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Full text of "Castrioto lusitano;"

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CASTRIOTO 

LUSITANO. 






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PARIZ.— I1IPIIRNS4 HA VIUVA ©ONDKY-DUPR^ , 

riia SahiULouis, n' 4G, nn llarai&. 



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THE NEW yOT^K 
PUBLIC LIBRABV 



A<*0«. 



TIUD 



,,.■ f^»«»* 



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tot. /fe7<^ yy\ K'-U _ 

CASTRIOTO 

LUSITANO 

ou y 

HISTORIA DA GIMRA ECTRE BRAZIL E A HOllANDA , 

DVBANTE OS ANNOS »E 10*4 A iS64, 

TEaMlNADA ^BLA 6L0A10SA RBSTAURACAO DB PEBNAMBUCO E DAS CAPITA NUS 
CONFINANTBS; 

Obra em que se descrerem os heroicos feitos do illustre 
JOAO FERMAin^BS VIBZRA, 

o rios valerosos capitaes que com elleconquistarao . a independencia nacional, 

For Fb. JRAPHA£L DE JESUS. ^ 

]lfto!«6E BENEDICTINO. - ' 

KOVA EDI^aO SECniDO A DE 1679, IMPRESSA EM LI8B0A , FOR CRAE8BBECK, 

DBDICADA A SUA MAGESTADE IMPERIAL 

O SENHOR DOM PEDRO 11, 

IMPBRADOR DO BRAZIL; 

Ornada com o rcirato dc loio FemandeA TIeIra 

e duas estampas historicas. 



' ^ . 



PARiZ, 

PIIBLICADA PORJ.P. AlKLAUD, 



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, PUBLIC LIBRARY 

TIUOEH FOUNDATION* I 



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o?) 



/i&?*ioao /do ort^anh e awncdo como 
o aae aJirekf^^ilou^ o uOrce^zu a^ca/iao 
uc€^i4^ co/^i. od rarcod cotojd^ed cut 
^6o/uifnaa /in /^^ cAocnfO;: t/e diKt 

Oj auoj /e^^p G^A^f^^ 



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7/ior€mec /ordo cu^?tay e Ae^nenle ccm^ 

dua^ awrt€i, e od i^^^^ed aedceTuie9iied 
aciauewed Ae^oed, ao 9/ieuwr li/u/o ae 
dua novreza. 

ty€ An^nei^a etucdo cio (oaM:^4rtolo 

/w (lecucaaa a (of ^ec o h/e^ioT 

^o/n crecm) ae ^ar^u^^, aiiand^o 

cufcenae^t/e ae uo^d^ Ovwaaed^fvae 

t%/^erta^;j:a re€^?Ar^^^MO T/iem^raaa 

\/: ^., ^>' '/V.* 
cu^nc, : '^eJ^iJ^'VA^^^^^^^^^^ d^^ COUO-' 



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nom6naae/7i^ aae red/iedodo e rei^erenle 
t^ l/o^co 9ym^cia6cyla€/e t'^77f/i&ncU, 



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ADVERTENCIA DO EDITOR. 



A edi^ao que ora damos a iuz do Gasirioto 
Lusitano^ e uma copia fiet da de*1679 pelo qiie 
pertence a parte historica , geographica e des- 
criptiva; mas nao assim em quanto ao mais. 
EscrevSra o autor na epocha da decadencia da 
boa lingoagem pdrtugueza; e dominado pelo 
gosto do seculo, em que vivia, espalhou com mao 
larga por toda a obra os deffeitos de que sao 
ootados OS seiscentistas. Digressoes diffiisas^ e 
pouco pertencentes ao assumpto; reflexoes e con- 
ceitos frequentes^ e algumas vezes pouco judicio-; 
SOS; antitheses buscadas com excesso e sem 
gosto, e em fim decidida affei^ao ao maravilhoso, 
sao OS defeitos de Fr. Raphael de Jesus. Aeon- 
selhados por pessoas intendidas» e ajudados de 
sua coopera^ao emprehendemos expurgar este 
livro de seus defeitos em quanto a forma , sem 
aiterar em nada a materia ; e eis aqui como nos 
houvemos. Simplificamos as digressoes a fim de 
fazer melhor sobresair o assumpto principal; 
supprimimos muitas reflex5es e conceitos , que 
por sua frequencia mais service de'^empecer o 
discurso que de illustrara'nkrracjaoTresumimos 
algumas iallas e alloc^ucoes ^ qut)*6a£itor mal 



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X ADVERTENCIA DO EDITOR. 

exerceo sua rhetorica^ e que nao erao ponto histo- 
rico, pois diz pareceyfoifamaqMommfallaraetc. ; 
femes muite circumspectos em tude que diz 
respeite a credulidade d'aquelles tempos ; em fim 
corrigimes e estilo sempre que fei pessivel faz^l- 
e sem destruir*o cunho de sea autor. Assim que, 
as altera^^oes que nesta edifSo se netSe antes se 
devem chamar melhoramentos que mudangas. 
Fei per isso que demos as materias nova distri- 
buifao» fazende .doze livros de dez que erSo , e 
pende no ceme^o de cada urn d'elles urn sum- 
marie com remissoes numericas de que nelle se 
trata para cemmedidade de leitor. Genservames 
textualmente as dedicaterias e prologe de auter 
per serem impertantes para a histeria litteraria 
d aquelle tempo. Esperames peis que os lei tores 
relevarae tedas as imperfei(5es que nella encen- 
trarem , levande-nes em centa e deseje que ti- 
yemes de vulgarizar um livre que tanto henra 
OS antiges Brazileires , e de centribuir per este 
mode a fazer mais publica a gloria que com tao 
juste titule cabe ae Imperie Brazileire peles it- 
lustres feitos que nelle se centum. 



Editor. 

Pariz 28 (iV^P^'cbe 18^^. 



• • • , 









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AO SERENlSSUiO 

PRINCIPE DOM PEDRO, 

RBGBNTE DA HONARCULV LUSITANA. 



SENHOR, 

Ao sol» quelhes preside, devem os astros todo 
o ser de seu lusimento ; a Yossa AUeza, que nos 
governa, se hao de attribuir todos os progressos 
de seifs vassallos. Com esta divida offere^o a 
seus reaes pes a memoria do que em seu servi^o 
obrou minha possibilidade, para que se restituao 
OS effeitos a quern se devem os influxos. Aquellas 
aguas que os rios levao ao mar nao ^ servifo, e 
restituifao. Bern sei que no tempo do Senhor 
Oom JoaOy dignissimo progenitor de Yossa Real 
Alteza, se intentou e se conseguio a restaura^ao 
d'esta e das mais capitanias , que neste Estado 
do Brazil tinha usurpado a violencia inimiga ; 
mas tambem considero que os astros em que o 
sol substitue sua ausencia , tomao corpo d'uma 
mesma materia, euma mesma luz os informa. 
Porvao do corpo do pai e o corpo do filbo pela 
gera^ao , e pela educa^ao urn reflexo de seu es- 
pirito : razao , que agora me representa outro 
tempo, por^m nao outro Principe. Yossa Alteza 



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nasceo para o ser da paz, depoisi de vinie e oito 
annos gastados em viva guerra, e os successes 
d ella so a Yossa Alieza se hao de dedicar. Aquel- 
les materiaes, que t)avid congregou no tempo da 
guerra para o tempto , nao quiz Deos que na 
forma d*elle se ihe dedicassem^ senao em tempo 
de seu filbo Salomao , por s6r rei pacifico. Nao 
faltara acceita^ao ao ofierecimento , que este 
acerto apadrinha, e que faz o desejo de um vas- 
snllo, que, faito de occasioes para servir, diverte 
sua magoa com as memorias do que tem servido 
a Vossa Alteza, cuja vida e estado augmeate o ceo 
por felizes e diiatados annos, para gloria d'esta 
monarchia, e bem de seus vassailos. 



Fidelissimo criado de V. A. R. 



JOAO FeRNAND£S VlElttA* 



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JOAO FERNANDES VIEIRA, 

FIDALCO DA CASA DB SUA ALTEZA, E DO SEO C0N8BLH0 DB GUBRRA , 
ALCAIDE MOa DA VILLA DE PINHEL, COMMENDADOR DAS COMMENDAS DA 
ORDRM DB CHRISTO, SAO PEDRO DE TORRADAS , B SANTA EUGBfllA DE 
AULA , SCIPBRINTBNDBNTE , PBLO MBSMO SBNHOR , DAS FORTinCACOBS 
DK PBRNAMBUCO, E DE TODAS AS UAIS DO ESTADO DO BRAZIL PARA O 
NORTE, B PRIMBIRO ACCLAMADOR DA L1BBRDADR B RBSTllTRACAO DB 
PBRNAMBUCO. 



Escreveo Atheneo as proezas de Lucullo, vale- 
roso e esclarecido Romano, e acabada a historia, 
a remetteo ao mesmo Lucullo (ja retirado da 
guerra) para que nella visse, como em um retrato 
de suas obras, se a narra^ao se aiTastava em al- 
guma cousa da verdade, e com a sua appro va^ao 
ficasse o referido sem duvida. Sabia que se nao 
da inteira fe aos treslados , que nao sao confe- 
ridos com sens originaes. Tudo quanto cont^m 
este livro, em seu principal assumpto , sao obras 
de Vossa Senhoria, por filhas ou de seu brago, 
ou de seu conselho, ou de sua disposi<;ao. A no- 
ticia dos successos, das pessoas, dos tempos e 
das partes , recebi de sujeitos fidedignos pelos 



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XIV 

postos que occuparao, pela continua^ao com que 
servirao, e pela honra com que proced^rao, aos 
quaes como a testemimhas de vista manda o di- 
reito dar inteiro credito. Muitos autores escre- 
v^rao OS progressos de Alexandre Magno , e na 
opiniao de Yolaterrano a nenhum se deve tanta 
fe como a Aristobulo judeu^ porque os referio de 
vista, assistindo-lhe a tudo, e em todo o discurso 
de suas conquistas. Aristobulus Judem res gestas 
Alexandri Magni conscripsitj comesque ipnus peregrin 
nationis fait. E supposto que esta razao me obriga 
a crer o verdadeiro das noticias, deixara de o 
ser o argumento d'esta narra^o se na menor 
parte d'ella faltar a verdade. No mundo nao sao 
menos os ambiciosos da fama» que os da fazenda, 
e com mais cuidado se esconde a infamia que a 
pobreza. Os olhos de Yossa Senboria busca neste 
volume meu escrupulo ; nelle achara espelho em 
que se veja retratado, e todos neste espelho po- 
derao ver o retrato de Yossa Senhoria, se em 
tudo se conformar a imagem com o original. 
Basta a dissimilhan^a d'uma c6r para destruir o 
parecer d'uma imagem ; e porque nesta nao falle 
o menor accidente, o remetto ao exame de Yossa 
Senboria, para que com sua emenda» ou com sua 
approvacao fique a certeza sem duvida , e se leia 
esta historia sem escrupulo, certo o leitor que v6 
o que Yossa Senboria e na verdadeira represen- 



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XY 

ta(^o do que tern side. Ainda que pe^o, nao 
adulo. Intento em que nao cabe iuteresse nao 
tern parte a lisonja , nem se obriga com a ver- 
dade a quem nao gosta da mentira ; quem nas 
occasioes se naoalterou com os vivas dos applau- 
sos nao se pode esvaecer com as repeti^Ses dos 
progressos. Esperomeu desengano, e os de todos 
nadefini^ao do certo, e com ella ficara meu tra- 
balho mais luzido , e este volume mais digno de 
se dar a estampa, uma vez por verdadeiro, e 
muitas por Vossa Senhoria ser sen assumpio e 
sen autor. A pessoa de Vossa Senhoria guarde 
Deo& por dilatados annos, para que neltes viva 
a seguran^a d'esse Estado, e o castigo da emula- 
^ao. — Braga e Outubro 22 de 1676.— Capellao 
de Vossa Senhoria. pregador e procurador 
geral da ordem de S. Bento nesta curia de Braga. 

Fn. Raphael de Jesus. 



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PROLOGO. 



Dos prologos faziao os escriptores humilde rogo ; 
permittia-o a singeleza de algum tempo. Na pre- 
sente idade, prevenidas adverlencias devem $er o 
argumenlo dos prologos ; neeessita d'ellas a mar 
licia. que menos sabe he o que mais presume; 
razao, por que a tudo se atreve o que menos sabe. 
No maior p^o correm os rios com menos es- 
trondo; os juizos^ quanto mais tem de fundo, mais 
tern de capacidade* curioso I^; o noticioso ob* 
serva; o limitado grita; julga de si que p6de cen- 
surar sem reparo o que se escreveo com estudo. 
certo nao tem pressas ; e se algum a teve , foi dita 
da occasiao, e nao effeito do repente. Porque ha de 
ter animo para censurar o que os outros escrevem 
quem nao teve brio, nem ainda applicacao para 
escrever? Nenhum esta tao longe de si como o es- 
vaecido; nenhum tanto em si como o considerado. 
sol tem de planeta mais luzido o expor sens 
raios & nota, cobrindo com seu resplandor a falta 
de todos OS mais astros. Se queres aproveitar, nao 
leias para escurecer; leras para saber, se leres 
com OS claros de teu juizo. Se o queres formar 
desta obra, nella te offereco processada a causa; 
julga pelo mericimento do processo , para que a 



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XVIII PROLOGO. 

paixao te nao faf4 fiarle^ ^uatido te constitues 
juiz. 

