreu. » 

Dir-me-ão, eu sei, que esses typos predilectos 
dos romances de Camillo, fogem, correndo, da ver- 
dade, pelo atalho resvaladiço do romantismo idea- 
lista. Não é precisamente assim. E, não obstante, 
já mais d' uma vez essa accusação se formulou. 



31(> CAMILLO 

Lembra-me agora que, prefaciando o Brasileiro 
Soares, do sr. Luiz de Magalhães, — historia ingénua 
d 'um Joaquim de suissas que, de volta do Brasil, 
onde ganhou dinheiro, veio negociar em papel, casar 
com uma linda rapariga, ser trahido por um admi- 
nistrador de concelho e suicidar-se com um tiro 
de pistola — Eça de Queiroz vestiu o libello com 
toda a pompa gaulesa do seu estylo d'oiro. E, nesse 
prefacio, interessante, como tudo quanto escreveu 
esse grande homem de talento que salvou o natu- 
ralismo português do grotesco d'uma morte inglória, 
lê-se isto : 

«... se ha um tt/po de que o Romance e o 
Theatro, em Portugal, tenham usado immoderada- 
mente é, decerto, esse lavrador Minhoto, enrique- 
cido e vestido de panno fino, a que nas aldeias se 
chama o brasileiro! Ha mais de trinta annos, em 
novella, em drama, em poemeto, o Romantismo (ou 
antes o Maneirismo Sentimental que entre nós 
representou o E-omantismo) tem utilizado o brasi- 
leiro como a encarnação mais engenhosa e mais 
comprehensivel da sandice e da materialidade. 
Sempre que o enredo, como se dizia nesses tempos 
vetustos em que as Musas viviam, necessitava um 
ser de animalidade inferior, um boçal ou um gro- 
tesco, o Romantismo lá tinha no seu poeirenta 
deposito de figuras de papelão, recortadas pelos 
Mestres, o brasileiro — já engonçado, já enfardelado^ 
com todos os seus joanetes e todos os seus diaman- 
tes, crasso, glutão, manhoso, e revelando plácida- 



CAMILLO 317 

mente na linguagem mais bronca os sentimentos 
mais sórdidos. Bastava só collar-lhe na nuca um 
nome bem plebeu, arranjar-ihe uma aldeia d'origem 
que cheirasse bem a curral, atirá-lo para o meio de 
paginas tremulas e regadas de lagrimas, — e elle 
começava logo a ser bestialmente burlesco e a eno- 
jar os delicados. Nisto, os Mestres do Romantismo 
não procederam, originariamente, por animosidade 
contra uma classe cujos modos, gostos, interesses, 
lhe repugnassem: obedeciam d'instincto a um Idea- 
lismo nevoento, á theoria da Alma profundamente 
separada do Corpo, e á consequente divisão dos 
typos litterarios em Ideaes e Materiaes, segundo 
elles personificavam o Sentimento, cousa nobre e 
alta da Vida, ou representavam a Acção, que ao 
E-omantismo apparecera sempre como cousa subal- 
terna e grosseira. Ora em Portugal o homem que 
mais evidentemente symbolisava a Acção aos olhos 
turvos do Romantismo era esse labrego, que, 
largando a enxada, embarcava para o Brasil num 
porão de galera, com um par de tamancos e uma 
caixa de pinho, e annos depois voltava de lá, na 
Mala Real, com botas novas de verniz, grisalho e 
jocundo, a edificar um palacete, a dar jantares de 
leitão ao abbade, a tramar eleições e a ser barão. . . 
E note V. que este mesmo cavador endinheirado 
commovia e Romantismo até á Elegia, quando elle 
era ainda o triste emigrante, parando uma derradeira 
vez na estrada, para ouvir o ruido do açude entre 
as carvalheiras da sua aldeia; quando elle era o 



318 CAMILLO 

pobre embarcadiço, de noite, no mar gemente, 
encostado á borda da escuna Amélia, erguendo os 
olhos chorosos para a lua de Portugal . . . Apenas 
voltava, porém, com o dinheiro que juntara carre- 
gando todos os fardos da servidão, — o saudosa 
emigrante passava logo a ser o brasileiro, o bruto, 
o reles, o alvar. Desde que elle deixara de soluçar 
e ser sensivel, para labutar duramente de marçano 
nos armazéns do Rio, o Romantismo repellia-o como 
creatura baixa e soez. O trabalho despoetizára o 
triste emigrante. E era então que o Romantismo 
se apossava d'elle, já rico e brasileiro, para o mos- 
trar no livro e no palco, em caricatura, sempre 
material, sempre rude, sempre risivel, — não por um 
justo ódio social contra um inútil que engorda, mas 
por aversão romanesca ao burguês positivo, videiro 
e ordeiro, que não lê versos, que se occupa de câm- 
bios, só olha a lua quando ella annuncia chuva, e 
só repara em Beatriz e Elvira quando ellas são 
roliças e fáceis. Em contraste com este materia- 
lão estava o homem de poesia e de sonho, magro, 
altivo, malfadado, eloquente, e trazendo (como di- 
ziam a serio os estylos d'então) um inferno dentro 
do peito. Este permanecia pobre, ou desdenhava 
lyricamente o dinheiro: a sua occupação especial e 
única era a Paixão : por elle as mulheres pallidas, 
todas de branco, iam chorar, agarradas ás grades 
dos mosteiros. Nos finaes d'actos, elle, só elle lan- 
çava, num gesto sombrio, as palavras sublimes, 
dolentemente sublinhadas pelos violoncellos, ao 



CAMILLO 31D 

rumor dos prantos abafados. O brasileiro^ esse dizia 
as sandices, que nas farças mais francas eram tam- 
bém sublinhadas — com um estoiro sobre o tam- 
bor. Estes dois typos, insipidamente falsos como 
generalização, pareciam ainda mais postiços, mais 
distantes da vida e da realidade, como factura. O 
homem ideal era invariavelmente um grande boneco 
esguio, com longos e tristes bigodes de crepe, uma 
agoada de amarellidão na mascara de cera sempre 
contrahida de amargura, e umas luvas brancas que 
elle torcia na tortura perpetua do seu atroz destino : 
por dentro, para lhe dar uma apparencia d'almaj 
mettia-se-lhe, ao acaso, como se machuca a palha 
para dentro dos Judas d'Alleluia, um molho secco 
de phrases lacrimosas e balofas. O homem material^ 
o brasileiro, esse consistia num outro boneco, acham- 
boado, tosco, com um coUete amarello, pellos nas 
orelhas, e joanetes — os immensos joanetes que o 
Romantismo, de pó pequeno, nunca deixava de 
accentuar, com um traço de sarcasmo e asco. Este 
boneco por dentro não tinha nada, nem phrases^ 
nem palha. E o curioso, meu caro Luiz, é que, de 
todos os typos habituaes do nosso romance român- 
tico — só o brasileiro tem origem genuinamente 
portuguesa, de raiz. O homem fatal e poético ; a 
mulher de negros cabellos revoltos que perde; a 
mulher de pestanas baixas que salva; o arrogante 
fidalgo, com longos nomes e hostil ao século ; o 
padre risonho que bemdiz e afifaga — todos esses 
vieram importados de França : e as suas dores, as 



320 CAMILLO 

suas descrenças, os seus murmúrios d'amôr, tudo 
chegou pelo paquete, e pagou direitos na Alfan- 
dega, misturado aos couros ingleses e ás peças de 
panno Sedan. O nosso Romantismo não é respon- 
sável por essas gentis creações d'além dos Pyrineos. 
Elias já aportavam ao Tejo e ao Douro, assim falsas 
^ mal feitas, fora da natureza e da verdade. O 
Romantismo acolhia-as com uma submissa reve- 
rencia provinciana: e assim as mandava imprimir 
á Casa More e á Casa Roland, taes como as recebia, 
traduzindo-lhes apenas em vernáculo os martyiios 
e os júbilos. O brasileiro, porém, era só nosso, todo 
nosso, d'este solo que pisamos, castiço e mais origi- 
nalmente português que a chalaça e a louça das 
Caldas. Mais que nacional, era local. Era do Minho, 
como o vinho verde. Ora o Romantismo, que sendo 
triste amou sempre essa província verde-triste, 
encontrava lá o brasileiro constantemente, na feira, 
na romaria, na egreja, na várzea, na villa. No mi- 
rante caiado d'amarello, que elle avistava entre as 
ramadaSj estava tomando o fresco o brasileiro: na 
caleche forrada de reps azul, que elle cruzava na 
«strada e que o empoeirava, vinha o brasileiro, de 
perna estendida. Muitas vezes o Romantismo (inco- 
herencias inevitáveis da vida terrestre) jantava com 
o brasileiro. Assim, profusamente, acotovellando 
por essa província brasileiros innumeraveis, vira-os 
de todos os feitios exteriores: seccos, obesos, de 
barba, rapados, miudinhos, espadaúdos, calvos, 
guedelhudos, fracos, e fortes como os bois de Bar- 



CAMILLO 



321 



roso. Vira-os, homens vários, com as varias, múlti- 
plas qualidades humanas : bons e velhacos, ridiculos 
e veneráveis, generosos e torpes, finos e suinos . . . 
Que importa ! O Romantismo deduzira uma vez do 
seu ódio á Acção e ao homem que sua um typo 
symbolico de brasileiro gordalhufo e abrutado — e 
assim o apresentava invariavelmente, implacavel- 
mente, em novella, em drama, em poema, como se 
não houvesse existido jamais senão aquelle brasi- 
leiro, e fosse tão impossível mostrá-lo sem os attri- 
butos de materialidade que o individualizavam, 
como é impossível pintar Marte sem a sua arma- 
dura, ou contar Tibério sem esboçar Capreia ao 
longe, nas brumas do mar. . . O brasileiro da rua a 
cada passo desmentia o brasileiro do livro ? Que 
importa ! O bom Romântico não cuida da rua : se 
é um Mestre, marcha altivamente, com os olhos 
alçados ás nuvens \ se é um discípulo, segue caute- 
losamente^ com os olhos attentos ás pegadas dos 
Mestres. Extraordinários, estes Românticos ! E bem 
sympathicos, os primeiros, os grandes, os que 
tinham talento e uma veia soberba, com este 
inspirado, magnifico desdém pela natureza, pelos 
factos, pelo real e pelo exacto ! Os discípulos esses, 
louvado seja Nosso Senhor, são bem pêcosinhos, e 
bem chochinhos ! í> ^ 



^ Garta-prefacio ao romance de Luiz de Magalhães 
O Brasileiro Soares, 1886, pag. v-xni. 

21 



322 CAMILLO 

Um «inspirado, magnifico desdém pela natureza, 
pelos factos, pelo real e pelo exacto»?. . . E, com- 
tudo, o maior d'esses românticos era aquelle mesmo 
que, já em 62, pedia « que se fizessem romances 
como se pintam paysagens, de modo que o mere- 
cimento de taes escriptos assentasse na fidelidade 
da copia, tal que cada leitor visse nella um seu 
modo de sentir ou a reminiscência d'algum quadro 
mais ou menos análogo que alguma vez se lhe 
offereceu»!. . . 

Não. Se o grande artista dos Maias quizesse 
olhar, com olhos de vêr, para a sociedade portuense, 
tal qual ella era no tempo dos brasileiros de Ca- 
millo, teria de concordar em que nem essa vulgar 
encarnação do grotesco, nem tão pouco os apaixo 
nados românticos, eram «typos insipidamente fal- 
sos como generalização » . Não eram tal. Toda a 
gente recorda, ainda hoje, historias d'esse tempo, 
com seus amores infelizes, suas meninas reclusas, 
olhando o ceu através das grades dos mosteiros, 
6 o namorado, quasi sempre magro e pallido, 
sabendo Musset de cór e trazendo «um inferno 
dentro do peito» — segundo a phrase que o chro- 
nista da sensação nova decerto não poderia escrever 
sem se sorrir. Essa figura de namorado foi rareando 
e não haveria quem a descortinasse, nesta enorme 
confusão dos tempos d'hoje em que os poetas lyri- 
cos são vinhateiros e os homens de sciencia se 
fizeram sonhadores. O brasileiro é que ainda existe, 
sem a preponderância d'outros tempos, mas sempre 



CAMILLO 



323 



com a camada de grotesco que lhe deu afinal todo 
o interesse. 

Diz Eça que o romantismo carpia o brasileiro 
quando elle era apenas o triste emigrante e «e en- 
costado á borda da escuna Amélia^ erguia os olhos 
chorosos para a lua de Portugal», troçando-o sem 
piedade quando voltava com o dinheiro que, á 
custa de duros esforços, conquistara. Mas, por Deus !, 
é tão infantil o reparo que a maldosos olhos poderia 
parecer sem boa-fé. O emigrante, que ia com uma 
saca ao hombro, deixando a sua terra, deixando a 
familia, buscar a fortuna na obscuridade d'um des- 
tino incerto — era um humilde. Ignorante, alvar, 
abrutado — tanto importa ! — nunca fazia rir. Na 
sua terra era um filho de lavrador, moirejando de 
sol a sol na labuta áspera dos campos ; depois, a 
ambição arremessava-o desamparado, só, ao acaso 
do seu destino, para a riqueza ou para a morte. 
Mas, se resistiu ás inclemências do clima, e se luctou 
com tenacidade "e se venceu, ei-lo então que entra 
na sua aldeia entre repiques de sinos e musicas de 
festa, com seu corpo de lavrador mettido numa 
fatiota nova de mau gosto, as mãos callejadas dos 
misteres grosseiros arrombando a pellica côr de 
canário d'umas luvas, todo elle impando o grosso 
cadeado d'oiro com medalhão cravejado de bri- 
lhantes. Depois é commendador, mesario de todas 
as confrarias, bemfeitor da Santa Casa e influente 
politico de vulto; passa o inverno no Porto ou em 
Lisboa e tem assignatura no lyrico e relaciona-se 



324 CAMILLO 

com gente íiiia, viaja, toma uma mulher para mon- 
tra de jóias e cabide de velludos, come lombo de 
porco, bebe vinho verde, arrota abundantemente, 
soffre do fígado, e um bello dia estoira, quasi sem- 
pre antes de velho, porque a conquista de todas 
essas coisas magnificas lhe tem custado annos de 
vida. É, de tal modo, uma figura notada nas cida- 
des e um rei nos logarelhos, pertence á alta roda, 
lida com gente rica, frequenta os salões, — sem que 
comtudo, muitas vezes, em todo o seu tempo de 
Brasil houvesse tido o ensejo de adquirir essa edu- 
cação superior que não tinha quando os pães o 
mandaram, num porão de navio, em busca da for- 
tuna. E vulgarmente um inculto, um grosseiro, 
com toda a rudeza do trabalhador de enxada do 
seu Minho e do marçano do Brasil, socialmente 
arrogante d'uma importância arranjada á custa dos 
seus cobres, dizendo em salões plebeísmos torpes, 
escrevendo com erros, e sem essa mesma cultura 
toda artificial que nas relações de cada dia permitte 
a um imbecil fazer d'homem de espirito um quarto 
d'hora. D'ahi o grotesco. E grotesco esse que, mes- 
mo depois de Camillo, tem sido explorado, pelos 
próprios que seria injusto acoimar de seus imitado- 
res. Beleio agora um precioso trecho, escripto por 
um grande escriptor, que tem no lance uma viva 
opportunidade e mereço por isso ser transcripto, se 
não na integra, porque é bastante longo, pelo me- 
nos na sua parte de mais incisiva e originalíssima 
ironia. Diz elle assim : 



CAMILLO 32Õ 

«De facto, o pobre brasileiro, o rico tornavia- 
gem, é hoje para nós o grande fornecedor do nosso 
riso. Pois bem ! E uma injustiça que assim seja. E 
nós, os portugueses que cd ficamos, náo temos o 
direito de nos rirmos dos brasileiros que de lã vol- 
taram. — Por que, emfim, o que é o Brasileiro? E 
simplesmente a expansão do Português. Existe 
uma lei de retracção e dilatação para os corpos, 
sob a influencia da temperatura. (Apprende-se isto 
nos lyceus, quando vem o buço). Os corpos ao calor 
dilatam, ao frio encolhem. A mesma lei para as 
plantas, que ao sol alargam e florescem, ao frio 
acanham e estiolam. A bananeira, nos nossos climas, 
é uma pequena arvore timida, retrahida, estéril: 
no calor do Brasil é a grande arvore triumphante, 
de folhas palmares e reluzentes, tronco possante, 
seiva insolente, toda sonora de sábias e outros, es- 
candalosa de bananas. Mesma lei para os homens. 
O hespanhol das Astúrias, modesto, humano, dis- 
creto e grave — passando para o sol do Equador, 
nas Antilhas Hespanholas, torna-se o sul-americano 
vaidoso, ruidoso, ardente, palreiro e feroz. Pois 
bem! O Brasileiro é o Português — dilatado pelo 
calor. O que elles são, expansivamente — nós so- 
mo-lo, retrahidamente. As qualidades internadas 
em nós, estão nelles florescentes. Onde nós somos 
á sorrelfa ridiculitos, elles são á larga ridiciilões. 
Os nossos defeitos, aqui sob clima frio, estão retra- 
hidos, não apparecem, ficara por dentro : lá, sob um 
sol fecundante, abrem-se em grandes evidencias 



326 CAMILLO 

grotescas. Sob ceu do Brasil a bananeira abre em 
friicto e o português rebenta em brasileiro. Eis o 
formidável principio ! O Brasileiro é o Português 
desabrochado. É o sol de lá que nos fecunda. O 
Chiado sob os trópicos dá inteiramente a rua do 
Ouvidor. Eirmo-nos do brasileiro é rirmo-nos de 
nós sem piedade. Nós somos o gérmen, elles são o 
fructo: é como que se a espiga se risse da semente. 
Pelo contrario ! o brasileiro é bem mais respeitável, 
porque é completo, attingiu o seu pleno desenvol- 
vimento : nós permanecemos rudimentares. Elles 
estão já acabados como a ab^obora, nós embryona- 
rios como a pevide. O Português é pevide de Bra- 
sileiro. Que somos nós? Brasileiros que o clima não 
deixa desabrochar. Sementes a que falta o sol. Em 
cada um de nós, no nosso fundo, existe em gérmen 
um brasileiro entaipado, afogado — que para cres- 
cer, brotar em diamantes de peitilho, callos e pré- 
dios sarapintados de verde^ só necessita embarcar 
e ir. receber o sol dos trópicos. Cada lisboeta, sa- 
bei-o, traz em si a larva d'um brasileiro. Nós aqui 
vestimos cores escuras, lemos Benan, repetimos 
Paris, e no emtanto cá dentro, fatal e indestructi- 
vel, está aboborando — um brasileiro. Quem o não 
tem sentido agitar-se^ como o feto no seio da mãe? 
— Fita es ás vezes uma gravata verde com pintas 
escarlates? E o Brasileiro a remecher por dentro. 
— Desejaes inesperadamente uma boa feijoada co- 
mida em mangas de camisa ? E o Brasileiro. — 
Appetece-vos ir visitar a Memoria do Terreiro do 



CAMILLO 327 

Paço? E o Brasileiro, lá dentro. — Lembra-vos 
reler uma ode de Vidal ou uma fala de Melicio ? E 
o Brasileiro ! EUe está dentro de vós lisboetas! Àh 
sabei-o ! vós, estaes sempre no vosso estado interes- 
sante — d'um Brasileiro! E quereis uma prova? É 
o verão ! E o cruel verão ! Então, sob a tempera- 
tura germinadora, — o Brasileiro interior tende a 
florir, a desabrochar, a alastrar em cachos. Então 
começaes a deitar o chapéu para a nuca, a usar 
quinzena de alpaca, a passear depois do jantar com 
o palito na boca, a exigir dos vendedores a agua 
do Arsenal, a freqentar a Deusa dos Mares ! Sabeis 
o que é? É o Brasileiro, que lá tendes dentro na 
entranha, attrahido pelo sol, a querer romper ! Por- 
tanto quando nos rimos d'elle — intentamos a nós 
mesmo um processo amargo. No inverno a pevide 
contém a abóbora : mas, quando a abóbora cresce no 
verão, é ella que contém a pevide. Nós cá contemos 
o brasileiro ; elle lá, chegado ao Brasil, germina, 
brota em fructo, e nós ficamos-lhe dentro. Ora se 
esmagarmos a abóbora a grandes golpes de chacota, 
é sobre a nossa própria e rica pessoa que descarre- 
gamos o riso fero. Tenhamos juizo ! Reconheçamo- 
nos nelles como nós mesmos — ao sol ! » 

Pensarão decerto os senhores que esta satyra 
cheia de vivacidade, chispando espirito, d'uma 
graça fina e adorável, é obra d'algum d'esses ro- 
mânticos a quem o espirito de justiça do auctor 
da Relíquia não perdoa. Pensarão talvez que o ho- 



328 



CAMILLO 



mensinho, numa hora de bom humor, se serviu 
dos instrumentos habituaes de troçar os dl lá 
para jogar por tabeliã a sua maUciosa bisca aos 
de cá, tudo com aquelle facciosismo que contundia 
os delicados nervos do brilhante auctor do Manda- 
rim,.. Puro engano. Eça de Queiroz não podia 
dizer mal d'esse pedaço de prosa, porque ella nasceu 
do seu próprio engenho ! Vem num numero das 
Favpas e foi reproduzido depois na obra TJma 
campanha alegre (n vol. pag. 97-100), que reúne a 
collaboração do grande escriptor no pamphleto seu 
e de Ramalho. E, de tal modo, a sua Carta-prefacio 
do Brasileiro Soares, escripta quatorze annos mais 
tarde, é, não apenas um libello accusatorio, mas 
ainda um sentido e eloquente acto de contricção. 

