(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Cartas de Lisboa"

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct and hclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers rcach ncw audicnccs. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 







^1 




'■ { 



■v,. 



4 



r^,^^ 



CARLOS MALHEIRO DIAS 



fartas de Lisboa 



TERCEIRA SERIE 
(1905-1906) 




NSíZj 



LISBOA 

i,„«,ia OM.» miem í< A. M. TEOEIM S C.» 

!1. PRAÇA DOS RMTAURADORB. !0 



CARTAS DE LISBOA 



OBRAS 



DE 



Carlos Malheiro Dias 



Filho das Hervas, romance, 5.<> milhar . . 800 réis 

TelUs d* Albergaria, romance, 2fi milhar . . . 800 » 

Paixão de Maria do Céo, romance, 2fi milhar . 800 » 

O Qrande Cagliostro, romance, 2.o milhar . . 800 » 

Amor de Mulher, romance, no prélo .... 800 » 

Cartas de Lisboa, L» serie 600 » 

. 2.a serie '. 600 » 



n 



„ 3.a serie 600 » 



THEATRO 

Corações de Todos, peça em 5 actos, esgotada. 

O Qrande Cagliosiro, comedia em 4 actos, no prélo. 

NO PRÉLO 

Paixão de Maria do Céo, edição definitiva, totalmente re- 
fundida pelo auctor. 



CARTAS DE LISBOA 



(1906) 



I de setembro 



Quando, com os primeiros calores de julho, 
a Lisboa elegante abandona a cidade, logo a 
camará municipal e as companhias do gaz, dos 
americanos e das aguas principiam uma metho- 
dica destruição das ruas e das praças, que todos 
os annos se renova, como um dever inherente á 
edilidade. 

Durante o verão, Lisboa concerta-se para 
reapparecer remoçada de inverno. O verão é o 
seu quarto de toilette. N' estes mezes de calor e 
de poeira, quando os inimigos infinitamente pe- 
quenos do homem mais o ameaçam e o envol- 
vem em nuvens traiçoeiras, que as ventanias 
do norte constantemente conservam em suspen- 
são, a cidade despe-se, procede ás suas abluções 
mais secretas, limpa á luz do sol os seus intes- 
tinos fétidos, mostra sem pudor as suas chagas, 
desvenda sem escrúpulo as suas artérias subter- 



t ■> ■ 



IO CARTAS DE LISBOA 

raneas. Pôde dizer-se que, de julho a setembro, 
Lisboa está sob a acção de uma permanente 
mesinha, ou, melhor ainda, das quatro mesinhas, 
que as três poderosas companhias e a camará 
municipal lhe manipulam annual mente. Na au- 
sência dos ricos, entretidos nas praias e nas 
thermas, a esplendida capital trata também de 
todas as suas visceras avariadas. Uma multi- 
dão de operários occupa-se afadigadamente da 
sua saúde abalada, como enfermeiros solicitos. 
Durante noventa dias, operam-a, cortam-a, re- 
talham-a em todas as direcções, para que ella 
possa, em fins de outubro, receber condigna- 
mente os seus janotas, as suas lindas mulhe- 
res, as cantoras de S. Carlos, os novos tenores 
de S. Bento, as bailarinas do D. Amélia. Para 
que as parelhas de raça trotem sem fadiga 
pela Avenida, as prensas locomoveis alisam os 
novos macadames. Para que as novas avenidas 
appareçam illuminadas a luz eléctrica, desen- 
rolam-se nas valas os cabos negros e viscosos 
como serpentes, que hão-de transmittir aos glo- 
bos cor de leite os seus irradiamentos luminosos 
de astros, pelas noutes de chuva do inverno. 
Para que os ausentes a encontrem linda, os que 
não se separam d'ella vivem durante três mezes 
na intimidade nauseante das suas misérias mais 
occultas. A cada passo é necessário parar para 
saltar um monte de cascalho, contornar uma 
funda cova. Por toda a parte se levantam os 



j - - w . 



• 4 



L b >. 



CARTAS DE LISBOA I I 



passeios de mosaico, se abrem galenas e poços, 
se põem a descoberto canos de esgoto, canos 
de gaz, canos de agua, cabos eléctricos e fios 
telephonicos, sarjetas e syphões, bocas de lobo 
e bocas de incêndio, e tudo exhalando um 
cheiro nauseabundo, que corrompe o ar já vi- 
ciado, espalha miasmas deletérios na atmos- 
phera, empallidece a face das creanças, opprime 
os pulmões da gente sã. O soar dos alviões e 
picaretas por toda a parte cobre o rumor habi- 
tual constituído pelo rodar dos trens e pelo 
canto dolente dos pregões. 

Assim impudicamente desvendada, a cidade 
surge como um pavoroso monstro, deglutidor 
de energias e de vidas e invencivelmente corre- 
nos a espinha um arrepio ao presencear através 
que millenarias podridões, n'esse subsolo con- 
taminado pela chimica de todos os detritos de 
vinte séculos, nos vem ter a casa a agua que 
bebemos, a luz que nos illumina, o calor que 
nos aquece! O espirito evoca as frescas e mur- 
murantes fontes das serras, onde a agua brota, 
abundante e pura, para dessedentar os pastores, 
e invade-nos esse mesmo pasmo, mixto de ago- 
nia, de terror e de suffocação, que o José Fer- 
nandes d'essa sublime phantasia em que se 
aprouve repousar da satyra desdenhosa o espi- 
rito egrégio do auctor incomparável de A Ci- 
dade e as Serras, sente ao contemplar, das 
janelas do palácio de jtacinthOy nos Campos 



12 CARTAS DE LISBOA 

Elyseos, a babylonica confusão humana de 
Pariz e a vertiginosa fúria destruidora com que 
a civilisação das cidades está exterminando a 
nobre espécie. 

Por estes dias de luz e sol, quando a natu- 
reza se encontra em perenne festa de abundân- 
cia, com as searas e as vinhas a amadurecer, é 
quando a cidade se mostra em toda a plenitude 
da sua miséria. É-Ihe necessária a chuva, são- 
Ihe indispensáveis os céus de chumbo, os dias 
curtos, as noutes intermináveis, para que ella 
revista o aspecto attrahente e a pérfida belleza 
de velha cortezã, que ha mais de dous mil 
annos, por entre assaltos e cercos, terremotos 
e incêndios, carnificinas e revoltas, enleia os 
homens e os devora. 

Por isso também ha em todos os seus en- 
clausurados a febre e o desejo latente de trahi-fa 
e abandona-Fa, de lhe fugir e de esquece-Fa. Aos 
primeiros calores, os ricos deixam-a, os enfer- 
mos emigram e só lhe ficam fieis os que a mi- 
séria traz algemados ao seu cárcere, os que o 
dever traz manietados á sua tarefa. Para esses, 
ha-de interpôr-se sempre, entre o olhar e o 
ceu, uma rede de arames, o solo ha-de ser 
sempre de pedra, o ar ha-de ser sempre im- 
puro, a agua ha-de brotar sempre de torneiras 
e ser contada ao metro, a flor ha-de ser sem- 
pre uma cousa que se compra, a arvore uma 
cousa que a camará municipal distribue e plan- 



CARTAS DE LISBOA I3 

*"^ I I M -I -_ - , - - I 

ta, as aves animaes que vivem e morrem em 
gaiolas. Os que n'ella nascem ficam como que 
eternamente divorciados da natureza, em con- 
traste com os que n'ella apenas transitoriamente 
habitam e que por ella passam sem se prende- 
rem no seu visco. Assim, a immensa colónia 
varina, a que Lisboa ainda não poude cortar as 
raízes que a prendem aos areaes reluzentes da 
Murtosa, ás planícies verdes e espelhantes de 
aguas da silenciosa ria, onde os bois pastam ao 
lado dos barcos que deslisam de velas enfunadas. 
Com o seu pregão musical, com o peneirar ágil 
dos quadris, com a elegância esbelta do torso de 
phenicia, a varina trouxe comsigo, para Lisboa, 
a natureza e o paiz formosíssimo do norte. 

Esta semana ainda, acompanhando a procis- 
são marítima dos cirios para a Senhora da Ata- 
laia, ou bailando na romaria do Senhor da Serra, 
ella foi para o lisboeta um espectáculo de ale- 
gria e de força, de saúde e de belleza. Ha muito 
que essas duas festas teriam decahido ou des- 
apparecido, se essa romeira intrépida do norte 
lhes não tivesse trazido a animação e a fé do 
seu paiz natal. É ella, na travessia longa do 
Tejo, que enche os barcos onde se cantam as 
novenas. É ella, no arraial, quem bate as pal- 
mas, descalça o chinello e dansa o vira, com o 
peito coberto de corações de filigrana, um par 
de arrecadas nas orelhas, cordões de ouro ao 
pescoço, enfeitada como um idolo, emquanto a 



14 CARTAS DE LISBOA 

, ■■■!■■■■ ■■■■■■■ — ^^— ^ ■ ^^^^^ - J ■ MMM^^^M M ■ ^^— ^^^^— ^M^»^— ^ M^ M^i^— ^1^^—i ^—^l^i^il^»^^^» 

saloiada, ao contagio da sua alegria, ensaia des- 
graciosamente passos ridículos de polka. Na ro- 
maria do Senhor da Serra, só ella vai á ermida, 
ouvir a missa cantada e o sermão, cumprir os 
votos, e emquanto o operário merenda nos oli- 
vaes ou gasta a féria nas roletas do arraial, a 
varina arma uma dansa de roda, entoa uma can- 
tiga e assim impede e salva a romaria de tor- 
nar-se uma outra feira de Alcântara ou Belém. 

Não a corrompe nem a converte e deslumbra 
a cidade, que fica sendo para os seus sentidos 
de animal da natureza uma terra de exilio passa- 
geiro, enclausurante e feia, viciosa e maligna. 

E é tudo quanto resta de genuinamente por- 
tuguez. em Lisboa n'este principio de setembro : 
a varina esbelta e ágil, que logo pela manhã 
acorda a freguezia somnolenta com o seu pre- 
gão sonoro de contralto. 

O ultimo theatro fechou. Para distrahir o 
lisboeta, só o acampamento sórdido dos barra- 
queiros de Belém, com as suas cem tavernas ao 
ar livre, permanece armado em frente do mos- 
teiro dos Jerónimos. 

Todas as noutes a gritaria dos politiqueiros 
e o vozear dos ébrios acordam os eccos da ma- 
ravilhosa igreja, edificada como padrão da maior 
aventura que até hoje um povo praticou sobre 
a terra. E essa feira, entre obscena e pelintra, 
é a imagem fiel, em miniatura, d'esta Lisboa 
insípida do estio. 



CARTAS DE LISBOA I $ 



S de setembro 

Quiz o acaso que me encontrasse hoje no 
átrio do Museu Nacional de Bellas- Artes com 
alguns excursionistas allemães chegados pela 
manhã, e que preferem occupar as poucas horas 
da permanência em Lisboa — o vapor partia 
para Cadiz ao anoutecer — n*uma visita aos 
quatro museus: dos coches, de artilharia, de 
archeologia e bellas-artes, separando-se dos com- 
panheiros de excursão, cujo programma, de- 
ploravelmente elaborado, consiste em passeios 
de carruagem através a cidade e uma visita a 
Cintra: a Cintra do Child Harold. 

Eram seis, reunidos em volta de um gi- 
gante rosado e louro, de calção e blusa de tou- 
risUy um cravo vermelho na lapella, o monóculo 
entalado na orbita, que, n'um golpe de vista 
rapidíssimo, fazia o inventario dos quadros em 
cada sala e sem hesitar caminhava para os me- 
lhores, não se dignando contemplar senão pas- 
sageiramente os mais mediocres. Reconhecia-se 
logo, ao observar o prestigio exercido pelo guia 
sobre os companheiros, e a segurança com que 
ia fazendo a selecção quasi instantânea das nu- 
merosas telas, que era um espirito esclarecido 
e culto em cousas de arte, porventura um critico 
profissional, um colleccionador erudito ou um 
funccionario superior de academia ou de museu. 



l6 CARTAS DE LISBOA 

Por accionados, principiara por pedir o ca- 
talogo ao porteiro, que por accionados lhe fez 
comprehender a custo que ainda não tinha havido 
tempo, desde 1882 a 1904 — vinte e dous annos ! 
— de elaborar tal documento. O que a estranha 
revelação causou de pasmo ao allemão, pude 
ajuiza-Fo na gravidade desdenhosa com que elle 
repetiu aos companheiros a noticia d'esse caso 
único na Europa: um museu do Estado, um 
museu nacional, sem catalogo 1 Senti-me ve- 
xado, como imaginário cúmplice do desleixo de 
uma academia, que apenas se torna notável 
pela sua omnipotência e pela sua inércia. Mas 
já o allemão, com serenidade, olhava em redor 
o pequeno átrio onde cabem todas as obras de 
esculptura do museu ... O seu faiscante mo- 
nóculo fita de longe, uma por uma, as estatuas, 
e eu quasi tenho um suspiro de consolação e 
de allivio ao vêl-o avançar, gravemente, para 
A Viuva de Teixeira Lopes, seguido pelo 
grupo de allemães, a quem elle faz notar — pa- 
rece-me — o modelado magistral da figura e 
as Unhas harmoniosas e amplas da compo- 
sição. 

Os allemães admiram, obedientes e silencio- 
sos, andam em volta da estatua, escutando a 
prelecção do magister^ que já se volta para o 
grande painel de azulejo com a vista panorâ- 
mica da Lisboa antiga, examinando-o com uma 
attenção vivissima de agrado. Para o resto, um 



CARTAS DE LISBOA 17 



volver de olhos desdenhoso, que me irrita, e 
logo passa á sala Q, onde ha duas regulares 
tapeçarias, nas quaes nem sequer se digna fitar 
o seu monóculo impertinente. E quando eu 
cuido que elle vai sahir, como entrou, impassí- 
vel e hirto, fico-me immovel de surpreza ao 
vê-Ko atravessar a sala, indicando aos amigos 
um soberbo tapete de Arrayolos, que pende da 
parede, e logo depois, de entre tudo o que 
enche a sala, descriminar dous bustos de Soa- 
res dos Reis, a propósito dos quaes íala acalo- 
radamente e gesticula. 

É agora a vez da sala ^ e os allemães bo- 
quiabertos rodeiam a reproducção em gesso do 
maravilhoso púlpito de Santa Cruz de Coimbra, 
que o gigante louro parece de ha muito conhe- 
cer, talvez da obra do seu compatriota Albrecht 
Haupt. Ao seu olhar vigilante e perspicaz não 
escapam o Sileno do theatro romano de Lisboa, 
a estatua de mulher achada na Tróia e os dous 
relevos de mármore com cercadura de majolica. 
Mas depois do púlpito de Santa Cruz nada 
parece interessa-ro devidamente alli, porque 
poucos minutos depois vou encontra-lo já na 
sala 5", embevecido diante das figurinhas de 
barro de Machado de Castro, emquanto dous 
dos companheiros passam methodicamente em 
revista a pequena collecçâo de armas e objectos 
archeologicos. 

Como eu saiba que nada os deterá na esca- 



l8 CARTAS DE LISBOA 



daria, além das duas famosas metopes de Her- 
cules Melampylos, resolvo ir esperar para a sala 
A, a dos pintores portuguezes contemporâneos, 
na natural impaciência de assistir ao julga- 
mento dos nossos artistas modernos pelo terrível 
excursionista allemão. 

Desisto de contar o que vi de flagelladora 
ironia e desdenhosa piedade, por detrás do 
vidro d'aquelle monóculo impertinente, no olhar 
agudo e azul do cicerone. Não é que em minha 
consciência eu não acceite e compartilhe do seu 
juizo severo em frente áquillo. . . Mas porque é 
dever declarar -se que a culpa da injusta sen- 
tença, que . todo o estrangeiro, sem excepção, 
lavra n*aquella sala sobre a arte portugueza 
contemporânea, pertence mais ao Estado do 
que aos auctores dos quadros, na sua maioria 
deploráveis. Com excepção de Columbano, que 
alli tem o Santo António e a Da>na da Luva, 
dos restantes pintores não se pôde fazer juizo 
seguro e consciencioso pela obra exposta. Ma- 
lhoa, que é hoje, em qualquer parte, um notá- 
vel pintor, está representado pelo Interrogatório 
de Pombaly obra vasta, de arrojada concepção, 
mas inçada de defeitos, a maior parte inevitá- 
veis n'um quasi estudante, que elle ainda era 
então. O mesmo se pôde dizer do Eros e 
Psyché de Salgado: composição rebuscada e 
pretenciosa, com um detestável colorido oleo- 
graphico, pouco abonatoria do sólido talento do 



CARTAS DE LISBOA I9 



-decorador imaginoso da sala do Tribunal do 
Commercio, do Porto. 

O allemão, que por certo lera a obra do 
pnissianno conde de Raczinsky, deve ter-se rego- 
sijado ao verificar a veracidade da sua aprecia- 
ção á pintura portuguesa do principio do sé- 
culo XIX e ao constatar que os nossos progres- 
sos são nenhuns no principio do século XX. 

A sala B é atravessada quasi sem paragem. 
Nem os retratos de Pellegrini. nem as flores de 
Lasserre, nem os granadeiros de Dumaresq, nem 
o Othelo de Muôoz demoram a attenção do mo- 
nóculo faiscante. E agora, outra vez, como se 
a opinião d'aquelle desconhecido fosse decidir o 
destino das artes portuguesas, senti um invenci- 
vel sobresalto, ao vêl-o parar no limiar da sala C, 
onde se acha exposta a maior parte da obra de 
Sequeira: Apologia da Instituição da Casa Pia^ 
o esboço da Promiilgaçào da Carta Constitu- 
cional^ o 5*. Bruno em oração, as télas religiosas 
pintadas no mosteiro de Laveiras. Iria aquelle 
insolente allemão fulminar também com o seu 
desprezo irónico a obra, se bem que inferior ao 
seu génio, do maior pintor que produziu Portu- 
gal depois do Grão- Vasco? Não lhe mereceria 
o Santo Agostinho de Francisco Vieira Lusitano 
um breve olhar, sequer, de admiração? E foi 
para mim uma alegria indizivel quando, a meio 
<ia sala, o vi, depois de hesitar um momento, 
voltar-se para o grande painel de Sequeira, 



20 CARTAS DE LISBOA ' 

voltar-se a seguir para o S, Bruno ^ abranger 
rapidamente, n'um olhar enlevado, toda a obra 
do grande artista, attribuindo-a sem errar ao 
mesmo pincel emérito. Houve um momento em 
que percebi distinctamente que elle notava aos 
companheiros attentos e contemplativos a ten- 
dência tão característica de Sequeira em alongar 
as figuras, por uma aspiração, nem sempre bem 
succedida, de crear e produzir a elegância : essa 
elegância preconceituosa do primeiro Império, 
obtida artificiosamente, na mulher, pelo uso da 
cinta curta e da saia de meia cauda. Sentado 
n'um dos bancos da sala, elle perorou aos alle- 
mães extensamente; e ás vezes levantava-se, 
com as mãos enfiadas no cinto da blusa, no 
exame meditado de cada pintura, fazendo a ava- 
liação conscienciosa das tonalidades, do dese- 
nho, da harmoniosa sciencia das perspectivas e 
da disposição equilibrada das imagens, de tal 
arte que o porteiro, sahindo da somnolencia ha- 
bitual, ao vêl-o assim interessado e enlevado 
estendeu o braço para a Apologia da Casa Pia 
e revelou o nome do pintor. 

O allemão fez menção de agradecer, repetiu 
alto: Sequeira, com uma pronuncia barbara e 
dissonante, e arrastou atrás d'elle os compa- 
nheiros para a sala immediata, onde apenas de 
notável ha o desembarque de tropas, de Callot, 
e o estranho painel flamengo, representando 
Christo, Martha e Maria. Na sala Ey o seu olhar 



CARTAS DE LISBOA 21 



arguto e educado destacou logo os retratos 
hollandezes de Heem, o Tobias e o Anjo de 
Elsheimer, o Martyrio de S. Pedro de Cara- 
vaggio, a Dansa aldeã de Van Ostade, os qua- 
dros de Ary de Vois, de Van Roos, de Teniers, 
de Peter Neefs, de Van Brawer, de Boi, de 
Martin de Vos, demorando-se a examinar, entre 
surprehendido e reflexivo, o Perseu e Andrmne- 
da, que o catalogo lhe diria logo ser um estudo 
presumivel de Rubens, se houvesse um cata- 
loga... O porteiro acode felizmente a tempo 
<le apontar, na sala G, o S. Jeronymo de Al- 
berto Durer, diante do qual o allemão estacara, 

• 

mterdicto e emocionado, no inilludivel presenti- 
niento de que se encontrava em frente a uma 
obra notável do grande mestre allemão. E por 
tal forma o absorve o 5*. Jeronymo^ que mal 
olha para a formosíssima Santa Cecília de Ca- 
^acci, para o retrato magistral de Vannuchi, 
para A Virgem e o Menino y estes do Perugino, e 
<lando, segundo me pareceu, bem pouco credito 
a authenticidade do Christo com o triangulo, 
<]ue o porteiro, prelibando uma gorgeta, lhe diz 
ser de Vinci, como de facto é. Mas onde o seu 
pasmo cresce, e parallelamente se accentúa pela 
gesticulação e incessante encolher de hombros 
a sua ríspida censura á falta imperdoável do 
catalogo, é nas salas // e /, de paredes cober- 
tas de pinturas primitivas e de gothicos flamen- 
gos, onde é impossivel destrinçar, entre os pro- 



22 CARTAS DE LISBOA 

■ ■■ ■ ■■ ■- I I ■! I ■■ ■■ ■- ■.- — -■ ■ ■■ ■ ■■! ■ ■ I » , , ,, , , . »f, A 

blematicos Memlings e Van Eycks, os quadros 
originalmente flamengos, os quadros portugue- 
zes dos séculos XV e XVI, filiados n'essa eschola, 
aquelles que os pintores da Flandres vieram 
aqui pintar, aquelles que os nossos pintores 
foram pintar nos ateliers dos mestres estrangei- 
ros. E ainda ao passar em revista as salinhas 
de artes ornamentaes, que constituem mais ve- 
ridicamente um museu de arte religiosa, me 
parece comprehender que elle se exhaure em 
censuras justissimas ao desleixo inadmissivel de 
que resulta a ausência de uma catalogação para 
uma colleção tão resumida de pinturas. . . 



i'] de setembro 

O flirty que a esposa espirituosissima de um 
dos nossos cônsules em França definia, uma 
d'estas noutes, no terraço do Casino Interna- 
cional do Monte Estoril, como a arte de tudo 
prometter e de nada cumprir, é mais do que 
nunca, a estas horas, o passatempo favorito da 
Lisboa que trabalha. . . em divertir-se. Com 
esse nome americano, dissimulado com esse 
titulo exótico, o anachronico namoro das bur- 
guezinhas do velho Passeio Publico resurge e 
triumpha nas reuniões matutinas da praia, no 
passeio elegante da Boca do Inferno, nas va- 



CARTAS DE LISBOA 23 



randãs e salões dos casinos, nos jardins do 
Sporting, rehabilitado da sua macula romântica 
e aristocratisado em passatempo mundano. O 
jiirty deixou ao namoro todos os seus perigos e 
arrancou-lhe todos os encantos. De um duello 
de amavios fez um duello de epigrammas; de 
uai desafio de galanterias fez um torneio de 
subtilezas. O Jlirty se me é consentido corrigir a 
definição espirituosa da nossa consuleza, é a arte 
de tudo ousar sem affronta das conveniências. 

O povo prático, inimigo irreconciliável da 
phantasia e do devaneio, que inventou essa doce 
palavra, applicou-a, por horror ao circumloquio, 
á corte de gentilezas a que os deveres munda- 
nos obrigam ainda o descendente utilitário dos 
fogosos apaixonados da Renascença e dos amo- 
rosos gentis do Romantismo. 

Nos Estados-Unidos, o flírt é a conversa 
fútil, polida, mixto de familiaridade e ceremonia, 
com que o homem entretém o seu par n'uma 
valsa e a sua visinha n'um jantar. Praticado 
pelo americano ou pelo inglez, o Jlírt reduz-se 
a uma sciencia de salão, a uma arte de amabi- 
lidade e cortezia, a um jogo floral de graciosi- 
dades innocentes. O flirt é, emfim, para esses 
povos, que applicaram a moral ao amor, o 
divertimento da sympathia. 

De estranhar seria que a raça latina, ao 
herdar do cosmopolismo mundano essa prenda 
innocente, a não tivesse adaptado ao seu cíl- 



24 CARTAS DE LISBOA 

racter e ás suas conveniências. O flirt veio a 
propósito para dissimular esses prólogos amo- 
raveis, que descreveu tão terrivelmente Laclos, 
o amigo dos Orléans, nas Liaisons Dangereuses. 
O flirt, entre nós, veio modernisar o namoro e 
dar-lhe um passaporte mundano. Assim chris- 
mado, o namoro invadiu os salões, viu-se inves- 
tido das honras inesperadas de uma verdadeira 
instituição aristocrática. Limpo, na antecâmara, 
de todas as sentimentalidades dos romances de 
Camillo, o namoro entrou de novo nas salas 
de baile, fez a sua appariçâo nos raouts^ nos 
iive-o^clock, nas tea-parties, nos courts de tennis, 
nos terraços dos casinos, nos toldos das praias, 
nos camarotes de S. Carlos. 

O namoro, que fora sentimental, poético e 
piegas em 1840, passou a ser irónico, vicioso e 
sceptico em 1900. E como nada existe de novo 
no mundo, eil-o que reapparece « cavalleiro de 
Faublas». A coberto da impunidade de um ti- 
tulo exótico, o namoro prosperou, foi ganhando 
em audácia o que perdia em innocencia. Sob 
essa pelle de cordeiro, o lobo entrou impavida- 
mente em toda a parte. 

Todos os obstáculos se desmoronaram á sua 
passagem. O flirt enthronisou-se na vida mun- 
dana, como o cotillon ou o pas de quatre. Se o 
morgado de Fafe visitasse agora Lisboa, não 
deixaria de notar, com severidade e surpreza, 
que as damas fizeram na sua ausência notabi- 



CARTAS DE LISBOA 25 

lissimos progressos na arte de namorar; e diffi- 
cil seria convencel-o de que não passava de 
Jlirt o que tanto lhe similhava ser namoro. O 
inconveniente morgado teimaria em esquecer o 
nome americano para só attentar na acção por- 
tuguezissima e iria dizer para Fafe que o na- 
moro era agora em Lisboa, com a dansa, uma 
prenda em moda na sociedade. Pobre morgado 
de Fafe, do tempo dos gargarejos nocturnos, 
dos mal-me-queres desfolhados, das declarações 
soluçantes ás Elviras, das entrevistas ao luar e 
dos segredos de amor! O seu espanto teria que 
ser dos maiores, se escutasse os terriveis the- 
mas que os Lovelace de agora vão buscar para 
as variações d*essa velha melodia que Musset 
ensinou a nossos pães! E não lhe seria preciso 
occultar-se por detraz de um reposteiro ou es- 
piar ás portas ou collar o ouvido ás fechaduras. 
A sua presença não interromperia os namora- 
dos. Installado n*uma cadeira de verga, no ter- 
raço do Casino Internacional ou no Casino da 
Praia, basta va-lhe accender um charuto e fechar 
os olhos. Se tivesse encontrado nos ócios de 
Fafe vagar para ler a Physiologia do Casamento 
de Balzac e um ou outro Uvro de Bourget, es- 
taria preparado sufficientemente para decifrar os 
equivocos, as mahcias e as maldades d'esses jo- 
gos de palavras pueris e venenosas, com que a 
jeunesse dorée corteja a mulher, sob o titulo 
exótico áe Jlirt. 



26 CARTAS DE LISBOA 



Estranho capricho da moda, que precisa de 
revestir o galanteio de epigrammas para ado- 
ptal-o, sem rebuço, na intimidade dos elegan- 
tes 1 Declarado o sentimento um vicio e a deli- 
cadeza um anachronismo, o que resta nas actuaes 
sociedades mundanas é apenas o aspecto exte- 
rior, a etiqueta e as fórmulas da velha cortezia. 
O envolucro ficou, mas o perfume evolou-se. 

Um pregador sagrado, que tivesse de ser a 
director espiritual — a moda recommenda-os — 
d'esta sociedade pittoresca, que tão divertida- 
mente espera em Cascaes pelo snr. Loubet, en- 
contraria na Boca do Inferno, terminits dos 
seus passeios, o symbolo da sua accentuada 
physionomia moral. A conversa é o melhor 
instrumento de avaliação para a cultura do in- 
dividuo e da classe a que pertence. N'ella se 
reflectem, inalteráveis, as suas qualidades pre- 
ponderantes e os seus defeitos originários. A 
conversa é no homem o que a espuma é na 
agua: impureza se é corrupta, alvinitencia se é 
limpida. Para quem queira avaliar pelo canto a 
avis rara da nossa elegância, aconselhamos uma 
visita ao terraço smart do Casino do Estoril. 
Ouvirá a algaravia hespanhola dos croupiers ao 
atravessar a sala de jogo e a algaravia sem nexo 
dos Lovelace ao atravessar a varanda, por entre 
uma assistência vestida a primor nas melhores 
costureiras e alfaiates de Lisboa e Pariz. Na 
claridade dos arcos voltaicos, muitas das mu- 



CARTAS DE LISBOA 2/ 



Iheres lhe hão-de parecer, sem engano, genti- 
lissimas e muitos homens, sem favor, correctís- 
simos. O culto das apparencias não se perdeu 
de todo. Se os janotas já não usam as archi-cé- 
lebres sobrecasacas do marquez de Niza, arcki- 
tectadas no Pool, e já não gastam ao toucador 
as duas horas de Garrett para as sábias combi- 
nações de uma gravata e de um coUete, é por- 
que a moda os libertou d'esses apuros lithur- 
gicos da toilette. 

Nenhum d'elles se exime ás prescripções 
consulares dos três gentlemen insignes que, 
como é notório, decretam hoje em Londres as 
modas masculinas. Se um Le Bargy ostenta no 
D. Amélia um collete vermelho, quarenta e 
oito horas depois ha um collete vermelho á va- 
randa do Turff Club, outro collete vermelho na 
ante-sala das Necessidades, dúzias de colletes 
vermelhos na mesa de talho do snr. Amieiro. 
O bigode á imperador Guilherme, a risca até 
á nuca, o lenço no punho, o chapéu Panamá, a 
polaina branca de Félix Faure, tudo o janota 
lisboeta tem usado, meticulosamente, resignada- 
mente. E que dizer da mulher? Sem discutir, 
ella acceita todos os supplicios e todas as dis- 
formidades da moda, desde o espartilho direito 
até á saia enviezada. Um janota de S. Carlos 
seria um janota em Covent Garden. Uma lis- 
boeta seria uma pariziense no boitlevard dos 
Italianos. Mas, infelizmente, essas lindas figuras 



28 CARTAS DE LISBOA 



decorativas da sociedade portugueza não limi- 
tam á toilette a sua subordinação ás modas de 
França e de Inglaterra. Falam em francez, na- 
moram em americano, jogam em hespanhol. 
E, entretanto, quando o homem deixa um pouco 
de descanço á mulher com o seu jlirt insipido, 
« a phantasia a liberta do artificialismo d'essa 
vida, cujas occupações teem todas nomes es- 
trangeiros — raout, garden-party, soirée, tea- 
party^ jive-o'clok^ pic-nic, bal de têtes^ tennis, 
cotillon, . . — ainda se improvisam festas encan- 
tadoras, como o chá de quinta-teira passada, 
servido no recinto do Tiro aos Pombos, em 
Cascaes, pelas mais nobres e lindas mãos de 
lisboetas. 

Ousamos lembrar ás organisadoras do chá 
do Tiro aos Pombos a opportunidade de abrir 
um concurso de espirito entre os campeões 
úo Jiirt, . . 



22 àe setembro 

Acabam de chegar os pardaes á Avenida. 
Surprehende-me que esta noticia considerável 
não tenha sido logo publicada no Carnei Mon- 
dain das Novidades^ tão absorventemente occu- 
pado com os teas do Mont* Estoril e de Cascaes, 
como se não fora incomparavelmente mais im- 



*** 



CARTAS DE LISBOA 29 



portante para a chronica elegante de Lisboa o 
regresso dos pardaes do que as chávenas de 
chá das mil e uma condessinhas que veraneiam 
á beira-mar. A chegada dos pardaes á Avenida 
equivale á subida do maestro para a cadeira de 
uma orchestra. A opera-comica mundana de 
Lisboa tem, ha muitos annos, esta mesma 
symphonia ensurdecedora, que hontem se prin- 
cipiou a executar desde o monumento da Res- 
tauração até á rua das Pretas. Os pardaes já 
entoam a symphonia do inverno. O inverno 
não tardará a principiar : este inverno de Lisboa, 
que não é, como o inverno da provincia, uma 
estação de chuvas e de inclemências, de frios e 
de constipações, de rheumatismo e de semsa- 
boria, mas um inverno de operas e discursos, 
de bailes e jantares, de actrizes francezas e de 
vestidos de velludo. A chegada do pardal pre- 
cede sempre de poucos dias a abertura do Co- 
lyseu. Atrás do pardal vão chegando as lisboe- 
tas, os politicos, os frequentadores de S. Carlos, 
toda a troupe brilhante d' esse grande theatro a 
que se convencionou chamar a grande socie- 
dade. 

Chegaram, pois, os pardaes. Em granc}es 
bandos compactos, n'uma chiadeira de festa, as 
primeiras caravanas aladas, conduzidas pelos 
velhos de cada tribu, principiaram a descer 
ante-hontem, ao cahir da tarde, sobre os arvo- 
redos da Avenida, d'onde começam a voar, 



30 CARTAS DE LISBOA 



como pequenos annuncios da season, as folha- 
gens vermelhas e amarellas das acácias. 

Até á primavera, alli os temos installados 
nos ramos, em breve despidos de folhagem, das 
olaias e das tilias. É necessário convir que os 
pardaes demonstram com a preferencia d*este 
poleiro elegante as mais surprehendentes predi- 
lecções mundanas! Tinham os senhores pardaes 
o arvoredo da Eschola Polytechnica á sua dis- 
posição, com o espectáculo em extremo recrea- 
tivo dos flirts das instítutrices ; o agazalho ttan^ 
quillo da Tapada da Ajuda : luxuosíssima estação 
de inverno para pardaes; os arvoredos hospita- 
leiros do jardim da Estrella, com musica aos do- 
mingos; a aérea hospedaria de S. Pedro de Al- 
cântara, com lindas vistas. Installam-se, porém, 
na Avenida, entre a praça dos Restauradores e 
a praça da Alegria. E ainda na preferencia dada 
a esta zona resumida do grande passeio elegante 
da capital os pardaes revelam noções singular- 
mente exactas sobre os hábitos do high-life 
lisboeta. É, com effeito, entre o palácio do 
snr. marquez da Foz e a pastelaria Bijou que 
se acotovela ás tardes, durante os mezes de 
inverno, tudo o que Lisboa exhibe de mulheres 
bonitas vestidas em Pariz e de homens irresis- 
tíveis vestidos no Amieiro. 

O pardal tomou os melhores aposentos para 
passar em Lisboa um inverno divertido. Empo- 
leirado na ramada, assiste commodamente ao 



CARTAS DE LISBOA 3I 

desfilar dos coupés, das victorias e dos laudaiis 
de luxo, puxados por parelhas de raça, condu- 
zidas por cocheiros inglezes ; ouve todas as con- 
versas, surprehende todos os segredos, está na 
confidencia de todos os amores, de todas as 
vaidades e de todos os escândalos. 

Empoleirado na sua acácia, o pardal está de 
posse de toda a chronica mundana da cidade. 
O que não seria, uma Carta de Lisboa escripta 
por um d'esses pardaes maliciosos e omnis- 
cientes ! 

Ora, positivamente, o pardal alfacinha não 
escolhia a Avenida da Liberdade para se instal- 
lar de outubro a abril se o não seduzissem os 
requintes do luxo e do exhibicionismo e se elle 
não fosse por educação e por Índole a mais so- 
ciável e a mais mundana de todas as aves da 
creação. Loquaz, desenvolto, buliçoso, irreve- 
rente, o pardal tem todos os pequenos vicios e 
todas as attrahentes graciosidades que são dis- 
tinctivo e apanágio das populações das grandes 
cidades. E na ramaria da Avenida que os par- 
dalitos novos, sabidos da casca na primavera, 
completam a sua educação. Naturalmente, o 
•que aprendem n'essa eschola buissonière é um 
pouco frívolo e todos elles, ao chegar o mez de 
abril, quando partem para as suas villegiaturas 
nos arrabaldes, levam a nostalgia pretenciosa e 
o pequenino ar impertinente de quem foi creado 
a vêr passar os batedores da casa real, as pa- 



32 CARTAS DE LISBOA 



trulhas da guarda, as folias do Entrudo e de 
quem sabe distinguir pela cor da farda os trin- 
tanarios da casa de Palmella e da casa 0'Neill. 
D*ahi a falta de respeito que o pardal lisboeta 
tem pelas hortas e pelas eiras do saloio e a 
irreverência com que pousa no chapéu alto dos 
espantalhos erguidos nos campos de painço. 

As conversas dos janotas e os segredos das 
mulheres não lhe devem ter communicado gran- 
des escrúpulos de consciência. O amor do lar, 
a fidelidade conjugal, as virtudes familiares, a 
continência e a modéstia não o distinguem no- 
bremente entre a espécie. Aventureiro e bohe- 
mio, em qualquer buraco de parede ou desvãa 
de telhado arma o seu ninho transitório, um 
verdadeiro ninho de exilado, sem luxo, sem 
ordem e sem conforto. A sua volubilidade 
amorosa é condemnavel. A sua conducta é 
reprehensivel. Não tem o lyrismo do rouxinol, 
a ternura do pombo, a constância da andori- 
nha, a seriedade laboriosa do pintasilgo. Es- 
tróina como um garoto, polygamo como um 
sultão de Marrocos, o pardal não se recom- 
menda por nenhuma elevada qualidade mo- 
ral. Mas com que endiabrada verve, com que 
animação infatigável elle se diverte 1 Desde pela 
manhã até á noute esvoaça e brinca pela Ave- 
nida, janta com as migalhas das confeitarias, 
passeia pela cabeça das figuras de bronze do 
monumento dos Restauradores, balouça-se nos 



.1 X- ■ 



CARTAS DE LISBOA 33 

fios de telegrapho e de telephone, passeia no 
tejadilho dos eléctricos e á tarde, em enormes 
assembleias ruidosas, entretem-se a fazer pirra- 
ças ás cartolas dos janotas. Roma teve os gan- 
sos do Capitólio; Veneza tem as pombas de 
S. Marcos; Lisboa tem os pardaes da Avenida. 
Pois que outro animal poderia ser mais do que 
este o symbolo d'esta linda capital de um povo 
gárrulo e fatalista, aventureiro e voluptuoso, 
declamador e sceptico? 



26 de setembro 

Depois de uma semana de chuva, o céu azul 
reappareceu a tempo de associar-se ás festas. O 
dia amanheceu formosissimo, com a clássica au- 
rora cor de rosa, que os vates da Arcádia tão 
gentilmente cantavam em versos povoados de 
deusas mythologicas. 

Desde as primeiras horas da madrugada, 
Lisboa encheu-se de animação e borborinho, 
com as bandeiras francezas ondulando ao vento 
n'esse mesmo Rocio onde, ha cento e dous 
annos, Junot passava em revista o seu brilhante 
esquadrão de hussares vistosos. No Chiado e 
na rua Nova do Carmo terminam-se á pressa as 
decorações que a revestem e com que o sceno- 
grapho Augusto Pina conseguiu transformar ercv 



34 CARTAS DE LISBOA 

perspectivas de palco armado para um cortejo 
rústico as duas ladeiras prmcipaes da Lisboa 
elegante. As nove horas começam a formar as 
tropas. Já o festivo resoar metallico das bandas 
militares domina o borborinho. A 4.* brigada de 
cavallaria posta-se na rua occidental da Avenida, 
desde a praça dos Restauradores, com os es- 
quadrões da guarda municipal á frente, n*uma 
nuvem movediça de pennachos brancos. O corpo 
de alumnos da Eschola do Exercito forma, com 
gentileza, aos lados norte e leste do largo de 
Camões, com a direita na esquina da rua do 
Principe, seguindo-se-lhe a vinte metros do flanco 
esquerdo o corpo de marinheiros, que se desen- 
volve pelo lado occidental do Rocio, largo da 
rua do Principe e rua Nova do Carmo. E depois 
a 2.^ brigada de infantaria, constituida pelos re- 
gimentos de infantaria 5 e 16 e batalhão de ca- 
çadores 5, com as respectivas bandas, escalona- 
dos até á praça de Camões, seguindo-se-lhes a 
5.* brigada, composta dos regimentos de infan- 
taria I e 2 e batalhão de caçadores 2, que for- 
mam no largo das duas Igrejas, da Encarnação 
e do Loreto, até á Avenida 24 de Julho, onde 
se acham postados o regimento de artilharia i e 
o grupo de baterias a cavallo, com as novas 
peças de tiro rápido. 

Por toda a parte resoam os pregões. Ven- 

dem-se retratos de Loubet, bilhetes postaes al- 

Jusivos á viagem do presidente, jornaes comme- 



CARTAS DE LISBOA 35 

niorativos das festas, medalhas, laços de fitas 
com as cores de França. E são vestidos fran- 
cezes, chapéus francezes, livros francezes, todas 
as modas de Pariz, o producto da sua phanta- 
sia e do seu espirito, que as vitrines das lojas 
expõem, na mais eloquente homenagem ao gé- 
nio creador de França, ás artes, ás sciencias e 
ás industrias francezas, que vestem as nossas 
mulheres, que influenciam a nossa litteratura, 
que levam aos nossos lyceus, ás nossas univer- 
sidades e ás nossas academias as revelações do 
saber humano. Os cartazes annunciando . as ré- 
citas de Susanne Després, de Feraudy e Le- 
conte, as taboletas das modistas francezas, dos 
hotéis francezes, são o complemento d'essas de- 
corações com que se embelleza Lisboa para re- 
ceber o representante d'essa grande França, em 
cuja fascinada suggestão, esquecendo as inimi- 
sades e os ultrajes da historia, todos nos edu- 
camos e persistimos em viver. E assim que o 
snr. Loubet verificará quanto a alliada secular 
da Inglaterra, o paiz do tratado de Metwem e 
da regência de Beresford, é profundamente in- 
fluenciado pela França e quanto somos, por uma 
sympathia indestructivel de raça, os vassallos 
da sua soberania mental e os clientes fieis da 
sua industria. 

Por isso também nunca Lisboa, como agora, 
tanto se engalanou e enfeitou. As bandeiras 
francezas ondulam ao vento por todas as xm^s 



36 CARTAS DE LISBOA 

da Baixa. Á tioute, a cidade pombalina illumi- 
nará quasi toda: as ruas do Carmo, Garrett e 
do Ouro a luz eléctrica, a rua Augusta a gaz, 
as ruas da Prata, Fanqueiros, Nova do Amparo, 
praça da Figueira, Santo Antão á linda moda. 
do Minho. 

N'um contraste absoluto com os rigores da 
policia de Madrid, o povo circula á vontade nas 
praças e nas ruas. Nenhuma ameaça de atten- 
tado põe sombras de inquietação na alegria rui- 
dosa, que a estas horas transfigura Lisboa. Para 
este lindo céu azul, não se elevaram ainda mãos 
pallidas e convulsas de revoltados, nem para os 
coches de gala, algum dia, os que toda a vida. 
andaram de rastros estenderam mãos de ameaça 
ou maldição. Livre da escolta cerrada de coura- 
ceiros, que incessantemente, como um enxame 
em volta do cortiço, cercou a sua carruagem 
pelas calles de Madrid, o presidente de França 
poderá vêr de perto este povo laborioso e cor- 
deal, ingénuo e pacifico, que Napoleão viu com- 
bater como um leão em Wagran e resistir, como 
os velhos romanos, ás intempéries da Rússia. 

Vindo de atravessar a França e a Hespa- 
nha, entre nuvens de policias e de soldados, o 
filho dos cultivadores modestos da granja de 
Montelimart por certo se commoverá com as 
saudações affectuosas e quasi familiares d'este 
povo meridional e gárrulo, amigo do apparato 
como o mouro seu irmão, amigo da virtude 



CARTAS DE LISBOA 37 



como O nobre romano seu antepassado. E com 
que olhos de maravilhada surpreza não verá 
elle adiantar-se, n'um fulgor de ouro, puxado a 
quatro parelhas de cavallos arreados de prata e 
enfeitados de laços de seda, rodeado pelos 
moços de estribeira, de peruca empoada, o 
coche de D. João V, com o seu tejadilho coberto 
de velludo carmezim, sustentado pelas quatro 
cariathides, de portas pintadas por Pedro Quil- 
lard, representando a da direita Vénus sahindo 
das ondas, recostada em delfins, a da esquerda 
Neptuno entre um bando de sereias! 

Ei-Fos que já apontam á entrada da rua do 
Ouro, os sete coches sumptuosos precedidos 
pelos batedores de bicornio e farda de gala, 
com o seu estadão de moços de estribeira, 
lacaios de tábua, sotas, cocheiros de tricórnio 
agaloado a ouro e perucas de rolos, que fazem 
estalar o chambrié de punho de prata cinzelada 
sobre os frizões normandos. 

São dez e meia. Já na estação do Rocio 
uma multidão official, empertigada nas fardas, 
se acotovella com as impaciências irreprimiveis 
da espera. El-rei desce de uma caleche á Dau- 
mont, com o principe real. As bandas tocam o 
hymno. Na varanda do theatro D. Maria, sob 
um toldo com as' cores de França, o corpo 
diplomático assiste á chegada theatral e pom- 
posa dos coches, que parecem capellas de talha, 
transportadas em charolas douradas. Na radiosa 



38 CARTAS DE LISBOA 

manhã de outomno, os sabres da cavallaria 
scintillam ao sol. Foguetes estouram ao longe, 
annunciando a partida do comboio presidencial^ 
de Campolide. Uma agitação maior propaga-se 
por toda a vasta praça do Rocio, onde os jogos 
de agua das duas fontes resplandecem como 
jactos de prata. Atordoadas pelo borborinho, as 
pombas bravas esvoaçam inquietas no frontão 
grego do theatro. Sob o arco rústico, levantado 
na rua Nova do Carmo e coroado por casotas 
de colmo, mais apropriado a uma festa agrícola 
do que a um cortejo de gala, a multidão ondeia 
e agita-se, n'um borborinho de vespeiro. Não 
cabe mais uma creança no immenso rectângulo 
da praça. Ha mulheres em todas as janellas 
bandeiras em todos os andares. 

Os soldados, alinhados nas ruas, são mais 
uma decoração do que uma defeza. 

Ninguém vos teme, anarchistas, n*esta ci- 
dade de quinhentas mil almas, aberta ao mundo 
pelas fronteiras de terra e do mar? Isso pare- 
cem perguntar, surprehendidos, os jornalistas 
francezes, chegados uma hora antes do presi- 
dente da Republica Franceza, e ainda contusos 
das coronhadas dos soldados madrilenos, liber- 
tos emfim da «etiqueta do pânico», que presi- 
diu ás festas de Hespanha. Isso parece pergun- 
guntar agora o próprio Loubet, ao descer, á 
direita de el-rei, a escadaria da estação, de ca- 
saca, com a banda azul da Torre e Espada, 



r» ■ 



CARTAS DE LISBOA 39 

sorridente e singelo, com a sua barba branca 
de bonhommCj seguido pelo seu séquito mi- 
litar. 

Uma acclamação unisona, que vem de longe, 
da extremidade do Rocio, por onde já desfila o 
esquadrão da guarda municipal, recebe a appa- 
rição d'esse homem simples, nascido quasi do 
povo, que o rei de Portugal senta á sua direita 
no coche de D. João V e que a virtude, a in- 
telligencia, o trabalho e a devoção civica ele- 
varam á presidência dos destinos da nação de 
Luiz XIV e de Francisco I. 

Terão as multidões a nitida consciência da 
grandeza do espectáculo moral, que constitue 
esse homem simples, n'e3te momento histórico 
em que os reis de direito divino o recebem com 
as pompas reservadas aos soberanos? Parece 
que sim, pois as acclamações redobram de in- 
descriptivel enthusiasmo, quando o cortejo sum- 
ptuoso se põe a caminho para Belém, onde uma 
princeza da casa de França aguarda o presi- 
dente da Republica Franceza. E até esse paço 
real, onde Passos Manoel fallou em nome da 
democracia á filha de D. Pedro iv, as salvas de 
palmas, os vivas, as saudações calorosíssimas 
não esmorecem um momento. 

Deve el-rei ter o orgulho de haver podido 
mostrar ao presidente de uma republica a sua 
monarchia liberal, fundada por um grande prín- 
cipe da sua dynastia, imperador sem império, 



40 CARTAS DE LISBOA 



rei sem throno, que com a espada, nos campos 
de batalha, a conquistou e fundou como um 
revolucionário ! 



^i de setembro 

O vapor desamarra do càes do Sodré ás 
oito horas. Está uma noute fria. Nos altos céus, 
empoeirados de estrellas, grandes nuvens viajam 
morosamente para o sul, lastradas de aguas 
outomnaes para a irrigação da sequiosa charneca 
alemtejana. O Tejo é uma grande nódoa de 
tinta, onde apenas scintillam algumas poucas 
luzes, suspensas nas antenas dos mastros, como 
olhos ardentes espreitando n'uma mascara de 
velludo. 

Toda a margem da Outra Banda apparece 
desenhada a carvão. sob o céu estrellado, desde 
Aldeia Gallega e a Atalaia, até ás povoações 
longinquas do Seixal e do Barreiro. Mas pas- 
sado o pharolim do pontal de Cacilhas, o sce- 
nario torna-se menos indeciso. Nas penumbras 
da noute vê-se branquejar a casaria e o olhar 
pôde ir seguindo as sinuosidades da margem 
até ao castello de Almada, que se recorta na 
luz estellar com os claros-escuros de uma pin- 
tura de Rembrandt. 

Vai o vapor ganhando agora o meio do rio, 



CARTAS DE LISBOA 4I 



por entre cardumes de embarcações miúdas, 
roçando quasi pela querena da velha fragata 
D. Fernando^ que ao sahir de repente da treva, 
illuminada pelo jacto luminoso do holophote 
com que o vapor vai descobrindo o caminho no 
labyrintho do ancoradouro, mais parece, com a 
sua quilha alterosa e bojuda de nau, uma sobre- 
vivente das antigas frotas bellicosas, do que os 
restos inválidos da esquadra inoffensiva de 
D. Maria li. 

Dir-se-hia agora que nos achamos em pleno 
sonho ou que por uma allucinação visual temos 
na nossa frente, centenas de milhares de vezes 
ampliada, uma d'essas vistas de cosmorama, 
crivadas de furos de alfinetes, que, de encontro 
á luz parecem illuminadas a giorna. 

São, no primeiro plano, o cães do Sodré, as 
praças do Duque da Terceira e do Marquez de 
Sá, a avenida marginal, a estação do caminho 
de ferro de Cascaes, que surgem da emoliente 
claridade dos globos eléctricos, como em pleno 
dia, com os americanos e os comboios, o seu 
formigueiro humano e o seu rumor de vida la- 
boriosa. 

Depois, como nas visualidades do theatro, 
a sombra succede immediatamente á luz. A 
casaria agglomera-se, encastellada nos outeiros 
das Chagas e de Santa Catharina, como sobran- 
ceiras muralhas de uma fortaleza, cuja escadaria 
immensa a rua do Alecrim parece vir descendo 



4'2 CARTAS DE LISBOA 

com o seu cortejo de luzes. A flor de agua, os 
estaleiros do Arsenal, com os diques abertos, 
as aéreas armações dos guindastes e dos mas- 
tros, lembram um croquis tenebroso de Gus- 
tavo Doré, não sei por que evocação incons- 
ciente de memoria. Mas logo a seguir, o Ter- 
reiro do Paço, com as clássicas lanternas dos 
regozijos officiaes nas varandas dos ministérios, 
desenvolve no confuso panorama ambiente a 
symetria das suas arcadas pombalinas e é, na 
vasta cidade de vinte séculos, onde o grego 
construiu templos, o romano edificou theatros, 
o mouro levantou mesquitas, o christão ergueu 
castellos, o documento intacto de uma época de 
magestade formalista. 

Ha n'esse surprehendente scenario de luz e 
sombras, que quatro povos levaram mais de 
dous mil annos a compor, o vestigio de civilisa- 
ções as mais diversas. O monte do Castello, 
impresso sobre o fundo estrellado da noute, 
tem qualquer cousa da abside em ruinas de 
uma cathedral românica, a que as muralhas 
servem de gigantes, e em frente de S. Jorge, os 
mármores jesuiticos de S. Vicente resplande- 
cem, como se um invisivel luar os afagasse. 

Ha ainda clarões de luz eléctrica ao longo 
do cães, até Santa Apolónia. Depois, a cidade 
vai pouco a pouco apagando-se, desvanecendo- 
se, até confundir-se na mesma nódoa de tinta 
que o Tejo alastra na planicie calma do mar da 



CAR TAS DE LISBOA 43 

Palha e onde se reflectem os astros como lumi- 
nosas flores aquáticas, boiando na mansa cor- 
rente. 

A grande cidade projecta sobre as nuvens 
que passam em caravana o reflexo róseo de mil 
lumes, diluindo na atmosphera o bafo luminoso 
da sua fornalha colossal, alimentada pela vida 
dos seus quatrocentos mil habitantes. 

Já o vapor accelera a marcha, desenrolando 
uma esparsa cabelleira de fumo negro. A cada 
momento o panorama maravilhoso se vai am- 
pliando mais, com novas collinas coroadas por 
diademas de gaz. São agora os bairros da Lapa 
e de Buenos- Ayres, toucados pela mitra branca 
da basílica da Estrella; depois a architectura 
clássica da Ajuda, alvejando n'uma imminencia ; 
e outra vez os clarões dos arcos voltaicos, nos 
seus globos cor de leite, illuminam o paço de 
Belém, o monumento de Afibnso de Albuquer- 
que, a cúpula rendilhada dos Jeronymos. 

Da feira chegam accordes de musicas e o bor- 
borinho do povo. Já o vapor balouça mais for- 
temente na vaga, como um grande berço. A 
alameda de Algés desfia, rez-vez da agua, o 
seu rosário de luzes tremulas. Depois segue-se 
a escuridão. Apenas, na outra margem, entre o 
negrume, apparece o Lazareto illuminado e logo 
adiante, quasi em frente ao Bugio, se descorti- 
nam entre a névoa marítima os lumes da Tra- 
faria. Já o Tejo se despejou no mar. Á clari- 



44 CARTAS DE LISBOA 

dade, que illumina a vida nocturna dos homens, 
succedem os clarões vermelhos, Verdes e bran- 
cos dos pharoes, que illuminam a rota nocturna 
•dos navios. É ao longe, o pharol do Cabo Car- 
voeiro, no meio da barra o pharol do Bugio, á 
esquerda a luz encarnada do pharolim da Guia 
« os lanternins de S. Julião. 

Agora, só o redemoinho das aguas enche a 
noute estrellada, que maiores nuvens escurecem. 
O vapor é apenas um ponto negro no vasto 
negrume. E, de repente, ao dobrar a fortaleza 
de S. Julião, como se um panno de boca se 
-erguesse, do meio do mar surge uma paizagem 
phantastica. São de luz os montes, são de luz 
as casas, são de luz os navios e ha luzes que 
parecem dansar suspensas nos ares. As povoa- 
ções de Cascaes, do Monte Estoril, S. João do 
Estoril, Santo António do Estoril, scintillam 
como se as tivessem enfeitado com a via-lactea. 
Uma fulguração immensa, composta de lume de 
milhares de lumes, dá a volta á bahia, como 
uma rivicre de diamantes n'um collo de mulher. 
Sobre esse escrínio de jóias, outras jóias cahem 
do ar, como se do céu se estivessem desfolhando 
flores de fogo sobre essa scenographia feérica. 

Lentamente, vencendo a vaga, o vapor appro- 
xima-nos do espectáculo surprehendente. Aos 
poucos, aquella confusão luminosa vai tomando 
aspectos menos sobrenaturaes, sem perder a 
belleza primitiva. O monte de luz compacta é 






CARTAS DE LISBOA 45 



agora um crivo de milhares de pequeninas luzes, 
tão juntas, que dir-se-hía que uma relva lumi- 
nosa brotou milagrosamente na collina. Pelo 
immenso arco de circulo da bahia, a praia é 
toda illuminada a barricas de alcatrão. Das 
varandas das casas, dominantes aos areaes, 
pendem silvas de balões venezianos, de copi- 
nhos coloridos e de lanternas. Os holophotes 
dos navios de guerra, projectados sobre essa 
paizagem de magica, que recorda as pinturas 
das porcellanas japonezas, inundam de extrava- 
gantes claridades as povoações do littoral. 

Na encosta do Monte Estoril, os terraços do 
Casino parecem expostos ao sol. A villa, no es- 
tylo de Pompeia, do snr. Sommer, recorta os 
seus telhados gregos sobre os arvoredos illu mi- 
nados. O branco palacete Barahona parece um 
enorme socolo de mármore. Os cJialets inglezes 
da snr.* duqueza de Palmella e do snr. marquez 
do Fayal são, sob os jorros convergentes dos 
focos eléctricos, nitidos como dous chromos. Os 
foguetes de lagrimas continuam a esfolhar as 
suas pétalas de fogo sobre as aguas. Ao fundo 
do quadro, a cidadella ergue as suas esplanadas, 
as suas trincheiras e reductos. Como se fora 
meio dia, vêem-se esvoaçar bandeiras. De tem- 
pos a tempos, os holophotes do cruzador D, Car- 
los ou do Vasco da Gama despejam as suas on- 
das de luz branca sobre a bahia, onde estão 
alinhados os yachts brancos, apparelhados para 



46 CARTAS DE LISBOA 



a próxima regata. O Casino da Praia flammeja 
-como uma ignea architectura de lavaredas. To- 
dos os cambiantes de luz artificial se reúnem 
« confundem n'aquelle enorme concerto lumi- 
noso. E quando os poderosos projectores elé- 
ctricos cessam de derramar o seu clarão sobre 
a villa, quando tudo o que subsistia de realida- 
de n'aquella íeeria se dissipa na escuridão da 
noute, o olhar maravilhado só distingue, sob o 
céu recamado de astros, uma terra recamada de 
estrellas. 

E foi ainda da mesma visão sobrenatural de 
uma cidade feita de luz, que á meia noute de 
quinta-feira os nossos olhos deslumbrados se 
despediram, quando, de regresso a Lisboa, o 
vapor passava outra vez em frente aos altos e 
sombrios paredões de S. Julião da Barra. 



1/ de outubro 

« 

Por estes dias de outomno, que as primeiras 
friagens do inverno próximo arrefecem, quando 
já se expõem nas vitrines os chapéus de fel- 
tro, expedidos de chez Virot, e recomeça nos 
ateliers das modistas a azáfama de uma nova 
estação com suas novas modas, todo o littoral 
da enseada de Cascaes, em vésperas de despo- 
voar-se, adquire um inexprimivel encanto. 



i 



CARTAS DE LISBOA 47 

As ventanias do verão succede uma ameni- 
dade suavissima. As aguas do mar tingem-se 
de um azul de claras safiras. Os poentes são 
agora cor de laranja e cor de violeta. Ha uma 
serenidade maior nas ondas, no céu e na terra. 
A paizagem africana, de ventania e de sol, com 
nuvens de poeira e scintillações metallicas, mo- 
difica-se. Os panoramas de colorido violento, 
com céus anis e mares verdes, empallidecem e 
teem agora a suavidade de aguarellas. É n'este 
tempo que a estrada mundana do pinhal da 
Guia, entre Santa Martha e a Boca do Inferno, 
desdobra as suas scenographias mais surprehen- 
dentes, com a vastissima toalha de aguas, que 
se agita e tremeluz até aos confins do hori- 
sonte, as serras da Arrábida e de Palmella 
desenhadas é esquerda, no céu claro, o areal do 
cabo Espichel scintillando de espumas e as 
gaivotas brancas circulando no ar com a elegân- 
cia de voos lentos. Para a direita é a molle gra- 
nítica de Cintra, caminhando para o cabo da 
Rocca, elevando para as nuvens as suas denti- 
culadas architecturas de penedia, com a renda 
das ameias do castello dos Mouros e as cúpulas 
e as torres da Pena, surgindo de entre véos flu- 
ctuantes de bruma. 

É á beira d' esta estrada de incomparável 
belleza, com os seus dilatados panoramas ma- 
rítimos e agrestes, entre serra e mar, que o 
snr. Jorge 0'Neill erigiu a mais theatral villa d^ 



48 CARTAS DE LISBOA 

verão, que a imaginação de um artista possa 
idealisar n'uma hora de inspirada phantasia, em 
pleno delírio de grandezas. 

Quando, dobrada a ultima muralha da cida- 
delia, passado o recinto do tiro aos pombos e 
a linda casa minhota do snr. conde de Arnoso, 
se descobre o primeiro lance de mar para a es- 
querda e a casa 0'Neill para a direita, o mais 
apaixonado admirador da natureza voltará, sem 
hesitar, as costas ao oceano, quedando na con- 
templação embevecida d'esse palácio de drama 
histórico, a cujas janellas mouriscas e eirados 
medievaes cuidará que vão apparecer castel- 
lãs de coifa e estola ou besteiros de loriga de 
ferro. 