Com razao dcsejaris saber a que live para me 
occupar em argumento, a teu parecer, tao alheio 
de meu estado, quanto 6 o estrondo da guerra do 
socego religioso? No motivo do reparo tens a sa- 
tisfa^ao da dtivida. echo em uma parte se fdrma, 
em outra se causa ; nelle ouves o golpe , sem ver 
a ferida. Os conflictos escrevem-se na campanha 
com sangue^ na historia com tinta. Nas iroagens 
Tes boca para fa liar, mas nao Ihe verds nunca 
abrir a boca. Tal i a relacao dos successos, ima- 
gem sem yoz, echo sem golpe, ferida sem sangue. 

Nao te pareca o clausiro lao diverso da cam- 
panha, que imagines se nao milita em uma e ou- 
tra parte. Nao basta a differen^a das armas para 
tirar o ser aos conflictos. Os inimigos, por serem 
d'outra na^ao, nao deixao de ser contrarios : os 
mais ardilosos sao os mais nocivos. Para todos os 
mortaes i todo o lugar campanha ; e nao sera sol* 
dado senao quem deixar de ser homem. Militia est 
vita hominis super terram (Job. I, 7). Na institui- 
cao das ordens militares achards praticados^ como 
equivocos, campanha e choro, breviario e lan9a, 
religiao e milicia. Os filhos de Sao Bento ar- 
mados cantavao os officios divinos; o mesmo sino 
que Ihes tocava a rebate, os chamava a reza ; ob- 
servou-o ElReiDomSancho de Gastella, e disse ao 
abbade dom Raimundo : « Admira-me, padre, o ver 



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nmjoGo. xn 

» qu6 n «stei yoM08 subditos fiiz urn mesmo sine 
» leoes e cordeiros. » 

Ja se Tfrao militar as estreHas^ sem que a 
guerra Ihes relaxasse^ nem o curso da virtude^ 
nem a observancia da ordem : Stetim nument^^ in 
ordine mo et in curm iuo pugMverunl emir tf 5f so- 
ram (Judic. v, 20). E estao tao apartadas do 
mundo, como o esta o ceo da terra. que a pro- 
fissao faz proprio^ que razao o p6de fazer alheio? 
mais religtoso i o melhor soldado^ e seri melhor 
soldado que for mais religioso. Nacasade David 
e no tabemaculo esteve a espada com que truncou 
gigante; a decencia do deposito equiroc^u os lu» 
gares, pelo religioso, e pelo soldado. 

Pelas occupacoes se distingue o reformado do 
destrabido : bonesta^ decorosa e util i aquella que 
serve as melboras do particular e do commum. 
Os livros aproveitao ao commum em quanto oc-* 
cupao, e ao particular em quanto ensinao. Grande 
servifo faz 4 patria o que a illustra com obras 
dignas de se escreverem; maior o que a enno^ 
brece escrevendo feitos dignos de se imitarem. A 
proeza executada p6de fazer um heroe^ por^m 
Uda, muitos. A gloria, e nao o perigo, i que ao*- 
cende a emula9ao : melbor persuade o exemplo 
que o espanto. A fa^anba que o golpe da espada 
fez transitoria, faz a escritura permanente. Quan- 
tas obras beroicas sepult^ra p braco , se a penna 
as nao livrara do tumulo ! A poucos aproveita o 



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XX PROLOGO* 

que a uma idade se limita : Paueis natus est, qui 
papulum cHatis suw cogitat (Senec. Epist. 80). Es-^ 
creveo Diccearco as proezas dos Esparlanos; e or* 
denou aquella republica que todos os annos se 
lessem em uma praca publica , para que sempre 
repetidas as etemizasse a lembrauca, e vivessem a 
beneficio da historia , o que nao fora possivel a 
golpes da espada. 

Nao deve nada a America a gloria que a na^ao 
portugueza adquirio na Africa, na Asia, na Eu- 
ropa. Nas mais paries ajudava-se o valor da opi* 
niao, e deduziao-se umas de outras as victorias ; 
portoi no Estado do Brazil, perdida a fazeuda^ su*^ 
jeita a liberdade , sepultada a opiniao, enterrado 
brio nas mesmas cinzas do estrago (dominante a 
nacao mais bellicosa , e mais bem affortunada de 
todas quantas naquella idade applaudio a fama) 
resuscitar, e sobresair o valor portuguez com tao 
agigantado vulto, que nao sd se restituio no p^- 
dido, senao que de um golpe vio o poder d'aquella 
gente a sens p^ rendido e prostrado y tanto mais 
se adianta na gloria, quanto menos o imaginou a 
esperanca. Nao espanta o triumpho depois da 
victoria^ porque 6 consequencia ; admira o viv^ 
depois da morte , porque i maravilha. Na res- 
tauracao de Pernambuco te nao deve parecer enca- 
recimento a maior exagera9ao, vistos e considera- 
dos ossuccessos, que te offereco neste volume, 
porque forao tao estranhos e heroicos, que nao so 



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PROLOGC. XXI 

6 necessario contestarem-no muitas escripturas 
para Ihes facilitarem a credulidade , senao que 
tambem se bouverao de esculpir em bronze, para 
que Dunca o tempo os podesse tirar da memoria 
humana. 

Com esta razao me desculparis a coufianca com 
que escrevo argumento, que tantas e tao illuslres 
pennas escrev^rao. Se me nao achares igual no ea- 
tilo, nao me notards desigual na verdade^ e quando 
nella nao tenhas licao, nao te faltara entreteni- 
mento. A diversidade dos lavores se nao faz a 
t^la mais rica , nao deixa de a fazer mais vistosa. 
Alguns dos que escreverao este assumpto^ o tece- 
riaa com melhor fio^ por^.m nenhum com fio tao 
continuado. Em o valoroso Lucideno acharas o 
prindpio sem fim ; em outras relacoes veras o fim 
sem OS principios; 4quelle atalhou a morte, a eates 
escusou a eleicao : de todos me aproyeitei. Nao 
ensina menos o que atalba que o que guia. Se no- 
tares differenca na repeticao de alguns nomes es» 
trangeiros, nao imagines que foi desatencao^ ou 
falta de noticia. Escrevo para os naturaes^ e quero 
que se oucao agora, como entao entre elles se pro- 
nunciavao, para que assim como entao pelos no- 
mes se conheciao as pessoas^ assim agora as re- 
presentem a memoria ; a disimilbanca dos ncmies 
nao faca parecer que sao d'outras pessoas. 

Se fizeres reparo no titulo d'este lirro , bas dc 
notar (como discreto) que nelle altribuo a um a 



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XXU PR0L060. 

obra em que trabalharao niuitos. Muitos rios rece- 
be o mar debaixo do nome de urn , porque aioda 
que 08 mais Ihe engrossao a corrente, deve-se aata 
& sua primeira fonte. Muitos siio os astros que as^ 
sistem ao dia, e a nenhum deixa luzir o sol. Todas 
as espheras se movemi e ao primeiro movel se at- 
tribue o movimento de todas. Foi Joao Fernandes 
Vieira o que com o zelo, com a industria, com a 
&zeoda» com o braco> e com a assisteocia inten- 
tou, dispoz, seguio e feneceo aquella guerra , e 
como o maior planeta, mais caudaloso rio, e pri- 
meiro move! se Ihe devem attribuir as opera^oes 
de todos seus inferiores* 

Com este fuodameato fiz de sua pessoa e de 

suas obraso principal assumpto d'esta historia. 

No appellido de Castrioto leras todo o ai^umeato 

d'este livro, e todas as prendas do sujeito; e no 

titulo , cifrada toda a materia d'este argumeato : 

coudi^oes, que uos titulos dos lirros ha de buscar 

a escolha para oao serem espurios. parecido das 

ac^oes Ihe deo o nome de Castrioto, e a aa^ao a 

difieren^a de Lusitano, para distiuc^ao do Ca»- 

irioto Epirense. Com esta mesma razao deo a an- 

tiguidade a Sicinio Dentato o nome de Achiles 

romano , para que suas obras o nao oonfundis- 

•Ma com o Achiles grego : Stctmni DMiatus oh 

ingentem fotiUudwem Achiles rmnaimi appellalus €H 

(Plin. 1. VII, c. 38. GeU. 1. H, c. U). Tio umas 

forio as prendas, as valentias e as fortunas d'um 



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e outro sujeito^ que as destinguuio as patrias, 
porque nellas se nao confuodiSsem as passoas. 
Nao se estranba o usual. A sunilbauca da virtude 
ou do vicio idemtilica em muitos um mesmo 
nome. A liberalidade deo a muitos o Qoii>e do 
Alexandre; a fortuua o de Cesar; a valentia o de 
Hercules; a industria o de Ulysses; a raping q de 
Gaoo^ elc. 

Gotejem^se as obras, o valor e a fortuna de 
Joao Feniandes Yieira com as de Castrioto alba** 
uense ^ e achar-ae-ha peste livroi e nos que es^ 
creveo Marinho Barlecio d*esle argumentoi que a 
todas as formou um^ molde* Como Castrioto eutre 
06 Turcos iusolentes, se houve Joao Feraaudes 
Yieira eutre os berejes domiuautes. Com auimo 
catholico soffrSrao muitos auuos a oppressao da 
tyrannia por uao perderem a possibilidade de fa- 
Torecer aos fieis. Deo o tempo aviso a Joao Fer^ 
naudes Yieira de que sua ^timacao o fazia suspei- 
toso ao Hollandez^ como deo ao Epireuse, de que 
seu valor o fazia suspeitoso ao Turco. A um e ou- 
tro servio o perigo de opportuuidade para se de- 
dararem coutrarios ao imperio que os domiuava; 
e persuadirem aos naturaes mais coufideutes a que 
pegassem nas armas em beueficio de sua liberdade. 
Os mesmos officioS| e com o mesmo effeito de que 
se valeoo Turco para reduzir a seu servi^ o Cas- 
trioto Epir^ose, fez o Flamejjgo com Joao Fer- 
oaodes Yieira p^a o tnuer a sua obediencia. 



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XXIT PBOLOGO. 

Aquelle com poucos venceo batalbas, prendendo 
e matando generaes das armas othomanas; es(e 
com menbft matou e prendeo generaes, voicendo 
em di?ersas batalhas as armas hollandezas. Nao 
houve conflicto em que o Lusitano nao pelejasse 
com OS inimigos a cara descoberta; como tambem 
nao houve occasiao em que o Albanense nao con- 
tendesse com seus adversarios a braco partido. 
Nem um nem outro quiz nunca para si das bata- 
Ibas mas despojo que o applauso das victorias^ 
deixando para seus soldados toda a riqueza das 
Campanhas. Das maos dos Turcos tirou o Alba- 
nense todas as pracas usurpadas, at^ os acurralar 
lia cidade d'Esfetigrado ; tirou Joao Fernandes das 
maos dos HoUandezes todas as pracas que domi- 
navao pelos contornos de Pemambuco at£ os cer- 
car dentro no Arrecife. Trahido de amigos, pa- 
rentes e obrigados se vio Joao Fernandes Vieira, 
que promettdrao ao Fiamengo entregar^lh'o morto 
ou vivo. Com similbante trai^ao promettlrao ao 
Turco entregar-lhe a Gastrioto^ ou vivo ou morto, 
seu sobrinho Amessa, e Moyses sen mais obrigado. 
Como Castrioto ao Turco consummio Joao Fer- 
nandes Vieira em repetidas batalhas e encontros a 
paciencia e o poder hollandez. Ao Albanense nao 
deixou seu generoso coracao lograr com descanco 
a gloria de tanto triumpho, buscando fiira de sua 
patria occasioes para exercitar as armas, como o 
fez em obsequio d'El Rei Dom Fernando, a quern 



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PBOLOGO. XXV 

08 Francezes tinhao despojado do reino de Napoles. 
Mao soube Joao Femandes V ieira lograr com socego 
o fnicto de tantos servicos; por mandado do Se- 
nhorReide Portugal Dom Joao Quarto foi govemar 
OS reinos de Angola^ e nelles se exercitou nas ar- 
masy obrigado de sua prompta obediencia a esti- 
mar mais o servir que o descancar. Ao Castrioto 
albanense attribue Barlecio toda a gloria dos suc- 
cesses d'Epiro ; com a mesma razao se devem at- 
tribuir ao Castrioto Lusitano todos os progressos 
que as armas portuguezas obrarao na restauracao 
de Pemambuco* 