Mas, na qualidade de regra, que lhe tem sido 
attribuida, pode esse modelo de brasileiro que fixei 
soíFrer as suas excepções ? Nada mais certo, e tanto 
que o próprio Camillo assim pensava, traçando al- 
gumas das suas figuras de torna-viagem nas Notei- 
las do Minho, cheias de acções nobres, de abnega- 
ção, de amor e de bondade. Mas a lenda a que deu 
curso a conhecida diatribe d 'uma princesa nympho- 
maniaca, fez dos brasileiros de Camillo apenas ty- 
pos toscos ; e Eça de Queiroz preferiu citar de ou- 
vido, sem ter o incommodo de solidamente fazer 
primeiro a prova. Se bem que elle falou de um 
modo vago de romantismo, sem sequer citar o no- 
me do romântico de S. Miguel de Seide. Mas ro- 
mânticos grandes que em novellas troçassem o bra- 



CAMTLLO 



329 



sileiro e que fizessem duettos d'amôr entre jovens 
pallidas e mancebos languidos, de melena ao vento, 
houve em Portugal apenas um. E nem o próprio 
Eça iria gastar tão prolixamente as gemmas do seu 
estylo numa longa referencia a meia dúzia de su- 
balternos obscuros. A não ser que o illustre ironista 
se lembrasse da carta de Jacaré-Paguá na ckarge 
de Garrett O Brasileiro em Lisboa ou do Spiridião 
Cassiano di Mello i Mátoss, do incompleto romance 
Helena do mesmo auctor, — o que ainda assim não 
excluiria da referencia o nome de Camillo. De resto, 
Eça de Queiroz não cuidou nunca de pôr á figura 
do seu grande antecessor na gloria litteraria a co- 
berto das ferroadas d'uma ironia discreta e contun- 
dente. Já nos Azulejos, do sr. Bernardo Pindella, 
hoje conde de Arnoso, outra referencia apparece 
sem rebuços : 

« Os discípulos do Idealismo, para não serem 
de todo esquecidos, agacham-se melancolicamente 
e, com lagrimas represas, besuntam-se também de 
lodo! Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de 
linho puro, que tão indignadamente nos arguiram 
de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante 
pé enlabusar-se com a nossa lama ! Depois, erguen- 
do bem alto as capas dos seus livros, onde escre- 
veram em grossas letras este lettreiro — romance 
realista, — parece dizerem ao Publico, com um sor- 
riso triste na face mascarrada : — Olhem também 
para nós, leiam-nos também a nós. . . Acreditem que 



íi30 CAMILLO 

também somos muitissimo grosseiros, e que também 
somos inuitissimos stijosf» ^ 

D 'esta vez, o próprio Camillo acudiu á chamada, 
tão clara era a referencia, e, no final de um artigo 
ácêrca do pae do romancista da Eellquia^ depois de 
citar as palavras impressas no livro do sr. Pindella, 
respondeu assim : 

« Ora aquillo é comigo. O sr. Eça de Queiroz 
desembestou aquelia frecha apontada ao meu peito 
innocente ; mas alvejou com o seu olho mais myope, 
ou sacrificou a verdade a umas pittorescas phrases 
azedas e já bastante puídas que não valiam a pena 
do holocausto. Em primeiro logar, eu nunca censu- 
rei a pouca limpeza dos livros do sr. Eça; e, sempre 
que de passagem os indiquei, foi para os elogiar 
incondicionalmente, porque para mim livros sujos 
são somente os mal escriptos. Em segundo logar, 
nenhuma novella minha se inculca na capa romance 
realista. Alguém arguiu, com razão, um meu editor, 
que nos annuncios da 4.^ pagina dos jornaes espe- 
cializava a factura realista da novella. D'ahi proce- 
deu talvez o equivoco importuno e flagellador do 
sr. Eça de Queiroz. Se s. ex.^ me julgasse menos 
irracional do que o seu modo de lêr os frontispícios 
dos meus livros sem os vêr (eu é que vejo tudo 



1 Carta-prefacio aos Azulejos, do sr. Bernardo Pinhei- 
ro, Pindella. 1886, p. xx-xxi. 



CAMILLO 331 

quanto o insigne romancista imprime) duvidaria 
que eu fosse capaz d'essa parvoiçada para chamar 
aos meus romances a attenção dos leitores de s. ex.^. 
Credo! Pois eu precisaria, para ser visto, de me 
nivelar com a espádua litteraria do sr. Eça? Mas, 
se o fizesse, era essa a maneira de me tornar inci- 
siveJ, como diz a sentença de não sei que grande 
sábio . . . Talvez seja do grande sr. Eça de Queiroz 
a sabia sentença. ' » 

Camillo começava a ser irónico no fim d'esses 
períodos e é, com esforço, apparentemente calmo 
em todo o artigo. Era preciso que elle tivesse por 
Eça uma consideração enorme para não responder 
com a brutalidade de um ataque violento — elle, 
que não perdoava nunca. Não sei mesmo se Eça o 
comprehendeu mais tarde quando, arrefecidos os 
ardores de combatente, desfeitos facciosismos de 
escola, recordando os tempos moços, decerto pe- 
sou, com magua, os desatinos da juventude, numa 
hora calma de justiça. 



^ Camillo : José Maria d' Almeida Teixeira de Queiroz. 
No Ohião ás Creanças. 1887, pag. 142. 



III 



Português antes de tudo, encarando as coisas e 
os acontecimentos com o modo de vêr da sua raça, 
Camillo não pôz nem seria capaz de pôr todas as suas 
eminentes qualidades ao serviço d'uma causa ou 
d'uma doutrina ; nos seus romances não lia aquillo 
a que hoje se convencionou chamar — a these, mas 
sempre, na boca do auctor ou dos seus personagens, 
os considerandos d'uma philosophia um poucochi- 
nho burguesa, brilhando de onde a onde pela novi- 
dade do paradoxo e conduzindo as mais das vezes 
a conclusões moraes de pouco arrojo. Mas essa 
mesma moralidade varia de livro para livro, é de 
cynismo ou de crença, de bondade ou de sarcasmo, 
á mercê da instabilidade do caracter do artista. Ha 
novellas de Camillo em que rara é a scena inven- 
tada : uma das suas características litterarias é, 
como já disse^ a inconfidência. E eis porque, em 
grande parte dos livros seus, nos apparecem, mais 



334 CAMILLO 

OU menos velados, episódios da sua própria vida. 
Toda a gente sabe, por elemplo, que nos Annos de 
prosa e no Ultimo acto figura Anna Plácido, que o 
Amor de perdição e a Mulher fatal são verdadeiros 
ou, pelo menos, assentam num fundo de verdade, 
e que o episodio macabro da Maria do Adro arran- 
cada do tdmulo pelo romancista apaixonado, deu 
assumpto para um trecho do livro Scenas contem- 
porâneas e figura episodicamente em alguns outros. 
Nos seus últimos annos, era com prazer que recor- 
dava o passado, a sua mocidade, os seus amores, 
toda a historia vivida de uma existência tumultuosa. 
E assim, no General Carlos Eibeiro, na Maria da 
Fonte, nos Serões de S. Miguel de Sei de, na Bohemia 
do espirito, nos derradeiros versos, apparecem a cada 
passo reminiscências d'um passado distante; e o 
romancista, escrevendo os seus últimos livros sob a 
inspiração melancólica da saudade, lembra-nos Rous- 
seau interrompendo a sua ultima obra incompleta, 
as Réveries, quando, retrocedendo o seu espirito á 
mais viva e mais cara recordação da sua juventude, 
de novo contava o seu primeiro encontro, tão poé- 
tico e tão fresco, com M me de Warens. ^ 

Mas, ainda mesmo nos casos em que o auctor não 
entra na própria acção da novella, nunca elle cede 
o seu logar.de espectador que commenta, elucida e 



^ RÉGIS ; La phase de presenilité che:: J. J. Rousseau. 
Log. cit. 



CAMILLO 3B5 

observa; e essa posição, que dá um certo pittoresco 
ás suas narrativas, favorece a opportuniclade das 
largas divagações do psycologo. Toda a acuidade 
do seu espirito de analysta apparece então nitida- 
mente. Esses mesmos que lhe recusam os dotes de 
observação noologica, não o fazem senão porque o 
seu processo de analyse os desorienta. As grandes 
crises dos romances de Camillo nunca se limitam a 
violentos estados d'alma, exteriorizam-se sempre, 
concretizando -se, materializando-se em factos. De 
modo que, como é natural d'essa maneira, o roman- 
cista faz o estudo dos seus personagens de fora 
para dentro: observa-lhes os actos e investiga de- 
pois as razões intimas que os determinaram a agir 
de forma tal. E, por esse processo, chega á reali- 
zação de typos admiráveis. Apenas, em certa altura, 
uma vez por outra, o sarcasta intervém, surprehende 
a figura era meio, com uma gargalhada, arremessa- 
Ihe o escopro em meia dúzia de traços diabólicos e 
faz d'aquino uma caricatura. Taes os personagens 
do Morgado de Fafe^ tal o t^^po, aliás admirável, de 
Calisto Eloy de Barbuda da Queda d'um anjo, ou, 
nos Annos de prosa, o de José Francisco Andraens. 
E pois que falei do seu sarcasmo, e pois que 
consequentemente ia falar da sua graça, opportuno 
será referir-me ao aspecto, se não o mais brilhante, 
se não o mais valioso, pelo menos o mais inimitá- 
vel e inconfundivel do seu alto espirito. E o traba- 
lho de humorismo adstricto ás suas obras de critico 
e de polemista, que constitue o mais admirável 



336 CAMILLO 

documento de génio em obras-primas de irreverên- 
cia grosseira e rude crueldade. 

Em Camillo existia a negação completa de todas 
as qualidades que para o critico em geral se pre- 
ceituam. Faltava-lhe a visão serena das coisas e dos 
homens e o poder de serenamente julgar; via tudo 
através das sympathias ou dos ódios que favores 
ou oífensas enxertavam na sua natural bondade — 
tamanha quanto o pôde ser a bondade num nevro- 
patha da sua força — e via a mesma coisa contra- 
clictoriamente, segundo a variabilidade habitual do 
seu espirito. 

«Uma tarde, em S. Miguel de Seide, — escreve 
o sr. Silva Pinto — sahiramos a passeiar pela aldeia : 
Camillo Castello Branco e eu. Num caminho de 
atalho, um velho, sentado a umia porta, ergueu-se 
respeitosamente e cortejou : — Tenham vossas se- 
nhorias imãto boa tarde! Correspondemos, e Camillo, 
interrompendo a palestra, informou-me : ■— ^ um 
homem venerável este ancião. Tem sido uma esponja 
de aynarguras. A filha deu em mtãher perdida, o 
filho em ladrão, e a mulher morreíi-lhe de dor. . . 
Mas, concluiu com movimento brusco, Deíis Id 
sabe o que faz. Um quarto d'hora depois, passáva- 
mos novamente pelo velho. Este ergueu-se outra 
vez. Tirei o chapéu ; e Camillo, attentando no caso, 
perguntou-me: — Qtiem foi que V. cortejou? — Foi o 
velho de ainda agora. — Qual velho? — Aquelle des- 
graçado de quem V. Ex.a me contou a, historia. O 



CAMILLO 337 

pae do ladrão e da. . . — Ah! .sim: um horracliãof, 
cortou elle, encolhendo os liombros.» ^ 

«A deliberação da ida para Lisboa — assevera 
Camillo numa das cartas a Vieira de Castro — só 
poderá desfazê-la a gravidade da doença. Eu vivi 
sempre mal ahi. . .» ^ E em cartas a Silva Pinto: 
« Grita-se contra Lisboa ; eu quando ahi vou pare- 
ce-me que bebo saúde nessa atmosphera, tão boa 
que transforma esse oxygenio a gazes do Arro- 
bas Estive no Porto com a familia uns dias. 

Vim doente, como se sahisse d'uma cloaca. O Porto 
tem m. . . por dentro e por fora. Lisboa é só por 

dentro Invejo-lhe a vida de Lisboa. Tenho 

muitas saudades d'isso tudo e sei que não torno a 
ver a minha querida Lisboa. » ^ E em cartas colli- 
gidas na Illustração Moderna, do Porto, sem des- 
ignação de destinatário: « O Porto seria uma sentina 
fétida a toda a Europa, se a notoriedade do Porto, 
com as suas bandeirolas coçadas e a sua limonada 

de cavallinhos, passasse além de Campanhã 

Eu abomino essa Praça de D. Pedro, esses Clérigos, 
toda essa algazarra a fingir terra civilizada com 
ares de New-York. Acho tudo melhor que o Porto, 
desde a O velhinha até Barcellos.» E, numa carta 
ao auctor do Romance do romancista: «O Alberto- 



^ Silva Pinto: Cartas de Lisboa, na Voz. Publica de 20 
€ ^21 de junho "de 1902. 

2 Correspondência epistolar, t. n. p. 50. 
» Ob. cít:,p; 11ÕU02 e 106. 

22 



í3b8 CAMILLO 

Pimentel lambem foge do Porto? Essa terra é in- 
salubre paia lodos os qr,e lespiíam pela alma; e 
eu, a dizer a verdade, em nenhuma outra me dou 
tão bem, quer do corpo quer do espirito. » * 

Comprehende-se que uma volubilidade de opi- 
niões de tal feitio não pôde ser qualidade que atteste 
a excellencia d'um critério. Não: Camillo nunca 
poderia ser um critico: nunca o foi. E elle mesma 
o reconhece, embora por outra espécie de motivos^ 
quando escreve nos seus Esboços de ap}'eciações lit- 
terarias, em 1803 : «Dei-me pouco a este género do 
escriptos, temeroso das dificuldades. Poderia, por- 
ventura, vencer algumas das vencíveis a todo o 
escriptor applicado; mas a minha safara era outra^ 
e o tempo escasso para me sahir acceitavelmente 
d'ambas. A critica em Portugal é quasi impraticá- 
vel por duas causas: a primeira é que somos poucos- 
a escrever, e nos apertamos cordialmente a mão. 
todos os dias : a segunda é que, por este theor de 
vida, nenhum escriptor se faria um nome que o 
compensasse dos dissabores e da pouquidade dos 
lucros.» 

Camillo nunca desprezava uma aggressáo — par- 
tisse ella d'onde partisse. Elle próprio o confessor 
a Silva Pinto: 

« Sempre que um dos novos me aggride, ha quer» 
me aconselhe a não fazer caso. Foi assim quando V. 



* Alberto Pimentel : O remai ce do romancista, p ..27T 



CAMILLO 3B9 

me provocou. O Teixeira de Vasconcellos escreveu- 
me de Lisboa : Não responda. Este sujeito não 
guarda o decoro. E eu respondi ao Teixeira : Nem 
eu. Quem melhor as tiver, melhor as joga! E claro 
que os meus quarenta annos de serviços, ou quantos 
sâo, concedem-me o direito de silencio quando um 
rapaz faz negaças com muito phrenesi á minha 
innocente pachorra. Mas que quer o meu amigo? 
Eu vi o pobre Castilho e o pobre Herculano sahi- 
rem d 'esta vida com muitas nódoas negras no corpo. 
Não surgiu luctador novo que não fosse ali ensaiar- 
se, applicando dois pontapés áquelles dois velhos. O 
Herculano creio eu que á forca de orgulho chegasse 
a persuadir-se de que os não levara: mas o pobre 
Castilho sentia-os bem, e tanto, que logo, pelo tele- 
grapho e pelo correio, me avisava do sacrilégio — • 
para que eu o desaggravasse. Acudi pelo nome 
d'aquelle sublime ingénuo duas vezes, que me lem- 
bre : na questão coimbrã e na do Fausto. Mas pela 
minha parte resolvi não me deixar contundir sem 
usar de represahas. Os rapazes dão-me; mas eu 
reajo, como se vê. . .» ^ 

Os criticos do Cancioneiro^ a Questão da sebenta 
e a polemica com Alexandre da Conceição, a pro- 
pósito da Corja, são documentos admiráveis de 
aggressão, em que o humorismo se aUiava á violen- 



1 Q 



Silva Pinto : Cartas de Lisboa, Log. cit. 



340 CAMILLO 

cia, garantindo para o lado do romancista, ao pri- 
meiro assalto, a absoluta certeza da victoria. O 
adversário podia argumentar com erudição ou re- 
correr ao mais despejado vocabulário do insulto. 
Oamillo pegava nas suas pbrases uma a uma, ex- 
punha-as numa gargalhada que fazia rir também 
os que o liam, punha em cada argumento conside- 
rável do adversário o barbicacho do sarcasmo e 
depois fazia-o pular, em divertidas cabriolas, á custa 
dos beliscões, com que, num cynismo cruel, o tor- 
turava. De tal modo, a dois passos do» começo, 
já se via o adversário apopletico, debatendo-se, 
vomitando injurias, descomposto, desconcertado, 
perdido, <? Camillo gozando o prazer de o aniquilar 
de todo, de o arrazar, de lhe fazer pagar bem cara 
a audácia de profanar, mesmo ao de leve, a intan- 
gibilidade do seu nome e da sua obra. Era bem o 
representante litterario d'essa geração de Botelhos, 
violentos, provocadores, desordeiros, que espalhara 
o terror em Villa Real; era bem o sobrinho de Si- 
mão António, derribando, de penna em punho, re- 
putações litterarias, como outrora seu tio, com um 
fueiro, punha em cacos os cântaros do chafariz. 

Essa polemica da Corja é modelar e define bem 
em absoluto a sua maneira de combate. No primeiro 
artigo de resposta, Alexandre da Conceição escrevia; 

«Uma ultima observação. O sr. Camillo Castello 
Branco, pelos excessos da sua bilis palavrosa, adqui- 
riu neste paiz a reputação lendária de um polemista 



CAMILLO 341 

temeroso e intractavel. Nós queremos prevenir o sr. 
Camillo cie que emancipámos ha muito o nosso es- 
pirito do terror sagrado de todas as lendas e do 
temor pueril dos grandes homens, depois que nos 
resolvemos a tocar-lhes com um dedo e reconhece- 
mos que estavam cheios de palha, como os espan- 
talhos. Em homenagem por isso ao glorioso nome 
do romancista e á seriedade da imprensa, procura- 
mos manter esta resposta nos limites que nos são 
impostos pelos preceitos mais communs da decência 
e da urbanidade. Se porém os assomos olympicos da 
vaidade irritada do sr. Camillo o levarem a repli- 
car-nos em tom e por forma que exceda as raias da 
boa educação, nós não teremos duvida em o seguir 
a esse terreno e em converter esta inoíFensiva pole- 
mica no mais divertido e decotado escândalo que 
tem entretido ha muito a ociosidade indígena. Como 
temos sobre s. ex.^, apesar de velhos, a vantagem 
de menos vinte annos seguros, afiançam os-lhe que 
havemos de ser o ultimo a falar, porque d'aqui a 
vinte annos, escrevendo todos os dias, ainda tere- 
mos muito que lhe dizer. Neste ponto, a nossa ima- 
ginação é d'uma fecundidade illimitada e o nosso 
pulchro arminho d'uma pureza relativamente exce- 
pcional. Agora... Tírez le premier, Monsieur l'An- 
glais.» ^ 



1 Bibliographia portuguesa e estrangeira, terceiro anno, 
1881, n.° 1, p. 6 e 7. (Transcripto do Século). 



342 



CA MIL LO 



Nunca combatente algum entrou em campo copi 
mais denodada decisão, e a muitos pareceu nesse 
momento que Camillo ia ter emíim o contendor 
digno d'elle. Pois bem : escriptos mais três artigos 
contra outras tantas respostas de Camillo, obras- 
primas de ironia insolente, o adversário que com 
tão altisonantes propósitos entrara, bate em retirada 
sôm serenidade, sem argumentos, nem ironia, nem 
mesmo insultos que o salvem. 

«Esta questão está terminada — escreve elle 
então. — Não é possível discutir com um insensato 
num tal estado de allucinação. Quebramos aqui o 
protesto de continuar indefinidamente esta pole- 
mica. Contávamos com todas as torpêsas ; com o 
que não contávamos, porém, foi com a tolerância 
do nosso estômago para supportar a presença do 
torpe. Vencem-nos o nojo da sua baixêsa e não o 
receio do seu valor.» ^ 



É claro que isso teve resposta e, como ainda 
depois, numa carta publicada, Conceição se lhe 
referisse ligeiramente, Camillo, ao ver que o adver- 



^ Bihliographia portuguesa e estrangeira, 1.*^ anno, n.o 5, 
p. 81. 