Edificada junto á velha ermida de S. Sebas- 
tião, sobre os rochedos de uma enseada, que o 
mar inunda, a casa do snr. Jorge 0'Neill é, di- 
gamol-o sem demora, conjunctamente com o 
palácio do snr. marquez da Foz, em Torres No- 
vas, um dos mais bellos, harmoniosos e pittores- 
cos edifícios que a opulência de um fidalgo, a 
gosto requintadissimo de um artista e a sciencia 
de um archi tecto teem nos últimos cincoenta 
annos levantado em terra portugueza. Nada se 
pôde comparar, entre os centos de edificações 
pretenciosas com que se enfeitaram Cascaes e 
os Estoris, a esta morada de príncipe, theatral- 
mente erecta na sua escarpa, e onde se vêem 
reumàos os mais originaes motivos architectoni- 



r-i. 



CARTAS DEV LISBOA 49 

COS compilados pelo allemão Albrecht Haupt no 
seu tratado da Renascença em Portugal. 

Ha mais de trinta annos que a casa portu- 
gueza do millionario e do fidalgo se adorna in- 
teriormente com os restos da velha sumptuária 
de outros séculos, enriquecendo as suas parpdes 
com tapeçarias flamengas, brocados e damascos 
de Génova e de França, cobrindo os seus par- 
quets com tapetes do Oriente, mobilando as 
suas salas com contadores italianos, armários 
hollandezes,. cadeiras de sola lavrada, onde se 
sentaram desde os contemporâneos dos desco- 
bridores do caminho da índia, até aos polvi- 
lhados cortezãos de D. João y e os adamados 
peralvilhos do reinado de D. Maria I. Mas 
ainda ninguém se lembrara de harmonisar esses 
interiores históricos e opulentos com o edifício 
e reproduzir nas fachadas o reflexo d'essa arte 
sábia e requintada do viver moderno, que 
tanto se compraz na contemplação do fausto 
antigo. 

Algumas poucas tentativas n'esse sentido 
realisadas resentiam-se todas da timidez e hesi- 
tação da experiência, eram como que miniatu- 
ras, esboços vagos, de um plano apenas rudi- 
mentarmente traçado e definido. Cabe ao snr. 
Jorge 0'Neill a honra — e porque não a gloria? 
— de haver tornado pela primeira vez tangivel 
essa attrahente phantasia e de haver ousado e 
sabido edificar com solidez, a pedra e ca\^ a 



50 CARTAS DE LISBOA 

mais sumptuosa scenographia, com que um 
pintor histórico, de vastos conhecimentos e de 
authentica cultura, poderia illustrar uma pagina 
da dynastia manuelina. Projecto de Villaça — 
um pintor, — a torre de S. Sebastião deve a 
esta direcção illustre, tão intelligentemente soli- 
citada, a sua impressionavel belleza decorativa. 
Com a sua torreia de menagem, os seus mina- 
retes, as suas adufas, o seu alpendre da Sempre 
Noiva, a sua varanda românica, as suas cúpulas 
de azulejo, os seus telhados mouriscos, as suas 
janellinhas de columnas geminadas, essa casa 
ficou sendo, miraculosamente, mais do que um 
edifício, uma pintura. A adaptação de estyios 
diversos a um mesmo ~ conjuncto harmónico, 
guiada por um notabilissimo talento selecciona- 
dor, alcançou produzir, na multiplicidade, na 
variedade e no pittoresco, uma obra prima. 
Duvido que um architecto tivesse podido com- 
binar elementos na apparencia tão heterogéneos 
em composição tão harmoniosamente ornamen- 
tal. Para que a casa 0'Neill assim resultasse 
bella, foi indispensável aos.auctores do projecto 
o libertarem-se das fórmulas consagradas á arte 
de construir e insurgirem-se contra os precon- 
ceitos clássicos, que immobilisam a imaginação, 
mesmo a mais ousada, de um architecto. Sem- 
pre que um pintor deixou o pincel pelo com- 
passo, tornou-se um innovador. A applicação de 
theorías e processos itvédltos a uma arte de 



CARTAS DE LISBOA 5 I 

■ ■ - ■■»■■■ ■ ■■ I —^■^■^W ^— — ^— i^^^^^^^^^— ■■■! 1 ■ 

evolução lenta por natureza, implica sempre 
uma ideia de reforma. 

As architecturas dos pintores, mesmo nos 
seus quadros, teem originalidade. O habito de 
crear conduz instinctivamente o pintor a intro- 
duzir reformas, ás vezes apenas distinctas, e ou- 
tras vezes capitães, na reproducção dos edifí- 
cios, influenciando por esta forma a arte de 
construcção. Continuando a obra de Bramante 
em S. Pedro, concluindo as loggias, construindo 
os palácios DelVAquila^ Pandolfini, Stoppani e 
a villa Madame^ Raphael foi o mais revolucio- 
nário dos architectos da Renascença italiana, 
n*um período em que toda a evolução, depois 
da obra monumental de Bramante, parecia 
ínexequivel. Mais uma vez, no projecto da 
Torre de S. Sebastião^ esse facto se evidencia 
com eloquentes exemplos. O pintor Villaça, 
que já se ensaiara como architecto na casa do 
snr. Manoel Gomes, no Monte Estoril, conse- 
guiu transplantar para a sua architectura as 
sciencias de perspectiva, de composição, de 
contraste, quasi os effeitos de luz, que são apa- 
nágio da pintura. Reconhece-se na própria es- 
colha dos materiaes empregados na edificação 
o cuidado reflectido que um pintor emérito põe 
na escolha das tintas da paleta. E se das facha- 
das theatraes o observador passar á investiga- 
ção escrupulosa do interior, a sua surpreza 
encantada será ainda maior e mais (acil d^ 



52 CARTAS DE LISBOA 



constatar a originalidade flagrante da ideação, 
a audácia revolucionaria do artista, tentando e 
conseguindo maravilhosamente pôr em toda a 
parte a belleza ao serviço da vida do lar e 
prevendo todos os effeitos do mobilado asso- 
ciado ao edifício, do conteúdo harmonisado ao 
continente, do detalhe adequado ao conjuncto. 
Logo á entrada, o lindo claustro, de paredes 
guarnecidas com rodapé de azulejo hispano- 
arabe, no estylo das salas do paço de Cintra, 
com os seus lampeões de ferro forjado e colo- 
rido, a sua fonte copiada dos Jeronymos, faz-nos 
esquecer de que entramos n'uma casa que tem 
apenas cinco annos. E bem uma mansão de 
quietude e de repouso, em que se entra. As 
plantas e o Umo das aguas deram já ao tanque 
uma patine secular. As lanternas encostadas á 
entrada suggerem nocturnos cortejos de cas-. 
tellãs e de pagens. No recatado silencio, o ru- 
mor da agua tem a melodia de um canto. Tufos 
de begónias, de folhas prateadas, vermelhas, de 
todos os tons do verde, fetos arbóreos, trepa- 
deiras, avencas, alimentam de uma perenne 
frescura o claustro branco, sobre o qual se de- 
bruçam, no alto, as adufas mouriscas dos quar- 
tos. Se não fora os valets de pied, que circulam 
sob as arcadas, com as suas fardas agaloadas a 
vermelho e prata, a illusão de antiguidade seria 
completa. Mas o criado que nos precede abre a 
porta, envidraçada, que communica com a Salcu 



CARTAS DK LISBOA 53 

dos Trevos por um pequenino vestibulo impro- 
visado com primores de arte indiziveis. Cahe 
de um lado uma ampla e extensa cortina de 
brocado vermelho tecido a ouro, formando pa- 
rede a uma teia de igreja, em pau santo, do 
mais sumptuoso trabalho de torno, e levan- 
tam-se em frente, aos lados de um espelho 
oriental, dous tocheiros de ferro. 

E agora uma pequenina sala, cujo tecto, com 
pintura de trevos, — o trevo da Irlanda — repro- 
duz o risco originalíssimo do tecto da sala das 
Pegas, do palácio de Cintra. Um reposteiro do. 
mesmo tecido antigo, vermelho e ouro, de um 
luxo bárbaro, entre sensual e lithurgico, de al- 
cova da Renascença, cahe, resplandecente, so- 
bre uma porta. A reproducção da chaminé da 
sala de conselho da torre de Belém, enriquecida 
de azulejos, onde se ostentam as armas dos 
0*Neill e Brito e Cunha, poltronas do Maple, 
um divan, guarnecem e mobilam- esse ninho fa- 
miliar com esse sábio conforto, que o homem 
eminentemente intellectual do século XIX inven- 
tou para substituir o formalismo hierático do 
mobiliário do século XVll e o convencionalismo 
galante do século xviii. 

Nas paredes, sobre os lambris de azulejo» 
os retratos dos antigos 0'Neill, príncipes de 
Tyrone e de Clen-Boy, reis da Irlanda, netos 
heróicos e infelizes de Niallus Magno, parecem 
presidir aos serões dos descendentes, como di- 



54 CARTAS DE LISBOA 

1,1 _ _ _ 

vindades tutelares. Em frente, a porta envidra- 
çada dá passagem ao salão, a que servem de 
adorno magnifico dous grandes quadros da an- 
tiga galeria dos duques de Aveiro, evidente- 
mente da eschola veneziana, que ao primeiro 
relance lembram a factura opulenta de Vero- 
néso, o fausto real das suas composições, a car- 
nação voluptuosa das suas cortezãs e das suas 
deusas. 

Sabido que os duques de. Aveiro reuniram 
no seu palácio de Azeitão quadros preciosissi- 
mos, o espirito affeiçoa-se á persuasão de que 
sejam realmente de Paolo Caliari essas duas 
telas de prodigiosa belleza. A mulher que avan- 
taja n'um d'elles calcando um globo, é extraor- 
dinariamente parecida com a Esther do museu 
do Louvre (Evanouissement d' Esther), A figura 
de homem, semi-nú, do mesmo quadro, dir-se- 
hia ter sahido do mesmo pincel genial, que 
pintou os Peregrinos de Emaús. Na segunda 
tela vê-se um mancebo vestido de setim branco 
refugiando-se junto de uma grave mulher co- 
roada de louros — a Virtude? a Honra? a Scien- 
cia? — emquanto outra mulher, de grenha loura, 
inutilmente procura attrahil-o na cadeia rósea 
dos seus braços. 

É ainda para notar, em favor da presumpção 
de que sejam de Veronéso as duas telas magis- 
traes da casa 0'Neill, o facto de encontrar-se, 
embora desenhada de dorso, a esbelta e juvenil 



CARTAS DE LISBOA 55 

figura do nobre veneziano reproduzida no mesmo 
quadro do Louvre: O Desmaio de Estker. 

Já, ao despedirmo-nos das duas obras pri- 
mas, a luz pallida da tarde as envolve de uma 
mysteriosa penumbra. Mas as sumptuosas figu- 
ras parecem acompanhar-nos, descer das telas, 
atravessar comnosco a salinha heráldica dos 
Trevos e debruçarem-se, com os seus vestidos 
de brocado e os seus lindos braços nús, á 
varanda que deita para o mar. E de tal sorte o 
scenario lhes é apropriado, que não estranha- 
riamos ver sentarem-se a nosso lado, nas ca- 
deiras de verga, as solemnes mulheres de Paolo 
Veronéso. . . 



20 de outubro 

Quando, ha uns quinze annos, o emprezario 
do Colyseu da rua Nova da Palma tomou de 
arrendamento o vasto circo, que uma sociedade 
acabava de construir nas Portas de Santo An- 
tão, com um luxo de accessorios sensacional 
para Lisboa, os antigos frequentadores do circo 
Price e do Tivoli da rua da Flor da Murta pro- 
phetisaram-lhe a ruína. Entretanto, já o Passeio 
Publico desapparecera e pela larga Avenida da 
Liberdade, onde o snr. marquez da Foz recons- 
truia, com as pompas de um príncipe, o palácio 



56 CARTAS DE LISBOA 



que fora dos Castello Melhor, trotavam as es- 
plendidas parelhas das equipagens da fairiilia 
Moser. A Lisboa pittoresca de D. Maria II e de 
D. Pedro V principiava a transformar-se na Lis- 
boa vaidosa de hoje e os janotas da Havaneza, 
descendentes tristonhos e cheios de morgue dos 
joviaes janotas do Marrare, tinham de Pariz e 
dos boulevards inaugurados pelo segundo Im- 
pério noções exactas, que os empertigavam de 
arrogância e de desdém. A Lisboa, que prophe- 
tisava a fallencia ao emprezario do novo Coly- 
seu, não era já a Lisboa do conselheiro Accacio 
e do Benevides de Barbuda^ mas a Lisboa da 
Avenida, da estação do Rocio, do Século, do 
bric-à-braCi das corridas de cavallos, do Turff 
Club e do Ckat-Noir: esse arremedo de Pariz, 
que começa na historia com a extincção do 
porta-machado e do tambor-mór. Lisboa, com 
as suas sete collinas, tinha já a esse tempo todos 
os seus sete theatros. Mas a construcção de 
uma casa de espectáculos, que podia conter 
cinco mil espectadores, era ainda um aconteci- 
mento que a impressionava. 

O emprezario tomou conta, não sem algum 
terror, do temerário encargo, que devia condu- 
zil-o, na opinião auctorisada dos entendidos, á 
insolvência e á ruína. Mais de uma dúzia de an- 
nos passou. Lisboa construiu mais algumas ave- 
nidas. Alguns janotas se arruinaram. Alguns 
milhares de frequentadores do circo Price des- 



CARTAS DE LISBOA 5 7 

appareceram de entre os vivos. Pela pista do 
ruinoso Colyseu passaram centenas de cavallos 
amestrados, centenas de voltigeuses em maillot 
cor de carne e saias bordadas a lentejoulas, in- 
numeraveis palhaços, clowns e pierrotSy legiões 
de funambulos, de equilibristas e de gymnastas. 

Toda a fauna do globo, desde os elephantes 
da índia até ás focas do pólo, desde as araras 
da America até ao chimpanzé da Africa: multi- 
dões de macacos, de cães e de corseis galopa- 
ram, ladraram, saltaram na sua arena. Debaixo 
da sua cúpula rugiram leões, cantaram prima- 
donas, dansaram bailarinas, balouçaram trapé- 
zios. Tudo o que a paciência e a imaginação 
humanas crearam de extravagante e de pas- 
moso, para satisfazer a paixão natural do ho- 
mem pelos espectáculos da força e da destreza, 
se exhibiu, ao som de musicas, sob os clarões 
dos arcos voltaicos, no circo immenso. 

Todos os exotismos e todos os phenome- 
nos: homens que se deslocam, simios que pas- 
seiam de velocipede, chinezes que dansam em 
fios de arame, fakirs que engolem espadas, do- 
madores que brincam com feras, passaram em 
revista diante do publico ruidoso do novo am- 
phitheatro. O emprezario do Colyseu não se ar- 
ruinou; prosperou. Lisboa arrancara de todas 
as suas viellas, alfurjas e bairros pobres espe- 
ctadores para encher as archibancadas vastis- 
simas do circo desconforme. 



5 8 CARTAS DE LISBOA 

A sede de prazer insaciável, que devora a 
cidade, cresceu parallelamente á progressiva 
abundância dos divertimentos. Centenares de 
contos são annualmente despejados nos guichets 
dos theatros, das praças de touros e dos circos. 
Com a sua população restricta e quasi na tota- 
lidade constituída de pobres, que vivem dia a 
dia, nenhuma cidade da Europa põe em diver- 
tír-se o mesmo enthusiasmo, a mesma pertiná- 
cia e o mesmo alvoroço. 

O fatalismo, que é o fundo da nossa raça, 
condemna-nos a ser um povo de pobres ale- 
gres. Se o pariziense fosse como o lisboeta este 
mixto de romano e de mouro, capaz de viver 
tanto de esperanças como de pão e do heroismo 
de rir com os palhaços do circo sem ter jantado 
e sem saber o que no dia seguinte ha-de almo- 
çar, Pariz seria uma Babylonia com mil theatros 
todas as noutes abertos. 

O antepassado do lisboeta viu atracar á 
Ribeira das Naus os galeões e as caravellas da 
índia, do Brazil e da Mina. Quando os grandes 
povos da Europa continental viviam ainda nas 
trevas, o lisboeta tinha o espectáculo gratuito 
das expedições que voltavam do Oriente e que 
desembarcavam com papagaios e araras da 
America, com as especiarias, as sedas e as 
porcellanas da Ásia, com os leões e os maca- 
quinhos da Africa. Durante dous séculos o 
mundo desvendou a Lisboa a primicia dos seus 



CARTAS DE LISBOA $9 

segredos. Os marinheiros e os soldados iam 
contar em Alfama e na Mouraria as maravilhas 
entrevistas em Ormuz e em Goa. A imaginação 
do lisboeta foi alimentada, desde o século XV, 
pela narrativa dos navegadores. Como o romano 
do tempo de Augusto, o lisboeta conhecia já o 
elephante e a panthera quando o anglo-saxão 
caçava ainda o urso ás portas de Londres. Na 
Europa inculta e barbara elle era o civilisado 
por excellencia. Nos cães do Tejo elle entre- 
tinha relações com todos os povos do Occidente. 
HoUandezes, venezianos, francezes, bretões, ge- 
novezes, maltezes vinham commerciar com elle 
e trazer-lhe as noticias de toda a parte, desde 
as ultimas paragens do Mediterrâneo até ás 
neves do mar do norte. 

O árabe, o judeu e o africano enxameavam 
Lisboa. Na Ribeira fallavam-se todas as linguas. 
A realeza adornava-se com os domínios de 
áquem e de além mar, com o poderio illusorio 
da Ethiopia, da Pérsia e da índia. O Ganges, o 
Nilo e o Zaire eram os affluentes grandiosa- 
mente ornamentaes do Tejo. N'esse espectáculo 
perenne de frotas, que voltavam cheias de ouro e 
de aljôfares, carregadas de tributos e de escravos, 
na convivência dos nautas que tinham bombar- 
deado Ormuz, dobrado o Cabo das Tormentas, 
dansado nas praias da America com as indíge- 
nas do Brazil, que admira que o lisboeta tenha 
contrahido a irresistível attracção pela novidade 



6o CARTAS DE LISBOA 

e pelo exotismo? Quando, por occasião do cen- 
tenário da índia, alguns persas vieram a Lisboa, 
a convite do governo, o lisboeta parecia reco- 
nhecel-os e olhava-os, sem exaggerado pasmo, 
como relações de infância. Um turbante de 
seda ou um fez escarlate, apparecendo entre as 
cartolas e os chapéus de coco, não faz voltar a 
cabeça senão ao forasteiro. Mesmo na decadên- 
cia, Lisboa ficou sempre á cidade colonial e 
maritima, dos longínquos dominios e das aven- 
turosas conquistas. A cada passo, na Lisboa de 
hoje, se encontra o preto, passeando na Ave- 
nida com a mesma confiança com que passeara 
na Guiné. Um opulento commerciante egypcio, 
que o snr. Sommer tem, n'este momento, hos- 
pedado na sua linda villa grega do Monte Es- 
toril, passa despercebido nos concertos do Ca- 
sino Internacional e passeia nas salas de jogo 
sem provocar um sussurro de surpreza e sem 
conseguir desviar as attenções concentradas nos 
três americanos, que cobrem o panno verde da 
roleta com fichas de cem mil réis . . 

É indispensável recorrer á historia d'esse 
passado de phatasmagoria para explicar o cara- 
cter tão original e complexo do lisboeta, a sua 
paixão pelo espectáculo, a sua sede de prazer 
levada ao paroxismo e sobretudo essa exigên- 
cia, sem exemplo, que o faz patear em Lisboa 
o que o allemão applaudiu em Berlim e o inglez 
em Londres. Dar a esse espectador difficil um 



CARTAS DE LISBOA 6l 



espectáculo que o enthusiasme é uma tarefa in- 
grata e difficil. Para constituir o, elenco do Co- 
lyseu dos Recreios, não basta contratar os nú- 
meros sensacionaes dos circos .estrangeiros. Um 
cançonetista, que faça as delicias do Olympiay 
de Pariz, será irremediavelmente assobiado em 
Lisboa. O lisboeta só applaude os prodígios de 
destreza e de força, as exhibições brilhantes, as 
temeridades máximas, as extravagâncias mons- 
truosas. 

As suas faculdades de critica são prodigio- 
sas. Esse espectador barulhento das galerias tem 
da anatomia inconscientes noções minuciosas 
para criticar a plástica de uma acrobata ou 
écuyère e com uma intuição surprehendente da 
verdade e da belleza sabe coroar de palmas 
tanto a elegância de um corpo esbelto de gy- 
mnasta como a musculatura sabiamente desen- 
volvida de um athleta. É tempo perdido preten- 
der mystifical-o. No circo, elle é arbitro e juiz. 
É no Colyseu que se pôde vêr, em toda a ale- 
gria exuberante, o povo de Lisboa, desde que 
a tourada deixou de ser, por falta de peões e 
cavalleiros de prestigio, o seu divertimento fa- 
vorito. Em todos os theatros de Lisboa, o povo 
é exilado para logares de sombra e de suppli- 
cio, d'onde impossível lhe é associar-se ampla- 
mente ao regosijo e emoções do espectáculo. A 
consciência humilhante da subalternidade em 
frente a uma maioria privilegiada de especta- 



62 CARTAS DE LISBOA 

dores contém-no constrangido, quasi silencioso. 
Mas no circo ,elle associa-se completamente á 
opinião. E elle mesmo quem a dieta, tyrannica- 
mente, sentindo-sç, por sua vez, em maioria. 

Ainda no sabbádo ultimo, a inauguração do 
Colyseu revestiu-se da animação intensa de to- 
das as festas onde o povo é soberano. En- 
chiam-no cinco mil pessoas. As archibancadas 
desappareciam sob uma pilha humana. 

Por entre o borborinho, os risos e o choro 
das creanças, ouviam-se desafios de phrases equi- 
vocas, que o espirito da plebe lançava de um a 
outro lado da arena. Ás oito e meia, não cabia 
mais ninguém e as portas continuavam a jorrar 
como fontes, n'aquelle reservatario cheio, novas 
ondas humanas: operários, soldados, marujos, 
mulheres em cabello ou de mantilha. Os globos 
de luz eléctrica, suspensos da vasta cúpula en- 
vidraçada, illuminavam aquella immensa coroa 
movediça de povo, d'onde se erguiam milhares 
de mãos applaudindo a entrada da troupe na 
arena. Das cavallariças chegam o relinchar dos 
cavallos de manejo e de volteio e o urro dos 
elephantes. A orchestra, onde predominam os 
metaes, toca a Dama de Pique^ de Suppé. Um 
pesado cavallo branco, de largas ancas, entra 
na pista. Illuminadas por um jacto de luz elé- 
ctrica, as voltigeusesy vestidas de bersaglieri^ 
apparecem, com esse passo e mimica de dansa, 
feitos de mesuras e requebros, que a tradição 



CARTAS DE LISBOA 63 

impõe ás acrobatas. . . Durante três horas suc- 
cedem-se na pista os cavallos, as mulheres de 
maillot, os gymnastas e os equilibristas. A 
musica toca sempre. Ha rumores de pateada, 
de vez em quando, por entre o ruido das pal- 
mas. Uma outra voz de descontente grita no 
tumulto. Um imitador de pássaros é assobiado 
colericamente. A excitação e o ruido são cada 
vez maiores. Mulheres louras e semi-núas des- 
locam os membros sobre um tapete oriental, de 
um vermelho brilhante. Os palhaços entram e 
sahem, n'um alarido fanhoso, com esgares cómi- 
cos e cabriolas; ás gargalhadas que receberam 
os clowns seguem-se silêncios unisonos durante 
os voos aéreos dos funambulos. Depois, outra 
vez, o borborinho levanta-se. Milhares de mãos 
applaudem. Ha uma nuvem de fumo na sala, 
que atordoa. O enthusiasmo vae gradualmente 
decrescendo ; e a meio do espectáculo começa-se 
a sentir a impressão de que ha vinte annos que 
aquelles mesmos cavallos galopam na pista, 
aquellas mesmas mulheres louras se deslocam 
no tapete escarlate, aquelles mesmos elephantes 
fazem habilidades, aquelles mesmos homens 
vestidos de malha voam de trapesio para tra- 
pesio, aquelles mesmos palhaços teem aquelles 
mesmos esgares hilariantes. 

É bem verdade que a melhor de todas as 
companhias de circo que qualquer de nós tem 
visto, viu-a da primeira vez que, ainda pela 



64 CARTAS DE LISBOA 

mão da criada, o levaram aos cavallinhos. E 
quando tenha sido mesmo a um barracão de 
feira, ficará sendo, para todo o sempre, a me- 
lhor! 



/ de novembro 

O homem que, n'este momento, em Lisboa, 
recebe mais cartas, é perseguido por maior nu- 
mero de pretendentes e tem sob a alçada do 
seu capricho, da sua sympathia ou do seu mau 
humor as aspirações de maior numero de gen- 
te, é o snr. Pacini, emprezario do Real Theatro 
de S. Carlos. 

Mal s. ex.* desceu o estribo da carruagem 
do sud-expresSy em que regressava de Madrid, 
aonde fora assistir á récita de gala em honra do 
presidente Loubet, com sua chilreante irmã Re- 
gina a cantar a parte de Rosina no Barbeiro de 
Sevilha^ os criticos musicaes, os velhos frequen- 
tadores melomanos de S. Carlos, os amadores 
de choreographia, os reporters de dez jornaes 
assaltaram-o com perguntas. A todos, s. ex.*, 
com aquelle seu talento argucioso e aquelle tino 
experiente de quem conhece de perto e ha mui- 
tos annos os perigos da indiscreçãò, respondeu 
com cousa nenhuma e a todos satisfez com esse 
na.áa. que, fria e galantemente, entre sorrisos e 



CARTAS DE LISBOA 65 

apertos de mão, lhes offereceu, até fechar a por- 
tinhola do trem, que o conduzia a casa. 

Mas ahi, novos críticos de musica, novos 
cultores de bailarinas, novos frequentadores de 
S. Carlos, encanecidos em mil batalhas lyricas, 
novos jornalistas ávidos de noticias o espera- 
vam. 

E é a custo que o snr. Pacini, distribuindo 
sorrisos e apertos de mão, consegue fugir para 
o quarto de banho, com o segredo intacto do 
seu elenco sensacional, para lavar o corpo pre- 
cioso das poeiras importunas de Castella e das 
Beiras. Mas mesmo n'esse esconderijo inviolá- 
vel, emquanto mergulha consoladamente na tina» 
os mais impacientes o perseguem. E é através 
a porta, agora, que lhe chegam, quasi indistin- 
ctas pelo rumoroso pingar da agua da esponja, 
as perguntas anciosas: 

— O' Pacini, e que nos diz v. das bailari- * 
nas? 

Sem enfado, o emprezario responde, espre- 
guiçando-sè na agua morna: 

— Não digo nada. . . Verá depois, a seu 
tempo, na Aida, . . 

A voz volta, mais supplicante, quasi terna: 

— E quantas são? Ao menos diga quantas 
nos trouxe. . . 

Pousando o sabonete, o snr. Pacini declara 
com dignidade: 

— Impossível! Antes de entregar o çro- 



66 CARTAS DE LISBOA 

gramma a SS. MM., não posso dizer. . . É o 
costume; é a praxe. . . Você bem sabe. 

— Mas são bonitas, ao ipenos? São de fazer 
andar a cabeça á roda? 

Consolado, retomando o sabonete, o empre- 
zario arrisca uma phrase de espirito. 

— As cabeças d*ellas, com certeza, e os 
pés. . . Sobretudo os pés! 

E já outra voz, essa reprehensiva, o inter- 
pella pelo buraco da fechadura: 

— Pois você não trouxe o Bonci? Você 
commetteu o erro de não trazer o Bonci? 

D'esta vez, com ligeira impaciência, o 
snr. Pacini, mergulhando mais fundo na agua 
tépida, responde: 

— Com effeito, não trouxe o Bonci. 

E com que secreto gozo, feito de uma in- 
tima vaidade e de um vago orgulho, o empre- 
zario do Real Theatro de S. Carlos, ao embru- 
Ihar-se no confortável roupão de banho, se re- 
conhece o arbitro do prazer de dez mil pessoas, 
cujas noutes de exhibição de toilettesy de jóias, 
de hombros nus, estão na dependência soberana 
do seu capricho. Por um instante, o snr. Pacini 
procura visionar um inverno de Lisboa sem 
S. Carlos, com as suas noutes ermas, cheias de 
tédio e bocejos, as modistas arruinadas e Cupido 
inactivo, e invade-o a certeza de que o inverno 
de Lisboa só a elle deve a belleza mundana 
com que se enfeita. Não é elle, de dezembro a 



CARTAS DE LISBOA (ò^ 

março, quem faz a festa de Lisboa? Não é elle 
quem proporciona generosamente ás mulheres 
o ensejo de se mostrarem e aos homens a occa- 
sião de as verem? Não dormiriam todo o anno 
as jóias nos seus escrínios de setim e velludo, 
não passariam de moda os vestidos, se não se 
illuminasse annualmente S. Carlos para a re- 
vista de luxo das suas récitas? 

E já o snr. Pacini, n'esta altura das suas 
considerações, se encontra vestido com a ele- 
gância italiana que o distingue e se aventura a 
sahir do seu refugio e a aífrontar as mil exi- 
gências de Lisboa, que, até correr o panno de 
velludo carmezim do proscénio para o primeiro 
acto da Aida, o vão mortificar sem clemência 
e sem repouso. 

O elenco é, finalmente, dado a conhecer á 
imprensa e publicado depois de submettido á 
approvação de el-rei e da rainha. Mas a curio- 
sidade de Lisboa não se satisfaz com a leitura 
dos nomes de contraltos e sopranos desconhe- 
cidos. E outra vez os jornalistas se põem em 
campo, para apurar o mérito de cada cantora e 
poderem garantir aos assignantes a excellencia 
das suas vozes, a sua sciencia emérita na arte 
de vocalisar e gorgear, quer nos pizzicattos de 
Donizetti, quer nos recitativos de Wagner. 

O snr. Pacini recebe-os com a mais amável 
cortezia, ouve-os com a mais escrupulosa atten- 
ção. 



68 CARTAS DE LISBOA 

— Se cantam bem as prima-donas ? Como 
os anjos! E, senão, vejam. . . 

E, com um sorriso, diante da surpreza dos 
reporters, o illustre emprezario do Real Theatro 
de S. Carlos abre uma gaveta da secretária e 
exhibe os retratos de três formosíssimas mu- 
lheres. 

— Quando as cantoras são assim lindas, can- 
tam sempre bem ... em Portugal 1 

E a esta sagaz comprehensão das cousas, a 
esta proveitosa experiência dos homens, a este 
conhecimento nitido do meio, que o snr. Pa- 
cini deve, sobretudo, a sorte prospera da sua 
empreza. A sua suprema habilidade e o seu 
tacto inexcedivel crearam-lhe a omnipotência. 
Onde outros pereceram, elle triumpha. Onde 
outros encontraram insuperáveis obstáculos, elle 
caminha em estrada lisa. O destino distribuiu- 
Ihe a mais lucrativa e agradável das profissões. 
Cousa rara, a sua prosperidade é adquirida com 
o prazer alheio. Os seus maiores trabalhos con- 

« 

sistem em aturar mulheres bonitas e em atten- 
der assignantes . . . demasiado numerosos. Com 
alguns espectadores de menos, o snr. Pacini 
era um homem completamente feliz. 

Na longa dynastia de emprezarios de S. Car- 
los, illustrada pelo nome do conde de Far- 
robo, o snr. Pacini merece, sem contestação, o 
epitheto de Venturoso. Aqui lhe fazemos d'elle 
mercê em vida, depois de passarmos em revista. 



fr 



CARTAS DE IJSBOA 6o 

meticulosamente, os seus antecessores nume- 
rosos e de havermos procurado, em vão, outro 
que mais merecesse, na historia de S. Carlos, o 
mesmo titulo que a posteridade concedeu na 
historia de Portugal a D. Manoel. Não é por 
certo a memoria do dr. Joaquim José de Souza 
Baiana, emprezario em 1801, que poderá re- 
clamar contra a nossa concessão honorifica. A 
tradição apenas nos diz de s. s.* que foi homem 
de má fé e péssimos costumes e que resignou 
o ofiicio de emprezario, pouco menos do que 
fallido. Em 181 1, concedia o governo á empreza 
de S. Carlos duas loterias, consideradas indis- 
pensáveis para que o theatro podésse trabalhar 
cem obsequio dos officiaes e mais vassallos de 
S. M. britannica». D'onde se vê que no tempo 
de Beresford não era mais prospera do que fora 
no tempo de Pina Manique a situação do em- 
prezario, nem mais desafogada que no tempo 
de Junot, que tirava o cargo a Calvas para o 
' dar a Lodi, evitando assim que os cantores e 
bailarinos miseravelmente morressem de fome. 
A empreza de António Simão Mayer, apesar 
de amparada com subsidios, sossobrou. Os tem- 
pos revolucionários de 1820 não consentiam ás 
populações as galas pacificas do theatro lyrico. 
Em 1822, Mayer retirava-se, ficando a dever 
aos cantores. 

No anno seguinte, para sustentar a opera, o 
governo concedia ao emprezario o subsidio de 



^0 CARTAS DE LISBOA 

quatro corridas de touros, além dos outros ren- 
dimentos subsidiários I E era tão pouco lucrativo 
o officio de emprezario lyrico, em Lisboa, que 
das cinco propostfas entregues ao governo, em 
1823, a primeira, de Hilbrath, pedia, como 
subsidio, o privilegio exclusivo da importação 
dos azeites; a segunda, de Eugénio Del Negro, 
exigia a introducção annual de dous navios car- 
regados de fazenda; a terceira, de José Manoel 
Barão, reclamava o estabelecimento de jogos 
de bilhar e de banca nos salões de S. Carlos; a 
quarta, de Estevão Barbaris, propunha que lhe 
dessem, cumulativamente com a exploração do 
theatro, a livre importação de aguardente de 
França I O governo, sendo de parecer que taes 
concessões eram impraticáveis, adjudicava S. Car- 
los a António Marrare, de cuja prosperidade 
faz fé a reclamação do ministro da Sardenha, 
para que se habilitassem os cantores italia- 
nos com os meios necessários para regressarem 
ás suas terras! E como todos os emprezarios 
ly ricos falliam, o miguelistno lembrou-se de 
experimentar uma emprezaria : Margarida Bruni. 
Mas, em breve, a emprezariz^ é conduzida á 
fronteira com passaporte e a sorte continua 
adversa para a opera, até que o grande Farro- 
bo, ostentosamente, fidalgamente, n'um d'aquel- 
les impulsos magnânimos, que foram a determi- 
nante da sua ruina, toma conta do theatro e o 
eleva, de repente, no conceito da Europa, ao 



CARTAS DE LISBOA 71 



primeiro logar entre as scenas lyricas do mundo. 
N'essa aventura, o Médicis do constitucionalis- 
mo perdeu quinhentos mil cruzados. 

Por isso, também, na dynastia dos empre- 
zarios de S. Carlos, Farrobo merece o cognome 
de Magnifico, O de Venturoso fica ao snr. Pa- 
cini. E que elle conhece, como nenhum dos ou- 
tros, o seu negocio e os seus clientes: 

— Quando as cantoras são lindas, cantam 
sempre bem . . . em Portugal l 



2$ de novembro 

É ainda sob a impressão com que hontem 
sahimos do theatró D. Amélia, depois da audi- 
ção inolvidável da Filie Elisa, e de havermos 
visto, em quatro noutes successivas, Suzanne 
Desprès transfigurar-se na pobre Lazarctte das 
RemplaçanteSy na infeliz Jacqtieline do Detour, 
na amargurada Nora da Casa de Boneca, en- 
carnando três das mais dolorosas ficções do 
theatro contemporâneo, padecendo, por um mi- 
raculoso prodígio de convencimento, os angus- 
tiados transes das suas heroinas; é depois de 
havermos visto correr em scena os prantos de 
Elisa, de termos presenceado o empallidecer 
progressivo da face de Nora, que escrevemos a 
carta de hoje, menos para intervir nas aprecia- 



^2 CARTAS DE LISBOA 



ções que a critica do Porto não deixará de fa- 
zer á sublime comediante, do que para desaba- 
far um pouco da immensa e excessiva commo- 
ção com que os nossos nervos estão ainda vi- 
brando a estas horas. 

Tenho sobre a minha mesa de trabalho o 
retrato que Suzanne Desprès me deixou para 
maior recordação d'este intraduzivel deleite es- 
piritual, que foi para mim, como para todos 
quantos gosaram a felicidade de vel-a e ouvil-a, 
a sua ephemera presença no palco do D. Amélia. 

N'esta physionomia serena, cujo reflexo uma 
lente de objectiva archivou n'uma placa sensi- 
vel, o génio da inspirada mal transparece na 
intelligencia meiga do olhar e na sensibilidade 
compassiva da bôcca. O rosto de Suzanne Des- 
près não tem, como o da Duse, linhas domi- 
nantes e theatraes. Não é uma mascara de tra- 
gedia. E um simples rosto de mulher. Bonita? 
Nem mesmo bonita para quem possa analysal-o, 
desembaraçado da seducção poderosa da sym- 
pathia. Os olhos são pequenos, as arcadas su- 
perciliares afastadas, a bôcca grande, o mento 
redondo, de busto romano, como um distinctivo 
nobre de raça. O modelado da face é de uma 
grande pureza. Apenas a fadiga dos trabalhos 
intellectuaes assombreia a fronte d' esta melin- 
drosa mulher, e os excessos de sensibilidade 
dispendida na nocturna tarefa do tablado lhe 
escavam e emaciam a face. Mas nem por isso, 



'ff?n. 



CARTAS DE LISBOA 73 



esse nobilíssimo rosto, precocemente fatigado, 
deixa de ser juvenil. Pôde não ter viço de co- 
res, mas illumina-o uma radiosa mocidade de 
coração. O pescoço, de harmoniosas linhas, que 
liga a um corpo débil essa cabeça inspirada, é 
formosissimo. Suzanne Desprès sabe-o e exhi- 
be-o. E a sua única vaidade feminil. D'esses 
hombros sem macula desce um corpo de ado- 
lescente, quasi insexual, enxuto de formas, de 
uma elegância melindrosa de impúbere, virgineo 
e casto, como cumpria que fosse o d'essa musa 
da dor e da piedade humanas. Esse corpo del- 
gado e virginal espiritualisa-a. É esta a mulher. 
Vejamos agora a actriz. 

Sahindo do Conservatório com o primeiro 
premio de tragedia e de comedia, Suzanne Des- 
près foi admittida na Comédie Française, onde 
appareceu na Fedora, Mas depressa a debu- 
tante comprehendeu que o palco da casa de 
Molière era o que menos convinha ás revela- 
ções do seu talento. No repertório da Comedie 
não encontrava senão excellente litteratura e 
Suzanne Desprès anciava por dizer mais do que 
phrases lindas com uma linda voz. A discípula 
do Conservatório presentia que era outra a sua 
missão. Educada dentro das formulas litterarias 
do naturalismo, eram as creações de um thea- 
tro, a esse tempo ainda balbuciante, que tenta- 
vam o seu espirito impressionavel, tão excepcio- 
nalmente servido pela mais sensivel e nervosa 



74 CARTAS DE LISBOA 

compleição de artista, que desde a aurora do 
romantismo despontava na scena franceza. 

Suzanne Desprès era, com effeito, a privile- 
giada actriz, que o destino reservara para pro- 
tagonista e heroina do theatro novo. Consa- 
grada pela admiração de Zola, ella foi a musa » 
acclamada do naturalismo. Durante quasi dez 
annos, deu vida, generosamente, a uma multidão 
de figuras sinistramente dolorosas e compôz 
uma surprehendente galeria do soffrimento hu- 
mano, nobilitando com o seu génio recemnascido 
obras na maioria indignas do seu mérito. Foi 
na eschola fecunda das lagrimas, dos desesperos 
e das angustias, trazendo para o palco, face a 
face de auditórios scepticos de jouisseurs e de 
elegantes, de mundanas e de frivolas, a tradu- 
cção fiel e commovida da desventura, fazendo 
surgir no palco, como espectros, as victimas dos 
preconceitos e das injustiças sociaes, que o 
génio de Suzanne Desprès abriu as suas radian- 
tes azas de prodígio. Interprete de um theatro 
eminentemente doutrinário, ella fez-se evange- 
lista e apostola de uma religião .de piedade 
social. De cada vez que entrava em scena, era 
menos para representar do que para missionar. 
A actriz ameaçava ser absorvida pela mora- 
lista. 

Essas figuras lamentáveis de mulheres, vi- 
ctimadas pelo egoismo e ferocidade dos homens 
e das convenções, que a sublime comediante ia 



b'.- 



CARTAS DE LISBOA 75 



encarnando, passaram a ser, ante o seu espirito, 
não simples ficções artísticas, mas realidades 
que delegavam na eloquência da sua voz enter- 
necedora uma missão de defeza. A tarefa de 
Suzanne Desprès passou então a ser a de apie- 
dar corações. Nunca em alma de mulher se 
desencadearam tão formidáveis luctas de sen- 
timento. Nunca uma voz de mulher vibrou em 
mais lancinantes accordes. A actriz foi desco- 
brindo, pouco a pouco, todas as inflexões do 
desespero. A sua voz subiu toda a escala chro- 
matica do soffrimento 1 

Foi n'esta altura da sua carreira gloriosa, 
que Suzanne Desprès comprehendeu os perigos 
que a ameaçavam, reduzida, pelos excessos 
doutrinários do naturalismo, a uma vulgarisa- 
dora eloquente, mas sem individualidade pró- 
pria, de um néo-socialismo litterario. E a artista 
emancipou-se. 

Ha três annos, quando pela primeira vez a 
vimos em Lisboa, ao lado de Antoine, Suzanne 
Desprès era ainda a mulher de génio escravi- 
sada a uma eschola e preoccupada com a mis- 
são moralista que lhe haviam distribuído. Por 
isso a nossa surpreza foi tamanha como a nossa 
emoção ao rever, transfigurada, a amiga dilecta 
da Duse e ao verificar que Suzanne Desprès é 
ainda um espirito evolutindo para uma surpre- 
hendente obra-prima, para a mais espantosa in- 
terprete dos sentimentos liumanos que porven- 



*]6 CARTAS DE LISBOA 

tura haja existido no theatro e que a actual 
geração consagrará amanhã como um prodígio I 
Na Duse, todos vimos um génio no seu 
apogeu. Quanto mais impressionante não é ver 
em Suzanne Desprès um génio em evolução 
progressiva, na sua maravilhosa ascensão para 
a gloriai 



^ dt àextmhro 

Entre as récitas de Suzanne Desprès e as 
de Feraudy, o leilão do síir. conselheiro João 
Arroyo está sendo o mais memorável dos acon- 
tecimentos da semana. Concorrido por alguns 
negociantes aliem âes, inglezes, francezes e hol- 
landezes, que olharam para as pinturas com sa- 
gaz desconfiança e se limitaram a licitar mode- 
radamente n'algumas tapeçarias, porcellanas e 
charões, esta célebre venda está dando margem 
para reflectidos e opportunos commentarids so- 
bre a bric-à-brac-xxi^iVíXd, portugueza. 

Ninguém mais do que quem estas cartas es- 
creve encareceu as nobres inclinações artisticas 
e o apurado bom gosto do homem eminente, 
que reuniu n'um casarão tristonho da rua de 
Santo António dos Capuchos tantos primores 
de arte. Por isso mesmo nos encontramos sin- 
gularmente á vontade para dizer, sem restri- 



CARTAS DE LISBOA TJ 



t cções — e sem pretenções — tudo quanto nos 
suggeriu o espectáculo, que desde domingo es- 

' tamos presenceando nas salas da antiga morada 
do snr. conselheiro João Arroyo. 

Muito do que vamos dizer, podia ter sido 
dito ha mais tempo. Um natural escrúpulo nos 
impediu, porém, de confiar á publicidade modos 
de ver pessoaes, a que faltavam garantias e do- 
cumentação de manifesta veracidade. As apre- 
ciações sobre arte retrospectiva, sobretudo no 
que diz respeito á classificação nominal de au- 
ctores, épocas e esçholas, são por sua natu- 
reza arbitrarias. A authenticidade é, quasi sem- 
pre, uma hypothese. Os peritos os mais com- 
petentes enganam-se a miúdo. Verdadeiros con- 
cilios de entendidos teem proferido sentenças 
iníquas na avaliação de obras de arte. Faltan- 
do-nos a competência para impor juizos teme- 
rários, cumpria-nos o refugio sensato do silencio, 
emquanto, pelo menos, as nossas revelações 
ameaçassem lesar interesses alheios, dignos de 
acatamento e respeito. 

Accrescia ainda que, conhecendo muito im- 
perfeitamente as celebradas collecções, reunidas 
pelo snr. conselheiro João Arroyo no adorno de 
sua casa, as nossas impressões teriam que refe- 
rir-se ao conjuncto, pela impossibilidade de des- 
cerem a descriptivos detalhados. 

A casa da rua de Santo António dos Capu- 
chos estava magnificamente decorada. Mais não 



'íj 



78 CARTAS DE LISBOA 

nos era consentido dizer, sem incorrecção. Em- 
quanto o martello do leiloeiro não resoasse nas 
suas salas, abertas ao publico, era n'uma casa 
particular que entravamos, por obsequiosa de- 
ferência do seu dono. Mas desde domingo que 
essa casa se converteu n'um estabelecimento, 
invadida por todos aquelles a quem o desejo 
de uma acquisição ou a simples curiosidade fa- 
ziam tomar o caminho da rua de Santo António 
e subir a escadaria do taciturno palácio. 

Os escrúpulos não teem mais razão de exis- 
tir. O meu desejo em explicar-me sobre as la- 
cunas dos meus anteriores artigos não pôde 
surprehender ninguém, tanto mais que, na lição 
eloquente d' esta venda célebre, preciso de ir 
buscar a justificação abundante de juizos ante- 
riormente expendidos. 

Fui publicamente accusado de haver attri- 
buido um valor medíocre á producção artistica 
nacional, fora dos domínios religiosos, e de 
haver peremptoriamente declarado que, á exce- 
pção de algumas jóias, tapeçarias e quadros 
gothicos — assim erroneamente chamadas as 
pinturas de Vizeu, de Évora e da Misericórdia 
do Porto, que todas se relacionam com a Re- 
nascença flamenga, — nada ou quasi nada pos- 
suíamos digno de satisfazer as grandes cobiças 
dos coUeccionadores estrangeiros. Essa é entre- 
tanto a verdade indiscutível, que fica de pé pela 
falta de poderosos argumentos que a derrubem. 



CARTAS DE LISBOA 79 

A não ser a mobília Império, mandada 
executar em Lisboa para D. Pedro IV, e cujos 
bronzes são evidentemente de procedência fran- 
ceza ou ingleza, no leilão do snr. João Arroyo 
não se pôz em praça um único objecto de arte, 
de valor, fabricado em Portugal! Foram a 
arte franceza, hollandeza, hespanhola, italiana, 
allemã, flamenga e oriental que contribuíram 
na sua totalidade para tornar valioso aquelle 
conjuncto de collecções. 

Debalde, em mais de dez annos de pacientes 
buscas, no largo decurso de laboriosas acquisi- 
ções, o snr. conselheiro João Arroyo se esforçou 
por juntar aos abundantes documentos artísticos 
de outros povos, um irrefragavel testemunho 
da nossa inspiração e engenho artisticos. Não 
encontrou nadai O mesmo acontecera já a 
outros colleccionadores de renome. A excepção 
do palácio do Calhariz, onde a família Palmella 
guarda a obra máxima de Domingos de Sequeira 
e o vS*. Miguel do Grão Vasco, por toda a parte, 
inclusive no Museu Nacional de Bellas-Artes, a 
nossa representação artística é, comparada á de 
outros povos, inferiorissima. 

Pelo que respeita ao grande valor attribuido 
ao nosso património sumptuário, sem designa- 
ção de procedência, as nossas affirmações não 
são menos sustentáveis. Vieram a Lisboa alguns 
dez negociantes de antiguidades, chamados pelo 
annuncio do actual leilão. Nenhum d'elles se 



8o CARTAS DE LISBOA 

dignou olhar sequer para os quadros, que figu- 
ravam no catalogo como attribuidos ajordaens, 
a Teniers, a Van der Meulen, a Lucas de 
Leyde, a Guido Reni, a Troyon, a Salvator 
Rosal Será porque esses nomes não figuram 
prestigiosamente na historia da pintura? Não; 
porque todos elles são culminantes. Um Teniers 
authentico vale em Pariz 100:000 francos. Como 
se vende, pois, em Lisboa, um Teniers assignado 
por 8908000 réis? Uma Batalha de Van der 
Meulen vale na HoUanda algumas dezenas de 
milhares de florins. Como se vende, pois, em 
Lisboa, ao snr. Oscar Rlanck, um Van der 
Meulen por i3i$500 réis? Um mau Jacob 
Jordaens vale na Bélgica dezenas de milhares 
de francos. Como adquire o snr. Oscar Blanck 
um excellente Jordaens por 2ii$ooo réis, ou 
sejam pouco mais de mil francos? Porque ex- 
traordinário phenomeno a obra do contempo- 
râneo de Rubens e de Van Dyck, do discípulo 
de Van Noort, do pintor vigoroso e sensual do 
Festivi dos Reis e da Infância de Jupiter^ se 
encontra assim de repente desvalorisada ridicu- 
lamente e se vende por um preço que o meu 
amigo snr. Torquato Pinheiro rejeitaria por um 
quadro de dimensões inferiores? 

Se escolhi as três telas de Van der Meulen, 
de Teniers e de Jordaens para estas considera- 
ções, é que, ao contrario do que acontece com 
muitas outras, o catalogo do leilão é perem- 



CARTAS DE LISBOA » I 

ptorio em attribuir aos três grandes pintores do 
século XVII a paternidade, mais do que duvi- 
dosa, d'estas obras. Certo é que eu não tenho 
provas materiaes em contrario, como n'este 
caso seriam as declarações dos verdadeiros au- 
ctores d'essas pinturas. Mas não é menos certo 
que só por conjecturas, e essas mesmo dema- 
siado phantasiosas e optimistas, se procedeu, 
com um empyrismo exaggerado, á classificação 
de umas telas, sem duvida alguma apreciáveis, 
mas para as quaes, a despeito dos nomes patro- 
nímicos, o expert estrangeiro não se dignou 
olhar com attenção. Convidamos os actuaes 
possuidores d'esses thesouros a fazel-os authen- 
ticar nos muzeus da Haya e de Bruxellas, tanto 
mais que lhes fazemos a justiça de pensar que 
nenhum d'elles se considera rei de uma terra 
de cegos nem tão favorecido da fortuna que as 
obras de Teniers e de Jordaens lhes caiham do 
céu aos trambulhões, ao annuncio prophetico 
da voz do snr. Libório. 

Propositadamente, quando, com alguns me- 
zes de antecedência, aqui mesmo noticiamos, 
primeiro do que ninguém, a venda das colle- 
cções do snr. conselheiro João Arroyo, não 
incluímos os quadros na pequena enumeração 
dos objectos, que prevíamos seriam disputados 
pelos antiquários estrangeiros. 

Mas não vá alguém suppôr, a esta altura 
das nossas considerações, que o adorno artístico 

6 



S2 CARTAS DE LISBOA 

do palácio era constituído de objectos des- 
valiosos, sem authenticidade e sem belleza, 
deshonestamente encarecidos pelo reclamo. Fi- 
que dito de uma vez para sempre que o snr. 
conselheiro João Arroyo reuniu nas suas salas 
alguns dos melhores objectos de arte, em mobi- 
liário, louças, crystaes, tapeçarias e pinturas, 
que um homem de apuradissimo gosto e opu- 
lenta fortuna pôde adquirir actualmente em 
Portugal, depois da destruição de Lisboa pelo 
terremoto, das razzias dos francezes e das mil 
viagens de exploração methodica, que ha cin- 
coenta annos vêem fazendo pelo paiz os anti- 
quários allemães, belgas, hollandezes e inglezes. 
E d'esse facto resulta a eloquência da lição, 
que está sendo para os amadores portuguezes 
de bric-à-brac, esta celebrada venda. 

Exceptuando a magnifica tapeçaria flamen- 
ga, O trítunpho de Scipíào, vendida simulada- 
mente aos snrs. Leal, dizia-se que para o francez 
Cambon, por 5:9808000 réis; o pequeno e nada 
notável tapete persa, arrematado por i:500$ooo 
reis pelo allemâo Bruck, que igualmente comprou 
por 3488000 réis a armação em velludo ver- 
melho de Génova com galão de prata do quarto 
de cama Luiz Xlll; algumas poucas gravuras 
adquiridas pelo negociante Ahrends; dous ou 
três moveis Império e Luiz XVI, meia dúzia de 
peças de porcellanas antigas e um relógio de 
charão, comprados pelos negociantes Hamburger» 



CARTAS DE LISBOA 83 



Spoolmann, Hascan e Geiken, a quasi totalidade 
dos objectos ficou em Portugal. Quer isto 
signifiar explicitamente que a grandíssima maio- 

• 

ria d' esses objectos se encontrava fora da es- 
phera das grandes cobiças dos generosos col- 
leccionadores americanos e europeus e foi 
julgada pelos" antiquários estrangeiros de ava- 
liação superior ao seu verdadeiro valor com- 
inercial. D'onde se conclue que se estão pagando 
no paiz, por preço muito superior ao que lhes 
é attribuido no mercado artistico de Pariz, 
Londres, Antuérpia, Amsterdam, Hamburgo e 
New- York, objectos de arte, por este modo 
ficticiamente valorisados . entre nós. E isto as- 
sumpto para reflexão, por parte d'aquelles — e 
são ainda muitos — que immoderadamente se 
entregam á paixão ruinosa do bríc-à-brac, 

— Mais ils sont fousl exclamavam^ ao ter- 
minar o leilão de domingo, os cxperts estran- 
geiros, depois de haverem presenceado a venda 
da salinha Luiz XVI e de parte da sala Pclc- 
Mêlc. E é positivo que elles tinham razão! Ha- 
bituados a comprar em Portugal jóias, tapeça- 
rias, esmaltes, miniaturas, pratas e louças, os 
dous Hamburger assistiam attonitos ao duello 
ostentoso, que se feria entre uma dúzia de ho- 
mens, para a acquisição de objectos, diante dos 
quaes a sua cupidez permanecia insensivel. Qual 
o critério que preside a esse torneio, que dura 
ha .uma semana? Quasi exclusivamente o do 



84 CARTAS DE LISBOA 

capricho e o da ignorância. A este leilão se 
podia chamar uma feira de vaidades. Ao mesmo 
tempo que se via dar 3108000 réis por um 
vulgar contador hispano-arabe, que em Hespa- 
nha se adquire sem regatear por 100 duros, as 
duas lindissimas commodas semi-circulares, em 
marqueterie italiana, da época Luiz XVI, manti- 
nham o preço porque haviam sido adquiridas 
pelo snr. conselheiro João Arroyo ao snr. Al- 
fredo Guimarães: 100 libras. Quando os espelhos 
da sala Luiz XVI eram em média vendidos a 
8o$ooo réis, o esplendido lustre de vidro de 
Murano, comprado no leilão de Fernando Palha 
por 290S000 réis e dispendiosamente mandado 
restaurar a Veneza pelo snr. João Arroyo, era arre- 
matado por 400$ooo réis pelo snr. José Relvas. 

E de reparar que os melhores números do 
catalogo figuraram já em catálogos de leilões 
anteriores, como os de Fernando Palha e Zea 
Bermudes, mantendo, sem oscillação apreciá- 
vel, a licitação primitiva. Esses objectos adqui- 
riram, pois, como que um valoc intrinseco, pu- 
blicamente sanccionado, ao passo que os restan- 
tes, abstrahindo a porcellana da índia, do Japão 
e da China, cuja valorisação puramente conven- 
cional e exaggeradamente absurda persiste em 
Portugal ha muitos annos, não attingiram ainda 
a estabilidade de preço necessária ás transacções 
do mercado artistico. 

D'onde, em resumo, concluímos: 






CARTAS DE LISBOA 85 

I — Que O nosso património artístico é hoje, 
comparado ao de outros povos, de insignificante 
valor. 

II — Que a valorisação do objecto de arte» 
no paiz, não obedece, na sua maioria, a nenhum 
critério racional. 

Ill — Que não nos é consentido sahir da 
. reserva a mais modesta no que diz respeito á 
nossa producção artística, em todos os ramos 
das artes sumptuárias. 



8 de de:(embro 

É ainda no theatro, que encontramos os 
acontecimentos da semana, quando os procure- 
mos fora dos dominios agitados da politica. 
A vida mundana de Lisboa, tão injustamente 
denominada «grande sociedade», não princi- 
piou ainda. A matinée de hontem, na legação 
dos Bstados-Unidos, é nos fastos mundanos da 
capital um facto isolado, que os respeitadores 
do protocoUo não deixarão de classificar como 
uma precipitação. Os bem . informados segre- 
dam anticipadamente annuncios de bailes e de 
espectáculos de amadores. Mas será necessário 
arrancar ainda muita folha ao calendário, antes 
que os trintanarios saltem das boleias para abrir 
as portinholas dos trens de luxo, em frente aos 
vestibulos das poucas casas onde se dansará 



86 CARTAS DE LISBOA 



este inverno. N'este tão lindo verão de S. Mar- 
tinho, de sol e céu tão primaveris e de noutes 
tão suaves, em quanto el-rei caça nas tapadas 
senhoriaes de França, entre flocos de neve, o 
principe regente joga o tennis na pelouse das 
Necessidades com o snr. Pinto Bastos, e, nas 
carruagens, as senhoras abrem os guarda-sóes 
a caminho do Campo Grande. 

Durante o dia, a lisboeta vive na rua, es- 
panejando os vestidos novos em estylo Impé- 
rio e Luiz XVI, garrindo os chapéus modelos de 
trinta mil réis, as estolas de pelle de raposa e 
de lontra, guarnecidas a rendas grossas de Ir- 
landa. Já as ultimas retardatárias chegaram pelo 
sud-express de Paris e pelo tramway de Cas- 
caes. Durante cinco mezes, a Lisboa que se di- 
verte vai dissipar em mil frivolidades elegantes 
o coração e a fortuna, no seu delirio annual de 
exhibicionismo. Vêr e ser vista é, na apparencia, 
a única preoccupaçâo d'esta sociedade, ou an- 
tes, d'esta classe, sem limites definidos, que, dia 
a dia, se avoluma com novos adeptos e que, 
sem a consciência do seu delicto, cada vez mais 
desmoralisa as outras classes desfavorecidas e 
já contagiadas pela sua impaciente febre de 
gozo e de vaidade. 

Em contraste com o Porto, que conserva a 
physionomia de uma cidade onde se trabalha, 
Lisboa accentua progressivamente a physiono- 
mia de uma cidade onde se goza. Gozar: eis a 



f 



CARTAS DE LISBOA ^'J 



aspiração unanime d'este formigueiro humano, 
que enxameia as ruas até ao accender do gaz e 
assalta as bilheteiras dos theatros, mal acaba de 
jantar. Ganhar para gastar; gastar para gozar. 
N'esta febril anciedade se fundem todas as ener- 
gias e se desmoralisam todas as virtudes. E, 
como para viver com o minimo do trabalho se 
torna indispensável obter o máximo do salário, 
a vida de Lisboa ameaça tornar-se, em breve, á 
falta de correctivos imperiosos, n*uma anarchia 
económica, cujo exemplo funesto irradiará len- 
tamente pelo paiz. 

Lesadas pela concorrência das grandes lojas, 
que diminuem os preços, parallelamente ao au- 
gmento das vendas, os pequenos estabelecimen- 
tos vão buscar, inversamente, á exorbitante 
elevação dos preços a compensação da pro- 
gressiva decadência do seu negocio. Explorado 
n'estas condições anormaes, o pequeno commer- 
cio, de tradições tão laboriosas e honestas, vai 
tnodificando radicalmente o seu antigo caracter 
e adquirindo hábitos de bandolismo repugnante. 
Por toda a parte, á honradez tradicional se 
substitue a mais desenfreada cupidez de lucros. 
Industrias ha, como a da marcenaria, que quasi 
succumbiram sob a acção deletéria d*este regi- 
men. De uma parte, as exigências absurdas do 
operário, desmoralisado pelo exemplo dos pa- 
trões; de outra parte, a insaciável cupidez expo- 
liadora dos vendedores reduziram a fabricação do 



88 CARTAS DE LISBOA 

movei, com raras excepções, a um commercio 
subsidiário da marcenaria portuense. Pode afSr- 
mar-se que mais de 50 ^^^ do mobiliário vendido 
actualmente em Lisboa se fabrica no Porto. O 
commerciante, em vésperas de fallir, encontrou, 
inesperadamente, um processo fácil de enrique- 
cer. O Porto já assim trabalha para a prosperi- 
dade de Lisboa. Para que o operário lisboeta 
ganhe uma féria farta, vá aos touros, vá ao 
circo, vá ao theatro do Rato, o operário por- 
tuense levanta-se de madrugada e trabalha, 
como um forçado, todo o dia na officina. 

