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Full text of "Castrioto lusitano;"

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A/A. /6^/. 




>4i' 



CASTRIOTO 



LUSITANO 



I ft 



PARIZ. — lllPa1?NSA I>A TIUVA AONDRY-DUPR^ , 

rna Saint-Louis, n* 46, ait'Harais. 



CASTRIOTO 

LUSITANO 

ou 

IISTORIA DA GDERRA ENTRE BRAZIL E A HOLLA^^)A , 

DURANTE OS ANNOS DE t6t4 A t6ft4, 

miNADA PBLA GLORIOSA RBSTAURACAO DB PERNAMBUCO E DAS CAPITANIAS 

CONFINANTES ; 

Obra em que se descreyem os heroicos fdtos do illustre 

JOAO FERWAKBES VXBZRA, 

*' (ins valerosos capitaes que com elleconquistarao a independencia nacional, 

POR Fb. RAPHAEL DE JESUS, 

MONGE BENEDICTINO. 
NOVA ESI^aO SEGl'NDO A DE 1679, IMPRESSA EM LISBOA , POR CRAESDEECK, 

DEDICADA A SUA MAGESTADE IMPERIAL 

O SENHOR DOM PEDRO II9 

IMPERADOR DO BRAZIL; 

Ornatfa com o retrato de Joao Femantfes Yldra 

e duas estampas historicas. 



PARIZ, 

PUBLICADA POR J. P. AILLAUD, 

QtAI VOLTAIRE, N" II. 



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A 



S* 






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/i&?*cotio Aw ortma^/ile e a,u>rtcdo canto 
o aue ayi^reJs?dow o L/drci/z//^ aiumao 
ucc^co C0//1 cuf /arcoj cou^^ed cca^ 
3^o^z^naa ^la^ ^uz^ e/iocn^ ae dun 



^tco 9ne 



con^ 



aue cud^ma4ilrdo aaueua^ ^ocnc 

aaaueM^ A&roed, ao 9/iem^r ^ii6u/o ae 
,iHico Twvreza. 

%y^ A^^mteircv ecucdo ao fOOif&wfy 
y^ aecucaaa a &o Ui?ec o t/e^nnor 
^o?/i 3nsc^o e/e £n>7*Au^€U, aaaestf^ 
(Zdce7iae?zl6 ae C^^d^ ^^/vwa^^ea^aae 
^^/Jiertac/ a 'reef?^^^d^ 7nem^ra€/a 
aai^ oora, ctu^ awrta e 6oaa uD^a^ 
cu^ra, ccie^e jud^rawie9ih j-er coUo^ 






iye7iAo/'j 



f^^ Oo^co t^S^aaed^ae tj^/^//i(y/%a/, 



C/ &€Mor. 






ADYERTENGIA DO EDITOR. 



A edi^ao que ora damos a luz do Gastrioto 
Lusitano^ e uma copia fiel da de 1679 pelo que 
pertence a parte historica , geographica e des- 
criptiva; mas nao assim em quanto ao mais. 
EscrevSra o autor na epocha da decadencia da 
boa lingoagem portugueza; e dominado pelo 
gosto do seculo, em que vivia, espalhou com mao 
larga por toda a obra os deffeitos de que sao 
notados os seiscentistas. Digressoes diffiisas^ e 
pouco pertencentes ao assumpto; reflexoes e con- 
ceitos frequentes^ ealgumas vezes pouco judicio- 
sos; antitheses buscadas com excesso e sem 
gosto, e emfim decidida affei^ao ao maravilhoso, 
sao OS defeitos de Fr. Raphael de Jesus. Aeon- 
selhados por pessoas intendidas , e ajudados de 
sua coopera^ao emprehendemos expurgar este 
livro de seus defeitos em quanto a forma , sem 
alterar em nada a materia ; e eis aqui como nos 
houvemos. Simpliiicamos as digressoes a fim de 
fazer melhor sobresair o assumpto principal; 
supprimimos muitas reflexoes e conceitos , que 
por sua frequencia mais serviao de empecer o 
discurso que de illustrar a narra^ao ; resumimos 
algumas fallas e aliocucoes em que o autor mal 



\ ADVERTENCIA DO EDITOR. 

exeroeo sua rhetorica^ e que nao erao ponto histo- 
rico, pois diz pareceffoifama que assimfallar a etc. ; 
fomos muito circumspectos em tudo que diz 
respeito a credulidade d'aquelles tempos ; em fim 
corrigimos o estilo sempre que foi possivel fazSl- 
o sem destniir o cunho de sen autor. Assim que, 
as altera^ oes que nesta edif ao se notSo antes se 
devem chamar melhoramentos que mudangas. 
Foi por isso que demos as materias noya distri- 
buicaoy fazendo |doze Httos de dez que erao, e 
pondo no comedo de cada urn d*eUes um sam- 
mario com remissoes numericas do que neUe se 
trata para commodidade do leitor. Gonservamps 
textualmente as dedieatorias e prologo do autor 
fw serem importantes para a historia Utteraria 
d'aquelle tempo. Esperamos pois que os leitores 
relevai^o todas as imperfei^oes que neUa encon- 
trarem , leyando^nos em conta o desejo que ti- 
yemos de yulgarizar um liyro que tanto honra 
OS antigos Braztleiros , e de contribuir por este 
modo a fazer mais publica a gloria que com tSo 
justo titulo cabe ao Imperio Brazileiro pelos it- 
histres feitos que nelle se eootem. 

Editor. 

Pariz 28 dc Janeiro de iSM. 



AO SERENISSIMO 



PRINCIPE DOM PEDRO, 

REGENTE DA UONARGHIA LUSITANA. 



SENHOR , 

Ac sol, quelhes preside, devem os astros todo 
o ser de seu lusimento ; a Yossa Alteza, que nos 
governa, se hao de attribiiir todos os progressos 
de seus vassallos. Com esta divida offera^o a 
seus reaes pes a memoria do que em seu servigo 
obrou minha possibilidade, para que se restituao 
OS e£feitos a quern se devem os influxos. Aquellas 
aguas que os rios levao ao mar nao 6 servigo, e 
restitui^ao. Bem sei que no tempo do Senhor 
Dom Joao, dignissimo progenitor de Yossa Real 
Alteza, se intentou e se conseguio a restaura^ao 
d'esta e das mais capitanias , que neste Estado 
do Brazil tinha usurpado a violencia inimiga ; 
mas tambem considero que os astros em que o 
sol substitue sua ausencia , tomao corpo d'uma 
mesma materia , e uma mesma luz os informa. 
Porc^ao do corpo do pai e o corpo do filho pela 
geragao , e pela educa^ao um reflexo de seu es- 
pirito : razao , que agora me representa outro 
tempo, porem nao outro Principe. Yossa Alteza 



XII 

nasceo para o ser da paz, depois de vinle e oito 
annos gastados em viva guerra, e os successes 
d'ella so a Yossa Alieza se hao de dedicar. Aquel- 
les materiaes, que David congregou no tempo da 
guerra para o templo , nao quiz Deos que na 
forma d'elle se Ihe dedicassem, senao em tempo 
de seu iilho Salomao, per sSr rei pacifico. Nao 
faltara acceita^ao ao offerecimento , que este 
acerto apadrinha, e que faz o desejo de um vas- 
sallo, que, falto de occasioes para servir, diverte 
sua magoa com as memorias do que tem servido 
a Yossa Alteza, cuja vida e estado augmente o ceo 
por felizes e dilalados annos, para gloria d'esla 
monarchia, e bem de sens vassallos. 



Fidelissimo criado de Y. A. R. 



JoAo Fernandes Vi£1BA« 



JOkO FERNANDES VIEIRA, 

FIDALCO DA CASA DE SUA ALTEZA, E DO SEU CONSBLHO DE GUBRRA , 
ALCAIDE HOa DA VILLA DE PINHEL, COMHBNDADOR DAS COHMENDAS DA 
ORDEM DE CHRISTO, SAO PEDRO DE TORRADAS , B SANTA EUGENIA DE 
AULA , SUPBRINTBNDBNTB , PELO MBSMO SENHOR , DAS FORTIFICACOES 
DE PERNAMBUCO, E DE TOD*AS AS MAIS DO BSTADO DO BRAZIL PARA O 
NORTE, R PRIMBIRO ACCLAMADOR DA MBERDADE E RESTAURACAO DE 
PRRNAMRUCO. 



Escreveo Atheneo as proezas de Lucullo, vale- 
roso e esclarecido Romano, e acabada a historia, 
a remetteo ao mesmo Lucullo (ja retirado da 
guerra) para que nella visse, como em um retrato 
de suas obras , se a narra^ao se aflastava em al- 
guma cousa da verdade, e com a sua appro va^ao 
ficasse o referido sem duvida. Sabia que se nao 
da inleira fe aos treslados , que nao sao oonfe- 
ridos com seus originaes. Tudo quanto cont^m 
este livro, em seu principal assumpto , sao obras 
de Vossa Senhoria, por filbas ou de seu bra^o, 
ou de seu conselho, ou de sua disposi^ao. A no- 
ticia dos successos , das pessoas , dos tempos e 
das partes, recebi de sujeitos fidedignos pelos 



XIV 

postos que occuparao^ pela continuaQao com que 
servirao, e pela honra com que proced^rao, aos 
quaes como a testemunhas de vista manda o di- 
reito dar inteiro credito. Muitos autores escre- 
verao os progressos de Alexandre Magno , e na 
opiniao de Volaterrano a nenhum se deve tanta 
fe como a Aristobuio judeu^ porque os referio de 
vista, assistindo-lhe a tudo, e em todo o discurso 
de suas conquistas. Aristobulps Judeus res gestas 
Alemndri Magni comcripsit, comesque ipsius peregrir- 
nationis fait. E supposto que esta razao me obriga 
a crer o verdadeiro das nolicias, deixara de o 
ser o argumento d'esta narra^ao se na menor 
parte d'ella faltar a verdade. No mundo nao sao 
menos os ambiciosos da fama, que os da iazenda, 
e com mais cuidado se esconde a infamia que a 
pobreza. Os olhos de Yossa Senhoria busca neste 
volume meu escrupulo ; nelle achara espelho em 
que se veja retratado , e todos neste espelho po- 
derao ver o retrato de Yossa Senhoria , se em 
tudo se conformar a imagem com o originaL 
Basta a dissimilhan^a d'uma c6r para destruir o 
parecer d'uma imagem ; e porque nesta nao ialte 
o menor accidente, o remetto ao exame de Yossa 
Senhoria, para que com sua emenda^^u com sua 
approvacao fique a certeza sem duvida , e se leia 
esta historia sem escrupulo, certo o lei tor que v6 
o que Yossa Senhoria e na verdadeira represen- 



XV 

ta^ao do que tem si do. Ainda que pe^o, nao 
adulo. Inlento em que nao cabe interesse nao 
tem parte a lisonja , nem se obriga com a ver- 
dade a quern nao gosta da mentira ; quern nas 
occasioes se nao alterou com os vivas dos applau- 
sos nao se pode esvaecer com as repetigoes dos 
progressos. Esperomeu desengano, e os de todos 
na deflni^ao do cerlo, e com ella ficara meu tra- 
balho mais luzido , e este volume mais digno de 
se dar a estampa , uma vez por verdadeiro , e 
muitas por Yossa Senhoria ser*seu assumpto e 
seu autqr. A pessoa de Vossa Senhoria guarde 
Deos por dilatados annos , para que nelles viva 
a seguranga d'esse Estado, e o castigo da emula- 
?ao. — Braga e Outubro 22 de 1676.— Capellao 
de Vossa Senhoria. pregador e procurador 
geral da ordem de S. Bento nesta curia dS Braga. 

Fr. Raphael de Jesus. 



I 



PROLOGO. 



Dos prologos (Sziao os escriptores humilde rogo ; 

permittia-p a singeleza de algum tempo. Na pre- 

sente idade^ prevenidas advertencias devem ser o 

argumento dos prologos ; necessita d'ellas a ma- 

licia. que menos sabe he o que mais presume; 

razao, por que a tudo se atreve o que menos sabe. 

No maior p^go correm os rios com menos es- 

trondo; os juizos^ quanto mais tem de fundo, mais 

tem de capacidade. curioso le; o noticioso ob« 

serva; o limitado grita; julga de si que p6de cen* 

surar sem reparo o que se escreveo com estudo. 

certo nao tem pressas ; e se algum a teve , foi dita 

da occasiao, e nao effeito do repente. Porque ha de 

ter animo para censurar o que os outros escrevem 

quem nao teve brio, nem ainda applicacao para 

escrever? Nenhum esta tao longe de si como o es- 

vaecido; nenhum tan to em si como o considerado. 

sol tem de planeta mais luzido o expor seus 

raios & nota, cobrindo com sen resplandor a falta 

de todos OS mais astros, Se queres aproveitar, nao 

leias para escurecer; leras para saber, se leres 

com OS claros de ten juizo. Se o queres for mar 

desta obra, nella te offereco processada a causa; 

julga pelo mericimento do processo , para que a 

b 



XVIII PROLOGO. 

paixao te nao Fa^a parte, quando te constitues 
juiz. 

Com razao dcsejaris saber a que live para me 
occupar em argumento, a leu parecer, tao alheio 
de meu estado, quanto i o estrondo da guerra do 
socego religioso? No moiivo do reparo lens a sa- 
tisfacao da duvida. echo em uma parte se fdrma, 
em outra se causa ; nelle ouves o golpe , sem ver 
a ferida. Os conflictos escrevem-se na campanha 
com sangue, na historia com tinta. Nas imagens 
ves boca para fallar, mas nao Ihe verds nunca 
abrir a boca. Tal i a relacao dos successos, ima- 
gem sem voz, echo sem golpe, ferida sem sangue. 

Nao te pareca o claustro tao diverso da cam- 
panha, que imagines se nao milita em uma e ou- 
tra parte. Nao basta a differenca das armas para 
tirar o ser- aos conflictos. Os inimigos, por serem 
d'outra nacao, nao deixao de ser contrarios : os 
mais ardilosos sao os mais nocivos. Para todos os 
mortaes i todo o lugar campanha ; e nao sera sol* 
dado senao quem deixar de ser homem. Militia est 
vita hominis super terrain (Job. I, 7). Na institui- 
cao das ordenis militares acharis praticados, como 
equivocos, campanha e choro, breviario e lanca, 
religiao e milicia. Os filhos de Sao Bento ar- 
mados cantavao os officios di vinos ; o mesmo sino 
que Ihes tocava a rebate, os chamava a reza ; ob- 
servou-o ElReiDomSancho de Castella, e disse ao 
abbade dom Raimundo : « Admira-me, padre, o ver 



PROiOOO. XIX 

>i que a estea vossos subditos faz uin mesmo sino 
» leoto e cordeiros. » , 

Ja ^ yfrio militar as estrellas , aem que a 
guerra Ihes reiaxasse, nem o curso da Tirtude, 
nam a obserranoia da ordem : Stellm manenten in 
ordine s%m> et in cursu suo pugnao$nM ewUra Si^a'* 
ram (Judic. v, 20). E estao tao apartadas do 
mundo, como o esta o ceo da terra. que a pro* 
fiasao faz proprio, que razao o p6de fazer alheio? 
inais religioso i o melhor soldado, e sera melhor 
aoldado o que for mais religioso. Na casa de David 
e no tabernaculo esteve a espada com que truDCOU 
o gigante ; a decencia do deposito equivocou 08 lu« 
gares, pelo religiose^ e pelo soldado. 

Pelas occupaQoes se distingue o refonnado do 
destrahido : honesta, decorosa e util i aquella que 
serve as melhoras do particular e do comnium. 
Os livros aproveitao ao commum em quanto oo« 
cupao, e ao particular em quauto ensinao. Grande 
servico faz a patria o que a illustra com obras 
dignas de se escreverem; maior o que a enno«* 
brece ^screvendo feitos dignos de ae imitarem. A 
proeza exeeutada p6de fazer urn heroe, por^m 
lida^ muitos. A gloria^ e nao o perigo, i que a&« 
eende a emulacao : melhor persuade o exemplo 
que o espanto. A facanha que o golpe da espada 
fez transitoria, faz a escritura permanente. Quan-« 
tas obras heroicas sepult^ra o braco , se a penna 
as nao livrara do tumulo! A poucos aproveita o 



XX PROLOGO* 

que a uma idade se limita : Paueis natui est, qui 
pofulum CBtatis simb cogitat (Senec. Epist. 80)! Es*- 
creveo Diccearco as proezas dos EsparUiDOS ; e or- 
deDOu aquella republica que todos os annos se 
lessem em uma praca publica , para que sempre 
repetidas as eternizasse a lembranca , e vi vessem a 
beneficio da historia , o que nao fora possivel a 
golpes da espada. 

Nao deve nada a America a gloria que a na^ao 
portugueza adquirio na Africa, na Asia, na £u- 
ropa. Nas mais partes ajudava-se o valor da opi- 
niao, e deduziao-se umas de outras as victorias; 
porem no Estado do Brazil, perdida a fazenda, su« 
jeita a liberdade , sepultada a opiniao, enterrado 
o brio nas mesmas cinzas do estrago (dominante a 
nacao mais bellicosa , e mais bem affortunada de 
todas quantas naquella idade applaudio a fama) 
resuscitar, e sobresair o valor portuguez com tao 
agigantado vulto, que nao sd se restituio no per* 
dido, senao que de urn golpe vio o poder d'aquella 
gente a seus p^ rendido e prostrado , tanto mais 
se adianta na gloria, quanto menos o imaginou a 
esperanca. Nao espanta o triumpho depots da 
victoria, porque 6 consequencia ; ' admira o viver 
depois da morte j porque 6 maravilha. Na res- 
tauracao de Pernambuoo te nao deve parecer enca- 
recimento a maior exagera9ao, vistos e considera- 
dos OS successos , que te offereco neste volume , 
porque forao tao estranhos e heroicos, que nao so 



PROLOGO. XXI 

6 necessario contestarem-no muitas escripturas 
para'Ihes facilitarem a credulidade , senao que 
tambem se houverao de escuipir em bronze, para 
que Dunca o tempo os podesse tirar da memoria 
humana. 

Com esta razao me desculp2g[*ds a confianca com 
que escrevo argumento ^ que tantas e lao illustres 
pennas escrevSrao. Se me nao achares igual no es- 
tilo, nao me notaris desigual na verdade, e quando 
nella nao tenhas licao^ nao te faltara entreteni* 
mento. A diversidade dos lavores se nao faz a 
t^la mais rica, nao deixa de a fazer mais vistosa. 
Alguns dos que escreverao este assumpto, o tece- 
riao com melhor fio, por^m nenhum com fio tao 
continuado. Em o Taloroso Lucideno acharas o ^ 
principio sem fim ; em outxas relacoes veras o fim 
sem OS principios ; aquelle atalhou a morte, a estes 
escusou a eleicao : de todos me aproveitei. Nao 
ensina menos o que atalba que o que guia. Se no- 
tares differenca na repeticao de alguns nomes es* 
trangeiros, nao imagines que foi desatencao^ ou 
falta de noticia. Escrevo para os naturaes, e quero 
que se ou^ao agora^ como entao entre elles se pro* 
nunciavao, para que assim como entao pelod no- 
mes se conheciao as pessoas, assim agora as re- 
presentem a miemoria ; a disimilhanca dos nomes 
nao faca parecer que sao d'outras pessoas. 

Se fizeres reparo no titulo d'este livro , has do 
notar (como discreto} que nelle attribuo a um a 



XXU PBOLOGO. 

obra em que trabalhaiio muitos* Muitos rios rece- 
be o mar debaixo do nome de um , porque^inda 
que osmais Ihe engrossao a corrente, deve-«e esta 
& sua primeira fonle. Muitos sao os astros que as^ 
sistem ao dia, e a nenhum deixa luzir o sol. Todas 
as espfaeras se mov^m, e ao primeiro move! se at- 
tribue b movimento de todas « Foi Joao Fernandes 
Yietra o que com o zelo^ com a industria, com a 
£lzenda, coin o braco. e com a assistencia inten^ 
tou, dispoz^ seguio e feneceo aquella guerra, e 
como o maior plaueta, mais caudaloso rio, e pii-^ 
meiro movel se Ihe devem attribuir as operacoes 
de todos seus inferiores. 

Com este fundamento fiz de sua pessoa e de 
auas obras o, principal assumpto d'esta historia« 
No appellido de Castrioto leras todo o argumento 
d'este livro, e todas as prendas do sujeito ; e no 
titulo ) cifrada toda a materia d'este argumento : 
condicoes^ que nos titulos dos livros ha de buscar 
a escolha para nao serem espurios. parecido das 
accoes Ihe deo o nome de Castrioto. e a nacao a 
differenca de Lusitano^ para distinccao do Cas^ 
trioto Epirense. Com esta mesma razao deo a an« 
tiguidade a Sicinio Dentato o nome de Achiies 
romano , para que suas obras o nao confundia^ 
sem com o Achiles grego : Sicinius Dentatus oft 
ingentem fortUudinem Achiles romanus appellalus M 
(Piin. 1. VII, c. 38. Gell. 1. II, c. 11). Tio umas 
forSo as prendas, as valentias e as fortunas d'um 



PBOLOGa XJUU 

e outro sujeitO) que as destinguirao aa patrias, 
porque nellas se nao confundissem as pesaoas. 
Nao se estranha o usual. A similhanca da virtude 
ou do vicio idemtifica em muitos um mesmo 
nome. A liberalidade deo a muitos o nome de 
Alexandre : a fortuna o de Cesar : a valentia o de 
Hercules ; a industria o de Ulysses ; a rapiaa o de 
CacO| etc. 

Cotejem-se as obras, o valor e a foriuna de 
Joao Fernandes Vieira com as de Castrioto alba- 
uense, e achar-se-^ha neste livrO| e nos que es-* 
creveo Marinho Barlecio d'este argumeotOi que a 
todas as formou um molde. Como CastrioCo entre 
OS Tttrcos insolentes, se houve Joao Feraaudes 
Yieira eutre os herejes dominautes. Com animo 
catholico sofFrerao muitos annos a oppressao da 
tyrannia por nao perderem a possibilidade de fa- 
vorecer aos (ieis. Deo o tempo aviso a Joao Fer- 
nandes Yieira de que sua estimacao o fazia suspei- 
toso ao HpUandez^ como deo ao Epirense, de que 
seu valor o fazia suspeitoso ao Turco. A um e ou- 
tro servio o perigo de opportunidade para se de* 
dararem contrarios ao imperio que os dominava i 
e persuadirem aos naturaes mais confidentes a que 
pegassem nas armas em beneficio de sua liberdade. 
Os mesmos officios^ e com o mesmo effeito de que 
se valeoo Turco para reduzir a seu servi^o o Cas- 
trioto Epirense, fez o Flamengo com Joao Fer- 
nandes Yieira para o trazer a sua obediencia. 



XXIY VKOJJOGO. 

Aquelle com poucos venceo batalhas, prendendo 
e matando generaes das armas othomanas;* este 
com menos matou e prendeo generaes, vencendo 
em diversas batalhas as armas hollandezas. Nao 
houve conflicto em que o Lusitano nao pelejasse 
com OS inimigos a cara descoberta; como tambem 
nao houve oceasiao em que o Albanense nao con- 
tendesse com sens adversarios a braco partido* 
Nem um nem outro quiz nunca para si das bata- 
lhas mas despojo que o applauso das victorias^ 
deixando para sens soidados toda a riqueza das 
campanhas. Das maos dos Turcos tirou o Alba- 
nense todas as pracas usurpadas^ at^ os acurralar 
na cidade d'Esfetigrado ; tirou Joao Fernandes das 
maos dos HoUandezes todas as pracas que domi- 
navao pelos contornos de Pernambuco at^ os cer- 
caj:* dentro no Arrecife. Trahido de amigos^ pa- 
rentes e obrigados se vio Joao Fernandes Vieira, 
que prometterao ao Flamengo entregar-lh'o morto 
ou vivo. Com similhante traicao prometterao ao 
Turco entregar-lhe a Castrioto, ou vivo ou morto, 
sen soJ3rinho Amessa, e M oyses sen mais obrigado. 
Como Castrioto ao Turco consummio Joao Fer- 
nandes Vieira em repetidas batalhas e encontros a 
paciencia e o poder hollandez. Ao Albanense nao 
deixou seu generoso coracao lograr com descanco 
a gloria de tanto triumpho, buscando fora de sua 
patria occasioes para exercitar as armas, como o 
fez em obsequio d'El Rei Dom Fernando, a qneto^ 



PfiOLOGO. XXV 

08 Francezes tii;ihao despojado do reino de Napoles. 
Nao soube Joao Fernandes Vieira lograr com socego 
o fructo de tantos servicos; por mandado do Se- 
nhorReide Portugal Dom Joao Quarto foi governar 
OS reinos de Angola 5 e nelles se exercitou nas ar- 
masy obrigado de sua prompta obediencia a esti- 
mar mais o servir que o descancar. Ao Castrioto 
albanense attribue Barlecio toda a gloria dos suc- 
cessos d'Epiro ; com a mesma razao se devem at*- 
tribuir ao Castrioto Lusitano todos os progressos 
que as armas portuguezas obrarao na restauracao 
dePemambuco. 

Na similhanca das obras acharas a similhanca 
dos costumes, dos intentos e dos animos. A toda 
Europa i notorio, que o zeio do servico de Deos 
e do bem publico foi a causa e o fim de Joao Fer- 
nandes Vieira tomar as armas contra os Hollan- 
dezes, e que a elle se deve como a principio e meio 
a felicidade daquella empreza. Por sua intelligen- 
cia se sublev^rao os moradores d'aquellas capita- 
nias; com sua fazenda se sustentou muito tempo 
aquella guerra ; de sua constancia forao resulta 
gloriosa aquellas victorias. Com desoito annos 
d'idade o animava um coracao tao varonil que ap- 
petecia os perigos que todos receavao. Fez-se o 
Flamengo senhor do Arrecife, quiz ganhar as 
fortalezas daBarra, uma d'ellas desempararao mui- 
tos ; e offereceo-se Joao Fernandes Vieira para se 
metter nella levandp comsigo alguns homens per« 



XXYI PIOLOGO. 

suadidos de seu exemplo. CapituUrao oa cabos a 
entrega, e 80 elle teve a advertencia e animo'para 
salvar as itiaignias d'alguns caboS| e as bandeiras 
d'El Rei, saindo com ellas enroladas em si mesmo, 
com manifesto perigo de sua vida. No arraial de 
Pernam Morim o tinha feito Mathias d' Albuquer- 
que capitao de descobrir o campo, quando o Fla- 
mengo siiiou e rendeo aquella fonja; d'eUa saio 
como captivoy resgatando-se a si, e a dous cria- 
dos seus por quinhentas patacas, sem dar ouvido6 
4$ honras e promessas que o ioimigo Ihe faaia : 
nao sabia seu cora9ao antepor a coavenieneia i 
fidelidade. Ganhoa o Hollander a campanha com 
todas as fordfica^oes d'ella, e seguindo Joao Fer- 
nandes Vieira a fortuna de todos, se deixou ficar 
eutre os iuimigos, com aquelle intetito^ que depois 
publicirao suas obras. 

A beneficios comprou a estima^ao do vulgo ; a 
respeitoSy a dos priucipaes ; a dadivas, a dos mi^ 
nistros, tendo tanta entrada com os do governoy 
que para com elles erao suas peti^oes decretos. 
Seu maior empenho era alcai>car do hereje liber^ 
dade para que os catholicos frequentassem os sa^ 
cramentos e as igrejas , e que nellas se celebras^ 
sem OS officios divinos com aquelU solemnidade e 
pompa com que se fatiao anta^i do captiveiro, tendo 
particular cuidado de reedificar os templos> que o 
inimigo destruia, e de Ihes restituir os parameatos 
sagrados que d elles roubava; e para auatentar a 



P110I.06O. XXTII 

devocao do povo se fazia mordomo de todas as 
confraria$. Com vigilante* zelo acudia as necessi- 
dades particulares , proporcionando a mezinba 
com a chaga^ de sorte que nao yacillassem os que 
desmaiavao com a oppressao. Porque a pureza da 
religiao se nao manchasse^ tinha particular cui* 
dado de favorecer os presos e roubados^ dando a 
uns salda^ e a outros remedio. Ao sexo mais fraco 
acudia mais solicito, procurando que nao resva- 
hsse a virtude nos tropecos da necessidade. Aos 
perseguidos e desamparados desviava o laco^ a que 
OS podia levar a desesperacao^ ou com a exhorta-^ 
cao ou com o soccorro. Por sua diligencia se con* 
▼ert^rao e baptizarao cinco judeos, e se reduzirao 
ao gremio da Igreja dous herejes e um apostata ; 
dn todos foi padrinho e amparo. Tao fervoroso foi 
sempre seu zelo, que nao s<i trabalhou por conser* 
Tar, senao tambem por adquirir ^ despresando o 
desabrimento com que o soffriao os do governo. 
Com dispendio e industria tinha ganhado em todos 
08 tribunaes ministros confidentes que o avisassem 
de todas as materias, que nelte se conferiao, e de 
todas as resolucoes que n'elle se tomavao : diligen- 
cia tao necessaria para a conservacao do parlicu- 
lat e do commum, que uella achou o Estado de^- 
fensa, OS principaes cautella, e o vulgo reparo. 

Estimulado das tyrannias^ condoido das mise*- 
riasy e escandalizado das injusti9as, rompeo pelo 
aoffirimmto ^ reaoluto em deitar dos hombros de 



XXYUl PROiOGO. 

todos o insoffrivel jugo : empreza que a quatquer 
coracao parecera mais ^desatind que lemeridade. 
Com este intento (com pena de morte tinha o Fla- 
mengo probibido aos moradores todo o genero 
d'armas assim offensivas como defensivas) mandou 
fazer, por officiaes peritos e coufidentes^ nas matas 
e fazendas, que tinha pelo certao^ armas, muni* 
qbesy vestidos, mantimentos, e tudo o mais que Ihe 
pareceo necessario e preciso para conduzir e guar- 
necer urn exercito, correndo todo o dispendio por 
sua conta. Avizado das espias, que tinha no Arre- 
cife, conheceo que inimigos e emulos o tinhao 
malsinado, e descomposto com os superiores d'a* 
quelle govei no, noticia que o obrigou a sair a pu- 
blico com seu designio antes do tempo determi- 
nado, at^ aquella hora impedido por falta de 
occasiao. Aggregou a si os praticos, persuadio aos 
leaes, animou aos timidos^ constrangeo aos dis- 
tantes^ libertou a duzentos escravos sens, e posto 
em campo se vio em poucos dias assistido de dous 
mil e quinhentos moradores, todos homens no 
animo, e poucos soldados, porque faltos d'armas 
e disciplina. Adiantou-o a fidelidade de sorte, que 
primeiro satisfez a obediencia que ao valor, nao 
faltando as obrigacoes de fiel christao , e de fiel 
vassallo, certo, pela causa de que acharia sua re«* 
solucao em Deos favor, nos superiores desculpa, 
nos iguaes assistencia., e nos iiiferiores agrado. 
Nao podera dizer a verdade, que sua convenien* 



PR0L060. XXIX 

ciai o moveo a emprehender tamanho e tao arris- 
cado negocio, sabendo o mundo o que nelle perdeo, 
e o que gastou . Quando saio a campo era casado 
de um anno ; mais que nenhum outro estimado 
do Flamengo, e respeitado dos naturaes ; servido 
de mil e quinhentos escravos e criados ; acompa- 
nhado de cento e cincoenta homens de sua casa e 
guarda. Na sua estrebaria sustentava vinte e dous 
cavallos^ e outros tantos mouros para curarem 
d'elles. Tinha capella de musica com varios instru- 
mentos e diversos ternos de charamellas. Dava 
crescidos salarios a mestres d'artes liberaes, e mais 
avantajados aos que ensinavao a arte da milicia , 
assim para o que intentava, como tambem para 
escusar nos moradores a barbaridade com que o 
Flamengo pretendia amortalhar-lhes o brio, e in- 
troduzir-lhes a sujei9ao. Sen trato em tudo mos- 
trava o tamanho de seu animo, e sen cabedaU o de 
sen coracao ; por uma e outra causa avaliado de 
todo pelo mimo da ventura. 

Nao olhava para a conveniencia propria quern 
deixava tanta commodidade e regalo pelo rigor da 
guerra, e pelos trabalhos da campanba. Pelo ser- 
vico de Deos, de seu Principe e de seu proximo 
deixou duas cases, uma no Arrecife^ e outra no 
campo ornadas com primor e riqueza, cujo recheio 
valia muitos cruzados, sem d'elles tirar a menor 
alfaia pelo risco de ser arguido^ e malsinado. Gas- 
tou na conduccao da gente, armas^ municoes^ pa- 



XXX PIOLOGO. 

gas e suatento dos soldados seis centos mil cruzados 
em dinheiro j e o procedido de toda sua prata la- 
vrada e joias, que valiao muitos. Em generos, cur^ 
raeSy matas, engenhos e fabricas^ que o inimigo 
Ihe roubou e destruio, perdeo mais de quatro cent 
t08 mil cruzados. Pouco se lembrava de adquirir 
quem tanto sabia perder. A mercancia enriquece 
a quem poupa, e nao a quem gasta; idoUtra na 
cobica aquelle que desconhece a largueza. A honra 
6 a que melhor ensina a desprezar a fazenda. 

A Santidade do Papa Innocencio X , por breve 
expedido no ultimo anno de seu pontificado, deo 
a Joao Fernandes Vieira o titulo do restaurador 
da Igreja naquella parte da America, eommu-^ 
tando-lhe o servico que Ihe fez no Brazil em servi^ 
cos de Africa. A voz de todos Ihe deo o titulo de 
restaurador de Pernambuco* Por acclamacao dos 
tres estados d'aquella e das capitanias oonfinantes 
foi acclamado governador da liberdade, e general 
das armas. Por novos services Ihe confirmou Sua 
Majestade o titulo de general.com a mercS que Ihe 
fez dando4he o govemo dos reinos de Angola. 

Que razao Ihe p6de negar o que a justica Ihe 
deo? Porque nao ha de ser o Castrioto d'esta his- 
toria, se foi o Achiles d'esta guerra ? Quem mais o 
encontra, mais o affirma : verdade que pod^rao tes- 
timunhar os encontros d'esta historia, pois a su- 
birao aquella alteza, onde nunca presumio chegar. 
Por seu mandado foi seu revedor dom Diogo de 



PROIiOGO. XXXI 

Lima, Bisconde de Villa Nova de Serveira, conse- 
Iheiro d'Estado de Sua Alteza, varao excellente a 
todas as luzes pelas lettras, pelas armas, pelo san- 
gue, pela casa, e pelos postos queoccupou. Effeito 
foi da politica melhor advertida, e pode ser causa 
da emulacao piais jusla. A inveja, sendo um afecto 
vil, sempre faz presa no melhor. A todos honra o 
generoso, porque eni sua estimacao nada Ihe falla. 
As sombras dos valles uao sao effeito da alteza do 
sol, senao de baixeza dos monies. Falle a verdade, 
e dira que o Brazil deixara de ser, se Joao Fernan- 
des Vieira nao fora, como de Chrysipo disse Car- 
neadas df pois que leo suas obras : Nisi Chrysippus 
non esset, ego non essem. 



CASTMOTO 



LUSITANO 



LIVRO PRIMEIRO. 



SUMMARIO. 

I. Descobrimentoda ilha da Madeira, patria de Joao Fernandes Ylefra. 

— 2. Sua criacao e puerieia. — 3. Detcobrimento e altara do Braiii. 

— 4. CapUanias em que o Estado esUi dividido. — 5. £1 Rei 
D. Joao III di a conquista a differenles vassallos. —6. A DuartQ 
Coelho Goube a conquista de Pernambuco ; a onde di prineipio a villa 
de OUnda. — 7. Dcscripsio do maritimo e terrene de Pernambuco. 

— 8. Reforma El Rei os governos do Brazil.— 9. Manda por gover- 
nador do Estado a Thom<$ de Sousa. — 10. FundacSo da cidade de 
Sao Salvador da Bahia.— 11. Morte d'El Rei de Portugal D. Henrique. 
.—12 . Toma posse do reino Philippe II de Castella. —13. Tregoas entre 
Hespanha e Hollands. — 14. Prineipio da Companhia occidental em 
Hollanda. — 15. Interpresa da Bahia pelos Hollandexes.— 16. Trata- 
se na corte de Castella da sestauracao da Bahia. — 17. Como e 
quando se restaura. — 18. Intentao os Hollandezes cobrar-se no 
perdido. — 19. As delicias afeminao os animos dos Pernambuca- 
DOf . — 20. Sai a armada de Hollanda em direitara a Pernambaco. 



A RESTAURA9A0 de Pernambuco y em que as 
armas portuguezas triumph&rao do poder e da for- 
tona^ esta vencida da coustancia, aquella do valor, 
escreve minha penna mais para admiracao que para 
memoria; mais para veneer a incredulidade das 
uacoes estrangeiras, que para animar com o exemplo 
a propria. valor dos Portuguezes obra na occasiao 
sem necessitar de estimulos. Em todas as ac9oes 
humanas tomao os principios o ser do fim : as que 
u 1 



2 CASTIUQJO USIXAVa 

escrevo o nao parecem, porqne nellas nao teve 
mais ser o iim que aqueile que Ihe deo o prin- 
cipio; um e otitro 4eve Porlogat a: Joao Fernandes 
Yieka , a q^m esrte volame ehiimt Caitripto Lu- 
sitano : as obras Ihe derao o nome , e bem ponde- 
radas p^sao mais para a parte <lo excesso , que para 
a da imitacao. Para que o parecesse em tudo vere- 
mos que ^ se uma conquista Ihe deo o nome , ou- 
tra conquista Ihe deo o ser. 

L Felos annos de 1420 descobrio o peritonaveT 
gador Joao Gon^alves Zarco a ilba da Madeira ^ 
primeira joia da coroa portugueza no mar Atlan«> 
tico, Animado peloiliustre Infante Dom Henrique* 
chefe e director de todos os desoobrimentos, c 
agraciado por El Rei com a capitania da terra, se 
embarcou no veraode 1423, levando comsigo toda 
sua casa e familia , e muitas outras pessoas convi- 
dadaa dos partidos que Ihes fazia o capitao, e das 
conveniencias que Ihes promettiaa terra. Surgindo 
no porto ja por elle descoberto , desceo pacitica* 
mente em terra com toda sua oomitiva , e no mais 
acommodado della deo principio a primeira povoa- 
9ao de toda a ilha, fundando a cidade do Fun- 
phal^ com tanta fortuna que em poucos anno^ veio a 
ser abundantissima de tudo o que i necessario para 
a Tida humana, dando para outras terras excelien-* 
tes generos por commuiacao e por venda, com que 
adquirio o lustroso e rico de que ho je estd povoada. 
Esta foi a ditosa patria de Joao Fernandes Yieira^ 
a quern elle tanto illustrou com seu name e altos 
feitos, restaurando para Portugal a mdhor pe9ad€ 
sua coroa. 



Ih £m 9k cidadf» do Funchal (qu»do ja nifi a^ 
pelo t^npo e pela terreno , »e&ao petoa edtfioios » 
pda forti^fioacao> peta graodeita, pek) porto, pelo 
Gommercio , e p^la cathedral , era digna cabe^ da^ 
quelle governo ) »aceo Joao Feraandes Vieir^ wk 
anno de 1613. Sua creacao qualificou seu naaew 
p^QUio » e aen^ generoaoA procedimeiitQa o claro de 
a^ua asewdenoia. £ q aangue f6mento iFital doa es« 
pirit09, e q genero^iQ oa produz generoaos. Paasau 
o tempo d^ puericia na patria , que neile obaervou 
Yi^^r maiapam a rasao que para a idade f em todai 
aua$i aoooes ae adtaixarsi o anigio ao oorpo ^ tao 
discipliDado da modfstia y que , aem dar ocoa^iao 
9. queixa> a deo muitas vei^es ao exempla, Oa hrioa, 
que ua moQidade alUmeutao a uobreaa^ aem e^tudo 
$ao oppo9to3 & baixeza doa vieioa« Era de onxa 
auno^^ e como aeu cora^ao ja entio Ihe nao eabia 
uo peito, pareeia«lhe e^treita prisao a limitada 
«phera de sua patria* Um cora^ao grande uao oabe 
em pequeno lugar : nao cabia o de Alexandre no 
muudo, 6 deaejava mail mundos para ae dilatar. 
Heaolveo-se a passar ^a partes do Brasil j por^ao 
grande da America ; e seriatodoomotivoda eleieao 
ter euteadido, que 6 a America ii maior entre i^ 
quatro partes do muudo. Sam dilacao, nem eoir 
^raQo executou o qua reioWeo, Nao aoifrem dila^ 
^ impuUos do valor : toda a oppoai^ao atropellai^ 
porque com a d^^^atimacao eabem venoer as diffir 
ouldades. Fossae a occaaiao da parte do deaejo, e 
ae embarcou uo auuo de 4624, leyando em ai 
meanio o mqibor de aeu oabedal. Sao aa.pmudte 
propriaa o cabadid laai^ pv^pioao • maia ^a^gutioiy 



& GASTRIOTO LUSITANO. 

porque nascem isentas do poder e da fortuna. 
Com prospera viagem chegou & villa de Pernam- 
buco y cabe9a de uma das principaes capitanias do 
Brazil ; e porque ha de ser o theatro de meu as- 
sumpto , 6 forca descrever aquelle antes que d6 
razaod'este. 

III. £ o Brazil aquella parte oriental da America, 
a qual descobrio Pedro Alvares Cabral no anno 
de 1 500 em 24 d'Abril, na altura de 45» da parte 
do suly e 2'' da linha equinocial (debaixo da qual 
fica o rio das Amazonas), constrangido da vio- 
lencia dos mares, que o desviou da carreira da 
India , para onde navegava, dando-lhe o nome de 
terra de Sancta Cruz, por haver arvorado uma cruz 
mui grande no mats alto lugar d' uma arvore, ao p^ 
da qual se celebrou missa , e da qual tomou posse 
em nome d'El Rei de Portugal, elevando um padrao 
com as armas reaes do reino. A razao que tiverao 
OS homens para Ihe mudarem o nome de terra de 
Sancta Cruz em terra do Brazil tem pouco que des* 
cutir. nome de Sancta Cruz 6 o nome da arvore 
de nossa redempcao ; o nome do Brazil 6 nome de 
umas arvores que produz a terra, de cuja madeira 
se fez primeiro commercio : e claro esta que 
entre os mortaes havia de prevalecer o titulo de sens 
interesses, e nao o despertadordesuasalvacao.Tem 
^sta parte da America, que se chama Brazil, pela 
costa maritima 1800 legoas (no mais apuradocom- 
puto), que terminao e devidem da conquista de 
Castella dous caudalosos rios; da parte do norte o 
das Amazonas^ debaixo da linha ; da parte do sul o 
rio da Prata, em S5^ para o mesmo sul. Computada 



GASTRIOTO LUSITAI90. * 5 

esta distancia pelo recto dos grabs tern muito menos 
legoas : uns Ihe dao 1 500, outros 1 022. 

IV. Repartio a desateocao dos Principes e a am- 
bicao dos vassallos toda esta distancia de terra em 
quatorze capitanias^ na forma seguinte. A 1 "" domina 
1 60 legoas, que corre do grao Para at^ o Maranhao. 
A 2' corre do Maranhao at^ ao Geara por distancia 
de 135 legoas. A 3% que se termina no rio Grande, 
tern 1 60 legoas de demarcacao. A 4* continua por 
espaco de 45 legoas at^ a Paraiba; da Paraiba at^ 
a ilha de Itamaraca 25 legoas de caminho que de- 
marcao a 5* capitania. £ a 6"" a que chamao de Ita- 
maraca de 7 legoas de costa. A 7*, que 6 a capitania 
dePernambuco, indue 65 legoas de costa, que ter- 
minao, pela parte do norte, o rio de Sancta Cruz, 
e pela do sul, o rio de Sao Francisco; e de Per- 
nambuco a Sergipe sao 1 30 legoas. A 8* tem por 
termo a que toma o nome da cidade da Bahia ; tem 
de costa 50 legoas. Desta at^ os Ilh^os sab 30 legoas 
de costa, que formao a 9' capitania. A 1 0' corre at6 
a do Porto Seguro, por distancia de 30 legoas. Desta 
do Porto Seguro at6 o Espirito Santo corre a 1 i *, e 
occupa 61 legoas de costa. A 1 2" termina no Rio 
de Janeiro , e tem de costa 35 legoas. A 1 3' corre 
do Rio de Janeiro at^ Sao Vicente por distapcia de 
65 legoas. A ultima corre at^ o porlo de Santos, e 
delle ate o rio da Prata, por costa de grande nu- 
mero de legoas. 

y. Destas quatorze capitanias erao oito d'El Rei, 
porque as conquistou a coroa ; seis de partieulares 
senhores, porque partieulares vassallos as conquis- 
tarao.Por este titulo foi muibosannos a capitania de 



Fernambvrco dd^ Albuquerque , porque Du«irt^ 
Coelho d' Albuquerque, a que a dec El Rei D. Joao III 
por suft quaiiddde, « (>e)o8 services que fitoera na In- 
dia, a t^nquistou . Direi <> oottiy^, ^ o porque. Occti-^ 
pado £1 Rei nas oonquistas d^ Asia, k\b6 «ittendeo k 
impcrtaticia da America^ ou porque Ihe pareceo mats 
isteil^ ou porque a julgou menos udl ; bu maisque 
ludo , porque a opposicao dos PriYicipes da India 
ihe aiT^Cava loda 4l appliea«ao. Descoberta la terra 
do ft[^zii por l^edro Alvares Cabral no anno de 1 500, 
<9tHiio tenbo dito, pedirao alguns capitaies a El R^ 
D. Manoel, « a seu fitho El Rei D> Joao, a ooviquista 
•de diversas partes d'^aquteite Esiado^ offereceftdo-se 
fipov(^l-as, com ^nto, que haviao de ficar com o 
«eiiihoriod'ellas,etodaaalcada,elles e seui descett^ 
ttentes : t) q*ie os Reis ^aqtielles prineipios ootor^ 
tgiarao iiberalm*n<)e sem mats ctKjargo que ^ da -cofh- 
versao do getatio^ q^t^iet^eiido que ^s povoacoes fossem 
waiinarios de pr^ad(H>es ^vamgc^eos, e presWi^ 
xie soldddos Valeroso^, que domarssefii e ivistrUTdsem 
0S indk^; »este fbi o iutento qufe. tew«i iiberalidade 
tk» Priacipes^ de^josos de pmtfiiar merecim^nto 
tids TMissailos^. Tinha vindo da India Dual^te CofeHio 
d'Att)tiquei>qae, ^ onde si^vira Ei Rei D. Manoel 
ieomt»k^ lid, brace, e valor , ^apit&o , ^Jmbaixador, 
^oldadtgK 9<iAio ^ £1 Rei D. HI a conqtii^a de 
{VmaHibuco, ^qtie fecilmeMe Ihe <<:wn!cedeo pelos 
annos de 1530. lllustravao-se os servicos d%ste 
t^atealo coWft W^ ^t^efvantes prendas do ^'ftgfue , do 
«fe »e do varter ; ^uj^idades que adiaM«\a mtrito 
^ la^dsl e tuziftref^to com <jue «ntao cobria o 
^immb 4e incis^iventeirtes faturos. O »aiw 'dMttfio 



GA8XU0T0 LWOAMfK 7 

<jbs Mbnarehias 6 resuUa da generosidade do& Vr'm-* 
dpesqiiando senao acompanha de prudencia ; por^* 
que obra de presenta seoi aCtender ao futuro.A ri^ 
zinbanca do Principe iaflue respeito nos yaaaalloa; 
eomafaka d'esta seaaimaaiiberdade dos 8ubditos« 
A onde menos se temem os caatigos, brotao oom 
mdih fertilidade os atrevimentos. Consideracao que 
dev£Hi iazer os Principes, quando dao os governos j 
para que a coarctacao dos poderes refrte a licen^a 
doe goveroadores ; pots i c^lo que adia facil tran^ 
tito o livre para tyrano, e o tyrauo para i%belde. 
VL Preparado de tudo o que podia ser necea«« 
ario para iiiTadir e poToar, stio Do^rle Coelbo de 
Lisboa, e dq^ois de prospera viagem avisiou terra 
em 27 de Sef^mbro, e eiM^raiido peio no de Sancta 
CvWy Yiouma povoa^aoyeloraddlagrande muUidao 
de gentio^ que , com mats tumulto que discifdina^ 
trataioi de ihe defender o aakar em lerra; o que o 
mleroso eapitao fez , apeear de toda a resktencia 
ini»igp^y desbaratando e poudo em fogi<to aquelles 
b^^bareS) ferindo e matancto imiitosf no lugar oude 
agota eata ailuada a villa de Ig^rassui tomando o 
nome<{ue naqueUa oeeasiao ibedeo a admiraeao dos 
naturaes, TeiMlo a graiideza de nosaas einbareaeoes ; 
eeodo o mesmo em seu idioma Igar»S8« q«ie nad 
graade «m portuguez. Attribuirao os aossos a vie* 
torn a4s iiiciitos martyres Sao Cosme e SaoDamiao^ 
em «ujo dia a adoandirao ;. e em Tec^mhecimento 
do benefieio fevantfeio alii w» templo, que como- 
gvarao ao nome dos gloriosos saneios, a €>ode suas 
eeMhniada^. maravilhas atiesiao o quatito Ibes f6ra 
gfttOMie^s^mco* Gom ade^^o^los Re^foapovaado- 



8 CASTBMm) iCSITAKOt 

res eresceo de sorte a nova villa que abs<»rveo em si, 
pelo tempo adiante, outra villa que chamarao doa 
Marcos , pdstos naquella parte para demarcate 
do districto , e da terra que £1 Rei havia dado a 
Duarte Goelho d'Albuquerque.*— Neste lugar se 
deteve o capitao todo o tempa necessario para o 
povoqr e guarnecer em forma que servisse para a 
defensa e agricUltura da terra; depois de tudo bem 
disposto f partio com o grosso de sua gente em boa 
ordenan^a, para evitar os repentinos assaltos dos 
Indios (ordinario modo de pelejar eutre todos esies 
barbai OS ), de que tinha sido advertido^ e foi cor^ 
rendo a terra para a parte do sul, sempre a vista do 
mar, desejoso de acbar sitio con veniante para edi- 
ficar uma piovoacao, em que se achassem todos os 
requisitos , assim maritimos como terrenos, que a 
fizessem capaz de ser cabe9a d'aquella capitania^ 
Ghegou a ayistar um ameno e aprazivel outeiro 
descoberto, e vizinho ao mar (habitacao d'alguns 
gentios) em altura de 9!* da equinociar para o 
polio austral; e namorado do sitio pelas qualida^j 
d'elle, disse para os seus : a que linda situacao para 
SQ fuudar uma villa! » Approvarao todos o voto do 
capitao ; e porque a verdade nao ficasse livre da 
adulacao, poz^rao a villa o nome de Olinda, porque 
ouvirao dizer ao superior : que linda situacao 
para se fundar uma villa. Andaa lisonjataoavincu- 
lada a dependeucia , que nao ha verdade que na 
boca da dependencia nao pare^a adulacao. 

Yll. Como foi um o parecer de todos , pos^rao 
todos mao a obra com- tanto calor, que publicav^ no 
que crecia que a obraera particular elei^ dei^ada 



GA8TRI0T0 LOOTAMOi 4 

um. Em breve tempo &e achou a villa com 700 vi- 
zinhos* A terra foi correspondendo com os frucCos 
a esperanca com que a benefeciavao os moradores; 
o oommercio foi engrossando ao passo que crescia 
a noticia das muitas e utilissimas drogas, que havia 
nella : facilitava a saca, e commuta^ao das fazendas; 
a grande commodidade do porto, que alii faz o mar j 
abrindo a«natureza em uma dilatada corda de ser- 
rania , ou rochedo , que mettido pelo mar cihge 
muita disiancia de terra, uma abertura, a qual os 
naturaes chamao Pemambuco, que em sua lingua 
6 o mesmo que pedra furada, ou buraco, que fee 
o mar, de que se forma a garganta da barra, com 
fundo capaz para entrarem e sairem por ella difiTe* 
rentes navios, que , abrigados da mesma serrania, 
se amparao dentro do porto das tempestades do 
mar. A esta corda de rocbedo chamao Arrecife ; e 
da nome a uma povoacao, que pelo tempo adiante 
fez a mercancia em uma ponta de terra , que tera 
de largo vinte bracas, cortada dos rios Beberibe e 
Gapiberibe , que juntos quebrao sua corraite no 
mesmo Arrecife , recebendo o mar suas isiguas pela 
dita abertura. Desta mesma sorte, provida a natu- 
reza abrio na dilatada corda d'aquelle muro, ou 
arrecife, differenles portas em diversas partes para 
dar entradanomar a diversos rios, que per aquella 
CQsta fazem desiguaes portos. 

VIII. Ao passo que pela grangearia e pelo com- 
mercio crescia a opulencia dos subditos , crescia a 
liceuQa e a demazia dos governadores , tao abso- 
lutos, que nao havia honra, vida, nem fazenda que 
nao estivesse a disposi9ao de seu gosto. respeite 



is leis e c temor do Principe tinhn sepnltado a 
riokmcit; originaitdo^fle maior dam no do exempto 
que da tyrania, porque a religiao e o zdo faltava 
nos podwosos, « gemia o povo com oppressao. Rc^ 
foroou'-ae o grilo de eorte qae chegou a Lisfaoa a 
El Rei D. Joao lil, Principe naturalmente affavel e 
piedoso; ooadoeo-se elle dos miseraveis Tassailos, e 
¥endo que todos se perdiao (os pequenos poroppri- 
mkioSyOs grandes por absolutos), com catholica 
resotucao mandon aprestar tres naos, duas cara-- 
^las e am bafgantimy e lazendo escolha d'um 
fidalgo , em quern concorriao requiritos para 
maiores empregos, o nomeou governador geral de 
todo o Estado do Brazil^ e capitao maior dos ditos 
vasos, em qoe leva^a comsigo miniBtrose soldados : 
estes, p;&ra fomentarem a obediencia ; aquelles para 
extingttirem adiasolucao; e todos para reprimirem 
com o conselho, e com a execucio, o orgulho do 
gencio, que faToreeido da emulacao estrangeira e 
da fiDvttina propria se tihba animado a assaltar e 
destrairmuitaspovoacoes dePoriuguezes, matando 
e roubaodo <5om fiiToraTel suecesso. 

IX. O fidaigOy a quem El Rei confioii esta dif- 
fml mm honrosa missao, foi Thom6 deSousa ; varao 
nao mefM>s itlnstre par sua linbagem que por seus 
merecimentos; e para que seconsegtrisse cabalmente 
odesejado fim para que era enviado, nao s6 o acom- 
panbmi de magistrados e tropas, como dito 6, mas 
revestio-o de toda a alcada^ tirando-a a todos os 
^[overnadores particulares,aquemcoUocou debaixo 
da stta inspeccao , estabellecendo d'esta arte a tmi- 
4»A9 4t goverao naquelle naseente Estado; e para 



<|ne nao £ikas&e uma metropole a tao ricas provin* 
ciaS) ordenoib-lfae que na Bahia de todos os Sanlos 
cdiGcasse uma cidade^ a qual pozeftse o nome de 
<St0 Salrador, no sitio que melhor ihe parecess«, 
porqiie ^rvisse de assento e de foriiitcacao a todos 
as governadores fututos d'aquella ppovincia. 

X% Partio ThonMi de Sousa do potto de Li^kA 
oo primeiro dia de Fevereiro do anno de 1 549. 
Em 8 de Marco do mesmo anno chegou i Bahia , 
<Mide ja se tinha divulgado sua ida , seus poderes, 
com todais asordens que levava de^en Rei. ]>e6em^ 
bareou, e com a gente (onnada em eaquadrao ser* 
wdo (porque o temor facilitasse a Bujcicio) cami^ 
nhou para o Ingar, precedendo^lhe uma ^evv>ta 
prot:issm,queoi*den^rao osre^igiosos etjlerigosqiie 
kwaw do rdno para a reformacao do espiritnal. 
5W rec<^ido •com aiegria de ifiuitos, e com obedien- 
•cia de tod^ , rendidos os animos tanto ao lemor 
/OOiKyo<A compnncao. Escolheo-se sitio, ajuntirao^se 
maDefriaes^ coacovrerao obreiros, deoHse forma it non^ 
cidade^^e com tal <€llicacia set)brava, que no pri^ 
meipo dia d' Abril>do mesmcanno se vio b fortaleza, 
te a ^ircumTldacao axpsz de aganalhar e defender 
t» »ioriKiore». Consignou o g<yfemador aiojafmen^d 
f)»ra OS soMados, Iribonaes para os mimstros, si- 
4k» pam OS religiosos , -com tao boa dfeposicao, 
^«ie baslou a f ama pata tlomar os Indios, e para re- 
-freaar os Portuguezes, faltandoa tedos a coafianca, 
<50ffi que t»8 e outros se ^treviao. 

XI . Com a nova forrma*de govemo «e nfigmeBPtoti 
'dt maneira o Estado, assim no espmtwal como no 
^empcHraAf-que se ite9<miheeia a si mcsrao. Pen^l^*- 



18 CASTEIOTO IVSYtAAO. 

lio Oft obreiros da (6 muitas legoas de septad, con- 
verteudo innumeravel gentio. As religioes do 
grande pairiarcha SaoBento, da Gompaohia, de 
Sao Francisco, e do Garmo forao um singular bene^ 
ficio para as almas d'aquelle Estado. Obrigados por 
este meio tratavao os homens de viver do proprio, 
e se davao a plantar com tanto cuidado , e com tao 
boa sorte, que em settenta annos se achou o recon- 
cavo da Bahia com perto de 200 engenbos, que em 
cada um anno acudiao com 70,000 arrobas d'aisu- 
car macho ; e a capitania de Pernambuco com 1 50, 
que em cada oafra , um anno por outro , davao 
50,000 arrobas. Avaliadas as destas duaspartidas 
pelo . preco ordinario fazem somma de seis milboes 
decruzados, nao fallando em outra grande quanti- 
dadede dinheiro, que se tirava de muitos e varios 
generos, como p&os de tintas, madeiras incorrup- 
tiveis, coucos, tabacos , etc. , que nossas embarca- 
coes conduziao a Portugal, e d'elle per commercio 
a todas as nacoes estrangeiras, com grosso avan^o 
das rendas reaes. — Assim prosperaya o Brazil 
fornecendo a PorUigal os principaes elementos de 
sua grandeza, quando este imperio^ subido a maior 
magestade na reputacao, no poderio e nas rique- 
zas, declinou por decreto da fortuna, e veio a cair 
opprimido de sua mesma grandeza. Esta chorou 
Portugal, sepultada em os campos d' Africa por um 
Principe mais bellicoso que advertidoj em o pa- 
lacio d* Almeirim , por outro menos aconselhado 
que remisso : este foi o cardeal D. Henrique, que 
tomou a coroa mais para a levar a sepultura, que 
para a subir ao throno. Alcancou-o a morte em o 



CASTRIOTO lUSITANO; IS 

ultimo de Janeiro de i 580 com settenta et oito an- 
DOS de idade, anno e meio depois da perda de 
D. Sebasliao em Africa; acabando a gloria de Por- 
tugal entre o caduco e florido d'uma e outra idade ; 
fechadas as portas com estes extremos para o rep 
gresso e para a esperanca. 

XII. Apoderou-se do reino D. Philippe II de 
Gastella, chamadoprimeirode Portugal, tao fayo* 
recido seu poder do tempo e da fortuna, como des- 
emparado da justica e da razao, D'esta sorie unido 
o reino de Portugal a coroa de Castella, fieou su- 
jeito ao odio com que todas as nacoes da Europa 
se oppunhao a grandeza da monarchia hespankola, 
tanto mais aborrecida, quanto mais dilatada. 

XIII. Ardia neste tempo a guerra, nos Estados 
de Fiandes, entre Hollandezes e Hespanhoes ; aquel* 
les , por defenderem a rebeldia ; estes , por casti- 
garem a rebelliao , sendo a religiao o pretexto e a 
causa. Cresceo o odio com a prefia, e com a prefia 
o maior damno daHespanha, nao so pdo que nesta 
guerm consummio de gente e de cabedal , senao 
tambem porque com o exercicio das armas fez 
guerreiros OS que so sabiao ser tratantes. Empu- 
nhou o sceptro d'Hespanha Philippe III de Castella 
e II de Portugal; e aconselhado, tanto da onimis- 
sao como da necessidade, abracou a suspencao das 
armas por dez annos, que se assejatou nas tregoas 
concluidas no de 1 609 com menos decorosas con- 
dicoes que o mundo espera va, e com a desattencao 
(se ja nao foi impiedade) de deixar fora d'ellas as 
pra^as de nossas conquistas , expostas a toda a fu^ 
ria .do odio e da yinganca d'esta nacao/' nao por- 



que QOB julgtase compUoea em sem dtitoB^s^ Hmko 
porque nos con&iderava sujeitos ao oontrario cU>< 
mioio, exercicio das armas, como da nav^gacao 
tinhao feito ao& liotlaodezeB tao saiihorea do tmr^ 
que polo commercio e peio roubo Iraaiao a seu$ 
portos o milhor das riquesasda Europa^ devendo 
sua boa fortuna mais ao descuido alheio que k po^ 
tencia propria^ pois fiando mais da dila que do va** 
lor , sempre triumphavao com a iudustria, e men 
nos com a for^a. 

XIV. Pot este tempo florecia naquellea Estadoa 
em cabe^al e bons succe.ssos a companhia, ou boU 
ca, que intitula\ao da India OrientaK Yiao«»se em 
Hollanda com os olbos da iavejax e da emulaeao de 
muitos y crecer os avancos com que se enriqueeiao 
todos OS principaes na dita companbia, e o poder 
d'aquellas Provincias Unidas ; o que considerado 
por Jans Andres Moertbecan , Hollander de capa^ 
cidade e esperteza, assentou comsigo que fazia 
para si um grande n6gocio> e para sua repubUca 
nao pequeno servico, propondo aos Estados que sa 
formasse uma nova companbia , ou bol^a , que s<^ 
inlitulasse das Indias Occidentaes, a qual se conce^ 
desse a conquista da dilatada provincia do Brazil^ 
tao facil de adquerir pelo remisso da defensa, co^^ 
mo de se conservar pelo util do commercio^ sendo 
este naquellas pra9as a causa da frouxidao e do 
ocio. Via-se a verdade da proposta ; palpaTa^^y 
pela facilidade da navega9a0| quanto menoscustoso 
seria conduzir do Brazil a HoUanda o precioso 
ddle do que d'uma e outra India j esem r^pUoa 
se approvou o dictam^, qu^ logo poserao em pn^ 



tiea; e em breyee dm formarao o eorpo d'esU uwt 
compaDbia. noveata partes interessadaa. 

XY. Achata^se a nova companhia ocnqq eabedal 
e forcae para iutentar qualquer importante fac^aOji 
^ conio a primeura ha via de facUitar as mais , de« 
termixifirao que se eropr^asse no melbor; assen* 
taado que iuvadissem a cidade da Bahia« como ca^ 
be^ de todo aquelle Estado que prelendiao doiui-- 
liar; tendo*se por certa cousequencia a sujei^ao de 
todo corpoy seohoreada uuia vez a cabe^a* Prepa- 
pou-se uma esquadra de vinte e seis vases, parte doa 
Estados^ parte dos mereadores, guarnecida de trea 
mil soldadosy coQsegui]ido->se assim a observaucia 
do segredo e a brevidade da execu^ao. Sa'io a armada 
de Hollanda, em 8 de Maio 1 624 ; apparecoo sobre 
a Cidade da Babia , que por entrepresa occupou 
quasi sem resistencia, entregando a terra primeiro 
o descuido de uossa ooafiaQcaque a presteza de sua 
diligencia. Quern uao aabe temer nao se sabe pre** 
yenir ; e no repente dos assaltos ohra mais a con«* 
fusao dos iuTadidos, que 6 valor e for9a dos in? a«* 
sores. 

XYL Chegou a noticia do sucoesso a Lisboa, 
onde fez grande impressao; de la passou a Madrid^ 
onde pelo costume se faziao menos sensiveia as des- 
gracas ; e como esta era tao propria do reino de 
Portugal foi olbada pelos ministros como albea da 
coroa de CasteUa. Come9ava Philippe IV de Gas« 
tella e HI de Portugal a governar a monarchia de 
Hespanha, de que tomou posse em Mar9o de 1 621 • 
Importunados os maiores ministros das^quotidia*^ 
nas instancias do oonselhp de Portugal , propose 



tt CASTRIOTO UfSITAIVO* 

rao e persiiadirao a El Rei a importanoia do nego* 
cio, tanto pelas pr^missas como pelas oonsequen- 
cias, de que pela vizinhanca do Brafil com as In-- 
dias de Gastella ameacavao a ultima invasao de toda 
a America. Estava o zelo da repulacao do Principe 
com a yiveza y com que se acfaa em os principios 
de todos OS governos ; e com efBcacia mandou pre- 
parar armadas, em uns e outros reinos, consignan- 
do-se todos os meios necessarios pera se executa- 
rem as ordens. Desua propria mao escreveo El- Rei 
a todos OS grandes de Portugal, com o que muitos 
d'elles se derao por tao obrigados , que servirao 
nesta occasiao nao so com as fazendas, senao tam- 
bem com as pessoas. 

XYIL Saio de Lisboa D. Manoel deMenezes, ge- 
neral da armada portugueza^ com yinte et seis vasos, 
e quatro mil homens de mar e guerra ; tomou a ilha 
de Cabo Verde, onde esperou ati ao fim de Feve- 
reiro pela armada castelhana, que se compunha 
de dobrado poder, de que era general e superior a 
todos D. Fradique de Toledo ; e unidas em um 
corpo navegarao as duas armadas com favoravel 
fortuna, e com animoso alvoroQo entrarao pela en- 
seada da Bahia em sesta feira santa, 28 de Mar^o 
de 1 625 , cuja yista fez nos animos tao differentes 
imfHressoes , quanto differentes erao os affectos : 
nos da esperanca causou excessiya alegria , nos 
do temor medrosa desconfianca. Desembarcou a 
nossa infanteria, saio em terra, escolkeo sitio^ for- 
mou quarteis , leyantou trincheiras, dispoz plata- 
formas, acommodou artilheria, bateo as fortifica* 
9oes do inimigo yigilante em se defender , ate que 



eASTia<yro lusitaivo. 47 

das^ngsnado e opprimido entregou a cidade , sal- 
Yds as vidaSy e sa'io em 20 de Abril corrido e casii* 
gado o mesnio orgulho que no Junho antecedente 
tmha entrado triumphante e atrevido, deixando- 
nos a cidade tao abastecida e municiada> como se 
so heila entrara para a deixar fortalecida. 

XVIII. Mui sensivel foi este golpe para a nova 
companhia, e supposto que o tolerou sem desmaio, 
teve aberta muitos annos a ferida (sopprindo o ani* 
mo a falta das forcas). ISao se rendeo ao primeiro 
golpe da foriuna; continuou a infestar aquelles 
mares alguns annos sem mais efleito que o desejo 
da vinganca; outros, com o de alguns roubos e pre- 
sas, com que foi criando aquelle corpo novo san- 
gue e mais alenlados espiritos ; e vendo-se os in- 
teressados senhores de muita parte da prata , que 
para Castella conduzia das Indias D. Joao de Be* 
navides na frota de anno de 1630, resolutos e 
animados intentarao segunda vez a conquisla do 
Brazil , esperando da foriuna melhor semblante. 
Depois de largas conferencias concluirao que nao 
convinha experimentar a sorte na Bahia j a onde 
presumirao certa a resistencia. Nesta occasiao che- 
garao a HoUanda algumas presas, que se haviao feiio 
em navios de Pemambuco, e com ellas a informa- 
cao do recheio , e descuido da terra , tao opolenta 
de riquezas como pobre de forcas. Servio o aviso 
de confirmar o desejo, e assenlarao que fosse Per- 
nambuco o alvo d'aquelle segimdo tiro. Repetidos 
avisos doscossarios que corriao aquelles mares con- 
firmarao os intentos do HoUandez , e animarao a 
diligencia com que se preparavao os navios, de ma- 
i. 2 



18 ckvmtmo LtstTAMa 

neira que em bretes dias poz no tnar iifiia armada^ 
de cujo porta Cava todo o bom succeaso. 

XIX. Se oB crimes e peccados dos homens pro« 
Tocao alguma vez 08 eaaligos do ceo, podemos supv 
por que as calamidades que sobreTi^rao a capita-^ 
nia de Pernambuco mais sao devidas aos conselhoa 
da Providencia que as astucias da politica. Alimen- 
tadasdos deleites brotarao de sorte as demaziasen'* 
tre OS moradores de Pernambuco , que suflbcavao 
a razao, e desconheciao o pejo : nao havia para ca^ 
da qual mais lei que seu proprio gosto. A continua- 
cao sepultou as memorias da censura; eanimada do 
lucro , da ^bundancia e da riqueza, desprezara a 
no(a, correndo a malicia tao deseaPreada pela satis*- 
facao dos apetites, que chegavao com as obras onde 
chegavao com os desejos. As lascivias, os fauslos, 
OS regalos , as Taidades , as usuras, os roubos, as 
emulacoes, as vingancas, osodios, as aleivozias, 
e as liberdades , de nenhum se estranhavao , por* 
que era exercicio de todos os que podiao. A vida que 
se sustenta do vicio sempre conduz para a injuria, 
e nunea para a honra, sendo natural efFeitodasde- 
mazias afeminar os animos, desatender os castigos, 
e nao imaginar nos futures. Vio-se na desatencao 
com que todos viviao, que servindo de reclamo 
para a invasao , foi o total desvio para a defensa, 
sendo a mesma mao do peccado a que pegou ilo 
a^oute para executar o castigo, permittindo Deos 
que com a mesma diligencia, com que se tractava 
da conservacao, se execntasse a ruina. 

XX. Individualmente se sabiao em Hollanda 
todas as disposicoes que levavao a villa d'Olinda 



' CASTUOTO LrsrTAHO. 19 

a sua ultima perdicao; nao faltando mais para cair 
que encostar-lhe a n)ao ao peso que a fazia decli- 
nar. Em 29 de Juilho de 1629 poz a Companhia 
occidental de verga d'alto cincoenta e quatix) vasos 
sorleados, e guarnecidos de 7,280 homens, entre 
mareanles e soldados^ municiados e fornecidos para 
todo o successo da dilacao, da resistencia e da con- 
quista. Navegarao divididos emdireilura a ilha de 
Sao Vicente^ ou de Cabo Verde , a onde enc(H*pora- 
dos sairao a 26 de Dezembro do dito anno, buscando 
a altura do Brazil. Era general da armada Henri- 
que Lone; almirante, Pedro Adrian; sota-almi- 
rante, Juste Traper ; coronel de guerra, Trederico 
ou Theodore Wandemburg. A todos vai eaperar 
esta historia a villa de Olinda^ no seguinte livro. 



LIVRO II. 



, SUMMARIO. 

1* Tem El Rei aviso dos intentos do HoUandez; avisa a Diogo Lute 

. d*01iveira, governador do Brazil. ^ 2. Tom* porlo em Pernaai- 

buco Mathias d'Albuquerque. — 3. Chega a Pernambuco urn 

patacbo de aviso ; convoca Atathias d'Albuquerque o conselbo. — 

4. A armada hollandeza avista o cabo de Santo Agostinbo. — 

5. Reparte o governador a geotecom que se acba. — 6. Appareee a 
armada »obre Pernambuco. — 7. Embaixada do general bollan- 
dez ; resposta dos nossos. — 8. D& o inimigo uma profiada ba- 
teria ^s forcas da barra ; retira-ae do combate ; delta genie no Pdo 
Amarello. — 9. D&-se rebate na villa de Olioda; confusao dos 
nossos. — 10. Passa o inimigo o rio Doce ; acode Mathias d'Albu- 
querque, mas ^ obrigado a retirar-ae. — 11. Entra o inimigo na 
villa d'Olioda; eslragos que ahi commette. — 12.*Fez-§e senbor 
do Arrecife ; animosa resolu^ao de AndriS Pereira Temudo. — 
13. Desbumnnidades executadas pelos berejes, e pelos proprios 
naturaes; Malbias d'Albuquerque maoda p6r fogo a muitos navioa 
nossos. — 14. Saquea o inimigo a villa e Arrecife; nelle se for- 
tiGca. — 15. Joao Fernandes Vieira se mette na fortaleza da 
terra , que o inimigo intenta tomar por entrepreza ; da qual se 
retire casligado. — 16. Commette o inimigo segunda vez a for- 
taleza. — 17. Valerosa resistencia dos nossos, que se rendem a 
partido ; Joao Fernandes Vieira faz com que nao padecao nossas 
armas. — 18. Segunda embaiiada do inimigo a fortaleza do 
mar ; votao os do presidio que se entreguem, contra o parecer do 
tenente. — 19. Desaforos executados pelo hereje. 



L A demaziada diligencia de encobrir as cousas 
6 o pregao d'ellas : a necessidade de as communicar 
i a que as leva & praca. Em diversos portos do Es- 
tado da HoUanda mandou a Gompanhia occidental 
preparar e fornecer os vasos , que determinava em- 
pregar naconquista do Brazil, para que nao fazendo 
em parte alguma rumor o excesso, em todas se ti- 



CASTRIOTO LUSITANO. 21 

rasse o motivo & curiosidade , e &s inlelligencias. 
Esta cauta disposicao , com que se disfarcava o de- 
signio, deo occasiao a que se penetrasse o inlento , 
primeiro inferido da stispeita, depois aleancado 
danegociacao. Governava por este tempo os Estados 
de Flandes , pela coroa de Castella , a infanta D. Iza- 
bel Clara Eugenia ( viuva do archiduque Alberto, 
e filha do segundo matrimonio d'El Rei Philippe , 
que cham&rao o Prudente), cuja vigilanciadescobrio 
o que encobria a cautella , comprando at6 as mais 
escondidas determinacoes do inimigo. Com todaa 
brevidade despachou um eorreio a Madrid , dando 
inteiras noticias a El Rei Philippe o IV de tudo 
quanto o HoUandez intentava. — Conhecendo elle 
o damno da dilacao , fez logo aviso a Diogo Luiz de 
Oliveira , governador do Brazil , em como o Fla- 
mengo armava contra aquelle Estado , com deter- 
minacao deir sobre Pernambuco ; porim queadver- 
tisse, que de ordinario punhao os invasores a mira 
em uma parte , para darem em outra mais a seu 
salvo o tiro. Recebeo Diogo Luiz o aviso, e com a 
pressa possivel acudio a reparar e fornecer a Bahia, 
que condemnaya a suspeita ; e a Pernambuco, que 
amea^ava a fama. Para este fim mandou a Pedro 
Correa (pessoa experta que tinha medianas noticias 
da fortificacao ) que fosse a Pernambuco reparar a 
villa e o Arrecife de tudo o que Ihe parecesse ac-^ 
commodado & defensa e d brevidade. Chegou Pedro 
Correa, e com as ordens que levava certificou a 
pritica, que corria, de que b Hollandez intentava 
a conquista d'aquella praca. At6 entao nao achava a 
nova mais crediio que de fama vaga; d'alli por 



diante achava em algans credulidade , em outroB 
desprezo. Deo Pedro Correa principio i fortifica^ao, 
mandou cercar a villa de trincheiras^ e a poyoa9ao 
do Arrecife de palicadas de p&o a {uque ; e aupposto 
que a muitos assaltou o receo , a muito poucos 
ctugou o desengaQOi acudindo os moradores 
com tanta frouxidao aos reparos, que mais traba^ 
Ihavao para o espauto que para a defensa , satisfa- 
zendo A brevidade do tempo , e nao & scguraaca do 
perjgo* 

11. Eogolfado andava Pedro €orrea uesta obri*^ 
ga^ao J quaodo se divulgou ua Tilla que Matbias 
d' Albuquerque entrava pela ban^a com duas embar* 
cacoes f das quaes viubao por cajHtaes Joao Alvares 
Barbuda, e Gil Correa de Castello Branco; foi re«- 
cebido com alvorooo ^ e logo depois com espauto , 
sabeado-sequeera mandado por ElRei comsoJdados 
e muni^oes para prover e guaraecer a terra , & qual 
ordenava que em tudo obedecesse is ordeus que 
irazia de capiiao maior , e governador das armas ^ 
por quanto sabia de oerto que o Hollander com uma 
poderosa armada vlnha sobre a villa e seu porlo* 
Apreseutou Mathias d' Albuquerque ai; ordeu3 ; por 
elias foi obededdo, por^ oao festeja<ilo« Reudeodo 
poiftto de capitao maior a Audr^ Dias Ferreira^ qjie 
o occupava ; vio e approvou quanto Pedw Correa 
tiaba obrado em ordem & fortllicacao ; e conformed 
ao|^recerderao priucipio ao reduio p^;adp4 forJta- 
le^a da terra^ Qsmdo w zelo de Dio^ Paes jo Um'^ 
weoto da (abriea^ Obra sem fructo 9 porque mm 
t^we ku 9 joem cbegou a t/^ pre^timo- 

m* Cbe^u eatreiaa0 a armaiSa ii«Uaod«ia 4 



gASTRIOTO LUSITANO. 33 

jilha de Cabo Verde, onde era governador Joao Pe- 
reiraCorte Real. Obgervou este a cautella e o poder 
da froia J que escondia o designio ao mesmo tempo 
que fazia osteutacao da forca (ardil que dava a en- 
tender a offensa); fez diligencias por se assegurar 
na sospeita ; e depois que pela derrota conheceo 
que buscava a altura do Brazil, se informou d'al- 
guns homens,que o inimigo por varios accidentes 
deix^ra em terra , e como todos constantemente 
afiirmassem que o Hollandez , com aquella armada 
ia sobre a villa de Olinda e seu porto , para ga- 
nhar porlo e villa por entrepreza; entendidaa via- 
gem despachou com toda ar pressa um patacho a 
Pernambuco, fazendo por elle aviso aos moradores 
do ameaco , para que prevenidos rebatessem o golpe. 
Festejavao estes com grande regozijo o nascimento 
do principe Balthazar Carlos Domingos , herdeiro 
de tantas cgroas , quando chegou a trisle nova do 
perigo que os amea9ava. Ou fosse por descuido, 
ou fosse poy razao d'estado, Mathias d' Albuquerque 
»ao deixou de continuar no festejo, que a occasiao 
faaia parecer feitico. Nao faltou quem aconselhasse 
o successo com afirmar o desvio , dizendo que se a 
arnaada do Flamengo viera em direitura a Pernam- 
buco, cheg^ra inuito antes que o patacho d'aviso 
^ partindq este tantos dias depois della ) , que indu- 
bitavelmente havia tomado outro rumo, pois o 
patacho a nao avistara na costa. — Entre a seguran^a 
Q recejo fluctuava o parecer de todos : a indiffe- 
renca nao deixava acudir i importancia. Conti- 
ouavao-se as fortificacoes com braco remisso, que 
ojjtrava ms^is p^i*^ sati&fazer ao engauo que para 



2& CASTRIOTO LUSmifO. 

dispor o remedio ; julgando-se cada qual teo longe 
do damno como se imaginava do perigo. Chamando 
estava o tempo pelaresolucao^quandoMathiasd'Al- 
buquerque convocou a conselho aquellas pessoa^ 
que melhor poderiao votar na disposicao da de- 
fenSa por interessados, ou no credito , ou na fazenda. 
Assenlou-se que nenhum morador tirasse da villa, 
nem pessoa que fosse de sua familia , nem cousa 
que pertencesse a sua fazenda. Suppunhao que 
sendo igualmente de todos o interesse » seria de 
todos igualmente a defensa. Muitos ( cujo animo 
servia mais & desconfianca que & resistencia) forao 
de contrario parecer, dizendo que cada qual po- 
sesse em cobro o mais precioso e o mais estimado 
de sua familia e fazenda , para que na occasiao in* 
diviso o cuidado assistisse todo o coracao ao braeo : 
tomavao por fundamento o aberlo da praca , e a 
contingencia do successo , que sendo favoravel ao 
inimigo havia de medir a victoria pela riqueza do 
despojo, e nao pelo formidavel da batalha, e ali- 
mentaria os insentivos da cobi^a com a riqueza do 
saco. Mostrard esta historia quanto neste voto dis- 
tava o conselho do animo. 

IV. Chegou dia de quinta feira 1 3 deFevereiro 
do anno de 1 630 ( oito dias depois que entrou o 
patacho d'aviso), e nelle avistou a armada hollandeza 
o cabo de Santo Agostinho, tomou o panno, e fa- 
zendo-se conselho na capitania, nelle se decretou 
o Ingar, o tempo e a f6rma em que se havia de 
investir com nossas fortificacoes, ordenando ao co- 
ronel Theodoro Wandemburg , que com dezeseis 
fragatas, 2,200 infantes e 700 marinheiros se apar- 



CASTMOTO LU5ITAW0. 25 

tasse do corpo da armada, quando menos o deixasse 
advertir o conflicto, e deitasse a gente na paragem 
do V&o Amarello , tres legoas apartado de Pernam- 
buco para a parte do norte , que acharia sem 
opposicao, acudindo no mesmo tempo o grosso da 
nossa gente a onde o cham^ra o engano , ignorante 
da parte em que a pedia a necessidade. Sabia o 
Flamengo que o bom suceesso das emprezas pede 
acertadas disposicoes, e que as mais ditosas sao 
aquellas que nao deixao interpolacao de tempo entre 
over e o investir, dandolugar ao inimigo aque sinta 
descarregar o golpe , por6m nao a que veja o braco. 
V. Logo que do Cabo de Santo Agostinho se des- 
cobrio a armada inimiga com settenla e sette velas, 
se deo rebate em Pernambuco. governador das 
armas Mathias d'Albuquerque, achando em todos 
prompta obediencia , repartio os capitaes pelos 
postos, consignou gente para as estancias , medindo 
o numero pela capacidade , e a escolha pda impor- 
tancia , para que chegada a occasiao se visse cada 
qual obrigado a guarnecer o lugar predefinido. 
A guarita de Joao d' Albuquerque ( era um'reduto 
situado no caminho da praia , que faz transito da 
villa para o Arrecife) encarregbu ao capitao Martim 
Ferreira com uma companhia paga ; com outra 
companhia, de que era capitao Francisco Tavares , 
guarneceo outro rediito que estava entre a villa e Sao 
Francisco , na vereda que guia para o rio Tapado e 
rio Doce. A infantaria da ordenanca , tanto da villa 
como do termo (da qualerao coroneis Ambrosio Ma-* 
chado de Carvalho , e Pedro da Cunha de Andrada ) 
dividio per diversos lugares na forma seguinte. 



36 CASTJUOTO ];.Ua2TAI«0f 

Para a guarnicao das trincheiras da villa nomeou q% 
capitaes Roque de Barros Rego, e Salvador da 
Azevedoy com as suas companhias. AiToaso d' Al- 
buquerque^ capitao da nobreza (debaixo de cuJ4 
bandeira se alist^ra Joao Fernandes Yieira com 
poucos aunos, muito valor e muilaestiiBa^ao), e 
Manoel da Costa Calheiros (assim mcsmo capitao 
dos nobres) tomirao por sua coata a defeasado Ai^ 
recife, cujo presidio engrossouo governador cooi 
um troco de gente ordinaria^ quecapitaneavaFraor 
CISCO MonteirOy e outro de soldados bisoabos le- 
vantados no reino , seu capitao Andr^ Fereira Te- 
mudo. A defensa do rio Tapado deixou a cargo do 
capilao Frajicisco de Freitas, A$ for9as de mar e 
terra* aue d^fendiao a barra> fiou ao valor dos ca-- 
pitaes Antonio de Lima, e Manoel Pacbeeo com 
sua gente. Da palicada do Arrecife fez eqlrega ao 
capitao Bento de Freitas , assistido da gent^ da 
poesma povoa^aOf e de algpmas mangas de mora^- 
dores da villa. For cabo de toda a infantaria uo- 
meou Matbias d'Albuquerque a Andr^ Dias da 
Franca , e por sar^ento maior a Bui Dias Borgf s 
(em falta de Manoel de Soiiza , que o era de prg* 
priedade). Fara gpvemar algumas tropas de ca- 
vallaria da terra Gcou Matbias d'Albuquerque , 
correndo por conta de 9eu cuidadq acudir ^s partes 
onde a necesiidade mais o pedisse, 

VI • Formidavel e apra?;ivel appareceo aos olbos 
do$ moradores a armada inimiga em 1 5 de Feve- 
j^iro, que de mar em fora com todo o pan no nave- 
gava bn«cando a terra , assim povoada de bandei- 

rMi I01dmu}a» ^ e^bardeti^$ de taAt4«t e tap div^rais 



CASTI20TD tU^TAXfO, 27 

cores, coDcedidas e oegadas a beneficio do ventO| 
que as ^iao tremulas os olhog , e coofusamente te- 
merosas os juizos. A ipultidao dos clarin^, repelida 
dos echosy enxia os ouviclos de bellicosa harmonia, 
e OS coracdes de formidaveis consequencias. te- 
mor e a esperaoca, que occupava osanimos, diver- 
sificava os objectos ; razao por que a mesma armada 
produzia em uns coracoes eiTeitos tristes , e em 
outros alegres ; estes recebidos da esperanea, aquel- 
les do temor^ eniao dissimulados do artificio^ de- 
pois acusados do suceesso , achando no Hollandez 
agasalho uus, persegui9ao outros, Arribando 3obre 
o rio Tapado deo mo3tras o inimigo de querer por 
aquella parce &zer a euvestida : era o intento ca- 
pear um engauo com outro engano, para que, oc- 
cupada aattencao dos moradores nas partes donde 
a cbamava a ficcao, Ibes ficas^e sentido para reparar 
a icKlustriai com que por lugar djflerente o§ com- 
jnettia a verdade. Aqui se apartou o Wandemburg 
com sua esquadra , coberto do fumo e da terra , e 
fgvorecido do engauo da armada (que represen- 
tava no major nnmefo dos vasos o maior poder do 
inimigo) com que veio camdo sobre Pernambucoi 
oertiGcaudo assalto , s^m individuar a parte do 
conflicto. 

YIL Surgio toda a armada a tiro de canbao das 
uossa$ fortalezas; era todo o intento do inimigo 
Jograr a industria com procurar a divei^ao ; e por 
oci:;uUar osde^jps deentreier se valeo das apparen- 
45]as dQ ccmquisiar, para que se d^sse tempo a que 
coronel Wandemburg, ou oomo Ihe chama o vul- 
IPQ Th^oro Waodeiu^ui-jgf, dieita^se no F^p Am^- 



28 CASTRIOTO tUSITANO. 

rello a gente que levava, sem opposicao que a des- 
composesse. Da capitania despedio um batel, e 
nelle um tambor, pelo qual mandou dizer aos pre- 
sidios das forcas da barra e Arrecife, que elle vinha 
com aquella armada a senhorear a terra , com or- 
dens dos Estados, para a dominar, e nao para a des- 
truir, que Ih'a entregassem , e a todos faria ami- 
gaveis partidos, favorecendo a obediencia ; porque 
havia de castigar a fogo ^ a ferro a rebeldia ; e que 
se nao (lassem em forcas destituidas de soccorro, 
porque se chegassem a medir as espadas, occupa- 
dos OS animos de seus soldados do furor se escu- 
sariao de toda a piedade; que acceitassem osofFe- 
recimentos da clemencia, antes de os obrigarem os 
destrocos da ira^ a qual se podiao adiantar^ toman- 
do o conselho que Ihes dava o excesso do poder; e 
advertindo-lhes que a desproporcao da defensa fa- 
ria infallivel a ruina. — A voga arrancada vinha 
o mensageiro em direitura a fortaleza do mar ; e 
a seguranca foi para os nossos informacao do de- 
signio, e com uma carga de mosquelaria adianta- 
rao a resposta a embaxada , firmando a resolucao 
com OS testemunhos do desprezo, para que enten- 
desse o inimigo que tinha muito que veneer a onde 
esperava a prevencao e o valor. 

VIII. Indignado o Flamengo com semelhante 
acolhimentOy que reputou provocacao de sua co- 
lera, mandou Safer a tudo que podia alcancarsua 
artelharia com tanta obstinacab e furia , que em 
sette boras de combate metteo dentro do Arrecife 
duas mil balas. Nao faliarao os nossos a devida cor- 
respondencia^ e com Cao diloso effeito, que sentio 



GASTRIOTO LUSITANO. 29 

o inimigo a puntualidade do retorno, arriscado a 

chorar maior a perda, com o perigo em que vio 

uma de suas fragatas , a qual no maior fervor de 

suabaleria tocou nos arrecifes, tao perdida, que 

para a salvar se empenhou a industria, a forca e a 

diligencia. — A' escura noite, que adiantou a fuma- 

ca doconflicto, succedeo a do tempo; fez-seo inimigo 

na voha do mar, e livres os nossos tiverao occasiao 

par(> advertir o pouco damno que havia causado a 

bateria. Na povoa9ao do Arrecife nenhum outro 

fizerao as balas mais que passar as paredes dos edi- 

ficios, sem prejuizo dos soldados. Na fortaleza do 

mar ficArao quatro mortos e sette feridos, havendo- 

se nelle o Tenente Pedro Barboza com muito valor e 

acordo. Confuso se achou o Hollandez, mostrando- 

Ihe a experiencia o erro da opiniao : persuadia-lhe 

a presumpcao que sua armada primeiro havia de 

veneer com o temor que com a forca ; sem razao 

discurria; com muita descursava, se fazia funda- 

mento em promessas alheias (aflirma-se que se uns 

o rebatiao , outros o chamavao )• Abaleo as velas da 

armada e da soberba , e em arvore secca esperou a 

fortuna do Wandemburg no assalfo fortivo que ia 

executar na paragpm do P^o Amarello , de cujo 

successo esperava toda a melhoria de sua sorte. — 

Navegavaentretan to Wandemburg cum asdezeseis 

n^os^ levando nellas mais infantaria da que temos 

dito ; chegou no mesmo dia , a tao boas boras, ao 

Pao Amarello, que favorecido da occasiao e do 

tempo poz em terra gente , muuicoes , aililharia, 

e mantimentos sem contradiccao que o impedisse, 

ou detivesse ; formou-se em quatro batalboes , e 



so CAMMMO tWrtAXO* 

« 

gtiarneceo-se com sufficienlf^s trincheiras* pti^ 
meiro esquadrao constava de algutnas tnangas At 
escolhidos mosqueteiroa, que na ranguarda sefvia^ 
sem de descobrir j e assegttrar o campo das embos- 
cadas que temia por junto da praia. segundo se 
formava de 934 soldados , que governava Estienca- 
lui, ou Estiencol, tenente corond. terceiro 
governava o coronel Stens Calolt , ou como outros 
dezim , Elestz^ com 1 040 soldados. quarto cons^ 
lava de 965 infantes ^s ordens do coronel JuleO 
Henechio , tenente do sargento maior. Compunha-* 
se este todo de trintae scis bmdeiras ; lerava quatro 
pecas de campanha ; e nesta fdrma passou o iminigo 
toda a noite com as armas na mao, presumindo que 
nosso descuido era ardiloso cuidado : discurso mui 
de homem e de soldado. 

IX. Com algumas horas d'escuro se dirulgou 
na povoacao de Olinda que o inimigo tinha ddtado 
em terra , no Pio Amarello , muita gente , com 
a qual vinha marchando para a villa. A distancia 
era de tres para quatro legoas ; a nova f6ra de toda 
a suspeita ; o tempo coberlo de sombras ; causas 
para se augmentar a confusao , que nasceo do re- 
bate. — A todos tirou o sobresalto da memoria a 
defensa ; a muitos facilitou a vontade da fugida ; e 
a muito poucos deixou acordo para a resistencia. 
molherio, dando credito As persuasoes de fragi- 
lidade , desprezava as da razao. As lagrimas , e 
gritos publicavao a dor das feridas , antes de verem 
as espadas ; pintando-lhes o medo primeiro o es- 
trago que o conflicto; obrigando com a lastima 
BOS maridos, irmaos e parentes a faharem aos 



€A0nf On> tKHf M9, 11 

briosde hontk pof tilia destnetitlretti o» impttlflot do 
sangue. A pressa ^m todo» era tanta^ que se tro** 
pMsaVa nas mesmaa^ diligenciad ; o de9a<H>tdo ta-* 
manho, qu6 de qualquer tnovimetito fa^ia batalha, 
de qualqu^ vista fortnava cotitrarios. Com esta 
conftisao sairao muitas fattiiliaa da villa para 6 
mato , etisinandolhes o atnor da tida a desprezar 
o mais preeioso da fazenda. Os esc^ravos servirao 
Dcstaoccaaiao de serem senhores de setis setihores* 
moatrando bem que os titiha feito aervos a violencia, 
e nao a ebrigacao ; faltando ao servico , quaudo oft 
chamava a liberdade. Todos caminharao , nenhiim 
sabia para onde ^ netn para que ; todos fabricava6 
em sua propria diligencia aua perdicao , uns na re- 
tirada, outros no roubo. Mathias d'Albuquerque j 
a quern nesta coufusao descouhecia a obediencia , 
TidHse deatituido de pod^r para aair ao encoutro do 
itiimigo ; acouipanhava-o a honra d'alguoa valeutes 
e anitnosos moradores ^ ma$ para a presente occa^ 
siao faziao tao pouco numero y que tiravao a con->- 
fiaoca i temeridade^ quauto tnaia ao atrerimento. 

X. No dia seguinte 4 6 de Fevereiro se posriiio 
em marcba^ lerando o coronel Wandemburg a ran- 
guarda de sem esquadroea , cujo caitro formava o 
trem de sua artilharia^ dilatandoa circumferencia 
^ii as praias do mar^ pelo qual Ihe faziao compa*- 
nhia todas suas lanchas^ varejando al^ ondecursavad 
as balas. Nao deixou de ser perseguido o Hollandez 
por algumas mangas nossas que formavao animosos 
mauGebos ehamados do primeiro rebate, causando- 
Ihe mo menos receioque eslrago,porque cobertos dos 
matos erao tao certos seua Itros como desconhecido 



S2 CAfiTMOro UJftlTANa 

S6U numero. Chegou ao rio Doce, cuja pasfiagem 
achou empedida com trincheiras, e presidios de 
gente da ordenanca , que governavao os capilaes 
Francisco Tavares, e Martim Ferreira, mais para 
temer pelo vulto que pela disciplina. A falta d'e»ta 
coDheceo o inimigo pelo mal cerrado das cargas ; e 
nao temendo aos que sem ordem Ihe haviao de re- 
sistir, commetteo a passagem com todo o poder, 
avancando as trincheiras , que os nossos desampa- 
rdrao com aquella desordem, que faz parecer a re<- 
tirada fugida ; sendo tao poucos os que leve coos- 
tantes o valor que poddrao servir para mostrar a dif- 
ferenca , por^m nao para sustentar a opposicao ; o 
que (izerao por algum tempo com damno de mor* 
tos e feridos de uma e outra parte. — Ouvindo os 
ultimos golpes do conflicto chegou a a vistar aquelle 
sitio Mathias d' Albuquerque acompanhado de gente 
de p^ e de cavaUo com um li*oco que, cootado pelo 
numero , era de 760 homens , mas pela discipliua 
constava demui poucos soldados, e.todos animosos, 
por^m sem exercicio da milicia. Vio o governador 
OS defensores da passagem depois de desbaratados , 
descompostoSySem arte que os composesse (primeiro 
vencidos da propHa impericia que da alheia forca), 
trabalhou por os recoUier ao seu esquadrao , em 
que conheceo a mesma falta ; escusou-se ao encontro 
com a certeza de perder a batalha , e se foi retirando 
com o intento de esperar o Flamengo na passagem 
do rio Tapado^ que hay ia vadear com agua pela 
cinta, mas a poucos passos, achando-se desamparado 
do maior numero da companhia, e s6 assistido dos 
capitaes eofficiaes com poucos soldados, yio-seobri<- 



GASTRIOTO iiUSITAllO. S3 

gadoa obedecer a necessidade retirando^e para a 
yilla. 

XI. Favoreeido de nossas omissoes proseguio o 
inioiigo sua marcha serviado4be de gnia, na reti* 
rada, os que nao serrirao A defensa. Corria com os 
pa6908 de sua fortuna, e para voar Ihe deo azas 
Bossa desgraca , porque um homem nosso se Ihe of- 
fereceo para os guiar para a Tilia por oaminho mais 
seguro e de menos rodeio. (Por infamar os mora- 
dores escrevem alguns que foi um d'elles , por6m a 
ififormacao da verdade diz que foi um mulato de 
pouca sorte. ) Avistou o inimigo a povoacao^ e divi- 
dido o poder em trocos^^avancou por differentes 
partes ; nas quaes , se achava homens , nao achava 
inimigos. Com o grosso do poder subio a apoderap- 
se do alio da villa, achando em o collegio da Com- 
panhia alojamento, sem encontro. A um tropel^ qu6 
guiou por detraz da ccrea de Sao Francisco, deteve 
o caphao Salvador d'Azevedo com vinte dous solda- 
dos , que favorecidos do sitio sairao de cara a cara 
a rebater o Hollandez, mostrando seu valor a todos, 
o que todos deviao fazer. Era o passo estreito , o 
animo dos nossos destemido , razao por que o en- 
contro foi porfiado ; e nao forao os nossos vencidos 
se a virtude se nao vira opprimida da multidao, 
quei custa de muitos officiaes e soldados franqueou 
a marcha ) com deixar a todos os nossos ou mortos 
ou feridos. *— Chegoii o Flamengo & igreja de Jesus, 
onde muitos dos nossos se tinhao fortificado , e ar«* 
rebatado de diabolioo furor contra o sagrado deitou 
por terra as portas do templo, ferindo sem pie- 
dade os que nolle se acoiherao. Um grande tropel 
h s 



enve^^a o reduto que fieara & entrada da Villa com 
tumulto e ousadia; mas nelle ach^rao profiada 
vesistencia da parte dos defeDSores, que ecm castas 
d'artilharia e mosquetaria detiv^rao algum tempo* 
a eorrente do. orgulho contrario , e talveai oa terlao 
rebatido se nao fosse a traiqao de dons Flamengos^ 
que estavao ^citre os nossos » chamado um Adriaa 
FranoD^ outro Goroelio Joao^ os qoaea temendo oa 
effeitos de nosaa rescducao > com traidoras iolelli^ 
genciaa derao entrada aos seua , e ae deix^rao ficar 
com elles no reduto ; do qual sairab rendidos oa 
H06SOS. Pelo tempo adiante pagarao os doua Fla** 
mengos esta trai^o com outra, que no Arredfe os 
leTQu ao aupplicio por servirem d'espiaa dobles^ 
infieis a proprios e a estranhos. 

XIL Apoderado o inimigo da villa e de suaafwti* 
ficacdes ( um sabbado pela tarde, 1 6 de Fevereiro 
de 1630) oontinuou Mathias d' Albuquerque em 
obrar opossivel^ com trabalho inutii. Como por 
destino o levayao as retiradas a guiar o inimigo para 
as inyestidas. Nao ha erro que se nao enoad^ eom 
outro erro. nao ter comsigo gente com que de*- 
iender a villa o tirou para o Arrecife : era de menoa 
ambito a povoacao, e bastava->-lhe menos gente 
para a defender ; pordm na retirada desamparou-o 
tanta , que se vio com menos do que era neoessario 
para guarnecer sufBcientemente a pali^ada* Quiz re<^ 
mediar com a industria a falta do poder, e mandou 
aos oapitaes Joao Paes Barboza^ Martim Ferreira , 
Francisco Tavares, que com a gente que tinhao cor^ 
tas^m com uma trincheira o caminho da vHla 
para o Arrecife , a onde as avancadas do inimigpd 



quebrasi^m a primeira furia , e detivessem a cor- 
rente de taata victori?i ; pr^vencao que o HoUand^% 
deixou fru$tada , gyiado d'outra vereda , que Ihe 
deixou livre a envestida e aoa uossos franca a reti- 
rada , em que j4 obedeciao ao custume ( uao sei sq 
permittido de mais que bumana providencia), 
restante d'aquelle infausto dia gastou o Flaiuengo 
exa eittorcoe«, violeucias e roubos, atropellando 
com a tyrannia as lei^ da humanidade. — Nao pode 
o valor e soffrimento de Andr^ Pereira Temudo 
com as exorbitantes demazias do sacrilego hereje, 
e levado d'um catholico zelo envestio, junto 4 igrej^ 
da Misericordia , com uma tropa de Flamengos, 
abriodo com a espada caminho para a morte e par^ 
a vingansa > & cysta de sua vida , e da de muitos 
contra rios. 

XIIL Referir a calamitosa tribulacao dos afflic- 
tos moradores fora mais representar uma tragedia, 
que escrever uma historia ; basta dizer que o vic- 
torioso era HoUandez, bcreje sobre inimigo, e cqs- 
sario sobre hereje, P^rft augmentar o estrago se 
valeo a fujia de proprios « coutrario^, Os facino- 
ro6os que a justica depositava nos carceres, rom- 
pidas as prisoes , sairao com impetuosa corrente a 
continuar os deliptos, roubando seui medo, ferindo 
sem causa , matando sem colera ; pagando a inno- 
cencia a prisao, de que fez injuria a malicia. A 
mesma diligencia, com que os tristes moradores bns- 
cavao o remedio, os levava i ruina. As mulheres 
de todo o estado , e as crianca^ de um e outro sexo, 
que anticipadamente fortavao o corpo & violencia ^ 
SI padec^ao mepps soflrivel, porque iji^fti^ inwp- 



36 GASTRIOTO tUSITArfO. 

9 

portavel se fazia executada pelos proprios que pelos 
contraries, despojando-as do que pod^rao salvar de 
seus moveis para o servico de seu adomo ou de sua 
necessidade. Forao estes aquelles , aos quaes nem a 
honra obrigou a defensa, nem a humanidade a com* 
paixao. Pelo excesso os distinguia dos herejes o es- 
candalo ; porque com maior insolencia nao sabiao 
fazer differenca de pessoa a pessoa, de lugaralugar, 
de edificio a edificio. Vio-se a fatalidade daperdicao 
em se intentar a reserva por meio do estrago. — 
Ao mesmo tempo que o furor dos inimigos 
consummia e abrazava na villa honras, vidas e 
fazendas , ardiao no mar e no Arrecife trinta na- 
vios , e todos os armazens , a que Mathias d'Albu- 
querque mandou por fogo ; e nelle , al^m d'outras 
muitas drogas, arderao mais de duas mil caixas 
d'assucar, em que as chamas consumirao a posse 
e a esperanca da riqueza e da cobica. Espectaculo 
que OS estrangeiros viao com espanto, os naturaes 
com lastima. Fez o successo parecer profecia o que 
antes ha via sido comminacao evangelica. 

XIV. Vendo o HoUandez que os nossos abando- 
navao as chamas aquilio que nao podiao guardar 
nem defender, licenciou aos soldados o Arrecife e a 
villa, condemnando todas as casas dos moradores ao 
saco.Engolfou-se o roubo no permiltido eno vedado, 
igualando a cobica a hostilidade e o estrago , sem 
perdoar aos mesmos edilicios. Entre as logeas (que 
achou com muito recheio de fazendas, e nellas tudo 
o que podia servir ao decoro e a vaidade) havia al- 
gumas hem providas de tudo quanto a natureza e a 
arte podem ofFerecer a gula; nestas se engolfou a in- 



GASTUOOrO LUSITAKO. 37 

fame dos Flamengos , satisfazendo a sede e ao cus- 
tume com preciosos vinhos , e com tanto excesso , 
que privados do juizo e dos sentidos, ou o somno 
OS deixava insensiveis^ ou a carga os fazia immoveis. 
Os escravos, vendo derrotados tao vilmente aos que 
respeitayao victoriosos, como senhores do campo se 
fizerao arbitros da presa , roubando aos cossarios o 
mais precioso dos despojos. Alguns houve, a quern 
o roubo nao fez esquecer a fidelidade , que forao 
dar conta a Mathias d'Albuquerque , afirmando- 
Ihe que, se queria aproveitar-se da opportunidade 
pa$saria o inimigo a espada, certo de que no pre- 
sente estado nao ia a buscar homens , senao odres. 
OfTereceo-se um paizano, com alguns companheiros, 
p^ira assalto ; mas desprezou-se a oflcrta , porque 
a calumniou de infiel a suspeita. — Findo o saco 
attendeo o Flamengo a fortificacao da villa e do Ar- 
recife; nao porque temesse o assalto dos nossos, 
senao por ter sojeitos e disciplinados os sens. 

XV. Davao cuidado ao inimigo as forcas que de- 
fendiao a barra (erao duas^ a do mar e a da terra) : 
queria franquear o por to a armada que estava no mar, 
e reduzir a communicacao dos sens a menor distau- 
cia. Preparou-«e para ganhar por entrepreza a forca 
da terra ) prevenindo todos os petrechos necessarios 
para o assalto, e todas as cautellas para o segredo. 
capitao Antonio de Lima , govemador da forca, 
nao perdia tempo em se fortificar e guamecer de 
tudo o que era necessario para a defensa ; mas nao 
era em todos os sens igual o valor e a constancia : 
pois abandonarao todos , menos sete soldados tao 
destimidos , que desprezdrao o exemplo dos com- 



S6 CiHttiOto MMtAM. 

paiihf4rOs pot imitdt* a ralentil do capitao. Dto 
parte a Mathiad d' Albuquerque do que depassava, 
em occasfio qtie estava presente Joao Fernaodes 
Vieira , varao a queni o valor e a fortuna ficerao a 
todas ad luzes grande, cujo animo esperava occa- 
aioes para se adianlar ao numero dos annos : achou 
liesta o que desejaya , e sem dilacao se offereceo a 
morrer em defensa da forea (como outro Marco 
Curcio em beneficio da patria ) ; gentileza que imi- 
tdrao atS Tiate moradores, ou persuadidos da emu*- 
lacao, ou obrigadod do exemplo. Agradeceo Ma- 
thias d' Albuquerque o servico , e Antonio de Lima 
o obzequiOy conhecendo que, guarnecida a fortalef a 
de animos tao valerosos , acharia o inimigo nella 
mais causa para o desvio que para o assalto. Do r^f 
lor mais conhecido fiou o capitao o posto mais ar»- 
riscado : encommendou a Joao Fernandes Vieira 
que no mais perigoso estivesse de sentinella ; o que 
fez sem interpolacao tres dias e tres noites conti- 
nuos, serrindo-se sen animo do desvelo como o po- 
d^ra fazer do descanco. — Passados cinco dias em 
descanco , dispoz-se o inimigo a atacar a fortaleza, 
em que se achava Joao Fernandes Vieini ; no malij 
escuro da noite salo da vilia com dezeseis escadas, 
e um numeroso iro^o de combatentes eseoHiidos ; 
e a passo Iwito ehegou a subir pelas escadas , pri*- 
meiro que fosse dentido das sentinellas, que nio ti^ 
Verao mais lugar que de acordar os cempanheiws 
com OS golpes , com que rebatfirao os inimigos , 
deitando das muralhas furiosamente os que as 
tinhao avancado ; e a todos o& que ousados os s€- 
guiao opprimirao com golpeS; pedras © traws^ qnt 



6obre dies lancavao, com tal desCro^o que do$ mech 
WM pedaQQS das escadas fez o estrago instrument 
tos para a ruina. Fara a minorar (com divertir e 
oS&od&r 08 cercados) Ibe deitou o Hollaadez deniro 
da- fortaJeza sucoeasivafi nuyeos de graaadaa , . e ' 
aloanzias de fogo ; porem achou nelles tanto acordo 
eate didiolko artificio , que apenas dava na fcnrta* 
leza o golpe^ quando a vigilancia doa nossos o con-* 
dUzia peloa ares a executar o incendio entre os ini- 
wgos. — Crecia o damno , sem cessar o combate : 
a re6ii$te]|(aa accendia o furor deuns ; a. porfia au^ 
ju^itava o valor de oulros , al^ que o inimigo oor^ 
tado y ta&to da perda oomo do desengano^ &e redrou 
do confltcto ddixando 1 50 mortos , e muito maior 
numero de feridos , entre quantidaded'armas e mu» 
Biooes ; que aos noasos serrirao para o despojo , e 
para o tri^mphd cma que solemnizarao a victoria j 
a qaal nao p6de diminuir a perda de quatro mortos 
e seis feridos; tao mereoedores de eternos elogioa 
qott OS engrandecia a inveja, aetn dar lugar a que 
06 chorasae a dor. 

XVI. Desenganado o HoUandez que nao podia 
por «atrcpreia tomar a fortaleza , a qual tinhao 
oorrido novoa ooBsbatente^ com a nolida da victo^ 
ria alcamcada, dispoz-se a atadil-^em fdrma reguhtr, 
bUficandp modo com que podesse ofieuder sem ser 
offieudido^ Man^u diante 660 gasladores^ que 
abriasraipela areta uma estrada eneoberta e tor^ 
cida , eorlando a po»la da restinga^ que divide a 
terra do mar^ pek <fual deo^mbocasde a por sitio a 
fbrtaleaa, • que logo c^dirao de cava e trincheiras 
CMa|Hi»pofoionadas plataformas> em que asseiitarao 



M) CASniOTO LtSSITiJfO. 

muitas pecas de bater, e entre elks um grosso car 
nhao que comecou a desmantellar a forlaleza com a 
furia e braveza que alimenta o odio e a yinganca. 
Era o edificio, alem de limitado, fabrica sem arte 
( consummido do tempo e do descuido), levantado 
para iniimidar a singeleza, e nao para resislir a pro* 
fia ajustada da arte ; mas por isso mesmo i mats glo- 
riosa a defmtsa que os nos8os nelle fizerao. 

XYII. Demantellados os muros, descayalgadas 
as pe^as, mais era um monte de ruiaas que obra 
de f ortificacao aquella fortaleza j em que Joao Fer*^ 
naiides Vkira levantava o primdro padrao a sua 
gloria. Animados por elle, offeadiao e.sedefendiao 
OS cercados, em quanto houve paredes, que sustent^ 
tassem o impeto dos assaltados. For fim pelejavao 
j^ OS nossos a peito descuberto , armsados os de^ 
fensivos da forca^ abertos os muros, eaidos os.re- 
paros. Nao ousava com tudo o inimigo dar o ultimo 
assalto f temendo que dos mesmos fragmentos fa- 
bricasse a fortuna para os seus sepulcro y e para os 
nossos tbeatro ; e assim determinava veneer sem 
iuveslir.-— Ja a este tempo se via o valor dos Portu- 
guezes rendido ao trabalho e ao destro^o ; inteiros 
no aiiimo ^ porem destitu'idos das forcas* Sabiao que 
o soccorro era impossivel , a resistencia inutil , o 
risco irrefragavel,osucce&socontinge0te»e tomando 
melhor acordo enArarao em conseUio^ conferiodo 
entre si quanto melhor acerto seria livrar as vidas 
de uma morte iautil, para as aproveitar ^En,uma 
occasiao ditosa que enU*egaI-*a6 a espada inimiga 
com gloria sem fructo : resolverao-se na entrega^ 
couiuUaindo enlre si os partidosi Um eatraogeiro^ 



oAsmoTo fitsiTAna bf 

que era condesUTel da artilhana , percebendo esta 
resolncao adiantou«^$e a levantar a Imndeira branca> 
fazendo com ella cbamada para a entrega. Acodio 
o inimigo alrorocada^ pass^ra<v-se refens de parte 
a parte , saio da fortaleza o capitao Gil Correa de 
Castello Branco a ajustar as condicoes da entrega > 
qme se concedftrao como da nossa parte se pedirao. 
Com armas e moveis, trazendo corda accesa, e 
bala em boca , sairao os Portuguezes, e com liber- 
dade para disporem como quizessem de suas pes^ 
soas.-^Digna de gloriosa memoria (eomoaccao 
p(ropria de Joao Feroandes V ieira ) foi uma gene- 
rosa advertencia, quenesta occasiao teve. Naoselem^ 
brarao os rendidos da reputacaoque perdiao nossas 
armas , deixando as bandeiras d'El Rei e insignias 
dos cabos da milicia expostas ao desprezo inimigo; 
por^m aquelle coracao / animado sempre de gene- 
rosos espiritos , menos ambicioso da vida que da 
bonra , teye cuidado de mandar a um moco sen 
que recolhesse a prata da gineta e enrolasse em si 
a bandeira do capitao Afonso d' Albuquerque, que 
era um dos rendidos, e cingindo comsigo mesmo 
outra, as salvou ambas do oprobrio. Lembran^a 
yerdadeiramente toda do valor ^ e nada da com*^ 
modidade , devendo a sua memoria o servico que 
fazia, e nao orisco a que se expunha. Gloria foi de 
Lueitio ser nesta gentiieza o primeiro ; pop^m maia 
86 deve gloriar de ser neUa Joao Ferni^des Y ieira 
o segundo. . 

XYIII. Queria o Hdlandez que os nossos juras- 
86m de nao tomar armas contra os Estados por tempo 
de adia mazes ; por^ como iera- contra o pactuado 



68 GiaXUMXCO MftBEAAia 

nt capituk^iio recasavio-se firmeamitei |ireierkkk> 
antes peOfOso carcere, a que os condenmou a perfidia 
mimiga^ que liberdade afroutosa. Apelloua paokn- 
cia para os beneficiM do tenipo, e depots de paasa*- 
dos alguns dias alcau^ou o que nao pode coaseguir 
a razao. Nestas diiigencias e outras meoos decorosas 
gasiou o inimigo todo o mez de Fevereiro» Eatrou 
o primearo de Manjo^ e «o segundo dia fez wnfaaixada 
a nossa forielezado mar que se aitregasae^ eihe dfr- 
rja bom quarteli po^que «e esperasse ia que a ren^ 
desse por armas, sem djatinc^ao de pessoa os hana 
de passar todos a e$pada. cupitao Blanod. PadMsoo^ 
que governava a forca, cousuUou com os setts.soi*- 
dados a respo6ta ; e saio deoretado que se eatregaaae, 
pois ^ viao falios de meios para a defeuder, e seoa 
^speranca de socoorro^ para que i presefite ue^ 
oessidade podesse apdlar. — Oppw-ae 4 resdueao 
teoente Pedro Barbosa oom differ^iie pareow, 
dkeudo que Mathias d'Albuquerque Ibes £&ra 
aquella fortalesa para a defenderemoocao auioaosos, 
e nao para a eatregarem como cobardes ; que em 
o fazerem primeiro iucorriao a iufaDiia de desleaes 
que de medrosos $ que (altava a essenoia de vara® 
e de vassal lo, quepi ^^itnegaTa ao ameago o qme 
-devia deS&oder a golpes ; que a honra das homeus 
lirioBos era resulta do soffirimeolo, e nao da daKS^ 
peraoiio* « Que dira de n^s o HioUandtt, dizia eUe, 
H vendo que nos veuce com palavras^ seuao que mis 
» entrega o medo e nao a necessidade ? £sla; tfQata«> 
3 lezk nao mudou ^ s^ depots que bos abrigainos 
I) a ^ustentaWa ; pois logo com que apparenoia de 
'» 4esculpa a havemtos de entregar sem 'Mwhirtff ao 



QOTHOTO MKIAIO. ftS 

» laimigD ? Queni vio a valerosa resistaftok com <iue 
» a noBsoB olfaos se defendoo a forialeza da terra , 
» que ha de dizer ^ senao que pode mats conmosoo 
n a cobardia que o ejLemplo ? Esperemos o sitio ; 
» prOTemos a& forcas com o inimigo, e quando nos 
M dhe de rev^s a fortuna » lugar uos fica para pac- 
N tuar a intrega, sendo c^to que milboreB parCi*- 
*} doB havemos de tirar oom a espada nua que com 
9 dki embalnhada. » Eaie parecer foi ouvido , oom 
maiBtumultoqueattenGao; Yta«Be perplexo o capiuio, 
e lan^ou mao d!um meio que podia escusal-o da des- 
iionrli 1 repoodeo ao enviado^ que Be Ihe eoncedeB^ 
mm trcft dias para eouBultar tielles ao aeu geneinal 
Mathias d' Albuquerque^ ou para que o aoccorreSBey 
ou para que se lotregMse passado eBte t^mo. Golheo 
e idimigo , pela modeBtia da resposta | as disposi- 
9WB doB «iinos ; e certo de que Bern d^sembamhsr 
a eBpada haria de ganhar a fortaleea ^ tornou logo 
a enviar o menBageiro com seguado recado, que uiio 
coneedia trea dias^ nem irea bora a para a delibera^ao ; 
que se logo kgo se Iha nio fiKeaae a entrega , os 
QcmdemBata a todoa oa eiceaaoa da ira. Nao espe*- 
rou mais Manoel Pacheco para ae entregar^ porque 
seu desejo nao esperava mais para o fazer ; e assim 
deixou nas maos do inimigo a fortaleza municiada 
e inteira , de sorte que se podia presumir entrara 
nella para Ib'a guardar, e nao para Ib'a defender. 
XIX. C!om o mesmo cabedal, e com a mesma 
fortuna se fez o Flamengo senhor do Arrecife, sem 
inimigo que temesse, nem temendo que o assaltasse. 
Mathias d' Albuquerque com alguns poucos que 
o seguiao se bavia retirado aos mates , buscando 



hit GASTBIOTO LU8ITAN0. 

nelles amparo para a defensa j e iiao auxilio para 
a opposicao. Celebrou o inimigo o gosto da vic- 
toria com repetir os motivos do escandalo^ eotre- 
gando^e mais licenciosamenle aos sacrilegios , aos 
roubos e as violencias com tao publico ludibrio 
da nacao ^ e da religiao, que saiao dos templos ves- 
tidos nos pararaentos sagrados, e na8 becas das 
confrarias, representando sua alegria com nossa in- 
juria ; e assim corriao as ruas j e entravao nas casas 
destinadas para tribunaes de justica e do govemo^ 
e com desprezo e farsa insultavao o sagrado e o pro- 
fiano. Tinhao-se recolhido para o porio todoa as 
nios da armada , lodos os marinheiros tinhao sal- 
tado em terra, e tauto crec^rao os inimigos em nu* 
mero quanto crecerao os insultos no excesso ; e para 
que em nenhuma parte fosse diflerente nossa for- 
tuna ordenarao que uma esquadra de suas fragalas 
corresse os mares d'aquella costa, para que Ihe cais- 
sem nas maos todos os navios de Portugal^ queigno^ 
rantes do successo buscassem os portos d'aquelle 
Estado.Nao forao poucos os que^ entre a segurani^ 
e a noticia , experiment^rao uma mesma sorte em 
tao diversos elementos. 



UVRO UI. 



SUMNARIO. 



1. Chama Hathias d' Albuquerque os moradores a conselho; reiolncao 
que uelle se toma. ^ 2. Edificao os dobbos uma fortaleza. -* 
3. iDtenta o inimigo ganh^l-a j foge desbaratado ; valerosa oa- 
sadia de Manoel Dia« da Franca. — 4. Joao Fernandes Vicira ca- 
pita© d'assegurar o eampo. — 5. Fortifica-nc o inimigo em lodaa 
as parte! ; d& principio a uma trincheira, em que 6 atacado pelos 
nossog; o general hollandez foge a unhas de cavallo. — 6. Dispo- 
sicao com que cercamos o inimigo ao largo. — 7. Valerosa resolu- 
Caodos nossos.— -8. Assalta-se a povoacao de Sao Antonio : com que 
suceesso. — 9. Ganbou o Hollandez o perdido; acautella-se para 
future. —10. Sai com todo poder a ganbar uma triocbeira ; de- 
feode-a o capitao Luiz Barbalbo.— 11. Intenta o Flamengo matar- 
oos a gente : o que Ibe suceede, — 12. Sai o inimigo contra a 
estancia do rio Doce : o que Ibe succede. — 13. Intenta ganbar 
uma trincbeira, donde se retira castigado ; acbou em outras em- 
prezas a mesma sorte. — 14. Gbegao a Lisboa e a Madrid as novas 
da entrepr«za de Pernambuco ; trata-se a restauracao ; uuroero e 
qualidade do soccorro que semandou.-~ltf. Sai o inimigo a matar 
afome : o que Ibe succede. — 16. Levanta o inimigo uma trin- 
cbeira no sitio que cbamao a Seca , que os nossos pretendem im- 
pedir inutilmente. — 17. Prepara-se o inimigo para invadir a ilha 
de Itamaraca : o que Ibe succede.— 18. Fortificao os nossos a villa 
de Iguarac^. — 19. Resolve-se o inimigo a largar a vilia ; em- 
baiiada que maoda aos nossos v sua resposta.— 20. Manda p^r Togo 
^ vilia, e que Ibe succede.— 21. Batalba naval entre Hollandezes 
e Uespanboes ; ac^o memoravel do capitao Cosme de Couto ; 
perda da capitanea bollandeza » e morte de seu general ; victoria 
da armada bespanbola. — 22. Dom Antonio de Oquendo delta 
soccorro no rio Grande ; causa da desuniao entre os nossos ; della 
se aproTeita.o inimigo para nos destruir ; a traicao d'um Mameluco 
fez exemploa multos. — 23. Intenta Sigismundo ganbar a fortaleza 
da ParaUba ; em que acba dura resistencia. — 24. Assalia o ini- 
migo a estancia dos Portuguezes ; com que successo. — 2K. Espera 
acbar meibor sorie na fortaleza de Nazaretb ; retira-se destro^ado 
casualmente.— 26. Persuadido de traidores assalta e assola a villa 
de Iguara^ti; 6 assaltado na retirada pelos moradores, que cobrao 
parte do roubo. — 27. conde de Banbollo intenta ganbar a 
fortaleza de Orange ^ com leve acordo. — 28. Ganbou o inimigo 
per assalto a nossa estancia dos Afogados ; depois a de Nuno de 



^5 GASTRIOTO tUSTTANO. 

Mcllo ; e com perda de gente e de repuUcao nossa a do Mendonca. 
— 29. Detcrmina tomar f af aaallo a aossa forUleza do Arraial ; 
rctira-se desordcnado , e com perda ; valor de Jao Fernandc« Vicira. 
30. HoUandez assalta e assola diversas povoacoes e engenho« ; 
ganha a ilha de Itamaraca. — 31. Empenha-se em ganhar a nossa 
fortaleia do Arraial ; os nossos Ihe cortao o passo ; o que faz Ma- 
thias d* Albuquerque. — 82. Manda o general hoUandez saqucar a 
fregueziadeSao Amaro ; como nossos capitaes os cortao edesbaratfio. 
33. Chega soccorro do reino, que o inlmlgo destroe. — 84. Smo 
inlmigo com poder sobre a fortaleza do rio Grande, que se Ihe 
entrega por iraicao. — 35. Intenlou o HoUandez a conquisla do 
pontal de Nazareth ; entra no porto com perda de duas fragatas ; 
OS nossos entregao ao fbgo os navios que nelle tlnhfto ; o que 
obrao em damno do inimlgo ; perdc-se a victoria por desgraca. — 
86. Imagina levar per entrcpreia a nossa fortaleza do Arr«ial; 
gao OS nossos advertidos; retira-se com Industria.-OT. Manda 
Mathias d* Albuquerque investir o reduto do Pontal : como Ihe 
succede.— 38. Arraza o inimigo a poToagao de CunhaA — 89. Chfr- 
gou aos nossos um soccorro da Bahia. — 40. Salo o Fknengo a 
roubar a campanha ; « desbaratado pelos nossos ; a mesma lorte 
teveno porto do Calvo. — 41. Sal de Hollanda uma grossa armada, 
que se dirige sobre a Paralba ; entrega-se a toruleza e o fwrle de 
Sao Antonio. — 42. Mathias d* Albuquerque manda soecorro A Pa- 
ralba j que aM succede. — 43. Roubao inimigo os contornos da 
cidade; marcha Sigismundo a ganhar a campanha; Mathias d*Al- 
})uquerque Ihe manda cortar o passo j o que succede aoRebelitnho 
nesta expedicao. — 44. Apresta-se Sigismundo para continuar a 
conquista ; os nossos se preparao para a resistencia. — 45. Manda 
o inimigo reconhecer a fortaleza do Arraial; assalla, e ganha a 
Moribeca ; extorsoes que executa. — 46. Luiz Barbalho e Dom 
Pernando buscao o inimigo ; com o qual pelejao e petdem a yictoria; 
o que succede Aquelle. — 47. Largao os nossos ao iuiraigo a po- 
voa^ao de Sao Lourenco ; calamidades com que a todos Igualou a 
gQfte. — 48. Luiz Barbalho assalta o inimigo com bom suecesso j 
retira-se Mathias d'Albuquerque para Sirinhaem. — 48. Sal o ini- 
migo a sitlar a fortaleza do Arraial; prepara-se o governad^r para 
a defensa ; 4oao Femandes Vleira capltao dot aventureiroe. — 
50. De que modo dispoe o cerco o HoUandez ; dao os sitiados va- 
ries assaltosj profia o inimigo no cerco, e os nossos na defensa. 
Ul. Entrega-se a fortaleza a partido; vil perfidia do inimigo; 
Joao Femandes Vieira se resgata e a dous criados sous. 

I. Gwhada pelq HoUa«de?i a yUte cje Olinda e a 



Ii0¥W^ ^ Arredfe^ eabe^aa daquelle diitrieto ^ 
com todas sUas fartificacoes , logo ae vio declinar o 
corpo de toda a capitania. Mathias d' Albuquerque 
aobava^^eretirado, eassistido dos moradorot ^ acomr 
panbando-o na fuga quern o deseiupar^a ua reais- 
tencia. A calamidade, que Ihes fazia conhecer o crro, 
Ihes fa^ia desejar a emenda, Vendo eataa boas dis- 
posicoea, e satisfaiendo ^s iniportund9des com que 
sua gente o persuadia a tomar aa annas , chauiou 
Mathias d'Albuquerque a eonselho , e propondo a 
todos o quauto conviuba descobrir a cara aoinimigOy 
cQusta que Ihes fallara ua forma seguiute : « 
n HoUandeii nao se empenhou uo exce$aiyo gaato 
M d'eata armada pela reputacao> d6 suaa armas* 
n seuao pelo iuteresse de uossaa drogas. Esta na9ao 
j» como tern mostrado a experieacia, em tauto eicer- 
» cita a milicia em quanto Ihe abre caminho para 
ft a amhi^ao ; disfar^ao o habitp com o de goldadoa; 
» uem se arriacao pela vicloria, seqao pela rique%a« 
» Ajudada sua for^a de nossa desgraca se fea aeuhor 
a de uossas casas e faiieudas ; ae viera a saquear, 
I) couseguido o roubo largira a terra. Fortifioa-se 
» nella ; quern duvida que 6 com designio de no^ 
» dea&utar oa campoa ? Se achar oppoai^ao mudard 
h de iutento ; pois 6 certo que para Ihe colber oa 
» fruetos, oa ha de cultivar ou noasa sujeioao, ou 
i) sua industrial e para o nao conseguir, basta 
» que o nao favore^a uem o sofFrimento nem fi 
» omissao ; o que fio de animoa que sabem estiiuar 
» a honra, e sentir a perda. Dous meioa nos podem 
» oonduzir a este fim ; ou o da conquista casti-- 
• gando ainjurifi, ou a da defiHisa nao permittindo 



> a invasao ; qual d'estes se deva escolher por mais 
» seguro , dirA o parecer de tantos zelos(fe e inte- 
» ressados quantos se achao neste congresao. » — 
Sem controversia se resolveo a guerra defensWa , 
porque com ella se escusava o dispendio e ao ini*« 
migo se fazia maior damno. 

II. Concordes neste parecer^ sa'io Mathias d'Al«- 
buquerque acompanhado de todos , a buscar sitio 
regular e convenienle para nelle fazer uma forCa-* 
kza, que servisse ao intento. Por eleicao dos i»ais 
intelligentes foi escolhido um outeiro, que se- 
nhoreava toda a circumferencia, posto que pela na* 
tureza em tao proporcionada distancia da villa e do 
Arrecife , que de uma e outra povoacao ficava uma 
grande legoa. Desenhou-se a forca ^ pdZ'^-se mao A 
obra, e ao passo que crecia o edificio, creoiaooa 
soldados e moradores (at^ entao dispersos ) ; estes 
para viverem & sombra da fortificacao, aquelles para 
servirem a obra ; damlo-se uns e outros tai presda^ 
que pondo-lhe a primeira mao muitos dias andadoa 
de Fevereiro , Ihe derao a ultima antes de acabado 
Marco. A esta fortaleza , que era ao mesmo tempo 
povoacao 9 derao o nome de Arraial. i 

IILSoberbo com a victoria, e confiado em sua 
fortuna olhava o HoUandez com desprezo aquelles 
a quem vencera ; mas desde que Ihe constou cfite se 
acbavao reunidos, e que levantavao uma fortaieza, 
dispoz*se a impedil«-a j mas nao o fez tanto a tempa 
que nao a encontrasse capaz de nos defender. Es*^ 
colheo entre os sens 800 soldados, e emi 4 de Marco 
sairao da villa de Olinda com delib^acao de tnos 
gmharem por assaito a povoacao, e a fortaleza do 



CAStlllOTO ttrSITANO, ft» 

Arrnia), "qtieoeste tempb mo faavia chegado a sna 
ttliima'pe^eicao; pordm mais defensavel do que 
imaginava. Tinha assentado comsigo que os Ponu^ 
guetes* embebidos n» obra , primeiro conheceriao o 
assalto pelos golpes que pelos avisos. Fundava esie 
discurso na promessa d'um Flamengo, chamado 
Adf ieo Franco, pratioo nos caminhos ( de que ja 
£stll^mos)quese offereceo a guiar os Hollandezes por 
yeredas occultas e faltas de sentinellas. -^ Seguindo 
OS passos do sobredito guia se poz o inimigo em 
marcha muito antes de romper a manha; mas 
forao taes os rodeios que fez, que gast^rao muitas 
horas em Jornada para a qual bastaya uma, dando 
largo tempo ao conseiho, e & prevencao dos uoisos. 
Mathias d' Albuquerque^ que avisado das senti- 
ncilas via o informe da povoacao, a imperfeicao da 
fortaleza^e o poder com que o HoUandez o buscavai 
ordenou aos capitaes Joao de Amorim, Luiz Bar- 
balho, Mairiim Ferreira, Pedro Manoel Pavao , e 
outros, que com os soldados de suascompanhias 
saissem a ter enconlro ao inimigo; o que fizerao 
com tanta destreza , prudencia e valor, que o Fla-* 
mengo (que se achava formado em esquadraono sido 
chamado'Agua Fria) se vio ao mesmo tempo inves* 
tklo e destrocado, nao Ibe deixando e furor mais 
remedio que o da fugida.«*-Seguirao os Portuguezes 
o aioauce, por^m como sao mais ligeiras as azas do 
medo que as da ira, so Manoel Dias da Franca, mon** 
tado em um gineie sen o foi seguindo , ferindo e 
matando , sem haver Ftamengo que ousasse virar 
a cara para ver que era um so o que os picava ; ati£ 
que o investio um tropel de muitos , a tempo que 
I. & 



86 rampeo a tilk^t, e cofik a sella caiodoeayalfe enlife 
^llpS4 Mao desanistiPii o Yakkroao mancel^ eo<n este 
aniDceesso, antea oobf anido itovo 6$fof qq se diesteinba* 
ra^ dk>i imiBigo» com tanta. g^fitileaal, cpe nam 
recebeaferala oempei^deohoon^a]^ 
oceaaiao a ganbarmuita ummulato^eii^ qfoer com 
iima espada e Qoaa rodela obrou marayilhas. Qdar 
renta moiixxsi deixou- 6 iniimgo no campo f algass 
no caminho^ levanido inuitos feridos. ReGolh^oeM 
OS nossos a oekbrar ayictoria, que de todos foi 
aclamadi com excesaiTO gosto. For o primeiro dia 
de bonanca que depois de tao continuada tormenta 
nos concedeo a fortuna ^ e no descustume trouxe 
a estimacao. 

ly. Logo que Mathias d' Albuquerque via a for- 
taleza posta em sua ultima perfeicao ( com plata-* 
formas^ terraplenos, parapeitos, contra^escarpas, 
cdva, pefntes, trincbeiras, e estacadas que cingiao 
a forea e a povoacao) a guarneceo de reforcada ar< 
tilhaTia de bronze e ferro, e de aufficiente presidio; 
consignou o» postoa a particulares cabos ; e para 
novos empregos • criou novos capitaes. Entre elles 
nomeou a Joao Fernandes Vieira pop eapitap dos 
batedores^ que de noite e de dia haviao de assegu-* 
rar o Campo ; achou na pessoa todos os requisites 
que pedia o cargo ; foi sua escolha pronostico de 
que o valor, a que en tao fiavao os moradores o se- 
guro, despois Ihe havia de metter. em casa a liber'- 
dade. Obrigado d'esta mesma raeao deo Mathias 
d' Albuquerque a. Henrique Dias a gineta de capi- 
tfio e cabo de muitos minasecreoulos, que com 
animo intrepido e fiel se alistirao para servir 



GA8TRI0T0 LUSITANO. 51 

na |;u9rra. Parece qne com estes insignes capitaes 
nos cpntrapesou o tempo insignes perdas; e bem 
se pode alFirmar que com elles nos cleo mais repu- 
tacao do que nos tirou de imperio. 

V. Yendo Theodoro Waodemburg , governador 
das armas hollandezas ^ que nai,o pod^ra tomar por 
entrepresa a nossa fortaleza do Arraial; e para im- 
pedir que a desprdem em que vierao sens soldadoa 
fosse em augmento, e acarretasse maior desventura, 
tralou de se fortificar, nao so ppr seguranca, mas 
para occupar os soldados^ e inspirs^-Ihes mais coa- 
ipanca. — Levantou uma grossa trincheira por 
f6ra da poyoacao de Sancto Antonio entre os dous 
rios e a mar com insupporlavel trabalho dos sens, 

tela xiatureza do terreno. Com o mesmo cuidado 
brtificou a villa, nao se dando por seguro de nossa 
ousadia. neqi ainda onde seus repar^s o tinhao 
mais guardado. Informado Mathias d' Albuquerque 
dos movimentos do inimigo, e, de que levantava 
uma trincheira n'um sitio fronteiro ao nosso Ar- 
raial,^ que cbamao a ilha de Marcos Andr^, dentro 
da caqipina do Taborda^ chamou logo os capitaes, 
deo-lhes as ordens, encareceo-lhes a importancia , 
e em 1 8 de Marco saio do Arraial Antonio Ribeiro 
de tiacerd^ com 700 soldados entre Portuguezes , 
Minas , e Indios a desalojar o Flamengo , e des7 
fazer a trincheira. Embuscou a gente, einandou 
ao capilao Fraqclsco Rebello ( illustre pelo diminu- 
tiyb de Rebellinho , a quem as prensas fizerao maior 
que sen appellido) que com vinte soldados fosse 
provocar ao HoUandez, a que sa'isse a pelejar. Deo- 
se o Flan^engo por afrontado do atrevimentQ, saio 



!. 



52 GASTRIOTO LUSITANO. 

a castigar a demasia fiado nas vantagens de seu 
partido. Nao virirao os nossos a cara ao encontro, 
antes dissimulando o intento , se forao retirando, 
em ordem a metier o contrario na emboscada , que 
o inimigo suspeitou sobejamente cauto , e fez alto 
com a sua gente. Rebellinho , que penetrou a 
causa J correo a avancdi-o , tao destemido ^ que o 
Flamengo , cego da colera , perdeo da vista o receio, 
e o carregou assim furioso que se metteo no cora- 
cao do perigo, conhecendo o erro a tempo que Ihe 
faltava o remedio. Sem resistencia se pos^rao os 
inimigos em fugida , bastando aquella detenca, de 
que necessitou a escolha , para deixar cincoenta 
mortos no lugar da bataiha , nao entrando neste 
numero os que perdeo no alcance , perseguido dos 
nossos por algum espaco, e at^ a sUa trincheira de 
oito mancebos de cavailo , alanceando a todos os 
que alcancavao. Nao dizem nossas relacoes em que 
poder ficara a trincheira ; affirmao que nos recolhe- 
mos com vinle seis feridos^ sem que da nossa parte 
houvesse morto. — Nao era senhor o Hollandez de 
passar a distancia^ que se interpoe entre a villa e o 
Arrecife, sem companhias de guarda ; e nem assim 
se defendeode nossas embuscadas. Em 26 de Marco 
fizerao as sentinellas aviso que o general das armas 
hoUandezas y acompanhado d'um seu coronel , se 
dispunha a passar do Arrecife para a villa com 
600 soldados de giiarda (ou por dec6ro, ou por 
medo); o que entendido por M athias d' Albuquerque 
nomeou por cabo d'algumas companhias a' Pascoal 
Pereira ( soldado de opiniao) ; deo-lhe por ordem 
que d'emboscada esperusse o inimigo. successo 



GASTRIOTO LUSITANO. 53 

acreditou a escolha. Sairao os nossos de eiuboscada 
com tanta disciplina , e tanto a tempo , que desoiv 
denado e roto o Holland ez deo as costas &s balas; 
nao houve algum a quern se vissea cara. Oprimeiro 
que no conflicto servio ao exemplo foi o seu gene- 
ral , eandou tao venturoso que encarando nelle o 
capitao Luiz Barbalho uma clavina, o nao derribou 
o tiro, porque nao Ihe tomou fogo ; a unha de cavallo 
se poz em seguro, levemente cortado do nosso ferro 
por um hombro , por^m muito mais de medo, 
deixando os seus no perigo, a que nao poderao fugir 
quarenta e nove, que ficarao mortos na campanha, 
e muitos outros que perecerao no alcance. Sem 
conta forao os que mat^rao os Indios, e as ondas ; 
por eecaparejn ao ferro se deitarao k agua , e nella 
viao que a morte com dobradas armas Ihe tirava a 
vida. Recolherao-se os nossos sem morlonem ferido, 
com que a victoria se applaudio sem sangue , e 
sem enterro o triumpho , para cuja pompa nao fal- 
tavao captivos. 

YL Desde esta occasiao por nenhuma parte saia 
de suas fortificacoes que se naoenredasse no laco que 
os nossos por todas Ihe tinhao armado. Direi a fdrma 
da situa^ao de nossas estancias, para que se entenda 
como nossas armas o tinhao cingido. Correndo da 
parte do norte para o sul, em uma hermida de 
Sancto Amaro, se aquartellava Mathias d' Albu- 
querque Maranhao com gente da Paraiba , que aco- 
dio a servir na guerra. Seguia se a estancia do 
Padre Manoel de M oraes , que guarnecia com In- 
dios de seu partido igualmente disciplinados na 
religiao e nas armas. Logo a do Camarao comos In- 



5i CASTRIOtO LtJSITMO. 

dios Ae seu governo , que erao todos aquelles, com 
que nestes principios se veio offerecer para servir. 
Pouco disiante ficava a que defendia o capitao Es- 
^tevao Alvares. iunto ao Buraco de San Tiago tinha 
silukcao a seguinte, que presidiava o capilao Luiz 
^Barbalho (era a mais arriscada, e fiou-se ao capilao 
niais destemido). A este modo continuavao os quar- 
teis pelos si tios de Beberibe e Seca encotnmendados 
a diversos capilaes ; dando-se as maos uns aos ou- 
fros Ae sorle que com facilidade se podiao soccorrer; 
'Cohsigndrao-se troijos de gente escolhida a diffe- 
rerites cal)os que por turno rondassem e descobris- 
sem as distancias , que se entf epunbao entre uns 
e outros quarteis. Desta maneira nao podiao deixar 
de ser quotidianos os assaltos^ que nao particulari- 
zamos pela semelhanca dos successos; e siSmente 
faremos mencao d'aquelles encoutros , que ^ variao 
em algumas clpcumstancias. 

Vlt. l?fa vflla de Olinda fez o inimigo, em 16 de 
Marco, paga g^ral a todaa gente da milicia. Aoiempo 
que em turmas voltavao com o soldo que tinhao 
recebido, andavao sessenta Indios nossos,^ deque 
era cabo JoaolVIendesFIores, trabalhando em uma 
trincbeira no sitio do Buraco de San Tiago. Dous 
soldados Mamelucos, que estavao de posta ao largo, 
fizerao aviso aos Indios da boa occasiao com qiie 
os rogava a foptuna ; e animadps com a e^peranca 
da presa derao sobre os Tlamengos com um repen- 
tino assalto de vozes e cargas , matando a muitos , 
e atordindo a todos , de tal maneira que^ occupados 
do pasmoy nao tinhao liberdade para a fu^da, 
nem animo paraa defensa. Oitenta degolou oferro j 



cAfinnoxo LusirAfia 55 

miiitos maisos que atou o griiiio. AporoveitiiFao-se 
o$ Iifedios 4m aitnas, vestidosy e soldo de todos, 
ib*aaceiulo diaote desi o» captirM, que serviirao de 
icrodito i ^grandeza^da victxxia^ e a fama do despojo« 
VIU. Nao' ^aftisfeitoB os nossos de incfuieiarem 
cootimiaiiieivte t) iimDigo por todas as partes , re- 
6ol9^o a 'boselA-o deatiH> de auas foitificao5es. 
-Gercava^ma grossa Irincheira a povoaeao de.Sancto 
Antonio ( a que cham^rao cidade de Maurie^ ) ^ 
a qmlj assim pela fi((f ma como pcila guamioaOy era 
-oiiadoT de toda a confianoa ini-miga. Esta determi- 
cdrao OS noBsos investir e gonliar; earrazada^con- 
<d«zir-Hie a artelharia , que era nniila e grossa , 
^para otid)^ Arraial. Fiou o geweral a eitrpresa -a 
Antonio Rfbeiro de Lacerda, o qual aoompankado 
^'oQtros capitaes emil sotdados^ entre Portuguezes 
« Indio^ , BaSo do Arraial em 25 de Marco , |)ela 
meia nohe. M archou a gente sem rumor at^ perto 
<da trinehdra, onde arepartio em tres trocos para 
invest! r 'a iim mesmo tempo por tres paries. Dado 
"Signal 'dTaificdu Liii2 Barbalho & trincheira pela 
frente , que ganhou com leve resistencia ; entrou 
na povoacao , onde nao ficou casa forte que nao in* 
^egiik&id , nem' topou eontrario que nao rendesse, 
O oapttflb Manofel da Franca, que com um segundo 
fterco commetteb- a trincheira por um lado, a subio, 
-B rompeo a defcnsa com facllidade. N&o houve 
initeigo que b parecesse,Tiem qute esperasse golpe; 
todos fugiwo ao perigo, tao desatinados que nelle 
buscavao o rettiedio ; entregavao as vidas ao pego , 
0Bd6 juiltamente aehnrab a in^rte e o sepulcro. 
Era o tercdro esqusidrao o ihais grosso : com elle 



56 GASTBioio LuarrAwx 

passou Antonio Ribeiro de Lacerda o m, « por 
f6ra da tpincheira commetteo a porpacao ^ na qoai 
tres batalhas formirao urn conflicto. Nao achaya 
para onde fugtr a yida j porque em toda a parte 
euconiraya um meamo ferro ; o escuro da noite 
nao deixaya discinguir amigos de contrarios, nem 
o furor oppostos de rendidos. A nenbum sejio nem 
idade perdoaya a espada ; a muitos matayao junta*- 
mente a espada e o chumbo ; ja nao achaya o nosao 
pulso a quern yencer, senao aquem ferir. A bra^os 
yeio um capitao hoUandez com o Rebellinho, e esx 
pirou apertado de sens bracos o Hollandez. Nas 
casas, e nas ruas achayao os miserayeds rendidos 
uma mesma fortuna ; era tanta a confusao, ajudada 
do estrondo das armas , das yozes , e da afllic^ao i 
que se tinha por bem afortunado o que podia com 
a yida dar fim ao medo. A artelharia da Irincheira^ 
asssestada pelos nossos com pontaria para a^ i^oas 
da poyoacao^ foi seu maior estrago. Acbayao 06 
nossos na presenca dos aggressores yiyas as memo* 
rias da perda e da injuria ; e o des€Jo da yiqganca 
OS nao deixaya lembrar da cleroencia. 

IX. Tudo is to se passou antes de ser manhai « 
que foi de grande embaraco para os nossps, porque 
nao podiao distinguir amigop de inimigos , como 
aconteceo aos capitaes Rebellinho e.Luiz Barbalho*| 
que achando-se cada um d'elies naextremidaded'ur 
ma mesma rua, e caminhando a topar-se, pi^$]a- 
mirao que era soccorro que yinha a.o Holian$ie?^ e 
esfridrao no ataquelfsmendo-se um ap ov^tvo, Nesta 
ponto deo-se rebate do assalto no Arredfe, e assim 
d'elle como d'algumas tfhs^y que estayao no p<)r(o, 



GASTRIOTO LUSITA190* 57 

se dispdrou muita artelharitf sobre a povoa^aio, com 
que a nossa gente se conOrmou no errado conceito 
que fizera. D'uma e outra parte se appellidou a 
gritos a retirada, fugindo todos d'umas mesmas 
armas, com aquella confusao e desordem que se ve 
em quern foge de sua propria sombra. Cobrou-se o 
Flamengo da trincheira ; e as balas de sua artelharia 
nos forao perseguiudo at^ o ultimo alcance. Nelle 
perdeo a vida o teneate general Pedro Fernandes 
Ferrete ; e uma perna o cabo d'esta empresa Anto- 
nio Ribeiro de Lacerda ; goipe de que morreo ao 
outro dia. Deixdmos no campo onze mortos, oito 
Portuguezes, e tres Indies , e nos recolhemos com 
dez feridos. — Escarmentado o HoUandez coi|i 
este successo, tratou de acautellar-se para o fu- 
turo : engrossou os presidios, dobrou as sehtinellas, 
mandou com graves penas ^ que da villa para o 
'Arrecife, nem do Arrecife para a villa , nao saisse 
pessoa alguma » senao nas occasioes que podesse 
ser defendida das companhias que entravao e saiao 
de guarda ; e que as taes pessoas passassem encor^ 
poradas nas fileidas dos soldados. Ordenou que, as 
ditas companhias se nao movessem de um lugar 
para outro ^ sem primeiro fazerem algum signal As 
forlalezas para que tivessem a artelharia prompta 
a favorecer os sens em toda a occasiao e tempo. 
Util era a prevencao , se a dor se sujeitira ds leis 
da cautella. 

X. De uma trincheira nossa, que escondiao as 
matas , fazia o capitao Luiz Barbalho consideravel 
damno ao inimi^; o qual, vindo no cpnhecimeJOitp 
da causa, acceso em ira sa'io em dia de SaoLoureuco, 



Aid d'Agoeto ) com todo h> poder^ is determinaAo a 
ial*]:uizaT a 4;rinoheira , « degolar o presidio sem dat 
iquai^l a vi^eMe. P«sou '^ rio na vasatite da mar^^ 
«Bie8 de romper a ttanha marcbou sem rtimor, ^e 
^ie^sobre<a trindieira^^Bde Ltiiz Barhalho, arisado 
fdas aenrtmdlas , o e^peroru oom doze companheiros 
f( Giu<5cedeo nao ter mais soldados eomsigo ) com 
tanto deB^afedo , coino ^ tivera ignal partido. 
•Oeo <e reoebeo cai^s , oppondo-se a desigualdade 
^ (A>ite i do ntHti^ro. ^ Temeo hniz Barbaiko , 
^O'oeoflfibatey senao aduracao do conflicto; tnarib- 
idtm pedir »occorro ao Arraial, e foi-se retirando 
room 06ISCIUS ptfra olitra trincbeira^ que tinba mais 
^o intciri^Mr do voatb ; mas com tal art^ e disci- 
"ciplina^ ^ue tmd deo lugar a que o Flamenjgo visse 
<a limitliid^x podet qv^ tinba ^ nem que a largava. 
Veiido kiimig6 deaatiyparada a trinclieira ^ sobio 
^ ^elk , ig It fitrrazou sem demora; ecomo receasse 
tpBte b soct30rro nao podia faltar aos nossos , fez-se 
<de volfti para a otilra parte do rio , a onde coberto 
-dos^Ottmutos de iirea, qtie por allifaz a'praia, deoal- 
^otuttfas ictfrgas & nossa gente , que ]& entao vinha 
4Btti 'Seti alc&nce , e lis quaes respondeo apeito des- 
acobei^to. Pazia a distancia inutil a opposicao, e pa- 
^receo a^todos con^niente a retirada. 

KI. Apertado da necessidade determinou o ini- 
<ikyfgo armaiMios uma cilada, na qua! perecesse a 
nossa gente. Embuscou a maior parte dos sens; 
e com oTe^ante eaio a uma campina que cingiao 
^dlgubias estancias *nossas ; derao as sentinellas re- 
<bate nas ^riucheitas e no Arraial, donde Matbias 
d'Albuquerque despedio com incrivel presteza os 



'*aplSes Skhctos da tJosfei, fV:6t[tfc Ah Bto^ofe feego, 

T\figT:rel d'Abreiu, e oiirtros em soccortro dtfs tfossais 

iestandias. Marcfedfao as companhtas a avifeWat o 

tnimigo , <jtfe ti^trto tocou ^ yetirar, phra ^u6 Steti 

^aprpar'ente receio ti6s leviasse ^e 'd^rMa rfo lace. 

"Cto'nlhec^rao os nossofe o ardil ; mas como quliessem 

*mo^t*ar sua ousadia adiatit4r&o-se dotis ctfj)iraes 

mkfe do que devlao ; utn*dos qusfes '(BfetTOfe)^rido 

~d^ima tala n'tima coiia dt6 nHim lamadal 'Otode 

'C&16, 6 s6 deveo a vida ao Vfeloi^de seti alfei**fe,'e 

'd'tfm'cabo d'fesquadi*a da i^ua "fcompanhife ; fe o ou^ro 

(S^tictds da Costa) accdmparihado de 'seu alferes 

%Mb '^treg^r ' a% Vidas a duas Dallas , bom wiais 

Vatentia ffue pr udencia , fe sein^mais ontro*tfiqtie 

'av^idade deperdiStas. NSo hoove da ^ossa parte 

'otitra perda; dom'muitade-mortos'efttriflos sette- 

'Mheo ihimigo. 

^n. Terisou b fioltehdez que wittdando de silio 
^tnelhoraria dfe*ftirtuna. Etti i6^e Otttubro deitou 
f<5ra 406 ihfaiites e quattc(i^e1:)atedoir(es^d^'«aVai4o,i4a 
%t€incao de ganhkr-Wosa trfndheiw do ri6 Doee, 
'o qute Iheparecia^fadi pot foo!s flfcar Ibnge do «oc- 
cotro: tstava n'ella per capitab Shnfib de Figfificd- 
' "iredo ( que depois se brdenou de sac€?rdo«6 , e ^z 
granges sei*vicos ilgriija ^ & <5orba /^isandb com 
igual deitr&a d'tim e d'outro %racb) ; sale da triA- 
cheira, ao tebate'das sentine!las,'fc6m 'qusri-efrtta sol- 
dado^, OS quaes -foraobpfstafntes para r^tillir o Ffe- 
miengo ; o qualvehdo^se inganadoem Sufei esperanca, 
* virou'as costas sem reSistir, e foi persegfdido pelos 
*nossos at^ eutrar lia villa com grande perda de 
raortos e feridos. 



60 CASTBIOTO LCaTAHa 

XIIL Em 21 do mesmo mez saio o inim^ do 
Arrecife com muita copia de soldado9 ; passou o 
rio de baixamar^ e marchou sem ser sentido ai£ 
uxn lugar, em que alguns capitaes nossos assistiao 
& fabrica d'uma trlncheira. Retirou-os da obra o 
repentinoassalto. Appro veitou-seo Flamengo d'esta 
circumstancia, e comecou a toda a pressa a arrazar 
a trincbeira ; mae acudindo logo os nossos, refor- 
cados pelo capitao LuizBarbalho, o ferirao tao fbr- 
temente j que o obrig^rao a fugir sem outro acordo 
mais 9 que o de levar a rastro graade numero de 
corpos mortos.-rCo^sas em tudo similbantesoc^u- 
p^rao umas e outras armas todo o restante d'e^te 
anno de 1 630. Em quasi todos osdias havia pelejas, 
cujos successos em pouco di versific^rao , achando- 
Qos q iuimigo sempre promptos para- a defensa e 
para a vinganca. Nao houve occasiao em que nos 
provocajsse atrevido y de que nao saisse castigado. 

