(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Cartas de Affonso de Albuquerque, seguidas de documentos que as elucidam"

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct and hclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers rcach ncw audicnccs. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



f 



a Ao 4-- 5 



■efe irrS trrtr 



GOLLEGÇAO 



DE 



MONUMENTOS INÉDITOS 

PiRA A HISTORIA DAS CONQUISTAS DOS PORTUfiDBZES 

EM AFRICA, ÁSIA E AMERICA 



I.* SEIIE 



HISTORU DA ÁSIA 



CARTAS 



DE 



MONSO DE ALBUQUERQUE 

SEGUIDAS DE DOGUNENTOS QUE AS ELUCIDAI 

PUBLICADAS 



DE 



ORDEI DA CLASSE DE SCiENGIAS lORAES. POLITICAS E BELUS-LETTRAS 



DA 







s 






E SOB i DffiEGClO 



DE 



Raymiiiido António de BnlMo Pato 



SÓCIO DE MEBITO DA MESMA ACADEMIA 



TOMO III 



LISBOA 

TjpagrapUa da Acadeaia Real das Sdradas de Lisbea 

MDCGCGIII 



( 

í 




'c5 



■ t9/U>Ri95, g! 

^> fif mm £j 




Fechámos o segando tomo doestas Carias com uma selecção de do- 
cumentos que, elucidando de um modo geral a historia do dominio por- 
tttguez no Oriente durante o período em que Albuquerque lá esteve, 
contribuem muito para que, neste corpo, o historiador encontre todos os 
subsídios necessários para reconstiluiri verdadeira e completa, a alta in- 
dividualidade do famoso heroe. 

No presente volume, enriquecemos essa importante selecção com 
algumas espécies que posteriores investigações nos revelaram; incluímos, 
depois, cartas e outros documentos dirigidos a Albuquerque, e, por ul- 
timo, encetámos a publicação de uma serie de peças em que se allude 
ao tenibil conquistador, — entre ellas algumas cartas em que seus inimi- 
gos, calumniando-o, procuram malquistal-o com o rei. 

No tomo seguinte, que será, como annunciámos na introducção 
ao volume u, o ultimo dos que se referem a Albuquerque, terminaremos 
essa curiosa serie, que já temos inteiramente coUigida, daremos, porven- 
tura, ainda, um novo grupo de documentos que, embora se não refiram 
directamente a Albuquerque, são elementos preciosos para a composição 
do fundo em que ha de avultar a sua extraordinária figura, e publicare- 
mos, em additamento, alguns documentos de que não houvemos noticia 



YI 



a tempo de os inserir dos logares competentes. Um índice geral, ono- 
masticOy porá remate aos quatro volumes. 

O sub-titulo Documentos elucidativos^ que dêmos ao segundo tomo, 
cabe, pois, igualmente, como se vè, ao terceiro e ao quarto. 

No decurso da impressão d'este volume, pediu exoneração do cargo 
de nosso collaborador-paleographo, em consequência do mau estado da 
sua saúde, o sr. Rafael Eduardo de Azevedo Basto,— hoje fallecido. Para 
o substituir, escolhemos, e a Academia nomeou, o primeiro conservador 
da Torre do Tombo, D. José da Silva Pessanha, cuja coUaboração começa 
na 31.* folha. 



DocHTos m SE mnm mn volvi 



DocDinentos datados 

PAO. 

180O Março 1.— Lisboa. 

Carta del-rei D. Manuel para o rei de Galecat, mandada por Pedro Al- 
vares Cabral, na primeira armada que foi â índia, depois de descoberta 

por Vasco da Gama 86 

1803 Março 10.— Lisboa. 

Carta delirei D. Manuel, mandando pagar cem mil reaes, da tença do 

referido anno, a Affonso de Albuquerque 210 

1803 Dezembro 28.— Cocbim. 

Carta de Diogo Fernandes a Affonso de Albuquerque, participando- Ibe 

ter o rei de Calecut desbaratado o de Cochim 211 

1604 Dezembro 24.— Cochim. 

Carta de Álvaro Vaz para el-rei D. Manuel, referindo diversos suoces- 
80S occorrídos desde a partida dos Albuquerques até á chegada de Lopo 
Soares, entre elles os da guerra sustentada por Duarte Pacheco contra o 

rei de Calecut, na defesa de Cochim • . 266 

1606 Outubro 6. 

Alvará do viee-rei D. Francisco de Almeida, dando quitação a Gaspar 
Pereira do dinheiro que recebera de diversas pessoas para se pagarem as 

partes da tomada de Mombaça 177 

1507 Março 4. 

Extracto de uma carta de Pêro Vaz d*Orta a el-rei D. Manuel, elogiando 
Affonso de Albuquerque, dando varias informações relativamente a Mo- 
çambique, e participando que ia em busca da terra do Preste JoSo 277 



^ 



PAO. 

1507 Oatubro27. 

iDStrumento que contém um requerimento e protesto de João da Nova, 
capitão da nau Frol-de-la-mary que pretendia separar-se da armada com 
que Affonso de Albuquerque andava no Estreito, e seguir para a índia ; 
um mandado de Tristão da Cunha, e a resposta de Albuquerque ao reque- 
rimento de João da Nova 278 

1807 Novembro 13.— Ormui. 

Requerimento e protesto dos capitães da armada de Affonso de Albu- 
querque, a propósito dos seus actos em Ormuz 283 

1607 Dezembro 8.— Ormuz. 

Protesto de vários capitães da armada de Affonso de Albuquerque con- 
tra os aggravos que delle recebiam, em virtude de lhe haverem requerido 
que fosse ao Har Roxo» que mandasse a nau Frol-ie-kMnar com as pa« 
reas de Ormuz ao vice-rei, e que fosse prover a fortaleza de Socotora . • • 287 

1807 Dezembro 11. — Ormuz. 

Protesto de Francisco de Távora contra injvias que recebera de Affonso 
de Albuquerque, por ser um dos capitães que lhe haviam requerido que 
fosse ao cabo de Guardafui, mandasse a nau Frdirde-la-mar â Índia com 
as páreas de Ormuz, etc. ; e resposta de Albuquerque 287 

1608 Fevereiro 6.— Ormuz. 

Carta de Francisco de Távora para o vice-rei D. Francisco de Almeidai 
queixando-se de Affonso de Albuquerque, sob cujas ordens servia, na ar- 
mada do Estreito 294 

1808 Março 10.— Cananor. 

Carta do vioe-rei D. Francisco de Almeida para o rei de Ormuz, dizendo 
que, por quatro capitães dos que lá estavam com Affonso de Albuquerque 
que haviam chegado a Índia, soubera que, por culpa destOi se rompera 
de novo guerra com Ormuz; e que por isso o chamava, para que rece- 
besse o castigo que suas culpas merecessem 206 

1608 Abril 10. 

Declaração de Pêro de Oliveira, escrivão da nau FnA-^êAa-mar^ sobre 
o requerimento e protesto apresentado pelo respectivo capitão, João da 

Nova, a Affonso de Albuquerque 282 

1808 Setembro a Dezembro. 

Carta para el-rei D. Manuel (de António de Cintra, secretario de D. 
Francisco de Almeida?), em que, a par de outras informações, relata como 
fora Affonso de Albuquerque recebido pelo vice-rel. (Insere copias de ov- 
tras carias) 297 

1609 Setembro 9. 

Ordem do vice-rei D. Francisco de Almeida para que Lourenço de Brito, 
capitão da fortaleza de Santo Angelo de Cananor, guardasse, preso e incom- 
municavel, na torre de menagem, Affonso de Albuquerque 306 



IX 
PAG. 

1510 Janeiro 14. — Almeirim. 

Carta regia» em que se estipulam as regalias o soldos coaoedidos ás pes- 
soas que quisessem embarcar na armada de 1511, para servir na Índia. . 3 
1810 Fevereiro 6. — Malaca. 

Carta de dezenove portuguezes captivos em Malaca para Affonso de Al- 
buquerque, informando acerca dessa cidade e da forma de a conquistar. 

(Segu€'Se copia de uma carta áel-rei de Pedir para o de Portugal) 5 

1510 Outubro 6.— Cochim. 

Requerimento e protesto apresentado por João Maneei! , feitor da nau 
Santa Claras a Atfonso de Albuquerque, por este haver tomado a dita nau* 
que era de particulares, levando-a para Goa na sua armada e gastando-lbe 

os mantimentos 307 

1510 Outubro 14.— Cananor. 

Carta de Julião Nunes» vigário de Cananor, para el-rei D. Manuel, quei- 
xando-se do capitão da fortaleza dessa cidade e elogiando Afifonso de Al- 
buquerque 308 

1510 Novembro 1.— Anvers. 

Carta de João Brandão a el-rei, participando-Ihe que adquirira os mas- 
tros cuja compra lhe fora ordenada, e referindo-se a noticias que houvera 
da tomada de Meca, e da destruição de Calecut, pelos portugueses 18 

1510 Dezembro 20.— Cochim. 

Conhecimento do qual consta haver Fernão de Almeida, almoxarife de 
Cocbim, recebido do feitor, Diogo Pereira, seis mãos de papel 19 

1511 Abril 3. 

Carta del-rei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, notificando*lhe ha- 
ver ordenado ao feitor e oiEciaes de Cochim e Cananor, que não dessem 
mercadorias a ninguém, nem em pagamento de ordenados nem por com- 
pra 213 

1511 Abril 26. 

Mandado do capitão de Goa, Rodrigo Rebello, para que o feitor, 
Francisco Corvinel, desse a Bology de Banda, capitão, certos artigos de 
vestuário, com a clausula de se passar com a sua gente para onde estava 

Merlao 19 

1511 Maio 14. 

Mandado do capitão de Goa, Rodrigo Rebello, para que o feitor, Fran- 
cisco Corvinel, entregasse a Diogo da Veiga, tanadar de Banestarim, um 
fardo de arroz e cinco pannos de Cambaya, para dar aos seus peães, em 
recompensa de haverem tolhido o passo aos mouros que pretendiam entrar 

a ilha 20 

1511 Julho 12.— Lisboa. 

Carta del-rei D. Manuel ao bispo de Segóvia, em qne lhe dá parte da 
tomada de Goa e da embaixada do xeque Ismael 20 

B 



PAO. 

1811 Agosto 23.— Goa. 

Mandados do capitão de Goa, Diogo Mendes de Yasconceilos, para que 
o feitor, Francisco Corvincl, fizesse certos donativos a diversas pessoas em 
attenção a serviços prestados 22 

1511 Setembro 9. 

Inventario das mercadorias e dinheiro recebidos por Lourenço Moreno, 
feitor em Cochim , na entrega que da dita feitoria lhe bi Diogo Pereira, 
seu antecessor 23 

1512 Fevereiro 23.— Lisboa. 

Carta del-rei D. Manuel para AiFonso de Albuquerque, reeommendando- 
Ihe que posesse toda a diligencia em que tomassem para nós os homens 

que tinham pa3sado para os mouros • 214 

1612 Março 11.— Lisboa. 

Carta deWei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, manifestando o de- 
s^o de que a gente andasse bem paga de seus soldos, mas i custa de ou- 
trem» e nao á sua 215 

1512 Abril 15.— Sofala. 

Auto que mandou fazer o capitão António de Saldanha sobre a morte do rei 
4e SofaU o acerca da eleição de um xeque que o s]âd)stitulsse no governo. . 31 
1512 Setembro 2.— Goa. 

Mandado do governador de Goa, Manuel de Lacerda, para que o feitor, 
Francisco Corvinel, desse a Rodrigo Rebello, capitão indio, dois pardaus e 

uma taficira de meia seda 38 

1512 Dezembro 1. — Cochim. 

Carta do rei de Cochim a el-rei D. Manuel sobre diversos assumptos, 
entre os quaes a necessidade de se guardar a costa, a fim de evitar que 
carregassem pimenta os navios de Meca; a paz com Calecut; aconstru- 
cçâo de uma fortaleza em Crangalor, etc 38 

1512 Dezembro 15. — Cochim. 

Carta de António Real para el-rei D. Manuel* informando-o do qi^e oo- 
eorréra na Io4iak, depois que o capitao-mór viera de Malaca. (Fai varias 

accu^aç9es a Affonso de Albuquerque) 337 

1612 Dezembro 18.— Goa. 

Carta de dois judeus hispanhoes a el-rei D. Manuel, pedindo mercês 
por serviços prestados em cousas de que os encarregara Monso de Albu- 
querque 44 

1513 Janeiro 12.— Cananor. 

Carta de Duarte Barbosa a el-rei D. Manuel, informando-o de que em 
Cananor achara a gente revoltada contra Diogo Corrêa, e de que elle e o 

capitio-mór, com muito trabalho» haviam feito cessar 00 tumukos 48 

1513 Janeiro 12.— Cananor. 

Carta de Gaspar Pereira para el*reí D. Manuel, em que diz que o ho- 



11 

PAO. 

mem que se apresentava como embaixador do Preste João, era mn espiio, 
grande piloto e feiticeiro, e que Aflbnso de Albuquerque, nio obstante sa- 
ber isto, como lhe constava, se calava 3S6 

1613 Fevereiro 18.— Évora. 

Carta del-rei D. Manuel a AfTonso do Albuquerque recommendando-lhe 
que re£tríngisse quanto possível as despezas que se faziam no conberto de 

naus e navios na ribeira de Cochim 216 

1613 Fevereiro 22.— Cananor. 

Carta de Fernando Peres de Andrade, capitão das Molucas, para o go- 
vernador da índia, em que dá conta de vários successos da guerra naquelle 

arcbipelago 61 

1613 Fevereiro 24.— Évora. 

Carta del-rei D. Manoel para AfTonso de Albuquerque, sobre o modo de 

• se repartirem as presas ; 244 

1613 Junho 13.— Lisboa. 

Mandado del-rei D. Manuel para que se pagasse em pimenta a Gonçalo 
Alvares, piloto-mór das armadas da índia, tudo o que tia Casa da índia 

lhe fosse devido 66 

1813 Ontubro20.— Dabul. 

Carta de Francisco de Albuquerque para el-rei D. Manuel, dando-lbe 
cotita da constroc^ de uma fortaleza em Malaca, e àotitía das terras cir- 

eumvizinhas, seus producto^ e commercio 367 

1813 Ootubro 22.— Goa. 

Cartas de Francisco Corvinel a el-rei, em que elogia os actos de Affooso 
de Albuquerque e se queixa dos officiaes de Cochim; e bem assim o in- 
forma de negócios de fazenda • ^ . ; . ; 68 

1613 Outubro 31 .—Goa. 

Carta de Vicente da Costa para el-rei D. Manuel, dizendo qtie Affonso 
de Albuquerque o fizera escrivão da feitoria de Goa^ e lhe reduzira depois 
o ordenado a metade; mostrando a vantagem de serem alli pagos oS M- 

dos em mantimentos^ etc 376 

1613 Novembro 20 

Carta do rei de Cochim para o de Portugal, protestando-lhe que só 
nelle confiava e só com elle quena amizade, e queixando-se de harvèr Af- 
fonso de Albuquerque^celebrado pazes com Calecut, sem o consultar. ... 73 
1613 Novembro 22. — Cochim. 

Carta de Lourenço Moreno para el-rei D. Manoel, informando extensa- 
mente acerca dos negócios da índia e queixando-se de Affonso de Albu- 
querque 380 

1613 Novembro 23. 

Carta do rei de Cochim para o de Portugal, sobre o mesmo assumpto da 
de 20 de novembro de 1613 77 



xu 

PAG. 

(513 Dezembro^S. 

Mandado de Pedro Mascarenhas, para que o feitor, Francisco Gorvinel, 
pagasse a João Rodrigues, carniceiro^ cento e trinta pardaus, de oitenta 
vaccas e dois quintaes dè cebo que fornecera ás naus da armada do capi- 
tão-mór , 89 

1513 Dezembro 11.— Cochim. 

Carta do rei de Cochim para o de Portugal, queixando-se dos males que 
lhe fizera o rei de Calecut, e de haver o capi tão-mór celebrado pazes com este 
soberano 81 

1514 Janeiro 6. — Malaca. 

Carta de Ruy de Brito, capitão de Malaca, para el-rei D- Manuel, infor- 
mando sobre os producios e commercío de algumas terras do Oriente, etc. . 91 
1514 Janeiro 6.— Malaca. 

' Carta de Ruy de Brito a Afonso de Albuquerque sobre cousas de Malaca . 216 
1514 Janeiro 7.— Malaca. 

Carta dos officiaes de Malaca a el-rei D. Manuel, dando conta de estar 
Malaca em paz e bem governada; de terem partido navios e juncos para 
Java, China e outros pontos, a carregar mercadorias; de serem já tributá- 
rios de Portugal parte dos reis vizinhos, etc 89 

1514 Março 2. — Almeirim. 

Carta del-rei D. Manuel a AfTonso de Albuquerque, dizendo que lhe en- 
viava João Serrão para, percorrendo o Mar Roxo até Suez, obter informa- 
ção das cidades, portos e commercio de uma e outra das suas margens. . 232 
1514 Março 12.— Almeirim. 

Carta del-rei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, recommendando- 
lhe que auxiliasse o arei de Cochim, António Real, a quem escrevera, or- 
denando-lhe diligenciasse que os indígenas, tanto christãos como gentios, 
navegassem em as naus de Portugal, a fim de que os mouros fossem per- 
dendo a navegação 231 

1514 Março 13. 

Carta del-rei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, encommendando-lhe 
que soubesse se Fernão Jacome tinha fallecido, e, neste caso, arrecadasse 

os seus bens 234 

1514 Março 21. 

Carta del-rei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, reprehendendo-o 
por não ter dado a Silvestre Corso a capitania da galé grande por elle 
construida, e mandando que lh'a entregasse, tirando-a aquém a tivesse. . 234 
1514 Outubro 23.— Goa. 

Carta de António da Fonseca para el-rei D. Manuel, pedindo-lbe a es- 
crivaninha da feitoria de Cochim, visto estar sobrecarregado com todo o 
negocio e despacho da índia, sem interesse algum, depois que Gaspar Pe- 
reira deixara de servir seus officios 97 



na 

PAG. 

1514 Novembro 19. — Aimeirím. 

Mandado del-rei D. Manuel, a fim de serem dados um gibão e calças ao 

embaixador do Preste João 98 

1S14 Novembro 29.— GhaaK 

Carta de Ghristovão de Brito para el-rei D. Manael» qneixando-se de 
Francisco Pereira, por ca]a culpa haviam as naus estado a ponto de se 
perderem; e informando-o do valor de algumas mercadorias 99 

1514 Dezembro 12.— Cochim. 

Auto de inquirição de testemunhas sobre o apresamento que Manuel de 
Mello» capitão da nau Santa Maria da Luz^ fizera de uma nau de Calecut, 
não lhe guardando o seguro 101 

1614 Dezembro 14.— Cocbim. 

Carta do rei de Cochim para el-rei D. Manuel a favor de João Carneiro, 
que servia na fortaleza dessa cidade 117 

1515 Janeiro 4.— Malaca. 

Carta de Pedro de Faria para el-rei D. Manuel, dando-lhe conta das cou- 
sas dé Malaca e do procedimento do respectivo capitão, Ruy de Brito.. • . 118 
1515 Janeiro 8. — Malaca. 

Carta do capitão de Malaca, Jorge de Albuquerque, para el-rei D. Ma* 

nuel, sobre os seus actos no desempenho desse cargo 133 

1515 Janeiro 12 e 28. Fevereiro 10, 26 e 28. Março 5 e 23. Junho 6. 

Mandados del-rei D. Manuel, a fim de que Ruy Leite entregasse a Lou- 
renço Cosme diversos objectos que haviam de ser enviados ao Preste João; 
e respectivos conhecimentos 139 

1615 Março 10. — Almeirim. 

Alvará del-rei D. Manuel, ordenando que se dessem uns vestidos a 
Duarte Galvão, enviado por embaixador ao Preste João • 159 

1615 Março 30.— Lisboa . 

Alvará del-rei D. Manuel sobre o modo de ser provida a capitania-mór 
da índia, se morresse em viagem Lopo Soares, que ia nomeado para esse 
cargo 235 

1616 Outubro 11. 

Mandado do capitão-mór, a fim de que o feitor de Ormuz desse a Diogo 
Homem diversas moedas desse reino para serem entregues a el«rei de Por- 
tugal 1 60 

1616 Outubro 14 e 16.— Cananor. 

Autos relativos aos aggravos que o embaixador do Preste João dizia ha- 
ver recebido do embaixador português, Duarte Galvão 160 

1615 Outubro 16.— Ormuz. 

Mandado de Affonso de Albuquerque para que lhe fosse paga certa quan- 
tia que emprestara aos officiaes del-rei nas feitorias da índia, para serviço 
do mesmo senhor 168 



1 
I 



IIT 

PÃO. 

1515 Dezembro 11. — Gochim. 

Cirta do emiiaiiador do Preste João para el*rei D. Mamiel, em que re* 
commenda o vigário que estivera em Ganauor 169 

1516 Março 11. — Almeirim. 

Carta del-rei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, mandando-lhe, em a 
nau S. MatheuSf Affonso Lopes da Costa, que, depois de castigado por suas 

culpas, se mostrava arrependido e disposto a bem servir 237 

1516 Março 20.— Almeirim. 

Carta del-rei D. Manuel a Affonso de Albuquerque, ordenando-lhe que, 
no caso de haver tomado Aden ou algum outro porto do Mar Roxo, ou de 
ter entrado o mar da índia a armada do Soldão, permanecesse na índia, 
repartindo o governo com o novo capitao-mór, Lopo Soares 238 



Dicnmentos sem data on Incompletamente datados 

Nota de diversas presas feitas desde 18 de fevereiro de 1510 até 12 de 

setembro do mesmo anno, em frente de Onor e em outros pontos 13 

1512(?) Dezembro 7.~Cochim. 

Carta de Gaspar Pereira para el-rei D. Manuel, sobre assumptos de reli- 
gião e outros 41 

Janeiro 15. — Cocbim. 

Carta de Pedro Fernandes Tinoco a el-rei D. Manuel, queixando-se de 
o não deixarem ir a Narsinga e de outros actos do vice-rei, D. Francisco 
de Almeida 190 

Escripto de Gaspar Pereira^ perguntando ao vice-rei, D. Francisco de Al- 
meida, se devia pagar os soldos requeridos por Jacome, bombardeiro alle- 
mão. — Despacho ordenando o pagamento. (Anterior a novembro de ítSOS), 181 

Alvará do vice-rei, D. Francisco de Almeida, mandando suspender o pa- 
gamento dos soldos e quintaladas a algumas pessoas. (Anterior a novembro 
2*1608; 182 

Carta do rei de Temate para el-rei D. Manuel, testemunhando-lhe a soa 
obediência, e pedindo-lhe um capacete e uma cadeira 182 

Carta de Silvestre de Bachon para el-rei D. Manuel, pedindo alvará de 
licença para voltar ao reino, caso lhe não fosse dado certo oflBeio 183 

Regimento dado por el-rei D. Manuel ao capitão de uma armada que man- 
dava á ladia. (Minuta) 185 

Lei del-rei D. Manuel, probibindo que pilotos, mestres e marinheiros fos- 
sem servir em países estrangeiros (Copia) « . • . 4 • • • . 194 



XV 
PAG. 

Carta de Gaspar da ladia a el-rei D. Manuel, lamentando ter-se feito 
uma fortaleza em Socotora, afBrmando qae os capitães das naus não cuida- 
vam dos interesses do rei, e manifestando desejo de se retirar do serviço. 
1807 (?) 195 

Carta de António Camello a el-rei D. Manuel, informando-o dos assum- 
ptos de cartas de alguns reis e chefes mouros, as quaes elle, como lingua, 
traduzira do árabe 198 

Carta de Gaspar da índia a el-rei D. Manuel, sobre a viagem que fizera 
com o vice-rei, D. Francisco de Âfmeida, de Lisboa a Gochim 200 

Termo de preito e menagem prestados a el-rei D. Manuel por António 
Beal, como alcaide-mór da fortaleza de Cochim. (Copia) 20& 

Traslado de algumas declarações do regimento que levou Lourenço Mo- 
reno, quando nomeado para uma feitoria SOS 

Carta de D. João, embaixador do rei de Calecut, a el-rei D. Manuel, ex- 
pondo os privilégios dos chatins, a cuja casta pertencia, e pedindo um bra- 
zão de armas, o habito de Christo, e a jurisdicção dos chatins e naires que 
se fizessem christãos 208 

Carta do vice-rei, D. Francisco de Almeida, a Affonso de Albuquerque, 
sobre a conveniência de ser demolida a fortaleza de Socotora, e mostrando 
o erro de ter-se abandonado a guarda do Estreito pela conquista de Ormui. 
(Não chegou a^ser expedida) *. 241 

Alvará do vice-rei, D.Francisco de Almeida, para Affonso de Albuquer- 
que, pedindo que suspendesse a guerra contra Ormuz até vir resposta do 
respectivo soberano sobre o pagamento das páreas. (Copia) 243 

Carta de Fr. António a Affonso de Albuquerque^ recommendando-lhe 
um seu tio, exaltando os feitos do grande capitão, e lamentando-o pelos ag- 
gravos dos invejosos 246 

Carta de Duarte Gali^ para Affonso de Albuquerque acerca da guerra 
contra os turcos, e incitando-o a emprehender a conquista de Meca 248 

Carta de Tristão da Cunha para Affonso de Albuquerque, mostrando- 
Ihe não ter razão para estar descontente com elle, como lhe constara que 
esteva 252 

Carte del-rei D. Manuel para D. Francisco de Almeida, informando-o 
das instrucçdes que levavam Tristão da Cunha e Affonso de Albuquerque, 
ordenando-lhe a ida a Malaca, Geylão, etc. (1506, março ou abril) 268 

Requerimento e protesto de Affonso Rodrigues, feitor do navio Santo Xn- 
tonio, sobre o facto de haver Affonso de Albuquerque tomado para a sua ar- 
mada esse navio. (1510, em dia posterior a 16 de março) 312 

Summarios de cartes escriptas da Índia e Moçambique a el-rei D. Ma- 
nuel. (1510-1512.— ilí^iM tiem data) 313 




DOCUMENTOS DIVERSOS 



(CONTINUAÇÃO) 



TOMO 111 



DOCUMENTOS DIVERSOS 



(CONTINUAÇIO) 



1610— Janeiro 14 



Trellado de buma caria do baram, da liberdade dos omens darmas do 
qae am dauer. 

Todas as pesoas qoe quyserem hyr servyr eirey noso senhor a Im- 
dya, na armada qae prazendo a deus ade partyr o anno de quinhentos e 
onze, pêra Ha andarem em suas armadas e seruirem nas cousas qae lhe 
mandar seu capitam mor, o dilo senhor lhe ordena quinhentos reis de 
soldo por mes, e mais lhe será dado de comer; e alem dysto praz a sua 
alteza que em todo tempo que Ia amdarem posam liuremente comprar e 
comprem todo aljofare, pedrarya, panos de toda sorte, posto qae sejam de 
- seda, allmiscar, ambre e beíjoym, e porcelanas, e todas oatras mercada- 
ryas qae na terra ouuer, e a ella vierem de quaesquer partes que sejam, 
e de quaesqaer sortes e calydades qae forem, tyrando, somente especea- 
ryas e drogaryas, e lacre, e timtas, e anyll ; e do beijoym porem nam po- 
derá nenhuma pessoa comprar mais que ate hum qaintal delle, as quaes 
mercadoryas todas compraram per sy e por quem lhe aproauer, e pelos 
preços qae lhe bem vier, sem as tays compras serem feylas por feytor do 
dito senhor, nem das partes, como ate quy se fez; e de todas as mercada- 
ryas que asy comprarem, e emviarem o tempo que la amdarem, praz a saa 
alteza qae nam pagaem nenhum direylo la na Imdya nem qaa no reino, 
asy dizimo como quarto e vintena: praz mais ao dito senhor qae posam 

1« 



4 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

trautar e comprar e vender todos os mantimentos da terra, e posam nyso 
trautar francamente e a sua vontade, e hyr e emviar por ellas as terás e 
lugares omde os ouuer, avendo pêra sy hirem ou emviarem primeyro li- 
cença do seu capitam mor, e francamente e a sua vontade os venderem, 
asy aos christãss como a jemte da terra, e asy mesmo algodaes e as ou- 
tras mercadoryas que na terra ouuer, e que nela se venderem, tirando as 
sobreditas que o dito senhor resallua, em que nam emtemderam; e praz 
ao dito senhor que nestas cousas dos ditos mantimentos e mercadoryas 
que asy lhe praz que posam comprar e vemder, e na terra posam tomar 
praçaryas e companhyas com os mercadores da terra, e em qualquer 
modo e maneira que lhe bem vier, porque lhe pareça que mais poderam 
ganhar; praz mais ao dito (sic) que, para estes trautos poderem milhor 
fazer, posam ter navios seus, asy dos da terra, e praçaryas com os mer- 
cadores da terra n'elles, como também comprar e ter alguns dos navyos 
do dito senhor, se pela vomtura lhe la forem vendidos por seus ofícyaes; 
porém sempre deles daram comta, e os nam poderam vender a mouros e 
jemte da terra, nem de quallquer outra parte que seja, nem em maneira 
alguma os tays navyos que forem de sua alteza emlear, sopena de sobre 
ello o dito senhor tem posto pola carta que spreveo affomso dalboquer- 
que, capitam mor; praz mais ao dito senhor que pela licença do dito seu 
capitam mor posam hyr aquellas partes, que elle der a dita licença, em 
companhya dos mercadores da terra, e asy por mar como por terra en- 
temder no trauto das di(as mercadoryas onde lhe bem vyer, e mandou o 
dito senhor a mym baram daluyto, e seu veador da fazenda, que pêra ser 
notoryo a todos aquelles que para a Imdya quyserem hyr na dita armada, 
pêra la ficarem a servirem como dito he, o solido e mamtymento, e li- 
berdades que lhe fez, ho mandase por debaixo de meu synall, e aquelles 
que este partydo quyserem aceylar se venham spreuer no liuro que pêra 
ello mandou fazer afomso mexia, seu spriuam da camará, o quall vos 
asemtara nelle; aquelles que forem pêra receber seram recebydos, e os 
que asy fycarem asem lados no dito liuro por recebydos será dada certy- 
dam por o dito affomso mexia, e por ella ao tempo da partida da armada 
lhe será paguo seu solido e dado seu despacho de todo o que dito he; 
aquelles que asy forem asemtados e recebydos pêra avercm de hyr se- 
ram obrygados, pêra vemcerem o dito solido e gosarem de todo o que 
dito he, levaram couraças, ou braceletes, ou peyto, com suas espadas e 
armaduras da cabeça, de feyçam que se mais quyserem, espadas e adar- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 5 

gas, ou, em lugar de adarga, besta; e per este governo se viram asemiar 
e spreuer no dito liuro ate fym do mes de setembro, e pasando o dito 
tempo vier manda o dito senhor que nam seja sprito nem recebydo. Sprito 
em almeyrym a quatorze dias do mes de junho de quinhentos e dez. 
(Em dorso) Trellado das franquezas da casa da Imdia^ 



1510— Fevereiro 6 



Senhor — Nam podemos dar conta a uosa mercê emteiramente das 
cousas desta terra, porque, como homens calinos e cheos de medo, que 
estam antre a mais ma gente que deus cryou, nam ousamos a pergumtar 
por elas, nem praticalas com nyngem estando desta maneira; ho que po- 
deemos saber he ho segynte. 

Em malaqua poderá aver x ^ fogos pouco mais ou menos estes to- 
dos asentados ao longo do mar e da Rybeira, e os que mais longe vyuem 
seram do mar hum lyro de besta pouco mais, e destes as quinhentas ca- 
sas sam terradas, que se nam podem queimar as mercadaryas que nelas 
alojam, e todalas outras sam de palha como as da Imdia, e piores; po- 
derá aquy aver quatro mill homens de peleja, e no mais, porque todolos 
outros sam escrauos de seruiço, que nam abrangem senam a ter huma 
faca ou huma adaga que trazem na cynta, e as armas deses que podem 
pelejar sam lanças, e algumas espadas que vem dos gores, e outras que 
se fazem na terra, e arcos e zaranetanas, posto que disto ha muito pou- 
cas armaduras de seus corpos, adargas poucas que nam abrangem mais 
que os principaes que regem. 

As suas bonbardas, esas que ahy ha, a maior parte delas sam como 
spingardoes, e outras como as que soya aver em calecut, que tiram com 
pelouros atochados na boca, e pêra humas e outras carece muito de bom- 
bardeiros e poluara, que huma das maiores opressões que nos deram, e 
ainda agora recebemos, foy e he por isso, e quys nosso senhor que des- 
tes homens que aquy estamos nenhum deles ho soubese fazer, e segundo 



^ Torre do Tombo— C. Cbron., P. !.■, Maç. 8, D. 68. 
* dez mil. 



6 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

a fraqueza dalgnms muita trebulaçam que tyuemos, nam duuido que por 
por sua saluaçam algum nam Gzera mao recado. 

Poderá aver neste porto continos nouenta ou cento juncos, entre 
grandes e pequenos, e c\.^\ paraos, a saber, do Rey e mercadores da 
terra xxx* juncos, e os paraos, e os outros de froresteyros, todos sam tam 
fracos como uosa mercê terá ja Ia sabido, e pêra sua defensam os quei- 
ram fazer mais fortes, nam podem, porque na terra nam ha hy armas nem 
aparelho pêra isso. 

Na entrada deste Ryo ha pouco mais de huma braça de preamar, e 
dentro tem altura asaz, e de largo três langas darmas, e entra pelo meo 
da cidade com casas sobre augua de huma banda e doutra, e de baixa 
mar he tam baixo que escasamente pode nadar hum balell; porem do Ryo 
pêra a banda do norte três tiros de besta, pouco mais ou menos, ha muito 
boom desembarcadoiro. 

El Rey de malaca nam tem nenhum socorro por terra, mao nem 
boom, somente elRey de pão, que he seu amigo, e casa agora huma sua 
filha com hum seu filho príncipe, e em terra deste, vão por mar e por 
terra em cinquo dias per a banda do sul, e he muito pequeno rey de 
muito pouca gente; por mar nam tem nenhum tanto seu amigo que por 
ele faça nada; e tem gerra com el Rey de siom, que tem muita terra e gente, 
e muitos portos de mar, aimda que sam avydos por homens muito fracos: 
este Rey he cafre, e avera daquy a suas. terras Ixxx^ legoas, e antre 
ele e malaqua esta el Rey de pão, também tem gera por mar com el Rey 
da Ru, que he mouro, a que ha muito grande medo porque lhe da muito 
grande apresam, e a terra desle esta na ilha de çamatra, e agora nos di- 
xeram que era desconcertado com elRey de Jaua, que vem sobre ele da- 
quy a sete ou oyto mezes com muitos nauyos pêra lhe tomar este porto, 
porem a terra destes todos he de tanta fraqueza a meu parecer que nunca 
chegaram a concrusam. 

Malaqua he huma terra tam esterylle que de sua colheita nam tem 
nenhuma necesarya, nem mantymento, e os lugares domde lhe vem sam 
estes, a saber: jaua e bengala, peguu e cinde, e de siam lhe soe também 
vyr muito, e per caso da guerra lho 

VoM mercê saberá que elRey de malaca nam rege nem tem ho mando 

^ cento e cincoenta, 

'trinta. 

* oitenta. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 7 

da terra, nem he estymado nem temydo como Rey, he hum homem que esta 
sempre metido em huma casa como observante (?); tem dado ho mando e 
governança a bendara, seu tyo ; este bendara tem tomado posse de tudo, em 
tall maneira que ainda que agora o mesmo Rey lhe queira hir á mão em 
algumas cousas, nam pode, por ser homem manhoso e muito aparentado 
com os principais da terra, porem tyrando estes com que tem esta liança 
nam ha nenhum homem asy estrangeiro como os outros naturais que nam 

desejem sua destruyçam pelas perraryas e roubos seus todolos 

dias recebem; e nam douyde vosa mercê que estes nam sejam os primeiros 
que primeiro tomem as armas contra eles quando uyrem o tempo aparelhado 
pêra isso; e os mesmos homens que diguo que poderá aver pêra pelejar 
cuydo que a mayor parte será contra ele, por serem de jaus e chetys, que 
sam os principais mercadores da terra que mais gente tem, e mais sem- 
tydos estam dele; nam falo nos outros estrangeyros que nam sam estan- 
tes, nem tem aquy parte, que também desejam poremlhe o fogo como 
cada hum dos outros; crede senhor que nam fez deus homem tam mao, 
nem tam tyrano, nem que tamanho mal quer haos christãos, e a toda 
outra geraçam, como nam saO da sua ley, e ajuda estes a maior parte 
bem descontente; este foy ho primeiro que cuidou e hordenou a treyçam e 
roubo que nos foy feyto com ho mais falso desemulado rosto do que se 
nunca vyo em homem, e sua treyçam foy quando isto cometeo, que des- 
pois de matar os que tinha em terra poderya bem tomalas nãos, toman- 
doas que nam verya ja ca mais ningem, e quando vyo que seu desejo 
nam se podia por de todo em obra, nem ouue neles estamogo nem ma- 
neyra pêra ho cometerem, e que as nãos eram ja partydas, e dous juncos 
seus tomados, fesse em outra vollta comnosco, desculpandose que aquylo 
nam fora feyto por seu conselho nem mandado, que os guzarates e Jaus 
ho hordenaram sem ho elle saber, que os castygarya por isso, e seu de- 
sejo era trautarem aquy os portuguezes e ter sua amizade, e dizendo es- 
tas palauras nos teue comtudo presos ategora sem nunca nos prouer com 
cousa que nos fose necesarya, e se nam fora nenachata chetim, merca- 
dor desta cidade, que nos prouueo com muitas esmolas, e precurou sem- 
pre por nosas cousas, sem nenhuma duuyda pasaramos muito mayor pe- 
rygo em noso catyueiro, e padecêramos fome; a este he vosa mercê em 
mais obrígaçam, pelo que nos tem feyto, que a nenhum homem que nesta 
terra aja, e a requerymento seu nos soltou agora bendara, e nos mandou 
dar huma casa e dez mill calahyns em panos de cambaia rotos, dos que 



8 CARTAS DE APPONSO DE ALBUQUERQUE 

tronuemos nas Daos, dizendoDOs que aquylo nos dana pêra comeraios e 
tratarmos, e que quando uyescm as nãos farya a conta e satisfarya toda 
a perda que aquy recebemos, porem a nos nos parece, segundo a soa 
maldade, que tanto que este junco daquy partir, em que ele espera que 
va noua a vosa mercê desta boa obra que nos lem feyta, que nos torne 
a tomar tudo e nos tenha presos como da primeira, e asy nollo dizem al- 
guns, e se ho nam fízer será porque ha grandissimo medo a vossa uynda 
que espera, e esperamos prazendo a noso senhor que seja daquy a cin- 
quo mezes, e se isto lhe nam parecera ouydo que nenhum de nos nam 
fora ja uyuo : e porque sabemos que vosa mercê ha de ter disto milhor cuy- 
dado do que ho nos sabemos pedir, hey por scusado fazer disso mais lem- 
brança, somente senhor que saibais que ate este tempo temos esa espe- 
rança comprida, e pasando daquy, posto que na vontade deste mouro 
nam esta aquillo, e que nosso senhor nos garde o medo que díso tem al- 
guns, pode ser que the fará fazer grande seruyço a deus, e isto he huma 
das cousas a que maior medo hey, e que agora todolos dias me da mayor 
cuydado. Senhor, quando fosemos tam mall ditosos que por algum res- 
peito vosa mercê nam posa vir nem mandar neste tempo, nem neste anp, 
serya grandissimo bem se podese ser sermos auysados o mais secreta- 
mente que vosa mercê pudesse, e a tempo que antes que de qua serem 
disso desesperados nos ho soubesemos, porque poderya ser que nos dará 
noso senhor remédio pêra nos podermos hir daquy pêra outra parte bonde 
nos pareça que podemos estar mais seguros. 

Senhor, posto que noso parecer seja escusado como quem esta pêra 
a forca, e nam pode deixar de falar, digo que a nos nos parece, pello 
que cumpre a nosa saluaçam, que tanto que vosa mercê embora vyer a 
esta costa, se tomar alguns juncos, que aa gente deles nam deae ser 
feyta nenhuma crueza, e destes mesmos deues senhor mandar algum a 
terra com recado a bondara, dizendo que vosa tençam nam he fazer gera 
a málaqua, nem tomardeslhe nenhuma cousa sua, se ho Rey delia quiser 
ter comvosco paz e nos entregar os uosos homens que aquy tendes, e 
com estas taes palauras que os faça segurar ate nos averdes aa mão, por- 
que despois achara vosa mercê asaz de causas justas pêra com elle ron- 
per sem quebrar vosa palaura; e temos sabido que bendara tem deter- 
minado, tanto que souber que vosa mercê he nesta costa, de nos mandar 
por a todos daquy três ou quatro legoas dentro pello sertam, ate ver e 
saber nosa determinaçam, e isto porque se teme que estasdo aquy vos 



DOCUMENTOS ELUaDATIVOS 9 

pudesemos dar auyso per algums homens que bem poderyamos a ese 
tempo achar que folgasem de ho fazer, e por isso, se vosa mercê nam vyr 
achegando logo nosso recado, cuyde que he po^ este respeito. 

Senhor, neuacha nos pedio que vos escrei esemos que, destas cou- 
sas, que tem feylo por nos, se nam dese nenhuma conta aos mouros de 
cochim, porque se teme que de la escreuam a bendara, e que lhe venha 
por iso algum mall, e elle foy ho que nos deu aso pêra podermos espre- 
uer e mandarmos este mouro neste junco, que sem elle nam tyueramos 
maneira pêra ho poder fazer; a esle mouro, que se chama amdala, mande 
vosa mercê dar do meu dinheiro vynte cruzados que me ca emprestou 
antes que nos bendara islo dese, e nam lhos pagey por ter milhor cuy- 
dado de leuar estas, alem disto lhe deues senhor fazer mercê porque 
sempre nos acompanhou e mostrou que lhe pesaua com todo noso mall, 
e aceitou este caminho muito leuemente com quanto risco corre em no 
fazer se lho souberem, confiado no proueito que espera que lhe diso venha. 

Vosa mercê deue de vyr com a mayor posança que puder, e de ma- 
neira que ho mar e a terra nos ajam medo, que, posto que tanto nam 
seja necesaryo, he boom por mostrar o poder dei Rey nosso senhor logo 
em tam pouco tempo. 

Os tempos que som a vir os juncos a estes portos sam estes: 

Os gores vem aquy em janeiro e partem pêra sua terra em abryll, 
detendosse no caminho R/* ' dias aa ida, e R/* aa vynda, pouco mais ou 
menos; estes trazem por mercadarya damascos, e almisquere, e cofres 
dourados, e espadas, adargas, cobre, triguo, e ouro em pasta, e leuam da- 
quy pimenta, algum crauo, muito pouco; e destes vem cadano juncos que 
sam do mesmo Rey da terra, e nam consente que venham de la outros 

senam os seus os chins e seu próprio tempo em que vem em 

abril], e partem daquy pêra sua terra em mayo e e detensse 

no caminho xx e xxx* dias aa ida, e outros tantos aa vynda, trazem de 

pr e almisquere, e damascos, cetins baixos, colnijam, cânfora, e 

algum Ruybarbo, e aljofare. .*. muito fina, pedra hume, que vem 

cadano oyto dez juncos, e leuam pêra sua terra muita pimenta e algum 
crauo. 

Os de jaua vem em outubro e novembro, e trazem todo arroz, es- 



^ quarenta. 
* YÍnte e trinta. 

TOMO ni. 



10 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

craoos, e allgumas cubebas, e daquy vam a pedir por pimenta, e destes 
vyram cadano antre grandes e pequenos 1.** ou lx\ e vam e vem. 

Os bengalas vem aquy em abryll, detemse no caminho aa vynda xxxb, 

R/*^ dias e out. aa ida, partem daquy pêra Ha em setembro, 

as mercadoryas que trazem, arroz, algodam e panos • dos, açu- 

qre, conseruas; lenam pimenta de pedir, e vem cadano hum dous juncos 
d e outros tantos que vam daquy la. 

Os de pegu vam e vem no mesmo tempo, e detense outro tanto no 
caminho, e trazem tanbem arroz e alaquer, e muito bom almisquere, e al- 
guns robis, e vem cadano quatro juncos, e outros tantos que vam daquy, 
6 a carrega que leuam he pimenta. 

De redor de malaca ha duas outras minas douro, e destas e da terra 
dos gores dizem que tiram aquy cadano noue dez babares douro, e huma 
destas minas esta na terra de pão, e vam daquy la em sete oyto dias por 
mar e por terra, e outra esta em menamcabo da banda de çamatra, e 
vam daquy por mar e por hum Ryo em noue dez dias. 

Doutras terras donde vem o linho, aloés, e laquer, e mais manti- 
mento, e outras cousas a esta terra, nam espreuo a vosa mercê por nam 
termos diso sabido o certo, asy como destas outras cousas aquy espri- 
tas, porem de tudo isto vem também boa cantidade a este porto. 

Nam espreuo nesta ho crauo e outras mercadoryas que poderá aver 
na terra pêra carregaçam das nosas nãos, nem as que vosa mercê deue de 
mandar trazer de la, nem asy os preços delas, porque em outra carta que 
fiz, pêra se poder amostrar em qualquer parte, vay todo decrarado; bei- 
jamos as mãos de vosa mercê, de malaca a seis dias de feuereiro de 
Í5i0 annos. 

Os guzarates se foram no fim deste mes pasado deste porto, party- 
ram tam tarde com medo das nosas nãos, que tinham noua que andauam 
ainda nesta costa ; nos baixos de capacia (?) sè perdeo a maior delas, e 
partyo derradeira, e encalhou em quatro braças e meia, segundo dizem, 
e leuaua três mill babares de carrega, e os dous mill de crauo, e maças, 
e noz noscada, e mill de samdolo, e lacar, e calahins, e outras mercado- 
ryas que feseram de custo com toda a carrega da nao íx ' taes (?) e leuaua 



^ cincoenta e sessenta. 
^ trinta e cinco e quarenta. 
^ sessenta mil. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 1 

Ij^ e l.**^ pessoas, que agora aquy estam a maior parte e pedem por amor 
de deus, etc. 

Senhor — Ás cousas passadas depois daquelle dia de nossa desavem- 
tura, e da partida de diogo lopes deste porto, nam as espreuo avosa mercê 
meudamenle porque ho mais disso redonda sobre ho mao trato que nossas 
pessoas sempre receberam ategora, que noso senhor quys que bendara ou- 
uesse por bem mandamos dar huma casa em que estamos dezenove pe- 
soaSi e asy x ^ cahins em mercadaryas da vosa, e isto diz que pêra comer- 
mos e tratarmos com os mercadores da terra; quernos mostrar que lhe 
pesa do pasado, e diz que esta prestes pêra satisfazer toda a perda que 

aquy recebemos tanlo que embora vyer o mandar, fazendo- 

lhe porem justiça doutras que ele tem recebidas das nosas nãos em seus 

e nam deseja mais bem que nosa amizade e trato, e ser vasalo 

delRey noso senhor, e os guzarates e jaus que tal cometeram em seu porlo 
que elle os tem ja castygados, de maneira que daquy aavante nam ousa- 
ram de cometer outra tall, e destas cousas, e doutras muitas por que passo 
por nam fazerem a noso caso, nos diz cada dia mill abondanças; a vynda 
de TOsa mercê ou mandado seja cedo, que tudo se bem fará com ajuda 
de noso senhor, e podes senhor trazer as nãos que quizerdes, que espero 
em deus que pêra tudo aches carrega, posto senhor que os guzerates le- 
uaram daquy agora pasante de ul] ^ bahares (?) de crauo, afora muitas ma- 
gas e outras mercadaryas que per as nãos eram boas ; na terra nam ficou 
senam . . . . ou bj"" ^ de crauo, e mil e ij^ ou mil iij"* ^ de maças, e muita noz 
noscada que trouxe hum junco que veo das ilhas quando as nosas nãos 
daquy partyram, porem esperam este ano por três juncos dos mercadores 
daquy que sam as ilhas (sic), e poderam trazer de cravo íSj ou íu} e b« • ba- 
hares, afora maças e noz noscada; estes sam daquy somente afora ou- 
tros de jaua, porque também esperam das outras mercadoryas, a saber, 

col cubebas, cânfora, Ruy barbo, também se achara algum almis- 

quere boa cantydade, e daljofre e mercadarya dos chins quanto portugal 



1 duzentas e cincoenta. 

* dez mil. 

' qnatro mil. 

^ seiscentos. 

^ mil e dozentos ou mil e trezentos. 

* quatro mil ou quatro mil e quinhentos. 

2* 



12 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

quiser, Robis ha ahy poucos, esperam agora por eles nas nãos de . . . gu, 
e bam de vyr daquy a dous meses; de diamaes vejo aquy mais cantydade 
que de nenhuma outra mercadarya. 

As mercadaryas que vosa mercê deue de mandar trazer sam estas, 

a saber, azougue, toda sorte de azernefe (?), açafram, escarlatas, 

qualquer outro pano de Iam, e de linho de toda sorte, outra de panos . . 
porque tem mais valia do que soubemos quando logo aquy che- 
gamos; veludos, cetins se hos ahy ouuer lambem se despacharam, e oco- 
los, e contas de quallquer sorte, porque perguntam muito por elas, sejam 
das de portugall ; e ho preço das mercadaryas, asy das de la como das de 
ca, ho certo delas uam se sabe, porque aleuantam e abaixam segundo a 
cantidade que vem delas, porem ho crauo e maças se nam vyerem guza- 
rates pareceme que nam pasara de dez cruzados ho babar, e daquy pêra 
baixo. 

Os nomes das pessoas que estamos sam estas: jam vyegas, jam ai* 
uares, jam dias, manuel nunes, duarte feruandes gybeteyro ; marynheyros 
pêro lopes, pêro anes, jam de cohinbra, jam darruda, affomso Rabeca, 
gaspar de gymaraes, diogo deluas, francisco datalaia, manuel rodrigaes, 
jam fernandes, francisco pires, diogo deluas, francisco, sobrinho de jorge 
anes piloto, bastyam moço meu ; estes todos e eu beijamos senhor uosas 
mãos a seis dias de feuereiro de 1510 annos. 



Carta delRey de pedir pêra elRey nosso senhor 



Louuores a deus que trocou os profetas pelos reis da terra em suas 
prouincias por suas resOes pêra serem regidos pêra ho seu reino, e ao lu- 
gar da folgança salue deus com sua pas aos profetas e aos mesageyros, 
e seja louuado ho senhor de sempre, e depois da pas deste he ho esteo 

fundado sobre ho amor e amizade posta em nosas mãos por os 

chegarem a nos, e deceram a nos e alcançaram bem de con- 

trauto, e amostraram si) ali damor, e vyeram em nossa companhya, e nos 

os recebemos comnosco a milhor maneira que pudemos e agora 

ha antre nos e uos amizade e amor e longe de nos he concer- 
tado que cadano mandares uosas nãos e uosas gentes de 

nosa terra pêra se começar ho trato e proueyto e ganho, e tornaram com 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 13 

bo que nos tyuermos do que ouuer em nosa terra^ e paz sobre os que fo- 
rem merecedores delia, e ho deus que he verdade mostre ho caminbo da 
verdade, etc. * 



1610— Fevereiro 18 

Caderno das presas que se fizeram 

Item: aos dezoito dias de feuereiro de 1 5 10, defronte de onor, tomou 
garcia de souza, capitam da nao santa crara, buma nao dormuz carre- 
gada de pimenta e jengiure, e algum ferro, e outras mercadarías da terra, 
a qual mandou o capitam mor descarregar polas nãos de sua armada como 
em baixo se decrara. 

Item: trazia de pimenta 145 fardos. 

Item: trazia de gengiure 84 fardos. 

Item: trazia de norouba (?) 2 fardos. 

Item: trazia de ferro 28 fardos (344 barras). 

Item: trazia de noz noscada 1 fardo. 

Item: de contas 1 fardo. 

Item: de nanche 6 fardos. 

Item: daçafram darera 6 fardos. 

Item : dabelaã 2 fardos. 

Item: avell 2 fardos. 

Item: arros em sacas grandes 10 sacas (7 fardos). 

Alem destas mercadorias que se asy acbaram, e foram entregues 
polas nãos, ficaram vinte e duas sacas darros — 22 sacas. 

E mais oyto fardos de ferro — 8 fardos de ferro. 

E doze fardos de búzios — 12. 

A qual nao com estas mercadorias foy entregue a timoja, e ficou 
em onor. 

E as outras que em cima diguo foram descarregadas em gnoa, por 
mandado do capitam mor, com às outras mercadarías que nela mandou 
descarregar, e foram entregues a francisco corbinele, que emtam era feitor. 

1 Torre do Tombo— 6av. 14.*, Maç. 8, D. 21. 



14 CARTAS DE AFPONSO DE ALBUQUERQUE 

Outra presa 

Aos dezcDoae de feaereiro de 15i0, dentro no rio deDcageOi tomoo 
a gale sam cristouam, capitam symam dandrade, hum paraho com seguro, 
o quall era ja saido o teupo que lhe fora dado, mandoulhe o capitam tomar. 

Item: darros 90 fardos. 

Item : e mandouho soltar que se fose embora. 

enceuço 

Item: mais cinqno arrovas e meia dencenço — b arrovas e meia 
denceuço. 

acevre 

Item — mais trazia quatro quintaes e duas arrovas e três arrates 
dazevre çocotríno — iiij quintaes, ij arrovas, iij arrates. 

escravos 

Item: mais trazia cinquoenta e cinquo peças descraves mouros e 
mouras — Ib.^ pessas. 

passas duvas 

Item : mais trazia setenta e seis fardos de passas duvas — Ixibj fardos. 

Item: mais ouue nesta nao, de algumas cousas que se venderam, du- 
zentos e noventa e oito cruzados e dezesete fanoes — ij.^^lR.^biij cruzados 
xvij fanoes. 

Item: mais trazia esta nao setenta e nove marcos e cinquo onças de 
prata — Injx marcos b onças. 

Item: mais trazia esta nao quatrocentos e nove meticaes e dous ter- 
ços de meticall douro baixo — ^iiij^^jx meticaes e ij terços. 

Item: cinquo peças e meia deste pano forado de bonbarda — b pe- 
ças e meia. 

Item: mais treze pedaços de pano doesta sorte, mais estreitos — xiij 
pedaços. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS i5 



aDfyam 

Item: mais trazia esta nao cento e quatorze quintaes e três arrovas 
e meia daníjam limpo da tara, do peso ?elho — c.'^ xiiij quintaes iij ar- 
robas e meia. 

Corall 

Item : mais trazia duas arrobas e nove arraies de corall lavrado e 
enfyado com sua tara do fyo — ij arrobas e jx arrates. 

Item: mais duas arrobas e vinte marcos de corall lavrado rredondo 
— ij arrobas xx marcos. 

anfyam 

Item: mais de anfyam huma faraçola e vynte e sete fees — j faraçola 
xxbij fees. 

trigo 

Item : mais trazia de trigo quinhentos e setenta tangalins de trigo 
— bMxx tangalyns. 

Item: mais mill e quinhentos e cinquoenta e oito tangalins de fa- 
rinha — TbM.^^viij tangalins. 

Corall por lavrar 

Item: mais trazia de corall por lavrar, de perna, limpo da tara, doas 
arrobas e doze arrates — ij arrobas e xij arrates. 



A 12 dias de setembro de 1510 tomaram a nao boa ventura, capi* 
tam Simam martins, e a nao rey grande, capitam diogo fernandes, e ho 
nauio bretam, capitam francisco marequos, huma nao dachem carregada 
destas merquadoryas abaixo escriptas. 

Item: se acharam nesta nao dezasete peças de velado baixo de co- 
res— xbij peças. 

Item: mais três peças de veludo pintado de meça — iij peças. 

Item: mais huma peça de borcado baixo — j peça. 



16 CARTAS DE AFPONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: mais qaalro peças de veludo pintado de meça — iiij peças. 

Item: mais duas peças de borcado baixo — ij peças. 

Item: mais três peças de gram, e huum pedaço, que tinham todas 
cento e corenta e oito covados — C* R.** viij covados. 

Item: dous pedaços de gram forado de bonbardada que tinham qua- 
torze covados e meio — xiiij covados e meio. 

Item: mais setenta e quatro peças e meia de pano de laã roim de 
cores — Ixxiii] peças e meia. 

Item: darros gyraçol três mill e setecentos e trinta e cínquo páreas 
— fiíbij^^xxxv páreas. 

Item: darros chanboçall três mill e cento e trinta e cinquo páreas 
— íííc^^xxxb páreas. 

Item: se fez em dinheiro, de algumas cousas destas duas nãos que 
se venderam, e também os quascos e mastos delias, e tanques, com algu- 
mas cousas que os homens tomaram delas em suas partes, duzentos e no- 
venta e três cruzados e treze fanoes — ijMR^iij cruzados e treze fanoes. 

Conta da nao que ficou em cananor a gonçalo mendes, feitor 

Item: de pimenta limpa da tara dez babares e treze faraçolas e vynte 
e sete fees — x babares e xiij faraçolas e xxbij fees. 

Item : de gengybre limpo da tara dezoito babares e dezanove Cara- 
colas e sete fees — xbiij babares xjx faraçolas bij fees. 

Item: danill cinquo faraçolas — b faraçolas. 

Item: de brazill da terra, roim, nove faraçolas — jiJarafolas. 

Item — de ferro sesenta e oito babares e oito faraçolas e trinta e sete 
fees — Ixbiij babares biij faraçolas xxxbij fees. 

Item: de salitre três babares e treze faraçolas e meia — iij babares 
xiij faraçolas e meia. 

Item: de cairo três babares e meio — iij babares e meio. 

Item: mais trinta fardos daçuquar — xxx fardos. 

Item: mais três fardos de beatilhas, em que vinham trezentas e se- 
senta peças — iij * Ix peças. 

Item: levou daçuquar quatro fardos — iiij fardos. 

Item: mais darros cinquo sacos — b sacos. 

Item: se vendeo ho casco deste zambuquo, que symam dandrade to- 
mou, por quarenta pafdaos — R.^ pardaos. ^ 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 17 

Item: as outras três nãos trouxe jorge da s;ylueira, e jerouimo tei- 
xeira, que o capitam mor de goa mandou, e deixaram huma em cananor 
carregada como vynha daçuqueres, e outras mercadorias, a gonçalo meu- 
des, feitor de cananor — j nao. 

Item: mais recebeo o dito gonçalo mendes, feitor, de Joam Jorge, 
sprivam da nao Rumesa, cento e doze fardos daçuquar, que a dita nao 
Rumesa trazia desta presa — c.**^xij fardos. 

Item : as outras duas nãos levaram os sobreditos capitães a cochim, 
nas quaes se acharam estas cousas adiante spritas. 

A XXIII dias de março de 1510 Jorge da sylveira, capitam da nao 
Rumesa» que vynha por capitam mor, por mandado do capitam mor que 
em goa ficava, e fernam peres, capitam do navio sam Joham, e symão dan- 
drade, capitam da galle sam christouam, tomaram três nãos dormuz es- 
tando sobre ancora com seguros no porto de batecalaa, e as ouueram por 
perdidas por lhe acharem pimenta e gengivre, e symam dandrade tomou 
hum zambuquo dormuz defronte do dito porto ao maar sem seguro, das 
quaes quatro nãos se fez isto abaixo sprito. 

Item: se baldeou para o navio sam Joam, que daly tornou pêra goa, 
duzentos fardos daçuqf-e — ij/ fardos. 

Item: mais se baldeou no dito navio setenta e sete fardos darros e 
três saccos grandes — Ixxx fardos. 

Item: mais dous fardos de gengivre — ij fardos. 

Item: mais quatro fardos de raizes que comem — iiij.^ fardos. 

Item: mais duas bailas de cairo — ij balas. 

A galle sam christovam levou para goa também 

Item: ouue mais nesta nao que trazia dous mill e trezentos e sesenta 
e seis serafyns e meio — íliij^^lxbj serafyns e meio.. 

Item : mais ouue nesta nao alguns panos, que os oficiais deram aas 
partes, em que montou oitenta e huum cruzados e três fardos — Ixxxj cru- 
zados e iij fardos. 

Item : o casco da nao, com masto e aparelhos, mandou dar o capi- 
tam moor ao malemo mouro dormuz que comsigo traziam ^ 

1 Torre do Tombo— G. Ghron., P. i.\ Maç. 21^ D. 3. 

TOliO lu. 3 



18 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1610— Novembro 1 



Senhor — A inmenta dos mastos que me vosallteza emviou tenho com- 
prida, tem todollos mastos sapos, e em todollos praças que na terra se po- 
deram aveer, todos a muy boom preço^ como vosa allteza vera pella couta 
que lhe emviaremos em maão, em que deus prazendo ham dir, e asy te- 
mos fretada huma grande naao de xirixeo, que chamam a Julioa, de qua- 
trocentos e cinquoenta tonees, toda alto e baixo, por trezentos e vintacin- 
quo crazados, que foy asaz boom preço, a quall naao será prestes pêra 
poder tomar sua caregua daquy a dez ou doze dias, e tanto que ho for se 
dará toda a diligencia que for posyuell em seu despacho, e os mastos que 
sam comprados sam os seguintes: 

Primeiro quinze mastos sapos de dezeseis atee dezesete braças. 

Item: mais vinte sapos de treze atee quatorze braças. 

Item : mais cento emtenas de nove atee doze braças. 

Item: mais três mastos pruças de dezeseis atee dezesete braças. 

Item: mais sete pruças de quatorze atee quinze braças. 

Todos estes mastos sam novos deste anno, e os milhores que de 
muyto tempo pêra esta parte vieram, e de tudo isto eu faço lenbrança a 
Jorge de vascoguomcellos, como me tem mandado, que poderá fazer fun- 
damento destes mastos, ventando brisa pêra o nàtall, deus prazendo, e 
sempre, quando quer que de qua se ouuessem de mandar leuar mastos, 
se devia mandar leuar alguma cousa de peso pêra a la ficar a naao em 
que ouuesem de vir, a fim de que nam fose alastrada dareea, e pêra que 
ho nam fose esta naao pareceo bem a thome lopes, e a mim, comprarmos 
huma soma de tigoUo, que compraremos pêra alastrar, e fiquara emtam 
como sempre com alguns bares de manilhas, e algum cobre, que averei 
dalgumas companhias e mercadoras; e podendo hir mais mastos dos que 
temos comprados hiram mais, e quanto a isto nam ha mais que dizer. 

Auera quatro ou cinco dias que cheguou huma posta do emperador 
a madama, por que lhe spreue como o papa lhe spreuera que armada de 
vosallteza em a Imdia se foy ora de mequa, a quall tomaram e queima- 
ram mafamede, honde ouueram grande despojo e riquo, e que ante de 
cheguarem a mequa pelleyaram com huma grande frota da terra, a qual 



t 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS i9 

toda desbarataram, e parte queimaram ; e asy spreue mays da destroiçam 
de caliqut e de como se metera a saquo, e que ja alguns dias ha que sa- 
bemos esta noua; spreuo a vosallteza, uam porque ieixe de me parecer 
que a uam deue saber, mas por ser tamanha como he, e na carta do em- 
perador nam dizer esta gram noua lhe ser hida por carta de vosa alteia 
ao papa, senam que parece que viese per aleixandria; madama com toda 
a corte se mostraram muy alegres; esta noua traz hum geito de verdade, 
praza a deus que o seja, pois vam por via de alixandría, que as mais no- 
nas sam verdades, qaando nam fazem no partido dos venezianos que por 
elles isto deve vir. 

Outras nonas nam ha aguora aqui mais que has que tenho sprito 
por muitas vias a vosallteza. sprita em emvers ao primeiro de novembro 
de 1510. — Yoam brandam. 

(Em dorso) A elRey noso senhor. — De framdes^ 



1510— Dezembro 20 

Recebeo fernam dalmeida, almoxarife do almazem de cochim, de 
diogo pereira, feitor dela, seis maãos de papel pêra despesa de seu ofi- 
cio, a saber, quatro de purtugal e duas da terra, as quaes fiquam em re- 
ceita sobre ele por mym pêro lopes, espriuam do dito almazem. feito em 
cochim a vinte dias do mez de dezembro de quinhentos e dez. — Fernam 
dalmeida — Pêro lopes'. 



1611— AbrU 26 



Rodrigo Rabello, capitão de goa, etc. por este mando a vos francisco 
corvinell, feytor, que des a bology de banda, capitão, quatro beyrames 
pêra sua pessoa, e vynte panos de cambaya, de que em nome de sua al- 
teza lhe. faço mercê, os quaes panos sam pêra os seus pyaes, e isto pêra 

» Torre do Tombo— C. Chron., P. 3.% Maç. 4, D. 40. 
< Idem, idem, P. 2.*, Maç. 24, D. 97. 

3^ 



20 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

se pasar com sua jente onde esta mellrao; e por este com o asento dos 
spriuães da dila feitoria vos seram leuados em coota. feito oje vinte e seis 
de abrill de mil quinhentos e onze. — Rodrigo Rabelio. 

De beirames iiij peças. 

De panos xx peças ^ 



1511— Maio 14 



Rodrigo Rabelio, capitão de goa, francisco corvinell, feytor, e espri- 
uães da feitorya, por este vos mando que des a diogo da veiga, tenadar 
de benastarim, hum fardo darros e cynquo panos de cambaia pêra dar 
aos seus piaes, de que em nome de sua alteza lhe faço mercê por defen- 
derem o paso aos mouros que queryam emtrar a ilba, pollo fazerem tam- 
bém, e por este com ho asemto dos ditos espriuães vos será lenado em 
conta, feito em quatorze de mayo de mil quinhentos e onze. — Rodrigo 
Rabelio. 

Darros j fardo. 

De panos de cambaia b panos \ 



1511— Jamo 12 



Reverendo bispo sobrinho amiguo nos elrey vos emviamos muyto 
saudar como aquelle que muyto amamos. Despois de teermos spryto a el- 
rey, meu muyto amado e preçado padre, as novas que nos eram vyndas 
da Imdia, pelas quatro naaos que atee emtam eram chegadas, da tomada 
da cidade de goa, que uoso capitam moor daquellas partes tomou aos 
mouros imigos de nosa samta fee católica, e do desbarato que nella fez, 
nos chegaram outras oyto naaos caregadas despeciarias, e sam atee fei- 
tura desta chegadas doze naaos, e por estas derradeiras ouueemos outras 
cartas do dito noso capitam moor, pelas quaaes nos fez saber como es- 



1 Torre do Tombo--G. GhroD., P. 2.% Ihç. 26, D. 84. 
* Idem, idem, D. 163. 



DOCUMENTOS ELDCmATIVOS 21 

tando elle na dita cidade de goa chegou a elle embaixador de xeque ys- 
mael, que ca se chama o sofy, aquelle que senhorea a persya, e de que 
faliam grandes feitos» o qual vinha aderemçado ao rey da dita cidade de 
goa, trazendolhe presentes e embaxadas, e achando o dito noso capitam 
moor na dita cidade, e, louuores a noso senhor, apoderado de todo o reyno 
de goa, lhe dise que elle era emviado por seu senhor ao rey de goa, e que 
achando a nos por rey e senhor de goa, por elle dito uoso capitam moor, 
apresentaria a elle em noso lugar o presente e embaixada que trazia. O 
qual presente nos emviou o dito noso capitam moor, que he de cubertas 
de cauallo, e de teellas delles muy ricas, e garnecidas de muy ricos la- 
uores douro e de seda, e muy ricos panos de seda dos que naquellas par- 
tes se costumam^ e muytas toucas ricas, e outras cousas, e huma cara- 
puça vermelha com huma trufa muy alta, daquellas que toda a geente da 
guerra do dito xeque ysmael traz por synall de cujos sam, e por nas ba- 
talhas serem huns dos outros conhecidos. Ofereceo ao dito noso capitam 
moor amizade da parte de seu rey e senhor, e o dito noso capitam moor 
enviou a elle pesoa nosa pêra mais certeficadamente podermos seer em- 
formado de sua pesoa e de suas cousas. Espreuenos o dito noso capitam 
moor que este xeque ysmael cerqou ao soldam a cidade de leepo, que 
diz que he huma grande cidade de seu senhorio, e que o poz em muyta 
necesidade, e que também teem guerra continua com o turco. Pareceonos 
beem vos espreuer estas novas, pêra as dardes de nosa parte a elrey, 
meu muyto amado e presado padre, por serem da companhia das outras 
que lhe teemos spritas ; esperamos em noso senhor que muy cedo lhe spre- 
ueremos outras de dentro do mar roixo, pêra que o dito noso capitam 
moor nos spreue que se fazia prestes de tanto seruiçu de noso senhor 
como desejamos. Sprita em lixboa a doze de julho, o secretario a fez mil 
quinhentos e onze. — Rey • • — Dom António. 

Pêra o bispo de sogouya das outras nouas da Imdia que vieram por 
estas oyto naaos derradeira. 

(Em dorso) Por elrey — Ao reverendo dom fadrique, bispo de so- 
gouya, seu amado sobrynho \ 



i Torra do Tombo— C. Chron., P. L\ Maç. 10, D. 80. 



22 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1611— Agosto 23 



Diogo mendes de Vasconcellos, capitão de goa, fraocisco corvinell, 
feitor, espriuaes da feitoria, por este vos mando qae des ao mouro, que 
ora veo de cananor, dez panos de cambaia e huma pessa dallgodam, de 
que em nome de sua alteza lhe faço mercê por nos trazer boas nouas; e 
por este com o asemto dos ditos spriuaes vos será leuado em conta, feito 
em dezenove dagosto de 1511. — Diogo mendes de Vasconcellos. 



Diogo mendes de Vasconcellos, capitão de guoa etc. francisquo corbi- 
nell, feytor, per esta vos mando que des a crisua três tafyciras pêra três 
homens, pêra leuar cartas fora e trazer nouas dos mouros, a saber, leuar 
cartas a mandalny a terra firme; e por este com o asemto dos uosos spri- 
uaes vos áera leuado em conta, feyto hoje dezeseis daguosto de 1511. — 
Diogo mendes de Vasconcellos. 



Diogo mendes de Vasconcellos, capitão de guoa, francisco corbinell, 
feitor, por esta vos mando que deis a ranlagar, imdio, huma tafacira, de 
que em nome de sua alteza lhe faço mercê por ferir o cavalo a çonaique; 
e por este com asemto de nossos spríuays vos seraa leuado em comta. 
feito em guoa a vinte e três dagosto de 1511. — Diogo mendes de Vas- 
concellos. 



Diogo mendes de Vasconcellos, capitão de guoa, etc. francisco corbi- 
nell, feitor, por este vos mando que deis austerim (?) de Ruro bramco duas 
taficiras, e hum fardo darros, por ir e ver ao aroall dos mouros, e trazer 
nouas deles cada dia; e por este com o asemto de vossos espriuaes vos 
seraa leuado em comta. feito em guoa a vinte e cinco dagosto de 1511. 
— Diogo mendes de Vasconcellos. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 23 

Diogo mendes de Vasconcellos, capitão de gnoa etc. francisco corbi- 
nelly feitor, por esta vos mando qae deis a ponaique duas taficiras dalgo- 
dam, porque foi na peleiga com Rodrigo Rabelo, que deus aja, e ouue três 
feridas de que ainda agora nom he sam, de que em nome de sua alteza 
lhe faço mercê por as ditas feridas; e por esta com ho asemto dos uosos 
espríuaês vos seraa leuado em comta. feito em goa a vinte e três dagosto 
de 1511. — Diogo mendes de Vasconcellos\ 



1611— Setembro 9 



Conhecimento da entrega da casa 

Recebeo lourenço moreno, feitor delRey noso senhor em cochim, de 
diogo pereira, que amte elle hy foy feitor, este dinheiro, mercadorias e 
cousas abaixo nomeadas, polia entrega da casa que lhe da dita feitorya fez. 

Item : recebeo do dito diogo pereira em dinheiro comtado sete mill e 
quynhentos cruzados — Síjb» cruzados. 

Item : de moedas douro e prata cemto e três pessas, a saber, sas- 
semta e hum serafys, dezoito dobras, dous justos, hum escudo da moeda 
de purtuguall, e três castelhanos, e quatro salustos tudo douro, quatorze 
fanoes de prata da moeda donor — ciij pessas. 

Item : mais em ouro quatro onças duas oitauas por setenta e noue 
aciqais de collar, e per quatro orelheiras com duas pedras falsas cada 
huma, e por huma avelaa douro, que tudo pesou o dito peso — iiij onças '/g- 

Item: mais recebeo trinta e seis marcos e meio de prata baixa per 
trimta e huma barras e huum pequeno — xxxbj marcos e meio. 

Item : de cobre seiscentos e novemta e huum quintaes, huma arroua, 
sete arrates e meio — bj^^Rj quintaes, j arroba, bij arrates e meio. 

Item: do dito cobre mais trezentos sassenta e huum bares, cimquo 
faraçolas, trinta e noue fees — iijMxj bares, b faraçolas, xxxjx fees. 

Item : de vermelham limpo da tara quatrocentos e setenta quintaes, 
huma arroba, dous arrates — íiij^^lxx quintaes, j arroba, ij arrates. 

Item: do dito vermelham mais dezoito bares — xbiij bares. 

1 Torre do Tombo— G. Chron., P. i.\ Mag. 28, D. 10. » 

Estes cinco documentos estão ligados por abraçadeira, e sob a mesma nnmeraçio. 



24 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: mais do dito vermelham em poo muito cujo, todo também 
limpo da tara, sassemta e sete quintaes, huma arroua e três arrates — 
Ixxbij quintaeSy j arroba, iij arrates. 

Item: de pedra bume ha moor parte dela emfardelada, limpa toda 
da tara, seiscemtos e quatorze quinlaes, huma arroua, vimte e seis arrates 
— bj^^xiiij quintaes, j arroba, xxvj arrates. 

Item: mais delia, também limpa da tara, trinta e seis bares, huma 
faraçola, cimquoenta e noue fees — xxxbj bares, j faraçola, Ijx fees. 

Item: mais da dita pedra hume, também limpa da tara, muyto cuja, 
mesturada com terra, dezaseis quintaes, três arrobas, cimquo arrates — a 
quall era das verraduras d'hum payoll em que a outra estava — xbj quin- 
taes, iij arrobas, b arrates 

item : de chumbo mill sassenta três quintaes, dezanove arrates, por 
iiiij^lR pastas grandes e yij^^xbiij pães* — Jlxiij quintaes, xjx arrates. 

Item: dazougue limpo da tara sasemta e quatro quintaes, três arro- 
bas — Ixiiij quintaes, iij arrobas. 

Item: de pano de barbante oytocentas e oytenta e cinquo varas — 
biijlxxxb varas. 

Item: descouas vinte e huma pessa, a saber, seis de palha e quynze 
de sedas — xxj pessas. 

Item: de cascauees grandes è pequenos mill e vinte e oyto pessas — 
T xxbiij pessas. 

Item : de canpaynhas pequenas quatrocentas e oytenta e três pessas 
— iiij*ixxxiij pessas. 

Item : de ramaes de comtas destanho, de quarenta e seis comtas ho 
ramal, oyto pessas— ^biij pessas. 

Item: de frautas de paao, que vieram de purtugall, onze pessas — 
xj pessas. 

Item: huma vara de medir e dous couados — iij pessas. 

Item: de manilhas de latam três mill trezentas e quatorze pessas, 
em que hentram muitas quebradas— Jiij^^xiiij pessas. 

Item : despelhos quebrados e lumes duzemtos sasemta e cim- 
quo pares — ij*lxb pessas. 

Item: dous panos darmar, a saber, huum douro, laam e seda, com 
DOSO senhor decido da cruz, que tem cimquo cevados em comprido, e 

^ quatrocentas e noventa pastas grandes e dois mil dozentos e dezoito pães. 



DOCUMENTOS ELUCDATIVOS 25 

dalto quatro e dois terços, e ho oatro de laam com figuras e aruoredo 
— ij pessas. 

Item: de vasos de sella quebrados desguarnecidos seis pessas — bj 
pessas. 

Item: de matamugo e cristalino, per cimquoenta e oyto ramais com 
sua tara das linhas, e o mais delie malamugo, trinta arrates — xxx arrates. 

Item: de corall de perna por laurar, muito roim, trinta e duas foes 
e meia — xxxij fees e meia. 

Item: mais do dito corall de perna laurado, também muito roym, 
treze fees huum quarto — xiij fees Y*- 

Item: mais do dito corall, emfyado e por emfyar, arrasoado com ha 
tara das linhas em que esta emfyado, huma faraçola, quatro fees — j fa- 
raçola, iiij fees. 

Item: mais do dito corall muito roim, que nam vali nenhuma cousa, 
vinte duas fees e meia — xxij fees e meia. 

Item: destanho dezoito arrates, três quartas darrate, por huma cal- 
deira de egreja e huuns bacios quebrados — xbiij arrates Yi- 

Item: de panos bordes oyto peças — biij peças. 

Item: de beatilhas curadas três peças — iij peças. 

Item: de caldeiras de lalam com suas azas, ha moor parte delias 
quebradas, trinta e nove peças — xxxjx peças. 

Item: de bacias de myjar, e de barbeiro, oytemta e oyto peças — 
Ixxxbiij peças. 

Item: de caxas da moeda da terra, de cobre, que vieram feitas de 
purtugal e ca nam valem nada, hum quintal, três arrobas, e quinze arra- 
tes — j qumtal, iij arrobas, xb arrates. 

Item: de fyo darame trinta e nove fees — xxxjx fees. 

Item: de verdete, com sua tara dos coiros em que esta, hum quintal, 
três arrobus, treze arrates — j quintal, iij arrobas, xiij arrates. 

Item : de brazill da terra, muito roim, huum quintall, huma arroba, 
vinte e cinquo arrates — j quintal, j arroba, xxb arrates. 

Item: de marfym roim huma faraçola, setenta fees — j faraçola, 
kx fees. 

Item: damfyam huma faraçolla, vinte e seis fees e meio, com ha tara 
dos coiros com que se vende — j faraçolla, xxbij fees 7»- 

Item: huma teada dalgodam muito roym, em que eslam os panos 
darmar, huma peça — j peça. 

TOMO 111. 4 



26 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: huma aljarauya de tenez listrada sem mangas — j peça. 

Item: o alifante delRey noso senhor qae serue na Rybeira — j peça. 

Item : de fusaleira por bacios e tachos e outras peças da terra de 
cobre e metall dous quintaes, três arrobas, onze arrates huam qaarto — 
ij quintaes, iij arrobas, xj arrates 74. 

Item: de sândalos brancos per quatro paaos huma arroba, trinta ar- 
rates — j arroba, xxx arrates. 

Item: de maças muito roys e pedras com muita çogidade, limpa da 
tara, huma faraçola, setenta fees — j faraçola, Ixx fees. 

Item: de camfora de comer, limpa da tara, hum quintal — j quintal. 

Item : três campaynhas com os cuus quebrados, duas que vieram de 
purtugall, e a outra malabar — iij peças. 

Item: de papel de marca pequena seis arresmas e meia — bj arres- 
mas e meia. 

Item: de papell de marca grande três arresmas meia — iij arres- 
mas meia. 

Item: de papel da terra huma arresma e meia — j arresma e meia. 

Item: de liuros de papel limpo vinte huma peça, a saber, dezaseis 
que vieram de purtogall e os cimquo que se fizeram na terra — xxj peças. 

Item: de arcas seis peças, a saber, duas encoiradas ja velhas, e as 
quatro de pao com fechaduras, e delas quebradas e desmanchadas — 
bj peças. 

Item: de balanças de maão sete peças, a saber, duas mayores e duas 
meaSs, e as outras da terra muito pequenas e royns, todas desmanchadas 
bij peças. 

Item: dous pesos de faraçola de maão — ij peças. 

Item: duas pilhas de pesos, a saber, huma doyto marcos, em que 
falecem duas meãs oytavas, e outra de quatro marcos, em que falece ou- 
tra onça — ij peças. 

Item : huum candeeiro de latam com sua cadea, que esta no cerame 
onde serue — j peça. 

Item: huum castiçall pequeno que serue na feitoria — j peça. 

Item: duas bucelas de marfym que seruem na mesa — ij peças. 

Item: quatro arguolas de metal que diz que se fezeram pêra as tor- 
res do castello — iiij peças. 

Item: seis cofres, a saber, dous de purtugal e os quatro de mombaça, 
todos quebrados e desmanchados — bj peças. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 27 

Item : de cera huma faraçolla, dez fees — j faraçolla, x fees. 

Item : vinte e oyto peças de pesos que vieram de portugal, a saber, 
dezenove de duas arrobas cada hum, e três de meia arroba, e três de 
oyto arrates, e buam de quatro arrates, e dous darroba cada huam — 
ubiij peças. 

Item: qaatro pilhas de pesos que vieram de purtugall, de arroba 
cada bum, em que falecem muitas peças — iiij peças. 

Item: outra pilha de peso de quintal, em que falecem de duas on- 
ça» p^ra baixo — j peça. 

Item: outra pilha de peso de quintal, que nam them dentro nenhuma 
peça, saluo a grande asy soo — j peça. 

Item: dous braços de balanças que vieram de purtugall, com huum 
par de conchas ferradas quebradas — ij peças. 

Item: duas balanças de paao que estam no peso — i) peças. 

Item: huum peso de quintal do chumbo do peso velho — j peça. 

Item: seis peças de metall de peso de baar, que pesa cada huum 
cimquo faraçollas— bj peças. 

Item: oyto eses (?) de brancas de ferro que vyeram feitos de purtu- 
gall — biij peças. 

Item: de balanças de paao da terra cimquo peças, duas grandes e 
as três pequenas — b peças. 

* Cousas pêra seruiço da capella desta forteleza que também recebeo 
de diogo pereira, e asy pêra seruiço da casa. 

A saber: dous cálices de prata quebrados, com suas patanas, que 
pesaram três marcos seis oytavas — ij peças. 

Item: outro calis destanho com sua patana amdgado — j peça. 

Item: hum tribullo de latam todo desmanchado— j peça. 

Item: duas galbetas velhas deslanho ameigadas — ij peças^ 

Item: três peças de pee de cruz, huma de latam e as duas destanho 
— iij peças. 

Item: huum syno de relogeo com seu engenho, metido todo em huum 
eaixam — ) peça. 

Item : duas obradeiras de ferro de fazer osteas, comestas (%%c) de fer- 
rugem — ij peças. 

Item: dous tones de paao, huum em que esta o azougue e outro que- 
brado — ij peças. 

4« 



28 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: huum peso de romaã que pesa Dove faraçolas — j peça. 

Item: huum syoo que esta do castello que serve na vigia — j peça. 

Item: huum coUar de ferro dourado — j peça. 

Item : três cálices de prata com suas palanas» a saber, huum delles 
dourado e esmallado, grande, com seis campaynhas, que pesou quatro 
marcos cimquo onças, e os dous pequenos, que pesaram ambos Ires 
marcos, cimquo onças, huum real, dourados estes dous por partes — iij 
peças. 

Item: huum pontifical de brocado, a saber, huma capa e huum manto, 
e duas ahnategas, e três aluas compridas de todo, e todas com sanastros 
de veludo cremezim aveludado, e huma delias sçm estolla — j pontifical. 

Item: huum tribulo de prata dourada, com quatro cadeas brancas, 
que pesou três marcos e meio — j peça. 

Item: outro tribullo de latam huma peça— j peça. 

Item: duas galhelas de prata douradas per partes, que pesaram 
huum marco, sete onças, sete oy lavas — ij peças. 

. Item: outras seis galhetas destanho, alem das outras — bj peças. 

Item: huma por tapar, de prata dourada, que pesou três marcos, 
huma oytava — j peça. 

Item : huma cruz de prata grande, dourada, com duas campaynhas, 
que pesou trinta e huum marcos menos huma oytava — j peça. 

Item : huma naueta de prata dourada, que pesou dous marcos huma 
onça e meia — j peça. 

Item : dous castiçaes de prata dourada, principaes, que pesaram dez 
marcos sete oytavas — ij peças. 

Item: huma cortina de damasco vermelho pêra altar, com huma 
banda de damasquerim vermelho, verde pello meo, alcachofrado douro 
— j peça. 

Item: hum fromtall de veludo cremesim com sanastros de brocado 

— j pcçst. 

Item: três fromtaes outros de veludo cremesim e verde — iij peças. 

Item : outro fromtal de chamalote cremesim — j peça. 

Item: três retauolos, a saber, huum de deus padre, e dous de nosso 
senhor crucificado — iij peças. 

Item: duas caixas pêra corporaes, huma forrada de veludo cremesim 
e a outra de cetim verde— ij peças. 

Item: seis castiçaes dazofar (?) pêra altar — bj peças. 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 29 

Item: duas corrediças de capela, brancas, velhas — ij peças. 

Item: oyto liuros de Igreja^ a saber, três grandes de canto e três 
mysaes e dous baulisteiros — biij peças. 

Item: quatro sobrepelizias brancas ja velhas — iiij peças. 

Item : cimquo vestimentas compridas de todo, a saber, huma de ce- 
tim preto, e outra de cetim branco, e outra de cetim roxo, e outra de ce- 
tim acoreiíado, e a outra de damasco azuil, todas ja husadas e delias ro- 
tas — b peças. 

Item: huma capa de damasco cremesim — j peça. 

Item: huma bacia de latam pêra oferta — j peça. 

Item: duas.aiampadas de cobre — ij peças. 

Item: três caxas de paao pintadas pêra osleas — iij peças. 

Item: dous alanbers (?) muito velhos e podres, que nada valem — 
ij peças. 

Item: huma toalha pintada, de seda, de dar paz — j peça. 

Item: duas arcas de paao em que as ditas cousas estam — ij peças. 

It^m: quatro pedras dará sagradas — iiij peças. 

Item: huma cruz de metal de forma douro com esmaltes — j peça. 

Item: duas caldeiras pêra augua benta, de latam, e huma delias sem 
aza — ij peças. 

Item: duas campaynhas pequenas — ij peças. 

Item: huma roda de campaynhas com onze peças — xj peças. 

Item: duas toalhas dalgodam, a saber, huma com fitas pellas ourei- 
las e outra sem ellas, ja velhas — ij peças. 

Item: duas toalhas de fraudes que servem daitar — ij peças. 

Item: hum fromtall de damasco branco e verde — j peça. 

Item: quatro fromtaes outros, a saber, huum de chamalote azull, 
vermelho e preto, e os três pretos de coresma — iiij peças. 

Item : huma corrediça do mesmo theor destes três fromtaes, tudo de 
pano dalgodam — j peça. 

Item: hum fromtall pimtado, de linho grosso — ^j peça. 

Item: huum manto de Hnho grosso branco — j peça. 

Item: cimquo toalhas de beirames e beatilhas ja velhas — b peças. 

Item: huma cortina daitar preta de coresma com sua costaneyra — 
j peça. 

Item: huum paleo da veludo de meça, com sanastro de brocado de 
purtugal framjado de retrós — j peça. 



30 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: treg cortinas de beatilhas brancas com sias corrediças de to- 
dos os três altares, husadas — ii| peças. 

Item: duas corrediças bramcas de capella de pam de bealHha^-^ 
ij peças. 

Item: três cortinas de pano de cambaya pimtadas, ja husadas — iij 
peças. 

Item: biium castiçal grande de fiisaleira da terra — j pe(^. 

Item : huum menino Jesus com sua caixa e curucheò, todo dourado 

— j peça. 

Item: huma obradeira de ferro de £azer osteas — j peça. 

As quaaes mercadorias, dinheiro e cousas sobreditas fieam^ todas em 
recepta sobre ho dito lourenço moreno, feitor, per os spriuaaês desta casa, 
e por verdade e certeza diso lhe deu este conhecimento asinado por elle 
e por os sobreditos, feito por mym lopo fernandes a dez dias de feiweiro 
de mil b* * e onze. — Lourenço moreno — Garcia chay."^ (?) — Lopo fer- 
nandes — J(^ aluares de caminha. 

E mais recebeo o dito lourenço moreno do dito dioguo pereira, fei- 
tor, duas obrygaçoes esprítas em olla, a saber, huma de malyas de caico- 
lam, de cento cinquoenta barris, cinquo faraçolas, cinquoentaeseis fees de 
pimenta, e outra de bragaida taquetome, seu irmão, de quorenta e cin- 
quo barris, noue faraçols», quorenta e cinqno fees de pimenta, que os so- 
breditos deuiam amdre dias, qne foi feitor das mercadoryas^ que lhe deu 
por prazimento de Ruy daraujo, as quaes obrigações iBcam em recepta so>- 
bre o dito. feito por mim Joam aluares de caminha aos noue dias de se- 
tembro de 1511. — João aluares de caminha — Lourenço moreno — Lopo 
fernandes — Garcia chay.^ 

E mais recebeo cinquo faraçoUas, limpa db tara, de myll e huum 
fardo que lhe também fica em receita com ho ali. — Garcia chay,^ — Lou- 
renço moreno — Lopo fernandes. 

Item: mais recebeo delle de cobre, alem do qne atras vay nas ou- 
tras adyçOes, quinze barris, que também ficam em receita. — João alua- 
res de caminha — Lourenço moreno — Lopo fernandes'. 

1 ({ttinhentos. 

> Torre do Tombor-G. Ghron. P. 2/, Ibç, 28, D. 36. 



DOCUMENTOS ELUGIDA1TV0S 31 



1612— AbrU 16 



Auto e aseixito que ho capitam Amtonio de Saldanha mandoa fazer 
a pêro sobrynfao, e a mym diogo homem, escryuaees da feitorya, sobre 
elrey mauUyde de çofalla, que achou morto, e por sua morte feyto hum 
xeque com os poderes de Rey, somente o nome, o quall auto e asemto 
mando aqui fazer neste livro do registo pêra elRey noso senhor saber de 
como asy todo passara na verdade. 

Item: aos .xxx dias do mez de março do anno de b^xij^ que aqui 
chegou ho capitam Amtonio de Saldanha, de moçambique, perguntou ao 
feytor por que fora a morte delRey maulyde de çofalla, o quall feytor lhe 
respondeo por que eslaua na terra firme, honde o elle leyxara quando se 
daquy partira pêra melynde, e daly fazya mali aos mouros, asy mercado- 
res que hyam com mercadoryas pêra fora, como aos outros que estauam 
no l(^uar, e dezya que se nom leixavam a vyuenda de çofala que os des- 
trohyria e matarya a lodos, e o capitam, vysto isto ser cousa que he ne- 
cesaryo dar ha eIRey nosso senhor comta de como pasara, mandou a pêro 
sobrynho, e a mim diogo homem, escryuaês, que asy da morte do dito 
Rey, como do fazimento deste xeque, e asy de como ficara a terra quando 
elle capitam fora daquy pêra melynde, fezesemos este auto e asemto neste 
liuro pêra elRey nosso senhor saber todo como pasou, e disto desemos no- 
sas fes, o quall pasou nesta maneira abaixo como se vera. 

Item: aaos xxvj dias do mez de junho do ano de b''xj^ ha huum do- 
mii^o pola menhã, estando ho dito capitam pêra se partyr, como acyma 
he dito, pêra melynde, onde ho capitam mor afomso de albnquerque mao- 
daua, se foy eIRey maulyde de çofalla pêra alem do ryo, ha bum lugar 
que chamam Juhamoninca, e loguo no dito dya vieram os mouros honra- 
dos de çofala a dezerem ao dito capitam que elRey se fora sem ho fazer 
a saber a ninguém, e que nom era custume fazello asy e par yso, pois esta 
terra era delRey de purtugall, e elle estaua em seu nome, que vyse o que 



1 quinhentos e doze. 
^ quinhentos e onze. 



32 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

mandâua fazer, e o dito capitam lhe respondeo que polia vemtura elRey fora 
folguar, e que nam tinha nem huma causa por onde deuesse fogir, porque 
sempre lhe fezerom aqui muyta homra, alem de ho fazerem Ray, que por 
yso lhe parecya que elle se tornarya, e emtam lhe mandou hum recado por 
hum mouro amiguo grande do dito Rey que chamam mafamede, elle lhe 
mandou em resposta que ally omde elle estauaque era grande seruidor del- 
Rey nosso senhor, e que aquella lambem era sua como çofalla, e porem que 
elle se uyrya loguo, e vysto ho que ho dito Rey mandaua dezer, e como atee 
emtam e depois da vynda do dito capitam ouuera sempre muyta paz, asy 
com cafres como com mouros, e nunca ouuera nem hum escandallo na terra, 
pareceo ao feytor, e asy a todos os ofycyaes, que tanto que elle capytam se 
fose que elle Rey tornarya, e que por yso nom deuya de deixar de fazer o 
que lhe ho capytam mor mandaua, pois era seruiço do dito senhor, e pois 
a terra toda fícaua em muyta paz, e mais que parecyaa que elRey se nom 
hya senom com medo de o leuarem daquy, porque sabya que ho outro 
Rey soleymaão era caminho de porlugall, e emtam se partyo ho dito ca- 
pytam, e depois se socedeo e pasou ho que se adyante dirá. 

Áos quinze dias do mez daguosto do anno de b^^xj S depois da par- 
tyda do dito capytam pêra melynde, mandou ho feytor hum crystaão 
com hum pano e com hum mouro que chamam mafamede, grande ami- 
guo do dito Rey, e com hum recado a elie. Que se espamtaua delle auer 
dous mezes que se ho capytam fora, elle lhe mandara dezer que se vy- 
rya loguo, e que auia ja dous mezes que se fora, que nom vynha, e que 
lhe rogatia que se viesc pêra çofalla pêra aguasalhar seus mercadores e 
fauorecer a terra, e que farya vyr ouro porque nam vynha, e que ally onde 
estaua que parecya que nom he seruidor delRey noso senhor, e pois que 
ho elle mandara fazer Rey de toda esta terra, porque ho Rey de çofalla 
será amiguo do seruiço delRey noso senhor, que nam auya de estar se- 
nom em çofalla, pois lhe elle mandara dar todos hos direitos de Rey da 
terra como ho seu pay tynha, e pois que ho dito senhor mandaua que lhe 
fezesem toda honra e fauor que podesero, e pois elle vya que todo esto 
lhe fazyam, e nam gram^ desfauor a sua pesoa, que roguava que se vyese, 
e se nom quisese vyr pêra çofalla que emtam serya necesaryo fazerse 
hum xeque que guovernase çofalla, porque bem vya elle que nam pare- 
cya bem aos mercadores e mouros estar elle hondc estaua. 

^ quinhentos e onze. 



DOCUMENTOS ELUCTOaTIVOS 33 

ElRey lhe mandou em reposta que se quisese que vyese pêra ço- 
falla, que prendesem a faque baquar e ao xaryfee, e que os mandase pêra 
quiloa, pois que ho nauio hya a moçambyque, e que emtam se vyrya, e 
se esto Dom fezese que nam auya de vyr a çofalla. 

E vendo emtam ho feytor e oficyaes este Recado mandarom emtam 
chamar ha çofalla todos os mouros grandes e pequenos ha ramada, e lhe 
dise a todo3 que bem vyam e sabiam elles como por muitas vezes man- 
dara chamar elRey que se vyese pêra çofalla, e que vyam em seus reca- 
dos que nom desejaua seruir eIRey noso senhor, nem lhe lembrar quanta 
honra e fauor sempre fezera, e qae lhe parecya que nom leuaua bom ca- 
minho, e que bem sabyam como ho aqui fezerom rey, quam obríguado era 
a fazer sempre ho seruiço delRey noso senhor, que mandara hum cris- 
taão com hum pano, com mafamede que hy esta, que se vyese, e por ou- 
tras muytas vezes, e que aguora sabya ja sua determinaçam, que elles to- 
dos antre sy fezesem hum xeque, pois que elRey nom queria vir emquanto 
lia esteuese, porque çofalla nom era rezam que esteuese sem guovema- 
dor, porque se faryam muytas ruyndades nella dos mesmos mouros, e 
alguns reys que ha hy ouvesem como hy ha em toda ha terra. 

Diserom elles todos emtam que tall nom ousaryam de fazer, porque 
se ho fezesem que os mataryam a elles, e fylhos e molheres, que por iso 
nam ousaryam a tall boquejar contra elle se nom se elle morrese. 

E depois disto pasado por muytas horas elle lhe mandou outros re- 
cados bonde estaua, por certos mouros mais homrados de çofalla, lem- 
brandolhe sempre quantos benefycios e fauor ouvera e recebera sempre, 
que lhe elRey noso senhor mandara fazer como elle sabya, e que lhe ro- 
guaua que se viese, e nunen quis vyr mais, antes por muytas vezes lhe 
mandou dyzer o dito rey que nom avya de vyr, e isto ja por vezes com 
maao zello e sequo, porque como se Ha pos em pandene logo começou 
a husar de sua comdyçam, pêra ho que se elle de çofalla foy. 

Vemdo emtam ho feytor e todos os ofycyaes por dias (?) sua detry- 
minaçam, e vendo como lhe aleuantava a terra toda, e mandaua por taxa 
no milho na terra do manconde, nas hoeycas, estando nos Ha comprando 
pêra despesa desta fortaleza, e mandou ao maconde que nos dese ho mi- 
lho tam caro que por caro ho nom ousasemos mercar, nom ho fazendo 
os outros annos pasados, e que também roubaua por toda a terra quam- 
tos zambucos de milho dos mercadores e cafres por toda a costa podya, 
porque tinha meirynhos por todos os portos por homde vynham, e que 

TOMO IH. 5 



34 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

roubaua por toda a terra, e os mercadores e cafres que hyam com suas 
mercadoryas fora por toda a terra fírme, e tolhyam que lhes nam viesem 
a esta feílorya resguatar, e com este medo os mercadores e mouros e ca- 
fres ho nam ousauam fazer nem vyr, e que lhes mandaua a çofalla dyzer 
a juallquer mercador ou mouro que, se pêra elle bonde estava nam fose. 
que bo mandarya matar, e comcçaua a juntar jemte, e se querya fazer 
forte bomde estaua como se fazya, e casar com certas filbas de reys ca- 
fres pêra ser mais forte, e ajantar quantos ladrOes por a terra acbaua. 

E vemdo emtam o feitor e todos os ofíciaes olbando quanto dano e 
perdaa elRey noso senhor recebya e recebera, e quanto escamdollo se fa- 
zya na terra com sua estada e asemto na terra firme, e vendo sua detre- 
minaçam que era mais ser roym pêra sy que bom como elle ficou de ser 
quando ho fizerom rey, e olhando todo esto bem, pareceo bem o feitor e 
ofíciaes que se o podesemos prender com dadyvas hou outro algum ardyll, 
que serya bem pêra bo mandarem daqui fora, pois que ja Ueuaua cami- 
nho pêra nom ser aquelle que deuia, e quando nom que lho matasemos 
antes que nos mais danase a terra, e antes que se acordase de quam roym 
se fazia, porque depois ho desejaríamos e nom ho poderyamos. 

Aos seis dias do mes de setembro do anno de chamou o feitor 

em casa de pêro sobrynho espriuam, e a todos os ofícyaes, e lhe dixe que 
bem sabyam como elRey nom querya vyr pêra çofalla, e os mouros mer- 
cadores nom ousavam de hyr fora com suas mercadoryas, e que os rou- 
baua e toda a terra por bomde podyam, e que bem vyam quanto elRey 
noso senhor com esta fortaleza guastaua, e canta perda e dano recebya 
com as roymdades deste Rey, e com estar na terra firme aleuantado, e 
que lhes requerya a todos da parle delRey noso senhor que lhe disesem 
ho que nisto pêra mais seruiço do dito senhor devya de fazer, e pêra se 
mais nom danar a terra como vedes. 

Dyserom todos emtam os oficyaes que elRey nosso senhor nom man- 
daua que o capitam sayse a pelegar com ninguém mais, que se ho po- 
desemos prender ou matar com dadyvas que serya muyto seruiço del- 
Rey noso senhor, e quando nam que emtam foses e vos aventurases a o 
prender ou matar, ainda que sayses contra o regymento, porque milbor 
era que fose homem hum pouco comtra elle em taes quausos, que se da- 
nar e perder, e fazer* tamto escamdollo como se fazya se ho comtrayro 
se nam fezera. 

. . . emtam ho parecer de todos os oficiaes ser bem, ho que todos 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 35 

acordarem se prender ou malar ho dito Rey, se podesemos, homde es- 
taua Da terra firme. 

Se partyo emtam o feitor hum dia a noute, bespera de nosa senhora 
de setembro, que emtam era, e hya em dous zambeos, hum graude e ou- 
tro mais pequeno, com vymte e quatro homens brancos, em os quaes en- 
traua pêro sobrynho, e esprioam da feitorya cristouam fernandes meyri- 
nho» e se foy por ho Ryo abaixo a hum luguar que chamam pamdene, 
homde o dito Rey estaua. 

Leyxando eiie em a fortaleza diogo homem, espryuam da feytorya, 
com vynte e cinquo homens brancos^ em os quaes emtravam troyilos bran- 
dam, almoxarife d'esta fortaleza e mantimento, e augua na cysterna pêra 
hum anno, e todas as outras cousas que pêra a dita fortaleza pertem- 
cyam, em muyta abastança, e todo a muyto bom recado, como se espe^ 
raua que ficase. 

E deu sobre a casa homde o dito Rey estaua he ho tomou, e trazyo 
preso pêra çofalla pêra se delle fazer ho que fora mais seruiço delRey 
noso senhor, e elie nom querya vir, e se lamçaua no cham, e recreceo 
muyta jemte, e quando vyrom que ysto fazyam e nom queria vyr foy ne- 
cesaryo por força hyrem dantre ella mataremno bem morto, porque asy 
foy mais seruiço delRey noso senhor malarse da maneyra que se fez, e 
se vierom sem mais nem hum pryguo de morer nem hum homem, com 
ajuda do dia que emtam era, somente ho feytor foy ferydo em ambas as 
pernas, e outrosy pêro sobrynho nas mesmas pernas, e outro homem nem 
hum nam. 

E tanto que chegarem de pandene se vierom todos os mouros a for^ 
taleza folguando muyto de ser asy, porque nam ousauam de hyr fora de 
çofalla a terra firme com seu medo, e que aguora lhes parecya que hy- 
riam de fora, e que guanharyam sua vyda como dantes fazyam, antes que 
se em padene pozese elRey. 

E loguo ao outro dia seguinte mandou ho feitor chamar todos os 
mouros mercadores mais honrados que ouuesse em çofalla, e vyeram to- 
dos a sala da fortaleza, e lhes dise a todos como elRey maulyde era morto, 
e que ho matarem por suas roymdades que lhes a eíles fazyam, como sa- 
byam todos que fazya por homde ho podya. 

Elles derom em reposta que era verdade que quem* bom fer nom 
pode aquella morte morrer, senom es taes como elle, pois que danaua 
aterra. 

5^ 



36 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

E o feitor lhes dise qoe nom tyDham Rey de çofalta, e que nom era 
bem que esteuese seos guoTernador, que etles todos antre sy emlegesem 
hum mouro que lhes parecese que fose mais auto e de milbor cabeça pêra 
ser xeque deites e os guoTemar com poderes de Rey, porem bo nome que 
ho Qom teuese seooin xeque, e que fosem pêra çofalla, e ao outro dia que 
elles o troaxesem a fortaleza pêra aver que arte de homem era, e ho fe- 
zesem xeque. 

Que aos nove dias do dito mes de setembro do dito aono vyerom 
todos os mouros, grandes e pequenos, a fortaleza e trouxeram hum mouro 
mancebo, fylho de bum irmaáo delRey maholyde, que matarom, a que 
chamam quyuobe berdeyro da terra, e dyserom que aquelle que trazyam 
que fose xeque e guovemador de çofalla, e ijue detle erom todos muyto 
contente, e que bo disesem todos que hy estaoam se era algum descon- 
tente. 

Perguntou-lbe emtam ho feitor a cada hum por sy as vozes que lhes 
parecya deste mouro que traziam pêra ser xeque e serviria bem eIRey ooso 
senhor, e se erom deUe todos comtenles que fose xeque pêra ho que el- 
les traziam. 

E vendo emtam ho feitor arte e parecer do dito mouro, e parecer 
homem que saben/a seruir elRey noso senhor, e com vontade dos mou- 
ros grandes e pequenos, onue emtam por bem com todos os ohcyaes ser 
xeque de çofalla daqnelle dia em dyante, e de toda a terra, e nom Rey. 

E o dito feitor dise loguo aos mesmos mouros que elle nom podya 
fazer Rey, e que este xeque nom fazya senom atee que elBey noso senhor 
mandase fazer Rey, ou seus capytaes quando viesem, e elles lambem asy 
ho aueryam por bem; e ditos todos seus comprymentos lhes mandou dar, 
com acordo e parecer dos ofycyaes, ao dito xeque, ha custo delRey noso 
senhor, certos panos da feytorya pêra se vyslyr, e o vystyrom os mouros 
loguo na salla perante todos, e o leuarom da fortaleza todos com grande 
festa pêra çofalla ha sua casa. 

Aos dezeseis dias do mes de setembro do dito anno, depois desto 
xeque ser fdto em çofalla com moyta paz, se vierom todos os mouros 
mais honrados a fortaleza, e dyserom ao feitor que mandase ha carauella 
comceyçam as hocycas a fazer paz com ho moconde senhor da terra. 

era vasallo deste Rey que estana aleuamtado com sua 

morte e elles nom ousanam ha fayr Ia a soa terra senam com a carauella 
comceyçam, porque he ha terra homde se compra todo ho man^ri^ento 



DOCUMENTOS ELDCmATIVOS 37 

pêra esta terra, e porque quando algum Rey de çofalla morre toda ha 
terra firme se leuanta athe saberem quem he Rey, porque ho Rey tem 
demtro na terra firme grande credito. 

E vysio isto pareceo bem ao feitor e a todos os oficiaes mandar lia 
ha pêro sobrynho, espriuam da feitorya, com elles em a dita caraaella a 
fazer paz com ho dilo maconde, como fez, porque estes quinze dias que 
Ha andase nom se avia de resgatar nada por a terra estar aleuantada com 
a morte do dito Rey, e se veo e leyxou a terra em paz toda e em muyta 
amizade; loguo foram e vyerom os mercadores sem nenhum medo de se- 
rem roubados. 

E yysto todo ho conteúdo como todo pasou por comselho e parecer 
de todos os oficyaes que ha este tempo na fortaleza estauam, a saber, o 
feitor por capitam na auzencya de antonio de saldanha, que era em mom- 
çambique, e diogo homem, espryuam da feytorya, e pêro sobrynho, outrosy 
espryuam, troylios bramdam, almoxarife, e crystouam femandes, meyry- 
nho desta fortaleza, qaanta causa e rezam se ysto fez, em quanto dano e 
perda e escamdollo trouxera se ho comtrayro se nom fyzeset e quanto ser- 
uiço de deus e delRey nosso senhor foy fazerse da maneira que se fez, 
mandou ho capytam a pêro sobrynho e a mim diogo homem, spryuaes da 
feytorya, qae fezesemos este auto e asemto de todo como pasara, pêra el- 
Rey nosso senhor saber a verdade como todo pasou. Feyto em esta forta- 
leza de çofalla por pêro sobrynho, eu diogo homem, espríuaes, aos quinze 
dias do mes dabryll do anno de b"" xij ^ annos, e asynado por todos os ofi- 
ciaes acima com todos qoe a todo esteuerom e vyrom pasar como pasou. 

Foi concertado este asemto com o próprio que fiqua no liuro do re- 
gisto por o dito feytor diogo homem e eu pêro sobrynho. — Amtonio de 
Saldanha — Bartolameu pestrello — Pêro sobrynho — João homem — Troi- 
los brandam — Cbristouam fernandes^ 



^ quinhentos e doxe. 

* Torre do Tombo— G. Chron., P. 2.*, Maç. 31, D. S8. 



38 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1612— Setembro 2 



Manuel de lacerda, capitão e governador de goa, francísco corvinell, 
feitor, espriuaes de voso careguo, per este vos mando que dees a Rodrigo 
rabello, capitão indio, dous pardaos e huma tafecira de mea seda sobre 
seu solido; e per este com o asento dos ditos espriuaaes» be verba posta 
em seu titulo, vos será leuado em comta. feito em guoa aos dous de se* 
tembro de b^xij *. — Manuel de lacerda*. 



1512— Dezembro 1 



Senhor — Todas as cartas que me este anno mandastes, e asy por 
dom garcia, todas me foram dadas, e as nouas qne mais folgey saber e 
ouuir foy saber que vosa alteza e toda vosa casa e filhos estais de saúde. 

E asy folgoey com as nãos que dizes, por hirem todas a saluamen- 
to, como sempre folgaria que todas fosem. 

E quanto ao que vosa alteza manda ao capitam mor e todos outros 
capitães, feitores e oficiaes,.e toda outra gemte, que me sostenbam e man- 
tenham sempre em Rey, tudo histo senhor vos tenho em muita mercê, e 
teegora me nom posso queixar de ninguém sobre este caso, porque asy o 
capitam mor como todos eles ho tem feito comigo da própria maneira que 
o vosa alteza manda, e por este caso estou em toda minha honra, e paci-^ 
fico e honrado, e poderoso, tudo com voso favor e ajuda. 

Asy senhor que nysto nom ha mais que falar porque tee o dia doje 
estou como tenho dito a vosa alteza, e por este caso e por todas as cou- 
sas pasadas, e rezOes que pêra hiso ha, faça vosa alteza fundamento que 
cochim estaa e hade estar sempre a voso serviço, e toda a terra de meu 
senhorio, e quamto eu e meus herdeiros forem viuos e ha posuirmos, e 
nesta conta e pose tenha vosa alteza a mim e meus herdeiros e terras. 

^ quinhentos e doze. 

* Torre do Tombo— G, Ghron. F. S.% Ibç. 34, D. 7. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 39 

Quanto o alifaojte que vosalteza me mandou dizer que folgara muito 
com elie, e que era boom, pareceome que era necessário mandaribe com- 
panheira, que be huma alifanta fêmea pequena que vos mando na nao em 
que vai manoell de crasto, porque he muyto boa e bem ensynada. 

Os naires senbor que la iam, e asy os que ora vam, que foram com 
os outros alifanles, e ora com estes, encomendo ha vosa alteza porque, 
queira, queria que se custumasem a este caminho, pêra que sem paixam 
e fadiga folgasem lia de bir. 

Quanto senhor ao urall (?) e seus parentes, e irmãos, que se torna- 
ram christâos, que me vosalteza encomenda, elle recebeo e recebera sem- 
pre de mim aqucUa homra e fauor como vos mandaes, e nom creaes se- 
nhor que me pesou tanto de se fazer christaão, por me pesar de sua cbris- 
tandade, coorio por o fazer a meu despeito, e nyso me nom guardar noti- 
sia; porem tudo se fará como vos querees que elle seja contente. 

Senhor, a carega de vosas nãos estaa sempre prestes, mas as nãos 
que mandais a carega andam desordenadas, por iso nom pareça a vosal* 
teza que por mingoa de carrega e deligencia nom vam, porque a carrega 
esta aqui prestes e as nãos nam na vem tomar. 

Também senhor esta costa fica sempre muito desacompanhada de 
navios, e a pimenta vasase por muitos lugares, e as nãos de meça carre- 
gam, e vam e vem sem acharem quem lhe faça nenhum nojo; lembro histo 
a vosalteza porque vay nisto muito a voso seruigo, e pêra que o mandes 
proveer, e lenbreuos senhor que em calecut vos mataram vosa gente e vos 
tomaram a fazenda, e sempre vos fezeram trahiçam, e asy que me mata- 
ram meus tios e irmãos por voso seruiço ; ora vede se temos rezam de 
lhe fazer mall ou bem, porque nom tenho outro contrairo senam a elle, 
e isto por caso de vosa gente que aquy acolhy, e nom crea vosalteza que 
em nenhum tempo delle aves de fazer boom amiguo, e digouos senhor 
histo porque me dizem que se hordenam concertos secretamente, o que 
eu nom creo que vosalteza manda, porque nom me pode parecer que 
tendouos ele feito o que tem, e asy a mim por amor de vos, que vos ajaes 
de fiar dele. 

E vosalteza me tem mandado dizer que nunca em calecut fares paz 
nem amizade, sem meu consentimento, e eu senhor espero que cumprais 
o que me mandastes dizer, e por biso nom creo nada do que me dizem. 

E disto seja vosalteza certo que todalas cousas do mundo que me 
mandardes farey, soo consentir nyso o nom ey de fazer nunca tee que 



40 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

nom aja vingança que me elle merece, qne he cortar a cabeça a elle e a 
ontros tantos herdeiros seas, e qneimarihe soa terra por minha mão, e 
laoarme nos seus tamques, o qne eu espero em noso senhor e em voso 
poder qne será cedo. 

Quanto a fortaleza qne vosa alteza diz que folgaria que se fezese em 
crangalor, enformaramuos mall, porque nom he aquelle ho Ryo por homde 
se a pimenta vasa, senam pelo de chitua, e de meu conselho ela se nom 
fará, porque nom faz nenhum proveito pêra o que vos querees. 

O anno pasado, com a nom vynda do capitam mor, roguey muyto a 
Joam serram, pelo que compria a voso seruiço, que ficase qua pella nece- 
sidade que de sua pesoa qua avya, e elle vos fez nyso tanto seruiço que 
nom pode mais seer, e dos taes homens queria eu que se vosa alteza ca 
seruisse; elle vos emformara das cousas da Imdia, que as sabe bem, e do 
que com elle falley. 

Quanto a canella e outras especearias que vosalteza me encomenda, 
tudo ha hy, senam nãos, que as casas ficam todas cheas delias, e lourenço 
moreno tem tam boom cuydado diso, e vos serue tam bem, que nom pode 
melhor seer. 

Também senhor vos deuees lembrar de diogo pereira, qne vos tem 
ca bem seruido e muito tempo, de lhe fazerdes a mercê que vos merece, 
porque elle he pesoa que vos seruira em tudo o que mandardes e dará 
de sy boa comta, e no meu caso na morte do velho tem também traba- 
lhado e seruido que nom pode ser milhor, e asy lourenço moreno, e o fa- 
zem agora cada dia. 

Tenhonos senhor muito em mercê a homra e gasalhado que fazes 
ao naire moço que foy com gonçalo de sequeira. Quando quer senhor 
que vos lia forem dizer alguma cousa de minha parte nom dees credito 
senam a minhas cartas, e ao que nelas mando dizer, porque outro tanto 
ey eu de fazer, e esta he a verdade, esprita em cochim o primeiro dia de 
dezembro de 1512. — (Assignatura do rei de cochim.) ^ 



1 Torre To Tombo— C. Ghron., P. 1/, Maç. 12, D. 35. 



DOGDMBNTOS ELUODATEVOS 4i 



1618 ^^— Dezembro 7 



Ho capitam mor me àm huma carta de vossa alteza, de aguardecy- 
mento do seraiço que lhe fiz no feito de benestarim, beijo as mãos de 
yóssa akeza por ter bêsa lembrança de meu seruiço : sempre senhor, de- 
pois qoe sam nestas partes, me comvidey a me meterem nas coasas em 
qae fao posa serair; e com esta caria me deu outras duas, em huma del- 
ias me manda vosa alteza que ha pesoa do capitam mor fose de mim aca- 
tada cotno Yosa propea pesoa, que a sua represemta; eu ho fiz senhor 
sâmpre asy por muitas rezões que me a yso obrigaram, por me parecer 
cousa mui neeesaria a voso seruiço nestas partes, afora lho nos todos de- 
oerinos por sua ydade e pesoa, de que eu senhor sam tanto comtemte, e 
Mguo tanto dajudar as cousas de sua obriguaçam que sam de uoso ser- 
uiço, como vosa alteza pode saber que eu fiz depois que qua sam. 

Mafô me espreneo vossa alteza em outra carta, que me manda que 
tenha espiciall cuidado da jemte da terra que se vem tornar cristaã; sem- 
pre senhor me trabalhey por acrecemtar nyso quanto pude, porque sey 
quanto gosto vossa alteza nyso tem. A mais gente que se toma cristaã 
sam molheres, porque estas tem mais certa sua vida, porque ganham 
Miito dinfteiro aquy amtre nos; os mais dos outros sam mercadores de 
eomas bayxas, e de mantimentos que nos vem aquy a vender; por serem 
mais favoreddos e mtlhor tratados se vem fazer cristãos alguns princi- 
pais^* que sam mestres de jugtrar de espada e dargua, que sam homens 
honrados; antre eiles se fezeram cristãos por algumas dadyuas que lhe o 
capitam oaor deu, e ho qat homem atee quy vee todos ho fazem por seu 
emterese^,» porque alguns nayres se fezeram haquy cristãos em tempo que 
díanam^ a cada huum buum cruzado e huum pano quando ho vinham fa- 
zer^ e; como lhe isto nam deram, tiunca mais neuhnm precurou pello ser, 
e como heram cristãos se tomaram cada hum pêra sua terra homde vh 
aew e» seas òusMmes como sempre veueram, porque he toda gemte de 
sotdo, e Gòmo' sam didade pêra tomar armas loguo tem soldo do Rey oo 

TOMO Ui. 6 



42 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

senhor da terra omde quer que viuem ; ho soldo delles he oyto e dez fa- 
noes atee vimte por mez, he, se vossa alteza quer que muita gente desta 
se converta, mande dar algumas dadiuas algums homes principais porque 
o façam, que vendo a outra gente mais baixa estes tomados cristãos, com 
menos trabalho traram a yso, como quer que todos ho ham de fazer 
per seu enterese, principalmente os nayres que he gente de solido; se es- 
tes vossa alteza quer que se façam cristãos he necesario daremlhe o solido 
que elles tem do Rey ou senhor com que viuem, porque doutra maneira 
nom se podem manter, porque nam sam homes de trato nem de traba- 
lho, e nam tem outro oficio senam juguar despada e adargua, he emxyr- 
cilarse nas armas segumdo seu huso; a outra gente mais baixa com al- 
gumas liberdades se traram ha hyso, especialmente se se ouuer delrey de 
cochim que nam haja antre elles, depois de christãos, deferências de nos, 
e que se toquem com os naires como nos fazemos, e que andem pela es- 
trada delrey, que elles am por mui grande homra; se se ysto acabar com 
elrey de cochim, aja vossa alteza por mui certo que se tornara muita gente 
desta christaã, e pêra yso he necesario espreuerlho vosa alteza, porque 
nam he cousa tam leue que homem posa acabar com elle, e mandar hao 
capitam mor que aperte com elle, porque este he ho tempo que se ysto 
mais asinha pode fazer. 

A gente cristâã, que vosa alteza manda que vaa por roU asínado 
pelo víguairo e por mym, vay toda aquella que se achou que viue aquy 
na nosa pouoaçam, que muita emfimda gente outra, que se aquy fez crís- 
taã, viue fora daquy em outras ilhas e terras donde sam naturaes, e tem 
suas fazendas, viuem em seus custumes como sempre vyveram. 

Item : As cousas da Igreja, que vossa alteza mencomenda, amdam 
concertadas e bem seruidas, porque quando asy nam fose eu lho espre- 
uera; nam me manda mais que faça em cochym, auemdo hy muitas cou- 
sas que sam dobrigaçam do capitam delle, e pois vosa alteza fyou de 
mym ho espritual, nam se deuera desquecer de me meter no temporall, 
he mostrara quam boom servidor sam em todallas cousas, pois ho ouue 
asy por mais seruiço, hese será o milhor, que eu senhor nenhuma cousa 
trago tamto amte mim como em seruir sempre vossa alteza da maneira 
que se elle de mim quyser seruir, e ha elle fique oulbar o que a sea ser- 
uiço e a mim compre. 

Item : Ho anno passado espreuy a vossa alteza como ficaua em guoa, 
e alguns dias esliue ahy depois ate que o capitam mor foy ahy ter no mes 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 43 

de feoereiro, elle me tinha falado na hyda de malaqua como tenho esprito 
a vossa alteza, e creo segando me elle dise que elle lho espreuera, e por 
algumas cousas de voso seruiço, que me pos diante, nam me pude escusar 
da hyda; físme prestes, estiue embarcado pêra hyr, mais por me parecer 
que vos seruia nyso, que por ser hesa minha vontade; estando ja pêra 
partir, chegou jorge de brito com tam boa noua da paz e aseseguo em que 
ha leixaua, e porque indo eu Ha nam podia hyr pêra purlugal dahy a 
quatro annos, e três que havia que viera, seriam sete, emtam lhe pedy 
que me escusase desta hyda, pois aquyilo pêra que me eu oferecia nam 
auia ja hy necesydade, e mais eu tinha mandado pedir a vossa alteza que 
ouuese por bem de me este anno que vem me hyr, por me parecer já re- 
zam e tempo por mylhor obrigaçam, e asy lhe pedy que me dese licença 
pêra me mudar pêra cochym, pois sua pesoa emuerna hahy pêra ajuntar 
minha fazenda que tinha derramada, e nisto fíco asemtado ate ver recado 
de vossa alteza, a que beijarey as mãos haver por bem minha hyda. 

Item: As nouas da hyndia ho capitam mor as espreue a vossa alteza 
tam meudamente que he escusado falar nyso; a partida destas nãos fica 
a índia tam pacifyqua como convém a voso seruiço ; a meu parecer o ca- 
pitam mor se faz prestes, e, segundo diz, tem vomtade de tornar a entrar 
o mar roixo ; tem pêra leuar comsyguo vinte e quatro velas, antre nãos e 
carauelas, e guales; esperamos em noso senhor que se empregue em cousa 
de muito seu seruiço, e de vossa alteza, como se sempre faz ; a fortaleza 
de Calecut, ja acabada, tem jente e artelharia dentro; elrey de cochym re- 
cebe milhor as cousas de calecut do que atee quy fez, e asy na guera de 
cramganor que este emuerno começou ; tudo ho que lhe requeremos, dom 
garcia, e eu que fezese por uoso seruiço, em tudo ho fez bem e se leixou 
loguo da guera; estam em tréguas ate vynda do capitam mor; pareceme 
que em cheguando os concertara segundo se ambos põem em rezam, es- 
pero em noso senhor que venha a mais este concerto, e que fiquem desta 
concertados elrey de cochym e elrey de calecut, porque anda o capitam 
mor niso, e elles desejam e querem que seja secreto amtre elles e o ca- 
pitam mor, que por suas genlylidades e custumes nam podem nunca se- 
rem amiguos, e se se isto comcertar, como espero em noso senhor, he 
cousa de muito voso seruiço, he aseseguo de todo macanor, porque destes 
dous reys nace todo comcerto e descomcerto que ha amtre todolos outros 
reys e senhores da terra. 

Nas cousas de vosa fazenda eu tiue ate gora tam pouco careguo, e 

6^ 



44 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

os ofícíaes que o tem dam tam miúda couta diso a vossa alteza, por yso 
bo uam faço. escripta em cochym aos sete de dezembro de 151^. 
(Em dorso) A elRey ooso seuhor^ 



1618— Dezembro 18 

Senhor — Saberá vosalteza como agora ha dous auuos foram toma- 
dos dous judeus espaoboes, dos que desterou elrey dom feroando de cas»- 
tella, os quaes vinham em huma nao dadem pêra as Índias por mercadOi* 
res, e fomos tomados por maão de simam martins. £ Comos apresemtados 
diante do capitão mor, com o qual ouue muito prazer, por muitos avisos 
que lhe demos de todalas cousas que fazia o solidam no cairo no tempo 
que nos éramos aily, e asy pelo semiluamte o que se soava em adem do 
que se fazia no cairo, darmada que se fazia e de que maneira^ e por omde 
lhe vinha a madeira. E prometenos de nos fazer muita mercê peio seruir^ 
mos de booa vomtade, e asy o pozemos nos por obra, porque quaudo for- 
mos a goa sempre o seruimos de iimguoas, asy na arábia como em pér- 
sia^ como em troquisoo e guzarale, e se outras Iimguoas fora necesario a 
também o soubéramos. 

Item: todalias cartas que lhe vinham dekey de narsimga, como dei- 
rey de cambaya, e de badecala, e de chauli, e guzarate, e urmuz, todas 
pasavam por nosas mãos, e lhas liamos, e sempre amtre nos foy achada 
muita verdade e lealldade. 

E asy mesmo lhe faziamos trazer todalias cousas qoe eram necesa^ 
rias pêra a fortaleza, a saber, caruam e cail, e homes de trabalho, e tqdo 
se fazia por nossa industrya. 

Item: faziamos asemtar solido aos piais a terça parte menos do que 
ho capitam mor lhe mandava dar, asy pelo semelhante nos presentes e 
dadiuas que queria dar aos capitães gentios, e tudo ysto porque sabiar* 
mos as usanças da terra, e de que modo usavam os Reys dos mouros com 
elles, e as dadiuas que lhe dava, e o solido que punha, e tudo ysto pode 
saber vosalteza peio mesmo capitam mor. 

Item: quando yamos a malaca se tomaram cimqiio nãos de goza* 

1 Tone do Tombo— G. ChioB., P. L% liaf. II, D. 38. 



DOCUMENTOS ELDCTOATIVOS 45 

nteB que hyam pêra a dita cidade de malaca, as quais polas doas delias 
fasia dar xkk b ^ (?) ]>esos de crazados douro de manamcabo, que he de 
uij quilates e meio de lei» e nam comsemtiram os quadrilheiros que hos 
wmdesesMis, porque aimda os uam aviam dezimado» eoiBO soia fazer a to- 
dalias pcesas, de que fortam a terça parte, de maneira que deram ordem 
a se nam yemderem, e leuaramoas a malaca; deu o capitam mor hama 
delias aos quadrilheiros pêra se repartirem pelas partes, a qual veude* 
ram por u xb'' ^ pesos do cruzado douro, que nam era de dezeseis quila*- 
tes de ley, e n«n valiam 1^ ' de outro ouro que eu fazia dar, o quall fi* 
zeram por parecer mais ouro, posto que fose de menos valia. E que nam 
parecese tamta a deferença do que eu por ela fazia dar. 

Item: todos estes seruiços que acima tenho ditos, e outros muitos 
que espero de fazer coin ajuda de noso senhor, os fazia sabemdo que por 
huma de três cousas os homens corem pelo mundo e trabalham por al- 
camçar, a saber, pasam muitos trabalhos e arriscam suas vidas e fazem* 
das por aver huma delas, as quaes sam estas, homra e proueilo, e saluar 
alma, e vendo eu que tinha alcamçado com o capitam mor todos três, 
porque homra e proueito asaz ganhey em seruir vosalteza tam prefeita- 
mente, pois ssduar a alma ja a tenho salua porque me fiz christão e me 
chamam framcisquo dalboquerque, que esta escrevo a vosalteza. 

Item : quando fomos a Malaca , achamos hy Ruy d^aujo, e outros 
muitos cristãos que hy foram catiuos dons annos, os quaes eram tam 
nou(» no irauto da terra, e na falia, que era cousa de se uam crer; e 
nam pasou hum mes que eu nam soubese o trauto da terra, e os pesos 
e limgoas, e as emtradas e saydas, de maneira que todos ficaram espam- 
lados, e nam podiam crer senam que jaa hy viera outras vezes a dita ci- 
dade de malaca. 

Item: quando o capitam mor ordenou de fazer fortalleza na dita ci- 
dade de malaca, vemdo eu que hos portugueses eram fracos e nam po« 
diam acaretar a pedra, e pelos trabalhos gramdes morrem, eu cometi ao 
capitam mor que queria ir por terra firme a buscar gemle de trabalho 
pêra ajudarem a fazer a dita fortalleza, vemdo jaa ser emposiuetl os por^ 
tuguezes a poderem fazer, que, segumdo o tempo era curto, convinha o 
capitam m(rc deixalla de fazer, ou emvemar em malaqua e leixar de vir 

^ trinta 6 cinco miL 
^ nove mil e quinhentos, 
^seteuil. 



46 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

a índia, o quanto releaana pêra soster a índia, que quando veyo a índia ja 
achou muita gente escandalizada, asy como cananor, e em outras terras ; 
e niso me nam quero mais alargar a vosalteza porque me nam he dado. 

E o capitam mor me deu licença que fose, porem que nam escamda- 
lizase a terra, e eu me obrigey emtam de lhe trazer jemte em abastança 
pêra a fortaleza sem escamdalizar pesoa nenhuma, e qualquer que se de 
mim agravase que queria pagar hum cruzado, fiz ysto senhor mui imtei- 
ramete por seruir vosalleza, e pelo gallardam que disso espero, e esta re- 
zam me tem cativo ate aquy ; emtam me mandou dar hum cavallo em que 
anegoceaua os ditos obreiros e obras que se faziam, e cada dia fazia vir 
quatrocentos homens de trabalho e vinte pedreiros, e nenhums portugue- 
zes nam ousauam dir onde eu hya. 

Item : em hum junco que foy tomado delRèy de malaca e de ban- 
dara, que vinha do choromandel carregado de panos muito ricos, nam sa- 
bia nenhum homem de quanto avia em malaca e preço delles, e se o sabia 
nam no queriam descobrir, o quall preço foy descoberto por mim ; estando 
Ruy daraujo vendendo os dilos panos, lhe requery da parle de vosalteza 
e do capitam mor que se nam vendesem, que eu faria dar o dobro do que 
bos elle vemdia, e dise eu emtam ao capitam mor que eu sabia em todal- 
las cousas daquella terra, asy os preços das mercadorias, como todallas 
outras cousas que por que mandava vender aqueles panos, sem eu dizer 
o preço delles ; emtam os fiz vemder por mais o dobro do que hos o dito 
Ruy daraujo estaua vendendo, o que me parece que ho capitam mor es- 
preuera a vosalteza por ytens, e que homem eu sam, e pois era certo que 
sabia ele que em todo o trato da Imdia, e daquella terra nam sabia nin- 
guém mais que eu e que todoUos mercadores. 

Peço a vosalteza que me faça mercê cm satisfaçam de todos meus 
seruiços que me ponha em tituUo domem, e me faça foro, posto que o ca- 
pitam mor nesa conta me trás, porem por vosalteza o queria eu ter por 
aluara, pêra que tenha melhor vomtade pêra seruir vosalteza. E mais agora 
omde himos, que he pêra o estreito de mequa, omde espero damostrar a 
booa vomtade minha que pêra seruir vosalteza tenho, e meus seruiços o 
diram pela maneira que ho spreuo a vosalteza. E, tamto que tomarmos 
adem, eu me obrigo ao capitam mor de correr ate Juda com dous nauios. 
E senhorear todaquella terra, e fazerlhe pagar páreas a vosalteza. 

E bem asy me obrigo com os ditos dous nauios tomar huma ilha que 
se chama daleque, em a qual ha grande pescaria daljofar, e dhy hum tiro 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 47 

de besta esta a terra do preste João» a qual se chama arquiqao (e de que- 
non) (sic) que be outra terra, as quais terras pagam ao senbor de dbale- 
que cem omças douro cada ano, e nam por outra cousa, somente porque 
se poy no meio do ryo hum nauio de cairo seu que tem quatro bombar- 
das, e com estas quatro bombardas sogiga todos. 

Item : Zeila, e barbara, que sam duas terras que comarquam com o 
preste João, logo seram remdidas porque nam tem nenhuma saluaçam se- 
nam obedecer a vosalteza (pois que razam), e a ilha de çuaqu; com hum 
nauio soo me obrigo tomallas e fazellas pagar páreas a vosalteza, por- 
que aqueltas terras todas sam cheas de riquezas. E de ouro em poder de 
guisa (?), porque nam sam homes de gerra. E sendo vosalteza senhor do 
estreito, será senhor de toda a índia, porque, o que tiuer a chaue da caixa, 
será senhor da fazemda que ouuer nella, e asy que toda a chaue da ín- 
dia faz no estreito de meça, e o que for senhor do estreito de mequa será 
senhor de toda a índia, porque hos mercadores da índia por forga ham de 
buscar com que tratar como tenho enformado o capitam mor. 

Item: se vosalteza ouuer por bem darme a chamcelaria da índia, da- 
rei a vosalteza por ella miil cruzados, com que nenhum seguro se nam 
dee a nenhuma nao senam por minha maão, e que sejam pela maneira 
que ham de ser, gardando em todo o regimento de vosalteza; e estes mill 
cruzados pagarey cadano com todalas condiçOes que vosalteza ouuer por 
seu seruiço, e ysto spreuo a vosalteza porque ja o comety ao capitam 
mor, e me dise que havia de ser dado por vosalteza, se vosalteza ouuer 
ysto por voso seruiço mandeme por seu alvará. E ysto será porem dam- 
dome titollo domem, e nam desprauo, porque homem sem cabeça nam 
ha mester carapuça. Desta reall cidade de goa a xbiij.^ de dezembro 
de yb^xij * 

(Em dorso) A elrey noso senhor — Carta dos judeus da índia — ja 
tem resposta '. 



1 desoito de dezembro de mil quinhentos e doze. 

' No maço de cartas dos fns(Hrêit^ n.* 1(2, existe outra carta idêntica, com peque- 
nas variantes e sem data. 

Em dorso diz: Carla destes judeus da Imdia, pêra ver. 
Torre do Tombo— C. Ghron. P. 1.% Maç. 12, D. 46. 