De tempos a tempos, o proletariado lisboeta 
declara-se em crise de trabalho, e logo o Es- 
tado, solicitamente, o admitte nas obras publi- 
cas : espécie de villegiatura paga á custa do paiz 
e de que o seguinte facto authentico dá a mais 
eloquente definição: 

A um homem, que occupa na politica uma 
situação preponderante, foram recommendados 
da provincia, por um amigo, cinco operários 
habilissimos, que se viam a braços com uma 
verdadeira crise de trabalho, que os forçava a 
emigrar, diante da ameaça da fome. E, logo, 
apiedado, o politico se põe em campo para lhes 
angariar trabalho. A occasião era má. Havia, 
por toda a parte, superabundância de pessoal, 
recrutado, sem utilidade e sem critério, ao ser- 
viço do Estado. Provisoriamente, os cinco ope- 
rários são admittidos nas obras a que se estava. 



ri»- • 



CARTAS DE LISBOA 89 

n*esse momento, procedendo n'um edifício pu- 
blico. € Trabalho para dous mezes, quando 
muito», declarara ao politico, protector dos 
cinco famintos, o director das obras publicas. 
Depois se lhes procuraria occupação de mais 
estabilidade . . . 

Mas os dous mezes passam, sem que os 
operários voltem a importunar o protector, e 
outros dous mezes decorrem, sem que elles 
appareçam. Surprehendido, o politico indaga do 
destino dos immigrantes, e um d'elles, chamado 
á sua presença, explica que os operários do Es- 
tado haviam decidido prolongar as obras até ao 
fim do anno! 

— Mas, se ellas deviam, quando muito, du- 
rar dous mezes ! 

— Ohl meu senhor, na minha terra, com 
menos gente, faziam-se em quinze dias ! Os ope- 
rários é que resolveram demora-ras mais seis 
mezes. . . 

Indignado, o politico interpella então, n'estes 
termos, o protegido: 

— Quer dizer: vocês estão agora a roubar; 
não estão já a trabalhai*. 

E o operário balbucia : 

— Tivemos que fazer como os outros, para 
não sermos despedidos. . . 

De onde se vê que querer trabalhar principia 
a ser uma péssima recommendação para quem 
não pretenda . . . morrer de fome em Lisboa I 



90 CARTAS DE LISBOA 



A desproporção entre o valor racional do 
trabalho e o salário vem ainda aggravar a 
carestia absurda da vida, dando pretexto a que 
em todos os ramos da actividade se estabeleça 
a lucta encarniçada e traidora entre o consu- 
midor e o productor. O que compra é a victima 
do que vende. 

A expoliação começa a ser o regimen quasi 
normalisado de uma existência, governada pelo 
arbítrio e pela aspiração preponderante do gozo, 
onde ninguém pensa no dia seguinte, onde os 
que em vida tiveram trem não deixam, ao mor- 
rer, dinheiro para o caixão! 

Mas pregar moral em Lisboa é tão incon- 
veniente como chorar n'uma boda. Lisboa 
occulta as suas misérias, sob as mais risonhas e 
apparatosas apparencias. Todos, com sobre- 
humanos esforços, se empenham em emprestar- 
Ihe o aspecto de uma cidade de recreio. 

Para não comprometter a esthetica das suas 
ruas, as mulheres mais pobres usam chapéu; 
para animar os seus espectáculos, as familias 
em mais precárias circumstancias vão ao theatro. 
Tudo quanto vive á custa do seu gozo e da sua 
vaidade prospera. E, para alimentar a sua cres- 
cente sede de prazer, todos os dias desembarcam 
dos vapores mais bichos amestrados e mais 
gymnastas para o circo; todos os dias descem 
dos estribos dos comboios notabilidades estran- 
geiras. É hoje um pianista prodígio, amanhã 



CARTAS DE LISBOA 9I 

um macaco de génio, depois um rabequista 
surprehendente, uma orchestra maravilhosa, uma 
cançonetista ou bailarina obscena. 

O pão é caro? E certo. Mas a vida é alegre. 

Póde-se morrer de fome em Lisboa. Nin- 
guém aqui morre de aborrecimento. 



24 de de:(emhro 

Abriu S. Carlos. Tem, finalmente, esta des- 
associativa Lisboa do século XX onde passar as . 
noutes, onde exhibir as suas toitettes e fazer res- 
plandecer as suas jóias. 

A prosperidade de S. Carlos só começou 
quando a vida de sociedade e de corte per- 
deu o seu caracter eminentemente mundano e 
exclusivista. Foi necessário que se apagassem 
os lustres dos salões de baile, que desertasse o 
ultimo frequentador das salas, onde ainda se 
cultivava a arte requintada da conversa, para 
que S. Carlos se enchesse com todos os trans- 
fugas dos serões aristocráticos, politicos e litte- 
rarios de Lisboa e para que os proprietários 
seculares dos camarotes da opera os occupas- 
sem com regularidade. Assim, a prosperidade 
de S. Carlos não é mais do que a consequência 
da decadência da sociabilidade entre as altas 
classes. S. Carlos substitue o salão. S. Carlos é 



\ 



92 CARTAS DE LISBOA 

a democratisação da grande festa mundana de 
outros tempos, que retinha em suas casas, fa- 
zendo as honras das suas salas, as mais nobres 
e espirituosas senhoras da aristocracia portu- 
gueza. 

Ha trinta annos podiam reproduzir-se quasi 
todos os brazões heráldicos da sala dos Veados 
no tecto dos camarotes e das frizas de S. Car- 
los. 

O theatro lyrico era como que uma regalia 
e apanágio da nobreza; o logradouro de uma 
casta. Na penumbra dourada da grande sala, 
illuminada a velas até 1849, namorava-se, con- 
versava-se, conspirava-se e ás vezes se ouvia 
musica. Combatiam-se grandes batalhas na pia- 
teia pela saia de tarlatana de uma bailarina ou 
pelo trinado de uma contralto. Organisavam-se 
temerosas intrigas politicas nos camarotes, atraz 
dos leques de rendas francezas e pergaminho 
pintado. la-se a S. Carlos depois de um jantar 
diplomático, depois de uma sessão parlamentar 
tumultuosa, depois de um clandestino conselho 
de ministros ou antes do baile do conde de Far- 
robo, das marquezas de Vianna ou Penafiel. Em 
S. Carlos estava-se em familia, sem deixar de 
se estar em grande ténue, O marquez de Niza 
escolhia S. Carlos para estrear as suas sensa- 
cionaes casacas do Pool. Garrett perdia uma 
hora ao espelho antes de ordenar ao segeiro: — 
Para a operai Cada frisa ou camarote, como 



1^ 



CARTAS DE LISBOA 93 

cada igreja, tinha alli os seus fieis. Faziam-se 
convites para tomar neve ou chá n'um entre- 
acto da Nonna ou da Semiramis ou do Orpheu, 
Os emprezarios falliam com aquella pesada 
honra de receber no seu theatro a nata da 
grandeza de Portugal, mas, em compensação, 
S. Carlos dava paginas para a historia, e ir 
ouvir a Rossi-Cassia equivalia a um baptismo 
mundano. 

Hoje, S. Carlos não é mais o baptistério pri- 
vilegiado da moda, nem o campo de exhibição 
e de parada de uma classe ciumenta e exclusi- 
vista. Seria hoje difficil ao melhor informado 
dos mundanos dizer com exactidão os nomes 
das lindas mulheres, que occupam, n'uma récita 
de assignatura, os camarotes da i.* ordem. 
S. Carlos deixou de pertencer a uma casta. 

A especulação democratisou-o. Tendo resis- 
tido, durante um século, á democracia nivela- 
dora do liberalismo, só agora principiou a ser, 
na rigorosa accepção do termo, um espectáculo 
publico. Mas a verdade é que perdeu em inte- 
resse o que ganhou em brilho. Já se começa a 
ir a S. Carlos para ouvir musica. Se a bel- 
leza das mulheres que o frequentam declinasse, 
S. Carlos não tardaria em perder o pouco que 
ainda lhe resta do seu caracter tradicional de 
rendez-vous nocturno da elegância. 

Construído na ultima década do século XVlll, 
quando Lisboa, herdando e mantendo as trádi- 



94 CARTAS DE LISBOA 



ções de uma cultura mundana inexcedivel, tinha 
pelo theatro e pela musica uma idolatria parti- 
lhada pelos reis, S. Carlos foi no seu inicio, 
como a Opera Italiana de Pariz, uma academia 
musical frequentada pela nobreza. A esse tempo, 
a orchestra da rainha rivalisava, em músicos e 
cantores, com a orchestra do Papa. Gliick dedi- 
cava uma opera ao duque de Lafões. A familia 
real fazia-se retratar no tecto da sala das au- 
diências do paço de Queluz, acompanhando ao 
cravo o maestro Marcos Portugal. Ardera com 
o paço da Ribeira o theatro de opera que 
D. João V fizera construir para recreio da corte 
e viveiro de cómicas e bailarinas italianas. 

Mas por pouco tempo S. Carlos serviu ao 
gozo delicado dos fidalgos. Poucas vezes, na 
penumbra dos seus camarotes, assomaram as 
damas ornamentaes do reinado de D. Maria l, 
com os seus altos toucados empoados, á Maria 
Antonietta e á princeza de Lamballe. Na es- 
quadra, que se fazia de vela para o Brazil, em- 
barcaram as primeiras figuras da corte. Todas 
as perucas e todos os toucados palacianos des- 
appareceram diante da invasão napoleonica. 
Desamparado pelo seu auditório de talon roíigCy 
S. Carlos passou a servir as megalomanias de 
Junot. De academia de musica desceu a alfobre 
de amores. A orchestra acompanhava mais pi- 
ruetas de dansarinas que cavatinas de prima- 
donnas. Nos camarotes, evacuados pelas damas 



CARTAS DE LISBOA 95 



apparatosas do antigo regimen, surgiram os 
rostos maliciosos e alegres das sécias, vestidas 
á Directório, com a cinturinha debaixo do seio, 
o cabello frizado á Tito e á Creoula, a quem os 
officiaes francezes faziam a corte com as liber- 
dades aprendidas nas galerias do Luxemburgo 
e nos corredores das Tulheiras. Mas, por sua 
vez, Junot partiu. 

Beresford fez a sua apparição na tribuna. 
Ao governador francez succedia o governador 
inglez. A revolução começava a agitar ainda 
em silencio as suas ondas. S. Carlos viu-se 
transformado n*um simulacro de par^auiento. 
A sua sala, ainda que vigiada pelo corregedor 
do bairro, conservava as immunidades propicias 
aos jacobinos: Entre um bailado e uma sym- 
phonia, os pedreiros-livres conspiravam. Em 
S. Carlos estava-se a salvo da espionagem da 
Intendência. A presença das mulheres protegia 
a impunidade dos revolucionários. S. Carlos es- 
tava no segredo da revolução de 181 7. Gomes 
Freire, como todos os conspiradores de alto 
cothurno, frequentava a opera assiduamente. 
E assim succedeu que S. Carlos, considerado 
por Pina Manique como um excellente deriva- 
tivo para as paixões politicas, se ia transfor- 
mando no mais perigoso dos chtbs^ d'onde irra- 
diavam o santo e a senha das revoltas. As lu- 
ctas entre cantores, iniciadas pela discórdia céle- 
bre entre a Catalani e o sopranista Crescentini, 



96 CARTAS DE LISBOA 

succederam as luctas entre partidos. As mani- 
festações politicas substituiram as pateadas. Os 
janotas do liberalismo ainda se batiam pelas can- 
tarinas. O amor não desertara de S. Carlos. 
Cupido ainda lá ia desferir as suas flechas aos 
peitos dos estróinas românticos. Mas a politica 
assentara definitivamente arraiaes no templo da 
Musica e da Dansa. Durante todo o século XIX, 
S. Carlos foi um dos grandes palcos da nossa 
historia politica. No seu camarote real cuchilou 
D. João VI, padeceu D. Pedro IV a affronta que 
lhe accelerou a morte, foram acclamadas a rainha 
D. Carlota Joaquina pelos realistas e a rainha 
D. Maria II pelos liberaes. Na sua tribuna ma- 
gnifica sentaram-se os soberanos de quasi toda 
a Europa. E para que nada falte á sua tradição 
S. Carlos deu uma esposa a um rei. A narrativa 
de todos os successos que a elle se prendem 
constituiria o mais precioso commentario á vida 
social portugueza dos últimos cem annos. Tudo 
quanto Portugal produziu de eminente na poli- 
tica, nas artes, na litteratura e no mundanismo 
passou pelo labyrintho dos seus corredores. 
Quantos corações de fidalga alli palpitaram nos 
decotes dos vestidos I Quanta intriga alli se atou 
e desatou, no transcurso lento de cinco gera- 
ções ! 

De tudo isso S. Carlos vive. Esse esplendor 
de um passado liga-se ao brilho das suas gri- 
naldas e arabescos de ouro. S. Carlos é uma 



^' 



CARTAS DE LISBOA 97 

sala de espectáculos histórica. Quem pela pri- 
meira vez lá entra sente-se dominado pela sua 
fama lendária. No seu âmbito vibraram as vo- 
zes das mais célebres cantoras, desde a Pietra- 
lia á Boccabadati, desde a Rossi-Cassia á Barili, 
desde a Stoltz á Alboni, desde a Castellan — a 
quem a snr.* duqueza de Palmella ofiferecia um 
baile na noute do seu beneficio ! — até á Te- 
desco — a quem fizeram versos Mendes Leal e 
Castilho I E quantas outras, a Bernardi, a Fer- 
ruci, a Borghi-Mamo, a Volpini, a Patti, a Sem- 
brick, que na sonora sala desfiaram ps seus tri- 
nados de rouxinoesl 

Alli, d'aquella plateia agora commedida, 
elevaram-se as pateadas e as ovações dos lottis- 
tas, dos albonistaSy dos pasquistas, com man- 
dadas por António da Cunha Sotto-Maior, pelo 
marquez de Nisa, pelo Fidié, pelo António 
Palha, pelo conde de Vimioso, por José Vaz de 
Carvalho ! Quantas paixões romanescas, quantas 
loucuras, quantos golpes de Estado, quantas 
venturas e desventuras se teceram e atearam 
naquella sala, ao som de operas de Marcos 
Portugal, de Gliick, de Rossini, de Bellini, de 
Manoel Innocencio dos Santos, de Mozart e de 
Verdi! A moda e o luxo de todo um século 
exhibiram-se nas cinco ordens dos seus cama- 
rotes, desde as anquinhas da princeza D. Maria 
Francisca Benedicta, até aos balões enfeitados 
de grinaldas de rosas da marqueza de Vianna. 

7 



98 CARTAS DE LISBOA 

No seu palco, onde agora evolucionam as fúne- 
bres casacas pretas e o pallido espirito da 
jeunesse et vieillesse dorée de 1905, o estado- 
maior de Junot cortejou bailarinas, Bocage 
compôz a sua ode á Gafforini, Garrett disse 
phrases de espirito, o corregedor Semblano 
disse phrases grotescas, o intendente Pina Mani- 
que disse phrases rispidas. Os netos pisam alli 
as mesmas tábuas, puidas pelos escarpins de 
milhares de dansarinas, que os seus bisavós 
pisaram atraz da saia de tarlatana da Pontirolli 
e da Velluti. S. Carlos é assim um verdadeiro 
pantheon amoroso, a que cada grande familia 
de Portugal tem ligada a memoria de uma 
paixão. Campo de parada do janotismo de cem 
annos, por onde passaram desde os calções de 
seda dos peraltas até ás colleantes calças côr 
de alecrim do romantismo, a sala de S. Carlos 
viu alinhada na sua plateia toda a flor do Por- 
tugal contemporâneo. D*essa tradição secular 
deriva o seu prestigio. O snr. Jorge de Mello 
presidia ao espectáculo de segunda-feira, como 
governador civil, no mesmo camarote em que 
assomava, ha cento e dez annos, a cabelleira 
empoada e os bofes de renda de Pina Manique, 
para ouvir cantar a Sofonisba ou // trionfo di 
Crecia, No camarote, que é hoje da snr.* duqueza 
de Palmella, recostava-se em 1808 a condessa 
da Ega, vestida á grega, piscando os olhos ao 
duque de Abrantes. Todas essas sombras habi- 



CARTAS DE LISBOA 99 

tam ainda a sala. Mas sente-se, ao recorda-ras, 
que alguma cousa passou e que não volta mais. 
Hoje ha mais gente, os scenarios são mais bri- 
lhantes, a orchestra é mais numerosa, a em- 
preza é mais prospera. Mas S. Carlos é apenas 
a expressão de uma pequena vaidade e a 
dissimulação de um grande tédio. O S. Car- 
los do marquez de Nisa é hoje o S. Carlos 
do snr. dr. Garrido . . . 



I de janeiro de 1^06 



Vénus triumpha nas duas scenas mais mun- 
danas de Lisboa: em S. Carlos com o Tan- 
nhãuser] no D. Amélia com a phantasia espe- 
ctaculosa de Blumenthal. Quarta-íeira, como o 
snr. Pacini resolvesse dar descanço aos seus 
cantores, ás suas bailarinas, aos seus coristas e 
aos seus músicos, todo o numeroso publico, 
que assistira na véspera á audição da magica 
do grande maestro allemão, transferiu-se para o 
theatro da rua do Thesouro Velho, a assistir á 
magica do espirituoso poeta germânico. Porque 
são ambas allemãs de origem, as Vénus que a 
estas horas chamam aos dous elegantes theatros 
toda a Lisboa que se diverte e que se exhibe. 
E ambas téem da magica a fabulação maravi- 



s^;^'^^'^^ 



lOO CARTAS DE LISBOA 

Ihosa, os scenarios surprehendentes; as peripé- 
cias sobrenaturaes. A lenda d*esse poeta liber- 
tino do século XIII, que passa um anno nos 
braços de Vénus, fruindo todas as divinas deli- 
cias do amor pagão, e que, como o ingrato 
Ulysses na ilha da deusa Calypso, se fatiga de 
tanto amor e tanta perfeição, voltando aos 
amores trabalhosos da terra, e morre, repu- 
diando Vénus e as suas voluptuosidades, junto 
do esquife de um anjo, que outra cousa é senão 
uma magica, na mais rigorosa accepção da pala- 
vra? N'essa, apologia calorosa do espiritualismo, 
Wagner empregou ainda, como sempre, as sce- 
nographias phantasticas, os luxos excessivos, 
que são o único quadro, digno, pelas suas gran- 
diosidade e belleza, dos seus poemas e das suas 
partituras sublimes. 

Como o snr. visconde de S. Luiz Braga 
viesse annunciando, desde as caniculas, essa es- 
plendorosa Vénus, que está fazendo a fortuna 
do seu theatro, não quiz o snr. Pacini que a 
mesma deusa prestigiosa do amor e da formo- 
sura passasse em S. Carlos por entre scenogra- 
phias desbotadas, coros desafinados e o sussurro 
dos assignantes. É, pois, ainda ao emprezario 
do D. Amélia que devemos — quem sabe! — o 
inexcedivel encanto espiritual de ouvir pela pri- 
meira vez em S. Carlos, regida por um grande 
jiiaestrOy cantada por um grande barytono e um 
grande tenor, a partitura do Tannkãuser. Toda- 



CARTAS DE LISBOA lOl 

via, apesar dos cavallos — o snr. Pacini tem 
feito entrar cavallos em todas as operas d'este 
anno, — das matilhas de galgos, das reluzentes 
couraças dos guerreiros e dos maillots cor de 
carne dos pagens, a opera estonteante de Wa- 
gner está na mise-enscène de S. Carlos como 
uma tempestade n'um céu de algodão em rama 
ou a ambrósia dos deuses n'uma pucara de 
barro. A musica sem cessar nos arrebata a ima- 
ginação para os dominios fabulosos das divin- 
dades, onde Vénus, reclinada na sua concha de 
nácar e coroada de rosas, entre a sua corte de 
nymphas e bacchantes, adormece nos braços o 
bardo da velha AUemanha das lendas e em- 
briaga e sacia a sua alma voluptuosa e ardente 
com todos os prazeres ineffaveis do amor. De- 
balde, entre o esplendor da luz eléctrica, os 
nossos olhos procuram na snr.^ Lucaceska as 
feições harmoniosas da infiel esposa de Vulcano 
e complacente amiga dos mortaes. E á medida 
que a partitura maravilhosa, n'um crescendo de 
inspiração genial, vai agglomerando em evoca- 
doras torrentes de harmonia, no nosso espirito 
enlevado, a visão de scenas fabulosas, com o 
torneio dos bardos, os regressos de peregrinos 
e o enterro lyrico de Isabel, a realidade vai-se 
afastando cada vez mais do sonho tão prodi- 
giosamente evocado, — e só fica de pé, envolta 
no seu manto de brocado vermelho, com a mão 
na lyra e os olhos em êxtases, a figura de Wol- 



102 CARTAS DE LISBOA 

fram, tão nobremente encarnada no barytono 
Renaud. 

A magestade do porte, a esbelta e viril ele- 
gância do torso, a belleza serena das attitudes, 
a sobriedade clássica do gesto, a espiritual ex- 
pressão da physionomia, a opulência rigorosa 
do trajo, o sentimento e a ternura da voz, tudo 
n'esse homem de sessenta annos, que é, a estas 
horas, o barytono Renaud, concorre, se liga e 
harmonisa, pelos favores da natureza e pelo 
poder do talento, para fazer d'elle o Wolfram 
ideal da grandiosa opera wagneriana. Se fosse 
possível conseguir que todas as restantes figu- 
ras, desde a mais modesta, assim correspondes- 
sem, no desempenho da obra sublime, ao sonho 
que ella evoca, e que no palco se erguesse com 
nitidez a visão do Olympo resoante de coros e 
povoado de nymphas, do valle de Wortburg, 
rumoroso de arvoredo^ centenários, da vasta 
sala do castello feudal do príncipe Herman onde 
se realisa o torneio dos cantores, e por ultimo, 
na azulada penumbra da noute, onde scintilla e 
arde o fogo vivo de Vénus, o acompanhamento 
do féretro de Isabel, entre o clamor das mulhe- 
res, o pranto dos poetas, as labaredas das to- 
chas funerárias, o resoar das lanças dos solda- 
dos, o tropear dos cavallos dos magnates e o 
estridor das trompas dos arautos! Mas, ai de 
nós! a realidade ha-de ser sempre a sombra 
esvahida da miragem, o reflexo pallido e imper- 



■ » 



CARTAS DE LISBOA IO3 

ceptivel do sonho, como affirma, no prologo 
sentencioso da magica de Blumenthal, o pobre 
narrador de lendas, ao contar aos homens scepti- 
cos, creados e alimentados pela sciencia, o nas- 
cimento de Vénus, na praia d'aquella mesma 
embalsamada ilha de Chypre, onde um sábio se 
vangloria de ser o descendente do macaco. 

Entre a Vénus victoriosa da magica e a 
Vénus repudiada da opera, ha, sem duvida, o in- 
sondável abysmo, que separa dous ideaes con- 
tradictorios e inimigos. Tannhãuser, despren- 
dendo-se dps braços de Vénus e descendo á 
terra, attrahido pelo idealismo de que tem sau- 
dades a sua alma de poeta e que em vão a 
deusa tenta fazer-lhe esquecer nas realidades 
ineffaveis da sua belleza, proclama a victoria do 
amor espiritual sobre os amores sensuaes, e 
n'um transparente symbolo, cuja magestosa 
grandeza as mais celestes harmonias interpretam, 
põe frente a frente, n'um sublime prélio, a alma 
da antiguidade pagã e a alma do mundo mo- ' 
derno, redimido pelo espiritualismo christão. 
Mas Blumenthal não pretendeu fazer, como 
Wagner, uma obra de trascendente philosophia. 
Apenas uma satyra risonha. Essa Allemanha 
do Tannhãuser idealista, já se não desprende 
dos braços de Vénus para se refugiar no sonho 
e na fé. Esquecendo o amor, perdeu também a 
redemptora crença no ideal. E a Allemanha do 
materialismo, a Allemanha das universidades e 



I04 CARTAS DE LISBOA 




dos laboratórios, desdenhosa de toda a especu- 
lação metaphysica, que o poeta satyrisa com 
as benevolentes ironias dos^ homens de espi- 
rito. r i 

Toda a mulher allemã correu ao theatro para 
vêr e applaudir a obríNdo poeta, que, em pleno 
reinado do positivismo^ndej^ava ao amor e 
á belleza o seu fervoíUJiii, ç^^mo de louvor. Vão 
longe, como se vê, os tempos do Tannháuser. 
Ha, entretanto, entre estas duas obras, uma tão 

t 

sublimemente grande,^ outra tão risonhamente 
espirituosa, um ponLÍTTle cqfltacto. Ambas se 
elevam das baixas realidades' da terra e se per- 
dem nas regiões d^tfambr antes dos sonhc)s. 
Ambas, n'este temp^de analyses e de expe- 
riências, se resolvemMm devaneios. 

Ainda que superficial na apparencia, a ma- 
gica agora em scensMo theatrç D. Amélia rcr 
flecte o unanime moimento de reacção operado 
nas litteraturas e i^s ideias contemporâneas 
contra o abuso da realidade. De ha muito que 
a humanidade soffria Í!com impaciência o jugo 
demasiado pesado do Qositivismo. Começou-se 
a comprehender qu^^JpretencioSa a convicção 
de haver a sciencia afugentado o mysterio 
diante da sua luz. Constatou-se que para lá da 
realidade tangivel, fora do alcance da observa- 
ção scientifica, se alastrava um dominio im- 
menso: o do inexpUcado e do desconhecido. 
Por toda a parte se principiaram a ouvir os 



CARTAS DE LISBOA 105 

queixumes dos sonhadores e a litteratura come- 
çou de novo a viver mais de ideal que de scien- 
cia! 



j de janeiro 

.«* - 
Pela primeira vez, que eu saiba, a palavra 

Mafnâ apparece, com foros litterarios, em 
Frr.liça, seu paiz de origem, n'uma das come- 
dias de Molière. O baptismo litterario, adminis- 
trou-lh*o o auctor das Preciosas Ridículas , que 
a encontrou nas alcovas das elegantes, do seu 
tempo, forrageada entre o abundante vocabu- 
lário com que a mulher de Pariz julgou con- 
correr para a gloria do reinado de Luiz XIV e 
pa»*a o brilho da lingua franceza. 

A palavra devia parecer ridícula aos con- 
temporâneos de Racine, de Corneille e de Bos- 
suet, e Molière com certeza a empregou n'um 
sentido satyrico. Mas o tempo, que tudo modi- 
fica, nobilitou o vocábulo piegas. O século XVIII, 
com o seu culto da natureza e da pseudo sim- 
plicidade nos costumes, consagrou esse balbucio 
infantil e sem demora J. J. Rousseau o vulgari- 
sou, creando, por analogia, a palavra Papá. 

Nos últimos annos do reinado de Luiz XVI, 
durante toda a Revolução, durante todo o 
Directório e durante todo o Império, os filhos 



106 CARTAS DE LISBOA 

chamaram aos pães mamã e papa, Á crueldade 
sanguinária dos corações correspondia o mais 
dulcoroso piéguismo na linguagem. A guilho- 
tina trágica deu o incroyable cómico. As esposas 
dos generaes heróicos ciciavam. O rei de Roma 
chamou a Napoleão papá. Um sentimento de 
ternura apagara e substituirá o sentido risivel 
da palavra. Só nos lares rudes dos pobres, os 
filhos chamavam ainda aois seus progenitores 
pai e mãe.. A litteratura romântica sanccionava 
a moda decretada pelo philosopho Rousseau. 
Pai e mãe eram palavras mal soantes, banidas 
de entre as classes dirigentes, exiladas para a 
giria degradante dos miseráveis. Se Molière 
resuscitasse, a custo abafaria as gargalhadas, 
ao ouvir em bocas de homens esses restos do 
balbucio da infância, com que as preciosas do 
seu tempo tinham ridiculamente composto uma 
palavra. 

E, por tal forma se propagou a moda, como 
distinctivo de boa educação e de sensibilidade 
aífectiva, que a nobreza, reagindo contra a sua 
demasiada vulgarisaçâo, foi aos poucos abando- 
nando o papá e a mamã á burguezia e resuscitou 
para uso dos seus filhos o velho vocábulo latino, 
com os seus três mil annos de existência. 

Não é fácil saber porque maneira se intro- 
duziu na linguagem portugueza, no fim do sé- 
culo xvill, com foros de palavra, esse duossyl- 
labo infantil. Desde Adão e Eva que as creanças, 



CARTAS DE LISBOA IO/ 

nos seus primeiros exercicios de vocalisação, por 
ventura balbuciariam pá, . . pá e ma, . . ma. 
Mas nunca, no transcurso millenario dos sécu- 
los, durante os períodos bárbaros em que o 
homem ensaiava a primeira palavra, até aos glo- 
riosos períodos em que completou e lapidou a 
linguagem, eternisando-a em monumentos escri- 
ptos, do berço ou do regaço das mães, de entre 
os vagidos das creanças, sahira para o léxico 
dos grammaticos similhante vocábulo. Nunca, 
em sete séculos que já contava quasi a nossa 
língua, purificada pelos eruditos labores do clas- 
sissismo, o berço collaborára na formação da 
nobre linguagem portugueza, filha lidima da la- 
tinidade. 

De padre e madre, que, no tempo de D. Di- 
niz, se chamavam os progenitores de toda a 
creatura, passaram a chamar-se pai e mãe, no 
tempo de Camões e de Bernardes. E necessário 
que o francezismo do nosso século XVIII nos 
ponha em contacto com as costureiras e os en- 
cyclopedistas de Pariz, para que Moraes, o ve- 
nerável e escrupuloso Moraes, registre no seu 
diccionario a palavra papai, E agora, em pre- 
sença d'esta variante, nos quedamos perplexos, 
na duvida de que o novo vocábulo nos tenha 
chegado simultaneamente de França, por via de 
Rousseau, e do Brazil, por via das negras da 
Mina! Para quem conhece a tendência do preto 
para a formação onomatopaica de palavras e 



I08 CARTAS DE LISBOA 

OS seus processos rudimentares de expressão, 
não repugnará acreditar que as escravas do 
Brazil, embalando os filhos dos senhores, não 
hajam aprendido com elles, nà linguagem sem 
significação dos seus vagidos, ao presencear os 
seus primeiros esforços para repetir as palavras 
J>ai e mãe, esse mesmo vocábulo, que já um sé- 
culo antes Molière satyrisára. E assim se expli- 
caria a addição de uma vogal á exótica palavra, 
tão festivamente recebida como uma novidade 
pelas sécias e pelos peraltas do tempo de D. Ma- 
ria I. 

Ou pelas seges de França ou pelas naus do 
Brazil ella nos chegou subrepticiamente, ás oc- 
cultas de Bluteau, e de toda a Academia, quan- 
do Pina Manique andava atarefado em corri- 
gir os impudores escandalosos do vestuário e 
em vigiar os costumes das cantarinas e bailadei- 
ras de S. Carlos. 

Chegou e acclimou-se. Tinha a maior re- 
commendação para pegar: era uma tolice. Por 
conseguinte, pegou, desenvolveu-se, nacionali- 
sou-se. As primeiras gerações românticas do li- 
beralismo crearam-se com essa. novidade. Du- 
rante todo o século XIX, os papás e as mamãs 
viveram, succederam-se, multiplicaram-se. Para 
uma tolice, é já tempo demasiado. Parece che- 
gada a occasião de regressarmos ao uso das 
nobres e bellas palavras, que herdamos dos an- 
tepassados e que durante séculos a mãe portu- 



CARTAS DE LISBOA IO9 






gueza ensinou no berço a seus filhos. Antes de 
existirem papás e mamãs já se inventara o amor 
filial. A boca delicada e fresca das creanças 
não deixou nunca de balbuciar as mais ternas 
caricias, antes mesmo que lhe ensinassem a arti- 
cular a palavra ridicula de Molière. Milhões de 
mulheres ouviram embevecidas a doce e respei- 
tosa palavra de mãe, antes que as sécias do rei- 
nado de D. Maria I a substituíssem pelo fran- 
cezismo de mamã. 

Não deixarão os cherubins de ser innocen- 
tes por exprimirem em portuguez o seu primeiro 
affecto. Ao ouvir os pobres mjos papaguear 
mamãy quasi se acredita que tenham vindo, com 
effeito, de Pariz. E a verdade é que Pariz não 
tem positivamente a especialidade dos anjos. 
Que as mulheres de lá mandem vir os vestidos 
e os chapéus, comprehende-se ; mas que Pariz 
continue a ser para a innocencia o paraizo ter- 
restre, todo rumoroso de um perenne rufiar, de 
azas brancas, d'onde vêem os anjos acondicio- 
nados entre arminhos, é uma fabula cuja con- 
servação a Babylonia moderna não merece. 

Como já foi a nobreza a primeira das clas- 
ses, entre nós, a renunciar ao leite mercenário 
das amas e a dar o grande e benemérito exem- 
plo á mãe burgueza da creação dos seus filhos, 
é ella também, agora, quem se está empenhando 
na cruzada contra o papá e a mamã. Assim o 
seu exemplo fructifique e que não tarde para a 



I IO CARTAS DE LISBOA 

creança portugueza a restituição das formosas e 
graves palavras — pai e mãe — de que as priva- 
ram, ha já um século, as mães frívolas d'essa 
triste geração, que assistiu, de braços cruzados, 
á entrada de Junot em Lisboa e á partida de 
D. João VI para o Brazil . . . 



15 de janeiro 

Como quer que haja actualmente em todas 
as grandes cidades da Europa um theatro de 
opera, frequentado por uma elite favorecida pelo 
nascimento ou pela fortuna, que generosamente 
paga os seus prazeres, a tarefa de um empreza- 
rio lyrico, n'um theatro com as tradições de 
S. Carlos, n*um meio relativamente pobre como 
Lisboa, não é das menos escabrosas e difficeis. 
Lisboa não consente que a arruinem e não to- 
lera que a desconsiderem. S. Carlos é um dos 
seus preconceitos seculares e um dos seus di- 
vertimentos predilectos. Alli, os cantores téem 
de cantar invariavelmente bem e os logares de 
custar invariavelmente barato. Tudo o que im- 
porte o desprestigio de S. Carlos é um melindre 
á vaidade da capital. Para conciliar a economia 
dos assignantes com a exigência dos dilettantt 
é indispensável, da parte do emprezario, uma 
subtil astúcia. 



CARTAS DE LISBOA I I I 

Depois de ter pago dez tostões por utnfau- 
teii, que na Grande Opera de Pariz custa vinte 
€ cinco francos, o frequentador de S. Carlos 
fica de atalaia ás tradições orgulhosas de um 
theatro lyrico, cujo âmbito sonoro já vibrou 
com os garganteios da Patti e que, ainda ulti- 
mamente, ouviu a voz melodiosa de Caruso. Por 
í^zz tostões, o lisboeta exige que seja mantida 
a honra do seu theatro e nas suas nobilíssimas 
abobodas resoem apenas as mais afinadas har- 
monias. 

Depois de jantar á pressa, de vestir a ca- 
saca, de dar o nó na gravata e de calçar as 
Juvas brancas, o assignante não ouve sem pro- 
testo uma desafinação. Na exigência é um mil- 
lionario, na retribuição é um avarento. 

O snr. Pacini tem de lisonjear-lhe os praze- 
res e de lhe respeitar a bolsa. Mas as grandes 
cantoras são canários que só se alimentam de 
ouro e cantam de preferencia nas gaiolas onde 
ha maior fartura. D'ahi, as difficuldades do em- 
prezario em chama-Fas ao seu poleiro. De Pariz, 
de Londres, de New- York, de S. Petersburgo, 
de Vienna, de Berlim, de Bruxellas, de Buenos- 
Ayres, de Madrid reclamam o melhor tenor, o 
melhor barytono, o melhor baixo, o melhor 
contralto, o melhor soprano dramático, o me- 
lhor soprano ligeiro. 

O snr. Pacini tem assim a luctar com a con- 
corrência dos que pagam melhor. N'esse leilão 



1 1 2 CARTAS DE LISBOA 

periódico de notabilidades lyricas forçoso lhe é 
arrematar apenas elencos modestos. 

Mas o assignante, de longe, segue-lhe os 
passos, vigia as escripturas e se no cartaz 
só apparecem vozes desclassificadas, desencan- 
deiam-se logo contra elle as cóleras dos mante- 
nedores do prestigio de S. Carlos. O que faz o 
snr. Pacini, tendo de navegar entre Scylla e 
Carybedes, sem attentar contra a bolsa parci- 
moniosa do assignante e contra a hierarchia do 
seu theatro? 

O snr. Pacini descobriu dous processos, qual- 
quer d'elles o mais engenhoso, de venerar a dis- 
pendiosa tradição de S. Carlos com a mais 
estricta economia. O primeiro consiste na escri- 
ptura de celebridades em decadência. Quando o 
grande Menotti ou o grande Maurice Renaud 
dispõem apenas de algumas notas melodiosas, 
o emprezario de S. Carlos convida-os a illustra- 
rem o seu elenco com o nome prestigioso. E, 
inversamente, o snr. Pacini, que tem amigos nos 
Conservatórios de Itália, escriptura com as no- 
tabilidades aphonas os principiantes de voz ma- 
gnifica. Não é raro ver passar por S. Carlos um 
tenorito anonymo, que d*ahi a três annos os 
emprezarios do mundo inteiro disputam a peso 
de ouro. E sabido que o tenorito não reappare- 
cerá em S. Carlos senão com a gloria augmen- 
tada e a voz diminuida. Mas como todos os dias 
apparecem barytonos célebres na decadência e 



CARTAS DE LISBOA 1 1 3 



principiantes de garantido futuro, o snr. Pacini 
— que remédio! — lança mão de um outro expe- 
diente: o luxo da mise-en-scène, A medida que 
os elencos peoram, melhoram as scenographias. 
Se os ouvidos padecem, os olhos rejubilam. 

Este anno, o emprezario de S. Carlos ensaiou 
ao mesmo tempo os dous processos e colheu de 
imprevisto o seu publico com esplendores de 
scenario e guarda-roupa. Deslumbrou-o; ator- 
doou-o. Para compensar o delicto de haver feito 
transitar, do Colyseu dos Recreios para S. Carlos, 
a snr.* Lucaceska, o snr. Pacini mostrou ao lado 
d'ella, no Tannhãuser, o tenor Vignas, e na 
Damnação de Fausto o barytono Renaud. O es- 
tropear dos cavallos no palco cobriu as desafi- 
nações dos coros e a novidade dos maillots fez 
esquecer a velhice das bailarinas. 

E assim iam decorrendo as récitas, sem que 
o assignahte murmurasse e sem que o empre- 
zario se arruinasse, quando na terça- feira o 
snr. Pacini apparece no palco, pela mão do 
maestro Manei nel li, no final do segundo acto da 
opera de Berlioz, para assistir ao triumpho 
da sua malicia. Outro emprezario teria, com 
antecipação, annunciado ao seu publico o ma- 
ravilhoso espectáculo que lhe preparava. O 
snr. Pacini calou-se, esperou com discreção e 
sem impaciência que chegasse a hora propicia 
dos applausos, vestiu a sua casaca e, depois de 
jantar bem — o snr. Pacini é um epicurista que 

8 



I , 



114 CARTAS DE LISBOA 

zela OS créditos da sua cosinha com o mesmo 
escrúpulo com que zela os créditos do seu thea- 
tro — entrou em S. Carlos, pela porta do palco, 
como César nas Gallias, para «vêr e vencer». 

O anno corre propicio ás magicas. Cada vez 
mais o espectador reclama no theatro a transfi- 
guração das realidades pela phantasia. A huma- 
nidade parece viver cada dia com mais tristeza 
a sua vida. Uma civilisacão inimiga do devaneio 
não podia senão originar um homem saudoso 
da poesia. A necessidade unanime de desabafar 
um pouco da immensa nostalgia da belleza, de 
que estão soffrendo as gerações, explica, entre 
nós, o êxito da Vénus ^ em D. Amélia, e o en- 
thusiasmo da récita de terça-feira em S. Carlos. 
Porque não foi propriamente a partitura sublime 
de Berlioz, que o publico applaudiu na primeira 
audição da maravilhosa opera. O que o domi- 
nou foi a exaltadora suggestão da irrealidade, 
pelo concerto de scenarios magnificos, de muta- 
ções phantasticas e de episódios maravilhosos. 
A musica apenas concorreu de uma maneira 
inconsciente, para não dizer secundaria, na exal- 
tação do publico. 

O que elle mais applaudiu foi, depois da 
marcha húngara, a dança dos Sylphos. Quando, 
no scenario florido dos jardins da margem do 
Elbe, por entre as projecções multicores da luz 
eléctrica, as bailarinas, vestidas de fluctuantes 
túnicas de gaze, que tão depressa eram cor de 



CARTAS DE LISBOA 1 1 5 

violeta como cor de purpura, principiaram des- 
cendo do urdimento, em. lentos voos de libellu- 
las, abrindo como azas de phalenas os mantos 
transparentes, um sussurro percorreu a sala, 
desde as torrinhas á plateia. 

Para as almas simples, aquelle prodigio 
scenico antecipava a visão do paraizo, com os 
serafins voando no ether, revolteando no espaço, 
como scintillantes insectos, de elictros lumino- 
sos. As bocas abriam-se de instinctivo pasmo. 
As senhoras debruçavam-se nos camarotes. Os 
juvenis príncipes da Baviera applaudiam. E sem- 
pre, em redor de Fausto adormecido, por entre 
as altas ramarias floridas das arvores, voavam 
as sylphides, em espiraes harmoniosas, com a 
leveza aérea de phantasmas, abrindo as túnicas 
cor de lilaz, cor de esmeralda, cor de rosa e de 
turqueza. 

A sala ergueu-se então n'uma' acclamação 
unisona; Mancinelli teve de fazer executar de 
novo o bailado dos Sylphos; e chamado ao 
palco, o snr. Pacini assistiu ao triumpho do seu 
processo. Com alguns scenarios alugados em 
Itália, com uma cantora que já fora ouvida por 
cinco tostões no Colyseu, com um tenor medíocre, 
com um barytono sem voz, elle conseguia pro- 
pagar o enthusiasmo entre os seus assignantes. 

Mas com que surprehendente talento, com 
que superior intelligencia, com que erudita 
philosophia esse barytono sem voz, traduziu, 



1 1 6 CARTAS DE LISBOA 

para um publico, na sua maioria litterariamente 
inculto, incapaz de o comprehender, a cynica 
tristeza e o taciturno orgulho do Mephistopheles 
do poema de Goethe I Devia ter sido assim que 
o orgulhoso Berlioz o entreviu, nas paginas 
sublimes da súa partitura, com o passo clau- 
dicante, as unhas aduncas, arrastando o seu 
manto preto, cofiando a sua barbicha ruiva, 
calvo e magro, sarcástico e melancólico, me- 
ditativo e sonhador, tão differente dos Mephis- 
topheles italianos, de gorra vermelha e sorriso 
galanteador, que enxameiam a scena lyrica^ 
cantando as operas de Boito e de Gounod. 
Ao vêl-o surgir no gabinete de Fausto, com 
o seu esgar desdenhoso e a gravidade som- 
bria de um philosopho, cuidamos ver mate- 
rialisar-se a Incredulidade moderna, mixto de 
melancolia e de arrogância, que a sciencia e a 
civilisação crearam nos paroxismos de uma fé 
moribunda, quando o Homem, pensando haver 
penetrado os segredos da Natureza, julgou a 
Divindade um mytho inútil. 

Teriam as lindas mulheres, vestidas em Pariz 
e scintillantes de jóias, que adornavam na noute 
de terça-feira, os camarotes de S. Carlos, reconhe- 
cido esse diabo cynico e desdenhoso, que tanto 
vive na sua intimidade, que é o conviva de to- 
das as suas festas, a testemunha de todos os seus 
desfallecimentos, o inspirador de todas as suas 
vaidades, o parceiro de todas as suas traições ? 



CARTAS DE LISBOA 1 1 7 



14 de janeiro 

Quanto seria surprehendente, pensava hon- 
tem — ao sahir do Instituto de Orthopedia e 
Mechanoterapia, que acaba de installar com um 
sumptuoso luxo de apparelhos, n*um primeiro 
andar da Avenida, o dr. Francisco Pinto de 
Miranda — deslocar a acção do Fausto para os 
primeiros dias do século XX I O velho sábio, 
encanecido nas laboriosas pesquizas da pedra 
philosophal, enclausurado no seu laboratório de 
alchimista, avivando durante longos annos o 
fogo dos cadinhos, attento durante longos mezes 
ás mysteriosas reacções dos liquidos nas retor- 
tas, tentando decifrar nos hierogliphos dos ma- 
gos o segredo das transmutações dos metaes e 
do elixir da mocidade, seria hoje um biólogo 
experimental, um chimico eminente, sócio de 
Academias, na posse de uma sciencia vastís- 
sima, accumulada no decurso de longos séculos, 
desde Archimedes a Curie, e no conhecimento 
de todos os systemas philosophicos coordenados 
pelo génio humano, dispondo do poder quasi 
miraculoso de liquifazer o ar, dé reduzir a areia 
á ebulição, de ver através os corpos opacos, de 
transmittir palavras de continente a continente, 
de fazer ouvir a sua voz nos antipodas, de 
medir rigorosamente as distancias dos astros. 



1 1 8 CARTAS DE LISBOA 

de prever os phenomenos celestes, de descer 
aos abysmos dos oceanos, de se dirigir nos es- 
paços aéreos e de navegar por entre os cumulus 
das nuvens. Não adornariam o seu gabinete a 
planispherio, os pelicanos e mochos empalha- 
dos, os esqueletos articulados e as legendas ca- 
balisticas do seu antepassado do século XVI, 
mas os mais engenhosos instrumentos de me- 
chanica, os fornos eléctricos, os apparelhos sen- 
sibilissimos de óptica, as pavorosas collecções 
culturaes de bactérias: todos os flagellos huma- 
nos em pequenos tubos de vidro frágil, todas 
as forças da natureza em pequenos machinismos 
transportáveis. 

E como seria grandiosamente pathetico a 
acordar do novo Fausto, pelo madrugar de uma 
noute de vigília no laboratório, para renunciar 
aos gloriosos prodigios da sciencia, n'uma anciã 
de juventude e de amori 

Só a Margarida, no poema do século XX, 
permaneceria a mesma do poema de Goethe, 
com as suas louras tranças e a sua innata malí- 
cia de mulher: a mesma do Géneses, que na 
Paraizo escutou a serpente e tentou o primeiro 
homem; a mesma que, ao presentir as cóleras 
do Creador, se vestiu de folhas de figueira e 
hoje se veste de sedas e rendas nos ateliers de 
Paquin. Mas, aparte ella, que de mudanças e 
transformações nas personagens 1 T^ephistopheles 
seria agora um d'esses médicos idealistas, da 



CARTAS DE LISBOA II9 



imponente estatura de MetchnikofF, o sub-dire- 
ctor do Instituto Pasteur, que perseguem, dentro 
da sciencia, a descoberta d*esse mesmo elixir 
da longevidade, que povoava as imaginações 
dos alchimistas medievaes. Que fabuloso poema 
não seria esse novo Fausto da época do radio, 
dos raios X, do telegrapho sem fios, dos phono- 
graphos, dos balões dirigiveis, dos automóveis, 
dos submarinos, da microbiologia, da electrici- 
dade e do hypnotismo! 

E não é porque este medico juvenil e mo- 
derno, natural do Porto, formado em Coimbra 
e chegado de Pariz com o seu arsenal compli- 
cado de apparelhos mechanicos, tenha com o 
Mephistopheles do drama do grande poeta alle- 
mão outra similhança mais da que deriva da 
sua sciencia quasi diabólica de fazer de um 
Quasímodo um Apollo, que eu me deixei arras- 
tar a estas divagações sobre o poema de 
Goethe, mas porque, ao entrar na pequena sa- 
linha, forrada de resposteiros de velludo verme- 
lho, onde já esperavam algumas senhoras, e 
emquanto se fallava um pouco d'esse confuso 
nadãy de que sempre faliam senhoras, eu men- 
talmente me transportava ao consultório de um 
d*aquelles famosos empyricos de ha dous sé- 
culos, contemporâneos do auctor do Portugal 
MedicOy que Camillo immortalisou no romance, 
mixto de tragedia e de satyra, que é O Olho 
de Vidro, e me entregava á risonha tarefa de 



I20 CARTAS DE LISBOA 



comparar a débil sciencia d'esses Galenos, ridi- 
cularisados por Molière, com ps recursos vastís- 
simos de um medico moderno, em cuja sciencia 
se condensam as syntheses dos conhecimentos 
universaes. Qual seria o espanto de Braz Luiz 
de Abreu, se podésse levantar a tampa rasa da 
sua sepultura, no convento de franciscanos de 
S. Bernardino, e entrar, por este húmido fim 
de tarde de um dia de janeiro, no Instituto Me- 
chanoterapico do seu collega Francisco de Mi- 
randa, como elle bacharel em medicina pela 
Universidade de Coimbra! O seu olhar esga- 
seado percorreria o minúsculo gabinete de en- 
trada. Apenas as imitações de pannos de Arras, 
que vedam a sala contigua, despertariam um 
vago sorriso a esse contemporâneo das velhas 
tapeçarias flamengas. Mas o próprio sorriso des- 
denhoso se transmudaria em assombro quando 
lhe disséssemos que esses pannos, com que no 
seu tempo qualquer fidalgote forrava as paredes 
da casa, valem hoje o custo da nau que os 
transportavam da Flandres no século XVII. Assim 
elucidado, o auctor do Portugal Medico limparia 
tremulamente o suor da fronte. Era então occa- 
siâo do dr. Francisco de Miranda lhe dizer com 
amabilidade : 

— Meu caro coUega, vou ter a honra de o 
acompanhar n'uma rápida visita ao meu Insti- 
tuto de Orthopedia e de Mechanoterapia. Como 
muito bem sabe, o movimento, como meio the- 



CARTAS DE LISBOA 121 

rapeutico, não é uma cancepção nova. A gy- 
mnastica, conhecida em todos os tempos como 
meio de robustecimento e aperfeiçoamento da 
raça e do individuo, teve os seus adeptos nas 
épocas mais remotas da medicina, como agente 
curativo das doenças chronicas. . . E, porém, 
Tissot, em 1780, que pela primeira vez propõe, 
de uma maneira scientifica, a applicação do 
exercicio methodico á cura das doenças ... 

Pobre Braz Luiz de Abreu, luminar da me- 
dicina de ha dous séculos! Como a esta altura 
do discurso do teu coUega do século XX, o teu 
espirito e as tuas faculdades estariam perturba- 
das! A mechanotherapia : que estranha palavra 
para o teu entendimento rudimentar! E resisti- 
rias tu, sem cahir em delíquio, a essa visita 
através as fabulosas invenções da moderna 
sciencia? Assistirias tu, sem enlouquecer, ao es- 
pectáculo maravilhoso dos raios X, espalhando 
dentro de uma esphera de vidro a sua luz phan- 
tastica, cuja cor lembra a da agua tingida pelo 
absintho.^ Verias tu, sem estremecer, illumina- 
rem-se subitamente, ao desandar de uma mani- 
vella, as ampolas de Edison ou chammejar o 
modesto e anachronico gaz nas camisas tenuíssi- 
mas dos bicos Auer? Não vacillariam as tuas 
pernas ao observar aquelle minúsculo e sensibi- 
lissimo instrumento, que marca as pulsações das 
artérias: essas artérias que tu suppunhas sim- 
ples conductos de ar e por onde circula o san- 



122 CARTAS DE LISBOA 

gue ? Não te imaginarias tu em plenos domínios 
do maravilhoso, vendo o teu próprio esqueleto 
projectar-se n'uma chapa de vidro fosco? E de- 
pois, nas quatro salas onde se alinham os appa- 
relhos e se entrecruzam fios disseminando a 
energia eléctrica, os teus cabellos não se poriam 
em pé ao ver sahir, de repente, da immobili- 
dade, todos aquelles instrumentos de aço, de 
ferro e de madeira polida, animando-se em mo- 
vimentos regulares e cadenciados, ao simples 
deslocar de uma alavanca? Esse medico, teu 
collega na Universidade, assumiria, ante os 
teus olhos, as proporções de uma personagem 
semidivina ou infernal — á tua escolha. Para 
ti, pobre Fausto do século XVIII, elle seria 
como o Mephistopheles da lenda germânica, que 
de um velho decrépito faz um namorado airoso 
e juvenil, e não já pelo custo aspérrimo da alma, 
mas pelo preço módico de algumas massagens, 
de algumas applicações eléctricas ou de alguns 
exercícios musculares 1 

Tranquillisa-te, porem, illustre Braz d' Abreu, 
licenceado em medicina pela faculdade de Coim- 
bra. Aprende com essas senhoras, que conver- 
sam e riem no pequenino gabinete de velludo 
vermelho, em redor da mesa onde ha números 
de illustrações e magazines francezes, a encarar 
com uma sympathia risonha os maiores prodí- 
gios da sciencia. 

Não tenhas medo: o ruido que ouviste é 



CARTAS DE LISBOA 123 

• 

produzido pela trepidação de um inoffensivo au- 
tomóvel. Approxima-te da janella. Tem coragem. 
Esses vehiculos, que passam, em vertiginosa 
correria, . como se os impellisse o vento ? São 
simples carruagens eléctricas, guiadas por humil- 
des guarda-freios, sem exame de primeiras let- 
tras. Eu mesmo te não posso affiançar que sai- 
bam ler. c Ainda se canta na terra», dizes para 
comtigo ao ouvir a melodia que se evola da 
janella aberta d'aquella casa visinha ? É verdade. 
Ainda se canta. E sabes quem está cantando, 
n*este momento, n'aquella sala? Um tenor, que 
viaja a estas horas para a America do Sul! 
Não imagines que abuso da tua credulidade. 
Digo-te, com a maior singeleza, a mais verda- 

r 

deira das verdades. E a voz d'esse tenor — que 
bem pôde succeder já tenha morrido — que tu 
estás ouvindo, reproduzida por um apparelho 
engenhoso, vulgarmente conhecido por phono- 
grapho. E de lastimar que os gregos ou os ro- 
manos o não tenham, antes de nós, inventado. 
Poderiamos ouvir os discursos de Demosthenes 
e de Cicero, escutar a voz de Laís e de Cleópa- 
tra, de Alexandre e de Nero! 

Estaes agora mais sereno, licenceado? Vol- 
tai a visitar com as senhoras o consultório. 
Como já por certo havereis comprehendido, de- 
dica-se especialmente este Instituto ao trata- 
mento das lesões e traumatismos ósseos e mus- 
culares, a que vós chamáveis quebraduras e en- 



124 CARTAS DE LISBOA 

torses. Mas não só a isso, mas á correcção de 
deformidades adquiridas ou constitucionaes. Aqui 
se endireitam os estropeados. Aqui se corrigem 
os aleijões. Começai por analysar aquelle curioso 
apparelho de anthropometria orthopedica. Não 
esquecesteis o grego, não é verdade? Sabeis, 
pois, que anthropometria é o estudo compara- 
tivo das proporções das diversas partes do 
corpo humano: do grego antropos -f- metrOy e 
que orthopedia é a arte de corrigir as deformi- 
dades do corpo: do grego ortkos -f- paidos. 
Com o auxilio d'este instrumento, consegue-se 
saber com exactidão escrupulosa a importância 
da deformidade a curar. A luz verde opala dos 
raios X consente, pela observação directa do 
esqueleto, o conhecimento visual das fracturas. 
Como vês, supprimiu-se a hypothese. Esta 
substituiu-se pela evidencia. Se quebrares um 
braço — do que Deus te livrei — o teu collega 
verificará a extensão e a gravidade da fractura, 
antes de te applicar o apparelho, e todas 
aquellas machinas que tanto te assustaram des- 
tinam-se simplesmente a devolver em seguida 
aos teus músculos a sua energia e malleabili- 
dade primitivas. De tudo quanto observas podes 
concluir que o velho aphorismo «Quem torto 
nasce tarde ou nunca se endireita», perdeu para 
nós, civilisados, o caracter de uma correspon- 
dência exacta da verdade e que é indispensá- 
vel, agora, em Lisboa, modifical-o na seguinte 



CARTAS DE LISBOA 12^ 



variante, cuja redacção te propomos, convenci- 
dos de que a approvarás sem reluctancia: 

cQuem torto nasce, cedo ou tarde se endi- 
reita no Instituto de Orthopedia e Mechanote- 
rapia do dr. Francisco Pinto de Miranda». 

Este novo aphorismo tem ainda a vantagem 
de ser, para o teu collega, um excellente re- 
clamo! 



20 de Janeiro 

E n'uma das quietas, silenciosas ruas, que 
entre a calçada da Bica de Duarte Bello, em 
írente ao antigo palácio de Anselmo José da 
Cruz Sobral, e a travessa da Era, em frente do 
casarão monumental dos Castro-Marim, condu- 
zem ao alto de Santa Catharina, que ha muitos 
annos mora, no recatado aconchego de um pri- 
meiro andar, um dos mais distinctos vultos femi- 
ninos da contemporânea sociedade portugueza e 
com certeza o de mais lustre na historia da lit- 
teratura do século XIX, depois da nobilissima 
Alcipe. 

Viuva de um poeta da mais alta inspiração, 
a auctora da Vida do Duque de Palmella, a cor- 
respondente litteraria do Jornal do Commercio, 
do Rio de Janeiro, a amável moralista das Ca7'- 
tas a Valentina, cujo subtil espirito de analyse 



126 CARTAS DE LISBOA 

e encantador engenho de escriptora os leitores 
d*este jornal tão bem conhecem, representa no 
nosso meio o exemplo raro, o exemplo único, 
para o seu século, de uma vida de laborioso 
trabalho mental, coroada pelo triumpho do mais 
radiante talento de mulher. 

Filha de um dos homens que mais evidente 
logar occuparam na sociedade mundaníssima 
de 1850 e cujas aventuras constituem um dos 
capítulos mais interessantes na historia dos cos- 
tumes d'esse tempo, a eminente escriptora, 
mantendo a categoria social que herdara de seu 
pai, José Vaz de Carvalho, soube crear em redor 
do seu prestigio intellectual e das seducções da 
sua gentileza o ultimo núcleo mundano e litte- 
rario com que a desassociativa Lisboa do fim 
do século XIX resgatou a decadência das suas 
amáveis tradições de cultura e de espirito. 
A sua sala, á similhança dos salões de madame 
Necker, de madame de Girardin e de madame 
Ancelot, foi o centro predilecto, onde durante 
annos se reuniu o que tinha de mais illustre a 
litteratura portugueza. Sem a ténue ceremoniosa 
do salão histórico das Kruzes, onde se fazia 
politica em grand decoletté e se conspirava ás 
mesas do Whist, em casa da snr.* D. Maria 
Amália Vaz de Carvalho, apenas com a cere- 
monia gentil que é devida a uma senhora, 
alguns académicos, alguns fidalgos, alguns 
homens de lettras vinham discorrer familiar- 



CARTAS DE LISBOA 127 

mente de litteratura e praticar na convivência 
da viuva de Gonçalves Crespo o luxo requin- 
tado da conversa, em que a mulher foi sempre 
a mestra exemplar e inexcedivel. 

Os snrs. Souza Monteiro, romancista e poeta, 
director geral dos negócios políticos e diplomá- 
ticos, secretario da secção de litteratura na 
Academia Real das Sciencias ; Christovão Ayres, 
cunhado da illustre escriptora, académico, histo- 
riador e politico; o conde de Sabugosa, poeta e 
amigo de Gonçalves Crespo, hoje também sócio 
da Academia e mordomo-mór da casa real; o 
conde de Ficalho, um sábio doublé de um fidalgo 
e de um artista; José António de Freitas, o 
traductor do Hamlet e do Otkello; António Cân- 
dido, procurador geral da coroa, antigo ministro 
da justiça e príncipe dos oradores portuguezes ; 
Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, eram, 
entre outros, dos mais assiduos n'essa corte de 
respeito e de afFecto. A linda e discreta sala 
tornar a-se uma verdadeira succursal da Acade- 
mia na selecção do convívio, mas uma academia 
onde a amabilidade substituía o officialismo e 
onde o maior talento não suppria a mais polida 
cortezia; eschola de boas maneiras, tanto como 
de boas lettras. 

Os restos de uma sociedade captivada pela 
belleza e pelo espirito refugiára-se n*estas reu- 
niões, onde se cultivava com esmero a arte de 
exprimir em lindas phrases nobres sentimentos. 



128 CARTAS DE LISBOA . 

Nunca esse grupo de epicuristas delicados pre- 
tendeu dirigir o Estado, impôr-se á opinião ou 
dictar leis na republica das lettras. O que fez a 
sua superioridade foi, indiscutivelmente, a sua 
abstenção em todas as luctas de escholas ou de 
partidos. Esse salão litterario nunca deixou de 
ser um salão mundano. As senhoras nunca deixa- 
ram de frequentar esse cercle intellectual, presi- 
dido por uma senhora. 

Esses políticos, esses académicos, esses fidal- 
gos não se entretinham a preleccionar sobre o 
ministério, sobre o diccionario da Academia, so- 
bre ^ arvore de costado das familias. E quar^io 
á porta da sala apparecia a ministra de França 
ou uma linda condessa, a recemchegada não 
perturbava nem interrompia nenhuma conv» a 
transcendente, nenhuma conferencia fastidi- a. 

