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Full text of "Cartas a um provinciano & notas sobre o joelho, 1903-1904; 180 caricaturas"

Joaquim Jlfadur^im 



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Impressões de theatro 

(Cartas a um provinciano & notas sobre o joelho) 



i.^ Série 



igoS - 1904 



Do MESMO auctor: 

A' Gandaia — Coimbra, 1893 (Exgot.) 
Insolências — Coimbra, 1894 » 

Um Processo de Imprensa — Lisboa 1897 (Apprehendido pela 
policia). 

EM PREPARAÇÃO 

Impressões de theatro, 2.^ serie, 1904-905 — i vol. ill. 
Historias dos Navegantes. 
Carrancas (Gente em evidencia). 

A ENTRAR NO PRELO 
De collaboração com Francisco Teixeira 

Conjugo Vobis ) ^ „ , , r • 

j^ ^ -ir ir a Álbuns de caricaturas e facécias. 

Deus Guarde a V. Ex." \ 




JOAQUIM MADUREIRA 

(Braz Burity) 



Impressões 

de theatro 

(Cartas a um provinciano & notas sobre o joelho) 



1903 - 1904 



180 Caricaturas de : 

Abeillé — Amyc — André Gill — Arnaldo Ressano — 
Bordallo Pinheiro (Raphael & M. Gustavo) — Capiello — 
Caran d'Ache — Carlos Leal — Celso Hermínio — Félix 
Valloton — Francisco Teixeira — Giraud — Henri Heran 
— Jean Veber — Jorge Colaço — José Leite — Julião 
Machado — Leal da Camará — Leandre — Losques — Na- 
dar — Robert — Sam— Voigt — Zim, etc, etc. 




LISBOA 

Ferreira & Oliveira, L.°*, Editores 

i32, 'Tiua do Ouro, i38 

1903 



Pai 




Em reverente homenagem á memoria de 



RAFHAEL BORDALLO PINHEIRO 



Mestre da caricatura, que, na Arte por- 
tugueza, soberanamente encarnou o Es- 
pirito áspero da Irreverência e o Génio 
combativo da Demolição. 



Estas paginas de asperezas e de combate, ir- 
reverentes e demolidoras 

são consagradas. 



N'esta bemdita terra de sol e mosca, de talentos e 
compadres, a critica theatral, afogada no noticiarismo 
reles de facadas e reformas constitucionaes, não é nem 
uma sciencia, que se venere e se professe, como na Al- 
lemanha, nem uma arte, que se cultive e se ame, como 
na França: — florido galho da reportagem inculta, bis- 
bilhoteira e velhaca, dos órgãos de informação e das 
trombetas dos partidos, a critica lusitana oscilla, elo- 
giativa ou depreciadora, entre o soalheiro de senhoras 
visinhas e um modo de vida, entre um ralho de coma- 
dres e um processo de mattar pulgas. 

O critico não estuda, não investiga, não analysa, 
não commenta, não discute, não confronta, não julga, e, 
sendo, por via de regra e contigencias de officio, um 
sujeito, que não paga os seus bilhetes e rabisca nas fo- 
lhas, que tuteja os actores e ceia com as actrizes, a sua 
acção limita-se a namorar ou a fazer pela vida, a re- 
querer em termos ou a gosar á bruta. 

Além dos ideaes communs a todo o cidadão portu- 
guez — dês dum nicho regalado nos Próprios Nacio- 



XII 



naes té á sorte grande de Hespanha — o critico, que 
muitas vezes não tem grammatica definida e só, de 
longe em longe, se permitte a extravagância de ter 
ideias originaes, tem, sempre e invariavelmente, a nor- 
teal-o e a dirigil-o um ideal superior e lúcido: — metter 
uma peça no cartaz ou dormir uma noite com a- se- 
gunda dama. 

Fazer direitos ou fazer amor. 

D'ahi, haver a critica amoruda e a critica videira, os 
críticos lamechas e os críticos arrangistas : os que ma- 
nejam as grandes cóleras p'ra intimidar um emprezario 
e os que brandem as grandes ternuras p'ra conquistar 
uma tronga. 

Os que traduzem uma peça por dia e os que lam- 
bem uma fêmea por noite. 

Por amor á Arte, por amor ao Theatro, por amor 
á Verdade, por necessidade de espirito e sedes de Jus- 
tiça, por impulsos de temperamento e aspirações de 
Ideal, sem agua no bico e sem peças no canhenho, sem 
amores nos camarins e sem interesses nas emprezas, 
pagando a entrada e não alugando a penna . . . creio 
raramente se haver escripto sobre theatro, té que, 
n'estes farrapos descosidos, n'estes frangalhos desco- 
nexos d'uma prosa arrevezada e brusca — em períodos 
longos como a légua da Povoa, neologismos de arripiar, 
syntaxes de enlouquecer, cóleras, paradoxos, destem- 
peros, insolências — se tentou, alegremente, nanja ini- 
ciar uma campanha critica, mas exprimir, independente 
e franca, sincera e desafogada, irreverente e sentida, 
uma opinião pessoal. 

Ora, simples opiniões pessoaes, ligeiros modos de 
vêr, fogosos modos de sentir, alheios a escolas, aves- 
sos a ritualismos, indifferentes a personalidades, estes 



XUÍ 



nacos rijos de duríssima prosa, destrambelhados e in- 
submissos, desalinhavados e aggressivos, umas vezes, 
cheios de paixão e de fogo, não raro, falhos de senso e 
de prosódia, estavam, natural e Justamente, destinados 
á vida ephemera de todos os graphismos jornaleiros, 
que, embora aspirem á Immortalidade e vão deitando 
o luzio á sua estatuasinha, lidos de manhã e esquecidos 
■d tarde, liquidam, á noite, nas guardanapagens secretas 
e utilitárias a que, na vulgata do metièr, se chama, 
n uma phrase sonora e redonda, a grande e nobre mis- 
são da Imprensa . . . 

Recolhe-as, porém, ao conforto estável das estantes, 
no duradoiro e aceado albergue do livro, a audaciosa 
boa vontade do editor que, reconhecendo a pobreza 
franciscana da nossa bibliographia theatral, tenta ini- 
ciar, entre nós, o que, ha trint'annos, com lisongeiro e 
merecido successo, vem fazendo, em França, o esforço 
presistente de Edmond StouUig e o que, na Allemanha, 
em Inglaterra, na Áustria, na Itália — em toda a parte, 
emfim — se vem fazendo, anno por anno, como contri- 
buição de alicerces e repositório de materiaes p'r"á His- 
toria dos movimentos dramáticos — ramo e factor da 
Historia do pensamento, dos costumes e da civilisação 
atravez dos tempos e das raças : dize-me a que theatro 
vaes, digo-te as manhas que tens. 

P'ra iniciar essa serie de volumes que — ahi por volta 
do Natal — virão, todos os annos, a dar contas detalha- 
das e minuciosas do que foi a época theatral, dia a dia, 
peça por peça, de theatro em theatro, aproveitou -se, 
como balisa e ponto de partida, o trabalho já feito em 
chronicas e folhetins do Mundo ^ que, reproduzidas tal 
qual appareceram, apenas orthographadas em portuguez 
corrente e desbastadas das gralhas e transposições que, 



XIV 



as mais das vezes, as tornavam illegiveis, se perdem o 
interesse da novidade c do inédito, conservam toda a 
selvageria e bruteza dos impressionismos de momento 
e representam, na sua genuidade e na sua flagrância, 
um modo de ver, que, embora não seja o de toda a 
gente, foi, em dado momento, o d'um espectador ba- 
tido nos ii^ucs da ribalta, curtido nas sensações do pros- 
cénio, conhecendo de gingeira o que nos vae por casa 
e pela rama o que lá vae por fora e que, mercê das 
condições em que escreve, sem bilhetes de favor e sem 
cartas de namoro, sem requerimentos de peças e sem 
amantes no Fado, pode interpretar — e julga que inter- 
preta, honrada e limpa, escripta e escarrada, a opinião 
expontânea de muita gente boa. 

O que tudo concorre para este livro não ser — como 
não é — um volume de critica, mas, pura e simples- 
mente, o inicio de um depoimento pessoal sobre o thea- 
tro e os artistas, sobre as peças theatraes é os aucíores 
dramáticos doesta nossa bemdita terra de sol e mosca, 
de talentos e compadres. 

Depoimento singularmente valorisado, na verdade, 
com o retrato dos criminosos, suas effigies e caretas, 
visto que, por banda dos maiores artistas da nossa terra 
e lá de fora, tanto o auctor como o editor encontraram 
sempre a mais penhorante e bizarra galhardia — ou. na 
execução sempre brilhante e feliz, sempre alegre e exa- 
cta da sua collaboração, ou, na cedência, amável e at- 
tenciosa, delicada e gentilissima, das suas obras, p"ra 
n'ellas se respigar, farta e largamente, como em roupa 
de francezes . . . 

O que a todos rendidamente se agradece, no agra- 
decimento sincero e vibrante ao Maior de Todos — o 
insigne e excelso Mestre da Caricatura, Raphael Bor- 



XV 



dallo Pinheiro — que, discordando do texto e repellindo 
toda a solidariedade que da sua collaboração artistica 
podesse advir, foi o mais generoso e fecundo, o mais 
cavalheiros© e faiscante dos cooperadores. 



Dezembro de 1Q04. 



19 MARÇO. 

Meu rapa^: Macambúzio, tristonho, pés no fogo vivo da bra- 
seira e o espirito no azul brumoso da phantasia, queixas-te do 
comprimento polar das noites da Guarda, a que o isochronismo do 
voltarete no Club e o ramerrão da má lingua no Grémio põem 
a nótula charra da sua monotonia, desesperante e esmagadora, 
que não sabe a gente que te conheceu, álacre e expansivo, capa 
ao hombro e alma nas nuvens, como ainda não epilogaste na 
manga d'alpaca ou na estola do prior, sabido que o casamento 
e a burocracia são, pr'ós da nossa geração de videiros e arrangis- 
ta', a formula pratica de dar cabo do canastro. . . porque lá dizia 
o outro, num apego philosophico de quem faz pela vida, que é 
do homem e não da besta a bestialidade do suicídio. 

Queixas-te e reclamas, á guisa de confortativo e de prophylaxia, 
no teu velho sestro de farandular pelas ribalderias do palco, que, 
ao menos, te diga eu, apagador dos teus enthusiasmos, numa ex- 
pansão de má lingua e de verdade, como e porque se diverte a 
gente que, em Lisb 3a, vae ao theatro a escagarrinhar-se de goso 
ante tanta Arte e tanto talento, pois, no teu bom senso de gato 
escaldado, estás em desconfiar que, ou a gente se não escagar- 
rinha tal, como asseveram as folhas, ou, então, sabidas as contas, 
o escagarrinhamento do publico, a existir, é vesânia pathologica 
em que entra por banda do publico asthenia de miolo e por parte 
das folhas plethora de borlas. 

Que tu, no teu lendário bom-senso, atanado e sceptico, já não 
engoles que, como tuberas em estrumeira, o talento brote e mais 
a Arte, em niagaras de prodígios, tão de gingeira nós conhece- 
mos os prodigiosos estuporinhos e mostrengos que na scena e na 
dramaturgia contemporâneas constituíram o trust de fazer vibrar 



Impressões de Theatro — Theatro Contemporâneo 



a corda da lagrima ou a tecla do riso, segundo os figurinos do 
Dumas ou do Ibsen, armando todo o fiel dramigero em Shakspeare 
de via estreita, maquilhando se, os jámevistes, em coquelinos e 
bargyses de capeliista, serigaitando, as madamas, em bartetes e 
sarahs-bernardas de porta pr'á escada. 

Não engoles e tens razão. . . 

Ouve. O theatro português, — que embora os da Academia nos- 
venham com ancestralismos do Gil Vicente — nunca teve origina- 
lidade nem independência, vivendo á gagosa, ora do theatro hes- 
panhol, ora do theatro italiano, ora do theatro francêz, e, chou- 
tando, lazaro, trás d'elles, em imitações frustes e decalques insul- 
sos, veio arrastando a sua farraparia ao sabor das modas da 
Extranja, deu-nos, por junto — elles que mostrem o resto — no- 
período romântico do Garrett o Frei Luiz, genial canastrão, qued- 
em qualquer litteratura, poderia ser specimen de género p'ra 
exercicios didaticos do lyceu, ou amostra de época p'ra etalage 
de mostruário dum caixeiro viajante, mas que, como attestado 
de vitalidade ou argumento de tradição, único e exclusivo, dum 
theatro nacional, é tão miseravelmente pouco, que trescalaaem- 
baldeia de sábios ou a fifia patriótica dos trombones da i.° de 
Dezembro. 

E não tendo, claro, na dramaturgia nacional mais que o Frei 
Lui^ — porque as esquirolas do Oliveira das magicas e os giripitis 
dialogados do Mendes Leal, do Biester e do Chagas não entram 
no balanço senão pela porta dos envergonhados da espelunca 
bibliographica do Innocencio, — é manifesto que não será a Severa 
ou o Badalo, nem o Duque de Vizeu ou o Brapleiro Pancracio,. 
que, de gangão e em nossos dias, nos hão de criar toda uma vasta 
litteratura theatral, com mestres auctores e peças typos, em que, 
por desforra de quatro séculos de palmansos, as outras litteraturas 
venham ao nosso bebedouro e ao nosso alpiste, muito embora só 
nos deixem a paga na moeda cadente do arvoredo da Avenida. 

Nestes termos, vivendo dos outros, por via de traducções em 
vasconço e oríginais em bundo, como os outros sentimos a abra- 
cadabrante insânia de pornographismo em que se estanca todas 
as noites o boulevard francez, que, afora as tentativas revoluciona- 
rias, duma technica insegura e duma rudeza crua de intenções, do 
Theatro Livre, se reduz a explorar ora em sedas de duquezas ora 
em piolhos de maltrapidos,o velhoihema, relho e desavergonhado» 
<io adultério em que as croias se auriolisam de madonas dês que^ 



Impressões de Theatro — Theatro Contemporâneo 



mandando o marido pr'ó leito d'uma amiga de collegio ou pVás 
patuscadas do amor a preço fixo, não fazem contas de repartir 
entre o marido e o amante a não ser no capitulo orçamentologico 
em que, por equilibrio, os chifres vão p'ra um e vão p'r'o outro 
as caricias. . . ficando indecisas e por pagar, entre os dois, as coa- 
tas da modista. 

De cem peças modernas, em noventa e nove e meia o nervo é 
este, e, embora a acção e o processo admitam todas as variantes 
que vão da farça chula ao drama se- 
rio, do calão vermelho dos rufiões á 
estopada bom tom do classicismo, já 
uma pessoa sabe, de antemão e sem 
consultar expositores, que não topará 
em scena uma situação que honesta- 
mente possa desejar em casa, ou, que 
no desfilar dos personagens, não lo- 
brigará algum a que, ao esbarrar na 
rua, não sentisse comichões de correr 
a ponta-pé. 

Uma relaxação, como diria a tia 
Patrocinio das Neves se quizeres, mas 
uma relaxação, que, dando dinheiro 
a auctores e empresários, — pela mes- 
ma razão therapeutica porque enri- 
quecem os boticários que exploram, 
em pastilhas e elixires, as cántharidas, 
— não chega, comtudo, a desmorali- 
zar, porque, sabidas as contas, a Moral 
quando vai ao theatro disfarça-se em 
tronga e ha quem a tenha visto sair, 
lépida, do Priola do Le Bargy p'ra ir ás ostras e aos mariscos, em 
gabinete reservado . . . 

Serio. Não desmoraliza o theatro, crê. Pôde augmentar a clien- 
tela ás casas suspeitas, augmenta, certo, em dias de peça nova, a 
procreação da espécie na rua dos Fanqueiros, mas era pensar 
muito mal do madamismo contemporâneo o querer sustentar que 
as mais escorreitas, as que não têem taras e têem princípios, que 
são honestas e querem se Io, possam escorregar e fazer galos na 
cabeça dos maridos, única e simplesmente, porque viram no 
palco as ligas da Angela Pinto, ou porque o Mareei Prèvost tem 




Le Bargy 
Caricatura de J. Abeilié 



Impressões de Theatro — Theatro Contemporâneo 



algum talento mesmo quando adrega ser traduzido pelo Mello 
Barreto. 



Ora, estando reduzido a misero frasco de Elixir Godineau o 
theatro do nosso tempo e não sendo licito, já agora, esperar que, 
dum dia p'r'ó outro, o boulevardismo francês recolha a lingua e 
se abotoe por mera complacência com as tesouras rombas do 
D. Anna, e não sendo, tão pouco, crivei, que o methodo Berlitz 
faça progressos tais, que os nossos homens de lettras se habilitem 
a ir forragear, além de Paris, o stock de ideias e de principios que, 

p'ra mangar com a tropa, o sr. Con- 
siglieri jura ter descoberto nas htte- 
raturas do norte, o theatro portu- 
guês ha-de continuar a ser, mais do 
que uma manifestação d'Arte, um 
producto pharmaceutico, — como a 
agua de Lourdes ou o depurativo 
Dias Amado— feito da pascacice do 
publico e do reclame dos jornais, 
impetrando de parte da critica, nan- 
ja adjectivos ou admoestações, mas, 
o que é mais pratico, a troça, a 
blague, a chalaça e o ridiculo com 
que, dês que o mundo é mundo, o 
espirito humano e a intelligenciado 
Homem se tem vingado e tem posto 
cobro ao charlatanismo da Besta 
que empalma e desnorteia as Mul- 
tidões. 

E só por troça, por blague, por 
chalaça, neste derrancado fim duma 
nacionalidade em que homens e in- 
stituições, artes e lettras liquidam, 
num arremedo fruste de baixo im- 
pério, cantado pelo Magalhães Li- 
ma, se pôde falar, a serio, do nosso theatro, das nossas ins- 
tituições, da nossa arte ou das nossas lettras quando o nosso 
theatro é ali o sr. Dantas desempenhado pelo Christiano, as nossas 
instituições se centralizam na Parreirinha do sr. juiz Veiga, a 




Henrique de Vasconckllos 
Caricatura de Francisco Teixeira 



Impressões de Theatro — Ferreira da Silva 5 

nossa Arte verte aguas pelos chafarizes do Queiroz Ribeiro, e^ 
nas lettras, apadrinhando, como compadre, e promovendo, como 
Ministério Publico, essa recua toda, oscarmayrdelisa, pontifical e 
de tanga, o Preto das Novidades, cheio de catinga e de symbolo. 

* 

Mas tu queres noticias, estando-te nas tintas pVa theorias e 
generalidades. 

Resigna-te, por hoje, e, como prologo á resenha do que foi a 
festa do Ferreira da Silva, com versos de Maupassant traduzidos 
pelo Maver Garção — o maior e mais honrado poeta da gente 
nova — ensandwichados nesse empolgante Âo Telephoie, — que dá 
bem p'ra um folhetim, — e em retalhos da Aventureira e do Ava- 
rento, que mesmo em farrapos dão um manto de gloria p'r'o ar 
tista que os interpretou, deixa-me que diga, de fugida e sobre o 
joelho, do Ferreira, que tu conheceste estudante, e que dês estu- 
dante eu tenho por amigo o que, ao começar a fallar de theatro, 
é de curial justiça se notule sobre a individualidade primacial dos 
actores portuguezes. 

Sem estridules berrantismos de cartaz, sem estralejantes py- 
rotechnias de adjectivação nas folhas. Ferreira da Silva conseguiu 
ser, num país pequeno em que todas as grandezas são minúscu- 
las e num meio em que todas as individualidades se abastar- 
dam e se perdem na copia servil dos figurinos, uma individualida- 
de inconfundivel, personalíssima e um grande temperamento de 
comediante. 

Na Arte, como na Realeza, já não ha direitos divinos ; a velha 
theoria fatalista, commoda e boa pessoa, de que nasce rei ou de 
que nasce actor, acorrentando ao throno ou á ribalta, de nascen- 
ça e com lista civil perpetua ou rábulas por toda a vida, o bam- 
bino parido num camarim de cómica ou num paço de reis, vai 
caindo em desuso dês que que, por um triz, no 3i de Janeiro o 
Verdial esteve p'ra ascender ás alturas do Executivo e o próprio 
Moderador, por um ápice, não degringolou das explorações ocea- 
hographicas aos ócios burgueses da pesca á linha. 

Já se não nasce actor: os actores fazem se e fazem-se exacta- 
mente pelo mesmo processo de estudo, de trabalho, de intelligen- 
cia, de tenacidade, de coragem e de honestidade, que tem de em- 
pregar, em esforços titânicos, a multidão p'ra se desfazer dos reis. 

Exemplo frisante e comprovativo este do Ferreira da Silva 
que nasceu rico, teve bibes lavados, regalos caseiros e soldados 



Impressões de Theatro — Ferreira da Silva 



de chumbo na meninice, que nos melhores annos da mocidade 
gandaiou por Coimbra, com mezada farta e capa ao hombro, por 
entre lentes e tricanas, á cata do bacharelato inherente a todo 
o filho-familia e que, um dia, numa terra em que, na maioria dos 
casos da vida, o fazer-se actor é, p'ra vadios e moinantes, o epi- 
logo dum caso de policia, á força de estudo, de trabalho, de in- 
telligencia, de tenacidade, de coragem e de honestidade, rom- 
pendo com preconceitos e com tradições, atirando ás urtigas o 
seu passado de herdeiro rico e mandando bugiar o seu futuro de 

bacharel soma, se fez actor. 
Cabeçada de estouvado, 
verduras de rapaz, arrebata- 
mento peninsular? 

Lerias . . . Ferreira da Silva 
nunca — nem mesmo ao trocar 
Coimbra por D. Maria — avan- 
çou o pé direito estouvada- 
mente e sem inquirir do pé es- 
querdo os prós e os contras 
dessa distensão ambulatória de 
músculos. Nunca — nem ao 
abandonar a sebenta do Souto 
pelas marcações do Augusto, 
— se deixou ir levado pela ver- 
dura do seu sangue de rapaz 
sem maduramente delinear to- 
das as etapas do caminho, sem 
algebricamente — ou não ti- 
vesse elle estudado as sciencias exactas — ter pesado, medido e 
reduzido a números todos os obstáculos do itenerario. Nunca — 
nem ao separar se dos Rosas em dissidente, nem ao rejeitar peci- 
nhas aos dramigeros nacionaes, a quando da gerência — nunca 
um arrebatamento quente de peninsular lhe fez soltar uma praga, 
tomar uma deliberação ou armar um manguito^, sem que, serena- 
mente, methodicamente, detalhasse no espelho todo o valor e toda 




Ferreira da Silva 
Caricatura de José Leite 



' Cito expositores, não vão chamar-me nomes feios : 

í^ Manguito — ^' um gesto anguloso, que exprime mudamente todos os desdéns e 
ironias figuradas da rhetorica, não se acha assignalado como indecente nos com- 
pêndios da civilidade, mas ainda não está bastante usado em desavenças de deputa- 



Impressões de Theatro — Ferreira da Silva 7 

a intensidade que na scenica havia a tirar, como effeito, desse irre- 
primi\el estuamento do sangue ancestral de Tartarin, que todos 
nós meridionaes temos nas veias. 

Friamente fez se actor porque, friamente, intelligentemente, 
honradamente, ensimesmando-se, reconheceu que podia e devia 
5er um grande actor. 

Luctou, estudou, trabalhou, refletiu e venceu. 

Nos primeiros tempos, tendo começado a synthetisar p'ro pu- 
blico, uma esperança, foi-lhe difficil avançar, porque synthetisava 
p'r'ós coUegas — cabotinos consagrados a cuspo, estatuados no 
bronze do reclame com pés de barro e cabeças de burro, — mais 
do que uma rivalidade latente, uma expiação implacável. 

Elles, que estavam na vanguarda, velhos, bafientos e cansa- 
dos, em vez de abrirem alas ao novo, fresco e vigoroso, na 
certeza de que o futuro delle lhes faria respeitável o se ^passado, 
cerraram fileiras e, como nas touradas de fidalgos, em que der- 
rancados mocinhos do Turf^ defendem a casa da guarda em- 
quanto não abre o touril e se esforricam em cagaços á pr^eira 
investida do bicho, o publico assistia cá da platéa ao mirabolante 
espectáculo que, durante annos, se desenrolou nos bastidores : 
épocas a fio sem um papel, de longe em longe uma rábula e 
sempre que não havia maneira de lh'a palmar, a rábula crescia 
tanto, ia tão alto e em voos tão largos pelo azul da Arte e da 
Phantasia, ou tão subtil e maneirinha pelas asperezas da Realidade 
e da Observação, que os grandes papeis desappareciam, os consa- 
grados eclipsavam-se, e, congestionados, febris, cheios de pavor 
e de espanto, viam erguer-se nas saudações do publico, o astro 
novo, rutilo e imponente, chave dum systhema planetário de que 
3. vaidade e os galões os inhibia de serem satélites. 

Foi nesses tempos que, detalhando todo o reportório das tour- 
nées do Novelli, do Antoine e principalmente desse grande e in- 
fortunado Emanuel, observando-lhe os traços largos de exterio- 
risação e as nuances minúsculas do jogo scenico, vendo-os e 
admirando-os sem uma bajulação, sem uma inveja, escalpellisan- 
do-os fibra a fibra, como já fizera, inda estudante e depois, logo no 



dos nas sallas das sessões onde se fazem as leis e os manguitos para a nação,— usa-se, 
todavia, nas aldeias como expressão de solercia e fina velhacaria.» 

E' de Camillo, nos Tsjtrcoticos, 2° vol. pag. i5o e, como se vê, muito anterior 
ão ingresso do Tinalhas no seio da representação nacional. 



8 



Impressões de Theatro — Ferreira da Silva 



começo da carreira, ao António Pedro tão grande ou maior do que 
qualquer delles na intuição e nos recursos — Ferreira da Silva 
fez-se um grande actor na primeira fila dos espectadores do 
D. Amélia, melhor e mais depressa do que se teria feito, se o dei- 
xassem, então, brilhar na primeira plana dos actores de D. Maria- 

Té 'li Ferreira da Silva era p'r'ó publico uma esperança que 
o Cardeal D. Henrique, o velho do Pântano e mais duas ou três 
rábulas garantiam não viria a transformar-se no fumo das des- 
illusÕes, na terra, cinza e pó dos 
esperançosos jovens que todos os 
dias liquidam em nada 

D'ahi por diante, completada 
com taes mestres a sua aprendi- 
zagem, senhor dos trucs e segre- 
dos do metièr^ conhecendo, dos 
livros, todo o movimento theatral 
antigo e moderno, lendo Shaks- 
peare no original, rebus- 
cando nos alfarrabistas 
o passado da Arte, indo 
ás litteraturas do norte 
prescutar-lhes o futuro, vivendo no theatro 
e p'ró theatro, com uma intelligencia lúcida 
e uma illustração variada, Ferreira da Silva, 
tem avançado sempre, sereno e progressivo, 
honesto e incansável, marcando fundo e rijo 
o seu sulco personalíssimo e inconfundível 
no campo safaro do theatro português, onde 
António Pedro, com a inconsciência rude 
d'um laponio e os calhanços maravilhosos 
dum génio, empunhou a rabiça do arado e 
onde o sr. Alberto Pimentel — commissario régio que Deus guarde 
— de chinelos, regador e tesoura de podar, tresua p'ra fazer ger- 
minar, em florescencias de mangerico, cabeças d'alho porro e se- 
ment 2 de abóbora menina. 




Alberto Pimentel 

Caricatura de M. Gustavo 

Bordallo Pinheiro 



II 



iO ABRIL. 



Meu rcipa^: Em esturrado patriota de 90, com morras á Ingla- 
terra a estrugirem-te ainda nas guelas, não vieste japonizar Lisboa, 
a quando das festas e fizeste bem. 

Como espectáculo, o primeiro acto da drama, // de janeiro, 
com patriotas a fugirem da policia, a Maria Gachucha mascarada 
de Portuguesa, taboletas arrancadas ou cobertas de trampa, morras 
estridentes, re- 
thoricas inflama- 
das, espingardea- 
mentos do Marti- 
nho e a greve da 
torrada nacional 
á manteiga britâ- 
nica, sua ííel allia- 
da, teve mais 
emotividade trá- 
gica, maior inten- 
sidade dramática 
do que este ulti- 
mo acto, A Posse, 
desfecho reles da 
indignação d 'um 
povo faminto e 
aperreado , que 
desanda a ver lu- 
minárias na Outra 

Banda, valverdes 

, . Eduardo mi 

e blChmhas de ra - Caricatura de Jean Veher 




IO Impressões de Theatro — Virg^inia 



biar no Aterro, acotovelando-se, estarrecido de pasmo e de goso 
ante as bambinelas pelintras do Terreiro do Paço, e cujo ideal 
seria, afinal de contas, depois de jantar de borla na Cosinha 
Económica, que Sua Graciosa Magestade, num capricho generoso 
de principe bom-rapaz, tendo da outra vez levado um burro, nos 
levasse a todos pr'os seus estados, que isto de ser colono é bom 
p'ra pretos e a Inglaterra vista de dentro, por um cidadão da 
•City, é um grande paiz. 

Fizeste bem. No próprio desempenho da farça, primeiros figu- 
rantes e comparsaria estiveram desafinadotes, deslocados nos pa- 
peis e incertos na marcação : o povo berrou mais a tempo os mor- 
ras do i." acto do que os vivas do epilogo ; Navarro — o caracte- 
rístico — que arrancara palmas no To not forget^ maçou a plateia 
^om o Goisave the King e o próprio sr. Casimiro Valente, como 
Espirito Santo de orelha da Vanguarda a soprar o fogo da indi- 
gnação jacobina, em 90, era mais pittoresco do que ao empochar, 
-agora, uma continha calada pelo fogo congratulatorio dum miser. 
rimo arraial saloio. 

Fizeste bem. Simplesmente se tivesses vindo, socegados e tran- 
quilos, deante dum bock e na doce e suave intimidade dos nossos 
.cavacos intermináveis e saudosos, melhor do que na aridez fria des- 
tes quartos de papel, e emquanto Lisboa regalada de festas, sem 
olhos pVa ver e sem ouvidos p'ra ouvir, se enebriasse no extasi 
úo apalpão, eu teria satisfeito a tua curiosidade recontando-te 
toda a historia mysteriosa dessa preciosíssima Historia Antiga^(\\xt 
foi o numero sensacional do beneficio do Ferreira df Silva — de 
que prometti falar-te — e que foi, durante as festas, nas suas qua- 
tro recitas consecutivas, a nota brilhante, a nota artística e a ver- 
dadeira nota patriótica, porque, uma nacionalidade que, ao liqui- 
dar em lama, ainda atira as bochechas dos seus oppressores com a 
luminosa scentelha de génio que irradia da trindade espiritual 
duma actriz como a Virginia, dum poeta como o Mayer Garção e 
dum actor como o Ferreira da Silva, pode ser uma nacionalidade 
niorta nas encruzilhadas da diplomacia, mas é, indubitavelmente, 
uma nacionalidade que, ao morrer, acende um novo e fulgido as- 
tro no firmamento claro e infinito da grande Arte, da Arte pura, 
da Arte immorredoira. 

A Virginia, como sabes, está velha, cançada e doente. A quando 
nova, vigorosa e forte, ella encarnou, na sua silhueta apagada e 
triste de burguesita, na sua physionomia insinuante e boa-de more- 




Virgínia — Caricatura de Arnaldo Ressano 



Impressões de Theatro — Virgínia 



na, no olhar languido e soffredor de resignada e na candura an- 
gélica da sua voz feita do azul magnificente do nosso ceu e do senti- 
mento caloroso dos nossos corações lusitanos, tudo o que de femi- 
nil e casto, aflfectuoso e simples, soffredor e intelligente tem a mu- 
lher portuguesa, casta e feminil, simples e affectuosa, intelligente e 
soffredora entre todas as mulheres. 

Na litteratura nacional, como syntheses fulgurantes da mulher 
portuguesa, ha, no desabrochar da vida, cheia de enthusiasmos e 
de curiosidades, a alma feita das illusões da mocidade e o espirito 
a esvoaçar pVás incertezas do futuro, essa figureta rendilhada e 
terna da Maria do Frei Lui{. E, na posse plena da vida e da força, 
batida já pelas primeiras borrascas do desengano, o coração já 
desflorado pela amargura e pelo amor, no Frei ímí^ também. Dona 
Magdalena é a estatua maravilhosa e grande, aberta pelo cinzel 
^o génio, no mármore branco e immaculado em que, no sacrário 
de nossas almas, nós esculpimos as imagens queridas das nossas 
esposas e das nossas mães. 

Virginia — di-lo a tradição de ha 3o annos — nova, ingénua, 
quasi infantil foi a Maria ideal dos nossos sonhos, a Maria criada 
pela imaginação romântica de Garrett. E que extraordinária e in- 
comparável, que verdadeira e real D. Magdalena ella foi, ha pou- 
cos annos, na posse plena da vida e da força, da saúde e do ta- 
lento, sabel-o tu, sabemol-o todos a quem ella arrancou as mais 
doces e consoladoras lagrimas que no theatro teem chorado os 
nossos olhos resequidos. 

Nova, foi Maria, foi a cândida rapariga lusitana ; mulher toi 
D. Magda'ena^ a mãe e a esposa da nossa raça ; velhinha, cançada, 
doente, que admira que ella fosse, nestes dias de fúnebres festas, 
de lutuosos regosijos, a pátria velhinha, cançada e doente, revi- 
vendo, numa historia antiga de ingénuos e castos amores, toda a 
historia antiga das suas glorias e das suas expoliações? 

Nunca a sua voz teve mais pungentes modulações, ao reme- 
morar o passado, nunca a tristeza e a saudade deram ao brilho 
gasto dos seus olhos a languidez melancólica de tão cristalinos 
prantos e nunca eu senti tão nítida, tão manifesta, a justiça com 
que a critica mundial, depois de ouvir a Bartet, como eu a ouvi 
na Nuit d'octobre, lhe cola á voz o adjectivo Divina, porque nunca 
a voz humana me fez curvar deante da Divindade como depois 
de ouvir a Virginia dizer com toda a emoção da sua alma vibratil 
ce artista os versos sonoros e tersos, melodiosos e vibrantes em 



Impressões de Theatro — Historia Antiga 



que Mayer Garção traduziu a Histoire du vieux tcmps de Mau- 
passant. 

Já conheces, do folheto limpamente editado por Gomes de 
Carvalho, a traducção do Mayer. Elle mora cá por cima, no \.° 
andar do Mundo, é vizinho, quasi dono da casa e quasi á sua re- 
nitente teimosia, mais que á amizade provada do França eu devo a 
bizai ra hospitalidade que no rez do chão me dispensam. Abre o teu 

exemplar da Historia Ayitiga. Co- 
teja-o, se quizeres, com o original 
francês, rima a rima, verso a verso. 
Compara-o com a obra de to- 
dos os poetas, poetastros e poeti- 
nhas dos teus conhecimentos e, se 
entre a turba de génios, talentos e 
habilidosos que no Parnaso con- 
temporâneo despejam catadupas de 
versos, versiculos e versinhos so- 
bre as nossas cabeças indefesas — 
por aquella sabida razão de que to- 
do o bom português, t9m no mtes- 
tino um volume de versos que ou 
ha de sair pela via natural, numa 
dejecção, ou por via da imprensa, 
num oitavo brochado — compara-o, 
repito-o, com elles todos, grandes 
e pequenos, e diz-me depois, se ti- 
rante Junqueiro, mestre e pontífice 
de todos, tu conheces quem pu- 
desse levar a maleabilidade do verso 
português, a sua plástica e a sua es- 
tructura ao ponto atingido pela po- 
derosíssima envergadura litteraria 
de Garção que honrada e conscien- 
ciosamente, deu á litteratura portu- 
guesa uma pequena obra prima respeitando, com religioso dis- 
velo, todos os primores e todas as subtilidades da preciosissima 
jóia que é, no original, uma pequena obra prima da litteratura 
francesa. Tu o dirás. Eu não o digo, que avesso ao ritualismo do 
Elogio-Mutuo — religião do Estado — incipiente em lyturgias de 
Egrejinhas liiterarias em que não sou cura, nem devoto, nem 




Maver GarcÁo 
Caricatura de José Leite 



Impressões de Theatro — Historia Antiga 



simples menino de coro, quero peccar por exagerado, por exces- 
sivo, ao falar de um inditferente ou d'um desconhecido, mas não 
quero ficar áquem da justiça ao dizer todo o bem que me sugere^ 
como agora, a obra impecável dum poeta que, se eu adoro como 
poeta, respeito como companheiro e estimo como amigo. 

E o Ferreira da Silva, perguntas ? 

A difficuldade é quasi a mesma, mas esse tem a sua reputação 
feita, consolidada pelo applauso constante de todo um publico que 
o admira e não são, positivamente, três adjectivos, numa carta 
intima, que darão um florão novo á sua coroa de artista. 

Mas vá lá : Ferreira da Silva disse os versos do Mayer como 
elles deviam e mereciam ser ditos. Representou-os com a Virgi- 
nia e a sala confundiu ambos no mesmo applauso. 

Que mais queres ? 

* 

Ah sim ? 

!? 

Enganas-te. Nunca ninguém disse que a pequena obra prima 
aesse granae e desgraçado Maupassant — fadado por Flaubert 

p'r'á realeza das lettras em Fran- 
ça e liquidado por uma hyper- 
excitação de nervos numa casa 
de doidos — tenha sido plagiada 
na Ceia dos Car deães, tantas 
vezes servida, já, por lista e em 
travesti, no D. Amélia, que não 
sabe a gente o que fazem os 
bons-homens Ricardos da Saú- 
de Publica, que ainda não rele- 
garam ao barril do lixo aquelle 
faisão e aquellas trufas. 

Não. Nunca ninguém disse 
que só por mera solidariedade 
entre génios a carcassa do con- 
tista da Boule de suif deixou de 
ser arrastada ás misérias duma 
correcional pelo sr. Dantas a 
responde^ pela posthuraa sur- 
RicARDo Jorge ropiadela duma braçada de ale- 

Caricatura de Celso Hermínio Xandrinos. 




Impressões de Theatro — Historia Antiga 1 5 

E' da sabedoria das nações a fraternidade reinante entre os 
grandes espirites litteratantes, mas, se o sr. Dantas a um collega 
vivo, sem sacrifício de maior, era capaz de perdoar, — como já 
perdoara a Richepin o ter-lhe roubado o Caminheiro, — a um de- 
funto, em bom estado de putrefacção, sabido que dentro da alma 
do auctor de Paço de Veiros ha toda uma agencia de serviços fú- 
nebres com carros de columnas, seges, brandões, coroas votivas e 
gatos pingados ; sabido que sua senhoria foi gerado ao som ge- 
mebundo dum realejo a carpir a Noivado no sepulchro ; que era de 
pennas de coruja o berço, em forma de ataúde, em que foi emba- 
lado ; que menino e moço, ciprestalico e lúgubre, deambulava 
pelos cemitérios em cata dos vermes da vala-commum e que de- 
pois de homemzinho, já ao apontar-)he o buço e a dramaturreia, 
na idade em que todos nós nos despucelamos e escrevemos a 
primeira carta de namoro, teve coito com o Nada e escreveu em 
plangentes crepes o necrológio d' O que morreu d' amor ; todos 
nós que sabemos ser o ideal do sr. Dantas escrever o libreto da 
grande magica que, de acordo com Souza Bastos e musica do 
Miserere^ Deus Padre ha de pôr em scena no dia de juizo no Valle 
de Josaphat ; todos nós que sabemos que sua senhoria escreve, 
propositadamente, sem talento e desconchavadas as suas peças 
pelo tétrico prazer de as vêr ir de caixão á cova, — todos nós 
que o conhecemos — temos de concordar que nunca um defunto 
se escamugiria das mãos implacáveis do sr. Dantas e que a ter 
esmifrado Maupassant a Histoiore du vieux temps na Ceia dos 
Cardeaes não haveria misericórdia nem solidariedade entre gé- 
nios que o livrasse de vir, amortalhado e carcomido, do canto flo- 
rido do Père-Lachaise em que apodrece, a responder ali no mo- 
cho da Boa Hora como refece ladrão dos versos celebres : 

Resurgir dentro d'alma uma idade passada 
Como uma capella d'ouro ha cem annos fechada. 
Onde náo vai ninguém mas onde ha festa ainda. 

Não. Nunca ninguém accusou de plagiário do sr. Dantas o di- 
vino contista que representando, na escola zolaista de Mèdan, a 
suma perfectibilidade plástica da prosa francesa, talvez por não co- 
nhecer a nossa lingua, talvez por mórbida honestidade, não veio 
florir a sua coroa de poeta com os goivos e martyrios, saudades 
e perpetuas roxas que, por entre cyprestes de tédio dão ao 



1 6 Impressões de Theatro — Ceia dos C ar deães 

quintalorio litterario do auctor do Crucificados^ o aspecto soturno 
e triste dum talhão sombrio de Campo Santo. 

Não. Nem Maupassant plagiou a Ceia dos Cardiaes na Histoire 
de vieux temps nem Dantas foi plagiar a Histoire du vieux temps 
na Ceia dos Cardiaes. 

E' a phobia de profissão Como advogado, estavas a phantasiar 
que, no campo das lettras,como num campo de feira, um cigano che- 
gara com o seu burrico. Passeado, luzido o animal por entre o po- 
viléu, depois de declamadas suas manhas — relegado porfrancaceo 
das recuas da maioria, — a sua ascendência illustre — com primos 
e bastardias entre a velha-rocha do reino — e a sua intelligencia 
preclara — a indigital-o em mamão pVa lente da Universidade, — 
discutido e regateado o preço, o cigano impinge o burro, cobra a 
massa e põe-se ao fresco. Alegre com a compra, bifurca-se o ma- 
loio na alimária e antes mesmo de sair da feira salta-lhe á frente 
o cabo de policia : vá de prantar p'ra ali o burro furtado na vés- 
pera ao queixoso presente, que por seu o reconhece e dá teste- 
munhas. 

No campo das lettras, como num campo de feira, tu soppunhas 
o caso da Ceia assim passado e na tua phantasia arguta de quem 
vê em cada litterato um pilho, e um burro, pelo menos, em cada 
personagem — o que é o phenomeno inverso da diplopia, dada a 
cooperação do auctor com os interpretes — imaginavas o sr. Dan- 
tas em troquilha, na pele do burro os três cardiaes e com a braça- 
deira de cabo o Mayer Garção, fazendo desmontar o S. Luiz de 
Braga, a requerimento de Maupassant, queixoso ausente em par- 
te incerta do Purgatório, mas que dava por testemunhas todos 
que o tinham lido. . . 

E podia ter sido assim, podia, entre a gente bisonha e simples, 
ingénua e rude da tua Beira. Mas não foi. 

Eu conto a historia do teu engano ; o que ha de realidade na 
tua phantasia. 

Vai p'ra três annos — foi quando o Richepm palmou ao sr. 
Dantas o Caminheiro — Ferreira da Silva, seringado todos os dias 
pVa debitar, mai-la Virginia, versos commemorativos em recitas de 
caridade — atropelados do Instituto D. AíFonso, náufragos do 
Mar Negro do Rodo e tuberculizaJos pela Assistência Nacional 
dos médicos sem clmica — lembrou-se de encommendar ao sr. Dan- 
tas a versão da Histoire du vieux temps^ em campanudos versos 
portugueses, na certeza de que, ouvindo-se-lhe por caridade a tra- 



Impressões de Theatro — Ceia dos Cardeaes 



•7 



ducção, o original tinha belleza de sobra p'r'ó espectador se dar 
por forro e não vir gritar cá p'ra fora como de costume — que, 
em nome da caridade, lhe haviam entrado pelas algibeiras. 

O sr. Dantas fez a traducção, e como traducção, a entregou 
a quem ih'a encommendára. 

Não era bem o original, mas parecia-se, como, ao nascer, as 
crianças se parecem sempre com os que a Lei e a Santa Madre 
Egreja lhes destinam p'ra papás, embora a phvsiologia e as ma- 
mans hajam destinado coisa difFerente. 

Parecia-se: eram dois os personagens, um macho e outro fê- 
mea. Eram ambos velhos e ambos contavam velhas historias de 
amor. Elia tocava cravo, elle quasi fallava calão. Não era a mesma 
coisa, mas p'ra quem não conhecesse Mau- 
passant talvez fosse coisa melhor. 

Na duvida, honradamente, a traducção do 
sr. Dantas foi ficando na gaveta de Ferreira 
da Silva. 

Uma noite, annuncia-se no D. Amélia, 
entre rufos e charamelas, uma obra prima 
do sr. Dantas: era aCeia dos Cardeaes^ três 
monólogos, sem acção, sem côr, ligados en- 
tre si por um faisão com trufas, sedas ro- 
çagantes de príncipes da Egreja, acordes 
ligeiros num cravo antigo, baixelas ricas e 
versos delambidos. 

Discolos e zoilos, lividos zangãos, que 
não podem ver uma gravata ao pescoço de 
ninguém e esvurmam maus fígados pelos 
olhares ferozes ás camisas lavadas do pró- 
ximo, começaram de aventar que no Deca- 
meron do Bocacio — ou não sei onde — três 
perigrínos se juntavam, á sombra copada de 
uma arvore e vindo, velhos, cançados, de 
longes terras, p'ra chamarem ao gélido fno 
das suas brancas um raio do sol claro das 
suas primaveras, vá de se recontarem, uns 
aos outros, aventuras galantes da mocidade, 
historias risonhas e quentes de longinquos 
amores que a memoria irisa e o coração 
pranteia. 

2 




JuLio Dantas 

Caricatura de Raphael 

B. Pinheiro 



i8 Impressões de Theatro — Ceia dos Car deães 

Outros — conhecendo, como eu, só da Trindade, o Bocado — 
mais maneiriíihos e modestos, menos eruditos e mais velhacos, 
fallavam de miseras oleographias pataqueiras em que, pintalgados 
de rubro e de olho frascario, três cardeaes se debitam após a ceia, 
de tripa forra e espirito leve, sadismos crus de tarimba, luxurias 
bizarras de confissionario. 

De Maupassant e da Histoire du vieiíx íemps ninguém fallou, 
valha a verdade. 

E como ninguém fallasse, passou em julgado ser a Ceia dos 
Cardeaes^ obra apilarada e originalissima, espécie de hymno da 
Restauração do theatro nacional que De Vasconcellos — o negro 
— não comparou á Torre de Belém, jjor mestre Ramalho já ter 
comparado o Lopes de Vizeu ao mosteiro dos Jeronymos e estes 
similes littero-architetonicos terem o perigo, em tempos de irre- 
verência, de evocar a Torre do Bugio e a concomitante necessi- 
dade de os mandar bugiar. 

Passou em julgado, mas, neste comenos, planeia-se a consa- 
gração da actriz Virgínia, agraciada com o habito de S. Thiago. 

Dada a necessidade de a trazer á ribalta, doente e enfraqueci- 
da, a colher, na mais vibrante e na mais enthusiastica apotheose 
que em palcos portugueses se tem feito, a homenagem expontâ- 
nea, calorosa e sentida, de todo um publico que a idolatra como 
Artista e a venera como Mulher, tratou-se de escolher peça em 
que o seu trabalho fosse ligeiro e leve, sem grandes fadigas de 
enscenação, sem fundos estremeções de sensibilidade. 

A traducção do Dantas^ alvitrou alguém. 

Servia. Vá de começar os ensaios, meio a rir, meio a sério^ 
naquelle ninho tranquillo e edemnico de Bemfica, onde os raros 
que lá entram, numa fidalga hospitalidade de amigos, recebem 
como que um. banho crystalino de Paz absoluta, da Arte perfeita^ 
que faz do lar dos dois artistas o templo sacrosanto do talento e 
do amor. 

Num desses ensaios, como eu tivesse a pedra no sapato e al- 
guém tivesse a Ceia dos Cardeaes ah á mão, começamos a cote- 
jar a traducção inédita do sr. Dantas com o seu original publicado 
e applaudido . . . 

Era o mesmo cravo, o mesmo rythmo sorna, de vez em quando 
as mesmas imagens, a mesma enfiada de rimas. 

Quizemos, em segunda prova, confrontar o original do sr. Dan- 
tas com o original de Maupassant, e compará-los a ambos com a 



Impressões de Theatro — Ceia dos C ar deães 19 

sua traducção. Impossível. Em carta confidencial o sr. Dantas 
prohibira que se representasse a sua traducção e tornava confi- 
dencial também, ao que parece, essa traducção. 

A pedido dos iniciadores da festa. Ferreira da Silva insistiu pela 
representação do dialogo. Debalde. Alguns desses iniciadores pro- 
curaram o sr. Dantas. Debalde, também : ao contrario de Nosso- 
Senhor que está em toda a parte, o sr. Dantas não estava em 
parte alguma. Desistiu-se. A festa fez-se. O dialogo não se repre- 
sentou. 

Mayer Garção traduziu-o. Está conforme com o original : sá 
de longe e vagamente nos evoca a ideia fundamental da Ceia dos 
Caráeaes. 

A traducção do sr. Dantas confundia-se com a Ceia : não é 
como vês, a historia da feira em que um cigano furta um burro. 

Não. No campo das lettras, como n'um campo de feira, não ha 
burros furtados : ha, quando muito, burros que furtam. 



Post-Scriptum — Esta nota só : não sou amigo nem inimigo de 
Júlio Dantas. Não lhe admiro o talento porque ainda não lh'o en- 
contrei na sua obra, mas já me tenho irritado por ver formarem- 
se, entre a gente nova das lettias. Cooperativas de lambada em 
sua senhoria. 

Irritado, porque já passou a época das Arcádias e porque nes- 
sas cooperativas todos molham a sopa e ninguém se destaca como 
cozinheiro de maior mérito do que o revelado na cabidela d'^ Se- 
vera — acceitavel libretto d'uma opera cómica d'assumpto por- 
tuguês, com côr local, traços de caracter e pés de cantiga d'on- 
de um maestrino de íaisca talvez sacasse o inicio da operetta na- 
cional. 

Afora as facécias, faço uma accusação ; está ao alcance do sr. 
Dantas o provar-lhe a improcedência : é publicar, integral e sem 
alterações, a sua traducção da Histoire du vieux temps. 



III 



27 D ABRIL. 



Meu rapa^ : — Etiquetam-se de sérios dois theatros em Lis- 
boa : 

O Normal — afogado no papel sellado, portarias e regulamen 
tos da Jburocracia, mixto esdrúxulo de repartição publica, filial 
da Santa Casa e armazém de cortumes, 
onde as ruinas luminosas da Virginia, o 
talento progressivo do Ferreira e o traba- 
lho e aptidões de três ou quatro societá- 
rios — Angela, Maia e Cecilia na van- 
guarda dos novos — manteem a tradicçío 
honrada da casa e cobrem, em esfalfamen- 
tos de correcção e boa vontade, as defi- 
cienci:is e falhas do elenco, as pechas con- 
sabidas e vicios ingenitos das instituições 
do Estado ; e 

o D. Amélia — onde S. Luiz de Braga 
— o mais Barnum dos viscondes luso-bra- 
zileiros e o mais visconde dos Barnuns 
torna viagem — explora, em audácias artis- 
ticas de agradecer e palmejar e em mer- 
cantilismos industriaes a reclamarem as- 
sobio e tacão, tudo o que na ribalta possa 
dar dinheiro, dês da reputação mundial do 
Coquelin— que se estreia amanhã— e do génio hallucinante do Zac- 
coni e da Duse, té aos esgares e mystificações da Sada Yacco e ás 
piruetas e visualidades da Fiiller, ensandwichando, entre dois car- 
tazes de estrellas e estrellos de arribação, os luzicus nacionaes, 
Rosas & Brazão, intervalleiros que manteem a receita da caixa 




S. Luiz de Braga 
Caricatura da Parodia. 



Impressões de Theatro — Theatro de *Z). Amélia 2 1 

com as velhas farroupagens do reportório antigo do D. Maria e 
os últimos figurinos do theatro boulevardeiro, artigo-Paris p'ra 
exportação. 

Fechada hontem a temporada e mandados os cagalumes da 
casa áquella parte... da provincia p'ra onde S. Luiz os relegará, 
mais dia menos dia, em definitiva, armando por esse paiz fora 
succursaes da casa mãe a preços reduzidos, vá de em bloco 
retrospectivar o que foi e o que valeu, p'r'ás artes scenicas, esta 
época que, tendo começado com a Nelly Rosier correu com a 
Madame Flirt^ o Polichinello e a Torrente^ a gama toda do bou- 
levardismo, tropeçou ruidosamente nos originaes dos moços da 
vida litteraria portugueza, (Veiros^ Maior Castigo e chinezices do 
Penteado), tentou a sorte com confrontos de desempenho, (Aven- 
turas de Richelieu e reprise da Federa)^ estragou a Cabeça de es- 
topa e o Inquérito do reportório do Theatro Livre, e, tendo feito 
cócegas ao mazombismo lusitano com o espirito de Courteline 
(Commissario bom rapa^, Amigos como o Dantas) e com as care- 
tas do Valle no Pouca Sorte, nos deu, n'uma fulgida e ephemera 
refracção do theatro do norte, essas extranhas e emocionantes 
Fogueiras de S. João que foram p'r'á Arte a peça da época, o 
que não quer dizer fossem p'r'ó publico a peça de successo e de 
sensação. 

Trabalha-se muito, como vês, na Rua do Thesouro Velho. 
Nem sempre, só de longe em longe, se trabalha bem ; mas tra- 
balha-se, e isso, n'um paiz de mandraços e tataranhas em que a 
Santa Panria é padroeira do reino e o emprego publico o ideal 
de todos nós, seria o sufficiente p'ra fazer perdoar a S. Luiz de 
Braga e á sua gente, erros de officio, cabotinismos de vaidade, 
especulações de ganância, faltas de decoro profissional, ratoeiras 
de cartaz e todo o rol de roupas sujas que pVahi assoalham ini- 
migos e descontentes, sem se lembrarem ser o D. Amélia uma 
empreza mercantil, o S. Luiz de Braga uma edição elzevir do 
Santos do Colyseu e não constar, nas partes da poHcia, terem 
sido importados capoeiras que, á boquinha da noite, ponham as 
facas aos peitos dos transeuntes obrigando-os, sob pena de morte» 
a irem esportular-se na bilheteira. 

Trabalha-se, pois, e, como de banda do publico está o encher 
as casas ou deixal-as ás moscas, a mal se não pôde, em boa jus- 
tiça, levar que nem sempre se trabalhe bem : porque sendo o fito 
de emprezarios e comediantes fazer muito dinheiro por pouca 



Impressões de Theatro — Fogueiras de S. João 



arte e nanja o dar em droga por amor á arte, não pôde uma pes- 
soa medianamente rasoavel queixar-se d'elles, se, a seu talante e 
sem coacção, o publico dá poucas casas ao cartaz das Fogueiras 
e leva ao centenário a Lagartixa. 

De palmejar é, e de agradecer, pelo contrario, que uma vez 
na vida e por bizarra extravagância de Arte pela Arte, va- 
lendo-se dos elementos magníficos postos ao seu dispor pelo 
mais harmónico e variegado conjuncto de artistas, que, sob as 
rédeas d'um emprezario bom-calção, tem piafado em palcos por- 
tugueses, S. Luiz consolide a sua reputação de intelligente e il- 
lustrado, voltando costas ao chafariz do por- 
nographismo franciu, que lhe dá enchentes e 
dinheirama, p'ra ir encher o seu barril na lym- 
pha crystalina e pura dos dois ou três alvielas 
que brotam, revoltos e impetuosos, no campo 
sereno e plácido das ideias e da esthetica 
Alén-rhenana. 

De palmejar, pois, como nota culminante 
de toda a temporada, essas Fogueiras de S. 
João, obra mestra do grande temperamento 
de dramaturgo, intelleciivo e humano, que é 
Hermann Sudermann, — já nosso conhecido 
da Honra, da Magda., e do Fim deSodoma — 
e que, com Gerhardt Hauptmann,— o auctor 
das Almas Solitárias do reportório do Zac- 
coni e dos Tecelões., que ainda hão de ser de 
todos os reportorios, — teem na Allemanha, 
— e em toda a parte onde o theatro é mani- 
festação suprema da Arte e da Vida, — o sce- 
ptro pesado e glorioso, triumphal e compromettedor que, não ten- 
do chegado a cahir nas unhas de Henri Becque, a morte arrancou 
á França das mãos paradoxaes de Dumas, e que na Scandina- 
via, o velho Ibsen, carregado de annos e de nevoeiro, transfor- 
mou em bordão a que se arrima, caminho da Immortalidade. 

Peça suave e casta, feita de observação e de sonho, de vida e 
de ideas, farrapos de alma e gritos de revolta, com a technica 
segura e escorreita de quem sabe d'onde parte, por onde quer ir 
onde ha de chegar, na sua grandeza de intuitos e na simplicida- 
de dos seus processos, as Fogueiras de S. João marcam uma ba- 
liza na dramaturgia contemporânea e valem, por si só, todo o 




Gerhardt Hauptmann 
Caricatura allemã 



Impressões de Theatro — João Rosa 



23 



resto do reportório explorado na temporada finda do D. Amélia, 
porque até no próprio desempenho e marcação, no afinamento 
do conjuncto e rigorismo de mise-en-scéne foram como um pa- 
renthesis rutilo de luz e de Arte nas caliginosas trevas de jumen- 
cia e de cabotinismo que são o prato de resistência e o pão nosso 
quotidiano dos espectáculos alfacinhas. 

E má que a peça fosse, não a 
rubricasse a máscula garra de 
Sudermann — o Dumas teutonico 
— e trouxesse ella o carimbo 
surrelfa do próprio Dantas — Cho- 
rão de retto{ preío^ na Botânica 
do Fialho — ainda assim ella me- 
receria particularismo de annota- 
ção ao resenhar a época no D. 
Amélia, porquanto foi nas Fo- 
gueiras que, á compita, os ele- 
mentos primaciaes da companhia 
deram a craveira das suas esta- 
turas, erguendo tão alto, nos pi- 
náculos da correcção e da ver- 
dade, o galhardete do officio de 
bem representar, que embatu- 
cado de espanto, o espectador 
habitual, á sabida, inqueria dos 
seus botões, se seriam realmente 
aquelles artistas os salta-pocinhas 
e camafeus que, de rixa velha e 
costumeira antiga, debitam asneiras, erram inflexões, deturpam 
caracteres, estropiam personagens, atabalhoam scenas e enter- 
ram peças, numa inconsciência de decoro profissional de quem 
se deita á sombra das ruinas do passado e, gosando os rendimen- 
tos, se está nas tintas p'r'ó que não representa, em pecunia, o 
ordenado do fim do m.ez. 

Assim, mestre João Rosa, que pVa muitos crystalisára já no 
Custodia, de bocca á banda e falias p'r'ó buxo, n'um esforço vio- 
lento de boa vontade e de rara intuição pondo em jogo e em 
foco todo o apetrechado arsenal dos seus recursos artísticos, ma- 
quilhado de rapazinho pouco mais de imberbe, sóbrio e correcto, 
deu-nos no galan das Fogueiras um typo completo, definido e 




Fialho d 'Almeida 
Caricatura de Celso Hermínio 



24 



Impressões de Theatro — Lucinda Simões 




JoÃo Rosa 
Caricatura de Celso Hermínio 



humano, que difficil será topar no ka- 
leidoscopo das creações dos seus idos 
tempos de gloria, um que lhe leve as 
lampas em vigor, em frescura, em obser- 
vação e em realidade. 

Mestre João Rosa, foi, na peça de 
Sudermann, o que já não fora ha muito 
e o que muitos julgavam até, que raras 
vezes elle tinha sido: Mestre João, o mes- 
tre, o inconfundível, o personalíssimo 
actor, que, no theatro português con- 
temporâneo, com a condição de não fa- 
zer mais papeis, devia ser subsidiado 
pelo Estado p'ra fazer discípulos e p'ra 
fazer actores. 

Lucinda Simões, a mais ingeníta- 
mente comediante das nossas actrizes 
e de seguro a mais illustrada das nos- 
sas comediantes, sem pruridos de se fingir nova, é, dês que se re- 
solveu a ser velha em scena, a única característica verdadeiramente 
grande dos nossos theatros, e, com um impulsivo amor da Arte 
pela Arte, ella que, como emprezaría, é capaz de se arruinar p'ra 
montar uma peça, é hoje, como escrípturada na companhia do 
D. Amélia, talvez a única, entre todos os consagrados do cartaz, 
que nunca esquece que a sua consagração, 
lhe vem do publico e, por consequência, que 
ao publico deve o respeito de si mesma, da 
sua individualidade e do seu talento 

D'ahi, o saber-se de ante-mão, quando o 
seu nome apparece nas esquinas, que na ri- 
balta ha de fulgurar, chisparreando luz, o des- 
empenho, pelo menos, do seu papel ; podem 
assevandijar-se os outros em grandes papeis 
ou pequenas rábulas, Lucinda, quanto mais 
pequena fôr a rábula, mais alto a saberá er- 
guer, mais irisiações conseguirá tirar da sua 
facetagem, porque, como artista, ella não igno- 
ra que, no theatro e no firmamento, não são os 
maiores astros, os que mais brilham, nem os 
mais vastos, os de mais fulgura irradiação. 




Lucinda Simões 

Caricatura de Celso 

Hermínio 



Impressões de Theatro — Lucinda Simões 25 

Nas Fogueiras tem poucas linhas o seu papel, mas, n'um sim- 
ples olhar p'r'ó marido, a plateia antevê logo a trivial odyssea da 
sua existência de boa mulher, submissa, resignada e aífectuosa^ 
vencida, alma e corpo, após annos largos de cohabitação matri- 
moniai com beliscos e repelões, e, nunca, nem na Madame Gui- 
chard do Mr. Alphonse — o mais completo trabalho da sua ultima 
phase artistica — nem na taberneira da Bíanchette — a mais ob- 
servada das suas criações — nem na Madame Juvenel do Polichi- 
nello — o mais sentido e o mais sympathico dos seus papeis — 
nunca, como nas Fogueiras^ ella, que não sente e se não emo- 
ciona, deu mais sentimento e mais emoção, emocionando o 
publico e fazendo-o sentir toda a amarga candura, toda a suave 
resignação d'aquella apagada figura de mulher em que Sudermann 
encarnou a velha alma teutonica, passiva, branda, amorosa e ma- 
leável. 

Boa a peça, dois papeis bem desempenhados, é tempo, dirás 
tu, meu rapaz, a não ser hoje dia do bodo, que abra a torneira 
da má lingua e a deixe correr desabrida em fios negros de aze- 
dume. 

Enganas-te. Fazendo o balanço da época no templo de S. Luiz 

— não confundas com o Rei de França — propositadamente eu 
escolhi a peça em que, pela cooperação intelligente dos melhores 
elementos da companhia, pelo esforço honrado que todos fize- 
ram em bem representar, mais nitido resalta o contra-senso e o 
desaforo de, por habito, elles representarem mal p'ra agradarem 
ao bilheteiro, uma vez provada a imbecilidade do publico, ou por 
estarem as maçadas prohibidas, as vidas curtas e os luzicus na- 
cionaes a rentarem-se p'ra quem os atura e os sustenta, como é, 
mais natural e pareceu demonstrado ainda n'esta ultima /jremière, 

— a da Torrente — em que nenhum d'elles se deu ao trabalho 
inicial e preparatório de metter na caixa a lettra dos papeis, em 
que a sr.» Rosa Damasceno reincidiu nos seus cacarejes imper- 
doáveis em franga que de velha já não choca e já não põe ; 
em que Brazão fez o St.-Phoin do Donnay em estylo cabriola Zé 
Ricardo ; em que Augusto Rosa fanhoseou o Bargy e João Rosa 
vestiu a roupeta ao Custodia da Severa^ n'um conjuncto tão py- 
ramidal de ridiculo e de grotesco que té a Maria Falcão, armada 
em Bartet de kaolino e serradura, chegou a parecer, no seu in- 
grato esforço de não asnear, a mestra e mentora da companha 
toda. . . 



2b 



Impressões de Theatro — Lucília Simões 



Nas Fogueiras de S. João pVá anthitese ser mais flagrante 
— exceptuado o Ghristiano que fica p'ra logo — todos os velhos 
mantiveram e consolidaram os seus créditos e reputações, fir- 
mando solidas as suas individualidades, e os novos — Lucília, 
Delphina, Pinheiro e Jesuina — deram tal conta de si que, dizendo 
em separado de cada um as palavras de justiça a que todos gran- 
gearam incontestável direito, eu tenho o presentimento de ante- 
cipar juizos definitivos e seguros sobre as 
mais lídimas figuras da scena do Amanhã. 

Lucília — que ao debutar em Coimbra, 
eu e tu saudamos, como o mais complexo 
e complicado temperamento de actriz da 
nossa geração e que os hyperbolismos 
chauvinistas dos cariocas e os destemperes 
elogiativos dos indigenas fizeram estacionar, 
estagnada e improgressiva, em picaros ten- 
tamens de coruja a esvoaçar p'ra águia — 
sem decalques e sem modelos, na posse 
plena e reflectida da ideia-mater do auctor, 
detalhando té á minúcia toda a bizarra psy- 
cologia do personagem, levando té ao gesto 
mais insignificante, á mais insignificante mo- 
delação de voz, o meticuloso cuidado da 
observação e da verdade, comedida, simples, 
impeccavel, sem espaventos de toilette e, 
sobretudo, com a consciência do seu valor 
e o respeito da sua individualidade, não re- 
janeando a mascara, não sarahbernardi- 
sando a linha, Lucilia nas Fogueiras^ creou 
o seu primeiro papel. 

Creou um papel — o que é muito na 
sua idade — e creou também um typo pessoal, característico, 
definido, um feitio próprio, um modo de ser artístico o que é 
muito mais e é tanto que chega a parecer um impossível, sabido 
o ter sido, té qui, a Lucilia, em arremedos frustes de cabotina, 
uma falsificação patusca, edição brazileira da Duse, da Réjane ou 
da Sarah, consoante o personagem fora creado pela Sarah, pela 
Duse ou pela Réjane, chegando ás vezes a ser a própria mãe 
Lucinda, mas não tendo sido, até á Violeta das Fogueiras^ a Lu- 
cilia que, com as suas qualidades e os seus defeitos, eu quizera 



Lucília Simões 

Caricatura 

da Polaire de Zim 



Impressões de Theatro — 'Delphina Cruf 



27 



cjue ella nunca tivesse deixado de ser, dês que pisou as taboas — 
porque a primeva e mais sublimada qualidade d'uma artista é o 
culto fervoroso da sua individualidade e do seu eu, n'um meio 
como o dos bastidores, em que insensivelmente o eu dos que co- 
meçam é o Toda-a-gente dos que acabam e nunca passaram na 
Arte de serninguens, se, de principio, reagindo e luctando, não 
conseguem, desde logo, marcar-se como Alguém. 

Delphina — Trude nas Fogueiras — emigrada do Normal no 
pronunciamento celebre das Salsas contra o governo despótico 
do Posser, é ainda, apezar do seu homisio em terras de rosas e 
brazões, e ha de ser, por honra sua, durante toda a sua carreira, 
a discípula amada e a que mais deve ao temperamento e aos 
moldes da grande e incomparável artista que foi Virgínia. 

Guiada pelo conse- 
lho e pelo exemplo da 
mestra prodigiosa que 
lhe amparou os primei- 
ros passos no proscénio, 
servida pelos dotes na- 
turaes do seu physico 
de piorrita e pela meló- 
dica sensibeleria da sua 
dicção, ella era já hoje, 
a ter-se quedado no Nor- 
mal, — onde as deficiên- 
cias de pessoal a trariam 
em constante contacto 
com a scena — uma das 
culminantes figuritas do 
nosso mundo theatral, 
tão falho de gente nova 
<que, mesmo lá cima, en- 
tregue ao exclusivismo dos seus recursos, apparecendo, rara, 
na ribalta em papeis desconnexos e descosidos, tem, em progres- 
sivos avanços, hoje mais perfeita do que hontem, amanhã mais 
firme do que hoje, enraizado, funda e merecida, a reputação que 
a sagra como ingénua dramática única do nosso tempo, sabido que 
as nossas ingénuas ou não teem sentimento nem voz — como a 
Cecilia Machado — ou não teem figura, nem sentimento, nem voz, 
nem talento como as outras serigaitas que p'r'ahi ingenuisam. 




Delphina Cruz 
Caricatura de F. Teixeira 



28 



Impressões de Theatro — Jesuina Saraiva 



Na Trude das Fogueiras^ como o anno passado nas Semi-vir- 
gens, Delphina, cheia de frescura, de mocidade e de innocencia, 
deu-nos, n'uma cascata sonora de risos e lagrimas, dois typos 
ideaes de rapariguita, tão vividos e reaes, tão de alma e tão na- 
tura, que por si valeriam, na bagagem de sôstra sabida em trucs 
de successo e cordelinhos de reclame, uma bombástica consagra- 
ção, adjectivada e solemne, de menina prodigio e de artista tãa 
eminente, que Frei José — o Eminentíssimo — a estar, como di- 
zem, excommungado na Egreja, não poria duvidas em vir retem- 
perar-se-lhe, piedoso e mystico, no camarim, tratando-a, galante 
e lhano, tu cá tu lá, como collega na Eminência. 

Jesuina Saraiva teve a felicidade de nascer feia o que, 
infelizmente, é uma vulgar felicidade, e de saber que é feia sem 
que ninguém lh'o dissesse — o que, dada a sua qualidade de mu- 
lher, é já uma grande e extraordinária prova de talento e de ob- 
servação. 

Do ser feia tirou um partido que 
raras tiram de ser bellas : agarrou-se 
com vontade, com intelligencia, com 
unhas e dentes, á interpretação de per- 
sonagens que, por disformes, não po- 
dem pedir á formosura das interpretes 
uma attenuante ás mazelas do desem- 
penho, vincando-se na memoria do pu- 
blico pela correcção do trabalho, sem 
inquirir se, da orchestra, os velhos lhe 
fazem olho á plástica das formas. 

Vi-a, pela vez primeira, no Amor lou- 
co — a peça de estreia, em Lisboa, d'essa 
pobre Georgina Pinto que a morte ceifou, 
outro dia, no Brazil, em plena germina- 
ção de promessas e de esperanças — 
n'um aborto ruim e pérfido, disforme, 
marreco, velhacaz e rachitico que Je- 
suina nuançava com todas as cambiantes 
d'uma palheta que, em traços fundos 
de Goya, se compraz em riscar as som- 
bras da miséria e do degradamento hu- 
Jesuina Saraiva "^^no. Esse papel e O da mãe de Violetay 

Caricatura de Jorge Colaço nas Fogueiras — bêbeda, bruxa e ladra, 




Impressões de Theatro — Q/lntonio Pinheiro 



29 



andrajosa e miserável, poluída pelos mais abjectos contactos da ta- 
berna e do alcouce, os músculos n'uma convulsão, a voz n'um 
uivo de fera. a alma n'um atoleiro de lama, o corpo n'um ninho 
de piolhos, dão, plenos e d'uma peça só, d'um só jacto, o valor e 
o temperamento d'uma artista que a ser bonita, talvez, — quem 
sabe ? — tivesse, como comediante, de raivar por não ser, como 
«, uma mulher muitíssimo feia. 

Agora, rápida, em duas linhas fugitivas, a impressão sobre 
António Pinheiro — o pastor sentimental e rhetorico, amo- 
rudo e recto que, cooperando no êxito das Fogueiras^ com a 
oincção rythmica da sua voz, em Christo oleographico de appe- 
tite, é, no ensembie de D. Amélia, mais do 
que um actor de recursos e de boa vonta- 
de, com um largo futuro deante de si : é o 
actor-recurso, pau p'ra toda a obra, hoje 
galan, amanhã centro, esta semana cómico, 
trágico no mez que vem. 

António Pmheiro anda á matroca, n'uma 
gandaiagem de aptidões, mas sempre tão 
pessoal, sempre tão limpo, sempre tão elle, 
n'uma azáfama estonteante de ir p'r'á frente, 
e progredir, que não sabe uma pessoa por- 
que S. Luiz, que é hábil mas é económico, 
não lhe distribue um dia uma peça inteira, 
dando-lhe os papeis todos, de machos e fê- 
meas, mandando-o, ainda por cima, ensaiar, 
marcar, pontar, contraregrar, accender as 
luzes e fazer a scenographia. 

Dada a actividade e as faculdades varia- 
das e compósitas de Pinheiro, o seu amor 
ao theatro e a febril audácia da sua idyosin- 
crasia, longe de atirar com os apparelhos e 
rescindir o contracto, era vêl-o reclamar, 
ainda, como extra da folha, o ser chefe de claque e vir p'r'á pla- 
teia, cheio de convicção e de justiça, a applaudir-se e palmejar-se. 

# 
Nas Fogueiras não entrava o Augusto, nem a Rosa, nem o 
B razão. 

Retrospectivando o que foi a época, destacando nas Foguei- 
ras o que na época houve de bom, d'artistico, de confortante 




~^y 



António Pinheiro 
■Caricatura de Jorge Colaço 



3o 



Impressões de Theatro — Christiano de Sou^a 



como litteratura e como representação, p'ra ser justo e equita- 
tivo, é de proba imparcialidade notular que, durante a época, a 
sr." Damasceno fracassou em todas as tentativas p'ra se arrancar 
ao seu género — o genero-Rosa, ou arte-velha de ser menina — 
e, manteve dentro da sua escola e dos seus recursos, talqual- 
mente como Augusto Rosa, o seu prestigio e a sua individua- 
lidade na Madame Santenay^ a 
divorciada futil e doidivanas do 
Polichinello em que, aquelle seu 
collega, talqualmente como a sr." 
Damasceno, teve no Trevaux^ da 
mesma peça, ensejo de affirmar ser 
ainda, sem licença do Augusto Mel- 
lo, um bom e correctissimo diseur. 

O Brazão não entrou nas Fo- 
gueiras. 

Mas entrou o Christiano ? 

Entrou. 

Era o pae de Trude. 

Té ir a Paris, o sr. Christiano 
de Sousa, já cadete da Gasconha, 
já Olivier de Janin, era, na Arte, 
o Senhor Doutor Christiano, ba- 
charel em leis. 

De volta de^Paris, o sr. Christia- 
no é o Tonio — traducção de An- 
toine no vasconso consagrado dos 
traductores da casa — e, como o 
Antoine é o pae da Blanchette., To- 
nio, com uma noção de paternida- 
de muito de se ver em bacharel 
formado, julga que o pae da Blan- 
chette é o pae de toda a gente. 




Christiano de Sousa 
Caricatura de Jorge Colaço 



O Tonio. 
gente. . . 



como se Tonio, uma tenia, podesse ser pae de 



E adeus que temos amanhã o Coquelin. 



IV 



2g ABRIL. 



Tartuffe ou rimposteur. ^Zt^^ 

VWLES PREGIEUSES RIDIGULES, comedia em i acto de Mo- 
lière. Theatro D. Rmeha, i.' recita da Tournée Coquelin. 

Não é depois d'uma 
noite de funda e confor- 
tante emoção artistica, os 
nervos ainda a vibrar e o 
corpo a pedir descanço, 
que, aqui no Tavares, em 
frente d'uma torrada, de 
fugida e quasi sobre o joe- 
lho, se pode concretizar 
em nótulas rápidas e de- 
finidas as impressões de 
.um espectáculo — como o 
da estreia dos Coquelins 
— em que o publico ignaro 
de snobos e catitinhas, 
monos das lettras e da fi- 
nança, damas da Alta e do 
Bom-tom, se defrontou, 
sem prévia preparação, 
com duas das obras pri- 
mas do theatro universal 
interpretadas pelo mais 
consagrado artista do theatro francez. 

Molière marca, com Shakspeare, na historia litteraria do mun- 
do, um dos poios magnéticos do génio que p'ra si irresistivel- 




CoyLELIN AlNÉ 

Caricatura de Leandre 



32 Impressões de Theatro — Tartuffe 



mente atráhem a admiração e o culto dos que na Arte buscam, 
na mais rara burilagem da forma, a mais subtil grandeza da Sim- 
plicidade. 

Molière, sendo hoje a mais gloriosa tradicção da França, foi 
o creador d'um theatro que, pela limpidez da sua technica, pela 
humanidade dos seus tyos e pelo hillaro espirito das situações foi, 
durante séculos, a fecundante semente, que, florindo nos palcos 
de todos os paizes e de todas as raças, germinou, entre os latinos, 
na Itália, o theatro de Goldoni e na Hespanha o de Morantin. 

E de toda a sua obraj vasta e immortal, é de seguro o Tartufo 
— escolhido p'ra peça estreia dos Coquelins — a que melhor se 
presta á apresentação, ante um publico estrangeiro, d'uma troupe 
■de artistas francezes, porquanto se o Tartufo é, na verdade, uma 
das mais complexas e enygmaticas jóias molierescas, em cuja 
interpretação teem fulgido os maiores astros da scena e em cujo 
estudo e decifração críticos e comediantes, teem despilfarrado 
annos de vida e riachos de tinta, é, comtudo, sem contestação, de 
todas as obras do Mestre, a de mais seguro e franco, de mais vi- 
brante e expontâneo êxito, porque, bem ou mal representada, em- 
polgando o publico, sacode-o em vibrações de riso e falia á alma 
da plateia a linguagem com que toda a gente, novos e velhos, 
homens e mulheres, devotos e livres-pensadeiros, todos nós, pondo 
a carapuça no visinho, gostamos de ouvir fallar da hypocrisia e 
da impostura — as eternas e vesgas companheiras da Humani- 
dade. 

Na interpretação tal qual nol-o deu hontem a cuadrilla em 
que Goquelin Ainé é espada de cartel, Gadet peão de bréga muito 
de se ver e Jean Çoquelin simples moço de estoques, o Tartufo 
mais uma vez demonstrou o acerto do velho Sarcey que, pondo 
Goquelin ao par dos que melhor encarnam o personagem, fazendo 
mais de luxuria que de hypocrisia o seu caracter, mais femieiro 
que cupido nas suas linhas e na sua dicção, se compromettia a 
fazer estourar de riso uma salla em peso com o resto do conjun- 
cto, fosse elle tirado entre mestres da scena ou simples discipu- 
los, entre actores de mérito ou meros ganhões de campina. 

Ainé foi magistral. Gadet, actor de charge e de traços largos, 
vivendo da repu*ação fraterna e asneando de conta própria, foi 
no Orgon caricatural, carregado e pouco correcto. Os outros, 
pela sabida razão sarceyana de que tanto monta que sejam mes- 
tres como discípulos, grandes talentos ou simples bestiagas, não 



Impressões de Theatro — Tartuffe 33 

desmanchando, deram boa conta de si, porque, diga Sarcey o que 
disser, já é alguma coisa dar conta do recado e não desmanchar 
a harmonia, quando Coquelin dá as notas altas do seu talento e 
da sua priveligiada organisação artística. 

Em dois monólogos, em extra do cartaz, Cadet foi prodigioso 
de cómico fácil e vistoso, e prodigioso, inegualavel, colossal de 
arte foi Ainé no Mascarille das Précieuses ridicules que fecha- 
ram o espectáculo e em que o conjuncto — porque a peça vive 
toda do desempenho — já se mostrou mais desastradamente des- 
igual e desafinado. Mas Ainé podia até represental-a com mario- 
netes, cães amestrados, ratos sábios ou pulgas domesticadas : o 
seu trabalho é tal, tem tanta frescura e tanta mocidade, tanto es- 
pirito e tanta viveza, que a gente chega a duvidar da certidão de 
idade que lhe dá 62 janeiros e não vendo nem omindo os que lhe 
dão a deixa, admira só o vigor, a agilidade e o talento do pri- 
meiro e mais glorioso comediante francez. 

O que tudo quer dizer que é indispensável que Coquelin Ainé, 
n'uma noite d'estas. represente todo o Cyrano de Bergerac, como 
é de justiça e de S. Luiz Braga se requer que defira em termos. 

E Espera-se Receber Mercê. 



3o ABRIL 



Mademoiselle de la Seiglière, 



come- 
dia 

em 4 actos de Jules Sandeau. M^ LANGLAIS OU LE FOU RAI- 
SONABLE. I acto de Patrat. Theatro D. Rmelia, 2.» recita da 
Tournée Coquelin. 

Ao declinar o romantismo em França, na evolução natural 
dos espíritos pr'á observação e pr'á verdade, dois mestres se 
apontam na dramaturgia franceza, mais de que, como iniciadores 
d'Arte, como industriosos fabricantes de theatro : Alexandre Du- 
mas e Emile Augier. 

N'esse theatro, porém, duas das peças typos, duas peças das 
que ficam, criam escola e falsificações, dão volta ao mundo em 
todos os reportorios, e marcam, mais frisante e definida, uma 
tendência e uma época, não trazem a rubrica de nenhum dos dois 
mestres, porque, se, mercê da collaboração de Emile Augier com 
Jules Sandeau, Z-e gendre de Mr. Poirier — como a Pierre de tou- 
che — está englobada na collecçao completa das obras do auctor 
do Fils de Giboyer e passa pela sua obra prima, a Mademoi- 
selle de la Seiglière, representada na 2.* recita dos Coque- 
lins, glorifica, por si só, entre os dramaturgos maiores do seu 
tempo, o nome quasi obscuro e ignorado de Sandeau, muito mais 
conhecido e notável por haver collaborado nas aventuras galan- 
tes de George Sand, do que por ter sido o mais delicado, senão 
o único, poeta da prosa theatral da sua época e da sua escola. 

Conhecida e popularisada, porém, a sua peça, tornado lendá- 
rio e corrente na giria dos palcos Destournelles, o seu melhor 
personagem, a Mademoiselle de la Seiglière é, como todas as pe- 
ças do seu tempo o dos seus moldes, uma coisa meio real e meio 
postiça, com artificialismos de technica e lances bruscos de obser- 
vação, que prendem ainda hoje o publico requintado e complexo 



Impressões de Theatro — Mademoiselle de la Seiglière 35 



das nossas plateias contemporâneas, empalmando-lhe os applau- 
sos melhor e mais conscientemente que o theatro simples, ingé- 
nuo e quasi infantil de Molière, que se admira e se applaude sob 
palavra de honra. 

D'ahi o maior successo do espectáculo da Mademoiselle de la 
Seiglière sobre o da véspera : d'ahi e de que a prosa é, e ha de 

ser sempre, mais perceptivel do que 
o verso pr'a um publico extrangeiro 
que não leva o Diccionario do Ro- 
quette na algibeira e passou, a 
quando menino, como gato sobre 
brazas, sobre os mysterios impene- 
veis do verbo aimer. 

D'esses factores principalmente 
e do facto, também manifesto, de 
Jean Coquelin, no Marquis de 
la Seiglière^ irónico, viveur e em- 
pergaminhado, se revelar um actor 
correcto e tão ditferente do Jean 
Coquelin da véspera, que havia quem 
aventasse terem-no trocado e não 
ser o mesmo, resultou o espectá- 
culo ser mais brilhante do que o da 
estreia, e ser mais forte e mais rija a 
emoção artistica recebida pelo pu- 
blico, mais enthusiastica e fremente 
a ovação a Coquelin Ainé, o Destournelles mais modelar, mais 
ideal e mais perfeito que é dado admirar em todos os palcos do 
mundo. 

No Anglais ou le fou raisonable, Cadet teve um trabalho fácil 
e aparatoso, mas, ainda assim, superior, infinitamente, ao valor da 
pecita, farça insulsa e desconchavada que sem Coquelin não teria 
sabido do limbo onde cabem, por felicidade nossa, as pecinhas 
d'aquelle jaez a que a fortuna não depara um Cadet com estô- 
mago pr'ás impingir ao Extrangeiro. 

Nos monólogos, Ainé e Cadet foram os Coquelins que fizeram 
a sua reputação universal, monologando. Foram os Coquelins e 
está dito tudo ; mas, como sempre, um foi o Ainé e outro o Ca- 
det: — dois Coquelins distinctos e um só verdadeiro. 




Coquelin Cadet 
Caricatura de J. Abeillé 



VI 



I MAIO 



Le gendre de Mr. Poirier, ll\/,y, 

Emile Augier e Jules Sandeau. HW LE BAISER, i acto em verso 
de Theodore de Banville, Theatro D. Rmelia, 3." recita da Tour- 
née COQUELIN. 

Mestre Augier, o mais arguto pre- 
cursor do theatro moderno, braço dado 
com Sandeau, o mais modesto e mais 
valioso dos collaboradores — tão mo- 
desto que o seu nome se eclipsa ante a 
gloria do companheiro, tão valioso que, 
sósinho, deu ao theatro a Maderfioi- 
selle de la Seiglière — Mestre Augier, 
tem no Gendre de Mr. Poirier a mais 
feliz e mais compleia, a mais cabal e 
mais immorredoira consagração do seu 
talento de escriptor e das suas aptidões 
de dramaturgo. 

Burguez dos tempos em que a bur- 
guezia fincava o pé no terreno recon- 
quistado e movediço d'uma sociedade 
a alvorecer dentro d'um sacco de di- 
nheiro, Augier pintou os seus contem- 
porâneos, os seus compadres, os seus 
fornecedores, os seus vizinhos, a gente 
do seu meio e do seu tempo, com co- 
res tão nítidas e flagrantes, traços tão firmes e decisivos, que se 
lê melhor a Historia de 48 — com pés-de-meia e heroísmos, len- 
ços tabaqueiros e barricadas — nas suas peças de costumes do 
que nos calhamaços eruditos dos historiadores. 




COQUEUN 

Caricatura de J. Abeillé 



Impressões de Theatro — Le gendre de Mr. Poirier 3j 

Dumas, bohemio, filho natural, mundano, amigo de mulheres, 
predigo e bom rapaz, discutiu-se a si, aos seus defeitos, ás suas 
virtudes ; ensimesmava-se nos seus personagens, theatralisava, 
em paradoxos, a sua existência : fez um theatro de these, porque 
elle próprio era um problema. 

Augier, pautado, methodico, reflectido, observador, tendo logo 
no inicio marcado o termo da sua carreira, tendo chegado onde 
tencionava, e, rematando-a serenamente, indo gosar tranquillo té 
morrer, o fructo do seu trabalho e os louros da sua gloria — 
como os bons burguezes que, feito o seu pecúlio, liquidam a 
tenda e arrumados os negócios, se entregam á pesca á linha, — 
sentindo e pensando como os homens do seu tempo, deu, no seu 
theatro, corpo, vida e alma ao pensar e sentir da sua época. 

Dumas, p'ra escrever o Filho natural, poz-se ao espelho : 
Augier, antes de fazer o Gendre de Air. Poirier, poz-se á ja- 
nella. . . 

Dumas viu-se a si; um theatro de paradoxos, de individualidades: 
Augier viu a multidão ; um theatro de generalisações de typos. 

D'ahi, o ser p'ra mim o Gendre de Mr. Poirier que, té qui, 
eu só conhecia do livro, a peça mais theatral, mais viva e mais 
humanado theatro clássico francez. 

Clássico? Porque não? O classicismo não vem da poeira dos 
séculos ou da chronologia dos almanachs, vem da regidez das 
formulas, da inflexibilidade das linhas a que teem de sugeitar-se 
os que vêem depois, os que chegam mais tarde, e em peça ne- 
nhuma, como no Poirier, essas formulas e essas linhas tem sido 
bebedoiro e papinha feita p'r'ós arrivistas do theatro contem- 
porâneo, que, mais ou menos, de perto ou de longe, moldam na 
peça typo de Augier as peças novas, os derniers-cris do repor- 
tório moderno, feito de observação, de psychologia, de naturah- 
dade e de idéas. 

Só a conhecia do hvro e agora, eu que já a admirava, ao vel-a 
em scena, Poirier na pelle de Coquelin, Verdulet correctamente 
desempenhado por Jean e Cadet encasacado na rábula insignifi- 
cante de Vatel, chego a convencer-me de que nem a admirava nem 
a conhecia, porque nunca a suppuz tão bella, tão grande, tão ra- 
diante de verdade, tão esfusiante de espirito. 

Ainé no Poirier não encarnou em si simplesmente o papel, 
exteriorizando, com os seus prodigiosos recursos da mascara e 
da voz, o personagem criado na imaginação do auctor ; Ainé faz 



38 Impressões de Theatro — Le gendre de Mr. Poirier 



mais : completa Augier, annota-o, lima-o, burila-o, e dá-nos, vivo 
e real, sentido, observado e vivido, o Mr. Poirier todo inteiro, 
bom burguez e bom homem, heróico e desastrado, cidadão de 48 
cheio de liberalismos, de minhocas, de ambições e de palavreado. 
Ora velhaco, ora bonacheirão, cambiando em nuanças imperce- 
ptíveis e graduaes todo o amor do pae e todo o egoismo do par- 
venu, Coquelin mostrou-nos no Poirier um prisma novo do seu 
colossal temperamento de grandíssimo e inegualavel comediante 
e bastaria esta criação isolada, na sua bagagem artística, pr'a 
consolidar e fundir em bronze o seu 
renome e à sua fama. 

Jean Coquelin, obesa e rotunda 
vergontea coquelinica, não foi grande 

— é difficil ser-se gordo e grande ao 
mesmo tempo, como entre nós está 
demonstrailo dês do Cócó e do Alpoim 

— mas foi correcto no Verdulet e Ca- 
det, n'uma rábula de poucas linhas, 
deu-nos o melhor trabalho dos, com 
que até hoje, fora dos monólogos, tem 
deliciado orelhas alfacinhas. 

Dos outros... não vale dizer mal, 
pois que ninguém se lembrou ainda de 
dizer bem. 

No "Baiser, bluette ligeira e rendi- 
lhada no parnasianismo piegas de Ban- 
ville, Cadet disse os versos e mimou-os 
a contento dos interessados. Sim- 
plesmente, era mais bonito em artista 
de tanta polpa, que se abstivesse de 
errar os versos pr'a fazer referencias a 
Lisboa, porque se por um lado isso re- 
presenta uma gentileza, por outro re- 
presenta um truc, um cordelinho muito 
baixo pr'a quem se guinda a cavallarias de grande actor. 

O espectáculo foi longo : por isso os intervallos foram tão pe- 
quenos, tão curtos, que alguém aventava estar S. Luiz feito com 
o syndicato Torlades porque, só por pirraça ao syndicato dos 
tabacos, se explica não deixar, entre dois actos, que a gente chupe 
um cigarrinho. 




Coquelin Cadet 
Caricatura de Jean Veber 



VII 



L'Abbé eonstantin. S^HaU^oRm: 

GOIRE, I acto de Theodore de Banville. Theatro D. fímelia, 

4.* recita da Tournée Coquelin. 



P'ra grande parte da plateia do D. Amélia, podia muito bem 
ter sido este espectáculo o mais captivante e agradável, o mais 
comprehensivel e o de maior eífeito de todos os que, té qui, 
nós deviamos á troupe dos Coquelins. 

Havia todos os motivos p'r'ó acreditar, todas as razoes — e 
mais uma — p'ra justificar esse agrado : o Abbé Constantin é o que 
se chama, nos sallões da alta roda, nos cavacos intellectuaes da 
gente fina, nas soirées da rua dos Fanqueiros e no cochichar das 
damas, nos soalheiros da Avenida, uma linda peça, uma peça 
mesmo muito linda, uma peça catita e, sobretudo, uma peça tão 
delicada, de tão boas maneiras, que se vê logo que o auctor tomou 
chá em pequeno, nunca arrotou deante de senhoras e sabia de 
cor, de lés a lés, o compendio do João Félix Pereira. 

Se tivesse nascido em Portugal sabia recitar ao piano, jogava 
o jogo de prendas, assignava o Diário Illustrado, escrevia car- 
tas de namoro, valsava a três tempos, era o enlevo das damas, 
tinha a carta de conselho, chamava-se Fernandes e viria a per- 
tencer, com o andar do tempo, á Academia Real das Sciencias — 
capoeira de bons génios e de pessoas bem educadas. 
, Nasceu em França, foi dos 40 da Academia, escreveu o cáb- 
bade Constantino, chamou-se Halevy e hoje disputa, entre partei- 
ras e velhas sentimentaes, as palmas verdes da gloria a Georges 
Onhet, que está prestes a surripiar- lh'as. 

Nunca esteve preso, não se metia em desordens, as testemu- 
nhas aos costumes diziam nada, e como era muito respeitável e 



40 



Impressões de Theatro — LAbbé Constantin 




'hi^ 



boa pessoa, foi vulgarisado em Por- 
tugal em doces traducções do Pi- 
nheiro Chagas. 

Não era positivamente o que se 
chama um dramaturgo, mas, se em 
vez de enveredar pelas lettras, se 
tem dedicado á culinária, teria sido 
um bom confeiteiro. 

Não fazia peças nem romances ; 
fazia rebuçados d'ovos, bon-bons de 
baunilha e pastilhas de chocolate. 

Não nos agita a alma: delicia- 
nos — aos gulosos — o paladar. Não 
nos faz pesadelos : deglutido, em 
grandes quantidades, pôde, quando 
muito, fazer dyspepsias e fluxos in- 
testinaes. 

Tem arte, tem talento, ha mes- 
mo meninas casadoiras que, jul- 
gando-o loiro, solteiro e bem apes- 
soado, lhe outorgam génio. Em 
todo o caso, entre um pastel de 
folhado e o Q/lbbade Constantino, 
os espiritos e os estômagos verda- 
deiramente patrióticos e intelli- 
gentes não hesitam : são pelos pasteis, e ao talento e ás peças de 
Halévy, preferem o talento e os productos do Ferrari. 

Como, porém, a grande massa da plateia do D. Amélia nem é 
patriota nem tem estômago intelligente, o Qábbade Constantino, 
estava indicado como peça de successo e de êxito seguro — por 
todas as razões e por mais uma : — a de que, conhecendo-lhe toda 
a gente a traducção, toda a gente se julgava habilitada a percebel-o 
no original. 

P'r'á minoria, porém, do Toda-a-gente do D. Amélia, o cartaz 
da 4.» recita coquelinica era o peor da tournée, porque, se difficil- 
mente se aparam três noites clássicas de Moliére — só degostado 
por ingénuo e primitivo e como estudo retrospectivo das fontes e 
origens de todo o theatro latino — as outras duas, uma com a La 
Seigliére e outra com o Poirier, tiveram o incontestável mérito 
de nos pôr em contacto com duas obras mestras da litteratura dra- 




CoQUELIN CaDET 

Caricatura de Leandre 



Impressões de Theatro — L'Abbé Constantin 41 

matica francesa e com dois dos mais completos e inteiros, mais 
brilhantes e artísticos trabalhos do mestre da scena que é Coque- 
lin Ainé, que não entrou, sequer, no desempenho do Abbé Cons- 
tantin e que no Gringoire, tendo de levantar oí créditos da es- 
cola franceza — arrasados pelo Gringoire do Le Bargy, depois da 
extranha e emocionante interpretação do Zacconi, semi-deus, 
hallucinante e másculo, triumphador e sublime, da Arte italiana, 
— a deixou pouco menos do que no mesmo charco p'ra ondeio 
cabotinismo do Le Bargy a havia atirado. 

Podendo, pois, ter sido o espectáculo de maior successo — e 
bastaria pr'a isso que Gadet se mantivesse á altura da sua repu- 
tação e fizesse um eábbé Constantin melhorsinho e ainda mais 
calda de assucar do que os Constantinos em fio d'ovos do nosso 
conhecimento — podendo ter sido um successo, rematou num fias- 
co, numa borracheira, numa coisa sem nome, nem qualificação, 
a demonstrar, plena e categórica, a desconfiança em que eu anda- 
va: ou nos trocaram os Coquelins por Coquelinos, numa especula- 
ção mystificadora, ou, se na verdade aquelle? Coquelinos do Abbé 
são os Coquelins genuínos, verdadeiros e autênticos, nesse caso, 
num desaforo só permittido em palcos de Dahomey e ante platéas 
exclusivas de pretos borlistas, os Couqelins estiveram toda a 
noite a chuchar com a tropa. 

Cadet foi um Q^bbé Constantin como podia sel-o qualquer dos 
nossos cómicos sem categoria; nem representou — o que me pa- 
rece não ser o seu forte — nem sequer disse — o que, nos monó- 
logos, elle já tem demonstrado que sabe fazer. 

Os outros coquelinos e sobretudo as coquelinas, esses, con- 
tractados ali pelo Santos do Colyseu e apresentados na arena do 
circo, n'um numero sensacional e cómico — O Abbade Constantino 
representado por cães fallantes e ratas sabias — faziam a reputa- 
ção do clown que os apresentasse, dando-lhes, a chicote, as entra- 
das e as sabidas. 

No theatro D. Amélia, não é só arrojo o mostrá-los assim : é 
desaforo e chega a parecer troça. 

No Gringoire, Ainé foi correcto, disse bem, mas, positivamente» 
a declamação franceza em que Coquelin é mestre, nem pôde 
commover, nem emocionar, não dá arrepios nem provoca enthu- 
siasmos, a quem haja visto uma vez Zacconi a representar com a 
dicção italiana : sóbrio e natural, cheio de vida, de verdade de 
sentimento e de observação. 



42 



Impressões de Theatro — L'Abbé Constantin 



D'ahi a frieza glacial dos que sabem vêr 
y -v e que não puderam — por mais que quizes- 

/ \ sem — distinguir escolas, descriminar tem- 

I ) peramentos e evitar confrontos : Coquelin 

Ainé foi, correctamente, um Gringoire de 
talento, mas, ali mesmo, n'aquelle mesmo 
palco, Zacconi tinha sido estupendamente 
colossal, tinha sido um Gringoire de génio. 
E depois o conjuncto, — santo Deus! — 
aquelle João Coquelino, que não é, positi- 
vamente, Jean nem Coquelin, aquelle rei que 
não era decerto Luiz XI e que não chegava 
a ser Bobeche, tudo aquillo, todos elles. . . 
Mão ha duvidas.. . estavam a chuchar com 
a tropa. 
O peor é que a tropa, antes de ser chuchada por elles, já ti- 
nha dado a chuchar o seu rico dinheirinho. 




Jean Coquelin 
Caricatura de Lusques 



vm 



:> MAIO 



Le Bourgeois gentilhomme, ;rtÕm" 

ma em 5 actos, de Molière. Theatro D. Rmelia, 5.* recita da Tour- 
née COQUEUN. 

O Bourgeois gentilhomme é um dos mais brancos espectáculos 
clássicos da Comedia franceza. 

O cómico de Moliére é feito de cocuagens e taponas, ponta- 
pés no rabo e criadagem espevitada, maridos infelizes, sogras so- 
gras — porque ainda não ha adjectivo p'ra sogra como o próprio 
substantivo — filhas namoradeiras, ga- 
lans engenhosos e cargas de pau — tu- 
do polvilhado por uma pontinha de ma- 
lícia, a adejar, leve e picante, na subti- 
leza do verso ou no collear da prosa. 

No seu theatro ha peças onde todos 
estes elementos do cómico entram fa- 
zendo degrau ao throno 
d'uma verdade eterna 
ou d'um typo immorre- 
doiro e são, essas, ain- 
da hoje as suas peças de 
brilho e de renome : o 
Tartufo, o Avarento, o 
Mysanthropo. 

Em outras, entram, 
quasi exclusivos, os ma- 
ridos infelizes, as mulhe- 
res desvergonhadas, os 
lacaios ladinos, corna- CoquelinAiné 

duras e mezinhas : são Caricatura de Leandre 




44 Impressões de Theatro — Le Bourgeois gentilhomme 

as suas peças de picaro sal gaulez, as que o collocam na prateleira 
alegre do bom frade Rabelais e as que, na verdade, ainda hoje 
nos fazem rir, na simplicidade das suas situações, no infantil da 
sua technica e dos seus typos : Medecin tnalgré lui, Sganarelle 
ou le cocú imaginaire, Monsieur de Pourcegnac. 

Noutras, ainda, — que é vasto pandemonio o theatro de Mo- 
lière, — o sal gaulez veste as roupagens soturnas da semsaboria^ 
não ha cornos nem desmandos crus de linguagem, é tudo sim- 
ples, casto, correntio, innocente, os elementos do cómico li . itam- 
se ás ardilezas velhacas das soubrettes e dos lacaios, ao descon- 
chavado das situações, ao grotesco das personagens, que não che- 
gam a ser homens pjorque são caricaturas de ridiculo : são as pe- 
ças brancas das matinées clássicas da Comedia a que os papás 
levam os meninos que ganharam um premio em historia de 
França e a que as manjas conduzem as meninas, que ainda não 
flirtam, mas, já nos intervallos, fazem olho aos laureados do Ly- 
ceu de Carlos Magno 

E' na espécie, a mais typica e completa, o Bourgeois gentil- 
homme^ em scena no D. Amélia em 3.^ de Coquelins. P'ra gente 
barbada, damas púberes, a peça não tem interesse nem razão de 
ser: e só o chauvinismo molièresco pode ainda aguentál-a em 
França, mercê d'um desempenho harmónico e afinado, duma mise- 
en-scène rigorosa e deslumbrante, que prenda pelos olhos o espe- 
ctador. A alma e u espirito não são ali chamados nem ali teem que 
fazer : o zyngomatico contráe-se e distende-se em gargalhadas e 
frouxos de riso, irreflectidamente, impulsivamente, porque uma 
cambalhota e uma careta fazem sempre rir e o espirito infantil, 
ingénuo e burlesco, de Molière, tem esse condão natural de nos 
fazer cócegas sem nos alegrar, de nos fazer rir sem sabermos 
porquê. 

Rimos porque os outros riem, porque o Molière riu, e por- 
que o rir é tão contagioso como a peste e tem sobre a peste 
a vantagem de não ter sido descoberto pelo bom homem Ricardo. 
Nem pelo Molière, é claro : foi descoberta anterior ao diluvio e 
riu-se, primeiro, no mundo, Jehovah, ao vêr a careta rebarbativa 
de Adão a agradecer-lhe a nossa mãe Eva. . . 

Mr. Jourdain faz rir e, encarnado n'elle, fez-nos rir Coquelin 
Ainé; fez-nos rir; mas fez-nos reflectir e está ahi o seu mérito: o 
riso vinha-nos da naturesa humana, de Molière, se quiserem; ^ 
reflexão; obrigou-nos Coquelin. 



Impressões de Theatro — Le Bourgeois gentilhomme 45 



E reflectindo, apura-se qvie todo o 'Bourgeois gentilhovime po- 
dia ser desempenhado n'um collegio de meninas, num du de dis- 
tribuição de prémios, por uma companhia de andróides, de ma- 
rionetes e fantoches articulados : mas que representado por Co- 
quelin Ainé, ante o seu publico habitual e como habitualmente 
elle, certo, o representa, deve ser, pela graça ingénua dos seus 
esgares e momices, pela simplicidade primitiva da sua dicção e das 
suas cabriolas, pela sóbria correcção da mobilidade da sua mas- 
cara, uma das mais confortantes e límpidas lições da arte do có- 
mico a que seja dad® assistir se. 

No palco do D. Amélia não foi bem isso : Ainé está convencido 
por suggestões dos Coquelinos da familia, que, inadevertido, trouxe 
na bagagem, começar a Africa nos Pyrineus. Como Le Bargy — 
que, descarado, o disse, — Coque - 

lin está capacitado de que pVár- - - -—^ 

rançar applausos da banda dos 
alfacinhas, pr'õs ver em extasis e 
babados de admiração.. . i7 /ítmí 
battre le tamboiír. 

Resentio-se d'isso o seu des- 
empenho : tendo bispado na pla- 
teia o Gouveia Pinto mail-o das 
Novidades^ julgou-nos a todos 
pretos e rufou no tam- 
bor. 

Mas ainda assim hou- 
ve brancos que o viram e 
que, por honra de Co- 
quelin, não o sentiram 
rufar. . . Mas rufou ; sim- 
plesmente, os rufos do 
Cadet e do outro são 
tão ensurdecedores ebru- 
taes que rufando elles, 
não se ouve tocar rufo a 
mais ninguém. 

A não ser que o gado 
lhes saia mosqueiro e 
que ainda ouçam o pu- , „ 

ui- r 1 ' - ^^ Bargy 

bllCO rufal-OS a tacão. Caricatura de Capiello 




IX 



4 MAIO 



Medecin malgré lui 



corredia em 5 actos de 
Molière WA GYRANO 
DE BERGERAG, (3.° e 5° actos) de Ed. Rostand. Theatro D. fíme- 

lia, 4.* recita da Tournée Coquelin. 



Ao fim de seis compridas e fastidio- 
sas récitas — que tantas foram as da as- 
signatura a 25 tostões por cabeça — 
deu-nos a tournée Coquelins duas horas 
de tão fundas e perduráveis emoções 
artisticas, que se por uma banda a gente 
dá por bem empregado o tempo perdi- 
do a aturar-lhes o resto dos espectácu- 
los, porque o contraste resalta mais crú 
e fulminante, por outra, ao ver-se re- 
presentar os dois retalhos do Cyrano, 
tal qual no-los deu hontem o insigne e 
preclarissimo artista a que Rostand de- 
dicou o seu poema, dedicando-o á alma 
do disforme gascão que os seus versos 
immortalisaram, perdem-se as estribei- 
ras e chega uma pessoa a despropositar 
porque a mystificação resulta completa, 
absoluta, descabelada : quem faz assim 
o Cyrano, nem mette no cartaz o repor- 
tório que nós temos visto, nem contracta p'ra lhe dar a deixa, numa 
tournée pelo extrangeiro, os estafermos que nós temos aturado, 
e, menos ainda consente que a família lhe pollua a gloria e se 
reclamise com o seu nome : não ha Cadets nem Jeans : Coquelin 
é Coquelin e Coquelin é só um. 




Coquelin no Cyrano 
Caricatura de J. Abeillé 



Impressões de Theatro — Cyrano de Bergerac 47 

Coquelin, no 3." e no 5.° actos do Cyrano — e principalmente 
no 3 ° — foi tão extraordinário, tão arrebatador, tão magistral, 
que nunca artista, a dentro da Declamação franceza, convencio- 
nal e cantada, subiu tão alto, nas azas do génio, pelo azul infinito 
da Arte Divina da poesia e da emoção. 

Seria despropósito do leitor reclamar pelos dezreisinhos que 
a folha lhe custa que, além do noticiário do dia, bisbilhotices de 
soalheiro e de reportagem, gravatas vermelhas <lo artigo do fundo 
e pontas de cigarro de civilisação em telegrammas do extrangeiro, 
se lhe dissesse, ainda por cima, todo o valor e toda a máscula 
grandeza do Cyrano de Bergerac, a obra apregoadissiraa de Ros- 
tand, o rico e venturoso poeta que é já hoje, á força de reclame, 
no theatro da França o que Victor Hugo, no apogeu do seu exí- 
lio, e á força de génio, foi na literatura do mundo : mestre dos 
mestres e príncipe dos poetas do seu tempo. 

Dizer-lhes da obra pelos dezreisinhos, quando p'ra Ihé ouvir- 
mos dois retalhos S. Luiz nos extorquio o dinheiral d'uma assi- 
gnatura de 6 recitas, é querer Deus pVa si e o diabo p'r'ós outros. 

Ficamos pois nisto: Coquelin nos dois pedaços do Cyrano 
deu-nos tal medida do seu valor, dos seus recursos, da sua arte, 
da sua intuição dramática e da extranha e bizarra frescura do seu 
talento, que nós que o havíamos admirado nas Précieuses ridicu- 
les, que o havíamos applaudido no Poirier e no 1)estournelleSy 
nós só no Cyrano vimos o Coquelin, porque o Coquelin do Mas- 
carille, do Poirier, do T>estournelles foi um Coquelin de cartão e 
no Cyrano foi um Coquelin de carne ; até ante-hontem tinha- 
nos dado, apenas, prismas opacos do seu valor : no Cyrano deu- 
nos, pujante e nitida, a cr\'Stalisação do seu talento. 

D'ahi o que parecia paradoxo ao principio desta nótula : esti- 
vemos seis noites ás voltas com um Coquelin, que não era o Co- 
quelin : por honra sua, por felicidade nossa, Coquelin revelou-se 
no Cyrano, e só ahi nos appareceu colossal e grande... 

Magia dos versos do Rostand ? Menos isso, porque ponham o 
Cyrano, mesmo no original, na pelle dum actor que não seja o 
Coquelin e digam depois o que os versos são. 

E leve-se a prova : os versos ditos pelo Coquelin eram os d'um 
poeta; os que os outros nas replicas gaguejaram, chegavam a pa- 
recer d'um idiota. 

O espectáculo começou por três actos de Molière, o Medecin 
malgré lui, que os senhores conhecem da adaptação do Castilho 



48 



Impressões de Theatro — Medecin malgré lui 



e do desempenho do Taborda, 
o inimitável, o insubstituível Ta- 
borda, mestre naturalista entre 
os naturalistas que são mestres, 
reliquia veneranda dos nossos 
palcos, gloria insigne da nossa 
scena, o bom e radioso velhinho. 

Ha coisas que se não criticam, 
em que não se falia, pela mesma 
razão porque não se meche em 
trampa : porque quanto mais se 
lhes meche mais fedem. 

Não se dirá aqui palavra, pois, 
do Medecin malgré luí do Ga- 
det. 

Simplesmente se lamenta que 
a gente que vai ao D. Amélia 
calce de sapateiros caros e tenha 
tanto amor aos tacões das suas 
botas. . . 

Está pela hora da morte o cal- 
çado, ou então, os callos, que es- 
tes estrellos nos teem feito na 
paciência, já se ramificaram até ás plantas e quem tem callos, não 
pateia. 

Mas também não se mette em apertos: — fica-se em casa e 
deve deixar o theatro ás moscas. 




Actor Taborda 
Caricatura de Celso Herminio 



O que por não ser tolo e ser de justiça faz o chronista, que 
não indo ás duas extraordinárias, fecha aqui as suas chronicas. 



l3 DE MAIO. 



Meu rapa^ : Apesar das nótulas rápidas e fugitivas — em que a 
cólera indómita, irreprimivel, umas vezes irrompia desgrenhada 
e crua, em que a admiração, outras, sobrelevava, quente, enthu- 
siastica — com que tentei esquissar-te, os nervos excitados, as 
pálpebras em fosquinhas de somno, noite a noite, o corpo a pedir 
cama, as impressões variadas e heterogéneas, colhidas nas recitas 
do Coquelin, apesar disso, por isso mesmo, talvez, estás á espera 
de notas detalhadas, juí- 
zos difinitivos, da impres- 
são em bloco, sobre essas 
oito noites de regabofe e 
de arte, de emoção e de 
pandega, de altos e baixos, 
em que o espirito, raro, 
subia ao ethereo do Goso e 
do Sonho p'r'á miúdo cahir 
no atoleiro da Cabotina- 
gem e da Especulação. . . 

Mas, — que diabo ! — a 
impressão em bloco, é a 
somma total, com prova 
dos nove, das impressões 
parciaes e de momento: 
arte e industria, theatro e 
artigos de Paris, cães e gen- 
te, um grande artista e um 

mau reportório, frangalhos Coquelin Ainé 

de emoção e injecções de Caricatura de Leal da Camará 




5o 



Impressões de Theatro — Coquelin 



tédio, um Coquelin e dois Coquelinos, S. Luiz de Braga e Mr. 
Herz, um acto do Cyrano de Bergerac e a reedição de uma con- 
ferencia banal : noves fora — nada . . . 

Porque Coquelin vale por nove e todo o resto... foi coisa 
nenhuma. 

Ahi tens o bloco. Detalhando, porém, agora que elles se foram 
e os Carambas vieram, que o Nadai, no mesmo scenario em que 
Coquelin fez a scena da varanda do Cy- 
rano, rouba galinhas na Banda de Trom- 
petas, revertido S. Luiz ao seu estado na- 
tural de castanholas, dir-te-hei, meu ra- 
paz, que raro terá pisado as tábuas dum 
palco actor que, dentro da sua escola e do 
seu tempo, seja mais profundo e mais com- 
pleto actor, que melhor conheça o seu 
métier e mais longe leve o seu amor pelos 
loiros do oflficio, do que esse extraordiná- 
rio Coquelin, por nós visto com 62 janei- 
ros em cima do lombo, a fazer os gran- 
des papeis de mocidade e de frescura, tra- 
vessos e á panache, do Cyrano e do Mas- 
carille. 

Simplesmente a escola de Coquelin — 
a escola da declamação francesa criada 
p'r'ás ribombancias e granadas dos ale- 
xandrinos huguescos e modernisada nas 
longas e parodoxaes tiradas do Dumas e 
nas respostas grandiloquas do Augier — 
a escola de Coquelin, já tem, como elle e 
como o theatro dos seus autores, cabellos 
brancos erheumatismo: a gente tira-lheso 
chapéu respeitoso, applaude por honra da 
firma, mas não se comove e não vibra, 
não se enthusiasma e não sente : Coquelin 
e a sua escola estão pVás plateias de hoje, como os jacobinos es- 
tylo 48 e a sua loira rhetorica de caracoes estão pVós rapazes 
da nossa geração : muito respeito, muita estima, muita veneração 
e o vago anceio, secreto e inconfessável, de lhes fazer, quanto an- 
tes, um enterro de estrondo. 

Coquelin foi o actor da época longiqua e já nebulosa em que 




JuLio Nadal 

Caricatura de Raphael 

Bordallo Pinheiro 



Impressões de Theatro — Coquelin 



5i 




Sarcey 
Caricatura de Doahin 



Papá Sarcey — Sire-Conferencia 
— foi critico : o actor duma épo- 
ca em que a critica e o publico 
iam todas as noites ao theatro 
p'ra fazer uma boa digestão. 

As peças representavam, en- 
tão, na therapeutica, o papel hoje 
reservado ás aguas mineraes, e 
mestre Sarcey — e com elle a 
gente do seu tempo — teve sem- 
pre muito mais em conta o Coque- 
lin do que o carvão Belloc e entre 
o bicarbonato de soda em capsu- 
las e o n^estournelles no desem- 
penho coquelinico, não ha, ain- 
da hoje, francez do Cerco e do 
Segundo Império, que aplique a droga, tendo á mão o come- 
diante. 

D'ahi a fama universal de Ainé e a forma extranha e angus- 
tiada com que, nas thermas de Bom-tom e estações d'agua do 
Hig-life, a quando o verão, lhe pagam a peso d'ouro um simples 
monologo, meia dúzia de versos : é que metade das curas de que 
abarrotam as estatísticas, tem-nas elle conseguido, repentina- 
mente, nos palcos improvisados em cima das mesas da roleta, di- 
zendo aos dyspepticos de todo o mundo Le courbeau et le re- 
nard. 

Hoje, d'essa escola ida, só elle tem o segredo e o exclusivo : 
criou quasi toda a mestrança do Conservatório parisiense, mas a 
technica enferrujou-se-lhe e, azeitados os gonzos pela rebeldia ino- 
vadora de Antoine, nasceu a technica do Theatro Livre, do theatro 
moderno. Os discípulos, bafejados pelo talento, evolucionaram, 
personalisaram -se-lhe e não são Coquelins: são elles. Outros, os 
que, á falta de talento pessoal, conservam a chancela do mestre, a 
marca da fabrica, são os consagrados da Comedie, os Cadetes, os 
Barg}'ses e os que, no vulgar, se chamam no theatro do mundo, 
os diseurs^ os raisoneurs, os coirões, que, por não comerem syla- 
bas e scandarem as palavras, julgam ter feito tudo o que ha a 
fazer na Arte de representar. 

Eu exemplifico : se perguntares a metade dos frequentadores de 
D. Maria quem, lá na casa, mantém a tradição coquelinica dir-te- 



52 



Impressões de Theatro — Coquelin 



hão que o Augusto Mello. Se per- 
guntares porquê, respondem : por- 
que di^. 

Unicamente, Coquelin diz e re- 
presenta : os que lhe vão na peuga- 
da, dizendo, julgam-se desobrigados 
de representar : é a pequenina e té- 
nue differença que separa um génio 
dum burro. 

Claro que elle não é um génio nem 
elles são uns burros. Mas aproximam- 
se e na Arte, como na loteria, as 
aproTÚmaçoes não dão a taluda, mas 
equivalem, muitas vezes, ao mesmo 
dinheiro. 




Augusto de Mello 

Caricatura de Raphael 

Bordallo Pinheiro 



É, pois O criador d'uma escola de representar. A escola passou, 
os discípulos ou a abandonaram, emancipando-se, ou crystalisa- 
ram em decalques e imitações e anullaram-se. 

A passagem de mestre de tal envergatura, pelo palco de D. 
Amélia, devia, ainda assim, ter-nos trazido, a par de emoções ar- 
tísticas, problemas e lições com que todos teríamos a aproveitar: 
o publico, aprendendo a ver, os críticos aprendendo a analysar, 
os do officio aprendendo a representar. 

Do officio, só lá vi na maior parte das noites o actor Valle que 
já não aprende, á uma por ser velho e á outra porque, dentro do 
seu feitio e da sua veia, não tinha que aprender com o Ainé, e aos 
outros, em cabriolas e caretas, momíces e esgares, podia-os, até, 
ensinar, porque, mesmo sem chauvinismo, o Subtil Maduro do 
Valle, é mais cómico e menos palhaço, que o Sgnarelle de Cadet. 

O publico não aprendeu a ver porque o reportório era tal, tão 
selecta e proficientemente escolhido p'ra pretos, que não tendo o 
snobismo posto ainda em moda mascarrar as ventas antes de ir 
pVás íournèes de celebridades, estou em dizer que só Gou- 
veia Pinto e mestre Makololo estavam, nas suas tangas talhadas 
em smokings pelo Amieiro, em condições de côr, de toilette e de 
espirito, á altura de verem e de apreciarem as subtis delicadezas 
de espectáculos que, deixando frios e impassíveis intellectos de 
gente branca, seriam, comtudo, de arripiar as trombas, em ri- 



Impressões de Theatro — Coquelin 53 

sadas de gáudio e de espanto, á escarumbaria da Ilha do Fogo e 
da Rhodesia. 

Pelo contrario o publico a quem propinam em doses p'ra ca- 
vallo holoepathias de Molière intermeiadas por duas peças de 
cabellos grisalhos — o Poirier e a Seiglière — e por uma indigestão 
de marmellos — Abbé Constantin — dando-lhe apenas em dym- 
namisações homcepathicas dois actos do Cyrano, e como espectá- 
culo de transição p'r'o género chico, a Arlésienne, com desafina- 
ções de corda e de sopro á sombra de Bizet, o publico, fiado na 
palavra honrada dos que lhe asseveram ser aquillo o dernier cri 
do parisianismo e da arte dramática, abitolando o mérito dos ar- 
tistas pela tabeliã do camaroteiro, o publico, que viu o Novelli 
pelos preços da casa, o Zacconi por pouco mais e o Coquelin por 
25 tostões, o publico que já chamava ao Brazão o primeiro actor, 
está'qui está em arvorar o Cardoso do Gymnasio em estrello e a 
encarrapitar o Gervásio — que Deus tenha — ou o Schwalbach — 
que o Diabo carregue — nos cornos da lua, d'onde Molière laus- 
péreaniza aos lunáticos e aos sousas-monteiros da Academia. 

O publico não aprendeu a ver, porque não lhe mostraram 
coisa que se visse : Coquelin Ainé só foi verdadeiramente grande 
no 3.° acto do Cyrano— às escuras e com as gambiarras apagadas 
— e a educação esthetica da plateia tem de recuperar o tempo 
perdido, lambendo-se agora com os Carambitas que, se não mos- 
tram arte, ao menos, não se fazem rogados p'ra expor as pantor- 
rilhas. A critica, no capitulo d'analyses, reconheceu a inferioridade 
da escola franceza ante a italiana ; marcou, com o Coquelin 
como ponto de partida, as phases e étapes da arte de representar 
e da dramaturgia moderna até ao Antoine, e, tendo notado o ar- 
tificialismo da França e a naturalidade da Itália, como caracterís- 
ticos entre o classicismo parnasiano do Coquelin — todo elle 
efTeitos p'r'ó publico — e o revolucionarismo naturalista do Zac- 
coni — todo elle detalhes de verdade e de observação — no 
Gringoire, que foi a peça de confronto, admirando a sonora 
correcção dos francezes, teve de cotál-os, com stigmas de infe- 
rioridade, sentindo crescer o enthusiasmo e o amor pelos italia- 
nos, incorrectos e humanos, grandes e naturaes, extranhos e ver- 
dadeiros : Emanueis, Novellis e Zacconis, que, vistos uma vez, 
nunca esquecem, tão rijo e fundo elles nos ferem a alma e o es- 
pirito, os nervos e a razão. 

Os francezes gravam-se no tympano ; os italianos no cérebro : 



Impressões de Theatro — Ermete Zacconi 



Coquelin prende-nos a attenção, Zacconi arrebata-nos a intelli- 
gencia. Coquelin delicía-nos com o rythmo da sua dicção, Zacconi 
enthusiasma-nos com o fogo do seu temperamento. 

P'r'ás plateias frias do norte, p'r'ás 
plateias banaes do tout-Paris, Co- 
quelin é um actor de muito talento, 
mestre da scena, como Le Bargy é 
mestre de gravatas ; p'ra nós, meri- 
dionaes, exaltados e vibrateis, cheios 
de sol e de febre, Zacconi é um actor 
de génio, brutal e grandioso, arreba- 
tado e explosivo, mestre entre os 
mestres, grande entre os grandes. 

Coquelin é um frio : Zacconi um 
impulsivo. Chegado á maturidade, á 
velhice, Coquelin cria, á custa do 
publico, um asylo — é previdente, 
tem bom senso. Zacconi, se chegar 
a velho — a não morrer, deveras, um 
dia, em scena — criará, á sua custa, 
um theatro — será artista, terá alma. 

Temperamentos differentes, 

escolas diversas, se a critica não 
aprendeu mais do que a disparatar em 
confrontos, dirás, meu rapaz, que 
pouco aprendeu... 

Enganas-te : aprendeu a adorar o 
Zacconi e na religião da Arte, como 
na religião do Christo, adorar o Deus, 
admira-lo nas suas obras e nas suas 
criações, é ainda hoje, em terra de 
herejes, o mais alto, e mais nobre 
destino da creatura. E ^^^com 

Caricatura de Jorge Colaço 




Mas os outros? Eram três os Coquelinos nos cartazes de S. 
Luiz de Braga. Dessa trindade — um bello truc — a empresa, se não 
fez um dogma, como a Egreja da Trindade do Cathecismo, fez 
uma fonte de receita — o que não se lhe pôde levar a mal — e 



Impressões de Theatro — Coquelinos 



55 



fez uma razão pVa não pôr em scena o Cyrano de Bergerac de 
cubo a rabo — o que foi um desaforo. 

Mas só nos cartazes eram três. No palco foi só um. A Egreja 
deve um doce a S. Luiz, que nos deu uma demonstração pratica, 
tangivel, palpável, das três pessoas distinctas e uma só verdadeira 
— o mvsterio que desde o concilio de Nyceia, tem feito suar o 
topete á benta Theologia. 

Era só um. Os outros eram, de longe em longe — Cadet sem- 
pre nos monólogos, Jean em scenas da Seiglière — simples acto- 
res correctos. Mais nada. 

Mas Cadet é o societário mais antigo da Comédie. 
Isso prova, apenas, que entrou p'ra lá por ser mano do irmão 
e que tem subido de posto pelo almanach e pela tarimba: Sua 
Alteza Arredia o sr. D. Affonso também é general de artilheria 
e ainda ninguém se lembrou de lhe chamar artilheiro. 

No palco, como no Gotha, ha os filhos segundos, posto não 

haja o Direito Divino : 
Jean é o desmentido ca- 
thegorico, frisante, irres- 
pondivel ao velho ada- 
gio popular — filho de 
peixe sabe nadar. 

Não ha cortiças que 
o mantenham á superfí- 
cie das aguas. E filho de 
peixe... mas nasceu sem 
barbatanas. 

Além d'isso, é gordo. 
As enxúndias, na arte 
scenica, quando se loca- 
lisam nas nádegas e nas 
bochechas podem dar 
um Chaby ; quando tre- 
pam ao cérebro, dão um 
Jean. 

Não ha, comtudo, 

exemplo de que tenham 

dado um actor: no pro- 

, ,, prio Cyrano lá temos a 

Jean Coquelin ' ^ ^ 

Caricatura de Leandre confirmação : toda a sar- 




56 



Impressões de Theatro — Coquelinos 



rafusca do i." acto é por estar em scena Montfleury, um pachi- 
derme a fazer de gente. 

Rostand, ao escrever o seu poema, certo pensava dar o papel 
de Montfleury ao filho de Ainé, mas como alguém lhe afirmasse 
ter havido em Lisboa um pasteleiro muito gordo chamado Gócó, 
transigiu por deferência ao Coquelin e deu-ihe o papel de Ra- 
gueneau — o Cócó da Poesia — como o outro, o nosso Cócó, 
foi o Ragueneau do fontismo e da regeneração 

Nos monólogos, Coquelin Cadet fez successo : diz, sublinha e 
pisca os olhos. 

De resto, Ainé também monologou : a plateia riu menos mas 
admirou mais. No circo a gente ri muito com as facécias e as ca- 
briolas dos clowns, — chega mesmo a rebentar os coses. Mas 
não se lhes admira o talento ; quando muito, applaude-se-lhes 
a destreza e a agilidade. 

Com um bocadinho de musica, Cadet era o Paulus; com uma 
fardeta e um lenço, era o Polin ; com outro physico e outro sexo 
era a Yvette Guilbert. Ainé, sem musica, sem farda e sem sexo, 
é um artista. 

Ainda assim, é claro, Cadet, se não é um artista, é, incontes- 
tavelmente, um actor O Jean e o resto da Companhia, esses, é 
que não eram artistas, nem actores, nem coisa alguma : eram 

verbas de encher, cifrões de 
cartaz. 

No ultimo dia, Ainé — em 
beneficio dum asylo criado 
por elle e num cosmopolitis- 
mo de caridade que a mdi- 
gencia nacional tem a agra- 
decer e que a caridade indi- 
gena deve imitar, indo fazer 
beneficios na Porte Saint- 
Martin — fez uma conferen- 
cia banal e longa, um con- 
fronto kilometrico entre Mo- 
lière e Shakspeare. 

Sir Yrving — o grande 
trágico da Inglaterra — era, 
sobre o mesmo thema, ca- 
paz de dizer o dobro, o con- 




CoQUELiN Cadet 
Caricatura de Leal da Camará 



Imprkssões de Theatro — Coquelinos 5j 

tpario e a verdade ; mas Molière era francez, Sir Yrving é inglez 
e a nossa parva anglophobia de patrioteiros deve estar grata ao 
chauvinismo parisiense de Coquelin. 

N'essa conferencia, em parenthesis, Ainé permittiu-se a extra- 
vagância de discutir, com phrases de irónica gentilesa, os que não 
se tinham mostrado agradados do talento do mano Cadet. 

E quando todos esperavam vê-lo pontificar argumentos a pro- 
var que Molière devia ser representado por fantoches ou por acto- 
res a fantochar — visto que assim o interpretara o mano cuja de- 
fesa elle tomava a peito — dos lábios de Coquelin escorreu, ape- 
nas, em fios oleosos de indignação, que il y a 1'honneur des co- 
mediens. 

A qual honra vem a ser a de, acima de tudo, antes de tudo — 
com o sacrifício da própria individualidade, da arte e do bom 
senso — respeitar o texto, a rubrica, a tradição e as intenções do 
auctor que se representa. 

Assim, representando Molière, Cadet respeitava o texto, a ru- 
brica, tal e coisas, de Molière, como se viu, logo a seguir á con- 
ferencia do mano : 

ScENA VI do Mariage force, tal Scena vi do Mariage force, tal 
qual resa o texto da minha qual no-la disse Cadet. 

edição, pag. 146 do vol. 3.° 

Pancrace Pancrace (Cadet) 

Voule^-vous me parler ita- Voulej-vous me parler ita- 

lien ? lieti ? 

Sgnarelle Sgnarelle 

Non. Non. 

Pancrace Pancrace 

Espagnol t Espag nol ? 

Sgnarelle Sgnarelle 

Non. Non. 

Pancrace Pancrace 

Allemand? Portugaisf 

Ora, respeitando assim o texto, a seguir ao parenthesis do 
mano, como numa das noites anteriores respeitara os versos do 
Baiser, de Theodore Banville, calculas, meu rapaz, como elle res- 
peitava rubricas, intenções e tradição. 



58 



Impressões de Theatro — Coquelinos 



Tu calculas, mas nós vimos: vimos o Ainé no acto mimico do 
Bourgeois gentilhomme, acto que é a mais desenfreada farça de 
Molière, fazer um Mr. Jourdain, tão natural, tão burguez, tão rua 
dos Fanqueiros, que a festa turca parecia uma iniciação maçó- 
nica do Grande Oriente e Mr. Jourdain, um mano tão trinta-e-tres, 
tão tres-estalinhos, que Molière nunca nos apareceu mais d'hoje, 
mais nosso contemporâneo, nem mais patusco. 

Qual delles, então, falseou a rubrica e a tradição : Ainé, fazendo 
as personagens de Molière de carne e osso, com alma e com vida 
e figura humana, ou Gadet fazendo-as de engonços, de pau, com 

cordelinhos e cambc^lhotas ma- 
cabras de fantoche articulado ? 
Ainé é francez. A França 
é o paiz da blague, do canard, 
do espirito e da troça. 

Ainé não fez uma tour- 
née d'artista, fez uma blague 
de rapin: esteve a troçur 
comnosco, trazendo-nos a fa- 
mília, trazendo-nos aquelle re- 
portório e rematando, no fim, 
com aquelle fecho patusco de 
defeza do mano : Vhonneur 
des comediens. 

L'honneur des comediens l 
Pois que não volte, assim, 
outra vez, se não quer saber como nós sustentamos as tradi- 
ções e a honra dos bons tacões lusitanos. 




CoQUELiN Ainé 
Caricatura de J. Abeillè 



Só duas palavras ao sr. S. Luiz Braga. 

De boas intenções está o inferno cheio. Mais dois cartazes 
como este — que veio logo a seguir ao do Le Bargy — e o Diário 
do Governo tem de modificar-lhe a carta de nobreza: Visconde 
de S. Luiz de Braga, como aviso aos frequentadores do seu thea- 
tro hei por bem elevál-o a conde de S. Luiz de Braga... por 
um canudo. 



XI 



3o DE MAIO 

Meu rapa^ : — Tem estado de lucto a piedosa e conspícua 
confraria do /.» de Dezembro: de dia, o patriotismo lusitano de 
Valverde, Aljubarrota e Montes Claros, abre as narinas e, a lar- 
gas fungadelas, sorve o cheiro a esturro que o telegrapho nos 
traz de Hespanha ; de noite, cantharidisa-se, a sêcco, o peito a res- 
folegar e o olho luzidio, com as moças que, na ultima remonta, 
S. Luiz nos trouxe p'r'ó D. Amélia. 

Não ha franquismo nem renda de casas que, em quites pa- 
trióticos, nos tirem das pontas desemboladas do iberismo : de dia, 
é o Salmeron e el-rei Caraguito, á noite, a Taberner e a Lazaro; 
politica e zarzuela. Nadai e Republica, a telegraphia sensacional 
das folhas e as Jotas trinadas das Carambitas, tudo conspira p'ra 
que o bom alfacinha, dês que se levanta té que se deita, traga 
a phantasia enrolada n'um manton de Manilla^ vivendo a vida dos 
barrios bajos de Madrid, em macaqueações de unificação revolu- 
cionaria e anceios de iberismos carnaes nos dominios castelhanos 
de S. Roque e taboinhas adjacentes. 

Nunca o theatro teve sobre os costumes e baldas d'um povo, 
sobre as suas convicções e idiosyncrasia, mais funda e manifesta, 
mais fulminante e radical influencia : conselheiros pacatos, por- 
tuguezes de áquem e d'além mar, uma vez idos ao D. Amélia, reco- 
lhem á Arcada hespanholisados e golfos; honrados patriotas, 
lidos no D. Jayme, a porejarem tradicções e bandeiras das quinas, 
acordam a vizinhança com estridências de Yiva Espana e está 
averiguado até, que os horrores do João Franco ao papão de Cas- 
tella, com que nos ameaça e o aconchegam á monarchia, não 
vêem positivamente dos planos usurpadores do Salmeron, mas 
da virulência do gonococus de além fronteiras que sob a rubrica 



6o - Impressões de Theatro — Antoine 



gonococus das hespanholas, mestre Sabino Coelho classifica entre 
as mais renitentes bleonorrhagias conhecidas — a palreira do 
Branco Gentil e a synonimica do Hintze inclusas. 

A sopa, vacca e arroz curva-se ante o puchero e o gaspacho : 
o hymno da Carta saracoteia-se em compassos de malaguena e os 
dois estropeados da Peninsula, Camões zarolho e Cervantes ma- 
neta, no albergue dos inválidos do génio, confraternizam em te- 
legrammas de saudação á estratégia de S. Luiz de Braga que fez 
mais com uma companhia de zarzuela rebentada, que o Duqu^ 
d'Alba com os seus mosquetes e alabardas de guerra. 

A critica, porém, constatando os effeitos aphrodisiacos e polí- 
ticos da zarzuela chica na alma das multidões, remette-se, com- 
tudo, ao silencio quanto aos méritos e prendas das tiples sem 
voz e dos clowns sem arte, que as gazetas affirmam ser a nata e 
fina flor da espécie e do género, como se a Pretel, a Cubas e a 
Saragossi, o próprio Nadai, relegado á segunda plana e o Ri- 
quelme fossem, no officio, despeciendos e desconhecidos dos que,, 
só a medo e por honra da firma, patearam, outro dia, a Verbena 
de la Paloma. 

E remettida ao silencio a critica que, tendo beliscado outro 
dia os Cadetes do Coquelin, não pode sujar as unhas nas orelhas 
do Orejon, deixa meu rapaz, que te dê a boa nova de que está a 
chegar a Lisboa, caminho da America, pr'a onde leva n'uma con- 
scenciosa tournée de Arte e de propaganda, o melhor da sua 
companhia, o melhor do seu reportório e toda a rigorosa mise- 
en-scene do seu theatro, o actor Antoine, figura culminante da 
moderna arte de representar, criador de uma escola, iniciador 
d'uma esthetica, e, incontestavelmente, uma das mais altas e in- 
telligentes cerebrizações theatraes de todo o mundo. 

Falo-te d'elle porque, de passagem, entre um comboio e um 
paquete, Antoine dá três espectáculos no D. Amélia. 