Na similhanca das obras acharas a similhanca 
dos costumes, dos intentos e dos animos. A toda 
Europa 6 notorio, que o zelo do servico de Deos 
e do bem publico foi a causa e o fim de Joao Fer- 
nandes Vieira tomar as armas contra os Hollan- 
dezes> e que a elle sedeve como a principio e meio 
a felicidade daquella empreza. Por sua intelligen- 
cia se sublev^rao os moradores d'aquellas capita- 
nias ; com sua fazenda se sustentou muito tempo 
aquella guerra ; de sua constancia forao resulta 
gloriosa aquellas victorias. Com desoito annos 
d'idade o animava um coracao tao varonil que ap- 
petecia os perigos que todos receavao. Fez-se o 
Flamengo senhor do Arrecife^ quiz ganhar as 
fortalezas daBarra, uma d'ellas desempararao mui- 
tos; e offereceo-se Joao Femandes Vieira para se 
metter nella kvando comsigo alguns homens per- 



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UVI PBOiOOO* 

suadidos de seu exemplo. CapituUiio 03 cabos a 
eotrega, e so elle teve a advertencia e animo para 
salvar as insignias d'alguus cabos, e as baadeiras 
d'El Rei^ saindo com ellas eoroladas em si mesmo, 
com manifesto perigo de sua vida. No arraial de 
Pernam Morim o tinha feito Matliias d' Albuquer- 
que capitao de descoorir o campo, quando o Fla- 
mengo sitiou e rendeo aquella for^a; d'ella saio 
como captivo, resgatando-se a $i, e a dous cria- 
dos seua por quiabentas patacas, sem dar ouvidos 
as bom*as e promessas que inimigo ibe fascia : 
nao sabia seu cora9ao antepor a coavenieoeia ^ 
fidelidadet Ganbou o Hollandez a campauba eom 
todas as fortifica9oes d'ella, e seguindo Joao Fer- 
uandes Vieira a fortuna de todos, se deixou ficar 
eutre os inimigos, com aquelle intento, que depois 
publiearao suas obras. 

A beneBcios comprou a estimacao do vulgo; a 
respeitos, a dos priucipaes; a dadivas, a dos aii- 
nistrosy tendo tanta eutrada com os do governo^ 
que para com elles erao auas peticoes decretos. 
Seu maior empenbo era alcancar do hereje liber- 
dade para que os catholicos frequentassem os sa- 
cramentos e as igrejas, e que nellas se celebra^ 
sem OS officios divinos com aquella solemnidade e 
pompacom que se faziao antes do captiveiro, tendo 
particular cuidado de reedificar os templos, que o 
inimigo destruiai e de Ibes restituir os paramentos 
sagrados que d^eUes rouhava; e pwra auatentar a 



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HQWOO' XXYH 

devo^ik) do povo se fazia mordomo de todaa as 
oonfrarias. Com yigiiante zelo acudia as necessi- 
da(^ particulares 9 proporcionando a mezinha 
com a chaga, de &orte que nao yacillassem os que 
deemaiavao eom a oppressao. Porque a pureza da 
religiao se uao mauchasse, tinha particular cui- 
dado de fayorecer os presos e roubados^ dando a 
UDs saida, e a outros remedio. Ao sexo mais fraco 
acudia mais solicito, procurando que nao resva* 
Jasse a virtude nqs tropecos da necessidade. Aos 
peraeguidos e desamparados desviava o laoo, a que 
oi podia levar a desespera^, ou com a exborta- 
cao ou com o soccorro. For sua diligencia se con- 
vertteio e bapUzarao ciuco judeos, e se reduzirao 
ao gremio da Igreja dous herejes e umapostata; 
de (odoB foi padrinho e amparo. Tao fervoroso foi 
aempre seu zelo, que uao s6 trabalhou per couser^ 
var, senao tambem por adquirir , despresaudo o 
desabrimento com que o sofiriao os do goverao. 
Com dispeudio e iudustjria tinba gaubado em todos 
OS tribunaas mioistros coufidentes que o avisassem 
de todas as materias, que nelle se couferiao, e de 
todas as resolu^oes que n elle se tomavao: dili^u- 
cia tao uecessaria para a couserva^ao do particu- 
lar e do commum, que uella acbou o Estado de- 
£eusa, os principaes cautella, e o vulgo reparo. 

£stimulado das tyraunias, coudoido das mise- 
rias^ e ^scaodalizado das injustii^asi rompeo pelo 
aoffritneTOOi resoluto em deitar dos hombroa de 



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jxna PROLOGa 

todos o insoftrivel jugo : empreza que a qualquer 
cot^acao parec^ra mais desatino que lemeridade. 
Com este intento (com peria de morte tinba of la- 
mengo prohibido aos moradores todo o genero 
d'armas assim offensivas como defensivas) mandou 
fazer^ por officiaes peritos e coufidentes^ nas matas 
e fazendas, que tinha pe|o certao^ armas, mani- 
as, vestidos, mantimentos, e tudo o mais que Ihe 
pareceo necessario e preciso para conduzir e guarr 
necer um exercito, correndo todo o dispendio por 
sua con ta. Avizado das espias, que tinha no Arre- 
cife, conheceo que inimigos e emulos o tiohao 
malsinado, e descomposto com os superiores d'a* 
quelle governo, noticia que o obrigou a sair a pu- 
blico com seu designio antes do tempo determi- 
nadoy at^ aquella hora impedido por falta de 
occasiao. Ag^regou a si os praticos, persuadio aos 
leaes, animou aos timidos, constrangeo aos dis- 
tantes, libertou a duzentos escravos sens, e posto 
em campo se vio em poucos dias assistido de dous 
mil e quinheutos moradores^ todos homens no 
animo, e poucos soldados, porque faltos d'armas 
e disciplina. Adiantou-o a fidelidade de sorte, que 
primeiro satisfez a obediencia que ao valor ^ nao 
faltando as obrigacoes de fiel christao , e de fiel 
vassalloy certo, pela causa de que acharia sua re- 
solucao em Deos favor, nos superiores desculpa, 
nos iguaes assistencia, e nos inferiores agrado. 
Nao podera dizer a verdade, que sua convenien- 



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PRQLOGO* IXIX 

cia o moveo a emprehender tamanho e tao arris- 
cado n^ocio, sabendo o mundo o que nelle perdeo, 
e q que gastou. Quando saio a campo era casado 
de um anuo; mais que nenhum outro estimado 
do ^lamengo, e respeitado dos naturaes ; servido 
de mil e quinhentos escravos e criados ; aeompa- 
nhado de cento e cincoenta homens de sua casa e 
guarda. Na sua eslrebaria sustentava vinte e dous 
cavallos, e outros tantos mouros para curarem 
d'elles. Tinha capella de musica com varies instru* 
mentos e diversos ternos de charamellas. Dava 
crescidos salaries a mestres d'artes liberaes, e mais 
avantajados aos que ensinavao a arte da milicia , 
assim para o que intentava, come tambem para 
escusar nos moradores a barbaridade com que o 
Flamengo pretendia amortalhar-Ihes o brio, e in- 
troduzir-lhes a sujei9ao. Sen trato em tudo mos- 
trava o tamanho de seu animo, e sen cabedal, o de 
seu cora^ao ; por uma e outra causa avaliado de 
todo pelo miaio da ventura. 

Nao olhaTa para a conveniencia propria quern 
deixava tanta commodidade e regalo pelo rigor da 
guerra, e pelos trabalhos da campanha. Pelo ser- 
vice de Deos, de seu Principe e de seu proximo 
deixou duas casas, uma no Arrecife, e outra no 
campo omadas com primor e riqueza, cujo recheio 
valia muitos cruzados, sem d elles tirar a menor 
alfaia pelo risco de ser arguido, e malsinado. Gas- 
tou na conduccao da gente, arroas, municoes^ pa- 



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gas e sustento dos soldados seis centos mil ctiiztdos 
em dinheiro , e o procedido de toda sua prata la- 
vrada e joias, que valiao muitos. Em generos, ciir- 
raes, matas, eugenhos e fabricas, que o inimigo 
Ihe roubou e destruio, perdeo mais de quatro* cen- 
tos mil cruzados. Pouco se lembrava de adquirir 
quern tanfo sabia perder. A mercancia enriquece 
a quern poupa^ e nao a quern gasta ; idoUtra na 
cobica aquelle que desconhece a largueza. A bonra 
6 a que meihor ensina a desprezar a fazenda. 

A Santidade do Papa Innocencio X , por bre?e 
expedido no ultimo anno de seu pontificado, deo 
a Joao Fernandes Vieira o titulo do re^taurador 
da Igreja naquella parte da America, commu- 
tando-lhe o servi90 que Ihe fez no Brazil em servi- 
cos de Africa. A toz de todos Ihe deo o titulo de 
restaurador de Pernambuco. Por acclamacao dos 
tres estados d'aquella e das capitanias confinantes 
foi acclamado governador da liberdade, e general 
das armas. Por novos servicos Ihe confirmou Sua 
Majestade o titulo de general com a merc6 que Ihe 
fez dandoJhe o govemo dos reinos de Angola. 

Que razao Ihe ptfde negar o que a justica Ihe 
deo? Porque nao ha de ser o Gastrioto d'esta his- 
toria, se foi o Achiles d'esta guerra? Quem mais o 
encontra, mais o affirma : verdade que poddrao tes- 
timunhar os encontros d*esta historia, pois a su- 
birao 4quella alteza, onde nunca presumio chegar. 
Por seu mandado foi seu revedor dom Diogo de 



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PAUOGO. XXXI 

Lima 9 Bisconde de Villa Noya de Serveira, conse- 
Iheiro d'Estado de Sua AUeza» varao excellente a 
todas as luzes pelas lettras, pelas armas, pelo san- 
gue, pela casa, e pelos poslos que occupou. Effeito 
foi da politica melhor advertida, e pode ser causa 
da emulacao mais justa. A inveja, sendo um afecto 
vil, sempre faz presa no melhor. A todos honra o 
generoso, porque em sua estimacao nada Ihe falta. 
As sombras dos valles uao sao effeito da aiteza do 
sol, seDao de baixeza dos montes. Falle a verdade, 
e dira que o Brazil deixara de ser, se Joao Fernan- 
des Vieira nao fora, como de Chrysipo disse Car- 
neadas df pois que leo suas obras : Nisi Chrysippus 
nmesset, egononessem. 



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CASTWOTO 

LUSITANO. 

LIVRO PRIMEIRO. 



SUMHAEIO. 

I. DescobrimeRtoda ilba da Madeira, patria de Joao Fernandet Vieira. 
— 2. Sua erUfioM pnerieia. — 8. Descobriinento e altara do Bratil. 
-— 4. Capitanias em que o Estado esU dividido. — 5. £1 Rei 
D. Joao 111 da a eoDquiata a differentes yassaWos. — 6. A Duarie 
Coelho coube a coDquista dePernambuco ; a onde dii principio a villa 
de Oliiida, — 7. DMcripsio do maritimo e terreno de PeroambuGO. 
-» 8. Keforma El Rei os governos do Braiil.— 9.Manda por gorer- 
nador do Estado a Thom^ de Sousa. — 10. Fundacao da cidade de 
Sao Salvador da Batata. ~ 11. Morte d'Bl Rei de Portagal D. Henrique. 
^12 . Toraa posse do reino Philippe H deCasldla. —13. Tregoas enire 
Hespanba e Hollanda. — 14. Principio da Coinpanhia occidental em 
Hollanda.— 15. Interpresa da Bahia pelos Hollandeze8.->16. Trata- 
se na corte de Gastella da restauracio da Bahia. — 17. Como e 
quando se restaura. — 18. Intentao os HoUandeies cobrar-se no 
perdido. — 19. As delidas afemioao os animos dos Pernambuea- 
no0. — 30. Sai a aimada de Hollanda em direitora a Femambaco. 