48 CARTA» IMS AFFONSO DK ÂLBl]QiS3lQnE 



--Janeiro 18 



Senhor --Atem da obiigoaçom em que jaço ao oficia de scrívsm de 
que me vosa alteza fez mercê, minha comdiçam he fabr sempre verdade^ 
pryncipalmemle naqaeks cousas que tocam a voso seraiço, e pareceme qw 
me nam^ faria deus mercê se nam escrevese craramente as cousas de ca-* 
nanor a vosa alteza, porque estas sam as que eu sey lympamente, asy pela 
lymguoa, como por saber de muyto tempo, que qua estyve da outra ?ez> 
os tratos e costumes e comdiçOes asemtadas pelo almyramte, e eomârma-^ 
dafi^ pelos outros capitães mores que atee gupra foram, o que avemos de 
guardar ao rey e a jemte da terra, que, segundo vosos regimentos e^man** 
dados, he guardarlhe mclíta verdade e ter com elle verdadeyra paaz, as 
quaes cousas em alguma maneyra sam quebradas, como vosa alteza la 
vera pelos embaixadores, e cartas delrey de cananor. 

Eu cheguey aquy ha anno de 15(1 com dom ayres, e ho capytam 
nH)or era em malaca, e dexara nesa fortaleza diogo corea por capitam, ho 
qual eom suas tyranyas e descomfianças, e ríspeda comdiçam, tynha a 
jemte da terra case alevamtada contra sy, despeytandoos e ameaçandoos 
com o capitam moor, queremdo tomar bamdo por huum pocaracem eom* 
tf a o trabalyam, e comtra o guovemador; lembro a vosa alteza que se 
perdeo a traio de ealecud, por ayres corea querer bamdejar por coja be-- 
guy; he bem que sejam favorecidos os que seruem vosa alteza, e Aam de 
maneyra que lhes façam fazer o que nam deuem contra o rey da terra^ 
pois sam seus vasalos, e ele ho he de vosa alteza; esta he a causa qMB ele 
mais semte; na» diguo de diogo correa muytas cousas pelo< meudo, que 
sam dinas de gram castyguo, porque jaz ja onde nosso senhof se lembre^ 
de sua alma. 

Estava aquy gonçalo mendes, feytor, e pedro homem, e por quere- 
rem (?) palavras de grande esperança de vosa alteza, queriam conseruar e 
soster a paz desta jemte, tolhyamlhes que nam fosem a cananor nem am- 
dar antre os mouros, semdo feytor, e escrívaão^ e- sobre ieto os meiâriam 
crai ba capitam^ moor, que cr eo sempre em suas maldades, e as ouve por 
vertudes, segundo o maao trato que deu ao rey da terra, e ao giiovârna- 
dor e jente dela, pelas qoaes cousas vosa alteza deve perguotar a JoSa sar- 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 49 

raão, que sâbe alguma cousa diso, porque avelas descrever meudamente 
nam se poderiam acabar. 

E se o rey da terra esteve pêra quebrar de todo com ho capitam 
moor sobre a tyrada do seu guovernador, e asy sobre huma soma de ca- 
valos que lhe tomou forçosamente sem lhos paguar, e fez obriguar ao al- 
guazil que paguase alguns deles a seus donos, e senam que o prenderia 
em ferros; eu ho sey muy bem porque estyue la huum dia todo com el- 
rey, dezendolhe de parte de vosa alteza, se se semtya agravado, que o fe- 
zese saber a vosa alteza, e que tudo se remedearia com muyta paaz e 
muyto amor, e ele me dezia que queria acabar de perder sua terra, pois 
lhe faziam tantas forças que as nam podia sofrer, e que nam queria nada 
de nos, nem portos nem naveguaçam, nem dar nem tomar comnosco, e 
que queria viver no sertam, e com os frulos da terra se mamter, pois lhe 
roubávamos a terra e lhe faziamos tamtas forças; profyey tamto com elle 
com palavras mansas que per deradeyra me dise, avendo sobre iso muito 
conselho, que queria sofrir tudo ale ho fazer saber a vosa alteza, e a isto 
senhor manda la com alguums seruiços de joyas estes omes com cartas e 
recados na maão de João sarrão. 

Este anno ouvemos pêra esta feytorya, pêra caregua destas naaos, 
quatro mil quintaes de jengivre, case todo fyado, que nos o rey mandou 
dar, e fomolo paguamdo pouco e pouco, e se teueramos mercadores pêra 
o paguarmos, pareceme que ouueramos seis ou sete mil quintais, e por- 
que nam temos nenhuma mercadoria, nem com que ho paguar, estamos 
no preço de cem fanoes ho babar, a que o anno pasado o fezemos decer, 
porque estava a cento vimte fanoes o babar, e aguora nos acometem que 
nos obriguemos a lhe tomar ate seis mil quintaes, e que lhe paguemos 
em mercadorias, e loguo alguma cousa; se as teveramos pareceme que ho 
fezeramos abaixar a oytenta fanoes o bahar, porque jorge de melo, com 
suas boas palavras e comdyçam, os tem muyto mansos e tyrados de muy- 
tas malyceas em que jaziam, porque despois que aquy fycou vieram a 
esta fortaleza muitos mouros jentyos homrados, que avia dous annos que 
aquy nam emtravam, nem tratavam comnosco; este fruyto dam as arvo- 
res que vosa alteza põem por sua maão. 

Mamde vosa alteza acudir a esta feytoria com muitas mercadorias, 
e, per especial mandado, mande que as descarreguem aquy, porque pa* 
sam todas a cochy, e nam nos dexam aquy nada, nem querem aquy es- 
tar três dias, aynda que venham muyto cedo, nam lhes lembra senam 
TOMO m. 7 



50 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

quimtalacias, e este anno perderam quatro od cimco naaos de meça que 
vieram a calecud, por nam qnerem aquy a guardar, e avisamolos disto por- 
que sabíamos certo que vinham: ho anno pasado pasaram a meça e adem 
doze ou treze naaos careguadas despecearia, e este anno se fazem pres- 
tes outras tamtas. Remedee deus isto pois o vosa alteza nam quer reme- 
dear, porque milhor seria tolher esta pasaje a esta especearia, que estar 
sobre jipioa gastando, quamtas vosas feytorías tem, com jemte darmas da 
terra, e com sete ou oyto centos omens, e quatro ou cinco naaos, e outras 
tamtas caravelas, e guales, pagamdo mais casamentos a omens que se 1o- 
guo vam tomar mouros, do que rat o que guoa ateguora reodeo nem nunca 
rendera; ahy põem o capitam moor lodo seu fundamento, esquecendose 
das vosas feytorias antiguoas, em que ha toda a caregua per as naaos, pêra 
cujo fundamento vosa alteza mandou descobrir a yndea, e asy também 
gasta em soldos e mantimentos aos canaris da terra tanto que falece qna 
nas feytorias, e os porluguezes andam qua sem averem paguaroenlo de 
seus soldos muito tempo. Esta quy coja bequy, que nos come cada dia 
huum cruzado que tem de mantimento sem nenhum fruto. 

Manda la a vosa alteza huum embayxador que diz que he do preste 
joham; mandou o de guoa por estas fortalezas, que lhe desem grandes da- 
divas, e lhe fezesem grandes recebimentos, como lhe foram feitos, dezendo 
que traz o tenho da samta e verdadeira cruz ; traz comstguo huma mo- 
Iher da terra do preste joham, e hum moço fez emtender que a molher 
era sua propea molher, e Blha de huum gram senhor, e que o moco era 
muito paremte do rey, e que era o principal embaixador; e a molher des- 
cobrio aqui que este era mouro, e que vinha do cayro por espia, e que 
comprara aquele moço, e que a ela que a furtara, que nam era sua mo- 
lher, porque os abaxis sam todos pretos e ferados nas testas, o que este 
he omem alvo, e que nam sabe a tinguoa da terra do preste; requerio 
ao capitam Jorge de melo, perante todos os oficiais desta fortaleza, que 
a tyrase dele, porquanto era mouro, e que olhase pelos enguanos com 
que vinba; o capitam o manda asy como vinha a vosa alteza, com a cra- 
reza do que qua soube, e asy gaspar pereira o escreve a vosa alteza. 

Eu trouxe huum aluara de vosa alteza per a primeira escrevaninba 
que vaguase em cananor; fuy provido da de lobam dauila, por sua morte, 
e duarle fernandes veyo este anno com hnnm aluara pêra a escrevaninha 
de loham dauila, com os seguros das naaos da terra, e pedromem por 
feitor; segundo a tençam de vosa alteza eu fícaua esciiuaão piimeyro 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 51 

como era pedroTn^m, pois duârte fernandes traz nomeada a escrevaninha 
de Joham dauila, e o capitam moor bo enlendeo como quis, e proveyo 
duarte fernandes da escrevaninha primeira com os seguros, que tem sa- 
tente mil reis, e mais parte nos direitos do jengivre e drogarias, que eu 
trabalho milhor que nenhum ofecial pela lyngua, e íico aguora com cin- 
coenta mil reis secos, pelo qual bejarey as maãos de vosa alteza mandar- 
rae prover com justiça, e que guose o tempo que tenho seruido e seruir 
descrivão prymeyro, pois duarte fernandes trás nomeada a de Joham dauila 
em seu aluara, e niso me fará muita mercê, feita em cananor a doze de 
Janeiro de 1513. — Duarte barbosa. 

(Em dorso) — A elrey noso senhor *. 



1613— Fevereiro 22 



Senhor — Nosa partida de malaqua foy a onze de janeiro com a nao 
anonciada, e santatonio, e santa cruz; a rezam por que partimos tam tarde 
vera vosa senhoria la diante; acheguey a cochim a dez de fevereiro; tanto 
que hahy achegamos soubemos que vosa senhoria estava em goaa; party- 
mos no navio santa cruz, fazendo muita enfinda agoa; de francisco no- 
gueira soubemos como vosa senhoria estaua pêra partir; a feitura desta 
achegaram de la bus casados que nos deram novas de vos, como estava vosa 
senhoria embarquado pêra partir avia doze dias, e polo navio ser muito 
podre e fazer muita agoa, e os tenpos heram contrários, nos pareceo nam 
poder alcamçar vosa senhoria nesa costa, e pareceo bem a estes senhores 
e a mim mandarmos este parao com as novas e requado de malaqa, que 
deus seja louvado sam muito boas, a vosa senhoria, pêra que soubese ho 
que niso avia de fazer, e pêra que vosa senhoria desquansase e dese gra- 
ças a deus por tanta mercê quanta nos fez em malaqaa, e porque em tudo 
desejo fazervos seruiço, quero nesta dar conta a vosa senhoria das cousas 
que em malaqa se pasaram em todo ho tempo que la estyve. 

Senhor — saberá vosa senhoria que, depois de vosa partida de ma- 
laqua, tyvemos nova como Ha sabane vinha com paraos e gente pêra hu 
pee, e que estaua em muar; fuyo la busqar com os bates e a gale; sendo 

1 Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.', Maç. 12, D. 66. 

7* 



52 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

beu la, bos jaós hum (sic) noyte derain na chaupana da bonbarda grosa, 
que estaua a porta da cidade, e tomaramna com toda a gemte, seoam baum 
omem que se lamçou ao mar; boulro dia pela meobã quis deus que acbe- 
guey ahy, e eles tiravam com a bonbarda grosa a caravela que estava 
sobreles, e emlam, por conselho deses capitães, pareceo bem irmos apal- 
par a fortuna e esperar na mercê de deus, porque se elos aquela teva- 
sem avamte, que cometeriam outras muitas, fuy com bos bates por mar, 
indo alTomso pesoa por lerra com ba sua gente, e com ha gente da terra 
byamos batendo bos remos por terra, e na verdade levavainos algum re- 
ceo por a gemte hir mall desposta, e o medo que eu levava senhor era do 
esteiro, que cerquava a casa do gaão, nam no poder a nosa gente pasar; 
nam dei conta diso senam alguns capitães e affomso pesoa, porque se a 
gente nam podese pasar pêra a recolher; quis noso senhor que bos nosos 
pasaram demvolta com bos enimigos, que nos vieram bo caminho receber, 
e achegamos a Iramqueira, que era torle e altaa, e ahy esteveram buum 
pedaço comnosqo, honde lhe matamos muitos deles, e lhe emtramos, e 
como íomos derateiro (?) puzemos loguo loguo as casas e mesquita; deiíLci 
jobam lopes de dentro da tranqueira pêra lazer queimar tudo e recolher 
arlelharia, e eu vyme apiar homde estava a bombarda grosa, que eles que- 
riam levar, e !bu tomas (sic) e a metemos no bateil com aças de fadigua, 
e asy me toda a outra arlelharia que lhe ahy tomamos, e Ibe quei- 
mamos toda a povoaçam, em que Ibe queimamos muito arros e hum gu- 
dam cheo de maças; e a tranqueira que llie queimamos bera mor parle 
dela de sândalos, e asy lhe (sicj oiuita tustalha, o outra lhe trouxemos; ao 
recolher apertavam comnosquo, emlam nos viemos por terá, vindo os ba- 
tes com as proas pêra eles, lirandolhe com as bombardas, e nos muilo 
devagar nos viemos sem ousar de travar comnosquo; os cbatys e merca- 
dores da cidade nos vieram receber, dandonos bem a emtender que eram 
nosos amigos; asy senhor nos ajudou deus de maneira que lhe tomamos 
toda a arlelharia que na champana tomaram, e outra muita sua, e asy 
depois nos vinham as vezes corer, em pêro nunqua chegavam nem che- 
garam a porta da cidade, ainda que huma noyte lançaram gemte em lera 
pêra porem fogo a cidade, a quall gemte lhe loguo com os nosos hzeram 
recolher, porque a este tempo estava jaa affomso pesoa a porta com Iram- 
queira feita. As nãos e navios estavam liuma diante doutra de sua cidade 
ate os jumquos; a tomada da champana seria des no dia que vosa senboría 
de la parly (sic) a oyto dias ate dez, neste tempo se desmasteou sam Jo- 



DOCUMENTOS ELDCTOATIVOS 53 

hanii e ho puzemos sobre vigas, porque se ia ao fundo, e se coregeo ho 
milhor que pudemos, iso mesmo aos bates, que eslauam as nãos sem el- 
les. Iso tudo me custava tanto a fazer quanto deus sabe, e o vosa senho- 
ria o saberá quando vier, porque nesta nam ponho senam o que se la pa- 
sou, e o ali deixo pêra quando me vir com vosa senhoria, que certo 6zera 
muito seruiço a elrey se achegava a índia a lenpo que achara vosa senho- 
ria, por vos dar contas das cousas de malaqua. 

Senhor^ do dia que ceimamos (sic) a estancia, a molher e a filha 
do g&o se foy pêra casa do nale catir, e a outra gemte se foy toda pêra 
08 gunquos, e fizeram muitos paraos, dizendo que com eles aviam de 
rvi cometer as nãos e cidade, como soubemos, por pessoa que os vyo, 
que eles eram feitos, pareceo bem hirmos la e saltar em terá e quei- 
malos, e os junquos; nam me pareceo bém queimarmos hos junquos, 
por que me lembrava que eu dixera a vosa senhoria que se quisese que 
heu os queimaria, e vosa senhoria me respondeo que se os pudese tirar 
pêra fora que os lirase, mas queimalos que por emtam nam era nece- 
sario. Também senhor determinaram que os queimasemos; ho que cada 
hum neste caso dise vera vosa senhoria, por que eu o traguo esprito 
pelo espriuam da feitoria, pêra vosa senhoria ver ho que se sobriso pa- 
sou, todavia senhor nam pude ai fazer senam hir la e queimalos, porque 
asy me hera por vos mandado, e Ruy de brito amostrou e provicou os 
poderes que lhe ficaram de vosa senhoria; fomos la amanhecer boa gente, 
chegando a caravela e gale o mais perto da terra que pudese pêra jugar 
com artelharía; saltamos em terra tomamoslhas tranqueiras e bombar- 
das que nelas tinham, e lhe queimamos todos hos paraos e jumquos, e 
casas, fazendolhe muito dano, sem delas recebermos nenhum mall; ao 
recolher apertaram comnosquo tam rijo por todolos lugares, e o lugar 
era muito ruym cheo de palmeiras e desteiros, de maneira que fazendo 
nos hum volta com eles ao virar recolhesemos gemte rijo, metendose pela 
agoa nos batees, e eles demvolta comnosquo, que quando me eu quiz 
recolher eram nos bates de larguo^ e emtam me mety com a gente que 
ahy estava no parao de christovam grases, que quizeram nosos pecados 
que estaua em sequo, nunqua o pudemos fazer a nadar; hos mouros 
como viram os bates largos, e aquele em sequo, apertaram comnosquo 
rijo metendose nagoa, e éramos tantos no parao que lhe nam podiamos 
fazer nenhum nojo, e eles fazianos muito mall, emtam saltamos ao mar, 
ao saltar caiamos antreles onde nos fizeram dano. Ruy daraujo^ iançaq* 



54 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dose por popa do parao, travoulhe a fralda de malha dos toletes do pa- 
rao, e aly ficou emforcado sem se daly poder tirar, e aly o mataram, e 
asy mataram antonio d'asevedo, christovam bachequo, christovam gra^ 
ces, e outros homes, e isto ao saltar do parao deles mataram deles 
moreram afogado (sic). Asy senhor que aly dos acomteceo isto^ de ma- 
neira que nosos pecados tiveram na culpa disto, e eslava por deus hor- 
denado, porque doutra maneira nam podia ser tamanho dezastre . . . , 
hos que daquele parao escapamos fomos aças feridos, eu escapei tam 
milagrosamente sem saber nadar, que me fez deus açaz de mercê, ainda 

que emtam mais desejei a morte que a vida; neste tempo começamos 

emvasadura de cabrestantes e cadernais e todos aparelhos que pêra va- 
rar nao nos eram necesario; o bretam fazia tanta agoa que se hia ao 
fundo, iso mesmo santiago, e sam joham; a caravela redonda como fize- 
mos cabrestantes varamos em terra; iso mesmo se coregeo a gale muito 
bem de querena, e neste tempo tinhamos nova como vinha elrey de ma- 
laqua, e que avia de vir cometer a cidade com a gente e os seus paraos 
as nãos. Senhor antes de sam joham poucos dias tivemos nova certa 
como vinha elrey de malaqua com muito grande poder de gemte e pa- 
raos, e que trazia em sua ajuda o rey de bimlam, huma ilha que esta 
perto de singapur, bonde elRey de malaqa depois que veo de pam es- 
teve sempre ate minha partida, e he huma ilha forte que nam pode la 
achegar nao nem navio noso, por que tem muitos baixos, e que se vinha 
elrey com seu filho e com ho senhor de bimtam meter nenhum rio que 
está abaixo de iler, omde se la camane meteo camdo mandou pedir se- 
guro a vosa senhoria, e que dalli avia dir por terá ceimando (sic) e ma- 
tando todos os que nam fosem por ele, e que os seus paraos aviam de ir co- 
meter as nãos, e que iso mesmo avia de vir patê catir por outra banda; de 
maneira senhor que os mercadores e gente de malaqua tynham grande 
medo, e arreceavam muito meterse ele naquele rio, por que se ele aly 
metese, que a mor parte da gemte seria pêra ele, e como tyvemos nova 
certa que vinha, fuyos busquar com os bates e com a gale, e o topamos 
detrás das ilhas daguada, e trazia tanta soma de paraos que lhe ouvemos 
grande medo, parecendonos que se deus nam fose por nos, que nam éra- 
mos abastantes de nos defendermos, quanto mais o ofendermos. Dema- 
neira senhor que nos pêra eles (sic) com determinaçam de pelejarmos 
com eles, e esperarmos na mercê de deus, que he grande, isso mesmo 
vinham eles pêra nos dandonos muitas gritas, e tirandonos muitas bom- 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 55 

bardas, pareceodolfae que nam ousasemos desperallos; nos metemos com 
eles as bombardas, e a gale fez um tiro com a bombarda grosa, muito 
fremozo que Ibe pos gramde espanto, quando eles viram bo progeto 
das nosas bombardas e nosa determinaçam fazem na volta e pomse em 
fugida, metemonos após eles, demaneira que lhe segymos alcanço mais 

de mea legoa e o e amos em hum rio, e a entrada dele éramos 

tanto amtreles que tomamos huma pandejada caregada de mantimentos 
e armas, e isto mesmo lhe tomamos muytos paraos a lhe queimamos 
parte da sua armada, e asy lhe tomamos omes e molheres que nam tive- 
ram tempo de se saluar; e, porque has nãos estavam sem bates, nos vie- 
mos muyto cheos de prazer e vitoria, dando graças a deus por tanta mercê 
quanta nos fazia; o prazer dos chates e mercadores de malaqua era ta- 
manho que ho nam posso nesta dizer a vosa senhoria; elRey deste Rio 
nam ousou de sair por mar, e se foi por terá a bimtam omde esta, e man- 
dou loguo recado a fortaleza pedimdo paz, nem curou mais de mandar 
mantymentos nem nenhuma cousa a patê catir; neste tempo lamçamos a 
caravela ao mar coregida do fundo novo e de tudo o que lhe era necesario, 
e neste comenos chegou santamdre, e sam christo; e patê catir quando 
vyo que nos vinham navios e a gente do socoro, foy muito triste, e nos 
muito ledos, por que tynhamos ja sabido como froll de la mar era per- 
dida, e nam sabiamos quam bilagrosamente se noso senhor lembrou det- 
Rey e da índia, e de nos todos em saluar vosa senhoria, e prasera a deus 
que será por muita honra e acrecemtamento e descamso voso, asy como 
vos senhor desejais, e nos todos. 

Senhor; ho patê quatir fese muito forte nas suas casas, os chatys 
e mercadores de malaqua diziam que, se emtam o lamçasemos fora daly, 
que se hyria antes que hos seus viesem, e que se ele ahy estava ate vinda 
dos jaós, por quem eles esperavam, que depois que nunqua se daly eríam, 
6 a nosa gente estava emtam sam, e tinhamos todos boa vontade pêra o 
lançarmos daly fora. Dia de santiago saltey em terra e lhe tomamos as 
tranqueyras, onde pelejaram muito bem comnosquo, e lhe matamos gente, 
e eles de dentro das tranqueiras tinham dous alifantes armados com muita 
gente, e remeteram a nos; e crea vosa senhoria que vinham defeíçam que 
puzeram espanto aos nosos em alguma maneira se ratrauam (?) atras, 
emtam demos neles e lhe derrubamos os homes de cima de hum deles, e 
lhe matamos hum alifante, e hum dos homes que lhe matamos do aiifante 
era cunhado do pata catir, que foy com ho pe no alifante a mesçiato 



56 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

quando vosa senhoria tomoa malaqa da primeira vez; emtam lhe toma- 
mos muita artilharia, e lhe queimamos as casas do patê quatir, e abes- 
qita, e toda a povoaçam, e asy as tranqueiras sem lhe fíquar nada, e 
com os bates ou longuo da terra fomos queimando e lançamdo paraos, 
e quanto achauamos ao mar. Asy senhor nos viemos muito contentes 
da mercê que nos Deus fez; velhos e velhas, e gemte de malaqua hya 
segura de malaqua ate as casas de patê quatir busquar ho 4]ue lhes era 
necesario; a madeira das tranqueiras trouxemos de la pêra coregermos 
as nãos, e de la pêra os fornos da quall, iso mesmo a pedia da mesquita 
pêra a fortaleza, patê quatir foyse pêra huma fortalesa de madeira que 
dixeram a vosa senhoria, que elle tinha feita no sertam, em que tinha 
as molheres e fazenda, a quall fortalesa era açaz de forte^ e que esteve 
pasando grande fome e opresam sem terem que comer, nem poderem 
pesquar, nem neste tempo varamos ho bretam em terra, e samtiago, e 
sam joham quiséramos tirar as traves, nam pudemos que cebrava (sic) 
de podre; todavia o tyramos que de baixamar andam a redor dele, e com 
agoas vivas cheguavam a ele, esta pêra se com ele coregerem es outras. 
Quando veo agosto nam avia na fortalesa arroz, foyse sam christo aque- 
dar porto delRey damsiam buscalo; eu fuy ao canall de Jaoa com san- 
tandré e a gale aguardar que viesem alguns junquos, se quizesem paz 
comnosquo comprarlhe o arroz; estando no canall veo hum junqo care- 
gado darroz, em que vinha hum filho e hum sobrinho do patê quatir, que 
trazia gente e armas, e carapinteiros, e fereiros, e cartas pêra o patê qua- 
tir, pelejamos hum dia caise todo com ela, e te que se remdeo, na qual 
peleja recebemos algum dano, e isto mesmo que fizemos muito dano, to- 
mey o filho e o sobrinho dó patê quatir viuos com outros muitos, isto 
mesmo carapinteiros, fereiros. Senhor, elRey andela. . ., genro que foi 
delRey de malaqua, veo ay ter comiguo, porque aquella fera he sua, e 
amostroume um seguro que tem de vosa senhoria, e diseme quanto dese- 
jaua nosa amizade; deilhe comta da necesidade que tínhamos de man- 
timentos, mandou requerer a vosa senhoria que levase da fortalesa ho que 
de sua terá ouuese mais mister. Este Rey senhor he mancebo, e quanto 
o que dele temos visto he noso amiguo, e deseja muito uosa amizade, e 
asy o espreue a vosa senhoria, e he omem que nos vem bem sua ami- 
zade, porque todos os que vam pêra jaoa vam por sua terá, e asy os que 
vem, porque a sua terá he no canall, e sendo ele noso nam consentira na 
sua terá e portos senam os posos amiguos, e agora quando por hy veo pate 



DOCUMENTOS ELDCTOATIVOS 57 

dudíz (?J feslhe todo o nojo que pode, porque soube que era noso amiguo; 
esta conta dou a vosa senhoria porque me parece bem espreverlbe vosa 
senhoria amostrandolhe boa vontade ; e ele he omem que em sua terá tem 
muita madeira e carapinteiros, e me parece que faz cabedall da fortalesa 
e dos portugueses como amigues, e sobre iso me dise que sprevya a vosa 
senhoria; isto mesmo mandaua hum seruiço em sinall damizade; vera 
vosa senhoria humas cartas destes senhores de malaqa, e fará niso ho que 
be mais serviço delrey noso senhor. Asy me despedy dele ficando noso 
amigo, desejando mandamos de sua terra as cousas que nos fosem ne- 
cesarias; e quando acheguey a malaqua com ho arroz tinha os nosos 
muita necesidade dele pello nom haver na fortaleza; emtreguey ho fílho e 
sobrinho do patê catir a Ruy do hiito; soubemos como eram vindos dous 
junquos e três pandegadas de fava, e quando souberam que ho filho e o 
sobrinho do patê quatir eram tomados se foram a singapur, e dahy man- 
dauam preguntar a patê catir o que fariam; fuy la com hos navios, qui- 
seram-mos-lhe comprar o arroz, e comcerto com eles nam quiseram, senam 
tiraram-nos com as bombardas, dizendonos que nam nos aviam de vender 
o arroz, que ho traziam pêra patê quatir, emlam nos metemos com eles 
e lhe tomamos os junquos e pandegadas, as quais tynham arroz, delas 
queimamos e delas trouxemos a malaqua; estes homes senhor sam tam 
sandeus, como vosa senhoria sabee, que sempre nestes garregoes (?) nos 
faziam dano, que tem boas bonbardas e erva, e sam homes sem medo; 
quando vy a malaqua achei Jorje de brito que me deu uma carta de vosa 
senhoria, em que eu receby muita mercê, e foy muito ledo (?) com as 
novas que me deu quando me dise que elrey mandava fíquar vosa se- 
nhoria na índia em quanto quisese; neste tempo que eu vy ter a mala- 
qua, achey fogido o filho e o sobrinho de pale quatir da fortaleza, do que 
me eu muito espantey; da fogida destes homes dizem tantissimas cousas 
que eu nam sey o que delas espreva a vosa senhoria, senam que alguns 
se afirmão que hos homes nam podiam fogir se os algem nam soltasem, 
porque eles eslauam muito cheos de feros e guardas; porem senhor, como 
quer que fose, foy grande mao requado e perda, porque por estes hou- 
vera vosa senhoria a paz como quisera de toda Jooa. Ho patê quatir como 
se vyo sem arroz, e os junquos que lhe vinham eram tomados, e filho 
e o sobrinho cativos, determinou hirse; a vinte tantos de setembro se 
foy huma noyte, sem da sua fogida dar conta a sua gente, eu fui no rasto 
dele tomandolhc nlgus paraos, cmtnm fui queimar a forteleza de madeira 

TOMO UL 8 



1 



58 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

em (?) que estava, que nunqua vy cousa tam forte em poder de negros. 
Depois de patê quatir hido e visto as carias de vosa senhoria, e vendo 
malaqua tam pacífiqua, eu comecey a despacharme o mais cedo que pu- 
dese pêra vir ainda a tempo que achase vosa senhoria, comecey de co- 
reger as nãos que avia de trazer, santalonio era tam podre que se des- 
mastihou de todolos três mastros, que se pos a monte lançandolhe cin- 
tas e tavoado algum; santa cruz oulrotanlo lhe fizemos; anociada eslava 
algum tanto milhor, comtudo estavam todas açaz de róis. Senhor saberá 
vosa senhoria que jorje de brito partyo de malaqua a sete de novembro 
em samta ofemea pêra vir por pace, e dahy trazer as cousas que por vos 
eram mandadas, nos aviamos de partir a quinze de dezembro; santa ofe- 
mea veo ate a poluoreira, e mingoulhe os mantimentos, e arribou a ma- 
laqua, e pos desque partyo ate gue tornou, corenta e oyto dias, e quando 
achegou, que foy dia de natall, tynbamos novas que vinha patê uniz jaS 
com muita grande armada de poderosos junqos e muita gemte, nos fize- 
mos .... partes (?) pêra os irmoos busquar, quando veo de janeiro 

pareceo parte darmada, outro dia pela menham fomos ter com eles, que 
era huma fermoza armada pêra ver, trazendo paraos e calauzes antre os 
junquos, e eles todos muitos cerados, e asi lhe viemos fazendo muito nojo 
com artelharia; eles vieram sorgir defronte das casas que foram de patê 
quatir, e a rezam porque os aquele dia nam aferamos nam esprevo a 
vosa senhoria porque agardo pêra volo dizer perante os que ho viram, 
porque este he meu costume; esta noyte que eles aqui sorgiram sorgimos 
ao redor deles fazendolbe muito nojo, esta noyte ouve patê unniz eomselho 
de se ir a singapur falar com elrei, e deixar la os juquos e vir com a gente 
por terá, que pasauam de x ^ homens, e os paraos e calauzes com man- 
timento ao longuo da terra; tanto que se eles fizeram a vela nos fizemos 
DOS atras eles, e os veémos çarcando ate que foy menhã, que nos mete- 
mos com eles asporadas, parecendome a mym bem aferrarmos, e asy pa- 
receo a estes capitães, porque eles nam se querem doutra maneira, asy 
como eu aferey, asy aferaram lodos, e veria vosa senhoria hum joguo fer- 
mozo pêra ver, e quam millagrosamente nos noso senhor ajuda porque 
hia aferar navio que tynha trinta homes, cem juquo muito grande que 
tynha duzentos homes, e asy os pusemos em desbarato que huns fogyam 
nos calauzes, e outros se lançavam ao mar; e porque ho mar andaua 

^ dez mil. 



;* 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 59 

cheo deles e de paraos, tinha eu dito aos capitães que como tomasem 
hum junquo que ho queimasein ou o desparelhasem, de maneira que eles 
se nom pudesem hir nele, asy senhor nos fez deus tanta mercê que, 
camdo veo ao soll posto, eram todos os junques e pangaguadas queima- 
das e tomadas, e o mar cheo de sangue, porque eu afirmo a vosa senho- 
ria que matamos tanta gente que estamos bem librados deles, e que esta 
lhe alembre eles mais que a ley de molamede; em um junquo que eu afe- 
rey, em que vinha o catua de palibam, que era seguida . . atras o pati- 
bus, quQ lhe matamos pasante de li] * homes, isto senhor sem nenhuma 
duvida porque era a gente tanta neles que nam tinha par nem conta; aquy 
moreo este catua e hum filho seu, e asy moreram muitos homes honra- 
dos; iso mesmo caty vamos muitos, em que emtram muitos homes hon* 
rados; o patê humuz como vyo a escaramuça travada fogyo em hum ca- 
lauz, o seu junquo emcadeouse com outro e com huma pandegada, asy 
andavam, e o junquo de patê umuz he o mor que ale gora os homes 
daquelas partes tem visto, e trazia mill homes de peleja dentro em sy, e 
crea vosa senhoria que tynha tanta deferença do junqo brabo que vosa 
senhoria tomou, demais gramde e mais alto, que era cousa façanhosa 
de ver, porque a nociada a par dele, nam parecia nao; metemos nos com 
eles as bombardadas, nenhuma bombarda grosa nam emtrava du lume 
dagoa pêra baixo, que a espera que eu levava na nao emtrava dentro 
mas nam pasava, per aqui pode vosa senhoria julgar que cousa hera, 
porque hera de três foros, e todos pasauam de hum cruzado de grosura, 
e certo que era tam mostroso como nunqua os homes viram outro, e asy 
ho fizeram por mor e mais façanhoso que nunqua se vyo, esteve três anos 
em ho fazer, como vosa senhoria ouueria em malaqua falar neste' patê 
umuz, que fez esta armada pêra vir ser rey de malaqua; e asy trazia elle 
e os seus casas movidas, tendo ja dado e prometido os oficios e fazendas 
de malaqa, parecendolhe que nam avia ahy poder que lhe tolhese ser rey 
de malaqua, mas deus que sempre he em nosa ajuda quyslhe quebrar 
sua sorbeba, e darnos vitoria, e ajudamos, e pelejar por nos, porque certo 
armada hera tam poderosa e de tanta gente, e os jaós sam bos homes, 
que se deus por nos nam pelejase nos tynhamos máo partido; eles tem 
duas cousas que fazem noso partido, que sam muito soberbos e mall go- 
vernados, porque antreles nam ha senam fazer ho que cada hum quer, e 

^ três mil. 

8^ 



60 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

lhe vem a vontade: asy andamos com esle junqo ate que gastamos a 
poluora, em que lhe demos tantos tiros de bombarda grosa que nam sinto 
ter que ho sofrese muitas vezes, porlongey com ele lançandolhe panelas 
de foguo e bombas, e lanças e outros muitos arteGcios de guerra que pêra 
iso levava, de tudo vinham também percebidos que lhe nam pudemos fa- 
zer nojo com ho foguo, asy andamos com ele seis dias trazendoo sempre 
antre as nosas nãos, e huma noyte deunos hum tempo rijo com que o 
perdemos, e nos vyemos a malaqua, onde fomos também recebidos e fes- 
tejados dos mercadores e gente de malaqa, como prasa a deus que seja- 
mos pagos de nosos seruiços de elRey noso senhor; emtam entreguei o 
mando que me vosa senhoria deixou a Joham lopes daluy, como vos man- 
daves, tomou poluora e cousas que lhe eram necesarias, e, com armada 
que Ia fíqa em malaqa, tornou em busqua do junquo, e pareceme que se 
o achase que se lançaria atravez, porque leuaua muita gente morta, e vay 
tam mall tratado poios altos e todo rachado, que nam leva cousa sam, e 
a sua vela era fremosa cousa de ver, asy do foguo como das bonbardas, 
que, sem nenhuma duvida se a gente dela tyvera onde fugir, paraos ou 
calauzes, nam esperam tanto mall quanto de nos receberem, mas eles des- 
confiados de lhe nos darmos as vidas faziam da necesidade virtude; nesta 
peleja senhor recebemos pouco dado (sic) deus seja louvado, porque eles 
tinham muitas bombardas e boas, e muylas outras armas com que nos 
faziam nojo. Malaqua senhor fíqua muyto nobrecida e chea de mercado- 
res, e esperávamos agora poios junques dos chis, e dos lequeos, e dos 
pegus, e fiqua muito pasifiqua sem terem receo de nenhuma guera, por- 
que hos jaós ja sabem na verdade e para quanto sam, e ainda que agora 
outra vez determinasem de vir sobre malaqua nam tem junquos pêra iso 
porque todos lhos queimamos, e daqui a muitos anos nam poderam ajun- 
tar em Jaoa vinte junqos ate que os nam façam. Asy senhor que de pura 
nesecidade amde ter paz comnosquo, porque nam tem a quem vendam-no 
arroz e sândalos, e drogarias, e outras cousas muitas que ha na sua terá, 
senam em malaqua, iso mesmo ahy comprar os panos e o amfiam, e ou- 
tras cousas, pois que digamos que se nam quiserem vir a malaqua que 
huma apacee (sic) ou a outros portos, isto nam no podem eles fazer se 
quem esteuer em malaqua nam quiser, porque eles todolos que vem de 
Jaoa, e banda, e malaqa, e aquelas partes nam podem vir senam em se- 
tembro ate fim de novembro, porque este he o tenpo da sua monçam de 
hos junquos de la virem, e vem por hum canal que nam ha meia legoa 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 61 

da terá a terá, qoe heo começo deste canall R^ legoas de malaqaa, que 
os nosos navios que ali estyueram nam podem hos junquos, que pêra li 
vierem, fazer senam os que os nosos quiserem, asy que por muytas ra- 
soes eles viram a paz e bom comcerto comnosquo, porque diso lhe vem 
mais proveito que ha nos, e doutra maneira nam podem viver. 

Senhor, a minha partida de malaqua íiquava o bretam acabado de 
carpentaria do lume dagoa pêra baixo todo novo, e como metesem os ca- 
lafates nele meter (sic) os carapinteiros em sam tiaguo; a caravela que 
veo de malaqa fiquava em terá pêra se coreger; hos oficiaes que fiqua- 
vam em malaqua, sam onze calafates, e sete carapinteiros portugueses, 
fora vinta tantos captivos que tomou ; a gente de mar que la fiqua pasam 
ij®' homes, antre marinheiros e grumetes, estes todos traguo em roll, ti- 
rado da feitoria pelos esprivães de la a minha partida; ruy de brito nam 
contente ajuda (sic), destes, destas três nãos que agora viemos, tomou os 
que quis sem oulhar que vinham as nãos desamarinbadas, e que la nam 
tinham nenhuma necesidade deles, e viemos de maneira que os marinhei- 
ros que em todas três vieram, nam poderam navegar huma delas pêra 
portugal ; asy hos espravos que em santantonio vinham pêra a bomba, 
vendo a nao que vinha tam so, e com tam pouqa gente, que determina- 
ram aleuantarse com ele, e se me deus nam fizera tanta mercê, que era 
perto dela, tomaromna sem nenhuma duuida, por que quando arribey a 
ela tinham ja morto dous homes e feridos doze, e amdauam ja os jaós na 
tolda, e tinham a nao caise rendida, e esta culpa senhor vos ma deres se 
me preguntares por santantonio, e por boa resam nam tynha nisto culpa 
senam Ruy de brito, que sem nesesidade toma a gente, e da azo asy a 

tais cousas cometerem, e isto fazem nos homes por da pouco 

pello mau que os outros fasam, mas se eu oulhase as cousas como mui- 
tos as olham, que vam avante quando os jaós asi feriram nos homes, os 
que nela fiquaram nam eram abastantes de navegar, e vendo que deziam 
todos estes senhores que de malaqua vinham, que era dizerem que nam 
se podia navegar aquela nao sem lhe darem gente das outras, e tirando 
a gente as outras que so nam poderiam navegar nenhuma, e que era mi- 
Ihor perder se aquella nao que se por em ventura aquelas outras ; esta 
nao perdendose emtam aly, senhor, Ruy de Brito fora obrigado e culpado 



^ quarenta. 
* duzentos. 



62 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

• 

na perda da nao, pois sem mais comselho dos mestres nem pilotos tomon 
a gente as nãos de ]ue nam tynha nenhuma necesidade, mas em que nam 
trabalho senam por faser ho que devo, e o que he seruíço d el Rey, e voso, 
me nam pareceo bem meterse aly santantonio no fundo, senam trazelo a 
índia, e sobriso trabalharmos canto deus sabe que eu niso trabalhey; 
prouve a nosa senhora que nos deu boa viagem, e que viemos em vinte 
e nove dias de malaqua a cochim, bonde ela e anociada emtregey a Jorge 
dalboquerque capitam da forlalesa, e me mety neste navio pêra ver se 
podia ser tam ditoso que alcamsase vosa senhoria ; aquy em cananor sou- 
bemos vosa ida. 

Senhor, vyndo aos baixos de capacia topey antonio de miranda que 
vinha damsiam, e contoume como estivera com ho Rey, e que recebera 
dele honra e bom gasalhado, e que mandaua hum embaixador a fortalesa 
com cartas pêra vosa senhoria, as quaes cartas viram nhuma nao mala- 
var que Ia fíquava pêra vir a cochim, e contou me como com tempo se 
apartara hum junquo honde vinha o embaixador dele, e que seria em ma- 
laqua; manoell fragoso veo na nao comiguo pêra dar conta a vosa se- 
nhoria das cousas que se la pasaram, achegando a cochim adoeceo, e Ha 
espreve a vosa senhoria largamente o que la pasou, pareceme senhor que 
tudo deus trás a boa fym e pêra bem; por que este Rey dam siam dís 
que nam deseja mais bem que ter sempre boa amizade com vosa senhoria, 
e ser vasalo dei Rey de portugall. Senhor, agora quero dar comta da ma- 
neira que me vosa senhoria em malaqua deixou, fasendo me mais agravo 
e sem resam do que 6zestes a esoutros capitães que com vosa senhoria 
vieram, por que deixastes nelas virem se ou ficarem, como visem que era 
mais seu proveito, c a mim senhor que de vos esperava tanta mercê, e 
mais que cada hum deles, me leixastes nela por força, muito contra mi- 
nha honra e proveito, tendo me vosa senhoria mandado cometer por meu 
irmão com a fortalesa de malaqua, e depois destala a Ruy de brito, e my 
(sic) quando me la deixastes, me disse vosa senhoria que me deixava por 
capitam mor do mar, e depois de vos partido, Ruy de brito amostrou e 
provicou os poderes que lhe deuos ficaram, em que elle era capitam mor 
do mar e terra, e tirase capitães e oficiaes, e em tudo fizese o que quizese, 
e que eu fose seu almoxarife pêra coreger nãos e navios, e sobristo gas- 
tase a vida e fasenda, e que Ruy de brito as dese a quem quizese e que 
eu com hos capitães hia pelejar com hos mouros, e com elles navegauam, 
Dam ibe podese faser mais bem nem mal que rogar por eles; ora oulhe 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 63 

vosa senhoria qnam honrado me deixou em malaqua, comfiando ea tanto 
senhor em ser filho de lusarte daldrade, e teruos eu merecido oulhardes 
TOS por minha onra e proveito, nam curey em malaqua pedimos mais 
soldo nem quintais, nem regymento, porque esperava que eu vos tynha 
merecidOí sem vos eu nestas cousas falar, lembrase vosa senhoria de me 
fazer mercê, avendo respeito a quem eu sam, e da maneira que eu qua 
nestas partes tenho seruido a elRey, e como me avia amim de parecer 
que vosa senhoria havia desqliecer em todalas cousas de mym, sem se 
lembrar que pay de Ruy de brito, nem seus parentes, nunqua mandaram 
no meu nem meus parentes, nem menos ele he lall, e eu tam roim, que 
nas cousas da gera seja resam ser mandado por ele, e bem se lembrara 
vosa senhoria algumas vezes se me entregou a gente, e a maneira que 
vos eu de la dey conta, mais isto senhor nam he por eu . . . ter p.* e me- 
re . . . isto nam ser asy, mas ser muito mofino, e ter meus pecados mere- 
cido a deus ser isto asy; em pêro senhor asy por almoxarife, como vos dei- 
xastes em malaqua, eu vos seruy d almoxarife e de carapinteiro, e de ca- 
lafate, e de marinheiro, e de capitam de fortelezà, e de capitam mor do mar, 
e de tanta cousa quanta vos senhor soberes cando falardes com hos omes 
que la estiveram, e se eu bem trabalhava por seruir elRey, ou da maneira 
que ho cada hum fazia, e polo que cada hum tem aproveitado em mala- 
qua em sua fazenda se pode ver, porque eu senhor asy como em malaqua 
vi ser muitos riquos, asy sey que quem bem seruisse elRey que, ho nam 
podia ser estas cousas todas que eu senhor faço, que he oulhar mais pelo 
seruiço delRey e pelo que deus, que por meu proveyto, bem sey que nisto 
erro e faço ho que nam deuo a minha fazenda, e segundo as novas que de 
portugal ouço he que queem nam tem fasenda nam tem seruiço nem honra ; 
mas eu com todas estas cousas nam Irocarey minha proveza por muito 
grandes fasendas que ha na índia, e com este propósito ey dandar ate 
bir ver el Rey a quem todos servimos, e depois que portugall vir, e as 
coQsas que la vam quicas me farey da outra volta; agora senhor peço per- 
dam das cousas acimas ditas a vosa senhoria, por que has nam diguo se- 
nam como hovem grande voso servidor e amiguo, e que de vosa senhoria 
espera muita mercê e honra, e se ate aqui merecy de huma maneira, mer- 
cer agora doutras muitas^ e muito perfeitamente como homem que me ey 
por grande servidor de uosa senhoria, e qua malembra ser filho de du- 
sarte dandradre, que sey que as suas cousas a vosa senhoria sempre de 
folgar (sic) de faser mercê, e meo irmão asy mo espreuee, e diz que 



64 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

has cada dia recebe de vosa senhoria. Senhor ho desembargue do tempo 
que seruy na nao trindade, que vosa senhoria mandaua pagar em mala- 
qua, nam no pagaram aquy na índia, soube como vosa senhoria mandara 
a lyonardo pagar a dom Joham, e a gaspar de paiva, e a gomes teixeira; 
bejarey as mãos de vosa senhoria mandar recado pêra Joanes feitor que. . . 
pague. . . outra alguma pesoa, por que afirmo a vosa senhoria que de 
malaqua venho tam proue que tomey dinheiro a canbos pêra nela gastar, 
pois bem sabe vosa senhoria que ho meu gasto não he de mao homem, 
se nam o que gasto que he em seruir elRey, e faser ho que deuo, e que 
sempre qua fuy tam mofino que nunqua acertey hum proveito como os 
outros acertaram: agora senhor achegando a cochim me diseram como 
vosa senhoria tinha dado hum aluara a mece denis da nao anociada, de 
que me vos em malaqua fizestes mercê, espanteime muito de me dizerem 
aquilo porque eu de vos esperava outra milhor, e nam tirarma, por que 
ja ora o ano (sic) vosa senhoria ouve por bem tirarma outra e dala ao 
ouvidor, ora agora estroutra veja vosa senhoria ho que manda, e iso se 
faça; a santantonio esta em cochim sem capitam, se vosa senhoria em 
toda maneira detrímina de tirarma nociada. ter vos ey em mercê dar me 
santantonio, porque niso senhor receberey mercê pêra que nela va pêra 
purtugall, e leue quatro reis de proueito : todas estas cousas senhor peço 
muito por mercê a vosa senhoria que veja com hos olhos dalma, e que 
lenbre aquy meus seruiços e minha pesoa, e quem eu stam, e ami- 
zade de meu pay, de quam pouco proveito na Índia sempre tenho rece- 
bido, por que nam sey que conta dey a meus parentes do tempo que an- 
dey na índia, e do proveito que nisto fiz, por iso peço a vosa senhoria 
que pondo todas estas cousas diante, a julge com os olhos dalma e da 
conciencia, e nam lenbre vosa senhoria alguma paixam se a de mim ja 
teae, por que certo foy veniall e nam mortall, nem menos com mao cora- 
çam, nem mao propósito, e se doutra maneyra foy, mall me faça deus e 
nunqa me ele em nenhuma cousa ajude, e lenbre a vosa senhoria a von- 
tade que me sempre achou pêra as cousas em que vosa senhoria tem ga- 
nhado muita honra. . . nas tomadas destas cidades, e qpe me tem iso 
custado mais que a outros muytos que sam riquos e ditosos com vosa se- 
nhoria, e bem vos alembrara senhor nas tais cousas a vontade que pêra 
elas macbaues, e da maneira que nelas vos tenho seruido; asy senhor que 
vos tomo pedir por mercê que folge vosa senhoria de per vos ser ríquo 
e omrado, pois que já pelo de meu pay jaço em obrigaçam de ho que ty- 



/ 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 65 

ver ser de vosa senhoria, e pêra ho que comprir a voso seroiço que será 
o que eu ouver nestas partes, dandome vosa senhoria, e fasendome niso 
mercê este inverno, que ja contra minha vontade ey deslar em cochim, ey 
por mall gastado e me pesa muito do tempo que aly ey destar, por que 
mais folgara gastalo em companhia de vosa senhoria, e em la servir elRey; 
veja vossa senhoria se ha por bem que em agosto saia de cochim em na- 
vio ou nao, ou em esta gale, que la pêra emtam será bem acabada, e veja 
vosa senhoria se for bem sair daquy de cochim em agosto ou em outu- 
bro, quallquer tempo que a vos parecer bem, pêra quallquer parte que 
vosa senhoria vir que niso sirua elRey, e vos receberey mercê mandarmo, 
porque eu nam desejo ali, e praza a deus a vontade senhor que eu pêra 
as cousas que compre a vosa honra e seruiço tenho, tenha deus por ma* 
judar se a vosa senhoria isto parecer bem, e se de mi quiser seruir em 
alguma cousa ate o tempo de minha ida pêra purtugall mandeme vosa 
senhoria, porque o seruirey e o farey com Iam boa vontade como prasa 
a deus que me seja leuado em conta, todavia torno a lenbrar a vosa se- 
nhoria mandar recado da minha nao ou de Santantonio, e asy fico be- 
jando as mãos de vosa senhoria, de cananor a vinte e dous de fevereiro 
de 1513. 

Senhor, malaqa he muito grande cousa, e a mister prouida de muita 
cousa, porque nela ha muita deferença antre Ruy de brito e o feitor, e 
ofíciaes, e dizem tanta cousa quanto heu cuydo que vosa senhoria la vera 
em cartas; pareceme senhor ser muito necesario mandarse tirar huma de- 
vasa em malaca, asy antre os eslaos, como antre os mouros, pêra vosa 
senhoria saber de maneira que cada hum tem seruido eirej, e pêra que 
saiba parte daquelas cousas que se la pasam ; estas cousas todas veja 
vosa senhoria se as proveja da maneira que vir que he resam, por que 
eu que nelas (sic) queira /os^ a vosa senhoria nam no saberey, por que 
todo o tenpo que la estive, ou caise todo, andey darmada, ou estaua na 
ilha onde coregiamos as nãos e bates, e onde eu era nesesario, e por iso 
nam sei as cousas de malaqua senam por cima, da corda, tomo abejar 
as mãos de vosa senhoria, e rogar a deas que vos de nela onra e vitoria 
que vosa senhoria deseje. — Fernando pererez dandrade. 

(Em dorso) Áo muito manifiquo senhor e senhor capitam gerall e 
governador das índias por el Rey noso senhor, etc. ^ 

» Torre do Tombo— C. Chron., P. 3.*, Maç. 5, D. 10. 

TOMO m. O 



CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1613— Junho 13 

ilor e oãciaes da nosa casa da yndia avemos por bem e nos praz 
a a fazenda que nessa casa for deuida a gonçalo aluares, piloto 
yndia, de todalas armadas, afora a em que foy dom guarcia de 
, se lhe pague a pimenla que lhe montar nela mesma, a qual em- 
a fraodes emtreguar ao noso feytor, pêra ele vender e emtregar o 
dela ao dito gODçalo aluares, ou a quem ele pêra yso ordenar, 
io asy feyto em lixboa a treze de junho, jorge dias o fez de jbc 
Rey • ; — O barâo. 

i feitor e oãciaes da casa da yndia, que todo o que for deuydo na 
a a gonçalo aluares, piloto de todalas armadas, lyrando a de dom 

10 noronba, se lhe page em pymenta, e a enviem a frandes entre- 
oso feitor, pêra ele vender e acodir com o dinheiro ao dito gon- 
ares. 

indado por onde deram a gonçalo aluares piloto mor cento e doze 
í de pimenta. 

ío verso) Recebeo Gonçalo aluares, de Joam de Saa, cento e doze 
s quãtorze arrates de pymenta da nao garça, vyagem do marechall, 
lhe montava por esta guisa. 

>m: o dito gonçalo aluares trouxe narmada de tristam da cunha, 
Santiago cento e trinta quintaes de pymenta de sua camará e quin- 
e montoulbe por a dita pimenta seiscentos setenta e dois mil qua- 
is trinta e cinco reis, e foromlhe paguos trezentos oitenta e cinco 
.... reis; e ãcaramlhe asy por pagar. . . duzentos e sasenta e 

11 e quarenta e cinco reis. 

!m: trouxe mais na dita naao nazare, de vyagem do marychal, se- 
oito quintaes duas arrobas de pymenta de saa camará e quin- 

!m : mais trouxe dezoito quintaes uma arroba e vinte e três arrates, 
1 eirei mandou dar por seis quintaes de cravo e hum quintal de 

1 quinhentos « trete. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 67 

macees que trouxe ua dita naao, que se ouve pêra elrei, e foy receytado 
a Joam de Saa, e prouve a sua alteza que o dinheiro que fez de custo o 
dito cravo e macees lhe dar carregado em pimenta, e a este respeito mon- 
talhe os ditos dezoito quintaes uma arroba vinte e três arrates. 

Item : yierom na dita naao a thomee pajé hum quintal huma arroba 
e dez arrates. 

Item: A antonio affomso do porto^ marinheiro (?J, vierom nesta naao 
três quintaes de pymenta. 

A qual pymenta do dito gonçalo alluares, e partes outras desta naao 
nazare, soma toda cento e um quintaes, uma arroba e um arrátel, da qual 
pymenta tirada quebra e direitos, e vyntees das cavallaryas, ficam sesenta 
quintaes vinte e dois arrates e meio. E as ditas pesoas tresuasaram a dita 
pimenta sua no dito gonçalo aluares per esprituras. 

Item: Na naao garça da segunda viagem vierom a gonçalo (?), do 
viso rey^ dous quintaes de pimenta de sua quintalada ao meeo, e a affomso 
(?) de mello dez qninlaes ao dito partido, as quais partes trespasarom a 
dita pimenta no dito gonçalo aluares, e tyrada quebra e direitos e cava- 
laryas ficam quatro quintaes vinte e um arrates e meio. 

Item : Na dita naao garça veeo a affomso, page, sobrinho do dito gon- 
çalo aluares, hum quintal, huma arroba e dez arrates, e a joam martins 
pilloto da vytorya cinco quintaes, que trespasaram no dito gonçalo alua- 
res. E na naao bellem vierom a alluaro rodrigues, marinheiro (?) do porto, 
sete quintaes, uma arroba e seis arrates, todo a quarto e vintena, da qual 
pimenta tyrada quebra e direitos ficam forros sem as cavallaryas oyto 
quintaes duas arrobas dois arrates e meio. 

E na naao conceiçam vierom a joam martins pylloto da caravella 
vytorya nove quintaes que passou ao dito gonçalo aluares, da qual py- 
menta tirada quebra e direitos, e avallias, e cauallarias, ficam forros três 
quintaes e três arrobas vinte e dois arrates e meio. 

E no caderno do dinheiro diz desesete mil cruzados que o viso rei 
tomou ao meio pêra naaos que nom vyeram, que elrei mandou pagar a 
duzentos e cincoenta por cento; vierom de gonçallo aluares quoremta e 
dois cruzados em nome de gonçalo, do viso rey, e próprio do dito gon- 
çalo alluares, pelo qual dinheiro lhe monta auer a duzentos e cincoenta 
por cento, como elrei mandou pagar os ditos desesete mil cruzados quo- 
renta mill oitocentos cincoenta reis, descontados os vinténs das caualla- 
rias. 

9* 



68 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

E asomãndo a pimenta que fica forra ao dito gonçalo aluares, soma 
toda setenta e seys quintaes três arrobas e quatro arrates e meio, em que 
monta a vinle e dois cruzados, e a trezentos e noventa reis o cruzado, seis- 
centos cincoenta e três mil oitocentos e dezeseis reis, o qual dinheiro aso- 
mado com os duzentos sessenta e sete mil e quarenta e cinco reis, que 
lhe é devido da armada de tristam da cunha, e dinheiro dos rumes, soma 
todo novecentos e sesenta e hum mill novecentos e onze reis, no qual di- 
nheiro monta a vinte e dous cruzados o quintal, os cente e doze quin- 
taes e quatorze arrates que recebeo do dito Joam de Saa per este aluara, 
e fez por a verba por mym nos assentos da dita pimenta, nos termos das 
ditas pesoas, e dinheiro que he pago gonçalo alluares do dito dinheiro per 
dita pymenta, e asinou aqui o dito gonçalo alluares a vinte e três dagosto 
quinhentos e doze. — Gonçallo alluares, Joam femandes.^ 



1613— Outubro 22 



Senhor — Por a frota do ano pasado esprevy a vossa alteza, e asy 
ho fiz o outro ano por cristovam de brito, e dom aires, e vos dei conta 
de tudo o que aquy hera pasado, e asy dey a vossa alteza muitos avisos 
e requados, e cousas de uoso serviço, e bate feitura desta nam vy nenhum 
requado de vossa alteza, do que estou anojado, e por vemtura seram has 
cartas no maço de cochym, que daquy a dous meses nam podem ser aquy; 
e por qanto senhor se nam respondo a vossa alteza he por nam ter car- 
tas uosas, por esta direy so o que depois he seguido. 

Item : Ho capitam gerall partio daquy aos dezoito dias de feuereiro, 
e tornou aos vinte de setembro, e neste tempo, nesta cidade e ilha, nam se 
fez outra cousa se nam a fortalesar esta ilha e fortelesa, como aimda fa- 
zemos, e cartearmonos com este çabaio e turquos cada dia, pêra ver se 
podemos neles faser boos amyguos, e hate quy nos prestamos da terá 
firme de tudo que nos he necesario por nosos dinheiros, e elles de nos, 
e aguora que ho capitam geral he aqui, com ajuda de noso senhor se fará 
algum concerto. 

Item: O ano pasado vierom aquy por força cinquo nãos durmuz 

1 Torre do Tombo— G. Ghron., P. l.\ Maç. 13, D. 7. 



J 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 69 

• 

com cavalos, e hos mercadores deles foi feito muita bomra e gasalbado, 
e emprestadolhe dinheiro, venderam seus cavalos muito bem, e foromse 
pêra urmuz^ e acbo por minbas comtas questas cymquo nãos vos remde- 
rom cymquo mil pardaos, pouco mays ou menos o direito so dos caualos; 
veja vosa alteza que fará camdo vierem aquy todalas nãos, que, alem de 
vos renderem muito dinbeiro, vos anobrecem e pauoam a terá, e trasem 
todolos outros mercadores a ella, porque bos caualos be buma das gran- 
des mercadorias que ba nesta terá, e bo concerto que baves de faser com 
elRey durmuz, bo principal be que todolos caualos da persya venbam 
aquy, e que nam posam comprar especearia senam aquy. 

Item: Ja sam três anos que espreuy a vosa altaza sobre a venda da 
pimenta e especearia que cadano se podia qua gastar na índia com bo 
dobro do que custa de ganbo, nam me respondestes a nenbuma cousa, 
eu nam poso mais senam favorecer, gramgear, e multripicar vosas cou- 
sas, e, cando cuido que tenbo posto buma mercadoria em bom preço, vem 
bum :íambuco de cocbym e cananor e desmancba tudo, que o ano pasado 
em dabuU e cbauU vemdia bo cobre a IR^ pardaos camdil, pimenta a 
XXX,' e bos paraos bo deram a Ixxx," e a vynte, e ba vynte e dous, que 
be uma graúda vergonba de uosa alteza ter buma cousa tamanba nas 
mãos, e nam ser onidos vosas feitorias bumas com bas outras no vemder 
das mercadorias, que bos mouros de cocbim nam se comtentam, camdo 
vam a cambaya com o retorno de cem cruzados, faser duzentos e cin- 
quoenta, e sobriso nam quero dizer mais a vossa alteza, por me nam ter- 
des em comta de pragemto; tendes tudo mundo descoberto, e todalas ri- 
quezas dele nas partes de malaca, manday agora omens que ba saibam 
tratar e manear, que bo noso capitam mor nam pode a tamto acodir, que 
baças Iba basta ir sempre no mar, ora a malaca, ora ao estreito ata em- 
calbar e escapar a nado, e a mercadoria be em migada guera, e quer bo- 
mens que ba saibam manear, reger, e guovernar; dos nosos feitores de 
cocbym e de malaca seres avisado do trato e maneo dela, que por nam 
ter noticia diso vos nam dou nenbum aviso. 

Item: Posto que vosa alteza me nam quisese faser o partido que 
vos come todo jemgivere, nam leixey por iso de trabalbar e faser samear 



^ noventa, 
'trinta. 
' oitenta. 



70 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

camto pude; este ano fiz samear L/*^ babares nestas ilbas, ao partido do 
meo, que be a mais fremosa cousa do mundo, e este ano farey samear 
cem babares de mouro, que cadano moltrepicara, e bavera yosa alteza 
camio jemgivre quiser, e ba mor parle dele beledy; mamdeme vosa al- 
teza diser camto queres cadano, e eu volo averey, e nam vos custara 
nada; este gemgyuere se samea em maio, e bapanbase em janeiro, ba 
mister bum mes pêra se sequar, de modo que dum ano pêra outro fíqua; 
estroutro ano de quatorze nam vos poso dar nenbum gemgivre, por que 
nam será panbado a tempo, no ano de quinze canto quiserdes daby por 
diante cadano. 

Item: Ho capitam gerall manda que sarendem estas ilbas a uosa 
buzança, e buma renda questava aqui oculta das oraquas, que no tempo 
dos mouros remdia iiii^ ' pardaos, arematou a dos moradores desta ilba 
canaris por jix^' cadano, e ba praça dos mercadores por mil, e agora vay 
arendando hos pasos e terás da ilba, que me parece que pouco mais ou 
menos cbegaram a dez mil pardaos, por ser a ilba muito denaficada e bas 
terás quebradas e rotas dagoa salgada, e com bajuda de noso senbor ca- 
dano ira em crecymento ; fiqua a renda do mar que nam be pêra aren- 
dar a nynguem por ser de risquo, que pode render bum ano dez mil par- 
daos o arado, segundo que viram bos cavalos, quespero em noso senbor 
que cadano moltrepique. 

Item: Vosa alteza nam deu credito a minbas cartas, da valia do co- 
bre que tinba em cambay, e baquy na terá firme, que se me déreis cre- 
dito me mandareis aqui ao menos dous mil quintaes que vos renderom 
u^ cruzados, manday bo a cocbym que vos remde doze, estimay muito 
esta mercadoria que be ouro em pó, e bagora questa fecbado bo estreito, 
e nam vem de la, bo venderes a como quiserdes, e por elle averes em cam- 
bay ba todalas mercadorias necesarias pêra malaca onde ganbares muito 
dinbeiro, e asy per azouge, e vermelbam. 

Item : Eu maqueixo a deus e a uosa alteza dos vosos oficiaes de co- 
cbym, e ba três anos que nam faço senam requererlbe e pedirlbe por 
mercê que me mandem bo trelado do regymento de uosa alteza, e hasy 
bo preço das mercadorias da terá que compram e vemdem, nunqua bo 

1 cincoenta. 
' quatrocentos. 
' mil e novecentos. 
^ vinte mil. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 71 

quiserom faser» viuo as escuras, e se algama cousa fízer contra uoso re- 
gimento será per nam ho saber, e vosa alteza niso nam me pode culpar. 
Item : Ás despesas desta cidade forom ale quy mui grandes, e ha- 
guora ho capitam gerall as demenoy muito, em gram maneira asy de sol- 
dos como de mantymentos, e nam se pode vosa alteza aqueixar de goa, 
que mais de Sk * cruzados tenho paguos de soldos, e S* de mantimen- 
tos, e outros tamtos dobras, e tendes huma ilha de seis legoas a redor, 
com quatro fortalesas as milhores que ha na espanha, com muita arle- 
Iharia e m ^ quintaes de poluora e salitre, e mantimento nelas de cote 
pêra seis meses. O poderoso deus acrecemte os dias da vida e estado de 
vosa alteza a seu santo seruiço, de goa a vinte e dous doutubro de 1513. 
Servidor de vosa alteza. — Francisco corbinelli. 

Senhor — Eu tenho esprito a Vossa Alteza cadano meu parecer e 
emtemçam sobre o negocio e maneo desta índia, e asy algumas cousas 
de uoso serviço, e sempre o farey em camto minhas forças e meu emtem- 
der abramger, e sam symquo aoos queu estou nesta índia a seruir vosa 
alteza, e ja sam velho, e camsado, e pelos meus pecados ouue de conhe- 
cer em goa seis capitães, os quaes nunqua pude conhecer sua emtrymsy- 
qua vontade, e deus seja louuado com todos me ouue muito bem, e me 
averey em tramentes poder; nunqua fuy preso nem menos sospemso de 
capitania nem de meu oficio, e agora por requerer o uoso seruiço sam 
malquisto e ameaçado cada dia, de que muito symto, e per menos escam- 
dolo o calo, e faço que nam ouço, e sofro tudo, e beijarei as mãos a vosa 
alteza ouuerdes vos por seruido de mim em me mandar ir pêra minha 
molher e filhos, e mandar aquy hum ofeciall, o me dar lugar que posa 
caregar meu soldo em especiaria nas uosas naaos, ao partido que vosa 
alteza ouuer por bem, em me faser mercê de huma naao em que me va, 
asy como vosa alteza ma deu camdo vym a índia, e se uosa alteza nam 
ouuer por bem das vosas, day lugar a meu sogro que arme huma em que 
me va, e com a minha ida será vosa alteza emformado de todo negoceo 
da mercadoria do estreito ate malaqua. 

Item: O negoceo da índia he muito grande, de grande ganho e ca- 
bedall e cousas mui certas, e se os vosos feitores forem sargis e belizes 

^ trinta mil. 
^ vinte mil. 
' três mil. 



72 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

na mercadoria, vos daram muito proveito, o qaal segando me he dito o 
tomam pêra sym, qae mais aperta a camisa que o saio; he mail hordenado 
que hos vosos feitores que tam gram cabedall tem na mão, tratem e ven- 
dam Gado, que me he dito que em cochym deuem hos mouros a vosa al- 
teza huma gram soma de dinheiro, manday que nam se íi nada a nym- 
guem, e venderes milhor vosas mercadorias, e com mais credito, e se me 
vyr com vosa alteza de rosto a rosto vos darey taes rasOes que nam saí- 
res delas, e lembrese vosa alteza o que vos dise hum dia no voso eirado 
presente o senhor dom aluaro, e o conde de portalegre, e Rodrigo affomso 
que santa groria ajam, que ho milhor bocado da índia era comprar Ioda 
a especearia e tornala a revemder, como ho podes faser muy bem com ho 
dobro do ganho do que custar cadano, e ha portugall emviar ho necesa- 
rio, e no mais, e por tanto senhor outra vez peço por mercê a vossa al- 
teza que aja por bem que me vaa e mande espersamente, que doutra ma- 
neira affomso dalbuquerque nam me leixara ir, e ja me comete que va 
estar em ormuz ou cambaia, o que nam farey por todo ouro do mundo, 
porque quero ir dar conta a vossa alteza de goa, a qual prasendo a noso 
senhor vos leixarei muito bem aviada, e com muita renda, e uosas forta- 
lesas acabadas, e ho trato da mercadoria muito bem aviado, e tudo em 
boms preços que vosa alteza folge de hos ver ; faseme esta mercê, e se 
vos ouverdes depois por seruido vos prometo que torno pêra honde vosa 
altesa quiser, e faseme mercê de poder caregar meu soldo que me parese 
que uolo tenho bem merecido, e nam ma remeta vosa alteza ao capitam 
mor, por que elle sescusa em dizer que tall comisam nam tem de uosa 
alteza. Dalgumas cousas necesarias pêra este fortalesa escrevo aos vosos 
ofíciaes da casa da índia que has mandem, vinho vali ca muito, que nos 
houtros de boa memte daremos por huma pipa de vinho trinta cruzados 
sobre o soldo, e hos mouros fasem muito por elle; dizem que hamtre eles 
vali huma pipa cem pardaos; goa vos gastava cadano cem pipas, sejam 
vinhos a metade da caxaria, e outra metade da charnequa, unhos, e frie- 
las, de balseiro, que sam boons por amor da coremça. Por agora no mais 
e poderoso deus acrecemte os dias da vida a vossa alteza a seu samto 
serviço, de goa a vinte e dois de outubro de 1513; servidor de vossa al- 
teza. — Francisco corbinelli. 

(Em dorso) A elrey noso senhor. Do feitor de goa. ^ 

1 Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.*, Maç. 13, D. 80. 

Este documento e o anterior estão reonidos sob a mesma numeração. 



1 



DOCUMENTOS ELUCDATIVOS 73 



1613— Novembro 20 

Esla carta he pêra bo muito alio he poderoso Senhor Rey de por- 
tugall, deli Rey de Gochym. 

Este aoDO vyeram ca duas nãos de que hera capytam mor Joham 
de sousa, heu me vy com elle ele, me contou todas as nouas de uossa al- 
teza, com que muito follgey, he da Senhora Raynha, prymcepe, he Infam- 
tes. Senhor heu faço portugall he cochym tudo hum, heu nam tenho hou- 
Iro amiguo senam vossa alteza. Senhor heu nam tenho fyamça hem todo 
ho mundo hem ningem senam hem vossa alteza; elrey de calequt, todoç 
hos houtros meuos parentes he imiguos vyeram sobre mim, he por ne- 
nhuma cousa nam hemtregey hos portugeses, he heu senhor, hem que te- 
nha todo ho mundo sobre mim, nam quero nenhuma amizade se nam com 
vossa allteza, he besta minha determinaçam: prymeyramente senhor quando 
veo pedraluares cabrall com seis nãos pêra calequ,^ he se fiaram delle, 
hele lhe matou toda ha gemte, he tomou toda a fasemda que estaua hem 
terá, despois que se levantaram vyeram ter a cochym, he desdaquelle 
tempo dey sempre toda ha carga neceçarya as nãos, he assy todas has 
houtras cousas, he quando se as nãos foram pêra portugall leuaramme 
etyquela, he f rangera, he hos portugeses que ca fycaram estauam com 
meu tyo, e veo elrey de calequt com todo o seu poder he todos hos mou- 
ros de crangalor pêra la, he menos paremtes he amigos ; todos horde- 
Daram pois que este rey de cochym he tam parvo que quer soster hos 
hestrangeyros tam lomge de sua terá; nos nam queremos ser com ele an- 
tes seremos com elrey de calequt, he nimguem entam majudou ; he na 
batalha que me deu elrey de calequt me matou meuos tyos com houtra 
muita gemte homrada, he hos portugeses sempre hos sostyuemos por 
homde amdamos na gera; he naquele tempo senhor perdi ho meu porto 
he minha terá, he fasenda; he depois antes dum anno tornou houtra vez 
com todo seu poder pêra me tomar meu reyno, he heu com ajuda de 

' Como documento elucidativo e importante, julgamos conveniente incluir n*esta se- 
rie de documentos a carta de D. Manuel, escripta em 1500 ao rei de Calecut, e por isso 
vae em seguida a estas três cartas. 

TOJUO IIU 10 



74 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQDE 

Tossã alteza he minha gente ho desbaratey, he se tornou pêra saa terá 
muito desomrado; he depois que por a banda do ryo vyo que naoi tynha 
remedeo se pasou a terá firme a me dar gera nas minhas terás, por nam 
poder la ir socoro de vossa alteza, he ate gora temos haimda gera, he 
também hum meu vasalo que se chama calurtyry nayre, também deu 
sempre gera a elrey de calequt com minha ajuda, he com vymte mill 
nayres que tem, he também la na será lhe matamos muita gente, he hele 
foy muylo desomrado, he despois foy ho capitam mor he ho marychall a 
calequt com toda ha harmada, he helrey de calequt matou ho marechal 
com houlros capitães he homens homrados, he bo capitam mor foy daly 
ferydo, he delles também moreo muita gemte; hemiam todos os morado- 
res e hestrangeiros de calequt se foram a será bomde estaua elrey de ca- 
lequt, homde estaua pelejando com hum meu vasalo que se chama calur- 
tyqui nayre, he com esta noua se tomou elrey a calequt deixando seu 
arayall no campo, he depois dysto a gente de calequt, he toda ha houtra 
gente desta costa, dyzya que nam podyam vyuer senam fosem amiguos de 
Tossa alteza e meuos, he de calecut pêra ca esses senhores he mercado- 
res todos vyeram a me obedecer he vyuer hem minhas terás com ajuda 
de vossa alteza, he que doutra maneira nam podyam vyuer na índia por 
amor do amor que vossa alteza comyguo tem, he ajuda que me da, he to- 
dos hos amiguos da costa do mar he da lera fyrme se vem pêra mim, 
porque doutra maneira nam podem vyuer, pola noua que tem do grande 
amor que me vossa alteza tem comiguo, he assy bem todo ho mundo de- 
sejam ser meuos amyguos pola fama que tem da grande lealdade que 
vossa alteza sempre teue comiguo. Senhor depois que vossa alteza aqui 
tem ho trato sempre dey pêra a fortaleza homens he carga, be todas has 
outras cousas necesareas dey de minha terá, sem terem uececydade doutra 
nenhuma terá, he he a fama tamanha no mundo damysade que vossa al- 
teza tomou comiguo, que nam pode nunca ser quebrada; ja todos os ami- 
guos he inimigoos tem isto por ccrio: vossa alteza me tem feyto be co- 
roado por ho mor senhor da Imdia, he me tem dado dysso a coroa de me 
faser ho mor senhor Imdia, he mais, por a lembrança da morte de meuos 
tyos, me manda vossa alteza dar cadano pêra huma copa seyscentos be 
corenla cruzados, he foy comcertado por vosso gcueroador be hofycyaes, 
be dado juramento na ygreja, de sempre nisto me manterem be soster^n 
lodos hos gouernadorcs he hofycyaes que de vossa alteza a Imdia vyesem, 
be assy foy dado juramento be aluara pasado que, quando quer que vye- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 75 

sem algQDS ymyguos sobre vossa alteza, bou sobre mim, que nos ajuda- 
semos irmammente, nesta maneira ficou jurado e comcertado; cadano me 
nem cartas de uossa alteza que se faça minha vontade, he aguora, de três 
anos pêra ca, saim cadano de calequt quantas nãos quer caregadas des- 
pecearya por bonde querem, be beste ano pasado deu dom garcya seguro 
a todas as nãos que estauam em calequt que fosem por bomde quizesem; 
beu rcquery sempre ao voso capytam mor que deixase dous navyos so- 
bre o porto de calequt, por que era vosso seruyso, be nunca deyxaram 
nbenbum. Senbor este ano pasado mandou vossa alteza três mill homens 
que vyeram a cocbym he, detryminaram de dar em calecut canto que co- 
chym saysem, be assy mo prometeo bo capitam mor, be com esta noua 
esteue elrey de calequt prestes com sua gente pêra pelejar, be bo capitam 
mor pasou de lomge par adem, be la morelbe mqita gemte de dohemça, 
be ferydos, be agora da uynda dadem seu sobrynbo do capitam mor, dom 
garcya, veo a cananor, be veo ay bua lyngua que se chama qualecut lan-< 
bya, be houtra que se chama soU, he hestas lymguas be dom garcya com- 
certarom paz com elrey de calequt, be dom garcya mandou bum presente 
a ellrey de calecut, be mandou portugeses bem terá, be fycou comceriado 
pêra faser buma fortalesa, be bestam ja la hos pedreiros pêra a faser, be 
bos meuos amigues que vynham tomar hos seguros ao meu porto, agora 
hos uam tomar a calequt, he todo este comcerto foy por conselho do ca- 
pytam mor, be nam tomou comselho comíguo, nem beu nunca soube parte 
dyso, he aguora he fama por toda a Imdea que com medo delrey de ca- 
lequt faz ho capitam mor pases, sem prymeyro nam pagar quantas trey- 
foês tem feyto a vossa alteza, he toda a jemte da Imdea he desconfiyada 
dos portugeses por iso, be bem toda ha Imdea nam ha tammanho bemy- 
guo de vossa alteza he meu como elrey de calequt. Senbor, haynda que 
elle tenha pazes com vossa alteza nam bey de deyxar de lhe fazer a gera 
ate que me vymge da morte de meus tyos, bou morer na demanda, he 
destas pases nam sam feytas por seruiço de vossa alteza, nem por ne- 
nhuma nececydade, senam por me desonrarem, be beu esperey sempre 
por me vymgar da morte de meus tyos, be da perda das minhas terás, 
com ajuda de vossa alteza, be de ser sempre ho mor senhor que hou- 
vesse nesta terá pêra vos seruir, aguora senhor o vosso capitam mor deixa 
a minha amizade, be vay fazer pazes com elrey de calequl de que beu 
fyco muito bemjureado, be por nhenhuma cousa nam bey de deyxar de 
lhe dar gera baimda que venha quem quyzer com elle^ he dom garcya 



76 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

me dyxe que com medo dos rames quer faser castelo em calequt; he 
haimda senhor que vyesem os rumes a calequl nam podem ay estar por 
que he cosia braba, he hem cananor temos huma fortalesa muito boa,.he 
hem cochym temos huma muito boa fortalesa, he hum muito bom ryO| 
que haimda que venham todos hos rumes he calequt nom nos podem fa- 
ser nojo, por que nos ho defenderemos por que temos muila jente, he 
haimda que venha toda a gera do mundo nam iam por iso estorvar a 
carga das nãos de vossa alteza, he haimda que venham os rumes he to- 
dos hos mouros nam podem caregar hem nhenhuma do malabar, porque 
hade pasar por nossa terá toda ha especearya. Senhor ate guora sempre 
me tendes feyto muita homra he mercê, he daquy por dyante vos peço 
por mercê que mande vossa aiteya hordenar de maneyra que que beu 
nam fique anojado. Senhor todos hos guovernadores que ca vem nam fa- 
zem senani a sua vontade, mandeme vossa alteza nisto prouisam de ma- 
neyra que ningem me nam bula com minha honra. Senhor as novas de 
ca nam posso espreuer tamto a vossa alteza por ho meudo, he pregunte 
vossa alteza ao almirante, he a diogo fernandes corea, que ca estauam, 
he eles uos dyram todas has cousas como se ca pasauam. Senhor hem 
todas as armadas que de ia uem me vyeram sempre carias de vossa al- 
teza, se nam este ano, he vejo as pases de calequt, he isto me faz mui 
tryste. Senhor lembrese vossa alleza hem toda maneyra de mi he de mi- 
nha lera, he jemte, he homra, he lembrese de cochym como de liiboa 
pois esta a seruiço de vossa alteza, feyta a vinte dias de nouembro de 
1513. — Assignatura do rei de Cochim. 

(Em dorso) Esta carta he pêra ho muy alto he poderoso rey de por- 
tugall, deli Rey de cochym. 

Del rey de cochim sobre a pas de calequt, e que olhe vossa alteza 
por sua terra. 

pêra ver.* 



1 Torre do Tombo— G. Chron., P. 1.% Maç. 13, D. 98. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 77 



1613— Novembro 23 



Esta carta he pêra ho alto e poderoso Senhor Rey de portugall, 
deli Rey de cocbym. 

Este ano vyeram ca doas nãos de que he capitam mor Joham de 
sousa, heu me vy com elle, he hele me deu as nouas de vossa alteza, he 
da senhora raynba, pryncipe he Infantes, com que muito follguei. Senhor 
heu faço porlugall he cochim ludo hum. Senhor eu nam tenho houtro 
amiguo senam vossa alteza, nem confyo hem ningem, nem na Imdea nem 
hem outra parte, senam hem vossa alteza. Senhor contra mim veyo eirey 
de cochim (sic) com todo seu poder, he com meuos paremtes he amiguos, 
por nenhuma cousa destas nunca hemtreguey os vosos homes, nem nos 
desemparey. Senhor hainda que venha todo ho mundo contra mim heu 
nam hey de ser amiguo de ninguém se nam só de vossa alteza, e seruyr- 
uos no que mandardes, nem quero houtra amizade senam a vosa; a pry- 
meyra vez que ca veo pedraluarez cabral com seis nãos a calequt fyaramse 
delles, e elle se aleuantou he matou hos porlugeses, he tomou toda a fa- 
zenda que estaua hem terá; aleuanlaramse he vyeram a cochym, heu se- 
nhor lhe dey toda a carga que eles quyzeram, he ytyquela, he franguora, 
que estauam nas nãos por arafens, leuaramnos pêra portugall; hos portu- 
gueses que fycaram na terá Gearam com meuos tyos, por amor deles vye- 
ram elrey de calequt com todo seu poder, he todos hos senhores da Indea» 
he todos hos mouros daquela costa sobre mim pêra pelejar comiguo, he 
no campo todos hos meus parentes e meu amigos me dyxeram que bem- 
tregase os portugeses a ell Rey de calecut, he que nam perdese as mi- 
nhas terás por huns estrangeiros que heram de muito longe, que hos nam 
conhecyam que gente hera, he por que heu nam quys se foram pêra ca- 
lecut, he vyeram contra mym, he naquela guera me mataram meus tyos 
com muita outra gemte homrada ; os portugeses sempre hos trouxe comi- 
guo por homde andaua; naquele tempo me destruyram ho meu porto he 
minhas terás; despois houtra úez amtes dum ano tomou ell Rey de ca- 
lequt sobre mim pêra me tomar minha terá, heu com meuos amiguos he 
com vossa ajuda ho desbaratei, e foy muito desomrado pêra sua terá, he 



78 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

mateilhe muita gente, he lomeilhe bo sombreiro, be toda sua bomra, ba- 
les fugiram pêra sua terá, be depois me foy faser a guera na terá fyrme 
a caram de narsynga, be bum meu vasalo que la esta que se chama ca- 
rurtycy {J) nayre, com minba ajuda he com vynle mill nayres que ele tem, 
bo desbaratou, de que ele íiycou muito desomrado, be baiuida ate guora 
tem gera com eiie. Senbor depois bo marecball be bo capitam mor foram a 
calequt; mataram bo marechal be deram buma lançada no capitam mor, he 
mataram outros capitães he homens honrados, be também o capitam ma- 
tou muita gente deles, be bos moradores de calequt com bos mouros fo- 
ram faser queyxume a ellRey de calequt, que estaua na será pelejando 
comyguo, bcle quando ho soube deyxou bo arayall no campo be veose a 
calequt pêra bo defender, be a gente de calecut com eses senhores todos 
deses portos estauam muito desbaratados e perdydos; de calequt pêra ca 
todos bos senhores he mouros be outra gente se veo a cocbym a mobe- 
decer, be dyzyam que se nam fosem meuos vasalos que nam podyam vy- 
uer, be de vossa alteza senbor, por a fama que a nesta terá do grande 
amor que vossa alteza commiguo tem, be pola ajuda que me da, todos 
bos senhores do caram do mar be da terá firme disem que nam podem 
vyuer sem obedecer a vossa alleza, be a n)im, be por toda esta terá tem- 
des fama que nam ha no mundo mais verdadeyro Rey que vos. Senbor 
depois que os portugueses vyeram o cochy sempre lhe dey todas as cou- 
sas que ham mester, asy pêra a fortalesa como pêra as nãos com ha carga, 
sem nunca de nenhuma parte hauerem mester nada. Senbor amisade dan- 
tre vossa alteza be minha ate fym do mundo nunca sade quebrar, be assy 
ha fama beui todo bo mundo antre os nosos amiguos be imygos, isto be 
certysymo que assy bo tem todos. Senbor vossa alteza me mandou corosr 
por bo mor Rey de toda esta terá, be prometer de heu ser bo mor senhor, 
be bos vossos gouernadores, be todos bos que vyerem mo bam assy der 
compryr, como foy feyto na vossa igreja por juramento, que quem quer 
que fosse contra vossa alteza heu uos ajudase, be assy uos a mim; com 
esta condycam ficou na igreja jurado de ser asy pêra sempre, be que io- 
dos bos vossos guovernadores mo bauyam de comprir, be bem synall me 
mandaes dar cadano seyscentos be corenla cruzados, uma copa por a 
morte de meuos tyos ; todos bos anos me vossa alteza espreue a minba 
vontade, aguora de dous boutres anos pêra ca começaram a navegar a9 
nãos de caliqut pêra mares f?J, be pêra ho estreyto caregadas despeeea* 
rya, ho ano pasado ho sobrynbo do capitam mor dom garcia deu seguros 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 79 

pêra as nãos de caleqat yrem a mecâ, heu senhor requeri ao capitam 
mor hum par de caravelas pêra defenderem as nãos de calequt que nam 
saysem nem lhe fose mantymento, he helle nam quys; ho ano pasado veio 
na armada de uosa alleza muita gente, que seryam dous ou três mill ho- 
mens, he qaram (?) a cocbym partyo ho capitam mor dizendo que ya dar 
bem calequt, eles estauam prestes com toda sua gente dyzendo que se ho 
capitam mor fosse que queryam pelejar, he ho capitam mor nam sayo 
hem terá, pasou de lomge foi paradem sem faserem nada; lhe moreo 
muita gente de doença, he alguns de feridas; da uynda do estreito leua 
lynguo, que fugyu de cananor com houtro homem que se chama calequt 
lambya, beles ambos falaram hem cananor com dom garcia, he concerta- 
ram as pases com eirey de calequt, sayram hem terá he leuaram hum 
presente ha ell Rey de calequt he hellrey de calequt lhe deu lugar pêra 
buma forlalesa, he bestam ja la os pedreiros he houtros homens; todos 
bos mercadores daquela costa que prymeyro recebiam ho seguro no meu 
porto aguora recebem la, esta paz he com comselho do capytam mor, he 
dom garcya comiguo nam falaram nada, nem tomaram conselho ; assy se- 
nhor que esta paz foy feyta sem nenhuma homra de vossa alteza nem my- 
nha, nem preueyto, por amor dysto toda a gente da Indea esta muito des- 
comfyada de uossa alteza, he dyzem que he muito gramde desomra pêra 
uossa alteza he pêra mim ; nam ha mor ymygo nesta terá que el Rey de 
calequt; aimda que os portugeses sejam seus amigos nam lhe hey de dey- 
xar de fazer a guera; os portugeses senhor nam fasem esta amyzade por 
nhececydade nenhuma senam por me destroyrem. Senhor beu sempre cuy- 
dey que vosa alteza me avya de ajudar a vimgar a morte de meus tyos, 
que por amor dysso vossa alteza hera muito anojado, aguora os portuge- 
ses deyxaramme he foram faser amizade com elRey de calequt contra 
minha vontade, estou muito anojado por yso, he muito triste com tudo 
isto. Senhor heu nam eyde tornar atras mas antes eyde mantei: a guerra 
ate morer. Dom garcya, senhor, me disse que nam faryam calequt (sic) se- 
nam com medo dos rumes de se vyrem aly. Senhor os rumes ainda que 
venham a calequt nam podem ay estar, por que he costa braba, he nam 
tem ryo bem que posam hemtrar hem cananor. Senhor temos buma for- 
talesa bem cocbym, houtra com bum ryo muito bom com muita gemte 
malavar, que, aimda que venha todo ho mundo com bos rumes, nos bos 
defenderemos, todas as cousas que forem necesarias pêra a defender te- 
mos; aimda que tenha toda a guerra do mundo nam heyde deyxar de 



80 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dar a carga as nãos de vossa alteza ; pêra os rumes aimda que venham com 
todo seu poder nom tem carga, nem na eyde consentyr leuar da minha terá, 
nem hem nhenhuma terá a nam podem tomar senam aquy^ nem lho con- 
sentyrey na Indea com vossa ajuda de dar carga a nossos ymigos, pois ate 
guora vosa alteza me tem feyto muita honra he mercê he a todos hos da 
minha terá temos hy (?) hem mercê ser assy daquy por dyante. Senhor 
cadano que vem hum vosso governador, faz ho que quer, mandeme vossa 
alteza nysto provisam por ho que compre a minha omra, he assy como 
vossa alteza me mandar farey, he venha por vossa alteza decrarado, mande 
vossa alteza que nam faça cada hum ho que quyser, senam ho que vos 
mandardes, he isto que se cumpra. Senhor eu nam posso mandar mais 
novas a vossa alteza por escrito, todas vossa alteza pode saber por ho al- 
mirante, he diogo fernandes corea. Senhor todos os anos pasados me man- 
daua uossa alteza cartas, aguora nam nas vejo nem mas deram este ano, 
he vejo as pases de calequt feytas, assy senhor que ho nam hemtendo, he 
por ysto estou muito anojado he triste he descomlente. Senhor vossa al- 
teza he necessário que me mande prouisam sobrysto, sem ninguém nysto 
hentender senam vossa alteza, he por uos seja despachado poys cochim 
he como lyxboa, he assy senhor ho tende (sic); heu mandey senhor outra 
carta com esta a vosa alteza por dom Joham de lyma. Senhor façame vossa 
alteza mercê que mande por cadano sobre calequt duas nãos, que nam 
saya nem hentre ninguém, he heu daquy a cymqu anos me hobrigo a des- 
truyr calequt, he vimgar a morte de meus tyos. Deus acresemte estado 
de vossa alteza, feyta em cochym a vinte e três dias de novembro de 
1513. — Assígnatura do rei de Cochim. 

(Em dorso) Esta carta he para ho muito alto he poderoso senhor 
Rey de portugal, deli Rey de cochym. 

Outra tal carta dei Rey de cochy. ^ 



^ Torre do Tombo— C. Chron. P. i.*, Maç. 13, D. i02. 



DOCUMENTOS ELUaDATIVOS 81 



1618— Dezembro 11 



Esta he para ho muito alto e poderoso Rey de portugall, de ellRey 
de cochym. 

Este anno vyeram duas nãos de portugall, capitam mor Joam de 
Souza, e anrique nunes, eles me deram novas de vossa alteza e de vosos 
filhos como estáveis de saúde, com as quaes novas follguey muyto; eu 
faço conta que cochym he de vosa alllcza, asy como ho he lixboa. Senhor 
eu nam tenho outro amigo em todo mundo senam vosa allteza, nem em 
quem confie tanto ; ellrei de calecut e todos meus parentes vyeram sobre 
mim pêra me tomarem os porluguezes que comiguo estavam, e eu com- 
tudo lhos nam entreguey, e os guardcy o milhor que pude; e que todo o 
mundo venha sobre mim eu nam ey mister ninguém senam soo vosa all- 
teza. A primeira vez que veo pedrallvares cabrall com seys nãos, quando 
vyeram ao porto de calecut, depois de estarem em terra, e confiarem deli- 
Rey de calecut, ele matou todos hos portuguezes, e tomou quanta fazenda 
de vosa alteza estava em terá ; depois de tudo isto pasado eles vyeram 
ter a este meu porto, eu lhe dey toda a ajuda que me pediram, asy na 
cargua das nãos, como de todas as outras cousas, acabando ja de caregar 
veo armada de calecut a pelejar com elles, e dous escrivães meus per 
nome ytalaca, parangova estavam nas nãos per arefeens, e eles se fize- 
ram a vela, e os levaram pêra portugall, e asy ficaram portugezes em terra 
comiguo; ellrey de calecut e todos os mouros de crangalor pêra la vye- 
ram sobre mim, dyzendo que lhe entregase os portugezes que tynha em 
meu poder, senam que me destruyriam toda minha terá, e meus parentes 
me deziam, e asy meus amigos, que estes homens eram estrangeiros e 
de quatro mil leguoas de minha terá, e que hos nam conhecya, que 
Dam devya de deixar perder minha terá por eles, e os devya de entregar, 
e que se ho nam fizese que eles me nam ajudaryam, e ajudariam a ell- 
Rey de calecut, como de feito ho fyzeram, que vyeram sobre mim e ma- 
taram dous tyos meus, e hum sobrinho, príncipes, e muita jente outra 
honrada, e me destruyram minha terá e porto, e os portuguezes que es- 
tavam comiguo eu hos quardey ho milhor que pude, e os trazia sempre 

TOMO ui. 14 



82 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

comiguo honde quer que andava; antes de hum anno elRey de calecut 
tornou outravez sobre mim pêra me tomarem minha terá, e eu com meus 
amigos, e minha jente, e vosa ajuda os desbaratey, e se tornou pêra sua 
terá muito desonrado e anojado, sem esperança de mais virem sobre mim, 
entam se foi junto com narsyngua a pelejar com meus vasalos, principal- 
mente com hum per nome carutyquy nayre, que tem vynte mill nayres, 
e com minha ajuda ho desbaratou, e ate hoje sempre tem guera com elle 
e lhe tem morta muita jente; depois disto foy ho marichall e o capitam 
mor pelejar a calecut, naquall peleja mataram ho marichall, e outros fy- 
dallgos, e capitães, e feriram ho capitam mor, e asy de ellrey de calecut 
moreo muita jente; neste tempo estava elle pelejando com este meu va- 
saio, e la lhe foram os mercadores e jente da terra dar nova, emtam dei- 
xou a guera e se veo pêra calecut muito desonrado e a jente muito chea 
de medo, dizendo que nam podyam vyver em calecut sem serem amigos 
de vossa allteza e meus, e por este respeyto se vyeram muitos vyver a 
minhas terás por saberem que vossa allteza era meu amigo, e que me 
avya de ajudar quando me fose necesario, todos meus imigos asy da terá 
como do mar me obedeceram, fazendo conta que doutra maneira nam po- 
dyam vyver vendo o que vosa allteza por mim fazia, todo mundo vos lou- 
vava, ate guora tudo o que foy necesario pêra a carega das nãos, e asy 
pêra a obra do castelo, e madeira pêra nãos, e toda outra ajuda que de 
mim lhe compryo eu a dey sempre, sem falecer nenhuma cousa, e a to- 
dos meus imigos e amigos parecya que amizade de vosa allteza e minha 
nam podya quebrar por nenhuma cousa, e isto tynham por certo, e vosa 
allteza me mandou huma coroa douro em synall de me coroar por mor 
Rey de toda a Índia, e mor voso amigo, e asy me fazia mercê cadano de 
b*R*** cruzados pêra huma copa, em lembrança da morte de meustyos, 
e o voso governador especyall me corohou por Rey, e fez juramento de 
me fazer ho .mor Rey de toda ha yndya, e de me ajudar contra quem 
vyese sobre mim, e asy também eu promety de lhe ajudar contra quem 
vyese sobre eles, e estam em defendymento de vosa fortaleza e jente ate 
morrer, e desta maneira ho jurou dentro da igreja, e me deram huma 
certydam, e eu dey outra a eles; todos os annos pasados me mandava 
vosa allteza cartas sobre muitas cousas, e asy sobre a guarda de calecut, 
com que eu muito follgava, e de três annos, pêra ca começou navegar nãos 

1 quinhentos e qoarenta. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 83 

de. Calecut pêra mequa, e este anno pasado dom garcia deu seguro a tor 
das as nãos de calecut, e Iodas navegaram, e eu dixe ao capitam mor 
que pêra a guarda do porto de calecut deixase hum par de caravelas, 
ele bo nom quis fazer; ho anno pasado com a frota que vosa allleza 
mandou se ajuntaram aqui Ires mill homens, e o capitam mor me dyse 
que com eles queria hyr dar em calecut, e com esta determinaçam par- 
tyo daqui pêra la, e quando soube que ellrey ho estava esperando pêra 
pelejar pasou por dyante pêra o estreyto, e foy dar em adem, e asy do 
combate como de doença moreo muita gente; tornouse pêra qua pêra a 
yndya; aguora senhor ho sobrynho do capitam mor que chamam dom 
garcya vindo pêra cananor dous nayrcs por nome hum calecut nambear, 
e outro soll, foram lynguas e concertaram paz de calecut com dom gar- 
cya, e mandou presenle a ellrey de calecut, o quall lhe deu logar pêra 
faserem huma fortaleza, e estam ha fazendo em terá allguns pedreyros e 
outros homens porlugezes; Seuhor os mercadores de calecut pêra qua 
de toda a costa, que avyam mester seguro pêra navegarem, ho vynham 
pedyr a mim, aguora vam todos pedylo a ellRey de calecut, porque la 
lho da o voso capitam, todos os mercadores dos portos de calecut pêra 
qua navegam com seguro dele, e todas estas cousas que dom garcia fez 
com calecut foy por comselho do capitam mor, sem me darem parte de 
nada nem falarem comiguo, e vendo Senhor toda a jente da Yndya ha 
paz que se fez com calecut, sabendo a traiçam que vos tem feita, e a 
mim, sem vos vyngardes dela, esta ioda muito desconSada de vosa al- 
teza, pois se fez sem bo eu saber, e ser ho mor voso imigo e meu que 
ninguém, e posto que vosa allteza com ele faça paz, eu em nenhuma 
maneira a farey com ele, antes lhe farey toda guera que poder, pois hos 
portuguezes nam fyzeram paz com ele per nenhuma nesecydade; eu cuy- 
dey Senhor que pela morte de meus tyos vosa allteza estava muito ano- 
jado, e se asy he com vosa ajuda eu vyngarey sua morte; esta paz de 
calecut nam se faz por nenhuma cousa senam por me desonrarem, e nom 
dyvera vosa alteza deixar minha amizade por tomar a de ellrey de ca- 
lecut, e de nenhuma cousa me pesa tanto nem synto mais, com tudo 
nom deixarei de lhe fazer guera. Dom garcia falou comigo e me dyse que 
a fortaleza de calecut nam se fazya senam com medo dos rumes; aynda 
que hos Rumes vyesem acalecut nom podyam entrar, porque nom tem 
ryo pêra yso, e asy também he costa braba, e por este respeito nom po- 
dem estar em calecut; em cananor esta huma fortaleza, em cochym esta 



84 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

outra com muito bom Ryo, temos muita jente pêra os defender asy aos 
rumes como a todo o muudo, e eu darey a carga pêra as nãos, em que 
pese a todo o mundo, nem os Rumes nom podem estar na costa da yn- 
dya em nenhum porlo, nem eu consyntyrey que em meus portos lhe dem 
nem hum graõo de py menta; ate guora toda honra e mercê receby de 
Yosa allteza, e asy toda minha terá e jente, daqui por dyante espero que 
ma faça vosa allteza mais que nunqua, nem he resam que seja menos, 
as cousas que tocarem a minha homra e pêra bem de minha terá farm a 
vossa alteza mercê em as nam por em maõo de ninguém senam na mi- 
nha, e pêra isto me mande vosa alteza provysam, porque cada capitam 
mor faz o que quer, e nam ho que vosa allteza manda; todas as novas 
de qua nam nas poso dar a vosa allteza por esprito, por iso pregunte 
vosa allteza todas as cousas pasadas a diogo fernandes corea feitor que 
foy daqui, e ao allmirante, eles vos contaram todo ho pasado; todos hos 
annos pasados me mandava vosa alteza cartas, em este anno nam vy 
carta nenhuma de vosa allteza, e vy a paz de calecut feita nom sey como, 
isto he pelo quall estou muito anojado e muito triste; em toda a maneira 
as cousas que tocarem a mim e a minha onra vosa allteza ho veja, e me 
mande provysam pêra iso; a carga das nãos de vosa allteza eu acabey 
sempre o melhor que pude, e este ano trabalhei quanto pude, aguora vay 
da yndya pêra fora mais de quatro ou cinquo mill babares de pimenta, asy 
pêra cambaya como pêra choromandell, eu ho dixe ao voso capilam mor, 
ele a nom quis tolher; este anno trabalhei quanto pude, se vosa allteza 
nam manda que se tolha esta pymenta que levam os mouros, nom pode* 
rei dar a carega que he necesaria, por iso mande vosa alteza provizam 
pêra isto. António Reall emquanto esteve em cochim sempre seruio muito 
bem vosa allteza e a mim, he muito bom homem, develhe vosa allteza de 
fazer muita mercê, e eu asy volo peço, ele vos dyra todas as cousas de 
qua. esprita em cochim a onze dias de dezembro de b^^xiij ^ annos. — 
Assignatura do rei de cochim '. 

(Em dorso) Carta para elRey de purtugall delrey de cochim '. 

^ quinhentos e treze. 

^ Estas cartas e as daas que antecedem tratam do mesmo assumpto; sio, porém, tan- 
tas as variantes que se lhe encontram, além de também differírem nas datas, que pareça 
conveniente reproduzir todas três. 

' Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.% Maç. 14, D. 23. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 85 



Carta qne El-Rey Dom Manoel escreveo a El-Rey de Calecot 

por PedralTares Cabral capltio da primeira armada qae foi á índia 

depois de ser descoberta per Yasco da Gama 



1600— Março 1 * 



Grande e de muito poder príncipe çamorím por mercê de Deus rey 
de Calecut, nos Dom Manuel por sua divina graça rey de porlugail e dos 
aigarves, daquem e dalém maar em afríqua, Senhor deguinee ele' a vos 
enviamos muito saudar como aquelle que muito amamos e prosamos^ Deus 
todo poderoso começo, e meio, e fim de todalas cousas, e por cuja orde- 
nança cursão os dias, e feitos humanos e tempos, asi como per sua in* 
finda bondade criou o mundo, e o reino por christo seu filho noso salva- 
dor, asy em seu grande e infindo poder e saber ordenou pêra os tempos 
adiante muitas cousas por bem e proveito da geração humanall, inspi- 
rando pelo espiríto santo nos corações dos homens aviam de ser obradas, 
fosem manifestadas, e postas em obra nos tempos pêra iso mais conve- 
nientes per elle limitados, e não antes nem despois, e por asy esto ser 
verdade mui conhecida per espereencia, se com são e verdadeiro juizo 
quizerdes consirar a grandesa da novidade e misterío da ida de nosas 
gentes e navios a vos, e a esas vosas terras, aveis de faser nesas partes 
do oriente e que todos e a fasemos nestas do poente onde damos muitos 
louvores ao senhor Deus por em nosos dias e vossos faser do mundo tan- 
tas mercês que nos podessemos saber, nam tam somente por ouvida mas 
por vista ver e conhecer, e por conversação ajuntar e quasi visinhar, e 
estando des o começo do mundo até gora as gentes desas terras e destas 
tão arredadas, e fora sempre de toda a esperança nem pensamento disto, 
que o senhor Deus ora quis que fose espritando, averá sesenta annos, em 
huum noso tio vassallo nosso chamado Iffante dom amrique, príncipe de 

^ Este documento, embora nâo preoda com a época de Âffonso de Albuquerque na 
índia, nio pode deixar de ser aproveitado e inserto aqui, attenta a sua importância e 
connexio com os factos apontados nas cartas do rei de Gochim, escriptas em 1513. 



86 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

mui verluosa vida e satilos costumes, o qual por serviço de deus tomou 
propósito per deus inspirado faser esta navegação, e por os reis dosos an- 
tecessores foy proseguida ate gora, que prascndo a nosso senhor lhe quis 
dar o fim per nos desejado, quis que, aquelles que agora la forão de buma 
soo viagem, fezessem outro lauto caminho até chegar a vos, quanto em 
lodalas viagees passadas estava feito em sesenta annos, sendo estes os pri- 
meiros que mandamos loguo, tanto que per graça de deus tomamos o re- 
gimento de nosos reinos e senhorios, asi que ainda que esta cousa se veja 
feita por homees, não se deve julgar por obra de bomees, que não be pos- 
sivel a elles, mas soo de deus em cujo o poder o impossivel aos homees 
be possivel a elle, que des na criação do mundo houve nesas partes de 
laa, e nestas de qua grandes poderes e senhorios de príncipes e reis, e de 
romoõs, e outras gentes que posuirão a maior parte da terra, dos quaes 
se lee terem grande vontade e desejos pêra faser esta navegação, e tra* 
balharão niso, e não aprouve a deus dar lhe tal possibilidade naquelles 
tempos em suas maõs, como nos mesmos agora poderamos se de sua mão 
e vontade o não ouveramos; e pois em quanto deus não quiz que isto 
fose todolos homees passados não teveram poder pêra o faser, não deve 
ninguém cuidar que agora que elle quis sejão homees poderosos pêra o con- 
trariar e desfaser, sendo ja agora muito maior mal e injuria contra deus 
querer resistir sua vontade tão manifesta e conhecida, de que era a pro- 
fíar contra ella então antes de sabida, e ante as cousas porque principal- 
mente damos muitos louvores ao senhor deus neste feito, be por nos ser 
dito aver nesas partes gentes chrístaãs, que será o príncipal noso desejo, 
para convosquo avermos conversar, e nos aproveitar, e prestar com grande 
conformidade damor e irmandade como os reis christaõs devem faser ante 
si, por que bem be de crer que não ordenou deus noso senhor tam ma- 
ravilhoso feito desta nosa naveguação pêra somente ser servido nos tra- 
tos e proveitos temporaes dantre vos e nos, mas também nos esprituaes 
das almas e salvação delias que mais devemos, e se elle ha por mais ser- 
vido por tal que a sua santa fee christãã fose antre vos e nos communi- 
cada, e ajuntada como foi por todo o universo meudo bem seiscentos an- 
nos despois da vinda de Jesus Cbrísto, ate que por pecados dos homees 
Tierão algumas seitas e cressas contrarias, ditas primeiro de Gbristo, que 
aviam de vir despois delle pêra prova e manifestação dos boõs, e pêra 
todo enguauno da maldade aquelles que merecião condemnação e perdi* 
meiítOi porque não quiseram receber a verdade pêra serem salvos, e por 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 87 

tanto lhes avesoo deus o saber e entender, e pêra obrarem erros, e cre- 
rem a mentira, e serem condemnados pois não quiserão crer a verdade, e 
consentirão na falsidade, as quaes seitas ocuparam, anle essas vossas ter- 
ras e estas nosas, muita parte da terra, e por onde nossa comunicação 
com vosquo sendo empedida por terra, e esta agora com nosa navegação 
novamente aberta, e despejada per deus a que nada he impossível, pelo 
qual conhecendo nos todo esto e desejando de proseguir e comprir como 
devemos o que nos o mui alto deus tanto mostra ser de sua vontade e 
serviço, mandamos agora la o noso Capitão, e nãos, e mercadorias, e fei- 
tor noso que por vosso prazer aja la de faser e estar, e asi mesmo man- 
damos pesoes religiosas e doutrinadas na fee e religião christãa, e tam- 
bém ornamentos ecciesiaslicos para celebrarem os officios devinos e sa- 
cramentos, pêra que possaes ver a doutrina da fee christãa que temos dada 
e instituida per Christo Jesus noso senhor, noso salvador, a dose apóstolos 
discípulos seus, a qual despois de sua santa resureição foy por eles geral- 
mente preguada e recebida por todo o mundo, dos quas alguums, a sa- 
ber, Santhome, e San bertholamen, pregarão nesas vossas partes da índia, 
fazendo muitos e grand^^s milagres, terando esas gentes da gentilidade e 
idolatria em que dantes todo o mundo eslava, e convertendo-os á ver- 
dade da santa crença, e fee christaã, alguus dos dito apóstolos, ordenando 
noso Senhor Jesus Christo por vigairo seu principal, antre todos seus após- 
tolos e descipulos, são pedro, o qual pregando na grande cidade de Roma, 
que naquele tempo foi cabeça das gentes e idolatria, padeceo por elle 
martírio, e hi jaz sepultado, onde des então ate gora por os santos padres 
seus subcessores foy e he instituída pela mesma ordenança de christo a 
principal cabeça e seda da fee e religião christaã, querendo, segundo se 
mostra, o senhor deus que Roma, asi como dantes era a madre do erro 
e falsidade, fose e permanecese madre da verdade dos cuja obediência e 
verdadeira doutrina estamos nos, e todolos reis e príncipes e senhorios 
chrístãos, e por tanto consideradas estas couzas e resOes de tanta von- 
tade, e serviço de meu alto deus por elle mesmo, que foy e he causa da 
nosa navegação e ida a vos, meu afetuosamente e como irmão vos roga- 
mos que vos queiraes conformar com seu querer e vontade, e por faser- 
des vosso proveito, e de vossas terras, asy temporal como espritual, vos 
aprasa receber e ajuntar com vosquo nossa amizade, trato e conversação, 
que vos tam pací6quamente apresentamos por seu santo serviço, o rece- 
berdes e tratardes noso capitam e gentes com aqnelle são amor e verda- 



88 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

deiro com qae os a vós mandamos, por que alem de aqai entrarem tam 
claras resões e mesterio da vontade de deas, quantas elle nos ha feito e 
mostrou^ que todos podesem ver e conhecer por sua obra, certo em toda 
a resão dantre homees cabe deverdes muito de folgar com gentes que de 
tam longe com taO grão coragao vaO busquar vosa amizade e conversa- 
ção^ e traservos tanto proveito como de vosas terras mais que de nenhu- 
mas outras podeis de nos receber, e caso que pêra algum as erradas von- 
tades, e spritos trovadores do bem, que nunqua fallecem, achemos em 
vos o contrario desto, o que por toda a resão mal poderiamos crer, nem 
esperar de vosa vertude, noso detreminado propósito he seguir a vontade 
de deus antes que a dos homees, e naõ leixarmos por nenhumas contra- 
riedades proseguir neste caso, e continuar nosa navegação, trato, e con- 
versação nestas terras de que o senhor deus se quis aver novamente por 
servido por nosas mãos, não querendo que noso trabalho por o servir fose 
debalde, segundo não menos esperamos de sua piedade que seja ao diante, 
porque firmemente cremos e esperamos que pois elle fez esas terras, e as 
deu a pesuir a vos, e a esas gentes dela, elle ordenara como no seu se 
faça sua vontade, como não falleça quem nellas acolha e receba nosa ami- 
zade, e nosas gentes que laa vão tanto por seu querer e vontade, e a que 
elle tam maravilhosamente abrio o caminho e deu poder pêra irem a el- 
las, a qual cousa elle mesmo he sabedor quanto desejamos que seja an- 
tes por boa paz e amizade a elle, a elle prasa darvos sua graça pêra co- 
nhecerdes as cousas de sua vontade e santo serviço, e acerqua disto vos 
praza crer e dar comprida fee a pêro alvres cabral fidalgo de nosa casa, 
e noso capitão moor, em tudo e que de nosa parte vos fallar e requerer, 
e com vosco tratar; de Lisboa ao primeiro de março de mil e quinhentos 
annos ^ 



^ Biblioth. Nac. de Lisboa^ Mss. da Collecç. Vimieiro.— Cod. Y— 2— 81, foi. 61 v.* 
—Copia. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 89 



1613— Dezembro 8 



Francisco corvinelly feitor, sprivaes da feitoria, pêro mascarenhas, 
capitão desta cidade e fortaleza de goa, per este vos mando que des a 
joam rodrigues carniceiro cento trynta pardaos doytenta quatro vaqaas, 
dous quintaes de seuo, que deu as nãos darmada do capitão mor; a sa- 
ber, a roy gallvom, e a Jerónimo de souza, quatro; a dom gracia, simão 
dandrade, desoito; amlonio rapozo, quatro; a botafogo, duas; ao rosairo e 
a manoell de Uacerda, cinquo; a froll da roza, quatro; a fernande anes, 
ayres diniz, duas; a joão gonsalues, domingos fernandes, quatro; a nao 
piedade e a sam christouam, oito; a emxobregas, duas; a manoell sodre 
pêra as fustas de duas veses que foy fora, seis; ao capitão mor, vimte e 
quatro; a lopo vaz de sampayo, duas; as quaes vaquas deu ho dito joam 
rodrigues as sobreditas nãos por asinados do feitor e conhecimentos dos 
despenseiros (?), os quais foram rotos ao asinar deste, as quais lhe mando 
pagar a pardao e meio como custaram, e per este com o asemto dos ditos 
spriuães vos seram leuados em comta. feita aos três dias de dezembro de 
15i3. — Pêro mascarenhaz^ 



1614— Janeiro 7 

Senhor; pelo ano pasado de b^^xiii' escrevemos a vosa alteza das 
couzas de malaca, agora escrevemos dese ate b"" xiiii \ e prazerá a noso 
senhor que a ventagem que este ano leuou a outro seja cadano asy. 

Malaca esta de paz sem ter guerra com ninguém, agora da paz a 
quem lhe pede e fazem omra, da lhe dadivas, quando compre vem mer- 
cadores a terra morar, he lhe feito bom gasalhado e omra, esta malaca 
farta, abastada de mantimentos mais que os reinos comarquãos, tratase 
mercadoria na terá, vem juncos e nãos de fora com algumas mercado- 

1 Torre do Tombo— C. Chron., P. 2.*, Maç 43, D. 116. 
* quinhentos e treze. 
' quinhentos e quatorse. 

TOMO m. 12 



90 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

nas, yemdem e compram, tornamse contentes, e nom lhe he feita tirania 
nem agravo das que malaca amtigamente tinhaa. 

Asy mouros como chatis todos vivem em paz e em justiça pacifica- 
mente^ sem defesenças nem escandallos, e bemdara reje a nação dos qui- 
lis e gemtios. 

O tomungo, mouro lução, tinha a governança dos mouros parses, 
coraçones, magarabis, bengalos, e malayos; regraos bem, he morto agora 
pouco ha o dito tomungo, sua molher e filhos regem sua fazenda. 

Na banda de birler vive o tuam colaxaquar mouro ; Joam velho, ho- 
mem homrado pacifico, rege os jaoos e também esta, pêra quando a Jaoa 
quizer paz, porque sabe seus costumes, he homem fiell ate o presente. 

A terra nobrecese grandemente; veo especiaria da Jaoa que nosas 
nãos la foram catar, vam pêra cochim dela em samtaofemea oytocentos 
vinte quatro quintais em bemjoym, e outras cousas, e em huma nao ma- 
labar, que aquy veo de cochim, vam de cravo duzentos e três quin- 
tais, e seiscentos de laquar porque nam pode mais leuar, e outro crauo 
fica qua. 

Também agora sam tornados acatar espiciarea Ha a Jaoa e a ban- 
dam três navios nosos, de que vay por capitam antonio de miranda, em- 
quanlo os Jaós nom perdem o medo, leuam roupa, boa gemte e artelheria 
e mantimentos, vam como conpre per a mercadoria, poderam trazer todos 
três navios ate dous mil quintaes despicearia. 

Partio daquy hum junco pêra a china, de vosa alteza, em compa- 
nhia doutros que vam la também a caregar, he a fazenda delle, a metade 
sua, e a melade bem dará uma chatu, e asy de permeio os gastos que 
sam feytos e se fizerem agora, daquy a dous meses óu três esperamos 
por elle, que venha caregado e rico, porque nom ha rezam pêra vir dou- 
tra maneira. 

Per este contracto parte agora outro junco de vosa alteza a palea- 
cate, terá dos quilis do reino de delrei de narsinga, a metade por vosa 
alteza, e outra metade pelo dito bemdara, e mercadores da terra, a roupa 
deste luguar he da valia destas partees, esperamos que venha rico, vay 
a recado de tudo o que compre provido. 

Nom escrevemos a vosa alteza das obras da fortaleza, de como esta 
já em bom ponto a torre e sobrados, e de como he fermosa obra, e dou- 
tras obras que se fazem em nãos, navios, gales, porque o capitão da for- 
taleza as dará largamente. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 91 

Também escrevemos âo governador dos índios doutras cousas, e a 
feytoria de cochim e as casas dos índios em lixboa, a cada hum do que 
nos deue socorrer. 

Dos reis comarquaõs de malaca delles sam ja tributários, e os ou- 
tros nom podem tardar que o nom sejam porque todos pedem paaz, sem 
a quall elles nom podem viver, porque daquy se fornecem de roupas e 
mercadorias, o que nom podem fazer doutra parte. 

O rey que foy de malaca, e de como esta, e do como pede misirí- 
cordia, como nom tem ja poder senam fraco, o capitão da fortaleza dará 
diso conta a vosa alteza. 

Nom tem resam malaca pêra deixar de ser quem era dantes no 
trato, porque se faz honrra, favor e gasalhado aos mercadores, vem e 
vam contentes outros. 

He capitão de malaca Ruy de Brito, alcaide mor aires pereira de 
beredo, feitor e proveador pêro pereira, e espriuães gracia chaym, thomé 
pires e pêro salgado. 

Mande vosa alteza prover malaca darmas, e daçuquares rozados, 
marmeladas em camtidade, e em cada mouçam ; praza a noso senhor que 
acrecente voso reall estado a seu serviço, feyta nesta famosa fortaleza de 
malaca a sete de Janeiro de b^^xiiij^ — Pêro salgado — Thomé pires — 
Garcia chaym — Pêro pesoa. 

(Em dorso) — A elrey noso seohor — Dos o6ciaes de malaca*. 



1614— Janeiro 6 



Senhor — Na monçam pasada espreui a vosa alteza, de minha ficada 
aquy; nom dey inteira conta das cousas de malaca porque as escrevi ao 
governador das índias, que as escreveria a vosa alteza, agora espreverey 
nesta as cousas que depois aconteceram ate agora. 

Depois que mandey fernam pires a índia vieram aquy embaixado- 
res delrey de Sião, foilhe respondido a sua embaixada, foram em boa ora. 
Sião he terá grande, o Rey he Cafere, ha em sua terra lacar bemjoym 
brasill, gramde copia darroz; ha muito anos que navegaram em malaca, 

> quinhentos e qoatorze. 

< Torra To Tombo— G. CSiron., P. 1.% Maf. 14, D. 51. 

12« 



92 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Dom vieram aqny dobra de quinze anos a esta parte, nom vieram mais 
imdo la juncos traseram (sic) ou nãos nosas, la são agora juncos daquy, 
sam nosos amiguos aceitaram a paaz. 

Depois vieram embaixadores delrey de pão pidindo paaz, foilhe 
dada ; paguam páreas a vossa alteza ; pão be terá pequena, teve sempre 
guerra com Sião, ba em pão ouro, be terra de mercadores; be muito pa- 
rente o rey delia delRey que foy de malaca, be bom bomem trata-se mer- 
cadoria em sua terra, de malaca tem seu fomicimento, pagam sete mar- 
cos douro cada bum ano. 

Depois vieram embaixadores delRey damdraguiri, be Rey mouro, 
comfina com menamcabo, tem ouro, buum aloés de butica, pareceme que 
bade vir paguar outro tanto, be de mercadores, fomecese de malaca do 
que Ibe be necesario. 

Asi mesmo vieram embaixadores de menemcabo e ciae (?) pidir 
paaz e tratar nesta cidade ; estes nom paguam nada porque sam vasalos 
delrei andelaa Rey de campar, que be vasalo de vosa alteza, e paga pá- 
reas outros sete marcos em cada buum ano; a terra destes be douro o 
mais fino destas partees sam reynos pequenos porem ricos, seu trato he 
em malaca, tem outrosi linbo, aloés de butica, tem breu canas e cousas 
semelhantes. 

ElRey de Campar, como dixe, be vasalo de vosa alteza, pagua pá- 
reas, be bomem mancebo jenro dellRey que foy de malaca, be noso amigo, 
muito esta de quebra com seu sogro, a molber esta com bo pay, elle ba 
nom quer tomar ; seu reyno be pequeno metido por rios, ba em sua terra 
ouro, lino, aloés de butica e outras cousas pobres, be terá de mercado- 
res, tratam em malaca seguramente. 

EiRey de pegu be noso amigo, tem grande terra be Rey cafre, be 
boa gemte, o ano pasado mandey daqui bum junco de vosa alteza a ci- 
dade de martamane, e a tanaçary, carregar darroz, trouxe muito arroz, 
gramde copia de laquar, trouxe bemjoy, be terra de muito arroz; vem a 
esta cidade e vam com mercadorias, levam em retorno mercadorias da 
cbina, sam bomens pacificos, sabem a mercadoria, be terra que mais 
firme trato lem com malaca, porque aquy despende suas mercadorias, e 
daqui se fornece, e vem muitos juncos cadano. 

Vieram de bumeu três juncos a esta cidade, trasem ca fora de co- 
mer, aijoufar, mantimentos, bo Rey be cafre, os mercadores sam mou- 
ros; burneu be ylba grande, jaz entre a cbina e maluco» no golfam das 



DOCUMENTOS ELTJCTOATIVOS 93 

ylhas, a gente da ylba chamamse lucoees, sam boDS homeos nosos ami- 
guos, levam por retomo roupa de cambava e dos quilis. 

Depois de aleuantada a guerra, e eu ver a terra estar pacifica, pa- 
receome bem emtamto mandar alguns navios a Jaoa em busca despecia- 
ria, pulo em pratica com os capitães e ofeciais, foy acordado que bera 
bem e seruiço de vosa alteza, mandey la três nauios e buma caravela» bia 
por capitão mor João Lopes, e por capitão do navio sam chrislovam, 
francisco de melo, e por capitão do navio samta madre, martim guedes, 
e por capitão da caravela, joão da silveira, e por feitor darmada, tbome 
pires, espriuão desta feytoria e comtador delia; partiram daquy a qua- 
torze de março tornaram a vinte e dois de junbo, trouxeram obra de mili 
e duzentos quintaes de cravo. 

A navegaçam pêra Jaooa, e mais diamte^ be por monçOes ordena-- 
das, por ser canall de correntes, be muito seguro naveguar com monçam, 
e muito prestes, e asy mesmo partem dela pêra aquy, asy be caminbo 
ajodado (?). 

A jaoa be ylba grande, tem dous reis cafres, buum se cbama Rey 
çunda, outro Rey da João ; a ylba toda be buma somente, be partida por 
hum rio, a lugares seco, be terra de muito arroz imfíndo, de cubebas, de 
tamarindos, a çunda be de pimenta preta, e de pimenta longa; todos na- 
vegam aquy, o cbios levam muita de sua pimenta^ be melbor que a de pao. 

As beiras do mar sam de mouros e muito poderosos, grandes mer- 
cadores e senbores, cbamamse governadores, tem muitos juncos grande 
copia, tiueram sempre trato com malaca ; alguns delles sam nosos ami- 
gos, os outros nom podem faser menos. 

Sam bomes os mais fidalgos destas partes, sam cbeos de prosunções 
de bos atabios de cavalos, espadas e enses^ de boa tauiia; sam bomes de 
pouca fiança por que querem sempre asenborear por suas famtasias, e, 
posto que sejam nosos amigos, sempre be bom conbecer suas manbas. 

Vieram aquy da cbina este ano pasado quatro juncos, nom traziam 
mercadoria senam muito pouca, vinbam como darmada a ver a terra, vi- 
nba por capitão deles o cbeilata, velbo cbim que aquy acbou diogo lopes 
de sequeira ; tornouse comtente com comselbo do bemdara desta cidade, 
e ofícios; foy la bum junco de vosa alteza caregado de pimenta, a metade 
por vosa alteza, e outra metade pelo bemdara, aguardo cada dia por elle, 

1 Espadas com embatidos de ouro ou prata. 



■-*4«.-'«" 



'■;/''''? .*■ '-J") .'•■j; *,•■'>' f''"' 



94 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

foy a bom recado, e com elo foram cinquo, daqai no de vosa alteza vam 
dous homens nosos, hum por feitor, e escriuam outro. 

Da china vem almisquere, aljoufar todo género de cetis e damascos, e 
porcelanas, borcados e cousas semelhantes, sam tiranos, vendem tudo gran* 
demente; a terra he a maior que se ca sabe, levam daqui pimenta e qualj- 
quer outra especiaria se acham, grans e ouro, e cousas ououtras muitas; 
trazem grande copia de seda, e trazem prata, he gente que sabe bem a 
mercadoria, nom lhe tiraram da mão a cousa senam por seu justo preço. 

Partiram daqui três juncos pêra çunda a carregar de pimenta pêra 
a monçam da china, com carta e presente pêra os Rey, os juncos sam de 
mercadores da terra. 

Partio daquy outro junco do bendara pêra bemgalla, leva muita 
mercadoria, virá caregado de roupa de muita valia; trazem de la também 
todo género de conservas daçuquar, de que se fornecem todas estas ter- 
ras, e bemgala he terra grande de gemte e peleja, ho Rey he mouro, he 
de muitos mercadores, e de grande trato. 

Vieram nãos de paleacate, choromandel, e de naor, trasem merca- 
dorias riccas de panos de toda sorte, roupa que vali nesta terá, e de que 
se fornece todos os reis comarquãos, e trasem logo sertados os panos se- 
gundo a terra ; hos juncos destas partes sam os mais ricos que aquy ha, 
porque a roupa de huum junco vali cem mil cruzados, vieram nãos de la, 
venderam, tomaramse; levam daquy estanho ouro, cousas da china, cân- 
fora de comer, e cousas semelhantes. 

Veo aqui huma nao guzurate, que trouxe muita roupa, fez grande 
praser na terá, porque canbaya tem roupa de toda sorte baixa que se 
gasta, tem outras cousas que se comem na terra, e na china, e em Jaoa, 
he muito porveitosa pêra malaca o trato de cambaya pêra malaca e de 
malaca pêra cambaya; levam daquy cousas da china, e camfora, estanho, 
e cousas similhantes. 

As terras domde vem os timos, que he estanho, vem já agora al- 
guns deles pedir paz; estavam alevantados pelas guerras, e também pe- 
los darus, he terra destanho; de malaca ate junto com queda sam cinquo 
lugares do senhorio e Reyno de malaca, e por isto nam ha agora aqui es- 
tanho, e também levamno pêra fora; agora vay sendo a terra pacifica, 
vira daqui avante; também caçam; e muar esta a obidiencia de vosa al- 
teza, vem de la muita madeira, sam do reyno de malaca, aqui junto da 
banda de páo. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 95 

Item: daquy foy mandado buam jaoco de vosa alteza a paleacate, 
a metade por vosa alteza e a outra metade por o bemdara, trazeram muita 
roupa que he de grande valia nesta terra; leua três bornes nosos, bum 
feitor, e outro espriuão, e outro com elles; be terra segura de mercado- 
res, que sempre trataram em malaca. 

Agora, vendo que os jaós e gente desas bandas nom ousa ainda na- 
vegar em Malaca, puz em conselho que seria bom yrem três nauios a 
bandam, e a Jaoa, catar especiaria, ate elles virem a malaca como dante 
se fasia, foy acordado que era bem ; fornecios de gente, artelbaria e roupa; 
mandey pêra ao menos se seguir algum proveito; vay por capitão mor 
antonio de miranda, que veio de Siam, e francisco de melo, de sam cbris- 
tovam, e martim guedes, de santandre; bo bretam be capitania, vay por 
feitor diogo borges, que ja la foi outra vez da primeira. 

Timor be buma ylba alem de jaoa, tem muito samdalo, muito mell, 
muita cera, nom lero juncos pêra navegar, be ylba grande de cafres; por 
nom baver junco nom foram la; os de pacee mataram o Rey, e o seu 
bemdara; por ser este seu costume fizeram bum fílbo delRey de pedir 
Rey ; be terra pacee, prospera em mercadoria, de muitos mercadores, e 
mercadorias, e grande povoaçam; a terá be pequena, nom muito, está 
agora asi; be de seda, bemjoim, infinda pimenta; esta desta maneyra; 
quero agora mandar la buma gallee e buma caravela, por ver e apalpar 
se poso tomar a pose delia pêra a faser tributaria a vossa alteza, e estar 
a sua obediência, prasa a nosso senbor que seja asy. 

Pedir esta agora de paz, be Rey bum filbo do Rey velbo, ha muita 
pimenta que vem aqui; esta a obediência de vosa alteza; de la veo agora 
buma pamgajaua grande carregada de pimenta. 

Os darus estam nosos amigos, sam ladrões, vivem diso, nom tem 
mercadoria em sua terra, furtam por omde podem, esta be a manba desta 
terá, quem mais pode quando vee a sua bade furtar, e asenborearse buns 
dos outros. 

Ho que governa a terra be ninacbatu bendara, be cbatim mercador, 
be grande rico, tem toda a manba de mercador e niso trabalba, porem 
he homem muito fiell, ama muito bo seruiço de vosa alteza, no que toca 
a isto be verdadeiro, pesoa de que seguramente se pode fiar, manda jun- 
cos a todas as partes asy por sen proveyto como por nobrecer a terra. 

Ho lomungo moreo, agora be outro homem, hera mouro, tinha ou- 
tra tamta jurdicam, hera bom homem, regia o povo bem; moreo, ficamlhe 



96 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

filhos e molhei nobrecia muito este portOi e trabalhara díso também por 
seu proveito. 

Da banda de siler governa huum Jaoa, mouro velho homrado, tem 
jurdigam sobre os Jaós, he homem repousado sesudo ; esta em paz, tra- 
balha o que pode por também nobrecer seu bairro; chamase o colaia- 
quar, serue bem seu oQcio, mostrase seruidor de vosa alteza, he homem 
que acode com o que lhe peço de oficiaes e outras pesoas ; he grande rico 
e muito antigo na terra. 

ElRey que foi de malaca depois do desbarato fugio pêra huma ylha 
que se chama bimtam, lonje daquy; chamase rey delia, mandou ja aquy 
muitos recados, diz que quer ser vasalo de vosa alteza, eu ho tenho es- 
crito ao governador das índias; elle matou seu filho porque nam queria 
consentir em sua vontade, porque o pay queria paz, e elle não ; he morto ; 
o Rey tem pouca gemte, he velho cheio danfião, nom ata nada nem he 
nada e deixãno os seus, e, segundo leua caminho, perderseha, que nom 
tem remédio ; nunca me dixe por suas cartas em que se afirmava ou que 
dizia, he como homem sem tento. 

Malaca esta abastada, reformase de mercadores, cada dia vem fa- 
zerse moradores asi mouros como quilis, ho trato vayse reformando; sam 
(sic) daqui muitos juncos fora, com tudo ha muita gemte na cidade ; vam 
pêra fora cada dia, e vem outros, trata a terra pacificamente, fazem homra 
aos mercadores, vamse contentes todos com propósito de tornar. 

Maluco e bandam, timor e jaoa, em mentres, elles estam atemori- 
zados, he necesario grandes nãos; eu escrevi ao governador das índias 
que devia de mandar huma nao ou duas de quinhentos tonees, porque 
alem de fazer credito, se vay, traz grande copia despeciaria, o que se 
Dom pode fazer com navios pequenos, pois ho caminho he ja sabido e 
podem navegar, e mais as taes nãos sam seguras, e nom temem ninguém, 
porque nom cuydem que todo noso serviço he navios pequenos. 

Nas obras da fortaleza se trabalha, ha torre he em formosa altura 
e largura, de fermosas casas bem amadeiradas, cada sobrado fa . . . de 
vinte e hum e vinte e dous palmos; tenho determinado fazer a torre de 
cinquo sobrados daltura, com as ameas de cento e trinta palmos, por tall 
que por cima do outeiro descubra o mar. 

Madeira vem muita e em abastança, muito direita e boa pêra se 
aqui puderam fazer nãos, avendo o ali. 

O curucheo da torre dalto abaixo he de cincoenta cinquo palmos, e 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 97 

pelas asnas be de seseDta, tudo se doso senhor quiser; quanto a torre 
será acabada pêra a páscoa de tudo. 

Ho cbuumbo trabalhase nelle pêra a cubrir depois de acabada, será 
cousa grande de que nosos amigos averam praser, e nosos imigos des- 
prazer. 

Ao presente não ha mais; prazora a nosso senhor que reformara as 
cousas de malaca por tal que vosa alteza aja muito proveito delia, como 
espero em noso senhor que será, porque nom pôde deixar de ser, e o 
que em mim for em meu lempo espero que nenhuma cousa nom seja de- 
menuyda, mas acrescentada; prasa a nosso senhor que acrecemte voso 
reall estado de bem em melhor a seu seruiço. fcyta nesta formosa forla- 
lesa de malaca a seis dias de janeiro de mil b**iiij^ anos — Ruy de bryto. 

(Em dorso) A elRey nosso senhor — Do capitão de malaca*. 



1614— Outubro 23 



Senhor — Antonio da fomseqa escudeiro de vossallteza, que vem 
narmada do marechall, que vos amdo qua servindo nestas partes nas 
cousas que mestam mandadas pelo voso capitam moor, asy no tempo da 
guerra, como todos somos obrigados a syrvir vosalleza, no menos ho faço 
como vassalleza pode ser emformado pelo capitam mor, e por estes capi- 
tães, e fidalgos que de qa forem, e em tudo o mais que me he emcarre- 
gado e mandado, principalmente neses valumis de cartas que a vosa al- 
teza cadano vam, que he muy grande trabalho, e porque todos somos 
obrigados a vos servir, fielmente o faço também que quallquer mercê que 
me vosa alteza fizer eu senhor a tenho bem merecida; e porque eu te- 
nho desejos de servir vossa alteza qua em tanto ho ouuer por seu ser- 
viço, lhe beijarey as mãos fazerme mercê da esprevaninha da feitoria de 
cochim, que lopo fernandes tem, depois de seu tempo acabado, pois que 
neste oficio desprito ao capitam moor eu nam tenho nada^ depemdendo 
sobre mim todo negocio e despacho da índia, sem interese nem proueito 
algum, depois que gaspar pereira leixou de servir seus ofycios, que pa- 



^ quinhentos e quatorzc. 