Não sei o que, a tostão a linha, S. Luiz de Braga pontificará 
nas gazetas, que mirabolancias de adjectivos escabichará nos le- 
xicons p'ra chamar snobos e catitinhas, seresmas e fraldiqueiros^ 
n'essas três noites tórridas de verão, ao forno crematório do The- 
souro Velho; quito mesmo indagar o effeito que essas pyrote- 
chnicas de reclamo terão sobre o publico, gato escaldado pelos fo- 
gos de vista e luminárias dos Coquelinos, dos Bargyses e das 
outras celebridades carapau-dez-réis e estrellas de três ao vin- 
tém com que a Empreza do D. Amélia tem engazupado, as mais 



Impressões de Theatro — Antoine 



6i 



das vezes, os que, indo ao theatro em busca de arte e de emoções, 
no theatro topam com o cabotinismo infrene de estuporinhos 
ermostrengos que rufam no tambor das suas artimanhas o hymno 

burlesco dos pacovios que 
se escagarrinham em ap- 
plausos e admirações de 
hottentotes e botecudos a 
tudo que vem da Extranja : 
des das gravatas do Pitta 
camiseiro té ao génio e á 
diplomacia do Soveral em- 
baixador. 

Quito indagal-o, porque 
acho, mercantilmente, cor- 
recto que os emprezarios 
puxem a braza á sua sar- 
dinha e, abrindo valas fun- 
das de adjectivos na estupi- 
dez crassa da sua clientela, 
procurem levar agua ao 
seu moinho e papa-moscas 
ao vinagre das suas bilhe- 
teiras. 

E não serei eu que indignado barafuste e me inflamme contra 
os que, indo de borla ao theatro vem cá pr'a fora, pr'ós jomaes 
€ pr'ós cafés, proclamar maravilhas e primores no que os pagan- 
tes intellectivos só lobrigaram banalidade e desaforo, porque 
sendo eu — graças a Nosso Senhor! — mviito mal creado e de 
poucas maneiras, ainda sei que é incivil, além de ser impudente 
o descompor quem nos obsequeia, como sei, também, que merece 
pontapés no rabo o melcratefe que indo por convite á casa alheia 
vem cá pr'a fora dizer mal do serviço, achar a sopa com esturro, 
o amphytrião a trezandar dos sovacos, os talheres por arear e 
os vinhos pura zurrapa. 

Antes pelo contrario : não me venham com o chavão de que 
as borlas nos theatros representam um direito da imprensa e 
nanja uma isca dos emprezarios. Podem, quando muito, ser uma 
retribuição dos annuncios das emprezas, uma espécie de trocos 
miúdos com que se pagam, pr'a não desembolsar pecunia, noti- 
cias de espectáculos, mudanças de cartaz, pequenos serviços de 




Antoine 
Caricatura de Capiello 



62 Impressões de Theatro — Antoine 

publicidade e de reclamo a tanto a linha conforme as tarifas da 
casa. 

Direito da critica, temos conversado : o direito de criticar, de 
dizer mal ou de dizer bem, faz parte integrante do bilhete pago- 
por todo o espectador. Compra-se á porta, não se recebe da em- 
preza. O jornalista recebe o bilhete p'ra annunciar o espectáculo,, 
como a claque p'r'ó applaudir. Não ha distincções nem subter- 
fúgios : os amigos desculpem — mas, quanto a mim, indo de borla 
ao theatro, ou se diz bem — quando a verdade nos mandaria di- 
zer mal — p'ra retribuir, com uma intrujice, a generosidade da 
empreza que nos recebe em sua casa, e, dizendo bem n'essas con- 
dições, obsequei-se a empreza mas intruja-se o leitor, ou se diz 
mal p'ra não se intrujar o leitor e burla-se o emprezario, que 
nem nos convida pVós seus espectáculos pelos nossos lindos 
olhos nem p'ra virmos p'r'ás folhas afugentar-lhe a freguezia. 

Não levo, pois, a mal que cada um faça o seu arranjinho p'ra 
governar a vida ; os emprezarios dando borlas p'ra impingirem 
trampa por banha de cheiro, os jornaes acceitando essa mel- 
gueira pVa publicarem os annuncios em que, sob a responsabili- 
dade dos perfumistas, a bodega se oíferece ao respeitável publica 
que gosta de perfurmar-se. 

Mas que, pelo facto de um jornal acceitar borlas, esse jornal, 
além dos annuncios, tenha que dizer bem, ou que vá ao theatro 
com essa borla e venha p'ra redacção dizer mal, pode ser praxe, 
uso, pode vir a ser lei ; mas ha de ser sempre lei de pouca ver- 
gonha, uso e praxe de desvergonhados e pantomimeiros. 



Que queres ? E' o contagio dos parenthesis postos em voga na 
conferencia do Coquehn : alhos com bugalhos, pés pelas mãos 
trapalhadas que tu já não sabes de onde partimos, onde quere- 
mos chegar. Sei eu. Veiu a propósito dos últimos cartazes de ar- 
ribação terem sido maus e as gazetas terem dito bem, do publico, 
com a pedra no sapato, estar meio desconfiado com o cartaz que 
annuncia agora o Antoine e de eu não saber o que S. Luiz po- 
derá dizer do fundador do Theatro Livre — por si e pelos seus 
borlistas — que sendo a expressão da verdade, não possa ser to- 
mado á conta de reedição das passadas patranhas. 

Como pago sempre o meu logar e cá em cima, na redacção 



Impressões de Theatro — Antoine 63 

do Mundo, não se trípoteja com bilhetes, posso e devo dizer ao 
publico restricto que me lê — e não me descompõe em bilhetes 
anonvmos — o que do Antoine sei dos livros e da tradição oi ai 
dos que o viram na sua ultima phase de triumphante e consagrado, 
o que d'elle vi e aprendi na sua primitiva phase de luctador e de 
combatente. 

Não sei, nem me importa saber, se com isso facilito e des- 
bravo o caminho a S. Luiz de Braga e se, embora cauteloso e re- 
servado no graphismo do meu enthusiasmo pela maneira e pela 
technica que Antoine criou no theatro, abrindo horizontes novos 
á Arte, rasgando-lhe amplos roteiros, derruindo idolos, esfranga- 
lhando preconceitos e reconstituindo, em tentames de audácia, 
na ruinaria do velho templo do Convencionalismo, da Ficção e do 
Postiço, um templo novo á Verdade, á Natureza e á Realidade; 
não sei se vou comprometter antecipadamente a minha opinião 
pessoal, que pôde ser modificada, em amplitude ou restricção, 
mas que não será, pela certa, destruída pelas três recitas em que 
vou vel-o, agora, em plena maturação do seu talento, na posse 
plena do seu métier, do seu processo e dos seus recursos, no per- 
feito e completo vigor da sua individualidade e no zenith astral 
da sua carreira de artista. 

A verdade é só uma, eterna e grande : Antoine, pondo o thea- 
tro ao serviço da verdade, pôde, espontadas pela gloria as ares- 
tas da lucta, ter exagerado ou ter transigido ; mas no seu amor 
ao theatro e á verdade, se são criveis os erros ou as deficiências 
da exteriorização, não são possíveis as apostasias, e não compro- 
metto opiniões nem temo haver de me desmentir, asseverando, 
desde já, que Antoine é, pelos intuitos e pela maneira, pela in- 
telligtncia e pela illustração, um Mestre de Scena, iniciador e 
apostolo de um theatro novo, feito de vida e de idéas, forte e 
humano, amargo e grande : — amargo porque a vida é amarga, 
grande porque tem a grandeza da humanidade, forte porque tem 
a força da Natureza. Claro que quem gostou do Coquelin na sua 
correcção académica de diseur, todo elle sugeito, verbo, e attri- 
buto, escandando as syllabas e não desmanchando a linha, cheio 
de blandicias e de visagens p'r'ô publico, prenho de artificio e 
convenção, não poderá levar á paciência o Antoine, que — admi- 
rando como um antepassado o Coquelin, a ponto de arrear a sua 
bandeira se o creador do Cyrano fizesse tremular o seu pendão 
na conquista do Odeon — varreu do theatro o convencionalismo. 



64 Impressões de Theatro — Antoine 

a harmonia das linhas, o rythmo da dicção e todas as velharias e 
cordelinhos clássicos em que Coquelin raizou a sua reputação e 
que constituem ainda hoje as muletas a que se arrimam os 
rheumatismos e as aguas circassianas a que pedem frescores de 
mocidade o clacissicismo e a arte official do theatro francez. 

Coquelin é um actor ; des que entra no palco té que baixa 
o panno, representa e diz um papel ; olho no publico, ouvido no 
ponto, representa pVá platéa; mostra ao espectador, dentro 
do seu feitio e dos seus moldes pessoaes, uma personagem. 

Antoine é um criador: des que lê uma peça té que a re- 
tira do cartaz, vive um determinado homem : no palco não é elle 
quem o publico vê, não é a elle que o ponto sopra ; é ao ente 
imaginado pelo auctor que sentimos e vemos palpitar e soffrer, 
praguejar ou discutir : realisa dentro da humanidade e da natu- 
reza, uma criatura. 

Nos tempos da lucta, da discussão e do combate, essa cria- 
tura tinha, como todas as criaturas, a necessidade de cuspir, e de 
se coçar, de assoar o nariz a um lenço, se era da roda fina, aos 
dedos, se era um paria ou um porcalhão, e o Antoine cuspia, co- 
çava-se, assoava-se, chegando mesmo, ao que se affirma, a verter 
aguas um dia em que se viu apertado e quiz, d'uma assentada, 
evitar-se cálculos na bexiga e fazer suar o topete ao Pae Sarcey. 

Agora, tendo imposto á França e ao mundo o seu processo, 
desbravada a sua escola dos exageros e asperezas indispensáveis 
a todos os movimentos de protesto e de inovação, podem estar 
descançados os pães de família : Antoine não vae desbotoar-se 
ali no D. Amélia ; vae viver os personagens, e na busca constante 
e reflectida da realidade e da natureza, vae mover-se e gesticu- 
lar, sentir e falar, como fora do palco, na realidade e na vida, se 
move e gesticula, como sente e fala um homem de carne e osso. 

No palco Coquelin é um comediante e Antoine é um homem ; 
na Arte, Coquelin é a ficção e Antoine a Verdade, e por isso no 
theatro, Antoine é o amanhã, o futuro e Coquelin o hontem, o 
passado. 

Antoine foi no theatro, na primeira étape da sua carreira, o 
que Zola foi no livro na época de combatividade da sua escola. 

Com o mesmo ideal de verdade, com o mesmo vigor da exte- 
riorização, um na scena, nos seus papeis, outro na prosa, nos seus 
livros, violentos e másculos, rudes e incançaveis, luctando dia a 
dia, esses dois homens realizaram pela Verdade e pela Sciencia 



Impressões de Theatro — Antoine 



65 



no campo vasto das idéas, na amplidão infinita da Arte, um mo- 
vimento revolucionário de tal alcance e magnitude que, honrando 
a geração a que pertenceram, honra a França que os viu nascer. 
Em volta de ambos, pela lei fatal da gravitação, que faz que 
em torno dos astros girem as nebulosas e a penumbra, emara- 
nharam-se as teias babujadas da estupidez, da reacção, do con- 
servantismo, da hypocrisia, da calumnia e da infâmia. 




Emile Zola 
Caricatura de Leandre 



A obra de Zola, durante annos, foi p'r'á gente bem educada, 
pVá critica de luva branca, um montão de esteico e de obsceni- 
dade — uma espécie da litteratura do Alfredo Gallis. .. com talento. 

O theatro de Antoine era, té ha poucas épocas, p'r'ó con- 
servantismo sarceyano, p'r'á moral dos castrados, um gyneceu 
de escândalo e de deboche — uma casa de passe. . . sem taboinhas. 

Na obra de Zola via-se apenas a pagina herética e suja, da 
Terra em que Jesus Christo — o bor.acho e porcalhão — traque- 
java ruidoso e obsceno. 

5 



66 Impressões i>e Theatro — Antoine 



No theatro de Antoine, durante muito tempo, a critica lobri- 
gou, somente, os bois esquartejados da mise-en-scène dos Bou- 
chers e, como se não houvesse já a desmoralisação do theatro sen- 
timental e piegas, em nome do Pudor, pedia parras, no Theatro 
Livre, p'r'á immoralidade da comedia rosse, que, de resto, An- 
toine, deixou entrar no seu repertório porque as peças honestas 
que ao principio lhe confiaram eram de fancaria e a honestidade 
burgueza não pôde supprir, nem o talento, nem a verdade, nem a 
observação. 

Claro, que ao iniciar, no theatro, o movimento de que elle foi 
o chefe e o porta-bandeira, o soldado e o pregador, o seu grito de 
guerra ao convencionalismo, o seu credo de naturalidade, o seu 
hymno de observação, peccavam, talvez, por trazer nos seus re- 
pregos a obsecante convenção da Natureza e da Realidade — o 
convencionalismo declamava, Antoine comia as palavras ; o con- 
vencionalismo não tirava os olhos do publico, Antoine voltava- 
Ihe as costas; o convencionalismo só admittia palavras finas, An- 
toine excluia o que não fosse calão. 

Onde o convencionalismo dizia branco, Antoine dizia preto. 

D'ahi a berrata, o escândalo, a discussão. Da discussão, a luz, 

a verdade : se Antoine tivesse começado sem exageros, tentando 

impôr-se sem brutalidades, sem encontrões, sem asperezas, o seu 

movimento teria sido improficuo e estéril. 

Não irritava, não feria e, na arte como na rua, no theatro, 
como em todos os movimentos de revolução e de indisciplina 
que tendem a fructificar e a reconstituir, sem irritar e sem ferir, 
é difficil convencer. E o triumpho vem só da convicção. 
Antoine feriu, irritou, convenceu e triumphou. 
Hoje na Comédie — o ultimo reducto do convencionalismo — 
o melhor do reportório e do desempenho vêem do theatro An- 
toine, e, do Theatro Livre, sobem p'r'á Comedie auctores e come- 
diantes. Rigorismo de enscenação, regras de representar que, ha 
vinte annos, eram um escândalo no theatro livre são hoje pre- 
ceitos rudimentares em todos os theatros e o innovador, o revo- 
lucionário, esse Antoine terrível que fazia calafrios ao Sarcey, 
que punha os cabellos em pé á arte official é hoje, entre os au- 
ctores consagrados ao theatro francez, o maior, o mais brilhante, 
o mais lúcido e o menos contestado. 

Porquê ? Porque Antoine, amando arrebatadamente o theatro, 
amando sobretudo a Verdade, elle, um pobre empregado da Com- 



Impressões de Theatro — Antoine 



67 



panhia do Gaz, sem educação artística e sem 
diplomas do Conservatório, poz a sua vida, o 
seu talento, a sua actividade incansável, a sua 
vontade de ferro, ao serviço de uma Idéa : a 
Verdade no Theatro, a Realidade na Arte. 

Hoje, Antoine, cheio de gloria, apparece- 
nos radiante no seu triumpho : e no theatro, 
que era o templo do convencionalismo, da fi- 
cção e da mentira, elle ergueu um templo 
novo, magestoso e austero, collocando a Na- 
tureza no altar do convencionalismo, enthro- 
nizando a Vida"_no nicho da Ficção e sagrando, 
no tabernáculo da Mentira, desgrenhada e ra- 
diante, a imagem da Verdade. 

Na immensidade da sua obra, de agitador 
de ideias e de iniciador de formulas, como re- 
volucionário da Arte, Antoine não pertence á 
simples critica dos estancos e dos salões : pelo 
seu fogo revolucionário, pela violência destrui- 

Caricatura de J. Abeillé dora dos seus ataques, se, por um lado, está 
sob a alçada da lei de i3 de fevereiro e do 

sr. juiz Veiga, por outro, está acima da comprehensão do publico 

habitual das celebridades extrangeiras. . . 




Antoine 



. . • Alguma vez S. Luiz se havia de arriscar a ter as casas va- 
zias e a merecer o meu applauso incondicional. 



XII 



14 JUNHO 



Meu rapa^ : — Estreia-se esta noite no D. Amélia e quando 
leres estas linhas, entre os penhascos bravios das tuas serranias, 
já se terá feito ao mar, com rumo á America, André Antoine, o 
intrépido luctador e modelar artista a que a França deve, mais 
do que a ninguém, a renovação da sua dramatologia e do seu thea- 
tro — o movimento sadio e intellectivo que trouxe a ribalta toda 

a brilhante decipulagem de 

Becque : Jean Jullien, Ancey, 
Boniface, Guignon, Fabre, 
Geard, Brieux e Renard e a es- 
thetica, humana e audaciosa, 
que iniciou a raça latina na 
admiração theatral de Ibsen, 
de Suderman, de Hauptmann, 
de Tolstoi e de Máximo Gorki. 

Já outro dia, ligeiramente, 
apontei a feição naturalista e 
viva do Theatro Livre, a com- 
batividade e o triumpho de 
Antoine impondo, a]o con- 
vencionalismo dos filhos de 
Dumas e dos netos de Hugo, 
mais dos seus interpretes, a sua 
technica e o seu modo de ser, 
a sua formula e o seu proces- 
so : a intelligente meticulosi- 
dade de enscenacão, a busca c T^ 

' Í5UZANA DeSPRES 

incessante da Verdade e da caricatura de Leandre 




Impressões de Theatro — G/íntoine 



69 



Vida nas linhas geraes do conjuncto e do desempenho, nos mais 
ligeiros detalhes do gesto e da mascara, da scenographia, do mo- 
vimento e da dicção. 

Esquissei, assim, a trajectória da arte scenica em França, dês do 
conservantismo postiço e declamatório, representado pelo Coque- 
lin Ainé e os da Comedie, té ao revolucionarismo brutal e crú, 
vivido em scena pelo Antoine mail-a sua gente, na phase comba- 
tiva do primitivo Theatro Livre e a sua pacata e ordeira evolu- 
ção, após a victoria, té ao naturalismo sereno, frio e reflectido, 
sem asperezas e sem exaggeros, que é hoje a formula única, exa- 
cta e precisa, da moderna arte de representar. 

Com o iniciador e pioneiro, soldado e apostolo desse movi- 
mento, vae relacionar-se o publico do D. Amélia. 

P'r'á critica mundial — que nem toda, positivamente, acceita 
borlas de S. Luiz de Braga — vem a ser hoje Antoine não só um 
dos mais complexos e completos actores latinos — dada a sua 
sciencia de metièr e as faculdades de exterio- 
risação e recursos mimicos de que dispõe — 
mas, mais do que isso e acima de tudo, o mais 
hábil e proficiente ynetteur en scène do theatro 
francez — mercê da audaciosa intellectuali- 
dade com que, entre dois bastidores esborra- 
tados, em cima de meia dúzia de taboas ran- 
gentes, pela força indómita da Arte e do ta- 
lento, cria e move, dá vigor e insufla realidade 
a trechos vibrantes da vida, quadros flagran- 
tes da natureza e da multidão. 

Certo, com o elenco da sua tournée em 
que figuram, ainda assim, — com Suzana Des- 
prés, a maior esperança e a mais sorridente 
promessa da scena franceza, e com Signoret, 
ornais pittoresco de todos os actores da escola, 
da geração e dos recursos de Guitry e de Gè- 
mier, — os melhores artistas que elle tem edu- 
cado, num palco desconhecido, com compar- 
saria de occasião e uma scenographia de em- 
préstimo — a outra vae a caminho da America 
— por mais que faça e por muito que á em- 
SiGNORET preza convenha preparar com o successo alfa- 

Caricatura de Zim cinha a imprensa dos Brazis, Antoine não 




70 Impressões de Theatro — Q^ntoine 

pode, dár-nos uma impressão nitida e completa do que sejam 
os seus espectáculos parisienses, onde, quasi como na troupe 
lendária de Saxe-Meiningen, comparsas e primeiras figuras, es- 
trellas e figurantes, se confundem e identificam na mesma pro- 
bidade de desempenho, em idêntico estudo de naturalidade, em 
egual anceio de Arte, de Ideal e de Gloria. 

Mas, não podendo, pois, em absoluto, esperar-se que esse pris- 
ma da sua individualidade artistica se reflicta e brilhe em todo o 
seu explendor e nitidez, nas três noites do D. Amélia — em que, 
de resto, só no 2." acto da Filie Elisa, como jnetteur en scene^ elle 
se nos poderia impor e empolgar-nos — Antoine vae revelar-se- 
nos grande, inconfundivel, arrebatador e másculo, emocionando- 
nos a alma e fazendo-nos funccionar o cérebro, galvanisando-nos 
os nervos e subjugando-nos a razão, com o poder magnético e 
fulguro do seu grande talento de actor moderno, de actor intel- 
ligente, que não sabe, talvez, segundo o Código de Gabotinopolis, 
representar um papel, mas sabe, como ninguém, dar no palco, em 
geniaes ensimesmações artisticas, vida e sentimento, sangue e 
realidade a um personagem, e a uma creatura. 



Longe de mim o fazer o jogo da empreza que o contracta. 
Tento apenas, nas minhas posses e nas minhas forças, evitar, á 
malta de pretas e de pretos que se boquiabriu com as cabriolas 
do Cadet e que se enterneceu com as gravatas e colletes do Le 
Bargy, o alvará do cretinismo e imbecilidade que sobre a cabeça 
lhes está imminente, se, como eu supponho e é lógico, sabidas as 
baldas e inclinações da roda fina habitual do D. Amélia, ao An- 
toine, vem a acontecer o que já aconteceu, ali mesmo, ao Ema- 
nuel e ao Zacconi: representar entre bocejos p'ra meia casa e 
ser comprehendido na sua grandeza por meia dúzia. 

E' lógico, mas seria deprimente; está na indiosyncrasia, no 
temperamento, na educação e no feitio do Bom-tom, meninos do 
Corno -dourado, monos da Burocracia, paspalhos das Finanças, 
bonifrates das Embaixadas, tangas da Imprensa, seresmas dos In- 
glezinhos, conselheiros de Estado e ratoneiros das Secretarias 
— a recua toda das classes dirigentes, cultas e desvergonhadas, 
que se dão rendej-votís^ em noites de celebridades, p'ra entupir e 
damnar os parceiros e comadres com espaventos ruinosos de tra- 



Impressões de Theatro — Q^ntoine 



pagem e pedraria, penduricalhos decorativos e reputações do 
Limoeiro ; casacas do Pool a encadernarem consciências da Pe- 
nitenciaria e coUarinhos do Pitta a especarem craneos fugidos do 
Atlas do Lombroso. 

Clarissimo que, fora da Quaresma e sem arrôbos de mysticismo 
a exigirem-lhe cilicios e penitencias de restituição, eu estou 
longe de alvitrar a S. Luiz de Braga se proponha perder com a 
tournée de Antoine o que tão pouco lhe custou a empochar com 
as estrellas de meia tigella e com as moças do género chico, 
rogando- lhe, respeitoso e submisso, com bonitas palavras e' lindas 
maneiras que baixasse a tarifa dos logares somenos do seu thea- 
tro de forma que a maioria dos que admiram de tradição, e por 
ouvir dizer, o fundador do Theatro Livre, podessem ir palmear 
e instruir-se nas três noites de rude e sadia Arte, que maçando 
os catitinhas das primeiras filas, raro terá, a fora do galinheiro e 
da vacaria, quem o comprehenda e o sinta, quem se emocione 
e se enthusiasme, attenta a difficuldade manifesta de topar na so- 
ciedade portugueza, quem logre, ao mesmo tempo, três mil réis 
p'ra ir ao D. Amélia e miolo p'ra reflexionar e applaudir o trabalho 
e o reportório desse singularissimo artista, braço e cérebro, ca- 
beça e musculo do movimento insurreccional que refundiu e re- 
modelou o theatro francez. 

Mas dada a difficuldade pecuniária — que eu comprehendo e 
justifico — da empreza poder chamar a si, em concorrência com 
as cozinhas económicas, o grosso publico de depennados, entre os 
quaes está a nata da intellectualidade alfacinha, rapazes das es- 
colas e trabalhadores das officinas e do tinteiro, oscillando, como 
pêndulos de miséria e de talento, entre sonhos de Arte e contin- 
gências de Prego, com faisca e sem botas, com anciãs de Ideal e 
fomes de meios bifes, eu estou em lembrar, á empreza, uma 
tangente, e, ao publico, um expediente. 

A tangente da empreza, seria — na segunda ou na terça feira, 
se de facto Antoine embarca, como se diz, na quarta, — um espe- 
ctáculo diurno, aos preços da casa, com o ^oubouroche^ que vem 
no reportório e não figura em nenhum dos três cartazes, e uma 
palestra, leve e despretenciosa de Antoine, sobre a sua carreira 
os seus intuitos, sobre a arte de representar e a dramaturgia mo- 
derna, cavaco alegre do artista, licção proveitosa p"ró publico 
e — se é de rigor, depois do Coquelin, que o sentimentalismo na- 
cional prenda ao rabo destas exhibições theatraes um fim de ai- 



72 



Impressões de Theatro — oAntoine 




truísmo — um pouco de pão e 
de conforto, por exemplo, p'ra 
dois pequerruchos : — o filho 
de Georgina Pinto e o filho do 
actor Baptista, orphanados ha 
dias, no Brazil, p'ra onde vae 
Antoine, pelo espectro pavo- 
roso e implacável da febre ama- 
rella. 

Nesse espectáculo, a alma do 
artista commungaria nos ap- 
plausos dum publico vibratil e 
expontâneo, — que aos preços 
estabelecidos p'rá sua tournée 
ha-de restringir se a admiral-o 
e a applaudil-o in mente e por 
procuração e o publico, mesmo 
o da assignatura, avaliaria na 
palestra, ligeira, fácil e 
fluente de Antoine todo o prodigioso mérito do pensador, toda 
a enérgica audácia do revolucionário, todo o entranhado amor 
do artista á sua arte. E todos nós, artistas, emprezarios, cri- 
ticos e espectadores, concorreríamos, a vingar o meu alvitre, p'ra 
que os pobres orphãos, o filho da mallograda Georgina, o pequer- 
rucho do desventurado Baptista, as duas victimas innocentes da 
lucta pelo successo e pela arte que levou a mãe de um e o pae do 
outro, a colher louros ao Brazil, onde a morte a ambos surpre- 
hendeu, possam um dia, quando o raciocínio e as lagrimas lhes 
apontarem o theatro como o monstro de fauces hiantes que lhes 
cobriu de crepes os berços, que lhes afogou em lucto os primei- 
ros chilreios da infância, vejam, também, no theatro o Anjo bené- 
fico e carinhoso que á sua orphandade e á sua miséria levou, uma 
tarde, a caricia branda dum conforto, um pouco de calor, de ale- 
gria e de pão. 

A tangente é esta. 



Georgina Pinto 
Caricatura de José Leite 



Ao publico, agora, o expediente. 

Os senhores, durante o inverno, intrigam, bajulam, requerem 
esmollam do Paccini uma assignatura em S. Carlos, e, noitesa fio' 



Impressões de Theatro — Q^ntoine 



73 



entalados nas suas casa- 
cas, com os tympanos 
etn sangue, fingem, á ma- 
ravilha, que ouvem Wa- 
gner: chegam mesmo a 
simular que o applaudem 
e que o percebem e quem 
os encontra cá fora e se 
fia no seu dilettantismo, 
chega mesmo a capaci- 
tar-se de que os senho- 
res, pelo menos, distin- 
guem pela voz e sem 
olharem pVos trajes, 
um tenor dum soprano 
uma contralto esganiça- 
da dum barytono com 
rouqueira. 

Na arte de dissimular 
incompetências de tym- 
pano e de intellecto, de 
fingir admirações e ex- 
tasis de reflexão, os se- 
nhores, com a escola de 
S. Carlos, chegaram a parecer japonezes, primos do Mikado e 
tão de rabicho, na maneira attenciosa e prudente com que, resi- 
gnados e pacificos, digeriram as pantomimas da Sada Yacco — 
outro Wagner p'r'ás estrumeiras cerebraes das suas cabeças ele- 
gantes. 

Ora os senhores podem — sem intuitos suicidas — permittir-se 
a extravagância de fingir que pensam, que reflectem, que com- 
prehendem e assimilam toda a extranha e bizarra grandeza d'uma 
escola dramatologica, que, sem ficções nem cordelinhos, nuas e 
cruas, levou ao templo da Ficção e do Convencionalismo, a Ver- 
dade e a Natureza, a imagem desgrenhada da Realidade e a si- 
mulação flagrante da Existência. 

Os guinchos agudos da Sadda, as orchestraçÕes ruidosas do 
Wagner, são muito mais incommodas e compromettedoras que 
o jogo scenico, sóbrio e mimado, do Antoine, sem grandes estri- 
dências de voz, com a dicção apagada e a sala a meia força de 




RiCHARD Wagner 
Caricatura de André Gill 



74 



Impressões de Theatro — Qántoine 



luz. Os senhores dormindo, muito descançados, podem até, ao ca- 
becear, dar mostras de assentimento ao que se passa em scena. 
— Sim senhor, é isso mesmo^ não me desagrada. 

Bem sei que, se estives- 
sem acordados, lhes desagra- 
daria : elle não urra como o 
Brazão, não pincha como o 
Cadet, não fanhoseia como 
o Augusto, não rufa nem usa 
gravatas como o Le Bargy : 
está tão fora dos njoldes 
communs e banaes dos gran- 
des artistas que representam 
deante de gente fina e que 
pisam o palco com a impo- 
nência de bispos a subirem 
os degraus do altar, que, po- 
sitivamente, não parece um 
actor, e os senhores, com ra- 
zão, não vão ao theatro p'r'a 
ver um homem. 

Alem d'isso, acordados, 
cornam o risco de se indigna- 
rem com as asperezas do re- 
portório — a Blanchette^ esta noite, vá lá : é um velho conhecimen- 
to e perdôa-se-lhe, por isso, que não seja desvergonhada e brejeira. 
Mas a Nouvelle Idole, amanhã, um problema de sciencia, sorothe- 
rapias de cancro, discussões da immortalidade da alma, sem um 
adulteriosinho, sem um decote . . chega a ser indecente. E, de- 
pois, a Filie Elisa, um quadro brutal de baixa prostituição, o 
regimen penitenciário posto a nu, o crime e a miséria em scenas 
trágicas, tão verdadeiras que arrancam lagrimas, tão reaes que 
fazem da justiça e da moral um esfregão, mas sem um dito equi- 
voco, sem uma deshonestidade, sem um gesto e sem uma palavra 
que esperte a medula e sirva de cantharida.. . é o que se chama 
um desaforo 

Acordados, tudo lhes desagradariam, creiam. 

O expediente é este — durmam. 

E tenham três noites muito felizes. Alguém á sabida os acor- 
dará com o ruido dos applausos. 




Le Bargv 
Caricatura de Leal da Camará 



Impressões de Theatro — Coquelin Cadet 




CoQUELiN Cadet 
Caricatura de Capiello 



Durmam socegados, mas não re- 
sonem alto. Bem educadinhos, não 
ouçam, mas deixem ouvir. 



Tost-scriptiim: — Alguém achou 
irreverente o modo desabrido com 
que tratei Cadet. 

Pessoas conspícuas e de bom 
juizo entupiram-me com as lerias 
debitadas pelo Ainé no parenthesis 
da sua conferencia. 

A tirada pomposa de Ihonneur 
des comediens callou no espirito da 
gente sensata e entendida 

Era isso mesmo: Cadet apalha- 
çava Molière mas salvava a tradic- 
^ão e a honra do convento. 

Eu, protestando, era tolo, ignorante e, sobretudo, mal creado. 

Perfeitamente de accordo : simplesmente ás pessoas conspí- 
cuas e de bom juizo, á gente sensata e entendida, offereço pVa 
que se assoem, este lenço perfumado com o extracto concentrado 
da critica conservadora e de boas maneiras : 

// liy a plus à discuter le comique de Coquelin Cadet dans les 
grands roles de Molière ; il faut le prendre tel quil est, en bloc, 
et s'y plaire ou le déclarer exécrable. Testime, pour ma pari 
quil y a là une force et une originalitè indéniables, mais je com- 
prends quil porte sur les nerfs à ceux qui demandent avant tout 
á Vacteur comique de lajinesse, de la Justesse, le dédain des gros 
effets, et surtout la subordinai ion de Vintepretre au role. Cadet, 
lui,joue gros, tourne souvent la comédie á lafarce et, pourvu qu'il 
fasse rire, s'inquiete plus de la quantité que de la qualitè du plai- 
sir quil donne au spectateur ; souvent il se sert de Molière pour 
jaire applaudir Cadet, plutôt qu'il ne fait de Cadet le desservant 
de Molère. 

Vem no Temps e, ao canto, em guisa de assignatura, traz bor- 
dadas estas letras suggestivas : Gustave Larroumet. 



XIII 



l5 JUNHO 



Rl^nohpffP í^^*^^ ^"^ ^ actos de Eugene Brieux. WH 
UlaMUIlGLLG, L'ENQUt:TE, peca em 2 actos de George 
Henriot. Theatro D. Rrneha, /•" recita da Tournée Antoine. 

As peças foram duas e ambas conhecidas — a Blanchette e o 
Inquérito. 

Dadas as boas relações do publico com a Blanchette^ que, na 
scintilante traducçao de João Luso, — o mais delicado e subtil 

espirito de poeta lusitano 
que se tem homisiado no 
jornalismo brazileiro — se- 
gundo a etiqueta e com 
todos os quinains da civi- 
lidade, lhe foi apresentada 
pela troupe Lucinda, não 
vale, alongar-se uma pes- 
soa na narração pormeno- 
risada do que é a peça, 
do seu entrecho, do seu 
valor e dos seus intui- 
tos. 

A Blanehette, filha 
de pobres taberneiros 
que, pelo conducto da 
educação dos collegios, a 
monomania das grande- 
zas tornou incompativel 
Antoine com O seu meio, com o 

Caricatura de Leal da Camará Seu lar e COm OS pro- 




Impressões de Theatro — 'Blanchette 77 

prios auctores de seus dias, é na sua factura simples e correntia, 
um caso tão banal e comesinho, tão nosso conhecido e tão dos 
nossos dias, que a licção moral a tirar daquelles tres actos se re- 
duz, limpida e clara, á immoralidade estúpida dos legisladores de 
todo o mundo que, fazendo da educação um chamariz e uma ta- 
boleta, se esquecem de, num paragrapho único, facultar os meios» 
a quem a recebe, de ganhar a vida e lhe tirar os fructos. 

É uma peça, como vêem, de tendências e de intuitos. Está 
longe das peças paradoxaes e dumescas pela sobriedade dos pro- 
cessos, mas embica e filia-se na espécie, como, de resto, Brieux 
substituído o espirito do paradoxal pelo espirito da combativi- 
dade, embica e se filia, dentro de novos moldes, na escola do Du- 
mas, grão-mestre da maçonaria carpinteirai dos industriosos fa- 
zedores de theatro. 

Como, derrocada a tragedia e restricto o drama romântico ao 
campo rhetorico dos alexandrinos huguescos, Dumas-filho foi o 
grande artífice do theatro francez, assim Brieux, derrocado o 
drama de these e liquidada a comedia rosse, é o fabricante privi- 
legiado das gazuas e chaves falsas com que o theatro moderno 
tenta arrombar, dentro da França, as portas ainda cadeadas do 
Futuro, 

Té á data, a única porta arrombada foi a da Comedie, com a 
Petite Amie e, por consequência, té hoje, Brieux, se é incontes- 
tável que ainda não forçou as fechaduras da Immortalidade e 
do Futuro, descobrindo, por processos de forja e serralharia a 
gazua ou a formula definitiva da arte do Amanhã, é também certo, 
que tem mettido hombros possantes a todos os velhos gonzos e 
preconceitos do Passado e a sua obra, se não revela um inova- 
dor e um chefe de escola, manifesta, comtudo, um forte e audaz 
temperamento de dramaturgo. 

Ora, encarado o theatro como industria e a dramaturgia como 
um modo de vida, vale mais ser dramaturgo do que ser inova- 
dor : pôde dar menos gloria, mas dá mais enchentes ; requer me- 
nos talento, mas produz mais direitos de autor. 

E sendo esta, como é, a theoria pratica e o desideratum littera- 
rio de Brieux, que ao enebriamento posthumo e espiritual da 
Posteridade prefere a vacca e o arroz próximo e caseiro da Aca- 
demia, de lhe agradecer e louvar, incondicionalmente, se me afi- 
gura a honradez dos seus processos e a pureza das suas inten- 
ções, pondo a sua industria ao serviço dos grandes ideaes e das 



yS Impressões de Theatro — 'Blanchette 

grandes verdades, combatendo o erro e o preconceito, pregando 
a verdade e a justiça, desmascarando a mentira e o sophisma sem 
a rhetorica chocha dos charlatães, sem os cordelinhos banaes dos 
cabotinos, chão e terra-á-terra, sem torcicolos de estylo nem ar- 
rebiques de retoque : é um honrado photograptio que cifra a sua 
arte na fidelidade da sua objectiva, um laborioso industrial que 
não emprega ingredientes no fabrico dos seus productos. 

A Blancheíte é das melhores, senão a melhor, das suas obras 
porque predomina n'ella a objectiva do photographo e a manipu- 
lação do industrial quasi se perde na simplicidade da mão d'obra 
ao invés do que acontece, por exemplo, nos Avaries e nas Rem- 
plaçantes em que o photographo cede o logar ao mixordeiro, a 
lente da objectiva aos reagentes da chymica, a ideia ao quadro,. 
a theatralidade á cathedra, a acção aos intuitos, Brieux dramaturga 
ao Brieux pregador. 

A Blanchette não é um modelo definitivo de Arte, mas cons- 
titue, provisoriamente, uma das melhores peças do nosso tempo,, 
e, pela verdade do meio, pela humanidade dos caracteres, pela 
simplicidade de factura, merecia ser escolhida, como foi, p'r'ó 
primeiro espectáculo ante um publico estrangeiro, dum artista e 
duma companhia que na Verdade, na Humanidade e na Simplici- 
dade buscam as scintilações da Arte, p'ra emocionarem e p'ra co- 
moverem os espectadores. 

Lenquète — que seguia no cartaz á Blanchette e que, abriu 
o espectáculo — era também conhecida da maioria dos especta- 
dores por uma traducção cm bundo, trucidada pelo Christiano. 

Não é bem uma peça, como George Henriot, o pseudonymo 
do seu auctor, não é bem um homem do theatro : é um caso de 
pathologia posto ao serviço dos recursos de exteriorização dum 
grande actor, por um homem de sciencia que é um grande me- 
dico especialista de doenças nervosas. 

Pertence a uma cathegoria de peças que, não tendo ainda 
classificação nos manuaes de litteratura e não podendo ter exis- 
tência fora do reportório de um grande e altíssimo artista, teem 
o seu lugar nas monographias eruditas dos nevropathas e são, no 
theatro moderno, talvez, as herdeiras do melodrama romântico : 
pesadelos terrificantes que agarram no espectador e o torturam, 
que o esmagam, o torcem e o esfrangalham, pondo-lhe os ner- 
vos num feixe e levando-lhe a razão té aos confins da loucura. 

Simplesmente, como disse, estas peças são feitas p'ra um gran- 



Impressões de Theatro — L'enquète 



79 



de actor e interpretadas por sobalternos, nem arripiam, nem fa- 
zem rir — maçam. 

Desempenhadas pelos artistas p'ra quem foram feitas não 
commovem — assombram. 

Não são positivamente effeitos de Arte — são o embate de um 
pontapé na bôcca do estômago. 

Desempenho. — No Enquéte, Antoine mostrou no detalhe mi- 
nucioso, na fria e sabia promenorisação dos tics quasi imperce- 
ptíveis, do mal extranho que o leva ao assassinio, o estudo pro- 
fundo, seguro e reflectido do caso mórbido que Henriot discute 
e põe em scena. A assymetria. a rigidez da face direita, a impres- 
são nervosa das pálpebras, o enclavinhar dos dedos, durante todo 
o primeiro acto, revelaram talento, consciência, e, sobretudo, 
observação e probidade. 

Mas esse atroz segundo acto revelou mais do que isso : um 
medico a meu lado teve a impressão nítida de que realmente um 
ataque de epilepsia fulminara, redondo e brusco, o grande e pro- 
digioso artista e tal illusão só pôde dál-a em scena o génio doma- 
do pela arte e a arte servido pela Realidade e pela Vida. 

O conjuncto magnifico, e acostumados a ver cães darem a ré- 
plica a celebridades, viu-se no D. Amélia, o que as próprias cele- 
bridades — quando o são — ganham 
em ter actores p'ra contrascenar. 
Na Blancheíte, o trabalho de 
Antoine é incomparavelmente 
menos violento, mas nem é menos 
brilhante, nem menos valioso : não 
se representa melhor porque sendo 
o theatro a vida atravez da Arte, 
nem se pode ser nem mais artista 
nem mais vivo. 

Suzana Després dominou a sce- 
na. No segundo acto elevou-se a 
alturas a que raro se trepa na car- 
reira dramática. É uma actriz mo- 
derna, completa, perfeita e intelli- 
gente : se Antoine precisasse ainda 
de titulos de gloria e de benemerên- 
cia no theatro francez, bastar-lhe- 
hia este de ter criado, polido e face- 




SuzAXA Desprès 
Caricatura de Leal da Camará 



8o Impressões de Theatro — Uenquête 

tado a individualidade scenica de Suzana Desprès, que, já hoje, 
não é uma discipula, mas a mais insigne das cooperadoras na sua 
grande e vasta obra de renovação e remodelação dramática. 

Conjunto igualmente harmónico, destacando-se n'elle as fun- 
das e rijas silhuetas de Signoret e de Matrat, dois bellos e for- 
tes temperamentos de comediantes, cheios de originalidade e de 
vigor, de consciência e de frescura. 

Té que emfim, no D. Amélia, se faz pura e verdadeira Arte e 
pôde uma pessoa perder a noite p'ra estar aqui a dizer ao leitor 
que pôde e deve ir ao Thesouro Velho applaudir incondicional- 
mente, em Antoine e Suzana Desprès, um casal prodigioso, ex- 
traordinário e maravilhoso de bravos e honrados artistas. 



XIV 



l6 JUNHO. 



UF"ÍHp FMqíí ^^^^ ^"^ ^ ^^^°^ ^^ ^^^^ Ajalbert. 
r MIU HMOCI, extrahida do romance de Ed. de 

Goncourt^W AU TELEPHONE, peca em 2 ticto^- de André Lorde 
e E. Folley. WW BOUBOUROGHE. farca em 2 actos de Courteline. 
Theatro D. Rmelia, 2.» recita da Tournée Antoine. 

As peças: Sahir-sede um espectáculo de sete actos e três pe- 
ça?, que todas ellas marcam e valem nos seus processos differen- 
tes e vir p'ra um jornal, que ha de estar na rua ás 5 horas da 
manhã, dizer o que são e o que repre- 
sentam essas peças, integral- as no logar 
que lhes compete na moderna drama- 
turgia, analysar, nas suas linhas geraes, 
embora de fugida, o seu mérito e os 
seus intuitos e, sobretudo, dizer da im- 
pressão colhida pela magistralidade do 
seu desempenho : pôde ser factivel p'ra 
quem maneje os logares communs e 
com elles se limite a encher os compo- 
nedores da typographia, que pede ori- 
gmal, e as vacuidades cerebraes do pu- 
blico, que se espórtula com os dez réis 
da folha. 

Obra de critica não pode ser e p'ra 
fazer simples obra de noticiarista, nem 
sinto a bossa da coscovilhice, nem te- 
nho a presteza tachygraphica de ex- 
pressão que o caso requer. 

Demais, sem tocar no desempenho, bastaria essa estupenda a 
maravilhosa Filie Elisa, considerada como obra de arte, como 
peca de theatro, como pamphleto e coroo libello — obra de arte, 

6 




Ed. Goncourt 
Caricatura de José Leite 



82 Impressões de Theatro — La Filie Elisa 

porque apresenta a belleza de linhas, concisas e puras, d'um már- 
more vivo e eterno; — peça de theatro porque encerra a for- 
mula definitiva, brutal e emocionante, de uma dramaturgia nas- 
cente; — pamphleto, porque ataca toda a podridão moral d'uma so- 
ciedade hypocrita e desvergonhada; — libello porque faz ruir, 
nas suas bases, todo o edifício, conservador e burguez, da pros- 
tituição legal e do regimen penitenciário expiador e vindicativo^ 

— bastaria, digo, essa Filie Elisa, p'ra me ter preso, qui á mesa, 
té dia claro, na empresa, grata e árdua, de lhes mostrar que, 
apezar da censura que primitivamente a prohibiu em França, raro 
a ribalta terá illúminado mais poderosa e austera, mais violenta 
e casta, mais moralizadora e forte obra de theatro do que esse 
drama pungente d'uma rameira, tarada e baixa, que assassina, 
n'um momento de allucinação que vale um poema de pudor e de 
virgindade, e que, condemnada á morte, — commutada em reclu- 
são perpetua a sua pena — expia, lentamente, barbaramente, no 
rigor legal e deshumano do systema penitenciário, o seu crime, 
que é o crime da sociedade, da lei, da magistratura, da moral hu- 
mana, o crime de todos nós que mantemos de pé pela nossa co- 
bardia e pela nossa inércia o prostíbulo e a prisão, a degradação 
aviltante da mulher e o martyrio inquisitorial do criminoso. 

Não conheço peça mais casta nem mais austera e, pela casti- 
dade que irradia, pela austeridade que a anima, não conheço peça 
nem mais theatral pelo sentimento, nem mais demolidora pela 
lição. 

Não posso fallar-vos d'ella : mestre Zola, no seu desdém de 
pateado, aventava a impossibilidade manifesta e provada de se 
extrahir de um bom romance de observação uma boa peça de 
theatro. Li hontem o romance do Goncourt e vi hoje a peça que 
do romance extrahiu Jean Ajalbert. 

Não pretendo desmentir Zola — o que, na verdade seria pa- 
tusco — mas não posso calar que, em contradita á regra, d'um 
dos melhores, mais completos e reaes, dos romances naturalistas, 

— de seguro o melhor documentado e o mais vivido da obra dos 
Goncourts, — Ajalbert extrahiu uma das melhores, das mais com- 
pletas, das mais reaes, das mais documentadas e das mais vivas 
peças do theatro moderno que tem em Antoine o apostolo, o 
impulsor e o mestre incontestado dos interpretes. 

Peça humana e emocionante, que faz pensar e que faz sentir, 
a Filie Elisa prende-nos o cérebro e esmaga-nos o coração ; 



Impressões de Theatro — Au telephone 



cria-nos anceios libertários de intellectivos e faz-nos verter la- 
grimas de dó sobre a negra miséria do Existente. 

Peça de combate ? Não ; peça de Verdade, peça de Observa- 
ção, peça de Humanidade, peça de Justiça : obra de Arte e de 
vida ; obra digna de figurar nos cartazes de Antoine - . . e está 
dito tudo. 

Mas, não foi só a Filie Elisa que esta noite arrasou os nervos 
do publico de D. Amélia nos fez vibrar a alma em contor- 
sões tantalicas de admiração pela obra e pela Escola do maravi- 
lhoso e extraordinarissimo actor que é Antoine — o primeiro en- 
tre os primeiros, o maior entre os maiores. 

O espectáculo abriu com o Au telephone^ um arripio em dois 
actos fulminantes, um truc de carpinteria theatral, sem littera- 
tura e sem intuitos, em que se revela toda a sciencia de armar e 
architectar, com um episodio banal de noticiário, um grande e 
pesado apparelho que durante vinte minutos aperta, esmaga, di- 
lacera entre as molas hercúleas de um torno a sensiblilidade e 
os nervos do espectador, não o deixando pensar nem respirar, 
paralysando-lhe o sangue que gira nas veias e concentrando-lhe 
toda a vida nos olhos, que subjugados, frementes, seguem o des- 
enrolar da acção muda, trágica e shakespeareana, no jogo phy- 
sionomico d'um homen qualquer, que nós não conhecemos, que 
não nos interessa, de quem ignoramos 
a vida e as qualidades, mas que vemos 
alli, vivo, real, humano, sentindo atra- 
vés do auscultador do telephone o 
ataque nocturno do seu lar, a chacina 
sangrenta da esposa, os gritos lanci- 
nantes da sua carne e do seu sangue, 
as supplicas desesperadas de seu filho 
único que um ferro assassino lhe está 
roubando. 

Não é bem uma peça : é, como 
o Enquête^ um pesadelo e o que eu já 
lhes disse : o embate de um pontapé 
na bocca do estômago. 

A fechar, n'uma gargalhada, o es- 
pirito liillare, coceguento, irreprimí- 
vel, impulsivo, de Courteline, na sua Catulle Mexdès 

obra prima de humorismo, o Bou- Caricatura de Leal da Gamara 




84 



Impressões de Theatro — 'Boubouroche 




JuLEs Lemaitre 
Caricatura de Leal da Camará 



bouroche. O riso levado áquella al- 
tura confunde-se com a lagrima. O 
grutesco caricatural, em traços tão 
largos e tão fundos, fere a retina, 
como algumas paginas sombrias dos 
Caprichos de Goya que fazem chorar. 
Boubouroche, sendo a farça desca- 
belada da traição feminina, é a trage- 
dia risonha e confrangedora, ridicula 
e épica, do amante enganado. 
E' o poema do corno. 
Quando, d'aqui a séculos, o mo- 
vimento insurrecciónal produzido no 
theatro pelo impulso criador de An- 
toine fôr, na litteratura, cotado no 
seu mérito e na sua intensidade, no 
seu valor e nas suas resultantes, nas 
escolas secundarias de todo o mundo, 
magisters sorumbáticos farão debi- 
tar aos garotos, netos dos nossos netos, este logar commum dos 
seus compendias: 

fí André Antoine, o actor france^ mais celebre no século XIX e 
principias do século XX. Criou pelo seu esforço toda a litteratura 
dramática em que se enraiva e origina o nosso theatro. Abrin- 
do as portas do palco a um certo Courteline, deu á França e ao 
Riso um competidor de Molière, outro humorista france^ dos sé- 
culos anteriores, que os cabotinos do tempo de Qántoine mutilavam 
e estropiavam em holocausto ao que elles chamavam, em conferen- 
ciaSy 1'honneur des comediens.» 

Claro que os rapazes, ao debitarem a ultima parte d'esta ti- 
rada, merecerão palmatoadas e orelhas de burro, se não cita- 
rem ao Jules Lemaitre e ao Catulle Mendes, que quasi inven- 
taram o Courteline. 

E o firaf Burity dixit será também de rigor. 

Desempenho : Não vale detalhar : Antoine, no Telephone, no 
meio do ruido da plateia, que não acabava de entrar na sala nem 
á quinta facada, foi perfeito. Não se representa melhor. Não ex- 
cedeu a espectativa, porém, e não alcançou dar o /msow que jus- 
tifica toda a carpinteria da peça, por dois motivos : á uma, por- 



Impressões de Theatro — Sujanna T)esfrés 



85 



que não havia maneira de o ouvir, dada a desarrumação dos espe- 
ctadores, á outra porque a collocação do apparelho, arrumado 
a um canto e, principalmente, a forma do auscultador que lhe ta- 
pava a cara, não deixaram apreciar-lhe o jogo da mascara. 

N'estas condições e com a recordação ainda fresca da interpre- 
tação magistral do Ferreira da Silva, Antoine não excedeu as espe- 
ctativas, mas não desilludiu nin- 
guém, porque ninguém podia exi- 
gir-lhe mais sobriedade, mais cor- 
recção, mais perfeita e absoluta 
proficiência e honestidade scenica. 

Mas o successo da noite foi 
a interpretação da Filie Eli- 
sa : o trabalho de Suzanna em 
toda a peça e o de Antoine no 
extraordinário monologo do se- 
gundo acto, não se definem nem 
se analysam : o lexicon não traz 
adjectivos sufficientemente admi- 
rativos p'ra dar graphicamente a 
impressão recebida durante esses 
três actos em que Suzanna Des- 
prés se revelou ao publico como 
a mais extraordinária organiza- 
ção artistica de mulher que eu 
tenho admirado á luz da ribalta. 

Antoine arrebatou, mas Suzanna Després enlouqueceu. 

Idylica e revoltada, com todas as cambiantes da sensibilidade 
romanesca c todos os estremeções do pudor offendido, foi ingé- 
nua e trágica, terna e feroz em todo o primeiro acto. 

E na longa scena muda — todo o acto do tribunal — rema- 
tada pelo mais brutal rugido que o espectro da morte tem arran- 
cado a um peito de mulher, na forma por que ella ouvia e este- 
riotypava nas lagrimas e no rictus as commoções fundas que a 
palavra do defensor lhe rasgava na alma, n'essa longa scena mi- 
mica, n'esse rouco estertor de quem sente rolar-lhe a cabeça no 
panier à salade^ Suzanna Desprès deu a gama toda do seu prodi- 
giosissimo talento e fez resaltar, luminosa, toda a superioridade 
da Escola e dos processos que Antoine impoz a arte de todo o 
mundo. Grande, maravilhosa e extraordinária actriz ! . . . 




Suzanna Després 
Caricatura de J. Abeillé 



XV 

1 7 JUNHO. 

La Nouvelle idole, '.T^TZ^oX 

GAROTTE, I acto de Jules Renard. Uheafro D. Rmelia, 3.^ re- 
cita da Tournée Antoine. 

Acabou agora o ultimo espectáculo de Antoine ! . . . Como 
custa, como amarga, ter de escrever esta simples phrase, banal 
e correntia, após três noites radiosas de boa e rude arte, de 
funda e arrepelante emoção, a quem, amando entre todas as ar- 
tes, entre todos os prazeres intellectivos, a arte do theatro, que 
nos dá a imagem palpitante da vida atravez das scintillações ful- 
guras do génio, o prazer obsecante de sentir e de soíFrer, de re- 
flectir e de pensar pelo cérebro e pela vista, prazer material e in- 
tellectivo que só o theatro proporciona, integro e absoluto, nas 
suas criações eternas de belleza e de verdade... 

Acabou o ultimo espectáculo. . . É como se a um fino gastro- 
nomo, após três longas bacchanaes de paladar, iguarias requinta- 
das, libações de néctares divinos, o empurrassem, brutaes, da 
mesa do banquete e lhe dissessem á saida : acabou-se apitança e, 
agora, amigo, esperam-te longos jejuns e quando a fome te mor- 
der as entranhas, quando a sede te escaldar os gorgomilhos, nun- 
ca os teus lábios sorverão liquido que não seja zurrapa, nunca 
mais os teus dentes morderão petisco que não seja bodega. 

Acabou o ultimo espectáculo do Antoine e de Suzana Des- 
prés. . . Como eu comprehenderia o excêntrico de bom gosto, o 
maduro que, largando barcos e redes, fosse a correr tirar o pas- 
saporte e se partisse, de longada, por esses mares fora trás dos 
dois artistas, bebendo-lhes as palavras, admirando-lhes os gestos, 
n'uma perigrinação de devoto, por essas plateias longiquas da 
America que elles vão revolucionar com a bizarra violência dos 



Impressões de Theatro — Nouvelle Idole 87 

seus processos, que elles vão avassalar com a máscula grandio- 
sidade das suas envergaduras artísticas. 

Acabou o ultimo espectáculo. .. Se me apertam, d'olhos em 
alvo, aqui em pleno Bairro Alto, com a desafinação peculiar ás 
consciências tranquillas — como se diz no Boubouroche. — eu acor- 
do os echos da rua das Gáveas, desgrenhado e romântico, com 
as velhas melopeias sentimentaes. 

«Tu vaes deixar-nos sem talvez que o pranto 



«Ai, adeus, acabaram-se os dias 
«Que ditoso vivi a teu lado. . .» 



Acabou-se o ultimo espectáculo... Se insistem, eu canto, 
Vocês fogem, a policia intervém, e, em vez de ir p'r'á America, 
trás do Antoine e da Desprès, vou p'r'o estarim entre dois mako- 
lolos, o que de resto, talvez fosse mais commodo do que ter de 
lhes esquissar de fugida, o 
que foi e o que valeu esse 
espectáculo em que o pu- 
blico do D. Amélia saudou 
pela ultima vez, os dois 
preclarissimos artistas, es- 
perança e gloria, honra e 
futuro do theatro francez. 

Mas eu lhes conto : 

As peças: 

La nouvelle idole, era 
desconhecida do publico 
do D Amélia. Um ou ou- 
tro espectador, dado a de- 
boches de Arte e de pen- 
samento, conhecia-a da François de Curel 

, , j . . Caricatura de Leal da Camará 

brochura e das criticas pa- 

radoxaes do Max Nordau, germanophilo e paradoxal té á medula 

dos ossos. 

François de Curei é, pois, um ignorado em Portugal, onde, de 
resto, todos nós tutejámos e fomos companheiros de escola das 
celebridades do Boulevard, dês dos immortaes da Academia té 




88 Impressões de Theatro — Nouvelle Idole 

ás cocodetes das sobrelojas da pouca vergonha e dos amores im- 
puros a vinte francos a pitada. 

Apezar d'isso, porém, Curei marca na dramatologia franceza 
e a sua peça La nouvelle idole, p'ra mim a mais theatral e a mais 
scenica das da sua bagagem, é, como se demonstrou esta noitJ 
no D. Amélia, um specimen valioso, forte e intenso, da nova ma- 
neira de theatt alisar. 

Simplesmente, Curei na Nouvelle idole e em toda a sua obra, 
não faz o que, por habito, nós costumamos a chamar uma peça : 
emaranha-se em theorias phylosophicas, em problemas socioló- 
gicos e moraes, enfrasca-se.em doutrinas scientificas e dialoga, no 
palco, complexas dissertações de concurso p'ra collaborador de 
Encyclopedias. 

O embate vivo, terrível e eterno, entre a sciencia e a fé, deu- 
Ihe azo a fazer a Nouvelle idole : a evolução da humanidade dês 
da selvageria primitiva do gorilla-meio-homem té ás sociedades 
futuras dos acratas, sem freios e sem preconceitos, dos homens 
macacos aos homens semi-deuses, deu-lhe a Filie Sauvage. 

Não ha problema que no theatro lhe pareça irreductivel. 
Brieux faz conferencias sobre um determinado assumpto e trata a 
siphylis nos Avaries, a lactação nas Remplaçantes, o divorcio no 
Berceau^ a magistratura na Robe Rouge, a educação na Blan- 
chette, a caridade nos Bienfaiteurs, a politica na Engrenage, 
mas, uma vez escolhida a conferencia, vae do principio ao fim, 
no chouto da realidade e da observação, sem misturar alhos com 
bogalhos, a lactação com a politica, a magistratura com o divor- 
cio, a caridade com a siphylis. 

A Curei não lhe basta uma ideia ou um principio, uma theoria 
ou um problema : na Figurante, no Envers d'une sainte, nos Fos- 
siles, em cada uma das suas peças, mistura e baralha matéria pri- 
ma que seria de sobra na integralidade de uma obra cem vezes 
mais vasta e profícua, mais forte e mais intensa do que o thea- 
tro francez deve, até hoje, ao auctor do Repas du lion. 

O exemplo da Nouvelle idole é frizante : que despilfarro de 
motivos dramáticos, que quantidade de embryões de peças se não 
acotovelam na simplicidade abstrusa d'aquelles três actos ! 

Com o material d'aquella peça faziam-se dez peças; com a cal 
•e areia idealistas que alicerçam aquelles três actos, um pedreiro 
de theatro tinha caboucos p'ra trinta actos. 

Com metade das ideias e mais um cagagessimo de talento, seria 



Impressões de Theatro — Nouvelle Idole 



89 



uma obra prima: assim, é uma bella peça quando Antoine lhe 
presta o valioso auxilio da sua interpretação, mas é uma peça 
morta, na nebulosidade ideológica que a torna opaca, quando não 
a illumine a fulguração de um grande astro da scena. 

E é exactamente porque não o ha, nem maior nem mais ra- 
dioso, no firmamento artístico da França, que as peças de Curei, 
pegam e ficam no cartaz de Antoine, e, apagam-se e morrem, 
quando transplantadas p'ra outros theatros. 

Claro que seria óptimo poder dizer-se dos dramaturgos na- 
cionaes, como elogio, o que pVa notar um defeito se tem de re- 
gistar na analyse do temperamento litterario de Curei. 

Que ideal este de ter ideias, n'um paiz em que os dramaturgos 
só teem pulgas ? . . 

Depois da Nouvelle idole, o Poil de Carotte, outra novidade, 
outra surpreza pVó publico e, novidade, surpreza, mais intensa, 
maior e mais extraordinária, porque se a Nouvelle idole era abso- 
lutamente inédita e nova, o Poil de Carotte já tinha sido propi- 
nado, ali mesmo, naquelle palco, em anes- 
thesicos tão violentos e suporiferos, que, 
na verdade, ninguém o reconheceu ou lhe 
topou, sequer, vagas semelhanças de familia. 
Jules Renard é já hoje um mestre nas le- 
tras e na dramaturgia franceza. L'ecorni- 
fleur e as Histoires naturelles, — dois livros 
que ninguém conhece pelo vicio atávico 
que todos nós temos de ler muito, mas só 
ler mal — sagram-no como prosador tão ar- 
guto e fino, tão requintado e conciso, que, 
morta a realeza da prosa franceza moderna 
quando morreu Maupassant, ha quem, pia- 
mente, creia na resurreição dos mortos, 
nanja por ella vir no Credo, mas por ter 
nascido em França, depois de Maupassant, 
Jules Renard, o auctor do Poil de Carotte. 
Idf ^ ) Como homem de theatro, elle deve a Su- 

y^^r* V^^é^^ zana Després e a Antoine o successo e o re- 

nome do Poil de Carotte, mas Antoine e a 
sua gente devem-lhe, o maior e mais rui- 

SuzANA Després , .... . , , . 

Da capa do doso, O mais legitimo e mais duradoiro suc- 

Poii de Carotte cesso da ultima temporada em Paris, o 




go Impressões de Theatro — Poil de Carotte 

Monsieur Vernet, peça de clara observação e de technica perfeita, 
com delicadezas de sentimento e flagrâncias de naturalidade que 
dão a craveira e a bitola de um homem de theatro. 

Saldar contas de gloria com artistas como Antoine, é já de si 
uma gloria: saldál-as quando ellas assumem as proporções da 
divida contrahida pelo desempenho que Antoine e Suzana deram 
ao Poil de Carotte, é incontestavelmente a consagração definiti- 
va e segura de um dramaturgo. 

Jules Renard. Archivem o nome pois não é natural que ve- 
nham a encontrál-o no reportório dos nossos theatros : Renard 
faz arte e os nossos theatros tentam fazer dinheiro. 

O Poil de Carotte é, como a Blanchette, mais e melhor que a 
Blanchette^ uma talhada de vida atravez do temperamento d'um 
escriptor. 

Palpita, vibra, agita-se, vive na memoria dos que uma vez a 
viram e que nunca mais poderão esquece- la, tão fundo e riio ella 
bole com os os nossos nervos e com os nossos corações. 

Desempenho: 

Exactamente, pois, porque as duas peças do cartaz de hoje vi- 
vem e se alentam, quasi exclusivas, do desempenho, da funda e 
intima collaboração dos comediantes com o dramaturgo, na amal- 
gama que funde, num corpo só, a obra do escriptor com a ciiação 
do interprete, o espectáculo de hoje, se não foi o mais emotivo 
e o mais empolgante, foi, com toda a certeza, aquelle em que, com 
fios serenos e límpidos de talento e de consciência, a noção per- 
feita e completa da superioridade dos processos e a inegualavel 
perfeição dos artistas se infiltrou no espirito renitente dos espe- 
ctadores, habituados dês de meninos a applaudirem os trucs, ro- 
driguinhos e cordéis, as visagens e as poses do convencionalismo 
chocho e piegas. 

Além d'isso, no conjuncto da Nouvelle Idole^ madame Gruns- 
bach manifestou-se uma artista conscienciosa e segura e esta 
surpreza, de topar artistas entre a arraia meuda das estrellas, é 
realmente tão inédita na historia das tournées que nos visitam e 
em que as próprias estrellas liquidam em trapalhonas e embus- 
teiras, que merece menção, registro e elogio. 

Antoine viveu o seu papel e se té aqui, o valor da sua de- 
clamação franceza nos não tinha imposto, nem pela belleza, nem 
pela limpidez, a Nouvelle Idole, nas suas longas tiradas, bri- 



Impressóks de Theatro — Poil de Carotte 91 

Ihantes, como a dos nenuphares, fatigantes como a da immortali- 
dade da alma, revelou-nos em Antoine outra phrase e outra cam- 
biante do seu talento e da sua individualidade : Antoine é o diseur 
por excellencia, o diseur moderno^ que nada tem a invejar e que pode 
ensinar immenso aos que como diseurs se consagram ao theatro 
e como diseurs ganham a vida e admiração bajouja dos basbaques. 
Queiram ter a bondade de metter, por hypothese, o medico do 
Nouvelle Idole na pelle do melhor dos Coquelins e digam depois 
que no Theatro Livre pode saber-se representar, mas que não se 
sabe dizer... 

A asneira é livre, mas o bom senso, n'um caso d'esses, reque- 
ria pena de prisão maior cellular. 

No Poil de Carotte onde, como disse, o desempenho é tudo, 
Suzanna Després, n'um garoto amargurado e intelligente, cheio 
de medo e aspirações, tem, no dizer da critica, o seu melhor pa- 
pel. Depois da Filie Elisa de hontem, dizer que o Poil de Carotte 
a manteve no altíssimo conceito que todo o publico havia for- 
mado, é o fazer o maior e o mais justo elogio que se pôde fazer 
a uma artista. 

Não é um papel de effeito o de Suzanna, mas é um papel de 
prova, um papel de exame. Não arrebatou, não enlouqueceu como 
na Elisa^ porque o Poil de Carotte não falia ao coração, impõe-se 
ao espirito : os nossos nervos manteem-se frios, o nosso cérebro 
é que sobe ao rubro da admiração pela individualidade da pri- 
meira actriz franceza do nosso tempo. 

Primeira, está claro. 

As outras, nas suas primazias controversas e discutíveis, são 
bellas ruínas de Museu, espécimens maravilhosos de archeologia 
ou complicados manequnis de modas caras, vistosos cabides de 
toiletes de espavento e Suzanna Després, na radiante frescura do 
seu talento, é uma esperança transformada em realidade, uma 
força na plenitude do seu poder e do seu vigor. 

Antoine foi Antoine. E ser Antoine- que diabo! — é, dentro 
da arte, na historia do nosso tempo, ser a mais absoluta e pura, 
a mais complexa e dominante, a mais intellectiva e avassaladora 
individualidade do palco latino, que tem Zacconi, que tem No- 
velli, que teve Salvini e teve o Emanuel. 

Ah ! é verdade. . . e que tem, também, o Christiano, que, pelo 
telegrapho, chamou ao Antoine o seu Deus como se, entre irracio- 
naes, houvesse o prejuízo theologíco da Divindade. 



XVI 



29 JUNHO 



Meu rapa^: — Ainda o Antoine ? 

Ainda; quando no azul infinito do firma- 
mento, esgravatado e escabichado pelos 
óculos investigadores da astronomia de 
todos os tempos, um cometa perpassa, 
rápido e faiscante, riscando, em incan- 
descencias e chispas, todo o veu negro do 
nosso horisonte, antes da sua passagem, 
os saragoçanos predizem-no, na sua pas- 
sagem, os saragoçanos observam-no, de- 
pois da sua passagem, os saragoçanos co- 
mentam-no. 

Ora, nas sombras caliginosas do thea- 
tro portuguez, rápido e brutal, chispante 
e brusco, riscou, em três noites do D. Amé- 
lia, sulcos fundos e fulguros de boa e 
rude Arte, Antoine, fundador, impulsor e 
apostolo do novo theatro latino. 

Antes da sua chegada, ánnunciei-o ; du- 
rante as três noites observei-o e docu- 
mentei-me e é justo agora, que elle se 
foi, mares fora, p'ra essas Américas, o 
commente, tirando as conclusões da minha observação e dos 
meus documentos. 

Antes, porém, um dever de gratidão se me impõe, tão forte e 
sentido, que elle só por si, bastaria p'ra eu fallar, mais uma vez 
de Antoine : o ter a propósito d'elle, de agradecer a bizarra e 
generosa fidalguia com que os collegas do Diário, da Vanguarda^ 




Antoine 
Caricatura de Zim 



Impressões de Theatro — Conferencia de Caridade qS 

do Popular, das Novidades, e do Correio da Noite secundaram e 
deram o seu incondicional apoio ao alvitre de se realisar uma 
matinée, espectaculo-conferencia do grande actor, em beneficio 
dos orphãos de Georgina Pinto e José Baptista, os artistas por- 
tuguezes recem-vindimados no Brazil pela febre amarella. 

A idéa não vingou. Germinada e nascida em terreno bravo e 
maninho, de nada lhe valeu o alento e os afagos com que foi gen- 
tilmente transplantada pVós jardins floridos da critica bem edu- 
cada e de luva branca. O esforço e a tentativa dos jardineiros é, por 
isso mesmo, pela bruta feresa do campo em que vieram colhel-a, 
mais meritória e mais de agradecer. Por mim, reconhecido e li- 
songeado, exaro o agradecimento aos camaradas illustres que 
commigo se solidarisaram n'esse mallogrado tentamen de enxu- 
gar as lagrimas e levar um pouco de pão ao lucto e á miséria 
dos orphãos de dois artistas portuguezes. 

E, exarado o agradecimento, cumpre-me ainda archivar a de- 
claração feita pelo sr. visconde de S. Luiz de Braga ao França 
Borges — patrão cá da lancha — de que sympathisava com a ideia 
e de que, em beneficio dos pobres pequenos, alguma coisa havia 
de fazer : as horas fugiam deante de Antoine, não havia tempo 
material p'ra elle fazer a conferencia e menos ainda p'r'á carta- 
sear de forma a que não fosse irrisório o auxilio prestado ao 
desvalimento dos orphãositos, mas, alguma coiáa havia de fazer. 

E' uma promessa vaga, mas é uma promessa : no dia em que 
ella se realise, exarar- se-ha aqui, também, o agradecimento ao 
empresário caridoso a quem, pelas duas creanças, reconhecido, 

beijarei as mãos. # 

* 

Isto dito, vamos, meu rapaz, a recordar essas três noites de 
puríssima e funda emoção, a recapitular e a deduzir o que foi p'rá 
nossa misérrima arte de representar a passagem ephemera de 
Antoine pelo theatro D. Amélia e pelos palcos portuguezes. 

Não ha a esfumar uma opinião, uma palavra, uma virgula se- 
quer, no que de elogiativo, antes d'elle vir e durante esses três 
dias eu tenho dito nas descosidas nótulas sobre a sua individua- 
lidade e a sua obra, os seus intuitos e o seu processo. 



• O sr. S. Luiz de Braga ainda ,até á data, não cumpriu, que eu saiba, a sua ge- 
nerosa promessa. 



94 



Impressões de Theatro — Os italianos 



Antoine tem hoje, no theatro do mundo, um logar único, pro- 
eminente, inconfundível. Entre os fogosos e desgrenhados tem- 
peramentos artisticos de Itália, estonteantes e impulsivos, com 
altos e baixos, calhanços maravilhosos de génio, destemperos 
phantasticos de irreflexão, certo, como o actor, dentro do mesmo 
processo naturalista de exteriorisar a vida através da arte, An- 
toine tem emulos e competidores, que prodigiosamente se lhe 
avantajam na arte de emover té ás lagrimas, de aterrorisar té 
ao calafrio as plateias vibrateis do nosso tempo e da nossa raça» 
Os minguados recursos da sua mas- 
cara, parada e serena, inexpressiva e ba- 
nal, redonda e incaracteristica, põem-no 
naturalmente, n'um nivel inferior p'r'6 
confronto plástico com os carões fortes 
e accentuados, irriquietos e sinuosos de 
que Novelli é o typo completo e absoluto, 
com as suas linhas duras e maleáveis que 
a maquilhagem, n'um simples traço trans- 
torna e transforma, engrandece ou avilta, 
subjugando desde logo a retina do espe- 
ctador, impondo-lhe, definida e integra, a 
psychologia do personagem, o seu estado 
d'alma e o seu modo de ser. 

Antoine, glabaro e espelhento, pode 
ser, p'r'ós que na cara vêem coração e 
profissões, um diplomata, um padre, um 
cocheiro, um courtier d'affaires, mas não 
é, positivamente, um actor. Mas porque a 
physionomia o não ajuda e antes, pelo 
contrario, o prejudica — mais ainda que ao 
Zacconi, que synthetisa nos olhos todos os effeitos que os pre- 
distinados p'r'á scena, como Novelli, espalham pelo rosto — An- 
toine a todos se avantaja, porque na trivialidade apagada da sua 
eíEgie, por um esforço tenaz de intelligencia, por um trabalho 
constante de vontade, elle faz resaltar nitidas as Hnhas geraes da 
humanidade, do toda a gente, e, sendo na uniformidade banal das 
caracterisações, Antoine velho ou Antoine novo, Antoine bar- 
budo ou Antoine rapado, Antoine não é um actor dentro d'um 
papel, é um homem, sou eu, és tu, somos nós todos, dentro 
d'uma individualidade e d'uma situação. 




E. Novelli 

Caricatura de Raphael Bor 

dallo Pinheiro 



Impressões de Theatro — Os italianos gS 



Não molda o rictus próprio ás necessidades do personagem ; 
por um prodígio de força e de estudo, de observação e de natu- 
ralidade, friamente, serenamente, molda e adapta a humanidade, 
nas sua hnhas geraes, uma testa, dois olhos, um nariz, um men- 
to, uma bocca, a um ser único e definido, que, sendo sempre elle, 
raro, deixa de ser o pesonagem criado na imaginação do auctor, 
o personagem colhido pelo interprete, vivo e flagrante, no kalei- 
doscopo infinito da multidão e da humanidade. 

Friamente, serenamente. . . 

E' outra característica do temperamento de Antoine que con- 
vém accentuar, tanto mais que, sendo o fogo, o arrebatamento, 
a nota predominante do naturalismo italiano, e tendo eu, n'uma 
das noites do D. Amélia, englobado na mesma admiração, An- 
toine, Zacconi, Novellí e o Emanuel, vem a talho de foice repisar 
o assumpto, não vá imaginar-se que, ao sabor da ultima ímpres • 
são, o meu enthusíasmo me faz renegar ídolos velhos no altar 
de novos ídolos. 

Como actores, Zacconi e o próprio Novellí, são, como bons 
meridionaes, impulsivos, arrebatados, fogosos. 

Antoine é, serenamente, pachorrentamente, um frio. E' um 
frio porque é um pensador. Vive pela intelligencia os seus papeis 
e analysa-os, decompõe-nos, detalha-os com a serenidade de um 
chímico, que, nas retortas do seu laboratório, vae, pela intelligen- 
cia e pelo estudo, prescrutando na coloração e nas reacções dos 
ácidos, as propriedades e os eífeitos, a natureza e a constituição 
da matéria e dos corpos. 

Friamente, methodicamente. ., Atabalhoar uma analyse chi- 
mica pôde levar a uma descoberta de acaso, mas não leva nunca 
a uma documentação rigorosa da Sciencia, 

No theatro, o atabalhoar com fogo, com arrebato, o estudo 
de um personagem, pode levar a um calhanço maravilhoso de 
génio, ao empolgamento d'um publico por um absurdo épico de 
exteriorísação. Mas, só a frio, com serenidade, se chega á ínte 
gralidade perfeita e absoluta d'um typo, á consagração profunda 
reflectida e consciente, de um publico pelo trabalho e pela arte 
pelo temperamento e pelo valor d'um grande e glorioso artista 

Com fogo, pôde arrancar-se um bravo estridente á platéa, mas 
sô a frio, se arranca uma pagina de gloria ao eterno livro daV er- 
dade. 

Com fogo, com arrebato, pôde galvanisar-se, momentânea- 



96 Impressões de Theatro — Os italianos 

mente um publico; mas, só a frio, com serenidade, pôde dar-se, 
através d'um temperamento, a imagem artistica da Naturesa. 
Pôde, com fogo, fazer-se theatro, dentro da formula definitiva da 
dramatologia moderna; mas, só a frio e severamente, se pode fa- 
zer arte. 

Claro, que, depois do estudo frio e sereno, vem a exteriorisa- 
ção e essa, naturalmente, será tanto mais emotiva quanto mais 
verdadeira e lógica: fria e serena se a Verdade fôr serena e fria, 
arrebatada e fogosa, se logicamente e fora dos cabotinismos fá- 
ceis p'ra arrancar palmas, fogosa e arrebatada fôr a Verdrde. 

Antoine-é frio na exteriorisação e no estudo. 

Nj estudo, positivamente, é esse um dos maiores títulos da 
sua gloria, o mais rendilhado florão da sua coroa artistica. Na ex- 
teriorisação, no palco, em contacto com o publico que elle não 
vê com os olhos mas que sente com o espirito, será Irio, será... 
mas, como explicam, então, que elle caia redondo, fulminado pela 
epilepsia, no Enquête, no mais desamparado e maravilhoso tram- 
bulhão que se tem dado em scena, sem amolgar um osso, sem 
contundir uma costella, sem sentir a mais ligeira dor ? 

O problema foi posto pelas sumidades medicas da França : se 
os que o acham frio descobrirem a causa, sem a inquinar no fogo 
e no arrebato do artista, fogo que o aquece, arrebato que o gal- 
vanisa té á insensibilidade physica, é um quinau á mestrança da 
Academia e uma honra p'r'ás nossas tradições de descobridores. 
Dir-se-ha depois: Vasco da Gama descobriu a índia, Rosa Araújo 
os pasteis de folhado e Senhor Fulano — maior q e o navegador 
e que o pasteleiro — descobriu a causa de o Antoine cahir sem 
quebrar os narizes. 

Mas ha mais: Antoine tem vómitos, tonturas, quando, fora 
da scena, fuma uma cachimbada; e na Blanchette, Antoine atra- 
vessa três actos de cachimbo na bocca, atirando bafuradas de 
fumo como a chaminé d'uma fabrica. Nem um vomito, nem uma 
tontura, um certo prazer, até, em cachimbar emquanto não desce 
o panno. 

Exteriorisação a frio?. . . Talvez, se é que a exteriorisação a 
quente, fogosa e arrebatada, é a do Brazão aos urros, a do Le 
Bargy a pé coxinho, a do Gadet ás cabriolas. . . 

Simplesmente, em Antoine o estudo sobreleva a exterioriza- 
ção, ao invés do que acontece com os italianos, em que a exte- 
riorisação se destaca e avassala, aos olhos do publico, na sua 



Impressões de Theatro — A obra de Antoine 97 

grandeza bizarra e dominadora, os esforços, serenos e frios, da 
observação e do estudo que a precederam e lhe deram vida. E' o 
mesmo processo servido por temperamentos differentes : tempe- 
ramentos grandiosos, coUossaes, desafiando entre si emulações e 
canfrontos, mas em que o de Antoine resalta e domina, pela com- 
plexidade da sua obra, pelo revolucionarismo da sua audácia, 
pela tenacidade do seu esforço. 

Antoine podia ser, como ao principio quiz Sarcey e como ainda 
hoje prega no deserto René Doumic, um péssimo actor: sem voz, 
sem mascara e sem conservatório. Mas, ainda assim, esse péssimo 
actor seria em França — o palco do mundo, como lhe chama 
Cleopoldo nos Carnets du roi — a figura primacial do theatro, a 
mais alta e poderosa individualidade, a mais lidima e máscula fi- 
gura da scena franceza, porque, a esse péssimo actor deveria a 
França o renascimento e a remodelação da sua arte scenica, a 
evolução e desenvolvimento da sua dramaturgia, todo o movi- 
mento de idéas e de reivindicações que agitam e fazem brilhar as 
obras de Becque, de Jean Julian, de Brieux, de Curei, de Renard, 
de Mirbeau, de Descaves e de Ancey, impostos por Antoine, que 
lhes abriu as portas do seu theatro, á França e ao Mundo, como 
criadores e apóstolos d'uma Arte que pugna por ideaes de justi- 
ça, de misericórdia e de paz, com uma lagrima p'ra cada miséria, 
um conforto p'ra cada iniquidade e um látego p'ra cada oppressão. 
E' tão amplo e tão vasto o manto de gloria que envolve em scin- 
tilações luminosas a carcassa de Antoine, que, por muito que a 
esfrangalhem, por muitos retalhos que lhe roubem, as pregas 
hieráticas d'esse manto cobrirão, através dos tempos, as carna- 
ções sadias e musculosas do theatro vivo, do theatro contempo- 
râneo. 

Podem amesquinhal-o nas suas faculdades de comediante, 
mais alto o elevam na sua obra de revolucionário. Podem dene- 
gril-o como actor, mais o nimbam como artista. Rebaixal-o, é en- 
grandecel-o e quanto mais pequeno o fizerem hoje, maior se ha de 
impor a sua obra amanhã. 

Era por isso que, com o pretexto d'um acto de caridade que 
seria ao mesmo tempo um laço de solidariedade artistica, eu que- 
ria que depois de admirar o actor, o publico de Lisboa pudesse 
ouvir o apostolo : só assim a sua individualidade se nos apresen- 
taria completa, porque, se, vel-o representar, é um ineffavel e acre 
prazer, em que os nossos nervos vibram e a nossa alma se amar- 



gii Impressões de Theatro — A obra de Antoine 

fanha em estremeções de enthusiasmo e de admiração, ouvil-o 
n'uma conferencia, esboçando-nos os seus intuitos e os ^eus 
ideaes, apontando-nos a trajectória da sua carreira, a miséria dos 
primeiros tempos, as luctas, os desenganos, as tentativas e as au- 
dácias cue o triumpho veio coroar mais tarde, seria p'r'ó nosso 
cérebro e p'r'á nossa vontade um estimulo e um exemplo, um 
bálsamo p'r'ós nossos desalentos, e, p'r'ás nossas energias, uma 
grande e útil e proveitosa lição. 

Assim, vendo-o representar, educamos o gosto da plateia pela 
simplicidade, pela naturalidade, pela Verdade na Arte. Lucrámos 
os que no theatro buscamos um prazer do espirito e lucrariam — 
se lá tivessem ido — os que no theatro buscam um pedaço de pão. 

As conclusões a tirar da tournée Antoine restringem-se, assim^ 
ao campo limitado do theatro, dos actores e dos espectadores. 

A sua conferencia ampliaria esse campo, porque, na verdade, 
a obra de Antoine não cabe entre os quatro pannos esborratados 
de um palco: alastra por cima da ribalta, arrasa as paredes da 
theatro, e inunda, em jactos de luz, problemas de idéas, conflictos 
de capital, preconceitos de religião, de pátria, de familia, luctas 
de interesses, sedes de justiça, revoltas de fome e explosões de mi- 
séria — os horisontes largos da vida e as tantalisações infinitas 
do pensamento humano. 

Assim, theatralmente, da passagem de Antoine e de Suzanna 
Després — a sua grande e valiosa cooperadora e companheira — 
pelo palco do D. Amélia, ha a concluir que a arte de represen- 
tar nas nações latinas, encontrou a sua formula definitiva e per- 
feita—quanto o pôde ser, dentro do ephemero das formulas da 
Arte, sempre progressivas e mutáveis — no processo de estudo e 
de exteriorização de Antoine e da sua escola: a interpretação da 
Vida e da Natureza através do temperamento individual dos ar- 
tistas. 

D'onde, implicitamente, o relegar-se p'r'á frasearia dos mu- 
seu ou p'r'ás exhumações clássicas dos conservatórios, a formula 
declamatória e convencional dos nossos cómicos, que — uma vez 
acceita pelo paladar do publico a sobriedade concisa e intelle- 
ctiva de Antoine — ou, terão de mudar de querena, sacudindo os 
louros do passado, espanejando as aranhas do reportório, mu- 
dando de pelle e fazendo-se gente, elles que té aqui timbravam 
em só serem actores, ou terão de homisiar-se na Runa dos come- 
diantes, que eu não sei bem onde fique, mas que, a avaliar pela 



Impressões de Theatro — Os nossos 99 

olha de serviços dos inválidos, deve, topographicamente, estar 
entre. . . os baixos de Braga e as alturas de Palmella. 

Uma vez palmejado, embora por snobismo e p'ra nos darmos 
ares de intellectivos, o trabalho frio e sereno, empolgante e estupen- 
do de Antoine e da sua gente, o pubHco do D. Amélia — que no di- 
zer das folhas era tudo o que merece contar na arte, nas lettras, 
na politica e na intellectualidade alfacinha — como se alguém lá 
tivesse visto o sr. Theophilo Braga e a alguém tivesse passado 
despercebido o Petra Vianna — impossibilitámo-nos de tornar a ap- 
plaudir os pupilos chronicos do sr. S. Luiz de Braga, os mostren- 
gos e estuporinhos, catatúas e ratas sabias, que, em macaquea- 
ções frustes do dessorado convencionalismo francez, reduziram a 
arte de representar em Portugal a um tal estado de relaxe e pi- 
ranguismo que, nem por insufficiencia mental e exclusivismo de 
formula, o Chefe de Estado poderá felicitar-se, como rei e como 
portuguez, pelo estado de aceio em que se encontra. 

Mas, pelas almas! que não desatem todos, agora, como o ou- 
tro lá das ilhas, a chamar Deus ao Antoine, a manquejarem por- 
que elle é manco, a engulirem as palavras porque elle fala natu- 
ramente, a nasalarem o portuguez porque o francez é nasalado. 

Quando muito, que nos voltem as costas porque elle não en- 
cara a plateia — ganha-se, ao menos, não lhes vermos as trombas... 

De resto, a dentro do theatro portuguez, fácil é topar com 
artistas que por intuição e estudo, por temperamento e tenaci- 
dade, dentro dos seus recursos e do seu meio, evangelizam, pelo 
exemplo, a religião nova em que Antoine é pontífice e a Verdade 
o único deus omnipotente e grande : está, em D. Maria, o Fer- 
reira da Silva, estão, no Gymnasio, Ignacio Peixoto e esse grande e 
destrambelhado Joaquim d' Almeida, gasto e sem memoria, está. 
no próprio D. Amélia, o António Pinheiro, que, todos elles, uns 
mais, outros menos, em voos de águia como o Ferreira no Tele- 
phone, em voos de mjlhano como o Pinheiro no ViriathOy se ap- 
proximam do Mestre e o honram em discipulatos conscienciosos, 
que por si valem mais que os mestrados derrancados que S. Luiz 
arraçôa a tanto ao mez e o publico admira pela velhíssima má- 
xima de nunca haverem faltado a um asno milhares de asnos que 
o admirem. 

Simplesmente, p'ra se dispensarem os tnics e os cordelinhos, 
os rugidos e uivos, os gestos largos e as momices dengosas, que 
são o pão-nosso e o salvaterio da escola declamatória do con- 



lOO 



Impressões de Theatro —Susana Després 



vencionalismo, é indispensável ser intelligente, observador, com- 
prehender o papel ao lêl-o, apanhai o vivo na multidão ao encar- 
nal-o, vivêl-o, e sentil-o ao ter de o exteriorizar na ribalta; é 
preciso ser-se artista e ser-se homem e não basta ser-se, como té 
qui, asno ou bacharel formado. 

Os nossos actores, porém, não viram o Antoine. Uns, anda- 
vam á petinga por esse paiz fora e outros, ficaram-se em casa, bons 
cidadãos e bons chefes de familia, a 
ler os folhetins do Campos Júnior e a 
jogar o loto com as primas. 

Não aprenderam porque não viram, 
dirão elles ; mas se o vissem também 
não aprendiam, dil-o a sabedoria das 
nações, sem mesmo lhes tirar as cer- 
tidões de idade. 

Com o Antoine vinha a Suzana 
Després. . . 

Fraca figura, franzina, silhueta 
inexpressiva de rapariguita ossuda e 
angulosa, a mascara dura e carregada, 
o gesto quebrado, o olhar basso, a 
maxila proeminente, Suzana Després, 
que a Comedie recrutou ao ter de 
montar uma peça moderna feita de 
nervos e de idéas, de sensibeleria e de 
vida, Suzana que Antoine educou e po- 
liu e gora foi buscar, de novo, á Comedie 
p'ra esta gandaiagem de propaganda e 
de consagração, é incontestavelmente 
a actriz ideal do nosso tempo e da dra- 
maturgia moderna: sóbria e intelligente, viva e emocionante, 
com fi audácia torte dos que luctam e um pouco do sonho vago 
e indefinido dos que pensam. 

E' a mais torturante e complexa figura de mulher da scena 
franceza, porque sendo a que mais fundo nos fere a sensibilidade 
é a que, mais, crua e brutal, nos agita o cérebro, nos arranca as 
lagrimas e nos revolta a razão. Faz-nos soífrer e faz- nos pensar. 

No segundo acto da Filie Elisa todo levado, de principio ao 
fim, n'uma longa scena muda e parada, Suzana Després, foi tão 




Suzana Després 
Caricatura de J. Abeillé 



Impressões de Theatro — Susana Després 



humana e tão real, tão mulher e tão pavorosa, que quasi prejudi- 
cou o trabalho de Antoine no comprido e maravilhoso monologo 
da defeza — de tal forma os nossos olhos lhe seguiam a contrac- 
ção macerada do rictus, o arfar arquejante dos seios, o deslisar 
vitreo das lagrimas. Elle era o advogado de defeza : ella a ré, á 
espera da pena de morte. Mais uma vez, dentro da lógica e da 
verdade a que Antoine tudo molda e tudo sacrifica, os olhos e 
os corações, a attenção dos espectadores e a vida dos nossos pei- 
tos estavam concentradas e suspensas na condemnada, embora 
ella estivesse muda e estivesse falando o defensor. . . 

E que defensor ! A eloquência no foro, tem na opinião dos 
moinas e escribas da Boa Hora dois Poios: a rhetorica chocha e 
choreographica do Armelim e as rajadas virulentas do Alexan- 
dre Braga. No Equador, luxuriante e vigorosa, está na grandeza 
empolgadora da sobriedade, a palavra magica, o gesto compas- 
sado, do meu querido Affonso Costa. 

Se o Brazão fizesse o papel de defensor da Filie Elisa daria, 
de corpo inteiro, o Armelim. Se, dentro dos 
moldes académicos de diseur^ com trémulos 
de voz e gestos largos, Coquelin monologasse 
aquella defeza, seria a caricatura do dr, Ale- 
xandre Braga. 

Antoine, evocou no meu espirito e no meu 
coração, a voz e o gesto, a dicção e o calor 
do meu velho e querido Affonso Costa. 

E apezar d'isso...eu quasi não o ouvi, 
quasi o não vi, tão prezos e fascinados tinha 
os olhos no fogo physionomico de Suzana 
Després. . . 

Notem este nome que não ficou gravado nas 
placas commemorativas áo foyer do D. Amé- 
lia. Pelos modos, aquillo é generalato a que 
só se chega pela tarimba e no limite de idade. 
Comtudo no relicário santo das fundas emo- 
ções que o meu espirito tem recebido das ar- 
tistas Raras, Grandes e Radiosas que, como 
astros, teem perpassado no Thesouro Velho, 
eu tenho, em placas de sonho, gravados dois 

r-.; 7-v . . Eleonora Duse 

nomes apenas: Eleonora Duse, a trágica ita- caricatura de Raphael 
liana, Su^anne^Després, a artista de França. b. Pinheiro 




102 Impressões de Theatro — Susana T)esprés 



As nossas actrizes também a não viram. 

Nas suas viagens a Paris tem-n'a visto a Lucília Simões e, da- 
das as extranhas faculdades de assimilação e decalque que eu já 
apontei n'esta artista, a lição de Després aproveitou-lhe, como a 
um falsificador de firmas aproveita sempre uma rubrica original : 
a Blanchette da Lucília é o decalque da Blanchette da Després. 

E* um bom decalque, sem duvida. Naturalmente, a Blanchette 
da Lucília, sem a decalcar, seria peor; mas, em Arte, um original 
mau, quanto a mim, vale cem vezes uma copia boa. 

Por isso eu não queria que as nossas actrizes fossem copiar a 
Després. .. queria que fossem aprender: são todas tão novas e 
gentis, as nossas actrizes, que não é desprimor metter-lhes o 
cestinho no braço e mandal-as p'r'á mestra. 

Peor seria mandal-as reverter á Praça p'ra fazerem comprai 
ou elogiai- as no palco ao fazerem asneiras. .. 



XVII 



28 SETEMBRO. 

Meu rapa:^: — Estamos em pleno inverno. Póde-se, pois, co- 
meçar ás voltas com assumptos de theatro, que n'estes passados 
mezes estivaes, de sol e moscas, cotillons nas praias e obscenida- 
des nas feiras, namoros nas thermas e tournées pelas provincias, 
se cifraram no Drama no fundo do mar na Trindade, necrologia 
de artistas rapados no Brazil pela febre amarella c em picara dis- 
cussão entre senhoras visinhas, sobre emprezas que não dão bor- 
las e jornaleiros que pelas borlas apadrinham emprezass, peças, 
theatros e artistas e. . . o confessam, leal e descaradamente, quan- 
do adrega que, um ou outro emprezario, recalcitra e lhes levanta 
a mangedoira 

E' principio assente no patusco Código das redacções que o 
theatro e a sua gente — dês do Bamum que o explora té ao po- 
bre lampista que o illumina, artistas, contra-regras, alfayates, sce- 
nographos, figurantes, aderecistas, pontos, porteiros e ratos de 
camarins — tudo vive e medra nanja do seu trabalho ou da sua 
arte, das suas prendas de espirito ou dos dotes do seu rico cor- 
pinho, mas do favor e da cooperação, das boas graças e benevo- 
lência da imprensa, grande e pequena, grossa e miúda, dês do 
colosso de grande circulação que exige, de chapéu na cabeça 
e facas ao peito, subsídios chorudos e fixos, té á misérrima folha 
de couve, que, sob a ameaça de as dizer rijas, impetra uma supe- 
rior p'r'a vêr o espectaculosinho. 

Principio assente, dogma indiscutível é, ainda, que, entre a 
profissão de pintar a cara e a de alugar a penna, entre o trabalho 
duro de interpretar um papel e a tarefa ligeira de o esborratarde 
asneiras, entre ganhar a vida num palco e fazer por ella numa re- 
dacção, toda a nobreza e pergaminhos, toda a dignidade e consi- 



104 Impressões de Theatro — Cómicos e Jornalistas 

deração incidem sobre o escriba em detrimento do cómico, fa- 
zendo, nestes tempos democráticos de egualitarismo e nivelamen- 
tos, do salafrário da imprensa um potentado, com o rei na barriga 
e falias grossas, pesporrencias gentilhomescas e arremettidas de 
leão, ante o qual tudo se curva e se inclina, as portas se abrem e 
as bolsas se desapertam, creando p'r'ó pobre diabo da scena, a 
situação bhudica de pária, a que se bate, mas com quem a gente 
se não bate, a que se tuteja e se exige excellencia, a que se agri- 
de, se apepina, se oífende, 5>e troça e se explora, por via das bor- 
las ou pela via do encosto, em noites largas de beneficio, com 
uma ceia ou dez tostões por uma noticia catita e p'r'a uma enta- 
lação da vida. 

E, claro, ambos os princípios teem por si a tradição, o consen- 
so universBl dos povos, os códigos, as instituições e a policia. E' 
uma das mentiras convencionaes da nossa civilisação, que esca- 
pou ao espirito acuto do Nordau, mas que embica, como quasi 
todas as outras, n'este facto humano, eterno e desavergonhado^ 
do legislador instinctivamente talhar p'r'a si o miolo da queija- 
da e deixar aos legislados o rilhar a casca — o caso dos direitos 
civis do macho, da força do marido, do capital contra o traba- 
lho, do leão contra o sendeiro. 

Põe os cómicos a fazerem gazetas e os jornalistas a represen 
tarem peças e tu verás, d'aqui a uns annos, em dictadores, os do 
palco a berrarem : P'r'a trás villanagem ! e os da imprensa de rabi- 
nho entre pernas, a ganirem : Qálbarda, excellentissimos senhores I 

* 

Ora, sem querer inverter dum salto sestros antigos e costu- 
meiras consagradas, nestas cartas quinzenaes de palestra amena 
e critica destrambelhada, tentar-se-ha pôr as coisas nos seus de- 
vidos termos. 

P'r'a isso, cortando o nó gordio das dependências entre có- 
micos e jornalistas, entre jornaes e emprezas, o critico theatral 
do Mundo, quando fôr a um theatro, pagará o seu logar ao bi- 
lheteiro, embora a empreza do jornal mantenha o accordo com 
as emprezas de theatro p'r'a em troca de bilhetes fixos e deter- 
minados, lhes publicar os avisos de espectáculo, as noticias e os 
reclames da secção respectiva, sem nenhuma espécie de compro- 
misso quanto á liberdade de discussão e de critica, compromisso 
que nunca reconheceu e que não está disposta a reconhecer, 



Impressões de Theatro — Cómicos e jornalistas io5 



porque, cá em casa, tan- 
to no rez-do-chão como 
no primeiro andar, nem 
sempre se põe gravata, 
mas nunca se usou co- 
leira (*) 

Assim, na plateia dum 
theatro, reservo me to- 
dos os direitos e reco- 
nheço-me com todas as 
obrigações dum especta- 
dor vulgar e bem educa- 
do, que, pagando o seu 
logar, pôde patear ou ap- 
plaudir nos finaes de 
acto, aguentar uma es- 
topada té ao fim ou vir 
cá pVa fora fumar um 
cigarro, tirar o chapéu 
ao subir do panno, não 
acotovellaros visinhos e 
não cuspinhar no sobra- 
do, respeitar, emfim, 
muito mais os editaes da 
policia e as máximas do João Felix, que os interesses e os capri- 
chos do emprezario e da sua gente. 

E aqui, no rez-do-chão do Mundo ou no i." andar, quinzenal- 
mente ou ao fim da representação, com gáudio ou p'r'a arrelia do 
França Borges, despreoccupado, sem malevolencias e sem compa- 
drios, azedo como rabo de gato ou doce como xarope de ginja, bem 
criado ou mal criado, dúctil ou violento, com grammatica incerta 
e sem ortographia definida, em periodos longos ou prosa migada^ 
ao sabor do meu enthusiasmo ou do meu mau humor, eu reservo- 
me o plenissima e absoluta liberdade de te dizer, meu rapaz, co- 
bras e lagartos duma peça ou dum actor, de pôr nos cornos da 




Franca Borges 
Caricatura de F. Voigt 



(•) Esta complicada theoria dos bilhetes fixos em troca de reclames e noticias, 
era um costume consagrado com o qual houve de se transigir por ser feio querer dar 
ordens em casa alheia. Simplesmente, em jornal meu ou em jornal onde eu volte a 
ser critico, náo se acceitarão bilhetes. Nem por fás, nem por nefas. 



io6 Impressões de Theatro — Cómicos e jornalistas 



lua um dramaturgo ou uma actriz, sem consentir, de perto ou de 
longe, a negaça captivante dum agradecimento ou a sombra ma- 
lévola duma suspeição á genuidade imparcial dos meus intuitos, 
que, afinal, se reduzem em pôr a verdade ao serviço da Arte e 
<iizer a Verdade, tal qual a sinto, sobre a Arte e sobre os artistas, 
a ti e aos raros que, comtigo, me possam ler. 

A veidade é crua, é amarga, e, ás vezes, é dura e feia: d'ahi 
a hypocrisia, com uma parra, aventar que nem todas as verdades 
se dizem. 

Comprehende-se : quando a mentira nos faz mais geito. 

Mas, aqui, eu não lhe busco geitos : busco, apenas, dar forma 
plástica, legível, ás minhas impressões de momento, aos meus ra- 
ciocínios, ao que eu, errada mas honradamente, possa julgar a 
Verdade, a Razão e a Justiça — os três lindos chavões, eternos e 
pomposos, com que todo o fideputa especula e enche as boche- 
chas, ao arengar ao publico os elixires moraes ou políticos, lit- 
terarios ou artísticos da sua chafarica e das suas conveniências. 

Pos^o maguar, posso ferir, mas raro pretenderei otfender: 
como não tenho Ídolos, não tenho ódios, como não tenho peças, 
não tenho rivalidades, nem requerimentos, nem aspirações. . . 

Digo o que sinto conforme o sinto; pão, pão, queijo, queijo: 
um burro é um burro, um cabotino um cabotino, o Dantas o Dan- 
tas — o que não quer dizer que, emquanto não vingar o projecto 
das incompatibilidades, não possa haver accumulações e ser-se, 
ao mesmo tempo, cabotino, Dantas e burro, ou Dantas, burro e 
cabotino, o que vem a dar na mesma e, té gora, não ha lei 
coercitiva que o prohiba ou peça original que lhe ponha embargos. 



E, sobre a cantata da superioridade da imprensa sobre o thea- 
tro, do senhor jornalista sobre o senhor artista, dos escripturados 
dum partido sobre os escripturados duma empresa, divirjo da 
opinião corrente, também. 

Conheço, no theatro, homens de honra e homens de talento 
<que se enxovalhariam apertando a mão, sem luvas, a homens sem 
honra e sem talento que também conheço na imprensa e a distan- 
cia moral que os separa é immensa, invencíveis os obstáculos que 
os aífastam, intransponíveis as barreiras que entre uns e outros 
se erguem. São casos esporádicos, de excepção í 



Impressões de Theatro — Cómicos e Jornalistas 107 

Não sei, mas friamente, serenamente, generalizando dos ho- 
mens ás profissões eu não vejo em que possa fincar pé a estranha 
theoria de que a imprensa ennobrece o seu rebanho e o theatro 
-avilta a sua recua. 

Porque eu não discuto, naturalmente, sobre logares communs, 
•sobre palavras sonoras e retumbantes, mas sobre factos, casos 
-crus e palpáveis da realidade das coisas e Ja vida. 

A imprensa alavanca, a Imprensa-Educadora, a Imprensa-Luz, 
-a Imprensa-Guia, a Imprensa-Mãe, tudo isso é muito bonito, em 
'verso. A sério, sabendo a gente, dês das IllusÕes perdidas doBalzac, 
■como a Imprensa é por dentro, como se faz e como opera, como 
^e move e como se agita, de quanta miséria porejam as suas cam- 
panhas, de quanta torpeza rescalda o subsolo dos seus intuitos e a 
-quanta infâmia ella dá a força dos seus prelos e quanto lodo ella ex- 
parge na alma inculta e maleável das multidões, eu não sei como 
as mãos se não crispam num protesto, como as pennas se não que- 
bram numa rebelião, quando escribas — que se conhecem e que 
íi conhecem — lançam ao papel os dislates clássicos da imprensa 
sacerdócio — como se, dentro da austeridade dos princípios, um 
sacerdócio pudera ser um modo de governar a vida e de a levar 
-direita. . . 

Não sei porque ha de ennobrecer o escrever num papel o nosso 
collega Judicibus e o nosso antigo companheiro e glorioso fundador 
desta folha Palma Cavalão e ha de ser deprimente o ter de con- 
fessar um homem que ganha laboriosamente o seu pão, official 
do mesmo officio, marçano da mesma tenda em que primeiro ca- 
lejaram as mãos e esgaçaram os fundilhos os grandes espíritos 
•que atravez dos tempos encheram de gloria os palcos do mundo : 
— Shakspeare, actor assobiado antes de ser a mais extraordinária 
figura d'Alem-Mancha, Molière, comediante antes de ser corno e 
de ser fundador do theatro latino. 

O theatro tem destes antepassados a nobilitar-lhe a genealo- 
gia e nisto de pergaminhos e desigualdades sociaes, não ha her- 
menêutica como a dos linhagistas : vista grossa pVás mazellas e 
aposthemas das ultimas vergonteas e escabichar, atravez dos tem- 
pos, os primeiros ramos, á cata de actos bizarros de fidalguia 

Nas suas relações com o theatro, a historia da imprensa é de 
poucos annos: veiu de França, como os meninos, e ainda, ha dias, 
no interregno da doença de Larroumet, — que Deus haja! — to- 
do o folhetim do Temps era a traçar a figura de Florentino — um 



io8 Impressões de Theatro — Florentino 

dos patriarchas dos críticos theatraes, dos maitres-chanteures e 
dos rufiões. . . 

Esse não se contentava com as borlas — ia ao subsidio, ao ai- 
coviteirismo, á ameaça, e, sobretudo, tinha o lindo truc dos pre- 
sentes. 

Eu conto, que, visto elles teimarem em chamar á imprensa- 
educadora, quero, já 'gora, completar-lhes a educação — Floren- 
tino, quando após largas turras com um emprezario ou rendosa 
apresentação d'um banqueiro a uma das suas protegidas de mo- 
mento, lhe pejavam a bolsa umas mancheias de luizes, largo e 
cavalheiroso, vá de lançar convites p'ra um almoço a artistas e 
emprezarios, catando, cuidadoso, entre o rol dos convivas os que 
por feitio ou por novatos, na anciã de arrivistas, mais necessi- 
dade teriam de lhe conquistai as boas graças e de lhe adoçar os 
adjectivos. Na mesa, artistica e opulenta, a baixella era toda des- 
irmanada: Sèvres ás bulhas com Saxes, pratas rendilhadas da Re- 
nascença aos encontrões a arestas frias, pesadas e macissas, do- 
Império. E o bom do Florentino, entre duas facécias, á pesca dos 
olhares dos seus hospedes, mal elles poisavam em coisa de valor,, 
de atalhar logo : « — Heín ! a admirares essa compoteira ! . . . Boa^ 
sem duvida... prata de lei., bello estylo... Vale uma dinheira- 
ma... E depois, compungido: « — Uma lembrança de Rachel, 
coitada. 'Deu-m'a na véspera do meu segundo artigo. Boa rapa- 
riga, a Inchei I .. . Mas olha-me p'r'áquelle centro... Presente 
do Talma. . . E aquelle paliteiro. . . é o meu museu de Theatro... 
Não se pôde ser verdadeiramente grande no theatro france^ sem. 
estar á minha mesa . . . sob a forma d'um objecto de arte. E de 
valor, claro, de valor que é sempre proporcional ao valor do offe- 
rente . . . 

E nos últimos almoços, já não tinha, na mesa, logar p'r'á bai- 
xella, que ia crescendo, crescendo sempre, á medida que os seus 
artigos eram menos doces, que as suas criticas eram mais im- 
placáveis. . . 

Não sei, positivamente, porque as taboas do palco envilecem 
e a mesa da redacção nobilita. . . 

Imaginem agora, que se invertiam os termos e era um come- 
diante que juntava á sua meza jornalistas.. . 

Imaginem. .. Ao deitar contas ás pratas havia de vêr-se o 
contrario. . . 

A baixella a minguar, a minguar sempre, hoje um bule, áma- 



Impressões de Theatro — Cómicos e jornalistas 109 

nhã um assucareiro, ao fim d'um jantar seis talheres, ao fim d'um al- 
moço três garfos, indo parar tudo por fim, e por conducto dos con- 
vivas, ás casas de prego, ás liquidadoras e ás casas de taboinhas. 

# 

Na imprensa como no theatro, ha bom e mau, negro e côr de 
rosa, briosos e pandilhas : homens incapazes d'uma incorrecção 
« pulhas capazes de todos os crimes. 

Simplesmente, p'ra ser um bom actor não é indispensável ser 
um cavalheiro, e, sendo-se pulha, é-se fatalmente um péssimo jor- 
nalista. Porque o actor, quando se defronta com o publico, deixa 
«ntre bastidores a sua individualidade e o jornalista, quando pon- 
tifica da sua tribuna, é, exactamente, o seu cadastro que sujeita 
S.0 exame e aos commentarios dos que o lêem. 

D'ahi o proloquio, que já vem dos frades, que, em Portugal, 
como em toda a parte, foram os avós dos jornalistas: Bem prega 
Frei Thoma^, fa^e o que elle di^^ não faças o que elle fa^. 

E sendo assim, entre o cómico que dá borlas p'ra que o 
jornalista o elogie e o jornalista que deixa de elogiar quando o 
cómico deixa de dar borlas, o eterno comido é o publico ; mas 
longe de mim jurar, p'ra honra da confraria, que os pulhas estão 
no palco e os homens de bem no jornalismo. 

D'ahi, outro principio : não se discutirão aqui homens, o que 
não poderia acontecer se, em vez d'uma revista de theatros, isto 
fora uma revista de jornaes. 

Discutir-se-hão apenas actores, nas suas aptidões, nas suas 
qualidades, nos seus defeitos e como actores : não se lhes bolirá 
com outra dignidade que não seja a profissional. De resto, como 
disse, o actor escusa de ser digno ; basta que seja intelligente. 
Não precisa ter um attestado de bom comportamento ; necessita 
apenas ter miolos. Não precisa ser um monstro de virtude : basta 
que não seja um colosso de estupidez. . . 

E de resto, uma coisa compensa a outra : quantas bestas tu 
não conheces que são alentadissimos homens de bem. .. 

Outros accumulam a inversa, é facto. E' a falta lei das in- 
compatibilidades — ha tanto mariola com talento, tanto safardana 
que escreve bem. . . 

N'isto, sim. E' talvez esta a verdadeira e única superioridade 
da imprensa. . . que escreve. 

Porque, p'ra exigir borlas, nem é preciso saber escrever : as 
mais das vezes basta, por atavismo, saber escoicinhar. 



XVIII 



12 OUTUBRO 



Meu rap2^ : — Assentes as permissas de que, entre debitar um 
papel á luz da ribalta e peja-lo de jumencias á mesa da redacção^ 
não ha tão fundo abyâmo que de per si abra cova eterna de oppro- 
brio p'r'ó cómico e levante, sem mais aquellas, imperecível már- 
more de gloria ao jornaleiro, vá ainda, antes que os panos subam, 
de esquissar a traços largos a forma e tramites de recrutamento- 
de cómicos e jornalistas, neste nosso meio, acanhado e pelintra,, 
em que todos nós nos conhecemos de pequenos e onde, á falta de 
escolas profissionaes de actores e periodistas, não é de estranhar 
que p'r'o palco e p'r'ás gazetas enveredem, aos solavancos da 
fome e da estúrdia, os que, escorraçados, por invalidez moral ou: 
inttllectiva, no pequeno commercio, nas artes livres e em officios 
manuaes de ganhões, fracassam no refugium peccatorum da bu- 
rocracia por falta de padrinhos e de instrucção primaria, por 
mingua de empenhos ou redundâncias de cadastro. 

Ainda n'isto, uns e outros fraternizam e se irmanejam, tão- 
cheias estão as duas confrarias de mostrengos e safardanas que^ 
fazendo do theatro e da imprensa campo de manobras e picadeiro, 
rilham ossos de noticiário e mordiscam codeas de figuração, atra- 
vancando, naluctapela vida e pelo successo, aquelles que no palca 
e no jornal poderiam, com menor esforço, por temperamento & 
por estudo, por tenacidade e aptidão, abrir carreira e elevar as 
duas classes ao nivel de decoro e intelligencia, honesta mediania 
e razoável remuneração que fizessem da penna e da maquilhagem 
uns modos de vida limpos e nanja umas capas de pobreza des- 
vergonhada. 

E' entrar num palco á hora dos fins de ensaio, ou, após o es- 
pectáculo, quando, focinhos mal desbezuntados, o elenco bri- 



Impressões de Theatro — Theatro e imprensa iii 

Ihante da companhia deambula, ruidosos e pipilantes os moços 
em cata de meios bifes e d'aventuras, ou, p£.catos e desilludidos,. 
os velhos e mansarrões, se vão á assorda caseira p'ra mansardas 
pocilpuentas onde o sol não entra, o ar coagula, a vassoura não 
varre, o padeiro não fia, o aguadeiro resmunga, a peixeira pra- 
gueja, o da tenda manguita, e o preguista — sombra tutelar e 
Nossa Senhora dos Apertos — tem de cór todo o mobiliário e 
toda a farraparia. 

São as mesmas mascaras patibulares e angulosas, as mesmas 
maxilas siamescas, olhos piscos de fuinha, o mesmo tom baço e 
terroso de epiderme, o mesmo cheiro acre de fartum, as mesmas 
olheiras bistres de tresnoitados, o mesmo claudicar de plantas, o 
mesmo arquear de vértebras, lúgubre e faminto, dos que á noite, 
em torno do oleado sujo das redacções, rabiscam e escrevunham,. 
na lufa-lufa da ultima hora, as scenas horripilantes de facadas, os 
casos tristes dos suicidios, as lubricidades excitantes dos adulté- 
rios, as partes de policia e as noticias da Arcada, os fundos re- 
tumbantes de moralidade e os echos, fugitivos e insulsos, em que, 
de quando em vez, uma chantage se aninha, uma calumnia se en- 
rosca, uma torpeza se arrebita e onde o bom senso, em idylico de- 
vaneio com a grammatica, raro transparece e deita os cominhos 
de fora. 

A distinguir uns e outros, por fora, as trunfas revoltas, a pio- 
Iharia insubmissa, faltas de sabão e de colarinhos nos da impren- 
sa e faces glabaras, trapos berrantes no pescoço, pechisbeques 
nos dedos, nos do palco. No intimo, no habito interno, nem isso 
— a mesma carência de principios, de talento, de moral e de meias 
coroas ; a mesma ausência de escrúpulos, de aptidões e de rou- 
pas brancas : a mesma anciã de trepar, de subir, de intrigar, de 
dar, nas vistas, de criar um nome por um bamburrio da sorte, — 
uma rábula que calha ou uma noticia que fica, — sem um esforço, 
no palco, que revele um temperamento, sem uma phrase, na ga- 
zeta, que deixe adivinhar uma consciência. 

Uns e outros, — falhados em todas as tentativas do striigglCy 
com largas odysseias de privações por todos os ramos das indus- 
trias fáceis, dês do pulir as esquinar té ao machear velhas ricas, — 
fazem do palco e do jornalismo, não uma profissão, mas um tram- 
polim, não uma carreira, mas uma taboleta: os do palco, as mais 
das vezes p'ra negócios de alcova, os da imprensa, quasi sempre, 
p'ra especulações da Arcada. Uns e outros, por deficiência de 



112 Impressões de Theatro — Os elencos do anno 

salto ou frouxidão de membros, estatelam-se, não raro, na pista e 
são os casos conhecidos de repórteres que nunca chegam a ama- 
nuenses ou de apoUos que crystalisam, no palco e em figurantes, 
<;om a libré de lacaios e cartas p'ró senhor conde a meio dos actos 
ou cohonestando, assim, com a Arte, um numero de poUcia na 
Yida, ou uma reforma mercurial no Desterro. 



E' passar a vista pelos elencos que n'esta quadra do anno as em- 
prezas fornecem e reclamisam dos seus escripturados e artistas. 

Doe a alma e arrepiam-se os cabellos, por que, como nas eta- 
lages abracadabrantes da Feira da Ladra, em que, em torno dum 
velho contador, rendilhado e heráldico, a fazer fundo e massiço, 
todo um poema de miséria se desenrola em estrophes descone- 
xas de mobiliário pelintra — mezas sem pés, commodas sem gave- 
tas, cadeiras sem costas, peniqueiras sem pedra, gaiolas sem por- 
ta, arcas sem tampa, — em todos os elencos, gora vindos a lume, 
-ao abrir da época, a mesma impressão resalta, desconsoladora e 
fria : na cabeça do rol, um nome, dois, três, cheios de pó e de 
brancas, mancos e inválidos, que vivem do passado, da tradicção 
e da lenda, e depois, em bicha, rabos de cometas apagados, ver- 
bos de encher, sem uma aptidão, sem uma utilidade, sem uma 
serventia. 

Nenhum traz um diploma — o que, de resto, seria uma atte- 
nuante dês que Schwalbach é o Garrett e o Conservatório um 
ninho de purrios — mas por mais que se escabiche, nenhum, tão 
pouco, se permitte o luxo d'uma vocação : estão ali como pode- 
riam estar n'outra parte, p'ra ganhar a porca da vida sem dispên- 
dio de musculo e sem despilfarros de intelligencia. 

Lá fora, quando a tarântula do theatro acicata as carnes dum 
moço e a brotoeja da Arte lhe pintalga em sonhos o futuro, ou 
fura a murro — como, entre nós, o António Pedro furou, de mí- 
sero trolha analphabeto e beberróla aos maiores e mais extranhos 
assombros da improvisação e do Génio — e ganha á força de tra- 
balho e de talento, um logar e um nome e é um actor de voca- 
ção; ou, esgaça os fundilhos annos e annos nas escolas de de- 
clamação, entulha o miolo de regras e de clássicos, affaz a voz e 
a mascara a rictus e modulações de compendio, afinca-se, agarra- 
56 e progride e trepa té aos concursos de sabida, e é um actor de- 




António Pedro 
Caricatura de Raphael Bordallo Pinheiro 



114 Impressões de Theatro — Os e'encos do anno 



carreira, o que, nem sempre, equivale a ser um actor de reputa- 
ção. 

Entre nós, a não ser que o acaso os haja parido na Carreira 
dos Cavallos — actores de carreira, não ha. 

A carreira e a vocação em Portugal, deram-se as mãos e pro- 
duziram, em synthese, os actores de geração expontânea que a 
gente vê irromper nos elencos, nados e criados, rijos e feros, 
sem passado nem futuro e com um presente passivo mais que im- 
perfeito e composto de inépcia, de inconsciência e de negação, a 
que, as mais das vezes, o Brazil, com a febre amarella ou a poli- 
cia, com o varejo, põem o ponto final do necrológio. 

Senão veja-se : 

No D. c^tnelia, espécie de Runa de inválidos e alfobre de pro- 
dígios, afora os nomes da veteranagem, olha a gente p'r'á arraia 
miúda e, instinctivamente, inquire porque não ha de estar a fazer 
botas metade d'aquelles artistas que, demais nós o sabemos, nunca 
chegará a deitar tombas na arte de representar. 

No 'Z). Maria — secretaria de Estado e velhacoito de inutili- 
dades — peor. Excepção feita de dois ou três nomes que não des- 
doiram a Padroeira do Templo — Santa Virgina, Senhora Nossa, — 
e Ferreira — Orago da freguezia, — o resto são meninos de coiro 
e ratas de sachristia, que só teem como attenuante ao seu mau 
comportamento scenico o saber-se que são todos vaccinados, 
teem folha corrida, attestados do regedor e que, como filhos da 
Santa Casa, estão ali á espera que o Posser lhes arranje creaçõeSj 
nanja no palco, como artistas, mas, em casas ricas como amas 
de cria. 

De resto, se um dia o Mello Barreto arranca o veto do Al- 
berto Pimentel p'ra pôr em scena as T^emplaçantes.^ a demons- 
tração fica feita : aquillo não é theatro, é vaccaria e não deve ge- 
ri-lo o Maia — o sr. Conde da Guarda é que deve mugi-la. 

f^o Príncipe Real. — pinturilado de novoe com aspirações a />re- 
to-tátnem ser gente — a confusão é completa : ha-os de todas as 
cores, de todas as nacionalidades, de todas as profissões, de to- 
dos os feitios. Dês do homisio da Adelina, não os há de todas 
as estaturas, mas com a collaboração histórica do Marcellino 
Mesquita, se não chegarem todos a actores, é porque os fadou 
Deus p'ra eternos Campos-Juniores dos folhetins da Rua da 
Palma. 



Impressões de Theatro — Os elencos do atino 



ii5 




No Gymnasio^ nos derradeiros 
lampejos do Emprezario Pinto, em- 
quanto o Valle, em filho pródigo, 
não volta trazendo no alforge o 
Gervásio mascarado no Gamara 
^ÊfW^^^ _^^^^ Lima, o mais destrambelhado e o 

^^^^^^ ^' IBw ^^^^ actor dos nossos homens de 

^^gR 'jML v?^ theatr®, Joaquim d'Almeida, secun- 

~ ^Hm*,»^ ^H dado por Ignacio Peixoto que mar- 

ca já, como promessa, uma das ra- 
ras individualidades dos nossos 
bons actores, aguentam ambos á 
gargalhada a receita da casa, e, como 
Lilios abandonados, olham os dois 
e — afora os esgares do Gardoso, 
os sogrismos da Barbara e as ná- 
degas do Telmo — olham e não 
vêem, chamam e não lhes respon- 
de nmguem. 

Na Trindade^ com fifias e es- 
treias, ha os velhos, as tradições, 
os catharros, a Amélia de Barros, 
caixas de rapé, e, como no género 
das peças a explorar, se exigem 
vozes e mulheres bonitas, um pou- 
co da musica e muitas ligas, abun- 
dam as pulmoeiras e um bando]^de catatuas a fazer de coristas. 
Actores, não ha nem fazem mingua : ha estornos do Brazil em 
moeda fraca. . . com o cambio p'las ruas da amargura. 

E assim por diante, té ao fim, d'alto a baixo, nos theatros 
cujos elencos já estão formados e nos elencos ainda em formação, 
ao acaso da sorte, com elementos sem escriptura e operários sem 
trabalho, a mesma conjugação de incompetências e relíquias — 
celebridades chochas e esperanças sediças, glorias consagradas 
pelo calendário e promessas eternas que não desabrocham, — o 
pessoal do nosso theatro rasteja na mediocridade e nega-se nas 
subidas da arte, porque, entre a malta toda, velhos, inválidos, es- 
tropeados, veteranos e um ou outro novo que se destaca e se af- 
firma — a não ser o caso esporádico do António Pinheiro, sahido 
do Conservatório — não se topa com um actor que tenha estu- 




Empresario Pinto 
Caricatura de Carlos Leal 



ii6 Impressões de Theatro — T*alcos & Jornaes 

dado p'ra actor, como, se a policia n'uma rusga, deixasse vir a 
publico os elencos das redacções, não se toparia nas redacções 
dos jornaes, com um jornalista que tenha a educação profissio- 
nal do jornalismo. 

* 

E comprehende-se. Os preconceitos que, ás duas por três, os 
da imprensa alimentam no publico contra os do palco, são in- 
natos, no bom senso da multidão, contra os do palco e os das re- 
dacções, pois que, por pouco ambicioso que um pae seja pelo fu- 
turo dos filhos, a nenhum sorri ver o menino, mais tarde, pintar a 
cara p'ra divertir a plateia, ou alugar a penna p'ra fazer pela vida. 

Na monomania das grandesas e dadas as responsabilidades do 
Executivo, ha pães que, educando os pimpolhos p'ra bandoleiros, 
os mettem nos cursos superiores, á espera de os verem sair mi- 
nistros. . . 

Ha os que os querem tropas, magistrados, engenheiros, com- 
missarios régios, banqueiros, deputados, médicos, industriaes, pa- 
dres — que os queiram actores e jornalistas, ainda não encontrei 
um só. Simplesmente, quando os meninos não podem, por es- 
tupidez ou mandracice, satisfazer as aspiraçõãs paternas, aconte- 
ce, vir a dar mocinho, que o papá fadara p'ra general, em caboti- 
no e que, purrio que nem p'ra padre servia, vem a liquidar no 
jornalismo. 

Como? 

Exactamente pela mesma razão por que os cães entram nas 
egrejas: porque p'ra ter ingresso em todas as carreiras é preci- 
so acotovelar, luctar, soflfrer p'ra fazer caminho e abrir ás portas 
e o theatro, mail-a imprensa, como casas da rua Suja, são de por- 
ta aberta. Não é preciso bater ao ferrolho, nem chamar o guarda 
nocturno. Entra-se de chapéu na cabeça, sempre a direito, ás 
claras ou ás escuras... 

Acontece, porém, que não conhecendo os cantos e alçapões, 
muitas vezes se quebra o nariz. 

D'ahi o facto do nosso theatro e da nossa imprensa estarem a 
abarrotar de desnarigados : — o que não quer dizer que o ter na- 
riz prove que no palco e no jornalismo se vingou e se marca, ou 
se tem talento. 

Pelo contrario — o Fuschini, como jornaHsta, vale mais que o 
Beirão e, como actor, poucos haverá que valham menos que o 
Ghristiano . . . 



XIX 



21 OUTUBRO 

O rPÍ míiirlifn drama histórico em 5 actos e 6 qua- 
\J I Cl llldlUllU, dros, original de Marcellino Mes- 
quita. Theatro Príncipe Real. Distribuição : — D. JoÃo iii Rei de 
Portugal, Luciano. — O Duque de Bragança D. Theodosio, Pinto 
Costa. — Infante D. Luiz, Eduardo Vieira. — António Gomes, Al- 
ves da Silva. — Samuel Levy, Guilhermino. — Conde da Idanha, 
Augusto Machado. — D. João de Mello, inquisidor^ Chaves. — 
Simão Rodrigues, ye^MzVa, Roque. — Damião de Goes, Peixoto. — 
Henrique Nunes, christão novo, Monteiro. — Um Fidalgo, fami- 
liar do Santo Officio, P. Costa. — David, y«í/eu novo, L. Froes. — 
Um Criado, Arthur. — Joann.a. Vaz, Adelina Nobre. — Esther, fi- 
lha de Samuely Cândida de Sousa. — A ama de Esther, Georgi- 
na Vieira. 

1.° Postal. — Antes do panno subir. Theatro limpo, elegante, 
bem posto. Plateia hybrida de velhos aficcionados da casa, boc- 
cas de sino das visinhanças e navalhas de ponta de todas as pri- 
meiras : profissionaes da correccional e da critica Vaticinios des- 
encontrados e espectativas differentes. Marcellino sabe e pode. 
Que irá elle fazer ? Um Regente em hastes limpas, ou a Leonor 
Telles desembolada ? 

Toca o cornetim, transformado, aristocraticamente, em sext- 
teto — vão começar as cortesias. 

2." Postal. — g */4 — Desceu o panno. 

Acto cheio ao gosto da casa. D. João III, em Fuschini, pla- 
neja as liquidações politicas. . . perdão, a queima dos judeus. Bons 
fatos, boa rhetorica, boas tiradas. A plateia aquece. Ainda não 
morreu ninguém, mas, se pelo chiar do carro, sevêquemvae den- 
tro, vamos ter obra. Jesuitas, dominicanos, fidalgos amigos de 
Luthero, filhos de judeus perseguidos, inquisidores e o diabo a e 



ii8 



Impressões de Theatro — T^ei cMaldito 



quatro. Alexandre Herculano em dynamisações homoepathicas. 
Desempenho regular. 

3." Postal. — g V4 — C^^ o panno do 2.° acto. Arrefecem, ao 
mesmo tempo, a prosa de Marcellino e o enthusiasmo do publi- 
co. Congela o desempenho. Três prisões, um duello, a historia dos 
judeus, um idylio, Damião de Gosma e uma morte. 
E' a primeira, mas continua. 

4.° Postal. — 10 e 3/4 — Fim do "i." 
acto. — Torna a subir a temperatura — 
acto cheio, theatral e sem carnificina 
de maior. — Desempenho harmónico. — 
Damião de Gosma ameaça a terra, o 
mar e o mundo com o furabolos, justi- 
ficando a Inquisição e o Marcellino — 
que, pela certa, antes do fim da peça, 
lhe decepam as mãos, não lhe deixando, 
por castigo, nem o maminho nem o 
matapiolhos. 

Pinto Costa, no duque de Bragança, 
destaca pela sobriedade e correcção. 
Luciano — D. João III — está, positiva- 
mente, a fazer o jogo do governo, tor- 
nando antipathico o sr. Fuschini. Na 
plateia começa a fallar-se nos Amores 
dum visionário^ romance esquecido de 
Bernardino Pinheiro — é a velha calum- 
nia dos palmansos litterarios do Mar- 
cellino. 

Pois sim, mas, mesmo com as mule- 
tas alheias, corre mais e vae mais longe 
do que os que andam pelo seu pé e, 
as mais das vezes, a quatro patas. 
5." Postal. — // e ^l-i — Dois quadros de Inquisição. 
Poucos tratos e vários jogos de bola. 

Com mais tormentos e mais berros era o dou da peça, este 
acto, p'rá plateia habitual da casa. Assim, ha o perigo da Inquisi- 
ção parecer a Parreirinha e os espectadores começarem a julgar o 
juiz Veiga com a pomba immaculada dos inquisidores. Como inves- 
tigação histórica, Marcellino descobriu que o ande lá pWa diante 
da policia tem a sua ancestralidade na Inquisição e, com um pouco 




Augusto Fuschini 

Caricatura de Raphael B. 

Pinheiro 



Impressões de Theatro — 1(ei õMaldito 1 1 9 

de boa vontade, a Academia de Sciencias dá foros de classicismo 
ao 55o ordes. 

Acto mais frio e desempenho mais^ atabalhoado : não admira, 
mette saias, e as saias no Príncipe Real pucham todas p'ra 

faldas de percal planchás 

6." Postal. — // e 5o m. — Duvida-se de que a peça tenha 
acabado. Todos esperavam o grande truc do Marcellino. O truc 
consiste exactamente em não ser truc. E' uma troça ao especta- 
dor que tinha esperanças. Marcellino manda chamuscar um judeu 
e uma judia, manda apunhalar um traidor, manda raptar um 
galan e cae o panno por lhe ter faltado a audácia p'ra mandar 
bugiar o publico. 

O publico, surpreso e agradecido, também não mandou bugiar 
o Marcellino. 

E foi pena, como, mais de espaço e com menos somno, se de- 
monstrará. 



XX 



20 OUTUBRO 

Meu rapa^: — Quinzena de aberturas, de provas, ensaios, re- 
prises e promessas — no D. Amélia arejam-se os successos passa- 
dos, em D. Maria entoam-se os responsos aos derradeiros origi- 
naes da outra estação e, pimpante e garrido, abrindo a marcha,, 
já o Principe Real nos deu peça nova, tamborilada, com antece- 
dência, nas folhas e apregoada aos quatro ventos, como primor 
de carpinteiragem e enscenação, obra de pulso e de rajadas, em 
que todo o talento meridional do nosso primeiro e único drama- 
turgo ia com os seus trucs do mètier fallar á fibra e arrancar la- 
grimas á sensibeleria ingénua e inflammavel d'uma plateia po- 
pular. 

Vae d'ahi, subiu o panno, representou-se a peça e, em alter- 
nativas de enthusiasmo e de somno, com altos e baixos de emo- 
ção e de estopada, o Rei Maldito^ não enflorando com loiros de 
triumpho a coroa de gloria que o theatro contemporâneo ainda 
deve ao auctor da Dór Suprema, nem baixando o thermometro 
ao zero de fiasco em que já uma vez se esparrinhou o progeni- 
tor da Sinhá — tem sobre todas as peças da sua bagagem thea- 
tral a triste superioridade de, mais completa e integral, dar, em 
claro escuro, facho de luz e borrões de sombra, a silhueta de 
Marcellino na estranha dualidade do seu feitio e do seu tempera- 
mento, do seu processo e dos seus recursos. 

Porque, todas as qualidades carpinteiraes e architectonicas 
que fazem do auctor da Leonor Telles um Sardouzinho nacional 
p'ra uso da Rua dos Fanqueiros, todas as fulgurancias de dialo- 
guista, acuto e emocionante, que desde os Castros o etiquetam 
como o mais legitimo summo da uva do Cartaxo e do Dumas fi- 
lho, todas resaltam e destacam nos farrapos bons e sem mistura 



Impressões de Theatro — Marcellino Mesquita 121 



do Rei Maldito^ como destacam e resaltam, nas partes fracas e 
pudendas deste dramalhão, as mcongruencias, os apressamentos, 
os elixires dentrificios e os sabonetes de tirar nódoas, que Mar- 
cellino manipula p'ra estender actos, como charlatanismo de pres- 
tidigitador que transformam, em Armazém Grandella e bazar de 

três vinténs do nosso thea- 
tro contemporâneo, quem,, 
sem essas pechas, seria, 
pela certa, a mais lidima 
gloria extra- viti cuia do 
Cartaxo e do seu termo. 
Em nenhuma das suas 
peças o bom e o mau da 
sua individualidade httera- 
ria mais intensa e intima- 
mente se chocalham e se 
confundem, porque, em ne- 
nhuma d'ellas, o homem 
de theatro que sabe fazer 
peças e o caixeiro viajante 
que tenta impingir merca- 
dorias, mais de mãos da- 
das e mais engloba'ios se 
revelam aos olhos extactl- 
cos duma sala de espe- 
ctáculos. 
E nesta dualidade hybrida — que constitue a individualidade 
dramática de Marcellino, exacerbada pelas contingências da vida 
que o obrigam a viver da Arte e não lhe consentem a extrava- 
gância de viver p'r'á Arte — se concretisa todo o brilho e pujan- 
ça, que, em eclosões de talento, lhe matisam a obra, todas 'ss ma- 
culas de fancaria, que em deboches de plagiatos, de improbidades 
artísticas, rhetoricas, ficelles, trucs e tiradas, lh'a esmaltam e lh'a 
tamisam em desegualdades e solavancos arreliadores e desconne- 
xos de grandesa e cabotinagem, de theatro e barraca de feira, de 
arte e mercancia, de trampa e banha de cheiro. Destrambelhado, 
desegual, insubmisso e rebelde, ás vezes grande como os Maio- 
res, outras tamanino como um anão de Liliput, tendo voos de 
condor atravez do infinito e zig-zags de morcego em torno dO' 
azeite, personalissimo e inconfundível, no arreganho ousado com 




Marcellino Mesquita 
Caricatura de Manuel G. B. Pinheiro 



122 Impressões de Theatro — Marcellino Mesquita 



que atira ás alturas o madeiramento d'uma peça e na inconscien- 
te leviandade com que a faz desabar em montões de caliça, Mar- 
<:ellino de Mesquita é, incontestavelmente, o único temperamento 
<ie auctor theatral que, pelo valor absoluto, embora incerto e va- 
riável da sua obra, merece annotação detida, pormenorisada refe- 
rencia, detalhado estudo, aos que vão assentando no canhenho 
os que marcam já e hão de vincular mais tarde na historia do 
theatro portuguez. 

Com a technica segura do seu officio, com a virilidade scin- 
tillante dum prosador forte que é, no fundo, uma alma de poeta, 
bohemio e romanesco, Marcellino, ribatejano e assomado, em 
Arte, é um impulsivo e no theatro, um apressado. Excepcional- 
mente frio e pausado, uma vez na vida, com uma grande concen- 
tração de espirito e de nervos, como quem, num esforço hercúleo 
<ie vontade, quiz dar a gama do seu valor e do seu pulso, — de- 
pois de successos de ruido e de escândalo, arrancados em duas ou 
três investidas de leão, onde, não raro havia, já, sabidas de sen- 
<leiro — Marcellino fez a 1)ór Suprema., que é, ao lado do Frei 
l.ui^, o mais vivo e resistente pedaço de dramaturgia nacional. 
Depois, tendo feito arte pela arte, como a receita da bilheteira 
lhe indicasse que, nessa senda viria a ser talvez um dramaturgo 
•europeu, mas não passaria, certo, dum alfacinha pelintra, o riba- 
tejano rompeu de novo, impulsivo e apressado, e, como quem 
ii'um repente de coragem e de inconsciência, se atira á cabeça 
■dum toiro, Marcellino atirou-se, de vez e definivamente, ao thea- 
tro de espalhafato, «tintamarrico e de effeito em que iniciara a 
5ua carreira e cobrara maiores direitos de auctor. 