Xiy. Occupado Pernambuco pelo Hollandez em 
16 de Fevereiro , logo no meiado de M arfo se es- 
palbou um rumor vago^ que o dizia a medo, at^ 
que no principio d'Abril se confirmou a nova ; e 
para crescer a magoa se recebeo a noticia da mao 
de quern tinbamos recebido o aggravo, A todos las* 
timava o successo/porque a.nenhum dekou de 
ferir o golpe. Osbomens de neg^cio sentiaoaque- 
bra do con^mercio ; os do goTerno^ adfi reputacao; 
OS do pOYOy.a do socego; o$ da guerra, a. do oc«>; 
e todos, a do Estado. — Tratou-se do . remedio ; 
consuh^JPao*se os tribunaes; e tomou-se por ex- 
pediente que uma guerra lenta era o ' unico meio 
possivelde re^taurar aquelle Estado, vfsto achar-se 



GASTRIOTO LUSITANO. M 

a monarchia exhausta de tudo o necessario para 
intentar outro genero de guerra. Esta resolucao 
mais se confirmou quando se soube da opposi9ao 
que OS naturaes comecavao a fazer ao Hollandez. 
— Nao fez tanta impressao em Madrid a nova 
como fizera em Lisboa , porque nao era tao grande 
o interesse que tinhao os Castelhanos na conser- 
vacao d'um Estado, que s<i era seu para o util, nao 
para o glorioso. Todavia nao pod^rao esquivar-se 
a anuir aos pareceres que vinhao de Lisboa acom- 
panhados de queixas de clamores. Tinha El Rei 
Philippe nomeado o almirante real U. Anlonio de 
Oquendo , para conduzir ds Indias a frota de gal- 
lioes ; e se Ihe ordenou que de caminho tomasse a 
altura da Bahia^ onde acharia nodcias certas do 
estado em que seachavao as cousas de Pemambuco, 
para que conformando-se coin elle, deitasse no 
porto mais seguro o mestre de campo Joao Vicen- 
cio Sao Pheli6he com o seu terco iialiano, !e algu- 
mas companhias de Portuguezes , e aquellas armas 
e municoes que parecessem necessarias para a con- 
tinuacao dos progressos, que promettiao os felizes 
principios d'aquella guerra. Tambem se mandou, 
que na mesma conserva fosse Puarte d' Albu- 
querque, gov^rnador e senhor donatario d*aquella 
capitania ; soccorro de que se esperavao grandes 
eflfeitos, porque se entendia, que com elle se aug- 
mentava nossa gente em anin^o , e em numero ; 
mas succedeo bem ao contrario , e ad diante se veri 
como nelfe chegou a Pernambuco nossa total ruina. 
XY. Em quanCo em Portugal e Hespanha sepre* 
parava lentamente o ^ccorro destinado a Pernam- 



by.co ; oo^tiawva o Holla»dez w^fi excwrsoes^taAtQ. 
9ftais repetidas quamto. mais c^'e^pia em s?u caflipft 
a f(me. i\ mnai \egoa da villa ^e QUn.d*,e?ta aquelle 
sitio a qu* cham.aa as Qlarias ,, terrepo. a^bundante 
d'uijia fruta coijihecida entr^ os.n^turaes, pelpji^me 
de caj^s, Apertg^dos da Cowe resolyer^p algu^ps saXr 
da villa, furtivaww.te a colhe?* algvipsi^ vezes d^ ao- 
bredita fruta, por i;»^pi^dip e por i^efre^cp, A tlOft 
sorte dos primeirps aygmefltou o flui^iero, dos s?- 
gyndps , e e*te? faqUtarao aos. terQeiro^, Nap, s^ 
pode encob^^iy a contifluacap d yigil(\ncia de i^pssa^ 
sentinellas, de qge logo fizexap avis,o ?, Ma^hias d'Air 
bvtqueyq\ie, pedindo-lhe gfUtQ p^ra^cona? As.waos 
ii^iinigp ,, aem que ^l^nm Ihe fug\sse d'eUas, No 
dia 7 de Janeiro de 16^1 despedip 9, gje^^ral 3^. 
Portuguezes e 80 Indios eppx seqs c^itaes, e ^qx 
cabo o capitao Pedro Xeixeira,,, e todps as prdens de 
Mathias d'Albuqqerque ]\Iaranb5o; P V^A ^nn lu- 
gares conveniwtes ps mandow, eH\\:^v!Sioar antes 
d'aiiianhecer. Pelas oitp hor^^ dp dia cliegarap 3QQ 
Hollandezes em duas tropas; largarap as fiirmas 
para colherem a fruta, com aquella de^ttencap a 
que OS obrigava a fpoiej; roqiperao ps npssps das 
embqscadaSjj derao sol)re elles sem pi^dade nem re- 
si^tencia : nao Ihes deixou o assalto , nem coracao 
para a defensa ^ nejQ acordq para ^ fuga. Ficarap 
no campo morios 1 48 j mujtps dos ferjdos busca- 
rao ho mato a yida , e 36 acjiarap a sppultqra. ^p§ 
remanecentes j^ giie eraj l^pux peq|ienp nupierp ^ fQ? 
raoseguipdo e matando, at6 sis pprta3 da villa, qqa? 
tro riossog de cavallojapnc}? eheg^rfto tao poucos que 
osvioo jpipiigo ppipo cgryeip? ^ nap como soldadq^. 



XYl, Yepdo imiougo a oiWHiis^ « <)^hwa 9^9Cn 
cessa do& uossos^ teiaeroso de ^e wsaas. iirm^^ fos^ 
sem ^m dia bater 4& port^ dc su^ fortiiic9o6eft* « 
i^ se contentou em cerc^r aio W^ »i,ias pr^^s^ 
quartei^^^ e trhu^beirasi da robu&ias ^3iUcftda9 df^ p«a 
a pique, mas re$olveQ-se a levaxrtaT umag]ri>ss£^ trion 
cheira n'uma re^tinga d'ama, que cbamao a Seiea 
pw onde temia ser assaltado dos no«$Q$. £m 3 dei 
Fevereiro saio com todo a cabedal de officiaa^^ soU 

dados^eQgenheirQa,e ga&tadQre&cai^regado^ d'arie^ 
Iharia^ muaicoea, facbiiias^ ^aadeiras, eii^sitrupieu-- 
tofi $ervis ; poz mao a obra , a cresoeo de maneira. 
que primeiro servio aoa seua de defenga qiie aosk 
nossos de rebate. Ao toque d'e«te sahrao oa oapitaesi 
da^ estancias yiziuba^, e depoia os aoldado^ do Aiv 
raial com Mathia^ d' Albuquerque : era aeu iutquto 
investir denodadamente o jniuiigQi; lua^ vendo o 
general quae arriscada era a ipopresa pc^la quaUdade 
alagadica do terreno, maudou aQ capitao Firanci^co 
Monteiro Bezerra que com 60 soldados Ihe tomassf 
o pul^. Ayan9ou esle Yalorosameute ate cbegar 
aosalagadicos, mas recouhecepda por experieqcia 
a temeridade da empresa , desUtio d e)la ^ofFfepdo 
alguma perda de mortos ei<^ndQB| eutraudo em q 
numero d'estes o cap^tao Mouteiro em um bra^o , 
e tenente do Luiz Barbajho em uma verilha, R^ 
tiradps os ifvj^^y contk^uou o iuimigo com a obra, 
e uaquelle sitio f^bricou depois uma das melbor-ea 
forca$ de sua circumvallagao. 

XVII. Convencido o Hollander que nao podia 
por terra eateuder.o seu dominioj tentou fa;61-o 
por mar, e foi seu alvo a ilba de [tamdraea , em 



M GASTRIOTO tUSITANO. 

cuja conqnista ponderava que Ihe nao poderia a 
fortutia tirar das maos o roubo , quando Ihe nao 
d6s$e o senhork). Dispoz todos os meios ^vque en- 
tendeo o podiao condnzir a este fim ; saio do Arre- 
cife em 22 d'Abril com todos os soldados, que pode 
escusar nos presidios; e embarcados em grande 
numero de v^las , descobrio seu intento mandando 
emproar a ilha de Itamaraca^ a qual cercoucom to« 
das suas embarcacoes ; para que d'ellas a um mesmo 
tempo sahasse gente em terra por diversas partes. 
Govemava a itiba o capitao Salvador Pinheiro, sol- 
dado valoroso e pralico, que com sua gente soube 
rebater de sort^ o Flatnengo , que por nenhilma 
parte buscou alojamento que nao achasse sepulcro. 
Retirou-se oHollandez, sem que da ilha adquirisse 
nem saco nem dominio. Satisfez-se com fabricar 
na barra uma forca, a que chamou de Orange, 
d'onde os sens nao sairao vez alguma a inquietar os 
maradores que nao voltassem castigados e arrepen- 
didos. 

XVIII. Ficava de fronte d'esta fortaleza , e pouco 
distante (na terra firme) a nossa villa de Iguaracu, 
igualmente falta de vizifihos e de defensa, e porque 
a facilidade da entrepresa nao d^sse occasiao a con- 
fianca do inimigo vizinho e pirata se mandou for- 
tificar no modo possivel , e guarnecer d'algumas 
companhias, com ordem aos capifaes que a defen- 
dessem, e cortassem o passo ao inimigo, em caso 
que intentasse penetrar o certao da terra firme. 

XIX. Via o inimigo diminuirem-se todos os 
dias su^s forcas , cortadas do nosso ferro ; conhecia 
a difficuldade de receber soccoiro , tinha aviso que 



cASTBioro coaiTAifa tt 

D. Antonio (jie Oquendo era passado com armada 
|)ara a Bahia, e a cada hora o imaginava no porto ; 
e condiderando em fim.que.qua&to mais espalhada 
tives9e msk gente, mais &cil sem aos noasos Ten*- 
<^l-a« deliberou**se em largar a villa, e incorporar o 
ppder dentro das fortificacoes do Arrecife. — Como 
sagaz deseja?a oapear a necessidade com o despnezo^ 
e a. fraqueza eom a negoGiacao. Mandou um ei>- 
viado a Mathias d' Albuquerque, instruido no que 
hay ^a de fazer e dizer : significou com destresa a 
barbaridade dos soldados que tumukuosos reque«* 
riaoao general hollandez Ihes permitlisse p6r fogo 
a villa y e nao deixar nella pedra sobre pedra.; 
cou$a, que elle general por nenhuma via pod^ra 
disu^4ir> obrigadp a estorvar ac9ao tao feia, e a 
lastimar-se dever entregar ao fogo tao nobres e an- 
tigas fabricas de teinplos e casas, como tinha le* 
vantado a. religiao e a grandeza ; e que Ihe affir^ 
ms^ya d^ejava ter cabedal para comprar a salva- 
cao de lijigar tao luslroso ; que se sua senhoria o 
quizesse re^gatar. do incendio, fizesse. aos .amotina- 
dos um 4oi)atiyo de caixas d'assucar., que elle se 
obrigava a roubal-as^ e a entreg^r-lhe por este meio 
a poyoacao inteira pella escusar de tao lastimosa 
ruina. — Ouvio-s^ a embaixada, e assim^como sem 
dila^a-o se penelrou o artificioi assim sessi detoasa se 
respon4eo a tencap. Foi dito que Mathias d'Albp^ 
querque Ihe fallara nesta forma ; « Qs PortuguMea 
» com a$ ^rmas na mao nao comprao , conquistao ; 
» sabem dar cargas de balas, anap de caixa^;. as 
» marciaes os alvorocao, djesprezap as.qu^ os emr 
» bai^a^ao. As chagas que ^ellcs abre o aggravo nao 

" L " 5 



jt> SB curio ^x>m afisut^, seniiD /com poiv^onif com 
» iaiifi^s am que £aka a fe sso esUveis 4» cob1k%- 
» tos ^^pyK firma 4» Mngue i e de nenhuma firnieza 
^09 que affiaa^ a palatn. Acffptsdiiam ea 
01 ao <s^ii&or g^icial TheMo^^ Wandembisrg, que 
«) nao gastasee a magoa £ai stjdocr do estrago ^ 
» aofl^os edificios, porque sei que loob i^ aerd !)»<- 
i) eesaaria para se lastunar do de6lro9o de $ens sol" 
m 4ado6 ; e quaodo o rae^lo os adiante a quei»ar 
$i a yiHa^ animo e eabqiilal tern os moiadores poo^a 
» a irecdifteapeiii 4x>m ta^tas ventageiis, que as me- 
D ihoraf oa ensiiieK^ a julgar por beneficio jl ruina^ 
p porque 4esejao de^xar na oabe^a d'esta cajpitania 
M ifina memoria em que apezw do Cempp leao aa 
» idades ob oasUgos de HoUanda, e <» triumphos de 
» PorCugai. D 

!KX. INQb aeh^u o enviad^ a respoata tao doce 
eomo miagia^va; i^oltou (pm pre^tezat, e com a 
mesma maadou o general holland^ p6r fbgo 4 villa. 
Gcmsiderara iia pres€9i9a do ameaco a :viziiifaan^a 
do gotpe. Ordeuou ao presidio , que ateado o fogo 
se retiraftSMs papa o Arreeifey porque o rebate do in- 
0»ndio Ihes.nao pi^veoisse o castigo do damno. 
FDF^iti tAo baslmi a prompddfip da obedfencia para 
€6 iii^ar da uoe^ vig^ianda. De uma embuscada 
OS assal^ao no^as armas tanto mais formidaveis, 
quauto a oecaeiao Ih'aa representava mais colerioas ; 
mtAUk gente llies matou e ferio o aTanco e 6 aloance;' 
e muita mais perec^ra, se a maior parte dos aossos 
n&o aeudira a apagar o fogo , que apoderado dos 
materiaes que achou dispostos , pela iadustria e 
pelo tempo, seryio a lastima, sem dar lugar i diligen- 



GASTBiQfO l&0filTAN(U t9 

^. Ardeo em br^^ espaco aquella povctacao tao 
oelebra4a pek) commereio eoiho ^ttoobreoida pekiS 
^ificiofiy «eA fue de toda $6 iswtasae das chamas 
maia que tUma easa tecrea y qua JPbservou a aorM 
para mdmoria da perda ; sucf edeo eol 35 de Nch 
▼embro de 4 631 « ]?f lo andavao itieaiDid aoa«sa$ ad 
hostUididea no Eiar que na terra i em uma e our? 
tra phrte ardia o furor, e a vi&gao^a^ 

X»XL 8itra da Babia D.. Antonio 0quendp com 
a &ota 4eGa8tel]a, que oondusia para aa IndU^, « 
nella encorporado o sdcoorro que havia de euca^ 
minhar a Pemambnco/ em cuja altura o aehou o 
SepSwibro d'^ste mei^ino anna , de Tiagem para a 
Bahia. Kao donnia o Flamengo sobre qs . avisoa 
( multiptieadoa e dertos) que tinha detudo qutoto 
em Hespanha 3e deterriiinava. Apreaaou ada aiH- 
mada o&m o maior numero de yilefi , snldadoa e 
artelbaria que ifaeifoi poaaiveli fibu o goyerno e 
aueatefld d-^lla a um prattoo e yaleiitci icabo por 
ntiflba Adrtaa' Fatrea^ a quern as viotorks ganhaiio 
o|»nub ^e bem afortunado^ Aer^tou a esoolba 
o(Hn a promdsaa de moprer ou vencier. Ghegbu a oo- 
cMiaaf) inwstiiiao aa armadas oomigoal ftiror, apro^ 
veitaiulo-*aa de tuiio quanto pddia a forca ^ e alcan- 
^^a a mduBtrta* Bin breve espa^o yestirio o$ el^ 
Efitetoa M\ cores do ccmflieto, de aorte qu^ t0m o 
aslnopdo dpi artelharJa eetremedeo o pegoj i^ fumo 
da poiyora se amovtalbou o ar; i^odestoUQaya dp 
^9irittar.d fiag0') a de uma m autfca viata bebia hi^ 
DOras a tferaai Fartieularidpdea honye nerta balalha 
dignaa de'ae perprtuarem na yos do applauso^ qua 
par restfluikao aqueUa itiade def^j^ iiyrair minha 



58 GASTKIOTO LmiTAlfO. 

penna do esquecimento. — ^ Atracou a capitania 
hespanhola a hoUandeza ; era esta mais altefosa, e 
com esta vantagem pelejava com melhor parttdo. 
No mais vivo do combafe se vio aquella Cbnbe6i- 
damente arriscada , ^orque a abordou pelo outpo 
lado outra nao flamenga. Conheceo o pefigo Cosme 
do Gouto/ Portuguez de na^ao, e capitao de mar e 
guerra d'um navio de pequena sorte entre todos os 
da esquadra hespanhola , buscou a capitania con- 
trairiaye Ihe lancou dentro toda a gente que tinha, 
sem reparar no perigo de Sen navio, que sujeito 
as proas das duas capitanias o mett^rao a pique. 
Salvon-se o valeroso Portuguez a nado com im- 
mortal gloria de intentar e conseguir o* que de 
nenhum outro podera cantar a fama. Esta proeza 
Ifae alcancou o posto d'almirante, e uma com^ 
menda de pequeno lote. — Livre a nossa capitania 
da oppressaoy ditosamente castigou o atrevimento ; 
com uma bala desarvorou a capitania hoUandeza ; 
com outra Ihe metteo um panno breado por aquella 
j^rte do costado que correspondia ao paiol da pol* 
vora; deo signal o fumo do lugar onde seat^va o 
fogq ; conheceo o Patres a certeza do perigo, en- 
volveo-se no estandarte general dos EsladoSy e 
amortalhado na honra se sepnltou vivo nas ondas. 
•^ Abrazou-se a capitania hoUandeza y e cem eUa 
quasi toda a guarnicao que trazia.Aalgunsquese 
pod^r&o deitar d agua recolh^ao os nossos com 
vida e liberdade. id neste tempo tinha o Flamengo 
perdido tres fragatas^ que a nossa artelharia ^e 
metteo a pique; as restantes, al^ de deatrocadas 
e com muita gente movtai e ferida^ busoairao to- 



das o amparo. do Arrecife, como Ihes foi possivel. 
. X&U. Grande foi a victoria , e grande o custo : 
duas naos de Hespanha , uma d'ellas a almirante , 
coosimiio o fogo e o mar ; muitas desapparelbarao 
as balas ; os fqridos forao muitos , e os mortos nao 
pouoos ; entre elles se fez sentida a perda do ca« 
pitao Valencilha , conhecido de todos pelo nome e 
pelas occasioes dos Gastelhanos. Para reparar a ar- 
mada tomou D. Antonio de Oquendo o porto que 
chamao da Bajbia da Traicao , a onde se refez de 
tudo o necessario em breve tempo , e continuou 
sua derrota para as Indias de Gastella, como trazia 
por regimento. Com festivas cargas d'artelharia oe- 
lebrarao os nossos capitaes a victoria ; com diffe^ 
rente motivo as deo o Flamengo. Ao tempo que as 
duas armadas eatrarao no couflicto se desencor- 
pprou da: nossa o soccorro destinado para Pernane 
buco, com ordem que tomasse o porto mais conve- 
niente e mais se^uro d'aquella capitania. Uma. e 
outra conditio acb^rao na barra do Rio Grande^ a 
onde desembare^rao Duarte d' Albuquerque e o 
conde de BanhoUo com toda a infantaria italiana e 
poi:tugueza, armas, muni^oes , artelbaria, manti- 
mentoa , e fazendas que levavao de Portugal por 
. conta d'El Rei e^ de particulares ; o que tudo se com- 
boiou logo para o nosso Arraial ^ a onde os cabos 
forao recetndos com agasalho de auxiliares, e res- 
..peitos de superiores.---*Alojou-6e o conde de Ba- 
nhoUo em quartel apartado com a gente de seu ter^o ; 
Duarte d' Albuquerque ^ com seu vmko Matbias 
d' Albuquerque. Separacao que involveo em si a 
dos aaimos, e apartou de nds toda a f eUoidade dos 



gucoessos. Favoreci^ ^cada qoat a gexi1ie>de 6Uia tdm- 
patthia^ sem ftizerem basb dos soldados Daora- 
dm^es, que com i«oto Tialor e risco tialiM servide $ 
o que Ih^ inspiravagrande desco^teikitaiiiMto^ dlss^ 
coiifianca, e cansdu grande damno aosm^anios cah 
pitaes. Vi^ de^pi^zada sua fideKdacte, i^caredd^ 
«eu valor, esquecidas suas eftipneisas ; e que aok 
biaonhod e ei^anhos se davao os premk^ de seas 
«ervioo& ; nao podiao vet 6[>mo amigoa aos que ae 
iheia adiantavao emutoa ; e sup^oato que sMipre a 
obediencia os cokiaervcu juntos, nunca a oecasiao 
OS 'vio conformes; D'este princi pio hase^t^o tafttos 
desgra9aB e infortnmos, quatitos bastira^y para petf- 
4er a me&op parte d'aquelleEstado. — Ch^ara pot* 
"^te tempo com eopioso soccorrcao Arredfe Sisgfa- 
mundo Vansmp , a quem a companhia eccideiiUil 
^vk dado o bastao d^ general de mar e terra, e 
•em que tinha grande conflfrnea pelo seu valbr^ pra- 
tica e industria. Ti»ha este general aprendido nas 
eseolaa da Europa que nas conqnis^as dbra mats a 
sagacidade que a forea , prificipalttiente naquellas 
empresas em qvte a refeistencia^ maior que o^podefr 
ila ooiftqursla ; e derto n'e^ta maxittfa applfoou toife 
^u cuidado a gafnbar animos^ que Hie mosrrasseih 
brecha$ para esealar pracas. Tavorecido da occ»- 
inio aehou entrada para* fomentar a d^Scnaiao dos 
-m^ssos^'epam'GOtitmbJramifeaite e cdrr^^ndeiada 
-torn oconde de 'BanhoHo.<]om opretifexto ^«ay- 
b^mdas, sicriptosemitnos, sefecifitou a cdmmwii- 
'M^^en^^ xima e'outra gente. -^M'ilitava ebKope os 
nosseisu^ soldado ntamiehieo^ chatoadoDoniiligos 
iJernimde^ Calabar, ^ttfea*>, e Ime ^m^deniassa'; 



<fevia »J4iit^a:$ temeo o castigOte pop fingira pmaci 
ar jposseu' ao HoUaKdez.. A coramtliiicsacao' the en** 
BHioiialgiiiiiasrpaUnFraa jQamengas^^ d loda a iwttde^ 
lidede dM-ebra»>. Fdi Deoebkio db todbst com iiidu9>* 
trioaoagasalho y dese^aos f^eoeiemplo peisua^ 
diBM a* mnitos^ a iBftitacao «Ik^ dalieio. Nao foi a 
sa^oidade infiraatifeik*^. povcfae' a mtiito$ eoMdou 
o^aniily 4pie das^is* soirvirao aa-wiaiSgor d^stedliar-'' 
vei egbiaa parsb oa asaahosv cms file destroiriiO' 6' 
CQiitiuielaroo a teiva^ a d'estol oeriaais DodiT4M 
afoeUes^cpse otftmiM Tiviao mtis-deBsioiiikRkKi'y- 
porcpie como eraN>r seniineUas^ de- dentro, nia havia 
moviomito^de que* nao fiiesscfnravieo. 

XXIII; Iiiforaiado Sisgiamandc do tildo (|iianto 
estre nds sepa^sara, eearto de qm os lioAMs.aa*^ 
dttf^ao q\ifiixo6o^ ei disgmtadbsf da pemxas eslimacao 
qudfachaWi^ no eondife de-Bo&holto^.e an Daarte 
d'AlbiMfiien^Bdy deteitmiiMi e:q[)erinieiiter8eiiaoo« 
camiy cdtre^)^)]!)^!^^' 09 effi^tos- a causa*, jatgando 
por- impoteiirel JMO' se aoompaiihar a qfueixa do 
odiQ e da I'iiigan^' : hfma de^ ser ai^uraa empma 
a pedra de toqfle*de8tes>aiS6eto8. Resekeo cc»h aeus 
cab0&qiiefos8e'ai{Diiqii»tada'Pafal^ pai^a onde 
06:i]ia»iacintido6®etiiiMo i«tiradoi Empenttou d* 
re9t(»<]b'seii podep; oon^^ctiena^eu; a^attaamiadsi 
al^ avdsfHr a^nossa lortalua que chamae dD^Gdia^ 
de}fe,^skn^da«llabarrai« Jkitio&^n^y ao^lelliaiia e 
miiBioote eto'tefrai, com todats^ a» denuoistrai^ 
der sititr a> fiofca^ BtB^ espim mmwdsi. Titta, e ^ 
Temad(n« da ^^i^^nia^ Atttomo^d' Alfaoquenqiie , a 
q«diii^o piw)6ir» rebalte pw^iia «eiBiptfiih»ieoi& todos 
09 antaradbi««9^€r'a4»wid^ taaqp^eiy^f^efntite 



32. GAfiTRlOXO LCXUTAKO. 

do assalto Ihe cleiKou coaduztr^ Conservou-^eoica*-- 
pitao maior em obaervacao com a &ua genie it aombra* 
da fortaleza e 4 vista do inimigo^ em quanto mau^ 
dou aviso ao Arraial para que Ihe acudissem com o 
soccorro necessario. Kao se atreveo o Flamaog^ a* 
iovestir os ao&sos, admirado de encontrar resoiuta- 
resisteneia onde esperava achar cobarde traicao.: 
ISao tioha coobeoido os prim<Nres dos animos por-> 
tilguezes. valor natural quando se anima>de fide»-: 
lidade obra sem vileza. Em todo o tempo que'du*-' 
rarao.as guerras de Pernambuco oibrirao os mora-** 
dores com esta fidalguia : sempre offcndidos na^ 
falta do premio e do favor ; sempre genorosos na 
poniualidade da obriga^ao e do servico. Todosos 
dias viohao is maos Flamengos e Portuguidzes , e ' 
sempre os nossos levavao a melbor. Em um d'estes^ 
eiieoBtros (em que sempre havia d'uma e outra* 
parte mortos e feridos ) cortou uma bala centrflria - 
a caridade e a vida do P. Fr. Manoel da Piedade , • 
rebgioso de Sao Fraxicisco , que sem medo dos pe-^ 
louroo .andava entre os nossos exerdtando a obri-« * 
gacao de confessor e o officio de soldado. 

XXIV. Chegou neste meio tempo D. Aieixo, * 
Gastelhano de nacao^ com algumas companhias de - 
GasleUianos e Portuguezeaem soccorro dos nossos; . 
o qual servio^de augmentar o numero^ pordm nao o ' 
animo.dos oombatentes. Nunca a compaoliia d'esia > 
nacapuosservio a victoria, sempre 4 perda. AqueUa : 
proyideneia r.que sieparou os doittimos, os definio ^ 
emiilos, e mo .co^npaidiearos. Alojados no posto* 
escolhido gnardavao a im^ma fortaleza , que os 4»* > 
fendia. Seguiao ad^acaramucafto €ufso dos dksi 



sem madancade sortey at^ que o ini^iiiigo se de-- 
Qtdio a asaaltar a noasa estancia; o que fez com 
tao boa fertuna^ que nm foi aentido senao jii quandb 
{»*imQiro se ettconiravao os braeos qiHe os olheis, dtf 
sorte que iai batalha pareeia luta , ferindo-se tao dc! 
perto que as armas serriao mais ao embaraco que 
ao golpe. Largo es{>aco durou o conflicto e a oou-' 
fusao , com que os nossos nial despertos tocar&o a 
r^rar para se conhec^rem, e distinguirem dos^ 
inimigo^* Quarenta mortos nos cusiou a eonfianca; 
e eotre ; elles acabou o oapitao D. Aieixo. Muitos* 
dias chorou o iuiiuig^ a victoria , que cmisistio* 
eia fioar na campanha. Mas uao se gozou d'ella , 
porque teudo aviao que do nosso Arrial saira o conde* 
de Bauhollo com o seu terco em soccorro da nossa 
geoie^ levantou o cerco, recolheo a artelbaria^ ar-- 
razQU OS quartei^; e embarcada a geute, largou- 
paAuo ; . e mais oorirido que iuvejado entrou no Ar« ' 
recife, olhado dos emulos com desprezo, e dos 
apaixouados.com applauao. Feslejou-se da nossa' 
parte o sucjsesso como victoria ; dossoldados porque 
defeuderao a fortaleza; e dos moradores, porque 
conbec^rap que em quauto quiaessem resistir, 
nenhuii^ poder os havia de domiuar. 

XXV. Com a eutrada do novo anno quiz o gene*^ 
ral hoUandez inleutar algumaem{H*eza em que suas- 
ai*ma3 ganhassam credito e proveito a sua na€ao« 
Foz o filo na.fortaleza da Nazareth, sette legoas dis-^> 
taat§ do Arrecife para a parte do norte^ para que« 
senhoxeaudp, a bari?a podesse aUi estabel^cer empo^> 
rio de commercio e.ceatro dedomi]la9ao.:SaiodO''' 
Arrecife em 14de MarQO cam nul quinhentos in- 



lira ^ 



74. 

em viate aeuatro naiMy e gnaidfe muHhiio de hx^ 
(Au^i. QWi o^dafttino At tottar pcm entrepfeMr^cM^^ 
y(U Sitti pesislenieMi. a< fortakzff da KazMredhr firtO 
govQABadon daffoirtalaau BartoManiii (odpitaofigfiial^ 
a»eate o^pelnle) e^ praiico)^. a< quelv apetar de nm' 
lei» oovN^niaid^a'Sflfliiflita* si^dadm^ sib 9e* ame^ 
drenl^Ur c<Hn a fol\ca^ qufiro- miiniget oslMla^) «- 
wtendaado o> seu deseoboy oidiKfou' guamei^ef di€'^ 
BdOifqpueteir^: utaa tiindbcira^ que^ defendb^ tltfE- 
liigar accomnodaMlo^para'Se iekut^mt^em tetM ; 
Q qua visto^palo HoUandes^ rnndaai demtento , e 
fpi cdtteandMif a. tern Bfsl dia^anciaide^iiwiidr fegiia' 
Qom (aaciMF de dQMdbarcar'e^ vm^e^^ivoymt ea^ 
Ibela (pie ^ alii) &»' on Hiar y entirandi^ afgfom^spacO 
pela lanrai dmnK --^'Seiii notida algtlk&a d^ ^ 
armada , nem^ des * imtealos' d'dla / viinMo ca^tta!^ ' 
nteli t6f poir tnra; quime mmquetcfif^s tiessds gtiaf*' 
daiidakUAia'gp«&detp»rtida*d#dinheirO^ qud1ndt*ca^ 
dores! (k^ Bahia reaveltiao^ a^ seas G<>rfe$pond^t!l*eil' 

a^iicar. Tftiito q«e virto a-ai^ 



i»ftda^ eadxuaioraoHse'no mate ^ p^ra otee^ai'^em' a' 
derceta^que levavao as laacha^. Ad^rtirao qUe, 
carregadas de infantaria bu8^avao a i^rthy tomando 
a^ oaUielay pelai <pial os^ tmtm Ma fo)^t«iiifa a*m^tter- 
se*.iias^vbecas<]bamosqtiet^s; l^t^o«^nos os'quinze 
SQldadosaic^raf ederao tira^primelras Idhcfaas tnria 
e^mukas o^rgas tao bemsoriidais, que n^Dj^erdllrao 
tkwu Gortade o Fkmengo do repentinoasdaho, e* 
dor wopiuido desl^Dco, v^koo a9 prttA^is lanehas, e 
ar^T^laiearemovbtiseottecoi^ dk arihadi^, mate 
¥eQciiddtdoiiii0^qtte do numelK). S^^tesucc^^ 



,ouaamo flmynuva k 

{^dveraador da fortakM a faama desgtiaMtfcida'paril 
fmparar cata ^nimacada, « qlie €au»do 4e i^ep^ale 
^•hpe ft noaaa Irkieheira a poderia toaiav #en 
fjjraodereaktdDcili. Msadou at lam^i quia «elta^ 
«m^ prio^auro daaiioo^ « f«ooiii«0aaaem4>«feAq«a. 
£he||irao a lk*o da jnosqiiete^ d«l a Maaa tnft^ 
*chaira aobrea Hrfantaria^ qsecra muiui 6 apiabada^ 
woeceasiTaaoargaBvooaa pontaria tao ceHa^^ue d' waa 
nMsla-bala nalaTa ^us e Irea. CresMD o mada 
^eom o cfliniga^ eaem «pie i^Httaae atmvaiaa ai^ 
uproar a tarra :, voltArao ^todaa 4i» ianCsfaaa ide ^a^ 
avrancada a unir-ae com a ^fyila^ q<ia aena saaia 
idatenea lai^eu panao^ e ae fea de <v£la« De «a^ 
.misko-poB fogo ^a ttm ooifaarca^oaa meaaaa^ qae 
aafaou aorlas no rio'Fonmiao : pcqmsia «viagaii9a 
:])ara a Fe<»faida offenaa* 

XXVi. induzkb, ^e guiadoio Elamanga daa trair- 

-doras que trmA «ditiaiga (tsraa a^ naaiop paoTte Italia^ 

i]6s)^iio do Ari>€cife pda omia noite^ atraresaauaa 

miiiaa da villa deOKada, pMsegnioa Buurdaapelaa 

vevedas maia^Mociltas^ e aemserMntido^ deo aofape 

a villa de Iguaracu o primeiro dia de Maiai^ a tempo 

-4|iie oa-movadopea aa^iao na %raja aos divines 

offittoa, fida aolMmidade da fiwta das ^pmtoloB 

Sio Pyiippe e Sim Thtago. Conao |iaamado8 m 

•deixou o repentiao ossatao , e o iaatimoaa^ iumulto 

dl^mnlhem. Alguns, que a caao aeaciilvaoeom 

aimaa, aeoppua^raoi fiiria^dof lamengo; mwoanao 

thea^ Mtou a eompanhia' eordem y 8iem4rao<a<^deeaiig- 

mentar t> numero dos mortos. Vencco o Ho Ba o da z 

«etii i^pp^j^i^;] fii^aqiiieoii Mseaa Afva^aiaididatfodei- 



36 €A9HUorro tDSitJUia 

truio setn respeito. Nao perdoou nem a idade , nen 
a sexd ; nao respeitou a modestia nem o decero j 
despojando as mulhenes de suas roopas, arran- 
cando-- Ihes com crueldade dos dedos >C8 aniVBta , 
das orelhas ospendentesd'ouro-Roubon edestrino 
o sagrado por odio , o porfano por Tuiganea. O que 
escapou do roubo foi oondemi^o is chamas. «-« 
Pouco mais d'uma hora gastarao neste cruel exei> 
cicio, e carregando quatrocentos uegroa, que para 
estefim traziao comsigo, do que pod^o levar', 
march^rao com pressa de criminosos, levando com*- 
sigo dous religiosos de Sao Francisco por: odio, e o 
coadjutor assim revestido como sa'io do altar, pw 
desprezo. Fizerao alguns moradores aeonlo para 
OS seguir e picar na retaguarda, obrigando-os com 
morios e feridos a iargar pari& do roubo; e.por 
certo teriao recuperado tudo, e feito n'eUea graude 
matanca, sea marcha fora mais comprida; mas 
tinhao p^to o mar^ e nelle as laochas que os espe- 
ravao, pos^rao terra em meio, navegando para.o 
Arrecife com salyas de arleUiaria e vozes, que ser- 
virao a sua dita de aj^lauso^ e ao nosso infortimk) 
de matraca. « . * > 

XXYIl. Ai^ ao fim de Septembro nada se intea- 
ton de parte a parte, conservaodo-se suspon^as.as 
armas; da nossa parte por frouxidao e descuido^ e 
da do mimigo pm* artifidio e malicia. Dos cabps^^e 
ateou a todos os nossos soldadoso ocio, em tal fdi^ma 
que este e o ardil do^dnimigo forao.as duas maps 
que mais trabalbarao em nossa ru^na. conde de 
Banholto ( que par^ee kvou a fatalidade . aquelle 
fistado paLVSi perdicao d'elle), ou fosse persuadido. 



GASmSQTO LUMTASO. 17 

OH cnganado, dkia a todos' que a cautoUa da inw 
migo^era medo ; e com esta malicia ou singdleza 
mandouiaaer apreatos para ip ^itiar a fortaleza d^ 
Orange^ cpie o Flamengo fahricou (oomo^ficadito) 
na barra da iiha de Itamarae^. Saio do Arraial com 
apparato e poder de soldados, artelharia, miim9oe8 
e mantimeiitos ; avistou a fortaleza, escolheo sitio> 
plantou a bateria j continuou as cartas sem Qutro 
effeito mai& que o de gastar tempo sem fruto ; que 
tiuha o inimigo a praca tao b^u fbrdfioada de trisH 
cheiraS; estacadas e reparos, que nao padeceo a 
forca o menos damoQ. : — coude , que em todas 
suas resolfocoes era leve ^ voltou para o Arraial 
d^xando na ilha as pe9as de bater, que haTia .tii*ado 
da nossa fortaleza^ per despcajo ao inimigo. D'este 
lote erao todas as ao^oes d'aquelle cabo ; per dlas 
se p6de entender qual era o animo d'aquelle ho- 
mem, e a razao com que os enteadidos e zelosos 
tinbaopaim si, que peocaTa mais decombanido^que 

deiraco. 

XXV IIIv Sendo o principal iutento do HdUandez 
aasenfaMearwse da campaoha , julgou ( e uao se eqr 
ganava) que se leyantasse uma fortaleza. no sitio 
qufe' dMiroaodosiAlbgados (porqoe naquella parte 
s(^m as agtias do rio, ajudada^ da mare, com tao 
arrebatada furia que afogao os que cdObem na pas- 
sagem), com eUa cortaria per todos os oaminhos a 
invasao e as^altos de nossas armas ; rmilo por que os 
nossos o |;uarueciaode trincheiras.e soldadas. J^ 
18 de Marco de 1G33 said do .Arreeife no quaifto 
da- alva- com oitooenios infismteSi escolhidos , paa- 
soti o rio de bwamar» iumstio, as triatjieiras 



shtiadas Mi mar^ns dt'elli^^ em 0pporMMdad« ^m 
Mlllas adMMi poiieos e deseuidados defentoffes , e 
apoderou^^se d'elliui sem rfaiatemiia. 'Qvizttrio.oft 
DOMoi nsoapenir o perdido, una do kaMe $ pQn|tift 
08 ininigos mais fettes em nuiMro oa o{ipnimfHMi 
de manatra que se viroo cdurigadoa h retirar pam 
ii«aa denaa mata^qBe oarlivrou de fatepam oom* 
pankia a viHta mortos , que deixarn nD oampo ; 
entre eHaa* o oapHao Franeit^ Monteire Beaenrii » 
^10'pagou com a mefto o•dMellidQ•^tt^Nao deat* 
presott o inimigo o favor de fortuaa^ antes o aegmo; 
OuarneaeoM trineheiras, e merdbando pelasfolaf- 
itaa, avisado e condiiaido per em traidoty atsaltDit 
a <Bfue dtamatrao de Nuao de MeUe^ o qual-HcM 
oeeasiao ealsiTa auaente, e aeue poldadoa comnanei 
trigiknoia do que deviiio. Supria o ^aldr a fidta dd 
T^Ui primeHK) Iha aobpir&ib de saiigue e lieiutQ 
a victoria quellielargasseni a triBdaieira. ^-f^QeeuH 
parfB^ee o Holiandea em foriificpup ^ eataneiaa .^ma 
nhadas , quando o certificarao da opportunidade j 
q«# Ike offei«eok o desieaido •, ^ a obofianoa cbA que 
im eataneia do Ilfeiidonca eatata d preiidie que* a 
gtiarnecia^ aprovehou a opporttinklade ; Fartad^ 
as amtiaellaa inri^lio ^ triiieh^a, e tat erfli q dea^ 
(wido doa nosaos que primeiro aiintine aa cutiUa^ 
das do inimigo qu^ vissem os l^Kii^M iqtie aa'deat 
earvegeifioi Perd&rioat^ «. mta oh capila^a.fipaa 
Soarcpy ai^nborda ilha de fianta. Maria , Mantel de 
Sa^ eaTalteiro do haUto de €hriato^ oom perte de 
ti^iiiia a^adoa ^ entve eUes D« Afonoel Ven^ ^ h 
^emdegoUModepoiadeeeeMMgiar ahem qnirieL 
A D, Anumio (^tia defao a iridaf potque Ihe eo^ 



ubeokiiQ a Jmgoa ^era itajiiano) $ kf^ariM^no com # 
seu alCei^^ ieidiitix)S px«sioBeiro8«Paraperiiigiiireqi 
«ft»o8ftos Midadas, que busoavao a ealva^m nosalat- 
l^daooft^ trAciio eoaiifiigd caes de fiia , ifue Ifaeslaat- 
fttirlo^ Mttilo perdeflMNs nag Aim ^Umcm dol 
Albgados « de Nwio de If dilo, pelt inportanetadoB 
Mltos ; p^rAm nesta de Meadonea muitoii^s pela 
qa^A da t^piiMt^. 

XXIX. Vando-6e d general Sisgi^oumdo assim 
favoreppdo da fontiBa, oom dbliberada oMadta^ 
M raBoiveo em ativestir a tiDssa fortaleEa do A(P^ 
raial , que distava do Airecife iima legoa de oa^ 
minho. I^bpoz os ^uiaitof neeessarios pata a iai» 
tmto com didsimuiaigao e preBCe^a^ e aalo em 24 
de Marco wta todo aeu poder.Cioiii aiii quinhent^ 
infttntes marehou peloa ingenhod de FraiMsiBeo da 
BritpedeAmbroeto lyfaefaado; at^ passaro rioC^ 
l»peFibe> onde fi^ alto $ dividio sua igente ao^ ires aaf 
quadv^) aos qtiaea ordenou q^/e a um tempa 
avanffasaem por itres paries : o pritneiro peia do 
engenho de leimiittid Paei^^ o seg^do pelaa eo9^ 
tas da ifi^jn <k Mis^ioordia f o teroeiro por nA 
pequ^M) rbchamado Pemafn Morim; eate efaa^ 
goa'primeirO) e sefli de|^ senitido investio a poToa* 
fio , e chegou at^ aa portas da fortalesa* Eatava 
toda a gentereoolhida na igreja, porque era n'ums 
qalaia feiraftaacla. Adiou o Ittiim^laiicadaapoiii^ 
ktadiea^ por ecdpa dos ItalkntloS) aos quaea ooube^ 
guarda <l'e|la naquefle dk. Em defe&sada poaAe^ 
que atravessava o fodso da cii^cutafereiicia do 
Arraiat estava um reduto ^ e netta de guamicad 
deze^ette Itaikaos ; a todos degolqu o hiimigo. 



80 GASTOOIO ISHTANO. 

Pedliio bom qi](artel, pordm o Flaniengo achou 
que o nao mereciao pek vileza da eotrega, ou a 
causa fosse descuido , ou traicaio. — Ja a esle tem-- 
po o segundo e lerceiro esquadrao do HoUaodez se 
tinhao Doettido debaixo da no9sa artelharia; pcuriia 
recolhida toda a gente da povoafao dentro da forta* 
leza, comecirao 09 nossos com seus mosquetea a 
dar tao repetidas e acertadas cargas no6 ininugoBi 
que em breve tempo virao as fraldas do Arraial 
juncadas de corpos morlos. Grescia o estrago com 
a.profia, e ohorror do inimigo com a deten^a* Tanta 
pressa se davao os nossos em ferir e matar « que 
cada urn dos Flamengos desesperaya de Ihe ficar 
tempo para fugir ; at^ que desprezada a obedieucia* 
perdeo seu imperio a contumacia dos cabos^ e forao 
todos largando o iutento e o campo. De sorle car* 
regarao os nossos s^o Flamengo na retirada.; que a 
poucos passos o pos^rao em miserayel fugj.da y dei- 
xando mais de quatrocentps mortos oa campaaba, 
e maior numero de ferldoS; e quarenta e tantos 
presioneiros ; entre estes quatro capitaes mal fern 
dos, e outros ofBciaes meuores, Perdemos viiite e 
cinco soldadoSy a saber os dezesete Italianos 
sobreditosy e oko Portuguezes; maior Qup^ero 
de. feridos, entre elles o capitao Joao Vazques, 
atravessado d'uma bala, que morreo ao t^rceiro 
dia com.lastima igual & perda; Henrique Dia^^ 
governador dos Minas , que neste dia se excedqo a 
si mesmo. levemeate ferido; e outros de menor 
conta y assim na qualidade como na lesao. — Jpao 
Fernandes Vieir^, qu,e apenas tinba vinte annos.de 
idade^. .^ra capitao de descobrir o cag^po^ como 



C/ISTRIOTO LUSITANO. SI 

fica dtto e neste conflicto Foi um dos primeiros que 

com seus soldados deo sobre os inimigos ^ igualan- 

do-se no valor e discipHna aos cabos mais assigna- 

lados. Para obedecer, nenhum mais prompto; para 

mandar, nenhum mais acertado. Era pequena €ua 

idade, mais grande sua prudencia, e maior seu 

valor. Todas as idades teve de varao; nao houve 

nelie accao, que buscasse desculpa na mocidade. 

Criou«o a Providencia para homem grande , e em 

nenhum tempo quiz que parecesse pequeno. 

XXX, Com a fortaleza que o inimigo levantou 

no sitio dos Afogados Ihe ficou livre o passo para 

sair pelo sertao aseu gostoydando repetidos assaltos 

emvarias aldeas, muito a seu salvo. Em 13 de Abril 

de 1 633, no quarto da alva, derao quatrocentosHol- 

landezes , acompanhados de muitos negros , mula- 

tos e IndioSy sobre a povoacao daMoribeca, que sem 

resislencia saque&rao e destru'irao, profanando os 

teroplos J e despedacando as imagens. Igual sorte 

teve uma aldea que chamavao do engenho de 

D. Catharina de Albuberque , a onde com um 

mesmo incendio ardSrao edificios e fazendas. Em 

25 de Maio assaltarao duzentos Flamengos ino- 

pinadamente os engenhos dos Gararapes : para 

carregar assucar iao todos providos de mocbillas , 

que ench^rao & sua vontade, mais saio-lhe 

amargoso o gosto; porque o capitao Domingos 

Dias com vinte soldados, e alguns mancebos da 

terra, Ihes seguio o alcance, malou vinte e cinco, 

e ferio dobrado numero, captivou um sargento 

com mais alguns soldados; recolheo quanlidade 

de mocbillas , que aos victoriosos. servirao de re- 
I. 6 



82 GAsnaono ttsiTAiia 

fresco edetriumpho 9 e aos HoUandezes o deixal* 
as de desembaracb e de remedio. Com pouoa dif<» 
ferenca fez outras muitas sorttdas, que pela »!«• 
milhan^a se podem ver nas passadas. **^ Depots de 
todos estes extragos , dispoziSrao-ae 08 HoUandeaes 
a maior empreza e mais pingue despojo, pondo o 
fito na ilha de Itamaraei. Em grande multietiio 
de lanchas embarcarao toda a sua infantaria^ e 
cingirao a ilha por mar; deitaiio gente em terra 
por tantas partes que por todas fez a invasao um as^ 
salto continuado. capitao Salvador Pinheiro que 
a goyemava , intentou valerosamente defeadel-a ; 
porem como o corpo de sua gente nao podia en-* 
cher o vao do cinto , opprimido do cerco se ren-* 
deo a muUidao. Fortificou o Fhimengo a ilha com 
o roubo d'ella. 

XXXI. Um freio era para o inimigo a nossa 
fortaleza do Arraial, porqueodetinfaa no desejo de 
correr livre pela campanha , e todos os meios bus- 
cava para deitar fdra o bocado qu^ o reppimia* 
Esperou queaporfia Tencesse a resistaucia, e em 4 
d'Agosto deitou fora mil inftmies^ com o destino 
de atacarem a nossa fortaleza. Marcharao at^ ao 
engeuho de Francisco de Brito , onde fizerao alto , 
dando costas a um tro^o dos seus , que deixarao 
occupadosem leyantar uma trincheira, e guame* 
cer umas casas que aoh^rao devolutas na passa^ 
gem do rio Gapebiribe; e a outro que com a mes- 
ma prevencao deixarao nas casas de Franciseo 
Monteiro Bezerra. — Derao as sentinellas rebate 
no Arraialy mandou Malhias d' Albuquerque sair 
fdra aquellas companhias, que o repente achou 



mais prontaft; as quaes, guiadag das aentinellas^ 
derao sobre 08 que estavao aquartellados naa casas 
da passagem do riOf que volerosamente desalojarao^ 
e constrang^rao a buscar a salvacao no pego. Em 
aeguimento doa primeiroa mandou o nosso general 
outras companhiaS) que levadas por difTerente ca« 
minhoavancarao as trincheiraa e caaaa do Bezerray 
ferindo e matando com furor tao vivo , que o Hoi-* 
hmdez com as maoa levantadas pedia bom quartet. 
A todos fizera voar o fogo , se entre oa noasoa $e 
acbara um barril de polvora* Buacava a ira por 
onde entrasse a espada , quando o esquadrao que 
ficara de poata chegava a soccorrer oa aeua , doa 
quaes achou ja maia de quarenta mortoa^ e 
entre elles muitoa officiaea de guerra. Obedeceo 
o furor a razao , e eata a for^a ; retirarao-^e os 
noaaos levando comsigo muitoa inin)igos, que de** 
rao 4 retirada o nome de victoria. Fiamengo re- 
parado de suaa fortifica^oea coatinuou com as trin- 
eheiras , e com el las deo principio ao cerco , que 
intentava por ao largo a nossa fortaleza do Ar- 
raiaL "-^ Conjecturou Mathiaa d' Albuquerque a 
tenoao do inimigo, e coma bom capitao tratou de 
Ihe obstar por todos os meios possiveis. Mandou 
por fogo aoa canaveaes por aquella parte por onde 
•Ihe podiao sevir de impedimento a vista | em op^ 
posicao do quartel do inimigo mandou levantar 
uma trincheira de grossas vigas y que logo guar-^ 
neceo de gente e d*artelharia ; mandou sair da for- 
taleza do Arraial toda a gente iputil para tomar 
armas.; e ao conde de Banholio^ queassislia a 
pbra d'uma fortaleza que no pontal de Nazareth 



8& GASTRIOflO LUSITANO. 

se fabricava , deo ordem que se recolhegse ao Ar-7 
raial com o seu terco de infantaria^eomesmo aviso 
fez a todos os moradores da circumferencia » para 
que o inimigo achasse em toda a parte prevenida a 
defensa e cortada a esperan^a. Quando andava 
neslas diligencias, recebeo aviso dequepelo rio de 
Capebiribe subiao a voga surda cinco lanchas em 
companhia d'um patacho ; e que o Hollandez man- 
dava aos seus soccorro de geute, artelharia, muni- 
coes, annas, mantimentos, e refrescos , com or- 
dem que y descarregadas as embarcacoes , metles- 
sem nellas os generos que tivesse adquirido o 
roubo^ para que se conduzissem ao Arrecife sem 
dispendio e com seguranca. Guardou o general 
para si a noticia; chamou ao governador dos In- 
dios D. Antonio Philippe Gamarao, communicou- 
Ihe segredo , ordenando-lhe que com seu ter50 
se fosse embuscar em sitio sobranceiro ao rio , que 
chamao o Guardez, com sentinellas ao largo que 
vigiassem a navegacao ; a outros capitaes ordenou 
que com oilocentos infantes se formassem no sitio 
de Pernam-Morim , para todo successo. Erao 
ISd'Agosto quando pelas duas boras da meia 
noite derao (i as sentinellas do Gamarao das em-- 
barcacoes do inimigo ; prevenirao-se os embusca- 
dos, e tanto que surdirao a emparelhar com o 
sitio, empregarao nellas successivas cargas ; cairao 
muitos , e o medo obrigou a outros a que se deitas- 
sem a agua, adiantado-se a perder a vida. Ao 
estrondo da mosquetaria acudio o esquadrao que 
os nossos formarao em Pernam-Morim, e chegan- 
do a tiro derao sobre as embarcacoes uma carga 



CASTRIOTO LUSITANO. 85 

serrada. Temeo-se o Flamengo submergido, de- 
samparou os vasosj dos quaes os nossos se apode- 
rarao e de todo o soccorro , que conslava de seis 
pecas d'artelharia e bronze , oitq roqueiras, muita 
quantidade de polvora e balas, abundancia de 
refresco e de viveres de todo o genero , que logo 
conduzirao para o Arraial com algumas bandeiras 
inimigas , que fizerao mais plausivel a victoria, 
deixando as embarcacoes consumidas do fogo. 
Cento e tantos Flamengos perderao nesla occasiao 
a vida ; dos que escaparao das balas e das ondas 
forao poucos illesos j os que trabalhavao nas trin- 
cheiras , informados do successo , e induzidos do 
medo, largarao a obracom osinstrumentosd'elia, 
fugindo tao desatinados como se levarao a nossa 
espada sobre sua cabeca. Deixarao arVoradas as 
bandeiras, ou por testemunho de sua cobardia, ou 
por disfarce de sua retirada , que conhecida de 
Mathias d' Albuquerque os mandou seguir ; mas 
sua ligeireza frustr'ou nossa diligencia. Achou-se 
nesta occasiao uma carta do general hoUandez 
para os sens cabos, em que Ihes ordenava que re- 
cebido o socorro passassem o rio, e a todo o risco 
investissem a escala a nossa fortaleza do Arraial ; 
e que entrada , a nenhum vi vente se ddsse Tida. 
Trocou c6o as maos a espada; e recebeo a ferida 
quein havia de dar o golpe. 

XXXII. Mais obrigado da fama que movido 
d'ardor militar deitou fora o Hollandez quatro- 
centos infantes no dia 21 d'Outubro, com ordem 
d'assallarem a fregnesia de Sanio Araaro. 
Distante d'esla freguesia havia uma iriiicheira, 



86 CA8TRI0T0 LUSITAAIO. 

unico reparo dos moradores j na qual se achava o 
capiiao £stevao de Tavora com doze soldados. 
Encontrando o inimigo resistencia que nao espe-^ 
rava^ e vendo-se descoberto pelos nossos, que sup^ 
poz em maior numero , guiado d'um negro^ mudou 
de yereda> e encaminhou-se para o engenho de 
Jeronimo Luiz. Foi em seu alcance o capiiao 
Estevao de Tavora com os seus doze soldados, e 
alguns moradores que se Ihe aggregarao; mas 
quando chegou ao engenho ja estava entregue &s 
chamas. Informado que o Hollandez com o roubo 
de assucar, gados e moveis marchava para o en<- 
genho de Maria Barboza , o seguio a passo largo^ 
e o avistou a tempo que nao pode o inimigo fazer 
mais que p6r4he o fogo, e marcfaar carregado de 
pelouros com que os nossos o serviao sem inter** 
rupcao. — Nesta bora chegou casualmente aquellb 
lugar o capitao Antonio Andrd com quarenta 
mosqueteiros , e cortou-llie o passo. Vio-se 6 Hol- 
landez por utna parte atalhado, e por outra perse^ 
guido , e com desesperado medo determinou rom«- 
per por uma densa mata , a onde embaracado das 
armas nem podia marchar com ordem , nem re^ 
sistir com Forma. Rompeo o maio a^ sair k cam«- 
pina de Tigipio , onde deo de rosto com Luiz Bar- 
balho > que o recebeo com uma carga de quar^ita 
mosqueteiros , tao destros na pontaria que derri- 
barao trinta Flamengos^ desacordados os mais 
forao largando a presa e as armas, attentod a 
conservar as vidas , que muitQs perderao ao vao 
d'um rio, e outros o passarao com agua pelos 
peitos; correndo todos a emparar^se do engenho 



GiSTRJlOTO LUSiTAliO. 87 

de Antonio Fernandes Pessoa, onde , em vez de 
abrigo, acharao estrago. Acaso cbegara aquella 
paragem o sargento maior do E&tado Pedro Cor* 
rea da Gama com duzentos mosqueteiro^ ; deo 
^bre OS inimigo^i matou quarenta etautos. Qui- 
z^rao OS cabos inimigos fazar alto, para evitarem a 
desordem em que Tinbao ; porem como o medo 
6 iucapaz de discipUna , faltou em todos a obe- 
diencia, fugiado cada qual por onde o guiava a 
sorte; e teve tao pouca sua eleicao, que os mais 
d'elles cairao nas maos dos Indios do Camarao , 
lao a01ietos que oao resistiao aos golpes, tendo por 
melhor fortuna o morrer que o fogir. De quatro- 
centos nao escapou o dizimo da morte ou da pri* 
aao. Dos nossos, eoi todos os encoatros , morrerao 
ciocp ; mn d'elles sargento de Luiz Barbalbo ; e 
ficaraoalg^uns feridos, 

XXXUI^ Neste nieio tempo partio de Lisboa 
Fraociscode Vaseonsellos por cabo de duas naos 
e algniQas. earaveUas^ que conduziao um soccorro 
mui consideravel aMathias d' Albuquerque ; maso 
Kolla^dez ^ que tiuba aviso de tudo que no reino 
^ pasgava^ mandou bordejar sua armada na allura 
dfi Pamba^ ^ emNovembro d'este anno Ihe vi^rao 
^ir nas mao^ os navips do soccorro. A desigual- 
da^Cf dp poder » que nos tirou o partido , nos aeon-* 
sel^pa o rem^edio; derao as caravellas a costa ; as 
diASO naps swgirao na bahiada Traicao. Francisco 
de Vascopsdios saltou em terra , e tomou o cami** 
obK^ 4^ Ajrralal » imaginando que deixava seguro o 
saccon^ que se p6de salvar; mas enganou-se cul* 
pfyvrijHsififitf , forf U^e a falta do cabo t^ ve forca de 



88 GASTRIOTO LUSiTAMO. 

exemplo. Abandotiarao as naos d'El Rei , que pro* 
melt^rao defender, desprezando vergonhoaamenie 
OS clamores dos marinheiros, que os reprehendiao 
com vozes, e envergonhdrao com as obras. To-- 
mdrao estes as armas , e com ellas nas maos espera- 
rao o inimigo, e se defenderao como valorosos em 
quanto os nao opprimio a multidao dos contrarios, 
que OS en vestio , rompeo , e saqueou todo o cabe- 
dal que Ihe servio. Com estrondosa festacelebrouo 
inimigo sua victoria e nossa injuria , e nunca com 
mais f undamento , porque nunca nossas armas na« 
quella terra padec6rao nem maior quebra nem 
maior perda. 

XXXIV. A fraqueza e a infidelidade se unirao 
nestes dias para nos magoar. Saio o inimigo no 
mez de Dezembro, e com grande poder de gente e 
de navios, sobre a nossa fortaleza de Kio Grande. 
A negociacao . tinha comprado a contingencia da 
batalha. Rendeo-a o Flameogo com a vista. Suposto 
que o capitao Pedro Mendes, ferido d'uma bala, 
deo a vida pela defensa. Com pretexto de cobarde 
a entregou o tenente governador , que era urn 
sargento : pareceo-lhe a fraqueza menos feia que a 
trai9ao ; facilmente cae na villeza quefli se delibera 
a viver da infamia. primeiro que entrou na praca 
foi o Callabar ( aquelle muUato de quem fizemos 
men^ao em n^^XXII), oupara asegurar o concerto^ 
ou para se conbecer o autor do contrato. Com 
quarenta soldados que a for9a tinha de presidio (os 
mais tinha licenceado o capitao ) levou o inimigo 
preso ao cabo para o Arrecife. Af urmurou^-ee entao 
que com esta apparencia quizeiio os inimigos en«- 



GASTRIOTO tUSITAMO. 89 

eobrir a Iraicao da entrega : engano mais segiiro, 
pordm menos apparente. Com toda a artelharia 
de todds suas fortaiezas coroadas de luminarias 
publicou o inimigo os effeitos d'uma traicao j ser- 
viDdo um mesmo estrondo a sua alegria e a nossa 
magoa; o que nos ratificou, a cara descoberta, 
remettendo psfra o nosso Arraial o |iutor da entre- 
ga livre , favorecido e medrado ; o qual mandou 
logo Mathiae d' Albuquerque prender com grilboes, 
e confiscar-lhe os bens , processado o crime pela 
confissao do r^o. Nenhuma perda foi para nos mais 
sensivel , porque nenhum successo foi dos nossos 
imaginado. Deo este infausto golpe fim aos sue- 
cessoa do anno de 1633 • 

XXXV. Gonvidado o HoUandez da boa for tuna 
com que o anno passado se fezsenhorda ilha delta- 
maracA e do Rio Grande , se animou a emprehen- 
der a conquista do ponlal de Nazareth, nao so pela 
vizinhanca, senaopelasconseqtiencias : era a porta 
por onde nos entravao os soccorros, e saiao os 
generos. Preparou os Tasos - de sua armada ; saio 
do Arrecife em 5 de Fevereiro ; e para melhor 
esoonder seu intento , mandou a toda a frota que 
emproasse aaltura daParaiba« Avistou a fortaleza 
doCabedello^qiieguardavaamelhorbarrad'aqueHa 
captCania , e da outra parte deitou quatrocentos 
homens em terra , com ordem que ameacassem e 
nao acommettessem a forca de Santo Antonio que 
alii estava situada ; o que fizeraocom vagarosas ap« 
parencias, dando occastao e tempo para que a toz 
do rd)ate Urasse a gente d'onde a temiao , para a 
parte a onde o enganavao. Persuadido Mathias 



90 GAftTUOTO LCttTAKO* 

d' Albuquerque coma viveza das apparei^ci^s, 
pidiodoArraialduzeatos soldados em quatrocoin^ 
pauhias que fossem ^occorrer a Faraiha, a tempo 
que o HoUaudesi acautellado e furtivo , recolhida a 
geute que tiaha deitado em terra , viuha jA arri* 
baado sobre o poutal de Na?^arelb» — * Por urn ea* 
teiro deilou urn ^olpe de geate em terra ^ que ^ 
saj^euto maior Pedro Gorrea da Gama , go?erua* 
dor daquella pra^a, maodou rebater oom maU 
acoixlo que effeito. £m quanto durava q eonfUcto 
buscava a armada iuimiga a barra, a qual entroii) 
mas uao tanto a salvo oomo eaperava » porque um 
reduto aosso dirjgio tap bemseus tiros que Uie m^ 
tec a pique duas fragatasi , que o mar tragw 
promptamente lua quaato aa outras davao fundo 
no porto , a oade em uma poota d'areia fabrioou 
o HoUaudeit um foriim, que as abrigava* -«-* Oi 
oossQs que viiio o inimigo si^or do porio^ a on^ 
eslavao muitas oios a eai^ , e para ella aiguw 
abiuuBeos cheioa de fa^eoda, a uma e a outra cousa 
poserao o fogo ; e em pou^o iem^ coasummio o 
ioceudio geoeros de muito valor , mas uao ioteira* 
mente) porque 'a diligeacia do iaimigo pode ata^ 
U^alo a tempo queaiudasalToa das chamais cabedal 
quamereceo a estif»a(ao d'uma boa presa« — Deo«- 
m rebate oo Arratal ; Mathias d' Albuquerque e o 
coode BanhoUo mardiarao immediaiameate pact 
Nazar^y fizeraoalto aobre o cabode Saoto Agos^ 
tiiiho^ <^&casi»braaoeiroi harra; fQKii£«arao*a^ 
OHQ trincbeiras, asaenitoaa aigooias pe^as d'a^ 
eance, e oom os pellouros d'ellaa oome^^ao a s^^* 
vir as embwca^oaa imwiyj com fontaria IM 



GASTRiaiO LDfllTAlia 91 

certa que largou o posto e as aneoras, e surgirao na 
enseada fora do alcance da arielharia. Vendo entao 
OS nossos que o reduto, que o Hollander fabrica- 
va, ja nao era protegido de auaa naos, na maoha 
itodia 7 de Marco descdrao do monie aeUeoCa sol- 
dados escolhidos e resoluios, e com tal valor o inves- 
tirto que immediatamente o entrarao, e desalojarao 
o inimigo. — Nao nos foi d'utilidade esU yictoria , 
pQfTque mo tempo que Mathias d'Albuquerque des* 
da com trezentos soldados para conservar o gaoha- 
doy eiiiro os applausos da victoria se levantou uma 
V02 ( que se afiirma ter sa'ido de p^to traidor) que 
iKuitas veaes repetio vir sobre elles o iaiu^igo com 
todoopoder, e fes tal impressao nos^mosdo yuI- 
go que Ihes nao deixou tempo para a refleKao , e a 
confusao seguindo^se a deaobedieucia todoa fugirao 
atei quealguaa vkae de quern. Provocado o inimi- 
^ de nossa desordemi voltou animoso^ e recupe- 
roii o peidido. Cuatou*4ios estedesaatre vinte mor- 
toa> e muitoa maia feridoa ; nao sendo meoor a do 
port^, que era per onde r^cebiamos os soocorros. 
XXXVL Amatado com esle successo imagiuou o 
Hattandea que poderia dbcer outre maior. £m30 de 
Mar90 despedio do Arrectfe qiiinhentos soldados 
eacdbbidos > e grande multidao de gasladores , em 
uma ec^itosa ^usaia de lanchas , que favorecidas 
^ escuridade da noite sabirao peio rio Capiberibe 
a cima at^ junto de Pernam-Morim, aonde desem- 
bareiriosemd^remsentidos, eo^ndelefantaraouma 
trkidieira que guaraeeerao de geate e artelharia 
com tal promptidao que primeiro nos avisarao os 
tiros qw oa olbos. ^-" Advertidos osnossos camera-* 



92 GASTRIOTO LUSITANO. 

rao nao so a corresponder ao inimigo com os tiros de 
nos^ artelhria, mas a provocal-o com algims sokla* 
dos que deitarao fora , travassando-se repelidas es^ 
caramucas que sempreacab4vaoa favor dos nossos. 
— y endo o HoUandez frustradasuaesperanca e sua 
ruiua eminente , resolveo-se a levantar o sitio , e 
para melhor encobrir seu projecto^ mandou um 
tambor com embaixada pedindo a entrega da for- 
taieza com promecas e ameacas. Foi o messageiro 
despedido com o desprezo que merecia; mas dc 
que o inimigo nao fez caso, porque so queria ga- 
nhar tempo e nao obter resposta. Embarcou n*este 
meio tempo em suas lanchas feridos , mortos , ar- 
telharia e bagagem; e se relirou a velaearemo, 
evitando com es(e ardil o destroco que temia mais 
certo na fogida que na assaltada. 

XXXVII. Mathiasd'Albuquerque, queassistia 
com o grossoda genteem Nazareth, sabendoo que 
passava no Arraial , se ihe representou occasiao 
opportuna para desalojar o inimigo do reduto, que 
tinha fabricado no pontal y e Ihe mandou dar se- 
gundo assalto ; mas como a resistencia estava pre- 
veirida , depois d'uma luta profiosa , sem que a 
victoria se inclinasse para alguma das partes^ se 
apart arao ambas as nacoes do conflicto, deixando 
OS nossos sette niortos, e levando maior numero de 
feridos, e tendo os inimigos muitos mais d'uns 
eoutros. 

XXXVIII. Deixarao estes dous successos suspen- 
sas umas e outras armas por alguns dias , no des*^ 
trito de Pemambuco ; tempo de que o Hollandez 
se approveitou para dar um fio a sua espada na 



capitania do Rio Grande. Tinha-se-lhe offerecido o 
geotio da terra por auxiliary que i naturalmente 
maligno e inconstante , com nattva propensao para 
o roubo e para a vinganca.PersuadioaoHoUandez 
aentrepreza da povoacao de Cunhau, com a riqueza 
do saco y e a indefensa do lugar. Saio da fortaleza 
governando ao mesmo gentio que o conduzia , de- 
rao sobre os incautos raoradores tao inopinada- 
mente , que a confusao cortou aos miseraveis ye« 
zinhos o caminho da resistencia e da fogida. Hor- 
rendas e execraveis crueldades exercitou aqui a 
barbaridade e o odio , apostados a excederem-se o 
herege , e o gentio. Nao perdoou a espada nem 
asexo, nem a idade; nao respeitou a rapacidade 
o sagrado ^ nem o profano ; e o que nao pode met- 
ter a sacco^ condemnou as chamas. A ferro e a fogo 
perderao a vida per to de cincoenta pessoas, sendo 
d'este numero um religioso do Carmo, e o capi- 
tao Fragoso, a quern as injurias tornarao mui cruel 
a morte. 

XXXIX. Sem movimento , de que se faca lem-- 
branca, esteve em calma a hostilidade at^ o mez de 
Septembro : parecia descanso, e era mina, que arre- 
bentou com a violencia que logo se vio. Em o mez 
deMaio chegou asa] vamento um soccorro de duzen- 
tos homensy deque eracabo D. Fradique, com mu- 
nicoes e mantimentos , que da Bahia mandou Diogo 
Luiz d'Oliveira, governador gdral do Estado; 
tomou porto em Na?areth ; e no mesmo lugar deo 
Mathias d'Albuberque aIojamen(o aos soldados do 
soccorro. Era -aquelle posto o de maior importan* 
cia; e nelle assist ia maior poder. Pouco tempo 



despots chegarao ao inimigo algumas nlos de Hoi* 
landa com novos cabos e ministros ; e com eUes 
novas ordens , cujo resultado ao diante ver^mot, 
XL. Para observar a forlaleza dos Afibgt* 
doS) que o inimigo tinha por mui segtira^ tioha 
Luiz Barbalho ( ja eniao nomeado mestra de campo 
d'um terco por Mathias d'Albuberque ) eseoUudo 
o governador doa negroa Henrique Dias o qual, 
embuscando os aeus negros nas matas ^ pelos lama- 
caes alcancava quantos paasos elle dava. Succed0o 
que em 1 2 de Septembro samo quatrocentoa HqIUui* 
dezes, e marcharao pela vargea do rio Gapiberibe 
comodestino de assaltarem o tengenho de Antoiuo 
Gavalcanti, a ondeo gentio ^u parcial Ihe promettia 
grande presa ; e para asaegurar a retirada deixou 
o Fkmengo uma emboscada up engenho de Fr^n* 
CISCO de Brito, Tudo entenderao e observ&rao os 
soldados de Henrique Dias , que sem dilacao f^% 
aviso ao mestrede campo Luiz Barbalho. «*-*Ouvio, 
neste meio tempo j o Hollandez o rebate que ae 
deo LO Arraial ; suspeitou que era sentido; temeo« 
se cortado ; mas quando se poz em retirada^ deo 
de rosto com o capitao Antonio Apdf ^ ^ que com 
cem soldados se achava na campina do Figueiredp 
para o asaaltar de cillada. Deo sobre o inimigo 
com desiguaidade de numero, mas com superioridar 
dedeValor ; foi d'uma e outra gente igual a resisr- 
tencia e o^damno. A emboscada do iqimigo ouvindp 
o estrondo do conflicto y largou o posto para acudir 
aos sens , mas acbou^se atalhada por outros 90m 
homens nossos , que Luis Barbalhp despedio do 
Arraial para esperarem Q Fiamengo na passagem 



d'Ambfoiio Machado; e assim enrohido pelos 
Bo$sos, que Talorosamente o feriao , buscou o re* 
ramedio na fugida ; por^m , quando j4 Ihe parecia 
ier escapade do maior perigo , deo na embuscada 
de Henrique Dias, qnede todo o derrotou, ma* 
tand(vlhe e ferindo-lhe muita geate. — Quasi ao 
mesmo tempo experimentpu igual fbrtuna no 
porto do Galvo. Estava alii ancorada uma fragata 
inimiga; saio a tripulacao a roubar pelocertao; 
deo sobre elles o gentio guiado por alguns Portu-* 
gueses y e foi tal o furor com que os assaltarao, 
que OS que escaparao de mortos ou feridos , forao 
pressos. Dezoito rendidos apresentarao os yicto- 
rio908 a Mathias d'Abuquerque, 

XLI. Erao os HoUandezes mais soUicitos em 
mandar refor^oS do que o governo d'Hespaiiha 
em accudir com soccorro. Aprestarao quarenta e 
seis fragatasde guerra com armas , muni^oes, e 
mantimentos em abundancia j guarnecidas d^ 
gente escolhida, e chamada de varias nacoes, para 
que todas as pracas do nosso Estado fossem tomib* 
das deOnitivamente pelas armas da companhia 
occidentaL Largou rela a frota nos primeiros dias 
de Desembro, e farorecida do tempo appareceo 
com curta viagem sobre o porto da cidade de Pa*- 
raiba. Tomoupanno, deitou ferro pouco distante 
da fortaleza da barra, que cbamao do Gabedello ^ e 
semimpedimento deitou em terra mil oifocentos in-* 
fan tea. — Sitiou o inimigoa fortaleza por terra e por 
mar , sem que a nossa gente Ihe podesse impedir, 
levantou trincheiras, abriofosaos, plantou artelha- 
ria J e bateo a for^a com toda aquella diversidade 



96 CA8TBI0T0 LUSITAlia 

de tiros que para os assedios inventou a arle e o 
furor. Tinhao os nossos levantado uma triocheira 
a tiro de peca da fortaleza para seguranca da praia ; 
ordenou Sisgismundo a um tro90 de sua gente que 
a escala a envestisse e ganhasse. Avan^ou com va- 
lor ; foi rebatido com valentia. Crecia o furor com 
a perfia ^ de sorte que ja a peleja era mais vin- 
ganca que combate ; at^ que moria a maior parte 
dos defensores a entrou o inimigo, franqueando- 
Ihe a invasao os corpos mortos dos seus, em tanto 
numero que sobrepostos uns aos outros igualavao 
o alto da trincheira. Nao teve o HoUandez para o 
triumpho mais que a prisao do cabo que era o ca* 
pitao Ferreira ; porque os soldados , que erao ape- 
nas quatorze , primeiro derao a vida que largassem 
a victoria. — Dura resistencia achava o HoUandez 
na fortaleza ; com reciproco damno continuava a 
bateria , sendo maior o dos cercados , porque al^m 
dos pelouros , granadas , e outros artificios de 
fogOy ja as minas tinhao feito voar alguns baluar- 
tes, servindo as ruinas a muitos de sepultura. A 
guarnicao constava apenas de trezentos soldados » 
cujo uniero tinha consideravelmente diminuido 
com oprofiadoassedio de quatorze dias. As municoes 
estavao exhaustas , os mantimentos consummidos, 
o perigo certo, o soccorro duvidoso ; oque bem con- 
siderado pelos capitaes, com prudente accordo ca- 
piliilarao a entrega; e dcixarao a pra^a, saindo os 
capitaes eofTiciaesdamilicia com ascustumadashon- 
ras militares; e em sua companha todos os morado^ 
res com suas armas, moveis^ eliberdade, para 
tomarem o caminho que Ihes parecesse , e que os 



GASTftlOTO LUSITATO. 97 

sb1dad(>£( pages ficassem prisioneiros at^ se Ihes dar 
passagem para fora do Estado. €oin as mesmas 
oondicdeSy e muito menos defensa se rendeo a 
forcisi d6 Sao Antonio^ sabendo que a fortaleza 
estava entregue. 

XLIh Logo que Mathiasd' Albuquerque rece- 
beo o aTiso de que o Flamengo sitiaya a forla'* 
leza do Gal)edeUo , despedio ao conde de BanhoHo 
com o seu terco de Italianos , e D. Fernando de 
Rjba Aguero com algoroas cdmpanhias de Caste- 
Ihanos que fos»em socoorrer a praca com a dihgen- 
cia que p^ia a hnportancia , e que a todo o risco 
Ihe meltessem soccorro, qiiando nao podessem de- 
salojar o inimigo. Erao Castelhanos uns^e Italianos 
outros, e jomaleiiros'todos. Doze dias gastarao na 
marcha , que de volta fizerto em tres , so a fim de 
chegarem a tempo qrie a perda os escusasse da ba- 
talha. — EspeiHTao OS habitantes afflictos da cidade 
que o conde saisse a campo a fazer opposicao ao 
Flamengo , que com insolcncia saqueava o con- 
torno , on que ao menos os foMificasse e defai- 
desge, mas achou-^se enganado , e vio-se assollado 
por queraseimaginava defendido. Permittioaos seus 
d saco da miseravel cidade , que se executou com 
estrahha exorbitaocia : goipe, para os naturaes 
tanto mais sensivel quanto menos esperado. Assim 
ficou a atribulada povoacao sem cabedal e sem de- 
fensa^ exposta ao ultimo da calamidade e da extor- 
cao. Sem resistencia se apoderou d'ella o Holian- 
dez ; nao deixando a fortuna aos tristes moradores 
mais que a escolha da tribulacao na sorte de cap- 
tivos ou desterrados. Uma parte, e foi a maior^ 
I. 7 



spftft w«a8 eo«) puti oonicao piim ^oQpMr iivnii^P* 

declarados, que para seguir auxiii^p^ fingidw I A 

con proiPfmM de oi iuatentap eoi sem (apOA y e 00 
livTO «cr%ifll d* wllgiftQ cs^thoUca rom^oa, 
(MQdw*«iio ^e liosped^i qwt logo r^pppeqa tyyat. 
nist dq »«nl»qy, ).GraiidQfi fwftp oft tr^^ialhos do9 
qw (iPgWirw PB Jtaliano^ j papqu« h9S tiwor^ in* 
t«ir$l9imtii de»pojados poy »q««lU« qm quern «ipe^ 
ravftQioh«ur ppot^^cao ; a outrc^ , ^oguiado n vered4 
do Arr»iPU T^^Q'*fie t^i^altgdiCkS d4 fcanq @ da mi^* 
s«ri*» lindecettdQ kstimosoft pfi^(arQS HJKJpnduQaq 
dfi sm* jfaffiiliw I que R ma m^mp tepipo viap 
rpwpfirQ»*tP pppao tormeuto^ p pp^o pom gemi« 

dps, Eip twta- affl|ip§iP n .d^^mp»rp Umbs era 9 

cpBswva d^ Antp»io d'AlbiM[qprq«fl , ^ de muitw 
seah^r^ 4*Wg«»hos, trifi^P alUvio, pois 3eH^ po- 
depfiim SQr?ir fipi^o spcoorro 1 sef Tiaa sd cqm q 
e^^mplq I a lodos igualav^ ^ #ortq no infortuniq, 

^Ulr TflnfP que SisgismundP »e via seqhor 
dft pidftd^ I foPtaleza e b^rr^ dq Faraibai re-i 
partip 8W gent^ em ni^Pgas de pequeno numerp 
CQjn prdem da ^aque^ram os engenhos, ^Ideag 
e dpnucilios de todo o di^nqto , sern distinc^q dg 
alUadop P r^b^ld^Sj o que ^e ei^ecutou cop) insai-r 
si^vel Qoblq^ I rf cplhendp o Flamengo umft gro^Sil 
presa^ — Informadp pelps seua de que na cam-» 
panha pao b^via sombras d'opposicao n^ip rebel-t 
dia, deixou a cidade cqm liniitada guarni9J|Q, ? cpm 



Hj«rghQu f^\A a Gpyana , em i^HJ* flaw<^h» W Ibft 
^B^nsgOH tfldp gpptio pwJwm»do a ^eg»iiy a m^h 

Ujor fortuna , p cie qw «Up S« »VW pjiw 49 WM 
eifiw4i9fl«i|t -- Mathia« d'AUmqHpjpqwa^ que via 
nao sem receio o engran4Q(3i)]iei)t<> 4a ii^iiqigq, 
cjajo verdad^^ro iqtanto ar^ de toipar o nosfq Ar- 
raial , para a^M^ i^pmar o ^^4 doipiiuQ , fe;| logQ 
aviso aQ reioQ 4q qu^ ^r'a suGpe4ido, p^4ii^4Q 
PQm gran4e iastacMcia socqcrrq para cORtrabalancar 
Q» rpfor^ que die fea^ia re<;ebi4p* Wm co^Tiii^a 
ppi^m pstar oQioga. e para ob^tar 4'alsuip iqodq 
apsi pFogrQ«0O9 4q QoUand^ ^ or4ei^ou ap capitaq 
Rf^gUiiJtia, qw wm algupaa* cpmpanliias 1 tjrada^ 
da Naj^arfith 9 do Ar^aial saisse a cprtar-lhe q 
passo i § quaqdo a oppo^i^o nap ba^tasse para q 
de^Vj PRO 4^capsa3^ dp q pipar. -^ EJntretantQ 
que ]|^ fprtale^a ^ faF^iao tpdps Ofi prep^rativo^ 
para Bsperpr e repelUr q iqimigo^ cb^ou q capitaq 
JVebellinbo pom sua^ cprnpaqbias, p asi dp algunsi 
mpr^0|?es qup se }bp aggregjirao » a V^^^ ^^dea 
chapoa4a 3ao Miguel dp Mpzupe, a oude fez altp ; 
n^a^ tendo aviso que ^i^ismuadp marchava com 
tq4o P ppder eqi direitura ao ippsmq lugar, Jjust 

oqji qijtro mai3 pqii^modp para r^Uw o seu 

ar4Uj deijando fpgp a aWpa, ?as50U p inimjgq 
$p{^ deter a marcha dirigiudo-^e a Mazurppp , ea- 
geujio dq^ religipsp^ deS^o Be?^tQ, a pude fez ^Itq 
§em acljsr impedimpnto , pprque reJigiosps p 3p-n 
culares havifto ab^ndpnado. E^tava a Rebelljnhp 
ernbuscado i^a mata dp Joao l^ite; assaltou o ini- 
mjgo com novepta spldados cpm f^nta fortuna que 



100 GASTRioTo ti7srrA!ia 

o fez retirar daas vezes em grande confusao : mu-i 
dou de sitio para segundar o assalto ; par^m sendo 
descoberto per infidelidade , foi acommettido por 
todo o poder de Sisgismundo ^ e depoia de se de* 
fender valerosamente , e sendo elle mesmo atra^* 
vessado com duas balas. 

XLIV, Nao descancou Sisgiamundo nos bra« 
COS da victoria; antes aproyeitando o favor da 
fortuna dispoz-se a continuar a ^onquista do re- 
concavo : o que conhecido pelos nossos , comecarao 
a preparar-se para a defensa. — Os dotts Albn- 
querques, com o conde de Banholk), que assistiao 
em o monte deNaiareth , deixarao a fortaleza eiH 
tregue a Fedih^ Correa da Gama, sai^ento maior 
do Estadoy bem guarnecida do necessario para 
susteiilar um largo cerco ; e com um grosso de 
gente ^t aquartellarao na povoacao de Santo Anto^ 
nio , sitio vantajoso d'onde podiao socoorrer as 
pracas vizinhas. Luiz Barbalho , que assisda na 
povoacao de Sao Lourenco com o seii (erco, dei- 
xoua, pela mesma razao , fortificada o melhor que 
pode f e com duzentos soldados de guamicao ; com 
a mais gente se passou para o sitio, que chamao 
OS Curraes de Santa Anna ^ e de H despedio duas 
companhiasparaos Guararapes,e outras duas para 
a Jangada , que assistidas dos moradores pod^rao 
rebater o primeiro impeto do inimigo^ e dar tempo 
a retirada dos vizinhos. Deii^ou Luiz Barbalho cem 
homens comsigo , destros e valentes para soo- 
correr a parte donde o chamasse a necessidade. 

XLV. Dispostas as cousas nesta fdrma, deitou 
oHollandez fora do Arrecife trezentos soldados com 



GASTRIOTO LUSlTiLNO. 101 

ordem que fossem recoidiecer a nossa fortaleza do 
Arraial, e observar a situacao d'ella, e os postos 
mais covenientes para os quarteis e batarias,, com 
que a determinava cercar e oombater ; deligencia 
que Ihes nao deixou con3egQir o governador d'ella 
Andr^ Marim , detidos da artelharia lao longe da 
forcay quanio alcan^avao as balas, atd que viradas 
as cosias se relirarao por aquella parte, que o Ar- 
raial olhava para p rio, que se achava deshabitada 
dos moradores, que nella se nao davao por seguros 
e se haviao recolhido aos matos. — Sisgismuudo, 
que ardia em desejos de ganhar a praca , assentou 
com 06 seus que seria de grande consequencia fazer- 
se senhor de Moribeea , para melhor ganhar a for- 
taleza e a campanha. Saio por tantoa 15 deFeve- 
reiro ao romper damanhaa commilquinhentos sol- 
dadoseduzentoslndios^ seus confederados; mandou 
marchar pela estrada que guia para os Gararapes ; 
e depois de ter formado a gente no moinho novo, 
com caixas , clarins , e bandeiras tendidas , deo 
sobre a povoacao , de sorte que a um mesmo tempo 
conhec^o os moradores o assalto e o rebate , os 
quaes , Tencidoa primeiro da confusao que das ar- 
mas^ deixarao a povoa9ao livre ao inimigo, que 
ganhou sem golpe o que nao imaginou levar sem 
cuslo. -^ Depois de se fortificar na M atriz , sa- 
queou o lugar e a campanha , que achou com todo 
.0 recheo. As violencias , forcas e extorcoes, que 
nesia occasiao padecerao os miseraveis vizinhos, 
forao tantas e lao novas, que excedem toda expres- 
sao , avantajando-se muito a crueldade dos Indies 
a dosHoUandezes. 



XLVI. Logo qii6 Lul« BArbalho teve ayistt 
do succedso , m^rchoii com cem hottiens qiie coni- 
irigo tinhd > e algun6 moradores iqu« M Ihe aggi^ 
gArao; tiAio^^ a elle iio caminho Ik Ferhdhdd d^ 
Riba Aguero , que Ifathias d' Albuquerque Ihe 
mandava com duzbntos hometid ^ com OfdeiU qiie 
eucorporados deBfietii bataliia ab immlgo^ como e 
quando taelhbf occasiao tivedBem. FiKerao cou^- 
aelho oa Taleroaob eapitaea ; e vendo que uao tihha^ 
forcas sufBcieutes para atadat* o iiiiuiiigo aberta^ 
menie^ marchdrao para aquella patliB que chamad 
a sc^ra da Agoa , a onde sabiao andata um terco ', 
que Siagtsmuudo tnandAra a saquear oa mor adt^ 
re9i-^]^boscirao-*se os uosaoatiumaitieypor ohd^ 
havia de paasar ^ inimigo. Dao aobrc elle c6M 
g^rande ardor ^ e ja o levatao de venqida i quahd^ 
Sisgiamuudd » atisado do pwigo pelo eatmudb da 
bfttaUia ^ eutiou um eaquinirao de socdoi*rd ^ o qua! 
fea mudar a aortedaa armaa» aeudo oa nossos bWi^ 
gadoa a tomar a fugida per rem^dio, tofnahdo fca^ 
da qual a vereda que Ihe pareceo mai^ 6eguva; -^ 
Luk Barbaiho, atotnpanhadd d^alguua Iiidibs, 
seguid camitiho de Snpup^na ^ ,maa quaiido tae* 
iioa o «aperata $ dec dfe who co)n ufna partida dd 
HoUatideeeat queacaso tiiarc)ia¥a:pbraqu€lla parte \ 
aem det^tica & cercarao ^ dattdo-lhe toii^s^ que m 
rfefideaae a both quartel ; por^m n faiudsd tapitldi 
fiatido lii^ud^ das palavraa do iukni^o que d'uiia 
fraco eavallo fern que ia luontado, tmegdU^Ihb as 
eaporas a tempo que se romp6rao as eilhad^ e teiA 
ao ehao com a sella* Nao perxleo o auimo o bridae 
capitao , anles empunhando a espada west '^n^kle 



diBsanlMfaco Abrio krgo cftmiiiho pok* etltre Os 
Fldmengosj e roitipendo d mato veio Ba!r bo lugar 
de Gorjavi ^ otide m moradoros \he demo no?o ea^ 
valid fiara se ir a Nazareth , e d'alii otide Mathiaft 
d'AlbUqiiet*qM aeiktia; e o iiieBih(> fiterlo H 
D« Fernando e iM tuais capitae^. 

XLYII. A guarnicao de Soo LotlVened ^ d« que 
et% cabd Affonso d'AlbuqoeiHiiie, aabidO o des- 
tfoco da tiosMi geitie , largit'ao a povoac&o | a quM 
fbi logo oceUpAdtt pko C(Hy>iiel Ghristotad Ak*che- 
toi9, que goTcdiiaira a^ artnisis i^titnartad ho qunictel 
de Madipe. -^ Aproveitatido^e 8fegiatoUiid» do 
fftvot* da ^ia«» , dedpacboQ logo VanM paMidM a 
rodfaaf OS taomdwe^dad alders viEinliAi * o» qti*ei> 
depdis de Hdubados , tiverao (ftie mSx^t o jtigo {«{«• 
migo, ott perdetido ea^a e ras^ndas) abti^ear 
patrii Ab d^eri« ^ onde tieHio pof jfttti a eitpori^ 
toeti^f igbal ioite. 

XLVlHt Mardtavtt Sisgismutkdo eom o fe^tatite 
de aua gtote eta Alt^tice dos pobrei tugltivoa) rou^ 
baAdo e api^otiaiido ludo que emotiiratii) 
eMnragado de groasa pti^sa de otim^ prata e i«ii>- 
paa^ hegiAa ana marcha encatnitibohdo^e para a 
pi^voa^ detSatilo Antonio do Oabo | maa quandt^ 
elle mettoft o ^iperava eaio eiima emfaoftcada ^ que 
Lttife Bftirbaiiio Ihe tiiiha armado, na qual perdue 
laiim ^tO) que m nio aiMr^weo a pa«iar adtatiie 
aKin daandar vik* do Arradfe qiiinhetttoa ho»eM. 
ftifor^do eom ^9te» proai^iaio seu intento, e coa^ 
segilio apoderar^se da povoatcao sefti iieaineneia.^'^ 
Gatifi^da a j^otoaolo d« Sa^to AniMiio > ocrapou 
SittgSamiitidd M^oieu «uMM<i em eonar «air«n9d» 



10& CASTAIOIO LUaiTAfilO. 

que guiavao para a nossa fortaleza de Nazareih, 
f:oin iatealiO de a privar de todo o soooorro. Co- 
nbeceo Mathias d* Albuquerque o designio; temeo 
o ceroo, mais pela fome que pdo ferro , e antes que 
o obrigasse o perigo , se relirou para Sirinbaem, 
deixando a fortaleza bem provida de soldados, 
armas , muni^oes e viveres. 
. XLIX. Tinba o HoUandez reunido toda a for^a 
jdloseu poder napovoacao de SaoLoureu^o^ fazendo 
d'aquelle lugar fronteira a nossa fortaleza do Ar- 
^ial; alii fez seusconselhos^ decidindo-senellesque 
a um me^mo tempo se deviao sitiar as fortalezas de 
Nazareib e do Arraial , a fim de que obirig£idos os 
jiossos a di vidir as forcas nao podessem fazer gran-* 
de resistencia. En 3 de Mar^o saio de Sao Lou-* 
renco b iniaiigo com todo p poder, e encaminhou 
a marcha para a varzea de Capdiiribe. Os mora* 
dores avisados do rebate se retkarao , deixando o 
melhor de seus moveis i a busear com suas Giniilias 
abrigo do Arraial; mas, tendoHse o Flamengo 
^diantado a cortar-lhe as estradas^ adiarao o inform 
tunio onde esperavao encontrar o asilo* — *• Andr^ 
Marim, goveroador da fortaleza, certo nos inten- 
tos do ioimigo , se prevenio para a defensa como 
pratico e valeroso scddado : mandou despejar a 
pra^a de toda a gente iautil para tomaras armas; 
advertio que se recolbessem aqueUes generos e 
materiaes que podiao servir ao sustento e aos repa* 
ros ; cingio a fortaleza de cavas e trincheiras , dei^ 
xando entre a fortifica^ao externa e os muros da 
£»rca capacidade para se empararem os mol^doreS) 
e se recoiherem os gadM da campanha; ordenou 



.QASTUOTO LUSITARO. 105 

aos capitaed Antonio Andr^ , Henrique Dias , e 
Joao Femandes Vieira ^ que ja commaadaYa uma 
eompanhia de avantureiros , todos mancebos alen* 
tados e nobresy que Gcassemforapara descobrirem 
o caiupo; e d'esta maneira se preparava para uma 
vigorosa resisteucia. 

L. Chegou o exercito inimigo a avistar a forta- 
lesa; escolheo sitios para as baterias, e dec prin- 
cipio a circuDavallacao. A cavalleiro da praca estava 
uma eminencia , a onde , por esta razao, tiuha o 
coode BaohoUo principiado um reduto , que sua 
IrouxiddO ou sen disignio o deixou tao iaforme que 
yierao muito& a dizer fizera nelle ^ para a conve- 
niencia do inimigo o que bastava, e para a de* 
fensa da fortaleza o quenao servia. Aproveitou-^e 
o Hdlandez do posto, e nelle plantou a mais 
grossa^de sua artelharia, que fordfieou de boas 
trincheiras. Fez outra bateria nas casas de Jero- 
nimo Paes ; e emoutros sitios diversas plataformas, 
com pecas r^orcadas e sufficientes guamicoes ; e 
nas partes onde sabia que podiao laborar com mais 
effeito , assentou alguns trabucos e morteiros. Foi 
o inimigo fechando as dislancias, entre bateria e 
bateria , de profundas cavas e grossas trincheiras , 
em que sem distincao trabalhavao gastadores e sol- 
dados. De tudo necessitava a occupacao , porque 
OS continuos assaitos dos sitiados os oonstrangiao a 
defenderem com um braco o que obravao com o 
outro, — En 23 de Marco sairao os Portu- 
guezes da fortaleza^ em bora tao bem escolhida, 
que ajudada &ua determinacao do descuido do Hol- 
landez , o poserao 0m conting§neta de se perder : 



1«6 oAsmofio LUKuno. 

matMD^ fertrao^ saqirtArio o qoaftel, e toltaffto 
muito a 86U salvo pira a fortaleza, ailtes que o itii- 
migo M eofarasse do terror em que o pOdtSrcid. Em 
o priiheiro d'Abrtl (que entaofd um ddmikigo d^ 
Ramos ) derao oe uossos segunda assaltadt ^ quasi 
com o mesmo successo ; e assim isotifitiu^r&o V6t!id& 
vetes at^ aoa prindpios da Junho.-^Via o lloUan- 
dez Teueida sua codtumacia de uossa ^esiMendS) 
e desconfiado dai proiniessas de raa esperauga, 
det^minott empenluir na empre^ o uMtnO d^ 
seu poder e de suatndusim. M^ndou <%^ildQ2ii'do 
Arreeife mais artelhaHa> e de thaior calibre^ Mft 
que refereou suas batmae ; ordenou que de tK)itfe 
e de dia $e laJjoiMse sem interpolacM de tefhpd eik 
ledaa as estAnoias^ para que oS cett^ados nao tives^ 
•em horn de descaudo uem de segutt) ; choviso effe- 
tivimtote as boulbas e as grauadls detotM dft tdt^ 
talefca | ^s qua^ estavfid m floods tad acdiluittadoSy 
que com eouit^s uloHi^s as esperiftvad ^ e Ih'ds 
deita^ em cimd tauto que m\ko ^ do^ quaei ilbA^ 
fadas aeepagaVao i^m si^^tirem efiHtd. R^d^bM- 
Tab^Mi nossos de taldr e de c^ustsueia i propt^d 
que eestLrsgd tresda>tE^usaUdd Ud kiif^igd gt^ude 
perdai pdrque m anilheirbs bdt^e^i^o emf^ tAnta 
destreka as peeftB>que auhde pUtthid a )tfAt^^ iihi%- 
f ia a bala ; e os iHos^ui^leirds atiravad Cdm ponld"- 
ria tao i5erta^ que Hid perdiSo tit^4 GoiifViHib 6 
Flauteugo de vei* a udssii ednMiShdta e seu eslj^ag;d> 
resolVeo a letaf pdr assedio o qlie nito podia cdii^ 
si^Uir por assaltd^ Coitdu-ttos tmlos ofe eAiUihhd* 
dd iftoedio; pfivt^tHtios de tdtlaA i!k t^orhinuiiiiE^ 
c9ea|'< ctoitdeiftttottHMM a UHMi piitttlfiA tal que 



OiSTUOTO &t»ItAllO. 107 

mais paredao (^statuas que oorpcs atilinados os de- 
fensores d'uma fortaleasa em que^ al6tn do6 hdrrd^ 
rea da guerra» tudo faltata ^ (ixe^pto o afiimd « b 
valw. 

LI. Trea thet^ s^ paa^dt^o nesta profiada Itita^ 
s^m que o» oferc5ad[os titessem a menor fton]b^a d« 
aerem soecorridob. A muitol pareb^o me deaant^ 
paro artilido da infidelidade ( otitros queriao qii^ 
fosse frouitidao do desdso y por^m o ceriD i qu^ ii 
efficada desemparon o valor^ yend(Mfte pois oa M^ 
tiados dfestituidoa da todo o hotnano anaitio^ « «x<- 
poatosS fdria da invaaao )ior falta de niutliooe^^ 
aostetilo e vigor ( eatado de que o iniinig^d tifilm 
iodos OS dias aviao)^ (30m madum coti6elbe ae re*^ 
aolv^Hio a fentregar a praea , qu^ nio podiao litHtr 
conl perderem ta ridaa. Capitulari^ a ^ntre^ com 
as seguintea c6ndicdes 2 1 \ Que lodoa ds cafaM <ft 
addadoa pagos aairiito com ^uas armas at^ Atl:*^ 
dfe> onde se Ihe ddria embarcaeao para as itidiat 
de (^st(Eilki. 2S Que deiaariad^ em refens des ettk 
barcacoes qtie os leTaieem, dotis capitaea quaea 
ellea e^olhtesehi. S''. Que o aprestn a fdrnecH> 
mento doa na?iw correl^ia por conta da Gotaipa<*> 
fdliaoccidetitai;-^Estacfipitulacafi fbi feita com a 
sAaisten^ia do general Siagiamotido Van ficopi da 
qu^l se aervirao para eaeender aoas t is ititeticdefc 
Aeerea dos tiioradorea da forttieza^ SmpenhiiraeNae 
OS noasos eapitulanles eto tirar para os moradoreai 
que estavao recolhidos na fortaleza j os partidos 
mais favoraveis que ser podesse , e sem esta con- 
dicao reeusavao a entrega. Com fingido sentiment 
se derao os HoUandezes por offendidos , -dizendo 



108 GASTRIOTO LUSIYANO. 

que OS moradores pela entrega da forca , passavao 
de inimigos a vassallos, e como (aes deveriao ser 
tratados; e que nao ha via razao para que aos ami- 
gos se tratassem nas capitulacoes como a contra- 
rios J pois como a subditos deviao defendel-os , e 
nao oprmil-os como escravos. Tom^rao posse da 
fortaleza em 1 de Junho de 16:j5. — Seguros 
na promesa ( que apadrlnhava a razao e a po- 
litica ) quizerao sair os moradores da for- 
taleza , quando os embargou uma ordem. dos 
•goverpadores das armas .hoUandezas ; e logo um 
dficreto passado em nome do Principe de Orange, 
pek) qual os condemnava por traidores a perderem 
as.vidas. Viao-se os afllictos moradores captivos 
sem causa, e condemnados sem culpa. 4 confianca 
e a innocencia Ihes faziao insoffriyel o goipe : bus- 
catrao a intercessao e o favor na lastima, e s6 o 
ach^rao na peita , e depois na compra , remindo 
as vidas a excessivo preco. — Joao Fernandes Yiei- 
ra se resgatou , e a dous mocos seus , pelo preco 
em que o HoUandez o estimou ; o mesmo aconte* 
ceo a todos os mais capitaes j sendo alguns d'elles 
xx>ndemnados a tratos. Ultimamente. nenhum de 
quantos recolheo a fortaleza deixou de se resgatar 
com mator rigor do que se fora captivo ein Argei. 
Por tralo tao iufame adquirio o inimigo vinte e 
oito mil cruzados ; que tantos dizia havia gastado 
no sitio J como se o rpubo se justificara com a 
Urania. 



LIVRO IV. 



SUMMARIO. 



1. Intenta Sftgisnraiido MsalUr a tillt dtdfrlnhim; mde-feaforfa- 
leza de Naiaretb.^t.Matliiaf d'Albuqnerque ratira-fe para a Lagoa; 
manda o Flamengo uma cfqiiadra sobra o porto do Calyo ; faz-lht 
opposi^ao o conde BaAhollo; torpe accao que pratlea. — 3. Mathiu 
d* Albuquerque, informado do saccesso , resoWe-se a deialojar o 
tnimigo; o qual foge desbaratado, e perde a prime ra e legunda 
Cortificacab ; raorre Calabar comdemnado d forea ; Matbiat d'Albu* 
querque prosegue sua marcha para a Lagoa. — 4- Chega Sligii- 
roundo ao porto do Gaho, e o que nelle fax; edifica uma fbrtatexa 
na Parapoeira, e um reduto no rio Garoaragibe. — tf. Chega ao 
Brazil D. Franeuoo de Roiai^jiQiii jam soecorro ; resolucao dof mo* 
radores. — 6. RebeUinho desaloja Sbgismundo, entra na po- 
Toacao do porto do Cairo; sai a receber D. Lui^ de Roxaa $ enton- 
tra-se com o eoronel Chrlatorao Arebitofls. — 7. A^istao-se ot 
exereitos, e anima D. Luii ot lew; trava-se a peleft; uma MM 
traidora mata a D. Lutt de Jloiai ; perdem oa Portuguezel a.vk6T 
toria. — 8. Yaleroaa accao de Manuel Dias de Andrada ; cobardia 
do8 estrangeirot ; dA-ie sepuUura ao eorpo de D. Lulz. — ^.0 
conde BanboUo auccede a D. Lulz ; diapoaicoea que tona. -^ iO^ Q 
Rebellinho peleja com o Flameogo, eretira-ie Teociido; vingan^ e 
eruezaa que o Hollandez executa not moradores. — 11. Estrago 
que fei o Camarao na campanba de 6oyana; aeodeo HoUaodei 
a rebater-lbe a furia, e elle o d4^conipoe at^ ae retirar Tictorioao* 
—12. capltao Rebellinho talla a campanba da Paralba; encontra- 
ae com o ioimigo, e aoccorrldo por Henrique Biaa retira-ae mala 
vencedor que veneido ; f(iz«m-ae omraa excorioea* •— . 18. A Compar 
nbia occidental manda de Hollanda novoa caboa ao Brazil ; u>m^ 
terra o conde de Naaaau, e vai aobfeo porta do CaWo ; o conde Ba- 
nhollo trata de fagir. — 14. Chega o eaiide Naaaau a vbta do por- 
to do CaKo ; aaem os noaaoa a receb61-o ; rompe oa e^quadrdaa. — 
15. Segunda bataiha ; vaierosa ac^ao de Henrique Diaa , e do 
capitio Barbalbo. — 16. Bagnollo deaempara oa aeua , e tWet o 
poato e a poroacao ; Nasaan p^ cerco a fortaleza , que ae entrega 
a partido. — 17. Intenta Naaaau lerar a cidade da Bahia por 
entrepreza; retira-ae caatigado; forti6ca-ae para bater a cidade; 
manda iiina embaixUda aoa oercadoa ; aua resposta : continua a 



110 GA8TBI0T0 LCSTrARO, 

bateria; mts titaludo p«lof noftof, foge comgrande perda*— 18. 
Resolve-se em Madrid a rei tauracao do Estado ; nomea-se para a 
empresa o conde da Tprfe, diijl iio(ic|a ehega ao Braiil. —19. 
Sai a armada de Liaboa , ehega a eosta de Pernambaeo, e dobra 
4f cabo de Santo Agostinho ; o conde da Torre dispoe o sitio do 
Arrecifepor terra; cbega a ^in^^fd yi^U de Pernambuco ; derrota 
para as Indias, — 20. Deitou no porto do Toiiro a Luiz Barbalbo ; 
pratica que elle fax 4 sua gente ; da principio & marcha : o que 

que q df nde 4^ TP^f^ m^ii^ ^ ^mH^l^i <lfV P§|:o»|Dbi9i:», os 

r^mi^u upaa ^rOHIfl* ^ 4e8truir Q r^cq^fa^p 4^ Babifit -t2|3- C()9ga 

, 4 ^^bia p mjirque? d^ HQpt^lw^o ppr Yiza-Bel; m^(^^ W^s^i^ « 

. caiqp^qba d^ Pernwtiucp.— S(4t iPJ4«WU§W|n44 wbfii»di| ao 

. yifO-IUi, p qual Jhn F««ROP4«8 ^m dU4fl|vuU^ia,^ ^. ijapritjue 

Pi^l Q Paulo 4a Cupba cbeg^p aq rep9PC^rP 4^ ?^naq^|)uco : o 
, qH9 «eUp ql^f oi^, - ^6, Wo^^e ^ {pip iq^p^t^, irpilq ^9 mi^^ ^e 

Ma98«u- 



I. Depois que o Jlqllandez ^p achou senhpr da 
miSA fprt^k^a do A^r^ii^l apertou o cmQQ a da Na- 
zlrrelh , engros^rando o poder de um sitio com a 

ge^te flup d^SPCRpPU q .Qfttrp. Rpixqu 9 fortalp^a 
gfuarBeeida - cpm seiscentos soldadoB €goolhidos e 
duzeuto^ Indips alliados, emarchpi; Sisgismimdo 

p^rn Kazaroib ; tiada m ff^rtuoa de mas arm^s, 
intentou levar de eaminho por entrepresa a villa 

4p Sjripham- Matbias 4'A(buquerque , q^e ?e 
h^via retipado para esia villa , ooiao dissemos no 
liyrp precedenfe, posto que havia dest^cado con- 
de de Banbolba com q 8eu terco para o sitio da 
Laffoa {i tima povoacao com rio que faz barra qua- 
fQjpi^ p cjftpQ legoas dp Arrpcife par^ q swj ) , p^ra 
que nelle (»e fortificasse e sefifurasse a retirada , em 
caso de necessidade, informadP do desenho do 

iqimigo , ma^idou*^ reeebec com partQ da gpute 



qp^^Hi <in\?fti p. cow tAQ l)c»vfqrm9a <> ft»l*Qi 

qfip Q ri?ime«gQ v§Tido-sp atalb«49 9 w^«U4o 4 
^apa4a« 4?PQis ^^r^phido gomb^t^, ypUo\) ^ co^-* 

W{ f * desj[9tif> ,^A ?Wpr^. jpppctepwp PRSje ^fin 
contra 9^pitap Awto^ip Ab^p^i ?»«» n^wte ffti 
sei^|id?i 4e to4oa; p^trpj| 4oh^ ^spirte^ fic4r40 pret 
§ipij^i^ro? pe}a .deqiJttia qpri que ^ ^rpppqbarfiQ ; fi 

a per4a ^o wjinigQ, T- Apertow 3i^Uraundq Oft 

ataqu^ 4 fortfll^ de IN^as^rpthi 4^ &PFt9 qye j4 
^\flls| ^^90 iBius a$ ruina^ que q$ peparq^ | apgmeqn 

I^Y^ ft (cm^t difninyi^q ^^ piMni^oQ^ e qs defeQ* 

^r^si d§ sppcpriro i^ao havj^ nqticia; ati^ que rwiT 
did* » fM?P5t9pa» aqs p^s ^a iiapquaibiUdadfi , 
cjspjtijj^raq.a qqfreg^i s^gMJpdo o M^mplo d% 
foftal^z* dq A^^^i4l i«»S q?ndicq^«l ^ »q§ Wptivps, 
Eutrou nplja q Flamengp ^m q 1 ^ de Julhq 
d'ei^te fini^q 4(3 iQ35. D'^sta m^qeira a^ periv 
der§p idu»s pra??iSt qua twtp tr^balbo^ dish- 

peqdiq e ?angue Qustario, A dp Nazjireth coa-r 
3?rvQii o jmmjgp; * 4p Arr^il wijindqu arra?ari 
porquf tftlvez a r^piitava iputil ao «eu designiq, 
11^ Mathias d'Albuqi^arque vendo a^ nossaft duaa 
foriglezap cm ppd^r dp inimigQ» a conhocendo 
quantp pe acbava armcado m villa de Sarinhaem, 
saio d^ella oqm toda a gPi^te, ^ marchou para a 
Lagoa. iQhapdQii a 3i tpdoa qs mopadores que se 
qyjserao retirar i o qwp Hiemo muitos com suaa 
faixuliftfi (e inpvaifij para tudo dec carruagens, 
^ p^ra tpdos prpyisao , seqao como o pedia a 
Q^ce^sidade ^ como o permittja o tempP* Qu$pava 
g^qeral coq^olar a todps , 6 ^oimaL-fOs (^qid a oartesa 



lis CASTRIOTO LtStTAIVO. 

do sotecorro esperado em uma armada , que diria 
ser parlida do reino em sen favor } mas pouco ef- 
feito Fazifto suas promessas ^ e s6 em sua companliia 
achava e afflicto povo alguma consoltacao. — Entre- 
tanto que Mathtas d^Albnqerque fez a i^iia retirada, 
apprestou Sisgismundo uma armada de doze fra- 
gatas, a qual , navefjando trinta e quatro legoas do 
Arrecife para o sul , foi sobre o porto do Calvo 
guiada pelo rebelado Domingos Fernandes Cala- 
bar , a cuja persuasao fora preparada. Tombu por- 
to na barra grande , crnco legoas do porto do 
Calvo ; deifou aquella gente em terra que julgou 
bastante para sen intento, tiao iazendo caso das 
fracas trincheiras que os moradore^ alii fiaviao 
feito. — ^ Cbegou logo ao porto do Calvo a noticia, 
ao mesmo tempo que alii tambem chegava o conde 
deBanhollo com o seu terco deltalianos, e o mestre 
de campo D. Fernando de Riba Aguero com parte 
de Castelhanos e Portuguezes, de que se foi*mava 
o seu terco , os quaes marchavao em um corpo para 
a Lagoa : era aquelle seu dii^ito caminho. Pareceo 
aos moradores milagroso o succeso ; com toda a 
submissao e efficacia pedirio ao conde nao perdesse 
occasiao de tantoservico de Deos, de seu Rei, ede 
tanta gloria sua. Nao pode o conde escusar-se ; 
concedeo o soccorro com animo sem duvida de 
fazcr irrcmediavel a perdicao. Mandou que a car- 
ruagem seguisse a marcha para a Lagoa , com suf- 
ficiente guarda, e metteo-se na povoacao com toda 
a gente que tinha de guerra. Gastou aquelle dia 
em cercar a igreja matriz de estacadas , para reco- 
Ihimento do povo e reparo da sua gente. No dIa 



CASTftlMO LUSItANO. IIS 

seguinte ae virao desenroladas as bandeiras ioimi- 
gas no otiteiro quechamao de Amador Dias^ de* 
baixo das iquaes marcharao settecenios HoUandezes, 
cortados jd d'um assalto , qae alguns msncebos na~ 
luraes da terra Ihe tinhao dado , com perda con* 
siderayel. Divisdrao a nossa gente, e fizerao alto 
timidos pelo damno recebido^ e espanMdo^ do que 
nao tinhao imaginado , vendo a forma e o numere 
do esquadrao^ que os esperava. general intmigo 
fez uma faUa aos sens soldados^, animando-*os i 
peleja^ e mostrando-lhes qu.into seria perigdso 
recuar diante da empresa comecada; a qual (ei 
n'elles tal impressao, que rompendo a prattca mar- 
chdrao a buscar a batalha , que o nosso esquadrao 
Ihes offerecia immovel . — Com igual Marte se d^- 
rao e receb^rao 46 primeiras cargas, por^ com 
desigual valentia tercou a espada D. Fernando 
de Rit^a Agoero , a quern seguirao cmcoenta soU 
dados portuguezes e castelhanos , que rompendo 
pelo esquadrao hoHandez , odescompos^iraoeabri- 
rao com estrago e espanto do inimigOy querotoae 
julgou desbaratado ; e de todo ficiira perdido, se o 
conde de Banhollo com os sens Italianossegoiratao 
efl^eaz exemplo ; mas este , ou por cobarde ou por 
Iraidor , em vez de entrar na batalha para veneer 
o pleitOy deixou osvalorosose fieis soMados com 
seu capitao nas garras do Flamengo^ das quaes se 
livr^rao industriosos e valentes : D. Fernando va- 
leo*se d'um alagadi^o que Ihe servio de reparo, 
para escapar & morte eA prisao. Ficou o Hollan- 
dez senhor do campo, da povoacao, e dos mora-* 
dores desemparados de todo o favor humaao. 

h 8 



J»fe.ri4?i i s^ipdo q^ p^58op do <jqnd^ B^phpllo , e 
.4^««!io^^lfe^ imteade cbc^arao {M>rU>.cji^ Cjilvo 
re<;ei^O ^ «p?a-d^ perda do lugAf i i^ da torp^ fyga 
do^ I^U0i¥>^* ConM^ <3apitao prud^nle Q eiperuii^iir 
tado 9§rtirioou«««( do pader e ftlojamf nto do jinir 
iPfgoi daapedio a carruagem por Teredaa d^u<* 
Mdaa I » com 08 soldados determinou buscar o 
HQlMndet om, sens alojameutos. For ordem sua ae 
adiai^t^rao^ <:apita68 Franoiaco Rebello e Assenad 
da Silva a ieaperar o inimigo de emboacada , entre 
^ pQFQfucao a p outeiro de Amador Alvares. — J4 
na^ t0mpo tinha o capitao Souto persuadido aa 
aarg^nto Ji»aio]? daa armaa hoUandezuSf chamado 
Pkar^ taiase a cdrCar o paaao a Mathiaa d'Albil*- 
quorqiie^ que oaarchaya para a Loigoa com oa mora^ 
dorea de PerbaufkbucQ carregados do mala precioso 
de aena moi^eis I aaaeguraudo^lbe riquisalma t»resai 
e;oafl;a a vkt^^ri^i pois ia combatercom um cabo 
daaannado ed^aobedeoido* Dei^oU-ae o HoUaudez 
iayarda cobica^ donfiado no capitao Souto^ qae 
ae o£[aite0eo para o acompanharf.aaio a ex6outar 
proJQti^* Virao apenaa uns yinte aoldadoa pc^tiJH 
Ifuraaa e iBdios que os doua capitaea emboacadoa 
tinhao despedido a provocar o Flamengo , e mais 
ae conBbfdarao no dito ^ ouidando que erao foragi^ 
doa quf^ andavao roubaddo^ *— Piear Icvava $6 duaa 
compianbias , tetido deiscado itrea de guartiiQao eitt 
seu alcgaihento-; aegtiio a Sebastiao do Sobto , que 
Ihe aertia de giiiai o qual carregando oa yinteaol'* 
dadoa o entranhou na emboscada, e aia paaaou aos 
nossoa> que ^ pn>iiq>toa e di$cipUaadoa.d0r6o uma 



QAfTiiOTO iiwnruio. IIS 

iparga $eri)a4«» muitaa vene^ repetida^ sobre a 
gente do PJcar. Cortado; do eng^ao e do ferro sf 
retirou ,49sbaratad<> lao abrigo do reduto de siit 
fortifica^aoi mas nao o p4de fazer tanto a tempo qiie 
nao eutrassem de tropel vencidod e veuoedorts^ le^ 
yando estea tudo i espada, menoa Ficar ^ que oom 
dez GompanheirOB teve acordo para adiantar a fu* 
gida a esoala » bu^cando na a^unda fert{fica9ao a 
defeosa que desrempar^rap na primeira* Mathiaa 
d' Albuquerque I que do outeiro de Amador AWarea 
yio logrado o ardU da embosoada f e ganhado o 
|>rimeira reduto^ deseeo oom a sua gentd a eooor* 
.porar-8e com a doeonflicto, que ja ae dph>yeitaya 
^a artelharia do inimigo coutra aua fortificacaoi a 
qual lA) pode aer tomada da primdra avauQada 
.pqr estar cingida d'uma estacada de paos a pique 
^ui forte. Fas$ou-$e a uoite em deatruir a estacada 
4 3ombra dai^ balas d'artelharia e mosqueterla que 
Rz^rko grandissimo estrago nos ediQcioa 6 pesftoas 
4o ifiimigo ; e ao amauhecer vendo este a ousadia 
comqueuqicapitao e.alguns soldadoa iinhao appli- 
(Qadp ^ casas onde ae defendiao muita copia de 
leuha para Ihe darem fogo, reudeo*&e a partido, 
4em dar ouvidoa is impoptuuaa instanciaa oom 
que o Calabar repuguava a entrega. <-^ Permiitio*- 
ae a oabos e soldadoa que sai^em com armaa e 
Jmiguiaa^ ^^cepto o Calabar, que hdvia de ficar 
preso^ e eutregue a juftti^a. Nao fez o Flamengo 
grande diligeueia por defender o traidor ; ao qual 
julgou a justi^a que morresae enforeado^ e que 
aua cabe^a eaeus quarfios fossem po8toa nos luga- 
T^ mab publico^. ^ Executada a sentm9a^ man- 



116 CASmOTO tOSITANO. 

dou Mathias d' Albuquerque inventariar tudo que 
pertencia & fazenda d'El Rei, e nao podendo trans- 
portara artelharia, amandou esconder em lugarei 
occultos ; e com os despojos de menos embaraco 
marchou para a Lagoa acompanhado e seguido de 
muitos moradores , que com suas familias e bens 
fogiao & tyrania ^ e & obediencia do Hollandez. 

IV. Tres dias depois de partido Mathias d'Al- 
buquerque, chegou Sisgismundo' ao porto do 
Calvo; entrou na povoacao , que achou herma j e 
s6 assistido dos quartos do Calabar , cuja vista 6 
aherou de sorte, que cego da colera mandou dei- 
tar bando , que todos os moradores fossem pas- 
sados i espada , sem excepcao de pessoa nem d^ 
idade ; para cuja execucao fez de seus soldados muitas 
partidas , que saissem a comprir o decreto. Grande 
foi a affliccao e o desalento dos naturaes quando 
soub^rao d'este barbaro decreto ; e nao podendo 
resistir-lhe pela forca, recorrfirao a supplica. Vivia 
nos contomoB um religioso da ordem de Sao Paulo 
primeiro hermitao j por nome Fr. Manoel do Sal- 
vador, lettradOy zeloso e bem procedido^ a quern 
buscarao os tristes afiligidos para remedio e ultima 
consolacao. Derao-lhe conta do caso , ficeu igual- 
mente pasmado e compadecido ; e sem reparar no 
risco a que se expunha , tomou por sua conta ser 
o procurador de todos : f&l-o com tanta diK- 
gencia , liberdade « efficacia , que convenceo e r^- 
duzio Sisgismundo a razao , mitigando o primeiro 
decreto com mandar passar segundo , pelo quil 
condemnava A morte a todos e a qualquer dos mo- 
radoreSy que dentro de tempo determinado nao 



GASTRIOTO IiUSlTABia 117 

viesse com suafamilia e moveispara casa, e pedisse 
passaporte para sua seguranca. — Depois de se 
demorar doze dias no porto do Galvo, em que 
Tendeo aos moradores o captiveiro por sobido 
preco 9 saio Sisgismundo a campo espalhando vozes 
que ia em seguimento de Mathias d'AIbuquerque, 
e que nao havia de descancar em quanto o nao 
colhesse iis maos ; os excessos fizerao crer os ditos, 
mas erao outros seus intentos. Em' um lugar cha- 
mado Paropoeira, entre aLagoa e Santo Antonio, 
levantou uma forca capaz d'alojar seiscentos ho-» 
mens , que nella deixou de guarnicao , e por seu 
governador o coronelChrislovao Archetofls; ievan* 
tou outra de menor •^fabrica nas margens do rio 
Gamaragibe j presidiada de cento e vinte soldados, 
seu cabo Jacob Estacour ; cortou todos os cami- 
nhos e veredas que poderiao servir a communica* 
cao dos rendidos com os da Lagoa ( mas nao pode 
impedir uma via occulta que os nossos abrirao 
pelo mato , pela qual se communicavao ) ; e assim 
dispostas as cousas se retirou para o Arrecife^ 
pubUcando que se ia prevenir para voltar sobre 
Mathias d'Albut^querque. 

y . Ginco mezes bavia que Mathias d'Albuquer* 
qu€^ $e tinha retirado para a Lagoa com as reli* 
quia$ dos sotdados e moradores que se pod^rao 
livrar da insolencia inimiga, quando a 25 (|e 
Novembro appareceo noa mares de Pernam*^ 
buco um grosso soccorro do reino y que con<- 
duzia D, Luiz deRoxas e Borja. numero , e gran- 
d^za dos vasos fez parecer ao Holtandez formida- 
vel o poder , e ja se prepara va para a resistencia 



lis GASTO<yr6 ttrSTTANO. 

quando o aliyiou a repentina votta que fez a frota 
dirigindo«>9e para o cabo de Santo Agostinho; 
a onde os nossos receb^rao noticias do estado d^u-^ 
mag e ontrasarmas. No sitio que chamao a Geroa- 
ga salt^rao em terra dous mil homens, entre For- 
tugueze$ e Castelbanos , desembarcarao artelharia, 
municoes e mantimeutos , e a armada se fezk vela 
para a Bahia , recebendo piimeiro a Mathias d^ Al- 
buquerque J a quern Sua Magestade maudava rir 
para o reino , por ordens que iD. Luii Ihe remel- 
tec. logo. Nao se pagao os principes de quern serve 
com acerto , senao de quern obra com dita. -^Gom 
a nova do soccorro comecdrao os Flamengos a 
aprestar-se para a defensa , b &8 Portugueties para 
a restauracao. D. Luiz deteve vinte dias a marc^a 
para dar tempo a que se abrisse um camiilho novo 
pelocoracao do matoparaconduccio do treni, etc. 
. Entreianto Christovao Architods , que gover nava 
o forte do Paropoeira , mandou com pena de morte 
a todos OS vizinhos do porto do Galvo que dentro 
de dea dias se retirassem com raas familias, gados, 
e moveis para o districto de Sirinhaem^ cabo de 
Santo Agostinho, Ipojuca^ Moribeca, e outros. 
Foi bando obedecido de muitos, e desprezado 
de nao poiucos ; estes se retirarao pava os mfttos 
ieom iQtento de servirem ^ conrenieiicia e 4 via- 
gan^a , a qual logo principiarao alguns niaiii5ebos 
aventureiros , quese achavao com «grmas^'fogO| 
aatando em diverias emboaeadaa bom ttumero 
de HoUandezes. ' 

VI. Logo que Sisgismimdo Tan Seoph teve 
noticia do desembarque do soccorro que c^egira 



GASnUOTO LUSlTAMa 119 

aos nossos, saio com toda a presteza do Arrecife, 
acompanhado doa soldados que achou mart |iromp- 
tos y com desigiiio de sair ao encontro de Luis 
de Roxas, e eiigrossar o poder no pwto do Calvo. 
Marchava entretanto sobre este :mesmo lugar d 
capilao Rebellinbo, o qua), a meia fegoa da po* 
voacao , (et alto ; e ie e^busk:ou em qtia&to prbcu- 
rara ler mfotmacdes do que netta se pas^ya. Vek) 
oafir-Jhe na* maos 6 secre^rio de Sisgismufldo 
oom dds soldados; estes perd^o a vida, aquelle 
a propria liberdade. Pela confissad d'este alcaii-^ 
gou o Rebelliuho a chegada e oa intento^ do gen^-^ 
ral holkndez^ e como por ord^m sua f6ra dar 
HYiso ' ao coronet Christovio Architofl^^ que sem 
de(enca se viesse iticorporar com a sua gente para 
fazer (^posicao ao poder contrarfo. Ded-se rebate 
ua praca com a noticia da erhbuscada } formou 
Sisgismundo a sua gente, e salo a campd parare-^ 
bater os nossos; mas nSo encont^ando niugnem, e 
receoso d'alguma noTa emboscada, vohon com 
tanto medo que sem dila9ao lai^tni o alojam^nto, 
e por yercda^ occultas , cfaegou k Barra Crande, 
onde trnha sua armada ,^ e nella se embarcou com 
OS seuS; navegoti pal^ o Arrecife, dehitaudo na po- 
toacad quantidade de polvdra, bala, oorda,chum* 
bo e mantimentos, de que se aproveitdi^o oa sol- 
dadoa de Rebelfinoi qtie nella entrirao ^ noite, 
deix3Elndd ^entihdla^ ao largo. -^ Ao dia s^fater 
appireeeo ao largo D. Luiz de Roias com todo o 
cxercito , dando de si lustrosa mostra j salo o Re* 
bellittlio a i^dxidber o seu general^ a qnem d^ coma 
do MMckfiid, ef isom qrietei^aiicertxMi'omod^ de 



120 GASTRiOXO ^ttSVCANO. 

resjslir ao coronel Archito^ls no caso que eUe $e 
encaminhassp para aquelle si tie, — Com- effeito 
aquejle coronel hoUafidez , informado da marcha 
de D. Lui^ e do pouco poder com que se achiiva 
Sisgismundo no porto do Calvo ( ignorando a re* 
tirada), saio de sua fortificacao da Paropoeira com 
mil qi^inhentos infantes em seguimeato do xiosso, 
exercito , para soccorrer os seus em todo o con*" 
flicto. Gertifi(;ado D. Luiz da marcha dq HoUajideSy 
saio do porto do Calvo com mil duzentos homens,. 
deixando em guarda da povoacao, bagagcim, e 
muni9oes a Mapoel Dias de Andrada com tre^entos 
cincoenta soldados , com intento de Ibe cortar O: 
passo no sitio que chamao Mata Redonda. 0,iul- 
migo, que de qualquer movimento nosso tinha. 
avisos y o mandou buscar com uma embuscada, 
em a quial nos matdrao o capitao D. Pedro Mari- 
nho e cinco solflados ; por^m saio-lhe tao cara a 
sortida que deixou no campo cincoenta morl,os 9 e 
08 mais s6 escapirao largando armas e moxiUas., e> 
valendp-se dos p&. 

VII. Em a manba seguiate avistou D. Luiz de 
Roxas o exercito inimigq , que achou formado e. 
immov^ mandou ao Rel)ellin^o e ao Camarao 
que o picassem por um e outro lado ; o que logo 
executarao com 4dmno conhacido do contrario,' 
mas sempre tao fechado que parecia insensiveL 
D. Luia^j que nao.temia a forca, despi^zou a arte ; 
a um mosmp tempo mandou tocar a investir; e 
animando OS seu^ codoi ^nei^icas palavras, termi- 
nou dizendo4he^ : <x A elles, valorosoa soldados, 
« qua a vigtoria^ ^ quern a busca, e qiiQde'quem 



GASTRIOTO LUSiTAMO. 12t 

a a espera. » '-* Iiavestirao os no^os com. grande 
valor ; nao resistiao os HoUandezes com menos 
firmeza, coiiservando-ae immoveis na ipesma 
formatnra, sem que o numax) dos que caiao 
alt^rasse a ordem dos que ficjivao* Repetiao-se 
as cargas , dizimayao as balas o numero dos com- 
batentes , e nao se via que . para nenhuma das 
partes se incliuasse a balanca; ate que roto o 
esquadrao inimigo^ Ihe comecou a faltar a obedien- 
cia; e apezar do esforco de seus cabos, foioinimi- 
go largando o posto. — Pareceo aos Portugueiics 
ser o dia seu , e em obsequio da esperanca accla* 
marao a victoria , que a fortuna Ibes tirou das 
maos pelo meio mais sensivel que ser podia , por« 
que negando-lhes a gloria de veneer, Ihes escon- 
deo juntamente a desculpa de ficarem vencidos. 
Andava D. Luiz entre os seus dispondo tudo oomo 
destro general e como valoroso soldado , a tempo 
que uma bala com pontaria traidora o passpu daa 
costas ao peito. Impellido da bala caio o corpo por 
terra , porem o coracao , maior que o corpo , o le- 
vantouem pe, mostrando agrandeza deseu espi^ 
rito. nos ultimos alentps de seu peito , com que 
formou estas palavras : a Nao 6 nada; avante, va- 
« lerosos soldados, queoinimigovai vencido; com 
« o fim da batalha se coroa a victoria. » Pedio 
que Ihe chegassem o cavallo, e ao por o p6 no 
estribo *caio morto. -^ Com pressa e cautella se 
retirou o corpo morto da batalba, mas como a 
falta.da pessoa era maior que toda a diligencia; 
em breve tempo se espalhou a notieia , e assinl 
desmaiou a todos a nova , que trocou as maos & 



133 GAsnioro LtmiTAHo. 

fortuna. Nao achava cada um dos nossos no pelta 
roais coracao , que para f ugir com a vida a onde 
podesse chorar a perda. Os cabas , que virao des- 
prezar a ordem , nao tiverao xnais remedio qae 
seguir a fuga. S6 os invenciveid capitaei^ Rebdfi-* 
nho e Camarao sairao formados , dos postoe onde 
pelejavlo , a occupar o ciAio de um pequeno 
monte , desde o qual com passo vagoroso march*-^ 
rao para a povoacao , fazendo alto algumas xeted, 
c virando a cara outras a rfebater a alguns poucos 
inimigos , que sOltos os picavao na rctaguaf da. 
DeisLOu o inimigo no campo duzentos mortos , e 
se retirou com mais de quatrocentos feridos para 
a sua forea da Parapoeira. A perda, que houve 
de nossa parte , nao se sabe ao certo , mas sabe-se 
qu^ teve aquella disparidade que se acha entre os 
que ferem e os que se reparao. Alguem houve 
que accusoii D. Luix de Roxais de inconsiderado e 
de temerario; mas quando nao bastassem os teste- 
munhos dos que forao seus companheiros d'armas, 
assas Tmgado ficou sen nome pela honrat que Ihe 
tributou sen proprio mimigo. O condd de Nassau 
coliocotr o retrato de D. Luiz de Roxas ( que 
aehou sobre sens ossos ) no salao de sen palacio 
entre os dos famosos capitSes do mundo ; vieneendo 
as paixoes de inimigo com os argumentos de dis- 
creto. 

Vni. Manoel Dias de Andrada, a quemD. Luiz 
de Roxas deixira em guarda da povoacao e da 
bagagem , vendo entrar a nossa gente desordenada 
dttteve-a com poticas e discretas razoes ; e tal ani- 
mo inspirmi nos soldhdos que voluntairiamente o 



GAsanioro LnnTAMo 19S 

acompanbarao a ir faser f rente ao inimigo. '-«>*E6te 
exemplo nao foi por&m seguido de Marco Antdnio, 
filho do conde de Banholio, com todos seus Italia-^ 
lianos, que sem mais eonselho que o seu custume 
fiigio para a Lagoa ; o mesmo fizerao alguns capi«» 
taea castelhanos ^ ou esquecidos de seu propri o na» 
tural, ou lembradoft de nossa aDtiga antipatia. Vio« 
ae Manoel Bias atalhado ; e sojetou o ^alor a pni-^ 
deDcia,r oom que miependeo a empreaa. •-* Ao ou* 
tro dia da batalha 8e'<»rdenoii ao padre Fr. Manoel 
do Salvador e a Henrique Tellea de MeUo , que 
haviao retirado do conflicto e eaooodido entre o 
Biato o corpo de D« Luiz, que Ihe foasem dar s^ 
pultura; o que fizerao com aentidaa kigrimas. 
AsQortalhArao o corpo com a deeeneia possi^el , e 
fiado a um tosco caixao o enterrirao no mato, 
nma legoa do. porto do Calvo ( peqneno >e escuro 
tamulo para cinzas de varao tao grande e esclare- 
eido I ) mas ae a terra uao cobrio seu nooie , nao 
«3Dhriifa sua memoria a de uma traicao too feia 
Mmo a qua Ike tirou a Tida» 

IX. Pela morte de D. Luhs de Rous reea'io 
ogovermo (segundo as ordaM d'El Rdi ) num va- 
leraso Gaatelhano , que na Lagoa estava gravemen* 
te euft»rmo, cojo noma noa esoondeo a morte, por* 
que no meamo dia em que o chamou o poato Ihe 
tirou a rida ; passou por conseguinte ao tero»re 
nomeadd , que era o eo»de de BanhoUo : determi- 
nacao iufauata que acarretou a uhima ruina d'a«- 
quella provincia. Manoe) Dias d'Andrada:despa«- 
f^iou logo um correio ao conde de BanhoUo , que 
na Lagoa , pelo qual lite remelteo aa ordena 



124 GASTRIOTO LUSITANO. 

e a patente por que El Rei Ihe davao bastao, com 
persuasoes e protestos que sem detenca marchasee 
com toda a gente a encorporar*se com a que ti- 
nha no porto do Galvo, para que antes que o 
inimigo $e visse desassombrado se achasse todo* o 
nosso poder unido. Nenhum aballo fizerao estas 
diligencias no conde. Parece que nao dera a na- 
lureza a este bomem nem sentimento para a inju- 
ria , nem estimulos para a honra. — ;QuatrQ mezes 
se pass^rao sem que die tomasse alguma delibera- 
cao , nem mandasse algum soccorro a Manuel Dias 
d'Andrada, at^ que finalmente saio da Lagoa , man* 
dando diante seu filho com abuudancia de muni- 
coes, e naquelle sitio fez levantar uma fortaleza 
capaz e vistosa , que em brevissimo tempo se aper- 
fei^oou , tao bem artelhada e guarnecida que nao 
so pareceo seguro para os proprlos , senao ainda 
terror para os contrarios. — - A primeira expedicao 
que fez o conde foi mandar a Manoel Dias d'An* 
drada com trezeotos soldados para que se alojasse 
na povoacao de Sao Lourenco.daUna, e empedisse 
ao inimigo as ordinarias correrias com que .talava 
e destruia a campanba. Este yaleroso e babil capi- 
tao soube desempenhar tao bem e$tja commissao, 
que nao so resistio a mil quinbeatos ^Uaodeze3 
commandados por Si$gi&mundo em pessQa; mas 
usando de ardil os desalpjc^u ^ obrigaij^o-o^ a reti- 
rar-se precipitadamiaiite para Sirjuhaem; e elle 
voltou victoriosQ pa:ca p por to do Galvo. De^pedio 
neste me^mo tempo o capitao Souto a confer a 
campanba a favor dos. i|>orador^s. Nao foi este tao 
feliz em sua excursao , porque seus soldados nao 



GASTftlOTO LCSITANO. I2S 

guardarao a discipUna que cqmpria , tratando com 
demaziada licenca os proprios que iao defender. 

X. O capitao Reb^IIinho foi nesta mesma occa- 
siao nomeado pielo conde para que com trezentos 
homens saisse a dampo a cortar por vidas e (azen- 
das de Hollafidezes e rebeldes , at^ onde podesse 
aicancar o braco. Saio em Abril d'este anno ; ag- 
gregirao-se-lhe muitos moradores, ou pelo inle- 
resse do roubo , ou pelo gosto da vinganca . Che- 
gou a povbacao de Sao Lourenco, onde se aqiiar- 
tellou; nellai o buscoii o inimigo com avantajado 
podfer. Re^istio corajoso ; com gente de refresco 
foi cerrando o comfaate, at^ que vendo que nao po* 
dia competir com as forcas mui superiores do ini- 
migo , se relirou com boa fortuna e toda a sua 
gente , e rompendo pelo ma to chegou ao porto do 
Calvo com novo credito de soldado. — Indignado 
Sisgismundo com este atrevimento do Rebellinho 
detferminou tomar excessiva vingan9a. Saio de Si- 
rinhaem em 2 de Maio com mil soldados e maior 
nuinero de Indios Petyguaros e Tapuyos, mortaes 
inimigbs dos Poirltiguez6s; eftcaminbou a marcfaa 
por aqudlas povoacoes e fazendas ; por onde and j- 
ra o Rebellinho , e declai^ndo traidores a todos os 
moradotes, pbr terem agasalbado o sbbredito capi- 
tao, e influido nas perdas e damuos dos confede- 
rados , levou tudo a ferro e a fbgo , cevando sua 
colera na invencao de tormentos novos que faziao 
gemer a humanidade em longa e cruel morte. No 
disfrito de Sirinhaem mandou prender a Jeronimo 
d' Albuquerque , Francisco Rodrigues Porto, ea 
um filho seu ( homens nobres , e dos principaes do 



i2l QMsmmo tmmoHS 

lugar ) 9am m^$ oulpa qiie a^pioUa que^HiM for^ 
mou A .moltcia » l«¥antai]^o que ^ carteayao : oom 
o conde ^e BaubollQ* Tot eiitr^ z$ unb^ qh came 
Ihe mellerao Bgulhaa d^ ferro ard^ndo; o mewio 
tormeoto padeoerfio naquellaa partes ^ que o natU'» 
ral pejo faiKia mats seuaiwU; lo^ fregiracf em 
azeite os p^ft de todoB ( depoii^ de oa cobrireoi de 
tao refor^adoft a^outes ^ que o^ despirao da pelle ) a 
qua se seguio piugaram--no$ com alcatrao %veiite i 
sem que o$ .1^8timoso3 gemidos e lM>myei^ viza-p 
gens do8 miseraveis padecentea sootivasfieyi a mer 
Boreompatxao nos ierinofi.verdugoS; antes maia 
aaaanhados de nao largarem as^idas nas mms doi 
tormentoa 06 enforcarao, porque se dilata»$e ft 
eomplacencia nas extenades da npticia* Iguae^ 
cjTuezasi e por ▼entiira.mais barbaraS) praticeu o 
Hallandesl nos lugare$ de Ipojuca^ cabo de Santo 
Aguatinho, Moribeea ^ . Gorjau , Maoiape e Sao 
Lourenco^ chegando. a tal pouto sua ferooidadei 
que arranoavao dofi braQOS da» mais incousokveis 
o» tenj^sfilhoa» e os eutregavao ao6 aislvagens Ta- 
puyas , que 06 sepultavao viyps eiiiirsuaa eutrauhaa; 
dtlegando a lal poato a deshumamdade doii Indios^ 
que com machadinhas abriao pelas oo6tas os iofe- 
lizes padecentes para Lbes comerem as entraubas ; 
e OS Flamet)gos cetebravao coia festejo ac^oes tao 
borriveis^ que as deaco^hocia a naturaza 1 Para 
consummar tao nefanda maldade publieou Saagi^ 
mundo editaes^ em que ordenaVa que^ sob p^^ta de 
irremissLvel perdi^ao de fa^endas e vidas^ nenhum 
Portuguez usasse nem tiveasa em aeu poder al- 
gum g^fiero tie armas* Alguna as entreg^ap ^ ou* 



iB$4^ncLerw 00^ OftatQS; mae daqui ge originirao 
novos n)i8i1a$ 9 porqfie ba&tava o dito d'um escravo 
para :qoi><i€mnar. ^ ^locencia d'um seuhar^ sendo 
0m^in4> dizer quq tiuba armas esoondidas, qua 
ficar e\h sem vidai e fteus filho3 aem fazenda* 

XL Chegarao estas tristes notigias ao porto do 
Calvo , e de talmaneira irritarao a fleima do oonda 
d« Banhollo que ordeuou a D. Antonio Philippe 
QamaraOy que com urn grosso de Poriuguezes e 
J^dios %a\^se a talar a campanha , e entregasse k 
espada e i chains tudo quanio podesse dominar a 
morte e o fogo , sem .piedade nem cobi^a de ooum 
que perteuce^^e ao g^tio rebelde : indignafao bem 
merecida e melhor eiieoutada. Saio o Camarao, 
^trado ja o mez de Julho, penetrou o certao^ a 
deo sobre o&arrabalde^ de Goyana; foi repentino 
golpe > a todo^ e a tudo alcaucou o braco« Nao 
ficou yida que o ferro ma corta^se ^ nem edificio 
qua o fogo uap congummisse* Topou um ireduto 
guarueoido de HoUioxdezes ^ que i^ervia a seguran- 
9a e ^ 4efensa ap gentio; sitiou-o sem dilaicao; e 
depois da se apoderar d'um aoccorroque Ihe vinha 
de maptimentosi armaa e muni^oes, iuvestio-o 
com furor, a dastruio tudo sem piedade. — Che^ 
gou ao An^cife a potioia do& eatt agps que fazia 
Camaraoy para obstar aos quaes &a'io logo Christo- 
vao Architofls wm oitocentos HoUandeze^, iu-* 
trepido. Caimarao nao desanimou com esta npticia, 
aJite& sa dispoz a e$perar o inimigo forlificando-se 
na Goyai^at M^ito^ e varios forao osaocontros qua 
tiT^rao \mf^ o QUtraa arm4»> a verdadeiramente 



128 CASTBioTo tusrrimo. 

dignoft de {yatticutar relacao nesta historia ; por^m 
como me chama a si^tancia do assumpto ^ ^ ftMPca 
passar de corrida por estes preludiqs do argumen* 
to; basta saber-se que se o Flamengo excedia no 
poder J o Gamarao o avantejava no valor e na in-^ 
du stria. Hoiive dia , em que nossa espada Ihe de- 
golou cincoenta HoUandezes ; tao receosos dos 
assallos com que em toda a parte , e a toda a hora 
OS envestia , ja em campo raso , ja em canros por^ 
tateis J com que igualava as suas fortiGcacoes , que 
desatinado o inimigo dizia assombrado, que s6 um 
Indio tivera poder para Ihe cor far a fortuna e 
confundir a opiniao. Gamarao , que dos faTores 
da sorte nao desconfiava menos que da pro6a do 
tempo y considerada a distancia entre aquelle 
sitio e o porto do Galvo para se ajudar do soccorro, 
se se yisse em aperto j e a imposibilidade do reme- 
dio J se Ihe faltasse o sustento , se resolveo em co- 
roar as victorias com a retirada. Recolheo a si os 
moradores que o quiz^rao segriir J^que com suas 
familias fizerao numero de mil seiscentas pessoas^ 
muif as das quaes ficarao pelos matos ; abrio camir 
hho pelb sertao em distancia de quarenla l^;oas^ 
caminho seguro para a marcha, mas falto de todo 
o necessario para a vida ; e veio entrar no porto 
do Galvo, onde foi receUdo pelo conde e pelo 
presidio com palmas e vivas , igualmente devidos 
ao que destruio e ao que conservou. 

XII. Suspensas estiverao umas e outras armas 
at^ o mez de Dezembro, em que-o conde Ordenou 
ao capitao Rebellinho , que com a gente que es- 
colhesse assaltasse a campanha da Paraiba, e nella 



CASTRIOTO LUSITANO. 129 

-assolltdfie tudo o que fosse de contrarios e re- 
bddes. Com seu custumado yalor e diligencia 
executou o valaroso cabo as ordens e os desejos. 
Naquelle districtoadquirio tanto de gloria como de 
riqueza , deixando ao inimigo a magoa da mais Jar 
mentavel perda. — Aqu^rtelhou-se tres legoas da 
cidade em um sitio chamado Tibiri , onde o veio 
bttscar o governador da praca que dominava o 
HoUandez com todo o poder d'amigos e confede- 
rados. Nao se negou o Rebellinho & batalha; ainda 
que com muito menos poder. £nvestirao-se os 
esquadroes ; largo tempo se sustentou o con* 
flicto em igual balan^a , achava a multidao resis* 
tencia ' no valor , por6m como era grande o ex- 
cesso do numero y cedeo a virtude a forca ; e ficou 
o inimigo com a victoria , mais custosa pela perda, 
que a retirada dos nossos pela dita de chegar neste 
ponto Henrique Dias a rebaler o inimigo para que 
nao seguisse o alcance , e a dar lugar a que se 
formassem os nossos ; encorporado com os quaes 
«e retirbu para o porto do Calvo , abrazando o ler- 
reno da marcha ^ e de caminho as povoa^oes de 
Goyana , de Ipojuca , Sirinhaem e outras ; das 
quaes recolh^rao uma grossa e rica presa; com 
mais circunstancias de victoriosos que de vencidos. 
— Outras muitas yezes mandou o conde diversos 
capitaes a similhantes faccoes , que o Hollandez 
vingaya com igual ruina ; nao servindo a hostili- 
dade mais que de assolar os subdilos de um e de 
outro dominio ^ como se cada qual aspirdra a ser 
senhor de um imperio deserto ; o que bem adver- 
tido se p6de dizer do conde de BanhoUo , que em 
I. 



130 €AfimOTO LUnTAHO. 

teda o tempo d« s^u governoestudoucoaialiafji 
de destriiir aquelle EBtado« 

XIII. Nao fte deseuidava a Gompanhia omideiital 
de mandar soccorros para comoUdar o eett foifit 
no BraxiK No fim d'este anno nomeou lioyoa eajris* 
taes, e apre^toii novas frotas. Nomeou por gene- 
ral ao conde Nassau Jao Mauricio , e para seu le^ 
nente Henrique Vancol , um dds primeires mini»- 
tros da dita companhia. Sairab de HoUanda eoin 
uma poderosa armada dividida em duas esqtia-^ 
dras, que governavao os dous cabos. £m4 de Janet<^ 
ro de 1637 tomou porto no Arrecife a esquadra 
de Yancol^ ou por mais ligeira^ ou por melhor 
navegada i poucos dias depois a do eonde de Nas^ 
sau. — Com a chegada d'este general se alterou o 
estado das cousas. coronel Architofls arrasou a 
fortaleza da Parapoeira , e com a gente do seu pre* 
sidio se retiroii para o Arrecife. Nassau ^ depois de 
tomar conbecimento de tudo^ se poz brevemenie 
em campo com um exercilode quinhentos bomens^ 
sendo grande parte d^elle Indios ; mandou fornecer 
todas as lanchas e embaroacoes de remo que se po^ 
di^rao ajuntar^ ordenando ao cabo que as commam 
dava que possese a proa no porto do Galv^, e elte 
marchou por terra para o mesmo lugar , resoliito 
em ganhar ia fortaleza e desalojar da pOTi>ac&o o 
conde de BanboHo. «-*^Ghegou esta noticia ao por^ 
to do Cairo ^ e causou em os nossos grande assom^ 
bro« conde de BanhoUo ^ que na seguranca de 
sua pessoa e bens tinha mais interesse que na do 
Esiado ^ mandou deitar bando, com pena de mor* 
te e oonfiscacao de bens, que tienhum morador se 



i;( (i I 



letiraase nem pewoa alguma de sua familiai oafa^ 
zenda de sua oasa ; mas elle poE em^vo a propria^ 
mandando-a conduzir para a Lagoa escoltada por 
Italianoa do sau tei^o; prevenio eacondidameiite a 
retirada por uma vereda eacoberta , e mais por 
farmalidade que por outra cousa cbamou a con- 
aelho todoa os cabos e officiaea experimentadod. 
Forao varioa o$ pareceres; ooncord&rao em fim na 
defensa » ainda que discordarao nos meios e na 
modo, oonde , escondendo o medo e auas mat 
teo^oes^ assentou com razoes apparentes que sc 
esperasse o inimigo dentro das fortificacoes com 
lodo o corpo do poder^ dispondo assim a fuga nas 
apparencias da defensa. Com ten^aode a desempa-^ 
rar guarneceo a fortaleza^ como se a quizera de^ 
fender $ nella metieo trezentossoldadosescolhidos^ 
com oa meihorea cabos , armas*, muni^oes e man- 
timentoa para tres mezes : nada Ihe faltava para a 
defensa , excepto animo e aten9ao. 

XIV. Chegou entretanio a vista da povoacao o 
oonde de Nassau y e coma saaapparicao seaccendeo 
no coracao dos Portuguezes aquelie animo ate alii 
nunca desmentido. Quasi como por inslinto sairao 
muitos a esperal-o governados pelo tenente gene^ 
ral D. Affonso Ximenes^ asistido dos capitaes 
Frandsoo Rebello , Joao Lopes Barbalho , Assenso 
da Silva , Manoel de Souza d'Abreu , e outros que 
com a gente de suas companhias > e muitos natu^ 
raes da terra , faziao um bastante esquadrao , que 
subiria a quatrocentos > entrando neste numero os 
Indios ; em companbia dos quas sa'io o seu gover«- 
nador g6ral D, Antonio Philippe Gamarao; a sen 



132 CASTRIOTO IiVaiTANO. 

lado saio (ambem sua mulher Dona Clara , monla- 
da em urn cavallo , e tao clara nesta gentileza que 
deixou escurecida a memoria das Zaaobias e Stmi* 
ramis, com que tanto se lUustrou a autiguidade. 
Nao iicou atraz dos que mais se adiantarao o go- 
vernador dos crioulos Henrique Dias , porque tao 
valente como zeloso foi dos primeiros que saio a 
investir o inimigo com seu terco , sempre [»*eto 
na sorte ; e da admiracao e enveja sempre alvo. 
conde de BauhoUo, que estudava na perdi^o e 
ruina dos naturaes ^ depois de lancar fogo a povoa- 
cao J recolheo-se a um reduto , que havia manda- 
do levantar para segurar a sua retirada , e levou 
comsigo constrangidos a Duarte d' Albuquerque e 
a Manoel Dias d'Andrada. — Sol)re o alto d um 
monte se tinha formado o inimigo ; d*elle vio a 
resolucao com qu^ os nossos o buscavao ; desceo a 
receb£l-os na ladeira , onde se investio uma e outra 
gente com igual coragem. A ouzadia e o furor do 
combate juncou em breve tempo o campo do con- 
(liclo de corpos mortos e feridos. Largo tempo se 
sustentou em equilibrio a batalha, al^ que os 
nossos vencidos do cansanco se retirarao do oon- 
fliclo em boa ordem acolhendo-se debaixo da ar- 
telbaria da fortaleza. 

XV. Na passagcm do rio Gomendoituba se tra- 
vou segunda , por^m mais cruel baialba , em que 
OS nossos obrarao prodigios de valor. Merecem es- 
pecial meucao os seguintes, Mauoel Diasd'Andra- 
da, desprezadaa obedienciaao conde de Banholio 
por acudir ond^ o chamava a necessidade ^ rom- 
|3eo por entre os esquadroes iniraigos , fazendo-se 



GASTRIOTO LUSITANO. 133 

ctoiinho com a espada , que em sua mao teve este 
dk mais de raio que de ferro. Antonio Goutinho 
imilou a ousadia, e por entre o esquadrao eontra- 
rio abrio larga estrada^ poi^Sm nao tao &liz come 
aquelle^ porque encontrou a morte, mais depois de 
a ter dado a muitos Hollandezes. — Ao governa- 
dor dos crioulos Henrique Dias ferio uma bala o 
collo da mao esquerda; suspeitou hervado o chum-* 
bo, e por fazer a cura mais breve^ e menos perigosa, 
a mandou cortar, dizendo, a que na direita Ihe 
n ficavao muitas para servir a seu Deos e a seu 
n Rei y e que para a vinganca saberia fazer seu de- 
« sejo de cada um dos dedos uma mao. » Atraves- 
sado de uma bala , contiauou na pieleja o capiiao 
Joao Lopes Barbalho, escondendo a ferida aos 
seuSy por Ihes mostrar como as dava nos inimi- 
gos; retirou-se com os mais, atravessou o mato, 
chegou a Lagoa, e convaleceo da ferida. Outras 
proezas succederao mui dignas de se encommeiida- 
rem a memoria ; mas a escaceza da relacao as 
negou a esta escriptura. 

XVI. Com ardente cuidado se formdrao e dis- 
puuhao ambas as partes para repelirem a balalha 
no dia seguinte, e cada uma esperava ganhar a 
victoria^ sendo para os nossos mais provavel, por- 
que baviao de ser commeltidos pelo rio , que Ihes 
servia de trincheira. Tudo descompoz a cobarde 
resolucao do condedeBanhollo,que no mais escuro 
da noite fugio do reduto para a Lagoa , levando 
comsigo a Duarte d'Albuquerque , e uma compa- 
nhia de soldados. Logo que esta nolicia se espalbou 
entre os soldados , comecarao estes a relirar-se em 



13& GAnmiaio LUsirAiia 

desordem , e com elles 06 moradores e suas fami- 
lias, a quein os cabos nao pod^rao conter y sendo 
obrigados a seguir inyoluntariamente a vergonho* 
sa fuga de 3eu general. tenente general D. Al- 
lonso Ximenes formou de sens soldados um pe« 
queno esquadrao, que aos miseraveis vizinhos 
servio de retaguarda pelo caminho da praca^ que 
era o mats arriscado, e por isso mais necesitava de 
ser prote^do. Os trabalhos, fomes, e discommode 
que passirao una e outros forao tantos , que se 
tinha por venturoso o que mais depressa os ata** 
Ihava com a morte. — Achou-se pela manha o 
oonde de Nassau sem inimigos a quern combater ; 
paasou o rio sem o menor impedimento , poz o si« 
tio a fortaleza , que atacou com cinoo batariaa , « 
desmantelou em espaco de tres semanas com innu* 
meraveis tiros , recebendo nao s6 igual mas arante- 
jado retonio dos cercados. Jaem toda a forca nao 
havia reparo por arrazar n^n baluarte por abrir :. 
serviao a defensa mais os animos que as paredes. 
Neste estado , combatidos os defeiisores da deses- 
peracao do socoorro e dos temores do a^salto^ fize- 
rao chamada, ecapitularao a enirega com honrosos 
parttdos. Sairao com suas annas e movdSy media 
aceea, bala em boca j e bandmras tendidas. Efttroa 
o conde de Nassau na fortaleza , guarneeeo-a, poz- 
ibe por govemador o capitao Yanduerve , e sem 
detenca foi no alcance de Banhollo ; o qual aVtsa- 
do da marcha e do intento do inimigo j antes de 
Ihe Ter a cara deixou a Lagoa , e nao paroa senao 
no rio de Sao Francisco* deixando os moradores e 
suas familias entregues a espada hoUandeza. Nesta 



CAiTIHQTO |,P6IT4M0. 135 

tribulaj9ao lbe$ v^lep o esforco e generosidado de 
Manoel Dm d'Apdr^da , of&recendo %oa mais ani« 
mosos compaobia, eaos desmaiados conielho. A 
este^ diiiqL que &e deixassem ficar ^ e do mato pe-* 
dilssem passaportes par^ se voltarem para suas ca« 
sas e faz^endas , e qu.e 9e Qao exposessem a perecer 
np meio 4o9 matos de miseria e de privacoes , ou a 
^nd^rem errantes como as feras. Muitos seguirao 
este parecer ; alguns poupo9 acceitarao seu amparOi 
e o Si^uirao at^ a Bahia. 