A RBSTAURA^AO de PerDftmbnco , em que as 
armasportuguezas tritiinph^rao do poder e da for- 
tuna, estayencidadaconstancia, aquelia do valor, 
escreve minha penna mais para admiracao que para 
memoria; mais para veneer a incredulidade das 
uacSes estrangeiras, que para animar com o exempio 
a propria. valor dos Portuguezes obra na occasiao 
sem necessitar de estimulos.^Em todas as accoes 
humanas iosnao os principios o SQr do fim : as que 
I. i 



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2 C^TRIOTO LUSITA90. 

escrevo o nao parectm, porque tiellas nao teve 
mais ser o tim que aquelle que Ihe deo o pria- 
cipio ; um e otitro dcve Portugal a Joao Femttides 
Yieira, a quem e$te volume chmna Caitrioto Lu- 
sitano : as obras Ihe derao o nome , e bem ponde- 
radas p^sao mais para a parte do excesso , que para 
a da imita9ao. Para que o parecesse em tudo vere- 
mos que , se uma conquista Ihe deo o nome , ou- 
tra conquista Ihe deo o ser* 

I. Pelos annos de 1420 descobrio o perito nave- 
gador Joao Gon9alves Zarco a ilba da Madeira , 
primeira joia da coroa portugueza no mar Atlan-> 
tico. Animado peloiliustre Infante Dom Henrique, 
chefe e director de todos os descobrimentos, e 
agraciado por Et Rei com a capitania da terra, se 
embarcou no veraode 1423, levando comsigo toda 
sua casa e familia , e muitas outras pessoas conri- 
dadas dos parlidos que Ihes fazia o capilao, e das 
coQveniencias que Ihes promettiaa terra. Surgindo 
no porto ja per elle descoberto , desceo pacitica- 
mente em terra com toda sua comitiva , e no mais 
acommodado della deo principio a primeira povoa- 
9ao de toda a ilha , fundando a cidade do Fun- 
chaly com tanta fortuna que em poucos annos veio a 
ser abundantissima de tudo o que i necessario part 
a vida humana , dando para outras terras exceUoo^ 
tea generos por commuia^ao e por venda, com que 
adquirio o lustroso e rico de que hoje esti povoada. 
Eata foi a ditosa patria de Joao Fernandea Vieira, 
a quern elle tanto illustrou com sen nome e altoa 
feitos, restaurando para Portugal a mdhor pelade 
sua coroa. 



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CAamOTO LOnTAlRK t 

II. Em a cidade do Funchal (quando ja nao ad 
pelo tornpo e pelo toreno, aenao peioa edificioa, 
pela foriificacao, pela grandesa, pelo porto, ptlo 
commercio , e pela cathedral , era digna cabe9a da« 
quelle goTomo) naceo Joao Femandes Vieira no 
anno de 1613. Sua creacao qualificou aau naaci« 
menio » e aeua generoaoa procedimentos o claro de 
aua ascendencia. £) o aangue (omento Tital doe ea» 
piritoa) eo generoao oa produz generoaoa. Paasou 
o tempo da puericia na patria , que nelle obaervou 
yiTer maispara a raaao que para a idade ; em todal 
auaa acooes se adiani4ra o animo ao corpo, tao 
disciplinado da modestia y que j aem dar ocoaaiao 
a queixa» a deo muitaa vezea ao exemplo. Oa brioai 
que na mocidade aliimentao anobreia^ aem eatudo 
aao oppoaioa & baixeza doa vicioa. Era de onxe 
annoa, e como aeu cora^ao ja entao Ihe nao cabta 
no peito, parecia-lhe eatreita priaao a limitada 
aphera de sua patria. Um coracao grande nao cabe 
em pequeno lugar : nao cabia o de Alexandre no 
mundo, e deaejava maia mundos para ae dilatar. 
Reaolveo-ae a pasaar ^a partes do Brazil ^ por^ao 
grande da America ; e aeria todo o motiYO da elei^ao 
o ter entendido , que i a America a maior entre aa 
quatro partea do mundo. Sem dilacao, nem em^ 
baraco executou o que reaolveo. Nao aoffrem dila^ao 
oa impulaoa do valor : toda a oppoaicao atropellM, 
porque com a deaeatimacao sabem veneer aa dil&* 
culdadea. Foz-ae a ocoaaiao da parte do deaejo^ e 
ae embarcou no anno de 1624, levando em ai 
meamo o melbor de aeu oabedal. Sao aa prendaa 
propriaa o cabedal maia precioao e maia aeguro. 



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4 CASTRIOTO LUSITANO. 

porque nascem isentas do poder e da fortuna. 
Com prospera viagem chegou i villa de Pernam- 
bnco f cabe^ de uma das principaes capitanias do 
Brazil; e porque ha de ser o theatro de meu as- 
sumplo f i forca descrever aquelle antes que d£ 
razaod'este. 

IlL £ o Brazil aquella parte oriental da Americai 
a qual descobrio Pedro Alvares Gabral no anno 
de 1 500 em 24 d'Abril, na altura de 45« da parte 
do sul, e 2" da linha equinocial (debaixo da qual 
fica o rio das Amazonas), constrangido da vio« 
lencia dos mares , que o desviou da carreira da 
India , para onde navegava, dando-lhe o nome de 
terra de Sancta Cruz, por haver arvorado uma cruz 
mui grande no mais alto lugar d' uiiia arvore, ao p^ 
da qual se celebrou missa , e da qual tomou posse 
em nome d*El Rei de Portugal, elevando um padrao 
com as armas reaes do reino. A razao que tiverao 
OS homens para Ihe mudarem o nome de terra de 
Sancta Cruz em terra do Brazil tem pouco que des- 
cutir. nome de Sancta Cruz i o nome da arvore 
de nossa redempcao ; o nome do Brazil 6 nome de 
umas arvores que produz a terra, de cuja madeira 
se fez o primeiro commercio : e claro esta que 
entre os mortaes havia de prevalecer o titulo de seus 
interesses, e nao o despertadordesuasalvacao.Tem 
esta parte da America, que se chama Brazil, pek 
costa maritima 1800 legoas (no mais apurado com- 
pute ), que terminao e devidem da conquista de 
Castella dous caudalosos rios; da parte do norte o 
das AmazonaS; debaixo da linha; da parte do sul o 
no da Praia, em 35* para o mesmo sul. G<Hnputada 



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CA8TBI0T0 LDSITAnO. 5 

eaia distancia pelo recto dos graos tern muito menos 
legoas : uns Ihe dao 1 500, outros 1 022. 

IV. Repartio a desaten^ao dos Principes e a am- 
bicao dos vassallos toda esta distancia de terra em 
quatorze capi tanias^ na forma seguinte. A 1 * domina 
1 60 l^oas, que corre do grao Para at^ o Maranhao. 
A 2* oorre do Maranhao at^ ao Geara por distancia 
de 135 legoas. A 3*, que se terminano rioGrande, 
tern 1 60 legoas de demarcacao. A 4' continna por 
espaco de 45 legoas at£ a Paiaiba; da Paraiba at^ 
a ilba de Itamaraca 25 legoas de caminho que de- 
marcao a 5* capitania. £ a 6'' a que chamao de Ita- 
maraca de 7 legoas de costa. A 7% que i a capitania 
dePernambuco, indue 65 legoas de costa, que ter- 
minao, pela parte do norte, o rio de Sancta Cruz, 
e pela do $ul, o rio de Sao Francisco; e de Per- 
nambuco a Sergipe sao 1 30 legoas. A 8* tern por 
termo a que toma o nome da cidade da Bahia; tern 
de costa 50 legoas. Desta at^ os Uh^os sao 30 legoas 
de costa, que formao a 9* capitania. A 1 0* corre at^ 
a do Porto Seguro, por distancia de 30 legoas. Desta 
do Porto Seguro at^ o Espirito Santo corre a 1 1 ^, e 
occupa 61 legoas de costa. A 12* termina no Rio 
de Janeiro , e tem dc costa 35 legoas. A 1 3' corre 
do Rio de Janeiro at^ Sao Vicente por distancia de 
65 legoas. A ultima corre atd o porlo de Santos, e 
delle ate o rio da Praia, por costa de grande nu- 
mero de legoas. 

y. Destas quatorze capitanias erao oito d'El Rei, 
porque as conquistou a coroa; seis de particulares 
senbores, porque particulares vassallos as conquia- 
tarao.Por este titulo foi muitosannos a capitania de 



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Pernamboco do^ Albuquerqnes , porque Duarte 
Coelhod' Albuquerque, a que a deoElRei D. Joao III 
por sua qnalidade, e peloa 8em90S que fisera na In- 
dia, a conquistou. Direi o como, e o porque. Occu- 
pado El Rei nas eonquistas da Asia, nao attendeo k 
importaDcia da America , ou porque Ihe pareceo mais 
£ral, ou porque a julgou menos util ; ou mais que 
tudoy porque a opposicao dos Principes da India 
Ihe arrebatava toda a applicacao. Deseoberta a terra 
do Brazil por Pedro AfyaresCabral no annodel 500, 
oomotenho dilo, pedirao alguns capitaes a El Rei 
IX ManoeU e a seu filhoEl Rei D. Jbio, a conquista 
do diFersas partes d'aquelle Estado, oflerecendo-se 
cpoToaUas, com tanto, que haviao de ficar com o 
j»nhoriod'eIlas, etodaaalcada,eUes e sens dedcen- 
denies : o que os Reis naquelles principios outor- 
girao liberalmente sem mais encargo que o da con- 
"MTsao do gentio, querendo que as povoacoes fossem 
•eminarios de pr^adores evangelicos, e presidios 
de soldadosvalerososy que domassem e insiruissem 
OS Indios ; este fei o intento que teve a liberalidade 
dos Principes, desejosos de premiar o merecimento 
dos Tassallos. Tinha vindo da India Duarte Coelho 
d'Albuquerqu^, a onde servira El Rei D. Manoel 
com Utmlo, braco, e valor, capitao, embaixador, 
soUado. Pedio a El Rei D. Ill a conquista de 
Pemambuco, que facilmente Ihe concedro pelos 
annos de 1530. lllustravao-se os servicos d'este 
Tassallo com as relevantes prendas do sangue, do 
mIo e do Talor; qualidades que adiantava muito 
o eabedal e lusimento com que ei^tao cobria o 
^bmiiQ da incouTenientes futuros. maior danmo 



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CAiniMO UMTAHO. 7 

dasMoaarohtas i resulta dageiieroMda<}e doft Prio- 
cipesquando senao acompanha de pmdencia ; por- 
que obra d« preaente sem attender ao futuro. A th- 
xinhanca do Prinoipe influe respeito noa yasaaUog; 
ooma£alta d'esta saaniina a liberdade dos stdnlUos* 
A onde menoa se lemem os casdgos^ brotao com 
maiafertilidade oa atreTimentos. Coosidaracao que 
devem fazer os Principea^ qimndo dao os governos^ 
para que a qoarciacao dos poderes peMe a liceo9a 
doa goveraadores; pois i certo que adia facil Iran- 
sito o Ijvre para tjnnoj e o tyrauo para rebelde. 
VI. Preparado dt tudo o que podia ser neces- 
sario para invadir e povoar, saio Duarte Coelha de 
Lisboa^ e depoia de prospera viagem a^iatou terra 
em 27 de Sef^mbro, e entrando pelo rio de Saneta 
Cru29 viouma povoacao^ e fora della grande multidao 
de gemio^ que , com mats tumulto que disciplina, 
tratava de Ihe defender o saltar em terra; o que o 
▼aleroso capitao fez , apezar de toda a resistencia 
idimigay d^baratando e poudoem fugida aquellea 
barbaroa, ferindo e matando muitos no lugar onde 
agora est4 aituada a villa de Igarassu, tomando o 
nome que naquelia occasiao the deo a admiracao dos 
naturaes, vendo a grandeza de nossas embarcacoes ; 
aeudo o mesmo em sen Idioma Igarass^ que n4o 
grande em portuguez. Attribuirao os nossos a vie* 
toria aos inditos martyres 8ao Cosme e SaoDamiao^ 
em eujo dia a alcancarao ; e em reconbecimento 
do beneficio levantArao alii um templo, que consa- 
grarao ao nome dos gloriosos sanctos, a onde suas 
oontinuadas maravilhas attestao o quanto Ihes f6ra 
grato este aervico. Com adevo^o dos novos povoado- 



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8 CA8TB10I0 LO&ITAIIO. 

res cresceo de sorte a nova villa que absorreo em si, 
peio tempo adiaate, outra villa que chamarao dos 
Marcos y postos naquella parte para demarca^ao 
do districto ^ e da terra que £1 Rei havia dado a 
Duarte Coelho d' Albuquerque. — Neste lugar ae 
deteve o capitao todo o tempo necessario para o 
povoar e guarnecer em forma que servisse para a 
defensa e s^ricultura da terra; depois de tudo hem 
dispostOy parlio com o grosso de sua gente em boa 
ordeiian9a9 para evitar os repentinos assaltos dos 
ludios (ordinario modo depelejar entre todos estes 
barbaros), de que 4inha sido advertido^ e foi cor- 
remio a terra para a parte do sul, sempre a vista do 
mar^ descgoso de achar sitio conveniente para edi« 
ficar uma poyoa9aOy em que se achassem todos os 
requisitos , assim maritimos como terrenos, que a 
fizessem capaz de ser cabe^a d'aquella capitania. 
Cbegou a avistar um ameno e aprazivel outeiro 
descoberto, e vizinho ao mar (habita^ d'alguns 
gentios) em altura de 8* da equinocial para d 
polio austral; e namorado do sitio pelas qualidades 
d'elle, disse para os seus : « que linda situacao para 
se fundar uma villa! » Approvarao todos o voto do 
capitao ; e porque a verdade nao ficasse livre da 
adula^ao, poz^rao a villa o nome de Olinda, porque 
ouvirao dizer ao superior : que linda situafao 
para se fundar uma villa. Anda a lisonjataoavincu- 
lada a dependencia , que nao ha verdade que na 
boca da dependencia nao pare^a adulacao. 