P'ra não perder tempo em efabulações de theses, em busca 
•de problemas, em cata de casos da vida que demandam observa- 
•ção e estudo, analyses e syntheses, ideias e intuitos, raciocínios 
•e soluções, Marcellino recordou mentalmente a Historia de Por- 
tugal que aprendera em instrucção primaria, e, com esse material 
•e muito talento, sem preconceitos e sem escrúpulos, quatro lam- 
buges de Sardou e seis paradoxos de Dumas, ei-lo que nos ati- 
ra, em despilfarros de gran-senhor, a tralha toda das quatro dy- 
nastiaa: a Arte atravez do camaroteiro, explorando as ideias de 
momento e os casos do dia, um heroe histórico ou uma parte da 
policia — a Mãe d'Agua ou os Atoleiros, resurreições pomposas 
<le guarda-roupa e eífeitos deslumbrantes de scenographia. 

Se Marcellino fosse rico ou alto funccionario do Estado, con- 



Impressões de Theatro — Marcellino Mesquita i23 

tinuaria a série daDôr Suprema — sem credito nos bancos e sem 
talher no orçamento, vae n'uma progressão crescente de estapa- 
fúrdio do Regente ao Rei Maldito, com escala pelos archivos 
Palmella na Sempre Noiva e um trambulhao ruidoso nas insigni- 
ficâncias da Sinhá e do Petronio. 

Só a faísca do génio e a tenacidade exgotante de Balzac ar- 
rancou em França, da lucta titânica com agiotas e preguistas, 
todo o vasto pandemonio, opulento e collossal, da Comedia Hu- 
mana: outro qualquer, sem a rigidez cenobitica do semi-deus das 
Jllusões perdidas, teria succumbido, como succumbe Marcellino, á 
-dura necessidade do momento, irritante e angustiosa, que re- 
clama, não uma obra d'arte, immaculada e perfeita, mas um pu- 
nhado de cobres p'ra tapar a bocca aos prestamistas. 

Seria macular indignamente toda a aptidão theatral, todas as 
faculdades de escriptor que sagram o auctor da Dor Suprema 
como o nosso único dramaturgo contemporâneo, o não fazer en- 
trar na linha de conta, na analyse da sua obra, este factor absor- 
vente da falta de pecunia, que é o seu alibi de irresponsabilidade, 
quando fracassa e a pedra de toque do seu valor, quando trium- 
f>ha. D'ahi, honradamente, não poder considerar-se, sem malévo- 
la injustiça, o Rei Maldito como peça de theatro e ter-se, apenas, 
de monetariamente a avaliar como ultimo recurso d'um homem 
que, té aos cabellos, se sente irremissivelmente encalacrado . . . 

Marcellino, quando pode, n'uma calmaria de bolsa quente, 
fazer arte, demonstram-no aDôr Suprema — um bloco de mármo- 
re — e os Peraltas e Secias — uma filigrana de prata — que pôde e 
sabe fazel-a como ninguém. Mas, quando, n'uma anciã tormen- 
tosa de miséria, pretende fazer direitos de auctor, nem sempre 
consegue armar e pôr em pé uma fonte de receita. 

Como artista, ainda ninguém o igual-a ; como brasseur d'affai- 
res, qualquer mono da judenga lhe dá caras e amaríssimas lições. 

No Rei Maldito — já o disse — mais do que em nenhuma pro- 
ducção, esta dualidade do grande dramaturgo e ínfimo homem 
de negócios se entrelaçam e se casam : é de artista todo o pri- 
meiro acto, movimentado, vivo, quente e interessante, com um 
fecho dramático que empolga e uma cadencia máscula, uma ver- 
dade rude, uma lógica forte, que se impõem á plateia, a subju- 
gam e a dominam. 

E', ainda, de artista o 3.° acto e a parte idylica do 2.° que o 
desempenho impiedosamente esfrangalhou. 



124 Impressões de Theatro — ^ei õMaldito 

No resto da peça, desapparece o artista obsecado, opprimido^ 
esmagado, pela necessidade imperiosa de fazer depressa, de fazer 
á tôa, de fazer a todo o custo, sem respeito pelo seu nome, sem 
carinho pela sua obra, sem a noção, sequer, do perigo de nau- 
fragar na ignominia do tacão, e, surde-nos o pobre diabo a remen- 
dar em alinhavos torpes de inconsciência e de inépcia os dois 
pedaços verdadeiramente grandes que, vou jural-o, em chrono- 
iogia foram os primeiros e que, apezar de seguros e de effeito, o 
artista, na serenidade da sua consciência, tinha condemnado, 
guardando-os — quem sabe? — entre os papeis velhos e os esboços 
abandonados, como documento de uma velha tentativa de má 
acção. 

Porque — e é exacta.iiente n'esse ponto que o Rei Maldito 
não logra indulto nem perdão — esses pedaços d'arte scenica, es- 
correitos e sãos, que resaltam e destacam na peça, como pedras 
raras d'um thesouro, perdidas no engaste falso de jóias de vidra- 
ceiro, e que, na estructura intima da intriga, formam um paren- 
thesis e abrem um fosso de descontinuidade na marcha da acção, — 
todo esse i.° acto, nas suas linhus e nos seus personagens — ex- 
cepção feita ao incidente do medico judeu e da filha que implora 
o seu perdão — e todo o 3.°, nas sua linhas, nos seus personagens, 
no seu dialogo, no seu desenrolar e no seu fecho — a vinda do rei 
em aguazil e a saida fidalga de Gouveia atirando com a espada e 
dando-se como preso ao fanatismo do rei e á vingança da Inqui- 
sição, tudo isso, antes de arrancar os applausos á plateia do Prin- 
cipe Real, tinha, ha bons trint'annos, aljofrado de lagrimas os 
leitores sensiveis dos Amores d'um visionário, romance histórico, 
injustamente esquecido hoje, de Bernardino Pinheiro, alma de 
sectário, investigador de cancioneiros, homem de bem e roman- 
cista de alto valor. 

Naturalmente, no estudo d'uma época, ao pôr em pé e ao dar 
vida a uma sociedade, a um personagem ou a um facto, o espirito 
acuto do romancista e a lúcida intelhgencia do dramaturgo po- 
diam ter-se encontrado nas mesmas fontes de origem e, um e ou- 
tro, sedusidos pela emotividade dramática d'um typo ou d'uma 
situação, poderiam te-lo reprodusido com as mesmas tintas, com 
os mesmos toques, com os mesmos tons — um nas paginas do 
seu livro, outro, nas scenas do seu drama. 

Mas o que, sem a intervenção sobrenatural de S. Plagiato, 
advogado dos dramaturgos, não podia dar-se é que, tendo, dos 



Impressões de Theatro — T^e/ cMaldito 



calhamaços das chronicas, arrancado o romancista um nome — o 
<io dr. António de Gouveia, legista celebre, homem de sciencia 
pacatão e commodista, rival de Cujacio e amigo de Francisco I — 
•e dando-lhe, com toda a liberdade d'uma phantasia romântica e 
peninsular, um conjuncto de qualidades e de características, fa- 
zendo-o mover n'um meio e intervir em successos de pura 
imaginação, lrint'annos mais tarde, o dramaturgo tivesse a mes- 
ma intuição do personagem, os mesmos detalhes de caracter e 
de temperamento, o movesse e o fizesse agir no mesmo meio e 
nos mesmos successos que, não deixando vestígios na historia, 
vincam, na litteratura portugueza, como meros productos da 
phantasia e da imaginação. 

E é isso o que, na verdade, se dá. Os pontos de contacto, de 
perfeita identidade, de absoluta e homogénea ligação do Rei Mal- 
dito aos Amores d'um visionário, não são nos factos históricos, 
que Marcellino Mesquita dramatisou trint'annos depois de Ber- 
nardino Pinheiro os ter romantisado : são nos personagens, nos 
lances, nas situações e nas próprias palavras com que o roman- 
cista ha trint'annos bordara, li\remente, ao sabor do seu tempe- 
ramento e dos seus intuitos, a efabulação romanesca d'um estudo 
sobre o espirito cavalheiresco, aventuroso, reformador e liberal 
da primeira metade do século xvi, em lucta aberta, em guerra 
franca, com a corte fanática, refalsada, soturna e sanguinolenta 
de D. João III — o rei piedoso. . . 

De resto, a brevíssima comparação das linhas geraes do ro- 
mance com o cavername do drama, frisam de sobra a identidade 
dos lances capitães, ficando de remissa, p'r'ó caso de contestação 
o computar-se, passo a passo — em certos pontos lettra a lettra, 
virgula a virgula — a divisão dos actos d'um, com os capítulos do 
outro, a acção d'esses actos, os seus personagens e os seus diá- 
logos, com os diálogos, os personagens e a acção d'esses capítu- 
los. 

Assim, no romance, António Gouveia, meio homem de leis e 
moço de armas, chamado pelo duque de Bragança, regressa das 
universidade europeas, onde se relacionou com todas as summi- 
dades do seu tempo, e, com escala pelas fortalezas de Africa — 
onde salvou o prestigio das armas portuguezas, — vae ao Paço 
fallar ao seu velho amigo Pedro Carneiro, hoje conde de Idanha 
e valido potente do rei. N'uma entrevista com D. João III, recusa 
as honras com que o monarcha pretende captal-o e declara-se 



120 Impressões de Theatro — 'J^ei cMaldito 



inimigo da Inquisição, personalisada em Jorge de Mello, e dos je- 
suítas, representados por Simão Rodrigues, um dos sete compa- 
nheiros de Loyola. Conspira com os judeus, com os escravos,, 
faz-se advogado de todos os opprimidos, adversário indómito de 
todas as oppressões. Os jesuítas captaram e teem em cárcere pri- 
vado D. Theotonio, irmão do duque de Bragança, que vae recla- 
mal-o a D. João III, que, como seu tio e seu rei, não pôde per- 
mittir que Simão Rodrigues escarneça da lei e da melhor nobreza 
do reino. António Gouveia capitaneia um assalto ao collegio dos 
jesuítas, depois de Margarida de Lencastre, cunhada do duque e 
noiva de D. Theotonio, ter n'um disfarce romanesco, tentado ar- 
rancal-o á sua cella de noviço. Sem resultado o assalto, António- 
de Gouveia, depois de vários lances, matraqueado e perseguido- 
pelo rei e pela Inquisição, rapta Soror Maria, uma freira de S. Sal- 
vador com quem desde creança manteve amores, e, como a ca- 
vallaria e os esbirros lhe tolham a fuga p'r'ó Tejo, onde un> 
barco o espera, acolhe-se ao palácio do duque de Bragança. 

Cerco de tropa ao palácio, investida ás suas portas, hesitação- 
do duque se deve entregar o fugitivo ou negar a entrada ao rei^ 
intervenção de D. Vasco, velho camareiro do Bragança, que in- 
cita á resistência e altiva recusa de Gouveia que, elle próprio,, 
manda abrir as portas a D. João III e se entrega á prisão. 

Remettido ao Santo Officio, Jorge de Mello e Simão Rodrigues- 
conspiram a sua morte, e, quando já condemnado e de sambenito,. 
na egreja de S. Domingos se vae formando o cortejo do Auto de 
Fé, irrompem de uma porta os escravos, seus cúmplices e prote- 
gidos, arrancam-n'o aos da Inquisição, e, no meio do tumulto, 
levam-n'o pVa bordo d'um navio veneziano, onde já o espera a 
freira sua amada. 

Casam ao sahir da barra, são felizes e, como no epilogo de to- 
dos os romances, teem muitos meninos. 

Agora, a peça : António de Gouveia, meio homem de leis e 
moço de armas, de regresso das universidades mais afamadas da 
Europa, onde se ligou aos grandes espíritos do seu tempo, e de- 
pois de ter salvo nas fronteiras de Africa o prestigio das armas 
portuguezas, annuncia ao seu velho amigo Pedro Carneiro, ago- 
ra conde e valido do rei, a vinda a Palácio do duque de Bragan 
ça, de quem é secretario, que vem reclamar a D. João III lhe en- 
tregue seu irmão D. Theotonio, arrebanhado p'rá companhia de 
Jesus por Simão Rodrigues e, pelos jesuítas, mantido em cárcere 



Impressões de Theatro — T{ei cMaldito 



privado. O Duque faz a sua queixa, D. João hesita entre o duque 
e Simão Rodrigues. Grande discussão com este e com o inquisi- 
dor João de Mello. Gouveia manifesta-se inimigo dos jesuitas e 
do Santo Officio e o i.° acto fecha com o incidente duma judia 
que pede perdão p'r'ó pae, que, nas garras da Inquisição, expia a 
sua crença no Deus de Abrahão, Isaac e Jacob. 

De notar, que nunca mais, no decurso da peça, se teem notici-s 
desta dama e do seu progenitor. Dão um final de acto e vão á sua vida. 

No 2.» acto, scena em casa do chefe dos judeus que, a fugir 
do chamusco em que tem visto arder as melhores barbas da sua 
grey, trata de pôr as suas de molho, fazendo as malas e pondo-se 
ao fresco. Palestra com o seu successor e com António Gouveia^ 
amigo da casa e que se vem a saber ser o mais que tudo da ju- 
diasinha herdeira do velho. Scena idylica a que os visitadores do- 
Santo Cíficio põem ponto, prendendo a deusa. Protestos de Antó- 
nio Gouveia que mata um, deixa a noiva e se escamuge. 

Aqui, a peça afasta-se do romance, havendo, comtudo, entre 
ambos, de commum, a investidura na chefia da judenga e a pre- 
lecção histórica sobre as bulias de Paulo VII e concomitantes pou- 
cas-vergonhas de D, João III. Affasta-se do romance e, sem se 
approximar da historia, avismha-se, pelo tremido e incerto de fa- 
ctura, das mais charras bugiarias, que, no Príncipe Real, fazem a 
fortuna dos dramalhões. 

Ao romance se, achega, outra vez, acotovelando-o e confundin- 
do-se, n'esse bello 3." acto, no palácio do Bragança, que conta a 
Gouveia e aos amigos certos da casa a passagem romântica da 
tentativa do rapto do noviço pela noiva, e, ao planejar o asial o- 
ao coUegio dos jesuitas, é interrompido pelo marulhar das hos- 
tes do rei de encontro ás portas brigantinas. 

Vêem a buscar Gouveia, o fugitivo. O duque hesita, a gente 
da casa, camareiro á frente, apercebe-se pVa rechaçar os assal- 
tantes e, generoso e fidalgo, p'ra não comprometter oproteçtor,^ 
António de Gouveia dá ordem p'ra que se abra passagem a el rei, 
que, em aguazil, vem deitar os régios gadanhos ao seu inimigo, 
Gouveia entrega a espada, sae entre soldados, seguido peio rei, 
emquanto, p'ra final d'acto, D. Vasco, o camareiro, jura vingança 
e marcha p'r'ó assalto aos jesuitas. 

No quarto acto, dois quadros de Inquisição;^ uma inquisição- 
sinha burlesca, coramedida, compativel com a economia da em- 
preza, que se arrasou em fatiotas e não pode, nem mesmo p'ra 



128 Impressões de Theatro — Rei Maldito 

desacreditar o Santo Oíficio, permittir-se grandes luxos de mise- 
en-scene e scenographia. João de Mello, o inquisidor, faz pé d'al- 
feres á judia catrafilada no 2.° acto e, repellido pela moça, faz pé 
d'alferes a Gouveia — p'r'ó bom fim, já se vê, de o fazer ornamen- 
to da ordem de S. Domingos. Protestos e indignação do heroe e 
mutação de scena. E' a casa dos tormentos; amarrada a uma pa- 
diola de mudanças, a moça do quadro anterior nega a confessar- 
se da judenga, com pactos diabólicos e leitura da Kabala. O pae 
da moça, idem, sentado num mocho. Nisto — oh! quanto podes, 
verdade histórica ! — D. João III, que nós já viramos aguazil, vem 
em pessoa presidir ao interrogatório do velho judeu. Pi omette- 
Ihe o perdão mai-lo da filha se, por seu lado, Israel lhe largar 
chorudos cabedaes que, por estarem já a seguro na Hollanda, es- 
capariam, doutra guisa, á régia e sereníssima rapinança. O judeu 
explica-se, cae com a massa, e o inquisidor, com palmadinhas 
brejeiras na pança d'el-rei, promette fazel-o sair dentro de oito 
dias. O judeu, contente como um rato, que deixa na ratoeira, ape- 
nas, entalado o rabo dos seus dobrões, desfaz-se em agradecimen- 
tos e vae p'ra dentro dos bastidores. Sós, os dois magarefes dei- 
tam contas : oito dias. . . oito dias. . . d'aqui a cinco sae p'r'a ser 
feito em torresmos num Auto de Fé. 

. . .E cae o panno sobre tão insigne desfaçatez dos dois pode- 
rosos roariolões. 

Este acto não está no romance e, repolido e refeito, podia 
aguentar-se, se no 5.", em quatro pennadas, nós não víssemos, ao 
desfilar uma cegada com pretenções a Auto de Fé, Gouveia, de 
sambenito, raptado, não pelos escravos como no romance, mas 
pelo próprio irmão do rei, o infante D. Luiz — historicanjente re- 
conhecido como amigo e protector da Companhia de Jesus, — 
apunhalado um judeu que se averigua, ali mesmo, ser o denun- 
ciante d'aquella tropa toda e o panno descer sem cerimonia nem 

mais explicações. 

* 

Assim é a peça o Rei Maldito e, assim, o romance os Amores 
dum visionário. 

Historicamente, António de Gouveia não é nada disto e histó- 
rico é, apenas, a captação do duque de Bragança pelos jesuítas e 
o assalto, em Coimbra, ás casas da Companhia de Jesus. Vem em 
qualquer historia e na Chronica da Companhia por frei Balthazar 
Telles, onde Bernardino Pinheiro o respigou... 



Impressões de Theatro — T^eí cMaldito 1^9 

Eu sei que Sardou, o grande mestre d'obras, já uma vez disse 
que, sendo licito ao dramaturgo inspirar-se na humanidade e na 
natureza, pode inspirar-se também numa obra humana; que o ta- 
lento dramático não consiste na invenção duma fabula, mas na 
criação dos caracteres e nos detalhes da sua intriga. 

Mas, no Tiei Maldito^ té isso falta, e por faltar, é que eu não 
quisera que Marcellino desenterrasse dentre os seus papeis velhos 
estes dois actos — o i.» e o 3." — completos de factura e efabula- 
ção, lançados um dia, levianamente, ao papel, p'r'a, no dia se- 
guinte, honradamente, os deixar no olvidio . . . 

Que pavoroso drama, histórico e real, sangrento e cru, não 
representará essa exhumação dum trabalho condemnado e, de- 
pois, cerzido a farrapos, num aperto afflictivo de ultima hora?... 

Não ladrem á lua os que Marcellino Mesquita faz espumar de 
inveja impotente e esverdeada — o T^ei Maldito^ mesmo com a 
collaboração de Bernardino Pinheiro, nos seus decalques fidelis- 
simos dos oAmores d'um visionário^ inda deixa ver a garra possan- 
te dum grande e infortunado dramaturgo, que vale mais, pelo ta- 
lento que o anima e peia fatalidade que o persegue, que os po- 
dengos samentos e esfaimados que lhe ganem aos calcanhares. 

Marcellino, se um dia lhe sae a sorte grande de Hespanha, 
pôde resgatar esta pagina negra da sua vida litteraria, pondo em 
scena, numa bella peça, o seu próprio drama e indo entregar aos 
herdeiros de Bernardino Pinheiro, pelo menos, dois terços destes 
seus direitos de auctor. . . 

Que o Altissimo lhe depare um bom numero e os espectado- 
res do liei Maldito lhe não deixem esquecer. . . que amanha anda 
a roda. 



XXI 



3 NOVEMBRO. 



Uma aventura de viagem,'' 



comedia em 
acto de 

Roberto Bracco, traducção de Lambertini Pinto. Cheatro do 
Gymnasio. Distribuição: Amélia, Palmira Torres — Fifi, Izabel 
Berardi — Luiz, Augusto Pinheiro. — Francisco, António Souza. 

Não é sem motivo que o possante e rude temperamento dra- 
mático de Bracco, passa, na Itália, por desventurado e infeliz. Tem 
jettatura, mau olhado. É um grande dramaturgo e um misero 
caipora : um profundo e áspero theatralisador de paixões e um 
enguiçado e aziaguento crivo de infortúnios. Se não, haja em 
vista a catastrophe d'esta noite : ser auctor do ^Direito d vida, do 
Perdido nas trevas e do Pedro Caru^^jfo e ser-nos apresentado 
como editor da Aventura de Viagem. Ter génio e passar por 
cretino. 

E ainda eram capazes de o metter na Penitenciaria, se, como 
de Roma esteve p'ra vir o Padre Santo a bater o fado, elle viesse 
de INapoles té qui, p'ra dar cabo do canastro ao Lambertini 
Pinto!... Traduttore, traditore... Mas uma traição d'estas... 
só á facada. 



XXII 



6 NOVEMBRO. 



M^ri^ ^tllíírt ^^^"^^ ^^ ^ actos de Schiller. Thea- 
IVI d I I a o lU d i l, fj.^jg trindade, i." recita da Tournée 



Itália Vitaliani 



1." postal. — Antes do patino subir. — Absoluta incerteza, corr.o 
deante d'um logogripho do Almanach das Senhoras. Que será? 
Que não será? Os velhos faliam da Ristori, da Palladini, da Emí- 
lia das Neves. Os outros faliam da Duse e de vagos parentescos 
que as celebridades do theatro, como os estalões do Gotha, con- 
servam entre si : cómicos e reis todos são primos uns dos outros. 
Muitas borlas e pouca gente. 

2." postai. — /." Í7C/0. — Schiller, no italiano, é, p'r'á plateia, 
quasi tão incomprehensivel- como no original allemão. Ninguém 
percebe, mas mal entra Itália Vitaliani, começa a parte intelli- 
gente a comprehender que a bellissima comediante, se não é, 
positivamente, uma estrella de pri- 
meira grandeza, não é também um 
pavio de cera amarella. Até sem man- 
gas de incandescência de boa vonta- 
de, pôde mesmo ter-se por um foco 
eléctrico mais illuminante do que os 
do Rocio. Não será talvez um génio, 
mas tem grandes faculdades e sabe 
do seu officio. 

3." postal. — 2.° acto. — Intervallo 
cómico pelos clowns da companhia. 

Não entra Vitaliani ; em compensa- ' ^ 

cão, o zimbório da Estrella, em Rai- j y 

nha Izabel, rebola os olhos, rebola as Caricatura de José Leite 




1 32 Impressões de Theatro — cMaria Stuart 

bochechas, rebola as ancas, rebola-se toda e rebola-se tanto, que, 
á certa, aquillo em italiano quer dizer : 

Você diz que dá na bola, 
E você na bola não dá. 

4.° postal. — 3." acto. — Acto culminante da peça e de todo 
o theatro de Schiller, o avô de todo o romantismo latino, o ovo, 
donde sahiram os gallos encristados do Hugo e os pintos calçu- 
dos do Dumas pae e de todo o velho reportório. Dentro dos seus 
moldes, dos seus dotes e das suas faculdades, Itália Vitaliani fez 
maravilhosamente tudo que pôde e mais ainda. Sabe do seu offi- 
cio e faz valer o que sabe. 

5." postal. — 4° acto. — Outro douche d'agua fria. Dada a 
constituição da companhia e o talhe da peça, em que, acto sim 
acto não, a protagonista fica em bastidores, o espectáculo não é 
bem uma tragedia: é um banho russo. Neste acto o thermometro 
marcou zero, o que não quer dizer que o meu logar — e o dos 
raros que os pagaram — não houvesse custado dois mil réis. 

6.° postal. — 5.° acto, i." quadro. — Itália Vitaliani foi soberba 
e assombrosa. Acto menos violento, com menos jogo, os seus re- 
cursos não a atraiçoam e tudo o que ella é e o que ella vale — 
que é muito — resalta no seu jogo sóbrio, correcto e sereno. 
Agora, sim : é prima da Duse e prima em primeiro grau, prima- 
co-irmã. 

2. quadro. — Era o que faltava, vêl-o — sabendo-se que Itália 
já morreu na coulisse. Nada, que a gente aqueceu deveras e um 
resfriamento, é meio caminho p'r'ó cemitério. 

Que pena o resto da companhia não se ter resfriado ao passar 
a fronteira e em vez de ter vindo p'r'á Trindade, não ter ido pVó 
Alto de S. João . . . 



XXIIÍ 

7 NOVEMBRO. 

IWI^nrl^ drama em 4 actos de Sudermann. Traducção de 
IViayUu, pães incógnitos. Theatro D. RmeUa. Distribuição: 
ScHWARTZE, Augusto Rosa. — O PASTOR Heffterdingk, Pinhei- 
ro. — Kei,ler, C. d'OIiveira. — Max Wendlowki, H. Alves — 
General Klebs, Augusto Antunes. — O professor Beckmann, 
Francisco Senna. — Magda, Lucília Simões. — Senhora Wendlo- 
vvisKi, Josepha d'01iveira. — Senhora Schwartze, Elvira Costa. 
— Maria, Delphina Cruz. — Generala Klebs, Cecília Neves. — 
Senhora Elbrick, Estephanía. — Senhora Schunmann, A. 0'Sul- 
livand. — Thereza, Jesuína Saraiva. 

1." postal. — Antes de subir o panno. — Um casão. Todas as 
caretas das primeiras e todos os grandes alcunhas dos carnets 
mondains. Peça de Sudermann. O grosso do publico veio com o 
vago receio de se aborrecer. Sudermann tem no passado três 
peças honestas e cheias — Fim de Sodoma, a Honra e as Foguei- 
ras. E' bagagem pesada pVa paladares affeitos a Lagartixas. 

2." postal. — Fim do i." acto. — Caracterisação magnifica do 
Augusto. Tudo a puxar certo, no travadínho pacato de quem não 
quer ir longe e já está aíFeito a negar-se nas subidas. Carlos d'01i- 
veira de pau, de pau e nem sequer bem bonito. Antunes, em ge- 
neral Antunes, uma espécie de generalato que está a pedir um 
limite de idade. A peça, porém, pode com tudo e podia com muito 
mais. 

3,0 postal. — 2." acto. — Começa a porca a torcer o rabo. En- 
tra Magda sarahbernardesca e a gente entra também a conven- 
cer-se de que a Lucília tem carnes — o que é uma verdadeira sur- 
presa p'r'ós que a julgavam só com espinhas — tem modistas, tem 
mais caretas que toda uma gaiola de símianos do Jardim Zooló- 
gico, mas que, afinal, tendo muito talento, muito estudo, muita 



i34 Impressões de Theatro — õMagda 

vontade e uma aptidão inegualavel no nosso theatro, ainda não 
tem dentes p'r'ó Sudermann violento, nem tem unhas p'r'ós gran- 
des lances da dramaturgia feita de observação e de reahdade, em 
que, de quando em vez, sopra, em rajadas, o génio dos grandes 
revoltados do thetro nortico. 

4." postal. — 3.° acto. — Como a porca, aqui, torce menos o 
rabo — Lucilia dá a nota de quanto vale. Mas que não desse, ca- 
ramba ! Sudermann até por marionetes seria grande. Mas pela Lu- 
cilia — que a Suderman já devia a sua melhor creação nas Fo- 
gueiras, é enorme e esmaga-nos a intelligencia. Dá arripios. 

5." postal. — 4." acto. — Lucilia, Augusto, todos, tudo toma as 
proporções dum sonho e neste quarto acto perde-se a noção de 
que se está no theatro. Em espirito estamos todos os que temos 
alma, os que temos coração, os que temos um vislumbre de in- 
telligencia, curvados, respeitosos, ante o grande e inegualavel 
dramaturgo do norte — mais revoltado que Strimberg, mais huma- 
no que Hauptmann, mais theatralisador do que Ibsen. 

Eu, depois, digo o resto. Agora diria, apenas, que, se em Lisboa 
houvesse publico p'ra fazer a carreira a uma peça que é uma 
peça e não uma embrulhada, uma salchicharia ou uma obsceni- 
dade, S. Luiz tinha cartaz p'ra uma época inteira, como Lucilia 
tem no papel de Magda, gloria que bonda p'ra uma longa car- 
reira de artista. 

C^Qota: — Este ultimo postal é compridote, mas não admira : 
o enthusiasmo aperta a letra, já de si miúda, e, com a admiração 
de me ver escrever p'ra elogiar, té o papel se estendeu... 

Das outras vezes estendem-se os auctores e os dramaturgos. 



XXIV 



7 NOVEMBRO. 

/^íacíirlnc cnl + oirnc comedia em 3 actos adapta- 
\^d5dUUb ÒUIltJII Ub, ^a do allemão por Xavier 
Marques. Theatro do Symnasio. Distribuição: Maifled, Soller. — 
Constantino Wilberg, Joaquim d'Almeida. — Ernesto Lodenburgi 
Telmo — Barão Kittiwitz, Pinheiro — Dr. Deick, Soller. — Stem- 
PEL, Carlos Leal. — Arnaldo, N. N — Melania, Palmyra Torres. 
— Augusta Maifeld, Sophia Santos. — Júlia, Carlota Fonseca. — 
Joan-na, Júlia d' Assumpção. 

O sr. Xavier Marques — vice-Freitasbranco das adaptações al- 
lemãs — punha pelas ruas da amargura o Freitasbrancado, ou 
arte graciosa de alusitanar a laracha teutonica, se a gente não 
soubesse que na Allemanha, como em toda parte, ha fagot et fa- 
got e que, entre nós, Freitas Branco é artigo e paragrapho único 
— sem legislação em contrario. 

Casados solteiros tem menos graça do que estrictamente se 
requer a uma farça do Gymnasio p'ra nos fazer rir e tem embro- 
glios e sensaborias a mais do que as que generosamente se admit- 
tem, num recipe de dormideiras, p'ra nos fazer bocejar. Ora quem 
quer dormir vae pVá cama e não consta que o Gymnasio explore 
agora a industria dos quartos p'ra prenoitar. Em todo o caso, 
manda a justiça que se accrescente que os Casados solteiros não 
teem percevejos e que a policia, se lá fôr em rusga, aos costu- 
mes terá a dizer nada. 

£ eu, ao desempenho . . . também não. 



XXV 



8 NOVEMBRO 



TriQPÍí drama em 4 actos, de Victorien Sardou. Theatro da 
I U O U U f Trindade, 3.'^ recita da Tournée Itália Vitaliani. 



Postal único. — No fim da Tosca. — De todas as Toscas ser_ 
vidas, ha longos annos e em menus vários, dês da Tosca aux 
pistasches da Sarah, té á Tosca com orelheira de porco da Amé- 
lia Vieira, Itália Vitaliani é, seguramente, a Tosca menos indi- 
gesta e feita com mais asseio: Tosca canja de perdiz, Tosca p'ra 
estômagos delicados — se quizerem — mas 7o5ca honesta, humana, 
limpa e correctamente cosinhada — sem duvida alguma. 

Itália sabe o que faz e faz honestamente, com meticulosa pro- 
bidade artística, o que sabe fazer. 

Se trouxesse o carimbo — Fragile à Mr. de Braga — 7 besouro 
Velho — haveria, certo, quem até achasse um ovo por um real, 
To5ca- Vitaliani por dois mil réis. 

Assim acha-se carote, mas é-se obrigado a confessar que é 
bom, e bom de lei, sem contrafacções, nem cordelinhos. 



A 2.* recita da Vitaliani foi a 7, com a Dama das Camélias, que repetiu age 
de que n"essa data, se fará menção. 



XXVI 



9 NOVEMBRO 

drama em 4 acto?, de 
Alexandre Dumas. 
Theatro da Trindade, 4-* recita da Tournée Itália Vitaliani. 



Dama das Camélias, 



Postal único. — No fim da Dama das Camélias. — E' absolu- 
tamente grande o trabalho de Vitaliani. Na Maria Stuart foi 
correcta, proba, honesta. Na Tosca foi a melhor Tosca., a mais 
humana e mais sóbria de todas as Toscas que nos teem sido 
propinadas. Agora, na Dama das Camélias.^ foi grande, foi ma- 
gistral, absolutamente grande e absolutamente perfeita. 

Hoje, a Magda: nem o prazerzinho coscovilheiro do confronto 
levará gente a admirar a grande e honestissima artista? Não será 
possível ser celebre e ter talento não tendo vindo consignada, em 
grande velocidade, a S. Luiz de Braga? 

Expontânea, surgiu a idéa dum almoço, uma festa, qualquer 
coisa, emfim, que demonstre a Itália Vitaliani que ha quem a 
aprecie, quem lhe reconheça o altíssimo mérito e presta home- 
nagem á profunda honestidade, que é a característica do seu per- 
sonalissimo talento' 

Como essa festa — ao contrario das outras — deve ser paga 
pelo convivas e nanja bodo das emprezas, adhiro a ella com en- 
thusiasmo, embora não coma com appetite. 

E adhesão a tudo que fôr homenagem, porque todas as ho- 
menagens lhe são cabidas. 



XXVII 



IO NOVEMBRO 

Meu rapa'{: — Quinzena do diabo esta em que, reduzido ao 
circo e ao harpismo das damas, na mór parte das noites, o mo- 
vimento theatralico, de enxurrada, nos últimos dias, desaba uma 
primeira no D. Amélia, uma primeira no Gymnasio e uma série 
de recitas, sensacionaes e artisticas, na Trindade, com Itaíia Vi- 
taliani, que, ha dias, na nossa ignorância de tudo o que se passa 
fora da Arcada e mais além dos boulevards do tout-Paris, nós to- 
dos — tu tanto como eu, eu tanto como os mais pintados — igno- 
rávamos e desconhecíamos: porque á Arcada ainda não viera 
ella petiscar no regabofe das graças e prebendas, e porque o toiít- 
Paris, sabidas as contas, mais ignorante do que nós, ainda não 
conhece o Zacconi, tem uma idéa vaga do Novelli, nunca ouviu 
alumiar o Emanuel e só desatou a admirar a própria Duse, 
muito depois de nós a admirarmos. 

A' pressa, pois — que eu tenho os dias presos pelo pãosinho 
dos garotos e só livres as noites p'ra estas sarrafuscas da lettra 
redonda — o annotar, em comentos á margem dos meus postaes, 
as impressões e os pormenores destas noitadas pelos palcos alfa- 
cinhas. 



Assim, vinha eu dizendo que, se em Lisboa houvesse publico 
intellectivo e consciente p'ra garantir o successo a uma obra de 
theatro que é uma obra d'Arte, que commove e que subjuga, que 
faz sentir e faz pensar, sem cantharidas nem sangueiras, sem cor- 
delinhos nem visualidades, mármore frio que nos aquece, bronze 
sereno que nos revolta, tinha o de Braga cartaz p'ra uma época 
inteira, nessa bella Magda, ora posta em scena no D. Amélia, e 



Impressões de Theatro — O theatro de Sudermann i Sg 



que todos nós já amávamos do livro, do Novelli, da Duse e da 
Sarah, como o mais consistente e perfeito bloco em que assenta, 
em todo o mundo, reputação de Hermann Sudermann, a que os 
francezes chauvinicos chamam o Dumas allemão pVa engrande- 
cer o Dumas e palmar á dramaturgia além-rhenana uns palmos de 
gloria em paga dos centenares de kilometros da Alsacia e da 
Lorena. 

Theatro de idéas e de 
nervos, de Arte pura nas 
linhas heráldicas dos seus 
contornos, de observação 
flagrante no desenho dos 
seus caracteres, de san- 
grenta humanidade no tu- 
multuar das suas paixões, 
todo o theatro de Suder- 
mann, que pôde ser discuti- 
do, e todo e seu valor, que 
não pode ser negado — cho- 
cam á primeira vista a nossa 
nervosidade latina, descone- 
xa e arrebatada, pela serena 
e disciplinada investida da 
sua lógica, que, passo a passo, 
scena a scena, sem um deta- 
lhe a menos, sem* uma pala- 
vra a mais, nos prende pri- 
meiro a attenção, depois os 
nervos, depois a intelligencia, 
num crescendo de posse e 
dominio, que chega a gente 
ao fim da peça e vem pVa 
casa pensando como Sudermann pensa, revoltando-se como elle 
se revolta, sentindo como elle sente. 

E, de resto, que longe se está dos velhos melodramas de tira- 
das em que o bestunto do arreglador guiava pelas orelhas a la- 
grima dos sensíveis ou os arrebatos dos violentos, levando-os, 
como a meninos de collegio, através dos adjectivos ribombantes 
do anjo bom, ao ódio ou ao desprezo do anjo mau, tenebroso e 
cavo, que ao cahir do panno, no 5.° acto, apanhava p'r'ó seu ta- 




Hermann Sudermann 
Caricatura do Btíhne und Bretter 



140 Impressões de Theatro — O theatro de Sudermann 

baço, em homenagem á justiça e á moral do Alves de Sousa 
que mandam premiar os bons e castigar os que erram. 

Que caminho percorrido, dês das peças de these, em que, o au- 
ctor em tabelliao, em medico ou em simples homem do mundo, 
paradoxava e concluis, fazendo concluir, como elle, momentanea- 
mente, uma sala inteira, porque da plateia, como nas reuniões da 
Democracia Christã^ são prohibidas as interrupções e, em scena, 
todos os apartes vêem na brochura, e, embora parvos e arreve- 
sados, tendem ao mesmo fim de suasória mystificaçao. 

Deixem um espectador pensar um bocadinho, após todo um 
acto de Dumas, e digam-me se havia peça, these ou paradoxo que 
aguentar se podesse, no seu equilibrio vistoso de acrobata, deante 
duma simples pergunta d'algibeira. 

Em Sudermann ninguém pensa pela plateia nem p'r'á plateia: 
nenhum dos seus personagens traz no bolso procuraçap legal 
p'ra representar o auctor nas suas idéas, nos seus intuitos, na 
sua orientação e no seu modo de sentir, e, é exactamente porque 
nenhum dos seus personagens pensa como elle pensa ou sente 
como elle sente, que a Arte suprema do grande dramaturgo nos 
obriga a sentir o que elle quer que nós sintamos, que nos força a 
pensar como elle quer que nós pensemos. 

Com todo um passado de educação metaphysica de jesuitas e 
sebentas, — peninsulares sempre estouia-vergas e raro fura-pare- 
des — nós vamos p'r'ó theatro p'ra nos divertirmos e p'ra que nos 
lisonjeiem, p'ra que nos embalem com as nossas palavras e com 
os nossos preconceitos, p'ra que nos justifiquem as nossas acções, 
e, amantes impenitentes da parola, filhos da rhetorica e babadi- 
nhos pelas phrases de eíTeito, no palco buscamos, apenas, na 
forma altisonante dos dentistas de feira, o necrológio dos nossos 
avós — phobia da historia em talhadas dramáticas e romances- 
folhetins — ou o vade mecum das nossas theorias, da nossa ignorân- 
cia, dos nossos costumes, dos nossos vicios e das nossas proble- 
ttiaticas virtudes. 

Mas tudo isto, está de ver, em termos commedidos, sôrnos, 
sem grandes audácias de forma, que reclamem flor de laranja 
p'r'ós nervos hypersensiveis, sem grandes culminancias de talento 
que entupam as desmanteladas canalizações da nossa receptivi- 
dade cerebral: queremos a papinha ja feita e digerida, em moldes 
pacatos e molhos caseiros, porque o theatro, sabidas as contas, 
é como gazeta, o romance, a pintura e todas as artes postas pela 



Impressões de Theatro — Theatro de Sudermann 141 

industria ao serviço da burguezia, — uma espécie de algibebe de 
roupas feitas, com cheviotes de ideias por quatro mil e quinhen- 
t03, gabões d' Aveiro de emoção ou de philosophia, raciocínios 
em segunda mão e fatos completos de convicções e theorias. 

Era o que faltava que, pagando uma pessoa com o seu rico 
dinheirinho, ainda tivesse de reflectir e magicar: era vir em pe- 
lote e de rabo ao leu, com o perigo das constipações e da policia. 

D'ahi, o fraco successo e ephemero êxito de tudo o que, ver- 
dadeiramente grande, possa haver na arte, na dramaturgia, na 
musica e na litteratura dos paizes do norte, onde o temperamento 
reflexivo, a educação livre e o espirito de revolta, soprado atra- 
vés das massas pelo tufão da Reforma, torna assimiláveis, com- 
prehensiveis, banaes e correntes, factos e ideias, que desnorteiam 
e espantam as nossas pobres carcassas enfezadas e rachiticas, an- 
cestralmente frustes e sempre ávidas do postiço, do espalhafato, 
do balofo, do que luz e não é ouro, do que brilha e não é sol, do 
que nos afaga o ouvido e não nos vibraliza o cérebro, do que nos 
recreia a vista e não nos desentorpece a intelUgencia. 

D'onde, legitimamente, o duvidar eu que a Magda se impo- 
nha, no desalinho bárbaro da sua revolta e o confessar, no meu 
intimo, que a sôstra bem arreada, toda sedas e perfumes caros, 
que, traz de mim, se espanejava á porta do theatro, commentan- 
do : «Elles vão muito bem^ mas a peça não se pode aturam re- 
presentava, sem o saber, na sua futilidade de boneca, o sentir e 
o pensar, a intelligencia e o coração da cambada toda, bem pen- 
sante e morigerada, que se escagarrinha, té ao delirio, ante as 
preciosidades semi-eroticas e semi-parvas que o boulevard choca, 
S. Luiz importa e toda a roda boa communga, no êxtase devoto 
de quem bebe do fino. 

Sudermann é popular em toda a Allemanha, e, se as Foguei- 
ras, na verdade, não o elevaram no conceito dos seus concida- 
dãos, é que a Magda o havia já soprado, n'uma aureola de trium- 
pho, como um dos grandes nomes duma raça que leva a idola- 
tria pelos seus homens aos extremos ridículos e ingénuos, sym- 
patícos e burlescos — de que dão a nota e a craveira, o carão de 
Bismarck, os corações de Schíller e a múmia de Moltke em bibe- 
lots, em cachimbos, em tabaqueiras, em canecas de cerveja e em 
rótulos de elixires. Madama que, á sabida dum theatro, no fundo 
mais obscuro da província allemã, gargolejasse a inépcia de que 
a Magda não pôde aturar-se, ou estava a cozer intemperanças 



142 . Impressões de Theatro — Magda 

rombas de cerveja, ou tinha, em vez de miolos, recheio da chou- 
croute nacional a fermentar-lhe na cabecita loura e mal fallante. 

Em Lisboa, á porta do D. Amelia,a gentil seresma, numa syn- 
these brilhante, encarnava o seu meio, a sua época, a sua raça e 
a intelligencia culta do seu paiz. . . 

Que não basta o sr. D. Carlos ser allemão p'ra que nós nos 
julguemos todos, em Berlim, 



A peça é isto: Schwart^e, Augusto Rosa; tenente-coronel 
duma guarnição da província, auctoritario, irrascivel e vieux jeu 
expulsa a filha mais velha, Magda — Lucilia — por ella não estar 
disposta a casar com o pastor Heffterding — Pinheiro. E' a tra- 
ducção allemã do antigo dilemma dos nos'?os morgados: casar 
ou metter freira, ou seja, casar ou olho da rua. Nos paizes lati- 
nos, umas vezes, as meninas preferiam o convento e casavam 
com Nosso Senhor — esposo complacente com as infidelidades, 
mais ou menos platónicas, das grades e dos outeiros e outras, ca- 
savam com o eleito do senhor seu pae e desatavam a ter muitos 
meninos de parecenças duvidosas com o seu progenitor. Na Prús- 
sia, por via de regra, as raparigas preferem a rua. Umas cahem 
outras levantam-se, Magda, altiva, independente, cheia de fogo, 
de alma, de talento e de revolta, vae p'ra Berlim. Seduzida por 
um compatriota — Kellei — Carlos de Oliveira, cae. Abandonada, 
gravida, pelo amante — pulha vulgar de Lyneu — soffre, lucta, tra- 
balha, passa fome, misérias, humilhações e levanta-se, como mãe, 
vencendo e tornando-se, sob um nome de phantasia, rica e cele- 
bre como artista lyrica. No auge da gloria e da fama é convidada 
a tomar parte numa festa de caridade, na terra onde nasceu. 
Accede, mais pelo orgulho de ser propheta na sua terra e de re- 
entrar, triumphante e de cabeça erguida, a porta donde sahira es- 
corraçada e de cabeça baixa, do que, pelo vago e indefinido pra- 
zer de se reintegrar num lar, numa familia, que, p'r'ás grandes 
artistas, afinal, se reduzem ás quatro paredes dum hotel, ninhos 
occasionaes das pobres aves migradoras. Mal desce do comboio, 
porém, varrido orgulho e rebelhão, vá de, instinctivamente, surra- 
teira e cosida com os muros, rondar a casa paterna, a espreitar- 
Ihe as janellas, a escutar-lhe os ruidos, e, numa anciã de affecto, de 
humildade, de sensibelaria que a irrita e a dobra, ella que innunda 
a casa com presentes repetidos de flores, raras e caras, que vão fazer 



Impressões de Theatro — Magda 143 

estremecer o coraçãosito da irmã mais nova, cMaria — Delphina 
Cruz — que primeiro as torna como extravagância amorosa do seu 
noivo, oMax — Alves — tenente, como de rigor na Allemanha, e 
pretendente depennado, como de rigor, até na Allemanha, em 
que, ao ser tenente, não se oppÕe a disciplina militarista, que equi- 
valha o ser pelintra. 

Uma vez amansado das primeiras repulsões, Schwartze — que 
o pastor, de longa data, vem preparando p'r'ó lance — vae té á 
porta receber Magda que volta a casa na elegância tapageira dos 
decotes e das grandes caudas. Deslocada, num meio austero, aca^ 
nhado e soturno, o coração a puxá-la p'r'ó ninho e pVós affectos 
da familia e o passado e o orgulho de vencedora a empurrarem-na 
pVás incertesas do futuro, Magda hesita, lucta, revolta-se. Mas, 
por fim, ao saber que o pae tivera o primeiro ataque apopletico 
quando ella entrara p'r'ó theatro, amollece, transige, e, ás suppli- 
cas do Pastor, ás lagrimas da irmanzita, submette-se e fica. 

Uma condição apenas : ninguém tem o direito de a interrogar 
visto todos, uma vez, se terem arrogado o direito de a pôr na rua. 
Volta triumphante, rica, celebre, isso basta e deve bastar. Sobre 
o passado, nem pio. Acceite a condição, suspeitas vagas, dilace- 
rantes, esmagadoras, amarfanham o espirito do velho coronel. 
Escravo da sua palavra, porém, não pergunta : os olhos, apenas, 
tentam ler e buscam adivinhar. 

Keller, que, como todo o bom patife, pausado e methodico, tem 
trepado e é dos mais considerados, conspícuos e respeitáveis lu- 
minares da cidade, vem visital-a. Uma pontinha deflrt, um pe- 
daço mesmo da bella fêmea rica e celebre, não lhe desagradariam, 
mvsteriosamente, cautamente, entre mil precauções e esconderi- 
jos. Mas o que ali o traz não é bem isso : acima de tudo, antes 
de tudo, que se guardem as conveniências, que Magda não lhe 
faça perder a linha de homem serio e respeitável. Não é elle o 
accusado, mas, seria, deveras, o accusador, se ella, numa levianda- 
de, deixasse transparecer que o integro e intangível magistrado, 
catonico malandrão, todo rigidez, pontinhos e austeridades, teve 
os seus desvarios e extravagâncias. Magda, indignada com a hy- 
pochrita poltronaria do safardana, levanta a voz, irrita-se, chegaa 
berrar. De ouvido á escuta, intervém Schwartze. Magda foge 
e Keller fica, atarantado, entupido, deixando antever nas suas ne- 
gativas frouxas, affirmações horríveis e concludentes p'r'ó espirito 
desconfiado do velho. 



144 Impressões DE Theatro — cMagda 

Apurada a verdade, Schwartze prepara-se p'ra um duellc com 
o seductor da filha. A' vista das pistolas e tendo na devida con- 
sideração a respeitabilidade do dote que ella conquistou com o 
seu trabalho e a sua arte, Keller, entre o duello com o velho e o 
matrimonio com a cantora, prefere o casório. Recusa, repugnân- 
cia, e por fim transigência de Magda em sacrificar-se Em senhor, 
Keller pÕe condições : primeiro, abandono do theatro, depois, au- 
xilio e degrau p'ra elle trepar ás grandes situações. Magda vae 
ouvindo e expluda só, quando o sacripanta, em nome da moral e 
das conveniências, esboça o plano de fazer desapparecer o filho, 
dado ser grave, p'ra arvore que promette tanta ramaria e tão fron- 
dosa sombra, o vir a saber-se que deu fructo antes de tempo. 
Deante da infâmia, nada a curva e a submette. Recusa a repara- 
ção. Não casa, e, no mais bello movimento de revolta que conhe- 
ço no theatro, quando o pae a quer obrigar pela violência, Magda 
lança a pergunta terrível : sabe elle afinal se Keller foi o único ? 
Schwartze cae fulminado pela apoplexia e Magda enrodilha-se-lhe, 
de joelhos e soccumbida, beijando as mãos que ha pouco a amea- 
çavam. 



A Lagartixa é menos complicada e mais alegre, porém, a Ma- 
gda, é a peça mais profundamente honesta e moralisadora, mais 
humanamente sentida e mais intensamente revolucionaria, que tem 
subido á scena no palco de S. Luiz de Braga. 

Nem uma palavra a mais, nem uma scena deslocada, nem um 
caracter mal definido. Inteira, equilibrada, completa, desenro- 
la-se, plácida e logicamente, como uma manobra estratégica — pa- 
rece um esquadrão de hussards prussianos avançando, fiime e re- 
soluto, disciplinado e altivo, á voz dum general autoritário e 
frio. 

Todos os movimentos estão calculados, todos os effeitos me- 
didos, todas as palavras pautadas. Sudermann applicou á drama- 
turgia o génio dum artista e a precisão mechanica dum relojoeiro. 

E assim, ccftno as Fogueiras foram p'r'á Arte de representar no 
D. Amélia, a época passada, a peça de effeito e de exame, assim, 
a oMagda será p'r'á Lucilia e p'r'ó Augusto a peça deste anno. 

Nenhum d'elles foi perfeito nem podia sê-lo. Um Schwartze 
perfeito, só pôde dá-lo, no palco latino, um desses colossos, des- 
trambelhados e fogosos, com que a Itália espanta e domina as 



Impressões de Theatro — O desempenho 



145 




Augusto Rosa 

Caricatura 

de Celso Hermínio 



plateias do mundo. Ali mesmo, no D. Amé- 
lia, já o foi Novelli, com os vastos recursos 
da sua mascara, da sua voz, da sua Arte e 
do seu talento. 

Augusto Rosa, tendo sido correcto e 
probo, ÍQz — num papel diíierente dos seus 
Ba^ans e dos seus Septmonts — tudo o que, 
licitamente, podia esperar-se dos seus re- 
cursos, do seu temperamento e do seu feitio. 
E, tendo levado a cabo todo o calvário do 
4.* acto, prendendo o espectador e não 
nos fazendo rir, marcou na sua carreira 
uma etape^ que, se não é das mais baru- 
lhentas e p'ra inglez ver, é, pela certa, das 
mais serias e das mais valiosas da sua baga- 
gem artística. 

Não foi grande, mas conservou-se dentro dos limites humanos 
do seu personagem, sem decalcar figurinos e sem tentar metter na 
algibeira as admirações fáceis da plateia. 

Bem mereceu da Arte e dos applausos vibrantes dos que sa- 
bem ver e que, por isso, nem sempre estão dispostos a applaudi-lo. 

Lucilia, com a sua velha e renitente monomania de assimila- 
ções, foi a Sarah, foi a Duse, foi o diabo a quatro, e só conseguiu 
impór-se e ser verdadeiramente acceitavel quando, de longe em 
longe, faltando-lhe o fôlego pVa surripiar e falsificar o trabalho 
alheio, se deixou insensivelmente ser Lucilia e se contentou com 
as pratas da casa. Nas Fogueiras^ Lucilia teve a sua primeira crea- 
ção : na MagdcL, tem o seu primeiro papel. Não avançou, mas 
não decaiu. Ter um papel na Magda — que as grandes actrizes 
passeiam, ovantes e gloriosas, pelos proscénios do mundo, arcar 
com elle, aguenta-lo e matisa-lo, de pedaço a pedaço, com uma 
inflexão própria e um detalhe pessoal, é fazer tudo o que, dentro 
dos limites do possível e sem ter de a encarrapitar nas culminan- 
cias de prodígio — onde lhe faltaria o ar e se lhe esgasearia a 
vista — se pode pedir da sua aptidão, da sua vontade e da sua 
clara e forte intelligencia. 

Crear uma Violeta, nas Fogueiras^ é uma promessa ; crear uma 
cMagda pessoal, própria e inconfvmdivel, seria uma maravilha. 

Ora, quem chamasse maravilhosa á Lucilia, ou estava a troçar 
com ella, ou a preparar um sabla^o. Por lhe terem chamado des- 



146 Impressões de The atro — ^^4.5 recitas de Vitaliani 

tes nomes feios, é que ella, dês da estreia, com o dialogo dos re- 
tratos, do Frei Lui^^ em Coimbra, té ha muito pouco tempo, es- 
teve a marcar passo e a tropeçar, aqui escorrego ali me levanto, 
em macaqueações que deshonram e em decalques que aniquilam. 

As actrizes, ao contrario dos balões, quanto mais ar lhe so- 
pram, menos sobem e caminham e uma das muitas provas do ta- 
lento real e do valor legitimo de Lucilia Simões está, exactamen- 
te, em ainda não ter estoirado. . . 

Mas pede-se a S. Luiz que, caridosamente, não dê demasiado 
aos folies. 

O resto do desempenho tem altos e baixos : nos baixos é des- 
agradável ter de coUocar António Pinheiro, em rato de sachristia, 
sem alma, sem fogo, sem inflexão e com o papel pessimamente 
alinhavado na memoria. Pinheiro é este anno director de scena 
no D. Amélia, e, por dever do cargo, tem de pensar muito nos ou- 
tros, mas isso não é desculpa, nem sequer é attenuante, p'ra que 
deixe de pensar em si. 

Nos altos, é de justiça collocar Josepha de Oliveira, numa rá- 
bula de velha tia pretenciosa e egoista. 

Do resto, é equitativo esquecer uns e mesiricordioso não lem- 
brar outros. 

* 

Ligeiramente, duas linhas sobre a grande artista Itália Vita- 
liani, que se estreiou, com pouco successo e profunda Arte, na 
Maria Stuart de Schiller e que eu, té gora, 
apenas, vi no clássico dramalhão prussiano 
e na vasta carpinteria da Tosca de Sardou. 
Vitaliani era, como disse, absolutamente 
desconhecida do nosso publico, que, estan- 
do escaldado com tantas celebridades conhe- 
cidas, poz de quarentena a recem-chegada. 
Além disso a Trindade é um theatro 
popular, meia-tijella e quem lá fosse, mesmo 
na estreia duma es- 
trella de arribação, 
arriscava-se a não 
ver, ao outro dia, o 
seu nome no /zi^-/(/e 
das folhas munda- 

Italia Vitaliani 

Caricatura de Amyc " as. O primeiro crro 




Impressões de Theatro — As recitas de Vitaliani 147 

do empresário Taveira foi exactamente esse : não mandou dizer 
que tinha ali o almanach do Gotha no camaroteiro e que, a todo 
o espectador, além das duas coroas do logarsinho, se exigia attes- 
tado de nascimento illustre, intelligencia proeminente e elegância 
refinada. Dois mil réis e pergaminhos. Se o tivesse feito, enchiam- 
Ihe a casa todos os aristocratas pé-fresco, preclaras bestas e fe- 
duncias mal amanhadas que sohem acotovelar-se nas rodas finas. 

O segundo erro — eu já vou do empresário á artista, mas, an- 
tes, preciso gisar as causas do relativo insucesso das recitas de 
Vitaliani — foi em cartazear, p'ra estreia, uma peça absolutamente 
esquecida ou ignorada do publico. Sem o concurso de gentalha 
das primeiras — que de resto é elemento essencial dado o preço 
alto dos logares — o sr. Taveira afogentou além disso o publico 
dos confrontos. Resultado é que, com a primeira casa ás moscas^ 
os das gazetas arrefeceram os enthusiasmos, S. Luiz lançou as 
suas redes e o pubHco dos confrontos, que teria vindo á primeira 
récita, não veiu á segunda porque, com verdade, se lhe disse que 
era bom mas, que p'r'á Trindade, era carote. 

E foi realmente pena, porque, dês da primeira noite, a bella 
artista italiana merecia os applausos espontâneos e o acolhimen- 
to lisongeiro que a claque, desastradamente, nem sequer soube 
simular. 

Eu hei de — depois de lhe ver mais do reportório — dizer deta- 
lhada e sinceramente da minha impressão : hoje, basta que diga, 
como consolação á artista que não nos conhece, que o -efeii pa- 
tricio Novelli, mais o seu glorioso mestre Emanuel e antes d'el- 
les, o próprio Salvini, gloria e relíquia do theatro italiano, também 
já representaram temporadas em Lisboa, em palcos mais conceitua- 
dos e por tabeliã de preços mais morigerada, sam conseguirem uma 
casa cheia p'ra amostra, ou um successo em toda a linha p'ra 
compensação. 

E «lies traziam a secundal-os artistas e não bonecos e os bo- 
necos de Itália Vitaliani, — a exceptuar Cario Duse de complexas 
e variadíssima aptidões no seu jogo carregado e forte — são des- 
engonçados, desageitados e tudo quanto ha de menos artista e 
mais podão. São, taleqlalmente, como cães da matilha dos coque- 
linos. 

E foram elles o escolho tremendo da oMaria Stuart, em que a 
artista eximia, que é Itália Vitaliani, mostou a mais perfeita e in- 
telligente comprehensão do que é o theatro, como elle se impõe 



148 Impressões de Theatro — As recitas de Vitaliani 

a uma sala desconhecida, e de como, honrada e artisticamente, 
elle dá meios e serve recursos, aos seus eleitos, p'ra subjugar e 
commover as almas endurecidas e os corações empedernidos. 

Outras terão mais faisca, maiores recursos — e são bem pou- 
cos os recursos physicos de Vitaliani, magra, baixa, sem voz, typo 
banal de boa pessoa — mas, nenhuma das artistas que nos tem 
visitado, tem mais calor e mais sentimento, nenhuma é mais co- 
nhecedora da sua arte e nenhuma a serve, com mais correcção e 
limpesa, do que a interprete insigne da cMaria Stuart e da Tosca. 

Na Tosca^ principalmente, porque, faltando-me outros pontos 
de referencia, licito é ir colhêl-os no confronto de temperamen- 
tos e de processos, Itália Vitaliani mostrou as qualidades que, té 
nova ordem, me parece predominarem no seu feitio de mulher e 
no seu jogo de comediante : serenidade, sentimento, correcção, 
sciencia exacta do proscénio, meticulosidade na escolha dos effei- 
tos, proba consciência do valor pessoal e ausência completa de 
cordelinhos p'ra epater e ludibriar o espectador. 

— Eu sou assim, se gostam voltem cá, e, se não gostam, vão-se 
embora e tenham muito boas noites. . . 

Não se pôde ser mais franca, nem mais digna, nem mais cor- 
recta : Itália Vitaliani faz arte, ao que parece, por um grande e 
arrebatado amor á Arte, chegando a ser-lhe indifferentes as os- 
cillações do camaroteiro. E' uma sacerdotisa do theatro e nisso 
se distingue de estrellas e estrellos que são, por via de regra, ru- 
fiões e alcaiotas da Arte, e, d'ella vivem, não como sacerdotes 
d'uma deusa, mas como sanguesugas duma fonte de receita. 

Que Itália Vitaliani nos relacione com a bella arte do seu paiz, 
que nos faça vibrar com os seus dramaturgos, desde Goldoni — 
o patriarcha — té Bracco, Praga, Butti e Ferri, os innovadores, 
que no s mostre os pedaços da alma e do ceu dos Appeninos que 
traz no seu reportório — Cause ed effeti, Una donna^ La serva 
amorosa, Mo glie ideal, Vórtice, Tragedie deli' anitna — e insere- 
vo-me na irmandadade dos que lhe chamam, com os maiores 
críticos da sua terra, a estatua da Paixão : serei vitalianista fer- 
renho, convicto, impetuoso, porque o que eu vi na Maria Stuart 
e na Tosca me garante que Itália Vitaliani, extraordinária artista, 
incomparável e perfeita, não é, certo, a cabotina boulevardeira, 
Bargysa de saias, Coquelina aux macaronis^ das que S. Luiz ex- 
plora e meio mundo admira, por ver a admiração do outro meio... 



XXVIII 

9 NOVEMBRO. 



A paca nafprna C^^g'i'^) drama em 5 actos de 
UdOd [JaloMla, suderman. Z:heatro da Trindade. 

5.' recita da Tournée Itália Vitaliani. 

A oMagda^ maravilhosamente, divinamente, encarnada na pro- 
digiosa artista que é Itália Vitaliani — grande entre as Maiores, 
perfeita entre as mais perfeitas — é como um grande facho de luz 
que em jorros poderosos e vivos nos offusca e nos cega. 

Folheie-se um diccionario de synonimos ou releia-se um dis- 
curso do Ilintze — o que vem a dar na mesma e é mais indigesto 
— e todos os vocábulos que exprimam admiração, espanto, res- 
peito, assombro, todos elles serão pálidos, p'ra dar uma ideia 
vaga do sentimento que subjugou a plateia, ante o trabalho co- 
lossal da eminente e gloriosíssima artista. 

No rez-do-chão da folha apparecem hoje varias referencias a 
outro desempenho dado á Magda nos últimos dias : não me des- 
digo, nem me contradigo. 

Antes pelo contrario : tudo o que de agradável e justo se pôde 
dizer do trabalho feito de remendos e decalques, caretas e im- 
personalismos da Magda de Lucilia, é um bello argumento e 
uma justa balisa p'ra avaliar do extraordinário e maravilhoso tra- 
balho, honestíssimo e personalíssimo, da grande e incomparável 
artista italiana. 



i5o Impressões de Theatro — Vitaliani na acMagda» 




Impressões de Theatro — Uitaliani na aMagda» i5i 

de confrontos que a dispariedade de mérito e de valores tornam 
quasi sacrílegos. 

Porque, é, em Arte, um sacrilégio fallar de Lucilia, ou de qual- 
quer outra, sob a impressão viva, intensa e dominadora, do traba- 
lho estupendo da mais honesta e consciente, da mais estranha e 
emocionante artista que tem pisado os palcos de Itália, a terra da 
Arte e das grandes artistas. 

No relicário santo das minhas emoções de Arte, estava um lo- 
gar vago ao lado do Tietro Caruso de Zacconi. Preencheu-o a 
Magda de Itália Vitaliani. 

As outras Magdas ficam no meio da rua á espera de que a 
policia lhes dê destino : umas p'ra enxovia, como vagabundas, ou- 
tras, pVo Albergue das Creanças abandonadas, como infantis. 

A' Magda de Vitaliani rende homenagem a nossa alma, o 
nosso sentimento e a nossa intelligencia ; á Magda de Lucilia, 
p'ra ella não fazer beicinho, levar-lhe-ha S. Luiz bolos e bonitos 
em dia de visita. 

Uma, é quasi correcta — e nesta relativa correcção e^táo seu 
elogio — outra, é assombrosamente grande e, nesta grandeza que 
assombra, está o génio que a i!lumina e transfigura. 



XXIX 



IO NOVEMBRO 



I «^ I f\f>'^nr\\ar^ comedia em 3 actos de Garlo Gol- 
Ld LOCanQIBra, áon\. neatro da Trindade, ô.^^ re- 
cita da Tournée Itália Vitaliani 

Itália Vitaliani parece apostada em surprehender-nos de noite 
p'ra noite. Té qui, tinha-nos subjugado e na Locjndiera^ encan- 
tou-nos. Cae-me da penna, sobre Vitaliani, a phrase celebre de 
Silva Pinto sobre Camillo «sublime corda do choro, sublime cor- 
da do riso». 

No drama faz-nos sentir, emociona-nos, commove-nos. E' hu- 
mana, é verdadeira é grande. 

Na rendilhada joiasita do patriarcha Goldoni, revelou-se uma 
outra Vitaliani, que nós ignorávamos e não presentiamos, fazen- 
do-nos sorrir, alegrando-nos, banhando-nos a alma com o perfu- 
me malicioso e brando, delicado e fino da sua graça infinita. 

Desappareceu a trágica e surgiu a comediante perfeita e leve, 
esfusiante e álacre, risonha e graciosa na sua arte inconfundivel 
e dominadora. 

E, se, no drama Vitaliani, é a estatua da Paixão, na comedia 
ella é, incontestavelmente, a personalisação feminil do sorriso e 
da graciosidade. 

São duas facetas oppostas do mesmo crystal do génio, mas 
ambas egualmente luminosas, serenas e immaculadas, na pureza 
absoluta da sua technica e da probidade inexcedivel dos seus 
processos e do seu talento. 

Não sei qual das Vitaliani é maior, se a da Magda se a da 
Locandiera ; sei apenas que Vitaliani é sempre Vitaliani e que 
Vitaliani ha só uma na immensidade do seu valor de artista rara 
e maravilhosa. 



Impressões de Theatro — O publico 1 53 

O publico alfacinha é também sempre uno, uniforme e único 
na grandiosidade apocalyptica da sua estupidez : hontem, com o 
cheiro capitoso de um confronto parvo, porque se não confron- 
tam o sol com as lamparinas, o dia com a noite, uma cabotina de 
talento com uma artista de génio, o publico foi á Trindade. Hoje 
a casa esteve ás moscas. 

Pecuniariamente, pode ser um fracasso a tournée de Itália Vi- 
taliani. Gomo artista, ella, porém, deve orgulhar-se por ter a sorte 
do Novelli, do Emanuel e do Salvini e té nisso, se distanciar de 
Sadda Yacco e das outras mystificações que, em Lisboa, dão di- 
nheiro aos emprezarios. 

E, com gente desta, é lisongeiro ter-se um publico de moscas 
porque, se a mosca, zoologicamente, é um animalzito importuno 
e estúpido, artisticamente, está provado ser mais intelligente que 
os nossos homens de Estado, os nossos homens de lettras, os 
nossos homens do mundo e os nossos homens da finança, que 
honram o prodigioso mento da artista insigne com o favor pe- 
nhorante e commodo da sua ausência. 



XXX 



12 NOVEMBRO 



Fprlnríi drama em 4 actos deSardou. Theatro da Urinda- 
1 CUUI Q, j_ ya rp.cita da Tournée e d 



de, 8.^ recita da Tournée e despedida de Itália 



VlTALIANI 



Simplesmente assombroso, na Fedora, o trabalho da grande e 
genial artista Itália Vitahani que, p'ra vergonha do publico alfa- 
cinha se despediu no palco do theatro da Trindade, duma plateia, 
que tentou, numa esiripitosa ovação, resgatar oito noites de aban- 
dono e de friesa ante a mais lidima e gloriosa amostra do que é 
a Arte honesta, a Arte pura, a Arte suprema ao serviço duma or- 
ganisação de mulher que sente e faz sentir, que se commjve e 
nos faz commover. 

São numerosas as Fedoras conhecidas das nossas plateias; 
umas perfeitas, como a da Virginia, outras mancas e esquisitas, 
como a da Lucilia, umas grandes, como a da Sarah, outras huma- 
nas, como a da Duse, mas, Fedora perfeita, humana e grande, como 
a. de Itália Vitaliani, foi uma verdadeira revelação e uma verda- 
deira surpreza p'ra todos que sabem ver. 

Fechou, com chave de ouro, as suas recitas a maravilhosa e 
incomparável artista que, tendo passado despercebida ao grosso 
do publico, sem trucs^ sem cordelinhos, com a mais profunda e 
mais alta noção da dignidade artistica, riscou no azul infinito da 
arte de representar, uma trejectoria de luz, fulgurante e intensa, 
como o rasto brilhante dum aereolitho. 

Foi-se a luz com a Itália Vitaliani... Agora, cabe a S. Luiz 
o espevitar os morrões ás suas candeias, no meio das trevas e da 
escuridão. 



XXXI 



14 NOVEMBRO 

OnlnrPQ ^^^^^ catalão em 3 actos, de Feliu y Codina, 
L/UIUI O O, variante em versos portuguezes de Coelho de 
Carvalho. D. Hlaria. i." recita de assignatura. Distribuição : — 
Dolores, Angela Pinto. — Josepha, Carolina Falco. — Melchior, 
Fernando Maia. — Sargento Bonito, Ferreira da Silva. — Lazaro, 
Luiz Pinto. — P.\TRicio, JoAQLiM CosTA. — Manuel, C. Santos. — 
Justo, C. Galvão. — Arrieiro, Sampaio. 

... Y viva Espana ! 

D. Maria, transformada, graças ao pincel magico e maravilhoso 
de Manini, num canto ensolado de Aragão, transformados em 
haturros os actores da casa, que a burocracia e o commissario 
régio maquilham em amanuenses e segundos officiaes, deu-nos 
•em versos duros e clássicos de Coelho de Car\^alho, um pedaço, 
sangrento de vida, palpitante de realidade, da alma e do nervo de 
nuestros hermanos. 

Feliu y Codina — o auctor da Dolores — tem na dramaturgia 
catalã — infinitamente maior do que a castelhana, a esbarrondar- 
se nas tiradas e hyperbolismos de Echegaray e na pornographia 
musicante do género chico — logar primacial e eminente. 

Essa celebridade, claro, por isso que é legitima e verdadeira, 
não tinha chegado ainda até nós, embora á Catalunha nos pren- 
dam exactamente os traços ethnographicos e politicos que, p'ra 
gloria do /." de Dezembro e outras phylarmonicas pátrio teiras, 
nos separam da Hespanha. Ethnographicamente, estamos mais 
perto de Barcelona do que de Madrid, mas, em arte, em littera- 
tura, em camelotage e em industria, Madrid e Barcelona ficam- 
nos no confim da terra e só o Boulevard, á mão de semear, nos 
está ao pé da porta. 



i56 Impressões DE Theatro — 'Dolores 

De Madrid, ainda conhecemos os toureiros, as ninas e os dis- 
cursos de Salmeron: de Barcelona, ignoramos a litteratura, a in- 
dustria, o seu proletariado, as suas aspirações, os seus homens. 
Quando muito, vagamente, por causa do juiz Veiga, sentimos ar- 
ripios instinctivos ouvindo fallar do tenente Portas e dos cárceres 
de Mont]uich. D'ahi, o saudarmos, com enthusiasmo, a revelação 
de Feliu y Codina, que, como dramaturgo de costumes, se impôz 
á plateia do Normal, com o poema movimentado, pittoresco,vivo 
e emocionante da Dolores. 

No i." acto, de exposição e preparo, esmagados pela grandeza 
do talento de Manini, teve -se infundado receio de que a Dolores, 
pVa drama, fosse muito zarzuela, e de que, p'ra zarzuela, tivesse 
pouca musica. 

Mas o rigor da marcação, o calor e o fogo com que todos os 
artistas se defendiam e se baturrizavam, predispoz a sala p'ra ac- 
ceitar a Dolores fosse ella como fobse, embora, ás duas por três, 
lá p'r'ó 2.° acto, o Costa nos surdisse a gargantear uma^o/a ou 
tivéssemos de acceitar, em fecho da peça, o Ferreira, em guar- 
diã civil., a requebrar-se n'uma sevilhana 

Com o Ennes entrapado no vestíbulo, ao lado do Garrett e 
da Emilia das Neves, a Instrucção Publica a superintender no caso 
e o Alberto Pimentel a lapisazular o reportório, a gente, em D. Ma- 
ria, expÕe-se a tudo. . . até, como na 'Dolores, a ver triumphar a 
boa vontade e o talento dos artistas do papel sellado e das porta- 
rias que os rodeiam e que os afogam. 

No 2." acto, porém, desenrolando-se a acção, definindo-se os 
caracteres, o publico começou a aquecer, a tensão dramática da 
peça a subir, a dureza do verso a amaciar-se, o talento intuitivo 
e insubordinado de Angela Pinto a expandir-se, e, na scena movi- 
mentada e viva da bezerrada — que, por si, faz a reputação dum 
director de scena e dá a medida da consciência artística dos nor- 
malinos — o enthusiasmo chegou ao rubro, e, meio hespanhoes 
todos nós, começávamos a ensaiar expontaneamente os Viva Es- 
pana — que a dez tostões por cabeça hão de esturgir á chegada 
d'El-Rei Caraguito, — quando o panno desceu, numa ovação penin- 
sular, vibrante e quente, a Angela, a Luiz Pinto, a Ferreira da 
Silva, ao Maia, ao Carlos Santos, ao Costa, ao traductor, ao sce- 
•nographo, ao ensaiador, a todos, emfim, e tão irmãmente, que 
cheguei a recear que o contagio se estendesse e, por carambola 
de recochete, Alberto Pimentel fosse também ovacionado e não 




Angela Pinto 
Caricatura de Francisco Teixeira 



i58 



Impressões de Theatro — bolores 



escapassem ao palmejar o próprio Caim da Instrucção Publica^ 
que estava num camarote e o gordo Alpoim, que se espanejava 
numa frisa. 

Felizmente, dentro da justiça, da equidade e da razão, a pla- 
teia applaudindo apenas os artistas e os seus coUaboradores, fez 
uma consagração ao talento e aò trabalho posto ao serviço da 
Arte e conquistou um attestado de intelligencia, que ainda a torna, 
mais responsável e criminosa no insuccesso de Vitaliani. 

Mas se os senhores percebem o que é Arte, o que é Theatro,por- 
que diacho deixaram ás moscas os espectáculos da Trindade?. . . 

No 3.° acto, já conquistada a salla e garantida a carreira da 
Dolores, Angela e Luiz Pinto firmaram-se brilhantemente na con- 
quista das honras da noite e conquistal-as e merecel-as, em ab- 
soluto, em noite que honra a arte de representar em Portugal, 
em papeis da responsabilidade tremenda da protagonista e do es- 
tudante de clérigo da Dolores, é marcar nas suas carreiras uma 
etape de victoria, que raro será igualada pelos triumphos ruido- 
sos dos grandes mestres e das privilegiadas consagrações. 

Angela, que, das artistas da fileira, é a mais intuitivamente 
grande e a que mais sente, embora não seja a que mais sabe, que 
é a que mais vive, embora o destrambelhado dos seus nervos 
não a deixe ser a que mais estuda, filia-se pelo temperamento e 
pelo valor, na familia de artistas de fogo t de alma, de calhanças 
e instincto, que no theatro portuguez tiveram em António Pedro 
e Emilia das Neves as mais estupendas encarnações da grande 
Arte e dos inegualaveis recursos. 

Na Dolores authenticou Angela Pinto, com o sello da sua in- 
dividualidade, estes pergaminhos genealógicos... oxalá, em dias 
de apertos, Angela doidivanase irrequieta, não os troque pelas 
lentilhas dos 
triumpho s 
ephemeros e 
ruidosos ou não 
vá perdel-os, 
deixal-os cair, 
estouvada e dis- 
trahida, no tor- 
velinho dos bas- 
tidores. , „ 

Luiz Pinto 
Luiz Pinto Caricatura de Raphael Bordallo Pinheiro 




Impressões de The atro — bolores 1 5 9 

— a quem eu ainda não vira sahir do ovo em papel que m'o 
abonasse como artista de futuro e de carreira — chegou na Do- 
lores a uma altura que é p'ra muitos a synthese d'um futuro de 
esperanças e a meta gloriosa duma carreira de promessas. 

Os outros todos, em segundo plano pela importância dos seus 
papeis, deram-me a impressão de que o sr. Moniz, novo director 
de scena do D. Maria, era uma traducçao portugueza, correcta e 
illustrada, de Sua Alteza o Duque de Saxe-Meiningen. . . o glo- 
rioso theatromano que poz a sua lista civil e a sua intelligencia 
ao serviço duma renovação theatral, que dando calafrios ao Sar- 
cev, pondo primeiras figuras em ctímparsas, não desprezando de- 
talhes, não descurando minúcias, transformou o theatro, banio a 
convenção e fez do proscénio um templo d'Arte, em que os ar- 
artistas officiam como sacerdotes e o publico se extasia na emo- 
ção dos crentes. 

Conseguir dar essa impressão em Portugal e num theatro que 
é uma espécie de repartição do Estado, transformando uma suc- 
cursal da Arcada num trecho de Aragão, é, artisticamente, um 
triumpho e podia ser em politica uma revolução : imaginem vo- 
cês todo o constitucionalismo com pelles novas, pittorescas ou 
conselheiraes, ao sabor do contribuinte — o Hintze, indiíFerente- 
mente, em baturro ou homem de Estado, o Marianno, em finan- 
ceiro ou calabrez, o José Luciano, em maragato ou rei Anadia, o 
João Franco, em charro ou dictador, e Portugal, emfim, numa 
feira franca de alegria e patuscada em vez de alfobre sombrio 
de poetas sem poesias, de estadistas sem ideias, banqueiros sem 
credito, artistas sem arte, pintores sem quadros e actores sem ta- 
lento. 

Imaginem ... 



XXXII 

l6 NOVEMBRO 



Anjo da meia noite. LT3:^uadl^'r'"' 

Distribuição: — Dr. Ary Kaerner, Alves da Silva. — Barão 
DE Lambech, Sepúlveda. — Conde de Strambey, P. Costa. — Karl, 
seu filho^ Eduardo Vieira — Dr. Rauspack, Augusto Machado. — 
BucHMAM, Luciano. — Lutz, Roque. — Verner, Chaves. — Schevel, 
L. Froes. — Roudal, Monteiro. — Garden, Gentil. — Rutter, Ar- 
thur. — Anjo da meia noite, Adelina Nobre. — Margarida, Adelai- 
de Coutinho. — Catharina Kaerner, Georgina Vieira. — Mvrthv 
BuRNER, — Augusta Guerreiro. — Agvve, Lúcia, Cheatro do Prín- 
cipe Real 



E' exposta da Santa Casa porque não traz no cartaz os nomes 
dos progenitores e já foi representada, ha bons quarenta annos, 
nos tempos áureos do Santos Pitorra e de Manuela Rei. Exhu- 
mação de cadáveres e falta de respeito pela tranquilidade dos tú- 
mulos. Padre Nosso, Ave Maria 



XXXIII 



l6 NOVEMBRO 

Meu rapa^ : — Vá de resumir e englobar as minhas impressões 
sobre a grande e incomparável artista Itália Vitaliani, de quem, 
noite a noite, te fui dizendo em notas, rápidas e breves, o altissi- 
mo mérito artistico e a inexcedivel honestidade scenica. 

Desculparás, se por casualidade, eu repetir os adjectivos com 
que nuancei, nessas seis noites de profunda e religiosa emoção de 
Arte, o meu enthusiasmo e a minha admiração por Itália Vitalia- 
ni — será isso coisa acontecedeira e nada estranhavel, dada a pe- 
núria em que ficou o meu stock de vocábulos elogiativos e a dura 
necessidade de os reservar, fona e avaramente, p'r'ás occasiões 
em que, vindo a pello ter de me referir a cabotinas com familia, 
seus emprezarios e paladinos, não esteja resolvido, como bom che- 
fe de familia, a arruinar-me em bengalas ou sinta engulhos, como 
sócio da Protectora, em contundir o coiro cabelludo de seus cam- 
peões. 

Assim, pois, de todo o maravilhoso trabalho de Itália na Ma- 
ria Stuart, na 1)ama das Camélias^ na Tosca^ na Magda, na 
Locandiera e na Fedora eu radiquei, como qualidades predomi- 
nantes e caracteristicas fundamentaes da completa e extraordiná- 
ria individualidade, sentimental e equilibradissima, da grande ar- 
tista, a probidade e a simplicidade, a naturalidade e a delicadesa. 

Itália Vitaliani sente e vive os seus papeis; mas senteos e 
vive-os, serena e simples, reflexiva e conscientemente : sem estri- 
dências, sem arrebatos, sem explosões, com todo o sentimento e 
todo o equilibrio duma artista eminente que, procurando a Ver- 
dade nas suas interpretações e querendo dar a Vida e a Natureza 
nos seus personagens, affasta do seu caminho o convenciona- 
lismo, o artificio, o truc, a visagem e se entrega — passiva e ho- 

II 



l62 



Impressões de Theatro — Itália 'Vitaliani 



nesta, corpo e alma, intelligencia e nervos, á idealisação do dra- 
maturgo — soífredora e altiva na Maria Stuart, romanesca na 
^Dama^ passional na Tosca, revoltada na Magda, feminil na 
Locandiera, vingativa e amorosa na Fedora, e sempre grande, 
sempre proba, sempre humana, natural, simples e inconfundivel 
em todas as heroinas, em todos os géneros, em todos os deta- 
lhes e em todas as situações. 

Os registos do estado civil attestam que Itália Vitaliani é pri- 
ma da Duse: no livro d'oiro da Arte, onde, em lettras eternas de 
fogo, só os nomes das Raras fulgem, Duse e Vitaliani são irmãs 
gémeas, pelo talento que as illumina, pela falta de recursos phy- 
sicos que as engrandece, pelo Amor ao theatro que as subjuga, 
pelo sentimento que a ambas faz impallidecer e chorar, que a 
ambas aquece e galvanisa. 

Irmãs gémeas, e, na Arte, filhas de Emanuel, ambas queridas 
do pae, ambas egualmente taradas pela hereditariedade do génio, 

mas Duse, mais mórbida na ce- 
lebridade da sua grandeza, Vi- 
taliani mais emanuelica na 
persistente e obscura constân- 
cia do seu infortúnio. 

A consanguinidade na Arte 
tem as mesmas aberrações que 
na natureza — e, em França, 
os Coquelins o attestam, na 
disparidade dos seus méritos e 
dos seus trucs, ambos Coque- 
linos, mas um Cyrano, outro 
Cadet. 

Na consanguinidade artisti- 
tica da Duse e Vitaliani, o mes- 
mo destempero da sorte e do 
acaso: — a consagração mun- 
dial, a celebridade p'r'á Duse, 
os reclamos do boulevard, a 
intimidade dos reis, as placas 
de S. Luiz no foyer do D. Amé- 
lia e a obscuridade persistente, 
•"^ „ as tournées falhadas, os insuc- 

GlOVANNI EMA>fUEL . ' 

Caricatura de Raphael Bordallo Pinheiro cessos de camaroteiro, a indif- 





S. Luiz de Braga 
Caricatura de Jorge Collaço 



i'64 Impressões de Theatro — 7/^/»^ Vitalia ni 

ferença da roda fina, os disparates do Taveira, na Trindade, p'r'á 
Vitaliani. . . Mas ambas grandes, ambas inconfundíveis, ambas ge- 
niaes e perfeitas -irmãs gémeas, filhas de Emanuel, estrellas 
ambas de egual gran- 
desa e só differentes, 
aos olhos desarmados 
da multidão, no po- 
der irradiante do seu 
fulgor e na força re- 
clamativa dos seus Barnuns. 

Braga vê estrellas por um te- 
lescópio e Taveira fica-se a ver. . . 
Braga por um canudo. 




Sarah Beunardt 
Caricatura de Capiello 



Pôde muito bem ser — porque 
eu subordino a minha esthetica 
á minha emoção — que outros, 
sem mesmo subordinarem as suas 
emoções ás suas conveniências, 
hajam visto maiores culminancias 
de Arte, mais offuscantes prodi- 
gios de génio, no jogo scenico — 
todo gestos de estatuária, todo 
linhas e cadencias de pregas e 
inflexões — de Sarah, a Divina; que na maneira desalinhavada e 
humana, imponente e mórbida de Duse — a Inegualavel — haja 
sido mais intenso e fundo o assombro, mais estranho e refinado 
o esfrangalhar dos nossos nervos ; mas, nem a Inegualavel nem 
a Divina — dentro dos recursos scenicos, que tentam, pela Arte, 
reproduzir a humanidade nas suas paixões e não egualar a Di- 
vindade nos seus attributos — me deram mais perfeita, mais com- 
pleta, mais tangivel e mais real illusão da Verdade, do Sentimento 
e da Naturalidade do que Itália Vitaliani, que, não será divina, nem 
inegualavel, mas, é, indubitavelmente, tão grande e menos cele- 
bre do que qualquer das outras. 

Durante essas seis noites inolvidáveis de suprema Arte e de 
supremo goso, como raro as terá havido em theatros alfacinhas, 
via-a em seis peças, encarnando seis papeis que marcam na litte- 



Impressões de Theatro — Itália Vitaliani i65 

ratura universal a idyosincrasia de três raças e o valor theatral de 
cinco dramaturgos de épocas diíferentes, temperamentos oppos- 
tos e valores desencontrados. 

Em todos elles Vitaliani viveu com a alma o seu personagem, 
sentiu-o com os seus nervos, detalhou-o com a sua intelligencia 
e reprodusiu-o com o seu génio : a todos insuflou o sangue que 
lhe gira nas veias, a todos marcou com o cunho personalíssimo 
da sua individualidade, em todos dominou, soberana e impeccavel, 
na posse absoluta da sua Arte e do seu temperamento. 

Sem figura, sem voz, sem mascara, mas sem um tritCy sem um 
cordelinho, sem um cabotinismo Itália Vitaliani, num crescendo 
de gloria e de assombro, foi, noite a noite, subjugando, cada vez 
mais, um publico que, por ser diminuto, não era, certo, inculto nem 
fácil, de forma que, ao morrer na Fedora, no mais maravilhoso 
estertor agonico que eu tenho visto em theatro — e Zacconi 
morria todas as noites! — todos nós, os nervos n'um feixe, a alma 
convulsa, o espirito numa obsessão, já não tinhamos olhos p'ra ver, 
nem intelligencia p'ra discernir e, a voz secca, estrangulada na gar- 
ganta, explodiu no mais fremente bravo ! que no palco pode galar- 
doar o trabalho primacial e único da mais perfeita e modelar artista. 

Eu não posso detalhar no incolorismo baço da minha prosai 
o poema épico dessa agonia, em que não houve um grito, quasi 
não houve uma visagem e em quei toda a virulência corrosiva do 
veneno, todo o cruciante da dôr, eram dados pela contracção 
muscular dum organismo franzino, pelo enclavinhar tremulo dos 
dedos fuzelados e expressivos de Itália Vitaliani, que na mudez 
hirta das suas phalanges fez perpassar todo um drama de amor, de 
angustias, de remorso e de soffrimento. 

Por um esforço prodigioso d'Arte, eu creio que os artistas de 
génio podem concentrar a Vida, localisar a sua alma num ponto 
só do seu organismo : Zacconi, de costas p'rá plateia, no ultimo 
acto das Q/llmas solitorias de Hauptmann, sem uma palavra, sem 
articular um som, sem deixar ver uma nesga da mascara, num 
simples mover de hombros, arripiante e confrangedor, poz os 
cabellos em pé a uma sala inteira, dando-nos a certeza de que o 
suicidio lhe riscara o cérebro e de que ia suicidar-se — todo o fogo 
indomiio, que faz do temperamento de Zacconi um vulcão, eruptiu 
nesse movimento ligeiro de omoplatas. 

Na morte da Fedora^ toda a alma, toda a sensibilidade, toda a 
probidade que fazem de Vitaliani a mais estranha e capitosa flor 



i66 



Impressões de Thextro — Itália Vitaliani 



da Arte Italiana, veludinea e delicada, desabrochava, em florações 
de génio, nesse enclavinhar cadavérico das phalanges, dando-nos 
numa commoção esmagadora e torturante, o adeus derradeiro 
da alma slavaj amorosa e vingativa, que na Fedora carpinteirou 
Sardou. 

Vê-se, admira-se, mas não se descreve, não se explica e não 

se traduz. 



Mas, sabidas as contas, Itália Vitaliani, se commoveu e as- 
sombrou os raros que a viram, não chamou publico á Trindade» 
não fez successo, não empolgou. 

Não admira, nem surprehende. Justifica, apenas, o que, áspero 
e deslinguado, eu tenho dito do publico alfacinha, do sua educa- 
ção artística, do seu 
amor ao theatro, 
da sua intelligencia 
e do seu feitio. 

Mas, não basta 
atirar p'r'ás costas 
largas dos da rua 
dos Fanqueiros e 
p'r'ós hombros en- 
casacados da roda 
fina a responsabili- 
dade do facto. 

O publico é sem- 
pre o mesmo, na 
sua ignorância, na 
sua estupidez : no 
esc agarrinhamento 
bajôjo dos seus ap- 
plausos e na frieza 
alvar da sua indiffe- 
rença. Vae pr'a on- 
de vê ir os outros, no corrente, á tôa, Maria vae com as outras. 

Desta vez Maria não foi porque os outros ficaram em casa. 

E a responsabilidade dos outros não terem admirado Itália 
Vitaliani cabe, inteirinha e completa, ao sr. Affonso Taveira. 

Empresário dum theatro, domínio senhorial do Gato 'Preto e 




Affonso Taveira 
Caricatura de José Leite 



Impressões de Theatro — Itália Vitaliani 167 

outras bugigangas com fifias e pantorrilhas, com tradicções en- 
raizadas de fazer, entre caixeiros e provincianos, a fortuna do 
Cabo d' ordens e a im mortalidade do Brasileiro Pancracio^ mas 
com o condão de aífastar das suas paragens tudo que, social, in- 
tellectiva ou artisticamente, se convencionou ser do bom tom, da 
elite e da roda fina, o sr. Taveira, contractando Itália Vitaliani 
p'r'ó seu theatro, não soube prender o seu publico habitual e não 
soube ou não quiz chamar a si o publico que, por habito e tradi- 
ção, lhe volta as costas. 

Deu o flanco, assim, á intriga e á cabala do Thesouro Velho, 
que medrou, teceu, floriu e desabrochou, impávida e impune, 
com os seus recursos estratégicos do reclamo e coscovilhice, dês 
dos fatos da Vitaliani que se negavam, como se ella viesse es- 
farrapada ou o palco fosse montra de modista e confecções, té 
ás frouxidões do conjuncto que se engrandeciam . . . como se os 
artistas da troupe fossem peores dos que os ensembles habituaes 
das estrellas de arribação. 

Alem disso, sem fallar no desleixo da mise-en-scene, que poz 
uma cama de ferro no i.° acto da Fedora^ passeiou um candeei- 
ro de Petersburgo p'ra Paris e illuminou a stearina os últimos e 
estertorosos arranques do Scarpia, o sr. Taveira parecia apostado 
em bater o record do disparate na sequencia do cartaz : dês da 
estreia duma artista desconhecida com uma peça ignorada do pu- 
blico e em que a artista, acto sim, acto não, ficava nos bastidores, 
dando á ribalta, apenas, os jà-me-vistes da Companhia, té ao inter- 
calar a Locandeira — sem interesse p'r'ó grosso do publico e só 
refinado prazer p'ra meia dúzia — entre duas peças de confronto 
em que o publico já ia pegando, estando prestes a morder no 
anzol. Depois a partida precipitada, abrupta, p'r'ó Porto, quando 
na Fedora o successo e o camaroteiro prophetisavam um trium- 
pho e um casão p'r'á Zát^á que já estava annunciada no cartaz. 

Decididamente o sr. Taveira nasceu p'ra o Gato Treto e p'r'ó 
Zé Ricardo. . . pVa ascender a Barnum de estrellas tem de com- 
prar um titulo e alguns jornalistas. . . dar um passeio á feira da 
Ladra e entabolar negociações com um alquilador. 



XXXIV 



20 NOVEMBRO. 



Concurso dramático do DIA, ^lu 



ENGRU- 
HADA. 

comedia ero i acto de Manuel da Silva Qayo. Distribuição: O 
PRIOR, João Rosa. — João veterano, João Gil. — Dr. Thomaz Lv-, 
CENA, António Pinheiro. — José Cabral, Carlos d'01iveira. — Um 
SOLDADO, F. Salles — Maria Pacheco, Maria Falcão. WW TRAGE- 
DIA ANTIGA, em i acto, de Gesar Porto. Distribuição : Ricardo, 
Christiano. — Christiano, Chaby. — Affonso, Augusto Antunes. — 
SoPHiA, Lucilia. — Mariana, Estephania Pinheiro. — Virgínia, Laura 
Pedroso. WW AUTO PASTORIL, um acto de Pedroso Rodrigues. 
Distribuição : Violante, Rosa Damasceno. — Ruivo, Eduardo Bra- 
zão. — ToNio, H. Alves. — Cego, Augusto Rosa. — i.° pastor, Lo- 
pes.— 2.» PASTOR, Salles. WH VERSOS, de Henrique Lopes de 
Mendonça, Abel Botelho e D. João da Gamara. Cheatro D. Rme- 
lia. 

Espectáculo variado e de curiosidade : peças de três concor- 
rentes premiados e versos dos juizes premiadores — nos versos, os 
do jury quizeram m»strar que se fizessem peças — e, por mal dos 
nossos peccados, já as teem perpretrado — as fariam ainda peores 
que os concorrentes e nas peças, afora o Auto pastoril^ que me- 
rece referencia á parte, os concorrentes demonstraram que eram 
capazes de premiar aquelles versos. 

A Encruplhada, que, realmente, é umbecco sem sahida, litte- 
rariamente, não é coisa nenhuma. 

Disputava com justiça o primeiro premio á Tragedia antiga^ 
nanja num concurso de peças, mas num record negativo em que, 



Impressões de Theatro — Concurso do n'Z)iíi» 



i6<> 



o premio devesse caber a quem menos bossa p'r'á scena conse- 
guisse demonstrar na factura de um acto só. A Tragedia antiga 
perdia ainda n'esse record, porque aquillo não é um acto : apesar 
de não baixar o panno vez nenhuma, tem estopada e disparates 
p'ra cinco. E' por isso que se chama Tragedia. 

Das duas pecinhas, em que ha destacar — numa, a tentativa de 
Pinheiro e noutra, um trabalho esplen- 
dido de Chaby — a conclusão a tirar 
é esta : as outras peças regeitadas 
eram todas melhores, porque, p'ra fa- 
zer peor, é realmente necessário ter 
muito talento. 

O Auto pastoril, porém, abriu um 
bello parenthesis de arte e de theatro 
no espectáculo — está ali um poeta e 
pôde, talvez, vir a esta»- um drama- 
turgo. 

Na sua incerteza e insignificância, 
tem emoção, tem vida e tem miolo ; 
destaca por si como uma bella estreia 
e destaca, sobretudo, ao pé das ou- 
tras, desmioladas, sem vida, sem emo- 
ção, e sem coisa alguma. 

Pela ordem do cartaz, foi a ultima 
e, dados os principios que fizeram pre- 
miar as outras duas, nem no cartaz devia figurar — devia ser regei- 
tada. 

Porque, equiparar as três. era caso pVa o auctor do Auto pas- 
toril mandar os manos todos aos membros do jury. 




Chaby 
Caricatura de M. G. B. Pinheiro 



XXXV 



25 NOVEMBRO 



Le depute de Bombignac. IZlVZl 

xandre BissoniWLA JOIE FA!T PEUR, i acto de Madame de 
Girardin. Theafro D. Hmelia, i.' recita da Tournée Coquelin. 



Outra vezo Coque- 
lin... 

Desta feita, deixou 
®s coquelinos da fami- 
lia em terras de Fran- 
ça e trouxe apenas a 
matilha dos coqueli- 
nos subalternos que 
lhe ladram as deixas 
por esses palcos da 
Europa. 

Mais que estrello 
pela reputação mun- 
dial que o nimba, e 
menos que o sol pelo 
brilho que os janeiros 
lhe teem apagado, Co- 
quelin, té n'isso, é a 

lua do planispherio da Arte franceza : traz cães a ladrarem-lhe 
pelas noites luarentas, ao vagabundar pelos theatros do mundo, 
a recordação do seu passado as ruinas da sua gloria, os restos 
da sua voz e a petulância irrequieta do seu nariz, sempre moço 
€ atrevido, sempre espirituoso e francez. 

Francez principalmente. . . 




Coquelin Ainée 
Caricatura de J. Abeillé 



Impressões de Theatro — Coquelin 171 

Porque velho e cançado, Coquelin é, ainda, um grande mestre 
da scena mas é, acima de tudo, nos trucs do seu officio, na pespor- 
rencia da sua celebridade e nas tamanquinhas da sua consagra- 
4jáo, o espécimen typico, a amostra registada, dessa França pos- 
tiça e brilhante, superficial e ligeira, que tem no espirito espu- 
moso do seu Humorismo e na graça leve e estouvada da sua In- 
consistência, o segredo do seu successo e a razão da sua victoria: 
nas modas dos seus figurinos, nas idéas dos seus pensadores, nas 
falsificações da sua industria, na fragilidade dos seus bibelots^ no 
génio dos seus consagrados e na arte dos seus comediantes. 

Coquelin encarna a França : é mais queJfrancez na maneira de 
representar p'r'ó publico e de empochar as admirações bajôjas 
■da multidão. E' francez e, todo o francez, é, mais ou menos, cai- 
xeiro viajante. Caixeiro viajante do theatro, Coquelin é o Impe- 
rador dos Cabots, como Napoleão, caixeiro viajante da guerra e 
•do morticínio, foi o Imperador do Mundo. Um deante das Pyra- 
mides debitou a patacuada celebre dos 40 séculos vos contemplam^ 
e o outro, mal apparece em scena desaba sobre a plateia as pyra- 
mides da sua individualidade — quarenta annos de reputação eca- 
botinismo. Ambos francezes: caixeiros viajantes os dois. 

E' grande, enorme ainda, e foi colossal e estupendo. 

Vive largamente do passado e, como todas as ruinas, impõe-se 
ao nosso respeito, té quando deixa tria a nossa admiração. 

Mas, como durante a sua vida, todo o seu talento, todo o seu 
espirito, toda a sua arte consistiu em empolgar os enthusiasmos, 
sabe, como ninguém, fazer das fraquezas forças e aquecer-nos 
ainda no fogo intenso d'uma grande e viva admiração pelos seus 
recursos gastos, pelos seus trucs sabidos, pela sua dicção clássica, 
pela sua technica conservadora e antiquada. . . . 

E a prova que ainda nos aquece está na paciência evangélica 
com que a plateia se èscagarrinhou ante esse Depute de Bombi- 
gnac^ que, nem pelo valor theatral, nem pelo desempenho chega 
a ser mais que uma pochade ligeira e caricatural, sem espirito e 
sem idéas, sem um dito que marque, ou uma situação que se im- 
ponha — é uma peça do Gymnasio, e, com um pouco de boa von- 
tade, talvez se podesse dizer que representada co.iiO no Gvmna- 
sio se representa. . . ou, pelo menos, como no Gymnasio se deve- 
ria representar. 

Coquelin ainda aquece, com os seus 62 janeiros e depois de 
churriado vinte e tantas horas em comboios portuguezes e hes- 



172 Impressões de Theatro — Coquelin 

panhoes, — quando qualquer de nós iria pedir a um douche, a um 
bom jantar e um bom colchão o descanço reparador e confor- 
tante — e aquece, faz vibrar, nessa pequena obra prima de Madame 
Girardin, La joie fait peur, que, embora elle a faça em carica- 
tura e traços grossos, — á Coquelin, se quizerem — a faz coro 
toda a Arte e toda a Belleza dum grande e privilegiado actor. 

Os coquelinos, esses são os mesmos da outra vez e o cartaz 
affirma serem os da Porte de Saint-Martin. . . 

Pois é caso — se assim é — p'ra dar os parabéns á plateia de Saint 
Martin. . . agora que elles estão a massacrar a plateia do D. Amé- 
lia. 

Simplesmente, com elles, está a gente já a ver o Cyrano de 
Bergerac: é caso, também, p'ra parabéns ao aquelle do Porto que 
já uma vez chamou pateta ao Rostand — porque elles vão desacre- 
ditar o Poeta. Ao publico, que não vae de borla, é caso pVa 
pêsames. . . e pêsames sinceros, sentidos, pêsames de luto pesado. 

Por menos de dois mil réis arranjam-se em bom estado, em la- 
grimas de lavar e durar, garantidas e de primeira escolha, uns 
crepesinhos de viuva e S. Luiz não íai por menos a reputação das 
suas celebridades. 



XXXVI 



20 NOVEMBRO. 



eyrano de Bergerac, ÍZ\7ATsT.:i 

Theatro D. flmelia, 2.» recita da Tournée Coquelin. 



Dês do Hugues Rebell, o sardounista, 
que, sem mais aquellas, lhe chama 
absurda, té aos chauvinicos idolatras 
de Rostand que a põem nos carrapitos 
celestiaes das coisas divinas, o Cyrano 
de Bergerac é, a contar das sarrafus- 
cas românticas das innovações hugues- 
cas, a peça mais discutida e celebrada, 
de mais copiosa annotação e mais ri- 
bombante successo da dramaturgia fran- 
cesa. 

Nem tanto ao mar, nem tanto á 
terra, nem tão grandiosa que valha uma 
litteratura, nem tão surrelfa que con- 
fundir se possa com as obras primas 
dos nossos dramaturgos, o Cyrano é a 
obra fugaz e brilhante, toda espuma e 
toda renda, dum parnasiano, que, nas facetas insadas da forma, 
na plasticidade maviosa do r)'thmo, no bimbalhar sonoro das 
imagens, nos hypnotisa e nos encanta, nos delicia e nos embala, 
levando-nos, num sonho de irreflexão, pelas nuvens vaporosas 
do artificio e do convencionalismo, ao alheamento da Natureza, 
ao esquecimento do Real e da Verdade. 

Não é uma peça que falle ao cérebro : é um poema que nos 
afaga os ouvidos. Não tem idéas, tem musica. Como Arte, appro- 




ROSTAND 

Caricatura de Abeillé 



174 Impressões de Theatro — Cyrano 

xima-se mais das maravilhas da pyrothechnia, quç, illuminando o 
horisonte em fogachos multicores, recreiam e entupera a multi- 
dão, de que dos mármores solemnes da Renascença, que subju- 
gando na grandesa fria das suas linhas a nossa intelligencia, cur- 
vam, em admiração, a alma dos artistas. Brilha, fulge, scintila, 
mas não commove, não emociona, não convence. 

Pôde ser uma obra prima de theatro, dês que o theatro seja^ 
apenas, um bazar de illusões, de chimera, de convencionalismo e, 
ficção : no theatro, templo erguido pela Arte á reproducção da Na- 
tureza, pelo talento ás syntheSes da Verdade, pela intelligencia á 
analyse das paixões, pelo sentimento ás misérias da Humanidade, 
o Cyrano é um meteoro que perpassa, rápido e rubro, sem dei- 
xar um vestigio e dando um clarão ephemero ao perder-se no- 
Nada. 

Max Nordau — meu compadre e senhor — compara o effeito 
scenico do Cyrano visto numa sala de espectáculos ao aspecto 
panorâmico da Exposição de 1900 visto da plataforma da Torre 
Eiffel : imponência, fausto, grandiosidade, mármores, alabastros, 
oiros, pedrarias. Mas, desce a gente da Torre, ou livra-se da ma- 
gia do verso, e, a frio, ás turras com a sua intelligencia em frente 
do livro, ou entre a multidão em frente dos palácios do Campo 
de Marte, e o mármore é estuque, o alabastro cartão, simples ba- 
guette o oiro fino, miseros vidros pintados, toda a asiática pedra- 
ria — em vez de imponência, rethorica; em vez de fausto, redun- 
dâncias ; em vez de grandiosidade, carpinteria. 

Do Cyrano peça, se pode dizer tudo o que de bem, a quando 
da outra tournée^ aqui se disse do Coquelin actor, como a Coque- 
lin actor, se applica tudo o que de mal se pode escabichar em 
Cyrano peça, porque identificado o interprete e o dramaturgo, o 
personagem e o seu creador, Cyrano é Coquelin e Coquehn é 
Cyrano. 

Num, a magia do verso, noutro, a magia da voz ; num, a frou- 
xidão da idéa, noutro, a frouxidão da escola. Em Cyrano, o casca- 
lhar das imagens e das rimas; em Coquelin, o cascalhar da mo- 
cidade e da alegria : imagens e rimas vasias e ocas, mocidade e 
alegria artificiaes e postiças. Em ambos, o mesmo brilho da forma, 
o mesmo scintilar da exteriorisação : em ambos, o mesmo des- 
curo da verdade, o mesmo entrain e o mesmo fogo da mistifica- 
ção. 

Na peça, não ha uma idéa natural e humana, grande e eterna. 



Impressões de Theatro — Cyrano 



175 



a cimentar-lhe o arcaboiço ; no comediante, não ha um detalhe, 
vivido e observado, real e verdadeiro, a humanisar-lho o processo. 
A gente admira o poema e o actor, mas o poema não nos faz 
pensar e o actor não nos faz sentir — vibram os sentidos e emu- 
dece o cérebro. 

Certo, ha mais Arte no Cyrano^ do que em todo o reportório 
do Theatro Livre, como ha mais theatro na carcassa engelhada 

do GoqueUn, que nos hombros largos 
do Antoine ou nas almas de fogo dos 
artistas italianos. 

Mas, em qualquer pecita do Thea- 
tro Livre, ha mais vida, mais verda- 
de, mais humanidade do que no poe- 
ma de Rostand, como, nos hombros 
largos de Antoine e nas almas de 
fogo dos da Itália, ha maior esforço^ 
mais estudo, mais observação do que 
na carcassa engelhada do Coquelin. 
Mas como o theatro em Coquelin 
é o convencionalismo e o theatro em 
Antoine é a Verdade, o poema de 
Rostand ha de passar e morrer e o 
reportório do Theatro Livre ha de 
florir e dar fructo. 

A Verdade é immortal e a con- 
venção depende dos figurinos, mas 
emquanto os figurinos forem servi- 
dos pelos prodigiosos recursos da la- 
n-nge orchestral de Coquelin, o trium- 
pho momentâneo, incontestável e rui- 
doso, pertencer-lhes-ha, mesmo dean- 
te duma plateia, como a do D. Amélia, 
que se escagarrinhou hontem ante o Bombignac e hoje applau- 
diu a medo e por cerimonia o Cyrano^ e, té quando, como no 
D. Amélia, a replica seja dada ao grande mestre por moços de 
fretes de Marselha deguisados em Cadetes da Gasconha, por 
m' as-tu-vus^ estafados e desengonçados, que mais parecem bone- 
cos do que actores. 

Mas, verdade verdade, Coquelin nem os deixa ver nem ouvir : 
por si só, enche o palco e as algibeiras do S. Luiz. . 




CoQUEUN no Cyrano 
Caricatura de Zim 



XXXVII 



27 NOVEMBRO. 



ThPrmlHnr ^^^^^ ^^ ^ ^'^^^^ ^^ Victorien Sardou, 
I llGl IIIIUUI , 3.» recita da TovRtiÉE Coquelin. 



Depois da noite do Cyrano. por mais que Coquelin se demo- 
rasse nos dominios de S. Luiz e por mais que variasse e pintal- 
gasse o seu cartaz, todos os espectáculos se resentiriam desse 
successo inegualavel entre todos os successos, que, os seus recur- 
sos vocaes, a sua declamação typica e o seu convencionalismo 
scenico, ainda podem permittir ás reliquias venerandas do seu 
passado, ás ruinas gloriosas da sua gloriosa e. veneranda indivi- 
dualidade artistica. 

Mas saltar assim, abruptamente, duma noite p'r'á outra, do 
Tago e indefinido sonho, todo delicadesa e preciosíssimo de Arte, 
de Rostand p'r'ós pesadellos sarrabulhentos e indigestos da car- 
pinteria de Sardou, a esvurmar brutalis- 
mos de melodrama e tiradas de dentistas 
políticos, é realmente mangar com a tro- 
pa e fiar-se demasiado, na aura de reac- 
cionarismo que doira a pillula do Ther- 
midoKy ante uma plateia de burguezes a 
que 93 ainda faz arrepios, e que, indo ver 
o Coquelin, tanto se lhes dá que elle faça 
arte como debite fancarias, porque o im- 
portante e essencial é ir, em exposição de 
pecuária, arejar as casacas e amarrotar 
os peitilhos, nos contactos finos, da gran- 
de roda e do bom tom. 

P'r'ó grosso desse publico, a peça de 




Caricatura de 
Raphael Bordallo Pinheiro 



Impressões de Theatro — TTiermidor 



maior successo foi o 'Bombignac por mais accessivel, na sua char- 
ra insignificância, á charra incultura das suas mioleiras : o Cyra- 
no^ admiram-n'o, sob palavra de honra, p'ra se darem ares de en- 
tendidos e de quem bebe do fino; o Thermidor — lembrando-lhes, 
o Príncipe Real, o Álvaro, o Posser, a Amélia Vieira, as ceboladas 
sangrentas que puxam a lagrima e faliam á fibra, que dão cala- 
frios e fazem indigestões — encheu-lhes as medidas, porque Co- 
quelin, em Laboussiére, tem um papel kilometrico e o que mais 
admira e boquiabre essa gentinha, é ouvi-lo fallar francez, tão 
depressa e sem syllabadas 

P'r'á minoria, porém, dos que sabem ver e tentam admirar em 
Coquelin toda a evolução romântica da Arte de declamar e estar 
em scena, tal qual os francezes a comprehenderam e Coquelin, 
como nenhum, a executa e faz rebrilhar, o cartaz do Thermidor 
foi mais que de uma decepção — foi uma facada. 

Tirem ao Thermidor o escândalo politico dos seus intuitos de 
difFamação a Robespierre, o Incorruptível, tirem-lhe o travo de- 
primente da apostasia dum francez aos princípios da Revolução 
que sagram a França, e deixem-no, inoffensivo, sem o reclamo 
do Clemenceau, que ao combate-lo na phrase celebre «a Revolu- 
ção é um bloco em que nada se desperdiça e em que, em bloco^ se 
pega ou se larga» lançou o programma do radicalismo ; deixem- 
no, sem o prestigio da interpretação coquelinica, e, o Thermidor 
barulhento e desequilibrado, na friesa dos seus trucs e na extra- 
vagância dos seus cordelinhos, é, de todas as phantasticas aber- 
rações architectonicas de Sardou, a menos theatral e a mais in- 
consistente. 

Sardou, quando se mette a fazer historia p'r'ó theatro, falseia 
a historia e raro consegue fazer theatro — faz quadros vivos, mo- 
vimentados, vistosos, que se succedem uns aos outros, destram- 
belhados e asymetricos, pittorescos, ás vezes, como os da Sans 
Gene, falsos, quasi sempre, como estes do Tliermidor e, ainda ou- 
tro dia, os do 'Dante, que, nem o talento primacial de Yrving pôde 
salvar duma morte rápida e ignominiosa. 

No Thermidor, Sardou quiz arripiar-nos a carne com o espe- 
ctro das carnificinas do Prairial e, p'ra isso, manobrou todas as 
mollas e rodízios da sua machinaria : Coquelin dramatisando, numa 
narrativa infindável, as execuções da guilhotina, as lavadeiras do 
Senna uivando demagogias, a ridicularia da Jacobinagem, a cha- 
mada dos condemnados no pateo da Conciergerie, a ultima car- 



1 78 Impressões de Theatro — Thermidor 



roçada de clientes da Samson e um ballazio, no ultimo acto, pVa 
acabar com o heroe e fechar a acção. 

PVa cerzir toda a mixorofada de farraparia revolucionaria e 
remendar, com lambuges de verdade histórica, uma peça de thea- 
tro, Sardou enquadra nessa moldura, que esmaga todo o quadro^ 
a tela banal e romântica, dos amores idylicos de Fabiana Lecoul- 
teux e de Martial Hugon — uma noviça salva, por um official que 
a ama, das unhas revolucionarias das lavadeiras que querem mer- 
gulha-la no Senna e que, protegida pelo amante e por um amigo, 
archivista dos dossiers dos suspeitos, é filada, catrafilada e sobe 
na ultima carreta, ao cadafalso por lhe repugnar o estratagema 
salvador de se confessar prenha. 

Ha, pois, de tudo e p'ra todos os paladares na vasta e compli- 
cada engrenagem em que Sardou entala, esmaga, tritura, esfar- 
rapa e esphacela o mais extraordinário e grandioso quadro que po- 
deria oíferecer-se á documentação rigorosa, ao estudo profundo 
e ao génio creador dum artista que fosse, ao mesmo tempo, um 
sábio e um poeta, um revolucionário e um philosopho, um grnn- 
de dramaturgo e um grande pensador. Mas, como Sardou é, ape- 
nas, um mestre d'obras, com arrojos de audácia no architectonico 
dos seus madeiramentos theatraes, alicerçando, no chão movedi- 
ço e revolto de gS, as traves duma 
grande peça, os cabos partiram- 
se-lhe, as roldanas desprenderam- 
se-lhe, os andaimes desequilibra- 
ram-se-lhe e, entre nuvens de ca- 
liça politica, que os seus intuitos 
de escândalo erguera, Sardou mar- 
cou, apenas, na sua bagagem lit- 
teraria, um formidável fiasco e 
um ruidoso trambulhão. 

Ligado, pensado, algebrisado, 
com cicatrizes e postiços, marre- 
co e estropeado, o Thermidor de 
1891 sahiu do hospital em 1896 e, 
invalido e trôpego, nas muletas 
do desempenho coquelinico, anda, 
agora, a tomar ares pela Europa, 
. . numa viagem de cura que, sendo 

COQUELIN AiNE ^,. , . . 

Caricatura de Caran d'Ache p'ra Goquehn uma tournée artisti- 




Impressões de Theatrq — Thermidor 179 

ca, é p'ra o Thermidor uma peregrinação de moribundo, porque, 
no descosido tétrico da sua contextura, na infame e torpe inten- 
cionalidade da sua propaganda reaccionária, o Thermidor é um 
canastrão estúpido e perverso — estúpido, porque é infantilmente 
falso como reconstituição histórica duma época e perverso, por- 
que é ignobilmente destinado a cobrir de lama a pagina mais ra- 
diosa da França, a que a eternisa na gratidão da Humanidade e a 
que a sagra como cérebro do Mundo e do Pensamento. 

Sardou fracassou como dramaturgo e deshonrou-se como 
francez no Thermidor. 

Coquelin, como actor e como francez nunca, e em caso al- 
gum, deveria ter-lhe prestado o concurso da sua interpretação. 

Coquelin fallou-nos da outra vez no honneur des comediens e, 
a sua honra de artista mail-o seu brio de velho republicano obri- 
gam-no a riscar do seu reportório a ignominia politica e theatral do 
Thertyiidor. 

Melhores francezes são os subalternos que lhe dão a replica : 
esses, ao menos, fizeram todo o possivel p'r'á enterrar de caixão 
á cova. 

Alguma vez eu havia de agradecer a S. Luiz Braga o con- 
tractar, por economia, péssimos actores. 



XXXVIII 



3o NOVEMBRO. 



Meu rapat^: — Liquidada com largos proventos p'ra S. Luiz de 
Braga a mystificação das quatro noites de Coquelin — a chupar- 
nos dois mil réis por cabeça e por noite, com um cartaz em que 
o Cyrano de Bergerac duas vezes ensandwichou a borracheira 
cómica do Depute de Bombignac e a infâmia canastral do Ther- 
midor e com um elenco de camellos e mastodontes a darem-lhe 
a replica, estropiando Rostand e justiçando Sardou, — volta agora 
a Lisboa, p'ra um palco condigno da sua individualidade, a grande 
e primacial artista Itália Vitaliani, que, no Porto, honrou, com o 
seu talento, por entre ovações e flores, a imparcial equidade dos 
meus elogios, e que, a Lisboa volta, a tirar a desforra, em D. Ma- 
ria, aos preços da casa, da indifferença publica e da intriga sel- 
vagem, que marcaram a sua passagem meteórica pelo palco meia- 
tijella e pé-fresco do theatro da Trindade. 

De Coquelin, que se foi, não vale accentuar o que da outra 
vez aqui, e agora, lá cima, todas as noites, eu apontei como ca- 
racterísticas do seu temperamento, determinantes da sua reputa- 
ção, falhas da sua escola e postiço dos seus processos. 

Como não vale, também, revigorar o protesto pela escolha do 
reportório que, artisticamente, preferível seria, ter-se cifrado ao 
Cyrano, e pela surrelfajem mendicante dos estafermos que lhe 
uivavam as deixas, que melhor fora nunca houvessem emigrado 
das Docas de Marselha, em que faziam fretes, p'r'á ribalta do D- 
Amélia, em que não conseguiram fazer coisa que se visse. 

Accentuação de príncipios, trescalaria a estopada e o renova- 
mento de protestos, a rixa velha e a ingénuo parvoismo. Ora, nem 
a ribsa velha eu dou coito, porque, demais sei e justifico que S. 
Luiz Braga trate da sua vida, agenceie os seus negócios e se go- 



Impressões de The atro — Vitaliani em T>. Alaria i8i 

verne, rentando-se pVá Arte, como bom emprezario que é, e pés- 
simo artista, que nunca tentou ser, e ingénuo parvoismo seria — 
dada a insânia do publico que lhe abarrota as algibeiras e lhe 
morde em todas as iscas — o esperar que elle se arruine p'ra me 
comprazer com tournées artisticas como a de Antoine — com re- 
portório perfeito e conjuncto harmónico — quando, por doze 
vinténs, a Sadda Yacco lhe garante casões e a menajaria do Co- 
quelin lhe não provoca pateadas. . . 

Cada um governa-se neste mundo de mercantilismo e ganân- 
cia, e S. Luiz Braga tolo seria se, no palco da sua quitanda de 
seccos e molhados, não tratasse de se governar. 

Como critico e em nome da Arte tenho, ás vezes, de assobiar, 
mas, como homem do meu tempo, em nome do Commercio, da In- 
dustria, da Associação Commercial, da dos Lojistas, de todos os 
Atheneus e Sociedades geographicas, fúnebres, parturientes e fa- 
miliares do meu paiz, chego a invejál-o e tenho de o applaudir. 

Do Coquelin que se foi nada te direi. . . 



De Itália Vitaliani que volta, a ti que não sabes de intrigas e de 
cabalas, na pacificação monótona das tuas serranias, a ti, que, se 
cá estivesses, não irias em ApoUo ao theatro p'ra te mostrares e 
não faltarias no gallinheiro, como artista, pVa applaudir, nada te 
repetirei também 

Aos ou que me lêem, aos que intrigam, por conveniência ou a 
ração, e aos que na cabala caem por ignorância ou por inércia, a 
esses, aos intrigantes e aos ingénuos, machiavelos das redacções 
a que as borlas grilhetam e sanchos-panças da multidão, que vão 
ao theatro por ver ir os outros, direi, apenas, que o talento e a 
honestidade scenica de Vitaliani são tão grandes, estupendos, in- 
gentes e dominadores, que mesmo que a cabala triumphe e D. Ma- 
ria esteja ás moscas, como ás moscas esteve a Trindade, ella ha 
de triumphar e vencer, porque, sem cabotinismos nem foguetes 
de reclamo, p'r'á sua consciência de artista, pVó seu orgulho de 
comediante, p'r'á sua vaidade de mulher intelligente, não ha 
triumpho que mais valha, victoria que mais sorria, do que a ad- 
miração consciente, o enthusiasmo reflectido, o respeito funda- 
mentado, dos que sabem ver, dos que sabem emocionar-se e dos 
que sabem sentir todas as manifestações austeras e vibrantes da 
Arte de representar. 



i82 Impressões de Theatro — Vitaliani em D. Maria 



E esse respeito, essa admiração, esse enthusiasmo, soube ella 
arrancar num crescendum de gloria e de assombro, em prodígios 
de talento dramático e probidade scenica, aos raros que a viram 
na Trindade, e, tendo os conquistado, vem agora sellar os seus 
direitos de conquista e de posse, em Rainha e Senhora duma 
Arte que o seu valor insigne enobrece e ante uma plateia a que, a 
imponência do seu temperamento, avassala e subjuga. 

Que essa plateia se reduza a poucas mancheias de esthetas e 
intellectivos, ou que, á cunha, em flamancias de rendas e pedra- 
rias, smokings e peitilhos, grandes nomes do Armoriai, pitto- 
rescas alcunhas dos Salões se acotovelem e, de frisa p'ra frisa, de 
camarote p'ra camarote, o calão aristocrático sussurre em plebeís- 
mos crus das vielas e do Sporting, o successo de Itália Vitaliani 
ha de estrugir e inflammar-se, com igual intensidade e a mesma 
justiça, embora, no primeiro ca- 
so, nos corredores se cruzem 
ideias e theorias e no segundo, os 
echos repercutam, apenas, os úl- 
timos diálogos do Direito Divi- 
no em Gascaes : Pire-se que lhe 
racho a pinha c'uma porrada 
da raquette — Carago ! Intão 
comié? . . . 

Dado o normalismo tradicio- 
nal da casa, a consagração da 
privilegiada e estupenda indivi- 
dualidade theatralde Vitaliani ha 
de produzir-se e consolidar-se ou 
em oscarmayrdelísmos de critica, 
se collaborar a Academia, ou, em 
gilvicentadas de faca na liga, se o 
grande mundo nas ovações se 
imiscuir. Divinal sacerdotisa de 
Thalma^ lhe chamará Sousa 
Monteiro; gaja culadera e duma 
canna, ciciarão os leões e as 
leoas da nobreza do Reino. 

Num caso ou noutro, a ar- 
raia miúda, reverente e de joe- ^ r. 

' O Direito Divino 

lhos, reserva -se o orgulho de instantâneo do Diário de Noticias 




Impressões de Theatro — O busto do Ennes 



i83 



lhe ter chamado irmã gémea da Diise, filha dilecta de Ema- 
nuel. E os da cabala, em surdina, poderão morder-se, espumar, en- 
raivecer e atirar coices á lua ou á Associação de Jornalistas 
de Ligura: com publico ou sem elle, com casas cheias ou ás mos- 
cas, Itália Vitaliani vae triumphar. . . Prophetisei-lhe, á sabida, um 
successo no Porto e garanto-lhe, no regresso, a revanche da Trin- 
dade em D, Maria. 

A não ser, é claro, que não haja publico em Lisboa, nem no 
faubourg^ nem na Academia, nem na rua dos Fanqueiros, com 
olhos de ver, ouvidos de ouvir, cérebros de pensar e peitos de 
sentir o valor real e verdadeiro, simples e expontâneo, arrebata- 
dor e sereno, duma grande alma de artista, duma maravilhosa 
organização de comediante, que, na maturidade do seu talento, no 
vigor dos seus recursos, na força dos seus processos, sem cordeli- 
nhos nem busca-pés, na máxima probidade da sua maneira e naine- 
gualavel correcção do seu personalismo, se atreve a vir duas vezes 

a defrontar os alfacinhas sem o 
brevet do boulevarde sem o «po- 
':^\ de correr» de S. Luiz de Braga. 

A não ser. . . 

Mas basta. . . que se eu juro 
pelo mérito de Vitaliani, tenho 
fundas apprehensões sobre as 
estrumeiras craneanas dos meus 
concidadãos ! 



E já'gora, outro assumpto: 
Corre a secção theatral das 
gazetas o intrincado problema 
de averiguar os profundos e 
nebulosos dictames, os intrin- 
cados e mysteriosos raciocinios 
que agiram sobre as perigrinas 
cerebrisações da Instrucção Pu- 
blica, Commissariado régio, so- 
cietários e mais partes, que, no 
caso teem intervenção legal ou 
indirecta, p'ra prantarem, entre 
Garrett e Emilia das Neves, ou 





António Ennes 
Carícatara de Raphael Bordallo Pinheiro 



i84 



Impressões de Theatro — O busto do Ennes 



foyer do Normal, um busto do antigo jornalista António En- 
nes. 

Como pVás charadas e logogriphos a premio, chovem al- 
vitres e soluções : uns, defendendo o mármore, calumniam o 
defunto de dramaturgo — como se não estivesse averiguado, p'ra 
honra sua, que os Lazaristas e o Saltimbanco são os primitivos 
rascunhos das portarias e decretos com que Ennes tentou orga- 
nisar a administração de Moçambique ; outros, atacando o busto, 
— allegam ter elle afogado em papel sellado e mangas d'alpaca o 
theatro nacional — como se restassem duvidas de que, a reforma 
do Normal tivesse obedecido a outro principio do que o de sup- 
pnr a lacuna lexicographica dos diccionaristas luso-francezes, 
que, ao vocábulo Pimentel, se haviam esquecido de dar o equiva- 
lente : Claretie em coiro. 

E, embrulhando a questão, esgi imindo 
argumentos, ferindo personalidades, es- 
panejando raivinhas occultas e pondo ao 
sol bolorentas larachas, em que, vaida- 
des de appelidos, reclamam o prazer de 
se verem estatuadas nos bustos dos as- 
cendentes, eu ainda não vi, que duma 
parte ou doutra, sahisse uma palavra 
do bom-senso e de justiça, pondo a ques- 
tão nos seus termos, chamando ás coi- 
siiS pelo seu nome de baptismo, sem vio- 
lências nem rapapés, mas com a indepen- 
dência e o jogo franco de quem não aspira 
a asylar parentes ou a e>tatuar compadres. 
A quando da morte de António En- 
nes, no lacrimejar sentimental com que 
é de uso chorar as perdas nacionaes, toda 
a imprensa, thuriferando o morto, lou- 
vou a iniciativa amistosa de Posser, que 
aos repòrters annunciava, em comnovi- 
das palavras de saudade, ter mandado 
modelar o busto do Pombal de D. Maria, 
p'ra com elle ornamentar — em compita 
com os cordões geographicos dos porteiros — os humbraes do 
Edifício normalista. 

Se Posser, ao voltar do cemitério, tivesse no bolso, acabadi- 




JuLES Claretie 
Carie, de Leal da Camará 



Impressões de Theatro — O busto do Ennes 



i85 



nho e prompto, o busto de António Ennes e fosse, pressuroso e 
triste, collocal-o na peanha que hoje lhe disputam e ridiculari- 
sam ; se, á falta de peanha, tivesse até apeado o Garrett ou Emí- 
lia das Neves, toda a imprensa, escagarrinhando-se em admirações 
e respeitos por tanta gratidão pessoal e tanta celeridade de apo- 
theose, teria applaudido frenética e pregado ao caixão do morto, 
com a gosma da inconsciência, mais ramalhudas adjectivações, 
mais hiperbólicas louvaminhas. . . 

Todos os homens públicos são puros, grandes e impeccaveis, 
nos três dias consecutivos ao espichar p'ró outro mundo, e, no 
dia do enterro, não ha cretino que 
não arme em génio, larapio que 
não envergue a toga de Catão, 
loiros de César, que não enfes- 
toem caveiras de João Fernan- 
des, malandro que não emban- 
deire em martyr e,se Posser tives- 
se aproveitado a aragem, o már- 
more do Ennes, desentrapado e 
ufano, seria, hoje, no foyer de D. 
Maria, uma instituição e uma glo- 
ria nacional : á uma, porque com 
a terra da sepultura ainda revolta, 
nem as hyenas lhe abocanhariam 
as mazellas, á outra, porque o 
Posser era gerente, ainda accei- 
tava e rejeitava peças, e, uma vez 
lá posto o mamarracho, o habito 
de o ver faria esquecer a insânia 
de lá o ter collocado — a nada o 
bruto se moveria, estava lá, não 
era de gesso, mas era de pedra 
lioz. . . o que é peor. 

Les inorts vont vite, os gerentes 
mudam e Posser, na respeitável constância da sua amizade, es- 
queceu que os fumos do necrológio se haviam dissipado, que o 
esqueleto do Ennes retomara já a sua configuração mediocre de 
dramaturgo sem dramas, estadista sem planos, reformador sem 
reformas, obreiro sem obras, pensador sem pensamentos, jorna- 
lista sem campanhas; que o sentimentalismo piegas que teria 




Carlos Posser 
Caricatura de F. Teixeira 



i86 Impressões de Theatro — O busto do Ennes 

collaborado na glorificação, no dia do enterro, se transformara 
no irrespeito trocista que ora o chasqueia. 

Mas, audacioso e tenaz, com um fervor que o nobilita como 
amigo e que o engrandece como caracter — nestes tempos egoís- 
tas e volúveis, em que a amizade se esquece e a gratidão se 
esconde — Posser fez a entrega do Ennes marmorisado aos socie- 
tários de D. Maria, coUocou-o no logar que aos seus olhos pare- 
ceu mais ornamental e symetrico e, em carta que veiu na im- 
prensa, alvitrou se inaugurasse e desentrapasse o busto em noite 
de festa ao homem^ a que depois de sua ex." o sr. conselheiro José 
Luciano de Castro, o Theatro Normal mais devia. 

A carta, aqui e alli, mereceu reparos e os cornitos da troça 
começaram de arrebitar-se nas folhas de couve da imprensa que 
antes louvara a ideia, mas a carta, devidamente estampilhada, se- 
guiu o seu destino e a ideia modelada em busto, embrulhada 
num farrapo de damasco carmezim, lá ficou á espera da serenata 
inaugural ou da ordem de despejo. . . 

Lá ficou e lá está. . . 

A imprensa cata-vento está demonstrado que mudou de opi- 
nião sobre a individualidade politica e litteraria do Ennes, cho- 
rado como perda nacional durante três dias, discutido e contes- 
tado agora, que Posser, — persistindo em consideral-o, como a 
imprensa então o considerou, — quer perpeuiar-lhe a memoria num 
mármore de pães incógnitos. 

A justiça pode estar hoje ao lado das gazetas, mas a lógica 
está hoje, embora não estivesse hontem, da banda do antigo ge- 
rente de D. Maria. 

A lógica, a constância dos seus affectos e a coragem das suas 
opiniões. 

As instancias superiores, que, dada a propriedade do edifício 
pertencer ao Estado, tem de intervir e ultimar a contenda, não 
tendo a responsabilidade da imprensa, porque, embora não con- 
trariassem, não applaudiram, primitivamente, a homenagem de 
Posser, não teem, comtudo, nem a coragem, nem a lógica do 
amigo do estatuado, nem a justiça aos seus recem-adversarios. 
Mudas e quedas, qual penedo, não tugem nem mugem, e, á espera 
do parar das modas, deixam andar a correr o marfim. 

Ora esta attitude commoda de Lagartixa tem só o inconve- 
niente de descontentar Posser e com elle a esthetica que recla- 
mam contra o trapinho e o de irritar a imprensa que quer lá o 



Impressões de Theatro — O busto do Ennes 



187 



busto dos parentes e a justiça que não quer busto nenhum e que 
se opõem, imprensa e justiça, á confraternização do Ennes com 
o Garrett e a Emilia das Neves, ali num edifício do Estado e nas 
bochechas do publico... que 
ao Ennes conheceu de ginjeira. 

O Estado-Lagartixa tem de 
resolver; a imprensa tem de se 
callar seja qual fôr a resolução, 
e Posser, dentro da lógica e da 
sua carta, se o Estado não re- 
solver e a Imprensa não se cal- 
lar, tem de affirmar, mais uma 
vez, a sua coragem, porque sen- 
do o António Ennes o homem a 
que o theatro mais deve depois 
de sua e.r.» o sr. conselheiro 
José Luciano^ tendo o Ennes 
um busto, em mármore, urge 
que, mesmo em vida do esta- 
dista, Posser mande fundir a 
«statua equestre do José Lu- 
ciano . . . 

Simplesmente, como no 
Joyer de D. Maria, ficando lá o 
Ennes, e havendo o perigo de 
p'ra lá ir o Chagas, o Biester 
€ tuti quanti^ não chegaria o espaço p'r'á montada do chefe rota- 
tivo, p'ra evitar dissabores e discussões futuras, Posser pôde tal- 
vez offerecer a nova estatua. . . p'ra reclame da Empresa Vinicola 
da Bairrada^ ultima palavra industrial e politica do progressismo 
rotativo e viticula. 




José Luciano 
Caricatura de Celso Hermínio 



XXXIX 



1.° DEZEMBRO. 



Conde de Monte Ghristo 



drama em i 
prologo e 8 

quadros, extrahido do romance de Dumas por José Antonio Mo- 
niz, Cheatro do Príncipe Real- Distribuição : Edmundo Dantes, Al- 
ves da Silva — Morel, Luciano — Fernando Monde, P. Gosta 

— DouGLART, Sepúlveda — Coderousse, Machado — Abbade Fa- 
ria, Roque — Alberto de Morcey, Eduardo Vieira— Maximiliano 
MoREL, Monteiro — Bertuccio, Chaves — Joauuês, joalheiro, Jay- 
me Silva — Dantes, pae de Edmundo, Chaves — Naixtier, Gentil 

— Gringale, Arthur — Benedicto, Gentil — Manoel, Arthur — 
Director das prisões. Silva — i." carcereiro, Monteiro — Mer- 
cedes, Adelaide Coutinho — Gertrudes, Georgina Vieira — Pam- 
PHiLA, Augusta Guerreiro. 

Uma data e um romance que deram o que tinham a dar — o 
Monte Christo e a Restauração de Portugal ... Ha trint'annos, 
que enthusiasmos e que lagrimas... Hoje, que desafinações nas 
ruas e que sensaboria no palco. . . Tudo passa — os últimos echos- 
de 1640, apagaram se quando esqueceram as derradeiras estro- 
phes do Thomaz Ribeiro e os últimos leitores do oMonte Christo, 
homisiaram-se, sentimentaes e tristes ao despontar na Arcada a lit- 
teratura burocrática do Filho das Hervas. E assim, uma data que,. 
ha trint'annos, evocava luminárias e um romance que, ainda ha 
quinze, provoca''a enthusiasmos, ao saltarem, juntos, n'um cartaz 
do Príncipe Real, trazem nos ao espirito, numa cambulhada, a 
Philarmonica i." de Dezembro, ou, a parodia dum patriotismo e o 
Malheiro Dias — ou, a parodia dum romancista. 



XL 



1.° DEZEMBRO. 



APíJCO Paforna (^^^g<i^)y em 4 actos, de Su- 
V^dOd raiCIMa, dermann, rAea/ro rfe d. yZZa- 
ria, /•■ recita da Tournée Itaua Vitaliani. 



Paraphraseando em versos, 
inéditos e coxos, os versos, man- 
cos e celebres, de Fernandes — o 
vate de artilharia — eu poderia 
dizer apenas : 

Vitaliani l Vitaliani! 
Grandes Magdas são as tuas 
Não repito o que Já disse 
A paginas trinta e duas. ■ . 

dar-lhes as boas noites e ir a re- 
fazer-me, na socega de entre len- 
çoes, da agitação nervosa que me 
espicaça os nervos, da profunda 
emoção que me vibratisa a alma, 
depois da Magda mais estupen- 
da e perfeita, radiosa e divina, 
que os meus olhos teem contem- 
plado á luz da ribalta. 

Mas o repetir não basta : Vitaliani em D. Maria é outra Vita- 
liani — maior, mais absolutamente completa e perfeita do que foi 
na Trindade. 

Sente-se mais á vontade, mais no seu meio mais senhora da 
plateia e — quem sabe? — anima-a o fogo da révanche e da des- 
forra e aquecida por uma plateia em que — p'ra honra da nossa 
terra e do nosso terapo — tudo o que tem um nome e uma intel- 




^^ 



Fernandes Costa 
Caricatura de R. B. Pinheiro 



igo Impressões de Tjíeatro — A Casa Paterna 

ligencia destacava num fundo de anonymos que mostraram ter 
um instincto de arte e de sentimento — Vitaliani excedeu-se a si 
mesma e chegou em chispas de génio, ás alturas inultrapassáveis 
do assombro e do sonho. 