XYU. Nassau aeguio o conde de Baobollo at^ 
ao rip de Sao Francisco , sem nuiica o poder enix>a- 
trar; aquartelhou-se d'aquem do rio nun^sitio que 
d^aqiao o fe^edo ; mandou ahi levantar uma for- 
tale^a , que deptrp de dous mezea estava aperfeir 
QP^; eatregoi) o govf^mo della a Sisgismuodo 
Yan $coph , com ordem que passasse o rio e desa- 
l^jasse Q coode de Banhollo , que estava postado em 
Sergipe d'El lUi 9 o que faeilmeute consiguio^ re- 
colhendo-se eate para a Bahia ; e teodo tudo assim 
41^)0^ yqUou para o Arr^ile. Aniuiado com to* 
da9 mie$ sM.cces8o$, e ambicioso de dominar lodo 
o U^^fiif imtejatou Nassau atacar a cidade da Babia, 
que lelle espera^a leyar por entrepreza : era a ca- 
beg^ do l^stado » e eoteudia que ao golpe da cabe^ 
cairia todp o corpo a seus p^ rendido. Saio do 
Arrecife em 21 de Mar^o de i 638 , com triota e 
uqgia naos de guerra , e outra muUidao de embar- 
ca^oe^ de rei^o, tres mil soldados, copioso numero 
d^ I^dio^, petrechoSy municoes, e bastimentx^s 
proporcjioiiados i empresa ; e oom prospera via- 
&m <^%o« im 9\»rcs da Babia. Era goveroador 



136 GASTRiOTO LUSiTANO. 

geral do Estado Pedro da Silva ^ por alcunha o 
Mole; o qual^ primeiro quelhe chegassea noticia 
do intento^ vio sobre a cidade o poderdo inimigo; 
tanto mais formidavel^ quanto menos imaginado. 
Entrou a armada pela barra, arribou sobre a parte 
da Firaja^ buscando a praia que hoje chamao dos 
Meninos , deitou em terra geate , artelharia e mu- 
nicoes , e sem detenca se poz em marcha para a 
cidade y que distava meia legoa d'aquelle sitio. — 
Sairao o$ nossos a esperar o inimigo ; e com tal 
denodo derao sobre elle , e o carregArao de tao pe- 
sados golpes que o fizerao retirar confuso. Esta 
prompta resolu^ao, e seu glorioso resultado deveo- 
se ao valor , pratica e viveza do governador do Es- 
tado , ao lenente g^ral Pedro Correa da Gama, e 
a todos OS capitaes que nao desmintirao de seus 
conhecidos brios y nao cedendo a algum d'elles o 
conde de Banhollo, e tanto ^ que parecia outro 
homem. — Apezar d'este revez nao disistio Nas- 
sau de seu projecto, propondo^se a levar por forca 
o que nao pud^ra conseguir por entrepreza. Nas 
costas do convento do Carmo mandou levantar 
triucheirasy fazer plataformas^ assentar baterias 
para combater a cidade. Nao estiverao os nossos 
ociosos y antes acommettendo os gastadores ^ e as- 
saltando seus quarteis por varias partes e em di- 
versos tempos , fizerao lastimoso estrago nos mise- 
raveis Hollandezes , e com tanto assombro dos seus 
cabos y que nem ao conde ficava acordo para man- 
dar, nem aos seus para obedecer. Com grande 
difriculdade, e com maior perda de sua gente con- 
seguiopor fun o conde de Nassau assentar sua arte- 



GASTRIOTO LUSiTAKO« 137 

Iharia^ e'l^go maiddou romper o fogo sobre a cidade 
nao b6 pela parte de terra , senao pela do mar com 
toda a arteihari^ da armada , recebendo por uma e 
oiitra parle mais perda do que a que causaya. — 
Tres dias com suas noites porfiou a bataria ; no 
maior iui^r d'ella mandou Nassau um tambor por 
terra ^ e um trombeta por mar j com embaixada 
ao governador geral do E^tado , na qual com es- 
tudadas raxoes Ihe aconselhava entregasse a praca, 
senao queria experimentar no assalto toda a impie- 
dade da ira , e todo o estrago do odio. Ck)nselho e 
ameaco a queo governador respondeo (dizem que 
nesta forma ) . t< As pracas d'El Rei meu senhor, 
» sem armas , e so com a reputacao se defendem ; 
>> e aquellas que se animao com espiritos portu- 
)> guezes, primeiro suas ruinas as sepultao que 
» seus inimigos as dominem , porque seu natural 
» valor OS ensina a morrer honrados , antes que a 
» viver rendidos ; verdade de que os senhores Hol- 
» landezes sao as mais certas e mais frescas teste- 
» munhas ; e posso eu s61-o de que nesta occasiao 
n me custa menos o animar , que o reprimir mens 
» soldados y impacientes de so(&er ameacos , quan- 
» do podem castigar atrevimentos ( apurada sua 
» paciencia com a loucura desta embaixada y cujos 
» ministros devem as vidas ao respeito mais que 
» a cortezia, pois o que se me tern os deteve. ) Ao 
» Gonde aconselhara eu que se aproveitasse do 
» tempo para se recolher a sua armada y e nella ao 
» porto d'onde saio : temo que sua presistencia dS 
» taes fios & colera destes mens soldados j que 
» corte por todos os respeitos, e me nao valhao 



» pelo qu^ teabo dis sou s^rvidoTi que ja pod^ra 
» ter eatendido , que em neiihuina ooeaaia^ o ba 
» de temer colerico quem 9gora o nao spffre qo^ 
» fiado, D A esta re$po&ta ae saguio a de iwa i^Mv 
ga de ^|o$qM^tariat «om quq «e KXMrtou a repliisa 9 a 
qooseguio a retirada do9 eavistdAS com a lig^irena 
que Ibes Qmprestou o temor* — ^ Com a indigaa^ao 
qve despertou o aggrayo ae coii^tiQUOu a l>at^ria d^ 
maior caU)>re, /pom tal horror que f^4;reiQecia a 
terra J e g«mia o mar. IVo mais acceso da copfu^ 
sk> deitoM gp^^ero^pr gyiral do Estado pela porta 
da cidadQi que gui^ pira ox^nvento did SAq ^wto, 
alguAs K^il^ cow wa3 compauhia^i ^ <wd/Bm 
qfAe por aquella part^ d(9$jsam wna aasallada ao ipi'^ 
migo; aquem o r^^yate ei^icheo d? a9aoi)[d)rp, pa 
eomidi^aiQJLO de nossa gepte bua<^ o ^oi^fluii^to 
quando a ^ns^mava oorl^da do «^paato, Creaaeo 
pasmo (com a perda , ^m^o qm t^dm 9$ ^u« 
fjigiao ao golpe • Na terqeira oAMte de combal;^ re- 
colheor-se ISa^sau is ei;nbarcac;oes que linba n/9 mv$ 
diBi^ando toda a 3i|a artelbaria » muai^oes p armasy 
^ bastimeAtos; com tauto numero de c^rpo^morltos 
qj^e eobriao a terraf Com iuaiameraveis Serjdos 
deo 4 Te}a a armada » e yolto)^ .ap porto 4o Arrew 
cife. 

XYUI. ChegarAQ eutr^tanto a J^ i$bo% as i}pti<^a$ 
dos progressos do inifx^igo e das miaerias do G$(a- 
do; leya^tarao-ae clamores e q[uei;i^$ que fizcgrao 
fieho em Madrid* Depoi^ de repfitjjd^ coii^O^D^ac^as 
do conselhp de Portugal^ ^seijitours^ q^aadarTse 
Wfsfpi arn»fia real tao imm^^^ ^ PHi^te^ /)ue 



d'^elb 69 conoebesse moral eartQza da i^staurtfio 
da todo o EsUdo do Brazil. <*-*- O concb da Torre 
D« Fernando Mascareohas, capitao de gruAd^ valor 
^ pratiea^ 4 nomeado para dirigir a^a gramle 
eoipreza. For todays as partes d'Haspaidia se nomed- 
rao mioistros , e applicarao o^eios para o^ appea^^ 
toft da armada, econducQao dos yasos ao porto de 
Ltsboa* ]%vulgou^$e logo com a prepara^ao o iateiir 
t6nto; voou a nova ao Brazil, a oade de Flamep-r 
gos e Portuguezea $e ouvio mm maior estvondo 
que em Portugal, caiiaando tao div^rsoa eSHto^ , 
como «ao a esperanca e o reoeio. 

XIX. Saira de Li^boa nas 6m d'Octobro a ar^ 
mada mm numerosa em galeoes do Cstado, fraga^ 
taa de guerra, naoa gfoaia$, eopia gr^a^de 4e w^ 
barca^aas (Mdioarias, 43 ibem providaa d'imUrum^iiii^ 
tos beliicoa, arte}harj4« mimi^oo^, pelx^ieohoa e 
mantimeiHos orci^s pelo nwmro doa pcwibateatea 
e pdb saii^fa^o do$ cabos. Era a frota m^ pod&- 
roaa qua 9i4 aquelle teoipa suloou os mar^ 
d'America. £m 40 de Janeiro &e aviatou dp Ar^refi- 
pife eom. aaaombro dos inimigos , e alvonoiQO dos 
nafturaes* Grande foi o temor dos Sollandei?(es i 
vista de tao graode for^ aaval e do pouco /c^ 
estavao prevenidos para a receber^ tendo ^suas 
fe«4alezasdesmanteUadas, sua geAte espalhs^da^ sem 
provisao de mantii^ntos e muniQaes precisa para 
sustentar um cerco , e nao t^ido ^o mar senao 
oti»co naos, que estavao a carga; pelo que NassaAi 
assenlava comsigo «er cb^^gado o fim do imperio 
Hollandez em aqudla porcao da Am^erica> Pox^em 
sens teg^nas ^ dissiparao em brei^ $ poi^He a ar'- 



mada em vez de arribar sobre Fernambuco, seguio' 
sua derrota para o sul , dobrou o cabo de Santo 
Agostinho, e foi deitar ferro ila Bahia. Pareceo 
entao iDexplicavel este procedimento do conde da 
Torre, e todos o condemnavao ; mas depois se 
pubUcoa que trazia ordem expressa de seii Rei para 
nao commetter a empresa sem primeiro tomar a 
Bahia. Foi este um grave erro de que resultarao 
tristes consequencias. Um anno se deteve a armada 
na Bahia , tempo mais necessario para se fortificar 
e guaraecer um inimigo menos vigilante e indus* 
trioso que o HoUandez. — Com acertado conselho 
sedeteminouo conde da Torre em preveniroscapi- 
taes mais destros nos caminhos e veredas do recon* 
cavode Pemambuco, queserviao na Bahia, para 
que com a sua gente peneti*assem os matos, e 
d'eiles assaltassem com subitas artnas os quarteis 
e habitacoes hollandezes ; deo-lhe ao mesmo tem- 
po por instrucao secrela , que a certo tempo se 
chegassem a vista do mar, para que vendo navegar 
a frota aseguissem pela costa at^ a paragem a onde 
tomasse porto , e nelle se incorporassem com a 
genie que deitasse em terra , a fim de sitiar o Ak*- 
recife por uma'e outra parte com todo o poder. 
conde de Nassau , que era informado secretamente 
detodas estas disposicoes, guarneceo aquelles sur- 
gidouros, de soldados cscolhidos e cabos decon- 
fianca , com ordem que acudissem a aquella parte 
que a armada buscasse para deitar gente em terra, 
e que Ih'o impedissem a todo risco e a cara desco- 
berta. — Determinada nesta forma a invasao e a 
resistencia , sa!o o conde da Torre da Bahia no fim 



do anQoJ6d9 pom a frota e flor da mitieia, que 
entao seachava em todo o Eslado; e d'este esco- 
(Iheo. dois mil homens^ destinados para salta- 
r^m em terra , com os quaes $e haviao de incor- 
porar os capitaes que nella andavao esperando 
esta occasiao, comodeixamosreferido; poder mais 
que sobejo para romper por toda a opposi^ao con- 
traria , e para acurralar o inimigo dmtro de suas 
fortificacoes. Com vento em poppa navegou a ar- 
mada at^ avistar aBarra Grande; mas quando che- 
gou ayista de Tamandard, dezesete legqas do Ar- 
recife, come^ou a experimentar a vehemencia 
com que corriao as aguas, que ajudadas da furia 
dos ventos fizerao inutil todo o governo do leme 
e do panno; a^im arrebatavao os vasos que nem 
pod^rao pairar, nem deitar ancora. inimigo, 
que con^ destreza se.sabia aproTeitar das occasioes, 
mandou largar o panno a vinte fragaias e alguns 
patacbos > que para este fim tinha pre venidos , que 
sairao do porto com a vantagem de nav^arem a 
barlavento dos nossos.; tres fragatas tiveraoa ou- 
sadia de quererem abalroar a capitanea , mas forao 
hem castigadasy porque uma foi logo metticb a 
pique^ e as duas se relirarao desarvoradas. Abo* 
nancou o vento por espaco de tres boras , tempo 
em que os nossos se pod^rao ordenar para a bata- 
Iha, que o contrario eyitou. desyiando-^se; porem 
levantou-se logo em . tao furiosa . t^mpestade , que 
a uns e a outros nao deixou mais salvacao que a 
de obedecer aos mares, — Levada das ondas des- 
garrou a frota portugueza para as Indias de Cas- 
lella , a onde primeiro a levou o destino que a or- 



162 CAiflttOW UMfMlia 

dem q«^ d'Bi Rei tinha o eonde da Twre ptra 
que conduida i empr«8a de PertisMdibtux) tomAMe 
ag Iitdii9 9 e ootnbdiliMe os gdk$deft dn prata a Six> 
LueM. Ab ii4o« hoHatidetfts^ favc»*ecidai do reoto, 
yoitiHirao part a Arreelfo : titiha i capitanea em- 
banddrada de negr^ pelo grands numero de inon- 
toB^ e entreelles leu general. conde de Nasiau, 
iMl sati^f^ifo do 8tioc6Bso , mandou degolar o leii 
almiraitte , dom edtiloB de fit*aco e de fal^ j e n 
einco capitlei mandou enfofcar poi^ remisiosj ea 
ddtis pildtoi por vagaro^d yea todoB com a igno* 
minia de vei^m fa^er etn pedaeos iuas armaa, 
com o pregao da culpa e do auplioio. 

XX. N&o quit a fortuna que nem um b6 ioo^ 
corro eiiyiado por Castella foisie proveitoso ao Eit»- 
do do Brazih Estequeerao mais poderoso^ eque 
era de^tiuado a restaur^lM) em Bua integridade, 
malogrou^e desgracadainente^ deixando tnaisamea- 
eada a sua deguranda) emortnenie a ddade da 
Bahia , em que o Hollander nao deix&ra de realizar 
suas vistas ambioioiai, se k tempo nao f6ra socror*- 
rido. D-este euidado iao preocupadoa os nossos 
oabos ^ quando se viao arrebatados pek tormenta ; 
propos^rao ao general da armada a necessidade do 
Boocorro oom requerimento que os deixasse em 
terra em qualquer porto d'aquella costa , d'onde 
podesiem marchar pelo eertao para a Bahia. Ini*- 
tava a importancia , e no porto do Touro , catorze 
leguas do Rio Grande para o norte , deixou a aiv 
mada ao mestre de campo Lui2«Barba)ho com mil 
trezentoB infantes > e ao Gamarao e Henrique Dias 
com a sua gente. Ha via de ser a marcha pelo in- 



Uriidr dm mato ^ e em partite por entr^ a fairbiuri^ 
diKle do9 IndiM topando ^in muitas com as armas 
(im eofitrtrios ^ e em todui sem proviMo, nem 
esperanca de soecdrro humatiof a distanoia da 
trezentaa Ic^^oas .* difficuldides qua parecariao 
impossireia ao mats dusado odracao; a Bd cabos 
lao dest€mido9 podiirao intentar e veneer empresa^ 
que ainda depoia de conseguida ^ fet duvidosa. ->^ 
Pai^ie d'um deserto era o porto onde a armada dei«- 
tou a Luia Barbalho com a sua gente ^ sem mais 
▼iveres que oa que cada soldado podia trazer em 
sua mochilta t circumstancia esta capaz de ftieer 
desanimar aos mais destemtdoe coracoes. Lui« Bar>- 
ballio bem cotihecia quanto era temeraria ^ seuao 
loQca^ uma aimilhaute em(»r69a$ mas, 6usten- 
tando aempre aquelle valor que despreza a vida 
para acudir 4 patria afflicta, lan^ou^se noa bra^oa 
da Providencia ^ e para inspirar em seus soldadoa 
oa sentimentos de que estava pessoido , foi ftima 
Ihea fallara d'esta maneira : tt O motivo que Aos 
)» tirou da Bahia, nod deitou agora nesta praia; 
n d'ella uos tirou a conquista ^ a ella ties leva a* 
M defeiisai deierminacao ^ umao outra^ tao filha 
>} de animos portuguezeS) que livre de achar nos 
» estranhos competencia , busea em si mesma o 
» excesso^ tanto maior em conservar o peasuido, 
«) que em recupeararo e^tragado^ quanto maior i 
» perigo de coudusir eSte socoorro que o de 
» parder aquella armada : em seu mAo successo ti** 
» verao parte os elemeutos , e nio os inimigos ; em 
» esta viagem havemo^ de pelejar com os inimigod 
)) e com OS elemeutos ) estss anhados dos rigores 



ikk cAsmoro lusitano. 

» do tampo , aquelles das colecas do odio. Tudo 
n yenceremos, ae so estribados na causa alentarmos 
D a confianca, pois 6 certo que nao falta Deos oom 
n auxilios a quern Ihe dedica obsequios : a favores 
» do oeo se nutre o valor dos homens. Imosasoc- 
y> correr e a liyrar a patria das leis da infideltdade e 
» das extorcoes da tyrannia^ e a influir nas espe- 
» rancas dos parentes e dos natiiraes, que em Per* 
i) hambuco yivem opprimidos do jugo hoUandez , 
» COO) libertarmos a Bahia de seu imperio. Poddra- 
» nos acobardar a falta de mantimenios , se nao 
» cuslumarao suprir os frutos agrestes dos matos; 
9 nelles mais certo3 e menos custosos que nos 
» quarteis do inimigo. A experiencia nos tern en* 
» srnado que mais facilmente se vence a falta que 
» a resistencia ; mas se a onde se contrasta a maior 
» gloria, sou de parecer que nesta marcha busque- 
» mos o povoado , no qual poderemos conseguir 
)i remedio para a for^a e argumento para a fama, 
» mais grata a quem vence homens que a quern 
)» knata feras.Por esta vei^da caminharemos a dous 
Ji» fins : amatar a fome, ea refrear a for^a; pois i 
)» certo que os inimigos, que agora deixa nosso braco 
» destruidos y nos hao de faltar depois contraries. 
» E quando o Hollandez irritado nos busque po- 
» deroso , em nossa mao esta a retirada , porque 
• Ihe fazemos taota vantagem no conhecimento 
n do certao ^ quanta elle nos p<ide fazer no nume- 
D ro dos soldados. » — Depois de concluida a ex-> 
horta^ao, que por todos foi igualmente applaudida, 
formou o general a sua gente , comecou a marcha , 
levando diante de seu esquadrao descobridores 



para as cipadas , e gpias para as veredaa i com .or- 
dem que todos os cavallos e bois que descobrissem 

05 recolhe$sem para o sustento e para o servi9o. 
Proseguio sua marcha buscando sempre as povoa* 
9oes; naj» que erao amigas achava bom acolhi- 
mento, e seus moradores davao Toluntariamente 
ao^ . soldados o sustento necessario ; nas * inimigas 
Q^traya com violencia , tomava o preciso e quei- 
mava o reslo. Chegou a villa de Goyana, a onde o 
Ulamengo tinha quinhentos e Irinta homeus de 
presidio ; envestio o quartet, passou tudo a espada, 
entregando ^s chajooas p que nao pod^ra destruir; 
c assim foifazeudo em.outras muitas povoacoes, 
que todas tiverao igual sorte. Chegou entretanto 
ao Arrecife a noticia do estrago e , da marcha 
de Luiz Barbalho y com o que. impaciente o ini- 
migo sa'io a c^mpp com tres mil soldados , . em tres 
trocos 9 a fim de o perseguir e destruir comple- 
tamente ; mas a este tempo ]& elle deixava atrds o 
districto de Pernambuco , e penetrando pelo mais 
espe^o do mato , nao tendo outro sustento que al- 
gup9 pbuco milho , passou o r io de Sao Frai^cisco, 
e da parte do sul fez alto para dar descanco ^ aliyio 

6 sua gente de tao dilatada e penosa viagem ; & sua 
vista parou o inimigo , que o. seguia , temendo na 
passagem o destroco. Coniinuou a marcha , pas- 
sados alguns dias, com menos oppressap , e mais 
comnxodidade ; al,^ que entrou na Bahia , termo de 
sua Jornada , que cheia de espanto nao cessou em 
muitQS dias de encarecer o que Luiz Barbalho nes- 
ta faccao ganhou de gloria e adquirio de fama. 
esquadrao hoUandez , assim como vio o escape 

I. 10 



dft pfiMi e a impoiiMlUlAdk) do akaiiM , vohott a 
murcha pan o Arrecife, e a odera contra oa {Hk 
bres moradoraa matando e destruindo tudo qiian* 
to topou atd Peraambuco. 

XXI. Diix&moi dko em o n* XIX d'^ta livro 
o intento com que o condd da Torre mandou 
algumas companhiaa de aoldadoa & campanha de- 
Femambuco^ destros no terreno e naa tercdas 
do mato. Era cabo de todas Andr^ Yidal de Ne^ 
greiroB , o qual com tanta industria e valor fez ana 
obrigacao que ae jnlgou o HoUandez deatruido aem 
remedio. Dividida a nossa gente em pequehos' 
trocoa assaltao a urn mesmo tempo divcs^sos luga- 
rea com tanta ligeireza , que chamado o inimigo 
doa rebatea / sd encontrava o sangue e o incendio 
sem ver a edpada nem o aggressor. Nao bastou a 
entarposicao do mar para desviar o raio : feitos os^ 
nosioa em um corpo ( afnH>Yeitand6»6e da preaa 
que fizerao em trea barcoa), paasdrao k iiha de I ta- 
marack; em uma noite a ganhdrao , saquedrao e 
deatrnirao , com morte de doud capitaes hoUande* 
zes , e bom numero de ftoldados e Indiod , com tal 
presteza que pode a manha dedcobrir o estragO/ 
por^m nao os agented« Assim continuavao os nos&oa 
em suas bem succedidas excursoes , quando avis^ 
tarao a armada que navegava da Bahia para Per- 
nambuco, e com alvoroco de terem d vista o fim 
desejado ^ derao comprimento ks ordensque doge*- 
neral tinhao recebido ; desc^rao As praias , e por 
terra seguirao o curso que as embarcacoes levavao' 
por mar, if com a esperanca de se unirem com a* 
gente que d'ellas havia de sair ; a qual perdemo 



Te&do que de mar cm (6n a nenhiim porlo arri* 
ba^a* Nao deaaiiiiii&rao eatea vale&tcs oampioes, 
antes asaentArao entre si que se deviao continnar 
OS assahos , at^ ent&o por obedietidia , e despois 
por remedio ; edperando que a sorte abrisse cami*- 
nho a retirada , certos no risco da aasistenda* 
Succedeo chegar Luis Barbalho a quelle destricto ; 
correo a fama com o estrondo que custuma gritar 
o espanto ; convoc4rao-«e as nossaa partidas > e f ei«- 
tas n'um corpo^ ae unirao com a sua genie, e jun- 
tos proseguiraa a marcha para a Bahia na forma 
que temos referido. 

XXII. Logo que o inimigo se cerfiflcou de que 
a armada portugueza seguira o rumo das Indias, 
mandou sair a sua edquadra de n4os de guerra, 
entregue a Carlos Torlom , com ordem que pelo 
niaritimo da Bahia finesse o damno possivel , usan- 
do mais vivo rigor da hostilidade. Com pros- 
pers viagem chegou 4 etiseada j que tern tres legoas 
de Costa, deitou geute em terra. Os moradores, 
que primeiro sentirao o ferro que vissem o braco, 
nao tiverao mais lugar qne de salvar as vidas , dei- 
xando nas maos dos inimigos as casas e fai^endas. 
SaqUeou todos os eugenhos , que por rios navega*- 
veis Ihe ficavao debaixo da espada , entregando ^ 
chamas o que nao podiao matter a sacco* Desde 
que na Bahia se ouvio o grito do estrago, mandou 
o goveniador um groSso de infantaria com os me- 
Ihores cabos do presidio para rebatcrem o' inimigo. 
Marchirao accesos no desejo da vlnganca ; porem 
forSo detidos das voltas do caminho , e das passa-* 
gens dos rios. Hollandez, avisad() do nosso ar- 



1&8 GASTRIOTO LUSITANO. 

rebatado movimento , assim medio o tempo com 
o perigo, que uma mesma hora servio & nossa 
chegada e a sua fuga. LameDtavel perda fez o ini- 
migo em seis dias que durou a insolencia e o rou« 
bo : deixou muitos engenhos destruidos , muitos 
desaparelhados ; levou muita copia d'assucar y bois, 
canais j vasos j roupas , e tudo o mais que teve 
valor e prestimo y sem deixar cousa de ulilidade, 
nem para o reparo nem para o servico. 

XXIII. Ainda se ouviao as queixas e corriao as 
lagrimas dos moradores , quando o marquez de 
Montalvao Dom Jorge Mascarenhas tomou terra 
na Bahia com o titulo de Viso-Rei , e cargo de 
govemador giral de todo o Estado do Brazil, fi- 
dalgo de relevantes prendas e verdadeiramente 
digno da confianca que £1 Rei Philippe fazia de 
seu talento para sarar as quebras de nossas armas, 
e rebater as forces hollandezas. Parece que nesta 
escolha se prognosticou a ultima labareda daquelle 
govemo y e a total mudanca do Estado. Era o mar- 
quez varao de grandes espiritos , noticioso da mi- 
licia y e destro ua sagacidade ; do^o-se do estrago 
e da injuria , que o chamavao a vinganca com a 
voz da lastima , e quiz mostrar ao inimigo que seu 
coracao , nem sabia perdoar nem podia soffrer ; e 
que para a satisfacao dos aggravos Ihe sobejava es- 
pada y e para a recompensa das cautellas Ihe nao 
faltava astucia, — Em breve tempo se fez capaz de 
tudo o que era necessario para acertar nas empre- 
sas o modo, e nos sujeitos a escolha. Chamou a si 
o capitao Paulo da Cunha , a quem Sou o peito e 
o segredo; ordenou-lhe que escolhesse os soldados 



CASTRIOTO LUSITANO. U9 

x|ue sua opiniao aprovasse, e com ellcs^ como a 
furto J marchasse para a campanha de Pernambu- 
CO, e queimasse sem distincao engenhos, cana- 
veaes , rocas , arvores , e tudo o mais de que o 
inimigo se podia aproveitar , para que desenga-' 
nado de que os interesses nao haviao de chegar aos 
gastos, desamparasse o que sustentava pelos avan- 
cos , e nao pela reputacao. Partido o capitao a des- 
filada , o seguio com as mesmas ordens o governa- 
dor dos Indios Henrique Dias com o seu terco. 
Feita esla expedicao, despachou o marquez um 
proprio ao conde de Nassau com carta, pela qual o 
avisava em como alguns soldados portuguezes mal 
disciplinados se haviao remontado temerosos do 
castigo; que sospeitava se passariao a Portugal; 
intento que sem duvida os levaria a buscar o fa- 
vor de Sua Excellencia^ para que Ihes concedesse 
embarcacao , ou para o reino ou para os Estados ; 
e se acaso os levasse sua demasia a roubar o recon- 
cavo , Ihe pedia que nem sua generosidade os des- 
culpasse, nem sua clemencia se compadecesse, pois 
para a liberdade havia grilhos, e para o deb'to for- 
cas. Fundava-se a conQanca do marquez em que 
nunca a diligencia do inimigo havia de alcancar 
a destreza e a pericia dos sens. Licita e discreta- 
-mente se desforcou por este modo o Viso-Rei das 
p^as e enganos com que o conde nos fazia a 
guerra. 

XXIV, Neste tempo tinha o conde de Nassau 
mandado dar ao marquez os parabens da viagem 
e da chegada por Manoel Code, um dos tres de seu 
conselho supremo, e por secretario da embai- 



150 GASTRIOTO LUSITANO. 

xada a Abraham Traper (intelligente na lingoa por- 
tugueza ) com um presente de mimos assim da 
terra como de fdra. A sustancia da embaixada j 
depois das congratulacoes da pessoa , era j com as 
cavillacoes do officio, pedir suspensao d'armas, 
apontando as conveniencias de uma trigoa entre os 
dous governos , com a dobrez d'amigo e contrario. 
Com estima^ao e agasalho recebeo o Viso-Rei os 
enyiados e as offertas , acompanhando a gratidao 
com a magestade , com que os tratou os dias que 
se deliverao ; at^ que os despedio satisfeitos e obri- 
gados. Em breve tempo correspondeo ao conde de 
Nassau , e aos do supremo conselho , com vanta- 
joso retorno ; e com asmesmas artes differio astre- 
goas pedidas ; negocio que fiou ao tenente Martim 
Ferreira, e ao sargento maior Pedro de Arenas, 
com cautelosas instruccoes para assislirema propo- 
rem os capitulos d'ellas; porque um engano se r&- 
batesse com outro. Ghegarao ao Arrecife ; com 
festivas demonstracoes forao recebidos do povo e 
do goverao , e com particulares homras do conde 
de Nassau. Concluido o negocio se voltarao os 
nossos para a Bahia, satisfeitos mais da cortezia 
q\\6 da verdade hoUandeza ; a onde acharao o Viso- 
Rei embebido no cuidado de reformar as fortificar 
9oes arruinadas , que brevemente poz em sua ul- 
tima perfeicao ; e em deitar ao mar duas galeotas 
bem obradas , mostrando-se ao inimigo com uma 
miao na paz outra na espada, com o que a um mes- 
mo tempo se fazia temido e respeitado de amigos e 
contraries. 
XXV. Em quanto passava o referido tiv«rao 



cASTimno ujfUTANa 151 

tempo 06 4apittt^ Paulo cU Guoba e Hennque Dias 
p^ra Qxecutarem b« ordeos do YUo^Rei* Chogarao 
aodeitrieto do Peraambuco com vot de fora^oa, 
qua 96 feas crer pela primeira tea^ao , e diapos^riio 
o modo mai^ seguro o melhor encaminhado ao fim 
preteodido i dividira<H»e em pequeuog tro^os da 
dez e quiuze soldados; a cada um ae cousignou o 
lugar e a bora para a iuvasao, e para o retiro. 
De^ta sorto espalhados pelas freguezias pos^rio 
fogo a tudo que podia ser materia para o iucendioi 
com o que , sem tempo uem distincao i ae viao aiv 
der oa eugenhoa e ediQcios , oa campos e oi matos 
em uma mesma chama. Todoa olbavao o eatrago ; 
jieohum atinava com a causa. Portuguezea a Fla^i- 
m^agoa chwavao a perda » sem que a algum sobe«- 
jaa90 magoa para o damoo alheto. Em todag as 
partaa ardia tudo aquillo em que se podia cevar o 
interesse e a esperan^a ; oa geueroa da mercancia e 
do sustento confundirao as cinzas; e nao menos 
OS discursos, que embaracados com a igualdade 
da perda , nao sabiao atinar com o principio do 
damno. Com diligencia inutil acodiao todos ao re- 
medio; porque os nossos soldados assim fugiao do 
fogo que punhao , que era o mesmo buscAl-os com 
a luz das cbamas , que perdel-os escondidos entre 
as sbmbras do mato t sem que novos incendios Ihes 
dessem tempo para ponderarem as cinzas dos pas- 
sados : achava o fogo os materiaes tao dispostos 
que o mesmo era correr a atalhal-o , que cbegar a 
ver tudo consummido. Nao deixou d'obrar em al- 
gumas partes mais o interesse que a obediencia; 
por^m forao tao poucas, que nao fizerao numero 



1 52 C ASTRIOTO LtJSITANO. 

em iamanha sommai Durou por muitos dias a 
causa e o espanto : na duracao dos estragos Viao os 
Hollandezes sua perdicao, recolhendo igual damno 
da perda e da vinganca. Os moradores e naturaes 
recebiao d'uma mesma mao a miseria e a esperan- 
ca J porque so achavao em sua calamidade a de 
sua redempcao. E sem duvida fora este o meio 
para que o inimigo desamparasse a terra , se fatal- 
mente o nao atalh^ra aquella Providencia, que 
com a omissao castiga , deixando obrar os homens 
pelos dictames da cegueira. 

XXVI. Nada mais se passou de notavel at^ ao 
fim d'este anno, a nao ser a morte de Joao Arnes- 
te , irmao do conde de Nasssau , que assistia em 
Pernanibuco chamado da conveniencia e da co- 
bica ; cujo funeral celebrou o irmao com grande 
solemnidade e magnificencia segundo a uso de sua 
terra e rito de sua religiao. 



r 



LIVRO V. 



SUMMARIO. 

1. Preseguicao que os Hollandezes fizerao & religiao e a seus minis- 
tros durante 6 seu dominio em Pernambuco. — 2. Permite o 
exereicio das sinagogas , e mandou pr^gar as leitas heretieas, 
mas sem fructo ; caso que o prova. — 3. Conselhoa e iribunaei 
que formou ; proccdimentos injustos e ambiciosos de seus minis- 
tros; exemplo qne o prora. — 4. Casos em queo Hollandez obrou 
sem f^ e sem verdade. -- 5. Casos parlicalares que mostrao como 
Hollaodez fazia das leis redes de que poucos escapavao. — 
6. Successo misterioso que o qualifica. — 7. Maldade que o enca- 
reoe; indistinccao que o exagera. — 8. Deshuinanas crueldades 
que eiecutarao os Hollandezes ; noTOs tormentos que invenUrao. 
— 9. Caso estranbo. — 10. AbominaYeis torpezas que usavao. — 
11. Insaciavel cobi^a execatada com o braco do goyerno ; caso 
que verifica* — 12. Dtsaforados em todo genero de yicios. — 
13. PondiSrao-se os eicesos da oppressao e do suSnmento ; prodi; 
giosa fidelidade dos Portuguezes para com Deos. — 14. Disposi- 
^es da divioff Protidencia. 



Interromperemos por um pouco o fio da nossa 
historia em quaato se prep&rao em Portugal os 
graades acootecimentos j cujo ^ho devia de infla- 
mar o patriotico coracao do nosso heroe Joao Fer* 
nandes Yieira^ para nos occuparmos em relatar 
neste Y*" livro os attentados e crimes de todo o 
genero que os Hollandezes praticarao , durante a 
sua domina^ao em Pernambuco j contra a religiao^ 
contra a justica e contra a verdade : qual sua cobi- 
ca J quaes suas crueldades , quaes seus desaforos ; 
e qua! a constancia e sofFrimento dos Portuguezes 
no meio de tantos trabalhos e persegui9oes. 



15/i GASTRIOTO iUSITAMO. 

I. Quando o Flamengo entrou na villa deOlinda 
nao so permittio a os seus o sacco e a extorcao em 
toda a demazia de victoriosos , mas , para mostrar 
seu aborrecimento a religiao catholica romana^ 
Ihes aplaudio os horrendos desacatos com ,que 
profan^rao o sagrado dos templos e das santas ima- 
gens ; tao insolentes que , acompanhada a exorl^i- 
tancia do desprezo , fizerao em pedaoos , e pisarao 
aos p^ tudo o que servia e representava o divino 
culto. Aquelles vasos e paramentos que a f^ tinha 
dedicado & catholica veneracao , depois de serem 
materia ao roubo y o forao a irrisao. Com o mesmo 
exceso e escandalo se houve na villa de Cunhau, 
que ganhou por entrepreza , deixando aos mo- 
radores (anto que sentir nos desacato3 feitos a 
Deoa e a seus santos , que Ihes faltarao lagrimas 
para chorar as injurias e perdas temporaes* Nao 
de outra sorte se houv^rao o anno de 1 634, quando 
encarregdrao aos Genlios Pytiguares e Tapuyas 
a execucao das cruezas y por tomarem a sua conta 
a dos sacrilegios. Os mesmos inaultos viriio ( nao 
com olhos enxutos } osmoradorea de Par^iba : aqui 
foi a dor mais intensa , porque foi o desaoato 
mais horrivd. Era um domingo 8 de Octubro, dia 
que a devogao dedicava a solemnidade do Rosario. 
A concurrencia era de todos ; e nao isentou o golpe 
a nenhum , porque o repentino assalto nao deo 
lugar a defensa oem & vinganca , faaeendo'^a dese*- 
jada a cegueira com que os herqes convertevao em 
deaprezo do culto o pompoao da festa. Na occasiao 
em que o coude de BanboUo , fugindo de sua n^es- 
ma sombra j deixoii naa ganras do inimigo a for- 



GASTRIOTO lUSITANO. 155 

taleza e povoacao do porto do Galvo , ficarao os 
viEinhos sujeifcos a todo o rigor das armas, e da 
iyrannia heretica. Faltara*-lhes o sDiTrimento e a 
paciencia para o «8&ndalo , com que o inimigo 
profanou o sagrado e o honorifico , se Ihes nao 
animara a tolerancia o P* M. Fr. Manoel do Sal- 
vador ( Veja-se ii° IV do livro IV ) , religioso da 
ordem de Sao Paulo , a quern esle reioo e aquelie 
Estado i devedor de grandes servicos, que Ihes 
prestou expondo-se muitas vezes e em muitas 
partes , a grandes perigos pelo serv jco de Deos e 
da republica. Nao contente de tautos desacatos e 
profanacoes , prohibio o Hollander , dentro da ci- 
dade Mauricea e Arrecife j o uso dos sacramentos 
(KMB pena capital a quem violasse tao execravel 
decreto. Estendeo-se a prohibicao por (odo o re- 
concavo, nao porque o bando o comprendesse, 
senao porque a insoleocia o executava , passando a 
obiervaucia do vedado os termor do prohibido ; e 
foi tanta a demazia dos herejei^ , que opprimidos 
OS moradores da exaccao abrirao cavas debaixo da 
terra , para esconderem a maligaidade as exerci- 
cios da virtude. Nao foi menor o furor com que 
p^rseguio os sacerdotes e religiosos. A uns des- 
terrou , a outros prendeo, a muitos destruio , uao 
sendo poucos os que acabou com falsas culpas e 
afrontosas mortes. A dous religiosos d'esta reli- 
giao eondemn&rao a forca, porque juntameute 
padecessem o Estado e as pessoas. Na volta que fez 
da Bahia o conde de Nassau (como deixamos rela- 
tado) tomou os religiosos por d[)jecto da viuganca, 
que nao pode executar uos solda4os. Maodou deitar 



156 CASTRIOTO LUSITANO. 

bando, que todos dentro d'um mezdeixassem a ter- 
ra, com pena de que a desobediencia se seguiria 
a morte j ordenando a todos que se passassem a 
ilha de Itamaraca; eporque os religiosos do pa- 
triarcha Sao Bento se nao isentassem , por monges, 
do numero dos frades , escreveo particularmente, 
e por sua mao , ao seu prelado , dizendo-lhe , com 
simulada perfidia , que se retirasse com seus sub- 
ditos & mesma ilha , a onde com os mais religiosos 
viveriao livres do estrondo das armas, desassoce- 
gos do commercio, e atrevimento dos soldados. 
Depois de entrados na ilha os mandou prender a 
todos ( despojados de seus habitos, e de todo des- 
pidos , para que a um mesmo tempo os atormen- 
tasse o pejo e a falta ). Foi fama que a determi- 
nacao do hereje era pass^l-os a espada sem deixar 
algum com vida. Devia parecer a sua crueldade 
breve o martyrio , e para .que se dilalasse com o 
tempo os mandou embarcar , e deitar em varios 
desertos das Indias de Gastella^ nus, feridos, e 
separados ; o que tiv^rao por milhor sorte : que 6 
menos sensivel servir de pasto as feras , que de ca- 
fra a os tyrannos. 

II. Ao mesmo tempo que proscreviao o culto 
catholico^equenemainda nos mais secretos retires 
sofFriao o uso de seus sacrament os, permittiao 
na cidade Mauricea e no Arrecife as synago- 
gas , em que os Judeo3 com publicidade exercita- 
vao seus condemnados ritos. Querendo substituir 
a verdadeira religiao denossos pais as falsas doutri- 
nas de Luthero e Calvino, mandirao a seus predi-- 
cantesque annunciassem ao povo suas heresias; mas 



GASTBIOTO LXJSITANO. 157 

forao fnistrados seus esforcos, porque os verdadei- 
rps catholicos olhavao com desprezo para similhanlcs 
ministros , fugiao de suas pregacoes, e preferiao 
as preseguicoes e o exlerminio ao arrenegarem dc 
sua f(6. Atribuiao os herejesesta constancia dos ca- 
tholicos ao alheio impulso, tendo para si que ainda 
influia em seus espiritos o poder de ministros 
superiores, por meio d'alguns sacerdotes o\i dis- 
farcados, on escondidos, e para de todo Ihes tirar o 
respeitocom jurisdiccao prohibio a todos os mora- 
dores de qualquer qualidade que fossem, que nao 
podessem recorrer, nem ao bispo da Bahia nem ao 
coleitor de Portugal, nem a curia romana, senao 
por via de Hollanda ; confiados em que o desvio e 
a dilacao reduziria a cinzas a viveza d'aquellas bra- 
zas. Golpe foi este que penetrou o mais intimoda 
alma aquelles fieis ; por6m nao pode ferir a cons- 
tancia de sua fidelidade. Com razao se pode glo- 
riar aquella parte da America de que servia a igre- 
ja com fe lao viva, que se apurava no maior fogo 
da perseguicao , pois nem a licenca , nem o vicio, 
nem o ferro, nem a conveniencia os pode desviar 
de sua firmeza. Referiremos um caso que bem o 
prova. — A trez mancebos, soldados e portuguezes, 
condemnou o Hollandez a morle de forca , por leve 
culpa ; forao-lhes intimar a sentenca a prisao , e com 
OS ministros entrou um predicante , parecendo-lhe 
que a profissao de soldados, o amor da vida, e o 
medo da morte os ajudaria a preverter. Nestes va- 
sos Ihe quiz dar a beber a infernal doutrina de Lu- 
thero e Calvino ; ao que um se adrantou a os mais, 
e respondeo ( direi as palavras, que mostrao bem 



158 GAmilOtO LttSlTAHO. 

a inteiTtiA , e desenfadado animo dd todos ) : a Va<* 
V se d'ahi ministro infernal , predicunle de borra-A 
» chos ; em aeitas de bebados podera hater quern 
» n'esta vida beba , mas nao quern para a outra 
» viva : viva a fc5 catholica romana , que professa- 
» mos, e em que niorreremos, e leve o diabo lanto 
)) hereje com seu Luthero e Calvino. » Deixou a 
fiel constancia assim cortados e corridos a todos 
OS circurastantes , que furiosos appellarao do des- 
prezo para a vinganca, tiraado a vida aos tres 
fieis mancebos com varios tormentos ; epadecendo- 
os maiores os herejes na firmeza com que^ at^ o 
ultimo alento Os ouvirao pr^gar a lei evangelica 
como a ensina a igreja romana. 

III. Nao com o desejo sincero de administrar 
justica, mas com o fim de melhor esconder sua 
rapacidade e cobica, estabelecerao os Hollandetes 
alguns tribunaes e conselhos de que cumpre dar 
noticia^ bem como dos procedimentos de seus ofH* 
"^ ( iaes. Formdrao um C5nselho que chamavao su- 

premo , ao qual subiao As causas per appellac&o e 
aggravo ; outro que se dizia politico , e coilhecia 
de causas crimes; o terceiro tinha por officio jul- 
gar as causas civeis , composto em forma de ca* 
mara; os ministros d'este, que chamavao eicabi* 
nos , erao seis HoUandezes e quatro Portuguezes } 
- assegurando no excesso dos volos o absoluto das 
resolucoes. Era todos estes tribunaes se nao admit- 
tia peticao que nao fosse em lingua flamenga, para 
que o cscrivao e o interprete fossem hoUandezes, e 
se pagasse nao so com excesso senao tambem em 
dobro. Para ser apresentada e recebida d'um eou- 



GAStniOTO LtJSITAlfO. 159 

tn> hatifta o$ litigantes de ofSftecer meia pataca , e 
a 6Ste principio correspondiao os meios e os fins^ 
dObindo de sorte as custas que para um acredor 
arrecadar vinte, gastava quarenta; e se o rdo dava 
seis de peita , o absolviao ^ de mai$ obrigatido o 
atitor a pagar as custas ^ e a perder a divida. Se 
OS quatro juizes porluguezes votavao ajustados por 
menos , ficavao vencidos ; e nas sentencas empor- 
tava pouco que assignassem ou nao os juizes por- 
luguezes. F6ra d'estes tribunaes , cujos offieiaes 
erao sem numero , crearao dous ministros y um a 
que chamavao escoleto, e oufro fiscal, que erao 
come executores das prematicas e baudos , que 
saiao dos conselhos , com jurisdiccao plenaria para 
condemnarem a seu arbitrio, sem appellacao nem 
aggravo ; com pacto de que a metade das condem- 
na^oesseria para os conselheiros , e outra metade 
para os ditos ministros ; e assim erao as condem-* 
nacoes sem causa ^ sem termo, e sem distinccao. 
— Vejamos agora a justica de Seus ministros. Se 
algum queria ferir ou furtar , concertava-se pri- 
meirocom um official de justica, e pago d'entemao 
o delito , o commetia com seguro j e se o deli-' 
quente concertava que havia de furtar dez , e fur- 
tava vinte, o executavao por outro tanto dinheiro, 
quanto no roubo excedeo ao concerto. Da mesma 
maneira, se o que havia concerlado dar uma cuti- 
lada dava duas, pagava o excesso; e nao de outra 
sorte, se por menos se faltava ao prometido, se 
pagava a falta ; e se acaso o roubado , ou ferido 
querelava , o arguiao por violador das leis , e como 
tal o condemnavao k prisao \ d'onde nao saia sem 



160 GA8TBI0T0 LUSITANO. 

primeiro pagar com excesso a injuria e a injustica 
que padecia. Saiao o escoletee o fiscal pelo re-« 
concavo , quando o interesse os chamava ( que o 
zelo nunca os movia) a deva^ar dos concubinarios, 
que condemnavao em subida quantia de dinheiro, 
exactamente cobrado; e para que o castigo nao 
servisse a emenda Ihes vendiao consentimento , 
pelo preco em que se concertavao , convidando-os 
assim a perseverar no mao estado. De uma mesma 
sorte processavag a culpa pela suspeita, e pela 
possibilidade; pagavao mancebo , so porque podia 
peccar; pagava o velho, porque em sua mocidade 
peccou ; e a nenhum livrava a malicia de culpado, 
porque igualmente pagavao os tristes moradores 
o facto e o possivel. De nenhuma outra gente se 
vio a juslica mais affrontada. Pronunciavao , pelo 
dictame de sua malicia , as mulheres casadas , em 
que vivia mais clara a honestidade , e com mais ad- 
vertencia o recato. Com fingido respeito buscava 
um d'esies ministros sua casa , quando d'ella fal- 
tava o marido, e Ihe mostrava na devassa provado 
o delicto com testimunhos suppostos ; vendia-Ihes 
o zelo de sen credito , para que nao perecesse sua 
fama. As inocentes matronas desmaiadas e afllic- 
tas de verem posta sua opiniao em maos tao infa- 
mes , compravao a reputacao a peso de ouro, sem 
reparar no custo, com tanto que se conservasse o 
credito, e se nao divulgasse a impostura, ficando 
sua honra exposta a cortezia dos tyrannos. For 
estes mesmos fios passava a maldade a roubar e a 
destruir o estado sacerdotal : aos clerigos de me- 
Ihor reputacao e de mais annos envestiao com a 



CASTMOTO LUSITANO. 161 

mesma estocada ; erao reformados , c a todo o 
preco compravao sua estimacao. — Quero referir 
um caso , e nelle se verao estampados todos. Tinha 
mandado o seu conselho supremo, que cada um 
dos vizinhos plantasse em sua fazenda , quando 
menos, mil covas de mandioca ( ordinario sustento 
d'aquellas partes ) ; vierao os executores do bando 
a porta d'um pabre morador, que nao tinha mais 
familia que um so negro, e por elle havia mandado 
barrer o caminho e o terreiro da casa , por tirar 
tudo que podesse ser tropeco i malicia d'aquelles 
ministros. ChegArao; recebeo-os o pobre homen 
com a boca cheia de riso, e Ihes disse: a Vossasmer- 
» ces nao tem em que pegar, porque tenho plantado 
wnao so as mil coTas, a que me obrigaa prema- 
» tica , senao de mais a mais quinhentas. > Aqui 
levanfarao os infernaes ministros as vozes : a Trai- 
»dor, traidor, seja logo preso por violador dos 
w supremos decretos, excedendo o numero da pre- 
» ma tica. » Vio-se o miseravel pasmado com a es- 
tranheza da malignidade, e por remir sua vexa- 
cao e liberdade pagou dez mil reis : furto a que 
derao nome de pena. 

IV. Este era o estillo d'aquelles ministros , este 
o estado d'aquella justi^a ; nella se funda a dura- 
cao dos imperios , sem ella se trabalha a ruina dos 
Estados. Nao com menos pressa corriao os Fla- 
mengos a sua perdicao pela vereda da perfidia, 
faltando descaradamente & verdade , sem que nel- 
les se achasse palavra certa , nem contracto segu- 
ro ; de maneira que se p6de dizer que trabalhou 
mais em sua ruina sua perfidia que nosso poder. 
I. 11 



162 GASTmOXO £QSlXAliO. 

Citaremos alguns casos que o coinprovao« Capitu- 
larao tregoaa com o marquez de Montalvao ; e a 
peaar disto, e das pazesqueo SenborReiDom Joao 
IV tinha assentado com os Estados de HoUanda, 
e que se confirmarao com reciproco conaeatimeato 
entre o Arrecife e a Bahia , armarao quatro naos 
no Arrecife com muni9oes e soldados^ sufficient 
tes para o intento ; entrarao no porto de Sergipe 
d'El Hei f com certeza de que nossa seguranca nao 
acodiria a defensa ; ganhdrao por entrepreza a ci- 
dade de Sao Ghristovao , e no porto fabricarao 
uma grande fortaleza. Com similhante mascara fo<- 
rao conquister o reino d' Angola , de que se fizerao 
senhoresi aleivosos e fementidos. Com mortal odio 
saquearao e destruirao tudo quanto encontrdrao. 
Com bandeiras de paz e salvas de amigos entrarao 
com 0eis ndos de guerra na costa do* Maranhao , e 
chegarao a barra ; pedirao licen^a para ^ntrarem 
com pretexto de se proverem de mantimentos, de 
que se fingiao faltos. Escondia-se o fogo da traicao 
dentro das apparencias da amizade; descobrio^rse 
a cara do eugano^ quando jd faltava tempo e modo 
para a opposicao : sem eUa se fizerao senhores da 
cidade e da fortaleza^ perdendo os moradores a fa« 
zenda e a liberdade ; e muitos as honras e as vidas. 
Com tao infames ar tes , como as referidas , se in- 
troduzirao na ilha de Sao Tbom^ , e na fortaleza 
de Sao Jorge da Miaa. Outros muitos casos pode- 
riamos apontar ^ em que sua traiQao e perfidia ex*- 
cedeo todos oslimites da credulidade; mas omitti- 
mo-las, para fallai- d'outros em que se publicdrao 
infamemenle perjuros e perversos. 



oAiniem) umuriWi Ml 

V. Tr98 TCZM por editaea^ bandoi, e ilrmadot de 
9eu8 magiatradoa tomarao u artnas oa moradorea 
oom juramento da que aaaim convinha i Mia eon* 
awaQao; e ouiras tres veiea Ih'aa fiatf rao comprar^ 
oom {iretoxto da que aiaim era neeeaaario para aua 
defianaa, com peoa de morte a entrcgai com pena 
do moFte o recibo. Cada dia ( muitaa vezea cada 
hojra ) ae fixayao editaes., e ae deitavao bandoa en«< 
contcadoa > que com acguro real promattiao e nega« 
^ao aos mofftdorea a meama cooaa , para qae jun«« 
tamente peocaase o pontual e o ramiaao. Fk*omet« 
tilo* em nome doa Eatadoa proteccao a defenia Aa 
vidas^^ h honraa e iu faaendaa doa retiradoai 
pan que deixando o mato | ae vieaaem com aiiaa 
famiiiaa povoar auaa oaaaa e engenl^oa i a tanto 
que oa tinhao deniro da rede j traztdos de aua 
siogela credididade ^ oa deapojavao de (udo. fiio 
atngularizo aa peaaoas y os lugarea e occaaioea, em 
qae exeroitarao tao exeera?el perfidia, porque 
apemia houve peaaoa, occasiao e lagar que a nao 
experioientaeae* De um aucceaao faremoa eapelho 
em que ae repreaentem todos. Com grande nu« 
mero de lodtos aelvagena ( mortaes inimigoa doa 
Poptuguezea ) chc^ou Jacobo ( um Hollandea , a 
quern a «imilhanca doa coaiumea fez auperior d'a« 
quelka barbaroa ) a povoacao de Cunhati um aab* 
bado de tarde. Nao foi a vinda iiem o iotento ea« 
colha, aenao obediencia. Tiahao-lhe remettido do 
Arreeife oa do governo aa ordena e inatruccoei de 
tudo o que havia de obrar, quando e como. Fo«* 
rao aviaadoa os moradorea da marcha e do po-^ 
der; a experiencia os ensinou a soapeitar mal de 



16ft GASTBIOTO LUSITANO. 

tudo : poserao-se em cobro. Entrou na povoacao 
o iaimigo com Simula da paz ; mandou deitar bando, 
e fixar nas portas da igreja um edital assigjaado 
pelos do conselho supremo , e jurado pelo dito 
Jacobo y ordenando aos vizinhos do lugar que de^ 
baixo de seguro se achassem na igreja ao outro 
dia f que era domiugo , para que depois da missa 
conferissem certo negocio , que os senhores Eata*- 
dos Ihes mandavao communicar , desenganando- 
OS. de que a pessoa alguma se faria o menor ag-* 
gravo. ObedecSrao os moradores , chamados a um 
mesmo tempo do preceito da igreja , e do baudo do 
hereje ; ou porque nao duviddrao do seguro, ou 
porque nao temerao o perigo. A maior parte en- 
trou para a igpja; outra menos confiada se deixou 
ficar nas casas do engenho. Os que entrarao no 
tempio encostarao as paredes do portico os bordoes 
que levavao (armas que Ihes permitia o governo 
hoUandez ) . Vestio-se o sacerdole , poz-^e no al- 
tar , comecou a missa , e ao tempo , em que che- 
gou a levantar a Deos se fizerao os Indios senhores 
da porta do tempio ;, o que advertido dos morado- 
res conhecerao o erro e o perigo a tempo que se 
val^rao do ultimo remedio, que foi pedirem 
ao ceo perdao de sens peccados, tao faltos de 
tempo y que se encontrava nas gargantas de todos 
a ora^ao e a espada , sem que a dos barbaros dei« 
xasse pessoa com vida. Pela mesma serte passarao 
OS que se recolherao nas casas do engenho , senao 
que irritados do sacrilegio eda perfidia, com as 
macs e com os dentes avancarao ao gentio, e bus- 
cando a vinganca se mettiao pelas armas ^ a onde 



GASTRIOTO iUSlTAMO. 165 

juntamente achavao a morte e a satisfacao , porque 
abracados com os inimigos matavao e morriao. 

VI. Rdatarei o que d'esta occasiao acho escrip- 
to por pessoa autorizada e fidedigna. Nao approvo 
milagres, mas refiro estranhezas, que o parecem. 
Era osacerdoteque celebrava homem denoventa an* 
BOS , varao de vida exemplar. Temeo que a cruel- 
dade se seguisse o desacato , e yirado para o gen- 
tio Ihe disse na sua lingua , em que era perito , 
que toda a pessoa que nelle tocasse, ou nas imagens 
e paramentos do altar , Ihe ficaria tolhida a parte 
own que o 6zesse. Temerao os Indios Tapuyas, 
e se retirarao reverentes ; outra especie d'clles , a 
que chainao Pytiguar^, ou mais assanhados » ou 
menos respeitosos , com crueldade e desprezo Ihe 
tir4rao a vida. Caso marvilhoso ! todas aquellas 
partes de seus corpos , que servirao ao sacrilegio, 
Ihes (icarao pasmadas e insensiveis , e todos em 
brevissimo tempo morr^rao despedacados de seus 
proprios denies ; e para que se nao duvidasse da 
causa do castigo, permittio Deos , que na dureza 
das portas da igreja , como em branda cera , ficas- 
sem impressas asmaos do sacerdote', buscando com 
ellas arrimo nos ultimos alentos da vida. Verifi- 
C0u-se prodigio, com se ver naquella igreja , 
muitos mezes depois , o sangue dos padecentes tao 
vivo e fresco , como se na mesma hora f6ra derra- 
mado. E hem pode suspeitar a piedade, que no li- 
qutdo d'aquelle sangue coraecou a resvalar a vio- 
le^cia d'aquelle imperio , pois n*elle se conservarao 
vivos OS sinaes da f<6, e mortos os da perfidia. 

VII. Assim aborreciao a verdade que faziao ne- 



Ifi6 CAftTIUOTO LUnTAMO. 

gooio pubHco da meatira ^ busoando nella o aug- 
mento do cabedal » waa fazerem reparo na t>|Hiiiio 
da haiira» Viao passar par Mas portas um morador 
bem tratado , retiravao-^e ^ e desiao as auaa mu* 
Iberes que o ohamassem a titulo de negocio ou de 
cortezia» eque tanto que o tivessem dentroda caaa 
grilassetn que as solicitavao , pegaado d'elles y 9M 
que as vozes acodisse o marido e a visinbanf a« As 
testemunhas que ja esiavao prevenidas , juratao, e 
enoareoiao todas a culpa para levantaram a pena ; 
e uao S6 livrava o inaocente ( quando oa achava 
mais oompadecidos ) com menos de cinooaala, &s^ 
senta ^ oem dobroes ; e se tinha por betn afbrtu«» 
nado aquelle que a tx>do o custo comprava a li«- 
vran^a sem priaao ^ e aem processo. Suocedeo este 
alcive a um homem honrado e de idade ^ chamado 
Thomas L\uz ^ ao padre Belcfaior M auoel Ganridoi 
vigario da regueaia de Santo Antonio^ e a outroi 
d'eate lote , porque nao reparaya a mabicia nai ob* 
jecfoesda verdade, com tauto que pa^sle a subido 
preQo o engano. Audava tao ¥aIido eate falsifiMdo 
trato^ que ja tiao havia morador que se atreresse 
a eutfar ^m logea^ tenda^ ou officina^ sonao em 
tettipo que Aella se achasse muito ooucurso de gdih* 
le« Outro case nos mostrara todo o ^^careckaeiito 
dcsia oialeria. Deviao oa HoUaudezea aoa Judeos^ 
que assistiao eai Peroambuco ^ a maior fd^te de 
sua fortuna ^ porque uelles acharao sempt^ ajuda^ 
avisos e conselhos contra os Portu|;ue2es; fSkaiao 
d'etles a maior confianca ^ Certos do odio qile ti- 
nhao a lei evangelioa , respeito que sen^re os £de 
confidentes e gratoa aos berqjeS) achando. adles 



GASTRIOVO LUSITARO. 167 

[Mrestimo e estimacao. Ghaniados pois t assistidos 
do faTor, multiplicarao de maneira em numero e 
em cabedal y que nao havia negocio de justica, nem 
de fazenda , que nao corresse por suas macs , fi- 
cando nellaa sempre o melhor do interesse; com 
o que ingrossarao de sorte , que os nao sofiria a 
inveja e a cobica; e determinou a perfidia hollan- 
desa qu^rar4hes o seguro e os foros , com que 
Ihes permittio a compra de engenhos , curraes, 
terras e officios ; e confiscar-lhes tudo quanto ti- 
nhao adquirido. Achou logo pre texto ; urdio tra- 
pacas , poz-se o negocio em pleito : erao as mes- 
mas partes os juizes , haviao de senlenciar como 
interessados na causa ; nao tiverao os miseraveis 
Judeos outro remedio mais que remirem as fa- 
zendas a dinheiro. Successo com que justificamos 
presente argumento , de que nao tinhao os Fla- 
mengos naquelle dominio lealdade, verdade, U, 
nem palavra com amigos e inimigos, com proprios 
e estranhos , com grandes e pequenhos ; em todo 
o tempo y em toda a parte , e em toda a materia. 

yilL Ja fallamos em o precedente livro d'algu- 
mas crueldades praticadas pelos HoUandezes ; di- 
remos ainda outras para opprobrio de sua barbari- 
dade. Os meios de que se aproveitaya o interesse 
e o gosto d'aquella gente erao a destrui^ao, a mortc 
e a injuria ; e para que a crueldade servisse mais 
ao deleite , inventarao novos modos de aflrontas, e 
eicquisitos generos de tormentos. Condemnavao a 
acoutes ; executava-se a pena por f aes braces , e 
t^om taes instrumentos , que nao se dava golpe^ 
que mo aS)risse ferida. Sentenciavao & morte; 



168 CA&TfilOTO LUSUAJNO. 

cumpria-^ a senten^a com taes escaraeos q madrr- 
tyrios, que se fazia duvidar qual primeiro aca- 
bava a vida do padecente , se o ferro j se o pejo. — 
Fazia credito a deshumanidade de sair com eslra- 
nhas invealivas de matar. Estendiao os corpos dos 
pacieates sobre umas rodas com tal ariificio , que 
com o movimento Ihes moiao os ossos ; e se a vida 
sobejava ao tormento Ihe davao fim com uma maica 
de ferro, que Ihes abatia os peitos. Aos homens 
que tinbao em opiniao de ricos , e nao appareciao 
com o dinheiro , chamavao os ministros a suas oa- 
sas e em cavaletes de pio os^atormeutavao atd que 
feneciao ou o eatregavao. A outros penduravao j e 
ungiao com azeite para que a fogo lento acabassem 
as tristes vidas. A muitos imprensavao entre duas 
taboas repassadas de agudos pr^s, que junta- 
men te os traspassavao e moiao, e por recreio pas-- 
seavao sobre elles. A nao poucos amarravao pela 
cinlura, e revirados os levantayao em alto com os 
pesatados^ atravessando entre umeoutroum gro^o 
madeiroj e por entre tenimen to cavalgavaaem uo^ 
e outra ponta, e se balanceavao; festejando com 
gritos e risadas as sentidas vozes, que cajusa- 
vao aos pacientes as teiTiveis dores, Nos assaltos^ 
nas entrepresas , e nos saccos era maior a deshu- 
manidade, porque era de muitos a fereza. A&mo- 
Iheres de qualquer estado e qualidade cortavao as 
maos f rompiao as orelhas , e feriao as gargantas^ 
porque a detenca do tempo os nao atrazasse no rou- 
bo dos anneis , dos pendentes , e das gargantilhas 
(servindo aomartyrio os instrumentos do adorno); 
como se em sua forma^ao errasse a jna^tu^e;!^^ cm 



em sua oapacidade faltasse a aoticia do sexo. Qrdi- 
nariame^te racedia lerarem em sua companhia os 
Indios selvagens Tapuyas e Pytiguar^s , conheci- 
dos pelo Home de Cabocolos , de cujas garras nao 
podia fogir nem o retiro , nem o recato , porque 
peio faro os descobriao e matayao ; tao temidos erao 
estes selvagens ' dos moradores que os nao espan- 
tava menos uma companhia de Cabocolos que uma 
luanada de tigres ; e com muita causa ^ porque fa- 
ziao desenfadodeexecutar as mais horriveis barba* 
ridade^. Esgacarao as crian^as vivas j e com as 
maos as faziao em duas partes. A outras estrelavm 
nas pedras , e nos troncos , ou de tiro ou de golpe, 
oompetindo*se na execucao a destreza e a forca. 
Os oorpos adultos abriao , ou pelos peitos j ou pe-* 
las co$taS| e Ihes tiravao o cora9ao e os figados, 
que a vista de todos comiao; e com o humano san- 
gue satisfaziao a s^de : ferocidade que via o hor- 
ror com olhos do pasmo. 

IX. Forao tantos e tao parecidos os casos que 
para os especi6car falta a escolha , e confunde a 
^milhanca ; mas sera forca que algum sirva d ori- 
ginal a tanta copia. Na occasiao em que D. Anto^ 
nio Philippe Camarao se retirou de Goyana com os 
moradores que o quizerao seguir ( que foi no anno 
de 1636 ) deo sobre os que ficarao urn diabolico 
verdugocbamado HypQem ^ governador da Faraiba, 
com uma numerosa partida de Cabocolos , em os 
quaes executou tao inauditas crueldades , que pa- 
rece os descouhecia a mesma atrocidade. Succedeo 
que d'uma casa em que o mortal eslrago deixava 
deapeda^adas^ vmte e tres pessoas ^ pode f ugir uma 



110 GASniOTO LinUT4!IO. 

mulher casada> para se esoonder no mkto^ eotn 
duas criancas , uma de peito > e outra de pbuca 
mais idade ; audados alguns passos se deteve ( de^ 
noaiada da propria fragiiidade e do filial estor*- 
vo) junto a estrada, servindo-lhe o arultado trott- 
co d'uma arvore de a eDcobrir aos caminhatite$« 
Pouco Ihe duron o descanso. Em breve tempo ou- 
yio um tropel de Gabooolos, que viuhao no alcanoe 
dos fugidos, e foi iai o temor , que Ihe occapou o 
coracao , com a lembranca daa crueldades que vira, 
que receosa de que os filhiuhos se descobris^tn 
pelo choro ,- e os alarves Ifaos comessem ^ cs afo^ 
gou com suas proprias maos, pelos nao Ter paasar 
a alheias entranhas , escolhendo a tridte mai para 
si e para 6eu8 filhos por melhor sorte uma morte 
. eerta , que uma crueldade imaginada ; e embrave- 
dda contra si mesma rompeo pelo mato quatone 
legoas; chegou a Para!ba, e viveo alguns aniios 
depois absorta no espanto e na pena , com que a 
martyrizava a memoria do golpe e do medo. 

X» Aquelle natural pudor com que a provida 
natoreza refrea nos mortaes as obscenas torpezas 
dos brutos^ rompeo a bestial lieenca d'aquelles 
abort! vos monstros* Andava a ra^o tao prostra- 
da a vista do apetite, que igualmente desprezara o 
pejo e o escandalo. Valia-se a lascivia da forca e do 
dominio > e se executava o delito apezar da repug- 
nanda , em que achava sen bestial gosto novo in- 
sentivo para cometier o estupro, o adulterlo, o 
inceslo , e todas as mais espedes de bestial luxuria , 
servindo a viotencia de unir emum mesmo acto^a 
torpeza e a vinganca. Forio tantM '&ta» nens as 



cAamoio jccfliXAiia ill 

dema&iU) com queM cpmmettiaoste vieio ^ que as 
diaimuk a penna, porque senao refretque o €8caa- 
4alo« Os niBgistradoS) que pela razao deBeii cargo ha- 
viaode atalhar o desaforo, com seuexemplo anima- 
vao o atreyimenio. Yiao^ ou tinhao notieia d'alguma 
mulher hem parecida j com o desengano de hoU'- 
rada ) logo com fingido prelexio inandavao pren^ 
der as peasoas que a podiao guardar ^ e com des^ 
oarada lascivia Ihe enlravao em casft) sem que 
baata^em para a defender as laf^rimas e auspiros, 
de que sua caatidade se armava; antes como la^a 
de hrutoa a for^a ^ creacia a violencia com a de«- 
fensa ^ oeyando«-ae o apetile noa ineamoa desvioa 
da luxuria. Oure muitas que com suas propriaa 
xnaoa ae matarao^ e ouiraa que da doa aggroaaorea 
morrerao , aaaim por nao inCamar a vida ^ como 
taisd)^ por nao olfender o aangue* 

XI 4 Nm era menos a inaaciavel cobi^a d'eate^ 
monatndS. £m U^do o tempo que durou naquella 
parte d'Ameriqa q imfnario e o governo koUaadez 
nao hottVe pesaoa q^ poasukae bena de fortuna, 
aenao a mwc6 da tyrannta* meamo era ter| 
que ter o inimi^D que rouhal* : a joia ^ a gala , o 
mimo em tan to era deaeu danmo^ em quanto que- 
ria o Flamengo« Nao ae eoute&tou com furtar, aem 
qua o roubo se executaaae por iei^ e foaae juntas 
mente fur to do alheio^ e prothibi^ do proprio. 
Advirta-se como neate particular audou a malicia 
delgada. Saio decretado de seua oooaelboa aob gra^ 
yes peuas que nenbum moradot podesae y^nder^ 
nem matar ( neip ainda para com^ em sua caaa ) 
algmm ^uero de re» ,^ sem UoenQl partieuiar ^ e ae 



172 Gisimoio umrAMo. 

a occasiao o obrigava a pedil-a^ kayia de pagar 
por cada oabeca de cameiro ou de porco um cur- 
zado , e de gado vaccum dez tostoes ; e que se bc^ 
guia a esta prematica ? Comprarem os Hollandezes 
OS gados e rezes em pe por muito baixo preco , e 
depois venderem-nas aos arrateis aos mestncs ven^ 
dedores pelo pre^o mais alto que queriao* Ouiras 
muitas extorcoes e vexames pratidirao , executadas 
cmi o hraco do goyerno , que deixo em silencio^ 
para so fallar d'uma maisescandalosa. Os negros 
quefugiao a seus seohores , se Ibes nao restituiaoi 
se de novo os nao compravao ; como para este fim 
OS recolhiao com boa cara , poucos erao os que nao 
fugiao J dando com este latrocinio occasiao a que 
OS tristes moradores fossem escravos de sens es^ 
cravos. Foi tao apertada a oppressao dos amos 
neste particular , que nao tinhao mais vida nem 
mais faz^nda que aquella que o seUcaptivo queria ; 
porque y se com alguma palavra o escandalizaTao, 
acusavao<-nos de que tinhao armais escondidas; e 
sem mais prova nem exagp erao condemnados 
p<M» traidores. — Chegoa a^manho excesso o uso 
d'este modo de roubar , que ja nao havia escravos 
que o nao abominassem. Por^m esta falta suprie 
aquella maliciosa cobica : compravao os me|os do 
vicio, e OS dispunbao para o furto, ou com pro^ 
messaS) pu com ameacas. A um crioulo es(H*avo de 
um morador authorizado convidarao com a liber- 
dade j e com o interesse se qnizesse accusar a seu 
senhor de que tinha armas escondid^s : para este 
fim mett^rao em um lugaro^culto dous mosqiletei 
e duas epadas, k vista do negro , porque infor- 



GAsmioro LiniTANa 17S 

madodo lugar e das armas se animasse a delatar o 
crime , seguiro na certeza com que podia fazer a 
accusacao. Gorrtdo o escravo de que o fizessem 
oomplice de tao in<H*me falsidade , e aulor de trai- 
cao tao vil , descobrio a seu senhor toda a impos- 
tura. Acudio atribiilado ao remedio do emitiente 
perigo; buscou um religioso aceito ao conde de 
Nassau, que oinformoudo caso. Nao se espantou 
o conde do infame iniento senao da fidelidade do 
escpayo ; mandou fazer exame, saio provado o 
trato , e aao sei como, esta vez forao condemnados 
OS aggressores a morte ! Devia obrar n'este caso 
mais o respeito do conde queo pejo dos ministros, 
complices em outros casos similhantes, por elles 
approvados, e quando menos consentidos. 

XII. Digamos tudo por maior, que por extenso 
sera impossiveL Trabalhavao quanto podiao os 
Hollandezes naquelle Estado, por se inculcarem 
senhores intrusos e legitimos tyrannos , dando-se 
a conhecer pelo yeneno mais que pelo dominio, co« 
mo dos Psyllos ( poyQ^ que habiCavao no interior 
da Libya), escreye Plutarco : conheciao aosfiihos, 
nao pelo parto, senao pelo pestifero da compleixao, 
de cujo y^oieno fugiao as mesmas serpentes. Taes 
e tantoS) como tenho dito, forao os sacrilegios, as 
injusticas , as perfidias , os roubos , as crueldades, 
as injurias , e as insolencias com que os Hollande- 
zes opprimirao os miserayeis yassallos , que nas 
partes do Brazil dominarao , sem respeito algum 
, ao temor de Deos , nem ao pejo dos homens , fe- 
chados OS olbos e os ouyidos a doutrina e ao escan* 
dalo y com que alguns dos sens ^gritayao^ nos audi- 



17b GAtmno uniTAm. 

torioB pubUooft, que nem Deos poderia diritMm* 
lar , nem o$ homeos soffrer tao abominaTeia 
procodimentos. De um pulpito (em oecasiao qne 
todos ouyiao ) os desenganon um predicanbe eau 
com livre reprehensao , que nao havia de tUtar 
o oastigo merecido a procedimentos iao^iragadosy 
e que estiveisem certoa que aoa moradores 6p» 
primidoa havia de tomar a juati^a diTina pot ina«* 
trumento do caatigo qua mereciao aeus peeiiadosi 
assim como para caatigar aoa moradores meitlra 
o a^oute uaa maoa d'ellea HoUaudeKes. Ikicebeo^se 
tao mal a doutrina , pek) que teve de ameaco e de 
progndstico , que nunca maia appareceo o predi** 
caute.Omesmo auccedeo aumrabinoy quepr^mido 
na sinagoga do Arrecife , eatrauhou 03 e8caudalo«< 
soa exeesaoa d'aquelle governo , de que inferio sua 
breve duraoao; eapantando'^e de eomo domifiio 
tao violentd durava tanto : consumio-o a diligeu* 
cia > porque uuuca maia foi viato* Imagiiiava a <?e« 
gueira hollandeza que com atalhar o pregab ea-* 
eondia o delito , e deaviava o a^oute. Parecia'^lhe a 
deTassidao , que lapando a boca aoa homena , A tho 
deixaVa aberta aa sepulturaa , aa oinzaa , ai pedraa^ 
e aoa troncoa 9 que oom mu4a rhetorioa a pu^li** 
cavao f e Ihea pediao caatigo que nao tardou ^ 
como diremos em aa aeguintea rela^oes, 

XIII. Por6m autea que eutremda em o VI livrq 
d'eeta biatoria , ae me ha de permittir uma digrea^ 
sao, a que se nao aabe negar men diaoarao, Poq4e«- 
radas aa inaolendiaa dos Flamengoa e a paciencia 
doa Portugue^ea , uAo aei definir qual deva manoft 
ao eapanto , ae a conatancia do aoffrimento y ae a 



pjpofia do.as^ravo ? Esta accusava ao Hollandei de 
ijracioual , aquella ao Portugue* de iuseasivelje 
nem a furia do Jbruto quebrava na dureza da pe* 
clra* que la3iixna; nem a dureza da pedra obedecia 
4 cominuacao dos golpes que a quebrao ; e 9e me 
r^preseata naysterip escoadido em urn e outro es- 
tremo, parecendo-me que o sofFrimento se anima- 
va da esperauca, que Ihe promettia a pouca dura9ao 
cja violencia ; e a obstinacao do esquecimeuto, que 
Ihe tirava da lembran9a o merecimeuto do castigo: 
demonstracoes , com que o ceo ensinava a uma e 
OLUtra gente que a constaucia de uma outra fortuua 
^ puramente negociacao doa mortaes ; e ser coudi^ao 
doaEstados do mundo descer o que nao pode maia 
subir; eaubiro quenaopodemaiadescer, a beneficio 
4^ in^tabilidade das cousas d'elle. -— Com hn mais 
clara que a darazao o viao oa olhoa da f^, que nunca 
pdde escyrecer adiligenciadaherezia. Seja motivo 
do maior assombro durar eAtre gs opprimidoaPer- 
aambucanoa a peste , sem que ateaaae o contagio. 
Nao houve Portuguez que pelo discur^o de vinte e 
quatro annos prevaricasse na fi^, assim divina como 
humana ; e se algum houve , primeiro foi descarte 
da nacao que membro da infidelidade. A nenhum 
Portuguez virao os HoUandezes contaminado, senao 
depois de expellido. Quando parecia que a persegui- 
cao OS tinha reduzido a cinza , entao estavao em 
seus peitos mais vivas as brasas da (6 para com Deos, 
e para com seu Rei. Olhava-os entao com espanto 
a America, comoEuropa os viocom assombro o an- 
no de 1640 na acclamacao de seu ligitimo prin- 
cipe o Senhor Rei Dom Joao VI. 



176 GA8TRI0T0 LUSITAIIO. 

XIV. A onde o humano discurso abate mais as 
azas i na consideracao da impenetravel Providen- 
cia do AltissiraOy pois d'aquelles meios, de que os 
homens se aproveitavao para sacudir o jugo , se va- 
lid a Frovidencia para apertar o grilho. Que soc- 
corros despedio o reino em favor dos afflictos Bra- 
zilienses ? que levou Dom Antonio de Oquendo ; 
o que eonduzio Francisco de Vasconcellos ; o que 
se deo a Dom Luiz de Roxas ; o que entregou Dom 
Rodrigo Lobo ; e ultimamente j o que a todos ex- 
cedeo , governado pelo conde da Torre ( naquella 
armada tao memoravel pelo poder como pela des- 
graca) ; que effeito surtirao ? de despertar no 
Hollandez a colera , e influir nas tribulacoes dos 
moradores ; sem que jamais deixassem de receber 
maior damno das armas auxiliares , que das ini- 
migas. Parece verdadeiramente , que com desvios 
Ihes despunha o ceo a coroa dos trabalhos , guar- 
dando a empresa de sua liberdade para seu valor, 
por(|ue fosse sua toda a gloria, e so seu o premio de 
accao tao esclarecida. 



tlVRO VI. 



SUHMARIO. 



1. Codi6 SO fbrmott ?oao Ferntndefl Tieira na escdia da adr«ni(iad« 
e da Tirtude darante o dominio hoIlatideE al^ i acclamacao d'£l 
Rei D. Joao'tV. — 2. Breve noticia d'este gldriogo aconlecimenio. 
-—'3. Chega avifo A Babi^ ; disptfe-'se a acclamacao, que 6 fesie- 
jada eom ^rande alvoroco ; cuja. nova manda o marquez ao conde 
de Nassau. — 4. A capfiara d^ Bahia priva o marquez do goYerno, 
c remette-o preso para o reino. — 5. Alvorofb com que a nova 
foi recebida do Arrecife; e festejo com qu« o celebrou o eonde de 
Nassau; o qua! manda embaiiada A Bahia , e com queintenlo. — 
6. Oefebrao-se as tregoas enlre um e outro governo. — .7. A' som- 
bra da paz nos faz o inimfgo a maior guerra; com traicao' oos 
ganhott a cidadto de Sad Cbristbvao. — ^ 8. Chega A Bahia Antonio 
Telles da Siiva, para governador do Estado ; queix&s do povo Con- 
tra HoJlandez, comprovadas com o que succedeo a uma 6ao 
portugueza.' — 9. lotioia o governador ao Hollandez o aggri^ro; 
qiie '8« desculpa da traicao com frivolas escusas ; o que faz o go- 
vefnadbr.-^lO. Chega d Bahia um enViado do conde de Nassau; « 
a Pernambuco ordem para tirar do governo ao conde de Nassau. 
11. Tdtna porto no Arrecife uma ndoboUande2a de voUa d' An- 
gola , que di noticia da aleivosia com que o ^Hollandez se fex 
senhor d'aquelia parte, e das hostilidades que all! commeite ; 
motivos para Joao Fefoandes Yieira apressar sua determtnacao. 

— 12. Apresta-se o conde Nassau para passar a Hollanda. — 

13. Primeira resolu^ao de Joao Fernandes Vieira; que elle com- 
munica aos seusmaiores amigos, e ao governador doEstado. — 

14. Pede soccorro a jfenrique Dias.eao Camarao; reca)>e do go- 
vernador resposta e sessenta soldadqs ; e d'aquelles dous capitaes 
tambam recebe resposta. ^ ll(. Chega a Pernambuco Antonio TAan 
Cardoso^ a pov ordem dplo^o Pernand«ss:Vi0ra,se alexia- oeenUii^ 

— 16..Assentao entre si revellar o ^gredo a alguns confidantes; 
7oao Fernandes faz a todos uma propostaT — 17. Entrevista qua 
iem com Antonio Cardozo; o qualdesfoi as difficuld^ea que tH 
embargavao. -^ 18. Descobre JoSo Fernandes Vieira o taHo. Ira^- 
d-alguns; de tudo d& conta a Antonio Cardoso; resposta d'este 
aoatri^dor^a.— 19. Confere com Joao Fernandes Vieira o que se 

I. 12 



178 CASTRIOTO LUSITANO. 

deve fazer; carta ardilosa para confupdir os traidores; que Joao 
Femandes Yieira Ihes deo a ler, e com que frustrou seu iDtento. 
-—20. Chegaa resposta dy g^yern%dor,do Estado. -^21^ Manda 
Hollandez embaixadoref d Bahia ; re«posta do governador. — 
22. Theodozio Estrates se offrece ao goTernador, que Ihe agradec^ 
t>fferecimento com cautella.<*'23. Despacha o governador oa eo- 
Tiados de Joao Femandes y If pen, que chegao a Pernaml^uco com 
alguns soldados aventureiros. — 24. Joao Femandes Vieira se re- 
solve a sa'ir a campo; noraea capitoes. — 25. Ardil com que inten- 
,.ta.aca|Mir o domlniol)pUA94#3u.-r2()« Prov^oa qsmomd^rMa qua 
peguem nas ftrmas; pratica que fez a todo^^.e quefoi approvada 
com applauso. <— tl7. lOe tudo teve o ihimigo inieira notida; 
. procura prender «^ Joao Femandes Vlaira, o que naa copiegue. — 
28, As novas da vioda 4o Qainarao e Henrique Dias aUgi^o os 
nossos. -^29« Dous traidores rivoUao aos HoUandezes a conspi- 
racao; com.for9a descoberta manda o Hollandez assalur as easad 
de loao Fernandas Vieira ; .o que resulta 49^ ASiB&llo, -^.^. .Jfiao 

^ Femandes Vieira j avisado , muda de sitio^. e alp|a-se em ^Cama^ 
ragibe. — 81. Gresce o temor do inimigo, manda embakadores A 

, Babia, faz aviso aos jeus d^i rebelUao ^ e compiaue pWidof a 
' Joao FernandesVieira^-^SS. Prj^maiica <;|ue^ Vkf^^ pub^^cacno 
Arrecife ; effeitos que causoy^ — 33. Estilo traidor de dous Portu- 
gueses. — 34. J6$o Femandes Vieira faz iim edi|al.c|ua manda fi- 

^ lar nos lu^^res publicos do Arrecife; o Holjandyez prpmaUw 4>000 
florins a quern o mate, e Joaci Femandes Vieira dQbradb4)re(;o a 
quemovingue. — 35. que suecede n'este tempo em Ipbjuca , e 
quem foi Domin^os Fagundea, eoque obrou^ — 38. Retira-seJoao 
Fernandez Vieira para a mata de Vasco P|re$| e d^ U para Kai- 
cassej capltaes e gen te que o seguem^ e outra.que se ihe reune. — 
37. Manda .0 Hollandez BmbaTxadad Bahia j res pbsta do gbvema« 
dor. -- 38. Theodozio Cstrates /atifica a palavra de servir ,a £1 « 

' Ket/— 99.« Chegao ao Arrecife OS embaixador^s. 



V i 



?^ 



' ' iJ Altoda (pie JoidFefnandcfs Vieira Msc^ra em 
in i}had^ Madeira, comodeixaixios dlto em o liv. I, 
^l9 esiindvasr terra de •Pfernimb«co tomo suaiia- 
tria •' ^ tottxava tanto interesse eiix sua llberda'de c6- 
iBo 08 q»exieUa hafviaa nascido^ Na esoola da ad- 
vte*iWade,'^ mlo rif^dky das calamidacfes qiife' aflTJ^ao 
8ud. p^ttia adoptiva i se^ iforiAoa aqu^ gi^axi^e 



' J 



GiJ5TU0T0 1.08ITARO. 470 

coragaoi que depou h^ via <de qc^hraiP^M ferros cftie 
a EgrilhoftYfio* Ham^se.eil&distinguido na |}rim^- 
ivera de seus anoos ^ a)mo temo^ dito , praticaTido 
kkw d'wxMs dignos d-um expefiifiemttd6'fa))hao, 
endia{)uxihaH8i3 a'proseguir a ebcetada carrdra; 
m£^8 coohMeiui^ V^ a resistefi^ia b6 fteitia ptfra 
diir aki^s ao uimigo para a co»(]fuistk ^ la#gM as 
armafri € obedeceo a fortnna ^ jolgatido dkdreto 
qjae maaa apraveitaria'aoa naturaeaoonria Mgdcia^ 
oaotquecocn a^bra^o. Valeo«9edaiildtl8tri^> eoMi 
pnidente sagaoklade se wtpodmio Mtxir os H^Uati-* 
4fnes 'de aocrte= que 9e adiaiitpd a lodos M '^sti'mlt'^ 
gao, na eoQfiaii9a e aa oppuleaoia ^^ hlitietido-vde 
coio: astucia taoi ettgenfaoaa , que^era aenhor'^ 
naia recatadaa Qoiiciaa ; irno sejguro d-dllas obitM 
canto e iiitoao. Su^ugeneisoludade orwcia aP pro^pot^ 
9aoiqae.86 apgoieiitavae aa miaeria^dtt ^radmsi 
A^ eusta de. graadaa dia|Ki)i<tiosJ6act»>tra6i8impra 
o$^e€i€8ail)^d(^)«i]iiiitaa'T«an jbeg ram^ o^pti^ 
dao Q Q lavor ; « aaskn oonteatea reltgioaos^xilids 
fpij^eotaya a f^^de'imikQa /tiri|iiido-^es*eom^ ^ao^ 
i$orra <a diaacalpa da tieoaaaidads e dop^icx CdiA 
Vjivaa r9zoe9 e cobtiAuaa dadvrars deteve aliere* 
iim furia » qua^muitaa iveaea'tonitei povies^edkiaiite 
aa^dayel 4^ua bcnaart^aifai) deatemKr^de'wm .da-* 
minio- tchlaa as peasoas eocletf aslifaa : Incgbeiafio 
que servio de aitimo a fr^naaa de xnakM, ^% 
vacilavao oa /canatoncia lia .faielidadei Repaimi |Mir 
€l^tetneio quebraa nahonva:, oiideaviaiuk>:aifoqcay 
0U desmentiodoa mjUFia, e muilaa Taxes €BeMi<* 
trando a «alraga; fa&ehidQ o ramadio Uula aiaia 
^ig€ro60>qufiiitd eiia!BHui8<fiieil>oaeao4Gaatfm' to* 



\ 



189 GiJSniOTO LDSIXiNa 

doBi oa ,apuos muiias arfat^.eoa todas regulaVa o 
doAe pelO'd€sainparo;'e a preeecLeticia pdo perigo: 
<)uaiquer inforlunio Uie doia oomo proprio. Em 
todo o iQii|ipi>o«ehava com iguaLcpinpaixaoa grato 
e oq^i^oso^ o i^cDloe o agradecidov Senctoea^* 
treftodosiO^ oftprad^feao que mais posraia ^ e o que 
melbor ^ tratava » ' nem aohoa oUias na^ioveja^ 
I2£qi. desGcmfian^ na. pobreza. Aasim contrapezata 
a;:grayidad^ cam. a .benevolencia^ quefi esiimacap 
iaimiga^oservia.com T^speito , e a dos naturaesxx^m 
agrado; e;se&do^tiidk> mats venda quedadiva, er^ 
tanU> mai3 o qm adquiria qne a^ne gastata, qm 
claram#QMse deixava verdaroc^o cento porum 
a. qufifn daspeode. em senrioo de Deos e do proxi* 
tmti ISo'ZCfloido.cuko divino foi taoexodto que se 
iejKcc^ia a. 91 m^amo. Kafermava, a ciista de sua fa-^ 
S&mdair^ ilodas^ a^igrejas e heiiniidas. que o hep^je 
|HM^Jt^T.a e destniia ; a to^as melfabraya hob para- 
la^toa &afamlc» sagnabs^ desejaQdo^ >qii^ em to^ 
da$ aspaFtealostoDeos servldo ccnn «tecend[a ; adiaii- 
t<m a feri^p dit& otefrarias y sermiudo em todas com 
aifaaejQHJia^ com a pesac^u For aua ddige&cia e zeto 
aa^cODiferteBaa a T^rdadeira fd^enaco judcfos ; d^ca-^ 
da iiteifoi padpixiho^ e de iodos refi^io. mes* 
uuhy « €om;o nwsmoizelo^ e dispendia, \he ^uccddeo 
cam. doua herejea. Para que os officios divifios se 
CQ^brasaem .com p^sfpa', e se (roqUentassem qs 
sacf amnios cdm. libd^dade v eomprava ao herej6 
as petmiasoea j e suatentaiva em «ua casa capeHa de 
mmte^ Qfieelhidaa^.^ e divers^s >teruos *da cliara* 
meU0s.;«Aiiima¥a:os parochos; para que ae e$tA^ 
ra$39in.nQjCani{^hnieaio -dieaua obrigacao, com 6 



GASTMOTO LCtttTAm. ISi 

patroeinio b dnn o nemp^, Nao Vifio ^ns olh^s 
necessidtda efn que a preBsa de toceotro'se vM 
adianUi^e a rappUc&damiseria; Sm ch^Urtdade tAo 
96 estfiodia^o a^is nionKi^ws^^/seDao ao9 eslrflnhos. 
Cinganio ao Arrecife miiitoft sdenlay^e eocNnasti* 
cod que o Flamefa^o trouicei'ii de Angola eotno es^ 
eravos ; loio Fernand.es Vieipa, vendo que erao 
Pdrtiiguezes e des^lidos, soccorreo a todoe ; aoi 
mais distinetoa levou para aua casa, a onde os hos-< 
pedou com: grandessa ; aos demais'mandoa vestif 
e sustentar a eusta de sua faienda ; e a todcys, ao 
tempo dese embarearem'e despedirem^ibm^eo de 
veatidoae tnantimentos > nao so para a viagem, 
senad lambem paara* sairem em terra qaando a to- 
imassem. Quktrd^ mil cruzados gaslou nesta obra 
de psedade ; e por aqui se p6de conaiderar-o que 
despenderia tm tantas ! Assim vivla no meio doe 
inimigos de sua nacao e^te noto Moi^ ^ consei^ 
vaudd ilibada a sua U • animando i socoorr^did M 
aeus compatriotas , e meditando ds mrtos ' de tim 
dta Ihes resdtnir a roubada liberdade. Sem fiar sett 
inteatomais que de si {iroprio ^fot cbamtando a seu 
servico aquelles homeos que erao inteUigehiesnaB 
artesmecauicas ; e reparlidos p6r siiais faaendas os 
oecopayaem sous officios. Fata as ixiatas; que 
liuha muitas e mhi dilatadas, mandaya) iistdafi* 
lada,arniaSy-n:^ni€oes^ farinhas e oisrtros gene^ 
DOS , que se recolhiao em lug^res seguros , fazeudo 
enteiMler aos ministros d'estas condnccoes, que se 
prevema .para as occasioes da falta. Ads homens de 
bem assist ia oom bene£k!ios, para qfae uaopportCH 
uidade Uies correspoadessem gratos ; aos populares 



oMgayii^llomifovocts^ pan m ter ofaedisntes; ao^ 
9(ii4^(^t^ Q^^afia^ da wilicia poitiigiieza)»cooma 
q(>l9t»iUbfn»Udad&; ptmcQS^diar.olnrtgacbs^ $M 
I^))j|94^[ea.:«Bry}a e.eatiiiiaira^ paca os dossfirvar 
Bi&ctat ; .Q algvm d'lelks.oompiraTaeom e%tio^mf<^ 
di^p^odio, pam od. diaper confidante^; e ro^ebep 
d.'alles o^ avay9oa.ina^a;Ufei8 ,' e os aegrcdo^ mais im^^ 
portar^tfii^.. Em :^ mator ferrop d'estes ooidados 
qaaau cq}^ Pona Maria* Cezar, senhoradb melhor 
SfipggedaiN^oni^m^lcoramiutaferaipaupa e pbu* 
pQs allies J epor .^teimeie ae ap wen ton com- o 
maisi a&Upiadp ^ . maia lustroso d'a^uella capili^ma* 
]%^ap^gQ;Ufq6l}e a thalan^o o inoeadia bellied ;> ytnr 
l^aIml49^dQ.co«[| maia viveza^ni sa4 pcaloo deseja 
(k^l^yai! ao caho a impresa mtidilada da restaaracao 
^fP^TMm'biaaOv pros^uia oqna afiaco e oorislMciii 
am: 9au iprojeeto^ /quandb a noticia da aeclamacao 
dp) ^nhoF'Jftei H . Joao 'IV tcio decidyM ^epi fim 
a mAU^. imaoa. & obra^, e. a executar eii» publico > o 
que fbi panticitlaift ha.tnuito preparinra; Daremoa 
umak mTi^^(Mfiik d'iquella^ £aocao,; paca voilamiicb 
JlPdv^itenteiao nossp Joao Fernahdea Yieioa » 'que 

u Uft Benx aabida ^de todoa a perfida :palitica com 
qu§ Gaatella preteiidia aniquUar Piortugal para 
malkor o dpaninarje'aoHio pri¥andor-d .pouoaa 
poneo deaeus f6pos!e*liberdadcs/pi>oiBetida8 ejm* 
ridaa ^ prqiarava o ultidio golpe reduiindo q r^ma 
a'proWneia^'-Nflio podiioos PortugnezeS' soffDcrtao 
grande affl^enta; medilavao exn seusnobres oopan 
cMa^o inodoide Bocudir um jugo quei japesava 
9obel eliea faaria ses^enta aanoa^eso esptiravaoo 



G48TBIOT9 JAaSttJ^O. t8S 

momeDto favoraveLde levpraeffeito sm heroica 

• • • * * 

reaolu^ao. Opprimidos^de igua«6 ii\jiisUQa^ saUe^ 
v^rio*^e^ Q$. CaUl^f'e qs . I^ortuguezes, que j4 
d'autemao tinhao inleligencia^ .secretas com o So^ 
ropussimo Duque de Bcaganca,) ^em^ iw wbbado 
1 \de Dezembro de 164p, pei^s nwe boras da m»» 
nha, pos^iao maos i obra^ e acclamiriono terreiro 
do paco deLisboa o Senbor Rei D. Joao IV* Qua** 
renta. fidalgos resolutos executarao eale grande 
feito Qom ta^io.denodo ^ presteza, que quando 
erao d^z boras estava a fa^aa consegutda ; Miguel 
de Yascoiu!eU€3isam vid4> a duqueza regeute ^m 
xx^i^do; p.soetro re0tituida ao novo Rei acclama** 
dO|. e a cDPia qui«ta e. satisfeila. Barton a yoe do 
succei^^ pam ser iooitado em tpdo o reiopi aem 
uelle: ficiM;* povoa9ao mm aldea, .em que se oao 
yisse.obe4ecido, com admir^vel coucordia e alvon 
i^OQodos aoimos; mo3trand<>se em .tudo que su<^ 
perior impukops auKvia. Em quanlo a magastadq 
dp Senhoc Rei D* . JiOao se. dilatou no Aleopitejoj que 
fora^ ppucos di9»^ elegeo a.nobreva por goveroa*^ 
dor ao, Arcebispo 4^ Lisbqa^ J). Rodrigo da Cuiibai 
que logo despedio corjreios a todas as cidades e 
viUas.dp reiuo com a alegre uova de sua Uberdade« 
^m 6 de JO^embro recebeoiSua (M^gestade ^ co*« 
.ros^ e.a o^ediencia, e sem dilacao a maudou dar 
ao Papa Urbano Yllly quegovernava a Igreja, 
pelp;Bifipode;X'amegOr D, Miguel 4e Portugal. , 
. ,111^ !Nas custumadd3 bpstilidades (quedeis^mos re^ 
feridas noLlvro IV) se passou todo o anno de 1 640^ 
seiO; .Quelle b^ver cpusa.di^ademepioria; eutrou 

p .novo. iiiiQo ^ ecom.elle a Mk nova da ac^laoiar 



Ite CASTRIOTO WJSltANO. 

cao glorkwa que em Lisbba se taittk do Senhor 
RM ]^. SfAo W\ N6s fins de Janeiro de 1641 to- 
toou porio na BSihia o ?• Francisco de Vilhena, 
reKgioso da cbmpstnfaia de Jesus , que de Lisboa 
saira em tima' embarcacfto- ligelra , bom carta d'El 
Rei p^ra omartfrtez de Monte Alvao, Viso-Rei do 
Est ado ^ e ordens secretjis para (oda acontingencia. 
Era o marquez feitura de CaStella , e teve-se reeeio 
de qu6 podesse com elle mais a gratidao que d nas« 
cim^nto. Entregou as cartas na mao 60 marque? 
com o devido segredo ; com portuguez alvoroco leo 
este a' nova, beijoti a firma^ e'deitou de si toda a 
duvida; deteve comsigo o padre, rhaiidou <;hamar 
fto Dom Abbadede Sao Bento , ao prior da Carmo, 
g^ardiao de Sao Fi^anci^co, e ao l^itor da Com- 
panhia ; da nobrcKa os principaes ; da mtiicia os 
niaibres (^bos , e os vereadores da camata. Fecha'* 
dos todos em um salao do Paco leo a carta •man- 
don que fkUasse o padre Vilhetia. Suspendeo a to^ 
dos a estranbeza da novidade. Rt>mpeo o maVqifez 
o-silencio, di/endo que a gravidade da materia 
pedia o parecer de todoB , e assim que Ibes rogava 
votas^m ' nella por edcripto; assigi|andO'-Be csada 
qual ao p^ do sett roto. FaU^rdo alguds, 'drzendo 
que a resolwcao de tamanlio negocio nao era para 
repentes ; que se desise tertipo & coiisiderpacao, ara 
queo di^curso escoUiesseo mais acertado. Ataihou 
o marquez a dUacao , com advertlr a importancia 
dosegredo; e desenganou a todos que primeiro se 
haviao de resolyer que sais^tn d'aquelle lugar^ 
pjevantou-se entao Joanne Mended de Vascbneellos, 
e* firmando com umamao o chapeo , e com a otitra 



a espada , disM e^tas^ palabras : (f €ompfk> o cto a 
» Poi^tligal laa dilatada prbmessa ; dh^gaihbs aver 
n o fim de taa penoto esp^raof^a ; ttmes o que ile^ 
» sejamos ; e ba quern r^misso duTtde de acdettar 
» tao grande mercA de Decs ? Viva El Rei Dona Joao 
>) o Quarto liosso Senhor; e nfe haja qu^mo con- 
» (radiga, se ^ verdadeiro Poriuguet. » Repelio^ 
^ p^lo marquee , e por todos os do conselfao , a 
uma Toz a acolaihacao do^ vivas. Nao se permittio 
q\le do salao saisse nem pes^oa, nem nbticiay at6 
que se nao dispozesse o modo com que se havia de 
acclamar na cida^e. Oi^denou-se que saisse todaa 
getite da mili^^a'etn sum companhias (quasi einco 
mil ibfatitte tinha a eidade de presidio ) com aviso 
»o8 tenerttes de mestres de campo que marchassem 
a fbrmar-se na praca dos Guindastes ; e que dos 
ter^os^uiifi "de Ga^telhanos, e de Italianos outro^ 
levassem a vanguarda , e assiih como fossem pas-> 
sando b& mais se ihes mandassem arrimar as bt^ 
Ivias. Deispedida esia of dtoi , mandarao todos bus- 
cat* 'as xnelhoi^^s galas-, que ti^had ^tn st^a casd, 
sem tiixer a sens ^f lAdos para que : com a knesma 
eautella se mandou vir a bandeira da eidade. O 
povo,qwc vio Gear a )6uibarcicao ao pego, ao 
P. Vilheria mudo*; aos maiores da ciiiade con- 
gregados^ a infantaria formada y as galas pedidas, 
o segredo observado , sem atinar a causa concorria 
em ntoaepo a esperar a nova. Vestidd de f^ita com 
o mais precioso de suas joias saio o marquez acom* 
panhado dos congregbidos e da c^mara, com a 
batideira da eidade, l€^ando diante nm rei d'ar*^* 
mas; tocaraoMseascaixas; clarinsi e pifano^/e feito 



e&l9spalavr^ ; f^Quvi, puyi^ ouvi^.e ^slAi aUratoa. n 
Eloga mar({0€8&reraii^Qdo.o.gHto^ disse as* paia^ 
yjra9. proprias de jBimithauta «cto i n. R^l ,- raal , 
(c i;eal| por oSeqbor Dom Joao o Quarto^ Rieide 
(c Forti^al. A) Com i^iinca yiato alvoro^o « alcgria 
as repetio o pavo , sem desca^car par jiuiito €^90 
de tumuUuar vivaa, AugftieiitoiMi& o brade com 
1^9 rqpatidas •cai'gas , que dlavaa oa tercoa 9 a • que 
r^pond^rao os fortalestas e naQS^OQfE tod^a aricn 
lhs^ria , em quaoto o mar4|ue3 coma refi^rkla Gonor 
pauhi^, cabidO|: commui^dadaa, cleveziaiepove 
9;t0>iphavao <para a Se ii ,dar a Jh^ gra^aa d^ jt^r 
i^ai^b^ merce; e nos aoguiatasil^as ae leetc^u con 
tpdaa yariedade de featasy qiieoacidade-^ por 
d^pap.orde^ar* «— .Paspachpa^Cigot) joaacqi^ezaai^tt 
filbo q'iuq pataobo a. dar 4 sau Rei o. p^^abem d4 
cqroa, a obediencia deyassallo; com. a -meania 
promptidao ayi^ou^ por cQi^oa, a t<>doa4^s^lagaF^ 
de sua jurisdicQacx para qi^^e^imUaa^i^ qu^ i^a qik 
^aclajae bayia pratioado; como. moamo . aiy^peoo 
di^sped^^ 11m .barcoi) e nolle q pikH<>4a iBarm Joae 
Lope^com cartas para 0. coQde de Najssa^^ aqueo) 
da^:a cOQta da acclaniaicao y e da$ circumatiaaciaa 
d'§Uaf« Pedia congratulacoas da fe^icidade 4o rei<* 
no^y e daya :parabea$ das eonyf^Diaacias dOkS Esta- 
do»> ;tu4o ;re4ultas' d'^^i, smkno yerdadeirwaKeiite 
p(xrtuguez« • .■. , - . > 

][\[^ Orckoaya Stta Magt&lad^ a oamara da Baliia 
quie^ no casp que <): matrque^; peeoft^^'em^desob^t 
diancia qu Ubiie^sa^ o priyaaaefti'do^goyeraoi e pam 



dik .nof)pi$»ya sio Bi9i>9 Bom^ Pedro ^ SUvatiSNO 
«it^l4re^ da mm|)o huh Bw^albo^ ei «t Lour^t^ i^ 

mi^ar^m e j ^9lij(iQftmi> .m wudiqu^ ^ ^e executou 
a4^cr/@to; pod^ jM)B.a fl)9gOGia9aaqu)e o ccmselhQi 
Qrp^QU<-^ o.iai^go^io 119; b^lftD^a (ill itieroaiBci^i 
sexn ({u^ a iU^^e pend^ a d^Qompo$i9aa de ubi 
4ain^bp. miuistro^ Com animo gooegado. rec^o o 
9^rqaQ2(, a ofleosa , porquQp imo cpl{^vaa causa 'i 
despu^jitic) aquelle reoeio'qtio ^uppimba o<eqi)loia| 
oao je§casou o aggravo de o tuandarem preso pant 
o i*eino^.p§]^ diligi^iH^ia com que o Femett4i:90» 
e^ptp de qui^ em F^^tugal 6e'havi4 d^ veatilpi jl 
qavaa com ^iffereiite jwo^ poiTque nao bavi^ tri* 
buioalam qibei pr^idiase a.p^i^o. Gb^gou a his^^ 
bpa I aohou ^m. eeu il^i e^tima^ao e agrado } o.na^ 
. ppfttOA que occttpQUlo premio.de i^us sefvi^ois , e»|i 
ittpipp 'vlugaoQa de.«eu$,emuIos; amda ^ue amar^^ 
teai(ia. peJa, rebelliao d^ 3ov^ fitlbas > . : : . - ; * 

.: ^y. Cb^HTW^iietaiito Joao Lop^ aoArrecife j 
deUou aocoya 4e frputo 4o f)a?Q dp conde d^ Na%r 
S9u^9 e ^em esperar coRsentimeatOt.&altou pm 4erra 
$i()fm jE^.g^nt^cksuacOiDpanhia luat|*o$axni^te vo$^ 
ti^j diiigWrse fto ppQ<^ enlrpgou a carta do mar- 
qjUtz. ao cpndo; o qual , a penas a leq, lbe.,d^v 
d'alvi^amd vma rica joia. Divulgop^e logo a nova, 
qn0 o p0yo. fes*ejpu com tanUx alvoroco e repeti- 
cao dej vivai^, quaota ^^ podia esperar d^ vmp 
M poYOftcao de Portiiguezes ; espjalhftja-sci por 
todo Oi;reQonca]i^o,.e. com ig^alj^liUo: foi applqu^- 
dida^; Fa?iatp-lhe» compatxAia os estrangejros , se 
b^m tquQ pointi^eFs^ jwi»of . poFq^^ o fJom^de?; 



i$» GAStntfro BOSiTAiia 

fot^mava^ mathelot&t, fior^^sce caittihitio , i»ea 
Yinperio J eo^PorCdgiiesegi, tie Dens Ihed-' iiKMraur 
o finocb tamo rhavitto de siicudir de sMs liobibros 
o jogo. — Maudes ^ conde feiar qiiartd da festas 
por todaa as |>raea6 de seti cbmi^io, ]^ra d ^ti4n^ 
te met d' Abril , convidando com pi'^mios arrs av^n« 
tureiros/e coni rogos anbbreza principal 4e ed^ 
trangeiros e naturaes , mm que faltasseietti-escfp^Ver 
aosbomensdemilhorppe^timo, com avisb deque 
se iireparass^ de cavatlos e galas , porque nao 
faliassem %o festejo o luzido e o decoroao. M^iidou 
fazeir k sua vista um largo terreiro ^rcsado de pa- 
lanqiies^ omados e capazes para a quatidade e para 
a miritidao : chegou o dia destinado, e entrarao 
na praca dtoas qiiadriilas, a compet^ncia lusttoaaa, 
lima d'estrangeiros que gulava o conde , outra de 
Portugtlezes , que seguia a Pedro Marinhd.Falcao ; 
corr^ao parelhas; jugttao canas e atcatiziaa^de 
tarde houve sortflha^ enella se juig4rad 'qiiasi^ttH 
dos OS precos aos t^or tuguezes ; mliitosjhes deo a 
justica ; muitd^ mai» o favor ^ porque as dan^as 
e^trangeiras , com sua natural coii6an9a e galbar- 
dk^ tir4va6 ou das maos ou do peitd^sta oix aqudUa 
jola, e as ofFereciao ao cavaUeiifo que mais Ihe le- 
Vava OS othos : gentilleza entre elbs^ usada> e nas 
cortes applaudida* Em o aegundo dia foi todo o 
festejo & flamfenga : deo o Cdnde um magaif|co jan- 
tara tddas as da mas ecavalleiros^ com talcdndi- 
cao que na drdem dos brind^s fosse o meamo er- 
ral-os que repetii^os ; jogo, em que as mulheres 
do norte estimao ser vistas, porque se presao de 
destras, £m o terceiro dia se contimiarao aafestas 



CISTRIOTO I.U8RA1I0. 180 

de cavaHo ^ qob se remaUFaD em uma fraiida e. ea- 
plendida ceia , e nelia se dea o ultimo briiide i 
che^ada de uiaaf nao de HoUanda , p^ qual o$ 
senkores Estados avisaTaa aa:cotide da acdaala- 
eao do Seahoi^ Rei Dom Joao IV , e daB paisea' a^^ 
senladas com a coroa de Portugal per d62 anoos; 
—Logo que se acaMrao as festas, maudou o conde 
de Nassau preparar uma fragaca para a Bahia^ na 
qualenviou a Henrique Code , e por seil secretario 
Abraham Trapes* &a o primeiro'objecto da em* 
batxada felicitar 6s noVos gOTernadores ; o fieguodo 
(e este oihais priiicipal) representar-lhesa graode 
utiiidade deuma tregoan^quella parte da Ame*^ 
rica entre Flamengos e Portuguezes , a sombraf dis 
pazes qu;e os Estadbs titifaao eelebrado com o tcaho; 
¥oi%6 recebidos^ com alvoisoco , pi'ovldds^ c^m lan*^ 
gti€&a^e agakalhados com fodo o i»e»pelto/ 

'YI. A$seiit4raoHse os priHrniaares das tr^gon^ 
coitt a prdmes^a de que t)^ nossoS go^emaddres 
mandariao i^tirar da campanKa de Fernambtioo 40 
edpitao Fatlo da Gunha e 'ao govetnadoi' dos Mii- 
nas 'Henrique Dias ; oque logo se feomj>rid, e o* 
embaixadores hoUandezes se retirftrao. I^ssados 
algiiBS dias maiidara6 os liOs.^os^6Verkiad6re9'aO 
tetiefite general Pi^o €oi*rea daGama^ eaoMceiiA- 
ciado Simao Alvarez da Penha , parii que cota su^s 
lettras assistisse is ctiipitulacSes das tr#g^s ; por 
quaAto paiia sua validade era laefcesfesirio b sererii 
cotifonfties bo dereito. OFlamengO) que com a 
retii^add dbs sobreditos capitaes se adioU lirre -db 
qtre fiiiais 6 inqtrieiava , mm frivolas ^^u^as negoti 
tcidars aqtitltpid condlcdes qu^ podiid favoreicseir no^ 



MA .cAsnicrro : ujutano. 

90 paEtido* Vino oe noisos ' enviadoi' o atlimo > do- 
ibiadd d'ac^dJti'gentef volUriLO para a Bahiay pro^ 
pos&rao wagoyeraadores 4 que liiifaao BntcndQdO) 
€fdaade log6 fio^naatodoa coahaceado as Bimok^oes 
da Hollaiides ^ qu^ nao tarddu a: deaiBa9caifar-M 

CQjBio.Tamos a Ter*^ 

;VIL Nao erao aiada pasaados.muitoa cjiaaqiian- 
da phogOfiu^ Bajfiia<^avUo ;.oea:*to<|U6 9 UoUand^z 
d!e^)edira do Arrecife 'variii& dfquadraa conn orden^^ 
muottldea e gente para levateoi pw (mtt^priefia^ Stt- 
^pe , Aog(^ r Maranbao ,. Sao Thom^ e la Mina ) 
P que facitoaeato cooaeguirao. Nao individuareinos 
0$ . BAccbsao^^ porqup acositec^ao longe do tetoio 
d0 noa^a hutQria; $6 a.eAlerpreaa de Sergtpe nos 
obri^ ajrola^Q pOr s^r parte dft kxAmf^ i e «ajir 
aA,e9^e«t do^npsso. ii^aiiinpto.-^flSfl^ situada a 
cidade detSaa Cwi^vao em d > Qi|iilAi3iiia de. Ser^ 
g]|ied'£Mleii c<m/i4ftal(e pela ^^artie do oil 1 csotn a 
3{|bia^^'peIo n<«»(o con ^ rio de Sao Francisco e 
eoma jsapiUoia de^PemaixdHiieo y d^ qne dialiaiaQto 
l0goa9j poVQja^ Jdmitada,, por^iw de- 4^ 
)Uli.e p()pfQ. capa^. Tanto que o imii^goseiYiD ^a» 
MMombrado dfg tropaa poHugtietaa^ q^boeorimo 
6,^9(Nd(l^Tao todo o dealrjicto de FermmbUco , ioty- 
iieeeo ^qoatro naoa de tudo o, ^ue{lhe pareeeo m^ 
ife^^ai^lQ par^ a cqnquiitt e. para ^a : rebm^* &!- 
\r9fm i]K> porta cyoQi^^band^aa de fait derao a^bro 
;i.cl(ladeQoa):eatroiido de goerrar; saquaaraolMr^ea^ 
fizfiri^se ^nboi^sa >> sern qua tilg^liii dos^ vMiPftdo-* 
1:03 Oi yiziol^iQ^ 4ho podease iittpAdKiv, .pp^ti^os 
pbrigavaii retiv0 a ^eguran^a e 0;t>rec6i(orM boot 
49A sio»^M(M aft ic«opbitattte^ ttfti(^ <|^ icjlbaiio^o 



GAennoxo iJoiiTijiQi 191 

MO criap. ParapiLdno cla.m£9iaiiakvcn(<wo£oU 
UadeE: na Barra uiDa.iLotayeiCortiGca^ii&.. 

YHL Tinha ap^rtadd Da.Baliin Antotuo' Telles 
da Silva, maadado per El Rei D. Joao IV pan 
goyemar aqueUe Estadoi Coacorriao ntate ficblgo 
Ittuitaa e.nmi sdlfida^ qoaKdades^, OQmas^aea 
i:^plaQdecia>-em.8iia'pe8aoa) .com iCSoaBSo ^ o iHii»* 
tre aang^ que hofdira. Encadrcgata-Ihefii ^Rm 
com (aotO'^ertO; a bbsenrancia^daa jtregdas com os 
HoUandezea^ que eoo^trabdo^s^ a ooaserraoao do 
M%tS(iio oMBf a oba«!vaBcia idd paz^ . Ihe oi^deoara 
quehrasse peio donunie^, e pao pela^amizade. Aot^ou 
AntoaiojTelles fresoaa aa feri4a$ > vivas aa>qiieiaa&^ 
e acccaa ;o eacandalo, oonuquaio pe^eo selaatimava 
doaleivosQ^ltfviccder do inim%Q9X«80lir<e&-9e em to^ 
iiiar ma-jexpedieBteifelo ^al b iniinjgp eiila{i« 
deasje ^j qae >no8so abflfclmenta ^ra pnio^to !e iiao 
deaiBaia^ fazend^-lheKOOfibecer a catoa^de iMxfsa 
impaciencia-y eaTUeaadeaeiiraltraTiBpeDto; -- fifao- 
Ihe oocasiao paa^ esacotar o> entraf-oa Bahta; tuna 
Baa portUfoeaa^ que d'elkLaairetcarragada deias^ 
a&caar i^^U'direitufa paraa raino; a eata etioaiilrott 
DO BMKT v^BomfrpgiAjBL hotUiukwi, que' vinlMf |di' Aq*^ 
gob para o Axifeeife : o aegoroida pM^adesonidoui 
e a akivGzia estraiige|ra a voobdeo* TiroUrd'^la o 
piloto^ e^rte4ftQMffuja^eipaiaqi]ea Btpreaiaeni 
Ihe meUeo^quiozt HoUaodeaea/Coiileiitea oaitt a 
prtaa. navogtt^ao.para o Arrecife, qaandooft f or- 
tagttgges quo ficiiia om a nip . TCaodkia'.deFao ^wAatip 
in&Slamenffbs ^ ios ^q^aea^ GOi>lados do fencoe dm me^ 
do^ se doiitario oaaoia tar^ pedkido boav qaar I el ^ iTi«« 
raiBo oa nQ8ao«»acpKia| eiem poucpa>diMeQtaaiao 



198 CASTBiOXO UmtMQ. 

na Bahk; ooataraoa^ gavernador x> case; de que 
elle mandou fazw. um procesao^ em que testemii- 
nbirao oamesmosHollandezes prisioneiros ecul- 
pados. 

IX* . Feb licenciado Simao Alvaret ^e la Penha 
mandou o goveroador do Eabdo a inquiricao ao 
conde de Nassau ^ e aos do cpnsdho supreoio com 
uma carta ^ naqual, depois deae qi|eixar amar- 
gamente do injusto e atrai9oado. proc^dimeiito doa 
HoUandezas^ooncluia/dizeodo; a £m esse ^rocesso 
x> vai proYada a Terdide e a razao da miaha qilel^ 
» xa pelos mesmos aggressores. da m^ldadcu Nao 
)» rejpitQ'O successp^ porque me corrotde dar duas 
;u yezes em rosto com. proeeder taio fementido* £s^ 
>> pero a restitniciio do roubo, eo oaatigo doscuU 
M pados; eqimndo£akea8a|isfae;ao.4apartei qot 
» i^obrigaick.a dal-a, tenho caljedal e v^or para 
D par €(m asxecucao o ca&tigo e a viaganqai aondii 
» qile saiba qne a disobedieiicia me pode arricpuif 
>i a cabeca, » *^ Fartio o en^iado ^ xh^u ao Ar^ 
ve^k, deo ao oonde a carta €.a embaixada. Jisck^ 
sou-se eatB eos do oanaelho com a fingida jgooran^ 
cia j e paraise <d|io modtranem coa^^oe^ di^ywriio 
quejiaa traicoes usadas.nao tiyera^pafte aea^eos^ 
seatimiBnto 9 nem agora o /podia tier scu. limitado 
im]MCia para a reslitviieao; mas que .i]tfar{iiariao 
aos^staiihiMM Estadoa daiDJusta reteufao das.pra-> 
cas e fazendas , daado conta doS'aggv^ores, para 
quii estea fosaem castigados , e aqueUas. restituidfia ; 
e torn demostrdi^aek magoadaa despaditoao e de»«- 
pedirao o epTiadb^Ji^LOeiperavaoi^avieixiaKlbr nem 
OAitca raaposta^ nem outra aat^fae^; mas quiz 



GA8TBI0IX) UJSHANO. 19S 

juslificar com estadiligencia o que determinaVa fa- 
zer sua vitigan^a. — Desped^ para Angola, uma 
caravelia carregada de municoes e mantim^itosi 
que aos afflictos despojados foi i^emedio e yida. 
Mandou a D. Antonio Philippe Camarao que 
com o sea ter^o de Indies passasse a Sergipe, e se 
alojasse i vista da cidade e da fortaleza , e de ne- 
nhum modo permittisse que o inimigo disfructasse 
a terra ; com expressa ordem que saindo alguns, 
a primeira e segunda Tez os despojasse do roubo 
edas armasy e os largasse^ avisados que ^ tercei- 
ra vez haviao de pagar o atreyimento com as vidas. 
Observou o Camarao pontualmente a ordem; e 
d'ahi por diante nao houve inimigo que ousasse 
sair de suas fortificaeoes ; nem a ellas chegou outro 
sustento mais que aquelle que do Arrecife Ihe en*- 
trava pela barra. 

X. £m quanto o govemador do Estado fez estas 
expedi^oes^ se occupava o conde de Nassau em des- 
pachar um enviado para a Bahia , a onde chegou 
com brevidade. A sustancia de sua embaixada se 
resumia em dar o parabem ao goveruador da via- 
gem> e do lugar, com os offerecimentos da pessoa, 
congratulando-se da vizinhanca ; a que o gover- 
nador respondeo com a polidez que pedia o seu 
cargo e tiascimento. --« Nestas e n'outras cousas^ 
mais importunas que importantes, se gastou o anno 
de 4641 , e parte do de 4 642, quando tomou pop- 
to no Arrecife uma uao de Hollanda , com or* 
dem aos do governo , para que ao coude de Mas* 
sau , Joao Mauricio, se Ihe nao d^se mais que a 
metade do seu ordenado, com carta para o mesmo 
L 13 



cende, em que 09 da Coodpanhia occideHtal sg 
de8eul{)ayao 00m a pobreza da boica. Pela mesma 
liio i^oebeo o conde aviso secr^to da qtie ea da 
oompanhia determinavao tirar^lhe o governo, mal 
8a(isfeito» de seus prooedimentos , capitulados por 
alguas fataos amigos, que o accusavao de frouxo^ 
a^lutoe ambicioso s culpas que formaya o ciiiime 
e a inyeja. Gonheceo logo o conde oa autores da 
iBtriga , 6 para Ihes nao dar o gosto de verem 
{uriyado do gQverno, resolveo^s^ em fte aQtieipar 
na reniinci^ do cargo ; e p^a este fioi dispoz de 
seua moveiB, ou por yenda ou por dadiva^ reser^ 
yando-^se aquelles que podiao ter pre^o aem fazer 
vultO) para 03 tevar comsigo. 

XI. Qbegdra neste tempo uma iragata hdlan^ 
deza ) que yinha d- Angola ^rregada de faa^nda^ 
em ella yarios religiosos, clerigos e moradovea ({ue 
o Hollandez arrauA^ara de aua^ habitacoes^ Por elles 
ae soube u perfidia de que usAra o hereje para com 
ell^s, e como GommettAra as mais cnueUadeg n'a- 
quella terra. Depois que o Hollandez se apoasara 
da cidade de Loamja, Pedro Gezar^ que era o gor 
yepnador d'aquelle reino , se tinha redrado , pqf 
ordem d'El ^.ei, a um si tio junto do mar^ on^e se 
aquartelloii^cqm a sua genie, e onde qaoof£^ia 
p inimigo. Cbrria fama entre4>8 Hdlandezea ; que 
dentro da nq^sa fortificacao se depoaitancap muitas 
riquezas ; e com o fim de as eapoliap de.tudo as^ 
ae&tirao amigayel commercio com os nos^oa^ e se 
^atavao nao como Inimigos. mas opmo alliados« 
Foi um dia o govemador bolbndea oom alguqa oar 
pitaea aeua 4 ^o^sa payoafao ( maia pai^a efipiar 



que para ver), onde fprao recebidos com agrado, 
agazalhados com magnificcnoia ^ e servidos copi 
mftgestQsp apparato e adomo. Occupados os olbop 
na cobi^a j perderao de viata a gratidao ; e sempi^ 
aleivDso q HoUandiez d^erminoui com {ofame 
trai^Oy matar oa possuidores^ para Ibea roubar oa 
moYeis^ Convidou o goveraador Pedro Gexar c^- 
pitaea e nobreza para urn banquete na ddade 4p 
Loafida, eom intencao de que a meza do ocmyife 
seryisaede theatro a morte. Nao acceitaraoos nossop 
p off^rmmBBto, ou impedidoa^ ou preaag^e^a* {m^ 
paciifen^e o inimigo de se ver atalhaido ua (raicap 
que inteataya 9 mo desUtio db maldadc ^ buscaQ4p 
camiubo9 por oode podease conseguir q lutep^. 
Cou^iderou aos Fortugneses dormindo aobrci p ^- 
gi^ro da esQusa , e em a miitii do dia apoutado par^ 
i^ bai^qnete ; deo sobre eUes , no quarto d^ ^l}f^f 
epm todo o poder ; aem reaisteoeia preud^ e rou- 
bp^ a todos. ))e§ppjado$ 4^ liberdaile e da fa^ieuda 
A^ tftttio piger e prueldad^ , que $^qa Ifae deixa- 
ff^ p^ uauae^ vealidos^ Qs embarcairao para o 
Ar^ci^ f, pnde cbiBg^rai^ i^em parecer de hpmeu^, 
Pq)o bapbftro trfito d^ viagem » havendq iiel)a dias 
euf^ qtf§#o acl^u )U|^ fo^ (s af§de mais queaagua 
salgada do mar. Assim yierao entraiidA i^uccessiya- 
m#n(e fi8 |»otici^s ^ s^p4lb9?^(;e^ inya«pesr, i|r4ida8 
com fi J^oesqia, &Vf^ia ) por^m ipi^q Ipgrada^ PQm ^ 
^(eiafpjai ^rUWif No. JVJacaahaQ l^vio np laQO tjlje 
lin)[V^ap J p(H*9UQ eug^l|a4Q& uo roubo derap Qcca- 
t.sttJ? a qpe p^^mofadoras ypltassem sobre eUfS, e 
QQbi;4ij^ei^ p p§f4M<>» ^ cusla da ^idft de piuitps e 
^iffipdo cjb?jlpdf^, qtie fugipdp ««> j»6a»p ^rro 



106 CASTRIOTO UrSETANO. 

buscdrao no mar o seguro. Em Sao Thom^ os cas- 
tigou o clima , de maneira que a muitos deo a 
terra sepulcpo , e a poucos aviso para fdgirem a 
morte. Era todas as mais partes perd^rao por for- 
ca tudo quanto adqiiirirao por engano. — Todas 
estas calamidades que pesavao sobre os opprimidos 
habitantes da America e da Africa faziao profunda 
impressao no grande coracao de Joao Fernandes 
Vieira, e noite e dia andava absorto em graves 
consideracoes sobre a sorte de tantos infelizes. 
Gonsiderava que com a ausencia do conde ficava a 
miseria de todossem arrimo, e a tyrannia s6m freio ; 
ponderava desterrados os sacerdotes , os herejes 
com senhorio, as ovelhas sem pastores, e temia que 
OS lobos destruissem o rebanho da igreja, tragan- 
do osinnocentes cordeiros , expostosa voracidade 
da herezia , e aos venenosos denies d'aquellas in- 
domitas feras j e receava que a corrupcao das coii- 
demnadas seitas " inficionasse a pureza do paste 
espiritual , e despovoasse os curraes do verdadeiro 
pastor; via que da tardanca do remedio'se alimen- 
tava a ruina , e que Bias doeUcas agudas se af^ro- 
veitao OS medicos de medicinas violentaS , e piW- 
punba em sen peito n&o esperar mais tempo para 
atalhar o perigo. * v : 

XII. Entrou oanno de 4643 , tempo em qiie o 
conde se achava rthiito a<fiante hos aprestos dte sua 
viagem; e quando chegou a occasiao de se cmbar- 
car deo um bariquete a todas as dama^^'e taver- 
neiras do lugar, no qual se brihdou at* faltai^a 
todos o juizo. Partio-se no seguinte dia, que ieifa 
l^deMaio, acompanhado de muitos Pbrtii- 



CASTRIQTO &1WTA1I0. 197 

guezes atd a ParailMi ^ a oncle se embareott deixando 
a todos saudades» nao pd.o que deviao, aenao 
pelo que reoeavao. Tal era aquelle governo, qua 
nelle achavao 8<S a differen9a , que Ihes represent* 
tava a comparacao d'um para muitos tyrannos. 

XIII. Cresceo , com a partida do ooode de Nas«* 
sau , a miseria dos habitaates a tal pouto que ehe- 
garao a aborrecer a vida. Gemia a afflic^ao com 
medrosas queixas , e todos os instantes fallavao ao 
coracao de Joao Femandes Yieira , persuadindo* 
Ihe Q remedio com as vozes da lastima e do tempo. 
Obedeceo a paixao, e deliberado em desembainhar 
a espada ^ dispoi o golpe , adiantando o intento a 
opportunidade. Com vigUancia e diligeneia man« 
dou engrossar o nxunero de seus^gados por todos 
OS curraes ; reoolheo a si todo o geuero de armas 
e muni^oes que a cautella Ihe pode buscar ; todos 
OS mantimeutos que pode haver, oomprou; ere-* 
mettia tudo a seus criados , faeendo deposito ,nas 
mata3 e nos engenhos. Disfar^ava o que podia ; 
e o que nao era possivel deixava a oorteaia da sus-^ 
peita, nao fazendo sua resolu^ao escrupulo nem 
da culpa j nem da calumnia ; antes com discreta 
numha enganava a todos com a mesma verdade, 
aconselhando«lhes a imita^o. Abominava nas pra- 
ticas a sujeicao e o soffrimento , chorando a tgno- 
miuia com que via no Brazil sepultada a reputa-^ 
cao e a valentia portugueza, tanto pelo uso , como 
pela memoria. Dizia muitas vezes que a peior 
sorte da miseria era sujeitar o valor i cobar- 
dia I porque nao tinha saida senaopara a infamia : 
indttstria de que se valia para accender os animos. 



6 JMRNT io^^detrperiar k10 Mmno , mim • ifiveUf o 9e-* 
graio:; fcmb mats resikldi de glmla ms imfAikosi 
qim- a^oni' ^ssimulpa ^ que nos ointaculM qtte 
(kpois yenoeok A todoB (aUaTCi; e aosmaiEi amigos 
com- mmrfeoeiov porqi[ie!pFiiiieir& w via cem as 
0U10& dli desfxmfilia^ > que com os da alheia con- 
vaiieiicia. -^ Asfiim pmocdia cauteloso Joao Fer^ 
nandes Vieiia ^ at^ qufe reoorreado um dia a Deos 
B^uiDa fai^TOFOMOPtoao^ recebeo uma especie d'insp* 
pirb^ab que o inoheo de hoto espirito, e deteFmi-^^ 
noil a entrarna eoipi*eza raaus liirpemente. . Para 
ae iLsaafliOFear dos animos ^ come^ou por dar eit^ 
sua>'ea6a muitos' e repetidos oonTites; e «obr0 
Kfifia« ae praticsLva no procedimento do HoUandez 
aeibpre tyraniio^ daopj[)re8sa0.em quevmao oa 
Poptvgii^zes^ ; alai^aiido-se O011I industria Jm^ 
Fetnan^ Vidira aobri tis deaejos da liiaerdade^ 
ehegaya^^de a^dtscprrer.^olire osmeios nceessanoa; 
^fapaJp^a a ^pamriaf aeafaava em 'desmaioir a 
pir^tioif : Mgacidade ^oai 'que .^dtGcreto varao^ <toin 
a. iaka do necsssaria { qu^ simidava )^ accendia em 
ti^AiOB 0'4maega do reatodm ; e asaim ae ale^avade 
Qonbeo^ quetcoidail^; sma parte as nontadesr o(E&- 
i^eieikdo^lbea' oabedal e armas y aeheria ^omaigo 
oil feraMS tie todos. Desembarc^ra n6 Arrecife em 
Sattembrode 4644 otenente general Anidr^ Vidal 
de* N^reiros^ em companhia do P. Mi^lre Fr. 
Ignaoio V religioBo de Sm Beuto^ qiie ri^fao a Ba- 
hid a visitar> sans* par6Bi^8 qae ahi tinlnio^ Com 
este pretexto^ qnenaoera sns^ito ao HoUandee^ 
obCii^etaD lieenoa! para ii^em visitar Joao Femandea 
Yieira ao 9eu engenho } iofw reeebidos' com t^ihta 



alegm e .inagBifioencia MttOisetrfmo .^peAi4o94 
Abrtopae eoqi elktt^ Bto tei >st portdenfiab^itilM. 
por obedkiioki^ m que da seonetiBk ciiiBit^iiiiiQi^99i9^ 
raskiltou tonoiar€in m dOus hoapedeB a piUno i^ 
eatAd^ dftterra^ .iiotA»do: ctom^diasisniili^itf edfl9^i 
ti^ai o podel*, a» foi^tiBotu^o^s^ a: dismplina. e.o, 
nihiriera da :g^te que Qimmigo tttha*; od: qiiftw 
adbaraio asfoctifieaq^desmaateladas^ adisdpjiiqa 
esqu^oida^ o »umQrodj9&soldlidd»4uiiinj4tq|;'e.ib 
vigilaooia adoripecida ;. a6casK>ii|tdA tuidoi da s^w^P'^ 
oia do e^bfifie, da m}m(^ do8» aioraddi>es , da ach^ 
bepba idos* dweuMiilea,, e diw &y0re8 da lpirtiina«» 
VoUarao: pam a Faotiba o toDeotfe.'e o religia^a f. ti 
per dles;: eaeKvap Joao Fciroftiides Yte^ ao.c^**. 
vfiniadordo'EaMido^AiitoiiioTaltesdaiSMvai diii'h 
dfiH^be leoQtai idba tiailBaa de< sua te^okaqji^i^ doa 
]no);iY09;^que (» im^iilo .a eQmmfltorjUina.lsmprciiia 
qu0/Da ^tjfDa(;af> dfi todoat^par eaia^tao diffieil^; imtk 
que ^0 ju%awa poaaiyi^v iu»av» que^Ue gfit^w^ 
iHicW Hue. 9a^, fiiila»i&iepj» oiaoooomi^f p^pt^sita^a^ 
dianle-d^ Daos ^4oa)birmwa iiiwaK^f <> am^il^ini^ 
ti;aiihotaelhe.faltas^0:d peopnia;i^davaifin»i($aFta^ 
pcidjndo eam^hFeTidade a. jrespo«t%> .pftmqoe a. tap* 
dai|^,nai9ffiz^9Qiiiulii a.diligep^. ,. . 

XlVj N^te/tempQ d^ aqitartirUavaP^ AntoQia 
PMipp^ Cramanio wm ^. sie^ Itid^a n9i aaaq)a^ 
ii]to d^ SergipiB. d'Ei Rei ( wwo. deixapoa. dito),"* 
efak&BaJm^ Feraaadeg Vi^irai por ceirMt sua, fi^ 
dln^ soceoiwe^ae, pms o. .watumaya. faaef ^qn^ltef 
BiQfadwed em todasauaa ^fUicQcies) e U9^ que p^ 
2mea9airii0 ajdevk-^Mcutiir oam mais.^cJQ^ plQDq^e 
dae^m aUKilJfo .pcittdia q remadio^ i^iA a pe|\d^ao 



sow CAnOOM VBWtSM^ 

ii«do^ dM MidM- Henrique DiMi^ que iiaqiielle 
tempo 'ji9^ia n^serl&a (eomettf tercciainBtigBur 
titta f<lwliio do gMiio. M&o^se osqueeeb^ii^ dir 
ccm^ di) siia Wloi^ detehfttHMao f e dM i^Msoes 
d'eHa Ik ^ s0tt ttei* e setiiiot* D« Joaa 1 V, maniffes*' 
tando^lhe pot" ^itenso a necesmdakie qu^ o d[»ri*- 
gfiva tao tiva e-fao a^aiertada^ qifeainda a mesma 
cahnmiia )be poderia escupecer a justica , nemre* 
pit>li«r a dMibetia^ : e que nao piodfoi kaver lei' 
qtM l«clti^>ei»do 09 fores da imtlsreM^ t3l)rig2(S8e' a 
elle jgfV^ernador dd E^ado 4$ obeierva^^ias <k ^be- 
dien^ia. ^^i Reeebeo'^ govemadoi^ do Satado a 
carta de Ibao F4miiiMdes Yieil^a , e iXftti a leitiirH 
d^lla ficou indeeiso enHre at obediettoia e a imfior'^ 
laiicia;«iittte' ajuatiea^a diffi^uld^iide; aupposlo 
qm* 96 Ihe r^pesMtavao matoreg* ^itpnesft^, qye^ 
muitas yeze^ vene(&ra a d^esperacao , e^u^ a -^Ao^ 
lendftda oppiwsio antia eoirtra si meismaio itvrepa^ 
Pttwl imp^totla^liberdadie; Se ^coosultava o Biegocio 
c^m o sou *Tatotv ^stifia cte^Mtado o s#ceot»ro j « se /msi 
as ordesis que' tiuha de sen Rei , saia d^uida ^ ^s^ 
dlsal' Nestal -mcerteiea Ikepropoz o diaeurso urn; 
meio honesto*para a observiaticia>^ e util para a ^ 
cOBtiogeDCia ; etisO'doquai o disolviil da obedien- 
cia e da knpiei^de. Mandou escdiher duas tropas 
<fe*soldadoSy de trinta homens each !uma , cujltv 
Tahir e discipliuai os tiraria a satw de q«iah|UM 
for tuna. Acadapartidanotneou^sefu ^lE^irao': esies 
forao Pauk Velozo^ e Antonio Gomes^Tabopdei/e 
per cabp< de umbos Anlooiio Ds»8 Cardozo^ aquefm 
in^tniio no qtie devia obi^ar, i^^lsfndo^-Ihe afs^ or* 



dans polocatado ds|s cousas; e com precdto qte se 
nao podesse disuadir a emprent , seguisae a obaii^ 
aafii^; em. tudo sohordinado ao dictame de Joao 
F^maadea Yifflra, aqueqi mandou diaer de pala<« 
vra> que na balan^ado oonselho peaasse sua de-- 
temiiaa^ao, pai^ que na execugao se nao faltasse 
ao . senrii^ de Dcos e d^El Rei, oerlo. de que s6 
neste caso o acharia prompto para favoreoer os mo* 
radores. — Neste mesmo tempo raspcmdeo D. An* 
tonio FhiUp^ Camarao a Joao Fernandes Yieirai 
di;eeiKldo^Jhe que seoi dilagao se punha a caminho 
com o- seu (ereo , pfimeiro a obedecer ao gosto que 
sempi^ tivera de o servir; elogo ao interesse que 
aloan^aiea em o ^udar em tao gloriosa empreza ; 
e dssde aUi Ihe xendia as grai^as <la parte que nelia 
Ihe.qttfiria dar. Quast uos mesmos termos respon* 
deo o governadoP'das Minas Henrique Pias, e logo 
se poz ^Ki marcha . 

XV. No mez de Deaembro d'este anno ohegou 
AotonioDiasClacdozo ao reooueafo de Peraam*- 
bucoy oom ditoia iviagem ^ porqne nem foi sentido, 
nem IheifalAou spMado^ Fez logo aviso a Joao Fer- 
nandes Vieira, o qual«o festejoo oom alegre alro^ 
roco eprudenle cautdla; o<Hn estadeterminoudia 
e sitio para se avistarem , furtados a quaesquer 
outcos olhos. C<mferirao com breridade o peso do' 
negocio^ a importancia do segredo, a ulilidade da 
pre^nenoaoy em obzequio da qual mandou Joao 
Femandea Vieira apoaentar, e prover de todo o 
Bfecessavioia Ai^nio Dias Cardozo, com os capi- 
taes e soldados de sua obedieneia , num lugar se^ 
guro e bem apraviaioAado* Contmufoaio as entre* 



i 



vistea ^ e itottvMrM ambes «m qiliete Bmidmefil 
quatf o 9oUad08 igiifliflrieiile asnxk9am ^ wmMeta^B 
ao govtensMior do Eatfado , pahi-que da roa paH# 
o ioforjiii^aaln de tudo^ pcdind^^fhe^ao mimtM 
tempo que com todtt a breYidade 6%pmveum d'tf -^ 
mas 6 muni9oe8) para otnvmfrenniidotpara todo 
acontecijaieiitoft Aetieditatio e rteacb eom carta- 
simulada e sucdnta^ 

XYL Estimidtdo load FcrnattdieB Yietra do d^ 
sego de vei* lirres iiqueUes poToa d6 imperio hol^ 
landi^i e oonheeende que i^ra fleeesMrio^iiccliMOlH* 
nicar o segredo a algims' coi^dentea para dar 
QQme^ i €iDpraza p mandou ckaoiar Antoaio Diiii^ 
Gardozo para lim lugar oeouiioyipeDtoideiseQ^^cn^ 
g6tibo de Sao Joao • Baplista ^ b eontbt^ia coibelid 
sobre o.modo de o. feaer ^ e ae.^epar^o prevaai-*- 
do8 para . qualquer ihetdenteque dobreviei»ei ^^ 
Come Joao Fernandas Yieira castnma^aty vmtao 
baveolos. diioy otrnvidAr mtiitaa 'vezea/ ajilntar 
graode tLuiberotde aens amigo^f a|lr€nrdtou atlD 
expddienfije para Ihtfi comanmidartainib seeolufflo. 
Sen1^rath$e 4ii|esa osiccnktridddiMy baoij alhsiba da 
prato que os esperava, e |)4r ukima. igiiariii se 
^brio eom todos das^joJs^iodOfJbes sen iotapto^ e 
o que de sua ndbreza e de^^eus espiritoa qiieriav 
cosn similhante^ xazoes : c< videKild do sangne e 
Tik a oonfiauQa da touzade nos .ajuntou aqui-todoa 
» OS que estaiQOS presenter; duplicadas naioes para 
» xne nao engaoar em mm ^oneeiU) ;: justificada 
)L;para ^ao descoafito dd segtedo^qvai^o iiaofaaflM 
» .t^ra 8^ a impop^aAoU dt todos)y md 4}'fkir.9itm& 
» ^uem ao 8«ii iiiewiO» aaii|iir o fin; nemo fy^^ 



n-tsremro quemo-coiamumca^QaisdgOj e tenho 
». por ceicto ipe nao sai do peito trado ueUe parte 
» p«p8QW UBto. de meu eoracao ; i]^Ue arde o fogo 
» do b^m compiumi desde p primeiro dia que o 
» iniiiMfj^ ae £ez senhor de nossaa fazendas j e de 
>) Bossas lifaerdades | cresceo o inceadio com a$ 
» oppreasoesy cevando-seo fogo na continuacao 
>; daB tyranniasy e no excesso das iojuriaa feltaainao 
» 96 aos homens , seaao tambem a Qeos « de ma- 
i> neira que uao pod^ra reprimir tanto- tempp as 
» labaredas se.nao mitigara.a esperan^a de se tro« 
)». ^r a fortuna;.Dao perdendo de vista as promes- 
» sas que mefaziao.tantos socccNrros e armadas^ 
)> quautas malogrou nossa desgra^a , mostrando-* 
» nos a experiencia ^ o, aUmeutar-se a ruioa das 
» eaperanfas do remedio : cousidera^ao que me fa-- 
tt zia eatender^ obrar mala em nosso damuo a 
>)• propria culpa que a alheia for^^ ppia via (fue 
>}. OS mesmos elementos se .punhaa d^ p^te dps 
M.eontjirajrios. Agora, que ja o custunieda aujeiQao 
)» nos tem esquecidos do que somos ^ que nao es- 
Mtranhamos.amiseria decaptivos, e queo.FIa- 
^ mei^o Ros domina com. desprezo ( on porque 
» nos. julga mertos para o sentiinento , ou porque 
>) DOS ^yalia inhabeis para a vingan^a );. agora que 
>i funda o seguro de seu imperio no descuido. de 
» nossa liberdade , nao desaitento a conservacap de 
^^^uas forcas^ que presume sobejas as ari^as^ ipu- 
>i, teis. OS presidios » superAuos os soldados; lu^fe- 
i)i rindo.de nosso abatiinento a estabjUdade des^u 
> doouQio; agora digo que. ji naic^ po^so dissiniu- 

n lar mais lepapo pom a cl^ama que me a))ra3sa Q 



» rftcao ha tantos annos ( iKgo que mo haveri 
» slnimio portugez a onde por tantas razoes nao 
» cansidere retratado o mesmo desassoeego). 8a&- 
» quemos nas armas as domonstracoes dos animos, 
» se i que cada um deseja deitardeseu pescocotao 
)} infeime jugo ; cobremono^ da afironta com a re- 
X) solncao ; saiba o mundo que o soffiimento em 
)) ntSs foi ardil , e nao yileza. A paciencia volun- 
» tari^ 6 Itistroia virtude; forcada 6 escraTidao 
» servil. Nunca nos podedi comlemnar abatidos 
D quem souber que esperamos tempo opportiino 
» para nos desforcai' vingados.Gom lastimoso grtto 
» chama por nosso braco a dor de tantos teisultos^ 
ft affront^s e injusticas , como tembs padeeMo ) 
» nao damos passo que nao ponhamos os p^s sobre 
ft o sangue das feridas , sobre as cinzas d6s ineen-^ 
» dios , sobre as sepulturas dos moi^tos , dobre as 
» pedras das ruinas , e sobre asbrasas dais injuriaa, 
>) com que a ihsolente tyrannia d^estes verdugos nos 
» tern quasi consummidbs. Nao havera parte em 
)) que nossos olhos nao vejao tivos os stguaes doS 
» aggravos; e nao havera bora , em que deixem de 
>) nos refrescar a memoria das offensas. Mo ha 
» etitre nds algum que se possa gabar que a for* 
» tuna o isentou da sorte de todos. Qual houve tao 
» singular na dita^ que nab ouca em sua.casa os 
» g^midos da magba , ou feiido na honra , ou las^ 
}) tiqi^do na fa^enda ? E qual podera haver, que 
» napdeseje destruiros aggressores de sen damno? 
> Quem'a tanta advertencia se nao der por enten- 
» dido passara de racioiial a bruto , e de sensitivd 
» a insensirel/reduzidb por sua mesma pusilani-* 



GiSTRIOIO U»ITAKa 30$ 

» midadeao ultimo estado da mi^eypia? Que fiaido 
» DOS acobarda ? quesombras no6 ateiMrizao? que 
» fUscursos nos alheiao ? Uma vil canalhaalimeni- 
>} tada de sua meHna perfidia, cuja espada nao 
» corta senao com os fios da traicao ? Pois que re- 
» ceamoa peinler a fazenda ? £ qual de no^ deixara 
H de a perder J «e cam o seu braco a nao libeitar ? 
^i.Nao fica mais ganhada, perdida pela honra^ que 
» dada pela iufamia ? Que nos ata as maos ? 
« amor da familia ? Mao estara mais acigur a avida 
M dos parentes em uma morte fiel , que em uma 
» n (companhia heretica. Abramos os olhos « e da- 
» rau^ente ver^nos quanto melhor nos esta o mor- 
» rer pela Uberdade da palria , que o viver na pa- 
» tria sem libordade. A restauracao do reiuo nos 
p proTOca cpm o exemplp ; a do Maranbao nos avisa 
^) . com suQcesso j a onde tao poucos obrarao ianto 
}yqv» sopedrao a tyrannia de muitos , e que sem 
^ preven^oes arrisco, quero que tonhao vossas 
n mercte entendido o que sobre a maieria teuho 
» obrado. Dei cpnta da minha determinate A 
» fiajbia, a Henrique Dias, e a D* Antonio Pbi- 
» lippe Camajrao , e entendo que a todos achare- 
n mos favoraveia ; e jd eutre nos esta o capitao 
» Antonio Dias Gicdozo com sessenta soldadoa os 
j» mais delles 6ffi«iaes refQrmados> tao destros. e 
» tao valoro80s, quepodem ser caboa de grandes 
D exenitosv e aie{^rem-se .yosas mercte, que. nao 
»> pode.havercottsaconcernwte & expedl^ao da em- 
i» pirezaque nao tenh^ preyenido meu cuidadb, 
» porque ha muitos annps. que estadp na diroo^ 
>i d'este negocio, sem outro motifo mais que o do 



}} bem comenHm ; b que nao podera duvidar quem 
» 8abe que a dita me favopece , e quanto o ini^ 
» m%o Tke reepeita ;- 6 que petas leis da naCwreza 
» e <k ftiPluna tenho mai^ ratoea* para estimar a 
)> ¥ida que todoa quantos a esdmae raais. » 

XVIL Oufirao todoa eom miiita atteo^ as ra- 
tcm de iio Feraandes VieiM , mas em oada um 
dV^llea ppoduEfmo diffi^renles efiUito8» aeguiido que 
eada um eatara mais oti'meno^ didpooto para tdb 
aarriscada emppesa ; e cdncluirao em que queriao 
¥et* & falkr com e eapitao Antonie Dias Gardozo'; 
em quanta poF^m ao segredo todoa a ppomettiftrao * 
e Jurlh^&o; e a elles Joao Femamles Vteipa o eoiii^ 
primento do deseje v a8s^Btando edm todpa que 
ao'ouire' dk ae- achaaaeih em eseu ourral de Igi^ 
pio 4^ uove para as dez heras da mafihl i mM epiii 
adverteueia que fosqem separafdoa por tiao darem 
motive a diseuraoscuriiMiM^ nem oeeaaiad a 0U8- 
-p^kaft maleMla^ de quem <» viaee k* de^ coMar^ 
para a(|ueMa parte, ^espedifao^se cada qual pai^a 
sua casa ; e Jeao Fernafudes Vieb^a deidpedioium pr^ 
prio a Atit^nio Dies Cardozo^ com airisQ^db que 
em oerto lugai^ se tissem , ^pcyrque lin^bae q»e ison- 
febir • Deo4he a vista meucki. denta do que ise hovia 
paslsaNia, ^do<yue tinha euteiididi^ f iiifoiVMliie^ do 
lugat^e ila hbfa etA^n^ o^hMmo^ 4e buscar«e; 011- 

4i^:dia ; e faistniid^de (kHilo s^^^havia d&porlar, ^ 
apai<t6faov eada qifal^iartt oeea d^miciliaK;* Ao ou-* 
-t»o dia njb fi||€4iio^<MP(9Ciiii4dodM com auinkMftio 
difffcimii^ m^DQNy^rto as peKMM. Gfaegnqof eapitao 
Antoiilot Difi^ C^ai^dcizp 1^ ao-qual ireoebArao oefftifzes 
iAadmlimiiii.' Leg04h»^edirm'qtt»ooffirtodttm)rer» 



JGAfllAHXBO LOinuUIO. S03 

fladfs e com toda a confianca. cbohratte a causa, 
gp^ o Jiavia trazido a Bahia, a tao diatante lugar, 
a com segroda tao estraaho. Antoniolllfaft Gardozo, 
queaohre entendido estava mdu^tri^do ^ Ihes re9<- 
poiidao seguro • diacpelo , qua o mpttvo que o alii 
touxera era o seirvi^a da Deos e do8 moradores 
d'aquella eapitania; qua a eausa que o detinha esa 
ohedienoia qua devia as ordmia de sau superior 
Antoaio Tellea da Silva ^ gOFemadoir do EsUdo , e 
D goslfo de seryir a Joao Facnandes Vieira, a qiiem 
Ihe ordenar^ de assistir na empreza que tiiteiita?a ; 
asbortou-ioaQuergicainenjtea que ae uDisaem ^quelle 
gmnda varao para Mpulsarem a ioipMgo qua *Q8 
opprimiaf e eouohiio disendo : m^ Des^mb^tpha'- 
4) niQS a espada, advertindo que doG^Bdei; as hon^ 
D rss.^ «^s vida» dontrpd^ nost^i mesma terra ^ 
^ PQl^ar sfm 9ivm^ daM^A^f q\m i proprip dp 
^ TAlpr;io«<^ip wfone^fif pelaacaaaas. ♦♦--T^uspenr 
soa c^ arijdaAt^dos d^ di?ersos pepsame^^Qs^puvirao 
todos ao capitao Antonio Dias Gardozo; e a^gifn? 
por m%\» tejBiAropoa m pop ma^oa Qei^ c9iae9arao 
da pondarar as difSciildad^s q^e se apposentavao 
para ei»ePHqap 4^ tap gr^p4e ^nipreza^ ipai^tindo 
priHcip«dm^|p.8pbr« % IMcqepapa p?is*ados, ^ os 
poiieQa nimp^ qp^ jii^iap pai^ sttaitentsr.a.lpU, qup 

1)^ parctfid IfiiEQCHr^ia p pof Y«pturalouc^, (dontpu- 

Ihpft Ajq|(^ Jftas CaH[*4flaOrP dwpnrso, difi^dp-lh^s 

^w%. ^iuna tep suaa id«4fiSt e qi^ tanilwoi cbe- 

0a « iKP:V«tti« ; pop4wPH-lbfis p^tado deaj^qudpno 
aniqi«e ai^apbaTaoas fprUficagoes. dps HqUande- 

ttaj Gpiftp. aua wUcia hayia perdido a di^j^Una) 
a.M>fli9 ppQiipadpii 4p iq^r^opia nvp ^ur^ivap da 



sob cuasumo 

defioQsa ; Btostrou-^lbes os meies que tmhao para 
execiitar a empFeza^ dizendo«lhe8 t u que agora 
» importa para oonseguirmos esle desejado fim i 
» darse^lhe logo^inoipio , escolhendo e nomeaBdo 
i> d'entre ii<i8 pessoa que nos goveme, e eabosque 
» no8 ajadem a prevenir a gente, e tudo o masB 
» necessario para a iaccao. Para vobbba merces e 
» para os moradores e toda a conveoiencia do ne* 
» gocio ; e para todos nos importante a obsenrancia 
» do segredo : com elle asaeguramos a empr^ea; 
7> sem elte nos entregaremos a ruina; eu, e meus 
» soldados com menos receio , vossaa mereto com 
» maior perigo. )» Applaudirao todos a disposioao; 
com alyoroco approvarao o conselho; e como' se 
todos no interior estiverio conformes como no 
exterior y em uma voz unidos aclamirao a Jooo 
Femandes Vieira por governador e general da em- 
preza, jurando-Ihe dbediencia^ U^ segredo ; mui- 
tos com animo sincero^ nao poucos 'CMd tralidor 
coracao. 