Os homens de lettras levantavam-se, beija- 
vam galantemente a mão á recemvinda, ce- 
diam-lhe a mais confortável das poltronas e. . . 
a Academia não suspendia a sua sessão. Este 
concilio litterario, nada perdendo da sua feição 

f 

mundana, estava assim fora do dominio da 
publicidade e em circumstancia alguma poderá 
merecer aos historiadores, por analogia, o epi- 
theto com que se decorou o salão célebre de 
madame de Staél. Relacionada com toda a no- 
breza, privando na intimidade das casas mais 
distinctas de Lisboa, com uma rede de relações 
afíectuosas, que abrange, na corte e na politica, 



CARTAS DE LISBOA 129 



as maiores influencias da nossa sociedade, a 
snr.* D. Maria Amália Vaz de Carvalho nunca 
pôz o prestigio do seu nome ao serviço de qual- 
quer espécie de dominação. As suas salas, por 
onde passou tudo quanto de evidente teve Por- 
tugal n'estes últimos vinte annos, nunca deixa- 
ram de ser a parte accessoria de um lar^ A 
escriptora nunca se esqueceu da senhora. Por 
isso também, na sua obra, se reflectem, a par 
de todos os talentos da lettrada, todas as virtu- 
des da mulher. A sua arte é recatada sem 
maneirismos. O que faz a superioridade incon- 
funjíivel do seu critério de moralista e de educa- 
dora e o grande encanto da sua arte, é o 
soberano bom senso, accentuadamente feminil, 
qu( jreside a cada um dos seus conceitos e á 
asse ",ação tão nitida e tão lógica das suas 
ideias. E foi por certo a essa encantadora feição 
do seu espirito que a snr.* D. Maria Amália 
Vaz de Carvalho deveu o seu permanente 
dominio sobre os corações das mulheres e dos 
homens e a assiduidade afíectucísà de um gene- 
ralisado culto de admiração e sympathia. Na 
sua convivência, os homens mais superiores 
encontraram sempre o repouso de uma grande 
bondade e as simplicidades de uma grande 
distincção, alhadas á clareza viril de um sensato 
entendimento, ao mesmo passo que as mulheres 
se regozijavam com a vaidade de a comprehen- 
derem sem esforço. 



I30 CARTAS DE LISBOA 

Hoje ainda, quando já a actividade da 
escriptora parece tender, por sua vontade, a 
declinar, do seu pequenino salão não desertaram 
os amigos fieis dos outros tempos, de quando 
ao seu cenáculo presidia a sua vivacidade labo- 
riosa. Quasi todas as tardes, o snr. conde de 
Sabugosa vem beijar a mão a essa camarada 
illustre, e outros muitos, como elle, na cons- 
tância do mesmo grande culto, vêem buscar á 
convivência do seu espirito tão lúcido e á bonho- 
mia adorável do seu trato esse prazer, hoje tão 
raro, que La Rochefoucsiuld prezava entre os 
maiores da vida, de vêr une grand dame de 
grand ésprit 

Ha sempre a certeza, ás tardes, de encon- 
trar na sua sala, nas proximidades da sua chaise- 
longue, alguns homens illustres e algumas se- 
nhoras distinctas. Essa mão pallida, macerada 
como a de uma princeza, que a escriptora es- 
tende ao nosso beijo, conserva o prestigio ra- 
dioso dos milhares de paginas que escreveu. 
E no seu rosto tão portuguez, de linhas tão 
suaves e de fronte tão ampla, os seus olhos 
rutilantes, cujas pupillas parecem scintillar com 
um intellectual fulgor, logo, ao descer sobre 
nós, nos subjugam e attrahem. Não se esque- 
cem mais esses olhos de intelligencia, esses 
olhos de penetração, esses olhos todos de luz 
e de bondade, que bastariam só por si para 
explicar o seu dominio sobre os corações. 



CARTAS DE LISBOA I3I 

Na sua sala, mobilada com esse conforto 
elegante, que é distinctivo das casas onde se 
vive muito — e cada vez mais difficil de encon- 
trar, n*estes tempos em que todos vivem o 
menos possivel em suas casas — longe do ruido 
das grandes ruas, ao abrigo da banalidade 
triumphante, que, por toda a parte, ameaça 
submergir o que ainda resta de superior e de 
nobre nas altas classes, revive-se um pouco 
essa existência delicada de outr'ora, de quando 
as modistas e os theatros consentiam ainda ás 
mulheres algumas horas de liberdade para rece- 
ber os seus amigos e era moda entre as senho- 
ras repartir com o espirito o luxo que hoje é 
todo, e ainda parece pouco, para os corpos. 



^ de fevereiro 

O baile, com que, a exemplo dos mais annos, 
a snr.* condessa de Almedina festejou no pe- 
núltimo dia de janeiro o anniversario de sua 
filha D. Alda, veio pôr em evidencia a prepon- 
derância do estylo Império na moda feminina. 
Os poucos jornaes que em Lisboa fazem a repor- 
tagem mundana e entre os quaes se destacam, 
pela categoria dos chronistas, as Novidades, 
onde escreve o snr. Henrique de Vasconcellos, 
secretario do actual ministro dos estrangeiros, e 



132 CARTAS DE LISBOA 

:-( __ 

O Notícias de Lisboa^ onde escreve o snr. conde 
de Mesquitella, official-mór da casa real, na breve 
descripção que fazem das toilettes das senhoras 
constatam que a maioria de entre ellas obedecia 
a esse estylo. Bem entendido, o Império das 
elegantes de 1906 está para o das elegantes de 
1806 como o calção do duque de Richelieu ou 
do príncipe de Tayllerand está para o calção da 
snr. Jorge de Mendonça ou do snr. Jayme Thom- 
pson. Apenas ás reminiscências vagas do estylo 
neo-classico em que se vestiram as senhoras de 
Tallien e de Recamier obedecem as toilettes de 
chez Redfern, de Paquin, do Serra, da Aline ou 
do Pariz em Lisboa^ com que a belleza e a vai- 
dade de lisboeta se enfeitaram para o baile da 
snr.* condessa de Almedina. 

Se uma mulher ingénua, ao ler, na chronica 
de modas do seu jornal, que ao estylo Império 
obedecia o corte e os adornos dos vestidos 
actuaes, mandasse talhar as suas toilletes pelo 
figurino da J-osepkina de David, teria obtido um 
delicioso trajo para baile de mascaras, nunca 
um vestido para ir a S. Carlos ou para appare- 
cer nos teas elegantíssimos da snr.* marqueza 
de Bisio, a nova ministra de Itália. Pina Mani- 
que podia voltar a Lisboa e substituir no seu 
cargo o snr. juiz Veiga. As modas do Império, 
agora tanto em uso, não escandalisariam o seu 
pudor severo de moralista e a sua penna não 
redigiria contra ellas um segundo edital fulmi- 



CARTAS DE LISBOA I33 

Tiatorio. Seria difficil á duqueza de Abrantes ou 
a madame Visconti descobrirem no talhe dos 
vestidos da mulher contemporânea, d'esta paci- 
fica mulher do século XX, a imitação premedi- 
tada das modas gregas e romanas do tempo 
heróico de Wagran e de Austerlitz. Mas, entre- 
tanto, a intenção em copia-Fas é manifesta. 
A inspiração nos modelos de Leroi — o costu- 
reiro da imperatriz Josephina — é, pelos pró- 
prios dirigentes da moda, publicamente con- 
fessada. Depois das cinturinhas de vespa, da 
crinoline, da saia de balão, da manga á jardi- 
neira, da manga á Boticelli, dos corpos á 
Luiz XVI, dos jichus á Luiz XV, o que determi- 
nou o regresso ao neoclassissismo do vestuário 
do principio do século XIX? 

Comprehende-se que a mulher, contemporâ- 
nea do telegrapho, do phonographo, do tele- 
phone, do radio, dos raios Rcentgen, dos sub- 
marinos, dos balões dirigiveis, se vista como a 
sua antepassada do Directório, da Regência, do 
Consulado, da batalha de Marengo, da campa- 
nha da Áustria, dos reis improvisados e das 
revistas das Tulherias? Se o vestuário é a ex- 
pressão decorativa das tendências e sentimentos 
de uma sociedade e a fixação material do espi- 
rito de uma época, é verosímil que as convida- 
das da snr.* condessa de Almedina se vistam 
como as convidadas de madame de Staél? Mas 
ha aqui ainda uma contradicção flagrante entre 



134 CARTAS DE LISBOA 



O costume da mulher moderna e o do homem 
contemporâneo, porque se no baile do palá- 
cio da Avenida as senhoras vestiam como a 
generala Junot, não se viu apparecer um só 
homem coberto de ouro e de diamantes como 
Murat. 

Este contraste é tanto mais evidente, que 
nenhum dos valsistas eméritos, que tiveram a 
honra de conduzir pelo braço as mais galantes 
mulheres da Lisboa aristocrata, não tinham 
vindo, positivamente, de uma batalha como o 
general Berthier, ou de um assalto como o va- 
lente Ney, que os gelos da Rússia fizeram prín- 
cipe. D'esses homens, vestidos no Amieiro e no 
Nunes Correia, poucos seriam capazes de um 
' heroismo e muito poucos seriam capazes de 
uma phrase de espirito. Ora o Império foi uma 
época tumultuaria de força, de exuberância, de 
vertigem, de licença nos costumes e de bel- 
leza nas formas, onde as mulheres valiam 
apenas pela formosura e os homens pela teme- 
ridade. 

Em que se parece, pois, com esse abrir irre- 
quieto e brilhante do século XIX esta aurora 
pallida, formalista severa e pacifica do século XX ? 
Em que se approximam d'essas suas avós licen- 
ciosas e sem escrúpulos as graves e meticulo- 
sissimas bellezas profissionaes da nossa aristo- 
cracia de agora? Que ponto de contacto ha 
entre a turbulência, o movimento e o espirito 



CARTAS DE LISBOA I35 

de aventura da contemporânea da condessa da 
Ega e a devoção, a compostura, a polidez, das 
amigas intimas da snr.* marqueza de Rio 
Maior? De que suppostas affinidades moraes 
resultou o vestir-se a esposa do snr. conse- 
lheiro Hintze Ribeiro no mesmo estylo em que 
se vestiu a esposa do ministro Tayllerand? 
Como se comprehende que a nossa actual mi- 
nistra em Pekim use o spencer e a cintura curta 
das antigas embaixatrizes de Bonaparte, sem 
que o snr. conselheiro José de Azevedo se apre- 
sente com o rabicho e a casaca roxa do mare- 
chal Lannes, antigo ministro de Napoleão em 
Lisboa: esta espécie de Pekim occidental, onde 
as estatísticas affirmam que se devora arroz es- 
candalosamente ? 

Não ; temos de concordar em que a resurrei- 
ção do Império, apesjir da bravura do ultimo 
pugilato em S. Carlos e da fúria com que os 
deputados dissidentes estão aprendendo a jogar 
as armas, depois de terem quebrado as cartei- 
ras, é um contrasenso e significa uma contra- 
dicção absurda. Isto vem provar ainda uma vez 
a pobreza de inventiva dos costureiros parizien- 
ses do nosso tempo, que desde a hedionda cri- 
noline das nossas avós, ultimo arranco creador 
da moda do século XIX, se teem limitado a 
resurgir e a actualisar as características de 
modas velhas, desde a manga medieval, termi- 
nando em bico sobre o punho, até ao chapéu 



136 CARTAS DE LISBOA 

á Gainsborough, de grandes plumas ondean- 
tes, desde a manga tufada da Renascença 
até ao vestido curto á 1830, desde a estola 
bysanthina até ao peplum das elegantes do 
Império. 

As senhoras que concorreram ao baile annual 
do lindo palácio da Avenida cumpriram, o seu 
dever, submettendo-se á lei imperiosa da moda, 
que lhes determinava a cinta curta e a saia es- 
tylisada em túnica. Quem não cumpriu a sua 
obrigação foram os legisladores da toilette femi- 
nina, que nada souberam encontrar de elegante, 
de bello, de distincto e de novo, sem recorrer 
aos figurinos de Leroi, para vestir dignamente 
a mulher contemporânea. Depois dos chapéus á 
Luiz XVI, lançados o verão passado, apparece o 
vestido Império e o fichu á Maria Antonietta. 
Amanhã, se a phantasia dos dictadores da ele- 
gância continua assim estéril, teremos as anqui- 
nhas, o espartilho em bico, o tacão vermelho, 
os penteados de 20 centímetros de altura, os 
signaes de tafettá e os polvilhos I 

E quanto tem de ser poderosa a graça e 
vivo o donaire da mulher, para resistir, n*uma 
sociedade essencialmente prática e positiva, a 
esses caprichos anachronicos, com que as mo- 
distas estão antecipadamente extinguindo as ul- 
timas originalidades de um baile costumei A pro- 
seguirmos assim, quando a snr.^ condessa de 
Almedina se lembrar de ofíerecer ás suas amigas 



CARTAS DE LISBOA I37 

_ 

um baile de mascaras, a lisboeta, que já usou 
na rua a toilette á Império, a toilette á Luiz XV, 
não encontrará outro disfarce que não seja o de 
um travesti modem stylel E talvez paradoxal, 
mas é positivamente verdadeiro. Demais, a mu- 
lher está provando ao homem, através esta re- 
vista retrospectiva do vestuário, que se algum 
dos dous decahiu não foi ella, pois o seu lindo 
corpo se adapta ainda hoje tão bem ao pannier 
da Pompadour como á túnica de madame Reca- 
mier. . . 



II de fev&reiro 



Ao sinistro auto-bolide de made^noiselle Mau- 
rice Tiers succedem as piruetas e os rond de 
jambes de mademoiselle Cléo de Mérode. Ainda 
a celebridade de hontem geme no hospital, já a 
celebridade de hoje sorri aos applausos no palco 
do Colyseu. E é assim no circo, e é assim na 
vida. . . 

Para os que falham, uma piedade ephemera. 
Para os que triumpham, um êxito permanente. 
Ainda do âmbito do grande circo das portas de 
Santo Antão se não esvahiu totalmente a vibra- 
ção angustiosa do clamor com que três mil 
pessoas assistiram á cambalhota trágica do auto- 



\ . 



138 CARTAS DE LISBOA 

movei de mademoiselle Tiers e já os mesmos es- 
pectadores estalam as luvas a applaudir a dan- 
sarina da Opera de Pariz» que o esculptor Fal- 
guière immortalisou n'um bronze célebre. 

E não é que estes applausos de agora signi- 
fiquem o protesto do publico contra as audácias 
e as temeridades da véspera. As palmas vão 
para Cléo de Mérode e menos para os seus 
talentos choreographicos do que para a sua 
celebridade escandalosa. 

O que o publico vai admirar ao Colyseu 
não é a dansarina emérita, mas a cortezã real, 
tão favorecida pelos reis caducos como gulosa 
de príncipes adolescentes ... Já ninguém entra 
n'um circo para ver dansar uma mulher. . . 
quando não seja sobre o gume de uma faca ou 
á beira de um precipício. Habituado ao regimen 
enervante das grandes sensações e dos grandes 
perigos, o espectador do circo não se satisfaz 
mais com a destreza do acrobata, com o espirito 
do palhaço, com a elegância da voltigeuse. 
Depois da gargalhada do clown, quer os riscos 
mortaes do Looping the loopy da Fléche humainey 
do Auto Bólide. O cavallo amestrado e o funam- 
bulo são apenas, no programma, compassos de 
espera para os leões de clinas erriçadas e para 
o salto de vinte metros de altura. Ver des- 
penhar-se da cúpula, sobre uma rede, um 
homem em maillot cor de carne, ver entrar 
n'uma jaula de feras uma mulher franzina como 



CARTAS DE LISBOA I39 

um vime, brandindo apenas uma chibata na 
mão nervosa: eis o espectáculo de circo, digno 
do homem moderno. A victoria da paciência e 
do engenho já não o surprehende. E-ihe neces- 
sária a victoria da audácia sobre a morte, para 
fazer vibrar por alguns segundos o seu tédio e 
para o compensar da perda de alguns tostões. 
D'antes, ia-se ao circo para rir. Hoje, vai-se ao 
circo para estremer. O circo era um espectáculo 
jovial. Transformaram-no em um espectáculo da 
loucura, do delirio e da crueldade humanas. 

Ao presencear o desprendimento com que 
se desafia e arrosta a morte, ao som da musica, 
a horas fixas, por algum dinheiro e algumas 
palmas, o respeito pela vida tende forçosamente 
a esmorecer. O coração endurece na familiari- 
dade d*essas mulheres e d'esses homens, que 
montados sobre uma bicycleta ou amarrados 
a um automóvel, se arrojam, com velocidades 
de cincoenta kilometros por hora. . . para a 
eternidade. 

Esse desprezo pela vida, acclamado como 
uma acção heróica, á luz dos arcos voltaicos, 
emquanto a orchestra toca uma valsa de Metra, 
acaba por contaminar as imaginações mais fra- 
cas e propaga o delirio das temeridades estéreis. 
A natureza deu á morte um aspecto repulsivo e 
lúgubre. Enfeitar a morte, brincar com a morte, 
é atraiçoar a natureza e corromper a própria 
significação moral da vida. Entre o romano de 



I40 CARTAS DE LISBOA 

toga, que ia assistir á lucta dos gladiadores no 
Colyseu, e o janota de smokings que vai assistir 
á lucta de uma mulher de vinte e três annos 
com os perigos e eventualidades de uma terrí- 
vel experiência de physica applicada, como o 
Auto-Bolide^ a differença é mais apparente do 
<jue real. Ambos elles, o romano do tempo de 
Nero e o janota do século da electricidade, são 
exemplares de civilisações decadentes, em cujos 
organismos um excessivo consumo de sensibili- 
dade debilitou os systemas nervosos. 

Esta evolução vertiginosa do espectáculo de 
circo para a tragedia podia prestar-se, pelo que 
tem de terrivelmente revelador, a considerações 
abundantes e complexas. Mas não vão bem ao 
caracter ligeiro d'estas cartas as dissertações e 
as predicas sobre moral. No theatro como no 
circo o espectador quer divertir-se. O que seria 
do theatro que, durante vinte annos, durante 
trinta annos, durante cincoenta annos, represen- 
tasse invariavelmente as mesmas peças .'^ Ora, 
acontecia que o espectáculo do circo era, ha 
meio século, o mesmo. Variavam as éctcyères, as 
voltígetiseSy mas a equitação e o volteio tinham 
crystalisado na sua forma tradiccional, clássica e 
já archaica. O clown, o funambulo, o acrobata, 
o hércules, o cavallo amestrado, ojongleur eram 
as notas invariáveis d'essa musica anachronica, 
os números gastos d'esse programma já insí- 
pido. 



CARTAS DE LISBOA I4I 

£ foi então, quando a destreza, a graça e a 
^^tça não podéram ir mais além no prodigio, 
^H hilaridade e na bestialidade, que se inventou 
^ perigo, e a temeridade entrou, ao som das 
Musicas e por entre os esgares dos palhaços, 
pelos dominios da mais desenfreada loucura. 

Se é certo que os espectáculos da energia e 
<ia coragem fortalecem, não é menos certo que 
as exhibições de certos exercícios perigosos, 
como o que na passada segunda-feira se desen- 
rolou no Colyseu dos Recreios, são mais pró- 
prias para desorientar as consciências rudimen- 
tares das maiorias do que para lhes educar o 
animo na intrepidez e na audácia. Quem como 
nós assistiu á dramática occorrencia, não po- 
derá esquecer tão depressa o grito agudíssimo, 
que, de entre um fragor de ferragens, soltou 
essa mulher de vinte e três annos, ao sentír-se 
despenhar de uma altura de dez metros sobre a 
pista, manietada a uma machina de ferro. Esse 
grito dominou os milhares de gritos, que desde 
o promenoir á plateia milhares de pessoas ater- 
radas, ao mesmo tempo soltaram. Para os ama- 
dores de sensações violentas, o espectáculo foi 
incomparável. Como intensidade dramática, não 
ha tragedia de Shakespeare que o valha. Dir-se- 
hia a representação ao vivo de um d' esses sup- 
plicios, no género do pêndulo, que a imagina- 
ção de Edgar Poé inventou nas espheras mais 
altas do horror. 



142 CARTAS DE LISBOA 

Quem hoje tiver a predilecção pela trage- 
dia, que frequente os circos, onde ha cincoenta 
annos os nossos avós iam rir com as infelicida- 
des renovadas de Pierrot e as astúcias seculares 
de Arlequim. Não lhe faltará ensejo de vêr um 
elephante esmagar uma domadora como uma 
mosca, de assistir ao sanguinolento banquete 
humano de um bando de leões, ao ataque apo- 
pletico de um voador, ás cambalhotas dos auto- 
móveis e das bicycletas nas pistas discontinuas 
do Auto-Bolide e da Flèche Hutnaine. Nos inter- 
vallos d'essas peripécias emocionantes, que Nero 
pagaria pelo preço de uma provincia, terá, é 
certo, de contentar-se com as habilidades fasti- 
diosas áos jongleurs japonezes, que brincam com 
punhaes acerados como quem brinca com plu- 
mas, ou com os prodigios vulgarissimos dos 
hércules, que disparam canhões sobre o armão 
formidável dos braços. 

Mas durante a exhibição d*esses números 
banaes do programma, ser-lhe-ha permittido 
mostrar o seu descontentamento. E nunca fal- 
tará, para lhe merecer o applauso, um doma- 
dor que entre n'uma jaula de feras irritadas ou 
uma mulher de vinte e três annos que suba 
para um automóvel desconcertado. . . 



CARTAS DE LISBOA I43 



24 de fevereiro 

Continua a moedeira, já enervante, de uma 
chuvinha miiída, teimosa, que está ha uma se- 
mana convertendo as ruas em atoleiros e fe- 
chando em casa a verdadeira, a única animação 
de Lisboa : a lisboeta. Só os homens se aventu- 
ram a sahir de casa para os seus deveres, para 
os seus prazeres, para os seus trabalhos. 

Dir-se-hia que uma inundação prolongada 
deixou em Lisboa todos os limos e todos os 
lodos do Tejo. Nos passeios, escorrega-se. No 
meio da rua, atolamo-nos. E é n'estas lamas e 
sob estas chuvas que ainda se estão plantando 
mastros e construindo coretos na Avenida, na 
esperança de que um vento propicio varra dos 
céus cor de chumbo as nuvens importunas e o 
sol — esse sol que é uma das glorias de Lisboa 
— arranque da resplandecente face a nebulosa 
mascara para vêr o Entrudo alfacinha. 

Outra cidade teria desanimado. Lisboa não 
desanima. Na véspera da chegada do presidente 
Loubet chovia. . . se Deus a dava. Pois nunca 
-em dias mais soalheiros se realisaram festas 
mais brilhantes. O snr. Rouvier, só com o chegar 
a Lisboa, curou uma constipação terrível con- 
trahida em Madrid. 

Durante a estada de Affonso XIII em Lisboa, 



144 CARTAS DE LISBOA 

bastou que se aniuinciassem as illuminaçôes na 
Avenida e na rotunda do Marquez de Pombal 
para que houvesse, entre as noutes desabridas^ 
o parenthesis de uma noute primaveril. É, pois, 
confiadamente, que Lisboa continua a ornamen- 
tar o carro do Rei Carnaval, a exercitar os seus 
grotescos batalhões e a preparar-se para assis- 
tir ao quinto dos seus Entrados civilisados. 

Como todos sabem, a inauguração d'este 
novo regimen do Entrudo lisboeta fez-se du- 
rante o governo do snr. Pereira e Cunha, que 
regulamentou o Carnaval com um radicalismo, 
que mereceria o applauso do intendente Pina 
Manique. O seu edital condemnatorio é hoje 
um documento histórico. A sua affixação marca 
uma data, de ora avante celebre na historia dos 
costumes lisboetas: a da abolição do Entrudo 
tradicional e irreverente fundado ' pelo libera- 
lismo. Com o edital do snr. Pereira e Cunha 
acabaram os pós de gomma, acabaram as bisna- 
gas, acabaram as seringas, acabaram as cocottes, 
acabaram os ovos de cheiro, acabaram os tre- 
moços. O snr. Pereira e Cunha foi transferido a 
tempo do governo civil do Porto para o de 
Lisboa para poder entrar na historia como o 
executor do velho Carnaval alfacinha. O seu 
antecessor regulamentara as criadas de servir, a 
hora a que deviam terminar os espectáculos e 
o preço que devia custar a carne de vacca. 
O snr. Pereira e Cunha, encontrando tudo regu- 



CARTAS DE LISBOA 145 

lamentado, regulamentou a única cousa que fal- 
tava regulamentar e que todos suppunham ser 
POr sua natureza irregulamentavel : o Entrudo. 
Como todos os reformadores, o illustre go- 
vernador civil de Lisboa teve de suffocar, quer 
P^la violência, quer pela inércia — a força dos 
l^omens fracos — as inevitáveis reacções contra 
^ novo regimen. 

Na agonia, o ckéché, personificação do En- 
^í*udo popular, fez as maiores tropelias. O rei- 
í^a.do do seu chavelho, do seu facalhão e do seu 
tricórnio acabava. O velho soberano cahido não 
se rendeu sem batalhar. Batalhou. Jogou os úl- 
timos tremoços contra a policia e só se entre- 
gou depois de despejadas as bisnagas e o derra- 
deiro cartuxo azul de pó de gomma. 

Mas a reacção não foi apenas popular. A 
nobreza quiz, n'essa hora histórica, acompanhar 
o seu alliado e deu em S. Carlos uma batalha 
célebre, já aqui narrada: a batalha das sandwi- 
ckes. Diante dos excessos dos espectadores e 
do sorriso irónico de El-Rei, o governador civil 
teve que retirar-se da sua frisa, sentindo-se im- 
potente para debellar aquella insurreição de con- 
dessinhas decotadas e de diplomatas inconve- 
nientes. Foi o ultimo suspiro do Carnaval român- 
tico dos Nisas, dos Assecas, dos Carvalhaes, dos 
Aboins, dos Camaras-Leme, irreverente e exces- 
sivo como o Carnaval do povo, e a que as 
represálias politicas do miguelismo haviam im- 

10 



146 CARTAS DE LISBOA 



presso um caracter de combatividade e de 
violência. 

Depois d'isso, ainda na legação da AUema- 
nha a snr.* condessa de Tattenbach promoveu 
um minuete, dansado com rigorosos trajos 
Luiz XV, á similhança do que se dansára, dous 
annos antes, em casa da snr.* condessa de Al- 
medina. Igualmente, nas salas da snr.* condessa 
de Penalva de Alva, se resuscita a dansa galan- 
tissima €de la menue révérancc». O minuete 
faz moda. Dansa-se em todas as salas, com ou 
sem polvilhos, com ou sem talon rougCy entre 
uma valsa modernissima de Metra e uma qua- 
drilha do Strauss. Depois do minuete, a pavana 
dançada no palácio histórico dos meninos de 
Palhavã, n*uma soirée a que ainda presidiu a 
ultima condessa de Azambuja, vem substituir 
com a solemnidade pomposa das suas mesuras 
á Luiz XIII a frívola galanteria das reverencias 
á Luiz XV. E, por fim, os pierrots, commanda- 
dos pelo endiabrado espirito de Edgar Plantier 
e as pierrettes, qual d'ellas a mais fresca e a 
mais bonita, invadem os salões da snr.* con- 
dessa de Almedina, onde revive por umas horas 
a memoria do já esquecido baile de pierrots e 
pierrettes no palácio Valbom, onde triumpha- 
ram as bellezas de D. Emilia e D. Benedicta 
Rezende ... 

Mas em todas estas festas e estes bailes, é 
menos o Entrudo que se festeja do que o amor 



CARTAS DE LISBOA I47 

do decorativo que se lisonjeia. Nas salas de 
Lisboa, mobiladas com cadeiras D. João V, 
tapetadas com pannos de Aubusson ou de 
Arrayolos, illuminadas com lustres de Veneza, 
o minuete, a pavana, o pierrot e a colom- 
bina de Watteau não parecem anachronismos. 
Desde que se mobilaram as casas ao estylo do 
século XVIII, não admira que n'ellas se danse 
ao estylo de Vestris. A mascara desappareceu. 
Ficou apenas, n' esses simulacros de mascaradas, 
a sábia reconstituição do trajo antigo. O pró- 
prio jantar de têtes e a soirée dados pelo 
snr. visconde de Asseca (Salvador), na segunda- 
feira passada, e a que assistiram Suas Altezas, 
não foi, na acepção rigoroáa do termo, uma 
festa de Entrudo. Foi quasi uma festa de 
arte. O Carnaval desacreditou-se em Lisboa. 
O Domingo Gordo é quasi apenas uma epheme- 
ride. Depois de apaziguado, esse tumulto tradi- 
cional perdeu por completo a sua feição idealista 
e delirante. Com o tempo, o Carnaval adquiriu 
uma noção mais prática da vida; industriali- 
sou-se. O velho carro de mascaras, barulhento 
e aggressivo, conduzido a trote por um batedor 
de chapéu de aba larga, e de onde quatro 
estróinas de dominó negro arremessavam ovos 
de cheiro para as janellas, transformou-se no 
carro-réclame, conduzido a passo de duas mansas 
parelhas. Ao tremoço substituiu-se o pros- 
pecto. E assim é que a próxima batalha de 



148 CARTAS DE LISBOA 

flores, na Avenida, ameaça transformar-se n'uma-j 
batalha pacifica de annuncios. 



4 de março 

A commissão, que promoveu os festejos da 
Avenida, ainda não tornou publicas as suas con- 
tas de ganhos e perdas. Mas é de presumir que 
os lucros tenham sido na proporção necessária 
para pagar o jornal de uma semana, ou mesmo 
duas, aos operários a quem um vago esculptor 
incumbir a construcção do pedestal grandioso 
d'essa vaga estatua que deve erguer-se, n'um 
dia remoto, ao centro da ampla rotunda, d'onde 
irradiam as avenidas geométricas da nova Lis- 
boa. 

Pagava cada trem, para caminhar a passo 
no recinto reservado do antigo Passeio Publico, 
três mil e quinhentos réis. Qualquer cousa como 
duas coroas por kilometro , o equivalente á via- 
gem de Lisboa a Coimbra, em primeira classe. 

Não se pôde dizer que seja barato . . . para 
se transitar na via publica. Mas o Entrudo d'este 
anno, se não tinha familia e filhos a sustentar, 
como qualquer de nós, estava — justo é dizel-o 
— sobrecarregado com compromissos de cari- 
dade e devoção civica dos mais sagrados, pe- 
rante os quaes os últimos chéchés tiraram com 



Cartas de lisboa 149 

^^speito o chapéu de dous bicos, d'onde o 

^^r. conselheiro Pereira e Cunha mandou apa- 

^3.r a tempo o dístico tradicional e immundo. 

^ hilaridade não ficaria bem a um Entrudo 

^ontricto dos antigos desregramentos e que, 

envelhecido na tumultuosa kermesse de oitenta 

^nnos de excessos, procura morrer de bem com 

t)eus, occupando os seus derradeiros dias de 

vida em obras de devoção e caridade. 

Mas uma cousa é para notar. 

A medida que o Entrudo se civilisa e se 
accommoda nas ruas, retrocede e desembesta 
em S. Carlos. 

O povo submetteu-se. O janotismo reagiu. 
A Mouraria pacifica acaba de dar uma severa 
lição a S. Carlos tumultuoso. Nas viellas do 
Bairro Alto jogou-se o Entrudo com inoflfensi- 
vas fitas de papel. Nos camarotes do lyrico 
jogou-se o Entrudo com grãos de chumbo, com 
almofadas, com pasteis de nata. 

A récita ruidosa de terça-feira, em S. Car- 
los, celèbrisou-se pelo seu contraste com a pa- 
catez bocejante da batalha de flores, na Ave- 
nida. Só n*uma cousa se pareceram: no preço. 
Para deixar ouvir os Zés Pereiras aos lisboetas, 
o snr. Desforges arbitrou a tarifa do snr. Pacini. 

E manda a verdade dizer-se que um cego 
supporia, com fundados motivos, que eram os 
frequentadores de S. Carlos que andavam pelas 
ruas e que era a rua, que tinha occupado a 



150 CARTAS DE LISBOA 

plateia de S. Carlos, de tal maneira se inverte- 
ram os papeis do povo irreverente e da nobreza 
preconceituosa. 

S. Carlos, no Entrudo, logrou, desde o seu 
primeiro baile de mascaras, tradições de galan- 
teria espirituosa. O theatro lyrico era quasi um 
recinto fechado, onde só se entrava com con- 
vite. Brinca va-se. . . de luva branca. Intriga va-s 
de dominó de seda e loupe de velludo. Os dille 
tanti invadiam ás vezes a scena e quasi sem 
pre os camarins, mas nunca afugentaram um 
cantora do palco nem obrigaram o maestro 
abandonar a orchestra para ir curar as contu- 
sões. 

Pela primeira vez, este anno, em S. Carlos 
onde durante um século se evaporaram todo 
os perfumes da moda, cheirou a acido fétido— 
Apenas faltou D. Miguel na tribuna, com 
Paiva Raposo e o Sedvem. Se fosse Farrob 
o emprezario, teria mandado fechar o theatro 
O snr. Pacini terá de limitar-se a manda-l* 
limpar. 

A hora é de limpezas. O próprio céu enn 
doado de terça-feira amanheceu hoje limpo d 
nuvens. Um sol de primavera veio derrama 
sobre Lisboa o seu resplendor e a sua alegria. 
Já as arvores principiam a rebentar. Parece qu 
ainda hontem esfolhavam sobre. os passeios d 
mosaico as suas folhas amarellecidas e já hoj 
os seus galh.os sêccos reverdecem. Em volta d 






CARTAS DE LISBOA ISI 

^^inha casa, sobre o frontão de mármore do 
Palácio do snr. Carlos Eugénio de Almeida, 
sobre os velhos telhados do palácio do mar- 
<luez de Sá da Bandeira, onde se está instal- 
lando a legação da China, as andorinhas traçam 
Ja as suas apertadas eiypses, como pequeni- 
nos e chilreantes cometas alados, girando em 
Volta do ninho. Algumas, mais atordoadas pela 
longa viagem, vêem quasi bater com a tesoura 
ttielindrosa das azas nas janellas do meu ga- 
binete. Quanto deve ser divertida a existência 
accidentada d'estas touristes intrépidas, que o 
snr. Mendonça e Costa tão injustamente esque- 
ceu na organisação da sua sociedade de Pro- 
paganda do Excursionismo, hontem installada 
ii'uma das salas da Liga Naval I De que estra- 
nhos contrastes se reveste essa vida vagabunda, 
á procura de uma eterna primavera 1 Ha poucos 
dias ainda, estas mesmas andorinhas pousavam 
nas tendas guerreiras do Roghi e nos minaretes 
de Fez. Hoje, não as assusta a trepidação do 
automóvel do senhor Infante D. Affonso, convi- 
dado pela snr.* D. Maria do Patrocinio Barros 
Lima, esposa do snr. Carlos Eugénio de Al- 
meida, para presidir á commissão organisadora 
do concurso hyppico, que deve realisar-se no 
Hippodromo de Belém, no mez de maio. 

O largo de S. Sebastião da Pedreira, ha 
uma semana cheio com os carros que acom- 
panharam ao cemitério o corpo gentilissimo da 



152 CARTAS DE LISBOA 

filha de Silva Graça — cuja linda voz de soprano 
o vento trazia ainda não ha quinze dias ao meu 
gabinete de trabalho — está n'este momento 
povoado pelas mais elegantes equipagens de 
Lisboa. Todas as portinholas brazonadas da ci- 
dade se alinham em frente ao palácio. Todos 
os trintanarios das grandes casas se acotovelam 
no seu apparatoso vestibulo. D'esta casa, de 
uma tão grande solemnidade na vastidão dos 
seus mármores rosados e a que os eucalyptos e 
os pinheiros balsâmicos do parque servem de 
ornamental pano de fundo, nunca sahiu festa que 
não ficasse no florilégio da vida elegante de Lis- 
boa. Foi d'alli que sahiu a iniciativa do célebre 
torneio de Belém; foi d'alli que sahiu a iniciall 
da récita do anno passado, por amadores, em 
D. Maria. Assim podesse d'alli sahir a ini- 
ciativa para acabar com o grosseiro Entrudo 
S. Carlos! 



II de março 

Lisboa foi outr'ora uma cidade de procis- 
sões. A festa de igreja era a sua grande festa. 
Mais do que para os bailes, as mulheres ves- 
tiam-se com apuro para assistir á procissão do 
Corpo de Deus ou á procissão do Triumpho. 
As casacas de mais luxo, bordadas a ouro e 
matiz, sahiam á rua n'esses dias solemnes e 



CARTAS DE LISBOA 153 

.. / 

festivos. A Quaresma era, ainda no século XVIII, 
ao invés do que hoje é, a época das grandes 
festividades populares. A cidade enfeitava-se 
para receber as santas imagens, que sahiam a 
passeio. Cobriam-se as ruas de hervas aromá- 
ticas. Armavam-se as janellas com damascos 
vermelhos. Penduravam-se nas paredes velhas 
tapeçarias flamengas, de assumptos clássicos 
e mythologicos. Não ficava uma seje, liteira ou 
cadeirinha nas cocheiras. Ao bimbalhar de qui- 
nhentos sinos, Lisboa acordava em sobresalto 
n'esses dias magnos de procissões. Desde a 
véspera que as fidalgas se penteavam e se ata- 
viavam. Os cabelleireiros corriam n'uma azafa- 
. 'là, a empoar cabelleiras, a architectar touca- 
dos. Os grandes coches reaes, dourados e reful- 
gentes como altares, desfilavam pela rua Nova. 
^ rei, a corte, o povo, associavam-se n' esses 
dias á mesma festa devota. E eram taes o luxo, 
o esplendor, a opulência das procissões lisboe- 
.s, que os ministros estrangeiros mandavam 
dizer para os seus paizes que o patriarchado de 
Lisboa podia hombrear com o pontificado de 
Roma em grandeza e em fausto. Mas tudo 
acaba, e pojuco a pouco as festividades religio- 
sas de Lisboa foram acabando, diminuindo de 
numero e esplendor. Apenas de tantas procis- 
sões, famosas na Europa, quatro ficaram e re- 
sistiram á incredulidade impia do século, porque 
mais fundas raizes tinham lançado na fé volu- 



154 CARTAS DE LISBOA 

vel e caprichosa dos homens: as do Senhor dos 
Passos da Graça, a da Saúde, a do Corpo de 
Deus. Mas ainda, para assim resistirem á incle- 
mência de um século positivo, n'uma cidade 
iconoclasta como a Lisboa de hoje, foi necessá- 
rio que essas quatro procissões correspondes- 
sem a tradições sociaes de hierarchia e de 
classe. A procissão do Corpo de Deus é a 
procissão do rei; a da Saúde é a procissão do 
exercito; as do Senhor dos Passos são as pro- 
cissões da nobreza. 

Duas vezes por anno, a vieille rocke enverga 
a opa roxa da Irmandade fidalga e acompanha, 
descoberta, com tochas na mão, a milagrosa ima- 
gem, desde a Graça a S. Roque e de S. Roque 
á Graça. 

E geralmente conhecida a historia d*esta 
visita annual do Senhor dos Passos a S. Roque. 
Com ella se resolveu o pleito famoso em que 
andaram gracianos e jesuítas, na disputa acalo- 
rada da tosca esculptura, a quem Lisboa attri- 
buia portentosos milagres. Os jesuitas não ven- 
ceram o pleito, mas a realeza compensouros da 
estrondosa derrota, escolhendo a igreja de 
S. Roque, onde a imagem vem pernoutar de 
quinta a sexta-feira, para fazer a sua visita 
annual de ceremonia e devoção. Os gracianos 
ficaram de posse do Senhor dos Passos, mas é 
em S. Roque que a realeza lhe vem beijar o 
pé: um pé especial, fabricado exclusivamente 



CARTAS DE LISBOA I 5 5 

para os beijos dos reis, das rainhas e dos prin- 
cipes, e que logo se substitue por outro, para o 
beijo da plebe. 

A hora a que escrevemos, o Senhor dos 
Passos vem subindo a rua de S. Roque, em 
camarim fechado, ao som da marcha fúnebre 
de Chopin, escoltado por infan teria 5, condu- 
zido aos hombros dos fidalgos. Amanhã, por 
esta mesma hora, descerá a mesma rua, ao som 
da mesma marcha, conduzido aos hombros dos 
mesmos fidalgos da sua Irmandade, e regressará 
ao seu templo da Graça, trepando toda a Ín- 
greme ladeira da Mouraria, tal qual outro Cal- 
vário. 

Não vá, porém, cuidar-se que esta simples 
jornada do Senhor dos Passos se faz sem 
um ceremonial complicado e rigoroso. Um 
protocollo secular e meticulosamente cumprido 
impende sobre os preparativos do solemne 
sahimento. Na véspera da visita a S. Roque, 
indispensavelmente se procede á lavagem e 
investidura da imagem veneranda. 

As quatro horas da tarde de quarta-feira, o 
cardeal patriarcha desce da carruagem á porta 
da igreja, onde é recebido pelo prior e pela 
nobreza, e depois de fazer oração na capella do 
Santíssimo, encaminha-se para a sala do des- 
pacho da Irmandade, onde o aguarda a imagem 
sobre o andor, coberta com uma colcha de seda 
da índia. 



156 CARTAS DE LISBOA 

O Senhor dos Passos é então despido, entre 
nuvens de incenso, lavado a agua de Colónia 
pelo patriarcha, enxuto com uma toalha de 
rendas. Como á toilette de Luiz XIV, á toilette da 
imagem do Senhor dos Passos está adstricta 
uma corte, constituida pelos fidalgos de mais 
nobre estirpe. Este anno coube ao marquez de 
Ávila o segurar na bacia, ao marquez de Souza 
Holstein no jarro, ao conde de Sampaio na 
toalha. São logo após conduzidas as roupas, em 
bandejas de prata: a branca pelo marquez do 
Lavradio, a de cor pelo conde de Belém, a pri- 
meira túnica por D. António de Sampaio McUq 
e Castro. E o momento de entrar a marqueza 
da Fronteira, aia do Senhor, que, auxiliada pela 
marqueza de Ávila e D. Luiza de Mascarenhas, 
lhe veste a ultima túnica. Depois de terminada 
a toilette^ é collocada a cruz aos hombros humil- 
des d'esse Christo, que um patriarcha acaba de 
lavar com agiia de Colónia e a quem uma corte 
de fidalgos vestiu roupas guarnecidas a rendas 
preciosas de Bruxellas e bordadas a ouro e pe- 
drarias. Então, accêsas as tochas, os irmãos en- 
toam o Miserere, despem as opas e regressam 
de carruagem a suas casas, vestir a casaca, para 
irem ouvir ... a Gíoconda a S. Carlos. 

A vida tem as suas necessidades e os seus 
deveres imperiosos, os seus contrastes e os seus 
ridículos. Não vai bem, é certo, como epilogo a 
esta solemne ceremonia, a musica de Ponchielli^ 



CARTAS DE LISBOA 157 



mesmo regida pela batuta magistral de Manci- 
nelli e cantada pela voz admirável de Krusce- 
niski. Mas a culpa não é dos devotos fidalgos, 
que tão fervorosamente assistiram á toillete do 
Senhor e, horas depois, tão enthusiasticamente 
applaudiram o bailado das Horas. A culpa é do 
tempo, que caminha sobre as tradições immo- 
veis e dia a dia mais se distancia d'elias. Ha um 
século, a ceremonia era a mesma, mas os homens 
e os costumes eram outros. 

Nos fins do século XVIII, Lisboa era uma 
das mais devotas cidades do christianismo. E sin- 
gular que haja bastado apenas um século para 
a transformar n'uma das cidades mais irreveren- 
tes da christandade I 



I d'abril 

Já nos jornaes apparecem os primeiros annun- 
cios de casas para alugar em Cintra. Já pelas 
esquinas apparecem os primeiros cartazes annun- 
ciando uma tourada no Campo l^equeno. Mas a 
estes impacientes symptomas de verão, com 
que os homens estão advertindo a Natureza de 
que já vai longo o inverno, os céus enublados 
respondem com borrifos de chuva e aragens de 
arripiar o menos friorento. Debalde as olaias 
ornamentam a Avenida com o seu docel de 



IS8 CARTAS DE LISBOA 

flores lilazes e os armazéns Grandella expõem 
nas suas amplas vitrinas da rua do Ouro as* 
novidades têmporas de uma nova estação de 
dias de sol. O vento frio esfolha impiedosa- 
mente as flores delicadas das olaias e parece 
uma ironia que se encham as montras de per- 
cães e zephires, quando não são de mais as 
rapozas, os astrakans e os velludos para agaza- 
Ihar, á sabida de S. Carlos, as lindas melomanas 
de Lisboa. 

Porque S. Carlos — cousa que ba muitos 
annos se não via — está ainda aberto no dia 
I de abril, d'onde resulta ter o snr. conde de 
Sabrosa estado apenas ausente uma temporada 
do seu camarote de governador civil. A Lisboa 
que se diverte ou simula divertir-se, tem assim 
ainda onde passar as noutes, onde mostrar as 
suas toilettes e as suas jóias em plena Quaresma. 
Despedidos Saint-Saéns e Giordano, Cintra offe- 
recerá um refugio de frescura e de sombra a 
toda esta população infatigável de mundanas e 
janotas, que ha cinco mezes se anda a intoxicar 
em salas de espectáculos e jantares diplomáti- 
cos. A S. Carlos succederá então S. Bento. 
Ás oratórias sacras de Perosi succederão as 
retaliações calorosas dos partidos. O parlamento 
nada ficará devendo ao lyrico em números sensa- 
cionaes de elenco e de programma. Os grandes 
maestros vão ceder o logar aos grandes agita- 
dores. Na Lisboa estival haverá uma tempes- 



CARTAS DE LISBOA 159 

ade permanente. Já se annunciam medonhas 
ro voadas. Podem fechar os theatros. S. Bento 
/ai abrir com um reportório de melodrama. 

É de esperar que as creanças não deixarão, 
Porém, de sorrir emquanto cem homens desen- 
cadeiam^ tormentas politicas n'um hemicyclo de 
mármore, como infelizmente os pobres não 
Cessarão de soffrer e de penar porque algumas^ 
cluzias de ambiciosos promettem alarmar o paiz 
oom as suas rixas. 

Em frente a essas espectativas consideráveis, 
^ vida de Lisboa parece, todavia, apagar-se. 
ííos salões, nas ruas, nos cafés, nos theatros, 
c::omo na Arcada e nas antecâmaras dos minis- 
tros, só se falia de politica. Não ha um aconte- 
cimento dominante, que sobrenade n'esta cor- 
rente geral de boatos e de intrigas, de murmu- 
rações e de ameaças, que submerge todos os 
pequenos incidentes, que são a fortuna de um 
chronista. Desde a indemnisação de três mil 
contos, que nos é exigida pela ÂUemanha, até 
á revogação das ordens de marcha para a expe- 
dição vingadora dos cuamatas, tudo com a poli- 
tica se relaciona, tudo para a politica reverte. 
Apenas a constituição de uma sociedade pro- 
motora de uma grande festa annual da cidade, 
é, n'esta crise de factos e noticias, um aconteci- 
mento de vulto, sobre que seja possível fazer 
considerações de algum interesse. O que vai 
decidir, em concilio pleno, a direcção do Grande 



l6o CARTAS DE LISBOA 

Club de Lisboa? Inventar uma festa, radical- 
dar-lhe uma physionomia original e bem typic» 
de modo a que corresponda ao programma paa 
triotico de ser, como a Semana Santa de Sev£^ 
lha e o Carnaval de Nice, um chamariz d< 
estrangeiros e uma attracção de universal re- 
nome, não se me affigura das emprezas mais 
fáceis, attendendo a que Lisboa é hoje a menos 
característica das cidades da península e sem 
duvida aquella em que, com mais perseverança, 
de ha trinta annos a esta parte uma população 
mais tenha trabalhado para apagar a originali- 
dade de costumes herdados e durante séculos 
mantidos. 

Sem grandes monumentos de arte, sem no- 
táveis museus, sem um opulento commercio, 
destituida de todos ou quasi todos os grandes 
progressos com que se adornam as capitães do 
século XX, Lisboa tem apenas, para ofTerecer ao 
estrangeiro, o panorama radioso do Tejo, o bu- 
colismo de Cintra e a pastiche pretenciosa dos 
Estoris. Afora isso, nem prodigalidades da natu- 
reza nem arrojados commettimentos dos homens 
concorrem para tornal-a, com excepção do clima, 
um rendez-vous do luxo europeu e americano, 
ou para elegel-a em um fascinador recinto de 
recreio. 

Para que uma festa annual possa celebrar-se 
dignamente, n'unia cidade hierarchicamente a 
primeira de um paiz, residência de uma corte e 



CARTAS DE LISBOA l6l 



capital de um reino histórico, torna-se indispen- 
sável, antes de mais nada, descobrir-lhe uma 
i"a.2ão plausivel de existência e que esta intima- 
rnente corresponda ás necessidades, ás tendên- 
cias, ás tradições da população que a constitue. 
C>ra, de facto, Lisboa liquidou de ha muito o 
*5.vae lhe restava de tradições históricas e difficil 
^ descobrir crença ou predilecção accentuada 
^^^bre que levantar o edifício sólido e perdurável 
^ uma festividade. 

No século XVIII, Lisboa tinha as suas pro- 
íssões pomposas para mostrar aos estrangeiros 
^slumbrados. A incredulidade extinguiu-as. Em 
^^:Ddo o século XIX, duas festas se deram a al- 
ternativa na vida da capital: a tourada e o 
^^Intrudo. E ambas, por sua vez, decahiram. 
^^em fé, sem alegria, sem grandeza, sem arte, 
^em pittoresco, onde ir buscar os elementos 
^ssenciaes a essa grande festa projectada? Li- 
rnitar-se-ha o Grande Club a promover a restau- 
ração do Entrudo lisboeta, sobre um plano 
idêntico ao que presidiu aos recentes cortejos 
do Porto? Mas isto,, que seria bastante para 
nós outros, de maneira alguma poderia consti- 
tuir uma attracção para o estrangeiro, solicitado 
por festas similares de muito maior esplendor 
decorativo, em meios incomparavelmente mais 
favoráveis ao prazer dos millionarios e toiíristes. 
«Festa de Maio», ouço que vai intitular-se a 
festividade em projecto. E se assim for, em 
11 



1 



l62 CARTAS DE LISBOA 

nada lhe ficará associada a ideia de uma res- 
tauração do Carnaval, a menos que se não pre- 
tenda deslocar para o mez de maio, dando-lhe 
uma interpretação diversíssima, esse numero 
do programma, constituído por cavalhadas ou 
cortejos, no género dos que até hoje uma inin- 
terrupta tradição mantém em varias cidades da 
Bélgica. 

Não ha duvida que o passado de Lisboa, 
que figura na historia da civilisação como uma 
das cinco cidades que mais contribuíram para 
o progresso da humanidade, se prestava ex- 
cepcionalmente ás pomposas apologias de um 
cortejo, onde se evocassem as descobertas e as 
conquistas, desde a sua origem mythologica 
até á apotheose do seu ambicioso futuro de 
cães da Europa, Mas outros defendem e pa- 
trocinam calorosamente o plano de uma feira 
colossal, cujos arraiaes assentassem quer nas 
terras devolutas do parque Eduardo VII, quer 
nos terrenos longínquos do Campo Grande. 

Quanto melhor se nos affigurava que a ini- 
ciativa do Grande Club de Lisboa se empre- 
gasse, abandonando por agora os planos de 
festas inexequíveis, em promover o desenvol- 
vimento de uma sumptuosa estação de inverno, 
rival de Nice, nas margens formosíssimas da 
mansa bahia, que o mar cava entre a fortaleza 
de S. Julião da Barra e a cidadella de Cas- 
caes 1 



CARTAS DE LISBOA 163 



8 d'abril 

Reuniu, finalmente, a assembleia geral do 
Grande Club de Lisboa, promotor da tão decan- 
tada festa da cidade, para resolver em que 
deve consistir a grande e annual festividade 
urbana, d'onde tão consideráveis benefícios 
hão-de provir para o commercio e para as 
industrias — sobretudo para as industrias — da 
capital do reino. 

E positivo que dos resultados obtidos na 
restauração do Carnaval portuense pelos Clubs 
dos Fenianos e Girondinos, nasceu a ideia de 
constituir aqui uma sociedade idêntica. Mais 
uma vez, o Porto inspirou Lisboa; e nós só 
teríamos que applaudir a iniciativa dos funda- 
dores do Grande Club, se ella se limitasse a 
reproduzir o programma dos clubs portuenses, 
aproveitando a existência tradicional de uma 
festa secular — única que nos resta — para a 
engrandecer e nobilitar. Mas Lisboa quiz fazer 
cousa nova. O Entrudo pareceu aos iniciadores 
do Grande Club uma festa pouco digna do seu 
prestigioso auxilio. De facto, para esse concilio 
de bons burguezes, na sua maioria, ao Entrudo 
faltava tudo quanto era necessário á sympathia 
d'essa classe omnipotente. O Entrudo constituiu 
sempre uma festa popular e fidalga, em que 



104 CARTAS DE LISBOA 

foram protagonistas o plebeu e o nobre e eterna 
victima o burguez. Depois, o Entrudo tem 
ainda o defeito de durar apenas três dias e 
tornava-se necessário que a festa projectada, 
como bem o accentuou um agenciador de 
annuncios, dandy e repórter^ favorecesse, quanto 
possivel, o commercio e as industrias — sobre- 
tudo as industrias. Ora, em três dias fez Deus 
apenas a luz, os animaes e o homem. 

Como em tão mesquinho período de tempo 
haviam de beneficiar da grande festa as indus- 
trias de Lisboa? Ficou, pois, decidido, em prin- 
cipio, que a capital fosse dotada com uma festa 
de mais lucrativa duração e que o Grande Club, 
porque parecesse commettimento pouco condi- 
gno dos seus recursos o rejuvenescer uma ve- 
lharia decahida, creasse do nada, como Jehovah, 
uma festa nova, sem uso e sem tradição : a 
Festa de Maio. Para o seu exito contavam, 
todavia, os organisadores com um elemento, 
no parecer de toda a gente, essencial: o céu 
azul. 

Arrematado o mez de maio para a festa 
com o seu céu de anil, as suas flores, as suas 
tardes serenas, as suas auroras radiosas e as 
suas noutes estrelladas, o resto facilmente se 
prepararia com alguns discursos inspirados e 
algumas phrases lindas. 

As phrases encommendaram-se a Abel Bo- 
telho, um dos mais brilhantes estylistas da nossa 



CARTAS DE LISBOA 165 

lingua, mestre indiscutido da forma, que tem 
da linguagem todos os segredos e sabe vestir 
as ideias com a mesma suprema elegância com 
que Faquin veste as parizienses. O auctor illus- 
tre do Amanhã consentiu em emprestar o pres- 
tigio do seu nome e os primores da sua penna 
á sociedade auspiciosa; e não contente com esse 
régio presente, deu-lhe uma divisa: En tactitia 
sanitas^ que logo, para comprehensão do repór- 
ter janota, se traduziu: cNa alegria está a 
saúde». 

Apenas faltavam os discursos. Inaugurou-os 
o snr. Carvalho Pessoa, dirigindo-se á assem- 
bleia, á qual, n'uma desenvolvida exposição, 
demonstrou a conveniência de se promover 
ainda este anno uma grande festa, para iniciar, 
quanto mais cedo melhor, o periodo da activi- 
dade e de acção do Grande Club. 

Conhecendo o seu mundo e os seus homens, 
muito previdentemente, antes de arriscar o seu 
projecto sensacional, o orador passara pelo ga- 
binete do chefe do governo, «que o auctorisára 
a participar as suas disposiçees em auxiliar o 
intento em tudo quanto estivesse ao seu alcance 
governativo». 

Pôde causar surpreza ao Porto esta interfe- 
rência inicial do Estado na iniciativa particular 
de uma tão poderosa sociedade. Mas as inicia- 
tivas particulares, na capital, são sempre assim. 
Invariavelmente, o Estado é o seu thesoureiro 



l66 CARTAS DE LISBOA 

generoso. Sem a intervenção official não ha 
iniciativa particular que resista á avareza de 
Lisboa. 

Tem em seguida a palavra o snr. Rozenda 
Carvalheira, a cujo longo tirocinio de architecta 
e a cujas nobres inclinações de artista já aqui 
mesmo prestamos em tempos o merecido lou- 
vor. E como a sua profissão seja a de executar 
e a sua especialidade a de executar depressa, a 
snr. Rozendo Carvalheira pretende pôr desde 
logo a questão sobre o papel e interroga a 
assembleia sobre o caracter que convém dar á 
festa de inauguração e quaes os elementos com 
que se pôde contar para realisa-Fa com brilho. 
Pela sua parte, sendo de opinião que a Festa 
de Lisboa revista uma feição essencialmente 
typica, propõe um concurso de pyrotechnia, 
industria que diz ter attingido grande desen- 
volvimento ... no Minho, e a organisação de 
uma feira com exhibições de costumes e dan- 
sas . . . regionaes. 

Achamos, pela nossa parte, a ideia excel- 
lente, mas ousamos notar a flagrante confis- 
são, que envolve esse programma, emquanto á 
carência absoluta de elementos locaes para a 
confecção de uma festa a que não falte caracter, 
brilho e pitteresco. Uma Festa de Lisboa com 
foguetes do Minho, com illuminações á moda 
do Minho, com dansas do Minho, com lavradei- 
ras do Minho, redundará n'uma Festa do Minho, 



CARTAS DE LISBOA 167 

Assim proclamada a falta absoluta de elementos 
de que dispõe hoje Lisboa para organisar uma 
festividade caracteristicamente sua, o fracasso 
da auspiciosa iniciativa parecia-nos por demais 
demonstrado á saciedade. E uma única coisa se 
impunha: a dissolução. 

Não o entendeu assim a illustrada assembleia, 
obstinada em dotar Lisboa com festas rivaes das 
de Sevilha, e logo o snr. Carvalho Pessoa, dando 
o seu voto ao plano de uma revista de costumes 
regionaes, lembra que se aproveitem para a feira 
os cinco grandes talhões que compõem a parte 
não ajardinada da Avenida da Liberdade. Céus! 
É' outra vez a Feira Franca do centenário da 
índia, com que nos ameaça o Grande Club de 
Lisboa! E para isso escreveu uma circular scin- 
tillante e primorosa um escriptor dos mais illus- 
tres da nossa terra. Uma feira na Avenida ! Mas 
tanto vale propor uma reconstituição da Avenida 
n'uma feira de S. Cosme. Os nossos olhos quasi 
se recusam a acreditar no que estão lendo. É 
um vereador da camará de Lisboa que propõe 
comprometter por algumas semanas, com sceno- 
graphias de arraial, a única extensão de terreno 
a que a municipalidade conseguiu, em todo o 
vasto termo da cidade, dar um aspecto de civi- 
lisação e de grandeza? E é n'esse scenario de 
palmeiras e casas de cinco andares, com pas- 
seios largos como estradas e arvores symetrica- 
mente alinhadas, que se vai tentar erguer o es- 



l68 CARTAS DE LISBOA 

tendal de uma feira, com varinas da Murtosa, 
lavradeiras de Vianna, moças da Maia e pauli- 
teiros mirandezes a dansar o Vira, a Canninha 
Verde e o Malhão? Não teria sido mais razoá- 
vel que sinceramente se declarasse a impossibi- 
lidade de organisar, por ausência de elementos 
tradicionaes ou pittorescos, a projectada festa, e 
se pozessem ao serviço de melhoramentos urba- 
nos e do embellezamento da capital as energias 
e os capitães que se vão consumir em lonas pin- 
tadas, foguetes e bandeiras? 

Ainda a voz sensata de um homem prático 
— a do snr. Henrique Taveira — se elevou para 
advertir ser o tempo pouco para empreza tão 
grande, propondo que a festa só se realisasse no 
anno próximo, sendo por essa occasião inaugu- 
rada uma exposição industrial, compendiando 
toda a nossa actividade, iniciativa e génio crea- 
dor. Mas logo o abalisado repórter replica defen- 
dendo a festa de junho com tão grande calor e 
exaltação, que eu proporia se substituísse pelo 
nome d'esse senhor o titulo impróprio de Festa 
de Lisboa^ se por acaso me fosse dada a honra 
insigne de pertencer a tão conspícua assem- 
bleia. 

Por uma quasi unanimidade de votos a feira 
da Avenida foi decretada pelo concilio bene- 
mérito. D'aqui a dous mezes, os deputados da 
província consolar-se-hão no exílio forçado de 
Lisboa, indo ver dansar a Canninha Verde á 



CARTAS DE LISBOA 169 

Rotunda do Marquez de Pombal. Uffl Já Lisboa 
"t^m uma festa para rivalisar com as de Se- 
"X^lha. . . 



^ de maio 

Depois de três dias de uma chuva branda, 
-<iue regou as estradas, o sol voltou a resplande- 
-cer e a illu minar Lisboa. Das janellas de minha 
casa, n'este bairro de jardins onde habito, por 
toda a parte os meus olhos encontram alluviões 
de rosas, colorindo os canteiros, trepando ás 
paredes, enroscando-se nas grades. No jardim 
do snr. Carlos Eugénio de Almeida, uma mos- 
queteira florida enlaçou-se a um pinheiro, pen- 
durando-lhe das ramarias verdes uma grinalda 
branca; nos jardins de Palhavã as rosas são 
tantas e a terra dos canteiros está tão coberta 
de pétalas, que dir-se-hia que as novas rosas 
nascem e crescem de entre as folhas das rosas 
mortas; dos viveiros da camará municipal, na pe- 
quena zona expropriada do parque Eduardo VII, 
entra em grandes bafejos aromáticos, pelas ja- 
nellas da minha sala de jantar, o aroma suave 
de milhares de roseiras e o perfume capitoso de 
um campo de goivos brancos e roxos. E ainda 
do parque magnifico do snr. Henrique Monteiro 
de Mendonça, dos pequenos jardins circumja- 
centes ao largo de S. Sebastião da Pedreira, 



I70 CARTAS DE LISBOA 

toda a pompa da floricultura balouça e brilha 
nas hastes dos arbustos, sob a radiosa luz do 
matinal sol de maio. 