CAMILLO 343 

sario derrotado ainda bulia, aniqiiillou-o de vez num 
ultimo artigo. 

Nessas polemicas violentas, o grande escriptor 
sentia-se sempre á-vontade. Tinha ao seu dispor os 
elementos d'uma erudição que mais d'uma vez lhe 
proporcionava sahidas livradoras nos lances de maior 
perigo, tinha a verve soberba, extraordinária, mara- 
vilhando pela naturalidade, pela vehemencia e pelo 
imprevisto, tinha um estylo dúctil, elástico, soberbo 
que a cada passo desabrochava em formas novas, de 
uma mais vigorosa expressão e d' um mais brilhante 
colorido. EUe só se indignava, por dentro ; por fora, 
á vista do publico, era a personificação da sereni- 
dade, confiada e omnipotente, que pára, sorrindo, os 
golpes mais certeiros e responde com a impiedade 
cynica d'um executor. 

O sr. dr. Manuel Maria Rodrigues, hoje lente da 
Universidade e, apesar de tudo, esse mesmo Ale- 
xandre da Conceição, foram os adversários de mais 
valor que terçaram armas com o grande polemista. 
Eile próprio o reconheceu quando, feitas as tréguas, 
serenamente o seu espirito pôde avaliar os factos e os 
homens. Mas afinal o ódio caia com a ultima pala- 
vra dos seus artigos de combate. Atacou o sr. Theo- 
philo Braga com extrema violência e quando este 
escriptor perdeu dois filhos e João de Deus orga- 
nizou um álbum de homenagem, Camillo deu-lhe o 
«oneto A maior dor huynana^ que ó a sua melhor 
obra rimada. E, na morte de Alexandre da Concei- 
-cão, escreveu versos assim : 



344 CAMÍLLO 



Bem me lembra que o vi, na juventude, 
Rosado pela aurora d'essa edade. 
Eram prismas d'amôr e d'amizade 
Os carmes do seu mystico alahude. 

Sendo fatal que degenere e mude 
A crença e o affecto e o bem da mocidade, 
Sangram-lhe o peito espinhos de vaidade 
Nos arranques da briga azeda e rude. 

Mais tarde o encontrei. Já era o homem 
Ralado por desgostos que consomem, 
E põem na face um gesto acre e severo.. 

Se o seu bondoso riso era apagado, 
Restava-lhe este honroso predicado: 
Pregando o Socialismo, era sincero. 



IV 



Fazendo historia, Camillo foi um investigador 
honesto, erudito e intelligente, com a faculdade 
notável de dar ás narrativas todo o relevo da sua 
prosa d'arte. Não tinha talvez a sciencia das gran- 
des generalizações, mas sabia como poucos acingir- 
se á verdade, averiguando os factos com um minu- 
cioso e paciente critério que bastava a garantir-nos 
a sua probidade. Corrigiu velhos erros consagrados, 
aclarou duvidas antigas e disse-nos trechos de his- 
toria aos quaes a sua prosa suggestiva deu um so- 
berbo poder de evocação. Tal, por exemplo, no 
livro sobre o Marquês de Pombal, a scena da morte 
dos Tavoras no supplicio. 

Dos seus escriptos de theatro, salientarei as 
comedias, algumas das quaes ainda hoje se ouvem 
com agrado. Os dramas, que fizeram época, corres- 
ponderam ao seu tempo, e passaram com elle, na 
vida ephemera das obras a que o génio não marca 



346 CAMILLO 

uma grandêsa imperecível. Camillo não foi um 
grande dramaturgo, como também não foi um gran- 
de poeta ; dir-se-ia que as regras do palco e das 
rimas comprimiam, suffocavam a inspiração do 
artista, como um circulo de ferro dentro do qual 
o seu engenho se não sentia bem. 

Os seus versos. . . O próprio Camillo se definiu 
como poeta no seu implacável Cancioneiro alegre: 
« No cérebro d'este sujeito, — diz elle num artigo 
que tem por titulo o seu próprio nome — nunca 
phosplioreou pyrilampo de poesia bem medida. 
Não perpetrou grandes delictos de romantismo im- 
presso, porque foi de uma roda de homens práti- 
cos, scepticos, desconhecidos da lua, mais amigos 
do theatro que das florestas rumorosas e mais dados 
ao ponche queimado do que ao remugir das vagas 
e ás brisas fagueiras do mar, do qual principal- 
mente apreciavam as ostras na Águia d 'Ouro. Foi 
muito parco em trovas aos objectos dos seus ais. 
Poesia parturejada com dôr e não contada syllabi- 
camente pelos dedos fez uma só e foi a ultima. Nas 
outras inflammava-se a frio. Qaando tinha saúde e 
dinheiro, regrava elegias, debulha va-se em lagrimas 
de consoantes. Se ás catarrhaes se ajuntavam as 
angustias da fallencia, entrouxava-se nos cobertores 
e vingava-se da therapeutica e dos capitalistas, ilu- 
minando o lápis d'onde rutilavam coriscos de cha- 
laças salobras. De certo tempo em deante começou 
■a dizer que morria e mandava adeante d 'elle um 
volume de versos á voragem do esquecimento. Isso 



CAMTLLO 347 

nelle era presumpção ; porque aos funeraes do seu 
EU de poeta já elle tinha assistido em pessoa e de 
saúde perfeita. Quando estava sinceramente velho, 
acabou por onde começara. » 

E já antes tinha escripto, na prosa que vem a 
acompanhar o seu livro de rimas Ao anoitecer da 
vida : « Os meus versos estão dizendo que eu nunca 
estudei os rythmos variados e elegantíssimos da 
poesia moderna. A minha sede de ideal e de infi- 
nito não se apagava com a sciencia das graças ca- 
denciosas, em que funda a sublimidade do poema. 
Achava eu mais consolação em poetar pelas velhas 
artes, e consoante o arpejar chão e monótono dos 
'mestres, que eu tinha acceitado, ao sahir da pro- 
víncia, sem saber que havia outros melhores. Quan- 
do, mais tarde, dei tento do atrazo e anachronismo 
das minhas oitavas rimas, e superabundância de 
liendecassylabos, era fora de tempo o reformar-me. 
Continuei a versejar sem arte e a pensar que o 
muito do coração suppria bem o desatavio^ ou o 
demasiado alinho da forma. Se alguma vez me 
desci da minha pertinaz ignorância, tentando mo- 
delar os meus versos pela accentuação métrica e 
rythmica dos melhores poetas contemporâneos, sa- 
liia-me o dizer tão amaneirado e contrafeito, que 
acabava comigo em persuadir-me que não havia 
corrigir o rachitismo da mocidade. . . Assim pois, 
de boa mente e má vontade me apartei da escola 
do meu tempo, e, por bem não saber qual havia de 
seguir, fiquei fora de todas. » 



348 CAMILLO 

Mas, ou porque as tentativas rimadas coincidis- 
sem com os periodos de maior abatimento moral, 
ou porque ao senso-critico do grande escriptor não 
escapasse a noção nitida da sua inferioridade, o 
certo é que em alguns dos seus livros de versos 
vem, em subtitulo, a promessa infantil de não tornar 
a fazer outra. Em 1874, sob o titulo do livro Ao 
anoitecer da mda, lê se a designação — últimos ver- 
sos. Em 1888, as Nostalgias apresentam-se como a 
sua ultima prosa rimada. 

E de justiça comtudo mencionar que a melhor 
parte da obra poética de Camillo se contêm no seu 
ultimo livro — Nas trevas. O paroxysmo da des- 
graça fazia o milagre de entremostrar -nos o génio 
do grande escriptor num género litterario que tão 
avesso á aptidão d'elie se demonstrara no decorrer 
da sua vida inteira. 



E analysada succintamente, em todos os seus 
aspectos, essa obra grande, soberba e inconfundível, 
é tempo de dizer como a pátria, que esse homem 
extraordinário tanto honrou, soube corresponder ao 
esforço monumental do seu trabalho. 

Em 188Õ, foi Camillo Castello Branco agraciado 
pelo rei D. Luiz com o titulo de visconde de Cor- 
reia Botelho e, por deliberação das cortes, dispen- 
sado do pagamento de emolumentos, direitos e 



CAMILLO 



319 



sello de que se constituía devedor, acceitando essa 
mercê. 

Em 1889, como «reconhecimento publico dos 
relevantíssimos serviços prestados ás letras pátrias 
pelo visconde de Correia Botelho» foi, com o voto 
das camarás, concedida a seu filho Jorge Camillo 
Castello Branco a pensão annual e vitalicia de um 
conto de réis. 

Em 1907, o parlamento approvou uma pensão 
annual de 400|0(X) réis, em favor dos netos de Ca- 
millo, finos de Nuno Castello Branco, qne luctavam 
com falta de recursos para a sua subsistência e edu- 
cação. 

Por mais d'uma vez, grupos de homens de letras, 
grandes commissões com representação de todas as 
classes, e associações litterarias, têm procurado in- 
teressar o publico e o Estado na ideia de se levan- 
tar um monumento em honra do grande escriptor. 
E comtudo ainda hoje, por vergonha nossa, Camillo, 
como Herculano, não tem uma estatua em Portugal. 

Eu não quero neste momento investigar qual o 
verdadeiro motivo do insuccesso de tão insistentes 
tentativas, nem procurar as vergonhosas razões 
occultas que fizeram com que não merecesse sequer 
a' sancção camarária, no município portuense, o pa- 
dido que ha annos fez a Associação dos Jornalistas 
•d''aqueUa cidade para que o nome do glorioso es- 
criptor fosse dado a uma rua. Mas seria absurdo 
contestar a existência d'uma má-vontade que vem 
de longe e que nem- a morte de Camillo, nem o 



3Õ0 CAMILLO 

tempo decorrido depois d'ella., conseguiram ainda 
apagar inteiramente. Ódios semeados pelas suas 
palavras d'azedume, ódio ainda d'uma sociedade a 
que elle arrancou os seus melhores grotescos, o ódio 
das vaidadesinhas feridas e do amor próprio que o 
ridiculo fulmina, — tudo isso veio deitar raizes de 
calumnia, intrigar na sombra, difamar, servindo-se 
da arma covarde do desprezo, esquecendo-se do res- 
peito que primeiro se deveu ao nome do maior ar- 
tista da nossa terra, e depois ainda se deve em ho- 
menagem á sua memoria altissima. 

Camillo morreu, e morreu d'uma maneira trági- 
ca. Era um homem cego que se matava, era o fim 
cruel de um desgraçado. Pois quando o cadáver 
d'esse homem chegou ao Porto, havia na gare ape- 
nas um cento de pessoas que o esperavam, e, entre 
essas, nem um único escriptor, nem um único ar- 
tista! Estavam reporters por dever de officio, o 
cónego Alves Mendes, o padre Sebastião e Freitas 
Fortuna por amizade, estava o editor Costa San- 
tos e mais um pequeno grupo anonymo que a 
admiração humilde ou a curiosidade banal levou 
ali. «O cortejo era composto apenas de 18 trens e 
atravessou a cidade no meio da indifferença geral 
e quasi despercebido», diz o telegramma do Porto 
para um jornal da época. ^ Mas, aqui e além, o 
mercante saltava o balcão e vinha ás portas — rir. 



^ Correio da Manhã, de 4-6-90. 



CAMILLO 351 

O Porto rancoroso, incivil, materialão e ignorante 
— vinga va-se. E vingava-se cuspindo o fel do seu 
ódio sobre a face de um morto. Ia ali, emmudecido 
para todo o sempre, o sarcasta que escreveu a Filha 
e a Neta do Arcediago, os Bi^lhantes do Brasileiro, 
toda essa galeria em que os seus grotescos vivem 
e a sua sociedade egoista,- plebêa, utilitária, sem 
intelligencia e sem nobreza, anima os bellos qua- 
dros que a fixam, com o poder gravativo d 'um 
artista de génio, na parte mais deprimente e cari- 
catural dos seus aspectos. Ia ali Camillo, esse en- 
demoninhado que, pilhando-os bem ridículos, com 
as suas sobrecasacas do domingo e os seus cartolões 
velhos, lhes agarrava pelas suissas e os fazia ca- 
briolar no ar, como fantoches: e toda a rua de S.. 
Joào vomitava injurias sobre o corpo morto que 
aquelle féretro continha, que lhe fizera andar á roda 
a cabeça das mulheres nos seus tempos gloriosos 
de velho leão das salas, que lhe corrompera as fi- 
lhas cora as paixões romanescas dos seus livros. 
E, atrás do cadáver d'esse homem de génio que 
fez na sua terra, durante quarenta annos de inde- 
fesso trabalho, quasi toda a litteratura d'uma época,. 
d'esse supremo artista, dos maiores da sua pátria^, 
o maior decerto do seu tempo, — nem ao menos um 
único escriptor, nem sequer um único artista : um 
editor, os amigos, reporters dos jornaes e curiosos..^ 

Maio e Junho de 1908. 



CAMILLO 



353 






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23 



NOTA 7? 



o «Amor de Perdição! 



O que ha, afinal, de verdade na historia da 
familia de Camillo, tal como vem contada no mais 
celebre e mais vulgarizado dos seus livros? Não 
tenho elementos que me permittam responder com 
segurança. Estou porém em crer que o auctor doirou 
ali, com o brilho romântico da sua phantasia, os 
episódios fundamentaes alicerçados num irrecusável 
fundo de verdade; e que, mais de uma vez, deslo- 
cou do seu logar chronologico distante factos com 
que guarneceu, artisticamente valorizando-a, a tra- 
ma essencial do seu romance. Não me detenho a 
citar as inexactidões em tudo quanto diz respeita 
aos antepassados do protagonista da sentimental 
novella. O leitor, se conhece o livro e se leu este 
trabalho, já está sufficientemente habilitado para 
ajuizar d'essas contradicções. Quanto a Simão Bo- 
telho é que alguma coisa ainda ha que dizer. 

«Folheando os livros de antigos assentamentos^ 
no cartório das cadeias da relação do Porto — es- 
creve Camillo na Introducção do seu romance — li, 



CAMILLO 355 



no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a 
folhas 232, o seguinte: 

«Simão António Botelho^ que assim disse chamar- 
se, ser solteiro^ e estudante na Universidade de Coim- 
bra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na 
occasião da sua prisão na cidade de Vizeu, edade de 
Í8 annos, filho de Domingos José Corrêa Botelho e 
de D. Rita Preciosa Caldeirão Castello Branco; es- 
tatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, ca- 
bello e barba preta, vestido com jaqueta de baetão 
azul, collête de fustão pintado e calca de panno pe- 
drez. E fiz este assento, que assignei. — Filippe Mo- 
reira Dias. 

«A' margem esquerda d 'este assento está escripto: 
«Foi para a índia em 17 de Março de 1807». 

Esse é o documento oííicial que figura no Amor 
de perdição. O resto é a historia que me abstenho 
neste momento de contar detidamente: o amor de 
Simão por Thereza, a opposição das familias, a 
reclusão de Thereza num convento, as pretensões 
do primo Balthazar, o assassínio d'este por Simão, 
o auxilio do ferrador João da Cruz, a abnegação 
apaixonada de Marianna, a morte de Thereza no 
mirante de Monchique, a morte de Simão a bordo 
da nau que o conduzia, a morte de Marianna nos 
braços do cadáver do homicida arrojado ao mar 
no caminho da índia. 

A versão do caso, escudada em documentos, e 
a que me referi com detença nas paginas 28 a 30 
e 33 d'este trabalho, diz apenas que Simão Botelho 
foi criminado pelo estrupiamento que praticou com 
um tiro de clavina na pessoa do criado de um indi- 
viduo de Vizeu, de parceria com um homem de 
péssima reputação, de nome José Jeronymo de Lou- 
reiro e Seixas. O criado ferido chamava-se Francisco 



356 CAMILLO 



José Ferreira e o patrão José Cardoso Cerqueira. 
Sabe-se também que Simão era useiro em acompa- 
nhar com um ladrão publico e caçador, de nome 
José E/odrigues Quintas, do logar de Tl-avanca. 

O sr. Pedro d'Azevedo, auctor do interessan- 
tissimo trabalho sobre os Antepassados de Camillo, 
não viu o processo de Simão, que suppõe estar 
feito em pasta no archivo da Relação do Porto. 
Eu também hão o vi. E, nessas condições, tenho 
forçosamente, nesta altura, de quedar-me no terreno 
movediço das h^-potheses incomprovadas. 

E' possível que, exceptuando a scena do assas- 
sinato do morgado de Castro Daire, o resto que 
constitue o enredo do romance seja essencialmente 
verdadeiro : que Simão amasse realmente uma me- 
nina, que poderia ser filha d'esse Cardoso Cerqueira; 
que, por amor d'ella, se visse na situação do en- 
contro com os criados, narrado no romance ; que 
fosse um dos seus companheiros o outro accusado 
do processo, e que ou esse ou o tal Quintas da Tra- 
vanca fosse o que Camillo designa pelo nome de 
João da Cruz. E' possível que tudo isso seja assim 
e que Camillo modificasse a acção, attendendo a 
que, fora de duvida, é muito mais romanesco assas- 
sinar um rival que estrupiar um criado, e morrer 
d'amôr pela filha de um fidalgo que pelo rebento 
d'um tal Cerqueira que ninguém sabe quem é. 

Mas isto tudo são hjpotheses, meras hypotheses, 
talvez inconsistentes e que, em todo o caso, eu não 
saberia comprovar. O que eu quero deixar accen- 
tuado é que, dada embora provadamente como 
falsa a versão que o romancista attribue ao crime 
de Simão, nem por isso nos é licito concluir pela 
falsidade da maioria dos episódios do romance. 

lieferindo-se a Thereza, seu pae, seu primo, o 
ferrador João da Cruz e a filha d'este, figuras que lhe 



CAMILLO 



3Õ7 



parecem ter sido creadas pela fantasia de Camillo, 
o sr. Pedro d'Azevedo escreve que «não seria toda- 
via muito improvável que o amor de Simão tivesse 
sido consagrado a uma rapariga pobre e de tão 
baixa condição, que ao juiz de fora sobreviesse 
repugnância em a admittir por nora, a qual todavia, 
praticado o crime pelo amante, o tivesse acompa- 
nhado até á morte, quer nas profundidades do 
oceano, quer nas regiões do oriente.» 

Sim, pôde ser. . . tudo pôde ser. Mas se não ha 
documentos officiaes que comprovem a existência 
real dos personagens a que o sr. Azevedo se refere, 
também, pelo menos que eu saiba, ainda até hoje 
não appareceram quaesquer que neguem essa exis- 
tência. De resto, a averiguação, pelo que diz respeito 
ao ferrador e á filha, seria, em qualquer caso, inútil, 
porque nenhum d'elles tinha mesmo que figurar no 
processo. A versão documentada que o illustre in- 
vestigador nos apresenta, apenas inutiliza a pre- 
sumpção de realidade de certos nomes de persona- 
gens e d'um dos episódios do romance — a morte 
do morgado. Nada mais. 



Depois de escripta e composta esta nota, appa- 
receu no Diário de Noticias (n." de 6-X-1908) o se- 
guinte, que entendo dever archivar como valioso 
subsidio : 

«Simão Botelho — Suppunha-se com bom fun- 
damento que o Amor de perdição era uma especiet 
de memorial de familia, uma auto-biographia dos 
ascendentes de Camillo Castello Branco. Tal sup- 
posição vae-se desvanecendo em presença do resul- 
tado das pesquizas archivistas, a que ultimamente 
se tem procedido. Verifica-se que as tradições de 



3Õ8 



CAMILLO 



família, transmittidas ao eminente escriptor, che- 
garam muito obliteradas ou adulteradas. A parte 
fundamental do Aniôr de perdição pôde affirmar-se 
até certo ponto que continua a manter-se, o que já 
não succede com alguns factos e episódios impor- 
tantes e até com o caracter das personagens que 
mais ou menos salientemente figuram no trama 
urdido pelo eximio estylista. E' necessário applicar, 
^m mais de um incidente, em mais de um logar, os 
devidos coeíiicientes de correcção, os embargos- d 
jjhantasia, para nos servirmos de uma phrase do 
próprio Oamillo. Este diz que Simão Botelho, o 
íieroe da sua epopeia amorosa, fora atirado ás ondas 
na sua viagem de degredo para a índia. Ora o sr. 
Ismael Grracias encontrou, no archivo do governo 
d'aquelle estado, documentos pelos quaes se prova 
que Simão Botelho, longe de fallecer no caminho, 
chegara a Goa. O distincto investigador indiano 
vae publicar no Oriente portuguez um artigo sobre 
o assumpto. D'este facto, que não é único, aliás 
muito frequente, se deduz quanto cuidado, quanto 
critério e discernimento deve haver na interpreta- 
ção, como documento biographico, das obras de 
certos aucLores. Se não se tivesse procedido, como 
se está procedendo, a averiguações minuciosas ácér- 
•ca da vida de Oamillo Oastello Branco e de seus 
antepassados, quanto não se teria phantasiado a 
seu respeito, nos séculos vindouros, como tem suc- 
cedido e está succedendo com Bernardim Ribeiro, 
Camões, Oil Vicente e muitos outros. Quaesquer 
que sejam as inexactidões históricas que se encon- 
trem no Amor de perdição, este romance continuará 
a ser a obra-prima de Oamillo, uma das mais bellas 
jóias da nossa litteratura, e um dos espelhos, onde 
mais nitidamente se reflecte a sentimentalidade 
portuguesa.» 