XYIII* Ainda nao erao passados tres diatf depois 
d'esta entreyista, quando lea^s e peljuros em um 
corpo e como mesitio semManteckmcorrSrao a casa 
deJoaoFemandesVieira,dizendo-lhecdmo o IfcS- 
landez eslaVa inFonriado detudo quanto nomfato 
se tratira, e das pessoas que se ach4rao presented. 
Acciisavao a perfidia do traidor , dandk^e' o^ais 
culpado por mais offendido; seildb o excesdO'4^ 
queixa a qu6 mdhot deisctlbria a cam ao MMf da 
traicao. Nao se alterou com succefeso tao novo o 
discreto e animoso varao, tanto poirqtte o tittlia 
previsto , cbmo porque iienhuiti caso o sobrcaal- 



GASXRlOrO LDSITAlia 369 

tava. Dissimulou Joao Femandes Vieira , faUou a 
todos. com animo firme e resoluto^ dissuadindo-os 
do medo que affeetavao; e aos que se offereciao para 
negociar com o conselho supremo um passaporte, 
para que Antonio Dias Cardqzo saisse da campa- 
aha com toda sua gente j respondeo : « capitao 
Antonio Dias Gardozo 6 tao destemido, e tao bent 
disciplinadoy que primeiro perdera mil vidas que 
chegue a faltar no menor ponto de sua honra : 
uao mando, aconselho; desistao Tossas merces 
do intentOy ou faqa cada um o que melhor Ihe 
estiver. » Despedio-os isento j e recolheo*se oon- 
fuso, mas nao atalhado. — No dia seguinte Antonio 
Fernandes Vieira fez aviso ao capitao Cardozo de 
tudo que se passira na conferencia; e do que pre-, 
sumia d'alguns, para que a noticia o acautellasse. 
Qiia&i ao mesmo tempo recebeo o 6apitao Cardozo 
t)m Gorreio dos traidores , pelo qual , com dissi- 
mulada perfidia^ o cerdficavao que o HoUandez, 
tendo noticia de sua vinda , despedia do Arrecife 
nufioenosas piartidas de soldaidos a buscal-o^ com 
ordem de baierem todo o mato do deslricto, e de 
se nao recolherem sem a entrega de sua pessoa ; e 
Ihes parecia impossivel o eacapar de tantas maos; 
que dbes por o livrarem de perigo tao certo^ se of- 
fereeiao a pedir-lhe passaporte, ejsegura passagem 
para Hollanda ., com todo o necessario para a via- 
gem ; e Ihe rogavao o quizesse acceif ar , pelo que 
a todes convinha. — Antonio Dias Cardozo rejei- 
tou heroicamente similhantes propostas , dizendo 
ao mensageiro ; « Dizei aos traidores que a sua 
ateiyosta os publiea cobardes; que nao temo 
L 14 



210 GASraKKTO LUSSTANO. 

damno que nasce do medo ; e que maior ag^ravo 
me £izem pek parte do offerecimento que pela da 
tFaicao^ porque com esta me julgao temido^ e 
com aquella me suppoem honrado ; que simtlhan^ 
tes pasaaportes podiao serTir a vileza de seus ani- 
moSy e nao a mim, que tenho eapada para me 
defender 'de traidores e d'inimigoB; que a dos 
Hollandezes custuma cor tar melhor com o amea^o 
que com o ferro; e que com igual facilidade me 
hei de livrar da forca de uns e da infamia de ou* 
tros, dando-nos o tempo occasiao para que as 
obras definaoo ser das pessoas. )> Inatou omeBi- 
sageiro com desculpas e razees fundadas no medoj 
mas o fiel capitaoa nada cedeo : quiz ainda re- 
plicar com ameagas ; mas o capitao imofrido^ e 
comaespada na maQ,ayan9ou:contra elle cderico; 
vendo que o mensageiro, aproveitou-^se dospds^ 
e nao parou senao & vista dos autores doireeado-; 
aos quaes referio o que no capitao sichara , e o 
perigo em que se Tira, Queriao elles repetira diii*- 
gencia ; por^ o enviado o nao quiz fazep a iodo o 
pre^o, esoisando-^se com aca^teza de que da e^da 
havia de ser a resposta« 

XIX. Gonferirao os dous amigos i^tre si ofestada 
das cousasy e o remedio d'ellas; e assentar ao (|ae 
o mal nao havia de obedecer a medioamentosicaur 
tivos y que stf os violeutos poderiao ter efficacia) 
para nao lavrar mais o veneno. Gonvierao^ em que 
seria acerto escrerer Antonio Dias Cardozo a* Joao 
Femandes YieiTai uma carta ^ que podesse mostrar 
aos Hollandezes , com as seguintes * razoes* a Os 
moradores d*esta eapitania me comiitrang^iM com 



GA8TBI0T0 UISITAKO, 211 

importunacoes a que viesse ajud^l-os na rebelliaO| 
em que esiavao coDJurados contra os HoUandezes* 
Fiei-me em suas palavras e flrmas, e vim com tanto 
discomnK)do, como Decs e 03 meus spldadoa sa-* 
hem ; adiei que alguns d elles, ou por cobardes, ou 
por traidores aos seuS; haviao revelado ao Hollan* 
dez o segredoy de que se tinhao accusado, e 
arrepeudido; successo previsto de minha adverteii'* 
cia, considerando a cautella com que se guarda* 
Tao de vossa merce, pois sendo quem 6 nem Ihe 
comjOHinicarao desigiuo, nem me consentirao os 
termos da cortezia, e execucao do gosto com que 
devo buscar a vossa -merce, e servil-o ; que agoia 
mo fa^o por Ihes nao dar occasiao a levantarem 
algum testemunbo a sua fidelidade^. i qual do- 
vem 08 Estados tanta fineza, Fa90 esta carta para 
retiiicar a yossa merc^ meu amigo, e . dar-lbe 
conta em como me voUo para a Bahia 00m toda 
a.prc^sa, porque nao me entreguem ao inimigo 
OS mesmos que determkiavao entregar i mixiba 
^pada ; e se esta me nao poder li vrar de ^ai^orq^ 
divjejiA gritos os quesao^ eappelarei de minba ^m^ 
graca para o favor de vossa merc6 , que em todo 
XI tempo est& merecendo a quem Ibe deve^ com a 
leald^edo trato, omaior respeito; e por lodaa 
parte publicarei o quanto tern de discreto quem 
sabe ser grato. Deos guarde a vossa merc^. » Joao 
Fernandes Vieira depois de receber esla carta^ e 
depois de dar todas. as provideacias para ,que o 
eapitao Cardoso nao fosse surpreheadido, mandou 
dbamai^ os comprebendidos na traieao, deo4bes.a 
ler. a cvta, wmo se esUvera albeio do succedidx) ; 



212 GASTRIOTO LUSITANO. 

e como espantado da novidade, perguniou que 
causa tivera o capitao Cardozo para tao estranho e 
repentino acordo , como era o partir-se para a Ba- 
hiasem se despedird'elle. Emmudecerao confusos, 
e de todo es deixou frios verem-se arguidos de 
culpados^ dizendo-lhes Joao Fernandes Vieira que 
OS lacos que ordiao a si mesmos os armavaO; pois 
sabiao que mais credito havia de dar o Hollandez a 
qualquer palavra que elle Ihe dissesse , que a quan- 
tas elles jurassem , porque tinha cabedal e animo 
para gastar mais em uma hora , que todos elles em 
toda sua vida, contente de que sua ingratidao d^ssc 
por fruto a todos o desengano de sua vileza , pois 
tinhao tao abatido coracao , que nem obeneficio os 
reduzia, nem a honra os obrigava. E para os des- 
pedir, sobre affrontados temerosos, Ihes leo elle 
mesmo a carta, affirmando que a guardava^ para 
que d'elta constasse aos HoUandezes quern os ag- 
gravava , e quern os servia. Frustrados ficarao os 
ihtentos dos traidores com esta energica declara- 
cao de Joao Fernandes Vieira , que nao ousirao 
elles proseguir seus maos desejos. Nao faltarao tam- 
bem alguns do governo , ou seguros , ou apaixo- 
nados, que nesta occasiao o avisarao, tinba nelle 
muitos amigos, e nos moradores muitos contrarios 
que o calumniavao^ mas sem fruto, porque nunca 
prevaleceriao contra a opiniao de sua lealdade. Nao 
se namorou Joao Fernandes Vieira tanto do favor 
que se esquecesse da cautella , porque experimen- 
tado e discreto fiava menos da sua fortuna que de 
sua vigilancia ; e assim desde a hora em que en- 
tendeo se poderia presumir sua determinagao , vi- 



OASTIIOTO LVSITANO. SIS 

reo tfto circnnspecto , que todas as noiles ae reti* 
ratva ao mato ; assiatindo os dias em sua eaaa » com 
fieis sentinellas ao largo, com cavallo seUado, ^e 
seus criados pFevenidos, para que em qualquw 
assallo sertissem a resisteacia e a fuga« Se do Ar- 
recife o buscavao, com pretexto de amizade, ou 
de negocio , ou fallava , ou se fiogia ausente , se- 
gundo as pessoas que eraoi Se 6s do goyemo o 
mandaTaoehamar, se escusava, com promesaade 
outrd dia, oil com a occupa^ao de muitos , e nunca 
as escusa's faltarao as cortezias; alojando naqueUe 
peito t&manhas causas d'adliccao , que pod^ra a 
menor d'ellas suffocar qualquer outro coracao. 

XX. Admiravel foi neste varao a prudencia; 
nunca alterada pela variedade dos successos : uao 
menor o valor e a dissimulacao com que tudo pre- 
via i mas seus receios comecavao a crecer com a 
tardanca do Gamarao e Henrique Dias . Neste co- 
thenos chegarao os quatro soldados de Volta da 
Bahia, que no Janeiro proximo partii^ao de Per'* 
liambuco , mostrando na pontualidade da negocia- 
cao a causa da detenca ; porque o governador do 
Estado 03 ouvio , e despachou como se podia dese- 
jar; retificando seu animo na resposta das cartas, 
que Joeo Femandes Yieira e Antonio Dias Car*- 
dozo Ihe tinhao escrlpto; e dando-lhe escusaa 
detenca com a assistencia que na Bahia faziao ao 
proprio tempo os embaixadores Hollandezes; dos 
quaes daremos razao na seguinte escriptura. 

XXI. Comecarao os Hollandezes a desconfiar 
que alguma cousa se tramava contra dies ; em 
cuja desconfianca ise confirmnrao com as declara- 



COGS quefiaieraoo^lraidores da assititeneia de Anto- 
tiic Dia^Cardoeo e Ai» intentoa de Joia Femandes 
Vieirai; eonferirao enire ai o caminho por onde 
fie poderia vir no conhecimtnto da certeza } e as^ 
Miitarao em mandar embaixadorea a Bahia^ que 
eom destreza especulassem o que se dizia) e^^egt*- 
mento , e para que se houvessem de maueira que a 
'sombra da queixa sobresaisse a luz da verdade. 
Coin este fifn nomearao a Guilherme Wandrevot, 
vm ' dos conselheiroa politicos ^ e a Theodozio £$«• 
trater, commendor da fortaleza de Slazareth, 
^com carta do supremo para o goyernador Antonio 
Telles da Silva , cuja sustancia se rezumia em ao- 
<^U8ar a rebeldia dos moradores , fomehtada ( como 
se affirmava ) com o favor de sua senhoria ; o que 
Mo podiao crer d'um tassalio d'El Rei de Portu«- 
gaL ^— governador , que tinha frescas noticias 
do que se passava , respondeo que se os morado«- 
res se kiquietavao, era porque o trato da tyrannia 
09 acon^elhata , e que dado oaso que os favore- 
eesse, fiz^ra ^^ que devia aoservico de Deos e de 
deuRei ; o que, viotentado da obediencia, nao fazia. 
*0 que so Ihes advertia era que, senao mudavao 
•d'estiloy atalhaudo os excesses, com que apura- 
'vao a paciencia dos naturaes, os havia defavoreoer, 
at^ onde ehegasse a possibilidade de seu braQO, 
para se libertarem de tao insoflrivel dominio, ainda 
que soubesse que o auxilio Ihe poderia custar a 
cabecal Ouvida esta resposta se despedirao do go«- 
Ternador; c depois d'algunsdias, que tomdrao para 
o exame da verdade , se voltarao para o Arrecife. 
XXII. tempo que os embaixadores se delive- 



oAsmoTo wmmk 815 

rao na Bahia d^teve tambem o goveriMdor o« qi]%- 
tro eavia^QS de Joao Feraandes Vieira, como fica 
dito, a aade Theodozio £strater espreitou oocaaiao 
c^portuna para eecreta audieodcia^ que o gover*- 
pador Ihe deo , na qual Ihe dis^ que era cathoUco 
romanoy e como tal aborrecia oa HoUandeze8| que 
oa aervia por necessidade, que o seu desejo fora aem* 
prq de servir um principe, que para nenhum tiaha 
tanta iacliuaQao como para o 3eQhor Rei de Forlu* 
gal Dom Joao lY ; e concluio por dizer que ae elle 
goveruador determinava a recupera^ao de Pernaob- 
buqo^ qiie Ib'o declarasse / porque seudo este seu 
diaignio, elle abriria a melbor porta para a res* 
taura^ao. Entre persuadido e deaconfiado ouvio o 
governador a Theodozio Estrater, eutendendo que. 
sua proposla igualmente podia ser ardil da rnali*- 
^ia^ e effeito da delibera9ao; e por uao perigar aos 
estre^ioB, respoodeo que elle da sua parte e^timava 
a hoara que fazia a nacao ^ e que a sua Mageatade 
inforcaaria o quaoto devia a seu desejo ; mas que 
'de preseule nem teuQao , uem ordem algutna tinha 
para fazer guerra aos yassallos de Hollauda , antes 
preceito de conservar a paz; por^m que se por 
algum accidente se alterasse o estado das cousas^ 
Ihe &rift aviso ^ eseaproveitariadetaobomaniino. 
Despedio-^e contente, e navegarao satisfeitos : um 
pprque se tinha declarado ; outro pelo que tioha 
entendido; ambos ehegarao ao Arrecife> e ndUle 
desiq[)agio&rao aos goveruadores e povQ d^& reeeios 
que tinhao da guerra, 

XXIII. Neste tempo despachou o governador os 
^oviados de Joao Fernandes Vieira^.do§ ^uaes ea- 



mreTem^ j4 a chegada a Pernambuco> a que fcH 
tern 10 d^ Maia de 1645. Pelos ditos enyiados man- 
dou o governador dizer de palavra a Joad Fernan- 
des Vieira e Antonio Dias Gardozo, qae estiveasem 
certos de que Ihes bavia de assistir , e a todos 06 
moradores^ com animo e forcas, em caso que os 
HoUandeEesperslsiissem em os affligir e tyrannizar ; 
e de secrete escreveo a um e outro. que as cartas 
eontinhao me nao veio a noticia ; e nos referimos, 
e nao advinhamos. Com os enviados se part(raoal- 
gum«is tropas d'aventureiros, que voluntariamente 
•OS quizerao seguir , no que o governador se houve 
neutral ; so mandou vir dian(e de si os cabos d'elles^ 
e Ihes encarregou o bom trato e disciplina dos sol- 
dados, que levavao furtivos, como gente do Es^ 
^do; e dissessem da sua parte a Joao Fernandes 
Vieit^a que quando nao pudesse soffrer o dur6 
jugo dos Flamengos , levasse a diante o intento da 
liberddde, e o disposesse com o valor e prudencia*, 
qqe d'elle esperara ; e que brevemente a<!haria 
cbmsigo o soccorro^ que Ihe tinha pedido. Com 
estes recados Ihe chegou tambem aviso certo em 
cotno Henrique Dias e o Camarao se tinhao partido 
evn soccorro dos moradores, havia j^ muitos dias^ 
e que o nao terem chegado era culpa do tempo ^ e 
<da marcha, que por causa do dominio hoUandez 
ffdra6 obrigados a fazer pelo interior do mato, k 
'fibi'de se esconderem as noticias doinimigo. Ale- 
gres df^csiirao a todos os confidentes as boas novas, 
e a vinda dossoldados aventin^eiros , que chegirao 
=«este Maio , e forao alojados na mata de Joao Fer- 
nandes Vioira, com segredo e ordem que eslives- 



eASTiaoto tusitAfva nil 

wm A obediehcia de Antonio Dias Cardozb, a quem 
apertadamente endarf egou a vfgilancia e a eatitela; 
em quanto ellc Joao Fernandcs Vieira tomava pdr 
sua conta os avisos de todos os movimentos do 
Hollandez. 

XXIY. Informado Joao Fernandes Vieira das 
disposicoes que tomava o Hollandez para mandar 
degollapos mancebos de quinze a trinia c cinco an- 
nos , se d^terminon em nao esperar mars tempo 
para se por cm campo. Conferio a resolucao e os 
meios com aquelles amrgos que podiao dar voto na 
materia; e assentarao que suppostas as ordens do 
goVernador, se nomeassem capilaes por todas as 
freguezias sujoilas ao dominio hollandez, para que 
desde k>go tivessem a gente allistada e prompta* 
¥bi^e memoria dos homens nobres, fieis e deste- 
midos de cada uma das parroehias , e d'elles esco- 
Iheo Joao Fernandes para capitaes os qiie parec^o 
melhor, remettendo-lhes paten tes e ordens do 
que haviao de obrar. ^— Em Ipojuea > criou capi- 
taes a Amador de Araujo, e a Thom^ Teixeira ; no 
eabo de Santo Agostinho a Antonio de Gastro^ Joao 
Paes Cabral, e Joao Gomes de Melio ; rin Moribeea, 
a Joao Scares d' Albuquerque, e a seu irmao Joiio 
Leitao d' Albuquerque; em Iguaracii^ a Joao Lou- 
rencd Francez, e a Manoei Pereira Gorte Real ; em 
Sirinhaem , a Alvaro Fragoso d' Albuquerque ; ha 
Goyana , a Goncalo Cab^^t, e a Estevao Fernan- 
des ; na Paraiba , a Francisco Gomes Muniz , o a 
Lopo Gurado Garro ; em Sao Laurenco, a Manoel 
Soares Rqbles , a Cosme do Rego , a Joao Nunes 
da Mala, e ao P, Simao de Figueiredo, que de- 



poia denutitar muitos ano^^ se.Qnl«|ioiji ; j^^Vm^ 
zea^.a Francisco .Ber9ng.uer de A^dr^a^ « Ai^^mio 
. B^zerra i a Joao Nuoes yictoria , a AiHoaio Bpr^ 
ges, e a Aatonio da Silva per capitao de cavaUos; 
e supposto que na dita Yarzea nomeou outrQB ca- 
pita^ ( todQs i^eceasaripa para o nuia/Qro da gente) 
fa?;iQinos .memoria doa fieis que a vil^^a da traidor 
.igualmente priva do npine e da honra. Na fregue- 
^a de Saato Amaro nomeou a Tl^oo^.da Costa; 
na do PortQ do Galvo, a Ghristovaq Linos ^ na do 
Kooio de Sao Francisco, a Valeotim d^ Rocha« A 
. todos, e a cada um em particular mandou i)(i^truo- 
coes do quehaviao de fa^er , assjm em alistar gente, 
. ^mo no tempo e. no modo, que lelles ob^ery^nio 
^om w\o e acordp, Dentro dp. Arrecife.adquirio ^ 
.conaervou tres hon^enaj a poder de dadiva^, .que 
J)ia davao aviso dci tudo q que det^rminava o Hol- 
Jmdezj podendo com ell^ maia o i^teresac qu^ o 
perigo, ; ,: 

XXV* ;Com eatas preven^wi S^ fftciUtii;a o n^ 

, gocio ( f undada toda a e^peran^a no p^cret^ ipliento 

de Joao Fernandes Yieira)! &e o rigor 4a8 iaverns^ 

das oom adila^ao do t^mpo nao de^truira o^ meios 

que tinha ^scojhido a iqduatria , e approyado a 

confianca ; epao aquelles dependentes d'uma occa- 

,aiao apparent^ e honeata, que obrigasse a: coQvi- 

.4ar OS principles HoUandezes para unibanqufte, 

^m sua caaa i no qual a abundaio^cia das iguarias e 

, dos brindesi e a pr^ven^o de occultar armas oor 

ca$ionasse ou a morie ou a prisao de todos; e qan^ 

seguindo-se ^ste principio, ficava sem eslorvo o 

6m ; c|ue era aenhorear-se do Arrecife; ^ ^m todas 



CI correio dosnossos aoe propria^ do inimigo). Este 
ardil nao chegou a por-se em pratica) porque o Hol- 
landez foi avisado, e Joao Feruaades Yieii^ tomou 
um expediente maia cavalheiro e mais eflioasi. 

XXVL Com secreta negocia^ao foi induzindo a 
todos OS mancebos da Yarzea a que desenterrassem 
e preTenissem a$ armas com o recalo qua Ih^s 
advertia o pwigo» para que os achasse armados 
uma occasiao ^ muito da honra de todos , que elle 
a seu tempo Ihes mauifestaria. Como entend^rao 
que era Joao Fernandes Vieira o empenbado , nao 
houve algum que ae mo preparasse, alvoro^ado e 
solicito y desejando cada qual obrigar com o servico 
a quern nao sabiafiiiltar com respeito. Pqz o mesmo 
Gtiidado em tracer a sua amizade aqueUes bomens^ 
ebm OS quaes se nao corria , o que com facilidade 
o conseguk). Medio o tempo de sua esperanca pe- 
las promessas e pelas noticias^ e pareceada*lbe 
que nao j^odiao faltar em qualquer dos dias seguin- 
tes Henrique Dias e o Gamarao; e que adiantava o 
negociocom anticipar a preven^ao a chegada,.de- 
terminou deelarar-se a todos , para o que os cba- 
mou a sua ca^a^ e Ihes deo inteira noticia de squ 
intento; o que fe^ na forma seguinte. (( Atdgora 
» nao dei conta a todos de meu designio, sendo 
» que forma a importancia de cada um^ nao por- 
» que lemesse quebra no segredo ( porque conu) 
» a conveniencia 6 de todos ,* de todos deve ser a 
» obserTancia), senab porque a dila9ao poderia es- 
» friar aquelle fervor, que nos assegura o successo. 
» Nao 6 desi^ual a conGanca (|uaado o nao 6 a es* 



» titnlfcid/ e supposto tfae a alguas' parltadktres 
» tommtiniquei meu idlento, nao idiasfei as 
D pessods, dinda qt^adiantei asnoticias^ por^ue 
» a Codos p^ em igual lialanca : has ein{Mresas 
» primeiro obrao os minisiros das cbnduccoes, 
» que os bracos dos soldados. Agora que o tempo 
>r cbama para a neeessidade e para a execucao, 
^ a dou a todos ; porque the fique mais honrosa a 
)» vinganca , tomando por mao propria a satisfa- 
» cao das ofiensas. As injusticas, ronbos, forcas, 
» injurias, e desprezos que temos soffrido a esta 
» torpe canalha, foi sempre tolerancia de nossa 
» impossibilidade, por6m nao obediencia de nosso 
» ^Ivedrio ; pois i certo que cada urn de nos , se 
» deixoti de vingar o aggravo (todas qiiantas ve- 
» zes padeceo a offensa ), fbi porque considerava 
» que sua espada primeiro Ihe havia de servir de 
» verdugo , que aos outros de exemplo ; experi- 
i» mentando que se convocasse companbeiros , • oi 
i> bavia de soffrer inimigos ; consinadb da baixeza 
» com que muitos , por indignas conveniencias, sac 
» tnais estrangeiros que natures. £sles receios atro- 
» pellarao minha resolucao alguns annos; nao 
» que me atalhasse o risco de minha pessoa, senao 
» que me atava as maos a contingencia de arris- 
» car as de vossas merces d'esie risco, com as or- 
» dens, e comi os auxilios , que tenho convoqado 
D e pedido contra estes mortaes inimigos. Temos 
» em nosso favor a justica da causa, e nao duvido 
» que acbaremos propicio todo o Estado g^ral ; e 
» a vinda dos governadores de Indios e M inas com 
)) seus tepcos , que Ja espero cada bora , a presenca 



» dos capitaes Antonio DJas Cardozo , Paulo Vel-? 

» lozo, e Antqiiio Gomes com sessenta $oldadob e 

» quarenta aventureiros , que da Bahia vi^rao por 

y> seu gostOy os mais d'eiles reformados e todba 

» valercsos. Em todas aa freguezias nomeei capi^ 

» (aes, pessoas que na occasiao bavemos de acjbar 

yi prevenidos com lodos os moradores de seu dis«- 

x> ^rito> que ja esperao meu aviso para executiu'em 

Tf> nosso intento ; este pende da occasiao que tra^ 

» zemos entre maos, que 6 o dia das vodas que 

y> se esperao. Nellas se hao de achar os princjpaes 

10 Flamengos do Arrecife , rogados para autorizar 

» a mesa ; e sei eu que o vinho os ha de entr^gar 

» primeiro a.vinganca que a resistencia; porque 

» tenho prevenidos mancebosi que secretamente 

» armados os hao de matar a todos ; com deter- 

)) minaeao de se tomarem os camiahos para o Ar-* 

» recife (a onde primeiro ha de chegar nossa es- 

» pada que a nova de seu castigo), que facilmwie 

» senborearemos destituido de cabecas e aripaa 

» (alheos os Holland ezes de defensa pelo Siomno 

D e pelo descuido). No mesmodia e bora se ha 

» de obrar o mesmo em todas as partes, a onde o 

A) inimigotiver fortificacao e gente; e quandosuo* 

» ceda nao ser a conquista por entrepresa , sera 

yf por cerco ; para o que tenho almazens providos 

» de municoes^ armas e mantimentos^ a custa de 

» minha industria e da minha (azenda ; porque 

» sempre me pareceo infallivel o achar em vossas 

» merc^s valor e promplidao para empreza de 

» tanta utilidade , como gloria para cuda um d^ 

)» nds ;^nao so pelas vidas, senao tambem pelo Rel 



SS2 GARBKnO LVaiTAlie. 

If Btturaly a.qaem s^nrimosy epela reli^ao que 
n defendemos. » Impacientes deixou aos ouTtnles 
esta prolongada pr&tica , porque nao podiao repri- 
mir alvoroco^ com que no fim d'eUa gritarao a 
uma voz : « Viva El Rei Dom Joao o Quarto dosso 
» senhor ! Tira a fd catholica romana que profes- 
» samos ! e viva Joao Fernandes Vieira , a quern 
» todos aeclamamos por nosso capitao e nosso go^ 
» yernador nesta empresa de nossa liberdade ! n 
Com tanta satisfacao os deixou a dispoai^ao, animo 
e getierosidade do novo governador^ que logo Ihe 
jurarao obediencia, .fidelidade e aegredk>« 

X'Xyil. Difficil cousa e conservaiHse o segredo 
entre muitos, m^rmente quando entre elles ha al- 
gtiAs suspeitos de traicao. Gonie9ou<-8e a e6{)alhar 
a rumor entre os HoUandezes de que os Portugue-* 
zes se quertao revoitar; este oonfirmava-se todos 
OS dias com as cartas anonimas que os traidores 
esoreviao aos do conselho, nas quaea rektava^ tudo 
o que se tinha determinado, e requeriao que se 
nao fiassem de Joao Fernandes Vieira | porque, 
traidoraos Sstados, conspirava com outros muitos 
contra estrangeiros e naturaes : que se acudisse 
com tempo a eminencia do damno ^ pois rfimor 
o propunha tao vi^inho. Os judeos, por natureza 
tiihidos i gritavao sem descanso ; e por sem duvida 
affirmavao que os Portugueses andavao levantados, 
e tinhao armas e munieies escondida^ , com dia 
xserto para darem no Arrecife, e passarem a espada 
quatito achassem com vida ; sendo Joao Fernandes 
Vieira a cabeeaqfie os governava^ imhicigso das fa- 
aendas 4e todos ; quese cfMCigasse com toda a pressa 



GAaTRlOIO LUSITANO. 225 

e rigor a traicao^ autes que o goipe impossibilitasse 
oreparo; € premiastem com franqueza os le aes^ que 
tinhao revelado a conapiracao ( erao eates dez aii 
dotze ). Que despertassein ao brado do Maraohio, 
sobejo para osacordar do mais pesado somno. — 
Nao derao ao principio os HoUandezes grande iqh 
portaucia a estes rumores ; mas poc fim , vendo 
que a queixa .se augmentava e se tornava tumui- 
tuosd) oome^arao a eonceber reeeio ; conferirao en« 
tre.st o remedio, esalo decretado, com discreta 
politica y que se diasimulaa&e o reeeio , porque ae 
nao atrevesae.o pavo ; e comcauCelofla destreaa dei** 
tavao OS do goveruo os moiivos de queixa as cos- 
tas da iuYeja, que todoa os moradores tiuhao a 
Joao Feraandea Vieiray e oao a causaa que tivesse 
dado para ae crer a rd)eUiao dos naturaea. Dehaixo 
desta simulada conGan^a mandarao oa do coiise->. 
Iho rogar a Joao Feraandes Vieira que foase ser^ 
\4do aehar-^e ao outro dia no Ari^oife para aaai-^ 
guar alguns . papeia impor^autea a Gompanhia, 
Deichou-se achar do porCador; fallou-Uie alegre; 
reapondeo. cortezao ^ que ae nao foaae ao outro dia. 
p0P oceupa9ao preciza ^ que Irazja entre maoa, ae 
Bfto perderia o negocio; e quando a materia nao 
permittiase dilagao » nundaria seu bastante procu- 
rador^que em tudo que fosae aerYifo desuasaenho-! 
rias e da Gompanhia auppriria inteirameute a £aUa 
de sua pesaoa ( d'uma e outra parte se vesiia a 
eautella da mesma cor ) • Apertou o mensfageiro, 
que era neoessaria sua meama presen9a , e que sem 
elta nada se poderia concluir } e porfiou com tat 
aperto iqud deo por terra coat toda a disaimulp^ao 



da eftciisa. Joao Fernandes Vieira pelo inteirar que 
penetrava o intento ^ e que peles mestqos fios Ihe 
oortava o laco j Ihe disse que se nao caucasse em 
o persuadir , porque sabia mui b^m os inimigos 
que linha no Arrecife; e nao ignorava o que ma- 
quinavao contra sua pessoa; e que da sua parte 
dissesseaos senhores do governo nao perdessem 
teinpo em Ihe mandarem seguro real , porque 
mais real seguro era o da sua casa. Nao se derao 
OS HoUandezes por entendidos de resposta tao re- 
soluia , appellando para o tempo , certos de que 
Ihes metteria nas maos a Joao Fernandes Vieira, 
ou por entrega de sua confianca , ou por descargo 
de sens alliados. Passados poucos dias chegou um 
barco d^ aviso, que mandava o commendor da 
Lagoa, pelo qual certificava aos do conselho serem 
passados para a campanha de Pernambuco o 
governador de Indios e Minas D. Antonio Phi- 
lippe Camarao e Henrique Dias com os sebs teiv 
90s ; o que soub^ra por pessoas confidentes , que 
falUrab com alguns dos sobreditos sbldados^ e pelo 
trilho da marcha , (pie eile mesmo vira, muito pelo 
interior do sertao; e que de marcharem furtivo&se 
colhia intentareni algum novo.damno. Com indi-^ 
cios tao evidentes e prova tao certa se resolyeo o 
Hollaiidez em fazer toda a diligencia por haver as 
maos a Joao Fernandes Vieira; mas este; avisado 
do que se maquinava contra elle, pozfmcobro 
todo o precioso de sua casa ; fez aviso a (pdos os 
capitaes , que havia nomeado nas freguezias , de 
tudo que era passado ; escreveo lima carta g^ral, 
em que referia os sucoessoa passados, estado pre- 



CASTRIOTO LUSITANO. 225 

sente, e a delenninacao futura; concluindo a rcla- 
cao com juslificar seu zelo , e a necessidade que 
o constrang^ra a acceitar a obrigacao e o posto de 
governador das armas, e cabeca da sublevacao, 
ila inao\los opprimidos, que uniformes o acclama- 
rao Hbertador da patria , nao porque a ambicao o 
cegasse^ senao porque o niaior servico de Deos e 
de sua patria se conseguisse. Assignou a carta 
por todos OS confidenteSy e a remetteo ao gover- 
nador do Estado Antonio Telles da Sika, a quern 
jurayaobedienciaefiddidade.D'este dia por diante 
andou Joao Fernandes Vieira de mata em mata^ 
sem voltar a sua casa, nem a^lguma de suas fazen« 
das : nao houve parte a onde o achasse assistente 
segunda noite , porque mudava de sitio cada dia. 
Acompanhavao-no seu sogro Francisco Bereoger 
de Andrada , que nunca se appartou de seu lado, 
alguns moradores mais confldentes, e sens fieis es- 
cravos, que Ihe serviao de companhia e de defensa. 
XXVIIL Em 7 de Junho do presente anno teye 
Joao Fernandes Vieira nova carta de que os go« 
vemadores de Indios e Minas com os seus soldados 
iinhao passado o rio de Sao Francisco. Estas car- 
tas, com outras de pessoas confidentes , commu* 
nicou Joao Fernandes Vieira aos leaes para os 
animar, e aos traidores para os confundir. Com 
elias mandou ao yigario da Varzea Francisco da 
Costa Falcao , finissimo Porluguez , que da sua 
parte dissesse aos moradores d'ella se declarassem, 
para saber se os havia de tratar como a fieis , se 
como a inimigos , para que na occasiao cohhecesse 
seu braco a quern havia de amparar, e a quern devia 
L 15 



2S6 CASTMOTO LOSITANO. 

perseguir. Respdndfirao todos que erfto Terdadeiros 
Portuguezes, e como taes os acharia prottiptos 
com fazendas e vidas para offei'ecerem pelo sefiMco 
d'El Rei e fideiidade da patria. 

XXIX. Dbus traidores, nao podendo pdr mais 
tempo conservar occulta sua perBdia, tom4rao o 
catninho do Arrecife, aubirao a salla do coi!fi«elho, 
e delatarao Joao Fernandes Vieira como^ fatitor da 
Tebelliao que se preparava- contra os E&tados, di^- 
tendo que o golpef estava immiriente, e qut em ne- 
cessario evital-o quanta anted. Para ^miik de 
«ua perversidade d^rao os nomes e as morad^s doB 
toUspirado^ para s^ tomaremjior lista ; neili ge 
ftlett^ra6 os que deo a verdade^ os que Mitregou 
o odio y ^ OS que propoz a sttspeita y e moiloa qm 
naquella occassiao advertio a cobica, — Nio «e 
descuidou o Flamenco em applicaf defeiiBhos so 
mal J que ]i f^mia. Mandoureparar todaa su«d feiv- 
^fe^^oe^i e conduzir todas suas armas^ pubiican»- 
do o kprest6 seili descubrir cT motive. Gb^ou a 
noite da Vespera de Santo Antonio 42 de Juiiho^ 
e^ura^ desabrida e tempe^t«iosa ; fio prinoipio 
d^ella sairao do ArreciOs div^r^ift matigiMde iokU^ 
df^S) d^ Tinte at^ trinta homms cadai unia, com 
t>rdem secretas, que por difiertaies i^eredbs loaia^- 
ietii todos OS eaminfaos tfue'gniassem para as e»^ 
%as de JoaO Fernandez Vieiiisiv de soria qua a um 
mesmo teknpo diqg;dssetn a elias , e as certaaaan^ 
f ettdo por «etn duvida que o seguTO do tempo e a 
ifnposstbilidade da ftiga 6 entpegaria^^ oa ;A mop- 
le, ou 4 prisad. Engnnou-^Q^ o^derejo^ poi>qiie ac 
linha adianiado o tim^io ao golpe« fintrama som 



GASTRIOTO LUSITANO. 227 

casas, \ irao e revolvferao todos os aposentos e re- 
lre(«&, sem achar^n indicios do que buscavao; 
quebrarao a furia em roubar e destruir tudo 
quanto podia lervir a cobica e a vinganca. Para se 
fazerem temer as$entarao corpo d'armas naquelle 
lugar, donde cotiu) de centro despedirao partidas 
de aoldados a toda a circumfereacia; pela qual en- 
Irarao iia$ casas d'alguna moradores^ ma$ nao 
acharao neUas viva peaaoa ; prevenidos do aviso ae 
tinhao redrado as matasi e canaveaes, onde dor^ 
mirao. Tambem d^rao sobre as casas dos traid(>- 
res , como dies mesmos tinhao pedido para milhor 
oofarir sua perfidia ) um dos quaes prend6rao, por- 
-que Ihe conyioha deixar^^se achar^ e o levarao 
(para o Arrecife^ maa com tal familiaridade, que o 
node destruio o artifieio, e a falta de companhia 
.publtcmi a-industria. •-•No dia seguinte, dedicado 
m Saoio Antonio^ se havia de celebrw sua festa na 
capdla de um aageaho de Joao Fernandes Vieira; 
pfH>to oossaltodoinimigOf e o estrondo das armas 
cimverteo^em belUca a manha, quo havia de ser 
feativa. Todos os moradores. do cootpriio 4ratavao 
^faa armaS) jsanhum da festa 4 ass^ntarao que se 
fftiardasse esta para outra ocea^iao, e se mud^sse 
fBm ft tgreja da Vnri^y a onde poderia assisUr a ella 
o f^nrernador da liberdade^ cpmo depois assistio ; 
e se^fez a festa oom todji a sQlemaidade e seguro, 
por nzM das sentifieUas que estavao .ao largo. 
. XXX. A'mata, onde Jpao Fernandes Vieira 
tiaha passado aquella noite, chegiraq , ao romper 
da alva^ alguus escravosi seuscoafideales^ com 
as noAkias da aasaUada^ que Flamengo ^era em 



22^ CASTRIOTO LUSITANO. 

sua casa , desejoso de o matar ou prender ; e da 
violcncia com que se roub^ra c destruira tudo o 
que tinha valor epreslimo.Logo que acclarouo dia, 
ixiandou descobrir o campo, e certo na seguranca 
d'elle f se foi com os de sua companhia ao engenlio 
de Luiz Braz Bezerra, homem principal, capaz 
e fiel , para consultar com elle o que^ conforme ao 
estado das cousas, se devia obrar. Acbarao-se 
nesta conferencia Fi^ancisco Berenguer de Andra- 
da , Chistovao Berenguer, Anlonio Bezerra, o ca- 
pitao Antonio Borges Uchoa , Francisco de Faria, 
Antonio da Silva, capitao dos cavaUeiros^ o capitao 
Antonio Carneiro Falcao, Bernardim de Carvalho, 
Cosme de Castro Fessoa, Manoel Cavalcanti, An- 
tonio Cavalcanti (com dous fllhos), o capitao 
Joao Nunes Vitoria , com alguma gente d'armas de 
fogo, JoaoCordeiro deMendanha, AlvaroTeixeira, 
Amaro Copes Madureira , que depois yeio a ser 
capitao. Propoz a todos o que desejava ; e quando 
esperava o voto de cada um, responderao confor- 
mes, que elles o tinhao feito e acclamado govema- 
dor das armas; e como tal devia ordenar, e elles 
obedecer;.e declarado seu parecer, estavao promp- 
tos para 6 seguir. Mostrou o govemador o muilo 
que convinha fazer pe de exercito, e marcharem 
formados e unidos a buscar alojamento convenien- 
te, Seguindo este parecer, deixdrao o engenho de 
I.uiz Bezerra, e se forao aquartelar em um outeiro 
si tuado no interior da mata^ que Ihes servia de 
atalaia e alojamento, Neste se detiverao tres dias, 
e nelles se Ihes aggregou toda a gente que se 
occupava no servigo das fazendas , a quern Joao 



CASTRIOTO tUSlTANO. 329 

Femandes Yieira prometleo premio, se nesta 
guerra servissem de sorte que o merecesem. Nes- 
tes ires dias dispoz o governador os apprestos ne- 
cessaries para a conduccao da gente e dos vi veres ; 
fez rezenha da sua gente ^ e se contarao cento e 
trinta homens^ todos soldados noanimo, muitos 
faltos d'armas , todos de pratica. Com esta compa-* 
nhia marchou para outro posto , e fez alto meia 
legoa da Varzea, em um lugar que a naturcza cer- 
cou de alagadicos , chamado Camaragibe , accom* 
modado para a facilidade das inteligencias e da 
defensa. Fez aviso a iodas as partes da publicacao 
da guerra , para que em todas se pegasse em ar- 
mas, e o s^uissem. Mandou'deitar bando por as 
fregqezias que os escravos Angolas, Minas, Ardas 
e mulatos , que quisessem servir ^ e allistar-se para 
esta guerra debaixo de suas bandeiras, se Ihes 
daria paga conio a soldados^ e gosariao de todos 
OS foros da milicidy conseguindo liberdade^ e Ihes 
promettia, confiado no favordo ceo, resgat^l-os, 
e dar pot* cada um a seu senhor o pre^o , em que 
$e avaliasse/de sua propria fazenda. Mandoupu^ 
blicar por todas as partes , que p Flamengo tinha 
decretado passar a espada a todos os mancebos de 
quiuze ate trinta annos : industria que apadri* 
nhada pela prisao , que se fez de um , obrigou a 
muitos a buscarem as bandeiras da liberdade. 

XXXI. Por todo o contorno do Arrecife se to- 
cava a rebate ; ouvia-se o eslrondo da guerra com 
a formidavel voz do temor e do tumulto, accre- 
centado com o grilo do espanto e da sospeita, cor- 
rendo lao agitadas as noticias, que nada $e media 



}S0 CAsmamo lusitano. 

pela verdade, tudo pelo receio e pela causa ; a 
onde a confusao mais avultava era dentro no Ar- 
reciPe : viao os moradores d'elle entre a culpa, e 
inPeriao que alii se haviao de experimentar mais 
rigorosososcastigos. Os superiores , accusadosda 
propria consciencia, eseondiao o medo, e mostra- 
vao nas apparencias que n&o havia para que lemer 
a conjuracao dos tumultuosos faltos de tudo; 
por^m nenbum deixava de jnlgar que a conspira-* 
cao Unha alicerce^ profundos ; procurarao com 
diligencias occulias descobril-^s; e para socegar 
a inquiefiica() do receio popular mandarao sair 
uma erobarcacao ligeira , e nella a Theodo^io £s- 
trater, e a Guilherme Wandrevot (intelligeutes aa 
lingua portugueza , e exercitados em similhantes 
negocios ) com ordem secreta que tomassem porto 
na Bahia, e espiassem se nella faavia ntos de 
guerra, ou levas de geate, em numero que se po« 
desse presumir bastante para fomentar a conspira* 
Qao dos levantados ; e com negimento publico/que 
em nome dos Estados acusassejn , diante do go« 
Ternador Antonio Telles da Silva, a rebelliao dos 
naturaes, e o favor que Ihes davao -os foragidos da 
Bahia. Com estas instruccoes sairao do Arrecifc 
em OB primeiros dias do mez de Julbo d'esle anno 
de 1645. Com a mesma. cautella despacfairao 
correios secretos a todos os commendores e capi-^ 
taes das pracas e quarteis , que tinhao nas terras 
de seu dominio , com aviso do que temiao , e ordem 
que se. foruficassem , e recolhessem todos os sol*^ 
dados a sens presidios, empregando todo cuidado 
em tomarem os eaminhos , para que a nova do 



GASTRicnro tusTTAiia asi 

levantameQto nia lavrasie, alterando 09 animos 
do^ obedienles. For Jorge Hoiuem Pinto (morador 
poderoso da Paraiba, en(aa assistenteno Arrecife) 
e Antonio de Oliveira, provedor e ouvidor da ilba 
de Itamaracdi mandarao ofierecer a Joao Fernandes 
Yieira duzentos mil cruzados , pagos a onde elle 
qui^essQy e com as aegnrancas que apontas^e, por- 
que 4^gi^ti$se do intento comecado, e deixa$se a 
capitania em aeu antigo sooego : propoata ^ a que 
o jnagnanimo varao ( depois de indifferentes res- 
postasi necesaarias para dilatar o tempo) reapon- 
deo que nao vendia a honra de castigar tyrannos 
por tao baixo pre90. Com diligencia publica man- 
darao reformar a fortifica^ao de lodas as fortalezas 
do ArreciCe, mettendo nellas dobradas guarnic5es, 
muniQoes, armas e mantimentoa, tudo obrado 
com a industrial de que nao era seu (emor a causa;, 
^nao o mal fundado receio do vulgo. 

XXXIL Vendo os do couselho que nao pudiao 
ganhar com promessas Joao Fernandez Vieira^ 
manddrap prender todos os moradores que julga* 
rao fuspeitos, piara assim diminuirem numero 
dos revoltosos, Tinhao publicado dias antes um 
edital ^ que mandava a todas as pessoas de qualquer 
qualidade e estado que fossem, que do Arrecife, 
uejn por si , nem por outreip , podessem tirar fa- 
zenda, sustento, ou genero alguip por contracto, 
venda , commulacao ou empreslimo^ sem expressa 
licen^a dos superiores do governo, com a niesma 
pena a reos e authores, Pareciapolitica , em ordem 
ao provimento da praca , e foi ardil do latrocinio; 
cpmo (ambem foi oulro decreto que se j)ubU- 



2S2 CASTRI(>TO LUSITARO. 

cou em o fim de Jiinfao d'este annoi por todas as 
partes de sua jurisdiccap, na seguinte forma, a Os 
» muito nobres senhores do supremo conselho das 
» capitanias sujeitas aos mui altos e poderosos 
» Estadosde HoIIanda, pela illustrissima Compa- 
» nhia das Indias Occidentaes, etc. Por qaanto 
» informados e oondoldos d'algims moradores de 
» nossa obediencia ( movidos d'um falso r«imor, 
» divulgado por traidores, que affirmarao que 
» nossos soldados , com ordem nossa ^ faaviao de 
» sair da campanha a malar e a roubar a (odos os 
» naturaes que vivem f6ra de nossas fortificacoes) 
» que seausentavao para os matos j deixando suas 
9 casas e fazendas, com notavel detrimento de 
» suas pessogs e famiiias ; por es(e decreto Ibes 
» fazemos saber que nossa tencao ^ defender e 
» conservar a todos nossos subdilos em sous foros 
}) e isensoes , com real seguro de seus bens e suas 
» pessoas. Em execucao do qual requeremos a 
» todosy da parte de Deos e da nossa, que sem re- 
» ceiaalgum se tornem as suas vivendas, amda 
» que andem ausenies por crimes, dos quaes desde 
» logo Ihes damos plenaria absolvicao; nao isen- 
» tando de nosso perdao aos que houverem en- 
» corrido em delito de traicao , com tanto que 
» nao sejao cabecas da rebeldia , e que dentro de 
» nove dias se venhao appresentar ante iids, 
» para fazerem novo termo de fidelidade, e rec&- 
» berem novos passaportes de seguranca. £ decla- 
» ramos que a todos os que faltarem a esta nossa 
» ordem , os havemos por rebeldes , e procedere- 
)) mos contra elles , como contra inimigos decla- 



CA6TM0TO LDBITAlia 33S^ 

9 radM, 88m ptecb^de, n^ai remissao ftlguma* 
> Dado no supremo cooselho em 18 dias do mee 
» de Julho de 1 645 ; sellado com o sello maior de 
» nosso cargo. Joao Boiestrate. Henrique Manoel. 

10 Pedro Bakes. Joao Balbeques. » — PnUicadb 
este cavilloso decreto^ acudirao ao eonselho aquel- 
les moradores que nao tinhao podido sair de suas 
casas p e outros que nao tinhao lido noticia do le- 
vantamento; fizerao todos novo juramento^ rece«> 
berao novos passaportes , e dcixarao por cada urn 
dous dobroes, que era o fim destas prematicas, 
sempre promettidas nunca guardadas. Muitas ou- 
tras vexacoes pralicarao os Hollandezes conira os 
moradores, que seria longo de referir , e que em 
tudo sc pareciao com on tras muitas de que temos 
dado notieta. 

XXXIII. Nao podemos deixar de i^ferir (para 
clareza da historia ) como entre os preso& estava 
no Arrecife o traidor, de que a cima dissemos : 
negooeava este com os Hollandezes qtie dimulada- 
mente o igualassem na sorte com os mal^nados, 
para que se nao entendesse fora o autor da trai- 
eao. £ste ( nao mereee mats nome qnem vive da 
infamia),falso em todoo estilo, dehcou manifesto, 
no do Arrecife , o da perfida. Sua prisao era a casa 
do goTernador das armas hoUandezas ; com libep- 
dade para fallar com todos , e nao^o comprehender 
n^ihtima pragmatica ; tinha porta franca para 
mandar do Arrecife , e receber de fdra tudo o que 
queria y e para que sua mulher Ihc fosse assistir o 
tempo que die ordenava. Todos os suporiores do 
governo o visitavao com assistencias e mimos; com 



mM ccmtinua^o o ooronel Mtfthks Beke» e oaju- 
deoB maift oonhecidos ; d<>» Portuguezea, nenbum 
fiel $ a4 Qutro traidor ( homem de lao baixa SQrte^ 
que o ddicto Ihe nao affrootava o nome) a aimi- 
lhaD9a influia na corrcapondwcla. Occupava*sQ 
eaCe aegundo em recother tudo quanU> se paasava. 
entre oft no9so8, para o refepir no Ari^cif© ao ou-. 
tro^ o qital o commuaioava aoa Hollandes^a; oom, 
o qua , nao havia cousa que sq passasse eatre a<Ss^ 
da que o inimigo nao tiva^^e inteira ni]4icia« E. 
d'e&ta maneira Yiyiao estea dous homeody \m da 
trai^a^ do outrQ. 

XXXIV. Joao Fernandes Vieirai a quam jaad» 
se esoondia, informado dos desprexos com que 
esteB dous traidores o tratavao diante da« HQllan-* 
dezes e judeos, desfazendo em sua passoai J^% 
poder e sea iotenlo j e sentido doa aggravoi que 
padeciao muitos homens de bem por seu re^^eito,. 
detecminpu com um goipe fcirir a todos, e mandou 
fixar em todoa oa lugarea pul^icosi dentro e fdrat 
do Arrecife, este editaU « Joao Fei^andes Vieiraii 
» primeiro a/Qclamadpr da lib^rdadO) e governadoii^ 
>} da$ armaa na reatauracao e restituicao de . Vewn 
» nambuco a aeu legkimo aenhori faco saber «^ 
n loda a pesaoa de qualquer eatijido^ qualidade e na^ 
» 9ao , que quiz^ tomar aroiaa contra a lyrannk 
>x e iajusta pccupa^aQ do EoUan^de^ injmigo oomr 
ID mump para o bem.de tocka ealaa capiianidai e 
», dos opprimido$ moradorea d allaaiassentepraQa 
» dentro de quadra diaa depoja da nolkia 4!eate 
)> nosao editaly aob pena de o haver moa pov rebeldei 
)) e procedermoa contra elle como contra inimigo 



GASTBIOTO LUSITiaiai 385 

» da patm; e sendo estrangeiro qu judeo, que 
» qiteira fiear em sua oaga^ e cuUivar suas fa«^ 
» zendas debaixo de no^so amparo , o defendere- 
}} remos como a Gel vassalio da coroa de Portugal, 
» e Ihe daremoft todo o favor necessario para -co- 
» brar todas e quaesquer dividas, que com justifi* 
» cado titulo Ihe pertencerem ; al^ do que se 
>i iKe dari satisfacao ao s'oldo que constar Ihe fioa 
» devendo a Companhia de HoUanda; e em caso 
» que queira passar desla para qualquer outra 
» provincia , pot razoes que tenha para nao mill* 
n tar debaixo de nossas bandeiras , Ibe daremos 
>i livre pa^^agem ; advertindo e requereudo a 
» todos que so nao deixera enganar das appa* 
» rentes confiancas, e falsas promessas do femen- 
n tide Hollandez, Dado desta nossa carnpanha de 
>i Fernambuco em 24de Julhode 1645 annos. 
M governador, Joao Fbknandrs ViEiaA, » Doidos 
do golpe , e irritados da iujuria, maudarao os Hol- 
kindezes deitar bando por todas as pracas e forta-> 
lezas do Arrecife, polo qual promeitiao quatro mil 
florins a quern matasse ou prendesse a Joao Fer- 
uaudes Vieira ; e que sendo o matador escravo 
receberia o dinheiro , e ficaria livre ; da me^ma 
sorte se estivesse comprehendido em qualquer 
crime. Por outro bando e publicos editaes pro- 
metteo Joao Fernandas Vieira oito mil florins a 
•qualquer pessoa que Ihe apresentasse a cabe9a 
de cada urn dos do conselho supremo; aOs quaes 
escreveo uma carta, cuja sustancia era arguil-os 
dc femen lidos, herejes e horriveis tyrannos, com 
maos go para o roubo, e linguas so para injuria e 



3M GA8TSKm> tmSFTAWX 

para a blasfemia. Qne ouvia dizer publicavao 
buscSlK) ; que se nao cancassem em especalar ca^i- 
minhos infames, que elle 4 cara descoberta os iria 
visifar ao ArreciFe , para o que tinha quatorze mil 
soldados brancos , e vinte e quatro mil moradores 
indios , que nesta faccao da liberdade o seguiao : - 
numero , que primeiro Ihe aggregou o desejo da 
vinganoa y que o braco de sua diligencia. Grande 
pezar e cuidado causou esta carta ao Flamengo^ 
porque conhecia o caracter de Joao Fernandes 
Vieira , e pelo terreno de seu dominio Ihe nao pa- 
recia exagerado o numero de combatentes de que 
elle Ihe fallava. Escondeo quanto pode o receioi 
occultando-o debaiiLO de apparente desprezo por 
nao allerar os parciaes. 

XXXy . Em quanto eslas cousas se passavao em 
Pernambuco , succed^rao outras em Ipojuca, que 
merecem ser referidas. Havia naquella terra um 
mancebo valoroso^ chamado Domingos Fagundes, 
natural da villa de Viana do Lima, o qual pelos 
sens alentados espiritos fi5ra nomeado capitao d*u- 
ma companhta paga (com a obrigacao dea levan- 
tar). Ja se tinha destinguido varias vezes este 
mancebo por varios feitos , que Ihe tinhao gran- 
geado grande reputacao entre os moradores , e so 
esperava a primeira occasiao favoravel para se por 
em eampo. Aconteceo que em dias de Junho d'este 
anno succedeo matar um morador a um judeo ca- 
sualmcnte. ( Era cohtratador, e dos ricos do Ar- 
recife.) Acudirao valedores poruma e outra parte; 
e na pendencia ficArao mortos , pclas custas^ ou- 
tros dous tratantes, tambem judeos. Foi a revolu- 



GASTRiOTO LUSITANO. 237 

cao do lugar Cal que o caibo do presidio hoUandez se 
imaginou perdido. Saio a prender os delinquenle8» 
mas nao o conseguio, porque ja se tiohao posto a 
salvo. capitao Fagundes , que a este tempo se 
acha^a com dezeseis soldados de sua companhia, 
persuadido da confusao que causarao aquellas 
mortesy deo sobre algumas caSas de HoUandezes, 
c nellas nao deixou vida o ferro, nem fazenda o 
fogo^ que nao consummisse ; e nao ficdra naquella 
parte Flamengo, nem cousa sua, se Ihe nao ataraas 
maos a falla d arraas de fogo* Determinou buscaU 
as a ousadia a onde as guardava o perigo : assaltou 
uma casa forte, na qual se aquartellava uma com* 
panhia de soldados hollandezes; com morte de 
ires, e fugida dos mais a gaahou^ e com as armas 
e mtinicdes dos ciespojos guaraeceo a sens soldados. 
Ja ao valente capitao pareciao pequeno emprego 
para seu animo os assaltos forlivos : a eara desco- 
berla investio tr^s barcos, que (no chamado 
Porto Salgado ) estavao a carga.^ cqiq boa quanti'- 
dade de assucares e iarinhas ; e os rendeo , a.pezar 
da guarda hoILandeza que os defeiidia, Neste 
tempo ehegou a nova de que eslava, Joao Fernan- 
des Vieira posto em campo, com sufficiente pe 
d'exerdtOy e Amador Araujo^ que era o principal 
capitao d'aquelle diatrko, com todos os mais c^pi- 
taes , soldados e moradores se declar&rao por^ par- 
oiaes na sublevacao^ siipprindoa falladas armas 
com a grandeza dos animoS) que os anin)ia.va a 
lancar mao de dbucos , davdo^^.&c^.de monte^ e 
pAos tostados. Fez grande in^re^sao no Arrecife 
esta nova ; eausou espanto a todos ^ especialm^nle 



238 CASTItlOTO ECSITAftO. 

aos jtideos^ os quaes sairao pehd ruas appelli*^ 
dando jttstica, e persuadindo vinganca; tal foi a 
vozearia que fizerao elles e niais habifantes as poitas 
dos conselhos e dos minislros, que estes se virao 
obrigados a chamar o general das armas Hearique^ 
dando-Ihe ordem que com seiscenlos homens niBr^ 
chasse a Ipojuca castigar a rebelliao.Em 24 de Ju^ 
tiho stiio elle com effeito da cidade Mauricea^ es«- 
condido com as sombras da soite , e com os reeatos 
do ftilencio. Em quanto faz a viagem daremos razao 
do que succedeo na campanha, onde deixamoa 
ao gorernador * da liberdade ( neste mesmo dia) 
occupado em manifestar a empresa por editoes 
publicos, dando por 8tia» ordens o primeiro iwr 
ptklso a restaura^ao de Pernambuco. 
' XXXVI. Nao dava o governador da Itberdade 
urn passo de que o Hollaadez nao tivesse noticia ; 
effieito da vigilancia com que os traidores , ^que 
assistiao entre iioa, oinqueriaoe dfdataicao. Ten- 
cionava elle dar uma poderosa aissaltada no lugar 
em que se acfaava Joao Fernaodes Vieira ; mas 
este^ que tambem tinha boas eapias^ relirou?a6 
paraamata, que chamaodeVasco Fires Benralho^; 
d'alli mandou chamar o capilao Antonio Dias Gar- 
dozOy que com a sua genie se viesae incorporar 
com elle; o que logo fez, sdfuido doaaoidados de 
sua companhia. Assim eomo ehegou, Ihe deo Jeio 
Fernandes Yieira patente de sargento maknr^e pret* 
minencias de tenenie ^neral, ardenando ^ne 
todos Ibe obedeeesaem eomo a sua propria peasoa. 
Cfaamou a conselbo os hemena que o podtao dar, 
e tielle ^e/rasotveo que mo coaviidift esfMcar aUi o 



J 



CASTRIOTO LimiTAm). W9 

itiimigo com gente bizonha) falta d armas e de 
.pratica, e em tao pequeno numero. ApfMorado esle 
parecer, se escolheo por Ingar mais cotiveniente 
o sitk) de Madape, quairo Icgoas distaste , e por 
importante abrir^e novo caminho pela maid) para 
^e efieobrir a marcha, furtada a espias e traido- 
res. — - Execulou-de o conselho com promptidao; 
abrio^e o caminho j nniarchou o pequeno exercito 
{ consta^va d^ duzentos cincoenta homeos e trinta 
negros mmas); fizemo alto em Maeiape/ onde se 
V^t aggregarao os capitaes Francisco Ramos, e 
Bra2 de Barms, com quarenta hom^ns bem arma- 
iio^7 e Joao Barboza, Selnisiiao Ferreira, Domingos 
th Costa, ifoao Nunes da Mota, e Domingos Rai* 
.mundo, com a gente qn^ pod^rao iraier comsigo. 
Ordenou govemador da liberdade ao ajudante 
Amaro Cordeiro e a ontros offictaes da milicia 
(cabode todoso P. Simao de Figmiredo) que 
fo^sem pelas ribeiras de Capebiribe , atd a nMita do 
Brazil) iniimar a todos os moradores, que CQra 
stias wmAse escrsTos se viesaem logo para oquelle 
itig*r; alias os teria por rebeldes, e ccmio.taes sc 
procederia contra elles. Estavao os aninitM tao bem 
^tspo^os, e em tal a confiaiica que todos tinbap 
i»i Jow Ferinndes Vteira, que em cinco dias que 
^le se ieiWB em Madape se Ihe aggregarao oilo«- 
idenlos homeniS) osmais d'dles praUtsos na guei^ra, 
per baverem malifado nts loo^sioes passacUs ; po- 
ftoi so 'tarn trinta armas de fogo, poucas para a 
gDiUe que eni^ muUas para o rigor totn que t). ini- 
mi^ asprobibia. Bara supprir esta Mta mandou 
« goveraador albapar bom ottmero de eipie^rdasi 



240 GASTRIOTO LUSITANO. 

que para esle fim tmha escondidas ; aos mais fez 
annas de chiicos e p^os tostados^ que suppriao a 
falla de pieas. A eata beroica resoiucao dos mora- 
dores juntou-^e a <lisciplina ; e em pouco tempo 
comecarao .os nossos a ser temidos do inimigo pelo 
numero e pelo denodo , que todos os dias crescia, 
e que Joao Fernandes alimentava com o exemplo 
e com a fazenda^ pois por tempo de tree mezescor* 
reo por sua conta toda a dezpeza do exercito na 
campanha. Em quanto o exercilo nao muda de alo- 
jamento, daremoa razao do que passarao os dous 
embaixadores f que o Fiamengo mandou a Bahia, 
por nao tirarmos aos successos seu piroprio tempo* 
XXXVII. Em o numero XXI de csie sexto li vro 
referimos' como em os {Mrimeiros dias de Julho 
d'este anno mandarao os da conselho supremo em* 
baixadores a Babia , com ordens que com toda a 
diligencia descubrissem o animo do goveruador 
do Estado Antonio Teiles da Silva ^ e sondassem o 
fundo que tinba a subleva^aOi e intento de Joao 
Femandes Vieira. Com ventp em poppa.ebegara oa 
Babia, tomarao terra e toda a informacao ooncer* 
nente a seu intento. Procurarao audienda do go*- 
vernador, e nella Ibe expuserao as queixas dos 
senbores do conselbo supremo i^ontra Joao Fer^ 
nandes Vieira , c as suspeitas contra elk governa- 
dor de ttsr coadjuvado aquella rebelliao; c condui* 
rao per protesfar contra similbahle procedimi6nto^ 
fazendo-o Tesponsavel pelas perdas e damnos que 
se seguissem, pois os Estados baviao de tomar vin* 
gancj^ d*uma tao grande ofFensa. — Ouvio o gover- 
nador com atlen^ao os embaixadores/ e com pru- 



GAftTBIOXO LUSITANa 2&1 

denoia Ihes respondeo que Joao Fernandes Yieira , 
posto que Fortuguez pelo nascimento, era HoUait« 
d€z pelo domicitio ; que elle habitava em domimos 
do supremo coaselho ; que usassem para com eUe 
como entendessem ; <|ue elle nada tinha com isso 
assim como uada tinha contribuido para a suble- 
va^ao ; que em quanto is amea^as , elle nada re^* 
ceava, porque Portugal, que pod^ra resistir a todas 
^s forcas de Castella , reconquislaudo a sua liberdade, 
tambem sabevia casttgar as bolcas de Holla&da • Man-* 
dou logo vir diante d'elles todos os cab^, que diziao 
tinbio passado o rio de Sio Franciscoem favor de 
Joao Feroandes Vieira , os quaes reconbecidos pelos 
dous embaixadores ^ Ihes disse o goveroador : 
cf Digao aos senbores do conselbo , que sobre este 
>» desengano Ibes quero agora mandar estes capi- 
» taies com poderes e gente , para que me tragao 
» preso a Joao Fernandes Yieira (se e certo que 
» tern (ao p^queno sequito , como dizem ) , e Ihes 
» ordeQarei que facao todo o possivel por deixarem 
» OS fi^i^radores em seu antigo socego ; e deverao o 
» seguro a causa de seu receio. » Confusos e cob-' 
teiUes se deqpedirao os embaixadores do gover* 
nador. 

XXXYIII. Theodozio Estrater, que era o prin- 
cipal embaixjador^ nos dias que alii esteve , procu-- 
rou audiencia particular do governador do Estado; 
nella Ihe ralificou o animo que tinha de servir a 
£1 Hei de Portugal , e claramente confessou a von- 
tade de entregar aos Portuguezes a fortaleza de 
Nazareth , de que era commendor ; servico , que 
merecia estimacao grande , pela importancia do 
L 16 



popio , pela ulilidade do commereio ^ e pslaa ooq<- 
Mquenciat do eKemplo i determinacao qua ja tinh^ 
praticado a Joao Feraandea Vieira por aquivoeaa 
intelligenciaa » reeeoao de que nao livease e£feito 
seu inteato ; mas que agora que o via posto em 
eampo j tendo por si a justi^a e o sequito, se de^ 
elarava com sua Excellencia, e o di&poria Qovn Joao 
Fernandes Vieira; nao desejando da Majeaiade 
d'El Rei de Portugal mais premio que o fiervik^ ^ 
Bern de sua Excellencia maia favor que o inteir^lo 
d'eata verdade. Grato e discreto Ihe respond^ Aa*- 
tonio Telles da Silva j aooeitando o offerecim^nlo , 
e louvaado a deieriBina^ao ; que bem mostrata aer 
parto d'um animo geuoroso e justifieado ; pf omet- 
tndo^lhe da parte d'£l Rei seu tenbor equivaleate 
premio a (ao relevante serviqo, 

XXXIX. £«ibaroaraQ os embfUxadpreiy cbegpi-* 
ritoaBahia, relaUrao o que virao na eidade^ e 
quanto pom o goveroadpr passai m, eQgmudeawdo 
aeu valor, sua fidalguia e aua oafmcidada ; aftir-^ 
marao que o seu coracao era altivo, valetite e ou- 
sado , e que estive^sem ceirlos que o nao bam de 
aebar so&ido o minimo aggravo, wm HigcatP o 
mais pequeno obsequio ; assim Iho maodava aigui'- 
ficai?», aco(iBelba])doH[>» tratasaam os subUta^ cipm 
juaii^a e elfmeacia para os nao t^i^em reb^Uadoa ; 
e que promettia mandar brevemen(e c^pitae^ e 
soldados , que redu^iissem e aquieta&sem aoa mora- 
dores (para o que, elles eaviadoa, Ibehaviao pro- 
meiiido passo franco em nome dos Estados) i mais 
disserao que no por to 4a Bahia nao estavao embar^ 
Qa96es de guerrai fura do galeae de Salvador Correal 



CASTRIOTO LUSiTANO. 243 

que de verga d'alto esperava tempo para comboiar 
a Portugal uma frota de navios mercantes ; e com 
seus mesmos olhos virao assistentes na Bahia todos 
aquelles cabos, que se dizia terem passado o rio de 
Sao Francisco, em soccorro dos rebeldes. Com 
esta$ novas respirou o temor dos Hollandeses, e se 
eonfirmarao aquelles animos indomitos e perfidos 
em nao desistirem das tyrannias^ e augmentarem as 
semra^oes e aggravos em toda a parte e em iodo 
o tempo. ImaginaTao-se vingados por nossas mes- 
mas » e pelas suas senhores de todo o Estado do 
Braxil ; porque se deltberavae em matar por trairao 
a todos 08 queo governador Antonio Telles da Silva 
mandasse em aeu auxilio ; e inferiao que a falta 
d'elles Ihe entregaria a Bahia a maos lavadad. Para 
tU()o que Ihe propunha sua aleivosia se comec^- 
rio a preparar com toda a presM. Em tudo ot en- 
ganou sua malicia, como se verA em o segumte livro. 
Cegos de seiia affedos nao sabem o& bomoM adver- 
ttr o errado de sens discursos. N6o haeonfianca tao 
nescia como a daquelles que pintao os futures das 
GQKes de aeua deaejoa , nao poderando que oas mios 
dos homens estao os intentos, e nas de Deos 09 suc- 
cessos i e que consegutt-os , ou favoraveis^ ou ad- 
^psfsoa para esle ou para aquelle im 9 so a mamo 
Decs opdide saber, que nao espera tempo para veros 
eiaitoa dasi cauias. 



UVRO VII. 



SUHMARIO. 

1. Manda o Flamengo asaaltar os noasos pelo aeu aargento maior 
Joao BItr ; por aviao d'mn traidor auapende a marcha^2. Chega 
Henrique Diaa t Ipojoca; o qaeahiacontece; mareha a eDContrar- 
ae com Joao Blar. — 3. Joao Fernandea Vieira tem aviso de tudo; 
levanta-se de Sao Loureaco, passa o rio Tapicura & vista de Joao 
Blar. — 4. Intento doa traidorea ; perigo em que poz a empreaa, 
Tencido pela prudencia do goveroador, — tf. Pertioacia doa trai* 
dores , atalhada pela constancia do governador. ^ 6. Volta Henri- 
que Hub de Ipujuca , e o que fax. — 7. Ghegao ao alojamento do 
Cotaa alguaa {Indioa do Camarao. '— 8. Derreto com que aalo o 
hereje do Arreclfe; effeitos que causa. — 9. Ardii de que usa Joao 
Femandes Vieira em favor dos moradoros da Yanea ; chega-Ihe 
noticia da deatraicaode Cunhail; muda de alojamento para o 
monte daa Tabocaa ; deacripcao d'eate monte. — 10. Alojamento 
do nosso exercito ; reduz o governador a um apostata hereje* — 
li. Oa traidorea perauadem a que se mate i cara descoberta o go« 
yernador. -♦ 12. inimigo mareha para o engenho do Covaa ; dd- 
se rebate naa Tabocaa. — 13. FaUa. que fez o governador & sua 
gente. — 14. A vizinhanca do inimigo the corta o fio ; fortiGcao- 
ae Of fiosaoa ; o eapitao Fagundea deaoobre o inimigo na pasaagem 
do rio TapiciMrA , e vai-ae retirando at^ is noaaaa emboscadaa. — 
15. Retire- ae o Hollandez sangrado do noaao fejrro; industriacom 
que entre os noasoa se esconde a falta das municoes. — 16. Zclo 
d'algana religiesoa e aaeerdotes, que detem o governador quando 
arriacava aua pe^aoa. — 17« Ardil do inimigo ataihado; retira-ae 
vencido ; torna a avan^ar , e torna a ser repellido. — 18. Forma- 
se de novo , e acomette o Tabocal ; o governador anfma a reais- 
tencia; flea o HoUandei deatruido. — 19. Featejao oa Portuguezea 
a victoria , e se preparao para novo combate ; que o engano de 
nossas espias Ihe fez recear. — 20. Foge o inimigo do campo , e 
ae aproveitaoos nossos dos despojos; dao gramas a Deoa pela mer- 
ed. — 21. Perda do inimigo, e noasa; capitaes e pessoas de qua- 
lidade que se achirao no conflicto. — 22, que faz o Flamengo 
em Ipojuca; chega 4 Yarzea, extoraoes que ahi manda fazer; bar- 
baro decreto que manda publicar. — 23. Chega ao governador 
a nova do soccorro que aportdra em Tamandar^; delibera-ae em 
soccorrer algumas povoa^oes. — 24. Sai da Bahia Salvador Cor- 
rea de S& por general da frola ; mette soccorro em Tamandar^ ; 



GASTRIOTO LUSITANO. 2A5 

acclama-se a iiberdade em Sirinhaemu — 25. Joaa d'Albuquerque 
pede soccorro aos Mestres de campo que tiohao yindo da Bahia ; 
com elle eerca a fortaleza do inimigo , que se rende a partido. 
—36. Marcha Joio FeraandesVieira a eaperar os MeMrei do cam- 
po » a quern manda dar %$ boas yindas; oa quaei Ihe item ao en- 
coDtro; alojao-se, e mandao soccorro ao Mestre de campo Mar- 
tim Soares que cercava a fortalexa de Ifazareth. — 97. Maoda o 
goveroador marchar o exercilo para Moribeca « e de U para o rio 
de Tigipi6. — 28. Decreta o general Hollaudei a priaao de todas 
as mulheres da Varzea ; determine passer d espada todos os mora- 
dores ; avisado do qve o govemador, marcha a impedir a execute. 
—29. Pasa o rio Capeberibe ; avista o goveroador e inyeite os eiqua* 
droes hollandezes; chega o Mestre de campo Andr^ Vidal a refar^ar 
combate. — 30. Aleivoso engano de que se valeo o inimigo ; r^- 
solyem<se os nossos em Ibe pdr fogo; pede o ininigo quartel; 
concedem-se-lhes as vidas, exceptos os Indtos, que se raaodao pu- 
ser A espada. — 31. que passa Henrique Hus na presence do 
goyernador. — 32. Alegria que caosou a todos a Iiberdade das 
matrooas; despojos dabatalha; raortos e feridoa d'uma eooirt 
parte. — 33. Quem era o P. Fr. Joao da Resurrei^ao. — 34. Vic- 
torioso e triumphante marcha para a Varzea Joao Fernandes Yiel- 
ra; remettem-se of reodides A Bahia $ morte deloao Blar. -^ 
35. Chega Salvador Correa eom a frota k vista do Arrecife; man- 
da embaitador ao Arrecife , com que effeito ; obrigado do tempo 
levou ancora, e se fez ao mar. — 36. Manda o Hollandez q«eimar 
OS navios que estavao surtos em 7amaodar<; e o que raaia sue- 
cedeo. — 37. Primeiras ac^s do capltao Manoel Barboza. — 
38. Martim Soares Moreno aperta o sitio a fortaleza de Nazareth ; 
bosca o commendor caminbos pva Cidlitava entrega. —39. To- 
mao OS nossos uma lancha» e com que oceasiao; protestao de to- 
mar a fortaleza & escala ; proposta que faz o commendor aos seus* 
— 40. Resolvemaentrega da fortaleza; capitulao-se as condifoes; 
£az-se aviso a Joao Fernandes Yieira , o quel manda o dinheiro 
para os rendidos; tomao os nossos posHda fortaleza, e d'um 
barco que Ihe vinha de soccorro. 



I. Confiado e altivo desprezava o Flamengo o le- 
vantamento dos moradores; avaliava Joao Fer- 
nandes Vieira pop cabeca sem espiritos^ porque 
sem autoridade, sem valor e sem discipline • Viao 
sequito em pe^ueno nnroero; ima^natva o violento 



3A6 GASTBHITO LmiTANO. 

ou enganadOy sem armas, sem municoes, sem cabos 
e sem pritica ; e como sem alma se Ihe represen- 
tava o oorpo da rebelliao. Errou-«lhe a medida , 
c saW-Ihe cnrto o reraedio. Mandou ao sargento 
maior Joiio Blar, que com trezeolos soldadoa, ar- 
niadoa de tlavinas^ aaisae do Arrecife (coberto 
torn OS sombras da noite ) e d^sse sobre a mata de 
YaMO Pirea Borralho> a onde por ayisos oerlos aabia 
cfci^ ^e atojava a nos^sa gente , com ordem que a 
Joao Fernandes Vieira e a todos os que o seguiao 
itaalaase, ou prendeaae ; e qu^ o nao segui^se sem 
engrossar o poder com a gente do governador.das 
armaa hoilandezas^ Henrique Hus, que da volta de 
Ipojuca Se haf ia encorporar com ellc em o mesmo 
lugar; ao qual tiabao ordenado que nao deixasse 
rebelde c6nd vida* Marchou Joao Biar aid chegar lao 
g(iti6 que cbimfio o Arraia! Velho, a onde fez alto , 
aifiaado d'um traidor nos^o que asslstia a Joao 
FcriM[fld« Virirtt r ftdvwtfa-lhe que s^ nao iiio- 
vesse at6 segundo aviso , por quauto a nossa gente 
tinha mudado de alojameoto , e ainda nk) tinha 
tornado posto. Obedeceo o B!ar, em quanto a sus- 
penaao da marcha , por^m nao em quanto i sus- 
pensao das armas, porque com dirersaa mangas 
tomou todos OS caminhos da mata, que guiao para 
OS rios Patebiribe e Jugaribe, e seguio o caminho 
de Iguaracu, executando em toda a distancia desta 
marcha taes e tao crueis desacatos e demasiaSy que 
ainda agora os olha a memoria com espanto. Com 
a mesma violencia rompia pelo religioso e pelo 
profano ; despedacava as sagradas imagens com io- 
jnria , e as hoiiestas dopzellas com irrisao ; sem 



distmc^io oortavd pela idade inais verde , e pda 
mftift cflbducai nio fiftzendo disUnccao de 4wo a se&0| 
nem- d'afttado a eatado ; cobria o egtrag^ do ferro 
coin aa oiozaa do fogo , e com oa golpea da raorta 
atalhava oa grilos da dor. Nao indirfduo aa atit>- 
cidadaa, porque deaaiaia a penaa com o horror 
d'ellaak &6 direi^ que Ihe estranhou Henrique Hua 
a ferocidade ^ ou porque uelle ae Tia exceder, ou 
poi^que a uao podia imitar ; aendo eUe um cruellia* 
aimo eapanio da natureza humana. 

IL £iii o numero XXXV do livro precedente m 
diaae oomo ein 24 de Junho aaira do Arrecife Heur 
rique Hua com aeieentoa aoldados a caatigar o motim 
de Ipojuca^ aggjra diremoa ^omoj por eacoader q 
caatigo i Qulpa^ marchirao furtiyosai^ a mala de 
TabatiDga (uma legua diatante de Lpojuca)., a.onde 
ou o aviao y Qu o acaso tiaha emboacado ao capi* 
la0> Ftikguudea com viute aoldadoa d^ aua compa- 
nbia* .4^pproveilou-ae da occaaiaoi e deo ao Fia«« 
m^DgQ uma carga, que o deixpu eoafuao., maja 
pelo aobreaalto que pela perdai que nao pasaou de 
trea mortpa e alguna feridos* Temeo o Fagundea 
que ioimigo o cercaaae » e muito com tempo ae 
retirou a buacar o aitio ^ oode ae alojava o capitao 
maior Amador de Araujo. general holiandea 
ipreaaou a marcha , por nao diminuir a preaa , e 
deo aobre a povoacao, que achpu sem reaiatencia e 
aem riqueza ^ porque oa mpradorea a tinbao quaai 
deaemparada, igualinente temerosoa doa judeoa 
oQendidoa, e doa Hollandezea eacandalizadoa; nao 
tiverao oa invaaorea em que cevar nem a cobiga^ 
nem a Tingan9a« Mlindou o gi^neral boU^nd^ 



2&S CASfTMOrO LDnTAWK 

■ 

ikitar bando que a^s^iravfit as vidas e as fnendas 
aquelles que dentro em tres dias se reec^iMSsem a 
suas casas ; do que se aproveitarao algisns vizi* 
irfios por escapeirem a morrer de fome no inlerior 
dos matos. Neste lugar mandou o ioimigo enforcar 
a Francisco Godinho por se dizer era um dos com** 
plices naconspiracaoda liberdade.*— Henrique Hus, 
sabendo que Amador de Araujo eaminhava com 
a}guma gente a unir-se eom JoaoFernandes Vieira, 
marchou a toda a pressa em seu ^eguimento, dec- 
Ihe alcance, onde ehamae a Ponderama, meia legoa 
antes da povoacao. Era designal o partido^ e fioou 
Amador de Araujo destrocado ; valeo-se da fuga ^ 
favorecido da mata, deisando cinco mortos , e le« 
vando comsigo os feridos, se foi unir com Joao Fer- 
naiides Yieira , que ji neste tempo se alojava nas 
casas de Balthazar Rodriguez Govas. Nao ficou o 
Hollandez sem recompensa, que mc^rtoae feridos 
Ihe cnstou o eneontro. Henrique Bus, com as^^or** 
dens que tinha recebido no Arrecife , marchou 
adiante a incorporar*-se com seu sargento maior 
Jo&o Blar; mas com tanto medo das emboscadas, 
que o movimento de qualquer ramao sabresaltava. 
Com esta imaginacao mandou matar o bermilao de 
Santa Luzia (capellao do engenho de Tabatinga)) 
porque ouvio tanger o sino da capella, parecendo*- 
Ihe que tocava a rebate. Proseguio a marcha re- 
colhendo os Flamengds que se aloja?ao nos des- 
trictos de Santo Antonio do Cabo e da Moribecai 
sem deixar cousa de moradores que nao roubasse e 
consummisse. Dez dias a deteve esta diiigencia, e a 
crescente dos rios; ajndnda 4e sens receios. 



HI. goreniajiior da liberdade, quie a tote tempo 
se ak>)av« na poroaoao de Sao Loureiioo, oceup^o 
em prei^eftir tudo o que podia ser util 4 empresa , 
foi avisado de dentro do Arrecife das ordens com 
que Hemqtie'Hus e Joao Blar tiiih«o saido d*elle , 
e que se aeauteilassey porque unidos o haviao deen- 
Teslir em qualquer sitio que occupasse ; o que sem 
d«vida fariao com aobejo pod^^ porque se haviao 
de apFoyeilar da gente dos presidios, que se aquar* 
tellava pdos eontorzios* Enire os conBdeiHes se 
leo o aviso^ e resultou da conferencia, que de ne« 
nhmita sorte se esperasse o inimigo naquelle posto, 
por iiregular para a defeza e favoravel para a in«- 
vasao; qu<e k^ se ievantassem d*aquelie sitio, e 
se escolhesse outro, em que eooeurressem as con-- 
Temeneias tiecessarias. — Executou-se a resolucao ; 
passarao o rio Capeberrbe , que ia de mof>te a monte 
com liiais trabalho que perigo , pelas balsas e jan-- 
gadas qitese fiMrao. Pela margem do rio contina- 
rao a marcha ati que chegairao ao engenho de Sao 
Joao, que se dizia de Arnau de HoUanda Barreto, 
o qual ag^salhou a todos ( em tres dias que alii 
estiwrao ) com benet'olencia e abundancia ; e com 
dous filhos se aggregou e seguio a Joao Fernandes 
Vieira. Pareceo bem a todos que se continuasse a 
marcfaa/ deixando naquelle sitio ao capitao Gosme 
do Rego com cincoenta soldados^ como sentinella 
para descobrir a campanha , e dar ao exercito os 
avisos necessaries* Sobre este seguro caminhou a 
nossa gente com batedoresao largo, levanck) diante 
ao ?• Simao de Figueiredo com qiiatorze ho- 
mens ligeiros, para guiar e desempedir a vereda 



2M (Uftnum) wmimk 

da marolMi* Em uma jtii|;a<li , oijMift 4e Itfi^af dito 
oil dez hoHifHM ^ oada ve^ fiassevi todn •te^eteito 
o rio Tapiowaf k vi»ca de Joao Blari qut 4a tmln 
parte Be oceuhava aptfe d6 nNilos ^ etflerMilO 4 
chegada de Heftrique Hii§ » que ^rdmtm M iiio 
movesfte d'aquelie liigar^ e $e alojou oat oaMa da 
Manoel Fernandes Grua^ oade sa datava 96 a tipite 
deguiote^ e d'alli o ievou comsigo o governadw 4I1 
liberdade, parao Bitia de Belchior RodrigUeft (Savaii 
onde a uossa geate fas alto ^ e.sa aquarUilon CMH 
ialenio d'e^rar e raceber alii o inimige^sa iiaU# 
o buscasse^ Joao Blari que vio pariidid i^mmo mUf* 
citO) 6 por um mulato traidor anteodeaqiia no ^i^er 
nhode Arnau de HoUanda ficavaCoiiQa doR^goi 
com cinooenta hoiifte{is4eo aabca ell^s Ao^Kiaid akQ 
da 2M>ite, e facilmente 01 de^baratou^ pori|«ia4a6T 
cuidados dormiao aobra oa^uro de ana oodfiAtt^a^ 
Nao deooassalto lugarMafensa; pai^^iii 4ia9t o^ ait 
rou a fugida. Sabiao o» noaios as veredaa » re i«jybQa 
n'um corpo roxDperao.peloimaiOi e ae forao eQooiv 
porar com o governador da liberdade. 

4. Ja por vezes tonoa dito ^que a traicao pra- 
tendeo deade o pripoipio malograr a gloFioaa/^»» 
presa comeeada por Joao Fernandea Yieira ; agora 
diremoa que, quanto mais eala ae eonsoUdava^ 
mais aquella escogitava ineioft de a d^atiTuir. Yend^ 
OS traidorea que acampaQbavaa Joao Feroatidea 
Yieira nao para Ihe imi^arem os impulaoa, senao 
para ihe contarem oa pasaoa , que a aua geote crea** 
cia em numero e em animo, eque. o poderiaria 
inuteia oa esfor^oa da traicao, us4rao d'um diaho^ 
lico ardil, que chegou a por em eontiDgeneia o pro» 



GASTMOro imiTMO. SSI 

greteo dft empima* Chimaiio a n oshomeDS que 
a pusiiBnimidacl^ea subordinacao linhao maisdia- 
poaios para a credulidade^ e com ratoea apparentw 
OS persuadirao qua o intento de Joao Fernaadaa 
Yieira liao^iideoa libertar^ senao de oa deatruir^ 
1irando**o8 de suas. casaa ooih a voz da liberdad^ 
para os desierrar da patria ; e a mellior livrar, leTal*- 
OS comsigo para a Bahia^ porque entre oa Holland 
d^^ nao Unha quartel. Fiaerao^lhes aima pralica, 
com que os quiaerao disauadir dc seguir um arnbi* 
cioso que a6 queria ganhar nome a euaia de auaa 
Tidds e fezeadaa^ e conduirao diaendo : h Dizemoa 
» o que palpamoa : quem ae quiaer perder, ileixe^ 
39 se etiganar ; quem tiver juiio, saber A temer ; que 
» nao p(hle' haver mai^r denaenetaque (er aos olboa 
» b preotpteio , e deapeohar^ae ^^or gosio. h -^ Foi 
de ttiao em mao a pracica; iaiprimio-'sa 0o«ii.6lla « 
desconfito^a tm mukos animoa menoa flrmea aa 
resolu^aoy desorte que dividido o exerotto a«i 
fcte^adoa caoiinhata auni motim irreinediaveL Po- 
r^m OS capitaea mads valerosos^ iK>bres t £^ifi uq4«- 
raa*-se ao governador, coniendo oa soldados | e este 
usando de sua eostumada prudeucia ^ mandou dar 
nm rebate falso, com voz que apparecia o Fia?- 
mefigo ; ordenou ao sargento maior que repartisse 
a gente pelos postos, e emboscadas mais oonve- 
nientes^ dividindo per todasosamoliuados. A obe- 
dieucia deixou sem diacurso a maliciai e a repeute 
sem lembran^a a duvida, cbegarao as nossas senti-^ 
nellas, e disserao que o campo estava sem inimigo. 
Foi ordem a cada um dos Ciipitaes que deixassem 
OS poslos , e se recolhesi^m com a gente , e c^ar- 



952 GASTftlOTO LTOITANO. 

qual com a de sua compankia passasse por onde se 
alojava o govemador da liberdade. Erab triiita e 
quatro os capitaes , e as&im eomo cada um prepas- 
eaVa » o goveroador eiigraiidecia a obediencia, ^alor 
c preaieza, com que havia aaido a defesa de sua li- 
berdade^ mostrando hem o sangue portuguez que 
herdara^ e os brios que tinha ; e que se algum sol* 
dado, por falta de animo ou de zelo, se nao atrevia 
a continuar a guerra, desde logo o bavia despedido, 
porque nas occasioes servia a qualidade, e nao o 
mimero^ e c[ue as batalhas se venciao por auimosos 
e nao por cobardes. A-diversos raachos, que fica- 
vao desyiados , mandou a governador fazer, pelo 
P. Simao de Figueiredo* a mesma pralica. O^ou 
o remedio com tanta efficapcia , que se ouvio em 
todos b brado da saude, porque a gritos promettiao 
obedieneia e fidelidade a seu governador Joao Fer- 
nandes Yieira ; o qual com a espada desembainhada 
na maOf e em toz alta^ disse que estavaj prompto 
a dar por todos a fazenda e a vida ; e que a quai- 
quer que fosse tao infeme e ousado ^ que se atre- 
vesse a desviar ou persuadir k menor pessoa d'a- 
quelle exercito a nao proseguir na pretensao de 
s«a liberdade , o hayia de mandar enforcar por 
traidor, sem distinccao de pessoa , nem quebra de 
palavra. 

V. Nao pod^rao os traidores destruir a Joao Fer- 
nandes Vieira por meio da divi^o que pretend^rao 
introduzir tia sua gente ; mas nem por isso desis- 
tirao de suas m^s intensoes ^ que tratarao de Ihe 
tirar a vida de palavra e por escrito. Nao se per- 
suadid que houvcs^e homens t«io desam paradox da 



GA5TRI0T0 LUSITANO. 258 

consciencia e do juizo que lal intentassetn ; mas 
como instassem os avisos , com sinaes certos das 
pessoas e das diligencias, individuando as circums* 
tancias , tratou d'atalhar o receio e o damno peio 
modo mais seguroe menos escandaloso , mandando 
por duas sentinel I as a porta da cozinba y nao dei- 
xando entrar nella mais que um fiel escravo que 
Ihe fazia de comer, e noineando uma guarda, que 
de dia e de noite acompanhasse sua pessoa ; e 
d'este modo confundio o odio com mostrar que des- 
prezava a traicao* 

VI* Malogrados por este modo os intentos da 
traicao , proseguio Joao Fernandes Yieira na he- 
rpica empresa que havia come^ado com igual zelo 
e nao menor inteliigenda. Tinha elle ja nomeado 
capitao maior a Joao Soares d'Albuquerque y com 
ordem que levantasse gente na freguezia da Mari*- 
beca com dissimul^eao e segredo, para a achar 
pi*ompta na occasiao ; do alojamenlo do Covas Ihe 
escrereo, ordenando-lhe que acdiamasse a libeirdade 
e logo marchasse com a gente a unii^se com 
elle. Em 2 de Julho foi entregue a carta : com 
prompta obediencia se executou a ordem. Saio do 
sen engenho acompanhado de seu irmao Joao Lei- 
tap (por elle elleito capitao) e de Tinte homens 
de sua casa , mandando a todos os mancebos que 
pegassem em armas , e o seguissem sob pena de os 
castigar severamente como rebeldes e remtssos. 
Nao houve algum que o fosse ; antes com tumui- 
tuoso alvoroco sairao no fdrma do bando, sem sa- 
berem os fundamentos que tinha a sublevacao, 
porque so se mandava que tomassem as armas 



eoQtra a iyrtiviuA boUandeza. Em quaalo dlea ae 
pr^paravao d^o ^bre o eogenho quiobantoa Fla* 
xnepgoay com aum^roaa partida de lodioa, que 
viobao de Ipojoca, tao inopiaadameole , que outre 
o rebate e o aa^Uo ee nao eutrepos mais tempo q^t 
o pece«»ario para a noaaa gente 9e reiirar a um 
moate, code furtifoi ao poder do iriimigo se Ihe 
aggregarao todo^ oa Qbamado9« Uuido» n'um corpo 
(om^rao a derrota de Gorjau , recolhefido de ca^* 
jnmbo oa moradoi^» dafraguem de Santo Aotonio 
do Cabo. Marcharao todos debaixodaabaudeirasde 
Joao Soare« d' AUiuquerque ; a pouoas joruadas en- 
coRtrarao-ae com Amador de Aranjo e aaa g»ate , 
que a^guiao a meama veineda ; e feitoa en um oorpo 
de quatroceuios bomeua chegarao aa aktiamento 
do Covaa, Qode fbrao recabidoado gOTeruador e 
m4ia G«boi (wm aquella alegria qua a tedoa deo 
9 aoo^orrQ, que SQ faiia esiimar pela. quaUdadee pdo 

. YU« Cirescao o aWoroQO que tiverao oa jmi8so« 
pom a cb?gada de $eUe Iqdioa, armadoa da mofr» 
qi^c^iea b^pamUoa (eatra eUe3 um darim qua 
pa public^va ) tgdpado terca de D, AjUoa^ Fbt*^ 
lipp^ Camaraqi do q^al atfirmavao, viiiba em aau 
f^c^uimputp cQm o gpvtH:*Q4dQr doa Miuaa Henrique 
Dja^) e uao podiaQ titrdai? aetfea ou uito diaa^ A um 
SQUtinella iv>wa^ qwi ae adiautou a ped'u" atyifaraii 
deQ governador doua eapravpa. 

YIU, Teve gosto d'asta vQ^a o desoouto^ que 
^m iQdoa oa d'eata vida« Chegau aviao ao govern 
nadQr da liberdadei que o Flamengo publicara um 
decretoi pelo qual obrigara a todas aa mulharea de 



% 



OAftfaiOXO LOttTANa S55 

•#u ^minio, de qualquer qualidade e esiado que 
feaiiim, que tivasMm maridoe, filhos, cunhadoa ou 
iFmao(» no exereito do Joao Fernandes Vieira » os 
fotaem aoompanhar em termo de cinco dias , sob 
pena de mople e eonfiscacao de faxeuda^ ; que er- 
nmiisivelmente ae eiecuiaria em todas as que de^ 
pois do teffipo consignado fotsem achadas. — Soon 
tao mal ease berbaro rigor not ouvidos de todos , 
que Haft fioou peasoa a quem oao obraaasae a ira, e 
odnaejoda vingaaea ; massuas qudxaa-ferao impo- 
teutet, porque o deshumano hereje era inexoraveU 
Sobre tiido foi na Yaraea em que o quadro era mats 
lamentaTd. Uma rda^io, que entaochegou ao tiosso 
lieasipaiiieiito y dizia que em lodas tropeoava o 
lemar naa pffrauasocs do eonselbo, aendo as ebri* 
gaoMi do leatado at que maia Ihe imposaibilitaTao 

• remedio* Aquelka,^ as quaaa a nobreaa ti^era 
amprereeolhidaa, o eMtume do grilho Hiea im- 
podia a fuga. A| que sf yiao rodeadas de filbos, de- 
tides do amor, e ameaQadas da morte, nao tinhao 
eMolfaa para^ fugir ou para pedeoer. As donzellas » 
Baeeosaade paixlerem a aiaia preoi^aa joia , nao $a« 
Um ^kt/twminavnm em deimv a casa, ou em buscar 

• mate, perque siq mala e na eaaa se ihe represeu* 
tarva a meamo pain9o« Em todaa f^emia a affliocao 
Mm lagrimaa inuleia^ aem ouira eonsdacao mais, 
cpifta que davio umaa lagrioiaa a outvaa lagrimas , 
nam mais soqcofco , qua o de uas auapiiw a oa« 
tMa aui^piraa » aabeudo que neah«a» Ifaes podia 
BK»litir Q deaeja da vida , que as nao kvasaa a 
moile. iUguman hottve que buacarao o mato, 
porqtM M Ihei repreaentava a mi^rte mepoa faia , 



2S6 GASTBIOTO IDSITAIIO. 

considerando que nas fens tinbao o tarmento 
ceriOy no» berejes o tarmenlo e a injuria com igual 
impiedade. Outraa, com esperaooa duvidoaa, bufr* 
cavao dila^ao a pena iia extenaao do tempo : por 
as casas des confidentes scJiciUrao anoagoa com 
que as escondiao, e a martyrio a que se condem- 
navaOy dormindo peloa p^ da$ anrores, com o so- 
breaalto de as buacar a espada a toda a bora y e de 
esleuder o eastigo a quein Ibes p^nnittiaoamparo; 
e lodasy desconfiadas da vida, tratayao das eontas 
que baviao de dar a Deod ^ a quern offoreciao ta- 
luaahas tribula^oes. EKoessivo .foi o pezar^ que 
esla rela^ao causou a todo o exercito , bstimando 
a uns por ioteressados^ e a outros por eondoidos; 
porem mais que excessivo o que penetrou o oane 
cao de Joao Fernaudes Yieira, ao qual fmao juutos 
OS saiiiiiieatos de cada urn. Era deredor a lastima 
de todos , como causa , e aeooseUiado com a divida 
mandou fixar por todas aci paries publioas do Aih 
recife outre edital do iheorseguiate* 

IX. « Joao Femandeg Vienn, goTeroador dfts 
» armas ua empresa da Uberdade dos moradbwes 
y> de Peroambuco , e das^ mais. capitanias siq^las 
» as armas boUaadezes : P<^. quanto aos .¥eio: & 
» noticia o barbaroe cfuei deofeto ^ que^tyraonia 
» boUandeza f ulminou oontca as leis da naUiraxa 
n e da politica.dos bomess , eondcmiiaado ao ri§ar 
» de suas armas aque^le ^t^o que a corte«ia das 
» geutes respeita y e a natural fragilidade esousa 
» de lodaa bostilidadeedesacato^ com maudaras 
» mulhepcs de nossa obrigacaoque, sob peiiade 
» xhorle, se desterrem de suascaeas (por mptivo 



CAsaacKxro luaiTAiio. 2S7 

» em que nao padiao ter parte) viokndo aquelle na« 
» taral foro^ que as isenia de (odos os impulsos da 
i^ ira eda vingaa9a ^ co&tra o qual so eobardes pode- 
» riao delinquir. Mand4mos a lodas e a qualquer 
» millher de quaiques qualidade e estado , que de- 
» baixo de nosso seguro se deixe cstar em &ua casa 
I) (coiiio desohrigada de obedecer a preoeito iao bar-* 
» baro)ytoinando por nossa conta a vinganca do me- 
»> nor aggraTo que o Hollandez Ihe fizer; e juramos 
» tomap delle tao exacla satisfacao , que com elia se 
» eternize na memoria da8|;entes o crime e o cast^, 
M . e servira a exaccao do estrago de gritar em todas 
» as idades a horribiKdade do delicto. Dado nesta 
» campanha da liberdade em 1 5 de Julho de 1 645. 
» JoAo Feknandes Vibira. » Flamengo, qile leo, 
e vio esle edital fixado nas portas de suas mesmas 
fortificacdes> ficou tao atormentado, quesuspendeo 
por entao a »ecucao do bando. — Poucos dias de- 
pois diegounova ao nosso alojamento da execravel 
atrocidade que o inimigo executou no lugar de Cu- 
nhatji y em a manha de urn domingo 1 6 de Julho , 
como fica referido por ^tenso em numero V do 
livro V desta historiai Fez esta nora grande aballo 
noscoraeSes do& ^ombatentes, e aeeendTO em todos 
o fogo da ooragMfi aaimado com o desejo da vin-- 
ganea. TodcRs s« diBpunhao a rebater denodada:- 
mei^te o inimigo, mas sendo informado o goyerna- 
dor da liberdade que era grande o poder com^ que 
Tvnba ataeal-o, e conhecendo que o sitio nao era 
favoravel para a defesa , chamou a oonselho , e die- 
pois de ponderadas as inconveniencias do toiTeno, 
se assentou que seria ruiua de todos esperar-se o 

L 17 



1S8 GAtmOIO tXSXtJOKk 

inimi^ naquelle lugar; e que logo se buscasse 
outro^ em que ooncorressem 09 requkitos que 
pedia a preaente occasiao* PcJos aoldadm mais inlel* 
ligentes mandou o sargento maior £auser eata dili«^ 
gencia. Brevemente voltaorao, feita escolha d'um 
moote que chamavao das Taboeas> que Aatoaio 
Dias Gardozo approvou, pelo conhecimento que 
tinba d'elie j como versado no terreno que sahia a 
palmos. Logo mandou o governador marchar o 
exercito para aquelle sitio, e se alojou no mais alto 
do outeiro. Deixou o alojamento do Covas (onds e&- 
teve via tee dous dias) em o ultimo de Julbo^ordep- 
nando aa capilao Antonio Ciomes Taborda fease 
preoQcupar o engeoho de BaHkazar Gon^ves Mo* 
reno (legoa e meia distante do monte das Taboeas), 
para que d^alli ppevisse lodas as eixtradas que. po-- 
diao guiar para o posto escolhido ; e ordem^ que^^ 
se o inimigo tomasse alguma . das veredas , o rece*- 
besse com a primeira carga , e nao desistisae de o 
entreter na retirada ^ faz^ido-^Ibe avisoe de tudo o 
que Ihe pareoessenecessario. ~ Tahoeas i o^mesmo 
que uma especie de eannas brairaa f mais groasas 
que as de Portugal, rodndas de.puas:tao^.aguda&e 
solidas^queasoao desponta qiu^qiser offpo^if^. 
Proditf a natureza naquellas partes «»tea eanaveaes 
tao densos e complicados que oa nao p6da roa^per 
a for9a j senao com os vagarea da arte* Fela Baiiita 
copia d'estas eannas, de que seeingia aquelleAOiitey 
Ihe Qhamavao os naturaes o monte daaTaboeaa. Si* 
tuou a natureza este monte nove lego«ft doArrecife 
para a parte do poente, pela qu^ o cinge um rio ao 
largpy cbamado Tapicuran pobre pida foale^ eso- 



GASTRIOTO liisitaho. SSd 

betho no inverno pelas aguas vertentes, que en-»- 
groftsao sua coirente. Bntre o rio e o rnmite sc 
mostra uma campina que olha para o sul; tefA 
mcio quarto de legoa de frente , conrendo ati 6 
IViboGBl , ^u^ cinge o monte por aquella parte, com 
ciuooenta pfe de grosso exh todo o precinto. Dentro 
d'edte tabocal esta outra planicie de menor extensab 
que a primeira, ladeada tambem de outro ciiito de 
tabocal de metios grossura , que ao modo de trin- 
cheira corpe at<i ao alto do monte. O' cimo d^elle se 
v6 cercado, pela parte do sul, d'lima mata de grossas 
e empinadas arvores assim bastas que compunbao 
tun foMe muro , por aquella parte drlada d'ufna 
faxa de tabodal. Pelas costas do taonte para o Naa- 
eente estara um camihho antigo, que servira i con* 
duc<So do pao do Brazil, queae tlraTad'aqueHesmar 
tos^ de todosesquecid6 pelo desuso?1^ma legoa e meid 
d'este yiionte j para o norte , esttetta uma berniidi 
dedicada a Santo Antao a1>bftde, d^ cujo favbr es- 
pe^atvao osf bomens a seguranca dci seils gdrfos , 
pelaH muilas feras que produi o tdrreno ; e algu* 
fM» <^sa6 terreas , que chamav&o ddade d&Bra^itt 
nom^ que Ihe deo a appelKdo d^ seu ftmdador. 
€<rtn esf 4 descripcao do lugar , eni que' se deo a 
bataHia, flearao 6Wo» ao lehor os iticid^Md d6 
«emflicto. ^ 

X. Cbegou a noBsa gente ao Tab(*edl , e? deMrd 
d'elle ^e alojou em modo d^arraial. No ttiais^ irlte 
do monte ise consignou estancist ao goternador ; e 
pdad lad^ras se armarao tctidas, e se levaiitArSo 
bat^ae^a p^i»a os mai^ ofBciftes c* sc)ldjR*6§ 'se t^ikh 
ili€^emy em t^th^ das chutaai pt^ s^ i^otefaYp&4o 



360 GASTAIOTO tUfllTAKO* 

iuvei^ao; gqarnecerao-se as eQtradi|8,6 postos iie- 
cesfiiarios dos soldados de melhor opiniao; deilamo 
se sentinellas ao largo, e fortiBcou-se o arraial no 
modo que o perraittio o lugar e o tempo. •— Nesta 
occasiao e nesie sitio mostrou bem o goyernador 
Joao Fernandes Yieira que era seu zelo igual a seu 
valor. Teve (^rla.informacao de que naquelle des- 
tricto vivia o P. Manoel de Moraes, appstala da 
fe e de seu Estado, reGnado hereje por obediencia 
e por observaQcia , seguindo , pr^gando a defen-- 
dendo OS errosde Luthero e de Gal vino ; nao ardia 
no peito do governador menos o zelo da religiao , 
que o fervor da guerra. Maadou. buscar preso o 
apostata ; chegou este aseus pes baiU^dp em la- 
griipas ; proiestou emenda , e com religioso pejo 
pedio ao governador fosse ser vido dirigil-o^ para q^e 
o tribunal a que pertencia o castigo se houvesse 
com elle com a custumada br^ndura e pieflade* 
Abjurou Jpgo a communicacap dos herejes ; pro* 
metteo a uniao dos catholicos ; e nesta occasiao nap 
deixou o lado do governador, aniifaando os solda«- 
dos com um crucilixo nas maos. For felis ani^uncio 
d'uma gloriosa victorkj^teve o governador esla cpn- 
versao , esperando da piedade diyina que, s^im 
cpmo Uie dera for9as para tirar um s^rr^pendido 
d'entre os obstinados, Ihe assistiria pode]:o$o.para 
castigar.a abstinacap de tantos precitos., prepiiando 
se^ zelo cppi os triumphos de sua ^» 

XL Nao se corregirao os traidpres com as sa- 
bias e generos^s disposicoes que tomara o gover- 
nador; ant^s dqvorados d'emiila^ao criminosi^ bus:- 
carao todos os mejios para o destruir. PubUcar&o 



CASTRfOTO tVSITANO. Mt 

qo6 ludo quanto o governador dizia da vinda doa 
governadores de Indies e Minas era^ fingriMttt^ e 
engano : com a tardanca persuadiao a descon- 
fianca, assegurando o perigo na felfa do soccorro, 
e remedio na morte de Joao Fernandes Vieira. 
Diziao que a salvacao de todos consistia em matar 
a cara descoberta a quern os airiscava, e em se en- 
tregarem todos ao Holhindez , desculpada a rebel- 
liao com o supplicio da cabeca. Avisarao o gover- 
nador da pratica dos autores da perfidia, e dos in** 
tetitos d'ella, e foi admiravel a prudencia com que 
o magnanimo varao acudio com medicamentos 
lenitives a alalbar o mal, curando a ferida sem 
escandalizar a chaga* Dobrou as guardas de sua 
pessoa^ affastando de si, com apparentes causas, 
aoa siispeitos ; ordenoa ao sargento Hiaior, que ae 
alojasse junto & stia estancia ; despedio quarenta 
sotdados que fossem esperar o Camarao e Henrique 
Dias, e os cohduzissem para aquelte sitio (dando 
assim a entender que sabia nao estarem muito 
distantes ) ; mandou guarnecer os postos mais ar- 
riscados ; e ao sargento maior que os repartisse 
pelbs cabos e soldados mails' confidentes. Tao des-- 
apaixanado acddia a tudo o que era necessario 
para a resistencia e para a defensa, como se o nao 
occup^ra outro cuidado : cobria as causas do receie 
particular com a appKcacao do bem commum, sem 
que sua vigilancia ikitasse nem a prudencia de go- 
vernador, nem a obrigacao de soldado. 

XII. Ja neste tempo marchava o Hollandez com 
disciplina , formado todo n'um corpo ; a que se 
reunjwo os tercos de Henrique Hiis e de Joao Blar, 



3(3 cAwmmQ i^anAvo. 

t a ^eote Urada dos presidios , o que tudo fasia 
Q nmaei^a de mil e qumhentos fioldados praticos a 
escolhidos, beu armadw e ^arnec^os.de mo9« 
quetas e clasrinas peforcadas* Avukava a exi^to 
maia que otitro taato com a grande multidao de In* 
dies , *a maicKr parte mosq^eteiros ; frecheiros o$ 
outroe, e eicercitados na milicia. Com este exeroko 
assim ayultado em for^as saira Henrique Hus da 
povoa^o de Sao Louren^o tao seguro da victoria 
que Ibe oao dava cuidado a batalha ; a esperanea 
dos despojos apressava a marcha dos soldados , de 
sorte que vencia o tempo. Tomirao a vereda que 
guiava para o engenbo do Govasi oude os ekamara 
0. aviso (afnda oao sabiao que a oossa gente tinba 
melhoradade alojanieDto)* Chegarao^ e quatido 
virao tudo; dusemparaday quebf^rao a furia em 
ttKuidar por fogo aos ecUfieios , que erao de nobre 
fabrjca. -^D'lima emiaenoia yio uma sentinelia 
nossa o fumo das cbamas, e com presteza deo conta 
ao goveruador da Uberdade da parte code aodia^ 
fago« $em dilacao maodou o sargeuto maior o ca** 
pitaa. Joao Nunes da Mata con viate soldados a des* 
cobrir o campo, e ordem doxiue baviao de fa^er se 
avistassem o inimigo. Neste tempo cbegqu^ urn sol** 
dado do capilao Antonio Gomes Taborda (que por 
ordem clo goveraador ficara qo ei^genho de Bal^ 
thazar Goncalves Moreno) com aviso da marcha do 
inimigo , e d'um enoontro que tii^era i^oma sua re*- 
taguarda , que constava de quatro centos HoUan- 
dezes, e um esquadrao de Indies i aproveitando-se 
dos matos para esconder a desigualdade do numero; 
(eraoosnossosdu^entos e c|uarenta)ecomemlK>9ca^ 



CAOinno uwTAMb Ml 

das c iavestidos o vinha enfadaadoi e eatreteMdo e 
Ihe linha morto eatone HoUandezes, tern que o 
Flameogo deixane a maroha, nem a nosta gente a 
opposicao at^ oidentde sua senly>ria« Mandou o 
govemador ao soldado , que voltaase, e disacste ao 
aeu capitao» se retiraase em boa ordenan^a para 
aqueUe «itio j porque nelle te havia de eaperar o 
inimigo. 

XIII. A oerteza e viziuhanca do conflicto, eomo 
■ova cauaa , inflammou uovo zelo e alvoro^o no 
animo do govemador Joao Fernandes Vieira , de 
aovte que'com o logro de seu desejo galaateava a 
oiolestia de seu cuidado ; o gosto Ihe vestia o sem- 
bkntedas cores do peito. Mandou formar o exer* 
oitO) e sepoz no coracao delle, com tao alegre rosto 
que parecia oommunicava a toda a circumfereneia 
a viveza dos espiritos , de que se alimentava seu 
animo 9 e oom similhantes palayraa o mostrou. 
«'Gbeg0U| senhores naturaes, companheiros e 
H amigoe , para lodos a melhor hora ; pois certo 
» que melhor hora ^ a da satisfacao que a do de*^ 
» sejo^ Nao sei eu que melhor hora podia desejar 
» Bossa vinganca que a de tomar cada qual de nos 
a inteira satisfa^ao de tanta injuria , quanto nao 
» podera espe(ificar nossa memoria. Ategora viao 
» nossos cAhos dispersos os aggres8ores de nossos 
n damnos com a impossibilidade de nao poder o 
» golpe oastigar a um , sem ficar sujeito & espada 
» de todos. Hoje os traz aqui juntos sua culpa e 
» nossa diUy offerecendo-nos a gloria de ser cada 
M um de nos o restaurador de sua honra , e o re- 

n 4emptor de seu oantiveirOf Fara tiko hv'mo^ iii)|- 



2tt CASTlKm WSaMMk 

>} mo8>y esoiisadfts aao exhortaooes, pois sofaeja em 
» eada um com o aangue portagjuei o estimula de 
» sua obriga^ao ; e.nao dira o muado que deg»nera 
» na lAmerioa aqueUe valor que asaombrou toda a 
» Asia; e que se a fama nao divulgoii iguaes proezas 
» d'um e outro dima , foi porque aa oocaflooeada 
» Asia faltarao na America. Nao gasto iempo em 
» dispor o brace , que em toda a parte e em toda 
» a occasiao acharao os casos dispostos, porque me 
> e necessario para represenlar.a to^los a pedra 
)) de no98o escandalo : afiada& neUa nossas^ espadas 
» ferir&o com melbor cortei^ Entrou o HoUandez 
x> com armas e industrias a fazer^se. senh<»* de 
» nossas fazendas , de noasas vidaa, e de noasa M-^ 
}) berdade, e em poucoa dias experimenfamos m 
y> sujeicao nossa total rutna, tralaado nos subdilos 
» como a eacravos vendidos, Na maior ralseria par 
» decemos a maior affronta, dominados d'um poder 
» que coQlieoe o mundo nao pdo valor, seaao 
» pelo e&gano ; espantando seua progressoa a £u- 
» ropa mais pelas trainees que pdas eonquiataa : 
» aqaellas, e nao estas, no&tirarao da mao a es- 
» pada que nos primeiros annoa corlaraaafio a sua 
» for tuna. Ao passo de nossa desgraca oresceo sua 
» indolencia^ ferindo-*nos aua tyrannia com lao 
» deabumano bra^o , que . nao. pod^ao as feridas 
» aehar cura , nem na pacienoia , nem na queixa. 
» Quentes estao a» cinzas das fazendas abrazadas, 
» abeirias.as chagas da:s injurias padecidas, fresoas 
» as lagrimas das.pesaoas alribujadas, e seoipre 
» levantado o ferro desies iaimtgos para continuar 
>} 0^ golpe^ ^^m fto& ^*'\mv * m?nor esperan^a de 



GiATBMfio unit Am. SIS 

» Teitnos afaatida sua exbrfattahie 3oberba que, se 
» para a vileza ^ ickdo^ para a faonra coma deixara 
» de ser esoandalo ? Pode ana induatria fazer^aoa 
» sujeitoa;}0ia8 nao pod^ao nuneaaais procedi* 
» meotos fazer-nos amigos. Alguns o mastrao ser 
» que me ouvem ^ e sei eu que a bastardia de 8eu8 
» animos produz eetes efTeitos; porque ha naturaes 
» lao maleyolos y que se veem arder no fogo que 
» ateiaoy e se deix^rao consummir^ porque sua in* 
» veja nao deixe de os afarazar ; governao-se pelos 
» dictamea da inalioia , e tropecao nos erros da 
>/ paixao. Dizem que no^ pei>deino6 , porque nao 
D nos desviamos, pesando na desigualdadedopoder 
» a oerteza do perigo ; e nao sabem igualar a ba- 
» lanca com o peso da razao, nem advertir o poder 
M da justica. S^o as maos da escolha as que teeem 
i> a cocoa do triumpho : e em veneer o roaior risco 
» coBsiste a maioridade da victoria. Com a foita 
» doa soccorros persuadem as ruinas ; e niia atea- 
» lao que poderia ser esta todo o bem de nossa for* 
» tima ; e que.sua tardanca s&rit diaposicao da <li- 
» vina Pfovideneia. Quantos menos «ntrarmos na 
» batalba y tanio mais honra ganharemos no ean* 
» flicLo : repartida pelos que assislem a poreao dos 
x> que fallaOy e forca que tonlia eada qoal de nrfs 
y> maior parie na victoria ; deila nao pdde duvidar 
» qi^m tem a Deos em seu favor ; e nds sabemos 
» que pelejamos com genie , que faz gala de offen- 
» der a Deos. Os pedacos das imagens sagradas , 
» as pedras dos templos destruidos , os corpos dos 
» catholicos des])edacados/o$ aggravos dos sacei^ 
1^ dotes esaaromc^oa, que sao senao qrmas, que o 



» ceo noa 4i ptra dcBtntir estes herejes ? Ptixaiido 
» pela vi«gaa9a estao tio osoawlalosos sacrikgkis ; 
» «x«cute-8e iicMO hrago com aqiidie irigm* que 
j> nos aeooBelha noasa f^. Naste encontro emiaiate 
I) nosaa tiberdade e neasa ud^i^^aoj-porqiie ae a 
*) despras&moay pasMmos da fertuaa de eaptivoa i 
M miaeria de apoatataa ; que nao deixarA o ioimigo 
n de introduzir a herezia em^ animoa que aujeita a 
.» vileaa ; e fioaraonosaos filhoa herdeiroa de nossa 
:$i owdemua^ e de nosaa misaria. » 
• XIV* Aqui chegava a fervoroaa pratica do go* 
iVernad<n' , quando Ihe cortou o fio o estrondozo 
rumor d'uma oarga de mosquetaria , dado a reee* 
hido do9 vinte soldadoa coia que o capital Joao 
Nuaes da Mata £&ra daacofarir o campo, aiguiido 
aaordens quar^oebera do governador. dheg^rao 
(Oa deaoobridoras i$ Taboeas, disaerao o que viraoy 
4^ corao HoUandez ae .vinha bhegando para a pas« 
^gem do rio Tapicura* -*T^Nao sie pierdeo tempo 
entre a noticiae adispoaicao. Guarneoeo o sairg^nto 
•maior 4res emboscadas que tinha mandado a^brir 
uoa Tabocaes da caxnpina, em Ciirroa qua uanas se 
oabriaaa outraa^ com ai auffidetieia de aoldados que 
fiedia o iutento e o lugar ; e comordcm a todos que 
de Jieahuma 8orte largassem o posto, aproveitando- 
aedo giro para a t oontinuaeao das cargas. A pri- 
meira emboscada • entregou o sargento maior aos 
oapilaes Joao Paes Cabral j e Joao Pesaoa ; a seguuda 
ao oapitaoPaubYelozo; a teroeira ao capiOao An* 
iotiio Borgea Ochoa* Os outros capitaes repartio 
com prudente e militar attenfao pelos mais postos, 
fp^difido a duf^ciepcia pela imuortaucia d^ c{|d(( 



QigmfOTO UJfllTAlia 867 

iim».O0i>vemador Joao Fernaiul^ Yieirat com um 
QW9M batalbao occupou o mais.alto do lugar, para 
d«lle Vjei* e acudir com soccorro as partes- a onde o 
pcdisse o conflioio. Ao capitao Domingoa Fagundea 
ordei^rao, que com sua companhia foaae recebear o 
mimigo na pas^agem do rio Tapicura | para o en* 
treter, e guiar para as emboscadas.— £m 3 d'A* 
goato cbegou o Fiameogo ao rio, e temendo que 
por eutre os densos arvoredos de suas margeias o 
esperassem algumas emboscadas , maudou empre*- 
gar uelles uma carga serrada de toda sua mosque- 
taria^acompauhada d'uma coufusa grita dogentiO| 
OQJo echo eacheo todas as concavidjwles do con- 
torno. Debaixo da nuvem que causou o fumo da 
polvora, commetteoa passagem com animo deste- 
mido p que q capitao Fagundes reprimio , e sobre- 
saltou com .valentia edestreza^ dando uma e muitas 
cargasao inimigo de cara a cara, sem nunca.a 
virar na retirada^ oom que guiava o Flamengo 
para as emboscadas : incorporou-se.com a nossa 
g^te da primeira com tal arte ^ que presumio o 
HoUwdez. ser medo^ o que era ordem. Tinha che- 
g^da.aqueUe posto o ^arg€»to maior^ c^iamado do 
epitrondo das cargas e das algazarras do gentio ; 
¥10 queo.iuioiigo, em esquadrao fechado, costeava 
o Tabocal , e ordeoou a primeira emboscada de-se 
a primeira carga i o que fez oom tao bom emprego 
que nao perdeo tiro* Entrc os mortos, o ficoud'uma 
balk um. Flam^tgQ r ^^ oppiniao dos sens, o mais 
valente., e como tal escolhido para capitao dos 
aventureiros, C.ontinuou o inimigo a avauQar sem 
^^f caso da perda ; pnas d^l^ve ^ f ur ja com 9 <^ref9 



9M eASTMKyro ustfaho. 

da segunda einboscada , que com maior damno o 
deficampoz de aorie que , embaracado do estrago ^ 
deo lugar a que com a diegada do segundo esqua*' 
drao se eugroasasse o primeiro , e recebesse com 
maior damno a carga da terceira emboscada r no 
mais crescido numiero fez tanto maior impl*essao , 
que virou o Flamengo a cara ao perigo , tiando 
muitos passos atraz, na marcha e no orgulho. 
Quiz entao o governador, que estava impaciente 
de nao entrar no conflicto, avancar & espada como 
soldado valente sobre o inimigo; mas o sargcnio 
maior e todos o detiverao, fazendo-lhe ver qtie 
elle era a cabeca daquelle corpo, a quem pertenda 
o dispdr^ e nao o avancar ; que obedecessenfi aos 
preceilos da miKcia os impulsos do anilno; pois 
sabia que a seguranea de todos consistia na sua, e 
que maisservia^i victoria com mandar soccorrois & 
necessidade que com exetnplo de sua valehtid! ; 
portpie airiscando a pessoa, pelejava com urn braco j 
e governando a todos, pekjava c6m muito^. Obe- 
deceo a razao, fazendo mais em ^e veneer a si mesmo 
que em querer investir com lodo um exercito, 

XV. Advertio neste tempo o sargento maior que 
o inimigo fazia da retiradaconveniencia, formando- 
se por diverso estilo , e que devidia do corpo de 
sen exercito um grosso para rebater os nossos capi- 
taes Antonio Gomez Taborda, e Joao Paes Cabral^ 
que com suds compahhias Ihe descompnnhao os 
esquadroes pelos lados , e para prevenir o nao ser 
acommettido pela ralaguarda no tempo do combater 
com todo maispoderavancavaarompieroTabocaV 
para nos gafnhar o jiosto ,' onde estava formada a 



GASTfilOTO JLUSITANO. tM 

no8sa gente. Sem turbacao, nem tarddnca acudio o 
sargento noaior a reaistencia > medindo a defensa 
pelo modo da invasao.. Formou tres esquadroes, 
para se opporem & forca per todas aquellas (res 
partes que o inimigo nos buscava. -— As poucas 
armas de fogo^ com a falta de polvora e balla , que 
se comecava a senlir^era o que Ihedava maior cui- 
dado. Cobrio a falla com a industria, dizendo aos 
soldados que aquelle que nao tivesse munkoes se 
fo9se a tenda do governador prover com tempo , 
porque o confliclo o nao achasse falto ; exorlando 
a. todos com animo tao pacato y que infiuia smiles 
novos alfQtos. Gontiauavao os nossos a rebater 
com repetidas cargas^ quando uma balla conM*araa 
£prm o capiCao da prhneira emboscada Joao Paes 
CJabral ; nao. quiz e&te que o retirassem do con-^ 
fUctOy aotes se eotranhou na maior profia da ba* 
taUia, ate que segunda balla Ihe tirou a Yida^ que 
b^joi cara vendia em prol da liberdade. Igual sorte 
teve o alferes Joao de Matos , que uma balla Ihe 
deo jp^los olhos, e eoin a vista Ihe levou lambem a 
vida, 

.^Vi. Muito louvavel foi o zeJp cam que alguns 
reiigio9os e sacerdptes descerao do mp^te ao^liigar 
da^batalha, nao lemendpas ballas^ para darem cpnr 
forto aos. que pelejavao , € absolvi^ao aps que ago^ 
nizavao«Oa que mais se distiuguiraaforao 03 Padres 
J^r* Joao deHasurm^ao, Siniap de Figueiredo e 
Joao 4e Araujo; os quaes nap so se occuparao so- 
liciU)s,em seu piedpso exercicio, mas acudirao a 
dieter o governador, que segunda ybz queria preci- 
pitaivae sobre inimjgo. P. Simao d^ f igueiredo> 



979 GASTRIOtd ttJBlTAKO. 

qae subia pela ladeirai no memento que o gover- 
nador ia descer, Ihe reprehendeo sua furiosa dete^- 
minacao, accusando*a de temeraria, e o fiez obe* 
decer aos preceitos da milicia. Nunca maift se apar* 
tott de sua ilharga , porque bem conheeia quaet 
erao os perigos a que se expunha a vida do govern 
nador, e nao menos o bom exito da luta. Com esta 
adTertencia o fez occtipar o posto que Ihe convinfaa 
donde vio como o inimigo chegado 4 porta do Ta« 
bocal profiaya em romper a resisteneia , que Ihe 
impedia a inyasao , e foi soccorrendo a defiraifta ^ 
despediddo mangas de soldados a ter o 6ncontro do 
Flamengo por aquelles partes , que mostrava me-*- 
Ihorar^se ganhando tert*a. « 

XVii. Entre umas e outras annas andaiva o sar^ 
gento maior Antonio Bias Cardozo dispondo tud^ 
com admiravel talento e valor, quando deiscobrie 
que or inimigo carregava com maior poder por cm^ 
parte, onde os nossos^ mal Ihe podiao resisstir ; nyan^ 
dou logo soccorr6l-os pelo P. Simao de Figueiredo 
com algiimas mangas de soldardos: -^ Durou o com^ 
bate por mais de uma bora com igual constam^a; 
ainda que nao com igual numero, at6 que vendo o 
Flamengo que nada podia obter pela forca , «e 
Taleo da industria, lancando pelas ilhargfts doTiH 
bocal algumas ci^mpanhias , com ordem^ que fizes^- 
sem o possivel por ferirem as costas dos 'Portu- 
guezes ; por^m a vigilancia do governador o eti«- 
tendeo, e despedio de sua estancia dous trocos de 
(ao valerosos soldados > que em breve tempo reba^ 
t^raoasmangasconti^rias, easdestroirao, seguindo^ 
Ihe o aleance at^ sie rdcolherem aos esqnadtoei 



GASXHK>TO WHTA»Q. 27i 

d'oude haviao saldo , mas com tamanho desatino 
que o HoUandez aflrouxou o combate, por acudir. 
ao dee^barato dos. seus, que vio postos em yergo* 
nhosafugidft.Fezaiudanovos eaforcos pam ganhar 
terra ; mas vendo que a alegria crescia em os nossos 
soldados , e nos seus a tristeza e o desalento ^ de- 
pois de duas boras e meia de profiada lata , ix>cou 
a retirar 6 deixou o combate co|n grande perda de 
sua gente^ Garregou o capitao Jerouymo da Silva 
com 816 viute soldados , mas com tanta geatilleza p 
que Ihe veudeo a fortuna a gloria deste dia por 
duas pelouradas moi^taes. Nao menos barato com* 
prou o capitao Matheus Ricardo o esclarecido uomo 
queganhou neste confUcto. Oulros muitos soldados 
aossos decao ueste dia a Tida pek liberdade da pa- 
triae que mereciao agora ser conhecidos pelo nome 
comoeutao ofor»> pdo iN:a9o; mas servio-lhe seu 
humilda siascimento de desculpa & iugratidao do8i 
yivos.-^Nao desistio aiuda o inimigo ; antes pondo 
em ordemsuas fileiras^ sedispuniia a iuvestir de 
novo, quando urn valeute Flamengo, cbamado Va- 
lot, sargento maior do ter^o de Joao Blar, sa'io fora 
d'dla.par9 ver a iiossa disposlQao, e (eutar a parte 
por onde melhor uos poderia investir ; como mon-« 
ta^a ]em um cayalh^^ o pescou facUmeute uma balla^ 
iinida com 4>outar)a tao oei^ta , que perdeo juata- 
OMDte a sella .e a vida^ e pela3 aucas do cavallo veio 
ao ebao. Com nao i»enos. magoa que perigo o reii* 
Hvio 08 seus.. Cheg^va p dia As quatro boras da 
tarde^ e.como Henrique Hus advertisse que as nosi 
ass eai7g%s erao mais^ remissas , imaginou que era 
falta de animOi o que foi aecos^ade de pQupar a 



tli GASTHIOTO LtJSITAlfa 

polvora ; fez da suspeita moti vo para animar os seus, 
e investio pela quarta vez a entrada do Tabocal , 
com dqaelle furor que alimenta a desesperaoao. 
Aqui se vio a nossa gente em conhecido aperto , 
porque canaados de malar e ferir sustentavao o 
posto gem poderem mover o bra^o. Nao assim^o 
Flamengo , que com gente de refresco repartia as 
horas do trabalho por muitos, e tinha sobeja genie 
para tudo. Com esta vantagemDos cansou^de sorte 
a proda do cbmbate^ que a muilos retirou a faUa 
do alento, com que nao podia respirar o animo. 
Foi o inimigo ganbando as emboscudas at^ arro6- 
tar com a segunda campina , levando diante de si 
a noasa gente, que se ia pondo em eonhecida reti- 
rada. O P. Manoel de Moraes, que com f&tvo- 
roaa deprecacao chamou os olhos de todos a uma 
devota imagem de Ghristo crucificado , que trflKia 
arvorada, assim animou os fieis, *e eonfundio os 
herejes, que bastdu a venaracao de una e o pavor 
de outros, para que a forluna se desconheeesse a si 
mesma. Em vergonfaosa retirada forao os noasos 
pondo o inimigo. governador Joao F^nandes 
Vieira j vendo que a occasiao o chamava ; disse aK)s 
soldados que o sccompanhaYao <iue prometiessem 
a Mai de* Deos um templo dedicado ao sen deslerro 
se Hies concedesse a victoria dos inimigos dapatria; 
e descendo do monte carregou o HoUandez de tao 
pesados golpes , que , cortado do ferro e do medo , 
perdteo a terra ganhada, e se retirou de todo^des* 
composto aobatalhao, que na primek^a campina 
tere sempre formado. Incitados do far&t segtmo 
os nossos alcance do inimigo veneido , quai^o o 



CASTRIOTO LIISITANO. 273 

gpvernador mandou tocar a recolher. Sabia e pru- 
dente resolucao, porque na campanha nao era igual 
anossa vaatagem, e coocen trades no Tabocal iguo* 
rava o Flamengo o numero, e com o brado da ale* 
gria qiie ahi se manifestou concebia maior terror, e 
parecia-lhe niais formidavel seu edtrago. Este con- 
flicto custou caro aos HoUandezeSi que deixarao 
o campo juncado de inortos, e alagada a terra no 
sangue dos feridos ; nao assim aos Portuguese^, que 
s^ tiverao tres mprtos e. nove escalavrados : auc- 
cesso que a todoa causou assombro , e a mui(os 
pareceo milagre, 

XVIII • Apezar da.grande perda que tiYerao.oa 
Hollaudezes ainda se nao derao por yencidos de 
todo^ antes vendo que os nossos se recolhiao ao Ta- 
bocal, tirarao de nossa suspensao motivo para nova 
ousadia, e como desatinados avan^^rao outra yez 
ao Tabocal ; mas acharao tao viva opposicao dos 
Portugueses , que Ihes pareceo augmentarem^se as 
forcas dos moradores com a continua^ao do trahar 
Iho. 3A a nenhupa das partes lemln^ava a yictoria, 
porque uns e outros pelejayao por def^pder a vida, 
Embebibosnabatalba, nao ficava sentido livre, nem 
para ouvir a3 yoses dos moribundos, ^6 as p^s davao 
fi^ dos mortos^ que conheciao pelo embara^o^ nao 
pelo yullo. Nao se distinguiao inimigos de amigos, 
pelos semblanteS) $eiiao pdoa golpes, com, tao faorr 
ren^ confasao que se davao as feridas com oa ins- 
trumentos do reparo ; porem .como :0 JFIan^engo 
nos fazia taotas yantagens no cresQidQ nuni^o dos 
soldadosy que ao^ feridos^ eanaa/do3 e B9im*(os sue- 
c^diao outros desonn^dos e sap§, foraojos noniaos 
u 18 



S7& GASTBIOTO LUSnAIVO. 

perdendo terra, sem que o furor deixasse advertir 
quaes a perdiao, ei quaes a ganhavao. — gover- 
nador Joao Femandes Yieira , que , fora do con- 
flieto, ficou com os olkos livres para ver a que parte 
ae inclinata a victoria , e que para o maior aperto 
^ardava o melhor soccorro , pondo os olhos na 
sagrada imagem, que o P. Manoel de Moraes trazia 
drvorada,ebuscando a intercessao onde esperava o 
faVor, disse em voz alta para os seus : « Senhores^ 
» rezemos de joelhos uma SalvB Regina i Mai de 
» Deos , certos de que sua piedade nao fatta em 
» ouvir a quern a chama. » Tal confiauca influio 
em seu animo esta derota diligencia , que a todos 
assegurou a dita, e persuadio a inrestida. De cor^ 
rida com os s^S se metteo no mais furioso do corn- 
bate , matando e ferindo inimigos com golpes tao 
desusados, que a espada em sua mao tinha menos 
de ferro que de raio ; sem differenca cortava ao 
vizitifao com o fio, e ao distante com o medo« Ser- 
▼io o exemplo A imitacao, com que os Portu- 
guezes arrancarao do campo ao inimigo descom* 
posto e temido; e sempre carr^gado de nossos 
golpes at^ o fim da campina , a onde o rio y que 
buscaya para o tranzito, Ihe advertio o perigo j se 
nao esperasse o fevor da noite. «- Deiju>u o Hoi- 
kiodez no campo todas as municoes, e grande parte 
das annas 9 que na precipiiada fogida mais Ihe 
a^viio d'embara^ que de defensa. Na primeira 
vigiha da noite^ em que a escuridao, i tempestade 
e a crcicmte do rio pod^rao embargar a resolucao 
mais arrojada, o vadieou o Hollandez com determi* 

Bareceo-ihe que se o dia seguinte 




CASTRIOTO I.USITANO. 275 

o achasse naquelle sitio, os seus deminutos e afflio- 
tos , OS nossos descancados e briosos , nao ficaria 
pessoa em seu exercito que nao perecesse^ ou na 
batalha, ou no alcance ; e que menos arriseava em 
salvar alguns que em perder todos. Em toda aquella 
noite nao descancou de caminhar por veredas in- 
cultas, matas, lama^aes e asperezas, que a tempes^ 
tade do vento , e inundacao das aguas fazia pare- 
cer mais insoffriveis , com tanta pressa, que em 
poucas horas andou einco leguas de terra. 

XiX. Em quanlo o HoUandez, ajudado do si- 
lencio e escuridade da noite , caminhava deseom* 
posto , torbado e vencido , festejavao 09 nossos as 
repetidas victorias, que Deos Ihes d^ra neste dia , 
e a esperanca de que com seu favor as multiplica'- 
riao no seguinte com aquelle gosto , que resulta 
do seguro da bonanca^ quando se segue ao maior 
rigor da tormenta. Agrande alegria os nao deg- 
cuidou da gratidao e da vigilancia. Mandou o go- 
vernador que todos rendessem as gracas ao su- 
premo Senhor das victorias, e que se preparassem 
para entrar em nova batalha , que sem duvida se 
daria ao primeiro romper da manha^ ou porqoe 
inimigo a havia de esperar, ou porque nos havia 
de acommetter. Guarnecerao-se todos os postosde 
sentinellas, para prevenir qualquer assalto r^ieiir 
tino ; no Tabocal de cima , que orlava o alto 4o 
monte, se mandou Yo^ar aquella terra que bastava 
para nella sfe emboscar uma partida da nossa genie ; 
e na distancia que se entrepunba entre um e outro 
Tabocal se levantdrao trincheiras que cortav^o em 
tres partes a ladeira do mbnte. Em qvianta se trar 



276 GASTaiOTO LUSlTiNO. 

balhava nellas , mandou o governador retirar toda 

a genie para s^ sua estancia , como para lugar mais 

SiQguro e mais defensavel , a onde o inimigo nao 

podia chegar senao deslruido e cansado pelas op- 

posjcofs que primeiro havia de veneer. — : Tinha 

vi^to governador a valentia com que nos combates 

pelejarao. as companhias dos Minas e Crioulos ; e 

cerio de sua fidelidade os mandou descobrir o 

eampp, com ordem que passassem o rio, eda outra 

parte picassem a retaguarda dos inimigos^ obri- 

gando-os a qiie em toda a noite nao largassem as 

armas das maos. Ghegarao ao alojamento do Fla- 

j^eteogOy que virao desamparado, e ainda alcancdrao 

a sua retagu^rda que ia passando o rio. Com mul^ 

tiplicadas cajrgas e con^ideravel damno o persegul- 

raOy e acobardarao de moda, que imaginando-se 

eojtados , se embosdirao pelas matas deixando de 

se^uir caminho dos seus ; aos quaes nao seguirao 

OS nossos o alcance , por nao excederem as ordens 

que Unbao recebido. Voltarao, ederao conta ao 

i;OfYernador do que virao, e do que obrdrao. Com 

este ayiso ordenou Joao Fernandes Vieira ao sar- 

g9Qto maior. que mandasse correr a campanha , 

duas legoas ao largo , pgr soldado^ praticos. No 

termo d'ellas achdrao os nossos cincoenta HoUan- 

dcixes que davao guarda a mais de quotrocentos 

feridoSy que^ de3maiados pela falta do sangue e 

pela trabalho4a marcha, nao poderao passar ayante 

na cpnsierva cjos seus. Forao os uqssos vistos das 

sentinellas iniipig^s, tocarao a rebate, fogirao os 

que poderao ; e os nossos virdrjaq as costas, enga- 

nados do vulto e do rebate , e o derao eni nosso 



GA8TBI0T0 LUOTAEfO. 277 

alojame&to , dizendo que o HoUandez se refazia , 
e formava para nos tornar a envestir. Nao fazem 
as sombras menos impressao nos animos, quando a 
imagina^ao as pinta com as cores do medo* Passou 
a nossa gente , enganada do aviso , todas as horas 
da noite com as armas na mao : molestia excessiva 
por succeder em uma noite desabrida^ depois d'um 
dia gastado em continiiada batalfaa , sem que nelle 
d^sse lugar a peleja a se refazerem as forcas^ nem 
com o descanco^ nem com o susteuto. 

XX. Rompeo a hiz da manha pelas sombras da 
noite e da imaginacao^ iguaes no horror, e simi- 
Ihantes nos effeitos. OfFereceo-se o capitao Francisco 
Ramosadescobrir o campoe a verdade, evoUoucom 
a certeza de que em todo elle nao havia mais que 
despojos do inimigo; comesta claridade, e com ado 
dia saio a nossa gente a ver nos instrumentos da 
bataiha os gr^os da victoria , e os pregoes do trium- 
pho. Todo o campo estava semeado de corpos m.or« 
tos J de armas sem conto , de municoes, como pol- 
vora, balla, corda^ arcos e frechas sem numero, 
que em muitas partes da campina nadavao no 
sangne de seus proprios donos. Alguns manti- 
mentos assim para a necessidade como para o re* 
galoy que igualmente serviiio a festa e a falta. Nao 
houve soldado que se nao ar masse com escolha ; 
nem Indio que se nao vestisse com vaidade. Sue* 
cedehdo & repeticao da alegria a das cargas com 
que se acclamava a victoria. Fehs nove horas da 
manha chegou urn morador d'aquelle contorno 
com as novas certas do caminho que tomara o Hoi- 
landez , o do grandc mcdo ^^om (|ue marchava , 



S78 ctfiuoro Lusniao. 

deixando peloB matos os can; adoft e fi^idoa , que 
o nao podiao aeguir. Repetio a causa que tivera 
o engano doa Minas acima referido , e que o ge^ 
neral Henrique Hus mandava dizer por elle ao go* 
yemador Joao Femaudes Vieira d^sse quartd 
aquelles feridos que ^ quasi moribundos, mandava 
levar em carros para o Arrecife y como a todos o 
ensinayao os preceitos da milicia^ que nao pennitte 
matar a sangue frio ; porque d'outra parte seria 
maior a yingan9a que a offensai e nao deixaria sua 
espada morador com vida, passando pelos fios della 
a grandes e pequenos de um e outro sexo* Com 
esta relacao se ratificou a certeza da yictoria , qua 
outra yez repetirao os gritos. goyemador , que 
quasi se nao achaya a si mesmo entre os excessos 
do gosto J se nao descuidou nas demonstra^oes de 
grato y com que desa Java que todos dessem a Deos 
gracas por tamanho beneficio. Com seu exemplo 
obrigou a que todos y postos de joelhos p com as 
maos leyantadas ao.ceo, confessassem que a elle 
deyiao a rnerc^ ( fazendo tempio do. mesmo^lugs^r do 
conflicto )• Aoabou este acto d'agradecimento com 
gritar todo o exercito em uma voz : « Viva a ii 
i» catholica romana! vivaaliberdada! yivaElRei 
» Dom Joao ! viva, viva I » E logo o governador. com 
benevolo e alegre semblante , e o chapeo na mao > 
foi abracando a cada um dos capitaes , ofiiciaes e 
soldados, engrandecendo o procedimento de todos 
com tanta affabilidade , que os punha sobre a ca-* 
beca , quando com os braoos os recolhia no peito» 
Erao reciprocas as congratulacoes da dita , e por-r 
que fossem communs as coufiancas da liberdade 



(USmOTO LOSITAIIO. tl9 

(jk e&tao iQai^possuida que esperada ) a deo Joao 
Femandes yi^ira a cincoenta eseravos seus com 
a honra Ue aoldados, merecida de seu valor a fide* 
lidade naquella.ocoaeiao; e Ihes fez mercd de que 
podessem assentar pra^a, e veneer soldo em quanta 
durasse a guerra^ escolhendo d'entre elles dous c^ 
pitaes, para duas companhias, em que os repartio, 
de vinte e quatro soldado^ cada uma. 

XXI. Perdeo o Hollandez nesta occasiao as tve$ 
partes de sua gente : fora dos mortos que retirou 
e esGondeo a eorrente do rio , se ach^rao no campo 
trezentos e setenta mortos ; nao numeramos os que 
na retirada morr^ao das feridas pelos matos, pelo& 
caminhos, e no Arrecife ; entre estes os mais dos 
cabos e of&ciaes da guerra , cujas iasignias Ihes fez 

deisar a morte no campo e nas estradas. Nao fdi> 
menor a mortandade dos Indios , assim parciaes 
como auxiliareSy que seguiao o exercito para terem 
parte nos despojos. Constava o todo da nossa gente 
de mil e trezentos homens» a saber, mil e dutentos 
Portuguezes entre solteiros e easados (todos sol« 
dados no valor, poueos na pratica) e quasi cem 
naturaes, entre escravos e Indios. As annas de fogo 
nao passavao de duzentas espingardas » f^itas mais 
para a ca^a que para a peleja ; algumas espadas que 
a porhibicao tinha escoiididaSy e com a ferrugem 
tao gastadas que podiao magoar, mas nao ferir. Ad 
mats armas erao cutellos do monte, e paos tostados; 
as muniqoes tao escassas que as negava a penuria , 
ainda a maior necessidade ; as boras do combate , 
um dia todo. As dos cercados nao se contao pelos 
golpes^senao pelos tiros.O numero dos nossos rtior- 



iM CAdTKIOtO LUSITAKa 

to3 nao passou de vinlc oito, entre'dtes os capitat^s 
relatados ; os feridos forao trinta e siettey aos quaes 
o cuidado da charidade apressou a convakcenca. 
Dos escravos morlos e feridos nao fazem mencao as 
relacoes (devia ser esquecimento ^ e nao desprezo, 
que o nao merec^rao negros que tao eadarecida- 
mente obrarao.)— Nomearemosaqui, segundo a or* 
dem do alphabeto, e nao do merecimento, os capitaes 
e pessbas de quaKdade que se ach^rao no conflicto; 
para que seus nomes passem a posteridade. Os ca« 
pitaes forao, Amador de Araujo, Antonio de Crasto, 
Antonio Gomes Taborda, Amaro Cordeiro, Anto- 
nio Borges Uchoa^ Bartholomeo Soares Ganha, 
Braz de Barros, Cosme do Rego, Domingos Fagun- 
des, Domingos da Gosta^ Francisco de Lisboa, Fran* 
cisco Gomes y Faustino Pereira , Francisco RamoS; 
Francisco de Figueiredo da Silva^ Francisco Gomes 
da Silva , Jeronymo da Siiva ( morreo na batalba 
com mais illustre nome), Joao Soares d'Albuquer^ 
que y Joao Leitao d' Albuquerque sen irmao , Joao 
Nunes Victoria , Jeronymo da Gunha do Amaral , 
Ignacio Mendes, Joao Barboza, Joao Pessoa Bezerra, 
Joao Nunes da Mata , Joao Gomes de Melto y Joao 
Paes Gabraly que nestabatalha, como outro Sansao 
coroou as proezas da vida com se exceder a si 
mesmo na morte; Mathias Ricardo, que nocombate 
deo a vida pela patria ; Manoel de Araujo de Mi- 
randa, filho de Amador de Araujo ; Manoel Soares 
Robles , Marcos Pires , Paulo Velloso , Pedro Ma- 
rinho Falcao, Pedro Gorrea, o P. Simao de Fi- 
gueiredo, sacerdote e capitao, igual no zelo de en- 
caminbur as alma^ ao valor de esgrimir as armasj 



GASTRIOTD LtTSITANO. 281 

Sebastiao Pereira , Simao Mendes , e Thom^ Dias 
da Costa. A^ pessoas particulares, a que a nobreza 
deo iiome, e esta eccasiao fama, (orio as seguintes. 
Arnao de HoUanda , com dous filhos ; Antonio 
Bezerra , Antonio Gavalcanti , com dous filhos ; 
Arnao Lopes da Madeira^ Antonio da Silva^ no- 
meado capitao de carallos , Antonio da Costa , AI- 
varo Teixeira de Mesquita, Antonio Coelho Serpa, 
Antonio Carneiro Falcato, Antonio Gomes, Anto- 
nio de Magalhaes de Mello , que montado em urn 
cavallo , a todos os combates animava tanto com a 
exhortacao como com a espada ; Antonio da Silva, 
Antonio Tavares, Antonio da- Costa, Bernardino de 
Carvalho, Balthazar d'Azevedo, Gosme Soares d'A- 
ranjo, Christovao Beranguer, cunhado do gover- 
nador da liberdade ; Diogo da Silva , tambem de 
sua casa ; Domiogos Barboza , sen alferes ; Fran* 
eisco Berenguer de Andrada, sen sobrinho; Fran- 
cisco Rodrigues Tavares, Francisco Barreto, Joao 
Lourenco Francez, com dous filhos; Jeronymo de 
Oliveira Cardozo , da casa do mesmo governador ; 
Joao Dias Leite, com dous filhos ; Joao Gordeiro de 
Mandanha., Luiz da Costa Sepulveda, Lourenco 
d'AbreU) com um filho; Manoel Cavalcanti d' Al- 
buquerque , Manoel Alvares de Carvalho j Manoel 
Fernandes Cruz^ com dous filhos; Manoel Barreto, 
Simao Yelho Barreto, com dous filhos ; Thomaz da 
Costa ; e outros d'igual esforco e fidclidade , cujos 
nomes esereveo entao com melhor (inta sua espada, 
ainda que agora se nao estampem nesta historia 
por nossa penna. Os sacerdotes, que se achdrao 
nesta occawo; de que nos informou a noticia, for 



aaS GASTBIOTO UBITAIIO* 

raa o P. I^ao de Figueiredo, ja rep^tido eatce 
OS capitaes » e agora oomeado , porque o ii^ii6 
duas vezes conhecido a digoidade e o posto ; o 
P. Joao Baptista Lobato , natural de Lisboia ; o 
P. Joao de Araujo, natural de Poute de Limaj 
e o P. Fr. Joao da Resurrei^o , de quem adiante 
faremos particular memorial devida aos singulares 
servi9os que no discurso d'esta guerra faz a Deos, 
a patria e ao reino. 

XXII. Depois de passar o rio ^ como bavemoa 
dito , marchou o Hollander toda a noite oom grande 
trabalho; na manha do dia s^uinte, 4 d*Agosto, 
chegou apovoaqao de Sao Louren^o^ lette l^^oaa do 
monte das Tabocas, d'onde fogira veucida; 4chouo 
lugar deshabitado, cujosmoradores ge retirarao aos 
matos incertos do successo ; deteve-ise neste sitio 
esperando pelos feridos , e logo avisou ao Arrecife 
dando conta aos governadores do succedido, e pe- 
dindo mantimentos , munieoes e soldados ; chegou-* 
Ihe o soccorro nesse mesmo dia, e depoii^ de inviar 
OS feridos ) e reoolher os disperses se mudou 
para os Apupucos , onde os moradores o recebe* 
rao como alli^dos : nao se tem&rao offehdidos, com o 
seguro dos pa^sapories* No terreiro da igreja fes 
alto, e logo rezenha da gente que tinha, e adiou que 
de mil e quinhentos soldados^ com que entrou noS 
combates das Tabocas ^ perd^ra mil e cem^ com 
a flor dos Officiaes da gueri^ que o acompauMrao. 
Da perda fez Henrique Hus motive para a perfidia. 
Pagou aos tristes moradores o agasalho e benevcH 
lencia , com que o r<eceb6raO; entregando a povoa*- 
cao e OS contornos ao sficco dos sens ; que os sol'* 



^ 



dados I judeoB e Indios executarao nao eomo fao»* 
mens, senao comQ feras.Tudo o que podia aervir a 
cobica e a vixigan9a destruio o odio e o roubo ; a 
crueldade venceo as opposi^oes da natureza e da 
ra2aoy achando nos motivos da compaixao os in* 
centivos da ira. Prostestarao de brutos na demazia 
com que a torpeza offendia a modestia; e ua injuria 
co^k que atropellava a resistencia. Contra o maia 
sagrado se irritava mais seu odio, e contra o maia 
religioso seu poder. Destruirao, e contamiDarao oa 
teoiplos ; fizerao em pedacos as santas imagens, ao 
P. Joao Dias, sacerdote de noventa annos, feri^ 
rao a golpes e affrontas : sua yirtude foi para os de* 
pravados herejes.seu maior delicto, e seu dinheiro 
seyu maior verdugo ; pendurado de urn braco acar 
bara a vida, se a nao remira a peso d'ouro, Nao se 
esteudeo a mais a crueldade , porque todos os que 
pod^rao anticipdrao a fuga ao aggravo. — Pela tard« 
mandou Henrique Hus continuar a marcha; fes 
alto na Yarzea , iS se alojou no engenho de Dona 
Anna Paes ( uma legoa do Arrecife) ; ao outro dia 
partio a ver-se com os do supremo conscilho ; cour 
ferirao entre si o que mais convinba ao estado day 
couaas presentes ; tomou assento no que se devia 
fazer ; e despedido com as ordens que havia de se- 
guir s^ vqUou para os sens no mesmo dia. Mandou 
saquear o Arraial velho, com as mesmas extorsoes> 
e com toda a sede da crueldade e da cobi9a ; nao ficot) 
parede, telhado, nern sotao que nao t^nteassem cqo) 
espetoa, suspeitando achar riquezas enterradas, ou 
escondidas ; na igreja do lugar com mais exorbi-> 
tancia, porque com mais indecencia. No engenho 



98& CABTBIOTO LWITAMO. 

de Francisco Monteiro Bezcrra executou ioauditos 
desaforos. A senhores e escravos media a crueldade 
por urn mesmo (amanho ; com urn mesmo fio cor- 
tava o ferro e a injuria pela matrona e pela don- 
zeila. A Dona Brazia, mulher do capitao Pedro Ga- 
valcanti d' Albuquerque, e a sua mai Maria Fessoa, 
arrastarao como a vis escravas, porque despre- 
zando a perda da fazenda , nao consentirao nem 
ainda na mais leve mancha da honra. A poucos 
excusou a diabolica perfidia da espada e da affronta, 
e aos que perdoava sua colera guardava para maior 
castigo sua malicia. Tinha determinado entregar 
a todos a roaiores tormentos. Decrelara sen desa- 
tinado conselho que aquelle Flamengo, chamado 
Jacobo (que acima dissemos vivia entre os selva- 
gens}, deixasse o sertao, e deacessedos monies com 
todos OS Indios de seu partido a correr a campanha 
do rio de Sao Francisco, onde o esparavao cento e 
sessenta HoUandezes , com ordem que mettessem 
tudo a ferro e a fogo, descendo por Goyana at^ i 
Varzea , onde esperava Henrique Hus. Horrivel 
fora o estrago, se a divina Pix)videncia o nao ata- 
Ihdra^ confundindo a malicia qom o seu mesmo 
decreto, como veremos no decurso d'esta bistoria, 
XXIII. Deixamos ao governador Joao Fernandes 
Yieira no sitio das Tabocas^ onde se dec a bataiha, 
dando e recebendo as congratulacoes da victoria ; 
d'aqui por dianteo veremos (sacrificado urn eou- 
tro hombro ao peso do governo ) entrar em tanto 
maior cuidado , quapto mais se estendia sua otoi-- 
gacao, Nao achava em si todo o gosto e triumpho 
em quanto os moradores ausentes nag goijavao ^^ 



GASTRIOTO LUSITANO. 285 

toda a liberdade , participando de sua mesma for- 
tuna. Muilas freguezias tinhao seguido o seu exem- 
plo, e algumas pediao o seu auxilio (as que mais 
instavao erao Iguaracu e Goyana); dispunhs'^se 
elle em mandar-lhes soccorro, quando Ihe chegou 
a nova de que os meslres de campo Andrd Vidal 
de Negreiros, e Martim Scares Moreno tinhao to- 
rnado terra em Tamandar^ com oilocentos in- 
fantes, mandados da Bahia pelo govemador do £s- 
tado, para que favorecessem a mais justa causa; 
esperava aldm d'isso cada hora os govemadores de 
Indies e Minas Henrique Dias e o Camarao; fiado 
nestas esperancas se determinou em mandar logo 
soccorro a Iguaracu e a Goyana. — Urn dmulo in- 
conGdente, que teve nolicia d'esta deiibera^ao, 
metteo valias a Joao Fernandes Vieira para que o 
nomeasse cabo d'esta expedicao; concedeo-lhe o 
governador a Jornada e o posto , fazendo confianca 
do traidor para o reduzir a fiel ; e porque affas- 
tando desio falso o nao Gzesse alguma occasiao ver- 
dadeiro. Entregou-lhe cento e cincoenla homens, 
com ordem que se incorporasse com a gente para 
melhor se defender do inimigo, e o despedio alguns 
dias antes do engenho de Gorjau , onde entao se 
alojava a nossa gente. Chegou o dito cabo a villa 
de Iguaracu , onde se deteve algum tempo ; passou 
depois a Goyana , onde uma pontada Ihe tirou a 
vida, porque morresse da malignidade de que a 
traicao se alimentava em seu peito : successo que 
adiantamos ao tempo , por nao deixarmos a potita 
d'este fio sem no. 
XXiy. Tinha s9uido da Bahia Salvador Correa 



986 GASmiOTO LUSITANO. 

de Sa por general d'uma frota de trinla e selte na- 
¥108 mercantes , que fazia viagem para o reino ^ e 
em sna conserra mandira o govemador do Estado 
ABtonio Telles da Silva dous ter90s d'infantaria 
( seus meslres de campo Andrd Vidal de Negreiros, 
e Marlim Soares Moreno ) em 6ito embarcacoes , e 
por cabo d'ellas Jeronymo Serrao de Paiva (homem 
valoroso e pratico no exercicio militar de mar e 
-terra) em satitfacao de promessa que fizera aos 
embaixadores do govemo hollandez, com ordem 
que na altura de Tamandar^ tomassem este porto, 
e nelle rerdadeira informacao das causas da suble- 
racao dos naturaes ; e se nao fossem justas, os cas- 
tigassem como a rebeldes, e composessem as cousas 
de sorte que ficasse a terra em paz ; por6m se en- 
teoctessem) que de tyrannizados e perseguidos da 
semrazao e insolencia do dominio hollandez, toma- 
rao as armas { como se dizia ) erii defensa de suas 
vidas , honras e fazei^das , os favorecessem e aju- 
daasem , como erao obrigados por lei natural e di- 
vina. Navegou Salvador Correa ate aquella altura ; 
deixoti a Jeronymo Serrao de Paiva com os oito na- 
vies no porto de Tamandar^; o continuou a viagem 
ae reino , fomando alguns refrescos no Alrrecife; 
eomo adtante ae dirk. — Jeronymo Serrao deixou 
a goite de guerra em Tamandar^, e com a do mar 
ae deixou Bear nas embarcacoes, dehaixo daquelle 
seguro quelhe promettia a U do contraclo referido. 
Tinha suctedido divulgar^e da Villa de Sirinhaem 
O' l0VBntani^Yit<^ de Joae> Femandes Vieira com a 
voz de liberdade, e temendo o Hollandez a imitacao 
4 mte do eaemploy mandara deitar bando que todo^ 



CASfrBUXTO LUSITANO. 287 

OS Portugueses d'aquelle destriclo em termo de 
ires dias naturaes leva^em & fortaleza todas as ar- 
mas ofiensivas e defensivas que tivesseni; sob pena 
de morte irrimissivel. Atemorizados os moradores 
obedec^rao uns , e dispunhao-se outros a obedecer, 
quando Joao d' Albuquerque (homem de beni, ze- 
loso e valente) conhecendo os perfidos intentos do 
Hollandez, que erao desarm^l-os para os matar in- 
idefesosy declarou a todos o fim do bando, e per- 
Buadi-os a resistencia, Reunio uns quarenta e 
noTe mancebos^ e com elles se adiantou a tomar as 
wmas aos vizinhos, para que as nao tomassem aos 
sens verdugos ; com a mesma deliberaeao metteo a 
pique (res barcos que o inimigo tinha carregados 
de diversos generos para o Arrecife ; e appellidando 
liberdade fez todo o mal ({ue p6de aos Hollan- 
dezes. 