Na Trindade, Vitaliani era irmã gémea da Duse — a oMagda^ em 
D. Maria, mostrou que a Duse é que é irmã gémea da Vitaliani. 

E' uma nuance. se quizerem, mas uma nuance que impõe Vi- 
taliani como a mais complexa e integra, a mais equilibrada e em- 
polgante individualidade artística da raça latina e do universa 
inteiro. 

O conjuncto, comprehendendo a responsabilidade do espectá- 
culo, esforçou-se por não desmanchar e conseguiu-o. Ora não 
desmanchar a harmonia, não deitar borrões de sombra, quando 
Vitaliani esparge ondas de luz, é tudo o que se pôde e deve exigir. 

Sóbrios e correctos, também elles progrediram e se apuraram, 
nestes quinze dias de triumphos portuenses. 

E ainda bem. A vulnerabilidade de Vitaliani era o seu ensem- 
ble. Agora, sem calcanhar d'Achilles, é té bom que a phylarmo- 
nica da intriga continue a zabumbar as suas farândolas de infâ- 
mia. 

A pelle dos burros não se fez p'ra outra cousa e as vozes del- 
les nem chegam ao céu, nem ás orelhas do publico que hontem 
salvou os créditos artísticos de Lisboa, enchendo quasi comple- 
tan»ente o Theatro de D. Maria e ovacionando a grande, divina e 
inultrapassável artista com o fogo peninsular do seu enthusiasmo 
e a justiça independente da sua intelligencia. 

Vitaliani venceu. 

Na noite da sua victoria, incontestável e incontestada, não 
vale responder aos coros derradeiros, fanhosos e aggressivos, dos 
que, vencendo ella, ficaram vencidos. 

As leis da guerra preceituam estas generosidades— inclino-me 
aos dictames da cavallaria, o que não quer dizer, que descalce a 
espora, se houver reincidência dos cavallos. 



XLI 



2 DEZEMBRO. 



TriQPÍÍ drama em 4 actos de Victorien Sardou, Uheatro D, 
I U O U U , lUaria, 2.* recita da Tournée Itália Vitaliani. 



Acabou agora a Tosca. 

Confesso-me exhausto de adjectivos elogiativos. Estou escor- 
rido:— divina, assombrosa, estupenda, maravilhosa, inultrapassável, 
tudo isso está gasto e batido, tudo dito e redito. 

Vitaliani estancava o próprio Hintze se elle se mettesse a to- 
mar a precipua responsabilidade da secção theatral duma folha : 
arrasava o Roquette e todos os diccionaristas com a mesma fa- 
cilidade genial com que soube empolgar 
a plateia intelligente que hontem delirou 
ao admirar-lhe o trabalho colossal da 
Tosca^ feminil e graciosa, no primeiro acto, 
como uma mancha de Watteau, toda ren- 
da e espuma, violenta e trágica, na scena 
com Scarpia, como uma tela de Ribera, 
toda humanidade e fúria. 

Confesso-me exhausto de adjectivos e 
succumbido de emoção, os nervos num 
feixe, o espirito esmagado — não se pode 
viver mais intensamente, não se pode sen- 
tir com mais naturalidade, não se pode 
dar num palco mais funda e real imagem 
da Vida e do soffrimento do, que a que 
Vitaliani insufla á força de talento e de 
arte, a essa Tosca carpinteirai que fez a Corlo Duse 

reputação de Sardou e tem feito a gloria Caricatura de Robcrt 




192 



Impressões de Theatro — A Tosca 



de todas as grandes artistas que todas ellas — das Somenos ás 
Maiores — empallidecem e se amesquinham ante o trabalho pri- 
macial e único da Divina e Maior de Todas. 

O conjuncto harmónico, tendo sido applaudido Cario Duse no 
Scarpia. E applaudido, por uma plateia que sabe ver, que sabe 
comprehender, que sente, que se commove, que se enthusiasma, 
que vibra e que sabe applaudir. 

O publico de D. Maria está a resgatar Lisboa do opprobrio do 
publico da Trindade. 

Falta só que alguém resgate a imprensa da infâmia dos caba- 
listas que se mordem e dos tolos que se callam. Mas todos mere- 
cem perdão, uns, como Magdalenas, por muito amarem ... as 
borlas, outros, como os do Evangelho a quem Christo, Nosso Se- 
nhor, prometteu o reino dos céus. 

Bemdita Vitaliani, que pondo-lhes a calva á mostra. . . ajudou 
a salvar-lhes a alma.. . 



XLII 



."> DEZEMBRO 



7o ^j5 comedia em 5 actos de Pierre Berton & Charles Si- 
^' mon, Theairo D. IDaría, 3.' recita da Tournée Itália 

VlTALIANI. 



Fim da Zafa. Sala cheia. Ovações peninsulares, quentes e de- 
irantes. 

. . . Não ha outro remédio. . . A solução é esta: 

A J' _|.'____^ Precisam-se em bom uso. 
J Preferem-se que exprimam 

admiração, assombro, respeito, devoção pela má- 
xima probidade scenica ao serviço do máximo 
temperamento artistico do nosso tempo. Não se 
exigem referencias de vemaculidade e dispensa- 
se que tenham porta p'r'á escada da Acadamia. 
Novos ou em segunda mão. Trata-se na redacção 
do Mundo, ou, á sahida das recitas de Vitaliani^ 
em D. Maria. 

E, se apparecerem ofFerentes — bric-á-braquistas do vocabulá- 
rio, ferro-velhos da synonimia — com cabazadas de adjectiva- 
ções, eu direi da inexcedivel naturalidade, da surprehendente sen- 
sibelaria, da inultrapassável verdade e da extrema correcção com 
que Vitaliani animou, com o sopro creador do seu génio, com o 
cunho divino do seu personalismo a Za^a — té á data, o seu me- 
lhor e mais completo papel. 

De noite p'ra noite, Vitaliani progride e avança, impeccavel e 
intemerata, na conquista do publico, na lucta titânica cora a sua 
falta de recursos physicos, na expansão integral do seu tempera- 

i3 



194 



Impressões de Theatro — Zaf íz 




Itália Vitaliani 
Caricatur-a de José Leite 



mento artístico, complexo e maleá- 
vel, perfeito e sóbrio, como nenhum 
outro. 

Caminha, numa marcha ascencio- 
na], de triumpho em triumpho, de ma- 
ravilha em maravilha, de perfeição em 
perfeição : hoje maior do que hontem, 
amanhã maior do que hoje, mas, hon- 
tem, hoje e amanhã, sempre maior que 
as maiores, grande entre as grandes, 
máxima entre as máximas. 

Mas, por muito que ella nos tenha 
habituado ao imprevisto do assom- 
bro, ás radiosas surpresas do seu 
génio, o zenith astral do seu reportó- 
rio está, certo, nessa Za^á, actriz e 
mulher, amorosa e infantil, feita, do 
primeiro acto ao ultimo, sem um gri- 
to, sem uma visagem, sem uma 
charge, sem um cordelinho, quasi 
sem um mov imento, sem um esgar e 
sem pyrotechnias, sóbria e simples, 
natural e verdadeira, dominadora e 
imponente, como um mármore se- 
reno da Verdade, como um bronze 
heráldico da Natureza. 

Vitaliani chora, ri, sente, soflfre, 
alegra se eempallidece,crispam-se- 
Ihe os nervos em convulsões de 
pranto, vincam-se-lhe os músculos 
em casquinadas de riso, illumina- 
se-lhe a fronte em hallos de amor, 
arrasam-se-lhe os olhos em eclo- 
sões de lagrimas, realmente verda- 
deiramente, como se o Mundo se 
agitasse, de facto, entre os quatro 
pannos scenographados do proscé- 
nio. Não é simplesmente uma actriz 
que sente e vive os seus papeis : é hintze Ribeiro 

um soberano temperamento de Ar- Caricatura de Celso Hermínio 




Impressões DE Theatro — Za^a igS 

tista que, moldando as chammas do génio, em formulas persona- 
líssimas de Arte, transforma em Realidade o Convencionalismo, 
numa victoria ingente e arrebatadora da Verdade, eterna e una, 
da Natureza sobre a Ficção, variável e ephemera, da theatralidade 

Se apparecerem adjectivos, depois, irá o resto. . . 

Se não apparecerem, como a Za^á se repete, (*) repetirei o 
annuncio ^, á cautella, arranjo uma carta de empenho p'ró Dic- 
cionarío de Synonimos do presidente do Conselho... 

Quando todos os cidadãos portuguezes pedem empregos, não 
é quebra de principios que eu peça. . . adjectivos. 



(•) Repetiu-se, no dia seguinte em 4.* recita da tournée. 



XLIII 



5 DEZEMBRO 



Adriana Lecouvreur. feT:;:, VT/ritt! 

Theatro D. Illaría, 5* recita da Tournée Itália Vitaliani. 



O que foi a Adriana de Legouvé e Scribe, velha, pesada e cheia 
de rugas, em D. Maria, graças ao génio divino da divinissima alma 
de artista que se aninha no corpo franzino e nervoso de Itália 
Vitaliani, não pode, á pressa, ainda no spasmo do assombro, di- 
zer-se nas quatro linhas duma impressão de theatro 

Quem a viu não a esquecerá mais por muito que viva e veja 
e por muito que sinta e se emmova ante as mais bizarras e inten- 
sas creações do génio dramático. 

A delicadesa da recitação da fabula dos dois pombos, a sabida 
do 3.° acto, o monologo da Phedra, no 4.°, e essa morte lancinan- 
te e pávida, que, durante todo o final da peça, nos galvanisa em 
estremeções de pavor, que nos petrifica em extasis de admiração, 
não são rasgos de génio — são ribombos trove jantes da Divindade 
— o infinito do Bello, do Grande e do Maravilhoso. 

Eu hei de, um dia destes, mais a frio e datalhadamente, dizer 
das peças que Vitaliani representou pela primeira vez em D. Ma- 
ria. Mais a frio e detalhadamente, eu tentarei coordenar as mi- 
nhas impressões de momento, analysál-as e dar-lhes a forma gra- 
phica que o enthusiasmo, a vibração dos meus pobres nervos, a 
funda commoção que irradia, em ondas, do jogo scenico da Máxi- 
ma Artista sobre a plateia, me fazem atabalhoar e confundir. Por- 
que não ha crente, cheio de fé e mysticismo, que tenha junto da 
toalha eucharistica mais profundo respeito, mais viva percepção 
da sua pequenez e miséria ante a Divindade, do que eu tenho, 
toda a plateia tem, ao ver cahir o panno sobre o trágico estre- 



Impressões de Theatro — Adriana Lecouvreur 197 

buchar, agonico e afflictivo, de Vitaliani, na morte terrífica e al- 
lucinante da Adriana. 

Não pode, quasi, applaudir-se como num theatro: um impulso 
de justiça, o sentimento innato do respeito por tudo o que, de 
bello e grande, toma as proporções do divino, obriga-nos a refle- 
ctir, a cun'ar, a ajoelhar, como, num templo, ajoelham e se cur- 
vam as pobres almas ingénuas e piedosas dos que crêem e dos 
teem fé. 

Eu disse que o zenith astral de Vitaliani era aZá^á: quem po- 
de dizer onde chega o zenith do infinito ? 

E ella é infinitamente grande, infinitamente bella, infinita- 
mente divina. E' Vitaliani. 



XLIV 



6 DEZEMBRO. 

FPrlnríí drama em 4 actos Je Sardou, Theatro de D- Hla- 
I v> U U I U T j.iç^^ Tournée Itália Vitaliani 

Itália Vitaliani não é só a máxima individualidade artistica do 
nosso tempo e da nossa raça. Na complexidade estonteante do 
seu temperamento, na summa perfectibilidade da sua Arte, na di- 
vina exteriorisação do seu génio, na allucinadora fascinação do 
seu jogo scenico, Itália Vitaliani é o mais estranho e mysterioso 
problema do theatro moderno. 

Todas as artistas privilegiadas — creaturas que o Destino atira 
a este mundo p'ra divinisarem a Humanidade que, a não ser por 
ellas, se não distanciaria da Besta — teem, como os astros, uma or- 
bita planetária em que se movem, dentro de que se agitam e ful- 
gem, leis immutaveis que as regem, que não podem ultrapassar e 
infringir, sem um cataclysmo que, subvertendo mundos, as des- 
pedaça e anniquila. 

Itália Vitaliani — centro planetário duma constellação de ar- 
tistas que, nos observatórios do theatro, se chamam Zacconi,Duse, 
Novelli e Reiter e que illuminam o céu azul de Itália e as trevas 
declamatórias da França e do resto da raça latina — não tem or- 
bita que restrinja o poder irradiante do seu génio, leis physicas, 
immutaveis e eternas, a que se subordine o poder dominador da 
sua arte. 

Porque não ha orbita planetária que abranja, com igual fulgu- 
ração, a Locandiera e a Adriana Lecouvreur^ a Zx^á e a Tosca, 
a Magda e a Maria Stuart, a T)ama das Camélias e a Fedora, 
nem leis physicas que permittam que, na orbita de tantas criações 
e na orbita do mesmo papel, ella seja, de noite p'ra noite, diffe- 
rente e maior. 



Impressões de Theatro — Fedora 199 

Na Fedora^ que ella nos deu na Trindade, Vitaliani foi co- 
lossal e inconfundível : hontem, na mesma Fedora^ em D. Maria, 
ella foi outra Vitaliani ainda mais colossal e inconfundível, tendo, 
tanto na Trindade como em D. Maria, marcado com a garra su- 
prema do génio, duas creações no mesmo papel e ambas perso- 
nalíssimas, ambas maravilhosas — a da Trindade humana, a do 
Normal divina. 

A ovação da plateia correspondeu, no calor do seu enthu- 
siasmo, ao fogo sagrado do génio que animou durante os quatro 
actos de Sardou, a estranha e excelsa Artista. 

Cario Duse foi applaudido no terceiro acto. 

Applausos ao lado de Vitaliani e no Loris Ipanoff da Fedora 
sellam a reputação dum actor. 

O publico foi justo no seu applauso, que a justiça manda tam- 
bém se archive e se registre. 



Hedda Gabler, 



LIA VlTALIANI. 



XLV 



DEZEMBRO 



peça em 4 actos de Ibsen. Uheatro 
D. niaría, 7' recita da Tournée Ita- 



Nunca no theatro se prestou tão justa e tão ruidosa, tão ex- 
pontânea e tão enthusiastica homenagem ao mérito duma artista, 
como a prestada, na despedida de Vitaliani, á mais assombrosa e 
divina artista que tem pisado os palcos do mundo. 

Não se pôde fallar em duas linhas, impressionistas e breves, so- 
bre a Hedda Gabler. Fallar de Ibsen de fugida e tentar analysar a 
correr a interpretação de Vitaliani seria uma profanação. 

De espaço se fará. 

Itália disse : A rivedersi ! . . . 

O publico e a critica, de joelhos ante a Divina e Excelsa Ar- 
tista, só teem uma esperança a mitigar-lhes a saudade: presto. . . 
presto ! .. . 

Na hora solemne da despedida — só uma palavra: Presto! 

.Muito depressa, porque, doutra forma, não se lhe podia di- 
zer. . . adeus. 



XLVI 



8 DEZEMBRO. 

Meu rapa^: — Foi-se Na tensão galvânica dos meus nervo*:, 
no enthusiasmo febril da rainha intelligencia, na mórbida excita- 
ção da minha sensibilidade, estas noites vitaiianicas, em que a 
emoção d'arte mordeu fundo, em lacerações allucinantes de so- 
nho e de sublime, os cérebros que pensam e os peitos que sof- 
frem, dando ao espirito, em refracções luminosas do Bello, a 
divinisação do theatro, dando ao coração, em reconstituições 
geniaes da vida, o passionalismo da humanidade, poderão — se 
ella voltar — repetir-se, mas não podem — venha quem vier — 
egualar-se ou exceder-se. 

Temperamentos artísticos, complexos e completos, Íntegros e 
equilibrados, como os dessa mulher escaveirada e franzina, toda 
cérebro e toda nervos, que, na friesa crua de um olhar, nos dá a 
grandiosidade estupenda da Paixão, que, num enclavinhar tetâ- 
nico dos dedos, nos dá a cruciante immensidade da Dôr, nascem, 
em concretisações supremas do génio latino, na terra bemdita da 
Itália, de longe em longe, de século a século, na imaginação ma- 
cabra do Dante, na revolta ingente de Savanarola, nas polychro- 
mias luxuriantes de Raphael, no heroismo cavalheiroso de Gari- 
baldi... 

Modalidades heterogéneas do mesmo bloco etnographico, 
encarnações diversíssimas do mesmo vitalismo de raça, na poesia 
na arte, na historia do Pensamento e nas litanias da Liberdade, a 
velha alma mater dos Appeninos, depois de illuminar o mundo com 
os tercetos do seu poeta, com os pincéis do seu artista, com o 
raciocínio do seu monge e com a blusa do seu heroe, emociona- 
nos e faz-nos soífrer, dá-nos arripios e faz-nos pensar, com a 
alma de fogo da sua comediante. 



202 



Impressões de Theatro — Itália "Vitaliani 



Itália Vitaliani é a alma latina num corpo de mulher — toda a 
Itália de sonho e miragem, na individualidade duma artista ; o ceu 
azul dos seus horisontes, na proba limpidez dos seus processos ; 
a tranquilidade crystalina dos seus lagos, no sereno dominio 
dos seus recursos; o inebriante perfume dos seus laranjaes, na 
suave sensibilidade que irradia da sua mascara de torturada ; a 
hieraldica imponência dos seus mármores, na grandiosa soberania 
da sua arte ; a lava incandescente dos seus vulcões, no fogo ar- 
rebatador do seu jogo scenico. 

Sena, pois, icarica empreza, temerária e profanadora, analysar, 
scena a scena, detalhe a detalhe, as diíFerentes creações de Vita- 
liani, documentar, em nuanças de interpretação, em cambiantes 
de physionomia e inflexões de voz, toda a Verdade que ella exte • 
riorisa e toda a naturalidade que ella traduz, dentro dos moldes 
estreitos dos seus personagens, nimbando-os com o hallo do seu 
temperamento, de forma a divinisa-los humanisando-os, dando lhes 
Vida em assombros de Arte, tornando-os creaturas em prodígios 
de estatuária. 

De resto, tu, que não 
a viste, por mais que eu 
dissesse, não a phanta- 
siarias, na reconstituição 
áspera da minha prosa 
e os que a viram, não a 
reconheceriam na bar- 
bara mesquinharia do 
meu enthusiasmo — tão 
grande e maravilhosa 
ella se impõe ao admi- 
rativo êxtase dos que 
nunca a esquecerão; tão 
pallido e frouxo é o gra- 
phismo, que,em commen- 
tos de critica, tenta es- 
quissar no papel, os attri- 
butos da Divindade que 
ella, em traços de génio, 
contornou em scena. 

Assim, emquanto Lis- Apfonso XIII 

boa em honra de Aífonso Caricatura de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro 




Impressões de Theatro — Jtalia "Vitaliani 



2o3 



XIII, El-rei Escrófula, carambisando-se, se engrippa e se encharca a 
patinhar na lama das homenagens officiaes— .640 beijocando 
Sagunto — eu vou tentar reviver no remanso tranquilo do meu 
bairro excêntrico, as impressões dominantes desses espectáculos 
únicos em que Vitaliani, feminil e estouvada na Zafá, amante e 
•ciumenta na Adriana^ esphyngica e preversa na Gabler^ marcou, 
com o fogo chisparreante do seu génio, as três figuras mais bel- 
las e estranhas, mais perfeitas e nitidas do seu museu de artista, 
€m que o bronze revoltado da aMagda, o mármore romântico 
<la Stuart, a tella rembramdtica da Fedora e o sombrio baixo 
relevo da Tosca, disputam ao Seves rendilhado da Locandiera e 
á terra-cotta sentimental da Gauthier, a admiração dos que, bus- 
cando no theatro a Verdade atravez da Arte, a Natureza vivifi- 
cada pele génio, na IDama das Camélias^ na Locandiera, na Tos- 
ca, na Fedora, na Maria Stuart, na Magda, na Hedda Gabler 
na Lecouvreur e na Zá^á, interpretadas por Itália Vitaliani, en- 
contram a Mulher viva e real das nossas aspirações, iman da 
nossa vida e ideal dos nossos sonhos, o eterno feminino, no hu- 
manismo enygmatico da sua complexidade, na radiosa e soberba 
€xhuberancia da sua Belleza e da sua 
Magia- 

E de notar é, que, a não ser a õMa- 
gda, perfeita na simplicidade da sua 
technica e mdomita na violência da sua 
revolta, nenhuma das outras peças, co- 
mo obra d' Arte, me satisfaz e, menos 
ainda, se integralisa na idealisação per- 
sonalíssima que eu formo do theatro 
moderno, feito de ideias e de realidade 
de observação e de Arte, com sangue, 
com nervos e com intuitos, dando, em 
radiações serenas da Vida, soluções eter- 
nas de Verdade. 

Na Zifi — quadros pittorescos da 
coulisse, scjnas de interior das caboti- 
nas, com sentimentalismos de coração 
a mascararem pornogrophismos de al- 
couce — a arte consiste, apenas, na me- 
ticulosidade paciente dum homem de Réjane 
theatro, que, em vez de se sentar á mesa Caricatura de Capielio 





Itália Vitaliani 
Caricatura de Francisco Teixeira 



Impressões de Theatro — Jtjlia Vitaliani 



p'ra escrever uma peça, se poz em frente da talagarça dum bas- 
tidor, a bordar, com todos os cambiantes das lãs variegadas dum 
retrozeiro, as nuances e trucs^ as aptidões e visagens da Réjane. 

Não é uma obra de Arte, mas é, na sua fragilidade vistosa de 
urticle-Paris, uma obra prima do boulevard p'ra reclamo e con- 
sagração duma comediante. 

Réjane, que creou — como não podia deixar de ser — a Za^a, 
tem n'ella o seu melhor e mais solido triumpho, a base mais fixa 
e durável da sua reputação. Sendo a Zafa a Réjane, não foi ne- 
cesssario á interprete pedir génio a prestações pVa conseguir 
identificar-se com o seu papel — não fex uma creaçáo, contra-sce- 
nou, apenas, a sua individualidade. 

Mais, do que ella, fez — dentro dos limites dos seus recursos e 
da sua educação — a nossa Angela Pinto, que, num impulso irre- 
flectido do seu bello talento, sem decalques, nem machinações 
frustes de figurinos consagrados, guardando a sua individualida- 
de, calhou dentro duma traducção lusitanissima da Réjane, ange- 
lapintando a Za^^a boulevardeira, n'uma Zaja alfacinha, muito al- 
facinha e muito Angela, embora, certo, nada Réjane, e, talvez, té 
pouco Za^a. 

Itália Vitaliani, porém, á força de Arte e de génio, desperso- 
nalisando o personagem, dando-lhe toda a amplitude duma lumi- 
nosa synthese, não foi, como era licito esperar, uma Za^a-Vha- 
liani — o que bastaria p'ra ser a maior das Zafas — foi a Za^a 
typo, a Za^a modelar, estatua rehabilitadora da mulher de thea- 
tro, na lubricidade felina da provocação, na infantilidade senti- 
mentalica das suas paixões, no desalinho revolto do seu interior, 
no respeito supersticioso pela honestidade burguesa, no sacnfi- 
cio resignado e mudo do seu aíFecto, do seu coração e da sua 
vida. 

Como verdade, dentro duma peça falsa, não se pode ser mais 
verdadeira e humana ; como Artista, não se pode insuflar mais 
Arte e mais naturalidade no cavername anti-esthetico duma obra 
de convenção. Esse ultimo acto, sem um movimento, sem um 
gesto, num frio de dicção, que aquece a plateia, numa paralysa- 
ção de músculos, que movimenta o enthusiasmo de toda a sala, 
é, na arte de representar, a mais extraordinária e completa divi- 
nisação do assombro e da maravilha — as lagrimas borbulham, os 
peitos oppressam-se e as ovações estralejam, num frémito calo- 
roso de admiração e de justiça. 



2o6 Impressões de Theatro — Itália Vitaliani 

Na Adriana Lecouvreur, quasi centenária e trôpega, com as 
rugas senis duma escola de transição entre duas escolas desap- 
parecidas — a tragedia clássica e o drama romântico — com todos 
os achaques e rheumatismos dos cordelinhos de Scribe e do aca- 
demicismo de Legouvé — Vitaliani arrancou o mais incontestado 
dos seus triumphos, o mais ruidoso, o mais generalisado, o mais 
expontâneo e o mais absoluto: porque se ao grosso do publico 
passou o inegualavel primor de dicção da fabula dos pombos no 
1.° acto, — e venham p'ra cá com o patriarchado Coquelinico ! — 
se nem todos se electrisaram na recitação do monologo da Phe- 
dra, o terror pânico, o tremor convulso, a oppressão violenta 
do envenenamento e da morte empolgaram, de tal forma, todas as 
intelligencias e todas as sensibilidades, derrubaram tão rijamente 
todas as más vontades e desmascararam tão completamente todas 
as infâmias, que o publico, galvanisado, suspenso, aterrado, ante 
a immensidade do génio da Máxima artista do nosso tempo, rom- 
peu na mais fremente ovação que tenho visto em theatro e, té 
os miseros podengos que, acorrentados á gamella, lhe uivavam 
aos calcanhares, ganiram, mordendo a lingua e mettendo o rabo 
entre pernas, despresiveis encómios, que ninguém lhes encommen- 
dou e os donos, fulos, á certa, lhes não pagam. 

Não ha peças velhas, escolas caidas, personagens absurdos, 
technicas enferrujadas, quando o génio duma grande artista as 
aureolisa com a fulgura irradiação do seu temperamento ; a Adriana 
Lecouvreur^ tem perto dum século e pareceu-nos de hoje, a sua 
escola passou e pureceu-nos eterna, o talhe dos seus persona- 
gens sangra de convencionalismo e pareceu-nos palpitar de rea- 
lidade, a sua factura é pueril e pareceu-nos modelar. 

O valor absoluto, inegualavel e divino, de Itália Vitaliani abi- 
tola-se e avalia se com este facto, que a historia das interpreta- 
ções da Adriana, dês da Rachel té á Bartet, authentica e consa- 
gra — p'r'ás trágicas de eleição com grandes recursos de voz e de 
figura, é uma peça de exame, ouve-se, supporta-se, raro se ap- 
plaude e nunca se admira. P'r'á Vitaliani, sem recursos physicos, 
sem estridências de glotte, é uma coroa de gloria, que se applaude 
té ao delirio, que commove té ao espasmo, que emmociona té 
ás lagrimas, que se admira té á adoração. 

* 

E ainda não fallei da Hedda Gabler, que por si só, como peça 
e abstrahindo da interpretação, encheria, de lés a lés, mais dum 



Impressões de Theatro — Ibsen e a nHedda Gablerv 207 



folhetim e dava, sem esforço de maior 
um; grosso in-folio de raciocimos e in- 
ducções. . . 

Apertando, pois, vá de dizer que Mes- 
tre Ibsen, em toda a sua gloria e resonan- 
cia, envolto em symbolo e nevoeiro, não 
tem em mim — e estou a vê-lo arrepel- 
lar-se de mortificação! — um admirador 
incondicional e cego, bebendo sequioso 
as palavras que lhe escorrem dos lábios, 
digerindo, insaciável, todas as theorias 
que o seu cérebro engendra. 

Eu sei que a obra de Ibsen não pode 
desintegrali- 





Ibsex 
Do : Maitre du drame modeme 



sar-se do seu 

conjuncto, 

que todas as 

suas peças se 

completam 

no ataque, 

desgrenhado 

e justiceiro, á 

Iniquidade, á 

Mentira, ao 

Preconceito, 

á torva infâmia do Hontem e do Hoje : 

que todas se solidarisam na evangeli- 

sação prophetica e acratica da Justiça, 

da Verdade, do Bello, á ideal utopia 

do Amanhã. 

Mas, se a sua obra de philosopho 
e de pensador me captiva, se os seus 
intuitos de revolucionário me attra- 
hem, se os seus ataques de demolidor 
me arrastam, os seus processos de dra- 
maturgo deixam-me absorto — o que, 
em theatro, é um perigo — e deixam- 
me frio — o que, em theatro, é o peior 
dos males. 

De todas as suas peças — que, a 



2o8 Impressões de Theatro — Ibsen e a nHedia Gabler» 



tres francos e cincoenta, me teem custado algumas dezenas de 
mil réis e que, a noite por volume, me tem levado, mezes a ler e a 
reler — eu só considero como absolutamente perfeito e theatra- 
vel, p'r'âs plateias latinas, o Inimigo do Povo. 

Não ha publico que não comprehenda, peito que não bata, co- 
ração que não pulse, espirito que não anceie, deante da revolta 
impotente dessa figura shakespeariana de Stokmann, humano e 
•vivo, na suprema aspiração de ideal que o norteia, idealico e 
eterno na lancinante rebelliao que o esmaga. 

Moderno Promotheu amarrado ao Cáucaso do seu tempo e do 
seu meio, Stokmann é o Pensamento agrilhoado á Matéria, a Li- 
berdade a d'ebater-se nos tentaculos da Tyrannia, a Verdade esma- 
gada sob o jugo da Mentira, o Futuro translúcido do Amanhã, na 
lucta com o Passado tenebroso de Hontem : — a synthese eterna da 
Humanidade, no symbolo immortal das Reivindicações. 

Esse, comprehendo-o e admira-o — emove me e agita me, en- 
coraja-me e aquece-me. Como obra do pensamento enobrece, 
como peça de theatro immortalisa : é de todos os tempos e de 
todos os povos, como as tragedias dos gregos e os dramas do co- 
lossal Saxão. 

As outras, não. Mórbidas e nebulosas, mais pathologicas que 
humanas, todas symbolo, bruma, idealisação, atavismos, nevrose, 
theorias estranhas de emancipações, theses abracadabrantes de li- 
bertarismos, phobias e paranoias,legendase pesadellos, não podem, 
p'r'á receptividade inculta dos meridionaes, aprehender-se numa 
leitura sem preparo e, menos ainda, na sala barulhenta dum espe- 
ctáculo. São, indiscutivelmente, as palavras propheticas dum pre- 
cursor que repercutem nos nossos ouvidos, mas a forma áspera 
e apocalypiica porque ellas vibram no nosso cérebro, tolhem que 
a nossa sensibilidade se emova, que o nosso espirito se prenda, 
que o nosso enthusiasmo se aqueça : o fogo igneo do cérebro de 
Ibsen apaga-se no frio algido das suas dramatisações e sopra das 
saus peças, não o calórico benéfico e germinador das palavras do 
philosopho, mas o vento hiperboreano, desolador e triste, dos 
seus fjords scandinavos. 

Estamos, sob o sol meridional do nosso ceu e da nossa bar. 
barie, a niil léguas do gelo polar e da civilisação hyperintellectiva 
dos) meios ibsenianos : os seus personagens são humanos no seu 
Norte, mas não são homens do nosso Sul. Falta lhes, p'ra nos 
interessarem, na espirita idealisação das syntheses que represen- 



Impressões de Theatro — Ibsen e a aHedda Gabler» 209 

tam, um pouco da nossa materialidade e do nosso animalismo e 
sobra-lhes, p'ra nos commoverem, o vago e indefinido sonho que 
os envolve e etherisa. . . 

Após á leitura da Gabler um amigo meu, queridissimo e intel- 
iigente, mais illustrado que os da nossa geração, mas mais penin- 
sular do que qualquer de nós, num commento desabrido fechou o 
livro — Veça dum doido, com doidos e p'ra doidos. Arre I 

Era o sol das nossas charnecas a desforrar-se do nevoeiro dos 
fjords e do gelo dos icebergs., mas, era também, um pouco, o ve- 
lho materialismo de Sancho no protesto do bom senso contra a 
loucura idealista de D. Quixote — a Reahdade contra o Symbolo, 
o manto austero da Verdade contra o veu ligeiro da Phantasia. 

Porque a Hedda Gabler., enygmatica e perturbante, na mórbida 
perversidade dos seus actos e das suas palavras, destaca entre a 
floração bizarra das mulheres do theatro ibsenico, como uma or- 
chidea capitosa e estranha, flor de estufa e de refinamentos, que 
a Botânica não define, na extravagância das suas pétalas e os 
olhos adoram na polychromia dos seus matizes, que a Razão não 
abrange no mysterio dos seus symbolos e a Psychiatria não attinge 
na allucinação das suas paranóias. 

Seria paradoxal — se Prozor o não garantisse como autentico 
— não a ter comprehendido na sua grandiosidade de esphynge o 
próprio espirito illuminado e acuto de Ibsen que, ao envial-a ao 
seu vulgarisador, dizia «ter querido mostrar na Gabler o que pro- 
duz o contacto de dois meios sociaes que não podem enten- 
der-se». 

E, vai d'ahi, guiado pelas palavras do auctor, desata uma pes- 
soa á cata dos dois meios antagónicos que na Gabler se entre- 
chocam e degladiam e, sem os topar, defronta-se, numa agua forte 
sinistra e pavorosa de Goya, com o estudo, carregado e forte, da 
prenhez de uma hysterica, destrambelhada e soturna, que, com 
os seus olhos profundos e claros, a graça dos seus gestos, o en- 
canto da sua voz, o seu ar macerado de soberana incomprehen- 
dida, sendo uma das grandes amorosas de Ibsen, é, na symbolo- 
gia das suas linhas, com a sua alma ardente e fria em que turbi- 
Ihonam a ternura e o ódio, o ciúme, a cólera, a perfidia, a fúria 
das ambições, todas as paixões e todos os estigmas, a mulher fa- 
tal que em si resume e encarna um periodo da historia, a huma- 
nidade inteira, o mundo — uma força da Natureza. 

Pela intencionalidade do personagem é a Gabler.^ de todos os 

14 



210 Impressões de Theatro — Ibsen e a «Hedda Gabler» 

papeis de Vitaliani, o único, verdadeiramente á altura da divin- 
dade do seu génio, da estranha e complexa envergadura do seu 
temperamento artístico. 

Se Ibsen dramaturgo igualasse Ibsen philosopho e se a Hedda 
Gabler fosse theatralmente, entre gambiarras, o que, no infinito 
do pensamento, na imponência do seu symbolismo, nella preten- 
dem prescutar os ibsenistas, e, se, em vez da Hedda theatralmente 
liquidar numa madama a pedir parteira e Bombarda, fórceps e 
banhos frios, fosse a encarnação suprema da Humanidade, na mu- 
Iher-sereia, na mulher-abysmo, ella seria, pela sua realisaçao sce- 
nica, a verdadeira e soberana coroa artística da Artista máxima 
e suprema que é Itália Vitaliani. 

Mas Ibsen, ho.uem de theatro, só em Stokmann attingiu, no 
parallelismo da intencionalidade philosophica com a realisaçao 
dramática, as proporções estupendas de Eschyllo e Shakspeare, 
ossemi-deusesda litteratura e do pensamento humano — na Hedda 
Gabler^ como em Brand, na Nora, em Oswald^ no Pato bravoy 
em Borkmann, no Solness, em Rubech^ no Peer Gynt, em Ros- 
mersholm^ o philosopho ultrapassa e aniquilla o dramaturgo, a 
technica insegura atraiçoa a intelligencia percursora, o symbolo 
esmaga a razão e as syntheses eternas do pensador degringolam, 
á ribalta, em miseros organismos frustes de tarados, que não 
illuminam e não revoltam, que não agitam e não commovem — 
frios na nebulosidade mórbida das suas utopias, inertes na alluci- 
nada agitação das suas aberrações pathologicas. 

Itália Vitaliani, artista duma probidade inegualavel e requin- 
tada, duma intelhgencia lucidissima e culta, com a mais equili- 
brada e maravilhosa força de exteriorisação que, em theatro, tem 
servido o génio duma comediante, criou a Hedda Gabler em 
Itália. 

Ao gelo do norte, desolador e triste, illuminou com o sol tras- 
lucido o creador do ceu italiano; ao nevoeiro symbolista que en- 
volve a psychologia do personagem, deu a radiação prescutante, 
do seu processo naturalista, e, depois de nos ter assombrado com 
a exterioridade passional das suas creações anteriores, maravi- 
Ihou-nos, á despedida, com a dramatisação psychica dum estado 
de alma. . . 

Tinha- nos fallado aos sentidos e na Gabler empolgou-nos as 
intelligencias. Tinha creado typosena Gaí/er espiritualisou idcaes. 

Ibsen, em Vitaliani, humanisa-se e engrandece -se, porque o 



Impressões de Theatro — Ibsen e a aHedda Gabler» 21 x 

génio, que divinisa a artista, torna comprehensivel ophilosopho e 
deifica o precursor. 



P'r'ó triumpho de Vitaliani ser completo e absoluto, p'r'á 
revanche ser total e incontroversa, faltava-lhe apenas o successo 
num papel refinado de esthetica pura e intellectualidade superior: 
era uma grande e incomparável trágica, uma inexcedivel e por- 
tentosa comediante e na Hedda Gabler demonstrou que é, tam- 
bém, e sobre tudo, por excellencia e sem emulações, a mais com- 
pleta e intellectiva das actrizes modernas. 

Como artista, é divina na sua Arte : como mulher, ao fechar 
este folhetim, colho nas gazetas, como flor sacrosanta dos efflu- 
vios de um terníssimo e compassivo coração, este telegramma : 

Braga, 10. — 12 — go3 — «Janeiro» — Torto. 

Vitaliani viu, durante a viagem^ no seu jornal, as tristes con- 
dições em que se encontra o actor portugue^ Gama. Effectuando 
na segunda feira uma recita no Torto^ Vitaliani cederá uma par- 
te da entrada a beneficio d'aquelle artista. — Duse. 

Depois de ter ajoelhado ante a Artista, em nome do pobre 
Gama, roto, miserável, doente, estropeado e faminto, pelos que 
sofFrem e pelos que choram, pelas boccas sem pão e pelos cor- 
pos sem agasalho, eu beijo as mãos caritativas da boníssima Mu- 
lher... (*) 



(•) Este artígo, traduzido em italiano, foi transcripto em La Scena di Prosa 
de Miláo e reproduzido em vários jornaes de Itália. 



XLVIl 



l6 DEZEMBRO 







Em festa, esta noite, o 
Gymnasio. . . 

Festa ruidosa, barulhen- 
ta, gargalhadeante, em que, 
por entre frouxos de riso e 
espasmos de hilariedade, 
uma consagração, justa, uma 
homenagem merecida se 
vincará ao nome de Freitas 
Branco, um modesto e um 
bom, um erudito e um apai- 
xonado, que, no nosso meio 
theatral, onde os vaidosos 
pollulam, os mariolas flores- 
cem, os ignorantes se pen- 
teiam e os indifferentes se 
governam, marca indelevel- 
mente a sua individualidade, 
impõe briosamente a sua obra e destaca honradamente pelo seu 
valor. 

Freitas Branco, que a empreza do Gymnasio vae festejar como 
padroeiro da casa e, ha annos, explora, como filão aurifero do seu 
reportório, em adaptações coceguentas do humorismo allemão, 
conhece, como ninguém e ama como poucos, o theatro na sua 
origem, na sua evolução e nas suas tendências : na obra dos seus 
mestres, no raciocinio dos seus philosophos e na interpretação 
dos seus artistas. 

Modesto, a sua modéstia apaga-se, propositadamente, na mes- 



Freitas Branco 
Caricatura de Julião Machado 



Impressões ue The atro — Freitas 'Branco 2i3 

quinharia de versões que nem por serem sempre limpas e probas, 
correctas e lusitanissiraas, deixam de ser inferiores e despropor- 
cionadas ás suas faculdades de escriptor, á sua orientação de cri- 
tico e á sua originalidade de artista. Num paiz em que todo o fiel 
patarata põe peças e cria dramas — numa desaforada proliferidade 
que tronsforma a dramaturgia em capoeira e metempsychosa a lit- 
teratura em poleiro de galináceos — elle, que é o único que, te- 
chnicamente, saberia fazer theatro, gallo capão da sua modéstia, 
olha indifferente e compassivo o cacarejar dos que se desovam; 
não cria nem pÕe, limitando-se a chocar nos nossos palcos e a em- 
plumar na nossa lingua, as gemas do humorismo teutonico, fa- 
ceto e honesto, esfuseante e simples. 

Bom, a sua bondade revela-se, no cunho característico de to- 
da a sua bagagem litteraria, na tendência irresistivel do seu espi- 
rito p'ra retemperar no riso franco e bonacheirão, na gargalhada 
sonora e mnocente, os nervos hyperexcitados e mórbidos dos 
seus concidadãos, que, no theatro, antes de Freitas Branco, ou, bo- 
cejavam de tédio, na masorrice serumbatica dos gatos pingados 
das comedias que faziam cócegas, ou, brejeiravam de luxuria, no 
pornographismo relles dos alcoviteiros dos vaudevilles que nos 
acenavam com o deboche. 

Erudito, a sua erudição assombra, na segurança do seu crité- 
rio e na justesa do seu conselho, sempre que, em Espirito-Santo- 
de-Orelha da relapsa ignorância nacional, Freitas Branco se dei- 
xa folhear em palestra de theatro, nos intervallos dum espectá- 
culo ou em cavacos de livraria, como uma Encyclopidia Bri- 
tannica aos domicilios, fallante e convincente, com notas intelli- 
gentes sobre uma litteratura, ou emmentas profissionaes sobre 
uma interpretação. 

Com a Sopa económica que, caridoso, elle distribue, em bodo, 
numa conversa de dez minutos, tem-se feito o menu de muitos 
annos dos mais apilarados restaurants da critica jornalistica e dos 
mais afamados tascos da sciencia Académica. 

Apaixonado pelo theatro, a sua paixão manifesta-se neste facto 
comesinho e syntomatico, banal e concludente : sendo pela in- 
telligencia, pela educação, pelas affinidades do seu espirito e pe- 
los laços do seu sangue, um homem destinado aos ócios da bu- 
rocracia ou á inércia do goso dos rendimentos, podendo ser um 
director geral nocivo ou um burguez inútil, um deputado palrante 
ou um gomoso estoiradinho, Freitas Branco é um homem de 



214 Impressões de Theatro — Freitas 'Branco 

theatro, que vive no theatro e p'r'ó theatro, dando-lhe todas as 
horas da sua existência, todos os esforços do seu cérebro, todas 
as aspirações do seu espirito e todos os affectos do seu coração. 

Noite de festa, no Gymnasio, noite de alegria, de gargalhada 
e, sobretudo, noite de consagração e noite de justiça, porque, 
entre o esfusear do riso, rebrilhará a homenagem sincera e ex- 
pontânea, galardoadora e triumphal, ao talento e ao trabalho, á 
erudição e ao caracter dum homem que abriu, com as suas vul- 
garisações humorísticas da farça allemã, uma fonte nova e ras- 
gou novos horisontes ao theatro portuguez a esbarrondar-se, até 
Freitas Branco, na funérea laracha dos nossos semsaborões e no 
aviltante desbragamento dos aphrodisíacos do Boulevard. 

Obra subalterna ?. . . 

Talvez. . . mas obra benéfica e moralisadora, porque o nome 
de Freitas Branco num cartaz não promette só uma noite de ga- 
lhofa — garante um espectáculo p'r'ás nossas filhas, p'r'ás nossas 
irmãs, p'r'ás nossas mulheres, um espectáculo em que a gente ri 
e não cora, em que a gente folga e se desanuvia das tristezas pe- 
sadas da Vida, sem se enrodilhar nas espiraes tortuosas da Pouca 
Vergonha. . . 

Obra subalterna?. . 

Talvez. . . mas que merece estas palavras descosidas e apressa- 
das, sentidas e verdadeiras, da parte de um homem que — quasi 
não conhecendo Freitas Brinco — julga dever-lh'as, em consciên- 
cia, á sua obra e ao seu talento, abrindo um parenthesis de ap- 
plauso á trovoada de apupos e assobios, com que é de curial 
equidade saudar a compacta maioria das illustres celebridades 
nacionaes — museu Grévin de idiotas, certamen pecuário de ma- 
riolões. 



XLVIII 



17 DEZEMBRO. 

Plim í ''^^is^3 <í^ costumes brazileiros em 3 actos e 6 qua- 
Ul 1 1 . jj.Qg^ jg Arthur dAzevedo e Eduardo Garrido. Thea- 
tro da Trindade. Distribuição : O commendador, Soares. — Joa- 
quim, Mattos. — Anacleto, Queiroz. — Barbalho, Colas. — Ca- 
^zuzA, Almeida da Cruz. — Saraiva, Gomes. — Bebiano, Costa. 

— Lopes, Firmino. — Miranda, João Silva. — Gaspar, Soares. — 
Bello, Firmino. — Frederico, muleque, Barreiros. — I.udgero, 
Gabriel Prata. — D. Engbacia, Amélia Barros. — Lainha, Irene 
Esquirós. — Mónica, Medina de Sousa. — Gilda, Theresa Mattor« 

— Eugenie, Estephania. — Genoveva, Emilia Romo. — D. Per- 
petua, Isaura Callado. — Miquelina, Estephania. 



A' moda antiga, como nos velhos romances de cavallaria, es- 
tas linhas deverião ser encimadas pela prolixidade elucidativa des- 
tes dizeres : 

A falta de ubiquidade da critica, ou, de como, nao se sen- 
do Santo António, não se pode estar ao mesmo tempo, no 
Gymnasio, na festa de Freitas Branco; no D. Amélia, na pri- 
meira do "Heroe do Dia», e na Trindade, na primeira do «Rum!» 
e do mais que se disser. 



Mas esgotava-se o corpo 8 elzevir da typographia e a paciência 
do leitor, que calculando não poder o critico estar em tanta parte, 
resolveria, na alta competência de quem se esportulou com os 
dez réis da folha, que deveria o critico ter ido... áquella parte 
onde exactamente o leitor não foi. 



2i6 Impressões de Theatro — 04 s peças da Trindade 

Ora, foi isso que se fez : e como o leitor nunca vae onde deve 
— por teimar em não ir onde o mandam — eu deduzi logicamente 
que, havendo uma nova edição carioca da Capital Federal com 
pachouchadas e maxixes no Pum ! da Trindade, uma peça bati- 
barba no D. Amélia p'ra desacreditar, no Heroe do Dia, o Alpoim, 
e uma festa justiceira e sympathica, em homenagem a Freitas 
Branco, no Gymnasio, a metade batibarba dos meus leitores teria 
ido ao Heroe de S. Luiz e a outra metade reinadia aos bonifrates 
do Taveira, regorgitando o Gymnasio com a gente sensata, que, 
por o ser, não me lê e se está rentando p'ra que eu vá á Trin- 
dade, ao Gymnasio, ao D. Amélia ou me deixe ficar, socegado e 
quente, em minha casa, no conchego dos meus livros e do meu 
chá. 

Fica, pois, addiada p'ra mais logo, como a tourada de galla, q 
fogo de vistas e todas as grandes coisas desta semana de coisas 
solemnes e addiadas, a minha impressão sobre o ultimo expe- 
diente do Beirão p'ra anniquillar a chefia do Alpoim, o Heroe 
do Dia^ que, — nem por fingir que é francez na traducçao do Bra- 
guinha, nem por se passar em Paris, nem mesmo por ter cabido 
ao Christiano o papel de protagonista que, adiposa e alpoinica- 
mente, se a policia permittisse caracterisações pessoaes, estava 
talhado p'r'ó Chaby, — não deixa de ser um episodio transparente da 
intriga progressista, que arredando Beirão do pennacho, porque 
é honesto e querendo chegá-lo ao Alpoim — elles dirão porquê! 
— depois de ter resuscitado o estadulho do Navarro, enche, té 
Ressurreição, o cartaz de S. Luiz 

E addiadas sine die ficam também as duas lerias sobre o Pum ! 
porque, ou a peça é, por um bamburrio do acaso, coisa de geito 
e cae redonda no palco da Trindade, onde o Gato Preto pros- 
pera, a Capital Federal ganha raizes e o Brasileiro Pancracio 
celebra centenários, ou é, — como se está a advinhar pela Ca- 
pital Federal da mesma ganaderia — uma pantafaçuda salgalhada 
de sutaques e grotescos, com pés de dança e gosmas musicaes, e 
Taveira tem nella um Potosi de dinheirama, de successo e de ap- 
plausos a compensá-lo das cchymoses da tournée artística e bene- 
merente da Vitaliani. 

D'onde, a inutilidade da critica que, se diz bem, mata a peça, 
e, se diz mal, a immortalisa. 

Agora, pois, só duas linhas sobre a festa do Gymnasio, que 
sendo em honra e proveito de Freitas Branco com o Bode Ex- 



Impressões de Theatro — Bode expiatório 



217 



piatorio — uma gargalhada em três actos — veiu desmentir o ve- 
lho proloquio de que honra e proveito não cabem num sacco : 
porque, tendo o traductor do Papa Flores^ dos Doidos comjui^o 
e do Bode empochado os proventos de uma casa cheia, lambeu-se 
também, com a merecida honra duma ruidosa ovação ao seu al- 
tissimo mérito de arreglador, á pittoresca facundidade da sua 
veia cómica e á inegualavel vernaculidade do seu diccionario — o 
que é caso raro e virgem na galharda irmandade dos nossos tra- 
ductores que vertem peças com a inconsciência litteraria de 
quem, quando muito e num aperto, poderia verter aguas. 

Do Bode, um hillare disparate — já velho no cartaz (*) — em que o 
imprevisto das situações cocé- 
ga o grotesco dos typos, sem ana- 
valhar demasiado na farça cari- 
catural os limites do Possivel — 
basta dizer que faz rir moços e 
velhos, machos e fêmeas, sem 
evocar, aos homens, extravagân- 
cias de taboinhas, sem suggerir, 
ás madamas, descarrilamentos 
d'alcova. 

A destacar, no desempenho, 
um soberbo typo do Ignacio — 
actor correctíssimo e de futuro 
que, a estagnar na Farça, está a 
formar maravilhas de elastici- 
dade pVó salto da alta comedia 
— e as sabidas habilidades do 
resto da companhia : o esbuga- 
lhar d'olhos do Cardoso, os sogrismos da Barbara e o desejo de 
acertar da peonagem meuda. 




Ignacio 
Caricatura de Carlos Leal 



(•) O BODE EXPIATÓRIO, comedia em 3 actos, adaptada do allemáo por Frei- 
tas Branco, havia sido representada pela i." vez a 4 de dezembro com a seguinte 
distribuição : Bernardo Wusz, Soller. — Guilherme Wlsz, Carlos Leal. — Henriquk 
Werden, Telmo. — António Hirch, Cardoso. — Alexandre Stamfals, A. Pinheiro. 
— Gustavo Echstein, Ignacio, — Francisco, Sarmento. — Clara, Barbara Wol- 
ckart. — Amélia, Júlia d'Assumpçáo. — Helena, Emilia Sarmento. — Mademoiselle 
Fydlitz, Sophia Gomes. — Luiza, Palmyra Torres. — Flora Guelira, Carlota Fon- 
seca. 



■218 Impressões de Theatro — Bode expiatório 

Noite de galhofa, de repouso e de justiça, que desopilou o fí- 
gado — porque fez rir — não cançou o cérebro — porque não fez 
pensar — e consolou o coração — porque, na homenagem a Frei- 
tas Branco, veio demonstrar que nem só os nullos e os cabotinos 
triumpham e, uma vez por outra, de longe em longe, como na re- 
cita do Gymnasio, a inscripção accacia da Honra ao mérito., nem 
sempre sublinha individualidades e illustrações de muro novo e 
portas de quinta. 



XLIX 

l6 DEZEMBRO 

HPrnP c\r\ DIA P^ça em 3 actos de Pierre Morgand 
riGI UO UU L/IM, g eiaude Roland. traducção de Al- 
berto Braga. Theatro D. Rmelia. Distribuição : Roberto de Sa- 
viGNY, Christiano. — Dutertre, H. Alves. — Clopsier, Chaby. — 
Um continuo, Álvaro Cabral. — Perrin, Francisco Senna. — Le- 
MOiNE, Salles. — Madame Lafargue, Lucinda Simões. — Sónia 
d'Esteral, Lucília Simões. — Branca Lorenard, Maria Falcão. — 
LucETTE, Laura Cruz. — Francine, Delphina Cruz. — Luiza, Elvira 
Costa. 



Desta feita, em que pese a Navarro, triumphou Beirão : por- 
que, se o Heroe do «Dia» como peça, não vale nem mais nem 
menos que as outras pochades que fazem carreira pelo erótico 
humorismo das suas pilhérias e 
situações, e se, como desempe- 
nho, não augraenta nem diminue 
as coroas de alhos que, de ha 
muito, enfesioam as carcassas 
dos seus interpretes — porque 
Christiano ha de ser sempre 
Christiano e a Lucilia parece 
apostada em ser muito pouco, 
€mquanto não se resolver a dei- 
xar decalques e figurinos e a ser 
Lucilia — o triumpho do Beirão 
é incontestável, pois, como ma- 
nigância p'ra fazer cahir pela ga- 
lhofa os pruridos penacheiros do 
Alpoim, o Heroe do "Dia» é a Alpoim 

Obra-prima do batibarbismo. Caricatura de Raphael B. Pinheiro 




220 



Impressões de Theatro — O Heroe do aDia» 



Eu conto-lhes a peça e os amigos dirão, se não parece que es- 
tou a contar-lhes a biographia do grande e rotundo estadista da 
Rede, successor in-partibus da realeza da Rua dos Navegantes e 
jocundo orador do Campo Pequeno : 

Roberto Savigny — queiram ler Zé Maria — sem talento, — 
estaes a ver porque o Christiano não largou o papel ao Chaby — 
sem convicções — são as cartas do nosso Janeiro — sem catonis- 
mos de moral — lamas do Nyassa — sem grandes rasgos de orató- 
ria — «Oh ! Não ! não ! nunca !» — é um socialista feroz — a gra- 
vata vermelha da Colligação — que depois de cantar a Carma- 
gnole — «El-rei regalado de festas I Últimos arrrancos dum regi- 
men l Yvette Guilbertl Infames servidores h) — trepa ao poleiro 
dos cultos — Ministério da Justiça — e arma em conservador, 
reaccionário, perseguidor, auctoritario e mandão — os dois me- 
zes de cadeia, por liberdade de imprensa, deste seu criado . . . 

O retrato é fiel dentro da perspectiva do theatro e o titulo 
transparente e claro, porque, embora afastado da redacção da 
gazeta, se Samuel Tom, na critica, é um barra, Zé Maria conti- 
nua a ser o único e genuino heroe do Dia. 

Gomo arma politica, de escândalo e efFeito, faz lembrar o Zé 
dos Chouriços dos primeiros annos do reinado bacoco, porque, 
se envereda pela vida particular do grande homem, mostrando-o 
femieiro — quando os Íntimos o confes- 
sam atiradiço — a nota dominante é 
demonstral-o ôco, vasio, grotesco e 
versátil como elle se tem ostentado 
sempre, á luz progressista do sol da 
Arcada, na exuberância das suas ba- 
nhas, na inconsitencia dos seus princí- 
pios e na penúria dos seus tropos.. . 

Beirão pôde falhar em chefe, como, 
de resto, já falhou em estadista e di- 
plomata, mas, sob o pseudonymo col- 
lectivo e afrancesado de Pierre Morgan 
& Claude Roland, por pouco batibarba 
que se seja, impõe-se a obrigação de o 
confessar, maliciosamente brejeiro e es- 
pirituoso, engenhosamente faceto e pa- 
tusco, como auctor do Heroe do «Dia». r^ „ - 

r\) 1 . F. Beirão 

D onde, merecer ser visto por homens Caricatura de R. B. Pinheiro 




Impressões de Theatro — O Heroe do <i^ia» 221 

de todas as idades e damas já entradotas, apesar de estar longe, 
nas suas linhas desordenadas de vaudeville caricatural, d'um suc- 
cesso d' Arte e de ter sido, no D. Amélia, — afora as rábulas de 
Lucinda — maravilhosa de naturalidade — e de Chaby — bem em 
galopim — um desastre de desempenho nas interpretações de ar- 
tistas que se abespinham com a justiça de quem lhe reconhece 
talento ao cabotinismo e de bacharéis que Deus Nosso Senhor, 
pródigo em narizes, em absoluta e irreductivel negação p'r'á scena, 
não fadou p'r'á actores. . . 



XLX 



A Resurreição, 



20 DEZEMBRO. 



peça em 5 actos, extrahida do ro- 
mance de Toistoi por Henry Ba- 
taille, versão de Mello Barreto. Theatro D- Rmelia. Distribuição: 
Príncipe Nekludoff, Brazão. — Simonson, António Pinheiro. — Ni- 
KiNE, advogado^ Carlos Oliveira. — Presidente do jury, João Rosa, 
— O NEGOCIANTE, Augusto Rosa. — O caixeiro, Henrique Alves. — 
O CAPITÃO, A. Antunes. — O professor, Chaby. — Um velho sur- 
do, Ghristiano. — O medico, João Gil. — Bustinow, enfermeiro, Al- 
fredo Santos. — Um interno, Francisco Salles. — Kulitzoff, H. 
Alves. — Novorodoff, Álvaro Cabral. — Um official, A. Antunes. 
i.° JURADO, Gil. — 2*' JURADO, Lima. — 3.° jurado. Lagos. — 4° ju- 
rado. Gomes. — 1.° official de justiça, Salles.- 2.° official de 
justiça. Silva. — Tikon, Álvaro Cabral. — Wassii.ief, A. Silva. — 
1." gendarme, Campos. — 2.° gendarme, Guedes. — O coronel,. 
Massas. — 1.° prisioneiro. Silva. — 2.° prisioneiro, A. Pedro. — Um 
RAPAZ, Pereira. — Um velho. Massas. — i." guarda, Senna. — 2.* 
GUARDA, Lagos. — Maslow^a, Adelina Abranches. — Fedósia, Del- 
fina Cruz. — A «velha», Lucinda Simões. — A «bellezas». Rosa 
Damasceno. — A «ruiva», Lucilia Simões. — A «corcunda», Maria 
Falcão. — K0ROBLEWA, Josepha d'01iveira. — Sónia, Elvira Costa. 

— Laura, Amélia 0'Sullivand. — Maria Pav^olowa, Laura Cruz, 

— Matrobla, Jesuina Saraiva. — Matrowa, Estephania — Uma 
CRIADA, Ceciha Neves. — A guarda da linha, Jesuina Saraiva. — A 
filha do diácono, Maria Ribeiro. — A tysica, Elvira Freitas. — i.* 
presa, Amélia 0'Sullivand. — 2.» presa, Marianna. — 3." presa, 
Joaquina — Uma velha, 0'Sullivand. — Uma vendedeira, Este- 
phania. — Uma criança, Laura Pedroso. — uma mulher, Cecilia 
Neves. — A mãe da criança, Estephania. 



Impressões de Theatro — A l^esurreição 



223 



Tolstoi, com as suas grandes e alvas barbas de pátria rcha an- 
tigo e as humanitárias revoltas do seu idealismo christao, é um 
dos mais puros e dos mais nobres idolos do nosso tempo, uma 
das immorredouras figuras do século que passou, a desafiar na 
imponência da sua obra, as consagrações dos séculos que hão de 
\\r. 

Com as suas palavras de paz ateia a guerra dos espíritos, alu- 
mia a revolta das consciências e com os seus brados de miseri- 
córdia desencadeia as tempestades de lucta, tantalisa as sedes de 
revindicação. 

Santo, pela renuncia e pela resignação que evangelisa, o seu 
nome é reverenciado no sacrário das consciências que não re- 
nunciam e não se resignam : obra de 
Amor, que germina florescencias de re- 
bellião, apostolo da Bondade, que arma 
proselytos do Desespero. 

Moderno Christo, na pureza branca 
da sua fé e na anciã indómita da redem - 
peão humana, está mais próximo das 
alfurjas sombrias dos libertários do que 
das magnificências lithurgicas do Va- 
ticano e sendo, nestes dias de descrença 
catholica, o ultimo crente do christia- 
nismo, Leão XIII — o Papa — era o seu 
inimigo e Kropotkine — o Anarchista — 
é um seu irmão. 

A sua obra é mais que uma Uttera- 
tura : é o ariete cyclopeo do Futuro a 
investir na derrocada do Premente. So- 
nhando construir uma nova cidade de 
Deus, Tolstoi está a derrubar um mundo 
de podridões e de preconceitos, de iniquidades e de absurdos. 

A sua doutrina de philosopho ha de pasmar, porque veiu tarde 
de mais p'ra remir vinte séculos de christianismo ; mas, nos es- 
combros da sua obra de demolidor, levantam-se já os alicerces 
inabaláveis duma nova era de Egualdade e de Justiça. 

Assim, nessa Resurreição, posta em scena no D. Amélia 
— numa refracção baça do que é o livro, porque não cabem 
em cinco talhadas d'4pia peça, embora destramente cortadas, as 
mil paginas dum romance — o que fica na retina e se prende ao 




Tolstoi 
Caricatura de José Leite 



224 Impressões de Theatro — GA Resurreição 

cérebro, tanto no theatro como na leitura, não é parte edifica- 
dora, de intencionalidade christá, da resurreição pela caridade e 
pelo amor e da renuncia final á felicidade da Vida em holocausto 
ás agruras do Dever— é a parte destructora, revolucionaria e 
acratica, da negação da Justiça, os quadros lancinantes da Misé- 
ria, da Prostituição e do Crime. 

Esses, gravam-se na memoria, ferem as consciências, revoltam 
as almas e quando sobre elles Tolstoi tenta lançar os bálsamos 
do Evangelho, as chagas rechinam, as intelligencias insurgem-se 
e a Obra d'Arte amesquinha-se — no romance, a terceira parte é 
uma excrecencia, quasi uma lenga-lenga de devocionario, e na peça, 
o desfecho é um absurdo, quasi um simples pretexto p'ra sceno- 
graphias. 

Tolstoi, na uncção doutrinaria das suas conclusões, lembra o 
medico, que, na sala de uma enfermaria, deante dos seusdiscipu- 
los e á cabeceira dum doente atacado de um tumor cerebral cuja 
marcha e evolução conhecesse, com receio de lhe magoar o cra- 
neo, p'ra não lhe contundir o coiro cabelludo, não o trepanasse e 
fechasse a prelecção com um recipe de agua de Lourdes ou a 
promessa duma vella ao Senhor dos Passos da Graça. 

No infinito da sua Bondade, repugna a Tolstoi a barbara crue- 
za das soluções violentas : o mal, conhece-o, documenta-o, estu- 
da-o e dá-lhe, com o poder másculo da sua Arte as cores sotur- 
nas da Natureza, e da Verdade, mas, tendo p'r'ó combater o cau- 
tério e os emolientes, o negativismo dos nihilistas e os versiculos 
do Evangelho, Tolstoi, deixando-nos a liberdade de concluir pelo 
ferro em braza, idealisa, milagres da panacea, e, quando aconse- 
lha a rebellião, dá-nos a formula da revolta passiva. 

A Resurreição, nas suas linhas geraes, é a velha historia da 
sedução e do abandono da mulher, a sua degradação, a sua misé- 
ria e o seu renascimento e purificação : Katucha, pobre cachopi- 
ta de aldeia, lyrial e pura, é seduzida, entre coros paschaes, pelo 
príncipe NeklodofF, seu senhor, companheiro da sua infância e so- 
nho da sua puberdade. Abandonada, vai resvalando, de vergonha 
em vergonha, de miséria em miséria, ás ultimas degradações da 
prostituição e do alcoolismo. Presa como assassina dum cliente 
— que outra companheira do Fado assassinou — é entregue ao ve- 
redictum dum jury de que faz parte o seu seductor. NekludofF re- 
conhece na Maslowa criminosa e deboch^a, a Katucha, da sua 
mocidade, a sua victima, a que, p'r'á remir do seu passado, irá ser, 



Impressões de Theatro — q4 l^esurreição 



22J 



no futuro, a sua expiação. Tenta salva-la da inconsciência dos ju- 
rados que a condemnam. Vai vê-la á prisão e, só ahi, mede a pa- 
vorosa immensidade do abysmo a que a lançou a sua luxuria de ra- 
paz galanteador e de que irá arrancá-la oseu remorso de homem 
honrado que, p'r'ó conseguir, lhe dedicará a fortuna, a familia, a 
vida — todos os esforços da sua vontade, toda a affectividade da 
sua alma. Maslowa, trasladada da prisão das mulheres p'r'á en- 
fermaria, nega-se ás caricias bestiaes dum enfermeiro; lucta, grita, 
faz cair uma mesa, e, ao ruído das vozes e da caqueirada, acodem 
os circumstantes — «A desavergonhada queria macho e eu tive 
de resistir-lhe, que, pacato e amorpho, não sou desses !» A calum- 
nia vinga, a infâmia enraiza-se e NekludoíF aceita-as. Maslowa, já 
cm via de reverter a Katucha, 
desespera se mais com essa in- 
justiça, do que com a recusa 
do perdão do Czar, que Neklu- 
doff lhe annuncia. Está salva ; 
a resurreição opera-se n'esse 
momento — um rosto que cora, 
é uma consciência que des- 
perta. 

A obra de Tolstoi deveria 
acabar aqui, e, mais do que o 
romance, a sua adaptação ao 
theatro, em que as nuanças do 
renascimento progressivo de 
Katucha tem de ser dadas a 
traços carregados e fundos de 
carvão, não podia, artistica- 
mente, ir mais além. 

Mas vae: a caminho da Sibé- 
ria, numa ala de criminosos po- 
líticos que seguem p'r'ás galés, Nekludoff tem a suprema e decisiva 
entrevista com Katucha. Simonson, um dos nihilistas do bando, 
apaixonara-se por Maslowa e o príncipe arde em ciúmes. xMaslowa, 
confessando que, durante a vida, só amara e só ama o seu seductor, 
sacrifica a sua paixão ao dever de alliviar os suplícios dos condem- 
nados e arranca o consentimento ao príncipe pVó casamento com 
Simonson. Nekludoff volta á Rússia, os condemnados partem, e, 
pela steppe sem fim, echôam os cânticos da Resurreição. 

i5 




Adelina Abranches 

Caricatura do Xumero único 

Homenagem dos Estudantes de Coimbra 



226 Impressões de Theatro — 04 '^Ressurreição 

O livro vive do sopro de revolta que o agita, do estudo dos ca- 
racteres que o esmaltam, da Arte sangrenta que anima as suas 
scenas de miséria e iniquidade : a peça tem de viver do desempe- 
nho dos dois personagens, NekludoíF e Maslowa, um pouco do 
conjuncto e muito da scenographia. 

Ora, NekludofF apparece-nos, no D. Amélia, na pelle de Brazão e 
a Maslowa nos três palmos liliputianos de Adelina Abranches — de- 
monstração flagrante de que o talento das actrizes não se mede 
a côvados — o conjuncto estava a cargo da tropa toda de S. Luiz 
e a scenographia ás costas de Augusto Pina. 

Disso tudo — desempenho de Adelina e Brazão, do conjuncto, 
da scenographia e da traducção de Mello Barreto, mais adiante 
se dirá. 

Porque ha muito a dizer — de bem e de mal. 



LI 



24 DEZEMBRO. 



Um Serão nas Laranjeiras, ll\^l^ 



em 3 
de 

Júlio Dantas. Theatro D. Hlaria. Distribuição: O conde, Ferreira 
da Silva. — D. José de Vagos, Maia. — O marquez, Joaquim Cos- 
ta. — O VISCONDE, Carlos Santos. — Farrobo, P. Campos. — Lam- 
pucci, Augusto de Mello, — D. António, Luiz Pinto. — D. Luiz, 
Theodoro. — Monsenhor Capaccini, C. Galvão. — O criado, Sam- 
paio. — A duqueza, Beatriz Rente. — A marqueza, Angela Pinto. 
— A VISCONDESSA, Augusta Cordeiro. — A morgada, Amélia Vian- 
na. — Martha, Cecilia Machado. A baroneza, Amélia Avellar. — 
VoLPiNi, dançarina^ Luz Velloso. 

Serenamente, pacatamente, que não vale esturrar o peru do 
Natal com o fogo de indignações e palavras feias, a critica do 
Serão das Laranjeiras — que Deus haja! — poderia reduzir-se á 
formula consagrada «A terra lhe seja leve!», se não reclamasse 
mais detido exame o facto d'ella ter morrido, não numa barraca 
de feira — onde a pornographia do Caetano Gregório lhe leva- 
ria as lampas em recato e humorismo — mas, no palco de D. Ma- 
ria, com a assistência medica do Conselho Dramático, a Extrema - 
Uncção do commissario régio e o acompanhamento luzido de ar- 
tistas que teem, pelo seu valor incontestável e pelos seus galões 
officiaes, a estricta obrigação de manterem, ante o publico, o seu 
decoro profissional e os foros do seu theatro. 

A peça morreu, mas na sua morte arrasta, envolto na mesma 
mortalha de opprobio e estupidez, de indecencia e porcaria, o re- 
gime burocrático em que se debate, ha annos, o nosso primeiro 
theatro : as reformas e portarias, o busto do Ennes, que imprime 
caracter, conselhos dramáticos, que se lambem com camarotes, e, 



228 Impressões de Theatro — Serão nas Laranjeiras 



o commissario regio, que nem p'ra 
cabo de policia agora serviu. 

Lúgubre e funéreo, o sr. Dan- 
tas, que no Serão levou á quintes- 
sência todas as qualidades nega- 
tivas que o impõem como a mais 
mesquinha nullidade das nossas 
lettras — deve estar ancho e satis- 
feitissimo, não só por contar mais 
um cadáver no sarcophago, que é a 
sua bagagem theatral, mas porque, 
desta feita, além da peça lhe ter 
morrido á nascença, enche a valki 
commum com as carcassas de to- 
dos os mostrengos, que faziam do 
Normal uma repartição do Estado : 
não foi uma peça, foi uma epide- 
mia, e, por consequência, se, como 
fiasco, consolida os detestáveis cré- 
ditos do sr. Dantas — dramatur- 
go — como limpeza do theatro, de 
todo o lixo amanuensal que o ia 
transformando em monturo, garan- 
te ao sr. Dantas — cangalheiro — 
como reforma das lettras, um cargo 
honroso na corporação camarária dos varredores. 

Eu, ás vezes sou desbocado, digo nomes feios, malsoantes, e, 
no vicio de chamar ás coisas pelos seus nomes de baptismo, en- 
kisto palavrões nas arestas incivis da minha prosa : mas, apesar 
disso — por isso mesmo talvez ! — não posso contar o magro e 
destrambelhado entrecho que atravessa, em cambalhotas de im- 
becilidade, os três actos do Serão e, menos ainda, posso dizer o 
que são todas aquellas damas da grande roda — com filhos vivos 
e parentes na evidencia — que perdem as ligas nos punhos de 
renda de quem lhes paga e cujos maridos, com cabeças de gira- 
fas — a girafa é cormgera — alcaiotam dançarinas, especulam com 
a sua sorte^ descrevem as calcetas das suas madamas e decoram 
discursos p'ra flagrantes delictos. . 

Não posso sequer esboçar, muito de leve e metaphoricamente, 
a escabrosidade de situações em que, senhoras casadas, mostrando 




JuLio Dantas 
Caricatura de Arnaldo Ressano 



Impressões de Theatro — Serão nas Laranjeiras 229 

as meias ou citando as ligas de madame Lamballe, fazem a côrte 
a um velho dandy — arbitro das elegâncias, antigo emigrado, 
grande parlamentar e grande litterato que, sendo o pivot da so- 
ciedade do seu tempo, citando Tackeray e usando espartilho, 
não é o Garrett no cartaz — porque seria inenarrável descara- 
mento mostrá-lo assim em sua casa — mas que, como caricatura 
boçal do Garretr, peralvilho e femieiro, é, talvez, a única coisa de 
geito daquella cambulhada toda, em que os palmanços de espirito 
ao Dumas são claros, no vasconço insulso da traducção, em que 
os ditos clássicos do Sotto-Mayor esmaltam o dialogo, era que a 
Sociedade onde a gente se aborrece dá o fecho e os Peraltas e Se- 
das deram a idéa, os personagens, os minuetes, os cravos e tudo 
o que, não sendo absolutamente pornographico, não pôde ser attri- 
buido aos borrões condemnados do Baptista Diniz. 

Não podendo, pois, dizer o que, theatralmente, é o Serão das 
Laranjeiras., dispenso-me de demonstrar que a prosa é de um al- 
faiate e que a reconstituição histórica, que faz do Palácio Farrobo 
a casa suspeita dos Crucificados., se limitou ás exterioridades fá- 
ceis e pelintras do guarda roupa. 

Mas, sendo, theatralmente, um desconchavo erótico, sendo, lit- 
terariamente, um barril do lixo do trabalho dos outros, o Serão 
das Laranjeiras é, seguramente, uma bella acção, inconsciente e 
involuntária, mas uma bella acção, em todo o caso, porque, liqui- 
dando em definitiva com a lenda patusca do talento do sr. Dan- 
tas, impõe-nos, a todos a quem o theatro interessa, a obrigação 
de exigir das Instancias superiores, do Ministério do Reino, da 
Instrucção Publica ou simplesmente de dois policias, a remoção 
d'ali pVa fora do commissario régio que approva coisas daquellas 
e que, saindo, tem de levar comsigo, numa limpeza radical e 
immediata do Theatro Normal, os conselhos dramáticos, o papel 
sellado, as teias d'aranha, os regulamentos, as nomeações dictato- 
riaes, os bustos e o cheiro a bafio, que, sendo um filão de ale- 
grias e receitas p'ra S. Luiz de Braga, são p'r'á Arte, a que tudo 
isso enxovalha, uma ignominia, e p'r'ós contribuintes, que tudo 
isso engordam, uma extorsão 

O Serão nas Laranjeiras morreu : o sr. Dantas liquidou, mas 
dessa morte e dessa liquidação, urge que renasça o theatro na- 
cional — a noite de hontem vale bem uma carrada de estrume que 
fertilisa a terra. 



Lll 



29 DEZEMBRO. 

O Príncipe Permo, tz: ^^'tZZd 

d'Avila e Júlio Rocha. Theafro do Príncipe Real. Distribuição: 
El-rei D.JOÃO II, Alves da Silva. — M arrama que, Pinto Costa. — 
O ermitão d'ALMUROL, Roque. — D. Manuel, duque de Beja, E. 
Vieira. — O príncipe D. Affonso, Monteiro. — O duque de Vizeu, 
Gentil. — Antão de Faria, Jayme Silva. — Garcia de Rezende, A. 
Machado. -^Fernão Monteiro de Mascarenhas, Sepúlveda. — Bis- 
po de Tanger, Chaves. — Prior do Crato, Gentil. — Mestre João da 
Ponte, Luciano. — Diogo d'Azambuja, Chaves. — Lopo Mendes, 
Frederico. — Bispo d'Evora, N. N. — Pedro pescador, Arthur. 
— A RAINHA D.LEONOR, Adelaide Coutinho. — D. Anna Mendonça, 
Adelina. — A princeza Izabel, Cândida de Sousa. 

Uma peça histórica bole, com a minha esthetica de theatro, as 
minhas predileções e as minhas theorias, quasi tanto, como, com os 
nervos, me contende, o raspar duma unha na cal duma parede, ou 
o aço duma lima a morder os dentes duma serra : quero reprimir 
os nervos e arrepio-me, quero achar bello e bocejo. A historia, 
através da farraparia phantasista do guarda-roupa, perde as suas 
linhas heráldicas de monumento e os vultos lendários de uma épo- 
ca, na interpretação scenica dos comediantes, apelintram-se e 
achincalham-se — nem a historia, no theatro, se pôde manter aus- 
tera, nem os grandes homens, por mais documentada que seja a 
sua reconstituição, podem conservar-se grandes, deixando, até, as 
mais das vezes, de se conservarem homens. 

Peor que o theatro histórico só conheço o romance-folhetim. 
Ora, o Príncipe Perfeito acumula, e, antes de ser peça na Rua da 
Palma, foi folhetim no Diário de Noticias; mas, por isso mesmo e 



Impressões de Theatro — Trincipe Perfeito 23 1 

por ao Príncipe Real não ser licito exigir-se, nem mais, nem me- 
lhor, do que, habitualmente, nos é senido n'outros palcos, por ou- 
tros artistas e outros dramigeros de maiores fumaças, maior pol- 
pa, maior prosápia, mais pesporrencia — e, nem sempre de melhor 
boa vontade e mais talento, — partindo do príncipio de que todas 
as peças históricas são más, porque forçosamente são falsas, que 
todas as interpretações dão certo, porque em nenhuma pôde ha- 
ver a certeza, eu acho o Príncipe Perfeito uma peça razoável, 
o seu desempenho aceitável e, sobretudo, os seus autores, dois 
trabalhadores honestos e probos, laboriosos e bem intencionados 
— o que, na verdade, é preciso vir, de baixo d'agua e sob um tem- 
poral desfeito ás immediações da Mouraria p'ra se topar na thea- 
trologia portugueza. 

Esta é, em epilogo, a impressão do conjunto, que, em detalhe, 
acto a acto, se foi cimentando, n'estes postaes de momento ; 

1." Postal.^Em Setúbal, no guarda roupa de D. João III: toda 
uma tragedia num simples prologo de dr^-ma. Nomes que a gente 
conhece, desde instrucção primana, perpassam em figuras que a 
gente viu, em pequeno, nas capellas do Bom-Jesus. Varias conspi- 
rações, tiradas violentas, períodos redondos e sonoros e desem- 
penho ao gosto da casa. Uma morte á punhalada, scenas de har- 
monia conjugal, bispos em cisternas, Adelaide Coutinho em rai- 
nha Leonor e prophecias de castigos, que, já uma pessoa está a 
ver sahirem certos, ahi pelas alturas do 2>.° acto. Incontestavelmen- 
te, tem sobre o Duque de Vi^eu a superíorídade de não ser em 
verso e ser mais curta, pois a peça, sem perigo, podia acabar 
aqui. 

2.° Postal. — Outro drama inteirinho e completo, com princi- 
pio, meio e fim, este, que se passa numa choupana de pescador, na 
Ribeira de Santarém. Reis, rainhas, prínceses e princesas, damas 
mascaradas em pagens de S. Jorge e um eremitão que, sendo tan- 
ta coisa e não sendo nada, vem a descobrir-se que deve ser o ho- 
mem de ferro da procissão do Corpo de Deus. No estvlo trémulos 
e rodriguinhos, este eremitão de Almourol — que, afinal, não é ere- 
mitão, nem carrasco, nem homem de ferro e é, simplesmente o 
actor Roque — causa o enthusiasmo da plateia. Os princeses e prín- 
cesas, com musica, estavam ao pintar, neste tempo de broas, p'ra 
darem as boas festas n'uma loja de barbeiro. Uma morte, ou, as 
prophecias realisadas. Acto cheio ao gosto da casa. Os autores, 
modestos, não estão no theatro. 



232 Impressões de Theatro — Príncipe Perfeito 



3." Postal. — Afinal, parece que o «Príncipe Perfeito» não é 
bem uma peça em cinco actos, mas cinco peças n'um acto só. 
Este, que se passa em Santarém, todo em luctos e crepes, se tem 
ido ao concurso do 'Z);ít, apanhava um premio. Deve ser o mais 
histórico, porque, até agora, é o mais disparatado. Não é theatro^ 
logo deve ser historia. O diabo é, se não é nem uma coisa nem 
outra. O desempenho com pedaços valiosos eeífeitos seguros p'r'á 
publico de todos os dias. Uma commissão de barbeiros disputa a 
filha dos reis catholicos, p'ra, de cima duma etagère^ dar, com a 
musica dos Sinos de Corneville^ as boas festas aos fregueses. 

4." Postal- — Acto sonoro, cheio de adjectivos, advérbios e si- 
tuações. Se ligasse com os que o precederam e prendesse com o 
que vai seguir-se-lhe, seria, theatralmente, um acto bem feito. Alves 
da Silva, em D João II, faz o que pode e o que sabe, com visível 
desejo de acertar e conseguindo os seus desejos, de vez em quan- 
do. Neste acto, Colombo descobre a America, o que não quer di- 
zer, que, os artistas do Príncipe Real e os auctores do Príncipe 
Perfeito^ íenham descoberto a pólvora. 

5." Postal- — Não desmerece dos outros. Alves da Silva consoli- 
da o seu valor, mas os lençoes estão a sorrír-me, e eu, em cabe- 
çalho, vou ainda epilogar. 



LIII 



4 JANEIRO 



Meu rapa^: — Os casos da quinzena são, como viste, nas nótu- 
las das primeiras, feitas sobre o joelho, a galope e de raspão e 
compostas a correr pelos typographos estremunhados, a T^sur- 
reição^ extrahida por Bataille em fatias syntheticas e mal alinha- 
vadas da obra prima do grande russo e esse enterro, pifio e des- 
vergonhado, da legenda de talento do sr. Júlio Dantas, na queda 
ruidosa e deprimente do Serão das Larangeiras, em pleno Nor- 
mal, antes da missa do gallo, dando-nos, outro dia, a impressão 
de que, em fecho burlesco da Reforma do Ennes, transforma- 
dora do nosso primeiro palco em succursal manhosa do Ministério 
do Reino, a inépcia do commissario régio, pondo-lhe taboinhas 
na frontaria, queria liquidá-lo, em definitiva, em Mãe d' Agua e 
rua d'Amendoeira. 

Claríssimo que, amando, acima de tudo, na Vida, a Verdade, 
sendo ella o meu norte, o meu credo e a minha paixão, buscan- 
do-a atravez da Arte no theatro e não podendo a Verdade, ra- 
diosa e eterna, cohexistir com as formulas oppressoras e falsas da 
Auctoridade — quer a Auctoridade use aYabona do patronato ou 
o chanfalho da policia, quer se chame Lei e nos maniate na ficção 
do Suffragio ou se chame Censura e nos castre na hypocrisia da 
Moral — eu não posso, logicamente, indignar-me por o governa- 
dor civil — dada a pataraiice do commissario e o mercantilismo 
do gerente terem montado a peça — não ter intervindo, prohi- 
bindo-a. 

Não me indigno, mas archivo o precedente, e, quando amanhã, 
a censura, numa revista ou numa operetta, se permittir a bizar- 
ria de modificar um couplet ou emparrar uma nudez, quando 
numa viella, a ronda prender um maltrapilho, porque se desboca 



234 Impressões de Theatro — Serão nas Laranjeiras 



em gilvicentismos d'alcouce, ou, no vão duma escada, num banco 
da Avenida, a policia deitar as unhas aos andrajos da prostituição 
que, em attentado aos costumes, ganha a sua vida, ha de me ser 
licito, que eu mande o revisteiro a impor as suas escabrosidades 
ao Maia, que eu exija que o maltrapilho vá desabafar em repli- 
cas á Amélia Vianna, que os attentados ao pudor reclamem as 
magnificências scenographicas do Manini e que, em vez dos sellos 
€ custas da Boa Hora, entre lodos se compartilhem os direiros 
de auctor e as honras do cartaz do theatro nacional. 

Não me indigno, mas estabeleço, como principio juriJico, que 
sendo, pela Carta, a lei egual p'ra todos, foi banido do Código 
Penal o crime de ultrage á Moral, por palavras, escriptos, gestos 
ou acções, e que, sendo possivel a representação do Serão nas 
Larangeiras no Theatro de D. Maria, ficam revogadas todas as 
leis, posturas e regulamentos com que, té hoje, em nome da de- 
cência e dos bons costumes, se reprimiam os erotismos e porno- 
graphias, os desmandos de lingua e as incontinencias da Sensua- 
lidade. 

E, p'ra todos os eífeitos, em todas as manifestações da vida e 
€m todos os ramos da actividade lusitana, como base e norma 
dos nossos actos, ficará estabelecido — emquanto o sr. Alberto 
Pimentel não fôr officialmente alliviado do seu cargo e preben- 
das—que, tendo-se supprimido, em Portugal, a liberdade do pen- 
samento, a liberdade 
da imprensa, a liber- 
dade de reunião, ten- 
do desapparecido das 
nossas leis todos os 
direitos civis e políti- 
cos, todas as garantias 
individuaes e todos os 
foros dos municipios, 
nós gosamos, como 
nenhum outro povo, 
a liberdade amplíssima 
e illimitada de ser, á fa- 
ce do mundo, indecen- 
tes e más figuras. . . 

De resto, o sr. Dan- 
tas, que, pathologica- 




JuLio Dantas 
Caricatura de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro 



Impressões de Theatro — Serão nas Laranjeiras 235 

mente é um tarado — porque na sua dramaturgia resaltam todos 
os estygmas mórbidos que Nordau, Lombroso e Kraft-Ebling as- 
signalam á imbecilidade erótica — não é responsável por essa 
reforma radical e profunda, que a sua peça introduziu na le^sla- 
ção e nos costumes portuguezes : litterariamente, a única trans- 
formação que o sr. Dantas poderia ter produzido — sem a con- 
nivencia do commissario — era a de cambiar uma sala de espe- 
ctáculos num dormitório, e, se, por consequência, a influencia da 
sua obra o subalternisa como dramaturgo, os symptomas da sua 
enfermidade mental, tornam-o indiscutível fora das revistas da 
especialidade. 

O sr. Dantas não se aggride, nem se discute, como homem de 
theatro. 

Como caso mórbido, — exemplar curioso, — pode e deve ser 
•estudado pela sciencia dos médicos alienistas : o seu logar não é 
nos palcos, onde as manifestações da sua insuficiência cerebral, 
ofifendendo o pudor das plateias, despertam o dó e a commisera- 
•ção dos que, por mais alheios a psychiatria, o reconhecem como 
um pobre doente que, internado em RilhafoUes, entregue á des- 
vellada proficiência do dr. Bombarda, e, sob um regimen de dou- 
ches e brometos, poderia ter ainda, senão uma cura, pelo menos 
allivios sensíveis na sua enfermidade. 

Não é lógico reclamar da policia a censura p'ró Serão das La- 
ranjeiras^ mas é indispensável o exigir-se do Governo a demissão 
<lo commissario regío. 

E é, sobretudo, humanitário, recommendar á família e aos 
amigos o internato do sr. Dantas num manicomio; porque, 
se o reclamar a censura, seria o reconhece-la, se o deixar o sr. 
Pimentel no commissariado, era transformar o Normal em becco 
<lo Monete, o não pedir aos amigos do sr. Dantas que, em vez 
de lhe propinarem admirações, lhe ministrem banhos frios, se- 
ria uma crueldade p'r'á desgraça que feriu o cérebro do infeliz 
moço e chegaria a ser um perigo pVá segurança e tranquilidade 
publica, porque da imbicilidade erótica á loucura homicida, vae 
um passo, e, se o sr. Dantas, por emquanto, com o derivativo da 
litteratura, se tem mantido dentro do âmbito pathologico da por- 
nographia, amanhã, pode surdir-nos um furioso, com accessos vio- 
lentos, vendo sangue e sonhando hecatombes, desatando a ma- 
tar gente, com a mesma inconsciência com que, té qui, se tem en- 
tretido a matar peças. 



236 Impressões de Theatro — Serão nas Laranjeiras 



Mas, eu fallo em quedas e enterros, em fiascos vergonhosos e 
escândalos deprimentes e o Serão continua a cartazear-se pelas 
esquinas, as casas teem-se enchido e, raro, no Normal, a receita 
attinge algarismos tão altos e expressivos. Não ha, porém, contra- 
dição — a peça morreu á nascença, ignominiosamente, ruidosa- 
mente, sem appellação nem aggravo. 

Disse-o eu, disseram-no, num coro, unisono e harmónico, to- 
dos os jornaes. . 

Mas continua em scena ? Naturalmente : num paiz onde a penna 
que escreve, mal chega pVa illudir a fome dos cérebros que pen- 
sam, e, em que os editores, especulando com as leituras só p'ra 
homens, se não morrem podres de rico, são os únicos, que pros- 
peram com as suas edições, não admira, que, o cheiro nauseabun- 
do do escândalo evolado do Serão^ em ondas de cretinismo e 
luxuria, de opoponax de bordel e almiscar de estrebaria, leve, pelo' 
focinho, á plateia do Normal os satyros impotentes, os tenorios 
avariados, os lovolaces pervertidos, que se cantharidisam, em erotis- 
mos de simianos, com o deboche desaustinado, que, do palco nor- 
malino, em catadupas de enxurro, escorre e os alaga em crispa- 
ções de volúpia. 

Lá cima, no D. Amélia, a Lagartixa foi ao centenário e a Co- 
ralie bateu o record do camaroteiro. O theatro, hoje, não é um 
prazer esthetico, é um estimulo de sensualidade e dois terços do^ 
publico vae ao theatro, não p'ra retemperar a alma ou distrahir o 
espirito, mas pYa virilisar impotencias, p'ra chamar as reservas, 
D'ahi o êxito do Badalo^ o triumpho do Caetano^ a voga que vae 
ganhando o Serão, como rival, no charlatanismo das doenças se- 
cretas, do cinturão electro-galvanico. . . 

No domingo — depois dos cortes de phrases, situações e per- 
sonagens, que não tornaram a peça mais decente e conseguiram 
tornál-a mais estúpida e desengraçada — eu fui, dum camarote^ 
estudar o publico de D. Maria: predominava, é claro, o elementa 
macho; de longe em longe, raras na plateia, pouco numerosas 
nos outros logares, famílias burguezas, que não lêem gazetas e 
vão a D. Maria por habito, fiadas na seriedade pacatona do re- 
portório, aguentavam, entaladotas, p'ra não perder o seu rico 
dinheiro, o espectáculo té ao fim. Antes de subir o panno p'r'ó 
3." acto, alguns camarotes esvasiaram-se ; da plateia também sa- 



Impressões de Theatro — Desempenho da T{essurreição 237 

hiu gente, mas o grosso do publico — quasi todos os machos e 
xilgumas das fêmeas — gostou e applaudiu. Havia calvas rubras, 
rostos congestionados, respirações offegantes, e, quando a Luz 
Velloso, em dançanna, deixou ver os baixos, houve um tal res- 
folgar de narinas, uns taes pigarros seccos, uma tal ondulação de 
caveiras curiosas, um tal faiscar de olhares cupidos, que, ao repe- 
tirem-se, mais accesos e vivos, no 2.° acto, na scena de seducção do 
conde, eu cheguei a receiar, que as meias verdes da Cordeiro se 
incendiassem, e que, a pobre da rapariga, ficasse em torresmos. . . 
— Era nojento, e chegou a cheirar a chamusco ! . . . 

Na satyriase frasearia da concupiscência, não parecia uma pla- 
teia de homens, assemilhava-se a uma jaula de macacos, em tran- 
ses phreneticos de cio. 

O cartaz não mudou, os casões succedem-se, a receita au- 
gmenta, mas a peça cahiu, a blague do talento do sr. Dantas en- 
terrou-se e a inépcia balofa do commissario, confirmada pelos 
próprios que, mercê delia, se arreitam, reclama, cada vez mais, a 
intervenção cirúrgica do Governo — é a ablação dum tumor de 
idiotia, pelo processo burocrático dum despacho, que o ponha no 
olho da rua. . . 



No desempenho da Ressurreição — de que dependia todo o 
successo da peça — destaca, em bem, a árdua tentativa de Ade- 
lina Abranches — née Ruas, no Príncipe Real — e confundem-se, 
em mal, todos os outros, dês do Brazão, que esfrangalha e esfar- 
rapa, em uivos e rouquidões, o Príncipe Nekludoff, té ás madamas 
da companhia, que transformam o acto confrangedor e commo- 
vente da prisão, cheio da intensidade dramática e de emoção hu- 
manitária, na faceta e hillare patuscada duma farça á Courteline. 
Querem dar o choro e dão a galhofa: em vez de puxarem a la- 
grima, despertam a gargalhada. Como comprehensão de rábulas, 
é concludente, e, como exteriorisação de perspnagens, é completo 
— mais profundamente grutesco, em theatro, nunca vi, e, em lettra 
redonda, admirei, apenas, a inconsciência dos que o elogiaram. 

Mas, vamos por partes : 

O principe Nekludoff é um personagem inteiro, simples, que 
reclama, apenas, do mterprete, depois da comprehensão intelle- 
ctiva da sua infinita bondade — e numa leitura leve de romance 
ella irrompe dum jacto — uma dicção perfeita e uma sóbria ex- 



238 Impressões de Theatro — desempenho da Ressurreição 



pontaneidade — nem es- 
tridências de voz, nem 
desmandos de gesticula- 
ção. 

Não é muito, mas 
era o sufficiente p'ra ser 
demasiado p'r'ós recur- 
sos e pVó feitio de Bra- 
zão, um bello actor de 
farça — o Bibliothecario 
é o seu melhor papel — 
um correcto actor de 
comedia — o Marque:^ de 
Villemer é o seu mais 
valioso trabalho — e um 
insupportavel uiva dor 
dramático — todos os 
seus Keans e Othellos 
são o êxtase da rua dos 
Fanqueiros — que, tendo 
muito talento e vastis- 
simos predicados de 
mascara, de figura e de 
calor, se permitte, as mais das vezes, p'ra comprazer e empochar 
o seu publico, deixar todo esse arsenal em casa e se limita, a lu- 
zir á ribalta, de tudo isso, um adejar de braço"!, que o assemelha a 
um moinho de vento e um rugir de uivos, que — muito melhor 
que a scenographia do Pina, dá os eíTeitos da neve —dá a ima- 
gem glottica do ribombar do trovão. 

O publico gosta, e, como de tudo o que Brazão poderia exi- 
bir p'ra se estrellificar, o redemoinhar dos braços é uma questão 
de gymnastica e o bramir da tempestade, simples effeito de ovos 
crus, elle, que é, por natureza, dos mais completos e dotados áos- 
nossos comediantes, crystalisou, numa formula única e subal- 
terna de exteriorisação, não havendo já hoje maneira de lhe dis- 
tinguir os personagens, tão os mesmos elles são sempre — dentro- 
de dois ou três typos difíerentes — e tão Brazão elle transparece 
em todos, na uniformidade do ronco e do molinar. 

Assim, o NekludofF da Ressurreição foi o Loris IpanofF da Fe- 
dora, escripto e escarrado, são, escorreito e d'alto a baixo, e. 




E. Brazão 
Caricatura de Jorge Colaço 



Impressões de Theatro — desempenho da Ressurreição 289 

como o «Loris» nada tem de commum, no ardor violento da sua 
paixão, com o humanitarismo evangélico da bondade de Neklu- 
doff, Brazão, tendo criado a seu modo o amante da Fedora^ fra- 
cassou, dentro do seu modelo, o redemptor da Maslowa. 

Não sei se pessoalmente — porque o não conheço fora das ta- 
boas — Brazão é intelligente : se o é, não leu o romance de Tols- 
toi, e, se o leu, e é intelligente, ou, quiz comprometter a peça, ou, 
permittiu-se a blasphemia artística de deturpar o auctor. Em 
qualquer dos casos, porém, falhou, por completo o papel, porque 
não soube imprimir-lhe a nota de bondade espiritual que o cara- 
cterisa, e, quando tentou ser terno, foi secco, como ura arenque fu- 
mado, quando quiz ser eloquente, foi espalhafatoso, como um 
dentista de feira. De pau como um cepo e sonoro como um ins- 
trumento de sopro, foi o Brazão das grandes noites em que a sua 
plateia se electrisa de [enthusiasmo e a sua Arte se arrepela de 
desdém. 

Adelina Abranches — uma organisação de artista inculta e es- 
pontânea num corpo rachytico e minúsculo de boneca — com lar- 
go cadastro de dramalhões no Príncipe Real a zigzaguiarem-lhe, 
em borrões de plebeismo e faulhas de taíento, a curva ascencio- 
nal da sua carreira artística, é a mais modelar vocação dramáti- 
ca que as plateias populares teem entorpecido, e, tendo vincado 
na Arte radiosa e pujante das Privilegiadas, o papel de Yanetta, 
na Robe rouge^ e a sabida do commissariado na Rosa Engeitada, 
é hoje, entre a gente nova da troupe de S. Luiz a mais baixa das 
mulheres e a mais alta das artistas, a de menores classificações 
nos canhenhos da claque e a de maiores recursos na simplicida- 
de dos processos. Tem uma individualidade e impõe-na, ao lado 
das que têem figurinos e os decalcam. 

Com uma voz detestável e uma figura liliputiana, sem educa- 
ção artística de conservatórios e de viagens á Estranja, aguentou 
e defendeu o seu papel da Resurreição, complexo e cheio de gra- 
dações, tendo sido, á força de talento, ingénua e lilial na Katu- 
cha, sórdida e bestial, á custa de originalidade e de estudo, na Mas- 
lowa, nuançando scena a scena, phrase a phrase, gesto a gesto, 
toda a evolução daquella alma de mulher : da castidade infantil 
á luxuria do alcouce; da inconsciência da prisioneira ao renascer 
pelo amor, na enfermaria; e, á resurreição, pelo sacrificio, na Si- 
béria. 

Não teve a grandeza trágica e emmocionante das paginas éter- 



240 Impressões de Theatro — Desempenho da Ressurreição 

nas de Tolstoi, mas, humanisando a idealisação poética do Pen- 
sador, creou um typo pessoal e definitivo do personagem, fora 
dos moldes habituaes do seu repertório, que, por serem, exacta- 
mente, vasados no mesmo lodo de miséria e degradaçcão, mais 
difficil e perigoso se lhe tornava caracterisar e distinguir. 

Quando as outras se aureolisam com o repetir trabalho alheio, 
merece incondicional applauso quem, como Adelina Abranches, 
consegue triumphar, não repetindo o trabalho próprio. 

No resto, é melhor não fallar e, a não ser a Delphina, corre- 
cta no papel de Fedosia^ todos os grandes, na pequenez das suas 
rábulas se confundiam com os minimos da comparsaria e nenhum 
dos comparsas fez corar de despeito a mesquinha grandeza dos 
que são máximos, nas lettras gordas do cartaz. Como primor de 
€nscenação, a notar a palestra simultânea de todos os figurantes, 
após a deliberação do jury no 2." acto, e, quanto a scenographias, 
apezar de todas as maquetes, modelos, esboços, tintas e repre- 
gos estudados no Odeon, nada empinou nos pináculos do extraor- 
dinário o trabalho de Pina, que supinamente se apepina com as 
broxas do officio. 

A traducção de Mello Barreto é portugueza, cuidada, de boa5 
maneiras e de primorosa educação : as suas prostitutas faliam como 
marquezas — o que, se não è louvável como verdade, é morige- 
rado e consolador, como desforra das Marquezas do Dantas . . 
que faliam como prostitutas. 



LIV 



3o DEZEMBRO. 



O nilfrn ^Pyn comedia em 4 actos de Valabregue 
\j uuii u OOAU, g Hannequin, traducção de Sousa 
Bastos. Uheaíro do Gymnasio. Distribuição: Pontgirard, Igna- 
cio. — Gascadier, Cardoso. — Courpetoux, Soller. — Bouquet 
DES Ifs, Ferreira. — Cibolxet, Annibal. — Francisco, José d' Al- 
meida. — BouLOis, Sal! es. = José, Pereira. — O gendarme, Pereira. 
— O cosLNHEiRo, Almeida. — João, N. N. — Madame Gascadier, 
Barbara. — Renata, Palmira Torres. — Andreza, Júlia d' Assum- 
pção. — Camilla, Marieta. — Noémia, Emilia Sarmento. — Amé- 
lia, C. da Fonseca. — Malvina, Judith Garcez. — Gesarina, So- 
phia. — Panete, P. Ferreira. — Irene, P. Ferreira. — A porteira, 
Silveria. — Madame Desmasmes, Judith Garcez. — Madame Galar- 
det, Silveria. 



Em beneficio de Ignacio — que é um bello temperamento ar- 
tístico e um dos mais progressivos espíritos dos nossos theatros 
— deu-noso Gymnasio, numa traducção de Sousa Bastos, a Pla- 
ce aux femmes^ vaudeville em quatro actos de Vaubergue e Han- 
nequin, que, tendo feito ruidoso successo no Brazil, na ultima 
tournée Ignacio-Palmyra Bastos, em resumo, é isto : 

A sr.* Gasendier, formada em direito, mas não exercendo a 
advocacia, por não lh'o permittir a lei, é casada — sendo o marido 
que exerce, em casa, as funcções domesticas — e tem duas filhas: 
Renata, pinta-monos, e Camilla, cura- maleitas. 

Pontgirard enamorou -se de Renata, e, depois de cuidadosa- 
mente observado por Camilla, em exame medico, consegue a mão 
da moça. 

Casam e Renata mantém fechada a porta do quarto pVó ma- 
rido, explicando que só cumprirá os seus deveres de esposa 

16 



242 Impressões de Theatro — O outro sexo 

quando concluídos os seus trabalhos pVó Salon. O marido ser- 
ve-se, entretanto, duma cocotte, ao passo que o sogro vae buscar 
o que lhe falta, a uma lavandeira. Mas a cocotte é, precisamente, a 
dama illustre de quem Renata está fazendo o primeiro retrato 
pago. 

Renata pede o divorcio e a sr.» Casendier é a advogada, por- 
que o Senado votou, entre o casório da filha e a revolta do gen- 
ro, licença p'r'ás mulheres advogarem. Em sogra-bacharel e esposa- 
official de diligencias, vae accusar não só o genro, como ignóbil 
materialão que exige, no matrimonio, mulher p'rá cama, como o 
marido, serôdio femieiro, apanhado em flagrante delicto de beijos 
com a lavandeira. 

O julgamento realisa-se e apparecem os mais disparatados 
qui-pro-quos^ té Renata, por fim, se mostrar mulher e demons- 
trar, em condescendências d'alcova, o amor por seu marido. 

E' um disparate, com intuitos trocistas ás mulheres-homens, 
que no Brazil fez larga carreira, que fez 
rir a bandeiras despregadas o publico do 
Gymnasio, mas que, afinal, está longe, 
mesmo como farça, de merecer da banda 
de Ignacio a honra de ter sido escolhido 
pVá sua festa, porque o seu papel é dos 
que menos se prestam p'ra dar brilho e 
realce á veia cómica, á caricatura humana 
que, dentro do género, tornaram inconfun- 
díveis as creações do Filippe Ling, dos Doi- 
dos comjuijo, do professor Echstein, do Bo- 
de expiatório, e de tantas outras pochades, 

que o publico do Gymnasio não esquece, caricaturaTcarlos Leal 
porque não esquecem, facilmente, os coses 
que se rebentam em frouxos irreprimíveis de gargalhada. 

Ignacio é correcto, perfeito, dá tudo o que pôde dar dentro 
do personagem, mas não nos chega a dar um reflexo baço do que 
pôde, do que sabe e do que vale. 

No desempenho. Barbara marca mais uma sogra, Cardoso 
mais um typo e o resto da arraía-miuda não marca coisa ne- 
nhuma, mas não desmancha. 

E' cartaz p'ra muitas noites e foi um pretexto p'ra muitos 
applausos ao beneficiado. 

Nem era preciso mais nada. 




LV 

3o JANEIRO. 



A Gruz da Esmola, Tduard^oLhweíibach 

Luccí. Uheatro D. Rmelia. Distribuição : Daniel, Carlos d'01iveira» 
— António, João Rosa. — Bar.\o, Augusto Rosa. — Conselheiro 
Malaquias, Brazão. — Feliciano, Henrique Alves. — Raxuro, An- 
tónio Pinheiro. — Commendador, Gil. — O medico, A. Cabral. — 
Criado, F. Senna. — Maria do Amparo, Adelina Abranches. — 
Viscondessa, Rosa Damasceno. — Baroneza, Maria Pia. — Maria 
Emília. Delfina Cruz. — Prima Henriqueta, Maria Falcão. — Júlia, 
Laura Cruz. — Michaela, Josepha d'01iveira. — Pulcheria, El- 
vira, Costa. — Josephina, Jesuina Saraiva. 



A peça, tão annunciada, de Schwalbach é, n'uma gandaiagem 
de revistas e pochades, uma desculpável regressão ao Intimo, a 
peça de estreia e única, té á data, em que o competidor de Sousa 
Bastos e Baptista Diniz — herdeiro de Gervásio na laracha e de 
Garrett no Conservatório — conseguiu dar uma nota alta do seu 
valor e uma garantia quasi seria das suas aptidões theatraes. 

Não é, nem como Arte nem como litteratura, uma obra per- 
feita e completa, mas é, incontestavelmente, como scenica ligeira 
e theatro p'r'ó camaroteiro, urua peça decentemente urdida, ra- 
soavelmente delineada e soffrivelmente desenvolvida, recordando, 
qui e ali, boccados nossos conhecidos, com assentos de baptismo 
noutras parochias, mas de mediana escolha, de cosinha aceada, 
com que não é de todo o ponto desagradável, reatar relações e 
matar saudades. 

Misturando e mechendo, em alternativas sy^metricas e dosa- 
gens de formulário, o riso e a lagrima, a galhofa e o sentimento, 
a caricatura e a dôr, a Cru^ da Esmola é, no seu género de omo- 
lette, um picaro exemplo de equilibrio acrobático, e, embora, de 



244 



Impressões de Theatro — Crwf da Esmola 



vez em quando, o fiel da balança nos deixe perceber que ha can- 
donga nos pratos, a impressão final do conjuncto, se não satisfaz 
os medianamente exigentes, deve, comtudo, satisfazer os que, 
por amizade e dedicação, affirmam que, se Schwalbach não é, na 
verdade, um poucochinho mais do que o Garrett — seu anteces- 
sor no Conservatório — é, sem duvida, quasi do tamanho dos 
compadres que o incensam e juram saber Schwalbach fazer 
theatro sempre que quer e lhe apraz. 

O que, naturalmente, é exacto, com duas simplíssimas res- 
tricções: uma, a de, a não ser no caso inicial e sporadico do Intimo^ 
Schwalbach ainda não ter querido, 
e, outra, a de, neste caso restricto 
da Crii^ da Esmola^ se quiz, não o 
parecer, o que vem a confundil-o 
com a turba-multa dos que que- 
rem sempre e não podem nunca. 

A Cru^ da Esmola é a velha 
historia dos orphãos pobres re- 
colhidos ás sopas dos parentes 
ricos ; tem, do antigo dramalhão, 
todas as abnegações e sacrificios 
dos pobresinhos, todos os ridícu- 
los e preversidades dos ricaços. 
Como verdade, é talvez um pouco 
forçada, mas, como tensão dra- 
mática, é de puxar a lagrima ás 
almas sensíveis : com as suas in- 
génuas que se sacrificam, as suas 
criadas velhas que se dedicam, os 
seus avós que amaldiçoam e os 
seus galans que se satisfazem com 
a felicidade alheia. 

Isto na parte dramática; na 
parte cómica, ha também o ne- 
cessário tempero pVa fazer rir : 
barões grotescos, viscondessas palreiras, conselheiros namorados 
e primas absolutas, que, são no Gotha, as primas de toda a gente. 

Mas ha, também, arte na peça de Schwalbach, e de bom qui- 
late, embora sem a marca official da contrastaria da claque : é a 
arte com que Adelina, num conjuncto harmónico e concertado, 




E. SCHWALCHBA 

Caricatura de R. Bordallo Pinheiro 



Impressões de Theatro — Cru^ da Esmola 245 

destaca, soberana, na defeza do papel de Maria do Amparo^ o 
mais longo, o mais trabalhoso e o mais complexo da peça, em- 
bora seja o menos verdadeiro e mais folhetimnisado. 

Sem voz, sem figura e sem escola, Adelina progride e avança: 
não chegou ainda á perfeição, mas, dentro dos seus recursos e 
dos seus defeitos, personalisa-se cada vez mais e cada vez mais 
se approxima da sua meta artística. 

Não pode já ir muito mais alto, mas, trepando ainda, já está a 
uma altura em que muitas outras, começam a ter vertigens, a 
sentir a cabeça andar á roda. . . e a descer. 

Enscenação movimentada, conjuncto, como disse, concerta- 
dinho e afinado, e, além de Adelina, a destacar, também, Jose- 
pha de Oliveira, num papel de criada velha, e Jesuina Saraiva 
numa rábula de criada ladina, o que inesperadamente faz com 
que esta peça tenha um meritório fim social e domestico, alheio, 
pela certa, ás previsões e intencionalidades de Schwalbach: — é, 
como a 4.» pagina do Diário de Noticias, a consagração das cria- 
das de servir. 



LVI 



9 JANEIRO 

Oconhnr fpiirlal P^?^ ^^ ^ ^^^°^ de Joaquln 
OCMMUI ICUUai, Dicenta. traducção de João 

Soller, musica de Luiz Filgueiras. Theaíro Rvenida. (#) 

Dicenta com musica deve ser, mal comparado, como um 
artigo de fundo do Magalhães Lima orchestrado em motivos po- 
pulares da Maria Cachucha. A zarzuela de ideias ou rhetorica em 
peteneras... Caramba! 

Não vi. . . mas faz-se ideia ! 



(•) Não foi possível obter-se a distribuição d'esta peça, como, de resto, aconte- 
ceu com todas as notas que sobre o Theatro Avenida foram pedidas ao emprezari» 
Eduardo Portulez. 



LVII 



12 JANEIRO 



Sonho d'um Príncipe, Hr<,r dTMe'! 

donça. Cheatro D. Illaría. Distribuição : Otháo III, Luiz Pinto. — 
CoNRADO, margrave, G. Galvão. — Dr. Gerberto, sábio, A. Mel- 
lo. — 1." BuRGRAVE, P. Campos. — 2.°, Sampaio. — 3.°, N. N. — Pa- 
gem, Alda Aguiar. — Mensageiro, Theodoro. — Estephania, "Au- 
gusta Cordeiro. — Adelaide, Sarah Coelho. 



Não vi, e, embora a peça corra impressa, como é em verso e 
eu de versos percebo aproximadamente tanto como de lagares 
d'azeite ou o Alberto Pimentel de theatro e das responsabilida- 
des dum commissariado do normalino, não sei que lhes diga. 

A imprensa disse toda bem. . . 

Mas isso não prova, que, em geral, a imprensa só adrega acer- 
tar, quando, por acaso, diz toda mal. 

E, n'esses dias, o publico não faz caso e vae enchendo as pla- 
teias do Serão. 



Í.VIII 



l5 JANEIRO 



O Coxo do Bairro Alto. f:i?d?Ed"a;d": 

Coelho. Theatro do Príncipe Real. Distribuição : Mathias, coxo do 
Bairro Alto, Roque. — António, o rejilão^ P. Costa. — Fomenica^ 
A. Machado. — Salazar, agente de policia^ Sepúlveda. — Álvaro 
DE Vasconcellos, EduHfdo Vieira. — João, Monteiro. — Lourenço, 
taberneiro, Chaves. — Mestre Manuel, Jayme Silva. — O chefe, 
Luciano. — O escripturario, A. Rodrigues. A ordenança, Frede- 
rico. — O doutor, Gentil. — Pirolito, J. Silva, Fragateiro, A. Ro- 
drigues. — i." operário, Frederico. — 2." operário. Gentil. — Au- 
rora, Cândida de Souza. — Manuela, Maria das Dores. — A Chica, 
Emilia d'01iveira. — Engracia, contrabandista^ Georgina Vieira. 



Doente não vi a primeira. Convalescente vi a ultima. No dizer 
unanime das folhas — oh o prestigio do velho Noticias! — é obra 
acabada e de três assobios. Só Oscar May protestou, com uma 
desafinação de despeito, no Grande Elias. Os grandes espíritos 
encontram-se. Oscarmaydelisando, também, não me restam duvi- 
das : o Noticias é um bello jornal de informação, serio, honesto, 
consciencioso e digno ; leio-o todas as manhãs pVa fazer o vácuo 
no cérebro e dou me bem, com este regimen, porque a gente, ao 
ler tanta coisa que vae pelo mundo, fica como novo, ás aranhas, 
e quasi tão innocente como no dia em que nasceu, que os jornaes, 
quando não faliam de nós, teem isto de bom — os patifes são 
sempre os outros. Mas, o Coxo do Bairro Alto que, no dizer 
unanime de amigos e não amigos, é a oitava maravilha do mun- 
do, nem é theatro, nem litteratura — é a reportagem alfaci- 



Impressões de Theatro — O Coxo do Bairro Qálto 249 



nha, besbilhoteira, inventiva, com ca- 
lão e sem espirito, estendida em 6 lon- 
gos actos inverosímeis e pesados, com 
grandes e horríveis crimes, zincogra- 
phias do logar do sinistro, partes de 
policia e descantes do fado — um nu- 
mero de 12 paginas sem annuncios. 

Se o sr. Eduardo Coelho — um des- 
temido repórter que, ora anda pelos ca- 
nos, ora pelas nuvens — não fora o sym- 
pathico João Pequeno do Noticias^ o 
Coxo do Bairro Alto^ a ter emprezario 
que o levasse á scena — o que seria, fe- 
lizmente, duvidoso — não arrostaria com 
as objurgatorias da critica e com os bo- 
cejos do publico. Assim, o publico sup- 
porta e a critica louva. E quem não 
louva, oscarmayrdelisa. E aqui estou eu, 
forçado a oscarraayrdelisar, p'ra não fi- 
car repeso de consciência. 

Alguma vez os nossos bellos espirí- 
tos se haviam de encontrar, grande e 
gracioso, magnânimo e pittoresco, excelso e reinadio, insigne e 
patusco Oscar Maysinho, da minha alma, venerando patríarcha 
da critica e da laracha lusitana, portentoso chumbador de quatro 
gerações de caloiros, mestre admirável de toda a gente que vem 
nas folhas, inexgotavel sacco de expositores roto no fundo, Os- 
car Maysinho do meu coração ! . . . 




Eduardo Coelho 

Caricatura de Raphael 

Bordallo Pinheiro 



LIX 



1 8 JANEIRO 



O PAE, drama de Attgfust Stfíndbcfg: 

e o Commíssaríado de Pimentel 



Carta aberta ao Director Geral de Instrucção Publica 

Ex.^" Sr. — Antigos condiscípulos e companheiros nos ban- 
cos puidos da Universidade, em que V. Ex.", com as suas quali- 
dades videiras de urso, e eu, com o meu feitio estoura-vergas de ca- 
bula, já enveredávamos por caminhos oppostos e irreductivelmen- 
te antagónicos, evitei sempre, como estudan- 
te, crear ralações pessoaes com V. Ex.% e, cá 
fora, na Vida, tenho timbrado em affastar 
ensejos de invocar, p'ra interesse meu, ca- 
maradagens, que outros prosperam apre- 
goando e que eu me orgulho de ter repel- 
lido e de repellir ainda. 

Invoco-as hoje, em publico e raso, em 
lettra de molde e de cabeça erguida, p'ra 
que V. Ex % recordando o meu passado e 
reconhecendo-o, vivo e relapso, nas arestas 
da minha prosa, sabendo quem sou e não 
tendo direito a duvidar dos meus intuitos — 
allegando ignorância de quem lhe escreve e 
pretextando suspeitar das intenções dum 
desconhecido — não possa deixar de atten- 
der ao que lhe digo, e, menos, lhe seja licito 
eximir-se a proceder como lhe convier, na 
certesa de que, deferindo ao que lhe re- 
Alberto Pimentel requeiro, mais a si serve, na culminante 
de Manuel G. B. Pinheiro eminência da sua situação de burocrata, do 




Impressões de Theatro — «O Pae» e o Sr. Pimentel 25 1 

•que a mim penhora, na minha obscura insignificância de cri- 
tico. 

Como director geral de Instrucção Publica, e por força do es- 
tatuído no Decreto de 8 de agosto de 1898 — em vulgar: Refor- 
ma do Ennes — a V. Ex • cabe o superintender c superior- 
mente eovernar o Theatro de D . Maria, sendo o Commissariado 
Régio, junto daquelle theatro, um amanuensado dependente do 
■seu gabinete directorial, e, o commissario, uma espécie de moço 
-de fretes a quem V. Ex.» manda e impõe, em ultima instancia e 
•em ordens de serviço, as suas vontades e os seus caprichos, e 
•que, unicamente, a V. Ex.* deve a justificação do seu proceder 
•e das suas deliberações, visto que, pelo art. 19 do citado decreto, 
só ao governo — representado por V. Ex.* — elle dará contas dos 
seus actos, sendo-lhe expressamente vedado intervir em discus- 
sões publicas concernentes ao Theatro de D. Maria II. 

Não podendo, pois, pedir contas ao sr. Alberto Pimentel, com- 
missario régio, nem como critico, cujas attribuições elle invadiu 
lançando a picaresca excommunhão do seu veto ao talento pri- 
macial de Strindberg, depois de ter beatificado, com o escândalo 
•do seu pode-correr, a vesânia erótica do sr. Dantas, nem como 
•contribuinte, que, p'r'ás arcas do Thesouro, concorre com a quota 
individual de suor, donde, pelos cadinhos fiscaes da thesouraria, 
■a sua inépcia escorropicha os 400^5000 réis e as achegas do ca- 
marote privativo do seu cargo ; não podendo reclamar de Pimen- 
tel, uma defesa dos seus dislates ou uma attenuante justificativa 
aos seus desconchavos, porque a lettra clara do citado artigo lhe 
poupa a dificuldade de m'as fornecer ; de V. Ex.% seu patrono e 
superior, seu fiscal e chefe,, as impetro, não sob a forma platoni- 
•ca duma discussão na imprensa — a que não fujo, mas que não me 
■satisfaz — mas na vassourada radical duma portaria que, varren- 
•do as teias de aranha que, na caixa craneana de Pimentel, suprem 
-a massa encephalica dos racionaes, varra, de vez, da casa de Gar- 
rett, os esterquilinios de imbecilidade, que, tendo no SerãOy 
lupanarisado a frontaria do edifício com as taboinhas da policia 
sanitária, com a prohibição do Pae, parece quererem, definitiva- 
mente, relegar do Normal as manifestações de arte, transforman- 
•do-o em Estalagem do« Camillos, em que os burros teem a man- 
jedoura das suas sinecuras burocráticas e as trouxas de roupa suja 
<ia dramaturgia fazem estendal da sua porcaria e da sua miséria. 

A lei prohibe a Pimentel que se defenda, mas impõe a V. 



252 Impressões de Theatro — «O Pàe» e o Sr. Pimentel 

Ex." o dever de se manitestar: — consentindo, callando; ou, re- 
provando, demittindo. 

Pimentel, mudo por disposição da lei e irresponsável por def- 
ficiencia de intellecto, nuUo pelo seu passado de lendia de ca- 
belleira romântica do gigante de Seide e grotesco pelo seu pre- 
sente de parasita litterario da mesa do orçamento, quer permit- 
tindo a pornographia mórbida de Dantas, quer prohibindo a in- 
tencionalidade dramática de Strindberg, quer consentindo que na 
theatro de D. Maria a Arte se pollua nas degradações da littera- 
tura só p'ra homens, quer obstando a que, uma vez, ribombe no- 
proscénio do D. Maria o trovão avassallador da dramartugia do 
Norte, se não irrita nem surprehende os que saibam quanto absur- 
do se pode anichar na acephalia dum caguinchas, com 4ooí!í>ooo 
réis de ração, enthusiasma e envaidece a cohorte de inimigos de 
V. Ex.» que, alijando p'ra sobre os seus rijos costados as respon- 
sabilidades que sobre elle impendem, única e exclusiva, attribuem a 
V. Ex ^ a culpabilidade criminosa de manter p'ra satisfação dos 
caprichos galantes das suas aventuras de bastidores, um panai de 
palha, palerma e patetinha, num logar p'ra que, em face da lei, se 
requer, alem das condições geraes de idoneidade intellectual e mO' 
ral, a auctoridade pessoal e aptidão litteraria do individuo escolhido. 

São, Ex.""" Sr., os seus inimigos implacáveis — no numero dos 
quaes seria hypocrita modéstia não me incluir, embora, excepcio- 
nalmente, n'isto, delles discorde — que, entre soi risos brejeiros e 
demonstrações concludentes, propalam que V. Ex.= não intervém^ 
nem no esc?ndalo da approvação da obscenidade do Dantas, nem 
na insânia da prohibição da obra d'arte de Strindberg, por lhe 
convir no commissariado régio uma creatura dócil, maleável e 
accommodaticia, que lhe facilite, ao descer do seu Olympo de 
director geral, impor as pecinhas dos seus amigos ou jubilar em 
normahnas as trongas dos seus protegidos. 

Não são, apenas, os seus deveres officiaes que estão em foco: 
tanto ou mais do que elles, são os seus créditos de homem a im- 
pôr-lhe uma deliberação, porque, se, de facto, como funcciona- 
rio publico V. Ex.* não é, moralmente, obrigado a enojar-se con» 
as sujidadas bordelengas do Serão, como homem culto, intelli- 
gente e ledor, espirito aberto a todas as rajadas da Arte, cérebro 
sedento de todas as audácias do Pensamento, V. Ex.» é, intelle- 
ctualmente, compellido a revoltar-se com a prohibição do TaCy 
que, tendo dado a volta á Europa nas interpretações luminosas 



Impressões de Theatro — «O Pae» e o Sr. Pimentel 253 



■dos maiores artistas do Mundo, tendo nimbado de gloria nos pri- 
meiros palcos da Scandinavia, da AUemanha, de Itália e da Fran- 
ça a reputação theatral de Augusto Strindberg, tendo a consa- 
gração mundial das grandes obras do theatro cosmopolita, lhe 
faltava, apenas, como ao leão da fabula, o coice do asno que Al- 
berto Pimentel — um seu subordinado — teve a triste honra de 
lhe disparar do alto da sua inépcia de commissario régio . . . 

Alberto Pimentel, dando a V. Ex.* estreitas contas dos seus 
actos, tendo, na sua presença, de fundamentar os abstrusos ra- 
ciocínios que determinaram o seu veto^ tem, fatalmente, de lhe 
dizer, Ex."° Sr., o que é a peça de Strindberg, a ideia que a ge- 
rou, a these que sustenta, o problema que debate, a sua factura 
como obra de theatro e o seu alcance como obra de Arte. 

Não o deixe escamugir-se em arteirices sornas, em divaga- 
ções velhacazes, em tangentes de espertesa saloia; como, nos 
seus curtos dias de professorado, V, Ex." ordenhava minúcia^ de 
sebenta do cérebro dos caloiros, muja, da agua chilra que a Pi- 
mentel chocalha no craneo, tudo o que o seu subordinado, sobre 
Strindberg e a sua obra prima, haja parafusado p'ra defender-se. 

Simplesmente, como é possível que, p'ra texto da sabbatina, a 
V. Ex.^ falte o conhecimento da peça, e como, de seguro, ao po- 
bre homem não chegará o miolo p'r'á comprehender e commen- 
tar — embora o exemplar da traducção franceza que possuo es- 
teja á disposição de V. Ex.", como á sua disposição é natural que 
o sr. Manuel de Macedo ponha o caderno da sua traducção lusi- 
tana — rapidamente, eu vou esquissar-lhe nas suas linhas geraes 
os três actos do Pae — obra máscula de ideias e de Vida, em que 
a nudez casta da Verdade, irrompe, atravez da lógica forte da 
Razão, na pureza artística do Bello. 

Sem uma crueza que fira, sem um detalhe que repugne, sem 
um desvio que distrahia, sem uma phrase que choque, com uma 
tensão dramática crescente, com brilhos de forma que empolgam, 
com situações trágicas que emocionam e com uma clareza de in- 
tuitos que educa, o Pae^ de Strindberg, sem as nebulosidades de 
symbolo, do theatro de Ibsen e sem as brutalidades de processo 
-do theatro livre, austera nas suas linhas e impeccavel na sua te- 
chnica, é a peça modelar do theatro moderno, humano, no corte 
sangrento dos personagens, audacioso, no raciocínio Irio dos seus 
problemas, eterno, nas suas aspirações supremas de Justiça e de 
Verdade, de Arte absoluta e de Naturalidade intelligente. 



254 Impressões de Theatro — «O Pae» e o Sr. 'Pimentel 



O 'Pae, de Strindberg, discutido e analysado pelos grandes 
cérebros do Pensamento Contemporâneo, illuminado e vivido pe- 
las interpretações dos máximos artistas do nosso tempo, prefa- 
ciado por Zola, em França, e interpretado por Zacconi, em Itália,, 
sendo, como theatro, uma tragedia antiga no desfecho lancinante 
e no desenrolar angustioso das suas situações, é, como Arte, o- 
mais extraordinário poema da lucta dos dois sexos, a epopeia da 
Intelligencia do Homem esmagada pela perfídia da Mulher, o cal- 
vário sangrento das aspirações viris na cruz estonteante da von- 
tade feminina. 

Problema eterno e de solução immutavel dês que, naBiblia, a 
maçã de Eva expulsa Adão do Paraiso, no Pae, Laura, criando» 
no espirito do capitão a duvida da paterni- 
dade, exacerbando-lhe o amor pela filha 
com insidias sobre a sua dignidade de espo- 
sa, não recuando ante a infâmia de calum- 
niar-se p'ra vencer e radicando o seu domí- 
nio no collete de forças que aniquilla o 
marido, se, como theatro, nos transporta 
ás antigas abstracções gregas, como Arte^ 
evoca-nos no espirito as telas sombrias de 
Courbet e de Ribera, que, ensopando a pa- 
lheta no lodo da Vida, dão, através do Gé- 
nio, a imagem verdadeira e indestructivel da 
Realidade. 

No I.'' acto, no interior apparentemente 
calmo de um ofíicial, que é um pensador e- 
um homem de bem, de vistas largas e orientação avançada, com 
extremos de affectuosidade pela fílha que é o seu enlevo e serias- 
apprehensões sobre o dia de amanhã que, como pae, são o seu 
receio, o capitão, num dialogo, expontâneo e claro, natural e bri- 
lhante, como o pastor lutherano seu con-cunhado, tenta impor a» 
impedido, tenorio de sopeiras, a reparação duma divida de amor- 
Escapa-se o galucho pela tangente de que, tendo havido colla- 
boração na obra, é difficil determinar quem fez gemer o prelo^ 
e, liquidado o assumpto, com a concordância do Clero, a propó- 
sito do Chrisma com que o mulherio tenta besuntar a sua her- 
deira, o capitão pÕe-nos ao facto do seu viver intimo, das luctas 
constantes do seu lar, dos tormentos caseiros do seu menage: 
«Tenho a casa cheia de mulheres que todas á porfia, tratam de 




Strindberg 
Caricatura de H. Heran 



Impressões de Theatro — «O 'Pae» e o Sr. Pimentel 255 

educar a minha filha. Minha sogra quer fazer de Bertha uma es- 
piritista ; minha mulher, uma artista ; a professora guia-a p'r'6 
evangelismo ; a minha velha ama empurra-a p'r'ó baptismo. Não 
é assim que se forma o espirito duma creança e é por isso que 
estou decidido a arrancal-a a este meio». E mais adeante, depois 
de, em dois traços de dialogo, estarmos já todos conhecidos 
velhos dos personagens, que vão intervir na acção, as aspirações 
justas de pae, revelam-se, ponderadas e intelligentes : «Qiero 
que a minha Bertha receba uma educação pratica, isto é, não 
tendo fortuna p'ra lhe deixar, não podendo dar-lhe um dote, 
quero dar-lhe, com uma educação de professora, os meios de ga- 
nhar, mais tarde, honestamente a sua vida, se não casar, e, se ca- 
sar, essa educação servir-lhe-ha p'ra educar os filhos.» 

Nitidamente, claramente, nesta altura da peça já o especta- 
ctador sabe p'ra onde vae, e, conhecendo as aspirações e os ra- 
ciocínios do protagonista, acompanha-o, preso, subjugado, en- 
ternecido na lucta sanguinolenta e feroz contra a vontade férrea 
do mulherio que o rodeia e que vae esmagá-lo. Sae o Pastor e 
rompem-se as hostilidades, entre marido e mulher, numa scena 
brusca e eloquente, em que, puxando cada um pelos seus direi- 
tos, as palavras cortam como navalhas e os argumentos sibilam 
como bailas. Como pae, arroga-se o direito de educar a filha. Pae? 
E quem lh'o garante que o seja?... Lançada a duvida no espi- 
rito perturbado do pobre homem, como um verme, ella vae roer- 
Ihe o cérebro, dillacerá lo, fibra a fibra, da incerteza ao desespero 
do desespero á loucura, da loucura á apoplexia. O sábio e o ho- 
mem estão mortos, perdidos, aniquillados pela perfídia da mu- 
lher — é a eterna situação de Hercules a fiar na roca de Omphale, 
de Sansão manietado nas caricias de Dalila ; de Sócrates arras- 
tado ao suicidio pelas alfinetadas de Xantippo ; é o triumpho do 
fraco contra o forte, do Vontade contra a Intelligencia. 

No 2.° acto, Laura estende as suas redes e, rotas as hostilida- 
des, a guerra sem tréguas, sem quartel, sem piedade e sem per- 
dão, vae estalar. E' o assentar das baterias. Carpindo, em insinua- 
ções, ao medico recenchegado, desiquilibrios mentaes do marido, 
as suas manias de sábio, as suas impaciências e as suas rebelliões 
— Laura arma os seus laços, tece as suas teias, impõe a sua von- 
tade. O medico, de sobreaviso já, dando-lh'o todos como um 
doente, estuda o capitão, interroga-o, espia-o. Numa entrevista 
entre os dois, o capitão impacienta-se, com a idéa fixa da pater- 



256 Impressões de Theatro — O *tPae» e o Sr. Pimentel 

nidade a devastar-lhe o cérebro, faz preguntas estranhas e o me- 
dico, desnorteado pelas aparências, torna-se um alliado de Laura, 
o seu melhor auxiliar. Entre mulher e marido a discussão reno- 
va-se ; Laura, senhora do terreno, tem audácias cruas de machia- 
velismo, não poupa o inimigo, sabendo-o nas suas mãos, provo- 
ca-o, exacerba-lhe as angustias, atormenta-o com insidias, e, pre- 
mindo-lhe o cérebro nas tenazes da incerteza, dá-nos a sensação 
viva, perdurável e sangrenta, dos bárbaros supplicios da inquisi- 
ção. Esse dialogo frio e contundente, em que a mulher, com a 
vontade implacável da desforra do sexo, toma as proporções gi- 
gantescas da encarnação diabólica do Mal triumphante e domi- 
nador, e em que o homem, esmagado, succumbido, louco, tem, na 
humilhação resignada das supplicas, nos lampejos frementes da 
revolta, a grandesa dolorosa do velho Lear de Shakspeare, é tudo 
o que de mais soberanamente bello eu conheço em theatro, tudo 
o que mais intensamente humano eu conheço em Arte. 

E, quando, no fim, vencedora e orgulhosa, no remate da sua 
obra de destruição e anniquilamento, Laura descobre ao mari- 
do a traição da tutella que lhe prepara p'r'ó dia seguinte, e elle, 
num movimento irreprimível de desespero, num paroxismo de allu- 
cinação, lhe atira á cabeça o candeeiro que illumina a scena, o 
génio dramático de Strindberg, extraordinário e avassalador, ris- 
ca, nas culminancias do assombro, a consagração luminosa da sua 
individualidade theatral, na inexcedivel m;gia dos seus processos, 
na absoluta perfeição da sua arte. 

No 3.° acto, que, em tauromachia, tem o seu equivalente na 
puntilla^ o capitão, succumbido e doido, com recordações ternas 
da infância e estremeções bruxeleantes de dignidade e desespero, 
dócil como uma cr.ança, miserável como um cadáver, pede a sua 
farda p'ra morrer como soldado, e, evocando todo o passado des- 
feito, toda a vida quebrada, as angustias do seu cérebro e as ale- 
grias do seu amor, as suas esperanças de sábio e as suas aspira- 
ções de pae, deixa que a velha ama, a emballal-o com as canções 
do berço, lhe envergue o collete de forças ; e, ao perguntar-lhe 
Laura, num cumulo de perversidade e de escarneo, se quer ver a 
filha, cae, fulminado pela apoplexia. 



Não ha, como V. E.» vê no descosido resumo da minha prosa, 
em toda a peça de Strindberg uma situação equivoca, uma 



Impressões de Theatro — «O Pae» e o Sr. Pimentel 25? 

phrase menos casta que possa fazer corar a innocencia duma 
donzella, ou, um arremeço de forma ou desenvoltura de ideia, que 
ruborise o honesto pudor duma mulher casadoira : no próprio 
reportório do Normal, capado e catado pelos chinellos de ourelo 
da Moral burgueza, sem fallar no Serão, de obscena memoria, 
abundam as peças em que o adultério é o nervo, as adulteras as 
heroinas, o desaforo o quadro e, a escabrosidade, a única recom- 
mendação. Lemaitre, com a Irmã mais velha — ou As prenhe- 
^es do protestantismo, Courteline, com o 'Boubouroche — ou 
A epopeia do corno, e Hervieu, no Enygma, com a phrase 
brutal chercher dans quel lit ladultère s'est vautré, teem acostu- 
mado os tympanos da plateia normalina a violências mais desca- 
belladas e, incomparavelmente, menos humanas do que, as que, 
por acaso, hajam ferido, na traducção — que tudo me faz suppôr 
castissima — de Manuel de Macedo, os pudibundos melindres do 
benévolo censor do Serão das Larangeiras. 

Não ha, pois, Ex."" Sr., da parte do seu subordinado, uma sa- 
hida airosa e intelligente : por mais que.^lle lhe diga, por mais 
que barafuste e se esprema, ha de metter os pés pelas mãos e 
cahir nas laminas cortantes deste dilemma : ou, prohibiu o Pae 
de Strindberg, exactamente, por elle ser casto na forma, morali- 
sador na these e ser, como Arte, a desinfecção do Normal depois 
da epidemia do Serão; ou, prohibiu-o p'ra, com um descon- 
chavo pyramidal de inconsciência atrevida, rematar a sua car- 
reira de commissario, facilitando a V. Ex.* o acto de justiça de o 
varrer, com a demissão, da sinecura burocrática do commissa- 
riado, d'onde o publico devera te-lo corrido á batata na pri- 
meira recita do Serão. 

Ou, a veleidade de transformar o Normal em casa de passe e 
de lhe manter o exclusivo de marafonismos e porcarias, ou, a 
contricção de o ttr prostituído, impondo-lhe o livrete da imbeci- 
lidade erótica do Dantas e as taboinhas regulamentares das La- 
ranjeiras, dando o flanco p'ra que o ponham na rua. 