NOTA C 



A mie de Camillo 



No seu citado e valioso estudo sobre Os ante- 
pnssadds' de Camillo, o sr. Pedro d'Azevedo diz, 
referiudo-se a Manuel Joaquim Botelho Castello 
Branco : 

«Uma senhora cora a qual não tinha impedi- 
mento canónico, deu-lhe uma filha e o grande Ca- 
millo. Aquella senhora, de quem ainda não estão 
bem averiguados os nomes, pois umas vezes se lhe 
dá o nome de Jacintha Rosa d'Almeida do Espirito 
"Santo, outras de Jacintha Emilia Rosa do Espirito 
Santo e ainda outras de Jacintha Rosa de Proença, 
suspeita-se que era açoreana e casada, formando as 
relações d'ella com seu pae um episodio que Ca- 
millo introduziu no Amor de perdição». 

Devagar. . . Ainda se não sabe hoje ao certo 
quem foi a mãe do romancista. Tem-se procurado 
relacionar com episódios prováveis da vida d'essa 
senhora, algumas passagens da obra de Camillo, e 
tem-se também procurado descobrir na historia do 



360 CAMILLO 



adultério de Manuel Botelho com a açoreana, con- 
tada no Amor de per(U(:ão, a narração verídica do 
episodio amoroso que deu origem ao auctor do 
livro. Para mais complicar as coisas, em 1905 ap- 
pareceu numa folha do Porto a citação d'um docu- 
mento, da existência do qual era licito inferir que 
D. Jacintha liosa do Espirito Santo chegou a casar 
com o pae de Camillo. O auctor do artigo em que 
apparece essa referencia é um velho condiscipulo 
e amigo meu, João de Meyra, hoje lente da Escola 
Medica do Porto, e a quem se devem algumas inte- 
ressantissimas investigações sobre episódios da vida 
do grande escriptor. A elle me dirigi recentemente, 
pedindo-llie quo me dissesse tudo quanto soubesse 
sobre o caso, e são da carta com que teve a ama- 
bilidade de responder ao meu pedido estes períodos, 
que vêm collocar a questão nos seus devidos termos: 

«... O que sei sobre o assumpto em que me 
fala a pouco se reduz. E' verdade que, em 1905, 
criticando na Folha dd Noite (n." 87, de 19 de abril) 
a Aiitobíograpliia de Camilio colligida pelo sr. Ta- 
vares Proença, escrevi que o pae do romancista, 
fallecera em '22 de dezembro de 1835 e que chegara, 
a casar com D. Jacintha Posa do Espirito Santo.. 
Você deve recordar-se d'isto porque, em nota á pag. 
*24 do seu Camillo Oa.stello Branco — E.sboço da 
critica, diz : João de Meira, num artigo publicado na 
Foliiada Noite, do Porto^ em 10-4-09, oitaco de ttma 
,serie intitulada Para a biographia de Camillo,. 
afirma o casam.ento dos pães do romancista, facto 
que ainda nenhum outro biographo tinha mencionado. 
Também, nesse inesmo artigo, vem a afirmação, que 
se diz escudada com provas, de que o pae de CamillO' 
morreu em 1835, ficando elle assim orphão aos dez: 
e não aos nove annos. . .» 



CAMILLO 3(31 

«O documento em que me baseei para fazer 
aquellas duas afirmativas não é actualmente iné- 
dito, pois o publiquei no 2.» numero da revista 
lisbonense Cosmos, conjunctamente com um pequeno 
artigo sobre Camillo, que não era mais do que a 
abreviação de outros já publicados no Independente^ 
de Guimarães (n.^ 19, de \^i de março de 19U2), na 
Germinal, do Porto in."'' lie 12, de julho de 1902), 
e na Alma nova^ também do Porto (n." 1, de maio 
de 1903). O documento é o seguinte : 

« Em os 22 dias do niez de Dezembro do anno de 
1S8Ò falleceu com o Sacramento da Ext rema- Uncção 
Manoel Joaquim Botelho CasteUo Branco, viuvo de 
Jacintha Rosa do Espirito Santo, morador na rua 
dos Douradores, e no mesmo dia foi sepultado iio 
Cemitério do Alto de S. João, do que fiz este assento 
que assignei. O Prior José António JJurães. (Lino 
d' Óbitos da freguezia de Santa Justa, de 1836 ; /Is. 
20 V.) 

«Não posso dizer que esse assento me desse 
muito trabalho a obter, nem me custasse longas 
pesquizas. Eu havia pedido para a freguezia dos 
Martyres, onde Camillo nasceu, o assento d'obito 
de Manuel Botelho ; mas as buscas feitas não tinham 
dado resultado. Foi então que se me deparou, a pagv 
207 do Romance do romancista, de A. Pimentel, a 
transcripção de uma petição para que lhe fossem 
concedidas ordens menores, onde Camillo se dizia 
natural da freguezia de Santa Justa. Occorreu-me 
logo que o engano só podia provir do facto de 
Camillo residir nessa freguezia á data da morte do 
pae. Escrevi então para lá e veio-me o assento de 
que você pôde agora, se quizer, pedir uma certidão- 
com as formalidades legaes. 

«Mas, já depois que escrevi aquellas duas afir- 
mativas na Folha da Noite, entrei a pensar que, se a 



3(>2 CAMJLLO 



data da morte de Manuel Botelho ficava definitiva- 
mente assente, o mesmo não succedia com o seu 
casamento. De facto podia ter havido erro do in- 
formação, propositado ou casual, tanto mais que o 
assento de casamento, apesar de subsequentemente 
procurado em Santa Justa, não appareceu. E' bom 
todavia notar que não appareceu também o assento 
d'obito de D. Jacintha, e que os dois fiictos podiam 
ter-se dado na área d'outra freguezia. En, como 
vivia no Porto quando esses factos me preoccupa- 
vam, estava mal collocado para continuar em ave- 
riguações que difficilmente podem tratar-se por 
carta. Desisti por isso de pesquizas. Você que está 
ahi em Lisboa é que as podia fazer >> 

As investigações a que até hoje procedi uo fito 
de alcançar o assento d'obito da mãe de Camillo, 
têm. dado resultado negativo. Nas freguezias cen- 
traes que percorri — Sacramento, Martyres, Santa 
Justa — esse assento não existe. Mas é forçoso con- 
vi]' em que ainda ha largo campo aberto para lon- 
gas inquirições. Quanto á relacionação possível do 
nascime-nto de Camillo com o adultério narrado no 
romance, diz a carta de João de Meyra : 

«O adultério de Manuel Botelho com uma aço- 
riana é narrado no fim do cap. ir e no cap. xvi do 
Amor de perdição. Este episodio tanto pôde ser 
verdadeiro como de pura invenção do escriptor; 
mas dada a predilecção de Camillo para roman- 
cear factos basilarmente verídicos e dada a pouca 
relacionação d'essa narrativa com o seguimento do 
enredo (a ponto que seria ocioso inventá-la se não 
tivesse succedido), inclino-me para acceitar a sua 
veracidade. O que me é impossível admittir é que 
•d'essa ligação extra-matrimonial de Manuel Botelho, 



CAMILLO 363 



tal como é coutada no Amor de perdição, nascesse 
Camillo e sua irmã mais velha. O cadete Manuel 
Botelho, no anuo lectivo de 1802 a 1803 (ou 1803 
a 1804?, você verá já porque tenho a duvida) e, 
ao que parece, antes de fevereiro (Amor de perdi- 
ção, cap. I e ii) fugiu com a esposa de um estu- 
dante de medicina, natural dos Açores, primeiro 
para Lisboa e depois para a Curuiia, onde viveram 
um anno e tanto (Amor de perdição, cap. xvi), 
voltando ao Porto 15 dias depois da entrada de 
Simão T^ctelho na Relação. Segundo Camillo, foi 
em fevereiro de 1803 que o de Castro Daire come- 
çou a pretender a mão de Thereza d'Albuquerque, 
em junho que Simão Botelho o matou (Aniôr de 
perdição, cap. x) e em março de 1805 que Simão 
entrou na Relação. Como o mesmo Camillo, em 
mais de um logar, conta que medearam 7 mezes 
entre o assassinato e a entrada na Relação, é claro 
que ha um engano de um anno ou na data do as- 
sassinato para menos, ou na data da entrada da 
Relação para mais. De um modo ou de outro, 
Manuel Botelho estava de volta a Portugal o mais 
tardar em março de 1805. Do Porto, onde visitou 
o irmão, seguiu para Villa Real com a amante. Ahi, 
foi logo denunciado ao pae, que chamou a açoriana 
a casa do juiz de fora e lhe propôz reenviá-la para 
a familia á sua custa, proposta que foi immediata- 
mente acceita, partindo a adultera para Lisboa e 
d'aU para a sua terra e para o abrigo de sua mãe, 
que a julgara morta, e lhe deu annos de vida, se não 
ditosa, socegada e desilludida de chimeras. (Amor de 
perdição^ cap. xvi, in fine). Como pôde ser que esta 
aço-riana adultera, reenviada á familia em 1804 ou 
1805, venha a ser justamente 20 annos depois a mãe 
de Camillo? Só pôde afirmá-lo quem não attentar 
nos pormenores e na data do episodio inserto no 



364 CAMILLO 



Amor de perdição. Alberto Pimentel diz também 
(Os amores de Camillo, pag. 27, nota 3): A mãe de 
Camillo^ que hoje supponho natural dos Açores, foi 
7'aptada por Manuel Botelho Castello Branco. Ha 
quem suspeite que era casada ao tempo do rapto. 
Mas, perguntado por mim sobre as bases das suas 
presumpções, em carta que não tenho presente 
agora, respondeu-me, se bem me recordo, cjue tinha 
esses factos do conselheiro António d'Azevedo, 
sobrinho do romancista. E' de crer que António 
d' Azevedo não saiba mais do que vem no Amor de 
perdição. 

«Quanto á veracidade da narrativa, independen- 
temente de qualquer relação com o nascimento de 
Camillo, so lhe posso dizer que estudantes açoria- 
nos frequentando medicina em Coimbra de 1801 a 
18()() só houve dois: 1.*^) Joaquim António de Paula 
Medeiros, filho de Francisco de Paula Medeiros^ 
natural da ilha de S. Miguel, que de 1801 a 1802 
frequentou o 2.° anno, de 1802 a 1803 b 3.t>, de 
1803 a 1804 o 4.« e de 1804 a 1805 o õ.^— 2.'^) José 
Ignacio da Silva, filho de José Rodrigues Ooncel- 
las, natural da ilha do Fayal, que frequentou de 
1801 a 1802 o 4.^ anno, de 1802 a 1803 outra vez 
o 4." anno e de 1803 a 1804, o õ/'. Este José Igna- 
cio é do Fayal, como a açoriana de Camillo, e re- 
petiu o quarto anno de 1802 a 1803. Não trazem 
os annuarios da Universidade o estado civil dos 
alumnos, nem o dizem os documentos precisos para 
a matricula, como informou o secretario Silva Gayo 
á pessoa que a meu pedido lh'o perguntou. . .» 

Em virtude de informação posterior, João de 
Meyra fez o favor de me informar em carta re- 
cente que esse José Ignacio. da Silva, único estu- 
dante do Fayal que por aquelle tempo andou na 



CAMILi.O SiJÕ 



Universidade, que era o ii/' .5 do curso e morava, 
em Coimbra, na rua da Alegria, teve por mãe D. 
Helena Kosa d'01iveira e casou-se com D. Maria 
de tal, irmã de um capitão António Manuel, da ilha 
do Pico. Foi pessoa respeitável e, após uma vida 
sem sobresaltos domésticos, morreu Physicomór 
da ilha Terceira. 

Ora, falso o episodio do romance na época em 
que vem contado, sê lo-ia menos vinte aunos de- 
pois, em uata visinha do nascimento de Camillo? 
Eis o problema. De resto essas transposições chro- 
nologicas são, como já disse, muito vulgares na 
obra do romancista. 

E é talvez este o ensejo de reproduzir aqui ura 
documento que pode ser um bom auxiliar para 
investigações que procurem illu minar esta questão 
ainda obscura. Vem no trabalho do sr. Pedro de 
Azevedo sobre os Antepassados^ de CaiiiiUo, o diz 
assim : 

«Carlos Augusto Scola, Notário da Comarca de 
Lisboa, por Sua Magestade Fidelíssima que Deus 
Guarde 

<<■ Certifico — Que em meu poder e cartório exis- 
tem os livros de notas do tabellião que foi d'esta 
cidade José Manoel d'Antas Barboza, o entre elles 
encontra-se um com o numero duzentos quarenta e 
cinco, com principio em dois de abril rle mil oito- 
centos vinte e nove e fim em vinte e quatro de 
julho do mesmo anno : e n'elle a folhas cento e oito 
verso está o instrumento do theor seguinte : 

«Saibão quantos este instrumento de Legitima- 
ção e Preffilhação, qual em direito mais firme seja 
e obrigação virem, que no Anno do Nascimento de 
Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos vinte 
e nove, aos vinte e sete dias do mez de Junho, 



í3(JG CAMILLO 



nesta Cidade de Lisboa, no meu Escritório na rua 
Bella da Eaynha, appareceo presente Manoel Joa- 
quim Botelho Gastei branco que vive dos seos Ren- 
dimentos e morador na rua da Oliveira, numero 
três, freguezia do Sacramento. 

« E por elle Outorgante Manoel Joaquim Bote- 
lho Gastei branco foy dito a mim Tabelião perante 
as testemunhas abaixo asignadas: 

«Que elle tem dois filhos nataraes e de May 
incógnita, por nomes Garolina Rita Botelho Gastello 
Branco e Camilo Ferreira Botelho Castelo branco^ 
os quaes forão baptisados o primeiro aos dois de 
Abril do anno de mil oito centos vinte e hum, na 
freguezia de Nossa Senhora do Soccorro, por filha 
de pais incógnitos, cujo assento depois o fizera 
declarar e averbar aos nove dias do mez de Junho 
do anno de mil oito centos vinte e cinco, declaran- 
do então ser a dita Carolina Rita Botelho Castello 
branco sua filha e de Maj^ encognita; e o segundo 
fora baptizado aos quatorze do mez de Março do 
anno de mil oito centos vinte e cinco por seu filho 
natural e de May incógnita; e porque pertenda 
ultimar este acto com todas as declaraçoens e 
meios necessários para a sua validade afim de 
que os ditos seus filhos a elle Outorgante suce- 
dão em todos os seus bens, direito e acçoens, e 
em tudo o mais que pelas Leis do l\eyno em di- 
reito devão de herdar, por isso dice que desde já 
por esta Escritura reconhece a elles seos filhos 
Carolina Rita Botelho Castelo branco e Camilo 
Ferreira Botelho Castelo branco por seos legitimes 
filhos afim de que em tudo e por tudo lhe possão 
suceder e herdar até em qualquer Grau que Sua 
Magestade se digne pelos serviços delle Outorgante 
atendelo por asim ser a sua vontade e não ser para 
isto constrangido por pessoa alguma podendo am- 



CAMILLO 



3G7 



bos elles ou qualquer deles requererem a Sua Ma- 
gestade pelo Régio Tribunal do Desembargo do 
Paço a competente Provisão de confirmação para 
cujo fim lhe presta toda a faculdade necessária e 
pela sua validade promete responder aonde se re- 
querer o seu cumprimento para o que renuncia o 
Juízo do seu foro domecilio e previlegios presentes 
e futuros que alegar possão. 

« Assim o outorgou pedio e aceitou e eu Ta- 
belliào o aceito em nome de quem deva tocar au- 
zente, sendo testemunhas presentes Thomaz Roiz 
Anão e Fábio Camilio Reisi que rezidem no meu 
cartório que todos afirmamos o ser elle Outorgante 
o próprio que assignou e testemunhas depois de 
lida. E eu José Manoel d 'Antas Barboza, Tabelliào 
o escrevy. 

«Manoel Joaquim Botelho Castelbranco — Tho- 
maz lioiz Anão — Fábio Camilo Reisi. Está con- 
forme ao original a que me reporto: e declaro que 
no transcripto instrumento estão riscadas as seguin- 
tes palavras : « Cal » — « ultima » — « Camilio » ,— o 
que não está resalvado. — Lisboa, seis de setembro 
de mil novecentos e seis. — Rasa novecentos e ses- 
senta réis. — Selio trezentos réis. — Total mil du- 
zentos e sessenta réis. — Carlos Augusto Scola.^^ 



NOTA D 



A casa de Seide 



Em ijota á Autobiographia , de Carnillo Castello 
Branco, coordenada e annotada pelo sr. F. Tavares 
Proença Jnnior, (Coimbra, 1905), apparece a afir- 
mação de que «a casa de S. Miguel de Seide per- 
tencia ao pae de D. Anna Plácido». Como essa afir- 
mação brigasse com os informes que eu colhera 
sobre o assumpto para escrever o meu esboço de 
crítica, pretendi certificar-me com segurança e para 
isso recorri ao sr. Alberto Pimentel, que preceden- 
temente também a elle se referira por um modo 
diíFerente d'aquelle por que o fazia o sr. Tavares 
Proença. Com uma amabilidade que muito me pe- 
nhorou, apressou-se o sr. Alberto Pimentel a res- 
ponder-me: «Estou convencido de que a quinta de 
Seide era do marido de D. Anna, tanto mais que 
elle nasceu ali perto, em S. Payo de Seide. Mas 
vou escrever a pessoa que poderá fazer fé no as- 
.sumpto, e dentro de 3 ou 4 dias terá V. uma cer- 
teza absoluta.» E, dias volvidos, essa certeza che- 
g;ou-me realmente nestas novas palavras do sr. 



CAMILLO 369 



Alberto Pimentel: «Não lia duvida nenhuma: a 
casa 6 quinta de S. Miguel de Seide era do marido 
de D. Anna; Manoel Pinheiro Alves, que já a havia 
herdado dos pães. D. Anua, por sua vez herdou-a 
do filho, Manuel Plácido. Este rapaz, como V. sabe, 
viveu sempre affectuosamente com Camillo». 



NOTA E 



Cartas inéditas 

O sr. cónego Seiíiia Freitas teve a extrema 
gentileza cie expontaneamente me facultar a pu- 
blicação d'algunias cartas qne recebeu de Camillo- 
e qne até hoje tem conservado inéditas. Essas car- 
tas a qne mais d'uma vez faço referencia no decor- 
rer do meu estudo, são as seguintes : 

I 

Meu presado amigo 

A urgência de o ver é grande; mas não tenhc^ 
forças que me levem ; não durmo, não como, estou 
na prostração mais desgraçada d'alma e corpo que 
dar-se pôde. Anna Plácido tem uma angina pectoris. 
Eu consideio-a perdida. Tenho dois filhos d'esta 
Sínhora. Um d'elles é adulterino, está piivado de 
jhe succcder nos bens. Além d'isso, se eila morre, 



CAMILLO 371 

a saudade hade puiigir-me.com o remorso de anão 
ter honrado aos olhos dos f.^^ e do mundo. 

Eu queria que V. Ex^ me obtivesse licença do 
seu arcebispo para eu a poder receber. Isto é exe- 
quível sem os preparativos do costume? Dá-lhe isto 
m*° incomrr>cdo, meu am^? Ou por ser um acto 
religioso não será m**' custoso alcançar-se a licença ? 
Será como poder. Escrevo-lhe ás 2 da manhan ou- 
vindo-a gemer nas agonias do coração. 

Do de V. Ex^^ 

tão grato como infeliz 

am^ 
22/11/79 

Camillo Cast^ Branco 

II 

Meu m*° querido amigo 

A nubente requereu hontem a convocação do 
Cons.^ de fam.^ Espera-se que a decisão seja favo- 
rável. Se o não for, o q V. Ex^'^ alcançou do Cardeal 
não só é mt^, mas tudo. 

Principio a sentir a prostração sequente ás rijas 
commoções que me abalaram os nervos com este, 
com qJ" a mim, desgraçado episodio. O que eu pre- 
cisava era socêgo ^ que á volta de mim não tumul- 



372 CAMILLO 

tilassem as ambições dos que olham para a vida sem 
verem d'ella mais que a lama estrellada de lante- 
joulas. O q eu preciso — já lh'o disse, meu caro 
am" — é morrer. Envio-lhe uns livros. A Correspd.'* 
e 2 sobre Darwin. 

De V. Ex'^ 

C de Y. Ex** ' mt« grato am*^ 



13/5/81 



Camillo Castello Branco 



III 

Meu querido amigo. 