XXV. Neste tempo chegou a Sirinbaem a nova 
(fe gente que tomira terra cm Tamandar^. Alvoro- 
cido Joao d'AIbuquerque com a esperanca do soc- 
corro y avaliou por milagrosa a oppurtunidade do 
auxilio ; safo ao encontro da nossa gente , fallou 
com od mestres de campo, e da parte de Deos e 
d'Ei Rei Ihes requereo o$ libertassem da oppressao- 
^ agonia em que esta vao y de novo condemnados a 
morte pela tyrannia holUndeza ; pedio que fevore- 
cessem os moradores > que com pequena ajuda se 
Ifaes entregaria a fortafeza que naquelie lugar tinha 
o inimigo dcsapercebida. mesmo requerimento 
fiieraoos moradores, que a vigilancia contraria tra- 
zia desterrados petes matos. — Era justificada a 
peti^ao^ e muito conformeas wd^naqua trttziao; 



1 



288 CASTBIOTO LU&ITANa 

pelo que sem detenga marcbarao para a fortaleza 
OS capiiaes Paulo da Cunha e Christovao de Barros 
com suas companhias » com promessa dos me»(res 
de campo que os seguiri&o com os seus tercos. 
Unidos OS soldodos com os moradores cercarao a 
fortaleza ao largo ; tomarao a agua , e com ella as 
portas e todas suas esperancas ; e logo o capitao 
Paulo da Cunha maodou um bolatim, que dissesse 
da sua parte aos cercados que o governador g^ral 
Antonio Telles du Silva os enviara ^uella capitaoia 
em ordem a socegar qs rooradores por um de dous 
meios : ou castigando os que se haviao levantado, 
se o tivessem feito seili justa causa; ou &yoreceiido«' 
OS, se o dominio hollandez Ih'a houvesse dado 
sem legitimos fundamentos ; e que exAminados UQS 
e outros procedimeatos ^ tinhao alcancado que 
elles dominantes tratavao os moradores y nao eomo 
a vassalloSy senao como a captives ; pois temorosos 
de suas crueldades., roubos e injusticas se condem- 
navao a viver entre as feras dos matos ^ por fogi- 
rem a tyrannia de seu imperio ; e que, como a indi* 
gnos de serem obedecidos, os queriao lan^r de suas 
terras> pdo , que sem dilacao entregassem aqualla 
fortaleza a bom partido, quando nao a tomariao ^ 
escala, sem deixarem pe^soa com vida. Tomou esta 
embaixada ao Flamengo falto de tudo o que Ihe 
podia servir a oonservacao e a def^Qsa* Considerou 
o perigo certo, o soccorroconlingente; e seeotr^ 
gou com honrosas condicoes, que pontualmeute se 
Ihe guard^rao. Sairao da fortaleza sessentae dous 
HoUandezes rendidos, e quarenta enovelndios; estes 
forao oondemnados u forca peio auditor g^al Frau" 



J 



CASTRIOTO LUSITANO. 289 

cisco Bravo, cuja sentenca se execulou logo (foi o 
lugar do crime o que servio ao supplicio ) ; a todos 
colgarao pelos mures da fortificacao. A suas mu« 
Iberes e filhos repartirao pela povoacao , nao como 
escravos senao por modo de administracao. Para 
esta faccao concurreo com valor e zelo um nobre 
morador chamado Hypolito Alonso de Yercosa , es- 
frangeiro por nasGimento^ mas natural por affecU). 
Assistirao a eutrega os dous mestres de campo^ ainda 
que chegjrao depois de rendida a Fortaleza^ e no- 
mearao para capitao, e da gente da terra, a Alvaro 
Fragoso d'Albuquerque, digno de toda a confian^a ; 
e a Francisco de la Frauz , Fran^ez de naqao, e ca- 
sado com mulher portugueza, fizerao capitao dos 
estrangeiros rendidos ( assent&rao praca os mais 
d'elles ) ; o qual , por satisfazer a sua obrigacao , 
deixou casa , mulher e filhos , e seguio a marcha 
dos nossos , que o mestre de campo Andr£ Vidal 
de INegreiros encaminhou para onrle estava Joao 
Fernandes Vieira; Marlim Soa res Moreno , com o 
seu ter^o e com mais fleima , tomou o caminho de 
Nazareth, e cabo de Santo Agostiuho : um e outro 
alegres com a nova , que neste sitio receberao da 
victoria das Tabocas. 

XXVI. Sette dias deo Joao Fernandes Vieira ao 
enterro dos mortos e cura dos feridos , depois da 
batalha, e tambem ao descanco dos seus ; no ultimo 
Ihe chegou a nova do soccorro, que a favor dos 
opprimidos moradores mandava da Bahia o gover- 
nador do Estado, e que os mestres de campo vinbao 
em sua demanda. Logo se dispoz a sair-lhes ao en- 
contro ; ao outro dia a passo lento chegou ao en« 
I. 19 



190 CA8TRI0T0 LUSiTANO. 

genho de Balthayar Goncatves Moreno ; no dia se- 
guinte ao liig;ar de Gorjacii, e se alojoii no engenho 
de Antonio Nunes Ximenes. D'a(|ui despedio An- 
tonio Cavalcanti com o soccorro^ que mandava 
aoB moradores de Goyana e de Jguaracu. Nesta 
marcha se desencontrarao o govemador da liber- 
dade, e os de M inas e Indios que a Hgeira o busca- 
vao, deixando algutnas jomadas atraz os sens tercos. 
Das Tabocas , onde nao ach^rao o governador, o 
Tierao seguindo at6 o alojamento de Grorjacii. Com 
akgres parabens se receb^iao, devidos & chegada e 
a victoria ; mas nao foi longa a entrevista , porque 
diegou ao governador o aviso de que se alojavao 
na povoacao de Sanfo Agostinho do Cabo cento 
e oitenta HoUandezes; mandou o governador 
apressar a marcha ao exercito, mas nao pode 
apanhar ^s maos os Flamengos, porque advertidos 
por traicao re(irdrao-se ligeiramente & fortificacao 
de Nazareth. Com o dissabor de Ihe fugir a caca 
mandou o governador fazer alto naquelle lugar, 
onde teve novas que os mestres de campo Andr^ 
VSdal de Negreiros e Martim Scares Moreno, com 
h gente de seus tercos e muitos dos moradores dc 
terra tinhao chegado a Ipojuca, e estavao com de- 
terminacao de buscar Joao Fernandes Vieira K3m 
qualquer sitio em que se alojasse. Escreveo-lhes o 
govemador uraa carta^ em que Ihes dizia que era 
excessivo o gosto, com que estava^ de saber que os 
tinha vizinhos (havia entre as duas povoacoes tres 
fegoas de distancia) sem Ihe aJterarem o akoroco, 
com que logo os ia buscar, as praticas que ouvia 
Bcerca do fim a que vinhao j porque sabia de certo 



GASTRIOTO LUSITANO. 291 

ser o que 08 trazia, socegara terra, favorecer op- 
primidos^ e destruir tyrannos ;^ e que se uminesmo 
fim OS unia nas tencoes, nenhuma cousa os pode- 
ria separar nos alojamentos ; que elle se ficava 
dispondo para Ihes ir dar os parabens da vinda, e 
ofTerecer a pessoa a seu servico, ainda que a muitos 
parecesse a obrigacao encontro. — Lerao os mes- 
tres de campo a carta do governo , e vendo por 
ella que a forca da cortezia dominava a da supe- 
rioridade, se dividirao; MartimSoares Moreno ficou 
no sitio que chamao Algodoaes (uma legoa do 
pontal de Nazareth ) , e Andr^ Vidal marchou ao 
lugar onde se alojava o governador. Avist(irao-se 
OS dous cabos ( postos seus soldados em ala, e pre- 
sente innumeravel multidao de povo de toda a con- 
dicaoy sexo e idade, que no amparo de nossas ar- 
mas victoriosas buscavao o seguro da crueldade 
inimiga , tanto mais ferina, quanto mais irritada); 
chegirao a falla, e disse Andr^ Yidal de Negreiros, 
em voz que todos podiao perceber : « O goveraadcw 
» g^ral do Estado, Antonio Telles da Silva, me 
» manda prender a vossa rnerc^ , por queixas que 
y> tern feito os governadores do Arrecife, e castigar 
» OS cabecas da rebelliao , que tern amotinado este 
» povo. >) Ao que respondeo Joao Fernandes Vieira : 
« O governador giral do Estado assim como ouvio 
» a voz da queixa , 6 forca que ouvisse o grito da 
» oppressao. Eu sei que vossa merce traz ordens 
» condicionaes^paraas executar pelos mericimentos 
» das partes, e dar a cada urn o castigo^ ou o favor 
» merecido; e tambem sei que chega vossa mere6 
» a tempo em que vi com seus olhoi^ a misertvel 



92 CJLSTRIOTO tUSITANO. 

» escravidao, em que a fortuna tern posta esta ca- 
» pitania j cujos inoradores desgarrados e aiHictos 
» andao deslerrados de suas proprias casas e Eazen- 
» das pelos inatos de sua me&ma pairia , trazidos 
» de sua miseria a buscar o favor de nosso zelo, 
n que sem reparar no risco se arroja a liberl^l-os 
» da tyrannia , que os sujeita a padecer.tribulacoes 
w que nao pode referir a dar, e injurlas que mo 
» sabe rclatar o pejo, e so sq deixao entender coin 
» a certeza de que na companhia das feras se me- 
» Ihorao do que Ihes fazem os homens; e se nesle 
» casoa justicanaoexplicaropreceito, naoachari 
» Yossa merce o da obediencia , antes provocara 
» contra si o desacato, livre da culpa, de que ab- 
i) solve a todos a natural defensa, permiitinido aos 
» mortaes todos os melos para a conservacao da 
n vida e da honta. ^ Ao ^cbo d'estas palavras se se- 
guio um tunmltuoso grilo de soldados e morado- 
res ; o qual socegado , tomou a inao ilm dos solda- 
dos de Andr^ Vidal. que em uome dos que vinbao 
da Babia fallou nesta forma : < A injusia guerra 
y> com que o perfidp Hollandez ba tanlos ^nnos 
}) tyranniza esta capitania nos tiaz a (odos des- 
» terrados de nossas casas ; a uns, pprque fogem o 
» aggravo; a outros, porque buscao a vingaoca; 
» e a todos , porque a todos cobre o luto de paren- 
» tes f amigos e naturaes ^ mortos p^la crueldade 
» flamenga , que com laslimosa memoria nos esta 
>} fallando ao coracao todas as boras , cbamando- 
» nos parao desaggravo. Temos a occasiao na mao, 
» o exenvplo a vista ^ a. fortuna d^a nossa parte; 
I) e a censura certa se nao seguirmos a persuasaO) 



CASTRIOTO LUSITANO. 393 

» quando nos estimula a piedade e a inveja, como 
» patricios, e como Fortuguezes ; e assimqueremos 
» offerecer as vidas por servico de Deos e bem de 
» nossos naturaes ; e se algum nao for d este pare- 
» cer pdde-se voltar para a Bahia. » mestre de 
campo, que entendeo a justa deliberacao de seus 
soldados^ cortez e discrelo se poz da parte da razao, 
dizendo, que bem sabia^ pela experiencia de muitos 
aimos, al^ onde chegaya o soffrimento dos mora-* 
dores, e a insoleneia dos eslrangeiros; e uma vez 
qne na renitencia de seus soldados tinha a escusa 
de nao executar as ordens de seu superior, elle o 
deixava de ser, e iicava no andar de cada um d'elles 
obrigadoaseguirseu intento, com ogosto de mililar 
debaixo da bandeira d*um governador tao valeroso 
e (aoamigo como o era elle Joao Fernandes Vieira , 
a cujas ordens ficava subordinado. Derao*se os 
bracos; fizerao-se todos em um corpo^ unidos no 
esquadraoenoanimo, com plausiveis vivas de todos 
OS presentes. --^ Gamaradas uns dos outros se alo- 
jdrao OS soldados; e d'alli por diante o ficou sendo 
Andr^ Vidal do governador Joao Fernandes Vieira. 
Gonferirao o eslado das cousas^ e assentarao em 
mandar uma partida de soldados com cabos esco-< 
lliidos ^s ordens do capitao Amador de Araujo^ a 
dar principio ao cerco da fortaleza do pontal de 
Nazareth (empresa determinada primeiro pela ne* 
gociacao que pela forca) ]k sitiada ao largo pelo9 
moradores , assistidos da maior parte dos soldados 
do terco de Mariim Soares Moreno; o qual, ensi- 
nado de sua genie (mais prompta para a vinganca 
que para aobediencia), s^ ^ccommodoucomarazao 



29& GAftnnrio imcTARa 

de sua justict ) e segmndo o que nao podia cnwoii* 
tnr, fez saber a Joao Ferntndes Vieira , em como 
ediava sujeito a adas ordeiia em ttido o que d'dle e 
doaeo terco quizesse dispor; e que neala formate 
ia inoorporar com o grosao da genie que aitiaya a 
fortaleza de Nazareth. 

XXVII. Depiiis de despedir o socoorro para o 
cerco de Nazareih mandou o goveraador da libera 
dade marchar o exercito para a povoa^ao da Mori*' 
beca ; a sua geate iormava a Tanguarda , e a d^ 
Audr6 Vidal a retaguarda< Nesta forma chegarao 
& povo99ao em 16 de Agosto, onde fizerao aUo> t 
depois d'algumas boras de repouso, se encaminbar- 
rao na diree^ao do rio Tigipio, onde chegarao pelas 
seis horas da tarde, o mestre de campo tia yan-^ 
guarda ; e na retaguarda o governador, que sent 
dar lugar a que o exercito arrimasse as armasi e se 
alqjasse, mandou tomar, com gente de guarda ^ 
todas as estr^das e veredas, que saiao daqueUe sitio 
para cortar a diligencia dos traidores, e a noticia 
que.por aviso sen podia ter'o inimigo do nosao.alo^ 
jameoto* 

XXYUL general das armas holhndezas Hen-* 
rique Hus, que deixamos aquartellado noeogenho 
de Dona Anna Paes^ em execucao das ordens, que 
tidha reod)ido dos do governo, mandou neste mesmO^ 
dia 1 6 de Agosto ao seu sargento maior Joao Blar, 
que com duas companhias de Flamengos e alguns 
Indios desse sobre as moradas da Varzea^ sem 
deixar cousa que nao registasse ; e nella^ preodes- 
sem todas as mulberes d'aquelies homens nobres 
que seguiao a Joao Fernandes Vieira , nao so por 



GiMBIOTQ tUaiTMa 2M 

motivo de nug^aD^a, senao eoma espeeie de re^a 
para qu^uer raccesso futuro. Prendeo Joj^o Blar 
a Dona Antonia Beseerra^ nalher de Fraucisiio Be-*, 
renguer de Andcadd, a Dona babel de Groes^ nluUtei^ 
de Antonio Beeerray a Luiza de Oliveira , mnlher 
de Amaro Lopes^ cuja nobreza dava prlyilegioe de 
couto a cada iima de soas casas , pordtn d'ellag a 
tironi a yioleneia para as casas de Dona Anna Paes, 
onde se deposilarao para se leyarem ao Arrecife; 
A Dona Maria Gezar, esposa do govemsldor JoaO 
Fernandes Yieiite, primeiro fimdesta diiigencii^ 
nao pode desoobrir o inimigo y porque maior cui- 
dado a tinha escondida e retiradil em bosque oo- 
cuhodtoda a notidia; com uma mulata de seu ser- 
yi^o^ fiado seu sustento a cabtella de um fiel 
criado .do governidor^ sei^pre bem afortunado^ 
porque sempre prevenido« Mao satisfeito o HoUan- 
dez com este procedimenio barbaro ^ formou pro- 
jeeto de paasar 6 espada todos os moradores, para 
cuja execu^ao os mandava reunir na Varzea ; mas 
avisadds estes poi^ nm HoUandez catholico escaparao 
ao perigo emboseando*>se peios matos com suas fa-^ 
roiliasy deixando de suas casas s6 as paredes. — Ash 
sistia na Varzea o licenciado Matheus de Souza 
Uchoa, capellao que entao era do govemador; 
soube que com seu exercito tinha chegado ao rio 
Tigipid ; e pela posta , em compdnhia de Joao Al-^ 
vares da Guarda, Ihe veio dar aviso de tudo o que 
temos referido; e que sabia particularmente que o 
HoUdndez , na seguinte manha , determinava por 
em seguro a presa assim das pessoas', como das 
fazendas que tinha roubado, conduzindo tudo para 



2Mi CAsmuno uDSiTAm. 

o Arrecife. Ouiridas estas novas , deo^se o govM'n 
nador pressa em acodir com prompto remedio a 
tamanho mal. Tocourise arma, reeebfinKHse as or-* 
deMj formoM-se a gente, marchicm- o exercko com 
aquelle passo que aoonselhava o perigo ; ioniou o 
governador a vanguarda, e o mestre de campo com 
a genie da Bahia o seguio na retagnarda. Adianta- 
Tao-^, como descobi*idores do cjunpo^ os capitaes 
Ramos e Fagundes , os quaes , veneida iima parte 
do caminho, derao com duas sentinellas, que o ini^ 
migo tinha deitadoao largo ; tomadas as maoscon- 
fess^rao o que sabiao, e pagarao com a vida o exei^ 
cicio em que andavao. Passarao avante ; e (izerao 
pausa a vista do engenho de Pedro da Cunba 
Andrada, detidos do rumor que fasiao algumas 
mangas de Flamengos ; que andavao espalhados a 
roubar. Neste engano as confirmarao os nossos ca^ 
pilaes, que sem movimento esper^rao que com a 
presa se fossem para o alojamento dos seus y ante'^ 
▼endo que 9 se dessem sobre elles, poderia escapiar 
algum, cujo rebate levantaria ao HoIIandei do sitio 
de Dona Anna Paes ; e fogido para o Arrecife nos^ 
deixaria a dor de nao remir as presas^ e de naoco^* 
brar os roubos. 

XXIX. Af meia noite aeabau de chegar toda a 
nossa gente aquelle sitk) molestadissimado escuro^ 
das cbuvas , dos lama^aes, e da aspereza dos ca- 
minhos. MandouHse fazer altono sobredtto engenho, 
e tomadas tres horas de descanco ^ se continuou 
a marcha na mesipa £6rma e ordem que al^ allt 
trazia, Chegarao os iiatedoresao engenho cliamado 
do Meio (um dos que o governador possuia na 



GASiwxro ufSiMMb 9t7 

Vartea)^ onde prend^o sebHollaiiileKes e tres^In^ 
dios que andavao poubando, 08 quaes largarao as 
presas com as vidaa ; o raesmo succedeo a dous. 
Indies € um Flamengo , que do engeniio de Santo 
Anionic se occupavao no mesmo exereicio. Rom** 
pia no horisoale a primeira luz da raanha, quando 
a nossa vanguarda diegava ^s margens do rioda- 
peberibe, tao crescddo com a innunda^o dasaguas 
que. per todas as partes nega^a vao a passagem, e 
por nenhuma se deBCobria barco, canoa, ou jan*^ 
gada, em que se podesse passar a ootra bandav 
Aceodia^Be no dtscunBo de todos o desejo da pressa 
com estorvo da marcha ; fazendo mats sensivel a 
deienea a vizinhanoadoalojanmiio confrarioja quasi 
aTJstak O ^ovemador, que vio a suspensao j com o 
animo de Alexandre delerminou cortar o impedi- 
msnto^ que nao podia veneer. Segmndo a um mu* 
lato seu^ ^nde nadador^ apertbu as pernas ao 
cayaUo, aYancon ao rio, e com aguapelo arcao da' 
seUa, passou k ouira banda. Fot tao poderoso.seu' 
oxemplo que o imii^rao sens soldados, lancandoHse 
ao rio. pegados uns aos outros para resistfreni ao* 
rapidoda eorrente (postas as armas de fogo sobr^ 
as cabecas) ; e em brevissimo tempo se virao todos 
da outra banda. ^^ Caminhou a noss^ genie ate 
deseobrir as casaa de Dona Anna Pa^s; e suspen-^ 
dendo eniao o passo , mandem o govemador seis^ 
soldadoe praiicos e ligeiros, quepm^entre asramas 
do mato fossem cortar as sentineilas do inimigd* 
A pouoos passes tom^rao duas as maos, por cujo d^* 
poimento entendeo o governador^ cfu^ o HoNandez 
estava no terreiro das casas, forroado e^n dous es^' 



qoldbots, efMnsaik) drdem «[tie nm p«k TiHa 
Ikicby outro pela -Varzea nao^debLaase coosa is^ita 
da foga e dd ferre ; e. qiie os cabM ealaiTao de&tro 
daa casaa pdatm a meaa para oovnereitiy e marcha^ 
raiD) leTando eomfi^ as maironas que tiabaci 
pfiwas. CoDlianariio ob aossoa soldadaa a dedcobrir 
o campo eooa. o mesmo zelo e canteUa; tfHnweio as 
maos mail duas seniinellas, e ^em Kirem aetilidbs 
86 aproKim^rao do engenho.Yevdo argot eraackir' 
que a occasiao ae Ihe apretentaTa favora VfA niardiDii 
com a ifaiiguarda a aordina at^ i entrada do pa^o do 
engenho^ lerando diante um tro^ode BoMados es^ 
oolhtdoa (oa loais d'eiles caphaea irivos e l^forma^ 
daa ) eom ordmn ^ que dadii a pnineira e segmida 
oarga^se wjreatiase i aspada. Tiaha maiidadoao 
C^tnarao, que eom m Indioa do seu ter^6 se adian» 
tasM incoberto a oocupar todos oa eaminhos que 
guiavao para o Arraeife y pak^a que nenhusi Fk«i> 
mengo podeaae fugiPi Nas primeiraB fileiFa^ da 
vaoguarda poi& os capitaaa Joao d'AIbuquerqui^ ^ 
Ankmio Borgaa Uoboa, Sebastiao Ferreira, Anla^ 
nio Gomes Taborda ^ e Fraactsoo de Lisboa , comr 
oulros d'igual yalor e opiniao ; 6 como guiab de 
todos^ Oft ajudantes Amaro Gordeiro ^ e Francisco 
Gardozo. Tanto que a nossa gente se deseobrio aod 
esquadroes ininiigos^ U)cara(y arma com tamboNsa, 
darlnsy gritos e cargas^ cujo estrondo fez levatitHr 
da ipesa oa cabos hoHandezes com tanta turbacao 
e desatino , que denio por teri^ oom as iguarias,^ 
frascQSy O0po$^ e iudoo inais que eslaya* em cima 
daa HiesaS| nao Hies deixando o rep^nte tempo para 
pegar uas aroiaa. Forao. oa nossos capitaes avau-- 



9«Ddo aos ^aquadroes iaimigos; qa% gfefapcfrdcrem 
a fuFina oao pausai^ao 09 tiros , at6 que os nosaoa 
Ihes derao a primeira e segunda carga. gover- 
nador, que tudo tioha dispoeto (deuuindo a reta« 
goarda ao capiUo Paulo da Cunba^ e a muitos ca* 
pitaes volautes paraiavestirem por ondeprimeiro os 
chamasse a occasiao e a necessidade) acompanhado 
de Henrique Dias , com os sens soldados , ia na 
vanguarda montado em um formoso ginete, e com 
urn clarim diante, desembainhou a espada, e disse 
em Yoz alta : « Viva a fi^ e a liberdade ; & espada,, 
}) soldadoa. » Mao fox^o duas, senao uma mesma 
cousa Q preeeito e avan9o, com deliberacao lao 
vakute, que uao havia armas que o nosso fogo nao 
cortasa^ uem resistencia inimiga que o nosso br2^90 
nao rompesse. -r No maior furor do conflicto che- 
gou o mestre de campo Andr^ Vidal , a^istido doa 
capitaes Assqnsoda Silva, e Antooio GonsaivesTiQao 
com a^ suas companhias, os quaes mettidos na ba- 
talba cortavao com igual pulso, e nao com desigual 
effeilo. inimigo, primeiro descomposto das car-*. 
gaS|.e depois sangrado dos golpes^ virou as costas 
ao damnoy buscando nas casas do engenho,. senao 
seguro y desvio ; estavao guarnecidas e em parte 
fortilicadas ; e serviao os altos ao reparo dos Fla- 
mengos, e ao de seus Indios auxiliares as paredes 
d'uma espacosa casa terrea* 

XXX. Correrao em desordem os inimigos &$ 
casas 9 e sobre ^lles os nossos, que logo Ihes ga*- 
nhdrao uma hermida^ e um grande cumulo de 
lenha^ ealli se travou profiada luta* Yeudo-se elles 
por toda a parte perseguidos de nossas ballaS| que 



300 GASTRCOTO LUSITANO* 

saindo de reforcados mosquetes biscainhos rompiao 
portas e parcdes ^ us4rao de urn estratagetna para 
suspenderem o combate. Mandarao p&r as janellas 
das casas aquellas matronas poriuguezas, que dis- 
semos aprisionirao na Varzea. Pareeeo ia diligencia 
de nos destrairem demonstraeao de os inimigos se 
renderem ; e assentou o mestre de campo com o 
governador se mandasseilm f ambor que requeresse 
a entrega, eofferecesscbom quarlel; com desengano 
de que entrados por assalto se nao daria vida a 
pessoa algoma. Fundado no direito das gentes , 
saio nosso enviado com uma bandeira bratica na 
mat). Oiivio o Flamengo a embaixada; avaliou a 
diligencia por fi^aqueza ; e perfido por arte , res- 
pondeo com uma hoiriTel carga de mosquetaria , 
saindo todos repentinamente as janellas e barandas 
das casas, das quaees dada a carga se retirarao para 
dentro, deixando morlo d'uma balla ao nosso men- 
sageiro. — Levantou-sc entre os nossos lima voz : 
« Tr«iicSo, traicao; morrao os perfidos herejes. » 
Como nova causa accendeo o grito em todos novo 
furor, de sorte que com os tiros nao deixarao appa- 
recer o inimigo, em quanto muitos dos nossos car- 
regavao lenha, e com ella enchiao os baixos, e cer- 
cavao todas as paredes d'ellas; em pouco tempo se 
fizerao os soldados senhores do ambito^ e baixo das 
casas; adiantou-seentretanto o capitao Joao Soares 
d*Albuquerque a impedir ao itiimigo a serventia 
daescada, para todo o incidente; seguirao sua va- 
lerosa deterrainacio outros muilos capitaes e sol- 
dados ; todos pediao fogo ; o qual appHcado aos 
maieriaes se comecava a atear com pavorosa \'ora-» 



CASTRIOTO LUSITANO. 801 

cidade. — Crescia a lavareda ; eatre nuvens de 
fumo enlrava ja pelas janellas a chama em com- 
panhia de innumeraveis ballas, que a aiiimayao* 
Crescia com as cdamas a raiva; enlregava-se o 
hereje ao ferro para escapar ao fogo, e parecia 
quercr ser victima da desesperacao antes que en- 
tregar-se a partido ; mas por fim vendo que dous 
solilados nossos carregavao dous barris de polvora 
por ordem do governador, para fazerem voar ag 
casas (sem embargo de que no mesmo incendio 
haviao de acabar innocentes e culpados), Ihe cairao 
asarmas das maos, e esperancas do animo, pedindo 
a gritos bom quartel. seu general Henrique Hus 
mandou arvorar uma bandeira branca, e com duas 
pistolas y viradas as bpcas para baixo , e o chapeo 
na mao, se mostrou rendido a todos os nossos. — - 
Acudio-se a apagar o fogo com diligencia; p.ermil- 
tio-se ao general Hus e ao sargento maior Blar o 
sairem com suas arn^as e insignias ate a presenca 
do governador; a mesma honra se permittio ao 
governador dos Indios, sens auxiliares^ e que todos 
OS mais ofliciaes e soldados sa'iriao das casas desar- 
mados, e a merce dos cabos sobreditos. Recebidas 
nesla f6rma as condicoes da entrega saio Henrique 
HuS; e em seu seguimento os ofliciaes maiores ; e 
logo todos OS mais cabos e soldados, que o& nossos 
forao desarmando assim como iao sa'indo. Pleiteava- 
se sobre se haverem de enlender, on nao, as con- 
dicoes capituladas com os Indios rebeldes; quando 
elles mesmos decidirao a duvida contra si proprios, 
porque depois de rendidos , com animo traidor, se 
rebellarao^ e d'alguns tiros mat^rao um alferc$, e 



S02 CASTRIOTO LUSITAI90. 

um soldado, e ferirao gravemente o capitao Anto- 
nio Gomes Taborda : ))arbaridade que nos obrigou 
a pass41-os a espada. 

XXXI. Tinlia o sargento biaior formada todaa 
nossa infantaria em circulo, que pelo'melo alra- 
vessavao duas alas de mosqueteiros , per entre os 
quaes forao passando os rendidos ale 4 presenca 
dos nossos cabos maiores. Vio Joao Fernandes 
Vieira diante de si a Henrique Hus com as submis^ 
soes de rendido, e Ihe disse estas palavras, modesto 
sobre victorioso : « Mai discursa quem fabrica fu- 
» turos sobre as inconstancias (da fortuna ; e muito 
» peiop quem nos favores della acha motivos para 
» desprezar a razao e para atropellar a juslica. 
» Quem dissera ( ha muito poucos dias ) que a so- 
D berba hollande^a , animada de nossa desgraca ^ 
» se desvelava em fabricar sua ruina ! Vezes sao 
» do mundo ; e nao se desenganao os mortaes de 
» que so o imperio da razao 6 o que dura, e o da 
» tyrannia o que mais de pressa acaba. A maior 
M injuria de um governo 6 governar com injuria ; 
» e pronostico mais certo de sua queda 6 o in- 
» sassiavel de sua cobica, pois por satisfazer a s6de 
)} nao repara em secar a fonte : nao dissiniula Deos 
» com aquelles delictos, de que faz gala a malicia 
» e pregao o escandalo. Como ha via de tardar o 
» castigo a cufpas que decretava o poder ? A Deos 
») nosso senhor, de quem esperava nossa fi^ o re- 
» medio, obriga o soffrimento dos abatidos lanto, 
y> como o offendem as demazias dos soberbos. A 
» vossa mercfi nao o poserao neste eslado nossas 
» armas, senao suas insolehcias^ de que eu como 



CASTMOTO LUfttTAM). hOZ 

» mais ofTendido sou o mais queixoso ; e ainda 

» asstm me compadeco de sua forinna, e confesso 

» me oecupa todo o coracao a piedade de sua mi- 

y> seria, esquecidds dos ameacos de sua arrogaaoia 

}> que promettiao prender a quern o tern preso, e 

» destruir a quern agora o determina favoreeer : a 

» conlingencia dos futuros acautella sesudos, e 

» descompoe indiscretos. » A todaesta pratica nao 

respondeo Henrique Hus mais que estas determi- 

nadas razoes. « Pois vossa senhoria me yenceo^ 

» e me lem prisoneiro, pode fazer o que for aer- 

» vido ; e ihe posso assegurar^ que para render o 

y> Arrecife Ihe nao falta mais que caminhar c tomar 

» posse- de suas fortalezas; porque a flor de sens 

» soldados e de^nsores tem vossa senhoria morta 

» e rendida nestas duas batalhas. » Foi o gover-- 

nador correndo eom os olhos todas as pessoas ren- 

didas^ e disse para o mestre de campo Andr^ Vidal 

de Negreiros : « que Tejo me assegurana verdade 

» do qwe ouco. w Tornou Henrique Hus : cr Pois 

» vossQS senhorias tem vencido tudo o que $e podia 

» ieffier, nao percao a occasiao j que uma vez per^ 

» d»4a tarde se recupera. » 

XXXII. A primeim diligencia, a que ae 'dedioou 
o governador depois da victoria ^ foi a lifaerdade 
daquellas matronas que o iiiimigo Cinha priaioDei<- 
v^%f cuja redempcao ts Tisla augmentou a gloria do 
triumj^Oy e a voz do a{^ausO| eom que o exere^to 
acolamava a Tiotonia do soip de caixas , dar^os ^ e 
eharameUas, atigmentado com a estr^to do& barr 
l^aros instrumentos de Minas e Indios^ que, aoqmr 
pMhado de aeus eon^iiaps gritoa^ aefazia laoi vi^ 



n 



SM CASTRIOTO iUSlTARO. 

toriosos gratOte aos yencidos importuno. — Largou- 
se a casa de Dona Anna Paes aos soldados com toda 
sua bagagem , re^ervando para El Rei tudo o que 
erao armas e mnnicoes, que se entregdrao ao pro- 
vedor do exercilo. Entre mosquetes e clavinas fo- 
rao sets cenlas armas as que perdeo o inimigo , e 
passirao de mil e quinhentas as que nos deixou 
nesta e na occasiao dasTabocas; de todo o mais 
genero d'armas offensivas e defensives foi grande 
a copia que se arreeadou. A abnndancia dos man- 
timentos foi tanta que servio a necessidade dos sol« 
dados 9 e ao sustento de mui(o povo y que de todas 
as paries concorreo. Aqui se prov^rao os nossos 
officiaes de muitos e bons cayallos, com apparelhos 
€ jaezes para a vaidade e para o s^vi^o, parece que 
quiz o C^o que nos armasseiti para a Iiberdade os 
mesmos tyrannos que nos armarao de razao para 
reeusar o jugo. Em quanto os nossos se occupavao 
em aproveitar o util , se desvellava o governador 
Joao Fernandes Vieira em enlerrar mortos, e curar 
feridos, em cujo exercicio tomarao grande parte os 
moradores da Yarzea e dos Apupucos, uns dando 
sepultura aos defuntos, ouiros casas e medican^en- 
tos aos enfermos, como devedores a uns e a outros 
de se verem restituidos a suas moradas^ das quaes 
andavao desterrados/havia muilos dias. — Deixou 
o HoUandez no eampo da batalha quatrocentos 
mortos e duzentos prisioneiros ; e dos que poderao 
fugir, raros forao os que deixarao de morrer, Du- 
zentos Indios degolloU) logo alii, nosso ferro, e 
depoisa nossa diiigenciaacabouosdemais. Da nossa 
gente morrerao dezoito pes&oas , e sairao trinta e 



GASTRiOTO XUSITANO. 305 

cinco ff ridos : qousa que parece incrivel, e quesose 

Qxplica por uma proteccao manifesta do ceo. Quasi 

todosnossos feridos convalecerao promptameute^ 

servindo-lhes .depois os signaes dos golpes taixto a 

honra das pessoas como ao comingeate da batalha 

e formosura da victoria. 

XXXUI. Nesta guerra de liberdade e indepe^- 

dencia nao s6 tiverao parte os moradores^ seqao 

muitos padres e religiosos, como ja tei&os visto ; 

um d'eUes mui ,distiato, e que merece especial 

lembran^a, foi o P. Fr. Joao da Resurreicao, reli- 

gipsio b^nedictiao. aatural do Brazil. Este religioso 

foi escolbido pelo seu provincial , que residia .aa 

Bahia, para ir assistir, juato com outro reli- 

giosoy ao abbade do eageabo de Mazuresse, em 

Peras^mbucQy Fr. Aaselmo da Triadade, que por 

sua muita velhice e grande virtude fora respei* 
tado pelo Hollaadez. Forao os dous religiosos 

em companbia dos embaixadores flamengos que 
voltavao para Pernambuco ; desembarcarao ao 
Aj^recife coaQados ao favor d estes ; apreseata- 
rao-se ^os dp gpverao, a quern esposerao lisameate 
fim (jc sua viagem; mas como chegassem justa- 
m?ate^ao tempo em que comecavao a espalbar-se 
08 romores da sublevacao, forao lidos por suspeitos 
e ate como espias; detiverao-os deatro do Arrecife 
com a cautela da descoa0aa9a atd que houvesse 
embarca^ao que os levasse para fora da terra. Tar- 
dea a execucao ; e o tempo Ihes abrio camiabo a 
comprar a licea^a para sairem do Arrecife para o 
sgu ipgeaho, por quatro caixas d'assucar. Succedeo 
eatretaato a sublevacao de Joap Feraaades Vieira ; 

L 20 



sot GASTBIOTO LVsrrANo; 

retirarao-se os religiosos do engenho , que befm de 
jnressa foi saqueado por Joao Blar, e forao ftigindo 
de mato em mate at^ se encorporarem com o nosso 
exercilo ; onde Joao Feraandes Vieira 03 recebeo 
com agrado e tratou com respeito : favor que o 
P. Fr. Joao da Resurreicao Ihe soube mcrecer com 
o acompanhar al^ o ultimo periodo da guerra. Na 
primeira occasiao d'eHa , que foi na das Tabocas , 
diasemos por maior o valor e zelo com que obrou. 
Nesta segunda, que acabamos de referir, obrou de 
sorte que, confessor e soldado despertou a emula^o 
de todos, e a inveja de muitos ; com persuasoes e 
exemplos ensinava a desprezar os perigos de uma e 
outra vida com a applicacao do sacramento e com o 
vigoroso do bra9o ; e apezar de ser ferido de duas 
ballaa n'uma pema e n'um p^, nao se retirou 
do campo da baialha, antes com mais ardor e zelo 
continuou no exercicio do seu ministerio religioso 
e patriocico , at^ que a victoria foi proclamada pe- 
tos nossos. 

XXXIV. Em 17 de Agosto de 1645 se alcancou 
esta victoria. Pedia o discommode de tantos dias 
e o trabalho de tantas marchas (com o de duas 
batalhas campaes ) descanco e alivio para os sol- 
dados ; o que Ihes solicitou , mandando abatar 
exercito p^ra o seu engenho de Sao Joao Baptista , 
sito na Yarzea , para onde marchou em fdrma de 
triumpho. Precediao clarins e charameUas com 
todos OS instrumentos belKcos ; seguiao-se os Hol- 
landezes rendidos , entre elles o seu general Hen- 
rique Hus, montado em um ginete, privado das 
insigniaa miUtares e armas belUcas ; logo a noasa 



CASTBIOTO LUBITANa Ml 

gente formada em esquadroes y aos quaes seguia e 
gOTernador com o mestre de campo^ aeompa-^ 
nhando aqnellas matronas que o inimigo tinha pre- 
sas : dona Anna Bezerra , dona Izabel de Goas , e 
Luiza de Oliveira , as quaes seus maridos levavao 
d'ancas , seguidos da multidao popular, que na6 
descan^ava de louvar a Deos, e abendigoar os libera* 
tadores de sua escravidao. Chegados ao engenho^ 
forao recebidos com excessiva alegria, e hospedados 
com generosa grandeza. — D'este lugar se remet-i- 
t^rao para a Bahia os rendidos, a saber, Henrique 
Hus, Joao Blar, com todos os mais que nao quizes 
rao assentar pra^ debaixo de nossas bandeiras^ 
para servirem a coroa nesta guerra ; e porque o 
dar Ihes guarda de soldados seria defraudar o exer- 
eitoy e gasto sem fructo, ordenarao os dous gover- 
nadores Joao Fernandes Vieira e Andr^ Vidal que 
de povoacao em poToa^ao os fossem guardando e 
conduzindo os moradores de uma at^ outra ; e que 
nesta forma se entregassem ao governador do Es- 
tado Antonio Telles da Silva , para que d'elles dis- 
po&esse como bem Ihe parecesse. — Em um dos 
poTOS por que passarao, mat^rao os vtzinhos a Joao 
Blar deum tiro, tirando d'este modo justavinganca 
de um inimigo, que nao respeitaya o sagrado nem 
o profano, e que naquelles sitios espalhara o teiv- 
tor e a morte. 

XXXV. Em o numero XXIV d'este livro d^mos 
conta de como o general da frota , que da Bafaia 
partira para o reino, mett^ra no porto deTaman- 
dar£ as oito embarcacoes em que o governador do 
Eetado mandara os mestres de campo Andr^ Vidai 



308 CASXHIOTO LU&ITANa 

e Mariim Soares com seus tercos para socegarem 
OS tumultos dos moradores de Pernambucoy de que 
se haviao queixado os do governo hoUaadez ; refe- 
rimos o que $uccedeo na mareha a estes cabos ; 
agora relataremos o que Salvador Correa passou na 
vjagem, at^ dquellaallura que pertence aos lermos 
d es.la hisloria. Em 1 2 de Agosto amanheceo a frota 
ancorada a vista do Arrecife : coustava de trinta 
e sette yelas sorteadas ; sua capilanea , um forte e 
magestoso galeao obrado no Brazil, pela Industrie 
do general da frota. HoUandez ficou de tal modo 
perturbado com esta appari^ao , que suppondo-a 
hostil pela coincidencia com o successo das Tabo- 
cas J nao Ihe restou mais acordo que para tratar da 
entrega, Nenhuma occasiao se perdeo com mais 
desculpa, nem com maior desgra9a.^— Mandou 
Salvador Correa dous enviados a terra para que 
saudassem os do supremo governo, representando- 
Ihes que o fim que alii os trazia nao era outro que 
dar-lhes a nova de como deixava em Tamandar^ 
oito embarcacoes com dous tercos dlnfantaria em 
complemento da promessa que o governador geral 
do Estado Ihes bavia feito; que com breyidade 
mandarla socegar os animos dos moradores, e pren- 
der as cabecas dos conspirados para os.castigar 
pelos merecimentos das culpas, o que tambem 
fazia por obedecer as ordens que tinha do senhor 
Rei Dom Joao o Quarto, pelas quaes Ihe mandava 
apertadamente que com os HoUandezes se conser- 
vasse em todo a boa amizade e correspondencia ; 
e que elle Salvador Correa se offerecia com todos 
OS Fortuguezes daquella frota para tudo o em que 



CASTWOTO lUSITANO. 309 

OS podesse servir ; e com aquelle galeao , cm que 
tevava toda sua casa para o reino , comboiando 
aquelles navios mercantes^ Ihespediao licencapa*- 
ra se Ihes vender algum refresco da terra, e para os 
poderem visitar os que tivessem gosto de o fazer; em* 
seguranca do que poderao ficar em refens aquelles 
seus enviados. Desembarcarao entre muita genie dd 
pdvo que os esperava para o misterio que poderia 
tera confian^a de tomarem terra sem licenca; acom- 
panbadds de algnns e seguidos de todos, ^birao ao 
conselho, onde foi ouvida sua embaixada , e orde- 
nado que os aposentassem na forma devida. Este 
rfedado , todo de paz , tranquillizou os animos dos 
do conselho, ainda que sempre Ihes restava atguma 
desconfianca ; pelo que mandarao no mesmo dia 
rfuas lanchas de refresco, e aos remeiros derao or- 
dem que examinassem o porte , a carga e a gente y 
assim da capitanea como de todos os mais navios ; 
o que fiz^rao & sua vontade pela franqueza com 
que o hos^o general Ihes permittio o exame. Desen- 
ganados os do governo que nada tinbao a recear , 
largarao no dia seguinte os nossos enviados , que 
voltdrao para bordd com um barco de refresco que 
haviao comprado. — No dia seguinte rompeo o 
tempo em tao fdriosa tempestade que temerao os 
pilotos trincassem as amarras, e dessem a costa os 
navios; lev^rao ancoras, largdrao alguin panno , e 
forao correndo a vontade dos ventos, fazendo al- 
gumas voltas a terra , mas sempre engolfados no 
mar. Seis dias os trouxe a tormenta n'estes bordos 
lutando com as ondas, at^ que tprnando-se o vento 
mais largo poderao seguir sua derrota para o reino. 



310 GASniOTO timiTAMO* 

XXXVL Tanto que o HoUandez «e vio livre 
do temor que o assombrava tratou logo de p6r em 
execu^ao o desejo em que ardia ; e diapoz. a mais 
infame trai^ que urn peito humano podia bhri^ 
car. Mandou aprestar nove fragatas , que tiuha no 
Arrecife e na Paraiba ^ e bem guarnecidas as en* 
tregou ao seu general do mar Joao Lectart, ccun 
expresses ordeus que fosse ao porlo de Tamandar^, 
e nelle obrazasse e mettesse a pique os oito navioa 
portuguezes que alii se achavao, sem que a pessoa 
viva se d^sse quartel. — Nao tiabao os nossos ua- 
Tios mais guarnicao que os homens do mar e du^ 
zeutos soldados biscainhos ; por^m nao bastou o 
repente e a perfidia para deixarem de rebater o pri- 
meiro assalto com auimo portuguez ; porque ba«* 
vendo tanto excesso eutre poder e poder^ igualou 
a valentia dos poucos com o numero dos muitos, 
e foi a peteja tao sanguinolenta e porfiiada , que es- 
teve por largo espaco indecisa a victoria. Assistia 
o capitao maior Jerouimo Serrao de Paiva dentro 
da capitanea , e della infundia valor e for9as em 
todos OS seti9| fazendo cada um o possivel por imi« 
tar seu exemplo.Das primeiras cargas perdeo o iui- 
migo a melhor fragata , que passada por ambos os 
costados fui mettida a pique, Cm navio nosso, que 
suspeitoii a trai^ao com que a armada inimiga bus* 
cava o porto , deixou a enseada , e no mar largo 
brigou com muitos dos HoUandezes com tal va- 
lentia que Ibe desarvorou duas fragatas; e desem- 
baracado de todas , com a mesma gentileza se fez 
na volta da Bahia. Com nao menos valor, depois 
de larga resistencia^ var^rao dous navios nossos em 



GASTBIOTO LUUXANO. Ill 

terra , e saltando aella os homens do mari 09 de- 
fenderao de sorte que nunca todo o pod^ coptra- 
rio OS pode render nem queimar. A outros dous 
naviosy que nao pod^rao abalroar-lhes deitaiio o 
fogo, e ard^rao. Sustentava a uao capilanea todo o 
peso do combate, defendida da opiniao e do brafo 
docapitao maior, at^ que entrada por ires partes > 
deteodo o capitao a victoria com a presen^a e com 
a espada, caxo no conv^ cortado de muitas feridas^ 
9 reodido ao trabalho e ao desalento, com tanto es* 
trago do FlamengOi que Ihe servio a presa da nao a 
do capitao mais de affronta que de triumpho. Per-* 
demos nesta occasiao quasi cem pessoas , entrando 
pe^te numero os que morr^rao na peleja j e os que 
afogarao as ondas com todos aquelles que depois 
matou o HoUandez a sangue frio. A muitos feridoa 
l^n^QU ao n^ar amarrados dous a dous ; a outros 
despachou , por Ibes abrir e renovar as Teridas com 
segundos goipei^. Da parte contraria forao tantos 
OS mortos e feridos, que se divulgou no Arrecife a 
90va da victoria com lagrimas e lutos ; ,e Ihes saio 
tao cara que de boa vontade a deora o Fkmengo pelo 
custo. 

« XXXVII. As tyrannias e crueldades dos Hol«« 
landezes assim como perseguiao e atormentavao 
continuamente os pobres moradores, tambem con- 
corrSrao a formar valentes capitaes, que tanto 
contribuirao a reconquistar a liberdade da patria. 
Deste numero & o capitao Manoel Barboza. Yivia 
este morador retirado no mato^ e em sua casa, que 
era a uma legoa da cidade Mauricea; deixara suas 
jlres irmaS| confiado que a fragilidade do sexo ins- 



319 GASTRnyro ldsitano.' 

pirasse rtopeito ao Fkmengo; mas nao snocedeo 
adsim, porque n'uma noite foi a casa assaltada por 
dezedeis Hollandezes armados, que tratavao de ar- 
rombair as portas. Appellid^rao ellas favor contra 
ladroes, que as queriao matar ; succedeo ouvir.o 
irjfnao os golpes da violencia e os gritos da afflic^ 
cao (estava elle n'um mato vizinho com outros 
cinco mocos amigos seus , todos de dezoito at6 
vinte annos); animou os companheiros a que o 
ajudassem a salvar suas irmas; nao ham mais^ 
armas que duas espingardas, duas espadas, uma^ 
fouce de rocar e um bordao ferrado. Derao sobre 
OS dezeseis Hollandezes com animo tao destemido, 
que mat^rao a maior parte, e ferirao a muitos dos 
que escaparao, ficando-lhes nas maos as armas de 
todos^ que erao mosquetes, claTinas, pistolas. Cres-j 
ceo com as armas o brio nos seis, e nos outros o 
desejo de se Ihes aggregarem ; formou-^e uma cotn- 
panhia de vinte mancebos , de que foi acdamado 
capTtad Mafioel Barboza , com os quaes, como filho 
de Pemambuco , vingou os aggravos de sua patria 
em quanto Ihes foi possivel^ saqueando, ferindo e 
matando Hollandezes com emboscadas e assaltosV 
Proveo com as armas os mais companheiros que ja 
chegavao a trinta, e se foi metter na villa de Olinda 
na tarde de IT de Agosto, dia era que os nossos 
aldanc^rao a victooria das casas de dona Anna Paes ; 
por espaco de quarenta dias defendeo os moradores 
da villa assim dos Hollandezes que ndla se aqaar- 
tellkvao, cbmo dos que guarneciad a guarrta de Joao 
d'Albaquerqne (um reduto, ou fortaleza vizinha 
da povoacao). Avaliou-$e sen valor e sen zelo no 



grao <fue merecia ; e o governadoF. Joao Fernandet 
Yifiira Ihe dec patente de capitao de maior nuntero 
de soldados« 

XXXVIII. A fortaleza de Nazareth , que depots 
do Arrecife era a melhor que tinha o Hollandes, 
esteve cercada pelos moradores» c<»ik> a cima dia- 
semos, e para refor^ar o cerco tidha xnarchado 
Martim Scares Moreno, quando se separou do me^ 
tre de campo Andr^ Vidal de Negreiros. Chegando 
a reiinir-se ao capitao Amador de Araujo, aehou 
que o cerco .eslava em boa dispo8i9ao ; foi-o aper* 
ta&do oack vez mats at^ que n'uma noite levaiUou 
uma irincheira doude a nossa mosquefaria vare^ 
jasse OS alios da fortaleza, de sorte que d'elles nao 
podesaon 08 cercados fazer pontaria oerf a para os 
de fora. Era oommendor da forteleza um valeroso 
soldado, chamado Theodozio EsCrater, dequem ja 
fizemos memoria em algumas partes desta narrate. 
Vio aoamanheoer a trincheira, epelaobra oonheceo 
que assistiao aos cercadores caboe intelligentes e 
praticas na milicia. QaandoseoccupavaiiiestajS eoa«- 
sideracoes, chegou um mensageiro da pat^le doica- 
pilao Moreno ; que Ihe dizia entrcgasse a< fortakza 
e nao esperasse o assalto, porque se nao daria bom 
quarlela ninguem* Despedio*o a commendor com 
publioas arrogancias, e em segredo Ihe disse que es^ 
tava prompto para cam{mr apromeilido, mas que 
imponta^a* mandav reeado ao meaire de eampo An* 
dr^ Vidal de Negreiros panuque com sen terc • en- 
gressasse o poder, a tanto que cliegasse Ihe fi esse 
segunda embaixada ,- a qual responderia em forma 
que nem ialtasse a sua palavra^ nem ao: s^u^ere-* 



tit 4Lumioia cmiTAiio. 

fUtou^fMandou-fle aviso a Andi^ Vidal de Ne- 
^irosi que se achava com o goyernador naVarcea ; 
poz-se elle logo a caminho, chegou ao oampo, e foi 
reoefaidci oom as salvas de superior, industriosa- 
mente repetidas, que rematarao em mandar se* 
gunda embaixada aos cercados , a qual se resumia 
em que logoAitregassem a fortakza a bom partido 
antes que o assaito fechasse aportaatodo ocoucerto. 
primeiro enviado nao era homem oonhecido, 
pelo que nio leve resultado a missao ^ porque o 
commendor nao quiz aoceitar ueahoma proposta 
que naa fosse feita por homem que tivesse posto 
ua miUcia. Foi eutao escolfaido o capkao Paulo da 
Cunha ^ que era j4 conhecido do commendor. — 
&ecebeo-ocom todasas oortezias e ceremonbs mili- 
4ares;convidou-oaGomer,e diante deseus soldados 
o ouvio. Com sagaz deseufado re^ndeo que eUe^ 
eomo Theodozio Estrater, f6ra sempre fiel amij^ 
dos Portuguezes ; mas que em quanto commendor 
daquella praoa tinha 96' por amigo o sen eredito , 
que todoconsisda em fazier boa a opioiao que d'elle 
tinha quern Iha entregara ; e que nao dizia elle 
morrer na defensa, senao dar mil vidas pela meuor 
pedra de sua forlificaoao ; e levantandoN-se da mesa 
toman a Paulo da Gunha pela mao , e o veio acom- 
panhando at^ a porta , a onde com dissimulacao 
Uie disse , que da sua parte arisasse ao mestre de 
•campo Andr^ Vidal que logo mandasse dar um as* 
salto i fortaleza da Barra , porque die a tinha em 
fdrma que sem difficuldade a renderia ; e que com 
toda a presteza a fortificaase, e guarneoesse de ma* 
neira que vissem 09 seus soldados fechada a porta 



cAftTUoio imitMia MS 

a todo o Mccorro que podessrat eiperar do Arire* 
eife ; e que com a mesina Ibe^ implMliise a fonia de 
que beb^o, porque a faUa d'agoa^ e daa esperancas 
d eUa o6 reduziria a seu inteoto ; e em fim que nao 
eslranhassem as dila^oes, porque todas le eocami-* 
nhavao ao servi^o d'El Rei de Portugal , cu ja era a 
fortaleza, e de quern elle era fiel vassallo. 

XXXIX. Executou^ae o costselho ; e o o&ito 
Bdoslrou que era naaoido deanimo fiel e verdadeiro, 
Sobre eale aeguro asseatou a coufian^ com que 
Audrey idal escreveo a Tbeodozio Estrater aobre 
a materia , a quern respoudeo verificaado a pro<* 
messa com aua mesma firma. Como expevim^mtado 
capitao eomecou logo a usar d'aquellea ardia que 
sic ordmarios em taes casoB, insplraoda terror L 
SOUS, aug^entando o numero e valor doa nosaoSi 
e.encareceado 9S diffieuldadeSiO penurja a que ae 
yeriao em breve . coodemnadoa- Succedeo ueste 
eomenoa tomarem oa uoaspa uma iaucha d'um r ico 
Hollaudez Eacoleto, do destricto de Santo Antonio \ 
que com muita fazenda aua e girau4e numero de 
peasoaa saira pela barreia para o Arredfe. &a eate 
bomem odiado doa moradores pelas muitas vexa- 
90^ que fazia, pelo.que £61 passado a espada pelos 
noasos : o mesmo succedeo aoa maia Holis^ndezes 
qiie acompauhavao ; por^m a todas as mulh^res ae 
deo quartely e depois liberdade, ficando uas maos 
doa.soldados o barco com todo orecheo, e foi con- 
aideravel preaa. Esie acouteeimeuto ineaperado cou- 



' > Bm DQmero III do lino V dissemos qvat era a jorisdicfSo 
4'e«le officio. 



tribiiio imiito a angmentar 06 temores dos cer- 
oadoft, e a resokioao dos siUantes. — No comeco 
de Settembro mandon o mestre de campo o it^pitao 
Paulo da Cimha, aoompanbado do auditor g^ral 
Francisco Bravo e do capitao Joao Oomes de M ello, 
com sotemne embaixada aos sitiados, dizendo-lhes 
que 86 nao 86 rendessem, dar-se-hia o assalto, e 
todoB seriao passados a espada, se a fortaleza fosse 
ganhada por artnas. A esta resolucao tao apieiiada 
respoiideo o'comnieiidor que nada pOdia conchiir 
naquelle dia^ por quanto Ihe era necessario^fazel-o 
com 6 conselho de seu$ ofBciaes ; e exti segredo 
avisou que se Ihe nao esperasse nem uma so hora 
de tempo. Paulo da Cunha repetio com gratidedes- 
engaho que, se logo logo se naorendess^^m, 8e pi'e- 
parassem para a d^Pdnsa, cfertos de que a.nenhum 
perdoaria a espada.j— No brew tempo que o cSi- 
pilao Pnulo da Cunha gastou em ir com ai tesposta 
e voltar com aiHstahcia, chKmou o'Estrater todos 
OS sens officiaies da milicia , e com destreza Ihes 
fallou desta maueira : « Todas as respostas que 
» dei as cfmbaixadas daeritrega, formioii 6 artificio, 
)) nenhuitia a intelligencia. A^onde a pcwiia furidar 
» met! djscurso , ^uando todos sabemos que em 
» dua& batalhas se perdeo aquelle poder em que 
» estWbata nosso soccorro ? E quando lio Arreciffe 
» 86 empenhasse o tihiitio esforco em nos socfcor- 
» rer, por ondeiios havia d'entr^r, se por mar e 
» por terra nos tem o initnigo tomadas as vias?A 
» omissao ou a impossibilidade dos nossos gover- 
» nadores nos reduzio a tal extreme, que^maior 
» o damno da falta do que o perigo da forca. fot 



» este caminho e oerta a fome, e infallivel a sede, 
» .tendo-nos o inimigo tomada a agoa ; o GolH*al^-a 
» per armas 6 impossivel ; o busodl^a a farto sera 
» comprar uma gota d'ella por muttas de saDgue ; 
». fioeza tao mal merecida de quern nos causou 
y> esta penuria que entendo faz mais edlimacao de 
)) seus interesses que de nossas vidas. Se por mer- 
» cadores as arriscarmos e perdermos, a que pre- 
» mios^ ou a que houras subimos? Genie que paga 
» mal servicos como ha de satisfazer finezas ? E se 
» a retencao do roubo e crime e iufamia, que honra 
» gpnhamos em defender a usurpacao d'esta forta- 
» leza a seu proprio senhor , quando com todo o 
» direito da justica e das armas se empenha em a 
» recuperar ? Tenho dito o que sinto, e com tudo 
>) eslou prompto para seguir a resolucao d'este 
» conselho, ». 

XL. Decidio*se o negocio com votos encontra-^ 
dos; a maior parte determinou a entrega. Sem di- 
lacao mandou o commendor a Gasgsir Yandrelei , 
capilao dos cayalleiros j com outro offidaL da mi- 
licia, que saissem a capitular a entrega da fortaleza, 
cujas condi^oes, estendidas em papel, forap as se- 
guintes : Que os< cabos sairiao com todas as honras 
militares, que se custumao conceder em similhantes 
casoSy e com todos se^s moms; que a cabos e sol- 
dados se pagariao todos os soldos que a Gompaafoia 
Ihes esti^esse devendo ; que todas as muBicoes , 
armas e ariilharia ficariao para £1 llei f q»e a todos 
OS. que quizessem militar debaixo das . bandeiras 
da liberdade selhes assentaria pra^a^ e daria soldo 
GQjno 0. todoa os msus do ex/erdto ; que aqunlks 



M8 GA8TII0TO KWITAIVar 

que quiMSsem servir nas guerras do reino se Ifaes 
daria embarca^ao , e que o mesnio se guardarta 
com aquelks que quizessem passar a suas terras. 
Firmadas as dondicoes referidas d'uma e outra 
parte, maudou dizer o commendor, que elle e a for- 
taleza^ e todos os seus estavao as ordens de suas 
senhoriasy para que d'uma e outra cousa dispozes- 
sem oomo fossem sarvidos. — Fez^se logo aviso por 
um proprio ao govemador Joao Fernaudes Yieira, 
nao s6 a buscar o seu Leneplacito, senao tambem a 
pedir-lhe diuheiro para satisfazerem ao segundo 
capitulo das condi9oes rektadas« Era o dia 8 de 
SettembrOy em que Joao Fernaudes Yieira festcjava 
com grande solemnidade a Natividade de Nossa 
Senhora , quando recebeo o correio que Ihe trazia 
a nova da entreg^ da fortakza de Nazareth. Yk) 
pela plana dos soldados o que a Gompanhia devk 
aos rendidoSy e achou que erao necessarios Aove 
mil cruzados , que logo remetteo pelo mesmo fm^- 
prio. -^'Chegara o tempo defiuido para a entrega 
da fortaieza, e formada a uossa iafantaria, a entre- 
gouTheodozio Estrater^ daudo as- chaves ao mestne 
de campo Audrd Yidal de Negreiros, com os parar 
bens defiosse. Sairao os rendidos, que erao duzentos 
aettenta e oiua> ( nao ^itrando nesia couta um 
uumero grande de gente vaga que uella se tijoha wt" 
colkido), e ^tiirarao os nossos a guaraecAi-^* Sty- 
guio^se a esta faucao mandar o noeso meaCre de 
campo armar uma mesa, deitar-se neIla[o dinheiro, 
e dar^se a cada um dos rendidos dez cruzados. Aos 
offidaes se pagou conforme a divida e ao posto ; 
odm o que todos se derao por satisfdtos* A^quelles 



GASTRIOTO LUSITANO. 319 

que se offerec^rao a servir com os nossos se Ihes 
assentou praca com pagamentos pontuaes, e ajus- 
tados a seus posto^. Com os outros se guard^rao as 
capitulacoes inteiramente. Entao se derao univer- 
saes e repetidos vivvas : a pureza da f^^ a liberdade 
da patria , .e ao alcance da victoria y com aquella 
alegria que causava a todos o desejado dm que pro- 
mettiao principios tao ditosos. Fara coroar a gloria 
d'este dia tbmirao os nossos um barco que vinha 
carregado de mantimentos , mandado do Arrecife 
em soccorro dos cercados. Acharao-se naquella 
praca dez pecas de bronze, todas de alcance, mos- 
quetes de sobejo, polvora, balla, corda em quan- 
tidade ; e nao pequena copia de mantim^itoe. Foi 
este successo de utilissimas consequencias para 
nossos intealos, porquenos deo porio capaz para 
a entrada das fazendas e dos soccorros , e para a 
sacca dos generos, com uma fortaleza a cuja som- 
bra podiao os navios do commercio estar seguros 
no porto ; pela mesma razao de grande quebra para 
as esperan^as do inimigo. Cinco dias se demorou o 
meatre de campo Andr6 Vidal de Negreiros , os 
que impregou em compor a forteleza, e prover do 
necessario ; e dipois de ordenadas todas as oou»as 
9e poz em marcha para a Varzea, levando enqorpo- 
rados uo exercito os reudidos, eTbeodozio Estrater 
com o gov«nio de todos OS que nesta oecasiao as0en- 
t4rao praca para servirem entre n6s. 



LIVRO VIIK 



SUMMARIO. 



1. que se passou na oapitania de Paraliba antes dasublevacao; o% 
' de Goyana appelliditao primeiro a liberdade. — 2. Dissimula o 
Piamengo as alterafoes da Paralba; trata de eDganar os morado- 
res; os quaes buscao armas para se defeDderem ; alterao-se com a • 
prisao de Antonio Barbalho.-^ 3. Divulga-se entre os Portuguezes 
a fieloria de Joao Fernandas Vieira. — 4. Concede o Hollandei 
aos moradores armas contra o genMo ; unem-se, e fortificao-senos 
sitios mais defensaveis ; o inimigo os teme , e se retira da cidade. 
— 5. Marcba o gentio para Goyana ; o que Ibe succede. —6. Man- 
dao OS nossos gOTemadoires soccorro ;& Paralba; nomeao para o 
governotla capitania tres moradores; acclama-sea liberdade em 
toda ella. •— 7. Preparao-se e armao-se para a defensa ; mudaode 
alojamento.— 8. Manda o Holhndex commetter a cidade e o nosso 
alojameato ; retlra-se vencido ; perda -sua e nossa. — 9. Por falta 
de segredo se nao entregou a fortaleza do inimigo. — 10. Causa e 
modo que teve a sublevacao no porto do CaWo'; Christovao Luiz 
^ fbi primeiro que appelUdon a liberdade; poz eerco d fortaleia 
do porto do Calvo. •— 11. commendor persuade aos sens a en* 
trega da praca, e pede que venha um capitaa pago para Ih'a en- 
iregar; o governador mandouo capitao lourenco Carneiro tomar 
entrega da fortaleza; reparticao de dlnheiro pelos rendldos; ar- 
rasa-se a fortaleza. — 12. Acclama-se a liberdade no Rio de Sao 
Francisco.— 13. Cercao os nossos a fortaleza, e pedem soccorro ao 
governador gtral do Estade ; tomio ao inimigo um earavelao e 
umA lancba de municoes e mantimentos^ — 14. Cl^g« o capitao 
Nicol&o Aranha com o soccorro; eihe desvia outros. — 15 Fa- 
lem OS nossos embliiiada requerendo a entrega; Henrique Htis 
Ibe persuade a aiitrega.^ — 1^. Capitulao-se asicondicqes dn.cn- 
trega ; consequencias que fizerao grande a victoria, — 17> Edifica 
Joao Fernandas Vieira uma casa de misericordia na Varzea ; che- 
gao a ella AndriS Vidal e Martim Soares de volta de Nazaretb ; dao 
posto de mestre de campo dos estrangeiros a Tbeodozio Estra- 
ter. — 18. 6anha-se o forte de Santa Cruz. — 19. Manda o Hol- 
landei embaixafda ao mestre de campo Andrd Vidal ; resposta por 
•scrito. — 20. Gonferem os nossos cabos o modo de oootioBar a 



GASTRIOTO L17S1TAM0. 321 

guerra ; parecer do goveiwador dt liberdade ; o qual se eiecuta.— 
21. £scolbe-se o silio para uma fortateza^ e se poe mao a obra; 
primeiros fundamentos da povoacao do Arraial novo. —22. Joao 
Feroandes Yieira iatenta ganhar a fortaleza dat Cineo Poiitaa; 
Theodozio Estrater o disuade , propondo que se ataque a ilha de 
Itamaracd. — 25. Executou-se o seu parecer^ chega o nosso exer- 
eito a Igaaracu , passa o rio, e commette a ompresa. — 24. Anto* 
nio Dias Cardozo gaoha a primeira fortiGca^ao; ao mesmo tempo 
a rompe o governador pela outra parte; chega Estrater, e o ini- 
migo se retira A fortaleza — 25. Combatem os nossos o forte, que 
nao podem tomar ; retirao-se com industrUt e marehao para a ilha 
de Iguaragu onde fazem alto. — 26. D^-se conta d'alg^mas parti^ 
cularidades d'este successo.— 27. Doen^a gdral de todas as capi- 
tanias. — 28. Di-se conta d'uroa informacao juridica qu« oi natu- 
rae^ mand&rao a El Rei Dom Joao IV. — 29. Razoes que adiaotao 
OS acoDtecimentos do Rio Grande; quero HoIIandez privar 03 ha- 
bitantes das armas, os quaes penetrao intento, e ie forlificao.— 
30.. Sao Bssaltadot peloinimigo, o qual ae rettra venddoe ceii<* 
fuso; volta .sohreos Portugueses fiogiodo-se auiilUr; osPortu- 
guezes entendem o engano e orebatem. — 31 Declara-seo ioimigo, 
e oscombatecompoder e industria; rendem-seos nossota partido» 
com 1^8 coodicoes que logo quebra iiollandez^ e oa enirega aos 
selvageos; paciencia comquesoffrem martyrio. — 32. Igualsorte 
tiverao OS que ficirao dentro do cerco; inauditos tormentos que 
padecee Aatonio Baracho ; piedade com que deo a Tida Matheus 
Moreira. — 33. Valerosa coostancia de oito mancebos marlyrizadoa 
pela fi^ e pela patria. — 34. Horrendas cruezas que usa o hereje 
para com os teneidos. — 35» Maodou o governador um soccorro 
que nao ebegou a tempo. ^-36. A«^olao os noMos a «ampaj))ia# 
sendo atacados pelos Hollandezes saem victoriosos; continuao as 
hostilidades at^ a chegada do Camarao. 



L Deixamos escripto em os livros precedentes 
Gomo Joao Fernaades Vieira se.resolyeo.a por por 
obra a empresa da liberdad^ ; como deo nolioia a 
diversas pessoas e a differentes partes do seu. in-* 
tento^ e do que.haviao.de ex^ecutar com o Beu aviso; 
ja dissemos como o griio da liberdade se espalhou 
m campanha de Fernambuco : agora direinos 9 que 
auooedeo na Faraiba, em Itamaraca^noHioGraade 

L 21 



SSS GA8TBI0I0 LQBirANa 

com outras povoa^oes rajeitas ao Flamengo. Vendo 
06 HoUandezes o que tiaha siiccedido na vespera 
de Santo Antonio, e como todos os moradores as* 
tavao dispostos a sacudir o tyranno jugo que os 
opprimia, passarao ordeus rigorosas para que todos 
fossem desarmados, e nbme^rao novos govena- 
dores para execuiarem as novas disposicoes do gp- 
iv^mo. Paulo de Linge y membro do consdho poli- 
tico, foi mandado como governador de Paraiba e 
seu deatricto com alguma infantaria em guarda de 
sua pessoa . Ghegou i Paraibayalqjou^se noconvento 
de Sao Francisco, melhorou todas as fortifica^oes, 
e com boas palavras e com dissimuladoa obsequios 
qtuz fazer persuadir aos habitantes que estava de- 
terminada a obrar mais com afogb que com castigo; 
mas ao mesmo tempo^ com nefanda perfidia, des- 
pachou um proprio com aviso a Pero Poly, gover* 
nador e cabe9a dos Indios que viviao ne certao, 
para que com toda a gente de seu dominio descesse 
dos mont^ para a cidade, para ahi commetterem 
as mesmaa barbaridades que n'onlros destridos 
tinbao praticado. — Jd dissemos o que succedera 
em Goyana e Cunhauy e como o Flamengo alliusara 
de todas as crueldades imaginaveis para impedir 
a anblevBicao doe moradores contra o sea tyranno 
Jiigp : agara accresoenlaremos que apezar de seus 
tafen^ foi prodamada a liberdade cpni'grande 
valor e resoln^ao. Tinfaa o Flamengo mandado 
prander 0s dons oapilim nomeadoa por Jbk> Fer-^ 
Mttdea Vietfa, e maisalgnna lV>rtugaezeainfli]eiileS) 
ejfiilgou for €8te m^do suftocar a sublevaqao ; mas 
0M pMoadfaneoto lervio de rebate ms irizinbes da 

.1 



CAfTBIOTO tOSRANO. 323 

Goyana que os aeautellou para o tempo do perigo^ 
E)^6rao d'entre si capitaes e officiaes que os go- 
verfiassem, recolh^rao todas as armas que pod6rao 
haver, e na occasiao mats opportuna se fizerao sa- 
nhorea da povoacao appellidando a liberdade ; e se 
deffend^ao varonilmente a to Joe os incorsos do 
inimigo pela disposicao e industria de Diogo Gar- 
Talho, Paschoal de FreitaSy e Martim Fragozo ; at^ 
que por mandado do goyernador Joao Fernandas 
Vieira os rend^rao dos postos os capitaes Francisco 
Lopes de Arosco, e Diogo Vieira TerretCi 

tl. Chegou a nova da rebelliao a Paraibai ou- 
Tio<^ O'governador com apparente desprezo, mais 
com interior sobresalto. Dissimulou com as prisoes 
e COM a prematica das armas , e usou de meios 
brandos; mandou fixar editaes em que, da parte 
tIos Estados , ooncedta perdao a todo o genero d^ 
pessoa que por algum modo tivesse encorrido no 
crime da rebelliao , com tanto que , apartados dji 
sedicao seguissem o anligo e pacifieo estUo de sua 
obe^encia , em que consistia o segurb de su$s 
vidas e ikzendas ; e parlicularmente pedio a cada 
tmi dds priucipaes cidadao^ , que servissem com 
seu ^xemplo ao sooego da republica, e que elle to- 
mava por sua oonta o cuidado de os li?rar da toda 
a vexacao e bostilidade / assim dos soldados como 
dos Indios, para que elles moradores se podessem 
entregar ao governo de suas herdades e famiitais. 
— ^Tinha o Jpalso govertiador mandado Ttr, como 
acima dissemos, o Indio Pero Poty ; nao podia es- 
conder a sua vinda nem o 6m para que, e pava 
imgafiar os moradores publicoii que o maaiUra vir 



d'ltl CASTftlOTO LirSITANO* 

com OS Indios de 8ua jurisdiccao para os ter com 
suas mulhere$ e filhos dentro da cidade como em 
custodia, para que nao tiyessem occasiao de vexar 
OS moradores. — Bern conhecdrao qs moradores 
qual era a malicia do Flameogo, e para logo teriao 
levantado o grito da liberdade se nao esperassem 
receber um soccorro de Joao Fernandes Vieira , 
com o qual podessem resistir ao poder do inimigo, 
Espalhou-se entretanto a noticiadas crueldades pra- 
Cicadas em Cunhau por aquelle Hollander Jacobo, 
de que j^ d^mos noticia , a qual foi saudavel aviso 
aos moradores, e manifes4.acao clara das barbaras 
intencoes do governador Linge. Reunidos. todos 
n'um corpo tratao de buscar armas com cautella , 
preparao-se para a resisteacia , queijiao-^se unaiii- 
mementedo procedimento do governo, e manifestad 
a sua nenhuma confianca iias promessas do gov«r« 
nador. — Quiz elle appIac&Uos^ dizendo que o que 
succed^ra em Gunhaii fora causado pela viol^r^eia 
de Jacobo e nao c^denado pelo goverao^ e que elk 
daria todas as providencias para que similhante 
cousa nao acontecesse na Para'iba ; e para mdhor 
tranquillizar os moradores saio do seu quariel com 
gente de guerra a correr o destricto , asse^raodo 
a todos do receio que tinbao ; mas como, apezar, de 
todas estas promessas mandasse prendier Antonio 
Barbalho^ comecdrao os moradores a alt^ar-se, e 
manifestar seu descontentamento^ e a preparar-se 
para a empresa que haviao meditado. 

IIL Passados poucos dias depois que p Linge 
vohou para a cidade diyi;ilgou-se a grande viptoria 
que Jx)ao Fernandes Vieira alcan^ara nas Tabocas 



GA6TRI0T0 UJSITAN0« 325 

dasarmas hollandeEas, e da chegada dos mestres de 
campp Andr^ Vidal e Mariim Soared com dous 
tercos d'infantaria , em soceorro dos moradores , 
com OS quaes ficavao ja ineorporados, Antevio o 
Linge que o successo ha via de ser para todos exem« 
plo ; e a causa , que era uma mesma em toda a 
parte y em todas as partes ha via de produzir os 
mesmos effeitos ; cerlo da efficacia com que os di^ 
tosos persuadem & imitacao, maadou logo retirar a 
todos OS HoUandezes e Indios auxil tares com suas 
fainilias e moveis para a for taleza , que chamao do 
Gabedello^ situada na barra, ciaco legoas da cidade, 
prevemndo-se para tudo o que podia succeder. 
Assim como o tempo muUiplicava os dias d'Agosto^ 
assim vinha correndo a nova de que duzentos 
Holiaudezes clavineiros, acompanhados dos Ta«- 
puyas que conduzia o referido. Jacobo (assolado 
Cunhau), marchavao a destruir a Goyana^ e a pro-* 
seguir na execucao do decreto que os obrigava a 
nao deixarem pessoa viva em toda aqueUa capi-« 
tania. 

IV. Como o governador hoUandez havia dito 
aos moradores que os soldados e ludios comman-* 
dados por Jacobo erao rebeldes e levantados , de 
que elle era o cheFe, com boa industria Ihe propo- 
serao a vizinhauca do perigo e a eleicao do remedio. 
Diziao que o esquadrao xlos rebeldes marchava 
para a villa de Guiana, e que de forca havia de 
atravessar pelos confins da Paraiba, e Ihe (icarao os 
moradores e engenhos debaixo da espada, indefen- 
sos porque sem armas ; que as permittisse a todos, 
em quanto nao passava a necessidade, para que 



Mfi GASTRiOtO LUftlTMia 

Irmados podessem resistir aos assaltos ; ftvor que 
Ihe& nao podia negar como bomem e como gorer-» 
nadbr, pois a natui^za- e a politica as concedia a 
toda a defensa de vidas e honras. Ajimtirao a ped- 
caoumdonatiTDy ealcan^ou^sedespacfcoe oonsdhoi 
dizendo-lhes que se aproveilassem das aitnas que 
trressem (com tanto que nao uaassem das de fogo)^ 
e se OS HoHandezes rebellados e Tapuyas insolentes 
6s investissem y que se defendessem* — Com esta 
permissao fizerao os moradores seus quarteis ; e o 
governadbr hoUandez, com parte de seus soldados; 
se retirou da cidade para a sua fortaleza do Cabe-* 
dello, Utiir*ao-8e os moradores do certao com os da 
cidade, fortificirao os sitios que Ihes parec^rao mais 
defensaveis, e capazes para uelles recoiherem suas 
iamilias , e o melhor de seus moveis , com todo o 
mantimento uecessario; prov^rao^se d'armas de 
toda a sorte j e offerecidos a toda a contingencia 
fesperarao o fim que a sorte Ihes tivesse destinado. 
^-^ Ja se affirmaVa que o esquadrao dos Hollaiidezes 
e Tapuyas marchava pelo destricto da Paraiba fa-^ 
zendo todo o damno que podia ; duzeutos dos nos- 
SOS bem resolufos quizerao ir sair ao contro do 
inimigo , mas forao disuadidos de seu proposiio 
por Francisco Cancello , homem pru^nte qu« 
sabia modificar a temeridade com a esperanca, e a 
furia com a opportunidade. Dispunhao<-se os Hot 
landezes que guarneciao o quartel da poToacao a 
lima retirada total y mas saqueando a cidade por des- 
pedida ; por^m como entretanto chegasse a noticia 
de que joao Femandes Vieira mandava um soc- 
corro a Paraiba, nao se atrev^o a fez^l--o, antes 



CASIUOTO UWXAVII. I|t7. 

eom todos os ncessos da cortezia $e opwou.a i^*t 
rada sem a menop desordem. 

Vfc Forao marcfaando oa duzeatoa Hollaiid€i9(e«,Q 
Tapuyas Xfuetraziao em sua companhia pela camr 
panha da Paraiba^ destruindo e roatando quanto 
Ihes oaia iias maos^ nao se atrevendo a coQimetteip 
as casQs fortes onde oa nos&os eatavao preveojdoa ; 
fia^rao em pedacos alguns mancebos nossos ( nad 
ebegdrao a dez ) que com menos juizo que orgulbo 
investirao com o numeroso eaquadrao, mais para 
perderem a vida que para servirem a patria. Muitoa 
Ppriuguezes com mulherea, filhos, escravos e mcH 
vei&ae recolb^ao aumengenho chamado Inhobim^ 
4o qual era senhor um Flamengo per nome Hezira^ 
que a todds recolbeo e amparou com animo fi^l e> 
generoso. Chegou o esquadrao dos barbaros aQ 
engenho de outro eatrangeiro ■, onde cetivArJio a 
douahomens nossos, a um dos quaes maiarao depoia 
a sangue frio. Pelos contornos da Guyana^ oade sua 
marcha caminhava em direitura , roubarao tudq 
quantD os naturaes nao pod^rao retirar, -^ Che«« 
girao au vista da povoacao, que estava da outra parte 
de um rio ; commettSrao a paasagem ao eutrar da 
noite para fazerem maia borrivel o assalto, e menoa 
acaulelada a defensa e a fuga doa afHictoa mora^ 
doresy quaudo.d'entre os meamoa barbaroa 9e 1&« 
Tantou uma voz, qu& vinha aobre elles todo o noasa 
exercito. Foi tal o medo que Decs iufundio oa** 
quelles deshumanoa coracoes, que Ihes repranaeii'* 
tou um e muitos esquadroes formados da outra 
parte do rio, fazendo o tanor parecer a todoa que 
ouviao rumor de vozes proporcionado com a mul* 



^88 GAifBiom tmaao^ 

tkbd da gente, que via sua imaginacao. Tornados 
de medo vaUarao as costas , trope^aado em sua 
tnesma fantasia ; e fogindo de suas mesmas som* 
bras 9 deiK4rao o caminho semeado d'annas e fa-^ 
tendag , que haviao roubado , paiu correrem mais 
ligeiros. Atemorizados chegaiio ao rio Goramame^ 
tres legoas da Paraiba; e parecendo4he3 que na 
deten^ da passagem os poderia aloancar nossa es- 
pada , deixarao os Tapuyas a conserTa dos HoUan- 
deses, e a todo o correr fogirao para o certao^ iiaa 
se dando por seguros senao depois que peneti'arao 
muitas legoas de mate. Virao^M os Flaonengos 
desemparados dos Indios , e como de nova causa 
08 invadio novo medo ; guiados de 8eu desatino j 
sem saberem por onde , para que j nem porque , 
forao dar nos engenhos de Francisco Caiuello y <fe 
Jeronimo Cadetia e d'outros moradores^ que acfaa* 
Tao com mao armada^ e com nao menos temar do 
que eiles leiravao , causado da escuridade da noite, 
e da subdila chegada ; imaginando^se estar assaW 
tados dos Tapuyas, e aquelles perseguidos dos' 
Portuguezes> passirao toda a nolle , uns fiando a 
salvacao a ligeireza dos pes, sem pararem-semao na 
sua fortalexa do Gabedelio; ouiros , commas armas 
na mao at^ que a luz da manha os liyrou de sobre- 
sake. No caminho que.os Flamengos fiziemo para 
a fortaleza osassaliarao alguns niancebos da cidade 
que y depois de Ihes fazerem deixar muchUlas e 
armasy os despojarao dos proprios vestidos. 

VI. Os nossos governadores, que deix^mos alo- 
jadosnaA^arzea, depois da sc^unda victoria nao 
laborarao menos com o cuidado no descanco, do 



qa&CGm o& brgcos nos conflictos. Sabiao pcft esH 
temo tudo o que se passara na Paraiba e em aeu 
ooDtaraOy e'por nao faltarem a necessidade do» 
desmaiados , nem As esp^ancas dos animcdos de« 
terasinarao a uns ea outros socgoito opportune e 
proporcioDado. Nomearao por capitaes. da leva An- 
tonio Rodriguez Yidal (sobrinho de Andr^Vidal, 
natnraes da Paraiba), Simao Soares» Cosme da Ro« 
cha, e Francisco Leiiao, com alguns capitaes eof- 
ficiacs para noTaft companhias que haviao de le- 
van tar naquella capitania. Do terco do Camarao 
nomearao 6 capitao Conto , com alguns Indies , 
para quo como naturaes daquelle certao persua^ 
dissem , e chamassem a si os Indios auxiliares do 
inimigo^ offerecendo^bes nossa amizade, e van*- 
tajosos partidosqtierendo militar debaixo de nossaa 
bftndeiras. Com o mesmo intento mandarao a um 
sotdado do ter^o de Henrique Dias, por nome Hen- 
rique de M^KioDea, para eapitao dos Minaa e criou* 
los^ suppondo que muitos se haviao deatistar.-^^ 
Bern provides de municoes e armaa os despacfaa* 
rao em. OS ultimos dias d'Agosto, vemettendo por 
elles patentes de governadores d'aquella capitania 
a Lopo Gurado Garro, a Jeronimode Cadena, ea 
Francisco Gomez Maniz. Mais Lhes ordendrao que 
ao passar por Goyana^tomassem alguma gente da 
povoacaoy eseolhendo dosmoradores aquelles qiie 
tivessem por si a melhor opiniao. Execut^rao com 
cuidado e deligencia as instruccoesque reeeb^rao; 
cbamarao primeiramente os tres governadores , e 
depois de lhes commuaicarem as oixlens que tra-« 
ziao , conferirao entre si o modo de dar comeco fi 



empv^it projectada. «-^ Mo dia aaguintef que je 
fxmtaraa 2 ib Settemfaro, po^-ee par obra o.pluM 
^ soncertado^ e a liberdade foi aeclamada em toda « 
xca^itaaia* 

' 'YIL FDieouaa maravilhoaa a brevidade ooaqua 
se ^^pnvocarao, reunirao e annarao todos os mora** 
dores ; porque o desejo de cada um asaiai pegou 
daa armaa quB tinba prevenidas, que sem tempo m 
virao as companhias fermadas e guaraeeidas de 
eapingardas, chinDos, espadaa, fouces, paoa tostados 
e cutellos de monte« Aqui se yio como o gosto 6 o 
melbor mestre. Asaim achou a todoa disdpliiiados 
a ordem , que parecia terem mtiitos aanos de mi-^ 
licia. Ja nao havia quern- visse a cara ao medo;. o 
que antes se uolava^e deamiiado era o que se ia«« 
eulcaTa mais destemido : ha alegria do rostro se 
Yia o alvoroco do oora^ao de todos. Qs prineipaes 
oa estimacao o forao no zelo com que chamdrao a 
si OS maocebos de melhor arte, tomaado os postos 
de capilaeS) ppimeiro da mao do favor que da elei* 
9io ; cujos noBies se irao partioularizando pelo di&* 
eurso desta hiatoria. No dta 3 de Settembro fo^ 
rao saindo as ooihpanbias com seus capitaes dos 
lugares oade se formarao , e com ordem miUtar 
marcbarao a apreaentar<-se a seus governadores, que 
no'tugar de Tibiri as e^raTao.-^Beformanao^e 
algumas companhias^ para se dar numero sufiGi-* 
ciente ki demais, ficando todas a escolba dos eapi-* 
taes que vinbao nomeados pelos nossos governa-* 
dores. Deitou-se petos moradores de toda a 
capitania uma contribuicao g^al para o sustento 
da guerra. Fix^rao-se editaes na cidade e seu con«« 



t<n*iio pelos quaes o govcmador da libtrdade c<mce- 
dia a todos os estrangeiros y que qnieesseia fioar 
entre n6sy a posse e livre uso de suas fazends», no 
foro em que as gozavao; e que aos que quizessem 
flssentar praca se Ihes fiiriao os pagamentos con'* 
forme os postos que deixassem : muitos se assen<- 
t4rao. Gondemnou--se o alojamento de Tibiri por 
aberto e irregular, approvand(^se o sitio do en« 
genho de Santo Andr^ (era de Jorge Homem Pinto), 
o qual se fortificou dentro de oito dias, em forma 
que mereceo o nome d'ArraiaK 

yitl. Em um mesmo dia se acclamou a liber- 
dade na cidade e lugares circumTizinhos de toda a 
capitania ; e nelle o soube o govemador hollandez 
Paulo de Linge , o qual logo se dispor a mandar 
afacar o nosso alojamento. Formou um esquadrao 
de trezentos Hollandezes, e dobrado numero de 
Indios; estes conduzidos por seu maioral Pero 
Poty, aquelles govemados por um cabo escolhido* 
Sairao do Gabedello em demanda do ArraiaU a tempo 
que pdo rio da Paraiba mandoii seu governador 
SHbir um sufficiente numero de lahchas, com ap« 
parencia de irem commetter a cidade. — Persua* 
didos OS nossos cabos que por mar e terra vinha o 
inimigo buscar a cidade, a soccorrerao com todo o 
poder ; mas bem de pressa conhec^rao que o ataque 
se dirigia todo contra o Arraial , e que as lanchas 
subiao ardilosamenle com voga escassa para nos 
divertir . Tinha ficado no Arraial pouca gente, que 
apenas bastava para as guardas quanto mais para 
a defensa, o que causou grande cuidado aos nossos, 
qie nao podiao acudir^lhe com soccorro ; mas o ca« 



]»tm> Franciieb Gomez, que, alii ficara, souhe des*> 
vtar o perigo que o ameaf ava. Saio com o Umitado 
poder que tinha a buscar o inimigo, que enconti*ou 
na oampina de Inhobtm ; invealiraorse os esqua^ 
djToes , iguaes. no valor, desiguaes «o numero , e 
muilo mais nas armas; as do inimigo todas de 
fogo^ as dos Portuguezes nem todas do ferro. Deo 
o Flamengo a primeira carga 9 quaado o ceo nos 
favoreceo. com uma pancada d'agoa j com que ani- 
mados os possos investirao a espada, com valor tao 
destemido e braco tao robusto, que desatinado dos 
golpes nao sabia o conlrario advertir o. pequeno 
numero dos pesj^oas : nao faltpu ao encontro aquella 
profia que sustenta a igualdade da forca. Foi re-* 
nbido combate, mas nao longo, porque Hollander 
vendo o campo coberto de mortos^ os nossos con^ 
valor e disciplina , e receando que nos chegasse 
sQccorro , deo as costas ao cpmbale tao medrosa- 
meote desordenado y que os s^us desqbedientesi < a 
forma, seguirao os preceitos do.temor, sem para- 
rem FlamcQgos e Tapuyas aenao dentro de sua 
fortale^a do Cabedello. — Cinco soldados nqs mar 
4arao> entre elles capitao Francisco Leitao : morte 
sintida pela occ^iao e pela falia. Os feridos nap 
forao mnitoSy e os fez parecer menos a breve con- 
valescenca de todos. Recolbidos . os despojos , se 
voltarao os nossos para o Arraial, dando-se uns a 
outros as congralulacoes do successo , e a Deos as 
gramas de tao inopinada vj<;toria. 

IX. Ainda corria o sangue das feridas , que o 
inimigo recebeo nesta occasiao, quando o, gover-^ 
nador hoUandez mandou eaforcar dentro da sua 



CASTRIOtO LUSITANO. 333 

fortaleza a um honrado morador da Paraiba, pof 
notncFernao RedriguesdeBulhoes, enviado (como 
escolhido para o negocio , por se fiarem nelle as 
partes) a concluir com o Linge a entrega da for- 
taleza, que sua diligencia tinha muito adiantada, 
e que descompoz de todo a falta do segredo. Al- 
cancou-o, ou per communicacao, ou por inferen- 
cia, um sacerdote , fez aviso do negocio a um pre- 
dicante do inimigo. Descoberto o trato, e culpado 
o governador, Ihe foi necessario salvar a pessoa, a 
opriniao , e o cargo com se mostrar inteuto da ca- 
lumnia; e ficarseguro do complice ; o que conse- 
guio com matar o interlociitor. Desde o presente 
tempo "SLti o fim de Outubro nao descancarao os 
nossos de molestar o inimigo com toda a hostilt- 
dade possivet , valendo-se d'emboscadas , rebaites , 
assattos sempre bem succedidos^ e com prisoes e 
mortes de HoUandezes e Indios , cfue liao especifi- 
camos pbr similhantes e continuos. 

X. Obriga-nos a historia a bttscar o tempo em 
que se acclamou a liberdade no porto do Calvo, 
queixoso da detensa que fizemos na relacao dos 
acontecimentos da Paraiba. Entre os homens de 
qualtdade^ que a violencia snjeitava na circUthfe- 
reneia deseu dominio, era um d'elles Christovao 
Lins, nao menos nobre pelo sangue que pelos pro^ 
cedinientos. A este tal mandou JbaO Fernandes 
Vieira patente de capitao de todo aquelie destricto 
do porto do Calvo, onde tinha sua morada/ com 
aviso « ordem que , cauto e pretenido , esperasse o 
dia em que se havia de acclamfir a liberdade^ em 
todasas partes sujeitas ao Hollatnd^z; -^ E^^va 



SM GA6TBIOT0 1C3IXM0. 

ChristoTao Lins o memento pr6piofto. para dft* 
execu^ao u ordena que receb£ra , quojUdo , vendo 
que HoUaodez mandava prender todas aftipieasoas 
de qualidade comecaodo pelo commeodor Rodrigo 
de Barros Pimentel, e tendo noticia que Joao Fep- 
nandes Vieira $e pus^ra em campo a favor da liber- 
dade, fez do successo aviso ^ e seguindo o conselho 
jque Ihe dava a occasiao e o cargo, com os moradores 
que quizerao seguir appellidou a liberdade^ e se 
poz em campo com aa poucas armas que podArao 
livrar da prohibicao hoUandeza, luformado o com- 
meador dia fortaleza do succe^so , e querendo apa- 
gar o fogo antes que crescease o inceodio , dmtou 
fora uma partida de soldados cOm ordem i^eassal- 
tassem OS rebelados, e a todos preodessem ea mft- 
tassem. Nao se escondeo a CbriaioTao Lins> <e a 
^eus confederados a viuda e o intento do inimigo^ 
e esperou d'emboacada ; e com tao boa fortuna, 
que nella perd^rao (odos as vidas , e dmariio as 
armasy com as quaes ficarao os nossos mais onsar- 
dos, porque melhor guameddos. -^ Tres dias estir 
virho em suspensao as armas d'uma e d'outra 
parte ; mas como acouteoesse terem ob nosaos aviso 
de que pelo rio de Mangoaba subia mn karco, que 
vinba em aocoorro dos inimigos^ e dando sobre elle 
tomsasem com morte de nove HoUandezes , e sb 
apoderassem de muitas armas de fogo, municoes e 
mantimeotoai recuperavao novo animo; e raforca- 
dos p9f glUode numeronle moradoi^s que se^em«- 
breab^vaa pelos matos,^ ak>jaraD*se em um qoartel 
defeaaavel » e esteodeodo^ae em dous bra^os cin^ 
g^ a forlaleaa ao lai^go ogidb da nio alcaA^a a 



CttSniOTO LDSITAIIO. lU 

artilharia d'elk. Animosos com a multidao e Gdm 
as annas^ mandarao uma emfaaixada aos eercados, 
que se entregassem a bom partido , ceFtos de que 
Ihes guardariao as condicoes maid favoreis ; que 
nao despresassem o offerecimenio , porque era re** 
solucao de soldados, e tambem conselho'd'amigos> 
pois Ihes propunhao os meios mais uteis para a con- 
fiervacao da honra, da vida e da fazenda ; que tudo 
faaviao de ^rd^ se esperassem o assalto. Ouvio o 
commendor a embaixada , e despedio o enviade 
sem respesta. . 

XL Vendo o oommetidor da forteleza que os 
^mantimentos iao fallando, e i^ue os nossos cresciab 
Ml numerOy e apertav^ cada vez mais o cerco, p^r- 
auadio aos^ sens com boas r^zoes qtie se de?ia en- 
tregar a fortoteza. Convi^rao todos no parecer do 
eommendor, oqua! matxdou urn enviado a Chris* 
tofvao Lens ( tiiihato sido amigos ), dize^do por elle 
que todos o» officiaes e soldado& vinbao lia entrega i 
porim que era necessatio mandar vir tim capitao 
ftogo do nereiio , que tiniianoros em Pei^nambuco > 

pant com elle asaentar as oapiUilaeoes ; o qile nao 
luYia de faser com algum dosmoradores, porque 
se nao dissesse que capitnla^a 'Com os dubditos com 
que titera amizade; e que no entretanto 6 806* 
Qorresse com alburn r^resoo* Recebeo ChriMovao 
Lioa a embaixada ^ mandou o refresco pedido, 6 
partieipou immediatamenle ao goreraador Jo^ 
Feraandes Vi^ra as propostas dof cdmmendor, pe* 
dindo-4ba mandisae l<»go qnem oapitnlas^e ad coti-^ 
diooes da entrega. **- Gommanioon o gpvernador a 
ttm9iQ a sttpfilica |ioa Mnamestreadeeampo ; ^&t^ 



n 



lit GASTRIOTO LUSITASO. 

ferirao enti*e si sobre a pessoa que hayiao de man- 
dar, e fizerao escolha do capitao Louren^o Cameiro 
de Araujo^ cavalleiro do babito de Ghristo, que 
asaistia no pontal de Nazaretb , o qual partio logo 
a execular a ordem ; cbegou ao porto do Calvo, e 
assentou com Ghristovao Lins que logo se notifi- 
casse sua vinda a Aram Florins ( est^ era o ndme 
do commendor da fortaleza). Capimlou-se a en- 
Irega na forma seguinte: Que sairia o inimigo com 
seus officiaes e soldados tocando caixa, bandeiras 
tendidas, mecha calada, balla emboca, e todasua 
bagagem ate o lugar destinado para os desarmafrem ; 
que a todos se daria embarca9ao para se irem onde 
quizessem ; que a todos que tivessem Yoniade de 
servir o nosso exercito, se Ibes assentaria prada na 
forma do estilo, fosse soldado ou morador; que a 
uns e a outros se concedia a posse e ouItul*a de suas 
fazendas, e lodos os foros com que at^ aqaelle 
tempo as posseeiao. Com estas partidas se apossa- 
rao OS nossos da fortaleza em 1 7 de Settembro de 
1 645. — Repartirao-se pelos soldados rendidos sette 
centos mil reis ; guardarao-se-lbes pontuafanente 
as con^icoes pactuadas, sem que se desse occ^siao a 
menor queixa, muita por^m, ds admira^oes dos es- 
trangeiros. Os officiaes e soldados rendidos fasiao 
numero de cento cincoenta e seis. — Deixou -nos 
o Flamengo a fortaleza inteii^ , com oito pecas de 
bronze y quatro de vinte e quatro, duas.de deza- 
sette , e duas d& cinco ; armas e municoes , nao 8<$ 
bastantes y mas sobejas para ' sustentar um largo 
sitio. Nao quizerao os moradores que na ibrtaleza 
ficasse motiTo de solTrerem de pori^ novo sktiOf 



CASIRIOTO LUSIXANO. 537 

pelo que arrazarao as muralhas, e o capitao com- 
boiou por terra toda a artilharia para a Yarzea , 
onde cUegou a avistar os nossos governadores com 
applauso de vivas^ e despojos da victoria. 

XII. £m quanto estas cousas passavao no porlo 
do Galvo outras similhantes succediao no Rio de 
Sao Francisco, cuja fortaleza em 1 9 do mesmo mez 
se entregou aos nossos. Valentim da Rocha Pita, 
uobre e confidente morador naquella parte , rece- 
bera patente de capiiao de todo aquelle destricto, 
na forma que se tinhao dado a outros de que temos 
fallado ; fora elle advertido pelo governador da lir 
.berdade do decreto publicado pelo Hollandez, e da 
trai9ao que preparava aos mpradores ; communicou 
tudo aos homens conhecidos para que o Flamengo 
OS nap achasse desacantelados ; os quaes todos se 
disposerao para aproveitarem o primeiro momento 
favoravel para proclamarem a liberdadcyoqualnao 
tardou. Mandou o Hollandez prender um morador 
principal que residia duas legoas da fortaleza ; pu« 
blicou-se o mandado^ e com elie o alvoraco dos vi- 
ziahos, que saindo ao encontro do preso e dos 
ministros, matarao a estes, qi|ie erao um sargento 
com dez soldados , e pos^rao em sua liberdade o 
preso. Ghegou a nova ao commendor, o qual man- 
dou logo um capitao com settenta soldados, que 
ddsse sobre os aggressores, e que a elles e a toda a 
cousa viva abrazassem e consummissem ; mas nao 
succedeo como elle determinava , porque os nossos 
pondo-se d'emboscada, esperaraoos settenta, eos 
castigarao com tao boa mao, que nenhum pode 
escapar da morte par a levar a Aova do castigo. Por 

U 22 



8S8 GA5TU0T0 LUSITAIIO. 

terceiras vias chegr^u a noiicia do «9trago ao com- 
mendor que, magoado da perda, ae arrependeo da 
colera. 

XIIL Em todas as idades foi sempre maior o se- 

quito da fortuna que o da razao. A miiitos vizi- 

nhos conduzio a totnar as arroas o desejo da liber- 

dade^ por^m amuitos mais a nova d estessuccfssos. 

J& o orgulho da muUidao jnlgava peqiiena a op- 

posicao do Flamcngo , e Ihes pareda affr-onta de 

«eu bra^o o fazerem-se senhores da campanha scm 

ganharem a forTaleza. Antevioo inimigo apratica, 

e temeroso da onsadia se rec Iheo com todos os 

seus dentro da forlaleza, nao Ihe restando mais es- 

peranca que a dos soccorros, que Ihe promeltia. 

Considerirao os nossos que a dilacao do cerco daria 

tempo a disposicao dos soccorros, e se resolvSiio 

em maudar dous correios & Bahia , expondo ao go- 

Ternador g^ral do Estado o curso dos successes , e 

motivo dos receios , pedindo-lhe que Bies maa- 

dasse algum soccorro. — No entretanto se occupa- 

rao em conduzir armas, muni^oes e mantimentos^ 

que a pouco custo Ihe ofTereceo a ventura em um 

cataTcllao, que o inimigo mandava de soccorro 4 

fortaleza : vinha subindo pelo rio, e assaltado dds 

nossos o largarao os Ilamengos com as vidas. A 

mesma sorte teve uma lancha que navegava com 

onze Flamengos, as ordens d'um ajudante : oito 

mancebos Portuguezes aenvesiirao em uma canoa; 

iDatarao da primeira carga seis Hollandezes; os ou- 

trois acab^rao pelo ferro ; e a lancha servio aos 

nossos de iriumpho e de soccorro. Enire os cerca- 

dores « os sitiados erao tantos os encontros comb 



GASTfilOTO UmiASfO. 1^9 

erao as occasioes, e as occasioes como erao oa dia^, 
ficarido oa noasoa sempre vencedores ; e por serein 
OS successes todos os mesmos os nao referimos. 

XIV. Logo que o govemador do Estado recebeo 
OS cnrreios com a pariicipacao do que era passado 
no Rio de Sao Francisco, expedio as ordens aaca*- 
pitao Nicolao Aranha, que se alojava no Rio Real, 
para que com a sua compauhia partii^se ccmi os 
dous correiosem soccorro dos moradores do Riode 
Sao Francisco , o que executou promptamente che- 
gando a avistar os nossos em 10 d'Agosto d'este 
mesmo anno * e para informar o inimigo da sua 
chegada mandou por o fogo a algumas lanchaa que 
tinha amparadas debaixo de sua artilharia , o que 
com bom successo se executou. — Ao outro dia da 
sua chegada mandou Nicolao Aranha aperCar o 
cerco com a sua gente (erao cento oitenta ho* 
mens bem armados, entre Portuguezes e Indioe); 
passou o rioy e se fortifieou da parte do norte ^ na 
qual a fortaleza estava situada , com 4> que fraa- 
queou a passagem a nm grosso de nossa infautaiia, 
e com elta cingio a fortiGcacao hollandeza ; no ilia 
seguinte mandou occnpar todas as cTilradas e saidas 
dapracacom emboscadas e mangas volantes, que 
servissem & vigia e a occasiao ; ordenou que Algu- 
mas companhias por lugares diversos picassem fl 
inimigo, no caso que saisse da fortaleza, oque se 
nao alreveo a fazer* — Foi-se apertando o cerco 
cada Tez mais at^ que as nossas ballas ja chegavao a 
fazer estrago nas casas , e com o aperto do cerco ae 
Ihe forao tomando todos os soccorros que viohao 
pelo no > e evitando por mdo de lanchas armadas e 



ZkO CASTUOTO LUS1TAN0« 

guarnecidas de gente resoluta que oulros man- 
dados pelo Arrecife podessem approximar-se da 
fortaleza. 

XV. Vendo o commendorda fortaleza o aperto em 
que se achava deitou fora urn bolatim, e porelle 
maudou dizer ao capitao Nicolao Aranha, mais com 
manha que com franqueza, que Ihe beijava as maos, 
e eslimava muilo sua vizinhanca, e muito mais 
estimaria o servir-se d'elle, pois sabia como tao 
grande soldado que as leis das armas faziao con- 
trarios, por^m nao inimigos. Respondeo-Ihe o dis- 
creto capitao que, obrigado de sua cortezia, Ihe 
aconselhava entregasse a fortaleza , antes queadc- 
casiao Ihe fizesse inimigos todos os que via contra- 
rios. Nao cessarao as hostilidades, e continuarao os 
recados de ambas as partes; se bem que de uma 
as formava a desespera^ao e da outra o desprezo. 
No dia 1 3 de Settembro , em que as armas anda- 
yao mais quentes, mandou Nicolao Aranha urn 
tambor e um official com embaixada ao commendor^ 
que. seus. soldados o importunavap , enfadados de 
tanta dila9ao9 por licenca para levarem a fortaleza 
a escala, o que Ihes nao poderia negar se logo a 
nao, entregasse a partido, para o qual o achariao 
fayoravel ; que Ihe advertia serem mui poucas as 
palavras onde havia muitas e boas maos. Queria o 
commendor ganhar tempo , esperando que entre- 
tanto Ihe chegasse algum soccorro , e sem rejeitar 
inteiramente a nossa proposta^ respondeo que pe- 
dia tres dias de tregoas para conferir com osmais 
cabos, e assentar o que se devia fazer. Succedeo 
nesta mesma bora chegar ao Rio de Sao Francisco 



GASTRIOTO iUSITANO^ 3&1 

Henrique Hus ( com aquelles rendidos nas casas 
de dona Anna Paes , que os nossos governadores 
mandavao prisioiieiros para a Bahia)^ o qual, infor- 
mado da embaixada e da resposta, se entrepoz por 
medianeiro do negocio a benfeGcio dos cercados« 
Escreveo ao commendor com licenca nossa, expoz- 
Ihe a desgra^a que Ihe tinha acontecido^ a perda de 
duas batalhas campaes por parte da companfaia, 
a impossibilidade de receber soccorro do Arrecife^ 
e Ihe aconselhava que entregasse a fortaleza, e que 
nao esperasse o assalto. Esias razoes ditas com au- 
toridade , e ouvidas com respeito poderao tanto , 
que logo o commendor, com Lodos os seus, trata- 
rao de enitregar a fortaleza. 

XYL Feitas as capitulacoes , e assignadas pelos 
cabos maiores sairao da fortateza, na forma d'ellas 
(em 1 9 de Settembro) duzentos ses^enta e seis Hol- 
landezes e Francezes, cinco Indios, yinte e quatro 
mulheres , dezoito meniuos e outros tantos escra^ 
Yos; OS officiaes com suas insignias, os soldados 
em fdrma de guerra , at^ certos passes onde forao 
desarmados. Deixarao na fortaleza dez pecad de 
bronze, grande somma de pelouros sorteados, suf- 
ficiente polvora e murrao, e abilndancia de mantis 
mentos. Aos enfermos, mulheres e meninosse deo 
embarcacao para passarem a Bahia com seus mo- 
veis ; alguns soldados se alistarao debaiico de no6« 
sas bandeiras ; e os mais se passarao a outra parte 
do rio para marcharem para a Bahia como rendi- 
dos. — Foi a restauracao desta fortaleza utilissima 
para os progresses de nossas armas; como foi de 
perniciosissimas consequencias para o Flamengo. 



M2 GAsmoio lusrcAiio. 

Erft fronteirai e ^have d'uma e ontra catnptlAliii, 
porque abria e fechava o transito de Pefnambuco 
para a Baliia, eao contrario ; deposito do principal 
sustento para os exercitos, porque deltas partes se 
condutiao os gados, de que abunda aquelle (erreno; 
e sem dominar aquelle posto ninguem se podia der-« 
vir das rezes quealimentavao aquelles pastes. A uti- 
lidade foi a todas as luzes grande^ ou se lome pela 
parte da defensa ou pela da conquista^ Nenhuma 
TJctoria tnereceo tanto applaaso, porque nenhutna 
se alcan^ou com menos custo. Os moradores, flados 
na Forca de seus bracos, pediao ao capiiao Aranha 
que Ihes mandasse ai^rasar a fortatezai para que (ko 
inimigo se cortasse a esperan^a, ^ aos viztnhos 
receio. tlxecutou-se come se pedia. As dei pecas 
de bronze se deposrfarao em lugar segnro para se 
passarem a Pernambuco com mais commodidade. 
Ordenado tudo o que podid sc'rvir A conveniendia 
dos moradores, tnarchou Nicol4o Aranha conr^ a 
sua gente para a Varr ea a dar conta aos nossos go* 
vernadores do siiccesso, edo dcsejo qtie tinha da 
servir a liberdade. 

XVII. Em quanfo o braco dos moradorea das 
sobreditas capitafiiMS trabalhavd na restauracio da 
sua liberdade y acudia Joao Fernandes & da saude 
de iodos. Para soccorro e alivio das feridas^ doeil-^ 
cas e miserias que i<ao consequehcias dertissima^ 
das guerras e das campanhas, levaniou uma east 
da Misericordia a imitacao das do reino^ e das que 
havia antes do Hollandez se faz€r senhor da terra 
(de nenhuma deixou o inimifjo tnemoria em todaS 
aquellas capitanias) , ha qual se exercitasse a pie^ 



GA8TU0T0 VBSaiSXU. ik% 

dade ehrista pw diversas pessoas addictas a diffe-* 
rentes empregos. Consigaou ordeoado para um cav 
pellao, que todos os di«is dissesse missa aoa en* 
fermos ^ e ihes administrasse o$ sacrameatos, com 
obrigacao de assistir aos enterros dos mortos ; que 
logo proveo em pessoa beaemerita. Determinoa 
porcao para medico, sirurgiao, botica e servos que 
assist issem 4s necessidades e limpeza dos enfermos* 
Repartio os gasios pelos moradores , como o per* 
mettia a possibilidade de cada um, e nomeou para 
provedor e mais impregados os homens mais ca«^ 
pazes e zdosos da terra»-— No maior fervor desta 
ocfcupacao chegarao a Varzea os meslres de campo 
Andr^ Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreuo 
da volta da empresa de Nazareth ^ com todos os 
estrangeiVos rendidos. Coosultdrao com o governa* 
dor o premio que poderia merecer o servi^o de 
Theodozio Elstrater, eih quanto a majestade d'El 
Rei de Portugal Ihe nao fazia merc4 ; e altendendo 
ao desejo que tiiiha de servir ao dito scnhor na 
empresa da liberdade , Ihe d^rao o posto de mestre 
de campo de duzenlos e cincoenta estrangeiros (que 
rendidos nas occasides referldas assent^raa praca 
de soldado.s ) com promessa de que se Ihe aggre-* 
gariao a seu tergo todos os mais que pelo tempo 
adianie quizessem servir em o nosso exercito. No* 
meArao-Ihe por sargento maior um Francez, cha-« 
mado Francisco de la Tour, e deixarao 4 sua es-- 
colha a devi^ao das companhias, e nomea9ao doa 
officiaes d'ellas. 

XVIll. Susientava o inimigo (a tiro de mosquete 
da villa de Olinda ) uma pequena for^a chamada de 



344 CAStRIOTO lUSITANO. 

Santa Criiz ; limitada no ambito, grande pelo sitio; 
e inexcusavel transito para a communicacao e ser- 
vice 3o Arrecife para a villa, e della para o cerfSo ; 
ja neste tempo cortada pela nossa opposicao d^sde 
a occasiao em que o capiiao Barboza com os trinta 
soldados de sua companhia a occupou. Yendo pois 
osnossoscabosquantoeraimportante aquelle ponto 
para o progresso denossas armas, resolvfirao que" 
se levasse por entrepresa. Assentarao o tempo e o 
mode ; e com uniforme parecer mandarao algumas 
companhias que se passassem da outra parte do rio 
por aquelle sitio que chamao o Buraco de Santiago, 
e de emboscada corlassem todo o soccorro, que do 
Arrecife se podesse intentar pelo vao, que debaixa* 
inar da o rio naquella parte. Posta por obra esta 
diligencia , sairao os mestres de campo Andr^ Vidal 
e Theodozio Esirater com o grosso de seus tercos, 
resolutos em levaro forte a escala* Adiantou-se o 
Estrater, pelo conhecimento que tinba com o com- 
mendor Hollandez, a persuadir-lhe a certeza de se 
perder, e a conveniencia da entrega, antes que 
contra elle se desembainbasse a espada* Oonvenceo* 
se o Flamengo com as razees de Estrater, e se en- 
tregou a partido, que se Ihe fez com avanfajados 
favores. Entregou o forte com seis pecas d'artilha- 
ria, subejas municoes, e suflicientes mantimentos^ 
necessario tudo para os soldados portuguezes, que 
nella ficarao de guarnicao. cabo rendido com 
todos OS seus assentarao praca no terco de Estrater, 
primeiro convidados de nossa fortuna que de sua 
affeicao. Guarnecida a forca com uma cbmpanbia 
de soldados, para rebaterem o inimigo , se inten- 



GASTBIOTO WS^AMO. SftS 

tasfie reciiperata^ se volt^rao os nossoi^ para o seu 
alojamento. 

XIX « Os governadores hoUandezes, que assiatiao 

no Arrecife, cortados de tantos golpes quantas 

erao as perdas e damnos recebidos,, considerayao a 

pressa com que as nossas armas caminhavao & lil-* 

tima' ruina de seu imperio ; mandarao unia em- 

baixada ao mestre de campo Andre Vidal de Ne-* 

greiros, cuja substaneia em protestos e justiBcacoes, 

com que arguiao e condemnavao os progresses de 

nossos empresos, a rebel liao de seus subditos, a 

perda de seus exercitos, as mortes e prisoes de 

seus cabos^ os damnos de seus commercios, os 

roubos de suas fazendas , a quebra de sua reputa-* 

cao, a injuria dos illustrissimos Estados; que a 

elle mestre de campo se imputaya toda a culpa, 

como total causa de todos os males ^pois qiiando 

posto, o preceito e a razao o obrigava a solicitar 

a paz y e a socegar os tumultos dos moradores le- 

vantados, influia na guerra^ fomentava a rebelliao^ 

era parcial nos insultos, e capiiao dos ag^ressores ; 

e que ja que suas obras o declaravao mortal ini^ 

migo y nao se negaase ^s obrigacoes de soldado na 

commuta^o dos prisioneiros, mandando4he o seu 

general Henrique Hus com os principaes cabos que 

Ihe tinha retido, em recompensa do capitao maior 

Jeronimo de SiWa, que tinhao preso no Arrecife. 

— Andr^ Vidal, que com esta resppsta ficara mais 

colerico que corrido, nao quiz Gar a resposta a me* 

ippria , ^ & cortezia do enviado , e tomou por se- 

guro expediente o fazel-a por escrito ; para que 

nem a adulacao^ nem o pejo podesse viciar b que 



SM cmnam» imramoi 

rdRnriMt o (>apol ; no qual le eominkixk m tq^Btts 
razoes , como entao se dizia. « Se o espanto nao 
>y (dn reaulta da eHtranhcza^todos nos aditfiraiii6s : 
>i yossas merc^ de minhas resolu^oes, e eu de seus^ 
>i*tratoa; mas coinlo estes em vossas mercte aaa 
» faiaos por uao , e aquellaa em mim jiistffic&das 
»- por ciistume^ nenhnm fundamento poderi ter 
» nem em mina o eapanto, nem em rossas mcrcte 
» a admira^ao* Mandou'^me o senhor Antoaio TeW 
>y les da Stlva» govemador do Eatado , que Tiesse a 
» esia oapitania socegar oa tumultos da reM\mo 
» por vossaa mercfts Ibo pedhrm ; dei auasordeti^ 
» a execacao ; chegiiei a eslea Ingares, nos qusw 
» nao achei desobedientes, achei desfoi cados ; nao 
» aobet rebeldes que casiigar, achei opprimido^ 
» qiate favorecer« A obediencia que se Aete ao 
>i aenhor nao se deve ao tyranrio ; as leis da po« 
>i liiiGa ciyil obrigio a obedecer ao pri ncipe naCoi-al^ 
» nao ao intruso. Vossas mereds maf ao por officio^ 
» roubio por eonveniencia ^ injuriao por go^to^ 
» Digao^^me t mo principes, ou piratas? Sao senhcM 
» res, ou lyrannos? A obediencia em tanto ^ legat 
» em qiianto serve ao superior iegitimo , nao em 
)i quanto adula osenbor intruso. Em vossaa m^^ 
» qH naosd i falso o dominio, senao o (rato. Que 
» heranca , ou que direito thes deo este imperio ? 
)!> Que engano nao inteniio em todas aua$ adC6es? 
1 Pois como jnlgao qne a urn governo falso devem 
» OS homens uma fidelidade Verdadeira ? A traic&o 
» mais vil d a que resulta da ingratidio, pOrque de 
>j fabrica com as mini do beneficio* A necessidade 
obrigou a vosaaa merc^ a que pedissem ao go«« 



» v^ro^r g4ral do Estado favor pMa apiii|piia« 
» rem o» Portugtiezes de &eu dotninio* Viemos am 
>» sea spocorroy eu e os aoldados que me aasistem, 
n e de$cobrimo8 o iraidor intento d*esta peticao, 
» semlo iodo o fim d'ella iotroduzir-nos nesia capn 
». )>itat>iai para quo nella cercados do suas armas 
j» 1109 fioommmisse o ferro, a fome e o desierro; 
» irai^ao que todo o mundo vlo 4 luz das chamas^ 
)» ^m qiiQ iM> portode Tamandar^ arderao oa vaaos 
» quo nos condwirao por ordem e mandado de 
» ana cavilla^aoi q^e temeruaa de que logo desco- 
» brias^mos o engano^ nos tirou oa lucios para o 
», regrease ; e seodo eu neate parlicuiar o maia 
» quoiao^Oi me querem persuadir o mais culpado. 
» Muico oega a maliciai a eegueira da naiureza 
n oap deixa ver aos outros ; por^ a da malicia , 
N laem aos oulro8» nem a si luesmos; aquelia cura* 
» 9e oom OS rvmedios ^ esia augmenta*-S0 com as 
» pposperidades. Ponderem vossas mercts de que 
i) parte faila a verdade, e dessa aobarao a trai^. 
H At majeslade d'El Rei oMu seohor Dom Joao o 
»- Quarto noa ordena que em tudo conservemos a 
» paz^ a amizade e a oorrespoadaicia oom oa Hoi- 
)). landfzes^ porque suppoe igualdade 00 trato; po- 
» rem se iielle i tanta a difTereufa oomo a distancia 
T» entre um animQ real e um cora^ao mereaolil, 
h eomo pode scr que se nao de poroffendido^ me- 
» dindo-se o aggravo pelo exeesao dos extremos? 
» Maior servigo Ihe fa^o eln me oppor a mjuria , 
»i.que em obedecer ao maodato ; porque sei qua 
» da falta das nolicias nasce a diiibrmidade dps 
». pre^eitoa* £ quaodoi levado d'eata dietameai pe- 



8M GASTBIOTO LtTSITANO. 

» que na interpretacao de suas ordena^ pagarei com 
» a cabeca afalCa da obediencia, por^ (icarei com 
» a gloria de a saber dar, por gatihar a perdido m 
» reputacao d'um Rei que com fidelidade sirro ; e 
» no culto d'um Deos que fidelisstmo adoro. S^ 
» morrerei com a inyeja de nao ser eu o prim^ro 

> que desembainhei a espada para viugar uus e 
» outros aggravos ; mas tambem com a dHa de ser 
;) o segundo a respeito d*um varao y que nao km 
» primeiro. Em quanlo ao requerimento de tro- 
» car prisioneiros , facil fora o despacho j seodo 
» lodo o interesse nosso, pois nos pedem <|uairo 
» cabos a troco d'um capitao , quatro Flamengos 
M por um Portuguez y dando a uns e outros seu 
» intrinseco valor ; por^m o general Henrique Hus 
» com todos OS mais rendidos ha dias que 'forso 
» remettidds i Bahia & disposicao do govemador 
» giral do E^tado , onde ehegou, menos o sat^^ento 
>i maior Jo&o Blar, a quern os moradores d'u® hir 
» gar matarao com quatro ballas, porque Ihes de^ 
» via mais que uma vida ; e ja que os prisioneiros 
» referidos se nao remettem (por sujeitos a outia 
/) jurisdiccao) aconselharei que vossas merc^ os 

> maudem pedir a Bahia , que oom fadlidade se 
» darao a todo o barato, por nao ser fazenda da lei. 
» Os qu(3'estao em n6s&o poder nao temgosto de 
» voltar, pOrque miliiao enire nos mass por sua 
» conveniencia que por nossa necessidade; que 
» nao necessilja d^ rendidos quern os pdde render. >^ 

. Gom esta resposta despaehou Andr6 Vidal o en- 
viado. 
XX. i^eHratgum tempo esteve suspenso o esi^^" 



GASTBIOTO LUSITANO* d&O 

cicio das armas entre os nossos ; poi'em os gover- 

nadores d'ellas sem interrupoao de tempo laboravao 

na disposicao de seus progresses e intentos. Gonsi- 

deravao o quant o importava para o fim da empresa 

nao desistir da continuacao da guerra ; chamarao a 

coDselho OS principaes cabos do exereito ; propo- 

serao o negocio, e eomo os votx)s erao resulta de 

varios afFectos, forao diyersos os pareceres, ainda 

que ditados pelo valor, pela prdtica, pela industria^ 

e pelo zelo lodos. Muiios convierao que se refor- 

masse o Arraiai velho, e que for|ificada neUc^a nossa 

gente saisse a infestar e reprimir o inimigo , apro- 

Teitando as occasioes que Ihe d^sse o tempo. Alguns 

approvarao a voto, c reprovarao o sitio; outros 

tinhao para si que o mesmo lugar, onde de pre- 

sente se alojavao, era o mais couveDiente para o fim 

que se pretendia ; e todos autorizavao suas opinioes 

com OS fundamentos de seus dictames. — gover- 

nador Joao Fernandes Vieira com melhor escolha ^ 

porque com mais advertencia, disse^ que nao con- 

vinha acurralar o poder na circuqavalacao d'um 

arraiai , porque inclufto nelle serviria a defensa e 

nao a conquista, e seria obrar contra a teucao de 

invadir levanlar paredes para guardar ; e cortar o 

fio as victorias com a mesma espada com que se 

venoSrao as batalhas, dando a enteuder ao Fla- 

mengo, ou que nossa ofTensa se satisfazia com tao 

pequena vingan^ja, ou que o nosso valor, temeroso 

davizinhanca de suas pra9as, fazia p6 atraz na cor- 

rente de seus progresses. Que seu parecer era, que 

o nosso poder cingisse todas as forcas inimigas em 

quarteis tao vizinhos que se nao perdessem.de vista 



S50 CASTBIOTO tUSITANO: 

nem os inimigos, nem os pardaes, e que tia mesm^ 
divisao iicasse o poder unido; que para guarda 
d'armaS) municoes e mantiroentos se edificasse umk 
fortaleza , debaixo de cuja vista e amparo ficasse 
toda a cirumferencia, da qual, como do coracao, sc 
commufiicassem espiritos a todo o precincio do 
cerco. Este volo tiverao tambem o Camarao e Hen- 
rique Dias , e logo o seguirao lodos os mais cabos, 
— Conformes neste parecer se applicfiiao os nossofe 
cabos a execucao d'elle. Reparlirao-se os sitiosi 
que escolheo a arte, pelos capitaes que tinliab es- 
colbido a opiniao na f6rma segninte. A paragem, 
cfaamadadeSebastiaodeCarvalho, se deo ao Cama- 
rao para quartel do seu terco por ser entre lodas k 
mais arriscada ; a que se chamava de Joao Ytlho 
Barreto,e (icava a tiro de peca da cidade Mauricea^ 
se entregou a Henrique Dias : servia-lhe de trin- 
cherra pela frente o rio Capeberibe , que por aquelle 
sitio se vadea de baix^mar; uos sitios das Ssilinas, 
carreira dos Mazembos e villa de Olinda, se con^i- 
gnarao tres estancias, nas quaes se haviao de rortifi- 
car OS capitaes da terra e os da Bahia, para que uns 
industriasseni os outros no terreno e nas veredas 
d'elle. 'Mais se mandarao guarnecer as estancias da 
Tijlaat^ o rio Doce, por cujos arrabaldes ie pela 
praia do mar se ordehou andassem sempre as tropas 
de cavallo que bavia com algumas compan'hias vo- 
lantes/que servissem de guarnicao, e sentinellas 
nas distancias que nao pei^mittiao quarteis. Do re- 
maneceme de ofBciaes e soldados se formou um 
grosso, que assistisse aos nossos governadores pa- 
ra daretn soccorro a todas ais parteS; onde o pediase 



cismmo iOftiTAMu Mi 

a D6oes$idade « a oocasiao, sitiados em poMo conne- 
niente at^ que tivessem alojamento cerio na forta- 
lexa que 6e havia de fazer. 

XXI. Sobre a escoliia do lugar para a situate 
da fortaleza houre a mesma dirersidade de pare- 
ceres ; mas seguio se igualroente o voto de Joao 
Ferfiandes Vieira , e ft)i escolhida uma eminencia 
que a natiireza levani^ra pegada ao engenho, que 
se dizia do Bribao, uma kgoa do Arrecife, a qiaal 
tinha (odos os requisites para assento da fortaleza, 
cuja escoiha nao podia ser suspeita por parte do 
Bosso govemador, porque destriiia fercilissknos 
canaveaes de tres engenhos seus. Um estrangeiro, 
perito na arte da fortificacao» deliniou a planla do 
edificio com a grandeeae a capacidade que Ihe pii^ 
tou o desejo ; e no fim de Seiiembro se Ihe poz a 
primeira mao. — Para trabathar na obra concorreo 
o govemador com todos sens eseravos; e 4 sua 
imitacao os moradores com todos os que itohao, 
que ajudados das companhias por giro d^rao prio- 
dpio e fim i obra cm tres mezes , tempo em 4]iie ^e 
lez, e ^e aperfeicoou com reparos, plata-fbrmaa , 
esplanadas, contra-escarpas, pontes, cavas, iria- 
cheiras, palicadas, e tudo o mats concernenie e 
proporcionado com a majestade da praca; e tao 
bem acabada que a olhava a arte com admira^ao, 
c o odiocom reeeio. Oito pecas de broiac^ queo 
immigo nos deixou no porio do Galvo, se posArao 
nella ; com as <}uaes se deo a primeira salva em 
dia da €ircamcizao do anno de 1646, festtijando^o 
mystetio que Ihe deo o nome de fortaleza de Bom 
if esus ; a euia sombra os moradores edifio^rlo oima 



Z&2 GASTBIOTO iU$lTANO. 

povoacaOy para a qual coDCorrerao de muitas partes 
officiaes mecanioos de todas as artes de que neces- 
sitava o servi^o publico ; e forinarao em pequeno 
campo um vistoso lugar, ao qual d^rao nome de 
Arraial novo, a differenca do antigo. 

XXII. Via Joao Fernandes Vieira ociosas as 
armas de seus soldados, e desajava achar em que 
as empregar; diseorria comsigo mesmo sobre 
qual das fortificacoes inimigas poderia cair com 
melhor succeso o assalto de nossas armas ; medio 
sua memoria a cada uma das fortalezas do Arrecife 
como versada em todas ; cotejou-lhe os sitios, a ar- 
tilharia e os presidios, e assentou comsigo que a 
fortaleza chamada das Ginco Ponfas, situada na 
praia do mar sobre a barreta , um tiro de mosquete 
da cidade Mauricea, era a que com menos risco se 
podia ganhar, se pelo escuro d'uma noite se in- 
vestisse a escala. Com esta supposicao mandou fazer 
OS apprestos necessarios com tal segredo, que nia- 
guem desconGou para que.Gm erao. Posta a gente, 
que Ihe pareceo necessaria , junto ao rio Capebe- 
ribe, chamou aos mestres de campo » e Ibes com- 
municou &eu designio , para o qual nao pedia con-* 
selho, senao para o modo com que se havia de 
obrar, desculpando o recato com o receio de que 
se adiantasse algum aviso traidor a prevenir o ini- 
migo. — Era Theodozio Estrater o mais moderno, e 
fabou primeiro ; com razoes mui solidas e cortezes 
reprovou o projecto do governador, dizendo que elle 
melhor que ninguem conhecia o esfado da forta- 
leza, as tropas que a guarneciao, e o animo com que 
estavao para a defenderem ; ponderou que nao era 



GASTRIOrO tUSITAIVO. ^53 

imposdivel U^ar-se , mas que haviamos de perder 
trezentos ou quatrocentos homens, e entre elles 
talvez alguns cabos, cuja falta seria. irreparavel ; 
que depois d'ella tomada nao teriamos municoes 
nem mantimentos para a conservar^ nem exercito 
ou esquadra para a proteger^ e concluio, dizendo : 
a Ad virto a vossas senhorias que o Flamengo a 
» esta hora nao possue em toda esta costa mais 
» queaspracas do Arrecife, cidade Mauricea, rio 
» de Sao Francisco, Paraiba e Rio Grande, e que 
» todo o bastimento d'ellas sai da ilha d'ltamaraca 
» de que estao senhores ; nenhum golpe Ihe cor- 
>i tara mais depressa a yida que o que mais Ihe en- 
» trar pela garganta , e assim sou de parecer que^ 
• sem largarmos as armas, aproveitemos o movi- 
)} mento, e trocando-lhe os fins , demos sobre a 
» ilha d'ltamaraca, que sem duvida acharemos tao 
» falta de resistencia como alheia de nossa reso- 
» lucao. )) 

XXIII. 0. parecer de Estrater foi approTado por 
todos OS cabos ; e logo se comecou a por em pratica. 
Depois d'entregar a Henrique Dias a defensa do 
sitio y e dispostas todas as cousas como convinha , 
marchou o govemador com os mestres de campo 
Andr^ Vidal, Theodosio Estrater, e Dom Antonio 
Gamarao em direccao & ilha de Itamaraca. — Em 
4 4 de Settembro chegou a nossa gente a villa d'l- 
guaractt, onde nossos governadores mandarao ape- 
nar todos os barcos, lanchas / canoas e jangadas , 
para que a certa hora estivessem prestes na barra 
do rio Gatuama ; e sem detenea marchdrao por terra 
a buscar a ilha pela banda que olha para o norte. 

I. 23 



i 



sfifr Quimmo v}m^Q. 

EMftvfi por aqudta parte d^feAdi4ft a pifMigftw 4p 
rioy que divide a illui da terra firxn^i cam uma Mp 
flamenga bem ardlbada, e melhor goarafK^ida 4^ 
HoUaiidezos ? lodio^ { e leoi a Mo ^ Kud^r im 
se podia a pasiag^m fra^qucar. Para ^«1« eSeiip 
maodai^ao apreatar' um barco grands e wa bat^l 
com e^m homeoa de guarni^ao as ordei^is do capttao 
SiiDao Mendes, com preceito de veneer ou morrer 
na d^maiida. De boga arraocada iave^tirao e abal- 
roarao a nio^ na qual acharao tao dura reaiatancia, 
qua rebatido^ d'ella voliarap atraz, nho para deixa*- 
rem a empresa . aenao para reforcarem o impeto. 
Ii9ivQ»Urao^qa ^unda vez com dobrado animo , e 
reaoly^o tao fir me que a eutr^rao e renderao a 
^uata de muito aangu^ hollaude^ e algum nosso. 
Deixou a entrepr^^a da n^o a pas^gem franca da 
terra para a ilbai a qual pa^arao os nasao$ , nos 
vagos que estavao prevenidp^, com trabalbo nao s(S 
por causa do numero de gente senao pela largura 

do rioi qui^ era de qua#i meia legoa, p a^r ^inda ne- 
oeaaario eaperar a conjuui^ao da mar^, 

XXIV- Fassada tpda a gente a outra parte, e foiv 
jDada pa ilba aem rumor nem tiro , aconteceo dar 
na» mao9 de nos$as aentin^Uas uma Flamenga, que 
vinba fugida, a qual ae ofiereceo aos noasoi gover- 
^^dor£s para guiar os noasos aoldados. Confiado na 
^ia mandou q governador da liberdade picar a 
marcba» dando a vanguarda a Theodozio E)straler, 
p qiial £91 3eguindo a Hollandeza ; ia a pox elle o 
§arganto malor Antonio Dias Cardozo com um ba-* 
lalhao de moradore^ ; e na relaguarda Joao Ferw 
nandes Yieira, e o mestre de campo Andre Vidal 



oam o pcstmfte fb ^pente. Havians^ d^klraVeanr a 
iiha por tres l^^oaft de distaQcia de norte a aul pan 
ae busoar a Tilia^ onde o ininiigo tinha a soa fortes 
leza 6 o sea alojamento* R^soivdraoHse que madiasa 
a marcha pelas horas da tioite ^ e pda distancta da 
tarra^ de sortd que soltfe a madrugada se chogAsas 
a aTistar a {xnroacao. A Flamoiga que guiava o Ea« 
trater, on por ignoi^anoia ou par malicia, o levOtt 
por caminho assim toreido e desviackn, que era 
manha ckra , e nao vi^ a que parte ficava o lugar^ 
O sargento maior, mais pratico no terreno e menos 
confiddo na^ promessas di egtrangeira > desfioibM 
do erro, com deixar de i^uit o desvio ^ e ao tam^ 
per da manha se achou junio 68 trincheiras do 
eontrario, eem ter vista ou noticia nem de sua van^ 
guarda nem do esquadrao da retaguarda em que 
yinhao Andr^ Vidal e o gbvemador | fez conta da 
gente com que se achava^ e disp61-a em forma pro^* 
longada para cingir a praea por aquella parte. 6uo< 
cedeo naquella hora salrem da villa algumas Itidiaa, 
umaB a mateiscar, outras a fauscar agoa^ e darem 
de rosto com a oossa g^te ; voltdrio todas de car>« 
reira para dentro da fortifkac&o dando grandea 
gritos, Os nossoB que ae virao descuberto$ seguif ao 
as Indias , augmentando a voz do rebate com d ea^' 
trondo da invasao , que lervio de oortar o somtio , e 
introdueir o sobresalto noa vhinhos e aoldados do 
preaidio* **- Aquelle meamo tumulto que chamou o 
initntgo pai% a defenaa chamou tambem para o 
avanco o governador e ao mdatre de campo que 
com o esquadrao da retaguarda chegavao pela outra 
parte as trincheiras da povoacao , e presumindo 9 



S56 GASTRIOTO LUftlTANO. 

causa do rrferido alvoroco tocarao a inTestir^ e sem 
resistencia a ganharao, com os almazens das muni- 
coes e mantimentos do inimigo y que por acudir a 
parte, onde o chamava o brado, desemparou o lugar 
onde com mais damno o feria o golpe. sargento 
maior, que com os seus soldados fora em segui- 
mento das Indias pelas portas das trincheiras, que 
est^vao abertas, os repartio em mangas com ordem 
que passassem a espada a todos os Indios que se 
alojassem por aquella parte , o que se obrou com o 
estrago que permittio o repente e o indefeso* — 
Chamados do estrondo das armas y e da voz do es- 
panto vierao acudindo estrang^iros e naturaes a 
tomar as bocas das ruas, porque o destroco nao pe- 
netrasse o interior da villa. Com a opposicao se 
augmentou o furor ; e se augment^rao os golpes 
eom a chegada de Theodozio Estrater, a quern a 
desconfianca da detenca obrigava a mostrar, que 
nao tivera parte nella nem o descuido nem a ma- 
Ucia. Garregado o inimigo do temor e dos golpes 
se foi retirando para a sombra da fortaleza , bus- 
cando o amparo de sua artilharia , com a qual nos 
fez consideravel damno , porque os nossos embe- 
bidos no gosto da victoria desprezavao o perigo das 
balas. 

XXY • Ganhada a primeira fortificacao^ se man- 
dou fortalecer o interior d'ella, porque o inimigo 
perdesse a esperan9a de a recuperar ; o que o sar- 
gento maior executou com toda a presteza e arte^ 
de sorte que, fazendo o Hollandez- algumas inves^ 
tidas para a cobrar, foi sempre rebatido, e casti- 
gado tao rigorosamente j que aconselhado da perda 



GASTRIOTO LUSHLTAJNO. ^1 

desistio da porfia. Nao desistirao os nossos de coch 
tinuar a empresa, proseguindo no ataque da forta- 
leza , que estava cingida de repetidas estacadas , e 
dilatado fosso. Durou o combate desd'a primeira 
hora da manha at4 ks cinco da tarde. Com incan- 
savel braco romperao os nossos por todas as oppo* 
sicoes da resistencia ate porem as maos na porta da 
.fortaleza , a tempo que muitos d'elles, metidos nas 
casas, procurarao subir e ganhar os baluartes ; o 
que vendo o inimigo , e ignorando o damno que 
sua artilharia nos havia feito^ fez signaes de I'endido 
pedindo bom quartel. Festejarao os nossos a cba- 
mada com o pregao da victoria, e como se a desorv 
dem nao chamdra pela ruina , se derao a roubar^ 
perdendo com o desmancho aquelle valor que Ihes 
dava a fdrma. Forao os soldados da Babia os pri-** 
meiros que a desobediencia leyou ao saoco ; e a 
maior parte dos outros, que persuadio o exemplo^ 
ate as proprias armas largarao para se applicarem 
com todas as maos aoroubo, dando occasiao a que 
obiltesea cobi9a o que nao pud^ra a maior desgra^a^ 
Os Ittdios, desenganados de que a neohum se havia 
de dar quartel^ e desejando morrer vingados, ani* 
mirao com a desordon dos nossos a froxidao do$ 
Flijimengad a nao perderem a occasiao que Ihes dava 
p tempo para melhorarem de fortuna. Sairao da 
tropel f derao sobre os desgarrados com tal furor e 
animo que foi necessario aos officiaes portuguezes 
todo o corai^ao e todo o braco para Ihe sustentarem 
o impeto; e seria irreparavel o damno, se o gover- 
nador Joao Fernandes Yieira nao tivesse ordenado 
ao svgQiUp nmox qiie oom algumas coD^fNiabias 



pela p^Me esrterna para rebftter qoaiq^r socecnrh) 
que pod^se vir ao inimigo, us q«de& serrirac^ de 
remedio para na^ ftigirctai os nossod. --- AqueUil 
meetna oppo^eao que deteve a ftigida dos Pcnrtu^ 
giieiBes, eorfou o fio 4 victoria doa Pla&iengos; 
ponque julgando ardil o que era neces^dade , e te<- 
mendo qo^ os nos90$ commelf^sseiD a^gunda Tez A 
eseaia, se reiirou 4 forfaleza. Ckioheedrao oa nossoa 
got^niadores pelo effeito a cauaa , e c(mfipmftrao o 
immigo na suspeita com tanto arCificio^ que o 9»^- 
gi»ito mator^ seguindo as ordefBS t^ebi^fei, a^ M 
ret imnda na vetaguarda d^ axerejdk> <aiQ pasao tao 
vagafoia^ qtte foasta crer a^ mimigo naoae deixara 
evffptemy 00 MO mudap^se a ^ma a investida. Para 
m^<>r a»sc^uMr a i^irada, mand^u^g^n^fnador 
duas ^Mttpanhiaa que toma&sem a pasisageaa do rio^ 
^ livesaem preaies to4oa oa bareoa para qat naquelia 
iioif a S6 poeasee toda a gente da outra parte , o que 
9e e^iecu<to«i sem neidium im^onteni^iif^i Depma 
d'a^muas hora^ de deacatieo e refei^ad oiaKMrat) 
06 no^do^ pai^a Igttaraeu , kvando conidigo oadea-^ 
p^jos qi>r^.(ir^ ae^ da vitta « seai ^oiitdrnoa, ^>^ fe^ 
rrdos , ^ue eie^ actienta ^ i^tne ^ niaarfimetitc^ e 
artiMia^^ia q^ lir^Plo da iia^ qoe ¥etiK)($vfto («i>lio 
if&am) peca^)^ ddxaudDt o oaseo^ <doii3ti<aa£nido d^ 
f oga< £m Igiiafrac6 fkwao alto, e veseuha da gente^ 
e 'pelata^ lidta$ irkao que tia bataltia fidiirao setteuta 
tivor<lee, pt^^td^ trhiti # quatro ei^raugeitM do t^rei 
de-Edtrat^^, ouja inadeneao ectietume de^roobar nos 
tir(m a ticliaria daa maoa, com a desord^m ^ « com 
O'mmiplo^ Pejrdop o i»im^ mMi ocwMia^ per 



^Asumvo wsrtiOKk 350 

mm^ de dnmitos soldados mtte Hollandezes e 
Indioi^ mtid6 muito maior o nmnero.de feridos. 

XXVL Posto qm A >^ctork fiesta oecasiao ncs 
vira^i^e as co6ta», nem po^ is^ mev^oem ni6iios 
^6g;k> oa 6abo» a ^oldadoa que entririo nesui cm*- 
prefi^a , 6d qaaes 6om o despfeso do perigo acredi^ 
tSmo o stibido d6 valor. Ao goT^mador Joao F«* 
natid^ Vieira buscdu o peito uma bait, que aein o 
offender eak> a mm p^ ; outra Ihe tevou uaia xui- 
deixa dig cabelk«, ^em Ihe offender o roato^ Am 
mt^tt^de eampo Atidi>d Tidal deo urn pelonronos 
feeh^ da piaiota; eomo i^ fomo aobejaa as anma 
tmde erao tattca^a» fon^a^^ f icou fisf ido o g^er«^ 
nador dd^Indtoi ; aamaUandDHie «om aeu sangoe 
o fiDO otito de 9e# tatoTi. Doas batas Stfimo otsh- 
phM^ Aasetiso daSika; tefiMsroso dn^ iiRioo o bua^ 
<»va de ^omrpanbta o perig^o. O eargaito maior Caiv 
ddz4» M n^fetie duo^e^so o alvoda iorcja e do espatila 
d'tutii^eoatii^ getite : por ^qlre ebitveinos 4b bataa 
aiadoia todof o tampo da> batalha no mais m^isonia 
d*«Ha^ oMi laffianho oorecao e presteza^ que tie- 
tibMQra ^ p^ fkrir> porque nei^iima o pode asse-^ 
gutut Mm pontnta certa. Oa oiaia oabos e offidaeg 
obm a gMfralidade das proexn impedirao asf f»r^ 
ticniatidadea da laml^rsoca* 

XXTII. bettrre^e a noasa gevte em Iguaracia 
aquelie t»»i|K> que foi necesRam para forlificar e 
guaraeesr a povoai^o e os eaioiidios que podiao 
i^etPiv 49 «omrias do inioiigo^ qu^uda intaitasse 
aaSr da i&a a infestar a tern Grme. Poatas as coli- 
SBB na mdhoF fwina quer Coi possifi^, poaMe o 
]IMS» esDHTcifea on, maroba, e cjiegeuao abjaaieDlo 



360 CAftTRiOTO UJ&lTiUia 

da Varzea^ onde a presenca dos goveraadores com- 
municou novo alento aos soldados que guarneciao 
as estancias , para sairem victoriosos dos rebates , 
assaltos e enoontros , em que cada bora se viao a 
bracos com o inimigo, que acurralado nas fortalezas 
do Arrecife padecia as condicoes de vencido^ e as 
descommodidades de cercado. Com favoraveis suc- 
cessos nos encaminbavao as armas ao fim desejado, 
mas para que os bomens se nao esvaecessem com 
as prosperidades y permittio o ceo que na cidade 
da Paraiba desse um mal contagioso que pelos ef- 
feitos pareceo ramo de peste : ateava-se sem reparo, 
crescia sem tempo > e matava sem remedio. Come- 
^ava em cerracao do peito^ e logo a deflui^ao se ma- 
uifestava em pontadas , e com dores de pleuriz ; a 
alguns matava de repente; a outros em pouc^s 
Jioras ; aos que menos apertava nao passavao de tres 
dias. Os medicos , que nao conbeciao a causa do 
mal, nao Ibe sabiao applicar remedio , assentando 
entre si o ser ar inficionado e corrupto; e com 
mais certeza , quando virao a pressa com que foi 
contaminando uma e outra vizinbani^a at^ ch«gar 
ao nosso.alojamento de Fernambuco. Morrerao em 
-todas as partes innumeraveis pessoas sem distinc^ao 
de Portuguezes, Flamengos, Indios e escravos ; e 
OS que nao morrerao viviao em grande afflicgao e 
tristeza y parecendo a todos que era chegado o ul- ' 
timo fim dos mortaes. Teve este mal prindpio em 
OS ultimos de Settembro, e durou at^ os primeiros 
-de Dezembro ; foi perdendo a forca com a dura^o 
e com a experiencia dos remedios sendo um efficaz 
a mais copiosa sangria, com o qual owitos se aal-- 



GASTBiOTO LjUSITANa S$i 

vdrao. Muito senttrao os nossos govemadores o 
golpe, que este mal deo no exercito, que levou a 
muitas^ cuja falta a saude sentio , conao de compa* 
nheiros^ e a occasiao como de soldados. 

XXVIII. Por este tei^po iizerao os moradores um 
manifesto ou instrumeato juridico por todos assi^ 
gnado para enviarem k majestade de seu Rei , des- 
culpando»se de faltarem a obediencia, que deyjao a 
seus reae^ decretos^ com as. tyrannias com que ps 
Hollandezes os obrigdrao a tomar as armaa» e com 
as razoes que tiverao para acclamarem a Joao Fer- 
iiaudes Yieira por ^f u govemador ; o m^to que 
Ihe devia a liberdade do Estado ^ e a reputa9ao do 
reiao ; o valor, a fidelidade y a prudencia e a inr 
dustria com que sublevados os povos d'aquellas 
capitanias da tyranna sujeicaq , em que as tinha 
posto o Hollaudez ; a fazenda que tinha despendido 
no sustento dos exercitos ; os riseos a que expos^ra 
a vida nas batalhas y devendo-se k sua constancia e a 
sua fazenda as victorias, por meia das quaes se 
viao aqueUes povos^ no estado presente, com liber- 
dade para o exercicio da religiao y \ e para as utiiir 
dades da coroa ; e fechavao o discurso , manifea- 
tando a costfiaui^a em qjue viviao de . que sua real 
.clemencia e magnanimidade os iiao li^via de d^ 
emparar,. quando dis sua grandeza esperavao, os 
soccorros neeessarios para levarem ao fim uma em- 
presa de tanto servico para Deos, como gloria para 
a na9ao y em que mais os empenha va o zelo da fi^ 
que a conseryacao das fazendas. que todos jurario 
jse^ assin^ \ e \f^^w^fi Deos pas testemunha de que 
mi t44o di^iao y^d^i^ f e o ijrnAarap tde sii^sjet- 



iras ^ si'gASitt. Fe2-se este pkpel, e se assignoti aos 
T de Outtibro d6 1645 (o governador e os treg 
mestrefe de camjk) nao assignarao ) ; e depois de l^- 
conhecidas as firmas per tim tabeli^o publtco^ se 
femcttco ao g(>Vertiudor g^ral do Esta<fo Antonio 
Tfelles da Silva , para que o enviass^ a Portngal , 
Se Ihe parecesse. Se a curiosidade do leitor desejw 
rtt OS ncmis de todos os qtte aftsigniriio, e a mate- 
ria do manifesto tnais jjor extenso, ttido acharS nd 
aM6r db Talortso Lm;ideno , folhas 247, que ti6$ 
deixitnos,' por carta de nomes. 

XXIX. Temos fellatl6 de tddas as eapitafrfas de 

Verrtamb'uco onde se appelHddu a liberdade, restsi-^ 

Yids pbr^ ainda a dar noticia do quel Mcbedeo no 

*io Grande, etai cnja rela^So tera mais parte o sen- 

tiineiit^) qtie 6 jubite, Settenta legoas doArrecife 

para o iiofte desagtia n\o mar o Rio Grande, flcandc^ 

1h^ a cidadt' da PftraSba qtiarenta e cftico Ieg(>ai 

|)ara ostil. tsabedld da correateBied^o b nome ; 

e (rt6m<>u de sua vizinhswica uma povoa^6 de Po^- 

tu^ijette* tpieSHi ediftedrt a cottVenienciai dabarrii 

*■ k f erfilidade da term . INtsHa fabt4e6ii o Hdlandei 

Tima fortalexA quando ^ fet senbor de tdda a ca^ 

•JiftfeitfA'; tittto toais custcai quanto mais longedos 

"*e(ctokr*s j^ela dSstto*4ado^^AiTCfeHfe; raisao qn6 6 

'ftzfe abfeolnto*^ ihsol^tfe no trato e ndimp€^ a6 

gotertiador d'fella , por appelUdo Gosmfto ^ ao qnal 

'is\ia& tyraismiaS fi^erao bem oonheddo, porqtie sabia 

que em igual di^tanctar fieava aod miserayeB sub*- 

rfitos a Bahia para o remedio , e o Arredfe para a 

queixa. A todas as maiiS parfdil^do im^rii^hoHani'^ 

dez dhegoti A" MtMk ^i td^d^io, m gnkMb*^ 



r^m ao Rid 6rdi^ por nefthtimai \ia ekegott^ ^ht^ 
porqut impedida da dktetncia^ qtitiOlD ^rq[ti6 do^si 
tadar da cautela. Neo dclltt^itSa AcjtfeHei rtl^^af- 
doreg c^oiitra oMortviMilt^ft tiem(i6^i liMpna^oi 
p€^€(tte a igtior^ncia: 6» e^ddstva ddltiiliciar; mtnA 
qwe iD^porta^ s^ p*ra o tyraitna «aflt6 val a culpd 
comcy a innocencia ! Vivifto aqaellesr moWKterw 90^ 
cegUfdo^ i & tMsinnie da si*f^ic8o os tiAlib esquc^ 
cido^ da libettbde ^ e C€»^o nao co^heeSt^ao dHfe4 
renoa na tdrnt^ ^ j4 nSo «strafthi>vSo a- di ©pptirttido^ : 
-«^Sue(5ede6 em 16 d«i Ju^ttm o^tr»g|(4 golpc; de 

cwft e«^n«) 'd' 'craeldrtde = do >feiT^^s*o ; ' e • todo^ 'o^ 
fliottldwe* fwao emradc^* d^'^^'«'d*dp8tfk*;H^ 
to^TiiieH»e od^ li^toid^»*9 pt» 0^ ^ft>m«f^/ dii(end§ 
que €4a0 ito<»eki9 rd!^tfodo6/e qm6s^ ^tihore^ dd 
^ve^no felzwk) di%eft(sa^ ttatrt es f^ienderena e «iM 
fopcaretti todd» ;• mas - f)« h^ifrwee^ fiac^ ' ddf»So ' ^>#^ 
iddws^ ft 09lte vGB^B^j' peta'tex|k!rfetK^'qi:f^ 
(fes pr6«ies«ft^ ^latwehgists y i^ seii i*«*cek> sttfeio' de 
pKWfki quaftd^ lie 6sf)^Ihoii A'' tO« de:<jrf© 6^;me9ni^ 
Hrflalidiez^^ eTfepttyas cfne tirtfcad aftSoladaCJtiiifetfil 
tiftMo lilaffch&tido p»af o fco Ol<i#(*fr, e tifriW&fJ 
es<52llado ilma casa lorte do engaitfe de Jdao^L^ftStf} 
oftd^ souberao qne? eSFiaTa6 ti&eoihitft^ aflg&ns^ Pe/f^ 
tugtieies , aos^ ^jnaeS' rirdl afrfto <^.oitt; baf b«l^^ rttiwl^ 
dhde. Virao qaeos inefsmo^ ^ftte'-fteewsJiVid'iojljrfmi 
cooperai>&o no deiicfo, e cortfeeeeridd 'elistratttertt* 
a ficeao , ti\^riio por sem duvitite d per J^ , > paftt 
a eottftssao dto»emgafttd |fedipSo ao^ ^oilttiwfWbi^ ffl** 



I6A GASTBIOXO UaiTAllQ. 

levantados. Descttradamente sairaO escusos* Gon- 
wltarao entre si o remedio, e resoLy^rao fortLficar- 
sedo modo possivel. Determinarao sitioi e nelle 
fizerao um cerco de paos a pique capaz de os re*, 
colher com familias e escravos (erao os Portu- 
guezes settenta); prov6rao-se de mantimentos , 
principalmente de fariaha e agoa. As armas nao 
passavao de dezesette espingard^s, algumas espadas, 
poucos chuQOs y e copia grande de p4os tostados ; 
polvora, murrao e pelouro, em tao pequena quan- 
tidade que servia mais a opiniao que a defensa. 

XXX. Aquelle HoUandez chamado Jacobo, que 
com OS Tapuyas de sua fac9ao regou de ioaocente 
sangue a povoa^ao de Cunhaii , como jk dissemos , 
agora desceo novamente do certao» onde se tinha 
embosca4o, com muito maior copia d' Alarves para 
raecutar nos vizinhos da terra o que nao pod^ra 
conseguir no destricto da Paraiba , assistindo-lhe 
uma partida de HoUandezes , mandados para este 
fim pelo govemador da fortaleza« A' sua chegada 
se adiantdrao os moradores, fortificando-se no so- 
bredito posto, que se chamava do Potogi^ na forma 
referida. Jacobo com os Hollandezes de sua con- 
serva aproxiinou-se dos nossos em som d'amizade 
mas com o fim de sondai^lbes o animo e ver o es- 
tado de :sua fbrtifica^ao e i^us recursos em armas 
e municoes ; approvou a sua resolucao, assegiirou* 
Ihes que dos HoUandezes levantados nao tivess^n 
receio ; e §m fim que elle ia para a fortaleza e delle 
OS proveria de municoes e armas para $e defende- 
rem ; e despedindo*se , marcbou para a fortaleza , 
que deitava seis legq^s pelo corrent^.do rio, Dos 



GASTBIOTO LUSITANO. 365 

nossos houve alguns que derao credito a esta pro- 
messa; a maior parte porem teve-a por fementida, 
e todos se desenganarao quando virao o mesmo Ja- 
cobo capitaneando um grosso de HoUandezes, Ta* 
puyaSy Pytiguaras^ que investindo a palissada com 
bellico furor, fez todo o possivel pola romper. Ima- 
ginouque o repente e o poder a levasse sem resis- 
tencia ; porim achou nos cercados tao prompta e 
valerosa defensa, que se re(irou destrocado e ven- 
cido. Aconselhou-se o inimigo com a obsiinacao e 
com a perda ; pedio a forca soccorros , a arte in- 
dustria, e fabricou sobre carros alguns castellos 
de madeira, dos quaes haviao de atirar, com seguro 
e pontaria certa, os mosqueteiros com que os guar- 
neceo ; a cuja sombra podessem bs machados rom- 
per as estacadas. Mao tirou a inimigo d'este militar 
artificio outra cousa mais que a dor com que vio 
tudo deslruido ( mortos e feridos muitos dos sens ) 
e o applauso, com que os cercados celebrdrao a 
victoria; a qual fez mais alegre o nao ficar algum 
nem ainda com a mais leve ferida. — Ao outro dia 
appareceo o aleivoso Jacobo sobre os sitiados com 
todos OS sens (vestidos os intentos da guerra com 
festivas demonstracoes de paz), e como se com 
aquelle soccorro Ihes vi^ra a dar os parabens da 
victoria, se foi chegando a estacada com pensa- 
mento de se introduzir dentro della, confiado nas 
apparencias de amigo. Os Portuguezes , que nao 
temiao a forca , Ihe castigarao a manha : com armas 
de fogo e de arremeco o fizerao deter, e afTastar da 
circum^alacao ; porque como a tal amigo o queriao 
de longe. — Nao desistio o Hollandez do artificio , 



999 Qm9m9 ummh 

ao6 cQrcadoa ^ que se a^mirava d^ como ^s tinh^ 
cegos medO| poi$ o nap conheciao por aiu^iliar ^ 
amigo; que elle por comprir 3ua palavra (ouvindQ 
dialer na fortaleza que e^tavao i bataria com o^ 
Alarves ) pedira ao commei^dor aquelle esquadrao 
para os vir ^occorrer com toda a pressa, e o deixava 
suspense a jiovidade de experimeutar inimigos ao$ 
mesmos que o deviao receber gratos^ e 3e o receio 
OS tinha cegos^ que abriaseru 03 olhoB da confiaa^^ 
e recebessem o .soccorro antes que seus soldados 
presumissem do engauQ que era rebdliao ; porquQ 
nestes terinos oa mandaria avan^aj^j 9 publicaria o 
damnoy a uus sem qulpa , e a outros sem queixa. 0^ 
cercados, que entenderao a ficqao e o lot en to, Ibo 
r^sponderao ; Que nenhuma masrcara podia cobrir 
nepa escoi^der traicao tap desc^rada ^ que elle era 
mesmo que uos dias possados os quizera enganar 
coiA fingidq^ promess^sj e que nos seguintes o& 
pretendex^a dgstrvjir. (Jom repetidos cprpbatesj q 
assiin mesiao o que cooduzia os Tapuyas para ^ 
empresa^ e qi}e g>e desepganasse que nao h^via da 
rppreseutar no Rio Qraode a <?ruel tragqdia que re-^ 
presentara eo) Cuuba.ii , porque advertidos e jjia-* 
goados estavao resolutos em nao largarem as armas 
sem primeiro perderem as Yida§, que queria tirar u^ 
todos parji lh«s roubar as faz;endas. 