* Torre do Tombo— C. Chron. P. 1.', Maç. 14, D. 49, 

T0»I0 ITI. 13 



98 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

recera rezam aver alguma cousa; e posto que eu nam requeresse ao ca- 
pitam moor satisfaçam diso, que pedindolha ma dera, polo que conheço 
dele desejar e procurar daproveitar vossa faseada, e a uam dar senam 
per vossa ordenança, o nam ousey de fazer, somente a pedir a vossa al- 
teza em satisfaçam de quantos serviços lhe qa faço. porque pouco e muito 
tudo espero de despender em serviço de vosalteza, e asy me mande asem- 
tar aquela moradia que vosalteza ouuer por seu serviço. De goa a vinte 
e três dias doutubro de 1514 — Amtonio d'affomsequa. 
(Em dorso) A ElRey nosso Senhor \ 



1614— Novembro 19 



Ruy leite mandamos uos que o gibam e calças que leixastes de dar 
ao embaixador do preste joham, por elle tomar o panno do tabardo de 
maior preço do que lhe hia comtado em nosso aluara, lho dees feyto e 
tirado da costura, posto que o preço do pano do dito gibam e calças por 
este vos nom declaremos, e nam esperes pêra ilho (sic) por folha, por- 
que asy o aveemos por beem ; e por este com o asemto de voso spriuam 
em seu liuro, e seu conhecimento como de vos recebe o dito gibam e 
calças, mandamos que vos seja levado em comta e darlho loguo. sprito 
em ellmeyrym a desenove dias de novembro o secretario o fez 1514 — 
Rey ' \ ' 

Gibam e calças do embaixador do preste Joham. 

Deo o dito embaixador Rui leite o gibam e calças acima conteúdos 
feytos e terados da costura, em lixboa de cinco dias de Dezembro de mil 
quinhentos e quatorze annos — Jorge correa — Matuar (?). 

(Em dorso) Que ha dhyr a duarte galuam*. 



» Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.*, Maç. i6, D. 89. 
* Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.% Maç. 16, D. 118 



DOCOMENTOS ELUODATIVOS 99 



1614— Novembro 29 



Senhor — Eu party nhum dia tam asyoalado qae me nom podia 
dcQS deyxar de fazer muita mercê, ainda que pasey a índia muy Iraba- 
Ihozamente e meio perdido, quando as outras nãos chegaram ao capitão 
moor com nova de eu ser perdido; de francisco pereira faço queyxume 
a vosa alteza, que elle fez com que me ouuera de perder, e as outras 
nãos todas, porque foy fazer ho synall da terra a huuns lobos marynhos, 
e nunca me quys falar nem dizer porque fizera aquyllo; Gonçalo alvares 
dirá a vosa alteza a verdade, e elle ser caso desa nao nom ir pêra pur- 
tugall este anno; com medo da terra demos força a nao e abryo toda. Se- 
nhor, como chegey a índia mandoume o capitam moor caminho de dio, 
homde estava luis damtas; é couza de muyto gramde trato e asy toda 
esta costa. 

Item: Senhor o cobre estaua em dio baixo, porque vyeram muytas 
nãos daden carregadas de cobre, porem todavya saya a dezoito cruzados 
o quyntall, e o capitam moor quando veyo do estreyto e leyxou asemtado 
a vinte cruzados, ou vinte e um. Em dabull e chauU se vemdeo agora 
deste de vosa alteza a vinte e um cruzados. 

Item: ho marfím sayra o quyntal a quarenta cruzados, e o azougue 
e vermelhão valem muyto; pello vermelham perguntam qua muito; ve- 
ludo preto vale a sete cruzados . . . 

Item : Senhor as drogarias de malaca pareceme que he necesario le- 
varemnas lla^ porque tem por esta costa tamanho preço, porque has nãos 
nom vam ja Ha a carregar omde soyam, que hey medo que nom crea vosa 
alteza tamanho preço tem, porque senhor o cravo sayo o quyntall a se- 
tenta e oitenta cruzados quanto trouxe. 

Item : A guylla que he huma dorgaria que vem de malaca vali a ij 
cruzados o quyntall, outra dorgaria que se chama cabumbucu vale a peso 
douro. 

Item: Â pymenta vali a dez cruzados o quyntall, e o cardamomo 
outro tanto, e em aramuz vail muito mays. 

^ duzentos. 

13* 



el 



ido CARTAS DÈ A^FONSO DÊ ALBUQUERQUE 

Item: os calays destanho valem a doze cruzados o quyntall, e asy 
todalas outras mercadorias de malaca tem todas muito grande preço, e 
asy de dio e çarrate, e de cbaul, e dabuU pêra a índia se dobra o di- 
nheiro em todalas mercadorias; porem som (?J a jemle toda da índia 
desde o pequeno atee ho mayor pesoulhes lamto de vosa alteza tomar o 
trato da índia, porque ha desoluçam he tamanha em tratarem em cravo 
e em py menta, e em todalas outras adorgarías, que se nom pode crer, 
porque vem comprar o cravo na índia, e fazem no alevantar ja lia aos 
mouros, e asy cobre e todalas outras mercadorias, que tem tudo da- 
nado; emtam trazem qua hum quyntall, dous quyntaes, cada hum des- 
tas cousas, e vem no qua vender a menos preço e abatimento nas mer- 
cadorias de vosa alteza; se se isto tudo vendese por huma mão, pare- 
ceme que quanto preço lhe pozesem tamto dariam, pella necesydade 
que delias tem estes homens; porque lhe comtradixe ysto dixeram-me 
tantas pragas que, quando vym de dio ter a chauU, vay hum pyloto 
que veyo na nao de porluguall, e foy dar a ella em cima de huum pe- 
nedo, nom sabido dizem que he, homde senhor eu quisera antes mor- 
rer mil mortes que me acontecer tal dezastre, porque senhor en não po- 
deria jazer ledo toda a minha vida, se mo nom teueram a fraqueza, eu 
fezera de mim hum grande desatyno, porque senhor ser eu o primeiro 
que começava huma tamanha cousa, e de tamto voso seruiço, e acomte- 
cerme tall desastre nom sey senhor o que será de mim, porque o capi- 
tam mor quyzera ser o primeyro, e nom que ho mandara vosa alteza 
delia como ho mandou, nom sey o quererá fazer comigo, porque eu es- 
tou ainda em chauU recolhemdo toda a mercadoria e fazenda de vosa al- 
teza, porque nenhuma couza se perdeo soomente os casquo; eu senhor 
lhe tenho mandado dizer e pydir que me mande carpymteiros e ferrey* 
ros, que eu quero fazer outra nao aquy em chauU, tamanha como sam 
miguell, porque ha quy muita madeira, e muito debarato, e muytos car- 
pymteiros, e se aproveytara também muita madeira, e muita pregadura 
da sam miguell; pareceme que será isto cousa que he seruiço de vosa 
alteza, farsaa em muito pouco tempo, e custa aquy menos que em cou- 
chym; muito (sic) ho anno pasado mandou mandou hy fazer o capytão 
mor dous navyos grandes muito bõos, e custaram muito pouquo, e fyze- 
ramse em muito pouco tempo, pellos muitos oficiaes que hahy ha; eu lhe 
tenho mandado dizer tudo ysto senhor, e tenho ja apreçada muita ma- 
deira, e senam quyzer fazello a custa de vosa alteza, que eu o farey a 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 101 

minha, e vosa alteza mo pagara quando quízer; estou aguardando por 
seu recado : beyjarey as mãos de vosa alteza lembrarse de mym . que me 
cryou, e que me tem feyta muita mercê, e que he bo que detrymina de 
mym ; meus irmãos e eu estamos qua pêra fazer o que vosa alteza man- 
dar. De cbaull a vinte e nove dias de novembro de 1514 — A serviço 
de vosa alteza — Cristouam de britou 



1614— Dezembro 12 



Aos doze dias do mes de dezembro da era de mill e quinhentos e 
catorze foy pêro dalpoe secretario, per mandado do senhor governador 
das índias, dentro ha fortaleza de cochim onde esta preso manoell de 
melo capitam da nau santa maria da luz, sobre sua menajem, a lhe pe- 
dyr da parte do senhor governador o seguro que lhe a nao de calecut 
mostrou quando a ele foy demandar, e o dito manoell de melo lhe res- 
pondeo que pelo juramento dos santos havamgelhos, que lhe pelo dito 
pêro dalpoe foy dado, se tinha o seguro ou nam, dise, que pelo dito ju- 
ramento que recebera, que o dito seguro tornara ha o mouro que lho 
dera, e que por elle nom conhecer o synall do senhor governador, nem 
saber o costume desta terra, nem conhecer ho seu seguro, ha mostrara 
duas vezes ao seu esprívam que lho vise e lho disese o que farya, pela 
duuyda que hachaua haquelle synall; dise nam poder ler ha era do dito 
seguro quando fora feito, e por fazer nyso o que mais seruiço fose do se- 
nhor gouernador, por quanto no seguro dizia que lhe nom valese mais 
que hum so ano, e esta fora ha sua primeira tençam quando fora no seu 
batell saber que nao era aquella, e asy dise que se os mouros nom tyue- 
ram outras muytaç cousas, que lhe fizeram ate lhe nom tyrarem as fre- 
chadas, que ele a eles nom chegara, feito a doze dias do dito mes da 
sobredita era; e eu fernam moniz spriuam do dito senhor governador, 
que esto esprevy. Manuel de mello. 



^ forre Ao Tombo— C. Chron., P. L\ Maç. 16, 0. 127. 



1 02 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Testemunho de fernam daloares sobre ha tomada da nao que tomou 
manuell de mello. 

Aos vinte e três dias do mes doutubro da era de mil e quinhentos 
e quatorze annos, em esta cidade de goa, ho senhor capitam jeral man- 
dou chamar a vasquo de vilhena seu ouidor, e lhe mandou que pergun* 
tase a fernam daluares, casado e morador em cananor, e que pelo jura- 
mento dos santos avangelhoos disese como pasara ho caso que hacom- 
tecera a manoell de mello, capytam da naao samta maria da luz, com ha 
nao de calecut, e eu spriuam sprevese asy sen titolo, e ho dito ouidor em 
comprimento do seu mandado se veyo com ho dito fernam daluares a 
pousada delle ouuidor, homde eu spriuam estava pêra tirarmos ha dita 
testemunha sobre ho dito caso, ho testemunho do qual he este que se ao 
diante segue. Joam scoUar sprivam que esto sprevy. 

Item: fernam daluares casado e morador em cananor, testemunha 
ajuramentado hos samtos avangelhos, que lhe (oram dados pelo ouuidor, 
presemte mim sprivam, e perguntado pelo costume disse nichil. 

Item : pergumlado elle pelo caso de como acomtecera a ho dito ma- 
Duel de mello, com aquella náo de calecut, dise elle testemunha que era 
verdade que ho dito manoell de melo partyo em ha sua náo samta ma- 
ria da luz da barra de cananor no comego deste mes de outubro, pouco 
mais ou menos, desta presente era de 514, pêra cochim, e ho dilo fer- 
nam daluares com ele na dila nao por pasageyro, e que logo aquella 
noute seguimte amcoraram amtre hos Ilbeos de pundarane, a ho mar 
longe, e que logo a ho outro dia pela manhã amanheceo antre hos ilheos 
e ha terra huma nao de calecut, que vynha dadem, tyrando bonbardadas 
com praser por conhecer a terra, e ho dilo manuel de mello se aleuantou 
da camará perguntando á gemte que nao lhe paricya aquella, e ha dita 
gemte da dita nao lhe respondeo que ho nam sabya, e emtam preguntou 
a hum pêro preto, que vynha ahy na dita nao por pasageyro, que he mo- 
rador em cocbym, e ele testemunha, e ho dito pêro preto, lhe dise que 
lhe parecya o ser huma naao de calecut que vynha dadem com seguro 
do senhor capitam, e que lhe parecya ser huma daquellas, por que tpha 
elRey de calecut Ha mandado três com licença do senhor governador, e 
ele testemunha disera que era asy, por que ho tynham ouvido em cana- 
nor, e ho dito manuell de melo dise llogo que serteza tinham ele teste- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 03 

mndhâ e os outros pêra saber que era aqnella náo de calecut, e que ty- 
nha seguro, e que ele tynha vysto muytos homes manhosos, e que pode* 
riam vyr ali também hum que mandase tirar aquelles tiros de fogo por 
desimuUar, por quanto os via estar amorados, e que logo ho dito ma- 
noell de mello mandou esquipar ho batell e meter dous berços, e man- 
dou a ele dito testemunha que ele fose com outro homem da dita náo, e 
se metesem no batell, e fosem a naao dos mouros e lhe perguntasem 
domde era a nao, e se trasiam seguro, e se trouxesse seguro que aruo- 
rasem huma bandeira por synall que era de paz, e que deixasem ir a náo 
em paz, e se fose de guerra e nam trouxesem seguro que tyrasem dous 
tyros por synal; e que elle dito manuell de mello se.farya logo a vella 
com a viraçam, e iriam com ella e ho dito batel; e hapartandose ho dito 
batel de bordo dise manuel de mello a elle testemunha que levase armas, 
e elle testemunha dise as nam avya de levar, porque se nam pelejasem 
com ha náo que ja nom nam avyam de pelejar com elles, que bem sabya 
ele testemunha que haquella ida era debalde, e que apartandose ele tes- 
temunha da náo, indo ho batel remando hum pouquo, hos ditos mari* 
nheiros começaram a refungar de nam quererem remar, e ho dito ma-^ 
nuell de mello ouvio aquillo, e mandou tomar ho batel ha bordo, e me- 
tese dentro com as suas armas, e entrando dentro lhe dise o pyloto da 
náo que nam fose Ha, que nam era bem deyxalla náo, e ho dito manueli 
de mello lhe respondeo que se quallasse que ele bem sabya o que fasia, 
e logo ho dito manoell de mello chamou ho espryuam da dita náo, e lhe 
dise que tanto que ele partyse de bordo que mandase esquipar ho esquiffe, 
e se metese demtro com outros sete ou oyto homens armados, que hasy 
como nam podya ser, asy podya ser, e que Uoguo partyse após elle, e o 
dito espriuão da náo santa maria da luz hasy o fysera, e que logo ho dito 
manuel de mello mandou remar o batell muito rijamente, e foram sempre 
diante dos esquifee, e antes que chegase a náo dos mouros, grande pe- 
daço, vyo vyr huma almadia de contra calecut remando mui rijoo pêra ha 
nao dos mouros, que logo ho dito manuel de mello dissera que lhe pari* 
cya ser aquillo ruindade, e que logo chegara (?) perto da dita nao a tyro 
de berço, e vyeram logo ha dita almadia, que vyera de calecut, a náo dos 
mouros, e trouxeram o seguro do senhor capitam jerall, e ho dito ma- 
nuell de mello ho lera e perguntara a elle testemunha se conhecya aquelle 
synall, e ele testemunha lhe disera que sy, que era do senhor capitam 
jerall; e que estando niso achegara ho esquife com ho dito sprívam com ba 



i04 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

outra gente, eho mandaram entrar no batell, e deylbe o seguro que ho lese, 
e ho dito sprivam ho leo, e, tanto que o leo, dise ho dito ho dito sprivam 
ao capitam, senhor aqui nam ha mais que fazer senam tomarmos pêra ha 
náo» senhor vamos noos, e mays senhor tomey ho dito dele dito testemu- 
nha que diz que conhece ho synall do senhor capitam jerall, e mais se- 
nhor nam vos digo mais senam que olhes per vosa honra; e o dito capi- 
tam tomaram (sic) a perguntar a hele testemunha que costume era ho 
das nãos dos mouros quando chegava huma náo portuguesa a ellas, e ele 
testemunha lho disera que ho costume seguido hera, quando vynha huma 
náo portuguesa que ha hya demandar, mandar ho seu pirão com ho 
seguro, e, se nam jevase pirâo, amaynar, e diser que nam tinha pirão ; 
que mandase o esquife da náo a bordo pêra tomar o seguro com hum 
mouro que o trouxese, e, se lhe parecese que era nao de máo trato, que 
emtam se chegase perto delia, e que mandase lançar hum mouro a nado 
com ho dito seguro em syma na cabeça emborilhado em hum pano ; e 
isto, quando lhe parecese que eram moiros de máo titoUo, que se nom 
fyase nelles; e ho dito manuell de mello, sem mais nenhuma cousa, man- 
dou a ele testemunha que se metese no esquife, e que levase uma adarga, 
e que arodease a náo, e que vyse donde tynha artelharia, e quanta era ; 
e ele testemunha dise que nam queria adarga porque vya que eram ma- 
lavares, e por que tinha sabydo que se lhe nam tirasem, nem pelejasem 
com eles, que eles nam lhe avyam de tyrar nem pelejar com elles ; e logo 
ele testemunha entrara no dito esquife por mandado do dito capitam ma- 
noel de mello, e se fora a rodear a náo, e olhara artelheria que tynham e 
quanta era e de que banda estava, e hos ditos mouros falaram com ele 
testemunha dizendo que se aredasem delles, que mais queria que hamos- 
trarlhe o seguro, e que se se achegase a elles que pelejariam, e elles di- 
zendo isto começaram de colher as bombardas a bordo e armar hos ar- 
quos com suas cordas; o dise ho dito manuell de mello que lhe parecya 
mall aquella gente, e ele testemunha lhe disera que tynham duas bom- 
bardas de cada banda, e ho dito manuel de mello dissera entam a náo 
dos mouros, desregandose (sic) ho dito manuel de melo de capitam da 
nao, que o capitam daquella nao de portugal o chamava a ho capitam da 
náo dos mouros, e que nam queria mais senam fallar com ele, e que fose 
a náo dos mouros caminho de calecut asy como hya, que ele também hya 
pêra calecut, e ha geríte da nao dos mouros diseram que nam queriam 
ninguém se nam chegase a elles, senam que pelejariam, e entam dise ho 



/ 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 105 

dito manoel de mello que lhe parecia ser verdade ser aquele seguro dou- 
tra uao que stava ja em calecut, porque vyo vyr almadia da maneira que 
yynba, e pelas resões que eles davam, e que elle testemunha disera, se- 
nhor, hyr com esta nao, se vos parece alguma cousa desas, sem lhe ti- 
rardes nem lhe faser mall nenhum ao porto de calecut, e requerey ao dito 
rey de calecut que volla entregue, e que nam quisestes pelejar com elle 
athe que nam soubestes por parte do senhor capitam jerál se era verdade; 
e ela testemunha dise que elrey de calecut hera tam grande amigo del- 
rey nosso senhor, e do senhor governador que ainda que trouxesse seguro 
elle lhe entregaria sem falecer hum alfenete, athe o senhor governador a 
mandar desenlongar, ou tomar se fose de guerra, e ele testemunha lhe 
disera a ho dito capitam que ho fisese asy que lhe parecya ser asy bem, 
e que o dito manuel de mello ouuindo estas rezOes que lhe ele testemu- 
nha dava, preguntou a ho dito sprivam que era o que lhe parecya da- 
quilo que lhe ele testemunha dizia a ho dito capitam, e que tomase o 
dito spriuam a tomar ho seguro e ho tomase a ler; ho dito spriuam ho 
tomara a ler e lhe disera ao dito capitam, senhor nam he necesario mais 
parolla nem pasarse mais tempo, senam que nos tomemos pêra ha naao, 
e isto senhor porque bem vedes ho seguro, que diz ese homem que co- 
nhece ser o synall do senhor governador, e isto senhor olhay o que nos 
compre, e olhay que he mais vossa homra, ou he que havees ho se- 
guro per bom, ou que o nam avees por bom ; daqui senhor nam digo 
mais senam que façaes o que for seruiço delRey e Vossa honra; e que o 
dito manoell de mello, sem embargo de nenhuma cousa, disera a nao que 
amaynase, e ha gente da nao dise que nam queria amaynar, que se fose 
muito embora, que querya ele mais que hamostrarlhe o seguro; nisto 
ho dito manuell de mello, vendo sua determinação, deixouse ficar por 
popa^ e mandoulhe tyrar rijo e que amaynase, e ha dita nao dos mouros 
começou também a tyrar muytas frechas e bombardadas, pelo qual ty- 
rava de maneira que as vezes vynha pylouro que quebrava ho remo; e 
vendo o dito capitam isto determinava de ferar a dita nao, e ele testemu- 
nha lhe tomara a dizer que olhase o que fazia, que lançava a perder a si 
6 ao senhor governador, e ha nosa fortaleza que estaua em calecut, e que 
o dito manuell de mello nam queria atemtar niso, somente abalroar a nao; 
e ha dita nao vendose em presa domde hya quaminho de calecut a ho 
longo da costa, punha ha proa em terra pêra varar, e ele testemunha 
vendo que a nao leuaua aquele caminho tornara com muitas ordens (?) ao 
TOMO ni. 14 



Í06 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dito manuell de mello, dizendolhe senhor nam aves de tomar essa nao 
com esse batell, e esa nao senhor ha de ir encalhar em terra e nam ha 
daproueitar a hoos mouros nem a vos; e emtam ho dito manuell de mello 
capitam, quando vyo aquillo alargou a nao, e ha dita nao quando vyo 
que a deixavam tomou outra vez o seu caminho, e foise caminho de Ca- 
lecut, e llogo se foram pêra nossa nao; e amtes que chegase a sua nao 
tornava outra vez o dito capitam, por requerimento doutros homens dar- 
mas, que pois que começara a pelejar com haquella nao que a tomase, 
que era sua honra, e nom ha tomando que era sua desonra; e ele teste- 
munha lhe tomara a dizer que bem vya o erro e mall que tynha feyto 
por nam querer fazer o que lhe ele testemunha tynha dito, e que pois 
que ele nam queria senam fazer a sua vontade e o que lhe os outros de- 
ziam, que fysese o que quisese, que ele testemunha nam era mais que 
hum homem darmas que hya por pasajeiro de cananor athe cochym, e 
vendo o dito quapytam o que lhe ele testemunha dezia se foy pêra a sua 
nao, e que chegando a nao acharam ja ho vygario de calecut na nao di- 
zendo, que fizestes, pois quizestes que nos cortasem as cabeças, e per- 
dendose huma fortaleza delrey noso senhor que esta começada, dizendo o 
vyagarío que não se espantava, e hasy os outros todos que estavam em 
qualecut, dele testemunha nam dize ho costume que sabya da terra. E 
logo a ho outro dia pela manhã elrey de calecut mandou chamar ho ca- 
pitam roanuel de melo, e hasy ho mandara também chamar ho capitam 
da fortaleza, porque lhe queria perguntar como fora aquillo, e por cou- 
sas de portugal, e o dito manuell de mello se meteo no batel com toda a 
gente, e se foram caminho de terra, e elle junto com terra mandou tor- 
nar o batel outra vez a nao, e ho omem que o hya chamar, e ele testemu- 
nha, e hasy todolos hos outros omens lhe disseram que fazia muito grande 
erro, pois que ho mandava chamar elRey de calecut e ho capitam da for- 
taleza, e cometera o caminho, e que so chegara ate junto de terra, e que 
se tomava; e ho dito spriuam da nao lhe requereo da parte delRey e do 
senhor governador, que pois ele tal erro tynha feyto, e o elRey mandava 
chamar, e hyr o capitam da fortaleza, e estava asy aquella jente daquella 
maneira, que fose lia por que tomandose (?) do caminho parecia fazer 
outro escandoUo, e ho dito manuell de mello dise que nam queria nem 
hera sua vontade ir em terra, que estava doente, que se achava mal sen- 
tido, e logo se tornara pêra ha nao, e vendo o capitão da fortaleza que ele 
se temava pêra a nao, ho dito manoell de mello mandou o feytor gonçalo 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 107 

• 

mendes, e o sprivam da dita feytoría, que lhe fose fazer ho reqiíerimento 
da parte delrey e do senhor capitam mor, que pois era serviço delrey ir 
ha terra ho dito manuell de mello a chamado delrey de calecut, que vyese 
logo, e que hasy se fyzese hum asemlo de tudo ; e ele testemunha ouvira 
dizer a gente da nao que nam queria ir a terra sem hum seguro delfiey 
de Calecut, e outro do capitam da fortaleza, e tanto que lhe veyo de terra 
que ele podia mandar chamar toda sua jemte da nao, e a ele testemu- 
nha, e lhe dera juramento a todos dos samlos avangelhos que era o que 
lhes paricya aserqua daquella ida de terra, e ele testemunha, e asy al- 
guns outros, lhe diseram pois que o feitor e ho capitam da fortaleza o 
mandava chamar pêra seruiço delRey, que lhe parecya a ele testemu- 
nha bem que fose lia; e sem mais nenhuma cousa loguo se embarqou, 
e se foy a terra com toda a gemte, e ho dito capitam da fortaleza fora 
a quasa delRey com ho dito manuell de mello, e duarte barbosa com el- 
les, e hasy ho dito feytor com elles scrivam da feytoria e ele testemu- 
nha com outros homes da nao, e o que ila pasaram ou nam que ele tes- 
temunha ho nom sabe; e ele testemunha ouira dizer em a fortaleza de 
Calecut alguns homes que nam culpavam se nam a ele testemunha por sa- 
ber o custume da terra, e elle testemunha loguo perante ho capitam da 
fortaleza, e do feytor e sprivães, e toda a outra gente, lhe requerera da 
parte delRey, e do senhor governador, que o dito capitam da fortaleza 
ho prendese a ele testemunha, athe saber o senhor governador parte da 
verdade, e que hasy lhe requeria ho dito spriuam da nao que tyrase in- 
quiriçam do dito que ele testemunha tynha dito ao dito manuell de mello, 
e ho do sprivam, pelo requerimento que lhe ele testemunha tynha feyto, 
por mandado do capitam da fortaleza lha tyrava, e ho dito manuel de 
melo soube que o sprivam tyrava ha dita inquiriçam por parte dele tes- 
temunha lhe fora a mão a isso, e lhe mandou que ha nam tirase mais 
que aquellas três testemunhas que eram fora, e ho dito sprivam fizera diso 
hum asemto, asynado por testemunhas, de como lhe fora o dito capitam 
a mão, pêra qualquer tempoo que ha ele testemunha fose pedido ou de- 
mandado; e nam seja duvida na entrelinha, porque eu sprivam o fiz por 

verdade e, do dito quaso (?) ali nam dise Joham sprivam que esto 

sprevy — femam d aluares. 



14 



i08 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

Auto que o senhor governador mandou fazer sobre a nao a que manoel 
de mello foi a junto com calecut. 

Ano do nacimento de noso senhor Jesus chrislo era de mil b"" xiiii ^ 
anos, pelo senhor governador foi mandado a pêro dalpoim, seu secreta- 
rio, que, como ouvidor, mandase tirar huma inquiriçam de testemunhas 
de como manuell de mello, vindo na nao santa maná da luz por capitam, 
junto de calequt, foi a huma náo do dito calequ, e que se soubese a ver- 
dade do que lhe fisera sobre seguro de sua senhoria que a dita nao tra- 
sia, eu spriuam per a ho senhor ouvidor tiramos a seguin- 
tes. Eu bras lopes que esto espreui. 

Item: pêro de paiua escudeiro da casa delrei noso senhor, escriuam 
da náo santa maria da luz, testemunha jurado hos santos auange/Aos, e 
perguntado pelo custume, e cousas que lhe pertenciam, dise que era ver- 
dade que jasendo a náo santa maria da luz hos ilheos de pandarane, aquém 
deles contra calequ, huma legoa o legoa e meia pouco mais ou menos, 
amanhecera hos mesmos ilheos huma náo de mouros, a qual náo como 
foi manhã começou logo de tirar bonbard^das vindo a uela a ho longo 
da terra, e manuel de melo capitam da dita nao peguntou a dous cava- 
leiros, que uinham com elle na dita náo de cananor pêra quochim, hum 
deles se chama fernam daluares, e outro pêro preto, e asy abo mestre e 
piloto da dita náo, que era ho que lhe parecia daquela náo, e por que 
vinha asy tirando, e elles lhe diseraro que era asy seu costume delles, e 
elle capitam lhes respondeo, se por ventura vyra naquela nao algum ho- 
mem manhoso que faria aquilo por desemular ; emtam dise que lhe pa- 
recia bem mandar la ho batel pêra saber se era de gera ou de paz, o que 
logo mandou faser prestes, e meter nele remos e marinheiros pêra re- 
marem, e sete oyto homes darmas, e duas bombardas, e pelouros, e ca- 
marás nadas e lanças, e mandou no mesmo batel meter fernam dal- 
uares morador em cananor, e leixo pires criado do dito capitam que am- 
bos fosem no batel, e achegase a dita náo de mouros, eque visem se era 
de gera o de paz, e que outra cousa nom íizese la, senam que lhe trou- 
xesem recado; e depois deles serem partidos da náo per seu mandado, 
6 imdo já seu caminho, os tomou ele dito capitam a chamar, e hos fez 

^ quinhentos e qoatorze. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 109 

lornar a bordo da náo, emtam se meteo no batel com elles e mandou 
meter humas coiraças suas; emtam lhe dise ho piloto que nam deuiam 
la ir, ele nam respondeo, e, quando se afastou da nao, elle testemunha 
lhe perguntara se queria se fose com elle, elle dito capitam dise que nam, 
mas que se fose atras elle no esquife, e que levase comsygo cinquo ou 
seis homes, quaes ele testemunha quizese, ho que elle testemunha asy 
fez, e depois dele parlido se fez elle testemunha prestes no esquife, no 
qual esquife foram estas pesoas, pêro de moura fidalgo da casa delrei 
noso senhor, e antonio da sylva seu irmão, e symam dabreu escudeiro 
delrei noso senhor, e gaspar monteiro homem darmas, e todos leuauam 
no esquife suas armas, e se foram atras elle, e cando chegaram a nao dos 
mouros ja via grande meora que o dito capitam la estaua, e que do que 
elle pasóu, nem dos requerimentos que ho capitam fez a dita nao, que 
elle testemunha ho nam sabe mais que ouvir dizer a eses do batell que 
nunqua viram nãos de mouros tam desobidiente como aquela aos portu- 
gueses, que nenhuma cousa que lho capitam requerera nam quisera fa- 
ser, e que ante que chegase ho esquife, em que elle testemunha hia a 
nao, viram hos da nao tam aluoracados com adargas nos braços, e ar- 
quos, e frechas nas mãos, e bolir com as bombardas, que elle testemu- 
nha dise aos que hiam no esquife, pareceme que he de gera esta nao, e 
eles se quiseram logo armar, e ele testemunha lhes dise que lhes pedia 
por mercê que se leixasem ir asy ata chegar mais junto, que tempo te- 
riam pêra iso, e asy foram ate junto do batel do capitam que também es- 
tauam agastados todos com aluoroço dos mouros; emtam se começaram 
de armar; ho capitam lhes mandou antes que chegase a elle que tirasem 
os capacetes que eles leuauam, por que cudauam que lhes tirasem os 
mouros com as frechas; e camdo ho capitam mandou que tirasem hos ca- 
pacetes, dise ele testemunha ahos que iam no esquife que fosem hobidien- 
tes, e que tirasem hos capacetes, pois ho capitam ho mandaua, emtam 
chegou elle testemunha ao batel do capitam, e como chegou logo ho ca- 
pitam lhe dise que entrasem dentro no seu batel, como defeito entraram 
todos, entam lhe meteo ho dito capitam ho seguro, que já tinha em seu 
poder, na mão que ho lese, e ele testemunha ho tomou e desdobrou, e 
como ho uio com duas esperas delrei noso senhor, e dous asynados do 
senhor governador, dise ele testemunha que pêra que era aquilo mais 
lido, e perguntou a fernam daluares, morador em cananor, se conhecia 
serem aqueles asynados do senhor governador, ele dise que sy, emtam 



1 10 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dise ele testemunha a ho dito capitam que nam avia ali mais que fazer 
que se tornasem pêra a nao ; emtam dise ho meirinho da dita nao que 
ista (sic) junto que poderia aquilo ser falso, e elle testemunha lhe disera que 
se qualase que era muito moso pêra falar ali ; emtam lhe contou o capitam 
a elle testemunha, e a todos que foram no esquife, de como aquela nao 
lhe nam quisera hobedecer a muitos requirementos que lhe fez, nem amai- 
nar, nem mandar ho seguro que lhe pedira, como chegara a ella, nem no 
mandou senam depois que lho trouxeram de terra em huma almadia que 
elle dito capitam chamara que lhe fose falar, e ella nam quisera e se fora 
a nao, e da nao tomara a elle, e lhe dera o seguro, o qual seguro lhe 
Irouiera aquele mouro que o capitam tinha comsygo no batell, o qual 
mouro nam sabia falar cousa que lhe entendesem, senam dise que a nao 
que uinha de mequa, e ho seguro dizia que a segurava pêra adem, que 
fez crer, e asy a todos, que aquele seguro era doutra nao que estava ja 
em qualequ, que viera dadem ; emtam requereo ho capitam presente ele 
testemunha, e hos outros todos a hos da nao que amainasse; elles lhe ti- 
raram logo com frechas, e ho capitam mandou por fogo as bonbardas, e 
elles também logo começaram de tirar, e asy foram hum pouquo com el- 
les, em que lhe tirariam sete outo tiros, e eles também pouquo menos; 
emtam se deixaram ficar indo (sic)^ e elles foram seu caminho, e ele ca- 
pitam se tornou com todos elles pêra a sua nao; e verdade he que, quando 
lho capitam mandou por fogo as bombardas, dise fernam daluarcs que 
nam lhe deuia de tirar, por que em caso que aquele seguro nom fose 
verdadeiro e se ello deixase ir com a nao ate ho porto, que elrei lha man- 
daria entregar se fose de gerra ; e elle testemunha dise ho dito fernam 
daluares que lhe pedia que aconselhase bem ho capitam, por que sabia 
ho costume da terra e que elles nunqua vieram ; e ele dito fernam dal- 
uares disera que asy lhe dezia ho que lhe parecia bem, e do caso mais 
nam se pasou mais em que ele testemunha seja lembrado, eu bras lopes 
que esto esprevi — pêro de paiua. 

Item : aleixo pires criado de manuel de melo capitam da nao santa 
maría da luz, testemunha jurada hos santos auangelhos, e perguntada 
pelo costume, e cousas que lhe pertencem, dise nichell. 

E perguntado pelo caso da ida do batel, em que foi manuell de mello 
á nao dos mouros, dise ele testemunha que he verdade que ele hia na- 
quelle batel com seu capitam, e asi foram ata que achegaram dos mouros, 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 1 1 1 

6 mandou ho capitam que acapeasem a nao dos mouros que amainase, e 
elles nam quiseram ate nam vir buma almadia a eles; emtam como che- 
gou almadia a nao dos mouros emtam a mandaram eles da nao ho batel 
com hum cartaz, o qual lhe perguntou o capitam a ho que trazia ho car- 
taz por que nam amainavam, e por que nam lhe trouxeram logo ho car- 
taz, e ho mouro dise que nam sabia; emtam manuel de melo capitam lhe 
mandou díser que chegase hi ho capitam da nao dos mouros pêra lhe per- 
guntar bem por tudo, e ho capitam da nao mandou dizer que nam che- 
gase nengum a nao, e começaram logo aluoraçarse com todas suas ar- 
mas, e bulir bombardas pêra ahonde vinha ho batel, e asy começaram a 
tu*ar com frechas, e ho capitam quando aquilo vio mandou tirar com as 
bombardas, e elles tam&em abo batel com sua artelhería, com grandes 
apupadas ; e nisto se tornou ho capitam caminho da nao ; e deste caso 
mais nam dise, eu bras lopes que esto espreui. — Aleixo pires. 

Item: symam dabreu escudeiro delrei noso senhor, testemunha ju- 
rada hos santos avagelhos e perguntado pelo costume e cousas que lhe 
pertencem, dise nichell. 

E perguntado pelo caso da ida de manuel de melo, capitam de santa 
maria da luz, no batel a nao dos mouros, dise ele testemunha que era 
verdade que ele capitam se fora no batel a nao dos mouros, e mandara 
ho spriuam da nao que elle, toda a outra gente que coubese, fose no es- 
quife, e este após ele, e que ele testemunha, e os que iam no esquife, 
achegaram onde ele capitam estaua junto com a nao dos mouros, e che- 
gando ho esquife chegando (sic) mandou que se pasasem ho batel, emtam 
amostrara hum cartaz a ho espriuam e a todos, e que aquele cartaz era 
asinado de sua senhoria, e com duas esperas delrei noso senhor, o qual 
cartaz e dito spriuam mostrou a hum homem de cananor, perguntando- 
Ihe se era aquele ho synal do senhor capitam mor, e ho dito homem dise 
que sy ; emtam dise o espriuam que ho gardase, ou pelejase, ou fizese 
ho que quizese, que o tempo estaua pêra tudo que serviço delrei fose, e 
nam se atravesasem diante da nao ; e ho capitam disera que bem lhe pa- 
recia gardaria ho cartaz do capitam mor; emtam ho deu ho espriuam que 
ho gardase, e que ho capitam tynha recado no paraho que trouxe ho car- 
taz, que era custume as nãos dos mouros amainairem as nãos delrei de 
purtugal, e que se elle nam queria amainar que viese o capitam dos mou- 
ros a nao dehei de purtugal pêra de sy dar resam, que nam lhe aviam 



il2 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

de faser mal, mas antes se lhe compríse algmna cousa que lha dariam ; 
e que elles ho nam quiseram faser, mas antre elles auia grande reboliço, 
nam sabe ele testemunha se por medo se por outra cousa, e que ho ca- 
pitam mandou a eles todos tirar hos capacetes das cabeças, dandolhe a 
entender que nam ouvesem medo, e que amainasem lhe requereo ; eles 
nam quiseram ; emlam dise ho capitam que lhe parecya mal nam quere- 
rem amainar da parte delrei, e lhe pareceo que nam devia de ser seu, 
que deuia de ser doutra nao que diante dela iha; entam lhe mandara ti- 
rar, e eles também começaram tirar, e nisto se vieram a nao ; e canto 
hera ho cartaz ele testemunha ho uira na nao sua na mão do capitam, que 
se depois ho deu ho mouro, ou nam, elle testemunha ho nam sabe; e do 
caso mais nam dise: eu bras lopes que esto espreui. — Symão dabreu. 

Item : pêro preto testemunha jurada hos santos auangelhos, e per- 
guntado pello costume, e cousas que lhe pertencem, dise nichell. 

E perguntado pelo caso da ida que foi manuel de melo com ho ba« 
tel a nao de calequ, dise ele testemunha que era verdade que ele vinha 
naquela nao com manuel de melo, e que hum dia ante manhã ouuira ti- 
rar bombardas, e tanger, e sendo ja menhã vira vir huma nao o longo da 
terra malabar, e ho dito manuel de melo jazia em sua camará, e mandou 
chamar a ele testemunhar e lhe perguntara que nao lhe parecia aquela, 
e ele testemunha lhe respondera que lhe parecia de calequ, que vinha de 
mequa, por que auia dous ou três dias que vira entrar em calequ outra 
asy como aquela, com aqueles tangeres e tirar de bombardas de praser 
como aquela; entam ho capitam se uiera ho chapiteo e vio vir a dita nao 
seu caminho direito a elle, dise que seria bom ir lá com ho batel, ele tes- 
temunha respondera que nam, que aquela nao e outra que era chegada 
em calequ, e outra por que esperauam que auiam de ser três que aviam 
de vir de mequa, e que traziam seguros do senhor capitam mor, que nam 
era necesairo ir la batel nem nada: emtam dise elle capitam, e outros 
criados delrei, que na dita nao vinham, asy como ele testemunha dezia 
ser de paz asy podia ser de gerra, que nam se perdia nada mandar la 
ho batell, ele testemunha lhe tornara a diser que nam mandase la ho ba- 
tel, que nam era necesario por que naquella costa toda não podia andar 
nao de guerra, e isto lhe dise ele testemunha, por quanto era homem mo- 
rador na terra e sabia aquilo bem, emtam todavia mandou faser prestes 
ho batell; ele testemunha lhe dise, pois que ho mandais ho batel, mandai 



/ 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 13 

nele alfi^um homem de recado que oam consynta entrar na nao marinhei- 
ros nem grumetes, por que bem sabes como som desordenados ; ele man- 
dou hum homem honrado que uinha com ele, e mandou hum homem ca- 
sado em cananor, disendo ambos que nam consyntisem fazer ma recado, 
se nam que vise ho seguro, e nisto apartandose ho batel da nao sem ele 
dito capitam, rogou a ele testemunha que lhe emprestase hum moço que 
ai trazia elle testemunha pêra Ungoa, ele testemunha lho emprestara e 
nisto fez tornar ho batel a bordo, e meleo ho moço, elle dito capitam 
também se foi caminho da nao, e dise a seu espriuam que ficaua na nao 
com todos eses criados delrei que com ele uinham, e dise que se metese 
no esquife com alguns homes, e que ho seguise, e se fora a nao; e nisto 
chegando ho batel a náo dos mouros, elle testemunha nam sabe como se 
la pasou, senam canto ouuira bombardadas, e pare (sic) a hos da nao 
donde ele testemunha estaua que era de prazer, se nam quando tomou 
ele capitam que souberam a verdade do que la pasara, e traziam hum 
mouro catiuo, que dyziam que era dos que troxera ho seguro na alma- 
dia; e mais nom sabe de certa certeza, eu braz lopes que esto espreui — 
Pêro preto. 

Item: affomso tarouca homem darmas da náo de manei de mello, 
testemunha jurada hos santos avagelhos, e perguntado pelo cuslume dise 
nichell. 

E perguntado pelo caso da tomada da nao, que manuel de melo 
tomou com ho batel e esquife^ dise ele testemunha que estando sobre 
anquora seis legoas de calequ viram vir huma náo o longo da terra con- 
tra calequ, e vendo a nao asy vir mandaua o capitam certos homes no 
batel que fosem ver aquela nao, e naquele estante ho capitam tomou a 
chamar ho batel, e se meteo dentro nele, com a mesma gente que nele 
hia e foram caminho da náo, e em partindo da náo dise ho spriuam que 
se metese no esquife com alguns homes, do que asy ho escripnam asy 
ho fez, e se foi após elle; e, indo asy no hatel ho dito capitam chega- 
ram junto com a náo dos mouros, viram vir huma almadia que uinha do 
terra pêra a náo dos mouros, e ho capitam manuel de melo mandou ca- 
peaar almadia que viese falar com elle, e almadia chegou a nao dos mou- 
ros, e meteo cinco ou seis homes que trazia dentro, e três dos mouros 
vieram na almadia a ho batel a falar com manuel de melo, e entam lhe 
trouxeram hum seguro que deziam que era do senhor capitam mor, ho 

TOMO IH. 15 



114 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

qual ele testemunha vira no seguro a espera delrei noso senhor; emtam 
ho capitam manei de melo tomou huum dos mouros, e ho seguro, e ho 
meteo comsygo no batel, e hos outros mandou que se fosem caminho da 
náo dos mouros, emtam se chegou ho capitam com ho batel perto da náo 
e mandou dizer se estaua hi ho capitam da náo dos mouros, e eles res- 
ponderam que nam e que nam queriam falar com ele porque manuel de 
melo dezia que amanaisem, ou que se fose com ele onde estaua a náo 
ancorada, e eles diseram que nam queriam, que se ello queria alguma 
cousa que se fossem com eles caminho de calequ, porque eles hiam ca- 
minho de qualequ ; e pasado estas razoes chegou ho esquife com ho es- 
priuam e com hos outros homes, e em chegando ho capitam mandou ho 
spriuam e hos outros homes dentro no batell com elle, e ali amostrou ho 
capitam manuel de mello a ho espriuam ho segaro, e ho espriuam pergun- 
tou a fernam daluares^ que he morador em cananor, que se era aquelle 
synall de affonso dalboquerque, e ele dise que sy, e ho spriuam respondeo 
que para que era mais, e emtam manuel de melo mandou a fernam dal- 
uares que se metese no esquife, porque hos mouros tynham grande te- 
mor antre sy, e andauam pondo huma bonbarda contra proa, e quando 
vio isto ho capitam mandou ho dito fernam daluares que dese huma volta 
por derador da náo dos mouros com ho esquife, e elle capitam com ho 
batel pela outra banda, e se ajuntaram de popa da nao, e manei de 
melo perguntou a fernam daluares que per honde tinha ha náo menos 
bombardas, e ho fernam daluares dise que per popa tinha menos, emtam 
ho capitam emdereitose com a popa da náo e mandou por fogo as bom- 
bardas e lhe tirou, e hos mouros começaram também de tirar com as suas 
bombardas e frechas, e indo asy esbonbardeando começou de auiuar ho 
vento, foramse saindo (?) com sua náo, e ho capitam se tornou caminho da 
sua nao ; e asy diz ele testemunha que se nam a6rma bem que uise o se- 
guro na mão de manuel de melo, mas que lhe parece que ho trouxe; e 
do caso mais nam dise. eu bras lopes que esto spreui — Affomso tarouca. 

Item : bastiam deuera gardiam na náo santa maría da luz, testemu- 
nha jurada hos santos auagelhos, e perguntado pelo costume disse nichilL 

E perguntado pelo caso da ida, que foi manei de melo com ho ba- 
tel, a nao de qualequ, dise ele testemunha que estauam sobre ancora e 
viram vir huma náo de mouros o longo da terra e sbombardeando, e nisto 
mandou manei de melo aparelhar ho batel, e mandou entrar a gente 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 115 

toda, e indo ja apartado da nao ho batel, tornou outra vez chamar ho 
batel 6 metese dentro nele, e metido asy dise abo espriuam que se me- 
tese no esquife e que bo segise, e indo asy cbegaram junto bom pedaço 
da nao dos mouros; viram vir huma almadia contra a náo dos mouros, e 
vendo asy almadia mandou manei de melo que Ibe capeasem, que viese 
a bordo do batel, e ela nam quis senam irse a niao dos mouros, e che- 
gando almadia a náo dos mouros tornou logo aonde estaua ho batel, e 
trouxe o seguro, e stando nisto chegou ho esquife com o espriuam que 
vinha nele; e chegando asy dise manoel de melo contra ho espriuam que 
conselho lhe daua, dise entam lede este seguro, e ho esprivam respondeo 
que ho nam queria ver, e nisto tornou a dizer o espriuam contra manuel 
de melo; aves uos ho seguro por bom, e conheces ho synal do capitam 
mor; dise entam manuel de meio que sy, dise entam ho espriuam, ora 
pois uamo-nos, nam estou eu nam se este seguro é da outra náo que uai 
diante, e trouselho aquela almadia; e isto dise manei de melo contra ho 
espriuam, entam dise manuel de melo ho contra mestre que hia no es- 
quife, que fose rodear a náo dos mouros, e que vise por onde tinha mais 
artelheria; e ho contra mestre asy ho fez, e dise que tinha duas bombar- 
daí por banda; enlam mandou aho gardian, qne eh««ase ho balol a popa 
da náo dos mouros, e hos mouros começaramse de aluoraçar, e poer 
huma bombarda por popa da náo, e bolir com arcos e espadas e adar- 
gas; emtam mandou ho capitam coreger os berços, e dise que amaina- 
sem, elles responderam que nam queriam que auiam medo; entam dise 
manuel de melo que nom ouvesem medo, que nam queria saber senam 
se era aquele seguro daquela nao ou da outra; e asy tornou a dizer que 
amanaise senam que lhes mandaria tirar; e hos mouros quando uiram 
aquilo deitaram huma cadea no leme, e começaram a tirar com frechas; 
emtam ho capitam mandou tirar com os berços e nisto começou ho uento 
de uentar, a nao saise, e nisto se tornou manei de melo a náo; e deste 
caso mais nam dise. eu bras lopes que esto espreui — baslyam deuera. 

Item: joam de monsanto marinheiro da náo santa maria da luz, tes- 
temunha jurada hos santos avagelhos, e perguntado pelo costume, e cou- 
sas que lhe pertencem, dise nichill. 

E perguntado pelo caso da ida no batel manei de melo a nao se 
qualequ^ e do que nesto pasou, dise ele testemunha que estavam surtos 
e ouviram tirar bombardas, por que era de noute nam viam quem tirana» 

15« 



116 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

e como foi manhã ouveram vista da nao dos mouros que bia a ho longo 
de terra, e uisto, veudo asy a nao, mandou ho capitam aparelhar ho ba« 
tel, e mandou que fosem la a saber que nao era ; e saindo asy de bordo 
dise ho piloto, se for nao de ma parte aruorai huma bandeira, e iremos 
la com a nao, e nisto tornou chamar ho capitam ho batel, e dise que ele 
queria ir nele, como de feito foi, e alargando asy de bordo mandou a ho 
espriuam que se metese no esquife e que ho segise, e asy se foram ca- 
minho da nao dos mouros ; e indo asy junto da nao dos mouros, viram 
vyr huma almadia de terra, e veo a bordo da nao dos mouros, emtam 
veo logo a bordo também do batel com ho seguro, e nisto diseram alguns 
homes que aquele cartaz veria de terra, e por iso vinha tirando asy, e 
nisto leo o capitam ho cartaz e mandou meter o mouro no batel ; alguus 
homes diseram que aquela era a espera que ho capitam mor pom nos car- 
tazes, e nisto dise maneei de melo a huum moço malabar que levava 
comsigo, que sabia falar, que se perguntasem por ho capitam que nom 
disese qne ia no batel, e asy dise ao moço que perguntase pelo capitam 
da nao dos mouros, e elles diseram que era em terra, e nisto dise ma* 
nel de melo que amanaisem, e elles diseram que nam auiam de amai- 
nar ; e nisto lhe tornou a diser o capitam que se chegase pêra a nao, e 
que se iriam todos, e nisto diseram elles que nam queryam, e nisto che- 
gou ho espriuam com o esquife, e dise ho capitam contra ho espriuam, 
que faremos ; esta nao dise entam ho espriuam traz cartaz do capitam 
mor, dise entam ho capitam que sy, e nisto tornou a responder o espri- 
vam, faça vosa mercê aquilo que for mais vosa honra, e asy dise ho es- 
priuam que saberia bem que nam lhe fizese mal, pois trazia cartaz do ca- 
pitam mor ; entam foram elles com ho batel por proa da nao, e elles co- 
meçaram se aluoraçar dentro na nao, e nisto os mouros pasaram huma 
cadea pelo leme; diseram alguus marinheiros esta nao pOise em som de 
pelejar, que ja pasa a cadea; e nisto mandou manei de melo que tirase 
ho bombardeiro com hos berços; tanto que tirou ho batel elles começa- 
ram a tirar também com suas bombardas, e se ho batel bem lhe tirana, 
bem tirana a sua nao, e também boas frechadas ; e nisto dise ho capitam 
remai avante filhos, e tiraremos este burel, e vestirmosemos de seda, e to- 
mares dos panos pêra as vosas putas ; diseram alguus senhor ja houos (?J 
lenamos, nam que eses custaram dinheiro, e estes nam am de custar di- 
nheiro ; e nisto dise hum homem de cananor, tanto que se ela pos em som 
de pelejar com uosa senhoria logo se condenou, que em todo porto uola 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 117 

entregaram ; e nisto refrescou o vento e foise ; entam se tomou ho batel 
pêra a nao, e asy diz ele testemunha que uira o seguro a ho capitam de- 
pois na nao, e que depois que foram em calequ que ho vira leuar a ho 
capitam na mão em terra ; e do ai mais nam sabia, eu bras lopes que 
isto spreui — De João de monsanto uma cruz. ^ 



1614— Dezembro 14 



Esta carta he para o muyto alto e poderoso senhor Rey de portu- 
gal. Delrei de Cochy. 

João carneiro que ca serve na fortalesa, do tempo de lopo soares, 
e foy a portuga! com tryslam da sylua, pêra se dar a vossa alteza, e tor- 
nou loguo com lourenço moreno feytor, e o comsiguo trouxe por três anos^ 
eu lhe perguntey qua se uivya jaa com vossa alteza, e disseme que cando 
chegara a portugal que era jaa fora do tempo em qne tomaes vossos cria- 
dos, roaes que vosalleza lhe dera pallavra de o tomar o anno que vinha, 
e despois que determinou vir com o dito feytor, que vossa allteza lhe dera 
pallaura que acabados os três anos, que trasia ordenados com lourenço 
moreno, que ho avies por uoso criado; elle tem seruido vossa allteza de 
maneira que me parece qne essa he a menos merece que lhe poderes fa- 
ser, e qualquer outra mayor cabe nelle, por que eu sei e vejo que tudo 
uos merece; e alem disto asy ser peço muito a vosa alteza que o aja por 
seu escudeyro, e eu uolo ey por dado e entregue como cousa minha, e 
asy peço a uosalteza que do tempo que lourenço moreno acabou os três 
annos pêra que vinha ordenado, dahy em dyante vemça o dito joão car- 
neiro ho ordenado que vencem os outros vosos criados que vos pua ser- 
uem, por que eu sey e conheço delle que vos merecee toda merece, e po- 
deo vossalteza encarregar em qualquer cousa de uoso seruiço sobre mi- 
nha cabeça, e esta merece lhe faça vossa alteza per amor de mym. escri- 
pta em cochym a quatorze dias de desembro de 1514. — Assignatura do 
rei de cochim. 

(Em dorso) Pêra o muyto alto e poderoso senhor rey de purtugal, 
dellrey de cochym. — Darse a aluoro da costa, garda roupa.' 

^ Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.', Maç. 17, D. 37. 
» Idem, C. Chron., P. !.% Haç. 17, D. 15. 



118 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1614— Janeiro 7 



Senhoi* — Por que pervemtura hos homes, de que sespera darem 
coDta a uosa altesa das cousas de melaca, podem pasar per ellas, nam 
porque leixem de as emtender milhor e saber como pasaram, os quaes 
em lugar de pidirem merece e satisfaçam do seu serviço a uosa alteza^ 
vos pidirom misericórdia de seus berros, e por yso senbor nam sei cam 
bem vosa allesa delles poderá ser emformado, e por yso senhor quero dar 
conta a uosa altesa das cousas que se pasarom e fizerem em malaca, 
da ida de femam peres pêra quaa, e nam dou conta a uosa alteza das 
outras pasadas por qoe jaa vosa altesa poderá ser sabedor delias, e quero 
toguo começar nas de mais obrigaçam e sustamcia de que vosa altesa tem 
mais necesydade de as saber, por que elias mesmas sejam aquellas que 
requeirom por si o que cumpre a seruiço de' vosaltesa, por que olhe os 
bomes que pêra os taes carregues aues de mandar, e nam sejam ocasião 
de poerem em tanta venturaa as cousas que tanto custam a tomar, e tanto 
releuam a uossa altesa, e que as nom ponhaa no derradeiro fio, como ma- 
laca esteue, por que senhor estas cousas leuemente as poderem comtar 
a uosa alteza ; porem a quem for nisto, tamto como eu creo hira a uosa 
alteza, deuemos todos dar muitas graças ao mui alto deus, por que nam 
be em nos poder rejestir as semelhantes cousas, por qae nosso senbor be 
o que as defende por nos e nam nossas forças. 

Senbor, o mouro que treminou tomar a fortaleza, segundo aquy re-^ 
contarei a uosa alteza, chamauase magilliz, homem muito homrado amtre 
os mouros, e que tinha grande acatamento, de que elrei de bimtam, que 
foy rey de melaca, muito confiaua, o quall mouro elrey de bimtam man- 
dou com buma embaixada a melaca, ao voso capitam delia, que quiria 
paz e amizade com vosa altesa, e sendo aqui vimdo a resposta que de 
uoso capitam de melaca ouue, mandoua ao Rey de bintam, e leixouse fi- 
car dasemto em melaca, e teue tall maneira, por que os capitães das for- 
talesas nom querem comselbo dos outros capitães, que as cousas podem 
entender, senam como tem os semelhantes careguos, loguo lhe parece que 
sabem mais que todos os outros bomes, e fasem o que lhes vem bem sem 
nenhum comselbOi por que bem craro estaua ser cousa mui odiosa^ buum 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 19 

homem tall como heraa o majiliz, emcarregallo Rui de brito em lhe man- 
dar fazer suas casas pegadas com a fortaleza, as quais casas lhe Rui de 
brito encomendaua em tanta maneira, que disia a magíliz, que se lhas 
nam fizese que nam seria seu amiguo, e elle vemdo sua enicrinaçam, e 
o tempo conuenieate pêra faser o que desejaua, tomou diso tall carreguo 
que todoUos dias trasia nelas vinte, trinta, e quarenta melayos, todos bo- 
rnes homrados, que lhe elrey de bimtam tinha dado, pêra o acompanha- 
rem com que fizese o que quizera fazer, e de que elrei de bintam mais 
confiaua ; e o mesmo magiliz por sua maão amdaua hatamdo as canas, e 
paos, e trabalhando como os outros, nam por que nam parecese mall aos 
homes que ho entendiam ; mas elles quando lhes dam os taes carreguos, 
como diguo, nom lhes parece lhos dam senam pollo elles entenderem mi- 
Ihor, e elles com esta imgratidam põem em risquo darem com as cousas 
tamanhas e de lamta importância, como be melaca, no chaão. 

Âsy senhor que vendo este mouro e tempo que ho ajuda, e ha pouca 
jemte que em melaca a este tempo auia, por toda ser fora, por que nam 
avia em melaca mais que bobra de sesenta homes, e homais delles doen-^ 
tes, e nos tynba bem comtados, por que nos amdaua polias pousadas, com 
achaque que fasia as casas ao capitam^ andaua com nosco mistiquamente, 
de maneira que haimda que ho homem achase a porta da fortalesa com 
cincoenta nem sesemta homes, nam sespantaua disso, atee que chegou 
tantas veses com sua jemte a fortaleza, e vio que lhe nam forom a mão, 
emcheo huum chunam beijo, que be da feiçam de huum quofre, de cri* 
ses e betere (?) em cima, e emtrou na fortalesa ha dar comta a Rui de 
brito das casas que lhe fazia, e asy com achaque de humas cortinas deli- 
rey de bimtam, que sabia homde estauom, que valiam doze mill calais, e 
asy ao feytor pêro pereira (?) que sabia homde estaua huma moça fre- 
mosa, que mandase a cidade huum homem por ella, o quall homem hera 
ho mesmo sinall que elle tinha dado aos outros que estauom na cidade, 
que como Uaa visem que soubesem certo que estaua em tempo pêra fazer 
o que tinha treminado. 

E asy senhor como emtrou foy loguo direito ha casa do capitam, e 
achou que durmia, e nom lhe pode fallar, e loguo se sayo e se foy a casa 
do feitor, e vemdo que a casa do feitor estaua sobre a porta da fortallesa» 
e que dally pudia ser mais senhor delia pêra sua jente emtrar, fazendo 
fundamento que com as armas que estauom em casa do feitor, e do al- 
caide moor, que hera parede em meio huma com a outra, e em casa do 



120 CARTAS DE AFFONSO DE. ALBUQUERQUE 

alcaide moor estaoam noue ou dez mouros presos, delrei de biutam, os 
quaes ja tinha fala do magiliz que tanto que elle dese no capitam, ou no 
feitor, que elles desem no alcaide moor e asy o fezerom. 

Asy senhor que em o magitiz estando falando com ho feitor arram* 
cou de um cris e o tamchou nelle, e o feitor como se sentio ferido mortal- 
mente, asy com a morte saltou pela porta fora dizendo treiçam, treiçam, 
e á porta da fortalesa nom estaua senam huum soo homem, que era por- 
teiro com ho postigo aberto ; e nisto os mouros que estauam a portaa co- 
meterom emtrar, e derom duas crisadas ao porteiro, o quall asy ferido 
deu de mão ao postiguo, e certo senhor crea vosa altesa que milagrosa- 
mente se fechou o postiguo em lall maneira, que depois as pancadas o 
nom podiam abrir, em o que nam he de duuidar ser este milagre bem 
evidente, e noso senhor nos mostrar bem crara sua misericórdia. 

E tornando senhor a meu propósito os mouros que estauom presos 
em casa do allcaide, moor tanto que sinlirom o feitor morto remelerom 
a porta da camará do alcaide moor, e matarom dous homens que hay 
com elle estauam, e elle escapou tendo jaa tomado todallas armas dam- 
ballas casas, e sentindo a nosa jente este aluoroço começamos dacudir e 
cercamos todollos mouros que estauom dentro, por que quando virom o 
postiguo fechado, e que a sua jemte nom entraua, desacoroçoarom e nam 
saltaram no terreiro como tinham treminado, de maneira que hally os 
matamos todos, e os outros que o magilez tinha fora, quando vyrom que 
nam pudiam entrar, fugirom, a em fugindo matarom cinquo ou seis homees« 

E neste tempo senhor eu me fuy a ponte, que he por onde pasam 
da fortaleza para a cidade, e os mouros da cidade queriam pasar pêra a 
fortaleza, por que lhes capeauom da terra da menagem mouros que nela 
andauom trabalhando catiuos, mostrando sinal que estaua jaa a fortalesa 
pelos mouros, e em vendo que a cidade amdaua toda leuantada, man- 
dei dizer a Ruy de brito que seria bem mandar ha cidade, por que se 
mais nam leuantase, per que hamdaua huumjemro do magiliz, com obra 
de cem homes, dizendo que a fortaleza eslaua ja pollos mouros, que acudi- 
sem todos a ella, e elle nos mandou, ao alcaide moor e a mym, com obra 
de cinquenta homens, e como nos virom hir os que andauam com o jemro 
do magiliz fugirom, e nom quisemos fazer aluoroço, por que a jemte hera 
tanta que fugia, que se começáramos a matar, em que a nossa jente bem 
o desejauaa, porem fora de maneira que nam ficara ninguém na cidade e 
nunca jaamais erguera cabeça. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 121 

Asy senhor que hiamos bradando mais por paaz que por guerraa, 
poUo que cumpriaa ao serviço de vosa altezaa, e prouue a deus tomarse a 
cidade ha pacificar, querendose lembrar de nos porque estauamos postos 
em tanta agunia, polia pouca jemte que neste tempo em malaca auia, por 
que ha mais delia hera em duas carauellas, e chaupanas a bintam, a pi- 
dir dous homes nosos que elrei de bintam llaa tinha, e o mesmo magi- 
liz ordenou com o capitam que mandase Ha as carauellas, pêra fazer o 
seu mais a sua vontade, e mandou auiso a ellrei de bintam que tiuese 
maneira como tomase as carauelas, por que ello teria ja a fortalesa to- 
mada, pêra que nenhum nam escapase como de feito senhor as carauel- 
las correrom risco, por que sairom a ella multidam de fustalha. 

Asy senhor que lhes foy necesario faseremse a uela, e se toma- 
rom caminho de malaca, e loguo nas suas costas vierom trinta e duas 
lamcAaras, que sam como barcas pequenas, que elrei de bintam mandou 
a saber do que hera pasado em melaca, e quando acharom noua que ho 
magiliz hera morto, e a outra jente, por que nam viesem debalide detre- 
minarem queimar a cidade, por que tinham sabido que nam estauamos 
jemte mais que pêra guardar a fortaleza; por que asy como as carauel- 
las chegaram de bintam, asy as tomou loguo rui de brito a mandar ca- 
minho de muar, que sam seis léguas de melaca, a tomar homes nosos 
que llaa andauom cortando madeira ; e os mouros asy como vinham se 
mostrarem de dia, e surjirom á vista da cidade, e da fortaleza, e toma- 
rem hum homem noso por onde milhor forom emformados da jente que 
estaua em melaca. 

E estando elles asy senhor ã vista da fortaleza, como diguo, fugio 
huum mouro dos seus pêra nos, e ueo dar auiso ao capitão como elles 
queriam queimar melaca; e sendo rui de brito havisado me mandou 
chamar, perguntando que era o que me parecia, e eu lhe dise que todas 
as cousas que herom contra nos aviamos de crer, visto o tempo estar des- 
posto para se poder fazer ; e elle vendo ysto me mandou a cidade com 
cinquoenta homes, a metade delles doentes e desarmados, a guardar a 
cidade, prometendome como capitam que hera que elle me soccorreria, 
ou me mandaria socorrer, o que elle fez bem pollo contrayro, por que 
tanto que vio ho foguo ouuemos loguo todos os que heramos na cidade 
por entregados a fortuna. 

E elle, como pastor que se doia pouco das suas houelhas, e do ser- 
uiço de vosa altesa, em vez de fazer o que hera obrigado, lembrouse mais 
TOMO m. 16 



122 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

de mandar naquele mesmo dia de mandar fazer fazer (sic) a filha do ma-^ 
geliz chrístaã, a qual teue comsiguo aquella noute. 

Estando senhor asy com esta jemte como a uosa altesa digo, no 
quarto da modorra veo toda a fustalha, e vinham em duas batalhas, huma 
por terra e outra por maar, e derom na grita em que parecia muita jemte, 
de maneira senhor que hos que vierom per terra poserom loguo foguo em 
humas casas de huuns pescadores, que estauom apartados da tranqueira 
da cidade, e quando a nosa jemte vio o foguo, e a jemte andar em terra, 
e a fustalha que vinha pelo maar, fogirom, que nom ficarom comigo mais 
que vinte e dous homes, com os quais remetemos a elles quando vimos 
que elles queriam desembarcar, por que nam conhecesem em nos fraque- 
zaas, e saymos a praya fora da tranqueira, e elles quando conhecerem 
que heramos portugueses sestiveromse e nam desembarcarem ; e neste 
tempo nos acudio o filho de catuaa o mais velho com cem homes ; e este 
catua senhor he como gouemador dos mouros, a qual jente nos meteo em 
aluoroço, por que cuidamos que nos dauam nas costas, e des que os co- 
nhecemos folgamos muito com elles, de maneira senhor que na grita cui- 
dauam os mouros que heramos todos portugueses ; prouue a nosso senhor 
quebrarlhe os corações, e se forom sem fazer nenhuma cousa. 

E certamente senhor bem parece ser dino de mercê quem tinha tam 
pouca obrigaçam socorrer a tal tempo, e fasello tam bem como se delle 
nam esperaua, porque prouera a deus que asy o fezera Rui de brito, e 
husara comiguo da maneira que me elle ficou ; e por que elles sabem que 
vosa altesa he sabedor dallgumas cousas que elles qua fazem por vosso 
serviço, mandarlhe (sic) vosa alteza diso agradecimento por carta uosaa, 
pêra que vosa altezaa obrigue fazerem outro o semelhante, ainda que seus 
corações sejam imcrinados a serem contra nos; e seu pay he morto, bem 
lhe pode vosa alteza faser mercê do hoficio do pay, que he o nome que 
elles tem mais por honra, que per outra cousa, e desta maneira lhes hira 
uosalteza amolificando os corações, pêra que nam sejam danadores das 
cousas de seruiço de vosalteza. 

Asy senhor que tornando a meu propósito, pêra uosa alteza ver a 
imcrinaçam de Ruy de brito, quanto procuraua e olhaua polias cousas 
de seruiço de vosa alteza, que no próprio dia que matarem o feitor, que 
se a fortalesa ouuera de tomar, tinha comprados oytenta ou cem míU 
gantas darroz alujados em seus gudoes, esperando a moor valia, e vendo 
elle a disposiçam do tempo que podia vender o seu arroz mais caro que ., 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 123 

em outro tempo, homde se dauom na cidade quinze gamtas por dez ca- 
lais, maudou abrir seus gudões, que saam com logeas, e que desem sete 
gantas por dez calais, que he menos de huum alqueire, e em dez calais, 
correndo polia nosa moeda, se montam cento e trinta e três reis, com- 
prando elle setenta gamtas a cruzado. 

Âsy senhor que quando os mercadores virom aleuantar o preço dos 
mantimentos menos a metade, e sabemdo que hera do mesmo capitam, 
çarraramse em tal maneira, que nam pudiam achar dez gantas por hum 
cruzado, e depois que teue uendido todo o seu, começou o pouo a cramar 
que nam tinha que comer, e os chatis e mercadores, vendo que quem 
auia de buscar ho mantimento pêra terra os resgataua, e fazia tam mall, 
diziam que se queriam ir de malaca, pois mandara vender o seu arroz 
sete gantas por dez calais, por que depois que gastou o seu, mandou aos 
mercadores que desem dez, agrauauamse todos em grande maneira. 

Ásy senhor que nenhuma cousa nam denefica tanto a terra de me- 
lacca como os mantimentos, por que de huma mão pêra outra sam mui- 
tos e poucos, e ysto faz nam os auer na terra senam quanto vem de fora; 
e por yso senhor melaca tem necesidade domem que agasalhe bem os 
mercadores, e lhes saiba faser homra e gasalhado, o que nam pode fazer 
o capitam que tem os gudoes cheoz darros pêra vender três gamtas a 
cruzado, se poder ; nom sei como este tall fará homra aos mercadores que 
trasem ho mantimento a terra, em que desfasem em seu proueito, por 
que em portugal nam vejo eu desejar o anno caro, senam quem tem 
muito trigo pêra vender. 

Âsy senhor que, se queres malaca gramjeada e nobre, he necesario 
irdes a mão com cedo aos capitães dos tais carregues, e nom lhes con- 
sentir vosalteza que tratem em os mantimentos, nem em outra nenhuma 
cousa, por que he melhor dobrarlhe vosaltesa o soldo, asy ao capitam, 
como feitor, que leixallos tratar, por que he cousa mui odiosa e danosa 
pêra melaca, e seu asemto, e destruiçam da fasenda de vosalteza porque 
estaa na mão do capitam, como quer que for imcrinado a cubica, faser 
a terra cara cada vez que quiser ; por que cumpre a serviço de vosal- 
tesa, polia necesidade que tem dos mercadores, leixalos tratar e comprar 
as mercadorias, e nam atravesarlhas, e nam lhas leixar comprar como ate 
qui se fez e custumou, e ainda se fora onestamente fora menos mall, por 
que milhor parecera quem tem o semelhante carregue, quando a terra 
estiuese em tanta necesidade de fame, comprallo a custo de vosa allteza, 

16# 



124 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

6 dalo por hesa jemte da cidade que estava em mais necesidade, porque 
ainda que vosalteza niso perdese, polo anuo e tempo o gaoha na mesma 
terra. 

E certo senhor milhor parecera a Ruy de brito em tempo de ta- 
manha estrelidade de fame, como foi no tempo que patequiter nos fazia 
a guera^ que valerom três gamtes darros hum cruzado, e neste tempo 
cheguou aqui a melaca huma pangajada de queda carregada d arros, nom 
fora mali tomailo a custo de vosa alteza e repartillo por hesa jente da ci- 
dade, porque os capitães que tem a tali obrigaçam ham de buscar ma- 
neiras pêra soster as terras tam desbaratadas como esta ficou, e nam fora 
muito fazemdo elie asy lançarse toda a jemte que tinha patequiter com- 
nosquo^ pelia grande fame que auia entre elles, e que pudera ser azo e 
maneira pêra auermos patequiter as mãos, porque estes gastos desta ma- 
neira muitas veses se tomam em proueito, o que certo senhor fora mais 
seruiço de vosa alteza que nam comprar a maior parle do arroz que a 
panjangada trazia pêra o vemder e fazer nelle muito dinheiro, como ho 
fez, e o vendeo todo três gamcas a cruzado, e nom abastou fazer mall aos 
mercadores da terra, e asy toda a outra jente, mas ainda agravou em 
tanta maneira os mercadores da pangajada que nunca mais tornarom a 
melaca aqueles, nem outros daquella terra, que he terra de muitos man- 
timentos do regno de siaam; e asy como ho fez a estes asy o fez a ou- 
tros muitos mercadores doutras partes; asy senhor que per aqui vera uo- 
salteza que os capitães, que as semilhantes cousas fazem, como sam de- 
sejadores de conseruarem as terras que tanto releuom a serviço de vo- 
salteza. 

E certamente senhor jaa eu vi capitães, nos tempos das gueras e fa- 
mes, os capitães em prouecerem, e nam imriquycerem como Ruy de brito 
ho fez, que emríquiceo, he ouue quanto dinheiro quis a custa dos coita- 
dos dos portugueses, e dos mercadores da cidade, por que senhor pasou 
desta maneira que direi a uosa altesa. 

Sethor, o capitão mor afomso dalboquerque quando se foy de me- 
laca leixou aqui ordenados trinta calais por hum cruzado pêra sustimento 
da jente, e foy a moeda das caixas em maneira que se soUtarom a dar 
sesemta, setenta calais por um cruzado, e o respeito disto senhor hera es- 
tarem cada dia com ho pee nestribeira pêra se hirem viuer a outra parte. 

E Ruy de brito senhor vemdo isto como homem que trazia o cuidado 
em fazer seu proueito, trazia homes polia cidade a trocar, atee que ouue 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 125 

a sua mão muita soma, aquela que elle quis, e tanto que as teue apa- 
nhadas mandou lançar pregam polia cidade, sob grande pena, que nin- 
guém nom desse mais de trinta calais buum cruzado, nem tomase, e asy 
tornou a gastar e trocar todalas caixas que tinha trinta calais um cru- 
zado, e isto fez per certas vezes em que ouue quanto dinheiro quis, por 
que estaua em sua mão; e asy o dinheiro que aos mercadores daua a ga- 
nho, quando lho tornavom, nom lho tomaua senam a resam de sesenta 
calais por cruzado, e asy ho ganho, disendo que asy valia na terra, e em 
melaca nam se faz nenhuma conta por cruzados, nem serafís, senam por 
calais, e quem tinha conta em dez mil daua vinte mill, e asy hiam mul- 
tiplicando suas contas em toda soma, e os mercadores que disto se agra- 
uauom apelauom pêra o seu mafamede. 

E quando elle senhor estas cousas fes, e outras muitas, acabou a 
torre com os portugueses que carretarão a pedra as costas, e por satis- 
façam de seu seruiço e trabalho lhes lançaua mui boas bragas nas per- 
nas como negros, e dizia que Ibes daua mao grado (?) quando lhe alega- 
uam alguns seruiços que nam seruiam a elle. 

Asy senhor, beijarei as maOs de vosa alteza, quando lhe Rui de 
brito falar em melaca, mostrar! he vosa ai tesa esta carta, por que com a 
torre que elle acabou lhe parece que emcubrira estas cousas, e certo se- 
nhor que, pois os homes aguora fojem^ milhor fugirom quando lhes lan- 
çavom as bragas, se lhes parecera que os llaa recolherem por ellrei de 
bintam em seu tempo nam estar com os jaaos reformado como agora, e 
também porque lhes nam parecia lhes fariam la tam baxa companhia como 
lha guora fasem; asy senhor que pello capitam fazer as vezes mais por 
tençam que por ser justiça, e quererem seguir seus pitites que nam tra- 
sem ramo de fruto, porque sabem que he tam longe daquy a portugall, 
pêra que lhe vosa alltesa vaa a mão, e tantas vezes o poderem faser se 
os leixarem pasar sem emmenda, que darom com as tamanhas cousas que 
tanto custam a tomaar a traues, porque, tanto que sam mytidos nos se- 
melhantes careguos, cuidam logo que lhes ficou de seu auoenguo, e fa- 
zem as cousas hisemtamente e de cabeça, por as suas quintas pêra sua 
fasenda multipricar querem conseruamento (?) quanto mais as tais cousas 
que se querem governadas com tanto siso e tanta paciência, e darem pa- 
sada a muitas cousas, por que nam estamos na rua nova de lixboa, pêra 
que nos auorreçam buuns e nos contentem outros; e pêra comseruar se- 
nhor estas cousas ha mester siso mais que segurem suas vontades, qtie 



136 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

trasem escamdalo e danifícamenlo do seruiço de vosa alteza, porque nam 
sei quanto seruiço de deus e noso he ter elrei de biutam ja dez homes 
nosos, e isto causam os homes da imcrinaçam de Rui de brito, que sam 
ÍDcrÍDados a muitaas cobiçaas, que uam lhe lembra mais seuam o dinheiro 
e paõ que ham de leuar pêra portugall, asy bem ganhado como mall ga- 
nhado ; ho capitam moor senhor ho leixou aqui por gouernador, mas eu 
chamolhe o seu nome verdadeiro, que he desgouernador do uoso seruiço, 
e fazendo e por uenlura senhor dirá elle a uosa altesa que nam teue po- 
der em vosa fazemda, e dirá verdade, porque pêro pessoa hera prouedor 
de uosa fazenda ; porem senhor mmha tençam nam he falar nesta fazemda, 
por que a fazemda de vosa altesa nam he mais que ho azo que lhe dam 
pêra ella a multipricar, e se acharem nella as cousas dobradas e ricas, 
como se acharom na sua mão, asy senhor que elle dirá a vosa altesa que 
nam ganhou quorenta ou cincoenta mill cruzados, que elle leua, com uosa 
fazenda, por que elles como ha nom tomam da vosa feitoria, e nom olham 
que atrauesam antes que ella chegue ao porto, e que atirom a uosa fei- 
toria, e nam a compram á uontade dos mercadores, de maneira que fa- 
sem duas perdas a uosa altesa^ huma que vos tirom o que compram a 
uosa feitoria, e a outra nam a quererem mais trazer a terra poUos agra- 
vos que Ibes fazem. 

Asy senhor que toco nestas cousas a uosaltesa domde pegam, nam 
por que jaa se posa emmendar ho pasado, senam pêra o presente se aui- 
tar, pêra se uosa altesa ouuer de mandar prouer melaca de capitam, Ibe 
representar estas cousas todas meudamente, e asy o tratar, e poerlhe uo- 
saltesa diante, se o feser bem será dino de muita roerce, e se o mall fe- 
zer, de muito gramde castigue, pêra que seja e será muito pêra nos ou- 
tros que vierem verem a mercê de seu seruiço, e asy o castiguo quem 
quer que o merecer; asy os outros que vierem faram da necesidade vir- 
tude, se comtudo os nam obrigar a faserem o que deuem, terom respeito 
a mercê, e asy medo ao castiguo quando quer que fezerem, por que e 
como elles souberem que esta comta lhe ade ser bem tomada, nam farom 
senam o que cumprir ao seruiço de vosaltesa, mesmo antes, onde quer 
que ouuer o seruiço de uosa ali tesa, elles o esgrauatarom, por serem di- 
nes da mercê que esperam, e nam viram qua como vemdimadores que 
vemdymam o que os outros fazem, por que mais cumpre a vosa alteza 
ter qua homes dos taes carregues serem antes meadores que vimdimado- 
res, porque o lavrador quando semea pêra sy e para outros, e o que ven- 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 127 

díma nam vendima seDam pêra sy, como fez Ray de brito, e se vosa ai* 
tesa lhe mandar lançar a rasoira, bem fará o gasto a malaca de um anno. 

Senhor, depois da vinda de Jorge dalboquerque a melaca, fomos so- 
bre bínlam, em que omde ellrey que foi de melaca estaa, o qual por auer 
três annos pêra se fazer com a guerra que nos fez patequitir, que nos 
daua bem persiguiçam, nam pudemos hir por elle, e depois que nos lei- 
loa patequitir, e elle com suas manhas e morelidades, em que elle he 
manhoso, começou a requerer pazes e que quiria ser uasallo de uosa alteza 
e elle como homem sabedor tinha homes em melaca, que lhes espreuiam 
todallas cousas que se pasauom antre nos, e como quer que foi emfor- 
mado ao que nos heramos mais imcrinados, pareceolhe que tinha a paz 
bem certa, começou com seus presentes e suas dadiuas, que he cousa que 
mais quebranta os corações de nos outros, a uirem fazer de nos o que 
quiserem, como senhor elle fez tudo o que desejaua. 

Âsy senhor que teue tempo e espaço pêra se fazer forte quanto elle 
quis, que forom três annos, asy senhor que quando aguora fomos sobrelle 
ho achamos de maneira que lhe nam pudemos fazer nenhum nojo com a 
jente que hiamos. 

E asy senhor, estando sobrelle, tomamos dous juncos, em que acha- 
mos noua certa, por cartas que vinham de jaava pêra elrei de bintam, 
que patê nur (?) e patequiter se fasiam prestes pêra vir sobre nos com 
quatro centos nauios de remos antre grandes e pequenos, em que dizem 
que traziam duas gales e seis caranelas, e esta noua senhor temos ; asy 
bem pode ser ser a metade verdade. 

E porem crea vosalltesa, pois disem que trasem nauios de remos, 
nos parece que ham de vir, porque sabem que o que matou patê nur foi 
trazerem juncos grandes, e patiquiter como homem sabedor que bem sabe 
a terra, que como quer que trouxer navios de remos que os pode meter 
onde quiser sem lhe fazermos nenhum nojo, e elles poderom ter a terra 
por suaa, por ser muita jente, e prazerá a deus que os metera o seu mafa- 
mede em lugar homde lhes façamos, como fesemos aos de patê nur; vosa 
allteza mandenos llaa emcomendar a deus, por que nossas pessoas e von- 
tades prestes estam pêra fazermos voso seruiço. 

E asy senhor que, quando vimos que lhe nam pudiamos empecer 
em nada, nos tomamos, e nos viemos fazer prestes com heses poucos na- 
uios que qua temos, pêra nos nom tomarem com as bragas aos giolhos ; 
08 nauios senhor que ao presente lemos em melaca, he huma nao que se 



128 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

fez Dâ índia, de dozentos tones, e o bretam, e sam cristouão, e hum na- 
nio que se fez em cochim, que se chama samtamdre, e huma carauela e a 
galé sam migell, em que eu a três annos que siruo uosaltesa nela, como 
ou como nam vosalteza o pode bem saber. 

E praza a deus senhor que desta noua dos Jaaos, que aqui dou 
conta a vosa alteza, eu seja mimliroso, e que nunca os qua traga, porque 
cada vez nos vam mais perdendo a uerguonha e o respeito, disto senhor 
me parece ser poUo pouco socorro que nos ata qui aimda veeo, porque 
ho capitam, quando se foi pêra imdia, nos dise que nos mandaria nãos e 
jemte, como compria a melaca, e passou ho primeiro anno, e o segundo, 
e o terceiro, e por deradeiro nos mandou aguora jorge dallbuquerque 
por capitam, e cem homes com elle, todos mall corregidos e mall arma- 
dos, porque parecia ao capitam moor que tínhamos paz, e asy por ter 
outras acupaçOes que ho acupam a nom poder mais fazer; asy que me 
parece que emquanto nom vierem nãos a melaca, e jente, sempre os 
mouros bam de ser danadores do asento da terra, porque hai vemos nos 
que vem cadanno a Imdia dose ou quinze nãos grandes, e com muita 
jemte, e nam pode abrandar suas maas vontades, senam sonharem como 
nos \iamde botar fora da Imdia, semdo elles a todas estas cousas presen- 
tes cada anno poUos seus olhos. 

Que fará melaca, que haa três annos que nam vem as cousas a ella 
senam por encomenda, que huum dia dizem que tomarom o capitam 
moor, e que lhe tomarom as nãos, e outro dia que saam as fortalezas to- 
madas, e que nam temos ja a mais (?) náo, nem mais socorro senam o que 
temos ao presente, asy que se vosallteza deseja de asentar as cousas que 
requero nella, e que cumpre a vosso seruiço, á mester que venham nãos 
a melaca, e asy mandar vosallteza ao capitam moor que proueja jaa esta 
vez de necesidade, que venha sua própria pessoa, e asy a frota que elle 
traz, pêra vir correger as cousas de melaca, pêra que os mouros e gran- 
des senhores darredor de melaca, que vam contra voso seruico, que 
quando quer que berrarem, que asy como vem aquella armada, que asy 
poderá vir outra, e asy que vosa allteza que he poderoso pêra dardes 
castiguo a quem quer que vos berrar, e for contra vosso seruiço, e asy 
poderoso pêra quem merecer mercê, fazerlha o vosso capitam mor, e posa 
fazer em nome de vossalteza. 

E asy compre a uosalteza, a huuns castígalos, e a outros darlhe do 
uoso, porque hesa perda ao lomge se torna em ganho, e desta maneira 



DOCUMENTOS ELUaDATIVOS 129 

se tornara melaca a reformar, que nam vir huam anão huum naaio, e 
outro anno Dam vir nada, asy senhor que melaca nam he pêra misericór- 
dia, senam sempre estar uosalteza com a espada sempre maa pêra os 
mallfeitores, e ella com misericórdia pêra qaem quer que quiser uosa 
amisade, porque no mundo todo nam ha mais malluada jemte, porque he 
certo morrer huum homem por matar outro, ainda que saiba nam se sal- 
uar, e sempre cuidam treines e roimdades contra; e asy senhor como 
toca a vosalteza nos mouros, asy vos toco nos portugueses porque sam 
obrigado a uos mandar dizer aquellas cousas que trazem dano ao seruiço 
de deus e ao de vosalteza. 

Senhor os homes de melaca sam dinos de uosa alteza lhes fazer 
mercê, quando quer que vos representarem seus seruígos, por vos ajuda- 
rem a tomar e soster as cousas tamanhas e tam homradas, de que vosal- 
teza tanto guosto leua, e ysto com muitas fames, pêra sustimento de suas 
vidas; porque crea vosa alteza que foi tamanho o trabalho em se faser 
a fortaleza, polia pedra que nam auia, porque a traziam de tam longe, e, 
o que hauiam de fazer em três meses, faziam em huum, porque asy hera 
nece^ario, e doutra maneira nom se fesera, e o capitam moor escaldado 
doutras que começou, que daua tamanha presa, que de dia e de noute 
trabalhauamos em tall maneira, que com o trabalho e a terra noua, homde 
viríamos a melaca mili e centomes, adoecerom todos em tall maneira que 
nam auiría ahy dozemtos homes saãos, e neste tempo ha fortaleza hera 
jaa posta em booa altura, e ellrei de melaca que agora he rei de bintam, 
como homem pouco guerreiro, cheo mais de vicio de molheres que de 
saber a guerra, medroso de nosas boombardas, e de nosos tiros (f)^ se foy 
e nunca mais tornou sobre nos, porque se elle fezera o que fez pati quitir 
por derradeiro, loguo á primeira nom se fesera a fortaleza em melaca, 
porem noso senhor como quer que sabe que vosalteza nam amda senam 
polia estrada direita despendendo vosas nãos, e jente, e artelharia, por 
quebrantamento da lei fallsa, e feé de mafamede, lhe deu tall espanto, 
que, honde heramos mill, lhe parecíamos três ou quatro mill homes, com- 
fesado per elles; asy senhor que temos boom medeaneiro por nos, como 
quer que elle for por nos, ninguém nom será contra nós. 

É asy senhor que tomando a minha concrusam acerca dos homes 
que seruirom vosallteza nestas couzas, e em outras muitas, como boos 
vasalos fasem a seu rei^ seruirom vosalteza leallmente, por onde lhes pa- 
rece que seus seruiços nam haam de ser mortos ante vosallteza, senam 
TOMO m. 17 



130 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

uioos, e porqae lhes parece que temdo agoora mais trabalho, e fazendo 
mais fortalezas, e sbgigam mais terras ha obediência de vosallteza, do 
que faziam no tempo de dom framcisquo dalmeida, auendo vosalteza em- 
tam por bem leuarem emtam o seu solido e quintaes ordenados por anno, 
e elles vem agora que vosalteza lhe manda tirar os quintaes, que he cousa 
sobre que elles mais escorauom, porque ho soldo ou parte delle. gastam 
em voso seruiço, em armas e concertos pêra guerra; asy senhor que vem 
aguora que vosa alteza lhos tira de todo, andam agrauados e desguostosos 
por verem que quem mais serue menos galardam ha, asy que vosalteza 
nam erguese nem abaixase senam o que dantes tinham, e asy com ysto 
andariam contentes como dantes andauom, e nom seria muito senhor 
com ysto, e com outras cousas, porque vem que nom podem leuar nada 
pêra portugall, porque faziam estes homes dos quintaes raiz, e do soldo 
movell, que ainda que despendesem o soldo, faziam conta que la lhe 6- 
cauom os quintaes, vem se aguora que hos nam ajudam huum nem ou- 
tro, nom será muito dcsnaturaremse os homes de suas naluresas, e hirem 
catar quem lhes dee solido pêra tomarem outra vez a fazer a guerra a 
uosa alteza, porque elrei que foy de melaca nam os manda comuidar (?) 
senam com molheres formosas, e solido per heses que ja la tem, porque 
per elles he sabedor destes desguostos e agrauos. 

E asy senhor que vemos que hos capitães, que pêra os tais carre- 
guos vem, sabendo estas cousas todas que represento a vosallteza, em 
vez de terem respeito aos homes de tam boom seruiço, que sam pesoas 
pêra sermrem os ofícios e carregos, vemos que tem mais respeito aos que 
trasem comsiguo, que aqueles que também seruirom; asy senhor que 
também isto he caso pêra que obrigue o outro, pois senhor, seruiço de 
deus e de vosalteza, he quem laura a terra semealla, asy senhor que 
quem gasta o seu na guerra, em defensa e sustemento delia, rezam he 
que na paz lhe dem os ofícios ou carreguos, como quer que for sua pe- 
soa, e porque as cousas mall feitas tem emmenda em vosalteza, por iso 
senhor toco nellas. 

E asy senhor também vejo que ha quaa muitos grometes que ser- 
uem nas nãos por marinheiros, e seruem em o que os marinheiros ser- 
uem em portugall, porque nam ha nenhum destes, que tornase a portu- 
gal, que o não fízesem loguo marinheiro, e o capitam moor pola necesi- 
dade que qua ha de marinheiros nam os leixam ir pêra portugall, e nam 
lhes dam mais solido do que trouxerom de gorometes, e as nãos se ma- 



DOCUMENTOS ELUCTOaTIVOS 13Í 

ream mais quaa com estes qae com os marinheiros que de portugall vem ; 
asy cramam e bradam, e que se lançarom com os mouros, pois seruem 
em ofícios de marinheiros, e nam os acrecentam, e deles se lamçam jaa 
com este achaque; asy senhor que mande vosalteza prouer isto, que o que 
for pêra marinheiro aja o solido de marinheiro, e o que for pêra goro- 
mete, de goromete. 

E asy senhor tem uosalteza necesidade de bombardeiros, porque 
hos nam haa quaa e ha y homes poriuguezes que se querem fazer bom- 
bardeiros, que sam pêra iso, e nom lhes querem dar ho solido que lhes 
dam em portugall, mande uosalteza que lho dem, pois delles tendes ne- 
cesidade. 

E isto senhor espreuo a uosallteza saanmente, e que prazaa a deus 
que todos espreuam, pêra desengano de uosallteza, e seruiço de deus e 
vosso. 

Âsy que pêra dar conta miúda a uosalteza das cousas de malaca, 
de que me parece vossa alteza follgara ser sabedor, nam se pode fazer 
menos leitura, pêra uosalteza ser bem emformado, nam pêra que se uosal- 
teza crea per mym, mas, com esta e com as outras, se emforme vosal- 
teza, e olhe bem as cousas de melaca. porque he grande por qua, e tem 
grande bojo, e tudo gasta, e ha mester quanto a ella vier, porque tem 
muitos furos per onde gasta todallas cousas que a ella vierem; asy se- 
nhor que he dina e merecedor vir a ella hum grande homem, com poder 
pera gramjear, porque certefíco a uossallteza que ella he pessoa que ho 
agasalhara como cumpre, porque lhe dará tanio que fazer, que nam ajaa 
ahy auciosidade semdo elle o que deue. 

E asy senhor me parece, segundo tenho vistas as cousas de melaca, 
e o que a terra requere, e asy por emparo dos nauios que nella estam 
pera que nam pereçam de seus aparelhos, porque deferente he ho mandar 
do capitam e saber as cousas que pera elle pertencem, pera ao que estaa 
antre as paredes, e isto senhor huumas vezes polias outras nos casos dim- 
purtancia porque me parece que será grandasento pera a terra, e asy 
pera os portugueses lhe terem mais acatamento^ porque lhes parecera 
quem lhe veja seus seruiços, pois esta presente, o que nam fazem aos ou- 
tros que lhe nam podem faser mal nem bem. 

E asy mesmo senhor me parece cousa nrayto hodyosa pera melaca 
e tratar de capitam, e feitor, e ofíciaes da feitoria, aos quaes vosallteza 
detie de defender expresamente que nom em nenhuma cousa, e antes lhe 

17 • 



132 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

deae de dobrar o solido porque he ocasiam de grande perda da fasenda 
de uosalteza, e danificamento dos mercadores da terra, porque nom 
abasta tomarem ametade da mercadoria que vem a terra pêra uosa fei- 
toria, mas tomam outra metade em nome de uosa alteza e do seu dinheiro, 
pêra faserem delia o que lhe bem vem, e porque isto senhor esta em 
sua mão fazerem o que querem, quando vem booa mercadaria a terra 
recolhemna pêra sy, com achaque que he pêra uosa feitoria, e de ma- 
neira agrauom os mercadores em os nam quererem leixar comprar e 
ganharem seus tratos, que nom será muito leixarem a terra, e porque 
senhor nam de vosalteza hazo a elles serem vendimadores, e nam semea- 
dores que semeam pêra sy e pêra os outros, e elles vendymam pêra sy 
e como quer que elle sam os primeiros da terra, o capitam e feitor, e 
como se elles comformarem ambos, e teuerem poder pêra tratar, jaa 
nam falo na fazenda de uosalteza, de que maneira será gramjeada se- 
nam na terra quanta vontade terom os moradores estarem nella, pois 
lhe vam a maão em todallas mercadarias, em que elles ham de ganhaar, 
porque me parece senhor que ho feitor que em melaca ouuer destar ade 
ser tam comforme pêra o que cumpre a terra, que algumas ueses ha de 
leixar de comprar allgumas mercadorias, pêra que as comprem os mer- 
cadores, porque com isto ganha outros que uem pêra terra, e asy se vai 
a terra mulliprecando cada ves milhor; porem eu nam o vejo asy fazer 
mas antes vejo que recolhem a sua maão todalas cousas boas e ricaSi 
asy como he pedraria, e almizqueres, e perlas muito ricas, e outras 
muitas peças, e allguumas tomam em nome de vosalteza, e nam se 
acham na feitoria de que vosalteza tem necessidade. 

E para uosalteza saber se pecam elles niso, podellas saber polia 
fazenda grande que acharam a pêro pereira feitor, per sua morte, e 
cantas perlas e robis se acharam na feitoria de uosalteza, que foy tudo 
dous ou três anos que ualiam boos xx ^ (sic) cruzados; asy senhor que 
por heuitar estas cousas uosalteza deue antes de dobrar o soUdo ao capi- 
tam e feitor, que nam darlhe consentimento pêra tratarem, e asy os 
homes que pêra os semelhantes carregues vierem representarlhe vosal- 
teza isto que tal nam façam, e quando quer que de quaa forem fasendo 
e que deuem, serem dinos de mercê, fazendo o contrairo, de muito cas- 
tigue, porque eu vos certifico senhor cadano ouuerem de uir os homes 

^ vinte. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 133 

perã os semilhantes carreguos a depenar como os pasados tem depe- 
nado, qae cedo nom avera que depenaar. 

Âsy senhor qoe nam diguo isto a uosalteza pêra qae de os carre- 
guos e os ofycios a homes que vem de portugall de pulsos regagados^ 
pêra que ho tire aos que o ganharam com gotas de sangue, senam pêra 
o vosalteza mandar em seu regimento ao capitam moor, e que mande 
tirar inquirigam sobre os que tem tais carreguos, pêra saber se seruem 
bem vosalteza ou mall, e prasa a deus senhor que sejam melhor tiradas, 
do que tiraram sobre Ruy de brito, porque mandaua hameaçar os mer- 
cadores que disesem o que elle queria, porque elle avia ainda de tornar 
por capitam a melaca, e que entam lho pagariam. E asy senhor fico bei- 
jando as mãos de uosallteza com ha obediência e acatamento que deuo. 
espríta em melaca aos quatro de janeiro de 1515 — criado de vosalteza 
— Pedro de faria. 

E nam requeiro senhor nada a uossalteza senam que beijarei as 
m&os de vosallteza ter lembrança do servigo que quaa faço a uosalteza, 
para que quando me deus leuar a portugall aver delle satisfaçam de vo- 
salteza, porque quando quer que de mym se esquecer, muitos mosteiros 
ha em portugall em que me terei, e leuarei sempre gosto de quam bem 
tenho seruido. 

(Em dorso) Para elrei noso senhor \ 



1616— Janeiro 8 

Senhor — Estava em quochym por capytam, como escrevi a vosa al- 
tesa; ho capytam geraU me mandou que vyesse ser capytam a mallaca 
onde estou; que vosa alteza por muitas vezes tinha ouvydo as gran- 
dezas de mallaqa, a mim qua me parecem maiores que a vosa alteza 
nam tevese ayndea; mallaqua so he pêra resta todas as cou- 
sas que na yndea ha e mays, que os reinos e senhorios e terás que nam 
podem vyver sem mallaqa e outro do por sy, e quem for mal- 
laqa milhor emtemde por milhor, e mayor a tem por ser posta e ase^ 

^ Tom do Tombo— G. Ghron., P. L\ Maf. 17, D. 2H, 



434 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

tuada em começo de muitas monções e cabo de muitas monçOes, e as 
terás da banda da yndea que sam cambaya, toda a yndea, toda bengalla, 
bo reino de pegu, tem necesydade das mercadorias que vem da chyna 
e quachymchyna, syam, Uequios, os Iluções de burneOi ho cravo de mal- 
luquo, e de maças e noz de banda, e de samdollo de timor^ e asy ho 
ouro dos rios de menemquabo e de java, e de candea e os que destas 
partes vem, tem nesydade das mercadoryas que das outras partes dytas 
vem, e quando buns vem com huma monçam nam podem ir pêra as ou- 
tras partes com aqueila monçam, e por yso be grande, e cbave de tudo, 
onde todos fazem escapoUa, e aynda que os bomens queiram mallaqua 
fazer, nam pode ser em outro lugar senam bonde be, e muyto a de vosa 
alteza de amar, porque a necesydade de todos estes reinos aqui nomea- 
dos tem de mallaqua» am de obedecer a vosa alteza aynda que nam 
queiram, que como os reis todos souberem que mallaqua esta pacyfyqa, 
que aynda agora tem gera, logo mandaram seus embaixadores, e asi 
todos os mercadores destas terás viram llogo a mallaqa que be cousa do 
mundo que mais desejem ; mallaqua nam tem nada de seu e tem todol- 
las cousas que a no mundo, e mais senbor be gente desposta pêra toda 
boa crystamdade se fazer, que mais de toda a jente sam gemtios; vosa 
allteza be posto no cabo da zizania semeada por Mafamede, que em ma- 
luque e banda, que sam as derradeiras terras, dizem que se a vosa fé for 
milbor que a dos mouros que a tomaram, asi como agora começavom 

de tomar a dos mouros deus quer que vosa alteza seja prínci- 

piador nam se deve esquecer /promover tamanbo serviço de Deus. 

Senbor — Como cbegei mandei feitor e esprivam a pacem, e es- 
tam aby fasendo fazenda de vosa alteza; bo feitor a nome gaspar ma- 
cbado, e bo escrivam pêro pesoa, e asi mandei feitor e escrivom a pegu; 
bo feitor a nome pêro pães e o bo escrivam antonio diniz, outrosy faze- 
rem vosa fazenda e cousas necesarias pêra a fortaleza; pêro paiz tem 
servido a vosa alteza nestas partes e dado de sy boa conta: estas cousas 
faço todas per mandado do capytam gerall. 

Senbor — Como cbegei, por mandado do capitam gerall, mandei 
vysitar os reis vasalos de vosa alteza, e mandarlbe suas cartas do dito 
capitam com outras minbas e seus presentes segundo custume da terá, 
antre os quais mandei ver ellrei de campar; foy a yso Jorge botelbo ca- 
pitam, llevou comsygo alluaro vaz em buma galle pequena e duas Ilam- 
cbaras; acharam nova que estava cerquado de bum rei de Uymga e dous 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS Í35 

capitães oatros delrei que foy de mallaqa: e mandado do dito 

rei, por este ser ho mais verdadeiro voso vasalo ; mandome Jorge bote- 
Iho recado do cerquo, foi logo prestes toda a e llancharas fo- 
ram em sua ajuda; os capitães que niso eram de miranda, jorge 

botelho, antonio de miranda, ayres pereira^ francisco de meilo; capitães 
de Ilaocharas pêro soarez de sousa, nuuo freire, gil guedes, jeam pereira, 
diogo vaas, jorge mesurado, diogo diniz, bras da costa pêro nunes, jorge 
vaaz, estes todos yam em llamcharas, os capitães em bates e llamcharas/ 
que as nãos nem galles nam podem chegar aquelle llugar onde ho cer- 
que estava posto ; foram oyto dias pollo rio arriba com suas noites, avera 
no ryo a ho parecer delles coremta Ilegoas; sendo ya perto os imigos 
ouveram novas dos purtugezes hyrem sobre elies, vyeram-se llogo as 
suas llamcharas e fustalha que tinham, que seriam perto das noventa ou 
cento, em que sesenta ou setenta delias eram llancharas; soube por al- 
guns que tomaram que vynha dizendo elrei de linga que os portugeses 
ho nam quonheciam, que elles seriam aquelle dia todos seus cativos; 
trazia comsygo dous mill homens de pelleja, affora os remeiros da sua 
fustalha: estavam os bates de repouso comendo, jorge botelho estava 
mais diente d'elles a huma ponta que descobria o rio mais a ho Uonge, 
vyoos viir, fes synais aos bates, fizeramse prestes foram a elles, elrei de 
lymga vinha diente, como tiravam a artelharía que llevavom começaram 
todos de se llançar a augua, que por muito que os portugueses remarem 
pêra chegarem a elles nam poderam tam asinha que quando chegaram 
a sua armada ja todos eram em terá, porque ho rio é estreito, os portu- 
gueses seriam por todos cento a corenta ate cento cinquoenta, matariam 
e catiuariam por todos cinquoenta ate sesenta pesoas ; depois soube que 
morreram muitas delles á fome e afogados por a terra ser muito alaga- 
diça, os que se salivaram sallvaramse muito doentes e desbaratados. El- 
rei de campar que estava já pêra se perder, e segundo o que elle dis 
nam durara mais de três dyas qua lhe tinham a sua íovtdesa cerquada 
de Uenha pêra lhe poerem ho fogo a elle com qua. . . . eram, vendo-se 
fora da opresam nam sabendo donde lhe vinha, quando ho soube veo aos 
bates, era nelle tamanho prazer que nam sabia onde estava dizendo que 
nam tinha a vosa alteza feito serviços por onde tamanha mercê lhe fe- 
sese; tinha mandado que me viese ver pêra ho faser governador de mal- 
laqa como me manda ho capitam gerall, debaixo do poder do capitam 
desta fortaleza, e ho seu ofício he bendara, e por honra e conservação 



> 



136 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

da terrra ho maodoa ho capitam gerall por se tornar a povoar e fabri- 
qaar como dante era, elle veo e tem tomado o carego, e deseja mailo de 
nisto e em todas as cousas servir vosa alteza» agora pareceme boa pesoa 
e fiell, e como gente via que llamcemos ellrei que foy de mallaqa, de 
byntam onde esta, e aos jaós mouros derem hum castigo, que com seis- 
centos homens tudo se pode faser, mallaqua será milhor cousa do que 
nunqua foy nem que a no mundo, crea vosa alteza que mallaqua he ou- 
tro mundo per iso muitas mercês fas deus a vosa alteza com outras 

muitas que feitas comfírmaçam foy ysto de os vosos vasallos ho 

follgarem de ser. 

Senhor — Veo antonio de miranda de banda homde ho tinha man- 
dado rui de brito, veo a a fallar em anbom com martim guedes, francis- 
quo saram que se perdeo quando foram a descobrir banda. Esta em 
malluquo nas ylhas do cravo : todos aquelles reis daquellas ilhas querem 
ser vasallos de vossa alteza, e todos desejam que se façam fortellezas 
vosas nas suas terás, e todos escrevem a vosa allteza em mellaio, eu. os 
mandei tralladar aqui de mellaio em purtuges, e os mando com os trel- 
lados, e asy oulra carta dos omrados de anbom, e as cartas de francis- 
quo saram; manda hum ramo com folha darvore do cravo e hum paao 
da mesma arvore, e vai huum treçado pêra vosa alteza que vos manda 
ellrei de tarnate, com que dizeiú que venceo duas batalhas, deseja muito 
de ver nãos vosas na sua terá, como vier gente e nãos llogo lia ei de 
mandar, e asi a descobrir a navegaçam antiga que soia de ser pêra po« 
derem ir e vyr naquelle tempo que vom e vem a banda. Ellrei de tarnate 
diz que tem pillotos que sabem ho caminho, e por a emformaçam que 
tenho dos maquaceres, que he huma ylha perto do porto de ambom, pa- 
receme lleve cousa de se saber ho caminho, muitas cousas de serviço de 
deus e de vossa alteza a hy que fazer como ouver gente e nãos, este anno 
nam mando a banda mas que antonio de miranda no bretam e hum junqo 
com elle pêra trazerem maças e nos e cravo que acharem, e pêra vi- 
rem dar recado e reposta das cartas que tem mandadas, e que sejam 
certos que am de ser providos per vosa alteza em toda perfeiçam, e ho 
praser que vosa alteza tem em quererem ser verdadeiros vasallos, e 

que vosa alteza lhe dará o gallardom, as outras mais meudezas 

huum homem que este com francisquo saram que as comtara, e 

esta huma ylha da outra e quantas ylhas ho que a em ylha: e 

asy per rui de brito o pode vosa alteza saber, e por outros (?) que de qua 



•. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS i37 

vom pollo caminho velho qae soya a ser pêra as ylhas de a outras 

ylhas» dyzem qae tem ouro e allyofar, deixaram os jaós carregar polias 
muitas escallas que vom fazeudo pollo outro caminho» que de humas 
ylhas a outras ganham dinheiro. 

Senhor — As cousas necesarias pêra a-ygreja sam estes bons crelly* 
gos vystymentas riquas ou quem nos benza, que qua se faram equalles 
e llyuros de canto e orgos, porque vem aqui gentes de muitas parles e 
vem a ver a nosa ygreja e as cousas delias, e bons synos ; crelligos e 
frades mancebos nam sam pêra estas terás, que se alguma parte das 
yndeas estas cousas sam necessárias, roais ho he em mallaqua que crel- 
ligos nem frades das dúzias, perde vosa alteza ho que lhe da e elles da- 
nafíquam e nam aproveitam aos capitães das fortallesas, devem de ter 
poder sobre elles ate prisam. 

Senhor — Garcia chainho é feitor, e segundo meu parecer servevos 

muito bem e com muita dilligencia, e hum dos escrivães sallgado, 

ho outro he francisquo pereira, ho outro he jorge a que ho fis 

escrívam por ser omem soficiente pêra yso, e vos ter servido em outras 

cousas, como na yda da china, em que foy feitor de hum jumquo 

de vosa alteza, e ser ho primeiro homem que poos marquo per vossa 
allteza, foy mui bem lia recebido, os chins folgam com nosa companhya, 
ho feitor escreve haa casa da yndea ho necesario pêra esta feitoria, e asy 
as cousas que manda. 

Senhor — fago gera a ellrei que foi de mallaqa porque nunqua 
em ali trabalha senam como destrua, que grande empydimento faz a 
mallaqua não ser já tamanha como dantes era, e mayor a gera que 
faço he por mar, por nam ter tamta gente que poss^ sair bonde elle esta 
em terá, por estar forte nesta maneira ho ei de persegyr quanto a mi- 
nha posibylydade abranger, que byntam onde elle esta he na boqua do 
estreito de cymgapura donde vem os junques da chyna e quamchymchyna, 
e os regnos de syam, de bumeo, e llucoes, e tamjunpura ff), homde 
he a mina dos dyamantes, como tome pires milhor lleva todas estas cou- 
sas decraradas; de todas estas partes pasam por byntam, e se vem pêra 
mallaqa sam detidos por elle que nam venham por bonde faz grande 
nojo a ho trato, afora outras muitas terás, que por seus muitos enganos 
faz que nam sejam nossos amigos, nem venham pagar trabutos a mal- 
laqa, que soyam de pagar: ho principal bem de mallaqa e em sua da- 
tríminaçam como milhor vosa alteza saberá per Rui de brito quanto nos 
TOMO m. 18 



138 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

pode danar com os reys comarqaãos tanto trabalha por iso, e moitb 
dana, se vosa alteza deseja mallaqa proveja ysto; e asi escrevo a ho capi- 
tam gerall meudamente e como os jaós outra ves tornam armar sobre 
mallaqua, e elrei que foy de mallaqa he ho tecedor de todas estas cousas. 

Senhor — os capitães que aqui fiquam servindo vosa o/teza sam 

antonio de miranda, jorge botelho, trístam de miranda, f .ello, 

anrique Ueme, meu cunhado, pêro soares de souza, gonçalo da silva, 

de faria, por seus serviços merecem que vosa alteza lhe faça 

mercê que os trabalhos senhor quar sam grandes, llembrese vosa alteza 
de seus serviços que beem vollo merecem, e a mim senhor nam des-* 
empare. 

Senhor — estes sam os oficiais necesarios ; carpinteiros da ribeira, 
callafates, pedreiros, carpinteiros de casas, armeiro couraceiro, carua- 
çam, ou quem na faça, fereiros, saradores, jente do mar, que tudo 
ysto que estes oficiaes podem fazer, nam vos custa nada, que todas as 
outras estam em vosa maão, e nam he asy nas oulras fortellezas, porque 
mallaqa paga todos este oficiais, asy de sólidos como de mantimentos, e 
mais emcherâ vossa alteza de dinheiro, que pelia carega que daqui vai 
sem despesa vosa vera vosa alteza ho que a ho diante pode ser, que 
ainda agora começa, e as meudesas dos proveitos nam sam ainda saby- 
das das cousas tamanha como mallaqa, nam se esqueça vosa alteza que 
ho bem delia era em ter muita gente, que todollas outras couzas llogo 
sam pasydas em pas: e asy cordoeiro he muito necessário. 

Senhor — nesta terá se pode faser todallas galles, nãos e quaesquer 
outros nauios que quiserem, sem custarem dinheiro a vosa altesa, so* 

mente breu est que em byntam a muito ferro, asy sam necesarios 

bombardeiros, que de noventa que aqui deixou ho capytam gerall, nam 
a hy mais de vynte a cynquo. 

Senhor — ho que diguo do castigo dos jaós que yndo Ha huma ves 
seyscentos homens lhe queimaram a fustalha e navios que tem, e jun- 
ques, que tudo se faria em huma monçam, nam seram mais poderosos 
pêra cousa nenhuma contra vosa allteza poderem fazer que estes que se 
ajuntam sam patê quiter, patê anaz (f)^ pale rodym, que cada huum per 
sy nam podem faser nada, que em quanto os mouros nam recebem de 
nos dano sempre lhe parece que sam poderosos comtra nos, como huma 
vez a recebem llogo nos tem acatamento, e de nenhuma outra geote que 
trasem em mallaqua me nam pode faser dano. 



DOCUMENTOS ELUCDATIVOS 139 

Senhor — todas as mais meudezas que sam necessárias a esta for- 
taleza e cousas que llogo sam mister e da carega Ioda que daquy vay 
pêra chochim, e alljofar que vai, e anéis com robiis, peças de damasquo, e 
borquados que vem da china, de que vem a vosa alteza as amostras, es- 
crevo llargamente a ho capytam gerall, e elle escrevera a vosa alteza as 
necesarías a voso serviço, por yso deixo de o fazer, e pella feitoria vay tudo 
bem decrarado a vosa alteza como pasa e ho que custa cada cousa, que 
asy lho tenho dado ailem de ser seu oficio, e vam quatro diaman- 
tes p rar, pesam huma oytava dez gramas; ffeila nesta famosa 

fortaleza de mallaqua a oyto dias do mez de janeiro de qui- 
nhentos xb ^ annos. beijo as mãos de vosa alteza. Jorge dalboquerque. 

(Em dorso) Pêra elrey noso senhor.' 



1616— Fevereiro 10 



Ruy leite mandamos vos que, todas as cousas que vos mandamos 
que feseseis pêra emviarmos ao preste, entregueis a lourenço cosmo, que 
encarregamos diso pêra as levar e per este com seu conhecimento e asemto 
de voso esprivam mandamos que vos sejam levados em conta, feito em 
almeirim aos des dias de fevereiro de b^xb ^ — Rey • j • 

A Ruy leite que todas as cousas que vossa alteza mandou faser pêra 
o preste as entregue a lourenço de cosme que leva carego d'ellas. 



Fevereiro 26 



Ruy leite mandamosvos que mandes faser dous almoficixes da gram- 
dura que vos parecer que seram necesarios pêra nelles hir a roupa da 
cama e tapeçaria que emviamos ao preste, quando a levaarem pêra terra, 
os quais emtregareis a lourenço de cosmo caualeiro de uosa casa que leua 
careguo delias. E per este com seu conhecimento vos seram leuados em 

^ quinhentos e qainze. 

* Torre do Tombo— G. Ghron. P. 3.% Haç. B, D. 87. 

> quinhentos e qoinxe. 

18« 



140 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

comta, e pello asemto de voso esprívam. Feito em almeirím aos vinte e 
seis de fevereiro de quinhentos e deseseis — Rey • • • 

A Roi leyte que mande faser dois almofecixes pêra a roupa e tape- 
çaria que vosa alteza manda ao preste, pêra nelles hir la em terra, e os 
emtregué a Lourenço de cosmo. 



Julho 6 



Ruy leite nos hordenamos de enviar algumas cousas a preste Joham 
com que soubemos que folgaria, as quais sam as seguimtes. 

Item: Huuns paramentos de ras meaãos de figuras que ham de ter 
três pannos e sete alparavases, com sua franga de retrós de coores. 

Item : Huum panno grande de tresmesa da Istoria de a salve regina. 

Item: dons pannos outros de vinte ate trinta cevados de Ras de 
figuras. 

Item: quatro guarda portas de nove cevados cada huma. 

Item: outros dous pannos de quinze ate deseseis cevados. 

Item : quatro almofadas de Ras, a saber, duas de esperas, e duas 
sem ellas. 

Item: dous bamcaes daruoredo de bamquos, a saber, um desperas, 
e outro sem ellas. 

Item: huma colcha grande desperas. 

As quaes cousas todas estam no noso thesouro, e sam as que o ba- 
ram apartou peramte vos, e com esta vos vai mandado pêra vos serem 
entregues. 

Item : huma mesa de gomcos (?) grande de seis peças marchetada 
com suas bisagras bem douradas. 

Item: Duas cadeiras despaldas, a saber, huma garnecida de borcado 
de pello, e outra de veludo avelutado cremesim, ambas com suas fram- 
gas de Retrós e ouro. 

Item: Quatro toalhas de mesa muito finas de quatro varas e meia 
cada huma. 

Item: De gardanapos dolamda fina, dose, que levem por todos oito 
varas. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS i41 

Item: seis toalhas de mãaos dolamda fina de vara e meia cada 
homa. 

Item: dois fruteiros dolamda muito fina de duas varas cada huum 
com suas rendilhas douro. 

Item: seis colchOes dolamda, de gramdura, que respomdam com 
os paramentos. 

Item: Quatro lemcoes dolamda fina. 

Item: Quatro traveseirínhos pequenos que siruam por hum grande, 
lavrados douro e seda. 

Item: Quatro almofadinhas pêra sobrelles lauradas da mesma sorte, 
e as duas cheias de frouxel, e as outras de ISa muito fina. 

Item : Huum dorsell de borcado de três pannos, a saber, um roxo 
de pello, e outro carmesym de pello, e outro raso, e este hirâ no meio e 
seram nele as nosas armas e deuisa bordadas, e será com seu ceo de sete 
cevados dalto. 

Item: humas cubertas daceiro. 

Item: hum ames comprido. 

Item: humas couraças de borcado raso com alguma bordadura so* 
breposta de cetim carmesym, e huma cruz de christos diamte, com suas 
fiuellas de prata aniladas. 

Item: Huum capacete gamecido còm seu escudete douro com pou- 
quo esmalte, e alguns cravos, estofado de seda. 

Item : Huma babeira da mesma sorte. 

Item: Huma espada darmas dourada, e anilada a maçãa cabos e 
comtreira. 

Item: Outra de cimgir dourada e anilada com bamba de veludo e 
dntas de tecido. 

Item: Quatro tauoas de imagens de noso senhor, e nosa senhora, a 
saber, duas means e duas mais pequenas. 

Item: Huma mea dúzia de lamças de boas astes compridas com seus 
ferros e comtos dourados. 

Item : Cem espadas emvemizadas chaãs. 

Item: Cem corsoletes com suas ciladas. 

Item: Cem piques escolheitos com seus ferros bem limpos e ace- 
qualados, e os ferros hiram embotados. 

Item : Mil cartinhas cubertas de purganunho. 

Item : Dose cathacismos. 



142 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: Vinte flos samtoram. 

Item: Triata livros da vida dos mártires, e todos seram de lemgem 
(sic) portOQgues. 

Item: Huam cubertor de damasqoo que nam seja cremesim, com 
sua cartapísa de velado da coor qae parecer bem, e pelas custaras algu 
uma cousa amtretalhada, e a cartapisa também amtretalhada. 

Item: Huum livro de resar que tem aluaro da costa, nosso, o qual 
vos entregara, e mandalo es cubrír de veludo cremesim, e forrar de bor- 
cado raso, e fazerlhe brochas douro quaes comprirem, com algum esmalte 
e lavor pouquo. 

Item : Dous estromentos dorgaãos da gramdura dos da uosa capella, 
com seus foles e todo o ai necesario pêra elles. 

Item : Dous tangedores pêra elles. 

Item: Dous sinos de quatro quimtaes cada huum, com todo seu ata* 
bio, pêra logo poderem seruir. 

Item : Huma peça descarlata fina. 

Item: Dous calezes de prata, a saber, hum de quatro marcos, e ou- 
tro de dous, ambos dourados, e cada huum de sua feiçam. 

Item: Terees cuidado de busquar hunm imprímidor pêra hir la. 

Item: Dous pintores também pêra hir, e o soldo que vos estes ofí'- 
ciais pidirem, e asi qualquer outro partido faloes saber ao baram. 

E das cousas que ouuer no thesouro farees as que pêra isto ser* 
uirem. 

E pêra algumas outras que estam em poder dalguns nossos oficiaes 
requereres mandado ao baram pêra se vos emtregarem. 

E as outras mandares fazer e comprares, e algumas d'estas cousas 
que vos ham de ser emtregues que nam vierem limpas e comcertadas 
como comprir vos as mandares alimpar e comcertar de maneira que toda 
vaa como compre. E todo o que nesto despenderdes farees e despenderes 
peraute o esprivam de vosso oficio, que volo lançara em despesa, e teres 
todo concertado e aparelhado pêra o entregardes as pesoas que vos por 
nos for mandado, feito a seis dias de julho, diogo vaz o fes de jb*iíiiij^ ' 
— Rey • • • o baram. 

As couzas de que Ruy leite hade ter cuidado pêra se leoaarem ao 
preste Joham. 

t mil quinhoitos (|QatORe. 



DOCUMENTOS ELUODATirOS 143 



Janeiro 18 



Roy leite nos eirey vos emviamos muito saadar. 

Aliem das cousas que vos teemos mandado que façaes prestes pêra 
enviarmos ao preste Joham, vos mandamos que loguo façaees mais as se- 
guintes: 

Item : Hum fromtall dalltar de brocado minhoto de quatro panos de 
comprido, e dallto o acustumado. 

Item: Huma capa e cortyna pêra alltar do dito brocado. 

Item : Duas allmategas do dito brocado, o qual brocado he daquelle 
que ouuemos de bertollameu, e se ainda o não teuerdes no tesouro sabee 
da casa da índia ou da myna se estaa laa, e vede o que delle se avera 
mesteer pêra os ditos ornamentos, o qual será milhor pêra elles, e espre- 
veinoUo pêra vos mandarmos provisam pêra vos ser entrego, e o dito 
frontall terá no meyo hum dos panos de brocado raso e o manto e allmar 
tegas e capa teram savasteiros de brocado raso, e a cortyna outro pano no 
meo do dito brocado raso. 

E todos estes ornamentos seram framjados de retrós de uma coor 
nom sendo cremysym branco nem preto. 

Item: Pêra estes ornamentos suas alluas de pano de linho com todos 
seus coregimentos pêra poderem seruir, e teerees lembrança de se benze- 
rem estes ornamentos, e o bispo de çafy os benzera. 

Item : de toalhas doUanda pêra alltar quatro da medida que vos Uaa 
bem pareceer. 

Item : Dous castiçaees de prata de três marcos cada houm da fféicam 
que vos bem pareceer. 

Item : Huuma campainha de prata pêra permisa, que seja de huom 
marco. 

Item: Duas galhetas de um março e meio ambas. 

Item: Huum tríbollo de três marcos. 

Item : Humas obradeiras de ferro pêra faser ostias. 

Item : Três pedras dará. 

Item: Huma caixa pêra corporaes forada de velludo cremesim com 
seus pregos dourados. 



144 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item : outro fromtall e vestimenta e cortyna de damasco de coor, 
qae nam seja branco nem vermelho, com soas allaas e todo seu core* 
gimenlo. 

Item : Huum mysall do costame do resar dos domynycos e haum 
bautisterio. 

E para a despesa das coasas que no tesouro nam teuerdes vos man- 
damos entregar dozentos cruzados na casa da myna, de que com esta vos 
vay desenbargo; e para os ornamentos de seeda nom tomarees das que 
estam pêra nosa pesoa. 

As quais cousas todas Uogo manday fazer, e asteende prestes pêra 
as emtregardes com todas as outras a quem vos mandamos, e emtam vos 
será dado mamdado em forma pêra a vosa comta, e faça se tudo com 
grande dilligencia. Sprita em allmeyrim a dose de janeiro de 1515 — 
Rey • : • 

Pêra ruy leite, sobre estas cousas que hade mandar fazer mais pêra 
o prestes Joham, 

(Em dorso) Por elrey — A Ruy leite recebedor do thesouro de sua 
casa. 



Janeiro 88 



Senhor Ruy leyte vy vosa carta que me esprevestes sobre as quoar- 
tinas de tafetá pêra os emparamentos da cama que adir pêra ho preste, 
que dizes que nam vam no mandado, mandayas todavia faser, posto que 
nele não vam, porque depois de feitas do que se nellas montar vos pasa- 
rey desembargo pêra que vos sejam leuadas em comta. 

E quanto a pega de gram que vos avia de vir de medina, á elrey 
noso senhor por bem que ajaes ahi. esprita dalmeyrym a vinte e oito dias 
de janeiro de 1515 — (Por letra do Barão). Gorredyças sam as que aves 
de mandar fazer — Ho baram daluyto. 

(No verso) Ao senhor Ruy Leyte recebedor do tbesoureiro. 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 145 



Março 6 



Senhor Buy leite vy vosa* carta, e ha sua alteza por bem que a sella 
se faça, como em ella dizes, com sua citara de veludo cramesym, e sua 
framja também cramesym, e cilhas e loros, e escudoos, e esporas, e bryda 
dourada, e todo o mais que for necesario pêra ir atabyada; a graam vos man- 
darey logo e asy os goroimeutos, e porque tem os foros de demtro cujos 
maodaílhos tirar, e poer houtros de cetim bou tafetá, spríta em ahnei- 
rim a cinco de março de b^lb^ — Ho baram daluyto. 

(No verso) Âo senhor Ruy leite recebedor do thesouro delRey. 



Fevereiro 28 

Senhor Ruy leyte despoys dos aluaraes feytos, ao asynar so (?) elrei 
o que hya pêra antonio do porto, e pos as regras abayio no do estrybeyro 
mor, bryda, esporas: estribos compre que mandes faser, porque ca nom 
nos ha, e o conhecimento serha somente dos guarnymentos e sela, que 
também be de veludo carmesym. dalmeyrym a vinte e oito de fevereiro 
de b^ib' — Ho baram daluyto. 



Março 28 

Conheceo e confesou Lourenço cosme caualeiro da casa delRey nosso 
senhor, que ora sua alleza manda ao preste Joham, que rrecebeo de Ruy 
leyte, Recebedor do thesouro da casa do dito senhor, todalas cousas abaixo 
decraradas, as quaes per ele manda ao dito preste Joham, e sam as se- 
guintes: 

' quinhentos e qoinze. 
' quinhentos e qainze. 

TOMO m. 19 



146 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item : primeiramente huuns paramentos de cama de Ras de figuras, 
a saber : ceo dbom pano, e cabeceira doutro, e outra para ilbargas com 
seus alparanazes, os quais panos e aiparanazes sam os que rui leite tynha 
recebidos de lopo femandes pêra ysto, que tem estes synais em medida, a 
saber: o ceo tem em hum cabo hum emperador com sua coroa na cabeça, 
e outra na mão, com que estaa coroando huma Rainha, e no outro cabo da 
parte direita estam quatro homens tamgendo trombetas, e nelas tem bam- 
deiras de damasco vermelho, que tem dalto quatro cevados duas terças, 
e de largo outro tanto, guarnecido de tiras de lona, coiro, e argolas, novo. 
E outro pêra a cabecjBira, que tem no meio, em cima, huum lauatorio que 
lança três canos dagoa, e ao pee dele hum em xadres em que estam ju- 
gando dous homens e duas mulheres, que tem dalto quatro covados duas 
terças, e de largo cimquo covados e meio, nouo guarnecido de lona do 
teor dargolas e coiros. E outro que tem na parte esquerda huums órgãos 
os quaes esta tangendo huma molher vestida dazuU, e detrás estaa outra 
molher tamgemdo huma arpa, e outra molher camtando por hum cancio- 
neiro que tem dalto quatro covados e meio, e de largo cinquo covados 
e oytava, guarnecido de lona em tiras, e coiro, e argolas, nouo, com sete 
alparanazes que se fezeram dos seis que também tinha recebidos de lopo 
fernandes, asy de Raas de feguras, que tem estes synaes e medida, a sa- 
ber: hum deles tem na parte direita hum lavatório e huma musica de três 
mulheres e hum homem, e tem de comprido seys covados terça, e outro 
tem de comprido seis covados um sexto, e de largo hum covado, e tem 
no meio hum homem vestido de uermelho, e tem nas mãos hum prastrão 
com sua faldra de malha pegada nele. E o outro tem de comprido seis 
covados terça, e bum covado de largo, e tem hum homem que vay em cima 
d'huma muUa com falsas Rédeas azues novas. E dous que tem de com- 
prido cada hum cinquo covados e hum covado de largo e tem hum deles 
em hum cabo dous homens em calças, e em gibam luitamdo, e no outro 
cabo ouelhas; e outro tem no meio um Rei com as mãos cruzadas, e de- 
trás dele hum homem vestido de uerde com um livro nas mãos, e outro 
tem de comprido cinquo couados terça, e de largo hum covado; e tem hum 
lavatório amarelo, e ao pee dele huma diaboa com asas damjo nouos, 
guarnecidos e cosidos os ditos alparavazes no dito ceo, franjados de bro- 
cadura larga de Retrós de cores, e o dito ceo guarnecido per cima de lona 
em tiras com suas argollas e filas de linhas, e sam dobrados os ditos al- 
paranazes, e asy leuam a dita frocadura. E mais recebeu quatro cortinas 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 147 

que am de seruir com o dito paramento, de tafetaa de cores, estreitinho, 
a saber: daas dhuma ilharga de cinquo panos cada huma, e as duas d'oyto 
panos cada huma e sam de comprido de cinquo cevados cada pano, guar- 
necidas com fitas de cadarço e argolinhas. 

(Na margem) iiij p/ 

liem: mais huum pano darmar de Ras de Iam e seda e ouro, de fe- 
guras da estoria da salue regina, que tem nosa senhora com o minino 
Jhesus nos braços, e aos pees dele estaa huum arcebispo com huma cruz 
de duas traueessas, em que a dalto cinquo cevados e oytava, e de largo 
onze cevados e meio, guarnecido de lona em tiras e argoUas e coiros. 

(Na margem) j p.' 

E outro pano darmar de Ras de lã e seda de feguras, que tem 
em cima no meio huma molher nua, com huum farpão na mão, e querlhe 
huum homem dar com outro, e estaa da parte direita dela vestido dazull, 
e da parte esquerda dela estaa hum poorco com hum farpão tanchado 
em sy, a qual molher estaa sobre hum lavatório que lança três canos 
dagoa, que tem dalto cinquo cevados, e de largo cinquo cevados e um 
oitavo, guarnecido de tiras de lona, coiros e argolas, nouo. 

(Na margem) j p. 

E outro pano darmar, de Ras, de Iam e seda dç feguras, que tem 
no meio um rei velho, e duas rainhas, e ele estaa no meio vestido de uer- 
melho e azuU, e ellas, a saber,: huma dazull e a outra de uerde, e ha 
parte ezquerda deles estam três homens tamgemdo trombetas, nas quaes 
tem bandeiras vermelhas com laços azues, que tem dalto quatro cevados 
quarla, e de largo quatro cevados duas terças, guarnecido de lona em 
tiras, coiros e argolas, nouo. 

(Na margem) j p. 

E outro pano darmar de Ras de Iam e seda de feguras, que tem na 
parte direita em cima três molheres nuas com senhos colares aos pesco- 
ços, e aos pes delas estaa hum homem dormindo, vestido dazull, e no fundo 
junto da guarta (?) pisa estaa huma ceruilheira que tem dalto quatro coua- 
dos e de largo outros quatro cevados, guarnecido de lona em tiras, ar- 
golas e coiros, nouo. 

(Na margem) j p. 



^ quatro peças. 
» uma p#ça. 



i48 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

E outro pano darmar de Ras de fegoras de llã e seda qne tem em 
cima na parte direita homens armados, e no outro cabo estam molheres 
espamtaodose, e do meio da parte de baixo estaa huma rainha vestida de 
uerde, que tem dalto quatro couados e meio, e de largo cimquo covados, 
guarnecido de tiras de lona, argolas, e coiros, nouo* 

(Na margem) j p. * 

Item: quatro almofadas de Ras de Uan e seda de feguras, a saber: 
duas com esperas e duas sem elas, todas d huma sorte, guarnecidas de 
coiros Roxos com suas borlas de Retrós, e algum ouro, que tem de com- 
prido hum covado e meio, e outro tanto de largo ; as quais leuam senhos 
Recheos de canhamaço cheos de Iam meirinha. 

(Na margem) iiij p.* 

Item: huuma colcha de Iam da que tem de largo quatro corados 
cinquo sesmas, e seys covados de comprido, com cimquo esperas. 

(Na margem) j p. 

Item: quatro guarda portas de Ras de feguras dellan e seda, que 
tem huma delas em hum cd)o huma Rainha vestida de verde com guarta 
pisa de cores, e dyante dela estaa huma moça vestida dazull com hum 
perfumador nas mãos, e a Rainha tem a mão emcima dele. E outra que 
tem um rei mancebo com certro na mão, vestido d'azull e aos pees dele 
dous pages comendo maçaãs. E as duas tem cada huma nos meios huma 
mesa em que jogam as cartas, e huma molher vestida de uerde com 
huma confeiteira nas mãos, e outra que estaa metendo nela huuma colher; 
e tem cada huma de todos quatro três covados e meio de comprido e de 
largo dous covados e meio, guarnecidas de lona em tiras em roda. 

(Na margem) iiij p. 

Item: hum bamcal de uerdura de llãa e seda grande, que tem de 
comprido sele covados sete oytauas, e de largo dous covados, nouo, 
guarnecido de lona em tiras. 

(Na margem) j p. 

E outro bamcall de verdura de Iam e seda, que tem cimquo espe- 
ras, e tem de comprido oyto covados quarta, e de largo dous covados, 
guarnecido de lona em tiras — j p. 



1 uma pega. 
* quatro peças. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 149 

*Item: seys coIchOes gramdes dolanda cheos de Iam meirinha. 

(Na margem) bj p. * 

Itero: hum trauesseíro grande dolanda 6na Rico laarado douro de 
frorença, de lauor largo per comprido fundo e boca, asemtado o dito 
ouro sobre lauor de Retrós carmesym. 

(Na margem) j p.* 

Item: quatro almofadas de cabeça asy da dita olamda e lauradas 
do teor do dito traueseiro per os ditos lugares, asy de lauor largo douro 
sobre o dito Retrós. 

(Na margam) iiij p.' 

E leuam seus Recbeos de fustam, a saber: e trareseiro o seu cheo 
de Uan meirinhai e as ditas almofadas de frouxel com alamares douro de 
firorenga nas bocas de todos. 

Item: quatro lençoes dolanda de quatro panos, e de quatro varas 
cada pano. 

(Na margem) iiij p. 

item: hum cubertor de damasco amarelo de seis panos e de seys 
covados cada pano, antretalhado todo per guartapisas, e no meio hum laço 
de veludo prelo borlados e perfiladres (?) de retrós carmesym e azul barrado 
por de rredor do borlado, e forradas as ditas guartapisas do aueso per 
cima dos pomtos que pareciam do dito borlamento de tafetá azuU e em- 
vonlhado em uma vara e meia de lenço de Rbiij^ rs.^ vara. 

(Na margem) j p. 

(Na margem) v* m'. 

Item: bum dorsell de brocado de três panos e de sete covados cada 
pano de comprido sem alperanases, a saber : hum no meio de brocado 
rraso branco, e os dous de brocado rrico de pelo carmesym com seus al- 
paranases dos ditos brocados, forrados de çatim de graam, e framjados 
de frocadura larga de Retroz asuU lys forrado de bocresym ; e leva o dito 
dorsell no meio hum escudo das armas Reaes antretalhado de sedas de 
cores e brocado, e duas esperas do teor nas ilhargas dele tudo borlado e 
perfillado de Retroz azull lys e carmesym, e acima leva uma cruz de chris- 



' seis peças, 
'mnapegi. 
' quatro peças. 
^ quarenta e oito 



1 50 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

tos de çatim carmesym perSUada do dito Retroz, (diz sem alparauases na 
antrelÍDba) (sic) guarnecido com argolas de lalam ; e seis covados de Iod • 
dros de ij® 1 r.' ^ covado, e dois terços de quarta de duzentos rreis, ver 
melhos, em que vay emvolto. 