Forçarei os olhos á escripta de poucas linhas 
que representem a m^ grande vaidade agradecida 
pelo seu tão lisongeiro quanto magistral livrinho. 
Ha n'elle lanços extremadamente verdadeiros. São 
uns em que V. Ex^ faz publica a inalterável ami- 
sade que lhe dedico, e que me parece já existir 
antes de o conhecer. Depois da m^ morte, é natural 
que os estylistas se preoccupem com a m^ vida e 
CS meus recursos de Artista. Nunca se escreverá um 
livro como este de V. Ex^, e com tão rara destresa 
e tão superior engenho escripto por um padre! 

Quão melindroso era o assumpto ! E, se o Ferf.1 
chegasse a Portugal, quantos clérigos desejariam 



CAMILLO 373 

quebrar o perfil de V. Ex^, e a mim os dois 
perfis ! 

Beijo-lhe as mãos, sagradas pelo talento. 

Rce o livro do sr. Dr. Almeida. Ainda não o pude 
ler, nem sei se já o lerei. Reservo os meus agrade- 
cimentos áquelle cavalheiro para quando possa 
conscienciosam*® applaudir a sua obra que pelo 
índice me parece proficuamente histórica. 

A final, a sciencia descobriu que a m^ infermid'* 
inexorável é uma myelite. A paralysia por em q^'* 
está nas extremid^^ inferiores. Se a lesão da columna 
vertebral chegar ás vértebras cervicaes tenho de 
morrer asphyxiado. Qiiod Deus avertat. No princi- 
pio de Agosto, se ainda viver, vou p^ a Povoa. 
Melhorei ali um pouco ha 2 annos; no anno passa- 
do peorei. Vou ver agora. Ha .10 annos, 17 de 7tbr^ 
de 1877, (4 setes!) morreu o meu Manoel. Talvez 
lá me esteja esperando. 

Desculpe as t[^^ faltas p^" commiseração com as 
m^^ angustias. 

Seu do c. 

Camillo. 
IV 

Meu querido amigo 

Ainda pude ver o seu retrato que me alvoroçou 
alegremente. Não me podia restar outra esperança 



374 CAMILLO 

de o ver. Acho-o n'uni hon point de saúde e socêgo 
de corpo e alma. M**^ lhe agradeço este novo favor, 
por que desejo que os meus netos o conheçam. 

No «Cancioneiro alegre» não ha referencia al- 
guma a q. por nome não perca. Publicado que 

foi o referido livro, esse homem promiscuam*® com 
alguns litteratos brazileiros, jogou- me umas chalaças 
que vão compendiadas no escripto impresso que 
envio a V. Ex*. Nada mais escrevi, depois da pro- 
vocação, contra esse sujeito: Se alguma coisa esti- 
vesse no «Cancioneiro» que o incommodasse, seria 
aspada a pedido de V. Ex*^. 

Estou a escrever a trote, p'' que não vejo. Tenho 
apenas algumas íibras contracteis em uma das reti- 
nas. Quanto ao padre que lhe ladrou, não podia 
deixar de ser. Se os de cá o não lapidaram é p^" que 
o não leram, nem lerão. Enfream a má lingua com 
a serrilha de burros. 

Estou em preparativos p^ voltar a Lisboa onde 
estive ha dias em consultas de ophtalmologistas. 
Não me fazem nada, mas tem a pied*"' de me illudir. 
Inútil pied*^ ! 

Adeus, meu caro amigo. Heide enviar-lhe de 
Lx''^ o meu retrato — o ultimo, o mais convisinho 
da podridão. 



f 



Do seu m*° grato 
C. Castello Branco. 



11/11/87. 



CAMILLO 



Refere-se a seganda d 'estas cartas aos episódios 

iie precederam o casamento d'am dos filhos do 

omancista. A historia d'esse casamento é assim 

ontada pehD sr. Alberto Pimentel, no seu livro Os 

> mores de Ca tu tilo: 

«Gosando de melhor saúde que o irmão, isto é, 
sendo menor nelle a tara hereditária, ISTuno Plácido 
Castello Branco não tinha habitualmente o brilho 
de intelligencia que o Jorge revelava nos momentos 
lúcidos. Comtuclo, também ás vezes escrevia des- 
leixadamente em prosa e verso, mas S3m paixão 
pelas letras, e sem possuir maior illustração do que 
•o Jorge. Educara-se á guisa de marialva minhoto, 
•e a sua paixão eram cavallos, trens, o jogo, as fei- 
ras, as conquistas amorosas. Tinha, principalmente, 
a mania da dissipação, de que já padecera o seu 
irmão uterino, Manuel Plácido, Caraillo não via 
para este filho outro caminho a seguir ssnào o de 
um casamento rico. Elle havia nascido para mor- 
,gado, sem o ser. E Camillo bem sabia que na vida 
dos antigos morgados o casamento vantajoso, sem 
previa consulta do coração, era o salvaterio de 
todas as dissipações e estroinices — era o único 
•emprego possível. Portanto, o romancista pediu á 
sua imaginação mais um capitulo de romance es- 
:sencialmente nacional; encarregou-a da descobrir 
um bom casamento para o Nuno. Não lhe foi pre- 
ciso dar muitos tractos á imaginação, porque havia 
ali perto, em Villa Nova, uma menina rica, a quem 
■o próprio Camillo chamava a tricentenária, pois sô 
lhe calculava a riqueza em 300 contos de réis. 

«Esta menina chama va-se D. Maria Isabel da 
Costa Macedo. Era filha de António Joaquim da 
Costa Macedo, natural de Famalicão, que eni tempo 
tinha ido para o Brazil, onde casara com uma 
brasileira., D. Thereza Martins Marques, que trou- 



37(5 CAMILLO 



xera um grande dote. Tendo-lhe morrido os pães 
em Famalicão, D. Maria Isabel vivia naquella villa 
em casa de ura vogal do seu conselho de familia, o 
sr. António Joaquim Ferreira Tinoco. Era muito 
pretendida em casamento. Os pintalegretes de 
muitas léguas ao redor disputavam-lhe os trezentos 
contos, e a difficuldade da conquista estava em 
evidenciar qualidades que supplantassem a rivali- 
dade dos concorrentes. Essas qualidades faltavam 
ao Nuno, que não era gentil nem doce de maneiras : 
que não era loquaz, nem insinuante; e (jue, apesar 
de marialva, tinha, em cerimonia, uma timidez que 
o embaraçava. Camillo traçou na sua phantasia um 
plano audacioso, uma novella, que não era para 
lêr-se, mas para representar-se. Velho romântico de 
acção, e conhecendo por experiência própria no 
amor que a fortuna ajuda aos audazes, reconheceu 
ser indispensável que o ultimo capitulo terminasse 
por um rapto, como nos bons tempos das grandes 
paixões românticas. Para chegar mais facilmente 
ao epilogo, lembrou-se de ser elle próprio quem 
escrevesse pelo filho as cartas d'amòr, e, molhando 
a penna no tinteiro, promptamente encontrou o 
opulento filão d'aquellas missivas exhuberantes de 
apaixonado lyrismo, que ficaram na memoria de 
quantos leram o Amor de perdição. Abalado o espi- 
rito de Maria Isabel por a mais vehemente corres- 
pondência que em tempo algum tinha estonteado 
a cabeça de uma menina minhota, isto é, depois de 
Camillo ter estado em scena por detrás do filho, e 
preparado convenientemente o terreno, chegara o 
momento opportuno de pôr em acção o rapto. O 
assumpto de uma das cartas era o convite e o plano- 
da fuga, que ambos foram acceitos. Na véspera do 
dia que Maria Isabel julgasse ser o mais próprio 
para a evasão, devia dar signal pondo uma flor no- 



CAMILLO 



37r 



peitoril de uma janella, que deitava para a rua de 
Santo António. Uma flor! Aqui se conheceu mais 
uma vez o dedo romântico de Camillo. Qualquer 
prosaico amante de Lisboa lembrar-se-ia de recom- 
mendar um — trapu ; Camillo propôz uma flor. E a 
flor appareceu no dia 3 de maio de 1881. 

«Logo os emissários de Camillo, que andavam á 
espreita, correram a Seide a annunciar a appariçào 
do signal combinado. O romancista deu a ultima 
demão ao plano do rapto. Preveniu a hypothese de 
quaesquer contrariedades supervenientes. Uma d'es- 
sas contrariedades seria a do raptor e os seus 
auxiliares encontrarem uma mulher de má vida, de 
nome Maria da Conceição, por alcunha a Marcada, 
(jue andava de noite a embebedar-se pelas tabernas 
de Famalicão e era capaz das ultimas torpezas. 
Esta rameira chegou a merecer a confiança de 
alguns administradores do concelho, pois que ella 
valia por si mesma todo um corpo de policia civil 
em serviço nocturno. Era, sobretudo, um espião 
vigilante. Camillo acudiu logo com um alvitre : — 
/S'6 apparecer a Marcada, lemmn'a para os lados de 
S. 2'hiago de Antas, a pretexto de beber uma pinga ; e 
dêem-lhe ali uma sova^ de modo que ella grite bem alto 
Aqui d'el-rei, a/im da attenção dos habitantes da 
vílla se voltar para esse lado e vocês poderem fugir 
a salvo pelo lado opposto. Retocado o plano do rapto^ 
Camillo fez-se sahido para uma estação da linha 
do Douro. Na noite de 4 de maio, os auxiliares de 
Nuno estiveram comendo á tripa forra e bebendo a 
rêgo cheio, numa taberna da villa. A hora aprazada 
para o rapto era a meia noite, consoante o estylo 
do romantismo. Oavidas as doze badaladas, sahiram 
os homens da taberna e, de bacamartes aperrados, 
foram, cosidos com as paredes, postar-se nas em- 
bocaduras das ruas que davam para a casa da bra- 



-378 CAMILLO 



sileira. Nessa mesma occasião avançava lentamente 
iim carro, vindo do Porto, tirado por uma valente 
parelha, com as patas entrapadas, para evitar o 
fazer tropel. O trem parou á barreira da villa, na 
estrada do Guimarães, e ahi esperou ordens. Nuno 
Castello Branco, em trage disfarçado, foi coUocar-se 
atrás da praça do peixe, e adormeceu. Essa infor- 
mação é exactissima : pode ser confirmada por todas 
as pessoas de Famalicão. Adormeceu! Se Camillo 
teria adormecido em lance idêntico! Era que entre 
o filho e o pae estava o tumulo do romantismo. 
Aquelles dos auxiliares do rapto que deviam rece- 
ber nos braços a fugitiva, quando se deixasse es- 
corregar da janella, ficaram contrariados ao vêr 
ainda luz nas janellas da Assembléa, fronteira á 
casa de Tinoco. Era que nessa noite o voltarete se 
tinha enremissado muito, e os parceiros da bisca 
sueca foram remanchando a partida até que os do 
voltarete acabassem. — Diabo! praguejavam os 
emissários de Camillo. Finalmente, ás duas horas 
da noite, apagou-se a luz na Assembléa; os últimos 
parceiros tinham sabido, a occasião era propicia. — 
E' agora, D. Isabelínha, cleixe-se escorregar pela 
janella, que nós a receberemos nos braços, disseram 
de baixo os auxiliares do rapto. A brasileirinha 
assim fez. Escorregou, descalça, como se havia 
aproximado da janella. Colhida nos braços dos ra- 
ptores, foi ao collo de um transportada ao trem. 
Outro dos auxiliares teve algum trabalho para des- 
pertar o Nuno, que dormia a somno solto. Ah ! 
pobre Isabelinha dos trezentos contos ! se ella sou- 
Í3esse que fora preciso acordar o seu raptor, teria, 
apesar de ingénua, voltado para casa num Ímpeto 
de indignação, numa fúria de raiva. O carro largou 
á desfilada até á Portella de Requião, sem que nin- 



CAMILLO 379 



guem desse pelo acontecimento. A Marcada não 
apparecen, felizmente para ella. 

«Quando o raptor e a raptada chegaram a Seide, 
Camillo, que nessa mesma tarde se dera como re- 
gressado, sentiu-se decerto contente do siiccesso 
d'este romance em acção, que tão habilmente havia 
planeado, e que era seguramente a mais productiva 
das suas novellas. Imagine-se a sensação causada 
no outro dia, em Villa Nova, por este estupendo 
acontecimento, tão perturbador dos patriárchaes 
hábitos da província do Minho. Nas casas, nas lojas, 
na praça, não se falava de outra coisa. E toda a 
gente attribuia a Camillo o plano e o êxito da 
empresa. Os pretendentes fallidos ainda por cima 
recebiam os chascos e os epigrammas dos commen- 
tadores alegres. Não lhes bastava o julgarem-se 
roubados em 300 contos, cada um ! A's seis horas 
da manhã d'esse mesmo dia apparecia Camillo em 
Santo Thyrso a procurar o filho, que, dizia, lhe 
tinha. fugido. O conselho de familia da braòilet rinha, 
que era composto do dr. João Bernardo do Valle 
Yessadas, Camillo de Lellis Ribeiro de Campos, 
Silvério Ferreira de Macedo, Manuel Bento de 
Sousa, além de Albino Joaquim Ferreira Tinoco, 
já mencionado, reuniu a requerimento da menor 
raptada e deliberou, por maioria, que ella casasse 
com o raptor. O tutor, que era o dr. Theotonio 
José Rodrigues d'Abreu Fontes, de Braga, também 
transigiu. Em Villa Nova causou impressão o facto 
de alguns dos vogaes do conselho de familia se 
terem opposto ao casamento, malquistando-se com 
Camillo. D. Maria Isabel voltou de S. Miguel de 
Seide para Famalicão, onde ficou depositada em 
casa de Adriano Pinto Basto e de sua esposa D. 
Florinda de Carvalho Sá Miranda. Conheci muito 
bem Adriano Pinto Basto, fallecido ha annos. Era 



380 CAMILLO 



O maior influente regenerador d'aquelles sitios, e 
intimo amigo de Lopo Vaz. O casamento realizou-se 
em Braga, na egreja de S. Pedro de Maximinos, 
no dia 2 de julho, sendo padrinhos Jeronymo da 
Cunha Pimentel, ao tempo governador civil do 
districto, e D. Araelia Castello Branco de Carvalho^ 
a filha de Camillo, cuja filiação o Nuno havia de 
jDÔr em duvida alguns annos depois!» 



Na terceira carta, Camillo allude ao seu ManueL 
Era o filho de Anna Plácido e de Pinheiro Alves^ 
morto d'uma pneumonia, na Povoa de Varzim, com 
dezenove annos. Camillo estimava deveras esse 
rapaz. «Adoptei-o no coração extremoso de pae — 
disse elle ao sr. padre Senna Freitas — e senti então 
que o sangue nada é e nada conclue.» São ainda de 
Camillo, nas Scenas da hora final, os seguintes pe- 
ríodos: 

«Nas horas mais cruéis que a Providencia me 
ha dado, quando a saudade de um morto a quem 
o meu coração chamava filho, me quebrava o res- 
tante pulso com que tantas e grandes desgraças 
dobrei, li, nessas horas, este opúsculo nas co- 
lumnas de um periódico inglês, a Quarterly Re- 
víeiv. Eu tinha assistido aos paroxismos de Manuel 
Plácido, aquelle moço gentil que, cinco dias antes^ 
era ainda a exhuberante alegria da felicidade sem 
intercadencias de tristeza, a flor dos dezenove annos 
com a raiz já ferida de morte e a corola cheia de 
perfumes. A sua doença, e ao mesmo tempo agonia^ 
durara quatro dias. Cheguei á beira do seu leito 
cercado de amigos, quando a febre cerebral deixara^ 
entrar em sua alma um raio de luz, uma intermit- 



CAMILLO 381 



teiicia da razão. Manuel viu sua mãe e cuidou que 
ella poderia dar-lhe seg^i^da vez a existência. Mas 
elle não acreditava na morte. Quem tem dezenove 
annos, e nunca chorou, nem duvidou dos contenta- 
mentos infinitos da mocidade, não receia que um 
súbito calafrio, uma dor de cabeça, uma convulsão 
a espaços, e uma anciedade febril sejam a vanguarda 
de moléstia mortal. Julguei-o salvo quando a scien- 
cia o considerara perdido. Beijara-me com expan- 
siva ternura, fitara-me com os seus bellos olhos 
negros g brilhantes, contava-me os descuidos da 
sua saúde, mostrava-me a epiderme lacerada pelos 
cáusticos, e pedia-me que o trouxesse para o seu 
quarto de S. Miguel de Seide. Mas, uma vez, 
amparei-o nas braços e senti na rigidez inflexa 
d'aquelle corpo, que a vida se lhe despedaçava 
uas convulsões do cérebro, e o restante corpo era 
já algido como deve ser a sua mortalha nesta fria 
noute de novembro. Dez horas antes de expirar, 
vestiu-se em anciãs com umas fadigas apparen- 
temente afflictivas. Queria ver o sol, queria es- 
friar-se no vento do mar, sentia-se forte ; se era a 
morte que o assaltava na escuridão de um quarto 
infecto, queria afírontá-la, desafiá-la para a grande 
luz d'aqaelle bello dia de 17 de setembro. Tinha 
dezenove annos, e via-me vivo, a mim, velho, co- 
berto de cans e lagrimas, alanciado de dores, e 
assim me vira sempre, desde creancinha, quando 
os meus braços o erguiam até aos lábios, e o 
meu coração lhe chamava filho. Vestiu-se pois, e foi, 
amparado apenas, até á extrema de um corredor, 
onde recebeu o ultimo beijo da luz. Aqui, obede- 
cendo aos meus rogos, pediu-me agua, bebeu-a sof- 
fregamente, arquejando, e disse-me: — Eu já sabia 
qtie não mè deixavam sahir. Contavam que eu cahisff^, 
de fraco. Enyanaram-íie, Eu não caio. Queria dizer 



382 CA MI LI. o 



que aos dezenove annos não podia morrer. Deitei-o 
na minha cama e despi-o. Pediu-me que chamasse 
sua mãe. Eila cahiu de joelhos deante d'elle, que a 
contemplava com torvo spasmo, ou a chamava com 
as meigas palavras da sua amimada infância, ou 
retinha a respiração estortorosa para ouvi-la soluçar, 
como se aquelles gemidos lhe soassem extranhos, 
inexplicáveis. Quando ella o transportava, sósinha, 
nos braços robustecidos pela angustia e pelo amor, 
de uma cama para outra, o moribundo dizia-lhe 
sorrindo: — A mamã pôde lã com este Hercules! E 
olhava espavorido para o seu corpo escoriado, roxo 
de pus e sangue. Depois, nas ultimas sete horas, 
tartamudeava gemidos longos, offegantes. Parecia 
debater-se em angustias enormes, íntimas, da alma, 
da saudade da -vida, como se, afinal, conhecesse 
que era forçoso morrer aos dezenove annos. O res- 
pirar arquejante abateu; enxuguei-lhe o rosto ba- 
nhado de suor pegajoso e frio, curvei-me sobre os 
seus olhos fixos embaciados, senti-lhe a derradeira 
vibração de todo o corpo, e no dedo sobre o pulso 
a ultima contracção da artéria. Voltaram-no morto, 
com os olhos ainda abertos para mim. Havia nos 
seus lábios uma expressão doce semelhante a um 
sorriso de conformidade com a vontade da Morte 
que, aos dezenove annos, o fulminara. Desde aquelle 
instante, as rainhas lagrimas só pode estancá-las o 
pejo de as mostrar. Houve pai'a mim uma consola- 
ção : a certeza que me deu a sciencia.de que Manuel 
não soube que morria, não teve consciência da sua 
dilaceiação, anciava sem dores, não sentiu as vibra- 
ções que o convulsionavam quando os seios do cé- 
rebro se iam esphacellando, queimados^ pela febre. 
Este beneficio, que pouco vale á minha eterna sau- 
dade, devo-o a este livrinho. Pia confortos aqui 
para os que temem os transes últimos da vida, e 



CAMILLO Í38í| 



confortos, ainda mais necessários, para os que as- 
sistem ás agonias inconscientes de um amigo, de 
um íillio ! Ah!. , . vêr morrer um filho ! Meu que- 
rido Manuel, acabaste sem saber o que são dores 
da alma. Não chegaste a vêr morrer tua mãe. Pa- 
rabéns ! oh minha santa saudade ! Se Deus fe pedisse 
contas da tua vida, dir-lhe-ias : — Eu tinha deze- 
nove ânuos! Se fosses condemnado e repulso da 
presença do teu creador, as lagrimas que te choram 
aqui moveriam o juiz das acções da tua infância a 
uma piedade que, para ser misericordiosa, não pre- 
cisaria ser divina. Adeus, Manuel! filho do meu 
coração. » 

Numa carta ao visconde de Ouguella, Camillo 
escreveu ainda: « Mataram-me as saudades de Ma- 
nuel Plácido, que pouco se lhe dava de mim » . 



Nes^a mesma terceira carta, as referencias amá- 
veis do grande escriptor, são para o livro Perfil de 
Canàllo Cãsteilo Branco, pelo padre Senna Freitas, 
publicado, em S. Paulo, em ^7 e, no Porto, um anno 
depois. 