Téem estas paragens de Palhavã e S. Se- 
bastião fama antiga de floridas. Já em maio de 
1787, William Beckford, na sua visita ao palá- 
cio dos marquezes de Louriçal, então moradia 
dos bastardos de D. João V, e hoje pertencente 
aos condes de Azambuja, ramo segundo da casa 
de Loulé, se detinha nos jardins, na enbevecida 
contemplação das rosas, « dignas — na sua phrase 
elegante de epicurista — de juncar o leito e ornar 
o seio de Lais e de Aspasia». São talvez os 
troncos d'essas mesmas roseiras do século XVIII, 
diante das quaes estacava Beckford, que ainda 
hoje, robustos e seculares, enchem de flores e 
perfumes os canteiros de Palhavã. 

A dous passos d'aqui ficam ainda, em Sete 
Rios, a quinta das Laranjeiras, onde o conde 
de Farrobo cultivava em 1859 ^^ "^^^^ lindas 
rosas de Portugal, e em S. Domingos a nobre 
quinta dos Fronteiras — modelo talvez único 
entre nós de uma sumptuosa villa de recreio no 
gosto italiano do século XVII — de que o ultimo 
marquez era, além do nobilissimo senhorio, o 
mais hábil e zeloso dos jardineiros. 

Lisboa tem d'estes pequenos paraizos subur- 
banos, em parte absorvidos hoje pela nova ci- 
dade, e em que a nobreza repartiu entre si os 
vergéis da antiga capital da segunda dynastia. 



CARTAS PE LISBOA I7I 



mas são domínios na sua maior parte fechados 
por altos muros, vedados ciosamente á curiosi- 
dade de quem passa; e quando a primavera 
envolve Lisboa no seu tépido calor, forçoso se 
torna aos que não téem jardim, nem quinta, 
nem parque, ir procurar longe da cidade som- 
bras de arvores, rumores de fontes, aromas de 
flores. 

É agora que o arrabalde de Lisboa ostenta 
os seus campos de trigo entretecidos de pa- 
poulas e que os seus pomares ainda floridos e 
a obra-prima das suas hortas, que o saloio 
aprendeu com o mouro a cultivar, emprestam 
uma ephemera belleza aos desertos poeirentos, 
despidos de arvoredos e envoltos de muros, que 
se estendem, com raros oásis de permeio, para 
além das antigas portas da cidade. Começa 
para a população, com estes dias primaveris e 
creadores, o regresso ao culto da natureza e a 
irreprimivel anciã de abandonar a rua civilisada, 
obra do homem, pelas terras floridas, obra de 
Deus. Tudo parece chamal-a para fora da ci- 
dade, convidal-a a partir, a abandonar o grande 
monstro de pedra, onde enxameiam as doenças 
e as misérias, onde só ha luctas que esfalfam e 
prazeres que corrompem. 

Os céus enchem-se de aromas e em todo o 
prestigio da sua belleza, na sua adolescência 
tentadora, a Primavera acena aos homens em- 
pallidecidos e fatigados, offerecendo-lhes o 



1/2 CARTAS DE LISBOA 

reconforto das atmospheras puras e dos mara- 
vilhosos espectáculos de que é divino empre- 
zario o Creador. Multiplicam-se então os com- 
boios nas linhas de cintura. Os tramways de 
Cintra, de Cascaes, de Sacavém levam de meia 
em meia hora para os arrabaldes, para a Lisboa 
suburbana regada pelo Tejo, refrescada pelo 
oceano, bandos de romeiros, que a cidade á 
noute reabsorve na sua teia como uma aranha 
cúpida. Mas este subúrbio, aonde o lisboeta 
vai buscar a illusão de uma belleza bucólica, 
pacificadora e saudável, parece soffrer, como 
os homens, da proximidade do monstro devo- 
rador de energias, que ha dez séculos reflecte 
nas aguas caudalosas do rio as ameias dos seus 
castellos mouriscos, as cruzes das suas torres 
christâs, as lavaredas dos seus incêndios e a 
confusão das suas pelejas. Ao arredor de 
Lisboa faltam as aguas e os arvoredos, que 
são a maior formosura da Natureza. As suas 
aguas correm em viaductos e as suas arvores 
apodrecem nos travejamentos seculares da 
Mouraria e do burgo de Alfama. Foi á custa da 
terra que se elevou a cidade. Como um exercito 
de vândalos, Lisboa assolou tudo em volta. 
É necessário passar o Tejo, enveredar para os 
valles ubérrimos do Sado, para os vergéis de 
Setúbal, para as encostas verdejantes da Arrá- 
bida, para avistar de novo, em pleno triumpho 
exuberante, a paizagem bucólica, rumorosa de 



CARTAS DE LISBOA 173 

aguas e perfumada de aromas. Mas o lisboeta 
quasi desconhece esse paraizo, que o grego e o 
mouro festejaram com enlevadas preferencias, 
que defenderam, como um thesouro, com 
inexpugnáveis castellos, e até onde os exércitos 
do feroz Miramolim de Marrocos penetravam 
ainda no reinado de D. Sancho l, ávidos de 
contemplarem as terras formosas a que o rei 
mouro de Badajoz entoara um arrebatada 
hymno e de que se apartara a soluçar, á frente 
dos rudes cavalleiros de Affonso Henriques. 

Já aqui tentei um dia descrever uma das 
villas de recreio de maiores tradições históricas 
d'este valle formosíssimo, tão predilecto da corte 
e da nobreza durante a Renascença, quando 
mais se desenvolverem em Portugal, em con- 
traste com a barbárie anterior, as predilecções 
do luxo, do repouso e dps demais requintes da 
existência. Mas a Bacalhôa, a famigerada Villa 
Fresca, mandada edificar por D. Brites, filha do 
infante D. João, mestre de Sant'Iago, mulher 
do infante D. Fernando e mãe do rei D. Manoel, 
e comprada em 1528 pelo filho de Affonso de 
Albuquerque aos marquezes de Villa Real, não 
é o único monumento a attestar a antiguidade 
de um preito com que fora tão merecidamente 
distinguida a belleza d'este paraizo visinho de 
Lisboa, aonde, ainda ha alguns annos, já quasi 
moribundo, o conselheiro Marianno de Carva- 
lho, na sua phrase ao mesmo tempo poética e 



174 CARTAS DE LISBOA 

sinistra, ia habituar-se sem horror, antes com 
suave encanto, á ideia de que a terra em breve 
devoraria o seu corpo mortal. . . 

Deixando a alegre e arejada Setúbal, tão 
predilecta de D. João ll, e os seus viçosos la- 
ranjaes, que a enfeitam e perfumam como uma 
noiva, e seguindo a estrada que, em pouco mais 
de uma hora, conduz a Azeitão ou Villa No- 
gueira, o olhar embevecido do viajante logo de 
principio vai abrangendo os mais variados e sur- 
prehendentes panoramas de serra e de mar em 
que se recreou a arte poderosa de Deus. 

São primeiro os castellos de S. Filippe e do 
Outão, dominantes ao Sado de claras areias e á 
ilha vulcânica de Tróia e logo a seguir o con- 
vento de Brancannes, n'um contraforte da serra 
da Arrábida, com as suas cercas de arvoredo 
secular, mirando o valle accidentado onde pas- 
tam os rebanhos e murmuram sonoras as fontes 
perennes das herdades. 

Descobre-se agora toda a moUe grandiosa 
da serrania, atrás da qual o oceano desdobra a 
sua liquida planicie. 

Como por todas as encostas e ravinas a 
urze, o rosmaninho, o tojo e a giesta estejam 
em plena floração primaveril, a athmosphera 
impregna-se de aromas. Terra de fidalgos e de 
frades, de solares, de fortalezas e conventos, em 
cada alto morro assoma a ameia de um castello 
ou a cruz de uma abbadia. A cada volta da es- 



CARTAS DE IJSBOA I75 

"^rada sinuosa o panorama modifica-se, as cultu- 
ras variam, uma nova herdade surge, com o 
seu portão brazonado, a sua ermida pequena, 
-as suas adegas e celleiros. São depois olivaes, 
terras de sobreiral e de azinheiro, e logo a es- 
trada arborisada desce em rápidos torcicollos 
para o vasto, immenso e ubérrimo valle, que se 
estende até ao cabo do Espichel e de onde se 
descobre o Tejo, os castellos de Cezimbra e de 
Almada, as serras de Cintra e Montachique, o 
castello de Palmella com a sua formidável torre 
de menagem, e ao longe, branquejando rez-vez 
da tremulina scintillante do rio, Lisboa com as 
suas sete collinas, a torre de Belém e os bas- 
tiões denegridos de S. Jorge. 

É como se um pano de theatro de repente 
subisse, deixando ver uma scenographia pintada 
por Gustavo Doré e Ruysdael, com fortalezas 
e moinhos, ondas de mar e aguas de rio, vi- 
nhas e pinheiraes, cearas e vergéis. Já em plena 
villa, a estrada segue por entre muros e portões 
senhoriaes, passa em frente ao palácio arrui- 
nado dos duques de Aveiro, cujas alas desman- 
teladas ainda se aprumam, e em cuja dupla es- 
cadaria, por onde desceu entre esbirros o ultimo 
duque a caminho dos cárceres da Junqueira, a 
herva e as ortigas crescem. Em parte alguma 
como diante d* este nobre edifício em ruina, que 
se tem de pé por um milagre de equilíbrio, 
como se houvera herdado toda a arrogância 



176 CARTAS DE LISBOA 

dos seus donos, se sente a empolgante impres- 
são que as evocações do passado exercem sobre 
o espirito. 

Com as armas do seu brazão picadas, os 
balaustres da sua pomposa escadaria cabidos 
nos degraus, os telhados esbarrondados, a ar- 
mação da sua cisterna senhorial comida pela 
ferrugem, o enorme palácio, onde campeavam 
a soberba e o luxo do mais opulento e orgu- 
lhoso fidalgo portuguez, que jantava em baixei- 
las de prata buriladas por Germain e adornava 
as paredes dos seus salões com tapeçarias dos 
Gobelins e telas do Veroneso, parece ainda vi- 
ver, com essa existência mysteriosa das ruinas, 
aquelle passado de esplendor e de fausto, que 
para elle como para o duque seu senhor, para 
todo o sempre findou ' na carnificina horrenda 
do cadafalso de Balem. Nos bancos de pedra 
do terreiro, onde ha século e meio a criadagem 
do duque jogava a esquineta, vão agora fiar as 
velhas da villa as suas rocas de estopa. Pelas 
salas sumptuosas, cujo mobiliário foi enriquecer 
os Paços de Villa Viçosa e da Ribeira, fazem 
agora ninho as corujas. De tudo o que foi, res- 
ta-lhe apenas a imponência fria, no gosto do 
século XVII, das suas linhas architectonicas, que 
ainda impõem aos abundantes solares e palá- 
cios da villa a supremacia hierarchica dos seus 
edificadores poderosos e orgulhosissimos. 

E ao olhar a radiosa paizagem que emmol- 



CARTAS DE LISBOA I77 

dura O soberbo palácio ducal, diante do pano- 
^àma, maravilhoso que se abrange do patamar 
cie granito da sua escadaria, irreprimivelmente 
o espirito evoca as horas de agonia que o regi- 
cida, alli passou, em frente a esse valle radioso, 
nas amedrontadas anciãs de vêr apontar na es- 
trada a escolta remettida pelo marquez de 
Pc>rnbal para o prender no seu esconderijo, na 
sua. villa de Azeitão, de que elle era, mais do 
í^e o duque, quasi o rei I 

Tem agora o excursionista, para escolher, 
^^a.s estradas: a que leva á estação marítima 
^^ Barreiro por entre infindáveis vinhas e po- 
'^^.res e a que conduz á villa de Palmella e ás 
'"^inas grandiosissimas da fortaleza dos cavallei- 
*'^s de S. Thiago, que hoje ainda ergue para os 
^^Us o cubo altissimo da sua torre de menagem, 
^^foada de ameias e enfaixada de muralhas 
Mouriscas e medievaes. Mas não ha que hesitar, 
^ o próprio cocheiro tagarella, que desde Setu- 
^^l vos conduz no breack ou na caleche, apon- 
^3.ndo-vos do alto da boleia, com o pingalim, 
^^ herdades e os solares, as ermidas e os con- 
^^ntos, será o primeiro a aconselhar-vos a visita 
^ Vetusta Palmella, aninhada como uma villoria 
^^dieva á sombra dos muros da imponente for- 
^leza, contra os quaes bateram, como ondas 
"acidas em penhascos im moveis e rijos, as arre- 
"^^ttidas dos guerreiros mouros e dos cavallei- 
f<^s hespanhoes de Henrique de Trastamara. 

18 



178 CARTAS DE LISBOA 

De Azeitão a Palmella pouco mais é de uma 
hora, e tereis tempo de ir jantar tranquillamente 
a Setúbal e tomar o comboio da noute para 
Lisboa. 

Para admirar o mais grandioso panorama 
de Portugal, superior, pela variedade dos aspe- 
ctos, aos que se disfructam do castello da Pena, 
em Cintra, e das portas de Coimbra, no Bus- 
saco, valeria a pena fazer uma longa jornada. 
Uma hora de carruagem por uma estrada en- 
cantadora, arborisada em todo o seu percurso, 
através essa mesma região paradisíaca de vinhas 
e vergéis, que vindes atravessando desde os 
laranjaes odoríferos de Setúbal, bem longe de 
representar um sacrifício, outra cousa não 
mais que o prolongamento de um prazer pan 
o olfacto e para a vista. Logo se adivinha ní 
conservação esmerada dos caminhos e na arbo — ^- 
risação profusa, que a influencia de gente pode — ^=- 
rosa conquistou para este paraizo suburbano d( 
Lisboa as solicitudes das obras publicas. N'est< 
triangulo de Cezimbra, Setúbal e Azeitão, téen::==^ 
quinta ou solar as mais nobres familias di 
Lisboa, desde a casa real, depois da acquisiçã< 
da Bacalhôa, até á casa de Palmella, que n; 
serra da Arrábida possue o seu esplendido pala 
cio do Calhariz, célebre na historia venatoria d 
século. A cada passo o cocheiro vos dirá ntr^ 
nome illustre, indicando-vos as propriedade^ 
que se succedem na lenta ascensão para Pai- 






CARTAS DE LISBOA I 79 

tnella. E para vós, gente do norte, acostumada 
a vêr sem horror a habitação do lavrador mi- 
nhoto, será uma surpreza o contemplar os 
brancos casinhôlos do casaleiro extremenho, 
surprehender o conforto d'estes pobres, que ne- 
nhuma miséria apparente persegue e antes 
parecem fruir a independência de pequenos 
proprietários, ao abrigo de necessidades e tra- 
balhos. 

Mas já vão rareando, á medida que se sobe, 
o pomar e a vinha. A urze, o piorno, a giesta 
€ o tojo enfestoam as efncostas. A uma volta 
da estrada avista-se um panno de muralha den- 
ticulando o azul do céu com as suas ameias. 
É depois a crista de uma torre que surje por 
detrás de um cabeço e, finalmente, um quarto 
de hora depois, a fortaleza inteira, com as suas 
esplanadas, o seu mosteiro, a sua igreja, os 
seus bastiões e fossos, erguida como uma 
resurreição histórica sobre o plató de um dos 
mais elevados morros da serra, que se estende 
entre os estuários do Tejo e do Sado e vai 
formar, ao sul da barra de Lisboa, o cabo 
Espichel. 

A que anno remonta a povoação de Pal- 
mella? Sabe-se apenas que, no anno 106 da éra 
christã, a reedificou e ampliou o pretor romano 
da Lusitânia, AuHo Cornelio Palma. Tomada 
pelos árabes no século VIII, ia começar para a 
pequena villa roqueira a existência movimentada 



l80 CARTAS DE LISBOA 

e dramática dos assaltos, dos saques, dos incên- 
dios, das mortandades e dos cercos. 

Em 1147, D. Affonso Henriques encaminha 
sobre ella as suas hostes de guerra, e sem 
cuidar de medir as difficuldades da empreza 
temerária, depois de arrasado o burgo mouro, 
assalta furiosamente a fortaleza, que se rende 
aos heróicos e bárbaros cavalleiros christãos. 
Mas por pouco tempo os conquistadores usu- 
fruem a sua magnifica conquista. Reconquis- 
tado, o formidável castello fica em poder dos 
mouros até 1166. Da seu paço da Alcáçova, 
em Lisboa, o rei christão podia ver do outra 
lado do Tejo, distante apenas seis léguas da 
capital do seu reino, que elle dilatara desde 
Guimarães n'um batalhar ininterrupto, fluctuar 
o estandarte mourisco ao cimo das torres de 
Palmella. 

Durante dezenove annos, em frente de Lisboa, 
manteve-se aquelle desafio permanente. Represo 
em 24 de junho de 1166, o castello é então 
doado aos cavalleiros de S. Thiago para que o 
povoem e defendam das investidas do inimigo. 
Mas nem a bravura intemerata dos defensores, 
nem as obras consideráveis com que se dilatara 
a fortaleza, impedem que vinte e cinco annos 
depois o Miramolim de Marrocos caia sobre o 
castello de Palmella como uma tempestade, o 
saqueie e o arrase, deixando apenas sangue, 
cinzas e ruinas. 



CARTAS DE LISBOA l8l 

Por muitos annos ficou a fortaleza abando- 
nada como uma mansão fatídica de mortanda- 
des e flagellos, até que D. Sancho l, depois de 
limpos o Alemtejo e a Extremadura dos derra- 
deiros inimigos, a mandou reconstruir desde a 
base, reerguendo-lhe uma torre de menagem, 
sustentada por fortes baluartes, sobranceira ao 
antigo bastião mourisco, que ainda hoje, passa- 
dos dez séculos, se conserva de pé. 

Quando os exércitos hespanhoes, sob o rei- 
nado de D. Fernando, incendiaram a villa, o 
castello resistiu impávido ao embate das cata- 
pultas castelhanas. As novas obras de defeza a 
que D. Sancho I mandara proceder, tinham tor- 
nado o castello inexpugnável aos assaltos mais 
intrépidos, assegurando-lhe por dilatados séculos, 
até á invenção da artilharia de assedio, a inven- 
cível resistência a todos os ataques. O mosteiro 
de freires de S. Thiago, fundado por D. Affonso 
tlenriques dentro das suas muralhas mouras, foi 
reerguido e accrescentado por D. Diniz, que 
elevou a gran-mestre da Ordem a D. João Fer- 
nandes. E desde então, através a barbárie da 
idade-média e o esplendor da Renascença, o 
imtnenso castello, accrescentado em honras e 
fortificações, conservou a sua eminente catego- 
ria militar. 

A 5 de maio de 1443 era para lá trans- 
portada definitivamente a sede da Ordem de 
S. Thiago, sendo seu primeiro mestre em Pai- 



l82 CARTAS DE LISBOA 

mella o infante D. João, filho do primeiro rei 
d'esse nome, fundador da dynastia de Aviz. Ao 
convento e á igreja foram adstrictos os paços 
do grão-mestre e do prior-mór. Entre cavallei- 
ros, frades e servos, a população do castella 
ascendia a mil almas. No seu anibito enorme, 
nas suas vastas esplanadas e terreiros, cruza- 
vam-se os mantos brancos dos cavalleiros e os 
hábitos dos monges. Por toda a parte, nos fe- 
chos das abobadas, nas ameias das torres, nos 
paredões dos mirantes, nas casernas, nos refei- 
tórios, via-se a cruz roxa, em forma de espada, 
com o punho em coração e as extremidades 
das guardas em flor de liz. Ao soar dos sinos 
constantemente se misturava o tinido das armas. 
E era tão forte aquelle reducto, que é para lá 
que D. João II, antigo grão-mestre de S. Thiago 
e ultimo reedificador do primitivo mosteiro de 
D. Diniz, manda preso o poderoso bispo de 
Évora, D. Garcia de Menezes, por traidor e 
conjurado na rebellião do duque de Bragança. 
Alli se vc ainda na torre, não sem um arripio 
de pavor, a lobrega prisão onde morreu o bispo 
captivo. 

Não seria de mais um volume para descrever 
minuciosamente as ruinas d' esta verdadeira ci- 
dade fortificada, que, tanto pela sua conserva- 
ção como pela sua antiguidade remota e tradi- 
ções militares, merece considerar-se como um 
dos mais interessantes documentos bellicos d 




CARTAS DE LISBOA 183 

paiz, senão mesmo, entre todos, o primeiro. 
Transposta a porta forte, restaurada em 1608 
pelo prior-mór D. Jorge de Mello, e subida a 
Íngreme calçada, guarnecida e defendida de mu- 
ralhas, que leva ao primeiro terreiro, depara-se 
com as ruinas do ultimo mosteiro, voltadas 
para Setúbal, e com as ruinas da igreja, onde 
jaz sepultado D. Jorge de Alencastro, filho le- 
gitimado de D. João II e ultimo grão-mestre da 
ordem de S. Thiago. Ficam á direita os lanços 
da muralha mourisca e os destroços da primitiva 
igreja, fundada por D. Affonso Henriques e 
arrasada pelos soldados do Miramolim de Mar- 
t"ocos. Entra-se depois nos paços medievaes do 
grão-mestre, no quartel dos cavalleiros e sóbe-se 
pior escadas puidas por sete séculos, através um 
labyrinto de refúgios abobadados, com postigos 
^ portas ogivaes, á temerosa torre de menagem, 
d' onde os olhos maravilhados alcançam e abran- 
gem o mais extraordinário panorama que os 
craprichos da Natureza dispozeram em toda a 
linda terra de Portugal. Para o norte e noroeste 
Q.vista-se Lisboa, o Tejo desde Santarém até ao 
oceano, as serras de Cintra, Montachique, 
Sucellas e Monte-Junto; para sul e sudoeste, 
Setúbal e o claro Sado com a ilha de Tróia; 
para oeste, as ondas inquietas do mar. 

E então, diante d'este panorama sublime, 
subitamente se comprehende a obstinação dos 
mouros em retomar aos christãos o castello de 



1 

l84 CARTAS DE LISBOA i 

Palmellã. E que aquella vista, como nenhuma 
outra deslumbrante, vale bem um assalto á 
mão armada! 



II de maio 

Na linha do caminho de ferro de oeste, a 
uma hora de viagem de Lisboa, o comboio pára 
n'uma minúscula estação dominante a um 
pequeno valle arborisado e que tem o no * 
prestigioso de Mafra. São oito horas da man 
Na estrada, uma diligencia e algumas caler ,: 
aguardam os passageiros, na sua maioria offic : 
de infantaria ou excursionistas. A villa, c -. ' 
basílica, o seu palácio, o seu convento, os ^ 
quartéis e a sua tapada, fica ainda \ong\. 
alguns kilometros para o interior, edificada 
plató e na encosta de uma das muitas colliic»^ 
d*esta região accidentada, que se estende até 
Torres Vedras — onde Gil Vicente possuia uma 
herdade, pelo muito que lhe lembravam Guima- 
rães aquelles sitios. 

Da estação até Mafra a viagem faz-se n*uma 
outra hora, por uma estrada arborisada, através 
terras de plantio e matto, com raras habitações 
disseminadas nos pequenos valles e pelas faldas 
suaves dos montes, onde pastam rebanhos de 
ovelhas já tosqueadas, pastoreadas por velhos 



CARTAS DE LISBOA 18$ 

decrépitos ou creanças. As aragens do mar re- 
frescam, como um perpetuo leque em movi- 
mento, estas paragens resudantes de aguas, cor- 
tadas de abundantes ribeiros, onde a vinha e a 
fructa se dão mal e o arvoredo cresce, alto e 
viçoso. Finalmente, o carro envereda por uma 
das ruas amplas da tapada real, sob um docel 
verde de ramarias, que lembra a exuberância 
florestal do Bom Jesus e do Bussaco. É uma 
vasta avenida, ainda do tempo dos frades, com 
seus seteaes de pedra rentes aos muros, e d'onde 
':)lhar abrange prespectivas variadas, planta- 
'-^.s symetricas de pinheiros, altos viveiros de 
' 'alyptos e brenhas espessas de folhagem, nas 
^^* es se acoutam os gamos velozes e medrosos 
^^ ' refugiam os pequenos javalis devastadores. 
** '^a orchestra de pássaros enche de trillos, 
geios e assobios a alta aboboda de arvo- 
o secular, a cujas sombras propicias se 
íídblhia, pouco antes da invasão de Junot, o 
triste D. João VI. 

E passadas as portas da tapada, eis-nos de 
repente no terreiro immenso do edifício colossal, 
a que no primeiro instante o olhar não appre- 
hende toda a grandiosa extensão, sabiamente 
disfarçada pela reentrância das duas alas do 
palácio e do convento, flanqueadas pelos gigan- 
tescos torreões, macissos como fortalezas. 

Alli está ennegrecido pelo tempo, com as 
suas trezentas cellas vasias, com os seus salões 



l86 CARTAS DE LISBOA 

desguarnecidos, com a sua sala de capitulo 
transformada em sala de armas, com a sua 
sala dos actos transformada em tribunal, com a 
seu immenso claustro transformado em caserna, 
com a sua basílica erma, onde apenas vão ouvir 
missa, aos domingos, alguns officiaes, soldados 
e saloios, o formidável monumento erigido pelo 
orgulho de um rei, como padrão glorioso da 
sua grandeza e como exemplar testemunho do 
seu fausto! 

Para que occulta-ro? A impressão que se 
sente ao encarar a monstruosa fabrica em 
cuja construcção dezenas de milhares de ope- 



rários ininterruptamente trabalharam durant 
treze annos, com a ameaça permanente da forc 
erguida no terreiro e sob a vigilância de set 
mil soldados, é desconsoladora e fria. 

Involuntariamente evoca-se o esplendor ma — 
gestoso de Versailles e reconhece-se que o emulo- 
de Luiz XlV era quando muito um Rei Sol. . . 
para franciscanos! E dizer-se que cento e ses- 
senta milhões de cruzados jazem alli, n'aquelle 
immenso mauzoléu de mármore; que durante 
treze annos as minas de ouro e de diamantes 
do Brasil foram despejadas n'aquelles caboucos; 
que alguns milhares de homens perderam a 
vida nos trabalhos d'aquella inutilidade! Poude 
a manha de um frade malicioso, encorajada por 
uma conspiração palaciana, obter da creduli- 
dade de um rei, tão libertino como beato, o 



CARTAS DE LISBOA 187 

voto de construir para regalia de uma Ordem 
mendicante, defraudando a nação em toneladas 
de ouro, aquelle hirto monumento, que o sé- 
culo XDC aproveitou para uma escola prática de 
infantaria I 

Mas passados os primeiros instantes de de- 
cepção, caminhando ao comprido da sombria 
fachada de duzentos e vinte metros, contem- 
plando as torres de sessenta e oito metros de 
a.ltura, contornando os degraus vastissimos que 
-onduzem á galilé da igreja, toda resplandecente 
zie mármores multicores, pouco a pouco nos 
vamos affeiçoando áquella grandiosidade absurda 
e sem encantos, dominados pela imponência 
orgulhosíssima das suas desconformes propor- 
<^ões e pela vigorosa expressão de solidez e de 
força que de toda ella emana. Nada, n'esse edi- 
fício desconforme, planeado por um architecto 
allemão contratado pelos jesuítas, que evoque 
a elegância ao mesmo tempo sumptuosa e re- 
quintada do século XVIII, a não ser, ao de leve^ 
na gracilidade das torres, que lembram, ao lado 
do zimbório, dous gigantescos tocheiros em 
frente a um monumental sacrário. Quiz-se tal- 
vez, com as suas linhas rigorosas, os seus con- 
tornos lineares, despidos de ornatos, dar á 
opulenta moradia dos frades da Arrábida a 
apparencia condigna á humildade da sua Ordem. 
Mas essa pobreza, não isenta de magestade, 
dissimula apenas, em prejuizo da belleza e da 



l88 CARTAS DE LISBOA 

arte, a mais fabulosa prodigalidade de um me- 
galómano omnipotente. Considerado sob este 
ponto de vista, Mafra é o prodigioso disfarce 
de um orgulho de nababo sob aspectos freirati- 
cos e humildes. Todo o talento dos architectos, 
dos esculptores, dos decoradores e dos artifices 
se esgotou ingloriamente em disfarçar o luxo 
asiático de um rei com a frialdade imponente e 
rectilinea de uma architectura monótona e pe- - 
sada. Foi necessário que D. João V morresse e i 
que D. José, aconselhado pelo marquez de Pom — 
bal, enxotasse de Mafra os parasitários francis — 
canos e os substituísse pelos eruditos cónegos-^ 
regrantes de Santo Agostinho, para que a arte^ 
delicada do século XVlll, dirigida por uma cul — 

tura copiosa, adejasse sob aquellas altas abobo 

das e inspirasse a famosa escola fundada poi — 
Giusti, que o grande Machado de Castro, auctor- 
da estatua equestre do Terreiro do Paço, ia em 
breve immortalisar. Aos cónegos de Santo Agos- 
tinho se deve a conclusão da bibliotheca ou tal- 
vez mesmo a adaptação a esse fim da enormís- 
sima sala de oitenta e oito metros, que nada pa- 
rece indicar haver sido construída, entre esse con- 
vento de mendicantes illetrados e esse paço ermo, 
para refugio das sciencias e das letras. Mas antes 
que os cónegos regrantes tivessem principiado 
a cobrir de ouro, como fora planeado, as estan- 
tes e balaustrada da sua bibliotheca sumptuosa, 
D. Maria I fazia entrar de novo os franciscanos 



CARTAS DE LISBOA 189 

na posse do convento, onde se mantiveram os 
arrabidos até 1834, anno em que o regente 
D. Pedro tomou alli a collocar os cónegos de 
Santo Agostinho. 

Está ainda hoje por fazer a historia de Mafra, 
e comtudo, se ha edifício que a mereça, é, sem 
duvida, esta gigantesca fabrica de granito e 
narmore, eloquentissimo documento da vida 
Dortugueza, tanto palaciana e politica como 
icclesiastica e civil, em todo o vasto decurso 
ie um século, a principiar no capitulo da sua 
undação e a terminar no quadro que nos offe- 
"ece o abrir do século XIX, com o bisneto de 
D. João V a cantar cantochão no coro da 
Lgreja emquanto o exercito da Gironda atra- 
^/essa a Hespanha como um cataclismo e 
D. Carlota Joaquina organisa merendas no 
Celebrêdo com os franciscanos! 

A tradição corrente, de que os guardas de 
Mafra são os zelosos mantenedores, attribue a 
um voto de D. João v, para obter successão ao 
throno, o projecto e construcção do edifício. 
E esse parece ter sido, de facto, o alicerce 
doesta enormidade. 

Para haver successão, D. João v, por con- 
selho de frei António de S. José, fizera voto de 
erigir um convento, destinado a frades arrabi- 
dos, na villa de Mafra, onde elles possuiam já- 
um paupérrimo hospicio. Posto que o convento 
fosse começado em i/i/, depois do nascimento 



190 CARTAS DE LISBOA 



1 



de D. Maria Barbara, D. José, D. Carlos e 
D. Pedro, não implica isso invalidez á votiva^ 
intenção inicial. 

Demasiadamente compensou D. João V 
delongas no cumprimento do voto com oí 
grandiosos exaggêros com que ao depois 
cumpriu. Mas vejamos as differentes versõe^^ 
que a historia archivou de historiadores, episto — ^ 
lographos e chronistas coevos sobre o vot< 
edificante de Sua Magestade Fidelíssima. É poi 
aqui que deve principiar todo aquelle que de 
Mafra quizer ser o historiador auctorisado ou 
cicerone consciencioso. 

Mafra é uma grande historia, quasi ui 
grande romance. Vamos tentar conta-Fa sem a= 
divagações inúteis dos romancistas e sem a^-^ 
considerações enfadonhas dos eruditos. 

Entrava-se no anno de 1709. 

O paiz pedia um príncipe que garantisse a 
successão da coroa e a estabilidade da dynastia. 
Os frades resavam, implorando a collaboração 
do céu em tão demorado lance. O assumpto 
das conversas, no palácio da Ribeira, era a 
esterilidade da rainha : a branca, loura, esvelta e 
magestosa D. Maria Anna, a mais formosa das 
três filhas dos imperadores da Áustria, Leopoldo 
e D. Leonor. 

Costumava n'esse tempo ir ao paço pedir 
esmola um leigo arrabido, muito piegas, de 
quem se contavam milagres, e a quem um dia 



Cartas de lisboa 191 

O marquez de Angeja se lembrou de pedir que 
intercedesse junto de Santo António para que 
tivesse filhos a rainha, a que o leigo, malicioso 
e interesseiro, respondeu: — Sim, os terá, mas 
é preciso fazer-lhe uma casa! 

Logo mandou D. João V tomar medidas do 
sitio em que hoje se levanta o convento do 
Coração de Jesus, immediato ao antigo collegio 
dos Padres Bentos da Estrella. Mas o visconde 
de Villa Nova da Cerveira, D. Thomaz de Lima 
e Vasconcellos, houve meios de conseguir da 
Rainha, de quem era estribeiro-mór, que junto 
do seu real esposo — tal qual o frade leigo 
junto de Santo António — se mostrasse interes- 
sada em que o convento dos arrabidos fosse de 
preferencia edificado em Mafra, onde o visconde 
tinha uma quinta. 

No Gabinete Histórico^ frei Cláudio da Con- 
ceição dá, porém, outra versão do episodio ma- 
trimonial que originou a edificação do monu- 
mento. 

O que o manuscripto da Bibliotheca Nacio- 
nal diz ter-se passado com o marquez de Angeja 
é attribuido por frei Cláudio ao bispo capellão- 
mór, depois cardeal, D. Nuno da Cunha. Mas o 
frade espertalhão subsiste sempre em todas as 
variantes da pittoresca intriga palaciana. Tudo, 
porém, faz inclinar as presumpções para a in- 
terferência que no caso teve o visconde de Villa 
Nova da Cerveira. «Já os seus antepassados 



192 CARTAS DE LISBOA 

haviam tentado obter a fundação de um con- 
vento em Mafra. O visconde, que era o duodé- 
cimo do titulo e senhor de Mafra, possuia n*esta 
villa uma quinta, onde em 1705 recebera a 
visita de dous frades arrabidos. Fallou-se no 
assumpto, que era uma pretensão de familia. 
O visconde manifestou com enthusiasmo o seu 
desejo de fundar alli um convento, não sâ para 
participar da visinhança dos seus, frades, diz 
frei Cláudio da Conceição, mas para utilidade 
d'aquelles povos visinhos. Não deixaria de pe- 
sar no espirito do visconde a circumstancia de 
ficar valorisada a sua propriedade pela fundação 
de um convento. Não cahiu a pedra em cesto 
roto, o negocio chegou até ao desembargo do 
paço, que consultou desfavoravelmente: não ser 
conveniente a fundação pretendida por estar o 
reino muito onerado de conventos mendicantes. 
O visconde reconheceu que era mais facil abrir 
caminho através dos frades que dos desembar- 
gadores » (^). 

O negocio fora combinado com os arrabi- 
dos, e justamente um arrabido, frei António de 
S. José, lançava um dia, na sala dos tudescos 
do paço da Ribeira, a prophecia. D. João v 
acceitou o voto. Por credulidade? Tudo leva a 



(^) Estudos Históricos, do snr. Alberto Pimentel. 



CARTAS DE LISBOA I93 

presumir que não. Só mais tarde, nos últimos 
annosde vida, nos transes angustiosos da doen- 
ça, a fé do sultão de Odivellas se afervorava na 
supplica de um milagre que o salvasse da para- 
lysia e da morte. A intervenção da divindade 
nos seus negócios amorosos devia parecer escu- 
sada ao Salomão portuguez, a esse tempo em 
todo o prestigio da mocidade e da belleza. Mas 
ao seu permanente delirio de grandiosidade não 
deixava de sorrir esse pretexto que lhe ofifere- 
ciam para gastar dinheiro. Edificaria o convento 
para commemorar o divino milagre com que o 
rei do céu condescendera em intervir nos negó- 
cios de alcova do rei de Portugal. 

Essa historia, que fazia sorrir o seu scepti- 
cismo de libertino, não deixaria de impressionar 
a fé ingénua do seu povo. ' 

A, edificação do convento estava resolvida. 
Mas em Lisboa. D. João v entendia assim con- 
tribuir utilmente para o adorno da sua capital. 
Já o desembargo do paço se não oppunha á 
vontade omnipotente do monarcha. Agora, a 
única pessoa a oppôr-se era o visconde de Villa 
Nova da Cerveira, que obtivera a alliança da 
rainha para o seu projecto ambicioso de Mafra. 
Quem podéra contar os episódios d'este con- 
luio, tecido nos corredores do paço da Ribeira 
e que finalmente triumphava ao cabo de seis 
longos annos de lucta perseverante 1 El-rei aca- 
bara por designar para o edificio o sitio deno- 

13 



194 CARTAS DE LISBOA 

minado a Vela^ junto a Mafra, commettendo o 
projecto em concurso a diversos architectos e 
escolhendo entre todos o de Frederico Ludovice, 
allemão educado em Roma e altamente prote- 
gido pelos padres da Companhia, cujas obras 
estava a esse tempo dirigindo em Lisboa. Orde- 
nou o monarcha as precisas expropriações e os 
trabalhos começaram, abrindo-se alicerces a uma 
profundidade de cinco metros, depois de nive- 
lado o extenso terreno onde ia constniir-se o 
mais gigantesco edifício de Portugal. 

A 17 de novembro de 1717 realisou-se a 
inauguração na presença do rei, acompanhado 
pela corte e pela cúria patriarchal, durando a 
ceremonia desde as oito da manhã ás três da 
tarde. O visconde de Villa Nova da Cerveira, 
que hospedara a familia real na sua quinta, es- 
tava radiante. Triumphára. 

No dia seguinte ao da festa, as obras conti- 
nuaram com a maior actividade, sendo nomea- 
dos mestres de alvenéos e de canteiros os mila- 
nezes Carlos e António Garvo e fícando a dire- 
cção dos trabalhos a cargo de Ludovice, auctor 
do projecto. 

Treze annos decorreram na edificação colos 
sal, em que se empregaram, termo médio, vinte 
mil homens de todas as artes. Para devastar a 
montanha que fica ao sul do edifício e nivelar 
a área immensa de quarenta mil metros quadra- 
dos, davam-se diariamente mil tiros, em que se 



CARTAS DE LISBOA I95 

consumiam quatrocentos kilogrammas de pól- 
vora! 

Em 1727, D. João V determinara que a 
sagração do templo tivesse impreterivelmente 
logar em 22 de outubro de 1730, dia do seu 
anniversario, que n'esse anno coincidia com o 
domingo. Então os trabalhos attingem o seu 
auge. Ás auctoridades de todo o reino expe- 
dem-se ordens para mandarem gente para Mafra, 
onde. chegam a reunir-se cincoenta mil operá- 
rios! Para conter esta multidão immensa aquar- 
telavam em Mafra sete mil e quinhentos solda- 
dos de cavallaria e infantaria. 

A casa real empregava mil duzentos e se- 
tenta bois nas conducções. Os particulares eram 
obrigados a ceder ainda o gado disponível. Mui- 
tos dias houve de se encontrarem na estrada 
mil carros, havendo pedras a que forçoso se 
tomava, pelas suas enormes dimensões, engatar 
trinta ou quarenta juntas de bois, sem contar 
a pedra da varanda chamada de benedictione — 
e parece agora, coUocada no seu logar, tão 
pequenina! — a qual durante seis dias, das pe- 
dreiras de Pêro Pinheiro a Mafra, cem juntas de 
bois custosamente arrastaram! O numero de 
fomos de cal e tijolo, propositadamente cons- 
truídos para o consumo das obras, não se sabe. 
Mas uma memoria do tempo conta que havia 
centenares d'elles entre Cascaes e Mafra, n'um 
percurso de vinte kilometros! Esta verdadeira 



196 CARTAS DE LISBOA 

cidade de trabalhadores tinha os seus hospitaes, 
como tinha a sua forca. De 1728 a 1733, as 
enfermarias recebiam dezesete mil noventa e 
oito doentes, dos quaes sahiam curados quinze 
niil setecentos e sessenta, tendo a mortalidade 
ascendido em cinco annos a mil trezentos e trinta 
e oito operários 1 

É depois de lidas estas cifras prodigiosas 
que se pôde principiar a ter a noção do que é, 
em proporções gigantescas, este convento de 
Mafra, delineado por um architecto dos jesuítas 
para moradia de frades pedintes, e cujas oito- 
centas e oitenta salas vamos atravessar com a 
fadiga de uma extensa jornada, através rudes 
caminhos sem horisontes e sem bellezas. . . 



* 



Das janellas da sala do pequeno hotel, onde 
o excursionista, chegado a Mafra ás nove horas 
e meia da manhã, depois de apear do trem que 
o conduziu da estação á villa, vai pedir de al- 
moçar, avista-se quasi de perfil o gigantesco 
edifício, cujos rebrilhantes mármores o tempo 
tingiu com uma patine sombria. Não parecem 
mais os brancos calcareos de Pêro Pinheiro, que 
um poeta do século xvm comparou ao c jaspe 
radioso». Menos de dous séculos bastaram para 



CARTAS DE LISBOA I97 

dar ao edifício colossal esse aspecto grandiosa- 
mente triste, que é como que o luto das cons- 
trucções abandonadas. . 

Sem os seus trezentos frades e a sua corte 
luzida, ainda que transitória, entregue a alguns 
criados da casa real, com o torreão da ala di- 
reita e o grande claustro transformados em ca- 
sernas, o formidável mosteiro parece expiar, na 
decadência e na solidão, o delicto de vaidade 
do monarcha orgulhosíssimo que o ergueu em 
frente á pobreza da villa, para que melhor avul- 
tasse a sua grandiosidade inútil. 

Como a missa aos domingos é ás onze horas, 
ha tempo para almoçar tranquillamente na pe- 
quena sala da hospedaria, a cujas paredes servem 
de decoração os retratos de el-rei D. José e das 
rainhas D. Maria Anna Victoria e D. Maria i. 
Emquanto se almoça, ao som festivo dos mais 
harmoniosos sinos de Portugal, no adro da ba- 
silica vão-se juntando saloios de carapuça verde 
e jaleca de saragoça, que constituem, com os 
soldados do destacamento aquartelado em Mafra 
e os officiaes em tirocínio na Escola Prática de 
Infantaria, toda a assistência á ceremonia reli- 
giosa. 

Vão longe os tempos em que no altar-mór 
se reuniam dous cardeaes, o patriarcha, quatro 
bispos e trezentos e vinte frades! 

Agora o officiante, movendo-se no degrau 
do altar, é apenas uma pequenina mancha co- 



198 CARTAS DE LISBOA 

lorida no vasto templo de mármore. Empurrada 
uma das portas lateraes do vestíbulo, que dão 
accesso á igreja, tem -se a primeira e decisiva 
impressão da grandeza desconforme do edifício. 
Á hora da missa, com a officialidade, os solda- 
dos, a gente da villa, os saloios e as suas de- 
votas — essas devotas que fazem parte do mo- 
biliário de todas as igrejas — a immensa nave 
parece deserta. Debalde o visitante se preparará 
para contemplar um grande templo. A reali- 
dade ultrapassa toda a espectativa. O assombro 
ateia-se ao primeiro olhar envolvente. 

Tanta sobriedade e tanta vastidão opprimem 
e enregelam. Com as naves lateraes communi- 
cando entre si por altos pórticos de mármore 
preto polido, em cujas capellas sombrias, pesa- 
damente forradas de mármores cor de rosa. 
branquejam as estatuas dos evangelistas, com 
o seu cruzeiro formado de quatro arcos roma- 
nos, que sustentam a cimalha, onde se apoia o 
zimbório, e os seus gigantescos candelabros de 
bronze amarello perfilados ao longo da nave 
tapetada de mármores multicores, a igreja, pela 
ausência de ouros e pinturas, lembra, no clas- 
sissismo hirto do seu estylo, com a accumula- 
ção dos seus mármores, as suas columnas e pi- 
lastras de ordem compósita, a profusão dos seus 
capiteis corinthios, um templo edificado por um 
imperador romano convertido ao christianismo. 

Tudo alli é pagão na physionomia e no sen- 



CARTAS DE LISBOA I99 

timento. A divindade, n'aquelle tabernáculo de 
mármores azues, cinzentos, negros, amarellos e 
cor de rosa, construido em arcarias romanas, 
sustentadas por columnas gregas, dir-se-hia que 
não é a mesma qucf habita as igrejas gothicas, 
tâo espiritualmente delineadas pela fé ardente 
da Idade-Média. 

Tem o templo a disposição de uma cruz 
latina constituida pela nave de trinta e três me- 
tros de comprido por doze de largura, pelo 
cruzeiro, com uma projecção horizontal de qua- 
renta e seis metros, e pela capella-mór, com 
p>ouco mais de dezeseis metros de profundidade. 
A linha vertical, tirada do eixo da aboboda, 
tem vinte e um metros. Toda a grande nave é 
lateralmente guarnecida de pilastras caneladas, de 
calcareo branco e de ordem compósita, apoiadas 
em socos de mármore cor de rosa com veios 
brancos e sustentando o entablamento de onde 
partem os arcos que formam a aboboda. Duas 
naves lateraes, estendendo-se parallelamente á 
glande nave central, Analisando no cruzeiro, refor- 
çam a elevação cruciforme, e no prolongamento 
até á capella-mór rematam em duas novas ca- 
pellas. Cada uma das naves lateraes tem três ca- 
pellas communiçando-se entre si por pórticos de 
mármore preto, ornados de baixos relevos de 
mármore branco de Garrara, allusivos a passa- 
gens da Escriptura. Um altar com retábulo de 
mármore italiano, quatro estatuas de Apóstolos, 



2CX) CARTAS DE LISBOA 

Doutores ou Evangelistas collòcadas em nichos 
praticados nos respectivos ângulos, medindo 
cada uma mais de dous metros de altura, uma 
cruz, uma lâmpada e dous castíçaes, dous 
tocheiros de bronze de dous metros, com cento 
e vinte kilos de peso, constituem todo o adorno 
opulento e frio de cada uma das seis capellas, 
respectivamente denominadas dos Confessores, 
das Virgens, dos Martyres, do Santo Christo, 
dos Bispos e do Rosário, 

Ao topo da nave, os braços do espaço 
cruciforme abrem-se ainda em duas capellas — a 
do lado direito, a da Coroação, a do lado 
esquerdo, a da Sacra Familia, fechada a pri- 
meira por uma maravilhosa cancella flamenga 
de ferro com ornatos de bronze, sustentando 
quatro tocheiros em forma de tripoda romana, 
no mesmo estylo clássico do templo. 

É de jaspe o retábulo de cinco metros que 
coroa o altar, ladeado de columnas compósitas 
de mármore vermelho. Da aboboda, forrada de 
mármores cinzento e côr de rosa, pendem sete 
lâmpadas de bronze, suspensas da boca de sete 
serpentes enroscadas. 

Toda a arte incomparável dos ferreiros e 
cinzeladores de Anvers parece ter-se empenhado 
em lactar victoriosamente n'essa obra admirá- 
vel com a pompa grandiosa que a envolve. 
E é para essa cancella de ferro, mais que para 
as estatuas dos esculptores de Mafra, discipulos 



CARTAS DE LISBOA 201 

de Giusti, mais que para a profusão dos már- 
mores e para a arrojada elegância do zimbório, 
que vão, surprezos e encantados, os olhos dos 
artistas, como um protesto á solemnidade clás- 
sica, arrogante e profana d'aquelle templo, 
erguido pela vaidade de um rei libertino, profa- 
nador de conventos. 

Quatro tribunas de mármore, supportadas 
por columnas jónicas, servem de pedestal aos 
quatro immensos órgãos do cruzeiro, construi- 
dos de madeira do Brazil com ornatos de bron- 
ze, que D. João VI mandou substituir aos 
órgãos primitivos, desmanchando assim a sobe- 
rana e equilibrada harmonia do conjuncto. 

Finalmente, a capella-mór, com os seus 
dezeseis metros de fundo por doze de largura, 
é o digno coroamento da nave clássica e das 
immensas proporções de todo o templo. 

Um quadro de Trevisani encaixilhado em 
mármore preto, representando a Virgem, o Me- 
nino e Santo António, — única pintura que orna 
a igreja — eleva-se sobre o altar, debaixo do do- 
cel, do qual se ergue uma cruz enorme de jas- 
pe, de mais de quatro metros de altura, entre 
dous anjos ajoelhados. 

E com a sua banqueta de bronze amarello, 
os seus tocheiros e accessorios do mesmo metal 
pobre — que custaram uma fortuna — o gran- 
dioso altar-mór, como o enorme templo, quasi 
perdem a sua significação sagrada e nos oppri- 



202 CARTAS DE LISBOA 



mem o espirito como a mais tremenda dissimu- 
lação de uma vaidade ostentosa, que se entre- 
teve em conciliar tanta magnificência com a 
austeridade de uma Ordem de frades pedintes! 



IO de Junho 

Faz por este tempo cinco annos que conheci 
o mallogrado official de marinha, filho primogé- 
nito do secretario de el-rei, que tudo quanto ha 
de melhor em Lisboa, pelo sangue, pelo nome, 
pelo talento e pela hierarchia hontem acompa- 
nhou tristemente da rua de S. Domingos ao ce- 
mitério dos Prazeres, por uma d'essas manhãs 
de claridade e de amena doçura, em que o de- 
sejo de viver anima o coração dos maiores des- 
venturados. 

Foi n'essa mesma casa encantadora da rua 
de S. Domingos, á Lapa, engrinaldada de tre- 
padeiras, n*esse pequenino museu de arte, n'esse 
modelo de conforto e de elegância, de distincção 
e de belleza, que o snr. conde de Arnoso me 
apresentou uma noute o guarda-marinha João 
Pinheiro de Mello, seu filho. Tenho bem presen- 
tes as impressões d'esse primeiro encontro, como 
todas as d*essa noute, que tanta influencia havia 
de ter na intima orientação da minha vida. E, ao 
rever as mesmas salinhas sumptuosas, onde ha 



CARTAS DE LISBOA 203 

cinco annos passei uma noute inolvidável, na 
companhia do conde de Ficalho, de António 
Cândido, de Carlos de Lima Mayer, de Luiz de 
Magalhães e de Ramalho Ortigão, uma tristeza 
maior me opprimia com a evocação d'essas 
horas felizes decorridas n'aquelle mesmo scena- 
rio onde agora se acotovellavam políticos, fidal- 
gos e escriptores, vestidos de luto, aguardando 
a sahida dramática do féretro, que não tardaria 
em descer aquella escada tão linda, a caminho 
do cemitério. . . Invadida por uma multidão 
formalisada e sombria, a casa encantadora, que 
ha cinco annos eu encontrara cheia de luzes e 
de flores, quasi parecia outra, como se as pró- 
prias cousas inanimadas resentissem e compar- 
tilhassem a dor e a desgraça da familia. No 
desarranjo dos moveis, tão sabiamente dispostos 
outr*ora para as intimidades da vida familiar, 
para a recepção de visitas aífectuosas, para o 
repouso e para o trabalho, transparecia essa 
mesma desorientação que caracterisa as grandes 
dores, tão certo é que nos mais insensíveis 
objectos poderosamente se reflecte a humana 
infelicidade ou a ventura humana. . . 

Foi quasi em bicos de pés, como se tivera 
receio de acordar aquelle morto, que lá em 
cima, n'um quarto do primeiro andar, dormia 
entre flores e lagrimas o seu ultimo somno, ves- 
tido com o seu uniforme de tenente, que atra- 
vessei o pequeno átrio, onde todo o ministério, 



204 CARTAS DE LISBOA 

toda a corte, toda a politica, toda a litteratura 
se comprimia e acotovellava em redor da mesa 
armada para as assignaturas. . . Só quem não 
entrou ainda n'uma casa, onde está a morte, 
n'essa hora de supremo desespero, quando 
param á porta os trens dos amigos e dos indiffe- 
rentes, a quem os pungentes deveres do affecto 
ou os hypocritas deveres sociaes distribuem a 
missão de acompanhar um cadáver ao cemité- 
rio, terá, se não for insensível ou cego, deixado 
de medir com horror o egoismo do homem: 
essa obra prima da natureza. 

E bem certo que todos nós temos as nossas 
dores e os nossos infortúnios para soffrer e que 
outra cousa mais do que uma perpetua e amar- 
gurada angustia não seria a vida, se soffresse- 
mos e compartilhássemos de todas as dores 
alheias. Mas desde que o coração humano é 
assim feito, e todos nós, sem excepção alguma, 
nos reconhecemos culpados de haver conduzido 
um dia ao cemitério um amigo, um protector, 
um homem célebre ou um simples conhecido 
com a meticulosa observância de um simples 
dever social imposto pelos usos, porque perpe- 
tuar um costume, que a tradição reservou 
apenas para a piedade sincera, e que aos poucos 
a hypocrisia social deturpou profanadoramente 
n'uma quasi obrigação mundana? Toda essa 
gente, que falia alto, que se cumprimenta, que 
se adula ou se calumnía, que se volta as costas 



CARTAS DE LISBOA 20 ; 



f 

f OU se abraça, que se olha aos espelhos, que 

felidta os novos ministros, que commenta os 

artigos dos jornaes, que se entretém com os 

^^us interesses, com os seus prazeres, com a 

^ua vida, á mesma hora em que, n'um aposento 

f^Toximo, uma família desfigurada pela dor se 

^«spede de um morto adorado, constitue um 

^^os mais deprimentes espectáculos que um 

^Preconceito secular preparou á utilitária socie- 

^^ade contemporânea. 

Quanto mais felizes são n'essa hora de transe 
^^s humildes e os ignorados, os que podem cho- 
'^ar em familia as ultimas lagrimas sobre o corpo 
^e um filho, de uma esposa ou de uma mãe, 
sem que os corypheus da sua nomeada, os adu- 
ladores do seu poder ou os disfructadores do 
seu ouro venham n'essa hora de horror, em que 
o coração se despedaça na eterna despedida, 
profanar com a sua presença o afflictivo amar- 
gor da sua desventura! 

Hontem ainda, pensava eu mais uma vez 
n'essa fúnebre comedia imposta pelas conven- 
ções, ao atravessar o pequeno jardim da casa 
da rua de S. Domingos, evocando a lancinante 
scena que lá em cima, n'um dos quartos do 
primeiro andar, se estava, áquella hora, desen- 
rolando, emquanto cá em baixo uma numerosa 
multidão de homens, rigorosamente vestidos de 
luto, sem duvida alguma deplorando a desven- 
tura d'aquelle pai inconsolável, se entretinham, 



206 CARTAS DE LISBOA 

como nos entreactos de S. Carlos, a discutir 
politica, lettras, amor e frivolidades. Tão fa- 
miliarisado está já o homem com a morte, 
que a vê passar a seu lado sem estremeci- 
mento? Outros não devem ser os motivos e as 
razões que tão profundamente separam, n'uma 
mesma casa, em volta da mesma tumba, as vi- 
ctimas e os convidados da morte. Cada um 
d'esses homens, ministros, officiaes-móres, ban- 
queiros, politicos e escriptores, que a caminho 
do cemitério, ao balouço dos trens, vão rumi- 
nando nas suas ambições, nas suas vaidades, 
nos seus interesses, nos seus prazeres ou nas 
suas vinganças, terão um dia um acompanha- 
mento igual de conhecidos ou desconhecidos, 
maior ou menor, conforme a grandeza do seu 
coração ou do seu nome. E talvez essa resi- 
gnada certeza de que a ninguém a morte pou- 
pará, que permitte aos corações, os mais sensí- 
veis, essa espécie de indifferença, tão frequente 
hoje de ver nas ceremonias fúnebres, mesmo 
nas que como esta se revestem da enternece- 
dora e commovente grandeza que o culto amo- 
rosíssimo de um pai lhe soube communicar. 

Foi n'um singelo carro de columnas, tirado 
por uma só parelha, sem nenhuma das pompas 
com que o orgulho e a vaidade dos poderosos 
téem por velho e condemnavel costume revestir 
essa ultima solemnidade prestada aos seus mor- 
tos, que fez a derradeira viagem da casa pa- 



CARTAS DE LISBOA 20/ 

Tna ao sepulcro, com a sua farda de grande 
^ala, o moço official de marinha, João Maria 
^3lodrigo Pinheiro de Figueira de Mello, segundo 
:onde de Arnoso, tenente da armada real, que 
febres brazileiras prostraram no seu posto, 
victima do seu dever militar, no decurso da 
longa e festiva viagem da canhoneira Pátria. 
Para conduzir esse cadáver de um filho ido- 
latrado não quiz o pai inconsolável que se exhi- 
bissem as pompas fúnebres, que mais parecem 
festejar a morte do que deplora-Fa. Para levar 
ao cemitério os despojos corrompidos de uma 
vida impoluta e nobilissima, o que restava de 
uma mocidade e de uma grandeza, não quiz o pai 
desventurado engalanar espectaculosamente a 
tumba mortuária, onde ia encerrado o filho que 
ha vinte e seis annos vira nascer, pequenino 
como o Menino Jesus de um oratório, e de que 
o seu amor fizera aquelle homem elegante e 
pallido, aflfavel e nobre, inexplicavelmente triste 
e inexcedivelmente fidalgo. Assim, com o seu 
acompanhamento de príncipe, o enterro do filho 
primogénito do mais intimo amigo de el-rei 
conservou essa commovedora singeleza, que é 
a mais solemne expressão da dor humanai 



208 CARTAS DE LISBOA 



ij de junho 

Pouco antes das nove horas, uma atroadora 
girandola de foguetes annuncía á multidão com- 
pacta, que se acotovella e comprime na praça 
de D. Pedro, no largo de Camões e em toda a 
extensão da Avenida até aos palanques da ro- 
tunda, por igual replectos de anciosos especta- 
dores, a partida do cortejo nocturno. Visto das 
janellas do theatro de D. Maria, o aspecto do 
Rocio é surprehendente, com as suas arvores 
de gaz scintillando entre as ramarias frondosas, 
as janellas pombalinas illuminadas a balões ve- 
nezianos, as duas fontes monumentaes jorrando 
agua, illuminada pelos clarões da luz eléctrica. 

As pequenas installações de arraial, onde se 
vendem os tradicionaes cravos de papel, os va- 
sos de mangerico e as alcachofras, parecem 
agora, alinhadas na grande praça, em redor da 
branca columna corynthia do monumento, pe- 
quenos mimos de arte, tão certo é que o pres- 
tigio da noute e das luzes retoca de uma enga- 
nadora belleza a própria trivialidade. O que de 
dia parecia mesquinho gipparece de noute gra- 
cioso. Todas as minúsculas barracas, illumina- 
das com festões de gaz e de balões, erguendo 
acima do mar ondulante de cabeças as suas 
cupulasinhas de zinco dourado, os seus tectos 



CARTAS DE LISBOA 209 



brancos de lona e os seus guarda-soes de chita 
azul, verde e amarella, perdem no tumultuoso 
ambiente de festa o seu aspecto pobre, e o 
vasto recinto, d'onde ascende um ruido indes- 
criptivel, composto de milhares de vozes, de 
gritos ásperos de cornetas de barro, de asso- 
bios, de borborinho e de risos, parece conver- 
ter-se no immenso adro de um santuário mi- 
'Aoto em noute de romaria. Faltam-lhe, é certo, 
Qs tons garridos, a cor e o pittoresco das festas 
^o norte, com os seus ranchos de moças orna- 
'^entadas de lenços vermelhos e amarellos. E 
^^ arraial em plena cidade, com automóveis 
9ue varam lentamente através as ondas espes- 
^ da multidão, com vehiculos eléctricos, 
^^m illuminações a gaz, com senhoras nas ja- 
^«llas e policia nas ruas. Mas nunca como d'esta 
^^ez o povo de Lisboa, irreverente por educação 
^ por Índole, soube dar a uma festa este ani- 
^>iado caracter de cordealidade e bonhomia, que 
Nenhum incidente perturbou depois das scenas 
deploráveis da recepção dos Fenianos. 

Quando, ás nove horas, no extremo occidental 
c3a grande praça, á boca da rua Augusta, asso- 
Tnam os cavallos brancos da guarda municipal, 
abrindo custosamente passagem ao cortejo, um 
borborinho ensurdecedor, como de um colossal 
enxame de abelhas, enche o Rocio. 

De longe, dominando o alarido, chega o 
ruido sonoro das palmas. O accenar dos lenços, 

14 



210 CARTAS DE LISBOA 

nas varandas e janellas, parece, á distancia, o 
esvoaçar atordoado de um bando de pombas 
brancas. Os fogos de Bengala illuminam de 
verde e de vermelho, como n'uma apotheose- 
de magica, a frontaria das casas. Ha um tu- 
multo enorme na multidão, que se precipita para 
as ruas lateraes, por onde o cortejo vai dar a 
volta, passando em frente ao perystillo grego 
do D. Maria. 

De ha muito que o lisboeta não tinha uma 
festa em que a sua intervenção não fosse re- 
questada em beneficio de interesses officiaes. 
Não fora propriamente para seu recreio que 
se illuminára a Avenida por occasião da visita 
do rei de Hespanha e se illuminára o Tejo por 
occasião da vinda do rei de Inglaterra e se illu- 
minára Cascaes por occasião da viagem do pre- 
sidente Loubet. 