Num caso ou noutro, V. Ex.», que, como amador do theatro — 
de que deu provas resonando nas recitas do Le Bargy e adhe- 
rindo ás homenagens a Itália Vitaliani — não pode olhar indiífe- 
rente p'r'ó que se passa em D. Maria; e que, como funccionario 
bem remunerado e erguido por lei em arbitro da Arte nacional 
tem a estricta obrigação de intervir nos destinos daquella depen- 
dência do Estado ; V. Ex.*, depois de lhe ouvir a defesa e de a 

17 



258 Impressões de Theatro — «O Tae» e o Sr. Pimentel 



tornar publica, assoalhando na imprensa o que elle lhe segredar 
nos seus officios, — porque convém documentar sempre um acto 
de justiça e é de humanitária equidade ajudar a enterrar os mor- 
tos — V. Ex.*, a não querer cobril-o com a sua responsabilidade, 
tem de o demittir, por, em conformidade com a lei, lhe faltarem 
além das condições geraes de competência moral e litteraria, a 
auctoridade pessoal e mais partes que nelle não concorrem e são, 
de preceito, exigidas no individuo escolhido p'ra commissario ré- 
gio do Theatro Je D. Maria. 

Não é um acto de violência que de V. Ex.» re- 
queiro : é uma medida inaddiavel de profilaxia e de 
hygiene sanitária, que de V. Ex.* reclamo, em nome 




da Arte dramática do meu paiz, 
das tradicções de gloria que enobre- 
cem o passado do nosso primeiro 
theatro, do Bom Senso e do De- 
coro, que, de banda das estações of- 
ficiaes, teem direito a exigir os que, 
na plateia do D. Maria, pagam os seus 
logares como espectadores, depois 
de, como contribuintes, terem con- 
corrido, com as suas quotas de im- 
postos, pVa que a Casa de Garrett 
em alguma coisa se distinga e sobre- 
leve das barracas de feira de Be- 
lém— em que, não havendo maior 
despreso pela Arte e pela Decência, 
não ha, comtudo, inutilidades buro- 
cráticas, a quatrocentos mil réis e 
camarotes privativos, asneando em 



I 




Alberto Pimentel 
Caricatura de José Leite 



Impressões de Theatro — «O Tae» e o Sr. Pimentel 25g 

nome da lei e enchendo de ridículo e grotesco a auctoridade 
de V. E.« 

Aguardando, no decreto de exoneração do commissario régio^ 
a resposta de V. Ex.*, ao desalinhavado desta carta — escripta en- 
tre lençoes, grippado e com febre — sem as formulas usuaes de 
respeito e consideração, que a etiqueta im^Õe e o conhecimento 
da sua biographia e a noção da minha dignidade me vedam, sub- 
screvo-me 



De V. Ex.» 

antigo condiscipulo 
e adversário sempre leal 



3. m. 



LX 



23 JANEIRO [*} 

easamento de conveniência, ^^-3 

actos original de Goelho de Carvalho. Theatro de D. Maria. Dis- 
tribuição: Baroneza de Runa, Augusta Cordeiro. — D. Helena 
DE Mello, Cecilia Machado. Maria Gonçalves, Angela Pinto. — 
D. Antónia Bonifácio, Carolina Falco. — D. Constança de Mene- 
zes, Luz Velloso. — D. Bertha da Cunha, Alda d'Aguiar. — Mar- 
QUEZA DE Alva, Beatriz Rente. — Expectação, Amélia Vianna. — 
Cónego Maia, Ferreira da Silva. — Conde da Ega, Maia. — D.Fer- 
nando DE Mello, Augusto Mello. — Visconde de Trigal, Luiz 
Pinto. — Bonifácio, Joaquim Costa. — Marquez de Alva, Cardozo 
Galvão. — Ministro, Pinto de Campos. — D. JoÃo da Cunha, Car- 
los Santos. — Criado, Sampayo. 

Meu rapa^ : — Engrippado, a quando da primeira do Casamento 
de Conveniência^ fervi em pulgas té que me dissessem do que era 
a peça e do seu valor, os amigos, que, tendo-a visto, gentis e amá- 
veis, me trepavam a casa, quasi todas as noites, a dar-me em dois 
dedos de cavaco novas do que ia pelo mundo: frios agrestes, que 
eu não sentia entre os cobertores, escândalos de trombone em 
que, por não ser anti-batibarba, eu não soprava. E os informado- 
res, se todos concordes me faziam presentir, que o Casamento de 
conveniência era alguma coisa de valor e de intuitos, quanto a 
detalhes, distanciavam-se tanto e tanto se baralhavam e contra- 
diziam, que, eu mais irriquieto e mal encarado, acatava os uka- 
ses da medicina, que me prendiam em casa e, mais anciado, espe- 
rava a noite de ir, por mim próprio, a avaliar da estreia theatral 



(•j Data da i.* representação. 



- Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 2Õ1 

do sr. Coelho de Carvalho, que, como traductor de Augier e de 
Codina, refrescara, no Normal, a velha redondilha portugueza e 
como fino humorista de salão, espiritualisa, nos cavacos de cama- 
rins, onde nos temos topado, a boa chalaça lusitana. 

— E' boa a peça, mas confusota. 

— E' uma carga na padralhada, mas está bem escripta de 
mais. 

— Tem qualidades mas não é theatro. 

— E' anti-clerical, mas, não se sabe se o cónego é boa ou má 
pessoa. 

— Está bem feita, mas tem um acto coxo. 

E quando, farto de tanta informação, eu, p'ra resumir e con- 
cretisar aventava a pergunta — Mas afinal é boa ou má? — todos, 
á uma, declarando-a boa, desencabrestavam, outra vez, a deta- 
lhar e nem o diabo os entendia e menos ainda os harmonisava. 

Fui ver a peça, na primeira noite em que puz pé na rua e, mal 
o panno baixou no ultimo acto, dando razão plena e absoluta ao 
consenso geral dos que a applaudiam como uma bella e sã obra 
de boa e verdadeira litteratura, comprehendi as adversativas com 
que restringiam a sua admiração pelo Casamento de conveniência 
os meus desharmonicos informadores. 

Eu digo-te, primeiro, a nervatura da peça, o seu desenrolar e 
o seu intuito, e dir-te-hei, depois, como, no fundo de todos os dis- 
parates, com que me haviam enchido os ouvidos, havia uma faú- 
Iha de razão, ura resquício de verdade e de justiça, que, não di- 
minuindo o mérito absoluto do trabalho do sr. Coelho de Carva- 
lho, hão de minguar-lhe o successo e prejudicar a carreira da 
sua peça de estreia ante um publico que, ainda ha dias, levou á 
decima quinta o Serão^ que, no romance ainda está no Campos 
Júnior, em poesia, no Alberto Bramão, no drama, na Vida do ra- 
pa^ pobre^ na comedia, no Commissario de Policia, em politica, no 
azul e branco da Carta e em religião, no Cathecismo do padre 
Ignacio. 



Um padre, Cónego Maia sem té e sem escrúpulos, com a sede 
do mando e a febre do predomínio, cotado na Cúria e puido em 
todas as manobras da Sachristia, hypocrita como Bazilio e ardi- 
loso como Figaro, jogando na bolsa o dinheiro de S. Pedro e pi- 
lotando no Confissionario a gente grada da sociedade alfacinha. 



202 Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 

com o poder tenebroso que dá a Igreja aos seus capatazes e com 
a velhacaria arguta com que Deus fada os seus mariolas, conhe- 
ceu nos seus tempos de penúria e desregramento um trampoli- 
neiro da sua estofa, Visconde do Trigal que enveredando p'rá 
finança e p'rá politica — mercê dura casamento rico em que fez 
de benzina — é, ao encontrar-se com o cónego, além de viuvo, 
banqueiro millionario, visconde do High-life e deputado da maio- 
ria. 

Reatadas as relações da juventude, estreitadas pelos laços de 
antigas cumplicidades, no abandono dum filho e duma mulher se- 
duzida, as affinidí-des de sevandejaria que os invulnerabilisam 
p'r'á conquista do mundo, alliam-se. Como alhados, caminhando 
p'r'ó mesmo fim, o deputado cede ao padre a sua influencia po- 
litica e financeira, o padre cede ao deputado todo o estranho ma- 
chiavelismo da sua batina e das suas artimanhas. . . 

Não é le sabre & le goupillon do nacionalismo francez, mas é 
a Arcada & a Sachristia da nossa terra, porque a peça des- 
enrola-se em Portugal, em casa dum fidalgo arruinado, D. Fer- 
nando de Mello — encalacradissimo pelos lendários erros da admi- 
nistração gentilhomesca, roido pela usura e pela magnificência, 
pelos gadanhos insaciáveis dos procuradores e pelos faustos de- 
voradores da roda-fina. 

O velho fidalgo, empergaminhado e pobre, tem uma filha. He- 
lena^ figura angelical da boa e casta rapariga portugueza, de edu- 
cação esmerada e coração altivo, que ama um primo, conde de 
Ega^ gentilhomem provinciano, cavalheiroso, honesto, um pouco 
D. Quixote e um tudo-nada romanesco, com a alma cheia de bi- 
zarrias e a bolsa vasia de cobres. 

No regresso marítimo duma viagem de educação em Ingla- 
terra — cumpre notar a cultura intellectual do meio em que a 
acção decoire — Ega flirtára com uma Baronesa, alma perversa 
de rameira na encarnação aristrocratica e bom-tom de grande 
dama, intriguista e voluptuosa, presidenta de obras-pias e amante 
dum ministro, que, casada com um velho diplomata, tio de He- 
lena, tenta, numa scena magistral de seducção, desplatonisar o an- 
tigo flirt, mettendo-se á cara e offerecendo-se ao conde de Ega, 
que a esmaga com o seu despreso, numa fidelidade de phosphoro 
amorpho por Helena, que, ainda mais, abespinha a outra. 

Juntando a estes personagens uma Maria Gonçalves, — que 
já ahi vem — e a figura incidental de Bonifácio, rato de Egreja 



Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 263 



e corrector de fundos, homem devoto e mystico, bisbilhoteiro 
e alatinado, que é um agente do Cónego e pessoa da confiança 
do velho fidalgo, tens tu, meu rapaz, apontados todos os perso- 
nagens indispensáveis do Casamento de conveniência^ que, como 
vaes vêr, devera antes chamar-se um Casamento da Catholica 
porque é, na verdade, esta acreditada agencia matrimonial tão 
popular e benemérita entre os rufiões matrimoniaes da nossa ge- 
ração — noivos ou noivas em bom uso, dotes sólidos, brazões 
heráldicos e benção do Santo Padre — que, na pessoa do Cónego 
Maia, vae manobrar o casamento de Helena com o Visconde do 
Trigal, que precisa limpar o passado com a esponja d'uma al- 
liança com a velha-rocha e que, tendo entrado, já uma vez, 
no caminho da fortuna, como benzina duma herdeira rica, 
precisa arrombar os ultjmos cofres, com a gazua de uma 
noiva sangue azul. 

Cónego Maia mais 
mestre Bonifácio, dei- 
tando mãos á obra, 
expõem ao pae de He- 
lena o estado lasti- 
moso da casa : execu- 
ções a baterem á por- 
ta, penhoras que es- 
preitam o mobiliário, 
a ruina completa, a 
miséria negra, talvez 
a fome, e, como salva- 
ção única do naufrá- 
gio eminente — o vis- 
conde do Trigal. 

Por seu lado, a Ba- 
roneza — por um acaso 
das suas peregrina- 
ções de dame de Cha- 
rité que a faz topar com Maria Gonçalves^ seduzida e abando- 
nada pelo Trigal, — conhecedora de toda a lama em que chafur- 
dou o passado e se debate o presente do alliado do Cónego, 
trata de o impontar, como marido, á noiva do conde de Ega, 
que a não quiz, e, vá p'ra isso, de o intrigar com Helena, 
numa vingança felina de fêmea humilhada, lançando a semente 




Joaquim Costa 
Caricatura de Julião Machado 



264 Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 

vaga do ciúme, a sombra opaca das suspeitas, no coraçaosito 
inexperiente e crédulo da pobre rapariga. 

Preparado, d'esta guiza, o terreno das duas bandas, não pôde sur- 
prehender, no theatro, o bom successo da entrevista entre pae e 
filha, em que o velho repete, como lição mal decorada, os ar- 
gumentos do Cónego e Helena sacrifica o seu amor ao futuro 
de Ega que, um casamento pobre, irremediavelmente, compro- 
metteria. D'ahi a acceitar Trigal vae um passo : o velho fidalgo 
já oacceitou e Helena ha de acceita-lo, embora faça beicinho. 

A obra da Catholica vae em bom caminho e a do sr. Coelho 
de Carvalho, esmaltada de ditos espirituosos e burilada na mais 
brilhante prosa que eu tenho ouvido em peças portuguezas, chega 
nesta altura ao seu ponto culminante, como obra de theatro e 
como arma de combate, como technica segura de homem de let- 
tras, que se serve do palco como dum baluarte e como ataque 
resoluto de pensador, que subordina ás linhas heráldicas da Arte 
os golpes certeiros da sua argumentação, dando-nos através da 
imagem artística da Verdade, a violência intencional da Ideia. 

Cónego Maia, pVa casar o Trigal, seu alliado, tem de demo- 
ver o barranco escabroso da mulher que elle desgraçou, e, o 
sr. Coelho de Carvalho, p'ra não cair no demagogismo banal dos 
Lazaristas do Ennes, tem de desenvencilhar-se de todos os 
cordelinhos do oíEcio em que Sardou é mestre, e, como ainda não 
ha em Arte recurso como o da observação, como não ha, em thea- 
tro, effeitos como os arrancados á Vida, o sr. Coelho de Carvalho 
venceu todas as difficuldades, á força de simplicidade, dando-nos 
no 3." acto do Casamento de conveniência^ como flagrante de na- 
turalidade e como fidelidade de reproducção, o pandant das pa- 
ginas melhor observadas do Padre Amaro, na photographia colo- 
rida e movimentada da Sachristia do Corpo Santo, onde o Có- 
nego Maia arranca da miséria e do amor materno de Maria Gon- 
çalves a declaração escripta de que houve um filho, não do Tri- 
gal, Luiz Evaristo, mas dum irmão, Evaristo Luiz, morto no 
Brazil. 

Vencido o barranco do Padre e definitivo o casório em que a 
Catholica se empenha, o quadro anima-se com o chilrear mys- 
tico das moças do Apostolado, que vêem a diliciar-se com as do- 
çuras piedosas dum conferente francez, com os escrúpulos beatos 
de Madama Bonifácio, que faz olho profano ás carnes sagradas 
do seu confessor e com as manobras estratégicas que o Cónego 



IxiPRESSÕES DE Theatro — Cãsamento de Conveniência 265 



commanda e duas irmãsinhas desenrolam, crucitando em torno 
duma moribunda, pVa arrebanhar p'r'ó Santo Padre a fortuna 
que, indo aos herdeiros legitimos, enriqueceria o conde de Ega e 
assim deitaria a terra os mais caros planos da confraria. 

Neste 3 ° acto, que, por si só e em qualquer dramaturgia, faria 
a reputação dum homem de theatro e que é, incontroversamente, 
a pagina mais violenta do anti-clericalismo lusitano, o ponto fun- 
damental e dominador, — cujo similar 
eu só encontro no dialogo molieresco 
entre Tartuffo e Elvira na scena de 
seducção do Tartuffo — é o da con- 
ferencia espiritual entre a Baroneza 
e o Cónego, em que toda a comph- 
cada psychologia duma alma de mu- 
lher se põe a nu, em traços firmes e 
magistraes da Verdade que, escalpel- 
lisando um temperamento, definem 
uma sociedade e em que, a tor\a lu- 
xuria, a refalsada hypocrisia dum 
tonsurado, em lampejos luminosos e 
bruscos de observação, põem a des- 
coberto toda a podridão moral duma 
classe e todo o asqueroso absurdo da 
Mentira catholica, que, ainda hoje, pe- 
los seus agentes de Roma, governa 
os povos e subjuga o Mundo. 

Nessa entrevista — onde a pata sa- 
^ crilega do commissariado deixou a 
marca indelével daquella tacanhez 
lendária e nunca assaz cantada que 
Cecília Machado prohibiu O Pae de Strindberg e con- 

orge o aço sentiu O Serão de Dantas — o cónego 
pesca uma mitra, a Baroneza o perdão do adultério e, ambos, 
numa uniformidade de vistac que lembra os larrons en foire, dão 
os últimos retoques no casamento conveniente de Helena com o 
visconde de Trigal. 

Casam. Mas á volta da Igreja, a Baroneza, alma damnada, mu- 
lher abysmo, fêmea demónio, num molde peninsular, ardente e 
claro, da Hedda Gabler do Ibsen e da Laura de Strindberg, de- 
pois de ter atirado ao conde da Ega com a resenha da sua obra 




266 Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 



de vingança e de desforra, tenta completal-a, num requinte satâ- 
nico de infâmia, provocando o encontro de Maria Gonçalves com 
o seu seduclor, ás escancaras, atirando á cara de Helena, ainda 
envolta no veu de noiva, com toda a lama do biltre que lhe im- 
poseram por marido, 

Ega tenta interpõr-se, mas os noivos chegam, o encontro 
entre a mulher abandonada e o seu algoz dá-se ; num grito lanci- 
nante, em que lhe vae a alma, Maria Gonçalves desvenda o pas- 
sado, e, quando tudo parece irremediavelmente perdido, após 
um bello movimento de generosidade de Ega, cónego Maia, 

brandindo a declaração ar- 
rancada á pobre mãe na sa- 
christia do Corpo Santo, 
lança agua na fervura, deita 
poeira nos olhos, e, decla- 
rando calumniado o prote- 
gido e louca a desgraçada, 
cahe o panno, acaba a peça, 
estando a gente, a ver, que 
antes de ir p'r'ó Bispado, o 
cónego ha de internar a sua 
victima num dos muitos ma- 
nicomios que a Ordem man- 
tém e explora e onde se fa- 
zem doidos, ao sabor das 
conveniências dos grandes da 
terra e ad majorem Dei glo- 
ria. . . 




PWtfT. L''SBo^ 

Fernando Mau 
Caricatura de F. Teixeira 



Estás a ver porque todos 
concordam em que a peça 
é boa, e porque, contra os meus hábitos, desta feita, eu concordo 
com toda a gente : peça de intuitos e de ideias, dando através 
duma prosa magnifica, a imagem verdadeira dos pináculos da so- 
ciedade em que vivemos e dos bastidores da Reacção onde, na 
sombra, se trama a tyrannia que nos opprime, é uma obra ho- 
nesta, salutar e brilhante, que, revelando uma consciência que 
protesta, é natural que choque e irrite todos os estômagos que 
se abarrotam e todos os espinhaços que se curvam. 

E' pois boa. Mas é confusota ! . • . Já o Dâmaso Salcede dizia 



Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 267 

c mesmo do Daudet e, os que o dizem do Casamento de conve- 
niência^ teem seus laivos de razão, porque, sendo o theatro avesso, 
na sua reproducção esthetica e nítida da vida, a todos os emara- 
nhamentos rendilhados da forma e tendo o sr. Coelho de Carva- 
lho, dada a cultura intellectual do meio em que deslisa a sua 
peça, timbrado em pôr na bocca dos seus personagens a lingua- 
gem limada e litteraria do seu amplo vocabulário académico, dis- 
creteando todos, machos e fêmeas, sobre a nobreza, a fortuna, o 
pudor, a religião, as tradicções e os jogos de bolsa, mais como 
<;onferentes que olham o seu publico do que como creaturas que 
tratam da sua vida, é claro que a peça, ganhando como littera- 
tura e como philosophia, perde como theatro, desviando, pVá 
fcelleza da forma, as attenções que, em boa carpinteria sardounica» 
devem convergir pVá emotividade da acção. 

E o espectador, pouco attreito a esforços de intelligencia e 
a concentrações de pensamento, costumado ao estylo feijão bran- 
co e compota de ginja dos nossos dramaturgos, atrapalha-se, 
<iesorienta-se, confunde-se, e, p'ra não confessar insuficiências 
<le miolo, acha a peça boa. . . mas confusota, e, applaudindo-a 
■como carga a padralhada — no dizer typico do meu informador 
— acha-a bem escripta de mais, o que redunda em elogio, sabido 
•que, no theatro portugucz, por via de regra, ha sempre gramma- 
tica de menos. 

E tem a menos, também, a theatralidade, porque não tem o 
iruc^ o cordelmho que puxa a lagrima e amarfanha os nervos, 
«xactamente porque se desenrola na serenidade fria dos salões, 
•donde João Félix Pereira proscreveu o berro e os arremeços e 
cm que montões de infâmia se cobrem de montões de rendas e 
os grandes movimentos de alma se estagnam no collete de forças 
•das boas maneiras. 

A peça tem qualidades, mas, não é theatro, porque, sendo a thea- 
tralisação da alta sociedade feita por escriptor que a frequenta 
•e a observa no logar do smistro e não pelos mexericos das cosi- 
nheiras, é, necessariamente, uma photographia a que, se o drama- 
turgo desse os retoques da sua Arte, seria, como corrv'enciona- 
lismo do theatro romântico, uma peça perfeita, mas deixaria de 
■ser, como verdade, uma obra honesta de intuitos e de demolição : 
não é theatro, porque, n'uma época de Mentira, estando a men- 
tira nas consciências, não agrada a verdade, sem refolhos nem 
parras, a mover-se serena nas lonas do proscénio. 



268 Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 



E a própria intencionalidade anti-clerical do Casamento— c\ner 
sobretudo me anima e me justifica na incondicionalidade do ap- 
plauso — não resalta, desgrenhada e crua, p'r'ás cerebrisações de 
abóbora porqueira, que, não pensando em casa, não raciocinando 
na rua, não vão ao theatro arriscar-se a uma morte certa, que o 
adagio popular lhes diagnostica, porque não havendo, como en> 
todos os dramalhÓes, um personagem livre pensadeiro, pé fresco e 
malcreado, que descomponha o Cónego e lhe chame nomes feioSy 
e, no fim da peça, lhe dê um morra estridente, que, em vez de ir 
tudo pVó copo d'agua, arrebanhe Helena mais o Ega p'r'á Associa- 
ção do Registo Civil. . . o espectador sahiu sem concluir se o Có- 
nego é boa ou má pessoa, se por detraz delles está a Catholica 
e por traz da Catholica o jesuita, a reacção, a mentira e a ty- 
rannia. 

E' triste, mas é verdade : os espectadores que, mais viva e 
enthusiasticamente, poderiam applaudir a obra demolidora do sr_ 
Coelho de Carvalho — os meus correligionários de republicas e 
livres-pensamentos — são muito boas pessoas e cheios de boas- 
intençóes, mas de vistas grossas e lettras gordas. Não deduzert> 
por si; necessitam, pVa reflectir, que alguém pense e conclua por 
elles. O dramaturgo não lhes disse o que concluirá e elles não o 
perceberam e não concluiram coisa alguma. O que, de resto, pro- 
va, que, em face das Bemaventuranças e da guarda municipal, os^ 
meus correligionários estão mais perto do reino dos céus. . . que; 
da proclamação da republica. 

# 

No desempenho do Casamento de conveniência^ Ferreira da 
Silva, dando, com lúbrica luxuria, toda a velhaca hypocrisia e toda 
a unção postiça das linhas geraes do seu personagem e deta- 
Ihando-o, em mil cambiantes bem graduadas, em nuanças quasi 
imperceptíveis e tonalidades delicadas, pondo em foco toda a 
sua arte de dizer e deixando transparecer na mascara todos os- 
seus recursos de exteriorisar, marcou uma creação typica e in- 
confundível que o soerguia ao Olympo dos comediantes por- 
tuguezes, em Júpiter tonante dos nossos palcos, se, menos my- 
thologico e mais pratico, elle não estivesse já hoje, oíficialmente e 
por direito, na hierarchia burocrática do Normal e no livro d'ou- 
ro do nosso movimento artístico, no primeiro logar e na mais 
gloriosa pagina. 



Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 269 




Augusta Cordeiro 
Inédito de Julião Machado 



Depois delle, Augusta Cor- 
deiro, no papel de Baronesa, 
tmpoz-se ao elogio caloroso e 
AO applauso vibrante dos que, 
reconhecendo-lhe faculdades, 
se surprehenderam, ainda as- 
sim, vendo-a arcar com as res- 
ponsabilidades e sair plenamen- 
te victoriosa das asperesas ar- 
tisticas dum personagem, que 
sendo, como disse, uma nacio- 
Tialisação da Gabler e da Lau- 
ra^ é o mais complexo e intrin- 
cado trabalho da sua carreira 
•e foi, apesar d'isso, o mais se- 
guro e perfeito que lhe tenho 
admirado. Não vejo, entre o 
mulherio dos nossos palcos, 
quem, no género, podesse fa- 
2QT egual, e seria necessário atravessar os Pyrineus e ir ao Bou- 
levard, p'ra ter a desillusão de que se não faz melhor. 

Joaquim Costa — no Bonifácio — sem cair no caricatural da 
farça e equilibrando-se no humorismo mesurado da intenção do 
dramaturgo, marcou um typo pittoresco e verdadeiro, exacto e 
flagrante, que não destoa entre os melhores da sua larga galeria 
•do actor cómico, onde os grotescos e os ridiculos da Humanidade 
se encastellam no hillariante alicerce das gargalhadas com que 
Costa vae enflorando, pela vida fora, a mazomba tristura do pão 
nosso quotidiano. 

Cecilia Machado, progressiva e laboriosa, ficando, como mu- 
lher, a mesma piorrita roliça que, physicamente, a acorrenta á in- 
genuidade da gente moça, como actriz, vae desabrochando e ga- 
nhando a dianteira a velhas consagrações da tarimba e do recla- 
mo. E' uma ingénua de alta comedia, que, tendo conseguido mo- 
delar o pranto e educar a exteriorisação do sentimento, na 
Helena deu um grande pulo p'r'ás emmotividades do drama. 
Avançando sempre, olhos fitos no futuro, de dia p'ra dia, Ceci- 
lia Machado, ora de gatas, ora a pé firme, vae trepando, e, sem 
parar na contemplação vaidosa do triumpho de hoje, prepara, 
cauta, a victoria de amanhã, amando a sua arte e educando o seu 



270 Impressões de Theatro — Casamento de Conveniência 

temperamento com a tenacidade dos que querem vencer e con> 
a audácia dos que não sabem recuar. 

Maia, disse e representou o Conde d'Ega com a correcção 
dum bell© diseur e com o calor e naturalidade dum artista con- 
summado, e Angela Pinto, numa rábula de poucas linhas, deu a 
nota do seu valor e, dando-a, destacou-se e dominou a plateia 
com o fogo da sua alma e com o talento irrequieto da sua indi- 
vidualidade originalissima. 

# 

Alto ! pois agora reparo que, em compita com a Cosinha Eco- 
nómica, na distribuição, justa e equitativa, deste bodo, me nassou 
ainda a observação, verdadeira e exacta, de que a peça tem um 
acto coxo. 

Tem : porque lhe arrancou as muletas a censura, que, ao Fer- 
reira da Silva arrancou, outro dia, o triumpho certo do Pae de 
Strindberg, e que, da casa de Garrett arrancou, com a auctorisa- 
ção das Laranjeiras^ as tradições de decência, de decoro e de 
Arte que a distinguiam das barracas de feira onde o Caetano Gre- 
gório, as 'Bombeiras do Rei Trombone, e as congéneres conthari- 
das do género chulo, corariam em pucellas, do erotismo mórbido 
do Dantas. 

Até nisso, o Casamento de conveniência é uma peça de com- 
bate e de anti-claricalismo : porque, dizendo a theologia que o 
homem é feito á imagem e semelhança de Deus, veiu demonstrar 
que, ou, mente a Egreja, ou sendo Nosso Senhor pela imagem e 
semelhança de Deus, uma espécie de commissario régio lá do ceu, 
está a pedir, como o cá de baixo de D. Maria, que o corram a chi- 
nello do logar que occupa. 



LXI 

28 JANEIRO 



Uma noite em Veneza, drzènTGanTe! 

com musica de Strauss. Theatro fívenida. Distribuição: Duque 
DE BiDEMOR, Raposo. — Dr. Macário Delacqua, Roldão. — Ludo- 
vico Lauderico, Salgado. — Donato Donati, Fernandes. — Cara- 
MELLo, Delphina Victor. — Capitão Douzelli, Lopes. — Papacada, 
Setta da Silva. — Contuvio, Miranda. — Balbi, Rodrigues. — Pie- 
RiNO, Barros. — Titto, Albuquerque. — Au, Taveira. — Francisco» 
Villas. — Anntca, Isaura, — Barbara, Sarah. — Laura, Ruth. — 
Agrícola, Stella. — Ciboetta, Amélia Pereira. — Uma pescadora, 
Elvira. 



Lembram-se ? Abriu o D. Amélia a companhia Gargano com 
Uma noite em Vene^a^ musica leve, coristas bonitas, vozes afina- 
das. No Avenida a peça é a mesma, as coristas é que são outras. 
Tão outras, que, até a musica, parece pesada e desafinadas as vo- 
zes que a esganiçam. E' um problema insolúvel este das mulhe- 
res feias nos palcos portuguezes. . . 

Que as bonitas, mesmo cá fora, cada vez rareiam mais e — 
não contando nem medico nem botica — estão pela hora da morte 



LXII 



Os diabos na terra, 



28 JANEIRO 



opera cómica phantastica 
adaptação do allemão de 
Accacio Antunes, musica de Nicolino Milano. Theatro da Trin- 
dade. Distribuição : SaTANAZ, Queiroz. — Mephistopheles, Alfredo 
de Carvalho. — Beldemonio, C. Santos. — Isidoro, estudante, A. 
Cruz. — Hermann, tenente de dragões, F. Costa. — Renato, estu- 
dante, Gomes. — Lebel, Soares. — Capitão de dragões. Conde. — ■ 
MuzARELi, professor de dança, Colas.- Marquez da Velha Ro- 
cha, Firmino. — Astaroth, medico do inferno, C. Santos. — Lim- 
MERMAU, empresário, Soares. — Lusbel, Soares. — Assael, Gabriel. 
— Abadomo, Barreiros. — Elriel, Brito. — Jorge, C. Santos, — 
Bertholdo, Barreiros. — Fabrício, H. Santos. — Príncipe Nóvó- 
GÓRÓFF, Gabriel. — Conde Kautzau, H. Santos. — Rancheiro, Ga- 
briel. — Amanda, educanda do convento, Medina. — Isabel, idem, 
M. Santos. — Rosina, bailarina, M. Santos. — Anacleta, superiora 
do convento, Amélia Barros. — Senhora Lebel, Estephania. 

Ha quem queira ver intuitos politicos, avançados e demolido- 
res, n'esta patuscada musical de diabos, diabinhos e diabretes. 

O Kaiser em mafarrico, com acompanhamento de fagote, a 
sahir dos alçapões das magicas, todo o direiro divino teutonico, 
militarista e autocrata, de rabo farpado, lingua de fogo e comi- 
ches na fronte, seria, na verdade, uma bella pagina de irreverên- 
cia e de facécia. 

Mas, não sendo as allusões transparentes, sendo tão velladas as 
carapuças, tão encapotadas as picuinhas eu — e commigo o grosso 
do publico, — ficamo-nos em que Os diabos na terra são pura e sim- 



Impressões de Theatro — 'Diabos na Terra 278 

plesmente, uns demónios cordatos e conservadores, boas pes- 
soas e de trazer por casa, sem intencionalidades jacobinas nem 
symbologias demagógicas. Uns pobres diabos de magica, reina- 
■dios e mansos, que, pela desafinação e pela estopada, podem ser 
uma dos diabos p'r'ó emprezario que os poz em scena. 

Que Deus Padre — Todo Poderoso — se lembre que as gen- 
tes do Inferno lhe são da familia e se amerceie dos Diabos na Ter- 
ra e do sr. Taveira na Trindade. 



18 



LXIII 



3o JANEIKO 



Sem o foguetorio estraleiante 
do reclamo, nem h, areia encarnada 
das adjectivações solemnes, pacata 
e despercebidamente, faz hoje a 
sua fesía artística um dos raríssi- 
mos temperamentos artísticos da 
nossa terra, onde, no computo diá- 
rio das folhas, todo o cagadocio 
tem muito talento e poreja génio 
todoo tataranha, mas, onde, na ver- 
dade, o mento absoluto, 
o valor real, o fogo sa- 
grado da Arte e a scen - 
telha divina do Génio, é, 
em todas as manifesta- 
ções da vida intellectual, dês da po- 
litica ao theatro, dês da eloquência de 
S. Bento té ao cabotínismo dos pros- 
cénios, uma espécie de phenix mytho- 
logica, como o liberalismo do João 
Franco, em que os papalvos acredi- 
tam sob palavra de honra e que nun- 
ca ninguém lobrigou e jamais alguém 
presentiu. 

Joaquim de Almeida, noutra terra, 
em que os talentos se apregoassem 
menos e marcassem mais, onde as in- 
dividualidades abundassem e os su- JoÁo Franco 
balternos não viessem á superfície Caricatura de Raphael B. Pinheiro 




Impressões de Theatro — Joaquim d' Almeida 



275 



em consagrados, onde a arte scenica fosse um sacerdócio e não 
um modo de vida, seria, incontestavelmente, um talento, uma in- 
dividualidade, um consagrado e um sacerdote do ritualismo thea- 
tral, grande entre os maiores, festejado entre os festejados e que- 
rido entre os queridos. 

Na estreitesa do nosso meio, conhecendo-lhe os escaninhos e 
os alçapões, desilludido e descrente, Joaquim d'Almeida, sendo 
um temperamento de artista, destacou sempre, mas nunca che- 
gou a impôr-se. Marca, dês do inicio da sua carreira, mas nunca 
conseguiu dominar, sobrando -lhe qualidades p'r'ó triumpho nunca 
chegou á victoria e sendo, como nenhum outro, fadado p'ra ven- 
cer, chega á velhice como um vencido. 

Sendo, como raros, um artista na acepção plena da palavra, 
no desequilíbrio das suas creações e na 
irritabilidade dos seus nervos, na lú- 
cida acuidade do seu espirito e nos 
destrambelhados arrancos da sua in- 
dependência, Joaquim d'Almeida é, 
como nenhum, um typo de come- 
diante á maneira romântica do Kean, 
cheio de altos e baixos, de sombras 
e luz, grandezas e misérias, perdula- 
rismos de arte e socancrices de fan- 
caria, attingindo, em rasgos, as emi- 
nentes culminancias do Génio, bai- 
xando, em trambulhões, aos rasteja- 
mentos anodynos da Vulgaridade. 

No theatro portuguez, nunca nin- 
guém foi mais longe nem mais alto, 
mas nenhum, também, da sua enver- 
gadura e da sua craveira, tem parado 
tantas vezes no caminho, recuando, 

obliquando, descendo ou subindo, zigzagueando, numa gandaia- 
gem de insubmisso, dos grandes papeis do drama aos miseros 
empregos da farça, da magica e da revista do anno. 

Já o não conheci nos tempos áureos em que, ao lado de An 
tonio Pedro, elle era, no apogeu da sua força e na maturação dos 
seus recursos, um artista perfeito, completo, integral e equili- 
brado ; mas, da tradicção dos que o conheceram, do que se pode 
avaliar do luminoso descalabro das suas ruinas, eu concluo que 




Joaquim d'Almeida 
Caricatura de Carlos Leal 



276 Impressões de Theatro — Joaquim d' Almeida 

Joaquim d' Almeida foi, quando quiz, o maior artista da sua gera- 
ção e que, velho, gasto e desmemoriado, seria, ainda hoje, se qui- 
zesse, o mais humano interprete da tragedia burguesa, o mais hu- 
morístico centro da alta comedia, como é, mesmo, quando não 
quer, o mais fogoso e arrebatado temperamento artístico dos 
nossos palcos. 

Todas as suas falhas de actor lhe vêem de intermitencias da 
vontade, porque Joaquim de Almeida em Arte, como na Vida, 
faz o que quer, como quer e quando quer. Conhece, porém, a in- 
sufficiencia mental do publico que o escuta, a miséria do meio em 
que vive e a insignificância artística dos que o rodeiam. Não 
transige nem se amolda, e, como julga, por isso, que não vale a 
pena querer sempre, não sacrifica ás exigências duma vontade 
fria e serena os arranques da sua independência fogosa e as ares- 
tas do seu feitio tumultuario. 

Portuguezissimo até nos traços rijos da mascara, sempre que 
o vejo em compadre de revistas, satanaz de magicas ou títere de 
farças, me vem ao espirito outro temperamento de artista, numa 
alma de santo, que encarnou em si todas as taras da nossa raça 
e do nosso feitio ethnographico : João de Deus, o primeiro lyrico 
do mundo, num quinto andar da travessa da Palha, matando a 
fome com loas á Senhora do Gabo e versinhos p'r'ós confeiteiros. 

Um e outro se deixaram ir na corrente : o p'ra quem e, bacalhau 
basta foi p'ra ambos uma norma da vida e o deixar correr o mar- 
fim a formula syntetíca do seu protesto contra a charra peque- 
nez dos que se lhe adeantavam no caminho, dos que trepavam 
e se enchiam da fumarada do reclamo, que, na vida, é o ar quente 
que soergue ás nuvens os balões da vaidade, do falso mérito, do 
pedantismo das consagrações a tanto a linha e das immortalídades 
a tanto ao mez. 

João de Deus e Joaquim d' Almeida — um todo ternura, outro 
espirra-cannivetes, um, manso e brando, em cordeiro pascal, outro 
irrascivel e áspero, em gato assanhado — são duas modalidades 
de genío, do mesmo bloco lusitano : encarnam o nosso feitio mo- 
ral e synthetisam toda a nossa philosophia — feitio patusco de 
nos desperdiçarmos e de não nos sabermos avaliar, de nos ca- 
larmos e estarmo-nos nas tintas, de papo p'r'ó ar, a ver em que 
param as modas; philosophia marralheira e fatalista de que 
quem se cança morre cedo e o que tiver de ser nosso, á mão nos 
virá ter. 



Impressões de Theatro — Joaquim d' Almeida 277 



De resto, nem um nem outro, foram preguiçosos e desleixa- 
dos. Pelo contrario — João de Deus deixou na sua obra pequenas 
jóias, que valem uma litteratura, Joaquim de Almeida tem no seu 
reportório pequenos papeis, que valem uma dramaturgia. . . 

Nasceram sob o sol radioso do nosso ceu — são osmaisgenui- 
nos e typicos, os mais authenticos e pittorescos temperamentos 
artisticos da nossa terra. 

Quando vejo o Joaquim de Almeida lembra-me o João de 
Deus. .. 

Todo o elogio do actor está nesta evocação do Poeta, porque? 
quando vejo outros, no palco . . se algum poeta me lembra, é o 
José Agostinho de Macedo — porque escreveu os Burros. 



LXIV 



Grande bolha, 



3o JANEIRO. 

comedia em 3 actos, imitação do al- 
lemão por X. Marques, Theairo da 
Gymnasio. — Distribuição: — Barnabé, cabelleireiro^ Joaquim de 
Almeida. — Conde de Bardel, (Bernardo), Telmo. — Kolbruder, 
professor depsychiatria,Soller. — Wiistein^ professor de phreno- 
logia^ Sarmento. — Conde de Bartel (Maurício), A Sousa. — Theo- 
PHiLO Reuter, marechal da corte, A. Ferreira. — Anselmo Kern, 
Salles. — João, José d'AImeida. — Helena, Barbara. — Aurora, Pal- 
mira Torres. — Anna, Júlia d'Assumpção. — Maria, Palmyra Fer- 
reira.HWO CASEBRE, em i acto original de N. N. — Distribui- 
ção: Paulo de Azevedo, Carlos Leal. — Thereza Amaral, Sophia 
Santos. — Joanna Amaral, Júlia d' Assumpção. — Criada, Judith. 

Num crescendo progressivo de gargalhada dó i ° acto, um 
pouco fraco, ao 3.°, que, no género, é um acto cheio, o Grande 
Bolha^ sem recorrer á laracha grossa e sem descer á piada fresca, 
entretém o publico e desopilla-nos as figadeiras azedadas, cada vez 
mais, pelas contrariedades da Vida, pelo augmcnto dos impostos, 
pela confusão dos dois Erários e pelas frescatas do Moderador. 

Creio que ninguém vae ao Gymnasio em busca de sensações 
artísticas: o que lá se procura são umas horas de galhofa e folia, 
mais ou menos intensa, mais ou menos ruidosa e coceguenta. O 
prato do dia da casa vae ser, durante algum tempo, o Grande 
Bolha — deve ter largo consummo, pois agrada, pelo tempero do 
disparate e da facécia, a todos os paladares, dando, alem disso, 
um bello typo a Joaquim de Almeida — que desta vez alinhavour 
menos mal, na memoria, o papel — e uma tirada de bom cómico a 



Impressões de Theatro — Grande bolha 279 

Telmo — correcto do principio ao fim — fazendo os outros artis- 
tas, dentro das suas forças e das suas aptidões, um esforço ho- 
nesto p'ra vincarem, num conjuncto certo, os seus papeis. 

Antes do Grande 'Bolh<j, subiu á scena uma indigesta sensa- 
boria — O casebre, que, entre gargalhadas trocistas do publico, 
desabou antes de chegar ao fim. Nos escombros deve ter ficado 
sepultada a veleidade que o auctor desconhecido podesse alimen- 
tar de reincidir no theatro. Foi mais que um desastre — foi um 
Bezerro d'ouro, mais curto e menos arruaceiro, mas tão embezer- 
rado, como o do Santa Rita. 



LXV 



6 FEVEREIRO. 

Osub-perfeito de Ghateau-Buzard, 

vaudeville em 3 actos de Gandillot, traducçãode Eduardo Gar- 
rido, Uheatro D. Rmelia. — Distribuição: Leopoldo, criado de 
Jorge, Augusto Rosa. — Jorge, sub-perfeito, Alves. — General 
DE La Charnière, Christiano. — Fisonier, João Gil. — Dulaurier^ 
Lagos. — GuY SoMovAR, António Pinheiro. — Poutaillard, Chaby. 

— Bretillon, Augusto Antunes. — Policia, Salles. — Policia, Sen- 
na. — Limonette, Lucilia Simões. — Noémia, Josepha de Oliveira, 

— Úrsula, criada, Cecilia Neves. 

P'ra entrudada, o Sub-Perfeito nem é mais alegre, nem mais 
fresco, do que a grande maioria dos artigos-Paris, que, a serio e em 
épocas de tristura e decoro, formalismos e recatos, se exploram 
no D. Amélia. 

Como theatro, é peor, porque, como todos os vaudevilles — 
que não conseguem ser óptimos — é simplesmente detestável. 

Um sub-perfeito vae patuscar a Paris, secretamente ; na sub- 
perfeitura fica-lhe um criado ladino, que se arma em sub-perfeito 
p'ra encobrir a ausência do amo e d'esta trapalhada surdem to- 
das as trapalhadas imagináveis e um bello pretexto p'ra Lucilia 
fazer o reclame da sua fornecedora de roupas brancas — que, por 
signal, são côr de rosa — e p'ra Christiano revellar — erofim! — 
uma aptidão: a de imitar os kangurus nas piruetas do Cake- WalkCy 
a dança, em voga, dos bares negros do Novo Mundo, mixto de 
batuque e processo do rasga, em que Christiano chega a parecer 
preto e preto ribola, que não aspira a tamem ser gente. 



LXVI 



6 FEVEREIRO. 

De portas a dentro..., rB^t^^^^r/. 

Theatro da Rua dos Condes. Distribuição : Zé Povinho, Marcel- 
lino Franco. — Alctor, Júlio Guimarães. — Thalia, Inspiração, 
Revista, Arte, Imprensa, Lisboa, Gargalhada, Genoveva e Rús- 
sia, Isabel Costa. — Tesoura, Ideal, Bertha, Elevador de San- 
ta Justa, Ama, Alice e Liberdade, Júlia Castilho. — Arte dra- 
mática, Uma viuva. Gloria e Má-ungua, Júlia Moniz. — Ajíado- 
ra, Lisboa antiga. Hospedeira e Carnaval, Claudina Martins. — 
Politica, Tu, Rosa, Braga, Vaselina e Historia, JuHa Sá, — Mel- 
POMENE, Fava torrada, Estudante, Hysterica, Potassa cáustica. 
Coreto e Sophia, Ophelia Godinho. — Rebenta a bexiga. Pevide, 
Saloia, Maria e Santo Thyrso, Rita Machado. — Lei, João, Sel- 
Lo, PopuLiÃo, Portero, Lagarto da Penha, Boa-Lingua e Fiscal 
DO SELLO, Rebocho. — Sagaz, Tremoço, Cantor, Moço, Basalicão, 
e CoRNELio, Cesar Máximo. — Carapetão, Lapis azul, Folhetim, 
Pescador, Soldado, Simplício e Fiscal do sellg. Augusto Mar- 
tins. — Audaz, Barómetro. Eu, Assustado, Dorido, Marido, Ocu- 
lista e Symphronio, António Salvador. — Perspicaz, Medico Ar- 
te Nova, João Lebaudy, Portugal, Fiscal de sello e Boticário, 
José Moreira. — Thermometro, Bilhete postal. Agulheiro, José. 
Emprezario, Afflicto, Lambedor, Espectador e João, P. Brandão- 
— Peta, Talvez, Estrella, Senhora seria, Cantharida e Hespa- 
NHOLA, Margarida. — Patranha, Oh Chica, Boas festas e Senho- 
ra QUE QUER casar, Eugcnia. 

Não é de disfarçar o meu fraco pelas revistas, sabido que mes- 
tre Sarcey — meu illustre e atanadissimo collega — andou qua- 



282 



Impressões de Theatro — De portas a dentro 



renta annos a apregoar fragilidades similhantes de paladar pelo 
vaudeville bregeirc, e que amigo Catulle Mendes — alma compli- 
cada de poeta a penar no lyrismo da critica — dá ao manifesto, 
por dá cá aquella palha, estranhas predilecções pelo disparate da 
opera e pelos absurdos da magica. 

Chamando ás coisas pelos seus nomes de baptismo, em situa- 
ções definidas e claras, de fallar alto e olhar direito, eu só admitto 
€m theatro, um drama que seja um drama, uma comedia que seja 
uma comedia ou uma farça que seja uma farça : o que não quer 
dizer )que não ria, a bandeira despregadas, quando o theatro, en- 
veredando pelo disparate, livre de fórmulas e de idéas, nos co- 
cega com a caricatura macabra do dia á dia, farandolando, em 
cabriolas, os desconchavos da galhofa, os dispauterios da troça 
« os humorismos da pouca vergonha. D'ahi, o rir com as revistas, 
que, no género disparate, é o mais theatral, e, no capitulo da pouca 
vergonha, o mais inoffensivo, porque, quem vae pVás revistas, 
■deixa em casa as suas theorias d'arte, dependura, no bengalleiro» 
com o guarda-chuva, os seus pruridos de moralidade, e, não se 
fazendo acom- 
panhar de me- 
ninas impúbe- 
res, leva a ca- 
ra estanhada 
p'r*ós imprevis- 
tos do rubor. 

Porem, dês 
que a policia, 
receando, com 
fundados mo- 
tivose sobradas 
razões, que o 
palco, onde de- 
gringolam o s 
quadros burles- 
cos duma revis- 
ta do anno, se confundisse com os arcanos da secreta, onde se 
íirchivarn as photographias dos criminosos celebres, prohibiu as 
caracterisações pessoaes e vedou, por completo, as allusões po- 
Jiticas, não fosse a plateia suppôr estar a applaudir um arreglo dos 
Salteadores de Schiller — a revista perdeu, p'r'ó publico, o me- 




Catiii.lf. Mfndés 
Caricatura de Leal da Camará 



Impressões de Theatro — *Z)e portas a dentro 



283 



lhor dos seus chamarizes e noventa e nove por cento dos seus 
áittractivos, e, coxa, desengraçada, farrapenta, arrasta-se, com 
■difiBculdade, nas muletas da pornographia, explorando, em exclu- 
■sivo, a nota chula da laracha pesada e obscena. 

O género, já de si difficil e arriscado, tornou-se perigosíssimo 
< quasi impossivel, porque, sendo mais estreitas as malhas da cen- 
■sura nos theatros populares do que no palco do Normal, e, mais 
.castos e pudibundos os lápis azues da policia, que a thesoura as- 
natica do commissano régio, não podendo os revisteiros arrogar- 
-se desaforamentos de lingua e escabrosidades de situações, que, só 
•cm D. Maria, são consentidas a dramaturgos de polpa e a conspi- 
.cuos conselheiros da arte dramática, a revista é, por via de regra, 
uma sensaboria com vários actos e muitos quadros, que não des- 
jnoralisa porque adormece, não faz corar porque faz dormir e que 
íião chega a entreter a vista porque, ás duas por três, está-se a olhar 
p'ra dentro, e, quando, estremunhado, se esfregam os olhos, estrel • 
las e coristas são tão feias, que, melhor fora, esfregassem casas. 

Ainda assim, o sr. Baptista Diniz tem o condão de vencer, á 
força de chalaça grossa e piadas do sol, as difficuldades do offi- 
<:io, e, approximando-se, tan- 
to quanto a censura lhe con- 
•cede, do brejeirismo norma- 
lino, consegue engendrar 
umas trapalhadas, frescas 
4Como os caramelos e estimu- 
lantes como os mariscos, 
■que pela expontaneidade do 
espirito e pelo imprevisto 
-da technica, estão, em arte, 
cm litteratura, em theatro e 
té em moralidade e recato — 
muito acima do Serão nas 
Laranjeiras^ a revista obsce- 
na e pretenciosa, desvergo- 
nhada e tola, que, ainda ha 
pouco, deu casões em D. Ma- 
ria. 

T>e portas a dentro é ir- 
mãsinha de leite de Badalo. o rv 

' Baptista Diniz 

de ruidoso SUCCesso: tem Caricatura de Raphael Bordallo Pinheiro 




284 Impressões de Theatro — De portas a dentro 

dois actos cheios, movimentados e frescos, té á congelação, onde 
as graçolas estralejam, as larachas esfusiam e os trucs do género 
serpenteiam, escriptos e delineados com o espirito esfuseante 
e com a habilidade coceguenta dum revisteiro, que conhece ©■ 
seu publico, a força dos seus interpretes e os segredos do seu 
officio. 

3.° acto, mais frouxo e massudo, — pofque nelle Baptista 
Diniz quiz explorar um pouco a nota seria p'ra que o não fadou 
o destino e teve o mau gosto de ir pedir ao Dantas uma col- 
laboração que, por falta de espirito e crueza de linguagem, des- 
toa do conjuncto, — é de fácil remendo, dês que se alinhavem 
os farrapos feitos pela tesoura policial e se lhe intercale um qua- 
dro de theatros, onde se approveite, com os can-cans dos basti- 
dores, a aptidão da artista, que, tão perfeita e modelarmente, 
imita da coM//55e a voz cacarejada da sr.» Rosa Damasceno. 

No desempenho, destacam Marcellino Franco, e mais dois ou 
três artistas, cujos nomes me escapam, não sendo o conjuncto 
peor do que é licito esperar da boa vontade modesta de todos. 

O guarda roupa é limpo e tem um ou outro trapo vistoso. A 
scenographia barata e a plástica das coristas horrorosamente 
drástica. . . O que destroe, honestamente, a frescura das situações 
e dos coiiplets p'ra que o sr. Paschoal coordenou umas musique- 
tas agradáveis ao meu ouvido rude e inculto. 

Em resumo — não é o que ha de melhor, depois das capellas 
imperfeitas da Batalha, mas revelia maior esforço, maior tacto 
e maiores conhecimentos de theatros, que muitas obras primas 
postas por ahi nos carrapitos da lua. 

Não é p'ra damas, mas deve fazer carreira e fortuna, como as 
governantes que, na 4.» pagina dos jornaes, se annunciam p'ra ho- 
H-cm só. . . 



LXVII 

9 FEVEREIRO. 

^íírríí c\p I P^n '^^^^^ ^^ • prologo e 5 actos, de 
\Ja\ I d UG LoaU, £clouard Philippe. versão de João 
Sol ler. Theatro do Príncipe Real. Distribuição : Daniel, o Garra 
de LeãOj Alves da Silva. — Durocher, banqueiro, J. Silva. — Val- 
SER, Sepúlveda. — Grimard, tabellião^ Chaves. — Francisco, creado, 
A. Machado. — Tio Patrício, mendigo^ Chaves. — Ricochet, agen- 
te de policia; Sachristão^ Marque^ de los Siete Castilos, Taberneiro 
c Espião^ Roque. — Peridaud, ^mi^, J. Silva. — Michou, campone^, 
A. Rodrigues. — Mogloire, estalajadeiro, Monteiro. — Geropiga, 
Gentil. — JuuÃo Durand, Eduardo Vieira. — Toupeira, A. Rodri- 
gues — Rata-sabia, Frederico. — O escrivão, Monteiro. — Um con- 
tinuo e SARGENTO, Frederíco. — Martha, Adelaide Coutinho. — 
Fuinha, Beata, Taberneira e Marqueza de Los Siete Castillos, A. 
Guerreiro.— Lucília, Cândida de Sousa. — Jesuina, creada, Ade- 
lina Nobre. — Petronilha, ama^ Georgina Vieira. 

Casque de fer se chamava ella quando Edouard Philippe, o 
seu papá, terrificou em Paris as porteiras e modistas dos bairros 
excêntricos com os trucs e cordelinhos de todo o bom melo- 
drama populaceiro. 

E' o grande e horrível crime com muitos rrr. Faz pesadelos 
ás almas ingénuas da Mouraria. 

A rua dos Vinagres vae desfazer-se em pranto. 



LXVIII 



6 FiiVEREIRO. 



Gavallaria Ligeira, 



peça em 3 actos e 9 qua- 
dros, de Georges Gourte- 
line 8 Norés, traducção de Gamara Lima. Theatro D. Ularia-^ 
4.* recita d'assignatura. Distribuição : O general, Maia. — Hur- 
LET, capitão, F. da Silva. — Flick, tenente, Luiz Pinto. — Mous- 
SERET, P. de Campos. — Favret, G Galvão. — Doupont, Sampaio, 
— Bernot, Alves. — Peplot, Theodoro. — Gopplote,' Garlos San- 
tos. — Fricot, J. Costa.* — PoTiROU, A Mello. — Ledrun, Leo- 
poldo. — Yanderogue, Sampaio — Goberlin, Carvalho. — Cha- 
TAVAiNE, Mendonça. — Madame Bijou, Carolina Falco. 



A' sahida do theatro, perto do busto do Ennes, que dá unt 
aspecto de Carnaval chronico ás linhas pesadas do/oj^er norma- 
lino, dois espectadores dialogavam : 

— oMas que diabo tem o commissario^ 
régio no caco ? . . . 

— Ora 1 Que ha de elle ter no caco ? . . . 
Tem o feminino disso mesmo . . . 

E tem. Porque afinal de contas, as- 
Gaiétès de lEscadron, revista da vida da 
caserna, que, ha nove annos, após longas- 
e debatidas turras com a censura fran- 
ceza, subiu á scena no Ambigu-Comique- 
e de lá passou ao repertório fixo de An- 
toine, tendo custado a Gourteline os seus- 
galões de official, se, como humorismo» 
caserneiro, nos seus instantâneos carica- 




COURTELINE 

Caricatura de José Leite 



Impressões de Theatro — Cavallaria ligeira i%j 



turiaes da tarimba, é uma obra monótona e damasiado estopante, 
embora observada e verdadeira, como ataque ao militarismo, que 
chasqueia e ridicularisa, pondo-lhe a nu os seus grotescos e pre- 
gando-lhe, entre os doirados da farda, o rabo-leva da troça, se não 
tem a força explosiva e destruidora duma bomba, tem a violên- 
cia garota e deprimente duma pedrada. 

E é vêr: substituam as pantalonas vermelhas com que se 
exibem em D. Maria as marionettes de Courteline, pelos unifor- 
mes berrantes do ultimo figurino do Festas e digam-me se, ape- 
sar de sermos todos paisanos e avessos á tropa, de vivermos 
numa paz podre e não termos révanches a sagrar-nos a caserna 
como templo do patriotismo, digam-me, se Les gaietés de l'Es- 
cadron^ poderiam ir até ao fim, sem intervenção da auctoridade, 
não num theatro do Estado, conservador e ordeiro, mas em palco 
menos pegadilhoso e mais patusco, onde o respeito pelos Im- 
mortaes Princípios não fosse norma da casa e onde as tesouras 
rombas do commissaiio não andassem, de continuo, a amolar-se 
no rebolo da Asneira i 

O publico talvez não tivesse pateado, mas, certo, a policia ti- 
nha prohibido. 

Vistam-na com os uniformes nacionaes e escusam de mudar 
uma scena, de nacionalisar uma piada, porque, sendo o exercito 
o mesmo em toda a parte, a troça demolidora de Courteline é 
cosmopolita e são de todos os paizes aquelles galuchos larápios 
e foliões, aquelles sargentões iracundos e auctoritarios, aquelles 
rarimbeiros irrasciveis e boas pessoas, aquelles tenentes ajanota- 
tlos e ferrabrazes. 

Felizmente, o commissario não o percebeu e deixou-a passar, 
e se ao feminino que lhe enche o caco, como diz o outro, nós 
devemos as noites escandalosas do Dantas e a prohibição do Pae 
de Strindberg, devemos também, depois do anti-clericalismo in- 
telligente do Casamento de conveniência^ estas noites de anti-mi- 
litarismo monótono da Cavallaria ligeira^ que, certo, noutro 
theatro, havia de ter ainda maiores empenos do que teve em D. 
Maria, como, de resto, os teve em França, onde houve mosquitos 
por cordas com a censura e onde Courteline deixou de ser te- 
nente do exercito francez pVa, livremente vir a ser no boule- 
vard, o mais glorioso e directo herdeiro do cómico de Moliére e 
do riso de Rabelais. 

Não lhes conto a peça — se é que se pode chamar peça a uma 



288 Impressões de Theatro — Cavallaria ligeira 

revista em nove quadros feita de kodaks maçadores, apesar de 
pittorescos, fatigantes embora reaes — porque, não tendo a Ca 
vallaria ligeira nem entrecho nem sombra de intriga, sendo uma 
sequencia repisada de quadros de quartel, a pouquissima intensi- 
dade theatral, que, scenicamente, a torna inviave! do 2.° acto em 
diante, reside nos traços firmes da caricatura que animam os 
personagens e os tornam, em generalisações de grotesco, typos 
conhecidos da tarimba, que, cançando o publico, grilhetam ainda 
assim ao pelourinho do Ridículo o Exercito — fradaria parasitaria 
da Guerra, que veio substituir nas sociedades modernas a tropa 
parasitaria dos conventos. 

Se D. Maria podesse com os atafaes de theatro normal, a Ca- 
vallaria ligeira nem no Entrudo poderia licitamente manobrar- 
Ihe no palco, porque, não sendo um modelo característico da 
chacota boulevardeira, irreverente e niveladora, bastaria o seu 
corte ligeiro de revista, se não lhe sobrassem os seus intuitos 
audaciosos de Indisciplina, p'r'á affastar das exhibições officiaes 
em Edifício do Estado, que tem no exercito o seu esteio mais 
firme e o seu cúmplice mais dedicado — guarda costas armado 
té aos dentes e cão de fila que estracinha todas as aspirações de 
revolta. 

Assim, não tendo havido engulhos officiaes em lhe abrir ca- 
minho — aviso aos revisteiros de portas a dentro e de fora de 
portas — o publico encarregou-se de lh'o arripiar, pateando feio 
e forte, nanja o espirito de Courteline, attenuado até á decima 
dyranamisação no arreglo de Gamara Lima, mas o senso esthetico 
do commissario, que, positivamente, como se diz na peça, está a 
mangar com a tropa. 

Mas, afinal, se ainda ha quem duvide de que elle é assim, por- 
que se não ha de, em tira teimas, mandar-lhe, em exploração ao 
craneo, o Luciano das ratas ?. . . 



LXIX 



o FEVEREIRO. 

Ha dias, en- 
tre os annun- 
cios das Pílu- 
las Tinck e 
as bene ine- 
rências do 
depurativo 
Dias Amado 
— as grandes 
fontes de re- 
ceita das em- 
prezas jorna- 
lísticas e as 
pittorescas 
blagues da 
medicina ca- 
seira — os lei- 
tores estar- 
recidos dos 
periódicos de 
grande circu- 
lação depara- 
vam, todas as 
manhãs, com 
este annun- 
cio — ratoei- 
ra de escan- 
lo e estendal 
de misérias... 



THEATRO D. AMÉLIA 

Época de Carnaval 

J[ Grande successo de gargalhada nOJE 



REPRESENTAÇÃO 

DA FAMOSA PEÇA EM 3 ACTOS, DE GANDILLOT 

Traducçdo de EDUARDO GARRIDO 

O Sub-Perfeito ^ ^ ^ 
^^ de Chateau Buzard 

Nas noites de 13, 14, 15 e 16 

4 MAGNÍFICOS ESPECTÁCULOS 

ACOMPANHADOS DE 

4 SUMPTUOSOS BAILES DE MASCARAS 



N'esses espectáculos será representado um aproposito, 
arreglo da popularíssima zarzuela 

EXj C>E3SrER.O i3smiN/no 

no qual lomam parte muitos artistas da Companhia, 

entre elles Lucinda Simões, Lucilia Simões 

Eduardo Brazão, Augusto Rosa, 

Maria Falcão, Delphina Cruz, Laura Cruz, Josepha de 
Oliveira, Christiano de Sousa, Augusto Antunes, Joáo 
Gil, Henriaue Alves, Chaby Pinheiro, António Pinheiro, 
Carlos d'Oliveira, Pinaroff lilexej.— Álvaro Cabral, Fre- 
derico Lagos, Francisco Salfes, Nunes, (imitador) .—M.a.- 
theus Ferreira (pianista.) 

A REPRESENTAÇiO SERA TODA EM HESPANHOL 



': 



No quadro das exhibiçóes artísticas, mr. Pinaroff, 

executará o trabalho da FLECHE HUiVIAINE 

O actor H. Alves, auxiliado pelo actor Álvaro Cabral, 

apresentará o trabalho do TIRO AO ALVO 

O artista Nunes fará AS SUAS IIVIITAÇÓES 

O actor Chaby Pinheiro, em travesti cantará os couplets 

dos LUNARES e do tango do MORRONGq 

acompanhado por todos os artistas 



•9 






290 Impressões de Theatro — Carnaval no D. Amélia 

Li, reli, treli e. . . não acreditei. 

Nas esquinas appareceram, porém, cartazes confirmativos, os 
jornaes detalharam a distribuição e, — se manda a verdade que 
se registe ter brilhado o nome da grande artista Lucinda em carta- 
zes e (iistribuições, com o de João Rosa e Rosa Damasceno, pela 
sua ausência, — caindo meio mundo hontem no D. Amélia, fui 
como S. Thomé, ver p'ra ciêr, e, tendo visto, não me sendo li- 
cito deixar ainda de acreditar. . . dou fé e attesto, jurando pelos 
meus graus, que o programma foi cumprido á risca e excedeu até 
as espectativas. 

S. Luiz, soba omnipotente da aringa dramática do D. Amélia, 
deve estar satisfeito : radiante, como apostolo da Arte, que tem o 
Evangelho no Livro Caixa e ufano, como homem, que cumpriu a 
sua palavra .. . de ainda os obrigar a todos a representar revista. 

O publico riu, os estrellos não choraram : tudo é alegria, con- 
tentamento, regosijo, foguetes e satisfação. . . 

E' talvez da época foliona que atravessamos — mas, quando, 
em enxurro de lama, tenha passado tanta galhofa carnavalesca, 
na quaresma, quadra de meditação e penitencia, talvez se volte 
ao assumpto, se valer uma ladainha a todos os santos o g'lo- 
ria in excelsis de S. Luiz e o requiescat in pace dos chamados 
primeiros artistas portuguezes. . . 



LXX 



ig FEVEREIRO 

As calças do juiz de paz, ntl":;: 

ptação de João Soller, musica de Nicolino Milano. Theatro da 
Trindade. Distribuição: Rosagat, Mattos. — Montbarlier, Cos- 
ta. CONTREXEVILLE, GomeS. SUPERZAC, A. CfUZ. HUGOLINO, 

Alfredo de Carvalho. — Ernesto, C. Santos. — Coucoire, Santi- 
nhos. — Clotario, Barreiros. — Paravo, Soares. — Ducagnon, 
Jayme. — Brunuhilda, Thereza Mattos. — Clotilde, Maria San- 
tos. — Sr.* Rochambord, Amélia Barros. — Apolónia, Rosa Pe- 
reira. — Catharina, Estephania. — Hermínia, Emilia Rômo. 

Casa á cunha, disparates á farta, gargalhadas a esmo, desafi- 
nações em barda, umas Calças dejui^ de pa^ que nos põem em 
calças pardas p'ra lhe esmiuçarmos o entrecho e p'ra lhe desco- 
brirmos vislumbres de espirito ou arremedos de laracha. 

O cumulo do inverosimil no máximo da barafunda, estas Cal- 
ças do jui^ de pa^^ não teem fundilhos, nem pernas, nem cozes 
nem berguilha o que, entre calças, corresponde a não terem pés 
nem cabeça, nem ponta por onde se lhes pegue. 

Porque, ao menos, podiam ter piada, mas não teem. Nem fina — 
o que seria um excesso de exigência — nem grossa — o que seria 
de fácil perdão. 

De resto, o Alfredo de Carvalho, verdadeiro e authentico es- 
trello do palco onde pisa, estava incerto no papel, que não estu- 
dara e pouco encarreirado nas pilhérias, que ainda não lhe ti- 
nham occorrido. 



LXXI 



20 FEVEREIRO. 



FnnJínn rl'íílm^ i acto de João Gouveia, fAec/rc 
L.liyaMU U aillia, ^ /nana. —Distribuição: Fran- 
cisco DA Cruz, Luiz Pinto. — António da Cruz, Carlos Santos. 
— Maria do Monte, Cecilia Machado. — Izabel da Cruz, Caroli- 
na Falco. — Um camponio, Sampaio. 

Estreia com a casa ás moscas e o Serão a completer o car- 
taz. Nem bom nem mau, nem peixe nem carne, nem gordo nem 
magro, nem branco nem preto, antes pelo contrario. Parece des- 
garrada do concurso celebre do CDza, a peça insignificante mas 
honesta, sem brilho mas sem escaninhos, com que o sr. João 
Gouveia tentou a scena. 

Peça d'um novo, sem uma innovação de formulas e sem uma 
ideia nova a esmaltar-lhe as defficiencias, naturaes em quem come- 
ça, é desconsolador, posto já seja corrente entre os novos da nossa 
geração, que nascem velhos e de cabellos brancos. 

No desempenho, em que entram Carolina Falco, Cecilia Ma- 
chado, Carlos Santos e Luiz Pinto, Cecilia e Santos vão melhor 
do que os outros, que, de resto, não vão mal. 

Mas nenhum vae bem. 



LXXII 



29 FEVEREIRO 

A r^ííQfpllâ peça em 4 actos de Alfred Gapus, traduc- 
M V^aOlClId, cão de Accacio de Paiva, r/iea/ro D. i^me- 
lia. Distribuição : André Jossan, Eduardo Rrazão. — Gastão, Au- 
gusto Rosa. — La Landiére, António Pinheiro — Carlos Nerdy, 
H. Alves. — O BARÃO, João Gil. — Lornnois, Álvaro Cabral. — 
Thereza, Lucilia Simões. — A sr.* de La Landiére, Josepha d'01i- 
veira. — Luciana, Laura Cruz. — Clotilde, Maria Falcão. — Go- 
verante, a. 0'Sullivand. 



Ironista subtil e panglossista impenitente, sabendo, na ponta 
da lingua, o seu Durriasinho, boulevardeiro té á medula dos ossos, 
manejando desembaraçado o dito de espirito, observando, com 
lunetas côr de rosa, os seus contemporâneos, e banindo dos seus 
intuitos pruritos de endireitar o mundo, risonho, satisfeito, sem 
doenças de fígado e sem seringações de credores, Alfred Capus 
personifica, na moderna dramaturgia franceza, a reacção scenica 
do sorriso e das meias tmtas, contra as cruesas e as trevas, as 
amarguras e as revoltas, que, a traços negros, sombrios e carre- 
gados, humaniiam o movimento theatral iniciado no palco de 
Antoine. 

Com a philosophia accommodaticia e bem jantada de quem, 
levando a vida direita, deixa a cada um o direito de fazer o mes- 
mo, sem lhe dar receitas p'r'ó conseguir, nem pôr peias p'ra lh'o 
difficultar, Capus encara as futilidades da existência, que servem 
de fundo ás suas theatralisações, pelo prisma alegre e tranquillo, 
bonacheirão e irónico dum confessor mundano e passa culpas, 
de lindas maneiras e convicções elásticas, tendo complacências 



294 



Impressões de Theatro — A Castellã 



p'ra todas as fragilidades, attenuantes p'ra todos os desvios, mi- 
sericórdia p'ra todos os erros e perdão p'ra todos os pe ceados. 
Os personagens, que elle nos esboça, em moldes de figurino e cas- 
quinadas de espirito, são vivos e humanos, mas differem da Vida 
e da Humanidade, que nos rodeia e acotovela, porque vêem esba- 
tidos nas suas arestas, brunidos nas suas asperesas, pensando e 
agindo, não como, dia a dia, se pensa e 
age, mas como, hypocritamente, nós, 
na plateia, segredamos aos visinhos, que, 
em egualdade de circumstancias, pensa- 
ríamos e haveriamos de agir. 

Por um processo semelhante, mas 
inverso, dos caricaturistas, que, ás linhas 
humanas da mascara, exaggeram os ân- 
gulos e as desharmonias p'ra sacarem 
imprevistos de ridículo e de grutesco, 
Capus, lavando e desencardindo, na 
agua benta do seu optimismo, a brutesa 
revoltante da Realidade, dá-nos aspe- 
ctos pittorescos e consoladores da so- 
ciedade em que vive, instantâneos, re- 
tocados e relambidos, das figuras que 
nella se cruzam e se agitam. 

Não ha mariolas nas suas peças, por- 
que, encarando assim o mundo em que 
chafurdamos, todos os mariolas se su- 
bordinam ás linhas convencionaes dos 
homens de bem: d'ahi o successo, a 
sua voga e a sua popularidade ante 
plateias em que, ensimesmados os ho- 
mens de bem, todos teriam de se reconhecer descompassados 
mariolões. 

Na theatrologia nascida entre as taboas de Antoine, o espe- 
ctador é obrigado a pensar, a reflectir, a tirar conclusões e a re- 
conhecer-se nas pinturas sombrias e cruas, desgrenhadas e revol- 
tas, dos seus vicios, dos seus preconceitos, das suas taras, das 
suas ambições e dos seus crimes — são mais que do peças, são como 
exames de consciência, que prendem, como arte, e ferem, como re- 
.jiorso. 

Na obra de Capus, pelo contrario, na lipsine como na Veine, 




Alfred Capus 
Caricatura de Capiello 



Impressões de Theatro — A Castellã 295 

nas Detix écoles como na Castellã e no recente Adversaire, cava- 
lheiros e madamas que enchem a sala de espectáculos são atten- 
ciosamente solicitados, depois da passagem pelo camaroteiro, a 
ouvir jogos malabares de palavras e ironias, a esboçar sorrisos e 
a palmejar retratinhos favorecidos e lisongeiros de pessoas ami- 
gas e parentas, amáveis na sua futilidade, cortezes nas suas ma- 
neiras e delicados no seu sentir — não é bem theatro, é uma cai- 
xinha de bonbons e se não emmove, quasi nunca, como arte, 
agrada quasi sempre, como as cousas assucaradas. 

Se Georges Onhet soubesse ler e escrever seria Capus, e, Ca- 
pus, sem talento e sem espirito, seria o nosso Alberto Braga. 

Não se pode prever se o futuro lhe pertence, mas, é positivo, 
que, ao presente, em França, na charneca áspera em que as idéas 
se debatem, as formulas se depuram, as revoltas se acutem e ru- 
des peoneiros tentam alargar a âmbito do theatro do Amanhã, na 
dramatização da Amargura e da Injustiça, nos soflrimentos e nos 
protestos dos esfarrapados e dos humildes, Alfredo Capus marca 
uma balisa muito pessoal e definida, e a sua obra é uma espécie 
de terreno baldio e safaro, onde as luctas das idéas são banidas 
e onde desabrocha, impávida e exclusiva, a flor rósea do Bomhu- 
mor e da Ironia : — theatro brando e macio que deleita o espirito 
e facilita as digestões, que não corrige e não perverte, que busca 
na observação o stricto necessário p'ra contemporanisar os seus 
personagens e recorta na phantasia as tangas e refolhos indispen 
sáveis pVa lhes reprimir os maus instinctos, os maus hábitos e a 
má educação, que tornam a Sociedade de hoje numa kermesse 
monstruosa de ambições, de protervias, de infâmias, de infinitas 
misérias e innarraveis porcarias. 

A Castellã^ posta em scena no D. Amélia, nas malhas do 
seu entrecho, deixa ver todas as qualidades e põe a nu todos 
os defeitos da maneira litteraria de Capus — nella transparece a 
subtil finura da sua ironia, feita de simphcidade e levesa, a satis- 
fação de viver e o optimismo de encarar a vida, que lhe nimbam 
a obra numa aureola de felicidade, a banalidade dos seus perso- 
nagens e o frouxo do seu raciocínio, a attenuação propositada 
das sombras e a monotonia irritante das meias tintas, a nudez 
completa de intuitos e um fogo-fatuo de palavras, mascarando a 
ausência e o vasio das idéas. 

André Jossan, estróina, jogador, femeeiro, e estoira-vergas, 
depois de queimar ao baccarat o ultimo cartucho de luizes her- 



296 Impressões de Theatro — A Castellã 

dados, atira-se ao trabalho, estuda, reflecte, lucta e refaz em cen- 
tuplicado a fortuna que despilfarrara. De visita, na província, a 
uma irmã, Clotilde, é apresentado a um casal, os Baudière, que 
tem uma filha casadoira, que o papá quer maridar com um 
advogadelho e que a madrasta, — Baudière é casado em segun- 
das núpcias — trata logo de impontar ao ex-estroina e recem- 
milionario ali presente. 

Surde, porém, Thereza de Rives, victima dum casamento in- 
feliz, que, arruinada e atraiçoada pelo marido, Gastão, foge ao 
domicilio conjugal e vem á província vender o pouco que lhe 
resta do seu dote desbaratado — um pardieiro solarengo em 
ruinas, que Jossan, apaixonado num daquelles repentes de 
vêr-te e amar-te foi obra dum momento, lhe compra pelo 
triplo do valor, lavrando logo a escriptura e sellando-a, á quei- 
ma-roupa, com uma declaração de amor e uma proposta de 
casamento. 

Thereza aceita — é claro — porque nunca amou e vae amar, 
porque Jossan é a metade da sua alma de que a sua alma andava 
viuva, e por todas as razões e mais uma, porque se acceita um 
marido que, além de ser milionário, é bom, generoso, trabalha- 
dor, honesto, intelligente e em bom estado de conservação. Fer- 
runcho da Baudière fêmea, que lhe vê fugir o casório da enteada 
e alegria do Baudière macho, que vê ganhar terreno o genro que 
lhe quadra. 

Intervenção do marido, que não estando ainda julgado o di- 
vorcio e não tendo siJo constatado o flagrante do seu adultério, 
reconsidera e já não está pelos ajustes. O divorcio, acceitava-o 
como pirraça á mulher, sabendo-a pobre, abandonada e infeliz, 
mas deixa de lhe convir dês que, desse divorcio, ella parte, com 
vento fresco, p'ra uma vida nova de felicidade, de riqueza e de 
amor. 

Propõe a reconciliação : Thereza repelle-a, e, como não 
ha meio de virem ás boas, elle rapta-lhe um filhito de sete 
annos. 

■ Deante do desaforo, que lhe é communicado pela Baudière, 
Thereza, toda mjíe, transige e prepara-se p'ra se reintegrar no 
lar conjugal, mas acode-lhe Jossan promettendo-lhe arrancar o 
petiz ao pae, trazer-lh'o ali e arranjar as cousas. 

E arranjam-se, no ultimo acto, porque o marido de Thereza, 
depois de refunfunhar e de se arrepellar, tem um bom movi- 



Impressões de Theatro — Q/l Castellã 



297 



mento, e, tendo fallado em duellos, desaífrontas, vinganças e des- 
aggravos, larga o menino e deixa o campo livre aos dois apaixo- 
nados, contentando-se, á sah da, em dar um sabla^o á Baudière 
que, escamada, acceita o advogadelho como genro e tudo acaba 
em bem, menos a peça, porque, sendo necessário p'r'ó desfecho 

que Gaston de Rives 



...^ 




BuazÁo 
Caricatura de José Leite 



fosse mariola, elle, afinal^ 
procede como se o não 
fosse — o sabla^o é o 
dedo da Providencia a 
castigar o mau génio da 
velha — pela razão, acima 
apontada, de que, nas pe- 
ças de Capus, só ha boa 
gente e tudo corre pela 
melhor, no melhor dos 
mundos possíveis 

No desempenho — que 
honra o Theatro D. Amé- 
lia e torna, por isso, mais 
imperdoáveis os descon- 
chavos e os destemperos 
que lá nos servem as 
mais das vezes, destaca 
Brazão, num bello papel 
de galan cómico a que 
elle dá todo o realce e 
todo o brilho, que, nos 
seus bons tempos, soube 
arrancar do Marque^ 
Villemer, dentro do qual 
encaixa, hábil e corre- 
cto, o André Jossan da 
Castellã. 

Tem scenas magnifi- 
cas, um tanto prejudica- 
das por falhas de memo- 
ria, mas em que, mais 
uma vez, se confirma a 
minha opinião arreigada 



298 



Impressões de Theatro — qA Castellã 



de que, arrancá-lo da comedia e pô-lo fora de papeis, que elle 
não possa subordinar ás duas ou ti es creações-typos da sua ba- 
gagem artística, é uma violência e um contra-senso — porque 
dentro desses moldes estreitos e desse campo restricto ninguém 
faz melhor e raros farão tão bem. 

Depois de Brazão, Augusto Rosa, num papel falso, ingrato e 
canastrão, faz tudo o que pode ; Lucilía faz tudo o que viu fazer 
á Jane Hading e os outros — com Pinheiro á frente — fazem o 
•que podem e o que sabem. 



Já vêem que eu digo bem, sempre que não ha sobrado motivo 
p'ra dizer mal. E é extraordinário como abre o appettite o dizer 
bem de vez em quando : ainda vou bater-me com meio beef. 

. . .0 peor é o fastio que me vae fazer o Maeterlinck mais a 
sua madama. 

Post-scriptum. — A' pressa, mandando p'r'á 
composição, á medida que as gatafunhava, as 
impressões trazidas da i.» recita da Castellã^ 
sá ao outro dia, lendo o jornal, notei, com ma- 
gua e espanto, não ter feito, como de justiça 
referencia amável ao trabalho primorosamente 
honesto de Accacio de Paiva, que trasladou 
p'ra óptimo e dúctil portuguez, todo o brilhan- 
tismo que, sendo, no original, o maior encanto 
da Castellã^ é a mais consistente qualidade do 
temperamento litterario de Alfred Capus. 

No vasconso e bundo, a que, pelos melhores 
palcos alfacinhas, os nossos tympanos andam 
aíTeitos, a prosa coleante e natural em que 
Accacio de Paiva burilou a sua versão, destoa, 
como a haste erecta dum lyrio, por entre as 
urzes e cardos duma charneca. E' verdade que, 
entre a turba de vertedores, Accacio de Paiva, 
pelo seu valor e pelo seu talento, destaca como 
um homem de lettras, num meio de remendões 
e analphabetos. 

O que, por ser verdade, e pVa que conste, 
Accacio de Paiva ^1"^ ^® consigna, tarde e a más horas, por mais 
inédito de J. Coliaço valer tarde do que nunca. 




LXXIII 



4 MARÇO 

I^Pnfp n^r^i ^\\\n^r 4 actos, adaptação de 
\JtírUK pdld dlUgdí, Freitas Branco. TAea/ra 
^0 Gymnasio- Distribuição : Rodolpho Kruger, Cardoso. — José 
Kelles, Ignacio. — Jorge Mauser, A. Ferreira. — Ernesto Muller, 
A. Pinheiro. — Henrique Muller, Sarmento. — Fernando Sper- 
1.ING, António de Sousa. — Conde Stieglitz, Carlos Leal. — Anni- 
BAL Schulz, Salles. — Paulina Kruger, Barbara. — Baroneza de 
Narigoff, Izabel Berardi. — Carolina, Carlota Fonseca. — Au- 
<cusTA, Júlia d'Assumpção. — Helena, E. Sarmento. — Gertrudes, 
Marieta Mariz. — Um criado, Almeida. 

Em festa do Cardoso — uma gargalhada a afogar-se em enxun- 
•dias — hontem no Gymnasio mais um disparate allemão que 
Freitas Branco aportuguesou com a habilidade que todos lhe co- 
nhecem e com o espirito feito de simplicidade e imprevisto, que 
•é o seu segredo e o filão inexaurível dos seus successos. 

Peça que todos podem ouvir e que a todos cocéga em frou' 
-xos de riso, a Gente para alugar^ se não tem a torça hillariante 
■dos Doidos comjui^o — o motu continuo da risota — enfileira, ga- 
lhardamente, entre a numerosa frasearia de elixires anti-hypocon_ 
<iriacos que Freitas Branco importa da Germânia, substituindo- 
Ihe o sello, com que na Alfandega se etiquetam as especialidades 
pharmaceuticas, pelo cunho nacionalissimo da mais risonha e leve 
<:halaça lusitana. 

Em 4 actos, que se aguentam nas amarras emaranhadas de 
<jui-pro-quos, confusões, dispauterios e inverosomilhanças, é ab- 
surdo tentar esmiuçar a acção : dado o ponto inicial da trapa- 
lhada — Kruger, burguez retirado, commandita uma empreza, 
dentro Nacional de auxilias familiares^ que aluga convidados 



Soo 



Impressões de Theatro — Gente para alugar 



p'ra soirées, convivas pVa jantares, valsistas p'ra bailes, parceiros; 
p'ra partidas, relações decorativas e distracções de sociedade — 
cada um imaginando, a talante da sua phantasia, os maiores em- 
broglios do bom-senso e os mais imprevistos trambulhões da ló- 
gica, faz uma ideia do resto, e, 
se tiver curiosidade de o ave- 
riguar por meudos, vae lá ver, 
que é, afinal, o que traductor» 
actores e emprezarios dese- 
jam e estão certos de conse- 
guir com a Gente para alu- 
gar. 

No desempenho, Cardoso 
e Barbara manteem-se brio- 
samente dentro dos seus mol- 
des habituaes, Ignacio avança, 
como sempre, um passo á 
frente, na sua marcha ascen- 
sional p'ra actor de verdad; 
o conjuncto, afinado, não des- 
mancha, e destaca, com o Car- 
los Leal — uma bella mascara 
de comediante a despilfarrar 
aptidões de caricaturista — 
uma actriz, Marietta, que, té 
aqui, eu não vira distinguir-se do segundo plano, e que, no papel 
de criada que se aluga p'ra grande dama, defende com graça o 
personagem, tira delle, com naturalidade, todos os effeitos e realça- 
Ihe, com desembaraço, todos os traços de caricatura e observação. 




Cardoso 
Caricatura de Carlos Leal 



LXXIV 



6 MARCO 



PprHirlriQ nn m;ír drama em 3 actos e S quadros 
rciUIUUO MU lliai, emitaçSo de José António Mo- 
niz. Uheatro do Príncipe Real. Distribuição : Roberto, marinheiro^ 
Pinto Costa. — Paui.o, Eduardo Vieira. — Manuel, marinheiro^ 
Alves da Silva. — Jacaré, Luciano. — Dr. Edv ardo, conductor de 
minas, Monteiro. — Anacleto, moço de bordo, J. Silva. — Pedro, 
Arthur. — Sampayo, Gentil. — Sebastião, Chaves. — Thomaz, Fre- 
derico. — Thomé, Chaves. — Joanna, Adelaide Coutinho. — Bertha, 
Adelina Nobre. — Elisa, Adelina Nobre. — Luiza, Maria das Do- 
res. — Rosa, A. Guerreiro. — Pulcheria, Georgina Vieira. — Joa- 
<juiNA, Emilia de Oliveira. 



Paiz de navegadores o dramalhao marítimo faz carreira. Ca- 
traeiros e marujos, naufrágios e tempestades. Só o cartaz mette 
tnêdo . . . 

O que fará a peça ?. . . 



LXXV 



8 MARÇO 

Meu rapa^ : — Em cartazes e periódicos, nas esquinas e nas; 
montras, em transcripções da imprensa estrangeira e gravuras 
flammantes de propaganda, bate pleno o reclame ao casal maet- 
terlinckico, que, prestes, ahi vem ao D. Amélia. Nas palestras de 
foyer e ás portas das tabacarias, nas mesas do Suisso e nas sallas 
da Sociedade, cruzam-se as perguntas e trocam-se vaticínios, que^ 
em echos directos, me chegam, em pedidos de informação e pos, 
taes interrogativos, sobre o que são e o que valem, o que repre- 
sentam e o que significam, no campo largo e ensolado da Arte^ 
os dois portentos que, no dizer das folhas, embasbacam o munda- 
e trazem na bagagem, com a scentelha luminosa do génio, o gér- 
men promettedor do grande theatro do futuro, feito de poesia e 
de sonho, estilysaçÕes da Humanidade, em mármores hieráticos 
de Tragedia, aspirações ardentes do espirito, em symbolos eter- 
nos de Belleza. 

Vae d'ahi, como gato escaldado, que, em hydroterapias de re- 
clame, receia os douches frios da desillusáo, de rebuscar nos cri- 
ticos lá de fora e nas brochuras do reportório, em livros e revis- 
tas, o que, sobre auctor e interprete, em publico e razo, os prelos 
teem gemido, p'ra, de sciencia certa e conhecimento próprio, evt 
dizer, aos que m'o perguntam, o que ha de verdade e de exaggero,. 
de harmónico e desafinado, na orchestração bimbalhante de elo- 
gios e hyperbolismos com que, ha dias a esta parte, as phylarmo- 
nicas do Thesouro Velho nos massacram os ouvidos. 

Nos meus tempos coimbrões, na eclosão fecunda das egreji- 
nhas sósistas em que, Eugemo de Castro, em mago duma religião 
nova, epyphaniava horas e oaristos, e, da Torre de Marfim da II- 
lusão pura, despejava, em sylvas eshotericas, extranhas exuberan- 



Impressões de Thetro — Maeterlinck 



3o3 



cias de talento, á mistura 
com cabotinagens de ex- 
centridade, quando, aos 
pôres do sol, harpas de va- 
nádio tangiam batuques 
bárbaros de mystificação 
e de cinza e, nos campos 
soidosos do Mondego, a 
Canja — no Entroncamen- 
to — trazia, de lavada, toda 
a louça enxuita,eu travara, 
relações, de cerimonia e de 
curiosidade, com a magna 
caterva de Mallarmées 
Rimbauds, Corbières e 
Pelladans que nos vinham 
em lufadas do Boulevard, 
como figurinos da dege- 
nerescência, em que, a poe- 





EuGENio DE Castro 
Caricatura de M. G. B. Pinheiro 



Sar Pelladan 
Caricatura de Leal da Camará 



sia, mórbida e 
d e s e gual, 
desiquili bra- 
da e extrava- 
g a n t e , de 
Verlaine pu- 
nha, de quan- 
do em vez, 
manchas al- 
lucinadoras 
de génio nas 
franf relu- 
cherias de- 
cadistas das 
suas rimadas 
incongruên- 
cias. 




António Nobre 

Caricatura 

M. G. B. Pinheiro 



3o4 Impressões de Theatro — Maeterlinck 

Lêra-os todos, ouvira-os commentar, em extasis bajôjos de 
idolatria, pelos lábios seraphicos e as línguas sensuaes dos gran- 
des sacerdotes e sachristas de novíssima Irmandade, e, dessas 
leituras e commentos, nos escaninhos da memoria, eu guardava, 
com a saudade triste de ociosidades que não voltam, a sensação 
perdurável de estopada e confusão, com que, dentre todos, se 
me gravara, mais firme, no espirito a silhueta estapafúrdia de 
Maurício Maeterlinck, que, já então, tentavam impingir-me por 
assombro dos assombros, e eu, renitente e bárbaro, já então, ca- 
talogara entre os monstros raros, que, em manipansos litteraríos, 
de longe em longe, deificam, em suas capellas, os ranchos litte- 
raríos de philistinos e videiros, que armam escolas, inventam Es- 
theticas e, quando o Bom-senso se lhes não ri na figura, se riem 
no seu intimo da cegueira humana. 

Avivei recordações, refiz leituras, compulsei-lhe os últimos 
progressos — do reportório, annunciado p'r'ó D. Amélia, eu só lera 
a Intruse e a Aglavaine — e como a Monna Vanna e a Joy^elle-, 
que me eram novidade, não destoaram, por hi além, do dyapasão 
em que abilotára os primeiros fructos, sorvados e chochos, de tão 
peregrino engenho, p'r'a não me acoimarem de exaggero e má 
lingua, ao dizer-lhes duma postiça celebridade europeia, tratei de 
respigar, na virente ceara duma authentica intellectualidade mun- 
dial, as paveias, características e concludentes, que, mondando a 
Degenerescência {*) de Max Nordau, e, exprimindo o meu sentir, 
me cairam a talhe de foice. 

Assim, constatando, lisa e honradamente, haver negros de 
variadíssimas cores, que a Maeterlinck collocam na mesma pea- 
nha de Shakspeare, esquissa-lhe Nordau a curiosa e edificante 
historia da celebridade, dês do seu obscuro anonymano, num re- 
canto ignoto de Gand — onde os próprios decadentes belgas o 
amesquínhavam — té que, de chofre, num artigo solemne e de 
capa rica, com mirabolancias de adjectívação e repiques de me- 
taphoras, modelo, inaudito e inultrapassável, de humorismo e de 
blague, Octave Mirbeau o atirou, do alto do Figaro, á acephalia 
admirativa da França sbnobista, como o mais radioso, o mais emo- 
cionante e o mais sublime poeta, nos últimos três séculos, parido 



C<tJ Max Nordau — Degenerescence— Alcan £(ií7eM?- — Paris— 1894— i." vol. 
pag. 404 a 428. 



Impressões de Theatro — Maeterlinck 



3o5 



de ventre de mulher, o mais assombroso, o mais complexo e o 
mais extraordinário trágico, que, numa enxertia hypercivilisada de 
psychologismos e de symbolos, refloria os galhos mirrados e rese- 
quidos do cyclo clássico dos gregos e a barbara e selvática ra- 
maria da floresta shakspereana. 

Esse artigo — que eu não me explico porque não anda ainda 
cartazeado em lettras gordas — é o mais característico e mila- 
groso exemplo de suggestáo da historia litteraria contemporâ- 
nea — os cem mil leitores do i^r^aro, attonitos, pasmados, bebe- 
ram sofifregos as palavras 
imperativas de Mirbeau. 

Fechando os olhos, co- 
meçaram a admirar Mae- 
terlinck pelas lunetas pseu- 
do-extasiadas do grande ca- 
ricaturista da Epidémie e 
dos Affaires sont les affai- 
res. 

Mais papistas do que o 
Papa, boquiabriam se, na 
sua qualidade de papa-mos- 
cas, ante as bellezas que 
Mirbeau advinhára e aífir- 
mavam vê-las, senti-las, pal- 
pá-las, como os cortezãos 
do conto celebre d'Ander- 
sen — esculpido, em ouro, 
pelo nosso Ramalho nas 
mais gloriosas paginas das 
Farpas — juravam todos 
ver o manto maravilhoso 
do monarcha, té que um garoto, do cimo duma arvore, lhes gritou 
á cegueira : o rei vae em fralda ! 

Mirbeau teceu o manto de Maeterlinck com citações que bas- 
tariam, a um leitor a sangue frio, p'ra o aqviilatar como um pas- 
tichador, fraco de espirito, incongruente e sibylino ; mas, essas 
citações, exactamente, porque ninguém lhes percebia o encanto e, 
no intimo, a todos se afiguravam patetas, como Mirbeau as apre- 
goava pérolas, arrancavam gritos de admiração, criavam enthu- 
siasmos, provocavam extasis, porque, não querendo ninguém ter 

20 




Ramalho Ortigão 
Caricatura de Celso Hermínio 



3o6 Impressões de Theatro — Maeterlinck 



peor luzio que o pregoeiro, ou menos faro do que os visinhos, 
caiam todos na arriosca de arremelgar os olhos, p'ra lobrigar o 
que não existia e p'ra farejar o que, não existindo, todos, esfuran- 
cando as ventas, presentiam entrar-lhes pelo nariz. Mirbeau hy- 
pnotisou a multidão e a multidão enguliu Maeterlinck, o maior 
poeta, o trágico do Futuro, como as hystericas, no somno hypno- 
tico, comem batatas por laranjas e aspiram em vellas de cebo o 
fumo enebriante de deliciosos havanos. 

De todas as bandas irromperam apóstolos p'ra annunciar, ex- 
plicar e celebrar o novo mestre. Entre os negros cosmopolitas 
da critica — Nordau não lendo todos os dias as Novidades chama- 
Ihes gigolôs — que se lambem por ser os primeiros a adoptarem 
um figuro novo — seja uma gravata, um collete ou uma escola lit- 
teraria — travou-se uma verdadeira lucta de emulações e vaida- 
des a ver quem levaria as lampas na deificação de Maeterlinck 
e, como Antoine lhe fechasse as portas do seu palco, logo surdiu 
Lugne Poe, abrindo, de propósito, o Theatre de 1'Oeuvre p'ra lhe 
explorar os desconchavos a que se convencionou chamar dramas, 
unicamente, por terem a forma de dialogo e meterem na sua trama 
personagens estúpidos, que, nada dizendo, porque nada teem p'ra 
dizer, tornam a obra maeterlinckica, n'uma fruste anthologia sha- 
kspeareana p'ra uso de recemnascidos e selvagens da Terra áo 
Fogo e cataloguisam Maeterlinck, entre os enfermos de um ma- 
nicomio, como exemplar perfeito do mysticismo absolutamente 
infantil e incohereniemente idiota. 

Imagine-se uma criança — precisamente na edade em que a pe- 
ti?ada começa a escutar e a seguir a conversa da gente crescida 
. — que tivesse assistido ás representações do Hamlet, do Rei Lea}\ 
da Macbeth^ do Romeu e Julieta e do Ricardo 11^ e que, voltanda 
a casa, na gralhada álacre das brincadeiras, começasse a recon- 
tar, a seu modo, aos irmãositos o que tinha visto e ouvido. Far- 
se-ha, assim, uma ideia do theatro de Maeterlinck, que, tendo em- 
pansinado o estômago com Shakspeare, o vomita aos bocados,, 
não digeridos, mas transformados, numa massa repugnante e em 
começo de decomposição pútrida. Esta comparação não é minha 
nem asseada : é do Nordau, que eu venho seguindo passo a passo 
e só ella pôde dar uma noção clara áo processus intellectual, que se 
produz, quando os degenerados, como Maeeterlinck, fazem o que 
elles chamam crear: leém avidamente, recebem pela sua emoti- 
vidade, uma impressão muito forte, que os persegue com a força 



Impressões de Theatro — cMaeterlinck 



J07 



avassaladora duma obsessão e que os não larga, que os não des- 
cança, emquanto não bolsam, no vomito d'uma parodia triste 
tudo o que leram e não attingiram. D'ahi o a^semelharem-se as 
suas obras ás moedas dos Bárbaros, que imitam os modelos roma- 
nos e gregos, mas que reveiam logo, aos mais leigos em numismá- 
tica e archeologia, que as mãos inexperientes, que as cunharam, 
não sabiam ler nem podiam comprehender 
as letras e os symbolos que macaqueavam. 
Maeterlinck não é uma enxertia de Sha- 
kspeare : quando muito, é uma edição cara 
do poeta Rosalino. A sua obra de theatro, 
nem pelo prisma mais côr de rosa, pôde en- 
carar-se como os vagidos inarticulados, mas 
precursores, da Tragedia do Futuro : o Gé- 
nio é uma forma da loucura — se quizerem — 
mas o auctor da Intruse entra, na pathologia 
mental, pela porta da Imbecilidade e as suas 
peças, não são de hontem, nem de hoje, nem 
de amanhã, porque são de todos os dias e 
de todas as luas, não como theatro, mas 
como symptoma, caracteristico e nitido, da 
devastação profunda e dos stygmas indeléveis 
d'um cretinismo incurav-el. Nas enfermarias 
do dr. Bombarda — sem ir mais longe — ti- 
nha-se recoltado meia dúzia de maeterlincks 
a preços reduzidos e sem direitos de importação, e, nos archivos 
psychiatricos de Rilhafolles, dormem resmas de almasso, que, se 
vêem a cair nas unhas de Octave Mirbeau, começam a peregrinar 
pelos palcos do universo, como a maravilha das maravilhas, a 
jóia das jóias, o thesouro dos thesouros — a ultima hypersubtilisa- 
ção da Esthetica moderna e o mais portentoso e divino substratco 
do Pensamento humano. 

Noite a noite — e naturalmente de véspera, porque, a não ser a 
Movna Vanna^ do gallinheiro, não conto esportular cinco coroas 
p'ra ver L' Intruse mais a Aglavaine e roncar descompassadamente 
com a Joyselle — no analysar das peças, que constituem as três 
recitas maeterlinckicas, eu hei de dar, com as linhas qiiebradas e 
incongruentes da sua estructura, pedaços caracteristicos dos seus 
detalhes e fragmentos typicos dos seus diálogos, mas, como a re- 
putação de Maeterlinck se radicou, como Génio, nas Serres-Chau- 




OCTAVE MlRBEAU 

Caricatura de Sam 



3o8 Impressões de Theatro — Maeterlinck 

des — base e florão da sua coroa de Poeta — vou, em contra-prova 
a tudo o que resumi de Nordau, num exemplo concludente, fazer 
a traducção litteral e perfeita da poesia Ame — uma das mais mo- 
delares e louvaminhadas daquelle volume e que dá — com a cra- 
veira do auctor — espasmos de enlevado goso aos proselytos da 
Escola. 

Diz assim : 

4Minh'alma / 

Oh minWalma na verdade em demasiado abrigo ! 
£ esses rebanhos dos meus desejos numa estufa I 
Esperando uma tempestade sobre os prados I 

Vamos para Junto dos mais doentes : 

Que estranhas exhalacôes elles teem. 

Por entre elles atravesso um campo de batalha com mitiha mãe. 

Estão a ejiterrar um irmão d'armas ao meio dia, 

Emquanto as sentinellas comem o seu rancho. 

Vamos também para junto dos mais fracos : 

Que extranhos suores elles teem; 

Aqui está uma noiva doente, 

Uma traição ao domingo 

E meninos pequenos na cadeia 

(E mais longe, atrave^ a neblina), 

E' uma moribunda aporta d'uma casinha ? 

Ou uma irmã da caridade descascando legumes á cabeceira dum incurável ? 

Vamos emjim para junto dos mais tristes : 

(Em ultimo logar, porque elles teem venenos j 

Oh/ os meus lábios acceitam os beijos d'um ferido/ 

Todas as castellãs morreram de fome, este verão, nas torres da minh'alma/ 

Eis que a madrugada entra na festa/ 

Antevejo cordeiros ao longo dos cães 

E ha uma vela ásjanellas do hospital/ 

Do meu coração á minh'alma vae uma comprida estrada 

E todas as sentinellas morreram no seu posto. 

Houve um dia um pobre arraialiito nos arredores da minh'alma 

Ceifavam lá cicuta um domingo de manhã; 

E todas as virgens do convento olhavam a ver navios 

No canal, um dia de jejum e de sol. 

Emquanto os cysnes soffriam debaixo duma ponte venenosa ; 

Estavam a mondar as arvores em volta da cadeia. 

Trariam remédios uma tarde de junho, 

E pelos horisontes estendiam-se as dietas de doentes. 

Minh'alma ! 

E a triste\a de tudo isso (minWalma a tristeza de tudo isso/J 




Impressões de Theatro — Maeterlinck Sog 

Eu sei que a traducção litteral 
duma poesia, tirando-lha o encanto da 
forma, anniquilando-lhe bellezas de ry- 
thmo, despresando harmonias de metro, 
omiitindo cadencias de rima, esfran- 
galhando difficuHades de cesura e pri- 
mores de versificação, põe, na nudez 
vergonhosa e crua das rameiras, os pu- 
dores e recatos da Ideia. 

Mas a ideia fica se lá estiver. Na tra- 
ducção da oáme não se topa com ella, 
porque lá não estava, e, o que é peor, 
Max Nordau como, no original, Maeterlinck descurou 

Caricatura de José Leite r - „ -j^,, j„ ..: „ „s^ .^^ 

a forma, nao cuidou da rima, nao me- 
diu o verso, em portuguez — modéstia á parte — a poesia do 
grande belga ganhou em pittoresco e não perdeu em plasticidade, 
porque nas Serres chaudes (*) ella vem assim : 

Mon ame ! 

O mon áme vraiment trop à l'abri l 
Et ces íronpeaux de mes désirs dans une serre 
Attendant une tempete sur les prairies ! 
Allons vers les plus malades : 
lis ont d'étranges exhalaisons. 

Au milieu d'eux,je traverse un champ de bataille avec ma mére 
'On enterre unfrére d'armes à midi, 
Tandis que les sentinelles prennent leur repas. 

Allons aussi vers les plusfaibles : 

lis ont d'etranges sueurs; 

Votei une fiancée malade. 

Une trahison le dimanche 

Et de petits enfants en prison. 

(Et plus loin à travers la vapeurj 

Est-ce une mourante à la porte d 'une cuisine ? 

Ou une soeur épluchant des legumes au pied du lit d'un incurable •> 

...E porli fora, té ao fim, sem alteração duma syllaba, sem 
omissão duma virgula, como em portuguez. 



(•) Serres Chaudes suivies des Quinze Chansons pag. 3 — Maurice Maeterlinck 
— Lacombez editeur — Bnixelles 1900. 



3 IO Impressões de Theatro — Maeterlinck 



— Quem é o Maeterlinck ? 

Nordau attesta-lhe a imbicilidade ; outros, dao-lhe a côr de 
fumista, de patusco, que anda pelo mundo fingindo-se demente 
p'ra ver, na paciência em o aturar e no phrenesi de o applaudir, 
té onde chega a demência humana: — na hypothese documenta- 
da da Degenerescência é um cretina e no dizer louvaminheiro dos 
apaniguados um farcista com laivos de intrujão. 

Os emprezarios que o propinam ás suas clientellas e os edi- 
tores que o impingem ao publico que o lê, registam-lhe a merca- 
doria com o rotulo de 



GENlO — para uso externo 



porque, no seu intimo, estão a rir e tanto se lhes dá como se 
lhes deu: preferem-n'o, até, idiota ou patusco, porque o Génio, 
dês que o mundo é mundo, tem fraca venda em livraria e misér- 
rima cotação nos camaroteiros. 

P'ra mim é tudo isso e um pouco mais — é o auctor das Serres 
Chaudes de que ahi fica a amostra. . . e do resto que os senhores 
irão ver ao D. Amélia e que eu não verei, porque já o li e, como 
o Bernardo de Albuquerque depois de estender um caloiro. . . fi- 
quei satisfeito I 

— E a madama ? 

Dessa não falia Nordau. Mas faliam os seus admiradores, os 
seus panegyristas. . . e falia ella — o que é peor e mais compro- 
mettedor. 

Georgette Leblanc Maetterlinck — Leblanc, apenas, antes de 
maridar-se — estreou-se em 189:), como cantora, na Opera Comi- 
que, de Paris, sem nenhuma preparação theorica, nem estudos» 
nem conservatórios, nem mestres, nem modelos, nem solfejos : 
como quem diz, a cantar sem ter apprendido canto. 

Fez successo pela raridade, principalmente, na Cármen, de Bi- 
zet, cujo 2.° acto, em Bruxellas, ella interpretou ás avessas de to- 
das as regras, de todas as tradições e de todos os desempenhos. 

Mas arripiou carreira, e, sem mais preparaçães do que as pa- 
tenteadas no canto, desandou a representar as tragedias de Mae- 
terlinck — a seu modo, duma maneira nova que, integrando o ar- 



Impressões de Theatro — Maeterlinck 3 1 1 

tista no personagem e o personagem no artista, se não marca ho- 
risontes novos á arte de representar, é, comtudo, muito de se 
vêr, como regressão de hypercivilisados aos guinchos inarticulados 
e aos esgares mimicos dos anthropoides. 

Num artigo pimpante e farfalhudo, que de elogiativo parece 
adrede encommendado p'rás facturas de exportação, diz M. Ge- 
vaert (#) que a personalidade da madama, em cada uma das suas 
manifestações, provoca, de banda do publico e da imprensa, os 
commentarios mais imprevistos e mais contraditórios ! Desperta 
enthusiasmos ardentes — talvez como a obra do marido e um pou- 
co, certo, também, porque as bonecages das revistas a mostram, 
guapa dona — e violentas e bizarras pateadas, mas nunca, por on- 
de passa, deixa despercebida memoria de si. Nunca o seu publico, 
por mais fleugmatico, ficou frio e indiíferente — ou estarrecidos pe- 
lo assombro, ou indignados pela mystificação, os mais tacanhos 
discutem-na, acaloram-se, e tomam partido, por ella ou contra 
ella. 

De resto, interprete exclusiva da obra conjugal, encarnando-a 
e identificando-se com ella, conhecendo-se o marido, pôde dedu- 
sir-se que se conhece a mulher, melhor do que, pelo chiar do car- 
ro, se sabe quem lhe vae dentro, porque, pelo velho aphorismo, di- 
zendo-me com quem andas, se conhecem as manhas que tens. . . 

Ainda assim, por ora, e sabendo a cantora, trágica, desenhado- 
ra, philosopha e palradora de conferencias, estou na duvida, na 
espectativa benévola. 

Nem por ella, nem contra ella. 

Em Bruxellas — no Salão da Esthetica Livre — explicando-se 
mais ao seu modo de representar, Georgette Leblanc confessou 
numa arenga, fértil em maeterlinckismos de forma e de ideia, 
que quando está em scena é como se estivesse noutros planetas 
com outra noção do tempo, outra noção das coisas : os annos 
parecem-lhc dias^ os dias segundos — explica-se o phenomeno delia 
não adormecer a meio da Joy^elle — entre os repregos do scena- 
rio sente precipitarem-se ondas de amor^ de angustia^ de alegria 
e de morte e, quando acaba de representar^ Julga que apertou con- 
tra o peito e nos seus braços frágeis o enorme ramo de sentimen- 
tos que nós levamos a existência a colher. . . 



(•) Revue theatrale n." i— Octobrc de 1902—1.* serie— Paris. 



3 12 Impressões de Theatro — Maeterlinck 

Quer dizer : a representar julga-se na lua e delira. 

Se, depois desta confissão, ella tivesse acrescentado que perce- 
bia a obra de marido, era por ella. . Talvez a não fosse ver — 
cinco coroas, não é barro — mas, caramba ! era por ella e sendo^ 
quanto a mim, senhora de topete, não a deixava ir embora sem 
me decifrar todos os logogriphos e quebra-cabeças do Qálmanack 
de Lembranças . . . 



LXXVI 



8 MRAÇU. 

Amnrííl HpIIpQ recita do Theatro Livre, comedia 
IIIUI dl UOllGO, em 3 actos de Boniface e Bodin. 
Cheatro do Príncipe Real. Distribuição: Dumont, Luciano. — Paul 
Nery, Eduardo Vieira. — Hordonin, A. Machádo.-MAOAME Dumont, 
Georgina Vieira. — Leontina, Adelaide Coutinho. — Eugenia, Cân- 
dida de Sousa. — Maria, Emilia d'01iveira. 'rW AMANHA, prologo 
dramático (excerpto) de Manuel Laranjeira. Distribuição: Operá- 
rio, Eduardo Vieira. -Vagabundo, Luciano. — A mãe, M. das Dores. 

Aqui está uma noite, que marca, na historia do theatro e na 
historia das ideias em Portugal, uma data de luz e de esperanças- 

Pela primeira vez, em palcos portuguezes, soou a voz da Jus- 
tiça e a Verdade eterna, nua e redemptora, pisou, pela primeira 
vez, as taboas da scena. 

Mas houve mais do que isso no Principe Real : nasceu lá, p'r'á 
scena portugueza, um grande e maravilhoso artista, completo» 
integro e personalissimo : o actor Luciano. 

Depois dir-se-ha o resto. 

Vae p'ra dois annos, chegou-me aos ouvidos ter um grupo de 
rapazes de ideias sãs e vistas largas, com as almas abertas a to- 
das as aspirações de revolta e os peitos experimentados em vários 
combates com a Rotina, lançado as bases dum theatro livre, que 
se propunham explorar por meio duma cooperativa de quotas 
minúsculas e de problemático successo artistico numa terra, em 
que, por analphabetismo e miséria, as classes de baixo an- 
dam alheias á Arte e as de cima, por conveniência e egoismo, 
no capitulo d'artes, cultivam, apenas — afora os bordados a mis- 



3i4 



Impressões de Theatro — A Moral d'elles 



sanga e frioleiras das damas — a Arte que o Padre António 
Vieira compendiou. 

Depois, vi, nas folhas, que o profundo e eminentissimo cére- 
bro de Theophilo Braga — mestre dos mestres, sempre prompto 
a illuminar com o prestigio do seu verbo e a valorisar com a 
erudição inegualavel do seu espirito todas as manifestações de 
vida e todas as tendências de 
avanço das minorias pensantes 
— abria, com uma palestra, a sé- 
rie de conferencias que o Thea- 
tro Livre ia promover. 

Assisti á conferencia, que me 
illustrou mais do que muitos me- 
zes de leitura, e, como não tor- 
nasse a ouvir fallar no Grupo, 
nem nos seus tiabalhos, julguei 
o Theatro Livre desapparecido, 
morto e sepulto na lama glauca 
da indifferença, onde, por via de 
regra, vão a apodrecer todas as 
tentativas honestas de protesto, 
de intelligencia e de Arte que 
esporadicamente irradiam, de 
longe em longe, dum punhado 
de razões que não vergam e de 
meia dúzia de vontades que não 
torcem, p'r'ás trevas, amorphas e 
dúcteis, dum meio safado de de- 
gradação, de estupidez e de ganância, que se verga e se torce, se 
aplasta e se enchafurda em todas as transigências e porcarias do 
Venha-a-nós quotidiano. 

Foi, pois, surpreso, que entrei na plateia do Príncipe Real, 
e surpreso foi que, da leitura mastigada do actor Pedro Ca- 
bral, vim a saber que o grupo vive, age e prospera e que, ten- 
tando abrir, fora dos convencionalismos retrógrados de Conser- 
vatórios e Mestrados, um horisonte novo á Arte nacional, huma- 
nisando-a e fazendo-a enveredar pela rota amplissima, libertadora 
e acratica, que Antoine rasgou, em França, ao theatro moderno, 
como apperitivo p'ra próximos e mais característicos cartazes, ia 
iniciar as suas recitas com a Moral d'elles (Tante Leontine) de 




Luciano 
Caricatura de Julião Machado 



Impressões de Theatro — A Moral d'elles 3i5 

Boniface, que, ha quatorze annos, fez carreira no Tkeatre Libre e 
■com um excerpto do prologo dramático A'manhã, de Manuel La- 
ranjeira, que eu não conhecia e de que um camarada, entre co- 
bras e lagartos, havia dito o que Mafoma não disse do toucinho 

Estudo documentado e sombrio dum trecho banal da exis- 
tência contemporânea, lembrando, na rija e funda penetração do 
seu humorismo, as melhores laminas dos Caprichos de Goya que 
fazem pensar fazendo rir, a cMoral d'elles, não sendo uma peça 
absolutamente typica do reportório de Antoine, é, sem duvida, 
-como peça de transicção das peças ocas dos repertórios corren- 
tes p'r'ás peças cheias do Theatre Libre, uma obra perfeita e 
•equilibrada, que, dando um pedaço flagrante, da, Realidade e da 
Vida, enquadra, numa pittoresca theatralisação da Verdade, um 
modelo nitido da comedia de intuitos e de observação. 

Na Moral d'elles, um casal de burguezes — Burguezia videira e,. 
respeitada, com todos os ridiculos das suas virtudes e todas as 
virtudes dos seus vicios — os Dumonts, tratam de impingir a filha, 
segundo as regras invariáveis dos casamentos convenientes e sen- 
satos, a um engenheirola, Paul Mery, que, no molde corrente de 
todos os aspirantes ao matjimonio, vae ao cheiro do dote chorudo 
com que os velhos hão-de doirar o enxoval da herdeira. Mestre 
Dumont, banazola e lettras gordas, arruinado por uma especula- 
ção nas lãs do seu negocio, não pode esportular-se com mais de 
vinte e cinco mil francos, e, como a maquia não satisfaça os cál- 
culos do moço, ei-lo que, galan de tino, se põe ao fresco, em cata 
de mais rendosos amores. 

Nesta altura, apparece tia Leontina — Guilhermina na traducção 
— irmã do Dumont, que, em Paris, vid'airadou e na vid'airada fez 
pé de meia. Moralissimo e honesto — talhado pelo figurino dos 
Códigos e das boas reputações — quando a irmã, seduzida pelo 
menino da casa, onde era professora, sahira do caminho da honra, 
Dumont, austero, não lhe dando p'ra abrigo do arrependimento 
o alpendre do perdão, atirara-a p'r'ós beccos do Fado e, dizendo-a 
morta, cortara com ella todas as relações de convivência e pa- 
rentesco — as sôstras não teem familia. Do ultimo amante, Gui- 
lhermina herdara, porém, grossos cabedaes, que, tornando-a se- 
nhora de fartos rendimentos, lhe dão, com as primeiras engelhas 
e as ultimas desillusões, a comichão de reintegrar-se no amor dos 
parentes, no terra -a-terra do cosido familiar, no incenso da con- 
sideração social com que a pecunia, por completo, não logra en- 



3i6 Impressões de Theatro — Qá moral d'elles 

vernisar-lhe o passado de marafona, e ei-la que, p'r'ó effeito, bate 
á porta de mano, que, apezar de a saber rica, continua a consi- 
dera-la desvergonhada, e, forte nos seus principios, a pÕe na rua 
mais ao seu dinheiro. Vae d'ahi, salta-lhe á perna a família, a 
mulher, a filha e o futuro genro, e, todos á uma, com os olhos na 
bolsa da antiga croia, com argumentos e ameaças, choros e supli- 
cas, com todo um compendio de philosophia e um diccionario de 
regras de bem viver, obrigam o bom do homem a esponjar o pas- 
sado da rica mana. e a engulir nomes feios, abrir-lhe os braços e 
a amistar-se com ella, dotando a tia, já se sabe, a seresma da so- 
brinha, p'ra que o casamento se effectue a contento de todos, e 
a peça acabe, como acabavam todas as peças da phase rosse do- 
theatro Antoine, e como acabam, afinal de contas, todas as coisas 
deste mundo, pela sujeição absoluta e completa de todas as cons- 
ciências e todas as vontades á molla real de todas as acções, ao 
eterno purificador de todos os estygmas, o deus Metal — omni- 
potente e soberano. 

Toda a peça gira em torno do Dumont : symbolo duma classe 
e duma época, dominado pela mulher, escravo dos seus princi- 
pios, bom homem e honrado negociante, que, mais completo e 
mais pormenorisado que o Poirier — o burguez vaidoso apenas 
— é a encarnação scenica do burguez chefe de família, com o seu 
affecto de pae, a sua resignação de marido, os seus preconceitos 
de honradez e as suas fraquesas e transigências de videiro ; o bur- 
guez do nosso tempo e do nosso meio, absolutamente incapaz de 
roubar um lenço, pouco disposto a entrar num negocio escuro^ 
mas, nada renitente, afinal, a lavar em casa a roupa suja da familia 
e a encher a burra com os cobres ganhos pelas fêmeas sabe Deus 
como. 

N'este papel, cheio e amplo, Luciano foi sempre correcto, mas 
teve lances, pequenas tiradas, ligeiras inflexões, insignificantes 
gestos, que fariam a reputação de um grandíssimo actor. Raro, no^ 
theatro, tanta simplicidade de processos tem dado mais complexa 
medida dum temperamento de artista, e Luciano — que, no reper- 
tório habitual, destaca, ás vezes, por uma nota discreta de humani- 
dade e simplesa — tem no Dumont da Moral delles^ uma gama 
tão larga de recursos e de effeitos, que, ao cair o panno, no ul- 
timo acto, eu não reconheci nelle o actor Luciano do Príncipe 
Real e se o não confundi com nenhum actor dos nossos palcos, 
porque todos se afiguravam tamaninos p'ra confusões, chegou-me 



Impressões de Theatro — A Moral d'elles 3 17 

a parecer, que todos aquelles applausos iam, atravez dos Pyre- 
neus, saudar Antoine, que, já hoje é, pVa todos os francezes, que 
vêem e sabem ver, o primeiro e o maior actor da França. 

Mas, depois da Moral delles^ subiu o panno p'r'ó Amanhã^ e de 
surpresa em surpresa, eu que estava com receio dum borrão de 
tédio num facho de alegria, dum final de rhetorica balofa numa 
noite de observação e naturalidade, senti crisparem se-me os ner- 
vos, arripiarem-se-me os cabellos, abrir-se-me a alma em frémi- 
tos de revolta e de admração, inundar se-me o espirito em ondas 
de enthusiasmo e de raiva, ao ver Luciano, num trabalho magis- 
tralissimo, primoroso de gesto e inexcedivel de dicção, subir ao 
Azul infinito da Arte, com as azas estupendas do Novelli no Dió- 
genes^ ao dizer-nos o estranho poema de miséria, de fome e de 
injustiça, que é esse extraordinário pedaço dramático do garoto 
postulento, pedindo esmola ao vadio maltrapilho e larapio, que 
arromba a montra duma mercearia p'ra matar a fome a um pá- 
ria, seu irmão no infortúnio e na desgraça, como elle victima da 
sociedade e como elle destinado ao crime e á abjecção. 

Quem escreveu aquellas paginas tem talento de sobra, p'ra 
necessitar apedrejar as opas da Saúde doutros talentos seus vi- 
isinhos, e, o artista maravilhoso que, ao interpretai as, nos fez cho- 
rar e morder os dentes, correr lagrimas de dó, e reprimir gestos 
de insurreição, não é um artista de futuro, uma promessa e uma 
esperança a esliolar-se nas brutalidades do dramalhão: — é um 
grande e soberano artista, já de hoje, uma realidade que promette 
estupendas culminancias de interpretação, uma garantia solida e 
segura de que o theatro livre portuguez encontrou o seu An- 
toine, certo, menos illustrado, menos theorico, menos director 
de scena e menos agitador de idéas, mas, certo, mais humano, 
mais real, mais sincero, mais completo e mais perfeito actor. 

Por isso eu disse, que a noite da Moral delles, marca uma data 
na historia do theatro e na historia das idéas. 

Por isso eu digo, que todos os que nos interessamos pelo thea- 
tro, homens da penna e homens do palco, gente das empresas e 
gente das galerias, todos devemos, com o nosso applauso calo- 
roso, o nosso auxilio incondicional ao grupo de rapazes de idéas 
sãs e vistas largas, que, tentando explorar um theatro livre, nos 
deram, na sua primeira recita, ura novo e grande actoi e sellaram, 
brilhantemente, a promessa solemne de nos darem um novo e 
grande theatro nacional. 



LXXVII 



Amor de Perdição, 



I I MARÇO. 

drama em 7 actos extrahido 
do romance de Gamillo 
Gastello Branco por D. João da Gamara, Theatro D.IRaría. — 

Distribuição: Domingos Botelho, Joaquim Costa. — Simão Bote- 
lho, Luiz Pinto. — Camillo de S. Miguel, Maia. — JoÂo da Cruz^ 
F. da Silva. — Thadeu d'Albuquerque, Mello. — Balthasar Cou- 
tinho, Carlos Santos. — Manuel Lopes, yi/if de fora^ Pinto de 
Campos. — O capitão, C. Galvão. — O padre, Theodoro. — Um 
homem do povo, Sampaio. — Thereza, Cecilia Machado. — Ma-. 
RiANNA, Angela Pinto. — D. Rita Preciosa, Carolina Falco. — D. 
Felismina, Luz Velloso. — D. Barbara, Alda d'Aguiar. — Mendiga, 
Amélia Vianna. — Constança, Amélia Avellar. — Criada, Maria 
da Luz. — Freira, Sarah Coelho. 

SMeu rapa^ : — Sabes da minha descompassada e inabalável 
admiração por esse estupendo e maravilhoso mestre da lingua 
que, ao fim de duzentos volumes, exhausto pela lucta, ferido pela 
desgraça, amesquinhado por um titulo e vencido pela cegueira, 
se alou deste mundo, abrindo, com o gesto soberano de desenga- 
tilhar um revolver contra o craneo de que, em catadupas de Gé- 
nio, jorravam torrentes da mais extraordinária prosa lusitana, as 
portas da Immortalidade e da Gloria onde, augusto e imperecí- 
vel, ha-de reviver, emquanto houver memoria da lingua portu- 
gueza, o nome de Camillo Castello Branco. 

De toda a sua obra, sabes que destaco, pelo irrequietismo do 
meu feitio, as paginas supremas de combatividade e polemica 
modelares e inultrapassáveis, onde corre e redemoinha o sopro 



Impressões de Theatro — Amor de perdição 



3i9 



devastador da cólera dum deus : como 
que a clava de Hercules, brandida, em 
iras de colosso, contra homunculos de 
Lilliput. 

Sabes como, na minha irreverência 
por tudo que é pautado e formalista, 
eu ajoelho, reverente, ante o tintimar- 
rico cortejo dos seus grotescos, carica- 
turaes e eternos, em que o riso homé- 
rico dum gigante da Satyra esculpe, no 
bronze, desenvolto e monumental, do 
Ridiculo, a macabra kermesse dos Ca- 
lixtos Eloys, dos Macarios, dos Libo- 
rios e dos Fistulas, em estatuas colos- 
saes e barbaras de humorismo e facé- 
cia — Gavroche feito Rodin, Gavarni, 
que amassasse os barros adamnicos do 
Deus Padre, Creador Omnipotente. 

Mas, sabes também, que toda a sen- 
timentalidade amoruda que se enrosca 
no meu fundo romântico de peninsular, 
me leva a vincar, com o paroxismo da 
admiração e do enthusiasmo, os mármo- 
res romanescos e ultra-sentimentaes da sua epopeia de amor, 
lacrimosa, desgrenhada, tristerrimae — se quizeres — falsa e pos- 
tiça, mas, em que, a supremacia da sua Arte, lá de cima do set'es- 
trello do idealismo e da poesia, angelisando a humanidade, deifi- 
cando a paixão, arrancou a nossas mães dilúvios de pranto, e, ha 
de marejar de sentimento, atravez do tempo e das escolas, os 
olhos piedosos da Mulher portugueza, emquanto, na nossa terra, 
existirem mulheres que sejam filhas, que sejam esposas, que sejam 
mães — noivas que esperem e amantes que soffram, espíritos que 
comprehendam, peitos que arfem, corações que pulsem na emo- 
ção dominadora do «Amor da Perdição», a gema do thesouro 
litterario do Suicida de Seide, a mais pura e immaculada pedra 
da Cathedral Camiliana, feita do riso e das lagrimas, das alegrias 
e das dores da Alma amorosa da nossa gente. 

E, exactamente, por admirar toda a complexidade da sua obra, 
quer ella combata em sarcasmo de cólera, invista em genialida- 
des de grotesco ou emmova em divinisações de sentimento, a indi- 




Camillo Castello Branxo 
Caricatura de R. B. Pinheiro 



320 Impressões de Theatro — Amor de perdição 

vidualidade, forte e fogosa, do Mestre é-me tão sagrada e intangí- 
vel, tenho por ella e pela mais ignota das suas paginas taes ex- 
tremos de respeitosa religiosidade, que, embora p'ra sacar uma 
obra prima, a audaciosa tentativa do Artista, que lhe bulisse, me 
pareceria o acto sacrílego de um profanador. 

Mas,escolherd'essaobrao seu mais glorioso eemmotivo trecho, 
p'ra d'elle fazer um drama, se, á minha sensabilidade, repugna 
como um sacrilégio, á minha intelligencia choca, como um desa- 
tino, porque, se de todas as ideias detestáveis que podem atra- 
vessar o cérebro d'um dramaturgo, a mais detestável é, sem du- 
vida, a de transplantar p'ró palco os capitulos d'um romance — a 
transplantação do Amor de Perdição do livro p'ró theatro, toca 
as raias do absurdo, estando-se a ver, de ante-mão, que tudo o 
que de Bello e de Grande espiritualisa as folhas do livro, tinha 
de se esbater e de se amesquinhar ao corporisar-se nas exteriori- 
sações da scena. 

Em principio, d'um romance bom, só pode sair um drama mau 
e, proporcionalmente, d'um romance óptimo, um drama péssimo, 
porque aspirando o romancista e o dramaturgo ao mesmo fim de 
Belleza, os meios de que cada um dispõe são radicalmente diver- 
sos e oppostos : mas, esse principio redobra de veracidade, quando 
d'um romance ultra-romantico, como o Amor de 'PerdiçãOy se 
tenta extrahir theatro, porque, a própria theatralidade das situa- 
ções, que, no livro, provoca a lagrima, em scena, desperta o riso ; 
porque o ultra-romantismo da novella, equivale, no palco, ao 
serrabulhismo do dramalhão e se o Solitário de Arlincourt ainda 
se lê e se admira, o Çharteton de Vigny, já se não representa nem 
se supporta. 

A novella e a scena vivem hoje, como formulas d' Arte e as- 
pirações do Espirito, da observação e da verdade. No romance, 
os defeitos da escola romântica diluem-se e justificam-se ; no thea- 
tro, assanham-se e não se aguentam. O Simão Botelho, a The- 
resinha, a própria Marianna, radicam-se na imaginação do leitor, 
como entes incorpóreos, ethereos e immateriaes, que não comem e 
não bebem; são almas, não são creaturas ; são anjos, não são 
gente : por um esforço de prosaismo poderão supprimir-se-lhes 
as azas, mas por mais que se emprosaiquem não se lhes phanta- 
sia um estômago. Doira-os a magia da prosa camiliana e nós cho- 
ramos não é bem porque elles soífrem, é porque Camillo nos faz 
soífrer, porque Camillo soffreu ao imaginar-lhes os soffrimentos e 



Impressões de Theatro — Amor de perdição 32 1 

porque, chorando como elles, Camillo tinha o fim de nos fazer 
chorar. 

Simão Botelho, a estrebuchar nas carnes do Luiz Pinto, a The- 
resinha, a espremer-se na voz da Cecilia e a Marianna, a ulular no 
hysterismo da Angela, não emmovem nem commovem : incom- 
modam e embucham. (*) * 

São corpos a protestar por lhe terem encaixado lá dentro es- 
pirites, que, sentindo-se, pela primeira vez, engaiolados, protes- 
tam e recalcitram, atirando-se de roldão pela boca fora dos inter- 
pretes, em sonoridades rythmicas d'uma linguagem que éportugue- 
za, que é encantadora, que é divina, que é de Camillo, emfim, mas 
que, não é de gente que sente, vive e falia, como a gente falia, vive 
e sente, n'este mundo de materialidades e de prosa chã. 

João da Cruz — o mestre ferrador — exactamente porque, no 
romance, é de carne e osso, porque é o único personagem em 
prosa que esmalta a poesia daquelle maravilhoso poema, o único 
que Camillo viu e estudou com a penetrante agudeza de observa- 
dor, que — já veterano, descrente do processo e por desfastio — 
um dia o ergueu, de chofre, entre os maiores analystas da geração 
immediata ; João da Cruz, porque é, entre typos de convenção, um 
estudo da Verdade, apagando-se, quasi, no romance, destaca, do- 
mina e impõe-se no drama. E' um homem e os outros são bonecos. 

Conhecendo-se o romance e, embora, Camillo o gabe, pela «ra- 
pidez das peripécias, derivação do dialogo pVós pontos essen- 
ciaes do enredo, ausência de divagações philosophicas, lhaneza de 
linguagem e desartificio de locuções» que pareceriam simplificar 
a sua moldagem em theatro, é intuitivo que, posto á ribalta, tinha, 
fatalmente, de dar a impressão duma enfiada de estampas colori- 
das, papagueadas e sonoras, como rolos phonographicos do pensa- 
mento do auctor, mas, falsas e ocas, como creaturas humanas, que 
devem dar a illusão da Realidade e da Vida. 

E o desenrolar do entrecho, idylio sentimentalico e sanguino- 
lento, com amores, platonismos, ballasios e facadas, amantes que 



(#) Como, ao sair do espectáculo, se tinha affirmado em telegramma : 

D. Maria, ii-março, 12 '/i m. 

Rua Fanqueiros commissario teem peça seu gosto. Theatro nacional, mais cha- 
fariz. Ferreira Silva, mais papel. Angela mais ovação. Camillo, não tem mais glo- 
ria, não precisa ella. Eu, não tenho mais prosa, estou embuchado. Desembuchando 
vae resto. 

21 



322 



Impressões de Theatro — Amor de perdição 



morrem tysicos, fidalgos e plebeus 
que esticam a zagalotes — toda essa 
trama, que, hoje, nos parece infantil, 
fora dos roda-pés das gazetas e que 
foi, ha meio século, a bomba aspirante 
collada pela litteratura as glândulas 
lacrimaes dos nossos avós — todos os 
cordelinhos dessa intriga, que, no ro- 
mance, mal transparecem, no encanto 
avassalador da mais soberana prosa 
que se tem escripto em Portugal, to- 
dos resaltam, descabellados e nús, na 
carpinteiragem da peça, fazendo dum 
romance de lagrimas, um dramalhão 
de pesadelo. 

E, porque não havia maneira — 
sem estropear, numa profanação mais 
que selvagem, a obra do Mestre — de 
o evitar e de evitar, também, que os 
personagens, que, no Amor de Perdi- 
fão-romance, espiritualisados, arran- 
cam prantos, deixassem de arrancar 
bocejos, corporisados no Amor de 
Perdição-drama^ eu louvaria, caloro- 
samente, a D. João da Gamara, se elle houvesse evitado ao seu 
honesto e captivante talento, o esforço inglório de cerzir as du- 
zentas e tantas paginas do livro nos sete quadros do drama, des- 
baratando as suas aptidões num trabalho que, não glorificando 
Camillo, apenas revela, no auctor dos Velhos, uma faculdade iné- 
dita e picaresca do seu temperamento — a de ser muito capaz, por 
desfastio, tour de force ou patuscada, de dramatisar ao bastidor,, 
num bordado a cabello e escumilha, uma caricatura do Bordallo 
ou uma mancha do Carlos Reis. 

De resto, D. João da Gamara fez tudo o que, honrada e leal- 
mente, com uma piedosa adoração pelo Mestre e um reconhecida 
valor theatral, se podia fazer do Amor de Perdição^ mas fazendo 
tudo, fez o peor que podia fazer, porque, a única coisa que devia 
ter feito, era não fazer nada. 

Imaginem que, sem protesto da commissão dos monumentos, 
um hábil e distincto architecto arrasava as Gapellas Imperfeitas 




D. JoÁo DA Camaka 
Caricatura de R. B. Pinheiro 



Impressões de Theatro — Amor de perdição 323 

da Batalha, e, sem perder uma pedra, sem quebrar um capitel, 
edificava, com essa preciosa alvenaria, um posto de padreação 
ou uma casa de hospedes. Queiram mesmo suppôr que, desse pri- 
mor de architectura se conservavam todas as linhas e se manti- 
nham, dentro dos preceitos hygienicos duma estalagem ou dos 
requesitos technicos dum posto hyppico, todas as beilezas do pre- 
ciosissimo monumento. 

Dentro da justiça e da sua arte, o mestre d'obras tinha reve- 
lado insigne mérito, profunda competência e feito tudo o que 
podia fazer. Mereceria, sem duvida, com um voto de louvor das 
instancias superiores, a paga estipulada no seu contracto. Fizera 
tudo, mas, depois de pago e louvado, precisava que o mandassem 
p'r'ó degredo, porque a única coisa que, em frente das Capellas 
Imperfeitas, elle devia fazer, era esfregar os olhos pVa admirar 
melhor e quedar-sc, estactico na sua admiração, sem lhe mecher, 
mandando bugiar quem lhe houvesse feito tal encommenda. 

Nas devidas proporções e salvaguardadas as distancias que 
separam a obra de Affonso Domingues da de Camillo Castello 
Branco e, por consequência, excluída a pena de degredo — que, no 
caso de D. João da Gamara, poderia ser remida em simples poli- 
cia correccional, sellos, custas e perda de direitos d'auctor, — o 
caso de theatralisar, em sete quadros, o Amor de perdição^ asse- 
melha-se ao do mestre de obras, porque, — seguindo, pagina a pa- 
gina, os fios da intriga romanesca, não havendo no livro uma 
phrase que não eccôe no drama, levando o requinte da sua pro- 
bidade litteraria e o escrúpulo da sua competência de dramaturgo, 
a englobar os vários personagens subalternos do romance, num 
personagem central, Camillo de S. Miguel, que, ao atravessar 
a peça, declama os commentarios com que Camillo annota as 
situações ou define os caracteres — se D. João da Camará não 
conseguiu fazer um bom drama, não se pôde dizer, que não haja 
feito uma rigorosa e honestissima adaptação do romance, que, 
nesse rigor e nessa honestidade, tem o seu defeito capital e insa- 
nável. 

Simplesmente, o romance era um romance e, como tal, deve- 
ria ter ficado nas estantes de toda a gente, que, não querendo ter 
uma desillusão, em vez de o ir ver a D. Maria, deve aproveitar a 
noite p'r'ó reler ao serão, em voz alta, á família, com o cari- 
nhoso sentimento de quem está lendo um bello e grandioso livro, 
que é, ao mesmo tempo, uma bella e grandiosa obra de arte e a 



324 biPRESsÕES DE Thkatro — Amor de perdição 

mais soberana demonstração da grandiosidade e da belleza da lín- 
gua que falíamos. 

Naturalmente, o desempenho resentiu-se dos defeitos e falhas 
que, como drama, condemnam o Amor de Terdição a um tran- 
quillo e reparador esquecimento, após um lacrimijado mas lucra- 
tivo successo em todos os quintos andares da Baixa e uma expor- 
tação pVó Brazil, onde os nossos manos d'Alem-mar terão de 
prescindir do mais legitimo elemento de êxito, que, no Normal dará, 
com muitas enchentes, fértil colheita de applausos aos dois tra- 
balhos de verdadeiro valor com que o abrilhantam Ferreira da 
Silva e Angela Pinto. 

Ferreira da Silva, no João da Cru^^ tem um dos seus melho- 
res papeis. Não se pode ser mais perfeito, tomo arte, nem mais 
rigoroso, como verdade. Em artista consumado, Ferreira, no 5." 
acto, n'uma transicção brusca do riso ao choro, n*uma gargalhada 
cortada por um soluço, é assombroso de naturalidade e de emo- 
ção, raz arripios e gela o sangue. 