Yll. Como foi um o parecer de todos , pos^rao 
todos uiao a obra com tanto calor, que publicava no 
que crecia que a obra era particular eki9ao decada 



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CASTUOtO LQSIIAm. 9 

um. Em breve tempo se achou a villa com 700 vi- 
zinhos. A lerra foi correspoDdendo com os fructos 
a esperan^a com que a benefeciavao os moradores; 
o commercio foi engrossando ao passo que crescia 
a noticia das muitas e utilissimas drogas, que havia 
Delia : facilitava a saca, e commuta^ao das fazendas, 
a grande commodidade do porto, que allifaz o mar^ 
abrindo a natureza em uma dilatada corda de ser* 
rania, ou rochedo^ que metlido pelo mar ciuge 
muita distancia de terra , uoia aberCura, a qual os 
naturaes chamao PerDambuco, que em sua lingua 
6 o mesmo que pedra furada , ou buraco, que fez 
o mar, de que se forma a garganta da barra, com 
fundo capaz para entrarem e sairem por ella difle^ 
rentes navios, que , abrigados da mesma serrania, 
se amparao dentro do porto das tempestades do 
mar. A esta corda de rochedo cbamao Arrecife; e 
da nome a uma povoacao, que pelo tempo adianle 
fez a mercaucia em uma ponta de terra y que tera 
de largo vinte bracas, cortada dos rios Beberibe e 
Capiberibe , que juntos quebrao sua corrente no 
mesmo Arrecife y recebendo o mar suas aguas pdia 
dita abertura. Desta mesma sorte, provida a natur 
reza abrio na dilatada corda d'aquelle muro, ou 
arrecife, differentes portas em diversas partes para 
dar entrada no mar a diversos rios, que per aquella 
costa fazem desiguaes portos. 

YIII. Ao passo que pela grangearia e pelo com- 
mercio crescia a opulenciados subditos, creacia a 
licenca e a demazia dos governadores , tao abso- 
lutos, que nao havia honra, vida, nem fazenda que 
nao estivesse a disposi9ao de seu goato. respeito 



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to GiililOW ftOMffAK^ 

as leis e o temor do Principe tinha sepuUado n 
▼iolencia; originando-se maior damno do exemplo 
que da tyrania, porque a religiao e o zelo fahava 
nog poder06O8, e gemia o povo com oppressao. Re-- 
for^ou^ae o grito de sorte que chegou a Lisboa a 
£1 Rei D. Joao III^ Principe naturalmente affavel e 
piedoso; condoeo-se elle dos miseraveis vassallos, e 
rendo que todos se perdtao (os pequenos por oppri- 
midosy OS grandes por absolutos), com catfaolica 
resolucao mandou aprestar tres naos, duas cara- 
▼ellas e urn bargantim, e fazendo escoiha d'um 
fidalgo , em quern concorriao requizitos para 
maiores empregos, o nomeou governador geral de 
todo Estado do Brazil, e capitao maior dos ditos 
vasoe, em que levava comsigo ministrose soldados : 
estes, para fomentarem a obediencia ; aquelles para 
extinguirem adissolucao; e todos para reprirairem 
com o conselho, e com a execucao, o orgulho do 
gentio, que farorecido da emula^ao estrangeira e 
da fortuna propria se tinha animado a assaltar e 
destruir muiias poToacoes de Portuguezes, matando 
e roubaodo com favoravel successo. 

IX. fidalgo, a quern El Rei confiou esta dif- 
ficil maa honrosa missao^ foiThom^deSousa; varao 
nao menos illustre por sua linhagem que por sens 
merecimentos ; e para que se conseguisse cabahnente 
odesejado fim para que era enviado, nao so o acom- 
panhoude magistrados e tropas, como dito i, mas 
revestio-o de toda a alcada, tirando-a a todos os 
govemadores particulares,aquemcollocou debaixo 
da sua inspeccao j estabellecendo d'esta arte a uni- 
dMh de govemo naqueUe nascente £stado; e para 



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cmtioM imif AWK if 

que nio fahasse nooa metropole a tao rieas provin- 
ciasy ordenou*lhe que na Bafaia de todos os Santos 
ediGcaase uma cidade, 4 qtial pozease o nome de 
Sao Salvador^ no sitio que melhor Ihe pareoesse, 
porque servisse de assento e de fortificaeao a todos 
OS goYernadores futures d'aquella proTincia. 

X. Partio Thom^ de Sousa do porto de Lisboa 
DO primeiro dia de Fevereiro do anno de 1549. 
Em 8 de Marqo do mesmo anno ehegou & Bahia^ 
onde ja se tinha diTulgado sua ida j sens poderes, 
com Codas as ordensque levava deseu Rei. Desem^ 
barcou^ e com a gente formada em esquadiio ser* 
rado (poique o temor faeilitasse a sujekao) cami- 
nhou para o lugar, precedendo-lhe uma devota 
proeisiao, queorden^rao os retigiosos e clerigosque 
levava do reino para a refbrmacao do espiritual. 
Foi recebido com alegria de muitos, e com obedien* 
cia de todos , rendidos os animos tanto ao temor 
ooiacH) A compmncao. Escolbeo-se sitio, ajunt^rao-se 
materiaes, concorrferao obreiros, deo-se forma A nova 
cidade, e com tai efficacia se obrava, que no pri- 
meiro dia d' Abrii do mesmo anno se vio a fortaleza^ 
e a cireumTalaoao oapaz de agazalhar e defender 
OS moradores. Consignou o govemador alojamento 
para os soldados, tribunaes para os ministros^ si- 
tioB para os retigiosos, com tao boa disposicao, 
que bastou a fama para domar os Indios, e para re- 
frear os Portuguezes, faltandoa todos a confianca, 
com que uhs e outros se atreviao. 

XL Com a nova forma de govemo se augmentou 
de maneira o Estado, assira no espiritual como no 
temp<Hrttl, que se deseonhem a si mesmo. Penetr^r 



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tt ' GAitUOlO LIWIAIIO. 

rao 08 obreiros da (i muitas legoas de sertao, coor 
verteudo innumeravel g^itio. As religioes do 
grande patriarcha SaoBento, da Gompanhia, de 
Sao Francisco, e do Carmo forao urn singular bene- 
ficio para as almas d'aquelle Estado. Obrigados por 
este meio tratavao os homens de viver do propriO| 
e se davao a plantar com tanto cuidado , e com tao 
boa sorte, que em settenta annos se achou o recon- 
cavo da Bahia com perto de 200 engenhos, que em 
cada um annp acudiao com 70,000 arrobas d'assu- 
car macho; e a capitania de Pernambuco com 1 50> 
que em cada ^afra , um anno por outro , davao 
50,000 arrobas. Avaliadas as destas duaspartidas 
pelo pre^o ordinario fazem somma de seis milhoes 
de cruzados, nao fallando em outra grande quanti- 
dade de dinheiro, que se tirava de muitos e varios 
generos, como p^os de tintas, madeiras incorrup*- 
tiyeis, coucos, tabacos , etc. , que nossas embarca- 
foes conduziao a Portugal, e d'elle per commercio 
a todas as nacoes estrangeiras, com grosso avanco 
das rendas reaes. — Assim prosperava o Brazil 
fomecendo a Portugal os principaes elementos de 
sua grandeza, quando este imperio, subido a maior 
miigestade na reputafao, no poderio e nas rique- 
zas, declinou por decreto da fortuna, e veio a cair 
opprimido de sua mesma grandeza. Esta chorou 
Portugal, sepultada em os campos d' Africa por um 
Principe mais bellicoso que advertido; em o pa* 
lacio d' Almeirim , por outro menos aconselhado 
que remisso : este foi o cardeal D. Henrique, que 
tomou a coroa mais para a le?ar a sepultura, que 
para a subir ao throno, AlcancouH) a morte em o 



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GASTEIOtO LUSITANO. IS 

ulUmo de Janeiro de 1 580 com settenta et otto an- 
nos de idade, anno e meio depois da perda de 
D. Sebastiao em Africa; acabando a gloria de Por- 
tugal entre o caduco e florido d'uma e outra idade; 
fechadas m portas com estes extremos para o re* 
gresso e para a esperanca. 

XII. Apoderou-se do reino D. Philippe II de 
Castella, chamadoprimeiro dePoriugal, iao fayo- 
recido sen poder do tempo e da fortuna, como des- 
emparado da juslica e da razao. D'esCa sorle unido 
o reino de Portugal a coroa de Castella, ficou su- 
jeito ao odio com que todas as nacoes da Europa 
se oppunhaoagrandeza'da monarchia hespanhola, 
tanto mais aborrecida, quanto mais dilatada. 

XIII. Ardia neste tempo a guerra, nos Estados 
de Fiandes, entre Hollandezes eHespanhoes ; aquel- 
ks , por defenderem a rebeidia ; estes , por casti- 
garem a rebelliao y sendo a religiao o pretexto e a 
causa. Cresceo o odio com a prefia, e com a prefia 
o maior damno daHespanha, nao so pelo que nesta 
guerra consummio de gente e de cabedal , senao 
tambem porque com o exercicio das armas fez 
guerreiros os que so sabiao ser tratantes. Empu* 
nhou o sceptro d'Hespanha Philippe III de Casteila 
e II de Portugal; e aconselhado, tanto da ommis- 
sao como da recessidade^ abracou a suspencao das 
armas por dez annos, que se assentou nas tregoas 
conclnidas no de 1 609 com menos decorosas con- 
dicoes que o mundo esperava, e com a desattencao 
(se ja nao foi impiedade) de deixar fora d'ellas as 
pra^as de nossas conquistas^ expostas a toda a fu« 
ria do odio e da vingan^ d'esta nagao , nao por- 



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ik Ci9ffU9fO MMffAlOw 

que no6 julg«Bie complioes em seat ckmatei aenlo 
porque nos considerava sujeitos ao contrario do- 
minio. exercicio das armas, como da navegacao 
tinhao feito aoa HoUandezes lao aenhoreft do mut^ 
que pelo commercio e pelo roubo traziao a aeu» 
portos o miihor das riquezas da Europa , devendo 
sua boa fortuna mais ao descuido alheio que a po- 
tencia propria, poit fiando mais da diia que do va- 
lor , sempre triumphavao com a industria, e me- 
nos com a for^a. 

XIV. For este tempo florecia naquelles Estadot 
em cabedal e baas successos a companhia, ou hot 
9a, que intitulavao da India Oriental. Yiao-se em 
Hollandacom os olhos da inveja^ e da emulacao de 
muitos f crecer os avan^os com que st enriqueciao 
todos OS principaes na dita companhia, e o poda: 
d'aquellas Provincias Unidas ; o que considerado 
por Jans Andres Moerthecan , HoUandez de capa- 
cidade e esperteza , assentou comsigo que fazia 
para si um graude negocio> e para sua republica 
nao pequeno servi9o, propondo aos Elstados que se 
formasse uma nova companhia » ou bol^a , que se 
inlitulasse das Indias Occidentaes, a qual se conce* 
desse a conquista da dilatada provincia do Brazil^ 
tao facil de adquerir peio remisso da defensa* co^ 
mo de se conservar pelo util do commercioi sendo 
este naquellas pra9aa a causa da frouxidao e de 
ocio. Yia-se a verdade da proposta ; palpaTa-se, 
pela facilidade da navega^ao, quanto menos custoso 
seria conduzir do Brazil a HoUanda o precioso 
d elle do que d'uma e outra India; e sem replica 
se approYou o dictame, que logo poserao em pra« 



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MiMumo wmatims II 

ika ; e em brevefi dias form^rao o corpo d'ttta noTt 
companhia noventa partes interesaadad. 

XV. Achava-se a nqva companhia com eabedal 
e forcas para iiitentar qualquer imporlante fac^ao^ 
6 eomo a primeira ha^ia de facilitar as mais , de« 
terminarao que se empregasse no melhor; asseo- 
Uado que invadissem a cidade da Bahia, como ca? 
be^a de todo aquelle Estado que pretendiao domi- 
nar; tendo-se por certa consequenQia a $ijjei9ao de 
todo o corpo, scDhoreada uma rez a cabeca. Prepa- 
rou-6e umaesquadra de vinte e seis vasos, parte doa 
EatadoQ, parte dos mercadores, guaroecida de trea 
mil soldados, couseguindo-se assim a observancia 
do segredo e a brevidade da execu^ao. Sa'k) a armada 
de Holhnda, em 8 de Maio 1 624 ; appareceo sobre 
a cidade da Bahia , que por entrepresa oocupou 
quasi sem resisteucia, entregaudo a terra primeiro 
o descuido de uosaa coafianca que a presteza de sua 
diiigencia. Quern uao sabe iemer nao se sabe pre-- 
Teoir; e no repeate dos assaltos obra mais a ooAr 
fttsao dos inyadidos, que o Talor e for^a dos iura** 
sores. 