NOTA F 



Camillo e o sr. dr. Bombarda 



JReproãuzo seguidamente os metes artigos de resposta á 
<igressão de que fui vtctima, por parte do sr. Miguel Bombarda, 
■quando, ha três annos,i)uhliquei o meu primeiro livro sobre Ca- 
millo. 77 reproduzo também, a titulo documental e com a de- 
vida vénia, os termos da agrfssão. 

Não abandonou o sr. Bombarda neste ligeiro pleito os pro- 
cessos de critica que já alguns dissabores lhe têm valido. Para 
esse pst/chiatra são questões decididas iodas aquellas sobre as 
quaes sua ea?." fxou uma opinião. Rebatendo essa sua illuzão 
teimosa, já um dia o sr. Júlio de Mattos lhe disse que em psy- 
chiatria não ha nem pode haver questões decididas : « Nesta 
.sciencia (em activo trabalho de remodelação^ como sua ex.» su- 
periormente sabe) tudo se discute, tudo se examina, tudo se 
revê.* ^ O sr. Bombarda, comtudo, não se convenceu, como, d'esta 
feita, também por certo se não convencerá. E' tarde já para 
mudar. 

Seguem, pela ordem em que foram publicados, os artigos 
de sua ex.'* e os meus: 



1 Estudo polemico do sr. dr. Júlio de Mattos ^o opúsculo do sr. 
-dr. Mendes Martins, Jíoita defeza, 19^3. Pag. 10. 



CAMTLLO 385 

I 

Fsychologia do soffrimento ... nos que não soffrem 

o sofTriínento, debaixo dos seus múltiplos aspectos, — 
•condições, modalidades, efleilos, — tem sido objecto de 
muitas e profundas analyses. Mas onde os psychologistas 
íeem parado é no estudo da acção que a dòr, qualquer que 
seja a sua forma, vem a exercer sobre aquelles que lhe são 
meros espectadores. O logar commum de que a dòr alheia 
move á própria dòr e a bondade d'um coração ó aferida pelo 
seu compadecimenLe é, nos parece, o extremo limite até 
onde se tem ido n'este campo que se ofTerece hoje á nossa 
consideração e que antevemos fértil em observações illus- 
trativas. 

Uma ha que se pôde já marcar, não menos notável que 
inesperada, e é que para o mesmo assistente, para o mesmo 
«receptor», o compadecimento não depende tanto da inten- 
sidade do soffrimento alheio, como de elementos que lhe 
são inteiramente accessorios. Quer se trate de sofTrimento 
physico, quer de solTrimenlo moral, ha um dominante — é 
•a diuturnidade combinada com a persistência. Reflecte-se 
aqui uma lei psychologica, que mostra a intensidade da 
sensação ou da commoção decrescendo com a habituação. 
Mas ao lado ha outro, que julgamos poder-se fixar nitida- 
mente e nos parece digno de attenção. 

Dores physicas e mesmo dores moraes de condiciona- 
mento normalmente determinado movem á piedade. Mas 
soffrimenlos ha, horrorosos acima de toda a expressão hu- 
mana, que não encontram senão a inal tenção e a indiíTerença 
€ que, mesmo no meio o mais sympathico, apenas conduzem 
ao tédio, quando não á irrisão. Taes são os soíTrimentos da 
neurasthenia. 

N'um neurasthenico constitucional, n'aquelle em que a 
•doença chega a ser uma alienação mental e em que ella ex- 
prime tão somente uma defeituosa construcção cerebral, o 
que o espirito padece chega a ser pavoroso. A obsessão e a 
phobia, a idéa fixa e a confusão mental, mesmo quando se 
tomem em toda a sua terrifica significação, constituem pal- 
lidas expressões das tempestades que se passam num cra- 
rieo, como nunca Victor Hugo as pode sonhar. É preciso 
que junto de taes doentes tenha havido o interesse scienti- 

£5 



386 CAMILLO 



fiGO e ([ue se lenha tenlado arialysar o tumultuar do seu cé- 
rebro batido por lodos os horrores, para que se consiga 
medir em toda a sua grandeza a intensidade de um sofl'ri- 
mento que só á anciedade de um melancólico se deve equi- 
parar. Tenho-os visto endoidecer, por que elos, por que 
encadeamentos, não sei, mas endoidecem apoz mezes e an- 
nos de atroz solTrimenlo, e endoidecem na mais furiosa das 
loucuras. Também os tenho visto que terminam pelo suici- 
dio, puramente movidos peia atrocidade da «dòr psychica» 
e sem que um factor de occasião, moral ou outro, leve á 
finai determinação. 

Ora, todo este medonho soflrimenlo é por assim dizer 
sem eclio. A insensibilidade da familia corre paiellias com 
a indiíTerença do medico de clinica commum, que, tendo 
consagrado a sua vida ao allivio dos padecimentos physicos, 
nunca tentou penetrar n'estes insondáveis arcanos, nem 
mesmo para lhes avaliar os otYeilos. Para elle, por melhor 
que tenha sido a libertação do seu pensamento, por mais 
que saiba, de sciencia certa, que a mentalidade não resulta 
senão do funccionamento cerebral, para elle ainda vigor;i, 
um residuo que figurativamente se diria atávico e o leva a 
admittir um «medico da alma» que não é elle. Não o con- 
fessa, é ceito, mas por tal modo se isola no dominio das 
chamadas doenças physicas, por lai modo se separa de toda 
a penetração psychologica, que é com^o se o corpo humano 
se dividisse em duas partes — uma para o seu estudo e in- 
terferência, a outra para o estudo e interferência de outrem. 
E todavia a acção do medico em estados d'esses é tão alta- 
mente poderosa que faz lastima andem ao abandono tantos 
miseráveis, que uma psycholheiapia regrada, longe das 
brutalidades da suggestão thealial e do hypnotismo, poderia 
resuscitar á felicidade da vida. 

Qual a razão d'essa inditíerença da familia e do medico? 
Por que motivo aquella desdenhosamente encolhe os hom- 
bros e este trata os seus doentes de « enfermos de imagina- 
ção »_e por isso mesmo mais lhes acirra o sotfrimento? 

É que não ha uma base physica que se possa apalpar, 
nem ao menos uma base que se figure como representação 
do espirito. Se alguma vez se tivesse penetrado n'estes do- 
mínios, se estes factos do cérebro mórbido alguma vez ti- 
vessem interessado, se se tivesse chegado a conquistar a 
convicção de que neuraslhenias d'essas vêem d'iun cérebro 
vicioso como archilectura, ahi se teria um elemento de fir- 
me apoio e os médicos communs não se nianconmiunariam 
com os não médicos no desprezo de doentes que só «de 



CAMILLO 3^{ 



imaginaçrio » padecem, mos qne na verdade são tanto mais 
interessantes quanto teem a plena consciência da exlranhe- 
za do seu mal. 

Que é esta ausência de objectividade a origem do des- 
prezo, a razão mesma do franco domínio do egoísmo do 
entourage, lira-se d'este facto — que em muitos males phy- 
sicos acompanhando-se de confusos softrimentos mentaes, 
estes, que muitas vezes são incomparavelmente superiores 
aos outros, vão desdenhados por aquelles mesmos que mais 
lamentam o padecimento physico do doente. 

Ha pouco appareceu um livro — e foi elle que veio sus- 
citar estas consideragões — em que, n'uin esbogo critico, se 
procura aquilatar a individualidade de Camillo e principal- 
mente se lhe ventila a nosologia fCandllo Caslello Branco, 
esboço de cridca, por Paulo Osório ; Lisboa 1905). O A. pro- 
cura demonstrar que Camillo era um neurasthenico, e para 
isso vale-se, valha a verdade, do avolumamento de muito 
pormenor que não contém, longe d'isso, a significarão que 
se lhe quer conceder. E' assim que se faz um montão de 
phobias onde nem uma talvez se possa apurar : porque a 
verdade é que a phobia não é só o simples horror á doença 
ou á morte, porque então seria neurasthenico, mais ou me- 
nos, todo o ser humano, do mesmo modo que não é phono- 
phobo quem não tem ouvido musical, como emfim se não 
acha possuído do neurasthenico horror á luz aquelle que 
d'ella foge, physícamente solTrendo dos órgãos visuaes. Isto 
mesmo teria de ser dito para toda a symptomatologia arma- 
da no livro com coisas verdadeiras, é facto, m.as que só 
muito pela rama se podem tomar á conta de phobias, obses- 
sões ou delírios (grandeza, perseguição). 

Camil'0 não era um neurasthenico. 

Bastaria, para o pensar, esta phrase que elle escreveu : 
«Ha quatro noites que apenas durmo instantes». Qual é o 
neurasthenico que confessa que dormiu instantes? 

Psychicamehte era outra coisa, que se me antolha, mas 
que não quero pronunciar, porque não possuo o conheci- 
mento bastante do homem nem da sua obra. E physíca- 
mente, como doença que o levou ao desespero fina], julgo 
não poderá haver duvida para nenhum medico que Camillo 
era um ataxico. A ataxia acorrentou-o á dòr nos últimos an- 
nos da vida, e foi ella que o conduziu ao suicídio. Eaataxja 
não é, como pensa o sr. Paulo Osório, um mal neurasthe- 
nico ou que por qualquer modo se ligue â este padecimento. 
Citações, em que da letlra se possam tirar quaesquer illações 
contrarias, não teem valor algum por mais eminentes que 



388 CAMILLO 



sejam os que as subscrevem. A verdade é que hoje, a bem 
dizer para todos os médicos, a ataxia locomotora, do mesmo 
modo que a paralysia geral, não é mais do que um derra- 
deiro golpe da sypiíilis. 

Apenas, em Camillo, as perturbações cerebraes da ata- 
xia, de resto tão communs, adquiriram uma intensidade 
descommunal e accentuaram-se n'um sentido neurasthenoi- 
de, que só pôde valer como neurasthenico para quem não 
conheça a fundo o valor d esta palavra. E digo-o bem de 
certeza, não só pelo que elle descreveu e serve ao A. para 
fundar as suas asserções, mas ainda pela observação de 
casos similares, como o d'aquelle nosso pobre collega que 
ainda ha pouco trepou o mesmo calvário de Camillo e como 
elie veio a acabar. 

Ora, a citação d'este livro, que medicamente tem um 
valor diminuto, perdõe-nos o A. dizer-lh'o, veio para mos- 
trar como nelle está o rellexo da demonstração que acima 
inquirimos. É o A., e como ello outros que cita, o padre 
Senna Freitas, por exemplo, a tratar a Camillo como um 
doente de imaginação. Vê-se um homem a soffrer coisas 
temerosas e lançam-n'o á conta d'um nosomaniaco e d'um 
thanatophobico. Que nosophobia é esta quando a doença é 
muito real e muito grave! que phobico horror á morte é este 
num doente certamente e irremediavelmente condemnado 
á morte ! 

Bombarda. 

[IVA Medicina Contemporânea, de 9 de julho de 1905). 



II 

Camillo Castello Branco e o sr, dr. Bombarda 

Em um dos números recentes da Medicina Coniempora- 
neci, num artigo intitulado Pgychologia do so/frimento.. . nos 
que não so(frem, O sr. dr. Miguel Bombarda, professor da 
Escola Medica de Lisboa e director do Hospital de Rilha- 
folles, refere-se ao meu livro Camillo Castello Branco (esboço 
de critica) em termos que não prescindem de uma resposta. 

Alguém, um dia, em polemica com esse illustre psy- 
chíatra, lembrou a phrase de Barbey d'Aurevilly: «II est 
des renommées qui durent par leur vague même ; en les 
piecisant, on les ruine e e nem eu sei que diabólica tentação 



CAMILLO 389 



me deu agora de pôr em epigraphe do meu artigo essas 
palavras. Mas não; fugindo á analyse da sua bizarra fjrosa, 
cheia de prelenção e de ridiculo, e não tentando immergir 
no denso emaranhado da sua philosophia abslrusa, eu hnii- 
tar-me-ei a demonstrar — e facilmente — que o artigo do 
sr. Bombarda, afirmando coisas vagas que não prova, attri- 
buindo-me asserções que nunca fiz, desprezando os pontos 
capitães do meu trabalho para limitar as suas referencias a 
um ou outro pormenor de menos monta — longe de me con- 
vencer, longe de me dar uma lição que eu avidamente es- 
cutaria, apenas veio apresentar em publico o inesperado 
documento d'uma comprehensão pouco lúcida e d'uma scien- 
cia pouco em dia. 

O sr. Miguel Bombarda começa assim o seu libello ac- 
cusatorio : 

«O A. procura demonstrar que Camillo era um neuras- 
Ihenico, e para isso vale-se, valha a verdade, do avoluma- 
mento de muito pornjenor que não contém, longe d'isso, a 
significação que se lhe quer conceder. É assim que se faz 
um montão de phobias onde nem uma talvez se possa apu- 
rar: porque a verdade é que a phobia não é só o simples 
horror á doença ou á morte, porque então seria neurasthe- 
nico, mais ou menos, todo o ser humano, do mesmo modo 
que não é phonophobo quem não tem ouvido musical, como 
emfim se não acha possuído do neurasthenico horror á luz 
aquelle que d'ella foge, physicamente sofTrendo dos órgãos 
visuaes. Isto mesmo teria de ser dito para toda a sympto- 
matologia armada no livro com coisas verdadeiras, é facto, 
mas que só muito pela rama se podem tomar á conta de 
phobias, obsessões ou delirios (grandeza, perseguição).» 

E diz, mais adeante, definindo a obra: 

«É o A., e como elle outros que cita, o padre Senna 
Freitas, por exemplo, a tratar a Camillo como um doente 
de imaginação. Vê-se um homem a soílrer coisas temerosas 
e lançam-n'o á conta d'um nosomaniaco e d'um tanatopho- 
bico. Que nosophobia é esta quando a doença é muito real 
e muito grave! que phobico horror á morte é este num 
doente certamente e irremediavelmente condemnado á 
morte ! » 

D'onde, o sr. Bombarda entende que toda a symptoma- 
tologia do meu livro está armada em bases que sua ex.* 



890 CAMILLO 



poderia, se qiiizésse, deitar a terra, mas que não deita para 
não assustar ninguém com o barulho ; afirma que eu trato 
CamiUo como um doente de imaginação, quando é certo 
que liie diagnostiquei duas doenças, pelo menos, e ambas 
graves ; e dá a entender depois que a phobia nunca tem uma 
razão de ser que essencialmente a justifique. 

Se um alumno da Escola Medica apresentasse ao sr. 
Bornharda uma these com conclusões do feitio d'essas e 
■d'outras que se lêm no decorrer do seu artigo, sua ex.* 
tinha um dever profissional a cumprir: reprová-lo. 

No livro Lcíi Ohsesàions e les Impuhions de que são au- 
clores A. Pitres e E. Régis, o primeiro professor de Clinica 
medica e o segundo encarregado do curso de Psychiatria na 
■faculdade de medicina da Universidade de Bordeaux, vem 
mencionada uma phobia em que provavelmente sua ex.* já 
ouviu falar : a 'psuclwpallwphohia. Se o doente em que tal 
phobia se verifique for declaradamente um psychopata, o 
sr. Bombarda exclamará: «Que psychopatophobia é esta 
num doente em que a psychopathia é mais que demons- 
trada!» E comtudo, se o doente não fórum psychopalha, 
como se ha-de explicar a existência da phobia que é, sem 
duvida, um phenomeno de natureza palhologica? 

O sr. Bombarda sabe decerto que a phobia (dando ao 
termo a accopção scientifica) não é o horror normal, vulgar, 
de toda a gente: é o horror mórbido, justificado ás vezes 
fundamentalmente, mas nunca no seu exagero nem na sua 
anciedade. O sr. Bombarda sabe decerto o parentesco que 
a phobia tem com a obsessão e sabe que Magnan define a 
obsessão: «um modo de actividade cerebral em que uma 
palavra, um sentimento, uma imagem, se impõe ao espirito, 
independentemente da vontade com uma angustia dolorosa 
que a torna irresistível » e sabe decerto ainda que o mesmo 
eminente professor do Asylo de SanfAnna marcou para as 
phobias estes dois caracteres essenciaes : a impossibilidade 
para o doente de vencer o sentimento de medo que experi- 
menta em presença d'um phenomeno, d'urn objecto ou de 
uma substancia e o estado de consciência completa que 
acompanha esse sentimento. 

Assim, as observações do sr. Bombarda a respeito de 
phobias, que, feitas por um seu alumno, seriam simples- 
mente um disparate, dimanando de sua ex.* são um docu- 
meôto comprovativo do velho latim de Horácio: « Quando- 
que bónus dormitat Homerus». O sr. Bombarda por vezes 
não se limita a dormitar: dorme — e resona de tal modo 
que chega a incommodar os transeuntes. 



CAMTLLO 391 



Mas, no seu artigo, que é mais um fructo d'esse resonar 
impertinente, o illustre psychiatra lusitano atira uma afir- 
mação, solemnemente : « Camillo não eranm neurasthenico ». 
E para demonstrar essa asserção, sna ex.'^ oppõe a toda a 
prova laboriosa e cuidadosamente feita do meu livro osta 
phanlastica razão : 

« B;ístaria para o pensar, esta phrase que elle escreveu : 
« Ha quatro noites que apenas durmo inslantes ». Qual é o 
neurasthenico que confessa que dormiu instantes?» 

Se o sr. Oòmbnrda não escreveu isso zombando, dever- 
se-á dizer-lhe que foi d'uma infelicidnde lamentável. Em 
que se funda o illustre psychiatra para dizer que um neuras- 
thenico nunca confessa que dormiu instantes? Se sua ex.*, 
para ser original, quizesse provar o contrario, teria talvez 
mais argumentos. O neurasthenico, em consequência mes- 
mo da abulia que geralmente o caracteriza, foge das afir- 
mações cathegoricas, absolutas. É raro ouvi-lo dizer: « vou 
amanhã a tal parte », prefere formas menos positivas: « ten- 
ciono ir», «vou se Deus quizer». Uma afirmativa formula- 
da com a mais absoluta certeza, por vezes, perturba-o como 
uma obsessão e não é raro inutilizar uma carta, por exem- 
plo, para pòr uma nota de duvida em qualquer coisa que 
«alhegoricamenle haja dito antes. Um neurasthenico dirá 
mais facilmente « dormi apenas inslantes » do que « não 
dormi um só instante». Mas pôde dizer d'uma forma ou 
•d'outra, que isso nada inílue para um diagnostico em ter- 
mos. Afirmar o contrario, é uma subtileza do sr. Bombarda 
que só conseguirá épater alguns incautos admiradores das 
apregoadas prendas de sua ex.*. 



O sr. Bombarda diz — e muito bem — que «não poderá 
liaver duvida para nenhum medico que Camillo era um ala- 
xico». Eu não sou medico, mas lambem não tenho duvida. 
Mas sua ex.** escreve ainda: 

«. . .'a ataxia não é, como pensa o sr. Paulo Osório, um 
ínal neurasthenico ou que por qualquer modo se ligue a 
•este padecimento. » 

E, pouco depois : 



392 CAMILLO 



« A verdade é que hoje, a bem dizer para lodos os mé- 
dicos, a atfixia locomotora, do mesmo modo que a paialysia 
geral, não é mais que um derradeiro golpe da syphilis. » 

Em primeiro logar, eu nunca afirmei que a ataxia, ou, 
mais propriymenle, o labes, fosse um mal neurasltienico. 
Admitli a possibilidade da associarão das duas doengas e 
admillo a neuraslhenia como origem da predisposição que 
é o primeiro elemento etiológico tanto da paralysia geral 
como do tabes. Posso fa/ev ludo isso em boa companhia. 
Ch. Féré, iliuslre alienista francês, medico de BicÊtre, es- 
creveu que a neuraslhenia pode ser considerada como um 
estado mórbido, constituindo o terreno mais próprio para o 
desenvolvimento, não só das outras nevroses e vesânias, 
como das aííecções orgânicas cerebro-espinaes, e Clavelier 
e A. Rémoiid, este ultimo professor de clinica das doenças 
nervosas na Faculdade de Toulouse, escreveram, nas addi- 
ções á traducção do /l//íusde Jacob: « A hysteria é mais que 
um estado, é uma doença, uma doença por vezes mal dis- 
liricta, dissimulada, mas sempre uma doença. A neurasthe- 
nia, ao contrario, é um fundo commum, um terreno, uma 
predisposição mórbida no que ella tem de mais geral. » 

Quanto ao papel etiológico da syphilis no (altes e na 
paralysia geral, eu não me dispenso de dizer ao sr. Bombarda 
o que actualmente se pensa a tal respeito e que sua ex.*,. 
pelo visto, ignora ou finge ignorar. 