(Na margem) j p.* 

Item: de toalhas dolanda fina pêra mãos, seys peças de vara e meia 
cada buma. 

(Na margem) bj p.' 

Item : de guardanapos grandes da dita olanda doze peças. 

(Na margem) xij p/ 

Item: quatro mesas de toalbas de deseseis quartas, de quatro varas 
meia cada mesa. 

(Na margem) iiij p." 

item : dous fruiteiros dolanda fina de duas varas uma oitava cada 
buma, com tramças douro de frorença, e rretros carmesim ogeteadas asen- 
tadas nelas ao rredor. 

(Na margem) ij p.* 

Item : huuma mesa grande rrica, marchetada que veyo de castelã por 
mestre diogo, com sete bisagras gramdes abertas, douradas douro moydo, 
e de folha, com dous pees de bordos, com suas correas de vaca, metida 
em buma arca de tauoado em que vay por milbor guardada calafetada 
e breada. 

(Na margem) j p. 

Item: duas cadeiras d estado guarnecidas, a saber: uma de brocado de 
pelo rroxo dasemto e emcosto delle, e a outra de veludo velutado carmesym, 
asemtados o dito veludo e brocado cono os crauos de rrosas abertas, que 
fez afomso de seuilha, dourados, framdas (sic) de frocadura larga de rre- 
tros de grada de cores, a saber: a de brocado azuU, e a outra de verde 
com suas tranças douro de frorença ageteadas, asentadas com as ditas 
framjas, metidas em fundas de pano da Rochela. 

(Na margem) ij p. 

1 daxentos e cincoenta réis. 

* ama peça. 

' sek peças. 

^ doze peças. 

*" quatro peças. 

*Ams peças. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 151 

Item: humas coiracas rrícas de brocado carmesim e branco, antre- 
talhadas de veludo carmesim borladas e perfiladas de rrelroz azull vys, 
com seu colarinho e fraldra e ezcotaduras, tudo dourado com sua guar- 
nigam de prata alinada, a saber: dez fiuellas com suas charneiras e bi- 
queiras, e três tachões cad huma postos em tecidos de rretros carmesym 
com verdugos douro pelo meio 

(Na margem) j p.* 

Com hum saco de bocachym cheo de Ilã meirinha e huma funda de 
Ruam bicontes (?) 

E emborilhadas em hum pano de linho de vara e meia, com ai- 
godam, e em hum covado de londres branco daviam de iiif R. r/* co- 
vado. 

(Na margem) v. m*. 

(Na margem) j c.** 

Item : hum capacete com hum escudete douro pêra penacho com 
crauos douro ao rredor, de rrozas esmaltadas, e asy o dito escudete es- 
maltado guarnecido de veludo carmesym pela borda» e com estofo de ce • 
tym (?) carmezim, e seu cordam de rretroz e ouro, com borla e botam 
e fiuelas em que amda, douradas e tecido. 

(Na margem) j p. 

E hum barboto do teor forrado de dentro com seu debrum pêra 
fora do dito veludo carmesim, e amantilhos de malha guarnecidos de 
fiuelas aniladas de prata e tecidos, e metidos ele e o capacete em senhas 
fundas de londres branco cobertos de coiro vermelho. 

(Na margem) j p. 

Item : huma espada d armas que Ih entregou amtonio do porto, dou- 
rada de novo, cabos e ferro e couteira com sua bainha de veludo carme- 
sym, com suas contas de tecidos carmesyns. 

(Na margem) j p. 

Item: outra espada de cortar com cabos e maçan dourada e bainhas 
de veludo pardo e emxarrafas douro de frorença e rretros pardo, e seu 
punho de veludo com cimtas de tecido e guarniçam de prata anilada. 

(Na margem) j p. 



^ uma peça. 

' quatrooenlos e qnarenla réis. 



152 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item: quatro taaoas grandes de nosa senhora pintadas e douradas 
em parles, rricas, metidas em huma arca grande em que vam por sua 
guarda, calafetada e breada. 

(Na margem) iiij p * 

Item: dous órgãos com seus foles e todos seus comprimentos, me- 
tidas as caixas deles em duas arcas grandes e os canos em quatro caxões 
envoltos em lãa por milhor guarda, breados e calafetados. 

(Na margem) ij p.* 

Item : cem piques d armas com seus ferros estanhados. 

(Na margem) c p.^ 

Item : meia dúzia de langas, com seus ferros e contos dourados, e 
as astes sam de costa, e os ferros com suas fundas de coiro vermelho for- 
radas de dentro. 

{Na margem) bj p/ 

Item — cem espadas nouas emvemizadas com suas emxarrafas de 
barbilho. 

(Na margem) c ^. 

Item — cem cosoletas com suas coladas 

(Na margem) c p. 

Metidas em seis pipas. 

(Na margem) bj p. 

liem: dous synos grandes que pesam, a saber: hum deles quatro 
quintaes meio, e duas livras, e o outro cinquo quintaes e três liuras, os 
qum vam postos em suas porcas com guarnições de cintas grandes de 
ferro e barrões, e seus badalos. 

(Na margem) ij p. 

Item : Cem liuros da vida e paixam dos marteres, encadernados de 
tauoas meias cubertas de coiro. 

(Na margem) c p. 

Item : Cem livros de oras de nosa senhora, grandes, em lingoagem, 
encadernadas de tauoas e cobertos de coiro. 

(Na margem) c p. 



> quatro peças. 

* doas peças. 
^ cem peças. 

* 8ii8 peças. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 153 

Item: cem livros da destruiçam de jesus, encadernados de purga- 
mioho. 

(Na margem) c p/ 

Item : trinta livros catacismos encadernados de tauoas meias cober- 
tas de coiro. 

(Na margem) xxx p.* 

Item: mil cartinhas encadernadas em purgaminho. 

(Na margem) I p.* 

Item: cem conGsyonarios de Rezende encadernados de purgaminho. 

(Na margem) c. p. 

Item : dous almofreixes grandes da Rochela, guarnecidos de coiro 
de vaca forrados de lona, com suas cimtas do dyto coiro, nouos. 

(Na margem) ij p. * 

Item: de canhamaço quarenta o sete varas e um sexto da viam (f) 
de trinta cinquo reis vara, em que vam as cousas envorilhadas dentro 
nos tonees. 

(Na margem) Rbij vs.* 4 • 

Item: hum ames comprido dourado em partes, guarnecido de cor- 
reas e Guellas, tudo de nouo, e tem todo seu comprimento com seu elmeto, 
e toda armadura de pernas e brados sem lhe faleceer peça alguma, e sua 
Reeste (f) também dourada, emborilhado todo peça por peça em sete ce- 
vados de pano da rochela da viam (f) de cento cinquo reis covado. 

(Na margem) jp.^ 

Item: huumas cubertas daceiro de caualo de todo compridas, guar- 
necidas todas de nouo de tecidos e corroas forradas de veludo carmesym, 
e fiuelas, e charneiras tachões, tudo dourado e crauadas com bocetas e 
rrosetas douradas, e de dentro forradas de coiros de godomecill, e na tes- 
teira hum ferro comprido, e outro que he cano pêra penacho, e porcas de 
parafuso, todas emvorilhadas em doze cevados de pano de Rochella da 
viam (?) de cento cinquo reis covado. 

Item : huma seela de brida, que serve com as ditas cobertas, com sua 

« 

^ cem peçM. 
' trinta peçai. 
' mil peças. 

* duas peças. 

' quarenta e sete Taras e om sexto. 

* uma peça. 

TOMO III. 20 



154 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

funda de velado carmesim , e espemdas forradas delle^ framjada de rretroz 
azull vys, com seus arções daceiro, com looros e calhas cubertas do dito 
veludo carmesim com seus forros dourados, e estribos, e esporas e brida 
todo dourado, e suas 6uelas e correas cobertas de veludo carmesym e 
parafusos com que se crauam os ditos arções, toda guaruecida asy de 
nouo, emvorilbada toda em pano da Rochela, em quatro covados de cb r.' ^ 
covado. 

Item: huuns guarnecimentos de cavalo de brida, que servem com a 
dita sellae cubertas, a saber: cabeçada peitorall e rretranca e rredeas, tudo 
cuberto de veludo carmesym, framjados douro de frorença e rretroz car- 
mesym, com toda sua guarniçam de ferros dourados, e percima dos ditos 
veludos muitas esperas de latam douradas asentadas, forrados de nouo de 
damasco de gram, emvorilhados todos em três covados de pano de ro- 
chella de cb r/ covado. 

Item: huma peça descarlata trintem de ualecenças (?) vermelha em 

que ouue vynte cinquo couados terça daveam reis covado. — foy do 

baram. 

(Na margem) xxb es.*" 4 ' 

E vai emvorilbada em três covados terça de bocasim de R/* rs.' 
covado. 

(Na margem) iij cs."^ 4 * 

E metida em hum saco de lona de duas varas e meia de xub ^ 
reis a vara. 

(Na margem) ij vs,* m.* • 

Item : huum calez de prata todo dourado com sua patena e campai- 
nhas, com esmaltes no cano e na maçãa laurado de Romano que pesa 
quatro marcos huma onça um oitavo. 

(Na margem) } p.^ 

Item: outro calez de prata com sua patena dourado em partes e 



^ cento e cinco réis. 

* vinte e cfnco covados e terça. 

' quarenta. 

^ trez covados e terça. 

^ trinta e cmeo. 

' duas varas e meia. 

^ uma peça. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 155 

laurado de Romano que pesa asy dous marcos seis ongas quatro oitavas 
e meia. 

(Na margem) j p/ 

Yam embrulhados em três varas de pano. 

(Na margem) iij vs.' ' 

Item: dous castiçais de prata pêra altar, de pomtas e obra Romana 
de cizeli em parles, que pesam ambos seys marcos Ires onças e três oy- 
tavas. 

(Na margem) ij p.' 

Item: huma campainha de prata lavrada de cizeli em partes, que 
pesa hum marco huma oylava, com uma borla de rretroz. 

(Na margem) j p. 

Item : hum tribolo de prata laurado de Romano com suas cadeas e 
manipolo que pesa tresentas sete oytavas meia. 

(Na margem) j p. 

Item: duas galhelas de prata lauradas de Romano que pesam ambas 
bum marco quatro onças e meia oytaua. 

(Na margem) ij p. 

Emvorilhadas todas estas peças de prata em três varas de breta- 
nha R b iij» r.' ' 

(Na margem) iij vs.* 

Item : huma vestimenta e duas almategas de brocado minho rroxo 
com sa nastro de damasco rroxo apedrado de troçaes, forradas de bocasym 
e framjadas de rretros verde com todos seus meudos, e com pramentos e 
aluas de lemço (?) com seus rregáços e bocaes, nouas ; as almatejas com 
cordões. 

(Na margem) iij p.* 

Item: huma capa de brocado minhoto carmesym com sanastro de 
damasco rroxo de troços e capelo dele, franjada de rretroz azull e forrada 
de bocasym — digo que as almategas acima escritas leuam cordões com 
borlas do dito retrós verde. 

(Na margem) j p. 

> orna pega. 

* três varas. 

' duas peças. 

^ quarenta e oito réis. 

^ três peças. 



1Ô6 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

- Item: hum fronlall de quatro panos, a saber: três de brocado minho 
carmesym e hum de damasco rroxo apedrado de um covado três quartas 
cada pano, forrado de bocasym e seu pano dele pêra se ter no altar, 
com frocadura larga de rretroz azuL 
(Na margem) j p.* 

Item : huma corlyna de brocado minhoto carmesym pêra altar de 
. . . panos e de ... covados cada pano sem os allparauases, a saber: 
... do dito brocado, e hum no meio de çatim pasado douro, e seus alpa- 
rauases do teor, forrada de bocasym e franjada de frocadura larga de rre- 
troz azuU, guarnecida com suas argolas e fitas de linhas. 

(Na margem) j p. 

Item : outra cortina daltar de damasco alionado e azull de . • • pa- 
nos e de .. . covados cada pano de comprido, a saber ... do dito da- 
masco alionado, e hum no meio dazull, e seus alparauazes franjados de 
rretros laramjado de frocadura llarga, e forrada de bocasym, e guarne- 
cida de suas argolas de latam, e litas de linhas. 

(Na margem) j p. 

Item: huma vestimenta e hum fromtall de damasco alionado com 
savastro de damasco azull, e o fromtall com hum pano dele no meio, 
e he de cinquo panos forrados de bocasym e framjados de rretros 
laranjado, e a vestimenta com todos seus comprimentos e alua de 
lenço. 

(Na margem) ij p.* 

Item : huma caixa para ter corporaes cuberta de forro de veludo 
carmesym, e de dentro forrada de damasco com crauaçam dourada. 
(Na margem) j p. 

Item: quatro corporaes com suas panlas (?) dolanda. 
(Na margem) iiij p.' 

Item : quatro toalhas dolanda pêra altar de três varas cada huma. 

(Na margem) iiij p. 

Item: humas obradeiras de ferro pêra faser ostias. 

(Na margem) j p. 



^ ama peça. 
' duas peçaa. 
3 quatro peças. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 57 

Item : duas pedras d ara. 

{Na margem) ij p/ 

Item: buam misall do custame dos dominicos. 

(Na margem) j p.* 

Item: huum bautisteiro. 

(Na margem) j p. 

Item: bum livro grande das boras de rrezar, de letra de mão, de 
purgaminbo eluminado, com buma furada de veludo preto forrada de 
brocado rraso^ e dous barões douro em que se põem as brocbas, e as ditas 
brocbas sam de prata anilada; e sobre a dita funda, por ser çafada Ibe 
pos outra de veludo carmesym com carris. 

(Na margem) j p. 

Item : biij^ ' tacbas para se ca crauarem os cem piques que ficam 
atras. 

(Na margem) biij* p. 

Item : buma arca muito grande mayor que de mam em carga de coiro 
cortydo preto, com sua ferragem em talhada. 

(Na margem) j p. 

Item: sete tonees macbos novos. 

(Na margem) bij p.* 

Nos quaes tonees e arca vam metidas todalas cousas acima con- 
tadas pêra melbor guarda. 

E porque be uerdade que o dito Lourenço cosme rrecebeo do dito 
Ruy leyte per mandado delRey noso senbor todalas cousas neste conbe- 
cimento decraradas pêra as leuar ao preste Jobam, Ibe deu delas este 
conhecimento feyto por mym Jorge correa escriuão do tbesouro em lii- 
boa a xxiij de março de jb^xb " annos. 

Jorge correa — Lourenço de cosmo. 
E mais recebeu o dito Lourenço cosme, de Ruy leite, sesenta varas 

> duas pegas. 

s uma peça. 

' oitocentas. 

^ sete peças. 

* Tinte e três de março de mil quinhentos e qninie. 



158 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

cinco sextos de cordam grosso de barbilho branco e vermelho, qae pre- 
fazem setenta e sete varas. 
(Na margem) Ixxbij vs-' ^ 

Jorge correa — Lourenço de cosmo. 

E recebeo mais o dito Lourenço cosmo de Rui leite huma quaixa 
forrada de pano azull em que vam as cousas da cama metydas, a saber: 
trauyseiros douro e asy outras cousas. 

(Na margem) j p.' 

E asy recebeo mais seis porcas de fero pêra as cubertas daceiro. 
e por verdade asynou aqui a xxix de março de b^xb ^ annos* 

Lourenço de cosmo — Francisco gonçalves. 

E mais recebeo ho dito lourenço de cosmo de Ruy leite bum lyuro 
de rrasar das oras de nosa senhora, que ha Rainha nosa senhora lhe 
mandou entregar per aldonça çoarez sua camareira, o quall lyuro he de 
purgaminho de letra de mão enlumynado todo de images, e cuberto o dito 
lyuro de borcado de pello pardo ryco, forado de cety carmesim com hum 
regysto douro fyado e aquayrelado com huma trança douro, e com qua- 
tro emxarrafos de prata e ouro e duas brochas de prata de fyllagrana 
douradas em que estam senhos escudos, em que estam em cada hum deles 
dous lobos por armas, o quall liuro que ele Lourenço cosmo asy rrecebeo, 
a Raynha manda a molher do preste. 

E asy rrecebeo mais o dito Lourenço cosmo de Ruy leite hum me- 
nino Jesus com huma coroa douro na cabeça, a qual coroa douro he de 
folha de fraudes dourada com hum diadema da mesma maneira, e com 
huma camesynha dolao com chapary polo cabeçam e bocaes das mangas 
dourada, e asy leua huma maçãa dourada na mão; o qual menyno he pêra 
o preste, e porque hasy recebeo as ditas cousas fez esto conhecimento asy- 
nado por mim e por elo em Lixboa ao primeiro d abrill de b^ x b ^ annos. 
Francisco Gonçalves — Lourenço Cosmo. ^ 

1 setenta e sete varas. 

^ uma peça. 

' vinte e nove de março de quinhentos e quinze. 

^ quinhentos e qainze. 

í T. do Tombo— C. Chron., P. 1.% maço 17, doe. 76. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 159 



1616— Margo -10 



Nos el Rey mandamos a vos Recebedor de noso tisouro, e ao es- 
priuaão dese ofício, que dees a duarte galuão do noso comselho, que ora 
emviamos por embaixador ao preste, huma loba de veludo prelo cerada, 
e outra de damasco preto, e dous pelotes da dita seda, e hum par de 
giboêes, a saber: hum de cetim rroixo, e outro de cetim alyonado, e isto 
quer preto, quer doutra quallquer cor que nom seja cremesym ; e per 
este com seu conhecimento vos seram leuados em comta ; e se elle amtes 
quiser a dita seda de cores nom semdo de cremesym asy lha day. feito 
em almeirim dez dias março, amtonio de neyva o fez, anno de b^xb.^ 

Rey • j • 

Recebeo^o sobredito duarte galuam de Ruy leite este vestido con- 
teúdo neste mandado, a saber: huma loba de veludo prelo cerada de- 
bruada de veludo verde, e a houtra loba de damasco lambem debruada, 
e hum pelote de celym alyonado, e outro pelote de veludo alyonado tudo 
debruado, feito em líxboa a xxx de março de b^xb* — recebeu dois 
jubOes. — o baram. 

Francisco gonçalves — Duarte galuom. 

Loba de veludo preto cerrada, e outra de damasco preto, e dois 
pelotes da dita seda e hum par de jiboees a saber: hum de cetim rroixo 
e outro de cetim alionado, e isto quer doutra cor que nom seja cremesym. 

Ira nos vestidos do anno de b° xb. ^ 



> quinhentos e quinze. 

' trinta de março de quinhentos e quinze. 

' Torre do Tombo— C. Chron. P. l.', M. 17, D. W, 



160 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1616— Outubro 11 



Senhor feitor — Manda o senhor capitam moor que des a diogo ho- 
mem, a que elle deu licença pêra se hir pêra portugall, seis serafys en- 
teiros, e seis meos serafys, e seis tangas, e seis çadis, e seis meos çadis, 
e seis fàluzes, e seis dinheiros, todo moeda deste reyno dormuz, os quaees 
lhe manda entregar pêra levar de mostra a elrey noso senhor pêra saber 
a moeda desta terra, de que maneira he e quanto vali; e guarday este 
pêra vos ser dado de outro mandado do senhor capitam moor, oje onze 
dia doutubro de 1515 — Pêro dalpoim. 

(No verso) Receby ho conteúdo neste mandado de pêro dalpoem 
secretario pêra ieuar a elRey moso senhor, as quaes moedas receby de 
manell da costa feytor dormuz oje onze doytubro de 1515 — Diogo 
homem. 

Mandado das moedas que leuou diogo homem pêra portugall/ 



1616— Outubro 14 



Trelado de acto que se fes antre Matheus embaixador do preste e 
daarte galuão embaixador delIRey nosso senhor. 

Anno do nacimcnto de nosso senhor Jesu christo de mil e quinhen- 
tos e quinze annos, aos quatorze dias do mes de oitubro da sobredita 
era, no castello desta fortaleza de cananor, estando hi lopo soares do con- 
selho delrei nosso senhor, e capitão dos ginetes do príncipe, e capiâo 
moor e gnouemador das índias, loguo pelo dito guovernador foi dito ao 
licenciado pêro gongalves, ouuidor dante elle, que matheus embaixador 
do preste se mandara agrauar no porto da cidade de guoa a çUe dito 

1 Torre do Tombo— C. ChroD., P. S.% Maç. 61, D. S4. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 161 

guovernador, de duarte gualaão que ora vai por embaixador por elRei 
nosso Senhor pêra o preste, de couzas que contra elle dizia e fazia, e que 
elle dito guovernador screaera ao dito duarte goaluão sobre este casso ho 
que devia fazer por seruiço delRei nosso Senhor, segundo per sua carta 
parecia; e que depois desto passado em cheguando elle capitão moor a ba- 
ticalla, com a morte que aconteceo de Jacome, elle guovernador mandou 
a náo piedade, honde hiam os ditos embaixadores, que fosse diante per 
bem de irem fazer as exéquias do dicto Jacome defuncto, e esto mandou ho 
dito guovernador por ter alguma detença com ho rei de batecalla, e que 
ora cheguando a frota a este porto de cananor, saindo elle guouemador 
em terra, o dito matheus embaixador lhe fezera queixume do dito duarte 
gualuão de algumaas palauras que tinha dito eontra elle, de que era inju- 
riado delle requerendoo que ho prouese com justiça; e que por esto asi 
passar em verdade mandaua ao dito ouuidor que presente estaua que 
fosse a poussada do dito Matheus embaixador, e lhe perguntasse se se 
aqueixava de duarte gualuão, e de que e quando que assi dissesse mau- 
dase fazer huum acto, e preguntasse sumariamente algumas testemunhas 
pêra se saber a verdade ; em comprimento de quall mandado o dito ouui- 
dor comiguo escripuão abaixo nomeado foi a cassa do dicto matheus em- 
baixador, e perante miguei nunes, linguoa, e perante mim escripuão lhe 
disse o dito ouuidor que o capitão moor ho mandaua lia pêra saber delle 
se se aqueixaua de duarte gualuão, e o dito matheus embaixador disse 
per miguei nunes linguoa que se aqueixaua de duarte gualuão que lhe 
dizia que era mouro, e que hó avia de prender em ferros e mandar 
presso a elRei nosso Senhor, e que nom era embaixador do preste, e que 
o dito duarte gualuão daua nos seus moços e dizia, «vos cuidaes que ha 
de ser como ate aguora, não ha de ser assi > , e que assi mesmo dizia o 
dito duarte gualuão que elle matheus queria fogir, e que francisco e dieguo 
sabiam disto, e lopo villalobos espriuão da embaixada, e que estes diriam 
as mais testemunhas, e que outras muitas e mais injurias lhe disse, das 
quais as testemunhas diriam a verdade: e eslo disse ho dito miguell nunez 
linguoa ao dito ouuidor falando com ho embaixador; e depois de scripto, 
ho dito embaixador fallou com ho dicto miguei nunez, e o dicto miguei 
nunez disse ao dito ouuidor que ho embaixador dizia que lhe lessem o 
que se escreuera, e o dito ouuidor lho leo, e elle disse que o mesmo dizia 
6 o entendia, e eu guaspar feraz que esto screpui. 

E depois d'esto aos quinze dias do mes de octubro da mesma era, 

TOMO III. 21 



162 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

na forteleza de canaoor, ho dicto oauidor comiguo escripuão perguntou 
Jorge de mello, fidalguo da cassa delRei nosso Senhor, e capitão da dieta 
forteleza, e seu testimunho he o que se segue, e eu ho chanceler que esto 
escreui. 

Item : Jorge de mello, fidalguo da cassa delRei nosso Senhor, e capitão 
que foi desta forteleza de cananor, testemunha a que foi dado Juramento 
na cruz de seu habito, e perguntado pello custume disse nichil. 

E perguntado pello contheudo no dicto auto disse que duarte gual- 
uão saio em terra em esta forteleza de cananor, quando a nao piedade 
chegou diante da Irota desta armada que ora veo a índia, e que o dito 
duarte gualuão com elle testemunha falaram em coussas de sua embai- 
xada, e acerca do embaixador matheus, falando em coussas que aqui ao 
dito embaixador aconteceram, e então disse o dito duarte gualuão que 
ouuira dizer a ellRei nosso Senhor, que lhe nom pesaua ja senam da 
vergonha que tinha de ter scripto ao papa e aos reis chrístãos, e que já 
aguora suas coussas pareciam a elIRei duuidossas, por quanto falaua ora 
huma cousa ora outra, e que elRey nosso Senhor mandaua escreuer ho 
que ella dezia, e que ora dizia huma coussa ora outra, e que lhe dizia a 
elle testemunha o dito duarte gualuão que lhe diziam que avia nome ho 
dito Embaixador abraem, e que ho frade dizia que ho mesmo embaixador 
era mouro, e que asi mesmo dizia o embaixador do preste que o frade 
era mouro, e que ouuira dizer ao mesmo embaixador do preste que nom 
avia de hir com duarte gualuão ao preste porque estaua mal com elle, e 
ali nom disse, e eu gaspar feraz chanceler que esto escreui. 

Item : Lopo de Villalobos fidalguo da cassa delRei nosso Senhor, que 
ora vai por escripuão da embaixada pêra ho preste, testemunha jurada 
aos sanctos avangelhos, e preguntado que era ho que sabia deste casso 
dante os embaixadores, ho dito lopo de villalobos disse que elle vinha 
em conpanhia de duarte gualuão, e por tanto que nom avia de testimu- 
nhar neste casso, e o dito ouuidor lhe mandou que testimunhase sob 
pena de cem cruzados emxecutados em seu soldo, e de dous annos de 
degredo pêra malaca, que loguo testemunhase e disese do dito casso ho 
que soubese; e perguntado pello custume disse elle testemunha que sem- 
pre neste caminho seruira ao dito duarte gualuão como a pai, e que era 
muito seu amiguo, em casso que algumas vezes destenperaua com p^d- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 63 

x9es de sua idade, pêro que elle era seu amiguo e que com todo diria a 
verdade do que lhe fosse perguntado que soubesse. E perguntado pello 
contheudo no dicto acto, disse elle testemunha que vira uma carta que ho 
dito duarte gualuão escreuera a elle testemunha, em que lhe escreuia que 
dissese ao capitão moor, estando elle testemunha em guoa, que lhe amos- 
trâse ou mandase amostrar ho aluara que tinha delRei pêra ter pressos a 
o embaixador do preste em a náo, e casi a elle duarte gualuão com 
elle, e assi outra carta que ho dito duarte gualuão escreuera na mesma 
forma ao dito capitão moor, e asi vio a reposta que o dicto capilão moor 
lhe escreueo, em a quall lhe respondia que nom era marauilha cuidar ho 
embaixador do preste que estaua presso, pois elle duarte gualuão pubri- 
camente dizia em essa nao que ho dicto embaixador do preste era falsso e 
lhe parecia mouro, ho que era pouco seruiço delRei nosso Senhor, porque 
elle que ho avia de conseruar e desconcertaua. E asi disse que era ver- 
dade que, vindo Jacome, sobrinho do embaixador, doente na nao piedade, 
elle capilão moor lhe mandara por vezes dizer que se quisese tirar seu 
sobrinho Jacome em terra que o mandaria curar mui bem^ e nom que- 
rendo ho dito embaixador senam sair com ho dito moço em terra, que 
avia por melhor mandar que se viesse á náo com os ditos embaixadores 
avia de canonor (sic)j e vindo asi através de baticala, bonde estaua ho 
capitão moor neguoceando ho que lhe compria, ho dito Jacome falecera 
da vida d'este mundo, ho que sabido pello dicto capitão moor mandou que 
seguissem avante, e ho veessem emterar a cidade de cananor, bonde foi 
emterado honradamente; e que quanto era ao que lhe asi foi perguntado 
mais acerca da discórdia dos embaixadores, disse elle testemunha que elle 
se veera a terra com ho dito embaixador, que estando assi em terra com 
elle ho dito duarte guaaluão veera ao terceiro dia depois da emteração 
do dito jacome, a saber: a segunda vez a vesitar ho dito embaixador, por- 
que já outra vez o vesitara quando foy ho emteramento, em a qual visi- 
tação ouuira dizer elle testemunha que coreram os embaixadores muito 
mas palauras, queixando-se o dito embaixador do preste do dicto duarte 
gualuão, dizendo que pois que ho pubricaua por mouro o nom deuia de 
vir ver, e que assi se apartaram com grande nonjo e menencoria hum 
do outro, e que loguo no dito dia elle testemunha fora ver ho dito em- 
baixador do preste, e o achara muito anojado e chorando, e elle testemu- 
nha lhe disera porque choraua, e o dito Embaixador lhe respondera que 
duarte gualuão lhe chamara mouro, e lhe dissera que era mouro e que 



164 CARTAS DE AFFOiNSO DE ALBUQUERQUE 

noin era embaixador, e que mentia. E perguntado mais eile testemunha 
pelio dito ouuidor que decrarase se alguma uez ouuira dizer ao dicto duarle 
gualuão, contra ho dicto malheus Embaixador, bo conlheudo no dicto auclo e 
queixume, dise elle testemunha que por muitas vezes lhe ouuira dizer que o 
dicto embaixador lhe parecia mouro, e que era mouro emperado. E pergun- 
tado se lhe disera ho dilo duarle gualuâo em segredo se em pubUco, disse 
elle testemunba que muitas vezes lho ouuira dizer em publico e em segredo 
perante muitas pesoas, e asi mesmo que andaua pêra fugir, e que asi lhe 
mandara dizer a elle testemunha ho dito duarte gualuão por bum pêro 
fernandes criado delle testemunha, que Ha se dizia na náo altas vozes 
pubricamente que bo dicto embaixador era mouro e Ibe chamavam abra- 
hem, e mais do conlheudo em ho dito queixume nom disse, e eu guaspar 
ferraz que esto escreui. 

Item: fernam daluares de guaa, fidalguo da cassa delRei nosso Senhor, 
testemunha jurada aos sanctos avangelhos, e perguntado pello conlheudo 
no aucto, o quall lhe foi Udo e decrarado, dise elle testemunha que era 
verdade que elle vinha na náo piedade bonde os dictos embaixadores 
vinhão, e que ouuira dizer por vezes ao dicto gualuão que trazia modos e 
maneiras pêra nom ser verdadeiro, e que assi lho dizia huum frade doente 
que na dita nao vinha. E que bem assi depois da morte de Jacome, seu 
sobrinho, ho dito duarte gualuão vestira huum mogim de cetim alionado, 
e que ho dito Matheus embaixador do preste se aqueixara com bo dito 
duarte gualuão por se vestir de louçainha, estando elle anojado por a 
morte do dito Jacome; e que depois desto passado elle testemunha veera 
e ouuira dizer loguo ali como os embaixadores sse disloraram huum ao 
outro mal e feas rezOes, das quaes elle testemunha nom vira passar mais 
que lho asi dizerem, e que nesta veo jorge de mello e foi falar dentro 
com ho Embaixador do preste, e que se veo pêra hi pêra fora honde o 
dito duarte gualuão estaua falando com elle testemunha, e o dito duarte 
gualuão, estando assi ambos, a saber, elle testemunha e o Jorge de melo, 
lhes dissera craramente que ho dilo embaixador era mouro, e em todas 
suas coussas lho parecia, e que aquelas dessauenças que elle com ellé to- 
maua era buscar coussas pêra que esta embaixada nom viese a lume, e 
estando nisto acertou de traser comsiguo o dito duarte gualuão huum 
frade, que na dita náo estaua doente, pêra ho curarem em terra, e diseram 
ao duarte gualuão que ho embaixador do preste recebera desprazer por 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 165 

ho asi trazerem sem sua licença, e quando bo así diseram ao dito duarte 
gualuão, disera a elle testemunha que se bo embaixador do preste dizia 
que era mouro que porque bo trazia comsiguo, e o queria na nao, que 
mais certo era ser elle mouro que o dicto frade, e que o queria matar bo 
dito Embaixador por se por eUe nom virem a saber algumas coussas, e 
que o frade era buum dos sanctos bomens que elle vira, e que asi estando 
o dito Jorge de mello bi, que o mesmo duarte gualvâo dissera a elles am- 
bos de dons que elRei nosso Senbor que estaua condo por ter scripto ao 
papa em como este era embaixador do preste, e que bem parecia a ellRei 
nom ser verdade, e que os mandaua por comprir, e ali do dito caso nom 
disse, guaspar feraz esto escreui. 

Item: francisco de guaa, testemunba jurada aos santos avangelbos, 
e perguntado pello costume disse nicbil. E perguntado pello contbeudo no 
dicto auto, disse elle testemunba que na nao as vezes via falar ao dicto 
duarte gualuão perante os criados de matbeus embaixador, que o dicto 
matbeus Ibe parecia mouro, e que buum frade que ba bi bia na dieta 
náo abexim dizia que o dicto matbeus era mouro, e isto dizia bo dicto 
duarte gualuão que dizia ho dicto frade, porem que elle testemunba 
nom bo ouuio ao dito frade, somente ao dicto duarte gualuão, e que 
asi lhe ouuira dizer buum dia estando a frota em moçambique, es- 
tando bo dito embaixador falando com buum xarife que estaua em 
moçambique por espaço, que Ibe parecia mal bo dito Embaixador por 
assi falar com bo dicto xarife mouro. E disse mais que estando ho dicto 
embaixador duarte gualuão falando em cananor com Jorge de mello, 
praticando sobre bo dicto embaixador matbeus, o dito duarte gualuão di- 
sera que mais parecia bo dicto matbeus mouro do que ho era ho frade 
abexim que trasia na náo. E que ouuio emtom dizer que o dicto duarte 
gualuão ouuera rezOes com bo dicto matbeus, porque bo dicto matbeus 
ounera paixão de se bo dito duarte gualuão vestir de louçainba depois 
da morte de Jacobo, e coreram mas palavras, segundo elle testemunha 
ouuio dizer geraknente, porem que elle testemunha nom vira passar as 
dietas resões, e ai nom disse. E eu ho chanceler que ho escreui. 

Item: francisco aluarez, clérigo de missa, que ora vai com os embai- 
xadores pêra ho preste, testenAinha jurada aos sanctos avangelhos, e per-> 
gontado pello costume e cousas que lhe pertencem, disse elle testemunhn 



166 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

que ha tempos que conhece o dito doarte gualnão, e a este vai acostado, 
e asi bo embaixador matheus conhece de liiboa pêra ca, e qae era sea 
filho espritual, pêro que com todo diria a verdade do que soobese, e mais 
do costume dise nicbil. 

E perguntado pello contheudo no dito auto, o quall lhe foi lido e 
decrarado, dise elle testemunha que quanto era a carta que o dicto duarte 
gualuão escreuera ao Senhor guovernador, que sabia que lha escreuera e 
lha mandara no parte (f) de guoa por mignell nunez linguoa, e o que nella 
hia que elle testemunha ho nom sabia, e que sobre esto que duarte gualuão 
disera a elle testemunha, que nom havia de sair em terra, por quanto o 
capitão moor lhe escreuera que nom avia de fazer detença em guoa mais 
de quatro ou cinco oras, e tornarse loguo a^ náo, e que asi sabe elle tes- 
temunha que depois desto ho dicto duarte gualuão escreuera outra carta 
ao dito capitão moor, a quall lhe fora dada por pêro vaz eauaileiro da 
cassa delRei nosso Senhor, e que do que hia na dieta cartha elle testemu- 
nha ho nom sabe, nem menos sabe que o diclo duarte gualuão mal disese 
do embaixador matheus, ante a hora do pasamento de Jacobo, estando 
elle com a candea na mão, o dicto duarte gualuão estiuera hahi até se 
acabar de finar, consolando muito ao dito Embaixador com boas palauras 
decrarandolhe coussas da sancta madre Igreja. E pelo dicto modo elle tes- 
temunha vira ao dito duarte gualuão na camará do dicto embaixador, em 
quanto ho dicto defuncto estaua hi finado, três ou quatro vezes senpre o 
consolando, sem nunca lhe ouuir huãa má palaura. E assi mesmo sabe 
de vista que, ao tempo que foi ho enteramento do dicto Jacobo, o dicto 
duarte gualuão veo com elle a poussada, e esteue com elle três ou quatro 
oras, e nesto o dicto matheus embaixador roguara a duarte gualuão que 
nom leuase consigno a elle testemunha, pêra que ficase com elle pêra sua 
consolação, e pêra lhe dizer ho que avia de lazer acerqua da sepultura e 
coussas que queria deixar a Igreja, e elle, testemunha ficara com o dicto em- 
baixador matheus, e dahi a dous dias elle mesmo matheus dissera a elle 
testemunha que escreuesse a duarte gualuão, em como elle queria comprar 
huum palmar pêra deixar á igreja pêra certas missas, que lhe pedia por 
mercê que viesse pêra ho aconselhar o que avia de fazer, que nom tinha 
outrem com quem se aconselhar, e elle testemunha ho escreuera á náo 
bonde ho dicto duarte gualuão estaua, no modo que ho embaixador lho 
disera, e no fim da carta elle testemunha escreuera ao dicto duarte gual* 
aSo, que lhe pedia pello amor de deus que trouxese huum £rade muito 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 167 

doente que na dita náo vinha, pêra ho fazer curar no spritall da dieta for- . 
taleza, o qoall duarte gualuão tanto que vira a carta loguo veera e trou- 
uera em sua companhia ho frade doente e ho leuara ao sprital, e sabendo 
ho dicto embaixador matheus que ho frade era no spritai se aqueixara 
muito dando brados, dizendo, pois mataram Jacobo porque querem dar a 
vida a huum frade mouro que nom he christão, e que ho duarte gualuão 
lhe respondera, trouxeo porque este padre mo escreueo, e se mouro era 
ou judeu pêra que o trouxestes em vossa companhia de portugall, e fe- 
zestes com elRei que lhe desse todo ho hordenado, dizendo que era huum 
frade sancto de boa vida e de grandes parentes na terra do preste, e 
posto que o padre mo nom escreuera eu ho trouxera, porque ha oito dias 
que ho mantenho, e nom tenho lia cousas pêra doentes, mas pois que ho 
trouuestes que tenhaes careguo delle, que ha hi seria elle mouro ou judeu 
como vos dizeis, por ser peruxio (?) e vir em vossa companhia tanto ha 
o deuiamos curar, pois estamos em terra pêra isso, pois elRei nosso Se- 
nhor them huum sprital deputado pêra os emfermos; e a todas estas cou- 
sas ho embaixador matheus respondia rijo, ao que então disse miguei 
nunez linguoa, tirome daqui e nom quero ser linguoa porque coussas diz 
que nom sam pêra dizer, e depois podem dizer que nom disse tal, e que 
asaquey isto de mim; e asi se calou sem mais responder; e ho dicto duarte 
gualuão se fora sem se espedir do dito embaixador, dizendo a linguoa que 
se fora sem lhe falar, que o fezera por lhe nom dar mais emportunação, 
e que asi lho disese depois que abrandase da fúria, ficando o dito embai- 
xador com elle testemunha em grandes brados, dizendo porque escreuera 
aquella carta, ou porque fezera vir aquellô frade, ao que elle testemunha 
respondera que por fazer obras de misericórdia e curar delle em terra 
como fazia na náo, dizendo ho dito embaixador que tanto que o preste 
visse a elle testemunha que loguo ho mandaria matar, e o mandara 
fazer em postas pequeno e pequeno, e que como o pai de Jacome 
visse os portugueses todos os avia de mandar matar, porque lhe mata- 
ram seu filho, e que não avia de hir ao preste, ao que o linguoa res- 
pondera, por sua mesma linguoa ao dicto embaixador, que em portugual 
catauam muito aos padres sprituaes, e os tinham por padres das almas, e 
que lhe nom deziam palauras dessonestas, antes lhe catauam muito, e esto 
segundo a linguoa dezia a elle testemunha, e que emtom ho dito embai- 
xador se deitou no chão a seus pees, e lhe tomara a mão delle testemu- 
nha e a beijara, e lhe pedio pello amor que lhe perdoase e lhe deítase sua 



168 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

benção, a que elle testemunha satisfezera, e do dito aucto mais nom sabia, 
e Eu guaspar feraz que esto escreui — Vai treladado e concertado com 
ho próprio original, com pêro gonçalves scripuão — ho licenciado pêro 
gonçalves — Pêro gomes. 

(Em dorso) A ellRei nosso Senhor. 

Auto que veo da índia dantre duarte galuam e ho embaixador do 
preste. ' 



1616— Outubro 16 

Manoell da costa feitor durmuz, e esprivãees da dita feitoria, ho ca- 
pitam jerall e ele. per este vos mando que me pagues seis mill quatro 
cemtos e vimta nove cruzados, e mais quatro mill seiscemtos oitemta e 
dous pardaos, que me sam devydos por outros tamtos que emprestey aos 
oficiais delRey noso senhor em suas feitorias nestas partes da Imdia pêra 
serviço do dito senhor, como verees per as mesmas arrecadaçOees e cer- 
tidOees que tenho dos ditos oficiaees, que vos mando que guardees por 
quanto sam minhas, e ey por serviço do dito senhor guardaremse e ter- 
delas imfiadas pêra vosa comta; e por quanto na rreceita dos ditos feito- 
res ficou posta verba como eu ouue as ditas certidões pêra eu auer meu 
pagamento omde hy ouuese dinheiro, e se averem de rromper as ditas 
certidões ao asynar doeste, ey por bem como dito he guardar delas e nas 
costas de cada huma delas pordes huma decraraçam desta per tosos es- 
privães, em que diga como sam ja pagas per vertude deste meu mandado; 
e porque somaríamente a comtia de dinheiro das ditas arrecadações fazem 
em soma o que acima se contem, vos mando como dito he que mo pa- 
gees de quallquer dinheiro que tiverdes, e pêra mais firmeza vos ponho 
aquy as forças das ditas certidões que hei, a saber: ao feitor de cocbim 
por huma arrecadaçam trezemtos novemta e oito cruzados e dezaseis 
fanoes, e por outra a ele mesmo trezemtos e sete cruzados e catorze 
fanoes, e per outra a ele mesmo dezasete cruzados e meyo, e por outra a ele 
mesmo duzemtos oitenta e três cruzados e seis fanoes, e por outra a ele 
mesmo dous mill quatro cemtos cimquemta e cimqo pardaos; e ao feitor 
de Calecut quynhemtos e novemta cruzados por huma arrecadaçam, e per 

1 Torre do Tombo— C. Chron., P. I.% Maç. 10, D. 9. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS i 69 

outra a ele mesmo cento sesemta e quatro cruzados; e por outra a ele 
mesmo cemto e cinquemta pardaos, e ao feitor de cananor por outra arre- 
cadagam cimquenta pardaos, e a ele mesmo por outra cemto e três par- 
daos: e ao feitor de goa per outras arrecadações oitenta cruzados, e a ele 
mesmo por outra mill novemia e oito cruzados, e a ele per outra cento? 
e hum cruzados e três quartos de cruzado, e per outra oito cemtos e 
sesemta cruzados, e per outra a ele trezemtos e cimquemta pardaos, e 
per outra trezentos pardaos, e per outra a ele quynbentos pardaos^ e per 
outra catorze pardaos, e por outra vosa como feitor das presas de cemto 
e coremta cruzados e meyo e corem la e cimqo reis, e per outra vosa 
como feitor durmuz cimquenta e cimquo cruzados, e per outra vossa 
mill cento e novemta e quatro cruzados, e outra como feitor das presas 
quatrocentos e vinte pardaos, e outra vosa como feitor das presas tre- 
sentos e coremta pardaos, e por outra de tristam degaa Ihesoureiro dar- 
mada seiscentos novemia e dous cruzados, e por outra a ele mesmo 
qualrocemtos cimquoenta e cimquo cruzados e corenta reis, nas quais 
arrecadações se montam per bem de conta os ditos seis mill quatrocen- 
tos e vimta nove cruzados, e mais i s ditos quatro mill seiscentos oitemta 
e dous pardaos, como mais imieiramente se vera pelas ditas arrecadações 
que seram guardadas em voso poder como dito he, e per este com asemto 
dos ditos esprivães vos seram levados em comia, feito em urmuz a dese- 
seis dias doutubro Amtonio da fomseca o fez de 1515. — Assignado — 
Affomso dalboquerque. 

(No verso) Para Manuel da costa pagar ao capitam mor o dinheiro 
que lhe era deuido nas feitorias da Imdia. * 



1616 — Dezembro 11 



Senhor — Despois de ter escrito a vosa altesa acorde de escreuir 
sobre o vigairo que estaba en cananor que se vai para portugal, de que 
me muito peso por ser omem que seruia muito bem a vosa altesa, y tinha 
muito cuidado de la anima de don Jacome en mandar dezir as misas que 

* Torre do Tombo — C. Chron., P. 3.\ Maç. 5, D. 120. 
TOMO III. áá 



1 70 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

deixo que se digan por sa alma, e asi traballo muito na conpra de hum 
palmar que conpre pêra a dita ygreja e rrenda pêra as duas misas; pa- 
receme que ninmm vigairo que de vosa altesa mandar que lo tanbien 
faça e sirva a vosa altesa como este, e podra vosa altesa saber bem, e 
ser ben enformado por jorge de melo capitan e otras persoas que o co- 
necen e saben como senpre bibio, por lo qual peço a vosa altesa que si 
bienqueren a don Jacome que lo mandeis para aqui por vigairo, y en 
esto senhor me hara muita mercê, de cochi a onze de dezembro de 1515 
anos. 

Uma cruz — dei embaxado do preste Juan. 

(No verso) Do embaixador do preste Joam — dis bem do vigário de 
Ganauor. 

— Pêra elrey noso senhor.* 



16 .. —Janeiro 16 



Senhor — Se me dom frrancisco tevera mandado de canenor cos em- 
baixadorres delRei de narssynga, ja esta carta fora escrita de narssynga 
com muitas houtras cartas minhas pêra vossa alteza, e rrepostas da em- 
baixada delRei de narssynga pêra vossalteza também, e isso mesmo ja 
vossalteza hoje verra polas primeiras nãos que de ca partyram, e tam- 
bém polas ssegundas, e muito mais por jam da nova que parte dera- 
deiro; porque. Senhor, da partyda dos embaixadorres delRei de narssynga 
da ly de canenor ha parlyda de jam da nova de ca passaram acerca de 
noventa dyas, e eu fora a eIRei de narssynga em quinze dyas, e dy avante 
cada oito dyas mandara por correos que ca ha cartas pêra vossalteza, e 
isso mesmo pêra dom frrancysco, de que devia ca de fazer, e do que sse 
la faria contra calecud, e contra coulam, e contra canenor sse bolysse 
comssygo, e também. Senhor, dom frrancisco escrevirme ho que compria 
de eu fazer, e per esta maneira que lhe eu muitas vezes falei fora cale- 
cud destroido, e coulam e canenor pedyra messyricordia, porque, Se- 
nhor, ssegundo a guerra de parte que nam sse pode dyzer mais que 

* Torre do Tombo— C. Chron., P. L\ Haç. 19, D. 52. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 171 

eiAei de narssynga da de ssy a vossa alleza, e ca deram os seus embai- 
xadorres a dom írrancisco, como vossa alteza la vera e ssabera tudo isto 
sse fezera, e muito mais bo primeiro dya que eu chegara a elHei de uar- 
ssyoga, e nom fezeram os imdeos lio mal que teni leilo sse me dom frran- 
cisco mandara de canenor, assy como lhe vossa alteza mandou que ele 
fezese que me mandasse logo, vendo que era vosso sserviço, e sse era 
ou nam julgueo vossalleza e cantos ou ver em vossos reynos; isto tudo, 
Senhor, nom fycou por mingoa de lho eu nom dyzer muitas vezes e 
mais delgadamente do que ho aqui escrevo a vossalteza, e ele nam que- 
ria ssair da ssua teima que era escarnecer delKei de narssynga e ssyrse 
dele, e que nam havia la de mandar ninguém, e guespar bera com ele 
neste comsselho, e ssempre veo isto dyzendo como partymos de lyxboa 
polo mar, de maneira. Senhor, que nunca sse quis tyrar d'esta houpe- 
niam, e o mais que fez por coussas que lhe eu ssobristo dysse, e assy 
outras pessoas que lhe eu mety por debaixo da (sicjy e a tente vossa al- 
teza, bem nisto que amdava buscando modos e Jeitos pêra ele entrar em 
fazer ho que tam cumpria a sserviço a vossalteza, e co isto escreveo a 
elftei de narssynga como eu baly estava com embaixada de vossalteza e 
cuum pn&ssente, e que iria camdo ele mandasse que eu fosse, e este 
despacho deu aos sseus embaixadorres, e ate gora nom veo mais rrecado 
nenhum, esperamos cada dya por ele, e os embaixadorres. Senhor, ssa- 
byam como eu aly estava co a embaixada de vossalteza, e apontaram 
três ou quatro vezes a dom frrancísco que mandasse alguém co eles, e 
eu, Senhor, cando aquylo ssoube mandeilhe dyzer por Lourenço de brito 
que me mandasse co eles, e que mandaria rrecado pêra as nãos trase- 
rem a vossa alteza, e asy lhe mandei dyzer muitas houtras cousas, e ele 
nam quis, e de maneira sse punha em rresponder asparo a isto que eu 
nom oussava de lhe falar ja nem housso, porque. Senhor, alem de me 
rresponder palavras más, ameaçavame que nom me mandaria a narssynga 
nem queria la mandar, e por isso. Senhor, lhe nom falo ja em nenhuma 
coussa de narssynga, porque nom housso polas ssuas mas rrepostas e 
determinações; estas coussas. Senhor, todas entendydas ssam ca de nos 
todos: dom frrancisco. Senhor, nom pode ca engolyr nenhuum homem 
que venha feito per vossa alteza, e todo que vem feito faz canto pode 
polo desfazer e fazer outro da ssua mão daqueles que ele trouve com- 
ssygo; e assy desfez Jam pegas que vossalteza mandou pêra estar por 
alcaide mor com lourenço de brito, e fez alcaide mor guadalajara de 



172 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

canenor hum castelhano dalboquerque, porque vive no crato, isso mesmo 
fez bermudez capytam de coulom porque também vive no crato, e fez 
em quiloa hum criado sseu escrivam da feituria^ deu ca em cochym huma 
galeota a diogo pyrez sseu criado, e tyrou a Jacouie dyaz a que vossa 
alleza mandava dar; isso mesmo deu as quadrilharias de quiloa e bom- 
baça a estes mesmos, e a mim, Senhor, buscava escama de dyzer que no 
rregymento de narssynga vem que ele possa mandar la quem quisser, e 
passou comigo esioreas ssobrisso, ai de menos pêra ver sse co esta des* 
esperança me tornava pêra portugal, pêra ele emtam mandar cada hum 
destes que trouve comssygo, e que alçou a las estrelas; e eu, Senhor, 
respondylhe que eu nom ssabya parte de nenhum outro rregymento sse 
nam do que me vossa alteza dera, que era aver vos. Senhor, dyr servir 
CO esta embaixada a elUei de narssynga, e que este mesmo rregymento 
dera vossa alteza a trislam da cunha com muito gosto, e que assy ho 
dera também a ele, cando lhe vossalteza dera todolos houtros despachos 
dos que ca vinham, e mais que em belem lho dyssera vossalteza perante 
mim, encomendando lhe muito este negoceo e a mim com ele^ e que rres- 
pondera a vossalteza que ho leixasse co cuidado e que descanssasse sso* 
brele porque he negocio, e a mim que tudo levava ssobre ssua cabeça, e 
isto bem lembrara a vossalteza que passou asy em belem, e eu, Senhor, 
acho me ca debaixo dos pes destes sseus que aquy digo que ca fazem ho 
que querem e desfazem os que vossalteza fez, e fazem em ssy mesmos, 
e alegando eu. Senhor, a dom francysco, isto que lhe vossalteza dyssera 
em belem perante mim, poronde mele devia de fazer ssequer aquela honra 
que ele ca faz aos que lhe la encomendaram; diogo de melo sseu parente 
e dom francisco de monssanto isso mesmo ca faz aos que trouve com- 
ssygo, e nom sendo eu embaixador de vossalteza, somente encarregan- 
dome tanto a ele, e ele mandar me cos homens d armas a canenor haca- 
rretar a pedra pêra fortaleza, e a nuno vaz pereira de sserpa, que lhe 
encomendou diogo de melo, traio nacabeça, e dei lhe a caravela de jan 
omem, e a Rodrigo rrabelo, por que lho encomendou dom Rodrigo de 
crasto, dei lhe a náo de dom fernando que deus aja; e ainda que estes 
dons homens. Senhor, ssejam muito bos fydalgos como ssam e mereçam 
tudo isto e muito mais, ele lho nom fez ss€ nom por rrespeito d estoutros, 
por que dom frrancisco, Senhor, nom nos conhecya d antes, e a mim a 
quem a tanto tempo que ele conhece e sseus irmãos, e que vossalteza 
tanto encomendou, tratame, Senhor, como vos la todos dyram, e nom da 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 73 

nada polo que lhe vossalteza dysse, por que cando lho eu aleguei perante 
fydalgos e cavaleiros nom deu por isso huma palha, e rrespondeo que 
também lhe encomendara vossalteza lopo sanchez dyzendo me co isto pa- 
lavras emjuriosas; asi, Senhor, que me trata d esta maneira por que ve- 
nho feito por vosaltesa, e ele quissera que nom fora assy sse nom que 
fora ha elRei de narssynga huum guadalajara ou bermudas, e ho de que 
sse todos ainda ca mais espantam, Senhor, he de também no sirvo ssem 
nunca de mim lhe sser feito nenhuum queixume, nem me tomar em tam 
ssomentua (sic) coussa em que merecesse huma sso palavra de castygo, 
e comtudo me faz isto e muito mais, e sse ele. Senhor, houvera de man- 
dar a narssynga quem quissera, ja la esteuera guadalajara, ou cada huum 
dos sseus, por que. Senhor, em quiloa nos contou guadalajara a muitos 
como dom frrancysco mandara falar com elRei de quiloa ssagrredos, e 
gaspar pereira me contou que estava em casa delRei de quiloa fazendo 
algumas coussas que eram de sseu fyceo huum dya a noite, e que entrara 
guadalajara com guespar por lyngoa, e que estando guespar perreira com 
eIRei de quiloa, que lhe dyssera guadalajara que sse ssahyse pêra fora, 
que avia de falar com eIRei certas coussas em ssagredo que lhe mandava 
dyzer dom frrancysco, e guespar pereira rrespondeo lhe que ele devia ahy 
destar polo hofyceo que trasya, e guadalajara nom quis e feio ssair pêra 
fora, e fycou com eIRei per grrande espaço ; hora veja vossalteza sse de- 
vem d andar hos vossos ssagredos das Indeas por huum caestenhano dal- 
boquerque, que vosa alteza nunca vio nem conhece, mandando ca hofy- 
cyal propeo pêra iso que he guespar pereira, e avendo ca tantos criados 
vossos, aiora como dygo sser guaspar pereira escrivam e ssacretareo d ar- 
mada, mas a condyçam. Senhor, de dom frrancysco com guadalajara, e 
bermndez, e diogo pirez sseu criado, e dom lourenço fazem tudo canto 
querem, como vossalteza la ssabera por os que la vam, e por estes sse 
pode dyzer querem ssoltar bo ladram, e querem condanar a mim; e 
canto he, ssenhor, a estas coussas de narssynga que aquy dygo a vossa 
alteza, que sse ca fazem desta maneira, guespar pereira tanto que che- 
gamos a índia se fez da banda destes que dygo, e he comtrairo ha nar- 
ssynga, isto. Senhor, dygo por que alem de sser craro, e visto ca por 
todos, ele amtes que chegássemos a índia, vindo nos polo mar, era grande 
meu amigo, e nunca mal dezya ssenam camanho mal era trazer dom 
frrancysco tam ma fantessya contra narssynga, e que desservia vossa al- 
teza grrandemente nisso, e malavasse sempre ssobristo, e agora. Senhor^ 



1 74 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

por qae esta honido com dom frrancisco, uislo e em canlo ele quer, caisse 
nom me fala ja pouco nem muito, ssomente em nos tyrarremos os barre- 
tes, e isto, Senhor, traz comssygo ho que aquy dyrey a vossa alleza; 
guespar pereira tanto que partymos de lixboa logo ho compeçaram de 
tratar mal guadalajara, e dom lourenço, e diogo pires, e houlros de dom 
frrancysco, que guespar perreira mesmo pode dyzer, e vinha lhe dyzendo 
que nom cuidasse que trazya rregimentos, por que tudo dom frrancysco 
avia de fazer doutra maneira e como quissesse; e assy lhe vinha dizendo 
muitas coussas feas, e dom frrancysco nom no prezava nem curava dele, 
e também escarnecya dele, e do hofyceo que ele cuidava que trazya, e 
estoutros, Senhor, nom dyzyam isto ao guespar pereira sse nom polo 
que ssentyam de dom frrancysco, e tanto ho vieram tratando mal ate que 
ordenaram com dom frrancysco que lhe tyrasse ho hofycio, e que ho 
desse a quem fosse mais velho que ele, demaneira. Senhor, que nom fa- 
zyam ssenam lavrar nisto canlu podyam; e cando tomamos quiloa fez 
dom frrancysco cadrilheiro sseu criado diogo pirez, e pêro lopez que ca 
veo CO ele, e da ssua criaçam^ e tam bem pêro cam, e por escrivães frran- 
cysco Rodrigues sseu criado, e outros de vossalteza; esta cavalgada, Se- 
nhor^ era toda governada e mandada por diogo pirez, e por pêro lopez^ 
quadrilheiros, e por frrancysco Rodrigues, escrivam, e também era escrí- 
vam pêro de fygueiredo; guaspar pereira, Senhor, polo hofyceo que traz 
de vossalteza pêra dar testemunho do que vir e entender nas partes das 
pressas que tocassem a vossalteza, compeçou dentender desta maneira, 
e por escrivais no que tocava a vossalteza, polo qual, Senhor, lhe nom 
queriam estes que aqui dygo, criados de dom frrancysco, leixar levar 
nada avante e ainda ho deshonraram de palavras mas, de maneira que 
por que dom frrancysco tudo ssoube e nom fez sobriso nada, nam hous- 
sava guespar pereira de hussar de sseu hofycio, nem falar nada, sso- 
mente eles fazyam ho queriam ; e depois que tomamos. Senhor, bombaça 
fez dom frrancysco guadalajara, e nuno vaz, e fernam ssoares quadri- 
lheiros, e pêro lopez com houtros escrivais da cavalgada, a qual se veo 
partyr anjadiva; e guaspar pereira, Senhor, todavya maltratado e com 
muito pouca houssadya de hussar de sseu hofyceo, demaneira que huum 
dya perante dom frrancysco, e cantos éramos em amjadyva que de pres- 
sente estávamos na tenda, dysse pêro lopez algumas palavras más a 
guespar pereira acerca do escreveri questavam ambos numa messa fa- 
zendo e escrevendo a cavalgada, e guespar pereira cando lho pêro lopez 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 1 75 

aqailo dysse alevantousse da messa perante dom frrancysco, e perante 
nos boutros questavamos hahy muitos, e dysse mandai, Senhor, escre- 
ver ho mea bofycio e dar delo a quem quisserdes que melRei noso se- 
nhor deu, e me manda ca, porque a mim nam me querem leiíar fazer bo 
que devo e ainda me deshonram, e pêro lopez me dysse agora tais pala- 
vras; e dom francysco cando aquilo vio deshonrou entam ho pêro lopez 
de palavra, e nom lhe deu mais castygo, e dysse que sse sse mais algum 
quadrilheiro tomasse com guespar porreira que lhe quebraria hum pao 
na cabeça, e compeçou de dizer muitas palavras mas contreles, e daly 
a vante fycou guespar pereira honido com dom frrancisco e cos sseus fa- 
melyares. estes que aqui dygo, e dom frrancysco leixou dentender em 
lhe tyrar ho hofyceo, e assy estam agora todos grrandes lyados: assy. 
Senhor, que tomando a meu prepossyto, este modo em que guespar pe- 
reira be em favor de dom frrancysco, como eu tenho crraramente tomado 
as mãos, eu, Senhor, temo aquy que seja por ssegurar que lhe nam tyre 
dom frrancysco ho bofycio, e que co este rreceo bo faz, posto que lho 
nom deu vossalteza pcra ele bussar de tal condyçam, e sse guespar pe- 
reira co este medo faz isto ele ho deve descrever a vossalteza, e se o nam 
escreve bem cabe emtam pedyr lhe vossalteza ha conta do bofycio que 
lhe deu, e do juramento também, e do que dele confyou, por que tudo 
isto que eu aqui dygo a vossalteza, se nam fosse pubrico eu no escrevera 
a vossalteza; e canto be ao ofyceo que amdavam pêra lhe tirarrero, isto 
me dyse a mim guespar pereira, e a dom aluaro de loronha também; asy, 
Senhor, que quem vos ade sservir no que tanto toca a vossalteza, como 
sam as coussas de narssynga, ssegundo mais largamente la dyra ho pa- 
dre frrei lois a vossalteza, fazem ca, Senhor, ho que la ssaberres, que a 
caz de bem tomado esta as mãos avcr vossalteza de ssentyr nam me man- 
darem de canenor, pois que agora vossalteza tiverra reposta d el Rei de 
narssynga da embaixada, bafora muitas cartas minhas de canto la vai, 
e roais calecud e coulam destroidos, e esta destroiçam, Senhor, afirmo 
assy a vossalteza porque saberá la por jam da nova, e por boutros ho que 
ho natorrym de canenor fez agora antes do natal, que foi porque os mou- 
rros de canenor nom queriam ssenom dar rrebates a feitoria, e a forta- 
leza vendo isto, bo natory que be grram sservidor de vosalteza e estava 
na de canenor rroto com elRei e cos mourros, e cando o natorrym vio 
que os mourros nom queriam ssenamdar rrebates a feitoria, como vos- 
salteza la saberá, mandou dyzer a elRei de canenor e aos mourros como 



176 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

lhe elRei de narssynga escrevera huma carta, em que lhe fazya a ssaber 
que a ele era dyto que os mourros de canenor e elRei de cananor trata- 
vam mal os cristãos delRei de portugal, que pois que ele era em ajuda 
dos cristãos que lhe mandasse dyzer e requerer tudo ho que lhe com- 
prisse, porque logo mandaria destroir todolos mourros de canenor, e o 
Rei, e a calecud; e que sse leixara todo este tempo destroir canenor sse 
nom fora por ai, ssenam por que era estrebaria dalguns cavalos sseus, 
e assy lhe mandou muitos hoferecymentos e agardecymentos por ele sser 
sservidor de vossalteza, e dysto, Senhor, dará la jam da nova milhor 
conta a vossalteza qu eu por qu estaua em canenor, e tombem houtros, 
ho padre frreí lois, e gonçalo gyl; demaneira que tanto que elRei de ca- 
nanor isto vio, hou ssoube de natorrym, e isso mesmo os mourros, po- 
sseram logo todos as ameas no cham e ouveram sse por destroidos, e fo- 
zeram logo grrandes pazes co natorym, e com Lourenço de brito, e veo 
sse ver ho natorrym com elRei de canenor, e donde eram inimigos sam 
agora grandes amigos, e esta conta mandou dar ho natorrym a Lourenço 
de brito, e contaram ca isto a dom frrancisco, e calousse: hora veja vos- 
salteza o que fora sse eu fora de canenor a eIRei de narssynga, pois ele 
isto mandava dyzer ao natorrym amtes que ssoubesse parte que vossal- 
teza lhe mandava embaixada e o mandava vegytar; e cumcrudyndo. Se- 
nhor, estas coussas todas que aquy dygo, e que em houtras cartas tenho 
escrito a vossalteza, e houtras que também nam dygo, e escusso de dy- 
zer, faço ssaber a vossalteza que lhe convém tornar a fazer a Indea de 
novo, e seja com homem que vos tema e cumpra vossos mandados, por 
que dom frrancisco nam hussa ca ssenam do que a vontade, assi pêra os 
Imdeos como pêra todolos vossos criados e jente que ca sserve vossalte- 
za; e dou este avisso a vossalteza, que daqui avante ho homem que vos- 
salteza ca mandar por vosso visso rei, no poder que lhe vossalteza da, 
ho qual he como deve, pois vossalteza nele mesmo dyz que lho da assy 
por que confya que o ade fazer bem como comprir a vosso sserviço, ve- 
nha todavia huma berba no pe dele que sse o contrairo fezer que ho 
pagara pola cabeça, hou pola fazenda, ssegundo a maneira em que 
ele berrar; isto. Senhor, dygo por que dom frrancisco nom faz senam 
ler nos ho sseu poder com grande houfania, e porque nam traz esta 
berba que aqui dygo cuida que nam adaver castygo nenhum por coussa 
que faça, e que em nos fará canto lhe vier a vontade e quizer, e assy 
ho faz, e todos lhe temos aquela hobydyencia de todalas cousas, como 



DOCUMENTOS ELUCDATIVOS 1 77 

propriamente sse dyante de vossalteza fossemos pressentes; e pois, Se- 
nhor, vos deus deu criados e vassalos que Iam lomje vos tem tal ho- 
bedyencia, e vos servem com tanto amor e lealdade, nom vos esqua- 
cais da justyça que ssois hobrigado de fazerdes de quem lhes fazem 
justyça, e comprirres, Senhor, com deus e co mundo, e os vossos cria- 
dos e vassalos ssegumdo ho amor que vos tem, por de baixo do mar 
vos viram ca sservir; e também mande vossalteza que cada hum possa 
agrravar dante ho visso Rei que ca estevef pêra vossalteza, porque nam 
no querrem leixar fazer, e quem no mal fezer ha perda ssera ssua, e quem 
teuer rrezam nam perdera ho sseu, e ssera provido com justyça de vossal- 
teza^ e coisto, Senhor, rrefrear sse am os que nam quisserem hussar de 
justyça, assy como lhe vossalteza manda que hussem : e assy peço a nosso 
senhor que vos leixe acabar em justyça da qual peço a vossalteza que me 
prove ja. de cochym, com grram nojo e paixam por nam sser da corte de 
narssynga; a quinze dias de janeiro. Vosso criado que as rreais mãos de 
vossalteza beija — Pêro ffernandes tynoco. 
(Em dorso) — A elrei senhor.* 



1606— Outubro 6* 



Trelado de alguns aluaras que me o visso rrei deu de cousas que me 
mandou fazer, os quais he bem que vossa alteza veja. 

Dom framcisco dalmeida, visso Rei das Imdeas por elRei meu senhor 
nas partes das Imdeas, faço saber aos que este virem que eu mandei to- 
mar comta a gaspar pereira, e foy per mim vista de certo dinheiro que 
per meu mandado rrecebeo d algumas pesoas pêra se pagarem as partes 
da cauallgada de mombaça, e asy deu logo comta da despesa dos ditos 
dinheiros, e achou-se elle rreceber quatro mill e quatro centos e trinta e 
cinquo crusados, a saber: de diogo lopes espriuaom da náo sam Jeronymo, 
dous mil he quinhentos e cincoenta e dous cruzados; e de bastiaom de var- 
gas, feitor da náo conceiçaom mill he quatrocentos e cinquoenta e três 

^ Cartas dos Yices-reis. Maço único, N."* 72. 

^ Este documenfo por lapso não vae no logar competente: estava designado como 
documento sem data. 

TOMO ni. 23 



1 78 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

cruzados; e de diogo aires esspriuaom da nao bota foguo quatro centos 
e trinta cruzados; e loguo se achou elle despemder os ditos dinheiros, se- 
gundo mostrou por conhecimentos das pesoas a que lhos eu mandei em- 
tregar, a saber: ao dito diogo lopes esprivaom de sam Jeronymo bj^ e Ixxxix^ 
cruzados e trezentos e oitemta reis; e a filipe rrodrigaes capitam do nauio 
de lourenço fernamdes cento e sesenta cruzados e cem reis; e a paulo pi- 
nelo feitor da nâo saom rrafael trezentos e sesenla cruzados e trinta e 
um reis; e a fílipe brancacho feitor da náo lionarda iiii^xxxj cruzados e 
xxb r/'; e a joam de boina graça feitor da nao madanela quatro centos 
vinte e seis cruzados e quatro centos e oitenta e quatro reis; e aluaro lo- 
pez esprivaom da náo sam christovaom de fernam de loronha c/^lx e iiii 
cruzados e Ixxb r/^; e a diogo aires espriuaom da nao bota foguo b4xx 
e biii cruzados e iii"" e dez reis ^, e a bastiaom lopes espriuam de sam mi- 
gel iii"* e X cruzados e iii"" xx reis ^; e a joam dalcaçoua pêra pagar a jemte 
de froU de la mar bij^^xij cruzados e ij^^xxxbj Reis^; e a pêro fernandes 
espriuaom da caravela (?) santa catarina, capitam gonçalo de paiua 
c/^Riiii.^ cruzudos e iiMx r.'^; e a diogo velho espriuaom da taforea tre- 
semtos e vinte cruzados; e a pêro caom, e pêro lopes, e diogo pires qua- 
drílheu^os de quiloa per acabarem de pagara dita caualgada Ixxx® cru- 
zados; e estas pesoas ate aqui nomeadas receberaom os ditos dinheiros 
pêra cada hum pagar as partes he V^ (?) da cavalgada de mombaga a 
jemte de cada huma das nãos e nauios, e estes outros abaixo decrarados 
receberom somente suas partes por ficarem em anjediua, e outrora (?) irem 
pêra outras partes, a saber: a diogo pereira e hum homem seu ix cruza- 
dos e IR r.'^ e a diogo írooez ii cruzados e cemto IRij reis^^; e a mar- 
tim gomez pedreiro iiij^ cruzados iiiMxxii r.'^^; e a luiz fernamdes car- 
pinteiro iili"" cruzados e iiiMxxii r.'^'; e a gill fernandes carpinteiro iiii^ 

1 Seiscentos e oiteDta e nove. 

' Quatro centos e trinta e um crazados e vinte e cinco reis. 

' Cento e sessenta e quatro cruzados e setenta e cinco reis. 

^ Quinhentos e setenta e oito cruzados e trezentos e dez reis. 

^ Trezentos e dez cruzados e trezentos e vinte reis. 

^ Setecentos e doze cruzados e duzentos e trinta e seis reis. 

^ Cento e quarenta e quatro cruzados e duzentos e sessenía reis. 

> Oitenta. 

* Nove cruzados e noventa reis. 
10 [)oas cruzados e cento e noventa e dois reis. 
^^ Quatro cruzados e trezentos e setenta e dois reis. 

^ Idem, idem. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS i 70 

crnzados e iii^^Ixxii r.'^; e a luiz aluares pedreiro outros iiii^ cruzados e 
iii^^kxii reis*; e a joham jaques iiií^ cruzados e ii^^lxii r.''; e a bastyaom 
iTBgo, e gonçalo affomso, anbos ix cruzados e iiiMiiii^ r.'^; e deu a gas- 
par pêra compra darroz l/^\ cruzados, e mais a guadalajara pêra dar 
a hum bramene huum cruzado, que fazem soma toda a dita despesa, que 
o dito gaspar pereira per meu mandado fez, e me mostrou os ditos conhe- 
cimentos, ííii e iiii** e xxxiiii** cruzados e l.**ii r.'^, asy que ficou devemdo 
iii^^xxxbiij r.'^ que logo entregou e se meteram narca omde esta o so- 
bejo da dita caualgada, e asy mesmo lhe foy tomada a comta peramte 
mim de certo dinheiro que rrecebeo dallgumas partes, e asy outras cousas 
em jóias do sobejo que se acharam de vintinas allgumas pcsoas terem 
recebidas e as tomarem, que fez em soma o que rrecebeo em dinheiro 
R^^iiii® cruzados e R**b r."®; e por que eram por muitas partes e cousas 
miúdas se nom nomeaom de quem, saluo dantam gonçalues capitam, de 
vinte e quatro cruzados, e se mostrou despenderem dinheiro ao todo se- 
gundo me mostrou diso conhecimento das pesoas a que lhe eu a dita áesr 
peza mandei fazer, a saber: a joam dalcaçoua mill reis, e a pêro saom (?) 
da joa da bandeira seis mill reis; e a martim vaaz da jóia do agiam três 
mil reis; e a jom serraom pêra dar ao porteiro que as couzas da dita ca- 
valgada apreguou, três mill e nouecentos; e amtonio de souza mill e no- 
vecentos e trinta e dois ; e a joham freire outros J ix^^xxxii r/ ^, que fícaraom 
de fora por pagar de suas partes, que sam em soma £bi] e biij"" iiii^ r.' ^^, asy 
que despendeo mais de que se loguo entregou no dito sobejo b^^lRix r.' ", he 
emtregou duas manilhas e outras jóias de prata e allgum aljôfar he outras 
cousynhas douro que mais rrecebera, que se lançara na dita arca; e asy deu 
comta de tudo com entrega de tudo, e o dou diso por quite e liure pêra sem- 
pre, e lhe mandei dar diso este aluara por mim aspado^ e asy mesmo o dou 



^ Quatro cruzados « trezentos setenta e dois reis. 

2 Idem, idem. 

3 Quatro emzados e duzentos setenta e dois reis. 

^ Nove cruzados e trezentos e cincoenta e quatro reis. 
^ Cincoenta. 

^ Quatro mil e quatrocentos e trinta e quatro cruzados e cincoenta e dois reis. 
7 Trezentos e trinta e oito reis. 
^ Quarenta e quatro cruzados e quarenta e cinco reis. 
* Mil nouecentos trinta e dous reis 
10 Dezesete mil e oitocentos e quatro reis. 
it Quinhentos noventa e nove reis. 

23* 



180 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

por quite e liure dos dous roill e setecentos e onze cruzados, de que deu co- 
nhecimento por meu mandado que diso pasei a lopo cabreira feitor de cana- 
nor, sem ele rreceber nenhum dinheiro, por ser asy necesarío pêra se despa- 
char he poder fazer a carrega da nao comceiçam, que toda vay carregada 
do dinheiro de reteio (?) e sesenta por cento; e por que eu tinha mandado 
ao dito gaspar pereira rreceber os ditos liii e m'' ^ e tantos cruzados que 
atras faz mensaom dallguns feitores e esprivaes de nãos, a que o dito 
dinheiro fora entregue na casa das Imdeas pêra o dito partido, e se gas- 
tou nas partes da cavalgada de monbaça como dito be, era necesareo 
tomarse a emtregar ao dito feitor pêra dita carrega e hy nom bo avia, e por 
que fica de sobejo na nao de dito feitor muito dinheiro, por casso da car- 
regasaom se fazer ao meio em dinheiro, e meio em mercadoria, e a mer- 
cadoria se daua da delRei meu senhor, e o mesmo dinheiro ficaua como de 
sua allteza na mão do dito feitor, e o dito gaspar pereira deu o dito co- 
nhecimento como que recebera os ditos iibij'' e xi' cruzados, e eu pasei 
logo buum mandado aos feitores que lhos dados tinhaom, que os entregasem 
ao dito feitor e lhe dese conhecimento sem os receber, e asy lhe foram ca- 
rregados duas vezes em rreceita, e loguo a lançaram (?) em despeza quando 
lhe gaspar pereira deu o conhecimento que os rrecebera, em os rreceber 
como dito he: e os mil he setecemtos e tamtos cruzados que falecerom fo- 
rom emtregues ao feitor em prata e ouro, em peças como dinheiro do 
mesmo partido, em maneira que todos os que dinheiro derom foy entre- 
gue, e as partes o ficaom devemdo a sua alteza; porem como dito he o 
dou por quite e liure, e lhe mandei dar este pêra sua guarda, feito a 
trinta doulubro, gonçaio martins o fez de 1505. E estas partes que este 
dinheiro devemdo fícaraom a sua alteza, como em riba diz, saom as pesoas 
que compraram a dita caualgada, mais do que aviaom daver de suas par- 
tes, he fica tudo decrarado pêra os que ficaom lho descontarem de seus 
soldos, e os que vaom pêra portugall laa lhe ser descontado. 

E asy o dou por quite e liure de certos asynados meus, que lhe dei 
em branco quando ho em cananor mandei das nãos em terra a negocear 
com elRei he com os oficiais delRei meu senhor na feitoria, por que lhe 
eraom laa necesareos, e ele me deu conta daquilo em que os gastara, que 
foy em cousas que muito compría a sua alteza, e lhe eu tinha mandado; 

m 

^ Qxuxro mil e quatrocentos. 
* Dois mil seteoentos e ouse. 



•vr 
> • 

t 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 181 

e alguns que sobejaram ele mos lorDou, e eu os rompy; e asy digo que 
lhe mandei fazer aluaras pêra algumas pesoas a que dei esprauos (?) em 
soldos e mantimentos, e que lhos posesem nos liuros do solido e manti- 
mentos por o asy aver por seruiço de sua alteza; e digo que o dito gas- 
par pereira me dise em quiloa e mombaça que algumas pesoas lhe dauaom 
pelo aluaras que lhes fazia de caualleiros hum cruzado, e deles mais e 
deles menos, e que nom trazia por ordenança pêra mais poder leuar que 
hum vintém per alluara, e eu lhe mandei que tomase o que cada hum 
lhe quisese dar pelos taes alvarás, e asy lhe mandei que leuase por cada 
privilegio, dos que mando dar a jemte que comigo vieram, pelo seruiço 
que a sua allteza tem feito, de feitio he selo e rregistro cem reis, e asy lhe 
mandei que as pesoas que na Imdia estauaom tiramdo os oficiais das fei- 
torias, e ca quisesem comigo ficar com ho soldo que os outros trazem, 
os posese no liuro do solido, e por que por rezaom tudo foy por meu 
mandado lhe dei este aluara. ^ 



Sem data 

Esprito que mandou gaspar pereira ao viso Rei, e ele pos por sy a 
rreposta he a asynou. 

Senhor — Este Jacome alemão bonbardeiro nom vem em liuros, e bus- 
quei dos que tenho ; diz ele, e asy deste comdeslabre, que rrecebeo solido 
em portugall como os outros bombardeiros, e que vinha ordenado pêra 
anjediua; acho seis para amjediua, e nom he elle nenhum; por vemtura 
nom será ele bonbardeiro como outros que ca vem, e por o soldo lho cha- 
marem estes outros, se por ventura dos seis ordenados nom viera algum, 
poderá ser que viera este em seu lugar, mas nam faleceo nemhum; o que 
vosa senhoria mandar que faça mande mo dizer por que ele rrequere 
três meses de soldo como o comdestabre, e o aluara esta feito e asynado, e 
nom lho dou por o nom achar em liuro. — Quer venha em liuro quer naom 
pagem se lhe os ditos três meses, por que diz manoel peçanha que he mi- 
Ihor bonbardeiro e mais valente omem que os outros que Uaa tinha, e que 
seruio muito bem. ' 

1 Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.% Haç. 7, D. 66, fl. 20 v* 
* Idom, Idem, fl. 24 v. 



182 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Sem data 



Alaara do viso rei. 

Gaspar pereira por esta maneira vos mando qae ponbaes pomto no 
linro do solido he quintaladas a estas pesoas qiie as perdem» a saber: a 
jom serraom, e bermudes, e amtaom vaaz perdem do dia qae partiram 
de portQgall por que trouxeram mercadorias defesas, e gODçalo de paiua 
do dia que saio o auno passado em batecala he durmio em lerra sem li- 
ceuça; e sueiro gomes perdera todo o solido e quintaladas do tempo que 
foy spriuaom, e depois que o deixou de ser atee emquanto for preciso o 
perdera também. ^ 

Sem data 



ElRey dom manoell por graça de deus senhor de todos hos Reys. 

Senhor — Muy alto he muy poderoso e senhor de nos outros todos, 
esta carta mando a uosa alteza a dar hobydiemcea he fazer acatamento 
que senpre lhe tiue como a meu senhor, e ysto faço aos seus pes, e ysto 
faço porque no mundo não ha mor senhor do que uosa alteza, he que he 
como o soU que parece em hum cabo e alumya em todo ho mundo, e asy 
se pode chamar uosa alteza senhor da justiça dereyta; tenho por fama 
que uosa alteza dos muy pequenos faz grandes e ysto he ho que eu de- 
sejo. Eu sam seu, e estou nesta terra de maluquo ao obydiencia que 
uosa alteza mandar: faço saber a uosa alteza que eu vyuo hum pouquo 
descontente, e peço a uosa alteza que me de mezynha pêra ysto, pêra hos 
contrayros que contra mym sam, porque senhor eles sam muytos e eu 
§am so; ysto he ho que faço saber a uosa alteza como seu vasalo porque 
ha hy quatro ylhas e quatro reys, e todas quatro não ha hy huma boa, 

1 Torre do Tombo— G. Ghron., P. l.\ Maç. 7« D. 66, fl. 26 v.— Este caderno, 
d*onde foram extra^^dos os 4oçampnt9s publicai^s ^*9^^,cqllec^, «^(á^ 
de XI de novembro de 1808, e assígnado por Gaspar Pereira. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 183 

porqae hum so rey abastarya pêra elas; ysto lhe fago saber a uosa alteza, 
quanto he a mynha ylha, e mynha lerra, be meu porto com todo ho que 
nela ha entrreguo a vosa alteza, que ho mande guardar he prouer como 
cousa sua, e eu, como vasallo que sam de vosa alteza, peço que sobre 
ysto aja uosa alteza bom conselho, e me mande prouer com algumas 
armas com que posa defender esta terra e esta ylha, pois que be de uosa 
alteza com todo o que nela ha: desejo muito humas coyraças pêra my- 
nha pesoa, pêra com elas pelejar em seruyço de vosa alteza, como ja dixe 
e torno a dizer que eu sam seu vasalo com todo ho que debayxo de mym 
ha, e ysto será em quanto vyver, e depoys hos que de mym uyerem ho 
seram, porque no mundo debayxo das estrelas nam ha Rey tal como uosa 
alteza; hos outros reys que nas ylhas de maluquo ha, não querem co- 
nhecer uosa alteza por senhor, e não deyxam por yso de erar, senão a 
mynha so que he temate, esta he de uosa alteza pêra fylhos e netos, e 
quantos de mym decenderem — Item: se nesta carta forem alguns eros 
pelo não entendermos aquelas cortezyas que a uosa alteza he bem que 
se façam, perdoeme uosa alteza: e asy folgarya muito auer de uosa alteza 
hum capacete e huma cadeyra, pêra ter cousas de uosa alteza pêra me 
honrar; fiquo demtro nesta sua terra de maluquo beyjando hos pes de sua 
alteza. 

Na margem da folha seguinte — Trelado da carta vermelha. 

(Em dorso) Pêra elrei — trelado da carta delRey de temate pêra 
elRéy, e o que pede darmas. ^ 



Sem data 

Senhor — Depois de beyjar as mãos de vossa alteza vos lembre qué 
em afaneyrym vos amoslrey hum aluara do vizo Rey, omde me daua o ofy- 
cyo damtonio Real imteyramente asy como o elle tinha de vosa alteza, (U- 
zendome o vizo Rey que vosa alteza me rrogaria que o tomase, e vosa al- 
teza me disse que viuese em voso Reyno, e que mavia por comGrmado tudo 
ho que mo vizo rey tynha dado, e asy me desnaturey de minha terá por 
fazer uosso mandado, e pêra seruir vossa alteza; e o ordenado e os moios 

1 Torro do Tombo— 6av. n, Ma(. 4, M.* 1. 



184 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

do que me vossa alteza tem feyto mercê mos pagam agora tarde e mall a 
minha molber, e meu pay, e minha may, no quall me parece qae nom he 
paguo como vossa alteza manda, qae bem poderá cuydar vossa alteza em 
que maneira poderá íicar minha molher, e meu pay, e minha may em lyx- 
boa, em terra estrangeyra estamdo eu na Imdya; e mais me disse vossa al- 
teza, quamdo me mandou pêra a Indya, que me fose dado a capitanya da 
galle grande, ou o ofycyo damtonyo Real), indose elle pêra portugall, e 
agora se vay, e o capitão mor tem dado a alcaydarya de cochim a lopo 
dazeuedo; bem dise eu a vossa alteza hum dia em lixboa que o meu aluara 
fose de maneira que se comprise o que nelle se comtynha, que se vosa al- 
teza me manda dar o ofycyo damtonio Reall com a alcaydarya, elle o ty- 
nha com cemto e oytenta mill, e com sesemta quymtaes ao quarto e vym- 
tena, eu o tomarey com cem mill com os quyntaes e o seruirey como vossa 
alteza poderá saber, e o receberey em grande mercê, e se vosa alteza o 
nom a por bem de me dar o ofycyo, lhe beijarei as mãos mandarme hum 
alvará de lycemça pêra me ir pêra portugal. Senhor no tempo que che- 
guey a imdya, que o capitam se foy pêra o estreito, me leixou em cochym, 
encomendamdo me duas galles, e quando veo achou huma galle fey ta com 
hum bargamty que amda ao lomguo desta costa, e a outra galle se nom 
acabou por fallta de ferro que me nom deram, e a madeyra dela e toda 
laurada de couces e de quilhas e de toda outra madeyra, e me deu èm 
quamto estyue nestas obras este anno trymta e cinquo quymtaes de pi- 
menta ao meo, e coremta e oyto mill reis de soldo ; os quimtaes vam ca- 
regados na nao piedade; beyjarey as mãos de vosa alteza mandarme pa- 
guar estes quimtaes pêra que me seja ca mando (sic) o rotomo delles, e 
eu mandarey lia a quem o rrequera a vosa alteza: do tempo que som qua 
nom me ha paguo soldo nemhum, nem tam pouco mo pagaram quoando 
me party de lyxboa, que vosa alteza manda paguar a quamtos qua manda, 
nem menos me pagaram moradya, e lamçaram me fora pollo bara como 
homem degradado, e como quem nom vynha servir vosa alteza — Silues- 
tre de bachom. 

(Em dorso) A ehrey noso senhor. ^ 



1 Torre do Tombo— Gay. 20, Ma$. i4, N.* 



DOCUMENTOS ELUaOATIVOS 185 



Sem data 



Nos elRey fazemos saber a vos ^ que este be Regimento 

e maneira que vos mamdamos que tenbaes e gardes em vossa yda, pra- 
zendo a nosso senhor, estada e tornada da Imdia omde vos enuiamos por 
noso capitam mor da frota e armada que leuaes, e asy da que após vos 
ba dbyr. 

Item : primeiramente dares bordem como a vossa partida daquy lo- 
guo se comece a fazer, e asy em toda a viagem, rregra e booa prouisam nos 
mamtimentos e agoa, de maneira que se nam esperdice, e seja niso posto 
todo boom rrecado, porem seja a jeote asy habastada e bem trautada, que 
com rresam se nam deua dagrauar, mas conoscendo abastados do necesa- 
rio se garde bem a bitalba^ pois bys pêra terra omde por direito e sem 
muita fadigua e trabalho se nam pode achar, e se sem rregra se gastasse e 
falecesse seria muyto nosso deseruiço e trabalho da jemte que mais esty- 
mariamos. E portanto vos emcomendamos muito que disto façais em vossa 
naao ter gramde cuidado, e emcarregues a alguma pesoa que por iso em 
especiall olhe, e asy o façaes fazer nas outras naaos, e sempre cada mes 
mandes ver o mantimento que temdes, e o que be gastado, pêra aluydra- 
des o tempo que vos pode abastar, e se vos achardes dele mingoado ver- 
des omde com menos rrisco e despesa vos podes prover. 

E porque niso vay tamto a noso seruiço como vedes, avemos por bem 
e vos mamdamos que tenbaes em vosa naao (sic) * da despemssa dos paioes 
dos mantimentos de vosa naao huuma chave; e o despemsseiro que horde- 
nardes a poderá ter da despenssa, dos dias pêra que dos ditos paioes se 
tirar; e o dito despemseiro nem quallquer outra pesoa que da despemssa 
dos ditos paioes emcaregardes nam vaa a ella sem vosso rrecado, e asy o 
faram os outros capitães da frota, porque se faça a despesa e rregra dos 
mantimentos com todo rresgardo. 

Item: na rregra do vinho vos lembramos bo comcerto que se fez com 
os marinheiros, a saber: de lhe darem três quartilhos loguo juuntos pola 
menhaã pêra cada bum ter sua rregra per todo o dia, e a gastar como 

^ Em branco; mas deve ser para Affomso d*Albuquerqae.— É a minuta. 
2 Deve ser macio. 

TOMO lu. 24 



186 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

lhe bem vyer, porque see asy se podese com elles comcertar perece nos 
que seria asy noso seruiço, posto que lhe seja ordenada huma canada 
por dia; e asemtamdo asy falo es asy fazer aos outros capitães de toda 
a frota. 

Item: vos leuaes daquy toda a aguoa que pareceo que deues le- 
uar pêra poderdes escusar prazendo a deus de tam cedo a tomardes, e 
por isso, tamto que com ajuda de nosso senhor daquy fezerdes vella pêra 
seguiir vossa viajem, mamdares fazer caminho da Ilha do cabo verde, por 
tomardes daly vossa Rota, e se quamdo hy chegásseis vos achásseis aimda 
com tamta aguoa que vos parecesse que deuies dhy fazer vosso caminho 
sem terdes necessidade de aly a tomar, hirvosees em booa ora vosso ca- 
minho, asy como com comsselho dos pillotos vos milhor parecer, e por 
omde mais poderdes ganhar pêra dobrardes o cabo de booa esperemça. 

E se quando a dita ilha chegásseis fossem gastados tamtos dias que 
teuesseis necessidade de tomar agoa, avemos por bem que nam pousees 
pêra isso na dita ilha, asy por nam fazerdes nella detemça, como por vos 
nam adoecer a jente, e ires tomar a dita aguoa nas augadas da costa de 
bizigiche, omde nos parece que mais fora de imcomveniemtes a poderes 
tomar, e hy vos deteres o menos que poderdes. 

E tomada a dita aguoa vos partires em boa ora dhy, e fares vosso 
caminho por omde mais poderdes ganhar como dito he. 

E tomamdo aly na dita costa de bizigiche a dita auguoa, ou nam a 
tomando, se poUos tempos vos nam seruirem também que teuessees nece- 
sidade dalguma mais augoa, que esperamos em nosso senhor que nam 
seja^ emtam quamdo asy fosse, se vos achassees poUo caminho que fe- 
zerdes tamto chegado a ilha da cruz, poderes hir a ella e hy tomar aguoa 
e lenha que vos comprir, e d hy fazerdes vosso caminho -em booa ora, 
aimda que hirdes a dita ilha, ou nam hirdes, leixamos a vos que acerqua 
disto façais o que mais noso seruiço vos parecer, e segumdo a necesidade 
em que da dita aguoa vos achardes, porque quamdo esta hy nam ouuesse, 
e fosseis abastados pêra com a que leuassees vos poderdes poer da bamda 
dalém do cabo, averiamos por escussado tomardes a dita ilha da cruz, por 
vos nam deterdes nem fazerdes em voso caminho demora alguma. 

Item : por que em vosa viajem humas naaos se nam posam perder 
das outras, e todas vos siguam, dares ordenamça aos capitães das naaos e 
dos outros nauios, que com vosco vaão, que vos dem suas saluas segundo 
se custuma fazer no mar ao ao capitam mor; porem que nam se ajumtem 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 187 

muito huns nauios com os outros, e vos saluem de julauenlo e da balra- 
ueuto, como cada hum milhor poder, asy por se nam embaraçarem e da- 
rem huuDs nauios poUos outros queremdo todos vir a saluar de julauento, 
como por oam perderem do caminho que fezerem, e for alguma causa da- 
lomgar mais a viagem, que nosa temçam he se emcurtar tamto como for 
possivell. 

Item: asy lhe dares por synaes que ajam de seguir e fazer, e será 
por synall, quando ouuerdes de virar, dous foguos, e que todos vos rres- 
pondam com outros dous cada hum, e depois de vos asy rresponderem 
todos virares, e asy por vos segirem lhe fares hum foguo, e por tirar mo- 
ueta lhe fares três foguos, e por amainar quatro, e por desaparelhar fará 
quallquer que for desaparelhado muitos foguos, por tall que os outros na- 
uios lhe acudam e vaão a ele, e nenhum nam virara nem amaynara, nem 
tirara moneta, sem que primeiro vos façaes os dito foguos e synaes so- 
breditos, e todos vos tenham rrespondido, saluo se alguumas das nãos nam 
sofrer também vella (?) como a vossa, e a força do tempo lhe rrequerer que 
atire. E quando esto lhe aqueceer fará o mais a que asy ho semelhante lhe 
aquecer, muitos foguos na popa como o avia de fazer por desaparelhar, e 
tirara alguuns tiros de bombarda porque vos e os outros nauios saibaes o 
porque o asy faz, trabalhando porem a naao que isto fizer, e a que asi 
aquecer quamto lhe for posyuel por sempre ter a vosa rrota, e depois que 
asy forem amurados, no caso que pollos ditos sygnaes que lhe fezerdes por 
amaynar se aja damaynar, nam tomara aguada nenhuma seoam depois 
que vos fezerdes outros três fogos, e todos vos rresponderem, e mingando 
algum nam guindara nenhum, somente todos amdaram amaynados ate 
que venha o dia, porque parece que nam poderam tamto rrolar as naaos 
que no dia se nam vejam. 

Item: se amtes de terdes atravesado as canárias vos vemtar algum vem- 
dauall asy rrigo que nam posaes pairar, e comvenha tornar a esta costa, 
o que nosso senhor nam queira, fares vos e toda a frota quamto for posy- 
uell por tornardes a esta cidade; e se alguum nauyo a nam poder tomar 
trabalhara por tomar setuuall, e daly, ou de quallquer outro porto onde 
se achar, vollo fará loguo aquy saber pêra lhe mandardes o que faça; e se 
amtes de lhe hir a rreposta lhe vemtar tempo com que aquy posa vir, vir se a 
logO' a Restello, e nam vos achamdo aqui darsse-a o rrecado a nosos feito- 
rM^ áa casa da myna, e eles lhe mandaram o que ajam de seguir. 
- Ef mate tos encomendamos que vades e leuees a may gramde rre^ 



188 CAUTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

cado todas vosas naaos, e asy seguras de suas vellas que em todo o car 
minho se nam posa seguir desastre algum^ que noso Senhor sempre de- 
fenda, e muy em especiall naquela paragem onde as naaos esta outra via- 
gem se perderam, e muy em especiall voilo emcomendamos. 

Item : se depois datrauesado as canárias vos aqueecer caso per que 
os ditos synaes e cada huum deles ajaes de fazer, e nam vos acodir algum 
dos ditos nauyos com os ditos synaes, nem depois pella menhaã o virdes 
na companhia, em tall caso vos todauya fares voso caminho, com os ou- 
tros nauyos que com vosco achardes, direito a bezigyche, d homde asy 
aveis de tomar a agoa se ha ouuerdes mester, e homde aves d hyr, posto 
que ha nam ajaes de tomar, pêra dhy tomardes vosa rrota; e aly em quamto 
a dita agoa tomardes se vos compryr, ou vos aparelhardes dallguma ou- 
tra cousa que vos cumprir (?) parecer que vos poderá emcallcar; e nam vos 
encallcando, e vos hy teemdo gastados aqueles dias que vos parecer que 
deuees por o dito nauyo de vos perdido esperar, e temdo tomada vosa 
agoa^ e acabado de fazer o que vos hy comprir, vos parlyres em booa 
ora e leixares hy laaes synaaes per que saybam, quando aly chegarem o 
nauyo ou nauyos de vos perdido, que soes pasado, e vos sygam fazemdo 
seu caminho per homde mais poderem ganhar pêra dobrarem ho cabo da 
booa esperança, e vos yrem buscar a monçambique, bonde trabalhares de 
tomar (?) por aly leixardes rrecado aos ditos nauyos de vos perdidos, por 
que nam avees de tocar em outra parte, salluo aquy, por ho nam avermos 
por noso seruiço; e aquy em moçambique per allgunm degradado, ou 
per qualquer outro modo per que Bque seguro, leixares voso rrecado 
aos taes nauyos em que lhe digaes como soes pasado, e que vaao em vosa 
busca caminho da ymdia, com quallquer outra declaragam do que ajam 
de fazer, segundo a detryminaçam que aly tomardes do caminho que ou- 
uerdes de fazer, e dos lugares em que da bamda daallem vos parecer 
que melhor vos poderam os taes nauyos achar. 

E sendo caso que ho dito nauyo asy de vos perdido, e que vos a 
dita agoada de bizigyse ha d hyr buscar, chegase a dita agoada primeiro 
que vos, e nom achase hy synaes pêra saber por elles como soes pasado, 
em tall caso o dito nauyo tomara hy sua agoa, e se aparelhara do que lhe 
comprir, e esperara por vos oitos dias do dia que hy chegar, no qual tempo . 
parece que vos deues muy bem aly tomar ; e se em fym delles nom viésseis 
fará elle seu caminho ao cabo da boa esperança, por bonde mais poder ; 
ganhar, leixando aly na dita agoada taes synaes per que vos posa^ii m- 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS i89. 

ber como elle aly tomou primeiro que vos, e esperou, e partio compridoa 
os ditos oito dias, como por este capitulo o mandamos; e destes capytuUos 
dares vos ho trelado a todos os capitães em seus rregimentos, com as ou- 
tras mais cousas que neles lhe hade ser mandado. 

E ^ por que poderya ser que que este nauio ou nauyos de vos per- 
dido, e que asy a dita agoada de bezegiche vos bam d hyr buscar como 
dito he, partymdo asy diante vos depois de pasados os ditos oyto dias, que 
por vos na dita agoada ham desperar, poderyam ser diante de vos em 
todo ho outro caminho, se asy fose, e que em moçambique nom achase de 
vos rrecado que éreis pasado, neste caso ho tall nauyo ou nauios se yram 
direytamente a melynde, e nam achando hy de vos rrecado que tomases 
by, e soees passado aliem, agardara hy em melynde por vos ate vos em 
booa ora chegardes, estamdo bao milbor rrecado que ser posa, por que o 
hyr soo, posto qae delRey de melynde esperemos que nam cometa cousa 
de noso desserviço, he bem que se tenha porem todo boom rrecado. ' 

E achando em melynde como soes Casado aliem, emtam depois de 
aly tomada sua agoa, e qualquer outro rrepairo que lhe comprir, e asy 
pillolo da terra se ho ouuer nestes, no que fará a menos demora que 
ser posa, fará seu caminho e atravesara em vosa busca a bamda daallem 
de Imdia, e trabalhara por tomar a anjadyua, por que se vos aly pella ven- 
tura tocaseis podese hy saber do caminho que fazes, e vos segyr com 
grande aviso no caminho que daly fezer pêra vos nom errar, e asy pêra 
todo outro rresgardo de nosso serviço. 

E ' por que este tall nauyo ou nauyos de vos perdido hade tocar em 
cananor primeiro que em outra parte pêra aly vos achar ou ou aver de 
vos rrecado, se aly em cananor ainda vos nom achase, esperar hy por vos 
ate em booa ora chegardes, por que esta he a prymeira escapulia em 
que aves de tocar estamdo a todo boom rrecado. 

Item : pòr que de moçambique aveemos por bem que tomes vosa 
rrota pêra a banda da aliem da ymdia, por nam avermos por noso serviço' 
que em outra parte vos detenhaaes, se pella ventura o tempo vos seruyse 
que sem perda do caminho, que ouveseis de fazer pêra aliem, podeseis. 
tocar em melynde folgaryamos, por que ho almyrante a ida, nem a vimda 
nom tocou ally, e elRey de melynde folgou sempre de fazer as couzas de 

^ Na margem. — Juramento e menajem que tenham o capitam quando neles for. 
* 71^.— -Decerto por qae pella yentora nom tomara aqui. 
> Am.— Se carej^ entramentea ou o qae bra. 



190 CARTAS DE AFFONSO DB ALBUQUERQUE 

DOSO serviço asy pteiramente que nos prazeria aver agora de nos rrecado: 
tocando vos hy dirlbees ou manderes dizer, segundo o tempo que pêra 
yso teuerdes, como elle nom ouue ba tantos dias de nos rreoado nem nos 
delle, como nos prouuera pella booa Tontade que Ibe temos, por nosa frota 
nom tocar d ayda nem da vynda no anno pasado aly, por o tempo nom 
dar pêra yso lugar, pêro que aja por certo que elle e suas cousas nos 
sam sempre muyto presemtes pêra como a nosas próprias nos prazer que 
sejam trautadas, e o temos em lugar de muyto amigo e como ba tall nos 
pode rrequerer, por que sempre aveemos folgar de Ibe aproueytar e fazer 
todo bem, pello que nosas cousas nelle e em sua terra sempre acbam, 
e que Ibe encomendamos que seja sempre muyto lembrado de asy bo 
fazer, por que esperamos em noso senhor que se Ibe syga di|0 mais 
proveito e bonra. E aliem destas pallauras Ibe dares nosa carta ^ que Ibe 
spreuemos, e asy o presente que Ibe emviamos, que vos será dado na 
casa da myna. E acabado aquy vos partyres em booa ora e farea voso 
caminbo pêra a yndia; e a se atjuy nom tocaseis, e no caminbo acbaseis 
pella ventura allgum seu navyo ou outro por que nosa carta e este rre- 
cado Ibe podeseis emviar, com a desculpa que teuerdes de aly nom tocar- 
des, folgaremos de asy o fazerdes, e encomendamos vos que asy o façaes. 

Item : Se neste caminbo de moçambique pêra a bamda da aliem da 
ymdia acbaseis allgumas nãos de meça, ou outros nauyos de mouros, man- 
damos uos que trabalbes de as tomardes, e as presas delias aproveytar- 
des com todo noso seruiço, tendo muy grande rrecado que se nom posa 
£azer nenbum mao rrecado, * fazendo entregar as cousas das ditas presas 
a nossos fey tores das naaos, aqueles que melbor vos parecer qoe bo po- 
deram fazer, e per seus spríuães ou por quaesquer outros que bordenar- 
des pêra ello, fazendo todo sobre elles carregar em rrecepta, com tal de- 
craraçam que venba todo em muy booa rrecadaçam. 

E se allgumas das cousas que nas tais presas tomaseis fosem pêra 
la serem emtregues a nossos feytores da Imdia, farlbaes entregar pêra as 
aproveytarem, e cobraram os feytores que Ibas entregarem seus conbecí- 
mentos feitos per seus spryuaes de como ficam sobre elles carregados 
em rreeepta, nos quais conhecimentos loguo se decrarara o preço ejfkò 
as ditas cousas valem la na ymdia. 

Item: Hordenamos e vos mandamos que ba primeira escapulia da 

1 Na Mor^rai.— Gaila 8 preseate. 
*/if«m.— Faseada. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS Wl 

Imdia em que toques seja em canaDor, e como aly chegardes emviares 
¥080s rrecados a elReyi e lhe mandares dizer como soes aly chiado e qoe 
qaeres fallar com elle, e que hordene o modo e maneira em que se aja de 
fazer; e por gomçallo gill noso feytor, e os outros que com elle estam po- 
deres ser avisado das cousas da terra como estam, pêra na dita vista e falia 
saberdes gardar o que comprir por noso serviço e mais segurança do que 
ajaes de fazer. E veemdouos com elle, como esperamos que seja, darlhees 
nosas encomendas, e dyrlhees que temos delle muito contentamento por o 
que sabeemos que sempre folgou de fazer e gardar em nosas cousas, e o 
aviamento que a ellas folgou sempre de dar, e este ? certo que nos tem 
com yso muyto obrigado, e que elle seja certo que tem em nos boom amigo, 
e que como tall aveemos sempre de folgar que suas cousas sejam feitas, 
as quaes como próprias nosas nos praz que sejam gardadas e trautadas, 
e que asy ho teemos mandado a vos, e a iodes nosos capitães; e com ysto 
as outras mais paliauras que segundo o tempo vyrdes que aproueytaram, 
e darlhees nosa carta que leuaaes; e dito ysto fallares nas mercadaryas, e 
mostrares que na compra e vemda delias estaa sem debate o modo em 
que foy feyto com ho almirante, e que lhe pedys que mande dar forma 
ao aviamento da carega das naaos que aly podem caregar; e per gomçallo 
gil poderees ser avisado da carega que aly podees ter; e pêra a carega 
que aly ouuer ordenares as naaos e nauyos que vos parecerem necesa- 
rios, os quaaes tomaram suas caregas daquellas mercadaryas, que vos 
será dado per ymenta da nosa casa da myna, E hordenamos que, com as 
nãos que aquy em cananor leiíardes pêra caregar, fique pedro afomso 
daguyar com a nao que leua, e a elle leixares o careguo príncypall da 
frota que aqui em cananor leixardes, com poder que os capitães das naaos 
e nauyos que com elle ficarem façam todo o que por elle lhe for rreque- 
rido e mandado, asy como ho faryam se vos presente foseis; e vos ao 
dito pêro affomso leixares voso rregimento do modo e maneira que aja 
de ter, asy na carega das naaos, como em toda outra cousa que vos pareça 
que por noso seruiço deue fazer, e asy homde vos ha dagardar ou hyr 
buscar depois de caregado; e todo outro aviso do que aja de fazer, com 
tall segurança e rrecado como de vos confyamos. 

E por que gomçallo gill noso feytor he homem de bom rrecado, no 
qoe tocar ao asento da mercadorya que se aquy ouuer de fazer, em qual- 
quer maneira em que asentardes que se faça, tomares sempre seu pare- 
cer e coDsólho, por que pella experiência e vista das causas da V&rn^ e 



192 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

saber como estam, aveemos por nosso seraico que asy o facaes ; e no asemto 
diso aquy vos estrrygares (?) e despachares o mais asynhares (sic) que po^ 
derdes, e por qae se nam perqaa tempo pêra que se bade fazer em cucby. 

Item : tanto que em booa ora daquy partirdes vos yres correndo a 
costa dereytamente a cucby com as outras msús naaos que com tosco le- 
uardes, ymdo em tall rrecado como por o nosso seruiço o deues fazer, e 
acbamdo allguns nauyos, ou cousa delRey de calecut, farlbees todo dano e 
tomadia que poderdes, gardamdo todolios outros que acbardes que forem 
delRey de cananor e de cucby, e a estes fazendo todo boom trauto como 
be rresam por estarem nosos amigos e seruidores ; e se pella ventura el- 
Rey de callecut vos emviase alguns rrecados mostrando qae quer estar em 
nosa amizade, e satisfazer a perda que teemos rrecebido, ouuyloes, pêro 
vosa rreposta nam seja outra salluo que uos nam leuaes mandado noso 
pêra com elle asentardes cousa allguma, antes estreytamente vos manda- 
mos que a elle e a todas suas cousas fezeseis todo mal e dano que pode- 
seys; e que aves por certo, segundo o maao rrecado que em suas cousas 
se teue, e a pouca uerdade que gardou, que elle fará ja muy tarde de nos 
amigo, antes vos parece que nam poderá leixar de rreceber muy grande 
dano e seu trauto se perder de todo, s^undo o poder que pêra elle tee- 
mos, com ajuda de noso senbor, o qual nam garda nem defemde aqueles 
que nom gardam verdade, e muy em especial os Reys, que a yso sam tam 
obrigados, e que no mundo tem postos em seu lugar; e com ysto quaes- 
quer outras pallauras que vos bem parecerem a este preposyto; e ainda 
que vos ofereça satisfaçam, por que aveemos por certo que será mais ne- 
goceo e deter nos que comprir, nom vos deteres por yso cousa alguma, 
e vos yres direito a cucby ; e se despois de em cucby serdes, aimda vos 
enviase ou fallar, ou em outra parte, mandamos uos que nam ouçais mais 
seus rrecados que esta primeira vez, por que asy bo aveemos por mais 
noso serviço. 

Item : Tanto que em booa ora fordes em cucby farees aquy vosa ca- 
rega no modo em que bo leuaaes per voso rregimento, e a elRey dares no- 
sas encomendas, e Ibe dires quamto desejo teemos de sua casa e suas 
cousas serem aproueytadas, e que esperamos em noso senbor que muy 
cedo o sejam tanto que o proueyto e rriquesa de seus vezinbos, e que muy- 
tos tempos lograram, se mude todo a elle e comserve pêra muytos tem- 
pos, e que pois noso senbor Ibe quis tam grande bem e mercê fazer, elle 
por sua parte deue com grande cuydado comseruallo; e que elle seja certo 



DOCUMENTOS ELDCTOATIVOS 193 

que tem em dos boom amigo, e que suas cousas ante nos seram sempre 
como próprias nosas, e que asy ho temos mandado a vos e a todos nosos 
capitães, com todas as outras mais pallauras damor e booa vontade que 
vos a vos parecer, segundo o tempo e disposisam que achardes. 

Âquy per diogo Fernandes poderes lambem ser ynteiramente emfor- 
mado de todas as cousas, e segundo os avisos que vos deer ordenares as 
cousas pêra mais nosso seruiço. 

Yosa carrega aquy vos encomendamos e mandamos que seja com o 
mais breue despacho que vos seja posyuel, em maneira que posais par- 

tyr com toda a frota. . . per ' e trabalhares com 

elRey de couchy como a compra e vemda das mercadaryas se faça pello 
comcerto em que foy feito com ho almyrante, nom lhe mostrando que 
nisso tendes pejo allguum, antes como cousa muyto chaã, rrequerendo por 
elle vosa caregua, e montrando lhe per todas booas pallauras quanto asy 
esta milhor pêra elle e os de sua terra, do que em outra maneira, to- 
mando niso conselho e parecer de diogo fernandes, por que poderá ser 
que as cousas estaram la de maneira que se poderá fazer aimda com 
mais noso seruiço. 

E quando elRey de couchy nom quisese estar pello dito concerto do 
almirante, ou elle nom esteuese asy bem a nosso seruiço, por as cousas 
serem mudadas em outra sustancia, emtam ho fares o mais com noso 
seruiço que . poderdes, tomando grande cuidado de vos despachardes de 
maneira que partaes no tempo que atras fica decrarãdo. 

Item: Trabalhamos es de fazer como, emquanto aquy em cuchy es- 
teuerdes, nom say dhy nenhum nauyo, per que ho avemos por cousa muy 
perjudicíal a noso seruiço, e a maneira que niso tem o almirante gardares; 
e se pella veemtura elRey de couchy diso se escamdalizase, poderlhes dizer 
que ho nam fazes senom por mais beem de suas cousas, as quaes que- 
res que sejam trautadas como próprias nosas, e que pella ventura nosas 
armadas topamdes nam gardaram também o que niso temos mandado; 
e com ysto, e com quaesquer outras cousas que vos parecerem, os amtre- 
teres de modo que nenhuns nam partam d hy em quanto hy esteuerdes. 

Item: Emformarnos es por noso feytor se em cayculam se poderá ha- 
ver alguma carregua, e sabendo que sy, e que com segurança pode hyr 
la tomar carega allgum nauyo ou nauyos, mandalloes la carregar. ' 

1 Em bianco. 

^ Leis e regimentos sem data. Haço l, N.* 20. 

TOMO iu. 25 



194 CARTAS DÈ AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Sem data 



Dom Manuell per graça de deus Rei de purtuí?all e dos algarues, 
daquem e dalém mar em africa, senhor de gninee, e da comquista, naue- 
gaçam e comercio de etiopia, arabya e porsya, e da índia, a quantos esta 
nosa carta dordenaçam virem fazeemos saber que esguardando nos a ne- 
cessidade que ha era nossos Reinos de pillolos, mestres e marinheiros, pe- 
las muitas e grandes nauefíações que lonuores ha nosso senhor teemos, 
e grandes armadas que nellas ocupamos asi nas partes da índia como em 
guinee, e em outras armadas que muy (?) continuadamente fazeemos, asi 
pêra a guera de mouros, como outras, nas quaees he ocupada muita gente 
do mar, a qual he tamta como pêra ellas conveom; por este rrespeito, e 
por que somos certeficado que alguums nossos naluraees vasallos, asy pil- 
lotos como mestres e marinheiros se ocupam e emcarregam em armadas 
de fora de nosos Regnos, por cujo rrespeito se nam acham pêra as nossas, 
asi como he necesario por noso seruiço, bem e proll comum de nosos Re- 
gnos, querendo acerqua dello proveer, por esta presemte carta dordena- 
çam defendemos e mandamos aos pillotos mestres e marinheiros que nos- 
sos naturaees e vassallos fforem, que daquy em diante se nam entreme- 
tam de fora de nossos Regnos, em nenhumas partes que sejam, aceita- 
rem nenhuuns partidos em nenhumas nauej^açnos e armadas que fora de 
nossos Regnos e senhorios se façam, nem nelas vaão em maneira alguma, 
sob pena que se o contrairo fezerem, e lhe for provado, percam pello 
mesmo feito todos seus bens moves e de rraiz, a metade pêra a nosa ca- 
mará, e a outra pêra quem o acusar, e alem disso sejam degradados por 
quatro annos pêra a ilha de santa ellena. por que pois em nossos Reinos 
tem bem em que ganhar suas vidas em nossas armadas e navegações, 
nam he rresam que sendo nossos naturaes e vassallos o façam em outra 
parte, espicialmente por termos tanta necesydade, que sendo asy nossos 
naturaes, mais rrezam he que siruam a nos e aproveitem e trabalhem no 
bem e proll comum de nossos Reinos, do que fora deles; porem o noteffi- 
camos asy ao noso chanceleer moor que esta nosa ordenaçam faça logo 
pobricar em a nosa chacelaria, porque a todos seja notório, e mande sob 
seu sinal, e nosso sello, o trelado delia ha nossa cidade de lixboa, ao cor- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 195 

regedor^ pêra ha pregoar e noteficar, e asy aos corregedores das comar- 
cas pêra a noteficarem e apregoarem por todollos lugares e villas delas, 
pêra ser a lodos sabido, e se nara alegar ynorancia; aos quaes correge- 
dores mandamos que ynleiramente dam a eixecuçam as penas dela naque- 
las que nelas encorrerem — Dada . . . 

(Em dorso) — Irellado da ordenaçam pêra elRey ver.^ 



Sem data 



Senhor — Beijo as maãos de vossa Alteza que ajaes por bem, e com 
licença de vossa Alleza, o quee escrevo aquy por amoor de muytos desejos 
que tenho de servir e aproueitar a Deus: bem saberá vossa Alleza, quando 
as naaos de vossa Alleza noni chegarem a Indea em lempo que posam 
carregar e tornar lloguo, que vossa Alleza perde muito, a saber: no solido 
da jente e os mantimentos que comeem, e as nãos que tornam velhas e 
depois correm rrisquo de tornarem a purlugall, ou nam; yslo.eu escrevo 
por amoor que ho outro anno tristam da cunha nom chegou com sua 
ffrola no lempo da carregaçam, nisto me parece que vosalteza perdeo 
muito; nom abasta ysto, quando elle chegou soubemos como ffez huma 
fortaleza em cecolora, e espamteyme (?) muylo por amor que bem lembra 
a vossa Alteza que sempre afyrmei a vossa Alteza, quando quisese fazer 
alguma fortaleza, que ha mandase fazer na boca do estreito, ou dentro, e 
não em cecotora, por amoor que eu sabia certo que cecolora nam avya 
nenhum proueilo nella, por amor que cecotora nam he pêra envernar ne- 
nhuma nao llaa, e querendo deus nom mandar que halguma nao faça 
agoa, nom na podem remedear llaa, e quando quiserem dizer, por causa 
da fortaleza que esta em cecotora, que querem defender que nom venham 
nãos de meça pêra a imdea, lambem nam poder (?)^ que ho mar he muito 
larguo, e as nãos de meça bem podem vyr que as nosas as nom vejam, 
como fezeram estanno que pasarão oito nãos de meça e dadem pêra a 
indea, e duas delas chegarão a calecu, e as outras entraram na costa de 
dabull; asim senhor eu nom vejo nenhum proveito na fortaleza de ceco- 
lora, e mais que vosa alleza perde muito dinheiro, que aves mester de pa- 

^ Leis e regimentos sem data. Maço 1, N/ 11. 

25 # 



196 CAliTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

gar por soldo da jemle que esta na dita fortalesa cadanno, e mais que as 
três (?)^ nãos do anno pasado, a saber, a frota de tristão da cunha ; be estano 
também nom chegarão em tempo de carregaçam pêra carregar; asy de huma 
banda ou da outra vossa Alteza perde muyto, por yso senhor beijo as mãos 
de vossa Alteza que nom tome por mall o que eu escrevo; nom abasta ysto 
senhor senam quando chegou a frota de tristam da cunha, ele trouxe 
comsigo tam grande somaa de cobre e outras mercadorias que nam pode- 
mos vender as vosas; nom abasta ysto, a mais booa sorte de mercadorias 
que estam na terra, a saber, crauo, e llacar, maçaas, e outras cousas tudo 
comprou pêra sy, e muyta dela pasou per minhas maãos, por amor que 
diz que tinha licença de vossa Alteza pêra vender tam grande soma de 
cobre, e de comprar todas sortes de mercadorias que quisese; asi senhor 
pareceme a mim quamdo vossa Alteza mandar outra vez outros capitães 
a imdea, e lhes der licença que tragam muito cobre e mercadorias pêra 
vender na iudea, que fyca o trato de vossa Alteza destroydo por a dita 
rresam, e os ofeciaes (?) da indea ffolgando vender as mercadorias dos ca- 
pitães, e pêra os seruir e comprar pêra elles a melhor coussa que esta na 
terra, mais que pêra vossa Alteza, pola dita rrezam que os ofíciaes da in- 
dea esperam dos capitães que digam bem deles e faltem diante vossa Al- 
teza bem deles ; asy a peyta vaay a custa de vossa Alteza, e asi me deus 
ajude senhor que eu nom escreuo ysto por amor que quero mall a nin- 
guém, senam escrevo por amor de lenbrar a vossa Alteza por cuidar bem 
o que vossa Alteza tem de fazer, que he huma grande vergonha quando 
a jentes ouuem (?) que vossa Alteza tem tam grande rriqueza como he 
a Indea. 

E depois perde vossalteza e todo mundo gainha certo. Senhor, quando 
partio a frota da indea eu vy as nãos todas carregadas nesta maneira, que 
as quintaladas da jente estam carregadas sobre os direitos de vossa Al- 
teza, e a mim me parece que nom ficara pêra vossa Alteza nenhum pro- 
veito desta carregaçam, por iso senhor beijo as mãos de vossa alteza que 
todo o tempo que eu estever vivo neste mundo folgaria de seruir, e por 
alembrar sempre a vossa Alteza por aproveitar, a si senhor, segundo ma- 
mim parece, que vai nesta frota muito aljôfar e perlas que a mim me pa- 
rece que nam sam espritas em liuro, por amor que os mercadores da terra 
me contarem ysto que eles venderãOi porem nom me dixerão os nomes 

^ A armada de Tristão da Canha em 1K06 foi de oito naus de carga. 



DOCOMENTOS ELUCIDATIVOS 197 

dos que as comprarom, por iso senhor mande vossa Alteza meter bom re- 
cado que busquem ajeute em maneira que vossa Alteza nom perca os di- 
reitos; que» certo senhor, todos os capitães e fidalgos que ca vem, tyrando 
o viso Rei, e seu filho dom lourenço, e gaspar pereira, os oulros todos nom 
fazem senam tirar pêra si, e nom se lembram da perda nem do gainho de 
vossa Alteza; porem, senhor, o viso Rei, e gaspar pereira sempre servem a 
vossa Alteza sem cobiça; e saberá vossa Alteza que eu fiquei mall com 
muitos por seruir vossa Alteza bem, por yso beijo as maãos de vossa Al- 
teza, por ventura algum falara mall de mim, nom tenho outro senhor que 
fale por mim senom vossa Alteza, que certo, senhor, que tenho tam grande 
trabalho em buscar todalas cousas que ho viso Rey mester (sicj em seruigo 
de vossa Alteza, asy pêra as naaos como pêra a jente, asi pêra vender mer- 
cadoria de vossa Alteza; asi senhor pareceme que he bem empregado o bem 
que me vossa Alteza fezer. Senhor, beijo as mãos de vossa Alteza ; faço sa- 
ber a vossa Alteza que sirvo a dez annos muito bem vossa Alteza, e agora 
esta viagem muito comprida com muito trabalho, e tudo faço com muito 
boa vontade em serviço de vossa Alteza, por yso lembre vossa Alteza que 
sam velho e cansado, e mais que quebrei meu corpo debaixo estanno, 
como o viso Rei sabe, por iso peço a vossa Alteza por mercê que mandes 
ao viso Rei que me deixe bir pêra minha casa, que ha mim me parece 
muita rresam, a saber: sirvo a vossa alteza a perto de dez annos ate que 
sam agora velho e cansado, e deus me fez muita mercê em achar meu fi- 
lho baltesar e de dar (?) a vossa Alteza, que ele tem muitos desejos 

de servir a vossa Alteza lanto como eu, e o viso Rei sabe que he tam bom 
homem como eu, e sabe lymgoas mais que eu, e mancebo de vinte e oito 
annos, deseja muito por ver buma vez a vosalteza, e beijar as mãos e 
servir a vossa Alteza toda sua vida. beijo as mãos de vossa Alteza. 

Gaspar da indea escrauo de vossa Alteza. 

(Em dorso) — A ellRei noso. • . Senhor. 

De gaspar da Indea que veo na armada de tristam da cunha. 

Lançado ao caderno. ^ 



^ Cartas dos Tiee-Reis. Ma(o imíeo, N.* 46. 



i98 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Sem data 

Senhor — ^Amtonio camello, escudeiro de vossa casa, faço saber a vossa 
allteza como foy a Imdya com o vyso Rey, e bo mais do tempo que estyve 
foy Da fortallesa de cananor com lourenço de brito, e por que elle falle- 
eeo, e allguns Reyes e senhores mourros lhe espreviam allgumas cartas, e eu 
as tralladava darrabeo em nosa llymgoaje, e por camto elle morreo e nam 
sey quem dará conta dyso a vosa allteza, fiz estes apontamentos por que 
pasou todo por mim. 

Item: elRei darmuz lhe espreueo per duas vezes pydyndolhe, que 
pois que hera omem de gram cabeça, que lhe mandase conselho do que 
avya de fazer acerqua das pazes que tynha feytas com affomso dalboquer- 
que, e elle lhe rrespondeo que fezerra muito bem, e que, pois que lhe pe- 
dya comselho, que lhe acomselhava que fose vasallo de vosa allteza, por que 
nenhum omem que se a vosa allteza chegase nam podya ser senam muito 
momtrepycado e nam deminuido, e que isto lhe acomselhava; e depois 
que os Rumes forrom desbaratados em dyo pollo vyso Rey, e a nova foy ao 
solidam do cayro, elle foy encarado muito triste muitos dyas, e espreueo 
Uoguo ao turquo, em que lhe pydya que lhe mandase hum bom capytam 
que fose bom homem de mar, por que elle determinava darmar o ano sy- 
guinte pêra a imdya; ho turquo lhe rrespondeo que camello nam hera ahy, 
e que o tynha mandado a outras partes, e se quisese outros capytães que 
lhos mandarya; ho solidam, vemdo esta rreposta, lhe dyse um cavaleiro 
seu, que se chama abedell nuce, que elle quiria aceytar a ida de capytam 
mor dalmada; ho solidão lho agradeceo e lhe dise que escolhese em sua 
corte os homens que quisese, e elle dise que nam, somente os que com 
elle quisesem hyr, e lloguo lhe forrom ordenados quatro mill omens. 

Item: espreueo lloguo ho solidam a eIRey de callecu, em que lhe pe- 
dya que nam fezese paz com vosa allteza, e que domde se teverra doze 
anos, que se tevese agora mais hum, e que elle lhe promitya que elle ar- 
marya frota que pasase de cymcoemto vellas, e que elle Uançaria fora da 
Indya os vosos — Item — esta carta mandou hum coja byqui secretamente 
a lourenço de brito, que he morador em callecu, e he naturall darmuz, e 
he muito servidor de vosa allteza — Iten — bo çabaíoy que he senhor de 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS i9d 

goa, cspreueo a elRei de canaDor, em que lhe fazya saber muito secretamente 
que elle determinava de armar, que lhe mandase dizer que esperava de fa- 
zer, se bo ajudar, ou ter paz com vosa allteza; elRei de cananor Ibe rres- 
pondeo que elle çabaeo bera gram cosayrro, e que Ibe tynba estruydo suas 
nãos, e gemte morta; e o portador da carta bél*a um capellam do çabaeo, 
que elle trazya poder de seu senhor pêra lhe sastyfazer (?) a perda e dano 
que lynha rrecebydo; nam se soube mais o que lhe elRey de cananor rres- 
pomdeo, e lloguo se o capellam parlyo muito secretamente pêra callecu, 
ao que, ou que naõ, nunqua o lourenço de brito pode saber — Item — 
mandou lourenço de brilo hum mourro homrado darmuz que vyve em ca- 
nanor, e se chama coje amir, a elRey darmuz sobre as pazes que tynba 
fcytas com aíTomso dalbu quer que, e no caminho tomarrom humas nãos do 
çabaeo, e tamto que lhe acharem as cartas de lourenço de brito o Ueva- 
rrom a goa, e o çabayo lhe quisera mandar cortar a cabeça; por que era 
homem muito homrado o tynba preso, e este mouro espreveo a lourenço 
de brito hum esprito milido em hum pellourro de cera, em que lhe fazia 
saber que se fazyam ally quinze nãos como as nosas, afora outros navyos 
de rremo que se chamam atallaas, e que lhe davam presa, e que o çabaeo 
se partya pêra huma cydade sua que estava cerquada de outro Rey com 
que elle lynha guera; e amtes que se partyse mandou chamar os ofycyaes 
que faziam as nãos, e lhe dyse que fezesem roll pêra todallas cousas que 
fâzya mester pêra as ditas nãos, e que lloguo lhe serya dado todo, e que 
se avisasem que cando elle tornase que as achase ja feytas, senam que 
os castegaria muito bem, e rrol feito das cousas que os ofycyais auaim 
mester o deu a hum seu guovernador que o comprise, por camto se elle 
hya; e de hy a dez ou doze dyas cheguarrom duas nãos, de hum lloguar, 
que esta junto com adem, que se chama cbaer, a goa careguadas de. . . 
e emxarcea e breu ; e isto, senhor, nova certa — Item — partyrom sete nãos 
de callecu o ano amtes da partyda do vyso Rey pêra mequa e juda, e adem, 
e barborra, e zeylla, as quaes nãos byam careguadas de specearya, e delias 
se perderrom as três com tromenta, e as quatro forrom a estes portos, a 
quall espycyarya valleo o baar da pymenta, que som quatro quintais, a 
oytenta sarafims, que vali hum serafim iiiMxxi reis, ^ e o baar do gymgyvre 
sesemta sarrafyes; as quais nãos tomarrom pêra callecu; e isto spreueo 
por nova muito certa ha lourenço de brito, coja bequim, por que huma das 

^ tresentos e oitenta reis. 



200 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

nãos hera sua de coje bequim — Item — espreveo o solidam a mallacaas, 
que he senhor de dyo por elRei de cambaa, em qae lhe fazya saber que 
avya de vyr sobre elle, e o por que hera por que lhe mandara aquellas 
seyes nãos e seys gallaes por amir ocem capytam mor delias, e lhas man- 
dara ao seu porto como porto damiguo, e que elle tinha por notycya que 
elle mallacaaz as vemdera ao vyso Rey; a qual carta mandou mallacaaz 
ao viso Rey agora amtes de nosa partyda; e o viso Rey lhe espreueo que 
elle estava ja de caminho, e que pollo presemte lhe nam podya dar ne- 
nhum rcmedeo, e que olhase bem por por sua cydade e portos, que elle fa- 
rya com vosa allteza que lhe mandase allgum rremedío: e por que isto se- 
nhor pasou todo por mym, e o tyve sempre em lembrança, o diguo a vosa 
alteza pêra yso fazer o que for mais seu serviço. 

(Na margem) dantonio camelo, que veo da Imdia.^ 



Sem data 



Senhor — Beyjo as mãos de vosa alteza: as novas que poso escreur 
agora a vosa alteza que estamos saãos e rrigos em seruiço de vosa alteza: 
depois que partimos de lixboa nam vimos nenhuma terá senam o porto 
dalle, adomde tomamos aguoa ate vinte e um de julho; quarta feira man- 
doume noso capitam moor no navio de belindes ha moçambique a ver 
nouas da terra, e do que passou lopo soares na índia, e cheguey quinta 
feira pela manham a moçambique, he estiue hy atee bespera (sic), e achey 
cartas de lopo soares do que pasou na yndya, e comprey rrefresco pêra 
a frota, e torneime loguo a naao, e cheguey sábado a quiloa, e dey as 
cartas e nouas ao noso capitão, e asy esteuemos em quiloa quinze dias 
em esta maneira que elRey de quiloa fogio, e matamos em quiloa trinta 
ou quarenta homens, e rroubamos ho meyo da cidade, e depois noso ca- 
pitão moor deu seguro a jemte, e mandou que nemguem nam rroubase 
mais, e logo fez um Rey novo, em huma comdiçaão que se obrygase que 
seruise a vosa allteza muyto bem ; e asy nos ditos dias que esteuemos no 
dito porto também eu trabalhey dia e noyte, asy com ho Rey da terra, 
asy com os mouros, ate que ajumtey deles cada dia duzemtos pêra Ira- 

> Cartas dos vice-reis, Mago onico, N.* 68. 