XXXI. Aqabou de entender o inimigo que nada 
havia de conseguir a cautela/e remetteo o peito a 
batalha 1 investiq a estacada com repetidos e por* 
fiados combate?, em quanto Ihe nao cbegava a ar- 
tilharia que tinhs^ ms^ndadp. vir da forlaleza. Che-* 



cj uj in m/ ui. JLHAIBAIIQ. M? 

1^ QPta, e preparack fwra i^gHF d'tkstrair o6 
mifi^raveia o^cadosi ihe» fee uipa embftixada, 
disLeudo , que a vista o$ d^f^nganava da eertcsa de 
aua ruina; que 6e eatregafrseixiy aob-f^ena de que a 
tQdo3 Q3 ifue toi^a^e com vida^ (y>m mulheree^ 
filbos e e^cravofi ^utregaria aoe selvagena para que 
W despedacassem e comessem vivoa ; e que ae des>p- 
Gonfiavao de que e|itregando<se Qs nao trataria comp 
a amigoa, oapitulasaem a f^rmaem que ae queriao 
entregar, e que em penbor de sua palavra Ihes 
daria os refens que ell^s pedi^aemt — (k Portu* 
guezes, que se viao sem meios para a defeasa , sem 
3ua(euto para a porEa^ e ^em e^rao^fl de soecorro 
appellirao da incerteza do ^medio para a contiu*^ 
genoia do perigo. £atregarao-se a partidoi debaixo 
de aeguroa passaporte8, porque dadoa em name .do 
prinqipe de Orange e doa £§tadQa de HoUanda, 
jurados e firmados de todpa 09 oilSeiaeada milicia 
cpm promeasa de os def<mderem e otmservarem 
no^ foroa em que aempi^eviyeraQ t e para que pare- 
<;esseiu maia firmea Ihea vepni^o o iuiifeugo asooudi^ 
(^s maia garas ; a peso de euro Ihea deo depm aa 
paaaaportesi e os obrigou a que desaem refens de 
f omprlrem iuteirameute capitulado^ pediodo^-lhes 
a £ateva.o Macbado de Mirauda , Frauciaco Mendes 
Pereira, Simao Gorreia, Jpao de Silveira^ e Vi^ 
ceute de Souza Pereira; aog quaea levou logo o 
inimigo para a sua fortaleza , como em penbor de 
seu dinheiro. Aos HoUandezea, que di^^ja deixap 
em refens , deixou por guardas e espias doa randi^ 
dos. Quazi tres mezea se alojarao aqufUes mora« 
dorea dentro da cerca r^f^rida a?m que a perfidia 



M8 CMttlOtO tUSlTMO. 

faoUandesH Ihes comprisse os artigod da capitulaeao. 
Chegoa entre tanto & fortaleza Joao Bolastrater, 
um dos tre» do conselho supremo , para fezer exe- 
cutar no Rio Grande, como ministro, o que no Ar- 
reeife deoretAra com juiz, isto i : que todos os 
Portuguezes de sette annos para cima se passassem 
a espada sem exeepcao de pessoa. Para dar comeco 
a esta inaudita crueldade mandou vir k sua pre- 
senca todos os principaes que se achavao ^oicerrados 
comorefenS) elhesdisse, que a campanha estava 
liyre dos Indios selvagens , ^ nella presidio para 
seguranca de todos os moradores ; que fossem tra- 
tar de suas fazendas, visto estar aquella praca falta 
de mantimentos ; e para que o executassem com 
mais animo, mandava uma companhia de soldados 
em sua guarda ; e que para commodidade de todos 
Ihe pareceo bem que fossem pelo rio ao outro dia 
( que se contavao 3 d'Outubro ) , e nelle achariao 
barcos prevenidos de todo necessario para a viagem. 
— • Mandarao entretanto os Hollandezes emboscar 
duzentos Indios Alarves nas matas yizinhas do 
porto chamado Hiomeracu j meia legoa distante 
do cerco onde assistiao os rendidos, os quaes erko 
commandados pelo sen maioral Paroupava , esti- 
mado do Flamengo no grao, em que estimava a 
Pero Poty. No dia e f6rma rdatada se embarcarao 
todos OS moradores, navegarao at^ b porto de Hio- 
maracti, onde os deitarao em terra, rodeados da 
companhia hollandeza , cujo capitao os mandou 
despir a todos, e que se pozessem de joelbos. Sem 
repugnancia obedecerao todos, postos os olhos no 
ceo , ao qual se ofFereciao -em sacrificio , certos de 



GASTaiOTO LUttTANO. 369 

ser chegfada a sua ultima bora. D^raio os barbaros 
HoUandezes signal aos selvagensemboscados ; sairao 
estes do8 mates com gcetos e gritos tao medonbos 
que causariao espanto ao iosensivel ^ quanto mais 
aos bumanos , destinados a serem apresad'aquellfis 
tigres. Mandou entao o hereje a urn predicante 
de suas diabolicas seitas que entrasse a pr^r»lhes 
promettendo certezas de gloria e esperaucas de vida 
aos que, eonvertidos a seus erros^ apostatassem da 
verdadeira religiao ; pordm os soldados de Cbristo, 
com novo espirito venc^rao a nova batalba, e com 
palavras e aocoes abominario a cegeira benetica « 
ccmfessando a gritos que morriao na pureza da (6 
catbolica^ que cr^ e ensina a santa igreja de Boma; 
e que de todo o coradio detestavao todos os arti<« 
culos que se desviavao de seus decretos , pela ob^ 
servancia dos quaes estavao prestos a dar mna e 
mil vidas, se as tiverao. --^ Yencido e de^prezado 
o hereje da religiosa c<mstaiicia, tomou por couta 
o iiesaggravo da seita, e a vinganfa das injuxias^ e 
oomeeou a atonnentarcom asmaos de todosaqudJes 
fieis servos de Deos com tai desbumanidade , que a 
cada um desejava prolongar a vida para prolougar 
o martyrio. De eancado desfalleeeo o bra^o da be^ 
retica crueza , por^m nao o valor da cathoUca pa^ 
cieiicia. Retirarap^se os HoUandezes, e entrarao de 
refresco os Alarves , e nao acbando naquelles c<u>» 
pos parte que de novo podessem atonnentar, ofi; 
ibrao cortando ei dividindp por todas as juutMf 
at^ que neste martyrio d^rao aa almstf a seu criadoTi 
envoltas nas confissoes da U e nas gaias da t$^ 
peran^. Horriv^is a sua vista deiiou a crudklaiie 

L 2& 



t"' 



370 GASTRIOTO LUSXTAKO. 

aquelles corpos, (anto que nem ainda iiahao fdrma 
dc troDCos : a muilos abrirao^ para Ihes tirarem as 
entranhasy depois de Ihes cortar^u as cabecas^ as 
pernas e os bracos ; as cabecas tirarao as partes 
que Ihes dao a forma, como olhos, lingua, narizes 
e orelhas ;aos bracos, as maos ; as maos, os dedos; 
e porque tivesse a crueldade de lodes parte no todo, 
nao ficou gentio que nao cortasse a sua parte. 

XXXII. Em quanto a iadomita ferocidade d'a- 
quelles barbaros se deleitava na vista do estrago , 
forao OS HoUandezes busear nova materia para novo 
sacrificio. Chegarao a cerca onde tinhao reclusos 
OS settenta Portuguezes , e seguindo seu aleiyoso 
trato, Ihes disserao da parte do governador da for- 
taleza que tinhao ordem da Companhia para se 
fazer uopia concordata necessaria para q hem com* 
mum y em a qual se haviao de assignar as partes ; 
para o que convinha que com toda a brevidade 
chegassem & fortaleza , e com elles HoUandezes. se 
fossem pmbarcar ao porto de Hiomaragu, oade 
tinhao barcos prestes para fazerem o caminho com 
menos molestia. Benx presentirao estes infelizes 
qual era a sorte que os esperava; mas comgrande 
resignacad e copiosas lagrimas se apart^rao de suafi 
mulheres e filhos, e se entregarao ^s maos de seus 
verdugos. Cheg&rao ao lugar que para a nav^gacao 
era porto, e para o.martyrio theatro ; servindo«lhes 
o espanto do que viao de Ihes pintar as circum- 
stancias do supplicio que esperavao. Em.vpz alta 
fizerao todos a protesta9ao da f^, com a mesma 
firmeza que a haviao feito as primei^asvictima^; e 
foi entao que se unirao herejes. e gentios a ferir, e 



GASTRIOTO LUSITAnO. S71 

cortar pelos fieis servos de Deos com tauta ira e 
deshumanidade, que se encontravao muitos ferros 
a abrir uma mesma ferida. Assanhados da conGs* 
sao da fe que ouviao, se apressavao a tirar as vidas 
e linguas que a pronunciavao, e abriao tantas mais 
bocas que a repetiao, quantos erao os golpes , pelos 
quaes o fiel sangue a gritava ; eoi que continu jrao 
ate que de todo os desamparou o sangue , e os 
deixou a vida. — A um mancebo casado, por 
nome Antonio Baracho, ao qual a natureza e a for- 
tuna enriquecerao de aposta j amarrarao a um 
tronco, e depois de cruelmente atormentado e es- 
camecido^ Ihe cortarao a lingua c a parte viriK 
trocando a infame deshumanidade a cada uma das 
partes o lugar que Ihes dera a natureza. Ja seu 
corpo, pela materia^ nao tinha parte sem ferida^ 
e ainda assim se armou a atrocidade contra a bar- 
monia da figura, denegrindo-lhe todo o corpo com 
ferros abrazados, e tirando-lhe o coracao pelas 
costas, desejosos sem duvida de verem o tamanho 
d'um cora9ao em que coube o sofFrimento de tantos 
martyrios. — Com Matheus Moreira usarao a 
mesma tyrannia; porque se deleitarao nas repe- 
ti96es da maior crueza , at^ que deo os ultimos 
alentos na pronuncia^ao destas palavras : a Bern- 
» dito e louvado seja o santissimo sacramento. » 
£ seria permissao divina; para que a um mesmo 
tempo visse o hereje , para sua confusao j este di-- 
vino mysterio no coracao que tirava e na boca por 
onde saia. Os tormentos e injurias com que tirarao 
a vida ao padre vigario d'aquella freguezia , Am- 
brosio Francisco Ferros , forao com tanto mais ex- 



S72 CASTBIOTO LtJSITlRO. 

cesso quanto maior era o odio que tinhao aos sa- 
cerdotes, e o desprezo com que olhavao para os 
ministros dos sacramentos^ que nega sua pertinaz 
cegueira. Ainda que a piedade quizera particula- 
ritar os tormentos que padeceo , o pejo uao deixa 
dizer as injurias com que a perfidia o atormentou. 
XXXIII. Ou de cancados ou de confundidos 
piedirao os Terdugos ao capitao hoUandez dfese a 
vida aoito mancebos , admirados da fortalezacom 
que triumphavSo de affrontas e martyrios ; conce- 
de© o capitao o que se Ihe pedia , portm com pro- 
testo de que a nenhum tempo tomariao armas con- 
tra Hollauda , senao contra Portugal. Ouvida a 
condicao d'aquelles invenciveis espiritos, respon- 
d^rao que Ihes rendiao as gracas da xiova occasiao 
em que os punhao para accrescentarem uma coroa 
a outra coroa , sendo para sua estimacao a maior 
dita o morrerem por servir a Deos, a sua patria e 
a *eu Rei. Vio-se a diligencia dcsprezada, a inter- 
cessao corrida ; e iestimulado o furor inventou novas 
martyrios, com que, aos o!hos uns dos outros, foi 
despeda^ando os corpos que animara a invenciTel 
coDStancia, at^ os deixarem sem fignra e sem vida. 
A urn dos oito mancebos , chamado Joao Martins , 
acuja vista martyrizarao os sette, persuadiao que 
tonservasse a vida a troco da promessa de assentar 
praca emservieo da HoUanda. Com alegre e desen- 
ganado tseinblante respondeo que se nao rendia a 
fidelidade d'um Portuguez catholico romano a tao 
vi\ partido , qtiando victorioso de suas instancias 
esperaTfli eternizar, com sua morte , a gloria de sen 
nome, confiado na misericordia divina, que levaria 



« GA3XII0T0 I.U8ITAN0. W 

sua alma ao logro da vida etema. Aqui se acoendeo 
mais a ira , porque aqui se vio mais ofFendida a 
industrial Martyrizava o odio^ a colera e a vin- 
gan^a ; e nao ficou tormento que uao exeoutasse a 
tyrannia , passando al^m da morte a crueldade f 
com que Ihe fizerao em miudas partes o corpo, 

XXXiy. Depois do referidoi andarao aquellea 
deshumanos verdugos fazendo riso do estrago, qup 
as mesmas feras causara horror. A uma mulher 
casada, que leyada do amor conjugal acompanhara 
seu marido , e o chorava despedacado , cortarao os 
pis e as maos , porque se nao podesse apartar da 
causa de sua magoa, e entre os corpos desanimados 
bebesse a morte no sangue das feridas e no horror 
da companhia ; martyrio em que durou tres chas f 
dti dar a alma a Deos. A uma menina de dous 
annos tirarao dos bra9os da mai » e com apostado 
tiro a estrelarao no tronco de uma arvore. A outra 
crian9a partirao em duas partes d'alto a baixo com 
o golpc d'um alfange. A uma donzella de geatU 
forma venderao a um Indio por um cao de ca9a. 
Nao achando j^ o bra90 oousa em que ferir largi- 
rao aos Indies os despojos, que erao as ultimas cor- 
tinas da honestidade, e com estarem hem cortado$ 
dos golpes I deixarao muito mais cortados a todoa 
OS presentes, quando ao tiral-as virao rodeados de 
asperos cilicios e de duras cadeias aquellcs ditosos 
corpos ; dispondo-os a virtude da penitencia para 
a paciencia do martyrio que tao heroicamente sof- 
fr^rao. Coroado o execrando acto com este glorioso 
fim^ caminhirao os Hollandezes e Tapuyas com 
espantoso tumulto para o lugar onde estavao as 



374 CASTBIOTO LUSITANO. 

mulhereSy fiihas e parentas dos mortos (recolhidas 
dentro da estacada, luctando comas incertezas da 
esperanca e com a vehemencia da suspeita ) viva- 
mente afllictas com o receio de sua perda e de seu 
desamparo. Yirao o esquadrao inimigo , e de sua 
desordem inferirao o que logo experimenUrao , 
porque de Ihes intimaremy na morte dos seus , a 
falta da defensa^ as invadirao juntaraente brutos e 
crueis ; porque com accao indislincta satisfiz^rao a 
colera e a torpeza, dando a beber a lodas de um so 
trago a dor e a injuria ^ sem que a forca reparasse 
na resistencia, nem a brutalidade no estado ; ser- 
vindo-se das queixas e das lagrimas como de in- 
sentivos para a violencia. Nunca a demazia andou 
tao desenfreada , porque nunca se vio mais livre o 
desaforo com que a lascivia rompeo pelas leis do 
pejo e da lastima. Roubada d'esta maneira a honra 
e a estimacao do fragil sexo, Ihe nao deixdrao que 
sentir na perda da fazenda, que Ihes levarao com 
tanta vileza, que nem com que podessem cobriras 
partes que a mesma natureza csconde, Ihes deixd- 
rao. Com lagrimas inuteis choravao o desam- 
paro e a deshonra ; e corridas de si mesmas in- 
vejavao o estado dos mortos. Pedirao licenca para 
Ihes darem sepultura ; o que nao pod^rao alcancar 
senao depois de passados quinze dias ; para que a 
corrupcao nao desse lugar a piedade , e as feras o 
tivessem de Ihes darem em suas entranhas horrivel 
sepulcro. Mas o ceo, que dos estorvos faz auxilios, 
e dos desvios estradas^ mostrou nesta occasiao que 
para favorecer a verdade e publicar a victoria de 
seus servos pcrmittio os meios que para a esconder 



CASTRIOTO LUSITANO. 375 

e destruir buscavao seus inimigos ; pois os corpos, 
ainda que divididos, se achdrao intactos, nao se 
atrevendo atocal-os nem a corrupcao nem os bichos, 
e exhalando suave fragancia. Mariaviiha foi esta que 
nos catholicos causou grande compuncao ^ e nos 
herejes grande assombro, nao se atrevendo a negal-a 
por ser observada por tanta gente. 

XXXV. Ja dissemos neste livro como tendo os 
governadores noticia do aperto em que estavao os 
moradores do Rio Grande (no mesmo tempo em 
que despedirao um soccorro para a Paraiba ) en*- 
commenddrao aos cabos d'elle, prineipalmente aos 
capifaes Joao Barboza Pinto, e dom Diogo Pinheiro 
Camarao , como mais praticos naquelle terreno , 
que da Paraiba passassem ao Rio Grande , para 
eximirem os moradores da affliccao e risco em que 
estavao ; e unidos com elles fizessem ao inimigo 
toda a hostilidade possivel, conduzindo osgados 
de foda a campanha pai*a sustento do exercito de 
Pernambuco. Com gente da Paraiba engrossifao 6 
soccorro , e com elle partirao depois dos 1 5 d'Ou- 
tubro , e pela diiBculdade da marcha chegdrao a 
campanha do Rio Grande em os primeiros dias de 
Novembro, um mez depois do estrago que deixamos 
referido ; e supposto que nos adiantamos no tempo 
por nao quebrar a ponta d'este fio I diremos aqui 
em summa o que obrarao, e ficaremos livfes d'este 
desvio, para caminharmos sem elle pela estrada da 
historia. ' 

XXXVLOuvio a nossa gente a lastimbsa rekcao 
do successo, a crueldade dos Hollandezes e Indios, 
o aleivoso trato d'uns e outros, e irados contra si 



576 GASTBIOTO LUSITANO. 

mesmos pela lardaD^, e contra os ininiigos pela 
offensa , perdiao a paciencia em considerarem que 
Ihes fahara tempo para a vingan^a^ e Ih^ sobejava 
para a injuria; nab podendo ajn^oveitar o soccoito 
para o remedio, senao para o sufiragio. Fizerao alto 
na poToa9ao da Gunhaii ; fortific^rao-se no engenho 
do lugar, porque saisse o castigo do mesmo lugar 
onde se executou o aggravo : todas as horas o lem- 
brava o sitio, e nao deixava a magoa descancar a 
ira^ com que os nossos talavao e abrazavao tudo o 
que por aquellas partes tocava aos HoUandezes e In- 
dioSy nao havendo dia em que a fortaleza do inimigo 
nao chegassem correios da sua perda j e de nossa 
vingan^a ; com que irritado, se aprestava com todo 
o poder para assaltar os nossos, certo de que a for- 
tificacao do alojamento os nao poderia defender. 
Succedeo que uma noite ouvirao as sentinellas, que 
OS nossos tinhao ao largo, grande tropel e rumor, 
como de gente que marchava f urtiva ; d^rao rebate^ 
preparou-se a gente para rebater o assalto, e nesta 
forma estiverao at^ que amanheceo ; descobrio-se 
campo f e nao se achou nem indicio nem rasto de 
inimigo. Na noite seguiute succedeo o mesmo ; con- 
cluirao d'aqui os nossos que era aviso do ceo para 
que mudassem tie alojamento « e tomassem um mais 
seguro ; escolherao por tanto um posto regulado, e 
medido para a defensa, onde se fecharao com for- 
tificada circumferencia. Mai tinbao acabado quando 
o inimigo com todo o poder de estrangeiros, naiu- 
raes e Tapuyas deo sobre o engenho de Cunhau, 
que achou desoccupado ; e entendido o lugar onde 
OS nossos se alojavao, os buscou e investio com o 



GASTRIOTO LUSITANO. 



877 



orgulho que recebea da presump^ao de que o temor 
de suas armas nos desolajaria com facilidade ; 
porem em breve tempo se desenganou muito a sua 
custa ; porque yencida a ousadia da invasao, do va- 
lor e da resistencia , perdeo o assalto e a flor da 
sua geute, deixaudo*DOs nas maos uma esclareeida 
victoria , que fez mais gloriosa o medo com que 
desbaratado fogio, e foi tauto que, sem attender a 
ordem nam a honra, entrou em sua fortificacao sem 
muita parte dos soldados, e sem a maior parte das 
armas. Senhores da campanha contiauarao os qos- 
SOS na vinganca^ at^ o tempo em que chegou a Pa- 
raiba dom Antonio Philippe Camarao, mandado 
pdos nossos governadores, movidos da relacao re- 
ferida e de novas razoes, como escreveremos a seu 
tempo em o seguiate livro« 



LIVRO IX, 



SUMMARlb. 

1. Of notsoi govemadores apertao o cerco ao inimigo, que tax duas 
sortidas, e entra castigado; por doua negros que saem do A/reeife 
se sabem os inteotos dos Flamengos, e sao rebatidoc com perda. 
— 2. Outros suceeMOS em que o inimigo 6 vencido ; em nenhoma 
parte Yivia seguro ; temor com que muitof se passavao k nossa 
parte.— 3.0 inimigo descouGado dopoderse queryaler da traicao; 
como intenta eiecuU&l-a, e^como nao teve effeito; sae com todo 
poder, e aiBossa gente ateMhe o eucontro, e Ihe fai grande 
ei trago. — 4. Particularidades d'esta occasiao ; mortos e feridos 
d'uma e outra parte. — S. Os estraogeiros tratao.de fuglr receosos 
de se manifestar o delicto ; o seu mestre de campo , que o suspeita 
aeacautela{ fogem du^8 companbiai para oArrecife.^6. Publtea- 
se a traicao ; commettem a Theodozto.E^trateip e p pastigo e o re* 
medio ; o qual se executa com modera^ao. — 7. Inlenta o inimigo 
ioccorrer a fortaleza dois Afogadoc, e perde o soceorro. — 8. Gaio 
estranbo. — 9. Cbega a Bataia uma carav^la do reino » que o go- 
vernador manda de soccorro a Pernambuco ; nella escreverem os 
Hollandezes rendidos aos do supremo conselbo. — 10. Pelo aju- 
dante Cardozo se mandarao as cartas ; o que Ihe succede no Arre- 
cife. — 11. Dous soldados nossos pdem fogo ds n&os flamengas : 
com que effeito. — 12. Mandao os nossos governadores socoonro 
ao Camarao ; com elle entra na campanba da Paralba ; o que Ihe 
succede. — 13. Fortifica-se em seu alojamento ; o inimigo o busea; 
e se perde. — 14. Gircumstancias que Gzerao grande a victoria ; 
fama que o Camarao mereceo neste dia. — 15. Retirao-se os nos- 
sos para a Paralba ; por via do Arrecife cbegou aos nossos a nova 
da victoria. —16. Joao FernandesVieira manda dous enviados ao 
reino. •— 17. Manda o governador g<Sral do Estado cortar os cana- 
yMea da campanba, sem ponderer os inconvenientes, que a obe- 
diencia venceo com o exemplo de Joao Fernandes Vieira. -— 18. No 
primeiro dia do anno deo a nova fortaleza a primeira salva. — 
19. Partem os nossos governadores para o pontal de Nazareth ; 
quer o HoUandez levanlar um reduto ; mas (Henrique Dies o 
impede e desbarata ; voltao os governadores ao Arraial. — 20. Faz 
inimigo o reduto em uma noite ; Joao Fernandes Vieira cbega 
com soceorro , e desbarata o inimigo. — 21. Calamidades que 
soffre inimigo ; dissencoes no Arrecife, e passsgem de muitos 
para o nosso arraial, pelos quaes tivemos a primeira nova da vie- 



GASTRIOTO LUSITANO. 579 

toria do Rio Grande. ^ 22. Ghega ao Arraial o capitao Joao de 
Magolhaes a pedir soccorro para o Rio 6raode» o qual lova An- 
tonio Tidal de Negreiros. — 23. Joao Fernandas Yieira deiai- 
socega inimigo ; Henrique Dias eicala um reduto que fizera o 
Inimigo ; o capitao Domingos Ferrafra o desatina com mna travel- 
snra. — 24. Henrique Dias intenta ganhar o reduto sobredito ; 
communica a empresa a Joao Fernandas Vieira e aos cabos do seu 
terco, queo approfao com alvoroco; Paulo Dias Sio Pheliche 
passa rio, e ganha o reduto. —25. Per toda a parte se toea anna 
ao inimigo ; accao destemida do capitao Sebastiao Ferreira. — 
26. lotenta o gofernador hollandez ganhar a Paralba; chega 
Andr^ Vidaly e trata de castigar o atrerimento. — 27. Sai o Hol« 
landez a campo ; damno qne recebe das nossas emhoseadas, — 
28. Salta o inimigo em Tejucupapo ; o que Ihe succede. —29. Per- 
tinacia e castigo dot judeos do Arreeife. — 30. Faltao em o nosso 
arraial mantimentos e soldados ; Joao Fernandes Vieira acode & 
falta. — 31. Ardil com que o inimigo nos queria desanimar; cor 
nbeeem os nossos a chimera.— 32. Carta de Henrique Dias para oi 
HoUandezes.— ^S9. Gamarao assola a campanha do Rio Grande; 
entrao mantimentos no nosso arraial. — 34. Apertado da fome sa^ 
o inimigo a buscar mantimentos ; ardil com que nos engana ; 
desembarca em Tejucupapo ; Agostinho Nnnes Ihe poz resisteneia. 
-^3tf. Valor das mulberes portuguezas ; foge o inimigo desatinado. 
— 36. Joao Fernandes Vieira sal do Arraial a buscar mantimentos^ 
di. t^rincipio a fortaleza de Tamandar^, e depots de guarnecida 
Tolta para o Arraial. — 37. Ghegaa ao Aitatal dons padres da 
Companhia com ordens d'El Rei para se delzar a campanha ; re-r 
plica ds ordens Joao Fernandes Vieira; neutralidade dos mais 
]^areceres. — 38. Gom tres nios defende o inimigo as passagens 
da Uha de 'Itamaraca ; os nossos goremadores intent3k> ganhal-as; 
vote de Joao Fernandes Vieira. — 39. Gom que gente se dispde e 
intenta a empresa ; cinco Portuguezes rendem a primeira ndo ; os 
Hollandezes desamparao a aegunda e a terceira^ esereiirao da 
ilba. — 40. Ganbada a ilha se recolhem os nossos deizando«a 
assolada ; um maioral dos Indios se passa com quarenta a nqssa 
parte. — 41. Entra um soccorro do reino em Nazareth ; mandao-se 
retirar os moradores da Paralba e ^yana ; o capitao Francisco 
Lopes Estrelia rende uma lancha do inimigo ; os soldados de Hen- 
rique Dias tomao um coihboi do Flamengo. — 42. Assalta o ini- 
migo a estancia dos Marcos, e foge cattigado. — A3, Conjora^ao 
contra Joao Fernandes Vieira, de que foi avisado. — 44. Atirao a 
espingarda ao governador; alteracao que o succ«sso causou no 
Arraial. ^ 45. Castigo que da aos traidot^s. — 46. MotiYOs da 
trai^o. • 



S80 GASTBIOTO iUSITiJfa 

L Em quanto aoe nossos goyernadore$ nao cbe- 
gaVa a noticia do que era passado no Rio Grande, 

e que deix^mos escrito no precedcnte livro, se oc- 
cnpavao em hoaiilizar o inimigo amais tjue podiao 
apcrtando de tal modo o cerco , qtie tinhao posto 
as fortificacoes do Arrecifei que ]& nao tinha modo 
de acudir 4 fome e a s6de que o apertava. Snccedeo 
que no primeiro domingo de Outubro, em que a 
igreja solemniza a festa do Rozario, a celebrou 
Henrique Dias e os negros de seu ter^o com as 
demonstra^oes possiveis ; acabada a solemnidade se 
reiirou Henrique Dias da villa de Olinda, onde se 
festejou o dia, para o seu quartel ; e, ou que Fosse 
por aviso, ou por inferencia, advertio aos capitaes 
das estancias vizinhas que estivessem com vigilan- 
cia, porque sem duvida sairia aquella noite o Hoi* 
lahdez a dar alguma assaltada, como de fkoto saio, 
ajudado da escuridade da noite, por entre as mar- 
gens do rio Beberibe. Dividio o poder em dous 
trbcos f e Com bs dous 'esquadroes, cdnlmielteo as 
estancias d'aquella paragem por duas partes, adiai^ 
lando-se k investida os clarins encontradd^, e as 
(iargas vagas , para que primeiro confundissem do 
que commettessem. Nao foi pequena a deiordem 
que caiisou em os nossos 6 rumor encontrado, e o 
rebate indifferente, porque sem disciplina se forao 
retirarido at* o posto de Joao Soares d' Albuquerque, 
onde, cobrados da confusao , tom4rao nielhor con- 
selho, e voltarao sobre o inimigo a tempo que mar* 
chavao em seu soccorro trinta Indios do terco do 
Camarao , que chamados do estroudo publicavao o 
auxilio com um clarim que seguiao, cujo ^ho 



CASTRiOTO LDSrTANO. 881 

bastou para espalhar os Hollandezes pelo mato , e 
pararetirar OS nossos do conflicto, imaginando todos 
contrarios aos que s6 para o HoUandez o erao, 
mas para os nossos, amigos ; os quaes feitos em um 
corpo , se forao esperar o inimigo de emboscada- 
debaixo de suas mesmas fortalezas y donde os assal- 
fariio , ao tempo que se retiravao , com damno seu 
e perigo nosso; este por razao da artilharia, aquelle 
pelos mortos e feridos que deixdrao e recolhferao, 
Igual sorte teve o inimigo n'outra saida que fez a 
buscar agpa de noite ao rio Beberibe. Esperarao- 
no de emboscada os capitaes Ramos e Soares com 
suas companhias, d^rao sobre elle com tanto vigor 
que deixou no campo pito mortos, e nove escravos 
dos que trazia para carregarem agoa. No alcance 
perdeo mais que na peleja ; e se recolheo com tantos 
feridos, que se nao entrarao carregados d'agoa, 
forao bem cobertos de sangne. — Em 1 5 d'Outubro 
safrao do Arrecife dous negi^os, os quaes sendp 
apresentadosao governador diss^rao que oTlamen- 
go determinava sair a noite seguinte com poder de 
soldados e gastadores a fazer lenba na paragem das 
Salinas, com tencao de nella fabricarem um forte 
com. boa guarnicao e artilharia para proieger suas 
correrias. Ouvida a informacao mandirao os goyer- 
nadores cbamar os principaes capitaes, e depois de 
concerlarem entre si o modo da opposicao, os des- 
pedlrao com as orderis necessarias , que com pon- 
tualidade executirao. Descoberto o campo, e dis- 
posta a gente em emboscada, passarao toda a noite 
com dobradas sentinellas, at^ que ao primeiro rom- 
per d'alva derao os nossos descobridores aviso de 



882 CASTBIOTO LUSITANO« 

que nas casas de Francisco do Rego estava uma 
grande partida de Hollandezes e negros formados 
em duas alas, e que seis batedores de cavallo, arma- 
dos de clavinas e pistolas, vinhao descobrindo a 
.campanha pela parte chamada a carreira dos Ma- 
zambos. Nao perderao os nossos a occasiao e o 
tempo ; d^rao sobre os seis de cavallo, cairao mortos 
dous, fugirao os quatro & redea solta a dar rebate 
aos seus. Sem detenca investio o inimigo por duas 
partes^ e sem o esperar se achou mettido nas em- 
boscadas ; travou-se um combate renhido, que du- 
rou mais de duas boras ; mandarao eatao os nossos 
capilaes investir a espada, o que os nossos soldados 
executarao com tanta rapidez e valor, que so co- 
nheceo o inimigo pela fogida , mas nao pela resis- 
tencia. Seguirao os nossos o alcance do inimigo ate 
as portas de suas fortalezas, matando-lhe vinte ho- 
mens, e fazendo-lhe prisioneiros trinta e dous 
escravos ; tambem Ihe tomarao algumas armas e 
instrumentos que iinhao prestimo para a roca e 
para a fabrica, que aos nossos servirao de despojo 
e de testemunha, com que se apresentarao ao9 go- 
vernadores sem perda e com muita reputa^ao. 

II. Nao intentava o inimigo sortida que Ihe nao 
saisse cara ; porem a necessidade o obrigava a fazer 
todos OS dias novos esforcos. Com uma partida de 
soldados bollandezes e Indios buscou um dia as 
casas de Sebastlao de Garvalho, onde os nossos ti-* 
nbao uma trincheira de presidio, e so assistida de 
duas sentinellas , as quaes em vendo o Flamengo 
tocdrao arma e se retirdrao. Ouvio o rebate o capi- 
tao Gosme do Rego, que era o que Iicava mais perto; 



CASTRIOTO LUSITANO. S8S 

e com a gente que achou prompta saio ao encontro 
do inimigo , que valorosamente entreteve ale que 
de suas estancias chegarao os capitaes Jeronimo da 
Cunha do Amaral, e Sebastiao Ferreira com a gente 
de suas companhias , que unidas com os que pe- 
lejavao, carregarao de (al sorte o Flamengo, que 
por f ugir aos golpes largou a trincheira e buscou 
o amparo de suas fortalezas. Perdeo o inimigo 
quatro mortos, e nos tivemos tres soldados feridos 
iQvemente. — Outros successos e encontros simi- 
Ihantes se viao cada dia, que deixamos de refe- 
rir, nao por de menos conta, senao porque forao 
sem conlo. Andavao os Portuguezes lao senhores 
da.fortuna que faziao do perigo desenfado e da te- 
meridade credito. Por muitas vezes Ihes forao rou- 
bar OS gados e cavallos que apascentavao debaixo 
da artitharia das Cinco Pontas.Os servos e escravos 
quQ saiao das fortalezas a fazer qualquer servico 
logo mudavao de senhor , porque os soldados de 
Henrique Dias os capdvavao , bebendo o inimigo o 
espanto na temeridade , e o temor no desprezo> de 
tal modo que eni nenhum lugar se achava seguro. 
— A todos se communicava o temor; o qual se 
augmentava todos os dias entre os de mais baixa 
sorte com a fome e a sede que padeciao ; e com 
esta razao fogiao muitos escravos do Arrecife, per- 
suadidos que nao poderiao escapar das maos dos 
Portuguezes, ou por entrega da penuria, ou.por 
conqui^ta da espada. Muitos, soldados se apresen- 
tavao aos nossos governadores trazidos do mcsmo 
u^otivoy OS quaes repartiao pelos nossos tercoSt 
Pelo conforme depoimento d'estes, e d outros rnui* 



S8& CASTEJOTO LUSITAKO. 

tos de toda a sorte, se inteirarao os nossos do mi- 
seravel estado em que se achava o Flamengo deu- 
tro das pra^as do Arrecife, apertado dafome^ da 
s^de e do teinor em que o punha sua desconfianca. 
III. Desenganado o inimigo ^ pela continuacao 
dos successQS j de que sua for^a nao bastava a de- 
feqd^l-o de nossa ousadi9, apellou para as artes de 
sua malicia^ e urdio uma trai^ao de tal qualidade, 
que tnesmo fora v61-a 16grada,que deixar-nos des- 
truidos. Temos dito como os nossos governadores 
d^rao a Theodozio EsCrater o posto de mestre de 
campo dos estrangeiros , que formavao um ta^co 
de duzento$ oitenta homens de nacoes diversas, 
mas todas do norte; sobre este fundamento es- 
tribou a confianca , com que o Flamengo intentou 
corrompM-os : conhecia a natural inconstancia da 
gente d'aquelle clima, e a propen^ao que tern a fal- 
tar a fe, por qualquer pequeno.accidente. Formou 
o sen conselho supremo um alvari de perdao e 
promessasy em nome dos Estados, em que per- 
doavao todos os crimes commettidos contra a Com- 
panhia, e promettiaorecompensase melhoramentos 
a todos que, miiitando debaixo de nossas bandei- 
ras y se passassem lis suas fortalezas , e obrassem 
algum feito em utilidade de suas armas e damno 
dos rebcldes. — 'Espalharao-se entrc os nossos mui- 
tas copias do ahara do conselho, de que logo tive- 
rao nossos governadores, mas nao poddrao impedir 
que ellas chegassem tambem as maos dos cabos e 
officiaes estrangeiros. Mao forao estes surdos as 
Tozes da traicao; oommecarao logo a corfomp«r 
com facilidade muitos dos soMadas ; pos^ao^e em 



GA8TBIOT0 LUBITARO. 385 

relacao com os principaes cabos do A rrecife , che- 
gando sua perfidia ao excesso de passarem algumas 
yezes ao Arrecife para melhor concertar o preco 
da venda e da enirega. Assentarao que nos encon- 
tros em que se achassem ( antes da occasiao dese- 
jada ) OS do Arrecife nao fariao tiro com pontaria^ 
nem os que enire n^s militavaocom balla^ dando-se 
a couhecer por um papel dobrado, que trariao 
nas trancas dos chap^os, na f(irma em que os liti- 
gantes os (razem no cinto, em quanto nao succe- 
desse a bataiha, em que os esirangeiros que mili-- 
tavao entre nos levassem a vanguarda; e unidos 
com a do inimigo virassem incorporados sobre os 
nossos. — Aquella natural inclihacao, se ja nao 6 
altiva vaidade , que os Portuguezes tern a seguir 
qualquer novidade no trajar, fez com que todos 
OS nossos soldados imitassem os Hollandezes, attri- 
buindo a contra-senha & galanteria, pondo todos 
no cliapto siinilhantes papelinhos, com o que con- 
fund ida a malicia nao pode distinguir os livres dos 
condemnados, e por este meio quiz o ceo atalhar 
aquelle damno, o qual o governador Joao Fernan- 
des Vieira ia enfraquecendo , acoDselhado da sus- 
peita, mas com tal caulela, que nao pod^rao os 
estrangeiros inferir a menor desconfianca. Cortou- 
Ihe parte da ferca , mandando uma companhia de 
Hollandezes no socoorro que deo a Para'iba, outra 
para o presidio de Tejucupapo ; e certo na rebeldia^ 
e incerto na occasiao, mandou que em nenhum en- 
oontro pelejasse terco unido^senao disperso e entre- 
meiado com os Portuguezes » em ftfrma que nunca 
tivessem occasiao , nem para a fogida^ nem para a 
I. 25 



oflEmsa . — Confiadei o iBnugo. a» .paotQicia tniii^ 
aaio do Arreci£e' em 9 da NoverabvO) petacparageHi. 
do8 AfogadoS) e ajudad^ das' senliiirikB ludeiBfSo 
emhosQfm de noite junto ao. cngcah o de Anionio: 
Feroandes Fessoa, apcoveiteadoHse das casas^da' 
eDgenho ^ que estavaiy eraias djepois de mmloei 
tempos > para, sair a fauscaiwdos do dia^.s^pmaiet 
Eataiva porTronleiro naqualie sitto PedFoGaraloaati 
d'AUMjqiierqne^ o qual, alheio da prnTrioiosa muif 
han^a , mandou a douB soldadoai conx uin< alferes.^ 
que ao romper da ahra saiseem a descohriro campos 
oqiie fizerao diligeutes, semencontrareiB.vesiigio: 
de. inimigo ; mas passando pelas casas do dite eftr- 
g^ubo J forao aasallados dos HoUaudezes, que oont 
una descarga matarao o alferes e uia dos soldados^i 
mas o outro pode fugir e tooar a rebate, ao qnal 
aoudirao logo os ea]»taes das estaneias vizinhaa 
com suas eompanhias, e se oppos^rao valorosAT 
menle ao esquadrao iaimigo, que, oonSado no porf 
der e no pacto, avao^ara futioso. Ouvio-se no Aiv 
raial a mosquetaria ; correrao os goirernadores oqik 
oMocorro ; e foi eniao que o sai^nto maior Carr 
doao, venda que as companhias dos fiolbndeaes: 
se formavao e«i corpo separado, e empregavao ds. 
cai^gas nos Portuguezes, maadom immedtatamealie) 
I'etirar os HoUandezespara iraz, e assimse atalbott 
a.traicao naquella hora; a qual de todo se evkw 
com a chegada do capilao Antonio da Silva ^ quft' 
com sua tropa e a de outroa moradores coocoP-*- 
rerao , cbamado^s do rebate , cdbrirao de maneii^ 
oa traidores , que , sem manifesto risco de serein 
degolados^ nao podiao fazer a menor aocao de int'' 



J 



imgo9. VendO'O Flamengo que o plaino da twicao 
tinba ^1bad<v, e sentindo-se sang^radb do nosso 
ferrO) -se' retirmi; Iftrgando o campa combastante 
pwda-, porque os- ntwsos olevarao 6 espada ate 
dkrtrcK da^'caaas da f&rtaleza. 

IV*. Fei estar'Occasrao a nwii* arriscada', e^a mc- 
}hoF8cieoedM^ de todas quantas vm aifneHa-^erra^ 
popqne^-oottt'pequeiio^ cnfttcy se ataUiou irreparavd 
damno. Setle^^hoioeiirnos matSrao, e ferimo a 
trkiia 'e cineo ; umabatia de peca rocou a^copa do 
ehap^ ao mestre ^ campo Ahdr^Vidal^ sem mais 
damno^qcie uwleve aasombraniento dos olhos; o 
govemadoT' Joao Fernandes Vieira ' e o sargento 
inaior> Antonio' IKas Gardozo safrao sem lezao ape*- 
2atide and^rem porentre nuTeas de balias dtspondb 
eomo capitaeS) e^f^rtndo cormo soldados em todo o 
tempo do eonfliofa; foi^m todos ignal o valor, e 
similhatite a gl*6ria^: por isso ignal ek>gto a todose 
d^do. — Dtixon o inimigo no campo tfinta inor^ 
tos, qwenaopAderetirar; os feridos forao sem tivh 
inero. Ma rettrada foi maiora perda, porcfue eiic 
os^ goI|{)e8 da espadft mais certosc^eo dos peiburosv 
cemdellesegrafideeopiad*' feridos sepassarao para- 
o Arreeife', ond^morr^pao' cantos' das caraa cowwy 
da^ feridas. '^'passagem AA f6rtaleza dos Afogad6s 
para o Arrtcife' os esperou Henrique Dias de em- 
lk)9eada> e com os sens soldados os sangrou de mo- 
nm'», €fu# I^v^rao* tam^ (|tie chorar na despedid^ 
come na peli^ja. Assim pagou o HoUandez a traicao 
que ordio : iVuto bem mereeido de sua insolente 
pwfidia. 
V>. Os-estrangeiroscompliees na traiciio recearao 



368 GASXEIOTO U»tTAMa 

ser descoberloft) e por isso buscarao meio die enco* 
brir o delicto commeltendo noyo crimen ou e<m- 
summando o j4 comegado* capitao Nicolao, que 
era o mais compromeitido na traicao , e oulro do 
niesmo terco propos^rao ao governador que o& soi^ 
dados da suas companhias ^ corridos de que os ti* 
vessem ai|^ido de. fracos , os perseguiao ^e unpor-* 
tunaTao a que Ihes procurassem uma occasiao tal , 
que na opiniaode todos os restauraase tea honra 
perdida , e que se nao devia perder a que o tempo 
Ihe dava, porqne . sabiao de cerlo que oinimigo 
havia de sair a prover-se d'agoa doce , e deterini-' 
nava esperal-o d'emboscada, e ttao deixar Hollan- 
dez com vida , ou perderem^na todos na occasiao y 
para o que nao queriao de 8UQ$ senh^ias mais que 
a Ueenca* Os mestres de campo com a <^redulidade 
Ihes conced^rao a supplica, aidda que coatra a von-' 
tade* do governador. : — Suppunha o £sirater que, 
se no ter^o houvesse alguns combanidos , os ni^ais 
nao deixariao de ser fieis, e que iaz^ndo elle a es^ 
co|ha dos que haviao . de levar os dous capitaes ^ 
Ihes cortava os intentos. Mandou forqfiar o terco ^ 
e aberto fern duas alas o esquadrao, nolando os ho« 
mens^ que os doQs capitaes apontavao> a tod6s.escia<* 
soa, e Ihes permiuio sessenta e tres estrangeii^ 
sorteadosi que de todas as companhias e^celheoy 
crendo que d'esta sorte Ihes dava soldados fieis par^ 
a empresa » e nao companheiros para a trai^; 
mas foi a suppoisifao falsa ^ como adiante ^ verL 
— Pedirao um ajudante portagtiez que Ihes fran-* 
queasse o transito pelos presidios de nossas estan** 
cias ; e marcharao tomando o cdnunho do buraco 



GASTRIOTO L0ftITAll€« Md 

fle Santiago > no qual o nosso* ajudante c» deigtou, 
COOK) • leva va porordem, e se reio dar coiHa do 
que passava a sous superiorea. - Emboecdirao-^ae 
OS traidoi>e3 autre os manguea, eaperando pek> 
baixa-inar, para que nella d^sse o rio fiebeidbe 
T&o i passagiBm; e tanto que chegou a bora se po- 
sIrM todos da outra banda, e ferao mardiando per 
entre as fortalezas do inimigo^ tocando caixa-, e 
dando salvas, ai^ da portas do Arrecife^ saindo 
d'elle OS do anpremo conseliho a receb^l-os, para 
que o exei&ple da honra eonyidaase a imitagao da 
perfidia. 

VI. Assim que o governador da liberdade rece- 
beo esria noticia^ fez as diligencias possiveis para se 
ceptificar nella ; e logo que leve certeza do facto 
communioou o successo com os mestres de campo 
Aodr^ Vidal e Martim Soares , e concordarao em 
que se declarasse ao meatre de campo TheodoJEio 
Estrater. Incredulo o acbou a nova. Contra a ver- 
dade da noticia instavao os argumentos da razao , e 
parecia-lhe impossivel que se passassem ao inimigo 
homens que de proposito escolhera a (^utela, com 
a fiancadospenhores, deixando entre nosmulberes, 
i^hoS) escravos e fazendas condemnados a satisfacao 
da divida. — Gertifiearao-no do facto e da opi- 
niao errada, dizendo^he que o nao chamavao como 
a r^; senao como a juiz j a quern peitencia casti- 
gar 6 delicto ; e Ihes pediao sentenceasse a causa 
pelo merecimenlo do processor e quando a piedade 
nao permittisse eastigo adquado ^ ao menos se Ihe 
d^sse remedio opportune. Ao que respondeo Estra- 
ter confiado e confuso, como fid e eorrido : « £ tao 



3Q0 ojynuno ^uacnm. 

• aboiiiiiiavel a ou^, ifiieiso a^utiitdade.deiYasaik 

» seotrams >a :p6de.faser.criv6l, :e^a dimdino^oB 

» ■<dlM6riaiiidbiqutndo.a<viraoiBai&aUealM.:F(i^ 

'«)'>ooia]plJeeataa8seB)la*£ tves^aoldflriflfiy'ifaiBtaicoUH 

^> .com> mdufitria edlore «.as de: «ifiofir iMiii^abias< do 

» . OHMi . r«ginnito ; ' in&Uiirel :^ I l^g^ aai&^ kon^ 

'» que :i^ .fiel* .As daiB ik mUicia JCOB dt— wi 

» 06 dftltiiqiieiileS'iaf«»nie)iirrenNMiipd,^^ 

i)^i)tte s€ja paaa baataAt^^rseaHiojporcfiie ixenedfta 

^> ainda i|ue .«Aa Mlisfafa ; .etasaiM julgo<q«e to*- 

» dos aieirio pelo £ri«ie , (pois ;B itodba Bsti furo- 

» yado o delicto, e que nao isente a espadaiOiifdtft 

i» propria paseoa, p6is laceaitei aer oabo de tal 

» geiate. » iCmsceo *a tmiesa eomia paiaao^' e lUar 

Ihado o .di8cu¥8o>ae reoolkao para sua. caaaeoiao 

aeu Mrgenio maioF Francisco de la Tdur, Ao oeeo- 

pado do peaar.que ae viv^o para o seotittiaita) 

Aao viviio para a comiiiuQrca9a6« --^ Sem dila^ 

.fiiandoa Joao Feroandes Yteira formar os terco^e 

nossa miiicia, edentro d'ellesodos estrangeicoSfd 

iodos OS quaes se (omarao as armas ; dando*<ae Q^ 

aitesmo tempo escrutioio a suas casas , em as q^n^^ 

seacfaaiao nao so claros indicios, seoao evideotes 

fM^ovasxieque todos erao complices na trai^io. F&e- 

.rao-se a¥isos.a Para'iha, e outras partes oode ha«ia 

coaipanhias.de esirangeiros 9 paira que com^U^^^ 

.exeeulasaeo mesflBOy e seiremettasseiii.as^riMSoe 

soldados ao.noa50:Arff>atal; as quaes brev^em^o^ 
ehegarao, etcoBi mulheoes e filhos act m»dA^ 
para a Bahia a diipoaioiO' do governador g^aldo 
.£stado.«Oiiii«Sitre de campo Theodozio Estraier^^^ 
.scu saiigento) iKiftioar F'rancisca de la iTour^ passados 



eMraoco DcnrnKk Mt 

^Hf/oBA Aim J .al^ai^cio liom^a para sepawarem a 
eer^ir aa Bafaia^ onde o goTernador g^ral 09 rdcebeo 
Qua agaaalbo^^e acoomiiMHlou'oom hottva.nos mes-*- 
mos paatos, em qu^ tinbao aervido, datiife4baa «m 
ter90.de PortugueMs. 

'Vil. > Cbm um inefflio 'cmdado ae afcautalava « 
descobm o iiiiiiiigo;<pop^ aoDsadiadasPortu- 
ipiezes^ pompia pela difficuldade, tamo t]«6 Ihe mos- 
tMva a >ocoasiso.Pev&ii«didos por Henrique IMaa se 
detertniiwb o&nossos goTereadores em ferira Hot- 
kmdez'fia parte mais isendivel. Gv^uniarva sair «ki 
fiMTlaleKa dos Afogados a receber e combeiar as 
eoceorroB , que do Arreeife Ihe fnandavio* todos^os 
sai^dos, para o ^ustentode todaa semaaa. Man- 
daiHo-se preveniras nossas estancias de gente .e de 
vigtlaacia, para que por qnalqaer parte que o ioi«- 
migo determinasse o socosrrro Ih'o oortaaaeaeapoda* 
IMsposto ja o assalto se teve conta com a fugida^ e 
para cor tar esta se embosdirao os- mesmos gov«ma* 
dores junto a fortaleza, comintc^tos dea entrarem 
d'envolta com os Hoilandezes, na occaeilo que se 
recdbessem destrocados e perseguidos. Amaxiheceo 
O'sabbado eseolhido, e o Fiamengo nio saio so 
tempo custumado, on porqne eoibeo algum indicto, 
ou porque algum outro inoidente Ibeakerou^a hosa 
senao com duas bors^ de sol, e com soffieiente 
escolta. Deo nas emtesoadas de Henrsque.^I)ia8 ; 
perdeo amaior parte dos viveras; deixmi dose 
mortos e tres eaptivos ; e deslrecado com leva reais^ 
tencia fogio. Kao foi seguido pela mullidao das 
l>allas J que de todas as fortaflezas immigas cmzavao 
o^r^ Yottdci Henrique Kas para a suaeatancia. 



MS GAsniwo u«rAHa 

a oade ao mesmo tempo Ghegarik> os govetaadonis 
coift a sua gente ; os quaes, vendo que o inimigs 
com a fuga se desvidra do la^, deixarSo as em^K)8- 
cadaS) e por entne o mato sairao ao lugar do ooa«- 
fliclo f desejosos de desembainbarem as espadas ; 
diligencia que , se nao chegou a concurreneia do 
combate , servio a congratulacSo da yictoria. 

yilL Ha sucoessos tSo estranhos , que ii2o sabe 
o juizo humane deixar de os attender eomo proc^ 
giosos. Muitas vezes se repetio nesia historia o 
nome de Sebastiao de Carvalho, que esconddraoioSi 
se fora possivel ; mas como ? As imprensas o tern 
divulgado, e outras pennas primeiro que a nossa o 
descobrirao ; e no que escrevemos seguimos memo** 
rias, e nSo fabricamos successes. Nao se fez menos 
lembrado o autor da ruina que o da restauracao: 
a fama igualmente voa com as azas da generosidade 
e da vikza* Foi este homem o que revelou aos Hoi- 
landezes a primeira determinacio da liberdade; 
foi o inimigo da patria mais pernicioso que todos 
OS inimigos d'ella ^ porque o inimigo conquista , o 
traidor entrega. Deixou o sobredito homem umas 
casas feitas de novo, espacosas e bem obradas, de 
pedra , tijolo e cal as paredes e pilares deltas ; es- 
cadas e portaes de pedra lavrada ; os alicerces soli* 
dos, OS madeiramentos firmes; o que fazia hello o 
edificio, em que permanecia a memoria de seu 
autor, que se chamavao casas de Sebastiao de Gar- 
valho. No tempo em que succedeo o que escreve- 
mos , se aposentava nellas o capitao Paulo da Cunha^ 
o qual , na occasiao que acabamos de referir, ou- 
vindo o estrondo das cargas e artilharia , partio 



com agente do aeu presidio para a parte onde o 
ehaaiava o combate; a diataocia do caminho Ihe 
nao deo tempo a chegar ao da pelc^a; e conteule 
cooi n rela9ao do sucoesso se loUcm logo para o aeu 
quartel. Tr^ boras de tempo Ihe poderia gastar a 
deten^a^ bus<xHi as casas com os olhos, e so as vio 
com a mempria; reduxidos os materiaes a um eur^ 
mulo de carvito e cinza, tudo comumDaddo iao s^n 
tempo , que a ^tar a materia disposta , e natural- 
mente su[eita ao fogo nao pod^ra consummir o iur 
cendio em tres dias o que gastou em tres boras* 
Entrou a coDsidera^ao a £»zer juizo do caao, e 
todos o avali^rao por castigo do ceo , porque se 
Bao deixou ver o castigo seaao pelo estrago : mos- 
trando este que aquelk se offende tanto d'uma 
traicao ingrata^ como d'uma torpeza iufame* 

IX. Neste tempo chegou a Bahia uma caravella 
de soccorro y e nella uma companhia de soldados , 
que trazia do reino para guarnicao da mesma pra^a ; 
seu capitao de mar e guerra Manoel Ribeiro. Para 
que da Bahia fizesse viagem a Pernambuco a pro- 
veo com abundancia ^ e despachou com brevidade 
o goveroador g^ral do Estado Antonio Tdles da 
Silva , com expressa ordem que , nao podendo to-p 
mar oporto deNazareth^ arri basse a Bahia. Largou 
panno o capitao Manoel Ribeiro, navegando na 
direitura do posto conaignado , avistou tres naos 
flamengas, que Ihe ddrao cacia tres dias, no (im 
dos quaes se achou na altura do porto do Calvo ; 
arribou a elle, tomou falla dos moradores; e co- 
nhecida a opportunidade do soccorro, se deliberou 
em faltar ao preceito por nao faltar a necessidade. 



Entnou aa barragrandey^teo rebate 4e sua Ishe^^ftda 
com ama earga de mosquettria ; aeudlrao esmora- 
dbresid^aquelie destrieto , que juntos com os Ml- 
dados e cam a geMe do ma r, dcdtarao em terra Mda 
a "carga, e o capilao eeoldados^para a camboiarem 
9ii o Ariaial. Despachou a emfattreacao na s^ixmte 
fuike paea -a BaMa , onde ehegou a salvatnento, 
eoaio*:iaMl)em ao Arraial os mentimenloSy nnini- 
coes e roupas do socoorro ; 'em uma e outpa - parte 
foi lottvada a resokigao^'— Entregoii o capttao ftfa- 
itaet' Ribeiro o aaccorro -aes noasos govenoa^res, 
e com elle diversas cartas dos Haliandeaes' priBia*- 
neiros que eaCawo na Bahia, escrilas 'e<*ei!iTiadas 
com benepladito do goTernador do Eslado. Entre 
tUas vinhao outcas remettidas ao conselho su- 
premo do Arrecife> uma das quaes erade Hasrique 
Has, outra do oapiiao mayor dos Ind}os, e outra 
de aeu sargento maior. (Lembrado deve (sstar o 
Iffitor que forao estas as prindfiaes pessoas que se 
rendSrao na occaaiao de dona Anna Paes. ) 

X. Desejaya Joao FernandesVieira saber o que 
no Arrecife^se passai^, e aproveitou esta occasiao 
como mais propicia.'MaHdou'preparar o ajudaiife 
Gardozo, sujeito em que se achavao os reqiiesilos 
necessarios paw o negocto e para o pretexto. 
Chegiou ao Arrecife, foi bem rccebido , ainda qtic 
eo» aeautela de entpar com olhos cobertos; entre- 
gnu as cartas^ e pedio lieenca para entr^ara Ro- 
drigo de Sarros, que aUi se acfaaya prisioweiro , o 
socoorro « refresco que sua mulher Ihe mandava. 
Foi iKMiEito bem'hospedado por ordem dos do con- 
selho mpremo ; foi 'visitado por todas as mtdheres 



joMammao'emttJOKsx :S95 

doft priAiQiieirM.y ^ cuja liberdade se tratanui tub 
t cartas.; e foi • estiio ' ipie Margarita Malearmes, 
mulher ileHdnnique HtiSy disse que estava^em 
jg^naadea obrigacoea rao goi^ernador g&al do .Estado 
pelsis . muitas nacrcte ^e fayoces que mu narvido 
cL'elie recebiay -enearectiido o ^fcaeroao .estilo com 
qiie.t9atBiiiaa.tQdo& os prisiooeiros, o que era daro 
teaioMu^o de;saagraiideza.d'animo e de 8Ki.iUu»- 
ilre naeeimento. -^ Lidas as cartas em coaselfao, e 
oonsiderada a* materia d'ellas^ aehaoao q«e nao cod* 
yinha >respoiidar a ellas par eniao; e com esie 
aoondo.mandarao dizer ao envjado que a cooqpli- 
«aQao de aegooios, com que de presente se acharfoo, 
impedia a brevidade de seu despaoho ; inas que te 
as ordeBS que trazia ihe permettiao a detenoa de 
Ires dias ^ esperasse, e as levaria ; quando nao , ae 
poderia voltar , per nao exceder os terBK>s da Ucen9a, 
oerto de que elles, ao tempo apmitado, nao lalta- 
riao com a pontualidade da resposta. Imaginavao 
OS do conseUio supremo que o ajudante Tinha por 
espia, e por iaso usarao desta malicia para se asse^ 
. gurarem da suspeita; maso ajudante, que conheoeo 
seu intentO) Ihes respondeo que os soldados nao 
serviao como queriao, senao como Ihes ordenavao; 
que Irazia o prazo tao eurio, que naopassava d'um 
xlia, e que assim Ihes pedia licen^a para se v^^r, 
e juatamente para poder comprar umas plumas idb 
jcaminfao, por raeao que desejava muito/que soas 
-senhoraas o couhecessem por seu obrigadonasr ofr- 
.jcaaioes que d^sse o tempo. DissimuUiDaa os do go- 
verno-a intttUigeueia com os applauses da ouaadia^ 
Oideixiirao partiro ajudante; o qual comprou as 



396 GAarrBHno timniiia 

plumas^ e com ellas no chapeo saio do Arredfe. 
Poucos passoB fora da trincheira vio no caminho 
uma carta com o sobrescrito em flamengo ; des- 
conheceo a lingua e a lettra, mas nao duYidoaqae 
para ser. achada a fiieerao p^ida* Chegou ao Ar- 
raial , contou o que Ihe hayja snccedido , e o que 
tinha observado ; entregou a carta, a qual se abrio 
publicamente > e nella se ach^o duas gazetas em 
lingua flamenga, e uma carta para o mestre de 
campo Theodozio Estrater, que elle leo em ¥0z aha ; 
cujo argumento se resumia^ em o affroutarem com 
iq)pellidos ignominiosos, dando-lhe em rosto com a 
entrega da fortaleza de Nazareth, e com ser traidor 
aos Estados e a Gompanhia, servindo sem pejoaos 
inimigos d'ella, e outras cousas d'este lote; porem 
escrito tudo em frase tao barbara , que igualmente 
enfastiou com o estilo e com o assumpto. Qnem o 
Estrater despicar«-$e , como sentido, mas os nossos 
Ihe aconselharao que se yingasse como discreto. 
Por Alberto Gerardo, que servia de lingua, se man- 
ddrao ler as gazetas ; na parte d' ellas, que nos to- 
cava, erao tao evidentes as mentiras, que se julgou 
composicao da ignorancia todo aquelle artificio da 
malicia. 

XI. No porto do Arrecife estavao surtas nesta 
occasiao muitas ndos hollandezas. Dous soldados 
nossos, filhos de Pernambuco, se ofFerecerao ao go- 
vernador para as queimarem, o que Ihediss^rao 
ser-lhes muito facil. E sem comraunicarem a niu- 
guem o segredo , se aparelhirao com toda caut^l^ 
que o caso pedia e 4|ue a licenca recommandava. Em- 
barcarao^se n'uma jangada, que tomdrao na bar- 



GASTRIOTO LUSITARO* 397 

reta , com todos o^ inateriaed neCessarios/e faVore- 
cidos do escuro da nolle, e do »urdo do remo, sem 
serem sentidos se acharao entre as ndos inimigas; 
escolh£rao entre todas as duas mats alterosas , em 
cada qual pegaiio um artificioso composto dos mateN 
riaes mais obedientes ao fogo, que ateado nellas, co- 
mecarao a arder com tamanhas labaredas que as via 
o espanto ei»m os olhos da perda, primeiro que se 
lembrasse do remedio que pedia o perigo dos mais 
navibs. Foi grande a confusao nos inimigos assim 
no mar como na terra. Innunieraveis barcas sairao 
a atalhar o damno, que fora irrieparavel se hou- 
vera qualquer vento que soprasse o fogo. A muitas 
naos se cort^rao as amarras deixando-as a vontade 
dos mares, appellandoda voracidadeti'um elementa 
para a colera do outro ; os que virao de terra o in* 
cendio temerao que das n^os passasse aos edificios^. 
e fogirao paraa cidade Mauricea : nenhumselem* 
brava de fazlenda, cada qual attendia a conservacao 
da vida. Siiccedera o que se receava, se a viveza da 
diligencia naa vencera a do fogo , que no esirago 
d'uma s6 nao se consummio , e na menor parte 
d'outra se atalhon. Os nossos soldadds, amparados 
da confusao, vararao na pi*aia a jangada, entre a 
porta do Arrecife e o forte de Diogo Paes ; sairao 
em' terra, e carregarado-a as costas a passarao da 
outra parte da restinga d*areia ; lancada outra vez 
ao ri6 Beberibe y vogarao para a estancia das sali** 
nas ; mas como as seotinetlas nao estavao perveni- 
das 9 e uma d'ellas era soldado bisdnho, apezar 
d'elles gritarem que erao amigos Portuguezes, dis- 
paroii o mosquete^ e quebrou uma perha a um dos 



9MnioB f de coja ferida estere bem- prodtiiio de 
nHHPrer^niasem fim eccapoD com Tid»iO|^i^ 
nador Jom Femawks Yieini m recAo^ nm bnicoS) 
sentinde mo poder chegar oom o preaio ondr 
ohcgayaa eatimacao do servi^o. Uson a fortmn' 
oom eBtes dous soMados o que-cuatmiia coni tedoK 
OBI que obpao por ofiferta^ porquenao ea ibes mgoir 
a. satisfa^ senao que tamfaem > Ibes : escoodeo' o 



XII. Chegarao nesta occasiao avisos deCmdiair 
pehis quaes entendMo os nossos govemadores que 
o Hollandez , a judado de P^^ Poly, recolh^ a si 
todo o gado que paslava na campanha , para; aett^ 
dir com elle a fome do Arreeile ; e que andava Hm 
senhor do campo que roubava e destrnia tudo a 
sua voBtade, sem que temesse a menor resistenoa ; 
passando sua confeinca a ameacar nao so as povea^*' 
ooca'do Rio Grande*, senaoas da Paralba.Refrescou: 
esia noya a dos da passada <^baga^ e pelo nao abrir 
oom nova ferida, despaoharao (no principio de D«- 
sembro) a doro Antmno Pbitippe Camaraocomo 
sen tei-co ecoin:duzeirto8Tapniiyasaimliares^ <^<^ 
ordem que pelos destrictosde Cunbaa e Rk> Graad^ 
cascigassem a ferro e a fo^ ffi>Uandeaes e ladies 
seus pardaes, e com oxactadiligenMrprocurassem 
recolhw todo o gado ^ assim remoatado coma do-^ 
mestioo, eo conduzissefii para o ArraiaL — Parw 
sem demopa a nossa gente, chegou a BaftiflKi:) e 
depois de ajostadas com o goyemador) as conve*' 
niencias da defensa e da earpedicao^ oontimioa a 
marcba j levando consigo cinooenta bcnnena ei^ 
pert OS e praticDs nas veredas do terreno , gubdos 



des quae&. cheg4rao4 campanha do Rio Grandek 
Naa houve vida a queperdoasse a espada, nam fa?, 
ze^a a que nao co«siHiiiDisse o fogo, recebanditKoei 
miseraveis pacientes aum meemo teiKipo.a.no¥a e 
Q golpe* Ouvto-se o g<^pe do castigo deatro da Tmm 
taleza da conlrario^ Estrefiieceo ao pi^imeiro grito^ 
ecobrade do medo, dftt^minou 8ati$fazer.aif}«iieixai 
oom maior iasolencta. que a do aggravo : pedia 
auxilio a fortakza da. Fara'iba^.que aggregadb^ 
gtfMe que tinha fez um g^oss^ de^oito cwtosi>$et* 
dUk>s : poder com que se ioiaginava senhor da vic-^ 
tmvai porqme suppunha debil a resisteiicia do re-« 
paiP« Tomou o puko as for^as pdo braco do volto^ 
o>iM0 p&lo^ do valor ; e pagou a condeJBsiiia9ao q.tt« 
Ibe- determinott o erro. 

XIIL Rei&amia-se o nuaxero de nossa gente en 
sma centos homeoB , duzeotos cineoenta Bortu*^ 
goezes e trezeotos cineoenU Indlos, obedieatea 
HOB 6 odlros aogoveiroador dom.AnionioFhitippQ 
GsonaFao-. Occupaii-ao para quartel o outeiro det nmak 
qampma que atra^vepaava uoi pequeno rio;,qfiev 
p^lftfreate Ihe Servian de cava^ gohi> baaiante. f uodo^^ 
e pBla. partem con tram uu denso tabocal em f^rma. 
de tripd^eiva ; denlS'o.do tabocal e do rio sBcaloJ^vai 
a noasa gi^ote coiaealrada e saida para Os norie^ 
para oi suL CertUica^p o Cama^ao da reaoluiQao ,. 
Qomt que o io^igo se preparava para.o Iniacarf 
guiuroeeeo o alojai^nto ua f^rma aeguiote : eUe 
com oa ca^pUaea Joao Barbozo Pinto e Joaa.de Ma?* 
gaU)iii^s .coBd as $uas companbias e parte de seu& 
Iudios> toiaarao a suaconta a defenaa da eatrada 
pela^iur^do aul) coino maia pvoxima a inv( 



ftOO CASTRIOTO I.0SITANO. 

do inimigo ; e a da parte do norfe deo ao capitao 
Jacome Bezerra , com sua companhia e a dos mo- 
radores que se Ihe tinhao aggregado ; a frente, que 
defi^dia o rio, gnarneceo de Indios, como tarn* 
bem o tabocal que ihes defendia as cosfas.— Mar- 
chou o inimigo contra a nossa fortificacao, avancou 
a trincheira que defendia a entrada pela parte do 
suly cobrindo com cerradas cargas de mosquetaria 
as fileiras de macbados e alfanges desiinados para 
romperem a estacadada trincheira, e franquearem 
a entrada a sua gente ; por^m forao repellidos | elas 
repetidas cargas de nossos soldados depois de um 
conflicto que durou por espaco de tres horas. 
Apezar de que o inimigo perd^ra grande numero 
de mortos e feridos, nao desistio com tudo da em- 
preza; fez p^ atraz, e formou-se em tres balalhoesj 
com um sustentou o combate, com o segundo nos 
mandou cortar pelo lado direito, por onde nos de- 
fendia o rio, e com o terceiro nos pretendia atacar 
pelo tabocal, qtie formava a nossa retagnarda. Nao 
6onseguio o sen intento, porque, em quanto os 
nossos rebatiao os ataques do primeiro^ rec^bia o 
segundo consideravel damno dos Indios fJpecheiros, 
que estavao prevenidos para a defensa^ e o terceiro 
caio em duas emboscadas, que o esperavao ; e des- 
composto de duas cai^as cerradas e bem succedidas 
fugio desordenado. Magoado o Flamengo de tantos 
golpes tocou a retirar, e achou bem poucos dos 
Sfeus que o podessem seguir; o que visto pelos nos- 
sos Indios tevantarao um barbaro e conftrso grito , 
tocando juntamente seus bellicos instrumentos qu« 
entre elles e signal de in vest! r ; entendeo o Hoi- 



cMmmo iiWTAiKK Mi 

Idndez que se dispunhao a sair do alojamento e ear- 
regal*o , e se poz em desordenada f uga 9 na qual 
todoB obedecerao ao medo , nenhum advertio a fal*> 
sidade da causa , que nao conhecerao aenao dentro 
de sua fortaleza ; a onde o seguro Ihes deixou virar 
a cara para verem o engano. Cento e quioze mortos 
deixou o Flameugo no campo ^ e levou quinhentos 
feridos ; da nossa parte nao hquve morte, nem f^ 
rida de consider acao., 

XIV. Foi eata victoria, em seu tanto, nao $6 
digna de applauso , aenio tambem de nome ^ p^la 
desigualdade do numeroi pela duraQao do conflictOy 
pela qualidade do despojo ^ e pelo eslrago do veUf^ 
cido. Erao os inimigos a terca parte mais que os 
vencedores, guarnecidos de mais e melhoresarmaiSy 
poupadoB, e no terreno de seu dominio ; a porlia do 
combate^ demuitas boras ; o excesso da perda, tanto 
quanto vai de tudo a nada; os despojos toda a dif* 
ferenca de armas e muni96es , e toda a bagagem e 
roupas que trazia o contrario ; o valor dos victo- 
riosos tao advertido, que depoisde festejarem a vio^ 
toria se deixarao esiar quatro dias no campg do 
combate; os efibitos de tanta utilidade que humi^ 
Ibou toda a soberba do inimigo, e assegurou os mo^ 
radores de todo o receio. *-- £m todas as qqoasioes 
.passadas se tinha moatrado Dom Antonio Philippe 
Camarao digno de sua fama 1 por^m nesta excedeo 
seu merecimento a toda a fama de seu nome. £m 
todos OS encontros reaplandeceo seu valor ; neste 
seu valor e sua virtude , porque , segundo todos 
OS nossos oonfessarao, foi a victoria mais resulta de 
fiuaoracao que de nosso bra$o. Primeiro^ retirado, 
\. 26 



AOS cAsnaoTo lttsitako. 

fyaston miiila^ horas com Deos, que saisse a pelejar 
com OS iuimigos ; e como se da oracao trouxera 
certezas da victoria , Ihe l^rao os seus nosemblante 
o successo do conflicto. Dispoz como experto ca- 
pitao, e pelejou como valente soldado ; assim lou- 
voii.e agradeceo a todos os soldados e ofBciaes o 
bem que haviao obrado , como se na occasiao nao 
a tivera merecido ; a cada um em particular attri- 
buio a gloria d'aquellc diaj e verdadeiraraente , 
que se houverao todos neste combate com lanta 
gentileza , que nao ficoxi soldado que podesse in- 
vejar os louvores que vira merecer aos coropa- 
nheiros. 

XV. Retirarao-se OS nossos para a Paraiba, 
obrigados da falta de municoes ; onde os deixou, e 
a sua companhia , o capitao Joao de Magalhaes , 
que muito a ligeira se partio para o nosso arraial 
de Pernambuco, a levar a nova da victoria, e du* 
zentas cabecas de gado ; e em primeiro lugar a 
pedir municoes para voltarem sobre a fortaleza do 
Rio Grande, onde o inimigo^ cortado do ferro e do 
temor, fez a mesma diligencia, inferindo de seu 
«$tado a nossa resolucao. — Embarcou para o Ar- 
recife os feridos de mais conla , para testemunho 
do estado e do perigo em que ficava a forca , des- 
tituida de presidio, d'armas e de municoes, exposta 
a cortezia dos Portuguezes victoriosos , vingativos 
e senhores da campanha. Esta noticia se transmittio 
confusa aos nossos , por meio d'alguns negros que 
se pass^rao, antes que chegasse o capitao Magalhaes; 
OS quaes, sem saberem especificar outra cousamais, 
disserao terem yisto entrar tres barcos carregados 



CASTRIOTO LUSITANO« A03 

de feridos que vinhao do Rio Grande, e davao por 
novas que em uma batalha forao mortas tantas 
pessoas , que era geral o pranlo na povoaoao. Da 
chegada do capitao Magalhaes, e do que d'elia re- 
sultou , darenios conta a seu tempo , que foi no 
Fevereiro do seguinte anno de 1 646 ; porque nos 
e necessario relatar o que neste meio tempo succe- 
deo nas oufras partes, 

XVI. Partido Dom Antonio Philippe Camarao 
com o soccorro referido, assentarao os nossos go- 
vernadores, que se alojavao na Varzea, represenlar 
a majestade d'El Rei Dom Joao o Quarto o estado 
em que de presente se achava aquella e as demais 
capitanias da costa , com miiida relacao dos sue* 
cessos e das finezas, com que vassallos tao zelosos de 
seu servico Ihe mereciao proteccao e auxilio. Para 
negocio de tamanha importancia elegerao dous su- 
jeitos, em os quaes coneorriao os requisitos neces- 
sarios para similhante emprego : forao estes Fran- 
cisco Gomes de Abreu , e Francisco Berenguer de 
Andrada ; para cuja viagem se mandarao apprestar 
duas caravellas, em que, di vididos, partirao do porto 
de Nazareth meado Dezembro d'este anno. Andava 
o inimigo senhor do mar, e a traicao lao vigilante 
na terra, que nao pode a dissimulacao e o recato es- 
cusar o aviso que se deo aos Hollandezes. Ainda as 
duas caravellas nao tinhao perdido a terra de vista^ 
quando a tiverao de duas naos inimigas, que arri- 
bando sobre ellas Ihes davao caca ; a de Francisco 
Gomes de Abreu , melhor navegada escapou « e 
chegou a Lisboa a salvamento ; a de Francisco Be- 
renguer de Andrada vio-se tao acocada, que foi 



hOU CASTRIOTO LU8ITAH0. 

obrigada a yarar em terra no porto de Tamandar^, 
onde se salvou a gente , e os papeis de maior 
importancia. Forfalta de soccorro e amparo se 
perdeo o vaso; o que ser^io de nos advertir da im- 
portancia e utilidade que se seguiria de haver no 
porto de Tamandar^ uma fortaleza , para remedio 
de similhantes casos, e o muito que convinha foi^ 
tiGcar-se^a Nazareth, e intupir-se o fundo da Bar- 
reta. Tudo se obrou em breve tempo, como em 
seu lugar se dipa. 

XVII. Em OS ultimos dias d este anno chegou 
ao nosso Arraial uma apertada ordem do govemador 
g^ral do Estado Antonio Telles da Siiva, pela qual 
ordenava aos mestres de campo Andrd Vidal de 
Negreiros e M artim Soares Moreno que obrigassem 
OS moradores a cortar todos os canaveaes do recon- 
cavo ; e se alguns recusassem , Ih'os mandassem 
tallar por sens soldados, sem excep^ao de fazenda, 
nem de pessoa. Esta resolucao que pareceo provi- 
dencia, foi desatino : assim errao os homens em 
seus discursos. Fundou-se o decreto em prejudicar 
ao inimigo, tirando~lhe com a materia a esperanoa 
do lucro, que o sustentava na terra, e por este meio 
obrigado a desemparal-a ; e aproveitar aos mora- 
dores, encorporando-se com a nossa gente deguerra 
tres mil setle centos e cincoenta homens , que se 
occupavao na moenda de cento e cincoenta en- 
genhos que tinha a capitania de Pernambuco ; e 
com o grande numero de bois, que ficavao livres 
para servirem ao sustento do exercito ; porem o con- 
selho nao comprehendeo quanto maior era o damno 
que a utilidade^ que se nos seguia. Para desfruir 



GASTRIOTO LUSITANO. 405 

OS inimigos era incerto o meio, porque ficava con- 
tingente o deixarem ou nao deixarem a terra ; 
para os Portuguezes era infallivel a perda, porque 
destruidos os generos perdiao todo o cabedal, para 
sustentar a vida, e para continiiar a guerra. Com 
outro maior perigo podera por em balan9a a fideli- 
dade dos moradores » lev.ando-os a desesperacao a 
buscar no initnigo a conservacao de que os privava 
o preceito ; porem experimentou nesta occasiao o 
mandato, sem excusa e sem replica , a obediencia 
d'aquelles fidelissimos vassallos : nao houve algum 
que esperasse a forca, sendo entre todos o primeiro 
que medio os inconvenientes do commum , e des- 
presou as convenieacias do particular^ o governa- 
dor da liberdade, cujo exemplo animou o decreto 
e desarmou o reparo ; tanta opiniao tinhao aquelles 
moradores d'este homem , que nao dizia , nem 
obrava cousa a que faltassem , nem com a obe- 
diencia* nem com a imitacao. 

Xyill. Entrou o anno de 1646 para os fieis 
alegre, e para os herejes infausto. Tinha chegado a 
nossa fortaleza a sua ultima perfeicao, sem que em 
todo o tempo da obra tivesse o Flamengo a menor 
noticia; o primeiro dia do anno e do mez, que com 
o mysterio Ihe deo o nome de fortaleza do Bom 
Jesus , festej^rao os nossos com salvas de toda a ar- 
tilharia de que eslava guarnecida. Das mesmas 
causas de que os Portuguezes tirarao a razao da 
alegria, tirou o HoUandez oHHiotivo do espanto, 
sobresaltado e conf uso de ouvir tanto na vizinhanca 
do Arrecife, artilharia tao grossa ; d'onde Ihe nas- 
ceo graade receioi prevendo quaes seriao as con- 



406 CASTRIOTO LUSITANO. 

sequencias. Para a nova fortaleza se passou o nosso 
Arraial, deixando o alojamento da Varzca ; e muitos 
particulares levari larao casas, concurrendo toda a 
diversidade degente, de que se serve a republica, 
tanto da mecanica como da mercancia , de sorle 
que em poucos dias se vip no circulo da fortaleza 
uma numerosa povoacao cingida de cavas , trin- 
cheiras o estacadas, que Ihes serviao de muros para 
a defensa, e de termo para a extensao. 

XIX. No mais ferveroso da obra chegou nova 
ao governador da liberdade de como em o porto 
de Nazareth deitdrao ferro uma caravella de mer- 
cantes, com algumas municoes e genie que man- 
dava e governador g<iral do Estado, e um barco seu 
que voltava da Bahia , a onde o mandara carregado 
de assucar, com ordem que todo o procedido se em- 
pregasse em roupas para cobrir os soldados, que 
andavao despidos. Partio logo em companhia de 
Andre Vidal para a Nazareth, deixando a fortaleza 
do Arraial e o governo das armas entregue ao mes- 
tre de campo Martim Soares Moreno. — Aprovei- 
tou-se o inimigo d^esta ausencia dos nossos gover- 
nadores, e intenlou levantar um reduto entre as 
suas fortalezas dos Affogados e das Cinco Pontas , 
em frente da estancia de Henrique Dias , onde sem- 
pre achava castigo para o atrevimento. Saio do 
Arrecife com um grosso d'infanlaria, e outro de gas- 
tadores , com todas as armas e apprestos necessa- 
rios para facilitar a obra. A esperteza e prxjmptidao 
das sentinellas deo rebate a Henrique Dias, e este 
a Martim Soares Moreno, communicando-lhe pes- 
soalmente o intento do Hollandez , e pedindo-lh^ 



GASTRIOTO LUSITANO. 407 

soccorro ao primeiro signal do combate , porque 
com OS seus soldados ia investir o Fiamengo ; para 
o que levou do Arraial as municoes necessarias. 
Chegou Henrique Dias a sua estancia ; vio que pos- 
tos em armas o esperavao os seus soldados, passou^ 
se com elles & outra parte do rio, e por veredas 
desusadas , que o mato escondia as forlalezas ini- 
migas, chegou a avistar o contrario sem ser sen- 
tido ; o qual tinha formado a infantaria em esqua- 
drao cerrado , com o qua! cobria os gastadores ^ 
occupados em cortar fachina, acarretar materiaes 
e abrir sanjas para o reduto, que intentava fabri- 
car. Dividio Henrique Dias a sua gente em tres 
parlidaS; para que a um mesmo tempo e per di- 
versas partes dessem sobre o esquadrao hoUandez 
tres cargas cerradas. nao saber o Fiamengo a 
que parte havia de fazer rosto , com o desatino da 
vizinhanca e do repente , fez a industria tao bem 
sortida , que brevemente vio descompostos os sol- 
dados com as ballas, e os gastadores como estrondo: 
de sorte que uns e outros comecarao a deixar o 
campo, que de todo Ihes fez largar a segunda carga^ 
fogindo da terceira para o abrigo de suas fortalezas, 
as quaes despedirao de si um chuveiro de ballas , 
de que os nossos se livrarao com virar as costas ao 
perigo, satisfeitos de conseguirem o intento, e de 
levarem comsigo a maior parte dos instrumentos^ 
que o inimigo troux^ra para a fabrica. A perda 
contraria, s6 quem a padeceo a soube ; os nossos de 
nenbuma se queixarao, porque a nao tiverao. Com 
toda a presteza remetteo Mariim Soares o soccorro 
pedido ; por^m desnecessario, porque chegou i es- 



&08 GASXUOTO LUdlTAllO* 

tancia de Henrique Dias, quando elle com seus 
soldados descansavao do trabalho^ referindo as par-» 
ticularidades do sucoesso. — Ghegou o aviso aos 
nossoB governadores y quando estavao em Nazareth 
comprando e commutando generos para o beneficio 
da guerra e dos soldados , tudo a custa da fazenda 
de Joao Fernandes Vieira; os quaes ^ dada brevis^ 
sima expedicao ao negocio da fazenda, acudiiio ao 
da guerra; chegdrao ao Arraial em 13 de Janeiro 
pela meia noite ; e sem se apearem ^ forao & es*** 
tancia de Henrique Dias y do qual se informarao do 
referido encontro e do bom successo de nossas 
armas* 

XX. Nao desistio o inimigo da sua pretencao 
de levantar um reduto , e aproveitando>*8e da escu** 
ridade das noites , em duas leyantou o pretendido 
reduto , um tiro de mosquete da sua fortaleza das 
Ginco PontaSy escondendo o rumor dos gastadores 
debaixo do estrondo da artilharia de suas pra^as , 
que sem interpolacao fez jogar as ditas noites^ vare^ 
jando a circumferencia do sitio ojade se trabaihava. 
Em 22 de Janeiro saio o HoUandez com um grosso 
esquadrao de soldados, e grande numero de gas-* 
tadores a cortar o mato^ que pela bastidao nao 
deixava livre o laborar da artilharia , nem pelas 
eknboscadas segura a seryentia do reduto^ Mai 
tinhao pegado na obra, quando Henrique Bias, 
aVisado de suas sentinellasy pegou das armas, e ser- 
vio de muitas e continuas cargas de mosquetaria o 
esquadrao inimigo. — ^cho dos tiros deo rebate 
no Arraial ; Joao Fernandes Vieira ^ em quanto se 
preparava a outra gente saio com a sua companhid} 



GA81BIOIO LmaTAna ft09 

acudio ao conflicio no tempo em que andava mats 
accefto , e que a falta de polvora e balla ia deixando 
nas maos do inimigo a victoria ; com sua preaenoa 
inspirou noro valor nos aoldados, ob quaes erao 
igualmente animados pelo P. Fr. Joao da Re^ 
surreicao , e conseguio conter o inimigo at^ que 
chegas$e o sargento maior Antonio Dias Cardozo 
com tres companhias. Recobrarao entao todos os 
nossos uovos alentos, e depois de quatro horas de 
resistencia arrancarao o inimigo do campo , e o 
pferseguirao atd debaito da artilharia de suas forta^ 
lezas. Mandou entao o governador tocar a retirar ; 
recolh^rao-se todos a seus postos ^ e sd tivemos tres 
morlos e quatro ferid(». estrago do inimigo foi 
grander por^m a custumada deligencia de esconder 
seus mortos e feridos nos impedio de numer^l-os. 

XXI. A miserayel estado se via reduzido o Hol^ 
landez. Deatro e f6ra do Arrecife experimentava 
uma mesma fortuna ; fora do Arrecife encontrava 
o ferro^ dentro d'elle o perseguia a fome. Yalia um 
alqueirede farinha da terra ^ que nos chamlmos de 
p^, e OS naturaes mandioca, dezeseis tostoes ; um 
pote d'agua doce^ um tostao; uma laranja, um 
vintem; e tudo o mais se achava tao caro, que 
para OS ricos era difficil o sustento j e impossivel 
pard OS pobres. As vozes da necessidade persuadiao 
a entrega ; os do governo faltos do rcmedio temiao 
a rebelliao ; e todos sem duvida esoolh^rao antes o 
captiveiro que o sepukro; por^ os judeosi em 
tudo pertinazes, aconselhavao a constancia , teme^ 
rosos do castigo que merecia sua perfidia ; oflfere^ 
c^rao^se a sustentar o povo e a guerra; ajuntArio 



610 CASriUOTO LUSITASO. * 

enire si iim grosso donative , que logo entregirao 
aos do supremo conselho; mas nada se remediou, 
porque servio a cobi^a de poucos , e nao satisfez a 
Tome de algum. — Da penuria resultou a dissensao 
entre as nacoes de que se forma va aquelle presidio. 
£ntre a confusao e o medo tiverao alguns occasiao 
para se passarem a nossa parte ; d'estes for ao os 
primdros cinco negros miuas, que em 29 de Janeiro 
fogirao do Arrecife, e derao por extenso as novas 
da victoria que oCamarao alcan^ou dos Hollandezes 
no Rio Grande ; de que acima fallamos. 

XXII. Cbegou nesle tempo ao Arraial o capitao 
Joao de Magalhaes com a nova e circumstancias do 
successo do Rio Grande ; foi bem recebido e hos* 
pedado dos cabos roaiores pela pessoa , e applau^ 
dido dos soldados pelo soccorro das duzentas ca- 
becas de gado. Gertificados os nossos governadores 
do soccorro que o inimigo tinha mandado, e do 
estado em que ficavao os moradores d'aquella capi- 
tania, asaenlarao que se Ihes devia acudir coiu tudo 
o que fosse necessario para sustentar a liberdade 
dos inoradores e a reputacao das armas. OfFereceo- 
se o mestre de campo Andr^ Vidal de Negreiros 
para ir elle mesmo em pessoa; todos.o do co»- 
gresso conhecerao que nao podia a eropresa ser 
entregue a meihores maos. Apprestado em brevis- 
simo tempo , se partio do Arraial em 24 de Feve- 
reiro, levando comsigo quatro CQmpaohias do 
terco de Joao Fernandes Vieira, e do terco de Hen- 
rique Dias uma campanhia de minas, e outra de 
crioulos. Da marcha de todos nos hayemos de 



CASTRIOTO tl)SlTA^O. ftlt 

aparlar agora para darmos razao do que entretauto 
succedeo em Pernambuco. 

XXIII. A um mesmo tempo &aio do Arraial o 
soccorro para o Rio Grande , e para o Arrecife o 
aviso de um traidor , pelo qual informava o inir 
migo da qualidade e numero das pessoas , do in- 
tento da Jornada, da bora da pai tida , e de lodas as 
circumslancias necessarias para inculcar a faita 
em que ficava o Arraial. Certo Joao Fernandes 
Vieira na Iraicao, e incerto no traidor (supposto 
que todos o apontavao com o dedo), nao pode deixar 
de se doer pela continuacao do mal, vendo que nao 
passava occasiao em que a perHdia uao andasse tao 
prompta como a lealdade. Importava entender o 
Flamengo que nao sentiamos a falta do soccorro. 
Pessoalmente visitou todas os estancias, preve* 
nindo-as de municoes, armas e exortacoes ^ com 
as ordens necessarias para todo o acontecimento. 
Aos capitaes dos presidios ordenou que se nao desse 
uma hora de socegods fortalezas inimigas, picando- 
as por turno todas as noites ; ganhou com dadivas 
algumas espias, que o forao muitos tempos, com 
estipendio de doze patacas cada mez ; foi por entre 
OS matos ver com sens olhos as fortalezas do ini- 
migo 9 observando as partes e os postos, d'onde e 
por onde melhor se poderiao assaltar. A primeira 
noite se picou o inimigo com tal viveza que nao 
houve praca sua , que por todas as partes se nao ' 
imaginasse assaltada ; foi tamanho o tumulto e o 
receio no Arrecife que se ouviao entre c« nossos 
OS gritos do temor e do espanto ; e as3im se conti- 
nuou nas seguintes noites. — Foi a segunda a que 



41S GASTEIOTO tUSITAIIO. 

mais 08 assombrou^ porque investio Henrique Dias 
com OS soldados do sen terco o noTo reduto, que se 
oobria com a artilharia da fortaleza das Cinco Pon- 
tas^ goamecido de soldados e de quatro pecas, que 
ganhou sem resistencia, porque os defensores o lar- 
gArao muito antes que os obrigasse o ferro. Como 
na empresa se procurava o espanto , despresou^se 
a victoria e o despojo, largando o reduto e a arti- 
lharia. -^ Em urn sitio que ficava como centro das 
tires fortalezas, Affogados, Seca, e Salinas , Ihe fez o 
capitao Domingos Ferreira uma pesada trayessura. 
Em 09 troncos das arvores , que ficavao mais des- 
cobertos, mandou atar murroes accesos, e logo dar 
Uma carga cerrada , com ordem a sens soldados 
que dada elta se retirassem a um lado. inimigo^ 
chamado dos tiros, divisou as mechas, e persuadio- 
se que estavao nas maos dos mosqueteiros ; apon* 
tou para aquella parte toda a artilharia das tres 
fortalezas, as quaes acompanh^rao logo a do Brum, 
a dos Perrexis, e a plata-forma das portas do Ar- 
recife, nao descancando de repetir os tiros, que os 
nossos soldados desviados do perigo Ihes faziao des- 
parar com mais cuidado , continuando nas cargas 
de seus mosquetes. Desatinava o HoUandez da cons- 
tancia que via, porque nao suspeitava a causa, 
achando ftindamento para temer a escala na fir- 
meza com que apezar de toda sua artilharia perse- 
verava a forma . Foi tal a impressao que fez o en* 
gano, que se ouvia em todas as partes o grito da 
perturbacao e do rumor com que se dispunha a 
resistencia. Com a claridade do dia conheceo o ini- 
migo aett ^ogano, e Ifae fez confesaar o capitao Do* 



GASTRIOTO t|»ITANa MS 

mingos Ferreira que com valor e engenho pelejava 
com armas dobradas. 

XXIV. Entrou o MarQo de 1646, com elle 
Henrique Dias em pensamentos de gauhar e ar- 
rasar o reduto que o inimigo fabricara a som- 
bra da fortaleza das Cinco Pontas^ o qual depois 
que OS nossos o abandonarao tiuha o inimigo forta- 
lecido em nova f6rma. Gommunicou o intento ao 
governador Joao Fernandes Yieira , dizendo^lbe i 
que nao queria parecer , senao favor , polvora , 
balla , uma duzia de machados , e permissao para 
que s6 os negros de sua obediencia tivessem parte 
na empresa ( confian^a bem merecida, porque ga* 
nhada a forca da experiencia )• Era tanta a opiniao 
que o governador linha da capacidade, valor^ e 
prAdca de Henrique Dias, que com urn mesmo 
conceito ouvio a determina^ao , e suppoz o facto; 
despedio«-o logo com alegre roslo e liberal despa* 
cho; ordenou a todas as estancias, -que a bora dea- 
tinada tocassem arma ao inimigQ por todas as 
partes ; saio do Arraial c(mi quatro qompanbias a 
esperar o successo da emboscada , e participar 
d'uma e outra fortuna. Cbamou Henrique Dias 
sens ofBciaes a conselbo , propoz-lbes a empresa ; 
todos a approvarao com louvor, mas concordarao 
que nao convinha de nenhuma sor te entrar na fac^ao 
a pessoa de seu governador, contradizendo-Ihe as 
instancias com tao vivas razoes, que venceo o juizo 
as repugnancias da vontade. Obedeceo Henrique 
Dias aos seus : nao tern razao para mandar quem 
nao sabe obedecer & razao. «-*-Descobrio-se o campo, 
e certo de que nelle nao apparecia inimigo , esco- 



hik <3ASTttI0^ L081TANO. 

Iheo Henrique Dias de todo seu terco quatro com- 
panhias, as quaes enlrcgou ao commando de seu 
sargento maior Paulo Dias Sao Pheliche. Entrou 
a noite, passou o rio com a sua gente, e coberto 
do escuro e da bastidao do mato a levou ate a vista 
do reduto, onde chegou pelas onze horas; divisou- 
se o vulto de duas sentinellas inimigas perto da 
estacada, as quaes logo tocarao arma. Chamados do 
rebate sairao os defensores a receber duas cargas 
cerradas, e o espanto da facilidade com que os 
nossos saltarao a cava , e d^rao por terra com um 
lanco da estacada j abrindo caminho ao furor com 
que OS degolarao a espada. Sem perder tempo avan- 
carao a segunda fortificacao ; e ganhada a trincheira 
investfrao a casa forte , onde os yinte e cinco de 
seu presidio se (inhao recolhido ; os quaes entrados 
pelo (elbado e pela porta, apezar de toda sua re- 
sistencia, forao mortos a excepcao de quatro. Esta 
victoria custou-nos oito soldados mortos e vinte e 
quatro feridos> dos quaes alguns morrerao, sendo 
d'este numero tres capitaes e um alferes. Virao-se 
OS soldados sem capitaes que os governassem , o 
pleito vencido% a detenca inutil , o damno certo 
(porque as fortal^as cobriao o reduto de ballas) 
carregarao as costas os mortos e feridos, e algum 
despojo d'armas j vestidos e alfaias , e se retirarao 
para a sua estancia. governador da liberdade, 
que esperava a eontingencia do successo^ saio a re- 
ceber OS valorosos soldados , levando a cada um 
nos bracos com os devidos louvores ; aos feridos 
recolheo , e mandou curar com vigilant issimo cui- 
dado. 



CASTRIOTO LUSITANO. &t5 

• XXV. Os capiiaes das estancias , ouvlndo a ar- 
tilharia do inimigo por todas as partes , picarao o 
HoUandez com arma tao quente que Ihe pareceo 
assalto o que era diversao. Ao capitao Sebastiao 
Ferreira, morador na freguezia de Sao Lourenco, 
coube em sorte tocar arma ao inimigo pelo forte do 
Perrexil ; com trinta soldados escolhidos se metteo 
debaixo da artilharia d elle^ dando ao Flamengo 
tantas e tao bem sortidas cargas, que com um 
mesmo juizo se temeo assaltado e rendido. — Vindo 
a noticia do governador da liberdade que o inimigo 
apascenlava algumas cabecas de gado e alguns ca«- 
vallos debaixo da artilharia de suas fortalezas, cha- 
mou o capitao Ferreira, communicou-Ihe o desejo 
que tinha de que*o inimigo fosse privado d'aqueiles 
recursos. capitao , que nao sabia recusar nem 
lemer, obediente e alegre se dispoz para a empresa. 
Esperou a noite; e acompanhado de sen animo e 
das sombras d'ella, foi reconhecer o sitio. Achou o 
gado recolhido, e cercado d'uma trincheira de 
pao a pique 9 sem mais entrada que uma porta 
unida a da fortaleza ; voltou a dar conta a seus sol- 
dados J e infundio em todos o animo destemido de 
que era dotado. Entrarao no curral, deitarao sogas 
ao gado, e cortarao as que tinhao presos alguns ca- 
vailos ; e quando ja buscavao a porta para a sa'ida y 
forao sentidos, e se deitarao ^por terra enlre o gado^ 
onde escaparao de muitas cargas, que o presidio 
da fortaleza alirou a vulto, e muito ao largo, De- 
pois de algum espaco se tornou a socegar o Fla- 
mengo , tendo para si que se inquietara sem fun- 
daniento. Nao se moverao os nossos senao depois 



M6 CASniOTO IimTAllO. 

que intendArao do silencio que a todos os da forta-> 
leza occupava o descanso. Abrirao a porta do cerco, 
montarao em seite cavallos , trazendo diaute de si 
▼inte e oito bois ( que erao todaa as cabers que 
alii pasiavao), entr^rao pelo mato, e com tres car- 
gas despertarao o inimigo, que ad^ertido do roubo 
acabou de entender que nao podia fiar de seu 8e* 
guro senao o que Ihe permittisse o nosso atrevi** 
mento. 

XXVL Aquelles dias, em que na campanha 
de Pernambpco succedeo o referido, gastou Andr^ 
Vidal de Negreiros na marcha para o Rio Grande; 
sem acontecimento notavel chegou a Paraiba, oude 
achou o Gamarao com o seu terco de Indios , reti* 
rado por falla de municoes, como fica referido. 
Ghegara pouoo antes a fortaleza do Gabedello o 
soccorrC , que o Hollandez mand^ra do Arrecife 
para o Rio Grande. Julgando o Flamengo ser aoc- 
oasiao favoravel, com presteza e cauteia embarcou 
em lanchas todo o poder ; sobio o rio , com io«- 
tento de levar a cidade por entrepreaa •• ^em ser 
sentido a avistou ; por6m descoberto de duas senti" 
nellas nossas foi atalhado pela gente que acudio ao 
rebate. Nao lardou o Gamarao em formar embos*- 
cadas para o destruir ao desembarcar ; por^m elle, 
ou temido, ou aconselhado virou as proas as lan<- 
chas tanto que se vio sentido j e nao parou senao 
dentro de sua fortaleza do Gabedello.--^ Achou An- 
dr6 Vidal fresca a pratica d'este successo, e ao Ca- 
marao sentido do Flamengo nao voltar castigado ; 
conheceo elle em Andr^ Vidal a propria magoa^ ^ 
levados d'um mesmo motivo, convi^rao em um 



J 



CASTRIOTO LUSITAKO. 417 

mesmo pensamento , que , por causa de traicoes , 
conservarao em segredo. Escolherao uma porcao 
de gente bem resoluta, a que mandarao marehar 
para o cerfao ; andado caminfao de nove legoas 
mandarao fazer alto, e d'alli voltarao a marcha 
para o mar, tao medida pelo tempo que cheg^rao 
de noite a urn sitio perto da hermida de Nossa Se- 
nhora da Guia, e pouco distante das fortalezas do 
inimigo, Santo Antonio e Cabedello ; alii formarao 
tres emboscadas, e comecarao a provocar o inimigo 
para o atrahir ao laco que' Ihe tinhao armado. 

XXVII. Vendo-se o Flamengo insultado por 
um tao pequeno numero de Portuguezes, dispoz-se 
a sair a campo, contando ganhar completa victoria. 
Saio da fortaleza de Santo Antonio com sessenta 
Hollandezes e cento e sessenta Indios, desembarcou 
no Arraial, d*onde os nossos o tinhao provocado, e 
segurodasua forca descuidou-se da forma. Marchava 
diante dos Indios uma feiticeira braziliana , que 
brandindo um alfange , dizia : « Deixai-me chegar 
» com estas unhas a esses caes portuguezes , que 
» para Ihes romper os coracoes sou tigre ; ligeira 
» onca para Ihes dar alcance ; e sequiosa fera para 
» Ihes beber o sangue e despedacar as carnes. w 
Chamavac-lhe osnaturaes Pag6, que em sua lingua 
soa propheliza, e Anhaguiara, que i o mesmo que 
senhora dos demonios ; em cujo auxilio punha a 
superstitiosa gentilidade daquelles barbaros toda 
sua confianca. — Com estiidado desprezo esperarao 
OS nossos o inimigo, at^ qi^e, chegando a tiro de 
mosquele, o receberao com duas cargas; fingirao- 
se enganados de sua imaginaoao, no excesso do 
I. 27 



418 CASTRIOTO LUSITANO. 

numero que 08 commettia, e como perturbados se 
pos^rao em desordenado retiro. Ao tempo assen-* 
tado virarao as costas com arrebatada fugida, para 
que o alvoroco da victoria e da cobi9a nao deixasse 
ver ao Flamengo o perigo do alcanee ; levarao o$ 
sessenta HoUandczes a vanguarda ; e como, se ga« 
ahada a victoria forao so a recolher os despojos , 
se mett&rao no coracao das emboscadas , das quaes 
receberao duas cargas de mosquetaria tanto a 
tempo, e tao bem empregadas que cairao em terra 
mortos cincoenta e oito Hollandezes, e alguns In- 
dios, de cujo numero foi a feiticeira, que ficou esten- 
dida no campo, passada com duas ballas pelos peitos. 
Os outros, cortados do espanto, e certos da morte, 
buscavao nas aguas do mar o sepulchro, onde quasi 
todos perecerao feridos de nossa espada. Perdeo o 
Flamengo nesia occasiao os sessenta HoUandezes 
com que saio , e todas as armas , e as lanchas em 
que se embarcou ; dos Indios nao se pode contar o 
liumero dos mortos ; so quinze nos mostrou o 
campo ; quasi todos os mais escondeo o mar ; raro 
foi o que salvou a fuga , porque a opposicao do 
braco e do terreno Ihe nao deixou aberto outro 
caminho senao o da praia. Da nossa parte nao houve 
ferido, supposlo que nos enlutou a victoria a morte 
do sargenio maior Francisco Cardozo. 

XXVIII. Applaudida a victoria com grandes 
demonstracoes de gosto, e recolhidos os despojos, 
se voUarao os nossos a Para'iba , onde forao rece*- 
bidos com alegres viVas ; sem descancar no triumpbo 
despedio em brevissimo tempo o mestre de caropo 
Andr^ Vidal para o Rio Grande o governador dos 



GASTBIOTO LUSITANO. &19 

Indios corn o seu terco y assistido d'alguns outros 
capitaes ; e depois partio elle mesmo para a cam- 
piinba de Fernambuco, assistido do capitao Anto- 
nio Goncalves Ti^ao com a gente de sua companhia. 
lio^ 4ias que gastou a marcha , sairao da ilha de 
Itamaraca oitenta soldados inimigos^ em lanchas, 
que elle& desejavao carregar de mandioca das rocas 
d^ Tejucupapo, ferteis d'este genero, e accommo* 
dadas, pela vizinhanca, para a facilidade do roubo 
e do remedio. — DesembarcSrao os inimigos a 
furto ; com prcsteza comec^rao a executar seu de- 
sejo , que Ihes atalhou Zenobio Achioli , cabo da 
milicia d aquelle destricto. Com trinta soldados os 
assaltou ; e com tao boa fortuna ^ que nao deixou 
aos contrarios mais acordo j que o de fugirem para 
as lanchas , e nellas para a ilha ; levarao vinte fe- 
ridos, e deixarao no campo trinta mortos, com 
todos OS instrumentos e toda a mandioca que 
tinhao arrancado. Apertados da fome tent^rao os 
Hollandezes segunda expedicao, que dirigirao a 
uma ilheta chamada Tapessoca ; mas nao forao me- 
Ihor succedidos, porque Agostinho Nunes, sargento 
maior do destricto , acudio com duas companhias, 
e OS poz em fugida, deixando no campo oitenta 
mortos > grande numero de armas e municoes, e le- 
vando muitos feridos. Terceira vez intentou o ini- 
migo levar a effeito sens projectos, envidando todo 
o seu reato. Ordenarao os do conselho ao seu ge- 
neral do mar Joao Cornelim (ou Cornelizent Chic- 
tart ) que com cepto e cincoenta soldados saisse do 
Arrecii'e,' e levasse da ilha de Itamaraca toda a 
gente, que podessem escusar os presidios, e com 



h2d CKSTK10r6 ItJSITAKO. 

este poder saltasse em Tejucupapo, para que d-iim 
mesino golpe vingasse nos moradores a injuria, e 
carregasse as lanchas de mantimentos para acudir 
a iniseria. Executada a ordem, tomou o Flamengo 
terra em uma parte onde alguns moradores traziao 
cscravos arrancando mandioca de suas rocas, os 
quaes , vendo a muUidao das lanchas^ correrao a 
dar aviso ao mestre de campo Andr^ Vidal ; despe- 
dio elle logo o capilao Goncalves Ticao , para que 
com a sua companhia entretesse o inimigo em 
quanto elle nao vinha pessoalmente ; mas nao po- 
d^rao OS nossos cabos acudir tanto a tempo queo 
inimigo nao executasse o seu projeeto, pois quando 
chegou o capitao Ticao ja navegava de mar em fora 
com as lanchas carregadas de mandioca, e de fruta 
de espinho em que abunda aquelle (erreno. Unia 
d'ellas porem, apartando-se daconserva das oulras 
e costeando a terra, a vista do Pao Amarello, foi 
descoberta d'alguns pescadores nossos que andavao 
em suas jangadas deitando as redes ao mar ; trocarao 
OS lancos a pesca, e deixadas as redes envestirao a 
lancha , que logo renderao com a morte de tres 
HoUandezes, que se deit^rao ao mar, e com darem 
quartel a dous e a um mulato e um negro que nella 
ficarao captivos. Aproveitarao-se do refresco e da 
lancha , que depois Ihes servio para maiores em- 
pregos. 

XXIX. Gontinuava entre os HoUandezes a fome 
e a passagem dos soWados e gente vulgar do Ar- 
recifepara o nosso Arraial, e pela mesma razaoas 
testemunhas da falta dos mantimentos, que crescia 
com o tempo; e juntamente a impaciencia com q"C 



CASTftlOTO tUSlTANO. 421 

o vulgo e genie militar dizia a cara descoberta^ que 
selai^gasse a praca quando tinhao na mao a conve- 
niencia de se adiantarem nos partidos, antes que 
sera elles os enlregasse o rigor da fome e o das ar- 
mas. Opiniao e pratica que os judeos impugnavao^ 
certos de que os nao esperava menos castigo na 
entrega que na escala : viviao sobrados, e a mise- 
ria OS desconhecia compassivos. Forao accusados 
de que (inhao recolhido em si todos os mantimen- 
tos, e que faziao mercancia da tenacidade. Derao 
em todas suas casas os do governo em uma mesma 
bora ; acharao abundancia de tudo ; depositou-se 
em maos particulares para soccorro da necessidade 
commum , e a todos os obrigarao a comprar pelo 
preco que vendiao. Tratarao os judeos de baixo 
de mao de amotiuar o povo, inclinado sempre a 
mover-se com qualquer novidade ; mas levant^rao 
contra si as pedras. Derao sobre elles os soldados, 
matarao sette, e forao tantos os feridos que a occu- 
pacao da cura Ihes tirou da memoria a da vin- 
ganca. 

XXX. mestre de campo Andr6 Yidal de Ne- 
greiroSy depois que entendeo nao ser d'utilidade 
sua assistencia emGoyana, separtiopara o Arraial, 
onde chegou em os principios d'Abril ; tempo em 
que nelle secome^ava o sentir a falta de mantimen- 
tos e de soldados. Os naturaes e moradores andavao 
ja quasi remontados ; e alguns dos soldados, con- 
duzidos da Bahia, se tinhao ido paraaquella pra9a. 
Conferirao-se os meios para remedear uma e outra 
falta» e se defenio por mais eflicaz a autoridade e 
agrado do gpvernador Joao Fernandas Yieira^ cuja 



622 GASTRIOTO LUSITANO. 

pefisoa ei^ quetn so podia concluir esle uegocio. 
Acceitou a diligencia, promettendo correr as prln- 
cipaes povoacoes do reconcavo, como erao^ cabo de 
Santo Agoslinho, Ipojuca, Sirinhaem^ Una^ Porto 
do Calvo, eoutrosy em quanto & conduccio dos 
mantimenios. Resolv6rao-se em queixar-se ao go- 
vernador g^ral do Eslado dos soldados que a fiirto 
se tinhao voltado, o qual deo energicas providen^- 
eias para evilar este mal. Com sagacidade mandou 
tomar a rol os deliquentes^ e todos presos^ castigou 
OS principaes com forcas e desterros ^ e os hiidnos 
culpados mclndou voltar logo para a campatiha de 
Pernambuco. A todos os negros^ que achou serem 
dos moradores daquelle capitania, mandou prendier 
e depositar para se entregarem a seus senhores, ou 
a quern tivesse procuracoes suae : expedience foi 
este de consequencias ulilissimas > poitfue para os 
escravos foi ^rilho, e para os soldados freio. 

XXXL Aprestou-se o governador Joeo Fem^n- 
des Vieira para a Jornada, e para de caminho exe- 
cutar o desejo que tinha de assegurar o porto de 
Tamandar^ com uma suiTiciente forca , que igaal- 
mente servisse & defensa da terra e 4 da barra ; e 
partio do Arraial em 1 de Abril. Em estes poucos 
dias que se deteve saio o inimigo com um ardil mal 
urdido, e peor logrado. Deitou fama que de Hol- 
landa Ihe chegara aviso em como ficavia para fazer 
a viagem uma grossa artnada^ que a companbiA 
mandaya para sujeitar os rebeldes, e conqaislar 
OS livres. Na orcdulidade desta riova fundarao toda 
a quimera. Fingirao duas Cartas ; uma d'El Rei Dom 
ioko IV, escrita a Francisco de Souza Goutinho , 



GASIRIOTO i.V&iTiilfO. 439 

entao residente em HoUanda, e inclusa nella oulra, 
que dizia ser do governador do Estado Antonio 
Telles da Silva , escrita ao mesmo senhor, em a 
qual repetia por nova a acclamagao da liberdade 
do Brazil 9 com todas as circumstancias do facto ^ 
e juntamente o traslado das ordens , que o mesmo 
Rei despedio logo ao dito governador geral, que nao 
favorecesse a sublevacao, para que seu residente as 
apresentasse aos Estados, e por ellas se entaidesse 
que nem consentira , nem favorecera a dita suble- 
vacao, Public^rao estas cartas no Arrecife, e copia^' 
das em muitos treslados as mandarao deitar em 
partes que facilmente caissero nas maos das nossas 
sentinelias , e d'ellas passassem i% do governador 
Joao Fernandes Yieira. — Lerao^'se as cartas, e pdos 
erros do estilo e impossibilidade do tempo, se co* 
nheceo o engano^ e o intento da flc^ao, que eraque^ 
brap-nos o animo ^ e aguar*nos o caior com que 
nossas armas o opprimiao. Ccunmunicou o govfer-^ 
nador da liberdade as cartas aos mestres de campo 
e governadores de Minas e Indios ; eassentarao que 
as sepuUasse o desprezo. Pareceo^lhe a Henrique 
Diasdiscreto o castigo, porem intoleravel o silencio ; 
pedio licenca para responder aos desatinos da in-** 
vencao do Hollandez ; concedeo-se^lke que o fisesse, 
e escreveo uma c^rta com as razoes seguintes. 

XXXII. « Sao tao conhecidos os artifici<» , com 
» que a HoUanda sustenta a reputacao de suas ar*- 
» mas, que seu engauo nao enreda senao a quern 
» o.fabrka. Aquelle brado de sua potenda^ que no 
» principto persuadio a singekza , despreza j^ faoje 
» a experiencia. Estes papeis com que vossas mer» 



&2& GASTRIOTO LUSITima 

» c^ nos querem intimidar, nas faUas do discurso 
» mostrao que sao partos da ma lick , e nao da ver- 
» dade. primeiro pregao , que publicou a eni- 
» presa da liberdade, foi o grilo que deo a hatalha 
» das Tabocas, pela vicloria que ncUa alcancarao os 
» moradores desta capita nia , e que a HoUanda es- 
» creveo com a tinta de seu sangue em 3 d'Agosto 
» de 1645 ; e a data da carta snpposta, que dizem 
» escreveo El Rei de Portugal ao seu assistente 
» Francisco de Souza Coutinho , mostra ser de 
» 5 de Oulubro do mesmo anno ; interyalo de 
» tempo que nao passade sessenta e tres dias, (ao 
M limitado para um correio levar a nova de Per- 
» nambuco a Bahia , e um navio da Bahia a Por- 
» tugal, que escassamente o podera veneer o voo, 
» quanto mais as voltas da navegacao e da Jornada : 
» com mais certeza se ajustao entre vo5sas mercfe 
» as partidas da fazenda , que os computos do 
» tempo. Os papeis, que assigna a mao real, e 
» com a firma de Rey , e nao , Sua Real Majestade, 
» como vossas merces firmao estes papeis. Erro 6 
» este muito proprio de quem nao tem lei , nem 
» rei. Se os fios de sua espada cortao tao mal como 
» OS de seu juizo, pouco nos fica que temer; e 
» muito menos vendo, que a mao que ha de dar 
» o goipe erra movendo a penna. Nesta advertencia 
^ entendo eu que vossas merces me liao de avaliar 
» amigo, ainda que pelas obras me experimentem 
Tf> contrario. Em falso fabricao se tem para si que 
y> com embustes se melhorao ; em algum tempo 
M OS fez dissimular a forca ; porem ja agora mal os 
)» poderd sofFrer a independencia. Resulta d'elles 



CASXRIOTO JLU&ITAKO.. 425 

» forao OS aggravos e tyrannias que auiniarao o 
» gemido, com qire os Pernambucanos nos persua- 
» dirao & vinganca , a mim e ao governador dos 
» Indios Dom Antonio Philippe Camarao. Fallanios 
» a obediencia que nos occupava no serlao da 
» Bahia, por nao faharmos as obrigacoes da pa^ 
» tria, respeitando primeiro as leis da natureza 
» que as do imp^rio. Achamos aos opprimidos vie- 
a toriosos e desforcados com as armas nas maos, 
» tao cortados da lyrannia, que abominavao as 
» memorias da sujeicao. Valia-se a razao da lem^- 
» branca com que r^etia as injurias ; e os olhos 
D das ruinas em que permaneciao os estragos, 
» e com faeilidade levatao o sofTrimcnlo ^ ultima 
» desesperacao. Aquelle motivo, que nos fez par- 
» ciaes no aggravo nos fez tambem auxiiiares no 
» castigo, com resolucao lao deliberada, que pri- 
» meiro nos ha de fahar a vida , que nos cdia da 
» mao a espada ; mal discursao, se imaginao have- 
» mos de crer que nosso Rei e senhor ha de ouvir 
» melhor a inimigos insolenles^ que a vassallos 
)) queixosos. Em quanto a justiea Ibe nao restituio 
» a coroa podera-nos assistir so com a magoa; 
M agora que se ve restaurado no trono nao pdde 
» deixar de nos assistir com o braco : facao este 
» conceito, e discorrao politicos. A onde tropecarao 
« mais cegos, foi em nos quererem persuadir 
» que o governo de HoUanda , tao cosido com as 
]» razoes d'estado, andasse tao atrevido, que an^ear. 
» casse com o poder a um Rei de (amanho cora- 
» cao , que desprezou o da maior monarchia da 
» Europa ; pinta-lhe a imaginacao que Portugal 



4M GA8TEI0T0 LUSITANa 

» se artna contra a acclamacao de nossa liberdade? 
» Como ptfde desagradar imila^ao tao generosa a 
» quern nos deo o mais justificado exeibplo ? Mai 
» pinta o retrato quern se desvia das cores do ori- 
» ginal : quem para se sustentar se arrima ao en- 
n gano cai com o arrimo. Tenhao per certo que 
» d'esse Arrecife, onde nossas armas 6s tern accur- 
» ralados, Ihes nao ftca mais saida que para Hoi- 
M landa ; e se atirao a outro alvo , bastao os meus 
» negros para Ihes fazerem errar ; e dado caso que 
M pretendao veneer nossa constancia com sua por- 
» fia^ ihes poremos a terra em est ado, que Ihes nao 
H poBSa dar mais que a sepultura , porque sabe-» 
» reraos queimar^-lhe em uma noile tudo quanto 
)) plantarem em um anno | e para que nao duvi^ 
» dem d'esta verdade tenhao entendido que i Hen*- 
» rique Dias 6 que escreve, pegando na penna com 
>» a ihesma ma6 com que pega na espada • n Mandou 
hncar esia carta em parte ^ onde iogo foi achada, 
e entregue nas maos dos governadores do Arre* 
dfe J que , corridos dos erros da ficcao e cortados 
do despre2t^ da reposta, se apartarao de similhantes 
diligencias, applicando-se a oiitro)^ , de que se per- 
suadiao t)rar mais fruto , ainda que fosse com maid 
risco. 

XXXni. Nesta occasiao chegou ao Arrecife tim 
barco do Rio Grande, pelo qual os HolIand^ECS 
que presidiavao aquella fortaleza pediKo soccorro 
dft mantimentos , referindo como o CamarSo en* 
trara segunda vez na campanha , e tai4ra de ma-- 
Aeira a terra de todo o reconcavo , que ttao 

M i|ue ttSo cotieummisse o %<>) 



pessoa que nao degolasse o ferro^ gado de que 
se nao nproveitasse o roubo> mantimenlo que 
nio destruisse a braco ; e denlro dia mesma forta^* 
leza coracao que nio iniimida^Be a ira ; posta em 
aperto tao mabifestOy que iguaimenle temia o ferro 
e a fome. Chegou esta noticia ao nosso Arraial y 
pelos rendidoa que cada hoira se passavao^ e de-^ 
poia por correios noasos se ceriificou a nova , sent 
paiHicularidade que mereca outra memoria. — Aid 
& Para'iba conduzirao os tapitaes qile fbrao debaixo 
das ordens de Camarao o gado^ de volla do Rio 
Grande> d'onde o mandarao para o Arraial^ a tempo 
que nelle tinha entrado um lote de dutentas ca- 
be^as I tiradas do destricto do Rio de Sao Fran- 
ciaeo. Gem esles pequenos soccorros se anitnou A 
nossa gehte a esperar com bom eoincao seu maior 
remedto, de que se encarregara o govemador Joao 
Fernandes Yieira ^ ciija opiniao tinha ganhado ta-^ 
manfao credito e&tre os soldadoa^ que nao havia na 
estimacao de todos differenea entt^ a promessa e a 
cobran^a^ se nio era aquelle interyaUo de tempo , 
precisamente neoessarto , para ajuntar e repartir : 
effeito da verdade com que os traiava , e do amor 
com que OS favorecia. 

XXXIV. A ilha de ItamaracA, que era o celleiro 
donde se provia de mantimentos o Al^reeife ^ chegou 
a estar tao exhausta que pedia remedio a quem 
GostumaTa dar soccorro : abrangia a todos a neces^ 
sidade ^e todos se conformavao em arriscar a vida 
pelasalvar da fome. Sairao eom doze Unchasdo 
Arredfe levando a {»*oa na iiha de Itamaracd ; di^ 
rao rebate no A^^raial ; e oomo mile se e^ravao m 



^28 CA8TaiOTO LUSITANO. 

duzentas cabecas de gado , que do Rio Grande con- 
duziao OS capiiaes Paulo da Cunha e Francisco Lo- 
pes, entrarao os mestres de campo em suspeita de 
que iniaiigOy informado da marcha, saia a cortar- 
Ihe catninho, e a fazer preza no gado. Despedirao 
correiosa Tejucupapo e a Goyana para prevenir os 
dons capitaes do acoutecido; mas a esle tempo ja o 
gado tinha partido para o Arraial com boas guias e 
suQlciente escolla ; deixando-se os capitaes ficar 
na povoacao de Iguaracu , a tilulo de se Fefrescarem 
da fadiga da marcha. — Tomarao porto na iiha as 
doze lanchas, onde as esperava outra esquadriiha 
d'ellas, ja prevenida para este fim; e por todas fize- 
rao numero de vinte sette, com seis centos solda- 
dos. Mandoii o commandante veiejar para uma 
paragein que os naturaes chamao porto de Maria 
Farinha ; e upi tiro de mosquete ao mar , passou 
01 dem que ancorassem , dando a entender que na- 
quelle sitlo queria desembarcar ; todirao as nossas 
seutinellas a rebate ; ouvio-se em Iguaracu, onde 
descancavao os dous capitaes e as suas companbiaS; 
com as quaes maix^barao a esperar de emboscada o 
iuimigo, que sem movimento esperou a noite,e 
fortado aos olhos de (odos se fez a v^la. Com a luz 
da manha se v io o mar sem embarcacao alguma ; e 
OS nossos capitaes levautarao a emboscada, e toma- 
rao o caminho do Arraial , imaginando que o ini' 
migo avisado se voltara para a iIha ; e todos se en- 
ganarao ; porque o Flamengo durante a noite se 
dirigio sobre o porto de Tejucupapo, deitou gente 
em terra, com o designio de entrar a povoacao de 
Sao Louren^O) e passar a espada os vizinlios d'eila> 



^-^-1 



CikSTRIOTO LVSITANO. tii9 

para ficar senhor do campo , e carregar de manli- 
mentos.— Avisados os moradores de Sao Lourenco 
por duas vigias que virao desembarcar o HoUandez, 
recolherao-se com suas familias em um meio reduto 
cereado d'uma grossa palissada com (odas as armas, 
fazendas e mantimentos que a liinitacao do tempo 
Ihes permittio. Era sargento maior da gente mili- 
ciana Agostinho Nunes, soldado animoso e pratico, 
a quem esta occasiao subio muilo no credito. Or- 
denou a um valente mancebo chamado Matheus 
Fernandes , que com outros tri nta de seu Io(e , des* 
tros nas veredas, e armados d'espingardas, ficassem 
de fdra da estacada , para que, como soldados vo- 
lantes, picassem o inimigo^ cobertos do mato, per- 
seguindo-o com incessaveis cargas. Mandou um 
correio de cavallo dar aviso ao Arraial ; ordenou 
tudo quanto podia servir a defeza, e esperou o as- 
salto com animo resolulo* Marchava en Ire tan to 
o inimigo formado em um so batalhao, guiado por 
um valente Hollandez, que tinha o posto de sargento 
maior de batalha^ o qual^ vendo dous Portuguezfs 
que com accellerado passo iao a metter^e no re- 
duto, com chapeo na mao Ihes disse a vozes : a Ha^ 
» senhores Portuguezes, nao fujao que todos somos 
» amigos; como de inimigos fogem ? Pois entendao 
)^ que antes de duas horas os bavemos de fazer a 
» todos em pedacos. » Uma das nossas sentinellas, 
que por entre o mato nao deixou nunca a ilharga do 
esquadrao inimigo , ouvindo estaspalavras, enca- 
rou o mosquete^ e passou com duas ba I as o sargento 
hoUandez pelos peitos, de que caio morto. Couti- 
nuou o inimigo a marcha sem se deter, a|>e35ar de 



ser incommodado cuntinuamente pdas cargas qua 
€)8 noaaos emboacados Ihe da?ao ; aproximou-^de do 
reduto , deo a primeira carga , debaixo de cujas 
balaa avan^ario os gaatadores com maehados a 
cortar a ^staoada , que os noasos , apezar de infe- 
riores em numero, rebatSrao com valor e intrepidez. 
Retiroq^se o inimigo do primeiro assalto deixando 
grande numero de mortos e feridos, e loda a gloria 
aoa noasoa. 

XXXV . Nao deaiatio por^m inteiramente, stntea 
iiltentou de novo ganhar a paliasada , maa encon" 
trou aempre maior reahtencia, a qual se aug-- 
mwtou com o valor que aa mplheres portuguezas 
moatrarao neata occaaiao. Huma d'ellaa com a im^' 
gem de Ghriato cruoificado naa maoa andava ani-* 
mando oa aoldadoa em todo o tempo do eonflicto; 
fiada na cauaa da peleja promettia o Senhor, com 
que animava , aoa aeua favoravel , aoa herejes ter* 
rivel ; com tauio deaprezo daa bsJaa , que parecia 
beber aeu eapirito na confiaoca da proteccao , ou 
diveraa nature^a, ou certiaaima victoria. Debaixo 
de bandeira tao aagrada administravao todas as 
maia aoa aoldadoa aa municoea e as armaa, fazendo^ 
ae parciaea noa golpea , que ae davao , como o sao 
o inatrumento e o braco, Aa que eacusava o lug^i* 
do combate , iguaea no animo ^ pelajavao com su- 
periorea armaa , porque com oa coracoea pelejavao. 
Experimentou o inimigo o quanto excediao aa fo^ 
caa da r^iatencia Aa da conquiata, no horror com 
que vio a circumvallacao da eatacada com aegunda 
trincheira de eorpos mortoa, aendo tantoa os dos 
amia que alii acabarao^ que nem oa olhoa nem a 



GASTftlOTO LimiTAMO. 411 

consideracao qs podiao con tar sem eapa&U>;.e oom 
elle deixou o combate ; mas nao de todo , porque 
empenhando todas as suas for^as, reunio a aua 
g^ite n'um esquadi;ao oerrado, inyestio tereeira va« 
i eatacada, a qual cheg^rao a roinp^i e qii^ a6m 
duvida entrarao, se aquellaa malronaa com animo 
invencivel se nao opposerao i for^a contrariai que 
com varonil pulso rebaterao, mieneando as arauia 
com braco e animo tao robuato e destemido p que 
nao sabia o Flaraengo determinar ae o traje dea-« 
mentia o sexo , ou se a natureza en ara a forma ; e 
de nenhuma sorte acertava a causa , que era unit^ 
rem-se em urn coracao portuguez o valor do sai^ue 
e a viveza da fi^ contra a perfidia hoUandeza. Nao 
p6de o inimigo resistir por muito tempo a tanto 
valor e denodo, e de tal sorte se deixou tomar de 
medo, que largou o combate, as muuiooes e aa 
armas; e esquecido de toda a diaciplina, obedeceo 
a desordem , tomou as lanchaa , fez-se ao largo , e 
ainda se nao dava por seguro. Appelliddrao os Bos- 
ses a Tictoria, sairao no alcance dos vencidos, que 
cheg^rao a ver quando jd navegavao de mar em 
f6ra ; voltarao ao reduto, recolhendo os despojoSi 
que servirao ao applauso^ com que forao recebidoa 
de Buas familias. 

XXXyi. Deixamos posto a caminko o gover- 
nador Joao Fernandes Yieira , levando comsigo a 
companhia de sua guarda, com a vagaroaa marcha^ 
a que o obrigava o ir pelo cerlao de engenho em tti« 
genho, e pelas povoaqoes de porta em porta , pet* 
dindo, cobrando econduzindo mantimentos para 
o Arraial, at^ que chegou ao porto de Tamancbr^, 



4S2 CASTRIOTO CUSTTANO. 

ofide o inimigo havia commettido varios esiragos, 
cuja lembranca cxcitou o vivodesejo, em JoaoFer- 
naiides Vieira, de fabricar nelle unia forca, em que 
as nossas embarcacoes achaasem abrigo^ e as conlra- 
rias receio, que nenhuma outra cousa Ihe occupava 
mfris o cuidado. — Deliberado em p6r por olnra esle 
peofiamento , mandou notificar e pedir a todos os 
maradores do contorno que com os carros e genie 
de servico que tinhao acudissem a dar ajuda aos 
soldados que haviao de Irabalhar na fabrica; o que 
fizerao com tanta promptidao e boa vontade, que 
dentro d'um mez se Ihe deo a primeira e ultima 
mao. Guarnecida d'artilharia, muoi^oes e presidio 
mais que sufUciente , se voltou o governador da 
liberdade para o Arraial j ond^ foi recebido como 
alimento e coracaod'aqueilecorpo, pelo que a todos 
eommunicava de espiritos e mantimentos. 

XXXVII . Chegarao por este tempo ao Arraial 
dous padres de companhia, Manoel da Costa e Joao 
Fernaiides, enviados da Bahia pelo governador do 
Esiado Antonio Telles da Silva, com aperladas 
ordens de sua Majestade pelas quaes ordenavaaos 
mestres de campo Negreiros e Moreno , que sem 
dilacao se partissera com os tercos de seu regioaenlo 
para a Bahia , alargassem a campanha de Pernam- 
buco aos HoUandezes, porque nao convinha a sua 
reputacao que o mundo suspeitasse que violava ^ 
pela sua parte, a paz e amizade assenlada enlre sua 
coroa' e aquelles Eslados. — Lidas as ordens, na^ 
hoiive coracao , que o pasmo nao deixasse indiffe- 
rence entre a ohediencia ea isencao. Joao Fernandes 
Vieira, respeitando muito as determinacoes de sua 



CASTRIOTO LVSITANO. &M 

Majestade, disse que elle estava convencido que 
£1 Rei nao estava bem informado dos progressos 
que nossas annas haviao feito ; que era impossivel 
que elle abandonasse a emeldade e tyraimia de seus 
inimigos tantos milhares de vassallos; ponderou 
que ha via casos^ em que os decretos dos reis erao 
condicionaes , e concluio dizendo : « Assim que , 
» me parece repliquemos a sua Majestade j com a 
» informacao do estado das cousas j e dos inconve- 
» nientes que traz comsigo esta resolucao , conti- 
» nuando com a guerra na forma presente at^ 
»> nova ordem sua. E dado caso que confirme seu 
» dictame , digo que nao hei de largar empresa , 
» tanto do servi90 de Deos y e d'um principe tao 
» catholico , como 6 libertar milhares e milhares 
» d'almas da morte temporal e eterna, certas , na 
» sujeicao ao dominio da herezia e do aborreci- 
» mento. Este 6 o meu voto, e meu parecer ; cada 
» qual siga o que Ihe dictar sua razao , e nao sua 
» conveniencia. » mestre de campo Andre Vidal 
de Negreiros foi do mesmo parecer; mas Martim 
Soares Moreno mostrou-se indeciso ; com tudo fez- 
se a replica com os fundamentos referidos^ a qual 
se remetteo a Bahia, para que levasse a approvacao 
do governador g^ral do Estado ; por^m elle , ou 
fosse persuadido de superior impulso^ ou obrigado 
de obediente respeito^ respondeo que as ordens de 
sua Majestade se guardassem. Entao^ clara e des- 
cobertamente disse Soares Moreno que se devia 
largar a campanha , e retirar-se a gente : parecer 
que nao admittio Joao Fernandes Vieira e Andre 
Vidal de Negreiros, Retirou-se aquelle para o reino 
I. 28 



aS4 CA0I1IIOTO M7filTAN0. 

deixaftdo o poslo^ e eates cxmtinuarftd firmba aa 06a 
{MTOJecIo reoebendo os applauses de todo s^tlelle 
|K>to que 09 qoasiderava gouiq 4eu6 libortadares. 
XX5iVIIIk Neettf meio iedapo forao avisidos oe 
doutf gov^mador^ que o itxiu^igo ^ i*eceoto de 
nos&a ousadiai iiohA novamente forttficado as pasr 
,sagf»s do rio ^t aquolk parte que cerea a ilba 
dltamarAca^ para que se nao podesae<aU*aye$6ar nas 
parageUSi ^m que o permitte a baixamar em OGca** 
^iao d'aguas vivas* Levarao a cada qual uma q^o 
( que ausieutavao immovel algumas ancoras) todas 
guarnecidas de aoldados , e municiadaa de pe^as e 
mosquetes, 00m qUe ficaya aos seus franca a sa'ida^ 
e aos nosSos emp^dida a eiitrada» — Recebida a no- 
tioia y oonferirao eutre si oB goveraadores aobre 
que deveria faaer«-se« Marlim Scares Barreto ^ Cujp 
4)o8to Ibe dava a primafcia no oomelhoi foi depare- 
cer que se devia abandooar wu tal intento^ ponde- 
raiido ra^oes tiradaa da e^^^ri^cia^ pois ja naq^IIe 
m^mo $itio tinhao oi aossos etxcoi^trado a fortuna 
ad versa, e concluindo que uao ^ra cooselhioi da prUr 
.deuoja buscar a dita no lugar do inforluuio* — Goix^ 
anim^ paciato ouvio Joao Ferdandes Yieira oa fun«- 
dameutos da opini&o eoutraria > e cOnbeceodo a 
y<>ntade quese escoudia no discurso) resppndeo^ 
palavras que oiivia^ e^o animo que fallava^ n'estes 
tferinoSi M A iotr^re^a » que na occasiap pa^sada $e 
» int^B^oti^ foi contra p mdu pare^r^ pprque anle- 
ri via OS sueoessoi^i nas iAaon^idera^e^ da ooe^si&o; 
» e aqueUe mesmo jui^o^ qu0 ^ntdo fiz parii se nao 
H comeUer a ilha^ fc^fo agora para se inteotar a eior 
I) presa; perque o estado , o tempo e p mndp tn& 



» ensinarao a qu^ aoon8elh4i agora o que dissuadla 
» entaO| ^udado men parecer da differen9a dos mo- 
» tivps ; que sao mui divQrsoa 06 que convidao a 
)» liberdade de adquerir> daquelles que propoe a 
H necesaidade de cooB^rvar. Os lugares das batalhas 
» nao sao oeoa d'estrellas para influirem valor ou 
» cobardia« mesmo baluarte, que muitas v^zea 
n repre6^[itou o valor da reeistencia, se chora ult^ 
» mamante rendido ao estrago da oouquistai Que 
» victoria se alcanc^rai ou que praca se rendera^ de 
» 06 ^xercitod ao primeiro revez da fortuua se r^>- 
» tirarao dos campos onde o receberao ? Se a doil«- 
» trina, que dao os successos e a milhor douLrina, 
» qud&i todo8 OS da guerra uos aconselhao a pre*- 
>} (^ille delibera^aot Impraticaveis forao os cch:)- ' 
n flicto^i 6e utna empresa mal suecedid^ servira a 
» desespera^ao dd todas. A representacao da offeudft 
j» intimada ao aggressor accende o furor do aggra^ 
M vadoft A guerra toma as importanoias das odn^«- 
» queaoksi oomotoma a justifica^ao das causae » 
» itiiiinigo se fortifioa ua ilha ^ paf a assegurar dt 
H uossas armab os mantimentos ^ que e\lA produz; 
» e para poder a seu salvo sair a rouhar os do cer«- 
» taOi S|e da sua parte creaceo a resistducia com fei 
% previ»i9ao^ da nossa augmenta-se o empeuho coth 
» a importaucia ; esta qqs ohama ao perigo ; e se 
H algUm o teibe, fuja-lhe com o corpo y sem querbr 
H desculpar sua comoiodidade com nossa diversao^ 
» pois sabe q.ue o rotnper difficuldades tiao ^ para 
» todos : sabe-as veneer quern tern anitno para as 
J) oortar, e juizo para as advertii*4 » 
XXX.IX. Achirao esias rasd^s satisfaeao nos 



A36 GASTRIOTO LUSITANO. 

companheiros , e desabrimento nos oppostos, que 
pelo nao parecerem se derao por vencidos do argu- 
mento ; e conformes no voto poseriio nas macs do 
governador a disposicao da empresa, que s6 fiou do 
mestre de campo Andrd Vidal de Negreiros, em 
quern reconhecia talento para o negocio , e capa- 
cidade para o segredo. Em 13 de Junho saio Mo 
Fernandes Vieira do Arraial com o mestre de campo 
Negreiros, e quinhentos soldados escolhidos, com 
duas pecas d'artilharia de calibre 1 8 ; e favorecidos 
da nolle, que era escura e chuvosa, cbegarao a vista 
do rio sem serem sentidos , em uma paragem cha- 
mada o porto dos Marcos , onde o inimigo guar- 
dava transito com uma nio guarnecida de soldados 
e artilheiros, — Fizerao os nossos alto , cobertos 
dos crescidos mangues que alii produz a natureza; 
fizerao promptamente uma trincheira e plataforma 
em que cavalgarao as duas pecas d'artilharia ; for- 
m^rao ao mesmo tempo dous botes e duas jangadas, 
e logo guamec^rao com doze homens cada um dos 
botes, que mais nao podia conter. A um alferes 
reformado, por nome AfFonso d' Albuquerque, en- 
tregou o governador o primeiro ; e o segundo a 
Francisco Martins Gachadas, sargento reformado. 
Recommendou-lhes o bom desempenho d'aquella 
faccao, e deo-lhes por ordem que envestissem e 
abordassem a nao com deliberacao de a ganharem 
ou morrerem na demanda ; e que mandava na es- 
teira dos botes as duas jangadas , para soccorro de 
qualquer incidente ; e que fossem certos que na 
terra os acompanhava seu cuidado , para os favo- 
recer com a artilharia no conflicto, e como premio 



GASTRIOTO I.USITANO. till 

na victoria. Favorecidos com o escuro da noite se 
forao OS botes chegando a nao a voga surda. Nao 
dormiao as sentinellas ; descobrirao os vultos , e 
pedirao nome. Com o do amigos Ihes respondeo em 
sua lingua urn soldado nosso ^ de nascimento Al- 
lemao. Entenderao que erao Hollandezes, e respon- 
derao que vogassem ao largo. Apertarao os nossos 
o remo buscando a nao com repetidas cargas ^ a 
qual desenganada do erro , e temerosa do perigo , 
borneou as pecas , e com o tiro d'uma fez em pe-. 
dacos o bote do Albuquerque, que se tinha adian- 
tado ; salvou-se por^m a gente em uma das janga* 
das, sem mais damno que d'um soldado ferido. J^ 
neste tempo abordava a gente do segundo bote a 
nao pelo outro lado ; cinco soldados com o sen ca- 
pitao sobirao pelas taboas do costado e pelas cor- 
das, e a forca de braco se fizerao senhores do cas- 
tello de proa. Um so soldado nosso pereceo n'este 
2»8alto; ferido d'um golpe d'alfange na cabeca, 
caio ao mar, quando ia a saltar a bordo. Os sette 
que ficarao no bote, attentos a soccorrer os com- 
panhciros^ nao advertirao na corrente das aguas, e 
forao apartados da nao e do intento. Neste tempo 
disparou a nossa artilharia de terra ; recolheo-se o 
Flamengo sobresaltado ao castello de poppa ; erao 
OS inimigos trinta, e vendo-se atacados somen te por 
cinco , quizerao fazer pe atraz ; mas os nossos, re- 
cobrando animo , avancarao aos HoUandezes a es- 
pada, com tal furor, que matdrao sette, prisiona- 
rao qiunze, e obrig^rao a que oito se deitassem ao 
mar, onde encontrarao o ferro , e o grilho de que 
fo^o» Assim ganh^rao aquelles cinco Portuguezes 



a nao pela maneira dita, e a dita por valor inaudito. 
— Vendo os FlaroengoB no dia aeguinte rendida a 
naOy e receiando que o mesino aconteceaae aot 
dous outras navios y posdrao fogo ao que guardava 
a pasaagem , chamadii de Tapea&uma y e fogirao a 
nado para terra ; o que vista dos nosaoa govema^ 
dores, metl6rao-*se no |)aiel da nao rfndidq, com 
oito moaqueteiros y e a voga arranoada passArao a 
enveatir o teroeiro navio , que estava em guarda 
do vao , que se dis d'eaire dous rioa y o qual tmn 
d^o com a vista, porque oa Flamengos que o 
gu^^meoiao nao esperarao ser ataoadoa para o ^bain*' 
donarem , saindo em t^ra com tal raedo que por 
toda a ilha fbrao locandQ a rebate > e aqidinaadQ 
OS moradores. Ganhadas as duas nads com tao pouco 
custo mandarao oa nostoa ^avernadorea tirar4hfis 
o velame, enxareia, artilharia, mastrcia, mum^oea 
e mantimento^ } e para que o inimigo ae n^o apro* 
^eitaase dos v^os, oa eqlr^gavio ao fugo> que an 
breve espaco os oonsuBsmia. 

XL. Oooupava o iniioiga afisftelma da viUa] 
temeo-se assaltada, e bbo ouaou alaoar Qa,wloaso$} 
q\\e e^lhandcHse pela ilha, reoolhecMaqu^ tinba 
prestf mo , queimirao o que nao ti^ha servi^o y ^ 
deixarao adaoladoa as alojamentoa y e ak^fiai dos 
Indios, 6 ludo o que podia ser de udlidadfi ao ifli^ 
migo. Mandou o govenaador Joao Femandes Vi^ 
tocar^ a I'eoolheri passou^-se a nof^sa gente a tern 
Htmey e com os ctei^jos ^ paoe, e da iHu mai^ 
charao todos para o Apraial , deixando opAim ^ 
getite para que na praia que ebamao oa Mareos s» 
kvant^sse uuia forea que fiaesse opposiqaa aa ifh 



GASTB1070 LUSETAlia Uhf^ 

migo. Teiido porim notioia que o Flamwgo tmha 
desemparado a fortaleza da villa , a qual tambem 
Q fora dos habitante^ , mandarao ordem oa gover-* 
BadofM pava que, retirada a ariilharia da fortaleea 
a de6manteUa8ftem pela impossibilidade de se ccm-* 
servar seqi grande disp^ndioy e gpande rispo; o que 
asBim Be exeentou. -^ Esta faccao teve muito van* 
tajosas ooDBequencias para as nossaB armas^ sendo 
uma d'ellas o passar-^e pata o hobbo Arraial um 
maioral dos Brftzilianq^ , com quar^nta ]ndioB de 
sua jurisdiccao^ que o6 hosbob gov^rnadores reBfiel* 
t^rao a ]). Antonio Philippe CMaapjio, turn iPecom- 
mendacao que 09 trata890 bdm> e Ihea d^e aleja-* 
mento em parte piide podeesem gpangeap a vida , 
s^m aobresako daa armas holhadesas^ 

XLI, Tfaihao M HollandeB;es celebrado eom 
salvas d'aptilharia a ohegada de tpes iiaTios em que 
a Con^panhia Ihes mandava soecorro de aptdados e 
muniooesy e ^ipeaaa d'uma forte iirmada que de* 
vepia ressapeiv todas as perdas. Nao se alterAnao es^ 
nodsee com estaa novas ^ aniM veoobranao noro- 
a^idioi popque peate meamo t^npo en^rou no popto 
de Taii^Qdapd uina ^ga|a noaea com cento e qua- 
rente aoldadosportugueKea ; Qto pontal de Nazapeth 
entrarao tpes cavavellaa^ oeai infiantepia, yirmaB) e 
generoB que iao para a Bafaia, e um navio carregador 
de vinhos que ia papa o Jlio da JaBei|*o. Todas estaa 
embaroagoea as defend^o ^oe HoUandezea , que. 
no mar Ihe derao caca : ctpoumstancia, que com a 
do tempo in^irou mafop alento aos no6aos««^Erao 
08 neaaos govtpnadorea mui preoatadoa ; « receosoa 
da cjMjgada da>eaqpadra iftifftijga, depoiadieoiiviira 



iikO GASTBIOTO LUSITAHO. 

oonselho de pessoas entendidas, resolv^rao mandar 
retirar os moradores da Paraiba e da Goyana para 
a yizinhanca do Arraial , porque estando unidos , 
perderia o inimigo a esperanca de os veneer separa- 
doa. — Em'quanto esta ordem se executava, teve 
aviso o capitao Francisco Lopes Estrdla^ que guar- 
necia com sua gente a estancia que chamavao da 
Barreta, que duas lanchas inimigas & vda e a remo 
sobiao pella corrente dos rios Tigipi6 e Giguia, 
perto da paragem onde se ajuntao para entrar no 
mar. Adiantou-*se o capitao com o melhor de sua 
companhia a esperal-as d'emboscada; Idgoque teve 
vista da jurimeira saltou & agua com triuta soldados; 
deo*lhe duas cargas, abordoa-a, e com merle* de 
oito soldados boUandezes a rendeo; e com elles, 
e com toda a carga (que era de mantimentos) a ma- 
reou por entre os arrecifes , a despeito da artilha- 
ria inimiga, at6 lancar ferro na Barreta. A seguoda 
lancha, assim que vio a sorte da primeira^ a v^la 
e a remo fogio para o Arrecife, donde tinha saido. 
— Vinhao estas lanchas com soccorro.para a forta^ 
leza dos Affogados ^ que estava em grande aperto, 
e como este se baldasse, despacharao outro per 
terra as costask de negros, mas nao forao mais feli-* 
zes, porque os soldados de Henriqiie Dias os espe- 
rarao, emboscados entre os mangiies d'um lamacali 
d'onde Com repentinas cargas os ferirao, e sobre- 
saltearao de maneira que escravos e soecorro tudo 
ficou nas maos dos nossos. 

XLII. Com successes pouco deaemelbanteft 
se foi continuando o exercicio d'umas e outras 
armasateaos 20 do. J^ulho, em que o madff^f fa« 



GASTBIOTO UD8ITAII0. kki 

vorecido do escuro da noite » sa'io com todo o poder 
para atacar ^ nossa estancia que cbamavao dos 
Marcos, com determina^ao de a ganhar ; mas sa'io* 
Ihe a conta errada , porque os nossos, advertidos 
com o rebate das sentinellas 8e prevenirao para a 
defesa , e receberao o inimigo com duas cargas de 
mosquetaria. A promptidao da reaistencia, e o ino- 
pinado da vigilancia quebrou de sorte o animo do 
Flamengo, que descomposto virou as cosias» e nao 
parou seuao junto de sua artilharia , ate onde o 
perseguirao os uossos , com tao boa fortuna , que 
fazendo no inimigo grande estrago ^ se recolherao 
com um s6 soldado ferido. 

XLIIL Era Joao Femandes Vieira o torror 
dos inimigos por seu valor e vigilancia ; crescia 
seu credito e reputa9ao ,*ma8 crescia tambem a in- 
veja contra elle. Houverao ^mulos ( e chegarao ao 
uumero de dezanove ) que nao contentes de pagar 
com ingratidoes o$ faeneficios que d'elle tinhao re- 
cd>ido conapirarao entre si para tirap*Mie a vida. 
Esta negra trai^ao foi por vezes annunciada por 
escrito ao governador^ e ate hbuve pessoa que o 
avisou de palavra, indicando-ihe os nomea dos 
coDspiradores ; mas elle nuncaquiz dar credito^ 
atribulndo a malqueren9a o que era delaqao verda- 
deira de crime premeditado. Informado o mestre de 
campo Negreiros do que se passava j buscou o go-* 
yernador, expoz-lhe o perigo a que se expunha, 
e instou com elle para que mandasse preuder e pros^ 
seasar os conjurados, cujos nomes erao ja cpnhe- 
cidos ; mas Joao Femandes Yieira, depois de ouvir 
attento o mestre de campo i mats ^spantado que 



ft4S oiaarBKiio uniTAva 

oredqlo, respoiideo que tudo quanto naqueUa ma^ 
teria Ihetinhao dito^ era invea^ dajnalicia, que 
a titulo de seguraTi9a solioitava a dftsoompe^icao de 
tantos homena nobres , cqnio erao os oalumniados. 
Todos 08 nomeouy e concluio diaendio : Que fie 
aqueUes, sendo homens da qualidade, pareptes, e 
ebrigados Ihe desejavao a morte y de quern havia 
de fiar a vida ? Que o apurar verdade de tanto peso 
uao podia ser aem iojuria^ e que seria intpleravel 
deaaoerto criar inimigoa com oa arguir d'infieis. 
Fef o meslare de campo outrae muitaa diUgeacia^ 
para oonvencqF Joao Feraaqdea Vieif a do perigo 
que o amea9aYa , mas sempve de balde t agradeoia 
aempre o ouidado, julgando superflua a diligencia; 
maa em bpevca diss oonheoeo , muilp a 9ua cusla y 
deque parte estaw^o eprA, 

XLiy . Saira um dia Joao Fernandea Vkira do 
seu epgenbo ^ e como ae a(}iatitaaae algum tanto da 
guarda qua o aoomjpaiihava^ ao entrar n^upn basto 
catia^eal, ian& Maaoeliiooa Ihe eiMarai^e aes peitos 
tre| eipinguavdaa , oem tfinta dit^ do ^ofemador 
que ^ uaaa pegoufogo^ eujaa balas IhepaeaAvao um 
hombro de parte a parte. Melteo o^ geive^uadop mso 
4 espada, avaneo)i o caTallo do oerco^ que pdtr ^'^ 
uhuma parte p6de vqncer, Ai^^dtrao logo os adda^*^ 
doa chamadoa do tiro, e ioftiPiuade^ do 4saeeaaka« 
pio acerea, ale^noarao ^ aggtt^aaov, que a<^ daipora 
^evao em pedacgos | poaarlo fogo ao canairaaiy pap^ 
qoe pdorreaacii} quelmadoa^ pe (Mif;P06 dous Mam^^ 
kiooa I por^ ellea podi^iio aair pw oatra pB^ 
antea qne io Ibgo^leaase. ^^ Voitou o gowrpader 
pam etia oaflp^ que dinta^a ]»eia4egeft dKxAfi^^'t 



pAi^ 9» €)war 441 fmda ; iifiModov retirar todoa ot 
b^rcoft qup aet^viao a paas^agem do no, que entre o 
Ari'aial e ana eaaa ae wtrepunha ^ atevendo o que 
<tepoi3 anocedeo. £3pa)hou^^ a nova no Airaial y e 
com eUa tftl altcw'ai^ao^ qa9 d^apresada a obedkucia 
oorrerao olSekies e 3i)lda(k>» ^ ^^^ do govepnacloi* 
pedifidQ com tupiulto o qqih^ dos traidorea para o& 
qu^imarow- .Fo4 mero^ do ceo fiao se lerem divulT^ 
gado 09 oomea dois deaanove da ooiyurai^o , que a 
i^ s^v dimm % foaea o eaatigo nmb eaoandoloao que 
a pulpn. ]Mao saeaor^ o por yeiitufa waia perigoao 
foi o aWoivo^ qu^ a ooUm cauaou i>a» eatanoias ^ 
ppi^ue Qceupado$ do aeBtimefttio e da eoleni es^ 
queqiap }Qimi^< Corriao todoa para casa de aeu 
gpverpador wm urn ine^mo aoimoi S^stava elle san^ 
grada e de cama^ maa teQdo notiaiadq queae paan 
aava> 9a)to« fora da caiaa» spontou a oavaUo, e fisi 
s^o fosxeontw doa aoldadoa que aoboq na pa$aagem 
do rio., detidofi pela faltai de baree^* Clom roato- 
alegre minorcu a opiAiiiQ y e arguio o arJ?ebatadQ 
dQ»^t^Q0 do dek^aram aaua poatoaarfisoadfa i in- 
vaaao do ipiiaigo. Com cor(e%ia e b^at^d^ira oa re^: 
dut^iti a obodkaveta ea diioifdioa^ a Gocn a pro^ 
maaaa de que o ^lioto i^i^ puuido Qim (<Kio o 
pigftr, iiearao aaUafmiea* e voUarao a aeua poalos 
e 9atanciaa» dando pro^aa que ae ama^ao o mu gen* 
vc^i^ddr cQOiQ a pai tamhem aabiao obedceevrlbe 
QQIAO a aiftfierior. 

p4¥ft iua earn a opd^i^v*^ a cytivai lego q\ie «^. 
a<^er«fiabaleei4Q» pw^dw ebawar peits ipiwie^a^ 
4e 9WI9 ^MBifta eiA99d4^ « 4a« 



khU GASTBIOTO LUSITANa 

sarao dies vir, certos na clemencia ; e ouvirao com 
submissao o que o govemador Ihes disse. Com as- 
pereza Ihes afeou a culpa^ accusou a infamia com 
a recordacao dos beneficios ; exagerou a maldade 
com o vinculo do parentescol; prOTou-lhes a per- 
fidia e a yilleza d'uma sitnilhante traicao , e per 
ultimo Ihes disse , que supposto que oomo seu go- 
vemador^ por elles mesmos acclamado, tinha brace 
para os punir, o como Joao Fernandes Yieira, 
espada para os castigar , nem d'uma nem d'outra 
cousa se queria valer, para que conhecesse o mundo 
a differenca que vai d'um cora^ao yil a um amigo 
generoso ; e que nunca permittisse o ceo que seu 
valor se manchasse com a opiniao de vingativo , 
nem que por sua causa se derramasse sangue de 
Portuguezes. Emmudecidos da culpa e do pejo, 
sajrao confundidos da presenca do govemador, mas 
nao sairao outros, como depois mostrou o tempo. 
G)ndi9ao propria i do ingrato augmentar os ag- 
gravos com a presenca dos beneficios. 