XVI. Cbegou a noticia do sucoesso a Lisboa^ 
onde fez grande impressao; de la passou a Madrid^ 
onde pelo costume se faziao menos sensiveis as des* 
gra9as; e como esta era tao propria do reino de 
Portugal foi olhada peloa ministros como alhea da 
Goroa de Castella. Come^ava Philippe IV de Gas-> 
tella e UI de Portugal a governar a monarchia de 
Hespanha, de que tomou posse em Mar90 de 1 621 « 
Importunados os maiores ministros das quotidia«* 
MS instancias do omselho de Portugal , propose 



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16 GASTBIOrO LU8IT41IO. 

no e persuadirao a El Rei a importancia do nego* 
cio, tanto pelas premissas como pelas conseqiien- 
cias , de que pela vizinhanca do Brazil com as In- 
dias de Gastella ameacavao a ultima invasao de toda 
a America. Estava o zelo da reputacao do Principe 
com a viveza , com que se acha em os principios 
de lodos OS governos ; e com efficacia mandou pre- 
parar armadas, em uns e outros reinos, consignan- 
do-se todos os meios necessarios pera se executa- 
rem as ordens. De sua propria miM> escrcTco El Rei 
a todos OS grandes de Portugal , com o que muitos 
d'elles se derao por tao obrigados , que servlrao 
nesta occasiao nao so com as fazendas, senao tarn- 
bem com as pessoas. 

XVII • Saio de Lisboa D. Manoel deMenezes, ge- 
neral da armada portugueza, com vinte et seis vasos, 
e quatro mil homens de mar e guerra ; tomou a ilha 
de Cabo Verde, onde esperou ati ao fim de Feve- 
reiro pela armada castelhana , que se compunha 
de dobrado poder, de que era general e superior a 
todos D. Fradique de Toledo ; e unidas em um 
corpo navegarao as duas armadas com favoravel 
fortuna, e com animoso alvoro^o entrarao pela en- 
seada da Bahiaem sesta feira santa, 28 de Marco 
de 1625 , cuja vista fez nos animos tao differentes 
impressoes , quanto differentes erao os affectos : 
nos da esperanca causou excessiva alegria , nos 
do temor medrosa desconfianca. Desembarcou a 
nossa infanteria, saio em terra, escolheo sitio, for- 
mou quarteis , levantou trincheiras, dispoz plata- 
formas, acommodou arti Iberia, bateo asfortifica« 
foea do inimigo vigilante em se defender , at^ que 



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GA&rmi(m) ltjsitai^o. 17 

desenganado e opprimido entregou a cidade^ sai- 
gas as yidas, e saio em 20 de Abril corrido e casti* 
gado o mesmo orguiho que no Junho antecedente 
tinha entrado triumphante e atrevido, deixando^ 
nos a cidade tao abastecida e municiaday como se 
so nella entrara para a deixar fortalecida. 

XVIII. Mui sensivel foi este golpe para a nova 
companhia, e supposta que o tolerou sem desmaio, 
teve aberia muitos aunos a ferida (sopprindo o ani- 
mo a falla-das forcas). Nao se rendeo ao primeiro 
golpe da fortuna.; continuou a infeslar aquelies 
mares alguns annos sem maiseffeito que o desojo 
da Tinganca; outros, com o de alguns roubos e pre- 
sas, com que foi criando aquelle corpo novo san- 
gue e mais alenlados espiritos; e vendo^se os in- 
teressados senhores de muita parle da prata , que 
para Castella conduzia das Indias D. Joao de Be*- 
navides na frota de anno de 1630, resolutos e 
animados intentarao seguoda vez a conquisla do 
Brazil , esperando da fortuna melhor semblante. 
Depois de largas conferencias concluirao que nao 
convinha eiperimentar a sorle na Bahia y a onde 
presumirao certa a resistencia. Nesta occasiao che*- 
garao a Hollanda algumas presas^ que se haviao feiio 
em navios de Pernambuco^ e com ellas a informa** 
cao do recbeio , e descuido da (erra , tao opolenta 
de riquezas como pobre de forcas. Servio o aviso 
de confirmar o desejo, e assen(arao que fosse Per- 
nambuGo o alvo d'aquelle segundo tiro. Repetidos 
avisos dos cossarios que corriao aquelies mares con- 
firmarao os intentos do HoUandez , e animarao a 
diligencia com que se preparavao os navios, de ma- 
L 2 



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IB GAflTltUm) tUtlTAHa 

nw*a que em hrevM diaa poz no map uma armaiUi 
de oujo porte fiava todo o bom successo, 

XIX. Se 08 crimes e peccados doa horoeus pro«- 
▼ocao alguma vez 08 castigoB do ceo, podamoa sup- 
por que aa calamidades que aobrevi^riio a capita* 
nia de Pemambuoo maia aao devidas aos conaeUioa 
da Providencia que 48 astucias da politica. Alimen- 
tadasdo8 deleites brotarao de sorte as demaziaseQ-o 
ire OS moradores de Peraambuco , que suQbcavao 
a razao, e desconheciao o pejo : nao havia para ca- 
da qual mais lei que seu proprio gosto. A continua- 
cao sepultou as memorias da censura; eanimada do 
lucro y da abundancia e da riqueza, desprezara a 
nola, correndo a maliciataodeseufreada pela sutis- 
facao dos apetites, que chegavao com as obras onde 
chegavao com os desejos. As lascivias^ os fauslos^ 
OS regalos, as vaidades, as usuras, os roubos, as 
emulacoes , as vingancas, os odios ^ as aleivozias, 
e as liberdades, de nenhum sa estranhayao, por* 
que era exercicio de todos os que podiao. A vida que 
se sustenta do vicio sempre conduzpara a iujuria, 
e nunca para a bonra, sendo natural effeito das de*- 
mazias afeminar os animos, desatender os castigos, 
e nao imaginar nos futuros. Vio-^se na desatencao 
com que todos yiviao, que servindo de reclamo 
para a invasao, foi o lotal desvio para a defensa, 
sendo a mesma mao do peccado a que pegou do 
acoute para executar o castigo, permittindo Deos 
que com a mesma diligehcia, com quese tractava 
da conservacaOy se execntasse a ruina. 

XX. Individuahnente se sabiao em Hollanda 
todas as disposicoes que levavao a villa d'OUnda 



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CASTBIOTO LUSTTAIIO. 10 

a sua ultima perdicao; nao faltando mais para cair 
que encostar-lhe a mio ao peso que a fazia decli- 
nar. Em 29 de Junho de 1 629 poz a Companhia 
occidental de verga d'alto cincoenla e quatix) vasos 
sorteadosy e guarnecidos de 7,280 homens^ entre 
mareantes esoidados, munieiadoseforoectdospara 
tedo o successo da dilacao, da resistencia e da con- 
quista. Navegarao divididos emdireilura a ilha de 
Sao Vicente, ou deCabo Verde , a onde enoorponi- 
doft sairao a 26 de Dezembro do dito anno, huscando 
a altura do Brazil. Era general da armada Henri- 
que Lone; almirante, Pddro Adrian; 80ta*almi- 
rante, JustoTraper; coronel de guerra, Frederlco 
ou Theodoro Wandemburg. A todos vai eaperar 
esta historic a villa de Olinda^ no seguinte IWro. 



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LIVRO II. 



SUMMARIO. 



1. Tern El Rei ayiso dot intentos do Hollandez; atisa a Diogo Luix 
d'Oliveira, governador do Brazil. — 2. Toma porto em Pernaia- 
buco Mathias d' Albuquerque. — 3. Chcga a Pernambuco um 
patacho de aviso; convoca Malhias d* Albuquerque o conselho.— 

4. A armada bollandeza avUla o cabo de Santo Agostinho. — 

5. Reparte o governador a gente com que se acha. — 6. Apparece t 
armada *obre Pernambuco. — 7. £mbaiiada do general bollan- 
dei ; resposla dos nossos. — 8. DA o inimigo uma profiada ba- 
teria U forcat da barra; rettra-se do combate ; delta gente no Pao 
Amarello. — 9. DA-se rebate na villa de Olinda; coifUsao dot 
nossos. —10. Passa o inimigo o rio Doce ; acode Mathias d'AIbu- 
qaerque, mas 6 obrigado a retirar-se. — 11. Entra o inimigo na 
villa d'Olioda; estragos que abi commette. — 12. Fez-ie senhor 
do Arrecife ; animosa resolugao de Andr^ Pereira Temudo. — 
13. Desbumanidades executadas pelos berejes, e pclos proprios 
naturaes; Matbias d'Albuquerque manda pdr fogo a mullos navioa 
nossos. — 14. Saquea o inimigo a villa e Arreeife ; nelle se for- 
tifica. — 15. Joao Fernandes Vieira se mette na fortaleza da 
terra , que o inimigo intenta tomar por entrepreza ; da qual se 
retire castigado. — 16. Commette o inimigo seguoda vei a for- 

laieza. 17. Valerosa rcsistencia dos uossos, que se rendem a 

partido ; Joao Fernandes Vieira faz com que nao padecao nossas 
armas. — 18. Segunda embaixada do inimigo a fortaleza do 
mar ; votao os do presidio que se entreguem, contra o parecer do 
tenente. — 19* Desaforos executados pelo hereje. 



I. A demaziada diligencia de encobrir as cousas 
6 o pregao d'ellas : a necessidade de as communicar 
6 a que as leva & praca. Em di versos portos do Es- 
tado da Hollanda mandou a Gompanhia occidental 
preparar e fornecer os vasos , que determinava em* 
pregar naconquista do Brazil, para que nao fazendo 
em parte alguma rumor o excesso, em todas se ti- 



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CASTWOTO LUSITANO. 21 

rasse o motivo & curiosidade, e As intelligencias. 
Esla cauta disposicao , com que se disfarcava o de- 
SJgnio, deo occasiao a que se penetrasse o intento , 
primeiro inferido da suspeita, depois alcancado 
danegociacao. Governava por este tempo os Esfados 
de Flandes , pela coroa de Castella y a infanta D. Iza- 
bel Clara Eugenia ( viuva do archiduque Alberto, 
e filha do segundo matrimonio d'El Rei Philippe , 
que cham4rao o Prudente) , cuja vigilancia descobrio 
o que encobria a cautella , comprando at^ as mais 
escondidas deferminacoes do inimigo. Com toda a 
brevidade despachou um correio a Madrid , dando 
inteiras noticias a El Rei Philippe o IV de tudo 
quanto o Hollandez intentava. — Conhecendo elle 
o damno da dilacao , fez logo aviso a Diogo Luiz de 
Oliveira , governador do Rrazil , em como o Fla- 
mengo armava contra aquelle Estado , com deter- 
minacao de ir sobre Pernambuco ; porim que adver- 
tisse, que de ordinario punhao os invasores a mira 
em uma parte , para darem em outra mais a seu 
salvo o tiro. Recebeo Diogo Luiz o aviso, e com a 
pressa possivel acudio a reparar e fornecer a Bahia, 
que condemnava a suspeira ; e a Pernambuco, que 
ameacava a fama. Para este Gm mandou a Pedro 
Correa (pessoa experta que tinha medianas noticias 
da fortificacao ) que fosse a Pernambuco reparar a 
villa e o Arrecife de tudo o que Ihe parecesse ac- 
€ommodado i defensa e & bi^vidade. Chegou Pedro 
Correa, e com as ordens que levava certificou a 
prtftica, que corria, de que o Hollandez intentava 
a conquista d'aquella praca. Ati entao nao achava a ' 
nova mais credilo que de fama vaga; d*alli por 



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9> camoto ujUTAMa 

diM^t^ achava em algous creduUdad^, em outeoa 

^^pffm. Deo Pedro Ck)rrea principio 4 fortifica^ 

^^^ou cercar a villa de irincheiraa, e a povoa^^o 

do Arrecife de palicadas de p4o a pique j Q auppoBto 

fl^^ ^ muitoa assaltou o receo , a muUo poucos 

^*^^ou o desengano, acudiudo os moradoret 

^^^^■^ taula fpouxidao aos reparos, que mais Iraba- 

Ih^vio para o efpauto que para a defensa, satufa* 

^*^^o i brevidade do tempo, e uao A segurau^a do 

P^^igo. 