N'essas festas, o povo permanecera simples 
espectador de pompas régias e ao seu orgulho 
melindroso não deixava de doer o papel mo- 
desto de comparsa que n*ellas lhe era distri- 
buído. Festejos propriamente seus, não os tinha 
de ha longos annos o lisboeta. A sua proverbial 
indifferença e a sua innata propensão para a 
ironia tinham acabado por abafar um resto de 
tradições festivas, que a custo sobrevivera a um 
século desmoralisador por excellencia. 

Do Santo António restavam apenas as dansas 
das varinas na Ribeira Nova e os encontrões 



CARTAS DE LISBOA 2 1 1 

do povoléu na praça da Figueira. Uma primeira 
tentativa para restaurar a tradição antonina li- 
quidara no mais memorável e tumultuoso dos 
escândalos, resultante de um conluio anti-cleri- 
cal, cuja historia complicada, ainda escurecida 
de mysterios, serviu de thema e argumento para 
o regimen repressivo de que resultou a lei de 
13 de fevereiro. 

O Entrudo decahira e abrandara de excessivo 
em semsaborão. Ao contrario das alegres terras 
do norte, tão zelosas das suas festividades tra- 
dicionaes, a Lisboa irónica e iconoclasta acabara 
com todas as suas diversões populares, e fora 
procurar na excitação dos comidos, na licen- 
ciosidade das revistas de feira — as andrajosas 
feiras de Belém, de Alcântara e Campo Grande 
— na anarchia das arruaças e nos perigosos 
desafogos da irreverência a impura distracção 
dos seus dias de folga. A iniciativa do Grande 
Club encontrou as classes populares em plena 
crise de diversões e logo o seu primeiro ensaio, 
restaurando a tradição quasi apagada de uma 
festa genuinamente lisboeta, obteve a adhesão 
unanime da cidade. 

Pôde calcular-se em duzentas mil pessoas as 
que na noute de quarta-feira affluiram de todos 
os bairros e arredores ás avenidas e ruas desi- 
gnadas ao itinerário do cortejo. 

E não foi dos espectáculos menos impres- 
sionadores pela sua grandeza, a d'essa multi- 



212 CARTAS DE LISBOA 

dão, que desde o cahir da noute alagava a ci- 
dade baixa com as suas ondas ruidosas. 

Para que a noute festiva de Santo António 
renascesse, bastou que as terras do norte trou- 
xessem á capital um pouco da sua belleza e 
que a provincia desse á capital o exemplo sa- 
lutar de quanto pode e vale o respeito sagrado 
da tradição e o culto fervoroso da alegria. Por- 
que, foi necessário ir buscar ao Porto, a Coim- 
bra, a Penafiel, a Miranda do Douro, a Galhuíe, 
a Ponte da Barca e á Certa os principaes ele- 
mentos da festa de Lisboa. . . Do norte vieram 
os carros do cortejo, as cavalgadas históricas, 
os fogos de artificio, as dansas e os descantes, 
a animação e o pittoresco. 

Lisboa limitou-se a encher de espectadores 
as archibancadas da rotunda, as avenidas, as 
praças e as ruas. 

E quando a multidão bate palmas, enthu- 
siasmada, á passagem do carro sumptuoso da 
cidade do Porto, arrastado por três juntas de 
bois do Barroso, cobertos com xairéis de seda, 
de altas e rendilhadas cangas floridas de rosas, 
que seis moças do norte, ágeis e risonhas, ador- 
nadas de ouro como Ídolos, conduzem á soga, 
batendo na calçada a graciosa chinellinha, o 
que a multidão applaude é a terra do norte, a 
belleza do norte, a opulência do norte, a arte 
do norte : — esse norte de que o alfacinha sem- 
pre fallou com desdém e que mais uma vez o 



CARTAS DE LISBOA 21 3 

vencia, na festa como na guerra, na alegria 
como no trabalho, na riqueza como no dever 1 

Pôde sem receio affirmar-se que, por maio- 
res sacrifícios que se impozesse, por maior dili- 
gencia que empregasse, o Grande Club não 
conseguiria, sem o concurso do norte do paiz, 
dar a este primeiro ensaio de festas o brilho 
decorativo e o accentuado caracter nacional 
que ellas tiveram. A collaboração importantís- 
sima que o Club dos Fenianos trouxe, com tão 
generoso desinteresse, á iniciativa do Grande 
Cub, foi para Lisboa um exemplo salutar de 
quanto vale e pôde a acção collectiva, quando 
animada do desejo unanime de produzir e crear, 
em contraste com as colligações demolidoras 
em que se entretém a energia da capital. Gri- 
tar, injuriar, diffamar, arruinar e subverter custa 
menos do que trabalhar e produzir. Por isso os 
que trabalham e produzem serão sempre mais 
fortes do que os que subvertem e arruinam. 

As recentes festas foram a triumphante 
apologia do culto da tradição e do trabalho. 

Bom será que o lisboeta não esqueça essa 
symbolica figura armada de ponto em branco, 
modelada por um grande esculptor, que no 
carro do Porto, arrimada á sua lança, com o 
capacete encimado pelo dragão, acaba de atra- 
vessar as ruas de Lisboa, entre salvas de pal- 
mas! 



214 CARTAS DE LISBOA 



\ 



24 de juriJjo 

A commissão de senhoras, que promoveu 
nos jardins das Laranjeiras, actualmente encor- 
porados no morgadio do snr. conde de Bumay, 
uma kerfnesse em beneficio de alguns estabele- 
cimentos de caridade, incluiu no seu programma 
um baile de subscripção, ao ar livre, na noute 
de segunda-feira. Baile campestre lhe chamaram 
os jornaes com flagrante impropriedade, como 
se deveras o facto de se dansar ao ar livre, 
n'uma rotunda illuminada, bastasse para apagar 
as tradições requintadamente mundanas d*esse 
recinto prestigioso, onde se deram as mais 
elegantes e sumptuosas festas de Lisboa no 
longo decurso do século XIX. Baile campestre 
se chamou a um baile ao ar livre, com senhoras 
vestidas nas grandes modistas, dansado no 
pequeno terreiro annexo á ala esquerda do 
palácio, sem se attender que esse travesti cam- 
pestre não procurou sequer revestir-se dos tra- 
dicionaes aspectos de singeleza que podiam 
merecer-lhe esse titulo bucólico e galante, tão 
procurado para as festas do fim do século XVIII 
e consagrado pelos divertimentos apparente- 
mente innocentes do Petit-Trianon, em pleno 
culto artificioso da Natureza. 

Só a cordealidade entre os convidados — 



CARTAS DE LISBOA 2 1 5 

que eram inalteravelmente os mesmos de todas 
as festas mundanas de Lisboa: espécie de 
grande família jouisseuse, ou antes espécie de 
syndicato organisado para promover e concor- 
rer a todas as parties de plaisir — impediu que 
o baile campestre das Laranjeiras, organisado 
sob tão bons auspícios, degenerasse na insipi- 
dez e no tédio. Para este insuccesso varias cir- 
cumstancias concorreram. A noute estava fria, 
em contraste com estes diaa asphyxiantes, em 
que Lisboa parece envolta em labaredas ; o local 
em que se realisou o baile era deploravelmente 
acanhado para uma festa nocturna d'este gé- 
nero; e sobretudo o prestigio do recinto forço- 
samente concorria para esmagar e amesquinhar 
este numero soit-disant galante do programma. 
Um baile campestre, de dia, com vestidos leves 
de musselina e chapéus de palha guarnecidos 
de flores, á sombra de grandes arvores, teria 
tido pleno êxito. Mas este baile nocturno, com 
resaibos de etiqueta, em frente ao palácio do 
conde de Farrobo, se não fora o seu pretexto 
caritativo, que moralmente o embellezava, pode- 
ria parecer aos menos indulgentes uma profa- 
nação . . . 

Demais, tal como hoje se encontra dividida 
e retalhada, a quinta das Laranjeiras não se 
presta a qualquer espécie de festas ao ar livre. 
É como se ao Palácio de Crystal vedassem o 
accesso á Avenida das Tilias, aos jardins, aos 



2l6 CARTAS DE LISBOA 

bosques, aos panoramas do rio e do mar, da 
cidade e de Villa Nova e assim lastimosamente 
o isolassem, dando-lhe apenas a avenida dos 
trens e o recinto lateral, em face ao antigo circo. 

Adquirindo o palácio histórico das Laran- 
jeiras — histórico pelas suas tradições mundanas, 
que synthetisam quasi meio século da vida ga- 
lante da Lisboa contemporânea — o snr. conde 
de Burnay não cuidou só em satisfazer a sua 
vaidade, encorporando na sua opulência prós- 
pera de banqueiro essa reliquia do pródigo Me- 
cenas a que um dia pretendeu assimilhar-se com 
os seus bailes sumptuosos da Junqueira; mas 
como homem que sempre antepôz o bom senso 
á phantasia, desde logo planeou fazer fructificar 
esse morgadio ruidoso, e cedeu á Sociedade do 
Jardim Zoológico a parte mais importante da 
vastissima quinta, reservando-se apenas o ter- 
raço ajardinado das trazeiras do palácio, que 
descia por degraus de mármore á avenida do 
obelisco, agora vedada por altas grades de ferro. 
Assim privado da sua maior formosura, o palácio, 
restaurado, pintado de cor de rosa, ao lado das 
ruinas do theatro de Thalia, ficou á espera de 
um vago e opulento inquilino, que o arrendasse, 
para n'elle refugiar o seu spleen e a sua gran- 
deza. 

Nos espaçosos jardins onde se installou a 
Sociedade do Jardim Zoológico, encontraria a 
commissão de senhoras promotora do baile de 



\ 



CARTAS DE LISBOA 21 7 

segunda-feira logar admiravelmente apropriado 
a uma grande festa diurna, com jogos, bazares 
e dansas ao ar livre. Mas difficilmente, no que 
hoje resta annexado ao palácio, seria possivel 
fazer vingar um baile com mil convites, onde 
se não andasse incommoda e incivilmente aos 
encontrões . . . 

Excellente seria, porém, que essa ideia infeliz 
de um baile campestre nas Laranjeiras suggerisse 
ás suas illustres promotoras a implantação em 
Lisboa, durante a primavera, antes do êxodo 
para Cintra, de pequenas e intimas festas diur- 
nas ao ar livre, bem mais agradáveis e próprias 
do nosso clima que as formalistas recepções e 
os \x\2X.ov^os jive-o'clock em salas apinhadas de 
moveis e aquecidas de estofos. Ha ainda na ca- 
pital e suas cercanias alguns jardins magnifícos, 
sombreados de arvoredos seculares, como o das 
quintas do Lumiar, de Palhavã e de Fronteira, 
onde se podia reunir, nos dias luminosos de 
maio, em alegre convivio, despida de forma- 
lismos, essa sociedade brilhante, que apenas 
S. Carlos logra interessar, com as suas exhibi- 
ções de jóias e hombros nus. Este género de 
festas, tão predilectas dos inglezes, e que consti- 
tuem um dos mais maravilhosos aspectos da 
season aristocrática de Londres, em parte algu- 
ma melhor do que em Lisboa podia revestir-se 
de belleza e . . . de razão de ser, com este ameno 
clima e este céu benigno. 



21 8 CARTAS DE LISBOA 

E se O seductor prestigio das Laranjeiras 
for mais forte do que a recordação do insucesso 
de segunda-feira, para que se pense ainda em 
aproveitar o seu recinto, lembraríamos então a 
organisação de um grande baile costume, nos sa- 
lões do palácio, obrigado rigorosamente ao trajo 
de 1840. Esta tentativa de uma restauração 
minuciosa de um serão nas Laranjeiras, no 
tempo do esplendor de Farrobo, seria, essa sim, 
uma festa surprehendente. Animar novamente 
aquellas salas desertas com a movimentação de 
um baile; acordar os eccos d'aquelles salões 
com o froii-frou das sedas, o trinar dos risos, o 
borborinho das vozes, era um emprehendimento 
digno de tentar a mesma commissão de senho- 
ras que, sob a presidência da snr.* D. Maria do 
Patrocínio Barros Lima de Almeida, promoveu a 
récita memorável do anno passado em D. Maria. 

Em plena terça-feira de Entrudo, accender- 
se-hiam os lustres, abrir-se-hiam as portas, e no 
lindo pateo illuminado à giorno^ dos trens da 
nobreza e da finança sahiriam, vestidas á 1840, 
com os cabellos ornados de plumas de marabú, 
penteadas á Polka, d Izabel, à Ingleza ou á 
D, Maria 11, pela mão dos homens envergando 
as casacas verdes de Sotto Maior, ostentando 
os colletes bordados a pérolas de Garrett, as 
lisboetas de 1907, netas d'essas outras lisboetas 
que, ha sessenta annos, desciam o estribo da 
caleche n'aquelle mesmo pateo das Laranjeiras, 



CARTAS DE LISBOA 219 

onde Farrobo aguardava os convidados, correcto 
e amável como um príncipe da moda. Alli, 
n'aquelle scenarío authentico, sob o olhar 
d*aquellas deusas mythologicas, pintadas por 
Fonseca, o baile á 1840 assumiria a signifi- 
cação de uma solemne glorificação do pródigo 
e gentilissimo Mecenas, ornamento do seu 
século, que o culto da arte, da graça e da 
belleza levaram á decadência e á ruina . . . 



/ de julljo 



Lisboa principia a despovoar-se, e a tarefa 
de um chronista, a quem são interdictos os 
assumptos políticos, começa a ser embaraçosa. 
Todos os dias, por todos os comboios de todas 
as linhas, se ausentam os que dirigem e animam 
a vida da capital. Apenas a politica continua a 
desenrolar as suas ridículas ou dramáticas peri- 
pécias, dando ao noticiário dos jornaes argu- 
mentos de romance folhetim. Por estes dias 
de sol, tão luminosos e serenos, contrista a 
alma assistir á peregrinação das victimas des- 
venturadas da legalidade, que do paço das 
Necessidades para o ministério das obras publi- 
cas, da rua da Emenda para o Terreiro do 
Paço, andam n'uma dobadoura afflictiva, implo- 



220 CARTAS DE LISBOA 

rando em vão a piedade dos que não acreditam 
na fome e baldadamente invocando perante a 
insensibilidade dos grandes o seu desespero 
de huniildes . . . Mas não só de espectáculos 
dolorosos se compõe o variado reportório de 
Lisboa n'estes prelúdios ardentes do verão. 
Emquanto na rua de S. Francisco os jorna- 
leiros se reúnem para a defeza coUectiva da 
miséria que os ameaça, nos jardins da Estreita 
as tricanas de Coimbra voltam a cantar as suas 
dolentes cantigas. Ha lagrimas abundantes em 
alguns lares, mas também os foguetes de lagri- 
mas espalham na escuridão das noutes tépidas 
as suas alegres flores luminosas e o seu chu- 
veiro scintillante . . . E estas festas annuaes do 
passeio da Estrella, promovidas pela Associação 
da Imprensa em beneficio do seu cofre de soc- 
corros e pensões, não são as únicas que, n'este 
fim de junho — o mez dos dias santos — dis- 
trahem os alfacinhas. 

Com o advento do snr. João Franco e da 
sua administração moralisadora e económica, os 
divertimentos e as festas multiplicam-se. São, 
no Velodromo de Palhavã, os matck de Jacque- 
lin e de Messori, que fazem correr meia Lisboa 
sportiva para o antigo parque do Jardim Zooló- 
gico; no Colyseu dos Recreios, o campeonato 
internacional de lucta, com Vervet, o campeão 
do mundo, o colosso Warrat, que pesa cento e 
trinta e quatro kilos, o negro Amalhou, de um 



CARTAS DE LISBOA 221 

metro e oitenta e oito centímetros de altura, o 
gigante Clement e o invencível Paul Pons; nos 
salões do Grande Club, os concertos nocturnos; 
no Real Colyseu da rua Nova da Palma, em 
breves dias, um casino no género do Olympia e 
dos Embaixadores^ com bailarinas de Málaga 
e cançonetistas de Montmartre . . . 

Esta ideia de converter n'um grande café- 
concerto o casarão inútil da rua Nova da Palma 
não é de agora. Por mais de uma vez se pla- 
neou a radical transformação do antigo circo e 
a sua adaptação a um casino, arejando-o com 
abundantes communicações para os jardins cir- 
cumjacentes. Mas sempre o receio justificado de 
um prejuízo, dada a distancia a que fica do 
circumscripto recinto da cidade central o velho 
circo, fez esmorecer as iniciativas anteriores. 

É um facto averiguado que a prosperidade 
do actual Colyseu das Portas de Santo Antão, 
quasi exclusivamente é devida á sua approxi- 
mação do centro de Lisboa, onde a capital se 
acostumou a procurar e a encontrar o seu pra- 
zer. Em nenhuma outra cidade as casas de es- 
pectáculos se amontoam em espaço tão restricto. 
E doesse habito em que está o lisboeta de alli 
as encontrar resulta o abandono progressivo dos 
theatros localisados para além d'essa peripheria 
commodista e tradicional, a que o theatro, duas 
vezes secular, da rua dos Condes e as im media- 
ções de S. Roque servem de balisas. 



222 CARTAS DE LISBOA 

O circo da rua da Palma, succedendo ao 
circo Price, nâo tardou em soffrer e a decahir 
com o abandono do publico. A nova geração 
quasi que o não conhece e se não fossem as 
lettras enormes do seu nome, ainda distinctas 
na fachada, em breve ninguém se lembraria que 
atrás d'aquelle extenso muro ha uma sala erma, 
onde as creanças iam, ha quinze annos, rir com 
os palhaços nas tnatinées dos domingos. 

Conseguirá mr. Roche — assim se chama o 
novo emprezario do Real Colyseu — o milagre 
de reconduzir o publico para o esquecido circo 
da rua da Palma? O seu projecto de installar 
alli um Casino luxuoso e confortável, creando 
em Lisboa o restaurante de verão e o café- 
concerto, se por um lado corresponde a uma 
d*essas necessidades impreteriveis n'uma capital 
como Lisboa, por outro lado afigura-se-nos de 
uma implantação difficil nos costumes pelas 
deficiências e inconvenientes do local esco- 
lhido. 

A rua da Palma não é apenas de accesso 
incommodo, mas ficou sempre, apesar dos no- 
táveis melhoramentos realisados em grande 
parte d'ella, uma rua de accentuado caracter 
popular; espécie de desaguadouro dos bairros 
da Graça e Mouraria. D'ahi e da falta absoluta 
de desafogados horisontes resulta que o novo 
Casino, situado fora dos limites consagrados á 
affluencia do publico, não offerece nenhum dos 



CARTAS DE LISBOA 223 

encantos que devem exigir-se, n'uma cidade 
com dilatados e formosíssimos panoramas, para 
a concorrência de um grande restaurante e de 
um grande café ao ar livre, sem contar que as 
tentativas similares nos jardins de S. Pedro de 
Alcântara e no terraço do palácio Foz, á Ave- 
nida, falliram ao cabo de poucos mezes de 
exploração e a despeito da sua localisação 
excepcionalmente favorável a emprezas d'este 
género. 

Todas estas considerações não excluem o 
nosso applauso á iniciativa do emprezario do 
novo Casino e os sinceros votos que formula- 
mos pela prosperidade da sua empreza. Interro- 
gado por um jornalista sdbre o género de espe- 
ctáculos que tenciona explorar, mr. Roche res- 
pondeu que traria a Lisboa o género ligeiro, a 
cançoneta franceza, o baile hespanhol, a clássica 
troupe de variedades de todos os cafés-concertos 
do estrangeiro, projectando introduzir e pôr em 
voga a cançoneta local, relatando o caso pica- 
resco da semana. O futuro não deixará de res- 
ponder em breve tempo ao optimismo do em- 
prezario pariziense, para o recompensar ou para 
o desilludir. Mas antecipadamente é licito sus- 
peitar do pouco êxito que obterá com o seu 
projecto de introduzir em Lisboa a voga da 
cançoneta. 

A cançoneta não é mais do que uma va- 
riante do pasquim. Com a cançoneta já a França 



224 CARTAS DE LISBOA 

criticava os amores de Luiz XIV, as ambições 
da Maintenon, os escândalos da Regência, a 
licenciosidade de Luiz XV, o orgulho de Maria 
Antonietta, as prevaricações de Calonne e a 
venalidade de Mirabeau. A cançoneta foi em 
França a arma demolidora que mais serviu e 
mais preparou a Revolução. 

A cançoneta vale um parlamento. É a sa- 
tyra, agora sangrenta até á injuria, logo risonha 
até á futilidade, com que Pariz se vingou sem- 
pre dos seus tyrannos ou glorificou os seus 
deuses. Cantada por toda a parte, nas ruas, nos 
cafés, nos mercados, escripta por um cortezão 
despeitado ou por um jacobino, por um philo- 
sopho ou por uma mulher ciumenta, a canço- 
neta era a satyra anonyma, de procedência 
clandestina, que a policia se esforçava em vão 
por prohibir e que se propagava como uma 
epidemia. Com este passado histórico, ennobre- 
cida por Beranger, a cançoneta passou dos mo- 
tins das Halles para os palcos dos cafés-concer- 
tos, quando a liberdade de pensamento, consen- 
tindo ao jornalismo o livre exame de todas as 
cousas e de todas as pessoas, tornou inútil o 
uso d'essa temerosa arma irresponsável. De 
terrivel que fora, a cançoneta tornou-se galante 
e de sanguinária passou a voluptuosa. 

O génio francez, que a creára, manteve-a, 
fel-a evolutir, deu-lhe uma nobreza litteraria, 
accommodando-a a outras necessidades e outros 



V 



CARTAS DE LISBOA 225 

fins, conservando-lhe apenas a feição maliciosa 
e libertina. 

A cançoneta tem em França razões históri- 
cas de existência. Mas em Portugal, a canço- 
neta é uma cousa hybrida, de difficil enxerto, 
sob o ponto de vista especial em que pretende 
introduzil-a o emprezario francez do Casino da 
rua da Palma. 

A revista do anno, que a adoptou, não con- 
seguiu popularisal-a. 

Mr. Roche enganou-se, quanto á importân- 
cia que attribuiu á cançoneta no seu program- 
ma. Mas no que o emprezario se não enganou 
foi na sagaz observação de quanto Lisboa é 
uma cidade obstinadamente occupada em diver- 
tir-se. Mr. Roche propõe-se a entreter os lis- 
boetas durante os mezes insípidos de verão. 
Mr. Roche é, pois, um benemérito a quem Lis- 
boa, se a consultassem, confiaria o governo 
do paiz. Este estrangeiro, que vem divertil-a, 
quando os que de costume a divertem se vão 
embora para Cintra, para Cascaes, para os 
Estoris, para o Bussaco, para as Pedras Sal- 
gadas e para o Bom Jesus, é uma providen- , 
cia bem mais benéfica e considerável que a da 
concentração-liberal. A corte partiu e chega 
Mr. Roche. 

Os que ficam procuram consolar-se como 
podem. Ao mesmo tempo, Lisboa despovoa-se 
e anima-se. Todos os dias o snr.. Luiz de Ma- 
is 



226 CARTAS DE LISBOA 

galhâes tem que tomar um comboio para ir 
apresentar o ministro da China a um dos mem- 
bros da familia real. A rainha está em Cintra; 
el-rei em Setúbal; o senhor infante D. Affonso 
um pouco em toda a parte. Só a rainha viuva 
— que hontem encontrei, ás onze horas da nou- 
te, na avenida Fontes Pereira de Mello, pas- 
seando a pé, silenciosamente, apoiada a um pe- 
queno bastão, acompanhada da sua dama, — 
permanece em Lisboa, na grandiosa clausura 
do seu palácio da Ajuda. Que Íntimos pezares 
absorviam o seu espirito e tinham conduzido 
para aquella longínqua avenida deserta, modes- 
tamente vestida de preto, com a alta gola do 
casaco erguida, só reconhecível pelos seus ca- 
bellos fulvos, o Anjo da Caridade, n'esta hora 
em que o funccionalismo faminto vai aos paços 
implorar a piedade real e o snr. presidente do 
conselho recolhe, para repousar, á sua esplen- 
dida vivenda de Cintra? 



S de julho 

Nenhum espectáculo mais do que a lucta 
romana, agora exhibida no Colyseu pela troupe 
do gigante Paul Pons, o mantenedor da cintura 
de ouro e campeão do mundo, lograria impôr-se 
com tão fervoroso enthusiasmo a um publico 



CARTAS DE LISBOA 227 

meridional, que mantém a tradição do circo nas 
suas corridas de touros, ennobrecidas pela gen- 
tileza fidalga dos cavalleiros do século XVIII e 
para quem a força constitue sempre o mais so- 
berbo attributo do homem. 

Lisboa tinha já a lucta do moço de forcado 
com o touro, que os próprios hespanhoes, estri- 
padores de cavallos, qualificam de barbara, sem 
attender no que* ella tem de bella e corajosa 
na sua rudeza plebeia. Mas quanto mais sensa- 
cional nâo é vêr luctar um homem contra outro 
homem, um hércules contra outro hércules, um 
gigante contra outro gigante, n'uma lucta onde 
não corre sangue, lucta de sciencia e de mús- 
culos, onde a intelligencia e a força se harmo- 
nisam para fazer do torneio como que a apolo- 
gia da virilidade triumphante, resuscitando em 
pleno século XX, intellectual e enfermo, deca- 
dente e mórbido, o hellenico espectáculo dos 
Jogos Olympicos! Quando, ás dez horas e meia 
da noute de sabbado passado, no palco do 
Colyseu appareceram com o peito, os braços e 
as pernas nuas, os onze luctadores do campeo- 
nato, um borborinho enorme encheu o vasto 
circo replecto de espectadores até ás altas ga- 
lerias do promenoir. E á medida que um 
membro do jury fazia as apresentações sum- 
marias dos campeões, o rumor de milhares de 
vozes crescia, de mistura com o estalar das 
palmas. 



228 CARTAS DE LISBOA 

As senhoras, nos camarotes, assestavam os 
binóculos. Nas archibancadas das galerias o povo 
punha-se de pé para ver melhor. O grupo de 
gigantes estacara no palco, em semi-circulo, os- 
tentando os biceps monstruosos, os peitos fortes 
como baluartes. Paul Pons ao centro, dominando 
os companheiros com toda a altura da cabeça. 
A seu lado, Pickplang, o campeão austríaco de 
cento e quarenta e dois kilogrammas de peso^ 
cuja moUe enorme tombando sobre o adversário 
dobra os mais resistentes músculos, quasi pare- 
cia inoffensivo. . 

O vencedor de Apolon, de Robinet e da 
turco Yousouf, destaca, no meio dos gigantes, 
como um gigante. Com os braços cruzados, as 
suas mãos enormes quasi fecham nas palmas os 
biceps de quarenta e três centimetros de diâ- 
metro! Junto do preto Amalhou, Vãn-der-Berg, 
campeão da Hollanda, parece uma estatua grega, 
de uma elegância de ApoUo, de uma resplan- 
decente brancura de mármore, com um pescoço 
que se diria cinzelado por um esculptor de 
Athenas, esbelto como o Achilles de David. 
É a força em todo o seu esplendor, a virilidade 
em toda a sua belle^ prestigiosa. E o povo, 
habituado a admirar, á falta de melhor, as 
musculaturas desproporcionadas dos gymnastas, 
applaude a apparatosa exposição de academiaSy 
empolgado repentinamente pelo espectáculo 
nunca visto. 



CARTAS DE LISBOA 229 



Os doús primeiros contendores avançam 
agora um para o outro. Estabelece-se um pro- 
fundíssimo silencio. As musculaturas retesam-se, 
os braços crescem de volume, as cabeças in- 
clinam-se, e já enlaçadas as duas estatuas rolam 
no tapete, em attitudes académicas, luctando 
de vigor para a conquista dos applausos. Succe- 
dem-se os golpes, as famosas cinturas pela 
frente, por detraz, de lado e ás avessas, cruzada 
€ em turbilhão, que atiram ao tapete um athleta 
de cem kilos como se fora uma creança fran- 
zina. O publico, a principio surprehendido pela 
novidade do espectáculo, tem agora a com- 
prehensão nitida d'esse jogo de destreza e de 
força. 'Todos os olhares seguem attentos e inte- 
ressados as phases emocinantes da lucta, cuja 
clareza a tornam para os menos perspicazes 
intelligivel. Nada que lembre um pugilato ou 
um conflicto. Apenas uma força exercitando-se 
com outra força e revestindo as attitudes clás- 
sicas transmittidas pela estatuária greco-romana 
e pela cerâmica de Pompeia. A dor physica 
banida como meio de ataque ou defeza, os es- 
tratagemas desleaes e os golpes irresistiveis como 
a torsão dos dedos e o esmagamento das vérte- 
bras ceryicaes prohibidos, cada corpo a corpo 
regulamentado, fiscalisado, a lucta assume entre 
contendores de robustez proporcional a serena 
belleza de um jogo de intelligencia e de força, 
como um simples brinquedo de gigantes. 



230 CARTAS DE LISBOA 

Pretendem alguns que o espectáculo, coma 
nenhum outro impressionador, da lucta romana, 
se toma, na sua continuidade, monótono em 
excesso. Mas contra essa opinião protesta elo- 
quentemente, todas as noutes, um publico em 
delírio, que enche a sala vastíssima do Colyseu 
e a anima com ovações continuadas, consti- 
tuindo-se o fiscal rigoroso de cada sessão de 
lucta, publico sentimental e impulsivo como é 
sempre o dos theatrqs e circos peninsulares, 
que sem mais demora e reflexão classificou já 
pela suá sympathia os luctadores e se bate 
pelos seus favoritos com o fervor de partidos 
consolidados, imprecando contra o ferroz Scha- 
kman, de todas as vezes que o campeão da 
AUemanha entra no ring, e invectívando-o com 
rufdosa cólera sempre que o allemão, para 
apressar a derrota do adversário, recorre a pro- 
cessos menos leaes de lucta e executa sobre o 
contendor os seus predilectos golpes de estran- 
gulação e asphyxia. 

Ha n'esse publico ruidoso e impulsivo, ainda 
ignorante das leis mais elementares da lucta 
athletica, um ingenito culto da lealdade e uma 
intuitiva repulsão pelo ardil e pela traição, que 
só por si bastaria para ennobrecer singularmente 
um espectáculo que incita ao exercício d'esses 
sentimentos elevados. Excedem-se ás vezes os 
espectadores n'essas demonstrações de protesto 
e já parte da imprensa severamente reprehen- 



CARTAS DE LISBOA 23 1 

deu esses inflammados inimigos de Shackman. 
Quanto a mim, a reprehensão é injusta. Scha- 
ckman está habituado a aífrontar as antipathias 
e as cóleras do publico. Em Paris, os especta- 
dores chegaram a arremessar-lhe as cadeiras e 
as bengalas, premiando-lhe as proezas com o 
titulo repulsivo de O Estrangulador. Incons- 
cientemente, o terrível allemão está servindo 
uma elevada obra moralisadora, prestando-se a 
ser o alvo das aversões populares e provocando 
assim a prática da justiça, radicando nos cara- 
cteres o horror pela deslealdade"^ e pela prepo- 
tência. 

Se não fora Schackman, as sessões do cam- 
peonato teriam perdido a animação extraordi- 
nária que as caracterisa e que estão transfor- 
mando o Colyseu dos Recreios n'uma verdadeira 
escola de moral. Os applausos estrepitosos aos 
vencidos, que desde o primeiro dia se accen- 
tuam, são ainda uma manifestação de equidade 
e bondade collectivas, que honram sobremaneira 
esse publico, na sua maioria inculto, que todas 
as noutes se apinha nas archibancadas do circo 
das Portas de Santo Antão. 

Foi talvez porque todas as attenções estão 
voltadas para esse torneio de athletas, que 
passou despercebido um outro torneio de en- 
canto todo espiritual, em que hontem e hoje se 
empenharam as discipulas do curso dramático 
do Conservatório. 



232 CARTAS DE LISBOA 

Não faltou quem prognosticasse de inútil a 
restauração de uma escola .para actores e actri- 
zes, quando a reforma proposta pelo actual 
inspector do Conservatório e um dos mais illus- 
tres escriptores portuguezes, o auctor glorioso 
do Intimo^ foi ha cinco annos perfilhada pelo 
ministro do reino, snr. conselheiro Hintze Ri- 
beiro — o único protector das artes que ainda 
resta na politica portugueza, — e convertido em 
lei. E argumentavam os críticos com o exemplo 
dos grandes actores incultos, vindos do anony- 
mato para a evidencia do palco, impellidos pela 
vocação, designando António Pedro, Rosa Da- 
masceno» Virgínia e Adelina Abranches, esta 
ultima quasi creada na scena, educada na escola 
propicia — e quantas vezes funestai — do tablado. 
Esqueciam-se os que prophetisavam a inuti- 
lidade do curso que se pretendia fazer reviver, 
de inquirir dos motivos que ha tantos annos 
traziam arredadas do theatro portuguez essas 
creanças prodígios e essas vocações ardentes, 
nem cuidavam de procurar remédio para a deca- 
dência progressiva em que se abysmava, pelo 
desamparo de artistas valiosos, a arte de repre- 
sentar. Onde, depois de Lucília, que encontrou 
em sua mãe um verdadeiro e incomparável 
Conservatório, a actriz que, n'estes últimos dez 
annos, viesse enriquecer a scena portugueza e 
preparar a successão das consagradas? 

Poder-se-hia encontrar n'essa errónea affir- 



CARTAS DE LISBOA 233 

mativa, quando formulada, a razão pela qual 
cada dia mais as scenas portuguezas ficavam 
vasias de actrizes? A prática provava, porém, o 
contrario. A legião das inexperientes e das 
inaptas, que ao abrir de todas as épocas ba- 
tiam ás portas dos theatros, foragidas de socie- 
dades particulares, fascinadas pela evidencia da 
scena, augmentava em razão inversa do seu 
mérito. 

E quantas, entre ellas, que poderiam, depois 
de uma aprendizagem paciente, elevar-se á 
dignidade de successoras d'essa dymnastia ful- 
gurante, em que brilharam Emilia das Neves, 
Emilia Adelaide, Manoela Rey, Rosa Damas- 
ceno, Lucinda' Simões e Virgínia da Silva! 
Quantas, entre essas repudiadas das emprezas 
theatraes, a quem porventura estaria destinada 
a gloria que lhes atormentava de commove- 
doras ambições os seus sonhos de humildes! 
Mas os emprezarios calculavam os prejuízos do 
lento noviciado, da demorada aprendizagem, e 
systematicamente, a essas infelizes ambiciosas, 
respondiam com a recusa de uma escriptura. 
Era rara a que conseguia vencer a reluctancia 
incrédula das emprezas e mais rara a que, 
transposto esse primeiro obstáculo, não vinha 
dar razão aos que se obstinavam em despedir 
as aprendizes ... As aulas do curso dramático, 
emfim, abriram e os detractores emmudeceram. 
Do Conservatório sahiam Jesuina Motilia para o 



234 CARTAS DE LISBOA 

D. Maria, Etelvina Serra para o Avenida, e 
n'essas debutantes claramente se evidenciavam 
desde a primeira noute os benefícios de uma 
educação preparatória, que, sobretudo, na 
ultima, as tomavatn aptas para o desempenho, 
se bem que ainda claudicante, de papeis de 
categoria. Á falta d'esses preparatórios, que a 
haviam &miliarisado com a sua arte, Etelvina 
Serra necessariamente teria entrado no palco 
entre o bando anonymo das coristas para con- 
quistar com penosos esforços essa evidencia 
com que o seu nome brilhou no cartaz desde a 
primeira noute de espectáculo. E quem podéra 
descrever as humilhações, os transes afflictivos, 
os desesperos e as amarguras que a scena 
reserva a esses talentos incomprehendidos, a 
essas vocações balbuciantes, tantas vezes aniqui- 
ladas pela injustiça dos emprezarios e do 
publico, e que quasi sempre acabam por desviar 
da profissão essas tristes victimas da inexpe- 
riência! 

Mas quando mesmo das aulas do curso de 
arte dramática não tivesse sabido até hoje uma 
esperança para ò palco, bastariam os exames 
de quinta-feira para a brilhante demonstração 
da sua utilidade. O theatro portuguez pôde 
contar desde agora com duas grandes actrizes. 
Os nomes de Maria da Conceição Mattos e 
Silva e de Dallila Mottili Assis, a quem o jury 
deu nos exames do 4.® anno as mais altas 



CARTAS DE LISBOA 235 

classificações que lhe é licito conceder — dez 
valores á primeira e nove á segunda, — estão 
destinados a ser alguma cousa mais do que os 
de duas actrizes consummadas. Esses nomes 
representam desde hoje para o theatro e para a 
litteratura dramática portugueza a garantia de 
um futuro, que a todos se apresentava como 
de incertezas e decadencias. 

Quando D. Maria da Conceição Mattos e 
Silva fôr no theatro, para os espectadores e ^ 
para a imprensa, a actriz Maria da Conceição; 
quando a sua voz grave e dolente, tão harmo- 
niosa e clara, tão musical e suave, declamar em 
scena a prosa dos grandes estylistas e os versos 
dos grandes poetas; quando o seu sentimento e 
a sua arte, encarnando as protagonistas do 
theatro futuro, commoverem até ás lagrimas os 
auditórios d'esses futuros theatros com que se 
adornará a florescente Lisboa; quando esse 
nome, tão singello e tão portuguez, adquirir o 
prestigio com que o triumpho e a gloria reves- 
tem os nomes mais vulgares; quando os nossos 
filhos chorarem com os seus simulados prantos 
de actriz e rirem com os seus artificiaes sorri- 
sos; quando os primeiros e precoces cabellos 
brancos brilharem discretamente entre os seus 
cabellos pretos; quando as primeiras e imper- 
ceptíveis rugas sulcarem a sua fronte de inspi- 
rada; quando a sua modesta timidez de agora 
se tiver diluido, sem deixar vestígios, na serena 



236 Cartas de lisboa 

consciência do seu mérito — n'esse dia, que a 
sua mocidade imaginará longínquo e que o 
esforço e o trabalho podem singularmente abre- 
viar, a successora de Virgínia e de Manuela Rey 
não se recordará talvez mais do seu primeiro 
exame do Conservatório. 

Sobre este primeiro triumpho outros vir3o e 
cada anno maiores, que mais plenamente satis- 
façam a sua crescente e immoderada ambição 
de grande actriz e ao mesmo tempo desvane- 
çam o ingénuo encanto do dia já então distante 
em que subiu ao palco, com um pequeno tremor 
nas mãositas palUdas, para recitar o soneto 
I admirável de Camões: 



Formoso Tejo meu quara dífíerente 
Te vejo e vi, me vês agora e viste. . , 



A esse tempo não será grato á sua vaidade 
recordar aquella rapariga singellã, vestida de 
luto, commovida e grave, applicada e diligente, 
exemplar e methodica, e tao assídua ás aulas 
que, no espaço de um anno, a sua uníca falta 
de discípula era comraunicada escrupulosamente 
aos professores com esta sóbria e dolorosa 
explicação: «porque falleceu meu paí!> 

Esta consciência do dever, que n'uma rapa- 
riga pode parecer exaggerada, marca bem, como 
nobre distinctivo, o raro caracter d'esta mulher. 



CARTAS DE LISBOA 237 

de tão cedo preparada para a emancipação e 
para quem o curso da actriz assume a impor- 
tância de uma sagrada garantia do futuro. Na 
idade em que as suas companheiras sonham 
com os triumphos da scena, com applausos de 
plateias, com esplendores de guarda-roupa, esta 
grave rapariga de dezeseis annos, de feições 
irregulares, antes feia que bonita, a quem o 
jury concedeu a mais alta diátincção do seu 
curso, que nenhuma das suas antecessoras lo- 
grara ainda conquistar, parece ter do theatro e 
das suas seducções uma diversa ideia, que lh'o 
reveste perante o espirito como a satisfação 
de uma vocação ardente e a conquista de uma 
redempção libertadora. Quando as companhei- 
ras, n'esse dia de exame, que é quasi uma pri- 
meira récita, com todos os seus perigos e todas 
as suas emoções, capricham em enfeitar-se, ella 
apresenta-se com o vestido preto de todos os 
dias, sem uma «coqueteria» a alegrar o seu 
luto de orphã, e quando, findo o exame, para 
me fazer a vontade, D. João da Camará lhe 
pede para recitar o sainete de Godinet, Oh! 
Senhor! — essa aprendiz de comediante, que é 
já uma consummada actriz, pousa n'uma cadeira 
o seu chapéu modesto de escumilha e simples- 
mente, com a mais doce voz que tem tido, 
depois de Manoela Rey e de Virgínia, o theatro 
portuguez, diz o seu monologo, põe de novo o 
chapéu e vai-se embora, simplesmente, modes- 



238 CARTAS DE LISBOA 

I 

tamente, como insensível aos cumprimentos e 
inaccessivel á vaidade. 

Já hoje, se a discípula laureada do Conser- 
vatório tivesse pressa em entrar para o theatro, 
todos os emprezarios se offereceríam para con- 
tratar a sua voz melodiosa e este inverno ainda 
Lisboa veria no palco a sua figura de adoles- 
cente e assistiria aos primeiros passos' em scena 
' de uma grande actriz, destinada a perpetuar a 
dynastia prestigiosa de que Emilia das Neves é 
a gloriosa fundadora. Mas a discípula do Curso 
de Arte Dramática não tem pressa. Os seus 
três professores, D. João da Camará, o actor 
Augusto de Mello e o snr. José António Moniz, 
vel-a-hão entrar nas suas aulas em outubro, com 
.0 mesmo vestido preto, a mesma applicação 
assídua, a mesma simplicidade modesta. E só 
d'aqui a um anno, tendo completado methodi- 
camente o seu curso e conquistado distíncta- 
mente o seu diploma, com a mesma calma tal- 
vez com que recitou n'outro dia o sainete de 
Godinet, ella affrontará esse publico, arbitro do 
seu destino, em cuja dependência de escravidão 
para sempre viverá, ainda nas horas em que, 
rainha do palco, o dominar com a doçura da 
sua voz e com a inspiração do seu talento. 

Este anno mais de aprendizagem, se em 
muito pouco fará progredir a actriz já feita, 
para quem o palco tem de ser a grande e deci- 
siva escola dos progressos, em muito concorrerá 



CARTAS DE LISBOA 239 

para o desenvolvimento do seu corpo franzino, 
cnvolucro frágil de uma alma sentimental e ar- 
dente, que até hoje parece ter sido sacrificado 
€ consumido pelo talento precoce que o espiri- 
tualisa. 

Se D. Maria da Conceição Mattos e Silva é 
a adolescente musa da tragedia, D. Dalila Mo- 
^illi de Assis é o vivo génio da comedia. Mais 
nova que a sua companheira, ainda a crescer 
como ella, nunca a cidade produziu com tanta 
debilidade tanta graça. Nunca n'um corpinho 
de anemica habitou tanta vivacidade e nunca 
tão cedo, n'uns olhos verdes, appareceu tanta 
malicia. Do mesmo curso sahem assim para o 
theatro portuguez as musas da elegia e do riso. 
Porque mysterioso acaso se reuniram h'uma 
predestinada camaradagem as duas actrizes, a 
quem o futuro reserva com certeza os mais emi- 
nentes logares na scena portugueza? Tudo pa- 
rece indicar que ellas serão as rainhas rivaes, 
que o publico confundirá na mesma admiração, 
que disporão das lagrimas e dos sorrisos, cujos 
nomes prestigiosos se revezarão no cartaz d'esse 
futuro Theatro Nacional, que o Conselho de 
Arte Dramática acaba de propor ao governo, 
cm substituição do actual regimen do theatro 
de D. Maria. 

Quando Virgínia se retira da scena, quando 
a morte para sempre calou a voz harmoniosa e 
fresca de Rosa Damasceno, quando Lucinda Si- 



240 CARTAS DE LISBOA 

mOes envelhece longe de Portugal em infii^lizes 
e trabalhosas taumées pelo Brazil, quando a 
doença ameaça ainda afastar do palco JoSo Rosa, 
n'esta hora de dispersão, em que o theatra 
está em crise, o apparecimpnto d'estas actrizes 
juvenis vem encher de animadoras esperanças a 
scena portugueza. 

E quando se pense no que foi a aprendiza- 
gem dolorosa de Adelina Abranches, sacrificada 
durante o melhor da sua vida á quasi obscuri» 
dade das scenas populares; quando se evoque 
a estreia de Virgínia no Principe Real, a ganhar 
doze mil réis por mez, forçoso é reconhecer que 
ao Conservatório, que acolheu estas duas voca- 
ções de grandes actrizes, impedindo-as de soíTrer 
a exterminadora exploração dos emprezarios e 
salvando-as dos transes de uma luctá de que as 
mais fortes sahem para toda a vida magoadas 
e feridas, o theatro portuguez ficará devendo, 
mais do que uma fundada esperança em melho- 
res dias, a garantia magnifica de uma prosperi- 
dade inesperada I 



15 de julho 

Quem pudera fazer a historia pormenorisada 
e convincente do inenarrável tédio em que o 
lisboeta principia a debater-se, a estas horas 1 



CARTAS DE LISBOA 24 1 

Embora o snr. Alberto Braga corajosamente 
insista em affirmar que as mais frescas e diver- 
tidas praias de Portugal são as duas ruas que 
do Terreiro do Paço conduzem ao Rocio, os 
que a desventura ou o dever encarceram em 
Lisboa, quando a corte está em Cintra e el-rei 
nas Pedras Salgadas, vivem a contar os dias 
que os separam do inverno, das ruas enlamea- 
das e dos céus cinzentos, aborrecendo o sol que 
illumina e sumptuosamente decora as longin- 
quas paizagens campestres, para onde os com- 
boios diariamente conduzem os últimos retar- 
datários das villegiaturas, das thermas e das 
praias. 

Durante o verão, as ruas de Lisboa — as 
ruas onde se passeia mais do que se transita — 
adquirem uma especial physionomia. De noute, 
á hora dos theatros, é raro o trem que sobe 
a rua do Carmo e o Chiado. Apenas uma ou 
outra victoriay com o folie descido, guiada por 
um dos derradeiros batedores, descendente de- 
generado dos cúmplices das aventuras amorosas 
dos Vimioso e Niza, dos raptos de cómicas e 
bailarinas italianas, faz arredar para os passeios 
o lisboeta vagaroso, que inutilmente procura 
afugentar o tédio na contemplação das obras 
dos armazéns Grandella e de alguma montra 
desconhecida, diante da qual nem uma só vez 
parou durante o inverno. 

É n'este tempo que apparece em Lisboa, 



1 



242 CARTAS DE LISBOA 



vinda de bairros excêntricos ou descida de 
quartos andares de ruas solitárias, uma pequena 
população de raparigas com modos provincianos 
e velhos com trajes antiquados: gente tímida, 
que o inverno assusta, se mantém enclausurada, 
apartada da Lisboa exhibicionista e estróina 
dos mezes elegantes e que só ousa mostrar-se 
quando abrandam os empurrões na rua do Ouro 
e se somem os mirones impertinentes do passeio 
Occidental do Rocio. 

Foi por uma d'estas tardes de calor e de 
vento, á hora do jantar lisboeta, quando as 
ruas da capital teem o transito modesto de 
uma villa, que em pleno largo do Loreto vi 
cruzarem-se, n'uma súbita e rápida evocação da 
Lisboa de 1840, uma traquitana de enterro — 
que na sua mocidade devia ter conduzido mui- 
tos janotas do Marrare a S. Carlos, — e uma 
velhinha de mantelete, do tempo dos Cabraes 
e de Garrett, que na sua mocidade devia ter 
sabido recitar ao piano A Comporta e dansado 
a polka no Tivoli da rua da Flor da Murta. 
Que acaso singular ou mysterioso destino con- 
servou indiíferente á evolução de meio século 
essa mulher de mantelete e saia de folhos, cujo 
vestuário parecia sahir de um museu ? Que pro- 
fundas e consistentes raizes prendiam aquelle 
coração ao passado? D*onde provinha áquella 
fragilidade a extraordinária resistência para se 
conservar immovel entre a corrente impetuosa 



CARTAS DE LISBOA 243 

dos annos, como uma rocha no leito de um 
rio? Que romance, porventura agitado de dra- 
máticos episódios, seria a vida e esconderia o 
passado d'aquella ruina, symbolo commovedor 
da fidelidade humana? 

E com que serena indifferença de rainha 
exilada e desthronada, ella atravessava por 
entre os sorrisos e as troças, talvez surda para 
os não ouvir, talvez quasi cega para os não ver I 

Para essa antiga frequentadora do Passeio 
Publico, para essa antiga namorada dos janotas 
do tempo de D, Maria II, a vida terminara — 
quem sabe! — com o ultimo beijo e o ultimo 
suspiro de um amor ha sessenta annos extincto 
na traição ou na morte. 

E desde esse dia longínquo, o mundo, com 
as suas paixões, as suas tormentas, o seu in- 
cessante tumulto de mar inquieto passara a ser 
para ella como um mundo creado para outras 
vidas dessimilhantes da sua. O panno cahira 
sobre o seu drama. Em diversos scenarios outros 
dramas principiavam onde ella nunca mais entra- 
ria... Em que velha rua, em que velha casa, 
entre que velhos moveis habitará essa sobrevi- 
vente do romantismo, que fazia correr os 
lojistas á porta para a ver passar com a sua 
desbotada saia de folhos e o seu anachronico 
mantelete de froco, de quem as mulheres novas, 
vestidas no Paris em Lisboa^ riam cruelmente, 
e a quem um cocheiro, á passagem, perguntava 



244 CARTAS DE LISBOA 

da boleia: Quer que a leve aos Prazeres ou ao 
Alto de S, Joào^ ó menina? 

Sim; talvez ella suspire pelo dia em que a 
levem, fardo tão leve de cabellos brancos, ossos 
e pergaminho, com o seu vestido de meio sé- 
culo, a repousar no alto de S. João ou nos Pra- 
zeres, ao abrigo dos gracejos macabros dos co- 
cheiros e dos risinhos impiedosos das mulheres 
vestidas pelas costureiras francezas. . . 

Escrevendo a um amigo, ao tempo que tra- 
balhava na sua Historia dos Girondinos^ Lamar- 
tine exclamava com amargurada tristeza : — 
« E necessário resuscitar em França a poesia e 
o amor, que a revolução e a guerra destruíram!» 
E de facto elle ajudou a crear de novo, não só 
em França, mas em toda a Europa, essa mulher 
delicada e enternecida, amorosa e fiel, tão apai- 
xonada e tão decorativa, que foi a musa do ro- 
mantismo e a avó sentimental da frequentadora 
assídua das salas de jogo do Casino do Monte 
Estoril, automobilista ^ flirteiise^ elegante e pér- 
fida, para quem os hygienistas inventaram, mais 
para a desfigurar do que para a soccorrer, o 
caricatural espartilho direito. Quão differentes 
ellas são, essa avó e esta neta, que o acaso fez 
encontradas no largo do Loreto, uma a caminho 
da modista, a outra a caminho do cemitério, 
uma cortejada pelos janotas da Havaneza, a 
outra escarnecida pelos cocheiros da Companhia! 

Quantas, como esta velhinha de mantelete. 



CARTAS DE LISBOA 245 

serSo, hoje, no principio d'este século XX, as 
sobreviventes do romantismo de 1 840, do tempo 
de Passos Manoel e da liteira, dos cabellos em 
bandós e das casacas côr de bronze? 

Uma conheço e todo o Minho fidalgo co- 
nhece, que aos setenta e oito annos, que hoje 
tem, usa ainda vestidos do mesmo talhe que 
aos quinze annos usava. Viu morrer desembar- 
gador o homem que fora a paixão única da sua 
mocidade e sobreviveu-lhe para o chorar, fiel 
a um amor de sessenta annos, que nem a trai- 
ção do preferido amorteceu no seu coração 
ultrajado. Velhinha, com a imperecível mocidade 
d'essa paixão, que a morte conseguiu apenas 
afervorar n'um culto, ella ficou menina por um 
milagre de amor, menina do seu tempo, resis- 
tindo á influencia devastadora dos annos, sem 
transigir e succumbir, alimentando de recorda- 
ções a sua vida, relendo hoje os poetas predile- 
ctos dos seus dezoito annos, ultima sobrevivente 
de um mundo dissipado, relíquia de uma geração 
extincta, de que só restam cinzas e saudades. 

D'essa senhora illustre se contam em todos 
os solares do norte as réplicas espirituosas, as 
singularidades de expressão e de hábitos e é ao 
seu espirito malicioso que se attribue o epitheto 
de lyrio pendente^ que acompanhou até ás maio- 
res culminancias de uma brilhantíssima carreira 
politica o magistrado que ella conhecera dele- 
gado do ministério publico em Guimarães. 



246 CARTAS DE LISBOA 

Esta senhora, que ainda hoje sabe de cór 
todas as poesias dos vates românticos, que ainda 
hoje se veste como se vestiam as suas amigas 
das casas de Infias, da Prelada e das Hortas; 
para quem ainda hoje a elegância e a turbulên- 
cia dos homens do seu tempo debalde se procu- 
raria comparar aos dandys semsaborões do nosso 
tempo; para quem a belleza como o amor são 
flores que murcharam ha sessenta annos para 
nunca mais revivescer; que indo um dia visitar 
a Coimbra um sobrinho, hoje ministro n'uma 
corte da Europa, encommendava ao prior de 
Santa Cruz, cheia de fé romântica, uma missa 
por alma de D. Ignez de Castro; que heroica- 
mente desmanchou, já noiva, o seu casamento 
com o homem idolatrado, porque elle deixara 
de cumprir uma promessa fútil, e que viveu a 
adoral-o depois de o haver perdido; esta velhi- 
nha, que ainda hoje põe flores no seio — com- 
prehenderia essa outra sobrevivente do roman- 
tismo, que hontem passava no largo do Loreto, 
insensível aos risos e aos gracejos, com o seu 
mantelcte da modista Burnay e a sua saia de 
folhos talhada pela Levaillant. 

Quem as podcsse juntar, quem as podésse 
ouvir! O que ellas chorariam ambas 1 O que ellas 
ririam as duas! 



CARTAS DE LISBOA 247 



2^ de julho 

Já os telegrammas, primeiro, e a seguir as 
circumstanciadas noticias dos jornaes, descreve- 
ram a desordem tumultuosa em que finalisou, 
segunda-feira passada, o campeonato de lucta, 
que ha um mez se inaugurara com enthusiasmo 
indiscriptivel no Colyseu dos Recreios. Os espe- 
ctadores, dominados pela exaltação que sempre 
provocam os espectáculos de força, entendeu de 
sua justiça arremessar as cadeiras partidas ao 
ring" dos luctadores, correr os gigantes a bata- 
tas, liquidar com apupos e assobios o torneio 
mystificador dos athletas. 

Ora, este desenlace violento, que tanto sur- 
prehendeu o emprezario e a policia, era o coro- 
lário lógico, inevitável, previsto, de quanto até 
então vinha succedendo no vasto Colyseu das 
Portas de Santo Antão. 

A mentira é uma arte mais do que nenhuma 
outra subtil e difficil, de que é imprudente e 
perigoso abusar, que exige para se impor uma 
criteriosa discreção, um perspicaz conhecimento 
da opportunidade. O espectáculo emocionante 
do campeonato assentava n'uma mentira. 

Foi o abuso da mentira que lhe preparou a 
liquidação pelo fiasco. 

Ninguém, desde o primeiro dia, ignorava 



.^ 



248 CARTAS DE LISBOA 

que os luctadores do Colyseu, com o seu aspe- 
cto feroz e inimigo de rivaes, não passavam de 
uma troupe de hércules pagos pelo gigante Paul 
Pons, seu emprezario, para dar nas cidades da 
America e da Europa espectáculos de lucta 
greco-romana ou t lucta de mão aberta», como 
desdenhosamente a designavam os gladiadores 
do circo de Trajano, incapazes, como os seus 
antepassados gregos, de avaliar a belleza esthe- 
tica de um duello de agilidade elegante e de 
força incruenta. Na lucta, o grego estheta do 
tempo de Péricles admirava, sobretudo, a exhi- 
bição de lindos corpos e applaudia na força 
muscular um apanágio da belleza viril. Mas já 
o latino, herdando as diversões do helleno, as 
aífeiçoou ao génio violento da raça, exigindo 
do luctador as grandes commoções trágicas, a 
que o circo lhe habituara os sentidos sanguiná- 
rios. E assim foi que, mais de uma vez, na 
arena dos colyseus romanos, o vencedor estran- 
gulou o vencido, lhe quebrou a columna verte- 
bral, lhe esmaí^^ou as vértebras cervicaes, o as- 
phyxiou ou lhe esmigalhou o craneo. 

Derruídos os circos, extincta a civilisaçâo 
romana, a lucta grega, desfigurada barbara- 
mente na arena latina, morreu. Com o seu 
frai^or de armas, a Idade Média passou sobre 
os últimos vestígios do império dos Césares 
como um segundo diluvio. Quinze séculos mais 
tarde, a França, a mais hellenica das nações 



CARTAS DE LISBOA 249 

latinas, resuscita a lucta na sua clássica feição 
de espectáculo de circo, corrigindo-lhe as bruta- 
lidades romanas, restituindo-lhe a belleza grega. 
Mas tão certo é que a civilisação de tanto 
século de arte, de poesia e de sciencia não con- 
seguiu elevar o bárbaro da Europa á dignidade 
humana do contemporâneo excelso de Péricles, 
que, irrompendo debaixo das sobrecasacas e 
dos fraques a mesma alma violenta que estre- 
mecera debaixo das túnicas e das togas, o 
latino do século XX reclamou dos luctadores, 
em Paris como em Madrid, em Madrid como 
em Lisboa, mais do que bellos gestos e bellas 
attitudes, as exterminadoras fúrias do combate. 
E então, para satisfazer os appetites d* esse 
publico civilisadoy organisaram-se as troupes de 
luctadores, educados na arte de simular o deses- 
pero e a cólera. Paul Pons, campeão do mundo, 
inventou Schackman. Ao terrível allemão coube 
em sorte o excitar as multidões com a impul- 
siva animalidade dos seus ataques e o seu 
cynismo desafiador. Em Madrid, no Rio de 
Janeiro, em Buenos-Aires, Schackman foi o 
heroe odioso dos torneios, contra quem os 
espectadores imprecavam; espécie de Lúcifer 
da troupey que o publico considerava como uma 
fera indomesticavel e terrivel e que os com- 
panheiros a occultas estimavam como o mais 
dedicado e generoso dos camaradas! Foi Scha- 
ckman quem animou, durante trinta sessões 



2SO CARTAS DE LISBOA 

consecutivas, o torneio de Lisboa. O publico, 
que pateava Schackman, que praguejava contra 
Schackman, enchia todas as noutes o Colyseu 
na esperança de ver Schackman vencido. O 
allemão, que desde o primeiro dia o emprezario 
tivera o cuidado de recoinmendar aos especta- 
dores com o epitheto terrivelmente prestigioso 
de Estrangulador^ expondo-o á animadversão 
contagiosa das multidões, conseguiu emprestar 
ao torneio as apparencias emocionantes de 
encarniçados combates, de temerosos conflictos 
entre gigantes Golias e hércules de Farnesio, 
como se fosse crivei que uma dúzia de homens 
pacíficos periodicamente se aggredissem, sem 
contemplações e sem indulgência, impiedosos e 
desvairados, para entretenimento dos brigões 
de Lisboa. O facto é que o publico tomou as 
luctas a sério e se suppôz em breve com 
direito, porque pagara cinco tostões na bilhe- 
teira, a que lhe servissem todas as noutes, 
com regularidade, cinco ou seis pugilatos a 
valer. O resultado estava previsto. O abuso 
da mentira acabou por despertar desconfianças 
nos mais crédulos. A reacção dos illudidos 
contra a mentira, de que eram os únicos cul- 
pados e instigadores, explodiu finalmente n'um 
charivari medonho de protestos. 

Seriamos injustos se accusassemos o empre- 
zario da troupe de haver servido ao publico, 
embora falsificado, o espectáculo que o publico 



CARTAS DE LISBOA 2$! 

lhe exigia para seu recreio. O abuso da mentira 
perdeu-o. A indignada celeuma de segunda-feira 
foi o castigo da sua falta de tacto na mentira. 
Abusar da mentira é mais perigoso que abusar 
do vinho. A mentira tem os seus segredos como 
a musica. Nem qualquer a executa e poucos 
sabem compôl-a. Ha mentiras de génio como 
ha compositores geniaes. A mentira tem os 
seus Mozart e os seus Wagner. A virtuosidade 
da mentira só se adquire difficilmente, quando 
não é um talento natural, que a educação e o 
tempo desenvolvem. Os Chopin e Rubinstein 
da mentira são exemplares raros, espiritos ex- 
cessivamente civilisados> dotados de faculdades 
espèciaes de subtileza, de audácia, de persua- 
são e de brilho. 

Que outra cousa é a imaginação mais que 
uma mentira? 

Um grande critico inglez declarava, ainda 
não ha muito, que uma das causas principaes 
da banalidade de quasi toda a litteratura actual 
se deve á decadência da mentira — considerada 
como arte, como sciencia e como prazer social l 
A ideia vulgar de que a mentira é um vicio 
degradante do caracter só pôde acceitar-se no 
que respeita aos mentirosos sem elevação moral. 
Como todas as artes, a mentira tem os seus 
cultores indignos, destituídos de elevação e de 
talento. Os mentirosos de officio degradaram a 
mentira, como os mercenários degradaram a 



-3 

1 



252 CARTAS DE LISBOA 

guerra, como as cortezãs degradaram o amor. 
Dante, evocando o inferno, foi um mentiroso 
sublime. O director da Cocarde, inventando e 
explorando a calumnia, é um mentiroso ignóbil. 