Angela Pinto, na resignada Marianna^ dá á paixão, desinteres- 
sada e misericordiosa, da pobre rapariga, toda a vibratilidade e 
todo o ardor do seu temperamento destrambelhado e fogoso. Ge- 
me, chora, arrepella-se, espolinha-se, uiva — não é uma actriz de 
talento a defender com a garganta e com a mascara um papel 
de peso e acanastrado: é uma hysterica endemoninhada, que cahiu 
dentro d'um personagem e o anima, o vive e o sente, com todo 
o nervosismo d'uma grande e ingenita comediante. Aquillo não é 
bem Arte, mas é a revellação do mais estranho temperamento 
de artista, que n'esta hora pisa palcos portuguezes. 

Os outros, ás bulhas com personagens falsos, foram o menos 
falsos que poderam, e, como a verdade manda Deus que se diga, 
feio peccado seria encobrir, que, Cecilia Machado — exactamente 
como o D. João da Gamara — fez tudo o que podia fazer, e, por 
isso mesmo, não fez a única coisa que devia ter feito — nãoaccei- 
tar o papel de Thereza, nem á quinta facada e mandar bugiar 
quem teimasse em lh'o impingir. Não chega a ser um papel : é 
uma canastra e a Therepnha d' Albuquerque^ se é muito p'ra ser 
lida. . . pVa representar, que lhe pegue quem se fie na Virgem e, 
por mais que corra, verá o boleu que apanha. 

Cecilia Machado farta-se de ir mal, mas outra qualquer, por 
mais prosapias com que se lambesse, havia de ir muito peor. 

O que, se não é um triumpho, é uma consolação e a prova 



iMPRESsÓe» DE Theatro — Amor de perdição 325 

real d'um -progressivo talento, porque Augusto de -Mello farta-se 
de ir pçor e qualquer jámeviste, conhecendo a regra do savoir ce 
qu'on ya dire c'est laprobité du comedien^ iria, sem esforço, muito 
melhor e quasi bem. 

No final da peça, quando Simão Botelho, n'um estrebucha- 
mento principerealesco, dá a Marianna uma carta p'ra lêr, pre- 
guntava-se na plat«a: 

— Acasp -a filha do ferrador conhecia as lettras no romance ? 

E' a única alteração introduzida na peça. Mas não admira. A 
cachopa, na passagem do romance pVó drama, fez grandes pro- 
gressos com As primeiras Leituras de D. João da Gamara. 
Não é um desvio do texto : é um reclamo do editor ao sympa- 
thico pedagogista. 

P'ra fechar, uma aclaração indispensável — nanja p'ra ti que 
me sabes do feitio e do temperamento e a não precisas, mas p'r'ós 
fraldiqueiros que, a atassalharem-se no barril do lixo das auto- 
psychologias, rosnando em surdina, escabicham nos inttnTos alheios 
ás determinantes das próprias aCçóes — poucas linhas só, de ca- 
racter pessoalíssimo, e que, dizendo-me respeito, cabem nas Im 
pressões de theatro por illuminarem, com o facho intenso e altivo 
da Verdade, que eu amo, as insinuações escuras e baixas da In- 
triga theatral, que me ennoja. 

Da minha amisade com e actor Ferreira da Silva — já velha 
de largos annos, já provada de vários lances e logo aqui procla- 
mada nas primeiras paginas — com a machiavelica lógica das sachrís- 
tias de Bastidores, tão sujas e mais estúpidas que os bastidores 
das sachristias, não me vendendo por borlas — visto que as não 
acceito — não me alugando por peças — sabido que as não faço 
— não me aforando por caricias — conhecido o meu amorphismo 
de chefe de familia — deduz-se que hypotheco a minha indepen- 
dência, as minhas opiniões, os meus enthusiasmos, os meus ata- 
ques, os meus elogios e as minhas cruezas á cordeahdade das 
minhas affeições pessoaes, aos laços de funda estima que me pren- 
dem ao esplendido actor que, sendo uma gloria da scena portu- 
gueza, eu me orgulho de estremar entre os meus raros amigos. 

Não estando acostumados a dizerem o que pensam e o que sen- 
tem, sem inquirir da pitança que, na gamella, lhes condimenta o 
dono, não admiitem que eu gose, de conta própria, o prazer inefTa- 



326 



Impressões de Theatro — Nota pessoal 



vel de dizer o que sinto e o que penso, curando, apenas, da Jus- 
tiça das minhas palavras e da Verdade crua das minhas asserções. 
Não me podendo fazer venal, por interesse, fazem-me, por ami- 
sade, aggressivo de conta-alheia. 

Não sou uma penna que se aluga : sou um moço de fretes que 
dá recados. 

Ao que parece, não sou 
uma voz que protesta: sou 
um ecco que repercute. 

E* bem achado, á pri- 
meira vista, olhando-se, 
principalmente, p'r'ó caso 
com as lentes deformado- 
ras da má fé e da velhaca- 
ria, com os óculos de al- 
cance com que, mirando 
p'ra dentro, elles se ana- 
lysam nos raros momen- 
tos de exame de consciên- 
cia. 

Mas, reflectindo um 
pouco, pecca pela base, que é inconsis- 
tente e estúpida: nem Ferreira da 
Silva precisa, na grandeza máscula 
do seu valor artistico, d'um condot- 
tieri que lhe abra caminho, aggredin- 
do-lhe os inimigos, affastando-lhe os 
concorrentes, ou cantando-Ihe os mé- 
ritos, nem, se o precisasse, appellaria pVa mim, que se elle es- 
tima como amigo, respeita e preza como homem. E a um homem 
que se estima, que se respeita e que se preza, nem se pedem, 
nem se acceitam, serviços dessa natureza, porque não se faz, dum 
égua! pelo affecto, um subalterno pela conveniência — espécie de 
enxota-cães da porta dos templos ou capadinho fanhoso do can- 
tochão do reclamo. 

Por magros cobres, miseras placas, elle liquidaria, com as mais 
apuradas pennas do meu paiz, a conta corrente dessas extravagân- 
cias inúteis, que, não lhe augmentando o mérito, nem lhe satisfa- 
zendo a vaidade, a um amigo, que se considera, se não pagam 
com trabalhos forçados e prisão perpetua de gratidão. 




o AUCTOR 

Caricatura de Carlos Leal 



Impressões de Theatro — Nota pessoal 827 

Eu seria pulha, mas elle era parvo e ambos nos temos na conta 
de intelligentes e de homens de bem — velhos amigos, leaes e 
francos, cada um com o seu modo de ver, o seu feitio, o seu 
temperamento, as suas opiniões, os seus ideaes e os seus interes- 
ses, ás vezes oppostos, mas, ambos concordes, sempre, no respeito 
mutuo que nos devemos e que nada nos faria quebrar e, menos 
ainda, torcer nos novellos emmaranhados dessas manigâncias e 
porcarias. 

E isto dito, fica pois entendido, duma ve» por todas — aqui 
diz-se o que se pensa, pensa-se o que se diz e responde-se pelo 
que se diz e se pensa, sem ir pedir a vénia ás conveniências de 
espiritos-santos de orelha e sem declinar responsabilidades nos 
conselhos e nas bengallas dos visinhos. 

E, como se diz tudo o que se pensa, é possivel que se digam 
barbarismos e grosserias, mas, como se pensa tudo o que se diz, 
não assustam as responsabilidades de infâmias e torpezas que, exa- 
ctamente, por isso, aqui se não dizem e se não podem dizer. 

. . .E vão os autos sem vista fiado em que ainda haverá olhos 
p'ra vêr. . . 



LXXVIII 



1 6 MARÇO 

\/i\/inki2 ^ col^^r revista em 3 actos e 12 

VlVIIlíld d bdlldl ...quadros, prosa de Gamara 
Lima, versos de Mello Barreto., musica de Luiz Filgueiras e Del- 
Negro e scenographia e machinismos de Garancini. Cheatro Rve- 
nida. Distribuição: David Airada, Presidente do jury, Grijó. — 
Feiticeiro, Excursionista, Afflicto, Boato, Surdo, Ramon e In- 
discreto, Setta da Silva. — Um sujeito, Cheira, i." repórter, i.<* 
padeiro, Professor, Filippe e Mordomo, Roldão. — Vertical, In-' 
glez, 2.<* Padeiro, 6.° dramaturgo, Ricardo Salgado. — Diabo, Ma- 
rido, 3." PADEIRO, Negociante e Ambrósio, Eduardo Fernandes. — 
Automóvel, 4.° boi, Progessista, i." sujeito. Hespanhol, Agente, 
1." dramaturgo, e Peixe Espada, Eduardo Raposo. — 2.° boi. Re- 
generador, Mastro, Bónus Universal, Militar e Torreano, Sal- 
vaterra. — l.° transeunte, 2.° POPULAR, CaBOTINOFF e MELCHIADESr 

João Lopes, 3."* boi. Americano, 2.° dramaturgo e Gancanista, 
Barros. — Gautelleiro, 1° boi. Franquista, 2.° transeunte, i." 
popular, i.° jurado e Meio Litro, José Rodrigues. — Garoto dos 
JoRNAEs, Nacionalista, 3.° transeunte, Gurioso, 2.° jurado, e 
Trombone, Vaz. — 3.° sujeito e Saloio, Albuquerque. — Andador, 
2.° sujeito, 2° curioso, 3." JURADO e bufo, Taveira. — Vendedor 
e i.° official, Pina. — Fada, Pátria, Tracção eléctrica. Letra 
protestada, TijELiNHA, ViNiFiCAÇÃo, IscA 6 RETICENCIA, Dclphina 
Victor. — Politica, Falsificação, Zefa, Gançqneta e D. Thomazia, 
Isaura Ferreira. Chico Banzé, Chica de caroí-a á banda. Feijão 
PRETO e Rainha Bom-Tom, Amélia Pereira. — Sorte, Horisontal, 
Balão, Moagem, Desfeita e Gancanista, Gabriella Lucey. — De- 
NtíNCiANTE e Dobrada, Elisa Aragonez. — Advogado, Contribui- 
ção Predial, Dama, i.« falsificação e i.° pagem, Laura Fernan- 



Impressões de Theatro — Vivinha a saltar 



329 



ces. — I .« Meirinha, Contribuição Industrial, Uma mulher e i .• 
Azeitona, Sarah. — Ministério Publico, Penhora, 2.* FALSincAÇÃa 
e 5." PAGEM, Elvira Rosa. — Escrivã, Contribuição de renda de 
CASAS, D. Michaela e 4.° pagem, Stella. — 2 » meirinha, Alcance, 
Menina e 2.* azeitona, Laura Ruth. 



Se, outro dia. eu me não houvera 
sangrado em saúde, declarando o 
meu fraco pelas revistas, teria de 
me sangrar agora, dando ao mani- 
festo, a propósito da Vivinha a sal- 
tar^ não só essa fragilidade, que 
todos perdoarão em desconto dos 
meus peccados, mas outra, mais 
grave, rriais mofenta, que me vae 
pôr em mau cheiro de santidade 
no olfacto jacobino cá da casa : 
gosto das revistas, de vez em quan- 
do, no theatro, e, não prego olho,, 
todas as noites, sem bemdizer do 
espirito e da "elhaquissima chalaça,, 
com que, ao deitar da cama, me 
desopila o fígado, a leitura 
das Novidades. 

Eu sei que a revista nãO' 
é theatro que se applauda 
e que as Novidades., no^ 
seu navarrismo typico, fa- 
zem engulhos a muita 
gente boa — mas, sempre que uma revista corta a semsaboria, 
charra e mazomba, dos cartazes correntes, com a petulância ale- 
gre dos seus desconchavos e das suas nudezas, eu palmejo a re- 
vista, distrahio-me, passo uma boa noite, e, sempre que as Novi- 
dades me faltam á cabeceira da cama, com os seus empatas e os 
seus batibarbas, os seus estadulhos e as suas raivas mansas, re- 
viro-me no travesseiro, agito-ir»e nos lençoes, não prego olho e 
convenço-me, pela falta que me fazem, como quando as leio, pelo 
bem que me sabem, que as ZNjjvidades são o jornal mais bem 
feito da nossa terra e dos raríssimos, que mereciam leitura, numa 
terra em que se soubesse ler. 




Meíxo Barreto 
Caricatura de Francisco Teixeira 



33o Impressões de Theatro — Vivinha a saltar 

Ora a 'Vivinha a saltar^ é uma revista, e, no cartaz, com o nome 
de Gamara Lima, um dos mais finos humoristas da nossa imprensa, 
legitima-lhe o successo e a paternidade, Mello Barreto, o mais 
completo e mais maleável temperamento de jornalista, que, em 
discipulo amado, collabora com o mestre Navarro, na feitura quo- 
tidiana da gazeta, que os amigos odeiam, que os amigos temem, 
que os amigos chasqueiam, mas que os amigos vão lendo, como 
€u a leio, e, que, no seu intimo, com os seus botões, os amigos 
admiram, como eu admiro. . . 

Se esperam, pois, que lhes diga mal, queiram esperar amanhã 
pelo Maeterlinck e passem adeante, porque, da Vivinha a saltar^ 
revista sem escabrosidades e com graça, com um bello verniz 
litterario a reluzir-lhe o picaresco das situações, com diálogos 
faiscantes e versos que não vão em muletas, despida com fluxo 
de sedas e gases, marcada com magnificências de comparsaria, de 
scenario e carpinteiração, da Vivinha a saltar, revista a que se 
pode levar a família e que faz rir sem fazer corar, que espicaça 
ridiculos e não faz chagas na moral, qu^ tem o cunho popular 
das revistas e calça a luva branca dos salões : da Vivinha a saltar, 
revista que é, pelo espirito um bello numero das Novidades e, 
pelo esmero com que está posta em scena, uma sensacional novi- 
dade entre as revistas — eu só tenho a dizer bem, muito que applau- 
dir e muitíssimo que louvar. 

E' um espectáculo cheio, que nos alegra com os seus ditos e 
que nos deslumbra com as suas visualidades, que nos prende o 
•espirito e nos regala os olhos e que, fustigando-nos um pouco os 
sentidos com a elegância dos desvestidos, nos arrefece, decente- 
mente, a concupiscência com a honesta feialdade das comparsas 
e coristas. 

Dada a impossibilidade dasallusões politicas, das caracterisa- 
ções pessoaes, e as mil e uma difficuldades de pensar, escrever^ 
realisar e pôr em scena uma revista com a policia ao lado, e a 
tesoura em cima da mesa do trabalho, Gamara Lima e Mello 
Barreto, deixando a outros a exploração da obscenidade e não 
podendo, mesmo, desfiar os recursos duma estrella, prendendo o 
publico, em três longos actos, e aquecendo o, aqui e acolá, com o 
esfusiar hillariante duma piada ou com o imprevisto feérico duma 
marcação, realisaram um tour de force, bateram o record do gé- 
nero e, se devem muito ao serio talento de Garancini — um ver- 
dadeiro e fortíssimo artista, com o segredo da sua arte e toda a 



Impressões de Theatro — Vivinha a saltar 33 1 

destricidade do seu officio — se devem bastante ao concurso do 
alfaiate, do maestro e do director de scena, mais devem á boa von- 
tade e ao esforço intelligente dos artistas modestos que lhes in- 
terpretam a Vivinha a Saltar^ que, fazendo todos o que podem, 
deixam era destaque a elegância airosa de Gabriella Lucey, o fio 
•de voz agradável de Delfina Victor, o irrequieto garotismo de 
Amélia Ptereira e a veia cómica de Grijó, Setta e Roldão, que, 
mantendo o publico em hillariedade, garantem á revista uma bella 
carreira de applausos e casas cheias. 

. . .De resto, eu que digo mal de tanta peça, se me não tenho 
sangrado em saúde, estava servido ao fazer desta — como havia eu 
de dizer mal da Vivinha a Saltar^ se entro em scena, e, em scena, 
dizem bem de mim i 



LXXIX 



17 MARÇO, 



IWInnnP) Víínn^ peçaemSactosde MauriceMaeter- 
IVI U 1 ll 1 a V d M 1 1 a , ijnck. Theatro D. Rmeha, /• recita 
da Tournée Maeteklinck Georgette Leblanc. 



Cá estão ! O macho não veiu, mas 
^^1^^^^ mandou o beijinho da sua obra. A fe- 

^^^^^^^^^ mea veiu e trouxe-nos o melhor do seu 

^^^^^H^^^^ reportório. Casal abençoado que, na 
^^ ^^^ capoeira de S. Luiz de Braga, vae ca- 

■ _ V carejar, três noites, o estapafúrdio da 

I i4r^ ^Ok ML incongruência, o imprevisto do descon- 
I / í"! chavo, o absurdo da extravagância, ante 

\ L,^ J/ uma plateia de snobs e esthetas, que 

^^AJÍ^II^ hão-de abrir os olhos e esfurancar os 

\ % ouvidos, numa admiração extasiada de 

/^c^ basbaques, a olharem p'ra um muro^ 

© atrás do qual se estão passando cousas 

Maeterlinck """ca vistas. 

Caricatura de F. Vaiioton E' O dizer encomiastico e eluci- 

dativo de S. Boaventura — um alho ! — 
que, marcando o protocolo da claque e chamando cynico ao Mae- 
terlinck, cita expositores: «Victor Hugo disse que não ha nada 
mais interessante do que um muro, por detrás do qual se passa 
qualquer cousa. Este muro trágico existe em todas as obras de 
Maeterlinck.» 

E existe. Em vez, porém, das illustrações, correntes em muros 



Impressões de Theatro — Monna Vanna 333 

novos e como amostra do que se está passando por detrás delle, 
•escreveu Maeterlinck as Serres Chaudes^ d'onde extraio mais 
este brinco : 

Oh I estufa no meio das florestas I 

E com as portas fará sempre fechadas ! 

E tudo o que ha debaixo da vossa cúpula l 

E debaixo da minh'alma em vos^sas analogias! 

Os pensamentos d'uma princesa que tem fome, 
O aborrecimento dum marujo no deserto. 
Uma musica de sopro ájanella dos incuráveis. 

Ide para os cantos mais tépidos f 

Dir-se-hia uma mulher desmaiada em dia de ceifa. 

Ha postilhões no pateo do hospital l 

Ao longo passa um caçador de ímpetos qué sefe^ enfermeiro. 

Examinae á lui da lua! 

(Oh ! nada está no seu logar I) 

Parece uma doida deante dos juizes. 

Um navio de guerra, a todo o panno, n'um canal, 

Passatos nocturnos em cima de lyrios. 

Um dobre ao meio dia 

(Lá baixo sob esses sinos/J 

Uma paragem de doentes no prado, 

Um cheiro d'ether um dia de sol. 

Meu "Deus ! meu Deus ! quando teremos chuva, 
E neve é vento na estufa I 

E como, já'gora, elles faliam melhor e mais claro do que eu 
poderia fazel-o, dou a palavra também á madama que, «quando 
•está em em scena, perde a noção das cousas e a noção do tempo, 
<que se julga noutro planeta e sente cair-lhe dos bastidores ondas 
-de amor, de amargura» e do diabo que a carregue, e que, em desa- 
forada carta, a que o Dia chama «das mais extraordinárias que uma 
mulher tenha escripto a outra mulher» diz assim : 

'São imaginas o prazer que senti em tornar a ver-te, em sentir te 
perto de mim. Tens uma linda alma e os teus olhos são tão bel- 
los l ... E' por isso que te amo infinitamente e nunca desejarei 
cousar-te um desgosto. . . Pobre alma que tanta vef deve ter sen- 
tido frio ao contacto de outras almas ruins., podes amar-me sem 
receio; eu não te farei mal. Tenho soffrido tanto de tudo que tudo 
comprehendo ; e isto me tomou melhor e mais superior. . . 



334 Impressões de Theatro — Monna Vanna 

Na carta da madama e nos versos do monsieur estão dois 
retratos escriptos e escarrados : a taboleta duma salchicharia e os 
pesadellos dum pantomineiro. 

Vamos, agora, a pintarolar a peça : Monna Vanna é a esposa 
amada, formosa e de chupeta, de Guido Golonna, commandante 
da guarnição de Pisa, que, sitiada pelas tropas de Florença, capi- 
taneadas por Prinzivalle, está prestes a entregar-se ao inimigo- 
P'ró acampamento já partiu, em medianeiro e emmissario. Vasca 
Golonna, pae do commandante e sogro de Vanna. 

Ao subir o panno, Guido, expõe a situação de Pisa aos seus 
officiaes, Borso e Torello, e, mostrando receio que, no campo de 
Prinzivalle, lhe hajam espatifado o progenitor, alegra-se vendo 
chegar o velhote, que traz grandes e estupendas novas : o cerco 
vae ser levantado, mantimentos e munições, em barda, abarrota- 
rão Pisa ao romper do dia seguinte, salvando-se a cidade e a sua 
independência. . . se Monna Vanna, nuasinha em pello, apenas co- 
berta por uma capa e calçando sandálias, atravessar as fortifica- 
ções pisanas e fôr passar a noite na barraca de Prinzivalle — o 
maganão. Protestos violentos de Guido, que não está pelos ajus- 
tes e fleugmatica insistência do velho, que, tendo previsto o esca- 
briar do filho, já fez a proposta á nora, que, em salvadora da pá- 
tria, se presta ao passeio nocturno e mais partes do sacrifício. O 
marido não acredita em tanto heroísmo e, coçando a cabeça, dá 
ao demo a diplomática ronha do alcoviteiro, que, antes de fallar 
aos interessados, dera com a lingua nos dentes no Senado. A*^ 
frente do povo, revolto e ullulante, vêem os senadores compellir o 
seu general não a bater-se, mas a mandar a mulher de presente ao 
inimigo. Entrada de Vanna em scena, discussão com o marido, e 
cae o panno, ao partir resoluta Monna Vanna p'r'ó imprevisto 
duma noitada heróica, ficando Guido Golonna a mugir, escamado 
como uma barata. 

No campo do exercito de Florença e na tenda de Prinzivalle^ 
discute este com Vedio, seu secretario, as ordens da republica e 
as intrigas de Trivulzio, emmissario do governo, que lhe impõe o 
ataque immediato ás muralhas de Pisa, depois de lhe ter prepa- 
rado maus lençoes, no regresso á pátria. Entra Trivulzio ; jogan> 
as cristas, Prinzivalle manda-o prender ; Trivulzio rapa da durin- 
dana e faz-lhe um gilvaz e, emquanto um vae p'r'ó cagarrão e o 
outro se fica a pôr paxes na ferida, entra Monna Vanna, embru- 
lhada na sua capa e prestes ao sacrifício. Prinzivalle, em homem 



Lmpressões de Thetro — Monna Vanna 335 

de palavra, faz partir os reforços e mantimentos p'ra Pisa e, em- 
quanto, na coulisse^ se arrastam ferros a fingir que partem os 
carros, Monna Vanna e Prinzivalle olham-se, remiram-se e di- 
zem-se ternezas : são, afinal, conhecidos velhos. Menino e moço, 
filho dum ourives, Prinzivalle brincara com Vanna e tendo par- 
tido, mocinho, p'ra longes terras, não esquecera a bella. Voltando 
homem feito, general ao soldo de Florença, vá de a procurar por 
toda a parte, e, sabendo-a casada com Guido Colonna, senhor de 
Pisa, de vir, por conta de republica florentina, pôr a pão e laran- 
jas a cidade habitada pela sua mais que tudo. Perdido, porém,, 
pelas intrigas de Trivulzio no conceito dos seus chefes, ei-lo que 
se resolve a atraiçoa-los, abastecendo o inimigo e satisfazendo a 
sua paixão. Dois coelhos duma cajadada : uma pirraça a Florença 
e uma noitada d'amor á custa de Guido Colonna. 

Mas a conversa vae-se espiritualisando, em platonismos e tira- 
das de kilometro e meio, e Vanna, tendo vindo disposta a sacri- 
ficar-se a um desconhecido, sente remorsos de gosar com um 
amigo velho. Vae dahi, como está escripto que não ha maneira 
delia deixar cair o manto e de se destapar, e, como o acto já se 
resente de estiradote, as tropas de Florença chegam em reforço,, 
descobre-se a traição de Prinzivalle e Monna Vanna p'r'ó salvar, 
vá de o levar a reboque, traz delia, p'ra Pisa — a terra do marido. 

Guido lamenta-se da sua sorte, descompõe o pae, os oflficiaes, 
o Senado, a plebe e meio mundo, descompondo a porca da mu- 
lher e o mariola do Prinzivalle, que lh'a comprou pela salvação 
da cidade. Correndo com o maroto do pae, que o metteu naquel- 
las folias, sente o berreiro da multidão que saúda o regresso de 
Monna Vanna, martyr e redemptora. Entra Vanna rodeada 
de povo, e, com Prinzivalle á ilharga, abraça o velho e declara-se- 
Ihe feliz. Vae a abraçar-se ao marido, que a repelle e desata a 
berrar, aos circumstantes, que se ponham ao fresco, que tem umas 
continhas a ajustar com a sua madama. Sahem todos, menos 
Pnnzinvalle, a quem Guido se atira, atirando-se Vanna, ao meia 
delles, a defende-lo. Espanto do marido, que redobra quando ella 
faz a apresentação : — Prinzinvalle que me salvou. Guido julga qu« 
ella lh'o traz p'ra elle o espatifar e agradece o mimo. Vanna diz 
que não. Guido arrepella-se. Vanna affirma que Prinzinvalle não 
lhe tocou. Guido não engole. 

Vanna jura a sua pureza e confessa o fatacaz que Prinzinvalle 
lhe tem. Guido ainda mais se arrepella. Vanna escama-se. Todos 



336 Impressões de Theatro — Monna Vanna 

se escamam. E como Guido, não acreditando que os dois não 
hajam petiscado, vae a fazer em frangalhos o rival, Vanna desata 
íi dizer que sim, que patuscaram toda a noite, e que é ella que 
quer dar-lhe cabo do canastro. Guido acj;edita e Vanna promette 
a Prinzinvalle grande e interminável idylio, quando o fizer evadir 
da prisão e se raspar com elle ás sanhas ferozes do marido. 

A peça acaba, pedindo Vanna ao marido a chave, a chave, a 
chave... que, tanto pode ser do cárcere onde Guido mandou 
íiferrolhar Prinzinvalle, como a do bahu da cantiga popular. 



Como vêem, não metti um commentario, uma nota : segui 
passo, a passo a nervatura da peça, e, se, nas suas linhas geraes, 
se, no seu triic de fazer estar o espectador dois actos, de luzio ar- 
regalado, á espera que o manto caia e Vanna nos appareça na 
aphrodisiaca nudez, que nos prometteram ao começar a acção, 
se, no movimento dos seus personagens e no embroglio das suas 
situações Monna Vanna chega a ser theatro — e do peor que ha na 
bagagem de Sardou — no emmaranhado confuso Jo seu dialogo, 
nò pretenciosismo ridiculo das suas imagens, na barafunda dis- 
paratada das suas tiradas kilometricas, Monna Vanna, deixa de 
ser refugo de Sardou p'ra entrar nos moldes da obra de Mae- 
terlinck e deixar de ser theatro, de ser litteratura, de ser arte, 
p'ra ser, pura e simplesmente, uma mystificaçao de doido e uma 
loucura de mystificador. ' 

Peça pVa exportação e pVa plateias cosmopolitas que, esca- 
garrinhando-se pelo boulevardismo, veera os personagens me- 
cher-se, entrar, sahir, gesticular e fazer visagens, mas não toscam 
patavina do que elles debitam, a Monna Vanna é um pedaço de 
visualidade, habilmente encabeçado na primeira recita das três 
com que, na cabotina peregrinação da consorte, pelos palcos do 
mundo,!Vlaeterlinck anda a dar carradas de razão ao Nordau que 
lhe chamou imbecil. 

Esperem pela Joy^elle e, fiados na MonnaVanna, abalancem-se 
a uma noitada da Aglavaine e da /nírM5e — Maeterlinck sem Sar- 
dou, ou cretinismo ao natural. . . e verão a indigestão que apa- 
nham. 

PVaco de estômago pVa ceias indigestas e caras, claríssimo 
que não ponho lá o pé. . . Vou-lhes dizendo o que sei do Mae- 



Impressões de Theatro — Monna Vanna SSj 

terlinck e o que as folhas imprimem da madama e, quando 
quizer — que não quero — fazer uma ideia da forma porque elles 
representam, vou, em dia de nortada, ver os doidos a espolinha- 
rem-se na cerca de Rilhafolles. 

Mas largar cinco coroas e perder a noite ... só se fosse como 
elles e. . . como os que lá vão. 

Que afinal só assim, com a greve geral dos pagantes, S. Luiz 
se deixaria, p'ra gáudio dos borlistas, de nos propinar as Saddas 
Yaccos — japonezas ou belgas — que são o seu forte e o seu in- 
esgotável filão. 



22 



LXXX 



l8 MARÇO. 

conto de amor em 5 actos de Maurício Mae- 
terlinck. Gheatro D. Rmelia- 2.» recita da Tour- 
née Maeterunck — Georgette Leblanc. 



Joyzelle, 



Ao fim dos cinco intermináveis actos da Joy^elle^ a gente com- 
prehende que aquillo é um sonho, porque está a dormir. Na obra 
de Maeterlinck, os seus personagens, fantoches articulados e bo- 
necos de engonço, pela grande maioria e segundo a rubrica das 
peças, ou faliam por monosyllabos, numa prosa migada e gague- 
jante, ou, então, desatam a sermonar em tiradas e, como as cai- 
xas de musica, moem palavriado, imagens, divagaçães, numa me- 
lopeia idiota, de quem diz muita coisa exactamente porque não 
tem nada a dizer. 

E como não tenho á mão a oAglavaine e a Intruse^ modelos 
de género, exemplifico a primeira formula, com esta scena da 
Princesa Maleine, a obra prima do mestre : 

«HJalmar — Vinde .. 

Maleine — Ainda não. 

HJalmar — Uglyane ! Uglyane ! (oábraça-a; o repucho, sopra- 
do pelo vento, inclina-se e cae em cima dellej. 

Maleine — Oh ! que fizesteis ? 

HJalmar — Foi o repucho. 

Maleine — Oh ! Oh ! 

HJalmar — E' o vento. 

Maleine — Tenho medo ! 

HJalmar — Não penses mais n'isso; vamos p'ra mais longe. 
Não pensemos mais n'isso. . . Ah 1 Ah ! Ah ! Estou encharcado ! 



Impressões de Theatro — Joy^elle 



339 



Maleine — Está aqui alguém que chora. 

Hjalmar — Alguém que chora aqui ? 

Maleine — Tenho medo. 

Hjalmar — Mas não vedes que é o vento ? 

Maleine — Ha tantos olhos por ciraa das arvores. 

Hjalmar — Mas onde ? Oh ! são os mochos que voltaram ! Voa 
enxuta-los {atira pedras). Ide-vos ! Ide-vos ! 

Maleine — Ha um que não quer ir-se embora ! 

Hjalmar — Onde. 

Maleiae — Em cima do 
chorão. 

Hjalmar — Vae-te ! 

Maleine — Não vae. 

Hjalmar — Vae-te, vae- 
te (atira-lhe terra). 

Maleine — Oh ! Atira s- 
teis-me com terra. 

Hjalmar — Atirei vos 
com terra? 

Maleine — Sim, cahiu 
terra em cima de mim. 

Hjalmar — Oh, minha pobre Uglyane ! 

Maleine — Tenho medo ! 

Hjalmar— Tendes medo ao pé de mim? / f /a \ 

Maleine — Ha chammas, por entre as arvores. I <r /^ I 

Hjalmar — Não é nada. São relâmpagos; hoje %~'J'. v\. 
fez muito calor. 

Maleine — Tenho medo ! Oh, quem está a 
mecher na terra ao pé de nós ^ 




Georgette Le- 

BLANC 

Caricatura de R. B. 
Pinheiro 

Hjalmar — Não é nada; é uma toupeira, uma pobre toupeira- 
sinha que levanta a terra 

cMaleine — Tenho medo ! . . . 



Hjalmar — Em que pensaes ? 

cMaleine — Estou triste ! 

Hjalmar — Estaes triste ? em que pensaes, Uglyane ? 

cMaleine — Penso na princeza Maleine. 

Hjalmar — Conheceis a princeza Maleine ? 

cMaleine — Eu sou a princeza Maleine. 

Hjalmar — O quê ? 

cMaleine — Sou a princeza Maleine. 



340 Impressões de Theatro — Joy^elle 

Hjalmar — Não sois Uglyane ? 
cMaleine — Sou a princeza Maleine, 

Hjalmar — Sois a princeza Maleine! Sois a princeza Maleine ! 
Mas a princeza Maleine morreu. 

cMaleine — Sou a princeza Maleine.» 

E está a dizer ginjas, p'ra amostra da segunda, esta falia, mixo- 
rofada narcótica, com que abre a Joy^elle: «Tu dormes, minha 
Ariel, tu minha força mterior, poder esquecido que dormita em 
todas as almas, e que, só eu, até aqui, accordo a meu talante. . . 
tu dormes minha fadasinha dócil e familiar e os teus cabellos es- 
parsos como um vapor azul, invisiveis aos homens, juntam-se á 
lua, aos perfumes da noite, ao luzir d£.s estrellas, ás rosas que se 
desfolham, ao azul que o innunda (?) p'ra nos lembrar assim, qut 
nada nos separa de tudo o que existe, e que o nosso pensamento 
não sabe onde começa a luz, que elle espera, onde acaba a som- 
bra, a que elle foge. . Tu dormes profundamente, e, emquanto 
dormes, eu perco toda a minha sabedoria e torno-me semilhante 
aos meus cegos irmãos, que não sabem ainda que ha sobre a 
terra tantos deuses escondidos como corações que palpitam. .. 
Ai ! eu sou para elles o génio de que é preciso fugir, o magico 
malfazejo que fez alliança com os inimigos delles . . . Elles não 
teem inimigos: teem súbditos que não encontram o seu rei... 
Elles estão persuadidos que o meu poder occulto, a que obede- 
cem as plantas, os astros, a agua, a pedra e o fogo, a que o fu- 
turo descerra por momentos alguns dos seus designios ; elles 
estão persuadidos que esse poder novo, e comtudo tão humano, 
está escondido nos philtros, nas palavras malditas, nas hervas in- 
fernaes, temerosos signaes. . . Não, é em mim que elle está, como 
nelles reside ; é em ti que elle se encontra, minha frágil Ariel, 
que te encontravas em mim. Eu fiz dois ou três passos mais au- 
daciosos na noite . . . Fiz, mais cedo, o que elles farão mais tarde... 
Tudo lhes será submettido, quando elles houverem aprendido a 
reanimar a tua boa vontade, como eu a reanimei. . . Mas por mais 
que lhes diga que tu dormitas aqui e lhes aponte com o dedo a 
tua formosa graça, não te veriam elles... E' preciso que cada 
um d'elles te descubra em si mesmo ; é preciso que cada um 
delles entreabra, como eu, o tumulo da sua vida e venha accor- 
dar-te, como eu te accordei. . .» 

E accorda a moça e começam cinco actos em que, os quatro 



Impressões de Theatro — Joyjelle 341 

personagens, — Merlin mais a sua fada Arielle — que os outros 
não vêem — seu o filho Lanceor e a sua futura nora Joyzelle — 
todos, com a mesma verborrea estupeficiente, põem o miolo a ar- 
der aos raríssimos agrineticos, que, espertinados, resistem á su- 
porifera violência daquelle substracto concentrado de ópio e de 
dormideiras. 

O conto d'amor da Joyzelle reduz-se a isto : Merlin — um ma- 
gico — espera a vinda do filho Lanceor, que terá de passar as pas- 
sas do Algarve, ao que diz a fada, se não encalha no seu cami- 
nho, com uma mulher, casta e fiel, que o ame e por elle, sacrifi- 
cando tudo, beba ares e ventos. Ora, na ilha de que Merlin é rei 
constitucional, — á moda dos fideii?simos monarchas que pintam 
a manta e fazem tudo o que lhes dá na real gana — ha uma ca- 
chopa, Joyzelle, mesmo ao pintar da faneca e com todos os pre- 
dicados requeridos. Lanceor chega, vê a rapariga, a rapariga vê-o 
e verem-se e amarem-se é obra dum momento. Capitulo recita- 
tivo de cartas de namoro, idiotas como as dum collegial e doces 
como as dum confeiteiro, a que a fada põe ponto, p'ra comprazer 
ao melro do Merlin, que, apesar de velho, nos sae gaiteiro, e, tendo 
as suas vistas sobre a mocinha, lhe arrasta a aza. Pondo de banda 
o seu desejo de conseguir, acima de tudo, a felicidade do filho, 
começam a fazer os dois — o velho mais a fada — toda a espécie 
de picardias e patifarias aos namorados. Engaiolam Lanceor; 
transformam uma charneca em jardim, dão-lhe uma camada de 
bexigas, põe-no a derriçar com outra moça, mascara-se o velho de 
Lanceor e atira-se á Joyzelle, mas ella a tudo resiste, e, p'ra sal- 
var o mais que tudo da triste morte, em vez de ir chamar o me- 
dico p'r'ó vaccinar, diz que sim ao brejeiro do velho, que lhe 
pede poucas vergonhas e coisas feias. 

Deante de tanta constância e firmeza, o maroto do velho 
tem vergonha e emmenda-se. Não acceita nada do que tinha exi. 
gido e, fazendo olho á sua fada — o que reprenta, em symbolo, o 
contentar-se cada um com as pratas da casa — deixa casar os 
dois namorados, que hão de ter muitos meninos e ser muito fe- 
lizes depois de cair o panno no 5." acto. . . 

No 5." acto, sim senhor ! porque o bom do Maetterlinck ti''a 
da cachimonia dispauterios, symbolos, parvoices e imagens p'ra 
estender cinco actos com a simplicidade ôca e pueril desta histo- 
ria da carochinha muito menos interessante, muito menos lógica e 
muito mais comprida do que est'outra, colhida, outro dia, nos ar- 



342 Impressões de Theatro — Joy^elle 

chivos do dr. Bombarda, quando pessoa amiga andava em cata 
de pendant p'rós versos monumentaes das Serres chaudes: 

HISTORIA DA CAROCHINHA 

«Era uma vez um rei. 

Este rei tinha três filhas. 

Uma era bonita. 

Outra era feia. 

Outra não era feia nem bonita. 

Uma queria casar com um principe. 

Outra queria casar com um duque. 

A terceira não queria casar nem com um principe, nem com 
um duque. 

O rei, desejoso de collocar a sua coroa na cabeça dum neto 
varão, todos os dias lhes apresentava novos e ricos pretendentes. 

Mas uma dizia que não. 

A outra dizia que sim. 

A terceira não dizia que sim nem que não. 

O rei, desgostoso, até pensou em abdicar. 

Até que, um dia, as duas filhas do rei casaram. 

Mas, a que casou com o principe, separou-se na noite do noi- 
vado do marido. 

A que casou com o duque foi na mesma noite p'ra um con- 
vento. 

E a que não tinha casado foi a que deu um herdeiro ao throno». 

O pobre doido, que, numa homenagem ao director do hospi- 
tal, parafusou esta bluetta, não é chefe de escola, litterato de ' 
polpa, dramaturgo de génio, mas eu, condemnado, sob pena de ir 
p'ra Timor, com os apedrejadores da Havaneza, a acceitar a pa- 
ternidade da Joy^elle ou da Carochinha^ amando o meu próximo, 
sabendo como o ópio bestialisa, não me captivando a esperança 
de ser interpretado pela Georgette Leblanc, mas não me cegando 
o receio dos brumetos bombardinos, dava ao manifesto a obra 
do doido e repudiava a peça do Génio. 

Que afinal a Joy:^elle não é uma peça : é um frasco d'opio, 
dentro dum cabaz de marmellos. 

E do desempenho ? Em Madrid tiveram um successo de gar- 
galhada, ao que de lá dizem, mas não sei nem me importa : se 



Impressões de Theatro — Joy^elle 3^3 

Georgette Leblanc tivesse uma sisgalhita de mérito, um resquício 
de talento, no seu temperamento trapajosò de conferenciadora, 
cantatriz, desenhista, epistolographeira, trágica e philosopha— mo- 
dalidades mórbidas dum cabotinismo uniforme — se n'ella hou- 
vesse uma frestasita por onde entrasse um ténue raiosito de senso 
artistico e de intuição scenica — não digo que, como esposa, re- 
queresse a interdicção do marido por imbecil — mas, como co- 
mediante, não andava por esse mundo a pavonear-se-lhe na inter- 
pretação dos desconchavos e furoisterias. 

Não a vi, nem vejo, nem quero ver — amo demasiado o thea- 
tro — e vinte cinco tostões — p'ra ir irritar-me com a espectaculo- 
sidade doentia da mais desabalada mystificaçao, que, em palcos 
terrestres, tem ludibriado a parvoice humana. 

E' o conto de Andressen, que Ramalho immortalisou — os se- 
nhores vão, admiram o manto de talento, apalpam-lhe a flexibi- 
lidade do tecido, a polychromia dos tons. 

Que lhes faça bom proveito, mais ao S. Luiz de Braga — p'ra 
mim, como o rei do conto p'r'ó garoto da arvore, Georgette Le- 
blanc, mais o seu reportório — é o cabotinismo em fralda. 



LXXXI 



19 MARÇO 



Aglavaine et Selysette, Sr^uVe:;*:;: 

em I acto, ambas de Maurice Maeterlinck — Theatro D. RmeilOr 
3.* e ulttma recita da Tournée Maeterlinck- Georgette Leblanc. 



Gradualmente, methodicamente, numa dosagem progressiva 
de destemp^^ro e de symbolo, de disparate e de sonho, Maeter- 
linck foi-se infiltrando na admiração bajôja dos seus fieis. Devem 
estar saturados e de papinho cheio ! . . . 

Na oMonna Vanna, o ranço de Sardou codimenta, em farofias 
de movimentação e intriga, a marmelada decadista: arte rudi- 
mentar, theatro surrelfa, mas, de longe em longe, lambuges de 
arte e migalhas illusorias de theatro. 

Na Joy^elle, o extracto de papoulas das Pyramides da Esto- 
pada, alastram, em gordurencias de asneira e lyrismo, todos os nar- 
cóticos da pharmacopeia : a theatralisação das somnecas reparado- 
ras, o milagre biblico dos sete dormentes, o impossivel de Sousa 
Monteiro; — mas, os maeterlinckismos são ainda de fabrica co- 
berta, titubeiam e escondem-se em franfrelucherias das magicas 
das barracas de feira. Já não ha arte, não ha theatro, mas, entre 
bocejos, quando a gente accorda, ainda se lembra do Dallot. 

Na Aglaivaine et Selysette^ Maeterlinck, á solta, ás cegas, com 
a lua e o vento fresco, espolinha-se, cabriola, agita-se, redemoi- 
nha, no cahos do absurdo e da incongruência, e, se maça, como 
um discurso do Ferreira do Amaral em defesa do Groneau, pela 
imbecil infantilidade dos seus dislates, pela fútil incoherencia das 
suas trapalhadas, resalta, inteirinho e comp leto, o pastichador 



Impressões de Theatro — Qáglavaine et Selysette 845 

idiota, que pinta Nordau, e, que tendo visto Shakspeare, o vomita, 
putrefacto e indegerido, numa parodia de doido que não sabe o 
que diz, nem assimilou o que viu. 

Na Aglavaine Maeterlinck é Maeterlinck, sem mistura, sem 
confecção, genuino, authentico e verdadeiro, na crise aguda da 
sua paranóia de excentricidade, no accesso febril do seu creti- 
nismo tragidifero ; em toda a plenitude do seu shakspereanismo de 
via reduzida e no apogeu da sua mystificadora exhibição de sym- 
bolos baratos e surrelfas. 

Nos dois primeiros cartazes era um pouco o Maeterlinck mys- 
tificador e patusco, que nos impingiam por pretenso génio ; no 
cartaz da Aglavaine é o Maeterlinck, tal qual nol-o garante Nor- 
dau: — authentico imbecil. 

Por consequência, os que na Monna Vanna e no Joy^elle o ad- 
miravam, na Aglavaine extasiam-se, e eu, que era bárbaro, não o 
applaudindo, passarei a ser burro, não o tolerando. 

Mas tenho muita honra nisso, porque se da Joy^elle e da 
Monna eu ainda consegui extrahir um arremedo de intriga, que 
prendia os diálogos entre si e me permittiu dar-lhes uma ideia 
approximada do que se passava no palco, na Aglavaine^ a não 
lhes traduzir os cinco actos, de fio a pavio, de cabo a rabo, eu 
não sei que lhes diga, nem que lhes conte. 

Numa casa onde um sujeito, chamado Meleandre, vive, não se 
sabe se maridado, com uma moça chamada Selysette, vem de vi- 
sita outra moça chamada Aglavaine, «que não se parece com as 
outras mulheres .. uma belleza differente, ahi está... uma belleza 
mais exquisita e mais espiritual ; uma belleza mais variável e mais 
numerosa (!) por assim dizei... uma belleza que deixa passar a alma 
sem nunca a interromper... E depois, que tem os cabellos singula- 
res; dir-se-hia que tomam parte em todos os seus pensamentos... 
cabellos que sorriem ou choram cons'ante ella está alegre ou 
está triste, ainda mesmo quando ella não sabe se deve estar ale- 
gre ou estar triste... Nunca vi cabellos que vivessem assim... 
Eram capazes de a trahir constantemente, se, acaso, é trahir al- 
guém, o revelar uma virtude que se esconde. . . porque a Agla- 
vaine não esconde outra coisa». Selysette fica com a pedra no 
sapato por causa dos cabellos da outra e em vez de mandar um 
barbeiro rapá-la á escovinha — porque, quanto a mim, cabellos 
que vivem devem ter piolhos — faz beicmho. E pelos modos tem 
razão, porque o tal Meleandre, d'ahi a boccado, começa a dizer- 



346 Impressões de Theatro — Aglavaine et Selysette 

lhe finezas e a beijocar as duas alternadamente e nas bochechas 
de ambas. Cae em scena uma chave. Aglavaine pergunta pela 
chave. E' uma chave grande que substitue uma chave pequena* 
A chave pequena perdeu-se. A chave grande abre o portão do 
Pharol. No pharol ha pombas e gaivotas. A chave. . . a chave. . . 
a chave. . . Parece o casíello Chuchurrumello e cae o panno. 

No 2.° acto, Melisandre e Aglavaine trapiscam-se desaforada- 
mente e parece que já foram ás do cabo : «E's bella, Aglavaine... 
Amo-te Meleandre...» « L's tu que choras, Aglavaine ? Não. Somos 
nós que choramos Meleandre. . . E seremos nós também que 
trememos, Aglavaine . . Sim Meleandre, somos nós que treme- 
mos» e começa outro quadro porque Selysette estava á espreita 
e ouviu tudo. 

A Aglavaine está a dormir, toda destapada e descomposta, 
mesmo á beirinha dum poço. Selysette sente comichões de lhe 
dar um empurrão, mas, boa pequena, acorda-a e começam as duas 
a debitar cousas. Também se amam e parece que se entroviscam 
os ares nos horisontes de Lesbos : «Aglavaine ! — Que tens, Sely- 
sette, que estás a tremer? — Ainda te não tinha visto a dormir, 
Aglavaine. — Hás de me ver dormir muitas vezes, Selysette. . . — 
E depois nunca me tinham dito. . . Não, ninguém, ninguém. . . — 
Sim, sim; minha pobre Selysette ter-te-hão dito, sem duvida, o que 
se diz a toda a gente ; porque toda a gente falia quando quer ; e 
todo o ser tem occasião de ouvir as palavras necessárias ; mas tu 
ainda não sabias ouvir Selysette. . . — Não era a mesma coisa Agla- 
vaine. . . Não era, não era. — Tu é que não ouvias Selysette, vês; 
porque não é com os ouvidos que se ouve e o que tu ouves agora 
não é com os ouvidos que, na verdade, o ouves ; porque, afinal, 
tu não ouves o que te digo, tu ouves simplesmente que te amo. 
Eu amo-te também 1» Mas, não se importando com a concor- 
rência dos machos, a abelha mestra, de lhe perguntar : «Mas Me- 
leandre também te ama, porque o não ouves? — Elle é como tu, 
Aglavaine... — E' melhor do que eu ; elle deve-te ter fallado 
(fallar é symbolo) muitas vezes, melhor do que eu posso faze-lo... 
— Não, não; não é a mesma coisa... Ouve, não posso dizer-te 
bem o que é... E' muito difficil.. . tu não comprehenderias, eu 
não posso dize-lo. . .» mas a outra aperta-a, abraça-a, beija-a, aca. 
ricia-a, e Selysette vae-se descosendo e acabam por se entender, 
«Eu queria abraçar-te ainda outra vez. Aglavaine . . . E' exqui- 
sito, não podia ao principio abraçar-te. Oh ! tinha receio da tua 



Impressões de Theatro — Qáglavaine et Selysette 347 



bocca... Não sei porque... e agora... Elle abraça-te muitas 
vezes? — Elle? — Sim — Sim, Selysette e eu também o abraço — 
Porque? — Porque ha coisas que não se podem dizer senão aos 
abraços. .. coisas que não sahem da alma emquanto os beijos as 
não chamam. . .» e com estes desaforos se vão as duas e começa 
outro quadro em que apparece, outra vez, o Meleandre, que, afinal, 
é ura gallo com duas gallinhas, que ás vezes se fazem gallos e fi- 
cam gallinhas, gallando o senso commum e os miolos de quem 
lhes segue os cacarejos, por li fora, té ao fim, em que torna a vir 
á baila a chave grande, que substitue a chave pequena e a Agla- 
vaine deita a chave grande ao mar e Selysette acha a chave pe- 
quena, que estava perdida quando ^lla tinha a chave grande, e, 
com a chave pequena abre a porta do pharol, que se abria com a 
chave grande, e, no pharol — que afinal tanto se abria com a chave 
pequena como com a chave grande — ha gaivotas e pombos e 
appareceu um pássaro verde e a Selysette, que foi ver as azas 
azues do pássaro verde, malha com os ossos do pharol abaixo e 
morre do trambulhão, acabando-se a peça. 

Acaba a peça, mas começa outra, mais curtinha, mais rápida 
€ mais famosa, ainda, na admiração sempre crescente dos altissi- 
mos esthetas que comprehendem Maeterlinck e o põe nos cha- 
velhos da lua. No dizer dos luminosos espiritos — luminosos por- 
que são das luminárias — a Intruse é thea- 
tro é arte, é um portento, é uma mara- 
vilha. 

Se houvesse tempo p'ra lhes tra- 
duzir toda a Intruse^ desatavam á gar- 
galhada, não que a peça seja coce- 
guenta — é tudo quanto ha de mais ma- 
cabro, mettendo mortos, cegos e moribun- 
dos — mas pela pilhéria com que a lou- 
vam e lhe chamam nomes bonitos os bo- 
nitos cérebros a que eu — confessando-me 
bárbaro, burro, e tudo o que quizerem — 
não me atreverei a chamar nomes feios. 

Numa casa onde pariu uma mulher, 
está a íamilia reunida : um avô (que é 
cego), o pae, o tio, as três filhas, a irmã 
de caridade, — a tal que nas Serres chau- 
des descasca legumes á cabeceira dum in- 




Georgette Leblanc 
Caricatura de Douhin 



348 Impressões de Theatro — Aglavaine et Selysette 

curarei — e a creada. Ninguém vê nada, ninguém ouve nada, nin- 
guém sente nada, e o avô, que é cego, vê tudo, o que os outros não 
vêem, o que os outros não ouvem, que os outros não sentem. Parece 
um jogo de prendas, o Padre-cura, os disparates, o Chicote-quei- 
mado, estando na berlinda o avô. Quem bateu á porta ? Ninguém 
bateu á porta ! Quem abriu a janella? Ninguém abriu a janella ! 
Quem sobe a escada ? Ninguém sobe a escada ! Quem anda no 
jardim? Ninguém anda no jardim! Quem assusta os cysnes? Nin- 
guém assusta os cysnes! Quem espanta os peixes? Ninguém es- 
panta os peixes ! Quem apagou a luz ? Ninguém apagou a luz ! 
Quem falia baixo? Ninguém falia baixo ! Quem entrou no quarto 
da doente ? Ninguém entrou no quarto da doente ! Quem se le- 
vantou ? Ninguém se levantou ! 

E dá meia noite e sente-se um recem-nascido a chorar e a irmã 
da caridade chega á porta do quarto, faz o signal da cruz, todos 
comprehendem que a parida morreu e cae o panno, mandando a 
gente o Maeterlinck. . . p'r'á que o pariu ! 



LXXXII 



24 MARÇO. 

einpma+nnranhn adaptação em 3 actos de Accacio 
MIC/lliaLUyi apiiU, Antunes. Distribuição: Marti- 
nho CicoTTi, Soller. — Arene, Palmyra Torres. — Pirro Piroline, 
Joaquim d'Almeida. — Mathilde, Sophia Gomes. — Malvina, Jú- 
lia d' Assumpção. — Boris Menazky, Ignacio — Tobias Krack, 
Cardoso. — Casixuro Melro, Sousa. — Eduardo, Salles, Emília, 
Palmira Ferreira ^^ N j> LUA DE MEL, i acto de Echegaray, ver- 
são de Leopoldo de Carvalho. Theatrodo Gymnasio. Distribuição: 
LuizA, Carlota. — Paulo, Annibal. — Eufrásia, Barbara. — Clo- 
tilde, Emilia. — André, Sousa. — António, Sarmento. 



Cartaz novo no Gymnasio ou, o que vem a dar na mesma, 
nova gargalhada ao alcance do mysanthropismo alfacinha. 

Um dos altos mysterios dos deuses do Terreiro do Paço, que me 
entriga e não desvendo, é o caso estranho do Teixeira de Sousa, 
dono de Vidago e ministro da Fazenda, não ter ainda engendrado 
uma proposta de lei, com o subscripto especial p'r'ó Gymnasio, 
atirando-lhe com tantas fintas, addicionaes, contribuições, sellos 
e alcavalas, que o obrigasse a fechar a porta. Digam o que disse- 
rem, é de ministro generoso, porque eu não conheço mais temivel 
rival ás therapeuticas gasosas de Vidago, que desobstruem o fígado, 
do que as farças patuscas exploradas pelo Gymnasio, que desen- 
cadeam tempestades de risota. 

E a agua de Vidago é sempre a mesma como a agua do pote, 
ao passo que o Gymnasio, ás duas por três, muda de formula, 
embora o Joaquim de Almeida, o Ignacio, o Cardoso, a Barbara, 
constantes elementos chimicos duma gargalhada em vários actos 



35o 



Impressões de Theatro — O cinematographo 



entrem, em doses difFerentes, na manipulação sempre asseada 
com que Pinto, o emprezario, avia e agita, com a sua bonhomia 
e a sua probidade, as receitas cómicas dos seus dois ou três cli- 
nicos, que, curando-lhe os achaques económicos, no Gymnasio 
nos fazem rir.. . 

Hontem o recipe era de Accacio Antunes — um profissional 
do theatro, numa terra em que os theatros são uma espécie de 

Cruz Quebrada da tau- 
romachia litteraria, cam- 
po aberto de curiosos e 
amadores. 

O Cinematographo é 
um disparate. Mas um 
disparate que faz rir . 
Ora, como ao Gymna- 
sio se não vae p'ra ou- 
tra coisa, o Cinemato- 
grapho cumpre o seu 
dever e satisfaz todos os 
espectadores. Um ma- 
rido inflammavel — nem 
todos podem ser amor- 
phos neste mundo — tem 
uma aventura em Os- 
tende com uma cocote, 
contractada pela empre- 
za cinematographica 
p'ra compor, com patos 
e catitinhas, quadros 
sensacionaes ebregeiros. 
Não vão ás do cabo, mas 
o rolo acaba exacta- 
mente, quando as coisas 
parecem ter chegado ao rubro. Imaginem as trapalhadas conco- 
mittentes : o homem que leva fa familia a ver o espectáculo, o 
mando da dama, que é um athleta a pedir reparações, o empre- 
zario a pedir perdas e damnos p'ra supprimir o numero do pro- 
gramma e as embrulhadas que d'ahi resultam, sem uma frescura 
que faça corar, e, com a veia cómica de Joaquim d'Almeida, do 
Ignacio e os esgares do Cardoso, a fazerem cócegas em três pa- 




Tekeira de Sousa 
Caricatura de Jorge Colaço 



Impressões de Theatro— O Cinematographo 35 1 

peis, que enchem os tres actos de pilhérias e pittorescos. O papel 
de marido é feito pelo Soller, que tira d'elle todo o partido que 
os seus recursos lhe consentem e os outros, como de costume, 
não desmancham. Se não fazem mais é porque não podem e, 
quem dá o que tem, não é a mais obrigado. 

Ao subir o panno, tNia lua de mel^ Barbara tem uma bebe- 
deira. Disso se aguenta a pecita que faria, certo, um successo, se 
Barbara — o modelo lendário das sogras — com um grãosito na 
aza, podesse dar, em scena, os defeitos de uma piteira, como as 
dá a velha Emilia Eduarda, que eu já não vejo ha annos e de 
quem tive muitas saudades ao ver, no Gymnasio esse actosito que 
o cartaz diz ser do Echagaray — o que eu não acredito, p'ra 
honra do auctor da Mala ra:(a e da Mancha que limpa. 



LXXXIII 



O Adversário, 



26 MARÇO 

comedia em 4 actos de Alfred Ga- 
pus e Emmanuel Arene, versão de 
Gunha e Gosta. Theatro D. Rmelia. Distribuição : Maurício Dor- 
LAY, Ed. Brazão. — Chantraine, Augusto Rosa. — Lauglode, C. 
d'Oliveira. — LiMEROY, Antonio Pinheiro. — Bréautin, Antunes. 
— Norberto, Frederico Lagos. — Henou, Salles. — Um convidado, 
Senna.— Criado, Silva. — Marianna Dorlay, Lucilia Simões. — 
Madame Grécour, Josepha d'01iveira. — Madame Bréautin, Rosa 
Damasceno. — Madame Chantraine, Maria Pia. — Madame Henon, 
Cecilia Neves. — Mademoiselle Zavédro, Jesuina Saraiva. — Ma- 
dame Lineuill, Estephania. — Madame Hersoy, Elvira Costa. WW 
O GORAÇAO TEM GAPRIGHOS, de Flers e Gaillavet, versão de 
Portugal da Silva. Distribuição: Paulo Araenay, Augusto Rosa. 
— Luciano, Henrique Alves. — Lúcia, Lucilia Simões. 

Com a memoria ainda fresca de todas as manchas e radia- 
ções do feitio litterario de Capus, que na Castellã^ outro dia, vin- 
cou, em D. Amélia, na insignificância do seu ironismo optimista, 
um dos raros successos da época, o publico que foi a sau- 
dar Augusto Rosa na sua festa, defrontou-se com outro Ca- 
pus, que, sendo, no fundo, o mesmo Pangloss do humorismo, é, no 
Adversário^ o embrião ameaçador dum Dumas Arte-nova, com 
as suas theses e os seus paradoxos, a sua carpinteiragem e os 
seus cordelinhos Arte-velha. 

Na Castellã, Capus limitava-se a ser um homem de espirito ; 
no Adversário esboçam-se-lhe os primeiros pruritos de vir a ser 
um homem de theatro. Ha quem encarrapite nas estrellas esta 



Impressões de Theatro — O Adversário 353 

phase recentissima do delicioso chronista, e, de obra prima p'ra 
riba, o Adversário tem sido calumniado com todos os nomes bo- 
nitos com que o Boulevard gruda á Immortalidade os seus com- 
padres e os seus eleitos. 

P'ra mim, comtudo, o outro Capus era melhor: mais definido, 
mais completo, mais homogéneo e mais Ca^us ; não arrombava 
o infinito, com a gasua do Génio, mas não cahia na banalidade, 
dos dramatistas seus patricios, com a exploração corriqueira do 
adulteriosinho galante. 

E no Adversário, conservando todas as suas qualidades e de 
feitos, Capus chapa-se e esparralha-se nesse charco : não com a 
brutalidade, crua e incisiva, do Paul Hervieu, que, com a lógica 
dum mathematico e a certeza de mão dum operador, a manejar 
os cannivetes do theatralismo, tem as violências selvagens do 
melodrama e das touradas á hespanhola, com sortes de morte e 
maridos desembolados, mas, com as meias tintas, os esbatidos, os 
sentimentalicos panglossismos dum moralista, que vê o adultério 
por fora, nas casas alheias e que o debita, em scena, com todas as 
fiorituras e delicadesas, todos os rebuçados e pastilhas de rosa, 
de quem sabe que, na sala, muitos adultérios adejam e não vale 
arripiar as carnes delicadas das adulteras, com espectros sangui- 
nolentos de soluções violentas. 

Com Hervieu, as lindas trongas que estremecem, nas rendas 
caras das suas escorregadellas extra-matrimoniaes, não arripiam 
carreira, clarissimo, porque o theatro não é uma succursal mori- 
gedora das Soeurs reparatrices, mas acautelam-se e põem as bar- 
bas de molho, ficando á espera, mais dia menos dia, duma colhida 
de effeito nas hastes dos maridos. Com Capus, no adversário^ as 
cousas passam-se á boa paz : a brandura dos costumes, a eti- 
queta e as boas maneiras embolam todas as fúrias e desmandos. 
As sôstras são sôstras, porque dentro d'ellas ha um adversário 
que as faz escorregar e os maridos são mansos, resignados e ver- 
dadeiros gentlemen, que, se não engolem em sêcco e não des- 
pejam hyssopadas d'agua benta sobre os peccadilhos das meta- 
des, é porque, também elles, tendo tomado chá em pequenos, 
teem a estrumar-lhes as excrecencias dos glóbulos frontaes, ou- 
tro adversário^ o do ciúme, do amor próprio, dos preconceitos 
mundanos, que lhes reprime os Ímpetos de perdoarem e esque- 
cerem tudo, continuando felizes e bemaventurados, na beatitude, 
balzacquiana e cornigera, da predestinação. 

23 



354 Impressões de Theatro — O Adversário 

Mas passa-se tudo decentemente, quasi honestamente, com 
circumspecção, com mesuras, com boa educação e requintes de 
gente fina : os próprios maridos recalcitrantes, que matam e es- 
folam, reincidem no matrimonio, convertem-se á boa doutrina 
e, ao contrario do que se dizia no Cinematographo^ se p'ra toda 
a gente são toiros, no trato intimo, com as madamas tornam-se 
borregos. 

E, de todos os personagens do Adversário^ é precisamente esse, 
do marido humanizado, que atravessa, em incidente, a peça, o 
mais bem observado e perfeito, o mais completo e de corpo in- 
teiro ; os outros, como todos os personagens anteriores de Ga- 
pus, são muito boas pessoas, teem lindos sentimentos, faliam 
como livros abertos, mas, impregnados todos do verniz irónico e 
côr de rosa com que Gapus olha a Vida, são estylisaçÕes do Bou- 
levard, manequins de modistas, figurinos de lojas de modas e 
não chegam bem a ser gente, porque toda a gente tem os seus 
podres, os seus defeitos, as suas taras, os seus ridiculos, que, no 
humorismo optimista de Gapus, se liquifazem em torrentes de es- 
pirito e se volatisam em espumas de facécia. 

Capus, dialogando as suas chronicas do Figaro, tinha-nos dado 
— sem intuitos de theatro — peças quasi modelares no seu gé- 
nero, como a Veine^ as Duas Escolas, a Castellã : tentando thea- 
tralisar as suas peças, augmentou, com mais um adultério sce- 
nico, a serie infinita de adultérios em que se esvae a litteretura e 
a dramaturgia franceza, não dando uma solução nova ao pro- 
blema e não conseguindo sahir dos seus moldes habituaes e cor- 
rentes : porque, se como technica, o Adversário marca um passo 
á frente, como espirito, recua dois á rectaguarda e, feitas as con- 
tas, Gapus permanece como té'qui, um bello e esfusiante hu- 
morista, que faz chronicas galantes nos palcos, mas que, nem nas 
chronicas nem nas peças, fez ainda o que se chama e deve-se 
chamar theatro. 

Vae na peugada do Dumas, tendo primitivamente ido, a rebo- 
que do Scribe : progrediu, mas está tão longe, no Qádversarioy 
da obra prima, como o Dumas está, já, neste anno de graça de 
904, longe do mestrado e da perfeição em que, ha vinte annos, to- 
dos o julgavam immortalisado, inultrapassável e impericivel. 

Boa, claro. Muito melhor que a maioria das caganifancias que 
pVahi nos propinam, está visto. Mas obra prima, é talvez esticar 
um pouco a corda: estou em que, d'aqui a dez annos, já ninguém 



Impressões de The atro — O Adversário 355 

lhe saberá das bellezas e, d'aqui a cinco, todos a crivariam de de • 
feitos se alguém tivesse a ideia de a desenterrar do archivo. De resto^ 
é sorte commum a todas as quinquilherias do Boulevardismo, bo- 
necos articulados, bibelots de phantasia e obras do pensamento : 
vêem com os figurinos, fazem barulho com o reclame e esque- 
cem no fim da estação. De relance, illudem , manuseadas, que- 
bram-se; são vistosas e frágeis, acariciam por momentos os sen- 
tidos e vão, as mais das vezes, adormecer nas prateleiras dos fer- 
ros-velhos e dos preguistas, porque atravacam a casa e não tem 
serventia nem utilidade. 

Artide-Paris^ o ultimo successo das montras e o ultimo ca- 
papricho das damas, o enlevo das parisienses e a admiração paco- 
via da Europa. Tudo o que quizerem. Mas obra prima... Vou 
ali e já venho. 

E quando vier, direi do Coração tem Caprichos com que abriu 
o espectáculo e do desempenho que, ás duas peças, deram os ar- 
tistas de S. Luiz. 

* 

— Cá volto... No original o que quizerem ; na traducção que 
nasceu primeiro de pães incógnitos e foi perfilhada, ao depois, pelo 
sr. Cunha e Costa — num rasgo de humanitarismo de quem não 
quiz augmentar, com o labéu de bastardia, as misérias e aposthe- 
mas de que enferma o pobre mostrengo — o Adversário é uma ba- 
nalidade em bundo. Um francez não a percebia, pelas desinências 
alusitanadas e um portuguez, p'ra lhe metter dente, tem de manu- 
sear o Diccionario das sete linguas. No desempenho. Augusto Rosa, 
no melhor papel da [peça, tem um dos solavancos e sob-rodas 
da sua carreira. Chantraine, no Adversário de Capus, é um homem, 
intelligente, frio, compassado e honesto que, num arrebatamento 
passional, desata aos tiros á mulher, que o cucueja, mais ao seu 
cúmplice e que, casado segunda vez, numa reincidência de pre- 
destinado, se resigna á sua sorte ante o ridículo de reincindir nas 
marradas. Não é um pateta nem um cynico. E' um homem no 
meio da bonecage capuesca e Augusto Rosa, que na Castellã, dum 
boneco desengonçado e chambão, fizera um personagem, deste 
que era um personagem feito, fez um boneco, oscillando entre o 
cynismo e a idiotia, tirando-lhe, por completo, a humanidade in- 
telligente da sua resignação. 

Brazão, no outro marido meias tintas, nem peixe, nem carne. 



356 Impressões de Theatro — O Adversário 

nem manso, nem bravo, foi, nos dois primeiros actos de alta co- 
media, hábil comediante ; no 3." acto, de puro drama, empochou a 
admiração da platéa com os seus execráveis e louvadissimos bra- 
zonismos e, no final da peça, foi inexcedivel de dicção. Natural- 
mente, haverá quem chore por não serem todos os actos como o 
3.° : eu sinto que, no 3.", elle não haja sido como nos restantes. 

Lucilia — não tendo consultado figurinos e dentro de um papel, 
que está ao seu alcance, fel-o ao seu modo e á sua maneira : o 
único modo e a única maneira porque devia fazer todos os papeis 
porque, estando longe da Perfeição, está absolutamente afastada da 
Vulgaridade. 

Os outros, com altos e baixos, desde bom ao mau, sem terem 
subido ao óptimo nem descido ao péssimo. 

No Coração tem caprichos^ um filigrana de espirito, de pari. 
sianismo e de banalidade, — uma dama, que, mclinando-se p'ra um 
audacioso, pela petulância da audácia, vem a capitular num timido 
pelo desastrado da timidez, — a traducção épeorque a do Adver- 
sário^ o que, não tendo o sr. Portugal da Siva a attenuante do 
homizio no Brazil, como sr. Cunha e Costa, é caso p'ra degredo 
na Costa de Africa. 

No desempenho. Augusto Rosa tem um bello papel cómico e 
Lucilia e Alves dão-lhe a replica com brilho e leveza, com alegria 
e mocidade. 

Noite muito agradável, afinal, p'ra quem goste de recitas em 
estrangeiro : das toilettes as inflexões da dicção, no corte dos per- 
sonagens e na algaravia que elles debitavam, sentia-se uma pessoa 
em Paris . . . 

E' o ideal e o cumulo da perfeição traductora : mas o Cândido 
de Figueiredo, se lá vae — era uma vez um sábio., dá um tiro 
nos miolos. 



Í.XXXIV 



2 ABRIL 



O cão do regimento, ZZ^.'Z^ 

da Trindade. Distribuição : Jacquote, Thereza Mattos. — Doro- 
THEA, Amélia Barros, — Giraldina, Maria Santos. — Petronilha, 
Estephania. — Bai.thazar, Conde. — Criquet, Barreiros. — Peper- 
coucH, Gomes. — Bretegny, Almeida Cruz. — Bento, Alfredo de 
Carvalho. — Cornelio, Mattos. — Roque, Santos. 



Mette tropa, cães, ursos, o Alfredo de Carvalho, em travesti 
de velha, vaccas e maridos infelizes: não é uma operetta — é uma 
menagerie. 

E, na desafinação e na plástica, as gentes da Trindade são ver- 
dadeiras feras. 

Com brilhantismos de mise-en-scene^ um pouco de chauvi- 
nismo, alguns garganteios musicaes e muita^ moças bonitas, Le 
chien dii regiment fez larga carreira em Paris. 

Na Trindade, onde, modestamente, ha o menos possível d'isso 
tudo, é possível que pegue. 

Mas ponho-lhe duvidas. . . 



LXXXIV 



RpíiriQ r\0 Rlirrn revista em 3 actos e 14 quadros 
UOIJUO UO »-'"'' 'J» de Caracoles e Esculápio, com 
musica de Manuel Benjamim, Theatro do Rato. 



Modestos os artistas, abarracado o thea- 
tro, pobríssima a empresa e despretenciosos 
os auctores, claríssimo que não é uma obra 
prima de desempenho, um prodígio de ensce- 
nação, uma maravilha de guarda-roupa e um 
portento de factura, a revista Beijos de Burro, 
que me levou, de longada e contrafeito, té cas- 
cos de rolha, aos confins da Patriarchal e que 
eu hei de voltar a ver, porque, dado o meu 
filé pelo género, não sendo, miraculosamente, 
o que, honradamente, só por milagre se pode- 
ria esperar, é, comtudo, um agradável e des- 
enjoativo espectáculo, p'ra uma noite estrel- 
lada e quente em que, portas a dentro de Lis- 
boa, se disponha uma pessoa a julgar-se em 
pleno arraial saloio, com taboleiros de gerge- 
lim e pregões de agua fresca, comes e bebes 
á mão de semear e duas ou três gargalhadas 
francas, sadias e confortantes, a esmaltar, 
com o cunho alfacinha da chalaça, o des- 
enrolar de três actos leves, graciosos, movi- 
mentados e pittorescos. 

Com números, que são verdadeiros acha- 




EsCULAPIO 

Caricatura de J. Sousa 



Impressões de Thetro — Beijos de Burro 3bg 

dos, como o dos Bairros.^ piadas que esfusiam de espirito, como a 
do Frontão Camarário de visita á Verdade do Eça, e quadros de 
rija satyra, como o da redacção das grandes tiragens, os Beijos 
de Burro, tendo o bregeirismo sufficiente, p'ra prescindir dos des- 
nudos de guarda roupa e recatos de decência, p'ra não suscepti- 
bilisar os rubores das matronas do lápis azul, com um pouco- 
chito mais de vivacidade na musicaria, um pouco menos de ver- 
salhada no quadro da apresentação, seria um modelo do género, 
cada vez mais difflcil e menos saboroso, das revistas do anno, 
que, não podendo abordar a politica, não exhibindo a caricatura 
pessoal, ou ha de baixar á vala commum da obscenidade chula, ou 
desandar no pretenciosismo da magica apparatosa. 

Ora, não havendo, no Rato, fundos p'ra folestrias de carpintei- 
ragem, os Beijos de Burro corriam o risco de capitular, pura e 
simplesmente, na pomographia,e, tendo Caracoles e Esculápio evi- 
tado esse abysmo, sem cahirem nos barrancos do tédio, tudo o 
que se lhes diga em bem do seu trabalho, é de curial justiça, 
como de justiça recta seria, também, o arrancar-se do palco do 
Rato, a boa e alegre Jesuina, cheia de rugas e trabalhos, que 
sendo, na sua mediania artistica, uma das raras reliquias da guarda 
velha, vale, ainda assim, por muitas eminências turiferadas da 
guarda nova. 

No desempenho, com dois ou três pares de gambias bem mo- 
deladas entre a pionagem, destacam, na modéstia dos seus re- 
cursos, o actor Santos Júnior, o Amaral e mais outro, que pelo 
nome não perca, e, fazendo todos o que sabem, com toda a boa 
vontade de quem ganha a seu pão e toda a consciência de quem 
sabe o que custa ganhal-o, o conjuncto é melhor do que seria li- 
cito esperar e, se não vae té ao infinito do Maravilhoso, não 
roça nunca pelas profundas do Detestável. 

Merecem uma noite e uma estafa té ao Rato, os beijos de 
^urro, o que na verdade, é o mais que artistas e auctores ambi- 
cionavam, visto que, nem os cómicos estão no Rato a fazer sala 
pVá Immortalidade, nem o Esculápio mais o Caracoles tencio- 
nam concorrer com a sua revista ás palmas da Academia. 



LXXXVI 



9 ABRIL. 

TPPPrí M?ítPr °^^S^"^^ ^"' ^ ^c^° d^ Augusto de La- 
I Ql I a lYI a ICI , çgpjja TAea/ro Je /). /77aría. Distribui- 
ção : Luiz, Maia. — Christovão, F, da Silva. — João Fernandes 
Costa. — Félix, G. Galvão. — Um criado, Sampaio. — Eugenia, Au- 
gusta Cordeiro.— Manuela, Cecilia Machado. H^ 05 FILHOS 
ALHEIOS, traducção do Berceau^ peça em 3 actos de Brieux, por 
Portugal da Silva. Distribuição: Lourença, Palmira Bastos. — Se- 
nhora Marsanne, Carolina Falco. — Uma irmã da caridade. Luz 
Velloso. — Girieu, F. da Silva — Maksanne, Gosta. — Chautrel, 
Maia. — Dr. Mosiac, Carlos Santos. 

Sabendo toda a gente o que por D. Maria vae, em misérias 
artisticas e perdularismos de commissariado, deficiências de re- 
portório e excrencias de pessoal, elementos que lá faltam e es- 
tafermos que nunca lá deviam ter posto o pé, o annuncio de que 
Palmyra Bastos — renegando da operetta, ia, em peça escolhida a 
seu gosto, dar uma amostra dos seus progressos e merecimentos 
na Arte Seria, em que, no Brazil, fizera iuccesso, — despertara 
uma corrente de curiosidade e de interesse, que, sabidas as con- 
tas, redundou em mais um desapontamento e mais uma des- 
illusão, porque, seda noite do Berço^Qm D. Maria, alguma coisa 
redundou em lustre da casa, não foi, certo, nem a consagração 
official da nova guarda franceza de dramatistas, com o cartaz de 
Brieux, nem os créditos dramáticos da graciosa estrella da Ave- 
nida, que, vindos do Brazil e sujeitos ao cambio, tiveram a de- 
preciação de toda a moeda fraca. Lustre p'r'á casa, se o houve 
sabbado, vem, exactamente, donde o publico o não esperava : da 



Impressões de Theatro — Terra Mater 



36 1 



Terra Mater^ o original em i acto de Augusto de Lacerda, que 
destaca da caterva de originaes, em que se esforricam os nossos 
moços da vida litteraria por duas bellas e mestras qualidades, 
cada vez mais raras neste meio de pilhos e impotentes — em ter 
ideias e ser do seu dono. 

A Terra Mater é theatro, é theatro portuguez e é theatro do 
seu auctor; tem principio, meio e fim; lógica, raciocínio, equilí- 
brio; estudo de caracteres e jogo de paixões; cuidado de forma 

e plasticidade de intuitos. E' a obra 
sã de uma intellígencia honesta : 
um casal de mundanos, inúteis e frí- 
volos, chega ao fim dos bens arran- 
cados da terra pelos progenitores 
e desperdiçados na grande roda, no 
estouvamento da vida elegante. Já 
eastos os expedientes, e, corridos 
amigos e agiotas, vem a penhora, de- 
pois de todo o cortejo de sabíamos, 
jóias no prego, pequenos apertos 
do dia á dia. E' o fim. Sem energia 
o homem, sem princípios a mulher, 
gente do seu meio, productos gafos 
da educação citadina, o marido vae 
liquidar no revolver, a mulher no 
adultério. Suicídio de cobarde e res- 
valar de tronga. Elle morre p'ra não 
luctar, ella perde-se p'ra não de- 
cair. Nem amor nem dignidade. Fra- 
queza de músculos e de caracteres, 
impotencias de vontade e fragi- 
lidades de pudor : são dois alfacinhas e dois desgraçados. Chega 
do convento a filha, e, rememorando a boa avó, morta naquelle 
dia, o seu agonisar de mulher honesta, de consciência lavada, 
que leva p'r'o tumulo o presentimento do descalabro moral 
em que se vão estiolando as gerações saídas do seu tronco, a fê- 
mea salva-se do adultério, pela maternidade e o macho escapa-se 
ao suicídio, pela coragem que lhe incute a serena eloquência do 
tio, velho camponez íllustrado e reflectido, ao apontar-lhe o ul- 
timo pedaço de .terra, que só pede o esforço dum braço pra se 
desentranhar em abundancias de pão. Migradores da cidade, deí- 




AuGusTo DE Lacerda 
Caricatura de José Leite 



36a 



Impressões de Theatro — Terra Mater 



xando o seu ninho ás presas do passado, debandam, numa espe- 
rança, á terra mater que vae ser o seu futuro. 

Um pouco longa — uma hora entre o subir e o baixar do pan- 
no — a Terra Mater^ não fatiga e commove, não pesa e faz pen- 
sar. No desempenho. Augusta Cordeiro teve um papel que, ao 
lado da sua creação no Casamento de Conveniência^ a impõe como 
comediante que sabe o que faz e consegue, quasi sempre, fazer o 
que quer ; na scena das recriminações com o marido, Fernando 
Maia, e na scena com Joaquim Costa, o adorador, grotesco e en- 
dinheirado, com quem está prestes a cair, Augusta Cordeiro tem 
notas altas, que dão a gama de um bello temperamento artístico, 
o que é o maior elogio que pôde merecer uma actriz que, ás vezes, 
se vê supplantada, no palco e nas gazetas, pelas notas surdas que 
dão o tom de temperamentos banaes de criadas de servir. Joa- 
quim Costa, mantendo-se, num equilíbrio miraculoso, entre a alta 
comedia e a farça, sem carregar a caricatura e ?em diluir o gro- 
tesco, foi absolutamente irreprehensivel. Ferreira e Maia prepa- 
raram na Terra cMater duas surprezas pVós Filhos alheios: 
Maia não deixando suppôr que ia, d'ahi a bocado, subir tão alto, 
Ferreira cccultando que, d'ahi a pouco, ia descer tão baixo. 

Mas eu lhes conto. . . 



Da malta de dramaturgos que, em França, trazem, em marca 
de origem, o ferro do Theatro Aiitoine, Brieux é o que mais tem 
avançado no triumpho banal da cele- 
bridade, do popularismo e e dos direi- 
tos de auctor. Não é, nem de perto nem 
de longe, um artista, mas a Arte deve- 
Ihe, na 'Blanchette e na Robe rouge^ 
dois dos melhores .specimens do mo- 
derno theatro francez, e, não sendo um 
revolucionário míHtante, a Revolução 
estrema-o entre os mais ásperos com- 
batentes, que, nas lettras e na scena, 
brandem a picareta demolidora da Pan- 
destruição das iniquidades sociaes. 

Apesar d'isso, porem, Brieux, fora 
da alma das multidões, está com um g 

pé nas palmas da Academia, mette uma Caricatura de José Leite 




Impressões de Theatro — O Berço 



363 



peça por anno na casa de 
Moliére, e, nos teares dra- 
máticos em que a indus- 
tria franceza tece os seus 
succe^sos, Brieux é, hoje, 
um dos fabricantes mais 
prósperos e conceituados, 
de mais larga clientella e 
•de reputação mercantil 
mais solida e acreditada. 

Todos são, mais ou me- 
nos, industriaes na drama- 
turgia, franceza: uns, ouri- 
ves de prata ou pechisbe- 
que, como Capus e Ros- 
tand, outros serralheiros, 
comoHervieu,outroscurti- 
dores de coiros, como Sar- 
dou, outros simples mani- 
puladores de elixires gené- 
sicos e pastas aphrodisia- 
ca, como Feydeau — nego • 
ciante serio, com fabrico 
solido de resistentes peças 
de pannos crus, ninguém 
o foi ainda, como o auctor 
do [Berceau, que teve a desgraça de ser commanditado no palco 
de 'D. Maria, pelo sr. Pertingal da Silva, que é, decerto, uma boa 
pessoa, um amável cavalheiro, um óptimo cidadão e um activo 
andador d'almas, conhecendo sufficientemente o latim lyturgico 
pVa ser um piedoso e mystico sachrista, mas que, positivamente, 
não tem a minima ideia do que seja a lingua portugueza e, menos 
ainda, o seu jogo de equivalências com os dialectos gaulezes. 

No Berço — Os filhos alheios como diz no seu tatibitatismo 
•estropeador o sr. Pertingal — Brieux ataca o divorcio, de cara, á 
valentona, atirando-se-lhe p'r'á cabeça, com a desembaraçada au- 
dácia com que, na Blanchette^ se atirou á educação official e, nas 
Remplaçantes, á latacção mercenária, com a brutalidade com que, 
nos Avaries^ investe com a syphilis e, na Robe rouge com a ma- 
gistratura ou como, entre nós, no Ribatejo, os moços de forcado 




Portugal da Silva 
Caricatura de Francisco Teixeira 



364 Impressões de Theatro — O berço 

investem com um toiro, o filam entre o aço dos seus músculos e 
o subjugam na bruteza selvagem da sua força. 

Simplesmente, em França, onde o divorcio, de panaceia do 
matrimonio, vae descambando em thema do vaudeville, o Berço 
é uma peça de intuitos que, ferindo no seu calcanhar de Achilles 
o refugio legal e lógico de tantas ligações infelizes, canta a gran- 
deza dominadora do primeiro amor, do primeiro beijo, do única 
laço, solido e indestructivel, que prende, através da vida, a existên- 
cia da mulher ao homem que primeiro a possuiu e primeiro a fe- 
cundou. 

Em Portugal, onde o divorcio, longe de ser um abuso, é uma 
aspiração, onde não ha divórcios de mais, porque a lei não per- 
mitte que haja os strictamente necessários, onde o código, sóadmit- 
tindo a separação, apenas incita á mancebia, o Berço, deixando 
de ter um fim moralisador, fica reduzido á sua theatralidade e, 
deixando de ser uma arma de combate, transforma-se numa na- 
valha de ponta da iniquidade hypocrita, que sustenta a indissolu- 
bilidade do casamento, da reacção immoralissima, que condemna 
á grilheta eterna os forçados do matrimonio. 

Lourença, casada contra a vontade dos pães com Raymundo 
de Chantrel, tem um filho que ambos adoram, e, á primeira infi- 
delidade banal do marido, que, apesar de tudo, ama e de quem é 
amada, divorcia-se. P'ra ter um amparo p'r'ó filho, um homem 
que o guie e o faça homem, casa, a gosto da familia, com Girieu, 
O pequeno que, no novo casal, é a recordação viva e palpitante 
do primitivo lar, que revive, pelas feições, os traços do primeiro 
marido, affasta, pelo aflfecto da mãe ao filho de Chantrel, o amor 
quasi adultero de Girieu, torna-se mais que um estorvo : é o ciúme 
e é o remorso — o ódio do marido e a saudade da mulher. O garoto, 
um dia, adoece gravemente. Vae morrer. Chantrel, por intermédio 
do medico, exige o direito sagrado de velar-lhe a agonia. A mãe não 
arreda pé do berço do filho e eis os dois entes, unidos pela an- 
gustia da mesma dôr, pelo mesmo desespero e pelo mesmo amor 
á carne da sua carne, em frente um do outro, unidos pelo cora- 
ção, que lhes sangra no mesmo berço e separados pela lei, pelos 
códigos, pelo irreparável dum novo casamento, que tendo ligado 
a mulher a outro homem não soube e não poude affastal-a do 
primeiro que a possuirá e a fizera mãe. Absortos pela desgraça, 
na eminência do perigo, mal se vêem, mal se faliam, mal se sen- 
tem ; mas, quando o medico, n'um grito de triumpho, arranca á 



Impressões de Theatro — O 'Berço 365 

morte a pobre creança, na expansão irreprimível da mais santa 
das alegrias, os dois caem nos braços um do outro e unem, num 
beijo supremo de felicidade e pacificação, as duas almas sedentas 
de esquecimento e de amor. 

Girieu intervém. E' o marido, o senhor. .. Consentiu que 
Chantrel e Lourença tratassem o filho, mas, passado o perigo, 
reivindica os seus direitos, impõe a sua vontade, exige que se 
obedeça á auctoridade que os códigos lhe conferem : Lourença 
não tornará a ver Chantre], e, ao reintregar-se no lar conjugal, o 
filho irá p'ra um collegio, separar-se-ha da mãe. 

Na revolta da mulher ha toda a ferocidade da mãe e toda a 
paixão da amante. Não se separará do filho, mas, não podendo 
ser outra vez de Chantrel, que vae partir p'ra Africa a conquistar 
o futuro do pequerrucho, não será também de Girieu e, casada 
com dois homens, ella que ama um, será a viuva inconsolável de 
dois maridos, que odiando-se, viverão o seu ódio, sem um refrigé- 
rio ou uma esprança, sem uma violência ou um desafogo, porque 
ambos, amando a mesma mulher, ambos tem o mesmo direito a 
amal-a e ambos são dois homens de bem. E' um becco sem sa- 
hida, mas é um drama e, se Brieux fosse um artista e um dra- 
maturgo, se em vez de defender theses fizesse simplesmente 
theatro, seria uma obra prima, como quasi, chega a ser o De- 
dale de Hervieu, que a Bartet ahi nos traz e que, tendo o 
mesmo nervo, a mesma acção, os mesmos detalhes e quasi os 
mesmos personagens, é, como arte, muito mais perfeito, porque é 
mais humano e menos intencional, mais feito de sangue do que 
de idéas, menos dogmático e mais lógico. 



No desempenho, o papel de Lourença, creado na Comedie 
pela Bartet, exigia uma artista toda nervos e sentimento, com 
mobilidade angustiosa e risonha de mascara e inflexões desespe- 
radas e passionaes de voz. Em Portugal, perfeita e inultrapassá- 
vel, te lo-ia sido Virginia, a prodigiosa artista que, se nascera em 
França, teria posto impedimentos canónicos á divinisação das 
maiores artistas de alma e sentimento que por lá se divinisam. 
Acceitavel, se-lo-hia qualquer actriz, que, esquecendo- se, no palco, 
do seu officio de comediante, sentisse e vivesse o seu persona- 
gem, com mais ou menos arte e se deixasse ser, simplesmente, 



366 



Impressões de Theatro — O Berço 



mulher, porque todas as mulheres são 
mães e todas as mulheres são amantes. 
Palmyra Bastos, que é, talvez, com o 
seu fiosito de voz e a sua graciosidade 
petulante, a única artista de operetta que 
se tem estiolado nos nossos palcos de 
musiquias e desafinações, tendo uma phy- 
sionomia parada, uma voz monotona- 
mente agradável, unisona e uniforme, e 
uma irreductivel negação p'ra exteriori- 
sar o sentimento, sendo sempre graciosa, 
mas não podendo ser nunca commovente, 
falhou por completo o papel ; e, se d'elle 
tirou todos os eífeitos compativeis com 
o seu feitio, o seu temperamento e os 
seus desejos de sahir do seu elemento na- 
tural, revellou, que, neste mundo, cada um 
é p'r'ó que Deus o fez e que, é tolice gorda, 
deixar de ser o primeiro astro na sua al- 
deã de Bonecas e Tições^ p'ra vir a liqui- 
dar, em cometa apagado e de moeda fraca^ 
na Roma do Drama e da Alta Comedia, 
Dizem -me que, no Brazil, na Maslowa 
da liessurreição^ Palmyra Bastos fez pro- 
dígios : que foi magnifica na Boneca^ ex- 
plendida no Tição Negro^ ali na Avenida, 
posso testemunhar ; mas, depois de a ter 
visto na Lourença do 'Berço^ p'ra admittir os prodígios do Brasil 
tenho de me valer da tabeliã cambial que reduz um rôr de contos 
de réis de moeda fraca, á petínguice lusitana de quatro vinténs 
e meio. 

Prodígios no Brasil . pode ser, porque, ao que me dizem, o 
Antoine e a Suzana Desprès só lá fizeram asneiras. 

Mas no Berço, em que Palmyra Bastos, fazendo o que poude, 
fez muito pouco, Ferreira da Silva não fazendo o que podia, fez 
muitíssimo peor. Ninguém faria tanto de tão ingrato canastrão, 
mas hirto, frio e secco, atirando com a voz p'r'ó bucho, p'ra dar 
a emminencia da angustia, molínando os braços e açoitando as 
ancas p'ra dar calor e convicção ao personagem, Giríeu deixou, no 
camarim, o Ferreira da Silva, figura primacial e inconfundível dos 




Palmyra Bastos 
Caricatura de Jorge Colaço 



Impressões de Theatro — O Berço 



367 



nossos palcos, p'ra vir integrar-se, á ri- 
balta, na espécie zoológica dos ronca- 
dores, que, no mar, faziam arripios ao 
bom do Padre Vieira, e, no palco, me 
fizeram, no 'Berço^ lembrar os brazo- 
nismos que me encanzinam no Brazão. 
Maia, correctíssimo a dizer e habi- 
lissimo a exteriorisar a paixão, a dôr e 
a alegria, tem no "Berço uma creação 
que, como actor, o absolve de, como 
gerente, ter aberto a porta á traducto- 
rite aguda e irritante do sr. Pertingal. 
O Carlos Santos, que, habitualmente, eu 
não tolero nos galans, no papel do dr. 
Massiac — o medico amigo de Chantrel 
e o raisonneur da peça — trepou, briosa 
e intelligentemente, pela correcta na- 
turalidade e a expontânea cadencia da 
dicção, aos mais altos postos que na 
casa alcançam os que, sabendo dizer, sa- 
bem também representar. 




Carlos Santos 

Caricatura de Manuel Gustavo 

Bordallo Pinheiro 



LXXXVII 



1 I ABRIL 



O mestre regio, 

Theatro de 5. Carlos. 



farça em i acto de Marcellino 
Mesquita. Festa do actor Valle, 



Em S. Carlos, com a casa cheia de amigos e conhecidos, gente 
que o tuteja na rua e gente que se esbarriga ao vel-o no palco, 
Valle fez a sua festa de todos os annos, com nacos do reportó- 
rio do Gymnasio, fifias, monólogos, um farrapo do Commissario 
e um acto novo de Marcellino Mesquita O mestre regio. 

Ora, todo o alfacinha maior de tiint'annos, 
vae ver o Valle, rir-se com o Valle, palmejar 
o Valle, sempre que o Valle tem escriptura 
num theatro e num theatro mima a sua veia 
cómica, em imprevistos de troça e carantonha, 
sem inquirir se o Valle tem arte, se o Valle 
estuda os papeis, se o Valle tem graça. A 
gente vae rir-se com o Valle, porque, olhando 
p'r'ó Valle, só um morto pôde ficar sério. 

Nenhum actor tem, como elle, o seu publico, 
a sua grey, o seu rebanho, porque nenhum, 
como elle, tem a momice prompta, o esgar co- 
ceguento, a careta inédita, que torce em gar- 
galhadas os zyngomaticos duma plateia, duma 
geração e dum paiz. 

A's festas do Valle vae-se, porque o Valle precisa de equili- 
brar o seu orçamento com a receita do seu beneficio e porque é 
de justiça compensar com uns cobres, uma vez por anno, quem 




Valle 

Caricatura de Celso 

Hermínio 



Impressões de The atro — O mestre régio 3 69 

ha muitos annos, nos compensa das agruras da vida, neste deserto 
de sensaboria, com o oásis florido de tanta risota e bambochata. 

Ninguém olha p'r'ó cartaz, porque tudo que o encha, por muito 
que seja, não é nada, junto destas palavras magicas, que tudo offus- 
cam e esbatem, na simplicidade do seu dizer: — Beneficio do actor 
Valle. Por isso, porque tudo o mais de que o cartaz resava, eram 
excrecencias e inutilidades, porque ninguém foi a S. Carlos p'ra 
ver o qne lá se representava e p'ra ouvir o que lá se dizia, mas 
sim p'ra vêr o Valle e rir-se com a carranca de agradecimento 
que elle espalhou ao apparecer em scena, nada ha a dizer do Mes- 
tre régio, em que Marcellino de Mesquita, troçando mais uma vez 
com o seu talento, com o prestigio do seu nome e com as mara- 
vilhas da sua bagagem dramática, troçou, desabaladamente, com o 
publico, mandando-nos bugiara todos, com a petulante sem-ceri. 
monia de quem, sabendo o que vale e o que valem os outros, se está 
rindo das desillusões, que nos arranca e dos applausos doidos, dos 
enthusiasmos febris, que poderá arrancar-nos hoje, amanhã, d'aqui 
a bocado ou d'aqui a annos, quando lhe der a mosca pr'a nos en- 
tupir com a sua arte, como, agora, nos arrelia com os seus fiascos. 

Ao Valle, p'ra contentar todos os que encheram S. Carlos, bas- 
tava-lhe vir á bocca da scena dar-nos as boas noites e mandar- 
nos p'r'á cama. 

Marcellino, com o cMestre régio, não descontentou ninguém, 
porque, sabendo todos o que elle é e o que elle pode, todos com- 
prehenderam, que o cMestre régio era uma partida, uma patus- 
cada, uma pulha, com que elle, dando-nos noticias suas e do Car- 
taxo, nos mandava á tábua, antes do Valle nos mandar p'r,á cama. 

E ninguém se descontentou, não houve assobios, não houve 
pateadas, nem irritações, nem protestos, porque, á uma, todos 
nós ao baixar o panno, lhe respondemos ao pé da lettra : 

— Vá elle e deixe-se por lá ficar, emquanto a policia lhe não 
consentir a Noite do Calvário e a inspiração lhe não der a es- 
perada irmã da 1)ôr Suprema. 

. . .Era beneficio do Valle, a casa encheu-se. Do resto nada a 
dizer. . porque, afinal, não houve mais nada. 

- . . Porque o oMestre régio, não chegando a ser o esboço in- 
forme do i.° acto duma farça em 3 actos, assignado por Marcel- 
lino Mesquita, é coisa nenhuma. 

E é pena, porque ninguém, como o Marcellino, podia e devia 
assignar alguma coisa. 

24 



LXXXVIII 



Jack, o estripador, 



12 ABRIL. 

drama em 5 actos de Louis 
Péricoud e Gaston Ma- 
rot, traducção de Eduardo Victorino. Theaíro do Príncipe Real, 

Distribuição: Jakson, Alves da Silva. — Sir Stewens, Roque. — 
Peters, Sepúlveda. — Robingon Browm, P. Gosta. — Sir James 
Plack, Luciano. — Wiliam Haxell, Ed. Vieira, — Toby, o foguete^ 
A. Machado. — Stoneps, Monteiro. — Trens, Gentil. — Brook, ta- 
berneiro^ Ghaves. — Waxlepps, o buldog^ J. Silva. — Stops, o /"/rra- 
Iho, Arthur. — Bixel, o furão^ Monteiro. — Merson, o relâmpago^ 
Gentil. — Um porteiro, Frederico. — Um policia, Arthur. — Betty 
Blackorwn, Maria das Dores. — Ketty, Adelaide Goutinho. — 
Miss Ellen, Emilia Oliveira. — Morydarwick, Gandida Sousa — 
Jane Yoluck, Augusta Guerreiro. — Eva Krupner, Gandida Sousa. 
Anna Wilken, E. Oliveira. — Uma mulher bêbeda, Augusta Guer- 
reiro. 

As pecoras londrinas que Jack, o faccinora, laparotomisava 
segundo a bonecage colorida das esquinas, trajam como as gual- 
dranas da rua da Amendoeira. O cosmopolitismo da saia engom- 
mada e da faca na liga. Estou em apostar que ha descantes do 
Fado e peixe frito no Refilão. E' a Severa em chouriços de san- 
gue e nevoeiro. Facadas e a lua de Londres. . . 

Quem me dera ter pachorra p'ra ir perder a noite e sensibili- 
dade p'ra ir commover-me. Mas não vou nem faço falta : deve 
estar a casa cheia ... 



LXXXIX 



19 ABRIL. 

Fm rilin^Q ^^•* ^^^^^^ '^^ Theatro LivreJ, peça em 3 
UNI lUllldO, actos original de Ernesto da Silva- Uhea- 
tro do Príncipe Real. Distribuição: Álvaro, Alves da Silva. — 
Eduardo, Ed. Vieira. — JoÂo, Luciano. — Maria, Maria das Do- 
res — Leonor, Adelina Nobre. — Gertrudes, Georgina Vieira. — 
Angélica, A. Guerreiro. >^^ A CARTEIRA, i acto de Octave Mlr- 
beau, traducção de Gosta Carneiro. Distribuição: João Farrapo^ 
Ed. Vieira. — Jeronymo Matheus, A. Rodrigues. — Flora Tam- 
bor, Emilia d'01iveira. — i.° policia, Gentil. — 2." policia, Fre- 
derico. 

De todas as cabeças proletárias erguidas, em esforço próprio, 
pela tenacidade, pelo estudo e pela intelligencia acima da cra- 
veira média e corrente das lettras gordas e dos radicalismos so- 
noros do nosso operariado, a estiolar-se em rhetoricas petrolei- 
ras nas Associações e em comesainas bulhentas nas Hortas, 
nenhuma ainda destacou mais digna, mais alta, mais equilibrada e 
mais limpa que a do pobre Ernesto da Silva, morto ha um anno, 
lembrado todos os dias e cuja ultima obra, o Em ruinaSy foi o prato 
de resistência da 2.» recita do Theatro Livre. .. 

Os que o privaram em vida, agora morto, halloisam-no, na sua 
affectuosa saudade, de culto tão fervente e enthusiasta, honram- 
Ihe a memoria com taes excessos e carinhos, que não sei se vou, 
com as ligeiras restricções que a Verdade impõe ao meu ap- 
plauso, ferir peitos, que de tanto pulsarem no mesmo anceio de 
Revolta, eu confundo com o meu peito, espíritos que de tanto 
commungarem na mesma Eucharistia de Emancipação, eu não 
distingo do meu espirito. 



372 



Impressões de Theatro — Em ruínas 



Mas antes isso, do que 
macular o Em ruínas com 
os logares communs e 
lambedelas que é de uso 
e boa educação estender 
em homenagem aos ca- 
gadocios nossos amigos 
e nossos compadres — 
bestas, a desentranha- 
rem-se em obras de gé- 
nio, e obras primas, filha- 
das por pachidermes de 
estupidez. 

Ernesto da Silva não 
chegou a ser um drama- 
turgo, mas, grifando, de 
peça a peça, um progresso 
e desenrolando, de acto a 
acto, o brilho duma qua- 
lidade, se, na sua obra de 
theatro, não avulta a rea- 
lisação perfeita dum boc- 
cado que fique, o Em 
ruínas marca, comtudo, os 
horisontes da peça ma- 
gistral, que elle não che- 
chegou a fazer. Dramati- 
sando, nos seus primeiros 
tentamens theatraes, pedaços de Verdade em ribombancias de 
ideias, cortando a sua observação directa das classes populares 
em talhadas de Arte, cheias de pevides de sectarismo, o pam- 
phletaiio dominava o dramatista e o Capital e Os que trabalham^ 
sendo, como evangelisação de Justiça, tudo o que ha de mais con- 
vencional e falso em theatro, são, como theatro, meras dialogui- 
sações de eloquentes artigos de fundo. 

O Em ruínas^ sahindo-lhe dos moldes de Arte social p'r'á en- 
veredar nas formulas da Arte rosse^ marca um progresso e sella 
uma promessa, que a tysica não deixou cumprir : — mais duas pe- 
ças adiante, Ernesto da Silva teria um bastão de honra na nossa 
dramaturgia contemporânea, porque, limados os três actos das 




<:^ 



Ernesto da Silva 
Caricatura de José Leite 



Impressões de Theatro — Em ruínas SyS 

superfluidades theoriticistas, que ainda lhe veetn da primeira phase, 
lavados os personagens das cruezas com que elle pretendeu ca- 
rimbal-os no rossismo francez, que lhe trepara á cabeça, 02.° acto 
do Em ruínas é, em toda a parte, uma bella pagina de theatro, e 
sopra atravez da peça uma tal audácia de processos, uma tal in- 
dependência de corte e uma tal certeza de modelação, que, elle, 
vivo mais uns dias, entre bastidores a pôr em pé a sua peça, ti- 
rando aqui, pulindo acolá, limando além, estou em dizer que o 
Em ruínas seria, senão o drama perfeito, que ainda está p'r'a 
apparecer na nossa terra, pelo menos, o drama são e escorreito, 
equilibrado, emotivo e theatral, que todos esperam de Marcellino 
Mesquita depois da Dôr Suprema. 

Assim, tal qual está na brochura, fica melhor na frieza dalettra 
de molde do que ao calor da ribalta, porque, sendo de carne ape- 
nas os dois velhos e feitos de gesso os outros personagens, a 
acção diluese, o interesse perde-se e, quanto mais lindas são as 
coisas que elles nos dizem, mais viva é a vontade de os mandar 
calar e de lhes dizer coisas feias. 

Os dois velhos, esses, apanhados do natural, não tendo lido 
nos livros as trapalhadas que aos outros deu volta ao miolo, são 
duas figuras humanas e theatraes, que, de resto, no Prín- 
cipe Real, tiveram na actriz Maria das Dores — outra da velha 
guarda que vale, com todos os seus defeitos, as de melhores quali- 
dades da guarda nova — e no Luciano — um pouco carregado e 
demasiadamente gargalhadento e bailão — dois interpretes como, 
certo, o pobre Ernesto não teria topado, se em palco de mais polpa, 
lhe houvessem posto a peça. 

A destacar, ainda, no desempenho Adelina Nobre — salvo o erro ! 
-r-que, no papel de Leonor, deu tudo o que podia dar e muito 
mais do que todos esperavam. Com magnifica mascara, boa figu- 
ra e uma voz que se me afigurou susceptível de inflexionar-se em 
exteriorisações de sentimento, todo o seu jogo foi sóbrio, cuidado 
e honesto. 

A nota, porém, verdadeiramente artística e grandiosa da noite 
foi a extranha interpretação com que Luciano realçou o persona- 
gem de João Farrapo da Carteira. Propositadamente — porque a 
brochura está á venda e a sua leitura levará um pouco de conforto 
ao pobre lar em que a viuva e os filhos de Ernesto da Silva cho- 
ram o braço honrado que lhes dava pão — eu não lhes disse do 
enredo do Em ruínas e, dizendo-lhes da Carteíraqu e é a mais per- 



374 Impressões de Theatro — A Carteira 

feita e completa obra prima caricatural do theatro d'Octave Mir- 
beau, peço-lhes que vão ver o Luciano, que não percam um de- 
talhe, uma inflexão, uma minúcia daquella creação que foi, em 
Paris, o mais estupendo trabalho de Gemier, e digam-me, depois, 
se eu exagerei, dizendo-lhes que o theatro livre portuguez topou, 
em Luciano, o Antoine que o ha de fazer vingar e encher de gloria. 

Nunca, dês do António Pedro — que eu venero sob palavra de 
honra — em palcos portuguezes as figuras sombrias da miséria e do 
infortúnio, vasadas no lodo da Desgraça e engrandecidas nas la- 
grimas da Fome, tiveram mais alta e perfeita, mais humana e 
completa individualisação scenica e nunca a Arte proba e cons- 
cienciosa dum comediante subiu tão alto, ao Calvário da iniqui- 
dade social, p'ra nos gritar, em rugidos de fera, o libello accusa- 
torio dos que, por entre milhares de famintos, abarrotam de indi- 
gestão. 

O João Farrapo, da Carteira, é uma supreza e uma revelação 
té p'ra aquelles que, como eu, se haviam surprehendido, quando 
no vagabundo do Amanhã^ Luciano se revelou um grande e 
perfeitíssimo actor. 

Não sei se o teclado artístico do Luciano tem muitas notas e 
se presta a grandes polyphonias de orchestração : em dois papeis 
eguaes, elle arrancou effeitos diversíssimos e, dentro da mesma 
clave, teve taes fiorituras de harmonia e vocalisação, que, mesmo 
que o seu teclado não vibre todas as fifias dum solfejo, eu não 
descubro na arte portugueza quem atire ás estrellas do nosso ceu, 
com o dó de peito, da emoção e da naturalidade, com que, no 
A'manhã e na Carteira^ Luciano acordou nas nossas almas a es- 
perança ridente e solida de ter surdido, emfim, dentre a galucharia 
bisonha dos nossos palcos, um bello e másculo temperamento de 
artista, com arcaboiço p'ra arrancar as charlateiras de generala- 
tos convencionaes aos trôpegos e impotentes, que p'r'ahi se es- 
ganiçam em vozes de commando. 

Não levo a mal que duvidem, antes de verem. Mas, não lhes 
levando nada pelo conselho de irem ao Príncipe Real a applaudir 
um grande actor, me melem, se, depois de terem visto o João Far- 
rapo^ tiverem ainda lingua e topete p'ra virem, cá pVa fora, dizer 
que, quando me dá p'ra dizer bem, tomando o freio nos dentes^ 
vou por esses campos do elogio, á solta e bravo, que nem o diabo 
me atura. 

Vão ver. .. 



LXL 



21 ABRIL. 



O ninho de Cupido, 



comedia burlesca em 3 
actos adaptada do alle- 
mão por Freitas Branco. Thealro do Symnasio. Distribuição: 
Hugo, Ignacio. — Ernesto, Telmo. — Wenceslau Appel, Cardoso. 
— Ricardo, Pinheiro. — Serapiâo Brinckman, Sarmento. — Fre- 
derico Reuner, Ferreira. — José Brawn, C. Leal. — Beatriz, Pal- 
myra Torres. — Antónia, Sophia Santos. — Joanna, Carlota Fon- 
seca. — JosEPHiNA, Palmyra Ferreira. 



Entre a clientella do Gymna- 
sio — e poucos theatros a teem 
mais fiel e constante — Mestre 
Leopoldo de Carvalho, ensaiador 
e vertedor de todo o género de 
peças e figura indispensável a 
todas as chamadas de final d'acto, 
chega a ser mais que um orago 
de freguezia a que se queimam 
foguetes e repicam os sinos : — 
é uma espécie de milagreiro thau- 
maturgo de que se fia, ao irpVó 
thedtro, prodigios de risota e a 
que se agradece, sempre que o 
panno cae, a maior parte das fa- 
cécias com que, panno em cima, 
se estoirou de riso. 




Leopoldo de Carvalho 
Caricatura de Carlos Leal 



376 



Impressões de Theatro — Ninho de Cupido 



Leopoldo de Carvalho — que eu 
saiba — ainda não produziu, como di- 
rector de scena, nem um artista que 
se veja, nem uma marcação que se 
aponte, mas tem feito rir, com os 
artistas que lhe passam pelas mãos e 
com as mise-en-scenes que impro- 
visa, trez gerações de alfacinhas e 
Lisboa inteira, que padece do fígado 
e é, de todas as cidades da Peninsula, 
a mais serumbatica, tristonha e em- 
bezerrada, deve-lhe, senão uma esta- 
tua, pelo menos uma casa cheia, cada 
anno, quando elle faz beneficio. 

Desta feita, pagou essa divida brio- 
samente, enchendo o Gymnasio e es- 
forricando-se de riso com o Ninho de 
Cupido^ o mais embrulhado, intrinca- 
do e disparatado disparate que, té á 
data, Freitas Branco adaptou, p'ra 
gáudio nosso, á scena portugueza. 
Chega a não parecer uma peça, mas 
a confusão de muitas peças. Não pa- 
rece uma farça, parece um novello, 
que, na dobadoira de Freitas Branco, 
nem se pega, nem se enrodilha, por um milagre de lógica e de 
laracha, que faz dores de cabeça de tanto rir e de tanto dispa- 
ratar. 

No desempenho, como sempre, Ignacio, Cardoso e Barbara, 
no primeiro plano e a destacar, entre os do segundo, Carlos Leal, 
um bello caricaturista, como se prova pelos documentos juntos, 
donde, mais dia menos dia, ha de sair um bello actor, como se 
provará, com elogiosa alegria, logo que o acaso lhe depare per- 
sonagem, em que, á solta, elle possa largar rédea á sua phanta- 
sia e ás suas aptidões. 




Carlos Leal 
Por elle mesmo 



LXLI 



22 ABRIL. 

Madame Sans-Gêne. LTs.T^.tX:: 

E. Moreau. traducção de Moura Cabral. Theatro D. Rirnlia. Re- 
prise em beneficio de Lucinda Simões. Distribuição: Napoleão, 
Augusto Rosa. — Lefebre, Brazão. — Fouché, Christiano. — Neip- 
PERG, A. Pinheiro. — Duque de Rovigo, Antunes. — Desprealts, 
H. Alves. — Saint-Martin, C. d'01iveira. — Vauboutrain, C. d'0- 
liveira. — Lauriston, A. Santos. — Rissoult, Francisco Salles. — 
Martemart, Salles. — Constant, Senna, — Jesuino, Álvaro Ca- 
bral. — Leroy, João Gil. — JuNOT, Senna. — Canouville, Lagos. 
— Cape, A. Silva. — Roustou, Chaby. — Vinaigre, Lagos. — i.** 
visiNHO, Silva. — Catharina, Lucinda Simões. — Rainha de Ná- 
poles, Lucilia Simões. — A princeza, Maria Falcão. — Aldobran- 
TiNE, Laura Cruz. — Roulard, Elvira Costa. — Duqueza de Ro- 
vigo, Cecilia Neves. — i .• dama, Jesuina Saraiva. — 2.* dama, Es- 
tephania. — Toinou, Josepha d'01iveira. — Julia, Delphina Cruz. 
RoussoTE, A. 0'Sullivand. — Aia, A. 0'Sullivand. 

Ha annos, a quando da primeira na Rua dos Condes, de que 
Lucinda era estrella e emprezaria, com luxos imprevistos de 
guarda-roupa, magnificências rigoristas de enscenação e mirabo- 
lancias inéditas de adresseria, a Madame Sans-Gêne fez furor, que 
noal se comprehenderá agora, que Lucinda começa a estar dema- 
siado pesadona e durazia p'ra Sans-Gêne^ embora — não ha ne- 
gar — seja, ainda, muito de se ver, como diria Fialho, impertinente 
e irreverencioso, em Senhora sem encomodo^ cora os pannos da 
Réjane, scenographados na Argentina e o Augusto Rosa a se- 



378 



Impressões de Theatro — Madame Sans- Gene 




Lucinda Simões 
Caricatura de R. Bordallo Pinheiro 



ptmontisar o grande corso de guisa 
tal, que sente uma alma de Deus 
infinita vontade de arrancar a s 
barbas ao Posser e de o prantar, 
outra vez, em Napoleão da Casa 
de Misericórdia, fallando de S. 
Roque ás pyramides do Egypto... 
e aos que lhe chamavam nomes e 
coisas feias. . . 

Festa de estrondo, casa cheia, 
como, de resto, era de crer, sendo 
a festa em honra e a casa em pro- 
veito de Lucinda Simões — a mais 
ingenitamente actriz das nossas 
comediantes, temperamento thea- 
tral, como raros o são nos nossos 
theatros e individualidade scenica, 
como poucas tem havido na nossa 
scena. 
Lucinda foi a mais illustrada das mulheres e a mais parisiense 
das artistas do seu tempo, num tempo remoto, em que, a illus- 
tração feminina da nossa terra, ante as culminancias do ler e es- 
crever, consideradava umprodigio collaborar no Almanach das Se- 
nhoras e em que, o boulevardismo das actrizes se limitava a ex- 
cessos de crinoline na roda das saias e a orgias de peixe frito nas 
esperas de toiros e hortas suburbanas. 

Hoje, Mestra sem discípulas, que lhe honrem o mestrado, 
embora muitas tentem enfeitar-se com os galões do seu discipu- 
lato, Lucinda ainda é'a mais intelligente das mulheres portugue- 
zas e mais franceza das nossas comediantes, apesar do Quelhas 
mais da Miss Kafle e das viagens á torre Eiffel — em polyglo- 
tias de papagaio e lambuges de encyclopedia, conjugações do 
verbo aimer e piranguismos de Historia Sagrada, nos coUegios, e 
expedições aguerridas e baratas, sob o commando dos Manos 
Leaes, generalissimos da Liquidadora, nas ferias do verão, — ha- 
verem elevado o nivel intellectual das meninas da Baixa té á lei- 
tura dos romances do Bourget e terem transformado os nossos 
palcos em succursaes manhosas do Moulin Rouge e tascos adja- 
centes. 

D'ahi, não haver que oppor á justiça e equidade dos enthu- 



Impressões de Theatro — Madame Sans-Cêne 3jg 

-siasmos e das ovações, com que, na reprise da Sans Gene, o pu- 
blico do D. Amélia saudou a bellissima e insigne comediante, 
<iue, por delicadeza e por ironia, fez menção de compartilhar os 
applausos com os camaradas que lhe davam as deixas e faziam 
moldura ao seu successo absolutamente pessoal. 



LXLII 



24 ABRIL 

DPoHrn Paril7"7n peça em i acto de Roberta 
. I GUIU ^aiU^Z.U, Bracco; traducçãõ de Car- 
los Trilho. Theatro D. IDaría. Festa do actor ferreira da Silva. 
Distribuição: D. Pedro, Ferreira da Silva. — Conde Fabrício^ 
Maia. — Margarida, Cecilia Machado. HHMGASAMEMTO E MOR- 
TALHA, 2 actos, original de D. João da Gamara. Distribuição: 
Marcollino, Ferreira da Silva. — D. Francisco, G. Santos. — Vir- 
golino, J. Costa. — D. Olympia, Virginia. — Margarida, Cecilia 
Machado. 



Noite radiosa, noite magnifica, noite consolante, a noite de 
hontem em D. Maria. 

Era a festa annual do Ferreira da Silva, na pujança viril da 
sua carreira, na posse absoluta da sua Arte e no desarrolo integral 
do seu temperamento e era, também, a reapparição nas taboas^ 
da Virginia, com o seu perfil macerado de velhinha resignada e 
boa, com a sua voz feita do sol amoravel e sentimental do nosso 
céo, sempre azul e luminoso. 

No cartaz, Roberto Bracco com a sua obra prima o D. Pedro 
Caruj^o e D. João da Camará, com uma blueta ligeira e futil^ 
toda leveza e fragilidade, o Casamento e mortalha. 

Dês da sua phase agermanada, do Fim do Amor e da Trage^ 
dia da Alma^ em que a influencia benéfica da Hauptmann se re- 
sentia na combatividade idealista da sua obra, té á sna maneira^ 
latina e emancipada, do Pedro Carii:^^o, das Mascaras e da Ma- 
ternidade, em que toda a sinceridade dum espirito independente 
e livre transparece no processo áspero e perfeito dum homem de 



Impressões de Theatro — D. Pedro Caru^í^o 



38i 




RoBE»TO Bracco 
Caricatura italiana 



theatro, que emociona as almas e sabe 
dominar os cérebros, Roberto Bracco é, 
na vasta dramaturgia italiana dos nos- 
sos dias, o mais completo e humano, o 
mais equilibrado e inconfundivel dra- 
rnaiisador dos homens e das idéas, 
dos problemas e das misérias, que se 
agitam e se debatem no stertor ago- 
nico das sociedades latinas. 

Homem de intelligencia e homem de 
bem, caracter rijo e talento fogoso, ar- 
tista, que conhece todos os segredos da 
sua arte, coração, que se amerceia de 
todas as dores dos opprimidos, Roberto 
Bracco, no Pedro Caruj^o, — que tem 
a consagração mundial duma das raras 
obras primas do theatro cosmopolita — 
dá-nos, numa agua-forte, detalhada e minuciosa, da degradação 
alcoólica, o poema duma paternidade angustiada e farrapenta, 
as mais confrangedoras estrophes do amor paterno a irisar, em 
divinisações de sacrifício e de dignidade, a lama asquerosa dum 
borrachão das ruas, sem moral e sem escrúpulos, roido pelos vi- 
cies e pela fome. Galopim, batoteiro, agente de negócios escuros 
e arengador das praças publicas, intelligencia cabida na taberna 
e carcassa batida pelos vendavaes do infortúnio, Pedro Caruzzo 
tem uma filha, que aferrolha e estremece, não a deixando traba- 
lhar, porque o aprendizado, nas promiscuidades das officinas de 
mulheres, é o primeiro degrau p'rá vida airada, sequestrando- a do 
mundo, porque o mundo, pVás raparigas do povo, é a ante-sala 
da prostituição. 

Abandonada, no misero lar deserto e sem conforto, a filha 
de Pedro Caruzzo entrega-se a um dos clientes politicos de seu 
pae : ao conde Fabrizio, candidato ás eleições, homem rico, bem 
nascido, com a moral corrente de todos os mariolas do seu meio 
€ da sua educação, que, depois a abandona, e que, pagando ao 
velho, umas problemáticas traficancias eleiçoeiras, recompensa, 
com punhados de notas, o amor e a virgindade da pobre rapa- 
riga... Espanto alegre do borracho ao ver a prodigalidade da 
maquia, e revolta altiva da moça, ante a indignidade da transac- 
ção — tPae, não acceites esse dinheiro. .. E' o preço da minha 




Ferreira d Silva 
Caricatura de José Leite 



Impressões de Theatro — CD. Pedro Caru^^^o 383 

deshonra. . . é a paga do meu amor.» Os fumos alcoólicos aca- 
bam de se esvahir na dolorida angustia do velho. Num primeiro 
impulso de cólera, expulsa a filha do lar deshonrado, mas a ima- 
gem da Rua, com as suas provocações e os seus perigos, quebra- 
Ihe a ira e, num frouxo de lagrimas, cae-lhe nos braços: Não 
saias, pobresinha. . . não saias. . . e mandando-a p'r'á alcova, o 
velho bêbado, frente a frente, com o seductor da filha, transfigu- 
ra-se : não é o sórdido vagabundo das tabernas, de que todos 
riem e ninguém respeita, é o pae a que roubaram a única riqueza, 
o único thesouro, a vida e a alma da sua creattira, da carne da 
sua carne, do sangue do seu sangue . . , Exige e supplica, invectiva 
como accusador, roja-se como victima e quando, numa argumen- 
tação cynica de verdade, rabricio se exime á reparação, soltando 
as palavras cruas e irrespondiveis com afilha de Pedro Carut^^o 
ninguém casa, o pavor, o remorso, o espectro negro da consciên- 
cia, que dormia no peito do andrajoso paria, desperta, e,erguendo-se 
como um abysmo ante a felicidade e o futuro da filha, esmaga-o, 
com todo o peso brutal d'uma expiação tren^enda, inexhoravel e 
truculenta. 

Mas, se não se casa com a filha de Pedro Caruzzo, na filha de 
Pedro Caruzzo está a carne fresca e perfumada duma amante. Como 
amante... Caruzzo curva-se, subordina-se, acceita. Trapo do enxur- 
ro, o enxurro lavar-lhe-ha em sangue a lama que opollue... E' a ulti- 
ma vef que lhe aperto a mão sr. conde... SeMargaridaacceitarasua 
proposta... irei dar á trela p'r'ó outro mundo... O conde sai. Caruzzo 
esvasia uma garrafa de cognac, mette um rewolver no bolso e 
chama a filha. Transmitte-lhe a proposta. Ella acceita. Caruzzo 
dicta-lhe a carta : se o tratas por tu emmenda. Fecha o sobrescnpto. 
Beija a filha, beija-a muito, põe o chapéu, muda o casaco, desvia 
a attenção da filha, muda o rewolver do bolso e sae, cantaro- 
lando, como á entrada, a ária celebre do Trovador., com a plan- 
gencia fúnebre dum dobre de finados : 

Sconto col sangue mio 
Camor che posi in te. 
Non ti scordar di me 
Non ti scordar di me 

* 
Ferreira da Silva, que não viu o Zacconi na sua interpretação 
assombrosa do 'Pietro Çaru^^^o, foi applaudido, com justiça e com 
enthusiasmo, pelos que, tendo visto o grande artista italiano — 



384 



Impressões de Theatro — D. Pedro Caru^jo 



e quem o viu não torna a esquece-lo — saudaram no trabalho 
quasi temerário do grande actor portuguez, uma creação perfeita 
harmónica, serena e originalíssima, que o sagraria entre os maiores 
artistas do nosso tempo, se elle não fora, já, o maior actor da 
nossa terra. 

Zacconi assombra: Ferreira commove. Zacconi, em linhas du- 
ras e ásperas, que nos cegam e nos subjugam, faz do Pedro Ca- 
ru^^o um bronze dominador e estupendo em que o cinzel de 
Rodin houvesse aberto um baixo relevo de degradação e de soífri- 
mento ; Ferreira, em traços macios e delicados, que nos capti- 
vam e nos commovem, faz do Pedro Caru^^o um mármore ra- 
dioso e soberano, em que, um poeta da Renascença, houvesse 
modelado um cântico de miséria e de sentimento. 

Zacconi era descommunal. Ferreira da Silva foi grande ; e, se 
o italiano arrebatava as intelligencias pela fogacidade vulcânica 
do seu temperamento, o nosso, faz-nos vibrar as almas pela pie- 
dosa commoção que resumbra daquelle miserável, humilhado, 
roto e abjecto em que pulsa, como no peito de um heroe ou de 
um santo, um terníssimo coração de pae. 

Ferreira da Silva — a quem eu ralhei, ao tempo, por não ter 
ido ver o Zacconi, herdeiro e successor dilecto do Giovanni 
Emanuel seu e mestre, modelo e idolo, — 
tem, na interpretação do Caru^^o, pontos 
de contacto, quasi decalques e assimila- 
ções do jogo zacconiano, que elle não viu 
e com que, naturalmente, se encontrou na 
exteriorisação scenica do personagem, mas 
tem notas inéditas, detalhes personalíssi- 
mos, originalidades de pormenorisação, que, 
tendo escapado ao próprio Zacconi, são 
dos mais lidimos tropheus com que pode or- 
gulhar-se um artista de consciência e de 
talento. 

Os ataques de tosse, o molhar convulso 
da penna ao dictar a carta, o cuspir a vilania 
dos homens, são achados magistraes, pe- 
quenos nadas, que definem e balizam o 
mérito inexcedivel do comediante que, na 
na mesma noite, na insignificância scenica, Virgínia 

que é o primorsito litterario de D. João da Caricatura de José Leite 




Impressões de Theatro — Casamento e mortalha 



385 



Camará, levou a arte de dizer e de inflexionar a um tal requinte 
de delicadeza e flexibilidade, que tornou o 2.° acto do Casamento 
e mortalha uma maravilha inenarrável de dicção e de theatra- 
lidade. 

Maior do que Ferreira da Silva, nesse dialogo precioso dos 
dois velhos que recordam a mocidade, ella, sentimental e pura, a 
reviver os anceios primaveris do seu amor, elle, brejeiro e risonho, 
a saborear ainda os beijos e os sopapos da Bernardina — a não 
tomar p'ra unidade de grandesa a seivageria dos que pigarrea- 
vam durante esse 2." acto, só a Virgínia, que lhe dava a replica e 
o contrascenava, com toda a magia da sua voz crystalina, com 
todo o encanto da sua mascara de santa e querida velhinha, que 
todos nós, na plateia, admiramos como artista e tanto veneramos 
como mulher, que todos sentimos ama-la, como amamos a nos- 
sas mães. 

O Casamento e mortalha^ sem pretenções e sem intuitos, é 
uma blueta ligeira, insignificante, banal. E' tudo o que quizerem» 
mas, tendo sido escripta p'ra Ferreira áa Silva mostrar o que 
pode como diseur e 
o que valem as reli- 
quias luminosíssimas 
da Virginia, é uma 
das melhores pagi- 
nas de D. João da 
Camará, porque é, 
talvez, aquella em 
<\\XQ melhor elle con- 
seguiu o seu fim, 
sem se enganar com 
a força dos seus re- 
cursos e sem se il- 
ludir com a theatra- 
lidade dos seus ef- 
feitos. 



• De justiça ainda, 
ao lembrar em no- 
tas ligeiras a noite 
da festa do Ferreira 
da Silva em D. 




Carlos Trilho 
Caricatura de Carlos Leal 



25 



386 Impressões de Theatro — Casamento e mortalha 

Maria, o apontar a bella caricatura de Joaquim Costa, no i.° acto 
do Casamento e mortalha^ a correcção de Maia, no conde de Fa- 
brizio, o esforço intelligente de Cecília Machado, na interpreta- 
ção da Margarida do Pietro Caru^:^o^ e, sem sahir cá da casa, a 
louvar, também, a proba e conscienciosa dignidade litteraria com 
que Carlos Trilho seguiu, passo a passo, a brochura de Roberto 
Bracco, dando, em portuguez de gente, toda a singela eloquência 
da prosa italiana do grande dramaturgo, que, sendo como ho- 
mem, é um rigido caracter, é, como artista, um bello prosador 



LXLIIl 



28 ABRIL. 

A fechar a época, no D. Amélia, a Crii!( de esmola^ em festa 
artistica de Adelina Abranches. 

Temperamento fogoso de artista, com uma grande alma p'ra 
sentir e um talento forte p'ra exteriorisar o sentimento, Adelina 
Abranches, que, na primeira étape Ja sua carreira,soube reagir e 
conseguiu vencer a estreitesa do ambiente de dramalhões e ser- 
rabulhos, em que outra qualquer se teria asphixiado, já no Prín- 
cipe Real se impunha, de vez em quando, como uma altíssima 
individualidade de comediante, dentro d'um corpo pequeníssimo de 
mulher. Tansplantada p'r'ós canteiros do Thesouro Velho, Ade- 
lina Abranches deitou tal ramaria e florescência de Arte honesta 
e conscienciosa, de mérito verdadeiro e expontâneo, que sem cul- 
turas intensivas de reclame, sem adubagens estravagantes de 
adjectivações, começa a fazer sombra ás plantas mimosas e ra- 
chiticas que se melam e se desfolham sem dar flor e sem dar fructo. 
O seu trabalho na Maslowa da Ressurreição^ e a sua Maria do 
Amparo na Cru^ da esmola^ marcam-lhe um logar aparte, bem 
definido e de eleição, entre as raras artistas portuguezas, que sen- 
tem e vivem, no palco, a vida e o sentimento dos personagens. 

Não é um génio nem um colosso : migalhita de gente, a de- 
monstrar que as actrizes não se medem aos palmos, tem com- 
ludo, muito mais talento e muito mais fogo, muito mais alma 
e muito mais valor, do que algumas que, a medirem-se pelos elo- 
gios das gazetas, seriam tão grandes e descompassadas, que não 
sabe uma pessoa se nol-as propinam em actrizes capazes de nos 
commover no palco, se, em raridades zoológicas, como o gigante 
do Colyseu, que se mostram e nos assustam nas feiras. 




Adelina Abranches 
Caricatura de Francisco Teixeira 



XCIII 



L'autre danger, 

cita. Tournée Bartet-Duflos. 



3o ABRIL 

comedia em 4 actos de Maurice 
Donnay, Theatro D. Rmelia. i.» re- 



No declive da sua carreira e no occaso da sua irradiação, com 
trinta e dois annos de theatro, já decadente e com rugas, Bartet, 
ainda hoje, é, portas a dentro da casa Molière — porque a Suzana 
Després esteve lá de fugida e pirou-se cá p'ra fora — a mais per- 
feita e delicada, a mais primorosa e modelar comediante, que o 
classicismo francez, declamatório e convencional, tem produzido, 
depois de Rachel e das grandes trágicas do Romantismo. 

Artista de sentimento e de tonalidades, de intuição e conser- 
vatório, emotiva e passional, Bartet, sendo a primeira figura fe- 
minina da Comedie, é a menos cabotina e amais franceza das cele- 
bridades parisienses : sem trucs tapageiros nem pyrotechnias íar- 
falhudas p'ra inglez ver, sempre ella e sempre digna, não arrebata, 
não assombra, raro chega a enthusiasmar, mas encanta e captiva 
sempre, pela adorável impeccabilidade do gesto, pela enternece - 
dora harmonia da dicção, pela suave delicadesa dos toques, com 
que, através dum temperamento intellectivo de amorosa, ella vive 
e faz viver, sente e faz sentir as mais desencontradas figuras da 
dramaturgia franceza, dês das heroinas de Corneille, ás adulteras 
do Donnay e das bonequinhas do Marivaux, ás victimas senti- 
mentaes dos paradoxos de Dumas. 

Relendo-lhe a biographia, a lista das creações e a resenha dos 
successos, mais ainda do que analysando-lhe a mascara sympa- 
thica e apagada, insinuante e terna, a que os olhos, vivos e gran- 



Sgo 



Impressões de Theatro — 'Bartet 



des, dão clarões de intelligencia e de bondade, de sensibeleria e 
de paixão, e esquecendo mesmo que, pela crystalina sonoridade 
da voz, toda doçura e terneza, lhe chamam em França a Divina, 
Bartet evoca-nos logo a imagem queridíssima da nossa Virgi- 
nia — tão grande como ella, como ella perfeita e impecca- 
vel, e, como ella, encantadora e captivante, na exteriorisaçáo ar- 
tística do sentimento, como ella 
artista da alma, artista de emo- 
ção, que, se houvera nasciJo em 
França, teria sido, como foi a Bar- 
tet, uma das m:;iores artistas do 
seu tempo. 

E exactamente porque os seus 
temperamentos se casam, porque 
a nossa Bartet e a Virgínia fran- 
ceza se identificam e quasi se 
confundem, porque, creando uma 
os papeis em Paris e a outra in- 
terpretando-os cá, sem nunca se 
terem visto, sem nunca se terem 
copiado, feriam ambas a mesma 
nota, cunhavam ambas no mes- 
mo molde e sentiam ambas da 
mesma maneira as personagens 
em que se encarnavam, eu re- 
lendo, ha dias, o que se disse em 
França da Denise da Bartet pa- 
reci i-me estar lendo o que se 
deveria ter dito em Portugal da 
Dyonisia da Virgínia, porque 
nunca no mundo, se chorou, nem se riu, como se chora e se n, 
quando, no palco, ri a Virgínia ou, em scena, chora a Bartet— as 
duas irmãs gémeas a que o Destino deu, como a nenhumas outras, 
o dom das lagrimas e do riso, da emoção e da alegria, da natu- 
ralidade e do sentimento. . . 

Ora, sendo a Bartet uma actriz como a Virgínia, com o mes- 
mo temperamento, os mesmos dotes, o mesmo processo e os 
mesmos recursos, tendo triumphado nas mesmas peças e afinado 
a sua Arte nos mesmos typos, não é, nem podia ser, uma come- 
diante boulevardeira, apregoada como as píllulas Pink, e de 




Maurice Donnay 
Caricatura de Capieollo 



Impressões de Theatro — 'Bartet 



391 



reputação europea, como as trufas do Perigord ; é uma artista 
pVa ser vista e amada na sua terra, pelos da sua terra, no seu 
theatro e pelo seu publico, porque fora do seu meio, por mais 
que a gente leia francez, pense em francez, sinta em francez, vista 
e viva pelos jornaes de modas francezes, não somos — louvado 
Deus ! — tão franceses, que possamos identiíicar-nos com a deli- 
cadesa, as nuanças, os requintes e particularismos da alma fran- 
ceza, que pulsa e se agita no peito offegante da Bartet, quando 
ella sente e diz, como só pode sentir e dizer uma franceza, 
deante d'uma plateia de francezes. Ha nella, em mmucias e 
detalhes, como nas miniaturas gothicas dos missaes da Edade 
Media, a alma da sua raça, a alma da França, que é a força-mater 
do chauvinismo francez, como na Rejane ha, como nos cancans 
modernos das edições do Le- 
merre, a coqueteria boulevar- 
deira, que é a formula-mãe do 
bregeirismo cosmopolita. 

As exterioridades de Rejane 
todos nós assimilamos e compre- 
hendemos ; entram pelos olhos 
e pelos sentidos ; aprendem-se, 
com as theorias grammaticaes do 
verbo aimer e as praticas noctur- 
nas do Chat Noir : a espirituali- 
dade da Bartet, escapa-se-nos, 
não a apprehendemos, porque, 
pVá sentir na alma, p'ra ella nos 
illuminar o cérebro, falta-nos o 
quid ethnographico,que nella vi- 
bra e só se bebe no leite, só se 
infiltra nos corpos que respiraram, 
ao nascer, o ar pátrio da França. 

E' uma artista franceza e pVa francezes, como a Virgínia é 
uma artista portugueza, p'ra portugueses, nossa, toda nossa, da 
nossa terra, do nosso ceu, da nossa arte e dos nossos corações... 

Com a Bartet vem Duflos. Era uma lição que eu tinha em 
branco este cavalheiro Duflos. 

Mas deitei a livraria a baixo. Folhiei alfarrábios, consultei ex- 
positores, vdli-me do sympathico e amável Freitas Branco, breve 
e ambulante resumo da Bibliotheca da Alexandria, repositório 




Rejane 
Caricatura de Leal da Camará 



392 



Impressões de Theatro — Duflos 



encyclopedico de coisas de theatro 
— e tenho o Duflosinho na ponta da 
língua, papaguedo e corrente, como se 
nos conhecêssemos de pequeninos e 
juntos tivéssemos andado na mestra. 
E' feio e triste como um mocho, na 
muda, chamam-lhe Raphae!, como o 
Guerrita, antes e depois de cortar a 
coleta, usa barbas em bico como o 
Posser, depois de abandonar a scena, 
e veste sobrecasacas, longas e em 
sino, como as vestia o Musset antes 
de ir poetar e beber abissyntho p'r'ó 
outro Mundo. 