DOCUMENTOS ELUaDATIVOS 201 

balhar na fortaleza, e cada noite hia pelo sartaão e trazia carneiros e 
outro mamtimento pêra nossa jemte que trabalhaua na fortaleza, e asym 
louuado seja deus pêra todo sempre trabalhey muyto como deos sabe, 
e nosso capitaão mor e toda a frota em todalas cousas; e serui a vossa 
allteza em todalas cousas que comprya a seruiço de vosa alteza neste 
porto, e asy em seruir na fortaleza, e asy noutras coussas ; e partimos do 
dito porto a nove dias dagosto, e chegamos a mombaça a treze dagoslo, 
e a quinze lhe demos ho combate em huma maneira que deus nos deu 
vitorya, e tomamos a villa, que era muyto forte sobre huma montanha, 
em esta maneira que eIRey também fogio, e nos segumdo me parece 
matamos e queimamos mill e quinhentas allmas, segundo diziam os mou- 
ros, e rroubamos a villa, e segumdo me amim parece pouco mais ou 
menos vinte mil cruzados; asy também servy a vosa allteza no dito 
porto como deus sabe, e noso capitão moor, e toda a frota; e asy par- 
tymos do dito porto, e mandoume nosso capitão moor diamte a melinde 
na naao de fernam de loronha, de que era capitão amtam gomçallues, 
pcra comprar rrefresco pêra a frota, e asy eu chegey quarta feira desoito 
daguosto, e me íiz prestes com muitas galinhas e carneiros, e oulra sorte 
de mamtimentos pêra toda a frota, e quando as naaos chegaram elees me 
meteram todas as pipas das naaos em terra na praia, e ajumtey duzentos 
mouros e íiz cheias as pipas, e asy ate que tomaram aguoa todas as naaos 
que chegaram a melinde, e rrefresco. certo, senhor, que este Rey de melinde 
he muyto bom em seruiço de vosa allteza, porem mais de medo que de 
boa vomtade, e isto segundo me amim parece que toda a costa he tam 
fraca, que se teueramos hum mez de tempo a tomáramos toda a costa ate 
ho maar rruiuo, porem nam podemos aguora mais por amoor do tempo que 
era curto pêra pasar o goUfaão, e asy nos fez deus muyta mercee em pouco 
tenpo muitas cousas que nos fezemos no porto de quiloa e de mom- 
baça; e depois partimos de melinde em 6m dagoslo e chegamos amjediua 
em trese de setembro, e aquy deus sabe quamto trabalhey em seruir a 
vossalteza, a saber: na limguoa, e asy no trabalhar da fortalleza com outra 
jemte ate que nos Deus fez mbrce que acabamos a fortaleza; aquy também 
servi no mantimento que se ouue mester pêra a frota; e depois partimos 
daqui a deseseis doutubro e chegamos ao porto de hanur (?) naquele dia, 
onde estam muitas nãos de cosairos jemtios, esorgimos fora do rrio em no- 
sas nãos, emtramos com nosos bates todos armados demtro no rrio adomde 
estauam as naaos, e mandoume o capitão moor em hum batell perto de 

TOMO M. 26 



20a CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

terra, que disese aos jemtios que se quisesem ser vasalos de vosa alUeza 
e pagar páreas cada anno, o que fose rrazaam, e quando nam que querya 
fazer guerra com eles quanto podesemos; eles nos rrespomderam em huuma 
maneira que nos pareceo que nos nam queryam paguar nada, e loguo no- 
SOS bates começaram de tirar com artelharya, e a jente toda fogio, e sal- 
tamos em terra e queimamos lha villa e suas nãos, e a deradeira nos man- 
daram dizer que queryam pagar páreas quanto quisesemos; e depois noso 
capitão moor lhes deu seguro em esta maneira que nam lhe faryamos 
mais mall ate que fosemos a cocbim, e depois tornarya huma armada em 
que virya seu filho por capitão, e lhe pagarya as páreas que lhe parecese 
rrezão, por amor que nos nam podíamos esperar mais, pêra nam perder o 
tempo da cargaçam ; asy senhor eu trabalhey neste porto também o que 
pude em seruiço de uossa allteza, e daqui partymos ao segundo dia e che- 
gamos em cananor a vinte e um doutubro, e achamos ho trato todo des- 
feito em esta maneira, que dise guomçallo gill feitor que os mouros que- 
ryam por cada quimtal de pimenta duzemtos e cimcoenta reis mais que ho 
preço primeiro; e depois mandoume ho capitão moor em terra com dio- 
guo lopez escripuão da naao sam Jerónimo pêra comprar mamtimento 
pêra a frota, e naquele dia mesmo comcertey com os mouros, e com elrei 
que nos desem pimenta a três cruzados ho quymtall, em huma comdição 
que tomasem a metade mercadorya e a metade dinheiro, e asy louuado 
seja deus pêra todo sempre comcertey com elrei também que nos dese 
muitos ofíciaes, a saber: carpinteiros e pedreiros pêra acabar huma for- 
taleza muito forte e boa em a ponta de cananor; e neste porto também 
trabalhei por asemtar o trato outra vez em maneira que ho senhor capi- 
tão moor sabe; e mais senhor, louuado seja deus pêra todo sempre, neste 
porto achey novas de meu filho como chegou em este porto a cinco dias 
de feuereiro no anno de mil quinhentos e três, e loguo emtrou em nossa 
samta ffee, e sérvio a vosa alteza em cananor por limguoa oito messes, e 
depois chegou lopo soares, e achou ho tam bom homem, e tam boa a lym- 
guoa que ho nam quis deixar em cananor, e leuou ho a cocbim adonde 
está a mor cargaçãao, e deixou ho pêra servir a vosa allteza por lingoa; e 
asy também meu filho sérvio a vossa alteza também em cochim ate que 
carregou a frota de lopo soares; e depois lopo soares partio de cochim e 
deixou ho por liguoa; e certo senhor que meu filho determinou de servir 
a vosalteza toda sua vida por amor e nam por solido que ho feitor lhe pa* 
gue aquy, que lhe pagamento pouco (sicj; por iso beijo as mãos de vosa 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 203 

aUcza que vos Icnbreis dele que hc muilo bom homem, c mauicebo de 
boa condição pêra servir a vosa alteza em lodalas couzas que vosa alteza 
mandar. E partimos de cananor pêra cocbim, e deixamos duas nãos pêra 
careguar, e chegamos a cochim em dons de novembro, e achamos mui- 
tas rrevollas na terra, por amoor que amtonyo de ssaa fez doudicee em 
coulaao, e os mouros ho mataram, e a outra jemte que com elle estaua, 
e desconcertou se ho trato de coulaão ; e depois eu e meu filho ambos tra- 
balhamos dia e noyte ate que concertamos com elrei e com os mouros 
mercadores pêra nos dar cargaçam, em maneira que dom francisco dal- 
meida noso capitam mor nos mandou, e mais que trabalhamos dia e noyte 
pêra tirar a madeira da forlalleza de cochim, que fez francisco dallbuquer- 
que, pêra ha fazermos de pedra e call ; e as novas do rreino de narcimgua 
nam sam como as do primeiro tempo que eu deixey, segumdo eu ouuy de 
meu filho baltesar, que vcyo delia, que ho achou frey luys quando estaua 
no rreino de narcimga, por amor que elrei velho era morto de muito tempo, 
e depois fiquou seu filho por Rey, e mataram no loguo também, e asy â- 
quaram muitas guerras daquele tempo ate guora, e outros Reis, e segundo 
eu ouuy que nam auia aguora no Reino vinte mil caualos ; estas cousas e ou- 
tras vos contara frey luis, que sabe parte da uerdade mais que hos outros, 
por amor que foy Ha duas vezes neste tempo, e meu filho mo contou e dise 
que ele uira muitas terras. Senhor ho que vosa alteza hordenou que ne- 
nhum homem desta frota compre nenhuma coussa em terra, senam por 
maão do feitor, das parles que noso capitão moor hordenar, e saberá vosa 
senhoria certo que muyta jemte compra cousas escomdidas como perlas, 
e toucas, e mill cousas na terra, e noso capitaão mor nam tem culpa nyso, 
por yso pareceme bem que quamdo chegarem as primeiras naaos, que vosa 
alteza hordene guardas de bom rrecado, por amor que muyta jemte follgam 
de leuar perlas e toucas, e outras sorte de jóias e de mercadoryas a furto 
dos direitos. Senhor certo que eu cuido dia e noite em todalas cousas 
que forem em seruiço de vossa allteza, he eu o lembro ao noso capitão 
moor, e asy ele ho faz, e também na cargação das nãos, e no trato de vossa 
allteza, e asy nas partes de vosa alteza das prezas que tomamos, por 
yso muitos capitães e fidalguos me querem mall, e nam acho nemguem 
que me queira bem senam dom francisco dalmeida noso capitam moor, e 
gaspar pereira; e os outros os mais deles nam vem qua senam pêra rou- 
bar a vossa allteza, por yso bejo as mãos de vosa alteza que por vemtura 
alguns deles digam diamte vosa allteza mall de mim que nam lho creaaes 

26 # 



204 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

ate vosâ alteza ser afirmado do noso capitam moor dom francisco dal- 
meida, e de gaspar pereira. E cerlo senhor que eles sam homes de ver- 
dade que desejam de seruir a vosa alteza, e nam em nenhuma cobiça asy 
como os outros: beijo as mãos de vosa alteza que se lembre de minha 
casa, e mandes na casa da mina que lhe pagem bem minha tença e mi- 
nhas quintaladas, que minha mulher nam tem outro mantimento. E se- 
nhor saberá vosa alteza que todolos portos da jndia eu escreui pêra lem- 
brar com ajuda de deus, pêra lhos amostrar a dom francisco dalmeida 
noso capitão moor, pêra fazer guerra com eles ate que pagem páreas 
pêra vosa alteza, que daqui avante nam temos outra cousa que fazer, por 
amor, louuado seja deus pêra todo sempre, que os quatro castelos sam fei- 
tos, e hum de quiloa, e outro damjedyva, e o terceiro de cananor, e o 
quarto de cochim. beijo as mãos de vosa alteza. 

Gaspar escrauo de vosa alteza pêra sempre. ^ 

Na quarta folha — De gaspar — Em mão de meu senhor ElRey. 

Na mesma folha — Legenda do sinete — Gaspar de Gama de índia. 



Sem data 



Senhor — António Reall fidalguo da casa delRey noso senhor, e al- 
cayde mor desta fortallesa de cochim por o dito senhor, faço preyto e me- 
najem a sua alteza por esta suaa fortaleza de cochym nas mãos de vos 
muyto homrrado senhor afonsso dalburquerque, capitam mor e gouernador 
por sua alteza nestas partes das ymdias, que por elle e em seu nome ma 
entreguees, e prometo e dou a fe huma, e duas, e três vezes, segundo leys 
e foros dos Reynos de portuguall, de senpre a ter e manter e guardar e 
defemder por elle e em seu nome, e o colher e rreceber de dia e noule no 
allto e no baixo dela, yrado e paguado, com poucos e com muytos, e lhe 
dar e entregar as chaues quando ele a ela vier, e asy mesmo aves dito 
senhor capitam mor a dom antoneo capitam delia, como a sua própria pe- 
soa que vos rrepresentaes, ou a quem elle e vosa mercê em seu nome as 
mandar, e entreguar em quanto com seu poder nestas partes andardes; e 
prometo de sempre obedecer aos aluaras e mandados, e certos rrecados de 

^ Cartas dos Vice Reis. Maço cinioo, N.* 76. 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 205 

soa alteza e vossos, e por elles darem e emtreguaar a dila menajem a 
quem sua alteza por seus mandados e alvarás mandar, ou vosa mercê em 
seu nome, e a dom amtonio capitam dela, que ora vay per uoso mandado 
nesta armada, vyndo ele em pesoa, e em tudos comprir e gardaar e obe- 
decer a boa fe, sem cautella nem emguano nem buum; e por que to- 
das estas cousas e cada huma delas prometo de comprir e guardar, e de 
todas elas, e de cada huma faço preito e menagem como dito he, o juro 
asy a estes santos avanjelhos, que per joam nunes, presente vosa mercê, 
e dioguo pereira feitor, e os fyciaes desta feitoria de cochim, e estes fi- 
dalgos, e cavaleiros e testemunhas he dado; a quall menajem e juramento 
eu ey por feito e dada a sua alteza nas mãos de vosa mercê, ate vinda de 
vosa mercê, ou dom amtonio de noronha voso sobrinho, ou quem vosa 
mercê em seu nome como dito he mandar. Testemunhas que presente 
eram, os ditos senhores atras nomeados que aquy asynaram, e bastiam 
de myranda, e anrrique de sa, e dom anrrique deça, e outros; e eu joam 
nunes sprivam do despacho e negocio, per o dito capitam mor, d antele 
que aquy asyney — Joham nunes — António Real — Diogo Pereira — Pe- 
dromem — Diogo femandes — Garcia chaynho (?) — Dom amryque deça 
— Anrique de saa — Bastiam de miranda. 

(Em dorso) — Trelado da menajem que deu antonio Real pela feito- 
ria de cochym, nas mãos do senhor capitam mor, a sua alteza, por joam 



nunes. ^ 



Sem data 

Trelado dalgumas decrarações que foram no rregimento de lourenço 
moreno, que leuou quando £foi por feytor. 

(Na mar^emj— Liberdade que leuou Lourenço moreno. 

Item : nos praz e damos por este lugar e licença aos capitães e offi- 
cyais nosos, e a gente que hy esteuer nesas ffortalesas e ffeytoryas, que 
posam trautar e trautem na mar e na terra onde lhe bem vier, semdo com 
licença do capitam mor, e quando fforem fora dos lugares onde esteuerem 
nosas ffeytorias, e na terra o poderam fazer liuremente sem a dita licença 

^ Cartas dos Yiee Reis. Maço onico, N'.* 111. 



206 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

em todas as ditas mercadaryas e cousas que la ouuer, tyrando especya* 
rya e drogarya, e tymlas, das quaes cousas queremos que se page somente 
qua o dizimo, saluo das sedas soltas de que pagaram quarto e vioteoa. 

Item : nos sprevemos agora e mandamos affomso dalboquerque, que 
por avermos asy por muyto noso serviço, e mais por proveyto das partes, 
que do dya que la em bo'ora chegardes, e nosas cartas lhe fforem dadas 
aleuantem todalas quintaladas as pesoas que la amdam e de nos as tem, 
e as nom ajam mais, e por rrespeito lhe fifazemos as cousas abaixo de- 
craradas, e ouuemos por bem que vos ffose aquy asentado neste rregy- 
mento pêra saberdes o que nysto detryminamos, e comprydes e guardar- 
des como mamdamos. 

Item: Primeyramente nos praz por três anos primeyros seguymtes, 
que se começaram da chegada desta carta em diamte, lhe dar la em di- 
nheiro morto, a cada huma pesoa que quimtalada tem, quatro cruzados 
douro por cada quimtalada, daquylo que lhe fficar, tyrados nosos direi- 
tos, posto que sejamos certeficado que muytos, que as nam podem care- 
gar, vendem o lugar de cada huma quimtalada por menos ametade do 
que lhe. agora damos; e mays por ffolgarmos de lhe fazer mercê e ffanor, 
nos praz de lhe asy dar os ditos quatro crcizados em dinheiro por èada 
quintalla()a, como dito he. 

Item : nos praz mays que por os ditos três anos todolos sobreditos 
que la amdarem e nos servyrem, posam liuremente comprar e comprem 
todo aijofare e pedrarya e panos de toda sorte, posto que sejam de seda, 
e almyzcar, e ambre, e beyjoym, e porcelanas, e todas outras mercada- 
ryas que na terra ouver, e a ela vierem de quaesquer partes que sejam, 
de quallquer calydade que fforem, tyrando especearyas e drogaryas, e la- 
cre e tymtas; e do beijoym porem decraramos que nam posam comprar 
nenhuma para mais que ate hum quintall delle, as quaes mercadoryas 
compraram por sy e por quem lhe aprouver, e pellos preços que lhes bem 
vier, sem as tays compras serem spritas por ffeitor noso, nem por ffeitor 
das partes, nem nyso lhe ser ffeita peena nem costrangimento algum, por 
que liuremente poderam ffazer as compras das ditas cousas como lhe 
aprouver. 

E quanto a seda praz nos que asy mesmo posam comprar, porem 
da dita seda nos pagaram quarto e vintena; porem, por lhe fazermos merco, 
nos praz que por dous annos primeyros nam pagaram cousa alguma, e 
os franqueamos como ffazemos das outras mercadaryas, e no deradeyro 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 207 

aDno pagaram dela quarto e vintena, e de todas as outras mercadaryas 
que lhe asy largamos e damos liceuça que posam comprar, como dito he, 
duramdo o tempo dos três ânuos os libradamos e franqueamos que nos 
nam pagem nenhum direito la nem qua, nem em nosos Reynos, asy de 
dizimo como de quarto e vintena, nem sysa da venda das ditas cousas; e 
queremos e nos praz que de todo sejam libridados e franqueados, nem na 
casa da Imdia onde se arrecadam nosos direitos lhe seja rrequerydo nem 
ffeyto por yso constramgymento algum, nem yso mesmo das casas das 
cyzas, nem sejam obrygados ao manyfestar, nem fazer a saber, e liure- 
mente o leuem pêra suas casas, e ffaçam das ditas couzas o que lhe 
aprouer durando o tempo dos ditos três annos. 

Item: nos praz alem dysto que posam trautar e vemder e comprar 
todolos mamtymentos da terra, e posam nyso traular francamente, e yr e 
emviar por elles as terras e lugares omde os ouver, e ffrancamente a sua 
vomtade os vemder asy a christâos como a mouros ; asy mesmo algodães 
e as outras mercadoryas que na terra ouver, e que nela se venderem e 
comprarem, tyrando as sobreditas que asy rreleuamos, em que nam en- 
temderam; e nysto dos ditos mamlimentos e mercadaryas, que asy pode- 
rem comprar e vemder na mesma terra, nos praz que posam tomar per 
cauas (?) e companhyas, com os mercadores mouros e gente da terra, em 
quallquer modo e maneyra que lhe bem vyer, e per que lhe pareça que 
mais poderam ganhar. 

Item: nos praz que pêra estes trautos posam ter navyos seus, asy 
dos da terra, e pragarya neles com os mouros, e quaesquer outros mer- 
cadores da terra, como também comprar e ter alguns dos nosos navyos, 
se lhe pela vemtura la fforem vemdydos per nosos ofyciais; comtamto po- 
rem que sempre dem conta, e os nam posam vemder a mouros nem a 
gemte da terra, nem de quallquer outra parte que seja, nem em maneyra 
alguma com elles os enlear, so pena que fasendo ho, percam por yso to- 
das as suas ffazemdas, asy moves como rraiz; e mais sejam degradados 
pêra a ylha de sam tome, ate emquamto ffor nosa mercê. ^ 



> Cartas dos Vice Reis. Mafo. unieo, N.® 139. 



208 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Sem data 



Senhor — Dom Joham embaixador delrey de qalequ, faço saber a 
vosa allteza que no Regno e terá do dito Rei de qaleqa ha certas gerações 
e Dações de homes, a saber: bramenes» e chatys, e naires, e gnzarates e 
mouros, amtre as quaes ha mais honrada e estymada gemte, tirando os 
bramenes hee a naçam dos chatys, a saber, os verdadeiros chatys, por que 
muitos por se honrarem dizem que sam chatys; e os privelegeos que 

os ditos chatys tem sam estes perante eIRey de qalequ ou outro 

qualquer Rei omde forem todas estas nações, nenhuma pesoa se nam pode 
asemtar perante o dito Rey senam os chatys, e bramenes, e lodos os ou- 
tros estam em pee. E asy tem la duas maneiras damdorres, a huns cha- 
mam paleque, e aos outros amdor; e os que chamam paieque sam mães 
honrados que os amdores, nos quaes nam pode amdar nyngem se nam os 
chatys, e o mesmo Rey da terra nom pode amdar nele. E asy ho Rey de 
qalequ tem trombeta douro de sua pesoa, sem outro Rei a poder ter se- 
nam o de narsynga; e asy os chatys também a tem douro, sem outro 
Rei nem naçam a poder ter. E asy nas cousas da Justiça o Rey propryo 
da terra, nem outra nenhuma naçam nam tem jurdicam nem poder sobre 
os chatys, e elles sam os que tem juiz seu, e ainda que façam qalquer 
cryme o Rey lhe nam toma comta diso. Estas cousas tem de amtegidade, 

por serem ávidos por pesoas da honrada e geraçam. E asy tendo 

gera com quallquer Rey, os chatys e brâmanes podem byr e caminhar por 
terá dos comtrairos sem lho tolherem nem fazerem mall. E em caso se- 
nhor que eu erra chatym desta própria naçam, e dos mais honrados de 
qalequ, nam olhando a estes previlegios e omras que os chatys tem, vemdo 
que a fee dos christãos he a verdadeira folgey de me fazer christão, sa- 
bendo que niso acertava e fazia o que verdadeiramente todos sam obriga- 
dos fazer pêra viver e morer na fee de noso senhor deus, em a qual eu 
espero viver e morer, e dou muitas graças ao senhor deus por me che- 
gar a tempo qbe me tomey pêra ele amtes de minha morte, e lhe peço 
me leixe fazer obras que sejam de seu santo seruiço. E por que eu se- 
nhor desejo coussa de homra que todos desejam, pêra ser prevelegyado e 
mais honrado daquy em diamte, beijarei mãos de vosa alteza me fazer 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 209 

mercê de carta darmas pêra my, e aos que de mym decemderem as po- 
der sempre ter e trazer, pêra nobreza e fídalgya, como he costume as te- 
rem aqueles que em purtugal as tem, asy por mercê que lhe faz delas 
Yosa alteza, como per amtecesores seus que as ja tyoham. E assy me faça 
merca do abyto de christos, fazendome com ele cavalleiro. E assy me faça 
mercê do abyto de christos, fazemdome com ele cavalleiro; e asy me fará 
mercê em me emtregar pola mãoo ao capitão moor que for a Imdea, e lhe 
mande e emcomende que asy no mar como na terra me faça honra e fa- 
vor pêra mais acrecentamenio de mynha homra, e me mande encomen- 
dar a elRei de qalequ per vossa carta, que pois elle me escolheo pêra me 
mandar qa, que posto que eu seja cbrislão nam leixe por iso de me fa- 
zer favor e bem, e ter na comta emque sempre me teve. Esto senhor peço 
a vossa alteza, por que vendo os da íerra que o voso capitão mor me faz 
honra, eles também ma faram, por que qando comprir poso levar comigo 
quatrocentos homens meus por seruiço de deus e de vossa alteza a mor- 
rerem omde comprir; e estes sam omes de casta de chalys, que estes qua- 
trocentos pelejam com cinquo mill mouros, e os desbaratam, e prazerá a 
deus que vosa alteza vera ao diamte como eu sirvo e faço as cousas de 
seu serviço. E, por que vossa alteza he ho moor Rey e senhor do mundo, 
averey por gramde mercê estas Armas por que Ua vejam que foUgou vosa 

alteza de me dar coussa de homra pêra mym e meus decemdemtes 

que levo a cabeça honrada pêra me defemder, e a fama diso corera pella 
terra, e veram as armas que levo, de que vosa alteza me fez mercê, pelas 
sanis me cataram muito, e nisto rreceberei mercê. 

E que me faça vosa alteza mercê da jurdiçao dos chatys, e naires 
qque se fizerem chrislãos, que eu os castigue e despache em cousas cyue 
quando comprir, como me bem parecer. 

(Em dorso) — do embaixador de calecut. ^ 



^ Cartas dos governadores d*Arrica, etc. Maço único, Doe. 318. 

TOMO ni. 27 



210 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Cartas e ODtros doenmentos dlriiSidos a Afonso de UboqDerqne 



1603— Março 10 



Dom manuel por graça de deus Rey de purtugaall e dos aJgarues, 
daquem e dalém maar em affríca, senhor de guioee, e da comqaista, na- 
uegação e comercio da tiopia, arábia, pérsia e da índia, a vos nosso al- 
moxarife ou ifeitor da nosa sisa da marcaria desta cidade, e ao sprivam 
deste officio, saúde ; mandamosTos que do rendimento da dita casa, deste 
anno presente de b^iij \ dees a affomso dalboquerque, fidalgo de nossa 
casa, cem mil reis que lhe mandamos dar, e o dito anno de nos badaver 
de tença, e vos fazelhe deles boa paga. E per esta nosa carta e seu co- 
nhecimento vos seram leuados em despesa. Dada em lixboa a dez dias 
de março. eIRey o mandou por dom pedro de castro, do seu comselho, e 
vedor de sua fazenda. Gaspar pirez a fez de b^iij. — Dom Pedro de Castro. 

He uerdade affomso dalboquerque rreceber de diogo de ponte, rre- 
cebedor da marcaria, ho anno de bMij, os cem mil reis conteúdos neste 
desembargo, he per uerdade asynou aqui em três de abrill de yb^b* an- 
nos — Affomso dalboquerque — António gonçalves. 

Da tença deste anno a affomso dalboquerque na marcaria \ 



1 qninhfliitot ê três. 

* mil quinhentos e eineo. 

> Torre do Tombo— G. Gbron., P. 2.% Maç. 7, D. 53. 



DOCUMENTOS ELUCTO ATIVOS 2 1 1 



1608 — Dezembro 26 



Senhor — Tanto que aqui chegou amtam garcia rrequerio rrijamente 
seu despacho, e eu o despachei loguo com mttiU) dinheiro e cobre para 
carregaçam de vossa naao, e per ello vos sprevy largantente, e spero em 
noso senhor que as cartas temres ($ic) vystas; e alem do que toqua aa 
carregaçam vos sprevy duas cousas, uma que muito rreleva, e a outra 
nam tanto. 

A que muito rreleva, he tornar a lembrar a vosa mercee como o al- 
mirante me leixou aqui com a cerqua de quorenta homens nesta ilha de 
coochy, prometendo a elRei guê lhe leiíaria aqui vicente sodré pêra elle 
guardar este porto e cosia; despois de sua yda, que a costa Ocou despejada 
de nossas nãos darmada, elRei de calecut veyo aqui e fez o que ja sabeis, 
deslroyo elrei de cochy e parle das mercadorias delRei noso senhor; tor- 
naste a rreformar esta ilha per vosa vymda, e fezestes nella fortaleza, e 
metestes eIRei de pose, e tornastes o seu a seu dono, e não somente refor- 
mastes isto, mas ainda elRei nosso senhor nom acabar de perder o trato 
da índia, o quall traio sabidamente estaa neste porto de coochy, em o 
quall elrey de calecut nom tem terra nem arvore, nem nenhuma posisam 
nem delyto (sic), soomente per peitas e amizades com alguns senhores que 

juzem sobre esta Rybeira comsymta por suas terras fazerem a 

guerra elrey de cochym. E o dito Rei de calecut parte de calecut, vem 
aqui, que sam trinta e cinco leguoas, a fazer a guerra, e traz ca sua gue- 
delha sobre este porto, porque lhe parece que semdo elRei noso senhor 
senhor deste porto, o será de toda a índia como de feyto, porque quando 
eu party de lixboa, eIRei noso senhor me deu por emmenta de lhe mandar 
oito centos bhares de pimenta, e de toda outra sorte despecearia nom che- 
gava a quinhentos; e aqui he o porto da pimenta, e isso Ha sam arrabal- 
des, e calecut muito mais arravalde que coulam, e cananor muito pior 
porque este porto faz os outros. Iso mesmo consirê vosa mercê, que toda 
a bem aventurança do govemamento da índia esta em quem tever o maar 
e for senhor dele; e em a índia ha muitas naaos; e ha grande navega- 
çam daqui pêra malaquar (sic) e daçuí? pêra mequa, e tudo isto gasta pi- 
menta de molebar esta em tratar com suas naaos 



21 â CARTAS DE AFFOiNSO DE ALBUQUERQUE 

pêra onde vos aponto, e para se estas couzas todas evitarem darei a conta 
a vosa mercê quando emboora vier, pêra levardes a elRei noso senhor, 
emperoo (í) necesario be que booui comselbo ajaaes pêra em tamlo co- 
meçardes de as por em pouloo; espero que se eu podese mover esta casa 
que aqui fezestes pêra omde eu quisese, por ventura vos deixaria de re- 
querer o que abaixo {%xc). Senhor vosa mercê bade saber que com fama 
desta paz de caiecut, e parecendo aos de calecut que aqui nom aviam de 
ficar naaos da armada, enceleiraram suas especerias pêra as suas naaos, 
peilo quail as delRei nosso senhor as nom podem aver. E isso mesmo os 

de calecut tem tamlo fraudada a paz, e sam tam o que querem 

que ha mester huum paão pêra os que elRei mande posança (t) 

pareceme muito serviço sua alteza que para conservação do trato 

delRei noso senhor . . . deste porlo, e para descamso da carregaçam das 
naaos vyudoyras que be muito necesareo, e tanto quanto vos bem creo 
comprenderes que ordeuasees vos e vosso primo que a naao vossa, de 
que he capilam aulam garcia, e o navio conceiçam, com as caravelinhas, 
ouvesem aqui de licar daniiada, porque sam navios que bem puderam aqui 
emtrar a imveruar nesle porto, com as quaes naaos se pode fazer que ne- 
nhuma especearia nom saya da terra, e elas mesmas pagaram per sy as 
despezas que elas íezereuh E aimda eu vos requerera a naao de fernam 
marlins, se me parecera que nesle porlo, ou em outro aiguum por aqui de 
redor, eila podya entrar pêra imvernar. O pejo que a isto alguns puderam 
teer de dizerem que isto seria teer guerra com toda a Imdia, e eu avelo- 
hya por mais serviço delRei tela comtenuadamenle, tyrando coulam e ca- 
nanor e cochy, que doutra maneira, atee que elRei mandase tall armada 
que desfezese todalas naaos da Imdia, porque doutra maneira nom pode 
ser senhor delia; e eslas naaos pollo presente fycando aqui seram senho- 
ras de saber quem leva a especyaria^ e de castigarem segundo parecer 
bem os que sam contra seruiço delRei noso senhor, e nam será neuhuum 
ousado de carregar a dita especearya, e os de calecut se reformariam mais 
com a preza ( t) que tantas vezes tem fraudada, e por outras muitas rre- 
zoOes mais sotícienles j^ue eu darei a vossa mercee quando aqui vier. 

Item — A outra he que vossa mercê me spreveo que vos parecia 
bem ficar hy alguém em coulam, sobre isto eu também sprevo a vosa 
mercê que, qualquer cousa que niso fezer, rresguarde que hade ficar de 

minha e eu lhe responder com as mercadorias (?j e ordenança 

do definam {1) porque para isto he esta casa aqui feita pêra daqui 



/ 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 213 

sairem as mercadorias, e homens, e ordenanças, como eu espero que vosa 
mercê guardara o que a mim compre, porem o trato será by asentado 
com as menos comdicoOes que poderdes que a nos tragam dano. beijo as 
mãos de vosa mercê, sprita em cocby a vinle e cimco de dezembro de 
503. — Diogo Fernandes. 

Ao senhor o senhor afomso daiboquerque capitão moor delRei noso 
senhor, que ora estaa no porto de coullam e etc. meu senhor etc. ^ 



1611— Abril 3 



Afomso daiboquerque amiguo. Nos elRey vos emviamos muyto sau- 
dar. Nos espreuemos e mandamos ao feitor e ofíciaes das feitorias de co- 
cby e de cananor que da pymenta, drogarias e todas e quaesquer outras 
mercadorias que esteuerem compradas em nosas feitorias, ou posto que 
deentro neellas nam esteem, como esteuerem compradas pêra nos, nam 
dêem cousa alguma a ncenhum capitam, nem outra pesoa, em pagamento 
daquelio que de nos ouuerem daveer, neem por qualquer outra maneira, 
neem lho veendam, posto que a direito lho queyram comprar, e tudo se 
caregue e emvie pêra nos, e so pena que se o contrario fezerem percam 
lodos os seus bordenados e quymtalladas; e mais averem qualquer outra 
pena que for nosa mercê; notificamos uol-o asy pêra asy o mandardes 
compryr, e olhardes como se nam faça, porque o aveemos por cousa de 
muito noso deserviço. Sprita em Samtos a três de abryll, o secretario a 
fez jb*xj' — Rey. 

Resistese este mandado delrei noso senhor nos livros da feitoria, e 
eumprase como nela se contem com esta minha decraraçam ho pee. — 
Afifomso daiboquerque. 

(No verso) Por elRey; — A affomso daiboquerque, ffidalgo de sua 
casa e do seu comselho, seu capitam moor nas partes da índia. 

(No verso, por lettra da epocha) Ja ha outro mandado em contrario, 
e manda que vendam da feitoria aos capitães o que levam em suas ca- 
marás. 

1 Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.*, Mag. 4, D. 43. 

* mil quinhentos e onze. 

3 Torre do Tombo— C. Chron., P. d.% Maç. 4, D. 67. 



214 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



161)3— Fevereiro 28 



Affomso dalboquerque amigo, nos eirey vos emviamos muito sau- 
dar ; nos temos sabido que allguns homeens dos nosos sam llançados com 
os mouros asy de goa como doutras partes, e que elles o fezesseem por 
seus maaos conselhos, e por nisso nom olharem o que deviam a deus, e 
a suas almas, neem per isso se deue leixar de fazer toda dyligencia po- 
synell pêra se tornarem a rrecolher e tirallos do maao caminho em que 
sam postos, poreem muito vos emcommendamos e mandamos que traba- 
Ihees quamto posyuell vos for por os tornardes a rrecolher e aver a maão, 
notefficandolhe como nos vollo mamdamos asy, e emviamdolhe vosos se- 
guros e perdões do erro que niso teem cometidos, porque nos por esta pre- 
semte carta lhe aveemos por perdoado a todos e a cada hum deles a pena 
de justiça em que por isto nos sam obrigados, e vos damos por esta noso 
inteiro poder pêra lhe dardes os ditos perdõees do dilo casso, os quaes 
queremos que valham como se fosem pasados por nosas cartas e asigna- 
das de nossa maão, e pasados por nossa chancelaria, e se comprir para 
mais asynha os rrecolherdes, lhe fazerdes allgnma graga de nossa fazenda 
de dinheiro ou vestido, fazerlha como vos bem pareceer, e muito vos em- 
comendamos que ffaçaees nisto toda dillígencia porque ho avemos asy por 
muito seruiço de deus e noso. Sprita em lixboa a xxiij de ffevereiro. An- 
tónio fernandes a fez de 1512. — Rey • • • 

A affomso dalboquerque sobre bomees que sam lamçados com os 
mouros. 

(No verso) Por elRey — A affomso dalboquerque, do seu comselho, 
seu capitam moor das partes da Índia ^ 



1 Torre do Tombo— C. Chron., í. 1.% Mif. 11, D. 14. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 215 



1612— Março 11 



Afomso dalboquerque amiguo. Nos elRey vos emyiamos moyto sau- 
dar: porque da geemte aindar bem paga de seus soldos se lhe segue mais 
comtemtamento pêra beem seruirem e folgarem damdar la mais tempo, e 
porque esta que agora vos emviamos be toda muy booa, e asy ha que la 
amda, averemos prazer de seer toda muy beem paga e contemte, porque 
de asy seer beem sabees quanlo noso seruiço se segue; e emcomendamos- 
uos que trabalhees como sejam paguos a custa doutrem e uam nosa; 
e que esperemos que asy o avees de fazer com ajuda de deus porque dos 
ho desejamos asy muyto oam se perda esta lembrança. Sprita em liiboa 
a »j de março, ho secretario a fez I51i2. — Rey • • • 

Outra tal pêra affomso dalboquerque ssobre o pagamento da gente. 

(Em dorso) Por elRey — A affomso dalboquerque, do seu conselho 
e seu capitam moor das partes da índia. — Per outra via^ 



1613— Fevereiro 18 



Afomso dalboquerque amiguo, nos elRey vos emviamos muito sau- 
dar, somos cerleficado que se fazem grandes despezas na rribeira de co- 
chim em coregimentos de naaos e de navios, asy dos que de ca vaão pêra 
a carega como nos de laa, e que pela vemtura se poderya diso muito es- 
cusar; emcomendamosuos e mandamos que provejaees nisso de maneira 
que nom se faça senom o necesario, e com tal provisam e rrecado quall 
comvem por noso seruiço, e tomay diso grande e especiall cuidado por- 
que bem vedes quanto isto rreleua a noso seruiço, e que nestas cousas 
do despender deue aver grande rrecado, pois sendo mais do que deue 
nom ha cabedall que ho posa sofrer. Sprita em euora a xviij dias de fe- 
vereiro, António femandes a fez de 1513. — Rey • • • 

1 Torre do Tombo— C. Ghron., P. l.\ Mag. il^ D. 30. 



2i6 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Pêra affomso dalboquerque sobre a despeza da Ribeira de cochy. 
(No verso) Por elRey — A affomso dalboquerque") do seu comselhOi 
seu capitam moor das partes da índia \ 



1614— Janeiro 6 

Senhor — pella monçam pasada, pelas nãos que femam peres levou, 
largamente espreuy a vosa mercee do que ate ese tempo se pasou ; agora 
por esta nao samta ofemea spreuo as cousas demtam ate agora acomteci- 
daSy porque sey quamto prazer com ellas a vossa mercee ha daver, pois 
sam de malaca, que he vosa feytura, e obra de vosas mãos, a quall eu es- 
pero em noso senhor que se fará tam nobre e tam prospera e pupulosa 
como o damte era, e he isto nom poder tardar segundo vemos cada dia as 
cousas ir em crecimento, nom por meus mericimentos, somente porque 
noso senhor asy ho quer, e quererá deixarvola ver neste estado que digo, 
por lall que imteira groria aja vosa mercee das cousas em que leuou tanto 
trabalho e apresam como todos sabemos, porque certamente isto será 
causa as oraçOees delRey noso senhor fazer isto, e eu espero que daquy 
aja sua alteza, alem da omrra que todos sabem que ouue por ganhar desta 
terra a seus senhorios, gramde proveyto a sua fazemda, e prazerá noso 
senhor que lha deixara por muitos anos a seu seruiço. 

Item — depois de femam peres ido chegaram os enbaixadores del- 
Rey de sião com amtonio de miranda, e com os homens que consyguo le- 
vou, somente huum que la faleceo trouxera arroz por pilar huum junco e 
certas per (sic) pêra vosa mercee, todo foy entregue ao feitor ; quando che- 
gara foilhe feita muita homrra, gramde rrecebimento de gemte, e a forta- 
leza jugou toda artelharía grosa e meuda; depois de rreceber suas cartas 
mandeylhe que lhe desem casas, dixeram que no junco estariam; man- 
deilhe dar mantimento pêra toda sua gemte e rregra ; foram muyto bem 
agasalhados elles e toda sua gemte sem rreceberem escamdalo; vieram 
depois ver e falar sobre huma carta que lhe vosa mercee escrevera a el- 
Rey de sião, em que diziam vosa mercee lhe cometer a governança de ma- 
laca, ao quall lhe rrespondy que aquilo seria se sua ajuda viera antes da 

> Torre do Tombo— C. Gbron., P. 1.% Maç. 12^ D. 73. 



DOGDMENTOS ELUCIDATIVOS 2 1 7 

tomada de malaca, ou se fizera diligencia segundo por vos lhe era decra- 
rado em vosas carias, e isto com todo bom gasalhado, sem elles rrecebe- 
rem eseamdalo; largamente lhe screui que elles deviam aceitar amizade 
e trato com eIRey noso senhor, emformandoos quanto proveyto, honrra e 
acrecentamento de suas terras seria, e que a paz e amizade seria pêra 
sempre, e que siam tratase como amtigamente fazia com malaca, que vise 
06 que eram rrebes a esta paz, a fim que a viam, e pois vosa mercee 
em Dome delRey noso senhor lhe dava a paz, que a deviam tomar, que 
lhes seria proveitosa; folgaram, mostraram prazer disto; ficaram espanta- 
dos de ver tall obra em tam pouco tempo; mostreilhe artelharia e cousas 
da guerra; folgaram de ver todas estas cousas. Finalmente partiram com- 
tentees; armou o bemdara para sião dous juncos em que mandou o seu 
filho mais velho, e o tomungo armou huum; tenho nova que por homde 
foram lhe foy feita homrra e gasalhado ; prazerá a noso senhor que viram 
com tall rrecado que será a seruiço de sua alteza como bo eu espero. 

Item — sua detriminaçam era vir apalpar o negocio da governamça; 
eu lhe faley largamente da paz, e que diso fezesem fundamento, larga- 
mente lhe rrecomlamdo o que fazia ao caso elle; foram comtentes com a 
paaz, cada dia aguardo por seu rrecado nos juncos ; nom he gemte de 
que tenhamos necesidade; a paz a elles he mais proveitosa que a nos. 

Item — depois disto vieram os embaixadores delRei de pão pidimdo 
paz; eu lhe rrespondi que a paz lhe seria dada quamdo elies contribuisem 
a elKey noso senhor o que amtigamente davam a elRey que foy de ma- 
laca, porque estas páreas e trebuto hera o sínall verdadeiro pêra se saber 
se queria esta paz, alegamdolbe quantos Reis as pagavam a eIRey noso 
senhor; estes embaixadores vinham com muitas lancharas homrradamente; 
pão he terra que sempre teve trato com malaca; he gemte que em tende 
o trato da mercadoria; fizlhe muita homrra; sua gemte e pessoas bem 
tratadas conpraram algumas cousas na cidade, foramse com as cartas 
qvé Ike dey em rreposta das que trouxeram ; depois vieram com cartas, 
e dous cates douro que ham de pagar em cada huum ano; e fez-se el- 
Rey de pão vasalo delRey noso senhor. 

Item — e vieram embaixadores delRey damdraguiri, que sam homens 
mouros que confinam com menamcabo; parecem homes homrrados; vinham 
com cartas do dito Rey pêra mim, e vinham ver a terra em que termos es* 
tava, porque amdraguiri sempre tratou com malaca; fizlhe onrra, fauor, 
despaêbeios; escrívi a elRey damdraguiri quanto avia de paguar de páreas 
TOMO m. 28 



218 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

a eIRey noso senhor em cada hum aDo; díxelhe como elRey de pão, e de 
canpar pagavam; foramse contentes com detrimínaçam de virem com as 
páreas; he terra que nom pode viver sem malaca; agora espero por seu 
rrecado que he tenpo em que aquy vem ; esta terra tem ouro e tratam de 
mercadoria aqui todo o ano. 

Item — vieram mercadores de menamcabo e de ciae (f) comprar e 
vemder a esta cidade como damte faziam; sam mercadores; trazem aquy 
ouro; aguilla levam daquy; muitos mercadores vam e vem ja sem temor; 
sam mercadores, he gente homrrada; estes dois Reis nom pagam páreas 
per que sam vasalos delRey de campar, que he vasalo delRey nosso se- 
nhor, e lhe paga páreas. 

Item — elRey de canpar he noso amigo; de sua terra vam e vera a 
malaca, quando alguma cousa pêra esta fortaleza he necesaria de sua 
terra, asi como breu e cousas semilhantes acode com ellas; mostra-^se 
grande seruidor delRey nosso senhor. 

Item — Ruy nunes, que vosa mercee mamdou a elRey de pegu, falou 
com elle, por elle mescreveo, folgou com nosa amizade ; he gente cinpres ; 
sabem bem a mercadoria; trouxe huum anell; mandeyo entregar ao feitor 
pêra volo mandar com as outras cousas que trouxeram pêra vosa mercee ; 
he gente a de pegu que tem muita necesidade de malaca, por rrezam do ar- 
ros, e cousas de sua terra que aquy despacham ; he gemte mansa e rrus- 
tica de boa verdade; a terra he boa pêra noso trato; fezlhe este Ruy nu- 
nes o que lhe vosa mercê mandou em pegu bem ; >he bom homem ; per- 
deose la em huma chaupana; merecee mercê. 

Item — Pêro paees, que ho ano pasado mamdey a pegu a carregar 
huum junco darros pêra esta fortaleza, foy a saluamento ; o junco que la 
estava, que lhe mandey arrecadar, que diziam que hera delRey de mala- 
ca, nom no achou; conprou la huum junco, outro que levava por rregi- 
mento, trouxeos carregados anbos, e trouxe quinhentos e tamtos quintaes 
de lacar que la vam, e bemjoym ; fez boa viagem ; alem de seu trabalho 
he dino de mercê. 

Item — com elle, e ante e despois vieram aquy de pegu oy lo juncos 
darros, fartou grandemente a terra delle, he muito barato ; nesta cidade 
e arredor de malaca he caro ; foilhe feyta aos pegus muita honrra ; nom 
lhe foy feita tirania nem rroubo, ante favor e gasalhado; venderam sua 
mercadoria a sua vomtade ; do que avia na terra levaram o que acharam» 
foram muito comtentes com temçam de tornarem mais, e mais nom ha 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 219 

rrezam pêra se isto deixar de fazer, pois lhe fazem oorra e fa?or, que he a 
cousa que hos mercadores querem mayormenle ; os pegus sam dinos delia 
porque Dom fazem mall a oinguem, e he gemle de mercadoria, e sua terra 
nom pode viver sem malaca. 

Item — vierom depôs estes Ires juncos de burney, que a gente desta 
ilha sam luçõees, de cuja terra hera o lomungo; desta cidade, dous delles 
heram de mercadores luções dellaa, e hum era do mesmo tomuugo; trou- 
xeram mercadoria, venderamna, foilhe teita honrra, bom trato a suas pes- 
soas, do que acharam carregaram o mithor que puderam ; foramse conten- 
tes; sam bons homes jnsinados na mercadoria; de nosa conversação e 
verdade ouueram prazer ; mostraram prazer comnosco ; estes navegam por 
moDQoees ; de sua terra trazem cânfora e outras cousas ; antigamente tra- 
taram com malaca ; nom podem viver com eila ; ievatn daquy rroupa de 
cambaya, e outras mercadorias ; toda esta gemte hera da valia de tomungo. 

Item — tamto que eu vy a terra ja alguum tamto pacificada, e tomey 
o temto da terra e dos Reis comarquãos, e lamcey minha comta o milhor 
que me doso senhor deu a emtemder, esguardando o seruiço delRey noso 
(sic), e ho que me hera encommendado de minha obrigaçam, vemdo como 
hera rrezam que devia catar modo e maneyra como elRey noso senhor 
ouuesse alguum proveito a sua fazenda, pêra se tenperar com as despe- 
sas que se fazem, determiiiey de mandar três navios a java com huma ca- 
raveUa, com gente e arteiharia, abilaihados de mantimento, e todo nece- 
sario, com mercadoria que neles mandey meter, poslo que fose com o tra- 
balho que deus sabe que os rremediava, que a todos parecia inposivell, 
porque ho mestre diz que lhe cayo o masto, que nom tem estres (f)^ impo- 
sibilidades de gente do mar, e ma vontade da gente da terra, que lhes pa- 
recia que a java hera cousa que comia homens, e que nom podiam deixar 
de pelejar, e cousas que os homens dizem quando os mandam navegar 
pêra terra, que se nom esperam ajudar de seus tratos próprios, mas eu 
que a sustaucia do caso tinha tomado, e também por dar a entender aos 
jaós que heramos homens de mercadoria, quando compria, o milhor que 
pude rremediar os navyos denxarcea e cábrea de canos (?), e do que me noso 
senhor minist'' u, posto que fose com o trabalho que deus sabe, escre- 
vendo branda mte aos senhores da java, quanto proveitosa hera a paz 
com eIRey doso senhor, que oulhasem o que em malaca fizera vosa mercê 
com tanta rrezam e justiça, depois de tanto comprimento com elRey que 
fey da malaca, e que nom avia rrezam pêra a Java deixar de tratar com 



220 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

malaca milhor que damle, porque nom avia ja as tiranias e opresoees 
pasadas. 

Item — ja tudo prestes, deixando malaca provida, asi no mar epmo 
na terra, do que me compria, por em tamto maudey as nãos caminha da 
Java, porque linha emíormaçam que avia la cravo, mandey por capitão 
mor francisco lopes daluim, e a tome pires, espriuam desta feitoria, por 
feitor darmada, pêra fazer a carrega; foram e vieram e trouxeram perto 
de mill e duzentos quintaes de cravo, que será emtamto pêra rremedear, 
como tenho dito. 

Item — neste meio tempo vieram aquy da china quatro juncos, nom 
traziam mercadoria, porque vinham ver a terra; heram dous do chulata, 
que aquy achou diogo lopes de sequeira, e hum do sogro do tomungo, e 
outro de çunadeu; traziam muito pouca cousa; os chins mostraram grande 
prazer, fizeram festa por a terra estar a obidiemcia e governança delRey 
noso senhor, e da distruiçam do Rey, que foy de malaca, folgou muito, e 
dos mouros que foram mortos na distruyçam de malaca, porque este chei 
lata queria mall a elRey de malaca; fizlhe muita homrra, muito favor; es* 
teve aquy muito comteute; eile vendeo aquy hum junco ao tomungo; di- 
zia que nom queria mais bem que levar nova a china de como a terra 
estava. 

Item — neste meo tempo mandey chamar o bemdara, e lhe dixe que 
se lhe parecia bem ir daquy hum junco pêra a china com mercadoria 
delRey noso senhor, que estava aquy aquele junco, que viera novo do 
pegu, que la fora comprado, que vise nisto o que era serviço de sua al- 
teza, pois era bemdara que devia catar toda maneyra de seroiço do dito 
senhor, cujo bemdara elle hera. 

Item— dixe o dito bemdara que lhe parecia bom comselho, e que 
elle carregaria a metade do junco; por mais segurança da fazenda do dito 
senhor foy carregado de pimenta que aquy tinha sua alteza, que veo de 
pace, que vosa mercê mandou de la trazer por pêro paees ; e no joneq 
do cheilata foy lambem mais fazenda do dito senhor, e do bemdara; pêra 
Uaa foi feytor e espriuão portugueses por parte delRey noso senhor, e asy 
outros por parte do bemdara; o tomungo carregou outro pêra a china, e 
outro do sogro do tomungo, e outro do cheilata, que vosa mercee mandou 
a sião, todos juntamente vam a china; prazerá a noso senhor que todo 
vira como todos esperamos, porque tudo vai a rrecado. 

Item — daquy partiram três juncos pêra sião, como ja tenho dito » 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 22 1 

VOM mercee atraz, dous do bemdara, e huum do lomongo, cada dia agora 
aguardamos por elles, porque agora he tenpo da moDçam ; traram omito 
arrot e benjoym, lacar e qualiquer mercadoria da terra. 

Item — depois partio daqoy huum junco todo do bemdara, e de mer-^ 
cadores da terra pêra bemgalla, foy la inuernar pêra traeer rroupa e mer^ 
cadorias ; rroguey ao bemdara que mamdase la aquele junco pêra dar 
nova na terra de nos verdadeiramente, e pêra que venbam qua sem medo, 
e que ll)e screvese meudamente de nosa verdade e ju&rtiga, e de omio trar 
tavamos os mercadores, porque nosos imigos nom lhe daram de nos a 
emformaçam verdadeira que temos. 

Item — senpre aguardey aquy na monçam de mayo, e na dagosto que 
vosa mercee nos mandase prouer de cousas necesarias pêra nãos, <Í6«i- 
xarcias, vellas de linho, de cousas de que temos necesidade, as quaes vosá 
mercê milhor saberá, pois sabe a terra e o de que tem necesidade, por- 
que se nos qua nom formos providos per vosa mercee, que taoito trabalho 
tem levado por a poer neste pomto, e que tamta vomtade tem de a rre- 
fonnar, e que he obra de vosas mãos, a quem pertence dobrado cuydado 
do que nos compre, de quem esperaremos que nos proveja; aguardava 
por nãos nosas com tudo o que nos pudese àe )a vir, que aquy catamos 
com muito trabalho huum pouco de cairo e cousas semelhantes, e noa 
com olhos abertos por rrecado vemos huQoa nao malabar ; e o que maia 
agastou nom ver carta de vosa mercee nem rrecado, somente por ouyda, 
nam por meu coraçam deixar destar rrepousado, pois sabia que com tan- 
tas nãos e gemte vosa mercê partira, que a nova nom pode deixar de ser 
boa, porem folgara eu muito de ver novas do pay da pátria, que com rre^ 
iam nos devo socorrer; veo a dita nao com iso que puderam de la man«- 
dar, no que se fez seruiço a elRey noso senhor, per que nom vindo nas 
monções ordenadas, não perde a terra ho credito, que se nom deve perder 
por nenhuma cousa. 

Item — logo despos esta nao, huma nao guzarate de mila gobkn^ que 
trouxe muita mercadoria, posto que muita deixou em pacee, trouxe grande 
copia que fez grande credito na terra, porque de cambaya he aquy gtandef 
o trato, e todos gastam a rroupa delia; foram rrecebidos hoforradamente ; 
mandeilhe dar gudoces (?) dos milhores da cidade; toda sua gemte foy hon* 
rmda, Canor^da, e dles priDcipallmeõte nom lhe foy levado neottum di* 
reita por esta primeira veesf ; sobre isto maHdey chamar o bemdanai* é to>- 
moogò, fe feitor» e ofidaes dá feitoria; eon todoa pratiqaey (fott Ibet pare^ 



aaa cartas de affonso de Albuquerque 

cia, esguardando inteiramente o serqiço do dito senhor, e a conserua(;aiD 
()a .terra, e avemdo respeito a terra, por agora nom ler tamla mercadoria, 
foy dito que vosa mercê por três anos lhe deria liberdade; por lodos foy de- 
t^r^ninac^ que por esta primeira vez nom pagasem direito, e eu, vendo o pa- 
recer de lodos, em nome do dito senhor, mo pareceo que esta primeira vez 
y.emderam muila mercadoria a sua vontade ; tornaramse comtentes e muy 
bem carregados, p^pmetendo de virem pêra o ano três ou qualro nãos, no 
qu^ vosa, mercê deue trabalhar, porque trazem de toda sorte de panos, e 
Qutr^fi mercadorias que alumiam muito a terra, e certo nisto se deve gram- 
demente trabalhar por que canbaia trate com malaca como danle fazia. 

Item -^vieram de chprpmandell três haos com muita mercadoria, 
q/^ certo fez grande credito qa terra, de que o povo ficou alegre por ver 
acudir as nãos com as mercadorias; sobre estas três nãos, tamto que me 
dixer^m que vinhaam, veo o bemdara a mim, e me dixe que vinham trea 
nãos, que ouuese por bem que elle levase os direitos que diso lhe perten- 
ciam > sobre estas nãos; mandei chamar os ditos oticiaees e lhes puz em 
pratica, com todo rresguardo do seruifio do dito senhor, se assy mesmo de- 
viam de ser liberdades estes mercadores de choromaodell, vindo, foi acor- 
dado que por esta primeira vez deviam ser liberdades, e a mim asy mo 
pareceo pela mesma maneyra, por tall que a terra se rreformase ; tamto 
qoe.as nãos chegaram perante o bemdara, feitor, e oOciaes, e perante o 
teamngo, e mercadores, em nome do dito senhor, lhe foy quitado o direito 
por esta primeira vez, e asy mandey ao bemdara que nom levase nenhom 
direito aos ditos mercadores, e asy mandey aos mercadores que nas nãos 
vinham que nom pagasem os direitos que eram obrigados aquy pagar, so- 
mente por esta primeira vez francamente comprasem e vendesem sem a 
ninguém darem nada^ nem pagarem, defendendo ao bemdara e tomungo 
que, levandolhe alguma cousa, que averia desprazer. 

Item — aquy junto com queda amtre malaca, c queda por huuns. 
rrios, ha quatro lugares donde soyam vir estanho a malaca; chamam-se 
estes lugares mínjam, celamgor, barnaz, e outro (?); estes homens, que nes- 
tes, lugares viviam por a guerra, e também por os darus virem sobre el- 
les, e queda também querer meter a mão, amdaram amorados; agora, que 
a terra vay tomando asemto, vivem mais seguros ; eo, vendo que nom e&- 
tavam armes, mandey la ámtonio de miranda na gaUe nova com mercado* 
rea da terra em lamebaras ver a terra, e emc^e fantesia estava, ;e çs )á^' 
gaies; saití po|r os rribs demiro; fioalbnente què veo haun senhor de hnam 



. DOCUMENTOS ELDCIDATITOS 2Í23 

lagar deles, feihe mercê; veo ordenado pelo povo daquele liigaar; ooti^ 
Srmeyo na governança delle ; pagua duas miil timas (?) por este primeira ' 
ano, por a terra estar despovoada; os outros me mandaram dizer que pêra 
esta outra lua viriam, espero em noso senhor que venham, e todos esta* 
rem a obidiencia delRey noso senhor; estas nãos que agora Tam, aprin* 
cípal mercadoria que levam he estanho, e, quaudo nom levam timas^ levam 
bastardos amuedados; como a cousa for mais mansa, em iall maneyra 
como m espero, a mercadoria vira a terra. 

Item — estaua nesta feitoria copia de pedra hume, e do cobre, que 
he mercadoria que se aquy nom gasta, porque o cobre vem dos lequios; 
e a pedra hume vem de pão, puz em pratica com ho bemdara, feitor, e 
oficiaes se seria bom esta mercadoria hir pêra lugar omde elRey noso se»- » 
nhor rrecebese algum proveyto, o bemdara dixe que pêra paleaoale he 
muito boa mercadoria, e que se dobrava o direito, e as vezes doos e tires 
por huum, que se ia fose junco delRey noso senhor que etle meteria e ar- 
maria a metade do junco ; eslava aquy ho junco que veo de pegu, deterá 
minouse que fose laa; vay de cobre e pedra hume, e outras couzitthas; 
doze ou treze mill cruzados a parte do dito senlior; vay por feitor simSô 
do pino, esprivão eytor de Valadares ; da parte do dito senhor vam asi 
mesmo oficiaes por parte do bemdara ; de tudo vay o gasto de tudo por 
m® (miudof); com ajuda de noso senhor vira muita mercadoria por rrê^ ; 
tomo, porque toda a rroupa de paleacate vali muito nestas partes, e na 
Java vay por capitam huum mouro homrrado, que foy quilim; tam má^ 
tos mercadores e pessoas homrradas ; espero em noso senhor que tudo ve* 
nha, como se espera vira, com ajuda de noso senhor, na roonçam de se- 
tembro, este primeiro que vem; e foylho mandado dar por rregimento. • 

Item — se n'armada pàsada, que o ano pasado mandey a Java, levey 
trabalho em correger as nãos, e a vir cousas com que pudese naveguar; 
quanto mayor ho tenho agora ávido, porque certamente deus he o que me 
ajuda, como se pode crer, aparelhar nãos pêra bandam, avemdo de cavar 
cada cousa com tamto trabalho, e nom no vemdemdo na terra, o que be 
necesario somente quatar e rremediar; e louuado seja noso senhor apa- 
relhey o bretam, e sam christovam, e samtamdree pela milhor màneyra 
que pude, avendo tudo com gotas de samgue, como creo que vosa mercê 
poderá semtir ; pus em pratica com o feitor, e oficiaes, e capilaees se lhe 
parecia seruigo delRey noso senhor, pois todos sabiam que Jaós, posto 
que ja inteiramente conheçam a potencia delRey noso senhor, pdas cou- 



â24 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQIDRQOE 

99ã que vosa mercê fez, e que se depois fizeram, nom sam aioida tam 
maosos qo& qoeiram navegar a malaca, pois Dom navegando o crano e 
maças, que nos he necesario, nom viria, se lhes parecera seraiço do diti> 
senhor, pois estavam estes três navios aly, que eu os rremediaria como Ia 
pudese ir, se parecese seruiço do dito senhor; dixeram que sy era bem 
aparalhandose os nauios; trabalhey nelles, que os muitos pilotos dixeram 
que podiam ir a bamdam e vir; abitalheios de mantimentos e gemte, pol- 
uora, artilharia e rroupa que ainda estava na feytoria, e outra que mandèy 
comprar aos guzarates, mandey fornir acerqua de cinquo mil cruzados de 
rroupa tudo prestes, fiz capitão mor antonio de miranda, diogo borjes fei- 
tor darmada; meti demtro chatis mercadores pêra ajudarem a fazer a 
carga» foramfie em boa ora. 

bem — partiram a xxviu^ dias de dezembro, deilhe seu rregimento; 
esprevi cartas aos senhores da Java onde chegasem ; deilhe toda sua ma- 
neyra de que aviam de fazer; vay tudo tanbem ordenada, tudo por seus 
apontamentos, e que tomasem emformaçam da terra, e que se achasem 
francisco serrão, e os que com elle se perderam, que os trouxiram ($tc); 
espero em doso senhor que, segundo tudo vay a rrecado, que viram carre- 
gados despeciaria e asi lho mandey, pois levavam mercadoría em abas- 
tamça, que fretasem junco e trouxesem quanto mais pudesem, e noz no 
junco pêra os pegus e guzarates quando viesem. 

Item — a timor quisera mamdar, e por nom ter junco nõ foram esta 
mOQçam, laa pêra o ano prazendo a noso senhor yram la pêra Iraxerem 
o sândalo ; he muito boa navegaçam. 

Item — daquy partiram pêra fumda três judeus; comda he ylha da 
mesma Java, corta hum rrio estreito, he terra de caferes, e mouros pou- 
cos; he gente que sempre tratou com malaca; vem de la pimenta muito 
boa e escravos, e muito arroz: he terra que tem muitos mercadores; esta. 
piBienlia hade vir aquy pêra a monçam dos chis ; os juncos que la vam 
he bum do tomuogo, outro de nina^ pacho, e outro em qne vay o bemga- 
cale mercador; daquy levam mercadoria do guzarale; he boa viagem; he 
gemte, a de çunda, p^ifica, de bom trato, de llaa he gramde trato pêra 
malaca; também parte outro junco do tuam colaxaquar peradema, que he 
terra do patê Rodim,. que he o mor senhor mouro qm ha na Java; he 
cunhado do patê onoz ; diz o colaxaquar que o quer la mandar, e fazer paz 

. 

^ nàU e fÀíúé 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 225 

com o patê Rodim; ea lhe screvo o que conpre ao patê Rodim, porque 
me dizem que be homem sesudo e muito bom homem ; e asy escrevo a el- 
Rey de çumda meudamente, apregoamdolhe sempre paz, maQifestamdolbe 
que eIRey doso senhor nom quer senam paz com lodos, e que isto oulhem 
quanto proveitoso lhe he, e que nom ha rrezam pêra que os Jaós tenham 
inmizade com nosco, e quanto mais proveitosa lhe será a paz, e quanto 
acrecentamento de sua omrra, estado, e terra será serem verdadeiros ami- 
gos e servidores delRey noso senhor ; a cada buum ho escrevo segundo 
mo noso senhor da a entemder; os que vem de fora, ora venham com 
mercadoria, ou a ver a terra, a todos faço omrra, favor e gasalhado. 

Item — de Java vieram ja aquy duas pangajavas com arros; bem 
podem vir ver a terra; a quallquer cousa que venham folgo, porque por to- 
das as vias lhe comvem paz, e vem ver ho asemlo da terra, tomar em- 
formaram; porem a Java nom pode viver sem malaca, porque este he o 
eixo omde se tudo rreuolue. 

Item — palibam, com toda sua destruiçam, que ouue quando patê onoz 
veo a malaca, posto que sam sobjeitos a patê Rodim, senhor de demaa, 
todavia vem como podem, porque daquy se fornecem do que lhe he ne- 
cesario. i 

Item — eu tenho ora por novas certas que os de pacee mataram el- 
Rey, e ho bemdara, porque ho tem por manha ; rreina agora buum Olho 
delRey de pedir; a terra com estas cousas nom pode estar muito dasemto, 
e também me afirmaram que a gemte descjaua muito ho erdeiro de pacee, 
que vosa mercê aquy teue, que fugio, esta com elRey de malaca; neste 
meio tenpo, como hos darus sejam pessoas que nestes casos nom averam 
muito desprazer, e quereram meter a mão em pacee, eu determino de 
mandar ila huma caravela, e agallo (sic) pêra ver se poso aver pacee a mão 
pêra lhe meter Rey ou governador, e se poder falloey ate ho vosa mercee 
saber, porque seria gramde seruiço delRey noso senhor poderse esto asi 
fazer; nom deixarey, podemdo, da palpar o que se pode fazer sem escam- 
dallo; praza a nosso senhor que venha a bem tudo, fazemdose alguma 
cousa, porque segundo o acomtecido a terra deve destar em balamço, 
posto que este fose o costume de pacee matarem sempre o Rey. 

Item — tenho aqui por novas, por huma pamgajava, que agora aquy 
chegou de pedir, carregada de pimenta, que pedir esta ja da paz, e que 
vam de pacee por mar, e por terra; e que a guerra pasada he amtre el- 
les comcertada, e rreina o filho delRey de pedir, que damte alevantaram 

TOMO III. 29 



226 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

os dâ cidade; sera causa agora acudir aquy mais pimenta da que vioha 
na guerra; esta pangajava, que veo carregada pimenta (sic), hee do to- 
mungam, que foy desta cidade; tem necesidade darroz; daquy parte agora 
hum junco de hum coja amet pejamdor, la carregar a pedir de pimenta, 
pêra vir aquy a monçam da china. 

Item — estees darus he gemte maluada, nom viuem de mercadoria, 
senpre andam a furtar, este he seu oficio ; pêra nada prestam, he gemte 
sem proveito, de que nom temos nenhuma necesidade; furta por omde 
pode, e acolhemse por rríos e esteiros, por demtro da terra; nisto pasam 
sua vida; avera hum ano que nom vieram aqui. 

Item — O tomungo, que vosa mercê aquy fez, que hera lunção, eu o 
tinha por muito bom homem ; em tudo nos ajudou senpre, senpre amou 
o seruiço delRey noso senhor, nunca o achey em deseruiço de sua al- 
teza; por seus juncos nobrecia a terra o que podia, porque diso tan- 
bem lhe vinha proveito; estes homes apanham todos por onde podem, 
mayormente em malaca, que he terra de que nom temos ainda por in- 
teiro tomada a noticia de tudo, e elles que bo emtendem se ajudam; fi- 
nallmente que tendo muita fazemda espalhada quis sua fortuna que foy 
montear com hum buforo, deulhe huma cornada por hum joelho, mor- 
rão em doze ou quatorze dias; neste mez estamos sem tomungo; eu nom 
quis por sua morte fazer nenhum, nem bulir com isto ate ho nom fa- 
zer saber a vosa mercê, pêra nisto determinar o que lhe parece; a casa 
do tomungo, e sua molher e seus filhos, esta como estava; mandoa vesi- 
tar, nom lhe fazem agravo; a molher e o filho mayor rregem sua fazemda 
como seu marido o fazia; nisto veja vosa mercee o que se hade fazer, 
farseha segundo a determinaçam que neste caso tomardes; se algum mouro 
ha mister justiça, vem ma rrequerer, façolha, vamse contentes; a terra, loa- 
uado noso senhor, esta de paz. 

Item — malaca esta farta e muito mais saã pêra os naturaees do que 
soya gramde parte de mantimentos ; esta abastada muito mais que todos 
os outros rreinos comarquaos ; a gemte crece cada vez mais ; ha cada vez 
mais trato; os mercadores vem de pão; avera obra de vinte dias que vie- 
ram bem trimta mercadores de paços ; quando agora la foy o tomungo 
trouxe mercadores mouros, homens homrados; todo chatim deseja vir vi- 
ver a malaca; o filho do Raja modebar, que estava em pao, veeo, cada dia 
vem (sic)y e posto que daqui sejam muitos juncos fora, comtudo ha muita 
jente na cidade; nom ha amtre os da cidade brigas nem aluoroços; o que 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 227 

faz o que Dam deve sam castigados^ os que merecem mercee facelhes, de 
maneyra que a getnte da cidade esta em paz; de nos outros uom rrece- 
bem apresam, nem consenlo que homem noso pase as marquas e sinaes 
que lhe tenho postas, o que o pasa paga a pena, e mais he castigado; 
tudo isto faço porque asi me parece seruiço de sua alteza, por nom se 
escandehsarem os mercadores de nos, e quando algum ora, nom digo a 
mercador, mas ao mais pobre negro, se lhe faz o que nom deve, nom me 
ha dir a Roma pela penitencia, posto que seja o milhor. 

Item— o bemdara he agora quem mais por noso amigo temos; este 
bemdara he homem são em nosa amizade, deseja sempre o asento da 
terra, trabalha niso o que pode; sua pesoa he tam fiell como se fose fi- 
dalgo português, que muito desejase o seruiço delRey noso senhor; no 
que toca as cousas da terra, e mercadoria e fazemda do dito senhor, sem- 
pre o mando chamar e elie diz verdadeiramente o que entemde; nom te- 
nho outrem agora dos da terra senam a elie no seruigo de sua alteza, e 
cousas destas que tocam a fiamça he verdadeiro e sem engano. 

Item — porem elie he mercador, fazse gramde rrico; tem as manhas 
de merca4or, nom he pêra vos aproveitar se o ouuerdes mister; usa as 
vezes de cousas de mercador; quando vem a minha noticia he rreprem- 
dido como deve, e segumdo sua pessoa saro quilis C^); delle nom temos so- 
mente esta confiança e lealdade, porem elie ajudase na mercadoria como 
pode, e se de mim nom fose rrefreado segundo a cobiça tem (sic) faria as 
cousas que os dante faziam; manda juncos a todas as partes; por sua 
parte trabalha por seu proveyto; quando vem gemte de fora da dadivas; 
he sagaz mercador; he homem de bom comselho e são, que homem no 
pode escusar, esta he sua condiçam por imleiro. 

Item — elRey mafamede, Rey que foy de malaca, esta em bintam 
cheo dagonia a sem gemte, somente com algums mandaris; elie me man- 
dou ja aqui duas ou três vezes rrecados, dizendo que se queria meter em 
minhas mãos, pidindo misericórdia; eu lhe rrespondy segundo mescrevia 
largamente; depois me mandou embaixadores dizendo que vendose per- 
dido e desterrado de sua terra, e que seu filho lhe dizia cada dia que no 
tizese a paz com elRey noso senhor, que nom hera bem, e punhase con- 
tra elie gramdemente, que comveo a elRey matar seu filho, como de i3Íto 
ho matou ; elie o poderia matar por isto ou por outra cousa, porem o fi- 
lho he morto. 

Item — mandoume dizer que elie estava a obediência e ordenança 



228 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

delRey noso senhor, e qae queria mandar embaixadores a vosa mercee, 
ou a sua alteza, e que neste meio tempo os seus mercadores e paraos pu- 
desem vir seguramente a malaca; eu lhe dixe que sy, que por emtamto 
era contente, e que fizese prestes seus embaixadores; neste meio tempo 
despidio hum mandarim seu, que he seu capitão do mar, que viese a 
muar, e outro da banda de çalangor e baruaz, e outro da banda dalem, 
isto seria arrecadarem alguns direitos; eu como o soube que so a paz queria 
fazer aquilo, e mais me mandara dizer de muar que tomava escravos, ho 
mandey la prender a elle e a hum seu filho, e a outros mamdaris fidal- 
gos mancebos, que eu tenhe presos com elle. 

Item — depois de os ter presos me mandou outro rrecado que 
aquelle homem sairá com os outros sem sua licença, que lho mandase, 
que elle faria dele justiça e ho castigaria; e eu porque tenho sabido que 
elRey que foy de malaca he testampado (?) cheo damíiam, e que lhe nom 
obedecem, e que nom he ja nada, nem aproveita pêra nada, lhe rrespondy 
que soar, de paz, queria mandar arrecadar os direitos da terra, que he 
delRey noso senhor, que se isto se fazia sem ho elle saber, que asy averia 
ho castigo sem ho elle também saber; que se tinha seus mandaris mall 
insinados, e ho acomselhavam mall, e nom amavam sua onra, que sua 
seria a perda; nom lhos quis dar, e os tenho presos, e ate ho fazer saber 
a vosa mercee, pêra delles fazer o que vosa mercee ordenar. 

Item — este Rey nom tem saluaçam nem vida, esta em bintam per- 
dido, diz que se quer meter em minhas mãos ; elle me parece que nom 
serue de nada; diz que quer pagar páreas; nunca me decrarou quanto, 
pêra volo espreuer; dizia que avia de mandar embaixadores com sua de- 
terminaçam, pareceme que nom vieram; veja vosa mercê que determino 
neste caso, porque ho Rey esta desesperado, e perderseha; nom tem força 
nem gemte, somente o que de nos espera. 

Item — pêra tamanha cousa como he malaca, e tamanha empresa, ha 
mister muito provida, porque nom se pode soster com tam poucos navios 
e tam mall corregidos, que com muito trabalho aparelhey os que agora 
vam a bamdam ; e para correger os que ham dir a pacee nom pode ho- 
mem cuydar domde, e ja agora avia mister outros no canall de bintam, 
e também avia mister pêra a banda de quaa; devia vosa mercee atentar 
bem nisto ; e ha mister virem navios bem enxarceados, e com muitos ofi- 
ciaes ferreiros, carpinteiros, calafates; e também ha mister gemte de novo, 
que, a que aquy esta, esta ja emfadada dos trabalhos pasados e dos que 



DOCUMENTOS ELDCTOATIVOS 229 

cada dia padecem ; e posto que a terra agora seja milhor, das doemças 
pasadas ficaram muito doentes, e nom sam homens; oulhe vosa mercee 
isto bem e proveja^ por que huma cousa tam gramde nom se ha de guar- 
dar com dous navios podres, que se os imigos nos virem mali atabeados, 
teram coraçam contra nos: assi, senhor, que compre a isto acudir da mi- 
Ihor maneyra que se posa fazer em cada monçam. 

Item — em mentres os juncos de Java nom trazem aquy a especiaria 
de maluca e bamdam; ha mister que mande vosa mercee huma nao de 
quatrocentos e quinhentos touees, pois ho caminho he sabido, e esta tall 
he fortaleza, e trás vdo (?) e meudo, e he proueitosa, e nam andara ho* 
mem com sindeiros que os nom pode homem correger, e mais vam a rrisco, 
e nom trazem nada em rrespeito de trabalho que homem leva, e isto deve 
vosa mercee doulhar e prover, porque desta maneira se fará inteiramente 
o seruiço delRey, que dout/^ (?) trabalhar e nom trazer o que outros po- 
diam trazer, e também pêra credito da terra, que nom cuydem que tudo 
sam caravelas, e certo, senhor, que a isto deve vosa mercê acudir com a 
mais grosa nao que na monçam se achar, porque estes três navios, que 
sam os melhores que qua ha, nom poderam trazer dous mili quintaes 
despiciaria. 

Item — quanto as obras da fortaleza, asi pela pouquidade dos ofi- 
ciaees, com por nom aver pela primeira tavoado, quando se corregeram 
todos os cabaios (?) que qua temos, nom foy pouco, que nom avia rreme- 
dio de se poder fazer mais que rramendar, que he mais trabalho que fa- 
zer de novo. 

Item— agora se correje a galle gramde, que se fez de novo tirar ta- 
voa e metela outra, e isto com dous carpimteiros doentes e amarelos, que 
nom podem comsigo; per aquy vera vosa mercê o que se pode fazer se- 
nam com muito trabalho, catando negros que ajudem, quando se acham. 

Item — A torre tenho determinado de a fazer de cinquo sobrados, e 
será daltura acabada de cento trinta palmos em alto; o curucheo he, no 
meio, de cincoenta e cinquo palmos, pelas asnas sam de sesemta; espero, 
com ajuda de noso senhor, que pêra a páscoa será de todo acabada; he 
tam alta e tam formosa, que amtre os nosos pjartugueses he gabada, que 
faz temor e espamto aos estrangeiros de tam formosa cousa, que certo he 
fermosa obra; os sobrados sam muito altos, de muito formosas traves e 
tavoado, que tenho qua descoberto galisa e biscaya em tavoado, em hum 
lugar duas legoas de malaca, que chamam caçam, que ha madeira infinita 



230 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

tam direita que se vam ao ceo; sey que avera vosa mercê prazer de ?er 
tam fermosa madeira, que se podem aqui fazer nãos e navios, e carraquas, 
pela inGnidade de madeira; e a com que emmadeirey a torre he direita, 
de tavoado que toma de huma bamda a outra, e mandey solhar os sobra- 
dos de meio fio. 

Item — o curucheo esla armado, acabado o sobrado de cima, e ho 
curucheo, o chumbo também se laura; prazerá doso senhor que para a 
páscoa será tudo feyto o da torre, e será acabada. 

Item — alevantey esta torre tamlo por que descobrise o mar por de- 
trás do outeiro, e certo esta altura que nela faço he com trabalho; tra- 
zemna pedra de longe; os bates sam velhos, podres (f), corregidos tor- 
nam a quebrar, que a gemte do batell por iiom trabalhar o quebra pêra 
folgar em quanto se correger, os oficiaes doentes; vosa mercê julgara com 
que trabalho se as cousas fazem, e mormente aquy, que a gemte amda 
cansada e a obra he grande, como vosa mercee sabees ; comtudo uam se 
deixa de fazer a obra, e esla he a milhor que aimda he feita (?) em gram 
partida. 

Item — qua me fica agora a caravela rredonda, e a caravela comeei- 
çam, e a galle nova, e estas mal enxarceadas ficam varadas na ilha samta 
catarina e samtiago; a madeira e mastos no falece qua, somente oficiaes 
ferreiros, carpinteyros, calafates ha mister que venham, que estas cousas 
nom se podem fazer sem ajuda de braço sagrado. 

Item — gemte fica pouca; deve vosa mercê rreformar malaca doutra 
gemte, como dito tenho, porcjtie a de qua ja he camsada e emfadada. 

Item — per a terra ser boa, e pêra homes casados, aqui se casaram 
sete ou oyto homens bomrrados, e eu fuilhe a mão, porque se lhe alar- 
gara a tala casaramse aqui todos, que a terra he pêra iso: rrequerem os 
privilégios e liberdades que tem os casados das Imdeas, e acerqua de seus 
casamentos estes que casaram nom lhe mandar ($ic) dar nada por nom 
ter voso rregimento, e nom quis mais consentir ate nom saber de vosa 
mercee o que quer, se casem ou nam, e se casarem se lhe ham de dar 
seus casamentos; asy senhor que o que toca a estes casados vosa mercê 
lhe devee mandar suas provisoees, e a maneira que eu com elles devo 
ter; estes que sam casados vivem bem e onestamente ao presente; praza 
a noso senhor que asi seja ao diante. 

Ho toam colaxaquar, mouro jao de yler, he bom homem, sesodo» 
mostrase seruidor de sua alteza; vive em paaz, he homem que se tem 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 231 

oficiaes acode com elles, fazse rrico; também manda fora janco e panga- 
javaSi mas ho seu fundamento he na terra; tem muitos daroes (?)áeqae 
paga certa cousa cada mes; nom acho nele myntira; daquy manda agora 
bum junco a patê Rodim carregar darroz, e hama pãgajava a madura. 

He asi mesmo bom pêra os jaós que vierem pêra dizer seus cuslu- 
mes; trabalha e deseja muito de se esta paz fazer; folgaria que a terra 
estivese em paz pêra seu descamso, que he velho. 

Ao presente nom ha mais; praza a nosso senhor que prospere vosa 
homrra, e vosas cousas vam adiamte por tall que delRey noso senhor aja 
vosa mercê o galardam que merece, e depois de deus. feyto nesta famosa 
fortaleza de malaca a seis dias de janeiro de b^xiiij ^ anos. — Ruy de brito. 

(Em dorso) Ao muilo manifico e presado senhor o senhor affomso 
dalboquerque do conselho delRey noso senhor e seu capitão gerall e go* 
vemador das Imdeas. 

De Ruy de Brilo. 

(Em dorso) De Ruy de Brilto pêra affomso de albuquerque. scritta 
em Malaca aos 7 (siç) de Janeiro. Anno de 1514'. 



1614— Março 2 

Affomso dalboquerque amiguo. Nos elRey vos emviamos muyto sau- 
dar. Nos spreueemos a anlonio reall, arell de cochim, emcomendandolhe 
que trabalhe de meter em costume que os chrislãos da terra, e asy gem- 
lios, navegem em nosas naaos e navios, e em tall maneira que os mouros, 
imigos de nosa samta ffee, percam a navegaçam, e se tirem delia, e pere- 
ceenos que, metendose ysto em custume, será cousa de que se nos se- 
gira muito seniiço ; encomeodamosuos muyto que o fauoreçaees e ajudees 
nisto quanto poderdes, porque, fazendose ysto, será aso de se irem arran- 
cando de todo os mouros desa terra, e do que nisso se fezer folgaremos 
de nos avisardes. Sprita em allmeirim a dous dias do mes de março. An- 
tónio femandes a fez de 1514. — Rey * • • • 

Outra tal pêra aifomso dalboquerque. 

^ quinhentos e quatorxe. 

* T«rre do Tombo— G. Chron., P. 1.*, Maç. i4, D. 62. 



232 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

(íio verso) Por elRey — A affomso dalboquerque, do seu comselho, 
sea capitam mor das partes da Imdea. 

Outra tal. 

Em como espreve amtonio Reall arell que nesta emvio navegarem 
em nossas nãos os cbristãos e jentios por os mouros perderem a navegaçam K 



1614— Março 2 

Affomso dalboquerque amiguo. Nos eIRey vos emviamos muyto sau- 
dar. Como por outra carta vos espreuemos, por a booa emformaçam que 
nos destes de Joham serraão, e por o avermos por pesoa que nos saberá 
beem seruir nas cousas que lhe forem emcarregadas, ouuemos por beem 
vollo emviar llaa, pêra uos seruir naquellas cousas que lhe cometerdes e 
emcarregardes, e esperamos que em tudo ho em que ho pozerdes dará de 
sy toda a booa comta, e porque saibaees nossa tençam acerqua do que 
nos follgariamos que elle fizesse, nos pereceeo (?) beem vollo espreuer, que 
he o emviardes entrar o mar Roiío, e chegar ate soez, e veer muy bem 
todo o que ha no dito mar de huma parte e da outra, asy de cidades, vil- 
las e Uugares, como de toda outra coussa, e de portos, e amcoraçOes, e 
ilhas, e do trauto que nella ha, e asy navios que nelle navegam, e a que 
portos poderiam vir a geente do abeiy, e quanto ha do llugar ou Uugares 
onde vem as suas caGllas a sua terra, e como pasam as dytas cafillas, e 
com que segurança, e que geemtes sam as por onde pasam ale chegarem 
a terra do abexy, e se sam Reex que nam rreconheçam senhorio, e se sam 
mouros se gemtios, e em que tempo vaão e tornam as ditas cafillas, e o 
que trazem e Ueuam, e particuUarmente das cousas do abexy. 

Item — o sytyo da terra de soez quejando he, e se ha hy algum tall 
em que se possa fazer fortalleza, e se tem agoa, e finallmente queymar e 
destroyr todo o que em soez achase, primcipalmente de navios e cousas 
da armada, e quamto ha de soez ao cairo, e que caminho he, se deserto, 
se pouoradoy ysto por emformação que diso poderá aveer. 

E ysto tudo muy bem visto, e asy bem sabydo que nam possa aver 
coussa db que nam saibamos parte. 

Item — o porto de Juda bem visto, e quamto d'hy no certo a meça, e 
o caminho que se faz se he pouorado, se despouorado, e se ha agoas nelle. 

1 Torre do Tombo*-^C, Cbron,, P. 1.', Maç. 14, D. 75, 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 233 

Item — em meça sse ha geemte de garoiçam, e quejamda e quamta, 
e os moradores quantos ssam, e que geemte be. 

Item — asy mesmo que vise muy beem todo o mar da persya tee 
babarem, na maneira que dilo be, que o faça no mar Roiío, espreuendo 
todas as cousas que nele se acbam, e ssouber que ba, e que estas coussas 
faça em ambos estes mares, com os navios com que elles se posam bem 
navegar, e que sejam ligeiros pêra yso, asy como galleese navios de rremo, 
outros que ssam pêra a navegaçam dos ditos mares proueytosos, os quaaes 
se podem bem fazer, e prestesmente, pelos ofíciaes que agora vaão, que 
leua a sseu cargo, ate llaa cbegarem, o dito Jobam serraão por nosso man- 
dado, por irem com elle melbor agasalhados, e estes navios que asy lleuar 
deoem dir bem armados dartelberia e armas, e com gente de proueylo. 

Item — follgariamos que leuase comsigo quem lhe beem pymtase todo 
o mar Roixo, asy como jaz, e as cousas que nelle ba, de maneira que nam 
ficase cousa allguma delle que nos nam viesse pintado. 

Item — queríamos que sondase alltura do dito mar quanto bem se 
podesse fazer, e em espiciall omde ouuesse baixos, e nos canaes por onde 
por baixos se navega. 

Item — que visse e ouuesse verdadeira emformaçam da llargora do 
dito mar, e no mais estreito delle quanto be de terra a terra, e por quall 
das bandas be a canall mais allta, e danbas as partes a alltura do mar. 

Item — se sam pouoradas as ilhas que ha nelle, e de que gemte, e se 
sam gemte rrica, se proue, e se tem agoas e disposiçam pêra fazer ffortcllezas. 

E assy sayba as Uegoas que ha do estreito atee soez, e do toro atee 
santa catharína ; e posto que creemos que destas cousas vos tenhaees sa- 
bidas muytas, follgaremos que todavia, sem embargue disso, elle saiba 
destas o que lhe for possyuell saber, e os navios que com elle emviarees se* 
ram os que virdes que vos bem pareceer, e que comprem pêra tall viagem. 

E que de todas estas cousas e quaeesquer outras que vos bem pa- 
recerem leue vosso rregimento, pêra que de todas nos possaees cedo em- 
viar rrecado. Sprila em allmeirím a dous dias do mez de março. António 
feroandes a fez de 1514. — Rey • j • 

Outra tall pêra aíTomso ádboquergue. 

(No verso) Por elRey — A aflFomso dalboquerque, do seu conselho, 
seu capitam moor das partes da índia. 

Outra tal*. 

1 Torre do Tombo— G. Cbron., P. i.\ Maç. 14, D. 77. 
TOMO lu. 30 



234 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1614— Margo 13 

AfoDsso dalboquerque amigo. Nos elRey vos emviâmos muito sau* 
dar: muito vos encomemdamos que vos trabalhees, quanto posyuell vos for, 
de saber ao ccrlo se fernam Jacome he fallecido ou nam, e nom ho seendo 
trabalhardes de saber onde estaa, e o tirardes; e sendo fallecido, porque 
nos he dito que elle tinha fazenda sua em cambaya, muito vos emcomen- 
damos que hy, ou onde quer que ha teueer, vos trabalhees que sse aja a 
maão, e sse rrecade, e ponha seu em boom rrecado, de maneira que seja 
aproveitada per a aveer sua molher, e a queem de direito pertenceer; e 
muito vos gradeceremos todo o que nysso fezerdes, e assy de nos spre- 
uerdes o que disto teendes sabydo, e se faz ou esperaes que se posa fa- 
zer. Sprita em samtos a treze de março de 1514. — Rey - • • 

Pêra affomso dalboquerque sobre fernam jacome e sua fazenda. 

(No verso) Por elRey — A affomso dalboquerque, do seu comselbo, 
e seu capitam moor das partes da índia \ 



1614— Margo 21 

Afomso dalboquerque amiguo. Nos elRey vos emviâmos muito saii* 
dar. Nos soubeemos que a sylluestre corço não tendes dada a capitanya 
da gallee grande que elle fez, e a tendes dada a outrem, e avemollo por 
mall feito, e certo que nam esperávamos que nisso fezeseis mudança, 
salluo quando elle fezesse erro tall per que ha nom deuese teer ; porem 
aveemos por nosso seruiço que loguo como esta vyrdes Ibe dees a capita- 
nya da dita gallee, e a tyray a qualquer pesoa a que a teuerdes dada, e 
nella andar, por especiall que seja, porque nam queremos que outrem 
tenha a capitanya da dita gallee, salluo o dito sylluestre corço; e emco- 
mendamosuos, e mandamos que asy ho cumpraes, e nom aja nisso impe- 
dimento allgum; e asy vos mandamos que des a capitanya do bragaotim, 

1 Torre do Tombo— G. Ghron., P. L\ Mag. 14, D. 84. 



DOCUMENTOS ELUaOATIVOS S535 

qae ho dito syllaestre fez, a seu irmaSo, e, se outrem nelle amdar por ca- 
pitam, tirayo, asy como vos mandamos que ho façaees uas gallees, porque 
o aveemos asy por muyto nosso seruiço. sprita em samtos a vinte e um 
dias de margo. Antonio fernandes a fez de 514. — Rey • • • 

Outra tal para afifomso dalboquerque • . . 

(No veno) Por eIRey — A affomso dalboquerque, do seu comselho, 
e sen capitam moor das partes da índia. 

Outra tal ^ 



1616— Março 30 

Nos elRey fazeemos saber a todos nosos capitaães das nosas forta- 
Uezas da índia, capitães das naaos e navios das armadas que na Imdia tra* 
zeemos, feitores, espriuaães de nosas feitoryas, capitaães das naaos e na- 
uyos que vaão pêra hyr ,e vyr pêra estes Reynos com as caregas das es- 
peciarias, fídallguos, cauaileiros, escudeiros nosos creados, e geente de 
nosos eixercitos que na índia trazeemos, e a todos nossos súditos, e sogei- 
tos nas ditas parles, Reys, principes e senhores delles, que esteuerem em 
nosa paz e amizade, mcestres pillotos, boombardeiros, e todas outras pe- 
soas e oficiaes a que este noso aluara for mostrado, que comsyramdo nos 
como a primcipall cousa, e que principalmente deue seer prouida por noso 
seruiço, asy he a capytanya moor da Imdia, pêra que seempre estee acer- 
qua diso prouido, em tal maneira que se nam posa seguir fallecimento 
neem incomveniente allgunm a noso seruiço, ouueemos por beem dar niso 
rr^ra certa, a qual he a seguimte: 

Gomveem a saber, quereemos e mandamos que sondo caso que noso 
senhor nam mande, de lopo soarez, do noso comselho, que emviamos por 
noso capitam moor e gouernador da Imdia, faleceer no caminho antes de 
chegar a Imdia, que em tall caso afomso dalboquerque nam faça comsi- 
guo mudança, e estee e fique na capitanya e gouernança da Imdia asy 
como estaua. 

E seendo caso, que noso senhor defeemda, que, ao tempo que che- 
gase a dita nosa armada a Imdia, o dito afomso dalboquerque se achase 

^ Torre do Tombo— C. GhroD., P. i.*, Maf. 15, D. 6. 



236 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

{állecidOy 6 estíuese posto na capilaaia moor e gouerDaDça dom garcia de 
lorooba, aveemos por beem que eslee neella asy como Dclla for achado. 

E se for caso que despois de lopo soares ser chegado a Imdía, e Deelia 
estar na capilanya moor e gouernança, e fose partydo pêra estes Reynos 
o dito afomso daiboquerque^ noso senhor delle desposese, e falecesse, que 
elle nam mamde, em tall caso quereemos e nos praz que sobceda em seu 
lugar, na dita capilanya moor e gouernança, dom goterre, íidalgao de DOsa 
casa, que emvyamos por capitam a goa, por seer pesoa de que teemos 
muyta comfíamça. 

Peroo declaramos que estamdo ao tall tempo aimda na Imdia o dito 
afomso dalboquerque que elle ficara na dita capitanya moor e gouer- 
namça, e asy lho mandamos por este capitólio, e que se nam veenba pêra 
estes Reynos. £ se afomso dalboquerque fose fallecido, e esteuese na Im- 
dia ao tall tempo dom garcia de loronba, elle sobcedera por fallecimento 
do dito lopo soares, e nam estamdo o dilo dom garcia na Imdia, emtam 
sobcedera o dito dom goterre. 

E sobcedemdo o dito dom goterre, e falecemdo, que noso senhor 
nam mande, queremos e mandamos que sobceda na dita capitanya moor, 
e gouernança da Imdia, Álvaro telez, fidalguo de nosa casa, que em?ia- 
mos por noso capitão de callecut. 

Porem voUo notefícamos asy a todos em gerall, e a cada buam de 
vos em espiciall, e vos mandamos que no sobcedymento da dita capyta- 
nya moor, e gouernança, cumpraes e guardes muy imteyramente esta nosa 
detryminaçam, e dela vos nam apartees, e o fazee asy fielmente, e com 
aqueelia obrigaçam que teemdes de compryr e gardar nosos mandados, 
e asy como de vos todos e de cada buum de vos ho comfyamos; e alleem 
de compryrdes o que deuees vollo guardeceremos e tereemos muyto em 
seruiço. feyto em hxboa a trinta dias de março, o secretario o fez 1515. 
— Rey • 

Outro tall do sobcedimento do capitam moor ^ 



í Torre do Tombo-C. Cljron., P. l.\ Ma;. Í7, D. 107. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS Í37 



1616— MarQO 11 

Afomso daiboqaerque amiguo. Nos elRey vos emvyamos muyto sau- 
dar: despois de teermos dado afomso lopes da costa, fídalguo de Dosa casa» 
tali castiguOy como nos pareceo que elle merecia por suas culpas pasa- 
das, do teempo em que amdou em vosa capitania, o quall creemos que 
terees sabido quall foy, elle ficou tam boom peoytente, e com tam boom 
conhecimento que em vosa companhia nos podia tamto seruir como elle 
desejava, e que debaixo doutro capitam ho nam poderya fazer milhor^ 
que por yso, e porque dos boOs penytentes se deue esperar boom fruyto, 
nam quiseemos teer pejo em lhe mandar que nos fose seruir em vosa ca- 
pitania; e certo que elle se nos mostrou diso tam comtemte que vos deuees 
rreceber diso muyto contentamento, pello quall ho emviamos a vos com a 
naao sam mateus, em que vay por capitam; com a quall, pellas novas que 
teemos ávidas por via de framdes, e que nos espreueram por muito cer- 
tas, por virem por via de veneza, que tinheis tomado adem, como prazerá 
a deus que seera, lhe mandamos que fezese o caminho dereytamente ao 
cabo de guarda fune, per ahy tomar de vos novas, não as achamdo em 
moçambique; e que achamdo que estaaes em adem ou deemtro no mar 
roixo se vaa pêra vos, e, com a dita naao e jeente que leeua, faça e cun- 
pra vosos mandados como ho deue fa^er a . . . capitam moor, e espera- 
mos que elle ho faça asy beem; e que, se delle teemdes alguma paixam 
com rezam, a devaaes perder; e ho contentamento que elle leua de vos 
hyr buscar, e em esa capitanya vos seruir, abasta pêra aymda que muy 
maior fose a perderdes e esquecerdes de todo ; noteficamosuollo asy e vos 
emcomendamos muyto e mandamos que asy seja elle de vos rrecebido, e 
beem trautado, como se damtre vos e elle nam ouuera escandallo ailgum, 
porque alleem de asy o aveermos por muito nosso seruiço e asy vollo gar- 
decermos, nos ho teemos por tall que quallquer paixam pasada ha soI« 
dará com muyto nos tornar a seruir, e a vos se seguir tamto comtenta* 
mento, como sabeemos que sempre se vos segue daquelles que nos beem 
serEeeoi. Item porque vos sabees quamtas booas calidades teem affomso \o^ 
pes pêra ser encarregado nas cousas de noso seruiço, e mais pella pra- 
tica que pasou nas cousas de laa, em quanto andou em vosa ci^tanya, 



238 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

flfolgaremos que, aveendo vos de mandar emtemder por alguma pesoa nas 
cousas de babarem, sseja por elle, por nos parecer que nos saberá niso 
beem seruir; e asy vos encomendamos que ho façaes; e, quando niso (?) 
nam for, muyto nos prazerá teerdes sempre lembrança de ho poher e em- 
carregar em quallquer outra cousa de noso seruiço e sua bonrra, e de que 
se lhe syga proueito. Sprito em almeirim a onze dias de março, bo secre- 
tario a fez de 1516, — Rey - [ • 

Para affomso dalboquerqne sobre affomso lopes da costa \ 



1616— 'Margo 20 

é 

Afomso dalboquerqne amiguo. Nos elRey vos emviamos muito sau- 
dar. Nos vos teemos scrilo por outras carias a maneira em que avemos 
por noso seruiço que seja vosa fícada nesas partes, sendo caso de teerdes 
tomado adeem, ou estando dentro no mar roixo, em outro algum aseento 
que nelle tenhaaes tomado; da quall coisa somos mouido pellas novas que 
ouueemos por via de framdes, poucos dias antes da partida desta armada, 
que tinheis tomado o dito adeem, e emtrado o dito mar roixo, as quaes se 
ouueram por certas por vyrem por vya de veneza, segundo que larga- 
mente o vereis por nosas cartas; despois comsyramos pelas novas que 
tambeem teemos ha dias da entrada que ho soldam fazia em çoez, que 
pella veentura poderya a. dita arjnada sair e entrar o mar da Imdia, o 
seendo asy que comvyrya proueermos como as cousas de noso seruiço 
fosem postas em segurança, e naquelle recado que em caso semelhamte 
comveem ; e amtre todas as cousas, que nos parecera de mais noso seruiço 
neste caso, ouuemos por mais principall vosa ficada nesas partes, posto 
que ja tiueseis avydos nosos rrecados pêra vosa vynda, porque pella ex- 
periência de voso seruiço, e pellas vytoryas que sempre noso senhor la 
vos teem dado, por meo de vosos trabalhos, e grande cuidado de a elle e 
a nos seruirdes, muyto descanso nos dará, posto que ha dita armada do 
soldam seja emtrada na Imdia, sabermos que temos la vosa pesoa^ com a 
qual esperamos em deus que as cousas de noso seruiço seraro postas em 
toda seguramça, e que da armada do soldam vos dará a vitorya, que, em 

\ Tpmdo Tombo— C. Ghroa., P, 1.% liif. 33, D. 112. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 239 

todas as outras cousas de seu seruiço, e noso, em que emtendestes, sempre 
vos deu ; porem tos eucomendamos e mandamos que, seemdo caso de a 
dita armada do soldam seer entrada no mar da Imdía, vos nam façaes de 
la mudança, neem tos venhaes, posto que nosos rrecados pêra vosa vymda 
tenbaaes ávidos, e estees na capitanya e gouernança desas partes, tirando 
cochy, e calecut, e malaca, que aveemos por bem que fiquem ua capita* 
nia moor de lopo soarez, com quatrocentos homees, que nos praz que lhe 
fiquem em sua capitania, dos que elle comsyguo leuou na armada em que 
foy, aliem dos que sam hordenados as ditas fortalezas, do (?) comto da ar- 
mada da nauegaçam de malaca e cochy; e elle dito lopo soarez ha destar 
em quallquer das dilas fortalezas em que mais lhe aprouuer, segumdo que 
largamente lho spreueemos, e apontandolhe os rrespeitos que nos mouem, 
e que creemos que lhe a elle pareceram onestos e rresoados em caso se- 
melhante, e de tanta necesídade, e principalmente por elle nam ter a ex- 
periência das cousas de laa, neem estar aimda conhecido na teerra, como 
comveem, pêra acodir e rresystir a cousa tam prejudicial a noso seruiço, 
e de que tanto incomveniente se poderá seguir. 

E toda a outra mais geemte, frota, e exercito, asy do mar como da 
teerra, queremos que fique em nosa capitania e gouernança em toda outra 
parte, pêra nos seruirdes asy como vos parecer que comveem, e acodirdes 
aos impydymentos que se oferecerem, e trabalhardes por desbaratar a ar- 
mada do dito soldam, naquelles tempos e na maneira (?) em que vyrdes 
que milhor e mais seguramente ho podees fazer, e segurardes as cousas de 
noso seruiço, pêra que esperamos em noso senhor que vos dará sua ajuda. 
E a nossos feitores, porem, das ditas fortalezas, que ficam com lopo soa- 
rez, mandamos que pêra as necessidades das cousas da gueerra acudam 
por vosos asynados com nosa fazenda, e façam no que lhe rrequererdes 
as despezas que ouuerdes por necesarias, segundo verees por hum noso 
aluara que com esta vay. 

E, porem, quanto a carega das naaos das armadas que forem pêra 
trazer as especiarias, aveemos por bem que fique a careguo do dito lopo 
soarez, pêra elle ha fazer e mandar fazer, e sobre elle a caregamos; e vos 
emcomendamos e mandamos que a elle ajeixees, e nella nam entemdaes. 
Noteficamosuos asy nosa vontade e detryminaçam, a qual vos emcomen- 
damos e mandamos que, no caso que ha dila armada do soldam seja em- 
trada na Imdia, ha acooces com aquelle amor e booa vomtade com que 
sempre nos seruistes, e esperamos em noso senhor que ha vosos grandes 



240 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

trabalhos partira (?) a tall ãm de que se syga toda das eoo^as 

desas partes e ayer maito porqae aimda qae aiso nos sirvaaes 

tamto, que em nenhuma cousa posamos rreceber maior seruiço de vos, 

muito contentamento rreceberemos . . de saydo (?) e teer seguro e 

aseemtado laa por vosa maSo, e a quem começou, 

prazerá a noso senhor dar lugar pêra asy ho acabar como desejamos. 

Item — com esla carta vos emviamos aluara e mandado pêra serdes 
obedecido em vosa capitanya, e que em tudo usees nella do poier que 
vos tínhamos dado. 

Item — se proueer a nosso senhor, como esperamos neelle, que lhe 
prasera desbaratardes a dita armada do soldam, e de todo se asemlarem 
as cousas da Imdia, como esperamos que seja, sseendo a dita armada des- 
baratada, pois comygo nom ficara, com ajuda de deus, comlradiçam, e 
neste caso emtam vos mandamos que vos v^nhaes na primeira armada 
que pêra estes Reynos vyer, como vos linhamos mandado, e leixaies a ca* 
pitania moor e gouernança ao dito lopo soarez asym como lha tynhamos 
dada ; e prazerá a nosso senhor que vos trará ante nos com maiores me- 
recimentos, pellos qnaes tenhamos aimda mais rrazam de vos acrecentar 
6 fazer mercee. 

E porem teendo vos ganhado e feita fortaleza no mar Roxo, ou to- 
mado cousa em que tenhaaes feyto aseenlo, e posto que esta carta vos 
torne na Imdia, em tal caso vos emcomendamos e defendemos que nam 
façaes de vos mudança, aguardando em todo o que acerqua díso nos ha- 
veemos dito em outras nosas cartas acerca de vosa ficada la nõ dito mar 
roxo, ou em adem , ... vos e lopo soarez neste caso ussares (?) emtam das 

capitanias, a saber, de quo cambaya, e todas as outras. • . 

ate çufalla, e com lopo soarez toda a costa da Imdia ate malaca, 

segundo por nosas cartas voUo rrepartymos, e nellas comprydamente be 
declarado. 

E seendo casso que esta nosa carta vos tomase em tempo que lopo 
soarez fose falecido, que noso senhor defeemda, ou impidido em tal ma- 
neira que nam podese usar de sua capitania moor, como por esta carta 
vos dizemos que lha ordenamos, e a elle espreueemos, e na capitania moor 
esteuese outra pesoa, por esta lhe mandamos que liuremente vos leixe 
toda a dita capitania moor, e voUa entregue pêra ficardes capitam geerall 
6 gouernador em todas as partes da Imdia, e nas outras que sam fora 
dela, asy como a dita capitania moor sempre tevestes, e a seruistees, por- 



DOCUMENTOS ELUGTOATIVOS 241 

qae a vos queremos que fique jDteyramente ; e asy mandamos por este 
capitulo que se cunpra. 

Isto jmporta e releua tauto a noso seruiço, como sabees; e, por- 
tanto, vos encomendamos muito e mandamos que nam façaes outra cousa, 
saluo o que por esta carta vos mandamos; e tomay diso aquele cuidado 
que comveem, pois so a vosa pesoa caregamos todo o que dito he ; e, de 
asy o fazerdes, nos fica tamto descamsso, como se por nos meesmo o pro- 
uesemos. Scripte em almeirym, a xx de março, o secretario afez, 1516. — 
Rey • : • 

Pêra affonso d alboquerque, ssobre sua ficada, sendo entrada no mar 
da judia armada do soldam \ 



Sem data 

Trelado de hfla carta que o viso rrej tinha |fecta pêra mandar af- 
fonso d alboquerque per nao de mouros, amles da vymda dos capitães 
dormuz, e nom se maamdou. 

Senhor — Por huum homem de tymoga vos rrespomdy a carta que 
me espreuestes, a quall carta vossa loguo mandej a elrrej, meu senhor, 
por huum naujo da companhia de tristaom da cunha, que de trás d elle 
ojto dias partio ; e pella mjnha carta, senhor, vos fazia saber a ppuqua 
abastança de jemte que temos, e a neçesydade que ca ha; pello quall, 
senhor, fiz o que de Uaa mandastes rrequerer; e, depois, qujsera Uaa 
mandar huum naujo pêra me trazer nouas de vos, as quaes espero em 
nosso senhor que serãom mujto booas, segundo abastamça que me es- 
preuestes que de djnheiro e outras cousas tinhes, e nemhua necesidade; 
e, todavia, achej tantos peios a o mandar, que pareçeo aos com que me 
aconselho e a mjm, que era coussa escussada, porque, com toda a nece- 
sidade, de ca mandej huum naujo a cofalla com mercadorjas he coussas 
Uaa mujto neçesajras. He agora, senhor, parece me que deuo de lembrar 
a vossa merçe allguas coussas que ha serujco d elrrej, meu senhor, mujto 
tocaom, nam ja por cujdar que d isso vos esqueceres, ou as nom emtem- 

1 Torrt do Tombo— C. Ghron., P. 3.% )Iaç. 4, D. 12. 

TOMO Dl. 31 



242 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

deres, mas porque, as vezes, pasa huum porco mujto gramde pellas ar- 
madas em que estãom muito boons monteiros, e nom no vem. He digo 
loguo, primeiro, que me parece, segundo a emformacãom que tenbo de 
cocotora, que aquele castelo aly nom he provejiosso pêra nada, mas, 
amte, jmpeçiuell ao serviço de sua allteza; porque aly acupa mujta jente, 
segundo a que elle ca ha mester, e a jlha nom tem aquellas coussas que 
a sua allteza emformarãom; a saber: gramde abastança de mantjmentos 
e ser chaue da boca do estrejto; e dizem que he mujto doentja, que, nas 
semelhamtes coussas, muito se a de oulhar, porque estamos lonje de por- 
tugall, he nom nacemos ca. 

Asy que, de meu comsselho, a dita forteleza se derribarja, e a jemte 
que nella esta se pasarja Uaa ou ca, omde majs serujco fezese a sua all- 
teza; e estes mesmos comselhos tomej pêra mjm, que fiz amjediua e, 
despois, dahy a huum anno, a mandej derribar, porque lhe achej osjm- 
comuenjentes desnutra; porem, njsto eu nom m afirmo, senom que será 
mjlhor o que vos llaa mandardes e ordenardes, porque ha ajudastes a 
tomar, e temdes ho mando he gouernamça da dita forteleza. Outrosy, se- 
nhor, vos lembro que o primçipall fim a que sua allteza vos ca mandou, 
era pêra guardardes a boca do estrejto, pêra que as espeçearjas da jmdea 
nom emtrem llaa; e jsto he de todo mudado com a vossa estada em or- 
muz, he seo estreito se desempara. Ajmda que nós defemdamos que de 
toda esta costa Uaa nom passe huum allqueire de pimenta, como espero 
em nosso senhor que será, nom dejxarãom os venezeanos de ter tamta 
pimenta e as outras espeçearjas e drogarjas, como tynhãom; porque lhas 
leuãom de camatara e malaqua per amtre as jlhas, o quall camjnho nos 
jmda aguora nam podemos atalhar. Bem vejo que a uossa tomada d esse 
rrejno e cidade he merecedor de semcherem liuros disso, e sua allteza 
acreçentar mujto em vossa jomrra, com grandes merçes, e porque, pello 
presemte^ he mujta omrra sua e soara mujlo bem por todo bo mundo; 
mas nam sej o prouejto que d ahy se lhe segue, porque este negoçeo a 
mester mujtas nãos he mujta jemte, e nom sej quamlo lhe rremdera; e, 
a derradeira^ a onrra dos comqujstadores toda esta no prouejto; porque^ 
se a despeza passa pella rreceita, toda a obra fica vaan. E asy, me pareça 
que as páreas que a ese rrej fezestes pagar a sua allteza, que as nom 
poderá majs conprjr, porque, segundo dizem, elle pagaua outras páreas 
ao cofim e a outro rrej hy comarcãom, per cujas mãos he vomtade a essa 
cidade vinhãom mercadorjas e mamtj mentos he aguoa, e estes tudo es- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 243 

trovarãom, porque temos com eles aquela amjzade que sabôs. Estas cou- 
sas vos lembro; e peço uos por merçe que as oulbés com os olhos d alma, 
e tomes njsso comsseiho com as pessoas que vos parecer, porque com- 
prjr huum precepto be de majs merjcimeoto que toda las obras volumta- 
rjas he, pelio comtraíro, de o quebrar. E também vos faço saber que a 
dous aunos que ca nam vem as frotas acustumadas, pello quall mujta 
parte dos nossos navios e do tempo se gasta em buscar mantjmentos; e, 
se outra frota crjasse, bem vedes o que serja ; pois que será Uaa, omde 
jsto nom esta em camjnbo? E, se dinheiro llaa temdes, de páreas, ou ti- 
uerdes, lenbrovos que huum cruzado delrrej lhe vali biij*" najmdea; e 
que lhe farès majs serujco mandato ca, que a portugall. Per carta que 
vaj em mão de mouro, nom he neçesareo majs mjudezas, nem tamtas, 
senam somente pedimos por merge que esta coussa oulhés mujto bem, 
pêra dardes d ella aquella comta que de vos se espera. ' 



Sem data 



Trelado do aluara que foy a elrrej dormuz. 

Dom francisco d almeida, visorrej das jndeas, por elrrej, meu se- 
nhor, faço saber a uos, muito onrrado senhor affonso dalbuquerque, que 
na boca do Mar Roxo amdais por capitam mor, e asy a quallquer outro 
capitaommor ou capilães que de portugall venbãom, que eu tenho sabido 
a guerra que foy amtre affonso dalbuquerque he ormuz, depois de ter 
asentado com ele as páreas e serem vasalos do dito senhor; e, por o asy 
aver por muito serujco de sua allteza, eu espreuj a elrrej d ormuz que, 
se qujsese, todavia, pagar, e eslar pello que estaua asentado, que lhe 
darja booa paz e a toda sua jemtes (sic) e nãos de seus portos, ao quall 
dej tempo que me rrespondese, amtes que viese o tempo da outra paga 
das páreas; e, porque poderá ser que, nom sabendo que jsto asy esta, 
vos, senhor affonso dalbuquerque, tornarjes laa, a fazer guerra, vos no- 
téfico este rreçado (sic) que laa tenho mandado, e peço vos por merçe, asy 

lOitó. 

*Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.% Maç. 7, D. 86, (1. 2. (Vid. tomo idas Car^ 
tas, pag. 15, nota 2, e bem assim a nota a pag. 182 d*est6 volume.) 



244 CARTAS DE AFFONSO Dfe ALBUOIMQUE 

a vos, como a outro quallqaer capitam mor, oa capitães, que este virem, 
que, duramte o dito tempo, nom façaes guerra a nemhua coussa dormuz, 
nem que estem em seus portos, he asy volo mando da parte delrrej, 
meu senhor, pelos poderes que de sua allteza tenho; e, se no tempo que 
as páreas se am de pagar, porque ajnda emtam os tempos nom seruém 
pêra vir pêra jmdea a me trazer rreposta, se vos laa foses chegado ou 
chegados, rrequererlhees as ditas páreas que estam asentadas; e, se 
volas der, farlhees muito booa paz e amjzade, em todas as coussas, 
e nom atentares em fazer forteleza em terra ; e as páreas são Tb ^ sera- 
fins douro por anno, e pagam se na entrada d outubro, como veres peió 
asento que eles laa tem ; e, nom vo las pagando, farês o que vos parecer 
que be majs serujço delrrej, meu senhor; e, pagando vo las, farès com 
as nãos o que sua alteza vos manda, e os djnheiros mandares ca, porque 
compre mujto a serujco do dito senhor. ' 



Sem data 

Afomsso d alboquerque, amiguo. Nos, elrrej, vos emviamos úiuayto 
ssamdar. Nos somos emformado que os careguos dos quadrylheiros, 
tenedáres e espriuaees das presas sam cometidos a pesoas que nam sam 
pêra os ditos careguos, de tall fyeldade e reecado quall deuem, por nosso 
seruiçò e pelo que toca partees ; e^ porque as pessoas que nos ditos ca- 
reguos ham de serujr, deuem ser taees, que, depois de noso seruiço fa- 
zerem com toda fieldade, as partees temham descamsso, no que ellas 
ouuerem de fazer pêra ymteiramente poderem aveer o que direitamente 
lhe pertemger, vos emcomemdamos e mandamos que olhes por isto de 
modo que, asy pelo que toca a nosso seruiço, como por o que pertemçe 
as partees, sejam as pesoas taes quaees deuem ser (f)^ de que se nam posa 
teer ssospeita alguua, e que verdadeira e fiellmemte façam os ditos ca- 
reguos; e, por que se nam possa arredar nem ssonegar cousa algufia das 
presas, despois de aquelo que d ellas sse ouuer ser caregado em rreçepta» 
com todo boom rrecado, ssobre os ofiçiaees, nos pareeçia que seria mi- 

1 Quinze mil. 

' Torre do Tombo— G. Chron., P. l.\ Maç. 7, D. ((6, fl. 17 v. 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 245 

\hoT, de todo o que das ditas pressas se ouuer, se rrepartijr no lugar 
homde viesees vuivernar, ou ouuesem de vijr os navios, que, sem vos, fe- 
zesem alguuas presas, do que Ha se partirem omde fosem tomadas, 
como se ate quy faz ; vemdemdo, porem, llaa omde fosseem tomadas, aquel- 
las cousas que nam podesseem trazer nas naaos, ou que pareçese que 
llaa milbor se poderyam vemder, e se farya mais proueito damdo a cada 
huua ssobre sua parte alguua coussa, pêra, amtretamlo, comerem ou apro- 
veitarem, se asy bem se podese fazer; porque milbor e mais justamemte 
se farya a parlilba das ditas presas bomde vos fossees presemte, do que 
em outra parte, e nam averya nisso alguuas maas ssospeiçoees que ha; 
e, omde vos fordes presemte, queremos que sejam os quadrilbeiros o 
nosso fejtor da forteleza omde esteuerdes, e diogo fernamdez e gaspar 
perera, que sam pessoas que bo faram com toda fíelldade; e, nam semdo 
alguum d elles comvosco, ou temdo outro alguum ympidimento pêra niso 
nam poder seruijr, emtam meteres outro em seu lugar, que seja pessoa 
da calydade dos ssobreditos. E asy vos emcomemdamos muuyto e mam- 
damos que se faça, pareçemdonos que se pode asy beem fazer, e que nam 
ba ymconviniente que bo possa e deua tomar; porem, omde vos esteuer- 
des e ouuer presas pêra rrepartijr, estes ssobreditos sejam os quadrilbei- 
ros, porque nos parece que nam deue aver cousa que bo ympida; e, de 
buua maneira ou doutra, vos emcomendamos que se faga de modo que, 
pelo que compre a nosso seruiço e pelo que toca as partees, nam possa 
aveer ssospeyta alguãa; e emcomendamos uos que nos sprevaees o que 
nisto fazôs, e a ordem em que fica, porque folgaremos de o ssaber. Scri- 
pta em evora, a xxiiij^^ dias de feuereiro de 1513 — Rey • j • 

Pêra affonso dalboquerque, ssobre os quadrilbeiros, tenadares e 
spriuaães. 

(Sobrescripto) — Por elrrey — A affonso dalboquerque, do seu com- 
selbo, seu capitam mor das partes da jndia.* 

(In dorsOy por lettra coeva) — Sobre os quadrilbeiros serem pessoas 
fies, e que o sejam diogo fernandez e gaspar pereira. 



^ Vinte e quatro. 

' Torre do Tombo— Gav. 15, Maç. 19, N.*28. Junto a este documento, e sobo 
mesmo numero, está uma carta de Albuquerque para o rei, datada de Gochim, a 30 de 
áeiémbro de 1512. Foi publicada a pag. 82 do tomo i das Carias. 



246 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Sem data 



Senhor — Ha merce e carida (sic), honra he gasalhado, que se (sic) 
senpre de uos recebi, me hobrigou ha uos escrepuer ha presente, he nam 
menos ho hamor que vos lenho, ho qual me hobriga ha encomendar uosas 
cousas ha ho senhor deus, iso mesmo ha has hauer de pregar, honde quer 
que me hachar, como hate qui tenho fecto. Nos, senhor, partimos desa 
Índia, e, com tenpos contrairos, chegamos ha esla ilha de mocarabique 
ha vinte de marco; e ho dia que chegamos, parlio huma nao daqui pêra 
portugal, que caregou haqui de pymenta. Huuns dizem que poderamos 
pasar; houtros, que nam. Heu, come quer que seia mao piloto, nam uos 
escreuo ha certidam d isto, porque sei que haueis de saber ha uerdade do 
que se poderá fazer hacerca do seruico d el rrei. Eu, senhor, em esta ilha 
hachei huum tio meu, jrmao de minha mai, criado dei rrei, ho qual es* 
taua em determinacam de se ir pêra portugal, por ter huua perna doente; 
e heu, pola confiança, Senhor, que tenho em uos, sabendo que, se ha meu 
habito fora dado fazerdes me merce, que ma fazereis, e encaregareis em 
cousas de uoso seruico, lhe dise que se nam fose, por estar por estar (sic) 
pobrre e ser filho e crryado de quem he, porque, por minha contempla- 
cam, vos lhe farrieis merce, c ho honraríeis; e, quanto ha doença da sua 
perna, ha caso que nam fose pêra handar em armada, que, em esas for- 
telezas de cochim, hou cananor, hou goa, vos seruirieis dele. Hasi, se- 
nhor, que esla fe que heu tenho em vos, como ha uos deueis de ter em 
mim, rreceberei em merce he caridade hauer de ser poosta por hobra em 
hele, porque toda merce que lhe fezerdes, ha mim ha fazeis. Senhor, e 
mais perfeitamente ha receberei em hele, ca em mim mesmo; e hele 
he pesoa tam honrada e de tanto peso he recado, que em todo ho que ho 
encaregardes, vos ha de saber bem servir. He homem que houuio quatro 
banos de leis em Salamanca; e, despois que viue com elrrei, ho foi ser- 
uir ha hesas partes de arzila e tangere, com caualos he armas, e fez la 
boas cousas; e disto nam houe nunca satisfaçam algua. Hasy, senhor, 
por por (sk) huua via he houtra lhe podeis fazer merce. Heu, senhor, 
deseio leuar me deus a portugal ; porque, hainda que soubese ser mais 
mártir do que fui em esta ilha, por pregar e louuar vosas cousas, nam 



DOCUMENTOS ELUODaTIVOS , 247 

bauia de césar de falar verdade; e has cousas gloria de deas e de 

todos hos portugeses; porque nam lemos de capitam espanholl, que tan * 
tas mil legoas de seu rreigno, com tam pouca gente he nãos, haia conquis- 
tado ho que vos, Senhor, tendes conquistado; he ha gloria disto dai a ha 
deus; e hos enueiosos que querem denigrar estes honrados feclos, hasaz 
lhe deue de habastar ha confusam que recebem antre hos bouuidores, 
por saberem todos parte da uerdade. E, tornando ha meu preposito : ho- 
mem houue em esta ilha que nunca hia ha minhas pregacois, so porque 
em belas vos encomendaua ha todo pouo ; bate me nam fazer esmola por 
bamor de deus, so por vosa fim. Heste homem nam vos digo quem he, 
porque la ho sabereis. Hos homes que vi enframados em vosa bamizade. 
he dizerrem vosas cousas, dinis fernandez e gaspar de paiua, hos quais 
conhecem bem ha mercê que lhe tendes fecta. Ho padre frei joam, por 
sua arte bonbardatica, por falar e louuar vosas cousas, foy hasaz perse- 
gido por huum homem que lhe foi dado por gardia, por buua licença 
que trazia, do uigairo desa india, pêra ho prender^ e espancar, se fose 
necesario; e beu nam sei quem da tanto poder ha estes elegidos, que 
haiam de cometer ho que nam podem; e em esta ilha, ho alcaide saltou 
com bele, he ho espancou e escalaurou; porem, ho capitam, despois que 
veo de cofala, bacodio rígo ha biso, pesando lhe mujto do que lhe fora 
fecto, porque he huum homem mujto honrado, e leua mujto contenta- 
mento de houuir falar em vosos fectos honrados, e mujto voso hamigo; 
e cre ha uerdade e nam ha mentira dos mintirosos. Heu, Senhor, spero 
em deus de uos ver capitam perpetobo da india; e besta será ha minha 
voz he conselho, se for houuido ; porque o teror he credito que tem hos 
mouros, em estas partes, em vos, com ha haiuda da sua sancta paixam, 
habasta pêra quietar ha indiba; e, se deus disto for seruido, receberei 
em mercê escreuerdesme; e mandai me vosa fe empenhada, que, se eu 
quiger tomar ha india com frades, pêra fazer huum mosteiro em goa, de 
mo fazerdes; porque, ainda que nam seiam senam pêra ha consolacam 
dese pouo honrado, será grande seruico de deus; e sobre isto podereis 
escreuer ha elrrei he ha religiam; e, porque sam homem hasaz conhe- 
cido de uos e vos de mim, por vos bachar senpre huum zelo ha sancta 
fe e nam menos ha hos imitadores da virtude, vos escrevo isto. Peco uos 
que senpre me mandeis duas regras, de uosa disposicam, e da semente 

* Ou perder ? 



248 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

da fé, se vai em crecimento; porque, de mim, em todas has harmadas 
haueis de receber carta, do estado de minha pobreza e enfermidades. 
Senhor: este meu parente vos encomendo, porque em portugal ser€i des- 
cansado houir dizer que lhe fezestes mercê. Nam mais, senam que vos 
encomendo ha ho Senhor deus, que queira jlustrar e halumear has po- 
tencias da vosa halma, pêra fazerdes senpre sua sancta vonta (sic)^ e con- 
seruar ese seu pouo, remido pollo seu precioso sange, em justiça, e, nam 
menos, vitoria contra hos imigos, maumeticos e gentios, da sua sancta fe. 
Voso caro hamigo e horador — fraíer antonius. 

Ho portador desta he heste meu tio. 

(SobrescriptoJ — A ho mujto devoto Senhor, ho senhor affonso dal- 
'buquerque, capitam mor das indias. 

(In dorsOf par lettra coeva) — Frey amtonio.^ 



Sem data 



Carta de duarte gualuão pêra affonso d albuquerque, guovernador da 
jndia. 

Desque de laa partistes pêra malaca, ouve sempre qua disso mui- 
tos juízos e dizeres que a jndia era perdida e figurando rrazões pêra isso. 
Eu sempre disse a elrrei ho contrairo e mo pareçeo, avendo essas cousas 
de laa por fora do nosso saber, e poder da mão de deus mais que nos- 
sas; e que, tanto mais, eu esperaua por melhor noua; porque, se algua 
maa hi ouvera, já qua tiueramos per via do cairo, como soe a vir, muitos 
meses primeiro que per nossas nãos. Este papa dos que a ora setenta 
annos que foi a elle sobre estas matérias contra os jnfiees foi sempre' e 
faz muitas apressadas amostras de mouer qua os christãos a cruzada ge- 
ral contrajnfiees, mayormente aguora, com as discórdias dos turcos, que 
leuantaram por emperador de costantirper o filho menor do turco; por 
omde o primogénito se lamgou com o çofi, e lhe deu em arrafens hum filho 
seu primogénito, que ho ajudasse contra ho jrmão; e (o que ainda pa- 

1 Torre do Tombo— Cartas missivas, Htç. 4, N.*" 189. 

'O sentido obscuro d'esta passagem ó devido certamente a erros do copista. 



DOCUMENTOS ELUaDATIVOS 249 

reçe mais mistério de deus pêra destroição de mafamede) as discórdias 
aaitre todo los jnfiees, sobre sua seita, a saber: os do çofy contra os de 
mafamede, qae se matam e guerream a fogão e samgue, sem dar vida 
hmn a outro, estando, passa de oitocentos anos, todos muito d acordo em 
huum, contra a nossa fee ; em que parece ordenar deus que satanás se 
aleuante contra si mesmo; diuiso, e que a falsidade que no mundo sa- 
meou, derradeiro, per mafamede, como, êm outro tempo, per jdolatria dos 
jentios, se desfaga também outra vez e aja fim, segundo nosso senhor 
disse no euangelho; e, com todos estes azos que nos deus daa, nam so- 
mos pêra os tomar, por nossos pecados; e o papa todo se rresolue em 
mostras que quer, nam querendo, segundo os effectos, concordando com 
o que uos ja laa escreui, e vereis per minhas cartas : que todas estas pres- 
sas nam duuida nada jrense dando a vaguar, como, mal pecado, se fazia 
nas boas obras, por deus querer que nossos feitos dessas partes de Uaa 
fossem primeiro postos por elles tanto avamte, que viessem fazer von- 
tade ou verguonha ao ($ic) prinçepes de qua. E, pois por laa, que era o 
mais jmpossiuel, quis fazer possiuel ho começo desta empresa contra ma- 
Ca^mede, creo que segue fazer o principal, que será verem os de qua, pri- 
meiro, mafamede laa em pessoa combatido, ao que me parece que pra- 
zeraa a deus que tome começo, e feito per vos, guardando sse pêra voz 
(sic)^ com outras, esta tam principal honrra, mayor sobre quantas, nesta 
conquista, pode aver. 

Quanto mayor homrra he tomar e destroyr ha casa do principal jmi- 
guo de deus e nosso, que nos tem sopeados, que cobrar a nossa de Je- 
rusalém, perdida e nam cobrada por muita nossa culpa, emtamto que 
aguora me parece, segundo disse a elrrei, que na perdição da christaan- 
dade, pella vinda de mafamede, se ordenou, per mistério de deus, que o 
preste joam ficasse laa nessas partes, com suas terras e jentes, na fee e 
verdade de christo, por tal que, quando se comprisse este outro mistério 
de Qossa naveguaçam e jda a essas partes, achássemos laa christaos» e 
jentes com que mais ligeiramente se posesse as mãos a mafamede, e a 
meça, sua principal seda, a qual veram combatida per cbristãos, tam 
fora de se cuidar. Julguara o mundo ser mais cabo que começo de ^jue- 
rer ser o final desfazimento dos mouros, mayormente com as contendas 
que aguora bi haa, sobre a própria seita, amtre elles; e, quando o visorrei 
de qua partio, ja eu, emtam pêra fora da terra, lhe falei rrijamente qus^nto 
deui^ trabalhar por aner ha jnteligençis^ com o preste joahão. Ora, sabe- 
TOMO m 32 



250 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

reis qae crarameDte dizem os liuros e profecias qoe mafamede ha de ser 
mai cedo e espantosamente desfeito, em breae» sobre coasa tam grande e 
em tantos tempos creçida; e qae meça será tomada e seus ossos delle 
qaeimadoSy assi craramente dito ; e muito parece hir se azamdo, ca sabe- 
reis que ha ora quatro meses que vieram a esta cidade dons frades de 
sam franciscOy da terra do preste johão, — o que, daquella ordem, atee ora 
se nam vio qua; porque nam haa mais de quorenta ou çimcoenta anos 
que laa he. Elrrei escreueo per elles cartas, feitas per mjm, emuiadas em 
mui secreta maneira; e aguora depois, vieram outros dous de laa, hum de 
sam dominguos, e outro de sam francisco. Hiam nestas nãos; e o de sam 
domimguos, que he de missa e mui letrado, adoeçeo. Nam sei se hirão; e 
ja lhe tinha as cartas feitas ; é aguora, vindo eu d evora, achei aqui outro 
de sam dominguos, da mesma terra, que diz que lhe morreo hum seu 
parceiro no caminho. Todos estes vieram a samtiaguo; e dy, vem buscar 
elrrei, pella fama que ja la tem de nossas conquistas nas partes de laa; 
08 quaes todos, a htla voz, dizem que na corte do preste joão andam 
sete homens brancos, desta terra de qua; e que ha dous portos no mar 
rroxo: hum se chama macua, luguar grande; outro, çoaque fsícj; os quaes 
paguam tributo ao preste johão ; nos quaes portos elles tocam, vindo per 
terra; e que, daquelles portos por terra, he tudo senhorio do preste 
johão, per que se pode hir seguramente; e dahi onde elle geralmente 
estaa, sam dez ou doze jornadas ; e estes portos sam pouoados de mou- 
ros tratantes. Parece qne laa podereis saber ha verdade disto, e assi man- 
dar rrecado ao preste johão, e aver rreposta pêra el rrey, pêra esta com- 
quista de meça; qua dizem estes frades ser elle mui poderoso senhor, e 
de muita jente pêra guerra; e, alem disto, gran trato de mercadoria, a 
saber: cobre e gengiure e muitas outras cousas. 

^ Elrrei escreuelhe as outras que vam per terra: que mandara ja a 
elle muitos rrecados e messegeiros, e que nunca, atee guora, mais soubera 
parte d elles nem rrecado, pella uentura por ajnda nom ser cheguada a 
ora, por deus ordenada, do nosso ajuntamento e communicação com elle; 
e que, portanto, elle fizesse diligencia per estes portos, de çofala e me- 
lindè atee boca do mar rroio, e também dentro nelle, atee barbora e zâla; 
e elle, de qua, também mandaria fazella, pêra se ajuntarem seus rre- 
cados com os nossos, pois deus uai azando e mostrando cada uez mais 
este ajuntamento e communicação. Lamgaivos, senhor, mão delle, e de 
tanta homrra e seruiço de deus, fazendo todas estas diligencias, consijrando 



DOCUMENTOS ELUGIDATiyOS 251 

que he a mayor honrra que pode aver em portugual, pello mundo, e 
assi uossa, e saber sse que, per seu meyo, he mafamede e meça la eoD- 
qoistada; e que, per afonso dalbuquerque, seu principal capitiOi ser na 
jndia, foi jsto diligenciado, e primeiro qua jnventado ; e tamto bei que 
jsto he assi, e ha de ser assi, que eu mesmo fora o mais ledo de me el 
rrei mandar a jsso, segundo lhe disse, sem quintaladas de guanho, por 
muito mais velho que fora ; pois, sobre velho e morto, ho cuidei, fazendo 
pello mundo, por seu mandado, doente e lamçado em buas andas, com 
febres, o que me deu saber, deuação e esforço, que nom ha, amte deus, 
uelhiçe nem fraqueza pêra seu seruiço, omde emtra deuação e uon- 
tade; que, como diz sam paulo, quando sam enfermo, emtam me acho 
mais forte; nem pêra jsto ha mester mais prooa, que fazer sse laa por 
portugueses o que se faz, e espero que se faça mais adiante, pêra assi 
rreluzir mais o poder de deus e suas misericórdias, como fez por doze 
homens rrasos, apóstolos seus, per cuja crença e merecimentos a porfia, 
e ajuda aguora se faz laa jsto per portugueses ; por tal que, assi como 
por doze apóstolos foi desfeita a jdolatría e estaa^creçida a fee catholica, 
assi per portugueses, poucos e sem poder pêra jsso, seja começado des- 
fazer mafamede e sua perverssa seita. Esta carta lhe escreuo, em vez de 
poucas que a elle e a todos laa escreuo cadano. Receberei em merçe 
mostra la a meu filho, pêra cada uez se mais jnvestir e emtreguar no en* 
tender e deuação destas santas matérias, como eu faço; e de sobeja merçe 
uos peço que ho ajaes em vossa especial emcomenda e carguo, e lhe acon- 
selheis que nom seja tam guastador em dar pousadas e guasalhados, e 
mais nam he principal pêra jsso; e, por merçe, tirayo disso, se ja nam 
for tirado. Nem uos mando cartas dei rrei nem doutrem, de emcomenda 
sobre elle, porque nestas nãos derradeiras que de laa vieram, elle mes- 
mo me escreueo que nam avia nada mister d isso, porque tudo jsto tinha 
e achaua em nossa merçe mais compridamente, por que lhe eu beijo as 
mãos.' 



1 Bibliotheca Naciooal de Lisboa, cod. d.* 297 da collecçio de Alcobaça (n.* 476 no 
catalogo impresso dos códices alcobacenses), fl. 17S. Copia; lettra doa fins do secnloxvi. 



252 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



Sem data 



Carta de tristam da cunha pêra afonso d albaquerque, guoveroador 
da jndia. 

Bom fora, omdi (sic) hi ha tanta rrezão e dioido amtre nos, que sou- 
bera eu, por carta vossa, bo descontentamento que de mjm tinheis, e porque 
era, primeiro que as estradas viessem cheas ; porque me nam contam qua 
os homens que de laa veiii, outra noua, senam ho escândalo que de mjm 
laa trazeis; e, pois, senhor, atee guora ho nam quisestes fazer, quero eu 
começar primeiro, antes que este descontentamento uosso va creçendo 
mais, pois hi nam ha quebra nem rrezão amtre nos pêra leixarmos de 
ser muito paremtes e amiguos, como sempre fomos. 

Quero, primeiro, falar em nossa errada viagem, quando vim com- 
vosco, pêra ver se naçeo neste caminho que assi fizemos, algum descon- 
tentamento amtre ambos ; se sam eu nisso culpado, ou vos. E diguo, se- 
nhor, que eu era piloto da minha nao, porque me fugio o meu, aa par- 
tida pêra castelã ; e trazia presumgão de saber trazer ha minha naao aa 
jndia, tam bem como o milhor piloto da nossa armada. Ha experiência 
dito (sic)^ vos, senhor, ha vistes, que éreis nosso capitam moor: se vim 
eu primeiro a maçambique, que vos. Quando uos apartastes de mjm, sem 
meus conselhos e compitençias com o vosso piloto, atee acerca de nosso 
caminho, quem sahio mais verdadeiro, vos, senhor, ho sabeis, que me, so- 
bre este feito, destes, aas vezes^ alguns tiros. Meu capitam moor éreis: 
bem ho podieis fazer. E, porem, nam leixou a minha pobre sçiençia de 
marinharia ficar em pee amte vos, nem, por este rrespeito, vos leixei de 
seruir como a pessoa delrrei, nosso senhor, com tanta fieldade e bom 
conselho, como vos sempre vistes; nem me damnou pêra isso ho esta- 
maguo o soltar, que soltastes, esses capitaens em compitençias com- 
miguo, nem os desafios de jorge barreio e amtonio de Saldanha comiguo, 
peramte vos. Com todas estas cousas, jsempre me achastes de hum con- 
selho e de hum coração, sem aver envees nem dissimulação, pêra as 
cousas de vossa homrra e obríguação, pelejadas e trabalhadas per mjm, 
como se o neguoçio pendera sobre mjm. Sendo vos leiíado de todo los 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 253 

vossos capitães, eu nunca vos leixei; sendo mui mal ajudado delles, 
nunca leiíei de vos ajudar; e sempre cuidei que estas cousas tinham 
tanta força amte vos, que, por ellas, me tiuesseis sempre em conta de vosso 
jrmSo e amiguo, e que nam rreinasse antre nos a condição dos portugue- 
ses, ao presemte emvejosos e damnadores e rroedores, huns aos outros. E, 
se este descontentamento vosso naçeo, como me dizem, de eu dar conta 
da nossa errada viajem a sua alteza, jsso nam tocaua a vos, nem a vossa 
hcMnrra competia. Amtre pilotos, custume he de se guabarem, e de que- 
rerem guanhar auctoridade em seus ofiBçios ; e pella ventura me quis eu 
guabar de minha pilotagem e marinharia, pois que, nisto, nam tocaua a 
vossa pessoa nem a vossa homrra, porque uos éreis obriguado fazerdes 
vosso caminho per conselho de vosso piloto, e eu era obriguado a dizer 
uos meu parecer, e competir na marinharia e pilotajem, e guabar me se ho 
fiz melhor que elle. E, portanto, senhor, nestas cousas que nam tocauam 
a vossa homrra nem a vosso carguo, amtes éreis juiz delias, nam he 
tacha guabar me eu a deus e a vos e a elrrei, porque nam naçi eu pêra 
danar vossas cousas nem as de nimguem, nem ho tenho por criança nem 
condição. 

E, se vos este descontentamento, senhor, ficou de meus agrauos em 
camatra, eo tinha rrezam; porque nam vos tinha eu merecido aruorardes 
uós vosso filho por capitam moor das nãos de minha armada, no luguar 
omde ma elrrei maudaua emtreguar, e omde me mandaua andar por ca* 
pitão moOT. Conhecestes meu agrauo e emmendastelo, e nam foi mais, 
ajnda que nam fiquei eu de todo tibo. Mães rrezão he que passe homem 
estas cousas e outras, nos taes feitos. 