XL VI. A causa que tiverao os dezanove conju- 
rados para incorrerem em similhantes delictos, 
j^jerguntar^o os curiosos ? E responderd a verdade, 
ique nenhuma outra mais que o verem-se prece- 
>didos na prosperidade que os sustentava na opiniao 
de honrados. Desejara saber o leitor que conve- 
jiiencia, ou que premio esperavao os traidoreS; 
que OS podesse obrigar a resolucao tao fcia. Enfao 
se escondeo , agora a diremos, porque depois de a 
encdbrir a politica a publicou o efecandalo. Frati" 
cava-se que tinhab assentado com os governadores 
do Arrecife entregar-4he a terra > tirando a vida ^ 



GASTBIOTO LUSITAIfO* UkS 

Joao Fernandes Vieira, que Ih'a defendia : verdade 
que sedescobrio com sedivulgarem algumas cartas, 
que OS nossos cabos maiores tomarao a uma mu- 
Iher, que foi a terceira de tratos tao infames ; os 
quaes remettfirao ao governador g^ral do Estado 
Antonio Telles da Silva , como a juiz competente 
de similhante causa. O que d'esta diligencia se 
seguio nao pod^mos nds alcancar, ou porque a 
razao d'estado o dissimulou, ou porque alguma 
diligencia o escondeo ; para claro manifesto de que 
foi Joao Fernandes Vieira varao tao grande que 
venceo os mais poderosos inimigos e os mais refi- 
nados traidores, porque Ihe nao faltasse entre os 
capitaes da fama o ser temidoe invejado ; e porque 
OS excedesse em sair victorioso da inveja dos pro- 
priosy e do poder dos contrarios. 



uvRO x; 



SUMMARIO. 



li Toma* porto no Amctfe notoi eabofi ofPinmA ii^dfMa iraidi. 
— 2. Aprefltao-se os nossos para a resuteaeia ; mandao reiirar os 
moradores da t^aratba e Goyana. — 3. Sat Sisglsmundo do Alrrecife 
para ganhai* a tilla d'Olioda ; reUtti-fe disseompoito^ '«- 4. Miidi 
Sifgilroundo auaUir a TlUa com dobrtdo podor ; sutcade-lhe o 
mesmo. — 5. lotenta ganhar a estancia do Aguiar ; os nosios go- 
vernadores Ihe fazem tlrat as costas. — i^. Pot4ia Sisgisiftititido cih 
sua demanda ; coniegua laqvear o fogf liho do 86o BariholoflMO, e 
a poYoagao da Jangada. —7. Gamarao poe o inimigo em mise- 
ravel fogida ; Sisgismundo se imagindb tapttvo. — 8. Mattda 
aaquear^ Rf6 de Sio Friitioi9oo^ 'i dtatro^do p«lo Itebeltlttiio. '^ 
9. Intenta Sisgismundo fortifioar-sD jamo a Jgaaraf &• — 10. Aa- 
dr^ Tidal marcha para a Paralba; iotfiDta assallar a BarreU;o 
inimigo soccorre os sent sem effetto ^ levAntSio os tiossos 6 ttMo 
e se retirao. — 11. Hollaodez sai do Arrecife com toda suaan- 
mada, toma o Rio de Sao Francisco ; deita gente em terra e se for- 
tifica. — 12. Resolve-se o governador em desalojar o Flamengo. 
— 13. Morre o Rebellinho ; perda dos nossos. — 14. Nomeia El Rei 
o conde de Villa-Pouca por general d'uma armada que manda ao 
Brazil; Sisgismundo larga o silio, e se retira a Pernambuco. — 
15. Antonio Dias Cardozo vai ^ Paraiba, e o que resulta d'esta 
viagem. — 16. Sente-se a falta de mantimentos entre os nossos, e 
como se remedea. — 17. Parte Andr^ Vidal para o Ceari Morim ; 
aproveita-se o inimigo de sua ausencia; mas Joao Femandes 
Vieira Ihe refreia os intentos. — 18. Cbega a Pernambuco a nova 
da armada portugueza. — 19. Fazem os nossos a fertaleza da ba- 
taria, sem que os inimigos os sintao ; os quaes atemorizados man- 
dao recolher o seu general Sisgismundo. — 20. Os nossos assaliao 
e saqueao o paco do conde de Nassau. -7 21. Entra Sisgismundo 
no Arrecife com a sua armada ; leyanta uma fortaleza em opposi' 
Cao da nossa bataria. — 22. Divulga-se em Pernambuco ser che- 
gada & Babia a armada portugueza. — 23. Marcha Henrique 
Dias para Rio Grande ; ganba a forti6ca(^o das Guarairas. — 
24. Em Cunhati Ibe entregao os Hollandezes outra; volta para 
Arraial victorioso e com despojos. — 25. Nomeiou El Rei a Fran- 
cisco Barreto de Meneses por mestre de campo da nossa campanha; 



na vlagem o captivao os Hollandezes ; mas consegue fugir do 
Arrecife para o Arraial. — 26. Prep^rSo-se 08 nossos goverAadoras 
t>flra resUtil* a unia grande armada qu« safra da Hollanda ; a <taal» 
d^poia da aavegar eoai diver«a fortuna, chega ao ArtecUa. — 
2^. Admiravel fidelidade , valor e constancia dos Pernambucanos. 
— 28. Os dossos goyernadores maudao rctirar os moradores ci> 
aumteiiohos para • Arraial. — SH^b Publicao oa do goYeniQ uoi 
perdao gtSral , e escrevem a os nosaos goTeroadorts ; por um en** 
' viado remettem as cartas ao Arrecife. 



L Um anno^ menos poucos dias, se tinha pas- 
sado despois da batalha da$ Tabocas^ em que o ini- 
migo comegou a perder terra e dominio ; quando 
em 20 de Julho de 1 646 aportou na barra do Ar- 
recife o general Sisgismundo Yanescoph com uma 
poderosa armada, e nella quatro mil infantes, que 
coaduzia Jacob Estacourt , um dos principaes da 
companhia occidental i.de que ja temos fallado no 
terceiro livro d'esta hisloria. Deitarao ferro com 
multiplicadas salvas, desembarcarao com muitos 
vivaS| forao recebidos com festive alvoroco : efieitos 
nascidos da confian^a que a todoa promettia a resr 
tauracao do seu imperio> Sisgismundo depois de 
reunir lodps os cabos, e todos que tinbao posto no 
governo , disse^lhes em ar de reprehensaO| que se 
admirava de que taes e tantos soldados se deixas- 
sem cercar e opprimir de quatro bij^onbosi que 
Qunca virao guerra ; tao fracos d'animo que s6 a 
voz de seu nome os punha em fugida para os ma- 
to&« com menos temor das feras que de suas armas« 
Todos ouvirao , e oallaraoi esperando castigada sua 
j^ctancia peto mesmo engano de seu desprezo. 
Houve com tudo um dos preseutes, menos soffrido^ 
que Ihe cenavrou ademasua^dizejido a Sij^isnoiundo 



ft&8 GA8TllKm> L08ITAIIO. 

que nao pesava bem os successes quern nao fazia 
dififerenca dos tempos ; que o pre$^a.te Ihe faria 
entender que acpielles mesmos homens que no pas- 
sado f ugiao timidos , ouvindo seu nome , no pre- 
senter veiido sua pessoa, a haviao d'envestir a es- 
pada com desusado valor ; e assim aconteceo como 
adiante veremos. 

II. Inteirados os nossos governadores do poder 
e desenhos do Flamengo^ e que Sisgismundo como 
tao experto soldado havia de por todos os meios 
para os levar a effeito, tratdrao de emendar as des- 
ordens passadas, como causa dos passados infortu- 
nios. Despacharao ordem a D. Antonio Phelippe 
Gamarao, que assistia na Paraiba, e a iodos os 
cabos que fizessem retirar todos os moradores , que 
por froxidao se nao tinhao retirado da Paraiba, 
Goyana e seus destrictos com todas suas famiiias, 
bens, gados e mantimentos, aps quaes comboiassem 
at^ OS porem em seguro entre o Arraial e a villa 
d'lguaracii, que destinavao por fronteira, para que 
assim reunidos se tornassem mais fortes. Proverao 
aquellas estancias que circumvalavao as fortiCcacoes 
do Arrecife de tudo o que Ihes pareceo necessario 
para a resistencia, medindo os aprestos pelo perigo 
e a deligencia pela importancia , fazendo-se ver na 
boa disposicao de suas ordens a inteireza de seus 
animos. — Notificados os moradores, obedec^rao 
pontuaes as ordens, certos de que na execucao 
d'ellas consistia seu remedio. Com prompta dili' 
gencia largarao engenhos, casas e fazendas , carre- 
gando tudo que podiao trazer, e escondendo pelos 
matos o que forcosamente haviao de deixar. Pos^- 



j 



GASTBIOXO LUSITANO. &49 

rao-se em marcha assisiidos de toda a gente de 
guerra , e apezar de serem per ella protegidos , 
nao tiverao pouco a soiTrer nas trinta legoas que 
tiverao que airavessar, vendo-se obrigados a en- 
terrar e a esconder no mato suas alfaias e roupas, 
porque muitos dos escravos, aproveiiando esta oc- 
casiao a favor da noite, fogirao. abandonando seus 
senhores, deixando pela estrada os bens que tra- 
ziao. Cheg^rao a villa de Iguaracu, por cnjo des- 
tricto se deixarao ficar alguns, abrJgados daquelle 
presidio ; outros se accommodirao pela Yarzea , & 
sombra do nosso arraial; os remanecentes passarao 
a viver uos contornos da fortaleza do pontal de 
Nazareth. 

III. Aos 5 de Agosto saio Sisgismunclo do Arrecife 
com mil duzentos homens y e com pensamenlo de 
ganhar Olinda por entrepreza. Fez a marcha pela 
praia^ servindo*lhe o rio de trincheira. capitao 
Antonio da Rocha Damas^ apezar de nao ter senao 
trjn(a soldados, com que edtava de guarnicao n'uma 
trincheira, saio a receber o inimigo ; foi logo imi- 
tado pelo capitao Braz Soares ; nao tardou tambem 
a vir em soccorro d'estes o capitao Soares d' Albu- 
querque com a gente da Moribeca ; os quaes todos 
sairao a praia, investirao o inimigo com cargas tao 
repetidas e tao fxtme denodo, que o descomposerao 
e confundirao de sorte, que nem a multidao dos 
Flamengos, nem a diligencia dos cabos, nem o res- 
peito de Sisgismundo pod^rao escusar a desordem, 
com que virarao as costas, correndo a buscar o 
ampar^da arXilharia de suas fortaiezas. *^-- Rece* 
beo eritretaDAo ^flgisBifado um gfosso soccorro do 

U 29 



Arreeife, obiA o qml 4m nora f(ftm^ k msk gente, 
i ie^ufiAa vet intetifou itmtpcr ob aomos ; mas de 
bftide, porqu« firm^no posto d<i pelejUyOreceb^rao 
com a pfTimeit^ t^arga ^ e logo a espada o mv^liroo 
e roitip^rad , daticio a conhecer ao general Si^r^ 
mondo que miiitas Tez«a obedecta a disparidad^ do 
numero A ^esigtialdade dos golpea. Didpunba^^o 
mtmig^ pana renot ar lereetro ataque, qaando dbe- 
gon Joao FernaBdesVieira, tindo do Arraial, d'onde 
•lira i primetFa voz do rebate. Caiiaou sua vizi- 
nlyinca iamanha aUeracao no$Holiande2e8,<{i]ee^ 
quecidos dadisciplina e da vi^rgonha fogirao parao 
Arrecife, dentro doqnal os naodesemparon o medo. 

IV. Nao se deo Sisgismundo por vencido; antes 
pa&sados oito diaa ordetMm a seus cil»09 que com 
doljrado poder commettesaem a interpreta da villa ; 
que fij^erao aaindo do Arreoife em 1 2 de Agosta, 
fktais confiatdoa, porque com maior numeoro. -^ Os 
capitaes do presidio, actma nomeados^ que nao 
iabiao perder occasiao de hoora , e a fasiao de a 
buscar destros e promptoa , como ^enaaiados no 
ehoque paasado, sairao ao encontro, do intmigo 
torn lanto Tak>r e fcntna que Ihe reprimlrio o or* 
^Iho, e coKario o paaso, de sorte qae efla sua 
eapem Iht deapo&^rao sua total roina, porque bouve 
tempo para que o soccorro, que da esiancta dassar 
linas aaio em nosao lavor, rompesie aa emboseada^, 
tnmque^ Fiamen^determiiiava impedtr^ efaesse 
oami»lM> d'uma pnra otttn; victoria y obrigando o 
HoUandez a que viraaae as ooatas^ enoa deixasaeo 
^mpo mm4o 4 aua eiista, >e sempenla AOaaai' , ' 

v. VemlaSiflgiaM«Dfdoifmri||d^ eafiil!|^a con^ 



tn a villa, mudou'de projecto, e mandou atacar 
a nossa estancia, que chamavao de Joao de Aguiar, 
mas 0a(y tiverao mellior fortuna que Ba precedente 
tentatiTa. Ao romper do dia acertdrao a passar por 
aqnella parte os tiossoe descobridores do campo ; 
seacirao as emboscadas do inhnigo, toc^rao arma ; 
en¥io-«se na estancia o rebate; a eHe saiVao com 
incrivel presteza os capitaes Antonio BorgcsUchoa, 
e Francisco d'Abneu Lisboa com as siras compa- 
nhias; poucos em numero, mas tantos raais ih> 
aiiimo J que de cara a cara envestirao o Holiandez, 
e Ibe detiverao a marcha al6 que se incorporou 
com elies o Camarao com a gente de sua estancia^ 
ehamada Giquia. — Ja neste tempo se applicava o 
Flamengo mais ao reparo que i offensa, porem 
susientava o peso da bataiha com valor e fiircna. 
Cbegarao outros capitaes, que comecfarao a picar o 
esquadrao inimigo de lado, e Ihe mandarao tocar 
arma pela retaguarda , com que desatinado o Hoi- 
landez, perdeo animo, e comecou a retirar-se em 
ordem; forao os nossos seguindo-o, fizerao aito 
onde podiao chegar as balas. Chegou entrelanto 
Joao Fernandes Vieira com os mais govemadores , 
e nao podenA^ soflrer que os Hollahdezes , prote- 
gidos pela sua artiUiaria , injuriassem os nossos 
como oom efFeito faziao, disse, que a artilharia do 
inimigo eia espanla-velhacos, ^ valhacowto de ti- 
midos ; queee castigasse a fantastica confianca d'a- 
qaellea Flamengos atrcvidos. Mandou que se avan- 
caase de corrida, em iR>rma prdongada, porque as 
baks 05 nao podessem buscar com pontam certa ; 
d^o €6 nosBos a primeira carga , e com ^ espddu 



652 GASTRIOTO lUSlTANO* 

na mao inveslirao o inimigo, o qual primeiro fe- 
rido do espanto que do ferro« com tumultx) e des* 
ordem se lancou a cava dc sua fortaleza , sem que 
o confuso trope! da fuga reparasse nos muiios que 
na agua da cava bebiao a morte. Yirao os nossos 
que nada mais podiao obter^ volUrao espalhados e 
de corrida , sem dano algum , deixando os Hollan- 
dezes no assombro. 

VI. Gonvencido Sisgismundo que nada podia con- 
seguir pela forca, determinou mudar de meios em- 
pegrando a arte. Em 1 5 de Agosto saio pela meia 
noite do Arrecife com toda a gente que tinha, pas- 
sou o vao dos AQbgados ^ e fez alto no paco que 
chamao de Francisco Barreiros ^ a meia legoa da 
nossa estancia da Barreta^ em que assistia por fron- 
teifo o capilao Francisco Lopes. FortiGcou-se o 
inimigo^ cobrioTS^s^ plantou artilharia , com deter- 
minacao de sustentar o posio. Logo que nossas sen- 
iinellas o avistdrao, derao rebate, e se recolhcrao a 
casa forte da estancia. Amanheceo o dia, e nao 
appareceo o inimigo , que se tinha escondido em 
diversas emboscadas para melhor surprender os 
nossos. Conheceo o nosso capilao o estratagema : 
mandou trinta soldados a descobrircampo; o que 
fizerao ouzada e ditosamente j porque conseguirao 
conhecer a forca e intento do inimigo sem perigo. 
Com as noticias que derao mandou o capitao istviso 
ao Arraial, donde Ihe mand^rao sem detenca qua- 
troceutos soldados de soccorro. Chegou este a nossa 
estancia, onde enganado da cautella do inimigo 
se voltou para o Arraial ; tendo . para si o cabo 
(cujo nome nao soubemos) que sua ten^ao nao pas* 



©ISTRIOTO LUSITANO. 458 

sava da fortifieacao qtie se levantava. Vendo isto o 
Hollandez, mandou dous mil soldados com duas pe- 
cas de campanha, que fossem assaltar a casa forte de 
nossa estancia, certo na victoria que Ihe assegurava 
o poder ; por^m acharao os Flamengos tao dura 
resistencia , em lao desigual partido , que se apar* 
t&TBo do combale com manifesto damno. — Reti- 
r^rao-se pela praia at^ junto ao mar, onde forma- 
dos estiverao toda a noite com demonstracao de 
segunda envestida, para encobrirem com similhante 
apparencia nova e diversa faocao. Tinhao mandado 
uma companhia ao engenho de Sao Bertholomeo a 
saquear^etomar lingua; tudo conseguirao, e trouxe- 
rao presos o senhor do engenho, Fernao do Valle, 
e Francisco Bezerra, que se hospedava em sua casa, 
e que depois no Arrecife primeiro o buscou a morte 
que a liberdade. Vendo os no.«sos governadores 
quanto esiava expostaaestanciada Barreta, derao 
ordem para que se abandonasse, e que a genie se 
reti rasse para os Guararapes , onde levantassem 
uma fortifieacao, que servisse de seguro aos nosso» 
e de freio aos inimigos. Gonfiado o Holtandcz pelo 
successo que alcancira, saio do Arrecife em 11 de 
Setcmbro, e pela praia do mar tomou o caminho 
da Jangada, quafro legoas da Barreta. Ao romper 
da man ha deo sobre a povoacao, que estava des- 
apercebida por descuido ou ma vontade de seu ca- 
pita© Francisco Lopes; saqueou o que quiz, des- 
Iruio o que achou, e so Ihe fugirao das maos 
algnns soldados de cavallo, que desmontados se 
Salvarao n'um batel, ainda que perseguidos das 
biilas ate ao idlimo alcancc. 



4S4 CA9XUlQ1iO WSnCAW^ 

VII. Deo«seieQtreuu]Llorc^LeiK>AiTaial|acodio<> 
.capiiaoFr;)iiciscoLope9,nia&jatArdb;priHH(ir9chc)- 
gou Caoiarao^ o qual dep upia carga. no. iaipoigo 
tanto a tempo que cairao xuortos quator^o UoUaxH 
dezrs. Foi augraentando q e$liBgo, e com oesiraQO 
a perda do iniimgo^ o qual caiice)>eo tal receio^ qu« 
buscando a salvacao ua fugg, fbilar^^aoido a& armaS) 
e o roubo per aligeirar a passa. — Qaem maiaqoe 
todos se julgou perdid^o foi o seu general : Sisgis* 
iQundo. Gomo soldada media o lempo pela distancia 
do Arraialy e tamia que o alcai^^as^e o soccorrO) 
certo que doa seus nao ilcaria pe^soa com vida* 
Fromelteo grandes premios a quein ppssesse era 
salvo 6ua pe$soa^porque Ihe.faltaya aagilidade com 
que OS seus sem ordem alguxaa corriap a nsietter-^ 
na Barrela,.2it^ que denlro de sua foiruiicacdo s^ 
vio fora de risco, m^s nao do inedo4 Assim q»ie 
entrou na fortalej^^:, sobio ao alto d'ella> e olliando 
|>ara o h\gar do cpnfUcto, vio que o mestre de 
canapo, Audrd Vftlal Ihe.viuha i|o e^calce com uma 
grossa partida de soldado^ ^ e disse para os seus : 
c( De boa esca|)amos. >) . 

VIIL Vttodo Sisgitsmundo que por ter^^a nao era 
feliz, quiz tentar fprtuna por mai\ Ordehou ao seu 
sargento ms^ipr, que se chainava Andrezpn^ que 
com uma esquadra de ndos. de ^uerra, e muitae 
boa infaataria , fpsse sobi^e a povoagao dp lUo de 
Sao Francisco, e uj^Ua e todo seu destricto assolasse 
tudp o que yissevcom vida e com prestimo^ rcco* 
Jhendo todos os mantimentos do roubo ^ e cba- 
m^ndo a si tpdos o& gadoa da campapha. Saip An- 
drezon do Arrecife ; tomou a, Barra^ os primeifos 



dia3 de Qutiibrp. — Ao rebate que 4^^ »«m vista se 

reU^iLraq lodo$ os aiorddore^.cQ^lu4o,qu^|)pU^ 
lao levar pa):a a, QuUa p^t(& da rio^ wda.e6tava:9 
mostjre de pawipo Fr^jipisco R^^ellQ i?i^il) a^^ twcp 
em delw^ dp. tarjooa dOr J|ahia,: xmfM^ pd^ g<»T 
verimdor g^alda EstAdp A'utopio T^lje^da Siiv*. 
A todos jrecoUieo, e agazs^lbo^; e em. wa 4«fi3t>S4 
atacou vQj:^ce<>o.Aodrew>u:.vicloria^ p(jla quaj 
cou3eguio ficar sanbor da. /campai>ba j e flQ9 g^id^ 
d'dU^^ da quedi^pp^ com m^i» tjriu4R^pbo qua p^i- 
dad^^ parq^ f ^ux atiexidf^r 4 fom^ do, Arraial; p Qf 
xramdon. cpnd^ur para a farturai da BaJt^ig, - 
. jpL £ka quaato Audrefou soffi:ia este x^v^^ tea*- 
tpu SisgUxauudx) mais i^ma vez a sQne,4asjMroi^#> 
^un)a,,xu>fte ie»cui*a di^ OutyJ>ro saio cow^ U).4p $«i^ 
poderj.a com desi^pio de gauhar e fpriiakc^x u» 
pg^to erUr^ a Y^la de IgMaragu e a Uha: de Itai^ar 
ta/[;4 C^tio impurtatttc paiaabrir o a§St«g«i59i^ o gaf 
minbojj)Qr oade desqava sair a ^ouqui^t^r a cja^i^r 
paiiJba). F^i 3£nXido da^ ftossas vigia^^y.pw^ t^ 
fo^^ de impo que o acbou foxtifioacjo f^ qobe^to, 
ajdiligmcia copa que oa capilaes Fraprcisco Barreii'p^ 
^.o^t^•o^acudimaaQ rebatie, wpj a ge^t^de^iw 
obed4e»ciar ISa desiguaUad^ do partido,^ ylo a dp 
valor com que os pos^o$ ir^vestiraQ a f^iip, de^r 
]>ertQ| e com pa inioiigos se defeaderio^oUruicbic^ 
radpis e , fovorecido? d>lguma artiJJiafja q^^ j4 
iiftl^ a^^estada^ A inuuUdade da per% sysp^^ 
4eo choqw^ com igual perda ^ iasew^iiv^i para P 
ittimigo^ pelo iaieres«»e d^ fjcsf oqij^ o ppetot cj^- 
t^a para.p^ uqssqs^ obri^adQ^ a %^er-lb<9 pypp- 



lU GASTRIOTO LUSITARO. 

X. Com o soccelBso referido se appKcou Sisgis- 
mundo ao apresto de sua armada ;nao estavao 
entretanto inactivos os nossos goternadores. No 
i • de Noveiabro marchou o mestre de campo An- 
dre Vidal de Negreiros para a campanha da Paraiba, 
A razao de nossas armas buscarem nest a parte seu 
emprego era pela grande copia de gados que o 
inimigo apasceatava naquelle destricto , desempa- 
rado dos moradores; e pela nolicia de que a som- 
bra de suas fortalezas se alojavao mais de trezentos 
IndioSy seus auxiliares. Ghegou o mestre de campo 
com deliberacao de assaltar os Indios , antes que a 
nolicia de sua vinda os acaulellasse ; por^m vio-se 
encontrado do parecer dos seus ; e posto que ao 
depois concordassem na determinacao, j& nao pode 
p6i>se em obra, porque os Indios se recolhirao 4s 
pra9as do inimigo com todos os gados que pod^rao 
levar. Mandou Andre Vidal fazer o damno possivel 
em toda a capitania ; e mais queixoso dos seus que 
dos contrarios , se retirou para o Arra ial com al- 
guns captivos ; unico fructo d'esta Jornada. — De- 
sejando o mestre de campo restaurar o credilo que 
cria algum tanto perdido , assentou comsigo com- 
metter a forca que o Hollandez tinha na Barrfta. 
Communicou o pensamento a Joao Fernandes 
Tieira, o qua! ao principio o teve por arduo ; mas 
depois con veio neUe , e at^ deo o piano para o 
ataque. TSm 2 de Janeiro de 1647 saio Andre 
Vidal de Negreiros do nosso Arraial com mil in- 
fantes, duas pecas d'artilharia, cestoes, pas, e mais 
pertrechos neeessarios para as cavalgar ; o que fez 
nas ruinas da casa forte , que os nossos arrazirao 



quando se partirao daquella estancia para osGu»- 
rampes; A'pnineiFa iuz da manha se comecou a 
bataria da nossa parte , a que a arlilharia do inin^ 
migo nao respondeo senao as dez boras da manhtv 
por estar desinontada ; porim , sendo de mmer 
calibre e mais bem servida que a nossa^ nao linhM 
OS nossos Jugar seguro senao nas cavas. Camarii^ 
com sua gente trabalhava por levar a cava a dear* 
eihbocar na porta da forCaleza ; mas nao o pode 
eonseguir por encontrar tanta agua que eobria es 
joelhos do8 scddados.-^ Assim como o general bo^» 
landez teve rebate do perigo em que estavaa os sens^ 
despedio soccorro mais apressado que opportuno^ 
imaginando que se poderia introduzir na forlaleza 
pela ilheta doCbeira Dinheiro, a onde achou a op«* 
posicao que Andre Vidal Ihe linha prevenido> e 
com o aviso engrossado , de sorte que o Flamengo 
nao so teve contra si a resistencia , senao tambem 
a envestida , que o fez retirar e fugir , a busc»r 
outro caminho. Intentou meiter o soccorro per 
•mar, mandando dobrado poder em lanchas ; por^m 
nao Ihe suecedeo como imaginara^ porque a nossa 
artilharia os fez aparlar da fortaleza. Poi^m no 
baixamar desembarcarao a gente nos arrecifes; 
apezar de que os nossos os aiacarao com repetidas 
cargas^ e fizerao n'elles bastante eslrago, conse- 
guiiio com tudo acolher-se aos muros da forlalezav 
e de la forao subidos por cordas com a brevidade 
que Ihes facititou o medo e o perigo. — Persistio o 
Flamengo em mandar novo soccorro aos sens em 
dous pataxos. Forao estes acossados de nossa arli- 
lharia, etiverao grandes avarias ; mas fcirao reform 



eadds de mtps oho aatios bem gonm^os: e |^. 
Irechftdos , oom intento d/ti coaftBgmiieAi at Mo o 
€usto a introihiccao dp 9occam)! ; o ^Qiristo pdo 
mesire de eaunpb^ doDsidenoH qiie bm pc4tf it im^ 
pedir a entrada daaoooo^ro; e ooMidarando que ao 
outro dia elle^ serta tambem. ntwaAxpor terra ^ se 
delibepou isoa peiiror a tenif)0 que-Sta^nBando Ihe 
podease corlar neib paasa, Mm o crediio^ qua se 
ganha nas petijradaa be«i suoeedidaa. A' primein 
noite reiiioui todo o trem d'iuriilbarta,t oiw todos 
OS petrocbos; e mm Ifae ficar niati fiacpitoa naala- 
ml ^ cefXMDi^ dtixou 4> $iuo> seguindo a maidta de 
sua gea^e com tal soeeg^ e^ndeon, que o liio dMr 
goa a aaapeitar o inimigo* Cuatou>rno$ omtMs^to 
noveinortosevmtequalro reridas.! peqitcttoriaouip 
€q[i leompanacibo do que recebeo d iiAn^gc^. 

XL No in«z de F^veteiro saio^ o ^menk Iiollaiir 
dez pela bai'ra do Arrecif^ opib toda wa acmaday e 
nalld toda a flor de aim ioLfantaria:; n^aninaaiilDS, 
miint^des « peir^hoa, nm $0 ptr^ ttma larga ria^ 
^^m senao tamb«iii paia uma4ilafada campaafaa* 
Mandoa yekjar para o Eu> de3ap Fita»Qi«C0|a (mde 
tomou ptirto e vela$ , sem aair a lierif«» A«hM cfe 
verga d'alto l^orno^ida^ e preparadi^ 4bdaii a» Jaa^ 
de g^erra d'aqueJla e$qua(ka^ wm quedoi Arrecife 
aaiia o Aadre2on» cow o m^thor de aim mbiB^i^ 
g^am^cidas da tuido jc)ac«$a^^. £rao e^ta» oa^ 
TIM. a melhor poi?^ de i^ua aMn«da^^ e a t^^*^ 
preatoa. liUqu^Ue porU) o maii^r a^gMdo^d^ Mu ia^ 
tentOiy porquQ a^ aaira do Att^f^^/W» podv 
jimiQy por dk Jia havia dfi au^^iar a tmpvQ«^^ ^ 
qual podia diMPr wMito a mtmp9if^ ida v^ciN* 



Saio daquelle rio., mandaudo que se em|>roasse a. 
altura da Bahia ; viagem que havemos de seguir^ 
por nao cortarypos duas vezes o .po da histom-, e 
no dm da Jornada se dara cpnU. do qxt» j^uccedeo 
em Fernambuco o tempo que d^ro^aqueUa-.m- 
presa. — Gm que Sisg;ismuii4o.leYava. uesta ex- 
pedi^ao era tomar a pra^a, ou pelo ipeaos divertir 
OS soccorros que da Bahia podi^o yir aPernambuco^ 
Avistou a Bahia, entraudo sua armada pelaeuse^d*! 
d^ella com formidavel uiostra de aeu .poder j tal « 
^ue enchia os olhos d'espanto e as ouvidos de pftr 
vor, com as armas pinladas nas bandeiras^ e com 
o estrondo das s^alvas : mas tambem com alvoroco 
dos soldados, que confiados na fprtiQcacao, no pre- 
sidio da cidade, e ua egperaji9a da victoria de&prer 
zavao o poder. Ou por aviso, ou por inferencia 
conheceo o Ilollandez a disposicao dos nos«os , e 
nao se atrevendo a atacar a cidade, tomau terra a 
tres legoas de distaueiai n'um sitio chamado Tapa« 
rica, convidado d'um posto^ a onde, leyaAtp.u uo>«^ 
forca, capaz de alojjamento para os $oldadps, e d^ 
muita e boa artilharia para a defensa. Em circula 
do forte fabricou quatro reductos em tal loFma quQ 
occupavao as eminencias , d'oude a fortaleza podia 
receber. damno ; e dos vasos de at^a armada fea 
um cordao pela parte do inar^ que Ibe servia de 
muro. Nao deixou o inimigo em tpdo o contorno en- 
genho y nem faze^da que nao rou^asse e destruis^ j; 
nem por toda a costa embarca^ao que uao perse- 
guisse^ ou tomasse, com o que, ao passo que na 
cidade crescia o numero dos retirados, crescia 
tambem ,a falta dos mantimentos ; e eool^ecim.eQlq 



A«0 GASTRIOTO LUSITANO. 

da desattencao^ que deo causa a tao perniciosos 
effeilos. 

XII. governador g^ral do Estado Antonio 
Tclles da SiUa j em cujo animo (eria alguma yet 
parte a temeridade , por^m nunca o medo , insti- 
gado agora da reputacao e da magoa, se determinou 
em desalqjar a todo o risco o Flamengo, insofirivel 
pela vizinhanca , pela detenca e pelas insolencias. 
Para justificar seu inlenio mandou chamar os mes- 
tres de campo Francisco Rebello, Joao de Araujo, 
Theodozio Estrater, e ao sargento maior Assensoda 
Silva, aos quaes declarou a iresolucao em que estava, 
poderando-lhes com energia e nobres sentimentos 
as razoes que o determinavao a assim obrar. 
mestre de campo Francisco Rebello , fallando como 
conselheiro prudente e como soldado experimen- 
tado, foi de parecer diverso do governador, e allegou 
fortes razoes para confirmar o seu dito. Ouvio o 
governador o discurso do Rebellinho , e conside- 
rando que os mais cabos haviao de seguir sen pa- 
recer, atalhou a conferencia, confirmando-se em 
seu primeiro intento, do qual se seguirao irrepa- 
raveis damnos. Poz o governador os ollios no Re- 
bellinho , a quem encaminhava a pialica, edisse 
que se naquetle congresso havia quem bu5cava 
desvios para fugir ao cheque , que se ficasse em 
casa , e nao qiiizesse desviar a empreza ; que as 
mais difficultosas erao as qne apeteciao os con»c6es 
grandes, equesd em veneer os inconvenientescon- 
sislia o veneer ; e porqiie conhecia bem os aniroos 
dos que tmha presentes, Ihes nao queria dilaUir a 
occasiffo da victoria ; que ao outro dia sc havia de 



GASTUOTO LDSTTANa ^ 661 

dar o assalto ; e que se a fortaleza se ganhasse ^ 
seria de todos a gloria , e quando -se nao conse* 
guisse, so a elle se havia de por a culpa. Frometieo 
a quern Ihe apresentasse a cabeca de Sisgismiiudo 
premio da fazenda real, e gratifica9ao da sua. £n« 
tendendo o mestre de campo Francisco Rebello de 
que sobre seu parecer caia a censura , respondeo 
que numa tem^ra HoUandezes quern como elle cou- 
lava as victorias pelas occasioes; por^m que apon*- 
tava OS inconveiiientes da impreza, e as conse- 
quencias d'uma e d'outra fortuna ; para que sua 
senhoria escolbesse , se convinba mais ao Estado 
veucer sem perda, ou perder sem fructo. Mas 
supposto que seu zelo e sua experiencia se avaiia* 
vao por fraqueza, saberia mostrar que nao poupava 
a vida quern nao temia a morte; e que o successo 
diria o como sabia morrer por saber aconselbar. 

XIIL InQammado nos estimulos da bonra, e 
certo nos perigos da vida, saio o Rebellinho da 
junta y e sem demora partio para a fronteira com 
OS mais cabos, que se acbavao na conferencia, re- 
solutos todos em servirem a temeridade por nap 
faltarem a obediencia. Escolherao mil e duzentos 
soldados, e com elles ao romper da manba seguinte 
avan^arao a fortaleza inimiga, que os recebeo com 
nuvens de balas , por entre as quaes rompSrao as 
palissadas , e subirao as trincheiras , buscando os 
golpes do ferro dentro dos incendios do fogo , tao 
alvorocados e destemidos , que o Flamengo occu- 
pado do assombro , desconheceo os afTectos da in- 
veja, Mao era menor o valor com que o inimigo se 
defendia J ajudando^se da for^a , da industria e da 



£€3 ^ l&ftMUDfb LVSnKBfOi, 

I 

desesperacao. A cerracao do fuTno, o estrondo dos 
tiros, o eco dos golpes , o assohiar das balas, o 
geinep dos fetidos, o bradar dos cabos, o agonizar 
dos rnoribundos, enchiao de horror o combate, com 
ignal lastima, porqne com igual perda. Os nossos 
soldados mais cegos, como mais empenhados, nao 
sabiao advertir senao em como se baviao de adian- 
tar ; porem a fortiina , ou invejosa do esforco, ou 
lastimada do estrago encaminhou um pelouro aos 
peitos do mestre de campo RebeHinho , que Ihe 
tirou a vida , e deo fim a batalha , porque a um 
mesmo tempo caio sen corpo desanimado , e ficou 
o da nossa gente \ encido. Os mesmos qne no corn- 
bate o nao perdiao de vista, bebcndo em sen exem- 
plo espiritos para a imitacao , vendo-o defuiicto , 
entre outra multidao de corpos mortos , recebSrao 
conselho para a retirada, que pos^rao em execucao 
com tamaiiba dor como risco ; era este d'innume- 
raveis balas que os segniao ; era aquelia por ser 
terror dos inrmigos o cabo que deixavao morto.— 
Perdemos neste assalto quinhentos para seiscenlos 
homens : damno que servio de medida ao desatino. 
Nao bastou qne sua fama os cdroasse de humana glo- 
ria, para que sua falta deixasse de causar a todos in- 
tensapena. Os companheiros os choravao saudosos, 
OS do povo timidos, o goverriador confuso, e todos 
arrependidos, ainda t|ne nao todos cufpados. Para 
fazer a perda feimentavel sobejava a do mestre de 
campo Francisco RebeHo , cajo nome com o dimi- 
mairvo d« RebeMinho , foi em todo tempo mercce- 
dor de sua fama e de mcBtor fortuna. Era sen raloi' 
igual a sm md«i<straa ^ ^ stia discipfint msiior qtie 



cmnmm uramano; 46S 

sua indilttria eifae seu y»lor« Em sua gineta &cha-> 
vao Msotdados muco, e em sua espada Ucao : de- 
fendia eoatnandoi ^ enSinava feriado : em fim, que 
foi para nossas armas irreparavel a perda d'este 
varaoy porqoe $e conlentou aqiiella idade com dar 
um s^ ikbeiliiiliio. A inorte de Antooio Goncalves 
Ti^ai^, e d'outros eapiiaes e officiaes fez entao roais 
sensivel o damuo , € agora a magoa de se esconde- 
rem aeufi ciomea debaixo da terra^ que cobria seus 
corpo6« Saio ferido o sai^ento maior A^enso da 
Silva, com outros muiios odiciaes e soldados, se- 
Dielhanies na gloria , dlsgemelbantes na sorte. 

XIV* Gbegara aviso a Portugal do aperto em 
que se achava a Babia , ao mesmo tempo que de 
HoUanda se escrevia preparar-se nova frota para se 
mandar ao Brazil. Prompto em appUcar remedio a 
tao graade mal nomeou o Seuhor Dom Joao lY para 
general de mar ao eooide de Villa Pouca Antonio 
Telles da Silva; coosignou-lhe cabos, gente, muni- 
coes e VS303, de que se compoz umagrossa armada 
para ir desalojar a Sisgismundo, — Voou a nova 
ao Arrecife ; suspeitarao os do gov^rno em sua ca- 
beca o goipe , e mais certos no temor que na espe* 
raoca despacfaarao um ccurreio a Habia^ ordenando 
a SiBgismuado levasae £erro e navegasse; p9i:;a Per- 
]iambucx>^ porque a diviaao doppder nao occasio-- 
nasse a perdiQao d^ todos. Con formo u-se o aviso 
com o iiesil^ 4o general hollandez, e sem dilacao 
eiftbarcau a ariilharia ^ poz fogo aos quanteis , re- 
colheo ag^ritei largcru panno^ e tomou a derrota 
de P4^|^naaa^^ca| a oade i'hegou no fim do anno dt 
4047^ tae qcMrcido cotiaodeUeaaira ulano. Em seu 



recebimenlo tcve mais parte o luto que o alvoroco, 
porque se recebiao os vivos que chegavao com as 
iagrimas com que os oihos choravao os morion que 
nao viao. Este foi (brevemente relatado) o succes?o 
da Jornada que Sisgismundo fez a Bahia (como 
alheio do nosso assumpto ) ; agora diremos o que 
passou na campanha de Pernambuco o tempo que 
clella nos apartou a viagem, estada e volta. 

XV, Entrelanto que Sisgismundo ia com a sua 
armada sobre a Bahia, chegou da Paraiba aviso de 
<jue o Holiandez se occupava em grangear e plantar 
canna, cultivando aquelles cannaveaes que impe- 
43idos da chuva nao acabou de consummir o fogo, 
quando os moradores se retirarao; e que a gran- 
gearia ia em augment© muito consideravel , e que 
<^tavao em vesperas de lancar a mofir o engenho 
de Cunhaii ( dezoito legoas da Paraiba ). Convinha 
a perseverenca e reputacao de nossas armas corlar 
de um goipe a posse e a esperanca do inimigo ; para 
o que saio de nosso Arraial em 1 6 de Maio o sar- 
gento maior Antonio Dias Gardozo com trezenlos 
irinta e sete homens. Assim como entrou na- 
quella capitauia despedio ao capitao Gosme do 
Rego BaiTOS com cento e sessenfa soldados, e ordem 
queassaltasse e destruisse o engenho de Gunhau, 
e todo seu destriblo. inimigo, que se tinha forti- 
ficado, fez porfiada resistendiaaos nossos que prc' 
tendiao tomar o engenho ; mas isto nao iinpedio 
que Ihe largassem fogo, o qual abrazou o engeiiho 
com todos OS materiaes da fabrica e do lucro ; tal- 
larao a campanha ; e com duzentos hois e muitos 
escravos se voltarao , para onde os esperava o seu 



CASTRIOTO LUSITANa A65 

eaba o tet&po que pelas ouiras partes tinha ja tudo 
consummido o ferro e o fogo com similhante es^ 
trago. Encorporados derao volta para o Arraial , 
em o qual.entr^rao com duzentos prisioneiros , a 
maior parte escravos foragidos, e algumas mulheres 
estragadas, que vi viao entrc os Hollandezes e Indios ; 
e per cima de trezentas cabecas de gado vaecum : 
soccorro para todos opportuno, e para os soldados 
grato. 

XVI. Era o Rio de Sao Francisco o curral d'onde 
se conduziao as carnes para sustentacao do nosso 
Arraial ; e por isfso logo que elle foi senhoreado pelo 
inimigo comecou a sentir*se falta , assim pelo gado 
.que recolhia para si e para o Arrecife, como tam-* 
bem pelo que os moradores retiravao para a parte 
daBahia. governador Joao Fernandes Vieira, 
sobre cujos hombros carregava a falta e a queixa, 
acttdio a reoiedear a fome , com mandar vir todos 
OS gados, que tinha pelas matas de suas fazendas^ 
de que se foi dando racao aos soldados. A seu 
exemplo acudirao todos os moradores do reconcavo 
com OS soccorros que podiao, com o que cessou a 
queixa, porem nao a fome , pelo que preciso foi re- • 
correr a outro expediente. Conferirao os governa- 
dores Joao Fernandes Vieira, e Andre Vidal de Ne- 
greiros como se poderia acudir a fome; de sorte que 
Ihes nao faltasse a brevidade do remedio ; e assen* 
t^rao que se buscasse no mar^ em quanto faltasse 
na terra. Pass^rao ordem que todos os pescadores 
se obrigassem a pescar naquelles mares que se- 
nhoreavao nossas fortalezas , com o seguro de os 
guardaremefavorecerem nossas armas. Executou* 
L SO 



M6 GunoMno LraEmaa 

sb assim ; dava^e a infaAtam ra^p d^ peixe^ que 
satisfez, em quanto o mestre de campo Aiidi^ 
Vidal de Negreiros nao puuha em esmwfi6 a pro^- 
messa de conduzir gado9 , a todo o risco , para o 
austento do exercito. 

XYII. Avisou-se que no Geari Morim^ lugar 
situado muito acima do Rio Graade para o norte^ 
paistava copiosa multidao de gados« Resolveo-se o 
mestre de campo Andr^ Vidal de Negreiros em of- 
£brecer sua pessoa para viagelu e oondnc^ao tao 
dii&cultosa. Aprestado de tudo o, que Ihe pareceo 
necessario para a Jornada j partio do Arraial eiH 
34 de Agosto com oito centos infantes e noV^nU 
€ayaUo8. Yencidas as difficuldade^ do cttminho e 
do tempo , entrou na capitania do Rio Grande , 
tallando e destruindo tuck) o que pode alcati9&r o 
ferro e o fogo, em quanto nao.toltava do Ceara 
Morim o oapitao Joao Barboza Pinto ^ que pdr seu 
pahdado fora conduzir os gados d'aquella parte* 
Chegou com ob que pode ajuutar^ e encorporadas 
as partidas e o poder marchou o mdstre de campo 
para o Arraial com setenta cabecas , muitas mu*' 
iheres, que libertou da for9a e da injuria ^ e nao 
poucos moradores que buscarao o abrigo de nossas 
arma$> para fugircim a seu aalyo da tyrannia hol- 
landes^. — Nao se descuidou o Flamengo de apro- 
veitar a occasiao que Ihe dava o tempo. Teve ariso 
da Jornada do mestre de campo; considerou nosda 
resistencia enfraquecida ^ e por conseguinte seu 
partido avantajado ; provou a sorte em algumas 
assaltadas , que fez a differentes estancias nossas; 
e de todas voUou castigado. Nao deixava com tudo 



GASTRIOTO iQSITA!ia Aft? 

de no^ custar martos e feridos a resistencia ; e por 
impedir a conttnuacao do damno, ordenou o gover*^ 
nador Joao Femandes Vieira que todas as noitea 
se tocasse arma pelas fortalezaa do inimig^ ; o que 
se executou com tal ardor^ que pelas boras contavs^ 
08 rebates , com que se via obrigado a passdUaa 
todas com as armas na mao. Em quanto durava 
o dia OS trazia nao menos inquietos, mandando- 
Ihes armar cilladas, em que ordinariamente caiao^ 
ou perdendo a vida ou a liberdade , e juatamente 
a lembranca e o atrevimento de virem atacar nos-i 
sa^ estancias. 

XyilL Era pratica corrente entre amigos e ini« 
migos que no porto de Lisboa estava uma armada 
para fazer viagem ao Brazil em soccorro de Per^ 
nambuco : nova que d'uma e d'outra parte fazia 
crer o desejo do remedio, e o temor do castigo. Oa 
nossos governadoresy como mais empenhados, erao 
OS mais credulos ; fundavao a certeza na justica e 
na razao com que deviao ser soccorridos de um 
principe , a quem serviao desinteressados e fieis ; 
obrigado por conveniencia a estimar a vida dos sub- 
ditos, que por sen servico as arriscavao constantes, 
atropellando*pelo defraudo de familias e fazendas , 
por restituirem a seu legitimo senhor o dominie 
e as terras usurpadas. A alegria com que se ouviao 
e davao as novas Ihes tiravao toda a duvida y e as* 
sim era tamanbo o alvoroco em toda a nossa gente, 
que discorriao , e dispunhao o cerco , o assalto , a 
victoria e o triumpbo ; conferindo as conveniens 
cias de se combater primeiro esta ou aquella forca, 
esperando na reparticao dos despojos nao a sorte. 



468 GASTRIOTO LUSITANO* 

senao a escolha. Com diverse pensamento entravao 
08 nossos governadores em negocio tao importante ; 
parecia-lhes que em breve tempo chegaria a frota 
esperada a combater o Arrecife pela parte do mar, 
e que neceesariamente se havia de fazer o mesmo 
pela de terra , e desejavao que as prevencoes se 
adiantassem aoccasiao. 

XIX. Vizinho da povoacao de Santo Aatonio , 
ou cidade Mauricea (como Ihe deo por nome a vai- 
dade e a lisonja ) ha um sitio^ a que os naturaes 
chamao a Seca ; a este tal divide da campanha um 
rio, nao muito largo, nem muito fundo : a bala d'um 
mosquete o passa de ribeira a ribeira , e na baixa- 
mar se passa com agoa pelo joelho. No dito posto 
tinha o inimigo a fortaleza que, tomando o nome 
do sitio^ se dizia Seca. Com ella defendia de nossa 
opposicaonaos6 a cidade, senao tambem o Arrecife, 
por ficarem descobertas uma e outra povoacao a 
. qualquer batarra , que da nossa parte se Ihe qui- 
zesse por : razoes que persuadirao aos nossos mes- 
tres de campo Joao Fernandes e Andr^ Vidal a en- 
trarem em pensamento de levantarem uma forca, 
d'onde varejassem a sobredita fortaleza , e pracas 
do inimigo. Resolutos no intento, conferirao entre 
si o tempo, o modo e a parte ; e preparados os 
materiaes e instrumentos necessarios, sairao do 
Arraial no 1** d'Outubro, deixando nelle a compe- 
tente guarni^ao as ordens do caipitao Albuquerque; 
marcharao com a gente a estancia de Henrique 
Dias, communicarao-lhe a tencao; approvou o 
intento. Escolhida a paragem , derao principio a 
obra , e os governadores ao exemplo^ sendo os pri- 



CASTRIOTO LUSITAMO. ^69 

meiros que peg^rao nas enxadas ; a cuja imilacao 
o fizerao todos os ofBciaes e soldados Lao soFregos 
do trabalhoy que de nenhuma sorte quizerao ad- 
ffiittir a companhia dos escravos^ que os morado-* 
res offereciao para ajudarem no que fosse necessa- 
rio. silencio com que se obrava era tao dbservado» 
que nem voz^ nem golpe ouvio o inimigo^ em todo 
o lempo que durou o trabaiho ; e para que. o Fla- 
mengo nao podesse Ter o edificio, que sobresaia 
por cima do arvoredo , o cobriao os nossos todas 
as mauhas de ramos frescos : artiQcio com que des- 
mentirao os olbos mais atientos , de sorte que por 
nenhum dos sentidos pode o Hollandez formar a 
menor suspeita da fabrica , sendo tanta sua vizi- 
nhanca^ que entre os nossos se percebiao as pr^ti- 
cas de suas vigias. Em 30 de Outubro estava a for- 
taleza posta em sua ultima perfeicao, com todos 
os reparos, cava espacosa e funda^ que encbia 
d'agoa o mesmo rio que se interpuuhai e apartava 
a nossa da contraria ; estacadas, trincheiras, plata* 
formas, em que jogavao muitas e boas pe^as d'ar- 
tilharia , e tudo em tal f6rma , que se podia defen- 
der a loda a iavasao do inimigo por qualquer parte 
que o quizesse env^estir. -^ Na madrugada de 6 tie 
Novembro manddriio os nossos governadores quei- 
mar um patacho, que o HoUandez tinha no rio 
como atalaia de nossos movimentos. Fegou 6 fogo, 
e as labaredas do incendio servirao de luminarias k 
marcial alvprada, com que a nova fortaleza ao 
spm de caixas, trombetas e charamellas deo oS 
boos dias ao Flamengo com tres cargas cerradas 
d'artilhaij^ia e mpsquelaria^ que fas^iao mais horri- 



670 cianiioxo tusiTUio^ 

veis as vaias que o oonfuso grito dos soldados dava 
aos moradores da cidade e do Arrecife y que desa< 
tinadoa do «6trondo e do sobresalto buscaTao abrigo 
contra nossas balas. Foi tal o temor que este un^^ 
previftto sucoesso causou nib ^ no poro^ mas bos 
mesmos governadores e principaes oabos hdllan* 
dezes, que assentarao por ultima resoiucao despa- 
char unta Bamaca ao general Sisgismuodo, piatan- 
do-lhe o estado em que ficayao^ ea perdicao que 
temiao ; com ordatn que a toda a pressa nave* 
gasse em seu soccorro , antes que chegasse a ar- 
mada portugueza, que por horas ee esperava, e que 
o successo referido os advertia , que nito tandamo 
mais tempo em se renderem aos oombates da terra 
do que tardassem os Portuguezea em os ca*car 
por marv C!onfessavao e arguiio o desattaado em) 
de arriscarem o oerto , por ganharem o coadn- 
gente. 

XX. Depois que a noasa fortaleza fai^eonstruida, 
nao deiisaTao os nossos de inquietar o inimigo com 
contimios assaltos , que se lomavao todos os dias 
mais atrevidos. Uma noite mandarao os nossos go- 
vemadores a dons cabos que com oem infantes 
escolhidos fossem asealtar o paco^ em que Tii^ra o 
conde de Nassau Joao Maurieio , eituado ]»a en* 
trada da cidade Mauricea^ edtticio Tisl^^so e de eas- 
tosa fabrica. Tinha de guarnicao duas eomipanhias 
de HoUandezes dentfo de boas trincheii^as ; segnro 
em que descancava «ua confianoa. €om destemido 
braco as romp4rao e ganhMo os noseos^ e com 
leve resistencia do presidio, que aos primeiros 
golpes fogio oom seuis oapitaes a mettei^se dentro 



, na cidade. Saqueaiio os nossos o paco , e com os 
despojos e iaaigaias dos officiaes, que nelle deixa- 
rao OS do presidio , se reiir^rao a nova fortaleza , 
sem recehejrem o menor damno das balas com que 
todas as fortalezas coutrarias os buscavao, Forao 
irecefaidos da todos comiestivo alvoro^o, que fazia 
mais appkudido a tumultuosa confusao e grita em 
que o medo tinha posto aos moradores da cidade e 
do Arrecife : tao certos em sua ultima ruiua , que 
a pre&umirao como se a experimratarao. 

XXL Coati&uarao da uossa parte os assaltos 
com 9 m«ama fortuua, e a bataria da nova fortaleza 
com o mesiBO effeilo , at^ os ultimos dias de Der 
zembro d^este preaente aimo, quando Sisgismundo 
4Qom toda a aua gentjs e armada tomou porto no 
Arrecife. Ouvio da boca de todos nossos progressos 
le aeus iiifortimioa ^ vio com espanU) a nosaa forta^ 
kza, e considerou com attend o como senhojpeaya 
« descobria tudo quanto suas fortificacoes guarda- 
^ao. Promietteo Sisgismuudo aos do eonaelho sijh 
premo qua dentro em tres dias havia de castigar 
OS Portoguezfis jcom suas mesmas armas, porque 
iganhada a fortateza, abrim porta seguro e franco 
para Ihes oonquistar a campanha. -^ dada dia 
•esp^ava a nossa fonca qmJSisgismundo com todo 
sen poder aenvestisse^ out por sitio^ ou por assalto. 
Era noloiria a todos a promessa, e a todos enganou 
a esf^rao^a. Nao se regulou sua altivcza pebs 
•preceilos . da experiencia : em nenhuma parte nos 
buscou a espada ^ que o cortasse ou o ferro ou o 
medo. Na margem do rio^ que se oppunha a nossa 
£ortaiea(«) mandcm levantar ^ma trtofihfsira^ o)im 



com que sa'io iima noile ajudado do escuro e de 
innumeraveis gastadores ; guameceo-a de grossa 
artilharia , e ^dos melhores soldados , com pensa- 
mento de nos destrair sem se arriscar. Mandou 
assestar alguns trabucos com que nos lancava bom- 
has e granadas, e nao despresou meio naihum 
para nos desalojar ; mas forao inuteis seus esforoos, 
porque nao s6 conserviimos a forialeza; mas 
deixando-lhe um bom presidio, se retirarao muito 
a seu salvo para o Arraial os nossos tercos, deixando 
ordem que se regalassem os tiros pela falta de 
polvora^ mas com tal artificio que o Flamengo naa^' 
inferisse a falta pela suspensao , fazendo-lhe en- 
tender, com as ordinartas cargas ao metter e tirar 
as companhias de guarda , que o nao atirar mais 
era escolha e nao preceito. 

XXII. Em aquelles dias, levados da esperanca 
e do desejo, sobiao os soldados e os m<H*adores is 
coroas dos montes , d'onde melhor descobriao os 
mares, para occuparem os olhos em buscar a ar- 
mada que vinha do reino , persuadidos do tempo 
e do aviso , que ou seria chegada ou estaria vi- 
zinha. Gada qual queria ser o annuncio de nofva 
t&o grata , e todos os primeiros ha dita de verem 
com seus olbos o soccoivo, a que fiavao sua re* 
dempcao. Entrou o anno de 1648, e com elleo 
desengano de que nao era chegado o fim de seus 
trabalhos , com a nova que logo se divulgou , de 
haver chegado a Bahia a frota esperada, com na- 
vegacao tao alheia de sua esperanca como apartada 
de seus olhos, porque, nem do Arrecife, nem das 
espias, que o inimigo trazia pelo mar para este 



fim f foi descoberta. Pela derrota inferiraa todos 
que aquelle poder era mandado a soccorrer a 
Bahia, e nao a remir a Pernambuco. Golpe foi este 
que a todos os soldados e moradores d aquellas 
capitanias penetrou o iutimo do coracao ; e po-^ 
dera acabar com o animo e fidelidade de todos » 
veodo cada um o pouco caso.que no reino se fazia 
de servi9os que jnereciao estar vivos na memoria 
e Ba estiina^o de todos. Por^m aquelle valor, e 
aquella coustancia apurada a golpes de infortunios 
e desprezos, tao fora esteve de fraquear na lealdade, 
que d'esta consideracao tomou motivo para se em- 
pregar com mais fervor nos servicos que so para 
seus bra90S guard ava o ceo o fim de tao profiada 
guer ra , e para sua cabeca a coroa de tamanha vic- 
toria y como aquella com que depois derao fim k 
empresa. 

XXIII • Tinha partido do Arraial para a cam- 
panha do Rio Grande, em 23 de Novembro de 
4647, o governador dos Minas Henrique Dias com 
seu ter^o e algumas oompanhias do terco do Ca- 
jiiarao ; e porque no principio de Janeiro de 1 648 
entrou naquella capitania, guardamos para este 
Jugar a n^arra^ao d'esta expedi9ao, como para 
seu proprio tempo. Partio pois Henrique Dias 
no tempo referido, com, a gente em que no Arraial 
se reparava menos , para que esoondida a falta se 
nao divulgasse o intento, e entrasse naquella cam- 
panha com o partido de ser primeiro descoberto 
pelo damno que pelas noticias. — Correo Henrique 
Dias destricto do Rio Grande metlendo tudo a 
ferro e a fogo. Avislou um sitio ^ que chamap as 



A7A GAszuoro LmnAMo* 

Guarairas , onde o inimigo sustentava uma casa 
Cbrie no eentfo d'uma lagoa lai^ « funda » dentro 
da quaU como em iifaa, 8e alojavao todoa 06 Indies 
e eaoravos que o Hollandez oeeupava nas ro^as e 
lavouras daquelle terpeno ; e se reoolhiao os froo 
tos e OS roubos de quAse sustentavao, guardadose 
defenctidos de quareata HoUand^zes, que com mir 
Iros^oldados indios guarneeiao a foriificacao ; oons* 
lava d'esta de casa forte cercada de duas trincheiTas 
bem obmdaa. Depois de eftt^ortar aeus soldados 
com palavras de confianca e rosto soeegado, diasa^ 
Ihes o caminfao e o modo como baYiao de avancar 
e ganhar a forlificacao; e nao Ihes interpondo dii- 
vida entre o investir e Teneer^ os meCteo do assako. 
Lancarao-^e a agoa^ e com eila pela ointa acooii^- 
metterao a escala. Defead4rao-seoatioUandeze»com 
ardor favorecidos da vantagem do sitio ; maa na^ 
pod^rfto impedir que os nossoa tomafssem t^ra, e 
ganhassem a primeira trincbeira. Entre enta^t 
aegnnda se travou renhido combate; mas o furor 
dos nossos ievou o inimigo de veaoida-, e bem d^ 
pressa caio a segunda trincheira em suas maos; 
O cabo hollandez , vendo perdida toda a eaparanca, 
se metteo com ctnco oompanheiroa n'uma caooa, 
furtado ao6 c4hog dos seus, paraa^War as vidas. 
Eseatarao os noasas a ^^aa forte com iiia^vesi^ 
teneia , e lev&rao tudo ^ ponfta da espadat laao p^' 
doando a sexo nem a tdader Duron o couflt^^ 
desde a prima noite at6 pela mantiar; e foi torn a 
claridade do dla que se p^de conheoer o ealrago. 
Morr^rao n'esta occasiao todos q<nantos HoBan- 
dezeS) Indios « negros haviam fortifioft^Oi axeepto 



J 



OS oiiioo que fi]^do* Doe nossos perderao a vida 
Ires ^oldados, e ficarao muitos feridos. Gastour^se 
odia, que foi o da 6 de Janeiro del 64&, em reoolher 
ofi des{K>JQ$y curar o$ £erido&i eBtcrrar os morios , 
e toiDar refei^ao do trabalho eotre as coogratulacoei 
da victoria. 

XXIV. Em 7 do me&mo mez marchou o goTeiw 
nador Henrique Dia^ para o en^enho de Cunhati > 
onde achou o HoUandez hem for tifieado ^ com 
muita genie de presidio, e nao meaos soberbo pei^ 
ditoisaf esiat^Qcia com queae haviadefendidodo mes* 
tre de campo Aadr^ Vidal^ ao$ dias paasados. Fei 
alto em frente do inimigo, e & cara descoberta man* 
dou por urn trombeta umaembaixa/da aoFlamengo^ 
dJ^eAdo<^lhe que 6em dilacao se rendesse, e se Ihe 
faiia bom parXido f antes que os seus chegasaem a 
desembainhar a espadai porque com ella na mao^ 
nema obediencia o$ obrigavai nem a commiseracao 
OS detinha ; que acbava iestemuafaA d'^&la verdade 
no fiucoeaso do dia antecedente^ acontecido nas 
Guaraifas : exemplo com que desenganadamente 
se poderia aoonselhar sua deUberacao } que se apro* 
¥eitas8e com prudencia da escoiha cpe em sua mao 
pimha a foilunia* Perplexo ficou o Flamengo com 
uin tal proposto ; com palavras eqnivocas respond 
deo ao enviado , pensando ganbar tempo com sa^ 
gaetdade ; por^m Qesrique Dias , que conheceo 6 
srdil^ mandou seguada ^nbaixada atnda mais teiw 
minante; e como tardasae a resposta, sem gastar 
maia palavras, mandou a sens soldados que toda 
a lenba, que estara junta para o service do en- 
geriioy chegasaema itio^tifica^ao inioiigaem circubt 



476 GA8TBI0T0 LUSfTAHO. 

* 

Execulou-se a ordem com estranha presteza; e 
sem duvida que tudo ardera^ se ao tempo de se Ihe 
por o fogo nao saira de dentro uma mulher portu- 
gueza, casada com Flamengo, pedindo a Henrique 
IMas quartel para os cercados. CoQcedeO'lhe as 
vidas, e Ihe abrirao as portas. Saquearao os nossos 
as fazendas. mimicoes e armas: arrasarao a for- 
tiGcacao e o engenho ; levarao prisioneiros a todos 
OS rendidos ; e assolada a campanha , voltarao 
para o Arraial j onde chegarao com prospero suc- 
cesso , e (izerao entrega aos goTernadores dos cap- 
tivos e (das armas , (icando-se com os mais des- 
pojos. 

XXV. Tinha succedido que o senhor Rei Dom 
Joao l\y se deliberara em mandar ao Brazil uma 
pessoa que com prudencia , -valor e arte consa*- 
vasse OS moradores (naquella nobre porcao da 
America que continha em si as capitanias suble- 
vadas) sem desamparar os naturaes, nem' offender 
OS HoUandezes ^ obrigado de reaes estimulos para 
nao faltar & amizade dos aliados , nam a conserva- 
cao dos subditos. Concorriao na pessoa de Fran- 
cisco Barreto de Menezes todos os requisitos , que 
podia desejar a escolha , e que havia mister a im- 
portancia do negocio. Deo-lhe.El Rei titulo de 
mestre de campo general com subordinacao ao go- 
vernador geral do Estado ( que ja entao era Antonio 
Telles da Silva)^ e por seu tenente Ihe nomeou 
Philippe Bandeira de Mello. Saio Francisco Bar' 
reto de Menezes da barra de Lisboa com trezentos 
soidados^ muni^oeSy armas, e tudo o mais que 
pareceo conveniente para o txm preteudido. Nave- 



GiSmiOTO LUSiTAMO. hll 

gou atd a altura da Paraiba com viagem (kvorayel; 
onde deo nas maos d'uma armada hoUandeza^ que 
com avisos certos o aguardava. Naofoi a presa sem 
batalha, nem a bataiha sem sangue d'uma e outra 
parte. Ficou Francisco Barreto ferido , e assim o 
levarao os Hollandezes para o Arrecife, onde o tra-< 
tarao com o respeito devido a sua qualidade, a sua 
opiniao e ao seu posto, e com o resguardo que Ihes 
ensinava a importancia da pessoa , e a esperanca 
do resgate. — Do grilho soube Francisco Barrelo 
fabricar a liberdade : em 24 de Janeiro d'este anno 
fogio do Arrecife para o nosso Arraial, ajudado 
d'um Flamengo, que de guarda se fez medianeiro. 
Foi recebido de todos com notoria alegria , e dos 
mestres de campo Joao Fernandes Vieira, e Andr^ 
Vidal de Negreiros com tanto gosto e respeito, que 
o agasalbarao, hospedarao e servirao, como se devia 
& sua pessoa, e nao & sua fortuna; o que elle soube 
estimar com tal fidalguia que , sem lembrancas de 
superior, os tratava como companheiros. 

XXYI. Corria ha via tempos entre HoUandezes 
e Fortuguezes a nova de (|ue nos portos de Hoi- 
landa se preparava uma grossa armada para ir ao 
Brazil; a qual se confirmou por uma caravella d'a- 
viso, mandada de Lisboa, que tomou por to no 
pontal de Nazareth, sem com tudo se saber a que 
ponto fazia tiro. Com bom juizo intenderao os 
nossos governadores que a armada vinha em direi- 
tura a Pernambuco ; e com incansavel cuidado e 
presteza se appUcarao a prevenir e dispor tudo o 
que pareceo necess^rio e conveniente a opposicao e 
a defensa. Virao o muito que serviria a seu intenlo 



&7t Ckwuiyto tmrthm. 

ladear a fortaleta da batari^ de 'doa^ plataformas 
contra o Arrecife ; porAm nao tendo artilharia nem 
municoes, despacharao em 1 3 de Fevereiro para a 
Bahia o capitao Paulo da Cunha com requerimento 
e supptica ao general da armada portugneza ( que 
estava surta na enseada da Bahia ) Antonio Telles 
oonde de Villa-Pouca , para que Ihe acudisse com 
prompto auxilio. Foi Paulo da Cunha recebido 
com honra , ouvido com piedade , portei de&pa- 
chado com esperancas* Fez os mesmos officios com 
o senado da Camara ; mas nem ap menos obteve 
boas palavras ; e partio sem aleanoar outra cousa 
mais que patente de sargento maior doterco de 
Andr^ Vidal, como se no titulo d'um posto levara 
o soccorro de todos. — Em quanto Paulo da Cunha 
se occupava n'esta missao^ navegou a armada hol- 
landeza pelos mares do Brazil ; e o tinha feilo pelod 
do norte com diversa fortuna : saira com oi tenia 
e tantas embarcacoes, e nellas nbve mil homens de 
guerra. Na passagan do canal foi assaltada d'uma 
tempestade que Ihelanoou & costa alguns navies, 
e outros desgafrados tomarao di versos portos pelas 
costas de Franca e de Portugal ; os que livrirao 
melhor se encorpor4rao com a sua capitanea, aca- 
bada a tempestade^ e seguirao sua viagem ate a al-* 
tura de Pernambuco, d'onde se descobrirao no 
principio de Fevereiro. Tomdrao porto no Arrecife 
com sessenta nios , seis mil infantes ^ e tres mil 
homens do mar^ Vinha por general da armada urn 
Flamengo chamado Vangoch , presidente no su- 
premo daCompanhiaj o qual, tan to que desem-* 
barcou^ fez entrega do bastao de genial daaarmas 



a Sisgismundo Yaneschop^ pessoa ninitlBi» vezes 
referida no discurso d'esta hi»toria| camo figura 
principal d'esta tragedia. For muitos dias feBtejon 
o inimigo a grandeza do soccorro, julgando^e 
livre da oppressao em que estaya^ e senhor do im-*- 
perio que perd6ra ; em quanto os nossos sem outra 
esperaoi^a que a da protec^ao divina j continuarao 
firmes em sua constanciai esperando na razao e ju9^ 
ti^a de stia causa aohar o premio de sua fidelidade. 
XXVII. Nao sei ea quando a fidelidade. portu*^ 
gueza se vio mais apurada^ nem quando a pacien*^ 
cia militar maid soffrida; nuncao valor dos ho^ 
mens sobresaio mais esclarecido que nesta occasiao. 
Tudo quanto a antiguidade n'esta materia noft 
deixou escripto para assombro chegara^ quando 
mais, a ser sombra do que escrevemos. Que vas* 
sdllos houve no mundo, que em razao de vassalloft 
^e possao comparar com os moradores de Pernam- 
bilco, que no maior desfavor dos principes, na 
mais dilatada perfia das tribula^oes, perdessem fa-^ 
zendas, desestimassempatrias, e offerecessem vidas 
por nao faltarem d fidelidade de sen monareha j 
ayaliando por m^ios sen^vel a perpetuidade do 
pQrigOy e a continuacao da perrda que a observancia 
da lealdade? Digao-me os uoticiosos em que idade 
tiverao os principes similhantes servos? A que 
gente nao alterouoanimo^nem a falta do soccorro^ 
nem o desprezo do servico, nem a desesperacao dp 
premio para abrir, em seu peito a menor brecha ; 
por onde podesse entrar o minimo pensamento de 
inSdelidade ? Que coracoes achou a experienciasem«« 
pre firmes do serviqo de sua patria , quando por 



ABO cASTRioio ujsmm. 

espaco de vinte e qualro annos; umas vezes sujeitos 
a tyrannia, outras & necessidade , constanles nos 
inrortuiiios , vigorosos nos trabalhos , incancaveis 
na tolerancia, desprezados, famintos e despidos; 
rogados da abundancia e da commodidade , sem 
que por imaginacao claudicassem na firroeza de 
leaes , mais promptos em dar a vida que em resol- 
ver a traicao ? Resolutos em tomar as armas a benefi- 
cio de sua liberdade, sem imperio que os obrigasse ; 
sem esperanca que os persuadisse ; e sem premie 
que OS atrahisse, coniinnarao urn e muitos annos, 
de nolle e de dia com as armas as costas, sem recu* 
sarem as marchas, sem fugirem ds expedi9oes, sem 
temerem os perigos; vencendo as opposicoes do 
tempo e da fortuna ; nas ditas comedidos^ nas des- 
gramas animados^ nas ordens obedientes, nos tra- 
balhos alegres, nos castigos reportados, na disci - 
plina observantes; nas occasioes valeutes; nunca 
vencidos do medo , sempre vencedores do perigo ; 
nos encontros mais arriscados, sem terem conta 
com o numero, a tinhao so com a honra^ avaliando 
poder inimigo por contrario, mas nao por desi- 
gual; olhavao o excesso para o veneer^ nunca para 
o recear. Que valor foi similhanle a sen valor ? 
Jutgava sua ousadia, que nem as balas dos inimigos 
feriao, nem suas espadas cortavao ; tao senhores do 
proprio perigo e do poder alheio, que nunca a des- 
graca os achou sem animo , nem o infortunio sem 
ordem. Em fim que em todas as idades, e a (odas 
as nacoes do mundo podem servir os Pernambu- 
canos de exemplo na fidelidade, no valor^ na cons- 
t^ncia , na discipiina e no soffrimento ; que uao 



GASTKIOTO LUSITANO. (»8l 

importa que os antigos fossem primeiros no tempoy 
como fiquem excedidos da vantagem , pois e certo 
que nao adianta a idade senao o merecimento. 

XX VIII. Vendo-se os nossos governadores desem* 
parados de soccorro , trat^rao de aproveitar todos 
OS meios possiveis para tornar a defeza mais efiicaz. 
Assentdrao primeiramenle que as forgas reunidas 
erao mais fortes, e para esse flm mandarao arrasar 
todas as estancias^ e tirar d'ellas todos os presidios ; 
e assim mais a infantaria que se aquartelava em 
Iguaracu , Pao-Amarello , Juguaribe , Paratibi , e 
villa de Olinda. Decretarao que nenhum morador 
passasse os termos da villa de Sirinhaem , e que 
entre ella e a Moribeca se fizesse o alojamento mais 
distante. Mandarao que se conservasse a fortaleza 
do Arraial e ada Bataria, tirando d'esta a artilharia 
de bronze para a fortaleza do pontal de Nazareth , 
que necessitava d'ella. Da Varzea mandarao retirar 
todos OS moradores com sens gados e alfaias , os 
quaes unidos ao corpo do exercito dos differentes 
presidios se recolherao ao Arraial deixando arrasa- 
das as outras estancias. Despedirao os governadores 
varios oQiciaes da milicia, com apertadas ordens, 
para reconduzirem todos os soldados , que pela 
campanha andavao licenciados e fogidos ; e para 
fazerem recolher ao Arraial todos os moradores do 
reconcavo, quepodessemtomararmas, com bandos 
publicos de perdao geral para os homiziados^ e 
gravissimas penas para os remissos e rebeldes. Exe- 
cutarao estes ministros o mandato com tanta saga- 
cidade e promptidao, que nos primeiros dias d' Abril 
se fez no Arraial mostra de toda a nossa gente, e 
L 31 



M2 CAStfcldtd LttatAto. 

se aeh&r&b itt^ th\l diifentd^ hdtliefts d6 pt\^\fL. 

XXIX. OccupaVA-sfe entratilb 6 Hollanddi em 
discipliilftf setl^ dbldstdo^, e A exercixkU)^ fia^ dl*m£lft^' 
^sta ei*a tbda a ddctlpfltiao de SisgistllUndb fe d^ Seus 
caboiS, pdrJi augtnenta^dtll dha pdtehcia ; £l ddS coh-* 
selheiros dd Supretito , pof otilrd ve!l*eda bilSeavk 
taeSttio Bm : excdgiUVib fenganbS, artfeficlb^, fe apd- 
i^eticiad doln qtie defraudar a dod PbrtUguezfe*. SaiYao 
€Otti um at'dil , prov^itdsd fern otitrb tempo, pot^tii 
fto pi'^seiitfe ddspresado Cotii 4 eipefitocla de caWl- 
Idso. f ormirad utti atnplisslfilo perd&d, que copiadd 
intiUinerateis ve^e^ Inanditab espalhai" pot tddas 
s(S paMe^ , pelo qual pi^ometdfto esqufedim^ntd di^ 
t;ulpai^ e lembrslti^a de premlos para tddbs dquelle^ 
qiife, reduiidbs, fds^etn ao A^r^tife em termo dd 
dfei dlas tomai* passd-pdrtes de alli^dos , e jtira- 
iiieilto de fieis. Etittndlad que d tfeilioi* de sM po- 
teneia fiifisl obrat* b ardil com efBcacia : passotl o 
tempd, e virao nSo set d*effelto algum a diligendla. 
Tlverad para si que f6i*a descdtifianba , e nSo des- 
jirezo, pbrque s6 fixei^a geral a promesfea, e nao fal*- 
lava eora pessoas tletermlnadaS. Mudirao-Ihe i 
ffiriiia, fe dehtro em t?af tas, que mfttid4r&d a partitu- 
lar^s supefriores, i^emett^rad o petdSo, fe etn tef tho 
cef tb pedirao as respostas. Ti*ahScreTei*ettidS aqui, 
traduzida do flamengd ^rii portuguez , a qd^ rtiaii- 
dirao , pdr iriddo d'eliibaljcada , aos nossos goter- 
nadores Joao Fernandes Vieira, e Andr^ Vidal de 
Negreiros : coiftlnba estas fottilaes palaVras. 

« l?'or ordein particular qUe tlvemos tAih- 
>) dada a facJs pelos poderoSds EstaddS gferaeS, Sii^ 
^ Altera b pnncipe u'Orahge, e a geral olttrbgads 



OASTIIIOTO &U8nuo. AM 

» ooin|)ahhift occidontali a n6s temstlida fBOm o 
n poder \A ohegadoi e outro que estamos eftperando 
» para proceder contra os que se axitnirao do 
M I1O9S0 dotninio, oonforme a dita ordem (j4 dutra 
>i Tez a todod intimada)^ ^m qU6 Ibandab oa ditoa 
» Benhores qtie a qualqiier pessto de qualqiier 
M nacao, eslado e condicao que fteja^ outroguetlioB 
» em seu tiome perdtd geral de rebel liao, desobe^ 
II dietician cdnspira^ao j ^ qualquer outro ddiotoi 
» ainda que seja uma e muilas vezM commauido< 
D Em cotnprimento do que, o tetnos aislm oonce« 
» dido e publicado | e d uotidiamos a Yoaias Se« 
y> nhorias com infallivel cerieaa da que tudd da 
» no99a parte aera comprido exactatuante | e d6bre 
3 lesta declaracao esperamoB seis diaa peia respOBta 
n de YossasSenhorias.-^Feita em o nosso cdfiiolho 
M do Arrecife em dous.de Abril de mil ^ ddsentitos 
n e quarenta e oito^ >) ^ Jhao BoLBStiiAtBai '^-^ 

HBNRIQtIE HaMBL. ^*- PfiURO BOKftg^ •*-- P#l0 i^e^ 

iurio t JdAd BalbBkbs. 
XXX* Virao os uossos gover tiadores ft oarift is 

o edital do perdao, cuja copla Ihea i^^Mettiftd in'^ 
t\mAi 6dmmutiicdrat) dom FrduoiBCd Barrett) de 
Menea^s d que se detia httt, % aBsent6ii«>de qua 
delsem cotita ao sargehtd maidr Autouid Dial 
Gardozo , e aos governadordi de Mitiaa ^ Ittdiol 
D. Antdrtio-Philippe Gaiiiarad e HeilHqUe DiftUj e 
discutida a materia, se deterfflihdU que JoAd Ffer* 
natide^ Vieira^ e AndrS VldAl de Negfeiro§, edfno 
ettbedas do exercito e dos mot-adores^ renpoiidewfem 
& catta. Tom4r&o teitipo, e respoiidfirao ttestft f6i*ma. 
u As artes de que Vossas Seiihorias se valArao 



kSk CASTRIOTO LUSTTANO. 

» sempre sao as de que usao agora^ com a differenca 
» que no tempo passado serviao ao engano , e no 
» presente ao aviso, porque aquella confianca que 
» achavao na singeleza destruio ja a cavillacao de 
» sua malicia. Ao mais bruto animal ensina a na- 
» tureza a conhecer o laco y que alguma vez Ihe 
n tiroii a liberdade, abominando o cibo, com que 
>; o deseja persuadir a astucia do cacador. pi*- 
» lolo menos experto sabe fugir do baixo , a onde 
» uma vez tocou y por mais que o escondao as 
» agoas. Com esta advertencia se responde a esta 
» embaixada , e nella nos conbecerao Yossas Se- 
> nbbrias ensinados de sua mesma diligencia. 
» ultimo ponto de seu decreto sera o primeiro de 
» nosso reparo/e o verdugo de sens enganos. Bern 
i) mostra a pouca fe que tern com Deos^ quern se 
» vale de Deos para faltar a f^. Que credito esperao 
» dem a suas paiavras aquelles mesmos bomens 
]> aos quaes nunca guarddrao palavra, nem satisfi- 
» zerao promessa ? Mai negocea quem imagina que 
» com a lembranca das ofTensas obriga. Quem 
» nunca tratou verdade, como ha de persuadir 
» que nao foi sempre mentiroso ? Se todo o muudo 
» sabe o falsificado de seu trato^ como esperao que 
» o mundo os testemunhe verdadeiros ? Em que 
» parte d'elle deixou de ser cavilloso seu estilo? 
» Em que tempo comprirao o que jurarao ? Di* 
D . zendo as gentes a gritos, de escandalizadds : Nes- 
» tas capitanias com mais crescido brado , porque 
» nellas com mais despejado excesso. Com lagri- 
)) mas de sangue chorao Cunhaii, Rio Grandc; Var- 
» zea. Ipojuca , e quasi todas as povoacoes d'este 



GASTRIOTO LUSITANa &86 

n reconcavo, a singeleza com que cr^ao suas pro- 
» messas y e o rigor com que pagdrao sua incauta 
M credulidade ; e quern a todas as horas ouve o las- 
» timoso gemido que accusa, nao p6de em alguma 
» dar assenso ao afago que engana. Se seus de- 
» sejos Ihe persuadem outra cousa y 6 sem duvida 
» que assim como nos querem destruir a liberdade, 
» nos querem tambem tirar o juizo ; e so tirando- 
» nos o juizo, nos mudarao a vontade. Tem para 
» si que os moradores d'esta capitania sao troncos 
» sem sentimento para as chagas y sem juizo para 
» as curas ? Nao se curao as feridas com o mesmo 
» ferro que as abre. Porque nao podem executar 
» a yingan9ay escondem a espada debaixo do per- 
» dao ; e para que nos custe mais a pena , nos 
>)' querem vender passa-portes do tormento. Se 
y> nos desejao beber o sangue y a que fim nos pro- 
» mettem conservar a vida ? Se nos querem rou- 
)» bar as fazendas, como se offerecem a guardar- 
» nos OS bens ? Chamao-nos para a injuria com a 
» voz da honra? Glemencia chamao a impiedade? 
» Nunca mais cega sua paixao. Que clemencia ou 
» que favor ha de esperar a oflPensa^ se ex peri- 
» mentou no servi9o exorbitantes tyrannias? Quem 
D nos maltratava sujeitos y como nos ha de estimar 
>} rebellados? Muito ha que passou o tempo em 
» que o artificio hollandez conquistava com pala- 
» vras, porque ha muito que passou o tempo , em 
» que a candideza cathoUca se Gava dos herejes, 
» imaginando homens aos mesmos que a igreja 
» em todo tempo intitulou feras. 

» Nao acbamos menos disformidades nas ^mea- 



4M GAftntOTO LCStTAMO. 

» COS que nas promemas. Reconheaernas o valor e 

» diseiplina da naeao hoUande^a, araliada neste 

» 66culo pela da maior opinifiio. Certos esiamos 

>i na poteneia do auaa armada^ ; e nap se nos es-- 

» conda a do aoccorro quo conduzto a que agora 

91 eal4 aurta na barra d'esse Arreoife ; ^ ^oni tudo 

» ea tarn OS tio longe de q temer, que chortipios 

n com igual lafttima o infortunio que no canal a 

H defraudou, pela gloria que nos diminqio. Expa- 

» rimentado tern os aenhores Hoilandezea que a 

»> espada portugueea nao neoeasita de ae tnedir 

M para cortar ; e que o braco d'eatea moradores 

» a onde n&o ohega Gom a forca, ehega com o de- 

» aejo ; verdade relafada , e ouvida por tgntas bo- 

n caa, qyantaa a&o as feridas de seua cpntrario«; e 

» quando em algumas fake ja a rot do aaogue 

» para o dieerem j pao haver4 poucaa que o digao 

» por sinaea. Quanto niaia^ que rednzido nosso 

y> poder a um corpo (eomo esti hoje) igualames a 

w Vossaa 8enhoHaa em t) numero da gente , e os 

>* exeedemofi muito em qualidade, valor e prAtlca; 

») com aquella disparidade, que se acha em defen- 

» der o proprio, ou conquiatar o alheio ; em aervlr 

» por paga, on pelejar por honra ; em defender a 

» vida, ou em veneer o soldo. No provimento das 

M municSea, com termos menes^ estamos mais so- 

>» brados , porque usamos mais espadaa que mos- 

» quetes ; e em noBsaa m&os obra mais o ferro que 

» o chumbo. 

M Em quanto aoa auxtliares de que Vosaas Se- 

» nhorias fazem tanto cabedal , de melhor partido 

» estamos com os poucos que temoS; do que Vossas 



^ p d^^ppjp , rnd« mo para a J^lglha f 6 bqm M 

i> pQcle 4^sQart^r 4>iiaft qu09i e«(4 tAQ longe 4« 

>) v^^pFia. £^t^ i|P$ prpfQ^tt^ um D6P9» » quQ«i 

» fi^rvimps , CUJ4 l^i gMP4amo» «Diii firra« ; cujt 
ij honrft ^^fmd^mo» cpm z^lo ; cujos aggmvo$ e«-r 

» peramos ca^tigari poioP miaiatro^ d# sua jwti^i 
» a qual tera em seu favor quern defende o proprio ; 
» e contra si quern tern roubado e quer roubar o 
» alheio. Frivolo i o pretexto de querer cobrar o 
)) devido. Se Vo3sas Senhorias disserem, que alguns 
» particulares Ihes devem algumas quantias de di- 
» nheiro, ponha-se a causa em juizo, e se Ihes pa- 
» gara o julgado. Nunca as armas derao boa razao 
» do direito : fugir a senten^a da lei para a esperar 
r> das armas, i extorcao da violencia^ nao i estilo 
» da justi9a. Se Vossas Senhorias quizerem liligar 
» o pleito^ neste tribunal nos acharao conformes, 
» e f6ra d'elle, tao encontrados^ que desde este 
» ponto OS esperamos em campanha com forcas e 
» animo para darmos uma e muitas batalhas, e 
» nellas as vidas pela causa ; e se nos faltar a vic- 
» toria^ nao nos ha de faltar terra para as sepultu- 
» raSy nem honoriQcos epitafios para a memoria ; 
» que sabem as idades eternizar o nome de qtiem 
» sabe morrer em defensa da patria. — Arraial em 
» sete de Abril de mil seiscentos e quarenta e 
» oito. » — Os mestres de campo , governadores 
da acclamacao da Uberdade. — Joao Fernandes 
YiBiRA. -^ Andre Vidal db Negreiros. 



V8H GASTaiOTO LUSITANO. 

Nesta mesma substancia , posto que por differea- 
tes palavras^ escreverao D. Antonio Philippe Cama* 
rao governador dos Indios, e Henrique Dias gover- 
nador dos Negros; e todas estas respostas foiio 
remettidas ao Arrecife por um enviado, que as en- 
tregou nas maos dos superiores d'aquelle governo. 
Estiverao alguns dias indecisos^ at^ que se resolve- 
rao a sa'ir a canipo a dar comeco a campanha, cujos 
resiiUados veremos no seguinte livro. 



CHAPITRE XI. 



SUMMARIO. 



1. Manda £1 Rei entregar o goyerno das armas a Francisco Barreto 
de Meiuezes; em que estaUo o recebeo.— 2. Sai o Hollandez do 
Arrecife, e com que poder ; marcha para os Affogados. — 3. Dd-te 
rebate no Arraial ; o mestre de campo general chama a conselho : 
o que nelle se assenta. — 4. Manda o inimigo picar a estancia do 
Barreto ; a qual se perde. — 5. Marcha o nosso eiercito contra o 

.. inimigo , e em que f6rma.— 6. Descripcao dos montes Guararapes ; 
do sitio do nosso alojamento , e tambem da Moribeca. — 7. Aloja-se 
a nossa gente ; o inimigo a avista, e furma a sua. — 8. Disposicoes 
para a batalha ; tocao os eiercitos a envestir; os Portuguezes rom- 
pern & espada pelos esquadrdes contrarios. — 9. Os inimigos des- 
trocados largao os montes ; perdem o estandarte real. — 10. Os 
Negros e Indios nos arriscao a victoria. — 11. Com a gente de 
reserya se cobra o Flamengo no perdido. — 12. Sisgismundo yai 
ganhando terra; os nossos mestres de campo o recebeme rebatem; 
profia do combate. — 13. Casos particularea d'este encontro. — 
14. Francisco Barreto manda cortar o passo a Henrique Hus ; re- 
tira-se Sisgismundlf , e depois de cinco boras de combate largao 
08 inimigos o campo em desordenada fugida. —15. Tomao oa 
nossos refeigao e descanco ; foge Sisgismundo para a Barreta. — 
16. Gelebrao os nossos a victoria. — 17. Perda do inimigo , e 
nossa. — 18. Capitaes que se acbarao no conflicto. — 19. Ghega a 
noticia dBabia. — 20. Entra Sisgismundo no Arrecife, manda 
ganhar a villa de Olinda ; occupa a nossa fortaleza da Bataria. — 
21. Recoperao os nossos a villa de Olinda ; o eapitao Barros de- 
saloja inimigo , e Ihe segue o alcance. — 22. Sisgismundo pede 
08 sens prisioneiros ; chega ao Arrecife um soccorro de HoUanda. 
— 93. Os negros de Henrique Bias castigao o inimigo , que se 
retira confuso. — 24. Manda Sisgismundo dous mil botnens sobre 
a estancia de Henrique Dias» que se retirao bem castigados ; entra 
em nosso Arraial soccorro de gados e gente. — 25. Doenca e 
morte do Gamarao; suas qualidades e virtudes. — 26. Faltao os 
mantiment08 no Arraial e no Arrecife ; d'elle sai Sisgiamundo com 
a armada, e vai destruir os contornos da Bahia. — 27. Forma-se 
a nova companbia do commercio geral. — 28. Entra o inimigo em 
Bovoi pemamoitoi de cofiqaiitar a campanba; apieiloi que faz 



&90 CASTRIOTO LUSITANO. 

para ella. — 29. Preparao-se os nossos para a reslstencia. — 30. Sai 
inimigo do Arrecife; com que gept^, e ^plque f6rma.— 31> De- 
termioa-se a bataiha , com parcecer de Joao Fernandes Vieira. — 
32. Manda Francisco Barreto reconhecer o sitio e fdrma do inimigo. 
— 33. Joao Fernandes Vieira chega primeiro ^s maos com o inimigo 
que desbarata ; sua valorq^a coQ^an^a. — 34. Andre Vidal rompe 
inimigo, omesmofazen^ os autros capitaes, e o poem em fugida; 
Joao Fernandes Vieira ganha a arlilharia do monte. — 35. Andr^ 
Vid^l se v6 a(9lbado d'um esquadrao inimigo , por^qn resiste-lh^ ; 
e Q poe erp fugida. — 36. Joao Fernandes Vieira assenhor^a-s^ da 
artilbaria dp iniipigo fazendo-lhe grande estra^o, em que morr^o o 
l^eneral das drma^, e o almirante do mar; com a sua preseq^a se 
da fira i bataiha , e consuma a yfctoria. — 37. Francisco Barreto 
abra^a e honra todos os cabos e soldados; festeja-se a Victoria, e 
dao>se gramas a Deos. — 38. Perda d'uma e outra parte ; prisio- 
neirps a despojos que deixou o Flamengo. — 39. C^bos que se 
achi!trao n'^sta occasiao. — 40. Volta a nossa gente para o Arraial ; 
d^-se licen^a ao Hollandez para enterrar os mortps ^ yai o capi- 
^ao hollande? ver o nosso Arraial ; como, e p^ra que- — 41, 3us- 
pi^psao 4'uma$ e outras armas; sai do reino a primeira frota da 
Gpmpanbia jgpra|.— 42. Sisgismundo manda assaltar a estancif do 
Mendon^a, a doAguiar e a das Salinas, e em todas 6 malspcce(|i^o; 
jnanda uma es(^uadra ao rip de Sao Francisco. — 4^. f^a e^t^pcia 
do Mendonga perde o inimigo repuUcap e gepte^ qo Qio GfAPde 
ocastiga JoaoBarboza Pinto.— 44. Manda Francisco Barr^ti) prqTo- 
C(ir Q injmigo; com qpe successo. — 4^. Antonio Dias QiV^qiQ vai 
QO Ri9 Grande ; p qu^ nelle faz. — 46. Suspensao das ^rifias ioi- 
uii£>as, p nor que causa; torna o inimigo a saU; encoptra a estaocia 
do Aguiar com ^obrada guarnicao ; retira-se destrpc4do,^47.A|jM]da 
Si^gisinvudo yma esquadra ao Rio de Sao frapcj^co j o g)|^ Ihe 
succede. — 4^. Insiste em ro^ar a estaopla do 4ggiajr, 9 y^ropre 
P9g4 ^ cystas. 



I. No niaia vivo emprego das ppeven^es eom 

que o Inimigo se dispunha para a conquista , e os 
PQji»o« pjira a dafe nsa, como dei:i;amos dito uq Uyro 
ppecedefite, chegou ao Arraial de Pemainbueo (con- 

taviiq-^e 1 5 de Abril de 1 648) um corrm mmi^^^ 

dsL Itohk fiplo ^a^nil da>a«pAda veal aomk^d ViUa- 



PouM, eom uma ordam aos mestpcs da campo ptrt 
que ^Dtregassem o goveruo d&i armfis a Francigoo 
Barreto de MeneEea, e Iha obedeceisem como a sea 
mestre de carapo general, nonmado e provide por 
Sua M^gefttade, dizendo que supposto os accidentes 
Ihe auspendemo o exeroioio, nao ihe derrogapio a 
merc^ que o dilo senhop Ihe tinha feito qpando o 
mandou aervir aquelle cargo. Era para receiar que 
com ^6ta mudanea de ohefe ^pffresse a causa da ii- 
berdade, a at6 se ehegarao a tamer $edic6es | mas a 
pFudancia e mcdestia do novo mestpe de campo 
general e a submissao dos antigoa conciliarao de tal 
modo aa cousas que havando mudanea nas pessoaa 
nunaa a houve no governo. Comoporem se faz 
manclo da entrega do bastao ao novo governador 
das armaa , cnmpre que d^os conta n'este lugar 
do estado em qua alias ae achaveo. *<-- Tomon Joao 
Farpandea Vieira sobra seua hombros a empraza d|i 
liberdade, quando ella se julgava de todo perdida ; 
poz-a^ em campo oontra toda a opiniao, p $6 assislido 
da confianca qua tinha em Deos^ do k^Io da religiio 
a do bam da patria. Sem armas a soldados vencao 
o inimigo que o busca^a com sokiadoa e armas na 
batalha dasTabocas. Depots unido com o mestra d^ 
campo Andrd Vidal de Nagreiroa , ganh&rio a vici- 
toria, qua perdeo o Flaniango no engenho de Dona 
Anna Paes ; e nove fortalazas , com outros redutos 
f) caaas fortes; perto dt oitenta pa^as d'artiiharia 
de 4i versos calibres, a maior parte de bronze ; ar- 
mas , municoas , e petrechos da guarra em tanta 
quantidade, quanta bastou para sustentar a guerra 
^¥a am oinoo annos con<uiiiQa« No diacupso d-'ellas 



k92 GASTBIOIO LUSITASa 

libertArao da sujeicao hoUandeza cento e oitenta 
legoas de campaaha que se contao do Seara M orim 
at^ o rio de Sao Francisco com morte e prisao de 
dezoito para dezanove mil contrarios. Dos morado- 
res fizerao soldados tao animosos e desires y que a 
si mesmos se desconheciao. Nao foi menos a diflpe- 
renca que se vio no recibo e na entrega : para sus- 
tento do exercito entreg^rao mantimentos para 
dous mezes ; para pagas dos soldados vinte quatro 
contos em ser, dezoito mil cruzados em eOeitos, e 
em dividas com facil e certa cobrauQa. A gente dis- 
ciplinada, o inimigo reprimido, os moradores tra- 
tados com cortezia, prudencia e afiabilidade. Ulti- 
mamente p<ide*se dizer que derao a coroa terras 
e vassallos que podesse governar^ e sem dispendio 
da fazenda real ; e a seu principe derao a gloria de 
. de o ser de vassallos tao obedientes cl leaes j que 
podem ser para todos os subditos doutrina, e para 
todas as idades modelo. 

11. Em quanto os nossos se preparavao para a 
resistencia j preparava*se o inimigo para o ataque. 
Achava-se Sisgismundo general d'um exercito nu- 
•meroso e luzido; cabos peritos e valerosos, oiBciaes 
praticos e destemidos ; soldados de varias nacoes, 
por&m exercitados em uma mesma disdplina ; co- 
nhecedor de nossos cabos , de nossos recursos, e do 
terreno que pisava ; isto qao obstante differio por 
bastap.te tempo o por - se em campanha : o que ja 
excitava murmurios na plebe, e accusacoes da parte 
do governo ; at^ que picado d'estes estimuUos saio 
do Arrecife pela uma bora depois da meia noite 
,17 d'Abril de 164S, coQi sete mil quatro. centos 



GASTRIOTO LUSITANO. (»93 

combatentes , deixando de reserva o coronel Hen- 
rique Hus (ja Uvre de nosso poder) com mil in- 
fanteS; e ordem que em tempo certo se fosse incor-* 
porar com o exercito nos monies Guararapes> como 
depois fez. Soldados auxiliares entre Negros e In- 
dios mil e quatrocentos, esete centos gastadores; 
e para que Henrique Hus nao perdesse tempo , Ihe 
deixou ordem secreta, que com seu terco fosse sa- 
quear e passar a espada toda a gente da Varzea ; 
paas foi errado seu projecto, e inutll a ordem, por- 
que toda a gente se tinha retirado como ja disse- 
mos. Leyava seis pecas d'artilharia com municoes, 
armas e mantimentos de sobre - selente ^ e muita 
quantidade dalgemas, grilhos, cadeas, e cordas 
para prender e maneatar os captivos. — Com bel- 
licosa ostentacao de caixas , clarins ^ salvas e vozes 
se formou, e poz em marcha para a sua fortaleza dos 
AITogados, meia le^oa para o certao, para o poente, 
onde fez alto ; foi recebido da fortaleza com tantas 
salvas e vivas^ que parecia adiantar-se o triumpho 
a batalha. 

HI. Naquelle lugar declarou Sisgismundo a sens 
cabos o seu inlento , que era occupar a Moribeca, 
poYoa^ao situada quasi nas fraldas dos montes Gua- 
rarapes, cinco legoas da Nazareth, e tres do nosso 
Arraial, para d'alli continuar as suas operacoes. De- 
rao as nossas sintinellas noticia do inimigo ; tocou- 
se arma no Arraial, pegoua nossa gente em armas ; 
e formada esperou as ordens que havia de seguir. 
Com a claridade do dia , se descobrio um grosso 
esquadrao interposto entre a nossa gente e o sitio 
em que se alojava o capitao Antonio Borges Uchoa, 



4M OAftfltdTO imiTAroi 

a qw^jh fotia iVetite com d^mofistrfecao de qiierer 
invefttir aquella e^tancia i Itidustrifi, de que ^ taleo 
pafa encobrir a passagem de «6u etercit^ pafa ri 
oiitra parte do fid, pelo vfio do* Affogadosj o que 
conseguio Furtado add lidsddS olhdS ^ euja tistft fidl 
cegara o vuUo ddm que o finglmetito tids de§viatft 
d» olhos e a nu^peita. -^ mestre d6 caitupo genfe^ 
ral Fi-andscd Bttt*reto dc MeiieSJes cMhaoil a don- 
gelhd ds cabod maidi^^l, 6 dm dii^l d^terminafao 
dfeiiou o que sd hatia de BegUii* hk ddCftBlad pfd*i 
sentd. Nao ei*&d ttiuitos bs Votos^ e aiiidti assim dis** 
cordfirao noS parecet*efe. A hieiidi« parte (bi dd dpi- 
ni&o que se ttfto detia fiat* a ^alv&dSo de todoa i 
fortuna d'uttia batalha ; que mai!j pf udeiltd fleHtt 
retirar-se para d eabd dd Sftnto AgoStihhd, Idrfdnd 
dm que, favdt^ecidos dos ttifetdS d do tdtnpo pdderia^ 
mos cdttsUrftif o Holland^sft; Pi ad foi d'dsta opiniftd 
Joao Ferilatidesi Vieirh t autes sustdtttoU que se 
detitt edper^f itiifDigd H p6 flrind • pdfqud dxedU* 
tadtt a ffetirad^j fefa forddSd ddMAt uas mads dd 
inimigo as fortalezas, as familias, e as faidtldtts^ 

utiito &odddt»to da§ vid^sj » qud na bathlhh j ou se 
hrlVlk dd alcaticdr k VifctoHa , dU pefddf k vidtt • d 

dm case qiife tt fotlutia adversa ho§ tii^as^d a sort^ 

de vdncer jUdtificftddS, rtao |)oddt*ia tirat*-^hds k gloria 
dd mdri*ei* taldroso^, c*omb fleis d tido^j C>bHgaddS 
i naeao , deVeddt*e^ a pAtria , d Idaes ao p^incipfe. 
Couformou-sd d mestl-d dd daltipo geueral como pa- 
rdcdf- dd Joad FertihhddS Vieiftt, qUd tambem fdi dd 
Andi'6 Vidal j e diitregou a seu dUidadd a dispofticSd 
da gudM^a d a fdrma dtt batalha , re^efvatido para 
si d ddmirtio de ^t€V dX^dUtftf M drdctts* Foi a pti^ 



GASmiOTO JEiVSITAIfO. AM 

nleirft que se deo aos esQuadroes , qu« ch^gadcis ad 
oonflictOi dada a primeira carga se mettesse mao a 
eftpada^ e se investisse o inimigo. Despedirao o sar* 
gento maior Gardo2o para a fronteira, para espiar 
e deecobrit* a marcha do inimigo« Entretanto oc« 
oliparao-'Se n0880S cabos em exortai* os soldadofi 
com razoes vivas e efficases^ refrescando-lhes a lem* 
bran9a das muitas vezes que tinhao vencido os 
mesmos Hollandezes que agora os btlscavad« Che« 
gou neste tempo o sargento maior Cardozo^ e in-^ 
formou que o inimigo ia marchando para a Barreta^ 
Com esta nova se mandou reeolher toda a nossa 
genie para o Arraiala descancar e a tomar a reFeicad 
quotidiflna etn quanto nao chegava aviso do oapitao 
Gaftba do succedido tia Barreta. 

ly^ Ch^gou a vanguarda do exercito inimigo 
a picar a Barreta^ e o oapitao d'^lla Bartholdmeo 
Soares Ganba , enganado da imaginacao, que Ihe 
pintou ser commettimento de dueentos Hollande^es^ 
qu^ de ordinario o inquietavao^ oom desejos de os 
MsUgar saio a busc^l^os fdra da fortificacao com 
quarenta e seis soldados^ deikando Ordem aos dous 
alferea seus, que com o restante da gente se nao 
mdvessem do posto que defendiao^ e^m expressa 
ordem sua ; e oonfiado nas setitinellas , que deixdra 
ao largo ^ de que o inimigo Ihe nao pdderia coftar 
a tetiradai se empenhou com tanta dem^zia^ que o 
arrcpeudimento o nao pode livrar do perigo* Pri»- 
meiro se vio cortado que investido* Nao teve o ca*- 
pitao Ganba tempo sonao para metier mao a espada 
d animar os aetis com o exemplo ; com ella na mao 
m meiteo pelo esquadrao dd inimigo oom tal va«i- 



4M CASTRIOTO LVSITANO. 

lentiaedestreza, que se deo a conhecer a sipelo 
estrago e aos seus pela imitacao. Nao houve entre 
elles quern nao vendesse uma vida per muitas, de 
sorte que primeiro o8 vio o HoUandez mortos que 
rendidos. valoroso capitao , cercado de Indios e 
Tapuyas , os fazia afastar , ou cair com os golpes de 
sua espada , at^ que os rompeo , com espanto dos 
Hollandezes e assombro dos barbaros : o que me- 
receo dar-se-flhe qua'rtel , contra o parecer de mui-* 
tos. Os que forao investidos na es|ancia sustentarao 
o combate com admiravel constancia, atd que yen- 
cidos do excesso se saly^rao nos matos, nao semperda 
d'alguns mortos e feridos. Formado, e com asar- 
mas na mao passou o HoUandez naquelle sitio o res- 
tante do dia e toda a seguinte noite; mandouSis- 
gismundo vir do Arrecife a Henrique Hus com o 
seu ter^o j e proseguio a marcha pelo caminho da 
Moribeca. 

. V. Erao duas horas da tarde (tempo em que a 
nossa gente recolhida ao Arraial come^ava a tomar 
racao para acudir a fome ), quando chegou aviso do 
que era passado na Barreta. Nao houve soldado 
nosso que se nao alvorocasse ; e sem fazerem caso 
da. comida tomdrao as armas, e formados marcha*- 
rao com todo o poder, o qual constava de dous 
mil e quinhentos Portuguezes , negros e Indios. 
Commandava a vanguardaomestre de campo Andr^ 
Vidal , e nella ia incorporado o mestre de campo 
general Francisco Barreto de Menezes ; a reiaguarda 
Joi confiada a Joao Fernandes Vieira. Chegarao a 
um lugar em que havia dous caminhos, e duvidou- 
se por qnal d'elles se havia de marchar ; houve pa- 



GASTRIOTO LUSITANO. W7 

reocat^ enoontrados ; mandou o mestre de catnpo 
genaral fazer alto , at^ que chegasse Joao Fernan- 
dez Vieira j ouvio-se o seu parecer, o qual , sendo 
eonforme com o do sargento maior Antonio Dias 
CardozOy foi appro vado e mandado seguir pelo mes^ 
tre de campo general. Depois de cortada a ponte 
que podia dar passagem ao inimigo, marchou o 
nosso exerdto para os montes Guararapes^ onde se 
experimentarao todas as utilidades do conselho/ 
sfaia que 8e achasse o menor defraudo entire i 
pirbmessa e a livranca. 

yi. Sitnou a natureza ' os montes Guararapes 
tres para quatro legoas do Arreeife, caminhando 
de norte a sul ; tres do nosso Arraial , quasi para 
o poeate ; da Barreta duas , correrifdo do norie a(> 
poente. Do monte, onde se comeca a empinar a 
terra ztA. o mar, bark'a distancia de tres' quartos 
de legoa de teste a oeste , campina rasa , de muitoa 
loidacaes e alagadicos. Dos montes para o certao 
vao continuando as serranias com mais ou menos 
altura; e digo sen^anias , porque mais o pareoem 
que^ montes y pelo subido, agreste e aspero d'elles. 
Alguns formao tamauho corpo que parece leyantao 
a cabe^a sobre as nuyens^ e pela inaior part^ sao 
de cadencias que espantao a vista^ e a consideracao 
com o despenho e com o profundo; tanto que 
suas cavidades querem persuacjiir que nao parao 
senao no.centro da terra.. Das eminencias d'elles sd 
descobrem dilatadas e ferteis campinas por grande 
distancia de certao , que igualmente suspendem e 
recreiaoj.e olbando para aparte do mar, se v^m 
muilftSrlegoas.de costa e golfo', em fdrma, qucprvf 

L 32 



M» GASXRioxo iiVanrAKO. 

meiro se acaba a vista que o obje^tQ* temmo 
(Testes montes, em partes i saibro, em partes terra 
9Qlta, como area; em muitas^ pedras desunidaft tad 
ponderosas e macissas» que pela cor e peso querem 
parecer ferro, razao por que asaguas dad itiyeraadad 
tern feiio nelles quebradas, grutas^ e barrancoa em 
tanto numero e altura, que se nao olhio sem medo 
e sem perigo; o de caminhar por elles de cavalio 
6 temeridade ; de p& atrevimento« Todos sac escal-i 
yadoSy e o natural d 'elles tao escasso, que se criao 
alguma arvore, i infructifera e agreste. As fraldas 
d'estas serranias se cultivao, e aeodem com os fnic- 
tos, ajudadas da bumidade que reeebem dos montes. 
— >Guararapes, iia lingua d6 gentio, 6 o mesmo 
que estrondo^ ou estrt^pito, que causao os instru- 
mentos de golpe/ como sino, lambor^ atabale^ e ou* 
tros ; e o rumor que faiem as aguas pelas roturas 
e concavidades d'etles Hies deo o nomede Guara-* 
rapes. ultimo d'estes monies, samdod 'elles para 
o mar, assenta o p^ sobre um meio circulo de terra 
cba pela parte do sul, que tambem o cerca pela do 
mar (pela terra fica unido a ontros monies); cin* 
gido pela parte da campina d'um dilatado alaga- 
di90 , causado d'uma lagoa que Ihe da principio , 
formando-se uma faxa de terra sotida, que ter^ die 
largura pouco mais de cem passos j entre o alaga- 
diQo e o monte ; para a qual se entra por um bo^ 
queirao , que formon a natureza entre a lagoa e 
uma lingua de mato , que desce do dito monte. 
Pela dita boca entrou a nossa gente, e se aloj6tt 
naquella faxa de terra com as commodidades e for- 
tificacoes, que Ihes dava o sitio; nao sendo a mettor 



.i> fi^aap esQOildida ao» olbos do Flamsngo ^ porque 
$& dQ9 mOQtes ua$ pcwlia descobrip. Faet o i^or 
.jQoemorta dfts particularidades referidaa part' enr 
tender oom mais clareca as ciiHsuitiataiicJaa da ba^ 
lalha i|ue logo faavemot de retalar* A povoacao da 
Moribeeti (que o inimigo intentava poasuir, como 
Juadamento de seu designio ) fica uma legoa dbs 
fidont^ Guararapes ( pequena peto nunn^ro da$ 
rcasas que a formao, grandis pelo dos vhinhos que 
a eercao em partic^jlares vivendes)^ terreno Say 
iiMmmo pela abandaocia e bondade dos Fructos e 
ikfi cnas ; retaibado de pequenos rios , cujaa aguas 
leva ao mar^ o que chamao dat Moribeca, que banha 
e da Dome & povoacao. Tudo requisites de grande 
eooveaieucia para o inteato de Sisgismundo,- • 

YIL A 18 de Abril de 16A8 arrostarao osnosaos 
OS moDtea Guararape3 j e segulndo a direccao de 
Joio Feiaandes Vieira» entr4rao pelo boqueiiio, e 
ae akjou a gente em fdrma prolongada* Tom&rao- 
96 todas as preoau^oes eni taes casos nacessarias , 
poseiio-se sentinellasy mandou^se Anionio Dias 
Cardozo para observar o inimigo ; quando neste 
iiiesmo tempo die gou o ca^Htao Barthoiomeu Soares 
Gauhay o qual pod^a escapar-^e da Barreta;TO- 
fi^io o poder e o pensamento do HoHandez com 
tudo o ^ue ate aquella hora tiiiha ^ccedido \ f^i 
dttvidoxom aegpedo e avixado co«i preoeito que 
nenfauma oouea dissesse diante <bs aoldados no to- 
oanae ao excesso que o exercito ipitroigo noa fiida 
'em uamero. Os nossos governadores mandarao &^ 
gimda vez o capilao CardoEO eom seiae»ta homens 
^para liaBdr frente ao mimigo ; as t^ams o recebirao 



500 GASTBIOTO UffiOTAElO* 

com uma cai^ , e o forao conduzindo , sem Tira^ 
rem a cara nem perderem a ordem, at^ o boqtteirao, 
no qiial recolhidos , deixou o Flamengo de os se^ 
guir. Ja nesta hork occupava a nossa infan'taria 
toda a ladeira do monte em forma de peleja. Pela 
frente^ que fazia rosto ao inimigo , se deixava ver 
de seus esquadrdes a resolucao e a forma ^ que Sis- 
gismnndo olhava, confundido de seu mesmo en- 
gano. Julgava que vinha a veneer sem peleja, e a 
triumphar sem batalha^ mas vendo a resolucao dos 
nossos, mudou de conceito, e vendo que muitos de 
seus soldados perdiao as cores j correo os esqua- 
droes animando-os a batalha com a exhortacao e 
com a ordem. 

YIXI. Em nove esquadroes formou o inimigo sua 
gente, a qual se compunha de Francezes, AUemaes^ 
Ungaros, Polacos, Inglezes, Suecos e outras naeoes 
da Europa , nao sendo a menor porcao a dos Hoi- 
landezes. A vanguarda compunha-se de dous re- 
gimenlos, um de nove ccRtos^ outro de oito centos 
soldados praticos , valerosos e confidentes ; os mais 
iodos erao veteranos tirados dos presidios de suas 
pracas, supprindo a falta com os bizonhos^ que 
naqueUe anno conduzira do norte a sua frota. Os 
Indios^ que nao tinha disciplinado a arte^ cchuo Ta- 
puyas e Pytiguares deixou em trocos soltos e vo- 
lanteSy para que melhor podessem seguir seu estilo 
. de pelejar ; entre os quaes se ouviao innumeraveis 
bozinas e atabaques, que acompanhavao barfaaros 
gritos. A nossa gente era menos em numero, mas 
de maior conta pelas qualidades de ser toda pradca, 
valerosa e portugueza ^ [^ou por nasdmento ou por 



GASTRIOTO LUSITANO. 501 

tratO'^.e armada da justica da sua causa, era me- 
Ibor armada. '^ A nossa 'vanguarda era comman- 
dada pelo mestre de campo Andr^ Yidal , o qua) 
teve ordem que com o seu terco e parte do de Joao 
F.ernandes Vieira commettessem o inimigo pelo 
raso, que era o lado esquerdo, e pelo contra lado • 
D< Antonio Philippe Camarao com seu terco de 
Indios. Joao Fernandes Vieira foi encarregado de 
huscar o inimigo pelo alto dos montes, e por. seu 
contra lado Henrique Dias com a sua gente. ca- 
pitao de cavallos Antonio da Silva teve ordem d'a- 
cudir onde a sua assistencia fosse mais necessaria. 
O mestre de campo general , depois de tudo assim 
disposto, ordenou que ao primeiro signal se avan- 
casse ao inimigo por entre as balas de sua primeira 
carga, ate que ao segundo se disparassem os mos- 
quetes da nossa parte em distancia assim propor- 
cionada^ que se nao perdesse tiro. Tocou-se a in- 
vestir ; moverao-se uns e outros esquadroes ; com 
mais ligeireza os Portuguezes , porque com menos 
corpo e mais espirito. Recebeo-os o inimigo com 
valor e disciplina ; mas nao Ihes retardou o passo, 
com toda a resistencia , nem com duas cargas d'ar- 
tilharia e mosquetaria que nelles disparou. Esque- 
cidos do perigo , attentos a invasao , rompiao os 
nossos por nuvens de fumo e balas que escureciao 
o ar,. sem que algum levasse a arma ab rosto. 
Quando ouvirao o signal esperado , que se deo a 
tempo que a proporcao da distancia nao deixou 
perder.tiro, derao conformes uma carga com tal 
efffdto, que a turbacao e desordem dos esquadroes 
copt^surl^s mostrarao claramente que pod^ra mais 



503 GAftTBIOVO LCnUTAlia 

a perdt que a ordem. Passou-se palairra queinf^ 
ti«a«m;a eepada, e achou a voz a obedienda tio 
prompta, 9 a oceasiao tao opportuna, que am bi^6 
tempo rompiSimo os eaquacli^ kiimigos^ fati^iido 
cada um dos forlugueees camiaho tao targo, 
quaoto o media a extensao da espada. genlio 
alliado com o FLamengo^ vendo que nada podia r&^ 
sitiir ao furor dos nosaos^ nonoebeo tamanko m^^ 
que largando oa posto8 e as armas se pot em d^sa* 
tada fugida ; e ial foi eeu e^panto^ que no cenUK) 
doi matos ae nao dava por seguro. 

IX. Quasi naeia bora susteutou o inimigo a t^ 
sialenciaem duvido^ batalha ; portoi aquelle tempo 
que raa difioipliua e seu yalor o teve fittne, tiirei«o 
08 nossoe para oa oortar no raso e uo moAte^ cein 
taea e tao pesados golpes, que primeiro os eftpaiitou 
o eatrago que o conflicto. Viao na rerisieneta a 
morte oerta^ e (ojmo largando o campo^ ^ de^am^ 
baratanda oa monies com retirada mai aueeedids, 
poique a dispoiioao daa iadeifas 09 subtneitia de** 
baixo das espadaa^ que nellea deBcarreg^rao coM 
tao atefitado pufao que se nao via dtatineoao etitf^i 
fef ir e iimtar. Ulustne pxtmplo darao os mestres da 
catfipe Joio Femandea Yieira e HHiHque Dias ftos 
seusj e nwerameneaillostndaifnitacao que oexefl^ 
pto. M nea(e tempo o eortair nao era ^^ettcer^ senao 
destruir 9 :p(Mque nao karia iaiitugo que o pai^ 
cesse^ setiao qa ^ retirada. -^Kao andaMao as artnas 
metioa quentes na earn pi na^ onde os doua mestres 
de ca«i»po wy ganhando t^erra »o inimtgo^ qu^ ette 
perdia^ «M^ nao a disdplina nem o atiim«^$ a ^it^ 
guftkhde «rti doe pukos ; e eome^ a ser tttM^t 



11 






u 

41 



cASfoaionx) lgsitaho. 603 

do numero, porque todos os Flamengos , que ven- 
oidos deixavao os monl^ , se forao incorporando 
com 08 aeua que peiejaTao no raso. O roesire de 
cao[i))o Joao Pernand^^s Vieira , que Ihes yinha no 
alcftDce , setn ab^ixar a espada , correo com os seus 
sold^dos a iinir-se com os de Andrd Vidal de Ne- 
greiroft, e assim cai^regirao o Flamengo, que co- 
nheceo os bracos pelos golpes. Sostent^rao o posto 
com a obstinacao ; e nao com a esperanca , porque 
se f^ziao TOito ao pter^o, ierao oonstrangidos das re- 
prehensoes e ameacos de seus cabos, que os obriga- 
tao com a injupia e com o exemplo ; por6m o amor 
da tida e o horror dos mortos os fez esquecer da 
6brigacao e da honra. Aos poucos que detinha a 
multidao (que o vator nenhiim) fez virar as costas 
o capiiBO Antonio da Silva, que chamado da occa- 
siStf acudio ao loaar do ^ombate , rompendo pelo 
iUimigo tbm o trilho, e com a lanca , de sorte que 
feria e atropdlava rcndidos aos que so nas armas 
|)areCiao soldados. Ji os nossos achavao nos inimi- 
gos desvio sem reparo, matando e ferindo sem dis- 
thwicao de opjioslos a redendidos. Cedeo a multida6 
ao vaior. Nab pod^rao os HoUandezes supportar 6 
peso de nossas armas ; perdferao de todo a obedien- 
eia e a discipima ; rotos e desbaratados se poserao 
em desordenada fugida^ deixando-nos no campoa 
artirtiaria, a baga^em, e seu estandarte general, 
b quAl tirou das maos de sed alferes um sargento 
do terco de Joao Fernandes Vieira, a quern o apre- 
sentou ; chamava-se Affonso Rodrigues. 

X: O prazer com que os nossos apellidavao a 
victoria M •a cattsa de que o inimigo se cobrasse 



50/» cA&rtdow iiUaiTANa 

no USD de sua ariilharia ; e o houvera de ser de 
Qossa perdicao. A nenhuiu deixou a akgria , nem 
para retirar, nem para guaraecer a artilharia , de 
que ipios.fez senhores a batalha, e muito menos para 
acudir e.atalhar a desordem em que os soldados de 
Camarao e de Henrique Dias se engoUarao em rou- 
bar ; e como ua fortlficacao da plata form^ j d'onde 
jogavao as pecas, estava o recheio do e^ercito, era o 
roubo no mesmo lugar onde se havia de por a 
guarda; e parecia guarda o que era rapina. Roto, 
como temos dito, o Flamengo, fugiao qs contrarios 
para onde o^ levava o temor e a esperanca; uma 
grande partida foi co^eando o monte, a qual ata- 
Ihada dos nossos se deitou ao alagadico; por^m uma 
ca rga de mosquetaria, que os alcancou quasi submer- 
gidos fez com que suas vidas fossem despojo de dous 
elementos. Os de outra partida, que com as ^zas 
do temo^ fogjao poraquella faxade terra, que ficaya 
entre o alagadi^o e o monte, seguidps, deixarao as 
armas, e alcancados as vidas 9 sem haver alguma a 
que perdoasse a nossa espada. Forao tantos qs mor- 
tos em uma e outra parte, que dava seu sangue ou- 
tro parecer d terra , e outra c6r a agoa. Ja nao 
havia respira^ao com alentos para seguir ; ja nao 
havia bra^o com forcas para matar. £spantou-se 
entao a experiencia, como agora a considera9ao , 
do trabalho que supportdrap os Portuguezes neste 
dia ; pois quando o fim do conflicto os conyidava 
com o descan^o, entao o rebate os mettia em nova 
batalha. 

XI. Escondido aos olhos, e as noticias da nossa 
geiiie, tinha o Flamengp n*um ^y^Ue^ que faziao as 



GASTU070 iUSITAIIO. 505 

fraldaa de.dous montes, um esquadrao de reaerva, 
composto de doze companhias ^ commandado por 
jHenrique Hus, mandado vir do Arrecife para ^te 
fim, como ja dissemos; com o qual se encorporarao 
todos quantos Hollandezes o conflicto deixou com 
vida. Seguia-os o nosso alcance ; Henrique Hus, 
que vio em uns e outros igual desordem, nao per- 
deo a accasiao que Ihe offerecia a fortuna. Saio a 
eDCoatrar e a rebater o impeto do alcance ; sobio 
o moJQte, cobrou a artilbaria perdida, e favorecido 
d'ella foi carregando de pesados golpes o ter^o de 
Henrique Dias, que Ihe fazia rostx) com militar re- 
tirada ; foi soccorrido d'algumas companhias , que 
a caso o poderao fazer ; porem nao era bastante tao 
pequena opposicao para tamanho poder ; supposto 
que Ihe detinhap o curso ( com que ]& descia pelo 
monte^ dando e recebendo cargas^ com discipliua e 
acordo) nao Ihe cortavao o passo. 

XH. Os nossos mestres de campo, que no baixo 
ouvirao o estrondo dos tiros , levanlarao os olhos , 
virao a peleja, mas nao poderao conhecer (pela dis- 
tancia ) de que armas era o melhor partido ; antes 
que entendes&epi que os sens erao os que necessita- 
vao de soccorro, osavancou pelo raso Sisgismundo, 
com toda sua gente novamente formada, ^ com 
nova furia ; que brevemente Ihes fez quebrar a va- 
lentia com que os nossos o forao receber, e foi tal a 
opposicao que presumio SiSgismundo que, ou a 
nossa gente bebera novos alentos no trabalho de 
todo aquelle dia, ou se havia poupado s6 para 
aquella bora. — Aos estimulos da occasiao sobe- 
javao OS do exemplo com que Joap Fcrnandes Vieira, 



AnAri Vidal de Ncgreiros , c os «o!dados de seus 
tercos avanc&rao ao Plamengo, buscando oS posted 
tnais arriscados. Na competenda da otisadia %e tnos- 
trava d do valor; a todos exortava d rista, a poucos 
St invej^, porque nao houve soldado qac nao des- 
pr^zas^e o perigo. Os HoUandezes resolulos em 
morrer oti veneer desestimavao a vida : nas pontas 
de noss^S espadas os mettia a colera ; por ellas bus- 
cavao a vinganca, e nellas achavao o castigo. Calao 
OS primeiroSy e logo os segundos subsdtuiao o lugar. 
Sisgismundo itnpaciente de se" ver batido , presage 
de sua desgraca , accusava a for tuna , mas nao 
^bai^ava a espada; com e!la na mao ferla e exor- 
tava^ animando os seus com a lembranca da honra 
e da injuria ; estremos com que os persuadio a que 
ii^estd occasiSo obrassem como valentes ; e certo , 
que tienbum dia raereceo & Fama mais esclarecido 
pregao de general e de soldado. — Perfiava o con- 
flicto, d^sprezjando-se o espanto que causava a lodos 
b coufuso estrondo dos instrumentos marciaes. 
retumbar das pecas, o fuzilar dos tiros, o retmir 
doS golpes, OS gritos dos cabos (sem o gemer dos 
Feridos e dos agonizanles) , causava ^tima pavorosa 
disonancia. fumo da polvora , o p6 da terra nao 
deixava distmguir amigos de inimigos , porque ti- 
ravao a jurisdiccao aos olhos. tJmas com outras se 
mostravao as armas^ porque s6 com a luz dos tiros 
se deixavao ver as espadas ; era tamanba a confusao 
que pelos golpes e pelos pulsos se conbeciao os 
Dracos, e nao pelas pessoas. A fienhum deixava a 
vizinban^a a escolha^ e cada qual se Vatia da arma 
que the permifda a sua di^tancia > e talvez inuleiD 



aiadJi M mais ^wrtes ^ je f iDfaio a bi^a^Ds ; aprara^ • 
taollp-Be o dosatioo d'unhas e dfotasi A multiilM 
dos corpoa nwrios (que pint una sra camulo^ para 
oiitrod vaUo ) a todos iriitavay a n8nh«iii <)om|^iln- 
gia. meoos nuootat) dos, Pdrttigaeset likes mo 
deixava ea'ir os braooa^ poirqlie eainMidos^ de ioveii^ 
civtts e^piritoe ae moslravao iocanaa^eisA 

XIIL Acs doua Hercuks portugqeaes Joao Bet*- 
iiakides Vieixa, e A&dr^Vidal de Ne^iroa nao 
podo ehegar eotao^ nein a eiiiti}acac^ nem a itiveja 2 
suaa proesas callou tiaqiifella dia a adnaiva^o, pai« 
agora aa ouvir a inoredulidade^ portoi diaiimula'^s * 
a.pefina^ potque a limilaeao 'di> ^voo nao chega a tao 
all^ aasumpto* Quaaio obriraoe quanio mereo^o 
s6 pctT ioferentuaa S6 podera alcaa^ar t cottKid^^re^ae 
a dmracao do perigo , e logo aa ver^ o mvito que 
obroito ssforco. Ao medtre de cAutpo Joao Feman- 
(ks Vieica dnegou Um valente Ho(litM|^ a p^at* 
com a mao esquerda has redeaa d^ eavaltO; e At** ' 
vantando o bra9adirctto para inal^r d^ ntn gol^e, 
antes que deaae a f^^ida reetbeo uttia <^iilada, qM 
juBiamento o ^rtio e o aparco^j. Era tnaia forcoso 
t]»pa^o^ foi mais ligeiro o mMmfem6. Asaim 
aehou todo o (empo do touQi^U^ etitre as espadas 
eashalaa^ aera quealgum d'edtes maieriaes o ferhse 
<[ue ae o nao temiao j pareea qiie reap^tavio. Dm 
pelouro Ihe futt)u a diieiha do <»vallt>, nao pelo 
farur^ senao pelo gdlanieat^t "Em «(ada distmithante 
vio a oecadiao ao mestre de ca«^p6 Art*r4 Vldal At 
^bgpeknas. F^rio^he uma bala o ^valld^ ^m que 
mof^taiva) paaaoa-sea oiitroy ^ d!^x0ii^b feHd^p^i^ 
o vap dtofibdafado A'^&Wk tela; € «M^i« (^tato^ 



50S« CMTUMa I^ftltAKO. 

o-respeitava a forluna. A um e outfo acetdirao 
muitos pelouix>s, que pararao nos vestidos. Unia- 
os a amizade, e nao os sabia distinguir a sorte: 

XIY. mestre de campo general^ que pelejava 
com OS bracos de todos , e a todos assistia com os 
socoorros e com as ordens j vio que no mais tra- 
vado da peudeudia vinha Henrique Hus carregando 
a Henrique Dias pela ladeira do monte ; conheceo que 
o pensamento do HoUandez era lancar-nos fora do 
boqueirao, onde pelejava a maior forca dos exercitos ; 
fez advertencia a Antonio Dias Cardozo do inteuto 
e do perigo ; o qual o atalhou com tal disposicao, 
que bem de pressa reprimio a confianca hoUandeza. 
— Sisgismundo, que a tudo attendia/veado que 
pela vautagem do sitio nao podia veneer pela forca, 
determinou empregar a arte. Fez pe atraz, tocando 
a retirar ; formou de novo os sens , c mandou en- 
vestir o boqueirao. Travou-se de novo a luta, e tao 
encarnicada de parte a parte , que mais pareciao 
feras que homens os que defendiao e os que ataca- 
vao. Em ganhar e defender o boqueirao consistia a 
victoria d'uma e outra gente ; ainbas despreaava^ 
o perigo po;? conseguir o intento. Cioco hbras havia 
que durava a batalha , e nellas se virao os nossos 
alguraas vezes tao apertados^ quese temerao pe?r- 
didos ; por^m aquelles heroes inveuciveis Joao Fer- 
nandes Vieira e Andr^. Vidal de Negreiros , com a 
propriedade de raios^, buscavao a resistencia mais 
dura para romperem mais violentps; por tudo rom- 
piao sem perderem tempo nem golpe , e aos seus 
inspiravao novos aknXps, causando ^aos ipimigos 
tey^or o espanto. jJa o inimigo, cortadp df>krro e 



do medo , com tibieeii tidba perdido a obediencia ; 
nem a gritos, nem a golpes podiao' Sisgismundo 
-e seus cabos fa2^]-*o8 entrar no conflicto. Sem 
tocar a retirair, o fizerao todos os seus a tempo , 
que andavao as arma^ e os mosquetes tao esquen- 
tados f que nem as maos os podiao soffrer, nem os 
bracos os podiao sustentar. Com muita difficuldade 
pode ataUiar o general hollandez a fuga dos seus. 
A proximidade da noite Ihe foi favoravel para for- 
mar urn batalbao de saos e feridos : e o cancasso 
em que se achavao os nossos Ihe deo occasiao para 
nao ser de todo destruido no alcance. 

XY. A nova forma que Sisgismundo dava aos 
seus fazia crer aos nossos que ainda tinhao inimigos 
que veneer ; para o que , sem largarem as armas 
nem os postos, esperavao o combate. Era no fim 
da tarde ^ e a continuacao do trabalho e falta de 
refeicao os tinha quebrantados e desfallecidos nas 
forcasy ainda que inteiros no animos. Acudio-se a 
cada um com uma pequena quantidade de assucar 
desfeito em agoa, soccorro mais para refrescar que 
para refazer; fraco, mas sufBciente remedio para 
corpos que se alimentavao de tamanhos espiritos. 
— Em trocos os tinha partidos a ordem dos mes- 
tres de campo, com prematica, que dada a primeira 
carga , se rompesse d espada. Acabaya-se o dia e a 
paciencia dos nossos ; com militares desafios pro- 
Vocarao ao inimigo uma e muitas vezes a acceitar 
bataiha; porem alheio de similhante pensamento, 
como se fora iusensivel , se conservava immovel , 
porque f urtado a nossos olhos cobria com o corpo 
de sua gente a diligencia de retirar os feridos mais 



MO oMmioia lomMD. 

-perigoios!|iaa*a4BMTOta ^e forao taAto 
^arao eiiioo baitaa em rtpetidas viagens da Barrata 
para o Art^eoife^ Enlron a noite com tatoanha iexxk- 
peatade de agea , trovoiMi e tento f que pareok 
4repeiiiv-ae eatite pa elementoa o paasado cooflicto. 
Nao perdco tempo Sugiamundo i mandou mU sot- 
dados que afe adiantaftseai a guaroecer o cammho 
.de eraboscadsis > pkra defeaderem a mttroha^ dm 
cato que oa nosto^ Uie dessem aloance ; coberto do 
escuro^ e acoBipaiihado ^io sitencio so poa em fu- 
gida peia meia noite. A caso o piolrao vinte sol- 
dados pela retaguarda (qbe para o eapiar no po^ 
aairao de nosso albjamento); seguf rao-lhe o trilho, e 
imaginaadoqueinaior pojder o oarregava^ fogiocom 
tal desatinO) que deixou muitos feridos , e as pou- 
cas armas que kvava, para earoinbar mais ligeiro. 
XVI. GoiU a luz da manha eairao os mbstres de 
campd Joao Fernandas Yieiiii e Andre Vidal de Mr- 
greiroB a ceryificar^e , ou da fuga, ou da forma do 
inimigo. Ach4rao a eampanha coberia de despojos 
aem immigosr;>ed'e0ta yes a victoria sem batalha, 
o gostb sem reoeio^ o triumpho sem contrario. Ck>r- 
r6rao a congratular-^ com o mestre de oampo ge- 
neral Fra&ciaeo Barreto de Menezes, a quetn se 
deviao os primeiros viva^, pelo.que nesta occasiao 
obnara seu valor e ftua comprebensao. Acdanrou^se 
por todo o ftlojamento a vietoria^ com todas as de- 
iMdnstra^es tie alegria , e de gratificacao a Decs , 
cofifesaando reeebM-^a da mao da Altiasimo. Correo 
ta nova por todo aqnelle d^stricto, e o mesmo alvo- 
roco que a cria a duvktava (condicao:^ que traz com- 
iftigb a t>0Bse do nfiie nuito se deseja quluido mass ae 



duyinj^i) .A^u^dlesmoradores, que poupas bpras 
antes se consideravao condemnaaos & morte e aa 
grilho^ vendo-se com liberdade certa, engraadeciao 
a mi^sericGirdia divina, concurrendo paraumas mes- 
mas lagrimai a coxnpunc^ao e a alegria. Descerao 
4o$ matos QS mais yizinhos a dar e a receber para* 
bem de tamanha dita, que Ihes augai.entava a vista 
do perigo ua horribilidade do estrago^ Nao se via 
pelo campo da batalha outra cousa mais que armas 
destrocadaSy e corpos mortos e disformes, envoltos 
em seu mesmo sangue, empocado em muitas partes, 
o qual a terra ja nao bebia por congelado ; espec-* 
taculo tao borrendo^ que o via a lastima esquecida 
da ofTensa. 

XVII. Deixou o inimigo no campo mil e du- 
zentos mortqs , ^atre elles dous corpneis ( Hus e 
Vanelles ) ; cento e oitenta ofliciaes ^ sem entrarem 
n'esta conta os que eaconderao os matos, que forao 
muitos , e muitos aquelles que por falta de cura 
morrerao na Barreta e no Arrecife. Nao se d^ nu- 
mero aps feridos, porque a cautella os nao deixou 
contar ; os de maior posto forao o general Siagis* 
mundo por um artelho , o coronel ^thim pelo 
pe^co^o , e outros oHiciaes menores* Dos soldados, 
a poucos deixou de assignalar o npsso ferro, Os 
despqjos nao parecerao de exercito guerreiro, sepao 
de cidade pacifica. Quantidade de ouro e prata em 
moeda e pecas ; cavallos ajaezados com riqueza e 
prlmor; yestidos de guerra e gala; sedas d'arlificio 
e valor ; cbapeos e plumas d'estima ; sedas e olan- 
das eni roupa e em peca, muita copia ; mi^itos es- 
padinft^ peito^, espaldares e capacetes de pi^eco pela 



512 GASTRlbrb LtSITAKO.' 

tempera e pelas guamicoes : dnas pecas de bronze, 
com armas de fogo e ferro em grande quantidade ; 
munigoes de toda a sorte , em numero crescido ; 
mantimentos para o sustento e para o regalo em 
muita abundancia^; uma botica de toda a abun- 
dancia de medicamentos ; ultimamente uma somma 
grande de varias prisoes para maniatar captivos , 
que em sua determinacao haviao de ser os soldados 
e moradores, a que sua vontade concedesse a vida 
([mais alta Providencia trocou as sortes). Entre os 
prisioneiros foi o seu coronel Kever o principal. 
Custou*nos a victoria oitenta e quatro mortos, sendo 
d'este numero os capitaes Joao Rodrigues, eDomin- 
gos da Costa, e o alferes Manoel Ferreira de Lemos, 
que viera da Babia com xim soccorro de polvora. 
Os feridos passirao de quatro centos, sendo a maior 
parte do terco de Joao Fernandes Vieira. Concedeo- 
nos o ceo esta victoria em o Domingo da Pascoella 
19de Abril del 648. 

XYIII. Osmestresde campo, officiaes, soldados 
e moradores, que se acharao na batalha, derao 
novos empregos a fama ; a todos deve a patria gra- 
tas memorias , e a monarchia incorruptiveis esta- 
tuas. mestre de campo general Francisco Barreto 
de Menezes nada ficou devendo nem a seu sangue , 
nem a nossa esperanca. Joao Fernandes Vieira , e 
Andr^ Vidal de Negreiros vencerao nesta occasiao 
o impossivel , de fazerem maiores sens nbmes. Os 
governadores de Indios e Negros , D. Antonio 
Philippe Gamarao, e Henrique Dias fizerao co- 
nhecer ao mundo que o valor nao i heranca senao 
excellencia. sargento maior Antonio Bias Car- 



GASTBIOTQ LDSITANO, 513 

dozo immortali^ou nesta occasiao sua capacidade e 
seu brace. Os tenentes generaes Antonio de Freitas 
da Silva e Philippe Bandeira de Mello mostrdrao 
quanto seu merecimento se adiantava a sua opiniao. 
Os capitaes e ofiiciaes menores ensinarao a todos 
como em uma mesma mao cabiao as armas e as in* 
signias. Os nomas d'alguns deixou entao de publi* 
car o descuido j e agora o tempo ; retiremos os que 
noraeou a lembranca. Do terco de Joao Fernandes 
Vieira forao os capitaes Antonio de Castro, Amaro 
Cordeiro, Antonio de Rocba Damas, Antonio Bor-« 
ges Ochoa, AfFonso d' Albuquerque ^ Antonio Ro-^ 
drigues Yidal, Bertbolomeu Soares Ganha, Braz da 
Rocha , Braz de Barros Teixeira, Cosme do Rego , 
DomingosFerreira, Francisco Berenguer, Francisco 
de Lisboa, Francisco Barreiros, Gregorio Fragozo, 
Joao Soares d'Albuquerque, Joao de Pontes, Manoel 
Moniz, Manoel d'Abreu, Manoel Lopes , Paulo 
Teixeira, Philippe Ferijeira, Sebasliao Ferreira , 
Vicente Gurado ; e Domingos da Gosta e Joao Ro* 
drigues, que morrerao na batalba. Do ter90 de An* 
dre Vidal forao os capitaes Antonio Gurado Yidal , 
Antonio Rodrigues Franca, Antonio daSilva, Ama« 
dor Rodrigues, Antonio Dias Santiago, Francisco 
da Rocha, Joao Barboza Pinto, Joao Lopes, Lou- 
renco Carneiro , Manoel de Aguiar, Pedro Gaval- 
canti d'Albuquerque ; capitaes de cavallos Antonio 
da Silva, e seu tenente Domingos Gomes de Brito . 
XIX, Pelas maos da incredulidade se derao e re- 
ceberao as novas da victoria na Bahia ; como sonho 
as avaliava quern com mais attencao as ouvia, at^ que 
com certeza as di vulgou o conde de Villa-Pouca , 
L 33 



514 OASTftlOlO LtJSCriHO. 

que entao governava o Estado» per correio que teve 
de Zenobio Achioli , a quem assim a ordenara o 
mestre de campo general Francisco Barreto de Me* 
nezes , remettendo-Ihe por esta via , com algumas 
bandeiras hoUandezas, od mats certos testemunhos 
da verdade. Fora o successo tao alheio da esperanca 
de todos^ e do conceito de Antonio Telles , que in- 
formado na desigualdade do poder d'umas e outras 
armaS; tinha assentado comsigo, como por impod* 
sivel deixar de veneer o Flamengo , e tao firme 
estava ne^ta opiniao , que mandAra ao capitao Fe« 
dro de Miranda com duzentos soldados, em cinco 
companhias , que fosse assegurar a passagem do 
Rio de Sao Francisco , para que estivesse franca a 
gente que podesse escapar das maos do Flamengo, 
e viesse fugindo para a Bahia. Quanto mais inopi- 
nada foi a victoria, tanto mais festejada foi do conde 
general de toda a armada , soldados , e povo ; en*- 
chendo os ares de vivas / as ruas de festas , e os 
temples de lagrimas, com que gostosos e compun*- 
gidos tributavao a Deos graicas de tamanho bene- 
ficio. mesmo efFeito causou a nova em todas as 
povoacoes do Estado. 

XX. Depois de se p6r em arrecadacao tudo que 
do despojo pertencia ao fiscb , e depois de enterra- 
dos 08 mortos e curados do modo possivel os feri- 
dos, tudo ordenado do melhor modo possivel , e a 
gente refrescada, marchou o nosso exercito para o 
EngenhoNovo, sitnado dosmontesGuararapespara 
o norte , no caminho do Arraial, onde fizerao alto. 
Em 20 de Abril entrou Sisgismundo no Arrecife, 
onde se vio livre, mas nao desassombrado de no^ 



j 



dAStfttftW itSttANb. 5!5 

s^g armas e de «iift perda , que Ihe dbbtm 6 ft«titl<^ 
iiienio com o5 prantos , que causdrao as mottes e 
feridas tiaquelle povo, abndetiao httUvC pes^oaA 
quern nao aleaiicadse a magoa e o luto. P^i^a levail- 
tar OS animos abatidoi e qu^ixosd^ ftitentott Si^gis*' 
mundo, de accordo com seus caboS, tdmafAvillft 
de Olinda* o que consegulrio facilineiite, porque os 
habitantes a havi&o abaudouado , e ds poueos sol^ 
dados que guai*tteci&o o reduto, que chamavao a gua- 
1*1 ta de Mo d' Albuquerque, veiido a desigualdade 
das forcas, se retlrarao. — Logo que esta notlcJa 
chegou ao Efigeuho Novo , mandou 6 mestre de 
campo general tocar arma , e no ihesiho dia mar- 
chou o exereito para o Arraial • mas ahf encotitrou 
outra nova rvko menos desagradavel que a da perda 
de Ollnda. Aquella novaforca, chamada da Bataria, 
em que se fundava tod a a esp^ranca de se gatihar o 
Arrecife, pelo damno irreparavel que d'ella recebia 
todas as boras, acb&rao os hossos perdida, e oecu- 
pada do inimigo^ sem, ai^ aquella hora, se alcaticar 
o como, nem o quando, uem sabereiii atinaf , Se o 
ch^mdra o aviso, se o desemparo. Soube-se depois 
que o capltao , aquem se fiara a resi^tehcia, e que 
tinha gente bastante para resistir ao ataque, se re- 
tirara sem combater. f*oi por tauio mettldo em 
conselho de guerra, e alnda que abSolvido fta seti- 
tenea, nunca (icou sua culpa bem limada na opi- 
nlao do vulgo. 

XXI. Magoados os nosso* eabos maiores de tahtd 
maisinfelicie, quanto menos esperadoacotttecittietito, 
tratarao de empenhar o resto para Ihe cor tar aS es- 
peraucas da dita ; a^Mut^rgo entre it que a villa de 



516 CASTBIOTO LUSITANO. 

OUnda devia de ser reganhada quanto antes. Com 
effeito em 22 d' Abril saio do Arrraial o capitao Bras 
de Barros com trezentos soldados, com ordemde 
ganhar a pra^aao inimigo do melhor modo que po- 
desse. Marcharao os nossos f ur tiyamente, e chegarao 
]& de noite a um sitio, meia legoa da yillai que char 
mavao de Antonio de Sa da Maia ; com boas senti- 
nellas e praticos descobridores do campo se aloj^- 
rao nelle. Em a seguinte madrugada amanhecerao 
OS nossos sobre a Tilla. Mandou o capitao Barros a 
dous soldados destros nas ruas que explorassem o 
que na povoacao havia ; succedeo que na rua de 
Sao Pedro derao de rosto com as sentinellas con- 
trarias ; as quaes vendo-se assaltadas, tocarao a re- 
bate com tiros e vozes, e de corrida tomarao a ve- 
reda que guia para a igreja de Sao Bento, seguidos 
de nossas espias at^ a fortifica9ao de Joao d'Albu- 
querque, onde se alojava o capitao NicoUs com seis 
centos homens. — Ouvio Bras de Barros os tiros 
e Yozes do rebate , suspeitou o empenho das sen- 
tinellas^ apressou a marcha, chegou a vista do ini^ 
migO| e de passo Ihe deo algumas cargas ; metteose 
debaixo desua artilaria, cometteoo assalto, dizen- 
do aos seus : « Avanca I avanca ! a espada^ filhos. » 
Yozes forao estas que ^ssim cortarao o inimigo 
como se fora o mesmo ferro. Os que se alojavao 
fora da fortificacao fugirao com desordem ; os que 
dentro a guarne^iao^ com desatino ; deixando-nos 
na mao o reduto e a trincheira, cojno se para este 
fim a guardarao. Entrarao os nossos , e voltarao 
sobre os Hollandezes a artilharia do forte , e com 
as bala« os buscarao e seguir^o at^ onde cursavao 



GASTRIOTO LUSITAMO. 51? 

as pecas. Foi em seu alcance um tro^o de soldados 
nossos, e tantos matava o furor quantos alcan^ava 
o braco ; nao houve inimigo que se lembrasse da 
resistencia^ nem do reparo ; assim recebiao o golpe 
como se estiverao obrigados a nao defender a vida; 
todos pareciao HoUandezes; sem algum mostrar que 
era inimigo. Continuou o estrago at^ onde chegou 
o alento ; faltos d'elle fizerao os nossos alto no meio 
da praia, nao s6 para descango, senao tambem para 
desafio. Sairao do Arrecife duas partidas de sol-^ 
dados para soccorrer o Hollandez, mas nao se atre^ 
verao a provar a mao com os nossos, e se conten* 
tarao em recolher os corpos mortos dos sens, que 
cairao mais perto da fortaleza. Cento e sessenta Fla- 
mengos deixou estirados no campo o chumbo e o 
ferro ; e a este respeito se podem orcar os feridos. 
Gustou-nos este desejado successo sette feridos; o 
de mais conta e de mais perigo foi o capitao Ma* 
theus Fagundes, passado d'uma bala pelos joelhos. 
Deixou-nos o Flamengo quasi todas as armas ; de 
municoes, mantimentos e moveis nao levou cousa 
alguma; nao porque o cegasse a ira, senao porque 
o aconselhou o medo. 

XXII. Em 28 do Abril mandou Sisgismundo 
pela estancia das Salinas um bolatim e carta , em 
que pedia os prisioneiros ^ deixando em nossa 
eleicao os partidos j com advertencia que as mes- 
mas condicoes se achariao da sua parte, quando se 
trocasse a fortuna. Ordenou-se ao bolatim que en- 
tregasse a carta, sem Ihe permittirem que entrasse 
na estancia, e disserao-lhe de palavra que a seu 
tempo se responderia. coronel Kever, que era o 



518 OCITBIOTQ (.P«ITAV0, 

fi4 prwo> 89 poz 4 bom recado m fortal^ata de Naza*- 
r^di atd que howe oqca^iao de ^ remitter a Bahia, 
e depoia pam o reiuo. mais que o HollandQ? Ibe 
pode aloaaqari por eatao , foi Uoen9a para que urn 
gentilbomem de 9ua casa o service oa prisao. Sra 
o coronel peasoa de qualidade, e de e^tima^ao eaUe 
oa seiia**^£atre as naos da armada hpllandezai que 
ae derrotarao no canal, tom^rao algumas diSerente^ 
ponos, onde ae repararao ; e depoii aa jrao em de- 
manda do Brazil. £m uma d'ellaa navegaya lua co^ 
roneli homem de grande opiaiao por dotea da 
j]Uiture2(a e da for tuna (o descuido e a tempo uos 
roubQu o nome ), Com algumas da9 emliarcaQocia 
deitgnrradaa que reoolheo aporiou ua barra do Ar**- 
recife peloa idtimoa diaa de Abril d'eate pre^ent^ 
auQOf Foi recebido com menos alvoro^o que dea^ 
maioi {pformou^ae da oauaa , e esqueicidp da cam^ 
paixao I censurou a fraqueza de todoa com e$caa-<- 
daloa% arrogaAoia* Chegou a vista de Sisgiamuodoy 
gasiou ppuQas pnlavras de comprUneiiiLto , e paMOu 
Togo aa da altivesa % duendo que nuAca imagiuara 
esper4l-o maior termeuta no porto que ua viagem. 
Com moderacao de entendido Ih^ reapoudeo Si^gi^** 

muAdp j e. depoia de \hf ponderar ^ cirQumitaneias 
qite iiahao prodwsido aqueWe dc«stw, diaseJbe 
que ae queria poubecer oa aoldados que tiiiha a coo^ 
hater> que m^^ o chocar com os uegros de Seo-* 
rique Diaa^ deapidoa e de»cal9oa eomo o» imagiM^^ 
que depoU Q» eatimas^e pelo qye merecfstem; ^^^ 
que Ibe succedease iafensae, pclos pegros, que bo^ 
mens aeriao oa brancoa : deaengano para que Ibe 

QoncedM a eiico)ba e o ^^^^o d» «(4d«d<» i^ 



GASTBIQVO mSlTANO. 519 

quizeese levar; mas que se guardasse nao viesse 
com as maos amarradasi levando-^as soltas. 

XXIII. Ouvio o coronel com desprezo a SisgU- 
mundo; acceitou o offerecimento com altiveza, es- 
colheo OS soldados de que tinha mais satisfa^ao ; 
gastou algUDS dias em os exercitar uas armas, e 
aprestado de tudo o que Ibe pareceo uecessario , 
saio do Arrecife com dous mil infantes em 21 de 
Maio, e marchou para a estancia de Henrique Dias. 
A poucos passos deo com as sentineUas, e as seguio 
ate se recolherem dentro das trincheiras, que achou 
guarnecidas com tal for^ e arte, qual nao imagi- 
nava. Foi recebido d'uma e muitas cargas de mos- 
quetes biscainhos, cuja pontaria derribou nao pour 
cos. Ja a esta bora o coronel bqUandez estava 
menos quente, e ficou de todo frio quaudo vio que 
Henrique Dias saia das trincheiras com todos os 
sens a investil^) na campanha. Furiosa foi a peleja, 
e contumaz a porfia, sem que nenhuma das partes 
perdes^ palmo de terra. Acudirao entretanto os 
capitaes das estancias vizinbas ; carregarao o ini- 
migo pelos lados, e Henrique Dias pela vanguarda 
com tao pesado ferro, que Ibe fizerao largar o campo, 
e virar as costas , sem que a pressa Ihe desse lugar 
a retirar os mortos. Fugio euYergonbado o coronel 
para a Barreta, onde vencido e obstinado escondia o 
medo proprioy condemnando a fraqueza e pouca 
disdiplina dos sens. Logo que se acbou cobarto com 
a artilbaria da fortaleza^ deo nova fdrma aos sens, e 
depois de os estimular ao combate , mandou tocar 
a envestir. Horrivel foi o combate pelo estrago e 
pda teuacidadB* A coutinoaQao das cargas ^ a um 



520 CASTRIOTO LUSITANO. 

mesmo tempo abria e condensava os ares com fumo, 
e com o estrondo. Sisgismundo, que estava na 
€ama» inferio o resultado do successo pela duracao ; 
mandou ordem ao coronel que logo se retirasse, e 
passasse & outra banda do rio pela ponte que Ihe 
maudava lancar. Ajustou-se o preceito do general 
com o desejo do coronel ; com obediencia cobrio-o 
o temor, e sem detenca se poz em salvo. Chegou 
n'este meio tempo Joao Femandes Vieira ; mas seu 
auxiiio sobejou a victoria , porque ]& no campo se 
nao via mais que o deslroco da batalha^ e os ap- 
plausos do triumpho , com que se recebeo o soc- 
corro. Grandes diligencias fez Joao Fernandes Vieira 
para que o inimigo, que ja tinha passado o rio, 
tornasse a campanha ; por^m elle se nao deo por 
entendido. Passado d'uma bala pela garganta o 
carregarao os sens maneatado. Foi castigo do 
caso ; e pareceo cumprimento do ameaco de Sisgis- 
mundo. 

XXIV. Como a estancia de Henrique Diasera 
a mais incommoda para o inimigo , resolveo Sisgis- 
mundo em ir atacal-a elle mesmo. Em 1 8 de Agosto 
assaltou a sobredita estancia com dous mil soldados, 
que a envestirao com desatada furia. Defendeo-se 
Henrique Dias com o desenfado que causa o pelejar 
por regalo, e o veneer por custume. No maior em- 
penho do combate cheg^rao os soccorros das estan- 
cias vizinhas ; deixou o Flamengo a expugnacao , 
deixando morlos no campo cincoenta soldados, e 
retirando-se com grande numero de feridos. Da 
nossa parte foi a perda tao pequena que a nao es- 
timou a lembranca. Outras muitas vezes inteniou o 



GASTRIOTO LUSITANO. 521 

HoUandez o mesmo, mas sempre com igual successo. 
Adveriimos que em os mezes de Junho e Julho nao 
houve successo, mais que o referido, que merecesse 
particular lerobran^a. — Nao tinha acabado o mez 
de Julho ^ quando chegarao ao nosso Arraial qui- 
nhentas cabecas de gado^ tiradas de Sergipe d'EI Rei ; 
e logo em 24 de Agosto, o mestre de campo Fran- 
cisco de Figueiroa com um terco de quatrocentos 
infantes , iructo das diligencias do mestre de campo 
general Francisco Barreto de Menezes, e soccorro 
que mandava o condc general Antonio Telles. Che- 
garao estes novos combatentes, todos soldados do 
reino^ ao Arraial a tempo de receber as boas vindas^ 
e dar os parabens da victoria aos do conflicto^ que 
vencido o HoUandez^ se tinhao retirado. 