*!• Engplfado andava Pedro Correa uesta obrw 
«f^iia, quaodo se divulgou na Tilla que Matbias 
d'iVlbuquerque entrcva pela barra com duas embar* 
c^^oea, das quaes viuhao por capitiea Joao Alvarea 
Barbuda, e Gil Correa de Caetello Brauco; foi re- 
cebido com alvoroco , e logo depois com eapanto , 
aat^eodo-seque era mandado por ElRei com soldadoa 
e ix»wii9oe& para prover e guamecer a terra ^ i qual 
ordenava que em tudo obedecesse As ordens que 
trazia de capiiao maior , e governador das armas , 
poor quanto sabia de certo que o Hollander com uma 
poderosa armada vinha sobre a villa e seu porto. 
Apreseutou Mathiaa d'Albuquerquea&ordeaa; por 
elbs foi obedecido, por^m nao festejado* Reudeodo 
poalade capitao maior a Audr^ Dia& Ferreira, qut 
9 occupava ; via e approvou quauto Pedro Correa 
tioba obrado em ordem A fortiCca^ao ; e conCormes 
BO porecer derao principio ao reduto pegado A Cortar 
leu da tejrra, fiaodo ao zelo d« Diogo Paes a luzi« 
iM»nto da fabrica. Qbra sem fructo , porque vim 
love im , nem cbegau a ter prestimo. 
UI. Gh^)ou enu*etaato a armada hoUafldeu, i 



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CASXaiOTO LUSITA^a 33 

ilha de Cabo Verde , onde era governador Jodo Pe* 

reiraCorte Real. Observou este a cautella e o poder 

da frota^ que escondia o designio ao mesmo tempo 

que fazia 06tenta9ao da for^a (ardil que dava a en-* 

tender a ofiensa); fez diligencias por se assegurar 

na sospeita ; e depois que pela derrota conheceo 

que buscava aallura do Brazil, se informou d'ai- 

guns homens^que o inimigo por varios accidentes 

deix&ra em terra , e como todos const an temente 

affirmassem que o HoUandez ^ com aquella armada 

ia sobre a villa de Olinda e seu porto , para ga- 

nkar porto e yilla por entrepreza; eotendidaa via- 

gem despachou com toda a pressa um patacho a 

PernambucOy fazendo por elle aviso aos moradores 

do amea^o , para que prevenidos rebatessem o golpe. 

Festejavao estes com grande regozijo o nascimento 

do principe Balthazar Carlos Domingos , herdeiro 

de tantas coroas j quando chegou a trisle nova do 

perigo que os amea<;ava. On fosse por descuido, 

pn fosse por razao d'estado, Mathias d' Albuquerque 

mo deixou de continuar no festejo, que a occasiao 

faaia parecer feiti9o.Nao faltou quern acouselbasse 

o successocom afirmar o desvio^ dizendo que se a 

armada do Ftamengo viera em direitura a Pemam- 

buco, cheg^ra muito antes que o patacho d aviso 

( partindo este tantos dias depois della) , que indu- 

bitavelmente havia tornado ouiro rumo, pois o 

patacho a nao avist^ na costa. — Entre a seguranga 

e o receio fluctuava o pareeer de todos : a indiffe*- 

renqa nao deixava acudir & importancia. Conti- 

nuavao-se as fortiGca96i''S com braqo remisso, que 

obrava mais para saiisfazer ao engano que para 



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24 CASTRIOrO LUSITANa 

dispor o remedio ; julgando-se cada qual tao longe 
do damno como se imaginava do perigo. Chamando 
€9tava o tempo pelaresoIucao,quandoMathiasd'Al- 
buquerque convocou a conselho aquellas pessoas 
que nielhor poderiao volar na disposicao da de- 
ft^nsa por interessados, ou no credito , ou na fazenda. 
Assentou-se que nenhum morador lirasse da villa, 
nem pessoa que fosse de sua familia , nem cousa 
que pertencesse a sua fazenda. Suppunhao que 
sendo igualmente de todos o interesse , seria de 
todos igualmente a defensa. Muitos ( cujo animo 
servia mais & desconGanca que & resistenciay forao 
de contrario parecer, dizendo que cada qual po- 
sesse em cobro o mais precioso e o mais estimado 
de sua familia e iazenda , para que na occasiao in- 

diviso o cuidado assist isse todo o coracao ao braco : 

* * 

tomavao por fundamento aberto da praca , e a 
contingencia do successo , que sendo favoravel ao 
inimigo havia de medir a victoria pela riqueza do 
despojo , e nao pelo formidavel da batalha , e ali- 
mcntaria os insentivos da cobi9a com a riqueza do 
saco. MostrarA esta historia quanto neste voto dis- 
tava o conselho do animo. 

IV. Chegou o dra de quinta feira 1 3 deFevereiro 
do anno de l630 (oito dias depois que entrou o 
patacho d'aviso), e nelle avistou a armada hollandeza 
o cabode Santo Agostinho, tonK)u o panno, e fa- 
zendo-se conselho na capitania, nelle se decretou 
o lugar, o tempo e a f6rma em que se havia de 
investir com nossas fortificacoes , ordenando ao co- 
ronel Theodoro Wandemburg, que com dezeseis 
fragatas, 2/200 infantes e 700 marinl^eiros se apar- 



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GA8TRI0TO LU8ITA1I0. 25 

tasse do corpo da armada, quando menos o deixasse 
advertir o conflicto, e deitasse a gente na paragem 
do Pio Amarello , tres legoas apartado de Pernam- 
buco para a parte do norte , que acharia sem 
opposicao, acudindo no mesmo tempo b grosso da 
nossa gente a onde o cham^ra o engano , ignorante 
da parte em que a pedia a necessidade. Sabia o 
Flamengo que o *bom successo das empreias pede 
acertadas disposiqoes, e que as mais ditosas sao 
aquellas que nao deixao interpolacao de tempo entre 
over e o investiry dandolugar ao inimigo a que sinta 
descarregar o golpe , por^m nao a que veja o braco. 
V. Logo que do Cabo de Santo Agostinho se des- 
cobrio a armada inimiga com settenta e sette velas, 
86 deo rebate em Pernambuco. governador das 
armas M athias d' Albuquerque , achando em todos 
prompta obediencia , repartio os capitaes pelos 
postos, consignou gente para as esiancias , medindo 
o numero pela capacidade , e a escoiha pela impor- 
taocia y para que chegada a occasiao se visse cada 
qual obrigadoa guarnecer o lugar predefinido. 
A guarila de Joao d'Albuquerque ( era um reduto 
situado no caminho da praia, que faz transito da 
villa para o Arrecife)encarregou ao capitao MartiiA 
Ferreira com uma companbia paga ; com outra 
companhia, de que era capiiao Francisco Tavares , 
guarneceo outro reduto que esf ava entre a Tilla eSao 
Francisco y na rereda que guia para o rio Tapado e 
rio Doce. A infantaria da ordenanca , tanlo da villa 
como do termo (da qual erao coroneis A mbrosio Ma- 
ehado de Carvalho, e Pedro da Cunba de Andrada) 
dividio por diversos lugares na f(>rma seguinte. 



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M GamOTO UISITAIiO. 

Para a guarnic«M> dis triacheiras da villa nom^ou <m 
capitaes Roque de Barron Rego, e Salvador de 
Azevedo, com as suas companhias. Affonso d'Al** 
buquerque^ capitao da noln^za (debaixo de cuja 
faandeira se alistira Joao Feraandes Vieira com 
poucos annosy muUo valor e muila estima^ao), e 
Manod da Costa Galheiros (assim mesino capitao 
doft nobres) tomirao por sua conta a defensado Ar* 
recife, cajo presidio engrossou o governador com 
um troco de geote ordinaria, que capitaneavaFraor 
cisco MoBteiro^ e outro de soldados bisonhos lo- 
vanlados no reino^ seu capitao Andr^ Pereira Te- 
mudo. A defensa do rio Tapado deixou a cargo do 
capitao Francisco de Freitas« As for^as de mar e 
terra, que deiendiao a barra, fiou ao valor dos ca- 
pitaes Antouio de Lima , e Manoel Pacbeco com 
sua gente. Da palicada do Arrecife fez entrega ao 
capitao Bento de Fieitas^ assistido da gente da 
mesma povoa^ao^ e de alguoias mangas de mora* 
dores da villa« Por cabo de tx>da a infantaria no^ 
meou Matbias d' Albuquerque a Andrd Dias da 
Franca f e por sargento maior a Rai Dias Borges 
(em feilta de Manot^l de Sou2a , que o era de pro* 
[^riedade). Para governar algumas tropas de ca- 
vallaria da terra ficou Matbias d' Albuquerque , 
correado por conta de seu cuidado acudir to partes 
oode a neeesaidade mais o pedisse. 

Yi. Formidavel e aprazivel appareceo aos ojhos 
dos mroradores a armada inimiga em 4 5 de Feve- 
reiroi que de mar em fora com todo o panno nave- 
gava buscando a terra , assim povoada de bandei*- 
n%p flamulasr e galbardeies de tantaa e tao div«rsas 



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CASTB20T0 UIglTAIia 37 

coreSy concedidas e negadas a beneficio do veatO| 
que as viao tremulas os olhos , e coofusamente le- 
merosas os juizos. A mnltidao dos clarios, repetida 
dos ecbos^ euxia os ouvidos de bellicosa harmooia) 
e OS coracoes de formidaveis consequencias. te^ 
mor e a esperanca, que occupava osaniinos, diver- 
sificava os obj^tos; razao por que a mesoia armada 
produzia em uns coracoes effeiios tristes , e em 
outros alegres ; estes recebidos da esperanca, aquel- 
les do temor, enlao dis^imuladoa do artificiOy de- 
pois acusados do successo , achatulo ix) Hollandez 
agasalho uns, persegol^ao outros. Arribando aobre 
o rio Tapado deo mostias o inimigo de querer por 
aquella parte £azer a envestida : era o iutento ca- 
pear um eugano com oulro engano, para que^ oc- 
cupada a atten9ao dos mcH^adores uas partes donde 
a chamava a fic^ao, Ihes ficasse seotido para reparar 
a iodustria, com que por lugar ditTerente os com*- 
mettia a verdade* Aqui se apartou o Wandemburg 
com sua esquadra , coberto do fumo e da terra, e 
favorecido do eogaoo da armada (que represen- 
tava no maior numero dos vasos o maior poder do 
inimigo) com que veio caindo sobre Pernambuco^ 
certificando o assalto , sem individuar a parte do 
conflicto. 

VU. Surg^> toda a armada a tiro dc canfaao das 
Qossaa fortalezas^ era todo o intento do inimigp 
lograr a industria com procurar a dtversao ; e por 
occultar os desejos de entreter se valeo das apparen- 
daa de conquisiar, pava que sc d^sse tempo a que 
o coroaelWandemburgy on como Ihe chama o vut- 
gp Thwdoro Wandembuiy, deitaase bo Pao Amar 



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jg CA8TBH)T0 WSITANO. 

reUo a gente que levava, sem opposidiO que a des- 
TompoJesse. Da capitania despedio um batel , e 
neZum tambor, pSo qual mandou di.er aos pr^ 
sWios das for<^ da bam e Arrecife, que e\»e v.nha 
comaquella armada a senborear a lerra, com or- 
dens dosEstados, para a dominar, e nao para a de^ 
truir, que \b'a entregassem , e a t«dos faria ami- 
gaveis partidos, favorecendo a obedienc.a ; porque 
havia de castigar a fogo e a ferro a rebeldia ; e que 
se nao fiassem em forcas deslituidas de soccorro, 
porque se cbegassem a medir as espadas , occupa- 
dos OS animos de seus soldados do furor se escu- 
sariao de loda a piedade; que acceitassem os offe- 
recimentos da clemeocia, antes de os obrigarem os 
destrocos da ira, a qual se podiao adiantar, toman- 
do o conselho que Ibes dava o excesso do poder ; e 
advertindo-lbes que a desproporcao da defensa ta- 
ria infallivel a ruina. - A voga arrancada i?mha 
o mensageiro em direitura a fortalexa do mar ; e 
a seguranca foi para os nossos informaeao do de- 
signio, e com uma carga de mosqnetana adianta- 
rao a respbsta a embaxada , firmando a resolucao 
com OS testemunbos do desprezo, para que enten- 
desse o inimigo que tinha muito que veneer a onde 
esperava a prevencao e o valor. 