Dizem me, senhor, também, que algum descontentamento teuestes 
pello começo da minha carta a elrrá, em que lhe dana conta de como 
ficaua aparelhado a vossa partida, nám sendo cousas que tocauão a vossa 
honrra e a vossa obríguação, porque ho não fizera por ser senhor do 
mundo todo; porque vos nam éreis culpado em nam ter armas, nem man^ 
timentos, nem vella, nem amarras, e menos gente da que me era orde- 
nada por elrrei, e a mayor parte delia doente; porque, de todas estas 
cousas, tínheis vos menos que eu, porque a nossa errada viagem ho cau- 
sou. Ora, vejamos, senhor. Nam ofendendo a vos, nem tocando a vossa 
homrra,' nam queríeis vos que amostrasse eu a elrrei ho assinado ser« 
mço ^ue lhe fazia tm açeptar desta maneira sua armada, com obríguação 
de meo negimento? Amies confiada eu de vos que, pella rrezão e 



354 CARTAS DE ÂFFONSO DE ALBUQUERQUE 

que hi ha, me ajudásseis alumiar meus seruiços, pois que eu, com minhas 
armas e mmha pessoa, sem nenhãa condição maliciosa e portuguesa, pe- 
lejei e trabalhei por alumiar os vossos diante delrrey. 

Também, senhor, me dizem que estais descontente de mjm, porque 
nam fui ayo de vosso filho. Eu, certo, senhor, tomara d isso carguo, se 
soubera que tanto crieis e confiaueis em mjm; mas, ho que em mjm foi, 
eu ho fiz com elle, como todo o mundo vio. Cheguando elle a judia, foi 
loguo prouido de capitania de nao; e, depois, ho fiz capitão de capitães 
e jemte; e, depois, lhe dei ha capitania da fortaleza de cananor; e, se 
mais poderá, mais lhe fizera. Se se elle danou, por seu mao conselho, e 
crer os conselhos de francisco de saa e simão rramgel, e deixar os de 
nosso criado, duarte da veigua, e engeitar os meus, — que queríeis vos 
que eu fyzesse, tendo tamanho carguo ao pescoQo? Escreueome elrrei de 
cananor, mui escandalizado d elle e de seus desmandos: passei lhe aquella, 
e rreprendiho como filho, per carta minha. Respondeo me, em hãa carta 
sua, cousas que eu tinha guardadas pêra o vos castiguardes. Tornou me 
outra vez el rrei de cananor a escreuer sobre seus desmandos, e descon- 
tentamento que d elle tinha, dizendo que ho nam podia sofrer: passei lhe 
essoutra, e aconselheyho como filho. Veo o terceiro agrauo d elrrei de 
cananor, — tam áspero, que cuidei que me çerquassem ha fortaleza, como 
fizeram em tempo do visorrey: mandeyho emtam chamar, por tal que 
nam fosse o derradeiro erro pior que o primeiro. Nam lhe disse bua soo 
maa palaura, quando cheguou omde eu estaua, amtes ho tratei e agua* 
salhey melhor que da primeira. Ficou em guoa por sua vomtade, e morreo 
como caualeiro, que ho era, com toda las suas mocidades; e nam ousei 
de meter mais ha mão em vosso filho, por que nam cuidásseis que fazer- 
des vos as cousas d afonso lopez da costa, como lhe a elle compria, tinha 
eu disso escândalo; nem deixaua, por este feito, de ser tam verdadeira- 
mente vosso parente e amiguo, como sempre fui; porque, pêra as pessoas 
de tanta homrra e tanta fidalguia e limpeza, como em vos ha, taes casos 
trazem loguo comsiguo ha pena; porque, se vos vos descontentardes, 
vossa mai e meu pay filhos de jrmãos eram. Assi, senhor, que vos pego 
por merçe que, pois que amtre vos e mjm nam ha caso nem cousa que 
tenha nome d escândalo, que nos nam vamos damnando nos coragoens e 
vontades, pouque pouco, em tal maneira que fiquem chaguas nelles; 
porque, quanto em mjm for, me hei de trabalhar por conseruar uossa 
aoúzade e vosso parentesco» de que me eu muito prezo; e, quando se 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 255 

oferecessem cousas de Tossa homrra, ea volo mostraria por obras, quanto 
minhas forças podessem abranjer. Alguas lamentações sobre este caso 
disse a duarte da veigua, vosso criado. Creo, senhor, que elle ?o las teraa 
ditas. La escreuo a pêro correa, que lhe peço por merçe que solde estes 
descontentamentos damtre mjm e vos, porque nam va este feito mais 
avante, pois hi nam ha rrezão pêra jsso. 

Laa mando a sua alteza as perguntas que fiz a amtonio rreal, pello 
juramento dos santos euangelhos, sobre os capitolos da carta que es- 
creueo elrrei, de que uos la tenho mandado ho trelado; e mando tam- 
bém a sua Â. ho testimunho das três testemunhas que Ih as viram e tres- 
ladaram. Quisera meter este feito qua na jndia em ordem de juizo, pêra 
ser castiguado por justiça, quanto por direito sachara; porque fora grande 
seruiço d el rrei, e bua grande meezinha pêra ho escreuer da jndia/ 



1 Bibliodieea Nacional de Lisboa, cod. n.* 297 da collee^o de Alcobaça (n.* 476 no 
catalogo impresso dos códices alcobacenses), fl. 179. Copia; lettra dos flns do secolo zvi. 



256 CARTAS DE AFFONSO DE ALBITQDERQDE 



Documentos contendo referencias ou allusões 

a Affonso de Albuquerque 



1604— Dezembro 24 



Senhor — Mamdoanos ora vossa Senhoija qne may miadamemte 
lhe scpreuesemos toda las jlhas e lagares qae, neste maar da jmdia, e 
pela costa daquy tee melaqua, jazem; e asy as mercadorias que ha em 
cada haum, e, das nosas, quaees sam pêra la mjlhores, e os preços d hunas 
e doutras, etc. E, porque, pêra estas cousas, ha mester mais sesegup e 
seguramça da que, tee ora, nos ca teuemos, nam aja vossa Senhorja por 
estranho nam ser, polo presente, disso emformado, como deseja; porque, 
desda partida dos alboquerques tee chegada de lopo soarez, a xiiij^* de 
setembro de Õ04, nam ouue ca pêra nenhuua outra cousa majs vagar, 
que pêra rresistir a el rrej de calecut, que loguo veyo sobre coochy, como 
abaixo direj, — em breue, pola partida das naaos me nam dar vagar pêra 
majs. E, comtudo, Senhor, postoque, pelas naaos de framçisquo d alho- 
querque, scprevese a vossa Senhorja, de tudo o que destas partes me 
parece que compre a voso serujço, nam deixo de o tocar nesta, ajmda 
que, per lopo soarez, que de qua vay emformado quamto compre, o po- 
derá muy bem ssaber. 

E diguo. Senhor, que, deixamdo as cousas sobreditas, postoque 
delias tenha emformaçam, pêro nam tam certa, como a vosa Senhorja 

1 Qnatorze. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 257 

666 deue scprever, o qae farej tnuy largamemte pela frota que emboora 
TÍer, — per scprito ou palaura, segundo vosa Senborja de mjm te ver or^ 
deoado, — veuho aas desta terra em que estamos, que sam as que majs 
comprem a seu seruiço que nenhuuas outras. 

E diguo que, amtes da chegada do dito lopo soarez^ nos trabalhamos 
de, com alguum djnheiro que da uaao de seluvall ouuemos, e asy arroz e 
mercadorias que tiuhamos, de poer em emgomço a carregua das naaos com 
os mercadores daquy de coochy, presemte elrrej, que sempre uysso me- 
temos por medianeiro, que majs nam pode fazer; e, depois de termos 
comçertado por três mjU babares de pimenta, amte da vymda das naaos, 
demos de sinall, com muy booa seguramça, a cherianjnja merquar e a ma- 
male mercar, seis mjU cruzados, — dous mjU em djnheiro e os quatro mill 
em arroz, cobre e outras mercadorias; e no preço das nossas, ouue mujlo 
debate e descomçerto demtro neste castelo, presemie el rrey e seus scpri- 
vaães; e tamto, que esteveram os mercadores de todo lançados fora da 
carregua, e quiseram tornar o que tinham rreçebido. Eu, Senhor, nam 
era a jsto presemte; e, depojs que o ssoube, quem tudo tornou outra vez 
a coroçertar, presemte el rrej e prímçepe, e por que meyos, vosa Senborja 
o poderaa ssaber pelos mercadores da dita naao de setuval, que a tudo 
foram presemtes, e outras mujtas testemunhas que diso ca ficam; de ma- 
neira que tujlo tornou a mjlhor do que espcrauamos. Âsy, que teuemos 
lall ordem, que, des o dia que o dito lopo soarez chegou, nunqua deixou 
de carregar, tam descamsadamemte como se fora davamte o cães, tee ser 
carregado da milhor pimenta, e mais limpa e mjlhor pesada, que ajmda 
de qua foy ; e tamto a boca que queres, que pediam xx'^ babares pêra 
abarrotar huua naao, e tomavam de bordo ij e iij' balees carregados. 
Nam scprevo a vosa Senhoria a ssoma que leuam as naaos, porque, pelas 
rrecadaçoOes, o poderá ssaber, as quaaes eu nom ordeney; e, portamto, 
creyo que jram mjlhor que as fectas per mjm; e, porque eu dise ao feitor 
que mavia de salvar disso, o faço. Em coullam e caecoullam, carregaram, 
de pimenta e canella, o rreygramde, a leitoanova, bate cabelo, a judia; 
e ajmda aquy, a este vosso porto de coochy, se vieram acabar d abarrotar 
de pimenta, porque lhe tiraram canela pêra o Çirne; e neste se carrega- 
ram toda Ias outras, em que vay, creyo, mais camtidade de pimemta do 
que vosa Senhoria fazia fumdamento; e, ajmda que anuçiada viera^ po- 

> Vinte. 
'Dois e três. 

TOMO ni. 33 • 



258 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dera partir, tam bem carregada como cada hu8a destas, per todo janeiro; 
e leaara majta pimenta nova, — nam per mimguoa de velha, mas porque 
os mouros a compram e tem çarrada pêra seus çambuquos, tamto que 
as naaos partem. Se vosa Senhorja mamda aquy amdar d armada as fustas 
e bragamtijns que lhe tenho scpríto, que tolham que nenhuuns çambuquos 
navegem, com este par de caravelas que qua estam, e, jsso mesmo, se 
nesta forteleza tem deposito xx ou xxx^ cruzados, aja por certo que ux 
quintaes de pimenta cadano se podem rrecolher, d aquy tee coullam, — 
H aquy, e dhy pêra cima, e os mais Ha; e, com este djnheiro, teremos a 
mercadoria no credito que merece, e sempre, com 7' cruzados em dj- 
nheiro, se gastaram, ao menos, amte da vymda das naaos, outros tamtos 
de mercadoria, que em nenhuua manejra, por pimenta, sem esta mestura, 
se pode gastar nem vemder a dinheiro, saluo alguum azougue. Ora veja 
vossa Senhorja quamto proueilo se disto segue, e quamto majs certa es- 
tará sempre a carregaçam e segurança da partida das naaos, a tempo que 
nam pasem o rrísquo que passou o almjrante; e. aalem de tudo, pois 
vosa Senhorja quer destrói lios mouros da jmdia, o que, per esta maneira, 
pode fazer mjlhor que per nenhuila outra; e, em breue tempo, este rrio 
de coochy he pêra ellas o mjlhor do mumdo, nem majs seguro, e podem 
hir per ele acima b e bj ' leguoas, e meter tamto espamto aos senhores 
que jazem per ele acima, omde a pimenta da sserra vem teer, que ajam 
em booa vemtura nam comsemtjr que nenhuum mouro a compre, senam 
nos, que, sem jsto, nam pode ser em nenhufla maneira; e, per esta via, 
podemos amdar seguros com quallquer djnheiro per ssuas terras, e pou- 
pamdo pêra uosa Senhorja o ^ue os mouros gaanham ; e nam estaremos 
cada vez aa sua desposiçam de nos fazerem mall ou bem, no despacho 
das naaos, no qual, se algufla cousa fazem, he majs com vergonha que 
com vomtade. E, se ajmda estas Sustas fosem de tal tamanho, que abas- 
tasem pêra acarretar arroz, de cholamamdell pêra esta feitorja, era a mj- 
lhor e a majs certa mercadoria que todas, e casy tamto como djnheiro 
contado. Neste porto de coochy, Senhor, deve vosa Senhorja fazer todo 
seu fumdamento, porque, elle ssoo, abasta mais pêra huua carregaçam 
que todo outro rrestamte; e, despois, em coullam, que sempre ajudaraa 
com caecoulam muy bem, e asy pollos christãaos, que naquela terra ha 



r-«»' 



^ * Vinte ou trinta mil. 

iDeimil. 
' Cinco e seis. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 259 

majsi virem a perfeito conhecimento de nosa ssamta fee; e abastara hy 
huãa peqnena casa, omde nonqua deve estar mays mercadoria qae qoanta 
poder vemder; e, aquela gastada, hirlhe outra deste castelo, no quall 
compre prouer tudo o que vosa Senhorja mylhor ssabe, se o ja, per as naaos 
por que emboora esperamos, o nam fez. Quamto a jsto, nom ha majs que 
dizer. 

£, porque, das cousas da guerra delrrej de calecut coeste de coo- 
chy, per vemtura se la falara per muytas maneiras, dou conta delas a 
vossa Senhorja, pêra as saber nem mais nem menos, senam como foram, 
e, jso mesmo, pêra ver se conhecia eu bem como se esta terra podia per- 
der e ganhar, segumdo meus rrequerimentos, e matar sobre esta pequena 
armada que qua deixou framçisquo d alboquerque, a quall, Senhor, sem 
nenhuua duujda, se nam ficara, este (sic) frota, que deus toda leue a sal- 
uamento, fora muy duujdosa cousa carregar; e, ajmda sem duujda, por- 
que, se, desta vez, elrrej de calecut se metera de pose de coochy, aja 
vosa Senhorja por certo que toda ajuda fora em seu fauòr, e maravilha 
fora poder se lamçar fora, saluo com gramdisimo trabalho, despeza e 
rrisquo; mas noso Senhor deus, olhamdo a vosas vertudes e aa maa tem- 
Cam do perro jmfiell e tredor, nam qujs que tall fose, mas, amtes, ouue 
por bem que viese acomete lo^ pêra lhe dar a pagua de quamtos erros e 
maldades tem cometidas comtra vosso serujço. E maneira de que tudo 
pasou, he a que se segue. 

It. — Tamto que os alboquerques partiram, foy tamanha a fama que 
lamçou, de sua vjmda, sobre nos, e o estromdo que trazia com os mouros 
per calecut, que lhe pareçeo que, quamdo chegase, nos achase ja em- 
barcados nos navios, com toda a mercadoria, porque, pêra jsso, cujdou elle 
que ficava, e nam pêra o que despois vio; e a xxbij^ de março, chegou 
a rrepely (que nos esta carregaçam muy rrijo ajudou, com mujta pimemta 
que dhy veyo) e trazia comsiguo mujta jemte, e Ixx ou Ixxx' paraaos 
com ij' bombardas cada huum, e obra de cxx^ barcos de rremo, a que 
chamam catures, com archeiros e alguuas bombardinhas de gamcho. 

E» tamto que soubemos que era aly com aquele aparelho, partio 
pêro rrafaell na carauelinha pequena,.e hia também nella duarte pachequo, 

^ Vinte e sete. 

' Setenta ou oitei^ta. 

'Doas. 

^ Ceoto e vinte. 



260 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

— per hordenança d el rrej, qne estava cheyo de medo, ajroda do tempo pa- 
sado, — e se foy lamçar acima do paso omde morreram os primçepes huua 
booa meia legoa, dizemdo el rrej que nam se rreçeava senam d ally e qae, 
CO ela e coa jemte que estarja em terra, oam pasarja nenhuQa delrrey 
de Calecut. 

E, estamdo asy la a carauela, como diguo, muy armada e com R 
ou.Rb^ homens, domjmguo de rramos, derradeiro do dito mes de margo, 
a oras de jamtar, sairam a ella todo lios Ixxx* paraaos e catures, o cer- 
caram na toda derrador, e pelejaram aas bombardadas tee noyte. A ca- 
rauela nunqua pareçeo, como começou de tirar, que asy se cobrio de fumo. 
Emíim, que, despois de mortos e feridos mujlos dos de calecut, per tarde 
se foram, asy aparelhados como eles mereciam. Da jemte da carauela, 
nenhuum homem morlo nem ferido, damdo a alguuns as pedras na metade 
dos peitos, e nam lhe faziam nenhuum dano; e a huum bizcainho, cala- 
fate, deu huua em huum hombro, e, daly, na maçã da face, nam lhe fez 
majs nojo que huum sinal negro e huum pouquo jmchado, em cada parte. 
E, amtes disto, e neste meio tempo, os mouros daquy rrayvauam por 
fogir e despouorarem coochy, nam por ali, senam por meterem desmayo 
aa jemte da terra; e peitavam a elrrej por isso e nunqua o deixauam, de 
dia nem de noyte, senam mata lo; e, como todo los molebares ssam majs 
cobiçosos que nenhuua outra jemte, no lo rrogaua cada dia, e nunqna nos 
a jsso pode armar; e a maneira que se teue pêra nam ffogirem, foy 
goardase cada nojte o rrio e costa com huum paraao meu, em que eu 
amdava, e com ij e iij ^ catures, que me nam podia nenhuum escapar ; 
mas, amtes, lhe tinha ahrmado e presente a elrrey que, quallquer toma- 
se, avia de lamçar ao maar; e elrrey, per outra parte, ffolgaua quamdo 
lhe mostrava as rrezoões que pêra jsso avia : que bem nos abastava, a nos, 
pelejarmos, e despemdermos vossa ffazemda, por lhe gardar as ssuas e 
asy suas pesoas, molheres e filhos, e eles nam quererem senam cuydar 
que, com sua fogida, fauoreçiam o partido do perro; e, quamdo nam po- 
diam alcamçar sua saida, pediam liçemça pêra mamdarem as molh^es 
e fasendas, e suas pesoas ficarjam. Numca huua cousa nem outra pode- 
ram alcamçsur; e esta me parece que foy das majs primçipaaes e fauora* 
vees a coochy, porque^ se se foram, nam ouvera nenhuum mamtimento 

^ Quarenta ou quarenta e cinco. 

2 Oitenta. 

3 Dois e três. 



DOCUMENTOS ELUGIDATIVOS 261 

na terra; e, Dam o aveindo, nam vieram em faoor deste rrey, per nossos 
meyos e dadivas, x ou xij^ rrex e senhores, com majs de ib* homens de 
peleja (despojs, porem, que, com ajuda de deus, viram nosso partido fa* 
Qoreçido) per iij' ou quatro vezes; e, comtudo, aproveitou ibujto a jemte 
que veyo, que asaz trabalho ouuera na costa sem ella, porque foy co* 
metido coochy per outra parte, e nam per omde estauam as caraueias, 
com mujta jemte, como abaixo direy. 

Nestes dias, estaua a carauela gramde em estaleiro. Loguo se ibe 
deu gram presa; e, como foy no maar, partio pêra cima, peraopaso; 
e, estamdo ambas jumtas, terça feira das oytavas de páscoa sairam todo 
los paraaos e catures, e mujtos outros barquos pequenos, a que chamam 
tones, ajmda que deles ha que carregam iiij''^ quintaes de pimemta; e 
vieram obra dametade deles ca, contra coochy, a esbombardeala praça 
e casas d el rrej ; e, porque o navio de doarte pachequo estaua defromte 
da praça e lhe tirava, pareçeolhe que era a peleja com elle. Pez se aa 
vella na caravela pequena, e vinha o socorrer; e dise a diogo piriz que tam- 
bém se fezese aa uela e se viese deitar aa boca do esteiro, omde el rrey 
mamdou fazer huua muy gramde estacada, que he homde morreram os 
primçepes, por tall que os paraaos nam emtrasem demtro e fezesem por 
aly alguum dano. Fez se aa uela o dito diogo piriz; e os paraaos, euy- 
damdo que era com alguum rreçeo, meteram se após elle, e tornou a sor*» 
gir. De como foram albardados da carauela, nom he para falar; que mor- 
reram mujtos e foram feridos mujtos mais, e nenhuum dos nossos morto 
nem ferido; e foram bj ou bij^ paraaos arrombados com a bombarda 
grossa. 

Senhor: neste tempo avia muy pouqua jemte em coochy, e estava 
eirrey muy rreçeoso de se perder; e qujs deus que, sábado, xiij^ dias 
dabrill, chegou o primçepe, de xxb ou xxx' legoas daquj, d huua terra 
ssua^ omde estava, e trouxe comsiguo obra de Jb^^ homens, e ij* ou três 

^ Des ou doze. 

' QaÍDze mil. 

' Três. 

^ Quatrocentos. 

^ Seis eu sete. 

•Trefe. 

^ Vinte e cinco ou trinta. 

* Mil e quinhentos. 

•Dois. 



262 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

caymaaes com rrezoada jemle. E, loguo ao outro dia» domjmguo de pas- 
coela, detremjnoQ elrrej de calecat emtrar coochy per dous lugares, 
quamdo vyo que, per oníde estavam as caravelas, o nam podia fazer; as 
quaaes eram ja em baixo, ua boca do esteiro do passo omde morreram 
os primcepes; e a maneira em que foy he a seguymte: 

Foy jumto nambeadaij, seu jrmaão, e o nambeadarj, senhor de rre* 
pely, e iij ou iiij'^ outros, com iiij^ ou b* homens, que eram ja pasados, 
avia dias, como se as carauelas vieram de cima, d esta banda de coochy, 
em huum lugar que se chama Cumballam, omde se asemtou el rrey de 
Calecut, que he três leguoas daquy; e emtraram per jumto com o maar, 
per camjnho muy desuyado de parecer que tall se ffaria; e o primçepe, 
comquamto tinha ja diso atoardas, aguoardava pola peleja no paso omde 
morreram seus tios e jrmaão, e mamdou Ha abaixo, aaquele lugar a que 
chamam o palinhar, huum caimal seu, com obra de iij*' homens; e os 
de Calecut emtraram pela terra de coochy, e queimaram mujtas casas, 
desujadas da pouoraçam liuua leguoa, tee que o caymall chegou a elles 
e os amdou engodamdo per huua veigua acima, tee os trazer após sy, 
demtro ao palmar; e eram aly, com o dito caymall, huum homem meu, 
e outro do ffeitor, e outro daquy, do castelo, que mamdamos em huum 
catur pella costa, saber nova, se avia hy paraa ou nom, avisando lhes que 
loguo tornasem com rrecado; e nom quiseram estes três senam sair; e 
ajumtaramse com a jemte do caymal, e, despois, desmandaram se huum 
pouquo, e mataram lloguo, aas cuyteladas, o framenguo do feitor, e ja elle 
tinha ij ou iij ^ derribados, com huua espimgarda que leuava ; e, ao meu 
homem, escalaram huua maão e o colo do braço, com buãa lamca. Foy 
socorrido, e escapou ; e o outro fogio. E, tamto que asy foram demtro no 
palmar, amdamdo aas seetadas e cutiladas, chegou o primçepe case de 
traves, e meteose coa jemte de calecut tam rrijo, que os fez ffogir; e, 
no alcamço, derribaram ijH ou iij** d elles, os majs pnmçipaaes panjcaaes 
da goarda d elrrej de calecut, e naires que elle tinha; e outros deixauam 
as espadas e adarguas, e embranhavamse; e, dos de coochy, morreram 
b ou bj*. E, ao outro dia, amdavam os poleares, que sam os lauradores 

1 Três ou quatro. 
^ Quatro ou cíneo mil. 
' Treientos. 

* Dois ou tros. 

i Duientos a dncoenta ou trezentos. 

* Cineo ou seis. 



DOCUMENTOS ELUCDATIVOS 263 

do arroz» em busqoa deles com paaos; e, como achauam o naire, asem- 
tauamlhe tortoeirada, qae dauam com ele dauesso; e asy morreriam, se- 
gomdo ouuj, per aquela manejrai aas maãos dos poleares^ (que he a majs 
çivell jemte que qua ha, que nunqua chega a pouorado), obra de xi ou 
xxb*- 

Os paraaos nam curaram, aquele dia, das carauelas, e vyeram abaixo, 
jumto CO a praça de coochy, com mujta jemte, fazemdo famdamento que, 
como emtrasem polo palinhar, que fariam eles por ca outro tamto; e ja, 
acima da praça, tinham saltado em terra, e quejmado nom sey quamtas 
cassas e mortos ij ou iij ' homens. El rrey estava em huum tahernacolto, 
a que chamam çeramby, no cabo da dita praça, em casa d huum merca- 
dor, per nome jçimale merquar; e os paraaos, com as proas em terra, 
acima dele huum tiro de beesta, esbombardeandoo ja; e todo lios mouros, 
mercadores e outros, eram embarcados, com suas molheres e filhos, pêra 
fogirem. E, nisto, chegou de coochy pêro fernamdez, condestabre deste 
castelo, e deu a nova, e que vinham a pelejar com o navio. E, estando 
eu em cama, mal semtido, me dise o feitor que lhe fose ssocorrer. Meti 
me loguo no meu paraao, bem corregido como ele amdava sempre, e, 
quamdo vy que nam vinham aa naao, cheguej omde estauam os mercadores 
embarcados e os fiz saltar em terra, e nam per ssuas vomtades ; e, d aly , 
me fuy ao lomguo da praya, e pasey per omde estava elrrey, que ja querja 
deixa lo çeromby (sic)^ e tomej a terra aos paraaos; e, a vista d elrrey e 
de todo lios mouros e naires, os emçarrej todos demtro em rrepely, aas 
bombardadas; e foram arrombados dous, segundo diseram os da naao, 
que o bem viram; e tornej per omde estaua elrrej; e os mercadores es- 
tavam ja todos com ele, e com tamta gallinha e figuos e cocos, que me 
nam cabiam no paraao ; e nom qujs el rrej que o deixase, tee sol posto, 
que veyo a nova do desbarato do paljnhar. Jsto pode vosa Senhorja saber 
per quamtos estavam na naao, de que la aguora jraa algufla parte. E, 
asy, foram, este dia, aparelhados per ambolos lugares. Este dia (que me 
nam lembraua) foy tomado poios ditos poleares o sombreiro e huum tam- 
bor do jrmaão d elrrej de calecut; e o sombreiro feitos (sic) em pedaços, 
aos couces, que foy a moor desomrra do mumdo, porque aquela he sua 
bandeira. 



^ Vinte ou Tinte a cinco. 
^ Dois ou três. 



264 CARTAS DE! AFFONSO Dfi ALBUQUERQUE 

Item — Sesta feira, xix^ do dito mes dabríll, veyo fama de gram 
paraa, e que el rrey de calecut vinba em pesoa, com quamto poder tinha, 
por aquelle mesmo lugar d omde 6cou a froU de sua jemte ; e, porque 
aly sam gramdes matos, se pos o primçepe em huua cilada, com mais de 
j b*' homens, da bamda do sertaão; e o caymall de baipill em outra, da 
bamda do maar, com outros lamtos ; e os poleares jravaas, que ssam os 
que tiram o vynho da palma, e mjlhores panjcaaes que ha na terra, em 
outra; e outra pouqua de jemte, que estava descuberta, pêra os atiçar a 
emtrarem na veigua omde morreram os outros, e emtam lhe darem per 
todas partes. Estaua tudo concertado de tall manejra, que, se seu pecado 
o trouxera sem seus pees nem alheos, nunqua majs tomara a calecut. 
Nom se sabe se lhe foy descuberta a cilada, ou porque nam veyo; po- 
rem, veyo seu jrmaão e o senhor de rrepely, defromte da estacada, e se 
poseram da bamda daalem, com mays de trimta ssombreiros, por mostra 
de XXX ' rrex e caymaaes; e eles eram bramenas. Mujta jemte trazia; e 
na estacada estava outra tamta, porque aquy eram mujtos senhores, e 
começaram, d huua banda e douira, se meter naguoa, que lhe dava pellos 
giolhos, e tirarem aas frechas. E, amdamdo njsto, chegou duarte pachequo, 
com ij^ batees, e começou de lhe tirar, e matou deles asaz, segumdo di- 
seram. Estauam os de coochy, com fauor dos batees, tam menencoreos, 
que os nóm podiam teer, senom pasarem aalem, a pelejar com elles. E, 
nysto, vieram todo los paraaos aas carauellas, e pelejaram gram pedaço. 
Foram arrombados três da carauela pequena e muyta jemte morta, e ne- 
nhuum nosso morto nem ferido; e, semdo demtro no esteiro o dito duarte 
pachequo, deram huua espimgardada polia barrigua a huum bombardeiro 
seu, e nam lhe fez majs d huua noda vermelha. 

Item — Terça feira, xxij^ do dito mes, veyo huua naao pequena 
dhormuz teer tamto avamte como esta jlha de baipill, omde escapamos 
a prímejra vez ; e vinha pêra calecut carregada d arroz, algodoOes, allca- 
tifas, borcados minhotos e outros majs baixos, tâmaras sequas e em con- 
sema, cebolas, alhos, manteigua e outras cousas. Vynha com medo da 
armada, emmarada mojto; e, tanto que se fez tamto avante como ca- 

^ Dezenove. 
' Mil e qoinhei^tos. 
>TrinU. 
« Dois. 
* '^ Yinte e dois. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 265 

lecut. Veyo demanda Ia terra, e achoase aquy aquele dia pola menh^i em 
calma. Foram lia catures oosos dizer lhe que emlrasse, cuydamdo que 
era das daquy, que aviam de vijr de cambaya; e, quamdo chegarami a 
tinham tomada ja os pescadores da dita jlha de baipill, e despojada, e a 
jemte morta, saluo b S que escaparam pollos nosos chegarem. Ouue a el- 
rrej, com tudo o que estava nela, despois da chegada dos nossos catures; 
e (ihzem que, despojs, pos em cobro tudo o que os pescadores ouueram. 

Item— Qujmta feira, xxiiij®^ do dito mes, nam estamdo nenhuua 
jemte na estacada, emtraram per ella majs de ^' naires de calecut, pela 
menbaã cedo, e derribaram iiij^ ou b^ paaos, e queimaram outras tamtas 
cassas; e, chegamdo duarte pachequo nos batees, estauam mujtos ao 
lomguo da estacada, de demtro e de fora; e, quamdo o viram, chama- 
ram: — cjanga de portagall» E ele, cuydamdo que eram de coochy, se 
chegou tamto a terra, que lhe vieram lamçalas maãos das paas dos rre- 
mos ; e, quamdo huum pescador que hia no batell, conheçeo que eram 
de calecut e lho dise, se largou deles e lhe tirou; e, njsto, veyo huum 
sobrinho do prímçepe, com obra de çem naires, em gramde grita, pola 
terra, e deu neles, himdose ja todos rrecolhemdo polo vaao, com aguoa 
que lhe dava polas çimtas; e aly derribou o primçepe dez ou xij^; e, dos 
batees de duarte pachequo, mataram muitos com as rroquas. Diseram 
que morreriam, das bombardas, çemlo ou cl \ E, despois que se rreco- 
Iheram, himdo pola bamda dareuU com seus sombreiros levantados, e 
tiraram lhe da carauela de djogo piriz coa bombarda grossa, de lonje. 
Viram cayr os ssombreiros. Foy certo que quebraram o amdor do senhor 
de rrepely; e morreo huum bramena, que dava o tambor a elrrej de ca- 
lecut, que também aly era; e majs leuou aquela bombardada nove ca- 
beças, e derribou huua palmeira ou duas. Fforam mais pasmados daquela 
bombardada, que doutra nenhuua cousa. 

Item — Sesta feira, xxb^ do dito mes, vieram todo lios paraaos e ca- 
tures, e quejmaram huua jlha pequena, em que averja obra de xxx' ca- 

1 Cinco. 

* VÍDte e quatro. 
' Dois mil. 

* Quatro ou cinco. 
^ Doze. 

^ Cento e cincoenta 
^ Vinte 6 cinco. 
» Trinla. 

TOAIO ui. 34 



SI66 CARTAS DE AFFOflSO DB ALBUQUERQUE 

sas, que esta jumto com a de baipilli qpe o ai)i)Q pasado também foy 
qpejmada, como scprevy a vossa Seohorja. 

Itero — Domjmgup, xxbij ^ do dito mes, híodo os paraaos pêra cima, 
sal^)u daarte pacbeqao com elles, e tomou ij' deles e ij catures, com ij 
op iij ^ bombardas de booa grosura, e outras pequenas, de gamcho. A 
jemte se lamcou em terra, e foram feridos ij ou iij bomeos qo8o$, de fre- 
chadas, da terra, — que tam perto os foram tomar; e ij saltaram em terra, 
a cortar os cabos, que ja em bu0a palmeira tinham dados. Estes também 
vieram feijdos. 

Item — Desquimta feira, xxiiij^^M abril, que emtraram pela estacada, 
como atras diguo, nunca majs deram nenbuum paraa, tee xbj ' de mayo, 
que foy dia dasemçam, que vieram com iil]""' jangadas de ij paraaos cada 
hutla, e fortes paliçadas de madeira, vaãs, e, no meyo, muyta cordoalha, 
área, algodam; e estas vieram pola bamda dareuU, aa sirgua; e vinham 
os mouros e naires d elas tam descamsados, em nam aver majs detem^a 
que chegar e leuarem as carauelas, como se as teueram na maão. Easy 
vieram tee jumto dbuuns mastos que estauam encadeados na boca do 
esteiro, polo foguo que avia fama que aviam de poer em buum çambuquo; 
e, quamdo encbese a aguoa, lamcalo, pêra se hir embaraçar com as ca- 
rauelas. Ffoy a bombardada grossa tamta, no corpo d ellas, que tomaram 
atras, e poseram as popas em terra, e tiraram aas carauelas. Mataram 
lhe, das ditas carauelas, mujta jemte, que loguo leuavam fora, e emtrava 
outra, de rrefresquo, tee que deram oo ($ic) demo joguo, e se foram mujlo 
em era ma. Afirmaram me despojs que nom ficaram demtro nelas mais de 
ij ou iij homens; e, mortos, foram ij""^; e, dos no^os, uenhuum morto nem 
ferido, — deus seja louuado. E deram huua espimgardada nos peitos a 
huum marjnheiro. Nam lhe fez mais, que amasarlhe o piastram. 

Item — Sábado, xbiij^ do dito mes, chegou a naao de setuvall da- 
vamte este pprto; e, loguo ao domimguo, emtrou mujto aa sua vontade. 



^ Vinte e sete. 
*Dois. 
5 Três. 

^ Vinte e quatro. 
^ Dezeseis. 
' Quatro. 
^ Duzentos. 
' Dezoito. 



DOClTáSNTÔS ELUCIDATIVOS 267 

semdo as aguoas mortas ; e achou, no majs baixo, íj ^ braças e meia. Com 
sua vijmda, s ouuera d emforcar o Çamory, poUo mujto fauor e mauti- 
mento que trouxe aa terra, da naao de cbaull, que tomou. 

Item — Sesta feira, xxb' do dito mes, tornaram, por forma, três jan- 
gadas, e por darem a emtemder que nam desprezauam ssua emvemçam; 
e iimjtos paraaos eom elas. Dbuum detes, tiraua huSa bombarda, como 
espera. Huua das jaogadas foy arrombada, e as carauelas afuracadas 
asaa, e arrombado o batel de duarte pachçquo, per iq^ partes; Jemte da 
soa, morreo bem; e, dos nosos, nenhnum ferido nem morto, saluo bqum 
escrauo de pêro rrafaell, que veyo domde estaua elrrej de calecut, por 
espia; e ó qtie o trazia, o temdeo por houm cruzado. Este, estamdo de- 
baixo d alcaçeua, lhe quebrou huua bombarda as pernas. Morreo o outro 
dia« E eles ouueram por seu barato de se bir. A envemçam das jan- 
gadas ffoy feita per huum mouro, mercador, de rrepely, que sobrigoti, 
cóih elas, tomar as carauelas. Foy despois o rrisquo tamanho, delle^ que 
nam ousana de parecer, de vergonha. 

Este, Senhor, ffoy o derradeiro paraa que se deu; e partio elrrej 
de Calecut, e se foy asemtar em rrepely, e aly esteue* tee que soube 
da vijmda das naaos (que chegaram a xiiij^^ de setembro» coma dito b»), 
dtsfeooreçído de todos. Isto, Senhor, he todo o que qua he pasado» desda 
partida dos alboquerques tee guora, que hpó soare2 foy ssobre côrom- 
gulor, e saltou em terra, e queimou iiij^ ou b^ naaos, que estavam sí^mo 
do lugair, e asy toda aquela pouoraçam que aly estava, e fez qoe^ de oo- 
rotngulor, pagasem a el rrej de coochy os dereytos que àmtigamente tSnha 
naquele porto» qué ba tempo que Ihç nom querem acodir com eUes. Ao 
presemte, Senhor, nom ha majs que dizer, senam que noso Senhor acre^ 
çemte o rreall estado de vossa Senhorya, a sseu seruiço. Scpríta em coo- 
chy, a xxiiij* de dezembro de 504, — Aluaro vaaz. 

(Sobrescripto) — A ElRey, Nosso Senhor. 

(In dorsOg par kttra coeva) — De seu jrmaão desteuam vaaz.^ 



Duas. 

Vinte e cinco. 

Três. 

Qaátorze. 

Qoatro oa cinco. 

Vinte e qiMtlpb. 

Torre db fbmbo;-Oar. 16, Maç. », K.* 36. 



268 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



(1606) 



Dom firancisco, amigo: nos, eirey, vos emviamos muyto saudar. 
Pello rregimento doso qae leuastes, vos mamdamos o que avies de vijr 
fazer na boca do mar rroxo, pêra segurança das cousas de noso seruico, 
e por, aliem d iso, ser cousa de muyto noso gosto se verem ally nosas 

1 Esta data não se encontra expressa no documento, que é minuta (da lettra do 
secretario d^Estado, António Carneiro) de uma carta d*el-rei D. Manuel para D. Fran- 
cisco de Almeida, informando-o das instrucções que levavam Tristão da Cunha e Affonso 
de Albuquerque, e ordenando-lhe a ida a Malaca, Geylão, Ilha do Cravo, etc. É, porómi 
fora de duvida que essa carta pertence ao anno de 1606 (março ou abril), porque do 
seu contexto se deprehende claramente que foi enviada ao více-rei pela armada de Tris- 
tão da Cunha, a qual saiu de Lisboa no citado anno, a 6 de março ou a 5 de abril, que, 
neste ponto, discordam, um do outro, João de Barros e o filho de Affonso de Albuquerque, 

tíarros, na sua Asia^ década segunda, part. 1/, liv. 1.*, cap. 1.*, refere que Tris- 
tão da Cun)ia partiu de Lisboa a 6 de março de 1506 (um domingo de ramos), com qua- 
torze naus, de uma das quaes era capitão Affonso de Albuquerque, também nomeado 
capitao-mór de uma pequena armada, composta de cinco d'essas naus, com a qual devia 
andar na costa da Arábia. Nos Cov^meniariot do grande Áfomo Doihwperqoe, part. 1/, 
cap. 7.*, aiBrma-se que Tristão da Cunha partiu a 5 de abril, pela manhã, e foi logo pela 
barra fora com toda a armada, tirando Affonso de Albuquerque, que ficou em Belém 
com a sua nau, esperando piloto, e só no dia immediato se fez á vóla,— sem piloto, afi- 
nal, — «cofiado na muita experiência q tinha das cousas do mar, & em Diogo fti piteira, 
mestre da sua nao, que fora já duas vezes à Índia : & também em lhe Tristão da Cunha 
dizer que lhe daria o milhor piloto da fi^ota, tirado o piloto mór. • . » 

Seja como fôr, o documento é indubitavelmente de 1506, devendo, portanto, ser 
inciuido n*e8ta altura. 

Constituo elle um caderno de quatro folhas, dentro do qual anda outra, solu, em 
que o documento concluo. Na primeira pagina do caderno, l^se no alto: — «pêra dom 
françiseo sobre» E, n*outra linha: — «.m.» (minuta?) Mais abaixo, o seguinte, que se 
aeha riscado : 

t Item— rregimento dafonso d alboquerque» (Á margem: — €Ja.>) 

citem— as outras cartas que se ham de fazer da jmenta» (Á margem:— tja.») 

citem— rregimento de tristam da cunha e poder sen.» 

citem — o poder d affonso d alboquerque.» 

citem— a conta de tristam da cunha.» 

citem — lenbre a mercadoria que se mais ha de leuar pêra Coço, etc.» (Á mar- 
gem :*-cquinbent08 [?J quintaes de cobre.») 

tltem— rregimento do que ha de faier affonso lopei.» 

citem — rregimentos dos capitães e feytores e os outros ofeçiaes.» 

O documento começa na terceira pagina. A segunda esta em branco. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 269 

naaos e jemtes, e se saber que tyDhamos aly aquela boca ocupada. E, por- 
que nos parceo que» pella ventura, pello muyto que avies de prouer e 
fazer nesas parles da jmdia, vos nom darya o tempo lugar, parecemdo 
nos que tristam da cunba, ymdo agora de caminho com a armada que 
leua, e affonso d alboquerque, que com elle vay, poderya fazer o que 
desejamos, pois fazia por aiy seu caminho, sem perder nada da viajem; 
peUa enformacam que temos da ylha de cocotora, que he junto da boca 
do mar rroxo, e xx^ legoas do cabo de gardafuue, a qual nos dizem que 
he de muy boons portos de todo tempo, e cheya de muytos mantimentos, 
e povorada de muytos christãos da terra e de muy poucos mouros, e que 
he parajem muy primei pall das nãos de Mequa e de toda lias outras dos 
mouros, e estar tam junto de zeylla, barbara, adem, e asy mesmo da 
gramuz e de todo lios outros lugares da costa d aquém e daallem, e, muy 
principallmente, pello grande desejo que teemos de ally ter nosa fortel- 
leza e jemtes, — acordamos que o dito trystam da cunha e o dito afomso 
d alboquerque, que com eHe vay, tomasem a dita jlha e fezesem ally huua 
fortelleza, com ha metade de huua villa de madeira que Ueuam^ e, fa- 
zemdoa, ficase ally noso capitam e jente, pêra a garda e defemsam delia, 
e asy 6case o dito afomso d alboquerque, com nosa armada que lhe or- 
denamos, pêra gardar a boca do mar rroxo, e tomar as naaos dos mou- 
ros, e se aproueytar de todas as presas que nelles podese fazer, e asen- 
tar trauto nos lugares em que lhe parecese proueytoso, asy como zeylla 
e barbora e adem, e pêra também yr a gramuz e cambaya, e saber de 
todas as cousas daquelas partes, em que ha tanto que veer, e de que se 
esperam tantos proueytos, segundo que de todo lhe doemos noso rregí- 
mento* Noteficamos vollo asy, pêra saberdes como ho mamdamos, e o que 
nos moueyo; e ao dito tristam da cunha, mandamos que, loguo etíi aly 
chegamdo^ vos emviase huum nauyo com esta nosa carta e todo aviso 
do que. fazia, e asy mesmo pêra lhe terdes e mandardes ter prestes sua 
carga, e, aliem diso, estardes avisado e vos fazerdes prestes pêra o abaixo 
decrarado« que muyto rreleua e compre a noso seruico. 

Item — Por cyde barbudo vos temos sprito, encomendando uos que, 
se ajmda nom tynhejs emviado nauyos a malaca, segumdo vollo enco- 
mendamos por voso rregimento, os emviasejs, damdouos pêra yso o tempo 
lugar, e podemdosse fazer sem pejo das cousas de noso seruiço desas 

' Vinte. 



270 CARTAS DE APPONSO DE ALBUQUERQUE 

-partes da joidia; porque ae oferecia ea buoin pejo dfauua cwta armaáa 
de eastella, que nos foi notefícado que se fazia prates perai neste ve- 
raao, ater dhjr em busoa da dita mallaca, fazemdo daujdoso ser dentro 
das nosas marcas; e que, por ser tomada primeiro por nos a poâse^ que, 
nestas cousas, daa muito direito, aliem do que nos creemos que nyso te- 
mos, como por ser cousa tam principal d esas partes, e de que lamta rri* 
queza e proueyto se espera, follgaryamos de asy se fazer. E agora, com* 
syrando acerqaa d isto, nos parece que, quanto mais cedo ysto se fezer, 
tanto será mais noso seruiço, e que, ajuda, sabemdosse como toemos la 
nosas jemtes e forteleza e trauto, poderya mais asynba desarmar o petn* 
samento que, sobre esta cousa, teem aliguuns que ho procuram; e pdia 
«nformaçam que temos, que, com o tempo com que as naaos que de ca 
vaao atrauesam pêra a jmdia, se pode d hy, da jndia, fazer ho caminho 
t) viajem pêra malaca, pareceonos que, leixamdo vos em bordem a carga 
das naaos de tryslam da cunha, e asy seguia e certa como comveem por 
noso seruiço, e fora de duujda pêra elle poder partjr, no tempo em que 
ha de partjr com sua carga, e nam aveemdo hy cousa que vollo torvase, 
pêra nam deuerdes leixar as cousas d esas parles da jndia onde estaaes^ 
•' — que vos deuyes parljr em booa ora com as naaos e nauyos que la 
tiemdes, e com os mais que leua tristam da cunha pêra lia 6carem, e vos 
yrdes via de mallaca, leixando soomente hy, na jmdia, as duas galles, 
e duas carauellas com ellas, e os bragantijns que parece que abastaram 
pena todo o que convier as fortellezas da jmdia, e pêra qualquer outra 
eouaa que se posa oferecer (ou mais, sse mais vos parcer que que (sic) 
deuees leiíar, porque, nisso, fares o que vos bem parecer, e mais noso 
seruico for); e trabalhardes por vos mesmo por fazerdes asento em mallaca, 
e asy trauto, e fazerdes huSa fortelleza naquele lugar em que miihor vos 
parecese, ora fose com prazer dos da terra, ora sem elle, sse elles nisso 
nam quisesem vtjr por suas vontades, — o que, primeiro que asy fose, muyto 
e com toda tenperanca e sofrymento se deuya trabalhar, pêra se faaer 
com muyto seu prazer, e apresentando lhe, pêra yso, todas a^ rrezOes que 
pareeeaem necesarios pêra elles perderem toda sospeyta^ e conhecerem 
qoe folgaremos de ter ally nosa casa e jentes pêra com elles trautar, e 
que èa dita fortelleza se faz «mente pêra segurança dos nosos e de nosas 
mercadorias, e tanbem porque a viajem e o caminho nom consente qoe 
nosas naaos vaao aly asy amyude, como folgaryamos, e por que, quamdo 
fosem, achasem suas cargas mais prestes; com todas outras booaa rrezoes 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 274; 

qn0 lhe vos may bem sabees apresemtar; porem» muyto vos encomenda*^ 
mos e mandamos que, por ysto rrelleuar tanto a noso seruico, por este 
ympidimento de castella que by ha, e por a mesma cousa ser tal que rre- 
quere sse fazer, vos desponhaes ha niso nos yrdes serujr, porque» com 
vosa jda, se ha daproueytar este ffeyto, segundo que nos parece; e, sem 
vos, nom sabemos como se bem poderya fazer, principalmente por vpsa 
pesoa, e, depois, por a companhia das naaos e nauyos que podes leuar; 
e trabalhay por asentar na terra, e fazer a dita fortelleza, e poer padrões, 
e todo outro synall, como de posse. E aveemos por bem que leues com- 
vosqno manuell peçanha, porque, posto que de todos eses íidallguos,,nosos 
criados, que la estam, temos muy grande coníiyanca, pella experiência 
da pessoa do dicto manuell pecanha avemos por bem que elle fique por 
capitam na fortelleza que fezerdes no dito mallaca, e com elle, por al*^ 
caide, seu filho; e leue elle comsyguo seus parentes e criados, que com- 
syguo leuou; e, pêra feytor, dieguo da fònseca, que esta hordeqado por 
allcaide e feytor danjadyua; e ficara por capitam em anjadyua, vasco 
gomez d abreu, e, por allcaide, aquela pessoa que vos a vos bem parecer; 
o qual tanbem seruira a feytorya dhy, como o dito diogo daffonseca o 
fazia; e diego daffonseca nos praz que aja, com a allcaidarya de mallaca» 
todo o que lhe tynhamos hordenado com ha feytorya e allcaidarya d an* 
jadyua; e dirlbeès que, pella confiança que d elle temos, aveemos por 
bem esta sua mudada ; e, se, pella ventura, manuell pecanha fose fal- 
lecido o» ympedido, de maneira que nam podese hjr comvosco, pêra asy 
ficar, como dito he, em tall caso avemos por bem que vaa» pêra ficar 
por capitam, lourenco de brylò; e em coullam, se elle hy esleuer na for- 
telleza (se, hao tall tempo, fose fecta), ficara quallquer outra pesoa que 
vos pareça que deua hy ficar, esgardando que seja tall, que nyso nos 
sayba bem serujr; e pêra o dito manuel pecanha e pêra o dito lou- 
renco de brito voa enviamos cartas de crença, pellas quaes aquele soo- 
mente que onuer d hjr, mandares da nosa parte que vaa; e, se ambos 
forem viuos, nom saberá mais que o que ouuer de hjr; nem nosa carta 
maoidareB, saUuo ao que ouuerdes comvosco de Ueuar. E, nom jmdo 
manuell pecanha, e jndo lourenco de brito, entam ficara vasco gomez, em 
coulam. 

Item — Ymdo vos esta viajem, como prazerá a noso senbor que bo 
fares, e fazemdo o dito asento, e ficamdo fecta ha fortelleza, aveemos por 
bem que fique la nosa armada, a saber: huua naao e huum nauyo e huua 



272 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

caraoella, que parece que abastaram pêra guarda da dita fortelleza e 
pêra o maneyo do trato e cousas delia, e pêra o mais que vos visejs 
que ella poderya fazer, de que leixareijs vosso rregimento; e, olhando 
por quem ficarya por capitam da dieta armada, parece nos que, pellas 
calidades que tem joham da nouoa, asy pello conhecimento que tem das 
cousas do trauto, como do mar, e pella booa conta que, em ambas estas 
cousas, de sy tem dado, que elle deue ser; e vos mandamos que a elle 
leiíes na dita armada por capitam, com voso rregimento do que aja de 
fazer, como dito he; e os nauyos que aveemos por bem que lhe fiquem, 
sam, a saber: a naao em que ora vay françisco de tauora, por ser naao 
noua e muy booa pêra tal nauegacam, e hum nauyo outro, e huua ca- 
rauella, quaes vos milhores pêra yso parecerem; e o dito françisco de 
tauora se pasara a nao frolldelamar, que hordenamos que venha com 
carga d espiciarya, segundo que vos temos spryto, e estamdo ella de ma- 
neira que vos pareça que com segurança pode vijr com cargua; e na ou- 
tra, de vasco gomez, pode vijr o mestre e pilloto, parecendo uos que sam 
omes pêra darem rrecado da dita nao, e vasco gomez poderá mandar 
sua carga; e, quamdo nam vos parece que deue a dita nao asy de vijr 
com estes, poeres nella qualquer outra pesoa que vos bem parecer, por- 
que tanbem ordenamos que venha asy com carga d espiciarya ; e, se vos 
parecese que deue ficar mayor armada, leixay mais aqueles nauyos que 
vos bem parecer, porque a vos ho leixamos, que, segundo o que da terra 
vijrdes e vos parecer, asy o façaes, porque somos certo que, pêra o que 
Ia ouuerdes de leixar e trazer comvosco, teres pêra tudo tal rrespeyto, 
como conpre a noso seruiço* 

Item — Pêra o fazimento desta fortelleza, vay, nestas naaos de tris- 
tam da cunha, ha metade de hua fortelleza de madeira, porque ha ou- 
tra metade mandamos que ficase em çocotora; e vaão xxx* tiros, e duas 
bombardas grosas, e quatro pasauollamtes, pêra seruirem na dita fortel- 
leza; e esta metade da dita villa de madeira se asentara em tanto espaço, 
como ella posa ocupar ; e, porque nom he ynteyra, o que ficar por carrar, 
se carrara com booa cava e todo outro rrepairo, como vos bem sabes, 
pêra poder ficar forte e segura. 

Item — Vaão allferees, enxadas, paas, e outras cousas semelhantes, 
pêra o fazimento da dita forteleza. 

1 Trinto. 



I 



r 

f 






DOCDMENTOS ELUCIDATIVOS 273 

Item — Vaão asy mesmo soma de lanças, de que vos podes apro- 
neytar pêra Ia leuar. 

Os homeens pera a garda e defensam da dita fortelleza, leixamos a 
vos pera lhe leixardes aqueles que vos bem parecer, e com que posa 
ficar bem gardada e segura, e asy n armada; e esta será da jente que 
leua tristam da cunha, de criados nosos e outras pesoas, pera la ficarem, 
como tanbem dos que la estam; dos quaees, perayso, escolheres os que 
milhor vos parecerem; e, dos que la estam, cremos que tenhaes ja bem 
conhecido quaeá seram pera nos bem poderem serujr em semelhante fecto. 

Item — Os rregimenlos pera o capitam e feytor, e asy os outros ofe- 
çiaes, sam taes como os que leuastes pera as outras fortelezas; e, com 
esta, vos vaão outros taes, asynados por nos, os quaes lhe dares, pera 
por elles se rregerem. 

Item — Se, quando em booa ora partisejs da ymdia pera mallaca, 
vos parecese que, dos nauyos que podees leuar comvosco^ poderejs es- 
cusar dous ou ate três, pera os emviardes pera afonso d alboquerque, a 
boca do mar rroxo e aquela parajem por homde ha damdar, folgaryamos 
de Ih o emviardes, porque, pello muyto que Ha ha de ter de fazer, com- 
vijra que ande bem acompanhado, e, ao menos, quamdo nom fosem três, 
fosem dous. ^ 

Item — O asento e sytyo da fortelleza, posto que saybamos que ho 
aves de escolher tall como comvem, nom ouuemos por pejo vos dar all- 
guuas lenbrancas, que aveemos por princypaes, a saber : — que seja o sytyo 
forte e sadyo, e de boom porto pera o acolhimento de nosa armada, que 
comvijra senpre la avermos de teer; e que tenha agoa dentro ou Junto com- 
sygo, e de maneira que se lhe nom posa tolher; e que seja em lugar que 
se posa fazer delle bem o trato das mercadaryas. E, nam podendo fa- 
zer a forteleza dentro em malaca, fazeya em qualquer outra parte que 
vos bem parecer, asy da terra fyrme, como d allguua ylha, porque o sa- 
beres escolher tall como cumpra ha noso seruiço. Todas as outras cou- 
sas, vos as saberes muy bem olhar, e por yso as escusamos. Esta vossa 
yda a mallaca, como dito he, ha de ser com as salinas que atras vos di- 
zeemos, a saber: — que nam ouuese cousa outra nesas partes da jmdia, 
omde estaaes, que, com vosa sayda dhy, podese ficar em comdicam dall- 
guum rrysquo ou ventura, e parecemdouos que se pode assy beem fazer, 

^ Este paragrapho está riscado. 

TOMO Hl 35 



274 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

que, de vosa yda d hy, se Dam podesse seguyr yncomvenyente allguum ; 
porque, a dos, abasta vos spreuer quaDto rrelleua a dosso seruico yslo 
de malaca se fazer, e por que rrespeytos ; e, sobre yso, fareès tos o que 
mais DOSO seruiço e bem de doso trauto vos parecer, porque jmteira cod- 
fyaDca temos de vos, que saberes bem escolher o que for mais doso ser- 
uiço. 

Item — Ymdo vos, emquaDto la aDdardes, vos trabalhay de saber 
das cousas daquelas parles, a saber; — das rriquezas e proueytos delia; 
e da graudeza da terra; e de quem he seuhoreada; e de que seuboryo 
sam; e a parte que hy tem os mouros; e que jeemtes outras ha Da terra, 
e com quem tem trauto; e do que vale mais, de mercadaryas das de ca; 
e quaes sam as milhores mercadaryas de la, e os preços delias; e se tem 
alguas guerras, e com quem ; e que jeeute sam de guerra, e como arma- 
das; e se teem hy casas mercadores doutras partes, e de que oacões; e 
se ha hy muytas uaos da terra, e em quamta soma e carnaúbas; e se tem 
abastauca de maDtimcDtos, e de que ssortes; e se sam prouidos de fora; 
se os ha ua mesma Da (sic) terra ; se tem rrey aDtre ssy, ou o modo de 
que vyuem ; se sauí governados em justiça, e que modo tem do prouy* 
mcDto d ella ; e toda outra ODformacam que vos pareça que deues aver das 
cousas da terra, pêra de todo dos spreuerdes, prazemdo a deus. ^ 

^ Dma + posta no fim doeste paragrapho e repetida no principio do que começa 
pelas palavras— «iV!rs to viajem e yda. . . >» parece indicar qae um se deveria segnir im- 
mediatamente ao outro. É» comtudo, certo não se achar inutilisado o que aos dois inter- 
pomos. O que está riscado (podendo, porém, facilmente ler-se), são as seguintes indica- 
ções ou lembranças que antecedem immediatamente o alludido paragrapho— ciVf<la rto- 
jemeyda...9: 

citem — Armada: se lhe parecer necesaria ficar mais, quehaleixe, como e quanta 
lhe bem parecer. 

cAsento em qualquer outro cabo, se nom poder em malaca. 

cÇamatra e outras jlhas: que Vão os nauyos a ellas, e tomem posse das cousas prin* 
eipaes; e asy na jiha do crauo e allguas outras; e que ha casa faca na terra fyrme ou 
yttia, onde lhe parecer que será mais seu seruiço. 

citem— Da torna vaijem (»ic)j Ceylam. 

«Fica sobre malaca e byngalla seu asento aquy. 

«Cayle; aljôfar. 

cNa trauesa das nãos de malaca e byngalla. 

«xij (doze mil) ylhas. 

cTapobrana. 

cHais ou menos pêra leixar na jndia.» 

Todos estes assumptos são desenvolvidos nesta carta, pela maior parte nos dois 
últimos paragraphos. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 275 

Acabado dasentar, e faser todo o que dito he, vos tornares em 
booa ora a jndia, e proveres no que compríjr, e fares todas as outras cou- 
sas que por ooso rregímento leuastes, e as outras que mais vos parece- 
rem por noso seruiço; e, de tudo o que fezesles, nos fares saber por vosa 
carta, largamente sprita. 

Item — Nesta viajem e yda que asy aves de fazer, prazemdo a deus, 
nos pareceo bem vos dar lenbrança da jlha de Camatra, que hy he perto 
de mailaca, segundo nos dizem, que diz que he muy rrica ylha ; e asy da 
jlha do crauo, e doutras ylhas principaes, aquy comarquãs, que somos 
enformado que sam muy rricas e de que se pode tirar muito proueyto. 
Todas eslas, e quaesquer outras semelhamtes, vos encomendamos que, 
d este caminho, trabalhes por ver e apallpar o que nellas se pode fazer, 
e fazerdes loguo o que loguo poder ser feyto ; e de, em todas, poerdes pa- 
drões, e fazerdes qualquer outra cousa que comvenha pêra synall de pose, 
e que se sayba e veja como aly chegastes; e tanbem de verdes se podes 
ssojugar e meter sob nosa obidiencia os rreys e senhores d ellas, e no los 
fazer trebularyos, e asentardes com elles naquele milhor modo que po- 
derdes, por noso seruiço; e, de todas estas ylhas e terras, tomay enfor- 
macam, asy como ho avees de fazer nas cousas de mallaca, como antes 
vos fica apontado; e tudo o que vijrdes e achardes, e nestas cousas feder- 
des, manday meter em scprito, pêra, nas primeiras naaos que, prazendo 
a deus, despachardes pêra estes rreynos, nos scpreuerdes de tudo, porque 
muyto prazer e seruiço nos fares nisso. 

Item — Da torna viajem, prazemdo a deus, segundo a enformacam 
que temos, nos parece que poderes bem fazer o caminho por ceyllam, 
que he cousa tam primcipall da jmdia, como sabeês, e em que ha tanta rri- 
queza, e de que se pode tirar tanto proueyto; e, por asy o poderdes fazer, 
averemos por bem que vos venhaaes a ella, e trabalhes (se, com o que 
trouxerdes, de nauyos e gemte, vos parecer que ho podes fazer) de fazerdes, 
aquy no dito Ceyllam, huua fortelleza, e leixárdes nella allguua gente e 
nauyos, com que posa ficar mais segura; e parecemos (sic) que ho deues 
muyto trabalhar, por as callidades que esta ylha tem: a primeira, por ser 
cousa tam rrica e tam princypall, e aver nella a canella fyna, e toda a 
froll do aljôfar, e todos os alyfamtes da jndia, e outras muitas merca- 
darias e cousas de grande vallor e proueyto; e ficar tam perto de malaca 
e do golfam de bymgalla, d homde say todos ou a mayor parte dos man- 
timentos da jmdia; e estar junto de Cayle; e ficar na trauesa de todas 



276 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

as naaos de mallâca e byngalla, e nam poder pasar nenhuua, sem qoe 
dally seja vista e se sayba delia parte; e estar junto do arcepelegao das 
xlj'^ jlbas, em qae se diz que ha muitas muy rricas e proueytosas, e que 
muyto se deue procurar de se acharem; e ficar a fortelleza que aliy se fe- 
zese, tam perto da jmdia, porque, seguudo o que temos sabido, he cami- 
nho de dous ou três dias ; e ajmda nos parece que voso asento primcipall 
deuya ser ally, por parecer que estaaes aily no meo de todas as cousas, e 
que, estardes aliy, daa mays autorydade a noso seruiço e a Tosa pesoa ; 
e também muyto nos prazerya fazer se aqui este asento da fortelleza, nom 
tam soomente por todos os rrespeytos que ditos sam, mas porque serya 
cousa de muy grande gosto e contemtamento noso estardes vos e nosa 
fortelleza na tapobrana, posto que se agora chame Ceyllam; da qual, por 
todos os autores do mundo, tanto se disse e scpreueo, e em tamto louuor 
se pos, de rriquezas e outros beens; por o quall, muy grande prazer rre« 
ceberyamos de asy ysto aquy fazerdes, e ser nesta ylha de Ceylam voso 
primcipall asento, pois d aquy parece que podees milbor prouer e acodir 
a todas as cousas, do que doutra parte, por estardes no meyo de todas 
as fortellezas e coussas que la teemos ; e, posto que pareeca que estas 
cousas sam muy tas pêra fazer desta viajem, porque o começo delias, e 
asy o fym em que sam postas, foy tudo mais da maão de deus, e por 
elle fecto, por sua jnfynda piedade, mais do que por outra allgui!a rre- 
zam que pêra yso ouuese, como esperamos nelle que pêra tudo nos dará, 
por sua piedade, ajuda, — folgamos de asy em tudo mandar entemder, e 
esperamos que, pêra o fim disso, vos dee sua ajuda; e muyto vos rro- 
gamos que, da vosa parte, trabalhes por ysto fazerdes asy d este caminho^ 
e asy bem como de vos confyamos ; e bem certo somos que vos nam ha 
de parecer trabalhoso o que for noso seruiço ; e esta cousa nos averemos 
por huua das principaes em que la nos podes serujr. 

(In dono, pela mesma kttra) — Carta pêra dom francisco, ja tirada 
a lympo. — Sobre cousas que lhe elrrej mandaua que fezesse, e asy for- 
telesas.' 



^Doiemil. 

' Tom do Tombo— Maç. l."" de Leis sem data, n.* 22. 



DOCUMENTOS ELUt^DATIVOS 277 



1607— Março 4 



Carta de pêro vaaz dorta, a iiij* de marco de b^bij*. 

• 

Item— Deu conta de toda a viagem, e do que aqueeceo em toda 
ella; e diz muito bem daffonso d alboquerque. 

Item — Que os panos de cambaya, que se vendem em mQcambique, 
quamdo as nãos vem da jmdia, que he muito voso sseruiço. 

Item — Que nuno vaaz pereira deii licença a bum zambuco care- 
gado deses panos, que fose vemder a angoje. 

Item — O zambuco caregado de panos, que largou françisco baba- 
dilha, ymdo na companhia d affonso d alboquerque, sem o leuarem ao ca- 
pitam. 

Item — Casa em mocanbique, omde se rrecolherya muito ouro. 

Item — Diz muito bem de huum mouro de mocambique, gramde 
serujdor de vosa alteza, que serue em tudo muy bem; o qual se chama 
o alcayde brabeem ben amyro; e que este deu muitos avisos boons a 
tristam da cunha, de cousas que levava pêra fazer, jndo pella costa. 

Item— Como vay em busca da terra do preste joão; e pede por 
mercê a vos alteza que se lenbre de huum seu filho que ia leuou, o quall 
emvia a dom françisco.' 



1 Quatro. 

* Qoinhantos e sete. 

* Torre do Tombo— Gav. 20, Maç. 4, N.* 16, fl. 13 v. (Smnmarío de eartas e re- 
cados vindos da índia em as naus capitaneadas por António de Saldanha e na de Gid 
Barbado, em ltN)6 e 1507.— Lettra de António Gameiro.) 



278 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1607— Outubro 27* 

Aos xij ^ dias do mes de setembro de mjl b^bij ' annos, estando afomso 
d albuquerque, fidalgo da casa deirrej, noso senhor, e capitam mor da sua 
armada que ora anda no estreto de persea e garmuz, em conselho com 
todos los capitães fidalgos da dila frrota, dizendo ho capitam mor aos ca- 
pitães (sic) se lhe parycya que era bera e serujço do dito senhor ir Joam 
da noua com sua nao e jente, com ho capitam mor, camjnho de garmuz, 
hou camjnho de combaya, pêra bonde lhe pareçese que era majs ser- 
ujço do dicio senhor e o lenpo lhe dese lugar, e, estanco njsto^ Joam da 
noua, capitam de frold^/amar, que no conselho estaua, aprezentou ao 
capitam mor, polo escriuam da dita nao, huum rrequeiymento e portesta- 
çam, ho qual ho teor dele e este que se adyante segue: 

Do rrequerymento e portestaçam que eu, Joam da nouoa, capitam 
desta nao frolcíelamar, faço ao muito honrrado senhor afomso d albu- 
querque, capitam mor desta armada, vos, escriuam desta nao, me dares 
huum e majs estromentos, se me conprirem, pêra elrrej, noso senhor, hou 
pêra o vissorej destas partes da jndya e persea e arabya, honde somos, 
em como seja e (sic) verdade que, uyndo.eu com tristam da cunha, ca- 
pitam mor, de monsambyque pêra jndya, e (sic) leuar a dita nao frolde 
la mar ao dito senhor ujsorey, chegando a jlha de çocotora com ho dito 
tristam da qunha, capitam mor, ho senhor afomso d albuquerque per mui- 
tas uezes lhe rrequerreo que lhe quysese leyxar a dita nao frolde la mar 
em que eu venho, pêra lhe fycar na sua armada que com ele anda; e o 
dicto tristam da qunha numca ho qujs fazer, dezendo que elrrej, noso se- 
nhor. Ih o defendya em seu rregymento, que lhe nam iexase majs nãos das 
que com ele ujnham hordenadas pêra andar no mar rroxo; e que, por- 

^ Acha-se este documento bastante damnificado, a ponto de ser necessário restituir 
algumas palavras. Devemos, porém, observar que as restituições feitas em duas das peças 
nelle insertas, — o requerimento e protestação de João da Novoa e o mandado de Tristão 
da Cunha, — não são conjecturaes, porque no caderno archivado sob o n.' M no maço 
7.* da 1.* parte do Corpo Chronologico, encontramos por egual transeríptos, a fl. 14 v. 
e 16, respectivamente, esses dois documentos. 

^Doze. 

' Quinhentos e sete. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 279 

que elrrej, noso senhor, lho defendya, lha nam quyrya leyxar, porqae el 
rrej, no mesmo qapytolo, dyzya que, com toda a outra armada que leuava, 
qiierya que pasase a jndya, porque ho vysorrey auja toda mester peras 
cousas que ihe mandaua fazer, e, depoys, ao teupo da partyda do senhor 
tristam da qunha pêra jndya, que foe aos xxbij ^ dias do mes de julho 
que orra pasou, ho dito senhor afomso d Albuquerque, capitam mor, lhe 
rreqoerreo e pydyu que, pois lhe nom querrya leyxar a nao pêra lhe fycar, 
que lha emprestase por huum mes, pêra jr com ele a dyu e a costa de 
combaya, honde lhe elrrej, noso senhor, manda ver e fazer traio e paz; 
e, porque jsto era em quamjnho, e nom trouava a jda da naao a jndia, 
ao tenpo que ela ho senhor ujsorrey podya auer mester, que lhe pydya 
por merçe que me leyxase com a nao, pêra jr com ele per alj, poys nam 
perdya de meu qamjnho; e, vendo ho diclo tristam da qunha que a naao 
nom perdya ho tempo, emlam me mandou que eu chegase com ele a dyu 
e a cambaya, e per aquela costa, e que jstu fose alce que me parreçese 
/empo (|ue o podese achar na jndia, e o senhor ujsorrej podese auer mes- 
ter a naao; e, porquanto ho senhor affonso dalbuquerque nom tynha man- 
timentos pêra armada, e lhe foe neçesareo vyr os tomar a esta cosia dar- 
muz, eu chegey com ele pêra lhos ajudar a tomar e serujr elrrej, noso 
senhor, e a ele, e orra ele esta em esle porto de mesquete (sic), honde tem 
mantimentos pêra dous annos; e, daquy, quer jr pêra garmuz, honde me 
quer leuar; e, jndo eu la, nam poso ser na jndya ao tempo que me man- 
dou o dito capitam mor, tristam da qunha, nem posso ser la pêra serujr 
ho senhor visorrej, a que eu são sojeto e obrygudo. Que eu lhe rrequero, 
da parte d elrrej, noso senhor, e do senhor vysorey, que ele me de daquy 
Ijçença pêra me jr pêra jndya, e ser la ao tempo que posa servyr elrrej e 
o ujsorrej, so quju poder ujm e sam; e, nam ho querendo ele, senhor, dar 
dar me (sic) a dita Ijçença, eu portesto que o senhor ujsorrej lho de- 
mande, e, majs, por toda perda e dano e deserujço d elrrej, noso senhor, 
que se se (sic) dysto segyr, ele ser hobrygado. Eu nam canto* majs, que 
ujunel coutynho, que com ele uae, dyse ao dito tristam da qunha que, 
em magadaxo, lhe dysera huum mestre de bua nao que ueera da jndya, 
que, em qananor, eram mortos dous mjl mouros, ho que se nam podya 
fazer sem grande dano da nosa armada que la anda, e sem a jndya estar 



^ Vinte e sete. 

^ Conto, na transcripçao a que acima nos referimos. 



280 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

em grande rreuolla. E, por todas estas cousas, eu lhe faço ho dícto rrequj- 
rymeuto; e, com sua rreposta ou sem ela, uos, escriuam, me dares ho dicto 
estromento, e majs, se me neçesareos forem ; e asy pores aquy o trelado 
do mandado que me leyxou tristam da qunha. E majs portesto por toda a 
perda e dano de mjnha fazenda e de mjnha honrra, que me dysto ueer. 
Fecto per mjm, oje, sábado, xj^ dias de setembro, de mil 6'bij' annos. 

Tristam da qunha, do conselho delrrej, noso senhor, e capitam mor 
d esta sua armada, mando a vos, Joam da nouoa, fidalgo da qasa do dito 
senhor, que ora ujndes por qapitam de froldelamar, que uades com 
afomso dalbuquerque, capitam mor desta armada que orra qa fyqa, ho 
qual uaj a dju e combaya e por esta costa, a fazer alguuas cousas que 
comprem a serujço delrrej, noso senhor; ao qual aguardares, e fares todo 
o que uos ele mandar, como uoso qapitam mor; e asy andares com ele, em- 
qanto uos parecer que uos fyca tempo pêra poderdes jr a jndia, e me to- 
mardes nela; e, como uos parecer tempo pêra uos jrdes', com as merqa- 
daryas e cousas e cousas (sic) que uos ele der pêra quarrega destas nãos. 
E, porque o asy ej por serujço delrrej, noso senhor, uos mando, da parte 
do dicto senhor, que o comprais como dtto e. Fecto por mjm, andre rro- 
driguiz, escriuam da dita armada, aos xxj^ dias de jnlho de mjl b^bij 
annos. Este e o mandado de tristam da qunha. 

» 

Rreposta do senhor affonso d albuquefque, capitam mor d esta ar* 
mada, a este rryqujrymento de Joam da nouoa ao capitam mor, o qual e 
este (sic) que segue : 

Escusado fora fazer me ho senhor Joam da nouoa tal rrequjrymento, se 
ele qujsera, porque sam capitam mor delrrej, noso senhor, se (sic) quja 
hobydyençya ele anda. Bem poso tomar, se comprir a seu serujço, qual- 
quer nao que nesta parajem andar, canto majs entregando m a tristam da 
qunha, com nouenta bornes, pêra rrefazymento dos qutroçentos (sic) que 
elrrej mandaua que me leyxase; porem, por que elrrej, noso senhor, e o 
ujso rey que em seu lugar nestas partes esta, so quja hobydyençea eu 
ando, sayba a njçesydade e trabalho em que me tristam da qunha deyxou, 

1 Oníe. 

' Quinhentos e sete. 

3 Faltam aqui as palavras— oo« iris, que se lêem na transcripçao citada. 

^ Vinte e um. 



DOCUMENTOS ELDCTOATIVOS 281 

polo qal a mjm me compria esta nao, — digo que, a partyda do dito tris- 
tam da qanha, eu mandey uer as nãos da mjnba armada per Joam nes- 
tam, escriuam d armada, ajuramentado aos santos auanjelbos, se tynbam 
pam, hott ujnho, ou azete, ou farynha, e asy dese juramento aos despem- 
seros, se sonegauam B\gua destas cousas. Achou que nenhua cousa pêra 
comer avya nas naaos, nem menos em froldelamar; e a forteleza de seco- 
tora, que a meu qarrego fyqa, com tanta njsyçydade como armada. Qando 
me uj asy desbaratado, e a frota sem mantimento, e cento e ujnte ornes 
doentes, sem ter que Ibe dar a comer, e, com nos, cento bomes dos que me 
elrrej mandaua deyxar, compre me mudar conselho, por se nam perder 
armada e forteleza, e deyxar bo qamjnbo de qambaya, e no estreto de 
garmuz jr buqar (sic) mantimentos, e perdermo nos antes como qaualeiros, 
que andarmos morrmdo de fame, poucos e poucos, ate que desemos com 
as nãos atraues. Chamei bos qapitães a conselho: pareceolhe bem este 
qamjnbo. Mandey entam partyr buum pouquo de pam que ajnda tynba 
por todos, e qujs por me em tanta neçecydade como bo majs pequeno. 
De nos deus tanto bom vento e ujajem, que, desqubryndo terras nouas e 
tomando lugares aos mouros, matando lhe muita jente e qneimandolhe 
muitas nãos e fazendas, hou trazendo (?) mantimentos pêra as nãos e pêra 
a forteleza de çecotora e pêra hnnde a nosso senhor aprouver des^m6ar- 
car (?). Ho senhor Joam da nouoa quys tentar alguoas cousas e de- 
tremjnar sua jda a sua vontade, uendome jr sobre garmuz, — bua cousa 
a (sic) tam grande, que prazerá a noso senhor que, nam boulbando a 
nosos peqados, a traeremos a trabutu e a bobydyencya d elrrej, noso se- 
nhor; e, asy, nam quer tomar quantos mantimentos froldelamar bem po- 
derá leuar. E, qando asy uj, entam, em pesoa, andey com a sua jente e 
mjnba aqarretar mantymentos, darroz^ e tâmaras, e azete, e jaras de pes- 
cado, e outras meudezas ; e esiu fyz em peçoa, polo nam mandar constran- 
gydamente a Joam da noua, mas trata lo com muita cortyzya e amor, 
como ele dyra, pasado jstu. Quys se ele majs estender em falas e por em 
bobra sua partyda, e proujqaremno asy os da nao; e« porque, nas cou- 
sas que tanto toqa a serujço d elrrej, nom compre desemular, mas ata 
las muito bem, (íandolhe muitos noos, — mandey chamar os capitães, e 
pus me em conseMo, se (íaíremenarya a nao e jente ir comigo (?) armuz. 
Todos dyseram que levasse vinte (?X se as podese auer. * Entam , tomey a 

^ c . .os capitães lhe disseram q pois sua determinação (de Albuquerque) era jr a 
TOMO m 36 



282 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

naao, e entregey a Joam da oouoa, sobre sua menajem, que me segyse e 
fezese meu qamJDho, a qual ele em mjnhas mãos deu, e asynada do seu 
synal; e asy mandey aos hofyçyaes da nao,— meslre, e pyloto, escriuam. 
E, posto que o senhor Joam da noua nesta pratega e conselho me dysese 
alguas descortyzyas, eu lhas sofry, porque ele tem tam bem serujdo elrrej 
em mjnha companhya, que tudu se deue sofrer. Nam seja duujda na an- 
treljnha, bonde dyz «entregey* , porque se fez por uerdade. Eu, Joam nes- 
tam, caualetVo da casa do dicto senhor, escriuam d armada, que escreuj, 
por mandado do qapítammor, este estromento, com sua reeposta, fectoaos 
xxbij^ dias do mes d outubro de mjl b^^bij* annos. — Jam neslam. 

Mandou o qapitammor que se leuase este estromento a elrrej, noso 
senhor, pois que Joam da nouoa honam (qm?) tyrar. 

(In dorso) — Para ElRrey, nosso Senhor.' 



1608— Abril 10* 



O quall rrequerjmento eu, pêro doliueira, espriuaom da dita nao 
frolldelamar, proujquej ao dito senhor affonso d albuquerque, aos xj' 
dias de setembro da sobredita era, e lhe pedi a rreposta; e elle me díse 
que me darja depois. E, por nos amdarmos a vella e, sobre jso, chegarmos 
armqz e ele nom ter vagar. Ih a nom tornej a pedir, senam aos xbij ^ dias 
d outubro da sobredita era; e elle me dise que eu nom avia de dar es- 
tormento, senom bo seu espriuaom ; e eu lhe rrespondi que eu Ih o pro- 
vicara, e que a mjm era pedido, e que eu ho auja de dar; e ele me disse 
que me fose emboora, que eu nom ho auja de dar. Eu, com esta rre- 
posta» pasej o dito estormento de meu ofício, a rrequerjmento do dito 



Ormuz, & destruir todos os lugares que não quisessem vir á obediência delRey de Por* 
togai, que nao dizião elles Flor de la már, roas vinte nãos que ali tiuera todas auia de 
leuar consigo. . •> (fiommentarioi do grande Afonso Dalboqverqve, part. 1/, cap. 27.*). 

^Yinte e sete. 

^ Quinhentos e sete. 

» Torre do tombo— C. Chron., P. 1.*, Maç. 6, D. 63. 

^ Como este documento se relaciona directamente com o anterior, publicamo-lo 
aqui, alterando, embora, a ordem chronologica. 

» Onze. 

'Dezesate. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 283 

capilãom. E, porque asy he verdade, lhe dej este, per mjm fecto e asy- 
nado, aos x dias dabrjl de 1508. 

(ksle vinha asyaado per o espriaam da frolideiamar, pêro doti- 
aeira.) ^ 

(1607— Novembro 13*) 



Outro rrequerj mento dos capitães affonso d albuquerque, e, segundo 
pareço, este foy o primeiro.^ 

Do rrequerjmenlo he prolestacaom que nos, affonso lopez da costa, 
e frrancisco de tauora, e manoel telez barreia, amlouío do campo, capitães 
delrrej, noso senhor, íazeaios ao uiujlo onrrado senhor affonso dalbu- 
querque, noso capitam mor, vos, joaom estaom, espriuãom desta armada, 
nos dares a cada huum seu eslromenlo, e majs, se nos ueçesareos forem, 
pêra elrrej, noso senhor, ou pêra o senhor visorrej, em como he verdade 
que nos íomos mandados per elrrej, noso senhor, com ele, a estas partes, 
principalmente a jlha de cocotora, a íazer bua iorteleza; e, depois, ba 
guardar o estrejto do mar rroxo, qua noso senhor aprouue que a ior- 
teleza que aviamos de fazer, achamos feita aos mouros, e lha tomamos; 
e, por a terra ser tall, e nom aver nemhuus mantjmentos, senom os que 
vaom de fora, e nas nãos os nam aver, a dita forteleza nãom ficaraom 
mantjmentos, senom pêra dous meses e mejo atee três, que ha que dela 
partimos; e, agora, o dito capitam mor tem lomada esla cydade d aramuz 
e posto sob ho senhorjo e irebulo delrrej, noso senhor, e em Ioda paz 
e aseseguo, e fejto nela hua leilorja, e sem ser outra nemhua cousa ne- 
çesarea; e elle, senhor capitam mor, se foy a fazer forteleza, sendo mujto 
pouco serviço delrrej, noso senhor, lazela, mas, amtes, he mujto seu des- 

» Torre do Tombo— G. Chron., P. l.\ Maç. 7, D. 56, tt. 16. (Em seguida ao re- 
querimemo e protestação de João da Novoa e ao mandado de Tristão da Ganhia). 

'Apesar de impresso nos Commentarios (part. i.*, cap. 57.*"), publicamos este 
documento, porque a sua redacção na copia de que nos servimos, inserta no caderno de 
traslados de cartas e outros documenios de 1507 e 1508, tantas vezes já citado (C. Chron., 
P. 1.*, Maç. 7, D. 56), diverge, embora não essencialmente, daquetemnaobracoUigida 
pelo filho de Albuquerque. A data vem nos Comnientarios. 

^ £ este, effectivamente, o primeiro, e por isso lhe damos precedência. O segundo 
não pode, todavia, pertencer ao anno 1508, como no traslado se lô. Deve ser de 8 de de- 
zembro de 1607. 



284 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

serujco e perda de sua fazemda, e rrisco da jemte e artelharja qae nela 
ficar, por muitas rrezões e rrespejtos, e que ele nom quer oulbar, nem 
menos a huum capitulo que traz em seu rregimento, que diz que, quando 
allgua forteleza, em allguum lugar, podese fazer, tenha mujlo gramde 
rresguardo njsso, he faca em tal lugar, que a jemte que nela ficar, possa 
ficar com toda segurança, que se nom posa nella fazer cousa de seu 
desserujco; e que, se perventura se tomase (cousa que deus defenda), 
que ligeiramente se posa cobrar, e de todo qualquer rrisco que se po- 
desse acomleçer; nam se auenturamdo a fazela, saluo em lugar e parte 
em que seguramente se posa manter e defemder, pella jemte que nela 
ficar; porque bem deue de ver quamto rreleua a seu serujco e a sua 
onrra; as quaes rrezões he rrespeitos, afora jsto, nos daremos a elrrej, 
noso senhor, ou ao senhor visorrej, quando nos por eles for mandado. 
E, majs, nam lhe lembra que na dila forteleza de cocotora, alem de lhe 
ficarem mujlo poucos manljmentos, e a jemte que nella deixou, ficaua, a 
majs d ella, mujto doemte, ou casy toda, pela ma despusyçaom da terra 
he mantimentos delia. E, majs, que na dita jlha, ficauaom ajnda mujtos 
mouros, e andauãom prouocamdo os da terra contra nos, e os da terra 
estauaom mujto escandalizados de nos, pelas mujtas vacas e gados que 
lhe tomamos comtra suas vomtades. porque nom tem outro nenhuum man- 
timento, senom lejte e manteiga, por que se mantenhãom, — o que lhe os 
mouros nam faziãom ; por omde, tem mujta rrezaom de serem com eles, e 
os ajudarem comtra nos, de que se poderá segujr mujto desserujco dei 
rrej« nosso senhor. He, majs, a forteleza que ele, senhor capitãom mor aquj 
quer fazer, nom se poderá acabar, pêra nela ser rrezaom de leixar jemte 
he artelharja (em que fose bem e serujco delrrej em tall lugar fazer se), 
d aquj a b ou bj^ meses; e elle, se d aquj atee fim deste mes de novem* 
bro em que estamos, nom partir d aquj, nom poderá jaa partir este anoo, 
de que el rrej, nosso senhor, rreçebera gramde perda, por se nom guardar 
ho estrejto do mar rroxo, que nos sua alteza mandou emtrar; e a forte- 
leza de cocotora correrja gramde rrisco. Pello quall, nos lhe rrequerjmos 
(s%c)f da parte delrrej, nosso senhor, e do senhor visorrej, que ele, dito 
senhor capitam mor, se parta loguo d aquj e vaa prouer a dita forteleza 
de cocotora, como lhe per elrrej, noso senhor, he mandado em seu rre- 
gimento, e vaa guardar ho estreito, em que vaj tamto serujco delrrej, 

1 Cinco ou seis. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 285 

como sabe, — que oom viemos ca a outra coussa. E, asy, lhe rreqaerj- 
mos (sic)^ da parte delrrej, nosso senhor, que elle mande logo daquj 
esta nao froUdelamar ao senhor visorrej, e lhe espreua per ela ho pomto 
em que tem esta cidade, pêra sua senhoria prouer nela como lhe bem 
parecer serujco delrrej, noso senhor, porque asy lhe he mandado pello 
dito senhor, em huum capitulo de seu rregimento: — que, sendo caso que, 
com a graça de noso senhor, atguum rrej sometese sob seu senhorjo, ou 
fizese trebuto, logo, sem nerohua. tardamça, o faca saber ao senhor viso 
rrej, ou outra quallquer coussa que fizer, pêra ele aprouar, se lhe pa- 
recer bem a seu serujço. E, porquanto ele, senhor capitãom mor, pêra 
guarda do estrejto, lhe nom he neçesareo a dita nao« porque lhe fica toda 
sua armada com que partio de portugall, lhe rrequerjmos (sic) que a 
mande a jndea, pêra se rrenouar, e não se perder sem ser neçesarea; e, 
majs, por ela pode mandar as mercadorjas, he páreas, he embaixadores 
ao senhor vissorrej; e, daly, jram majs seguramente a portugal, que 
daquj, domde diz que as quer mandar; quanto majs que sabe que elrrej, 
noso senhor, ficaua em muita neçesidade de djnheiro, e que, em esforço 
de cofala, a sua armada nom trazia o djnheiro que lhe era neçesareo pêra 
sua carrega; e que este lhe será la muito neçesareo, majs que manda lo 
a portugall. Que, porlamto, lhe rrequerjmos (sic), da parte delrrej, noso 
senhor, que ele o mande a jmdea. E, nom o querendo ele, dito senhor 
capitam mor, jsto tudo asy fazer, como se em noso rrequerjmento com- 
tém, — nos todos protestamos por todas as perdas, danos e prouejtos da 
fazemda delrrej, noso senhor^ e, majs, nom sermos dinos de neuhua 
culpa. E, de tudo jsto, com sua rreposta ou sem ella (se a dar nom quj- 
ser), nos dares os ditos estormentos, com protestacaom de rreprycar, se 
comprjr. Fejto e asynado per nos, neste porto dormuz. 

(Este rrequerjmento vejo asynado per affonso lopez da costa, e ma- 
noel telez, e amtonio do campo, e frrancisco de tauora.)* 



t Torre do Tombo— C. Chron., P. 1.', Miç. 7, D. 86, fl. 13. 



286 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1608 (aliás, 1507)— Dezembro 8 

Do rrequerj mento e protestacaom que nós, roanoel telez barreto, e 
franeisco de tauora, e atfonso lopez da costa, e amtonío do campo, capi- 
tães d el rrej, noso senhor, fazemos ao senhor afonso d albuquerqae, ca- 
pitam mor, vos, Joaom estaom, espriuam desta armada, nos dares a cada 
huum seu estormento, e majs, se nos neçesareos forem, em como he ver- 
dade que nos fazemos huum rrequerjmento ao senJior capitãommor, no 
quali rrequerjmento, nos, como leais e vasallos dei rrej, noso senhor, e 
que nos doemos do seu serujço e da onrra de porlugall, lho fizemos, que 
fosse ao mar rroxo, em que tamto seu serujco vaj, e, asy, que mandase 
froUdelamar com as páreas ao senhor viso rrej, e fosse prouer a forleleza 
de cocotora, como por sua allteza lhe era mandado, e outras cousas que 
em nosso rrequerjmento se comijnha (sicj. O quall rrequerjmento lhe fi- 
zemos pello tempo se pasar, que a major perda que elrrej, noso senhor, 
qua nestas parles pode rreçeber, be em perder o tempo. Do quall rre- 
querjmento, o senhor capitãommor se jnclynou o todo mali comtra nos, 
dizemdo que fizéramos traicam, em lhe tall rrequerjmento fazer, e outras 
mujlas emgurjas, que, a cada huum em espeçiall e a todos em jerrall, nos 
tem feitas, e faz, ate nos ter presos em nosas nãos e nos tirar nosas li- 
berdades. Das quaes emjurjas e trejcões, que diz que fizemos em lhe tall 
rrequerjmento fazermos, nos protestamos d elrrej, noso senhor, ou bo 
senhor viso rrej, emmendar nossas omrras com todo comprjmenlo de jus- 
tiça, e, asy, pella fazenda do senhor capitãommor^ afomso dalbuquerque, 
nos ser rrestetujda nossa jngurja, como a capitães d elrrej, que somos, 
he segundo nosas pessoas. Do quall rrequerjmento que lhe nos asy fize- 
mos, vos, Joaom nestaom, nos destes em rreposla que nom no lio aujes de 
dar, porquanto o capitãommor volo defemdia. Do quall rrequerjmento e 
deste, nos vos rrequerjmos fsicj, da parte d elrrej, noso senhor, e do se- 
nhor viso rrej, que vos nos dês a cada huum seu estormento, com rreposta 
do senhor capitaom mor ou sem ella, se a ele nom qujser dar; e, nom que- 
rendo, vos, Joaom estam, dar nos os ditos estromentos, nos protestamos 
que el rrej, noso senhor, ou o senhor viso rrej, vos dar aquella pena que 
merece bo espriuam que vaj comtra seu oficio, em tall casso; e protesta- 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 2»7 

mos de rreprjcar, se comprjr. Fecto Deste porto dormuz, e asynado per 
DOS todos, a biij^ dias de dezembro de 1508 (sic). 

(Este rrequerjmeDto vejo asyoado per affoDso lopez da costa, e ma- 
Doell telez, e fraDcisco de tauora, he amtoDio do campo.') 



1507— Dezembro 11 



Saybam quaotos este estromeDto de rryqyrymento njrem, que do 
aoo do DaçymeDto de doso seDhor jesu christo, de mji b^bij^ aDOs, aos 
xj^ dias do mes de dezembro, doDtro do porto da cydade de nrmoz, me 
deu frraDcisco de tauora, capitam do rrej grande, ímum rryqyrymento, 
dezendome que lhe dese estromento com a rreposta daffoDso dalbuquer- 
que, qapitammor, o qual o teor, este que se sege: 

Do rryqyrymeDto e portestaçam que eu, frraDcisco de tauora, fydalgo 
da casa delrrej, doso seohor, e qapitam da Daao rreygraDde, faço a uos, 
Joam nestam, escriuam desta armada delrrej, doso seohor, vos me dares 
huum e qautos estromeotos mester fezerem, com a fe das testemunhas 
per mjm nomeadas, em como he uerdade que segunda fejra, xiix' dias 
do mes de nouembro de rajl b"bij anos, eu fuy eu fuy (sic) no batel da 
mjnha nao, com toda a jente d ela, a buscar pedrra pêra forteleza que se 
nesta cydade durmuz faz. E, t^nto que o dicto batel foe qarregado de 
pedrra, eu, por majs despacho, e por me parreçer serujço delrrej, me 
alargey, pêra me ujr com a pedrra a dita forteleza, como soyamos de fa- 
zer. E, tanto que me asy alargey, o senhor affonso d albuquerque, qapi- 
tam mor, me chamou que me tornase. Eu, hobedeçendo a seu mandado, 
como a qapitammor delrrej, noso senhor, torney. E, tanto que asy tor- 
ney, ele, qapitam mor, me nam dyse nada, e se foe a paçear com pêro 
uaz dorta, feitor, ao longo da praya. Despois, se ueo meter no seu ba- 
tel, que carregado estaua, e se alargou ao mar, e eu com ele. E, tanto 
que fomos largos, ele, qapitam mor, por lhe eu e todos os qapilães ter- 

1 Oito- 

* Torre do Tombo— G. Chron., P. 1.*, Maç. 7, D. ?56, fl. 12. 

' Quinhentos e sete. 

^Onze. 

^ Yinte e nove. 



288 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

mos fecto huum rreqyrymento, que se fose d aqy ao qabo de guardafuue, 
a fazermos ho que lhe elrrej, noso seuhor, mandaua, em seu rregymento, 
e, majs, que mandase froldelamar pêra judia, com as parreas que esta 
cydade pagara, pêra se qarregarem d espeçearya, pêra jr pêra purtugal, 
e que mandase rreqado ao senhor ujsorrej, do que tynhamos fecto. Ele, 
qapitam mor, pelo sobredicto rreqyrymento que lhe tyuhamos fecto, me 
tynha ódio; e, como homem que me qyrya mal; me dyse mujtas palauras 
enjuryosas, qantas lhe aprouue, dezendo que eu erra huum fidalgo rroym 
e tredor, e que me enchyrya a boqa de merda, e que lhe fugyra do çe- 
rame, qando, dauante esta çydade, pelejamos, querrendo ele, querrendo 
ele (sic), qapitam mor, tomar huum parao. E asy me dyse outras mujtas 
palauras, chamando me tredor, e me fez entrrar ao seu batel, pondo as 
mãos em mjm, jrosamente, nam como capitam mor, mas como jmjgo e 
omem que me qyrya enjuryar, desafyandome que em terra me farrya 
conhecer todo ho que dyzya ser uerdade, e que eu mentya, como tredor 
e rroym fidalgo. E, nam e nam ($ic) contente disto, me mandou leuar a 
sua nao, bonde, outrosy, me dyse o que qjs; e, dy, me mandou pêra mj- 
nha nao, prezo, mandado ao mestre e pyloto dela e, asy, a toda a com- 
panha, que me nam obedeçesem, nem fezesem o que lhes eu mandase. 
As quaes palauras que me asy dyse, a tudu eu fuy muj obydyente, como 
a meu qapitam mor, que era. E nam qyzera que me fora feito, nem ditas, 
as sobreditas cousas, por çem mjl crruzados douro, os quaes antes qy- 
zera perder; e portesto me serem julgados dele^ qapitam mor, por me 
asy enjuryar, e, majs, auer ho qastigo que elrrej, noso senhor, ujr que 
ele, em tal qaso, merece, por me asy chamar tredor e dezer que fugyra, 
dezendo lhe eu que se nam deshonrrase dauante o çerame, e que nam 
perdese qanta honrra tynha ganhada; e que saltasemos em terra, e que 
pelejasemos; e asy em masqate, — bua das ujlas que tomamos deste rreno 
durmuz, — que foe ho lugar em que nos em major afrronta ujmos. Eu, com 
a gente da mjnha naao, saltey em primeyrro (sic) em terra; e asy, em todo 
los lugares que tomamos, seruj el rrej, noso senhor, como leal e bom fydalgo 
que sam, e nam como tredor, como ele, qapitam, me dyse. Pelo qual, 
peço a a (sicj uos, escriuam, da parte d el rrej, noso senhor, que me des ho 
dicto estromento, com a fe das testemunhas por mjm nomeadas, pêra el 
rrej, noso senhor, ou ho senhor ujso rrej, todo uer, e fazer ho que for jus- 
tysa, com protestasam de, per sua fazenda e rrendas, dele, qapitam mor, 
eu auer hos dictos cem mjl cruzados, demjurya, e lhe ser dado ho qastigo 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 28» 

que, a tal qaso, elrrej, noso senhor, ou o senhor ujsorrej, uirem que ele 
merece. E, com sua rreposta ou sem ela, vos, escriuam, me darres ho 
dicto estromento, com protestaçam das custas, e de rrepriqar, se comprir. 

Aos xbiij^ dias do mes de dezembro de b^bij* annos, deu a mj, es- 
criuam, affonso dalbuquerque, qapitammor, a rreposta pêra este rreqyr- 
rymenlo. E esta que se ao diante sege: 

Eu poderá muj bem escusar de rresponder a este rreqyrymento que 
mo senhor frrancisco de tauora faz, ou estromento que pede contra mjm, 
de agrauos que lhe fyz, porque, nos taes casos, nam a mester estromento 
nem rreposta mjnha, senam jmquyryçam testemunhas (sic), como eu logo 
mandey fazer; porrem, quero lhe rresponder, pêra que elrrej, noso se- 
nhor, o qastige, como ujr que e seu serujço. Hee uerdade qu estes qutro 
(sicj capitães que el rrej mandou comjgo de portugal, se ajuramentaram, 
e todos em conselho trabalham qanto podem por danar as cousas d elrrej, 
em que ando trabalhando, com dessonestos rrequyrymentos, e desacata- 
mentos contra mjnha pessoa, e uozes altas, e outras cousas sameadas na 
Cydade, per sy e por omes seus, pêra todo desconserto e desasesego da 
mjnha armada, e do asento das cousas de urmuz; e, postoque os eu nom 
castige com todo rrigor, como eles merreçem, em alguum tenpo dyrey a 
elrrej, noso senhor, o porque o nom fyz; porem, de todas suas cousas 
tenho tyrado jmqyryç^es, fectos autos diso. E rrespondo ao que frran- 
cisco de tauora dyz, que eu lhe tenho ma uontade, por huum rryqyry- 
mento que me fezeram. Nom creyo eu que ele, nem njngem, em mjm 
tal conheçese nem semtyse; e na rreposta que, por palaura, lhe mandey 
dezer per Joam nestam, se uera como meu coraçam estaua cheyo d ódio 
contra eles; antes^ lhe mandey pydyr, por merçe, que estas cousas em 
que andauam comjgo, teuesem tal segredo, que os mouros as nom sou- 
besem; e, por nom entenderem que os qapitaes andauam comjgo nestas 
emburylhadas, em tenpo que tanto compria a serujço d elrrej, noso se- 
nhor, todo asesego e concerto na sua armada, todos em huua e em huum 
querer com seu capitam mor, sobre quem todo pende, por termos tam 
grande presa nas naaos, e os mouros nom terem nenhuum rreçeyo, senam 
em nos uerrem leaes, verdadeyros, todos de huum querrer e de bua uon- 



^ Deioito. 

^ Quinhentos e sete. 

TOMO ni. 37 



290 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

tade (e, majs, que cogeatar preguuntara ja: — que desconserto he este em 
que os capitães andam com o qapílammor?), — eu lhe mandey que lhe dy- 
sesem que era sobre as naaos que lhe eu dera, em que eles tynham parte, 
e que se agrauavam dyso; porem, eles sam tam sesudos e aujsados, que 
sabyam como os qapitães trabalhauam por nom fazer forleleza em hur- 
muz, e por me lyrarrem daly no mes de nouembro e de dezembro, pêra 
lançar a perder ha armada; e, asy, tyrase de mjm çem omes, com frrol 
de la mar, e que os mandase a jndia; e outras cousas muj feas e de pouco 
serujso delrrej, que eles tynham poslas em huum rryqyrymento, que os 
mourros muj bem sabyam; ho qual, so cor de serujço delrrej, por da- 
narrem mjnha honrra, trabalhauam qanto podiam por danar as cousas 
de urmuz. E, qanto e ao que dyz frrancisco de tauora, que eu lhe qyrya 
mal pelo mesmo rryqyrymento, bem' sabe como ele mesmo me ueo des- 
cobryr como hos qapilães me qyryam fazer huum rreqyrymento, e que ele 
asynara nele; e eu lhe respòndy, — rrijndo e sem nenhua payxam, — se lhe 
parycya bem, que o fezese, que lomase prazer e folgase; e, dypois dyso, 
apartadamente, mujtas vezes faley com ele, dando lhe muj bos conselhos, 
e amostrando ho qaso ser muj leue. Em mjnha conuersaçam, lhe mos- 
irey senpre synal de amor e amjzade; comtudu, nam o pude tyrar dos 
enduzementos e mãos conselhos dafomso lòpez da costa e dantonio do 
qampo e de Joam da noua. E pelo mesmo rryqymento (sic)j cheyo de 
odeo e de engano, meryçyam eles 'muj grande qastigo, por estas rrezoes 
que aqy digo. A primeyra, nom qyzeram saber de mjm mjnha detri- 
mjnaçam, e o que esperaua de fazer; e, sabendo meu fuundamento, com 
majs onestydade poderam fazer ho que qyryam. A outra, e nom me quer- 
rerem tratar (?) com aquele amor e corlezya que eu a eles faço. Qando 
uja cousa de serujço delrrej, noso senhor, chamauaos todos a conselho, 
e asy outros senhores: desta manera esperaua eu que o eles fezesem, 
chamando a conselho, dando suas nozes perante o escriuam, segunda 
meu qustume, e asynarrem seus parreçeres. Istu, desta manera, par- 
reçera a deus e a elrrej, noso senhor, bem, e fora obra de qapitães oby- 
dyentes, pêra seu qapitammor fiar as cousas que lhe elrrej manda fazer, 
de seus conselhos. A outra e, antes três dias que me este rreqyrymento 
fezesem, hos tynha chamados a conselho, nom estando j Joam da nouoa 
nem antonio do qampo, e lhe dyse: — Senhores, dezeme uoso parecer: 
se. cera mjlhor, e majs serujço delrrej, jrmos na uolta do cabo de guarda 
fuue, ou segurar as cousas de urmuz. — Qada hum me deu alj seu parecer. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 29 1 

Eu lhe dey mjnba uoz. Jorge barreto e eu fomos em segurar vrmuz. Estes 
qapitam (sic) foram na uolta do qabo. Àlguuns deles, despois de me ou- 
ujrem, se uolueram comjgo, em ser majs saam conselho segurar as cousas 
de urmuz, com forleieza que andaua fazendo. Dyse eu entam: — Senhores, 
esla cou^a e tam grande, que compre tomar bom conselho. Cuydae bem 
njslu; e chamarrey os outros qapitães que aqy nam estam, e outras ai- 
guuas peçoas, a conselho, e fanemos ho que majs for serujço delrreji 
noso senhor. — E asy me espydy d eles. ^ Estes senhores nom qyzeram jstu 
aguardar, nem lhes parreçeo que, com este asesego e concordea, se toma- 
rya sam detrimjnasam nas causas de serujço delrrej, noso senhor; e, 
dalj a três dias, com suas danadas uontades, me fezeram hum rreqy- 
rymenlo, como a huum almoxarife, ao qual eu nam rrespomdy, por me 
eles nom me amostrarem poder delrrej, noso senhor, pêra me tal faze- 
rem, e o rreqyrymento ser lodo que faça eu meu rregymento, pondo 
qapytolos dele no seu rreqyrymento, rrequerendo me cousas conformes 
as suas danadas uontades, estando eu debaxo do rregymento delrrej, fa- 
zendo cousas de grande estado seu, glorea de sua ujtorya, a que me 
eles aujam ajudar, e nam eslrouar. E jstu rrespondo ao estromento que 
aponta frrancisco de tauora no seu, que contra mjm pede. 

E, qanto e ao que dyz frrancisco de tauora, da manera que foj a pe- 
drera e se ueo, e que soia asy de fazer, que lhe pareçeo serujço delrrej 
deyxarme e ujrse com seu, e todo jstu delrimjnado per ele, como ele 
confesa e dyz, — digo que e verdade que eu mandey dyzer a frrancisco 
de tauora que se fyzese prestes pêra jrmos a pedra, e tomey o meu batel 
e o aparyley, pêra jr também a peidreyra. Frrancisco de tauora, ajura- 
mentado com os outros em fazer toda descortyzya, como soya, pasando 
eu seus erros com mujta pacyençea, se partyu com o seu batel, qamjnho 
da pedrejra, e nom qys esperar por mjm; e, dalj a pouco, chegey a pe- 
dreyrra, bonde ele estaua, e lhe nom dyse nada^ mas, antes, muj despe- 
jado pêra ele," rryndo e folgando com ele, amdamos per j paseando, como 
todos ujram; e, njstu, veyo o feitor, a qaualo, por terá, a me falar em 
cousas de serujço delrrej, noso senhor, e me apartey pêra detrás de 
huum penedo, com ele; e, depois de o despachar, que torney aos bates, 
frrancisco de tauora ja ga huum bom pedaço no seu batel, sem meu 
mandado, deyxandome. alj so. Mandey lhe qapear e chamar. Por huum 

' No documento está apenas les. 



292 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

bom pedaso o nom qys tornar. Todauja, maodey que tornase. Uolueo 
ele: nom lhe dise nada, antes qalej tudu, porque dias auja que conhyçya 
a semente que anlonio do qampo tijnha semeado nos coraçDes dos qapi- 
tães, dezendo que eu lhe mostrara huua carta, em que lhe rroubaua suas 
honrras, que escriuja ao ujsorrej, e asy alguuns fydalgos e es^ualeiros 
d armada, jndynados todos contra mjm. De manera que chamey todos os 
qapitães e lhe amostrey a carta, dezendo lhe mujtas justyfyqações'eboas 
patauras, mostrando lhe nam ser uerdade o que antonio do qampo lhe 
andadara (sic) dezendo. Todauja, suas descortisyas e desaqatamentos 
contra mjm nom deyxauam de fazer. E, portanto, pareçeo bem a frran- 
cisco de tauora partir se e deyxarme so. Entam, me mjty no meu batel, 
e nos ueemos ambos com a pedra; e, no qamjnho, dyse eu, alto, do meu 
batel: -Senhor frrancisco de tauora, com majs cortisya e aqalamcnto 
vos aguardo eu, qando uos ujndes pêra mjm. Amtre duas pedras me aues 
uos de deyiar, em terra de jmjgos, e partyrdes uos sem meu mandado e 
sem mjm? — Frrancisco de tauora se aleuaptou, descrendo de deus e de 
santa maria, dezendo me palauras deshonestas e descorteses, dezendo: 
— Vos nom me 'aues de qastigar, nem trazes poder de me castigar. To- 
may a nao, senam, se nos fazemos a uela, eyvos de fugyr. — Emtam lhe 
mandey que se pasase ao meu batel, e lhe dyse que se lembrase que era 
bum fydalgo proue, qasado de nouo; que se nom qysese perder com 
elrrej, nem andar comjgo naquelas descortisyas. E outras boas palauras 
e conselhos. Responde me que elle tynha majs que eu; que nom querrya 
nada d elrrej, senam jrse pêra qaslela. Istu tudu pasou asy; e o ai que 
dyz em seu estromento, dyz ho que lhe apraz. Desqarregada a pedra^ 
uoluj a mjnha nao com ele, e alj mandey chamar os qapitães, porque os 
uja andar ja tam danados, endynados a todo mal e desasesego das cou- 
sas de vurmuz,' que me pareçeo serujço d el rrej tomar alguum meyo pêra 
nom serem nosas tam pubrycas aos mouros, porque as cousas dos qa-> 
pitães contra mjm e contrra as cousas de serujço d elrrej eram ja tam 
craras, que se nom podyam qurrar doutra manera, senam com o cutelo 
da justysa dei rrej ou a pacyençea de joo. E, portanto, os chamey e lhes 
dyse a todos o que ey aquy por escusado apontar, porqanto mandey a 
Joam nestam, escriuam d armada, que o escreuese; e lhe mandey que qada 
buum folgase e ouvese prazer em sua nao^ e, qando qysesem jr a terra, que 
m o fezesem a saber, porque, acontesemdo alguum qaso (que noso senhor 
defenda), por estarmos em terra de jmjgos, sayba que tenho huum qa- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 293 

pilam em trera (sic). E, qanlo era ao trabalho da forteleza, eu aoja por 
escusado suas peço<is, por asesego de nosos filhos, porque nom era tam 
grande trabalho o que leuaua na forteleaa, que nom bouuese por mujto 
mayor o que eles qada dia fazyão contra mjm. E, asy, mandey a frran- 
cisco de tauora, porque me ameçara (sic) com a fugyda da nao, quç, por 
entam, nom entendese no mando da nao e da gente. E jstu rrespondo, 
por que nega sua alteza donde as cousas nasem. 

E, no que dyz frrancisco de tauora, no seu eslromento, que se foe 
domde eu estaua, por lhe parecer roajs serujço delrrej, preguuntulhe 
eu: — bonde eu estou, nom sou eu o mjnjstro e juyz das cousas de serujgo 
delrrej, e de quem as ele eonfyou, e nam dele? Pois, como dyz que 
lhe parreçeo serujço delrrej e se foy, e bem a sua alteza d entender 
estas emburylhadas, das quaes praza a deus que nom nagam outras 
peores. 

Quanto e alguuas palauras que, em seu estromento, dyz que lhe 
dyse, nom e meu qustume dezer palauras jnjuryosas aos fydalgos que 
andam debaixo da mjnha capitanja, mas palauras de qastigo e de rre- 
prensam, booas e onestas, que os taes nom deuem de ser castigados 
doutra manera de seus qapitães, e, porem, manda los fazer as cousas de 
serujço delrrej, em seus tenpos. 

Qanto e que dyz, que o desafyey, nom eranesesareo desafyar a quem 
eu trago poder pêra enmendar seus erros ; e, certo, cousas me dyse ele, 
que deyxara eu de boa uontade a qapitanja e o poder que trazya sobre 
ele, por lhe amostrar que, nom sendo eu seu qapitammor, me nam fa- 
lara ele asy. 

Qanto e ao que dyz, que ele me dyse, dyante do çerame, que nom 
perdese qanta honrra tynha ganhada, que saltasemos em terra e que pe- 
lejasemos, — certo, ele e tal caualeiro, e tem tam bem serujdo elrrej, noso 
senhor, que dygno e de toda honrra e merçee que fezer. E poderá ser que 
dyrya ele o que dyz; mas eu lho nom ouuj, antes detrimjney de meter 
os mouros pela porta do castelo dentro. Indo eu no batel de manuel te- 
lez, bradey ao seu batel e ao de frrol de la mar que posesem as proas em 
terra comjgo. Mandey entam ao batel em que ja, que posese a proa em 
terra diante do cera (sic) e porta do qastelo, bonde matey mujtos mouros, 
e os mjty pela pola (sic) porta do castello dentro, e deyxaram ho çerame. 
Era alj comjgo antonio do campo no seu batel, e majs nom uj. Dalj, ar- 
ranquey a poios galeães que fugyam, e entam me segyram os bates todos; 



294 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

e aly me fyryram manuel telez e outros fydalgos que comjgo erram no 
batel. 

E, qanlo e ao que dyz, que saltou primeiro em mascate que DJngem, 
ele e a lai caualeiro, que, em todas as cousas d afronta, sepre (sic) folgou 
ser dos primeyros; porrem, serya coulra mjnha ordenança e mandado^ 
que njngem nom sayse primeyro, pêra e (?) mjnba bandera, por ter 
mjnha jente e me fazerem corpo, e nam que qada huum segyse por onde 
lhe aprouvese, e desembarqase quando lhe aprouuese. 

Mando a Joam nestam que guarde este estromento de frrancisco de 
tauora; e, por escuzar escandolos, nom e nesesareo dar lhe mjnha rre- 
posta, nem ele sua rreprica; somente sua justyça, que aqy pede no seu 
e na mjnha rreposta, jr ante elrrej, noso senhor, que me seu poder e aU 
cada deu, e me fez capitam mor d esta- sua armada; porque asy o ey por 
serujço d elrrej, noso senhor. 

Eu, Joam nestam, escriuam d armada, que esto escriuj. — Jam nes- 
tam. 

Digo eu, Joam neslam, escriuam, que nam uay aqy o dicto das tes- 
temunhas, por mas nam darem nem mas nomearem. — Jam nestam. 

(In [dorso, por lettras coevas) — Em vrmuz, a xj* dias de dezem- 
bro de 1507. — Estormento de frrancisco de tavora e rreposia dafomso 
d alboquerque. Sobre a desauença que ouueram os capitaães que se d elle 
partiram.' 

1608— Fevereiro 5 



Carta de francisco de tauora pêra o viso rrej. 



Senhor — Eu qujsera ser o mesageiro, mui lo tempo ha, e nom quj- 
seram meus pecados senom trazer me ha amdar com este homem, que 
me tem lansado a perder a fazemda e a omrra. Quanto bem esperaua, 
me tem desonrrado a mjm e a toda mjnha linhajem. A menos palaura que 
me dise, chamou me tredor, mujtas jmfíndas vezes, serujndo eu elrrej 
como vossa senhorja saberá, leuamdo mujlas mas nojtes e mujtos mãos 



iQnze. 

« Torre do Tombo— C. Chron., P. 3.% Maç. 3.% D. 37 e 38. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 295 

dias. E, de todas estas rrezCes que me disse, eu tirej huum estromento» 
e Dom me qujs dar rreposta, nem o espriuaom^ pêra V. S. fazer justiça, 
que nem abastou desomrrar a mjm, senom a toda mjnha liuhajem, como 
estes capitães diraom a V. S., que llaa vãom, majs largamente. Llaa es- 
preue ele a V. S. hua carta, e e o comtrairo de ludo o que vos espreue, 
porque nunca teue conhecimento de Y. S. e querja mall a quem lhe falaua 
em V. S. E estes saom os capitães que el rrej manda, pêra lhe danarem 
todo o trauto da jmdeat Por hua orra, nunca majs comunga verdade (?). 
E, de que se estes capitães foram, me prendeu, e me tomou a mena- 
jem; e eu nom lha querja dar, e lhe soltaua a nao, e que me deixase 
jr pêra jmdea em frolldelamar, he nunca qujs. E asy amdo, senhor, preso. 
Teruosej primeiro em merçe lenbrarse de mjm, por ser jrmão daluaro 
piriz, que he lamto voso serujdor, e pois que eu nom tenho tamto serujdo 
a y. S., por allgum rremedeo como me vaa pêra jmdea, porque ele espera 
ajnda de jnvernar com estas nãos em cacotora, porque nom amda senom 
pêra as lamcar a perder, porque elas nom trazem jaa amaras nem cahras 
e andam todas comestas do gusano, como joham da noua dirá a V. S. 
E, asy, fico beigando as mãos de V. S. Esprita dauamte dormuz, b^ dias 
de feuereiro.* 

1608— Março 10 



Carta do vissorrej pêra o rrej dormuz. 

Mujto omrrado e gramde rrej dormuz — Nos, dom Francisco d al- 
meida, vissorrej das jmdeas pello mujto alho e mujto ejcelemte e pode- 
roso dom manoell, pella graça de deus rrej de portugal, etc, meu senhor, 
vos fazemos saber que, quando a esta costa da jmdea chegamos, desde am- 
jediua, vos mandamos rrecado, per huns mercadores mouros, que, se 
qujseses ser vasalo dei rrej, meu senhor, he pagar lhe o que fosse rrezaom, 
que darjamos booa paz a uos e a todas vosas cousas e nãos que do vosso 
porto viesem; e, despois, volo tornamos ha mandar dizer per huum mer- 
cador de jcananor, e asy o mandamos dizer a caizar, mercador de bate- 



1 Cinco. 

* Torre do Tombo— G. Chron., P. !.•, Maç. 7, D. 66, fl. 11 v. 



296 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

cala, que volo espreuese; e, o ano pasado, volo espreuemos per nosa 
carta, per buum pilolo mouro, nalurall de vosa terra, que foy noso ca- 
tjuo; e, de tudo, nunca vimos vossa rreposta nem sabemos se algum 
destes nosos rrecados vos foy dado. E, agora avera três meses, nos foy 
dada bua carta do capitam affonso d albuquerque, per que nos fazia 
saber que eres vasallo delrrej, meu senhor, e lhe pagaves páreas, e tinha 
comvosco asem to feito de toda amjzade, — o com que mujto follgamos. 
E loguo alguus mouros que diseram que eram de vosso rrejno, que em 
nosso poder tinhamos caljuos, mandamos soltar, como per elles saberes. 
E, agora, chegaraom a nos iiij''^ capitães dos que la eram com affonso 
d albuquerque, e nos diseram como se tornara a rromper guerra amtre 
vos e elle, e que tudo fora por sua culpa, — o de que mujto anojados es- 
tamos. Pello quall, os ditos capitães se vieram em nosa busca, a fazer 
quejxume dele, e o nom qujseram majs ajudar comtra vos, e foram de 
nos, por jso, mujto bem rreçebidos. Pello quall, nos o mandamos cha- 
mar, que venha dar rrezaom do que fez, e lhe daremos, por jso, aquela 
pena que suas culpas merecerem, porque na boca delrrej, meu senhor, 
nunca foy achado emgano, e asy manda a mjm e a todos os seus capi- 
tães e jemtes que se faça. E, porque estes capitães me disserãom que, 
com toda a guerra, vos sempre dizees que follgarjes d estar na paz e va- 
salajem delrrej, meu senhor, se jsto he verdade e estaes neste prepo- 
syto ($ic)y asy como eu de vosa vertude e boom syso comfio, manday 
moio (sic) dizer per uosa carta, he daruosemos booa e verdadeira paz, 
que durara pêra sempre, a vos e a vosas jemtes, e todas vosas nãos e 
portos; e a rreposla disto vos pedimos que loguo nos mandes, porque 
será boom pêra todas as cousas. Mujtos mouros do vosso rrejno, que 
estes capitães de Ha traziãom catiuos, o dia que a nos cbegarãom, os 
mandamos solhar liuremente, porque cremos que a nosa paz estará 
aguòra majs 6rme que nunca. E os homens que nos mandardes com rre- 
cado, viram seguros, e a nao em que vierem, e jemtes e mercadorjas. E 
o tempo em que esta rreposta me mandardes, será per todo mes de no- 
vembro, porque, nom nolo mandando atee emtãom, averemos que nom 
queres estar pela paz asemtada. E laa vos mandamos dous aluaras no- 
sos, de hum theor, que mostres aos capitães que hy vierem. E ouuemos 
por bem de tudo jsto vos espreuermos duas cartas de bum theor, ase- 

' Quatro. 



DOCUMENTOS ELUaDATWOS H9? 

ladaSido ^\o rredoDdo das açp^s ireaes delcrej, jneu sepbpr, jb pi^mpis 
asyn.adas« «Cada bua vaj em .sua oao. Fecta em cao^qr, a ;)^' ^ias de 
marsotdejlJ^OS.* 



1608-— Setembro a Dezembro 

S^obor — Acordeme (sicj que, quamdo, de abramtesi de .vosa al- 
teza, me partj, o que me per ella foy mamdado, foy que todas las cousas 
de voso serujcp largamente vos espreuese. E, porque, Senhor, do estado, 
aguora, da terra toca majs ao vjsorrey, pojs nysto traz tam gramde cuy- 
dado, como cumpre a voso serujço, vollo fará saber, de maneira que vosa 
alteza seja de ludo mujto bem enformado, — do neguocjo, somente» da casa, 
mercadarjas diuydas, farey per esta saber a vosa alteza, postoque nam 
teoba mujtarrezam de o saber, por aver mujto pouco tempo que ca sam 
pasado. 

Item— Primeiramente, tem vosa alteza, em a casa de coçbym» nam 
emtrando sam joam nem a Ijonarda, que ajmda ca nam sam pasadas, de 
cobre, sejs mjU quintaes. 

Item — De vermelham e cbqnbo, bua graipiie camtjdade, de maneira 
que, todos estes três annos que vem, se nam deuja de mandar, destas 
três mercadarjas, nemhua soo cousa. 

item — De corall, nam ha nembum, porque o que veo cojn femani 
soarez, que troune sam grauyell, foy loguo case todo vendjdo. Vemidço 
se a sorte, tosco, a sejsçemtos fanOes a faracola; e o bastardo. 0)eudo,,a 
eemto e cjmquoenta a faracola. Parece boa mercadarya, e que a pretajp 
calmas, a meu parecer, he porque he pouca; ouis, se fa$e mujta».s9rya 
como o cobre. 

Item — Pedra bume vali a vjmte e sejs fanoes a faracola. FolgDaqn 

côm ella, emquav^to nam for sobeja. Como for mujta,. nam serra boa u^t- 

cadarja. Parece me que se poderá gastar cada anuo, se as nãos de ieçcbyffi 

.e oananor nauegarem pêra bayxo» escomtra o narte, mjUqujmta^; e, se 

oamnauegarem, gastar se mujto menos. 

Alguum cafram pedeoQ; porem> a terra be qnemteKe,piciide,sfrj]%%fe 



f ^Torre do . Tomba— C. Cbron., P.íi.*, llUç..7, D^JBG^ilytó v. 

TOMO ui 38 



298 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dânarja, se se loguo nam comprase, o que elles fazem mall, porque nunca 
pregumtam senam por mercadarjas que sabem que nam ha na casa. 

Item — AzoQge vali aguora noventa fanOes a faraçola. Ajmda, com- 
tudoí nam sey quamto gaynho será nelle, porque todos os homens que 
ca o entregam, emtreguam menos a terça parte, e outros o meio, do que 
la rreceberam. Alguum ha aguora na casa, nam mujto sobejo. 

As mercadarjas de ca, as suas valyas sam estas: 

Item — O bahar de pjmenta (que, aguora, pello comçerto que o yjso 
rrey mamdou comçertar com os qujnytaes, sam três quíntaes e trynta ar- 
ratejs do peso nouo), vali o bahar da dita pjmenta çemto e cjmquoemta 
fanões e meio; e paguase, de djreitos, a elrey de cochym noue fanOes e 
meio. Sam, em soma, cemto e sasemta fanões. Tjramdo trymta e sejs 
fanOes, que vali hua faraçola de cobre que se daa pello bahar de pjmenta, 
se daa, em djnheiro, çemto e vjmte e quatro fanOes. 

Item — O bahar de canella vali duzemtos e corenta e cjnquo fanOes. 

Item — De crauo, quatroçemtos e oytemta fanOes em mercadarjas, 
e, em djnheiro, quatroçemtos. 

Item — As maças, como o crauo. 

Item — O bahar da noz, cemto e corenta e cjmquo fanOes. 

Item — O alacar martabam, o bahar, trezemtos fanOes. 

Item — A faraçola da camfor, çem fanOes. 

Item — Vosa alteza deue, de soldos da gemte que amda na jmdja, 
nam emtramdo a que veo com affonso d albuquerque, nem vjmte e cjmquo 
mjU cruzados que o vjsorrey mandou pagar, a saber: vjmte mjll, de que 
se pagaram as qujntadas que foram caregadas a custa dos soldos, e cjmquo 
mjU que se pagaram per seu mandado, em djnheiro, despojs da carga ser 
certa, alguas pesoas que o mujto avjam mester, nem emtramdo as arra- 
caçoes das pesoas que la bam de ser paguas atee íjm deste mes de de- 
zembro, — sasenta mjU cruzados, os quaes, com ajuda de noso Senhor, 
ham este anno de ser paguos, porque toma o vjso rrey, d jsto, grande ape- 
tjto. Praza a deus que será asy, por que vosa alteza seja njso seruydo. 

Senhor — Do porto de cochym, vam este anno pêra eses rreynos, 
por todo o mes de nouembro, coremta mjU qujntaes de pjmenta, que 
sam mujto boons de nomear, e mujto trabalhosos pêra quem os ha de 
caregar. Nam djguo ysto por mjm, porque, posto que de vosa alteza 
trouvese pêra auer outro tamto hordenado quanto, lourenço moreno tjnba, 
despriuam, e, despojs do tempo acabado despriuam, aver de ^car por 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 299 

feytor» — vosa alteza ouue aguora por bem nam aver majs de sasenta mjll 
rreaes por anno, de hordenado, que he menos ajnda do qne Ua trouue. 
Bem sey^ Senhor, que Tosa alteza me faz majs mercê» do que vos eu» por 
meu seruyco, mereço. Prazerá a doso Senhor que o serujrey eu tam bem, 
que mereça toda merçe que cm mjm Qzer. 

Senhor — Do mudamento da casa, a meu parecer, vosa alteza nam 
ha de ser tam bem serujdo, como eu desejo; porque os dous tesoureyros, 
seguundo forma do rregjmento, cada hum quer gardar sua capa, porque 
loguo vosa alteza lhe lemjta que, sse o das mercadarjas as vemder, senam 
a quem o da especearya ouuer por seguro, que as pagara; e por jso o te- 
sourejro das mercadarjas as nam vemdera nem dará ijadas, pojs que nam 
ha de arracadar as djuydas; e o da espeçearja, porque os mercadores 
casy todos sam jnçertos, nam ha de querer aver nemhuns por seguros, 
porque o arracadar das djujdas era pollo credjto que o feytor tjnha, o 
quall aguora nam pode ter, por serem mujtos; e, majs, o tesoureyro das 
mercadarjas nam ha de folgar mujto de avemturar a sua fazemda, polia 
homrra que ha d aver o que caregar as nãos. Nam querro falar majs njsto 
a vosa alteza, por que nam pareça que sam descomtemte em algua cousa, 
que, ajmda de espriuam d almoxarifado, a deus nem a vosa alteza nam 
merecedor (sicj. 

Porem, comtudo, o vjsorrey lhes emcomendou mujto, sua partjda 
de cochym, que trabalhasem mujto por se darem as mercadarjas, as quaes 
se nam dam nunca, senam com grande trabalho do vjso rrey, que njso se 
mete, a vezes a rrogar e a vezes a espamtar, por que se lhes tomem. Pra- 
zerá a noso Senhor que a cargua que vem serra asy, que vosa alteza seja 
bem serujdo. 

Senhor — O vjsorrey partjo, aos vjmte e cjnquo dias deste mes de 
nouembro, de cochym pêra omde prazerá a noso Senhor que, delle e 
de todos que com elle vam, vosa alteza serra bem serujdo; e pos em 
contentamento a gaspar pereira que vjesse com elle ou fjcase em co- 
chym. Elle escolheo fjcar; e, polia carga ser acabada e feyta, elle me 
djse, peramle os ofjcjaes, que, pojs gaspar pereira nam qujrja vjr, que 
hum de nos outros, ofjcjaes, deujamos vjr com elle, pêra ofjciall d ante 
elle, por que as cousas que pasasem na sua vjagem, fose vosa alteza sa- 
bedor. Nam por meu merecjmento, fuy esculhydo delle pêra jso; e, por- 
que, Senhor, eu conhecj craramente ser majs trabalho e fadjgua, peryguo, 
vjr e amdar no mar, ca Qcar na terra, oucjoso, folgamdo, — folgey mujto 



300 CARTA« DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

de vos vjr serujr em sua compaohya, omde prazerá a ooso Senhor qae 
vos serujrey tam bem, que, semdo elle diso testemunha, vosa alteza me 
£ara merçe — aquella a que os que vos bem seruem e soes a fazer (sic). 
BeyJD as rreaes mãos a vosa alteza, a que noso Seohor acrecemte seu 
rreal estado, com alomgamento de vjda. — Davamte de calecu^ a vjmte e 
oyto djas de uouembro, era de 1508 aunos. 

Senhor — Depois de ther acabado despreuer a uossaalteza, chegou 
aqui, a cananor, affonso dalbuqerqe com a sua naao cyrne, e martim 
coelho, e o navio de dioguo de melo, que finado he ; e vinha nele dom 
amtonio, seu sobrinho. Polia presuunçam, que tínhamos, dos rumes, se 
fez toda a frota a uela, per mamdado do vissorrey; e elle, com ellas, na 
naao froUdelamar, em que ora amda, foy tam de supito e tam depressa^ 
que vossa alteza ouuera prazer de ha uer, porque se fezeram, em terço 
de meia ora, treze naaos a vela e duas gales, de que os mouros de ca* 
nanor me diseram que ficaram muy espamtados ; nas quaaes hiam mjU e 
çem homens, que vossa alteza ora qua traz, tirando as naaos de merca* 
daria que ahinda aqui estauam, a saber : fernam soarez e rruy da cunha 
e vasco carvalho. Ssabido ser o çyrne e sua companhia, depois de ai- 
guum prazer auer tomado, de bombardas e ssaluas, o vissorrey virou, e 
toda a frota com elle; e affonso dalbuqerque e os dous navyos que com 
elle vinham^ ^vieram poussar dauamte cananoor. Loguo naquele dia pre- 
semte, affonso dalbuquerqe veo a froldelamar, homde estaua o visso 
rrey, e foy dele muuy homrrada e amjgavellmente rrecebido; e^despous 
d alguas pouquas palauras passadas, presemte todos, se passaram aos ha-* 
tes e se vieram a terra, a forteleza, homde estaua lourenço de brito; homde, 
com o viso rrey, affonso d albuquerqe e lourenço de brito, com todos os 
outros fidalguos e cavaleiros que na armada amdauam, ceearam, e, dahy, 
sea (sic) aieuamtaram; e, apartados affonso dalbuquerqe, lourenço de 
brito» com o viso rrey, ssos, ssaluo eu, que era de presemte, dise o viaso 
rrey affonso dalbuqerque que elle estaua de camjnha (sic) pêra o outro 
dia, se elle nam chegara; que lhe pedia que, o majs depresa que podese, 
sse fezese prestes, se ao (sic) çirne vinha em despossiçam pêra poder aoir 
dar no mar, ou se ssua vomtade fose desposta pêra ysso. Foy rresponi- 
dido por affonso dalbuqerqe que o cyrne fazia tamta auguoa, que se nam 
podia ter no mar; que dauam a quatro bombas; e que elle vinha tam cam*- 
ssado, trabalhado do maar; porem^ comtudo, que, se o vissorrey o maolH 



l>fiM!nãMENTÕ& li.tfGI0ATrV()& 301 

dase, qae elle biiía. Foylhe rrespomdido pello vissorrey^ maas, se elie 
qaisese hir, que fose; einquaoto era ao çyrne, que, se quissese outra naao, 
ou da sua conserva que trazia^ ou das que o vissorrey tinha, que lha daria; 
ou, se com elle queria hir oa naao, que avena diso muuylo prazer. Âffonso 
dalbuqercys disse que, se o leixava o visorrey em sua escolha, que es- 
colhia ficar em terra; que vioha muuy camssado e muuy quebramtado. 
O visorrey dise que, de tudo o que elle fose comlemte e quissese, que 
elle folgaua muyto. A todas estas coussas foy presemte lourenco de 
brito, soo, e eu, que era de diamle. Senhor — k meu parecer, por o que 
sam obrigado, vos tendes a himdia aguora em maior rrysquo pollo casso 
daffonso dalbuqerqe, qua pollo dos rumes; porque a gemle be muuyto 
descomtemte d elle, primcipalmeute os capilaaes. Grea vossa alteza que 
quem ouuer de governar a himdia, a lhe de cozer o estamaguo mandar 
duqes, e a de iher coraca^n dè gastar Ires mjU cruzados cadano na sua 
meBssa, e a de tber muuyta criaçam, sua e de seus auos. Chamo criaçam 
a tber muuytos criados. A gouernamça da ymdia be major coussa, do 
que nunqua fezeram a ssaber a uossa alteza. Crea vossa alteza que tbem 
muyto pouquas pessooas que lhe abaste o coraçam pêra gouernar. Os 
omeos^ qua, ora dizem que se querem lamçar com os mouros, outra veez 
se querem leuamtar comtra os capitaaes. Gaussao muuyto serem mal pa- 
gues de seus sseldos. Atee agora, onestamemte foram rremedeados e go* 
uernados. Prazerá a deus que, daqui avamte, asy o seram, por que ele 
e uossa alteza sejam servidos. 

Senhor — Alguuns deses capitaaes que vam pêra purtugall, me dis^ 
s«ram que quiriam rrequerer ao visso rrey que se nam fose pêra purtugall 
este asno que vem, postoqae a naao viesse em que elle ha d ir, atee faaer 
seaber a uossa alteza o estado da ymdia; e, com o rrecado que vossa z\- 
teza lhe mandase, se poderia hir; e, porque eu ssabia sua detriminaçami 
que, ahim'da que lhe deram todo o mundo, se a naao chegara, ou. affoDSO 
dalbuqerqe viera a tempo que se poderá hir nas naaos que sam parti- 
das^ nam licara, pollo vosa alteza asy hordenar.' A caussa por que lhe 
J8to queriam rrequerer, o pode uossa alteza perguuatar a rruj da eunha^ 
pMTfiie elle be huum doe que m o disseram. 

Senhor — Joam da nova, manuel telez, framcisquo de tavora, am- 
tonio do campo, com todas suas gemtes, e asy outros muytos fidalguos e 

^ Parece faltarem aqui algumas pakvnt« 
^ Este período parece nao estar completo. 



302 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

caualeiros e capitaaes, amdam tam mall avimdas com afifonso d albnqerqe, 
qae, se lhe oam fora dito per mym, por mamdado do vissorrey, qae, em 
coussa peqena nem gramde, com affonso dalbuqerque nam apomtasem 
nem falasem, o dia loguo que chegou, creo que ^Iguum maao rrecado te- 
ueram feito; porem, aguora, com o mandado do vissorrey, amdam sob- 
metidos. 