Houve na historia contemporânea de Portu- 
gal um homem de talento e coragem, com va- 
lentias de heroe e gentilezas de fidalgo, idolo 
do povo e favorito da corte, dispondo de uma 
multiplicidade quasi inverosímil de aptidões, que 
lhe davam a capacidade multiforme de governar 
sabiamente uma província, de discursar fluente- 
mente nas camarás, de fascinar gentilmente 
uma mulher, de arrostar intrepidamente com o 
perigo, de dominar as multidões e seduzir os 
sábios, homem galante como poucos, brilhante 
como nenhum, excessivo e imaginoso como um 
espadachim de Calderon ou Tirso de Molina, que 
com a mesma elegância atravessava a Africa e 
uma sala de baile, com o mesmo gesto com- 
mandava uma batalha e um cotillon, homem dos 
mais singulares que o Portugal do século XIX 
tem produzido, e que, no consenso unanime de 
quantos o conheceram, foi, para em tudo s^r 
sempre o primeiro, também o mais intrépido e 
phantasista mentiroso do seu tempo! 

Esse homem era Serpa Pinto. 

Dotado de uma fecundissima imaginação de 
novellista, espécie de Alexandre Dumas desapro- 
veitado para a litteratura, Serpa Pinto era um 
mentiroso á maneira de Bocaccio, Walter Scott 



CARTAS DE LISBOA 253 

OU Julío Verne, cuja singularidade consistia em 
narrar ficções deliciosas sob a forma de factos, 
ao inverso dos homens que não mentem e se 
entretéem a descrever factos estúpidos á ma- 
neira de ficções. 

Assim, por exemplo, estando em Mafra com 
el-rei e dizendo-lhe n'uma manhã de caçada um 
seu amigo, que igualmente fazia parte da comi- 
tiva régia, não saber como elle conseguira atra- 
vessar a Africa quando lhe parecia um tremendo 
sacrifício a simples travessia da tapada de Mafra, 
o célebre explorador, com imperturbável serie- 
dade, respondeu: 

— Eu te explico. . . E uma cousa que nunca 
disse a ninguém. E que eu atravessei a Africa. . . 
com estes chinellosl 

Attonito, o camarista de el-rei D. Carlos 
senta-se na cama para ver melhor. 

Os chinellos de Serpa Pinto eram novos 1 
E n'esse mesmo dia, ao jantar, como a 
rainha se. felicitasse por ver a Legião de Honra 
no peito de um official portuguez, Serpa Pinto, 
que fora condecorado pela republica franceza, 
no regresso da sua famosa exploração, explica 
in continenti: 

— Foi o próprio imperador que me conde- 
corou depois de Sédan, na guerra de 70, onde 
tive a honra de me bater pela França I 

E, com espanto geral, diante do rei, da rainha 
e das comitivas, Serpa Pinto conta com o bri- 



254 CARTAS DE LISBOA 

lho de um romancista emérito, o que fora essa 
batalha de Sédan. . . onde nunca estivera! 

Depois da mentira, elle ficava como um sol- 
dado valente depois do fogo: imperturbavel- 
mente sereno; ou como um escriptor depois de 
haver escripto uma pagina feliz: radiosamente 
satisfeito. 

Uma só vez Serpa Pinto ficou desconcertado. 
Tinham-lhe apresentado um filho do conde de 
Mafra, e passados momentos, Serpa Pinto, em 
pleno delirio imaginativo, narrava as cousas 
mais extraordinárias, exaltando os talentos 
e as virtudes consideráveis do seu criado de 
quarto. 

E como todos, em redor, lhe invejassem 
esse creado-modelo, Serpa Pinto, com um sum- 
ptuoso gesto, conclue: 

— Também não admira ... O meu criado é 
irmão do marquez de Ficalhol 

— Então é o meu pai! — diz do lado D. Fran- 
cisco de Mello Breyner, estupefacto. 

Este mentiroso inconsciente pagava ás vezes 
generosamente o seu desvairado luxo de phan- 
tasista incorrigivel, como um príncipe que não 
regateia o preço dos seus prazeres. 

Juntára-se a colónia portugueza do Brazil 
para dar ao heróico explorador um presente 
magnifico, por occasião da sua ida ao Rio de 
Janeiro. E de tal maneira a subscripção se 
avolumara, que a colónia decidira entregar ao 



CARTAS DE LISBOA 255 

heroe, que todos sabiam pobre, um cheque de 
cera contos. 

Serpa Pinto sabia-o. Mas o seu vicio de 
imaginativo pôde mais que o seu interesse, e 
durante o banquete que lhe offerecera a colónia, 
foram taes as riquezas e castellos e herdades 
que descreveu regiamente como seu património, 
que a commissão «promotora da subscripção, 
julgando o presente mesquinho para homem 
tão rico, não se atreveu a entregar-lhe, com 
receio de uma recusa, o modesto cheque de 
cem contos! 

Como se vê, Serpa Pinto comprou caro o 
direito de ser respeitado . . . mesmo na mentira ! 



ip d'agosto 



A historia conhecida de um estudante de 
Coimbra, representante de uma das mais illus- 
tres familias portuguezas, que uma noute, depois 
de uma ceia alegre, diante dos amigos estupe- 
factos, se atirou do alto da ponte ao Mondego 
a fim de provar que era descendente de Vasco 
da Gama, acode-me á lembrança, depois de ler 
o artigo fatigante e laborioso de um bacharel, 
que saudosamente se despede da Universidade 
c nos denuncia a falta de graça e de espirito da 



256 CARTAS DE LISBOA 

sua geração para nos provar. . . que ella reatou 
brilhantemente a tradição espirituosa do pas- 
sado! Como o authentico descendente de Vasco 
da Gama, que se despenha sobre um areal para 
convencer os condiscipulos incrédulos de que o 
mesmo sangue do épico navegador lhe corria 
nas veias, o panegyrista do espirito contempo- 
râneo de Coimbra, depois de mil esforços e mil 
subtilezas, apenas consegue provar-nos que se 
a graça coimbrã ainda não desertou das mar- 
gens do Mondego, não é entre os episódios do 
seu curso que os investigadores de espirito alheio 
por certo a encontrariam. 

E comtudo, ao contrario do que pretendem 
os que nada sabem e presumem tudo saber, o 
portuguez está longe de ser uma creatura des- 
favorecida d*esse dom eminentemente subtil e 
espontâneo, que é a graça, e a que o general 
príncipe de Richelieu concedia as honras exag- 
geradas da « mais brilhante prerogativa do 
homem». O chronista feliz que hoje conseguisse 
reunir com paciência na tradição oral os dictos 
de espirito e as acções espirituosas dos seus 
contemporâneos, teria rehabilitado com uma 
obra singularmente interessante pelo imprevisto 
e pelo assumpto a genuína graça portugueza. 
E nâo seria só a graça intelligente, composta 
de ironia e de malícia, do homem superior, que 
deveria archivar-se como um documento inesti- 
mável para a historia graciosa do espirito, mas 



CARTAS DE LISBOA 257 

a própria graça apparentemente resultante da 
asneira e que, muitas vezes, tem o valor histó- 
rico de uma biographia. Assim, as anecdotas do 
conde de Santa Maria são para o historiador o 
mais seguro documento analytico d'essa tão in- 
teressante individualidade, como as anecdotas 
do marquez de Penalva representam o que de 
mais eloquente um biographo teria para dizer 
sobre esse -ultimo e perfeito representante, no 
século XIX, da nossa nobreza do fim do século 
anterior. 

Nada ha que mais ao vivo desenhe um 
caracter do que um bom dito. A decadência 
do espirito sobreveio com a decadência da indi- 
vidualidade. O temor da opinião, que é uma 
das pusilânimes características da sociedade 
contemporânea, destruindo a originalidade, quasi 
aboliu o espirito. Este tornou-se uma expressão 
combativa da ironia, uma espécie de privilegio 
dos caricaturistas e dos críticos. 

Foi n'uma obra de combate — As Farpas — 
que Eça e Ramalho resuscitaram o exercício do 
espirito na litteratura lamurienta de 1870 e 
n'uma obra de combate — O António Maria — 
que Raphael renovou a graça na Lisboa piegas 
da Regeneração, Ao espirito foram então resti- 
tuídas todas as honras de que o haviam despo- 
jado. O espírito reappareceu na politica e esprei- 
tou á porta dos salões. A ironia cáustica de 
Marçal Pacheco e a satyra maliciosa de Marianno 

17 



2S8 CARTAS DE LISBOA 

de «Carvalho tríumpharam da eloquência rama- 
lhuda do parlamento, em que deçahira a graça 
petulante de Sotto Maior e as arremettidas vio- 
lentas do conde da Taipa. 

O. romantismo — o romantismo da Revolu- 
ção, que principia em Portugal com o movi- 
mento de 20 e desce o século até 1850, entre 
guerras e conílictos, — fora ainda, pelo seu pró- 
prio caracter de combatividade, o reinado da 
turbulência e do espirito, dos grandes tribunos 
e dos grandes janotas, das aventuras memo- 
ráveis e das paixões arrebatadas. Mas com a 
degenerescência do romantismo, a audácia e o 
espirito decahiram. Pode dizer-se que em 1870 
só havia em Portugal um homem de espirituoso 
talento. Era Camillo. A sua vis cómica, ser- 
vida por uma admirável sciencia de ironia, per- 
petuava entre as gerações accommodaticias o 
temeroso espirito do romantismo puro sangue. 
Mas a sua graça mordente de pamphletario 
soava isolada, como um clarim de guerra que 
se obstina no campo de batalha deserto. Já o 
espirito se tornara um recurso suspeito, de que 
só usavam os escriptores da província e os jor- 
nalistas sem clientela. 

Na sociedade, ter espirito nao era, como 
d'antes, uma recommendação favorável. Era 
uma prevenção perigosa. Ao sahir de Coimbra, 
Eça de Queiroz — que foi o mais notável cultor 
do espirito no fim do século XIX em Portugal 



CARTAS DE LISBOA 259 

— encontrou em toda a sociedade portugueza 
-esse preconceito do homem espirituoso, que 
caracterisava o triumpho burguez do utilita- 
rismo. 

Quando appareceram As Farpas, houve um 
movimento unanime de pânico. Foi um escân- 
dalo 1 O tom iconoclasta, demolidor e desde- 
nhoso, d' essas paginas de critica, que pela ele- 
gância da phrase e pela crueldade do conceito 
pareciam escriptas por dous príncipes, feriu a 
susceptibilidade portugueza como uma imperti- 
nência digna de castigo. E assim é que essa 
resurreição do espirito e a sua consequente li- 
bertação das formulas preconceituosas e do 
exaggerado e supersticioso receio da opinião, 
ameaçavam ficar enclausuradas nas fronteiras 
da pequena republica das lettras, quando um 
acontecimento mundano lhe veio abrir as por- 
tas dos salões. Esse acontecimento é a consti- 
tuição do famoso grupo dos Vencidos da Vida, 
que, approximando alguns homens de lettras de 
alguns homens de corte, restituiu por algum 
tempo ao espirito a sua realeza romântica. 

A historia verídica dos Vencidos da Vida 
«stá ainda por fazer. Desfigurada ao sabor das 
conveniências, é necessário quanto antes corri- 
gil-a, para a não deixar na tradição com os 
additamentos falsos que lhe introduziram. Como 
todos sabem, d'esse grupo célebre faziam parte 
os condes de Ficalho, de Sabugosa e de Arnoso, 



26o CARTAS DE LISBOA 

Luiz de Soveral,, hoje marquez e ministro de 
Portugal em Londres, Carlos Mayer, Eça de 
Queiroz, Oliveira Martins, António Cândido, 
Carlos Lobo de Ávila, Guerra Junqueiro e 
Ramalho Ortigão: a ílôr da intellectualidade, 
do janotismo e da nobreza. 

Para que se constituirá esse grupo de ami- 
gos n'uma espécie de associação sem estatutos 
e sem regulamentos? Para tríumphar? Para 
dominar? Para intrigar? Apenas para estreitar 
relações affectuosas e para poder, n'um meio 
hostil ao espirito, cultivar o espirito! Nenhuma 
influencia teve na politica, na litteratura e na 
corte o grupo dos Vencidos da> Vida além da 
influencia pessoal de que cada um d'elles dis- 
punha. Não foi a coUigação que promoveu 
Luiz de Soveral a ministro em Londres, o 
conde de Ficalho a mordomo-mór, Carlos Lobo 
de Ávila e Oliveira Martins a ministros, o 
conde de Arnoso a secretario de el-rei, Eça de 
Queiroz a cônsul em Paris^ Ramalho Ortigão a 
bibliothecario da Ajuda. O papel politico do 
grupo foi nenhum. Dos jantares dos Vencidos 
da Vida nunca sahiram conspirações. Indepen- 
dentemente da influencia de uma maioria pala- 
ciana, Guerra Junqueiro filiava-se n'um partido 
politico avançado. Se alguma cousa podia 
reverter do prestigio do grupo sobre os seus 
membros, esse alguma cousa só podia ser, n*um 
meio como Lisboa, um prejuízo para as ambi- 



CARTAS DE LISBOA 201 

ções dos Vencidos da Vida, EUes irritavam 
Lisboa. Pelos seus escândalos? Não. Pela sua 
harmonia. O monóculo de Eça enervava. A frisa 
de S. Carlos — a frisa dos Vencidos — era um 
desafio a toda a Lisboa. Tornou-se necessário 
evacual-a. Quanilo n'ella assomava ou o esbelto 
perfil de Bernardo Pindella*ou o sorriso satyrico 
de Carlos Mayer, todos os binóculos conver- 
giam para elles, desconfiados e interrogativos. 

Que faziam, que planeavam, que prepara- 
vam aquelles homens inseparáveis? Aquelles 
homens estimavam-se. Aquelles homens diver- 
tiam-se. E o que Lisboa não queria comprehen- 
der era que só d'ella, da sua insignificância, do 
seu horror intellectual, da sua ausência de cul- 
tivo, da sua falta de espirito e de maneiras pro- 
vinha a união d'aquelles homens, a quem uma 
mesma superioridade isolara da restante gente, 
sentindo-se repellidos pela mesma mediocridade 
dominante. 

O grupo dos Vencidos da Vida foi a resul- 
tante de uma selecção intellectual, muito mais 
que um propósito altivo de isolamento entre 
uma sociedade governada pelo politico, pelo 
financeiro e pelo tolo. E Lisboa só comprehen- 
deu esta verdade quando uma noute viu entrar 
nas salas do conde de Valbom, onde estava 
reunida toda a politica, toda a finança e toda a 
asneira lisboeta, aquelles homens célebres para 
cantar, com musica da Rosa tyranna, cada um 



CARTAS DE LISBOA 



d'e1les, uma quadra improvisada ao jantar ! 
O espanto lavrou pelos salões da rua das Cha- 
gas como um incêndio. Os conselheiros de Es- 
tado, os pares do reino, os deputados deixaram 
as mesas do brídge para vir espreitar ás portas, 
boquiabertos 1 Nunca se vira um escândalo 
assim I Aquetles homens, diplomatas, lentes, 
camaristas do paço, historiadores, cônsules e 
médicos, de casaca, a cantarem a meio de uma 
sala de baile, era um espectáculo próprio para 
escandalisar a Lisboa preconceituosa do conse- 
lheiro Accacio. 

Foi esta a mais memorável campanha dos 
Vencidos da Vida e a mais arriscada batalha 
que o espirito ofTcreceu n'uffl salão aos precon- 
ceitos de uma sociedade governada pela semsa- 
boria e pelo tédio! 



26 d'agoíío 

Quem, percorrendo um jornal, verificar que 
apenas um theatro — o da Avenida — dos onze 
que tem Lisboa, está aberto, nSo deixará de 
lastimar os desventurados lisboetas, que uma 
sorte adversa mantém nos calores suffocantes 
de uma capital quasi deserta e mais ainda no 
tédio inenarrável de uma capital sem distra- 
cções. 



CARTAS DE LISBOA 263 



De facto, sobre o lisboeta, que fica em Lisboa 
no verão, obstina-se um fado adverso. Mas o en- 
genhoso e fecundo alfacinha respohde-lhe sempre 
victoriosamente com os recursos de uma inven- 
tiva que as privações mais aviventam. Quando, 
ha dous mezes, lhe faltou a agua, Lisboa lem- 
brou-se de que D. João V, o rei magnifico, fizera 
construir um viaducto — monumento fabuloso e 
quasi archeologico, só conhecido dos estrangei- 
ros — e logo Lisboa resuscitou o gallego agua- 
deiro de 1840 e fez a sua sopa, coseu o seu 
arroz, tomou o seu banho, lavou as suas mãos 
na agua dos chafarizes. Em Paris, em IVIadrid, 
em Berlim a falta de agua teria sido uma cala- 
midade. Em Lisboa foi apenas uma peripécia. 
Durante os dias em que o Alviella cortou as 
suas relações com Lisboa, philosophicamente, 
resignadamente, a capital comprou a sua agua 
aos canecos e as donas de casa podéram verifi- 
car que o banho diário de uma marqueza de 
Vianna ou de um visconde de Almeida Garrett 
custavam annualmente, só em agua, cerca de 
setenta mil réis, culculo de que resultou uma 
melhor apreciação dos confortos e das com mo 
didades da vida contemporânea. 

Passados dias, a agua jorrou de novo dos 
contadores. As bicas de bronze dos chafarizes 
de El-Rei e do Carmo continuaram desperdi- 
çando a sua fonte perenne, canalisada pelo mais 
pródigo dos reis em alterosos viaductos de mar- 



204 CARTAS DE LISBOA 

more. O gallego pousou outra vez o caneco, 
encostou-se novamente ás esquinas. 

Com a mesma resignada philosophia com que 
substituiu o Alviella, Lisboa substituiu o thea- 
tro. Sem um protesto, Lisboa assistiu á partida 
dos seus actores predilectos, das suas actrizes 
favoritas. E, quando o ultimo theatro fechou, 
quando a ultima companhia se dissolveu, resi- 
gnadamente Lisboa foi passar as noutes para 
a feira do Campo Grande. Os bailados^;»^^^^:^^ 
de uma hespanhola substituíram vantajosamente 
as attitudes clássicas de Brazão. O publico do 
D. Amélia vai passar as noutes ao Moulin-Rpuge. 
Os espectadores do Colyseu invadiram os ani- 
mátographos. Emquanto Angela Pinto repre- 
senta o Hantlet, em travesti, no Rio de Janeiro, 
Lisboa applaude o grand écarté da Mariucha, 
n'um barracão do Campo Grande. 

Quando se suppunha Lisboa condemnada a 
passear durante três mezes na Avenida ás es- 
curas, Lisboa improvisa um passatempo. Fe- 
cham-se cinco theatros entre o Rocio e S. Roque? 
Abrem-se logo cinco theatros no Campo Grande. 
De uma feira ignóbil, .illuminada a azeite in- 
fecto, Lisboa faz uma feira decente, illuminada 
a electricidade! 

E quem pôde prever até que ponto esta 
transformação inesperada influirá nos hábitos e 
nas predilecções do lisboeta? As ferias dos 
theatros, durante os mezes de verão, a princi- 



CARTAS DE LISBOA 265 

pio parciaes e agora absolutas, obrigaram Lis- 
boa a procurar n'um género diverso de espe- 
ctáculos o seu divertimento. 

O lisboeta, habitando na sua grande maioria 
uma casa sem conforto, onde os prazeres da 
vida domestica sâo quasi impraticáveis, procu- 
rou sempre no theatro as distracções que lhe 
faltavam no lar. As condições precárias em que 
vegetam no Porto as emprezas theatraes pro- 
vêem de que no Porto se pratica ainda a vida 
de familia e o lar conserva todo o seu prestigio 
tradicional. A casa é a grande inimiga do thea- 
tro.. Ora, na realidade, o lisboeta não tem casa. 
Tem uma habitação, tem um andar — lado di- 
reito ou lado esquerdo! — onde almoça, onde 
janta, onde dorme. Tem, em resumo, uma mo- 
rada. Mas não tem casa. A casa repelle-o, não 
o attrahe. Um choro de créança enche-a toda. 
No verão é um forno. No inverno é um 
poço. Desde pequeno, o lisboeta vai-se habi- 
tuando a andar fora de casa. No Porto, 
as criadas levam as creanças a brincar para 
o jardim. Em Lisboa, as creanças vão brin- 
car para a Avenida, para S. Pedro de Al- 
cântara, para a praça do Prinçipe Real. Final- 
mente — e isto vale um tratado de sociologia 
e de moral, — a noute do anno em que os thea- 
tros mais dinheiro ganham em Lisboa é a 
noute do Natal. N'essa noute, os theatros do 
Porto estão vasios. N'essa noute, o Porto está 



266 CARTAS DE LISBOA 

em casa. N'essa noute, Lisboa está nos cavai- 

linhos. 

« 

Posto isto, que sufficientemente explica a 
existência dos onze theatros da capital, é fácil 
presumir o quanto deve aifectar a vida de 
Lisboa o encerramento simultâneo de dez das 
suas onze casas de espectáculo. Até 1840, 
S. Carlos conservava-se aberto durante parte 
do . verão. A corte deslocava-se pouco. Não 
havia caminhos de ferro. As viagens faziam-se 
de sege, liteira ou malaposta. Eram dispen- 
diosas, eram longas, eram incommodas. Só os 
doentes se aventuravam, com prescripção com- 
minatoría do medico, a ir tomar banhos á 
Ericeira ou a ir tomar as aguas ao Gerez. Até 
que os caminhos de ferro viessem facilitar e 
apressar as communicações e crear o habito 
todo contemporâneo da viagem, o verão succe- 
dia ao inverno sem que os hábitos de Lisboa 
se alterassem ou a sua população se depre- 
ciasse. Com as noutes quentes principiavam as 
festas nocturnas no Passeio Publico. Mas os 
theatros não fechavam, ou só fechavam alguns 
e esses por pouco tempo. É de ha vinte annos 
para cá que a deserção se accentua, attingindo 
no instante actual quasi o aspecto de um despo- 
voamento. E foi então, diante d'esse êxodo 
sempre crescente, que os theatros principiaram 
fechando as suas portas, como medida de previ- 
dência, até ao completo esquecimento de que 



CARTAS DE LISBOA 20/ 

ainda havia em Lisboa quinhentos mil lisboetas 
no mez de agosto. 

A febre das tournées ao Brazil, que tantos 
emprezarios tém arruinado e tantos actores e 
actrizes nos tem arrebatado — agora ainda a 
desventurada Carolina Falco ! — propagou-se das 
grandes ás pequenas companhias. Por uma 
linda noute de verão, o lisboeta encontrou-se 
de repente sem theatros. E foi n*essa hora de 
privações, que o lisboeta ouviu badalar as cam- 
painhas das barracas de feira, quebrando o 
grande silencio que se fizera nas orchestras dos 
theatros. O anno passado, as feiras de Belém 
e de Alcântara, onde a antiga ecuyère Maestrick 
montara um circo, tiveram uma concorrência 
inesperada. Era um regresso aos bons tempos 
de prosperidade, quando a Lisboa da saia de 
balão e das calças cor de flor de alecrim ia 
toda vêr os fantoches mechanicos, a coUecção 
de feras e o carroussel. A noticia alastrou, 
entrou por Hespanha : a terra das grandes fei- 
ras e das companhias ambulantes. As actrizes 
de Lisboa teimavam em partir para o Brazil? 
Vieram então as bailarinas hespanholas para 
Lisboa. 

Para substituir os theatros, que fechavam, 
abriram-se os theatros provisórios, construídos 
de folha de zinco. 

Para substituir o cheiro nauseante do azeite, 
característico de todas as barracas de feira, 



268 CARTAS DE LISBOA 

esses emprezãríos ambulantes não hesitaram em 
fazer installaçôes de luz eléctrica. 

Pelas esquinas, sobre os velhos cartazes do 
D. Maria, do D. Amélia, do Gymnasio, da Rua 
dos Condes, do Colyseu, da Trindade, apparece- 
ram os cartazes dos theatros do Campo Grande. 

Foram lá primeiro as criadas de servir, os 
guardas municipaes e os operários. Começou a 
correr que havia mulheres bonitas n'um Café- 
concerto, ao ar livre. Os homens arriscaram-se 
a ir espreitar. Dentro de quinze dias toda Lis- 
boa ia vêr dansar a Mariucha. Nas plateias 
d'esses theatros improvisados começaram a 
apparecer chapéus de senhora. 

Vieram então mais bailarinas de Hespanha, 
mais cançonetistas de Prança. O espectáculo 
no genèro das Folies-Ber geres e do Moulin- 
Rouge, de que Paris e Madrid vivem todo o 
verão, creou uma voga rapidíssima. O lisboeta 
comprehendeu que, por um preço módico, 
podia ter um espectáculo divertido, que não 
lhe exigia o supplicio de permanecer uma noute 
inteira n'uma sala suffocante de theatro, na in- 
cômmoda immobilidade de uma cadeira ou na 
cella sombria de um camarote. O lisboeta tinha 
descoberto o café-concerto, esse concorrente 
4)erigoso do theatro! Ceei tuera cela. Podem 
voltar pressurosamente os emprezarios. A crise 
do theatro, preparada pela sua imprevidência, 
não tardará a declarar-se. Já na Avenida, sob 



CARTAS DE LISBOA 269 

a garage Beauvalet, nos annexos do palácio 
Foz, funcciona com enorme concorrência um 
music-halL A toda a pressa, nos antigos e 
vastos salões de venda da Empreza Liquida- 
dora da Avenida, um outro café-concerto se 
está já concluindo, com os luxos de quem tem 
assegurada, de antemão, uma victoria. 

Dentro de dous mezes, onde eccoava a voz 
do leiloeiro, soará a vozita gaiata de uma fran- 
ceza a cantar couplets, e onde o sr. Libório ex- 
punha os seus moveis antigos um emprezario 
exhibirá lindas mulheres novas, dansando ^. pe- 
tenera e o can-can, O bric-àr-brac acabou. Vão 
principiar as folies-bergères. 

A mingua dos theatros, Lisboa fez uma 
conspiração contra os 'theatros. D'onde se vê 
que Lisboa não fica ociosa no verão. 



2 de setembro 

Não me consente a Índole d'estas cartas, 
mais anecdoticas do que sentenciosas, uma in- 
tervenção — ainda que de caracter humorístico 
— na peleja em que andam empenhadas, para 
conquista do terrapleno da Alfandega, a dire- 
cção da Associação Commercial e a administra- 
ção dos caminhos de ferro do Estado. 



CARTAS DE LISliOA 



O snr. conselheiro Carvalho Pessoa, que 
accumula as funcções de presidente da direcção 
do festivo Grande Club de Lisboa com as de 
presidente da sisuda e omnipotente Associação 
Commercial, e que, tSo depressa na calçada da 
Gloria organisa concertos como no Terreiro do 
Paço redige representações, pode reclamar para 
si a gloria — nSo vejo inconveniente em que 
se lhe chame assim — de haver exuberante- 
mente provado com as festas de junho a inca- 
pacidade de Lisboa em organisar festas, e a de 
ter resuscitado, com a sua imperiosa opposiçSo 
aos projectos de uma das mais doutas repar- 
tições do Estado, a questão esquecida da ponte 
sobre- o Tejo, actualisando assim, sobre este 
thema seosadoaal, o problema, que urge resol- 
ver, de preparar Lisboa, sem mais demora, paia 
os graves compromissos do futuro. 

Lisboa — digamol-o nós, visto que ninguém 
parece animado a confessal-o, — :podendo ser, 
pela sua situação esplendida, pela sua topogra- 
phia pittoresca e pelo seu clima incomparável, 
uma das mais bellas cidades do mundo — 
Lisbon, the Fairl como a baptisou um ameri- 
cano impressionavel, — é, com excepção da 
parte nova (praça dos Restauradores para o 
norte, até á avenida Ressaoo Garcia), e do deli- 
neamento magestoso da urbis pombalina, uma 
cidade indigna da sua categoria de capital e da 
sua pretensão orgulhosa de Coes da Europa. 



CARTAS DE LISBOA 2/1 

Vedem a Lisboa o panorama grandioso 
do Tejo, velem no céu a luz que a doura e 
transfigura, e o que resta é uma cidade feia, 
Íngreme, insalubre, com quinhentas ruas tortuo- 
sas, estreitas, canalisadas entre edifícios irregu- 
lares, e execráveis. 

O seu recente desenvolvimento para o norte, 
se o notabilisam as largas e arejadas avenidas, 
o seu traçado geométrico e a sua nobre ampli- 
dão, não basta para lhe modificar o caracter 
accentuadamente anachronico e improgressivo, 
que lhe imprimiu o mau gosto dos habitantes, 
o desleixo da edilidade e a indififerença crimi- 
nosa do Estado. 

A Lisboa nova é uma Lisboa excêntrica, 
espécie de bairro de luxo, a que a viação elé- 
ctrica deu um accesso relativamente fácil, mas 
que está condemnada a permanecer, com mais 
ou menos luxo de palácios, com mais ou menos 
arvoredos de jardins, uma cidade suburbana, 
sem vida própria. 

A Lisboa commercial, a Lisboa marítima, a 
Lisboa do trabalho e do prazer, para onde 
conflue a vida agitada de quinhentas mil 
almas, principia na praça dos Restauradores, a 
que servem de adorno o palácio Foz e o Hotel 
Internacional, segue pelo largo de Camões, 
onde só a estação do Rocio e o theatro 
D. Maria põem uma nota de apparato, entra na 
praça de D. Pedro IV, a que não falta uma 



» 



272 CARTAS DE LISBOA 

certa grandiosidade — de agradecer exclusiva- 
mente ao génio e á soberba de Pombal — e j 
espraia-se pelas três grandes artérias pomba- 
linas, que ligam o Rocio ao Terreiro do Paço, 
obliquando depois para o funil da rua do 
Arsenal até ao Aterro e do largo do Pelourinho 
até ao das Duas Igrejas e praça de Camões, 
com seu desaguadouro, pelo Íngreme Chiado 
e confluência das feias ruas do Carmo e do 
Almada. 

É n'este recinto acanhado que estão os mi- 
nistérios, os theatros, os tribunaes, os grandes 
estabelecimentos, as lojas da moda, os clubs do 
/Ugk-life, os Bancos, os jornaes, os cafés, os 
restaurantes . . . ' e a praça da Figueira 1 Exce- 
ptuando a meia dúzia de construcções monu- 
mentaes já indicadas, apenas, n'esta reduzida 
cidade, com oito séculos de vida christã e ou- 
tros tantos de civilisação árabe e romana, a 
velha Felicitas Júlia, a sede de uma das cortes 
outr'ora mais opulentas do christianismo, capi- 
tal de um reino que conquistou a índia e po- 
voou o Brazil, o olhar do estrangeiro logrará 
destacar, de entre a uniforme frialdade e po- 
breza de edifícios, a camará municipal, no Pe- 
lourinho, o Banco Lisboa e Açores, em constru- 
cção na rua do Ouro, e a fachada dos Arma- 
zéns Grandella, prestes a concluir-se, na rua do 
Almada. 

A edificação restante é ainda a mesma que 



CARTAS DE LISBOA 273 

O marquez de Pombal fez construir depois do 
terremoto, uma edificação sem elegância, desti- 
tuída por completo de belleza, destinada a cobrir, 
no menor espaço de tempo possivel, a maior 
área de escombros e de ruinas. 

Não havia tempo, em 1755, para desperdi- 
çar em luxos architectonicos incompatíveis com 
a brevidade imposta pela necessidade de fazer 
resurgir, como a Fénix das cinzas, a soberba 
capital destruida. Para disfarçar a nudez dos 
casarões impôz-se aos proprietários a regulari- 
dade symetrica dos edifícios, que viria a produzir 
visualmente o desejado conjuncto de grandeza. 

E são ainda, século e meio andados, esses 
mesmos sólidos casarões antiestheticos e som- 
brios, que guarnecem toda a cidade pombalina, 
desde o Rocio ao Terreiro do Paço, desde a 
rua do Carmo ao Calhariz. Quando todas as 
capitães da Europa se reconstruíram desde os 
alicerces nos últimos quarenta annos, Lisboa é 
ainda a cidade anachronica do terremoto, onde 
o marquez de Pombal, resuscitado, encontraria 
facilmente o antigo caminho para o seu palácio 
da rua Formosa! E não se pôde sequer levar 
á conta de um fetichismo tradicionalista ou de 
uma invencível predilecção pelo pittorescó essa 
immobílidade constructiva, essa negação obsti- 
nada do espirito de reforma, pois que a única 
grandeza da casa pombalina a mutilou e com- 
prometteu o proprietário, substituindo por novos 

18 



274 CARTAS DE LISBOA 

• 

andares as tristégas ou mansardas uniformes da 
edificação do Rocio, de onde o haverem-lhe 
immediatamente despido esse apparato histórico 
de uma praça authentica do século xvm, que 
era a sua única belleza. 

Pois, se eiti século e meio Lisboa construiu 
apenas, ha categoria dos grandes edifícios, a 
estação do Rodo, o Hotel Internacional, o 
theatro de D. Maria, a Camará Municipal, 
a Escola Medica, os Armazéns Grandella e o 
Banco Lisboa e Açores, não terá a capital 
provado em demasia a sua ioercia, a sua falta 
de alvoroços progressivos, a sua mesquinhez e 
a sua pobreza, a sua indiiferença e a sua indo- 
lência? E é esta a cidade a quem, estando 
geographicamente reservados os mais esplen- 
didos destinos commerciaes, meia dúzia de 
idealistas querem sem demora entregar o sceptro 
de rainha do Atlântico? Ao menos, antes da 
ceremonia da coroação, procure-se lavar essa 
princeza decrepitada das suas maculas maiores 
e escondam-lhe os farrapos sob as pregas do 
manto. 

Uma Lisboa que tem uma taberna na Ave- 
nida da Liberdade, um mercado indigno de um 
logarejo de Africa em pleno Aterro, no seu 
cães orgulhoso; a Lisboa da estação do Cães 
do Sodré, junto da qual a mais modesta estação 
da linha da Povoa é um monumento; a Lisboa 
medieval da Mouraria e de Alfama, a Lis- 



CARTAS DE LISBOA 275 

boa napolitana dos embandeiramentos de roupa 
branca a seccar ao sol, a Lisboa dos gatos 
vadios e dos fadistas, tem que implorar da Pro- 
videncia um novo terremoto ou acordar defini- 
tivamente da sua dormência de século e meio. 
para que lancem ancora no Tejo as almejadas 
frotas da sua opulência. 

Urge que se trace um plano definitivo da 
Lisboa central e marítima, como se traçou 
para a nova Lisboa a norte da Avenida. Urge 
que se estudem *e resolvam todos os complexos 
problemas, que n'um futuro próximo se hão-de 
impor á municipalidade e ao Estado, para que 
lhes não difficultem a execução quaesquer inter- 
correntes circumstancias. 

A imperiosa necessidade de elaborar de 
prompto o plano dos melhoramentos de Lisboa 
faz-se sentir todos os dias em conflictos immi- 
nentes entre os interesses transitórios e os ca- 
prichos obstinados dos homens de hoje e as 
exigências sagradas do futuro. É assim que, se 
esse plano á hora presente existisse, não ve- 
ríamos a direcção da Associação Commercial 
disputar á Administração dos Caminhos de Ferro 
do Estado a posse de um terreno em que uma 
quer fazer construir armazéns alfandegários e 
desembarcadouros fluctuantes, sacrificando, ao 
que parece, a avenida marginal do Tejo, e 
onde a outra pretende fundar a estação termi- 
nal de todo o transito das províncias do Alem- 



2/6 CARTAS DE LISBOA 

tejo e do Algarve — porque de antemão se sa- 
beria, consultando esse plano que não existe, 
qual a sentença que n'este pleito o governa 
teria que lavrar. 



ç de setembro 

Quando, ha dous annos, n'uma d' estas cartas 
quasi familiares pelo estylo, a que desde o prin- 
cipio tivemos o propósito de despir todas as pre- 
tençôes litterarias e eruditas, contentando-nos 
com o mérito que ellas porventura possam um 
dia vir a ter de exprimirem os aspectos — quan- 
tas vezes transitórios! — dá sociedade portu- 
gueza contemporânea, descrevíamos o palácio 
de Santo Amaro, residência secular da nobilis- 
sima família Sabugosa, detivemo-nos no enle- 
vado descriptivo da sala de jantar da esplen- 
dida casa, cujas paredes e tectos em aboboda 
um pintor de raro talento decorativo scenogra- 
phicamente ornamentou com o simulacro de 
uma floresta por onde esvoaçam aves de pluma- 
gem colorida e cabriolam, de palmeira a pal- 
meira, os saguís. E do enlevo derivou natural- 
mente, pelo pendor que tem todo o homem de 
penna em generalisar impressões pessoaes e em 
dar a consistência de doutrinas a simples pre- 
sumpções litterarias, o devaneio da evocação 



CARTAS DE LISBOA 277 

de uma época para caracterisar o estylo da sala 
surprehendente, sob a evidente influencia dos 
<:ostunies e da natureza ultramarinos. 

E sem receio de cahirmos em erro, attribui- 
ijios ao século XVIII a paternidade d'essa obra 
galante, original e preciosa, apresentando-a como 
um exemplar único no género. 

A nossa surpreza foi grande quando, domingo 
passado, n'uma matinal visita ao Ramalhão, a 
snr.* viscondessa de Valmôr nos fez entrar na 
antiga sala de jantar do palácio da rainha Car- 
lota Joaquina e os nossos olhos admirados con- 
templaram a reproducção ou antes o modelo da 
sala de jantar da casa de Santo Amaro. Mais 
uma vez verificamos quanto é difficil em arte 
formular opiniões e de quanto escrúpulo tem 
<ie usar o escriptor antes de lançar a publico 
a mais insignificante interpretação de factos ou 
a mais lógica versão de um acontecimento. 

Conduzia-nos ao Ramalhão, em companhia 
do snr. D. Luiz de Castro — um dos mais fidal- 
gos espiritos de artista que honram a politica 
portugueza — a curiosidade em verificar se com 
as descripções de Beckford condiziam a topo- 
graphia e os panoramas do famoso palácio dos 
Arriagas e se a natureza trazia um argumento 
convincente á affirmativa de que, não em Mon- 
serrate, mas na quinta do Ramalhão, se devia 
localisar a morada do auctor da Historia do 
Califa Veteck, 



2/8 CARTAS DE LISBOA 

Consultando o archivo da sua casa, na 
qual estivera . encorporada até ao principia 
do século XIX a quinta de Monserrate, o 
snr. D. Luiz de Castro foi assaltado pela des- 
confiança de que a tradição vinha perpetuando 
um erro, ao transmittir como um facto incon- 
troverso a lenda, consagrada por Byron, de 
haver o amigo de Ktt, o celebre William Beck- 
ford, alli vivido em 1787, no decurso da sua 
viagem memorável a Portugal. Essa descon- 
fiança, a principio vaga, fôra-se avolumando á 
medida que o seu espirito sagaz avançara na 
investigação do problema e se ampliara na 
comparação de textos e confronto de datas. 
O assumpto era de molde a captivar uma 
requintada intetligencia de artista e de erudito. 
Tratava-se, nada menos, de inutilisar uma lenda 
centenária, intimamente ligada ao mais impor- 
tante documento -litterario que nps resta da 
vida portugueza do reinado de D. Maria l. 
Estávamos no segredo d'essa investigação be- 
nedictina e já quasi descríamos de que o 
snr. D. Luiz de Castro conseguisse apurar 
as suspeitas em convicções, quando da quinta 
principesca do Duche nos chegou uma tarde, 
com uma singella carta, de que um escri- 
ptor de profissão teria feito uma orgulhosa pro- 
clamação de triumpho, a monographía sobre 

■ 

Beckford, na gual, com os mais indiscutíveis 
argumentos, se pulverisava a lenda de Mon- 



CARTAS DE LISBOA 279 

serrate. Lemos e relemos, embevecidos, a prosa 
scintillante, em que tão impressivamente se 
evocava a passagem de Beckford pela serra 
de Cintra, e accedemos jubilosos ao convite de 
uma visita ao Ramalhão, que a snr.* viscon- 
dessa de Valmôr amabilissimamente nos fran- 
queava. 

Agora, depois do trabalho paciente do in- 
vestigador, quando já nenhuma duvida nos ficara 
sobre a identificação do palácio dos Arriagas 
com os animados descriptivos das cartas de 
Beckford, a nossa surpreza era de que tivessem 
sido necessários cem annos para definitivamente 
constatar a correspondência exacta dos minimos 
detalhes entre a realidade subsistente e o me- 
morável texto, e que ainda nenhum leitor refle- 
ctido tivesse contraposto ás phantasias dos de- 
vaneadores litterarios, desde ' Byron a Vilhena 
Barbosa — para só fallar dos mais antigos, — 
estes simples períodos de iima das cartas de 
Beckford, datada de 9 de julho de 1787: 
^Poucos minutos depois das dez apeavamo-nos 
no RamalhâOy uma villa, na encosta dos roche- 
dos pyramidaes de Cintra, que o snr, Street 
Arriaga teve a amabilidade de me emprestar >j 
e este outro, datado de 19 de outubro do 
mesmo anno: ^cansado e exhausto, apenas che- 
guei ao Ramalhão atirei-me para cima do so- 
phá ...» 

Não é verdade que a 'descoberta do 



28o CARTAS DE LISBOA 



snr. D. Luiz de Castro parece assim singular- 
mente reduzir-se a ter sabido ler attentamente 
o que os historiadores tinham lido com a mais 
censurável distracção? 

Mas não foi sobre estes dados, aliás perem- 
ptórios, que o illustre investigador levantou todo 
o sólido edifício da sua dialéctica convincente, 
abonada por irrecusáveis documentos. 

As referencias de Beckford ao Ramralhão 
eram apenas, na sua these magistral, um teste- 
munho de facto depois de instaurado o ptx>- 
cesso. Quando ellas mesmo não existissem, nem 
por isso o edifício ameaçaria ruina, de tal ma- 
neira o raciocinio e a lógica lhe davam estabili- 
dade. A prova real d*essa laboriosa operação 
Íamos nós tiral-a agora, com esta matinal visita 
ao antigo palácio dos Arriagas. 

E nenhum de nós, ao atravessar o vasto 
terreiro senhorial, edificado pela rainha D. Car- 
lota Joaquina, — e que deu uma amplidão de 
paço á primitiva villa de recreio dos Arriagas, 
— duvidava que fosse encontrar a plena justifi- 
cação a uma these tão esplendida e solidamente 
urdida. Foi assim, como se de ha muito o co- 
nhecêssemos, que entramos no salão do palácio : 
o mais vasto que ainda temos visto em Portu- 
gal. Dir-se-hia uma avenida. A sua extensão 
bastava para justificar os receios de Beckford — 
um inglezl — de alli sentir frio em pleno ardor 
do mez de julho. 



CARTAS DE LISBOA 28 1 

Faltam hoje ao salão asiático de Beck- 
ford os divans orientaes, as cortinas transparen- 
tes e os opulentos reposteiros, que aqui interce- 
ptavam a luz e alli a derramavam em claridade 
suave sobre os sophás e as esteiras, os grandes 
espelhos multiplicando a profusão dos cortina- 
dos e o mobiliário com que a ostentação pom- 
posa do Cresus sybarita adornara a sua mansão 
<ie delicias. Mas n'aquella nudez de estuques, 
despidos de ornamentos, n'aquella vastidão fria, 
ainda hoje, sem nenhum esforço imaginativo, 
nos suppômos, como os convidados de Beckford, 
^admittidos a espreitar um labyrintho de sa- 
lões encantados, » Como Beckford podiam os re-^ 
petir: ^o aspecto do vasto salão, o seu ar de 
clausura e o seu silencio parecem restituir ao 
nosso espirito uma momentânea tranquillidade. » 
Quando nos acercamos da varanda são ainda 
as próprias palavras de Beckford que admira- 
velmente descrevem o que os nossos olhos des- 
lumbrados avistam: <ípara além da copa das 
arvores da quinta uma grande extensão de terra, 
limitada pelas planícies do oceano e pelos nubla- 
dos promontórios \'í> Em baixo é o mesmo bur- 
bulhar de aguas vivas nos tanques, o mesmo 
capitoso aroma de flores, o mesmo brando ciciar 
das folhagens, a mesma dansa das borboletas 
sobre os canteiros, a mesma orchestra de pássa- 
ros no arvoredo! Cento e vinte annos não con- 
seguiram transformar aquelle paraizo e quasi 



282 CARTAS DE LISBOA 

cuidamos ir vêr surgir de repente, á entrada de 
uma das ruas do parque, ou o imponente Ma- 
rialva, ou o alegre Verdeil ou o complacente 
Guildermester I 

Mas a surpreza que me reservava o Rama- 
Ihão ia ser, d'ahi a instantes, quando a snr.^ vis- 
condessa de Valmôr nos abria as portas pinta- 
das da sala de jantar de D. Carlota Joaquina. 
A minha convicção de que a sala do palado 
de Santo Amaro era exemplar unicò do género 
em Portugal, subitamente desapparecía. Alli a 
tinha reproduzida, com o seu arvoredo entrela- 
çado, onde a flora da America se misturava á 
flora da Europa, com as suas aves tropicaes 
esvoaçando por entre- os freixos e as palmeiras, 
a sua architectonica disposição circular e o seu 
tecto em aboboda. Não sendo a sala do tempo 
de Beckford, que não deixaria de fazer-lhe mi- 
nuciosa referencia, tendo ainda, a authenticar-lhe 
a éra e a procedência, as tulipas de crystal das 
serpentinas, com as armas reaes pintadas entre 
grinaldas estylisadas de flores, não ha receio de 
cahir em erro fixando-lhe a construcção na 
mesma data em que D. Carlota Joaquina, en- 
trando na posse da quinta, a accrescentou com 
as importantes dependências que ainda hoje lhe 
perpetuam a memoria nas iniciaes do seu nome 
pouco venerando, pintadas no tecto da* capella 
e de algumas salas. Poder-se-hia objectar que 
na duvida de ser a sala pintada no fim do se- 



CARTAS DE LISBOA 28j 

culo XVIII— r entre a retirada de Beckford para 
Inglaterra e a fuga da família real para o Bra- 
zil, — ella bem pôde ser contemporânea do re- 
gresso de D. Carlota Joaquina a Portugal e do 
seu exilio politico no .Ramalhão, se o seu pró- 
prio estylo pretenciosamente rústico e as casca- 
tas que lhe servem de ornamento no vão das 
janellas não bastassem para caracterisar, com o 
máximo rigor, a época im mediatamente anterior 
á revolução franceza, antes da invasão dó neo- 
classicismo. 

Mas a conclusão teria pouco interesse e ne- 
nhum merecimento se assim a limitássemos. 
Não basta a coincidência de serem iguaes na 
concepção as duas salas de jantar dos palácios 
do Ramalhão e de Santo Amaro para as poder 
attribuir á mesma época. 

Ha ainda um facto, que inconsideradamente 
desprezei ao tratar da casa de Santo Amara 
e que se relaciona talvez muito de perto com 
as duas formosissimas salas de jantar. E a exis- 
tência de uma terceira sala, a do pavilhão do 
palácio dos Marialvas, em Seteaes, desenhado 
por Pillement {^), «representando um caramanchel 
formado pelos ramos entrelaçados de phantás- 



(^) Carta xil de lord Beckfofd: « . . .fomos para a villa 
do marquez — uma edificação recente, que lhe tem custado 
muitas mil libras esterlinas. Era, ha cinco annos, um monte 
agreste juncado de calhaus e fragmentos de rocha, mas- 



284 CARTAS DE LISBOA 

ticas arvores indianas, deixando entrever a 
trechos o azul estivo do céu. Da boca de um 
dragão alado pende um magnifico lustre de 
cincoenta lumes, ornado de festões de crystaes \ 
lapidados, scintillando como fios de diamantes, i 

A decoração é evidentemente a mesma e 
nem falta, para as confundir, na sala da prin- 
-ceza D. Carlota Joaquina, o mesmo dragão 
alado no remate da aboboda para suspender o 
lustre. 

A conclusão a que chego — depois de haver 
erroneamente aflSrmado que a sala do palado 
Sabugosa era um exemplar único no paiz — 
•é de que foi o mesmo pintor, entre os annos 
de 1786 e 1790, que decorou as três salas: de 
Seteaes, de Santo Amaro e do Ramalhão. Tudo 
parece indical-o: o mesmo colorido, o mesmo 
desenho, a mesma intenção ornamental, a mesma 
interpretação do assumpto, a representação da 
mesma flora. 

Não me levará a mal o meu amigo snr. D. Luiz 
de Castro de eu ter também feito uma descoberta 
— embora de importância modesta — na nossa 
matinal visita ao Ramalhão 1 



hoje encontraes alli um vistoso pavilhão, desenhado por 
Pillement, e elegantemente decorado», etc. 

É de notar que Beckford igualmente denominava pavi- 
lhão a sua vasta sala e por vezes, tomando a parte pelo 
todo, o seu palácio. 



CARTAS DE LISBOA 285 



16 de setembro 

€ A mais bella casa do universo é aquella em 
que a familia é mais unida e onde é mais per-^ 
manente a paz domestica, t^ Assim a define 
sir John Lubbock, par de Inglaterra, naturalista 
eminente e philosopho notável, no seu livro 
A Felicidade de Viver^ onde se encontram con- 
densadas as mais sublimes e as mais fortes 
qualidades do caracter inglez, desde o seu cân- 
dido optimismo, a sua cheerfulness, a sua 
austera moralidade, até ao seu bom senso in- 
comparável e ao seu inegualavel senso prático. 

Poucas vezes essa sentença moralista do 
baronnet inglez, que eu quizera ver inscripta á 
porta de todos os lares, desde os mais sum- 
ptuosos aos mais modestos, me acudiu com 
mais propriedade ao espirito, como por uma 
d*estas tardes luminosas e brandas de setem- 
bro, em uma varanda de Cascaes, voltada ao 
mar. 

Oh! a linda varanda, com seu alpendre de 
pa3sal minhoto erguido sobre *as cinco columnas 
de pedra, a ramada a beijar o parapeito, as 
suas cadeiras de verga, pintadas de vermelho, 
com almofadas de chitas claras, o seu canapé 
monástico, a sua rede preguiçosa, os seus 
panneaux de ingénuos azulejos, para os quaes 



286 CARTAS DE LISBOA 

um pintor inculto trasladou três encantadoras 
aguarellas de el-rei ! 

Edificada ao sul dã cidadella, nas suas de- 
pendências militares, tendo de um lado o pba- 
rolim de Santa Martha, que toda a noute crava 
no Oceano a sua pupilla vermelha, e do outro 
lado o recinto elegante do Tiro aos Pombos, 
quasi debruçada sobre o mar, que nas marés 
vivas de novembro lhe vem orvalhar de espuma 
o parapeito como a uma predilecta, sem outro 
horisonte que nSoseja a planície ondulosa das 
aguas e a scenographia colorida dos poentes, 
essa varanda de alpendre teria dado assumpto 
á mais bella carta de Beckford, se elle a tivesse 
encontrado em Portugal nas suas visitEis de eti- 
queta ou nas suas peregrinações incessantes de 
artista. 

Mas Beckford veio a Cascaes n'uina tarde 
de outubro de 1787 — vâo prefaxer justamente 
cento e dezenove annos! — e a casa da linda 
varanda de alpendre pouco mais tem de doze 
annos: uma infância, mesmo para uma casa 
de praia. N'ella teria encontrado o' amigo dos 
Marialvas uma sociedade, que em vSo pro- 
curou n'es5a remota Lisboa do século xvm. 
N'essa varanda teria tido occasião o philosopho 
de commentar systemas philosophicos, o litte- 
rato de fazer litteratura, o historiador de dis- 
cursar sobre historia, o politico de dissertar 
sobre politica, o mundano de praticar a «scien- 



CARTAS DE LISBOA , 287 

cia subtil — máxima para o seu tempo! — de 
fallar gentilmente e espirituosamente», o cor- 
tezão de fazer a corte a um monârchal Porque, 
no curto espaço de doze ou quatorze annos, 
nas cadeiras de verga d'essa varanda de passal 
minhoto, tão surprehendentemente transportada 
para a paizagem mourisca do sul, se téem sen- 
tado com familiaridade os reis, os políticos, os 
diplomatas, os philosophos e os artistas. 

Depois que da banda de lá da estrada 
principiou a elevar-se nos seus alicerces de 
rocha a scenographica architectura da casa do 
snr. Jorge 0'Neill, logo da banda de cá a pe- 
quenina casa minhota, com as suas janellinhas 
de adufa, os seus poiaes para os craveiros, os 
seus telhados de quatro aguas, o seu escadorio- 
sinho alpendrado, no resguardo dos seus muros 
baixos, foi progressivamente parecendo mais 
modesta, a ponto de totalmente lhe haver res- 
tituído aquella visinhança apparatosa ã exacta 
€ intencional physionomia de um quasi tugúrio 
familiar, de uma mansão de repouso e de paz, 
de costas voltadas para a exhibição elegante da 
estrada — por onde nas tardes de outomno 
passa todo Cascaes mundano, — e confiada- 
mente aberta ás solidões inquietas e murmu- 
rantes do mar, apenas frequentadas pelas azas 
cinzentas das gaivotas e pelas velas açafroadas 
daá catraias. 

A principio, aquella casa modesta, que o 



2SS CARTAS DE LISBOA 

. ^^.^_ \ 

proprietário confessava, com orgulho, não lhe 
haver custado mais de quatro contos e quinhen- 
tos mil réis com a mobília, pareceu irritante- 
mente pretenciosa, na sua simplicidade rústica, 
aos edificadores megalómanos dos palácios de 
papier macké dos Estoris. 

Quasi se discutiu se a uma personagem pro- 
eminente na corte, um dandy, que dava leis na 
moda. secretario e amigo de el-rei, parente de 
toda a nobreza e sócio do Turff, assistia o 
direito de edificar em Cascaes — no Cascaes do 
janotismo! — uma casa minhota, que faria quando 
muito as delicias de um cónego da Sé de Braga. 
E depois, a casa até tinha um poço rústico e 
um pombal 1 

Para que um poço sem agua? Para que um 
pombal í Foi um escândalo, sabido que Cascaes 
sb bebe agua de Cintra e só reconhece aos 
pombos uma utilidade: a de servirem de alvo 
nas carreiras de tiro. 

E de tal sorte a casa de S. Bernardo — como 
depois foi solemnemente baptisada — tinha na 
sua simplicidade deliciosa um authentico cara- 
cter, em contraste com os ckalets suissos e os 
castellos Renascença em que ao tempo se esgo- 
tava a imaginação dos architectos e o dinheiro 
dos parvenus, que um dia António Ennes, tendo 
ido com Oliveira Martins a vêr as obras, pouco 
enthusiasmado com o aspecto geral da constru- 
cção cQnfessára parecer-lhe absurdo aproveitar 



CARTAS DE LISBOA 289 

uma feia casa velha, quando melhor seria e 
menos dispendioso edificar-lhe sobre as ruinas 
um formoso ckaletl 

Oliveira Martins, então morando em Cascaes, 
já enfermo, e cujo passeio quotidiano, consen- 
tido pelos médicos, era a visita á obra^ ficou 
por um instante interdicto ao ouvir a opiAião 
de António Ennes. Aquella casa, que elle vira 
crescer desde os alicerces, a que fora creando 
um apaixonado amor, que tanto evocava ás suas 
saudades da terra natalícia a habitação tradicio- 
nal e clássica do norte, aquella casa que elle 
quasi se habituara a considerar como sua, á 
força de a namorar, de a vigiar, de a percorrer, 
e que devia ser uma das derradeiras predilecções 
do seu grande espirito, prestes a apagar-se, era 
já para elle a mais bblla casa, a mais bella obra 
que se estava construindo em Portugal! O des- 
dém citadino de António Ennes indignou-o. 
Pois pensava que de um velho pardieiro nascera 
aquella flor? Não; tudo aquillo era novo, tudo 
aquillo era original, tudo aquillo era inédito; 
tudo aquillo iria assombrar Lisboa, quando con- 
cluído I E o auctor do Portugal contemporâneo 
calorosamente explicava ao auctor dos Lazaris- 
tas o paraizo que ia ser aquella gaiola de pinho 
e pedra, a que desdenhosamente chamava uma 
casa velha. 

Quando, finalmente, o ultimo carpinteiro e 
o ultimo caiador abalaram com a ferramenta, o 

19 



'ti 



290 CARTAS DE LISBOA 

proprietário e architecto da casa de S. Bernardo 
installou-se no seu paraizo e inaugurpu-o com 
uma festa minhota, onde não faltaram o vinho 
verde, o pâo de ló de Mai^^de, os descantes, 
um dia luminoso e propicio de sol e uma noute 
protectora e polvilhada de estrellas. Sem lhe 
comprometter o caracter original de uma casa 
aldeã, o talento do fidalgo minhoto que a habi- 
tava adornára-a com esse luxo incomparável 
que é o bom gosto, dando-lhe os confortos de 
um palácio compatíveis com a intencional mo- 
déstia de um refugio campestre. Dir-se-hia a 
casa de um principe no exilio, onde as cretones 
brilhavam como sedas, onde os vidros sdntilla- 
vam como crystaes. E toda aquella modéstia 
alegre e franca rescendia uma tão venturosa paz 
e uma tão acalmadora suavidade, na sua absti- 
nência de pompas exhibicionistas, que os que 
faziam villegiaturas em casas tapetadas, com 
poltronas de damasco e reposteiros de velludo, 
não hesitariam em trocar os seus palacetes de 
staff por aquelle casinholo de quatro contos e 
quinhentos l Com os seus tectos de maceira, o 
seu rodapé de azulejo azul e branco, a sua 
mobília franciscana, copiada do mobiliário 
monástico de Mafra, com as suas portas envi- 
draçadas, de caixilhos miúdos, como os armá- 
rios joaninos, parecia, ao entrar na casa, que se 
entrava em Portugal 1 

Mais de doze annos passaram sobre essa 



CARTAS DE LISBOA 29 1 

ceremonia festiva da inauguração. Todos os 
annos, aos primeiros calores de julho, as janellas 
<l*essa morada de paz abrem-se aos aromas 
iodados do mar. Ás vezes, el-rei desce da cida- 
della, pelo passadiço que communica o seu 
paço real com a modesta casa minhota, e vem 
sentar-se á varanda alpendrada. Durante doze 
annos, por essa varanda aberta ao mar, passou 
tudo o que a nossa terra tem de illustre no 
sangue, na politica e nas artes. 

E não é só o aífecto que para alli conduz 
assiduamente os fidalgos, os ministros, os 
«scriptores, os politicos e os artistas; mas, com 
o aífecto, essa anciã de repouso, essa profunda 
aspiração de paz, que murmura no fundo de 
todos os corações agitados por uma vida de lucta 
e que alli encontram o lenitivo e o apazi- 
guamento. 

E assim esta casa — que o leitor já com- 
prehendeu ser a do snr. conde de Arnoso, em 
Cascaes — é, de accordo com a definição de sir 
John Lubbock, uma das mais bellas casas do 
universo ! 



2) de setembro 

A recepção enthusiastica com que a valorosa 
e soldadesca cidade de Chaves acolheu el-reí na 
sua recente visita, recepção que tanto ^ensibili- 



.292 CARTAS DE LISBOA 



SOU S. M. e que tão eloquentemente provou a 
poder resistente da tradição aos abalos illusorios 
dos demolidores insofiridos, vem. ainda uma vez 
relembrar aos dedicados amigos da realeza a 
pergunta secular, a que só o infante D. Miguel 
respondeu com a sua ephemera e forçada corte 
de Braga : 

— Porque não mantéem-os reis portuguezes 
mais estreitas relações com as provindas do 
norte? 

Quando na Extremadura, no Alemtejo e até 
no Algarve, el-rei é uma personagem quasi fa- 
miliar ás populações, tantas são as vezes que 
elle visita as suas cidades e villas, quer como 
chefe supremo do exercito para assistir a exer- 
cidos militares, quer como lavrador para atra- 
vessar os vastos dominios da casa de Bragança 
e percorrer as suas herdades, quer como homem 
de sciencia, desembarcando do yacht D, Amélia 
no decurso de uma exploração oceanographica, 
quer como príncipe aífeiçoado ás diversões viris 
do sport; quando para o alemtejano o monarchá 
é ainda, com perdurável prestigio, o poderoso 
senhor da casa de Villa Viçosa; quando em 
todo o paiz do sul o rei de Portugal é um 
conhecido — n'uma cidade como Chaves, com a 
sua heróica historia militar, e onde o primeiro 
duque de Bragança tem o seu tumulo, el-rei 
entrou ha dias pela primeira vez, surprehendido 
de encontrar n'uma população desconhecida,. 



CARTAS DE LISBOA 293 



para quem elle era quasi uma personagem len- 
dária, inaccessivel e sagrada, encerrada no seu 
grande palácio, dentro da sua grande capital, o 
^nthusiasmo caloroso, espontâneo e unanime, 
que o seguiu através as estradas e o acompa- 
nhou através as velhas ruas. 

N'um pequeno paiz como o nosso, que em 
menos de vinte horas se atravessa em caminho 
de ferro do extremo norte ao extremo sul, 
n'um paiz onde todos se conhecem, mal se 
comprehende o divorcio quasi absoluto dos so- 
beranos de três das mais populosas provindas 
do seu reino, provindas que, mais que nenhu- 
mas outras, téem a sua historia ligada intima- 
mente á fundação da monarchia, províncias que 
guardam ainda, com as ruinas dos solares da 
primeira nobreza de Portugal, os restos aban- 
donados das primeiras moradas senhoriaes da 
família reinante, províncias que foram sempre 
o baluarte onde se quebraram as arremettidas 
das invasões inimigas, provindas que represen- 
tam, sem desdouro para as suas .irmãs mais 
novas, o morgadio territorial da nacionalidade 
portugueza, provindas onde se feriram as pri- 
meiras grandes batalhas em que esvoaçaram as 
bandeiras das quinas, provincias d'onde sahiu, 
como de mães augustas, a prole heróica dos 
conquistadores da E^^tremadura, do Alemtejo e 
dos Algarves. 