Na Comedie é doublure do Le 
Bargy, o que, traduzido pelo diccio- 
nario de Pertingal, é como quem diz, 
o fòrro de Le Bargy, o Le Bai gy vol- 
tado do avesso. 

Simplesmente, como já me acon- 
teceu com um comprido e honrado 
sobretudo, a que eu creara amor, 
como a um velho e fiel amigo, e que, 
p'r'a não me separar d'elle, mandei 
virar e pôr golas novas, Le Bargy do 
avesso, ou seja Duflos, é menos lus- 
troso, de menos vista, mas mais re- 
sistente e mais modesto,porque, sendo 

discípulo de Worms e tendo herdado do mestre a correcção e 
sobriedade, tendo men®s claque e menos turras com o Glare- 
tie, não vestindo do mesmo alfaiate e não rufando com tanta 
anciã o zabumba do cabotinismo e das grandes situações, não é, 
como o Le Bargy authentico, o Le Bargy, que lhe está por cima 
e a quem serve de forro, uma montra de gravataria e um mane- 
quim de colletes phantasistas, a preços módicos e p'ra exportação. 

Não senhor; Duflos é puramente um actor da Comedie, com 
prémios no Conservatório, officialato da Academia e muitas das 
qualidades e alguns dos defeitos que são marca da casa — Maison 
cMoliére breveté. 

Não tem as qualidades todas porque não o fadou Nosso Se- 




DUFLOS 

Caricatura de Leal da Camará 



Impressões de Theatro — L'autre datiger Sg? 

nhor p'ra monopolista de perfeições, e não é pVa extranhar que 
lhe faltem muitos defeitos inherentes ao societariado, porque, 
sendo o mais velho da familia, não podia ser, á sombra dos ainéSy 
um sacco de imperfeições como o seu collega Cadet. 

Sabe dizer, sabe pisar o palco, sabe mecher-se em scena, não 
anda a pé coxinho como o outro Le Bargy, e, sendo um actor 
correcto, serio e ponderado, o CatuUe Mendes cada vez o acha 
mais perfeito, o que, verdade, verdade, não abona muito a sua 
perfectibilidade passada. 

Em França, é um vieux second jeune premier : o que, litteral- 
mente, não é bem um velho joven segundo dos primeiros, mas pode 
muito bem ser um Carlos de Oliveira ou um Luiz Pinto, já en- 
trado e de 2." classe — como os enterros de berlinda a uma pa- 
relha, ou um segundo galan p'ra todo o serviço e sem porta p'r'á 
escada. 

A firma social do cartaz é, pois : Bartet & Duflos. 



O fira industrial da empreza, com sede no Thesouro Velho, 
foi a exploração artística de Lautre danger de Donnay, peça es- 
cabrosa e mal feita, com um assumpto desavergonhadíssimo e um 
dialogo brilhante. 

Peça escabrosa : h' o adultério corrente e já sabido de drama- 
turgia franceza, com a aggravante de que mãe e filha se atiram 
ao mesmo homem e acabam por se atirar uma á outra, passando 
o amante da mãe a ser marido da filha e o pae da filha, sogro do 
amante da mulher. 

cMal feita: Porque a exposição da intriga se arrasta até ao fi- 
nal do 2.* acto ; porque os três primeiros actos são de desagei- 
tado preparo p'r'ó fecho da peça ; porque toda a peça se reduz 
ao ultimo acto e porque, finalmente, não escapando mesmo esse 
acto, nem como factura, nem como theatralidade, pela peça, a 
contrabalançar as duas scenas realmente bem feitas que ella en- 
cerra — o reencontro dos amantes, no i.° acto, apozannos de se- 
paração e o choque violento do amor da mãe e do amor da filha 
pelo mesmo macho, no ultimo — ha uma infinidade de cordeli- 
nhos, gastos e batidos — como o da forma tola porque a filha 
descobre o amiganço da mãe e a mãe vem mais tarde a desco- 
brir a paixão da filha — que tornam L'autre danger uma peça 
de fancaria, indigna da rubrica que assignou os Amants e que vive 



394 Impressões de Theatro — L'autre danger 

« se sustenta unicamente pelo rossismo do thema, cheio de poucas 
vergonhas e erotismos 

Q/íssumpto desavergonhadíssimo: Está-se a ver: seresmas e 
gualdranas, cornaduras e incestos, o adulteriosinho galante, as 
infâmias da alta roda ; sedas que se amarfanham, maridos que se 
resignam, galans que deixam a cama da mãe, p'ra se irem metter, 
■com a benção da Egreja, no leito da filha e por ahi fora em qua- 
tro actos de 

dialogo brilhante : porque Maurice Donnay é hoje o mestre 
do dialogo francez e ninguém, como elle, maneja a phrase rápida, 
o dito cortante, a replica prompta, a leveza do conceito e o hu- 
morismo do cavaco, com que, em scena, entre gente de boas ma- 
neiras e maus costumes, a alma da mulher parisiense, amarafona- 
■da e espirituosa, se põe a nú, em escancaras de psychologismo 
que me yarece muito litterario e muito cruel, p'ra poder ser obser- 
vado e verdadeiro : porque nem se falia assim fora dos Cenácu- 
los, com tanto espirito, nem se ama por aquella forma — fora das 
casas de passe. 

Os inimigos da França não são positivamente, os prussianos 
que a escavacaram em Sedan : são os seus homens de lettras, os 
seus homens de theatro, que nos seus romances e nas suas pe- 
^as, a pintam, p'ra gáudio da Europa, espirituosa, fútil, intelligente 
€ doidivanas. . . as mulheres, umas pecoras, os homens, uns ma- 
riolões. 



LXLV 



Le jeu de lamour et de Ihasard, 

comedia em 3 actos de Marivaux. '•rW. LA NUIT DOGTOBRE. de 
Musset. Uheatro D. Rrneha. 2/ recita da Tournée Bartet-Duflos. 



Depois da noite áspera e viciosa do Donnay, com cruezas ru- 
bras da carne em cio, a Vida a traços grossos de realismo, a que 
as sedas das damas e as casacas dos cavalheiros, o requinte lit- 
terario da phrase e o chie mundano das molduras, amortecem e 
•doiram, em cantharidas de bom tom, o triumpho da besta que se 
refocila e atasca na satyriase mórbida dos appetites contempora- 
Tieos, a noite de hontem, toda azul e poesia, toda espuma e ren- 
•<ias, futilidades e sonho, com as bonequinhas pretenciosas do 
-Marivaux — estatuetas frágeis de Sévres, em prosa adocicada do 
mais gracioso miniaturista das mulheres do seu tempo — e versos 
sonoros de Musset, cantantes e límpidos, romanescos e sentimen- 
laes, recicados pela voz argêntea, divina e romanesca, da senti- 
mental e limpida organisação artística de Bartet — a noite de 
hontem, banhando-nos os cérebros em ondas de luz e emoção, 
purifica-nos as almas em pacificações deliciosas e subtis, duma 
arte convencional e falsa, amaneirada e fútil, se quizerem, mas 
■que, como nenhuma outra, nos risca no peito uma clareira de 
conforto e satisfação, de bem estar e de felicidade 

Aquillo não é talvez theatro, mas é indubitavelmente um pri- 
mor d'Arte, leve, graciosa, rendilhada e feminil ; Arte p'ra cora- 
ções de mulheres e pVa espíritos eleitos de poetas e artistas. 

Marivaux não é um génio, a sua technica é pueril e o seu thea- 



396 Impressões de Theatro — Lejeu de Vamour et de Vhasard 



tro é a quinta essência da banalidade : maurivaudar é um verbo- 
corrente e mulheril, o chilrear inconsistente e irresistivel, ôco e 
encantador de todas as mulheres a quem a natureza deu a pala- 
vra p'ra dizerem tudo o que não pensam, sem dizerem nada e 
sem se calarem nunca. 

E' o século dezoito, rócócó e doce, tacão vermelho e punhos 
de renda e tão da sua época e do seu meio, tão pastorinhas de 
setim e trechos de Versailles, que, representado primeiro sem 
successo pelos cómicos italianos — 
que, em França, antes da revolução 
iam fazendo retrogradar Molière aos 
titeres e ás mascaras da antiga Co- 
media deWArte de Itália — amesqui- 
nhado e ferido pelo pedantismo cri- 
tico de GeoíTroy, no alvorocer do sé- 
culo, Marivaux só começou a ter co- 
tação e renome com o talento da 
Mars e a entrar no relicário do clas- 
sicismo francez, quando o bric-á-brac 
desatou a foçar nas alcovas da Pom- 
padour, a pintura a glorificar Wat- 
taeu e Lacret e o romantismo a pôr 
em moda os idylios sentimentalicos 
e a litleratura assucarada do Trianon. 

Como depois dum regimen abba- 
cial, de comidas fortes e indigestas, o 
paladar embotado e o estômago lia- 
tulento, requerem dietas rigorosas de 
caldinhos de frango, copasios de leite 
e aguas mineraes, o gosto do publico 
desandou a adorar as meias tintas e 
as sombras apagadas da Arte mansa, 

em contraste e penitencia das indigestões de Arte brava,, que 
constitue o vienu de resistência e o prato do dia do theatro e do 
romance. Bernardin de Saint Pierre, sahindo da bibliotheca me- 
nineira das collegiaes do Sacré-Goeur p'ra se espalhar em milha- 
res de edições p'ra todas as edades, deixando quasi na penumbra» 
o espirito revolucionário e precursor de Beaumarchais, deu a ce- 
lebridade e a gloria a Marivaux, que já teria morrido, na subal- 
ternidade obscura dos clássicos quc ninguém lê, e que, commen- 




Bartet 
Caricatura de Leal da Camará 



Impressões de Theatro — Lejeu de 1'amour et de Vhasard 897. 



tado pelo Brunetière, discutido pelo Lemaitre, divinisado pelo 
L?rroumet, auctor em voga de backfische e clássico p'ra mada- 
mas, no D. Amélia, arrancou, hontem, applausos na interpretação 
modelar e excelsa da grande, inexcedivel e primorosa Bartet. 

O Jeii de ramour et de Vhasard^ marivaudagem typica de Ma- 
rivaux, na graciosidade infantil e na simplicidade ingénua da sua 
trama — um namorado que se apresenta em casa da noiva, mas- 
carado de escudeiro e uma namorada que o recebe, tendo-se dis- 
farçado em açafata e que se amam e se conquistam, nos seus dis- 
farces, depois de vários lances de arrufo^ e despeitos — é, como 
nenhum outro pedaço do reportório da Bartet, a pi ova conclu- 
dente e viva do que eu lhes 
disse do seu talento e da sua 
maneira: a menos cabotina 
e a mais franceza das cele- 
bridades parisiana>:, actriz de 
França e pVa francezes, que 
nós não podemos avaliar e 
comprehender em toda a 
grandiosidade do seu mérito, 
todo feito de pequenas nuan- 
ças de sentimento, insignifi- 
cantes detalhes de exterio- 
risação, imperceptíveis cam- 
biantes de physionomia, té- 
nues delicadesas de inflexão, 
que são requintes artisticos 
e subtilisações scenicas da 
grande alma da França. 

Eu não sei ha quantos 
annos nasceu a Bartet e creio 
que ninguém o sabe, porque as certidões d'edade femininas são 
enygmas indecifráveis, mysterios tenebrosos de mentira e dis- 
simulação, mas não é difficil avaliar a prodigiosidade de Arte, a 
sublimidade de talento que é preciso dispender, com trinta e dois 
annos d'officio, p'ra viver em scena a Sylvia de Marivaux, com 
a frescura, a mocidade, a alegria, a vivesa e a travessura com que 
a Bartet, no Jeu le 1'amour et de Vhasard^ dando-lhe uma inter- 
pretação orignal e toda sua — que fazia engulhos ao conservan- 
lismo de Sarcey — encantou e seduziu todos os que, no theatro 




Guerra Junqueiro 
Caricatura de Celso Herminio 



398 



Impressões de Theatro — Nuit d'octobre 



não bisbilhotando as toilettes do madamismo, vêem o que se passa 
no palco e percebem o que S2 diz em scena. 

Depois de Marivaux, Musset. Depois do Jeu de Vamour a Nuit 
d'octobre. 

Eu sou fraco entendedor de versos : em portuguez, de Jun- 
queiro p'ra baixo, não ha poeta que se lamba com a minha admira- 
ção e com a minha leitura e, como de Junqueiro p'ra cima, ainda 
está p'ra nascer — e tarde ou nunca nascerá — quem faça versos, eu 
leio Junqueiro em portuguez, e, em francez, só leio o Baudelaire e 
o Musset — porque é feio confessar que ainda se lê o Hugo. 

Leio o Musset, romântico, amorudo, irregular e phantasticoy 
todo elle imaginação e passionalismos, deixando cantar doloro- 
samente, em choros trágicos e gritos lancinantes, o seu grande e 

infinito coração. Musset 
cantava os seus amores si- 
nistros, com tal cunho de 
verdade, uma tal intensi- 
dade emotiva, uma tão- 
profunda e eloquente pai- 
xão, que — sendo o mais^ 
pessoal — é o mais univer- 
sal e humano dos poetas,, 
porque, cantando nas iVwíísr 
e no Souvenir, as suas do- 
res, as suas torturas, as- 
suas angustias e os seus- 
amores, Musset cantou a 
epopêa do Soffrimento e 
do Amor da Humanidade,, 
como ella podia e devia 
ser cantada, ha sessenta 
annos, por um poeta de gé- 
nio e como, d'aqui a mii 
annos, ella ha de ser can- 
tada, ainda, pelos mesmos 
versos de oiro e de fogo, 
de sangue e de luz. 
Eu leio Musset, mas s6 
Alfredo Musset O comprehendi, SÓ O amei,. 

Por elle mesmo como elle deve ser amado 




Impressões de Theatro — Nuit d'octobre 399 

e comprehenuido, ouvindo recitar a Batet os versos maravilhosos 
da Nuit d'octobre. 

Sentimento, emoção, a alma ardente do Poeta, a vibratilidade 
dos seus nervos, a grandeza do seu cérebro, toda a plasticidade 
divina da sua forma, toda a pujança colossal da sua Arte, tudo 
resalta e se corporisa na voz e no gesto, na mascara e no rythmo 
dessa vaporosa e quasi immaterial silhueta de mulher, que a gente 
vê e julga sonhar no corpo esguio e hierático deBartet — a Divina, 

A Divina, que duvida ? 

Chamam-lhe assim na sua terra e, ouvindo-a na iVuiV ífocío^re, 
não ha quem lhe negue a divindade. 

Mas, então, o confronto com a Virgínia ? 

Cada vez mais exacto, mais perfeito, mais absoluto. . . Virgí- 
nia é a Bartet portugueza. . . o que eu não sei é onde estão oS' 
versos portuguezes da Nuit d'octobre e dou alviçaras a quem to- 
pe, á porta do Suisso ou nas mesas do Martinho, o Musset lusi- 
tano que os ha de escrever. . . 



No conjuncto, a companhia é do menos peor que por cá tem 
vindo e, entre os jámevistes que cercam Bartet, já no Autre dan- 
ger e no Jeu de lamour^ mademoiselle Lely se destacou e se 
impoz, como artista muito acceitavel e senhora de si e dos seus 
papeis. Mestre Duflos, que não trouxe as sobrecasacas á Mus- 
set que o popularisam em Paris, recitou, gebamente e de ra- 
bona, os versos da Nuit d'octobre. Sem figura, sem alma, com uma 
voz áspera e melodramando, em demasia, o tome a gesticulação, 
Duflos, como bom forro do Le Bargy, zabumbou o mais que 
poude, mas, sempre tão funéreo e sombrio, que, se elle soubesse 
por.tuguez e recitasse ao piano, havia de ser um barra no Noivada 
do sepulchro. 

Ainda assim, melhor que o Bargy, que, em comm/5 d'alfayate ^ 
a recitar, da outra vez, Musset, tão bem vestido e engravatado, pa- 
recia dei itar-nos, com convicção e amor da arte, uma formula 
franceza dos reclames nacionalissimos aos Gabões d' Aveiro e ao 
Será possível^ úm fato de cheviote por 4^5oo f 



xcv 



2 MAIO 



L.a lUI UO I IIUMIIMO, Hervi eu. Monólogos por 
Duflos, Bartet, Burguet etc. Theatro D. flmeha. 3.' recita. Tour- 
née Bartet-Duflos. 



Na sua linguagem pittoresca e rude, o nosso povo, pVa expri- 
mir a boa estrella que, através da vida, guia um homem á fortuna 
e á felicidade, livrando-o de escorregadelas e dissabores, fracas- 
sos e tropeções, florindo-lhe de rosas o caminho e doirando-lhe 
de notas do Banco a existência, tem esta phrase — chorou na bar- 
riga da mãe. 

Paul Hervieu, o auctor da Loi de ['homme, representada hon- 
tem e do Dedale que se representará hoje, é, como homem de 
lettras e homem de theatro, como dramaturgo e romancista, um 
dos raros, que, na moderna intellectualidade franceza, choraram 
na barriga da mãe. 

A sua reputação tem subido, rápida e progressiva, sem empe- 
nos e sem barrancos, a sua individualidade tem- se affirmado, em 
avanços constantes de peça á peça, sem protesto e sem reclama- 
ções, a sua maneira tem-se in, posto, a sua celebridade crescido, 
sem invejas e sem inimizades, e, se, analysando-se a frio a sua 
obra, no seu conjuncto e na sua successão chronologica, o ta- 
lento forte do debutante das Paroles restent não é sensivelmente 
menor, do que o do auctor do Dedale^ se a sua technica não é 
mais aperfeiçoada na Course du flambeaii, do que o tinha sido 
nas Tenailles^ e, se, a sua lógica não é menos accerada na Loi de 
^homme do que no Enygma, é porque, tendo chorado na bar- 



Impressões de Theatro — Paul Hervieu 



401 



I 



riga da mãe, Paul Hervieu, quando entrou no theatro, era já um 
dramaturgo, original e inconfundivel, senhor da sua arte e do seu 
temperamento, que já não poderia ir mais aho nem mais longe, mas, 
não perdendo terreno, teria necessariamente de se impor pelas 
suas qualidades na admiração sempre cres- 
cente do seu publico e dos seus confrades. 
Paul Hervieu é de aço : frio, forte, con- 
tundente. Não sente e não nos faz sentir ; 
prende-se e prende-nos na sua lógica ; pen- 
sa e faz-nos pensar. Os seus personagens 
não vivem por si, nem pVa nós, vivem pelo 
que tem de dizer e p'r'á these que Hervieu 
pretende demonstrar — não são gente, são 
argumentos. No theatro de Henieu não ha 
ner\os, ha músculos; não ha almas, ha for- 
ças ; uma peça de Hervieu não é uma pa- 
gina de arte, é um machinismo de re- 
lojoaria. Numa pagina de arte, as pa- 
lavras vestem pensamentos ; na obra 
de Hervieu, substituem êmbolos. 
Posta em movimento — como asmachinas 
dos grandes constructores, sempre simples 
e fortes— a these que Hervieu agarra a in- 
telligencia do espectador, pelas pontas e de 
frente, com a audácia desenxovalhada de 
quem confia nos seus pulsos, e não ha mola 
que emperre, válvula que não funccione, 
tambor que não marche, chumaceira que 
caldeie ou transmissor que se bambe :— o nosso cérebro está preso, 
manietado, vencido e ha de ouvir, ha de pensar, ha de reflectir, 
€, queira ou não queVa, a bem ou a mal, a marteladas de lógica, 
ha de tirar as conclusões que Hervieu, sereno, frio, impassivel e 
correcto, tenta e consegue impor como um preceito de moral, um 
absurdo da lei, uma pagina de historia, (Theroigne) ou uma afiSr- 
mação da verdade. 

Não ha emoção, ha raciocínios. PVa assistir a uma peça de 
Hervieu não é indipensavel levar, sob a gardénia das casacas, um 
coração que pulse, mas, é sempre da maior conveniência pedir em- 
prestado um cérebro, que, sob as molas da claque, se)a capaz de 
reflectir, de comprehender e de assimilar. 

26 




Paul Hervieu 
Caricatura de Capiello 



•á02 



Impressões de Theatro — La loi de Uhotntne 



Tendo, dês das Paroles restent^ a ambição interessante e de- 
finida de traduzir, sob uma forma dramática, as cambiantes de 
sentimento e de intelligencia, que pareciam indissolúveis do ro- 
mance da analyse, amoldando-as aos meios de expressão próprios 
de theatro e alargando, assim, o âmbito e os horizontes da scena, 
fazendo-a, mesa anatómica onde se autopsiam e dissecam pro- 
blemas e caracteres, Paul Hervieu, se 
não creou um processo novo, é incon- 
testavelmente, ao lado de Henry Bec- 
que, um dos mais acutos e subtis 
aperfeiçoadores da dramatistica fran- 
ceza. 

Senão veja-se : a roda mestra, a 
força geradora da Loi de l'homme é, 
como em todas as peças francezas, o 
adultério e as suas linhas geraes são 
as de todos os successos do Boule- 
vard, com cornaduras e maridos que 
se aguentam. Mas, p'ra frisar bem o 
cunho pessoal de Hervieu, os cara- 
cteres differenciativos que o distin- 
guem dos adultero-dramigeros seus 
collegas na Academia e na Sociedade 
dos Auctores, cae, como a sopa no 
mel, o Autre danger do Donnay, com 
que as senhoras se deliciaram, ha 
duas noites, e com que, lá dizia o ou- 
tro : lindos olhos se humedeceram^ aris- 
tocráticas mãos seguravam lenços de 
renda que escondiam uma ou outra lagrima : e nas nuvens do per- 
fume que pairavam nessa atmosphera de luxo — quem sabe se 
algum espirito sonhador viu nesse Autre danger passar um ou 
mais quadros da própria existência, . . ? 

Na Loi de l'homme, como no Autre danger, ha um adultério e 
ha a filha d'um dos adúlteros a casar. Donnay passa o amante da 
alcova da mãe p'rá cama da filha. Hervieu deita o filho da adul- 
tera com a filha do adultero. Na peça de Donnay todas as mulhe- 
res são marafonas e não ha homem que não liquide em parvo ou 
em mariolão, e a não ser o brilho do dialogo, não ha uma idéa, 
não ha coisa nenhuma. Na peça de Hervieu, havendo de tudo, ha 




Bartet 

Caricatura de Capiello 



Impressões de Theatro — La loi de 1'homme 4o3 

sobretudo, por entre gente de bem e gente de pouco mais ou 
menos, uma grande idéa a morder-nos o cérebro, a ferir-nos a ra- 
zão, justificar a obra, a faze-la theatro. 

A faze la theatro, — que duvida? — porque, por mais que lhes 
pese, o theatro não pôde liquidar, como no Autre danger, num 
saboroso aperitivo p'ra poucas vergonhas sensuaes, num estimu- 
lante artístico de patuscadas lúbricas, em simples Elixir Godi- 
neau de virilidades derrancadas e, não podendo retrogradar ao 
marivaudismo gracioso e fútil do Jeu de Vamour^ ingénuo prazer 
dos olhos e dos ouvidos em que o cérebro não é chamado a col- 
laborar e o espirito se evola, em nuvens algodoadas de sonho, ás 
regiões phantasistas da vida rebuçado d'ovos e do amor nougat 
e pão de ló — tem de ser, como na Loi de homme^ um pedaço 
d' Arte a illuminar, ou um trecho da Vida, ou um problema de Ver- 
dade : a alma duma creatura ou os destemperos dum código. 

Porque são os destemperos do código — feito pelos homens 
e destinado ao uso das mulheres — são essas iniquidades que pe- 
sam sobre a fragilidade legal das fêmeas pelo egoismo despótico 
dos machos, que Hervieu, servindo-se do thema velho do adulté- 
rio, modernisa e põe em foco nesses três actos, cujo interesse 
e acção, movimento e personagens, vão crescendo de scena 
pr'a scena, numa progressão geométrica, serena, reflectida, pon- 
derada e mathematica, que, sendo o seu segredo e o seu truc^ são 
a mais brilhante prova da superioridade dramatista de Paul Her- 
vieu — o mestre da lógica e das sciencias exactas applicadas ao 
theatro. 

A condessa Laura de Raguais descobre que o marido a engana 
com uma mulher casada, madame d'Orcieu. P'ra ter as provas le- 
gaes do adultério, arromba a secretaria do marido. Não topa com 
coisa de geito e como o nobre conde se julgue roubado pela cria- 
dagem e chame a policia, é o sr. commissario que, á esposa enga- 
nada, dá a receita legal p'ra um divorcio por adultério quando o 
adultero é o macho. Coisa inexequível e intrincada como o diabo. 
Vem o marido que nega primeiro e depois confessa brutalmente, 
pão pão, queijo queijo, e, como a fortuna é da mulher, e, pelos 
modos, o cavalheiro é da confraria de São Rufianismo do Matri- 
monio, elle mesmo propõe o divorcio amigável, ficando senhor 
dos cobres. E' a lei dos homens. 

D'ahi a cinco annos, em casa duns parentes, onde a condessa 
está de visita, chega em companhia do pae — com quem passa 



404 Impressões de Theatro — La loi de 1'homme 



um mez cada anno — e do casal dos Orcieu, que continuam, como 
ha cinco annos, a ser com Raguais o lendário menage à trois — 
a filha dos divorciados, Isabel, moça de 17 annos, que, a sós com 
a mãe, lhe confessa ter deitado paixão por um tropasinho gentil. 
Quem é ellef — K' o filho dos Orcieu — Mas é monstruoso ; é im- 
possível. Quando a cachopa vae a preguntar a razão do espanto 
materno, um criado annuncia que Raguais está lá fora á espera 
da filha. Que entre Explicações rápidas. Elle julga magnifico o ca- 
samento. Ella oppÕe-se. Nunca consentirei que minha filha case 
com o filho da amante do pae. Nunca I Não importa. A lei dispensa 
o consentimento da mãe. O pae consente e isso basta á lei. Lei 
dos homens, lei dos homens. . . 

Com todos os melindres, mas com toda a clareza, a condessa 
conta á filha as torpezas do pae. A pequena promette cortar o 
nó, mandando passear o alferes, mas, como elle lhe jura que vae 
a dar cabo do canastro e aos dezesete annos se acredita ainda nos 
fogareiros e nos phosphoros dos amores mal correspondidos, a 
mocinha não corta o nó e aperta-o mais, passando-se, com armas 
e bagagens, p'r'ó partido do pae Nisto, intervenção dos pães do 
moço, que vêem a pedir a mão da rapariga. Homem simples e pre- 
destinado de nascença, o Orcieu não comprehende a repugnância 
da condessa e tanto insiste, tanto a aperta, tanto exige, que, doida, 
perdida, não vendo maneira de evitar semelhante abominação, lan- 
ça -lhe a causa: Mas o senhor não vê que não posso dar á minha filha., 
como sogra, como segunda mãe, a mulher que me roubou o marido?. . . 

Homem de bem e de coragem, contendo a cólera e soffocando 
a deshonra, Orcieu, mede a situação. Ha só um remédio : casar 
os namorados. Em duello, já matou, em novo, um homem ; não 
ha de matar, em velho, outro, Ser boi, é uma fatalidade, mas ser 
açougueiro de christãos, é um crime. De resto, como marido, con- 
vem-lhe a boa reputação da mulher e, como pae, aspira á felicidade 
do filho. Qámam-sef Casem. Elle irá com a sôstra p'ra um canto 
á espera da morte e do esquecimento : a condessa que se aguente 
com o pulhastro do marido. São quatro existências velhas e com 
caruncho, desfeitas, arrazadas, mortas, pr'a dar uma certa e pro- 
blemática ventura a duas existências novas, que se abrem, a florir 
p'r'ó futuro e p'r'á vida • . . 

São as consequências da lei. . . Lei dos homens. . . lei dos ho- 
mens . . 

No desempenho, Bartet. na condessa de Raguais, mordida pela 



Impressões de Theatro — La loi de 1'homme 4o5 

tarântula do ciúme, felina e implacável, com irritações e nervosis- 
mos de mulher abandonada e trahída, prestes a perdoar, quando o 
marido lhe relembra o passado, as primeiras caricias e os primei- 
ros beijos e inexorável, resoluta e firme, quando a mentira, num 
abysmo de repulsa, pr'a sempre os affasta e irremediavelmente os 
separa, em todo esse i." acto da Loi delhomme^ Bartet foi incom- 
parável de naturalidade, de vida e de perfeição artística. 

No 2.° acto, na expansão da maternidade, /fuebrada a sua vida 
de esposa, aniquilada a sua existência de mulher, vivendo p'rá fi- 
lha, na alegria de a reencontrar numa casa amiga, após um mez 
de ausência, no carinho do primeiro abraço, nas inquietações de 
uma afFeição que ella advinha e no espanto primeiro, no terror 
e no nojo, depois, ao suppôr uma nova infâmia do marido, no 
amor da filha pelo filho da sua comborça, Bartet foi magistralis- 
sima de sentimento, de ternura e de exteriorisação scenica. 

Mas, onde ella foi divina, absolutamente divina, sem perigo de 
heresiarcas que possam contestar-lhe a divindade, fof nesse 3." 
acto, assombroso de lógica e de emoção, em que a mulher reappa- 
rece, em face do marido que odeia e da rival que lh'o roubou e 
que ella despreza. A revelação á filha de todo o seu passado, o 
desespero allucinado com que ella atira ao marido da rivjl a ver- 
dade que o deshonra e a angustia resignada e passiva com que 
ella se curva á solução, elegante e legal, que o pobre diabo impõe 
a todos, é, como trabalho scenico, das mais completas e conclu- 
dentes demonstrações da divindade que, até hoje, tinham escapado 
á metaphysica dos theologos — a divindade é aquillo, ergo o Di- 
vino existe. 

Duflos, num papel frio e antipathico, sem sentimentalidade e 
sem brilho, estava como o peixe n'agua e passeava dentro delle 
como por sua casa. Absolutamente correcto, absolutamente se- 
reno e absolutamente limpo no seu trabalho, revelando aos olhos 
de todos o que eu já delle sabia : que, apezar de frio, gebo, sem 
cara e sem figura, Duflos vale. . . um Duflos, o que, fora das al- 
fayaterias, equivale, ao cambio do dia, a ti es Bargyses e meio. 

A fechar o espectáculo monólogos por Duflos, Burguet — que 
fora já duma apreciável sobriedade no papel de Orcieu — por Bo- 
narel e uma fabula de La Fontaine e versos de Musset e de Hugo, 
ditos pela Bartet. 

Versos de Hugo e Musset ditos pela Bartet. . . 



XCVI 



3 MAIO 



L P n^rirí IP ^^*^^ ^"^ ^ ^'^^^^ ^^ ^^^^ Hervieu. Theairo 
Uw> L^QUaiO, jj Rmeila. 4-" recita da Tournée Bartet- 

DUFLOS. 

Com todas as restrições que eu já fiz a propósito do Berceau 
de Brieux, sobre a inopportunidade dos ataques theatraes ao di- 
vorcio numa terra onde a lei de 
Naquet, com limagens e aperfeiçoa- 
mentos, é uma das reformas que os 
nossos costumes reclamam e as 
nossas necessidades impõem, p'ra 
evitar, com remendos e emolientes, 
os lanhos e brechas, que, na organi- 
sação da familia, abre, a cada mo- 
mento, de dia e de noite — e ainda 
mais de noite que de dia — a indis- 
solubilidade do matrimonio, — o Dè- 
dale^ hontem representado pela Bar- 
tet, no D. Amélia, é, com a Course 
du Jlambeau^ também de Hervieu, 
dos melhores e mais sólidos blocos 
de bom e austero theatro a desta- 
car da dessorada dramaturgia con- 
temporânea do Boulevard e thea- 
trelhos adjacentes. 

A these do Dèdale é a mesma do 
Berceau^ quasi a mesma a sua acção 
e os mesmos os 'seus personagens: 




Bartet 
Caricatura de Losques 



Impressões de Theatro — Le Dèdale 407 

comtudo, a peça de Brieux é mera industria e pouquíssimo falta 
á de Hervieu p'ra ser uma obra prima d'arte. E' verdade que do 
Hervieu ao Brieux — apesar de toda a observação da Blanchette 
€ de toda a carpin teria do Enygma — ha a distancia que separa 
um homem de lettras, dum homem de negócios, um paciente bu- 
rilador da forma, dum attribiliario agitador de ideias, e que, tendo 
precedido o Berceau^ uns poucos de annos, o Dèdale^ Hervieu 
teve, no barro informe de Brieux, lazer e occasião de corrigir 
os contornos, desbravar as arestas, harmonisar as linhas, carre- 
gar os traços e procurar as sombras, que fazem do Dèdale uma 
variante perfeita, humana e logicamente trágica do becco sem 
sahida de que os senhores — que não conhecem o texto — fazem 
uma vaga e approximada ideia pela apilaradissima traducção em 
cafre com que, em D. Maria, o sr. Pertingal da Silva estropeou 
os Filhos alheios. 

Das qualidades mestras, pessoaes e privativas de Hervieu, já 
lhes disse hontem. Escriptor conciso e dramaturgo lógico, estyli- 
sando o dialogo, em cadencias rithmicas e modelares, perdidas 
em França dês a Bovary e da Vida de Jesus, e, desenvolvendo em 
rectas a sua these, com o classicismo esculptural, passado de 
moda com os heroes de Racine e de Corneille, Hervieu trouxe ás 
taboas da casa de Molière, com o Dèdale, a formula inédita da 
tragedia contemporânea, brutal e sanguinolenta, como o theatro 
dos gregos, brilhante e sonora, como o theatro dos Dumas, viva 
€ documentada, coroo o theatro de Becque. 

Formula ainda perfectivel e talvez embryonaria, mas que, in- 
contestavelmente, marca um passo e uma phase na evolução ar- 
tística do theatro, Le Dèdale, tendo todos os característicos da 
obra de Hervieu — a concisão, a lógica, a tensão dramática cres- 
cente e a analyse fria dos caracteres — se não é uma obra prima^ 
■é, comtudo, um consolador e confortante protesto contra o sen- 
sualismo anómalo e a insignificância dissolvente da satyrise eró- 
tica, que sopra e resumbra de toda a corrente moderna dos suc- 
cessos do Dumas, do Augier e dos mestres do neo-romantismo 
francez. 

Acção simples, levada, com uma argumentação de ferro, té 
aos Umites extremos da lógica, na peça de Brieux o ultimo acto 
é um becco sem sahida e na obra de Hervieu, o ultimo acto é um 
talho de carne humana : — no Berço, os dois maridos da mesma 
mulher ficam-se na vida, mortos e aniquilados, como dois cada- 



4o8 Impressões de Theatro — Le Dèdale 

veres, a olharem-se como parvos e a soffrerem como monos, — 
o que poderá ser delicado e de boas maneiras, mas nem é humano^ 
nem é lógico. No Dedale^ os dois maridos rolam num abysmo, de- 
sesperados da existência, loucos de ciúme e de cólera, arrastam- 
se a uma torrente, morrem de verdade^ como no toureio á hespa- 
nhola, enganchados nas próprias hastes, como os gamos que, nos 
bosques, morrem unidos, na lucta feroz pela mesma fêmea, sahin- 
do, assim, pela morte, da situação a que vivos, não topariam sa 
hida, — o que pôde ser selvagem e brutal, mas está a dentro da 
lógica, da Humanidade e da Natureza. 

Como no Berço, ainda, sob o ataque crú ao divorcio, quando no 
casal ha filhos, no T>edale resalta, bello e eloquente, um cântico 
doloroso de verdade e de sentimento, ao primeiro amor, á pri- 
meira posse, ao cunho do macho, que — sendo um phenomeno 
physiologico tão profundo, que a Sciencia já admitte o facto de 
volvidos annos, sobre a morte do primeiro marido, poderem os fi- 
lhos de um segundo matrimonio reproduzir os traços atávicos do 
morto, que ás vezes, nem chegou a fecundara mãe — rasga na al- 
ma da mulher o mais mysterioso e indelével sulco e, atravez de 
desillusões e desgostos, mfamias e sacrificios, lhe corta as carnes 
em haustos de prazer ou de saudade, em frémitos de desejo ou de 
recordação. 

Simplesmente, no Berço^ esse cântico adivinha-se, presente-se, 
nos traços bruscos, fugitivos e apagados, do movimento impulsi- 
vo, que, ao saber o filho salvo, atira com Lourença p'r'ós braços 
de Chantrel ; no ^Dédale^ esse poema açambarca um acto — o 3." — 
e espiritualisa, em suavidades de ternura e eflúvios de sentimento, 
os personagens de Marianna e de Max de Pougis, fazendo-os vi- 
brar e soffrer, nas angustias fortes dum amor que a lei torna cri- 
minoso e a Natureza abençoa e santifica, que os códigos condem- 
nam e a Humanidade tem de glorifiar e bemdizer, porque é o amor 
que fecunda, o amor que cria, o amor santíssimo e augusto, fonte 
de vida e de esperanças, base indestructivel do presente, alicerce 
inabalável do futuro — o amor vigoroso, que nos gerou, o amor 
que divinisa a mulher fazendo-a mãe, o amor que nos nobilita, 
dando ao homem uma razão de ser á vida, e um fim de lucta á 
existência. 

No 'Berço^ os pães de Lourenço, apenas esboçados e perceptí- 
veis, perdem-se na acção, diluem-se e apagam-se em scena : são 
dois verbos de encher, dois tapa-buracos, que, mudos e caricatos. 



Impressões DE Thetro — Le Dèdale 409 

preparam sabidas e facilitam a exposição e que, sem perigo de 
maior, poderiam ser cortados e suprimidos nos ensaios, antes do 
panno subir e dos cartazes nos dizerem, que Lourença tinha vi- 
vos o papá e a mamã. No H^édale^ não havendo personagens inú- 
teis — como num machinismo em movimento não ha rodizios a 
mais, nem cavilhas a menos e todos e tudo teem a sua funcção — 
os pães de Marianna são dois componentes valiosos, dois pilares 
sólidos, que sustentam a lógica dos caracteres e o desenrolar do 
drama, dois typos definidos e claros, cuidados e verdadeiros, sem 
os quaes a peça perderia o equilibrio, os personagens a clareza, 
a these a sua violência e o desenvolver do drama toda a sua in- 
tensidade, porque o pae de Lourença é a encarnação da lei laica, 
rigida, inflexivel e cega, e a mãe é o poder occulto, o anjo mau do 
preconceito, que tudo anrodilha e complica na sua teia de estu- 
pidez e formalismo, de moralidade e religião. 



Peça sã, equilibrada, serena, deslisando, ligeira e forte, a um fim 
de trágica emoção e crua humanidade, Le Délade, criado em Pa- 
ris pela Bartet, valeu á grande e prodigiosa artista o seu mais 
recente e mais ruidoso, mais justo e enthusiastico successo : todos 
á uma, gregos e troyanos, de CatuUe o fogoso^a Faguet o tempe- 
rado, todos, afinando no mesmo diapasão de elogio, disseram tão 
lindas e verdadeiras coisas, pondo- a tão alto e tão dominadora 
no throno luzente da mais radiosa Arte, que eu não diria mais 
nem melhor e, como não me quero ficar em somenos nem em imi- 
tações, curvando-me, descoberto e reverente, ante a immensi- 
dade da excelsa princeza da Scena — rainha e soberana dos nos- 
sos corações — callo o bico e remetto-me ao discreto silencio de 
quem consente e approva tudo o que, de maravilhoso e incompa- 
rável, as torneiras da rethorica nacional possam despejar-lhe em 
catadupas de hyperbolismos e amabilidades, elogios e gentile- 
zas. 

De Duflos, não lhe consentindo o physico de fraca figura o te- 
noriosar, em D. João arte nova, o papel de Max Pougis, como, em 
França, Bargy o creou, fiado nas thesouras do seu alfayate e na 
phantasia do seu gravateiro, fraquejando na parte sentimentalica 
do personagem, mas dando todo o destaque ás linhós cruas do 
caracter, foi sempre correcto e limpo no seu trabalho, embora 



410 Impressões de Theatro — La Dèdale 

nelle deixasse transparecer, de vez em quando, o seu filé pelo 
dramalhão. 

Burguet e o resto do conjuncto mantiveram-se, uns melhor do 
que outros, nos ponderados e constitucionaes limites que a Carta 
impõe a artistas discretos, despretenciosos e de relativo mereci- 
mento. 

Não são positivamente estrellos, mas estão a muitos kilome- 
tros dos jámevistes dos coquelinos. 

Noite cheia. Cheissima, porque p'ra encher uma noite bonda 
e sobra a Bartet, e o Dedale, se, por si, não trasborda das medi- 
das, é, ainda assim, peça p'ra ser vista e ouvida mesmo sem a 
Bartet. 

O que não quer dizer que a sr." Palmyra Bastos tenha dentes 
p'ra nol-a mostrar e, menos ainda, que o sr. Pertingal a possa tra- 
duzir chamando-lhe á letra O dedal ou, modificando-lhe o titulo, 
pelo mesmo processo com que dum Berço onde um filho de seus 
pães agonisava, elle fez sahir Os filhos alheios^ o chrisme em 
Cesto de costura^ pVa não lhe chamar A dedeira, o que, sabido 
haver na peça uma mulher que, tendo dois maridos, fica sem 
macheador — poderia offender a pudicícia de Pimentel, a imaginar 
polluações digitaes na Marianna do Hervieu. 



XCVII 



4 MAIO 

comedia em 5 actos de 
Alexandre Dumas (filho)- 
LA NUIT D'OeTOBRE. de Musset— resta de Duflos. Theatro 
D. RmeUO' /.* recita extraordinária, da Tournée Bartet-Duflos. 



L'ami des femmes, 



Respirou-se mais desafogadamente hontem no D. Amélia. 

Hervieu chocara, na véspera, com as arestas cortantes da sua 
lógica; costumado, como se está, a ver no palco chilrear o ma- 
rafonismo das pecoras, o estudo profundo e vivo do caractere do 
temperamento duma mulher honesta, chegou a parecer desaforo. 
<Zomprehende-se lá que se possa fazer girar uma peça sobre a 
delicada repugnância que sacode as carnes e arripia os pudores 
duma esposa ao ter de se deitar com dois maridos? 

Se, ao menos, os engulhos fossem de dormir com o marido 
p'ra jaão susceptibilisar os contactos dum amante, vá. Seria de- 
cente e tem-se visto. La Torrent*— tão linda! — do Donnay, não 
é outra coisa. Mas ter dois homens, ser mulher de ambos e não 
ir p'r'ó quarto com nenhum, por ter recahido nos braços do fe- 
cundador da sua carne, do pae do seu filho . . pôde lá ser?. . . E 
«ra uma immoralidade, o Dedale^ uma pouca vergonha, quasi 
uma torpeza : que, em scena, um bonifrate se arreite pela mulher 
■do próximo, que a seduza e vá ás do cabo — que diabo ! — é o amor, 
•é a paixão, é a vida, o Carnet mondain em acção e o miolo de 
todas as peças em movimento. Mas, que se encha todo um 
acto — como esse maravilhoso 3." acto do Dedale — com a paixão 
do marido pela carne quente de sua mulher, que seja um marido 
que assim reivindique os seus direitos á posse dum corpo, que, 



412 



Impressões de Theatro — L'ami des femmes 




Alexandre Dumas (fils) 
Caricatura de Eiig. Giraud 



já dos livros Sagrados, é carne da sua car- 
ne e osso do seu osso, chega a ser intole- 
rável e absurdo, indecente e abjecto. Fechar 
um acto com a queda em cima dum divan 
de Paraizo, ou dum gabinete reservado, com 
sedas amarfanhadas e rendas que se esgar- 
çam, é theatro e chega a ser encantador; 
mas, fazer cahir o panno, sobre um thalamo 
conjugal, sobre dois esposos que se recon- 
ciliam, se amam e se fecundam, é uma sel- 
vageria crua e pornographica, tão immoral 
e debochada, tão fora dos hábitos, da vida 
e do theatro, que as damas e pucellas, que 
se lamberam, em portuguez, com o Serão^ 
foram a confessar-se, aos Inglezinhos e a 
S. Luiz de França, por terem visto no Dedale 
uma coisa horrenda, porca e contra natura. 

Além d'isso, chamar Dedale a uma peça 
em que não entram costureiras, só lembra- 
ria ao Harvieu e, numa dessas, não cairia o mestre Dumas, o claro, 
risonho e brilhante auctor do Qámi des femmes, com que Duflos 
fez a sua festa e com que o publico entrou, de novo, no theatro, 
corrente e amável, sem dédalos e labyrintos de lógica, violências 
de technica e escabrosidades de situação . . . 

Aquillo é que é theatro. . . e o mais são historias. . 

De facto, L'ami des femes, comedia a um tempo de observa- 
ção e de artificio, uma das obras primas da comedia de género,, 
que é um mixto da comedia de costumes e da comedia da intriga, 
ainda é theatro, e, tendo sido theatro, não se pode vaticinar se o 
será por muito tempo, porque, marcando pela scintillação inex- 
cedivel do dialogo, a phase mais resistente de Dumas filho, já ao 
fim da sua carreira litteraria, Dumas tinha evoluído p'ra um thea- 
tro diverso e, de Dumas p'ra cá, a evolução do movimento dra- 
mático, de que elle foi o gerador, tem-se affirmado e progredido, 
em tentemens, inseguros mas audaciosos, de que o theatro rosse 
foi um tropeção, mas de que Henry Becque é, pela originalide, e 
pelo talento, a semente germinadora e fecundante de que ha a 
esperar fartas e virentes colheitas, opimos e deliciosos fructos. 

L'ami des femmes é, com HDama das Camélias e o T)etni 
oMonde^ uma peça de reportório, peça que define uma época e 



Impressões ue Theatro — L'ami des femmes 



4i3 



caracterisa uma tendência do grande comraediographo que foi 
Alexandre Dumas e, quando da sua obra tiverem desapparecido, 
comidas pelo pó e pelas traças do esquecimento, as ^agdads, as 
Estrangeiras^ as Francillons e as Mulheres de Cláudio^ que pro- 
visoriamente o immortaiisarara, o oAmigo das mulheres^ que cahiu^ 
ao nascer, em i864, ha de ser, ainda, um pittoresco e delicioso es- 
pectáculo, p'r'ós amadores do bric-à-brac scenico, um modelo re- 
trospectivo da maleabilidade e f escura do dialogo, esfusiante de 
espirito, de imprevisto e de paradoxos. . . 

Na maioria das suas peças, 
todas brilhantes como dialogo 
e todas, como technica, perfei- 
tas, A. Dumas filho, incontes- 
tado e incontestável mestre da 
moderna dramaturgia latina, 
vive, não da consistência da 
intriga ou da realidade dos ca- 
racteres, mas do verniz, do 
polimento rhetorico e sonoro, 
com que esmaltava, ao espelho, 
a sua personalidade e o seu 
temperamento, lances da sua 
vida e problemas do seu cére- 
bro. Ninguém, como elle, tem 
sido, até hoje, mais pessoal e 
mais ensimesmado na sua obra 
— os seus personagens são des- 
dobramentos da sua individua- 
lidade e porta-vozes dos seus pensamentos : — se se differenciam 
uns dos outros, se se contradizem e se chocam, se uns vestem 
saias e outros calças, se uns encarnam o bom senso e outros per- 
sonificam o absurdo, é porque nunca ventre de mulher pariu 
temperamento mais complexo e intrincado, mais extravagante e 
contrario, que o desse filho de creolo, burguez e bohemio, másculo 
e feminil, methodico e fogoso, limpido^ estapafúrdio, incongruente 
e lógico, mas sempre esfusiante, sempre paradoxal, sempre homem 
do seu tempo e da sua arte, conhecendo as predileções do seu 
publico e os segredo do seu theatro. 

O Qámígo das mulheres^ com uma intriga vaudevillesca, que 
não resistiria a dois sobros de analyse, é, nas linhas frágeis do 




DUFLOS 

Caricatura de Leal da Gamara 



414 Impressões de Theatro — L'ami des femmes 

seu urdimento e nos traços inseguros dos seus personagens, no 
convencionalismo do seu dialogo e napostiço dos seus caracte- 
res, um jogo malabar de phrases e ditos que nos encantam e nos 
seduzem, mas que não nos fazem pensar nem sentir, que não nos 
commovem nem nos convencem, que nos interessam pelo pittoresco 
e nos deixam frios pelo vasio. 

Theatro p'ra auxiliar as digestões de um jantar delicado, de 
comidas leves e finas, pretexto p'ra catrapiscar os decotes das 
frisas, paradoxar nos entre-actos e admirar em scena, com os- 
gestos rythmicos das comediantes — que, no theatro de Dumas, teen> 
de ser boas fêmeas e vestir de boas modistas — o esforço de arte 
que deve custar a artistas, que vivem e sentem, o prender-nos 
com a prosa que escorre de personagens, que nem sentem nem 
vivem. 

E exactamente porque o De Ryons do Amigo das mulheresr 
não sente, não vive, não vibra, nem pulsa e só falia, falia muito,, 
falia sempre e falia bem, Duflos, que é um bellissimo e correctis- 
simo diseur^ enfronhado em todas as nuanças da declamação e 
batido em todos os papyros da arte franceza, do Conservatório e 
da Comedie, foi um De Ryons magnifico, primoroso e correctis- 
simo, como raro se terá visto nos palcos francezes dês que o 
Worms — a correcção e a dicção personificadas — abandonou as 
taboas e deixou de illuminar o personagem de Dumas com o bri- 
lho e a scintillação do seu talento e da sua mestria. Duflos é um 
grande actor que, a ter-se apresentado ao publico de Lisboa, que 
o ignorava e desconhecia, no Ami des femmes, teria sido thurife- 
rado pelos incensos mais estonteantes do nosso meridionalismo' 
rhetorico, palavroso e arrebatado. Fazendo o Ami des femmesy 
na sua festa, mostrou-nos que sabe o que pode e o que vale, que 
se conhece e conhece os seus recursos e que, sendo feio, frio- 
desengraçado e mazombo, sem maleabilidade de gesto, —todo 
elle feito de um madeiro tosco — e sem delicadezas de voz, — cavo 
e unisono, áspero e monótono de gorgomilhos — é um artista 
que se vê com prazer, que se ouve com agrado e se applaude 
com justiça, em todos os papeis que não demandem recursos de 
sentimento e se limitem a exigir maravilhas de dicção. 

Bartet, na madame de Simerose, foi perfeita, foi inexcedivel ; 
não se representa melhor nem tão bem, não se allia no palco, em 
extasis de sonho, mais naturalidade de Vida e maior perfeição de 
Arte. E' um assombro que encanta, um prodigio que apaixona. 



Impressões de Theatro — L'ami des femmes 41 5 

mas que não arrebata nem enlouquece, porque, sendo um traba- 
lho de detalhes e minúcias, de delicadezas e rendilhados, de pe- 
quenos nadas e • indiziveis insignificâncias, quasi se perde e se 
esbate, fora da França e a olhos estrangeiros, nas linhas vagas e 
indefinidas dum mármore coberto pela neblina, que se advinha 
mais do que se vê, que se ama mais do que se comprehende. Ar- 
tista da França, artista da França . . . Que maior gloria pôde nim- 
bar os triumphos duma artista, que sente no peito um coração 
ternissimo de mulher franceza? 

O conjuncto certo e harmónico, brioso e decente, e, a fechar 
o espectáculo, a Nuit d'Octobre^ com Dauvilliers a dizer os versos 
do Poeta. 

Com melhor voz, melhor figura, Dauvilliers pelos dotes phy- 
sicos, agradou mais do que Duflos outro dia, mas, como arte, ape- 
sar das melodramatisações do Duflos, — que tem de substituir o 
sentimento pelo berro e a paixão pelo uivo — Duflos foi um mes- 
tre sem faculdades e Dauvilliers não passou dum discipulo com 
aptidões. 



xcviir 



Berenice, 

da Tournée Bartet. Festa e despedida de Bartet 



tragedia em 5 actos de Racine. Monólogos. 
Theairo D. Rmelia. 2." recita extraordinária 



Com uma erudição fácil e pezada, substanciosa e de algibeira, 
citando latinzes de Seutonio e logares communs do Larousse, eu 
podia armar em Brunetiére de via estreita e p'ra uso da Rua dos 
Algibebes, ganhar famas de sabedor e plantar a minha candida- 
tura a correspondente da Academia, dizendo-lhes, agora, em elo- 
gios de Racine mais da sua Berenice e em commentarios á trage- 
dia em geral, á sua evolução nas Gallias e nascença em terra de 
de gregos, coisas miríficas e pomposas, repolhudas e solemnes, 
que encheriam de espanto todos os parvos meus conterrâneos e 
me guindariam, de repellão, á immortalidade commoda dum poço 
de sabença e illustração. A'manhã andaria em bonecages de pos- 
taes e marcas de bolacha ; das regiões officiaes do Moderador 
cahir-me-hia na lapella uma nódoa de S. Thiago e, se por des- 
graça, esticasse p'rá semana, o próprio Pertingal — generoso e 
olvidadiço — havia de me manobrar o ingresso no Pantheon dos 
grandes homens e da Pátria reconhecida. 

Mas prefiro desistir, por emquanto, das vanglorias do mundo 
e da celebridade, das grandes consagrações e dos serviços can- 
galheiraes do nobre conde de Valenças, e, muito terra á terra e 
chãomente, bárbaro e ignorante, inculto e sincero, dir-lhes hei á 
puridade, que o Racine é um egrégio massador e a sua Berenice 
a mais reverendíssima estopada — em 5 actos e perto de dois mil 
alexandrinos — que do archivo, ubérrimo em mamarrachos, do 



Impressões de Theatro — Berenice 



4«7 



século XVÍ tem arrancado, p'ra dormideiras de maiores e themas 
escolares da infância, o respeito tradiccional, o ramerrão acadé- 
mico, o chauvinismo pelos antepassados e, sobretudo, o prurido 
muito latino — e muito tolo — de atirar á cara britannica do Shaks- 
peare com os pratos gaulezes duma faiança theatral solida e 
séria, magestosa e arrastada, de grandes coturnos trágicos, pa- 
lanfrorios ribombantes e serrabulhos de commoção. 

Não fora a Arte suprema, delicada e emotiva, da Bartet, o clas- 
sicismo esculptural do seu gesto e a har- 
monia estonteante da sua voz, a noite de 
hontem, no D. Amélia, teria sido uma noite 
sinistra de hecatombe e liquidação, de pa- 
vor e de limpeza, — menos militar e mais 
radical que a de Belgrado — porque, te- 
riam morrido, de somno e de tédio, de 
fastidio e aborrecimento, todos os que lá 
estavam a applaudir, por honra da firma e 
p'ra se darem ares que bebem do fino e 
de que, em coisas d'arte, também são gente. 

O valor extraordinário, colossal e ma- 
ravilhoso, da artista insigne, que hontem 
nos disse adeus, abitola-se pela intensi- 
dade passional que ella insuflou á versaria 
flácida da Berenice^ pelo encanto com que 
ella illuminou a pasta dura daquelle mos- 
trengo de rhetorica, e, vendo-a, magestosa 
e dominadora, na cataplasma racineana, 
embalando-nos na magia da sua dicção, 
seduzindo-nos com a pureza das suas li- 
nhas e com a terna meiguice dos seus 
olhos, arrancando-nos applausos, vibrati- 
lisando nos os músculos, galvanisando-nos os espiritos, a gente 
começa a crer na realidade mythologica do Orpheu, arrastando 
traz de si, por montes e valles, captivos da sua voz, presos aos 
seus encantos, homens e deuses, fraguedos e penedias, bestas fe- 
ras e troncos de florestas. 

Em peça? melhores ou peores, mas que nos faliam aos senti- 
dos ou ao coração, que nos ferem os cérebros ou nos tocam os 
espiritos, que nos commovem ou nos divertem, comprehende-se 
que uma comediante, no declive da sua tragectoria artística, com 

27 




Bartet 
Caricatura de Capiello 



4i8 Impressões DE Theatro — Berenice 

trinta e dois annos de taboas, saiba fazer valer os seus recursos, 
brilhar a sua arte e pôr em foco as gamas mais altas do seu ta- 
lento ; mas, que essa comediante, consiga manter, acordada e at- 
tenta, olho fito e ouvido á escuta, uma plateia estrangeira — a 
que tanto monta, p'r'ó seu patriotismo indiíFerente, que a Racine 
seja um génio ou um coirão — e que, numa insulsa e amorpha 
canastrada de rimai, duma melopea enfadonha e duma enphase 
archaica, sem interesse e sem nervos, veja realçado o seu traba- 
lho, a sua arte e o seu talento, com os enthusiasmos calorosos 
que, no D. Amélia, a Bartet despertou no Berenice, isso, escapa 
ás leis correntes do theatro e quasi envereda pelo maravilhoso do 
Impossível e do Milagre. 

Mas então o Racine. . . 

Sei lá ! Ouvido é assim. Na aula de litteratura dizia-se que era 
um portento. Lido. . . 

Eu nunca o li e não lhe sinto ganas. 

Quem o tiver lido, de cabj a rabo, sem adormecer a meio do 
caminho, que me atire a primeira pedra e me dê a sua palavra 
de honra de que gostou. 

Se não fôr mestre Pertingal, passarei também a gostar sob 
palavra. . . como se gosta dos clássicos, que todos admiram e nin- 
guém lê. 

Se fôr Pertingal — fico-me na minha: porque, não acredito 
que goste do Racine quem tem uma negação absoluta pelas re- 
gras da grammmatica e pelos mysterios tenebrosos do Dicciona- 
rio portuguez-francez. 



A fechar o espectáculo monólogos : uns graciosos e bem mima- 
dos, outros — os das madamas — insulsos e de fazerem perder a 
paciência a um santo. No fim, Bartet a ler versos... a dizer 
Musset. 

Se o Racine não nos tivesse deixado na espinha, espapaçados 
e molles, sem energia e sem musculo, ainda, a estas horas, lá esta- 
ríamos todos a applaudir — na dolorosa angustia de uma despe- 
dida — Bartet a grande, Bartet a excelsa, Bartet a Divina. . . 

Assim, cada um foi p'ra sua casa, cada mocho a seu soito, a 
rememorar, em delicias de sonho, os sonhos d'arte, deliciosos e 
divinos, com que a deliciosa e divina artista doirou as horas rá- 
pidas destas seis noites que nunca esquecem e tarde voltarão . . . 



XCIX 



7 MAIO 



o desquite, 



(reprise) i acto imitação em verso de 
Jayme Seguier.HHHUMA VISITA, em 2 
actos de Eduardo Brandes, traducção de Accacio Antunes. Dis- 
tribuição : Florizel, Palmyra Bastos. — Carlos Neergoord, F. da 
Silva. — Emílio Repholt, Maia — Um creado, Sampayo. h}^ O 
FOGO NO CONVENTO, i acto de Theodore 
Barriére, traducção de J. A. Pinto. Artistas: 
J. Costa, C. Santos, A. Mello, P. Campos, Pal- 
myra Bastos. — D. lUaría. Festa de Palmyra 
Bastos. 



Espectáculo variado de retalhos cosmopo- 
litas, dês do norte forte e acuto de Brandes 
— o judeu dinamarquez de sangue muito lu- 
sitano e com ancestralismos nos queimadei- 
ros manuelinos ali da Casa, que antes de ser 
de Gil Vicente foi do Santo Officio — té ao 
vaudevillismo antiquado de Barriére, que, em 
França, já esqueceu e passou de moda, a abrir 
com o Desquite alfacinhado em versos sono- 
ros de Seguier— um moço prodigio d'ha 3o 
annos — peça de estreia de Ferreira da Silva 
e um dos mais graciosos triumphos da sr.» 
Rosa Damasceno. 

O desquite, uma futilidade risonha e leve, 
versos fáceis e de dicção diíficil é, como sa- 
bem, a reconciliação de [dois [noivos, ao fim 
duma rápida lua de mel, em casa dum advo- 




Jayme Seguier 

Caricatura de R. B. Pi- 
nheiro 



420 Impressões de Theatro — Uma visita 

gado, que ambos buscam p'r'ó encarregar da separação. Palmyra 
Bastos disse bem o seu papel, sublinhou-o com graça e desenhou-o 
com travessura e delicadeza, não conseguindo — ao que affirmam 
os de boa memoria — metter num chinello a Rosa, o que, de resto, 
prova os primores de educação da sympathica divette e o seu at- 
tencioso respeito pelas relíquias e tradições do Passado. Ferreira, 
a relembrar as sensações da sua primeira noite de taboas, disse 
e mimou, com carinho e disvelo, os versos, que, numa estreia 
auspiciosa, lhe iniciaram uma carreira de victorias e boaventuras — 
o que, mesmo sem calembourgs fáceis, poderá significar, trium- 
phos de scena que o sagram grande actor e ladridos do podengos 
desdentados que lhe uivam ás canellas. 

Depois do Desquite^ subiu o panno p'ra U^na visita^ de Eduardo 
Brandes. 

Eduardo Brandes, o dramaturgo, é hoje — ao lado de seu irmão 
George, o philosopho — um dos nomes mais acatadamente dis- 
cutidos e com maior justiça admirados, do grande movimento de 
ideias, que, gerado nos frios septentrionaes da Scandinavia, tem 
varrido, em lufadas de génio, a Intellectualidade e a Arte da Eu- 
ropa. Sem a symbologia arrevezada e sem os nevoeiros densos 
do colosso norico, Eduardo Brandes, ou, porque, nas veias inda 
lhe gire um resto do sol azul e quente, que a Inquisição não con- 
seguiu arrancar do sangue dos seus avós banidos, com os de 
Erasmo, da velha terra portugueza, ou, porque, a sua technica se 
molde nos cunhos mais perfeitos do theatro contemporâneo, sem 
innovações de precursor e com toda a segurança e firmeza dum 
Mestre — approxima-se dos nossos espiritos irrequietos e dos 
nossos corações arrebatados de latinos e a sua obra é, de 
toda a dramaturgia de Ibsens, Strindbergs e Bjornsons, que nos 
vem do Norte, a que mais nos emove e faz sentir, a que mais se 
adapta á nossa scena e a que mais rijamente fere os nossos cé- 
rebros. 

Talvez, por isso, — porque é quasi nosso — é o menos popu- 
larisado e conhecido entre nós e a sua entrada no Normal com 
a Visita, depois de ter dado a volta á Allemanha, á Inglaterra, 
sem ter quasi passado por França — a via ordinária da nossa arte 
e dos nossos figurinos — mar^a no theatro portuguez um pro- 
gresso e um avanço que, a não anefecer a meio camindo, pode 
iniciar um saneamento hygienico e uma desinfecção moral que 
nos livre dos bacillus eróticos do Boulevard, que nos trazem na es- 



Impressões de Theatro — Uma visita 



421 



pinha, derrancados e sádicos, alheados e avessos a uma Arte 
emancipadora e forte, intellectiva e máscula, que, em Itália, já 
está no reportório de todos os artistas de nome e bafejou o mais 
fecundo movimento dramático contemporâneo, que, na Germâ- 
nia, já produziu o theatro de Hauptmann, de Paul Heyse e de 
Sudermann, que, em Inglaterra, é. a origem do theatro de Pinero 
e que, em França — atóra as tentativas de adaptação de Antoine 
e de Lugnoe Poe — ainda não repercurtiu nos espintos, nem ga- 
nhou raizes na multidão. 

Brandes, dentro da technica latina, agita ideias e problemas? 
estuda caracteres, serve a Ver- 
dade, lucta pela justiça, não affasta 
o symbolo, não despresa as syn- 
theses, mas, sem se enrodilhar em 
véus de espiritualisações, com a 
lógica fria e a vontade serena dos 
da sua raça, humanisa as suas pe- 
ças, naturalisa as suas theses e, 
tornando-as claras e limpidas, com- 
move-nos e deixa nos cérebros o 
fermento da revolta contra o pre- 
conceito e contra a iniquidade, 
contra a superstição e contra a 
mentira. 

E não está com meias medidas, 
com aguas mornas : nos Remédios, 
comedia de charge e troça á alo- 
pathia, põe frente a frente a Me- 
taphysica e o Racionalismo, a Theo- 
logia e o Livre-Pensamento : na Visita, ataca a desegualdade dos 
dois sexos, ante a moral dos homens e, sem chegar ao absurdo de 
Bjornson na Luva, reclamando a pureza absoluta do macho — o 
que seria a moral das mulheres — Brandes conclue pela egual- 
dade dos direitos da mulher e do homem, pelo perdão e esque- 
cimento da falta da mulher — o que é a moral humana, a moral 
sem preconceitos, o que será a moral verdadeira, numa sociedade 
emancipada de Amor, de Liberdade e de Fraternisação, sem 
egoismos da Besta, sem hypocrisias da Lei. 

Dois actos de tragedia sem sangue, de discussão sem rheto- 
rica, de ataques sem violências, em que três personagens, sendo 




LUGSOE PoÉ 

Caricatura de Leal da Camará 



422 Impressões de Theatro — Uma visita 

três caracteres, se definem, se desenvolvem e se chocam, no con- 
flicto eterno das suas paixões, a Visita, sendo, como factura, um 
modelar primor de carpinteria theatral, é, como obra de com- 
bate, um dos trechos mais serenamente violentos, mais friamente 
demolidores, que, em scena, se tem vibrado contra o convencio- 
nalismo estúpido e egoista do homem, que reclamando Deus p'ra 
si e o diabo p'r'ás outras, reservando-se todas as liberdades do 
presente, se arroga direitos sobre um passado, que lhe não per- 
tence, castigando-o com brutalidades e oppressões. 



Numa casa de campo Kaj Neergaard e sua mulher Florizel 
aguardam a visita dum velho companheiro de estúrdias doman- 
do, Emilio Repholt, e enchem o tempo fallando das pequenas 
coisas da vida: o somno do seu bebé, a visita recente dos pães 
de Florizel, a falta de convivência, recordações da viagem de nú- 
pcias, mil bagatellas d'uma vida corrente e feliz. Desta pales- 
tra entre dois esposos, que se amam, vai deslisando, aos olhos da 
platéa, todo um passado que desenha, em traços nitidos e for- 
tes, os seus temperamentos, a historia dos seus amores, as suas 
aspirações e os seus anceios, todo o seu passado e toda a linha 
indecisa do seu futuro. Quando Repholt chega, já nós conhece- 
mos, como amigos velhos, o casal : Florizel honesta e expansiva, 
intelligente e fútil, romanesca e dedicada, devendo ao marido 
o bem estar e a riqueza, que, em contraste com a sua miséria 
de solteira, são a sua felicidade e o seu sonho, amando o marido 
como homem e como bemfeitor, adorando o filhito, vivendo 
do presente p'r'ó futuro, esquecendo o passado, com a infantili- 
dade alegre da Nora do Ibsen e com a reflexão triste de quem, 
em pequena, foi sempre a mais pobre da sua escola, alma a que 
nunca faltou o pão, corpito que desconheceu sempre o conforto, 
Florizel é a mulher em tudo o que a mulher tem de honesto e 
gracioso, de immaculado e travesso, de santo e inconsequente, 
de augusto e pueril. 

Kaj, reformado no matrimonio das aventuras ruidosas do pas- 
sado, amando o socego e a pacificação caseira, sem aspirações e 
sem remorsos, tranquillo e feliz, amando a mulher e adorando o 
filho, medianamente culto e suficientemente intelligente, rico e 
ocioso, com delicadezas de coração e susceptibilidades de trato, 



Impressões de Theatro — Uma visita 423 

é o homem vulgar e banal, sem grandes inflexibilidades de tem- 
pera, sem sentimentalismos de coração. 

Repholt chega e, emquanto o marido vae a recebel-o, Florizel, 
vê-o, por entre cortinas, apear-se do trem, dá um grito e foge, 
espavorida, louca, numa angustia infinita de lagrimas 8 terror. 

Repholt é o Tenório do Norte — o Tenório de todas as longi- 
tudes,, de todas as altitudes, de todos os tempos e de todas 
as sociedades, caçador de volúpias, egoísta e bem posto, frio 
e bem fallante, que busca na mulher o aroma capitoso da 
carne, sem aspirar os eflúvios doces do espirito, exteriorisando 
a sensualidade em delicadezas quentes de gesto e invulnerá- 
vel aos espinhos agudos da paixão e do sentimento, com o 
despreso pelas machinas de prazer, que se envolvem em sedas ou 
se cobrem de farrapos e que, no fundo, só são honestas, quando 
não são desejadas, que só não liquidam em trongas, quando a feial- 
dade as sagra vestaes. E conta um caso : uma rapariga inexpe- 
riente, casta, toda pureza e candura, que, numa viagem, aterrori- 
sada pela tempestade, embriagada pelo brilho das suas palavras, 
pelo champagne e pelas miragens da seducção, se lhe entregou, 
um dia, numa estalagem do caminho e que fugiu, depois, desespe- 
rada, terrível, em ondas de choro e revolta, ao reconhecer-se po- 
luída e maculada. Nunca mais a viu, mas nunca a esqueceu. 

Florizel demora-se, não volta. O marido vae chamai-a, en- 
tra com ella. Repholt e Florizel olham-se, reconhecem-se. Não 
dão um grito, não fazem um gesto, mas a immensidade do drama 
resalta, e, como um criado annuncie o jantar, Kaj diz ao amigo 
que dê o braço á mulher. Gae o panno. 

No 2." acto, depois de um jantar farto, bons vinhos, bons pra- 
tos, Repholt e Kaj palestram loquazes, na expansividade duma di- 
gestão agradável e confortante. . . Kaj durante o jantar percebeu 
o nervosismo estranho da mulher, a sua irritabilidade, o seu mau 
estar. Vêem chamal-o p'ra um negocio urgente e deixa os dois ao 
cavaco, pVa que se reconciliem e se conheçam. Repholt relembra 
o passado, tem ternuras de voz, blandícias de expressão, gestos 
quentes de sedução : que não faça escândalo, que acceite os acon- 
tecimentos, que se não traia com impaciências, com friezas que, 
despertando suspeitas ao marido, tudo podem perder. Flori- 
zel, ouve-o impassível, concentrada, no paroxismo do seu des- 
prezo e do seu ódio, mas, quando elle lhe diz que, ainda ha pouco, 
ali mesmo, contou ao marido, por um acaso, a aventura da esta- 



424 Impressões de Theatro — Uma visita 

gem, sonho de amor numa noite de verão, Florizel irrompe n'um 
tremor convulso de cólera e manda-o sair immediatamente, sem 
demoras, sem evasivas. . . rua.. . rua! E vae, ferida na sua digni- 
dade de mulher, a chorar junto do berço do filho, a abrigar-se, na 
sua couraça de mãe, contra a investida abrupta de um passado que 
a anniquilla e a esmaga. 

Kaj volta. Então já fizeram as pa^es? . . . Onde está Florirei?.., 
'Porque /aliavam tão alto... Repholt titubia, busca subterfú- 
gios. . . Florizel embirra com elle, incommoda-se com a sua pre- 
sença... Vae-se embora.. . Não deve ficar... Kaj comprehende 
tudo. . . Num repente de ira, arranca um punhal duma panóplia 
prestes a investir contra o amigo. Mas contem se... manda-o 
sair... que fuja... que fuja, ou, uma nuvem de sangue que o 
cega, armar-lhe-ha o braço numa vingança de fera .. que fuja... 
Repholt sae e Florizel entra. A não reproduzir integralmente a 
scena, não sei como exprimir-lhes, em sumula, toda a intensi- 
dade trágica, toda a pungente humanidade daquellas duas almas 
que se amam, que se comprehendem, que se lastimam e que, uma 
sombra negra do passado, vem separar p'ra sempre, em estreto- 
res de remorso a mulher, em galvanisações de ciúme, de ódio, de 
rancor, o marido. . . Elle vocifera a sua cólera, o seu asco, pela 
mulher perdida que o enganou, que lhe não disse. . . EUa chora 
a sua desgraça, o tremendo infortúnio da sua vida. . . Quando ha- 
veria de dizer-lh'o?. . . Em solteira, na anciã ardente do seu amor 
que lhe fugiria, no innocente recato de todos os seus pudo- 
res de alma virgem dentro dum corpo manchado e perdido? An- 
tes a morte... antes a morte... Depois de casada! .. . Quando 
toda a immensidade da falta se lhe revelou, na sua nudez abjecta 
de infâmia, quando essa confissão seria o anniquillamento da fe- 
licidade de ambos, de todo o presente que os unia, de todo o fu- 
turo que os esperava?,.. Não... nunca! antes a morte... Por 
Deus que a mate. . . por Deus que a liberte. 

Não ha sangue que lave a deshonra. . que saia, que saia, não 
vá corromper o ar que o filho respira, não vá profanar a casa 
onde o filho nasceu e ha de crescer. . . Que saia. . . 

O filho! E que será delle ? E ambos, mulher e marido, sepa- 
rados pelo passado que os deshonra, unidos pelo amor pela sua 
creatura, pela carne da sua carne, olham, serenos e mortos, o fu- 
turo . . 

A mãe que fique. . . A mulher, morta, no tumulo do seu co- 



Impressões de Theatro — Uma visita 425 

ração já frio p'ró amor e insensibilisado pela desgraça, a mulher 
desapparece. . . a mãe que fique. . . redimida, quasi santa, na sua 
missão de mãe, perdoada, quasi esquecida, na sua culpa de mu- 
lher. 

E cae o panno. 



No desempenho Palmira Bastos fez prodigios de esforço intel- 
ligente e de artística boa vontade p'ra detalhar e viver o papel, 
esmagador e complexíssimo, de Florizel. Com os seus recursos e 
ò seu temperamento fez maravilhas, mas, se neste mundo, — lá diz 
a sabedoria das nações, — quem dá o que tem não é a mais obri- 
gado, no theatro, a interpretação da protagonista da Visita recla- 
ma, a par duma mobilidade de mascara, que a physionomia parada 
de Palmira não possue, uma emoção e um sentimento, um nuan- 
çar de inflexões e uma vibratilidade de nervos, que não se adqui- 
rem com artifícios de Escola, e, menos ainda, se substituem pelos 
dotes de graciosidade, leveza e travessura, que são os caracteriscos 
da individualidade artística da sympathica estrella de opereta — 
talento muito maleável, esplendida organisação de artista, que 
fora do seu meio e deslocada do seu reportório, é, de certo, um 
bello elemento de conjuncto, mas, tarde ou nunca, chegará a ser 
um astro de grande radiação e de luz intensa. 

Ferreira da Silva e Fernando Maia, teem na Visita^ em traba- 
lhos valiosos e de responsabilidade, senão os mais brilhantes e 
mais completos, pelo menos, dos mais seguros e equilibrados pa- 
peis desta temporada. Pelos modos, eu sou suspeito fallando do 
Ferreira da Silva, quando elle me agrada e só tenho carradas de 
razão, quando crivo de adversativas o seu trabalho : do Fernando 
Maia porém, — se não se offendem e dão licença — dir-lhes-hei 
que no seu Repholt da Visita, ha pedaços de arte, — como o da 
scena com Florizil — que lá fora fariam, de chofre, a reputação de 
um fino, subtil e delicado actor. 

A fechar o espectáculo O fogo no conven/o, vaudeville dos me- 
lhores que Theodore Barrière, sempre desegual, produziu e que 
está, no cartaz da Comedie, mais como curiosidade de bibliogra- 
phia scenica, do que como obra de theatro. 

Um fogo no convento atira inesperadamente com uma colle- 
gial de 16 annos p'ra casa do pae — um viuvo rapioqueiro e aven- 
turoso — e d'ahi, todas as concomitantes atrapalhações e suas 



426 Impressões de Theatro — Uma visita 

derivadas, que enchem um acto de incongruências, gargalhadas e 
facécias. 

No desempenho Palmira Bastos — á vontade nos moldes tra- 
vessos e alegres do papel — foi magnifica de naturalidade, de 
graça e de frescura — o que, mais uma vez, corrobora que, dentro 
da sua clave, poucas ou nenhumas das nossas actrizes darão no- 
tas mais crystalinas e sonoras de mocidade e de alegria, de irre- 
quietismo e de bulicio e que é, realmente, triste, persistir em aven- 
turas de dramatisação e sentimentalidade, quem, como Palmyra 
Bastos, tem um logar de eleição, de soberania e dominio, no 
campo risonho e saltitante do vaudeville e da operetta. . . A in- 
génua do Fogo no convento está muito longe de ser um modelo 
de arte seria e formal, de grande envergadura e refolhos. 

...Sem oífensa p'ra Theodoro Barriére — que Deus haja no 
eterno descanço e honrado esquecimento dos vaudevilheiros que 
fizeram época no seu tempo — e sem offensa p'ra Palmyra Bas- 
tos — que Deus Nosso Senhor avivente e conserve, nos seus do- 
mínios de Bonecas^ Tições^ Pericholes e revistas do anno . 



1 4 MAIO. 



No tempo de Luiz Xy,^,r:,tlZ;;Z 

mas (pae), traducção de Salvador Marques, j." recita de assi- 
gnatura. Theatro D. IDaria. Distribuição : Conde de Gandole, 
Luiz Pinto. — Cavalheiro de Valchoz, Carlos Santos- — Com- 
MENDADOR, J. Costa. — Jasmim, Theodofo. — Condessa de Can- 
DOLE, Cecilia Machado. — Luiza, Luz Velloso. — Official, P. 
Campos. — GuARDA-poRT.lo, Sampaio, 



Eu não sei que lhes diga. . . 

Rir parece-me de mau gos- 
to : não é com facécias que se 
commenta o dispauterio de ir fo- 
çar nas velharias pulvorentas do 
Dumas pae, a lixarada da sua obra 
p'rá despejar, em fecho de época 
■e saldo de contas, sobre os pate- 
tas que, antecipadamente, se ha- 
viam esportulado com os preços 
salgadotes de 7 recitas de assi- 
gnatura. 

Protestar, parece-me inútil : 
não valem protestos, quando na 
direcção geral de instrução publica, 
na presidência do Conselho e nas 
redacções dos jornaes de grande 

circulação, p'ra remediar ao descalabro, inevitável e vergonhoso, 
do theatro Normal, se aponta e se combate, se intriga e se apre- 




DuMAS Pae 
Caricatura de Nadar 



428 Impressões de Theatro — No tempo de Luij XV 

goam as vantagens e méritos, sabenças e mais prendas do Sousa 
Bastos, gerente e dictador. . . 

Não rio nem protesto. Nem indignações nem pilhérias. . . 

A peça C^Co tempo de Lui{ XF, como espectáculo de tran- 
sição, entre o reportório habitual da casa e os cartazes de revis- 
ta, que nos esperam, d'aqui a pouco, justifica-se, mas não se 
tolera. 

Justifica-se pela insignificância litteraria — uma miséria — pela 
ingenuidade scenica — um desconchavo — pela sensaboria do dia- 
logo — uma dormideira — e pela defficiencia de desempenho — 
uma vergonha, o que, tudo junto, vae preparando os ânimos e pre- 
dispondo os paladares pTòs primores que hão de vir — manjares 
opiparos de calão, jóias inestimáveis d'arte de cordel. 

Mas não se tolera, porque o theatro de D. Maria é ali no- 
Rocio — e não na feira de Alcântara — porque o Estado cede a 
edifício a uma sociedade artística p'ra fazer arte — e não p'ra 
fazer dislates — porque os contribuintes estipendiam um commis- 
sario régio pVa elle superintender na escolha das peças — e nãa 
p'ra elle fazer asneiras — porque, quem paga o seu logar, tem di- 
reito a exigir, no palco de D. Maria, actores que representem — 
e não bonecos de engonço, mixtos de bocetas de amêndoas e 
caixas de musica de lojas de barbeiro. 

Não sei que lhes diga. . . 

A ir buscar — á falta de melhor — ao albergue dos Chavões 
reformados, a carcassa do velho Dumas, o que, artisticamente, seria 
um erro — porque, mesmo no tempo do Romantismo, a arte de 
Dumas tinha rugas, brancas e postiços, — mas poderia ser, thea- 
tralmente, um tiro — porque o camaroteiro tem relações estrei- 
tas com os Três Mosqueteiros e as Memorias d'urn medico, são 
ainda a litteratura de resistência de muita gente boa, — compre- 
hendia-se, que se resuscitasse um dos pedaços typicos do auctor 
do Antony — a Torre de Nesle, ou a Mademoiselle de Belle Isle^ 
a não querer remoçar o Henrique III e asua corte ou ir pedir 
emprestado o Kean do Brazão. 

Gomo amostra dum feitio ou duma época, duma escola e dun> 
processo, qualquer delias servia e, embora eu não seja attreito a 
enthusiasmos pela archeologia no theatro, como por ouvir dizer,, 
acredito que os meus avós chorassem, com as heroinas do Pae 
Dumas, era natural que, um boccado modelar do Pae Dumas, 
me entretivesse ou me commovesse. 



Impressões de Theatro — No tempo de Luij XV 429 

A^ò tempo de Luij XV, porém, nem commove nem entretém: 
é Dumas do peor, do Dumas, que, té em França, já está no rol 
das múmias esquecidas, nas varreduras da sua obra colossal que 
já apodreceram no monturo dos alfarrabistas. 

Não é theatro, não é arte, não é litteratura e não chega mesmo 
a. ser, como a grande massa da obra dumesca, simples fancaria. 
E' pura e genuína borracheira e mais nada. 

Imaginem quatro actos a architectarem-se nesta base : um 
conde casa com uma pucella educada num convento. Não se co- 
nhecem, nuca se viram, não se amam. O conde arrasta a aza a 
uma marqueza e, na noite do noivado, vae cear com ella; a moça 
catrapisca um capitão e passa a noite de núpcias a tocar-lhe musica 
sentimental. Ao fim de quatro actos, desatam a amar-se e o conde 
manda passear a marqueza e a pucella manda bugiar o capitão. 

Nem o desenho dum caracter, nem estudo duma sociedade, 
nem um dito de espirito, nem uma situação de theatro. Nada. 

No desempenho todos peores que os outros, e, a não ser Joa- 
quim Costa, sempre correcto e limpo, a esforçar-se por dar vida 
e figura humana ao seu papel, não ha ponta por onde se pegue. 
Todos peores: em separado, Luiz Pinto, execravel ; Carlos San- 
tos, detestável; Cecília Machado, horrível; Luz Velloso, leiri- 
vel.-Todos juntos, um horror: espécie de tourada de amadores 
ou garraiada na Cruz Quebrada. 

Não sei que lhes diga . . , 

Não estava, felizmente, ninguém no theatro e não ha, pois, a 
lamentar estragos sensíveis na plateia, que, a terem se dado, ag- 
gravariam a situação lastimosa dos cofres públicos condemnados, 
por disposição da lei, ao pagamento dos concertos. . . 

Porque o theatro de D. Maria é nosso. E' um theatro do Es- 
tado. 

Não parece, mas é. . . Tem um commissario régio, um gerente, 
um regulamento, um decreto e muitas portarias a regularem-lhe a 
existência, a orientação, os meio e os fins. E' uma traducção mal 
feita da Comedie. A reforma do Ennes é o decreto de Moscou 
em calão, como o Pimentel é o Claretie em coiro e o Maia o Le 
Bargy sem coletes. 

Em França a Comedie, é uma instituição nacional : em Portu- 
gal, D. Maria é uma repartição do Estado. 

Na Comedie, ha um reportório ; em D. Maria, um barril de 
lixo ... 



43o Impressões de Theatro — No tempo de Lui:( XV 



Em França, falla-se em insuflar 
sangue novo, dar uma orientação- 
democrática, alargar o âmbito e 
limpar o pó á Comedie, tornando-a 
um templo de Arte; cá, pensa-se 
em transformar o Normal em ni- 
nho de imbecis, albergue de mos- 
trengos, velhacoito de inúteis, alfo- 
bre de seresmas — em barraca d& 
feira. 

Nos tempos do Posser — e todos 
os lembram com saudade ! — D. Ma- 
ria era uma filial da Casa da Mise- 
ricórdia. . . Talvez, por isso, nunca 
foi á scena No tempo de Liii^ XV: 
bem ou mal, foi o Frei Lui^ de 
Sousa; as peças, com as de hon- 
tem, iam p'ra roda, como expostas^ 
e outras entravam nas loterias e sabiam brancas... em cautelas 
de trez. 

Não sei que lhes diga . . . 

Sei... mas não posso. . que isto aqui não é muro de quinta 
em que se commente, a violências de carvão, o fecho da época 
de D. Maria — época luminosa e magnifica, que foi o triumpho re- 
parador das larachas que se atiravam ao Posser, que foi a glori- 
ficação de S. Luiz de Braga, que está a rir, lá cima, e que, tenda 
sido a apotheose de Pimentel, que prohibiu o Pae e poz em scena 
o Serão^ começa a ser o advento de Sousa Bastos com o seu re- 
portório bregeiro de revistas do anno e operetas manhosas, conj 
Palmyra Bastos em estrella dramática e o Ferreira da Silva em 
Félix Telles do Talve^ te escreva e compadre do Tim tim. 




Sousa Bastos 
Caricatura de R. Bordallo Pinheiro 



Cl 



zMeu rapa^ : — Um anno ! . . . Já lá vão doze compridos me- 
zes de farandolagem pelas plateias, a deligenciar olhar com olhos 
de ver e ouvir com ouvidos de ouvir, o que por esses palcos se 
debita, como arte e quasi sempre é industria, o que se explora 
como theatro e raro não liquida em mercancia... E, tendo-te 
dito sempre o que me pareceu a verdade, num graphismo sincero 
e cru das minhas impressões e dos meus raciocinios, sem paixão 
ao applaudir, e sem malquerenças ao patear, fui ás vezes violento, 
ás vezes brando, ás vezes aggressivo, ás vezes blandicioso, mas, 
mirando o que fica p'ra trás, alegro-me porque fui sempre eu, 
com os meus defeitos e as mmhas qualidades, com os meus des- 
equilíbrios e os meus enthusiasmos, e, tendo o sido, relendo as 
quarocentas paginas que ahi ficam, consola-me a convicção de que, 
amando o theatro, soube amar e defender todas as causas justas, 
que, no theatro, se debateram nestes doze mezes e amando a ver- 
dade e a justiça, consegui servi-las, ás cegas, á bruta talvez, nes- 
tas cartas e impressionismos de momento, desconchavados e du- 
ros, que me fizeram uma reputação de brutalidade e violência.. , 

Brutal, violento. .. 

Muito prazer, todo o gosto . . . que essas duas maculas, esses 
ásperos característicos da campanha, excluem todas as virtudes, 
que, quanto a mim, na critica nacional, iam reduzindo o commen- 
tario dos successos theatraes á agua perfumada e chilra das bran- 
dezas que rendem caricias, das amabilidades que se convertem 
em favores. Agua chilra e perfumada de inépcia e patifaria, de 
conveniência e ganhuça, que transformava a secção de theatros 
numa mercearia de auto-reclames e a arma da publicidade num 
arcabuz com que, do reducto da imprensa, os franco atiradores 



432 Impressões de Theatro — balanço 



das emprezas, desfechavam aos peitos ingénuos da crendice pu- 
blica, os zagalotes dos seus interesses, das suas arrioscas, das 
suas fumisterias e dos seus destemperes. . . 

Violento, brutal. . . Antes isso, que arraçoado e commedido, 
complacente e a jorna, bem educadinho e de conta alheia. 

De resto, nem uma palavra a riscar, nem um juizo a pulir, nem 
uma aspereza a esbater — nunca aggredi pessoas, nunca suscepti- 
bilisei consciências — no meu caminho direito adregou, apenas, 
em incidente, irritar vaidades e ferir estômagos. 

Feito o balanço, por banda da Arte, o activo accusa em letras 
d'oiro Itália Vitaliani, o Antoine, a Suzana Després e as ruinas es- 
calavradas do Coquelin, mais as ruinas gloriosas da Bartet, nos 
artigos de importação. 

Nas industrias caseiras : o Casamento de Conveniência — pelo 
ardor anti-clerical da sua combatividade — e a Crwf da esmola 
— com muitas restricçÕes á sua fragilidade de bibelot íeito de reta- 
linhos — vincam-se, com acto da Terra Mater, na memoria, como 
obras de theatro, não sãs e escorreitas, nos moldes definitivos 
da Arte, mas, como peças das mais consistentes e mais chies dos 
mostruários dos fanqueiros e algibebes da nossa Dramaturgia. E, 
por banda dos artistas, os esforços progressivos e constantes da 
Adelina Abranches e da Angela Pinto, do Ferreira da Silva e do 
Ignacio e, sobretudo, essa estranha e bizarra revellação do Lu- 
ciano, no Theatro Livre, destacam, por entre as contadas tenta- 
tivas de, no palco, prender ao terreno movediço da cabotinagem 
as ancoras solidas duma arte pessoal e honesta, intelligente e 
audaciosa. 

No passivo — sujeito á pauta das alfandegas — em gothico arte 
nova de especulação e patuscaria Maeterlinck, assume as pro- 
porções dum sonho e os Coquelinos esvaem- se, na opacidade das 
estrellas cabidas, apagadas e frias, que rolam pelos mundos a luz e o 
calor, que, por consanguinidade, lhes irradiou um astro que já foi rei. 

Nas industrias domesticas o Serão das Laranjeiras assambarca 
as linhas do horisonte, numa nuvem negra de demência e porno- 
phia e mestre Pimentel — o do commissariado — prohibindo o 
Pae de Strindberg, depois de ter posto em scena o Serão, lavrou 
a sentença de quebra fraudulenta á Arte nacional, ao decoro e 
ao bom senso, enterrando, numa cloaca, o papel sellado burocrá- 
tico e fastidiento, que, em D. Maria, está fazendo a fortuna e a 
reputação de S. Luiz de Braga, emprezario e visconde. 



Impressões de Theatro — Balanço 



433 



Não vale destrinçar verbas. Em fecho de contas, a não ter 
vindo a Vitaliani, a Bartet, o Antoine e a Suzana Després — o 
triumpho da Itália e a gloria e as esperanças da França — era 
desolador o computo do anno. . . 

Retirada a Virgínia, pela doença, e, aposentada Lucinda, na per- 
teição inexcedivel das características do seu novo reportório, os 
velhos, ao que dizem, cheios de gloria, e, ao que se vê, cheios de 
teias d'aranha, de loiros, ao que affirmam, e, de pés de gallinha, 
ao que resalta, caminham p'r'á Runa das impotencias, das cache- 
xias e das senilidades: — os novos, vestem-se, despem-se, arrebi- 
cam-se, amaneiram-se, e, em vez de progredir, marcam passo, ao 
som estridulo dos hyperbolismos tolos, que lhes accusam avan- 
ços e inventam victorias. 
Eu... 

Que diabo! ao fim dum anno de fallar dos outros vou, já'gora, 
fallar de mim : eu estou bom, muito obrigado, e, se ainda não bai- 
lei [numa forca por tentar manter-me no equilíbrio perigoso da 
verdade, criei varias inimizades, deixei prescrever alguns conhe- 
cimentos, pugilatei em S. Roque, sinto morderem-me olhares fu" 
ribundos, avisam-me anonymos de que se me preparam embusca- 
das, apanhei, numa corrente d'ar, uma pneumonia, fiz com que S. 
Luiz, em Alpoim, deixasse de ler o Mundo, e, se não fossem dois 
míseros cartões de agradecimento e a impingidella de variadís- 
simos bilhetes de beneficio, nem saberia até, que, 
fora do palco, existiam cómicos e cómicas, artis- 
tas e cabotinos, celebridades e jámevistes. . . 

Ah, sim ! . . . digo mal, accintosa e systemati- 
camente, das peças do D. Amélia, que, tendo posto 
em scena, esta época, sete, teve o meu applauso 
em seis e digo, systematica e accintosamente, bem 
de D. Maria, que, tendo estreado, na temporada, 
outras sete, sõ de duas eu não disse mal. .. 

Por muito menos tem ido gente á forca : não 
admira, pois, que eu não vá aos bodos do The- 
souro Velho. 

Mas, ha actores que me indispõem e actores 
que me agradam.] 

Ha ; mas eu duvido que, por exemplo, o 
Christiniano seja um actor e por isso, me indis- 
põe o vê-lo no palco e creio que ninguém con- 

28 




Lucinda Simões 

aricatura de Celso 

Hermínio 



434 Impressões de Theatro — Balanço 

testa, que o Ferreira, a Adelina, o Joaquim d'Almeida e a Angela 
sejam artistas e que, por isso, seja licito agradar-me ve-los em 
scena. 

E ha, ainda, o caso mofento, o casus belli da Lucília Simões. . . 

E' grave esse . . . 

No dia da sua estreia, em Coimbra, numa plateia de rapazes, 
ao ouvi-la no dialogo dos retratos do Frei Lui^ de Sousa, eu 
saudei-a, com todo o enthusiasmo dos meus vinte annos, e, ati- 
rando-lhe da plateia com a minha capa, atirei-lhe, ao outro dia, 
na minha estreia na Resistência, com esse artigo — o primeiro 
que a discutiu em lettra de molde e que, no exaggero da sua sin- 
ceridade, trazia, como ferro de ganadaria, a minha assignatura, 

NO CIRCO 

«De terna, bizarra sensibleria o pedaço do Frei Lui^ de Sousa, 
ensandwichado, p'ra debute de Lucilia Simões, em frangalhos 
rançosos de Verdi, em caganifancias amanteigadas do Braguinha, 

Maria, a tysica apaixonada das glorias idas, a pobre arveola, 
com a cabecita cheia de interrogações negras e a alma plena de 
mysticismos cândidos, devota e curiosa, angelical e tão pura, 
toda envolta na gaze vaporica duma silhueta espirita; 

Maria, a mais estranha e delicada personalisaçâo de perdida 
virgem lusitana, aguerrida e grande, languida e ingénua, crente e 
intellectiva, com o pensamento em Deus e os olhos nos antepas- 
sados, imbuida no vago, indefinido élan da época fúnebre, cypres- 
talica, de Alcacer-Kibir; 

Maria, a mais assombrosa e vivida estatueta feminil do grande 
fazedor de bonequinhas românticas, d'acções giganteas e pés mi- 
núsculos, de pensamentos altos e leitos castos ; Maria, a obra 
prima do bom Garrett, raro, terá pisado o palco, raro, terá emo- 
cionado as plateias, numa encarnação, mais artisticamente per- 
feita, mais instinctiva e naturalmente completa. 

Era assim, não podia ser doutra forma, a cândida heroina so- 
nhada pelo Garrett p'r'á sua tragedia. 

Foi assim, não podia ser doutra forma, o pedaço d'alma que 
Manuel de Sousa, ao envergar o burel, deixou nos limiares do 
mundo, á porta do seu convento. 

Era assim a filha por elle pranteada em Bemfica, a fada bem- 
fazeja que lhe guiava a penna, original em fora, na Uida do Arce- 



Impressões de Theatro — Balanço 435 

bispo : boa e franzina, intelligente e casta, como as descripções 
gloriosas, a prosa castiça e diaphana da Historia de S. Domingos. 
Era assim, não podia ser doutra forma, a inspiradora, a filha 
do dominico, filha sua e da sua alma, p'ra quem Frei Cacegas, 
insulso e somnolento, não deu nem ura glóbulo de sangue, nem 
um período, nem uma palavra. 

— Mas tem valor, então, a Lucilia ? 

— Na Bolsa, talvez não, por agora, emquanto não ganhar os 
brilhantes da mãe. . . 

— E no theatro? 

— No theatro, quem assim se encarna no seu papel, quem 
assim colhe, uma a uma, sem omissões e sem exageros, todas as 
nuances insufladas por um dramarturgo de génio na alma da sua 
mais complexa creação. . . se tem p'ra todo o sempre fechada a 
porta do Normal, — onde o Christiano uivou de direito, donde o 
Christiano saiu por capricho — tem, desd'agora, a estricta obriga- 
ção, o imprescindivel dever de ir p'r'á frente, sempre a direito, 
sem pestanejar, sem tropeções, numa marcha ovante de trium- 
phos e de successo, de deixar de cara á banda, beiço caido, ares 
merencórios de idolos derrancados, as poeirentas gloriólas nor- 
malinas, batidas e consagradas, que calcurriando vão, impertinen- 
tes e philistinas, o macadam. torturoso da Arte Nacional. 



Iniciada ante uma plateia de rapazes, saudada no delírio morno 
dos dúbios enthusiasmos da gente d'hoje, d'almas frias, frigerri- 
mas caveiras, ha 20 annos, haveria tido uma estreia ruidosa, ribom- 
bante ; chuvas de flores, avalanches de sonetos, alastrariam pelo 
palco e, n'um chinfrim apotheosico, vates românticos, cabelleira 
desgrenhada, um grãosito na aza, dir-lhe-hiam, no camarim, 
coisas sentimentaes, estranhas, hyperboles languidas, ternezas 
nunca vistas. 

Hoje, mais pacata, mais religiosamente, a minoria das capas 
negras, a sangue frio, n'uma impassibilidade hintzica de velhos 
mármores visionários, divisou a auréola que vae a nimbar-lhe a 
fronte, presentiu, a adejar na atmosphera viciada, pardacenta, de 
mau tabaco, de digestões más, o espirito glorioso, intelligente, 
do velho dandy João Baptista a applaudir, phrenetico, luminoso, 
num paroxismo macabro de jubilo e de victoria, o trabalho cons- 



436 Impressões de Theatro — Balanço 



ciente, a Arte refinada da actriz que se revelia, e, a minoria do 
publico, traz do exemplo garrettino, na peugada do dramaturgo, 
applaudiu pouco, com serenidade, mas, o que tudo vale, no intimo 
da alma, sellou um contracto com a Artista nova. . 

Fe-la actriz dos novos. 

E isso mais é, que um par de luvas esgarçadas no palmejar ir- 
reflectido duma ovação peninsular. 

Isso, é mais que os guinchos instinctivos arrancados, em tarde 
de mosca, em tarde de sol, pela estocada dum diestro, pelo cam- 
bio dum bandarilheiro. 

Isso, é mais, muito mais, se ella não vier a esquecer a sua pri- 
meira noite, se ella, no apogeu da gloria, não der em copiar da 
mamã, mais que as visagens e que o talento, a voz grossa de ta- 
rimba, a balda caprichosa, o sestro arreliante de romper contra- 
ctos, de passar o pè aos pactuantes. .. 

. . E se elles, os novos, lympathicos e derreadinhos, não dei- 
xarem que o óidium lhes entre nos poemas, que o mildew lhes 
ataque as obras primas.» 

Depois, sem que nunca trocássemos uma palavra, a não ser 
ao levar-lhe á Estação Velha, ;d'ahi a dias, a homenagem dos 
rapazes do meu grupo, numa pasta enflorada pela palheta desse 
pobre Rodrigues Vieira, que foi o mais delicado pintor de flores 
que tem nascido neste jardim de Portugal, eu, sempre que a via 
em scena, lembrando-me que havíamos entrado juntos e de mãos 
dadas na Vida, eu no jornalismo e ella no theatro, parecia que, 
applaudindo-a, me applaudia e se nunca molhei a sopa nos hes- 
panholismos com que a iam atrophiando na Arte, guindando-a a 
Génio no noticiário, quando podia dizer bem, não callava os meus 
louvores, quando linha de dizer mal, amenisava e diluia as mi- 
nhas restricções. 

Não era injusto, mas, no intimo, era suspeito, e,vae d'ahi, por- 
que uma vez, reconhecendo-lhe talento, num confronto já de si 
honroso com a Maior Artista que tenho admirado, a achei mais 
pequenina que a Maior de todas e, servindo-me da phrase aucto- 
risada de GatuUe Mendes, lhe chamei cabotina de talento, ar- 
mou-se tal sarilho, fizeram-se taes despropósitos, disseram-se 
taes disparates, que eu fiquei enfiado nas arestas do dilemma : 
dizer bem, porque ella tem manos, ou, dizer mal, p'ra não fingir de 
cobarde. 



Impressões de Theatro — Balanço 



437 



D'ahi, não dizer nem bem nem mal : antes pelo contrario. 
Nem caguinchas, nem fanfarrão, nem mata-moiros, nem dona 
mariquinhas, a minha opinião é, hoje, confirmada pelos factos, a 
que era, ha dez annos, por prophetica intuição : Lucília Simões 
é a artista nova, a actriz dos novos, se não der em copiar da 
mamã — ella ao tempo só vira a familia — as visagens, os ges- 
tos, a voz, as baldas, os sestros, os trucs, as toilettes e as infle- 
xões. Se fôr ella, e deixar de macaquear as outras. Era, ha dez 
annos, o meu vaticinio, como é, hoje, a minha opinião e, se a não 
estou a berrar todos os dias, é porque raro repito axiomas e te- 
nho horror pânico . . aos logares communs. 

E está fechado o balanço . . . 




O AUCTOR 

Caricatuaa de Leal da Camará 



APPENDICE 



Movimento theatral 



IBpoca d.e lS03-a.90'€: 



Impressões de Thetro 



441 



COMMISSARIO RÉGIO 

Alberto Pimentel 



Thcatro D. Maria II 

Sociedade Artística 
Época de 1902-904 (De 18 d'outubro a 23 de maio) 



Gerente 
Fernando Maia 

Thesoureiro 
Carlos Posser 



Societários de i.* classe; — Virgínia da Silva (mérito), Angela 
Pinto, Augusta Cordeiro, Carolina Falco, Beatriz Rente, Fer- 
reira da Silva (mérito), F. Maia, A. Mello, J. Costa, L. Pinto. 

Societários de 2.» classe : — Cecilia Machado, Amélia Vianna^ 
Cardoso Galvão. 

Societária de 3.» classe : — P melia Avellar. 

Eecripturados : — Carlos Santos, Pinto de Campos, Sampaio^ 
Mendonça, Nascimento, Correia, Luz Velloso, Maria da Luz^ 
Sarah Coelho. 



Peças 



Data 

da !.• representação 

ou da 1.* reprise 



N.ode 
repre- 
senta- 
ções 



A festa da actri^ 

Medicina domestica 

Escola antiga 

Avarento • 

Aventureira 

Tartufo 

Consciência dos filhos 

Romanescos 

Dolores 

Itália Vitaliani Magda 

» Tosca 

» Zaza 

» Adriana Lecouvreur 

» Fedora 

» Hedda Gabler 

Historia Antiga 

^Peraltas e Secias 

Os Cabulas (^) 

Um serão nas Lakangeiras 

O SONHO d'um príncipe 

Casamento de conveniência 

Cavallaria ligeira 

Engano d'alma 

e^o telephone 



17 outubro 
17 » 
24 » 

29 » 
3i » 

5 novembro 

7 

10 » 

14 » 

30 » 

1 dezembro 

2 » 

4 » 

5 

l " 

o » 

i3 » 

i5 » 

24 » 

12 janeiro 

23 » 

12 fevereiro 

23 » 

27 » 



5 

7 
4 
6 
2 
2 
3 

17 
I 
I 
2 
I 
I 
I 
3 
8 
I 

23 



(i) Sarau da Tuna do Lyceu. 



442 



Impressões de Theatro 



Peças 



Data 

da I.* representação 

ou da I .* reprise 



N.«de 
repre- 
senta- 
ções 



^oubouroche 

Um pae pródigo 

Amor de perdição 

Qá olho nu (1) . 

Os FILHOS ALHEIOS 

Terra Mater 

Casamento e mortalha 

D. Pedro Garuzzo 

O Desquite 

Uma visita 

Fogo no convento 

No tempo de Luiz XV. . 
Sabichonas 




4 

i8 

I 

9 

IO 

6 
9 

2 

3 
I 

4 
I 



(i) Sarau da Tuna da Escola Polytechnica 



Impressões de Theatro 



443 



Theatro D. Amélia 

Empreza Rosas & Brazão 

Época de 1903-904 (De 13 d'outul)ro a 7 de maio) 

Artistas : — Eduardo Brazão, João Rosa, Augusto Rosa, António 
Pinheiro, Gil, Antunes, H. Alves, Dr. Christiano de Sousa, A. 
Santos, Bayard, Carlos d'01iveira, Chaby, Cabral, Salles, Senna, 
agos, Rosa Damasceno, Adelina Abranches, Lucinda Simões, 
Maria Falcão, Lucília Simões, Delphina, Laura Cruz, Maria 
Pia, Jesepha d'01iveira, Jesuina Saraiva, Elvira Costa, Amélia 
0'Sullivand, Elvira Santos, Cecilia Neves, Estephania Pinheiro. 



Peças 



Data 

da I .' representação 

ou da 1.* reprise 



N.«de 
repre- 
senta- 
ções 



Madame Flirt 

Zorf úT 

D. César de 'Ba^an 

Hamlet 

Lagartixa 

Segredo de Tolychinello\ 

Noticia da ultima hora. .\ 

^lanchette ) 

Mensageiro da pa^ \" 

Fedora 

Outro Eu. . . \ 

Uma anecdota) 

Casa de boneca.. .1 

Ceia dos car deães \ 

Demi-Monde 

Monsieur Qálphonse | 

Commissario bom. rapa^\ 

Fogueiras de S. João 

Amigo Frit^ 

Severa 

Regente 

Castello Histórico 

Sociedade onde a gente se aborrece . 

Magda 

A Encruzilhada 1 

Tragedia antiga • 

Auto pastoril . . ) 

Os Velhos 

Kean 



i5 outubro 

16 i> 

17 1) 

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22 « 

23 » 

24 » 

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26 D 

28 » 

29 w 

30 » 
3i » 

I novembro 
3 

5 
6 

19 » 

20 » 
22 » 



4 
3 
3 
3 
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I 
I 

4 
2 
6 
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5 
2 
2 
2 
I 
I 
5 
2 
I 
i 
20 
I 
I 
2 
2 
3 



444 



Impressões de Theatro 



Peças 



Data 

da I.* representação 

ou da i." reprise 



N.ode 
repre- 
senta- 
ções 



CoQUELiN Le depute de Bombignac. . 

» La joie fait peur 

» Gyrano de Bergerac 

» Thermidor 

O HEROE DO DIA, 

Resurreiçâo 

Sol de maio 

Cruz da Esmola 

Francillon 

Leonor Telles . 

SUB-PERFEITO DE ChATEAU BuZARD . . . . . 

El género GORDO 

A Castellá 

Maeternick Í.EBLANC Moona Vanna — 

» Joyzelle 

» AglavaJne et Salysettej 
» L.intruse \ 

O ADVERSÁRIO* i 

O CORAÇÃO TEM CAPRICHOS j 

cMadame Sans-Gêne 

Bartet L'autre danger 

» Le jeu lamour et de Ihasard 

» La nuit doctobre 

» La loi Ihomme 

» Le Dedale 

« Lami des femmes 

» Berenice 

Zarzuella 



24 novembro 

24 » 

25 » 

26 M 

16 dezembro 

2? » 

4 janeiro 
8 » 

25 » 

29 » 
6 fevereiro 
i3 » 
29 » 

17 março 

18 » 

19 » 

26 « 

22 abril 

29 »j 

30 » 

1 maio 

2 » 

3 » 

4 » 

5 »ai3junho 



I 
I 
2 
I 
10 

14 
3 

2 

5 

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40 



Impressões de Theatro 



44Í 



Theatro do Gymnasío 

Emprezario J. J. Pinto 
Época de 1903-1904 (De 18 de outubro a 31 de maio) 

Artistas : — Joaquim d'Almeida, Ignacio, Cardoso, Soller, C. Leal, 
Telmo, Ferreira, Pinheiro, Sarmento, A. de Sousa, Salles, Al- 
meida, Pereira, Barbara, Palmyra Torres, Carlota da Fonseca, 
Izabel Berardi, Júlia da Assumpção, Marieita Mariz, Emilia 
Sarmento, Sophia Santos, Palmyra Ferreira e Judith Garcez. 



Peças 



Data 

da I.* representação 

ou da i." reprise 



N.»de 
repre- 
senta- 



Madrmha de Charley 

Um beijo. . . 

Marido sem Mulher 

^apão 

Uma aventura de viagejí. 

Os Pimentas 

<3asados Solteiros 

HDr. Zacharias 

brinquedo de Criança. . . . 

Doidos comjui^o 

Uma teima 

A minha trança 

Aguas passadas 

Aldighieri 

Bode expiatório 

Maldita pulseira 

Outro séxo 

Uma lição de moral 

espiritismo . 

O grande boi ha 

O Casebre 

Ministro de agua furtada. . 

Gente para alugar 

o c1nimat0graph0 

Na luã de mel 

O Ninho de Cupido 

Mania métrica 

^esapparecido 



18 outubro 


3 


18 » 


H 


20 » 

25 » 


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3 novembro 


1 1 


3 


12 


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12 
18 


18 
18 


19 

I 


26 » 


I 


3 dezembro 


4 


3 » 


I 


4 


26 


4 
3o » 


2 

32 


16 janeiro 


3 


16 » 


6 


3o » 
3o » 


9 

I 


3 fevereiro 


I 


4 março 


13 


24 » 


«4 


24 » 
21 abril 


21 

8 


5 maio 


I 


4 »> 


4 



446 



Impressões de Theatro 



Gerente 
Alves da Silva 

Ensaiador 
Pedro Cabral 



Theatro do Príncipe Real 

Empreza Ruas e Carvalho 

Época de 1903-1904 (1 de outubro a 30 d'abiil) 



Secretario 
Carlos Furtado 



Artistas: — Alves da Silva, Luciano de Castro, Roque, Pinto» 
Costa, Eduardo Vieira, Sepúlveda Augusto Machado, Cha- 
ves, Jayme Silva, José Monteiro, Arthur Rodrigues, Gentil,, 
Leopoldo Froes, Frederico, Adelaide Coutinho, Maria das Do- 
res, Adelina Nobre, Emília d'01iveira. Cândida de Sousa, Au- 
gusta Guerreiro e Georgina Vieira. 



Peças 





Data 


da I 


.• representação 


ou 


da I.* reprise 


20 


outubro 


3o 


» 


6 novembro 


i3 


» 


I 


dezembro 


29 


» 


ib 


janeiro 


19 


» 


26 fevereiro 


3 


marco 


6 


» 



N.» de 
repre- 
senta- 
ções 



Rei Maldito 

Dama das Camélias 

Vida d' um rapa^ pobre 

Anjo da Meia Noite 

Conde Monte Christo 

Príncipe Perfeito 

Coxo do Bairro Alto 

Garra de Leão 

Duas Orphãs 

Senhora illustrada 

Perdidos no Mar 

Theatro Livre Moral d'elles 

» A'manhã — 

A mulher demónio . 

O voluntário de Cuba 

A Bossa do Crime .... 

A flor dos trigaes 

Moços e velhos 

As Campainhas 

Jack o Estripador 

Theatro Livre Em Ruinas.. 

» A Carteira .. 



8 «r 

8 » 

9 » 
ib » 

23 » 
4 abril 



12 
19 
19 



16 

9 
10 

24 

33 

8 

27 

í 

I 

16 
6 
6 
3 



Impressões de Theatro 



447 



Theatro da Trindade 

Empreza Affonso Taveira 

Época de 1903-1904 (De 16 de setembro a 30 de maio] 

Artistas: — Amélia Barros, Thereza Mattos, Maria Santos, Emí- 
lia Rheno, Medina de Sousa, Estephania, Rosa Pereira, Quei- 
roz, Mattos, Almeida Cruz, Santinhos, Gomes, Conde, Francisco 
Costa, Gabriel Prata, Cálás, Soares, Alfredo Carvalho, Bar- 
reiros, Firmino e Carlos Santos. 

Maestros: — Nicolino Milano e Thomaz Del Negro. 



Peças 



Data 

da I.* representação 

ou da I.* reprise 



N.«de 
repre- 
senta- 
ções 



Capital Federal 

cMoscotte 

Gato Treto 

Filha da Sr* oAngot 

Se eu fora rei 

Itaua Vitaliani Maria Stuart 

» Dama das Camélias 

» Tosca 

» Magda 

» Locandiera 

» Fedora 

El-Rei ^amnado 

PUM ! 

Os DIABOS NA TERRA 

As CALÇAS DO JtnZ DE PAZ 

Hotel do Livre Cambio 

Cão DO REGIMENTO 

Tastamento da Velha 

Dragões d'El-Rei 



i6 setembro 

22 » 

1 outubro 

23 » 

28 
5 novembro 
6 

7 
9 
10 » 

12 » 

7 dezembro 
16 » 

28 janeiro 
19 fevereiro 

24 março 

2 abril 
28 » 

2 maio 



3i 

25 

55 
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7 
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7 
12 
18 
i5 

8 

32 

I 

5 



448 



Impressões de Theatro 



Theatro Avenida 

ScENOGRAPHo Empreza Eduardo Portulez ^^^^^^^ 

Carancini (Director de scenaj ^"'\ Fagueiras 

Época de 1903-1904 (De 9 de janeiro a 7 de junho) 

Artistas: — Grijó, Setta da Silva, Roldão, Salvaterra, Salgado, 
Fernandes, Raposo, Barros, Rodrigues, V^az, Albuquerque, Ta- 
veira, Pina, Delfina Victor, Isaura Ferreira, Amélia Pereira, 
Gabriella Lucey, Elisa Aragonez, Laura Fernandes, Sarah, 
Stella e Laura Ruth. 



Peças 



da 
ou da 



Data 

representação 
reprise 



N.o de 
repre- 
senta- 
ções 



Senhor feudal 

Uma noite em Veneza 

VlVINHA A saltar . . . 

Intrigas no bairro. . . . 

Paris em Lisboa 

Pela Pátria 



Q janeiro 


7 


2§ » 


21 


i6 marco 


55 


1 1 abril 


I 


1 1 » 


I 


i8 maio 


8 



índice alphabetico 



REFERENCIAS FEITAS N'ESTE VOLUME 



(Notas Día-DíDííograpliíGas úe escríptores e artistas) 



20 



\ 



AB5é Constantin (L') Com. 4 a. de Louduvic Halevy. Trad. 
port. Pinheiro Chagas rep. D. Maria dez. 1888. — Pag. 89 a 41, 53. 

Abel Botelho. Rom. aut. dr. port N. Taboaço 25 set. i856. 
Th. : «Germano» (dr. não rep. 1886), «Jocunda» (com.. 3 a. 1889), 
«Claudina» (dr. 3 a. 1890), «Vencidos da vida» (com. 3 a. 1892), 
«Immaculavel» (com. 3 a 1897). — Pag. 168. 

Accacio Antunes. Esc. th. port. N. Figueira da Foz 26 agosto 
i853 Trad.princ: «TíoMilhões», «28 dias deClarinha», «Cigarra», 
«Corrida do Facho», etc. Ens. vários th. — Pag. 272, 349, 35o, 419. 

Accacio de Paiva. Esc. th. port. N. Leiria 14 abril 1864. Th.: 
«Segunda carta», «Ateher modelo», «Ramerrão», «Arte Nova». 
Trad. de Capus, Donnay, etc Red. th. do Século. — Pag. 293, 298*. 

Adelaide Coutiníio. Az. port. N Lisboa 25 dez. 1861. Deb. 
Príncipe Real 1872 dr. «Incendiário». (P. R. 1903-904). — Pag. 
160, 188, 23o, 23i, 285, 3oi, 3i3, 370. 

Adelina Abranches. Az. port. N. L.sboa i5 ag. 1866. Deb. 
D. Maria 1871 com. «Meninos grandes». (D. Am. 1903-904) — Pag. 
222, 225*, 226, 237, 239, 240, 243 a 245, 387, 388"*, 389, 432, 434. 

Adelina Nobre. Az. port. N. 14 fev. 1873. Deb. th. Avenida 
1896 mag. «Regimento Vermelho». (P. R. 1903-904), — Pag. 117, 
160, 23o, 285, 3oi, 371, 373, 

oAdriana Lecouvreur. Dr. 5 a. de Legouvé e Scribe. Rep. Co- 
medie Française 14 ab. 1849. Pag. 196 a 198, 2o3, 206. 

oAdversaire (L). Com. 4 a. de Alf. Capus e Em. Arène. Rep. 
Renaissance jan. 1904. Trad.port.de Cunha e Costa rep. D. Amélia 
26 mar. 1904. — Pa9. 295. 352 a 356. 

Affaires sont les affaires (Lesj. P. 3 a. de Octave Mirbeau. Rep. 
Comedie 20 ab. 1903. — Pag. 3o5. 

Affonso Costa. Adv. e prof. port. N. 6 mar. 1871. — Pag. loi. 



452 Impressões de Theatro — índice 



A£fonso Taveira. A. port. N. Grestello 6 jan. i85o. Deb. Porto 
dr. «Lago de Kirnalay» 1880. Emprez. th. (Trind. 1903-904). — 
Pag. 147, i63, 164, 166* e 167, 216, 278. 

(ylglavaine et Selysette. P symb. 4 a, de Maurice Maeterlinck 
1896. — Pag. 3o4, 307, 336, 338, 344 a 348. 

Ajalbert (Jeaa). Aut. dr. fr N. Glichy-la-Garenne i863. Th.: 
«Filie Elisa» dr. jud. 4 a. «A' fleur de peau», com. i a. (1901). — 
Pag. 81, 82. 

Alberto Braga. Aut. dr. port. N. Porto 4 out. i85i. Th : «Es- 
trada de Damasco» 4 a. «Irmã» 4 a. «Estatuário» 4 a. «O Busto», 
I a. e varias trad. — Pag. 216, 219, 295, 434. 

Albuquerque. A. port. (Avenida 1905-904). — Pag. 271, 328. 

Alda Aguiar. Az. port. N. 25 set. 1884. Deb. out. 1903. (D. Ma- 
ria 1903-904). — Pag. 247, 260, 3 18. 

Alexandre Bisson. Esc. th. fr. N. Brionze 9 ab. 1848. P. princ. : 
«Rue Pigalle», «Surprises du divorce», «Mr. íe Directeur», «Joies 
de la paternité», «Depute de Bombignac», «Controleur des wa.- 
gons-lits», «Feu Toupinel», «Chateau historique», etc. — Pag. 170. 

Alexandre Dumas (F). Aut. dr. fr. N. Paris 28 jul. 1824. M. 
Paris dez. 1895. Th.: «L'ami des femmes», «Bijou de la reine», 
«Dame aux Camélias», «DemirMonde», «Denise», «Diane Je Lys», 
«.Etrangére», «Femme de Claude», «Filleul de Pompignac», «Fils 
naturel», «Idées de Madame Aubrav», «Mr. Alphonse», «Pere pro- 
digue», «Princesse de Bagdad», «í*ríncesse Georges», «Question 
d'Argent», «Supplice d'une femme», «Visite de Noces». — Pag. 
2, 22, 34, 36, 5o, 68, 77, 120, 122, 137, 139, 140, 229, 352, 354, 389, 
407, 411,412* e 413,414. 

Alexandre Dumas (P.) Rom. e aut. dr. fr. N. Villers Gotterets, 
24 jun. i8o3 M. 5 dez. 1870. Peç. princ: «Antony», «M.He Belle 
Isle», «Henri III et sa cour», «Tour de Nesle», «Kean», «Reine 
Margot», etc. — Pag. 188, 4^7*, 428, 429. 

Alevandre Herculano. Rom. hist. port. N. Lisboa, 28 mar. 
1810 M. Valle de Lobos, i3 set. 1877. Th.: «Bobo» (adap. rom.) 
«Fronteiro d'Africa», dr. hist., 3 a., rep. Th. Salitre 1862. — Pag. 18. 

Alexandre Ferreira. A. port. N. Lisboa 9 nov. i856. Deb. 20 
set. 1875, Variedades, magica «Lenda do Rei de Granada». (Gymn. 
1903-904. — Pag. 241, 278, 299, 3-5. 

Aljfredo de Carvalho. A. port. N. 24 jan. 1854. Deb. 26 out. 
1867, feira d'Alcantara. (Trind. 1903-904). — Pag. 272, 291, 357. 

Alfredo Santos. A. port. N. Lisboa 17 set. i8(")6. Deb. Príncipe 
Real i3 nov. 1886. «Incêndio do brigue Atlântico», (D. Am. 
1903-904).— Pag. 222, 377. 

Almas solitárias. Dr. 3 a. de Gerhardt Hauptmann, rep. Lisboa 
por Zacconi. Trad. fr. rep. Th. TOeuvre 12 dez. 1893. — Pag. 22, 
i65. 

Almeida Cruz A. port. N. i ab. 1879. Deb. Trindade, «Sinos 
de Gorneville» (Trind. 1903-904). — Pag. 2i5, 272, 291, 357. 

Almeida (José). A. port. (Gymn. 1903-904). — Pag. 241, 278, 299. 

Alpoim (José Maria de) Jorn. e pòl. port. — Pag. 38, i58, 
216, 219^,433. 



Impressões DE Theatro — índice ^53 



Álvaro Cabral. A. port. N. Villa Nova de Gaya ?2 jun. i865. 
Deb. i8 mar. 1890, Rua dos Condes rev. «Tim-Tim». (D. Aro. 
1903-904).— Pag. 210, 222, 243, 289, 293, 377. 

Álvaro (Filippe Ferreira). A. port. N. Vieira 29 jan. 1848. 
Deb. Príncipe Real 16 set. 1868. Ret. de se. — Pag. 177. 

Alves da Silva. — A. port. N. Castellães (Vizeu) i5 iun. 1867. 
Deb. Petrópolis (Brazil) 28 março 1892 dr. «Lobos Marinhos. (Ge- 
rente P. R. 1903-904). — Pag. 117, 160, 188, 23o, 232, 285, 3oi, 
370, 371. 

Amanhã. Episodio dr. de Manuel Larangeira. Excep. rep. 
Príncipe Real 8 março 1904. — Pag. 3i3, 3i5, 317, 374. 

Amants (les). Com. 4 a. de Maunce Donnay rep. «Renais- 
sance» 5 nov. 1895. — Pag. 393. 

Amaral. A. põrt. (Rato 1903-904). — Pag. 359 

Amélia Avaliar. Az. port. N. 21 dez. i865.M. Lisboa 24 nov. 
1904. Societ. 3.* cias. Th. D. Maria. — Pag. 227, 3 18. 

Amélia Barros. Az. port. N. Lisboa 9 março 1842. Deb. 7 set. 
1876 Trindade com. «Um Favor de Procopio» (Trind. 1903- 
904) — Pag. II 5, 2i5, 272, 291, 357. 

Amélia 0'SuIUvand. Az. port. N. 3o dez. 1848. Deb. D. Maria 
«Fim de Sodoma» i88q. (D.Am. 1903-904). — Pag. i33, 222,293, 
377. 

Amélia Pereira. Az. port. N. 26 jun. 1874. Deb. 1895. (Avenida 
1903-904.) — Pag. 271,328,331. 

Amélia Vianna. Az. port. N. 22 julho 1849. Deb. Variedades 
1873, «Cofre dos Encantos». Societ. 2.* cias. D. Mana. — Pag. 227, 
234, 260, .^18. 

Amélia Vieira. Az. port. N Lisboa 17 nov. i85o. Conserv. 
1857. Deb. Variedades i865. Ret. se. — Pag. i36, 177. 

Ami des femmes (i). Com. 5 a. de Alexandre Dumas, filho, 
Rep. Paris 1864. — Pag. 411 a 414. 

Amores d'um visionário (Os). Rom. hist. orig. do século XVI, 
por Bernardino Pinheiro (2 vol. 1874). Pag 1 18, 124, i25, 128, 129. 

Amor louco. Dr. 4 a. de Henrique Lopes de Mendonça, rep. 
Th. D. Amélia 18 dez. 1899. — Pag. 28. 

Amor de perdição. P. em 7 q. ext. do rom. de C. Castello 
Branco, por D. João da Camará, rep. Th. D. Maria 1 1 março 
1904. — Pag. 3 18 a 325. 

Ancey (Georges), pseud. de G. A. de Curnieu, aut. dr. fr. 
N. Paris 9 ^dez. 1860. Th: «Mr. Lamblin» (1888). «Les insepara- 
bles» (1889). «L'école des veufs» (1889). «La Dupe» (1890). «Grand 
Mére» (1890). «L'avenir» e «Ces Messieurs». — Pag. 68, 97. 

Angela Pinto. Az. port. N. Lisboa 16 nov. 1869. Deb. Setúbal 
opt. «Simão» «Simões & C.'». i885. Societ. i.» cias. D. Maria. — 
Pag. 3, 20, i55, i56, 1-7*, i58, 205,227,260,270,318,321,324, 
432, 434. 

Anglais ou le fou raisonable (L') Com. i a. de Patrat. Repor. 
Coquelin Cadet. — Pag. 34, 35. 

Anjo da Meia Noite. P. symb. 5 a. 6 q. Rep. Príncipe Real 16 
nov. 1903. — Pag. 160. 



454 Impressões de Theatro — índice 



Ântoine (André). A. fr. N, Limoges i858. Funda março 1887 
o Th. Libre. Gymnase 1895. Renaissance 1896. Funda o Th. Ân- 
toine 3o set. 1897 — Pag. 7, 5i, 53, 60, 61* a 67*, 68a 73, 76* a 86, 
89 a 92*, 93, 94, 96a loi, 175, i8(, 286, 293, 294, 3o6, 3i4, 3i5 a 317, 
3o2, 366, 374, 421, ^32, 433. 

António Énnes. Aut. dr. port N. Lisboa i5 ag. 1848. M. Lisboa 
jun. 1901. Th.: «Lazaristas», «Eugenia Milton», «Engeita-ios», «Sal- 
timbanco», «Luxo», «Emigração». Aut. da Ref. do Th. Normal 
(Dec. 8 ab. 1898). — Pag. i56,' i83* a 187, 227, 23o, 233, 25i, 264, 
286, 429. 

António Sousa. A. port. N. 10 out. 1876. (Gymn. 1903-904). 
— Pag. i3o, 278, 299, 349. 

António Nobre. Poeta dec. port. M. 18 mar. 1900 — Pag. 3o3*. 

Antoaio Pedro. A. port. N. Lisboa i5 maio i836. M. 23 jun. 
1889. Deb. Variedades mag. «Loteria do Diabo» 3o nov. 1861. — 
Pag. 8, 12, 114*, i58. 275, 374. 

Arène (Emmanuel). Esc. th. fr. N. Ajaccio i856. crit. th. do 
Figaro collab. de Capus Adversário. — Pag. 352. 

Arlesienne (L').'P. 3 a. 5 q. de Alphonse Daudet, musica de Bi- 
zet, rep. Paris Vaudeville i out. 1872 — Pag. 53. 

Arlincourt (Visconde d'). Rom. fr. N. Versailles 1789. M. i856. 
— Pag. 320 

Arthur d'Azevedo. Esc. crit. th. braz. N. Maranhão 7 junho 
i855. Bibliog. theat vasta: dr., mag., com., rev., peças cost , opt. 
Auctoridade critica do Brazil. — Pag. 21 5. 

Arthur Rodrigues. A. port. N. 1873. Deb. Príncipe Real, dr. 
«Degredado». (P. R. 1903-904). — Pag. 117, 160, 188,230,248,285, 
3oi, 370, 371. 

Augier (Emile) Aut. dr. fr. N. Valence 1820. M. Paris 25 out. 
1889. Th. : «La Cigue», (2 a 1844); «Homme de bien», (3 a. 1845); 
«Aventurière, (5 a. 1848); «Gabrielle», (5 a. 1849); «Joueur de 
flute», (i a. i85o); «Philiberte» (3 a. i853); «Jeunesse», (5 a. i858); 
«Diane», (5 a. i852); «Paul Forestier, (4 a. 1868); «Genre de Mr. 
Poirier», (4 h. 1854); «Pierre de touche», (5 a. i853); «Geinture 
dorée», (3 a. i855); «Mariage d'01ympie», (3 a. i855); «Lionnes 
pauvres» (5 a 1858) «Beau Mariage», (4 a. 1859); «Effrontées», 
(5 a. 1861); «Fils de Giboyer», (5 a. 1862); «Post scriptum», (_i a. 
1869); «Habit vert» (i a 1849); «La contagion», (5 a. i8ó6); «Maitre 
Guerin», (5 a 1884), «Lions et renards» (5 a. 1869); «M."" Cavar- 
let» (4 a. 1876); «Jean de Thommeray», (5 a. 1873); pFourcham- 
bault», (5 a. 1878); «Prix Martin» (3 a. 1876).— Pag. 34, 36 a 38, 
5o, 261, 407. 

Augusta Cordeiro. — Az. port. N. Santarém 22 jan. 1868. Deb. 
Trindade opt. «Menina do Telephone», 12 março 1892. Societ. 
I.* cias. D. Maria. — Pag. 227, 237, 247, 260, 269*, 36o, 362. 

Augusta Guerreiro. Az. port (P. R. 1903 904). — Pag. 160, 188, 
285, 3oi, 370, 375. 

Augusto Antunes. A. port. N. Lisboa 22 out. i%9. Deb. Va- 
riedades, nov. 1868, dr. «Amor da Pátria». (D. Am. 1903-904).— 
Pag. i33, 168, 222, 280, 289, 352, 377. 



Impressões de Theatro — índice 455 



Augusto de Lacerda. Aut. dr. port. N. 29 dez. 1864. Th.: «Flor 
•dos Trigaes», «Aspasia», «Samuel», «Vicio», «Charada», «Casa- 
dos Solteiros», «Judas», «Terra Mater». — Pag. 36o, 36 1*. 

Augusto Machado. A. port. N. Lisboa 23 dez. 1869. Deb. Gym. 
nasio 1889, com. «Ave Maria Purissima». (P. R. 1905-904). — Pag. 
117, 118, 160, 188, 23o, 248, 285, 3i3, 370. 

Augusto Pina. Scenog. port. N. Alcobaça 27 jan. 1872. — 
Pag. 226, 238, 240, 289. 

Augusto Rosa. A. port. N. Lisboa 6 fev. i852. Deb. Th. Ba- 



<quet Porjo 3i jan 1872, com. de Camillo, cMorgado de Fafe em 
Th. D. Amélia — Pag. 6, 25, 29, 3o, 74, 

143,280,289,293,298,352,355,556,^7. 
Qáutre danger (V). P. 4 a. de Maurice Donnay, rep. na Co- 



Lisboa. Societ. do Th. D. Amélia — Pag. 6, 25, 29, 3o, 74, i33, 
134, 142, 144, 145*, 168, 222, 243, 280, 289, 293, 298, 352, 355, á56,3_y7. 



medie 22 dez. 1902. — Pag. 389, 393, 3q4, 399, 402, 403. 

Auto Pastoril. P. 1 a. em v. de Pedroso Rodrigues, rep.no 
Th. D. Amélia 20 nov. 903, cone. dramat. do T)ia. — Pag. 168, 169. 

Avarento (O). Com." 5 a. de Molière, adapt. port. do Visconde 
de Castilho, rep. th. D. Maria — Pag. 5, 43. 

Avaries (Les). P. 3 a. de Brieux, prohib. pela censura 1902, 
rep. na Bélgica 1903. — Pag. 78, 88, 363. 

Aventuras de Richelieu. Com. 4 a. rep. 1842, Emilia das Neves. 
^J^prise 1902. Th. D. Amélia, deb. Adelina Abranches. — Pag. 21. 

Aventura de Viagem. Com. i a. trad. de Lambertini Pinto de 
«Un'avventura di maggio», de R. Bracco, rep. Th. Gymnasio 
3 nov. 903. — Pag. i3o. 

Aventureira (A) Com. 4 a. v. de Emile Augier, trad. port. 
de Coelho de Carvalho, rep. D. Maria dez. 1902. — Pag. 5. 



B 



Badallo [A procura do). Rev. 3 a. 12 q. de Baptista Diniz, rep. 
Th. Príncipe Real 1903. — Pag. 2, 236, 283. 

'Baiser (Le). Com. de Théodore Banville, rep. Th. Libre, 27 
dez. 1887. Comedie 14 maio 1888. — Pag. 38, 57. 

Balzac (Honoré). Rom. fr. N. 16 maio 1799. M. 9ag. i85o. Th.: 
«Vautrin», (dr. 5 a. 1840). «Ressources de Quinola» (com. 5 a. 
1842), «Pamella Giraud» (p. 5 a. 1843), «La Maratre», (dr. 5 a. 
1848), «Mercadet», (3 a. i85i).- Pag. 107, i23. 

Banville (Théodore). Aut. dr. fr. N 14 março 1823. M. 189.. 
Th.: «Sócrates et sa femme», «Gringoire», «Le Baiser», etc. — 
Pag. 38, 39, 57. 



456 Impressões de Theatro — índice 



Baptista riniz (Eduardo). Esc. th. port. N. Lisboa ignov. iSSg. 
Princ. rev. «Zás traz», «Da Parreirinha ao Limoeiro», «Século 
XIX», «A' procura do badallo», «Caetano Gregório», «De Portas 
a Dentro». — Pag. 229, 243, 281, 283*. 

Baptista (José) A. port. N. Lisboa 26 ab. 1869. M. Manaus, 
i5 maio 1903. Deb. 1891. Th. do Rato, dr. «Filhos da Noite». — 
Pag. 72, 93. 

Barbara Volckart. Az. port. N. Lisboa 20 março 1848. Deb. 
1867, zarz. «Joven Telemaco» R. dos Condes, (Gymn. 1903-904). 

— Pag. II 5, 217, 241, 242, 278, 299, 3oo, 349, 35 1, 376. 

Barnun (Phineas Taylor). Emprez. amer. N. Bethel 1810. M. 
Philadelphia 1891. — Pag. 20, io3, i63, 164, 167. 

Barreiros (Ed.). A. port. N. 3o ag. 1868. (Trindade 1903-904). 

— Pag. 2i5, 272, 291, 357. 

Barriere (Theodore). Aut dr. fr. N. 1877. P. princ : «Vie de bo- 
heme» (i85i), «Filies de Marbre» (i853), «Faux bonshommes» 
(i856), «Gens nerveux» (1859), «Feu au couvent» (1859), «Jocris- 
ses d'amour» (i865). — Pag. 419, 425, 426. 

Barros. A. port. N. 3 dez. 1859. Deb. 1884. (Avenida 1903- 
904). — Pag 271-328. 

Bartet (Jeanne Júlia Regnault, vulgo). Az. fr. N. Paris 28 out; 
1854. Cons 1872. 2.» accessit com. 1873. Deb. Vaudeville 1873. 
«Arlesienne». Societ. da Comédie desde i885. — Pag. 12, 206, 
365, 389 a 391, 395, 396*, 397, 399, 400, 402* 404 a 406*, 409 a 
411, 414, 417*=, 418, 432, 

Baudelaire (Charles). Pt. fr. N. 1821. M. 1867. Aut. «Fleurs 
du mal». — Pag. 398. 

Beatriz Rente. Az. port. N. Portalegre 22 jan. 1859. Deb. D. Ma- 
ria 1874, com. «Quem empresta não melhora». Societ 1." cias. 
D. Maria — Pag. 227, 260. 