.1. Vires, professor na faculdade de medicina de Mont- 
pellier, afirma a pioposito do tates, no seu livro sobre 
doenç^as nervosas ('HJU2) : « A syphillis nPo é a causa exclu- 
siva: é anti-scientifico pretender que sem syphilis não ha 
tates e inversamente». Tancereaux diz que a influenciada 
syphilis na etiologia tsbetica ó iiulla. Pierret, na sua memo- 
ria sobre a pathogenia do tabes, apresentada em -1897 ao- 
congresso de Moscou, afirma que os tabeticos são ur s pre- 
dispostos para a syphilis e não inversamente, como pensa 
Fournier. Rémond, no seu livro Maladies mentales, publica- 
do em -19i'4, dá o primeiro logar á syphilis entre as causas 
da paralysia geral, não a admiltindo porém num papel ex- 
clusivo. Grassei attribue ao tabes uma etiologia muito com- 
plexa, contrariando assim, é claro, a opinião de Fournier. 
Charcot, Landouzy, Ballet e Plinchon sustentam cjue a he- 
reditariedade nervosa é a causa primordial da ataxia loco- 
motora e que a syphilis, excessos de todos os géneros, trau- 
matismo, etc, apenas representam o papel de causas de- 
terminantes. Féré faz notar quanto é fallivel a estatística 



CAMILLO 393 



em que os partidários da etiologia syphilitica assentam as 
suas assergões, por isso que, emquanto uns auclores têm 
concluído, dos dados estatisticos, que a proporção de para- 
lyticos geraes syphililicos é de 0,7 ou 1,7, outros, em faca 
d'esses mesmos dados, sobem a percentagem a 93 por 100. 
Em arlit^os publicados no Journal of mental paUiology, em 
•1903: Sobre a parabjsia geral progressiva, segundo os estudos 
feitos no hospital Zemshoi de Kharhoff durante um período de 
doze annos, o dr. Greidenberg regista casos de paralysia 
geral em que a syphilis não entra como factor etiológico. 
Num Ensaio das investigações mcdico-estatisticas em. 9J0 casos 
de parahjsia geral publicado pelo dr. G.-A. Diedoff em 
agosto e novembro de 1904 na Obozrienic psgkhialrii nevro- 
logii i expcrimentalnoi psghhologii, esse medico afirma que 
a paralysia geral é uma consequência da «surmenrige» ce- 
rebral, na lucta peia vida; que a syphilis, o alcoolismo, a 
hereditariedade, nada mais são que factores da predisposi- 
ção; que cada um d'esses factores não dá origem á doença 
senão combinado com outros ou graças á intervenção de 
phenomenos provenientes quer d'um estado de fadiga, quer 
d'outras causas occasionaes. Maurice Faure, no 13.'^ con- 
gresso dos médicos alienistas e neurologistas de França e 
dos paizes de lingua francesa, realisado em Bruxellas, em 
agosto de 1903, disse que a syphilis não exerce na génese e 
evolução do tabes uma influencia essencial e exclusiva. A 
propósito da communicação de Fournier sobre a Paralysia 
geral da syphilis, apresentada á Academia de medicina de 
Paris nas sessões de 13 e 28 de fevereiro d'este anno, tra- 
vou-se, nas sessões de 7, 14 e 28 de março, uma grande 
discussão em que tomaram parte, além de Fournier, JoíTroy, 
Raymond, Pinard, Halopeau, Lancereaux, Cornil, etc. Nessa 
discussão, Joflroy chegou a afirmar que a paralysia geral e 
a syphilis são duas atíecções distinctas, tendo cada uma a 
sua individualidade, a sua essência, e não podendo qualquer 
d'ellas originar a outra, em virtude da sua diílerente natu- 
reza. 

Ora é depois de tudo isto que um sr. Bombarda, psy- 
chiatra lisboeta, nos declara no seu jornal que, «a bem di- 
zer para todos os medicas, a ataxia locornotora (ou tabes), do 
mesmo modo que a paralysia geral, não é mais do que um 
derradeiro golpe da syphilis». 

Mas, depois de nos dizer que Camillo não era um neu- 
rasthenico, o curioso alienista assim se exprime : 

cr Psychicamente era outra coisa, que se me antolha^ 



)94 CAMILLO 



mas que nHo qiifíro pronunciar, porque não posstio o conhc- 
<3imento bastante do homem nem da sua obra. » 

Não deixando de notar que este modo de considerar 
um doente psycliica e pliysicamente, em separado, contra- 
diz os preceitos scientificos de que o próprio sr. Bombarda, 
se faz eco em outros pontos do seu artigo, — eu sincera- 
mente lamento que sua ex.* se não resolva a dizer o que. se- 
gundo o seu modo de vêr, Camillo era. Ninguém mais do 
que eu estiniaria coniiecer a opinirio de tão sabia persona- 
gem sobre um caso que muito me interessa, como de resto, 
segundo creio, deve interessar a toda a gente. Se o sr. 
Bombarda me demonstrar que estou em erro, curvar-me-ei 
vencido e jubiloso ainda por ter feito surgir a opinião do 
tamanha summidade medica sobre um dos maiores escri- 
ptores do meu paiz. 

Mas diga o sr. Bombarda o que é essa tal coisa. Não se 
faça rogado; não leve para o tumulo comsigo esse segredo. 
Meio Portugal está de olhos postos em suaex.*^. E' um dever 
de homem de sciencia tornar publica tal revelação. E esse 
-dever, não será sua ex.* tão mau que deixe de cumpri-lo. 

Paulo Osório. 

(D*0 Primeiro de Janeiro, do Porto, de 2 e 3 de agoslo 
de 1905). 



III 

OscilIãçCes 

Em 9 de julho appareceu na M. C. um artigo em que 
ao de leve se apreciava um livro do sr. Paulo Osório, inti- 
tulado Camillo Castello Branco. Esboço de crilicn. Agora, em 
2 e 3 de agoslo, apparecem no Primeiro de Janeiro dois ar- 
tigos em que o mesmo A. pensa rebater o que aqui foi es- 
cripto. O sr. Paulo Osório evidentemente deseja polemica. 
Ora nós temos simplesmente a dizer a s. ex.* que não temos 
tempo para lhe ensinar, a elle que não é medico, nem o 
que sejam phobias, nem qual o estado da sciencia na ques- 
tão das relações da syphilis com a ataxia locomotora. Isto 
mesmo, ha alguns mezes, antes da publicação do livro, tive- 
mos de lhe dizer, quando s. ex.*, depois de nos ter cônsul- 



CAMILLO 395 



tado sobre a sua idéa da alaxia nascendo d'um fundo neu- 
raslhenico, quiz abrir discussSo por cartas, quando lhe 
affirmámos que a sua idéa não eslava na sciencia de hoje. 
Se o sr. Paulo Osório tiver meios de nos arranjar algumas 
horas mais para o nosso dia, muito lhe agradeceremos; ti- 
rar-ncs minutos que sejam do nosso tempo para figurarem 
discussões com médicos, é que está de todo fora do nosso 
programma. 

Por isso. apenas diremos que s. ex.^ nem sempre pen- 
sou assim quando teve a tentação de pôr como epigraphe 
dos seus artigos alguma coisa que já nos tinha sido dirigida 
em polemica, por que de todo não demos, e é a phrase de 
Barbey d'Aurevilly : « II est des renommées qui durent par 
leur vague même; en les précisant on les ruine». Com 
effeito, em 17 de junho ultimo, ainda o sr. Paulo Osório 
nos fazia o favor de escrever em dedicatória do seu pu- 
nho: «Ao Ex.^^ Sr. Miguel Bombarda com a mais alta admi- 
ração pelo seu hrilhanlissimo espirito. , .» 

M. B. 

(D'A Medicina contemporânea, de 13 de agosto de 1905.) 



TV 
A fuga d'um psychiatra 

« II est des renomées qni dui-eat par 
leur vague même ; en les précisant, on 
les riiine. » 

{Palavras de Barbey d'Aurevilly, ci- 
tadas pelo sr. Mendes Martins em polemi- 
ca com o sr. Miguel Bombarda), 

Na secção de Variedades do ultimo numero da Medicina 
Contemporânea, * o sr. dr. Miguel Bombarda fez inserir, sob 
o titulo de «OscillaçÕes», estas palavras: 

f Segue a transcripção do artigo precedente) 



1 X.o de 13 de agosto, ultimo publicado na data em que este artigo 
foi escripto, data que dista 8 dias da de sua publicação, retardada por 
falta de espaço, conforme foi dito em local do Primeiro de Janeiro do 
dia 20. 



396 CAMILLO 



Precisemos os factos. 

Eu apenas conhecia o sr. Bombarda de nome e como- 
aiictor d'um livro de vulgarização scientifica intitulado ^i 
consciência c o livre arhitrio, quando sua ex.* teve a amabili- 
dade de desenvolver e applaudir idéas miniias, expostas 
num dos números das Aguilhados, em três longos artigos 
insertos na sua Medicina. Agradeci em carta a que sua ex.* 
respondeu declarando que sempre lhe era « muito agradável 
acompanhar e applaudir aquelies que trabalham em prol da 
nossa terra, tao desamparada de todo o progresso » e que- 
eu fazia « um grande serviço tocando nestas questões capi- 
tães para a nossa vida como sociedade civilizada». Tudo 
isso disse sua ex.^, na sua prosa solemne de conselheira 
Accacio, terminando por se confessar « com a maior consi- 
deração » meu admirador. 

Tempos depois, tendo eu chegado ás conclusões, que 
expuz no meu livro, sobre a nosographia de Camillo, in- 
quiri do que d'ellas pensava a magna sciencia do sr. Bom- 
barda e, como quer que s. ex.^ me respondesse expondo 
ideias com as quaes eu não podia concordar de forma 
alguma, respeitosamente lhe expuz, numa carta amabilis- 
sima, as minhas objecções. Sua ex.*, que, no fim da sua pri- 
meira missiva, se declarara « sempre ao meu dispor e muito 
feliz por me ver encarar tão interessante assumpto» e se 
confessava ainda meu «admirador ohrigadissimo », num 
simples cartão de visita me falou depois, d'esta maneira: 

« Só hoje posso responder á sua carta e tenho muita 
pena de não o poder fazer como desejaria. Foi um esforço 
ter 10 minutos para os esclarecimentos que me pediu ; agora 
seria impossivel enviar-lhe novos porque seriam precisos 
largos desenvolvimentos. Apenas lhe digo que se quizer 
pode publicar as suas affirmações». 

No fim d'esse bilhete, o snr. Bombarda dizia-se apenas 
« muito at tento e venerador ». Desde que discordei das suas 
X)piniões, sua ex.* deixou de me admirar. O que eu perdi ! 



O sr. Miguel Bombarda, todo impando a sua magiste- 
ratica magestade, vem agora de novo declarar que não tem 
tempo, — expediente que sua ex.* usa, pelo visto, todas as. 



CAMILLO 397 



vezey que se engasga. E diz mais que não sou medico e 
que á custa de discussões com médicos como sua ex,* pre- 
tendo figurar. E' uma esperteza saloia, que não colhe. 

Em primeiro logar, se o sr. director de lUlhafolles 
rebatesse Iriumphanlemente o que afirmei, a figura que 
eu fazia era bem triste; em segundo logar, notarei que, nos 
meus artigos, me abstive de expor a descoberto ideias 
minhas. 

No seu primeiro artigo, o sr. Bombarda, depois de 
varias calinadas de caloiro f-obie phobias e neuraslhenia, 
declarou que « hoje, a bem dizer para todos os médicos, a 
ataxia locomotora, do mesmo modo que a paralysia geral, 
não é mais que um derradeiro golpe da sypliilis». Não lhe 
disse se sim ou não realmente a ataxia, do mesmo modo 
que a paralysia geral, é o tal ultimo golpe. Limitei-me a 
provar-lhe irrefutavelmente que, ao contrario da afirmação 
de sua ex.*, nem todos os médicos pensam de tal modo. 

Se ó certo que hoje se attribue cá syphilis um papel 
iuiportante na etiologia do tabes e da paralysia geral, certo 
é também que, no modo de vèr da maior parte dos psy- 
chiatras, esse papel não é de forma alguma essencial e 
exclusivo Já citei muito em comprovação do que afirmo, 
e posso citnr ainda mais. Depois de publicado o meu artigo, 
tive occasião de lêr na integra os discursos de Fournier, 
pronunciados na Academia de Medicina de Paris em sessões 
de fevereiro e março do anno corrente, e pude vêr que, 
entre os muitos auctores que o oiador citou em abono das 
suas opiniões, só um lhe deu a afirmação de qi;e a paralysia 
geral ó « uma aíTecção d'origem exclusivamente syphilitica ». 
E sabem quem foi esse auctor? Um português que fcdou, 
ha dois annos, no congresso de medicina de Madrid:— o 
snr. dr. Bombarda. 

O que Fournier não disse — porque lhe não convinha — 
foi que, nesse mesmo congresso de Madrid, um illustrepsy- 
ohiatra, nosso compatriota também, o sr. dr. Magalhães 
Lemos — se levantou rebatendo as afirmaçíies do sábio lis- 
boeta e declarando, apoiado em observações suas e do seu 
eminente collega sr. dr. Júlio de Mattos, que não podia 
admittir a opinião de que todos os paralylicos geraes fossem 
syphiliticos. De resto, já o illustre director do Hospital do 
Conde de Ferreira, no seu livro A Loucura, fala de paraly- 
sias geraes sem precedentes syphiliticos e menciona inci- 
dentemente um caso publicado por Tuczek e em que taes 
precedentes também se nfo observam. 

A questão, porém, nío merece ma^s detença, já que a 



398 CAMILLO 



sr. Bombarda não hesita em dar a publico dislates, mas 
não tem tempo para responder a quem lli'os contraria. 



Diz o sr. Bombarda que eu registei numa dedicatória 
as qualidades fulgentes do seu espirito. Não o contesto. O 
espirito de sua ex.* indubitavelmente brilha. Mas brilha como 
os diamantes do « Bera» da esquina da rua Nova do Carmo 
e do Chiado : á custa das lamparinas que em redor os alu- 
miam. Os diamantes da loja são de vidro e espelho, o espi- 
rito de sua ex.* é de pechisbeque. 

Tinha o sr. Bombarda agora um óptimo ensejo de fazer 
obra ulil e de demonstrar que tudo isto não passa d'uma 
aleivosia que só o meu azedume e a minha vaidade ferida 
justificam. Sua ex.^ disse que, a seu vêr, Camillo, psychica- 
mente, era uma coisa "diversa d'aquillo que eu pensava. 
Convidei-o a dizer qual é a coisa qual é ella que o grande e 
infortunado Camillo foi em sua alma. Invoquei a bondade do, 
sr. Bombarda, os seus indeclináveis deveres de scientista; 
e sua ex.*, em vez de responder, pôs-se a fugir. 

Sr. dr. Miguel : venha cá ; diga o que pensa ; diga sem 
medo, que ninguém lhe faz mal, se fòr tolice ! Pois não vê 
V. ex.*, que, se eu sei quão profunda e copiosa é a sua 
sciencia, outro pôde vir menos instruído e que, em frente 
ao silencio de v. ex.**, desprezando os seus titules, os seus 
cargos e as suas honrarias, se lembre de lhe chamar parla- 
patão ? 

Paulo Osório. 

(D 'O Primeiro de Janeiro, de !23 de agosto de 1905.) 



NOTA G 



Lista (íííH obras origiiiaes de Camillo, pela ordem 
chronologica da sua publicação, segundo os 
elementos fornecidos pelo snr. Henrique Mar- 
ques, na sua excellente « Bibliograpliia Camil- 
liana»: 




Género 
litterurio 



Observações 



1845 I Os pundono 

jres desagrava 
dos 



184Õ O Juízo Fi- 
jnal ; e o Sonho 
do Inferno 



18i7 



Agostinliodo 
Ceuta 



Poemeto 
tyrico 



Poemeto 
tyrico 



Drama 



Nesta sua primeira 
producçAo impressa, Ca- 
millo, íaz troça d'um pro- 
jectado duello entre dois 
condiscípulos seus d'a- 
I quella época. 

«...para de uma as- 
sentada dizer mal de toda 
a gente — escreve Ca- 
millo no prologo do Aa 
Anoitecer da vida refe- 
riu d o-se a essa svia satyra 
— escrevi e pvibliquei um 
poema, em que descrevia 
a vida que viviam no in- 
ferno todas as classes da 
luinha antipatbia » 

Esta primeira compo- 
siçRo dramática de Ca- 
millo, cuja primeira edi- 
ção trás a dedicatória : 
« A seu tio João Pinto da 
Cunha, por um dever » 
anda ligado á aventura 
amorosa conx Patrícia 
Emília. Para que ella o 



4D0 



CAMILLO 




Geuero 
litterario 



Observações 



1848 



Maria ! Não 
me mates que 
sou tua mãe 



Narrativa 



ouvisse, improvizou Ca- 
millo em Villa Real vira 
theatro onde o drama se 
representou. 

« Uma viuva, Mathil- 
de do Kosario da Luz, 
que morava em Lisboa 
na travessa das Freiras 
n." 17 — conta o snr. Al- 
berto Pimentel no lio- 
mance do romancista — 
tinha duas filhas uma 
das quaes se chamava 
Maria José. Esta rapari- 
ga enaniorou-se d'um ra- 
paz chamado José Maria, 
o qual fui- pedi-la em ca- 
samento. Desde esse dia, 
Mathilde do Rosário 
admittiu em sua casa 
José Maria, que abusou 
da intimidade. Maria José 
appareceu gravida. A 
mãe, indignada, ameaçou 
ir denunciá-la ao rege- 
dor. Maria José, segundo 
se dizia então, fora acon- 
selhar se com o amante, 
que, por suppor que Ma- 
thilde era rica, induzia 
a filha a assassin.-l-la. Ma- 
ria José acceitára o con- 
selho e matara a mãe á 
facada. A pobre velha, 
quando a filha investiu 
deshumanamente com 
ella, em vao appellou 
para os sentimentos de 
piedade e ternura filiaes: 
MaHa não me mates, que eu 
sou tua mãe. » Falando do 
caso Thomaz Ribeiro afir- 
mou que o crime fora 
falsamente attribuido á 
filha da assassinada. Em 
todo o caso CamiDo ex- 
plorou sentimentalmente 
o assumpto, recebeu em 
cobre o preço do trabalho 
e. como ao sr. Alberto 
Pimentel, elle próprio 
confessou, « foi grande a 
sua satisfação quando em 



CAMILLO 



401 



«1 




Titxilo 


Género 
litterario 


Obseivações 




o"* 


1 














casa começou a despejar 










as algibeiras atalhadas de 










patacos. » 


5 


1848 


A Murraça 


Poemeto sa- 
tyrico 


Camillo mette a ridi- 
culo um oonflioto entre 
o padre João Bernardo, 
intimo do conde de Tho- 
mar e o arcediago Almei- 
da Pinheiro, irmão do 
barão de Grimancellos. 


6 


1849 


marquez de 
Torres Novas 


Drama 


A primeira edição 
d'este drama era oííere- 
cida « á ex.m» sr.» D. Ma- 
ria Felicidade de Couto 
Browne. » Conta Vieira 
de Castro que a Censura 
dramática, que ao tempo 
ainda existia no Porto, 
sentenciou assim sobre a 
peça de Camillo : « Não 
poderá representar-se o 
l drama Marquez de Torres 
Novas emquanto o seu 
auctor não emendar com 
letras maiúsculas a pala- 
vra rei que teima sempre 
em escrever com r pe- 
queno. » 


7 


1849 


caleche 


Opúsculo po- 
litico 




3 


1850 


clero e o 
snr. Alexandre 
Herculano 


Critica 




9 


1851 


Inspirações 


Poesias lyri- 
cas 


Uma d'essas poesias 
é a Harpa do sceptico. 


10 


1851 


— -Anathema 


Romance 




11 


1852 


Salvo, Hei ! 


Poesia de 
saudação 


Inspirado pelo casa- 
mento de D. Miguel de 
Bragança. 


12 


1852 


Revelações 


Opúsculo 


Este trabalho, publi- 
cado sem o nome do au- 
ctor, referese a uma 
questão de família, entre 
o conde do Bolhfto e sua 
mulher. Conta o sr. Ra- 
malho Ortigão, no Estudo 
critico que precede a edi- 



S6 



402 



CAMILLO 




Género 
litterario 



Observações 



13 



1854 



16 



17 



18 



19 



20 



nosanna ! 



Um livro 



Dnas épocas 
na vida 



Folhas cabi- 
das, apanhadas 
na lama 

Mysterios de 
Lisboa (3 vol ) 

 Signora 
Laura Geordano 



Á. Senhora 
Laura Geordano 

^A filha do 
Arcediago 



Poesias reli 



glosas 



Poesias lyri- 



Poesias lyri- 



Poesias saty- 
ricas 



Eomance 



Poesia de 
saudação 



Poesia 
saudação 



Eomance 



de 



ção monumental do Amó^ 
de Perdição : « Espancadc 
na rua de Santo António 
em reivindicação de un 
artigo de jornal contra í 
família de Constantini 
então em demanda con 
a família Bolhão, Camil 
lo, já por terra, com um£ 
larga ferida na cabeça 
antes de ser levado par£ 
casa do alfaiate Augastc 
de Moraes, desfechou ac 
peito do agressor um tiro 
de que elle escapou pels 
circumstancia de traze] 
em couraça um espesse 
collete de pelles. » 

Este opúsculo foi í 
origem d'uma polemicí 
entre o auctor e o profes 
sor portuense Amoria 
Vianna. 