Se as circumstancias varias de um destino, 



294 CARTAS DE LISBOA 

^ ' ■ ■■ ■ — — ^Pi^— ^^^ ^^^^— !■■■■■ ■ ^m^^^^ , , , ^ ^ — — y ^ ., ^mm^,^ 

que difficil seria ajuizar se de benéfico ou ne- 
fasto, conduziram a corte dos reis portuguezes 
para a foz esplendida do Tejo, transmudando 
em navegador um povo de agricultores, nunca 
como agora se impôz com tão imperiosa e mo- 
tivada razão de Estado um reatamento de rela- 
ções entre a realeza e o norte do paiz. 

Até meados do século XIV, antes que a casa 
de Aviz tivesse reunido na coroa poAugueza, 
com a gloria das aventuras marítimas, os domi 
nios da índia, da Africa e da America, os reis 
de Portugal andavam de continuo pelo seu 
reino, administrando justiça, dirigindo expedi- 
ções militares, visitando as igrejas e abbadias. 
Todos elles, como senhores, magistrados e guer- 
reiros, conheciam o seu território e o seu povo 
e com elle mantinham relações permanentes. 
D. João I, após Aljubarrota, jornadeia para Gui- 
marães com as suas hostes, a cumprir um voto 
á Senhora da Oliveira, e no Porto, já depois de 
casado, tem o seu paço, onde a rainha dá á luz 
o infante D. Henrique. 

E só depois, quando á faina rude da con- 
quista do território e da expulsão do mouro 
succede a aventura ultramarina, e o povo de 
lavradores e guerreiros começa a sua pirataria 
heróica pelos mares da Ásia, que definitiva- 
mente as províncias do noçte deixam de intervir 
de uma maneira decisiva nos destinos da nação. 
Se nas aguas do Douro se tinha baptisado a 



CARTAS DE LISBOA 295 

^^^— ■ ■ ' ■■' ■■■■■■■■— ■ ■ ^^l■ ■■-■■ ■ I — ^l^■^■ — — - ■■ ■ ■ ■^ - i ■ ■■ 

nação agrícola nascida no castello de Guima- 
rães, o Tejo ia chrismal-a em nação navegadora 
e para sempre os seus fados iam derivar da sorte 
duvidosa das esquadras, perdidas na immensi- 
dade dos oceanos, entre o infinito céu e o 
vasto mar. 

Foi necessário que o século XIX nascesse 
com a sua trágica aurora de sangue para que, 
do esquecimento o norte resurgisse, manancial 
fecundo e inexgotavel das energias da raça, 
para amparar na decadência a nação já prestes 
a succumbir. Na hora de perigo, quafido os 
exércitos francezes se preparavam para conquis- 
tar o reino sem rei, contrastando com Lisboa, 
que se rende sem disparar um tiro, é necessária 
uma hecatombe para dominar por alguns dias 
ò Porto. 

O norte vem então em soccorro do sul. 
As provincias repudiadas salvam as províncias 
palatinas, e D. João VI, regressando ao reino, 
não tem nas suas cocheiras da Ajuda uma seje 
ou liteira que o transporte ao Minho, ao Douro, 
a Traz-os-Montes, a essas provincias longínquas 
aonde D. João l ia a cavallo, depois de uma 
batalha, para cumprimento de um voto, e a 
cujo heróico valor o ultimo dos reis absolutos 
devia a manutenção do seu throno. 

Mas o norte cumprira o seu dever e nem a 
ingratidão do seu rei o fez arrepender de o 
haver cumprido. E assim, quando o filho d'esse 



[ 



296 CARTAS DE LISBOA ' 

1 

rei ingrato debalde procura na pátria um porto f.i: 
ou uma praia hospitaleira oitde desembarcai 1', 
com os seus generosos sonhos de visionário, é I3 
ainda o norte que acolhe D. Pedro iv e a Liber- 
dade, é ainda o norte que dieta a lei ao sul, 
são ainda as provincias do norte, devastadas I 
pela guerra, que salvam as provincias do sul, 
favoritas seculares do throno e da coroa. 

Mais de setenta annos passaram depois que I 
o duque de Bragança desembarcou na praia do 1 
Mindeilo e hoje ainda o norte continua privado 
da presença do seu rei, que a corte detém 
zelosamente em Lisboa . , . 

Não será de uma grande opportunidade 
politica, quando el-rei acaba de verificar mais 
uma vez quantp lhe é tiel esse grande paiz 
esquecido pelos reis, relembrar o quanto seria 
justo que o soberano de Portugal todos os 
annos o honrasse com a sua presença, indo 
observar de perto a justiça das suas reclama- 
ções, a realidade dos seus infortúnios, a gran- 
deza do seu esforço, o prodigio laborioso da 
sua actividade e o motivo dos seus murmúrios? 



Só em meados de setembro, quando já o 
sol demora menos no céu e o calor vai apazí- 



CARTAS DE LISBOA 297 

• " 

guando para as branduras deliciosas do outomno, 
1 a Lisboa elegante se transfere definitivamente 
\ para Cascaes. 

É lá que está a corte. Ainda por vinte dias, 
Cintra fará a chuva e o bom tempo na elegância, 
até que os primeiros nevoeiros comecem a en- 
xotar das suas húmidas encostas as melindrosas 
mulheres vestidas de linon e os janotas de 
calça branca. Ao jogo da malha, em Seteaes, 
succederá o jogo do tennis no Sporting-Club. 
Ao pic-nic succederá o baile. Ao retrahimento 
de classe em que vive a Cintra aristocrática, 
succederá a franqueza indulgente, a cordealidade 
despreconceituosa de Cascaes. 

Porque Cintra — nunca será de mais accen- 
tual-o — conserva inalteravelmente o seu velho 
regimen de villegiatura da nobreza. Cintra é, 
com raras excepções, apanágio de uma casta. 
Alugar casa na villa de Cintra para passar o 
verão, é ficar a mil léguas de Cintra. Cascaes é 
um logradouro publico. O mar e a praia per- 
tencem indifferentementç á corte e á burguezia. 

Mas Cintra é, hereditariamente, uma pro- 
priedade particular. A vida de Cintra é ainda 
uma vida senhorial, uma vida de quinta, ao 
abrigo dos muros heráldicos, enverdecidos de 
musgos, na sombra de arvores seculares, em 
solares antigos, com tradicções que vêem desde 
D. João de Castro plantando e semeando os 
pinheiraes da Penha Verde, até Beckford de- 



•1 



298 CARTAS DE LISBOA 

corando Monserrate, até D. Carlota Joaquina 
recolhendo ao exílio real do Ramalhão. 

Em Cascaes nada resta que lembre o pas- 
sado. Em Cintra, por toda a parte, á exuberân- 
cia da natureza corresponde a exuberância da 
archeologia e da historia. O ambiente, em Cin- 
tra, é caracterisadamente aristocrático. Todas 
as dynastias alli deixaram vestígios da sua pas- 
sagem na terra. 

Onde melhor se pode ainda estudar a vida 
da nobreza lisboeta do século XVlii é em 
Cintra, onde se conservam de pé, entre as suas 
quintas, os palácios das principaes personagens 
da corte de D. Maria l. 

O terremoto de i/SS e tanto como elle o 
terremoto da civilisação contemporânea demo- 
liram em Lisboa quasi tudo o que era casa 
senhorial e armoriada. Principiou-se por abrir 
ruas nos seus pretenciosos jardins á Le Nôtre, 
como aconteceu no Porto á casa de Rezende 
— exemplar notabilissimo de um solar urbano, 
de que felizmente resta no museu de S. Lazaro 
uma pintura fiel, ainda que ingénua, figurando 
o palácio com os seus jardins geométricos, — e 
acabou-se, por imperiosas exigências do pro- 
gresso, por demolir os nobres casarões estor- 
vadores, quando os não transformaram em al- 
bergues de operários, como aconteceu ao edifício 
senhorial dos condes de Redondo, hoje perten- 
cente á senhora condessa de Arnoso. 



1 



CARTAS DE LISBOA 299 

Cintra escapou á demolição geral e em mais 
parte alguma, no paiz, se pôde ainda ver de 
pé, com seus muros authenticos, com parte 
das suas decorações primitivas, um paço real 
das primeiras dynastias. O palácio de Cintra é 
o único sobrevivente de quantas moradas teve 
a realeza em sete séculos de predominio e de 
fausto. De entre o montão formidável de escom- 
bros, que atulham esses sete séculos de historia, 
o paço de Cintra ergue ainda as duas chaminés 
dos seus fornos medievaes e conserva debru- 
çados para a serra, toucada de ameias, os seus 
miradouros sarracenos. Com leves accrescentos 
vêmol-o hoje como o desenhou em 1 507 Duarte 
de Armas. Habitado de lendas, cheio das tra- 
dições de um milenário, tendo visto no seu 
jardim de Lindaraya as favoritas dos walis 
banharem-se nas fontes de mármore, tendo ou- 
vido o beijo galanteador de D. João l, tendo 
visto morrer D. Aífonso V, tendo assistido ás 
recitas de Gil Vicente, ás dissertações da Si- 
geia, aos improvisos amorosos de Bernardim 
Ribeiro; tendo escutado, durante annos, os pas- 
sos lentos de D. Aífonso VI, gastando os ladri-^ 
lhos do carecere, esse palácio, único no mundo 
pela sua esplendida velhice, parece exercer ainda 
na villa de Cintra e por toda a serra a influen- 
cia poderosa da tradição. 

Não a vêem os olhos do forasteiro, que por 
uma manhã de verão desembarca em Cintra e 



300 CARTAS DE LISBOA 



<]epois dos passeios clássicos pela estrada dos 
Pisões, á Pena, a Monserrate ou a CoUares, sob 
o toldo hospitaleiro das ramarias» acompanhado 
pelo sussurro das fontes, perseguido, pelo aroma 
<!os jardins, leva a impressão inolvidável de ter 
atravessado um paraizo, onde os anjos andassem 
vestidos pelos figurinos de Paris, montassem ca- 
vallos inglezes, jogassem o tennis e a malha e 
lessem, recostados em cadeiras de verga, nas 
varandas dos chalets^ os romances de Bourget 

O que é um palácio velho — ainda que des- 
lumbrante de estylo, — o que são algumas casas 
fidalgas, com brazões de armas nos portões, 
n'aquelle agglomerado de arvoredos e de flores, 
cottages e de villas? Não é todo aquelle con- 
juncto radioso um bem de todos, um bem de 
toda a gente? Demore-se o forasteiro em Cin- 
tra uma semana e verificará que só as estradas 
lhe pertencem n'esse paraizo tão enlevadamente 
cantado pelo grande Byron. Para o seu buco- 
lismo: as estradas. Para a sua gulodice: as 
queijadas da Sapa. £ tudo quanto Cintra tem 
para lhe dar. O resto é propriedade da corte, 
da diplomacia e da alta finança. Cintra é uma 
casa particular, onde só entram as relações dos 
senhorios: uma casa que só se mostra • quando 
os donos estão ausentes. 

Mas essa grande família mundana, que habita 
Cintra de julho a setembro, dando-se o luxo de 
um exclusivismo, que está longe de manter 



CARTAS DE LISBOA 3OI 



^^•^►^"•■^^^^^ 



(l'ahi por diante em Cascaes, essa pequena so- 
ciedade elegante e formalista, que faz escola de 
boas maneiras, não é, a bem dizer, úma nata 
fidalga, que se retrahe á convivência do intruso 
com receio de desmerecer na sua nobreza in- 
accessivel. E que Cintra conservou-se, pela sua 
natureza topographica, uma villegiatura de pro- 
prietários. Os seus hotéis dão apenas de almo- 
çar aos lisboetas nos domingos e quasi só hos- 
pedam inglezes. Nâo ha uma praia, um parque, 
um casino, um club, que favoreça a reunião de 
elementos heterogéneos, que se combinem e 
misturem pela convivência. As relações são de 
casa para casa. Para passar em Cintra, agrada- 
velmente, três mezes de verão, é necessário ter 
«ma casa. E nem quem quer tem essa casa. 
Porque não é ter casa alugar um prédio na 
villa, mobilado, por um trimestre. Ter casa em 
Cintra subentende ter uma quinta. E para pos- 
suir uma quinta é indispensável compral-a ou 
herdal-a. Mas ter a quinta ainda não é tudo. 
Para se não morrer de solidão e de tédio n'essa 
quinta, é preciso dar jantares, dar soirées, dar 
íive-o*'Clock e organisar partidas semanaes de 
bridge e de tennis, E para que os jantares tenham 
commensaes, para que as soirées tenham con- 
corrência, para que as partidas de bridge tenham 
parceiros, é indispensável dispor de relações. 
Ora, em Cintra não se criam relações. Ás vezes 
rompem-se as antigas. Raro se adquirem novas. 



302 CARTAS DE LISBOA 

- - 

O bilhete de visita é uma inutilidade em Cintra. 
Em Cintra as visitas abrem o portão, entram 
na quinta ou no jardim e gritam para a va- 
randa : 

— Ó Maria ! Ó Jorge 1 

E logo Maria ou Jorge abre a janella, sahe 
á varanda, manda subir a visita, com a familiar 
simplicidade de quem se encontrou na véspera, 
á noute, no raout <}o snr. conde de Sabrosa, de 
manhã na estrada dos Pisões e voltará a 
«ncontrar-se d'ahi a horas no rendez-vous 
elegante de Seteaes ou na partida de bridge 
do snr. Carlos Moser. 

E é este o maior encanto da vida de Cintra. 
A ausência de casinos, de clubs, de theatros, 
obriga a um intenso exercício d'essa arte deli- 
cada da vida, que é a sociabilidade. Por todas 
as quintas fidalgas vai, desde manhã á tarde, 
uma animação saudável, uma animação á 
ingleza, com chás servidos debaixo das rama- 
rias dos castanheiros centenários, com o saltar 
das bolas de camurça nas raquettes do tennis. 
Só em Cintra a lisboeta de S. Carlos gasta as 
suas saias troteuses; só em Cintra — n'essa 
Cintra hermeticamente fechada aos intrusos — 
se pratica essa vida de sport, de hygiene e de 
ar livre, que remoça as mulheres fatigadas por 
cem noutes de theatro e de baile, de recepções 
e jantares, e lhes restitue a frescura do rosto e 
a luz do olhar. Cintra não é apenas uma ville- 



CARTAS DE LISBOA 303 

_ - n ' - - - - , ,, 

giatura elegante, a que a predilecção da rainha, 
educada á ingleza, mantém o prestigio mun- 
dano. Cintra é como que o saudável e mila- 
groso sanatório onde annualmente a lisboeta 
vai retemperar os seus nervos, concertar o seu 
estômago, tonificar o seu sangue para a grande 
batalha elegante do inverno, para os raids 
extenuantes do flirty da exhibição, da dansa e 
da toilette. 



7 dt outubro 

Ha oito dias que os jornaes de maior circu- 
lação da capital publicavam este annuncio, tão 
inédito para a imprensa portugueza, onde ellé 
quasi destoava, como uma transcripção do 
Sans. Gene ou do Indiscret: 

Raparigas 

<s^São convidadas a apresentar em-se a madame 
Zambelli^ no Grande Casino de PariSy Avenida 
da Liberdade^ 28 a 48, koje, ás 10 horas da 
manhã, as raparigas de 18 a 25 annoSy formosas 
£ de boa plástica, que queiram contratar-se para 
trabalhos scenicos no referido Casino.-s^ 

Ora, eu não sei, ainda que seja do meu 
dever de chronista o averigual-o, se ao* convite 



304 CARTAS DE USBOA 

t 

de madame Zambelli responderam com a sua 
presença no Grande Casino de Paris muitas 
raparigas formosas e de boa plástica, nunca 
com mais de vinte e cinco annos — o que 
deixaria de ser conveniente! — e nunca com 
menos de dezoito — o que seria perigoso! — a 
solicitar contratos para trabalhos scenicos. 

Ha pouco mais de. um mez me apressei' a 
dar a notícia de que o snr. Libório» proprietário 
dos salões de venda de objectos antigos da 
Avenida, ultimava a transferencia das commo- 
das Luiz XV, dos galantes leitos de espinheiro, 
dos bahús da Renascença, dos contadores his- 
pano-arabes, das pinturas, das louças, das armas, 
dos crystaes, das miniaturas,, dos òiòe/ots, para 
installaçSo mais em harmonia com o lucro do 
òriC'à'òrac, agora em plena crise, e deixava 
o campo livre ás piruetas das cançonetistas e ás 
malícias do café-concerto. 

Quando o ultimo Sèvres sahiu dos vastos 
salões desertos, entraram sem demora os 
pedreiros, os carpinteiros, os estucadores, os pin- 
tores . . . e madame Zambelli. De òric-à-òraquisía, 
o snr. Libório passa a emprezario. E quem 
tantos annos negociou em moveis antigos, com 
a mesma finura intelligente e o mesmo scepti- 
cismo sagaz, escriptura agora mulheres novas, 
com dezoito a vinte e cinco annos de limite de 
idade ! 

Ao snr. Libório coube a honra insigne de 



CARTAS DE LISBOA 3OS 

liquidar as mais célebres collecções de Arte que 
o bom gosto dos homens de talento e de for- 
tuna lograram reunir n*estes últimos quarenta 
annos em Portugal, desde as collecções Zea 
Bermudes e Fernando Palha até ás collecções 
Foz e Arroyo. Pelas suas mãos passaram as 
máximas maravilhas ornamentaes da casa portu- 
gueza, verdadeiros thesouros sumptuários, lega- 
dos pelos séculos de poderio e grandeza a este 
século de utilitarismo e decadência. O snr. Li- 
bório viu passar pelas suas salas, decoradas pelo 
grande Raphael Bordallo, o recheio de cincoenta 
palácios e, mais como um director de museu do 
que como um negociante, recebeu a visita de 
reis e príncipes, de banqueiros e diplomatas, de 
excursionistas millionarios e de artistas illustres. 
Durante annos, á sua porta apearam-se das 
boleias dos huit-ressorts os mais correctos trin- 
tanarios para abrir a portinhola ás mais lindas 
mulheres. O seu Salão de Vendas era quasi um 
salão mundano. E tudo isso: esse luxo de rela- 
ções, essa constante intimidade com obras bellas, 
a honra de ser o detentor quasi exclusivo das 
obras de arte que os Hamburger ainda não 
tinham transportado para França ou para a 
Hollanda, o prazer ineffavel de ouvir todos os 
dias os amadores eruditos dizer asneiras, toda 
essa celebridade, toda essa gloria, toda essa 
ventura a sacrifica o snr. Libório aos lucros pro- 
blemáticos do Grande Casino de Paris. 



306 CARTAS DE LISBOA 

Não é de agora a estreia do snr. Libório 
como emprezario. E, sem fallar de varias em- 
prezas theatraes a que esteve ligado, a elle se 
deveu a experiência infeliz de um ttieatro infan- 
til; unia boceta encantadora, que foi durante 
um anno a alegria dos bebés e que as mamãs 
alfacinhas deixaram morrer depressa á mingua 
de recursos. Fira também na Avenida o theatro. 
Pequenino, porque para pequeninos espectadores 
o haviam preparado, decorado como uma caixa 
de bonòons, cheio de lâmpadas de luz eléctrica, 
esse theatro para anjos tinha, uma tarde em que 
lá levei minha filha, a tristeza de um jazigo! 
Se uma creança ria ou batia as palmas, logo o 
schiu severo da mamã ou o olhar reprehensivo 
da criada a emmndecia, numa compostura grave, 
numa quietação de 'supplicio. Nunca, depois 
d'essa tarde, lá voltei. Quando, mezes depois, 
fallando com o emprezario, lhe perguntava pelo 
theatro, Libório encolheu os hombros. 

— Fechado. Que quer? Em Lisboa n3o ha 
creanças. Um theatro infantil em Lisboa é uma 
empreza simllhante á de uma casa de modas no 
deserto . , , 

A phrase é só em parte verdatjeira. Em 
Lisboa, de facto, ainda ha creanças. Mas para 
essas creanças, o theatro infantil da Avenida efa 
demasiado ingénuo. Eu me explico. Toda a 
creança de Lisboa, com excepçáo das muito 
pobres e das muito ricas,J principia a ir ao 



Cartas de lisboa 307 

theatro aos seis mezes. Aos seis annos, toda a 
creança alfacinha, digna d'este nome, viu repre- 
sentar o Hamlet pelo actor Brazão, viu cantar 
o Boccacio pela atriz Palmira Bastos, viu dansar o 
cancan a Mercedes Blasco ou cantar La bonne 
chair a Ciniria Polónio. Aos seis annos, a creança 
de Lisboa tem, em questão de theatros, uma 
opinião. E foi a essa espectadora exigente, já 
um pouco blasée da tragedia, da comedia, da 
revista, da magica e da opereta, que o snr. Li- 
bório offerecera a Gata Borralheira. 

Esta psychologia da creança lisboeta ainda 
mais uma vez a surprehendi hontem no Colyseu 
dos Recreios, a uma familia numerosa, que 
occupáva um camarote visinho ao meu e para 
onde se fizera acompanhar de três creanças. 

Tinha a mais velha, de aspecto, uns sete 
annos: mas os sete annos reflexivos e experien- 
tes da .creança alfacinha, já habituada a tresnou- 
tar em camarotes dé theatro, a ouvir lêr os jor- 
naes e arrostar intrepidamente com os apertos 
em dias de procissão ou de visitas régias. Tinha 
a segunda cinco annos e uns grandes olhos azues, 
cândidos e ternos, que, lhe illuminavam a fi^ce- 
sita anemica, de uma brancura de leite, a que 
os caracoes do cabello faziam uma moldura de 
ouro, A terceira era ainda um anjo a que. tinham 
acabado de cortar as azas e, já não podendo 
voar, apenas se ensaiava para engatinhar. Ás 
dez horas da noute, a pequena dos olhosr azues 



308 CARTAS £^ LISBOA 

'I 1 r I ■■ I n ^ • < • ■ I I • - 

• 

dormia, o anjo mamava avidamente o seio da 
mãe e só a mus velha, debruçada no camarote, 
sem pestanejar de somno, continuava a applau- 
dir intrepidamente os acrobatas, os y<Mr^&iír5, 
os equilibristas, os funambulos e os palhaços. 

Mas quasi ao bater da meia noute, a mãe 
sacudiu e acordou a adormecida. Chegara o 
numero sensacional do programma. Mademoi- 
seUe Marguerite ia entrar na jaula dos leões. 
.A pequena esfregou os olhos, depressa esperta. 
Esse sussurro, que precede no dieatro as grandes 
situações, èspalhavá-ée iio vasto circo, desde 
pramanoir áté á pista. Já trinta homens arras- 
tavam sobre quelhas de madeira a enorme gaiola 
de ferro, onde as quatro feras, insensíveis ao 
ruido e ás luzes, dormitavam. Eram três leões 
de Africa, com a juba aparada, como cannickes, 
de uma melancholia de prisioneiros perpétuos, 
e uma leoa somnolenta e preguiçosa. 

A jaula foi trazida para o meio da arena. 
Rompeu a musica na orchestra. Um dos leões 
ergueu-se, abriu as fauces n'um bocejo, rugiu 
de tédio e deitou-se outra vez com a monstruosa 
pata, de garras aparadas, pendente das grades 
de ferro. 

O fartum das feras empestava a atmosphera 
pesada. E no profundo silencio de espectativa 
que se fizera em todo o circo, a domadorà 
appareceu, com um vestido de rainha de trage- 
dia, o collo nu, uma chibata na mão direita, a 



CARTAS DE LISBOA 309 

que — pormenor terrível r— falta o dedo indica- 
dor. 

Então, no camarote, a creança de ternos 
olhos azues, agita-se, sacode, n'um movimento 
airoso, a cabelleira de oíiro, e diz, com um vivo 
fulgor no olhar: 

— Mamã, se agora os leões comessem a mu- 
lher!? 

A mãe sorri, enbevecida, revendo-se n'aquel- 
les olhos azues e ternos de anjo, que dissimulam 
um coraçãosinho cruel, de uma dureza de es- 
meril. 

— Dize, mamã, e se os leões comessem a 
mulher? — insiste a creança, afogueada, palpi- 
tante, seguindo com o olhar cada gesto da do- 
madora, que entrava na jaula, de chibata er- 
guida, e levantava as feras somnolentas com 
chibatadas sibilantes. 

E como a mãe, arripiada de emoção, se ca- 
lasse, a irmã mais velha, com um beicinho sce- 
ptico, responde: 

— Não comem, não, Lolotte. Já são feitos 
para aquillo. São leões a fingir. Não prestam 
para nada 1 

Era a estas creanças que o snr. Libório pre- 
tendia divertir com a Gata Borralheira, no seu 
lindo theatro infantil, pequenino como uma bo- 
ceta de bonbòns. Por isso, o theatro acabou. 

E de crer que não aconteça o mesmo ao 
Grande Casino de Paris. Madame Zambelli sabe 



CARTAS DE LISBOA 



do seu oíBcio. Com raparigas de dezoito a vinle 
e cinco annos, formosas e de boa plástica, não 
ha prosperidade que não bafeje um Casino, em 
Lisboa. 



Chegam os primeiros frios: nascem as 
modas novas. Está a findar o reinado da saia 
trotteuse. Vai comevar o reinado da saia de 
cauda. Ainda por uns quinze dias, na luz já 
fria destes dias maravilhosos de outomno, 
cujos poentes accendem nos céus as mais 
deslumbrantes apotheoses de magica, a popu-' 
lação elegante dos Estorís e de Cascaes mantém 
intrepidamente o chapéu Panamá, a calça de 
flanella branca e o canotier de palha guarnecido 
a pennas de gaivota. 

Por todas as praias da enseada azul — como 
a baptisou um chronista atitré das elegâncias, — 
uma sociedade pretenciosa e gárrula parece 
desafiar o inverno com os seus guarda-soes 
claros de verão. E emquanto a rainha sahir para 
o mar no seu yacht Marts Stella, de brancas 
velas enfunadas; emquanto el-rei, todas as 
manhãs, der o seu passeio a cavallo pelos 
Estorís, com um cravo vermelho na botoeira e 
um sorriso de bonhomia na boca tão vermelha 



CARTAS DE J.ISBOA 3 1 1 

■■ ■■ ■!■■ ■■■■■ ■»■— ■,-■■^■■ ■■■ — ■^ ■! I ■ ,■ ■ ■ ■ I 

como o seu cravo — um madrigal ! — não terá 
soacío no carrilhão da Moda a hora de principiar 
a comedia movimentada do inverno smarL 

Mas, se para a ociosidade magnifica da 
corte, da diplomacia e da finança o outomno 
reserva ainda dia9 de uma serenidade prima- 
veril em frente ao azul cobalto e explendente 
do mar, para os que a cidade encarcera com 
sentenças perpetuas de trabalho o inverno já 
officialmente principiou. Não o inverno dos 
elementos, o inverno das chuvas, das ventanias 
€ das lamas, mas o inverno das modas. Com os 
primeiros arrepios matinaes apparecem os pri- 
meiros velludos. O tempo está uma primavera; 
o calendjirio marca outomno; mas as montras 
das lojas corrigem a Natureza. Nas vitrines dò 
Chiado é já inverno. Nos chapéus, como nos 
jardins, a flor morre. A pluma impera, enche 
as montras das modistas com a antiga sumptuosi- 
dade dos feltros da Renascença ou com a graça 
airosa, toda Watteau e Greuse, das aigrettes, 
E, quando ainda as folhas das arvores não 
começaram a tapetar os mosaicos da Avenida, 
já nas vitrines das lojas as pelles de. raposa e de 
marta tentam as mulheres com as promessas 
das suas voluptuosas e mornas caricias. 

Todos os dias, de Paris e de Londres, pelos 
vapores de Southampton e do Havre e pelo 
Sud-expresSj os chapéus de Virot e de Puyanne, 
os velludos c as sedas chegam a Lisboa com a 



312 CARTAS DE LISBOA 

inauguração do cambio ao par, para enfeitar a 
lisboeta e arruinar os maridos. 

E sob esta periódica maré salutar de 
elegância franceza, sob esta invasão annual da 
moda, do gosto e da arte da França, Lisboa 
acorda da sua sonmolencia, . . para se vestir. 
A influencia do vestuário sobre a civilisação de 
um pequeno paiz retrogrado e sequestrado mais 
ou menos do mundo como Portugal, é por tal 
maneira um facto evidente, que me surprehende 
O constatar que ainda não tivesse havido um 
politico, um economista ou um homem de 
lettras que reivindicasse para a moda as honras 
de um factor progressivo importantissímo. 

É a Moda, essa nova musa de uma arte 
creada pelas civilisações modernas, que Portugal 
mais deve o tcr-se approximado da Europa 
central — ^a maravilhosa oflícina do progresso 
humano. 

Atraz dos novos modelos de chapéus e de 
vestidos, todos os annos uma multidão de 
homens e mulheres, commerciantes e modistas. 
sobem para os comboios, viajam deus mil 
kilometros e durante duas ou três semanas 
misturam-se e baralham-se no torvelinho dos 
grandes povos. E o que elles trazem para 
Portugal nSo sSo apenas os chapéus à ckasseur 
d'Italie e à Ninicke — a grande moda I — e os 
modelos de um novo espartilho, lançado por 
um novo medico hygienista com o concurso de 



CARTAS DE LISBOA 313 

uma modista da rue de la PaiXj mas princi- 
palmente as impressões novas, as noções novas, 
as ideias novas provocadas pela imagem de 
uma vida em pleno paroxismo de ininterrupta 
evolução progressiva. 

Todos esses excursionistas do negocio re- 
gressam a Portugal contagiados pela febre exci- 
tante dos melhoramentos e das reformas. Como 
a sua esphera de acção se restringe á loja, eil-os 
a ampliar, a embellezar o estabelecimento — be- 
nefícios que recahem quasi sempre em proprie- 
dade alheia, — e não tanto para attrahir novos 
clientes, como principalmente para obedecer a 
essa voz de incentivo que n'elles acordou diante 
das étalages sumptuosas dos estabelecin\entos 
de Paris. 

Pôde sem receio affirmar-se que em todos 
os ramos da actividade, aquelle em que mais 
ousadamente se revela, entre nós, o espirito 
progressivo, é no commercio da Moda. 

É a moda que nos traz, com mais pontuali- 
dade e solicitude, um pouco — e porque não 
muito ? — da atrhosphera espiritual em que se 
move a vida estrangeira. Os livreiros e as mo- 
distas, os intermediários da casa, Hachette e da 
casa Paquin, são os mais laboriosos e infatigá- 
veis agentes da civilisação contemporânea no 
nosso paiz. É nas suas lojas e nos seus ateliers 
que» o portuguez e a portugueza, quer folheando 
o ultimo livro de Anatole France, quer esco- 



SM CARTAS DE LISBOA 

Ihendo um chapéu, se encontram em contacto 
com os aspectos intellectuaes, intimes, e com os 
aspectos decorativos, exteriores, do mundo mo- 
derno. Pode a administração publica, todo o 
organismo politico, toda a doutrina scientifica 
estar atrazada meio século. Com o romance e 
com a moda estamos sempre em dia. As psy- 
choiogias de Bourget e os modelos de Rouff 
chegam-nos por todos os correios; d3o-se mesmo 
o dispendioso luxo de vir no Siid-express, como 
o snr. conde de Burnay. E, se compararmos, 
sem quaesquer affectações litterarias, o valor 
artístico, representado em phantasia, em sur- 
prehendentes combinações de novidade, era 
engenhosa elegância de estylo, da obra de 
Lotti, de Bourget, de Paul Adam, de Mauríce 
Donoay, de Lavedan e de Hervieu com a obra 
de Jacques Doucet, de Jean Worth, de Redfern, 
de Paquin, de CaroHne Reboux e de Doeuillet, 
averigua-se que a aristocracia da costura se não 
mostra inferior á aristocracia das tettras! 

Mas também, que poderosos e esplendidos 
artistas, esses costureiros, príncipes absolutos da 
Moda, de quem são súbditas obedientes todas 
as lindas mulheres dos cinco continentes, desde 
as actrizes de Paris ás gran-duquezas de S. Pe- 
tersburgo, desde as millionarias de New-York 
ás elegantes de Buenos-Aires, desde as diplo- 
matas de Tanger ás misses de Cape-Town, desde 
as consulezas de Hong-Kong ás bellezas pro- 



CARTAS DE LISBOA 3 I 5 

fissionaes de Melburnol A um capricho de 
Doucet ou Paquin, a mulher vestiria amanhã, 
sem hesitar, a monstruosa crinojina. D'elles 
depende discrecionariamente a belleza decora- 
tiva da parte mais linda do género humano. 
Foram elles que crearam essa mulher nouveau 
jeu, toda graciosidade requinte e artificialismo, 
preparada para as exigências da vida contempo- 
rânea, para o sport e para o flirt^ para todas as 
excentricidades e todas as audácias, com quem 
o homem moderno joga o tennis e o bridge^ 
discute arte e politica: essa mulher prodígio 
que, com o mesmo desembaraço e a mesma 
graciosidade, guia um automóvel, monta a 
cavallo, faz as honras de um baile, falia nos 
meetingSy atravessa o Mediterrâneo n'um barco 
a gazolina, expõe no Salon e escreve romances. 
Esse concilio de homens, que vestem as rainhas 
e as actrizes, as millionarias e as diplomatas, 
merece bem as attenções do historiador. Ao 
sabor da sua phantasia, a Moda — que é o 
guarda-roupa da Historia — todos os dias se re- 
nova, incessantemente veste de aspectos novos a 
vida. As vezes, esses soberanos divertem-se em 
resuscitar, em pleno século XX, a esthetica da 
mulher do L^rimeiro Império, como o moço e já 
glorioso Dceuillét, de onde, n'um baile do Elyseu, 
no consulado do snr. P^allières, poderem vêr-se 
mulheres vestidas como as generalas da corte 
de Napoleão. De outras vezes, é o costureiro 



3l6 CARTAS DE LISBOA 

Beer, o fornecedor do almanach Gotha, o prin- 
cipç da moda da praça Vendôme, que se lembra 
de vestir a imperatriz da Rússia ^ Aíatia.Anto- 
nietla, fazendo assim o sen pied^de-nez ár historia 
e permíttindoHse á liberdade soberba de fazer 
pagar ás rainhas, por cinco mil francos, satyras 
inclementes. . . guarnecidas a rendas de Bifii* 

xellas. \.. :. . -;■;_-'•':■:■- /...:':■;:.- ib-ij^;--^;- ■ 

Frequentemente .os jornaea descrevem as 
moradas dos príncipes das lettras, as villégtatnr 
ras de Rostand ou de Sardou, âs viagens de 
Bourget, as collecções dos Goncourt e de Lotí, 
e ignora-se em Portugal o fausto em que vivem 
esses potentados da Moda, que t^em cavallos 
de corridas como Paquin, que possum quadros 
de Latour como Doucet, que téctn yackts como 
RedfernI 

E entretanto, cada modelo de Paquin tem 
mais edições que a Sapho de Daudet e muitas 
vezes um vestido tem mais. influencia na vida 
de um homem que a philosophia de um Augusto 
Comte ou de um Herbert Spencerl. . . 



2^ de outubro 

N'esta Lisboa vaidosa e exhibicionista, onde 
a própria miséria se adorna e dissimula com as 
apparencias falsas da prosperidade e da ventura, 



CARTAS DE LISBOA 317 

um dos mais salutares exemplos, digno da apo- 
logia de um moralista, de quanto a modéstia é 
uma grandeza humana, dá- o o snr. Ramalho 
Ortigão vivendo na sua mansarda da rua dos 
Caetanos, recebendo n'ella, ha vinte e cinco 
annos, toda a aristocracia do talento, e contem- 
plando, glorioso e feliz, bondoso e alegre — e 
tudo elle mereceu de Deus e dos homens: a 
gloria, a felicidade» a bondade e a alegria, — da 
sua mansarda de escriptor^ a opulência de seu 
filho e a riqueza em ■ que nasceram todos os 
seus netos. 

Muito se tem escripto e dito do auctor emi- 
nente de A Hollanda e de As Farpas^ do homem 
que hoje melhor representa em Portugal, com 
os seus setenta annos, a honra intellectual, em 
toda a sua nobreza, em toda a sua influencia 
benéfica, em todo o seu prestigio emanente. 
O grande ; mestre do humour e do estylo, o ar- 
tista consummado e o despretencioso erudito, 
que ha trinta annos mantém, sem uma violência, 
sem uma inimisade, sem uma contestação, a 
supremacia litteraria de um consagrado, impõe 
a qualquer biographo, que um dia tente des- 
crevel-o para a posteridade n*um estudo defini- 
tivo, uma das mais complexas tarefas de inves- 
tigação social e litteraria, que a figura de um 
homem de lettras, porventura, até hoje tem no 
nosso paiz reclamado. A influencia da obra e 
da vida d'este homem de inexcedido talento e 



-3l8 CARTAS DE USUUA 

de inexcediVeis virtudes nas três gerações de 
que elle foi o am^ e o amável mentori é qu^ 
inverosimii de extensão e de importância, a 
pontos de exigir, para a sua comprehensSo ni' 
tida e integral, o estudo par^llelo, minucioso e 
completo do meio em que essa prodigiosa e 
attrahente influencia se exerceu. 

Ao subir hoje os três lances de escadas con- 
ventuaes, onde o esmorecer da tarde mais aden- 
sava a penumbra, da casa já hoje célebre da 
calcada dos Caetanos, onde vive o auctor pri- 
morosíssimo do Culto da Arte em Portugal, 
eu mentalmente formulava a sentida queixa de 
que até agora se não tenha dado começo a essa 
biographia — que nenhum homem de.áihanfaa 
poderá Jamais realisar com a expressão exacta 
de verdade, que só um contemporâneo, dispondo 
de notáveis faculdades de historiador e de ana- 
lysta, conseguiria laboriosamente attingir com 
escrupulosa consciência. Lendo a sua obra, 
constatando a sua prodigiosa agitação de ideias 
novas, a obstinada e ardente aspiração ' educa- 
tiva que, sem nunca cahir na banalidade didá- 
ctica, ã superiorisa e anima, pôde ter-se a noção 
de um reformador amável, captivado da Arte, 
da elegância, da saúde e da belleza, procurando, 
não sem vaidade algumas vezes, fazer n'um 
paiz enredado de convenções anachro nicas e 
prejuízos ridículos, immobilisado pela preguiça 
e estragado pelos dirigentes, a animada catechese 



CARTAS DE LISBOA 319 

do progresso. Desde a phase critica das Far- 
pas até ao admirável e revoltoso protesto con-» 
tra a profanação da Belleza, que é o Culto da 
Arte em Portugal^ o biographo poderia acom- 
panhar quasi sempre, através a obra do artista, 
o incomparável talento do educador, deleitan- 
do-se na apologia enthusiastica do grande ar- 
tista, que preferiu sempre, a ser um grande 
sábio, o ser o mais seductor dos divulgadores 
de sentimentos e de ideias, que illustraram o 
Portugal do século XIX. 

O snr. Ramalho Ortigão nasceu quando 
ainda dominava a geração emprehendedora e 
reformista dos exilados. Os velhos da sua mo- 
cidade, na sua terra natal, tinham sido, quasi 
todos, emigrados. A revolução tivera isso de 
óptimo: pozéra em contacto com as grandes 
civilisações do norte da Europa, e principal- 
mente com a Inglaterra, os perseguidos da 
reacção absolutista. 

A poderosa burguezia portuense — o snr. Ra- 
malho Ortigão nasceu no Porto — trouxera da 
Inglaterra, para onde a tinham levado as 
irreprimiveis affeições pela liberdade, o culto do 
conforto, o prazer da viagem e a noção bri- 
tannica do home, O contacto permanente com a 
numerosa classe ingleza do Vinho do Porto não 
fez senão desenvolver essas nascentes aptidões 
aprendidas nas ilhas da Gran-Bretanha pela bur- 
guezia liberal da emigração. Hoje ainda, a vida 



J< 



320 CARTAS DE LISBOA 

portuense resente-se beneficatnente da longínqua 
lição do exílio e do prolongado contacto com 
os sócios da Feitoria Ingleza. O snr. Ramalho 
Ortigão é a excepcional resultante, como artista, 
da influencia incontestável d'e3se meio. Não 
podia o auctor de A Hollanda ser senão por- 
tuense, tão accentuadas apparecem na estructura 
intima do homem, quer moral, quer physíca- 
mente, as qualidades preponderantes d*essa bur- 
guezia liberal d'onde sahíram Passos Manoel 
para a politica e Garrett para a litteratura. 

Nunca ninguém se lembrou de comparar o 
auctor das Viagens na minha terra ao auctor 
de As Farpas, E, entretanto, a similitude 
apparece-nos flagrante, descontadas as differen- 
ciações de épocas e as fataes determinantes dos 
acontecimentos. E^ em ambos, o mesmo culto 
da forma, a mesma capacidade de ironia, o 
mesmo vicio galante do preciosismo, o mesmo 
esmero pessoal, a mesma attracção pelo pro- 
gresso, o mesmo enthusiasmo pela Natureza, 
alliado á mesma predilecção mundana pela so- 
ciabilidade. Em ambos, o amor carinhoso da 
pátria não exclue, antes intimamente se allia, 
a essa exaltação do estrangeiro, ^tão caracte- 
rística á obra dos dous portuenses gloriosos. 
E como esse caracter profundamente se harmo- 
nisa com o aspecto da cidade natalícia, com os 
seus vapores inglezes ancorados no Douro e os 
seus bíblicos carros de bois encalhados na Ri- 



CARTAS DE LISBOA 32 1 

beiral Rapidamente, ao contacto da civilisaçãoe 
á influencia do cosmopolismo, Lisboa descaracte- 
risou-se, emquanto que o Porto, soffrendo toda 
a influencia da emigração e tendo sido a grande 
forja d'onde sahiram as radicaes reformas poli- 
ticas do paiz, manteve, inalterável, o seu aspecto 
tradicional e pittoresco. A revolução passou na 
sua alma forte sem lhe desfigurar as feições. 

Se o tempo para isso nos chegasse e fosse 
projecto nosso lançar aqui as bases para uma 
desenvolvida monographia sobre a vida por- 
tuense do século findo, tão necessária á decifra- 
ção do sentido histórico d'estes cem annos da 
vida nacional, fácil nos parece que deveria ser 
a tarefa de correlacionar, depois d*esse dis- 
pêndio enorme e laboriosissimo de investigação 
e de exegese, o caracter e a obra do grande 
escriptor com o meio moral que o produziu. 

Tendo vivido, desde ha quarenta annos, na 
intimidade da nossa maior aristocracia do ta- 
lento e do sangue, tendo viajado toda a Europa, 
tendo misturado a sua vida á agitação de todas 
as grandes cidades, tendo estado em contacto 
com todos os grandes povos, tendo entrado em 
todos os museus, o snr. Ramalho Ortigão, fun- 
ccionario do paço como bibliothecario da Ajuda, 
homem de sociedade, frequentador de salões 
como o seu conterrâneo Garrett, globe-trotter 
enthusiasta e incorrigivel, para quem é supremo 
deleite o ver, admirar e gozar a vida em toda 

21 



322 CARTAS DE LISBOA 

a plenitude complexa dos seus aspectos, tão 
apto para os prazeres intellectuaes e requinta- 
dos da Arte, como para a comprehensão eru- 
dita da archeologia e da historia; para cuja ca- 
pacidade emotiva tudo é pretexto de espiritual 
regozijo e que abundantemente, plethoricamente, 
hauriu do espectáculo da vida milhões de sen- 
sações variadíssimas, — esse homem tão mo- 
derno e tão completo, tão esplendidamente ju- 
venil na sua velhice gloriosa, ficou sendo, na 
sua subestructura moral, um bom burguez por- 
tuense. 

O phenomeno apenas á primeira vista pôde 
surprehender quem se não detenha um instante 
a examinal-o. Esse anceio de reforma, de revo- 
lução, tão saliente na obra do auctor de As Far- 
pas, nfio é senão a deslocação, para a littera- 
tura, d' essa mesma capacidade reformadora e 
d' essa mesma vis revolucionaria com que a bur- 
«íuezia do Porto decisivamente interveio nos des- 
tinos políticos da nação. Mas, se não bastasse 
este considerando para convencer os duvidosos 
e lhes parecesse inútil analysar em favor d*esta 
proposição o bom-senso inalterável que domina 
e resplandece cm toda a obra sadia do grande 
artista; se desvalioso lhes parecesse o constatar 
o quanto no seu fervorosíssimo amor da Natu- 
reza, o escriptor ficou sendo, irreductivelmente, 
um provinciano — sem deixar de ser, superioris- 
simamente, um artista e um gcntlenian — res- 



CARTAS DE LISBOA 323 



tava-Ihes subir os três andares da casa da cal- 
çada dos Caetanos e bater á cancella d'esse lar 
aconchegado, tranquillo e virtuoso, onde a Arte 
não comprometteu o arranjo methodico, nem 
dissimulou a modéstia e os hábitos singelos e 
as fáceis exigências do burguez á Renan e á 
Flaubert que o habita. De todas as viagens ha 
alli recordações innumeras, de todas as predi- 
lecções do artista ha alli vestigios abundantes. 
Os olhos prendem-se na contemplação de muitas 
cousas bellas. Mas esses próprios thesouros de 
Arte parecem desvalorisar-se perante aquella 
paz, mais preciosa que todos os thesouros, que 
emana do coração e da consciência d*aquelle 
casal amoravel, que ha cincoenta annos se na- 
morou nas grades do convento de Santa Clara 1 



2 de novembro 

Chego agora de casa do snr. conselheiro 
João Arroyo: essa mesma casa tão conhecida 
dos leitores d'estas cartas, onde, faz justamente 
um anno por este tempo, a voz de um leiloeiro 
dispersou a melhor parte de uma das mais es- 
plendidas coUecções de Arte que as inclinações 
faustosas de um artista lograra reunir em annos 
de pesquizas e acquisições laboriosas. Mas, em- 
bora desguarnecido em parte do seu osten- 



324 CARTAS DE LISBOA 

toso mobiliário, desde que, realisado o leilSOr 
o snr. conselheiro João Arroyo lhe preferiu o 
conforto e a tranquillidade campestre da sua 
magnifica quinta do Casal, em Almoçageme, 
nunca como hoje o tristonho palácio da rua de 
Santo António dos Capuchos me pareceu táo 
digno de fixar as attenções do historiador e do 
chronista. A morada luxuosa do antigo ministro 
dos negócios estrangeiros, onde, ha quatro annos, 
em raoHts celebres na chronica mundana de 
Lisboa, se reunia, en grand decolleté, o corpo 
diplomático, recebia hoje as visitas de alguns 
críticos de Arte, políticos, músicos e amigos fa- 
miliares, chamados á audição da opera composta 
pelo orador eloquentíssimo, cuja palavra imagi- 
nosa e vehemente tem, todas as vezes que se 
eri^aie na camará dos pares, um auditório que 
faria a fortuna de um emprezario. 

Xão era esta a primeira vez que o snr. con- 
selheiro João Arroyo fazia ouvir a alguns amigos 
pretlilectos e artistas affeiçoados a sua partitura. 
Já a critica musical, convidada a essas audições 
intimas, tentara elucidar o publico sobre a ma- 
gistral obra cie Arte, que o estadista eminente 
tivera tempo de compor entre a agitação da 
sua vida de politico combativo, cioso de manter 
ao seu excepcional talento a hierarchia conquis- 
tada em uma das carreiras mais brilhantes da 
contemporânea politica portugueza. E justamente 
esse phenomeno de desdobramento intellectual. 



CARTAS DE LISBOA 325 



surprehendente em toda a parte, e entre nós 
mais que em parte alguma, de um grande poli- 
tico militante ser simultaneamente um artista 
prodigioso, continha incrédulos, sem grande fé no 
successo do musico, todos aquelles que tinham 
pelo orador extraordinário a incondicional e en- 
thusiastica admiração a que ninguém, até hoje, 
pôde subtrahir-se, depois de escutar a flaminea 
eloquência, feita de estos oratórios e de imagi- 
nosa exuberância, onde as ironias de um Cham- 
fort se misturam ás truculências meridionaes e 
românticas de um Hugo, onde o espirito de 
Sotto-Maior se veste com os primores de estylo 
de um Garrett, que é o d'esse artista da palavra, 
■d'esse coynpositor magistral de discursos e d'esse 
improvisador eloquente de operas. 

E entretanto, é agora, depois de ouvir, tres- 
passado de emoção até ao mais profundo da 
minha sensibilidade, a partitura do Amor de 
PerdiçàOy que eu claramente comprehendo — sem 
poder ainda reduzir a essa linguagem aphoris- 
tica tão indispensável á propagação das ideias 
e das doutrinas, o meu raciocínio mental — 
todo esse apparente mysterio de uma supposta 
contradicção entre a fecunda phantasia do 
artista e a actividade dominadora do politico. 

O snr. conselheiro João Arroyo é, funda- 
mentalmente, por temperamento e por heredi- 
tariedade, um artista, na mais ampla e elevada 
dignificação da palavra. A sua capacidade mu- 



326 CARTAS DE LISBOA 

sical constitue um dom de família, herdado, 
mantido e sublimado pelo génio. Desde Coim- 
bra que o grande compositor de agora se reve- 
lara perante toda a Academia um orador impe- 
tuoso e um musico de excepcionaes recursos de 
creação e de interpretação. Refere um seu 
contemporâneo que essa vocação de com- 
positor tivera as precocidades particulares aos 
grandes talentos musicaes. Aos doze annos, o 
snr. João Arroyo compunha melodias, sonatas, 
berccuses^ rondós, hymnos coraes e romanzas, 
e ao matricular-se, muito novo, na Universidade, 
escrevera já uma opera em dous actos, La 
Fianccc de Abydos e principiara o Martim Vaz. 
A esse estudante de direito, que organisára o 
Orpheon Académico, se devem as primeiras ten- 
tativas da divulgação de Wagner em Portugal. 
O seu enthusiasmo caloroso e suggestivo fizera o 
milaç^re de propagar aos companheiros esse 
culto fervoroso pela musica, em que, desde 
creança, predestinadamente se absorviam os seus 
balbuciantes delirios imaginativos. 

Mas, um dia, atirada fora a capa e a batina, 
o organisador do Orpheon Académico, o com- 
positor do Martim Vaz entra na vida com a 
imoetuosidade ambiciosa de um Lidador, deci- 
dido a vencer e esplendidamente preparado para 
o triumpho. 

O artista desapparece então para o grande 
publico, definitivamente transfigurado no poli- 



CARTAS DE LISBOA 327 

tico. E é uma surpreza geral no parlamento 
quando, pela primeira vez, ao deputado é con- 
cedida a palavra e a sua voz, maravilhoso 
instrumento musical, que a ideia e a phantasia 
sensibilisam nas mais subtis mtances de inten- 
ção, resôa, n'uma. complexa symphonia de 
attica elegância e de scintillante espirito! Essa 
surpreza, que ainda hoje se não desvaneceu, 
antes se renova de todas as vezes que o extra- 
ordinário orador se levanta para fallar, pro- 
vém do caracter singular da sua eloquência. 
A psychologia, de mãos dadas com a physiolo- 
gia, explicou pormenorisadamente as condições 
d'onde resulta o phenomeno cerebral da elo- 
quência. 

Não é eloquente quem quer. A eloquência 
é a resultante de uma organisação mental e 
sensacional particularissima, e nada mais pro- 
digiosamente diverso do que a elaboração de 
pensamentos e sentimentos escriptos da sua ela- 
boração oral. A ideia nasce e multiplica-se no 
orador gerada pela palavra. E o som que a 
acorda e põe em marcha, em contraste com a 
ideia do escriptor, a quem são indispensáveis o 
recolhimento e o silencio para a sua fixação 
graphica. Numerosas observações téem demons- 
trado que a surdez compromette e não raras 
vezes abole e extingue o dom da eloquência. 

O orador é, physiologicamente, um auditivo, 
e intellectualmentc um espontâneo. Tanto é 



328 CARTAS DE LISBOA 

commum no escriptor — e Camillo é d'isso um 
exemplo notável — a insensibilidade á musica, 
quanto ella é rara no pequeno ou no grande 
orador. O politico é maioria em S. Carlos. 

Quasi todos os tenores, barytonos e baixos 
de S. Bento, os que mais estropiam a gramma- 
tica e o bom senso n'essa orgia oratória para 
que annualmente os convida a Carta Constitu- 
cional, trocariam sem hesitar a leitura de uma 
pagina de Balzac pelo prazer vulgar de ouvir 
uma ária da Traviata n'um realejo. 

Assim é que, extraordinariamente dotado 
por uma das mais perfeitas compleições auditi- 
vas que a natureza se tem aprazido em crear, 
dispondo de uma cultura litteraria excepcional 
])ara o seu meio, o snr. João Arroyo facilmente 
puz a sua arte ao serviço do seu verbo e con- 
scG^uiu encontrar um meio de exercitar o seu 
talento creador, substituindo a nota pela palavra. 
\\ é porque dctraz do grande orador estava o 
i^^rande artista, que os seus discursos tinham 
sobre o auditório um poder de suggestâo irrepri- 
mivcl e de todas as vezes o deixavam surprehen- 
dido. A sua eloquência continuamente se reno- 
vava, cada dia ostentava novos cambiantes, novas 
cadencias, novos rithmos, novas combinações de 
cor e forma. A sua palavra era como uma or- 
chestra que clle re^ia, orchestra de cujo repor- 
tório infinito era ao mesmo tempo o composi- 
tor e o maestro. 



CARTAS DE LISBOA 329 

E foi essa mesma eloquência calorosa, essa 
mesma phantasia exuberante, essa mesma scin- 
tillação inexcedivel, esse mesmo poder de sug- 
gestão que eu hontem encontrei n*aquelle tur- 
bilhão de harmonias, que os dedos nervosos do 
compositor arrancavam ao grande Erard de 
cauda, diante de um pequeno auditório commo- 
vido. 

Seria difficil n'esta hora, em que nos meus 
tympanos parece ainda vibrar aquella sonora 
explosão de génio, decompor em pensamentos 
nítidos as impressões que ainda confusamente 
me agitam. Absolutamente incompetente para 
avaliar e analysar, sob o ponto de vista musical, 
a obra de Arte impressionadora, que tão inten- 
samente me suggeriu, em successivas imagens 
visuaes, o drama de amor e desesperança que 
pretendeu traduzir na sua divina linguagem de 
melodias, eu não me arrecearia de a considerar 
como um summo prodígio de sciencia e de 
technica, desde que tão penetrantemente, com 
seus arrebatamentos e doçuras, os seus trovões 
c os seus amavios, ella me sensibilisou e com- 
moveu até ás lagrimas. Para que uma opera, 
tocada n'um piano, tendo por único interprete 
o seu compositor, despida de toda a sua gran- 
deza orchestral, de todo o seu apparato scenico, 
assim consiga impressionar um auditório na 
maior parte constituído por incompetências 
musicaes, forçosamente haveria de dispor, como 



330 CARTAS DE LISBOA 

O affirmava o íttaestro Codivilla, das grandes e 
magistraes qualidades de perfeição estructural, 
sem a qual a noção da belleza e o seu contagia 
e= motivo não existem. 

Ignoro até que ponto os competentes para 
avaliarem o complexo organismo musical que é 
uma opera, podéram fruir mais do que eu os 
prazeres d'esta audição memorável. D*esses, 
António de Andrade, o grande tenor portuguez, 
a quem uma enfermidade atalhou uma carreira 
victoriosa, no momento em que principiavam 
para elle as honras triumphantes da consagra- 
ção, dizia-me, com as lagrimas nos olhos, que a 
sua maior tristeza desde esse dia funesto era 
a de não poder participar, como interprete, da 
gloria que estava reservada, immortalmente, ao 
auctor do Amor de Perdição. 

Pacini, friamente, como homem que está 
habituado a avaliar na Arte o seu negocio, 
sorria. Creio que era o único que sorria. Mas os 
seus sorrisos valiam bem a nossa commoção 
irreprimível. A surpreza do maestro Codivilla, 
que enlcvadamente voltava as paginas á parti- 
tura, na estante do Erard^ era de que um poli- 
tico, um ministro, soubesse tanta musica I 

Saber tanta musica! Como isso importa 
pouco a nossa ignorância! Porventura foi essa 
sciencia considerável que abrazou a alma vehe- 
mente do compositor n'essa creação prodigiosa? 
Ou antes, não foi o seu génio de inspirado^ 



CARTAS DE LISBOA 33 1 

mais do que a sua sciencia de virtuose, que 
encheu de beijos e soluços, de idyllios e ranco- 
res, de desesperos e devaneios, de fatalidade e 
de angustia esses três actos do poema lyrico, 
desde o dueto de amor do primeiro acto até ao 
lancinante desfecho da tragedia amorosa? Mas 
não é só o inexcedivel talento do compositor 
que ha para admirar na sua obra magistral, mas 
o talento do dramaturgo, que soube prodigiosa- 
mente condensar em três actos de máxima in- 
tensidade dramática a acção integral do romance 
de Camillo. E com que impetuosa paixão, com 
que arrebatamento romanesco, com que vehe- 
mencia irresistível, n'um grandioso crescendo 
de desesperação excitada e de amor ferido, 
se desenrola o drama 1 E como elle, o grande 
artista, nol-o soube evocar, arrancando-o palpi- 
tante das cordas do seu piano de concerto, 
fazendo surgir perante o nosso espirito os sce- 
narios e as personagens, patenteando-nos as 
almas alanceadas dos amantes n'esse desenlace 
patético para que o seu génio encontrou a 
phrase sublime, tenebrosa e suave ao mesmo 
tempo, phrase que é quasi um lamento humano, 
mixto de imprecação e de prece, suspiro de 
agonia e gemido de amor, phrase para que ca- 
minhava, desde o primeiro accorde, aquelle 
longo poema de harmonia I 

D'aqui a quatro mezes — o Amor de Perdição 
cantar-se-ha em S. Carlos entre 16 e 28 de feve- 



332 CARTAS DE LISBOA 

reiro — o publico conhecerá a opera do snr. con- 
selheiro João Arroyo e podel-a-ha livremente 
apreciar. As suas até hoje invioladas bellezas 
orchestraes serão patenteadas. D'esse mundo 
sonoro de notas outro mundo de harmonias 
surgirá, com as vibrações dos violinos, dos vio- 
loncellos e das harpas, com o gemido das flau- 
tas, os concertos coraes, a alliança dos harpejos 
e das vozes. Mas o que o espectador não verá, 
n'cssa noute de gala para o theatro lyrico por- 
tuguez, é o compositor ao piano, como eu acabo 
de ver, presidindo a imaginarias orchestras, e 
n'uma transfiguração cujo poder só o génio 
confere aos eleitos, animar com a vida pheno- 
menal da convicção e do enthusiasmo aquelles 
para mim indecifráveis cadernos de garatujas 
pretas, a que o maestro Codivilla, como um 
acolyto reverente, voltava as paginas na estante 
de ébano do /ira rd! 



'I'\iit L '..r c!."'-: ic.!- ík..'.:. <.:.i .uivraçâo puMicadas no Comnicrcio 

A'i'/./ dos Editores. 



1 



I. 



t4 



IriúpQpia Clássica Bditopa 



20, Pva§a dos Hesttoitadoices, 20 

L.ISB07V 



A, STRINDBERQ 

Viagen de Pedro Afortunado. 
StígBL em 5 actos, traducção 
do Original sueco cora per- 
missão do aoctor. 1 toI. 



500 



JULÍO RIBEIRO 

O Padre Belchior de Pontes. 
Romance histórico brazileiro. 
2.» cdiçSo. I vol 



C. MALHEIRO DIAS 

Fi.-ho das Hervas 800 

Telles d'Alberoarla ... 800 

Paixio de Karla do Céo . . 800 

Grande CO) Cagliostro. . . 800 

Cartas de Lisboa, 3 vol. . 1|800 



COELHO DE CARVALHO 

Casamento de Conveniência. 

Drama em 4 actos, precedido 
de nm longo estudo sobre a 
arte no theatro. 1 vol. . . 500 
Dolores. Drama em 3 actos, de 
J. Pelitt y Codina. Variante 
em versos portugueses. 1 vol. 500 



JOÃO RIBEIRO 

Crepúsculo dos Deuses . . 500 
Paginas do Esthetlca ... 500 



JOSÉ BRUNO 

Una vospera de feriado. Co- 
media de costumes da bohe- 
mia Coimbra, com um pro- 
logo e um epilogo em prosa 
e verso. 1 vol 500 



Aí. DA SILVA GAYO 

A enorusilhada. Drama em 1 
acto 

Últimos Crentes. Romance ma- 
rítimo. 1 voU 



stss 



M, TEIXEIRA-aOMES 

Inventario de Junho . . . 
Cartas sem moral nonhuma. 

Agosto azul 

Sabina Freire 



O. BILãC 

Critica e Fantasia. Em Minas. 
ClirOnicas fluminenses. Notas 
diarías. Na Academia. 1 vol. 



PEDROSO RODRIGUES 

Auto pastoril. Comedia em 1 
acto, em verso, premiada em 
concurso. 1 vol 






•^