Senhor — Eu nam afirmo muyto a uossa alteza a hida do vissorrey 
este anno que vem', ahinda que a naao venha, postoque sua detriminacam 
seja (?) aquela que vossa alteza manda; porque, se a naao viera, ou af- 
fonso dalbuqerque chegara primeiro quimze dias, com todo los rreque- 
rimemtos e forças de lodo los capitaaes e fidalguos e cavaleiros que na 
jmdia amdam/ mas agora, que nam he tempo de partir e a demvernar 
qua por força este ano. Eu m afirmo que affonso dalbuqerqe se ha de 
governar de maneira, seguumdo a mallqeremça dos homens com elle, 
que, se se o vissorrey qiser hir, vindo embora o tempo da carregaçam, 
que nam possa. Prazerá a deus que nam serey verdadeiro, e que sse amjs- 
tara ele de maneira com as gemtes, e que se gouernara de maneira, que 
sejam d elle contemtes; e, se nam fosem comtemtes e se o vissorrey fose, 
crea vossa alteza que nam ficaram oytemta pesoas na jmdia, tiramdo os 
oficiaes. Nam sey quanto vossa alteza disso seria servido; comtudo, vosa 
alteza faça fuundamento que o visso rrey se a de partir este anno que 
vem ; e, comtudo, nam se ieixa de lembrar que pode acomteçeer ysto que 
escreuo a uossa alteza, e nam leixe de fazer disto alguum pouqo de pe- 
qeno fuumdamento. 

Senhor — Lourenço de brito pedia ao vissorrey que leíxase affonso 
dalbuqerque nesta forteleza de cananor, porque sua vomtade era jm- 
crinada e desejosa de uos hir nesta viagem servir. Foylhe dito pollo visso 
rrey^ affonso dalbuqerqe; e, posto em prazer se queria ficar nela, es- 
colheo que nam, e que qeria ficar em cochym. Mamdoulhe o' visso rrey 
dar suas poussadas, e spreueo que fose muy hororadamente agasalhado e 
rreçebido. De manhã, que sam ix' dias de dezembro, parte pêra cochym; 
e o viso rrey pêra dio, em busca dos rumes, com toda gemte que com 
elle vay, muuy contemtes de neste ano tall serviço vos fazerem, que di- 

' Parece falurem aqui algumas palavras. 

* Além d*esta, faltam aqui, evidentemente, outras palavras. Adiante da palavra pisso^ 
existe um pequeno traço oblíquo, da esquerda para a direita. 
' Nove, 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 303 

ante vosa alteza • • . merçe mereçamos. Beijo as reaes mãos d^ vossa al- 
teza. De canaDor, a biij^ dias dezembro de b^bíij.' 

Depous de tber acabado d espreuer a uossa alteza e serem partidas 
as naaos de femam soairez, veram (sic) estas cartas de timoja, cujo tre- 
lado he este: 

Fera o viso rrey 

Senhor — Ssabera uossa senhoria que eu, timoja, vasalo delrey de 
purtugall e seruydor de uossa senhoria me emcomendo muytas vezes em 
uossa booa amjzade, de que eu sempre tiue e tenho como amiguo leall e 
verdadeiro. Qua me deram hua carta uosa, que mamdase a dio ssaber 
quamtos homens eram viuos. Mamdey estes dous bramenes por terra, o 
quall (sic) trouxeram hua carta que la mando. La ssaberes quaes eram. 
Yeo aqui o capitam moor, e falou comiguo, e foyse loguo. Nunqa mais 
ouue rrecado de uossa senhoria. Veo hua naao de gramuz a dabull, e deu 
nova que estavam seis seis (sic) naaos em aramuz. O capitam nam disse 
como lhe chamauam. Perguumto cada dia por vos, e quamtos paraaos 
vem de cananor nam me dam novas de uos. Peçouos que venhaaes majs 
asynha que poderdes, e mandai me dezer que faça; e tudo farey, por- 
que estou a seruyço dei rrey de purtugall e de vosa senhoria; qua ha 
hy nova que as naaos dos rumes nam vem qua este ano. Senhor — Estes 
homeens que foram a dio, amdaram muyto caminho : la uo los emcomemdo 
que os ssatisfaçaes. Tenho huum pouquo de crauo e de camfor e de bra* 
ssill: mandai me dezer, se ho quiserdes. Senhor — Eu, amtepa bramene da 
timoja, beijo as maaos de uossa senhoria, porque eu desejo de servir 
uossa senhoria. Quando vos qua vierdes, eu vos direy toda a verdade, 
que nam na ey de dezer senam a uos. La mandéy hufia naao com huuoi 
pouquo dalgodam e panos. Oulhay por ella. Fecta em onor, a ii* de no- 
vembro de b^hiij. 

. . . vy nova que malaqiaz e os malauiares que vieram ; . « 

e que diseram ao senhor de chaull que dese todo o dinheh^o da naao de 

»Oito. 

^ Quinhentos e oito. 

' Nove. 



304 CARTAS DE AFF0N60 DE ALBUQUERQUE 

dom LoarençOy senam, que o qaeymaríam on qe lhe fariam mQytagem. 
EUe díse que nam tinha nada, e estam asy todos. 



Trelado da carta que veo de dio^ quevuindoutiristam dawnha 

ou de gaay que tudo $e chama 

Senhor — A ix^ de setembro, foy dado huum spríto a gonçalo de 
tarouqa, per hum mamçeb (sic) em fegura de joge, que dise que avia 
nome dioguo, o quall soube tam bem desemular, em no damdo, como gon- 
çalo de tarouqa soube sofrer se amtre nos outros, pêra que esta podese 
hir sem no ssaber nyngem. Isto diguo, porque saberá vossa senhoria, que, 
a xx' d agosto, chegou qua huum mouro, de R/^' anos pêra rriba, magro, 
de pouqa barba, a (sic) que esteue, seguundo seu falar, em cassa do al- 
moxarife de cochym, cativo, e dise que fugira. Este mouro troue carta a 
malaquiaz, dos mouros de cochym, em que lhe espreueram que vossa se^ 
nhoria them mandado, por terra, xx homens em fegura de joges, pêra; nos 
falarem. Desde emtam, posseram conosquo corenta homens que nos gar-- 
dasem, por que nam fale nyngem conosquo. Os que, por nossa mofina, 
somos cativos, ssam estes, a saber: aluaro lopez, mestre, que foy, da 
naao;,pero filipe; diogo barrete; gonçalo de tarouqa; amtonio doliueir^, 
criado de nossa senhoria; francisco, escrauo de nossa senhoria; aluar/) 
piriz, meirinho da camará de però qu ; crasto, criado de Vi- 
cente pereira; gonçalo, homem áarmas (?); homem darmaas; 

amdre gomçalvez; e grigorio e affonso e domjnguos e fernamdo, mouros; 
e eu, que' me asynarey em baixo; antonio catelam, da gale de psdo de 
soussa, o quall se nos finou em dio, de hua lamçada que lhe deram per 
hua perna ; e vasco, criado de tomas nunez, feitor, o quall se nos finou, 
de corença, em goga, neste caminho bonde himos pêra canpanez, homde 
elrey de cambaia esta; o quall mamdou a malaqiaz qiue nos leoase la 
pêra nos ver; e, d aly, creo que me ham de mandar a nossa seaboría com 
ambaixadores seus, e creo que ha de mandar comnosquo huum mouro 
de grada, que.he limguoa amtre nos e eU6s;e deseja «ste mouro falar 
muyto com Mssa senhoria. Se eu foor» falarey ma}&lac^o.;Sâiiltor«^.Os 

* Nove. 
»Vint6. 
' Quarenta. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 305 

rroibes estam desbaratados de todo, d armas e de dinheiro e d artâlbaríd, 
porque melaqiaz lhe emprestou x5j^ serafis e tomou lhe, em premda, 
xxiiij' bombardas grosas, que traziam. A biij' de setembro, chegaram b 
ou bj^ naaos d adem, e deram por nova^que nam avia lã nova daffonso 
dalboqerqe, nem doutros rrumes que ajam de vir este ano. Nam se 
pode crer o medo que ham a vossa senhoria, de vir qua; porque acertou 
que pareceram dous çambuqos ao mar de dio, e cuydaram que eram de 
purtugali; e, logo naqela ora, se começou de despovoar a çydade de dio, 
atee que conheceram que eram da terra; e também dizem que, pois voso 
filho moreo, que nom he coussa sser de se leixar de fazer muyla gera este 
ano. Sobre jso, malaqiaz them as xxiiij bombardas grossas dos rumes, e 
majs them outras duas grossas, que mamdou fazer na terra, majs them 
dez ou àotb tamanho, como das tDfuyto com- 
prido, e majs them obra de çe<n bolnbardetas peqenas, e majs Uiem L.^ 
ou Ix^ berços dos nòsos,— rdeles trouxe das naaos que se perderam em 
cúria muria, e deles tirou da nossa naao, aguora; e majs tirou duas 
bombardas grossas e buum dos falcooes. Logo a primeira, como chegamos 
a dio, mandou nos perguuntar mialaqiaz se ssabia alguum de nos correger 
as bombardas grossas, que tomaram na nossa naao; e aluaro lopez (et 
logo huum camelo a bua d ellas, e majs dise que faria emjenhos pêra bom- 
bas. Tenho gram medo que se faça mouro, e mais quatro ou çymquo com 
elle. Melaqp^âz them xxx^ navios peqenos, pêra andar d arl[nada,muuylo 
rremeiros e veleiros ; e majs duas naaos que fez este jmvemo, dè duas 
cubertas cada huua delas, tanbem pêra amdat darmada. Fez este jm- 
vemo bda torre a mtrada da barra, demtro na auguoa. Thefti iiij®^ ho- 
mens d armas, a saber: abexís, alarves e oracanes e turcos. L(^o a pri^ 
meira, quando viemos, avia qua fama que se aviam d ajuntar todos rrex 
mouros da jmdia, e que aviam de hir sobre vosa senhoria. Jaa agOta nam 
falam sobre jso tamto, porque elles tinham por nota' (^ atiattf de uyr 
R^^ naaòs de rrumes, e agora them nova çería que nam ham de vir. 

^ Dtiesek mil. 

* Vinte 6 quatro. 
'Oito. 

^ Ghieo ou seis. 

* GÍD6oeiilft OQ sessenta. 

* Trínl». 

^ Quatrocentos. 

* Qoarenta. 

TOMO m 39 



306 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Nom diguo majs, porque nam tenho majs papel. Muaytas graças a deus 
pêra sempre. Ffecta oo lugar de gadahar, a x^ dias de setembro deb^biij^' 

Outro sprito veo, que dezia que em chauU ficou huum moco que 
chamavam esteuam garcta (?) vem. . . anno os rrumes, escondi- 
damente nova que era fecto mouro.' 



1609— Setembro O 



Dom framcisco d almeida, viso rrey das Imdias por el rrey, meu se- 
nhor, mando a uos, louremco de bryto, fidallguo da casa do dito senhor 
e seu copeiro moor, e capitam da forteleza de santanjel de cananor, qe rre- 
çebaes de martym coelho, capita moor (úc) d armada qe ora a damdar 
nesta costa, afomsso dalburqueque ("sicj, e o tenhaes na torre da mena- 
jem, sem que nenhua pessoa falle com elle; e teres tal maneira, que numca 
possa escreuer nem mandar rrecado a el rrey de callequt, nem de cochi, 
nem de cananoor, porque traz em gramde dano a o^ estado efazemdaa dei 
rrey, meu senhor. E, sse, peruemtura, louremco de bryto fiFor vyrado, per 
esta minha carta mando a qualquer capitan que na dita fortelleza esti- 
ver, que a cumpram e gardem como nela e contheudo. Feita em cochi, 
aos ix^ dias de setembro, era de 1509. 

(Por lettra de D. Francisco d^ Almeida). E, para o servyrem e fala- 
rem com ele, hyrão aquelas pesoas que vos bem parecerem. — (Por lettra 
de Arríonio de Sintra.) E eu, antonio de sintra, ho corregy — O vysorrey.* 

>Dez. 

> Quinhentos e oito. 

'Torre do Tombo— C. Ghron., P. 3.% Haç. 3, D^ K4. Acha-se rasgada a parte 
onde devia estar a assignatnra. Julgamos, cómtudo, poder afiBrmar que esta carta é de 
Antonio de Cintra, pois foi elle qnem substituiu Gaspar Pereira no cargo de secretario do 
vice-rei D. Francisco de Almeida. (Comentarioi do grande Afonso Dalboquerjue^ pag. 
172; Lendas da Índia, tom. i, part. n, pag. 887-889.) A confrontação da lettra d'esta 
carta com a de Antonio de Cintra^ na subscripçao do documento que em seguida publica- 
mos, postoque não decisiva, em consequência do restrictissimo numero de palavras que 
constituem tal subscripçao, mais confirma, do que invalida, a nossa conjectura. 

^ Segue a palavra omrra, de que foram riscadas as quatro ultimas lettras. 

5 Nove. 

•Torre do Tombo— C. Chron., P. 2.*, Maç. 48. D. 113. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 307 



1610— Outubro 6 



Do rreqaerymento e protestacam que eu, João maDcell, feitor da naao 
santa crara» que deus salue, de mjçer marco, alemaao, e fernam cbamoro, 
faço ao senhor affonso dalboqueque (sic)^ capitam moor e etc, vos, af- 
fonso chaino, espriuam da dieta naao, o (sic)f quallquer outro que pêra 
yso poder teuer, me dares huum e mais estromentes (sic)y se mester forem, 
en (sic) como seja verdade que o dicto senhor capitam moor, ho anno pa- 
sado, tomou a dieta naao per elrrey, e a ieuou consygou (sic)j d armada, 
a goa, onde esteue te ora; e gastou consygo e com as outras naaos, per seu 
mandado, os mentymentos (sic) que tijnba pêra seu toma viajem, como 
vinho, pam, azeito (sic) e outros mentymentos, e asy aparelhos e mujtas 
outros (sic) cousas, sem as quaes nom pode nauegar. Por yso eu peco por 
mercê e rrequere (sicj ao dicto senhor capitam moor, da parte d elrrey, 
pollos armadores, que ell (sic) me mando (sic) paguar os mentymentos e 
aparelhos e cousas, que, pollos liuros e oficiaees da dieta naao, se mos- 
trar que sam gastados no dicto tempo, em seruiço d elrrey, en dyneiros 
(sic)^ ou pymento (stcj, ou gyngyure, pêra comprar outros o ajudar a fa- 
zer a cargua da dieta naao, em loguar dos que trazia pêra fazer a cargua 
da dieta nàao, que gastey pêra compar (sic) bescuid (sic) e outros (sicJ 
cousas que sam necessairos (sic) pêra dieta naao, e auyamento de nosso 
(sic) vyage; os quaes o dicto senhor me prometeou (sic) mandar paguar, 
poque (sic)f se asy nom fyzer o dicto senhor, nom se poderá carguar a 
dieta naao compridamente, como elrrey mando (sic), e como os dictos 
armadores sam obriguados, e asy como podya bem fazer de premjero 
(sic) ; e convijra hir a dieta naao alguua parte, de vazia, o tomuar (sic) 
dynheiros em cambyo, pêra fazer a dieta cargua. E majs me mando sua 
mercê dar arrecadacam do tempo que a dieta naao seruio el rrey, per seu 
mandado, por esser (sic) pagua a dieta gente de seu solido, per elrrey, 
do tempo que seruio; e majs a parte, que vem na dieta naao, das presas 
que se fezerem (sic) neste tempo que andou com sua mercê, assy como 
prometeou; senom eu, sobrediclo João mancell, feitor, protesto os dictos 
armadores auerem, per a fazenda do dicto senhor capitam moor ou per a 
delrrej, o que dreito (sic) for, os dictos mentymentos e outras cousas. 



308 CARTAS DE AFFONSO DB ALBUQUERQUE 

a a moor valya que podyam valler ca, e o que poderyam rrender em por- 
tugall, como se elles fossem carguados na dieta naao, em pimento, ou 
outro (sic) mercadoryaSi copi paipbio^ e ffppambios que me necessairos 
forem pêra cargua da dieta naao; e asy mesmo o que de yazio for na 
dieta naao« com toda a solida da dieta jente, e o que poderyam valler e 
aproaeitar, em portugall, a dietas partes (sic) das presas que se fyze- 
rem no dicto tempo, de maneira que os díctos armadores nom rrecebam 
perda em cousa alguua das que o dicto senhor, per seu mandado ou 
causa delle, se guastarom; e majs rrequeiro ao dicto senhor que me 
manda (sic) dar parte das droguaryas, das que na terra ouuer, soldo a 
liuro (sic) do que couber na dieta naao; senpm, protesto de os dictos ar* 
madoires (sic) os auerem em portugall, asy como elrrey, nosso senhor, 
mando, per seu contrauto que teip feito aos dictos arrmadores (sic)^ com 
todas constas (sic)y perdas e despesas que sobre isso fezerem e rrecebe- 
rem. O qual estromento ou estromentes me dares, com rreposto (sic) do 
dicto senhor, ou sem ella, se a dar nom qujser. E esto dou, com protes- 
tacam de rrepricar, se comprir. Feito em cochim, a \>} ^ áisfi de outubro 
de 1510 annos. — J. Maneei.^ 



1610— Outubro 14 



Senhor — Porque as cousas da jndea sam tamtas e per tantas ma- 
neyras, que nunqua acabarya, brevemente nesta quero dar conta a ^osa 
alteza de alguas delias, que nesta forteleza de canenor aconteceram. 

Item — Primeiramente, eu prindj aquj hum creligo, per nome lopa 
saquo, que avera dos annos que tem aquj hua manceba com huin filbOi 
e ho mandey d armada, pollo apartar de sua conversasam; e pareçyama ser 
majs çerujço de deus e voso hirem d armada b ou bj' creligos que aqvj 
avia a este tempo, hirem d armada e confesarem a gente delia, que es- 
tarem na terra, com mancebas gordas. 

Item — Depois que este mandey, ()etrymjney de mandai outpo, da 
teor deste, e ho prindj, e tyrey b&a emqujryçam delle, e acheyo culpado, 

1 Seis. 

* Torro do Tombo— C. Çhron., P. l.% Maç. 9, D. 76. 

' Gineo ou seu. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 309 

qup noip era pêra çelebar (sic) mjsa, de jdjota, e, majs, avia três annos 
qu« tjnha bda manceba; e prououse que saya dos trymseyros, de noute, e 
qqe falaiia palauras de luxarya com os leygos, na jgeja (sic) ; e também se 
Ibe proQoa que bya a casa de hOa saa aãlba (sicj^ a mea noute e a trerça 
Doate (sic) e amtemcnhã, elle a casa delia e ella a casa d elle, e que era 
bêbedo, amte ora e depôs ora, que era mao viçjo pêra sacerdote; e outros 
mojtos vicjos se lhe prouaram, que nom eram pêra creligo. Pollo qnall, 
eu os vendo, com ho poder que tjnha de mestre djego, vigajro gerall, ho 
condenej pêra cacotora dos annos, porque me pareçeo ser serujço de deus 
e de vosa alteza. Pollo quall, elle asy preso, rrodrigo rrabelo, capitam, per 
mujtas vezes me rrogou, e me mandou rrogar, que ho soltase; e eu, vemdo 
seus crymes, ho nom qujs fazer, que nom era justyça; e, porque os capi- 
tens, nesta terra, se querem adorados como deyses (sic), como ja tenho 
esprito a vosa alteza, porque lhe nom qui (sic) fazer ho rrogo, me começou 
a malltratar de palauras emjuryos (sic)j chamando me rrapaz e sandeu^ 
per mujtas vezes, e outras mujtas palauras emjuryosas, que vosa alteza 
poderá saber per mujtos; e nam tam somente a mjm, mas ajnda a hos 
que commjgo partjcypauam, per mujtas vezes os enjuçyou (sic). 

Item — Me rrequereo que lhe amostrase os poderes que tjnha; e eu 
lhos amostrey, e me djse que^om valiam nada, e que lhe amostrase 
como era vigajro; e de tudo se rrio, e djse que, pois elle era capitam 
desta forteleza, elle tjnha poder em todos os da forteleza, asy leygos 
como (»*eligos; e, sem majs tardar, me tjrou logo de vigajro, e fez hum 
sen creligo, que nom sabe djzer mjsa. Elle fazia estas cousas, porque, a 
este tempo, ha capitam mor era em goa; e logo mandou soltar ho cre- 
Hgo que eu tynha preso. 

Item — Eu vendo estas cousas, as escryuja a ho capitam mor, e asy 
outras cousas que toquauam a voso çerujço, per huns bramjnes; e ho 
djto capitam ouue as cartas, e mandou ajuntar toda a gente da forteleza 
e as mandou ler pruujcamente pollo feitor, gonçak) mendez, asy as mjnhas 
cartas como as dos escryuens da feitory (sic)j que também mandauam 
cartas a ho capitam mor,^de cousas de voso serujço, nom oulhando que 
eram cartas do capitam mor, cerradas e seladas; mas fez isto com jmpeto, 
e por nos terem em conta de rrojs homens, porque escreujamos nellas as 
suas soberbas e maldades, que elle e seus saquazes tynbam feitas contra 
serujço de deas e voso; e, tanta que foram acabadas de ler, me mandou 
fmãàet e floeteF mu KiS^ ogea debaxo do cham, com hila grande adona, 



310 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

e asy a hos escryuens da feitorya, em outra logea; e nos teue aly ta que 
yeo ho capitam mor, sem nunqua vermos luz nem crerydade; e, tanto que 
fuj preso, me mandou tomar toda mjnha fazenda, e me mandou abryr 
mynbas arquas e bua boeta em que tjnba trelados de cartas que tenha 
(sic) escryto a vosa alteza, em secreto, de alguas pesoas, de cousas de 
voso serujço; e asy me achou na djta boeta bua carta çarrada e aselada, 
pêra vosa alteza, e abryo, e a leo, com os trelados da (sic) outras cartas, 
em praujco, a todo mundo^ nom oulhamdo a ho acatamento e obedjençya 
que deuy (sic) ter a seu rrey, senom somente por me defamar, e me 
dar muitos por parles contrayras. Esta cousa be mujto graue e fea, e, 
daquj avamte, nom ousara njguem (sic) escreuer a verdade do que se 
qua pasa a vosa alteza; e merece, por iso, grande castygo; e eu asy ho 
rrequeyro a vosa alteza que lho dee, que seja emxepro (sic) pêra os ou- 
tros capitens. 

Item — Tanto que chegou aquj ho capitam mor, me me (sic) mandou 
logo soltar; e, njsto, chegou jobam fernandez, vigayro gerall, e nom me 
qujs emtregar meu ofiçyo, mas, amtes, ho deu a hum frade, e djzem que 
ho peytou; nem qujs castygar rrodrigo rrabelo, que meteo a maam na ju- 
djçam (sic) da jgeja nem qujs castygar ho sobredito creligo, mas, amtes, 
este creligo, porque ho eu castygaua, como escreuo a vosa alteza, deu 
bua pityçam contra mjm a ho djto vigajro, djzendo que eu tynba feitos 
certos crymes; e isto por contepraçam (sic) de rrodrigo rrabelo e doutros, 
por me mascabarem a mjnha homrra e boa fama, que tenho, com mujto 
trabalho, nestas partes ganhada; e noso senhor, porque nom quer que 
os mãos camjnhos feitos sejam emcubertos, em me elle asy acusando, ho 
djto creligo, ho foram topar bua noute, os merynhos e seus escryuen» e 
homens, com bua molber casada, em bua cama, em braços, e seu marydo 
em outra, juito com elles, e os prenderam; e ho vigayro, em vez de ho 
castygar, mandou o pêra cochim e fello capeiam da djta jgeja, e ho li* 
urou «per aleam (sic) viam»; e asy a ho que eu mandey d armada, que 
tjnba aquj os blhos, também ho fez capeiam da djta jgeja. PoUo quall, 
por estas cousas que este vigajro começa agora a fazer, os leygos mur- 
muram grandemente; e be cousa mujto fea casarem agora os homens no- 
uamente, e ser logo achado bum creligo com bua molber casada ; e asy 
bo djto vigayro se faz mercador, que, logo aquj em chegando, comprou 
cento cymquoemta cruzados de panos^ pêra vender; e asy fez bum seu 
fílbOi que qua amda, merjnho dos crebgos; e bo pay julga e ho filho leua; 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 311 

e isto, jujto, be qua também mujto feo. E asy que estas cousas e outras 
mujtas começa ja fazer este vigajro: fauoreger bos rrujs (sic) e dar lhe 
ofícyoSy e pesigujr (sic) os que leallmeute sempre seujram (sic) e prega- 
ram a verdade. Porque, senhor, se eu ligomgase (sic) com os capitens e 
os louuase, oom averya outro homem seuom eu; majs eu vou lhe a maam 
nas cousas que toquam a voso seujço (sic)y e por iso sam persegjdo. Po- 
rem, bo capitam mor tem mujto bom cudado (sic) dos que bem seruem vosa 
alteza, e elle me djse que me rrestorya (sic) a meu ofyçyo e bonrra; e, 
a feitura desta, vou com elle n armada pêra goa, porque me parece que 
todo homem que deseja serujr vosa alteza, asy deue de fazer; porque 
ínujto toqua a voso serujço e bonrra lançarmos estes rrumes fora da jn- 
dea; e, da vimda emboora que vier, me fíquou de me tornar meu oficyo. 

Item — Eu certyfiquo a vosa alteza que bo capitam mor nom trás a 
vomtade nem bo corraçam senom em serujr vosa alteza leallmente, como 
bom vasalo, e em acrementar voso estado e fazenda; e njsto estuda djas 
e noutes; e nom crea vosa alteza alguns que vos djgam bo contraro (sic)j 
que bo djzem com emveja que lhe tem« e por vos serujr. Se algum be agra- 
uado d elle, be por suas soberbas e maldades, que elle nom lhas con- 
simle; porque juro que be qua tanta a samdjçe nos homens, que, grandes 
e pequenos, todos sam primçepes, e nom se contentam ja de ser capitens 
de naujos, senom de fortelezas. 

Item — Â feitura djesta, nesta forteleza, em obra de cymquo meses, 
se quasaram e justaram (?) oyto casamentos ; e dou conta d jsto a vosa 
alteza, porque deue de tomar prazer com jsto, porque este be bo camjnbo 
pêra se a jndea manter. 

Item — Âcerqua dos cbristons, cjmquo ou sejs moços que eu tjnba 
emsinadòs a ler, ajudar a mjsa, e asy bos homens e molheres, como eu 
fuj preso, tudo se perdeo; e outros fugjram pêra os mouros; que tanto 
amor, acatamento, me tem, como a pay; e, des bo primcjpeo de mjnha pri- 
sam a bo presemte, que ha sejs meses, nunqua se majs fez nenhum 
fruito, e tornaram se a nosa fe muj pouquos christaãos, bo que nom fazia 
damtes, como todos sabem. 

Item — Hua cousa deue vosa alteza, la em purtugall, defender; por- 
que, quando vosa alteza cujda que manda qua mjU homens, nom manda 
duzentos; porque vem qua mujtos cbristoons nouos, e nom vos fazem qua 
nenhum serujço; e asy vem qua mujtos moços que nom pelejam, e ho- 
mens manquos de pes e maans, e velhos que nom se podem ter; e leuam 



312 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

bo soldo e maDtjmento, e nom no merecem nem seruem; e asy ha qna 
mujtos homens doemtes, ha três annos e quatro, e, deles, sam marynhei- 
ros, e doutros oficyos de majs soldo; e leuam tudo por em cheo, e oom 
seruem;^ se querem jr, se hos nom mandarem per força. E, njsto e em ou- 
tras cousas, proueja vosa alteza; e, se quer soster a jndea, mande boa 
gente que a defenda, que, com ho soldo que estes leuam de vazio, viram 
qua outros. A carta que eu tjnba, cerrada e aselada, pêra vostf alteza, que 
abrjo rrodrigo rrabelo, asy a mando aberta, emborylhada etn bum p«- 
pell. Feita a xiiij' djas dotubro, de qujnhentos e dez. 

Beijo as rreaes mãos de vosa alteza. — Julian nunes. 

(Sobrescrípto) — A elrrej, noso senhor — Do vigajro de canenor.^ 

(In dorso) — Do vigairo de cananor. — Ja. 



1610 



Do rrequerymento e portestacão que eu, afomso rrodrígniz, feitor 
do navio samto amtonio, faço ao muito homrado Lourenço de payua, se- 
cretario e esprevão dos negócios e cousas damte ho senhor afomso dal- 
borqueque fstcj, capitão mor e governador das jmdias por elrrey no se- 
nhor (sic) — vos, homrado esprevão ou tabelliam, me dares os estormen- 
tos que necesarios forem, em como seja e he verdade que eu fiz huuia 
rrequerimento ao dicto senhor capitão mor« sobre ho que compria ao dieta 
navio e armação delle, e lho apresemtey a xb^ dias do nies de maFCO 
deste anno de b*x,* estando elle, Lourenço de paiua, de presentei ao quall 
rrequery, peramte muitas testemunhas, que, a seu tempo, nomeâreyy se 
neeesario for, que, com a rreposta que ho dicto senhor caipitãomor aiy 
loguo deu, e com outra, se a dar qujser, ou sem ella, me dese logiio bum 
estormento, e quantos me necesarios fosem^ pêra guarda e conservação 
de meu djreito e justiça e dos armadores do dicto navyo. E elle leuou ho 

1 Fureee faltarem aqui as palirrras— ^ nom. 
^ Qnatone. 

3 Terre do Tombo— G. Chron., P. l.\ Maç. 9, D. 3B. 
^ Sem data^ mas evidentemente de ISf O, e posterior a i5 de março. 
^ QaiDze. 
: * QmabêntM e de». 



DOCUMENTOS ELUGIDAUVOS 313 

diclD rreqÊetyminío e me dite qse me daria tío$ dietos estormefitos ; e, 
como quer que, por muitas vezes, lhos rrequerese, nunca mos quja dar. 
Pdk> quatt, eu Ibe rreqoeiro, da parte delrrey, no senhor (sic)f e dos ar- 
madores do dicto naviO; q»e me dee loguo os dietos estormentos, com bo 
tecHT do dicto meu rrequerymento» e com todo bo que se ahy pasou, quando 
lho apreaemtey; e, nam me querendo elle, dicto louremco de p^ua, dar 
loguo os dietos estormentos, eu protesto de aver, por elle e soa fazenda 
ou por quem djreito for, todas as perdas e danos que bo dicto navio e 
armação rrecebeo e rreceber, por bo dicto capitão mor trazer comsyguo, 
d armadaf e asy os emlereces e ganhos que bo dicto navio e armação po- 
derá ganhar» e todo bo que em bo dicto meu rrequerymento se comtem 
maja largame&te. E a vos, esprevao ou tabeiliam, peço que me des buum 
e qoamtos estormentos me necesarios forem pêra guarda e coreservacão 
de meu djreito e justiça e dos armadores do dicto navio ; e, majs, de còno 
éíh dea^iia seu e6áo a vay cemtra bo rregymento deirrey^ aoaenbor, 
porque a três dias lhe manda que dee bos estormentos as partes qm 
Ibos pedirem. E pefe as pessoas que forem pressemtes, que disô me se- 
jam (eslem«»bas« 

(h (Jofsoj*^Bfequerifflento dafonso rrodrigvyz, feitor do navio sant 
antoneo. ^ 



1610 « 



Carta de lourenço moreno e de diogo pereira^ 
de xx^ éia$ dê dezembro de ¥xi^ 

ken — Que, emquanto vosa alteaa Ia teuer capitam» daseemio, nam 
mamde outro capitam moor, que vaa ysemto deito; e aponta» as desof^ 
dsea quê d is^ se sypram^ que diz que se nom coregeram em dez annos. 

» Torre do Tombo— C. Chron., P. 2.', Maç. ií, D. 43. 

' Os sammarios que se seguem» bem como os publicados a pagina 4i9 e seguintes 
do tomo X d*esta serie (i das Cartas), são da lettra de António Carneiro, secretario de 
Estado d*el-rei D. Manuel. Formam um caderno iii^/bi,— com capa de pergaminho^— de 
onde foram cortadas onze folhas. As cartas summariadas estão comprÂenétdaB entre os 
annos de ISIO e 1512. 

•Vinte. 

* Quinhentos e dez. 

TOMO m. 40 



314 CARTAS DE ÂFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item — Falam nas licenças que vos alteza daa aos capitães, pêra le- 
uarem especiarias. 

Item — Faliam em desordens que diz que faz afonso d alboquerque 
nas cousas da fazemda, que diz que sam mais que as do visorrey; e to- 
cam ysto asy em geral., sem parlicolarizar ; soomente dizem que fez muy- 
tos ofícios, e todos com soldos; e que as presas nom vem a lume. 

Item — Que ha by muytos ouuidores, meirinhos e justiças, sem 
nunca se fazer justiça de nymguem, matando se cada dia bomeéns huuns 
os outros. 

Item — Que nam leixa vijr os homeens, e que se lançam com os mou- 
ros; e que toma as nãos da carega de vosa aheza, sem neçesidade. 

Item — Que ha la gramdes despesas; e que, em cochy, soomente 
nas cousas dalmazes e mantimentos, se gastam, por mes, ^, IJb^^ cru- 
zados. 

Item — Agrauam se dos muitos desembargos que vosa alteza la manda 
pagar. 

(Na margem: — Ja. — Que os que forem agora e ao diante, sopri- 
mento, primeiro, pêra os sólidos e pêra a carega e mantimentos; e, de- 
pois, bo ai; e, quamdo se pagarem, se paguem soldo, aluaras, gardados 
os tempos.) 

Item — Faliam na perda de goa, em que diz que se perderam pasante 
de V cruzados, afora artelharia. 

Item — Que, de cufalla, nom vay nenhuum ouro de vosa alteza; e que, 
no anno de b^x,^ trouxeram a jmdia, os que de la foram, mais de xxx ^ 
meticaes. 

Item — Que, na armada de duarte de lemos, se fezeram muytos rrou- 
bos, em presas; e que se faca ca ynquiricam, e se prouejam beem as com- 
tas dos ofíciaes, porque joham de bellas, feitor e secretario, rrecebia e 
despemdia sem spriuam. 

E que duarte de leemos, de huua presa dbuum cambuquo, tomou, 
de joya, íllj^ arráteis dalaquequas, que vallem muyto djnheiro. 

Item — O matar das vacas, que se fez das naaos de duarte de leemos, 

1 Dois mil, doÍ8 mil e quinhentos. 

^ Cem mil. 

3 Quinhentos e dez. 

« Trinta mil. 

' Quatro mil 



\ 



-^ 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 315 

em cochy, de que se muyto agrauou, e agraua, el rrey, e diz qae a el rrey 
de Calecut se nom faz tamla guerra, como a elle. 

(Na margem: — A ruy gomez, que saiba disto. — Ja.) 

Item — Como ouueram por seruico de vosa alteza ser rrey de cochy 
este que ho era; e apontam, as rezões pêra yso; e que assy o deue vosa 
alteza aver por beem. 

(Na margem: — Que fezeram bem. — Ja.) 

Item — O arei de cochy, que se tornou cbristão, com seus jrmaaos e 
molher; e que terá de sua jurdicam pasante de mil homens, os quaes se 
vaão todos fazemdo chrístãos; e que duarte de lemos e gonçalo de se- 
queira lhe deram, em nome de vos alteza, o priuylegio e omrra que lhe 
tynha dado elrrey de cochy, sobre o mamdo e castigue de sua jeente, 
d aqueles que se fezesem christaos ; e que vosa alteza Ih o deue mandar 
outorgar, e spreuer a el rrey de cochy sobre ello ; o qual diz que rrecebeo 
disto gramde magoa, e que ho nam podem amansar. 

(Na margem: — Foy carta ao arei, do prazer; e carta a elrrey de 
cochy sobrjsso. — Ja.) 

E que a este arei emvie vos alteza muytos fauores, por abrijr este 
caminho. 

Item — Que se fazem muytos nayres christaos, e viuem na pouoacam 
dos christaos; que veja vosa alteza o que se fará com elles e com os mais 
que se fezerem, porque ho costume deles he darem lhe soldo aqueles com 
que vyueem, que o mais caro he meo fanão por dia; e que eles lhe pe- 
dem de comer e nom lhe dam rreposta ; e que lhes parece que ham de 
seer tamtos, que montara mais soldo neles, que nos vosos que la am- 
dam, tomados por afonso dalboquerque. 

(Na margem: — Ja. — Ate íj}^ naires, de comer cadanno, nom pa- 
samdo de meio fanao por dia, seruindo eles em toda cousa, asy no mar 
como na terra, e sendo homens de bem; e, vagando alguuns, entrem ou- 
tros em seu lugar, semdo christaaos.) 

Item — Que ho mantimento de xiiij' rreaes que se daa a geente que la 
amda, lhe parece pouco, por a terra ser cara e o hijr seemdo cada vez mais. 

(Na margem: — Ja. — O que parecer hao capitam; aquelo querrezoa- 
demente lhe parecer que abastara.) 

E que lhes parece que serya mais voso seruiço nam aver mantí- 

> Três mil. 
'Qnatorze. 



316 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

mento DenhaSa geente da que estaa daseoto em teerra, e acrecentarihe 
amtes os soldos e mamdar que se lhe pagase aos quarles; e, ajmda que 
nam fose todo, parte d elle, pêra se poderem manter, porque, em ee estes 
mantimentos pagarem eada mes, diz que rreleua muito. 

(Na mar^Mi:-^ Ja. — 2:500 eruzados.) 

Item — Que as quatro nãos de mal laca nom pagaram aquele aono, 
por asy parecer bem ao capitam moer e aos capitães, por a armada ser 
fraoa; e ficaram pêra partjr em abrill de b^xjS e jrem eom ellas outras 
iiij ou b* nãos de vos alteza; e, pêra yso, ficou a nao denxobregaa. 

E que lhes parece que, leuamdo as noso senhor a saluamento, come 
e^ram, que faram la muyto seruico a vos alteza. 

Item — Que djogo pereira vay por feitor desta armada, por lhe pa- 
reoer que fazia mais seruico a vos alteza, do que na spreuaiiínba da féi* 
torya, e também pêra la ficar por feitor, se rruy daraujo for faleeido, ou 
ho nam quyser seer; e que ysto se fez asy por parecer beem ao capi« 
tam moor. 

(Na margem: — Que he bem. — Ja.) 

Item — Que ha três spriuaaes na fey torya, posto que vosa alteza orde- 
nase dous, porque nam se podem escusar; os quaes sam: lopo femaodez 
e garcia cbaynho e joham aluarez de caminha, que era almoxarife. 

(Na margem : — Ssy . — Ja,) 

Item— Que os liuros dos soldos deuem senpre amdar eom o eaf^taa 
mor, asy da geente do mar como da terá. 
• (Na margem: — Sy.) 

Item «^ Que os seguros que vosa alteza ordenou que se dêem petos 
feitores, lhe parece bem ordenado, porque se segura milbor o que os moN 
cadores deuem a casa; e, mais, que nam sayra eambuco qM nam leue 
sua parte de mereadaría fyada, ha pagar em pymenta. 

(Na margem: — Que faca aíTonso dalboquerque o qiie llie parecer 
mais seu seruico. — Ja.) 

Item— Lembram ynquiricOes das espiciarias que tempresuucam que 
vieram nestas nãos, espicialmente da conserua de duarte de leomos. 

Item— Que nam deuc vosa alteza dar liccmca das camarás d espicia- 
rias, saluo de pymenta lai, porque ho ham por muy gnmde jncomvmy- 
mia a voso seruico. 

> Quinhentos e onze. 
^ Qualro oq cinco. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 317 

(Na margem^ abrangendo este tiYmt» e o anterior: — Que asy se 
(ara. — Ja.) 

Item — Os cento quintaes que trazia gonçalo de sequeira. 

(Na margem: — Ja. — Que asy se fará.) 

Item — Dous alifamtes que emviaram; a saber: huum, que emvia el 
rrey de ooehy, de serutço; e outro, que compraram por ijMj* cruzados; e 
qoe elrrey de cochy deu, pêra virem com eles, dous naires. Que sejam ca 
beem trautados e lhe faca vos alteza merçe, porque com esta esperança 
vieram ; e que se tornem' ate nam lerem bem ensynados os alyfamtes, e 
dícipolos fectos, que com eles íiqueem. 

(Na margem: — Carta a elrrey de cochy, de gradecimento. — A el 
rrey de cananor. — A elrrey de melinde. — Ja.) 

Item — O mudo, naire, que também vêem, que seja beem trautado e 
rreceba onrra, e que se torne nas primeiras nãos. 

Item — Que, aos alifamtes, nam ponham em cyma outra carega senam 
homens. 

Item — A careçam das lij' nãos. 

(Na margem: — Gradecimento, e que todas vieram. — Ja.) 

Item — Ha lembramca que dam das naaos dos mercadores. 

(Na margem: — Ja.) 

Item — Pedem licença pêra fazer hufta naao, pêra virem nela, e com 
o partido que faz aos mercadores. 

(Na margem: — Escusado. — Ja.) 

Item — O que fallou a elrrey de cochy sobre as espiciarias; e que 
eUe e os mercadores se afyrmaram que as avmam ; e dle espera em deus 
que Tosa alteza seja bem seruido, sem embargo da desordem que ha 
nelas. 

(Na margem: — Que lho encarega.) 

Item — Que nam vaSo nãos de mercadores, como vosa alteza lhe dise. 

Item — Nam estam bem com o fecto de goa. 

Item — Que os capitães das naaos nam querem trazer os homens do^ 
emtes e que la se aleigaram em voso seruico, e trazem as naaos carega- 
das descrauos, que he grande crueza; e, se allguum trazem, he por peita; 
e que ho proueja vosa alteza. 

t Duzentos e dois. 
* Aliás, $t não tomem. 
'Doze. 



318 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

(Na margem: — Ja. — Ao capitam, que nam venham escrauos, saluo 
os da licença; e venham os homens, saluo avendo necesidade, ou aqueles 
que forem asoldados, ate numero certo.) 

Item — Que lhes parece que a estada do capitam moor em goa darya 
estoruo a partida das nãos de malaca. 

Item — Ham por cousa de muyto voso desseruico nam terem vosos 
ofíciaes poder sobre quem carega vosa fazeemda; porque, ajmda que nyso 
lhe vejam fazer cousa que nam deuam, e a vejam perder, nom lhe podeem 
valler. 

(Na margem: — Que avisem. — Ja.) 



Outra carta de lourenco moreno. 

Item — Diz o pomto em que achou as cousas da terra, a sua chegada, 
e cam desauiadas. 

E a caregacam das xij ^ nãos, que fez, e com quamto trabalho e fa« 
diga sua; e que a nao demxobregas nam emviou caregada, por se nom 
poder mais fazer; e que espera em noso senhor de a emviar beem care- 
gada, o ano que vêem. 

(Na margem:— Qne nom ha de tornar, senom ajudar, e nom tome 
achaque.) 

E que, da desordem da carega destas naaos, nam tem culpa, por- 
que tudo vos alteza rremete ao capitam moor. 

Item — Que, pêra fazer vos alteza rrico, como diz que lhe dise que ho 
fezese, avia mester nom teer nenhuum soperyor; e que, emtam, elle fica- 
ria em culpa, nam ho fazemdo; etc. 

Item — Diz das gramdes despesas extraordinárias da jmdia; e reporta 
se, nisso, a lourenco de payua, a que vosa alteza diso pergunte. 

Item — Lembra que escolha e enleja vosa alteza booas pesoas, e que 
vos queyram beem, pêra a gouemança das cousas da jmdia. 



iDote. 



V 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 319 



Carta de gonçalo memdez, feitor de cananor. 

Item — Qae^ trazemdo vosâ alteza armada de R^ naaos na jmdia, nam 
leixaram de sair de callecut para meça xxiij^ nãos, em que foy gramde 
soma de pimenta e três mil babares de gemgyure, o qual valleo em cal- 
lecut a ij^i' fanOes o babar; e que, a esta causa, nom pode ser tam bem 
seruido de seus oGciaes, pois nam podem pasar suas bordenanças. Diz ysto, 
pello preço do gengyure. 

(Na margem:— Gradecimentos e lembranças, e que elle trabalbe no 
gengibre; e rrecado, que vay, do preço.) 

Item — Que comprou, aquele anno, mjl quintaes de gemgyure, acxij* 
fanOes o baar, paguo todo em mercadorias, pelo concerto que fez com el 
rrey de cananor. 

Item — Que se pasem as armadas ao cabo de gardafuy e a boca do 
mar roixo, pêra se carrar calecut, e virem as naaos, com as mercadarias e 
espiciaryas, ba vosas feitorias ; e que, d outra maneira, nam será vos al- 
teza seruido, nem avera, da jmdia, mais que pymenta. 

(Na margem, abrangendo estes três «ítews»; — Ja.) 

Item — Que se nam leixam vijr os bomens de la; e que, quamdo lei- 
xam vijr alguudl, Ibe fazem dar outros por sy, que Ibe custa cada buum 
dez e vijnte cruzados; e que, a esta causa, se lançam com os mouros, mui- 
tos. Que o proueja vos alteza. 

E também prouisam como venbam de la os doentes e que nam po- 
dem seruijr, e de que os spritaaes estam cbeos. 

(Na margem: — Que nam rrecebam omem que seja dado por outro 
pêra servijr.) 

Item— Âgrauase de o mandar vijr vosa alteza amtes do tempo, e 
alega como tem bem serujdo. 

(Na margem: — Asy como bo mandou, ate vijr rruy daraujo etc.) 

E lembra a vosa alteza que be muyto voso seruiço estarem la vosos 
oSciaes muyto tempo, e nom pouco. 

^ Qaarenta. 

* Vinte e Ires. 

3 Diuentos e dez. 

* Cento e doze. 



3â0 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item — Os homeens deirrey de cambaya, qae trouxe daarte de lee- 
mos, e que nam quis dar ao mesegeiro d el rrey de cambaya que trazia 
os homes, e recado dei rrey pêra eiB?iarem pelos outros; o que diz que 
foy cousa de muylo gramde voso desseruiço. 

(Na mar jjfem;— Mandado a rruy gomez, que os aja, e enlrege na 
strebaria. — ^Ja.) 

Item — Os oauios que se tomam dei rrey de eaoanor» da que rreeebe 
gramde agrauo e escamdallo, etc. 

(Na margem: — Encomendado ao capitam, que dará Cee e a ver- 
dade.) 

Carta de rrodrigo robello. 

4 

Item — O que diz aeerqoa dafionso dalboquerqiie, ^e ¥om ^ 
teza vio. 

Item — O aflerato que fez com d rrey de eaoanor, sobre o dar do 
gengyure e das outras mercadorias. 

Item — Como lhe parece que estaa elrrey de cananar aaemlado em 
Yoso seroico, e como se yío co» bo capitam mor e fiearam em graflide 
amizade e concerto. 

(Na margem: — (kadecimento ; e oiioe prazer de sua yda, e que dará 
eeola de sy.) 

Item — As naaos que sayram de calecut pêra meca^ afo^ anaa. 

Item — Que vosa alteza deue mamdar destruir calleeut, e iMer far- 
teleza em huua pomta, que tem, rnuyto disposta pêra yso, ele. 

(Na m^argem^ abrangendo todo o ^ummeario: — Ja.) 



Outra carta ma. 

kem — Como bo mandou chamar be capitam moer a gaa, e entregar 
a forteleza a manuel da cunha; e que bo letxa em goa, e o qie espera 
fazer, por voso seruiço, nella. 

(Na margem : — Ja. ) 



í^ 



DOCUMENTOS ELUaDATIVOS , 321 



Ouíra carta de dmrte teixeira, que cstaa por feiíor em melinde 

Item — Diz nela a mercadoria que daly vem nestas naaos, e a que 
Ha fiea; e que lhe parece voso seruico aleuamtarse daly aquela feitorya. 
(Na margem:— h. — Escusado.) 



Outra carta de diogo vazy feitor de mocambique 

(Na margem: — Escusado.) 

Item — Diz a causa por que nam eram saidos de mocambique os ho- 
mens» como vosa alteza mamdou. 

Item — Diz muyto mal do xarife que ca veeo; e que merece gramde 
castiguo. E que a geente com que se perdeo aluaro fernandez, nunca os 
matou, senom buum yacob, geemrro do dito xeque. 

Item — Que ha terra, asy amgoje como mocanbique^estaa aleuam- 
tada e nam querem dar nenhuuns mamtijmentos; e, a esta cansa, o ca- 
pitam moor, com conselho dos capitães, hordenou que ficasem em mo- 
cambique xxi' homens, pêra segurança daquella casa; e que a elle pa- 
rece asy muito voso seruiço. 

Item — Pede que ho mande vos alteza vijr. 

(Na margem: — Escusado.) 



Duas cartas de yoõo d avUa 

Item — Diz do muito prazer que ouue elrrey de camanor (sic) com 
a carta de vosa alteza, e como foy lida e apregoada com trombetas nas 
rruas de caoanor, e posta na mizquita dos mouros. 

Item — Que, sobre ysto, se lhe tomou huum zambuco, com seguro do 
capitam rrodrigo rrabelo, por dizer que leuaua dous marinheiros de ca* 
lecut, de que se rrecebeo gramde escamdallo; e que o recebem muy maior, 
por ver tam mal gardar os mamdados de vos alteza. 

1 Trinta. 

TOMO lU 4 1 



322 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item — Que, por a deferemca que ha amire elrrey e o primcipe, vosa 
alteza mamde ao capitam que emtemda onestamente em suas amjzades; e 
que seu consselho he ter se amizade d elrrey, voso capitam, porque he 
pêra viuer rauyto, e o primcipe he gafo e ha de viuer pouco. 

Item — Que, aliem do que tem emviado elrrey a vosa alteza, cree 
que estaa em detriminacam de lhe mamdar huum colar rrico, e dous ho- 
mens seus, pêra negociarem com vosa alteza seus negócios; no qual colar 
se faz a gramde presa; e que cree que folgara vosa alteza muyto de o ver. 

Item — Que folgou muyto com o que vosa alteza lhe emviou. 

Item — Que se jgraua el rrey de cananor dos zambucos da corda, que 
lhe tomaram, os quaos lhe depois mamdou tornar o capitam mor, e pagar 
a corda, e o dano que lhe fezeram em huua sua ylha; e moca moura que 
se fez christaã por força. 

Item — Que se agrauam muyto de se vemderem os que se tomam nos 
nauyos; e que o costume de la, da jmdia, he, aos ladroes, tomarem lhe 
as fazemdas e soltarem nos; e que, de os verem a nosas gentes em fer- 
ros, rrecebem gramde escândalo. 

Item — Que lhe parece mal a gueerra na ymdia (diz joham daavilla). 

Item — Que se garde o estreito de meça, porque nisto consiste (diz 
elle) todo voso seruiço; e muita paz com os jmdios e leixalos nauegar 
francamente, porque, cmlam, viram todas as mercadorias a vosas feiloryas. 

Item — Que, armadas e partes, he muyto voso desseruico, porque 
todos desejam presas e partes ; porque, em tomar, he o fumdamento, ora 
seja de boom titolo, ora de mao ; e que capitam ha hy que diz que nam 
vay a jmdia, senom a ganhar. 

Item — Diz do cometimento que se fez a elrrey de cananor^ da parte 
do capitam mor, que lhe desse b^ cruzados e a jurdicam dos mouros; e 
quamto d isso se escamdalizou ; e que nam sam estas as cousas com que 
se ha de segurar a jmdia. 

Item — Que pede elrrey de cananor a vos alteza que mamde ao capi- 
tam da forteleza que nam dee carta de seguro, senam por seu mamdado 
e requerimento; porque, com ysto, apertara aos mouros pêra todas as 
cousas de voso seruiço, que lhe sam rrequerydas, e que elle nam pode 
aver ssenam das mãos dos mouros; e lambem pêra aver deles alguas pei- 
tas, e que será em satisfaçam do que perde nas mercadarias da teerra, 

^ Cioco mil. * 



^ 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 323 

que dâa, e nas de portugal que lhe sam dadas, e do direito dos caualos 
dormuz, que perde. 

(Na margem: — Ssy. — Sprito a afonso dalboquerque; e veja o que 
lhe parece seu seruico, e, o que parecer, faça. — E os amigos, gardada 
muito bem amjzade.) 

Item — Que lhe dee os ditos seguros dos zambucos que navegarem 
desde terra de callecut ate cananor e desde batecalla ate cauanor, porque, 
daqui, tirara elle muito gengyure e tolhera que nam vaa a callecut; e 
avera, nisto, xxb^ legoas; e que, fazer lhe vosa alteza esta mercê, será 
boom enxempro pêra os outros folgarem de serujr. 

(Na margem: — Ssy, Que os posa dar, nom ymdo aos lugares que 
forem desseruidores delrrey, e aos naturaes e estantes de seu senhorio, 
e asy aos que vierem de fora, que em seu porto tratarem, que nam forem 
de lugares que eslem em desseruico d el rrey.) 

Item — Pede a vos alteza huum anel douro, em que estee escolpido 
o sinal de vosa alteza, pêra com ele dar os ditos seguros. 

Ho parecer de yoão davilla, he que vosa alteza lho nam deue fa- 
zer; e que os seguros se nam dêem, senam pello voso capitam; e que, 
posto que seja cousa de grâmde sogeicam, nam se pode, pelo que com- 
pre a voso seruiço, ai fazer; porem, que os ditos seguros se deuem dar 
a todos, como forem de fora do estreyto. 

Item — Diz que elrrey de cananor, e asy o gouernador, fazem agora 
milhor as cousas de voso seruiço, do que soyam; e que ho governador 
folgou muyto com a carta e com ho que vos alteza lhe mamdou dar; e que 
começam a tratar gramdemente e ham de ganhar muito dinheiro. 

Item — Diz que ha hy huum mouro, gramde mercador e muito rrico, 
que se chama muça mame, que he homem que tem quasy todo o trauto, 
asy dos mantimentos como das mercadorias. Diz que lhe deue vosa alteza 
mandar spreuer, fauorecemdo, e encaregamdo lhe ho gemgyure e as cou- 
sas do trato, e mandar lhe algua mea peça de gram, ajmda que elle ha 
nam aja mester. 

(Na margem: — Sy. — Carta. — Ja.) 

E também asy a outro mouro, que se chama mamaly, que he justiça 
dos mouros. 

(Na margem : — Carta. — Ja. ) 

* Vinte e cinco. 



324 CARTAS DE AFFONSO DE. ALBUQUERQUE 

Item — Diz que, do gemgyure, lhe parece que ha vosa alteza de ser 
seruidO; cedo, de lodo o que quyser, porque vee a cousa emtrar em toda 
bOa ordem. 

Item — Que se faz muylo gemgyure; e que as naaos de meça leuam 
grande soma delie: diz xx^ quintaes. 

E que, emquamto a nauegacam de meça esteuer em pee, nunca 
boom bocado se comera da jmdia ; e que a armada de vosa alleza ho nam 
tolhe, como lhe tem drcto. 

E diz das R* nãos de vos armada que estauam em cananor, e xxiij' 
em callecut, que caregaram. 

E que as nãos e armada de vosa alteza se deuíam comer de bicho 
no estreito e dentro em calecut, no seu porto, que nam andando de porto 
em porto. 

Item — Que batecala daua mil fardos daroz, de parias, e agora nom 
daa nada; e frecharam huua lingoa que la foy; e ao capitam mor nam 
quyseram dar nada, seemdo huua cousa tam necesaria pêra as cousas 
da jmdia, asy de mantimentos como pêra se despemderem as mercadorias. 

E que as cousas se^ demenuynjndo ($ic) muito, e os jmigos vaão 
cobrando força; etc. 

Item — Diz como vay a malaca, por feitor das naaos, e as mercadarias 
que leua; e que espera de vos fazer muyto seruiço; etc. 

Item — Diz das drogas que trazem as naiaos dos mercadores; e que 
se espamta de lourenco moreno, porque ho nam dizia eie asy ca. 

Item — Pede que, se ia fallecer em voso seruico, mande vosa alteza 
dar sua fazeemda a seus jrmãos. 

E que lhe mande vosa alteza la pagar, em desembargo, xxiiij^ quin- 
taes de pimenta, que veo a quarto e vyntena, em samtiago. 

Em outra carta sua, diz que o trauto da jmdia he muy daneScado, 
e tanto, que he cousa de marauilha; porque nam nauegam nãos daquelas 
partes que Irazem as mercadorias proueitosas e leuam as nosas. 

E que esas nãos que navegam da terra, nam tratam, senom mer- 
cadarias cines, que sam cocos, e arccas, e outras baixas. 

* Vinte mil. , 

' Quarenta. 

^, Vinte 6 três. 

^ Falta aqui, evidentemente, a palavra — võo. 

^ Vinte e quatro. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 325 

Que nam navegam nãos de malaca, camotora, bamgalla, e ormuz, 
e do reyno de cambaya, e doutros muylos lugares que traziam as mer- 
cadarias proueitosas. 

E, que se posa dizer que, nauegamdo estas nãos, serya yncomve- 
nieníe, porque vazariam as espiciarias pêra suas terras, que ho nom crea 
vosa alteza, e que aja por certo que nam vos pode daneíicar, senam as 
espiciarias que emtram pella bocia do mar roixo; e que nisto se deuia 
dar rremedio, e nam amdar de cananor pêra chaul epera cochy^ aos figos 
frescos, e pam mole, e galinhas, e moças, ele. 

E que ho rremedyo he estar vosa armada no porto de callecut, como 

atras diz, e na sua barra, pêra que nemhuua naao nom emlrase nem sayse; 

*e esto avia de ser desd agosto ate abrill; porque, se aly esteueram, nam 

emtraram as nãos o anno pasado, como emtraram^ estando R^ nãos no 

poirto de cananor, de vos alteza. 

Item — Que os mouros dizem claramente que, se se nam tolher a na- 
vegacam das nãos de meça, nom poderam dar tamto gengyure; e que el 
rrey de cananor mandou dizer por ele a affonso d alboquerque que po- 
sese duas nãos sobre a porto de callecut, e que lhe daria EJ' quintaes de 
gengyure. 

Item — Falia nos capitães moços que amdam n armada. 

Item — Geente doente e de pouco proueito, que gastam soldo e que 
nam leixam vijr pêra porlugal. 

Item — Falia acerqua do rrey nouo de cocbim: que será muyto voso 
desseruico, se emtrar, por ser todo dei rrey de calecut. 

Item — Falia em elrrey de callecut: que comete paz e que nam ha 
de dar lugar pêra forteleza; e que vem agora a elle mais nãos de meça, 
do que nunca. 

Item-^Que ha forteleza de cananor se faz forte, e asy a de cochy. 

Item — Que tioham noua da vijmda dos rrumes. 

Item — Que vali a pimenta, em ormuz, a IR' serafijns,e asy as outras 
drogarias e especiarias pello semelhante; e que se afyrma que ganharia 
mais vos alteza em a vemder a eles, que manda la vijr a portugalL 

E, em adem, muita mais vallia que em ormuz. 

Item — Que, em cananor, se obrigam mouros a vos alteza de fazer 

* Quarenta. 
^Seis mil. 
' Noventa. 



326 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

dar o dobro do ganho da jmdia, se as suas naaos leuarem a especiarya 
Ia, a se vemder; e asy tudo em serafijns. 

liem — Que se casam muitos homens porlugeses; e que, se asy ?ay, 
que ha vosa alteza de mandar que se nom casem. 

Item — Falia dos que se lançam com os mouros, por lhe nam paga- 
rem nem os leixarem vijr; e que se proueja. 

Item — Rremedio para a navegacam das naaos — lembra. (Em que 
diz que consiste todo voso seruiço e ho bem da jmdia.) 

Item — Jamda (?), — huum oficial que fez ha forteleza de cananor, 
— pede cartas d encomenda pêra el rrey de cananor e pêra o governa- 
dor; e que vosa alteza lhas deue dar, porque tem muyto bem seruido, e 

serue. 

(Na margem: — Ssy. — Ja.) 

Item — Falia no capitam e alcaide mor, que sam moços. 

liem — Os mouros de cambaya, que traz duarle de Icemos, que loda- 
uya se tornem ; porque sam calinos, la, Ríij ^ nossos. 

E diz que ouça vos alteza a diogo mendez. 

Item — Ho collar que diz que vijnha pêra vosa alteza, que he cousa 
noua. 

(Nas margens^ abrangendo todo o summario: — Ja.) 

Item — Huua carta de symam damdrade, em que daa conta do fecto 
de goa, e como he cousa de muylo voso seruico, goa. Agrauase daffonso 
dalboquerque, de lhe lijrar capitanya e o nom leixar vijr, e o condenou 
em perdimenlo da fazenda e soldo, etc. 

E diz muito bem de tymoge. 

Item — Carta daires da silua, 6lho do eraueiro. Agrauase daffonso 
dalboquerque, que lhe tirou a capitania d huum nauio, que lhe deu o 
viso rrey. Pede a capitania do caslello manuel. 

(Na margem :— Escusado. — Reposta.) 

Item — Anchicalla, sprpam da casa da feitura (sic)^ naire. Alegua 
rouylos seruicos, e diz que ho viso rrey lhe tirou o soldo que tpha^ por 
elle fazer as cousas de voso seruico com el rrey de cochy ; e que affonso 

* Quarenta e três. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 3t7 

dalboquerque Ibo tornou, que sam mjll reaes por mes, vemdo que ele 

os merecia. Pede que vos alteza lhos conOrme. 

(Na margem: — Que ssy, e, a elle, caria que serue. — Ja-) 

Item — Carta do vigário de cananor. Áagrauase de rrodrigo rabello^ 

de cartas que lhe tomou, que enviaua ha jvosa alteza; e diz mal do vi- 

gairo que agora foy, e que he mercador e tem lá huum filho, que fez 

meirinho dos clérigos. 

Falia também na ma gente que de ca vay, e nos que la andam, que 

leuam soldos e nam seruem nem se quereem vijr. ^ 

Item — Joham lopez dalvim. Sprcue como se amdou de quiloa a ju- 
dia, pellas nouas que ooue, e por lhe parecer que la seruia mais ha vos 
alteza. 

(Na margem: — Ouue prazer. — Ja.) 

Item — Diogo corea. Spreue a vosa alteza como se perdeo com dom 
aíTonso, e como veo a jmdia com o embaxador d el rrey de cambaia; e que 
duarte de lemos nom quis dar os mouros; e a maneira de que os trautou 
elrrey de cambaia, de vestjdo, e as naaos e artelharia que lhe vio. 

E a valiia das mercadarias: R' cruzados o quintal do cobre; e as 
outras, de gramdes preços. 

Agrauase de desomrras que lhe fez duarte de leemos, e diz que 
perdeo ^h^^ cruzados, que trouxe de sua casa. 

Pede que lhe faca lá vosa alteza merçe, por nam vijr proue. 

E que lhe mande la pagar o que lhe deuerem na casa da mina. 

E que lhe mande pagar seu soldo ordenado, que lhe nam quis pa- 
gar duarte de lemos, que diz que sam x ^ por mes. 

(Na fwar^fet»;— Escusada. — Reposta.) 

Item — Ho vigairo de cananor, por outra carta. Spreue d huum ca- 
pado, forro, que mamdou o feitor de cananor, por força, a dom amtonio ; 
e que avisa diso por ser voso seruiço. 

Item — Avisa que tratam vosos oSciaes. 

1 É sammario da carta publicada na integra a pag. 308 doeste vol. 

* Quarenta. 

' Dois mil e quinhentos. 

^Dez mil. 



328 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

liem — O arei de cochy. Spreue a vosa alteza, fazemdolhe saber 
como se tornou chrislaao e toda sua geracam, roolber e jrmaaos, que pa- 
saram de mjl pesoas; e que espera ajmda que sejam muylos mais. Pede 
confirmacam do privylegio que lhe foy dado; a saber, que seja preso 
como fidalguo, e asy seus jrmãos e paremtes. 

E que tenba seu oficio. 

E estee a ordenança de vosas justiças. 

E carta pêra elrrey de cochy, segundo spreue lourenco moreno e 
diogo pereira. 

(Na margem: — Ssy. — Ja.) 

Item — O xeque de mocambique. Spreue ba vosa alteza carta de 
seruiços que fez, despois que la he. (E nom o afyrma asy diogo vaaz, o 
feitor, amtes diz o contrairo.) 

E diz a disposysam em que estaa amgoje com os vosos. 

E pede licença pêra trazer de cofalla dez babares de marfim. 

(Na margem: — Escusado. — Reposla. — Nom.) 

Item — Dom manuel pereira. Spreue a vos alteza que bo nom leixa 
vijr affonso d alboquerque ; e agrauase diso e pede que bo mande vijr, 
porque diz que ba quatro anos que la estaa, ymdo por três; e que Ibe 
mande pagar o que lhe deuerem de seu ordenado, porque lhe nam pagam. 

(Na margem : — Escusado.) 

Item — Bernaldim freire. Spreue a vosa alteza como se veo da jmdia 
com agrauos d affonso d alboquerque, e que, em mocambique, foy enle- 
gido por alcaide mor de cufalla, o que aceytou, por ver que vos seruya. 
Pede a capitanya, etc, e, se nom esta, a de cananor ou cochy. 

(Na margem: — Escusado.) 

Item — Fernam perez damdrade. Spreue a vosa alteza o fecto de 
goa; e agrauase muyto d affonso d alboquerque ; e pede a vosa alteza que 
se lembre do que he rrezam se lembrar; e que ba seis anos que la serue; 
e que bo nom leixou vijr affonso d alboquerque. 

(Na margem: — Escusado.) 

Item — Jobaneannes, mestre da carpentaria de cochy. Diz que se fa- 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS ^ 329 

zem gramdes despesas, e escusadas, em coregimentos de naaos; e qae se 
deae ysto cometer ao mestre da carpentaría. E pede que ho mande vosa 
alteza vijr. 

(Na margem: — Affonso dalboquerque: que as despesas sejam com 
parecer do mestre; e que ho leixem ?ijr^ sse la ha outra pessoa per qtib 
se posa escusar.) 

Elrrey de cocby. Spreue a vos alteza, damdolbe comta do fecto de 
goá, e como be cousa muy boOa. 

E da morte d elrrey velbo, seu tio, por quem tínba a gouemamca 
de cocby. E como aquele seu sobrinho, a que vynha a teerra dê dereito, 
se vijnba a ser rrey; e, elle^ como os vosos, bo nam conseemtio, por sisr 
todo de Calecut; e, no teempo em que moreram os primcipes, elle nam 
seruío vosa alteza, amtes dizer que se emtregasem os portugeses a el 
rrey de callecut; e elle se oam mostrou nesto tanto seu jmigtto como elle 
tem na vontade, por beem de seus custumes. 

(Na margem: — Carta. — E carta ao capitam. — E carta ao capi- 
tam, que, estamdo as cousas ddutra maneira, lhe nom dee a carta.) 

E que o feitor e capitães guardaram seenpre a teerra, de maneira 
que ho outro nam ousou de emtrar nela; e elle ficaúa jurado pdf rrey, e 
a seu sobrinho por prímcipe, depois de seu falecimento. 

(Na margem: — E, emquamto se, com seu séruico, poder sosíer, 
sostenha.) 

Item — Que folgou com a yda de lourenco moreno, por ser muytoseu 
amigo, ajuda que muyto folgase com diogo pereira. 

Item — Que será vos alteza seruido, no que toca a canella e as òUtras 
espiciarias, sobre que Ibe spreueo per lourenco moreno. 

Item — Como o rrey vinha pêra emtrar na terra, e como fogio, pela 
gente que Ia foy. 

Item — Alega seus seruicos pasados, nas gueerras pasadas, e como 
defemdeo a terra; e como, por a justiça que nella lem, por seus trabalhos, 
e, primcipaimente, por voso seruiço, se o rrey nam quiser o concerto que 
lhe comete, de ser rrey e elle governador, como ale quy foy, o nom con- 
sentira em nenhufia maneira e se fará rrey de todo, pois o pode, coiti ajuda 
de vosa alteza ; e que o rrey velbo outro asy lhe mamdou que bo fezese e 
senpre seruise a vos alteza, e que asy o espera fazer; e que nam quysese 
deus que outra cousa fezese^ porquamto rrisquo coreryam tcM^i Cousas. 
TOMO m 42 



33Ô CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Pede que mande vos alteza a vosos capitães mores e todos outros ca- 
pitães, que ho ajudeem como atequy teem fecto e fazeem, porque nom 
tem outro senhor nem amigo, senam a vos alteza. 

Item — Que manda a vos alteza huum alyfante e dous nayres com 
eles, e huum mudo, nayre, pêra os ajudar, e huum moco fidalgo, naire, 
que he honrrado, pêra ver as cousas de ca e se emsynar a leer e outros 
costumes de ca;'e que, quamdo se queser tornar, lhe mamde vosa alteza 
dar pasagem. 

(Na margem: — Gradecimento, e prazer do que fez affonso dalbo- 
querque.) 

Item — Que faca vosa alteza fundamento daquela teerra, que he vosa, 
cujo elle he. 

Item — Emcomenda a vos alteza duarte pachequo pereira, pelo muyto 
que diz que la seruio vosa alteza. 

(Na margem, abrangendo todo o summario: — Ja.) 



Cartas damtonio de saldanha 

Em huua, diz como foy amgoje, e a morte de duarte de melo, e como 
lhe feriram outros iiij^ homens e nenhuum deles moreo, e como lhe quey- 
maram todos os cambucos em que nauegauam ; e que este feclo fezeram 
até Jij** homens, mouros e caferes. 

(Na margem: — Escusada, porque se vem.) 

Item — Que ho xeque d amgoje e seus súditos sam Tij* homeens, os 
quaes se poseram em detryminacam de destroirem toda a terra comar- 
can, e o poseram tamto em obra, que huum fardo de milho se nom pode 
aver da teerra fyrme; e que, a esta causa, fícaua em mocambique, e tam- 
bém por nam leixar, em tall tempo, aquella forteleza, que tinha tanta mer- 
doria, com doze homeens, e agardar aly a frota e ver o que mamdaaa 
afomso d alboquerque. 

Item — Que, sem embargo do que lhe mandaua affonso d alboquerque, 
a saber, acerqua da gente que avia de ter nas fortelezas, e yda de quiloa, 
e aleuamtar a feytorya de melinde, — elle, com parecer e conselho dos 

* Quatro. 

* Mil e dozentos. 
3 Doze mil. 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 331 

.capitães^ por a terra eslar asy aleuantada, leixou em mocanbique xxi^ 
homens : 

feilor; 

spriuães ; 

homes seus; 

hnum creligo; 

deus ferreiros; 

huum carpenteiro; 

huum serador; 

huum tenoeiro; 

huum barbeiro; 

três pedreiros pêra acabar a casa do aimazem, que estauacomegada; 

e os xb' degradados, com mais b' homens de mar. 

Item — Que os degradados se lançam com os caferes. 

Item — À cafalla, esla bem os Ix^ homens que vosa alteza lhe hor- 
dena; e diz que deles terá ajmda x^pera amdarem em outra carauela 
que Ia fez. 

(Na margem: — Rrecolher os lançados com os mouros, do lança- 
mento. — Ja.) 

Pede a vos alteza que aja tudo ysto asy por beem, pela necesidride 

do tempo. 

Item — Como, por falleçimento de duarte de mello, fez allcaidemoor 
de cufalla bernaldim freire, seu cunhado, com acordo e parecer de todos 
os capitães, de que diz que mamda auto. Pede a vos alteza que ho aja por 
beem, pelas rezQes que aponta. 

(Na margem: — Escusada.) 

Item — Que espera em deus que se tornem os caferes christaãos e 
que, com eles, lance os mouros fora, ajnda que sam muytos. 

Item — Que, como os mouros viram tocar em amgoje e lhe nam da- 
rem pazes, se ouueram por destroidos. 

Item — Que todo o trauto tem sabido que he em amgoje, e que, daly, 
lenam as mercadarias pêra maena; a qual maena diz que he huum rrío 

» Trinta. 
^Quinze. 
^ Cinco. 
« Sessenta. 
*Dez. 



aa^a cartas de apfonso de Albuquerque 

muito gramde; e que desembarcam per aly arriba bem bj^ legoas^em casa 
de buum cafere homrrado, rrey daquela terra; c aly pagam seus djreitos, 
e lhe daa almadias, em que leuam a roupa pelo rio acima. 

E que, la em çyma, tem huum paso estreito, e pasam as almadias 
por elle, descaregadas, e, depois, as tornam a caregar; e vaao d aly obra 
de XI ' legoas, bomde estaa buiia seerra que chamam otonga, e aly estaa 
huua pouoracam grande, omde diz que a^codem todos os caferes merca- 
dores e mouros que pela terra ba, e aly vemdem, e fazem suas feyras. 

Que se ha d atalhar a este rryo e angoje; e que, se se nam faz, nam 
ha l*remedio pêra se asentar o trauto, e que elle o trabalba» asy como o 
deue fazer, por voso seruiço. 

(Na margem: — Escusada rreposta.) 

Item — Que deu baixa a mercadaria do tempo de pêro danhaía. 

E que, ha outra, ho nam fez, porque tynham muy pouca. 

Item — Que ho trauto he gramde, como diz que vosa alteza lho 
spreue, e que asy ho teem sabido. 

E o prouymento que tem fecto, pêra se nom rresgatar ouro per 
ps^rtes. 

Item — Que, depois que he capitam, tem tomado, de mercadorias ds- 
fe«a3f pasante de vallia de IJ' miticaes ; e que alguus dos culpados teem 
mandados a jmdia, com suas jmquericoes, e os outros moreram caio ai- 
uaro fernandez. 

Item — Qilb, com huum culpado que ca envia, pede a vos alteza que 
se aja piedosamente, porque a largura pasada era azo, e, mais, que suas 
culpas sam d ante que vos alteza mamdase que encoresem nas hordena- 
coes de qua (?), e que foy ferido muyto, com elle, em aigoje^ e que 
quasy 6cou tolhido da fala, e foy em ormuz com affooso dalboquerque, 
e com o viso rrey no desbarato dos rrumes. 

(Na margf«n;-r-Ssy, — Perdam. — Escusada.) 

Item — Que avisou a affonso dalboquerque das mercadoria^ qae 
av^m mester, e que lhe tem respomdido que seryam beev prouidos. 

Item — Que seu parecer he que os mouros de cofalia nam se deuam 
deitar fora, amtes leixalos estar, e serem eles os que vaao e venham a 
casa dos caferes. 

1 Seis. 
» Vinte. 
' Dois mil. 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 333 

E que, pcra se lançarem fora, avia mester muyta geente. 

E que, ajmda que se laticasem fora, nam se prouia a nada, por- 
que tem sabido que na torra de monapolapa ha mais de dez mil mouros, 
os quaes amdam espalhados; e que he ymposyuel poderense lançar fora. 

E que, se lhe em mocanbique e em amgoje e la em cyma tapasem 
beem, elles nam faryam nenhum nojo, e, de necesidade, seryam amigos. 

(Na margem: — Kscusada.) 

E que yslo se pode fazer com huum par de carauelinhas pequenas 
e com ixx^ bomeens, que amdem seupre sobre amgoje e que hy ymver- 
nem e hy estem senpre, e nom tenham outra ocupaçam. 

E que, se ysto se nom faz, se nom pode tolher que nam navegem 
em çanbucos pequenos. 

Item — Que a terra de monapotapa esta toda de paz; e que espera 
que, com yso, se asentem as cousas do voso seruico. 

Item — Â^obra que estaa fecta em cufalla, que diz que tem todo 
comprimento, e ygreja fecta; e, daqui por diante, acabara a tore. 

Item — Que, ate feitura desta, nam eram rresgatados ii' meticaes 
d ouro. 

Item — Nam ha por voso seruiço darse de comer em salla, por muy- 
tas rrezoes que apomta; e que, a dinheiro, a xxiij^rreaes e meio por dia, 
como se pagaua, say a metical e meio por mes; e pago em djnheiro, aos 
quartes, e nam em mercadorias ; porem, que, d esta vez, que hia a cofala, 
se ordenaria como fose mais voso seruiço, porque ho capitam moor lhe 
tynha sprito que dese de comer em salla, e que elle ho nam ha por voso 
seruiço, como diz. 

(Na margem: — Escusado.) 

Item — Que, por lhe spreuerem da jmdia que os que hiam de cufalla 
lenauam la muyto ouro, ordenou, do dinheiro dos soldos dos que la fo- 
rem, vaa ao feitor, fora das maaos das partes, pêra elle la o vender; e 
que, desta maneira, se pode la saber quem ho leua sonegado. 

Item — Ho rrey de cufalla, que lançou fora vasquo gomez, que ca 
emviou, e que foy mal lançado e tinha justiça; e, o outro, diz que nam 
he pêra nada. 



1 Trinta. 
* Nove mil. 
' Yinte e três. 



■■<•» 



334 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Item — Hanotory, prímcipe de cânanor, spreue a vos alteza, e diz 
coroo he a seruiço de vosa alteza, e que elle fez fazer a forteleza. 

(Na margem: — Carla de gradeçimento.) 

E que he jnymistado com o rrey, seu tyo, por ser voso seruidor, 
e que nam ho ieixam fallar com homem porluges. 

(Na margem: — E a elrrey de cananor, sobre a justiça que pede.) 

Pede a vos alteza que, pois ele he verdadeiro prímcipe daquela 
teerra, e ha de sobçeder, que vosa alteza mande que elle tenha a gover- 
nança da terra, asy como ha tem o algazijll, e elle seja rey; e que elle 
sabe que, se o vosa alteza mamdar, que se fará. 

(Na margem: — E carta ao capitam, que la procure.) 

E que, se lho vosa alteza mandar por vosa carta, dará, de seruico, 
ba vosa alteza, cadanno, dous mil quintaes de pimenta, ou quatro mjl de 
gengyure; e que, disto, pasara logo suas carias, pêra se rreceberem na 
vosa feytorya, aliem de lodo outro seruiço, que, como vasalí) de vos alteza, 
ba de fazer. Daa crença a garcia de sousa, a que diz que fallou. 

(Na margem, abrangendo todo o summario: — Ja.) 



Carta d elrrey de cananor pêra vosa alteza 

Item — Diz do gramde prazer que ouue com a carta de vos alteza, e 
de como foy toda a terra alegre com ella, e como foy lida pelas praças e 
na mizquita, e como he verdadeiro e fíel seruidor de vos alteza, e o sa- 
ram todos seus filhos e erdeiros. 

Agraua se do dano que lhe foy foy fecto em huua sua jlha, e como 
lhe foy queymada a sua casa doracam, e roubado tudo, nom semdo a 
gente delia pêra mais que chorarem, como molheres. 

(Na margem: — De prazer; e que, aos capitães, que se castigue 
quem nisto errou ; e suas cousas bem olhadas.) 

Agraua se que lhe tomam suas naaos, e lhe vemdem os seus apri- 
soados por pouca cousa. 

(Na margem: — Saber rruy gomez. — Ja.) 

Agraua se que foy tomada huua nao, omde vijnba huua molher, que 
fezeram chrístaã por força; e que, esta molher, a trazem cá; e esclama 
muito ysto. 



DOCUMENTOS ELUQDATIVOS 335 

Diz que se nam teue boom olho e recado nas xxbij^ naaos que 
vieram ha calecut, o ano pasado, de meça e daadeem; e que elle perdeo 
íxx' fanoes, por voso seruiço. 

(Na margem, abrangendo estes cinco paragraphos: — Ja.) 

E que deue vosa alleza prouer a ysto, porque, nam vijmdo as nãos 
de meça, a pymenta e o gengyure será muito e vijra todo a portugal. 

E que vosas nãos e armadas deuem estar na paragem, acyma do 
porto de callecut, no tempo em que as nãos ouuerem de vijr de judaa e 
d adem; e que huum soo ano que leixem de vijr, tudo vijraa a portuga!. 

E que vijram aly as nãos de camatra e de malaca e de bymgalla, e 
traram todas as mercadorias. 

E que vosas nãos amdem no caminho daadem, e daly ate garda- 
fuue, e daly se veera quem vêem ou nom vêem; e afyrmase que, se huum 
anno nom vierem as naaos de meça, que nunca mais entrem no mar, pelo 
medo grande que tem. 

E que, de ysto se fazer, nom encorem vosos capitães em nenhum 
rrysquo. E que, fazendo ysto e nam vijmdo as nãos huum ano, calecut se 
perdera de todo; e que, asy, seram compridos os vosos e os seus desejos. 

Pede que, vijmdo nãos d adem ou de ormuz dereitamente pêra ca- 
nanor, lhe nam fezesem nojo vosos capitães, pois vaao como pêra qual- 
quer porto de portugal, pois o porto de cananor asy he de vos alteza. 

(Na margem: — Estando eles em seruico delrrey; e carta da tor- 
nada com seguros.) 

E que vosa alteza he seu rrey e senhor e elle nam teme outro, pois 
tem a vos alteza por senhor; e que todo o mundo delia ho teme. 

Pede a vos alteza que lhe mande dar suas moedas. 

Pede que mande vos alteza abrijr ho porto d ormuz, pêra que ve- 
nham seguros a cananor. 

Que alguuns de seus escrauos e vasallos se fazem christaaos, e se 
querem, com yso, escusar de pagar o que lhe sam obrigados, e como sen- 
pre lhe pagaram, como seus vasallos. Pede que mande vosa alteza que 
tal se nam faça, e que lhe paguem o que lhe sam obrigados por seus 
tombos e que aja vosa alteza por bem de elle mandar em seus rreynos 
sobre os seus, ora sejam christãos ora mouros, asy como vos alteza mamda 
sobre os seus. 

1 Vinte e sete. 

2 Setenta mil. 



336 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

E que quem merecer morte, seja nele Ih a dar ou quitar ou alargue, 
asy como faz cada rrey ou seobor em sua teerra. 

E que seu governador spreue a vosa alteza alguflas duujdas que 
ouue antre elle e os de vos alteza. Que ho detrymine vosa alteza amtre 
eles, como vijrdes. 

E que nam spreue as cousas, porque nom quer que neemhuum en- 
temda nestas quebras, porque a filho nem a jrmão as nam dirá; e que ho 
seu rregedor he todo de vos alteza, porque ho seu mando cesara omde che- 
gar o de vos alteza. 

Item — Que mandou acrecentar mais o preço do gengyure, por re- 
zam das guerras e porque cada huum folgara de mamdar, por aver mais 
proueito; e que, quamdo os mercadores perdem, nom vêem; e que os 
mercadores em todas as cousas faram seus mandados, soomente no vem- 
der, que será segundo a careza ou abastança, que, nysto, elles tem liber- 
dade. 

(Na margem: — Como ho mandou aleuantar, que elle faca confor- 
mar os mercadores.) 

E pede de tudo reposta. 

(Nas margenSj acompanhtindo toda o summario: — Ja.) 



Carta do rregedor de cananor 

Item — Diz camto he seruidor de vos alteza; e, amtre todas as palia- 
uras, diz que elle, por voso seruico, se perdeo com o camorym de calle- 
cut e que com elle teram guerra alhe o dia do juizo. 

(Na margem: — Ja.) 

. Outra carta do regedor guzurate de rrui teberit (?); e diz quamto 
senpre seruio vosa alteza, e como senpre ha de ser seruo; e pede que 
seja encomendado a vosos capitães e feitores, que ho ajam por voso ser- 
vidor e que lhe dem carego em que serua, por que todas as gemtes sai- 
bam que he seruidor do gramde rrey ; e que ho nom leixe aquele grande 
amor e seruiço vazio. 

(Na margem : — Carta — Ja.) 

Outra carta de buquer açem, de grande oratorya; e alega seruicos 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 337 

de xiiiy annos; e pede outrâ tall carta d encomenda, e qae vosa alteza lhe 
mande spreuer, por lall, que digam os amigos e jmigos: — «buquer ala- 
çem he serujdor do grande rrey, e Ho gramde rrey por lai ho tem». E diz 
que ele, com suas letras e palauras, abryo de malabar, ate que vos fez 
obedecer de cambaya e coulam e dabull e ceilam. 

(Na margem: — Carta — Ja.) 

Carta dei rrey de melinde; e diz cam certo seruidor estaa de vos al- 
teza. Pede huuas tauoas de ygualar, destes presentes tempos, e que vaão 
spritas cm letra ara viga, e diz que seja da letra do capeiam; huum rre- 
logio de sol, gramde, e que nam vaa com figura. 

Pede carta pêra que se nom faca nojo aos que amdarem no seu 
mar, pois be de vos alteza. 

Pede huum estrelabio pequeno, porque ho outro que diz qne vosa 
alteza lhe mandou, he grande; e que seja com leiras suas. 

Pede huum líuro dos juizos dos nacimentos dos acendemtes e de- 
cemdentes. 

Pede huua poma. 

(Na margem: — Mestre djogo, mercador, que aja ysto. — Ja.) 



1612— Dezembro 16 



Senhor — Per dom aires e christouao de brylo, screpuy a Vossa Al- 
teza, largamemte, as cousas da jmdia e o que se pasava; e, por que Vossa 
Alteza nam diga que mescusso de vos avisar de toda las cousas, como 
pasam, como me mandais senpre que faça, detremyney per estas nãos 
screpver a Vossa Alteza o que se ca passa, e as cousas que se pasaram 
e fizeram, depois do capitam mor ser vjmdo de mallaca, postoque nyso 
corra rrisco de me quererem mall, por screpver verdade. 

Comtudo, nam me da disso nada, porque majs follgo de fazer o 
que me \ossa Alteza manda, que comprazer a ele: que, soo porque vos 
tenho avisado das cousas que ca íTaaz, o capitam mor me quer mall mor- 
tallmemte, e me tivera ja destroydo, se nam fora a neçesidade que tem 

^Quatorze. 

TOMO ui 43 



338 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

de meu seruiço^ que nam pode fazer nenhuSa cousa sem myui, asy nas 
armadas como nas ffortelezas. 

Porque tem ja sabido que nam ha ca nemgem que lhe vare naao 
nem bote ao maar, senam eu, e asy os outros eyxerçytos todos que com- 
prem a suas armadas, que em goa leixou a lyonarda e quatro navios 
outros pêra lhos vararem em terraa e corregerem, dizemdo que queria 
ver se me poderia escusar, e todos os navios e naaos lamçaram a perder. 

Grea Vossa Alteza por verdade que nenhuum homem nam poderá 
ssofrir o que eu tenho sofrido por voso seruiço aíTonso d alboquerque, 
)orque, como ve pesoa a que vosa alteza deseje fazer merçe e omrra, 
ogo nesa ora lhe quer mall, mortalmemle. E velo es, senhor, por gaspar 
pereira, jorje de melo, garçia de soussa, que, porque vieram fauoreçidos 
de Vossa Alteza com aluaras rrevilados, porque o conheciam jaa, os trata 
da maneira que vos la diram, que craramemte diz que, se eles vieram a 
ssua deferiçam, que elle lhes fezera majs merçee da que lhes Vossa Al- 
teza fez. 

Elle, senhor, chegou aquy, de mallaca, no derradejro dia de feue- 
reiro, e trouxe comsygo a naao trimdade; e emxebregas ja era chegada 
diamte delle; e deixou froll dela mar no camjnho, com J^ e tantos quin- 
taes de cobre e outras mercadorjas que de cochim leuou, porque o que 
de la trazia, eram cofres d ouro, seus, que se saluaram, de que nam em- 
tregou huum soo rreall nesta fifeitorja. 

E leixou em mallaca todo los outros naujos que comsygo leuou, e 
hua forteleza feyta, e todos em gerra; os quaes navios me parece que la 
faram ssua fym, que sam xiiij^ ou xb'; e toda a jemte desesperada, que 
ele embarcou escomdido e ficaram os ornes na praya, pedimdo justiça a 
deus delle, porque lhe morreram lia iiij^ ou b®' omens e outros tamtos 
chrislãos malabares, que com ele d aquy floram; e, quamdo aquy che- 
gou, trazia, em amba las naaos, P^ omens, todos pêra morrer. E os na- 

2 Quatorze ou quinze. 

^ Quatrocentos ou quinhentos. 

^ Gincoenta. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 339 

QJos que la leixoa, c assy nãos» nom íTaça Vossa Alteza delas comta, 
porque as nãos dos rrames nam sam nem prestam pêra oada, e as oq- 
tras nosas eram ja podres, quamdo la fficaram. 

E, quamdo veo, acbou a jmdía tam asesegada, e tudo tam bem com- 
Cerlado, e goa tam bem socorrida, que lhe pesou mortallmeute, por o nos 
termos Iam bem feylo; e, por ese rrespejto, como aqui chegou, mamdou 
tirar emquirição devassa ssobre mym e sobre o ffeytor e todas outras pe- 
soas que aqui avya, per pêro d alpoem, seu ouuydor, e ffrancisco coelho, 
sseu scripvaão, que sam huuns homens samtos, que nam fazem senam o 
que elle quer, e, por yso, vam os majs rricos omens que de ca nunca ffo- 
ram; porque toda las penas e djnheiros outros que o capitam mor mam- 
dava pagar, mamdava tudo emtregar ao dito pêro d alpoem, e todo outro 
djnheiro e ouro, de presas, que hy avia e em malaca, foy tomado, sem dele 
avcr nenhuua rrecepla, somente la se emtemdiam, ele e o capitam mor 
e o dito scripuaão. 

E, de toda las presas e tomadiás que o capitam mor ffez, depois que 
gouerna a jmdia, perguunte Vossa Alteza que se fez do voso quinto e 
dous terços, c asy do terço das partes, porque vos juro, senhor, em huuns 
santos avamgelhos, que nunca, des que ca esta. Vossa Alteza ouue huum 
so rreall, nem acharejs ffeitor voso que o rreeçebese, nem menos omem 
que ouuese partes de nada, que tudo he seu e do ouujdor e de sseus 
criados, que ffáz capitães, por aver tudo a ssua maão ; que huum seu 
criado que se chama nuno vaaz, que ora la vay, vay cheo d ouro e rri- 
qeza, porque sempre ffoy capitam, e he huum segundo diogo pirez. 

E, per este seu criado e per outro que se chama fernam calldeira, 
casado em goa, que tem rroubado todo ormuuz e canbaya, se governa a 
jmdia, que, de quamtos rroubos e cousas ffez, nunca lhe, per yso« o ca^ 
pitam mor fez nenhuila cousa, como lia di{a o embaixador d ormuuz a 
Vossa Alteza; e dizem que partio bem com ele diso que furtou e rroubou. 

E, se a jda de diogo pereira e jeronymo serram nam ffora, que foram 
a dio e apaçefícaram toda aquela costa e lhes fezerao crer que o capitam 
moor o emforcaria, como viese, todos esteueram alevamtados comtra vos. 

Ora, senhor, venhamos âd proueyto que Vossa Alteza ha, eadanno» 



340 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

de goa, pêra verdes quem vos diz verdade: — se o capitammor, se eu; 
porque tudo o que vos ele screpve pela nao tryndade lie mymlira, pella 
quall naao eu nam ousey» nem njmgem, de vos screpver (e allguuns, se 
vos screpverão, tudo quanlo dizem he myntira), porque sabia que avyam 
de tomaar as cartas e rrompelas ou da las ao capitam moor, porque Ioda 
aquela nao vay chea de mentiras e falsydades. Crede, senhor, como vos 
ja la tenho scripto, que, se esperaes soster goa, que nam terejs carrega 
nem nenhuum proueyto na ymdea, porque tudo, e muuyto majs, ela ha 
mester, e, de mallaca, nam sey o que será. 

Asy, senhor, que tudo he vemto, senam cochym. Aquy fazey voso 
peefyrme pêra sempre, porque toda lias outras ffortelezas, feytas e por 
fazer, vos nam servem de nada, senam gastarem quamto llaa haa e asy 
o que ca haa. Somemte a que me pareeçe neçesarja, he a do maar rroio, 
que Vossa Alteza senpre mamdou ffazer e nuunca se ffez. 

As naaos, senhor, de vosa carrega, assy as de dom garçia como as 
que agora vieram, todas leuou comsygo, camjnho de goa; e, de cananor, 
mamdou aquy as duas de dom garçia, sem pam e sem vinho, e desaby- 
talhadas de todo, sem enxarçea e sem velas e sem nenhua outra cousa, 
que lhes tomou tudo; e mamdou as assy a carrega; e, as outras, mamdou 
dizer que mandava de goa; porem, te gora, nam sam vymdas, e parece 
me que, se vierem, que am de vyr como est outras, nem majs nem menos. 

E serya bem empregado em Vossa Alteza nam hir nunca de ca naao 
carregada, pois as mamdajs ao capitam moor, que eu, per muytas vezes, 
vos tenho dito quem ele hee. Comfyay, senhor, as naaos da carrega que 
pêra aquy vem ordenadas, que, se forem tam neçesarias como yso, que 
entam ficaram; e nam nas mamdejs chamtar na maão de huum homem 
que nunca he farto de naaos nem de gemte, nam semdo neçesarias; e 
trata as de maneira, que Ioga as lamça a perder; e a jemte toda mata com 
mao trajo que lhe da, e faz fogyr muytos pêra os mouros. 

Meu pareeçer he (postoque nymgem saiba o que elle faz nem ha de 
ffazer) que ele se vay meter em huua cova ou buraco, omde lamçee a per- 
der toda las naaos e mate toda a jemte^ como fez tequy, por fogir do 
rrecado que lhe pareeçe que Vossa Alteza deve mamdar, que he que se 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 34 1 

va, e mamdar pesoa que governe; e ele, emlani, estará metido omde nam 
posa sayr este anão, e ter la armada comsygo; e por yso nos despejou de 
todalas cousas que tjnliamos neste castello, sem leixar gemte, nem ar- 
telharya» nem huum so batell, breu, nem carpimteiros, calafates, ferreiros, 
e todos outros offiçiaes e aparelhos, que tudo leva comsygo. 

E cochim, que he neçesarjo eslar majs proujdo de todas estas cou- 
sas que líxboa, pois se aquy faz tudo, e daquy sayem armadas e carre- 
gas e todo outro avyamento, nunca lhe leixam nada. 

O serviço que voso capitão mor fez, depois que veo de malaca, he 
este: — meter se nesta forleleza com R ou 1*** putas, que, logo como che- 
gou, madou (sic) por elas a goa, e outras que trazia de malaca; e me- 
teose com elas todas em huua torre, sem nunca sajr, nem lhe poder fa- 
lar ornem nem molher, nem rrequerer nada; e gastar quanto djnheiro 
aqui avya, e asy o que ora veo de porlugàll, de que tomou logo, pêra 
goa, dez mjl cruzados; e gastou aquy mais de vjnte mjll. 

Leixou começada huila cerca neste castelo, pegada nele, pêra se fa- 
zer demtro casas de feilorya, mantjmentos e almazem ; e foy fazer a pa- 
rede d oyto palmos em largo, com cubelos, e dam huuns nos outros, muyto 
grande e forte; que, se se acabar como ele manda, avera mester sempre 
nela J' homens, ao menos, pêra se gardar; porque, vjndo quallquer for- 
tuna a este castelo, daquela cerca se tomara todo o castello; e o castelo, 
como eslava feyto damles, por mynha maão, se poderá gardar com cl'*' 
omens, a todo mundo; e, porque lhe eu dise que aquela parede nom avya 
de ser majs que de dous palmos e meio em largo, como huum albacar, 
so por amor do fogo, e fose sogeyla ao castelo, que, cada vez que quy- 
sese, o podese derribar, me qujs por yso mall, dizemdo que Vossa Alteza 
lho mandava assy íTazer, — o que eu nam creo, porque bem sabe Vossa 
Alteza que o albacar ha de ser fraco e sogeyto a forteleza. 

E, pêra verdes, senhor, quam bem gardada leixou esta forteleza, 
leuou toda a jente comsygo e nam leixou nengem ; e, na torre da mena- 

^ Quarenta ou cincoenta. 
' Cento e cincoenta. 



342 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

jem, deixou toda Ias soas R ou I*^^ putas, taipadas, e com capados dem- 
tro, em guarda; e, por porteiro, huum gooçalo affonso, mealheiro; e ]ey 
xoulhe, pêra pasearem, alem da torre da menajem, toda bua sala e dous 
cubelos, sem nuunca as ver nengem, que nom sey moesteiro de freiras tam 
encerrado; e eu pouso em huum cubelo, sobre a porta, domde ffaço mj- 
nhãs vigias. 

E estes sam os omens d armas que aquy leixou, pêra gardarem a 
forteleza; e diz que as tem asy gardadas pêra as casar; e ele nom casa 
senam as que amda tomamdo aos omens que as tem em suas casas, cria* 
das de pequenas, porque as suas todas que tem, com com (sic) todas 
dorme, e maíTomede nam teve tall vyda. 

E huuas duas moças que eu tjnha, que me ele nam deu, e eu to ^ 
mey per mjnha lamça em mombaça, soratiçiamente mas trazia emgana- 
das, com suas embaixadas, que lhe mamdava, que casasem a £furto com 
allgem, e que seriam Aforras. Polo quall, semdo eu huda noyte a tirar a 
naao emxobregas em terra, mandou huum seu negro e outros seus mo- 
ços que saltasem com elas e que as rreçebesem, e que ele farya bom o 
casamemto. Entam me saltaram em casa, e me rroubarão algutlas cousas, 
que achey menos, e as rreçcberam. 

Emtam, me pus a yso muuylo rrijo, de maneira que ele ouue ver- 
gonha da ssemrrezam e malldade que me fizera, e me rremeteo a jgreja; 
e o vigairo semtemçeou que nam eram casadas, pois nam era per meu 
consemtimento. Assy, senhor, que, em toda las cousas que me pode ano- 
jar, m anoja, nam lhe mereçemdo eu senam majs merçees que quamtos 
omens ca traz; mas, com emveja de quam bem soube payrar a jmdia e 
ssostela, o tempo que ele amdou em malaca, me ffaz quamto mall pode. 

E, assy, porque tinha prestes dous navios em que avia dyr diogo 
pereira em sua busca, nam vjmdo elle, e porque os achou prestes pêra 
yso, e tudo como avya de ser rremedeado e comçertado, se qujsera em- 
fforcar. Emtam, detremjnou mandar os ditos navios a malaca, e assy hufla 
nao guzarata, que ele de la trouxera, de pressa (sic)^ e feios sayr fora 

• 

> Qoarenta on cincorata. 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 343 

do rrío, pera estarem fora da barra, comtra mjoha vomtade; e a nao ga- 
zarata estava carregada de vassos e cabrestamtes e lodos oulros apare- 
lhos de varar nãos, que ele la mandava leuar a mailaca ; e, por ele le- 
uar tudo ysto de cochim contra mjnha vomtade e conselho, e asy por 
mandar sayr os navios de ffora, sem tenpo, dizendo lhe eu sempre que 
nom era neeçesario sairem senam o dia que ouuesem de partir, porque 
sayrão de demtro com batôs e tudo demtro, porque eram naujos peque- 
nos, e nom quys. 

Saltou o tempo, com eles de fora, ssobre a barra, e esteueram per- 
didos de todo; e a nao guzarata sse perdeo, com todo los aparelhos, vas- 
sos, cabres, cabrestamtes e todas 1}utras cousas que leuauaa, com tro- 
menta, sem lhe saber dar rremedio; e eu acorry aos navios com muy- 
taas amcoras e amarras, de maneira que se nam perderam; e, quamdo 
ele vio que eu acudia daquela maneira ao que ele mal mamdara fazer, 
emtam, porque o tenpo era muito forte e de gramde fortuna, mamdou 
me que assynasse em huum assemto que mamdara íFazer, em que dezya 
que, se se aqueles navios perdesem, que eu fose obrjgado a dar diso rre- 
zam e conta, porque ele se lamçava d isso ; e fez me assynar por fforça no 
dito asemto, depojs que ele fez o maao rrecado; e desta maneira ffaz ca 
todas as coussas, que, depois que tem o maao rrecado feito, emtam quer 
culpar os que diso devem ter carrego, por se lamçar ffora de culpa; e 
também me cometeo a me querer mamdar a mailaca,. pera la ter cargo 
do que ele leixou perdido. Eu lhe rrespomdy que Vossa Alteza me man- 
dava ter cargo de cochim ; porem, que eu fora ao cabo do mundo, se me 
parecera que, nyso, fazia seruiço a Vossa Alteza; mas que todos os ma- 
rinheiros, mestres, pilotos, que de la vinham com elle, deziam que se nam 
podiam Ia tirar naaos, nem correger; que, se elle queria que fose la de- 
ballde, pera me darem a mym a culpa, e desculpar se elle do maao rre- 
cado que la deixara ffeyto, que eu nom o avya por serviço de Vossa Al- 
teza, nem omrra minha; que, por yso, nam avya llaa dyr; que mandasse 
elle llaa homens, e que saberiam fazer o que fose neçesario, que eu aquy 
tinha emsynados ; que eu era la escusado ; que eu avia por majs voso ser- 
uiço estar em cochim, que he a cabeça de tudo, que em outra nenbua 
parte. 

Asy, senhor^ que por aquy acabo de vos dizer a metade do que se 



344 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

ca pasa (porque se nam poderia screpver tado), e venho a dar comia a 
Vossa Alteza do que a mym comprre. E digo, senhor, que, parecemdo 
TOS que me ífazies merçee, mamdasles poer em mynha escolha mjnha 
jda, se me quysese hir, ou ficada caa. A ysto, senhor, rrespomdo que, ca, 
nam se ifaz o que homem tem na vomlade, senam o que ao capitam moor 
pareeçe bem e ele quer; e a ele pareçeo mjlhor tomar me a nao que me 
vos mamdaveys daar, por caso de eu ca ficar, que de hir pêra portugail. 
Asy que, neste caso, nam se fez mynha vomtade. nem o que eu desejava, 
porque meus desejos sam hyrme, por nam ver as cousas que se ca fa- 
zem comtra voso seruiço e mynha vomtade, e nam por eu nam desejar 
de morrer naquele seruico e cousas que Vossa Alteza mamdar. 

Mas eu vejo, senhor, que Vossa Alteza me lira cadanno huua cu- 
berta e me tira da homrra e mamdo em que estava. Como querejs, se- 
nhor, que tenha vomtade nem desejo de vos serujr, como desejo? Que 
menos homem era o navarro, que eu, quamdo amdavanas gerras de framça 
e o fezeram comde, nam temdo ele feito tamto seruiço como eu, nem sa- 
bemdo a metade do que eu sey, asy na terra como no maar? 

E vos, senhor, esperamdo eu cada vez mais merçeee (sic), mandas- 
tes me tirar do mando em que estava, e mandastes que lourenço moreno 
mandasse tudo, e dese os seguros, e pagase os sólidos e quaesquer ou- 
tras despesas, sem, pêra yso, me pergumlar nada, nem ter eu mamdo em 
nenhuua cousa, maa nem booa. Ora vede, sánhor, o que eu poso fazer; 
porque, se me a mym pareeçe bem que se faça huua parede ou huua naao, 
desta maneira e desta, etc, e outras cousas, — diz elle que nam se ha 
de ffazer senam como elle qujser e lhe bem parecer, e nam o que me a 
mym parece voso seruiço. Asy que faz tudo o que quer, — quer mall, quer 
bem, — porque tem vdso rregimenlo largo, o que eu tudo ate quy tenho 
sofrido e sufro, pois ho vos asy mandaes. 

Craro, senhor, que homens ha, ca e llaa, que vos seruyram no oficio 
e carrego que vos ele serve, mjlhor do que o ele íTaaz, nem sabe ffazer; 
e nam sey se acbarejs homem em toda a espanha que vos saiba servyr 
como eu syrvo; e, que seja tacha gabar me, se nam fose notoryo e pu- 
blico a todos, nam no deria. 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 34i 

E ornem he diogo pereira» que aqoy esteve por feytor, de mjlhor 
samge e saber que ele, e esteae a mjoha obidiemçia, o ano que foy fey* 
tor, em que fez duas carregações ; e he çerlo que, aquele auno, nam foy 
Vossa Alteza mal serujdo. 

Se as peitas, senhor, la valerem mais do que vali meu seruiço, 
daqay, senhor, vos desemgano que nunca as Ia mamde a nemgem, por- 
que nam tenho feyto per onde as aja de dar nem mandar; porque o voa- 
dor, meu prymo e procurador, que tem cargo de toda mjnha fazenda, 
lhe nam tenho dado nem mandado nada, soo por esse rrespejto, porque 
as mjnhas coasas sam craras, e am sempre de ser, ca e lia. 

Gomtudo, se Vossa Alteza se de mjm ca quer serujr, ha de ser de 
maneira que nam desfaça em mjnha hororra, e que venha toda per ym- 
teiro e riam per pedaços; que he, senhor, que me faça merçe da capíta- 
nja de cochim com alcaidaria, e que tenha também cargo de vosas ar- 
madas e carregações, como sempre, tequy, tyve, porque jmda por aqoy 
me ficaes devemdo djnheiro, por eu follgar de voos serujr em tamta 
cousa, pois o corpo ofereeço a Vossa Alteza e allma a deuà; e o soldo seja 
o que he ordenado, com suas quinlladas, aos capitães, que tanto traba- 
lho nom tem, como eu. 

E, nam semdo disto seruido, lhe terey em merçee mamdarme dar 
a naao nova que ca faço, que era de bj^' tonejs, pêra nela hir, com mj- 
nha 'camará carregada, que bem vola mereeço, polo proveito que vos 
dou, cadanno, n arrumação das naaos da carrega, que lhe faço leuar majs 
do que lhe nemgem farya, em que vos tenho dado muuyto proueyto. Asy, 
senhor, que a devejs daver por bem empregada em mym, e dar me jmda 
nella algum djnheiro a partido^ — aquele (jue ouuerdes por bem, — por- 
que nunca vos ca servy por formaa como fazem outros, senam de todo 
meu coraçam e de toda mjnha vomtade, e as mjnhas obras dem diso 
testeraenho. 

A nazare, senhor, se nam fifez sobrela nenbuum comselho em co- 
chim, e foyho o capitam mor fazer em cananor, com mestres e pilotos e 

1 Sei8c«Dioi. 

TOMO ui. 44 



346 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

assy 06 capitães» sobre se a dita nao era pêra hir pêra pOTtugall ou oam ; 
e todos diseram que era pêra hir pêra portugall ; e» quando elle aqujllo 
vyo, dise a todos que, pois lhes asy parecia, que a nao heria a rrisco 
deles e de suas fazendas, de maneira que os Sez tornar dizer que oam 
tomavam rrisco de nada, que fezese dela o que quysese. Emtam, detre- 
mynou toma lia pêra 6car caa, porque lhe pareçeo que, se viese a co- 
chim, que avia de ser comçertada e aparelhada muyto bem, e qae eu que 
me heria nela, como Vossa Alteza mamdava; e, so por este rrespeito, a to- 
mou, nam sendo necesaria pêra nada, e podemdo hir carrqjada, qae fora 
boa soma de djnheiro. E estes sam os proueytos que vos elle daa, por- 
que quallquer das outras naaos, que ficara, poderá hyr pêra o anno, e 
esta nam pode hir em nenhutla maneira. 

De todas estas cousas, a culpa he de Vossa Alteza, porque todos 
nos ca parece que vos lhe mandaes que faça tudo o que fiEaz; e, se vos, 
senhor, em quamtas cousas tenho dito e mandado dizer, os outros anos 
e esto, vos parece que mymto, manday, senhor, gardar mjnhas cartas, e 
manday me cortar a cabeça, se em alguiia vos mjmto, senam quamto nom 
poso avisar Vossa Alteza de toda las cousas, jmteiramente, por nam ter 
tempo, com muyto trabalho que todo anno levo. 

A ysemçam, que me Vossa Alteza deu, de pêro mascarenhas^ vos te- 
nho em mercee, postoque me nam fose necesaria, que he ele tall pesoa 
e eu tam bem emsynado, que nos avemos sempre bem de avyr. Amtes a 
quysera do voso capitam moor, pêra que, sem medo, lhe ousara dizer as 
cousas de voso seruiço, ou, ao menos, mandar lhe que, todas as cousas 
que fizer e ouuer de ffiazer, que tome em tudo comselho comjgo, pois eu 
sey da terra e do maar, majs que elles todos. 

Senhor — Vos mamdaes em vosos rregjmentos que, de bj^ em bj me- 
sep, se tire emquiriçam devasa sobre vosos ofi^aes e de toda outra jemte 
de todas vosas fortelezas, sobre vosa fazenda, etc. ; e nunca mamdaies ti* 
rar emqiríção do voso capitam mor, que he majs necesaria que todas, 
porque tudo se fiaz per sua ordenamca e per seus madados (iic)^ e> pois 
assy he^ a elle deve ser posta a culpa, se ha hy ouuer, porque todos ca 

> S«Í8. i 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 347 

estamos a sua obidiemçía, e nam ao que nos pareeçe bem nem voso ser- 
aiço. Por yso, deve Vossa Alteza mandar, pois temdes oficiall pêra ysso, 
qoe he gasp^r pereira, que ora de la veo, que saiba qoem vos tem bem 
serojdo e serve, e assy qoem vos deservio ; e a cada hiiíia pessoa mam- 
dardes daar galardam ou castigo de seu seroíço, porque, jmda que ca 
queiramos faier o que nos bem pareeçe, nam podemos, qoe ele tem co- 
mando e jurdiçam sobre todos; o qoal mamdo he major do qoe Vossa Al- 
teza tem em todo portogall, qoe, lá, faz se jostiça e ha hy rrezam, e, ca, 
nom se faz justiça, senam o qoe voso capitam mor quer, e nam o que he 
bem nem justiça nem cousa de voso seruiço; e elle so he o juiz de tudo, 
de qoem mm^n quem apelar. 

Saiba Vossa Alteza que a ordenança de jtalia e veneza he tirar sse, 
primeiro, emquiriçio de seu capitão moor, qoe de nemgem, quamdo 
acaba seu tempo, per huum secretarjo emlegido pêra yso; porque se cre 
que tudo se faz per ssoa ordenamça; e, como eles jsto sabem, amdam 
mjlhor rregistados e am medo de fazerem o que nam devem; porque, se 
ca deixaes tudo a discriçam do capitam moor, todos qoamtos caa ha ju- 
raram falso por amoor d elle, porque ho am mester, mais que Vossa Al- 
teza, porque, quanto ca mandaes, tudo elle desfaz, sem comselho de nem- 
gem, — o que eu nam poso crer qoe Vossa Alteza mamde. 

Qoe elle diz que, se lhe mandaes que tome comselho, que, na der^ 
radeíra, lhe dizejs que faça o que lhe melhor pareeçer. Ora, pêra que he 
comselho, pois que ele ha de fazer o que qujser, e nam o que pareeçe 
aos mais? E, p^ra saberdes, senhor, se digo a verdade, agora salooo a 
dk)go correa, que tinha rroubado todo cananor e dados seguros a cal- 
leco, e quys culpar os que vos seruem em cochim. 

Senhor — Pêra Vossa Alteza saber quem vos bem serve e quem se 
doy de vosa fazemda, e, as despesas que se fazem, se sam bem feitas ou 
nam, huAa soo merçee me fazey: — que mamdejs saber, pola comta de 
diogo pereira, que foy feytor, semdo eu capytam, com o mamdo da ffa* 
zemda, o gasto que se fez nesta rribeira e forteleza e asy nas armadas, 
se chegou ha o que he feito depois de vyr lourenco moreno te outro 
tamto tempo quamto diogo pereira foy feitor; porque, no dito tempo, se 
carregaram duas armadas pêra portugall, mujto gramdes, e se correge- 



348 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

r^m muytas nãos e navios, e se fizeram de novo ; e, com ludo ysto, nom 
tem diogo pereira, em sua rreeçepta e despesa, mais de xxxiij ou xxiiiij*'* 
cruzados* e iourenco moreoo tem mais de çemla (sic) çJQCoeola mjl 
cruzados de rrecepla e despesa, oam fazemdo ametade das obraas que 
se uaqueile tempo íizeram. Ora, veja Vossa Alteza quem vos mjihor ser- 
vyo e com mais proveyto de vosa tazemda, porque, oeste tempo, amdava 
tudo a mjoba bordenamca e de diogo pereira, que queria tudo o qae eu 
queria, que liie parecia que era voso serviço, e oam se querya mostrar 
pomporroso, que elie era omrrado asas e folgava de fazer tudo o que 
me a mym bem parecia e era voso seruiço, no que agora eu nam tenho 
mamdo nenhum ; e Vossa Alteza manda que lourenço moreno tenha car- 
rego de toda vosa fazemda e das despesas todas que se fazem, que, jmda 
que eu queira fazer o que me parece bem e voso seruiço, diz elle qae 
Ibe nam parece bem e que o nam quer fazer, nam por lhe nam parecer 
bem, mas por se mostrar majs poderoso, em ludo, que eu. E, se vos pa- 
reeçe, senhor, que asy podejs ser bem serujdo, seja como Vossa Alteza 
mamdai*; porem, daquy vos desemgano que vos nam poso serujr desta 
maneira, a vosa e a mjnha vontade, porque, quamto ca desejo fazer por 
voso seruiço, nam pode aver nenhuum efeyto, por estas cousas que dito 
tenho. 

E, pêra saberdes se vos fallo verdade em tudo, eu ouue aquy por 
voso seruiço queymarse o çirne e o rrey gramde, porque sayram em 
terra podres, pêra sse aproueytar a pregadura e aiguas outras cousas, 
que se nam aprouey taram, se se lamçaram através; e o capitam mor me 
qujs por yso mall, so por rrespeyto da carga que tjnha no çirne, e nunca 
com ali me dava no rrosto, seuam com o çirne, por caso de sua fazenda, 
e nam porque se podese correjer; e, amtes que os quejmase, fiz comse- 
lho com todo los ohçiaes que aquy avya, e carpynteiros e calafates, por- 
que, se eu desejo tiuera de fazer o que comprya ao capitam mor, e nam 
a Vossa Alteza, eu o mandara correger, postoque nyso gastara majs, que 
fazelo de novo. E, por aquy, senhor, veres se sam amygo de vosa fa- 
zemda, majs que du proueylo datíonso dalbuquerque; e, por este rres- 
peito e poios que dito tenho, me ordena todo mal que pode, que, ate me 
empecer em mjuha casa e meus omens, tudo faz, que tudo me tomou, 

^ Trima e ires ou trinla e quaut> mil. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 349 

qoe me nam leyxou haum so homem que me servise nem que vigiase 
este castelo, damdo, a quem nam tem omens d ordenado, gentes e mari- 
nheiros das nãos, por seus omens. E, por aquy, senhor, veres se lhe lem 
bram as cousas pasadas, ou nam. 

Senhor — Ja la tenho scriplo a Vossa Alteza que me parece que de- 
vejs sempre trazer navios ordenados nesla costa, a saber: que vam as 
jlhas e çeilam, quamdo for tempo, que vos faram njsto muito seruiço e 
proueyto, pois tudo he a porta de cochim; que, das jlhas, vem muito 
cairo, que he muyto neçesano, e anbar e panos de seda e outras merca- 
dorias; e, de çeilão, muita canela, rrobjns, çaBras, alifamtes, que he o 
moor trato que ca ha; e jsto vos he majs neçesario que os gerrejones de 
goa e mallaca; e jsto traz proueyto, e o ali, gasto e morte d omens. E, a 
canela que la vay, trazem aquy os mouros a que querem; e, a boa, vem* 
dem omde lhe bem vem. Por yso vos digo, senhor, que mandejs ordena- 
mente navios pêra ysto ordenados a esta forteleza, sem o capitão mor 
os poder levar pêra outro neuhuum cabo, e que lambem amdem no trato 
de cambaja, que he muito voso seruiço, com mercadorias vosas. 

Naaos de mercadores, me pareece muito bem nam virem ca, prin- 
cipalmente as dos estramgeiros, nem jente» estramgeira, espiçialmente a 
de leuante; e, se esa merçe quiserdes fazer, seja aos portugeses, vosos 
naturaes, que nam temdes outros qne vos ajam de serujr lealmente, se- 
nam estes. 

Também, senhor, vos lembre que mamdastes ca o corço, pareçemdo 
vos que sabia alguua cousa; e elle não sabe mais que o que lhe eu em- 
syney, quamdo veyo por marinheiro com fernam soarez; e vos quereis 
dar a elle a omrraa do que eu emvemley e ymsyney aos vosos purtuge- 
ses, nam por ai, senam porque he eslramgeiro; que ca lhe perguuntou 
affonso dalbuquerque se saberia fazer o que eu fazia e sabia, e elle lhe 
dise que nam somemte, que de galles saberia mandar. 

As quaaes galles eu faço com vosos ofiçiaes purtugeses, postoque 
me pareeça menos neçesarias que nenhuns outros naujos, porque trazem 
muyta gemle e nam servem de nada; e, pêra esta costa, fazem mais gerra 
e he mais proueytosso carauelas latinas, que todas as gales do mondOí 



350 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

qoe trazem pooca gente e faz tanta gaerra hiia caraoela como bSa gale; 
que bem sabe Vossa Alteza qae huSa caravela bem armada toma doas 
gales, como fez o príol do crato, que, com buQa caravela, tomou hoSa 
galle e outra ihe fogio, semdo duas galés muito bem armadas, de genoa; 
e o c^tello de buua galle be pêra dez carauelas ; porem, comtudo, fa- 
zem se, pois o Vos Alteza mamda. 

As galles, senhor, nam sse fazem senam por rrealeza e pêra porem 
jemte em terra, o que as carauelas também podem fazer; e ysto me deve 
Vossa Alteza crer, porque o sey, e gastey, nyso, parte de mjnba vida. 

Asy, senhor, que temdes a melhor jemte de todo mundo, que sam 
os vosos purlugeses, nam queiraes fauoreçer comtra eles os estramgei- 
ros, que nam sabem nada; e a prova disto, be que os purtogeses, omde 
quer que vam, valem muyto e nenhua outra jemte nam vali tamto como 
elles, em toda a parte do mundo. 

As naaos, senhor, que ora ca ficam d armada, sam estas, a sdl)er: 
— a nazare, samta maria da serra, frolldarosa, sam pêro, bota fogo, a 
bastiaina, madanela, o ferros, samta cruz, enxobregas, dons naoyos rru- 
mes, buua caravela laitina, a nao sam tome, que se ca fez, o rrosayro, 
santa maria d ajuda (pequena), outra santa maria d ajuda (gramde), o 
navio garça, o navio santesprito, duas fustas, sete barcas, que se ca fe- 
zeram. Tudo ysto fica agora na jmdea com o capitam mor, afora xb^ ca- 
tures da terra, armados a vosa custa, que foram com ele; e jsto fora as 
três naaos da carga que la traz, que nam sey se vyram, que be: samt 
amtonio (o grande), sam giam, e a comçefão; porque, jmda qoe lhe 
mamdes iiij*' nãos e uf ' omens, nam será farto; e, por yso, douydo, te 
gora, que be em fim de novembro, virem estas três nãos a carregar. 

E, em maiaca, ficam estas nãos e nauyos, a saber: — doas caravelas 
(latina bua delas, e outra rredomda), e o brotam^ e três nãos da com- 
serva de diogo memdez, cjmco naaos de rrumes, a galle gramde, — afora 
duas galles e a taforea e frolldelamaar, que se perderam, delas a 

'Qoiíue 

' Quitrocentas. 

''Trexentos oiil. 



DOCDMENTOS ELUCIDATIVOS 351 

jda e delas a vjnda. E, depois disto, mandamos daquy os doas na- 
vios, a saber: — sam christouam, que se aquy corregeo de novo, e o na- 
vio novo que se aquy fez, em que ouuera dyr diogo pereira, se ele nam 
viera; e, depois, foy o navio samta ofemea, com mamtjmentos. Ora, veja 
Vossa Alteza se se estreve a soster e mamter tudo ysto sem nenhuum 
proueyto, nem neçesidade que hy aja, por agora; e nam se emgane Vossa 
Alteza com o que vos la manda dizer, porque, te gora, nam tem feyto 
cousa senam de muyto gramde gasto e despeza, e asy de fazemda como 
de gente; e, se vos eu mymto e ele diz verdade, em vosa casa e fazemda 
o acbarejs. 

Também me qujs mall, porque mamdamos as duas naaos de dom 
aires e cbristouão de brito, que as quisera caa, pêra vos destroyr de todo ; 
as quaes nãos nam podiam chegar a cocbim com rrequyrimentos que lhes 
fazia diogo correa, em cananor, que ficassem caa, e assy os de goa. 

Os casados que se ca casam, nam crea Vossa Alteza que sam os 
que vos desejaes, porque, a meff ver, vosos desejos sam liamça com os 
da terra, e, te gora, nam casou ca nemgem, senam bomens vys e velba- 
cos, que casam com suas escravas catioas, por averem casamentos e go«- 
zarem dos pryvilegios e omrra que lhes faz; e outros, desesperados de 
os Dam quererem leyiar byr pêra porlugall ou de se verem mall trata* 
dos, por isso casam e, daby a dous dias, fogem pêra os mouros, deks 
com as molberes e deles sem ellas, ou elas sem eles, com quamto tem. 

E, porque estes nam sam os que Vossa Alteza deseja casarem, 
voio faço saber, porque, os que, te gora, sam casados, sam desta ma- 
neira que vos digo, e nam tem que fazer com forteleza nem capitam, e 
sam 08 mores jmmygos que ca temdes, que nam querem ajudar a vigiar 
Bem a cousa que lhe mamdem, que eles mandam a terra e a governam, 
per ordeoaçam do capitam mor e per seos pryvilegios que lhes daa; e, 
damtes de serem casados, faziam o que lhe mandavam e dormyam no 
castelo. 

Açoda Vossa Alteza sobre ysto, que nom he s^uico de deus nem 
voso, nem sam casados como ham de ser nem como Vossa Alteza de- 
seja; e nam facaes comta domem neqbum casado, que he do OMito da 



352 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

forteleza, porque, a meu ver, eles seram anotes couilra ella, que defemde 
la; porque confiança (sic) querejs que tenha nos omens que se lamçam 
com os mouros e que sam desesperados? 

E, se Vossa Alteza mamda de ca hir os omens, o voso capitam mor 
nam quer que se vam nenhuuns, postoque aja J^ anos que ca estem, e 
que sejam aleijados e nom façam nenhum serviço. Por iso, nam vos raamdo 
dizer o comtraiio, que os majs dos omens que ha muito que ca andam 
doentes e nom fazem nenhuum seruiço, se querem hir, e ele os nam 
leixa. 

Também, senhor, me pareeçe que he escusado aver ca vigário je- 
rali, que puna e se ponha pela pela (sic) jgreja, porque am de ser des* 
somrrados por amor d iso, e, emfym, o capitão moor faz o que quer. E 
digo, senhor, ysto, por yoão fernandez, vigário que ca mandastes, que 
foy desomrrado e maltratado por gardar a jgreja e seus pry vilegios, e 
foy fora de seu cargo, e he ho mjlhor omem que pode ser; e, agora, que 
os omens sabem que lhes nam vai a jgreja, fogem amtes pêra os mouros, 
que pêra ela. Âsy, senhor, que, por cousa que me venha, nam leixarey 
de vos dar comta de tudo e avisar; porque, como me la vyr, prazemdo 
a DOSO senhor, folgarey que Vossa Alteza me ouça com elle, e lhe mostre 
mjnhas cartas, presemte mym; e. se vos nam digo verdade, eu o page, 
senam quamto nam poso screpver tudo, por nam poder lembrar me lamta 
cousa. 

Veja Vossa Alteza o que ha mais por seu seruiço, e yso mamde; 
porque eu me fora este ano, se o capitam mor me leixara hir, pois nam 
ey de fazer o que me parece voso seruiço, senam o que parece bem a 
quem menos sabe, que eu. Por yso, veja Vossa Alteza o que de mjm quer 
fazer, porque nam me despido de vos serujir; porem, ha de ser como dito 
tenho, com toda minha homrra, pois vo la mereço ; e, se nam, la vos sabe- 
rey seruyr tan bem ciimo ca, emquamto viuer. 

Senhor — Per derradeiro, faço lembramça destas cousas, que nam 
vos qoero emganar, nem ey mester nada, nem majs fazemda, agora, da 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 353 

que tenho, senam faiar aos verdade, porque por aquy espero ser oorrado, 
e gayobar omrra por vos falar verdade. 

Affooso dalbuquerque, nam lhe lembra numca naaos de carrega, e 
toda sua famtesya he fazer gerrejones, que vos nam aproueytam pêra 
nada, com vosa jemte que lhe ca mandaes; porem, ele gardase o me- 
lhor que pode, e nam lhe da nada matarem lhe quamtos homes trás. Com- 
tudo, sempre procura per seu proueyto, e por aver dos mouros, christaos, 
judeus e dos portugeses todo o que pode, per todas vias, pêra sy. Sem- 
pre o eu por tall conheçy. 

Também lembro a Vossa Alteza que elrrey carlos tomou toda jta- 
lya, com quem eu andava, e nuunca a pode soster; e Vossa Alteza quer 
fazer muuytas fortelezas e tomar moitas terras. Vede se as poderejs sos- 
ter, porque nom he nada o gajnhar pêra o soster; e os omens, ca, nom 
creçem. 

Fazey, senhor, de meu comselho, de cochim, rrodes; que esta he a 
verdade e o ali he vemto, tiramdo a forteleza do estreyto, que me parece 
neçesaria; porque crede, senhor, que, se perdejs cochim, que temdes per- 
dida a jndia, e o capitam mor nam faz comta seham do que elle faz, e 
leiía cochi perdido. Manday, senhor, espesamemle, que cochim nam este 
nuunca mjmgoado de nenhufia cousa, e que amdem sempre navios orde- 
nados a cochim, como tenho dito atras, e jsemta a forteleza e nauyos do 
voso capitam moor. Emtam serejs seruido. 

Mamde Vossa Alteza leuar de ca dous judeos castelhanos que to- 
mou affonso dalbuquerque, e os traz comsygo, e faz tudo com elles; e 
d eles saberes tudo o que cunpre a voso seruiço, e todo los rroubos que 
ca sam feytos. 

Tanbem, senhor, vos lenbro que, pêra a jmdia ser asesegada, como 
deve, que vos he muito neçesario cortar as cabeças aos mouros primçi- 
paes de cochim, porque nenhuum seruiço vos fazem, senam toda las trai- 
ções e avisos que podem dar a nosos ymmjgos, o fazem. 

E, se em alguum tempo csperaes de o fazer, seja agora, porque 
Touo ui. 45 



3Si CARTAS DE AFTONSiO DE ALmíQC^RQUE 

teoides o rrey de voosa mão, e, que» pela vemtora, lhe pese, ele folgara 
emfym com tudo o que vos fezerdes, dando lhe e partindo com ele suas 
fazemdas, e também concertando que os purtugeses tratem, e pagem os 
djreitos a elrrey que os mouros lhe pagauam, e asy a outra jente toda, da 
terra naturaes. B njsto cujde Vossa Alteza bem, porque be cousa de sus- 
tamçia, em que vos muuyto yay e muuyto cuunpre. 

E, depois de ter esta scripta te quy a Vossa Alteza, ? ieram, pêra 
carregar, as nãos saml antonio e comçeiçao ; e chegaram, bua, o primeiro 
dia de dezembro, e a outra, a b^ dias do dito mes, e dom graçia com 
elas, pêra fazer correjer a nao sam pêro e o rrosairo, de carias bombar- 
dadas qne traziam, e a nazare, pêra lhe por o masto do Iraqoete e o 
leme, que tudo lhe tjnha prestes pêra a jda de portugall; e, se dom gar- 
çia nom viera com os poderes que trazia do capitam moor, eu carregara 
a naao nazare e enxobregas, e me fora com elas carregadas pêra porta- 
gall, porque, — louuores a deus, — a carrega sobeja naas vosas feitorjas. 
Ora, senhor, vede qual he mais proveito: se os gerrejones, ou as taes 
nãos como estas leuarem a Vossa Alteza lIp' cruzados. 

Torno outra vez afyrmar a Vossa Alteza do rroubo que leva ho ou- 
vidor, e asy gaspar de paiva, que vay cheo d ouro, porque o soube per 
certa certeza; e assy dum frade que Vossa Alteza ca madou (sk) pêra 
curar os omens doemtes, e ele amda ca bebodo e matou huua moça, 
como se la vera per huua emqyryçam que diso vaay; e este he fifrey je- 
ronymo, bombardeiro, que tanbem leva muito djnheiro, do rroubo de 
mallaca. 

Item — Se as nãos da carrega nam vam tam fornecidas de matj- 
mentos (sic)^ be, senhor, porque me tiram ho oficio que eu se&pre tive 
te quy, que hera hirem muyto bem carregadas, e leixar lhe seus mantj- 
mentos e os seus vinhos, pêra sua viagem ; e, agora, dom garçia despo- 
jou as de todo. Praza a deus que ele as leve la, como Vossa Alteia de- 
seja; e, se Vossa Alteza quer que elas de ca vam como comprem, busqe 
lhe outro rremedeo, porque os capitães lhe am sempre de tomar tudo; 
e, se me Vossa Alteza mandase o poder pêra ysto emsolyto, ellas hiriam 

'Gineo. 

* Traieiitos mil. 



OOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 355 

doutra maneira do que vam, porque, acerca das enxarçeas, das velas e 
carpyntarias e d arrumação, elas vam bem, porque he cousa de meu tra- 
balho, e uemgem me nom ?ay a ysto a ioaão« porque be trabalbo e cou- 
sas que eles nam emtemdem. 

Dou couta a Vossa Altesa das nãos que este anuo lirey em terra, 
e das que aqui se lezeram e fazem : 

Item — a uao trymdade; 

Item — a oao enxobr^gas; 

Item — o rrosayro; 

Item-^ij^ navios rruumes. 

E os que se fezeram, sam estes : 

Item — a naao sam tome, de cL**' tones; 

Item — o navio samtandre, de lu' tooes; 

Item — hfla caravela, de A^ tones; 

Item — a nao per nome monte synay, que agora facp, de bij^^ to^ 
nejs; 

Item — hila gale rreal, de ux* bancos; 

Item — huua fusta. 

Ora veja Vossa Alteza quem lamto cujdado tem, <assy na rribeira 
como na forteleza, semáo soo, com todo los offiçios, se m^eeçe merçee. 
Beijo as maaos de Vossa Alteza — Feita em coebim, a xb^ de dezembro 
de 1512. — O vosso — Antonjo rreall. 

(Sobrescripto) — A elrrey, noso senhor — Damtonío rrealL 

(In dorso) — Dantonio real — Pêra ver elrrey.* 



iDois. 

' Cento e cincoenta. 

' Setenta. 

^ Quarenta. 

* Setecentos. 

• Trinta. 

* Quinze. 

• Torre do Tombo- £. Cliron , P. i.\ Maç. 12, D. 44. 



356 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 



1618— Janeiro 12 



Senhor — Depojs de ter esprito a vos alteza esa carta de três folhas 
que leva duarte tejxeira, se aconteçeo que esa molher que leva ese que 
se fez embayxador, dise a hua moura que aquj amasa, e fala portuges, 
e aighuas outras abexys que lhe aquj falaram, que dos disese a todos 
que este homem era mouro^ e nom era abexy, oem vjnha mandado por 
o rrej; e que era tudo falso, e era espya e grande pyloto e fejtyçejro; 
e que a ela furtara, e nom era sua molher, nem filha de rrej, como ele 
dise ao capytãomor e a nos todos; e que ese moQO que leva como jrmão 
dela, que lhe nom era nada; que anhos furtara, cada bum em sua terra, 
e que dormja com ho moço. E mandava me chamar pêra me faiar, e asy 
a bernaldym frejre e a jorje de meto; e nom ousej de lhe hjr falar, por- 
que affonso dalbuquerque nom he homem como os outros, e disera mjl 
cousas. Em cochjm, me dise antonio rreal que hum seu espriuom o co- 
nhecya, e que era mouro, e era tudo jsto falso; e francisco pereira me 
dise que, em cochjm, soubera tudo, e que o dyrja a vos alteza; e que, 
de ca, vam ja cartas a rroma, dyslo; e dizem que ho capytãomor sabe 
tudo e se calou. Parece nos que a jorje de melo e a mjm ha de.destroyr 
o capytãomor por jsto; porque ele diz que, so por este servjgo, ho ha 
vos alteza de fazer conde. Pareçeome voso servjço avjsaruos dyso. 
Fale vos alteza com cada hum sobre sj, antes que se provjque nada. E 
lourenço moreno me dise, em cochjm, que lhe djsera o rrej que este (sic) 
era trama e falso; e ja dom garcja dise em cochjm, presente mjm, que 
era hum doudo e que ho Qzera bejjar hum pedaço de pao que trazya; 
que se fosse era ma. — De cananor, a xij^ de janeiro de 1513 — Gaspar 
pereira. 

(Sobrescripto) — A elrrey, noso senhor. 

(In dorso) — De gaspar pereira — Fera ver elrrey.* 



>D0Z6. 

> Torre do Tombo *-C. Chron., P. l.\ Maç. 12, D. B7. 