Este volume conten 
as poesias do Hotanna t 
outras divididas em duaí 
partes : Preceitos do cora- 
ção e Preceito* da conscien 
cia, que um editor mais 
tarde publicou em volu 
mes separados. 



5 quadras distribui' 
das no theatro de S. João, 
na noite do beneficio da 
cantora. 

Um soneto distribuí- 
do na mesma occasião. 



CAMILLO 



403 



» r2 




Titulo 


Género 
litterario 


Observações 


21 


18Õ5 


^ Scenas con- 
temporâneas 


Miscellanea 


Romances, poesias, 
um drama, narrativas his- 
tóricas, eto. Camillo publi- 
cou vários livros d'este gé- 
nero, que figurarão nesta 
lista sob egual designa- 
ção genérica. No romance 
A caveira apparece a sce- 
na de Maria do Adro. 


22 


» 


"" Livro negro 
do padre Diuiz 


Romance 


Continuação dos Mys- 
terios de Lisboa. 


23 


1856 


*■ A neta do 
Arcediago 


» 


Continuação da Filha 
do Arcediago. 


24 


» 


Onde está a 
felicidade ? 


» 




25 


» 


Um homem 
de brios 


» 


Continuação do pre- 
cedente. 


23 


» 


Justiça 


Drama 




27 


1857 


Diins horas 
dfc> leitura 


Miscellanea 




28 


» 


"* Lagrimas 
abençoadas 


Romance 




29 


» 


Espinhos e 
flores 


Drama 




30 


» 


Purgatório e 
paraizo 


» 




31 


» 


" Scenas da Foz 


Komance 




32 


1858 


'^ Carlota An- 
gela 


» 




33 


» 


"" Vingança 


. 




34 




■* que fazem 
mulheres 




No fim do romance 
vêm a primeira poesia 
oíferecida por Camillo a 
Anna Plácido, designada 
ahi por Ludovina. 


35 


1861 


Abençoadas 
Lagrinias ! 


Drama 




36 




Morgado de 
Fafe em Lisboa 


Comedia 





404 



CAMILLO 






Género 
litterario 



Observações 



37 



S8 



í39 



1861 Doze Casa- 

imentos Felizes 



O romance 
d'um homem 
rico 



1862 



42 



Poesia ou di- 
nheiro ? 



~ As 
mãs 



três ir 



O n 1 1 i m o 
acto 



Romances 
Romance 



Drama 



Romance 
Drama 



Amor de per- 
dição 



Romance 



Um do3 personagens 
d'este romance de Camil- 
lo é tima evocação do pa- 
dre António d' Azevedo, 
I que foi, na Samardan, o 
primeiro educador do ro- 
mancista. 

Este drama já tinha 
sido incluído em 55 no 
volume das Scenas con- 
temporâneas. Menciono-o 
aqui, i>orque elle desap- 
pareceu das edições sub- 
fcequentes d'esse livro, 
correndo depois impresso 
em separado. Nesse dra- 
ma reproduz-se, ao que 
se diz, a historia do ca- 
samento de Anna Pláci- 
do, que lá apparece sob o 
nome de Henriqueta. 



Diz-se que este dra- 
ma reproduz uma das 
scenas da agitada vida 
do romancista. E' natu- 
ral ; tanto mais que lá 
apparece Anna Plácido, 
já sem o disfarce de qual- 
quer pseudonymo, mas 
apenas desinnaila jielos 
seus nomes de baptismo: 
Anna Augusta. 

E' ocioso recordar 
que este vulgarizadissimo 
romance é todo baseado 
em episódios em que fi- 
guram ppssoas da familia 
de Camillo. Foi escripto 
na cadeia. Este livro re- 
presenta o maior succes- 
so de livraria que até 
hoje se tem registado em 
Portugal. Vae na 15.» 
edição o que, em cal- 
culo aproximado, nos au- 



CAMILLO 



405 




Titulo 



Género 
litterario 



Observações 



45 



48 



1&62 



1863 



Memorias do 
cárcere (2 vol.) 

■* Coisas espan- 
tosas 



Coraçflo, ca- 
beça e estômago 



"* Estrollas fu- 
nestas 



«'Annos de 
prosa 



" Aventuras de 
Bazilio Fernan- 
des Enxertado 



j '*' O bem 
mal 



Impressões 
narrativas 

Romance 



otoriza a suppôr que 
d.'elle já se hajam consu- 
mido cêroa de 45:(J0C exem- 
plares. E isso entro nós 
è extraordinário. 



Nos Amores ãe Ca- 
millo, o sr. Alberto Pi- 
mentel pretende que no 
j primeiro capitulo d' este 
romance se encontra, sob 
o resguardo de nomes sup- 
postos, a melhor biogra- 
phia da niãe do roman- 
cista. 

Diz, também nos Amo- 
res ãe Vamillo, o sr. Al- 
berto Pimentel: «No 
livro Coração, cabeça e 
estômago, (ultima fÁrte, 
Estômago) ha muitas re- 
cordações, posto que já 
diluídas num soluto de 
ironia, dos amores e do 
casamento de Camillo 
com Joaquina Pereira. 
Salvas a edade, a côr dos 
cabellos, o não saber lêr, 
e alguma phantasia no 
vestir, a Thomasia do li- 
vro é a Joaquina da rea- 
lidade. » 



Aqui apparece mais 
uma vez Anna Plácido 
com o nome com que 
Camillo a cantou em 
verso varias ve/.es : Ma- 
chel. 



406 



CAMILLO 




Titulo 



Gonero 
litterario 



Observações 



1863 



1865 



Es t relias 
propicias 

^Memorias de 
Guilherme do 
Amarai 



Noites de La- 
mego 

•" Scenas inno- 
oentes da come- 
dia humana 



Agulha em 
palheiro 

^ Amor de sal- 
vação 

- A filha do 
I Doutor Negro 



No Bom Je- 
sus do Monte 



-"Vinte horas 
de liteira 

Divindade de 
Jesus o tradi- 
ção apostólica 



Esboços de 
apreciações lit- 
terarias 

•* O esqueleto 



Eomance 



Miscellanea 



Romance 



ContinunçRo dos ro- 
mances Onde está a feli- 
cidade? e Um homem de 
brios. 



Neste livro encon- 
tram-se mais uma vez 
insistentes e claras refe- 
rencias ao caso de Anna 
Plácido. 



Diz-se que o protago- 
nista d'este romance vi- 
veu realmente no Porto. 
O sr. H. Marques regista 
esse facto. 



Impressões e Os trechos autobio- 

narrativas | graphicos do auctor oc- 

I cupam largo espaço neste 
livro. Anna Plácido pas- 
sa a chamar-se nelle 
Adriana. 

Romance 



Escriptos re- Os artigos que com- 

ligiosos põem este volume haviam 

I sido publicados em jor- 
[ naes em 52 e 54. 

Critica I 



Romance \ Neste livro, apparece 
de novo a narrativa do 
episodio da Mana do 
Adro. 



CAMILLO 



407 




Género 
litterario 



Observações 



1865 



Horas de paz 



" Lucta de gi 
gantes 

O Morgado 
de Fafe amo- 
roso 



Preceitos do 
coração 



Preceito da 
consciência 

-««A engeitada 

^ O Judeu (2 
vols.) 



o Olho de vi- 
dro 

"^ A queda 
d' um anjo 



O santo da 
montanha 

Vaidades ir- 
ritadas e irri- 
tantes 



Esoriptos re- 
ligiosos 



Komance 
Comedia 

Romance 
Poesias lyri- 



Poesias lyri 



Romance 



Critica 



A maior parte dos ar- 
tigos incluídos neste li- 
vro tinham sido também 
publicados em jornaes no 
mesmo período dos a Di- 
vindade de Jesus e tradi- 
ção apostólica. 



E o 1.0 vol. da 2.» ed. 
das Duas épocas da vida, 
constituindo também vol. 
autónomo. 



É o 2.0 vol., nas mes- 
mas condições do prece- 
dente. 



O protagonista d'este 
romance histórico é o es- 
criptor português do sé- 
culo xviii, António José 
da Silva, O Judeu, morto 
nas fogueiras do Santo 
Officio. 



O protagonista d'este 
romance satyrico é, ao 
que parece, um conhe- 
cido personagem que oo- 
cupa logar distincto no 
episcopado português. 



Foi a contribuição 
de Camillo para a celebre 
Questão Coimbrã. 



40b 



CAMILLO 



^5 



«! 



Titulo 



Género 
litterario 



Observações 



1867 I A bruxa do 
I Monte Córdova 



"* A doida do 
Candal 

"^Cavar era 
r ai nas 

Cousas leves 
e pesadas 

"^ O Senhor do 
paço de Ninães 

*■ Mosaicos e 
sylva de ou.rio- 
sidades históri- 
cas, litterarias 
e biographicas 



1870 



Faie 



sterios de 



'^ O retrato de 
Ricardina 

* O sangtie 

>«. As virtudes 
antigas ou a 
freira que fazia 
chagas e o fra- 
de que fazia 
reis. — Um poe- 
ta português... 



Os brilhan- 
tes dobrazileiro 



Romance 



Miscellanea 



Romance 



Miscellanea 



Romance 



Miscellanea 



Romance 



D. AntoniOj Esboço bio- 
Alves Martins, graphico 
Bispo de Vizeu 



do 



O condemna- 



Drama 



A publicação d' este 
livro deu oriíiem a uma 
questão judicial e, annos 
depois, a uma escandalosa 
polemica entre o auctor 
e o editor Anselmo de 
Moraes. Vêr Noites de In- 
somnia. 



Este drama foi escri- 
pto a propósito da trage- 
dia em que foi protago- 
nista José Cardoso Vieira 
de Castro, a quem elle é 
dedicado. Juntamente cora 



CAMILLO 



409 



~ r~ O 




Género 
litterario 



Observações 



87 



88 



89 



90 



1871 



1872 



^A mulher 
fatal 



Theatro có- 
mico 



Voltareis, 
Cbristo ? 

A infanta 
eapellista 



Romance 



Comedias 



Narrativa 



Romance 



este drama, que tem três 
actos e quatro quadros, 
publicou- se um outro em 
um acto, Como os anjos ae 
vingam que, mais tarde, 
foi posto á venda em se- 
parado. 

Diz o sr. H. Marques 
que, «ao qne parece este 
romance não é de pura 
phantasia mas simples- 
mente a narrativa d'uma 
historia verdadeira ». 

As duas comedias que 
compõem este vol. — A 
Morgadinha de Vai d' Amo- 
res e Entre a Flauta e a 
Viola foram depois ven- 
didas em separado. 

Ainda a propósito do 
caso Vieira de Castro. 

Escreve o sr. H. Mar- 
ques : « Está incompleto 
este romance, que é in- 
contestavelmente o livro 
mais raro de Camillo ; a 
historia d'elle creio ser a 
seguinte : Estava Cauiillo 
escrevendo-o quando foi 
visitado pelo sr. D. Pe- 
dro II, ao tempo Impera- 
dor do Brazil ; este au- 
gusto personiigem infor- 
mou-se de qual o assum- 
pto do romance — um 
escândalo da casa de Bra- 
gança — e muito natural- 
mente pediu ao aui-tor 
que nao o continuasse ; 
Camillo accedeu, parti- 
cipou ao dono da im- 
prensa que era preciso 
inutilizar as folhas im- 
pressas, e este carregou 
com ellas uma carroça 
que niandoti para casa do 
auctor ; Camillo — conta- 
se — nao sabendo o que 
fazer de tant^ papelada, 
deu-a ao seu barbeiro, 



410 



CAMILLO 



^-.i 




Género 
litterario 



Observações 



92 



1872 O carrasco 
de Victor Hugo 
osé Alves 



Livro de con 
solaçao 



Romance 



que tratou logo de a pas- 
sar a patacos, vendenao-a 
a um merceeiro da rua 
de Santo António. A que 
estava destinado um li- 
vro de Camillo ! Embru- 
lhando assucar. café e 
outras especialidades da 
tenda, as folhas da Infanta 
iam desapparecendo, até 
que algumas foram parar 
ás mãos de gonte escla- 
recida, que tentou pôr 
cobro á profanação. Foi 
porém tarde, porque ape- 
nas meia dúzia de exem- 
plares completos (as 128 
paginas publicadas) se 
conseguiu apurar. Passa- 
dos meses, Camillo, arre- 
pendido talvez do sacri- 
légio que tinha commetti- 
do, inutilizando a sua 
obra, reimprimivi-a e com- 
pletou-a em volume, mu- 
ç[ando-lhe os nomes de 
alguns personagens, alte- 
rando ligeiramente a for- 
ma, arredondando certos 
periodos, e deu-no-la in- 
teira no Carragco de Victor 
Hugo José Alves, cuja pro- 
tagonista, se nao é per- 
feitamente nnia Infanta 
capellista, é, como em al- 
gures disse, uma Infanta 
luveira, da rua Nova da 
Palma, em Lisboa. Eis, 
como m'a contaram vá- 
rios amigos do Camillo, a 
oui-iosa historia do mais 
raro livro do glorioso ro- 
mancista». 

Yêr obs. precedente. 



Ainda a propósito do 
caso Vieira de Castro. 
Parte d'esse romance sa- 
hiu no Primeiro de Janei- 
ro, com o titulo de Espe- 
lho de desgraçados. 



CAMILLO 



411 



na © 



Titulo 



Género 
litterario 



Observações 



1872 

1873 
73-74 
1874 



1875 
75-76 
7577 
1876 



* Quatro horas 
innocentes 

A espada 
d' Alexandre 

O Visconde 
de Ouguella 

■^O Demónio 
do Ouro (2 vol.) 

Ao anoite- 
cer da vida 

Correspon- 
dência epistolar 
eutre José Car- 
doso Vieira de 
Castro eCamillo 
Castello Branco 

Noites de In- 
somnia (12 vols.) 

' O regicida 

- A filha do 
regicida 

A caveira da 
martyr (3 vols.) 

"^ Novollas do 
Minho (12 vols.) 

Curso de lit- 
teratura portu- 
guesa 



Cancioneiro 
alegre tie poe- 
tas portugueses 
e hrasileiros 

Os criticos 
do Cancioneiro 
alegre 

'^ Sentimenta- 
lismo e historial 



Miscellanea 



Opúsculo sa- 
tyrico 

Perfil biogra- 
phico 

Romance 



Poesias lyri 
cas 

Cartas e an 
notações 



Miscellanea 
Romance 



Romances 



Historia lit- 
teraria 



Compilação» 
comtnentario 



Polemica 



Miscellanea 



Vem reproduzido na 
Bohemia do espirito. 



Publicação mensal 



Continuação do pre- 
cedente 

Continuação dos pi-e- 
cedentes. 

Publicação mensal 



Continuação e com- 
plemento do Curso de lit- 
teratura portuguesa por 
José Maria de Andrade 
Ferreira. 



Vem incluído neste 
volume o romance Uuse- 



412 



CAMILLO 



^1 


4 o 


Titulo 


Género 
litterario 


Observações 


'■c 


Q ' 
















bio Macário, que nunca se 
publicou em separado. 


106 


1880 


Snioida 


Narrativa 


JA publicaria nas Noi- 
tes de Lamego com o ti- 
tulo de A formosa das vio- 
letas. 


107 




Luiz de Ca- 
mões 


Notas biogra- 
phioas 


É o prefacio da 7.» 
ed. do Camões de Garrett. 
Foi depois também in- 
oluido na Bohemia do 
espirito. 


108 




- Historia e 
sentimentalismo 


Misoellanea 


Vem incluido neste 
vol. o romance A corja, 
continuação do Eusébio 
Macário, que também 
nunca sahiu em volume 
autónomo. 


109 


■ 


Echos humo- 
risticos do Mi- 
nho (4 opúscu- 
los) 






110 


* 


A Senhora 
Rattazzi 


Critica 


Reproduzida na Bohe- 
mia do espirito. 


111 


1882 


Perfil do Mar- 
quês de Pombal 


Historia 




112 


» 


Como os an- 
jos se vingam 


Drama 


Ver ohs. ao n.« 87 
d'esta lista. 


IIB 


» 


Amoreradinba 
de Val-d'AmQ: 
res 


Comedia 


Vêr obs. ao n.» 89 
d'esta lista. 


114 


^ 


Eutre a flau- 
ta e a viola 


» 


Vêr obs. ao n.o 89 
d'estii lista. 


115 


» 


Narcóticos 


MiscelL^nea 




116 1 


» 


*" A brasileira 
de Prazins 


Eomance 




117 


1883 


D. Luiz de 
Portugal 


Historia 




118 


* 


Questão da 
Sebenta 


Polemica - 


Sao 9 os opúsculos 
que encerram todos os 
documentos da contenda 



CAMILLO 



413 



Geuero 
litteiario 



Observações 



121 



124 
125 



O General 
Carlos Ribeiro 



O vinho do 
Porto 



IM a r i a d 
Fonte 



Serões de S. 
Mijiuel de Seide 
(6 vols.) 

A Lyra Meri- 
dional 



B o b e ni i a do 
espirito 



127 

128 



Esboço de cri- 



Vulcões de 
Lama 



Nostalgias 



Memorias 



Historia 



Miscellauea 



Critica 



Miscellanea 



A diffaiiiaçãol Polemica 
livreiros, 
successores de 
Ernesto Char- 
dron 



Critica 



Piomance 
Poesias lyri- 



litteraria entre Camillo e 
os srs. drs. Avelino Ca- 
listo, já então lente de 
Direito, e José Maria Ro- 
drigues, ao tempo ainda 
alumno da faculdade de 
Theologia. As replicas de 
Camillo foram reprodu- 
zidas na Bohemia do es- 
pirito. 



É o conimentario ao li- 
vro do padre Casimiro, 
Apontamentos para a His- 
toria da líevolução do Mi- 
nho em 1846. 



É uma separata, fora 
do mercado, do prefacio do 
livro de versos que, com o 
mesmo titulo, o sr. António 
d'Azevedo Castello Branco 
publicou. 



A propósito d'uma 
questão judicial entre o 
auctor e os mencionados 
livreiros, originada na pu- 
blicação da Bohemia do 
espirito. 

É uma detida analyse 
da traducção do Othello de 
Shakespeare, pelo rei D. 
Luiz. 



414 



CAMILLO 



E 


14 


Titulo 


Género 
litterario 


Observações 


•e 


Q « 








129 


1889 


Delictos (la 
Mocidade 


Miscellanea 


É a compilação, feita e 
annotada por Freitas For- 
tuna, das piimeiras compo- 
sições de Camillo. 


130 




Vida do José 
do Telhado 


Narrativa 


E um folheto reprodu- 
zindo as paginas que Ca- 
millo consagra nas Memo- 
rias do cárcere ao celebre 
salteador. 


131 




Revista do 
Porto 


Folhetim 


É a reproducção, feita 
por Freitas Fortuna, d'um 
folhetim publicado no Na- 
cional, em 25 de fevereiro 
de 1850. 


132 


1890 


Nas trevas 


Sonetos 





O sr. H. Marques menciona mais, com escrupuloso des- 
envolvimento, ainda que advertindo de que não pretende 
dar essas listas como completas : 

— Livros traduzidos por Gamillo .... 14 

— Livros de diversos auctores, acompanha- 
dos de advertência, analyse, annota(^'ões, 
apreciação, carta, iritroducção, juizo cri- 
tico, nota, preambulo, proemio ou prefa- 
cio de Canlillo 87 

— Outros livros illustrados com escriptos de 
Camillo, inéditos ou reproducções ... 88 

— Revistas litterarias, periódicos, jornaes e 
publicações de género idêntico, redigidas 
ou collaboradas por Camillo (inedito-s ou 
reproducções) Vld 

Mencionando nas obras originaes um livro de cartas 
ao sr. Joaquim d' Araújo, dividindo os opúsculos da Quedão 
da sebenta e mencionando em separado as edições do Maria 
não me matei que sou tua mãe! que sahiram com os titules 
de Maria José e Matricidio sem exemplo, o sr. H. Marques 
regista 456 números na sua Bibliographia. 



índice 



Pag. 

Prefacio 9 

Genealogia 17 

Biographia : 41 

I- 1825-1844 43 

11 — 1845-1848 81 

III -1849-1890 113 

Nosographia : 153 

I — Os factos 155 

II — Discussão 233 

III — Conclusões 259 

A obra: .... * 263 

I 265 

II 313 

III 333 

IV 345 



Notas 



A — A genealogia de Gamillo 353 

R — O « Annôr de Perdição » 354 

C — A mãe de Gamillo 359 

I) — A casa de Seide 368 

E — Gartas inéditas 370 

F — Gamillo e o sr. dr. Bombarda . » . . . 384 

G — Lista das obras 399 



ERRATA 



Entre alguns lapsos de revisão facilmente comprehen- 
siveis, cumpre corrigir o segninte : 

Na pagina 155, linha 2 do primeiro paragrapho, onde 
se lê intenso, deve lêr-se doloroso. Na transcripgão do mesmo 
periodo, em pag. 247, linha 5, deve fazer-se igual emenda. 



u-ada 



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