Becqne (Henry) Aut. dr. e crit. fr. N. Paris 9 ab. 1837. M. 1900. 
Th.: «Parisienne», «Corbeaux», «Sardanapale», «Enfant Pro- 
digue», «Michel Pauper», «La Navette», «Honnetes femmes». Crí- 
tica : «Querelles litteraires», i vol. — Pag. 22, 68, 97, 402, 407, 412. 

Beijos de burro. Rev. 3 a. 9 q. de Caracoles e Esculápio, rep. 
th. Rato 8 ab. 1904. — pag. 358, 359. 

Beirão (Francisco António da Veiga). Pol. e jurisc. port. — 
Pag. 116, 216, 219, 220*^. 

TBerceau {Le) P. 3 a. de Brieux, rep. Comédie 19 dez. 1898. 
Trad. port. de Portugal da Silva, rep. D. Maria 9 ab. 904. — 
Pag. 88, 36o, 363 a 367, 406 a 408, 410. 

'Berenice. Trag. 5 a. v. de Rocine. Rep, Hotel Bourgogne 1670. 
Bartet D. Am. 5 maio 1904. — Pag. 41b a 418. 

Bernardin de Saint-Pierre. Rom. fr. N. Havrei737. M. 21 Jan. 
1814. Aut. de «Paulo e Virgínia. — Pag. 396. 

Bernardino Pinheiro. Rom. port. Oh. princ: «Arzilla», «Som- 
bra e luz», «Amores d'um visionário», (século XVI) Pag. 118,^ 
124, 125, 129. 

Berton (Pierre). Aut. th. fr, N. Paris 6 mar. 1842. Peç. princ: 
«Jurons de Cadillac» (i865), «Vertu de ma femme (1867), «Didier» 



IImpressões de Theatro — índice 457 



(1868), «Léna» (1889), «Chouans» (1894), «Zaza» (1898). — Pag. 
193. 

'Bezerro de ouro. Dr. 4 a. de Guilherme Santa Ritta, rep. uma 
só noite Príncipe Real 1896. — Pag. 279. 

Bibliothecario (O). Com. ing. 3 a. adapt. por José António de 
Freitas. Rep. D. Mana 1890. Pag. 238. 

Biester ( Ernesto 1. Aut. dr. port. M. Lisboa 12 dez. 1880. Peç. 
princ: «Um drama no mar», «O limpa chaminés», «Homens ricos», 
e adapt. dos rom. «As pupillas do sr. Reitor», «Mocidade de D. 
João V» e «Vingança». Trad.: «Cora ou a escravatura», «Mulher 
que deita cartas», «Familia Benoiton». etc. — Pag. 7, 187. 

Bienfaiteurs (Les). Com. 4 a. de Brieux, rep. na Porte Saint- 
Martin 22 out. 1896. — Pag. 88. 

Bizet (Georges). Mus. e comps. fr. N. i838. M. 1875. Aut da 
«Cármen». — Pag. 53, 3 10. 

Bjomson (Bjornstjerne). Aut dr. nor. N. Kvikne i832. Th.: 
«Amour et geographie», «Nouveaux mariés», «Au dela des forces», 
«Un Gant», «Une faillite», «Le Roi», «Le journaliste», «Labore- 
mus», oNouveau systeme», etc. — Pag 421. 

Blanchette. Peç. 3 a. de Brieux, rep. Th. Libre 2 fev. 1892. 
Trad. port. de João Luso, report. Lucilia Simões. — Pag. 25, 3o, 
74, 76 a 79, 88, 90, 96, 102, 372, 362, 363, 407. 

^ode expiatório (O). Com. 3 a. adapt. do ali. por Freitas 
Branco, rep. Th. Gymnasio 4 dez. 1902. — Pag. 216 218, 242. 

Bombarda ( Miguel Dr ). Alienista port. prof. Esc. med. — Pag, 
210, 235, 3c7, 342. 

Bonarel. A. fr. N. Paris i865. Tournée Bartet. 1904. — Pag. 
4o5. 

boneca {A). Opt. 3 a. de Audran report. th. Avenida. — Pag. 
366, 426. 

Bomface (Mauricei. Aut. dr. fr. N. Lille 1862. Th.: «Marquis 
Papillon» (3 a. 1887), «Tante Leòntine» (3 a. 1890), «Gyptis» (2 
a. 1890), «La crise» (3 a 1893). «Petites Marques» 2 a. 189JJ, «Cla- 
risse Arbois» (3 a. 1903). — Pag. 68, 3i3, 3i5. 

'Borkmann (John Gabriel) l)r. 4 a. de Ibsen, rep. em Dramenn 
19 jan. 1897 e em Paris 8 nov. 97. — Pag. 210. 

Boubouroche. Com. 2 a. de Georges Courteline, rep. th. Libre 
27 ab. 1893. Trad. port. de Moura Cabral rep. D. Maria 190Í. — 
Pag. 43 a 45, 58. 

Bouchers {Les) P. i a. de Femand léres. rep. th. Libre 5 nov. 
1888.— Pag. 66. 

'Bourgeois gentilhomme {Le). Com. pantom. 5 a. de Moliére. 
Pag. 43 a 45, 58. 

firacco (Roberto). Aut. dr. it. N. Nápoles 1861. Th.: «Non fare 
ad altri» (c. i a.), «Lui, lei, lui» (c. i a.), «Viceversa» (s. c ) «Un'av- 
ventura di maggio» (c. i. a.) «Le disilluse» (fab. i a.), «Una don- 
na» (dr. 4 a.), «Maschere» (dr. i a.), «Infedele» (c. 3 a.), «11 
trionfo» (dr. 4 a), «La fine delFamore» (c. 4 a.), «Don Pietro Ca- 
ruzzo» (dr. i "a.), «Fior d'arancio» (c. i a.), «Tragedie delPani- 
ma» (dr. 3 a.), «11 diritto di vivere» (dr. 3 a.), «Uno degli onesti» 



458 Impressões de Theatro — índice 



(c. I a.), «Sperduti nel buio» (dr. 3 a.), «Maternitá» (dr. 4ac), «11 
frutto acerbo» (c. 3 a.). — Pag. i3o, 148, 38o, 38i*a386. 

Brand Poema dr. 5 a. de Ibsen rep. Stockolmo, 24 mar. 
i885, Paris 21 jan. 1895. — Pag. 210. 

Brandes (Edouard). Aut. dr. din. N. Copenhague 1847. Th.: 
«Lagemilder», «Primadona», «Une visite», «Les remedes», «En 
dehors des lois» etc. Pag. 419 a 421. 

Brandes (George). Grit. din. N. Copenhague i836. Irmão do 
preced. Ob. princ: «Les grands courants du XIXeme siecle». — 
Pag. 420. 

Braz Burity. Pseud. de Joaquim Madureira. N. Lisboa 3 fev. 
1874. — Pag. 84, 326* 437*. 

Brazão (Eduardo). A. port. N. Lisboa 6 fev. i85i. Deb. th. 
Baquet (Porto) 1866. dr. «Trapeiros de Lisboa». Societ. do th. D. 
Amélia. — Pag. 25, 29, 3o, 53, 74, 96, 101, 168, 222, 226, 237, 238*, 
239, 243, 289, ■2q3, 297#, 298, 352, 355, 367, 377, 428. 

Brasileiro 'Pancracio. Opt. pop. 3 a. de Soares de Albergaria. 
Report. da Trindade. — Pag. 2, 216. 

Brieux (Eugène). Aut. dr. ir N. Paris, 19 jan. i858. Th.: «Ber- 
nard Palissy» (i a.) «Filie de Duranne», (5 a. 1890). «Bureau de 
Divorce», (1 a.)^Ménages d'artistes», (3 a. 1890). «Blanchette», (3 a. 
1892). «Mi-ka-ka», (i a. 1893). «Rose bleue»^ (i a. 1895). «Bienfai- 
tevirs», (4 a. 1897). «Evasion», (3 a. 1897). «Trois filies de M Du- 
pont», (4 a. 1899). «Résultat des coursés», (6 q. 1898). «Ecole des 
belles méres»,"(i a 1898). «Berceau», (3 a. 1899). «Robe rouge», 
(4 a. 1900). «Remplaçantes», (3 a. 1901). «Avaries», (3 a. 1902). 
«Petite Amie», (4 a. 19Ò2). — Pag. 68, Ih a 78, 88, 97, 36o, 362* 363, 
o^ôb^ 406, 407. 

Brunetière (Ferdinand). Crit. fr. N. Toulon 1849. Direct. da 
«Revue des Deux Mondes». — Pag. 397, 416. 

Burguet (Henry). A. fr. N. 1866, i » p. Cons. 1889 Deb Gy- 
mnase «Lutte pour la vie». Tournées Portugal, 1898, 1902-904. 
— Pag. 400, 405, 410. 

Butti (E. A.) Aut. dr. it. Peç. princ: «II frutto amaro», «Abis- 
so», «Utopia», «La fine di un ideale», «Corsa al piacere», «Luci- 
fero», «Tempestá», «Gigante e Pigmei», «Cuculo». — Pag. 148. 



C 



Cabeça de estopa. Vide «Poil de Carotte». — Pag. 21. 
Caetano Gregório & C" Rev. 3 a. e 9 q. de Baptista Diniz, 
rep. Feira de Alcântara verão 1903. — Pag. 227,236,270. 



Impressões de Theatro — índice 459 



Caillavet (Gaston Ârmand de). Aut. dr. fr. N. Paris i86g, Th: 
«Sainte Ligue», «Travaux de Hercule», «Instantané», «Sire de 
Vergy» «Ghouchette», «Le coeur a des raisons», etc. — Pag. 352. 

Calças do jui^ de pa^ (As) Vaud. 4 a. adapt. de João SoUer. 
mus. Nicolino Milano, rep. Trindade 19 fev. 904. — Pag. 291. 

Camará Lima. Esc. e crit. th. port. fí. 16 jan. 1872. Varias rev, 
-e trad. de Courteiine. Crit. th do «Popular». — Pag. 11 5, 286, 
328, 33o. 

Camillo Castello Branco. — Rom., crit., hist., poeta, pamph., 
humor, e aut. dr. port. N. 16 março 1826. M. i jun 1890. Th: 
«Poesia ou dinheiro» (2 a ) «Pathologia do casamento» (3 a.) 
«Marquez de Torres Novas» (5 a ) «Agostinho de Ceuta» (4 a.) 
«Justiça» (2 a ) «Espinhos e Flores» (3 a.) «Purgatório e Paraiso» 
<3 a.) «O Morgado de Fafe em Lisboa» (2 a.) «Abençoadas lagri- 
mas» (3 a.) «O ultimo acto» (i a.) «O Morgado de Fafe amoroso» 
(3 a.) «O Condemnado» (3 a.) «O Assassino de Macário» (3 a.) — 
Pag. 7, 172, 3 18, 219* 320, 321, 323. 

Caminheiro (O). Trad. de Júlio Dantas do dr. 5 a. de Jean Ri- 
chepin «Le Chemineau», rep. D. Maria 1900. — Pag. i5, 16. 

Campos Janior (António de). Rom. e aut. dr. port. N. i3 ab. i85o 
Th: «A torpeza» (1890). «A Filha do Regedor» (1892). «O nariz 
de cera», «O filho do Major» «A Consciência». — Pag. 100, 1 14, 261. 

Cândida de Sousa. Az. port. N. 11 out. 1879. (P. R. 1903-904) 
Pag. 1 1 7, 23o, 248, 285. 3 1 3, 370. 

Cândido de Figueiredo. Esc. pub. port. N. 19 set. 1846. — 
Pag. 356. 

Cão do regimento (O). Opt. 4 a. de Décourcelles, rep. no Th. 
da Trindade 2 ab. 1904. — Pag. 357 

Capital. Dr. 3 a. de Ernesto ua Silva, rep. th. Gymnasio 1898 
— Pag 372. 

Capital Federal. P. 3 a. cost. braz. de Arthur d'Azevedo, mus. 
de Nicolino Milano, rep Trindade 1903. — Pag. 216. 

Capus (Alfred). Aut. dr fr. N. Aix i858. Th.: «Brignol et sa 
íille» (3 a.) «Rosine» (4 a.) «Innocent» (3 a.) «Petites folies» (3 a.) 
«Mon tailleur» (i a.) «Maris de Leontine» (3 a.) «Mariage bour- 
geois» (4 a.) «La bourse ou la vie (4 a.) «La Veine» (4 a.) «Deux 
écoles» (4 a.) «Adversaire» (4 a.) «Petite fonctionnaire» (3 a.) — 
Pag. 293, 294*, 295, 207, 298, á52 a 354, 363. 

Caracoles. Pseud.de Cruz Moreira. Esc. th. port. N. 3 maio 
1854. Aut «Beijos de Burro» Pag. 358 e 359. 

Cardoso (António) A. port. N. Lisboa 5 ab. 1860. Deb. Rato 
1881, «Zé Povinho». (Gymn. 1903-904). — Pag. 53, 115,217,241, 
242, 299, 3oo*, 349, 35o, 375, 376. 

Cardoso Galvão. A. port. N. 21 março. i85i. Deb. 1874 Trin- 
dade dr. «Campinos», Societ. 2.* cias. D. Maria. — Pag. i55, 227, 
247, 260, 286, 3 18, 36o. 

Carlos Duse. A. it. — Pag. 147, iqi, 192, 199, 211. 

Carlos Leal. A. e caricat. port. N. Lisboa 27 dez. 1878. Deb. 
Trindade julho 1895 rev. «Retalhos de Lisboa». (Gymn. 1903- 
<)04).— Pag. i35, 217, 278, 299, 3oo, 375, 376*. 



460 Impressões de Theatro — índice 



Carlos d'01iveira. A. port. N. Lisboa 14 set. 1872. Deb. 1896 
Rua dos Condes, «Demi Monde». (D. Am. 1903-904). Pag. i33, 
142, 168, 222, 243, 289, 352, 377, 393. 

Carlos Santos. A. port. N. Lfsboa 5 nov, 1871. Deb. D Maria 
25 nov. 1895 com. «O leque». (D. Maria 1903-904). — Pag. i55, 
i56, 227, 260, 286, 292, 3 18, 36o, 367% 38o, 427, 429. 

Carlota Fonseca. Az. port. N. 16 jan. 1875, Deb. Rato mag, 
«Gata branca». (Gymn. 1903-904). — Pag. i35, 217, 241, 299, 349,. 
375. 

Carolina Falco. — Az. port. N. Lisboa 16 jan. 1834. Deb. Porto 
i858. i«Fra Diavolo». Societ. i.* cias. D. Maria. — Pag. 1 55, 260, 
286, 292, 3 18, 36o. 

Carteira (A). P. i a. de Octave Mirbeau trad. de Costa Car- 
neiro, rep. Th. Principe Real 19 ab. 1904. — Pag 371, 373, 374. 
Casados solteiros. Com. 3 a. adapt. do ali. por Xavier Marques^ 
rep. Gymnasio 7 nov. 1903. — Pag. i35. 

Casajnento de conveniência. P. 3 a. de Coelho de Carvalho» 
rep. D. Maria 23 jan. 904, — Pag. 260 a 270, 287, 362,432. 

Casamento e mortalha P. 2 a. de D. João da Camará, rep, 
D. Maria 24 ab. 1904. — Pag. 38o, 385, 386. 

Casebre {O). P. i a. de N. N. rep. Gymnasio 3o jan. 904. — 
Pag. 278, 279. 

Castellã {A). Com. 4 a. de Alfred Capus, trad. de Accacio 
de Paiva, rep. Th. D. Amélia 29 fev. 904. — Pag. 293 a 298, 352» 
354, 355. 

Castilho (António Feliciano, Visconde de). Poeta dram. port. 
N. Lisboa 26 jan. 1800. M. 18 junho 1875. Th : adapt. de Molière : 
«Avarento» «Tartufo», «Mysantropo», «Medico á força», «Doente 
de scisma», «Sabichonas». Trad.: «Camões» (dr. 2 a.) e «Adriana 
Lecouvreur (op. 4 a.) Orig. : «Tejo», «A liberdade» e «Anjinho 
da pelle do diabo». — Pag. 47. 

Castros [Os). Com. 4 a. de Marcellino Mesquita, rep. D. Ma- 
ria, 8 ab. 1893.. — Pag. 120. 

Cause ed effeti. Com. 5 a. de Paolo Ferrari. Pag. 148. 
Cavallaria ligeira. P. 3 a. 9 q. de Courteline e Norés, trad. de 
Camará Lima, rep. D. Maria, 6 fev. 1903, — Pag. 286 a 288. 

Ceard (Henry). Aut. dr. fr. N. Paris i85i.Th: «Renée Mau- 
perrm», (3 a. 1888). «Resignes», (3 a. 1880). «Tout pour Thon- 
neur» e «La Pêche» (1890). — Pag. 68. 

Ceia dos Cardeaes {A). P. i. a. v. de Júlio Dantas, rep. th. 
D. Amélia, 24 março 902. — Pag. 14 a 19. 

Cecilia Machado. Az. port. N. Lisboa, 3o junho 1878. Deb. 
D. Maria, com. «Papa Flores» 1900. Societ. 2 " cias D.Maria. — 
Pag. — 20, 27, 227, 260, 265*, 269, 292, 3 18, 321, 324, 36o, 38o, 386» 
427, 429. 

Cecília Neves. Az port. N. Lisboa, 27 set. 1875. Deb. 2 ab. 
1898 R. Condes, rev. «Agulhas e Alfinetes». (Th. D. Am. 1903-904) 
— Pag. i33, 222, 280, 352, 377. 

César Porto. Esc. th. port. Aut. da «Tragedia Antiga». 2.»prem. 
cone. dr. do Dia. — Pag. 168. 



Impressões de Theatro — Índice 461 



Chaby Pinheiro. A. port. N. Lisboa, 12 jan. iSyS. Deb. D. Ma- 
ria, iSq6 «Tio Milhões». (D. Am. 1903-904). — Pag. 55^ 168, 169*, 
21Ó, 219, 220 a 222, 280, 289, 377. 

Chãtterton Dr..3 a. de Alfred de Vigny. Rep. Th. Français 12 
fev. i835. — Pag 320. 

Chaves íJoão Rodrigues). A. port. N. Lisboa, 29 jun. i852. 
Deb. i8(56, Variedades, mag. «Pomba de ovos d'oiro». — Pag. 117, 
160, 188, 23o, 248, 285, 3o I, 370. 

Christiano de Sousa. — A. port N. Porto i3 março 1864. Deb. 
D. Maria i dez. 1893, dr. «Alcacer-Kibir». (D. Am 1903-904). — 
Pag. 4, 26, 3o*, 78, 91, 116, 168, 216, 219, 220, 280, 289, 377, 433, 435. 

Cinematographo. Com. 3 a. adapt. de Accacio Antunes, rep. 
Gymnasio, 24 mar 904 — Pag. 349, 35 1, 354. 

Claretie (Jules). Aut. dr.fr. Admn da Comédie. N. Limoges 3 
dez. 1840. Th. : «Famille des gueux» (4 a. 1869). «Raymond Lindey» 
(1869). «Ingrats» (1875). «Muscadins» (1875). «Pére» (1877). «Re- 
giment de Champagne» (1877)). «Mirabeau» (1879). «Ministre» 
( i883). «Prince Zilah» (i885). «Navarraise» (i885). «L'americainne» 
(1895). — Pag. 184* 392, 429. 

Claude Roland. Aut. dr. fr. N. Bordéus 1872. Th.: «Crime de 
Lormont», «Aiguilleur», «Chaiité bien ordonnée», «II etait une 
fois. . .», «Hermance a la vertu», «Pomme Paris», «M."* TaiHen», 
«L' homme du jour». — Pag. 219, 220. 

Clemenceau (Georgesj. Pol. é aut. dr. fr. N. Vendée 1841. Th: 
«La voile du bonheur», p. i a. repr. Renaissance 4 nov. 905. — 
Pag. 177. 

Coelho de Carvalho. Aut dr. port. N. 14 junho i853. Th.: «Do- 
lores» (trad. de Feliu y Codina). «Aventureira» (trad. de Augier). 
«Casamento de Conveniência» 3 a. repr. D. Maria 1904. — Pag. 
i55, 260, 261, 264, 267, 268. 

Colas (João). A. braz. N. Maranhão 29 mar. i856. Deb. Lis- 
boa i3 dez. 1902. (Trind. 1903 904) — Pag. 215,272. 

Commisssario bom rapa^. adapt. port. de Camará Lima da 
farça de Courteline, «Le coTimissaire est bon garçon» repr. 
D. Amélia 1902. — Pag. 21. 

Commissario de policia. Com. 5 a. de Gervásio Lobato, repr. 
Gymnasio ab. 1890 — Pag. 261. 

Conde Monte Christo. Dr. 9 q de Alexandre Dumas, adapt. 
de José António Moniz, repr. Th. Príncipe Real i jan. 1903. — 
Pag. 188. 

Consiglieri Pedroso. Polygrapho e polyglotta port. prof. do 
Curso Superior de Letras e vulg. do th. e das litt. do Norte. — 
Pag. 4. 

Coquelin Ainé (Bénoit Constant). A. fr. N. Boulogne s/Mer 25 
jan. 1841. 2° prem. Cons. i8õo. Deb. Comedie 1860. Tour- 
nées 1886. — Pag. 20, 3o, 3 1*, 32, 33, 35, 36* a 38,41 a 43*, 44346, 
49*, 5o a 54, 56 a 58*, 62 a 64,69, 71, 75, 101, 162, 170*, 171, 172. 
174, 175*, 176 a 181, 432. 

Coquelin Cadet (Alexandre Honoré Ernest). A. fr. N. Boulo- 
gne s/Mer i5 maio 1848. i." prem. Cons. 1867. Deb. Comédie 1868. 



462 Impressões de Theatro — índice 



-Pag. 32 a 35*, Sj, 38* 40* 41, 45, 48, 52, 55, 56*, 57, 70, 74, 75*, 
9b, 162, 393. 

Coquelin (Jean) Filho de Ainé. N. Paris (?) Deb. Comédie 1890^ 
Renaissance 1894, Port SainMartin 1895. — Pag. 32, 35, 37, 38, 
42*, 52, 55*. 

Coração tem caprichos. Com. i a. de Flers e Caillavet, trad. 
port. de Portugal da Silva, rep. D. Amélia 26 marco 1904. — Pag, 
352, 355, 356. 

Corbiére (Tristan). Poeta dec. fr. — Pag. 3o3. 

Corneille (Pierre). — Aut. dr. fr. N. Rouen 6 jun. 1606. M. i 
out. 1984. Pae da trag. fr. Princ. trag. «Le Gid», «Horace» «Cinna» 
«Polyeucte» « odogune», etc. — Pag. 389, 407. 

Correio da Noite. Jornal que se publica em Lisboa. Grit. th. 
José Parreira. — Pag. 93. 

Costa Carneiro. Crit. th. port. N. Lisboa 1876. Trad. da «Car- 
teira» de Oct. Mirbeau. Crit. th. do «Mundo». — Pag. 371. 

Costa (Francisco) A. port. N. Castello Branco 14 jun. i852, 
Deb. Rua dos Condes 1871 dr. «Naufrágio do brigue Mondego». 
(Trind, 1903-904). — Pag. 21 5, 272, 291. 

Course du jlambeau. P. 4 a. de P. Hervieu, rep. Vaudeville 
12 ab. 1901. — Pag. 400, 406. 

Courteline (Georges). Pseud. de G. Moinaux, esc. th. fr. N. 
Tours 1861. P. princ: «Boubouroche», «La peur des coups», 
«Client sérieux» c<L'article 32o». — Pag. 21, 81, 83, 84, 237, 257, 286*, 
387, 288. 

Co.ro do Bairro Alto (O) Dr. pop. 6 a. de Ed. Coelho, rep. 
Príncipe Real i5 jan. 1904. — Pag. 248, 249. 

Crucificados. — P. 4 a. de Júlio Dantas, rep. D. Amélia jan. 
1902. — Pag. 16, 229. 

Cí"Mf da esmola {A) P. 3 a. de Ed. Schwalback Lucci. rep. D, 
Amélia 8 jan. 1904. — Pag. 243 a 245, 387, 432. 

Ganha e Gosta (José Soares da). Escrip. th. port. N. Aveiro 
1864. Th: «Lobos na Malhada» (Brazil) trad. do «Adversado», 
de Capus. Pag. 352, 355, 356. 

Curei (François), Aut. dr. fr. N. Metz 10 jun. 1854. Th : «L'en- 
vers d'une sainte», «Fossiles (1892). «L'envitée», «L'amourbrode» 
(1893). «Figurante», «Repas de Lion» (1893). «La filie sauvage» 
(i 902). — Pag. 86, 87*, 88, 89, 97. 

Cyrano de 'Bergerac. Com. heróica 3 a. v. de Edmond Ros- 
tand, rep Porte Saint -Martin 28 dez. 1897. Pag. 33, 46, 47, 5o, 53, 
54, 63, 162, 172 a 177, 188. 



Impressões de Thetro — índice 463 



D 



Dama das Camélias^ Dr. 5 a. de Dumas Filho, rep. Vaude- 
ville, 2 fev. i852. — Pag. i36, iSy, i6r, 162, 198, 208, 412. 

Dantas (Júlio). Aut. dratn, port. N Lisboa, 19 maio 1876. Th.: «O 
que morreu deamor», «Viriato trágico», «Severa», «Crucificados», 
«Ceia dos cardeaes», «Beltrão de Figueiroa», «Paço de Veiros», 
• Serão das Laranjeiras», Trad. «Chemineau» de Richepin. Mem- 
bro do cons. da arte dramática. — Pag. 4, 14 a 17* a 19,23, 106,227, 
228*, 229, 233, 234*, 233, 237, 240, 25 1, 252, 257, 265, 270, 284, 287. 

'Dante, dr. 5 a. de Victorien Sardou (collab. de Emile Moreau), 
rep. Londres Irving 1903. — Pag. 177. 

Daudet (Alphonse). Rom. e aut. dr. fr. N. Nimes, i3 maio, 
1840, Paris 1897. Th.: «Demière idole», (i a.62).«Absents»,(i a. 64». 
«Oeilletblanc», (i a. 65). «Frère ainé», ( i a. 67). «Sacrifice», (3 a. 69I. 
«Lise Tavernier», (5 a. 72). «Arlesienne», (3 a. 72). «Fromont & 
Risler», (5 a. j6). «Lechar», (i a 78). «Nabab», (5 a. 80). «Jack», 
(5 a. 81). «Roís en exil», (5 a. 7 q, 83). «Sapho», (5 a. 85). «Numa 
Rommestan», (5 a. 87). «Lutte pour la vie», (5 a. 89). «Obstacle», 
(4 a. 90). «Menteuse», (3 a. 92). — Pag. 267. 

Oanvilliers. A. fr. N. 1870. Th. Odéon 1901. Tournée Bartet, 
1904. — Pag. 4i5. 

T)edale {Le). P. 5 a. de Paul Hervieu. Rep. 19 dez. 1903, Co- 
medie. — Pag. 3b5, 400, 406, 412. 

Delphina Cruz. Az. port. N. Sines, 14 Set. 1872. Dez. Th. Rua 
dos Condes «Solar dos Barrigas» 1889. (D. Am. 1903-904). — Pag. 
27*, 28*, i33, 143, 219, 222, 240, 243, 289, 377. 

ÍDelphina Victor. Az. port. N. Lisboa, 29 março 1875. Deb. 
Trindade, 22 out. 1900 opt. «Moleiro de Alcalá» (Th. Avenida, 
1903-904). — Pag. 271, 328, 33i. 

rDemi-monde. Com. 5 a. de Alex. Dumas Filho. Rep. Gymnase, 
20 março, i855. — Pag. 412. 

^De portas a dentro. Rev. 3 a q q. de Baptista Diniz. Rep. Rua 
dos Condes, 6 fev. 1904. — Pag. 281 a 284. 

HDeputé de Bombignac (le). Com. 3 a. de Alexandre Bisson, 
Rep. Th. Français, 28 março 1884. — Pag. 170, 171, 173, 177, 
1 80. 

Descaves (Lucien). Aut. dr. fr. N. Paris 14 março 1861. Th. 
«La Pelote (1888). «Les Chapons», (1890). «La Cage», (1898). 
«Clairière», (1898). «Oiseaux de Passage», (1904). — Pag. 97. 

Desprès (Suzanne). Az. fr. N. Paris 1875'. Discip. de Worms. 
Cons. 2.° pr. trag. e i.° com. 1897. Deb. Th. de TÔeuvre (1895), 



464 Impressões de Theatro — índice 



«Chariot de terre cuite». De 1896 a 1900. no th. TOeuvre. Gymnase 
1897. Th. Antoine 1899. Comédie 1901. Th. Antoine 1902-904. 
— Pag. 68* 69, 79*, 80, 85*, 86, 89*, 90. 91, 98, 100*, 101, 102, 
366, 389, 432, 433. 

Desquite (O), i a. v. de Jayme Seguier. Rep. D. Maria, dez. 1888 
7-eprise 7 maio, 1904. — Pag. 419, 420. 

Deux écoles. Com. 4 a. de Alfred Capus. Rep. Variétés, 28 
fev. 1902. — Pag. 295, 454. 

*Z)za (O). Jornal da tarde. Crit. th. Adrião de Seixas (Samuel 
Tom). ^ Pag. 168, 169, 220, 232, 292, 332. 

T>iabos na terra (os). Op. com. phant. adapt. do ali., por Accacio 
Antunes, mus. de Nicolino Milano, rep. Trindade, 28 jan. 1904. — 
Pag. 272, 273. 

T>iario. Jornal de Lisboa. Crit. th. Amadeu de Freitas, Pag. 92. 

Diário de Noticias. Folha diária de Lisboa. Director Dr. Alfredo 
da Cunha. — Pag. 23o, 245, 248, 249. 

'Direito á vida {II diritto de vivere). Dr. 3 a. de Roberto Brac- 
co, rep. abril 1900 Trieste, comp. Zacconi. — Pag. i3o. 

Doidos com jui^o. Com. 3 a. adapt. ali. por Freitas Branco, 
rep. Gymnasio 1902 — Pag. 217, 242, 299. 

Dolores. Dr. 3 a. de cost. aragoneses de J. Feliu y Codina, 
rep. Barcelona 19 março 1893, adapt. port. de Coelho de Carva- 
lho, rep. 14 nov. 1903 Th. D. Maria. — Pag. i55, i56, i58. 

Donnay (Maurice). Aut.dr. fr. N. Paris, i2 0ut. 1860. Th.: «Phry- 
né», «Lysistrate», «Pension de famille», «Complices», «Amants», 
«Douloureuse», «Torrent», «Aífranchie», «Bascule», «Retour de 
Jerusalém», «Escapade». Em collab. com Descaves: «Clairière» 
e «Oiseaux de passage». — Pag. 25, 389,390^,393,394,395,402, 

Dor Suprema. Trag. burg. 3 a. de Marcelhno de Mesquita, 
rep. Th. D. Maria, 27 dez. 1895. — Pag. 120, 122, 123, 369, 373. 

Doumic (René). Crit. th. fr. N. Paris i86o. Obras princ. : «Por- 
traits d'écrivains», «Essais sur le théatre contemporain», «De 
Scribe à Ibsen». — Pag. 97. 

Dufloi (Émile Henri, vulgo Raphael). A. r. N. Lille 3o jan. 
i858, 1° prem. Cons. 1881. 1." premio 1882. Deb. Odéon 1882. 
Gaite i883.Deb. Com. 1884. Vaudeville 1887-89. Gymnase 1890-94. 
2." deb. Com. 1894, Societ. 3i jan. 1896. — Pag 382,391,392* 395, 
399, 400, 4o5, 406, 409, 41 1_, 413^ a 415. 

Duse (Eleonora). Az. it. N. Veneza, 3 out. iSSg. Deb. aos 4 
annos na «Coseite» dos «Miseráveis». Celebridade 1879 Nápoles 
«Thereza Raquin». 1." tournée Portugal: 12 abril 1898. — Pag. 26, 
101*, i3i, i32, 139, 145, i54, 162 a 164, i83, 190, 198. 

Duque de "Vi^^eu. Dr. 5 a. v. de H. Lopes de Mendonça, rep. 
D. Maria 19 março 1886. — Pag. 2, 23i. 



Impressões de Theatro — índice 465 



Echegaray (José). Aut. dr. hesp N Madrid i832. Th: «El li- 
bro otalonario», «Locura ó santidad», «La esposa dei vengador», 
«Ultima noche», «Puno de la espada», «Pilar y la crus», «Mar sin 
orillas», «Muerte en los lábios», «Gran Galeoto», «Mancha que 
limpia», «Heraldo el Normando», «Conflito entre dos debéres», 
«Un milagro en Egito», «Vida alegre y muerte triste», «Marianna», 
€tc. — Pag. i55, 349, 33 1. 

Edonard Philippe. Aut. dr. fr. N. Paris 18 ab. 1840. Peç. princ : 
«Millions du polonais (3 a. 1884). «Petite Duchesse (5 a. 1889). 
«Dame aux Tulipes (i a. 1891). «Gamin de New- York» (3 a. 1894). 
«Casque d'or» («Garra de leão», 6 a. Principe Real, 1904). — 
Pag. 285. 

Eduardo Coelho Jr. Aut. dr. e jom. port. N Lisboa 4 março 1864 
Th: «A gallinha e os pintos» (trad. 1886). «Uma lição», «Remor- 
sos d'Aniceto», «Pobresa, Miséria & C »», «Ministro d'agua fur- 
tada», «Coxo do Bairro Alto», «Preta do Mexilhão». — Pag. 
248, 249*. 

Eduardo Garrido. Aut. dr. port N. Lisboa 20 out. 1842. Deb. 
«De noite todos os gatos são pardos». — Pag. 21 5, 280. 

Eduardo Victorino. Emprez. braz , trad. do «Ao telephone, rep. 
D. Maria iqoS. — Pag. 370. 

Ednardb Vieira. — A. port. N. Lisboa iq jan. 1809. Deb. Rua 
dos Condes. (P. R. 1903-904). — Pag. 117, 160, 188, 23o, 248, 285, 
3oi, 3i3, 370, 371. 

Elvira Costa. Az. port. N. Lisboa 11 set. 1 855. Deb. Rua dos 
Condes. «Abaixo as decimas. (D. Am. 1903-904). — Pag. i33. 
219, 222, 243, 332, 377. 

Elvira de Jesus* Az. port. N. 9 maio 1881 . (Avenida 1903-904. 
— Pag. 271, 329. 

EmaQuel (Giovanni). A. it. N. Morano 11 fev. 1848. M.Turim 8 
ag. 1902. Deb Livorno 1866. — Pag. 7, 53, 70, 91, 95, i38, 147, i53, 
162 * a 164, i83, 384. 

EmiliaEduarda. Az. port. N. Lisboa i jan. 1845. Deb Gymna- 
sio out. 1861 com. «A Esposa deve acompanhar o seu marido». — 
Pag, -■ 5 1 . 

Emília das Neves. Az. port. N. Bemfica 5 ag. 1820. M. 19 dez. 
i883. Deb. Rua dos Condes «Auto de Gil yicente» i5 ag. 1^38. — 
Pag. i3i, i56, i58, i83, i85, 187. 

Emília d'01iveíra. Az. port. N. Lisboa 25 nov. 1875. Deb. Prin- 

3o 



466 Impressões de Theatro — índice 



cipe Real 8 dez. 1899 dr. «Dama d'oiros (P. R. 1903-904). — Pag, 
248, 3oi, 313,870, 371. 

Emília Romo. Az. port. N. 26 out. 1878. Deb. out. iqo2, 
(Trind. 1903-904). — Pag. 215,291. 

Emília Sarmento. Az. port. N. 8 dez. 1880. Deb. 1900. (Gymn. 
1903-904). — Pag. 217, 241, 299, 349. 

Em ruinas. Peça 3 a. Ernesto da Silva, rep. Príncipe Real, 19 
abril 1904. — Pag. 371 a 373. 

Encruzilhada {A) Peça i a. Manuel da Silva Gayo, rep. D, 
Amélia 20 nov. 1903. i." pr. Cone. dr. do «Dia» — Pag. 168. 

Engano d' alma (O). P. i a. João Gouveia, rep. D. Maria 2a 
fev. 1904. — Pag. 292. 

Engrenage fl'J Com. 3 a. Brieux rep. Comedie Parisienne i& 
maio 1894. — Pag. 88. 

Enquête (L'). P. 2 a. George Henriot, rep. Th. Antoine, 24 
out. 1902, trad. port. «O inquérito», rep. D Amélia 1908. — 
Pag. 22, 76, 78 a 80, 83, 96. 

Envers dune sainíe (L'). P. 3 a. de François de Curei, rep. 
Th. Libre, 2 fev. 1902. — Pag. 88. 

Enygma^ dr. 2 a. PaulHervieu, rep. Comédie 5 nov. iQoi, trad, 
port. de Joaquim Madureira, rep. D. Maria, jan. 1902. — Pag. 257,. 
400, 407. 

Epidémie (V) P. i a. de Oct. Mirbeau, rep. Th. Antoine 29^ 
abril 1898. — Pag. 3o5. 

Ernesto da Silva. Aut. dr. port. N. 7 jan. 1868, M. 25 ab. 1908, 
Th.: «O Capital», «Os que trabalham», «Em riunas». — Pag. 371,. 
372* 373, 375. 

Eschyllo. Trágico grego (525-556, a. C). — Pag. 210. 

Esculápio. Pseud. de Eduardo Fernandes. Esc. th. port. N. 
Lisboa 25 ag. 1870. Th.: «Bocage», «El sobrcsaliente», «Beijos 
de burro», etc. — Pag. 358,* 359. 

Estephanía. Az. port. N. 11 ab. 1862. (Trind. 1903-904). — Pag. 
2i5, 272, 291, 357. 

Estephanía Pinheiro. Az. port. N. Lisboa 11 ab. 1864. Deb, 
Trindade 1876. Mag. «Coroa de Carlos Magno». (D. Am. 1903-904), 
— Pag. i33, 168, 222, 352, 377. 

Estrangeira. Com. 5 a. Alexandre Dumas, filho, rep. Th. Fran- 
çais. 14 fev. 1876. — Pag. 413. 

Eugénio de Castro. Poet. dec. port. aut. do põem dr. (não rep.) 
«Belkiss». — Pag. 3o2, 3o3.^ 



Impressões de Theatro — índice 467 



Fabre (Emile). Aut. dr.fr. N. Marselha 1870. Th.: «L'argent», 
«Bien d'autrui» «Comme ils sont tous», «Lendemain», «Timon 
d'Athénes», «La Rabouilleuse, (adapt. do rom. de Balzac «Un 
ménage de garçon). — Pag. 68. 

Faguet (Emíle). Crit. fr. N. Roche-sur-Yon 1847. Crit. th. Jour- 
nal des IDébats^ «Propôs de theatre» (2 series). — Pag. 409. 

Falcão (Maria). Az. port. N. Lisboa 5 nov. 1874. Deb. Príncipe 
Real, dr. «Maria Antonieta. (D. Am. 1903-904). — Pag. 25, iò8, 
219, 222, 243, 289, 293, 377. 

Fedor a. Dr. 4 a. de V. Sardou. Pag. 21, 154, 161, 162, i65 a 
167, 198, 199, 2o3, 238, 239. 

FeUú y Codina (José). Poet. dr. cat. N. Barcelona 1845 M. 18^7. 
Th. em c?talão: «Lo sénior padre», «Rambla de los flors», «Fadnns 
extems», «Lo Tambonner», «Pont dei diable», «Lo rabada», 
«Mestre de menyous», «Gafes y mofes», «Lo mas perdut», •L'espar- 
ver», «Lo gra de mesch», etc, em castelhano : «El testamento 
d'un brujo», «El buen callar», «Libro viejo», «Miei de la Acorria», 
«Maria dei Cármen», «Dolores». — Pag i55, i56, 261. 

Fernandes (Ed.) A. ^ort N. i3 out. 1861. Deb. 1879. (Aveni- 
da iyo3-904).— Pag. 271, 328. 

Fernandes Costa. Poet. lyr. port. aut. do Poema do Ideal e 
direct. do Almanach Bertrand. Memb. da Acad. — Pag. 189* 

Ferreira da Silva (Alfredo). A. port. N. Porto 5 abril 1859. 
Deb. D. Maria, dez. 1886 com. «O Desquite». Societ. de mérito Th. 
D. Maria. — Pag. 5, 6,* a 10, 14, 19, 20, 85, 99, 114, i55, i5ó, 227, 
260, 268, 270, 28Ó, 3i8, 321, 324 a 326, 3õo,"362, 366, 38o, 382, # 
383 a 385, 419, 425, 43o, 432, 434. 

Ferrari (Paolo). Aut. dr. it. N. Modena 5 ab. 1822 M. 9 março 
1889. P. princ: «Goldoni e le sue 16 comedie», «Sátira e Parini», 
«Pregule», «Signor Lorenzo», «Due Dame», «Medecina d'uma ra- 
gazza ammalata», «II Duello», «Cause ed efifetti», «II ridicole», 
•Fulero Testa» etc. — Pag. 148. 

Feydeaa (Georges Leon Jales). Aut. dr. fr. N. Paris i863. P. 
princ: «Tailleur pourDames», «Chat en poche», «M."* Sgnarelle» 
«Champignol malgré lui», «Hotel de Libre Echange», «Dame de 
chez Maxim's». — Pag. 363. 

Fialho d'Almeida (José Valentim). Crit. e cont. port. N. Villa 
de Frades 7 maio 1857. Crit. th. Trad : «Jean Darlot». (Trind. 
1898). «Impudentes» (D. Maria 1899). — Pag. 23*, 377. 



468 Impressões de Theatro — índice 



Figurante {La). Com. 3 a. François de Curei, repr. Renais- 
sance 5 março 1896. — Pa^. 88. 

Filie Elisa (La). Dr. jud. 3 a. ext. do rom. de Ed. Goncourt, 
por Jean Ajalbert repr. th. Libre 26 dez. 1890, proh. pela cens. 
e repr. th. Antoine, 1 jun. 1900. — Pag. 70, 74, 81,82, 83,85, 91, 
100, lOI. 

Filie sauvage {La). P. 3 a. François de Curei, rep. th. An- 
toine, i7fev. 1902. — Pag. 88. 

Filho natural (O). Com. 5 a. Alex. Dumas (filho) rep. 16 jan. 
i858 Gymnase Dramatique. — Pag. 37. 

Filhos alheios (Os), trad. do «Berceau», p. 3 a. de Brieux, por 
Portugal da Silva, rep. D. Maria 9 ab. 1904. — Pag. 360,36/ a 367, 
406, 407, 410. 

Fils de Giboyer. Com. 5 a. Emile Augier, rep. Comédie i dez. 
1862. — Pag. 34. 

Fim do amor. Com. 4 a. de Roberto Bracco. — Pag 38o. 

Fim de Sodoma. Com. 4 a. Hermann Sudermann, trad. port. 
de Freitas Branco, rep. D. Maria 1889. — Pag. 22, i33. 

Firmino (António F. da Rosa). A. port. N. 25 set. 1844. Deb. 
Príncipe Real do Porto, na parod. «Quem nos livra da Grã-Du- 
queza (Trind. 1903-904). — Pag. 2i5, 272. 

Flaubert (Gustavo). Rom. ir. N. 1821 M. 7 ag. 1880. Th.: «Le 
Candidat» com 4 a. rep. 1874 Vaudeville. — Pag. 14. 

Flers (Robert de). Aut. dr. fr. N. Pont TEveque 1872. Th.: 
«Ma bonne cousine», «Sire de Vergny», «Ghouchette», «Sentiers 
de la vertu», «Le coeur a des raisons. — Pag. 352. 

Florentino (Pier Angelo.) Cr. th. N, Nápoles 1806. M. Paris 
6 jun. 1864. — Pag 107, 108. 

Fogo no Convento. Com i a. de Th. Barrière. Rep. Comedie 
1859. Trad port de J. Pinto. Reprise D. Maria, 7 maio 1904 — 
Pag 419, 425, 426 

Fogueiras de S. João. P. 4 a. H. Sudermann, trad. anon. rep. 
D. Am. 1903. — Pag 21, 25 a 3o, i33, 134, 141, 144, 145. 

Fossiles {Les). P. 4 a. François de Curei, rep. th. Libre 29 
nov. 1892. — Pag. 88. 

França Borges (António). Jorn. port. N. Sobral de Mont'Agraço 
6 jan. 1871. Direct. d'0 Mundu. — Pag 93, io5*=. 

Francillon. P. 3 a. Alex. Dumas (filho), rep. Th. Français 17 
jan. 1887. — Pag. 417. 

Francisco Salles. A. port. N. 27 fev. 1878. Deb. 1897. (D. Am, 
1903-904). — Pag. 168, 219, 222, 280, 289, 352, 377. 

Francisco Senna. A. port. N. Lisboa 16 nov. 1857. Deb. Trin- 
dade. «Bandidos» 1887. (D. Am. 1903-904).— Pag. i33, 219, 222, 
243, 280, 352, 377. 

Frederico. A. port. (P. R 1903-904). — Pag. 23o, 248, 285, 3oi, 
370, 371. 

Frei Luif de Sousa. Dr. 3 a. Almeida Garrett, rep. th. part. 
Quinta do Pmheiro 4 jun. 1843. — Pag. 2, 12, 122, 146.430,434. 

Freitas Branco (João). Esc. th. e crit port N. Funchal, 6 ab. 
i855. GoUab. das princ. rev. th. estrang. Trad. princ: «Fim de 



Impressões de Theatro — índice 469 



Sodoma», «Esteios da Sociedade», «Papa Flores», «Escola Antiga», 
«Doidos com juizo», «Empenhoca», cora. orig. 3 a. — Pag. i35, 
212* a 216, 218, 299, 375, 376, 3q2. 

Folley (Charles). Rom. fr. N. Paris 1861. Collab. com André 
Lorde p. 2 a. «Au telephone». — Pag. 81. 

Fuller (Loie). Dane. amer. Creadora da dança serpentina. — 
Pag. 20. 



Gabriel Pratas. A. port. N. 14 mar. 1881. Deb. Trindade 
«Bibi & C.*« (Trind. 1903-904.). — Pag. 2i5, 272. 

Gabrielle Lucey. Az. port. N. 2 jan. 1877. Deb. 1898. (Ave- 
nida 1903-904). — P3g. 328, 33i. 

Gaílis (Alfredo). Esc. th. port. N. 17 nov. 1857. — Pag. 65. 

Gama (Joaquim Carlos da). A. port. N. 2 set. 1840. M. ló ag. 
1903. Deb. (inauguração th. P. R.) 28 set. i865. com. «Dois po- 
bres a uma porta». — Pag. 211. 

Garra de Leão. dr. i prol. 5 a. de Edouard Philippe. trad. port. 
de João Soller. rep. P. R. 9 fev. 1904. — Pag. 285. 

Garrett (Visconde d'Almêida). Poeta e aut. dr port. N. Porto 
4fev. 1799. M.Lisboa 10 dez. 1834. Ref. do th. port. Fundou o Cons. e 
promoveu a creação do Th. Normal. Th.: «Frei Luiz de Sousa», 
«Auto de Gil Vicente», «Alfageme», «Sobrinha do Marquez», «Phi- 
lippa de Vilhena», «Catão», «Merope», «Tio Simplício», «Falar ver- 
dade», «Prophecias do Bandarra», «Noivado no Dafundo», — Pag. 
2, 12, 112, i36, i83, i85, 167, 229, 243, 244. 23i, 258, 270, 434. 

Gaston Marot. Aut. dr. fr. N. Rochefort i3 ab. 1837. P. princ: 
«Cour des Miracles», «Français au Tonkin», «20 ans de bagne», 
«Famile du forçat», «Guerre au Dahomay», «Voleur du grand 
Monde», etc. — Pag 370. 

Gandillot (Leon). Esc th. fr. N. Paris, 25 jan. 1862. P. princ. 
«Femmes collantes (5 a 1886). «Course aux jupons» (3 a 1890). 
«Tounée Ernestin» (4 a 1892). «Sous Prefetde Chateau Buzard» 
(3 a 1893). — Pag. 280. 

Gémier (Firmin». A. fr. Th. Libre e Th. Antoine até 1901, em 
1902 funda Th. Gémier. — Pag. 69, 374. 

Gentil. — A. port. (P. Real 19Õ3-904). — Pag. 160, 188,230,248, 
285, 3oi, 370, 371. 

Geoffroy (Abb. Jalien Loois). Crit. fr. N. Rennes, 1743. M. Paris, 
26 jan. 1814 — Pag. 396. 

George Henriot. Aut. dr. fr. pseud. dum medico especialista 



470 Impressões de Theatro — índice 



de doenças nervosas, prof. Escola Medica de Paris. Aut. de 
«L'Enquete» rep. Th. Antoine, 24 out. 1902. — Pag. 76, 78, 79. 

Georgette Leblanc Haeterlinck. Az. fr. N. Paris 1869. Deb. Opera 
Comique 1890. Interp. das peç Maeterlinck seu marido. — Pag. 
3 10 a 3 12, 338, 339* 343, 344, 347*. 

Georgina Pmto. Az. port. N. Rio Maior 12 dez. 1868 M. Rio 
Janeiro 12 ab. 1903. Deb. Chalet do Porto 1892. Dr. «Piratas da 
Savana». — Pag. 28, 72* 93. 

Georgina Vieira. Az. port. (P. Real 1903-904). — Pag. 117, 160, 
188,248,285,301, 313,371. 

Gertdre de Mr. Poirier (Le). Com. 4 a. Emile Augier e Jules 
Sandeau, rep. th. Gymnase Dram. 8 ab. 1854. Reprise Comedie 
3 maio 1864. — Pag. 34, 36, 37, 40, 53. 

Gente para alugar. Com. 4 a. adapt. ali. por Freitas Branco 
rep. Gymnasio 4 mar. 1904. — Pag. 299, 3oo. 

Gervásio Lobato. Escr. th. port. N.'23 ab. i85o M. 26 maio 1895. 
P. princ: «Commissario de Policia», «Em boa hora o diga», «Noi- 
vas doEneas», «Sua Excellencia», Trad.: «Sociedade onde a gente 
se aborrece», etc, coUab. com D. João da Gamara e Cyriaco Car- 
doso, «Burro do Sr. Alcaide», «Solar dos Barrigas», «Cócó Rei- 
neta Facada», «Testamento da Velha». — Pag. 53, u5, 243. 

Gil Vicenta. Creador do th. port. N. fim século XV. M. meiado 
século XVI. Ac. epoet. escreveu e rep.: Autos: «Visitação», «Pastoril 
Castelhano», «Reis Magos», «Sibila Cassandra», «Fé»,« Quatro tem- 
pos», «Mofina Mendes», «Pastoril Portuguez», «Feira», «Alma», 
«Barca do Inferno», «Barca do Purgatório», «Barca da Gloriai, 
«Historia de Deus», «Cananea», «Ressurreição» da «Fama», da «ín- 
dia», dos «Fados». Com.: «Rubena», «Linda cidade de Coimbra», 
«Tragicomedia», «D. Duarte», «Amadis», «Nau d'Amores», «Fra- 
goa d'Amor», «Exhortação da Guerra», «Templo d'Apollo», «Cartas 
de Júpiter», «Serra da Estrella», «Triumpho do inverno», «Ro- 
magem de aggravados». Farças : «Quem tem farellos», «Velho 
da horta», «Inez Pereira», «Jiiiz da Beira», «Ciganos», «Almocre- 
ves», «Clérigo da Beira», «Lusitânia», «Fisicos». — Pag. 2. 

(ioldooi (Cario). Aut. dr. it. N. Veneza, 25 fev. 1707. M. 6 fev. 
1793. Com. princ: «Locandiera», «La sposa sagace», «II burbero 
benéfico», «La serva amorosa», «Grinnamorati», «II bugiardo», 
«La vedova scaltra», «II teatro cómico», etc. — Pag. 32, 148, 02. 

Gomes (António). Ac. port. N 3 jun. 1872. (Trind. 1903-904). 

— Pag. 2i5, 272, 291, 357. 

Goncourt (Edmond de). Rom. e aut. dr. fr. N. Nancy 26 maio 
1822 M. 1896. Th : «Germinie Lacerteux», «La paírie en danger». 

— Pag. 81* 82. 

Gorki (Máximo). Pseud. de Alexei Maximovitch Pechkov. Rom. 
e aut. dr. russo N. NijniNovgorod 1869. Th.: «Dans les bas fonds», 
«Asyle de nuit», rep. th. Antoine — Pag. 68, 

Gouveia Pinto. Jorn. port — Pag. 45, 52. 

Goya (Francisco y Lucientes). Pintor e aquafortista hesp. N. 
Fuente de Todos (Aragão) 1746. M. Bordeos 16 ab. 1828. — Pag. 
28,84,315. 



Impressões de Theatro — índice 471 



Grande Bolha. Com. 3 a. imit. do ali. de Xavier Marques, rep. 
Oymnasio, 3o jan. 1904- — Pag. 278, 279. 

Grande Elias. Semanário crit. th. direct. Hogan Tevês. — 
Pag. 248. 

Grijó. A. braz. Deb. Lisboa 9 jan. 1904. (Avenida 1903-904). 
Pag. 328, 335. 

Gringoire. Peça i a. Théodore Banville rep. th . Français 23 
jun. 1800. — Pag. 39, 41, 42, 33. 

Gronsbach (Jeanne). Az. fr. N. 24 maio 1874. i." prem. trag. 
cons. 1893. Deb. 1893. «Odeon». — Pag. 90. 

Guerra Janqneiro. Poet. port. N. Freixo de Espada á Cinta i5 
set. i8:)o. Th: de collab.com Guilherme d' Azevedo «Viagem á 
roda da Parvónia, rev. pol. rep. no Oymnasio 1878. — Pag. i3, 
397 * 398. 

Goignon (Albert). Aut. dr- fr. N. Paris i863. Th.: «Les jobards», 
■nSeul», «A qui la faute ?» «Le Partage», «Decadence» proh. pela 
cens. — Pag. 68. 

Gnitry (Lucien). A fr. N. Paris i86o. 2.» prem. Cons. Deb. 
Gymnase 1878. — Pag. 69. 



H 



Halevy (Lnduvic). Aut. dr. fr. N. i jul. 1834. Collab de 
Meillac, Peça princ. «Belle Hélene», «Barbe Bleu», «Grande Du- 
chesse», «Frou-Frou», «Petit-Duc»,etc. Sem collab. «Abbé Cons- 
tantin». — Pag. 39, 40. 

Hauotmann (Gerardt). Aut. dr. ali N. Silesia 1862. Peç. princ. 
«Tecelõesu, «Almas solitárias», «Hannele», «Michel Kramer», 
«Pobre Henrique», «Sino subterrado». — Pag. 22*, 134, i65, 38o, 
421. 

Hedda Gabler. Dr. 4 a. Ibsen, rep. Th. de Christiania 1891. Pa- 
ris Vaudeville 17 dez. 1891. Lisboa abril 1898. Eleonora Duse. 
(D. Amélia) — Pag. 200, 2o3, 206, 207, 209, 210, 211, 265, 269. 

Hannequm (Charles Haarice) Aut dr. fr. N. Liége 10 dez. 
18Ó3. Peç. princ. «Oiseau bleu» (i a 1882) «Vacances du Mariage», 
«La femme du commissaire», «Le !•• Hussards», «Sous-Secré- 
taire». — Pag. 241. 

Henriqae Alves. A. p. N. Lisboa 20 junho 1872. Deb Avenida 
3i jan 1891 rev. «Sonho do citado auctor». (D. Am. 1903-904-) 
— Pag. i33, 143, 168, 218, 243, 280, 289, 293, 352, 356, 377. 

Henriqae de Mendonça. Esc. th. port. Deb. D. Mana «Sonho 
d'um Príncipe» 1904. — Pag. 247. 

Henry Bataille Escr. th. fr. N. Paris 1869. Th: «La logeuse>, 



472 Impressões de Theatro — índice 



«Ton sang», «L'Enchantement», «La Masque», «Ressurreição», 
adapt do romance de Tolstoi. — Pag 222 233. 

Heroe do Dia (O). Com. 3 a. Pierre Morgand e Claude Ro- 
land, trad. Alberto Braga, rep. D. Amélia 16 dez. 1903. — Pag. 
2i5, 216, 219 a 221. 

Hervieu (Paul). Aut dr. fr, N. Neuilly s/Seine, 2 set. tSSj Th: 
«Les paroles restent», «Les Tenailles», «Point de Lendemain», 
«Course du flambeau», «La loi de Thomme», «Enigme», «Theroi- 
gne de Méricourt», «Le Dédale». — Pag. 257, 333, 363, 365, 400, 
401 * 402, 4o3, 406, 407, 410 a 412. 

Heyse (Paul). Aut. dr. ali. N. i5 mar. i83o. Th.: «Francesca 
de Rimini» (1859), «Hans Lauge» (i865), «Kolberg» (1868), «Maria 
Moroni» (1877), «Simson» (1880), «Maria Magdala» (1901). — Pag. 
421. 

Histoire du vieux temps. Sc. dr. Guy de Maupassant, trad. 
port. de Mayer Garção, rep. D. Maria 23 março 1903. — Pag. lo, 
i3, i5 a 19. 

Historia antiga. Veja «Histoire du vieux temps». 

Hintze Ribeiro. Pol. port. chefe do partido regen. — Pag. 60, 
149, 159, 191, 194.* 

Honra Peça 4 a. Hermann Suddermann rep. Th. Antoine 4 
out. 1901, trad. fr. de Rémon e Valentin, rep. Lisboa Trindade 
19 out. 1897. Trad. port. de Maximiliano de Azevedo. — Pag. 
22, i33. 

Hugues Rebell. Crit. fr, N. 1864, aut. de «Victorien Sardou^ 
le theatre et Tépoque», — Pag. 173. 



Ihsen (Henrik). Aut. dr. nor. N. Skien 20 mar. 1828 Th.: «Ca- 
talina» (i85o), «Tumulus» (i85o), «Olaf Liljekrans» (1857), «Fête à 
Solhang» (i852), «Madame Inger a Oestraat» (i855), «Guerners a 
Helgoland» (i858), «Pretendants a la couronne» (1864), «Empereur 
et Galiléen» (1873), «Comedie de Tamour» (i8y3), «Brand» ( 1866), 
«Peer Gynt» (1876), «Union des jeunes» (18Ò9), «Soutiens de la 
Societé (1878), «Maison de Poupée» (1880), «Revenants» (i883), 
«Ennemi du Peuple» (i883), «Ganard Sauvage» (i885), «Ros- 
mersholm. (1887), «Dame de la mer» (1889), «Hedda Gabler» 
(1891), «Solness» (1893), «Petit-Eyolf» (1895), «John Gabriel 
Borkman» (1897), «Quand nousles mortnousréveilleronsi (1900). 
Peças rep. em Portugal: «Casa de boneca», «Pato bravo», «Ini- 



Impressões de Theatro — índice 473 



migo do Povo», ♦Hedda Gabler», «Espectros». — Pag. 2,22,68, 
134, 200, 207*, 209 a 211, 265, 420, 422. 

ígnacio Peixoto. A. p. N. Porto, 20 fev. 1869, Deb. Th. dos 
Recreios (Porto) 16 julho 1887, rev. «Por dentro e por fora». — 
Pg. 99, 1 15, 217*, 241, 242*, 299, 3oo, 349, 35o, 375, 376, 432. 

Inimigo do Povo (O). Peç." 5 a. Ibsen, rep. i3 jan i883 Th. 
de Christiania. Out. de 1899 Paris e 8 de nov. de 1900 em Lis- 
boa. Th. P. Real.— Pag 208. 

InnoceDCio da Silva- Biblioph. port., aut. do«Dic. bibliogra- 
phico.» N. 1810 M. 1876 — Pag. 2. 

Intimo (O). Com. 3 a. de Ed. Schwalback, rep. D. Maria nov. 
1891.— Pg. 243, 244. 

Intruse (L'). Peça svmb. i a. de Maurice Maiterlinck . — Pag. 
304, 307, 33Ó, 338, 344, 347. 

Irmã mais velha (L'amée). Com. 4 a. Jules Lemaitre, trad. 
port. rep. D. Maria 1899. — Pag 257. 

Isaura Ferreira.-- Az. port N. Aveiro 10 out. 1864. Deb. 
Trindade 24 janeiro 1866. Opt. «Os trez dragões». ^Avenida 
1903-904). — Pag. 275, 328. 

Itália Vitaliani. Az. it. — Pag. i35*, i32, 137, i38, 146* a 04, 
i58, lói a 1Ó7, 180 a i85, 189 a 194*, 196 a 200, 202, 2o3, 204* a 
206, 209 a 211, 216, 257, 432, 433. 

ízabel Berardi. Az. port. N. 3i out. 1861. Deb. 1892 Rua 
dos Condes. (Gymn. 1903-904). — Pg. 130,299. 



J 



Jack o estripador. Dr. 5 a. Louis Péricourd e Gaston Marot,- 
trad. de Ed. Victorino, rep . Princ. Real, 12 abril 1904. — Pag 
370 

Jane^adiag Az fr. N. Marselha, 23 nov. 1861 . Deb. th. Mar- 
selha dr. «Bossu», 1864. — Pag. 298. 

Jayme Silva. A. port. N. 25 maio 1872. Deb. 1889 (P. R. 
1903-904). — Pg. 188, 23o, 248, 285, 3oi, 370. 

JesQina Saradva. Az. port. N. Lisboa 12 nov. i865. Deb na 
R. dos Condes na comp. infant aos8annos. (D.Am. 1903-904). 
— Pag. 26, 28*, i33, 222, 243, 245, 352, 377. 

Jeu de Vamour et de Vhasard {Le) ■ Com . 3a. de Marivaux, 
rep. D. Amélia i maio 1904. — Pg. 395 a 397,398, 399,403. 

João da Gamara (D.). Aut. dr. port. N. Lisboa 27 dez. 1802. 
Th. «Ao pé do fogão», «Gatos», «D. Brizida», «Afifonso vi», «Al- 



474 Impressões de Theatro — índice 



<:acer-Kibir», «Os velhos», aO Pântano», «Triste viuvinha», tTou- 
tinegra Real», «Meia noute», «Amor de Perdição», «Casamento 
€ Mortalha» CoUab. com Gervásio Lobato: «Burro do sr. Al- 
caide», «Valete de copas», «bolar dos Barrigas», «Cócó Ranheta 
Facada», «Testamento da Velha», «Casamento da menina». Col- 
lab. com Delphim Guimarães, «Corte na Aldeia». — Pg. i68, 
3i8, 322* a 325, 380,384, 385. 

João de Deus. Poeta port. N. S. Bartholomeu de Messines, 
8 mar. i83o. M. 11 jan 1896. — Pag 276, 277. 

João Félix Pereira. Public, port. aut. «Compendio de Ci- 
vilidade». Th.: dr. «Olho Vivo» (não rep ) — Pg. 39, io5, 267. 

João Franco. Pol. port. chefe de partido — Pg. 59, 159, 
279*. 

João Gil. A. p. N. 16 nov. 1843. Deb. R dos Condes, 29 
out. 1861 na p. «1640 ou a Restauração de Portugal» (D. Am. 
1903-904). — Pag. 168, 222, 243, 280, 289, 293, 377. 

João Gouveia. Aut . dr . port . Deb . D . Mana com «Engano 
<i'Alma 1904 — Pag. 292 

João Luso Pseud. de Armando Erse de Figueiredo, esc. poeta 
jorn. port. N. Louzã 1873, trad. da «Blanchette» de Brieux. — 
Pag. 760. 

João Rosa. A. p. N Lisboa 18 aim. 1843. Deb. Porto i3 
nov 1864 na com. «Jóias de família». Societ. Th. D.Am. — Pag. 

23, 24*, 25, 168, 222, 243, 290. 

João Soller — Esc. th. port. N. Gradil 4 jun. i85o. Pseud. 
«AfFonso Gomes», trad. pnnc : «João José», «De Má Raça», «Sr. 
Director», «Voluntário de Cuba», «Lobos do mar», «Hotel luso- 
brazileiro», etc. — Pg. 246, 285, 291. 

Joaquim d Almeida. A. port. N. Lisboa 5 out. i838. Deb. na 
inauguração do th. Variedades 2 fev. 1857 mig. «Loteria do 
Diabo». (Gymn. 1903-904). — Pag. 99.115, 1 35, 274, 275*, 276 a 
278, 349, 35o, 434. 

Joaquim Costa. A. port. N. Lisboa 3o ab. i853 Deb. D. Maria 
2 dez. 1870 com. «Juiz e parte». Societ. 1 .* cias. D. Maria. — 
Pg. i55, i56, 227, 260, 263*, 269, 286, 3 18, 36o, 362, 38o, 386, 427, 
429. 

Joaquin Dicenta. Aut. dr. hesp. N. Calatayud (Zaragoza) 1860. 
Th.: «El suicídio de Wether», «Los irresponsables», «Luciano», 
«Juan José», etc. — Pag. 246. 

José Agostinho de Macedo (Padre). Escr. th. e crít. port. N. Reja 
II set. 1761, M. 2 out. i83i jar. com. trag. dr. e a obra critica 
«As pateadas» . — Pg. 277. 

José Luciano de Castro. Pol. port. e chefe de partido. — Pg. 
159, 186, 187*. 

José Ricardo. A. port. N. Lisboa 9 fev. 1860. — Pg. 25, 167. 

Josepha d Oliveira. Az. port. N Vízeu 24 dez. i853. Deb. 7 maio 
1873 opt. «Equilíbrio d'amor» na Trindade (D. Am. 1903-904) . 
— Pg. 146, 222, 243, 245, 280, 289, 293, 352, 377. 

Joy^elle. P. symb. 5 a. Mauríce Maeterlinck. rep. Paris, 
Gymnase 20 maio 1903. — Pg. 304, 307, 3ii, 336, 338 a 345. 



Impressões de Thetro — índice 475 



Jndith Garcex. Az. port. N. 18 fev. 1875. Deb. Th. Gymna- 
sio 3i dez. 1903 com. «Outro sexo». (Gymn. 1903-904). — Pg. 
-241, 278. 

Júlia d' Assumpção Az- port. N. Lisboa 26 jun 1881. Deb.: 
Príncipe Real dr. «Correio de Leão» 1889. — Pg. i35, 217, 241, 278, 
299, 349. 

JuIio Rocha. Aut. th. port. N. 17 marco i855. Peç. princ: 
«Capricho da viscondessa», «Favorita de Affonso vi», «Riqueza do 
Trabalho», «Inimigo de mulheres», «Hei de ser deputado», «Mes- 
tre fora.. », «Rei pequeno», «A roda da policia», «Lisboa no 
palco», «Carapuça», etc. — Pg. 23o 

Jullien (Jean). Aut. dr. e crit. fr. N. Lyon 1854 Th. 
•«L'Echeance», «Sérénade», «Maitre», «La Mer», «Vieille histoire», 
«L'Écolière», «La poigne», •L'oasis». Crit.: «Le theatre vivant», 
«Art et critique»» — Pg 68, 97. 



K 



Kean. Dr. 5 a. Alex. Dumas, pae, Rep. Lisboa Th. Variedades 
1860, actor Izidoro. — Pag 238,275,428. 

Kraft-Ebing (Richard Ton). Med. ali. N. Maunheim 1840. Prof. 
psychiatria. — Pag. 235. 



Lagartixa (A). Com. 3 a de Feydeau («La dame de chez Ma- 
xim's») arreg. port. de Ed Garrido Rep. D. Amélia Carnaval 1899. 
Deb. de Angeía Pinto. — Pag. 22, i33, 144, 186, 236. 

Lagos (Frederico) A. port. N. 18 jun. 1875. Deb. «Sal e Pi- 
menta» th. Trind. (D. Am. 1903-904). — Pag. 222,280,352,377. 

La joie fait peur. Com. 1 a. de Mad. Girardin. Rep. Th. Fran- 
çais 2.'» fev. 1854. — Pag. 170, 172. 

La Locandiera. Com. 3 a. de Cario Goldoni. Rep. Veneza 



476 Impressões de Theatro — índice 



Carnaval i753. Trad. port. Mello Barreto rep. D. Maria 1898. — 
Pag. i52, 161, 162, 167, 198, 2o3. 

La Loi de Ihomme. Peça 3 a. de Paul Hervieu. Rep. Comedicí 
1897. — Pag. 400, 402, 403, 4o5. 

Lambertini Pinto Jorn. port. Trad. «Un'avventura de maggio»y 
de R. Bracco, rep. Gymnasio igoS. — Pag. i3o. 

Larroamet (Gustave). Crit. th. fr. N. Gourdon i852. M. Paris 
1903. Successor de Sarcey no «Temps», 2 vol. crit. th: «Etudes 
d'histoire et de critique dramatique», «Marivaux», etc. — Pag. 
75, 107, 397. 

Laura Cruz. Az. port. N. Lisboa 12 março 1880. Deb. D. Maria 
com. «Primeira Lettra» 1895. (D. Amélia (1903-904). — Pag 219^ 
222, 243, 289, 293, 377. 

Lazaristas {Os) Dr. 3 a. de António Ennes. Rep. Gymnasio 17 
ab. 1875. — Pag. 184,264. 

Le Bí»rgy (Charles;. — A. fr. N. La Chapelle i858. i.° prem, 
Cons. 1879. Deb. Com. 1880. Societ. 1887 Prof. Cons. Tourn. Por- 
tugal 1902 — Pag. 3*, 25, 41, 45*, 54, 70, 74*, 96 257, 392, 393, 

3995 4091 429- 

Legouvé (Ernest). Aut dr. fr- N. Paris 14 fev 1807. M. i()o3. 
Peças princ: «Louise Lignerolle (i838), «Adrienne Lecouvrenr» 
(1849), «Reine de Navarre» (i85o), «Au tour d'un berceau» (1871),, 
«Deux reines de France» (1872), «Medée» (i856), etc. — Pag. 196,. 
206. 

Lely (M."e). Az fr. N. Paris 1875. Th. des Arts 1902. Tournée 
Bartet 1904. — Pag 399. 

Lemaitre (Jules). Aut dr. e crit. th. fr. N. 27 ab. i833.Th: «-Re- 
voltée» (1889). «Depute Laveau» e «Philipotte» (1893). «Mariage 
blanc» (189Í). «Pardou» (1895). «Les róis» e «Bonne Helene» 
(1896). «L'age difhcile» (1895). «L'amée» (1898). Crit: «Impres- 
sions de theatre», 10 vol — Pag 84* 257, 397. 

Leonor Telles. Dr. hist. v. 5 a. de Marcellino de Mesquita. 
Rep. D Maria 3 out. 1889. — Pag. 120. 

Leopoldo Carvalho. Esc. th. e a. port. N. Lisboa 8 jun. 1844. 
Deb. D. Maria 22 maio 1867 com. «Mealheiro» Ens. e arreg Th, 
Gymnasio desde i87i. — Pag. 349, 375 * 376. 

Leopoldo Froes A. port. N. Lisboa 1882. Deb. Princ. Real dr. 
«Rei Maldito» 1903 — Pag. 117, 160 

Lombroso (Cesare). Criminalista ital. N. Veneza i836. — Pag.^ 
71, 235. 

Lopes. A. port. (Avenida 1903-904). — Pag 271, 328. 

Lopes de IVendonça (Henrique). Aut. dr port. N. Lisboa 12 
fev, i856. Th: -A Noiva» (i a v. 9 fev. 1884). «Duque de Vizeu» 
(5 a. V. 19 março 1886). «Estatua» (5 a. v.) «Morta» (5 a. v.) «Salto- 
mortal» (i a. v.) «Dôr do cotovello» (imit de Moliére) «Batalha 
eleitoral (i a p.) «Joanna» (4 a. p.) «Àlfenim» (5 a p.) «Cores da 
bandei-a» (i a. v.) «Paraiso conquistado» (i a. p.) «Amor louco» 
(4 a. p.) «Affonso d'Albuquerque (5 a. v. não rep ) — Pag. 18, 168. 

Lorde (André). Aut dr. fr. N. Paris 1871. Collab. com E. Morei: 
«Dans la nuito (5 a. 1897). «Loreau est acquité» (i a. 1898). «Af- 



Impressões de Theatro — índice 477 

faire Boreau (i a. 1899). Com Ch. Folley: «Au telephone» (2 a- 
1902). Só: «Mme Blanchard», (i a. 1899)' «Bonne farce» «Petite 
bourgeoise», «La lettre», «Comedienne» «Mon Rembrandt» «La 
dormeuse», «Réve d'un soir», «Hermence» —Pag. 81. 

Louis Pericoud. Aut. dr. fr. N La Rochelle 10 jun. i835. Peças 
princ: «Casque de fer» «Casse Museau», nKelber», «Père Chas- 
selas», «JacK TEventreur», «La mère Victoire», etc. — Pag. 370. 

Lua de mel com. i a. de Echegaray, trad. de Leopoldo de 
Carvalho rap. Gvmnasio 24 março 1904.— Pag. 349, 35 1 

Luciano de Castro. A. port.N. Lisboa i3 out 1873. Deb. Th. 
Rato 1892 «Voltas que o mundo dá*. Creou «Inimigo do Povo», 
de Ibsen, Príncipe Real 8 nov. 1900. (P. R. Th. Livre 1903- 
904). — Pag 117, 118, 160, 188, 23o, 248, 3oi, 3i3, 314*, 3i6, 317, 
5/0, 371, 3/3, 374, 432. 

LuciÚa Simões Az. port. N Rio de Janeiro 3 ab. 1879. Deb. 
Coimbra, Th. Circo, 1896, no dialogo dos retratos do «Frei Luiz 
de Sousa» (D. Am. 1903-904) — Pag. 26*, 102, i33, i34, 142, 144, 
145, 146, 149, i5o, i5i, 04, 168, 219, 222, 280, 289, 293, 298, 352, 
356, 377, 433*, 434, 435, 437. 

Lucinda Simões. Az port. N. Lisboa 17 dez. i8:>o Deb. Gym- 
nasio 19 out. 1867 «Bemvinda ou a Noite de Natal. — Pag. 24*, 
2Õ, 76, 219, 221, 222, 289, 290, 377, 378*, 379,433. 

Lugnè Põe. A. fr. "N. Paris 27 dez. 1069. 2.» P. Cons. com. 
1891. Director-fundador Th. de TOeuvre.— Pag. 3o6, 421*. 

Luiz Filgueiras. Mus. port. N. Lisboa 21 ag. 1862. — Pag. 
246, 328. 

Luiz Pinto. A. port. N. Lisboa 3o ab. 1872. Deb. Rua dos 
Condes i3 out i89-">, com. «Marido e amante*. Societ. i.* cias. D. 
Maria. — Pag. i55, i56, i58* 227, 247, 260, 286, 292, 3i8, 32i, 393, 
427,429. 

Luva (A). Com. 3 a. de B. Bjornson. Rep. i883. Trad. fr. 
de Auguste Mounier. Rep. Paris 1892. — Pag. 421 

Luz Velloso.'Az. port. N. Porto 3 março i883. Deb. D 
Affonso (Porto) mag. «Lâmpada maravilhosa», 1892. (D. Maria 
1903-904). — Pag. 227, 237, 260, 3 18, 36o, 427 



M 



Madame Flirt. Com. 4 a. de Paul Gavault e Georges Berr, rep. 
Athenée 27 dez. 1901. Trad. port. D. Am. 1902. — Pag. 21. 

M.""* de Girardín (Delphine Gay). Aut.* dr. fr. N. Aix la Cha- 



47^ Impressões de Theatro — índice 



pelle, 26 ian. 1804. M. Paris 29 jun i855. Th.: «Ecole des journa» 
listes», ttJudith», «Gleopatre», «Cest la faute du mari», «Lady 
TartuflFe», «La joie fait peur», «Ghapeau d'un horloger», «Femme 
qui deteste son man». — Pag. 170, 172. 

M-f»^ Sans Gene. P. 4 a. Victorien Sardou e Emile Moreau.- 
rep. Vaudeville 27 out 1893. — Pag. 177, 377 a 379. 

Mademoiselle de La Seiglière. Com. 4 a. Jules Saudeau. Rep. 
Comedie 4 nov. i85i — Pag. 34, 36, 40, 53, 55. 

Maeterlinck (Maurice) Poet. dr. belga. N Gand 1862. Th. r 
«Princesse Maleine», «Aveugles», «Intruse», «Pelléas et Melisan- 
dre», «Sept Princesses» «Joyzelle», «Monna Vannau, etc. — Pag. 298,. 
3o3 a 307, 3o8 a 3i2, 33o, 332* 336, 338, 341, 344, 345, 347, 348, 432. 

Magalhães Lima. Jorn. port Direct. Vanguarda. N. Aveiro 3o- 
maio i85o. — Pag. 4, 246. 

Magda. P. 4 a. de H. Sudermann. Rep. Paris Th. Renaissance 
i3 fev. 1895. Trad. port. Pedro Vidoeira, rep. D.Am. 1903. — Pag. 
22, i33, i34, 137, i38, 141 a 145, 149, i5i, i52, 161, 162, 189, 190^ 
198, 2o3. 

Maia (Fernando). A. port. N. Lisboa 3o maio 1869. Deb. Th 
D. Maria nov. 1889 com. «A Herdeira». Societ. i." cias. e Geren- 
te D. Maria. — Pag. 2t), 114, i55, i56, 227, 234, 260, 266* 270, 2 86^ 
3 18, 36o, 362, 38o, 386, 419, 425, 429. 

Maior Castigo {O) Dr. 3 a. Kaul Brandão, rep. D. Ameha 1902.. 
Pag. 21. 

Malheiro Dias (Carlos). Esc. port. Th : «Goração de todos»^ 
(não rep.) — Pag. 188. 

Mallarmée (Estephane) Poet. dec. fr. — Pag. 3o3. 

Manini (Luigi). Scenog. it. N. Grema Lombardia. Gont. 
S. Garlos «879. Scenarios princ : «Othello», «Drama no fundo da 
mar», «Regente», etc. — Pag. i55, i56, 234. 

Manuella Rey. Az. port N. Mondanedo (Hespanha) 24 out. 
1843. M. Lisboa 26 fev. 1866. Deb. Lisboa th. Salitre 26 mar. i85i 
e D. ataria com. «A alegria traz susto», 23 nov. 1857. — Pag. lõo. 

Manuel Larangeira. Esc. e crit. th. port. Aut. do oA'manhãijy 
rep. PrincipeReal 8 mar. 904. — Pag. 3i3, 3i5. 

Manuel de Macedo. Esc. th. port. N. i maio 1839. Scnog. ens. 
crit. e trad. Princ. trad. «O Solar de Benthlem» «Pae», etc. — Pag. 
253, 257. 

Manuel da Silva Gayo. Poet. esc. th. port. i.° prem. cone. dr. 
do T>ia «Encruzilhada», rep. D. Am. 20 nov. 1903. — Pag 168. 

Marcellino Franco. A. port. N. Lisboa 6 set. 1846. Deb. Rua 
dos Gondes, dr. «Simão o Tanoeiro». (Rua dos Gondes 1903-904) 
282, 283. 

Marcellino Mesquita. Aut. dr. port. N. Cartaxo i set. i856. 
Th.: «Pérola». (Pr. Real 23 maio 85), «Leonor Telles» (D. Maria 
3 out. 89), «Sr. Barão» (Gymn. 1890), «Os Castros» (D. Maria 
8 ab. 93), «Velho Thema» (D. Maria 3i jan. 95), «Dôr Suprema»- 
(D. Maria 27 dez. 95), «Regente» (D. Maria 1 maio 97), «Peraltas 
e Secias» (D. Maria 11 fev. 99), «O sonho da índia» (não rep. 1898),. 
«Sempre noiva» (D. Maria 24 mar. 900), «Petronio» (D. Am. 1901), 



Impressões de Theatro — índice 479 



«Sinhá» (D. Maria out. QOi), «Tio Pedro» (D. Ara. 24 mar. 902) 
•Noite do Calvário» (Rio Janeiro th. do Recreio, ab. 9o3), «Rei 
Maldito» (Pr. Real 21 out. igoS). Com. i a. revistas e parodias. 

— Pag. 114, 117 a 121,* 123, 125, 129, 268, 3Ó9, 373. 

Maria das Dores. Az. port. N 1 1 jan. 1844. Deb. creança D. Ma- 
ria. (Pr. Real 1903-904). — Pag. 248, 3oi, 3i3, 370, 371, 373. 

Mana Pia (í'Alineida. Az. port. N. Porto 23 jan. 1864, Deb. 
«Cabotinos» Rua dos Condes 28 fev. 1895. (D. Am. 1903-904). 

— Pag. 243, 352. 

Maria Santos. Az. port. N. 9 jan. 1880. (Trind. 1903-904). — 
Pag. 272, 291, 357. 

Maria Stuart. Dr. 5 a. de Schiller. Rep. em Portugal 21 jan. 
1854 D. Maria (Emilia das Neves). — Pag. i3i, i32, 137, 146 a 148, 
lói, 162, 198, 2o3. 

Marianho de Carvalho. Homem pol. port. Direct. d'«0 Popu- 
lar». — Pag. 159. 

Marietta Mãriz. (Az. port. N. 14 março 1878. Deb. 22 dez. 1901 
Rua dos Condes, «Commissario de Policia», (Gymn. 1903-904). — 
Pag. 241, 299, 3oo. 

Marívaux ( Pieira- Carlet de Ghamblatn de). Aut. dr. fr. N. Pa- 
ris 1688 M. 12 fev. 1763. — Pag. 389, 395 a 3<)8. 

Marque j de Villemer (O). Com. 4 a. de George Sand rep. Paris 
29 fev. 1864, trad. port. de Ramalho Ortigão — Pag. 238, 297. 

Mars (M "^). Az. fr. N. 1792, M. 20 fev 1847. — P^g ^9*^- 

Mascaras (Maschere). Dr. i a. de Roberto Bracco. — Pag. 38o. 

Maternidade (Matemitá). Dr. 4 a. de Roberto Bracco. — Pag. 38o. 

Matrat ( Emmanuel). A. fr. N. Paris i855. Cons. 1878. Deb. 
Nouveautés 1879 com. «Parisien*. — Pag. 80. 

Mattos (António Joaquim de). A. port. N. Lisboa 2 mar. 1849, 
Deb. Trind. i5 set. 18Õ9 na «Gata Borralheira». (Trind. 1903-904). 
Pag. 2i3, 291, 357. 

Manpassant (Guy). Rom. e aut. dr. fr. N. 5 ag. i85o M. 1893. Th : 
«Musotte». (Collab Jacques Normand), 3 a. rep. Gymn. 4 mar. 1891. 
«Paix du Menage» 2 a. rep. Comédie 6 mar. 1893. «Histoire du 
Vieux temps» i a. ver. Trad. port : «Musotte» Guiomar Torresão, 
(Trind. 1897). «Historia antiga». Mayer Garção, (D. Maria 1902). — 
Pag 5, 14, lõ, 18, 89. 

Max Nordau. Cnf. e aut. dr. jud N. Budapest 29 jul. 1849. Obr. 
crit «Degenerescence», «Vus dudehors->. Th.: «Droit a Tamour». 

— Pag. 87, 104, 174, 235, 3o4, 3o6, 309, 3io* 336, 345. 

Mayer Garção. Poet jorn. port "N. 8 fev. 1872. Trad. «Roma- 
nescos» de Rostand e «Histoire du Vieux temps» de Maupassant. — 
Pag. 5, 10, i3, * ló, 19. •* 

Medecin malgré lui (Le). Com. 5 a. de Moliére. — Pag. 44, 
47, 48. 

Medina de Sonza. Az. port. N. Lisboa 2 dez. 1877. Deb. Th. 
D Affonso do Porto. (Trind. 1903-904) — Pag 21.S, 272. 

Mello (Augusto). A. port. N. Lisboa i3 jul. i853, Deb. Gymn. 
II jun. 1870 com. «As informações». Prof. Cons. Societ. i.» cias. 
Th. D. Maria. — Pag. 3o, 52*, 227, 247, 260, 286, 3i8, 325. 



480 Impressões de Theatro — índice 



Mello Barreto (João Carlos). Escr. dr. crit. th. e jorn port. N. 
Lisboa 3 jul. 1873. Trad. princ : «Pae pródigo», «Semi- Virgens», 
«Locandiera», «Resurreição». Orig : «Vivinha a Saltar», rev. «As 
violetas», opt. Crit. th. «Novidades». — Pag. 4, 114, 222, 226, 240, 
328, 329* 33o 

Mendes (Catulle). Crit. th. e aut. de fr. N. Bordéus 22 maio 
1841 Peças princ: «Part du roi», (1872); «Capitaine Fracasse», 
(1878); «Femme de Tabarin», (1887); «Reine Fiamette», (1889), 
etc, crit. th.: «L'art au theatre», 3 vol ; cnt. do «Journal». — Pag 
83* 84, 281, 282* 393, 40», 436. 

Mendes Leal (José da Silva). Aut. dr. port. N. Lisboa 18 
out. 1818, M. Paris 1880. Peças princ. «Dois renegados», «Pe- 
dro», «Pagem d' Aljubarrota», «Pobreza envergonhada», «Escala 
Social», etc— Pag. 2. 

Mestra Régio. F. i a. de Marcellino Mesquita, Rep. S. Car- 
los, II abr. 1904 — Pag 388, 389. 

Miranda. A. port. (Avenida, 1903-904). — Pag. 271. 

Mirbeau (Octave). Aut. dr. fr. N. i85o. Th.: «Mauvais ber- 
gers», (5 a. 1897J; «L'épidemie», (i a. 1898); «Vieux ménage», 
(I a. 1900); «Portefeuille», (i a. 1900): «Amours», (i a. 1902); 
«Scrupules», (i a. 1902); «Les afFairessont les affaires», (3 a. 1903); 
«Interviev^», 'i a. 1903).— Pag 97, 304 a 307* 375, 374. 

cMoglie ideale. Com 3 a. de Marco Praga Rep. th. Gerbino, 
Turim II nov. 1890 — Pag. 148. 

Molière (Jean Baptiste Pacquelin de). A. e aut dr. fr. N. 
Paris i5 jan. 1622. M. 17 fev. 1873. Th: «L'etourdi», «Le de- 
pit amoureux», «Precieuses ridicules», «Cocuimaginaire», «Garcie 
de Navarre», «Ecole des maris», «Le facheux», «Ecole des fem- 
mes», «Critique de TEcole des femmes», «Impromptu de Versail- 
les», «Mariage force», «Princesse d'EIide», «Don Juan«, «Avare», 
«Amour medecin», «Misanthrope», «Medecin malgré luiu, «Meli- 
certe», «Pastoral comique», «Amour peintre», «TartuíTe», «Am- 
phytrion», «George Dandin», «Mr. de Pourceaugnac», «Amants 
magniíics», «Bourgeois gentilhomme», «Fourberies de Scapin», 
«Comtesse de Escarbagnas», «Femmes savantes», «Malade ima- 
ginaire».— -Pag. 3i, 32, 35, 40, 43, 44, 4.-), 47, 53, 56 a 58, 75, 84, 
107, 287, 363, 389, 396, 407. 

Moniz (José António). A. port. N. 19 set 1849. Cons. 1866. 
Deb. D Maria dr. «Maus conselhos» 1868. Ret. se. Escrip. th. 
Ens. D. Maria e prof. Cons. --Pag. i58, 188, 3oi, 

Monna Vanna. P. symb. 3 a. de Maurice Maeterlinck. 
Rep. th. Oeuvre 17 maio 1902. — Pag. 304, 307, 332 a 337, 344, 345. 

Monsiur Q^lphonse. Com. 4 a. Alex. Dumas. Trad. port. de 
Alberta Braga. — Pag. 25. 

Monsieur de Pourceaugnac . Farça pant. 3 a. de Molière. — 
Pag. 44. 

Monsieur 'Vernet. P. 2 a. de JulesRenard. Rep. th. Antoi- 
ne 6 maio 1903 — Pag. 91. 

Monteiro. A. port. N. 2 jul. 1876. (P. R. 1903-904). —Pag. 
117, 160, 188, 23o, 248, 285, 3oi, 370. 



Impressões de Theatro — índice 



Moral d'elles. «Tante Leontine». Com. 3 a. de M. Boniface 
e Bodin. Trad. de Cesar Porto. Rep. P. R. 9 março 1904. Rec. 
Th. Livre. — Pag. 3i3 a 317. 

Moratin (Leon Hernaadez de). Poet. e aut. dr. hesp. N.Ma- 
drid 17G0 M. Paris 21 jun. i82iS. Com. princ: «Comedia nueva», 
«Mogigata», «El si de las ninas. — Pag. S2. 

Moreau (Emile). Aut. dr. fr. N. Brienon 8 dez i852. P. 
princ: «Matapan», oLe drapeau». Collab. com Sardou : «Gleo- 
patre», «Sans-Gêne», «Dante». — Pag 377. 

Moura Cabral (Carlos). Aut. dr port. N. 24Jan. i852. Th. 
• Comedia intima», «Kermesse», «Paris em Lisboa», «Scenasbur- 
guezas», oBibi», «Homem terrivel». Trad.: «Principe Zilah», 
«Princeza de Bagad», «Sans Gene», «Boubouroche» . — Pag. 377. 

Mulher de Cláudio. P. 3 a. AÍex. Dumas F. Rep. Gymnase 
16 fev. 1874 — Pag. 4i3. 

Mundo. Jornal rep Director França Borges. Crit th. (i9o3- 
^404) Braz Buritv. Pag. i3, 63, 104, io5, 433 

Musset (Alfred). Poet. e aut. dr. fr. N. 11 nov. 1810. M. 2 
maio 1837. Th.: «Nuit venicienne», «André dei Sarto», «Caprices 
de Mariannen, «Fantasio», «On ne badine pas avec Tamour», 
«Barberine», «Lorenzaccio», «Chandelier», «II ne faut jurer de 
rien», «Un caprice», «II faut qu'une porte. . .», «Luison», «On ne 
sourait penser...», «Carmosine», «Bettine». — Pag. 392, 395, 
388*, 399, 4o5, 41 1, 418. 

MysatUhropo Com. 5 a de Molière. Adap. port. de António 
Feliciano de Castilho. — Pag. 41. 



N 



Nadai (Júlio). A. com. hesp. N. Valença 1 858. —Pag. 5o* 
59, 60. 

Nayarro (Emygdio). Jorn. e pol. port. Director das «Novida- 
des. — Pag. 10, 21Ó, 219, 23o. 

Nelly Rosier. Cora. 3 a. de Paul Bilhaud e M. Hennequin. Rep. 
Nouveautés 10 dez. iqgi. Trad. port. D. Amélia 1902. — Pag. 21. 

Nicolino Milano. Ãlaest. br. N. 25 jul. 1872. — Pag. 272,291. 

Ninho de Cupido. Com. burl. 3 a adap. do ali. por Freitas 
Branco. Rep. Th. Gymnasio, 21 ab 1Q04. — Pag 375,376. 

Noite do Calvário. Dr. 3 a. de Marcellino Mesquita. Prohib. 
policia 1902. Rep. Th. Recreio (Rio de Janeiro) ab. 1903. — 
Pag. 169.' 

3i 



482 Impressões de Theatro — índice 



Noite em Veneza (Uma). Opereta 3 a. de Zell e Ganeé, mus 
Strauss. Rep. inaug. Th. D. Amélia Gomp. Gargano, 22 maio 
1894. Rep. Th. Avenida 28 jan 1904. — Pag. 271 . 

No tempo de Liti^ XV. Com. 4 a. Alex. Dumas Pae. Rep. D. 
Maria 10 out. 1844 (Em. das Neves), trad. Mendes Leal «Um ca- 
samento no templo de Luiz XV». Trad. Salvador Marques, rep, 
D. Maria 14 maio 1904. — Pag. 427 a 480. 

Nouvelle idole. Peça 3 a. de François Curei. Rep. Th. An- 
toine II mar. 1899. — Pag. 74, 86 a 91'. 

Novelli (Ermette). A. it. N. Lucques 5 maio i85i. — Pag. 7^ 
53,91, 94*, 95, i38, i39, 145, 147, i53, 198. 317. 

Novidade?,. Jornal pol. Direct: E. Navarro. Crit. th.: Mello 
Barreto e Henrique de Vasconcellos — Pag 93, 3o6, 329, 33o. 

Nuit d'octobre. Poe. dr. de Alfred Musset. Report. Comedie 
Pag. 12,395,398,399,411,415. 



O 



Oliveira (das Magicas) (Joaquim Augu.sto d'). Esc. th. port. N, 
1827. M. 1901. Mag. princ: «Filha do ar«, «Gata borralheira», «Ave 
do Paraiso», «Loteria do Diabo», «Rei de Granada», etc — Pag. 2. 

Onhet (Georges). Rom. e aut. dr. fr. N 3 ab. 1848. Peças 
princ: «Serge Panine», «Princesse Sarah», etc. — Pag. 39, 295. 

O que morreu d' amor Peça hist. 4 a. Júlio Dantas, Rep. D. 
Amélia 1899. — Pag. i5. 

Oscar Bíay. Crit. th. port. N Lisboa 4 dez. 1841. Crit th : 
na «Democracia», «Commercio de Portugal», «Contemporâneo», 
«Diário de Noticias», etc. Trad.: «Les absents», de Daudet. 
«Subtilezas do Abbade», de Theuriet. — Pag. 248, 249. 

Os que trabalham. Dr 3 a. de Ernesto da Silva. — Pag. 372. 

Outro sexo. Com. 4 a. de Vaubergue e Hannequin («Place 
aux femmes»), trad de Sousa Bastos. Rep. Gymnasio 3o dez. 
1903. — Pag. 241,242. 

Othello ou o Mou o de Veneza. Trag. de Shakspeare, adap. 
port. de J.^A. de Freitas. — Pag. 238. 



Impressões de Theatro — índice 483 



Paccíni (José). Emprez. Th. S. Carlos. — Pag. 72 

Paço de Veiros. Peça 3 a. de Júlio Dantas. Rep. th. D. Amé- 
lia 1900. — Pae. i5, 21. 

Pae . Dr. 3 a. de August Strindberg. Rep. Stockolmo 1887 
Nouveau Theatre (Paris) 14 dez. 1894. Trad. fr. de Georges 
Loiseau Trad. port. de Manuel de Macedo. Prohib. comm. ré- 
gio D. Mana. — Pag. 25o a 25q, 265, 2Ó9, 270, 287, 430, 432. 

PaUadini (Celestina). Az. it. N. Lucca i3 jul. 1845. Deb. 
1862 em Itália. Tournées Portugal 1875- 1876. Deb. D.Maria (rep. 
em port.) 1877 — Pag. i3i. 

Palmyra Bastos. Az. port. N. Aldegavinha 3o maio 1875. 
Deb. Th. Rua dos Condes «Reino das Mulheres» 18 jul. 1890. 
(D Maria 1904). — Pag. 241, 36o, 366*, 410,419,425,426,430. 

Palmyra Ferreira . Az. port. N. 20 dez 1878. Deb. P. Real 
17 jun. 1898. «Casar para morrer». (Gymn. 1903-904). — Pag. 
245, 278, 349, 375 . 

Palmyra Torres. Az. port. N. Funchal i9nov. 1877. Deb. 
th. Gymnasio 24 março 1900 (Gymn. 1903-904). — Pag. i3o, 
i35, 217, 241, 278, 349, 375. 

Pântano. Peça symb. 3 a. de D. João da Gamara. Rep. D. 
Maria 1893. — Pag. S 

'Papa Flores, com. 4 a. adap. do ali. por Freitas Bi anco. 
Rep. D. Maria 1900. — Pag 27. 

Taroles restent {Les) C . 3a. de Paul Hervieu Rep . Vaude- 
ville 17 nov. 1892. — Pag. 400,402. 

Pato bravo. Dr. 4. de Heurik Ibsen, rep. th. de Bergen 9 jan. 
i885. Trad. port. de Sousa Monteiro, rep. D. Maria 1898. — 
Pag. 210. 

Patrat. Esc. th. fr. Aut. da com. i a. •L'anglais ou le fou 
raisonable«, deb. de Coquelin Cadet th. Odeon i867. — Pag. 34. 

Paulus. Canc. fr. — Pag. b6. 

Pedro Cabral. — A. port. N. i jul. i855. Deb. Gymnasio 29 
nov. 1877 com. «Todos assim». Esc. th. e dir. de se. (Ens. P. 
Real 1903-904). — Pag. 14. 

Pedroso Rodrigues. Poet. dr. port. N. Coimbra 3 ab. i883. 
3.° pr. cone. dr. do «Dia», «Auto pastoril», 20 nov. 1903. — 
Pag i5«. 

Teer Gynt. Dr. 3 a. de Henrik Ibsen. Rep. th. Christiania 24 
fev. 1876. Th. Oeuvre 11 nov. 1896. — Pag. 210. 



484 Impressões de Theatro — índice 



Peixoto (Henrique). A. p. N. Lisboa 18 ag. i858. Deb. th. Rua 
dos Condes 1878. (P. Real 1903-904). — Pag. 117. 

Pelladan (Sar). Poet. dec. fr. — Pag. 3o3*. 

Penteado (Manuel). Es. th. port. N. Faro 16 out. 1874. Trad. 
do «Cyrano de Bergerac», «Papá Lebonnard», etc. — Pag. 21 

Perdido nas trevas (Sperduti nel buio) dr. 3 a. Roberto Bracco. 
Rep. Trieste dez. 1901. — Pag. i3o. 

'Perdidos no mar. Dr. 3 a. 5 q. imit. de José António Moniz, 
Rep. P. Real 6 março 1904. — Pag. 3o 1. 

Pereira. A. port. (Gymn. 1903-904). — Pag. 241. 

'Peraltas e secias. Com. 3 a. de Marcellino de Mesquita. Rep, 
D. Maria, 11, fev. 1899. — Pag. i23, 229. 

Petite amie. Peça 4 a. de Brieux. Rép. Comédie 3 maio 1902, 
— Pag. 77. 

Petronio. Peça 7 q. de Marcellino Mesquita, adapt. do rom, 
• Quo vadis». Rep. D. Amélia 1901. — Pag. i23. 

Phedra. Trag. 5 a. de Racine. Rep. 1677. — Pag. 196, 206. 

Pierre Morgand. Pseud. de Dupont ac. e aut. dr. fr. Peças 
princ: oL'école des amants», «L'homme du jour». — Pag. 219, 
220. 

'Pierre de touche Com. 4 a . de Emile Augier e Jules San- 
deau, Rep. Comedie 23 dez. i853. — Pag 34. 

'Pietro Caruzjo. Dr. i a. R. Bracco, creado por Zacconi 1897, 
trad. port. de Carlos Trilho, rep. D. Maria 243!;. 1904. — Pag. 
i3o, i5i, 38o a 386. 

ÍPimentel (Alberto). Hom. de let. port. N. Porto 14 ab. 1849. 
Commissario régio Th. D. Maria. Obras th : «Psciu !», «Onariz», 
«Rindo», (scenas cómicas). — Pag 18*, 114, )56, 184, 234, 235, 
247, 25o*, 25 1 a 257, 258*, 259, 410, 42q, 43o, 432. 

Pinero (Arthur). Aut. dr.'ing. N. í855 Th.: «The Benefit of 
the doubt», «The Princess and the Butterfly», «Mrs. Tankeray», 
«The Gay Lord Quex», «The notorious Mrs Ebbsmith». — Pag. 422. 

Pinheiro (Annibal). A. port. N 10 março 1870. Deb. Th. do 
Rato 17 jan. 1892. (Gymn. 1903-904). — Pag. i3o, i35, 217, 241, 
299. 349, 375. 

Pinheiro (António). A. port. N. Tavira 21 dez. 1867. Alum. 
Cons. i885. Deb. Th. Gymn. out. 1886 dr. «Nobres e Plebeus». 
(Dir. SC. D. Am. 1903-904). — Pag. 26, 29*, 99, 11 5, 1 33, 142, 
146, 168, 169, 222, 243, 280, 289, 293, 298, 352, 377. 

Pinheiro Chagas (Manuel). Aut. dr. port. N. i3 nov. 1842, 
M. 8 abr. 1895. Th.: «Morgadinha de Valflôr», (3 2. 1869); «Ma- 
gdalena», «Drama do Povo«, «Roca de Hercules», «Quem desde- 
nha», «Lição cruel», etc. Trad.: «Gravata branca», «Oração da 
noite», «Abbade Con.stantino», etc. — Pag. 2, 187. 

Pinto de Campos (José). A. port. N. Lisboa jset. 1868. Deb. 
Thomar 1884, com. «Bola de sabão», (D. Maria 1903-904). — 
Pag. 227, 247, 260, 286, 3 18, 427. 

Pinto Costa A. port. N. 12 dez. 1872. Deb. 6 out. 1894. 
(P. Real 1903-904). — Pag. 117, 118, 160, 188, 23o, 248,301,370. 

Pinto (José Joaquim). Emp. th. port. N. Lisboa, 4 nov. i835. 



Impressões de Theatro — Índice 485 



Sócio do actor José Carlos dos Santos de 1869 a 1879, emprezas de 
P. Real, D. Maria, R. dos Condes e Gymn. Emprez. Th. Gymn. 
de 1881 a 1904. — Pag. ii5*, 35o. 

'PoiV de Carotte. Peça i a. de Jules Renard, Rep. Th. Antoi- 
ne 2 março iqoo. Trad. port. «Cabeça de estopa», rep. D. Am. 
1902 — Pag. B6, 89, 90, 91. 

'Polichinello {O segredo de). Com. 3 a. de Pierre WolíF, trad. 
port. rep. D, Amélia 1903. — Pag. 21, 25, 3o. 

Polin (Pierre Paul Mársalès) . Canç. fr. N. Paris i3 ag. i863. 
Deb. Pepinière 4 set. 18S6. — Pag 56. 

Copular (O). Diário pol. Direc. Marianno de Carvalho, crit. 
th. iQo3. Carcará Lima. — Pag. 93. 

Portugal da Silva. Esc* th. port. N. Lisboa 6 jun. 1861. 
Trad.: nExploradores de oiro», «Coração tem caprichos», «Ber- 
ço». Crit. th. «Diário Illustrado». — Pag. 352, 356, 36o, 363*, 367, 
407, 410, 416, 418. 

Pouca sorte. Com. 3 a. de Berr, Behere e Guillemond («La 
Carotte»), trad. port. de João Costa, rep. D. Am. Carnaval 
1903. — Pag 21. 

Posser (Carlos). A. port. N. Lisboa 2 março i85o. Deb. 1864 
Th. R. dos Condes. Ret. de se. Societ. i.*cl. D Maria. — Pag. 
27, 184, 177, ig4, i85* a 187, 378, 392, 43o. 

Praga (Marco). Aut. ar. it N. Milão 20 jun. 1862. Peças 
princ: "Moglie ideale», «Le vergine», «Alleluja», «Innamorata», 
oL'erede», etc. — Pag. 148. 

Trecieuses ridiciiles. Com. i a. de Molière. Adapt. v. port. 
de Esculápio, rep. Th. Trindade 1898 — Pag. 3i, 33, 47. 

Prévost (Mareei). Rom. aut. dr. fr N. Paris 1862. Th.: «Demi 
Vierges», trad. port de Mello Barreto, («Semi -virgens»), rep. 
D. Am. 1902. — Pag. 3. 

Princèsse de Bagdad. Peça 3 ^. de Al Dumas f. Rep. Th. 
Français 3i jun. 1881. — Pag. 413. 

'Trincesse Maleine. Peça symb. de Maurice Matterlinck (1890). 
— Pag. 338 a 340. 

Príncipe Perfeito. Dr. hist. de Lobo d'Avila e Júlio Rocha. 
Rep. th. Pr. Real 29 dez. igoS. — Pag. 23o a 232. 

Triola (Marquis de). P. 3 a. de Henri Lavedan. Rep. Come- 
die 7 fev. 1902. — Pag. 3. 

Prozor rComte de). Esc. th e crit. fr. Trad. de Ibsen, Toistoi, 
Gorki, etc. — Pag. 209. 

Pum ! Rev. cost. braz. 3 a. 6 q. de Arthur d'Azevedo e Ed. 
Garrido. Rep. Trind. ló dez. 1903. — Pag. 21 5, 216. 



Impressões de Theatro — índice 



Q 



Queiroz (Raymundo de Sarmento). A. port. N. Lisboa 3 1 out. 
i832. Deb. Th. Rua dos Condes na farça «Janota almofadado», 
(Trind. 1903-904). — Pag. 2i5, 272. 



R 



Rabelais (François). Rom. saty. fr. N. Chinon 149'). M. 9 ab. 
i553. Aut. do «Pantagruel». — Pag. 44, 287. 

Rachel (Elise R. Félix). Az. fr. N. Mury (Suissa) 28 fev. 1820. 
M. Canet 3 jan. i858. Deb. Gymn. 1837. Comedie i838. — Pag. 
108, 206, 389. 

Racine (Jean Baptiste). Mestre da trad. fr. N. La Ferté Milon 
21 dez. i633. M. 26 mar. 1699. Trag. princ: «Andromaque», «Bri- 
tannicus», «Berenice», «Phedre», «Athalie». — Pag. 407, 416, 418. 

Ramalho Ortigão (José Duarte). Grit. port. Obra prima.: «Far- 
pas». Th.: varias trad. de Dumas, Sand, Galdós, Augier, etc. — Pag. 
18, 3o5*, 343. 

Raposo (Eduardo). A. port. N 11 maio i870.(Avenida 1903-904). 
— Pag. 271, 328. 

Ingente. Trag. hist. 12 q. de Marcellino Mesquita. Rep. D. Ma- 
ria I maio 1897. — Pag. i23. 

I^i Lear'. Trag. de W. Shakspeare. Rep. 26 dez. 1606 no 
Th. Globe (Bnnk Side). — Pag. 256. 

Rei Maldito. Dr. hist. 5 a 6 q. de Marcellino Mesquita. Rep. 
P. R. 25 out. 1903. — Pag. 117 a 121, i23 a 129 

Reiter (Virgioia) Az. ital. N. Modena 1864. Deb. 1882, 
Com. Giovanni Emanuel. — Pag. 198. 

Rejàne (Gabriela Reja vulgo). Az fr. N. Paris 6 jun. 1857. 
2.° pr. Cons. 1874. Deb. Vaudeville 25 mar. 1875. — Pag. 26, 
2o3*, 2o5, 377, 391*. 



Impressões de Theatro — índice 487 



Remédios. Com. 3 a. de Ed. Brandes. Rep. Copenhague i885. 
Trad. fr. Pag. 421. 

Remplaçantes . P. 3 a. de Brieux. Rep. th. Antoine 16 fev. 
1901. — Pag 78,88,114,363. 

Renard (Jules). Aut. dr. fr. N. Chalons-sur-Mayenne 1864. 
Th.: «Plaisir de rompre», «Pain du M?nage», «Poil de Carotte», 
«Mr. Vernet». — Pag. 68, 86, 89, 90, 97. 

Repas du lion. P. 5 a de François de Curei. Rep. th. An- 
toine 26 nov. 1897. — Pag. 88. 

Resurreição. P. 5 a. extrahida do rom de Tolstoi por Henry 
Bataille, trad. port. de Mello Barreto. Rep. D. Amélia 23 dez. 
1903. — Pag. 210, 222 a 226, 233, 237 a 240, 366, 38?. 

Ricardo Jorge (Dr.) Med. port. Prof. da Esc. Med. de Lisboa, 
chefe dos serviços de saúde. — Pag. 14*, 44. 

Richepin ( Jean). Aut. dr. fr. N. Médéah 4 fev. 1849. Th. : «Par 
la glaive», «La Giu» «Nana-Sahib», «Le Flibustier» «Mr. Scapin», 
«Le Mage», «Vers la joie», «Chemineau», «La martyr», «Chien de 
garde», «Les Tixiands». Trad. port.: «Flibusteiro», por D. João da 
Camará; «Caminheiro», por Júlio Dantas. — Pag. 16. 

Ristori I Adelaide). — Az. ital. N FriuU 29 jan. 1822. Ret. de se. 
Tournées Portugal 1859 e 1877. — Pag. i3i. 

Robe rouge. Peça 4 a de Brieux. Rep. Vaudeville i5 março 
iqoo. Trad. port. Maximiliano d' Azevedo, rep. th. P. Real 1901. 
— Pag. 88, 239, 362, 363. 

Rodrigues. A. port. (Avenida 1903-904). — Pag. 271, 328. 

Roldão (Jorge). A. port. N. 6 mar. 1859. Deb. "^orto. Th. D. Af- 
fonso 1892 dr. «O regimento». (Avenida' 1903-1904). — Pag. 271, 
328, 33i. 

Roque (Francisco). A. port. N. Lisboa iS mar. 18 5o. Deb. Th. 
Vanedades, rev. do an. i865. (Pr. Real, 1903-904). — Pag. 117, 160, 
188, 23o, 23 1, 248, 285, 370. 

Rosa Damasceno. Az. port. N. Porto, 23 fev. 1845. M. Gradil, 
5 out. 1904. Rep. Prov. em comp. amb. Deb. Trind. 3o ncv. 1867 
«Xerez da Viscondessa». De 1867 a 76 Trind. De 1876 a 97 D. Ma- 
ria. De 1897 a 903, Societ. D. Am. — Pag. 25, 29, 3o, 168, 222, 243, 
290, 352. 

Rosa Engeitada. Dr. pop. 5 a de D. João da Camará. Rep. Pr. 
Real, 1901. — Pag. 239. ^ 

Rosa Pereira. Az. port. (Trind. 1903-904. — Pag. 291. 

Rosine. Com. 3 a de Alfred Capus. Rep. Paris 1897". — Pag. 294. 

Rosmersholm. Dr. 4 a. de Henry Ibsen. Rep. Th. Bergen, 17 
jan. 1887 e Th. dTOeuvre (Paris) 4 out. 1893. — Pag. 210. 

Rostaod (Edmond). Poet. dr. fr. N. Marselha i ab. 1868. Th.: 
«Les romanespue» (Comédie 21 maio 1894). «Princesse Lontaine» 
(Renaissance i8g5). «Samaritaine» (Ren. 1894). «Cyrano de Ber- 
gerac» (Port Saih Martm 1897). «L'aiglon» (Th.: Sarah Bernhardt 
1900). — Pag. 46, 47, 56, 172, 173*, 175, 176, 180, 363. 

Ruth (Laura). Az. port. N. 6 jul. 1878. Deb. Th. Avenida, rev. 
«Vivinha a Saltar». (Avenida 1903-904). — Pag. 271, 329. 



488 Impressões de Theatro — índice 



Sadda Yacco. Az. jap. Deb. Europa, Exp. Paris, 1900. — Pag. 20, 
73, i53, 181, 337. 

Salgado (Ricardo). A. port. N. 18 dez. 1870. (Avenida 1903-904). 
— Pag. 171, 328. 

Salles. A. port. N. 1878. Deb. 1900. (Gymn. 1903904). — Pag. 
241, 278, 299, 349. 

Salvador Marques. Esc. th. e emp. port. N. 9 jul. 1844. P. princ: 
«Campinos», «Fome e Honra». Adap., trad., imit. e arreg. — Pag. 
424. 

Salvini (Tommazzo). A. it. N. Milão i jan. 1829. Tournée S. Car- 
los maio 1869. — Pag. 91, 147, i5i. 

Salvaterra A. port. N. o jan. 1869. Deb. 1901. (Avenida 1903- 
904). — Pag. 328. 

Salteadores (Les brigands). Dr. 5 a. de Schiller. — Pag. 282. 

Saltimbanco (O). Dr. 4 a. António Ennes. Gymnasio 21 fev. 
1877. — Pag. 184. 

£>ampaio (Francisco). A. port. N. 16 jun. 1868. Deb. 1893. Pr, 
Real dr. «Regimento Vermelho. (D. Maria 1903-904.). — Pag. 227, 
260, 286, 292, 3 18, 36o, 419. 

Samuel Tom. Pseud. jorn. de Adrião de Seixas, crit. th. port. 
N. 22 mar. i856. — Pag. 220. 

Sand (Georges). Pseud. de Armandine Aurore Lucile Dupin, 
rom. e aut.* dr. fr. N. i> jul. 1804. M. 8 jun. 1876. P. princ: «Mar- 
quez de Villemer», «Claudia», «François Gharapi». — Pag. 34. 

Sandeau (Jules). Rom. e aut. dr. fr. N. 11 fev. 181 1. M. 24 ab, 
i883. Th.: «Mademoiselle de La Seiglière», e «Genre de Mr. Poi- 
rier» «Pierre de Touche» de collab com Augier. — Pag. 34, 36, 

Santa Rita (Guilherme). Esc. dr. port. aut. do «Bezerro d'Ouro» 
dr. 4 a. rep. Princ. Real. — Pag. 279. 

Santos (Henrique). Tenor port. Deb. 28 out. 1903. (Trind. igo3- 
904). — Pag. 272, 291, 357. 

Santos (José Carlos dos) (Santos Pitorra). A. port. N. Lisboa 
i3 jan. 1834. M. 8 fev. 1886. Deb. 3i maio i85i dr. «Ghigi», D. Ma- 
ria. — Pag. 160. 

Santos Júnior. A. port. N. Thomar 25 mar. i85i. Deb. Princ. 
Real dr. «Cabana do Pae Thomaz». (Th. Rato 1903-904). — Pag. 
359. 

Santos Júnior (António). Emprez. do Colyseu. — Pag. 21, 41. 

S. Luiz Braga (Visconde de). Emprez. th. D. Am. N. Rio Grande 



Impressões de Theatro — índice 489 



do Sul (Brazil) 26 março 1854. — Pag. 20*, 21, 25, 29, 33, 38, 47, 
5o, 54, 58 a 60, 62, 63, 67, 69, 71, 93, 99, 134, 137, 141, 144, 146, 
a 148, i5i, 154, 162, j63, 164, 172, 175, 176, 179 a 181, 183, 216, 
226, 229, 239, 290, 332, 337, 343, 355,43o, 402, 433. 

Sarah. Az. port. (Avenida 1903-904). — Pag. 271,329. 

Sarah Bernhardt. Az. fr. N. Havre 22 ab. 1843. 2.° prem. cons. 
trag. 1861 e com. 1862. Deb. Comédie 1862. — Pag. 26, i36, 139, 
145, 154, 164*. 

Sarah Goelbo. Az. port. N. 3 maio 1877. Deb. Princ. Real 1897. 
(D. Maria 1903-904). — Pag. 247, 3 18. 

Sarcey "(Frahcisqne). Crit. th. fr. N. Dourdan 8 out. 1828. M. 
Paris 17 maio 1899. — Pag. 32, 33, 5i,* 64, 6% 97, 159, 281, 397. 

Sardou (Vicíõrien) Aut. dr. fr. N. Paris7 set. i83i. Deb. Th. 
Odeon 1854. Com. «Cabaret des Etudiants». P. princ: «Fedora», 
«Tosca», «Theodora», «Cleópatra», «íntimos», «Familia Benoi- 
ton», «Divorciemo-nos», «M.°* Sans Gene», «Pátria», «Fernanda», 
«Dorah», «Rabagas», etc. — Pag. 122, 129, i36, 146, 154, 166, 176,* 
'77? '79? '9'í '99? 264, 336, 344, 363, 377. 

Sarmento (António). A. port. N. 18 jan. 1872. Deb. 22 jan. 
1892. (Gymn. 1903-904). — Pag. 217, 278, 299, 349, 375. 

Schilier ( Jeãn-Cbrístophe Fréderic). Poêt. e aút. dr. ali. N. Mar- 
bach II nov. 1759. M. 8 maio i8o5. P. princ: «Les brigands», 
«Conjuration de Fiesque», «L'intrigue et Tamour», »Dom Carlos», 
«Maria Stuart», «Jeanne d'Arc», «Le camp de Wallenstein», «Les 
Piccolomini», «La mort de Wallenstein», «La fiancée de Messine», 
«Guillaume Tell», etc. — Pag. i3i, i32, 141, 146,282. 

Schwalbach (Eduardo). Jorn. e esc. th. port. N. 18 maio 1860. 
P. princ: «O Intimo», «Filho da Carolina», «Sr.» Ministra», «Cruz 
da Esmola» e var. rev. Cons. de arte dram., soc.da Acad., comm. 
de S. Thiago, director do Cons. — Pag. 53, 112, 243, 244,* 
245. 

Scrihe (Eugéne). Esc dr. fr. N. Paris 24 fev. 1791, M. 20 fev. 
1861. Deb. com. «L'Auberge» 19 mar. 1812. P. princ.: «Chapeau 
de paille d'Italie», «Verre d'eau», «Mariage d"argent», «Bertrand 
& Raton», «Camaraderie», «Dix ans, ou la vie d'une femme», 
«Oncle d'Amerique», «Mariage de Raison», «Les grisettes», «Ma- 
nie des places», e librettos de : «Huguenotes», «Roberto do Dia- 
bo», «Fra Diavolo-, «Ali-Baba», etc. — Pag. 196, 206, 354. 

Seguier (Jayme). Esc. th. poit. N. Barcellos 20 maio 1860. 
Th.: «Desquite», «Ramo de lilazes», imit. v. — Pag. 418*. 

Semi-lirgens., trad. port. de Mello Barreto da p. 4 a. de Mar- 
eei Prévost, «Les demi-vierges». — Pag. 28. 

Sempre noiva. P. hist. 4 a. 7 q. Marcellino Mesquita, rep D. 
Maria 24 mar. 1900. — Pag. i23. 

Senhor Feudal (O). P. 3 a. Joaquin Dicenta, trad. de João 
ísoller, mus. Luiz Filgueiras, rep. Th. Avenida 9 jan. 1904. — 
Pag. 246. 

Sepúlveda. A. port. (Pr. Real 1903-904). — Pag. 160, 188, 23o, 
248, 285, 370. 

Serão nas laranjeiras (Um). Com. 3 a. de Júlio Dantas, rep. 



490 Impressões de Theatro — índice 



D. Maria 24 dez. igoS. — Pag. 227 a 229, 233 a 236, 247, 25 1, 252, 
257, 261, 265, 270, 283, 292, 412. 

Serva amorosa (La). Com. 3 a. de Cario Goldoni rep. em Bo- 
lonha em 1752. — Pag. 148. 

Severa{<2á). P. 4 a. de Júlio Dantas, rep. jan. 1901. Th. D. Am. 
— Pag. 12, 19, 25, 370. 

Setta da Silva. A. port. N. 28 maio i858. Deb. Trind. 28 set. 
1884. (Avenida 1903-904). — Pag. 271, 328, 33i. 

Sganarelle ou le cocú imaginaire. Far. 3 a. de Moliére, trad. 
V. port. Henrique Lopes de Mendonça. — Pag. 44, 52. 

Shakspeare (William). Dr. inglez N. Stratford-ou-Avon 23 ab. 
1564 M. 23 ab. 161 6. Th.: «Hamlet», «Sonho de uma noite de 
verão», «A tempestade», «Macbeth», «Rei João», «Ricardo III», 
oTroylus e Cressida», «Muito barulho para nada», «Symbeline», 
«Othello», «Fera domesticada», «Bem está o que bem acaba», 
«Trabalhos d'amor», «António e Cleópatra», «Romeu e Julietta», 
«Gentishomens de Verona», «Mercador de Veneza», «Como qui- 
zerdes», «Coriolano», «Rei Lear», «Dente por dente», «Simão de 
Athenas», «Ricardo II», «Henrique IV, V, VI e VIII», «Alegres 
comadres», «Comedia de enganos», «Noite dos reis». — Pag. 2, 3i, 
56^ 107, 256, 3o4, 3o6, 307, 345, 417. 

Sigaoret. A. fr. N. i865. Deb. 1897. Th. Antoine. — Pag. 69=^ 80. 

Silva Pinto. Crit. port. N. Lisboa 14 mar. 1848. Th.: «Homens 
de Roma», «Padre Gabriel». — Pag. i52. 

Símon (Charles). Aut. dr. fr. N. i852. Collab. de PierreBerton 
«Zaza». — Pag. 193. 

Sinhá. P. 3 a. epis. vidaburg. Marcellino Mesquita, rep. D. Ma- 
ria 1901. — Pag. 120, 123. 

Soares (Raul). A. port. N. 22 maio 1886. (Trind. 1903-904). — 
Pag. 272, 291. 

Sociedade onde a gente se aborrece {A). Com. 3. a. de Paille- 
ron, trad. port. de Gervásio Lobato, rep. D. Maria 1886. — Pag. 229. 

SoUer (Júlio). A. port. N. Lisboa i5 nov. 1843. Deb. Gymn. 
1860. (Gymn. 1903-904). — Pag. i35, 217, 241, 278, 349, 35i. 

Solness, o constructor, dr. 3 a. de Ibsen, rep. Christiania 8 mar. 
1893 e Oeuvre, Paris 3 ab. 1894. — Pag. 210. 

Sonho d'um Trincipe (O)'. P. i a. de Henrique de Mendonça, 
rep. D. Maria 12 jan. 1904. — Pag. 247. 

Sophia Santos. Az. port. N. Lisboa 3i ag. 1869. Deb. Th. dos 
Recreios i88ó, com. «Maridos que choram». (Gymn. 1903-904). — 
Pag. i35, 217, 245, 278, 349, 375. 

Sousa Bastos. Esc. th. e emprez. port. N. Lisboa i3 maio 1844, 
var. rev. e aut. da «Carteira do artista», vasto repositório de in- 
formações d'onde foram colhidas muitas das notas d'este índice. 
— Pag. i5, 241, 243. 428, 43o. 

Sousa Monteiro. Esc. th. port. N 20 ag. 1840. Th.: «Cavalleiro 
Falstatf», arreg. de Shakspeare, rep. D. Maria 1 8( 19. «Sonho da índia», 
p. prem. no cone. do centenário, rep. Trind. 1897. — Pag. 182, 344. 

Stella. Az. port. (Avenida iqo3-904). — Pag.' 271, 329. 

Strindbirg (August). Aut. dr. sueco N. Stockolmo 1849. Th.: 



Impressões de Theatro — índice 491 



«Pae», (3 a. 1887) «M."» Julie» (3 a. 1888) «Camarades», (3 a. lí 
«Creanciers (3 a. 1889), «On ne joue pas avec Tamour» (1892^^ 
«Fête de St. Jean» (1891), «Coupable ou non coupable?» (1901), 
«Ivresse» ( iqoi). — Pag. 134, 25o a 254*, 25G, 265, 270, 287, 420,432. 

Siib-perfeito de Chateau 'Bu^ard. Vaud. 3 a. de Gandillot, 
trad. port. Ed. Garrido, rep. D. Am. 6 fev. 1904. — Pag. 280, 289. 

Sudennann (Hermann). Aut. dr. ali. Peças trad. em port.: «Ma- 
gda», «Fogueiras de S. João», (rep. D. Am.), «Fim de Sodoma» 
(ant. report. D. Maria). — Pag. 22 a 24, 68, i33, i34, 139*, 140, 
141, 144, 189,421. 



Taborda (Francisco Alves da Silva). A. port. N. Abrantes 8 
jan. 1824. Deb. th. Gymnasio (inauguração) 17 jan. 1846. Ret. 
SC. — Pag. 48* 

Talma (Joseph François) A. fr. N. Paris \b jan. 1763. M, 
J9 out. 1826. Alum. Esc. Declam. 1786. Deb. Th. Foubourg 
Saint Germain 21 nov. 1787. Societ. Com. i abril 1789. Prof. do 
Cons. 1806. — Pag. 108. 

Tartuffe ou Vimposteur. Com. 5 a. de Moliére. Adapt. port. 
de António Feliciano de Castilho. — Pag. 3i, 32, 43, 2Ó5. 

Taveira. A. port. (Avenida 1903-904). — Pag. 271, 228. 

Tecelões P. 5 a. de G. Hauptmãnn. Trad. fr. de Jean Tho- 
rel rep. th. Libre 29 maio i8q3. — Pag- 22. 

Teixeira de Sousa. Pol. port. M. da Fazenda 1903-904. — Pag. 
34Q, 35o*. 

Telephone (Au). I*. 2 a. de André Lorde e Charles Foley rep. 
th. Antoine 1903. Trad. port. de Eduardo Viciorino rep. D. 
Maria iqoS. — Pag. 3, 81, 83, 84, 99. 

Telmo Larcher. A. port. N Portalegre i jan. 1866. Deb 1880. 
Th. Gymnasio. ^Gymn. 1903-904) — Pag. ii5, i35, 217,278, 
279, 373. 

Tenailles (les). P. 4 a. de Paul Hervieurep. Comédie 28 
set. i8q^. — Pag. 400 

Terra SMater. P. i a. de Augusto Lacerda. Rep. t.. D. 
Maria 9 ab. 1904. — Pag. 3óo a 362, 432. 

Thackeray (William^. Rom. ing N. Calcutá 181 1. M. Lon- 
dres 24 dez. 1863. Aut «Livro dos Snobs», «Feira das vaida- 
des», etc. — Pag. 229 

Theodoro Santos. — A. port. N Bucellas 4 dez. 1877. Deb. 
D. Maria iqoo «Sempre noiva». (D. Maria 1903-904). — Pag. 227, 
;í47, 28Ó, 3i8, 427, 429. 



492 Impressões de Theatro — índice 



Theophilo Braga Pub. port. N. Ponta Delgada 24 fev. 1843. 
Aut. da «Historia do theatro portuguez». — Pag. 99, 314. 

Thereza Mattos. Az. port. N. Porto 19 janeiro 1864. Deb. 
Ghalet (Porto) i5 mar. 1886 mag. «Diadema mysterioso». (Trin, 
1908-904). — Pag. 2i5, 291, 357. 

Thermidor. Dr. 5 a. de Victorien Sardou. Rep. 24 jan. 
1891 Comedie. Prohib. pela censura. Reprise Porte Saint Martin 
março 1896. — Pag. 176 a 180. 

Thcroigne de Méricourt. Dr. hist. 6 a. de Paul Hervieu rep. 
th. Sarah Bernhardt dez. 1902. — Pag. 401. 

Thomaz Ribeiro. Poet. port. N. i jun. i83i. M.Lisboa. 1896, 
Th.: «Indiana» com. i a. v. «A mãe dos engeitados» 2 a. — Pag. 
188. 

"Tição Negro. Opta. 3 a. de H. Lopes de Mendonça, sobre 
motivos de Gil Vicente. Rep. th. Avenida 1902 — Pag. 366, 
426. 

Tolstoi (Leon). Rom. russo. N. Yasnaia Poliana 1828. Th. : 
«Puissance des Tenebres», «Le premier bouilleur». — Pag. 68, 
223* a 225, 239, 240. 

Torrente. P. 4 a. Maurice Donnay. Rep. Comedie 5 maio 
1899 trad. port. de Lopes Tavares rep. D. Amélia 1903. — Pag 
21, 25, 41 1 . 

Tosca. T)v. a. 5. 6q. de V. Sardou. Rep. 24nov. 1887, Th. 
Porte Saint Martin. — Pag. i36, 187, 146, 148, 161, 162, 191, 192, 
198, 2o3. 

Tragedia antiga. P. i a. de César Porto rep. th. D. Amélia 
lonov. 1903. 2.0 pr. cone. dr. do Dia. — Pag. 168, 169. 

Tragedia deWanima. Dr. 3 a. de Roberto Bracco. — Pag. 
148, 38o. 

Trilho (Carlos) Jorn. e esc. th. port. N. Lisboa 2 set. 1874. 
Trad. «Pedro Caruzzo» de R. Bracco, etc. — Pag. 38o, 385% 
386. 



U 



Uma visita. P. 2 a. de Edouard Brandes. Rep. th. Copenha- 
gue jan. 1884. Trad. port. de Accacio Antunes rep. D. Maria 7 
maio 1904. — Pag. 419 a 425. 

Una donnr. Er. 4 a. de Roberto Bracco. — Pag, 148. 



Impressões de Theatro — índice 493 



V . 



Valabregue (Albin). Aut. dr. fr. N. Carpentras 17 dez. i853. 
Com, princ: «Trois femmes pourunmari», «Durand & Durand», 
«Premier mari de France», «Place aux femmes», etc. — Pag. 241. 

Valle (José António). A. com. port. N. 20 out. 1845 Deb. 
Th. Variedades 1862 com. «Um parocho virtuoso. — Pag. 21, 
32, 1 15, 368*, 369 

Vanguarda {õ4) . Diário rep . Director Magalhães Lima. Grit . 
th. Fernando Reis. — Pag. 10. 

Vasconcellos (Henrique de). Hom. de let. e crit. th. port. N. 
Cabo Verde (Africa Occidental) 1873. Crit. th. Novidades.- — 
Pag. 4*, 18. 

Veiga fJuiz Francisco Maria daj. Juiz de instrucção criminal. 
Pag. 4, 67, 118, i56. 

TJeine {La). Com. 4 a. de Alfred Capus. Rep. Varités 2 ab. 
1901. Trad. port. de Accacio de Paiva. Th. D. Amélia 1902. 
— Pag. 294, 254. 

Velhos (Os) Com. 3 a. de D. João da Camará, Rep. D.Maria 
II mar. 1893. — Pag. 322. 

Verdial (Miguel) A. port. Deb. Th. Trindade 1876. Impli- 
cado revolta 3i de janeiro. — Pag. 5. 

Verlaine (Paul). Poet. symb. fr. — Pag. 3o3. 

Victor Hugo. Poet. e aiit dr fr. N. Besançon 26 fev. 1802. 
M. Paris 22 maio i885 . Th.: «Cromwell» (out. 1827 não rep.), 
«Hernâni» (março i83o), «Marion Delorme» (i83i), «Le roi s'a- 
muse» e «Marie' Tudor» (i832), «Lucrece Borgia» 0833), «An- 
gelo» (i835), «RuyBlas» (i838), «La Esmeralda» (i836), «LesBur- 
graves», «Torquemada» (1843). — Pag. 47, 68, i32, 332, 398, 405. 

Vida d'um rapa^ pobre. Dr. 5 a. de Octave Feuillet trad. 
port. rep. D Maria i865. —Pag. 261. 

Vigny (Alfred). Poeta e aut. dr. fr. N. 1797- M. 18 set. la 
i863. Th. : «Chatterton», «Marechale d'Ancre», «Quitte pour 
peur», «More de Venise», «Othello», «Shylock». — Pag. 32o. 

Virgínia (Dias da Silva). Az port. N. Torres Novas 19 mar. 
i85o. Deb. th. Principe Real 5 ab. i8f6 com. «Mocidade e 
honra». Societ. i.* cias. (mérito) th. D. Maria. CavalleiraS. 
Thiago. — Pag. 10, 11*, 12, 14, 16, 18, 20, 27, 114, 154, 365, 
38o, 384*, 385, 390, 399, 433. 

"Viriato Trágico. P. hist. 4 a. de Júlio Dantas rep. th. D. 
Amélia 1900. — Pag. 99. 



494 Impressões de Theatro — índice 



Vivinha a saltar. Rev. 3 a. 12 q. de Mello Barretto e Ga- 
mara Lima. Rep. th. Avenida 16 mar. 1904. — Pag. 828 a 33i. 

Vórtice (II). Dr. 3 a. de E. A. Butfi. Rep. César Rossi 19 
dez. 1892. — Pag. 148. 



W 



Wagner (Richard). Mus. e comp. ali. N. Leipzig 22 maio 
i8i3. M. Veneza i3 fev. i883.— Pag. 73*. 

Worms (Gustave). A. fr. N. Paris 26 nov. i836. l^Ac. 
Cons. 1^57. Deb. Comedia i858. Rússia 1864-75. 2.° Deb. Come- 
dia 1887. Soe. 1878. Prof. do Cons. — Pag. 392,414. 



X 



Xavier Marques. Esc. th. port. N. 4 out. i863. Th. : «Fi- 
lho do commissario de policia» e adap. de comedias ali. th. do 
Gymn. — Pag. 135,278. 



Y 



Yrving (Sir Francis). A ing. N. Keinton 6 fev. i838. Deb. 29 
set. i856. — Pag. 56., 57, 177. 

Yvette Guilbert. Canc. fr. N. Paris 20 )an. 1868. Deb. Bouf- 
fes du Nord 1888. Pag. 56, 220. 



Impressões de Theatro — índice 4q5 



Zacconi (Ermette). A. ital. N. Montecchio 14 set. 1867. Deb, 
1874 dr «Dois sargentos». Comp. Emanuel 1884. 1897 comp. 
sua. —Pag. 20, 22, 41, 42, 53, 54*, 70, 91, 95, i38, i5i, i65, 198,. 
254, 383, 384 

Zí7fíT. Com. 5 a. de Pierre Berton e Charles Simon. Rep. 
Vaudeville i8q8. —Pag. 167, iqS, 194, 195, 197, 198 2o3, 2o5. 

Zeel. Esc.dr. aust.^Aut. da «Noite em Veneza». — Pag. 271. 

Zola (Emile). Rom. crit. e aut. dr. fr. N. 2 ab. i85o. M. 3o 
set. 1902, Th. : «Therese Raquin», «í.es heretiers Rabour- 
din», «Bouton de rose», «Ourage», «Attaque au moulin», etc — 
Pag. 64, 65,* 82, 254. 



ERRATAS 



Afora outras c^ue hajam escapado em lapsos de revisor e que 
ficam, com deficiências e excessos de pontuação, ao prudente 
critério de quem lê resalvam-se : 

A pag. linha onde se ]ê deve lèr-se 

32 5 Morantin Moratin 

44 5 Monsieur de Pourcegnac Monsieur de Pourceau- 

gnac 

72 28 , possam um dia , um dia, 

74 3y desagradariam desagradaria 

gi 29 manequnis manequins 

112 3 e em figurantes , em figurantes 

» 5 ou cohonestando cohonestando 

i34 27 auctores actores 

148 29 Ferri Ferrari 

i5o 10 a a airahe a atrahe 

i58 29 doidivanase doidivanas e 

162 22 senteos sente-os 

182 34 Sacerdotisa de Thahna. sacerdotisa de Thalia 

2o5 i5 machinações macaqueações 

209 4 Tackeiay Thackeray 

244 34 Ed. Schwaixhba ....... Ed. Schwalbach 

247 i3 do normalino normalino 

254 32 como o pastor com o pastor 

267 3o carga a carga na 

272 23 direiro direito 

292 16 desconsolador desconsoladora 

304 3o anonymano anonymato 

343 2 trapajoso tapajoso 

» 4 defeitos effeitos 

35 1 Q uniforme polyforme 

378 23 consideradava considerava 

384 22 seu e mestre seu mestre 

38o 9 , é um rigido , um rigido 

392 7 chamam-lhe chama-se 

u 27 Caricatura de Leal da 

Camará Caricatura de Capielo 

401 23 these que Hervieu these de Hervieu 

413 40 sobros sopros 

418 5 a Racine o Racine 

» 10 no 'Berenice na. Berenice 

433 38 Lucinda Simões Lucília Simões 



PN Madureira, Joaquim 

2796 Cartas a um provinciano 

L5M3 & notas sobre o joelho, 1903- 

1904 



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