XXV. Enfermou ncstes dias o govemador dos 
Indios D. Antonio Philippe Gamarao^ varao grande 
em na^ao humilde. Gorreio da morte foi a doen^a, 
e por ella conheceo o fim de sua vida que soube 
immortalizar como o seu nome. Nasceo Indio , po- 
rem entre os Indios o mais nobre. nascimento 
Jhe deo o nome de Poty , que na lingua do gentio 
6 o mesmo que Gamarao ; o baptismo Ihe deo o de 
Antonio. No tempo de Mathias d' Albuquerque era 
j^ respeitado entre os sens por maioral de muitos ; 
e com muitos auxiliares o veio soccorrer, e servir a 
nacao quando o nosso poder se alojava no Arraial 
velho, chamado de Pernam-Morim : iliustre prova 
de fidelidade e amor, com que serria a na^ao e o 
principe , ofFerecer-lhe a espada quando os perse- 
guia a fortuna. A mesma adversidade , de que o 
mais gentio fez causa para a rebeldia^ fez o Gamarao 



522 GASTHKnO liUSTKAMO. 

moUyo p£ira a Uan^a. Em servir a igrqja e a corot 
gauhou lu%ido credito de soldado e de religioao ; e 
tao ob^ervante de sua$ obriga9des» que nunca o vio 
distrahido quem Sempra o venarou $oldado. Todos 
09 diaa ouvia missa , e rezava o officio de Nossa 
Senhora , modesto e devote. Gastava muitaa boras 
em ora^aOf a que $e applicava aiada entre os 
maiores eatrondos da guerra. Para mr hob rebates i 
e para entrar nas batalbas, primeiro se fcnrtalecia 
com OS sacramantos que com as urmae. Nas oeca- 
sioe8 mais arriscadas recorria ao favc^r divino, pe-^ 
dindo auxilio a duas imagens do Seabor a da Se- 
uborayqueeuti'e as roupas trazia de coatinuo sobre 
o peito» Eou quauto soldado , nao houye capitao 
mais amado, »em mais obedecido^ porque nao 
bouve capitao que acbasse mais imperio ua affabn 
lidade que uo dominio , do que este yaloroso capi- 
tao, As ampresaa o esperavao sempre com as victo- 
riaSy e ganbou tautas^ quautas forao as occasioes 
em que pelejou. Para seu genio^ era o ocio marty- 
rio» e trabalbo desca]Q90, Avaliava a penalidsde 
por deleite^ e as occasioes por dita. Seu noiM, 
como memorial de suas proezas^ se ouvia entre os 
UQsaos com respeito^ e entre os inimigos com es^ 
panto ; e dilatC4H) de sorte a fama^ que ehegou aos 
ouvidos de seu Rei tao distante, quauto o apartavao 
os dilatados mares que dividem a America da £u*- 
ropa ; sem peti<^o o despacbou seu merecimento* 
Deo^lhe El Rei Pbilippe o babito de Gbristo, o titulo 
de Dom , e o posto de govemador e capitao gi^ral 
de todoa o& Indios da Amterka. Zelou o deooro , 
queaa devia ao posto que oi^ujpaira com toda acuf^ 



j 



cumspec^o qu^ Ihe ensiaava o lau daro juizo , Com 
asr pes^oas grandes , e^tranbaa e de resjpeito fallava 
sempre par interprete (aiada que aabia a lingua 
portugueza), porqua entendia ser a impropriedade 
e iaculto das Yozes fiscal do auimo e disQredito da 
pe38oa, Na arte da milicia foi insigae) na do governo 
olaro. Com o$ seu& era facil no trato; com os su- 
periores, grave na conversacao ; com 08 estranhos, 
affa vel no agazalho ; mas too medido com todos , 
que obrigava a amor e reverencia- Em todo o tempo 
e lugar o achou o servi9o de Deosprompto e o culto 
dos santos liberal Como diaoreto viveo^ porque 
fioube viver par^t Oeos e para os homens ; morreo 
cpmo cbristao, porque se soube aproveitar de todos 
osi remedios que ajudao a aalvacao, l\a vida ad*- 
quirio gloriofo uomej na morte mostrou que 
passam 4 eterna vida (wmo piedosamente ae pode 
crer d'um cbristao que morre CQm mostras d'ar* 
rependido e sacramentado ). lutacto quasi do 
cbumbo e do ferro saio de inuumeraveis combates 
e batalbas , e entregou o espirito a seu Creador, 
poucoa mezea depois da dos Guararape^ , em sua 
propria cama ; para que nao faltasse a sua morte 
pareoer somno. Peo-se-*lhe sepuUura na igreja 
do Arraial , com a funeral pompa que cu^tumava 
a piedade e a puliciai e oom aquelle concurso a 
que obrigaya o amor e o respeito* 

XXYI. Grande ialta de mantimentos se corner 
9ava a sentir entre os nossos, Tinha-se acabado o 
que viera de Sergipe ; faltavao as farinhaS; porque 
OS moradores nao podia.o plantar a mandioca. Nao 
se «Qb%?a Q 1{qUvi4^ ffi^UQft &ittiato eia suaa for^ 



52& GASniOTO lUSITAlia 

talezas ; mas remediava-fle com mais facilidade e 
menos cu^to. Com as embarca^oes do reino , que 
por aquelles mares tomavao as suas fragatas provia 
OS celeiros e augmentava os thesouros. Applicava- 
se a esta guerra como de mais proveito e menos 
perigo. — general Sisgismundo, desejando recu- 
perar sua repuCacao , tentou uma enlrepreza sobre 
a Bahia. Ajuntou suas ndos, fomeceo-as de manti- 
mentos e municoespava muitos dias^ e com boa guar- 
nicao de infantaria se embarcou, e navegou para a 
Bahia. Com tempo favoravel entrou naquella en* 
seiada, deitou gente em terra^ e com fortuna de pi- 
rata e destreza de soldado ; deo sobre os engenhos 
e casas dos moradores que ficavao mais perto d'a- 
gua. (0 repente da invasao os tinha indefensos. ) 
Encheo as nios de despojos , sem batalha ; deo a 
vda sem detenca^ e navegou sem contraste. Deixou 
tudo o que pode alcancar o braco, porque foi sem 
comparacao maior a perda que o roubo ( vinte e 
dous engenhos ficarao do todo arruinados.) Entrou 
pela barra do Arrecife com algumas embarca^oes 
que Ihe cairao nas maos ; foi recebido com applau- 
sos de victorioso e bem afortunado. 

XXVII. Com principio do anno de 1 649 o teve 
a nova companhia g^ral do commercio do Brazil. 
Havia muito que en ire mercadores corria a pratica 
de se formar uma companhia portugueza para pro* 
teger o commercio , e oppor-se as piratarias com 
que OS Hollandezes nos tomavao a maior parte dos 
navios. Gommunicou-se o projecto ao priucipe, 
com a esperanca das consequencias , tanto para o 
reino como para as conquistas ; disputou^^se a ma* 



GASniOTO lUSRAMO. $25 

teria em repetidos congressos de ministros e con- 
tractadores ; levou a approya9ao de todos o meio 
apontado. Entrarao a dar-lhe forma, e vencidas as 
difficuldades se reduzio a especula^ao a pratica ; e 
neste mez de Janeiro se vio formada a companhia 
g^ral do commercio do Brazil com todas as con- 
dicoes e preceitos que pediao a administracao dos 
cabedaes e o apresto dos comboios, tendo por fiador 
de sua verdade e conservacao a proteccao do prin- 
cipe, o iavor dos grandes e os interesses do povo. 
Fez rapidos progressos, como yeremos no decurso 
d'esta narracao, a qua! nos chama a fallar dos mo« 
vimentos de Pernambuco. 

XXYIIL Chegado que foi Sisgismundo da via- 
gem da Bahia, deo causa com sua boa sorte a que 
OS do governo se imaginassem restituidos a suas 
antigas prosperidades, das quaes os successos proxi- 
mos OS tinbao privado. Accendeo-se entre os parti- 
culares o desejo de intentarem segunda vez a 
sujeicao da campanha de Pernambuco , e das ca« 
pitanias continantes ; e quern mais fomentou este 
desejo foi o coronel Brine* (Era tenenCe general, e 
governava as armas pelo impedimento de Sisgis-< 
mundo » que o nao deixava andar sem arrimo. ) 
Fundava o coronel a confian^a de melhor successo 
na presumpcao de emendar os erros que o general 
Sisgismundo commettera na occasiao passada, e nao 
cessaya de exagerar a opportunidade, condemnando 
o ocio em que tanlo numero de soldados hollan-- 
dezes passavao os dias com gasto e sem utilidade, 
Os do govemo, namorados das razoes e da viveza 
do coronel) Ibe derao poder para que disposesse o 



S16 ChSttmt ttttttAM). 

que dizia e intentava. Fogo^o e altivo 6 corotiel 
Brine, com se Ter absoluto na duperioridade do 
mando, de avaliava senhor da mesn^ fortutiia. 
Passou ohlem que recolhesdem todod os navios que 
andavao a corco, para ^e aproreitar da melhor 
gente. Mandou fazer grande numero de pratazanas 
e chu^oa de ponta e cdrte, com que ditla Be havi&o 
de rebater as nossas espadas ; e todaa as boras do 
dia gastava em exercitar os mais robustos soldados 
no meneo d'ellas. Antes de sa'ir a campo , fosse por 
cortezia, fosse obrigacao, deo conta de seu intentoao 
general Sisgisniundo (que ja sabia as negociadoed e 
designios do coronel). Ouvio-o este com dfesimu- 
lacaO) ponderdU4be as dlfflculdades da empreza^ 
dissufl[dio*od'ella, e concluio dizendo ! <( LevaV.Mt 
» OS mesmos soldados que jA forSo vencidos a con- 
» tender com os mesmos homens que ficirao vlc- 
n toriosos^ e espera melhor sorte? Julgo ser pro- 
* uostico de nossa perdicao buscar V. M. para a 
n melhor sorte o theatro onde a fortutia represen- 
)) tou nossa maior desgraca ; e tdtiho por infallivel 
» que I refreseada a lembranca do suecesso com 
n a vista do lugar do conflicto, influira etti tinse 
» outrod o« medmos esplritos. custo nos en&itia 
» a guerrear com uma uac&o que toda a Asia pre- 
)> sumio invencivel, que ri consummiUa, ajudados 
» do tempo e nao flados no braco ; e V. M. se 
n desengane que nao ha de traker a capa donde 
» Sisgismundo a deixou. » PorAm o coronel, arras- 
tado de seu empenho ede sua ambiciosa pretencao^ 
nao convencido seUao protervo , impugnou todo o 
discurso de Sisgismundo, e resolved a exeeueio de 



GAffmOtO LVdlTAHO. 527 

deu dictamen* ao que o sagaz general nao repticou, 
porqtie se Ihe nao imputasse a fraqtieza ou a enveja^ 
S6 se affirma que passou o desengano a tomar 
forma de galanteo, apostando dinheiro conside- 
ratel, sobre qual dos pareceres sairia mais cerlo. 

XXIX. Logo que entre cs nossos se espalhou a 
noticia dos novos intentos do Flafnengo , tnandou o 
general Francisco Barreto de Menezes deltar bando 
por todas as partes do reconcavo que qualquer sol- 
dado ou official que tivesse assentado praca acu- 
disse k bandeira debaixo de que militava, em tempo 
determinado. Obedientes e alvorocados concOrrerao 
todos com notavel promptidao. Mo contentes os 
nossos generaes com os preparatives humanos , re- 
corr^AO tao bem aos divinos. Pedfrao a todos os 
parochos que nas suas igrejas fizessem I'ogativas 
ao ceo pelo bom successo de nossas armas ; a todos 
OS soldados persuadirao que se chegassem a Deos 
por meio do sacramento da penitencla, e se forta- 
Iccessem com o da communhao. Ao vigario g^ral 
Domingos Vieira de Lima pedirao mandasse expor 
santissimo sacramento em todas as matrizes por 
tre2 dias, para que se desse honra a Deos naquelle 
mysterio em que elle se via offendido pela pravi- 
dade heretica. Nao se descuidarao entretanto os 
nossos governadores de tudo que perteUcia as dis- 
posicoes da guerra* Informados de que o Plamengo 
se determinava em buscar o mesmo sitio dos Gua- 
rarapes , mandarao fortificar e guarnecer as trin- 
cbeiras po^ onde forcosamente havia de raarchar, 
e com particular attencao os que chamavao dos Ba- 
rachos e do Moinho Novo j ordenai*ao aos mora- 



538 GASTRiaiO LDSITANa 

dores circumvezinhos assistissem aos presidios com 
pessoas e mantimentos ; e nos Guararapes engros* 
saiio OS presidios e as municoes para a defensa de 
qualquer invasao ou incidente. Fassarao ordem ao 
capitao da Moribeca que mandasse guarnecer a 
ponte de Sao Bartholomeo de presidio e sentineUas, 
e que a qualquer rebate tocasse arma, com tres 
pe9as d'artilharia*, que tinha ua povoacao, para 
que sem detenca acudissem os moradores vizinhos 
com armas e bastimentos. Em fim nao ficou cousa 
a que nossos cabos nao acudissem com diligencia e 
acerto. 

XXX. Em 4 8 de Fevereiro de 4 649 saio do Ai> 
recife o coronel Brine com cinco mil homens de 
guerra, todos soldados escolhidos por valorosos e 
praticos , altendendo mats a qualidade que a mul- 
tidao; carregavao a bagagem settecentosgastadores, 
entre ella algumas tendas de campanha para os co- 
roneis e cabos maiores. Desprezou a turba dos In- 
dios, levou s6 duzeutos escolhidos pelo seu maioral 
Pero Poty ; dos homens do mar formou um terco 
de trezentos soldados, commandados por seu almi- 
rante ; e duas companhias de negros , homens de 
confianca. Reduzio toda esta gente a doze esqua- 
droes, que diversificavao doze bandeiras. A sua 
vanguarda constaya dos homens mais corpolentos, 
robustos e destros, armados de pratazanas, alabar- 
das e chucos, para descomporem e rebaterem 
OS golpes de nbssas espadas; e de similhaote 
gente compoz as frentes de todos os esquadroes. 
Deixou suas pracas guarnecidas jcom os homens de 
menos conta; nao Ihe esquecerao seis pecasd'arli* 



CASTRIOTO LUSITANO. 529 

Iharia de bronze, cuja conduccao entregou ao aJmi- 
rante com sua gente do mar. Nesta fdrma, e no dia 
referido pela manha^ saio do Arrecife, dada ordem 
a sua vanguarda que marchasse para a Barreta; o 
que fez com todo o exercito com marcial estrofido 
de clarins, trombetas e tambores. 

XXXI i Pelas dez boras do dia 18 de Fevereiro 
cbegou aviso ao Arraial da marcha do inimigo. 
Toeou-se logo arma ; acudirao os soldados a suas 
bandeiras ; chamou o general a conselho , e nelle se 
resolveo sem controversia que se seguisse o inimigo 
at^ Ihe dar batalha. Gonstava o nosso poder de dous 
mil e seiscentos homens entre Portuguezes, Minas 
e Indios ; os quaes se pos^rao logo em marcha com 
ligeiro passo pelo caminho dos montes Guararapes. 
Pelas quatro boras da tarde do mesmo dia cbegou a 
nossa gente ao primeiro monte, chamado Utizeiro, 
a tempo que o inimigo ja tinba occupado os montes 
vizinhos e as fraldas delles por aquella parte que 
fazia frente ao boqneirao, onde na occasiao passada 
carregou a maior forca da batalba. Estava forlifi-^ 
cado e situado com escolba ; e ordenada sua gente 
em nove esquadroes, guarnecidos de muitas em- 
boscadas, que a arte e a conveni^ncia repartio 
pelos lugares necessarios. Logo que a nossa van- 
guarda cbegou ao dito monte, e descobrio a disposi- 
cao e forma do inimigo, mandou o mestre de campo 
general fazer alto, para que entre os cabos se defi- 
nisse por que parte , como , e quando se bavia de 
envestir o Flamengo. Forao os pareeeres di versos; 
mas todos se reduzirao ao voto dos mestres de campo 
Andr^ Vidal e Francisco de Figueiroa, que era bus- 
I. 34 



530 ck&Ttismo ijmshMo. 

car-sc o ioimiga pela freme. CaB;iimu^ix)iir«ea le^ 
solu^com Joao Fenujadea Yiewft , qu^ ch^jiaiii 
naqueUe tompo^ e foi de coii^r^iio par^e^^ dando 
boaa ra:^^ com que xoosiraii que se 4^via ataca? Q 
inimigp peta retaguarda. Houve quem. fi^e^ lit* 
guma opposi^ao a ^te pareqer} ipas poor fim todoi» 
Q0iiewdi4raa ^eUe, e o. me&tre de eampa geiieral em 
SIM w^w^ vipDu o exercito para aij^geubko j^ovo; 
QDtre elle ^ o doa Guararapesk Ste a\oj|ou a BO«sa 
g^te aquqlla noite oom as commodidades qi^ o 
aitia permettia. Dadaa as provideBcias neceswrias 
ooi^riQ o mesu^ de campo general camo e a que 
bora ae bavia de enve&tir o Flameogo, e resolveo- 
ae que a ooeasiaQ diria o quaudo, e que a niodo 
havia de ser a peito desc<d;ierto. 

XXXUt Amanheqeo o dia 4 9 de Fevereiro , e 
mandou Francisco Barreto que as luestres decampQ 
com seus sargeDto^ maiored saissem a recQiib?ow 4 
fiSripa e ^tua^o do iuimigo. Subirao a um mwt^ 
firoateiroy e d'elle virao tudo o que deaejavao* D^ 
pois de tudo bem ootado , voltdrao , e referirao ^o 
mestre de campo general que o HoUaodez persQve- 
raya no ^itio e na f6rma que tinhft o dia autffi i e 
que o poder , pelo que parecia , era por cioia de 
ciuco mil bomeu9> alem dos Indios , negrps e gas^ 
tadores; seis pe^as d'artilbaria , algumas tendas 
armadas em varias partes, e um esquadrao separadoi 
que guardava a agoa, de que bebia o exercito. Con- 
fer io*se o que se devia obrar ; e resolveo-se quepao 
convinhai vista a situa9ao e poder contrarioi io?^^ 
til-o, e muito mepos e^por^-lhe s|os olhos a inferio*- 
ridade de nosso exercito, escondido a sua fiita 



GASTRIOTO LUSITANO. 5S1 

wIbl interposicao dos canaveaes que o cobrii^o , que 
so em caso que se movesse , ou para ir adiante , ou 
para vollar atraz ( o que forcosamente havia de 
fazer) , se devia envestir ; e que no enlretanto im^ 
porta vaj^ da nossa parte, a vigilancia, p^ra que a 
pegligencia iiao fosse motivo de perderirios a occa- 
siao. Pelas oito horas da manha se ordenou ao ca- 
pitao Antonio Rodrigues Franca que cojn quatro 
eompanhias fosse picar o inimigo, que sem d'uyids^ 
se moveria provocado de Ihe tocarem arma , e as- 
sim succedeo levado do primeiro impeto ; mas tor- 
nando sobre si, conheceo a pertencao da industria. 
e voltou com presteza a occupar os mesmos postos. 
Nao desistio p capitao Franca de sua missao , at^ 
que o Flamengq, impaciente de nossa fleima, pela 
uma hora depois de meio dia, foi desoccupando o 
alto dps mqiites, e descendo ab baixo para se for- 
mal* em esquadrao serrado. capitao Franca, asr 
sim como vio s^ballar o Hollandez, deo aviso aq 
mestre de campo general; p qual aproveitando a 
impatiencia e ardor de nossos soldados mandou 
tocar a envestir , sinal a que obedec^rao mais de 
yoo que de passo. — Naq teve o inipigo noticia de 
nossa resqlucao, senap quando Iha deo a vista, des- 
cobrindp p avaiico a tempo que a envestida o bus- 
cava pelas partes definidas. Desejou voltar aos 
postos que deix^ra , porem atalhado de nossa dili- 
gencia, Ihe servio o arrependimentp de castigo, 
porem nao de emenda. 

XXXIII. Foi Joao Fernandes Vieira o primeiro 
que chegou a medir o braco com o Flamengo, aju- 
dado da maior presteza e da n^enor distancia. Avan- 



532 GASTRIOTO LUSITANO. 

cou ao boqueirao que achou defendido e fortificado 
com selle batalhoes^ duas pecas d'artilharia por 
freiite no raso, e quatro por lado no monte. Orgu- 
Ihoso e destemido o saio a receber o Hollandez , 
imaginando deter-lhe o passo com a yiolencia das 
cargas, que os nossos forao recebendo com igual 
marcha, desprezando as balas^ como se desprez^rao 
as vidas. general contrario j vendo a resolucao 
dos nossoS; mandoii mais um batalhao para engros- 
sar OS sette que defendiao o boqueirao ; aqui car- 
regou o maior peso da batalha , porque na posse 
d'este sitio consistia toda a esperanca da vicloria. 
£m igual balanca sustentava o combate de uma 
parte o valor, da outra o numero. sangue de 
uma e outra gente mostrava o furor de todos, de 
nenhum a vanlagem, esperando a victoria, os ini- 
migoS; pela coustancia, os nossos, pelo custume. 
mestre de campo Joao Fernandes Vieira , posto 
diante de seus soldados , Ihes servia de admiracao 
e d'exemplo. inimigo animoso e disciplinado pe- 
leijava a p^ quedo, mostrando bem no valor e cons- 
tancia da resist encia, que o alentava a lembranca 
da honra e a defensa da vida. No mais travado da 
pendencia topou uma bala com o nosso mestre de 
campo, com damno tao leve, que fez sinal, masnao 
ferida , para que certificasse a nodoa o inlento da 
bala, Conheceo no avanco a fortuna, e na detenca 
o perigo , levantou a voz , e mandou envestir k es- 
pada. INao parte mais furioso o penhasco desatado 
do monte, do que partirao os nossos a ferir o ini- 
migo, assombrado da facilidade com que se vio roto, 
Aquelles clmcos e pratazanas, de que os batalhoes 



GASTRIOTO LUSITANO. 533 

contrarios se armavao para apartarem de si o nosso 
ferro^ rendidos & destreza de nossa espada^ abrirao 
caminho largo para seu destroco^ porque rebatidos 
ou desviados os primeiros golpes, nao Ihes deixa- 
yao lugar nem tempo para os segundos. Muito 
saDgue e vidas custava ao Flamengo a contumacia 
e muito mais a pressa com que se vio desbaratado 
e roto, e o boqueirao ganhado, e occupado o posto 
da nossa gente, senhoreada do sitio e da artilharia 
que o inimigo nos deixou ; por&m nao de todo a 
pendencia ja entao inutil para a reputacao e para a 
esperanca. —Com a forca e com a industria bus- 
cava Joao Fernandes Vieira nesta occasiao onde 
melhor empregasse a espada e a vista. Advertio 
que picando o inimigo pela retaguarda ^ ficaria de 
menor partido ; apartou do corpo de bataiha dous 
trocos de soldados, para que um pela retaguarda , 
outro por um lado Ihe tocassem arma ; o que fize- 
rao com promptidao e fortuna. Occupado nesta 
faccao se Ihe metteo o cavallo em o olho d'um la- 
macal , de sorte que quasi submergido se nao pode 
arrancar d'elle : soltbu da sella , e como se nada 
faltara a sua pessoa e a seu cargo , tendo comsigo 
sua espada e seu braco , coberto d*uma rodella , 
tornou a buscar seu primeiro posto na frente do 
poder contrario, que ja o achava menos. Aqui 
montado em outro cavallo, tercando a espada, le- 
vantou a voz e disse para os inimigos : <c Ah ! Fla- 
» mengos, rendei-vos a espada de Joao Fernandes 
» Vieira, que nasceo para vosso acoute. » Ghama- 
dos do grito , e advertidos da pessoa , fizerao pon- 
taria n'elle vinte clavinas; desviou a fortuna as 



53/i GASTRIOTO LUSITANO. 

Dalas ; parece que obrigada da estr&nha ousadia. 
Delia tomou principio nossa victoHa , e o HoUaA- 
dez occasiao para depots publicar no Arrecife qfde 
Joao Fernandes Vieira ficara m(A*to ria caftipanha'; 
]K)Ya, com que os do governo contrapesavao a 
magea de sua perda. Foi de todo una exei'cito, e ^e 
equiparava com a de varao tao grande. 

XXXIV. Por outra parte, com a mesma sorte, 
avancou Andr(5 Vidal contra 6 inimigo. Pelo alto 
da meialadeira, em que estava formado, 6 enves'tio, 
e o HoUandez o esperou com tal determinacao, qvte 
Ihe deteve o passo ; perseverou ha iconstancia em 
quanto nao experiinentou os fios de nossa espada, 
que a um mesmo tempo 6 ferio , e rompeo pela 
frente, aipezar das armas que julgou ehcontrastaVeis. 
Da mesma sorte o cortdrao pelolado esquerdo os ca- 
^pitaes Francisco'Berenguer, Antonio *6orges Ucmoa, 
Matheus Fagiindes e Kstevao Ferharides, gOVerna- 
dores pelo sargerito maior Antonio I>ias Cardozo , 
a tempo qiie pelo lado direito o envestio Antonio 
da Bilva com as duas trdpas de cavallos , que valo- 
rosamente com as lancas e tropel rompfrao por ar- 
inas e defensores. mestre de camJ)o Francisco de 
Figueiroa, com a gente do seu*terc6, fez nesta oc- 
casiao en tender ao inimigo que a espada porfiiguez^ 
c6rta pelo reparb e pelo perigo. Emtodos se via'a 
emiilacaOy em nenKum a iiiveja ; pdrqiie em tbdas 
as partes andava igual a Valeritia , imitando 6 co- 
racao e o braco de seus cabos, qiie igualmentie Sis- 
punhao e cortavao. Ja o inimigo , roto por inuitas 
partes^ nos olhava com medo, e se resolvia confuse, 
bebendo o desalehto na vista do eisirago'; e perdi3a 



k diaeipliDa dos sens , largarao o posto , e Tirarao 
us costas^^ leviindo sokre ellas os pezados golpes de 
I10880 ferro; <afo qual as ^njeitava oterreaoj^que era 
por am monte al>aixo, caminho pw onde os corpos 
*de sevs ttiorios Ihes €mbapa^aYao •os p^s e entorpe- 
hAm o tino, perigo do qual nenhom podia fugir, 
apei^do 'do alcance, sem queo desvio o fi2?esse des« 
fMmhair pelas»qud!»pa8, f ragas e roturas do moMe tpie 
on o detinhao a esperar o golpe, ou o guiavao a 
morrer daqueda. — Em quanto succedia o p^ferido, 
p^la parte do monte ganhara e guaraec^ra o mes^ 
tre de campo Joao Fernandes Vieira o'boqueirao, e 
"assegurira a 'ddensa com duas pe9as d'artilharia 
do inimigo/que Sc^rao em iiosso poder. Subio o 
wonte, onde o f lamengo tinha a bataria das quatro 
*pecas, e um grosso d'^icafantaria, com sens reparos, 
Tjue investio com alentos d'esfoi^ado e victorioso. 

XXXV. Vendiao os HoUasidesBe^ caaras as vidas, e 
eomo tinhao o 'l>yaco ponpado promettiao vigorosa 
Tesistencia. ^inha nestemeio t^npo Andre Yidarl 
de Negreiros no alcance des Hollandezes vencidose 
'de^r&(tad(9s,'e descc^rio no vsQle nm esquadrao 
inimigo, fornvado das peliqniasde sen destro^o, 
'baqueados 'os scldados'd'elle, por nao serem vistos, 
^sperando iiosso descuido para execntarem sua 
tencao , 'que era carregar ^sdbre (Foao Fertiande^ 
Vieira. Andre ¥idal, em icujo animo ardeo sempre 
'o valor semttrmos de receio , com um mesmo im- 
^p^to enorpunhou'a espada/e levftntou a voz dizendo 
^os poticos que achava^comsigo (todaasua gente 
'irinbetespalhada /sem mais tino que o deimatar e 
■felrfa')i:-«4(L'wpadft,'Solttados; ^e parao^apitgio de 



5S6 CASTRIOTO LUSITAKO* 

cayalios ADtouio da Silva : w Avance V. M. ao ini- 
» migo, e nao se de quartel a quern vencido o desr 
» preza. » Duvidou o tenente Manoel de Araujoo 
avancOy pela disparidade do numero^ da forma 
e do tempo ; considerou que aos montados haviao 
de buscar todos os pelouros, e receoso da certeza 
do perigo^ olhou para o seu capitao , o qual o en- 
tendeo, e o obrigou y dizendo que na guerra em 
uao temer o perigo se verificava o nascer honrado ; 
e apertando as pernas ao cavallo, seguido de todos 
OS seuS) envestio o esquadrao contrario, que abrio 
a for^a de brago. Andr6 Vidal, com aquelles sol- 
dados que Ihe deo o repente , recebida a primeira 
carga do Flamengo, sem Ihe dar tempo a que desse 
segunda , o envestio , e cortou com tao for^osos 
golpes y que por onde nao partiao y destroncavao. 
Yinha mais distante Antonio Dias Cardozo, sup- 
prio a tardanca com a intelligencia ; cortou pela 
fralda do monte , que Ihe offerecia caminho mais 
curto, e de lado deo uma carga cerrada no esqua- 
drao inimigo com tao bom emprego que Ihe fez 
virar as costas pela ladeira do monte contrario. A 
nossa^'cavallaria^ que por aquella parte fazia frente^ 
sem poder voltar, porque Ih'o empediauma grande 
quebrada do monte, esperou^ sem movimento, uma 
carga do Hollandez com tamanho damno, qued'elle 
cairao mortos o seu tenente Manoel d'Araujo^ qua- 
tro soldados, seis cavallos e alguns feridos ; por^m 
OS mais^ seguindo o alcance aos Flamengos, fizerao 
tal estrago, que sobejirao mortos a vingan^a. No 
tempo que este combate andava mais travado, vinha 
um batalhao do inimigo em favor dos seus , bus- 



GASTiaOTO LUSITANiX 5S.7 

cando-DOs por U3;a lado y e . sem duvida nos dehi 
muito trabalho , se os outros cafiitaes , com suas 
companhias em um corpo, se nao adiantarao a re<- 
oebel-o com tao furioso encontro, que o fizerao 
voltar e fugir. Tinha ainda o Hollandez um esqua- 
drao de reaerva, o qual, yigilante em nosso damno, 
esperou a occasiao mais opportuna . No mais ba- 
ralhado do conflicto corria por um monte a cor tar- 
nos pela retaguarda , o que sendo adverlido pelo 
mestre de campo Francisco de Figueiroa^ subio ao 
monte, recebeo na ladeira d'elle com uma carga de 
mosquetaria , assim lograda, que sem defensa o fez 
mudar d'intento. Fugio desordenado e medroso, 
primeiro de nossa espada que de sua perda ; seguio- 
Ihe o alcaoce com uma turma de moradores , que 
sem consideracao cortavao por sujeitos e rebeldes. 
Em todas as partes acbava o Flamengo uma mesma 
fortuna, porque em. todas se consumava a victoria 
com uma mesma crueza . 

XXXYI. Joao Fernandes Vieira, quedeixamos 
no monte pelejando a peito descubertp contra o 
esquadrao inimigo , que guardava a artilharia, as- 
sistido dos sens obrava de manieira que os nao sabia 
Ter o inimigo sem pasmo. Longo e encamicado foi 
o combate, at^ que^ vencida a multidao pelo valor, 
foi rota e ganhada a fortiQca^ e a gente contraria, 
e se fizerao os Fortuguezes senhores da bagagem e 
da artilbaria inimigo, com morte^do coronel Brine, 
general do HoUandez nesta empreza : and&ndo 
montado compondo e ordenando os seus, cpmo va* 
loroso capitao e destro soldado^ quando uma bala 
o malpiJL, e logo outrao cavallo. Ao seu almira^te 



Sf8 GiisittRyro imMnnnOb 

tio mar tiroii a vida ontra bala, l)efti junto de sua 
aitilharia. Pero Poty^ naioral dos InAioB^ com ^orlie 
maisfaTOh^vel, iioou prtsiMeiro. Gatihada a afiti^ 
fliaria , e posta^m 9ua gfiarda a gmte ti^cessaria, 
lei Joao FemaTideis Vieira segnindio ^ victoria, com 
tanto estrago do iviimigo ^ que o nao aal>ia vet a 
^jnganda ^sem Itothba. Engol'fedo no alcsance o yAo 
|>eH:o ^(fe ^ iim foatalliao de Hollandezes^ ^ sem al^ 
^m desetti'baiiiter a espada, -seltie rend^rao todoS; 
f)edifiidoi>dm*quartely qisea geuerosa valevilia de 
»fcfto Femandes Vieira Ihes concedeo. Wao thuha 
^fios sua espada para cortar fracos , nem ^rendidos ; 
otetii^do^ ^ 'i<elieldea^ sim. ^^ Ainda a «s€a hoi^ 
^rava o coftfMcfto na& 'flraidas dos monfeis. Coai ^a 
^e^pada na nfiifo feziao'ifiapaviilas os mestres de campo 
'AnAf6 Vidal de NegrdroB, FFancisco de FigiieiMa, 
e ^0 aai^mto maior AntOtaio BiaB Qa^rd^zo, sem que 
'^Ve«^e4i^a a seu i^e&ptoa imkaeaio^ds evades. 
Joao Fernandes Vieira (com a ^iropriedade'dd Taio, 
qtfe i^em de&caneUr enfra '6 fiai pdas paredes d'um 
>edMfidi6>) "^romp^ttd^^aa todas> "se foi uftir echnos 
-dkoB'ctfbdb, a feDofpo a^m oinhnigo, 'afl^ptKaiido iito 
'<;oftibace nos ia deixando^ victoi^ ; opprimide da 
HcM^ VM^nefei, fciSgon e eampo^ ^ \ir6n ^fe cd^tas , 
eom kjue ^etti todas as ^psfi'tes se via cStPl^o ««» 
bsKalha. NSfo^haVia cdntrario^que o qufae^se psr^ 
cer ; hs arraas, que as aecusa^ao mimigos , deittvfo 
l<*ige (4e 8?, »pa¥a qife os^nSb ^dtertisseWibppostoB. 
X)& fcatieadois ^e -fcftf idos , 't'esridos da »«ubmii*sao , ft- 
^So da HWedsidade virtudfe; oS mais , 'desatmados 
"fe pet^iridos de liorrof , do ^trago , ^e da dombw 
%6^httbj edrrffifo a pre<ii|>kai^se pitas qii«bMdas'e 



CASTBlOTO tUSITAm. 539 

•grutas dos monies , iiBt qtiaes prtmeiro dchavao a 
septilt6't*a 'qiii a mofrte. D'estes poucos foriio os 
que acertaiio veredi, scto pefrigo , deixawdo as ar- 
miii , ^tofe o cfese^b 'da vida Ihes faiia krgar, como 
tliabaralco da fdga. Os nofssos, *qtiB por toda a parte 
"seguiSo '6 aTcance , ja captivavSo •com desprezo, jA 
matavao setn colera. A cavallaria^ seguida dos mo-- 
radores *que se ichavao mdntados , ds peTsegnliio 
•cdfn forcas poupadas, at^ As pdrtts de sua fdrtalezk 
'da B^rfeta, onde o calbo cofihecfeo os seus, "para os 
rtfcdlhefr, pela'lingoa, mas nad pelhs caras, Srfeadas 
*e difiFdi*riies do San^e 'e das ferfdas. Nos tndios e 
w^ros dd'Camarao e de Henriqi!ie Bias e^tperiineto- 
•(SrSo OS fristes Vencidos mafe Viva k persegtricao te 
a crtieza, *pdrque -a ^ngne 'frio mktarrao (uaqUfeHe 
e DOS dias seguintes) muitos Hdltandeze^^ ^ue dis 
ms[tos escdhdtftrSd , 'e 'KVrar9o do 'priitadi'o ferro. 
Pstrece que Viio Vfriio *6s dihos campodfe batalMi 
^Tti ijuk (em s'eti lantd ) sfe cdnslfleriTise tamaUho 
"estrtgo. 

XXXVH. ^railciscoBart^feto dfe MeiJezes, a ^m 
Ve dfevfeo rim g^tde 'pSrrtt k) 'bdfti ^ilceesso d'este 
^8ia , mostroh tieSta dciasiao d juizo e a ^esti^z^ 
eomqtre usava do bastSoe'da espada. A pfesenca 
'o fez lesteimmha 'fiel do Valor de 'seus'c^abos , 'e da 
ralentia dfe todos ; ea cada timetti particuter gfiiat- 
tJficiva o ^ervlcb com os louVdres e'com oslracdis, 
Tnagdadd'de pdder nSo in6dJr-lhes os'ffreinlos fields 
mdrecittieiitds. Ao Wenor sdldado lionVava e en'- 
^grtiid^cia*com o'fttvor'e cdm o gabo, fezehdo-^lhe 
fetitendter que o inettia no coracao. Iguaes tddds nb 
go^, dotoo to fbWi6*no Jid^igd, "th dMoTfedJJWcds 



560 GA9TU0T0 LUSITAKa 

parabens da victoria. — J)urou a batalb^. das duas 
at^ ^s oito horas da noite ; tempo em que os nossos 
soldados se recolh^rao a seu alojamento, onde sem 
lembrau9a do trabalho festejarao a victoria com 
universal confissao de que s6 a Deos se deviao as 
gramas de tamauho beneficio. Toda a noite se pas- 
sou com desvello que causa a desmaziada alegria. 
A reIa9ao do perigo afugentava o somno ; a me- 
moria do trabalho nao deixava lembrar o repouso, 
e muito menos as vozes e estrondo dos instrumentos 
bellicos^ que em toda a noite nao deixarao de pu- 
blicar o triumpho. Por ordem do provisor e viga- 
rio geral se fizerao accoes de gracas a Deos no do- 
mingo seguinte^ com grande solenmidade e regozijo, 
assistindo as cummunidades religiosas e grande 
concurso de povo. 

XXXVIII. Com o preco da victoria nao teve com- 
paracao o custo^ ainda que fosse muito consideravel 
a perda. Quarenta e sette mortos d^mos & terra, 
entre elles o sargento maior Paulo da Gunha^ o ca- 
pitao tenente de cavallos Manoel d' Araujo ; capi- 
taes feridos, Gosme do Rego, que morreo em breves 
dias, Manoel d'Abreu, Pau}o Teixeira, Joao Soares 
d' Albuquerque , Jeronimo da Gunha do Amaral, 
Estevao Fernandes, Manoel Antonio de Garvalho, 
Joao Lopes, Henrique Dias; estes com os mais fe- 
ridos chegdrao a fazer numero de duzentos e sette: 
raro foi o que morreo das feridas pelo diligente 
cuidado que se poz em sua cura. — Deixou o Fla- 
mengo por cima de dons mil homens mortos; entre 
elles o general Brine , e o almirante do mar. Os 
feridos se na.o ffxraQ todoa, ficarao muito poucos 



CASTRIOTO tUSITANO. Shi 

por assinalar. Nao houve quern desse numero certo 
aos prisioneiros ; seria porque so de Pedro Poty, 
maioral dos Indios, fez caso a vinganca. Dous 
annos e meio viveo preso em duros ferros, depois 
dos quaes o embarcArao para o reino ; viagem que 
nao acabou atalhado da morte. Entre todos os des- 
pojos forao dez bandeiras , o de maior estimacao e 
o de maior preco o estandarte general , que ficou 
em poder de Joao Fernandes Vieira ; os de mais 
utilidade seis pecas d'artilharia de bronze ; armas 
de toda a sorte, sem numero ; municoes de todo o 
genero, mais que muitas; mantimentos em grande 
copia. Os demais goslo, a copiosa multidao de pra- 
tasanas, chucos e alabardas^ em que os nossos viao 
destrocada, e rendida a seus p6s toda a confianca 
inimiga. 

XXXIX. Acharao-se nesta occasiao o mestre de 
campo general Francisco Barreto de Menezes , os 
meslres de campo Joao Fernandes Vieira , Andr6 
Vidal de Negreiros , e Francisco de Figueiroa ; o 
tenente general Philippe Bandeira de Mello; os sar- 
gentos maiores Antonio Dias Cardozo^ Paulo da 
Cunha, Jeronim6 de Inojoza; os governadores de 
Indios e Minas, D. Diogo Pinheiro Gamarao, e 
Henrique Dias ; o capitao de cavalios Antonio da 
Silvae Manoel d'Araujo; capitaes d'infantaria Joao 
Fradique, Francisco Berengucr , Joao Soares d' Al- 
buquerque, Antonio de Castro , Jeronimo da Cunha 
do Amaral, AfFonsod' Albuquerque, Cosme do Rego 
Barros, Francisco de Lisboa, Bertholomeu Soares 
Canha, Francisco Barreiros, Antonio BorgesUchoa, 
Joao d' Albuquerque , Antonio Rodrigues Vidal , 



Mfuuitall Mmiz, Y wente Qw»4o Mq^rtii^ft,, If^ 4? 

l^'qxf ir2(, QcMifsJo P^reura F^dalgp^^ Braz da Roc|[^ai 
]\Sa^oel d' Abr^u^ Francesco R^umps, ?tfanael l^ft^a, 
Amaro Cordeirg^ Domingo^ Ffirre4f a » Q]'?g;orio de 
Qalds^Sj Siw^Q Mei^des^ Philippe F^rreira^ Es^^^vsiO, 
Fer^ai^^^^ Qr^goriq Fraga^ d'Albuquerqvt?,^ Sf- 
b;^|t jfio Fermrs( ^ Aato^ipLio da I\9c^a |)ax]f:^as , J[q9o 
B^]|^boz^ , Anton^Q flviira^q Vicjal , Antonio R^qdri- 
g\ie» Frauca , Jq^q Lopes^ Mftnoe^ d'^gpw, Mijr. 
npe^ AntWiQ de C!?iVvalho, Afltqpip d^ ^ilya^ Am^r 
dor RodrigueSy Ff^ipcisco da^ I\9^cha, Ai](tqi^9 
Rodriguez S^ntis|gp. » Ppdp 4^ Miranda , Fernao 
d^ Mellp d'Albuquerq\ie I D. J[q^q d^ !^oiiza, 
Amsirp Ycl^iq C^rgi)^irt^ , Frapcispp Cputiiah.p^ Mi- 
guel Fernandes , Clemen te da Rocha , Jaciqtho da 
C]ru^ 2 ^ Jo^o tiui^. Fftlfarao i^^^ U^tas qs n9mes 
d'^l^uns capitaes, pq pq^que; o alYQro.9Q o^ nao 
artyeftio, op porq^i^ a\ fr^gi^d^dp d^s pappioTias os 
e^qnepeq, 

X\j, No dia 20 4? f ^ypreirp^ d^poi§ fl'wt^rrados 
qg n^prto^ , apon^f^qd^dos ps fprjdos , e recolbido 
todq o deapojo 4p cfimpq ii^ifpigo, marchpu o ppsso 
exerci|,p pjjra ^ fqrtalpza do ^rraial, Qn4e fpi rece- 
bidq com ^Ivas 4os presidios , e pon^ tiiippl^uosa 
^pplftma^ap 4^ ^\^?^^ i QUe sem descaqcq davao os 
Q^oradorps , qqe seguros qa confianga da victoria 
tint^ao ]& 4eixado os matos e esppravao os resiaurJ[- 
dores de §u^ Ube^dade pa^a os accl£|inar ppr taes. 
— No seguii^te dia f^andoH o Hollfi^dez pmbaixada^ 
en^ q^e pe4ia sifspiensao d'armas para d^ sepul- 
ture fios pprpos 4f ^us p[)prtos, que fiparaq spbre a 



terr^i no campo. da batalha. Qnice4e(ih4^^^ ^ V-, 
cjof^ p^id^f e aargq;ito oaaior Asttoqio Stia^! Qvi 
doa^o fg^ eocarregado d^ assistir coxa, ^ infa^il^ri^ 
i^yec^siria apa ^umat^Q5 hol^ndea^e^ > ^m q^af^tq 
4Mr*sse a pqterrQ segiwdq o ^s^ti^a d^ gMorra- r-? 
capitao holtandez^ qpe foi ^ca^^^ado dCe^ta^ 
diligencia, \:iijha acoBpipauhadot d'um jud^ v^vi\\,Q, 
cp^heqdo do& uossoSjj que l^e sevyia dli^terpr^^. 
Pedir^o a^xbos lioei^^a para yer q uo^so -^rra^^ , 
conhecerein ^ abracar^n^ taQ desil jnctQ9 c^pit^ , 
mils ouira er^i o $(au fim. Depoia de co|icie4id9 f( 
licexiQa^ foi coi;iduzida q q^pitao hollaq^e^, a pres,en^ 
de Francis;co Barre(o de Mene^es, q\^Q cpn^ o$ csibos^ 
maiores o esperava em uma sala alta* Sii^biio, ^ cof^ 
c^emoQia^ de smhmissao o 9;iudPU e aos n\ais , e 
proseguio pom 4uimp dpbfado d^ndp. £^ \q^qs, ^ 
pe^am^si d^^ n\QTt^ do ^a^gei^tp ji\^ov Paulo 4? 
Gunha , e 4? J<mio Ferqaudea Vjeira , a q^al ejle 
I^^^^Q s^ptia comp ^old^tdqi posto que HQ AwQifq 
a tiver^o por t?iip?iuha dita q^e o^ dq gaveyno ^e 
dav^q un^ a qutrosi os parabens, Eo*^ q (im d^ yinds^ 
dp capitao hollaude?; e dp j\idep peytificfir-^p (J* 
mpr^e de ^^os^p gqverqadpp da lihjByd^dp;, a quqj ^o 
Qsp2\lh4ra eq^re o§ inimigQ^i cqipo a cirpft dissenao^ j 
por is3o, Francisco Barreto, deppi^ de IJies assegu?* 
rar que Joao Fernsmdes Vieir^ nen^ ap menos fic^r^ 
ferido , o ipandou cb^njar ap seu engep^io de Slao 
Joao (nao m^^itodistante). Chegop Jo|q Ferqande? 
Yieira, e depoip de ouvir o q^ie a ^eq re§pfii(o djsse 
capitao e o judeo, Ibeg respqqdep : (f Se 03 se- 
» nhores hoUaudei^ies djizerq que dei 4 vida pela 
?> victoria^ fallao pela bpca do spu fie^ejo; 3e q 



5&ii GASTRIOTO LtSITANO. 

» ci*em , i negociacao de seus delictos , porque se 
» persuadem que acabaria seu castigo com minha 
» vida ; mas desenganem-se , que se ate agora fui 
» seu a^oute, vivo, d'aqui por diante o serei como 
» resuscitado ; porque sabe Deos resuscitar mortos 
» para castigar soberbos. » Passou depois a pratica 
a materias jocosas, com que os nossos cabos os en- 
tretiverao ; agasalharao - nos com abundancia e 
honra , at^ que no outro dia voltarao para o Ar- 
recife , onde o desengano fez tanta impressao nos 
do governo, que foi maior a tristeza que causou a 
verdade, que toda a alegria que tinha introduzido 
a suspeita, porque a causa do pezar era certa , e a 
do gosto duvidosa. 

XLI. Passarao-se alguns mezes em que as armas 
estiv^rao suspensas d'uma e d'outra parte , occu- 
pando-se ambas em reparar siias perdas , discipli- 
liar seus soldados, e aprestar-se para nova luta.— 
Em quanto em Pernambuco succedia o referido, 
caminhava nb reino & sua execucao o assento de que 
OS navios mercantes navegassem em frotas, com- 
boiados por conta da nova companhia geral. Em 
A de Novembro de 1 649 saio de Lisboa a primeira 
frota, seu general o conde de Castellomelhor Joao 
Rodrigues de Vasconcelhos (a quern El Rei Dom 
Joao IV mandava governar aquelle estado), e por 
seu almirante Pedro Jaques de Magalhaes, cabos ja 
entao de fama, e que depois occupdrao os maiores 
postos de guerra. Com prospera viagem os virao 
naquelles mares naturaeseestrangeiros, colhendo 
uns as premissas de suas esperancas no seguro do 
commercio, butros confirmando os receios de que 



CASTRIOTO LUSITAMO. 5&S 

buscavao seus portos com segunda tencao. Este 
cuidado servio ao Hollandez de freio para que nao 
ousasse levantar o braco os mezes que a frota tar- 
dou em voltar para o reino. 

XLII. Vio-se Sisgismundo livre da causa que 

Ihe tomava a respiracao, e quiz experimentar o 

estado de sua fortuna. Em 25 d'Agosto mandou um 

grosso d'infantaria, que pela estancia do Mendonca 

tomasse o pulso a nossa vigilancia. Saio pela forta' 

leza dos Affogados, como a mais proxima^ e presu « 

mia remissao em nosso cuidado pela continua^ao 

do ocio ; mas achou as vigias despertas, e as armas 

promptas. Com ellas na mao saio a receb^l-o o ca- 

pitao Uchoa com a gente do presidio, a qual, como 

innundacao reprimida^ rompeo pelo inimigo com 

tal violencia, que sem esperar segundo golpe virou 

as costas , deixando sette mortos , que Ihe nao per- 

mittio retirar a pressa do alcance ; e nos muitos 

feridos , com que se recolheo, levou a melhor cura 

de seu engano. Em 7 d'Outubro saio para atacar a 

estancia que chamavao do Aguiar, mas nao teve 

melhor fortuna^ porque o capitao e seus soldados o 

rebatterao com grande perda. Em 1 5 de Dezembro 

fez o Hollandez outra sortida sobre a estancia das 

Salinas, embuscando-se primeiramente no mato 

para melhor lograr seu intento ; mas os nossos tepdo 

d'isto noticia , com valor o investirao ; e como por 

algum tempo rebatesse o encontro, largdrao os mos- 

quetes, e tanto que desembainharao as espadas , os 

fizerao virar as costas, perdendo mais gente na fuga 

do que na resistencia. — Desenganado Sisgismundo 

que nada podia obfer por terra, mandou uma pe- 

1. 35 



.* • 



5W GA3TaiOTO MJSITAVO. 

quena esquadrt ao rio de Sao Frauci^co, £3co&-* 
deodo a uecessidade de maadar buscar mantimea* 
tos y de qua muito precizava , com a voi de qiie 
mandava a destruir os moradores, £m os uttimoi 
d'este anno de 1 650 3aio da barra do Arrecife^ e 
deo a v^la para g sen destino, que elle julgava 
ignorado dos nossos; mas Francisco Barreto de 
Menezies tepdo noticia da tencao do Flamengo, de- 
liberou-se en> mandar quem impediss6 sua pre- 
tencao, cons^ltou os mestres de campo, e aprovada 
a cautela, nomeou^se o sargento maior Cardozo 
para a exi^cucao d'ella. Em 5 de Janeiro saio do 
Arraial com quinhentos soldados, e marcba tao 
ligeira que ja aos 1 5 estava dentro dos limited 
daquella capitania , da qual ^chou ja retirado o 
FlamengOy tap obediente ao aviso que Ihe deo, 
que nada conseguio do que intentava, Nao tendo 
inimigos que combater, abrazou tudo quanto po- 
dia ser de prestimo para o inimigo^ recoUieo tudo 
Q que pareceo util para os seus^ e se voltou par^t o 
Arraial magoado de obrar so o facih 

XLUL GoutiQudrao os nossos em su^ yigilancia 
armando continuas cilada^ ao Flamengp , com tao 
bom ftuccesso que quasi se nao atrevia a sair fora 
de suas muralhas j at^ que se resolveo a sair com 
maior poder para nos atacar a estancia do Men- 
doQca. Saio com efFeito em a manba do dia 7 de 
Abril de 1651 com trezentqs infantes; forao logo 
descobertos de nossas s^ntinellas, derao rebate, 
saio capitao da estancia com a sua gente a rece* 
ber o inimigo : por largo espaco esteve igual a pen- 
dencia , at^ que mettendo o^ nossos mao a espada 



GASTRIOTO LUSITANO. t>Ul 

para logo se incliaou a victoria a nossa parte. Yi- 
rdrao as costas, e deixarao quinze mortos pelas 
custas ; mais leves as nossas , que nao passdrao de 
seis feridos. — Teve neste tempo noticia o mestre 
de campo general que o inimigo andava senhor da 
campanha do Rio Grande como se a ella'nao pudera 
chegar a nossa espada ; com o volo dos mestres de 
campo nomeou o capitao Joao Barboza Pinto, valo- 
roso e pratico, o qual saio do Arraial em 16 de 
Julho com trezentos soldados , e ordem que sem 
perder tempo marchasse ao Rio Grande, e mos- 
trasse ao inimigo, que a espada dos Portuguezes a 
toda a parte chega, e por tudo corta. Com a noti- 
cia da Tinda da nossa gente , recolh6rao-se os Hol- 
landezes e Indios a uma fortificacao, que tinhao no 
sitio das Guarairas , onde presumirao a defensa, 
mas onde acharao a entrega, porque investida e 
ganhada, perdeiao todos a liberdade, e so alcanca- 
rao a merce da vida. Correo Joao Barboza Pinto toda 
o capitania , e como raio abrazou a terra de modo 
que nella nao deixou homem rebelde , nem cousa 
util. Voltou para Pernambuco com alguns gados e 
oitenta e tres captivos flamengos, negros e indios. 
A mesma sorte teve o Flamengo n'uma tentativa 
que fez contra a nossa estancia do Aguiar, onde cor-* 
tado de nosso ferro , e perseguido de nossos golpes 
deixou preci pi tadamente o campo, deixandogrande 
numero de mortos, e fugio a biiscar o abrigo de sua 
artilharia. 

XLIV. Seis mezes deixou o HoUandez xlescancar 
nossas armas ; estavao os nossos soldados descon- 
tenles do ocio, pois nao sabiao viver sem pelejar; 



54.8 CASTRIOTO IUSITAN0. 

para Ihes satisfazer a vontade, e para nao deixar 
amortecer o espirito e ardor guerreiro , mandou o 
mestre de campo general ao satgento m6r Cardozo 
que com qualroeeritos soldados se emboscasse entre 
as fortalezas dos Affogados e Barreta , e picasse o 
inimigo com algumas mangas de soldados. Vio o co- 
mendor da Barreta que a occasiao o convidava com 
melhor partido ; saio com alvoroco, investio com 
orgulho, que os nossos reprimirao com tanta gen- 
tileza , que o comendor dos Affogados soccorreo os 
seus com promptidao e poder; sairao os nossos das 
emboscadas , e em esquadrao unido fizerao frente 
aum e outro inimigo; travou-se a peleja, accendeo- 
se o furor, durou tempo consideravel o choque 
com indifferen(ie fortuna: mais de bora e meia pro- 
fiou a ira (tao quentes os animos como as armas). 
Com a resistencia cresceo o vigor da nossa gente, e 
carregou o inimigo de sorte, que obedeceo o maior 

numero ao melhor braco. Roto e desordenado o 

* 

Flamengo , buscou na fugida o remedio , e nella 
achou estrago ; levava nas costas os golpes de 
nossas espadas : perdeo as armas e o tino , e sem 
saberem como, uns se deitdrao ao rio, onde mais 
de pressa beberao a morte ; outros correrao a bus- 
car o amparo nas suas fortalezas, deixando no 
campo quinze mortos, e pelos matos muitos feri- 
dos, onde os mais d'elles perecerao. Recolherao-se 
OS Portuguezes ao Arraial alegres como victoriosos; 
mais agradecidos a occasiao pelos metter no choque, 
que por Ihes dar a victoria. 

XLV. Tendo o mestre de campo general noticia 
de que os HoUandezes tinhao no Rio Grande muito 



GASTRIOTO LUSITAMO. 549 

pao brazil para levarem ao norte , e que reformadas 
as ro^as, crias e plantas colhiao mantimentos^ que 
mandavao para o Arreeife, se determinou a man- 
dar o sargento mdr Cardozo com quinhentos sol- 
dados a recolher aquelle genero , e tudo o mais 
que tivesse prestimo, e abrazar o que se nao po- 
desse conduzir. Fartio do Arraial em 20 de Maio, 
entrou na campanha sem ser esperado; rendeo 
muitos negros , dos Indios castigou os contrarios , 
e favoreceo os neutraes. Destruio as rocas, lavou- 
raSy canaveaes e abeguarias; entregou ao fogo grande 
quanlidade de pao brazil ; e deixando no sangue 
e nas cinzas o mais horrivel pregao de nosso furor 
e seu castigo voltarao os nossos para o Arraial, sem 
dilacao y nem perda , onde os soldados festej^rao a 
restituicao e posse de nao pouparem inimigos. 

XLVL Foi este golpe dos mais sensiveis que re- 
cebeo o Fiamengo^ porque o ferio na garganta e na 
boica y e nao convaleceo d'elie em todo um anno , 
tempo em que em tudo se negou a toda a occasiao, 
que podia dar materia e argumento a nossa historia. 
Tinha visto que todas as tentativas Ihes falhavao ; 
nao Ihe restava senao um meio para melhorar sua 
fortuna, e era ganhar-nos a fortaleza do Arraial. 
Conhecia Sisgismundo a difficuldade da.empreza; 
mas por satisfazer ao desejo dos do governo, pro- 
poz-se a ganhar primeiro a estancia do Aguiar, 
sem o que nada podia intentar com o Arraial.—- 
Em 11 de Marco de 1 653 saio a campo com poder 
proporcionado ao intento. Era capitao d'aquella es- 
tancia Affonso d' Albuquerque , herdeiro d'aquelle 
valor que fez grande o nome e o appelUdo. Assim 



550 CASTRiOTO LUSlTANa 

que descobrio o Flamengo, saio a receb^l-o com o 

sen presidio, com tal Wrma e valor, que apezarde 

profiosa resistencia o obrigou a largar o campo, 

com perda de nao poucos mortos e feridos. Pouco 

tempo depois voltou o Flamengo com maior poder, 

hem decedido a rocar o mato que coLria a nossa 

estancia , para que sua artilharia podesse laborar 

contra ella ; mas como o nosso mestre de campo 

general tivesse reforcado por prevencao o presidio 

da nossa estancia , saio-lhe o conceilo errado. — 

Tinhao-se os Hollandezes emboscado , e esperavao 

que quando nossa gent e saisse para os rebater cairia 

em suas maos, e logo com facilidade se apoderariao 

da estancia ; mas o capilao Paulo Teixeira, que se 

acbava com muita e boa gente , saio da estancia , 

rompeo as emboscadas , inveslio o esquadrao ini- 

migo, que assombrado de se ver atacado por nauito 

mais gente do que esperara, esfreou na Fesisteneia^ 

e fugio corlado de seu espanlo e de nossos golpes, 

tao vergonhosamente , que nao Ihe bastou a causa 

para Ibe diminuir a injuria. Determinoii restaurar- 

se na honra, e pelas Ires boras da tarde Yoltou com 

dobrado poder e arrogante furia ; mas no mesoio 

posto encontrou a mesma resistencia. Sustenton 

avanco em quanto durarao as cargas ; mas taarto 

que sentio o cortc de nossa espada^ deixou o caropo 

e a victoria, contente com retirar sens mortos, per 

nos diminuir o triumpho, coroado n'este dia com 

dobradas palmas. 

XL VII. Crescia entretanto no Arrecife a fome 
com a fait a de mantimentos; era a barra a porta 
por onde Ihe podia entrar o sustento ; acafbara-se 



GASTRIOTO ItSlTAIYO. 551 

o das presas , o da fiollanda nao chegava , e havia 
mezes que se nao tinha risto etobarcacao do norte. 
Forcado da necessidade aprestou Sisgismundo al- 
gutoas embarcacoes para mandar ao Rio deSao Fran- 
cisco, com gente de guerra, que a sell salvo condd- 
zisse OS gados d'aquella campanha as embarcacoes, 
e nellas ao Arrecife. Por ordem do mestre de campo 
general assistia & defensa d'aquelles moradores o 
capitao Francisco Barreiras com a sua companhia , 
com que refreava as cofrerias do inimigo ; d^rao- 
Ihe rebate das que fazia o Hollandez , recolhendo 
gados e mantimentos ; buscotK) nosso capitao acom- 
panhado de sua gente e d'aJguns moradores ; avis- 
tarao-se na paragem que se diz Santa Izabel. Foi b 
encontro profiado ; por6m como o inimigo vie que 
a resistencia Ihe augmentava o damno j deixou o 
campo retirando-se em ordem, mas nao sem perda, 
que Ihe ficarao no campo trinta e sete soldados. 
Perdemos neste choque o nos^ capitao Barreiras 
e tres soldados, e tivemos doze feridos. Chegou a 
nova ao Arraial ; e a morte do capitao enlutou o 
gosto da victoria : mereciao suas prendas todo o 
sentimento que causou sua falta. 

XLYIIL Ainda nao desenganado o Flamengo 
com tantos revezes , intentou mais outra vez rocar 
mato que nao deixava descobrir a nossa estancia 
do Aguiar. Com trezentos homens saio pela parte 
dos AfFogados a intentar o c6rte da mata entreposta. 
Guarnecia a estancia o capitao Francisco Pereira 
Guimaraes com sessenta soldados. mesmo foi ver 
o destemido capitao o inimigo, que avan9al-o, rom- 
pel-o , e destruil*o com perda de tres feridos , um 



552 GASTRIOTO LUSITANO. 

capitao, urn alferes e um soldado. Em 12 de No- 
vembro succedeo o cheque ; de que o Flamengo 
saio bem sangrado, mas nadaconyalecido. Em breves 
dias voltou com o mesmo intento, e quinhentos 
soldados. Saio-lhe ao caminho o capitao Manoel 
d' Aguiar ; com leve resistencia o desbaratou, e se- 
guio y matando e ferindo , sem algum Ihe virar a 
cara, que todos levavao no abrigo de sua fortaleza. 
Lastimado e confuso o deixou o caso , porem nao 
arrependido. A breve dura^ao de seu imperio mos- 
trou nesta contumaciam que luctava jd com a morte; 
deixou de profiar, porque Ihe faltou o tempo, e nao 
porque cobrasse juizo , que delirante o levava ao 
ultimo passo de seu dominio. 



LIVRO XIL 



SUMMARIO. 



1. Razoes por que J. F. Yieira desejava dar fim d guerra. — 2. Fran- 
cisco Barreto poe a empreza em conselho. — 3. Pareceres dos mes- 
tres de campo. — 4. Chega d vista de Peroambuco a frota da 
companhia vioda de Lisboa. — • 5. Francisco Rarrelo manda visitar 
general d'ella; paga este a Tisita saindo a terra; mas escusa-se 
a dar auxilio para a empreza pelas ordens que traz. — 6. A ins-* 
tancias de J. F* Yieira ajun(ao-se em conselho os cabos de mar e 
terra ^ seus pareceres; ^ approvado o de J. F. Yieira. — 7. D&-se 
principle k empreza pela fortaleza do Rego ; dispoe-se a conquista 
do Arrecife por mar e por terra. — 8. J. F. Yieira reconhece as 
fortalezas ; poe cerco k fortaleza do Rego. — 9. Formao-se as ba- 
tarias e se abrem as cayas ; intenta o inimigo soccorrer a sua for- 
taleza; com que snccesso.— 10. Gontini&a Andr^ Yidal de Negreiros 
08 ataques, e se Ihe entrega a fortaleza a parlido.— 11. J. F. Yieira 
cerca a fortaleza de Altenar. — 12. Manda Sisgismundo largar a 
fortaleza da Barreta, de que B. Diogo Pinheiro se apossa. — 
13. Larga o Inimigo a fortaleza do Boraco de Santiago; muda de 
alojamento Francisco Barreto. — 14. Continuao os ataques k for- 
taleza de Altenar, e se Ihe impedem os soccorros ; amotinao-se os 
HoUandezes, e a entregao. — 15. Gondicoes com que saem os ran- 
didos ; perda d'uma e outra gente.— 16. Preparao-se os nossos para 
combater a fortaleza das Cincopontas. -« 17. Desamparao os Hoi- 
landezes a fortaleza dos Affogados. — • 18. Ganha Andr^ Yidal a 
eminencia do Mihou ; Sisgismundo intenta recuper&l-a ; mas retira- 
se. — 19. Gontiniia J. F. Yieira os aproxes das Ginco Pontas; per- 
suadem os judeos a entrega do Arrecife. — 20. Pede Sisgismundo 
suspensao d'armas para tratar da entrega do Arrecife ; com que 
limite se Ihe concede. —21. Pessoas que se nomeao para o acordo 
das capitulac5es ; proposta do HoUandez. — • 22. Gapitula-se a en- 
trega do Arrecife ; com que partidps e condi^des. — S3. J. F. 
Yieira toma posse da fortaleza das Ginco Pontas » da cidade Mau- 
ricea , e de todas as fortificacoes e almazens. — 24. mestre de 
campo general faz sua entrada no Arrecife. — 95. Numero dos 
rendidos, da artilharia e das armas.— S6. Fementido trato do Hoi- 
landez. ~ 27f Francisco de Figueiroa toma posse das mais capi- 



55k CASTRIOTO LUSITANO. 

taniai e fortalezas. — 28. Segue a nossa armada a sua derrota 
para a Bahia ; saem do Arrecife dous avisos para o reino ; de que 
S. M. recebe a nova. — 29. Fracas que o Hollandez deixou. — 
30. que deve a nacao a o reino a J. F. Yieira. 



I. Nos fins de Dezembro de 1653 comecMo os 
habitantes a mostrar-se enfastiados de tanta de- 
mora , e quasi perdiao a esperanca de i^erem co- 
roados de snccesso sens heroicos esforcos. Da des- 
confian^a passa vao a queixa, accusando de frouxidao 
o que era prudencia. Dizendo que se enrestisse 
com Arrecife a todo o risco ; que mojfrer por 
morrer, antes no assalto com gloria^ que no Arraial 
com miseria ; que as vidas qu« cottsummia o tempo 
sem fructo mef lior se empregariao no combate com 
utiHdade e bonra. Feriao estas queixas o coracao 
de Joao Fernandes Vieira , porque se considerava 
cabo^ companheiro, e motivo. Tinba sido causa 
para os moradores tomarem armas, mflmndo em 
todos com a persuasao e com o exemplo, o desejo 
e esperanea da liberdade : razao , que o fazia aulor 
da petia e reo da queixa ; estimulos que o obriga- 
vao a envestigar com mais cuidado os meios por 
onde melhor se poderia conseguir a execucao de 
sua promessa. £sta era toda a occupacao de seu 
juizo^ e de seu desejo. Tinha assentado comsigo 
que para a concpiista do Arrecife e stias pracas 
valia pouco toda a bostilidade de terra , faltando 
poder que Ihe impedrsse os soecorros do mar ; e 
como era este o tempo em qtie as frofas do reino 
Sttkavao aquelles^ marea ^ resolveo-se a pedir o soo 



cAsnaaio uisiTAiia 555 

guezes, experunentados soidados, e convidados 
pela estimacao dos despojos j nao se recusariao a 
tomar parte em tao gtoriosa empreza. Propoz ao 
mestre de eampo general este pensamento, indicou-^ 
Ihe OS meios para este fim , manifestou-lhe todas 
as queixas dos moradores, e quam resolutos esta-^ 
vao a sacriftcar as vidas para acabar o que haviao 
comecado e proseguido com tanta gloria; e eonclnio 
dizendo : « Ja de hoje por diante poderemos espe- 
» rar que uavegue por esla altura a frota do reino, 
» conaboiada pelas embarcacoes, que a compaohia 
» do commercio geral Ihe tern consignado , e que 
» forcosamente hao de pairar a nossa vista em 
» quanio mettem e recolhem os navios mercantes 
» perteuceutes aos portos d'esta capitania. SeVossa 
» Seuhoria com sua autoridade , e os moradores 
» d'ella com sua affliccao representarem aos cabos 
» da armada a miser ia» a que estamos expostos , e 
» Ihesrequereremseufavor^ ped]ndo4hessedeixem 
» estar alguns dias a vista do Arrecife, senao coroo 
» amigos como neutraes ; e ini^ por terra ayanca-- 
» remos com as pracas do Flamengo; e entendo do 
» presente esiado das cousas y que on se render^ 
n assombrado, ou se defendera tao remisso , que a 
)» pouco eusto nos restauraremos no dominio usur- 
» pado. £ nao faca duvida a Yossa Senhoria a falta 
» dos aprestoSy porque eu os quero tomar por 
» minha conta , assistindo-me Yossa Senhoria com 
» as ordens necessarias; a qoem peco, coDsidere 
» n'esta materia com a attencao que p<;de a impor- 
» tancia d'ella , crendo que me diz o coracao, que 
» tern Deos guardado para Yossa Seubwia o re- 



556 GASTRIOTO LUSITA190. 

» mate d'esla empreza , e a ultima coroa d'estas 
» yictorias. » 

II. Com atten^ao e alvoroco ouvio o general ao 
mestre de campo y mostrando no semblante a ap- 
provacao do intento ; mas como prudente general, 
disse-lhe que por isso que a empreza era difficil, 
era necessario consultdl-*a com os mais cabos que 
n'ella deviao tomar parte. Passarao-se alguns dias, 
e como o general nao tomava nenhuma resolucao, 
foi segunda vez Joao Fernandes Vieira com o mesmo 
requerimentb ao mestre de campo general. Recebeo 
este com o mesmo agrado, conferio com elle as con- 
tradiccoes y que a seu parecer faziao a execucao im- 
possi vel ; facilitou-lh'as Joao Fernandes Vieira com 
demonstra^oes tao claras , que deixdrao a empreza 
scDi duvida ; e rematou a pralica dizendo que alii 
se achavao os tres mestres de campo com sua se- 
nhoria, que os chamasse a conselho, e proposesse 
o negocio, e se resolveria com o parecer dos mais 
votos. Era esta a determinacao do general; pelo 
que assentdrao lugar e dia conveniente para a im- 
portancia do negocio e do segredo, Algumas legoas 
distante de Nazareih y e sette do Arraial , estA uma 
hermida da invocacao de Sao Goncalo, em sitio 
apartado de toda a communicacao pelo solitario do 
lugar, para a qual chamou Francisco Barreto no dia 
seguinte aos tres mestres de campo, com pretexto 
de romaria. A titulo de passarem a sesta, se reco- 
Iherao nella , apartando de si os criados com appa- 
rentes motivos. Pedio silencio e segredo, propoz a 
empreza, conformando*se com a proposta de Joao 
Fernandes Vieira y e concluio dizendo : « Na frota 



CASTRIOTO lUSITANO. 557 

» que por horas esperamos do reino , temos quern 
» corte por mar a communicacao aos Hollandezes ; 
» e nos cabos que a commandao, quern nos favo- 
» reca por terra. Nesta supposicao quero que Vossas 
» Merces me digao se Ihe parece que nos apreste- 
» mos para a conquista do Arrecife e das fortalezas 
» que o guarnecem, » 

III. primeiro que votou foi o mestre de campo 
Francisco de Figueiroa, e expendeo varias razoes 
pelas quaes sustenlou que a empreza era nao so 
arriscada, mas impossivel, pois nem por sitio, nem 
por assalto se poderiao tomar as pracas dos Hollan- 
dezes , pela falla de meios que tinhamos para o 
ataque. ((Que exercito temos para a circumvalacao? 
» disse elle; que artilharia para bater tantas pracas? 
» Que celleiros para sustentar o assedio ? Que ihe- 
» zouros para pagar aos soldados ? Que aprestos 
» para os aproxes? Que engenheiro para as minas? 
« Que soccorros para as perdas ? E quando nada 
» fahara, com que armada o havemos de cingir por 
» mar, tao vigilante e poderosa, que sirva de ca- 
» deia para impedir os soccorros, e de freio para 
)) atalhar a opposicao? » Seguia-se o voto do mes- 
tre de campo Andre Vidal de Negreiros, o qual foi 
de parecer contrario, dizendo que a empreza nao 
so nao era impossivel, mas menos difficultosa do 
que diziao ; e concluio : « Se hei de dizer o que al- 
» canca meu juizo , posso affirmar que a empreza 
» lem menos de perigo que de receio ; e quantas 
» mais forem as difficuldades, com que nos espera 
x> a conquista , tantas mais serao as palmas com 
» que nos chamara a victoria, Se vota meu desejo 



558 CASTEIOTO LUSITANO. 

;> digOy que j^ me quizera ver no assalto das forti- 
» ficacoes inimigas ; e que cada instante de detenca 
» $erd para mim de peaosissima mortificacao. 
» Nao saberei o que digo, mas digo o que siato, » 
Joao Fernandes Yieira tomou eutao a mao, e depois 
de enumerar as victorias alcancadas contra o iui- 
migo, e depois de ponderar o quanto deviamos con- 
fiar na proteccao divina, comecou as razoes do pri- 
meiro voto, e fallou nestes termos : « For ventura 
» OS muros das fortificacoes inimigas sao de dia- 
» mante, para que se izenlem do ferro e da mina? 
» Sao immortaes sens defensores, para que os nao 
» offenda o golpe e a bala ? Sao os contrarios innu- 
» meraveiSy para que os nao diminua a morte e o 
» trabalho? Sao invenciveis^ para que os nao renda 
» o perigo e o medo? Pois com que razao deixamos 
» em suas maos a escolha da occasiao e do tempo 
» para Ihe fazermos guerra? Ha de estar em seu 
)> qiierer o movimento de nossas armas? A occa- 
» siao nos persuade a que o desalojemos e destrua- 
» mos. Que melhor tempo que este, em que se 
» acha falto de gente e de soccorros? Que occasiao 
» mais favoravel que a presente , em que a frota 
» de Portugal , que esperamos , nos pode dar see- 
» corro e gente ? Todos sabemos que as fragatas 
» contrarias, poucas e mal guarnecidas, como inu- 
» teis & defensa andao espancando os mares em 
» busca dos roubos ; e quando chamadas da ne- 
» cessidade avistem a nossa frota, -que animo terao 
» para a envestir, cossarios que so vivem de rou- 
» bar? Isto assim, que nos ata as maos ? A imagi- 
» nacao de faltarem aprestos? Essa nao i certa, 



GASXRIOTO ][.17StTAllO. 558 

M porque quando nao sej&o faceis, nao serao impoi^ 
» siveis. Eu me obrigo, com a verdade que sempre 
» se achou em minhas promessas, a prevenir todo 
» o necessario com abundancia e segredo, Nao fie** 
)) mos nosso desejo ao tempo , que ser;i fial-o ao 
)i maior inimigo ; porque $6 elle sera poderoso para 
» nos consummir ; e fara o que o Flamengo com 
>^ todas suas forcas nao pode fazer. Mostre a es- 
» pada portugueza que em nenhum tempo perde 
» o cdrte , e que no descanco se a6a para cortar 
» melhor na occasiao. Demos o ultimo realce a 
» nossa fama , e ficard duas vezes grande o nome 
» portuguez ; uma pelo valor com que vence ba- 
» talhas^ outra com a ousadia com que escala for- 
» talezas. » Approvou o mestre de campo general 
o parecer de Joao Fernandes Vieira ; louvou seu 
zelo e patriotismo ; prometteo-lhe toda a assisten- 
cia e poderes que tinha ; tomou a seu cargo o cui- 
dado de espiar a frota, e a diligencia de obrigar ao 
general d'ella a sair em terra, e pedir-lhe soccorro 
e companhia para o tempo dos assallos. Conformes 
todos neste parecer se apartarao a prevenir armas, 
e a desmentir suspeitas. 

IV. Em 20 de Dezembro appareceo a vista de 
Pernambuco a frota da companhia gdral do com- 
mercio, que saira de Lisboa a 4 de Outubro. Seu 
general Pedro Jaques de Magalhaes, almiranle Fran- 
cisco Brito Freire. Jd Francisco Barreto de Menezes 
estava prevenido por um aviso que recebera em 7 de 
Dezembro , mandado pelo general da frota da ilha 
de Cabo Verde, onde aportara para recolher os na- 
vios mercantes que alii se Ihe aggregarao. Com os 



560 GASTBIOTO LTJSITANO. 

olhos do receio a virao os HoUandezes, e com as 
da esperanca os moradores. Os cabos hollandezes 
( alheios de toda a noticia de seu damno , e so ac- 
cusados dos remorsos da propria consciencia) or- 
denarao a uma esquadra que tinhao no mar, que 
saisse a reconhecer o numero de vasos, e a forest 
d'elles. Gomprirao as fragatas inimigas as ordens 
ate chegarem a bataria com alguns navios de 
guerra, que as fizerao apartar arrependidas quando 
ja OS navios mercantes estavao surtos na forma 
conveniente para o seguro dos que haviao de eu- 
trar e sair dos portos daquella capitania , e para a 
commutacao de generos e fazendas da companhia e 
de particulares. 

V. Logo Francisco Barreto assentou com os tres 
mestres de campo que se devia fazer todo o possivel 
para tenteat* o animo do general da frota, e que 
seria muito a proposito para o infento obrig^l-o a 
sair em terra. Despedio o mestre de campo general 
urn enviado, que da sua parte, e dos officiaes, exer- 
cito e povo Ihe desse os parabens da viagem; e Ihe 
pedisse licenca para satisfazer a esta obrigacao pes- 
soalmente. general da frota, grato e officioso se 
metteo com o seu almirante n'um esquife , e nave- 
gou para terra , mandando vogar para o rio Doce, 
onde o forao receber Francisco Barreto de Menezes, 
Joao Fernandes Vieira, AndrdVidal de Negreiros 
e Francisco de Figueiroa. — Deo-se o primeiro 
tempo aos abracos, e ds saudacoes ; e logo se passou 
a pratica do negocio. Propoz Francisco Barreto a 
resolucao que se tinha tomado , os fundamentos 
sobre que estribava a confianca, com que todos es- 



CASTRIOTO LUSITANO. 561 

ravao o favor e ajuda de sua senhoria , pois o assis- 
til-os naquella empreza era service de Deos , utili- 
dade do reino , interesse da companhia , e unico 
remedio dos Pernambiicanos. Que negal-o sem 
risco, e sem dispendio, na presente occasiao, seria 
perdel-a, com a reputacao das armas portuguezas, 
e o credito de cabos de tanto nome ; pois quem os 
nao visse, na presente miseria, lastimados e com- 
padecidos os nao havia de crer valerosos ; e per- 
dida a restauracao de captiveiro tao duro, por culpa 
de sua senhoria, Ihe nao ficava razao para se dis- 
culpar, nem para com Deos, nem para com os ho- 
mens. general da armada , indeciso entre a com- 
miseracao e a homenagem, mostrou queaobediencia 
Ihe atava as maos a piedade , e disse que elle nao 
trazia ordem de seu Rei para a minima hostilidade, 
nem da companhia geral para o menor desvio d'a- 
quella frota, obrigado por juramenlo a conservacao 
e breve despacho d'ella ; que de fazer o contrario 
se poderia seguir exasperar-se o inimigo, e alterar 
as pazes com o reino, e pagar elle com a cabeca a 
desobediencia e o damno, porque senao havia de 
julgar por leve culpa , a que commettesse em 
offensa de nacao tao bellicosa. 

VI. Insistirao os mestres de campo, e entre elles 
commais efFicacia Joao Fernandes Vieira, allegando 
tao fortes razoes que o general e almirante , cru- 
zando as maos, se renderao ao seu parecer, e de 
companhia forao todos para a villa de Olinda, onde 
convierao em que ao outro dia se chamassem a con- 
selho todos os officiaes da primeira plana , como 
mestres de campo , tenentes generaes e sargentos 
I. 36 



564 GASTRioTO tnsrrANO. 

do Rego, porqiie era a de menor forca, a de me- 
Ihor lerreno, e a de maiores consequencias ; com 
ella se ganhava a passagem do rio , se desempedia 
o caminho da villa^ se desquartinavao as fortalezas 
do Perrexil, Brum, e Buraco de Santiago ; e d'ella 
se podiao varejar o Arrecife e a Barra ; pela dis- 
tancia longe dos soccorros , e pelo sitio facil para 
seimpedirem. Este parecer agradou a todos, efoi 
approvado como o mais acertado. — • Conferio-se o 
modo, e se resolveo que a primeira diligencia fosse 
espalharem-se cartazes em todas as linguas das na- 
coes que militavao com o Flamengo, pelos quaes 
se promettesse premio ou castigo aos que fossem , 
ou nao fossem da uossa parcialidade ; o que nao 
deixaria de obrar muito , a vista de nosso poder e 
resolucao. Ordenou-se que todas as faluas da ar- 
mada e barcos particulares fizessem todos os dias 
demonstracao de trazerem gente da armada para 
terra, em repetidas viagens, de sorte que o inimigo 
contando as partidas sommasse um excessivo nu- 
mero de combatentes ; e que se tornassem a levar 
da terra para as naos , tanto que fosse noite, |)ara 
que no outro dia representassem a mesma ficcao, e 
que ultimamente aquella infantaria , que escusasse 
a giiarnicao da armada, ficasse em terra &$ ordens 
do almiranle Francisco de Brito Freire. Advertio- 
se que os navios mercantes de menos tonelladas 
se mandassem , com sufTiciente guarda , para os 
portos do sul , para onde era sua direita descarga 
( OS quaes todos aportarao a salvamento ) ; que os 
de maior vulto e alguma forca , com os de guerra 
formassem um precinto , em forma prolongada, 



GAfiTIIIOOrO LUSITANO. ,:968 

» o intento; e puUioa n conferencia, quern nSo 
10 >ve «qiie uieeessapiaroente se ha de executar k 
0) detepminacao ? £m se reciisar consiste nossa ul* 
m -tifina perdicao. Que co«)6ei(o ha^de fazer de nos- 
<9> ^as armas o 'inimfigOy se alcancar que se Ibe nalo 
* atreve o nosso maiot poder ? Desprezara o que 
« leiiie, coBservlira o que possue, e conquistara o 
» que deseja. At^ agara nos atou as maos a im- 
« >possibilidade de o cingirem por mar ; agora que 
« nosBa fortuna ^s ofFerece o -que desejavamos 
» des|)re2a«9K>s a dita ? Gomo^ ou quando es|>era- 
» mos cobrar semelhante occasiao ? Entendia eu 
» que para o que se ha de oiwar forcosamente > 
v> nao se votava se ha ou nao ha de ser, seitao por 
» que meios se ha de conseguir. Demos caso que 
» «eja tanta nossa desgraca que iiao*^anheinos o 
H Arrecife ; ganharemos algumas de suas fortaleza« 
» e ficara nosso parttdo melhorado , o poder ini- 
» migo ^ifraquecido^ e o mundo certo que i nosso 
» valor maior que nossa forluna ; e quando menos 
» ficara este povo com a esperanca de que o ini- 
» migo atormentado de nossos golpes vira facil- 
» mente em alguma congruencia util, » 

VIL Goncordarao todos na conquista das pracas 
inimigas , e passarao os generaes a tratar do modo 
e da parte em que se havia de empregar o primeiro 
golpe^ com moral certesa de que ferisse e nao res- 
valasse. VotArao neste particular por sua ordem^ 
e forao tao diversos os pareceres, como os votantes. 
Differente de todos fallou Joao Fernandes Vieira : 
disse, que para o fim desejado se deviao arrimar a 
fortaleza das Salinas , .que chamayao de Francisco 



566. GASTittOTO LDSmUfO. 

que sem descanoar. picassem o HoUandez^portodts^ 
as partes, porque nao podesse< suspeitara qutb 
d^ellas se ODoaminhava o primeiro golpe. de^nossft' 
espadav — Entroui o. anno de* 16&4> e a 5 de Ja^ 
neiro coinecout a manifesta ospugfna^^ da3 tortB.^- 
lesas.ioimigas^ Neste e iK)S^segniDte&dias<^irao> 
da$. emharca^s^^poFt muitfts* vezes, mi»>poucosi 
bareos . carre^a^ois^t de. iafaQtam^ e> peirechus* de> 
gue^ra ^ . a§, b^pdejirais . te»d)d9»9 . tctcando caixas^ e 
4ai^ sa^ya^ ;df lAQsqueiaria ; uiis po&tos em tenvi 
yclta^yaoa^ falu^s a.bu^cariOUtrpSi seguindo .o es^^* 
tra4a^inaiia>d9.s ;ordeA$sdadaS). Os navf0Srdaian»aiila> 
formarao o circulo, e executarao tud6 lO que ficdra; 
ofd^Mdt., Ai^ d^f)^tor>fragata$ hoUaudezas^, que 
peja^ f^rm^) dkla*. recpuh^erao act dele^maoaeaD^ 
pastas, aioi largO/ spil^ao as^v^as^ ,ei se* eagolfiw*^ 
de. spi: te: que. desap|)aracerai^. S^g^uvas ccmb , a \ pair«* • 
tidfti d'ufflia fC pR^en^aadi'outranaymaifaiisafcrao dds* 
pprtos^: d^t Swifli^ienit , . Ri^ Fioi'rooso , .TajQasdaf e.^ 
e Q^^Hftx^g^)!^.a§ £m^(sa9o6s> queealaYeo^apieBt 
t^d^s ; paif^iiO^jreinQ > . e >todas eB^|riBaoina:l)afra\dBt' 
Nw?ireth,> opd^ 't^p[rf)ei3a sfirwaQ' pon^mai? hcoof^' 
dii^^Qi dfja iSoU^^g^ pr^tit^cbi^Sy^ e, geoeroapnevet^^ 
iii4^p>ppr a^u«Uap:p^t€^, panaaoeoaaiao^doGePCoy 
PpfiSQMriP^, ord^n^iap^ if]?Qntei?p&,qjTO. se. ariakhasr*- 
seifl cQn^|Sija§:;gtt^»pic6e^ -a^ vfoftatejsas contranias 
de,mapeiEa^qij§. fic^s^eiBisSua^ ,e§taBflia8 .trezentas ' 
br,aca§ jd'ell^s sem. siti^s ^que las col»rissem loa ^arw^^* 
redpa^dpsbpsques, e. nesta fqrioa.tfiaicssem'coalasi 
a cpndifccao da artilharia e matemes necessario$i> 
par^ asplajaformas e reparos> ,com querse haviao • 
de h^i^v a? fortalez^ 4p. Rogo^e dd ^ Altenaci D^e^te' 



GASXRIOTO LUSITANO. 567 

dia ate o i 1 se occupou a nossa gente em levar is 
maos nave pecaB de bromze 9 sendo cineo de 24^ e 
as mais de 1 8 e 1 4 , sem que o inimigo tivesse 
menor indioio de ^nosso trabalho , nom de nosso 
intenta.Por Qm veio.a ter noticia de nosso projector 
*e Sisgiemundo comeoou a :preparar-se para a de- 
feza. -*- Aos 13 mandou o mestre de campo ge- 
neral ajuntar o exercito a surdina ; conatava elle 
de dous miLquinhentos soldados , f6ra de mil lo- 
ianteBy que guarneciao as fortalezas do Arraial, 
villa deOUnda, Pao Amarello^.e Barreta. Em 1 4 de 
Janeiro^ dia em que tocava a vanguarda ao mestre 
de^campo.Joao Fernandes Vieira, o chamou Fran- 
cisco Barseto, e Ihe ordenou que fosse com seu terco 
por.sitio e batacia & fortaleza das. Salinas, que s^ 
dizia de Francisco do Rego, condemnada ao pri- 
.meiro furor de nossas armas^ dizendo^lhe que ao 
seu braco esua for tuna fiava o logrO;de auas e&- 
peranQas.; le que a este fun escolh^ra aquelle dia 
por conheear o quantoimportava tomar a victoria 
o principio da qUella imao da qual o tomara a 
guerra. Rendeo-lbe Joao Fernandes Vieira as gra- 
mas da.estima9ao.que>d!eUe fazia.; deo conta a seus 
.soldados e officiaes da ordem recebida^ com tanta 
alegria e alvoro9o,.como se.naquelle servico levdra 
o premiode todo seu.merecimento. Via conseguido 
o.qjue.mais des^ava, e.nao cabiaem si mesmo com 
o gosto que tinba ; assim como o sentia o manifes- 
tav£^, dando a todos o parabem de sua liberdad^, e 
da reden^p^ao de.sua patria. Kdiortou a todos com 
animo.seguro da victoria^ e ao anoitecer se po^em 
.marcha com o.seU'ter9o^m direitura ao ^itio.das 



568 CASTRIOTO LUSITAMO. 

Salinas, seguindo-o o mestre de campo general com 
todo o exercito^ que se alojou pelo reverse das ba- 
tarias. 

IX. Protegidos pelas sombras e silencio da noite 
carregarao os gastadores oilo cestoes feitos por 
conta , OS quaes se assentarao , encherao , e terra- 
plen^rao a tiro de pistola da fortaleza inimiga , e 
assim mesmo grande copia de sacos, que se enche- 
rao de areia e terr^ para reparo de quatro meios 
canhoes de 24 , com que se havia de bater a forca^ 
todos levados & mao, distancia d'um tiro de mos- 
quete (sem rumor, que o Flamengo podesse sentir) 
com quinhentos mosqueteiros de guarnicao. Assen- 
tou-se a explanada , e nella a artiUiaria , e se deo 
logo principio a cava, que saia dos lados da plata- 
fdrma, na qual se trabalhou com tanto cuidado, que 
antes de amanecer a tinhao desembocado no rio , 
de sorte que ficou a fortaleza cercada do ambito 
que formavao rio, bataria e cavas, das quaes se 
desquartinava a porta da fortaleza a tiro de pedra. 
Abrirao-se estradas encobertas para o service da 
gente e commodidade dos soldados ; e foi cousa 
incrivel o silencio com que trabalhava a multidao 
dos gastadores, tanto que nao teve o inimigo indi- 
cio de que podesse formar a menor suspeita. Os 
tabooes e pranchas de que se fizerao as platas-for- 
mas, d'onde haviao de jogar aspecas, se apontarao, 
e postos OS pregos nos furos se ordenou que a 
cada um estivesse um soldado com um seixo na 
mao, « a certo sinal se pregassem com tanta uni- 
formidade, que o golpe de muitas parecesse d'uma 
$6 mao. Rompeo a manha de 1 5, e as nossas sen- 



CASTRIOTO LUSITANO. 569 

tinellas, que estavao a falla com as do Hollandez, 
Ihe derao os bons dias , e a nossa ar lilharia a pri- 
meira salva , tudo tanto a um mesmo tempo , que 
Ihe pareceo ao inimigo sonho o estrepito que ouvia. 
Perdia o juizo , quando vio e experimentou nosso 
trabalho e seu perigo ; e maior fora seu espanto se 
vira na portugueza devacao seu castigo e nossa con- 
fianca. Com igual furor continuava a bataria d'uma 
e outra parte , se hem que com desigual effeito , 
porque os nossos pelouros se armavao das astilhas 
de seus reparos > com que matavao e feriao gente ; 
nao assim as suas balas que a terra e areia de nossa 
fortifica^ao recebia e sepultava. Mais de seiscentas 
balas grossas despararao as suas fortalezas sobre a 
nossa bataria. Nesta sua forca se defendiao cento e 
tantos soidados com o seu capitao Ugo Maior, cabo 
de opiniao entre (bUcs , a qual augmentou neste dia 
com duas saidas animosas, ainda que inuteis. Nao 
deixava a nossa mosquetaria apparecer nos altos 
da sua fortaleza homens que nao pescasse. No mais 
vivo da contenda intentarao cinco Hollandezes en- 
trar na fortaleza (mandados sem duvida com algum 
aviso ) ; porem os nossos soidados o impedirao com 
morte de quatro e fugidadeum. — Sisgismundo, que 
entendia o quanto Ihe importava a conservacao 
d'aquella pra9a, preparou um copioso soccorro 
com tanta diligencia que pelas tres horas da tarde 
avisdrao as nossas sentinellas que o Flamengo por 
mar e terra vinha a soccorrer a fortaleza. Joao Fer- 
nandes Vieira, que nas occasioes vira sempre repre- 
sentadas as victorias , avaliou aquella hora pela de 
•sua melhor fortuna. Vio que por terra marchava 



V, 



590 cAftTHKxro xnsrrAKO. 

um esquaflrao coberto da aptilharia de todas suae 
•forcas^ para franquear a porta da foilaleza shiada, 
ao soecorro de gente^ municoes, e mantimentos , 
qne em lanchas navegava a alia. Ja vhHef iamen- 
gos tinhao^altado emterra, carregados de'cunhdteB 
de polvopa e bala, quando os nossoa soldados, ani- 
•mados'do preceito e do'exemplo^ com^a eBpada na 
maotdegcdbrindo a um mesmo tenipo o peito as 
.halas e o ibraco aos golpes^ aairao-de sens reparoS; 
etenyeBtirao o socgoito e a lesoolta -com valor tao 
-ousado, que oB^vmte, largandoa cargarse aGoMrao 
iAslandbas oom agua pelo pesGOoo ; e eltas ao Arre- 
*oifey*com deixapeQi algumas encalhadaa, .que pa- 
'garao ^por todas. O^eBquadraoda 'terra, eomo-tinha 
.0 caminho .maiB desembaracado , assim teve (inais 
iranca aiugida. ^Desbaratado d'eataBoirteiO intento 
'e^o^oeGorra^'seTetirarao os nossos.a aeus aloja- 
naientDs^ com tanto deaenfiado, que?por faako^ 
^tvincfaeiraB inhnij^s ^fizerao :aeu eaminho. Nesta 
OGcasiao aios:£erirao OGapitao.Sebastiao 'Ferfeira, e 
O'seu.'alfeiaeis; nellaipadeaeo o inimigo muitodamDO 
<de:morto6 e fasidos., ^e tanto ique ^nunca mass «e 
atreveo'a eomprar .a opiniao pelo ipreeo. 

X.JBntrouJCom anoite o:mestre<deicampo An- 
Ati YidaKde Nsgreiros, a quem^a^vanguardatoabia 
::por'lurno. £ontiiiuarao^se os aproxes, aem>que 
:d'uma 16 outrafparte afFrouxasse .a bataria. oa^ 
ipitao inimigo acoi^elhadorde noaso v^nalor, e de^ua 
^'deseouiiaiiGa, nao quiz esperar o^assalto.iFez cba- 
mada/e^seirendeo eonthonestospartidos. Entregou 
»a foptalesa as tnsss boras i da jnadrugada de 46 de 
Jaaeba, datqual saio com x)itsDta jeisette JioUa»- 



GASTRIOTO irUSlTAltO.' SH 

dezes, com seu capitao e dous aflfferes, um ajudante 
e seis soldadosi feridbs , deixaildb dentro quatro 
mortoS) quatro'peoadd'artilliania', arnias,.munic6es 
e mantimentos^ em^ basftant^ copia. Guslon-'nos a' 
victoriacinco mortose'quatorae fferidos, Tratarao 
logo OS nossos de» reparar e guamecer a fortaleza , 
e dlspunhao-t-se a surprehender o soccorro que pela* 
mantia mandiratSisgismundo;' mas este advertidb^ 
retirou^senaslanohs^ seni'desembarcar, e s6 fot' 
offendido^d'aiguofr peiouros, quelhe mat&rao sette 
sokbdosi Gomsaiperda d'es4a foroa Qcon o inimigo' 
tw qnebrado deanimo^ pel^ ver em t&o brere' 
tespo readida^econtraria^ que d^confiou de po-^- 
dsTi coDsenrar o lArrecife.' 

HAi . Gastcm-tse: o dia em ^apFestm para se cercar 
e batera fortaleza, que chamavao d^ Altenar, quasi' 
ineio <mart4)i de legna parao^sul da^fdirtaleza^ren- 
didavsUaaditnaf rente do Arrecifev Cabia-lhe ao' 
iBttstrev dfiicampo Joaa F\erna«ydes*yieira o 'eiitr^r 
de^goairda, e.petiis'dez lioras da tardig marcbou' 
coofi o sevB terco para aqmelle lugar^ com ordem* do 
nnestre de campo general qae sitias^ a fortaleza * 
pela estilo que segoira nos ataqaesda rendida'em 
qtmoio ao tempo ^ q«i8' normals o deixava & dispo-* 
sicao^dei sua eseolha. Esourcceo an noite , e car re- 
gario osrgastadores cestoes^ saco6, madeiras ^ar- - 
tiiharia; .e como esta fortaleaca de Altenai»^t)nha a^^ 
mesma. sitnaoao na^f(irma se no terreno que a das * 
Salinas, teve aa mesmas circumstancias no cereo , 
senao qne de mais a mais mandou Joao Fernandes - 
Yieira duzentos.mosqueteirog diante dos trabalha-^ * 
doMs^emraiiiG que hayiaojdeabiwoibsso em des« - 



572 GASTRIOTO LUSITANO. 

coberto ( tinha o inimigo rocado o ma to duzentos 
passos em circulo da fortaleza). Abrio-se uma cava 
a tiro de pistola da fortifica^ao contraria, capaz de 
alojar dous mil homens , cuja circumferencia de- 
sembocava no rio d'uma e outra parte. Fez-se uma 
estrada encoberta, que corria da cava para o mato^ 
onde fenecia, com o que ficava a fortaleza cingida, 
e privada de todo o soccorro por terra. Formarao- 
se as esplanadas com os reparos custumados, ca- 
valgarao-se nella seis meios canhoes^ e sendo assim 
que trabalhavao mais de nove centos gastadores, e 
que o inimigo , avizado do sucego da fortaleza do 
Rego, havia de estar com vigilancia maisattenta; 
primeiro na manha o informou a vista e o damno 
do que percebesse algum leve indicio da occupacao 
de toda uma noite. 

XII. Ja pelos horizon tes clareava o dia, quando 
ao Flamengo Ihe chegarao a dar a primeira alvorada 
as vozes das sentinellas, e as balas da artilharia. Vio- 
se cercado antes de o ter entendido , e ardia no 
furor com que accusava nossa dissimulacao e pres* 
teza, e sua desattencao. No desejo da vinganca 
achava satisfaeao sua afronta. Balas sem conto, d'esta 
e de todas as mais pracas inimigas nos buscarao 
todo aquelle dia nos alojamentos^ pagando a nossa 
bataria a uma o que recebia de todas. Mandara o 
general HoUandez largar a sua fortaleza da Barreta 
com ordem aos sens que entregues os quarteis ao 
fogo , se retirassem para o Arrecife com a artilha- 
ria e municoes. Nao sabemos se por aviso, se a 
caso , ordenarao os nossos a D. Diogo Knheiro 
Gamarao que fosse assaltar^ ou impedir a reiirada 



GASTRIOTO LUSITiUYO. 573 

doinimigo. Saio com trezentos Indios do seu terco, 
seguio o caminho da Barreta y deo de rosto com 
uma casa forte^ que investio e ganhou sem difficult 
dade, porque a gente que a guarnecia, fogio para 
a forca da Barreta, onde seguido dos nossos foi de 
novo avancada; era de noite, e o estrondo das ar- 
mas e dos gritos , que usava aquelle gentio , como 
tambem a ordem que tinhao para se retirarem , 
assim os encheo de medo, que em qualquer sombra 
viao a morte; e imaginando que Ihes fogia, a busca- 
vao lancando-sepelas cortinasda forca, para acaba* 
rem mais de pressa, uns eslropeados do despenho, 
outros afFogados no rio. Assim se ganhou aquella 
fortaleza, inteira , sem nos custar mortenem ferida. 
XIII. Sisgismundo, que dos successos fazia avisos, 
temendo o curso de nossos progresses, mandou lar- 
gar a fortaleza que chamao do Buraco de Santiago, 
com ordem ao presidio que, pegando fogo aos alo- 
jamentos, se retirasse para o Arrecife com tudo 
que nella ha via. Obedecerao os sens com sobeja 
diligencia , porque a pressa Ihes fez deixar a arti- 
Iharia, que erao seis pecas de ferro coado. Nao des- 
cansavao as hostilidades no ataque da fortaleza de 
Altenar, nem o commendor d'ella Domberguen de 
pedir soccorro ; o qual Ihe entrou por mar no dia 
1 1 de Janeiro pela tarde, sem que toda nossa dili- 
gencia Ih'o podesse impedir. Tinha a fortaleza a 
por(a mettida no rio, com duas estacadas de pao a 
pique, que por urn e outro lado penetravao atd o 
largo d'elle, e toda a artilharia e mosquetaria do 
forte da Boa Vista, que o guardava ; e defendidas 
as lanchas por todas as partes , ajudadas do vento 



S9k Gtfmira ccsmso. 

e da mar^ Ifae aiett^rM ^or veao& naqiiena tmkt 
soccorro de ge&te, muoacoes e reireocm. — CAift* 
mado d'estas ooticias e da ifiaportaucia^ ae m&^ 
latar a comquista, mudou e mestreclecampo (geafiral 
seu quartel para junlo da nossa haftaria^ Gon- 
sultou com OS mestres de campo o naodo que poxfo- 
ria hav^r para que aqueUa communicacao se coi^ 
tasse, € se asseniou que em auoiteoeckdo se Somiasse 
uma plataforma ua margem do rio, quatrooefitos 
pids da fortaleza , capaz de jt)ganaia aeUa quaiiv) 
pecas de arlilharia de vinte e quatjx>, coberta e vt^ 
parada com ceslioes terraplenados, tanCo a respeilo 
da forca da Boa Vista , como da de Alcenar , e em 
tal fdrma que ^ervisse para cortar os $occorro$ t 
para destruir os parapeilos do inimigo, Haviao de 
trabalhar os gastadores descobertos as balas inn 
migas ; e o perigo Ihes infundia tal receio, que ti^ 
bios se applicavao a execucao do lutento. Joao Fei>- 
ixandes Yieira e Andre Yidal , que eateuderao a 
causa do medo, se adiantarao com muitos soldados 
a dar principio a obra : exemplo que nao deixou no 
coracao dos gastadores a meuor lembranca do pe- 
rigo , sendo assim , que em toda a noite choverio 
nuvens de balas sobre a parte onde se formava a 
bataria, com damno tao pequeno que o uao adver- 
tio cuidado., 

XIV. Continuavao entre tanto os ataques da for- 
taleza , sustentados principalmente por Henrique 
Dias e seus Minas , que incansaveis trabalhavao nos 
aproxes, com desejo de que as cavas desembocassem 
na porta da fortaleza, para que se assaltasse por ella 
e pelas brechas^ que tinha feito a nossa artilbaria; 



J 



GA3XB1W0 hDBeSA^iOk 575 

e cpiasuio naovestivessem capaaes se abirisfieffii i^iiias 
para as qua^& da^a Lia|^* o terreoo^ por solido q 
secco. Contiauava a hostilidade por todos aq«i€)le$ 
meios e modos ^ de que se podia valeF a CoFca e a 
iQdustria d^s cercadores e cei^cados ; aom a resis- 
tencia crescia a comtumaeia. da exp«igiiacao e da 
defensa. A artilharia e oo^squetaria de wna e oixiSH. 
parte labuorava sem deseai^o ^ laas. com desigual 
damuoy porque com desigual lino. A pof tugueza, 
reparada e cobecta atirava com poatavia ; de oiatra 
maueira a coatraria que , falta de repajros , nem 
acertava tiro , nem se podia guardar das^ balas ; a 
maior parte de suas estacadas e parapeitos tinbao 
Yoado com a nossa artilharia , e com elles toda a 
esperanca que o inimigo podia ter de soccorro ; 
por que descoberta a entrada ao& pelouros da uova 
bataria^ primeiro as lancbas baviao de servir a 
sua lastima que a seu remedio. — Coku o dia 19 de 
Janeiro amanheceo o coracao do iuimigo prostrado 
aos pes do medo. Combatidos de aossas armas e de 
suas descon{ian9as'cbegarao a amotiuar-se os sol«^ 
dados : sem respeito nem obediencia 4 superior!^ 
dade e d razao requeriao a entrega. Tinha la^rado 
no auimo de todos a imaginacao de que minada a 
fortaleza se Ihe bavia de dar fogo, e fazel-os voar a 
todos, porque os nc^ros de Henrique Dias assim o 
tinhao dito na noite antecedente aos Indios auxi-* 
liares que estavao na fortaleza (gente.par natureza 
cruel e cobarde, os quaes sem mais razao que seu 
medo,se tinhao lancado todos ao rionaquella noite); 
ateado a seus coracoes o temor com que os sens 
Indios tinhao f ugido , de sorte cresceo o motim , 



576 GASTRIOTO tUSITANa 

que apezar dos cabos fizerao chamada , pondo nos 
altos da fortaleza uma bandeira branca , que nao 
advertida dos nossos se repetio muitas vezes e com 
muitas vozes. 

XV. Saio a capitular um ajudante chamadoVa- 
naguen , ao qual derao titulo de capitao para auto- 
rizarem a pessoa. Foi levado ao quartel do mestre 
de campo general ; assentou-se a entrega y e para 
se capitularem as condicoes^ se inandou em refens 
ao HoUandez o capitao Alexandre de Moura. Forao 
OS partidos da entrega , que sairiao da fortaleza 
com bandeiras tendidas, armas e bagagens ate 
passarem pelo nosso exercito, aonde largariao 
as bandeiras, e poderiao vender as armas ao pro- 
vedor da fazenda real , que as pagaria sem di- 
lacao, e que se Ihes daria passagem para o reino ; 
que haviao de enlregar a fortaleza com toda a ar- 
tilharia e municoes que nella tinhao. Pelas nove 
boras da noite sairao o commendor, um sargento 
maior, quatro capitaes , um ajudante, quatro alfe- 
res, o engenheiro principal do Arrecife, e duzentose 
vinte sette seldados : os Indios tiphao f ugido a nado. 
Deixarao-nos a fortaleza (que logo guarnecemos ) 
com dez pecas d'artilharia , nove de bronze, e uma 
de ferro, municoes emantimentos em grande copia. 
— Custou-nos a conquista d'esta forca , que era 
formada de quatro meios baluartes , a vida de Ja- 
come Rodrigues. alferes do capitao Manoel Lopes, 
com mais a de quatro soldados, e o sangue de de- 
zaseis feridos. Perdeo o Flamengo em sua defensa 
trinta e um soldados^ que d'entro d'elia deixou 
mortos, e saio com vinte feridos. melhorde 



GASTRIOTO LDSITANO, 577 

seus despojos forao cinco bandeiras, das quaes era 
uma da guarda do general Sisgismundo, e duas do 
lerco do coronel Authim. Todos os rendidos se 
mand^rao passar a nossa armada, e se distribuirao 
pelas embarcacoes d'ella com benevolencia e com- 
modidade. 

XVI. Com a perda d'esta praca se accenderao no 
Arrecife as desconfian^as que ardiao entre o povo, 
soldados e officiaes da milicia e do governo. Havia 
quem assoprasse o fogo, ou por occulta negociacao 
ou por declarada conveniencia. Dizia-se que os sol- 
dados no ultimo aperto haviao de saquear o povo, 
e entregar a praca ; que o povo se havia de levan- 
tar contra os soldados, e abrir as portas aos cerca- 
dores; e que povo e soldados determinavao pren- 
der OS officiaes da milicia , e os ministros do 
governo , e despois de Ihes roubarem as casas , os 
haviao de entregar aos Portuguezes ; tratando ca- 
da qual d'estes estados de buscar meios para me* 
Ihorar seu partido : sedicoes , que naquella occasiao 
pod^rao descorcoar o animo maisdestemido; tanto 
assim^que sendo o de Sisgismundo grande, receava 
mais sua gente que nossas armas. Occupavao-se 
estas em abrir torneiras na fortaleza de Altenar, 
para nella virarem toda a artilharia contra a das 
Cinco Pontas, que era o coracao onde s6 conserva- 
vao OS espiritos, que se difundiao por todas as mais 
pracas do inimigo , por sua grandeza , e por seu 
edificio. A este alvo se encaminhavao os aprestos 
em que toda a nos^a gente trabalhava para a com- 
bater. Era situada duzentas bracas do Arrecife para 
o sul. 

I. 37 



578 GASTRIOTO LVSITAlfa 

XVII • Em dia 19 de Janeiro , depois de en« 
trada a noite inandou o inimigo largar a sua for-* 
taleza dos AfFogados, edificada um quarto de legoa 
do Arrecife para o certao. Retirou parte da arti* 
Iharia ; ard^rao os quarteis e estacadas , vendo**se 
na luz daquella chamma a corrupcao que tinha 
feito a desconfianca em todo aquelle corpo , pois 
cheg4ra a ponto , que por conservar a cabeca en** 
tregava as mais partes d'elles ao ferro e ao fogo. 
Na tarde d'este dia entr^ra de guarda a mestre de 
campo Andr^ Vidal de Negreiros, e por sua conta 
corria assentar o cerco A fortaleza dasGincoPontaa. 
Sobre elk estava uma eminencia , que em tempos 
passados tivera um reduto, a que chamavao o 
Milhou : ficava a cavalleiro da fortaleza , e servia 
de estorvar o damno que d'ella podia receber; 
agora para o mesmo fim o reedificara o general 
Sijsgismundo. Deo-se aviso ao general Franoisco 
Barreto, e elle aos mestres de campo, e sa aasentou 
que Andr^ Vidal de Negreiros escolhesse mil ho- 
mens do seu terco, e do de Joao Fernandas Vielra, 
e com elles fosse ganhar aquelle posto, e desalojar 
d'elle o inimigo, a todo o risco ; por ser para nossa 
conquista neeessario, e para a defensa da fortaleza 
importante, em quanto no sitio da forca se ia tra-r 
balhando nas cavas , plataformas e mais ataques. 

XVIII. Em a noite de 20 para 21 safe Andr^ 
Vidal de Negreiros com o sargento maior Antonio 
Dias Cardozo, e a gente referida ; tomou o caminho 
da fortaleza dos Affogados (occupado ja de nossas 
armas) a tempo que Ih'o mostrava o fogo, em que 
ardiao tres casas fortes , com as quaes o Hollandez 



, GA8TO0T0 I.USITANO, 579 

iranqueava as serventias do Arrecife para o vao do3 
Affogados , e para a ilbeta do Cheira-dinheiro ( o 
mesmo Hollander as mandou queimar naquella 
noite)* Pelo aitio da fortaleza sobredita pasaou 
Andr^ Yidal de Negreiros a campina, que chamao 
do Taborda; e pelas nove boras atravessou por baixo 
da artilbaria de Cinco Fontas , para ca'ir sobre o 
reduto do MUhou, que o inimigo tinha levautado 
naquelle dia, com os materiaes juntos para as trin- 
cbeiras, e estacadas de que o queria cercar. in- 
fdrme da fortifica9ao obrigou a Sisgismundo a que 
disposesse, que dentro do reduto ficasse uma com* 
panhia de guarnicao ; e na distancia que havia entre 
elle a a$ Giuco Fontas vinte soldados, dez hollan- 
dazes e dez indios > como sentinellas volantes para 
darem aviso de qualquer novidjide. Estes assim 
como seatirao a nossa gente tocdrao arma, e fugirao 
oa dez Flameugos para a fortaleza, e os dez ludios 
para o i^duto, buscaudo uns e outros o valhacouto 
que Ibas ficava mais per to, Investirao os nossos o 
reduto a peito descoberto, que se defendeo valoro- 
samente, ajudado de duas pecas d'artilharia , que 
da fortaleza varejavao o campo com nuveus de 
bala miuda« Forem como o valor e a destreza dos 
nossos cabos rompia com maior impeto pela maior 
resistenciaj em breves boras subirao e ganharao o 
reduto. Senhores d'elle, mostrarao-se os nossos 
generosos para com os vencidos, a quern concede-^ 
rao a vida que humildemente pedirao, Acharao-se 
da parte do inimigo ciuco mortos e cinco feridos, 
Ferdemos no assaltOi com dous sol dados, o capitao 
Joao Barboza Finto , que deo nesta occasiao com a 



580 GASTRIOTO LUSITANO. 

vida ultimo realce a todas as proezas d'ella. ^ 
Sisgismundo, que conhecia a importancia d'esta 
posicao, intentou desalojar-nos ; quiz tentear nosso 
designio , e mandou para este effeito um Indio re- 
belado , por nome Antonio Mendes^ que nos picasse 
com vinte soldados. Chegdrao a tiro de pistola da 
fortificacao j d'onde a mosquetaria os fez voltar de 
carreira, deixando cinco mortos, e recolhendo nao 
poucos feridos obrigados do desprezo^ com que 
pela limitacao do numero os nao buscou a espada. 
Sisgismundo saio entao do Arrecife com todo o 
poder para nos atacar ; mas chegando a sua forta- 
leza das Cinco Pontas, ou aconselhado, ou arrepen- 
dido setornou a retirar; era evidente seu destroco, 
e julgou discrete, que perdido por perdido» antes 
como prudente, que como temerario. 

XIX. Em 23 de Janeiro, por Ihe caber a van- 
guarda, entrou o mestre de campo Joao Fernandes 
Vieira a continuar os aproxes. Nao era a terreno 
capaz d'artilharia ; e assim era necessario adiantil- 
OS. Escureceo a noile, e mandou o mestre de campo 
a cincoenta espingardeiros, que deitados de brucos 
fossem diante dos gastadores, e Ihes assegurassem 
o campo ; diligencia com que luzio tanto o trabalho 
que se adiantarao as cavas duzentos passos , e no 
remate d'ella s se fez uma travessa com torneiras 
de saccaria, capaz de alojar cem mosqueteiros, que 
logo a guarnecerao , e com a primeira luz do dia 
tirdrao todo o meneo da artilharia contraria ; por- 
c|ue ainda os artilheiros nao chegavao quando 
deixavao a vida : ficavao em descoberto as balas, e 
nao se perdia tiro. — Os judeos do Arrecife, ido- 



CASTRIOTO LUSITANO. 581 

latras em toda a parte de suas conveniencias e fa- 
zendas^ timidos e industriosos avultarao as perdas, 
e encareeiao os damnos ; suppunhao infalliveis as 
ruinas, e nellas a ira e a'vinganca dos vencedores. 
Com estes discursos aconselhavao a entrega. Fode 
tanto sua persuasao, que amotinados os soldados e 
o povo a requeriao aos superiores; obedecerao a 
forca, desenganados do pouco que contra ella podia 
obrar a razao; e fizerao chamada.' 

XX. Erao tres boras da tarde do dia 23 quando 
o [mestre de campo Joao Fernandes Vieira , fez 
aviso ao general Francisco Barreto de Menezes de 
que o inimigo pedia suspensao d'armas para man- 
dar um enviado. Na eminencia do Milhou estava o 
mestre de campo general, occupado em assentar a 
bataria a fortaleza das Cinco Pontas^ onde recebeo o 
capitao Vouter Vanl6 commendor da dita fortaleza, 
mandado pelo general Sisgismundo, e pelos do go- 
verno, com carta para Francisco Barreto, cuja sus- 
tencia se resumia em Ihe'pedirem d^sse audiencia 
ao embaixador para Ihe propor o negocio que vinha 
a tratar. De p^ o ouvio o mestre de campo general 
em parte d'onde se deixava ver a diligencia com 
que se continuavao os passos da conquista : maxima 
discreta da sagacidade militar; insinuar os par- 
tidos da paz com o estado da guerra. Fallou o en- 
viado, e disse que sua senhoria nomeasse tres de- 
putados para virem a falla com outros que sairiao 
do Arrecife a proporem conveniencias entre umas 
e outras armas, assinando dia, bora e sitio, e con- 
cedendo suspensao de toda a bostilidade em todo 
o tempo que durasse o negocio. — Tudo concedeo 



582 CASTRIOTO LUSlTAnO. 

o meslre de campo general com limitacao que ces* 
sasse o movimento das armas em todo o tempo 
que durasse a conferencia, mas nao em toda a partem 
porque so se havia de entender a fortaleza das Cin* 
CO Pontas at6 a villa de Olinda ; e que no seguinte 
dia 24 de Janeiro nomearia os deptitadod e o liigar 
das vistas. 

XXI. No mesmo ponto fez aviso a Pedro Jaques 
de Magalhaes, general da armada^ dando-lhe conta 
do succedidOy e de que a suspensao d'armas se nao 
estendia ao mar, pelas noticias que tinha que o 
Hollandez mandava vir ao coronel Authim coifl 
toda a gente que tinha no Rio Grande e Para'iba, e 
com ordem que entrasse no Arrecife a todo o riscoj 
e porque conhecia hem o caviloso trato dos Hoi* 
landezes , rogava muito a sua senhoria tnandasse 
dobrar a prevencao e a vigilancia em toda a armada 
pelo muito que importava cortar aquelle soccorro; 
e nao succedesse ao Flamengo desviar com engano 
golpe que nao podia reparar com a forca. A Joao 
Femandes Vieira ordenou que parasse na conti-- 
nuacao dos ataques ; por6m que assistisse com toda 
a gente a guarnicao d'elles. Aquelle nomeou para o 
congresso o mestre de eampo Negreiros, o capitao 
de cavallos AfFonso d* Albuquerque, e ao ouvidor 
geral Francist^o Alvares Moreira, e por secretario 
Manoel Goncalves Correa , que o era da milicia ; 
OS quaes no seguinte dia, que erao 24 de Janeiro, 
forao para o posto destinado, onde ja os espera^ 
vao OS deputados do Hollandez , Gisberth With, 
presidente do conselho politico; o capitao comi- 
mendor das Cinco Pontas Vouter VanW ,• o tenente 



GASTBIOTO LUUTAKO; 583 

general Vander Yant, e por secretario Brest, supe- 
rior dos escabinos. — Congregados os oito, tomou 
a mao Gisberth With j e deo principio a confe*- 
rencia , dizendo que os senhores do supremo con- 
selho estavao certos em que os muito poderosos e 
altos Estados Geraes tinhao assistentes na corte do 
Senhor Rei de Portugal Dom Joao o Quarto para se 
ajustarem conveuiencias sobre as pra^as do Brazil, 
conquistadas da linha para o sul , que brevemente 
se concluiriao , e que parecia razao se esperasse , 
com suspensao d'armas, aquella conclusao da qual 
se poderia seguir uma paz segura , sem as extor*- 
foes e damnos d'uma guerra viva , a todos contin- 
gente e nociva. — Os uossos deputados cortarao o 
fio a esta pratica dizendo que nao traziao com- 
missao do seu general para outra cousa mais que 
para capitularem a entrega do Arrecife^ e das mais 
pra^as , injustamente usurpadas , e que so na dita 
entrega se devia fallar, e eoncluir sem ambages 
nem desvios. Responderao os HoUandezes que nao 
era aquelle negocio que se bavia de definir com 
reaolucoes tao apressadas, e que o tomdl-as em ma- 
teria tao ponderosa nao s6 pedia profunda conside-* 
ra^ao , senao tambem maduro conselho ; olim de 
que, nao podiao elles defirir a ponto taoessencial 
sem ordem de sens superiores ; que voltariao a dar^ 
Ihes conta ; e na segunda feira seguinte , dariao a 
resposta que se Ibes ordenasse. Ao que disserao os 
nossos deputados que se desenganassem, porque 
na mesma bora se haviao de resolyer na entrega , 
quando naO| que em tempo estavao para tomarem 
por foi^a o que mo queria largar a vontade , e 



584 tASTRIOTO tUSITANO. 

que Ihes lembravao a perda e o estrago , a que se 
expunhao. Timidos e supensos os deixou a reso- 
lucao. A experiencia Ihes tinha ensinado, que 
se nao entrepunha tempo entre o ameaco e o golpe 
de nossas armas. Sujeitarao a sagacidade & conve- 
niencia, c obedienles pedirao horas para avisarem 
ao seu governo a grande difFerenca , que achavao 
entre a sua proposta e a nossa determinacao. Per- 
mittio-se-lhes a dilacao por horas contadas. Forao 
o With e o Brest com a inrormacao, e ficarao com 
OS nossos deputados o capitao Yanlo e o tenente 
general Vander Vant. Temiao o effeito que em 
nossa impaciencia poderia causar sua deten^a, e 
com sua presenca deitarao um fiador a tardanca. 

XXII. Pouco mais d'uma hora se tinha passado 
quando chegou um gentil-homem , que vinha do 
Arrecife com recado aos nossos que nao estrarihas- 
sem a diiacao^ se a houvesse^ porque a causava o 
apontamento das capitulacoes, com que se havia de 
fazer a entrega. Pelas tres horas da tarde chegarao 
com as capitulacoesy e dous notarios publicos para 
as traduzirem de flamengo em portuguez ; occu- 
pacao que durou at^ as dez horas da noite, em que 
sairao do congresso^ uns para o Arrecife, outros 
para o quartel do mestre de campo general, a quern 
entregarao partidos e condicoes que offerecia e 
pedia o HoUandez. Para se escolher e reprovar o 
que d'ellas nos convinha , ou nao convinha , dia- 
mou a conselho os tres mestres de campo com 
todos OS officiaes maiores ; e por involverem pontos 
tocantes ao direito, e alguns artigos & consciencia, 
chamou tambem aquellas pessoas^ queaspodiao de- 



GASTRIOTO LUSITANO. 585 

cidir^ e na mesma noite se respondeo a lodas as clau* 
sulas ofTerecidas, deGnidos os artigos que se recebiao, 
e OS que se regeitavao ; e nesta fdrma se entregirao 
no s^uinte dila pela manha aos deputados hollan- 
dezes, que com os nossos se ajuntarao no mesmo 
lugar, em 25 de Janeiro^ quesuccedeo ser domingo. 
Neste mesmo dia escreveo Sisgismundo Vanescop, 
general das armas hollandezas, uma carta a Fran- 
cisco Barreto com advertencias de discreto e sub- 
missoes de rendido^ pela qual Ihe pedia licenca 
para que um seu tenente coronel com a pessoa que 
sua senhoria nomeasse, conferissem e resolvessem 
as conveniencias dos ofliciaes , e gente da milicia : 
peticao que Francisco Barreto despachou benevolo 
e cortezy e nomeou da sua parte ao mestrede campo 
Andr^ Vidal de Negreiros, para que na mesma 
junta elle e o tenente general Vander Vant, no- 
meada pelo Sisgismundo , tratassem o negocio, 
como deputados da conferencia geral, e d*esta par- 
ticular. — Conferirao os capitulos d'uma e outra 
parte, e com negar e conceder de ambas se ajusta- 
rao. Altercdrao-se os pontos de maior duvida, e 
veneidas todas, se manddrao as condicoes aos supe* 
riores , para que com sua approvacao se escreves- 
sem e disposessem por capitulos; e resolvendo, 
que ao outro dia se assignassem pelos generaes e 
deputados y se apartarao todos pelas onze da noite; 
e se firmarao aquelles no dia seguinte 26 de Janeiro 
nesta f6rma. 



SM cAamaxo wmam. 



ARTIGOS POPULARB8. 



1 . Que o senhor mestre de campo general Fran- 
cisco Barreto de Menezes da por esquecidas todas 
as hostilidades executadas por parte dos yassallos 
dos senhores Estados Geraes das.FrovinciasUnidas, 
e da companhia occidental ^ ou fossem por mar ou 
por terra I e contra a nacao portugueza^ as quaes 
se hao de reputar como se nunca fossetn oommet- 
tidas I e que neste accordo se comprehendao todas 
as na^oes de qualquer estado k religiao que sejao^ 
ainda que fossem rebeldes a coroa de Portugal , ou 
contra ella commettessem traigao ; e que o mesmo 
entendem dot judeos que estao no Arrecife ^ e na 
cidade Mauricea, em quanto podem. 

2. Concede a todos os vassallos dos aenhores 
Estados GeraeSy e mais pessoas que estao a sua 
obediencia, todos os bens moveis que aetualmente 
estiverem possuindo. 

3« Conced&de todas as embarcaQoes^ que estao 
dentro da barra do Arrecife, aquellas que estiTe- 
rem sufflcientes para passar a linba com aquella 
artilharia que ao senbor mestre de campo general 
parecer bastante para sua defensa, com tanto que 
nao seja de bronze , excepto a que permitte ao 
senhor general Sisgismundo. 

4. A todos OS vassallos dos ditos senhores Es- 
tados, que forem casados com mulheres portu- 
guezas ou pernambucanaSi concede as possao levar 



GA8TU0T0 LUSHAIIO SMI 

comsigo ) querendo ellas , e que as tdes sejao tra* 
tadae como se forao casadas com Portugueses. 

5. Concede a todos.os que quizerem ficar na 
terra, obedientes as armas e dominie portuguez , 
que no tocante a religiao vivirao pelo estilo que 
viYem todos os esttangeiros em Portugal ^ no pre- 
sente tempo. 

6. Que OS fortes situados na circumferencia do 
Arrecife e cidade Mauricea j a saber o das Ginco 
PontaSy da Boa Vista , do Mosteiro de Santo Anto- 
tiio ^ castello da ddade^ for9a das Tres Pontas ^ do 
Brum I e seu reduto , castello de Sao Jorge , o do 
mar^ e todas as mais casas fortes e batarias so en- 
tregarao is ordens do senhor mestre de campo ge- 
neral Francisco Barreto de Menezes, tanto que por 
uma e outra parte se firmarem estes capitulos, 
com toda a artilharia e muni^oes que nellas estao ; 
e da mesma sorte as pracas do Arrecife e cidade 
Mauricea* 

7. Concede] que os vassallos dos senhores Esta- 
dos GeraeS) moradores no Arrecife e cidade Mau*^ 
ricea^ poderao ficar nas ditas pracas por tempo de 
tres mezes, com tanto que entregarao as armas i e 
quando se quizerem embarcar (ainda que seja antes 
dos tres mezes) Ih'as mandara entregar para se 
aproreitarem d'ellas na occasiao ; e se concede aos 
ditos possao comprar aos Portuguezes , nas ditas 
pracas, todos os mantimentos que Ibes forem neces- 
sarios para seu sustento, e para a viagem. 

8. Em quanto as albea9oes^ commut^coes, nego- 
cea^oes e yendas^ que os ditos vassallos dos se- 
nhores Estados fixer em dentro dos tres meseS| 



588 GASTBIOTO LU8ITA1I0. 

declara o senhor mestre de campo general Fran- 
cisco Barreto, que serao feitas na fdrma que aponta 
em o artigo 1 i • 

9. Que o senhor mestre de campo general Fran- 
cisco Barreto de M enezes poder^ assistir com o sen 
exercito a onde Ihe parecer melhor> com tal condi- 
tio que OS vassallos dos senhores Estados Geraes 
nao serao vexados, nem molestados de nenhuma 
sorte de Portuguez algum de qualquer estado^ 
posto, e qualidade que seja. 

10. Concede o senhor mestre de campo general 
a lodos OS vassallos dos senhores Estados Geraes, e 
a lodos OS que militao debaixo de suas bandeiras 
que possao levar comsigo os papeis que tiverem , e 
Ihes pertencerem por qualquer via que seja, o que 
se Ihes concede na f6rma em que Ihes serao entre- 
gues sens bens moveis. 

1 1 . Que poderao deixar os bens moveis e de 
raiz , que por justo titulo Ihes pertencerem , e de 
que estiverem de posse actualmente ( se os nao po- 
derem vender no tempo consignado) a seus pro- 
curadores, que poderao constituir, de qualquer 
nacao que sejao, dos quaes serao correspondidos 
na f6rma do estilo. 

42. Item Ihes concede todos os mandmentos 
seccos e molhados, que de presente estao recolhi-* 
dos em seus almazens para se servirem d'elles na 
terra e na viagem^ largando aos soldados os de qoe 
necessitarem para seu sustento quotidiano, e para 
a navegacao que fizerem. Mas nao Ihes outorga o 
dito senhor mestre de campo o massame para os 
aj[)resto$ dos navios de sua viagem i por quanto se 



GASTBIOTO LUSITANOU 569 

obriga a dar-lh'os apparelhados ^ ao tempo de sua 
partida para HoUanda. 

43. Que no tocante as dividas e pretencoes da 
fazenda, que os vassallos dos senhores Estados Ge- 
raes querem repetir aos moradores portuguezes, 
Ihes concede o direito de os obrigarem para diante 
de sua Majestade o Senhor Rei Dom Joao^ em cujos 
tribunaes se poderao decidir. 

14. Mais concede, que todas as embarcacoes 
pertencentes aos ditos vassallos , que cbegarem a 
este porto do Arrecife no termo dos primeiros 
quatro mezes depois d'estas capitulacoes ( tempo 
em que nao poderao ter noticia d ellas ) se poderao 
voltar, sem que padecao reten9ao, nem aggrayo 
algum. 

15. Item concede o senhor mestre de campo 
general aos ditos vassallos dos senhores Estados 
Geraes, que possao mandar chamar os sens navios, 
que trazem pela costa, para que neste porto do Ar- 
recife possao embarcar, e levar nelles suas pessoas 
e OS bens acima outorgados. 

16. Em quanto ao que os sobreditos vassallos 
pedem sobre nao prejudicar este contrato as con- 
veniencias, que estiverem ajustadas entre o Senhor 
Rei de Portugal^ e os senhores Estados de HoUanda 
antes de chegarem a sua noticia estas capitulacoes^ 
nao concede o mestre de campo general , porque se 
nao entremete nos taes acordos , e tem exercito e 
poder para conseguir por armas a restauracao das 
pracas que se Ihe entregao a partido. 



soo cAsnioTo ixnmMM. 



ARTiGOS MltlTAHES* 

1 . Promette o senhor mestre de campo general 
' esquecimento de todas as offensas que os Portu* 

guezes e Pernambucanos hajao recebido das armas 
hoUandezas em qualquer parte , ou por qualquer 
modo que fosse. 

2. Concede o mesmo senhor a todos os soldados 
assistentes no Arrecife, cidadeMaurioea e fortalezas 
adjacentes, que possao sair d'ellas com todas as 
honras militares^ que se custumao oonceder aos 
rendidos, como sao, mecha aceesa, bala em boca, 
bandeiras tendidaSy etc. com a limita9ao , que ao 
passar pelo exercito portuguez apagarao logo as 
mechas , e tirar&o as pedras i espinguardas e cla* 
vinas^ e entregues as armas, se reoolherao em al« 
mazem particular, qual o senhor mestre de oampo 
ordenar, tomando por conta de seu cuidado o mao- 
dar-lh'as entregar, quando se embarcarem ; e so 
ficarao com suas armas todos os officiaes da milicia 
de sargento para cima. E que embarcados uns e 
outros seguirao sua direita viagem aos portos de 
Nantes , Arrochella, ou a qualquer dos Estados de 
HoUanda , sem tomarem porto algum do reino de 
Portugal : para firmeza do que deixarao , elles vaar 
sallos dos senhores Estados Geraes, em refens^ tres 
pessoas^ a saber, urn official maior da milicia, um 
dos governadores do supremo , e um dos maiores 
homens do negocio, 

3. Que toda a gente de guerra, cabos^ officiaes 



GA8TBI010 LUaiTAHO. 501 

e soldados fte embarcarao juntamente oora o senhor 
general Sisgismundo , e farao viagem em sua com^ 
panhia , com tal condicao que primeiro deicharao 
entregues as ordens do senhor mestre de campo 
general as pracas do Rio Grande , Paraiba , Ita-> 
marac4, Geara e ilha de Fernao deNoronha, com 
toda a artilharia, municoes e petrechos de guerra, 
que tinhao em si, ao tempo que chegara dquella 
costa a armada de Portugal , que esta no porto^ e 
no cerco ; e que para fianca de tudo acima dito 
entregarao os refens^ acima apontados. 

4. Concede o senhor mestre de campo general 
ao senhor general Sisgismundo Vanescop, que 
depots de entregues todas as pracas e forcas acima 
ditas, com toda a artilharia , que tinhao ao tempo 
referido , vinte peoas d'ella e de bronze de quatro 
at^ dezoito libras de balas, aldm das pe^as de ferro, 
que forem necessarias para a defensa dos navios 
que levar em sua companhia, as quaes se Ihe darao 
com as carretas e muni9oes necessarias. As demais 
com todas as armas e municoes que nellas se acha^ 
rem, se entregarao as or dens do senhor mestre de 
campo general y como fica dito. 

5. Que o dito senhor Ihes concede as embarca** 
coes necessarias , na conformidade referida. 

6. Concede tambem o senhor mestre de campo 
general , para toda a gente da milicia , os manti-» 
mentos necessaries, na fdrma que estao concedidos 
a todos OS vassallos dos senhores Estados Geraes 
em o artigo 1 2 ; e declara que nao seqdo bastanteSi 
promette dar-Ihes os sufficientes. 

7. Concede mais ao senhor general Sisgismundo 



59S GASTBIOTO LUSITANO* 

Yanescop , que. possa ter^ alienar, embarcar, ou 
vender quaesquer bens moveis ou de raiz que seus 
forem ; e assim mais todos os escravos, que possue 
com justo titulo. E que do mesmo favor gozarao 
todos OS ofTiciaes vivos da milicia ; e que ^Ues, e o 
senhor general Sisgismundo possao morar nas 
casas em que vivem, at^ 6l bora de sua partida. 

8. Item concede a todos os soldados enfermos e 
feridos se possao curar no hospital, em que de pre- 
sente estao, at^ que tenhao saude para se poderem 
embarcar. 

9. Que em quanto os soldados do senhor gene- 
ral Sisgismundo estiverem em terra nao serao mo- 
lestados , nem ofFendidos por pessoa , nem por via 
alguma, de gente portugueza, nem da terra; e em 
caso que algum o seja dara parte ao senhor mestre 
de campo general « para mandar castigar os aggres- 
sores. 

10. No tocante a se embarcarem juntos com os 
soldados que de presente estao no Arrecife, cidade 
Mauricea, e mais pracas e forcas rendidas^ aos que 
se rend^rao antes d'estas capitulacoes nao concede 
o senhor mestre de campo , porque tern ja dado 
comprimento ao que com elles capitulou sobre a sua 
entrega. 

11. Que o senhor mestre de campo general 
concede perdao a todos os Indios rebelados, assis- 
tentes no Arrecife e pracas adjacentes, especial*- 
mente a Antonio Mendes ; e da mesma sorte aos 
mulatos , negros e mamelucos ; mas nao Ihes con- 
cede a honra militar de sairem com armas. 

1 2. Que tanto que forem assignadas estas capi- 



GASTRIOTO LUSITANO. 593 

tulacoes, se entregarao as ordens do senhor mestre 
de campo general as pracas do Arrecife , cidade 
M auri^a , e mais fortalezas e i*edutos d'esta capi- 
tania com toda sua artilharia , muni9oes e petr e- 
chos^ e o dito senhor se obriga a dar guarda ao 
senhor general Sisgismundo para seguranca de sua 
pessoa , e dos mais cabos e ministros do governo , 
em qualquer alojamento que escolherem , todo o 
tempo concedido nestas capitula9oes. 

13. £ sobre todos estos capitulos e condicoes 
acima referidas se obrigao os senhores do Gonselho 
Supremo, residences no Arrecife, a entregar tarn- 
hem as ordens do senhor mestre de campo general 
Francisco Barreto de Menezes as pracas da ilha de 
Itamaraca^ da ilha de Femao de Moronha , Ceara , 
Rio Grande e Paraiba com suas fortalezas e arti- 
lharia na f6rma dita ; mas que o dito senhor mes- 
tre de campo general sera obrigado a mandar ao 
Ceara uma n&o sufficiente para nella se embarca- 
rem os soldados e moradores^ vassallos dos ditos 
senhores Estados Geraes, com os bens permittidos 
no segundo artigo d'estas capitulacoes. Mas declara 
o dito senhor mestre de campo general, que nao 
sera obrigado a dar mantimentos para a viagem 
das ditas pessoas , que se embarcarem do Ceara 
para Pernambuco. 

14. Concede o dito senhor aos vassallos dos se- 
nhores Estados Geraes todos os navios e embarca- 
coes que tiverem pelos portos do Rio Grande , Pa- 
raiba e ilha de Itamaraca para sua viagem e con- 
duccao de seus bens , sendo capazes de passar a 
linha , mas declara que nao levarao artilharia de 

L 38 



S9k GASTHIOTO LVSITANa 

bronze, e de feiro so a que precisamente for neces- 
saria para sua defensa* Feita esta concordata na 
campanha do Taborda , segunda feira , pelas onze 
da noite, 26 de Janeiro de 1 654 annos. 

1. Frahcisco Barrbto de Menkebb, mefttre de campo general. 

2. Andr£ Yidal de Nbgreiros, mestre do campo. 

3. Affonso de Albuquerque , capitao. 
U. Manoel Correa , capitao secretapio. 

5. Francisco Alyares Moreira , ouridot e auditot geral. 

1. SiSGisMUNDO YANESGOPy general. 

2. GisbertWit. 

S. Vander Yant , tenente general. 

4. Yavter Yaul£, capitao e commendor. 

XXIII. Amanheceo a terca feira 27 de Janeiro 
grata para os vencedores , triste para os venddos ; 
uns e outros madrugarao naquelle dia, estes porque 
03 affligio a yizinhanca da perda , aquelles porque 
OS despertou o alvoro^o da posse. Tocava a Joao 
Fernandes Yieira a vanguarda naquelle dia ; orde- 
nou-lhe o mestre de campo general que fosse tomar 
posse da fortaleza das Ginco Pontas^ ,da cidade Mau* 
ricea e do Arrecife* Saio do alojamento com mil 
e quinhentos homens de seu terco, e marchou 
diante da sua gente com uma pica ao hombro. Ac 
passar pela porta da fortaleza das Ginco Pontas re-* 
cebeo a entrega» desarmou o presidio, e o guame- 
ceo com duas companhias do seu terco, e uma dos 
soldados de Henrique Dias. Deixou nella o inimigo 
vinte e duas pecas d'artilharia> as desaseisde bronze 
e as seis de ferro. Entrou n'uma planicie que faz 
o terreno entre a fortaleza das Ginco Pontas e a 



GASTRIOTO LtSITANO. 695 

cidade Maiiricea; fez alto, formou a suagente^ e 
mandou recado ao governador daquella pra^a, que 
mandasse sair a guamicao que nella estava ^ para 
ser desarmada na forma das capitulacoes ; obede- 
c^rao ; e ao ehtrar pelo nosso esquadrao os foi 
desarmando a todos o sargento maior Antonio 
Dias Gardozo. Assim como entreg^rao as armas se 
(icarao entre os Portuguezes coin trato tao amigavel, 
que nem pareciSo estranhos , nem inimigos ; ef- 
feitos d'um bando que o mestre de campo general 
mandara lancar com graves penas, em que encor- 
reria qualquer pessoa que fizesse o mais pequeno 
aggravo ao menor estrangeiro. Feneceo o Acto e 
marchou avante o mestre de campo Joao Fernandes 
Vieira, a quern todos os rendidos olhavao com 
admiracao e reverencia ; passou a ponte, e mandou 
assegurar a entrada do Arrecife pela parte de den- 
tro com algumas companhias da ordenanca, e guar- 
necer as ruas que guiavao a praca maioi* da po- 
voacao, com soldados pagos, para onde marchou; 
e formado nella desarmou o sargento maior toda 
a infantaria contraria, assim paga como auxiliar e 
miliciana. AUi entregarao settenta e tres chaves, e 
com ellas a posse de todos os lugares fortes, alma- 
zens d'armas, bastimentos^ generos e velames. 
Poz guarnicad nas partes convenientes , e guardas 
nas paragensque aspediao; e retirados os rendidos a 
sens aposentos^ mandou aviso de tudo o que tinha 
obrado ao mestre de campo general Francisco Bar- 
reto de Menezes, pelo sargento maior Antonio Dias 
Gardozo , em como sua senhoria tinha tudo a sua 
obedienciasocegadoe pacifico. Neste mesmotempo^ 



596 GASTRIOTO LUSITANO. 

por ordem do mestre de campo general , tomou 
posse Andr^ Yidal de Negreiros da fortaleza de 
Santo Antonio, da cidade Mauricea e dos castellos 
de mar e terra, onde metteo guarnicao. Da mesma 
sorte e ao mesmo tempo marchou Francisco de 
Figueiroa a tomar posse das fortalezas do Brum, e 
d'outras de menos porte , que por aquella corda 
tinha o Flamengo« que tudo se fez com tao boa 
ordem, que se nao deo occasiao nem ao atreyimento 
nem a queixa ; havendo-se uma e outra gente com 
tanta prudencia, que parecia obrar o estudo e 
nao o acaso. 

XXIV. Quasi todo o dia de 27 se gastou 
nestas occupa^oes militares; nas ultimas boras 
d'elle recebeo o mestre de campo general o aviso 
de Joao Femandes Vieira ; forcado do tempo 
dilatou sua entrada para o seguinte dia, em que 
saio de seu quartel com a autoridade de general, 
e com as galas de soldado ; e certo que nesta 
occasiao mostrou sua pessoa que nella se via o 
bastao autorizado, e a fortuna merecida. Posto a 
cavallo, e assistido dos cabos e da cavallaria que 
militava, caminhou para -t) Arrecife, Na entrada 
da cidade Mauricea o saio a receber o general Sis- 
gismundo Yanescop a pe, como caido e humilhado 
sujeito, triste como desgracado, ve&tindo-se seu 
semblante das cores de sua fortuna. Apeou-se 
Francisco Barreto de Menezes ensinado do successo 
a desprezar soberanias a vista das miserias^ em que 
as converte o menor accidente do tempo. Alii se 
vrao ambos os generaes em igual passo^ um por- 
que o desmontou a cortezia, outro porque o des- 



GASTRIOTO tUSITAMO. 591 

montou a fortuna. A sua mao direitadeo Francisco 
Barreto a Sisgismundo Vanescop, e nesta forma 
caminharao para o Arrecife pela ponte que o divide 
da cidade. Mo meio d'ella o esperavao os ministros 
do conselho supremo e politico , que recebeo com 
agrado e cortezia, e os foi levando pelas portas de 
suas casas , em que os obrigou a ficar ; menos o 
presidente do politico , que resistindo ao favor o 
acompanhou at^ o palaeio principal da povoacao 
que o esparava rica e vistosamente adornado. Em 
todo o decurso da marcha nao descansarao as forta- 
lezas e companhias de repetir salvas, cujo estrondo 
servio nesta occasiao aquelle imperio de repiques 
e de sinaesy porque uns o acompanhavao ao tumulo 
outros ao throno. Alii Ihe offereceo Joao Fernandes 
Vieira as chaves, como instrumentos da posse, com 
distincta relagao da forma em que as recebera em 
seu nome ; e foi correspondido com as gratificacoes 
dividas ; e bem se p6de dizer que da mao de Joao 
Fernandes Vieira recebeo Francisco Barreto aquelle 
dominio, e a coroa de Portugal aquelle imperio. 

XXV • numero dos rendidos que arrimarao 
as armas foi o seguinte : mil e duzentos soldados 
pagos, em dezanove companhias , em que entravao 
oitenta e cinco Indios e vinte e dous negros. Nao 
forao parte nesta conta mais de trezentos que se 
renderao na entrega das fortalezas do Rego e de 
Altenar ; nem tao pouco oito centos cincoenta e 
dous Indios, que se haviao retirado para o Geara , 
como nem os moradores, nem os soldados e mora- 
dores que depois se renderao nas ilhas e fortalezas 
que se entregarao, Acharao-se no Arrecife cento 



598 GA6TEt93:0 iiunTina 

yinte e tres pecas d'artilbaria de bronze ; de ferro 
cento e eetenta ; e para ellas por cima de seis mil 
balas de todo o calibre, e a este respeito as demais 
municoes e armas ; grande diversidade de instru- 
mentos e petrechoe deguerra, e materiaes para elles, 
como ferro, chumbo, pregaria, noiadeiras, fechos, 
cronha^) etc. As^im tambem para aprestos das em- 
barcacoes e da artilharia, breu, enxarcias, velame, 
mastros, vergas, lemes, e tudo o mais que podia 
ser necessario para os exercitos da terra e arma- 
das do mar; mantimentos de toda a sorte, para 
mais d'um anno, com abundancia. 

XXyi. Os HoUandezes ( perfidos por natureza, 
que sao em toda a fortuna ) , naquelle mesmo 
ponlo em que se deo principio a pratica da entrega 
ordenarao ( e quando metios conseiltirao ) que urn 
s^u tenente coronel Nicolas^ de cuja pessoa e trai* 
cees fizemos algumas vezes memoria nesta relacao, 
saisse do Arrecife (com titulo e apparencias de fuga) 
em uma jaugada, que sem rumor nem Tulto podia 
escapar faeilmente a vigilancia de nossa armada , 
favorecido da escuridade da noite , aportou a ilha 
d'ltamaraca ; avisou o estado das cousas , e per- 
suadio a muitos moradores e Indios que se embar- 
cassem com todos seus moveis, e fugissem em duas 
fragatas que eatavao no porto ; o que fizerao levando 
comsigo todos os escravos que ha via na ilha. Foi i 
Paraiba, deo o mesmo aviso, e aconselhou aos sol* 
dados que obrigassem com razoes, quando nao com 
violencia, ao coronel Authim governador d'aquella 
capitania e fortaleza a que fizesse o mesmo; e se 
embarcarao com todo o recheio, municoes e armas, 



cAsmuno tosiTAm. 599 

que pod^rao levar. Quasi com similhante aviso e 
successo deixarao os Flamengos a fertaleza do Rio 
Grande, o que se fez sem que nos chegasse a menor 
noticia. 

XXVIL Em o primeiro dia de Fevereiro orde- 
nou Francisco Barreto de Menezes ao mestre de 
campo Francisco de Figueiroa, que com oitocentos 
e cincoenta soldados fosse tbmar entrega da ilha 
de Itarnaraca, Fara'iba , e Rio Graude. Desarmou 
OS rendidos da ilha, que erao quatrocentos soldados 
e numero crescido de moradores; tomou entrega 
das fortalezas, com trinta e tres pecas de artilharia, 
quasi todas de bronze^ e copia grande de municoes, 
armas e bastimentos. Guarnecidas aquellas forcas, 
passou a Para'iba, onde achou as duas fortalezas 
da Barra em poder de cincoenta Portuguezes que 
o inimigo tinha prcsos , e os soltou , fazendo-lhes 
entrega d'ellas , e s6 os Flamengos casados e herda- 
dos na terra ficarao nelia. Guarnecidas as ditas 
forcas, marchou para o Rio Grande, achou a forta- 
leza desemparada, e na terra alguns poucos Holian- 
dezes casados , e Portuguezes alguns, que a fuga 
do Flamengo fez de captivos livres. Com as mes- 
mas circumstancias se tomou entrega da ilha de 
Fernao de Noronha. A'capitania do Ceara se man- 
dou a nao na fdrma capitulada , e aella vierao os 
rendidos para o Arrecife. 

XXVIII. Entregue o Arrecife, c aposentado 
nelle o mestre de campo general Francisco Barreto 
de Menezes, se despedirao o general da armada 
Pedro Jaques de Magalhaes e Francisco Freire sen 
almirantecom os mais capitaes da frota,a cujo 



600 GASnUOTO LtSITAHa 

auxilio deve Portugal a reintegracao de sua coroa, 
naquella por9ao de suas conquistas , que se bem 
foi outra mao a que preparou e polio aquella pre- 
ciosa pedra j bem se p<kle dizer que foi a daquella 
armada a que a engastou. Reconhecidos a esta veiv 
dade nao sabiao Francisco Barreto, Joao Femandes 
Vieira, Andr^Vidal de Negreiros com todos os 
mais cabos e moradores palavras com que gratificar 
tamanho beneficio. Deo a armada a y^la para a 
Bahia seguida de bencaos^ e rogativas de todos os 
soldados e vizinhos ; onde entrou com as novas da 
victoria, e com todos os vasos da frota; e deo 
aquella cidade o melhor dia que teve depois de sua 
fundacao, — Em 3 de Fevereiro saio do Arrecife 
uma caravella d'aviso para o reino por ordem do 
mestre de campo general^ e nella o mestre de campo 
Andre Vidal de Negreiros com a alegre nova da res- 
tauracao de todas as capitanias occupadas pelo 
HoUandez ; pessoa escolhida para representar k Ma- 
jestade d'El Rei Dom Joao o Quarto o successo e a 
desculpa, com que os moradores d'ellas excedendo 
a permissao da defensa se moverao a conquista , 
para que Sua Majestade nao ouvisse o successo 
sem as causas, e pesasse miais a desobediencia que 
o servico ; o que nao seria chegando aos ouvidos 
d'aquelle principe a nova e a causa da desculpa ; 
e como uma e outra cousa tinha passado pela mao 
do dito mestre de campo , daria inteira razao dos 
motivos oecultos e manifestos que concurrerao 
para a determinacao , com a fidelidade de parCe e 
testemunha. Saio na esteira de Andre Vidal de 
Negreiros outro vaso menor , e nelle o padre Frei 



GASTBIOTO LnsnAHOb 601 

Joao da Resurrei9ao, religioso de Sao Bento^ assis- 
tente que havia sido a todo o processo da guerra 
desde o primeiro movimento at^ o ultimo passo 
d'ella y mandado pelo mestre de campo Joao Fer- 
nandes Yieira , interessado em que Sua Majestade 
premiasse os grandes serviQos de tal religioso^ mui- 
tas vezes referidos no discurso d'esta historia. — 
Navegarao estas duas embarcacoes por differentes 
rumoSy e tomarao a barra de Lisboa em um mesmo 
dia y que foi o de 18 de Mar^o d'aquelle mesmo 
anno ; Andr^ Yidal pelas seis boras da tarde, e o 
padre Fr. Joao uma bora depois. Mandou Andr^ 
Vidal deitar ferro com resolu9ao de ficar aquella 
noite na caravella , e subir para cima no dia se- 
guinle y desembarcando a boras que da caravella 
entrasse no pa90 , e nelle , sem detenca nem com- 
munica^ao alguma se apresentasse a Sua Majes- 
tade. Sem abaixar v^la entrou o padre Fr. Joao, e 
subio ; e ao prepassar conbeceo a caravella do mes- 
tre de campo, que estava sobre ferro ; pareceo-lbe 
que o leyava diante, e pelo alcancar no paco , e 
nelle o patrocinio de sen negocio, entrou pelas dez 
da noite, fallou com o secretario do expediente , e 
nao achando noticias do mestre de campo Andr6 
Vidal deNegreiros, pareceo-lbe crime deter a nova, 
e engeitar a dita que Ihe offerecia a fortuna. Teve 
audiencia de Sua Majestade , deo-lhe a nova , que 
elle recebeo eomo beneficio da mao de Deos. Ao 
outro dia jetificou a nova e a ^legria o mestre de 
campo Andr^ Vidal de Negreiros, que logo se di- 
vulgou por toda a corte com tanto alvoroco que a 
festejava o gosto de todos, e nao acabava de a crer 



603 GASniOTO USCTAHO. 

o espanto de muilos. Urn doa dias seguintes foi Sua 
Majestade em procissao A S^ a dar as gracas de 
merce tao grande, 

XXIX. Este 6 o fim que teve o intruso imperio 
belgico naquella parte da America ; nella vio pro»- 
trada aoa p^s da espada portugueza sua reputacao, 
seu poder e sua fortuna. Melhorou o Fiamengo o 
que no Brazil adquirio, e so para o deixar melho* 
rado augmentou : tern seus escrupulos a fortuna. 
Muito foi o que HoUanda na conquista do Brazil 
adquirio por roubo, e muito mais o que deo por 
entrega. Passarao de vinte mil homens os que Ibe 
consummio a defensa (nao fallamos nos dispen- 
dios da conquista que nao tiverao conta ) ; em duas 
partidas perdeo cinco mil, que forao ai dos Gua- 
rarapes. Successivamente foiexpulsado deduzentas 
legoas de costa ^ que deixou com as fortalezas que 
nellas levantou e possuio. Em uma tarde nos rent 
deo as fortalezas do Rego, a de Altenar; a dos Affo- 
gadosy a das Ginco Pontas, a de Santo Antonio ^ a 
da Boa Vista » a do Brum, a da Seca, a dos Perrexis, 
a do Buraco de Santiago ; os castellos do mar e da 
terra I cidade Mauricea, e o Arrecife com todos os 
fortius, plataformasebatarias^de que seguarneciao; 
e cortou tao largo a espada portugueza^ que junta- 
mente rendeo uma fortaleza no Bio Grande, duas 
na Para'iba , com as das ilhas de Itamaraca, Fernao 
de Noronha, e a capitania do Ceara ;«tendo-lhe j^ 
a este tenipo caido*das maos as fortalezas de Naza- 
reth, do Rio de Sao Francisco, do Porto do Calvo, 
de Joao d' Albuquerque, com a villa de Olinda ; em 
todas nos deixou mais de seiscentas pecas , quasi 



GASTBIOTO LUSITANO. 003 

« 

todas de bronze. As armas, municoes e generos fo- 
rao em tanta copia que excederao o numero e a 
estimacao. 

XXX. Aquella poiencia, que o vulgo no Brazil 
julgava insupperavel, assistida dos progressos, das 
fortificacoes , das armadas , do roubo e do com-- 
mercio, poz debaixo dos pis o coracao d'um ho- 
mem , porque a excedeo a graudeza de seu animo , 
assistido do inyencivel espirito que o movia. Foi 
este o grande Joao Fernandes Vieira , varao maior 
que seu nome. Neste heroe competirao a capaci- 
dade e o valor^ porque sua cabeca foi a medida de 
seu bra^o, obrando a forca o que deliniava o pen- 
samento ; e seu cabedal tudo quanto Ihe propoz o 
desejo, Necessitava de a prestos^ pedia-os & sua fa- 
zenda ; faltavao-rlhe soldados, fazia-os sua pralica ; 
desejava leoes, criava-os seu exempio ; pretendia 
victoria 7 dava-ih'as a Sortuna. Saio & campanha 
acompanhado de si mesmo^ e saio com o que inten- 
tava. Nao houve occasiao em que o vencesse o po- 
der : em todas desprezou o perigo ; em muitas soc- 
correo a falta; em algumas atalhou os infortunios. 
Nao houve cons^lho que nao devesse as resolucoes 
a seu parecer ; nao houve deslroco , em que nao 
influisse seu braco, nem livemos victoria que nao 
illustrasse^ ou sua espada, ou sua disposicao. 
principio daquella guerra resuha foi de seu im- 
pulso ; a continuacao das armas, effeito foi de sua 
constancia ; o soccorro, que a frota dec para se con- 
chiir a empreza , invencao foi de sua industria ; o 
cercar as fortalezas do Arrecife, eleicao foi de sua 
esperanca. Nao faltou a sua grandeza a emulacao ; 



60& GASTBIOTO LUSITANO. 

a seus progresses^ a iAveja; a sua liberdade^ a in- 
gratidao ; a sua cortezia, o atrevimento ; e a sua 
fidelidade , a traicao. Yerdadeiramnte todo , e em 
tudo um vivo retrato daquelle Gastrioto tao conhe- 
cido por suas obras , que se foi primeiro no tempo 
teve em Joao Femandes Vieira segundo no valor 
e na fortuna. A este heroe (apuradas bem as causas^ 
e melhor as razoes com que o Serenissimo Principe 
Dom Pedro , fallando neste varao, o nomeia heroe 
de nossa idade, como algumas vezes Ihe ouvi : con- 
dicao verdadeiramente d'um Principe perfeito nao 
se lembrar do servico sem honrar o merecimenlo) 
devem as idades a mais viva lembranca : a nacao 
portugueza a maior fama ; a America toda, o me- 
lhor nome; o reino de Portugal, o commercio mais 
util ; a coroa lusitana , a porcao mais rica ; as 
armas portuguezas , o pregao mais vivo ; os Prin- 
cipes lusitanos^ o premio mais grato. Os quilates 
de seu merecimento relata fielmente esta historia , 
que servira a posteridade de manifesto , em que se 
veja a razao com que a fama o deve coUocar entre 
seus capitaes. Com Ihe dar occasioes para o servico 
o busdirao os premios; e soube Joao Fernandes 
Vieira achar occasioes para fazer dos premios os 
maiores servicos , como diremos na segunda parte 
de sua historia que^ sendo Deos servido^ daremos 
& estampa muito brevemente. 



N. B. Esta segunda parte de que falla o autor 
nunca se imprio, nem mesmo ^ certo se elle a com- 



GASTRIOTO LUSITAIfO. 605 

poz ; o que i para sentir , porque ficamos privados 
de mais um monumento que attestasse as grandes 
virtudes e heroicos feitos de Joao FernandesVieira. 



FIM. 



INDICE. 



AdTertencia do editor ix 

Ac serenissimo principe dom Pedro xi 

A Joao Fernandes Yieira xiii 

Prologo » XVII 

Livro I 1 

Livro II 20 

Livro III 45 

Livro IV 109 

Livro V 153 

Livro VI 177 

Livro VII 244 

Livro VIII 320 

Livro IX 378 

Livro X 446 

Livro XI 489 

Livro XII 552 



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