DOCUMENTOS ELDCmATIVOS 357 



1613— Outubro 20 



Senhor — 1 —Saberá vossa alteza como, ho anuo pasado, escreuj 
a vosa alteza per gomcallo piriz, pillolo da naao de joham seram, e com 
matias, cristam jacobita,* embaxador do preste joham; em as quaaes car- 
tas Dotefíquava a vosa alteza que omem sam ; e, por oom ser certo se as 
dietas cartas foram rrepresemtadas a vosa allesa, acordey de tornar a 
rrepetyr algSas cousas das que mais rreleuauam em ellas, asy a vosa al- 
teza, como a mjnha proue pesoa. Bem creo, senhor, que foy noteãquado 
vosa alteza bua naao que tomou sinaao (sic) martjnz, com a naao rrey gram- 
de, e outra que se chamaua ho bretam, e outra booa vemtura, a quall 
naao vinha daden, caregada de amfion e corall e açafram e borquados 
e veludos e dezeseys mjll xaraBs em comlamtes, he bya pêra calecut; 
em a quall naao vínhamos, per mercadores, eu e bum judeu; he, ache- 
gamdo ao momle dely, ffomos /suados as dietas três naaos, he fomos 
apresemtados . . . contentamento (f). -- folgou ^comnosquo mujto em de- 
masia (?) tos a ... dos (?) que lhe demos de todas as cousas que 

se faziam em ho quayro he o que se soaua em aden, depoys que do quairo 
fomos saidos; pello quall nos prometeo mujla merçe e nos fez tnujto ga- 
salhado, e nos deu por emxempro gaspar das jmdias, he que, se ho ser- 
ujamos bem, que vosa alteza nos farya mujla merçe, — mais que a gas- 
par. £ asy pusemos em nossos corações seruir vosa alteza, como vosa 
alteza pode saber per mujlos caualeiros fidallgos que se acertarom em 
guoa a segunda vez, a deligemcia que pusemos em aviar todas as cou- 
sas que eram necesaryas pêra fazer a fortalleza da dieta cidade. 

Item — 2 — Todas as cartas que vinham de narsiroga, como do sa- 
bayo, como de batecallaa e de chaul, dabuil e (?) cambaya, todas pasa- 
uam per nosas maaos, asy em leias, como espreuer rreposta delias, em 
parseo, como arrabeo, como de quenerym ("f^, e nunqua se achou comtra 
nos que disesemos bom per outro ; e ysto tudo ffaziamos, porque emtem- 
demos que serujmos boom senhor e que avemos daver ho galardam que 
ouueram todos os que serujram vosa alteza; pelo quall cremos que nom 



358 CARTAS DB AFfONSO DE ALBUtlOERQUE 

seremos menos desemparados de vosa alteza, que asy be fama de vosa 
alteza per todo mundo. 

Item — 3 — Qnamdo fao capitam mor ffoy a mellaqua, se tornou hum 
de nos cristam, o quall se chama francisco d alboquerque, o qual spreue 
a presemte a vosa alteza. 

Item — 4 — No dicto caminho, foram tomadas cimquo naaos do rre- 
gno de combaya, aas quaaes, pellas duas delias, fazia dar vimte cimquo 
mjll pesos de xarafis de ouro em poo, de manancabo, o quall he ouro de 
vimte he dous quilatees e meo; e os quadrilheiros nom comsemtiram, 
porque, ajmda nom aviamos metidos os cimquo dedos nellas, he murmu- 
raram contra mjm, dizemdo que os vemdia; e comecarom escamdalizar 
ho pouo meudo, tamto, que ouue por bem de deixar de falar nyso, e le- 
uaramna elles a melaqua e vemdcram a prymeyra he prímcipall delias, 
que lhe deu ho capitam mor, em suas partes, per noue mjll he quinhem- 
tos pesos de xarafy de ouro em arries, que era ouro de dezeseis quilates, 
que se vemdeo em cochim a dezseis (sic) fanos (sic) ho metiquall ; e dei- 
ram de lomar doze mjll he quinhentos de ouro que se vemdeo em ho di- 
cto cochim a vimte he dous fanoes he meo ho metiquall; e os dictos qua- 
drilheiros fezeram ha vemda per ouro baxo, por nom parecer a gram de- 
feremça, que avia, do preço que eu fazia dar ao que elles vemderam. 

Item — 5 — . . . tomou (?) de malaqua, que vinha de 

naagur, que traziam (?) que valia çem myll xarafys, o quall vi- 
nha carregado de panos rriquos de seda he dalgodam; be, bum dya, es- 
tamdo vemdemdo tristam de gaa huns myll e oytocemtos cruzados de pa- 
nos, que avyam dado ao capitam moor, em sua joya he partes, emtrey, e vy 
ho prego que os estauam vemdemdo^ e rrequery, de parte de vosa akeza, 
que nam os vendesem por aquelle preço, porque serya causa de gram aba- 
timento em a rroupa que fiquava na feitorya, de vosa alteza; e que eu me 
obrigaua de fazer vemder em dobro; e fujme ao cajHtammoor e diselhe 
que me fezese emtregar aquella rroupa he hum espriuam e hum rrecd»* 
dor do dinheiro, /t que eu lhe farya dar per aquella rroupa ho dobro ; e 
asy bo fiz, que fiz dar por ella três mjll e seiscemtos cracados: e, per 
aqueUe preço foe se vem^leo a dieta rroupa, «e fez preço a toda ha rampa 
que fiifiiam na feitorya, de vosa alteza, em ho quaU me panece <|M fiz 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 350 

acrecemtar em a fazemda de vosa aUeza trimta oa quaremta mjll craza- 
dos; e ysto poderá vosa alteza saber per pêro dalpoy, que foy per capi- 
tam na naao dos mercadores, chamada trimdade, e per gaspar de paiua; 
e asy poderá vosa alteza saber delles que omem sam; e a causa disto, 
be que, amtre os portugeses que amdam na índia, sabem pouco de mer- 
cadoryas. 

Item — 6 — Em a cidade de melaqua, acordamdo ho capitam mor 
de fazer fortaleza, vemdo a pouca força dos portugeses pêra caretar pedra, 
he ha pouqua obra que se fazia, fuyme ao capitam mor, e diselhe que 
nom vya camjnho pêra elle acudir a jndia aquelle ano (que era cousa que 
mujto rreleuaua a vosa alteza) e que nom tinha tempo pêra acabar de 
fistzer a fortaleza; pelo quall ho capitam mor me rrespondeeo que — que 
rremedio lhe daua? Diselhe que me dese licemça que yrya pela terra, 
e que trazcrya gemte de trabalho. Rrespomdeme que se rreçeaua que 
lhe escandelizarya ho pouo; e eu me obrigey que, cada negro que viese 
fazer queixume de mym, de dar lhe hum cruzado, dagrauoo. Emtam, me 
deu hum cauallo em que fose, he fuj me a hum mouro parseo, que avia 
trimta he dous anos que abytavaa em a dieta cidade, he lhe rrogey que 
me disese todos os mercadores, per nome, que em a terra avya; e elle 
mos deu todos per sprito, asy jaaos como quelenes, e que sprauos tinha 
cada hum. E, depoys de os ter tomados per sprito, asomey os sprauos 
he achey três mjll e quinhemtos. 

Item — 7 — Me fuy a casa de otemetearaja, capitam dos jaaos, o qoall 
ho capitam mor mandou degolar, a elle e a seu filho e genro e seu so^ 
brinho, o quall, se eu esteuera saão, quam (sic) os mandaram degolar, 
quiçá nom se degolaram, porque, temdoho elle preso em ha forieleza, 

nom ousara nenhum de seus per nos bolir comsigo, saluo que 

estaua a es, he dise ao dicto capitam dos jaaos que . . ^ 

tinha (?) amizade be amor ao capitam moor, que porque . .emdo ho elle 
com a pedra hos rostos, porque nom lhe mandaua seus sprauos que lhe 
ajudasem. 

Item — 8 — Me rrespomdeu ho dicto capitam dos jaaos que nom ti- 
nha senam muy pouquos esprauos, e que, aquelies que tynha, que os avy 
($ic) mester pêra seriuço de sm^ casa ; e eu lhe dise que nom era aq^ella 



360 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

rreposta pêra tall ornem como ho capitam mor de vosa alteza, e que, em 
tempo semelhante, se conheciam os amigos e se cobrauam os caracOes 
dos rreys be senhores ; e que nom era mujto que, o que tinha dez espra- 
uos, que ajudase ao capitam mor per ses dinheros. Emtoces, me dise 
elle que quem eram os que tinham sprauos. Emtoces, lhe mostrey ho 
papeli que tinha sprito, he lhe ly, per nome, hum he hum d eles, e eile 
se maraujlhou nomeallos todos per seus nomes. Dise que me memliram; 
que nom avy [sic) hy tamlos sprauos. 

Item — 9 — Lhe rrespomdy que ho omem que m o dise, que m o nom 
dísera per nenhum emterese, nem era omem que os nom conhecese lodos; 
e, postoque memtise em algua parte, que lhe desemos, de rresgardo, qui- 
nhentos omes menos do que me avyam dicto; e emtomçes se me deu per 
vemcido de rrazam, e me dise que me vyese ho outro dia a sua casa, e 
que mandarya chamar todos os mercadores, e que lhe fezese eu hua 
falia, que elle ajudarya em quanto pudese; e asy lhe tomey juramento 
diso em seu alcoran e me de^pidi d elle, e me vym ao capitam mor he 
lhe comtey tudo que avya pasado, com o quall ouue gramde prazer. 

Item — 10 — Ao outro dia, muj cedo, amanhecy em sua casa he lhe 
fíz mandar chamar todos os mercadores, per nome, e fiz lhe a mesma falia 
' que lhe tinha fecta a otemetearaja; e rrespomderam todos que era mujta 
rrezam; e comcertey com elles a lhe dar cada um delles dez por cento 
dos sprauos que tinham, e ordeney quatro omes, e, sobre os quatro, 
oyto, que tiuesem cargo de apanhar estes omes em bua praça rreall, que 
by, em vpim, ha, lugar domde elles abitam. 

Item — 11 — Cada dia, duas oras ante menham, bya a casa destes 
quatro capitães sobredictos, os quaaes chamam elles mocapdames, e lhe 
fezy ($ic) rrecolher todos estes omes, he os trazia comjgo a fortaleza. 
Bem pode cuydar vosa alteza que obra podiam avyar trezemtos e cim- 
quoenta omes cada dja, he, as vezes, quatrocemtos, com os omes de fora 
que eu rrecolhia ; pelo quall me parece que, quem tall seruico tem ffecto, 
he dino de merçe. 

Item — 12 — Ffiz arremdar a casa da moeda de mellaqua em cemto 
he quarenta e cimquo mjll reaes cada ano, o quall teue tristam de gaa 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 361 

qaatro meses (?) hom seityll, nem quem lhe tomase comta dyso 

cento e quaremta he cimquo mjjl reaes, semtende em. . . es- 
tanho, o quall em a terra core por moeda. 

Item — 13 — A tomada da dieta cidade, dise ao capitam mor que 
mandase rrecolber gramdisima soma d estanho que avya em a terra, que 
todos os de melaqua nom emlesourauam outra cousa, em lall maneira 
que, se hum mercador vemdia quallquer mercadorya, tirana por partido 
que lhe pagasem em estanho, he nom em ouro; e a rrezam por que es- 
timam ho estanho majs que ouro, he porque nom tinham moeda de áe(sic) 
ouro, nem de prata amoedada, saluo ouro em poo, he quebraua de hum 
peso a outro, ou ouro em arries, que sempre avya deferemca, em as quila- 
tadas e no preço; e, por majs descanso pêra sy, folgauam de tomar amtes 
estanho, que sempre bo preço nunca sobya nem abaxaua, que tomar ouro, 
como arriba tenho dicto. Hos purtugeses nom se empachauam de rreco- 
lber estanho, porque era pesado e lhe pareçya que era de pouquo preço; he 
dise eu ao capitam mor qtie o mandase rrecolber por dozentos guzarates, 
marinheiros, das cimquo naaos sobredictas; e acertou se ahy rroj darau- 
jo, quamdo fiz esta falia ao capitam moor, e rrise diso, e dise que — quem 
se avya de ocupar nyso? E anichelou a cousa em tall maneyrs^, que nom 
curou ho capitam mor diso. 

Item — 14 — O dicto rruj darrauyo dise ao capitam moor que avya 
em a cydade hum ornem, que avya per nome nynachatu, natorall de chor- 
mandell, do quall avya rrecebydo rruj d arauyo, e os que com elle cati- 
uarom, mujto gasalhado; e que serya boom mamdarlhe ho capitam moor 
seguro; e que, vimdo elle, viriam outros mujtos mercadores. Ouvimdo 
ysto ho capitam moor, mandou lhe seguro, com o quall veo; o quall se 
comçertou rruj d arauyo com elle, e rrecolheram am&os todo ho estanho 
que avya em a cidade, que me parece que valerya quaremta mjll cruza- 
dos. 

Item — 15 — Depoys, amdauam a buscar ho estanho, com os cruza- 
dos em ha maao, Joanes e leonardo, feitores das naaos dos mercadores, 
porque todas as especearyas que queryam comprar, amtes has achauam 
por estanho que por cruzados. He lambem vali na jndya pouco menos 
que ho cobre. E, se quisera, rruj d arauyo aproueytara a vosa alteza em 
TOMO ni 46 



362 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

trímta ou quaremta mjU cruzados ; e ho comselho do proue nom he rre • 
cebydo. Poreiu» se vosa alteza me fauoreger, em dar me que fose feitor 
das parles, com outro omeof que recebese per vosa alteza, e bum sprí- 
uam, be certo que aproueitarya a vosa alteza em gram soma de fazemda, 
porque ba by mujtas cousas que pasam per ellas os feitores e quadrilbei- 
ros, por Qom conhece lias; e outras cousas que conbecem, as vendem por 

menos preço; e bo oficyo meu be de meus foy senam tratar em 

mercadoryas, asy e especearyas. 

Item — 16— Em todo bo tempo que estiuemos em melaqua, nom 
se agrauou de mjm nenbum dos omes que trazia a trabalbar em a dieta 
fortaleza, saluo bum esprauo de nynachatu, o quall creo que foy de parte 
de rruy darauyo, que de mjm avya emveja; que, de rrezam, todos estes 
serujços que eu fazia, em trazer estes negros be acreçemtar a fazenda de 
vosa alteza, como arriba tenbo dicto, de rrezam elle bo ouuera de fazer« 
porque avya dous anos que estaua em a terra, e eu, em mjnba vida, 
nunca fora a melaqua, senam emtomçe; e, com tudo ysto, nom pasou bum 
mes que logo nom apremdy a fala da terra, be bo trato todo, e de pesos; 
e disto se agrauaua rruy darauyo, e se maraujlbava de mjm, be me per* 
guntaua mujtas vezes, diamte do capitam mor, se avya ydo outra vez a 
melaqua. 

Item — 17 — Amdaua pela cidade de melaqua, fazemdo corer a moe- 
da de vosa alteza e abatemdo ba dos mouros, be fazemdo que se nom 
medise mamtimemtos senam per medida marcada com a deujsa de vosa 
alteza, como maneyra dalmotaçe. Folgaaam os mouros da terra comjgo; 
e emtrey em tam boom pee em bo dicto oficio, que certefiquo a noso se- 
nbor que valiam oyto medidas d arroz por dez calays, e que oom pasou 
oyto dias que valeram vimte por dez calays. Emtomces, dise ao capitam 
mor que comprase arrAz pêra a fortaleza, be respomdeme que rruj 
d arauyo tinba cargo d iso ; e, ao tempo da partida, mandou bo capitam 
mor ba rruy darauyo que trouxese mantimemtos a fortaleza, e dise bo 
dicto rruy darauyo que os nom tinba jmda comprado. Rreuoluese que 
degoUou bo capitam mor aquelles omes, be os janquos eram partidos, ba 
nom se acbaua bo arroz, senam oyto medydas per dez calays; e, nystOi 
pergumtey pella cidade, e acbey "^que tinba rrecolbido rruy darauyo, per 
maao de nynacbatu, miyta quamtydade d arroz; e comprou vimte e cim* 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 363 

quo medydas por dez callays; he tinham no sebnogado (sic)^ porque sa- 
byam a necesidade que tynha a fortalleza delle; e eu vou, he tomeyper 
sprito dos ornes que ho compraram, he em nome de quem ho compraram: 
diseram que em nome do capitam moor ho compraram, he mays, mujtos 
omes, que lhe peitaram em achaque deste arrooz, dizemdo: — asy mamda 
ho capitam moor tomaf te este arrooz, vynte he cymquo medidas per dez ca- 
lays. <Da qua eli galho, toma ell galho», sempre lhe fíquauam alguas pe- 
nas nas maaos. E rrepresemley diamte do capitam moor os nomes de quem 
afyam comprado ho diclo arroz ; e ho capitam moor amostrou ha rroy 
darauyo ho dicto sprito, he rrespomdeo rruy darauyo que aquelle nom 
era senam arroz que se aavya despeso em a fortaleza ; he eu fuy desco- 
brir duas casas que tynham cheas d arroz, he dise que nom era senam de 
nynachatu. Dise lhe ho capy tam moor . . . que ... se querya, e que fose 
de quem quisese. 

Item — 18 — Tuáo quanto tenho (?) dicto de rruy darauyo, sabe 
ho deus que non^ ho díguo per dizer mall de nymgem, salluo por fazer 
saber a vosa alteza como vos tenho serujdo mujto bem, sem nenhum 
emgano, lamto ou mays como os que foram cryados de vosa alteza, e 
por que vosa alteza me faca algua merçee, por descargo de vosa comçy- 
emçya, que, emfim, sam prouxemofsicj.^ 

Item — Id — Ho paguo que a mjm foy dado, quando chegamos a 
cochym, depoys de perdido quamto tynha ganhado das mjgalhas de vosa 
alteza, em fror de lia mar, que nom sahy senam em hda tauoaa, he depoys 
de pasada mojta fame he sede, como vosa alteza saberá que pasamos em 
a naao tryndade, vimdo a cochym, cuydamdo que tynha ja ajudado a fa- 
zer duas fortallezas, a saber : bua em guoa he outra em mellaqua, he 
que, em cochym, nom avya fortalleza pêra fazer, cuydando descamsar, 
vay ho capytam moor he lamcou me bua adobaa de quatro ellos. Dey gra- 
ças a deus per tudo, he lhe dise que — por que causa me mandaua fa- 
zer ysto; he rrespomdeme que viera de meilaqua desbaratado he esca- 
para em hãa tauoaa, e que nom tynha nenhua gemte de guarnyçam 
nem naaos, e que eu sabya todos seus segredos, e que eu tynha per- 
dido em fpoordellamaar eses quatro reaes qpe tynha; que tynha medo 

* h'ouixemo (isto é, pobríssimo)? 



364 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

nom modâse ho preposito, que vsamça era dos ornes mudar ho pro- 
pósito, nom enibargamte que ate quy ho tynha fecto bem; empero, 
que me prometya que, como vyese armada de purtugall, que me farya 
merçe e ((ue me lyrarya os feros — os quaaes tyue cymquo meses; e quys 
DOSO seníior que, a cabo deste tempo, vyeram de purtugall quatorze 
naaos, e lloguo me mamdou tyrar os feros. Nom cuyde vosa alteza que 
com feros me catyuou, salluo que sam mujto avysado, he sey que tenho 
serujdo boom senhor, he nom sey domde posa jr que mays valha, nem 
quem de mjm tenha tamta necesydade como vosa alteza; que os omes 
semelhantees como eu nom se catyuam com feros. 

Item — 20 — Diguo, senhor, que os omes semelhamtes como eu nom 
se catyvaam com feros, senam com muytas merçes he booas obras, como 
eu de vosa alteza spero; que ho catyuo que esta em feros, nom aproueyta 
senam pêra moer hum alqueire de triguo; e, se vosa alteza de farynha 
tem necesydade, daruosey dez sprauos majs valemtes que eu sam; e, se 
me vosa alteza quer pêra que seruaa de limguoa, hum manyfyquo como 
eu, ha me de fazer vosa alteza merçes com que esqtfeça meu naturall; 
porque por hua de três cousas esquecem os omes sen naturall, a saber: 
onra, proueyto, ou saluar alma. Diguo: omra, nom pode ser mor que ser 
lynguoa de vosa alteza; proueito, também he proueito salluar ha alma. 

Por fee temos, senhor, que ho que bautysmo, que he salluo. 

Asy que diguo que, monàondome (?) vosa alteza^ sempre folgarey de vos 
serujr, porque nom sento domde vaa que mays valha. 

Item — 21 — Em gnoa, da sorte que seruy, pode saber vosa alteza 
em benestarym, quamdo asemtou lio capitam mor arrayall sobre rros- 
tallhan, capitam do sabayo, que sempre acodya ao arayall com muyta 
carne de vaquaa gujsada, he arroz, he pam, he vinho; ysto, nom de mj- 
nha bolsa; salluo trazya cem omes da terra, que ho caretauam de guoa 
pêra benestarym. 

V 

Item — 22 — Quamdo foy necesaryo saber ho que se fazya em a 
terra firme, he se avya alguns rrenegados no arrayall de rrostallhan, he 
alguas cousas outras que cumpriam a serujço de vosa alteza, me man- 
dou ho capitam mor por embaxador, como omem que confyava de mym, 
e eu fuy; he certefyquo a noso senhor que autorysey as cousas de vosa 
alteza tamto ou mays, como se fora cryado em as abas de vosa alteza. 



DOCUMENTOS ELUODATIVOS 365 

Item— 23 — Quamdo acordou ho capitam moor de hyr aden, me 
pydyo que — que me parecya. Eu lhe dise que aden era mujlo forte de mu- 
ros he cubeilos ; empero, que nom tynha gemte de guarnyçam. Emtaam 
me rrespomdeeo elle, he dise que mandarya dar com bum lamco de muro 
em terra, he que ha emtrarya. Km chegamdo adeo, fuy em bum esquife 
da carauella, com ho capitaao delia, que se chama jobam gomeez, he dise 
aos mouros que vyeram falar, que mamdaua ho capitam moor que man- 
dasem hum ome a naao, que querya fallar com elle; e emtomces mam- 
daram comjgo hum omem, he ho leuey ao capitam moor. Dise lhe ao (sic) 
capitaao moor que — domde eslaua elrrej. Dise lhe que estaua em zebite. 
Dise lho ho capitam moor que sua vimda aden era porque tynha per noua 
que os rrumes queryam vyr tomar aden, e que elle vynha pêra a defem- 
der delles, se elrrej de adeo querya fazer concerto com elle. Foyse ho 
mouro com esta embayxada a terra. 

Item — 24 — Tomou a vyr a segumda vez, e dise que elrrej da terra 
nom estaua by; que lho espreueryam. Dise ho capitaao moor que abn- 
sem as portas da cidade, e que rrecebesem a bamdeira de vosa alteza, e 
que lhe desem buas casas em que se apousemtasee, elle he sua gemtee, 
e que dahy lhe espreuerya a elrrej, que ha per nome xeque hamerben 
abet cluhat. O mouro see foy com esta enbaxada. 

Item — 25 — Veo a terceira vez, e dise que ho guouernador da terra 
dizya que era sprauo d el rrey, e he que nom podya rreceber bamdeira 
doutro senhor, senam do seu, nem podya comsemtyr emtrar outro senhor 
em a terra, senom ho seu senhor; porem, que, se queria fallar com elle, 

que estaua hum lugar, que vyese com trinta omes, que elle 

estaria (?) la com outros trimta, e que by se falaryam. Rrespondeo ho 
capitaao moor que nom era necesaryo falar com elle com trimta omes, 
saluo que, ao outro dja, lhe ffalarya com toda sua gemte. 

Item — 26 — Âo outro dia, pella menhani, que foy sábado, bespora 
de páscoa frroryda, sahyo ho capitam moor com toda a gemte, he puseram 
escalias no muro, pello lugar que lhe eu dise que era ho melhor lugar 
he mays fraquo que avya ; he, o primeyro lamco per omde a gemte so- 
l>yOf fogyram tcklos os mouros. Sobymdo outros omes, quebraram as es- 
calias com elles, ha causa que eram podres, e ha multydam da gemte 



366 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

que nellas caregaram, com ho desejo que tynham de aver vytorea em 
tam nobre cousa. Em ho que se erou, nom quero, senhor, falar, porqae 
serya poer ha limguoa em outros melhores que eu, he sermehya comtado 
em descortesya notavell, he a todos. Melhor ho saberá vosa alteza dou- 
trem, que de mjm. He aden nom se pode tomar, senam leuamdo muitos 
bamquos pimchados, he escallas, he mantaas, he pinquoOes, o quall tudo 
nos faleceo. Aden nom tem outra fortaleza nen força, senam muros. 

Item —27 — Ao tempo do rrecolher, sse rrecolheo a gemte tam de- 
presa he desordenada, que pareçya que vinha todo mundo depôs ^les, 
estando os portos da cidade cerados e nom avemdo fora da cidade ne- 
nhuns mouros. Nom queryam os baatees rrecolher nenhum ornem, qoe 
nom fose de sua naao; que certefiquo a noso senhor que foy apegado em 
hum batell, com ho corpo pela aguoa, nadando, hSa gramde ora, e nom 
me queryam rrecolher em neohua maneira; ate que dise ao capitam do 
batell que, se nom me queria rrecolher, que me hyrya pêra os mouros; 
he tomey deus per testemunha, e dous ou três cryados de vosa alteza; e, 
se qujser vosa alteza saber quem era ho capitam, he jobam gomez. 

Item — 28 — Gomo tardey, que tan asinha nom vym ha naao, por- 
que era rrecolhydo em a carauelia, sospeitou ho capitaãomoor que era 
lamçado com os mouros; e, quamdo me vyo na naao, rrogoume que lhe 
perdoase, e me deu carta d alforya, com todos os poderes que de vosa 
alteza lynba, o quall vosa alleza pode saber per mujtos caualeiros e fi- 
dalgos que ha vyram, a quall dezya: — porquanto avya vysto meus ser- 
uyços e fielldade, avemdo rrespeito, me avya per lyure e forro. 

Item — 29 — Quamdo queryamos jr pêra o estreito, dtse 

me ho capitaãomoor que que rrobaues; e eu lhe rrespondy que, 

se elle me dese hõa naao que hy estavaa, de mouros, que avyamos to- 
mada sobre caquotora, que eu hyrya díamte, e que lhe tomarya, demtro 
do estreito, rrobau que ho leuase te juda, porque aquelle estreito nom se 
pode navegar em nenhua maneira, sem se tomar rrobaues da porta do es- 
treyto; que estoutros pilotos que nauegam na jndya nom sabem navegar 
no estreito, nem se obrigam de leuar nenbtia naao de mouros, senom ate 
porta do estreito, que se chama babermedep. Rrespomdeme ho capitam 
mer, e dise que^ se eu lhe trouxese rrobau, que me farya mufta mercê; 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 367 

e, emtam» emtrey em ha naao, que nom avya nella senam mouros e seys 
purtugeses, e fuy diamle, e sorgy defromte do lugar, e pedy que me de- 
sem rrobau pêra juda. Emtomces, vemdome vestydo em trayo de mou- 
ros, faiamdo mujto bem arrauja, deram me hum rrobau, ho melhor que 
avya em todo o lugar, e tomara três ou quatro, saluo que nom ousey 
deter me muyto, por que nom parecese a frota e fiquase sem nenhum; 
e, em embarquando com ho rrobau dentro naa naao, pareçeo a frota. Mam- 
dauame ho rrobau que cortase ha amara. Eu diselhe que nom era ne- 
çesaryo, que todos éramos cdell merino •; e emtam elle fiquou pasmado. 
Tomey hua rroupa que trazya vestyda, he dei Ih a, e diselhe que nom 
ouuese medo, que ho capitam mor lhe pagarya os vimte xarafys que lhe 
eu tynha prometydo em terra; que seruise elle com boom coracam, que 
em logar estaua homde podya sayr de pobreza e de ser ho majs bena- 
vemtnrado omem de sua lynhagem — elle e quamtos d elle decemdesem. 
He leueyho ao capitam moor, com o quall folgou mujto. Parece me, se- 
nhor, que omem que tall fez, que nom era nelle mall enpregada carta 
dalforya que lhe foy dada. 

Item — 30 — Ho dicto rrobau nos leuos (sk) a camaran, o quall 
creo que he vosa halteza notefiquado que cousa he camaran, e como he» 
dahy a juda, quatro jornadas, e dahy a dalaqua, três jornadas, e dahy 
ha canaqnen, quatro jornadas. E adiante notefícarrey a vosa alteza que 
cousa he juda, e dalqua (sic)^ e canaquen. He ho dicto camaran nom ha 
lugar nelle que cauem mea braga, que nom achem aguoa; o quall nom ha 
hy, em todo estreyto, outro lugar nem ylha que outro tamto tenha; he to- 
das as naaos dos mouros que vam da porta do estreyto adiamte, nom tem 
?yda, se nam tomam aguoa na dieta ylha do camaran. 

Item — 31 — Emtam, dise ao capitam mor que nom precurase hyr 
ha juda, que ya era tarde; que ja eram acabados os leuantes, he, no es- 
treyto, nom podem ballrreuemtear, per causa de mujtos baxos; que to- 
masemos hy aguoa, e que fosemos ha dalaqua, o quall he defromte do 
preste joham. 

Item — 32 — Dalag^ua saòera (?) que ha y nella gram- 

dysima pescana muj fraqua, que eu me obrygaua 

toma Ha com duas naaos, as mays pequenos que ouuese na frota, e com 



368 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

cem ornes; he que precarar por jr a juda, era escusado, pelo açyma di- 
cto. Rrespomde me dom garçya que — ^^se punha eu a cabeça ha yso. Rres- 
pomdylhe que sy; o quall pode saber vosa alteza se he ysto verdade ou 
nam« per dom joham deçaa, e per pêro da fomsequa, e per gemes tei- 
xeira, e per outros mujtos caualeiros e fidalgos que hy se acertaron. 
Yemdo que nom querya conceder ho capitam moor, senam todavya jr a 
juda, dise lhe que me mandase com a carauella e com ha naao feros, que 
eu me obrigaua de chegar ate bua [ylha que se chama macavaa, a quall 
ha de Ha a terra firme do preste joham, tamto como de lixboa almada, 
que me parece nom ser leguo ; e, se tamgem os ataballes em ha terra 
firme, ouuemnos na jlha. Esta terra do preste, que diguo, ha per nome 
harquyquo; e o gouernador delia he cristam jacobila, e ha y em a dieta 
terra mujtos frades; e todo ho trato de dalaqua e macavaa he em harqui- 
quo, que leuam as mercadoryas em bateès pela menhan, e estam ate oras 
de bespora, e vem se dormjr a dieta ylba. Rrespomde me ho capitam mor, 
e dise que nom ousaua apartar de sy nenhfla naao, porque se rreceaua 
dos rrumes ho vyrem buscar. E, de dalaqua ha macauaa, ha hy h&a jor- 
nada; he he terra de mujto gado, he trigo, mell, he manteiga, e outros 
mujtos mantimentos, nom embargamte que tudo vem da terra do preste 
joham. 



Item — 33 — Canaquen he bua ylba desta fegura Ç*^ , be toda 

a rroda cerquada de mear be de terra firme ; e tem mujtas cisternas em 
que rrecobe (sic) aguoa da chuua, e tem bom poço em a terra firme, 
hum tyro de berço do maar; he, ao deredor da dieta ylha, mujtos alar- 
ues, que se chamam cllacbamanyr (?), que nom sam mouros, nem ju- 
deus, nem cristaaos, nem sam sobgeitos a nymgem, saluo per hum pe- 
daço de pam que lhe dem, byram estroyr a casa de mequa, se necesaryo 
for. Som gemte de mujto gado em abastamça; he tamto, que, em ha ylha 
de canaquen, vali hum carneiro hum vimtem. 

Item — 34 — Em a dieta ylha de canaquen, be gramde trato com a 
terra fyrme, que vam cafiUas a terra de hum rrey, que se chama bajaya, 
o quall compra todas as mercadoryas que os mouros lhe leuam, e nom 
deixa pasar nymgem avamte de sua terra, por que nom saibam domde 
lhe vem bo ouro, o quall dizem que, oyto dyas avamte, nace emfenito 
ouro; he o ouro daquella terra be majs fino que bo tybar, que vem de 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 369 

taquar, be bo trazem em feícam de dados, todo. Será ouro de vimie be 
três quíllates. He o dicto hajaya oom be mouro, saluo cafer; e em sua terra 

ba mujlo marfy, e cauallos; be vyue be grande seu 

poder. 

Item — 35 — A dieta ylha de canaquen tem trato com bo preste 
jobam per terra firme; e os peremgrinos habexys que vam em rromarya 
pêra a casa samta de geresalem, todos vem by teer, e trazem do preste 
ouro de quatro ou cymquo sortes, bum mays baxo que outro; e o mays 
baxo delles vai), amtre os mouros, quatro cruzados a omça; be ba y outro 
que vali sete. 

Item — 36 — Senbor: — Juda be terra firme; e ell emir abosem a cer- 
quou, per terra, de muro, de medo dos alarues, que se cbamam ben 
ebrabem, os quaaes, agora ba sete anoos, rroubaram ba carauana que 
bya do quayro em rromarya a mequa, e emtraram te a mesua, casa do 
camquaram de mafomede, he a rroubaram. E, rreceamdose ell emir abo- 
sem de vyrem rroubar juda, ba cerquou per terra; be bo xerife baru- 
qnat, a quem pertemce bo senboryo de juda be mequa, nom comsemtyo 
que ba cerquasem da bamda do maar; o quall creo que, agora que ar- 
mada de vosa alteza emtrou te camarão, be a fama em toda ba mourama 
que ba entençam do capitam mor nom era senom jr a juda, pelo quall 
,me parece que ba cerquaram da bamda do mar ; empero, quem tyuer 
bua fortalleza em barquyquo, será senbor da jmdya, porque o que tiuer 
a cbaue da quaxa, cerara e metera o que quiser; e, com os ponemtes, 
vyra conquistar aden, e, com os leuanles, juda; be tornara babrigarse a 
seu porto, e defemdera que nom vam nenhuns mamtimemlos a Juda; a 
quall fortaleza em barquiqo se pode mamteer com muj pouqua gemte; be, 
temdo a dieta fortalleza by, nom ba mjster vosa alteza trazer armada na 
jmdia, senom aly, ate acabar de apagar os rrumes. 

Item — 37 — Os quaaes rrumes nom tem nenbum rremedyo pêra 
tolber a vosa alteza ser senbor da jmdya, per mujtas causas. A primeira, 
he premcypall, be que bo rregno nom vem de pay pêra bo filho, e cada 
:bum d elles quer vyuer descamsado, como quolher de pam, dure bo que 
durrar; que, se caso fora que o rregno viera de dereito ao filho, traba- 
lhara por nom tirar tam gramde emtrada e nobreza^ como era bo trato 
Touo ni. 47 



370 CARTAS DE AFFONSO DE ALBfJQUERQUE 

da especearya no quayro, como ?emos que be vsamsa do mundo, que os 
ornes, jmda que sam velhos, em ha ydade postomeira edetiquam casas 
e pramtam vinhas, per omra de seus filhos. 

Item — 38 — A segumda causa he que, ha madeira, nom ha oenh&a 
no quayro nem em todo ho rregno; porque as terras do quairo he de- 
serto e areall, sem nenhum mato; he esa pequena armada que trouxe 
ellhemirhaosem, nom fíquou no quayro hum paao de hum palmo que 
nom fose tomado, e outra pouca trouxeram, com grande trabalho, de 
torquia; e ho que poos ho soldam em harmar, foram veneçeanos, que 
lhe diseram que nom trazya vosa alteza na jmdya senam quatro cara- 

nellas agora que vyram ho poder de vosa dteza .... for^ 

íalezas que tem fedas na jmdya, e que ellas, e desfecto ho 

nycho das naaos que ho sabayo tinha fecto em guoa pêra sua famtesya 
gramde, e podya fazer cem naaos, — parece me, senhor, que lhe quebrou 
bo coracam, e que teram bem que fazer em deffemder sua casa, que be 
juda, que hy esta todo seu estado. 

Item — 39 — Esas pouquas de fustas que tem fectas, o quall tenho 
sabydo certo que tem seys baichas, e seys galeaças, como has do trato 
dos veneçeanos, e seys gallees pequenas, e Bete fustas e bargamtys, e 
que as tynham ha verga alta e o soldo pago aos ornes; e, em chegamdo 
ell emy r ahosem a juda, que hya da jmdya, mamdou bum tromedaryo, o 
qúall leuou a noua ao soldam, como elle avya chegado a juda e que 
querya jr por maar ao toro; o quall toro he ho momte do synay, adomde 
esta bum mosteiro de santa caterina; e emvyoou lloguo ho soldam outro 
coreo, em hum tromedaryo, o quall veo a juda em oyto jornadas, dizemdo 
a ell emir ahosem que nom fose per mar, senam por terra, por jr majs 
presto ; porque deue vosa alteza saber que, de juda pêra bo toro, nun- 
qua per maravylha se acham leuanlees, senam, todo ho ano, ponentees; 
e, ha vymda do toro pêra juda, vem em quimze djas, sorgindo cada noy* 
te; e, de juda pêra ho toro, põem dous e Ires meses, e, as vezes, qua- 
tro, pella rrezam acyma dieta. Lemdo ell emjr ahosem as cartas do sol- 
dam, tomou cimquoemta tromedairos pêra a gemte que comsigo leuaua, 
he bum pêra sua pesoa, e foram ao quayro em dezeseis dias, com o quall 
dizem que ho soldam folgou mujto, he lhe dise que sose (sic) ver armada 
que tynba fecta pêra lhe mandar. Caualgou ell emir ahosem, e foy ai 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 37i 

soez, adorode as naaos se fazem, que he amdadora de dous djas a ca- 
uallo e tres de camello, he foy ver armada; e vyo as vellas sobredictas, 
e voluese ao soldam, he diselhe que nom era aqaella armada que avya 
de rregestyr aos portugeses, e deu lhe rrezam pêra yso. 

Item— 40 — Lhe comtou todas as forcas de vosa alteza, que tem 
na jmdia, he as forlallezas, a saber: guoa, que he gramdisima cousa, 
que he a chave da jmdia, o quall vos çerteGquo, senhor, que, estamdo 
eu em aden, quando veo noua que avya ganhado vosa alteza a primeira 
vez, fiquaram certos mouros de ouram e de tremecem, que hy se acerta- 
ron, pasmados; e diseram que guoa era segundo rrodes e que, daly, po- 
dia ganhar toda a jmdia; poys em melaqua nom fallo, porque certo he 
que melaqua he a mina de toda ha especearrya e draguarya que ha no 
mundo, he todos os jmdios vam ler lia, asy como os rrios ao maar. He 
asy he certo que achamos em a dieta cidade de mellaqua ornes de fez, 
e de maroquos, he de ouram, e de tremecem, e de tunez, e de trípolle, 

e de belberya, e do quairo, he de aden, e de vrmuz , e 

de tamys, e llahan; asy que áiguo quatro partydas do mundo 

vam teer a mellaqua digaOj e nom he menos que os rryos ao 

mar. 

Item — 41 — Âquelle ano que ell emir ahosem avya partydo da jm- 
dia pêra juda, avya ^imdo gramde armada de vosa alteza, a quall foy 
dom garcya e jorge de mello; e por esas naaos dezia ell emir ahosem ao 
soldam que, se mandaua aquella fustalha, que nom era poderosa pêra 
rregestyr contra os portugeses, porque nom tynham nella pam pêra mi- 
gas. E ysto comuem ell emir ahosem dezello asy, nom embargamte que 
asy he a verdade; e também lhe cumpre a ell emir ahosem, pêra seu fe- 
cto, emnobreçer as cousas de vosa alteza, per sua onra. 

Item — 42 — Âden he terra de gramde emtrada per maar, majs que 
per terra, que, sem se nauegar, nom pode viuer; e nom será maravilha, 
nom fazendo comçerto com vosa alteza, despauoarse. E a causa he que 
nom tem dentro em sy aruore verde nem sequa, nem aguoa, nem erua; 
nem se pauoou senam pelo porto. A emtrada delia he esta que pernoncia- 
rey a vosa alteza. Elrrej tem tomado Ioda ha rruyua, he nom pode nym- 
gem tratar nella, senam elle; e compra a seys larafys cada fardo, que 



372 CARTAS DB AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

pesa qainhemtos arratees, he a vemde a vimte xarafys cada fardo. A so- 
ma que se despemde cada ano, satn vimte mjll fardos, que lhe cosiam 
cemto e vimte mjll xarafys, pagos em algodões e tbeadas, que nom lhe 
saem a quatro xarafys cada fardo; e da estes vimte mjH fardos por 
quatrocemtos mjll yarafys; asy que lhe fiqua de guanho dozentos eoy- 
temta mjll xarafys no trato da rruyua, o quall chamam elles suaa. Os 
dereitos do porto e os ofecyaes da cidade, a saber, almotaçe, meirynho, 
e outros oficyos, rremdem setemta mjll xarafys cada ano, que sam, per 
todos, trezemtos e cimquoemla mjll xaraffys. Asy que torno a dizer que, 
tolhemdolhe a navegacam, perde a dieta contya. Per esta rrezam, me 
parece que a de vyr fazer eomcerto com vosa alteza. 

Item — 43 — As mercadoryas pertemcemtes ao preste joham, prin- 
cipallmemte : panos de combaya, e albernozes dos groseiros, que se fazem 
em bogya, e alambes de mostagane, e alguns albernozes pretos, dos de 
tremeçem, e borquados, e veludos, cetynees, damasquos, panos de gram 
nom mujto finos, he outras sortes de panos que nom sejam de gram, 
senom de cores, nom seyam pretos nem azues, cerado, e corall, e 
alanbares, e alcofor, e latam mourisquo de todas as sortes, primçipall- 
memte em vergas, que sam de hum couodo em comprido, e nom seya 
fosleira (?), senam que sufra ho martello, he outro em tauoas, que sam 
hum palmo em largo he em fyo, de todas 'as sortes, e outro em folha, 
muj delgado, de que ffazem pomtaas pêra ataquas, e açafram, he hum 

como cera .... que vem de chypre, que se chama permou 

amasam em ho quairo com ho am. '. . . . vosa alteza por gaspar. 

Item — 44 — As mercadorjdA da tem do preste joham sam: ouro, 
marfy, triguo, mamfetgas, mell, cera, carnes, esprauos. Se quiser saber 
vosa alteza como se chama ho rrey preste, o quall dizem elles «ellhati 
dantinellque ysraell», que quer dizer tdauid, rrey de ysraell»; e a falia 
d elles he chegada muito a caldeu, asy como nos temos o latym; he os 
rreys sam aluos, he nom pode ser rrey senam do samgue de dauyd ; he 
me parece que aquy comfirmou deus ho juramemto que jurou a dauid. E 
son crestaaos, e guardam ho sábado he domimguo, e sam fanados e bau- 
tizados com aguoa he foguo; e quallquer omem que faz quallquer oHcyo 
ou obra em sábado ou em domjnguo, o apedrejam ; e nom comem por- 
quo. Asy que manteem ambas as leys — noua he velha. 



DOCUMENTOS ELUdDATWOS 373 

Item — 45 — Tem vosa alteza em suas terras hrla mereadorya» a 
qnall creo qoe poderá aver delia gramdisimo djnheiro, atemáo quem 
dese ordem a fazello; a quall be amfyaro, que a primcipall cousa delle 
he dormideiras, fie, ho amfyam, nolauell he a uosa alteza que vali mujto 
diobeiro em ha jmdia, e sem elle nom podem viuer; que vos certefiquo, 
seobor, que, este ano, que nom vieram naaos d aden, acbegou a valler a 
faraculla vimte be cimquo cruzados; be valera a quallquer preço que 
pediram por elle, defemdemdo que nom venha daden, ou, se vier, que 
seya per maao de hum fekor de vosa alteza. Dormideiras, dizem me que 
ha y em portugall jmfimdas, e de rrezani ha de ser ho amfiam de por* 
tugall melhor que o de aden, porque vemos que ho amSam de torquya 
he mujto mays prezado amtre elles que ho de aden, e ho do quayro per 
semelhamte; e deixam ho de fazer em torquya e no quairo, porque he 
defeso por a ceita de mafomede, asy como vinho, que am por pecado 
bebe lio, nem consemtyr fazello em suas terras. 

Item — 46 — Pêra mellaqua he pêra os chys, me parece que ay 
outras mercadoryas em as terras de vosa alteza, as quaaes nom sam vim- 
das a vosa notycya, asy como pillitre, que se chama em mourisqno, aquy 
em a jmdya, erqoealehara (?); he em belberya vy mujto delle em gramde 
demasya, he ho chamam, em tremeçem, tegantoz; be ho dicto pilitre he 
h9a dragoarya mujto prezada em melaqúa, e em os chys, e em os gores, 

e em a ano pasado a dez (?) xarafys a faracuWz 

(?) e quarta, que será bua arrota (?) e nom custa ho quim- 

tall d elle, em tremeçem, brazerna (?) 

Item — 47 — Bugalhos som prezados em as terras de mellaqua, 
peraiijaaoha, e pêra camatra, e pêra todas esas terras de sotavento; e 
almea, e azeite de almea, o quall chamam os mouros mea çeilla; e 09 
cristaaos Ibe chamam azeite d estoraque ; he outras mujtas cousas que 
nom saberey dizer per nome em purtuges, saluo que os conheço pelo 
olho. E, se vosa alteza for serujdo de eu ser apresemtado amte vosa al- 
teza, eu farey escusar sayr de purtugall nenhum ouro nem prata, salão 
mercadoryas, be d elas se farya a carga, e nom purtugeses de ouro, e 
cruzados, he tostões, a punhados, como vejo que manda vosa alteza, ^ 
nunqua os mouros trouxeram a jmdya ouro nem prata, senam mercado- 
lyas; e elrrej de adeq mandaua hum &rdo de rnijua, que lhe ctistaua 



\ 
c 



■ 



374 CARTAS DE AFFONSO DE ALBDQDERQDE 

seys xarafys em mercadorya, como arriba tenho dicto, e o vemdya em 
ha jmdya per vimle he cymquo; he ho rretorno delle valya trimla e seys, 
em viagem de três ou quatro meses, de jda e vimda. 

Item — 48 — Se tiuer vosa alteza a fortaleza, como arriba tenho di- 
cto, em harquiquo, tem por vezinho, três jornadas por mar da outra 
bamda darabea, hua terra que se chama jazam, a quall he em terra Tir- 
me de aden, he he rregno sobre sy. E, esle ano, deu sobre elie el rrej de 
aden, e ho fez seu trabutareo, e lhe tirou por partido que nom pudese sayr 
de sua terra nenhua rruyua; porque a rruyua daqueUa terra he mays 
fina que a que se faz em suas terras, e naquella terra se acha mujla; e, 
jumto com ho dieto porto, esta hua ylha que tem mujta aguoa em sy, e 
mujto gado, he palmeiras, a quall ha per nome fartam. Pode fazer 
Yosa (dleza) pazes com elle e fauorecello contra elrrej de aden, e damos 
ha toda a rrujua que em suas terras naçer; he dará vosa alteza licemca 
aos de cambaja que venham a vosa fortaleza, e que vemdam seus panos, 
e que caregem da dieta rrujua per maão dos feitores de vosa alteza. 

Item — 4d — A vi os do estreito, me mando ho capitam 

moor e nam a mjm he a meu piloto, que avya tomatío, que fo- 

se (?) ver que cousa era zeilla he a descobri la, e que se se al- 

guas naaos hy, que as queimasemos; e rnsLindou comnosquo a carauella. 
Pelo quall fomos, e achamos omze naaos no porto, e as queimamos; e, em 
quallquer lugar que era nacesaryo fallar, hya eu, porque nam ha y omem 
em toda armada que sayba fallar arrabeo como eu; porque vee vosa 
alteza esta carta como vay em spanholl notada? Nom vem a conto como 
a notarya em arrabya e parseo ou em melão, *ou fallar diamte de hum 
rrey e senhor, porque nem todos os que tomam pederneyra he esclauoD 
tyram fogo. Nem todos os que faliam sam boos pêra limgoas; por- 
que, se asy fose, os papagayos, com suas farpadas limgoas, também fal- 
iam. E, nysto, perdoe me vosa alteza em me alabar tamto, e que voa 
contra as palauras do sabeo, que diz: — «gabe te estranho, he nom tua 
boca, etc. i ; empero, parecemdo me que faço seruico a vosa alteza em 
alabar me. Semdo omem que tam necesaryo sam a vosa alteza, parece 
me cargo de comcyemçya nom me fazer conhecer a vosa alteza. 

Item — 507-Nom tenho — mall pecado! — quem rrequeira per mjm 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 375 

a vossa alteza^ porqae, os capitaaes, me parece que cada hum lem que 
rrequerer por sy, e tduello ageno de pello me llega». Soprico a vosa al- 
teza perdoar me, e Dom ter me por perluxo e emportuno em me alargar 
em rrezoes, porque tudo faço pelo. deseyo que tenho de serujr vosa al- 
teza, e porque me dizem que folga vosa alteza de saber todas as cousas 
per estemso; e hSa das cousas que gabam a vosa alteza, em comum de 
outras mujtas, he ouujr be rrespomder. Pelo quall beijarey as maaos de 
vosa alteza ser de mjm lembrado e fauorecerme coai rreposta da pre- 
semte, porque ho rreceberey em gramdisima mercê he omra, nom embar- 
gamte nom aver quem per mjm rrequeira a vosa alteza; que bua das 
cousas com que noso senhor se agabou, e parece sua gramdeza e poder, 
como dise por ysayas profeta: — «a este acatarey, afrito e mizquinho, 
e baxo de sprito, e temorezado por mjnha palaura»; he mays que vemos 
que proue a bua formiga e outros semelhamtes bichos, semdo tam . . . 
a gramdeza dos gramdes se menores. 

Item — 51 — Em as cousas da gouernamça ... qu ue est. 

espreuer a vosa alteza alguiia cousa do que meu fraquo joizo em- 

temde; porem serya como na trimdade. Empero, fauorecemdo 

me vosa alteza, damdome lycemça a ello, poderya ser que vosa a/teza se 
aproueytarya algfla cousa de meu pouquo pensar (?), nom enbargante 
que he certo que nom carece vosa a/í^za ler f^randysimas cabeças e ma- 
Difiqaos sabyol. que abastam pêra rreger bo mando; empero. huns sam 
OS que vem, e outros os que ouuem: e, as vezes, diz bum ynoramte hum 
conselho que nom diz bum doutor; e, se ouuese d espreuer a vosa alteza 
todas as cousas qtie ey visto, parece me que nom abastarya papell nem 
timta; e, empero, se mandar vosa alteza por mjm, poderá ser que vos 
darey comta de todo mundo que ey vysto. 

Item — 52 — Beijarey as maaos de vosa alteza mandar me tytollo 
de ornem, ei nom descrano, comfírmado per vosa alteza; porque a carta 
dalforya que me deu ho capitam mor em aden, como chegamos a jmdia, 
rrompema, dizemdo que nom ma deu, senam com comdiçam se se to- 
mase aden; e sabebo deus, e mujtos Gdalgos he caualeiros que a viram, 
que tall comdiçam nom avya em a carta; e eu lhe rrespondy que me 
avya per bemavemturado ser sprauo de vosa alteza; que, nestas terras, 
nom som omrados senam os esprauos dos rreys he senhores; que, se asy 



376 CARTAS DE APPONSO DIfi ALBUQUERQUE 

nom fora, bem noto be a todos qoe bem doe tempo para me hyr, se 
qoisera; que nom me linha elle catiuo em feros, senam com a esperança 
de vosa alteza. Spríta em a naao bastyaina, sobre ho porto de dabull, je 
(sic), XX ^ djas de oytabro de 1513 anos. 

Do qoe tem per omra ser sprauo de vosa alteza — franoisco d alba- 
querqQe.' 

1618— Outubro 31 



Senhor — Vicente da costa, moco da camará de aosa allteza e fílho 
do doutor mestre affonso, noso fisjco, ffaço saber a aosa allteza qne eu 
sam casado nesta cidade de goa, de três dias de marco de 1510 em 
diamte; com bo quall casamemto bo capitão mor me dea a espriujnjnba 
da feilorja. E, porquamto, ao presemte, eu aymda som oficiall de uosa 
allteza, diguo que allguas pessoas vam enformar a Vossa Alteza em ali- 
goas cousas que nam sam tamto de uoso serujço, como de provdtto seu. E 
a rrezam por que, he que, quem espera mer^e, nom diz, ao senhor de 
quem a espera, coasa de que lhe pese, somemie com que eile follgue, 
em caso que, per tempo, seja danoso; porque, comlamdo a uerdade, se 
poderya emtrestiçer bo coração em allgum tamto, e nom allcamcaryam 
ho que a sua fazemda traz proveito; e emganam rrasamente a uosa all- 
teza, porque, perdemdose a jmdea, nem allgna forteleza delia, nom lhe 
say das costas; e asj que, por auer, cada bum diz bo que quer a uosa 
allteza, emganosamemte. E a rrezam por que diguo jsto, nom he em uos 
dizer mais que o que pertemçe a meu oBçio. Nesta feilorja se defe|D- 
deo, dizendo que era por parte de uosa allteza^ que non desem nenhua 
mercadarja em pagamemto as partes sobre seu solido; o que nas outras 
feitorjas se deve demtemder, mas, nesta, nam. E o porque, .he porque o 
preço das mercadaryas, nesta feitorya, se dam (sic) aos omens sobre seu 
solido e em pagamemtos de mamtimemtos, como de quaesquer outras 
compras, na mayor valia, a terça parte do que uallem em nenhum lagar 
da jndea; e, fazemdose ho qoe dizem que uosa Alteza mamda, nesta 
feitorja, que he pagarem solido em djnheiro comtado, he gramde uoso 



» Vinte. 

^Tdtre do Tombo— C. Ciiron., P. 1.*, Maç. 13, D. 74. 



DOCUMENTOS ELUCÍIDATIVOS 377 

deserajçOy porque, na mercadarya dada sobe lios sólidos, uosa Alteza 
gaynba, porque Ibe carregam bo quyotall do cobre em vimte dous cru* 
zados, e, veudido, acbam, a mayor valia, quyoze; e o porveyto que se 
daqoy segue, vender se a mercadarya; e pagar se aos mouros e outras 
pessoas em dinbeiro, Dom he uoso serujco; porque, qoamdo se ueudem 
dez ou çem quiutaes de cobre, fora que o rretorno vem em ouro comta* 
do, carrega se asi em rrecepta sobre ho dito feitor, asi em ouro como 
vem, sem outra neubua deligencia, porque asi ho quer, pella vemtura, o 
capitão mor, poisque ojso nom emteude, e se lhe uem três ou quatro 
mjU padaos ($ic)^ do rretorno. E, nesta ylba, a muita moeda de cobre, 
em grande cantidade; e nom vali a sua valia propia, por aa muita cam* 
tidade delia; e, se na feitoria de uosa allleza dam dezasete barganjs 
per hum cruzado, em pagamemto, aos omeos, fora da feitoria vali bum 
cruzado trymta dous, que he mais ho meyo. E que faz aquy ho feitor, 
se se acomtece e tem acomleçimenlo desta soma de dinheiro, que em 
si tem carregado em rrecepta, em ouro? Fala se com a jenle da terra, ou 
com os omens da feitoria, e dam lhe cambar na cidade ho dito ouro amoe- 
dado, que asi fez na dita mercadaria, que asi mamdou vemder ao menos 
preço do que ualia na terra, e aacha dous pardaaos em moeda de cobre 
por hum em ouro ; e, emtam, faz ho pagamento a jemte naquella moeda 
de cobre, a qall (sic) cousa he gram deserujco de uosa allteza, porque, 
perdemdose ho pouo, Vossa Alteza nom gaynba muito, porque, omde 
cuyda bum omem que leua dez cruzados de seu solido, leua cimquo; e 
o feitor, per esta via, gaynba, em oito de que troqua este dinbeiro, dous, 
três mjU padaos (sic); e jsto, senhor, por nesta feitoria nom auer rregi^ 
memto acerqua de noso hoíicio, de uosa alteza nem do capitão mor; e, se 
bo capitão mor ho deyxa, ou bo abi ha, nom noUo querem amostrar, nem 
conhecem espriuaes nesta feitoria, em parte nem em todo ; e asi que bo 
pouo crama, e uosa Alteza perde de sua fazemda. Asi, senhor, que aquel- 
le capitólio de uoso rregimemto nom se deue d em tender nesta feytorya; 
pois se aquy vendem as mercadaryas, asi sobre bo solido dos ornes 
como em quaesquer outras compras, mjlhor que em nenhum outro lygar 
da jndea, porque ho cobre vali aquj a ujmte quatro cruzados quiptall, 
ho uermelbam a trymta e mais, bo azoogue a coremla e cimquo e mais. 
Todas as mercadarías que vosa Alteza mamdar de portugall, se gastaram 
aqui ; e ajoida, senhor, me parece que vosa Alteza deuja de mamdar 
ffMer paigamento ,do solido $ todqllos omens em loercrad^ria, aiyiiy.em 
TOMO m 48 



378 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

goa, com tall condição qae nom uemdam as ditas mercadarya (sic)^ oos 
lagares onde forem, seoam per mao dos feitores de aosa Alteza, porqae 
em todos lagares estam feitores, em tempo que ha hi nauegação. Asi, 
senhor, qae, sobre jsto, pode aosa Alteza detrymjnar o qae lhe parecer 
mais seu serajço, porque asi se pasa, per o presemte. E, se ho feitor de 
aosa Alteza Gzese jsto por a uosa feitoria estar em necesidade de dinhei- 
ro, chamaria elle os ofeciaes delia, e dar Ih ia diso comta, do dinheiro 
em ouro que asi cambava, e serlhehia carregado em rrecepta ho dinheiro 
que njso gaynhaua; mas somente per si so, com a jente da terra, o faz, 
porqae somemte pêra si he o proueito; de sorte que ho prymcipall trato 
he a moeda, porque amda mais em mercadarya que em moeda, e ho uoso 
feytor he a prjmcipall causa diso, — por seu proueito, como diguo^ e nam 
pêra seruigo de Vossa Alteza. E he tam grande ganho, que, em cada 
mes, pode gaynhar dons mjU cruzados, e ho pouo ser perdido por lhe 
jser fecto pagamemto nesta moeda, e ho proueito ser soo de quem digo. 

Acerqua, senhor, das cousas de goa e no que se nella pode fazer 
muito proueyto, quamto he ao que me parece, he muito, segundo ho 
porto que tem. Uosa Alteza saberá que o prjmcipall trato que aquy ha, 
e de mais necesidade, sam caualos ; porque, alem de ser muito ganho 
nelles e pro?eyto, sogigam todos mouros e pagãos so mamdo de uosa all- 
teza, porque nom podem ujuer sem elles; e, nom achamdo porto omde 
os comprar, senam aquy, am de fazer, per forca, da necesidade uertude; 
e nom podem, por este rrespeito, escusar per forca nosa muy amjzade. E, 
pêra isto, senhor, de me Vossa Alteza mamdar ao capitão mor que na jn- 
dea amdar, que, quando for ho tempo que as nãos (hirmuz e doutros 
lugares ouuerem de vir com cauallos a esta costa, que mande sajr as fus- 
tas e gales sobre os portos de batecalla, chaull, dabuU e outros portos 
omde elles desembarquam, e nom nos deyxar sajr em outro porto, so- 
memte neste de goa, porqae nom perdem os mercadores njso nada, tem- 
do Vossa allteza aquy mercadaryas em abastamca; e as mercadaryas que 
elles querem, sam da terra, a saber: — arroz, pimemta, gemgibre; por- 
que bôn pode uosa allteza aquy ter coremta mjil fados ($ic) d arroz, que 
custa a dez, vimte reaes o fado (sic)^ que he a prjmcipall mercadaría que 
elles tomam em rretomo dos cauallos, e atrauesarlhe todos seus caca- 
uaiios (»ic), e fazer lhes pagamemto nestas mercadaryas com que elles 
foUgam; e compram lhe os caaallos, quamdo vem, o que mais costa, cem* 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 379 

to, cemto vimte, cento m^ padaos (sic); e, dahi a dous meses, os Ten- 
dem trezemlos, qaatroçemlos crazados, os deste preço, e asj como ho 
preço he; e jsto he o que pode gaynhar aosa allteza; e, nom nos que- 
remdo Vossa Alteza comprar, somemte que os mercadores os Tendam 
aos mercadores da terra firme, ou os leuem la uender, os direitos sos 
delles, que be trymta padaos (sic) por cauallo, rreleua a uosa allteza, 
em cada hum ano, de ganho, cimquo, seis mjil cruzados, ao presemte, 
que, per ho futuro, será outra cousa; porque, quamto a terra mais to- 
mar asemto, tamto major ganho he; e, ajmda que Vossa Alteza nom ou- 
uese outro rrespeito, senam toda a terra ser sojeyta a uosa obidiencia e 
mamdo, e conhecerem o grande poder de uosa Alteza, era acaz gaynho; 
porque gram sombra da goa a todas estas partes, porque a tem em comta 
de rrodes, elles amtre si, e dizem que he a sua chaue. Açerqua do que, 
senhor, estas terras poderam rremder a Vossa Alteza, no se pode ajmda 
saber muito certo; porem, pouco mais ou menos, este ano em que esta- 
mos, podram rrender estas ylhas, com todo lios direitos, perto de trymta 
mill cruzados; e ho certo nom se sabe, porque nom sam ajmda as terras 
acabadas d arrendar; somemte asi orcadamemte se pode saber. Acerqua, 
senhor, da guerra dos mouros, eu creyo qué elles am mayor medo de 
nos jremos a elles, que elles ujrem a nos ; porquanto elles tem bem am- 
tre si em que cuydar ; porque ajmda se hum nom aleuamta d onde esta, 
ja se outro asemta; e segure nos uosa allteza ho mar, que nos defende- 
remos a terra. 

Senhor: — Eu som aquy casado, como ja dise. O capitSomor, quam- 
do me casou, me prometeo a espriujnjnha da feytorya, em casamemto, 
com cimquoemta mjll rreaes; e agora tco e me tirou Timte cimquo mjU 
rreaes, e nom me deyxou mais de vinle cimquo mjll, o que me acho 
muito emganado, por ser filho de quem sam, emganarme asj. Bejarey 
mãos de uosa allteza prouerme com justiça, e auer Vossa Alteza rres- 
peito em portugall, e tomar me a meu oficio, com ho ordenado 

que damtes tinha, se uosa Alteza a por seu seruiço os omens casarem 
nesta terra, e bem asi, senhor, mandar a meu pay que parta comjguo 
de sua fazemda; e nom comsymta uosa allteza emganaremse os omens, 
pêra que casem, com dadiuas e promesas, e despois deyxaremnos em 

^Trinta. 



380 CARTAS DE APFONSO DE ALBUQUERQUE 

bratnço (sic) e em tamta confusam, qoe, omde lhes pàreçe ser serojco de 
deus, atreboemno a ser mais do emmjguo, pois em si mostra ser coosa 
demgano; que gramde mall he ao ornem casarem no com hOa condido 
e, despois de casado, nom lho darem e dizerem lhe que lho prom^- 
ram. E nom mais, somente que íico rogamdo a noso senhor por ujda 
e acrecemtamemto d estado de uosa aliteza. De goa, aos xuj^ dias dou* 
tnbtro de 1513. — Ujcente da costa. 

(Sobresctipto) — Pêra eirrey, noso senhor. — Sobre (?) cousas deo 
($ie) serujço. 

(In dorso, por lettra de António Carneiro) — De Vicente da costa, 
filho do doutor mestre affonso, que estaa por spriuam em goa. Pêra ver 
eirrey.* 

1618— Novembro 30 



Senhor — As cartas que me vos alteza estanno mamdou, rreceby, e 
me foram todas emtregues per duas vias, da maneira que de laa vinham, 
cerradas e aseladas, nas qnaes me vos alteza rrespomde a todas as cou- 
sas que vos screpvy nas duas naaos de dom ayres e christouam de bri- 
to. Diguo, senhor, isto, porque as cartas que me vos alteza mamdou, 
quamdo veo gaspar pereira, vinham com as do capitam moor, e mas 
abrio e leo, e mamdou m as a casa, abertas, como vos ja, senhor, tenho 
scripto; pela quall causa me quer mall, e quererá emquamto quaa este- 
uer, e eu com elle. Tenha vos alteza lembramca que as cartas que mam- 
dardes se dem a quem as mamdaes, e nam a outrem, porque destroys as 
pessoas que vos de quaa mandam dizer o que lhes parece que he vosso 
seruiço. 

Quamto, senhor, a huum capitulo que me vos alteza screpve nestas 
cartas que ora vieram^ em que dizees .que ouuerees muyto prazer dos 
R^ cruzados que dey per mercadarias, aos mercadores, pêra carrega, asy 
que, nam Iam soomemte esperaes mamdaruos as naaos bem carregadas, 
mas que, balem d isso, vos avya de mamdar somma de dinheiro, — a isto, 

> Trinta e um. 

> Torre do Tombo— C. Cbron., P. 1.% Ma{. 13, D. 89 
' Quaronta mil. 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 3W 

senhor, rrespomdo que me parece que vos credes o que o capitam mor 
vos mamda dizer em suas cartas, que he que lhe maudees gemte e naaos» 
e que elle lhes pagara os soldos e manlimeutos a todos, sem aver mester 
nada de Tosas feytorias. Se isto asy fose, como vos elle mamda dizer, eu 
vos carregaria as naaos e mamdaria dinheiro, como vos alteza diz que 
espera; porem, senhor, qna amdam pasamte de ili]'^ ou b * omeens, sem 
averem nunca do capitam mor huum soo rreall, nem de soldos nem de 
mamtimentos, e todos se sostem e tiram por esta feytoria e do dinheiro 
de vosos cofres; e, se hy ha alguuas presas ou tomadia», laa se sume 
tudo, que nunca em vosas feitorias emtra huum soo rreall, nem se daa 
nada a gemte, — partes, nem soldo, nem mamtimento. Crea vos alteza o 
que vos o capitam mor mamda dizer, e verees em quam pouco tempo 
ensequais na jmdea. Leyxo, senhor, de falar o que aquy mais poderia 
dizer, porque vejo o contrairo do que todos quaa esperávamos, porque 
nam posso eu crer que vos alteza nam sabe o certo de de ($ic) todaks 
cousas que se quaa fazem. E, pois nysto nam quereês prover, vosa he a 
perda, e dos que vos quaa bem seruem e vos mamdam dizer a verdade. 

Nam posso, senhor, cuydar o por que vos alteza, estano, nam mam- 
dou nenhuum dinheiro, soomemte tado prata em barras. Bem me lembra 
a mym que mamdey dizer a vos alteza que viese sempre alguda prata de 
mestara com cruzados, e que eu a faria tomar em preeo, que, nyso, vos 
alteza ouuese proveyto, como 6z, e vos tenho scripto, com asaz de traba- 
lho. E, porque tinha ja posto, em fero, este preço na prata, como vos 
mamdey dizer o anno pasado, nam tiue rremedeo de este anno carrega- 
rem as naaos com prata soomemte, porque os mercadores que trazem a 
pimemta, sam lauradores da serra, e querem sempre dinheiro, ou, ao 
menos, alguãa parte; e isto he neçesaréo fazer se, por que comece hiia 
vez de correr a pimemta e vir ao pesso; e, depois, no cabo da carrega, 
se fazem partidos, por prata e mercadarias, em que se pode aproveytar 
muy to e vos alteza ser bem seroido. E foy necesareo, por pasar esta prata 
na pimemta, pedir dinheiro emprestado, pêra meter com ella; e elrrey de 
cocbim me mandou emprestar, pêra ysso, x' cruzados; que, doutra manei- 
ra, pasauam as naaos rrísco de nam carregarem. E o por que aquy nam 

1 Qoatro mil. 
sCmoomil. 
DtmiU. 



382 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

avya dinheiro nem nada, ao tempo que as naaos vieram, he porqae, todo 
quamlo nesta casa ha, o capitam mor mamda leuar pêra goa; que, se 
alguum cobre teuera, pêra dar damtemaão aos mercadores, ou pêra 
mamdar vemder, rremedearase a carga. E lambem, senhor, he neçesareo 
que viuam os omees que quaa vos seruem, e que lhes dee alguua cousa 
de seus soldos, pêra viuerem e se poderem mamter, que eu nam sey de 
que maneira querees quaa mamter b ou ^^ omeens que qua amdam, e 
carregar a frota que cad ano pêra ysso vem ordenada. Nam posso cuydar 
senam que ho^ capitam mor vos tem scripto que elle mamtera tudo e bus- 
cara de que, — o que nam pode ser, nem o deuya vos alteza crer, porque 
vos alteza quer paz com todo mundo, e he bem que asy seja, e eu nam 
vejo omde elle posa fazer ysso que diz, senam se for das rremdas de goa 
e suas terras, que cad ano faz de despeza cem myll cruzados e pasamte 
delles, que he boa ajuda pêra o que querees; e, se se alguua presa to 
ma, como tenho dito, nam vem nada a lume. 

E também, senhor, todo los annos se aquy varam quamtas naaos 
quaa amdam, e se corregem e fazem de novo, e outras muytas obras, de 
rribeira, e fortaleza, e casas de feylorias e çerqua d ellas, que cada cousa 
d estas faz muyto gramde despesa, e nam se pode escusar ; porque laa, 
senhor, vos diram as obras que se cad ano aquy fazem, que sam muyto 
mayores que as de todo vosso rreyno, porque tudo aquy vem ter e tudo 
se aquy faz, porque em nenhuua outra parte se pode fazer ; e, este anno, 
por mais ajuda, veo o capitam moor do estreyto com as naaos todas que 
se hiam ao fumdo (alguuas, de velhas, e outras, de darem com ellas em 
sequo), e com mjll omees mortos de fame e sede,* e outros que mataram 
e feriram em adem; e os que aquy vieram ter, parecia que vinham do 
outro mundo, que pareciam mais pedimtes que gemte d armada; que foy 
a mor piadade de ver, que ho nam pode vos alteza crer; porque toda a 
gemte que veo, e naaos, com dom garçia, todos aquy mamdou o capitam 
mor, pêra que lhes dese soldos e de comer. Ora, senhor, vede como isto 
pode ser; porque vos nam mamdastes mais que xx ' cruzados em prata» 
sem nenhuum outro dinheiro, e hamse de carregar quatro naaos muyto 
gramdesi que haveram mester, pouco mais ou menos, T' cruzados. Asy, 

1 Cineo mU ou seis mil. 
^Yinteiml. 

'GlBflOMltft fliil. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 383 

senhor, que todo o mall d isto se torna ã^ mym, que hamdam todos pêra 
me tirarem as setadas, primcípallmemte a gemte da ordeoamça que quaa 
mandastes, que era bem necesarea. 

O que eu daquy presumo, he que nam mamdou aquy o capitam 
mor esta gemte, senam pêra gastar esta pouca de prata que estano veo; 
e ficaram as naaos por carregar, por lhe ficarem quaa d armada e dar 
culpa a quem a nam tem ; mas eu espero em nosso senhor que, com tudo 
isso, ellas vam carregadas de maneira que vos alteza seja bem seruido, 
postoque seja com asaz de fadiga e trabalho meu e mallquysto da gemte 
toda, porque tomo este dinheiro de defumtos que hy ha ; e, com alguua 
prata, lhes dej e fiz huum pagamento de mamtimentos, porque amdauam 
todos pedimdo por amor de deus, e fintauam quamto achauam, asy aos da 
terra como aos moradores da fortaleza. 

E, por estas cousas e outras muytas, crea vos alteza que hys per- 
demdo todo o credito que soyes ter nestas partes, pela pouca verdade 
que qua acham em nos; e elrrej de cochim estaa muyto agastado e agra- 
vado de vos alteza, pela paz e fortaleza que mamdastes fazer em calecu, 
porque diz que foy destroydo por vosso rrespeito, e seus tios mortos, e 
que, depois, vos alteza o sobira em huua palmeira e lhe cortara os rramos, 
pêra que nam teuese em que se pegar; e sy o dise a dom garçia, dizemdo 
que, pello vissorrey, lhe mamdara vos alteza huua coroa douro, e asy, 
em cada hnum anuo, hutía copa de x^ marcos douro, em lembramça da 
destroyçam que ouuera por vosso seruiço, e morte dos tios, que he sy- 
nall de o mamterdes sempre naquella homrra, e o ajudardes comtra 
quem Ih o fez, que he el rrey de calecu ; e que asy o vyso rrey lhe disera, 
da vosa parte, que vos alteza lhe mamdaua que em nenhua maneira do 
mundo fezese nem asemtase paz com calecu, sem seu comsemtimento; e 
que, agora, lhe faleçeés disso, dizemdo que ho que o capitam mor faz, he 
por vosso mamdado; e que nam pode ser que elle, de sy, faça aquyllo, 
pois he cousa de sustamçea, e em que lhe tamto vay, que he a homrra 
que elle mais estima, que todas as cousas deste mundo; e o que lhe faz 
mais parecer ser asy, he nam lhe darem, estano, nenhtla carta de vos 
alteza, dizemdo, em huHa carta mynha, que lhe screpve. A presumçam 



CARTAS DE ÁPFONSO DE ALBUQUERQUE 

he que viriam com as do capitam moor, e lhas nam quer dar. E todos 
estes agravos amdo rremedeamdo o mjlhor que posso, tee que lhe vos 
alteza mamde dizer a verdade disso; e crede, senhor, que ho que temos 
conhecido e sabido, he que por nenhua cousa deste mundo elrrej de 
oochim ha de comsemtir na paz de caleco, tee que se nam vimgue da 
morte dos tios per soa maao, porque este he o custome que mais amtre 
sy gardam; e elle leuaua hufla ordem, pêra se vimgar, muyto boa, que 
tinha ja todos os primçipaes senhores d estas partes aquerydos a sy e da 
sua maao; e, com o fauor de vos alteza, nos parece que se vimgara çedoí 
porque elle também he gramde senhor e de muyta gemte e terra, e gram* 
de sabedor e bom caoaleiro, de sua pessoa, e muyto estimado, que nam 
ha gora (sic) outro mor senhor que elle ; e todos o temem e per toda a 
terra tem gramde credito. Tudo isto, destes agravos, e muyto mais do 
que ha aquy, digo que elrrej de cochim tem de vos alteza. Elle mamdoa 
chamar hos capitães todos, e asy os que aquy estauam como os que vie- 
ram de purtugall, e diogo memdez, e os capitães que com elle vieram ; e, 
demtro na fortaleza, dise a dom garçia que elle lhe rrequeria, da vosa 
parte, que tall paz nem fortaleza nam fezese, atee que se nam vise com 
o capitam moor, que estaua em goa, como vos alteza saberá pelos que 
laa vam; e lhes deu todas as rrezões per que se nam devya fazer; e, com 
quamtas boas rrezoes lhe dom garcia deu, em nenhfla cousa comcedeo, e 
se sayo descomtemte, e asy estaa. 

O capitam moor ficou soo em guoa, e mamdou toda las naaos e gem* 
te aquy a cochim, dizemdo a gemte que lhe pedia licemca pêra purtn* 
gall, que se viesem a cochim^ e que elle vinha logo depôs elles, a despa- 
cha los; e elle nam vem, e a gemte toda estaa desesperada, porque lhes 
parece que os nam quer leyxar hir, e que por ysso nam vem, nem mamda 
rrecado a dom guarçia que os despache; mas, amtes, dom garçia dise na 
feitoria, aos scripvaes, que nam desem nenhuas rrecadaçOes pêra purtu- 
gall a nymgem, tee nam vir seu tio; e isto, senhor, he gramde cargo de 
vosa comciençea, que ha quaa omees que ha dez annos que quaa ser- 
uem, e muytos deles casados, e lhes vam de laa mas novas de suas ca- 
sas, e nam os leyiam hir; e amdam asy desesperados. 

Em malaca, senhor, ficou armada e gemte, que he casy outra des- 
peza tamanha como a da jmdea; e estaa de guerra, de maneira qte nem 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 385 

o feitor de laa mamda nenhiia espeçearia, nem a pode aver, nem os mou- 
ros qoe ba soyam trazer a nam trazem, pouca nem mujta, porque soya 
vir a choromamdell, domde a elles traziam; e ora dizem que nam ?em 
nada, e que he o trato perdido, que by soya aver, por rrespeito de vos 
armada que la amda ; e omde se soya a comprar per mercadarias, agora 
se nam pode aver, nem por ellas, nem a peso de dinbeiro. 

Comtudo, a terra be de mercadarías grosas e rricas, e tudo se ale- 
uamtou, como se nella fez fortaleza; e a especearia que vos alteza quer 
em cada buum anuo, se poderá quy aver muyto leuememte, e mais, se 
mais quyserees. 

Nam pareça a vos alteza que se vos pode fazer nenbuum numca ne- 
nbuum (sic) proveito em vosa fazemda, porque, posto que daquy mamde 
mercadarías a cambaya e a outras partes a vemder, pêra se delas aver 
dinbeiro e ter prestes algucía cargua, nam ba rremedeo, porque tudo o 
que d aquy mamdo, ou amte de se vemder ou depois de vemdido, tudo 
toma pêra despesa de goa, e nunca aquy torna nada. E nam abasta jmda 
jsto, mas jmda me mamda leuar quamta mercadaría ba na casa, sem 6- 
car nada; e tudo alube e despemde, nam sey per omde nem em que; 
porque, se leyxase amdar buua naao com estas mercadarias, pêra me 
delias trazer o dinheiro, nam seria maravylba estar sempre de buum 
anno pêra outro muyta parte da carga prestes, e farsebya nyso grande 
proveyto. Por yso, mamde vos alteza prover isto de maneira que se faça 
como digo, e serees bem seruido. 

Eu vos scripto (sic) que alguuns soldos pagaua as vazes (sic) al- 
guuns omeens em cobre e outras mercadarias da casa, a mor valia, por 
by nam aver dinbeiro ; e vos alteza me mamdou dizer que m o tinba em 
seruiço; e o capitam mor espersamente (sic) me mamdou agora que nam 
pagase nenbuum soldo a nymgem em cobre nem em outra mercadaría, 
dizemdo que babatia o preço do cobre, porque os omeos a que se daua, 
o vemdiam loguo por menos preço, e punham maao foro na terra — o 
que asy nam be, porque elle esta asemlado por asemto aquy, que vollo 
tomem sempre pelo preço ordenado, e nam desfaz nem faz ao casso o 
que os omeens vemdem por casso de suas necesydades; porque asy lam- 
bem as faràçolas que se dam aos mercadores em pago da pimemta, logo 

TOMO » 49 



386 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

o ahy em cochim, na praça, hamdam vemdemdo por menos preco muyto 
do em que ho tomam a vos alteza; e sam a o tomar obrigados» e nam 
leyiam por yso de o tomar no preço em que estaa asemtado. 

E, se o leuam a cambaya, goanhase nelle, e nunca se pode perder, 
nem abater do preço aquy semlado, mas, amtes, vali laa mais ; e os que 
o laa leuam, rrecebem proveito e viuem; que, se me elle nam tomase o que 
eu mamdo, virmebia de laa dinbeiro com quje soprise alguua cousa de 
soldos, pêra se os omeens mamterem ; e o porque me parece que põem 
esta defesa, be por rrecolher tudo em goa e desfazer o trato de quaa, 
porque nam se pode soster doutra maneira. 

A cargua, senbor, destanno, se se acabar de fazer, será mylagre; 
porque nam abastou nam vir dinbeiro pêra se gastar com esta prata, o 
quall elrrej soprio, como tenbo dito, mas jmda veo estoutro estorvo da 
paz de calecu, que, como se vio com paz ordenada, precurou logo, com 
suas manbas, de mamdar rreter per huum seu jrmaão a pímemta, que 
nam viese a cocbim, pêra nos fazer mudar o trato a calecu, e avermos 
alguua quebra com el rrey de cocbim e nysto meter onyam, que este be 
todo seu desejo e o em que sempre trabalhou, temdo per tamtas vezes 
errado a vos alteza; e nam ba porto seu em que posa carregar buSa naao 
em çem anos, senam, por fazer mall, amda deteo^do a pimemta, que nam 
venha a cocbim, pêra que as naaos nam carregein quaa nem laa. 

Item — Eu tenbo scrípto a vos alteza sobre estas naaos da carrega, 
que mamdees que se nam tomem pêra ficar quaa, porque parece gramde 
desseruiço vosso e perda de vosa fazemda, e ellas nam sam neçesareas, 
senam peras amdarem quebramdo per çíma dos baixos, como estano 
acomteçeo a muytas delias, porque esas duas, a saber, sam giam e samta 
maria da serra, depois de carregadas, se biam ao fundo, das porradas 
que com ellas deram no estreyto; e por ysso, senhor, vos torno aquy fa- 
zer d iso lembramça. 

Item — Mamde vos alteza todo o cobre que se poder mamdar, por- 
que nam ba mercadaria que se quaa gaste mylbor, e em que mais pro- 
veyto se faça. A naao que se perdeo este anno, que de laa vinha, foy 
gramde perda, porque trazia muyta mercadaria de que tenho necesydade. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS á87 

Item — Nas naaos do anno pasado, foy bom quinham de canella, e 
ora vay também nestas; e asy espero em deas que vay cadano; e, sobre 
ysso, descamse vos alteza^ qae mor medo ey de me mamdardes dizer que 
nam mamde tamta, que de falecer, como vos alteza fez do gemginre, em 
que mamdaes que vos nam mamde, cadano, mais de IJ^ quintaes. 

Parece me, senhor, que foy causa d isto parecer vos que ho podiees 
aver da jlha de sam lourenço mais barato ; e espamto me muyto d iso, e 
muito mays de mamdardes hy fazer fortaleza por ese rrespeito; porque, 
com o que se nysso despemder, se comprara todo o gemgiure do mundo 
daquy a 1* annos, porque ho gemgiure de quaa he muyto mylhor que ho 
da jlha de sam lourenço, e as naaos que vam a carga da pimemta nam 
torcem seu camynho por tomar o gemgiure, mas, amtes, de camynho o 
leuam; e se vos, senhor, diseram que hy avya prata, sabido estaa que he 
muyto pouca e rroym. Asy, senhor, que por nenhua vya acho rrezam pêra 
se hy fazer tamto gasto, saluamte se he peras naaos, pêra per y fazerem 
seu camynho e terem hy huua escapulia pêra tomarem mamtimentos e 
agoa, como em mocambique. 

E também, senhor, pareçeo escusada despesa a que se fez em estas 
galees que mamdastes fazer, porque» halem de serem muyto custosas de 
madeira, nam se podem navegar com menos de cP omeens de rremo» 
afora outra gemte que nella ha damdar. Era muyto mylhor despesa faze- 
rem se caravellas, que se navegam com pouca gemte, e sam mais defem- 
sauees, e fazem mais guerra; que hHa soo que se fez, e he feyla, pasou 
de b]^ cruzados de despesa, a madeira e feytio ; e outra que esta armaa- 
da, nam pode leyxar de fazer outra tamla despesa; é nam ha em toda a 
jmdea gemte que as arme ambas. Asy, senhor, que cada albyire destes 
vos custa mais do que cuydaes. 

A naao gramde que se aquy faz, vos alteza me mamdou fazer delia 
merçe, pella quall vos eu, senhor, beijo as maaos; e estaua ja com as 

' Cinooenu. 

' Cento e cincoenta. 

^ Seis mil. 



388 CARTAS Dfi AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

caberias ambas; e será naao de fllj®^ tonos, e das bem obradas qoe se 
podem fazer; porem, agora, senhor, como se soube que me dellatinhees 
feita merçe, mamdaram tirar maão delia, e ey medo que ma uam leyxem 
acabar; e será uecesareo, a meu ver, pêra que se nam perca, leyxalia, 
e dese a quem o capitam mor quiser, pêra que se acabe e vos alteza nam 
rreçeba nyso perda, por amor de mym; e nam leyxe vos alteza de mam- 
dar lonas e amcoras pêra ella, porque, as que vinham pêra ysso, se per- 
deram na naao, que se perdeo tudo. 

E também, senhor, beijo as maaos a vos alteza pella merçe que me 
fez em nam ser tirado de mynha homrra, nem meos feitos serem julgua- 
dos senam per vos ; porque, segumdo as cousas e mexericos qua amdam, 
nam se poderá leyxar de ser malltralado e destroydo; porque nyso am- 
daua ja, quamdo me veo vosa provisam, e tudo o que podia me amdaua 
buscamdo, dos casos das duas naaos que daquy mamdamos, a saber: 
dom ayres, christouam de brito; e também porque diz em publico que 
eu screpvy a vos alteza mall d elle e que o avya de fazer hir de caa com 
as cartas que vos screpvya. 

E, por ysso, tamto que chegou de malaca, logo mamdou tirar huua 
devasa sobre mym e outras pesoas que vos bem seroem, dizemdo que 
estauamos todos em hutla masa e amjzdade, amtonio rreall, diogo perei- 
ra, e eu, e jau alurez de camjnha, e o vigário que foy, que comygo veo ; 
que lhe pesou de sermos amygos todos, huns dos outros. 

E nam abastou tudo isto; mas, em chegamdo gaspar pereira, que 
nos ele vio abraçar e ser gramdes amygos, como somos e sempre fomos, 
logo se meteo a dizer a gaspar pereira que eu lhe queria mall, que se 
nam fiase de mym; e outro tamto dise a mym, de gaspar pereira; e» 
quando toda vyo nosa amyzdade hir avamte e fazermos ambos as cousas 
de vosa fazemda e seruiço, detremynou nam comsemtir, em cousa que 
fezese, que gaspar pereira fose presemte, nem o leyxou husar de seu ofi- 
cio, com seos modos desemulados que elle sabe fazer, de maneira que 
foy neçesareo a gaspar pereira, por se nam ver tamtas vezes destroydo, 
nam hir com elle, porque lhe mamdaua cometer, per huns judeos que 

1 Seteeentos. 



DOCUMENTOS, ELUCTOATIVOS 389 

comsygo . traz, qne lhe arremdase os percalços de seu oficio. Bem deue 
vos alteza emtemder o por que ho fazia; e tudo isto causou, porque gas- 
par pereira comegou logo d emtemder em seu ofício, como vos alteza o 
mamdaua; e elle agastou se de maneira, que he fea cousa de comtar. 

E aguora, que veo do estreyto, tamto que foy em goa, parlio logo 
daquy gaspar pereira na galee, em sua busca, pêra ver a manejra que 
com eile queria ter ; e o tratou e rrecebeo da maneira que vos alteza laa 
ouuyra, que, ha partida destas naaos que vam diamte, o tem preso em 
hutla naao, que nam saya delia; e mamda tirar jmquyrições e devasas, 
d eile e de jorje de mello, de cousas que nam tem pees nem cabeça, se- 
nam amdalhes buscamdo cambaritos, e escamas, e falsydades, e mymti- 
ras, per hSa vya e per outra, pêra que nam tenha rrezam de lhes fazer 
a homrra e mercê que elles merecem ; e isto, nam por ali, senam porque 
os vos alteza fauoreçe e homrra, como era rrezam. 

Porque oulro tamto fez a mym, e faz, como aquy cheguey, e asy a 
gaarçia de sousa, atee que ho matou, e faz a toda pessoa que vee que 
vos alteza fauoreçe e faz merçe; e da maneira que elle tira estas jmquy- 
rições e devasas, nam he mais necesareo que pimtar elle o que quer que 
se proue, que tudo e muyto mais se provara. E vem nos a todos amea- 
ç2^mdo que, como aquy chegar, que logo ham damdar as emquyríções; 
de que eu rreceberya merçe se tirarem como se ha de fazer, e nam da 
maneira que as elle tira e mamda tirar. 

Quaa, senhor, me diseram que secretamemte mamdaua vos alteza 
tirar jmquiriçam per diogo fernamdez, criado do baram, de mym, e diogo 
pereira, e arotonio rreall, e janalurez, e joam serram, da naao de joam 
serram que foy a dio pêra socorrer a goa, sobre que vos screpveram de 
quaa que hia carregada por nosa, e asy doutras cousas que vos mais po- 
deram screpver. 

E, porque pervemtura será o dito dioguo fernamdez huum dos que 
ysso screpveriam a vos alteza, vos beijaremos todos as maaos mamdar sa- 
ber diso a verdade e castigar quem vos screpve o que nam he, pêra que 
vos alteza se nam aja d elles por seruido, como vos elles seroem; e nysto, 
senhor, rreceberemos muyta merçee; porque elle se gabou quaa disso, 



3ôb CARTAS DÊ AÍ^FONSO ÒE ALBUOtlERQUE 

que vos alteza lhe mamdaua tirar a dita jmqnyriçam; e veo aqoy ter, de 
goa, dizemdo que viuha a ysso, e nam o vemos fazer nysso nada; e, 
como aquy chegar o capitam mor, lho avemos de rrequerer de vosa parte. 

Também, senhor, eu sam emformado, per cartas que me de laa vie- 
ram, que alguuas pessoas vos screpveram e diseram mall de mym, a 
que cuydo que vos alteza deu pouco credito. Lembre se vos alteza que vos 
nam vim quaa seruir pêra errar em cousa de voso seruiço, porque, quamdo 
de llaa party, ja tinha per omde viuer, sem ter muyta necesydade de tor- 
nar a jmdea; e nam vim a ella com temçam de fazer o que nam devya, 
por aquyrir fazemda, porque, se ysso quiser fazer — louuado seja deus! 
— jmda tenho per omde o faça, e leçemça de vos alteza pêra ysso. Po- 
rem, senhor, bem sabees vos que nam vim eu por outra cousa, sooiúenté 
porque vos ouuestes nysso por seruido de mym; e, se vos bem seruo oà 
mall, em vosa fazemda o acharees, a quall fora mais acrecemtada do qué 
he, se quaa esteuera outro governador que se mais doera de vosa fazem- 
da; que eu afirmo a vos alteza que, depois que quaa sam, sempre pre- 
curey por vosa fazemda, sem me elle ajudar nenhua cousa; e, se me ellé 
nam teuera as b^ naaos da carrega que qua amdam, do ano pasado, voà 
as teuerees em vosso rreyno carregadas da maneira das outras que laa 
vam, e bem me lembra que vos alteza me disse que vos fezese rríco. 
Mall o poso eu fazer, pois o voso capitam mor me toma as naaos da car- 
regua. 

E toda outra fazemda e mercadarias que na casa ficam, as toma 
todas e as leua omde lhe bem vem; e bem sey que ho conlrayro diso 
vos ha elle sempre descrepver e screpveo tee quy, com suas manhas; e 
deuèês me, senhor, de crer, poisque nam vim qua a outro fim, pello que 
compre a mjnha homrra, senam ter bom cuydado de vosa fazenda e mam- 
daruos dizer a verdade do que se acerqua delia faz, como me emcomêm- 
daes e mamdaes que ho faca; e nam sam de menor jdade, pêra que me 
leyxeès de crer, porque ja sam de P*' anos e ha xxx' que vos seruo; e» 
se alguua cousa sam e homrra tenho, vos me fezestes, e nam vos ey 
nunca de mentir; e bem sey, senhor, que, com a moltidam de cartais 6 

1 Cinco. 
* QnooeiíU. 
'Trinta. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 31? 1 

muyta oratorea qae vos o capitam mor mamda dizer, vos faz mudar vosso 
parecer e comselho. 

capitam mor diz quaa publicamemte que tem huua carta que lhe 
mamdou pêro correa, em que lhe nomea todo los omees que vos de quaa 
screpvem o que lhes parece vosso seruiço ; pello quall me parece que esla 
azado camynho pêra elle fazer mall a muytos omeeus, e a mym com el- 
les; e» pois isto asy pasa, os omeens arreçeam muyto screpver a vos al- 
teza. 

As cartas dos omeens que vos de quaa screpvem, devya vos alteza 
mamdar gardar, e nam amdarem per muylas maaos; e asy as que lhe vos 
alteza mamdar, mamde que se nam dem a outrem, senam as pesoas pêra 
quem vem; porque todas as que vem no maço do capitam mor, se abrem. 

Beijo, senhor, as maaos a vos alteza pella mercê que me fez em 
me mamdar meu ordenado, o tempo que quaa esteuese, depois de vos 
alteza me mamdar hir, pêra arrecadar vosa fazemda, que sempre fiíca es- 
palhada; e, se vollo, senhor, mamdej pedir, foy por o dar a comer, com 
o mais de mynha fazemda que gasto com criados vossos e outras pesoas 
homrradas que comygo sempre comem; que hafirmo a vos alteza que 
cada huum anno faço de gasto ijp^ rreaes, pouco mais ou menos, como 
poderees saber per alguuas pesoas que vollo saberam dizer; e este he o 
mor contentamemto que tenho, porque sempre foy de mynha' condiçam. 

Eu, senhor, quamdo de laa party, comsemty em nam trazer quin- 
taes, de meu hordenado, porque me disestes, e vinha em meu rregimem- 
to, que os nam avya daver nymgem, atee o vosso capitam moor; e eu 
agora vejo que os trazem todos e eu soo fiquey sem elles. Nam lembro 
isto a vos alteza por ter disto noccsydade, soomemte porque estou disso 
corrydo; e nam voUos peço, por vos nam parecer que tenho diso alguua 
cobiça. 

Eu screpvy daquy ao capitam mor que era quaa necesareo, — nam 
pêra que d elle teuese neçesydade, nem ouuese mester ajuda pêra vosa 

1 Treientos mil. 



392 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

carrega, porque elle Donca nyso fez nada, Dem o ouue mester. Soomemte 
lhe dise que era neçesareo por este rrespeito : que mamdou aquy Ioda a 
g^Bte com despachos pêra lhes pagar soldos, e desembargos, e mamda* 
dos seos, diso, pêra mym; e, porque vos elle screpve, como dito tenho, 
que nam ha mester senam gemte e naaos, e que elle os pagara de seos 
soldos e lhes dará de comer, pêra ysso Ih o mamdej dizer, pêra que viese 
dar de comer a gemte e pagar lhes os soldos. 

Nam me parece, senhor, que faz isto, senam pêra eu ser mais mall- 
quysto da gemte, do que sam, e pêra me matar com paixam, e fadigua, e 
achaques domeens, e elle ficar dizemdo aos omeens que eu sam o que 
lhes nam quero pagar nada. 

Item — Lembro o rroubo que se faz em goa, da moeda que se cha- 
ma bazarucos, como vos la diram, que be de cobre; que ho voso feitor 
dahy de goa rrecebe muyto dinheiro em ouro e prata; e, porque se acha 
o dobro dos pardaos ou serafys, que rrecebe, pela dita moeda — bazaru- 
cos — , troca todo o ouro em bazarucos e despemdeos por menos do que 
os troca, meio por meio, em que ganha a metade, a saber: faz em cada 
mjll pardaos IJ^ pardaos': e esta metade de ganho he pêra sy, como mais 
compridamente vos laa dirá pêro coresma e outros que hy esteueram, 
que ho bem saberam. 

E nam abasta jmda jsto, que he rroobar a gemte, porque, homde 
lhe paga huum pardao por bazarucos, torna os depois a comprar e lhos 
dam por meio pag|su), e os scripvaes lamcamlhe em rrecepta o ouro per 
ouro ou prata e pardaos, serafys, e a despesa também pello mesmo ouro 
ou serafís, fazemdoa elle per bazarucos. 

Asy que, domde despemde e tem despesa de I**' cruzados, outros 
tamtos lhe ficam na maao, seos, e asy o faz alguuns a quem quer fazer 
boa obra; e mamdame quaa despachos pêra pagar alguuns omees em 
ouro ou prata, dizemdo que ho emprestaram a vos alteza pêra despesas 
e que lhes pague, e elles deram laa em bazarucos; e todos estes desem- 



^ Dois mil. 
' Gineoenta. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 393 

bargos vem com mamdados do capitam mor pêra mym, que os pague; e, 
amte qae nysto cayse, paguey algauns; e, como mo diseram e o emtem- 
dy, Dam pagey mais nada, nem pagarey nunca. 

O capitam moor me leyxou huum mamdado, em que dizia que mam- 
dase fazer huuas casas a gaspar pereira, douro e dazuU, e a sua vom- 
tade; e, agora, que estaa com elle da maneira que dito tenho a vos alteza, 
me tornou a mamdar que ha metade da despesa que se nelas fezera, lhe 
lamcase em seu soldo; e a despesa nam pasaua toda de çem cruzados; e 
nam pareça a vos alteza que ho fazia por acreçemtar em vosa fazemda, 
senam he seu custume, a quem tem maa vomtade, empecer lhe em tudo 
aquello que poder, que, d fia maneira ou d outra, ha de buscar per omde 
se posa vimgar, que outro tamto fez amtonio rreall, que, por leuamtar 
os muros da fortaleza sem sua licença, lhe tomou ij*^ cruzados e Ih em- 
bargou toda sua fazemda ; e agora estaua de camynho pêra se hir e mam- 
dou me aquy huum mamdado que, amtes que partise, dese fiamça a naao 
gramde que se faz, ao sayr da barra ; e asy a symam rramgell, em que 
diz que, por sua causa, o catiuaram. Verdade he, senhor, que, por ai- 
guuas compitemçeas que symam rramgell tinha com joam froles, vosso 
almoxarife, e outras pesoas, elle foy d aquy mamdado pêra cananor, e 
diogo correa, que hahy estaua por capitam, o tornou a mamdar pêra co- 
chim, em huum parao, com dous omees que com elle vinham, e os cata- 
res o tomaram no camynho. Ora veja vos alteza quem aquy tem a culpa, 
ou de que ha de dar fíamça ; que, da naao, amtes que se começase, lhe 
foy tomada agoa da barra e se fez pela medida d elia« e he a mais fre- 
mosa peça que no mumdo pode ser, e mylhor feita ; mas, porque elle nam 
foy o adeficador delia, nam a pode gostar. Ora veja vos alteza se sam es- 
tas cousas pêra fazerem mall por ellas a nymgem, e que, se elle nam 
dese fiamça, que se lhe nam dese despacho de sua fazenda. E asy vay. 

O anno pasado, que vos alteza mamdaua hir amtonio rreall, se quy- 
sese, detremynou de se hir, por conhecer a maa vomtade do capitam 
moor, que lhe tinha; e, quamdo o capitam mor vio sua detremynaçam, 
mamdouo chamar, estamdo eu hy, e lhe rrogou que, por amor d elle, fi- 
case, e lhe deu palaura que, poisque era seruiço de vos alteza, que elle 

> DuxenU». 

TOliOUl 50 



qoalX >B ,de ,o«destroyr, da maneira ,que.dito tenho^TTCiSfattçta^^e. detJlMB 
empecer em toda a fazemda, afor» lhe dizer ipay de8one$ta3ip,aIai}ras, p^r 
cartas e em pessoa, em publicOí de maneira qae nam he pêra falar ; e 
lat^i yay.^Uei.e oiifaros.m^ytoS|,per qoepi vos alteza poderia ^b(N*imylbor 
ai^rwdade. 

EsteSifaytores que de laa vem nas naaos qoe traatem algufi^iprat^» 
a todos ; falece quaa. Os cofres, senhor, vem fechados e liados, nacai^ard 
f)px^pi(^m, e as ehaues ao msur; e, quamdo as trazem da n^ao ia esta 
í^iiOTjfíi be peraipte os ijcrípvaes e ofiçiaes; e.vem de maQejra qoe nam 
IwliraqQipuoGa^com elles, e logoaly sam despregados e abertos, e a pri^tii 
poip^^-per^pesso de P marcoB, como a.laa rreçeber^m, e a todos falece; 
e paf^ce me . V9rd^deiramemte que be maao ■, pesO; qae Ibe laa fazem,^ porqnet 
s$iAyBtp^emtrase ^rrroymdade, faleceria a buum, e nam a k)do8. He hetn 
qjieivos^teza proveja sobrisso, de maneira ^ne estes pobres omeen3:qvuii 
percam o sea^ porque rreçeberia vos alteza, nyso,. cargo de comciemfea; 
e,.se vos, «enbor, parecer qqe ho enleo pode ser qua», laa mamdamoç, 
da$ta casa, o, peso per omde a pesamos, pêra qpe se. coteje com ois.de 
l^a, pêra se saber a verdade, e omde jaz este emgaoo; e nam pode ser 
o 9iBga9o : qua», { porque os pesos sjam marcados eçortos ; mas, porque 9S 
e)|os!nreqn9reram, os mamdamos. 

:Se vos alteza soube^e çom quamto trabalho se esta cai|[aff^z,>pda 
myrngoa de dinheiro amoedado que vos alteza quaa nam mamdou, n^tm 
l^e.peia crer; e ja atras fica scripto ^ vos alteza como esta pimemta se 
ciHnpiíl^f6 í^ inaneira que vem, que nenhuum ip^rcador de cochim a n^ 
IflRii Q^V ,estaa em suas maaos, senam dos laufadpres, propeamemi^, 
c^Ortqgo (l^lenitejo;,e, como omem começa a^rregaç^fp ehy ha fsittm 
de dinheiro e bom pagamemto, começa a correr rrigamemte; e, quamdo 
ofQfm estaa no meio da carregaç2um, com ella segura,, Caz omm seus 
pfHTtídos, as vezfSttoda em cobre e as vezes a metade em cobre e.a gie- 
t^de em.diqheiro, de manejra que vosalteza he bem e^ruido ;.e;a8y,. de- 
pois d^ia nj^M^ partidas, se fazem gramdes partidos, ^pocqiieMPaiP.flR^* 
repa tomar a soa, terra e.comvemlhes desbarata lia; A :9m^6ff04al(^ 

^ Gillooenta. I 



DOCnifBNTOS ELUCIDATIVOS 395 

oMffide soprimenta de dinheiro amoedado, a metade em ooro e a outm 
metade em prata, como ja tenho dito, segando as naaos que vosálteBa 
mamda' carregan qoe habaste e ajmda qne sobeje algufla cousa, alem da 
carregaçam ser segura, que lamlorrdeua, com - elle e com aa mercada^- 
rias se fazem sempre partydos de moyto seruíço de vos^alteza. 

ã da íiífhot cousa que eu quaa 6z, per que me a riiym liarèçè que 
mei-eço merçeé a vosaltèza, foy fazer tomar o pagamemto dà pittemtá a 
lííéladè em prata e á outra metade em cruzados, soemdosè semjpre ápja- 
gár em cruzadoô; e fazer tomar a prátà ein barras a bj » cWizadfe iíiij** 
reaes o marco, que say a ybj^^lxiij* rrèaes 4; e a^pfáta ambédadáabiij* 
cruzados o marco; e, per esta conta, vera vos alteza o que ganha. Asy 
què deuevbs alteza sempfb mámdàr soprínteíitò déf dítíheirô; jjòlrsegu- 
ratti^ da cári-ègàçàn:i, a metade em cruzados e a níketàde dm praia; e^ 

aoites amoedada, que valí mais qué doutra nían^ira. 

« 

Aguora, amtes que estas duas naaos — sam ^am e samtamaríá da* 
serra — partisem, fiz partido com dous mercadores, de me darem sommà 
de pimenta, toda em cobre; e nestas duas naaos vay.ja algu&a delia. Âjsy; 
que, com ajuda de nosso senhor, estas quatro naaos carregaram com tam 
pouca despesa, como nunca naaos carregaram. Leuamdoas nosso senhor 
asaluamemto,.como eu espero nelle, poram huum mylham douro em 
vosso rrejno. Asy, senhor, que ajmda me eu afirmo de mamter o que dise 
a vos alteza: — que, amtes que me destas partes yaa, de vos fazer muylo 
rrico; e lembro a vos alteza que nenhus mercadores nam venham a jm- 
dea, como me vos alteza ficou, atee que nam tenhaes xi^ torres douro. 



r,'SC^eii*teue8e bBffia^naao* de ijf* atee iíj^^ tonès^ (f^e namttuese' 
nytdgem^ de ftter com eHa senam eu, ou qaemr teuese o carrego* de^ 



*\}àátóríe. 

' Dois mil seiseentos e sessenta e três. 

«Sete. 

» Vinte. 

• Dozentos. 

^Treientos. 



396 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

T08S0 feytor, qae ho bem quyscse fazer, e a mamdase com lij^ oa ílq ' 
qQintaes de cobre e alguíia pouca de pimemta, depois das naaos carre- 
gadas, a cambaya, farjya (sic) muyto dinheiro, que sopríría as gramdes 
despesas que quaa temdes, de mamtimentos e soldos, e outras meadas, e 
ajuda gramde pêra carregaçam do anuo que vem; e muylas cousas se íar 
liam de vosso seruiço, se vos alteza quisese ordenar de iaa; porque, se 
ornem quaa uellas falia, querem no asetear; e quamto daquy mamdo, 
dalguum pouco de cobre e outras mercadarias, pêra carobaya, tudo me 
tomam em guoa, como atras digo a vos alteza. Afora todo o cobre que 
sobeja da carregação, e outras mercadarias, tudo Iaa vay e se same. E 
estas sam as rremdas que goa rremde. 

Este anno nos fica muy pouco cobre, que, depois das naaos carre- 
gadas, me parece que nam ficaram mais de J' quintaes, que detremyno 
mamdar vemder a cambaya, pêra pagar I^ cruzados que deuo a eirrej 
de cochim, e asy per alguuas despesas d esta casa. Nam me pesa, senam 
porque me nam fica cobre pêra dar aos mercadores damte maão, per 
ajuda da outra caaregaçam que emboora ha de vir. Foy a mor perda que 
pode ser, a naao que se perdeo a vos alteza, porque, com aquella merca- 
daria, ficauamos marcados. Tenha vos alteza cuydado, porque asy o mam- 
damos avisar a casa da jmdea, que venha todo o cobre que poder vir, e 
azouge, vermelham, e chumbo. Pedra hume, nam venha, alee que ha 
nam mamde pedir, porque estaa quaa gramde soma delia. Alguuns pa- 
nos de cores e boons, se gastariam quaa bem. Creame vos alteza, nas 
cousas de vosa carregaçam e nas outras, que, se me crer, vos alteza será 
bem seruido; e nam vos meta nymgem na cabeça o contrayro. 

Porque dizem quaa que vos alteza dezia que nam era necesareo 
mamdar quaa dinheiro, e que o capitam mor vollo screpvera, senam que 
lhe mamdasees gemte e naaos, que elle pagaria toda a despesa d armada, 
e mamCimentos da terra, e soldos, e asy vos faria a carregaçam ; e, por 
este rrespeito, nam mamdara vos alteza mais que esta prata; e por ysso 
avysso a vos alteza que, por agora, me crea, que, depois, prazerá noso se- 

> Três mil. 
' QoAtro mil. 

«Ma. 

«DeimU. 



DOCUMENTOS ELUCTOATIVOS 397 

nhor qae dos abrira outros portos domde ajamos dinheiro, que se nam 
tire de laa, e asy espero eu uelle; que, depois que me esta casa foy em- 
tregue, nunca outro dinheiro se despemdeo, senam o de vossos cofres; e 
afirmo a vos alteza que nam ey por nada a despesa da carregaçam, se- 
nam a dos mamtimentos e soldos, e despesas que se fazem em corregi- 
mentos de navios e obras desta fortaleza, que nunca acabam, que sam 
todas tamanhas^ que nam he cousa pêra se crer; e eu nam sey que vyda 
nos estano avemos de ter, com tamta gemte e sem ter que lhe dar a co- 
mer, nem mercadarias per que se supra; nem vejo estano camynho pêra 
esta gemte jr pêra nenhuum cabo, senam emvernarem per estas fortale- 
zas, e comerem esta pouca pobreza que fica. 

O capitam mor me screpveo huua carta, em que dizia que lhe pe- 
sara, porque pedira este dinheiro para esta carga a el rrey de cochim e 
aos mercadores, porque fora mylhor pedi Ho aos nossos primeiro. Eu, se- 
nhor, lho mamdej pedir primeiro, e asy o pidy alguuas pesoas outras que 
ho tinham, e merespomderam que mo nam dariam, senam se lho tomase 
ao partido do meio carregado nas vosas naaos, e que lho fizese imda 
bom per mynha fazemda; e, des que eu isto vy, emlam me socorry a ei 
rrej de cochim, que mo emprestase, dizemdolhe, que, naquella naao naao 
(sic) de vos alteza que se perdeo, vinham os cofres do ouro amoedado e 
que ahy se perdera; e isto lhe dise por nam dar descrédito a carga, nem 
leyxar de vir o comprimento do dinheiro, que sempre vinha para ella. Asy 
que me parece que, em lho pedir, nam pasey nenhua mymgoa, mas, 
amtes, se mo nam deram, leyxara de carregar as naaos; e mjlhor pres- 
umo achey nelle, que nos nossos. 

Hiiua carta escrepveo o capitam mor a dom garçia, do porto de ca- 
lecu, na quall dizia que me mostrase huum capitólio que nella vinha, o 
quall m o amostrou ; e dizia que el rrej de calecu lhe daua em cada hum 
anno xxx ou R^ quintaes de pimenta, a troco de mercadarias; e eu rres- 
pomdy a dom garçia que nam era aquyllo nada para o que lhe jmda 
avya de prometer, que ho negoçeo desta pimenta ja em outro capitólio. 
Atras vos diguo a verdade delia, asy nysto como em outras cousas, por- 
que, em casso que seja aceito a elrrej de cochim, pella sua bomdade, e 

ou qaaraiti mil. 



m CARTAS DE AI<t!^0N80 DB ALBtlQimRQUB 

siMiicôs que a' vos alteza tem feitos, por ser coDsa dè tamto vosso ser^ 
nico averse está pimemta per mercadarias» sem mais outro dJDbeirõyQym* 
gein folgaria mais qae eu; mas eu sey a verdade, muuyto tempo ha, quêf 
elrrey àè caleeu lamça pella boca. 

BMa pimenta nam estaa em sua mãaò nem em sua tferra, que estáa 
dé Còchim^pello rrio acima escomtra a serra atee coulam, e vem pelo nío 
abai% em tones, e pasa per todo los portos e direitos de todo los amygos 
eF cunhados d elrrey de cochim; e bahy nam ba outra pimenta, senaA 
€Sta que Vem per aquy. Ora veja vos alteza como^rreyde calecu^daquy 
pode tirar esta pimemta e leva Ha laa, que digamos qae pode vir \ee oramn^ 
galor, que também be rrio, e pode by ter alguua cousa d ella ; be a me- 
tade dblrrey de cocbim, que be tam poderosso como elle, poèbri pasar 
seguro; mas amtes, senbor, me temo, segundo vejo camjnho disstaamyz^ 
dàde d elrrey de calecu, contra vomtadè delrrev de cocbim, de se fazer^ 
guèrrft sobre esta carga, de maneira que, nem em buum cabo nem no oti* 
tfa, no la nam dem, porque elrrey de cocbim, com bandeiras estemdida^ 
dizqfue; emquãnto elle viuer, qoe sempre Ibe ba de fazer a^gaerrài atee 
que vimgue a morte de seus tios, e que nesa demamda ba d acabar; e » 
myttt me parece, senbor, que bo capitam mor ba de screpver algÚua coitta* 
sòb^ ysso a vos alteza; e crede, senhor, o que vos bem parecer. 

W)SaItèza ouue por sen seruiço seruírvos eu quaa nestes cai^gM*' 
a(|IÊMle'tèttFpo qoè vos, senhor, ouuerdes por bem, pela comfiamça qM* 
quedem nyym temdes de vos nysso e em tudo bem seruif; Beijo as Dhfiee- 
a vos alteza pela comfiamça que de mym tem, porque verdadeiràtíieftMè' 
desemganado vos siruo, como per obra de vosas carregações o poderees, 
senhor, ver; e eu, senhor^ asy o farey, atee qae veja voso rrecadô; Lem- 
btese vos alteza que sam ja de P anos, e a carga he gramde e de mwfi» 
t^abaUJo. Nam vos ey de falar mais nysso nada, porque leyxo tudo em* 
vosso peito; e nam be nada (poisque vos vos avees por seruido de mym, 
pevte cousas de vosso estado) oMirrer omde me mamdardes, porque com 
yWb sMn còaiteiMáf e'sátisfeilo, e nisto nam ey de falar m^s a vos^lleia- 
qiMrte^aaiiiylto qHtí quystrdes' fazer; etf nam inuo quaa eat^omirífprfgo^ 
iteiff a t l jttt te ^pa^ vbsadfèka^ba^peip^slHliido, senMHi^dtfvotw 

^CSacotBti. 



^iOnifiiQiir,. que bolsam pode gostar, que aieifnamdra jtgor^fdw^rij^ 
calecQy.perhuua carta, qqe eu qae.vos jscrepveFa mall delle, edeigoa,-e 
de toda a jmdea, e de malaca. Eu lhe respomdy que,^ voa alteza. Ibo 
maindara asy dizer, que hera verdade; e, se lho outrem de IdiSt disena 
ou sçrepvera, como elle dizia, que ha nam era, que eu nam jscrepvijt 
eousd nenhua a vos alteza seaam a bem de vosa fazemda e despesas,, por- 
que asy mo outmdaes esperaamemte; è.que, emqaamto quaa esteuese, 
que ho avya de fazer, pois mo vos alteza marodaua. Ora veja vosdlte»: 
tam boa vomtade traz contra mym, que hagora, quando vinha do es- 
treyto, nam dizia pruvicamemte, senam que me avya de mamd^r presso 
em ferros a vosaIteza;.e parece que, depoys que vyo as cartas e rr^ir 
mentos que lhe vos alteza mamdou, abramdou desa fúria. em, algnplaifppr 
BM9a,;€ nam leyxa, comtudo, de dizer o que ha vomtade. 

E diz que eu lhe rroguey que screpvese a vos alteza beqn de mymi 
o que tall nam be, nem numca lhe tall faley; e, em casso que lho rra« 
gar^, nam fora mall feito; e a ysso lhe rrespomdy.que ho moor qne 
me podia fazer, era screpver de mym a vos alteza todo o mall qoe quyr 
sese, iporque diso era mais contemte que de screpver bem de mym^; 
que muyto tempo avya que eu seruia» vos alteza e que, per rrezam, me dj^ 
via vos alteza conhecer, se era bom ou maao; e que nam avya jade oifi- 
diar com cartas suas, que ja era velho pêra ellas. 

Asy» «eobor, que me parece que, des o dia que chegey a . jmdcit 
te gora, nunca leyiou de me fazer todo mall que pode, por vir feyto 
per vosalleza; porque asy faz a quamtos de laa vieram, alem de mym, 
como vos alteza mais comprydamemte laet saberá; e parece me que, 40- 
gnqdo a cousa vay de viram, que cedo nam sayremos das casas seojMP 
armados, e mm pêra. os, da terra. 

Estas iiij^ oaaos de vos alteza, praza a nosso senhor que asJepejL 
saluainenk), que vam tam rricas, que mais nam pode ser; que me parece 
que valeram om vqsos rreynos huum conto douro. De ^santaimaria.dfi 
«9(19, fico bunm popco pejado, porque, nOiOstreiytQ, deu^xtop jui^tpaaigeu- 



^Dttoadoie. 



400 CARTAS DE ÂFFONSO DE ALBUQUERQUE 

das em buam baixo, e, depois que n este porto esteue carregada, abrio per 
três ou quatro vezes agoa, e lhe foy sempre tomada. Prazerá nosso se- 
nhor que ha leuara a saluamemto, que imda, teegora, (elle seja louuado!) 
nam carregej naao que prigase ; e asy espero nelle que sejam estas, qne 
tamta rriqueza leuam. Se vos alteza soubera com quam pouca fazemda se 
carregaram, nam o poderá crer; e estes sam os seruiços qne vos eu faço 
na jmdea, afora outros que, pelo que compre a mym, nam he neçesareo 
screpvellos a vos alteza, porque em alguum tempo o saberees. 

Em huum capitulo atras, dise a vos alteza acerqua dos rroubos da 
moeda de guoa, que pregumtase vos alteza a pêro coresma, que bem po- 
derá dizer o que d isso sabe, porque esteue laa, omde vos fez mnyto ser- 
uiço, e o sabe muy bem; e nam sey, senhor, porque se vos alteza nam 
sema dele nestas cousas homrradas de quaa, porque afirmo a vos alteza 
que he muyto omem pêra ysso e de muy bom saber, e ha muyto tempo 
que ho criastes, e vos tem amor; e destes vos deviees, senhor, de ser- 
uir; e huum dos omeens que quaa vy pêra huum bom negoçeo duua fei- 
toria, he elle; e, emquamto quaa esteuer e vir omees que com sam com- 
ceemcea e amor vos podem seruir, nam ey de leyxar de o screpver a 
vos alteza, porque vos rreleua muyto. Ffoy quaa malllratado do capitam 
mor, como vos alteza laa saberá, e vay destroydo e pobre. 

Dioguo femamdez perreira me rrogou que screpvese a vos alteza do 
seruiço que vos fezera o tempo que quaa estaua dioguo femamdez correa, 
quamdo veo por mestre e capitam da naao de setuuall, dos mercadores; 
e, estamdo nos aquy com guerra delrrey de calecu, e desbaratados, che- 
gou elle, e, alem de trazer dinheiro, de presas que tomou, trouxe hufla 
naao, que também tomou no camynho, carregada d arroz, de que a terra 
se sosteue; e, com a sua vimda, foy gramde socorro e ajuda; e elle, com 
sua gemte e batell, amdou sempre na guerra, alee que el rrey de caleca 
se leuamtou. Asy, senhor, que, nysto e em todo o que quaa pode, seraio 
vos alteza bem; e nam pede a vos alteza outra merçe, em satisfaçam de 
seu seruiço, senam que lhe de vos alteza, quamdo pêra quaa vier, huSa 
naao (a mylhor que quaa mamdar), que nam he muyto pêra elle, poisque 
ha daa a outros que menos valem e sabem que elle, e menos seraiço tem 
feito. Beijarey as maaos a vos alteza, que disto seja lembrado, porque elle 
he taU pessoa que ho merece. 



DOCUMENTOS ELUCmATIVOS 40i 

Gherme marcar e seus jrmaãos, e mamale marcar e sens jrmaãoSi 
sam mercadores de cocbim muyto prímçipaes, e prímcipallmemle o cher- 
me marcar, que he cabeça d elles ; e estes sam os solycitadores de darem 
a carga as naaos, e elles trazem toda a canella de çeylam e outras mer- 
cadarías e drogarias, e asy o crauo e maças, amtes que malaca fose feilo, 
— que, hagora, nam vem de laa nada, — e rrecebem aquy muy tos agravos, 
a que lhes eu nam posso ser bom. Rrogaramme que screpvese a vos al- 
teza, que Ibes dese alguua libardade, que lhes nam façam mall a suas 
naaos que navegam, nem lhes tomem em suas casas carpemteiros, nem 
serradores, nem a gemte que os seruem, com que fazem suas naaos, por- 
que quallquer omem lhes emtra em suas casas, e lhe tomam o que que- 
rem, e lhes fazem outras desomrras que nam (sam) pêra dizer. Deue vos 
alteza de prover sobriso, e darlhes privylegeo per omde sejam garda- 
dos, porque elles, em tudo o que podem, seruem vos alteza com suas pe- 
soas e gemte, naquyllo que lhes mamdam; e, se vos alteza lhes pasar 
privilégios, ham de ser dous, huum pêra cherme marcar e seus jrmaSos, 
e outro para mamalle marcar e seus jrmaãos. Deue lhes vos alteza fazer 
esta merçe, porque sam omees que vollo merecem. 

Guarçia coelho emtrou, em novembro destano de xiijS em lugar de 
janalurez de camynha. Foy ao estreyto, homde pasou asaz fadiga, e 
vos seruyo bem; e he muyto bom omem, e deligente em todo las cousas 
de vosso seruiço. Agrava se nam ter outro tamto soldo como tem lopo 
femamdez, porque tem il' rreaes, e elle nao tem senam T^' rreaes. Deue 
lhe vos alteza fazer merçe doutro tamto soldo, porque elle o merece. Nam 
fallo nos quintaes, porque ja o anuo pasado screpvy a vos alteza sobriso, 
e rrespomdeomo vos alteza que nam avya por bem, por aguora, da lios; 
que outra merçe lhes faria, se vos eles bem seruisem. Elles, senhor, ser- 
uem tam bem, que mylhor nam pode ser; e o trabalho desta casa he tam 
gramde, que outro nenhum chegua a elle, porque aquy se fazem toda las 
carregações e armadas e todo los despachos da jmdea, o que se nam faz 
em nenhuSa d estoutras feitorias destas partes; e por yso lhes deue vos al- 
teza fazer merçe; e, todavya, beijarey as maaos a vos alteza fazer lhe 
mercê dos quintaes, porque heram pobres e vos nam poderam bem seruir. 

1 Treze. 

* Sessenta mil. 
' CinooeDta mil. 

TOMO m H 



( 



400 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

Vo8 alteza pasa alvaraes aos capitães das Daaos, que posam carre- 
gar, de qnaesqoer especearías ou drogarias que elles qayserem, aquella 
comUa que havees por bem, em que rrecebees, senhor, perda ; porque era 
beu) que uomeasees de que especearías as aviam de carregar; porque, 
pam se acbamdo crauo, nem macas, nem outras drogarias, carregando se 
de cauella, acupa baum quintal por dous das outras; e bomde Ibe daes 
cem quintaes dordenamça, leuam, peia canella, ij*^ quintaes; e era bem 
que esta mercadaria, que he de grande acupaçam, viese logo taixada, 
que, nam avemdo hy das outras, qoe nam podesem leuar, delia, senam 
cousa certa; porque, agora, estes capitães nam acbaram outra especea* 
ria» senam canella, e leuam tudo o qae trazem d ordenamça, per tosos ai* 
varaes, nella, que bacupa bom quintal por dous de toda a outra. Lembro 
a TOS alteza isto, por que faga o que Ibe bem parecer. 

O capitam mor, senbor, me screpveo aquy, que, no tempo de sua 
obrigacam, que se detinba per esta costa por amor das naaos da carga; 
e nam dovydo screpvello asy a vos alteza. Eu, senbor, nam posso saber 
em que bo eu detenbo, porque, na carregaram de vosas naaos, dle nam 
be neçesareo, porque eu, des que sam aquy feitor, sempre as fiz, sem ter 
delle nenbuua ajuda, e nunca o vy atemtar em cousas de vosa carrega- 
çam, nem nysso falar, senam em cousas de suas armadas; e a detemça 
que elle faz per esta costa será por outro alguum fim, mas nam por bem 
de vosa carr^gaçam, como vos alteza laa saberá. 

Eli ano, comsemtio que muytos capitães podesem leuar pimemla 
para cambaja, e asy mamdou pagar alguuns desembargos nella; e toda 
se vemdeo em cambaya. E nam douydo screpver elle a vos alteza o con- 
trayro, e polia culpa diso a quem elle quiser, porque bo tem de cuslume. 

« 

Aguora screpveo o capitam mor a dom garçia, que se nam dese li- 
cença a nenbuum ornem, soomemte aleyjados e doemtes, e nam a ontra 
pesoa nenbua. Ha quaa, senbor, omees que ba x' annos que bam ^ 
quaa^ e casados d eles, e bamdam desesperados pelos nam leyxaren 
Parece me, senbor, que be gramde cargo de comciemçea em os terem qaaa 

^ Doientos. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 40» 

per fdrca. Bem sey , senhor, que mamdaes provúão pêra ysso ; maa Daitt 
se compre, como ootras muytas cousas. 

Nam mamdo beyjoym a vos alteza, porque ho destes as partes, que 
o podesem carregar, por nam terem quiotaes; e he tam caro, que nam 
he bem que ho compre, porque o pagam todos em dinheiro contado. 
Dos direitos do que la ¥ay, avera vos alteza pêra sy, e asy hunm poueo 
que estaa nesta casa, que la vay. 

Belchior carualho, que vinha peraquy por scripvam, per hum ai* 
uara de vos alteza, em lugar de garçia chainho, nam lhe deu o capitam 
mor o oficio, e deu lhe o olçio de juiz da balança. He muyto bom ornem, 
e bem delígemte nas cousas de vosso seroiço, e pede a vosa alteza que lhe 
faça mercê da escripvanynha da naao gramde que se aquy fez, com sua 
camará, quamdo emboora for para vosos rreynos. Deve lhe vos alteza de 
fazer esta mercê, por ser casado e nam muyto rrico. 

Álvaro lopes, almoxarife dos mamtimentos d aquy, pede a ros alteza 
qne lhe faca merçe da feitoria da dita naao, com sua camará. Deuelko 
vos alteza iiazer, porque he muyto bom ornem, e casado, e pobre, e senM 
U08 quaa muyto bem em seu oficio. 

Amtonio rreall, arell d aquy de coclúm, e seus jrmSos, sam ttuyttf 
bons omees e seruem vos alteza, em seus ofiçios e tudo ê que podem^ 
muyto bem. Comquamto lhes vos alteza deu príuylegeos, os mais fortlsa 
que podem ser, lhes fazem muytas vezes agravos, e o tratam ms^ ; % voa 
alteza diz na mynha carta que lhes screpve; porem, a elle nam lhe foy 
dada nenhSa carta, e sam como as deirrej de cochim. Lembre se vos 
alteza de os fauoreçer sempre de laa com cartas pêra os yosos capiSes 
mores, pêra que lhes dem aquella omrra que elles merecem, pois sam 
tomados christãos. Isto seja, ao menos, pelo bom enxempro, em caso que 
elles muyto mereçam, por virem aquelle fim que vieram. 

Femam caldeira, o capitam mor o nmmdou vir de goa, e mamdou 
htaSsL carta a dom garçia, que jio premdese, o qualt premderam, e Hid 
km^apam hvrila adoba, e o meteram na prisam desta fortaleza; e, éAft 

lhe deram logar per omde fo^ pêra jgrejtty e d al]f é IW^ 



404 CARTAS DE AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

liaram a tirar, a cabo de três ou quatro dias, que ho emtregarain com 
seus autos, que o vigário fez sobre a emtrega da jgreja, pêra que ho laa 
tornem a emtregar a jgreja; e o meteram ua uaao sam giam, emtrege a 
manoell de llacerda, capitam delia. 

O capitam moor apregoa amdamdo, por amor destas naaos, que ora 
vam, darem oovas a vos alteza, que ha de tornar ao estreyto; e eíle, se- 
nhor, nam ha laa d ir, porque mais syso lhe deu elle deus; e quem foy o 
anno pasado com tamta gemte e naaos sem se fazer nada, menos hira 
gora com menos gemte, a metade, e menos nãos. E estas cousas asy 
ditas aproveytam pêra que ho vos alteza tenha qnaa toda sua vyda. Em- 
vernaram per estas fortalezas, omde nam ha huum soo rreall, nem d omde 
venha; e alguuas poucas de mercadarias que sobejam, pêra provimento 
das carregações das naaos que vem, gasta las ham, e asy se mamteram 
em tomarem alguuas naaos aos no^os amygos, como sempre se fez. E 
este he o provejto que vos alteza fez em mamdar muyta gemte a jmdea. 

Dom guarçia me dise que lhe screpvera o capitam mor que tirasem 
hutla jmquyricam sobre mym e diogo pereyra. Beijo as maaos a vos al- 
teza pelo asy mamdar; que, se se ella tirase justamemte, como deue de 
ser, nenhua merçe rreceberia de vos alteza tamanha, como esa, para o 
que compre a mynha homrra ; mas sey que se ha de tirar por omeens que 
me querem mall e ham de jurar as testemunhas tudo aquyllo que ho ca- 
{Htammor quyser, porque asy o deuem fazer, senam, doutra maneira, nam 
podem viuer; e nam cuydees que ha hy ver jurar testemunhas; que, como 
o capitam mor quer mall a omem, como elle quer a mym e asy aqueles 
que vos bem seruem e de laa vem vosas feituras, que sejam samtos, pro- 
var Ih am que sam diabos. E mjlhor fora mamdar vos alteza tirar jmquy- 
ricam daqueles que vos bem seruem e trabalham nas cousas de vosso 
seruico, pêra lhes fazerdes aquella merçe que vos merecesem. Nam digo 
isto porque a justiça nam seja muyto boa, que, se ella nam fosse, e justa, 
nam poderiam os omees viuer; o que ella quaa nam ha de ser. 

Bem sey que ha de screpver o capitam mor a vosalteza que toda 
esta costa e portos estam de paz, e abertos pêra o que compre a vosso 
seruiço; e eu nunca os vy tam dovydosos, nem em tamta comfusam, como 
agora ficam, por mujrtos agrauos que lhes cada dia fazem ; Oi se ístQ he 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 405 

)i6 (iic) verdade oq nam, per eses captties que qoa amdaram, e eriados 
de vos alteza que laa valki» o poderees mylbor saber, se lho qayserdes 
pregQqatar. 

Farm a vos alteza merge, quaindo ooaer por bem de me bir destas 
partes, mamdardes bir comygo os omees qae trouxe de purtugall, per 
voso aluara asynadoí e asy os que quaa tomey pêra o vosso capitara mor; 
e nysto, senbor, rreeeberey merfe. 

As quintaladas e despacbos que vam uestas oaaos, sam obrigatórios 
pelos cadernos de vos alteza, e muylos sam dos anos pasados, por se lhes 
nam carregar estoutro anno; e, daquy por diamte, me parece que fica vos 
aheza forro de quintaladas, senam aquelles que novamemte as agora 
trouxeram de vos alteza. Tudo (Deus seja louuado!) eslaa bem, nam nfkam- 
dámdo vos alteza mercadores a jmdea, como dito leobo, em o outro ca- 
pitólio, senam as vosas naaos soos; e, seste comselho vos alteza nam 
muda, eu vos fico que vos alteza seja o mais rrico primcepe que ouuer 
em toda las partes do mundo. 

Lembro a vos alteza elrrey de cochim, que em toda las armadas Ibe 
screpvaes, e o fauoreçaes como be rrezam, porque vos alteza nam tem na 
jmdea outro amygo e seruidor, senam elle ; e be agora muylo lyado, que, 
dos rreys que agora quaa baa, tiramdo o de coulam, nenbuum be maispo- 
derosso. Viue em gramde descomtemtamemto de se fazer esta paz, porque 
diz que vos alteza Ibe mamdou dizer que se nam faria nenbum comçerto, 
sem elle ser metido nysso, e que, agora, que vee o contrairo ; e, que seja 
o que quyser ser, que elle sempre ba de (ser) seruydor e leall amygo, e 
que nunca ba de leyxar de fazer a guerra a elrrey de calecu, emquanto 
víuer, porque estaa jmjuriado d elle, por Ibe matar seus tios e ordeiros, 
e Ibe destroyr sua terra, por rrespeito de vos alteza. E esta be sua detre- 
mynaçam, segurado o que elle diz ; e a rayra rae parece^ senbor, que nam 
ba de ser menos disto; e estaa rauyto agravado, por Ibe nam darem vo- 
sas cartas. Nosso senbor acrecerate voso rreall estado a seu seruiço. Beijo 
as maãos a vos alteza. De cocbim, a xxx^ de noverabro de b^xiij*. 



> Trinta. 

s Quinhentos e treze. 



1 



4M 



CARTAS DE APPONSO BB ALiOQDBRQUE 



O eapitamnor namdoo aqvj bofia fema denbaxador da cavkaia, 
^06 mn matt por levar a naao e ganhar diabeiro, qoe poi^ oiilro bon 
fim; e tem cada mes, de mamlimenlo, 1^ cruzados, em dínheífo, afora 
outros 1 qoe gasta em cousas meudas. He genoes, e parece ser maao 
onem; e iaa vam miylas pessoas de ipem voeaItMa podeia saber soa 
peasoa e valia. — Lourenço moreno.* 

(Sehtmcripêo) — A elrrey, nosso senhor — Per ootim vya. 

(In dono) — Outra tall carta de lo«renço moraMw 



^Qaooeiíta* 

* Torre do Tombo— G. Chron., P. I.% Maç. tS, D. fi3 —Ni mespiii eollee^ 
(P. 3.% Maç. B, D. 33), encoitre-se, em maa estado, a prineira m d*eil% caria, ee» 
im de tS de otveaihro, e pequenas yaiianiee de redaej^ EaM oe doie aMíiaes pa» 
riodoSt hs» porém, néss^outra vía^ o seguiate : 

cDos rroubos e peitas aue vam per esta costa, nam falo a ?os alteza, porque Iaa o 
salierees per eses capitães que Iaa yam, porque sem muy desonestas.» 



nu BO fOJiO IH 



n rr^ :i n 



SYNOPSI DOS DOCIIENTOS QUE SE GONTEEI N'ESTS VOLUME 



Pifté 

Docamentos diforsoft (continiiaçio) 3 

Cartas e outros docamentos dirigidos a Affonso de Albuquerque 210 

DoeiUDeDiQs oouleiído referencias oa alIusSes a Afienso de Albuquerque 286 



ERRATAS 



PAG. LIN. OHDB SB Là LIIÁ-SK 

li7 penúltima P. 1 .% Maç. 17, D. 37 P. 2.% Maç. S3, D. 116 

118 1 1814 1516 

244 16 Semdata 1613— Fevereiro 24 

266 penúltima 297 279 

260 16 face» nam face. Nam 

286 antepenúltima querendo, querendo 

323 10 semir semjr» ele. 

A pag. 337, deveria estar, em nota, a marcação que, na Torre do Tombo, tem o 
documento que nessa pag. termina:— Gav. 20, Maç. 4, D. 16. 



AP 2S3 




Q 



CARTAS 




DE 



AFFONSO DE ALBUQUERQUE 

SEGUIDAS DE DOCUNENTOS m AS ELUCIDAI 

PUBLICADAS^ 



PE 



ORDEM DA CUSSe DE SCIEKCIAS MORAES. POLITICAS E RELLAS-LETTRAS 



OA 






E SOB A DIREG0O 



DE 



Raymtuido António de Bulhão Pato 



SÓCIO DE MÉRITO DA MESMA ACADEMU 



TOMO III 




LISBOA 

TjpegrapUa da Academia Real das Sdeaeias de liabaa 

MDCGCGIII 



«■•O' 




:^ ^L 



V. » 



y 



1 



,« «* £.V . .^w 




-^ ^"m^' ** 



^