VIIF. Indignado o Flamengo com semelhantp 

acolhimenio, que reputou provocacao de sua co- 

iera, mandou baler a tudo que podia alcancar sua 

artelharia com tanta obstinacao e furia , que em 

sette horas de combaie metteo dentro do Arrecife 

dnas mil balas. Nao faliarao os nossos k devidaco^ 

'^poadenciB » « com tao ditoso effeito, que sentio 



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QASTUOTO voeiTAm. 29 

o inimigo a pumtualidade da retorno^ arriscado a 
chorar maior a perda^ com o perigo em que vio 
uma de suas fragaUs/ a qual no maior fervor de 
suabateria tocou nos arrectfes, tao perdida, que 
para a salvar se empenhou a iodustria, a forca e a 
diligencia. — A' escuta noite, que adiantoua fuma- 
ca do conflicto^ succedeoa do tempo; fez-seo inimigo 
na voUa do mar, e livres os nossos tiverao occasiao 
para adveriir o pouco damno que havia causado a 
bateria. Na povoa^ao do Arrecife nenhum outro 
fizerao as balas mais que passar as paredes dos edi*- 
ficios, sem prejuizodo8^soldado$. Na fortaleza do 
mai* iic^rao qualro mortos e sette feridos^ haTendo- 
se nelle o Tcnente Pedro Barboza commuito valor e 
acordo. Confuso se achou o Hollandez, mostrando- 
Ihe a experiencia o erro da opiniao : persuadia-lhe 
a presumpcao que sua armada primeiro havia de 
veneer com o temor que com a forca ; sem razao 
discurria ; com muila descursava , se fazia funda* 
mentp em promessas alheias (aillrma-se que se uns 
o rebatiao y outros o chamavao ]. Abaieo as vc^ias da 
armada e da soberba y e em arvore secca esperou a 
fortuna do Wandemburg no assalto fortivo que ia 
executar na paragem do ?&o Amarello , de cujo 
successo esperava toda a melboria de sua sorte. — 
Navegavaentretan to Wandemburg cum asdezeseis 
n^os, levando nellas mais infantaria da que temos 
dito ; che^ou no mesmo dia y a lao boas boras ^ ao 
Pdo Amarello y que favorecido da occasiao e do 
tempo poz em terra gente , muai96es , artilbaria, 
e manlimentos sem contradiccao que o impedisse y 
ou detivesse ; formou-se em, quatjo batalhoes , e 



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guarnecco-9e com siifficientes trincheiras. prr- 
meiro esquadrao constaTa de algumas mangas de 
escolhidos mosqueteiros, que na vanguarda aerTia- 
sem de descobrir ^ e assegurar o campo das embo5- 
cadas que lemia por junto da praia. segundo se 
formava de 934 soldados y que goTemaya Estienca- 
lui, ou Esiiencol, tenente coronel. terceiro 
govemava o coronel Stens Calolt , ou como ouiros 
deziin , Elestz, com 1040 soldados. quarto cons* 
lava de 966 infantes As ordens do coronel Juleo 
Henechio , tenente do sar^ento maior. Compunha- 
se este todo de trinta e seis b:!ndeiras ; lerava quatro 
pecas de campanha ; e nesta fdrma passou o iminigo 
toda a noite com as armas na mao, presumindo que 
nosso descuido era ardiloso cuidado : discurso mui 
de hoinem e de soldado. 

IX. Com algumas boras d'escuro se diviilgou 
na povoacao de Olinda que o inimigo tinba deitado 
em terra , no Pto Amarello y muita geiite , com 
a qual vinha marcbando para a villa. A distancia 
era de tres para quatro legoas ; a nova f6ra de toda 
a suspeita ; o tempo coberlo de sombras ; causas 
para se augmentar a confusao , que nasceo do re- 
bate. — A todos tirou o sobresalto da memoria a 
defensa; a muitos facilitou a vontade da fugida ; e 
a mui to poucos deixou acordo para a resistencia. 
molberio, dando credito is persuasoes de fragi- 
lidade , despi'ezava as da razao. As lagrimas y e 
gritos pubHcavao a dor das feridas , antes de verem 
as espadas ; pintando-lbes o medo primeiro o es- 
trago que o conflicto ; obrigando com a lastima 
WB maridos, irmaos e parentes a faltarem ms 



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cuniaio tuuTAvo. ll 

briosdebonni por nao desmeQiirem os impulsos do 
iangue. A pressa em todos era tanta, que se tro*- 
pessava naa mesmas diligBncias ; o desacordo ta- 
manho, que de qualquer inovimentD fazia batalha, 
de qualquer vista formava coQtrariofi. Com esta 
corifusao Ba'irao muitas familiaQ da villa para o 
mato , ensinando-lhes o amor da vida a desprezar 
o maia precioso da fazenda. Os escraros servirao 
i^sta occasiao de serem senhores de seus senhores; 
moatrando bera que os tinha feito servos a violencia, 
a nao a obri^a^ao ; fallando ao servi90 , quando os 
ehamava a liberdade. Todos caminhavao, nenhum 
sabia para oude , nem para que ; todos fabrieavao 
em sua prapria diligencia sua perdicao , uns na r^ 
tirada ^ outros no roubo. Maihias d'Albuquerque y 
a quern uesta confusao desconhecia a obediencia j 
via-ae destituido de poder para sair ao encontro do 
inimigo ; acompanhava-o a honra d*alguns valentes 
e animosos moradores , mas para a presente ocea* 
siao faziao tao pouco numero, que dravao a con^ 
fianqa & temeridade, quanto mais ao atrevimento. 

X. No dia seguinte 16 de Fevereiro se pos^rao 
era marcba, levaudo o coronal Wandemburg^ a van- 
guarda de seus esquadroes , cujo centro formava o 
trem de sua artilharia, dilatandoa circumferencia 
at^ as praias do mar^ pelo qusl Ihe faziao compa^ 
nhia todas suas lanehas^ varejando al6 oude cfursavao 
as balas. Nao deixou de ser perseguido o Hollandez 
por algnmas mangas nossas que formavao animosos 
mancebos chamados do primeiro rebate, cauaando- 
Ibe nao menos receiocjue estrago^porque cobertos dos 
matos erao tao certos seus tiros como desconhecido 



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33 CASTRIOTO LUSITAIia 

seu numero. Chegou ao rio Doce, cuja passagem 
achou empedida com trincheiras , e presidios de 
gente da ordenanca y que governavao os capilaes 
Francisco Tavares, e Martim Ferreira, mais para 
temer pelo vulio que pela disciplina. A falta d'esU 
conheceo o inimigo pelo mat cerrado das cai^gas ; e 
nao temendo aos que sem ordem Ihe haviao de I'e- 
sistir» cocQiuetleo a passagem com todo o poder, 
avancando as tiincheiras , que os nossos desampa* 
r^o com aquella desordem, que faz parecer a re- 
tirada fugida ; sendo lao poucos os que leve cons- 
tantes o valor que podeiao servirpara niostrar a dif- 
feren^a , por^m nao para sustenlar a opposicao ; o 
que fizerao por algum tempo com damno de mor- 
t08 e feridos de uma e outra parte. — Ouvindo os 
ultimos golpes do conflicto chegou a avistar aquelle 
sitio Mathias d'Albuquerque acompanhado de gente 
de p^ e de cavalio com um Iroco que, contado pelo 
numero, era de 760 homeus , mas pela disciplina 
constava demui poucos soldados, e lodos animosos, 
por^m sem exercicio da milicia. Vio o govemador 
OS defensores da passagem depois de desbaratados, 
descompostoSySem arte que os composesse (primeiro 
vencidos da propria impericia que da alheia ror9a)^ 
Irabalhou por os recollter ao seu esquadrao y em 
que conheceo a mesma falta; escusou-s6 ao encontro 
com a certeza de pei der a batalha, e se foi retirando 
com o intento de esperar o Flamengo na passagem 
do rio Tapado , que havia vadear com agua pela 
cinta, mas a poucos passes, achando-se desamparado 
do maior numero da companhia, e s6 assisiido dos 
capitaes eoiBciaes com poucos soldados, vio-seobri- 



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GASTRIOTO UmiTAlfO. 33 

gado a obedecer a necessidade retirando-se para a 
villa. 

XI. Fayorecido de nossas omissoes proseguio o 
inimigo sua niarcha aerviado-Uie de guia, na reti- 
rada, os que nao servirao i defensa. Corria com os 
paaaos de sua fortuoa, e para voar Ihe dec azas 
nossa deagra^ , porque urn homem nosso se Ihe of- 
fereoeo para os guiar para a villa por caminho mais 
seguro e de menos rodeio. (Por infamar os mora- 
dores escrevem alguns que foi um d'elles ^ por^m a 
iorormacao da verdade diz que foi um mulato de 
pouca sorte. ) Avistou o inimigo a povoacao, e divi* 
dido o poder em trocos, avancou por diflferentes 
partes ; nas quaes , se achava homens y nao achava 
inimigos. Com o grosso do poder subio a apoderar- 
se do alio da villa, achando eoLO coUegio da Com- 
panhia alojamento, sem encontro. A um tropel, que 
guiou por detraz da cerca de Sao Francisco, deteve 
o capitao Salvador d^Azevedo com vinte dous solda- 
dos y que favorecidos do sitio sairao de cara a cara 
a rebater o Holiandez, mostrando sen valor a todos, 
o que iodos deviao fazer. Era o passo estreito y o 
animo dos nossos destemido, razao por que o en- 
contro foi porfiado ; e nao forao os nossos vencidos 
se a virtude se nao vira opprimida da multidao, 
que A custa de muitosofficiaesesoldados franqueou 
a marcha, com deixar a todos os nossos ou mortos 
ou feridos. — Chegou o Flamengo & igreja de Jesus, 
onde muitos dos nossos se tinhao fortificado, e ar- 
rebalado de diabolico furor contra o sagrado deitou 
por terra as portas do templo, ferindo sem pie- 
dade os que nelle se acolherao. Um grande tmpel 
I. 3 



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envestio o reduto que firava A «ntrada da rillk tsbm 
tumulto e ousadia; mas nelle achdrao profiada 
resistcncia da parte do3 derensores, que com oargas 
d'artilfaark e mosquetaria detiv^rao algum tempo 
a corrente do orgulho conlrario , e talvez os teriao 
rebatido se nao fosse a trai^ao de dons Flamengos, 
que estayao entre os nossos > chamado urn Adriao 
Franco, outro Cornelio Joao, os quaes temendo os 
efFeitos de nossa resolucao, com traidoras intelli- 
gencias derao edtrada aos seus , e se deixdrao ficar 
com elles no reduto ; do qual salrao rendidos os 
nossos. Pelo tempo adiante pag&rao os dous Fla- 
mengos esta traicao com outra, que no Arrecife os 
levou ao supplicio por servirem d'espias dobles , 
infieis a proprios e a estranhos. 

XII. Apoderado o inimigo da villa e de suas fiwrti- 
ficacoes (um sabbado pela tarde, 16 de Fevereiro 
de 1630) continuou Mathias d* Albuquerque em 
obrar o possivel , com trabalho inutil. Como por 
destine o levavao as retiradas a guiar o inimigo para 
as investidas. Nao ha erro que se nao encadte com 
outro erro. nao ter comsigo gente com que de- 
fender a villa o tirou para o Arrecife : era de menos 
ambito a povoacao, e bastava-lhe menos gente 
para a defender ; por6m na retirada desamparou-o 
tanta , que se vio com mends do que era necessario 
para guamecer sufficientemente a palicada» Quiz re- 
mediar com a induslria a falta do poder, e mandou 
aos capitaes Joao Paes Barboza, Martim Ferreira , 
Francisco Tavares, que com a gente que tinhao cor- 
tassem com uma trincheira o caminho da villa 
para o Arrecife, a onde as avancadas do inimigo 



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fliSnWTO UaTAMu W 

qudbrasaett a in^imdra filria, e detivdSMili a coi^ 
rente de tanta victoria ; preveneao que o Hollimdes 
deixou fruglada ^ guiado d'outra vereda , que Ihe 
deixou livre a envestida e aos nosaos franoa a reti- 
rada , em que jd obedeciao ao cuatume ( nao sei se 
permittido de mais que humana proTidencia)* 
O restante d'aquelle infau^to dia gastou o Flamengo 
em extor^oes, violencias e roubos, atropellaodo 
com a tyrannia as leis da humanidade. — Nao pode 
o valor e soffrimento de Andr^ Pereira Temudo 
coiB as exorbitantes demazias do sacrilego hereje, 
e levado d'um catholico zelo envestio, junto i igreja 
da Misericordia, com uma tropa de Flamengos^ 
abrindo com a espada camioho para a morte e para 
a vingan9a» & custa de sua vida^ e da de muitoa 
contrarios. 

XIII. Referir a calamitosa tribulacao dos aSlic* 
tos moradores fora mais representar uma tragedia, 
que eacrever uma historia ; basta dizer que o vie- 
torioso era Hollaodezy hereje sobre inimigo^ e cos- 
sario sobre hereje. Para augmentar o estrago se 
valeo a fuiia de proprios e contrarios. Os facino- 
rosos que a justi^a depositava nos cai ceres , rom- 
pidasasprisoeS) sa'irao com impetuosa correntea 
continuar os deUctos, roubando sem medo, ferindo 
sem causa , matando sem colera ; pagando a inno- 
cencia a prisao, de que fez injuria a malicia. A 
mesma diligencia, com que os tristes moradores bus- 
cavao o remedio^ os levava i ruina. As mulheres 
de todo o estado ^ e as criancas de urn e outro sexo^ 
que anticipadamente fortavao o corpo i violencia , 
a padec^rao menos soflrivel, porque mais insup- 



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S6 GAsnnyio lusitaiio. 

portavel se fazia executada pelos proprio6 que pelos 
contrarios, despojando-as do que pod^o salvar de 
seus rooveis para o servico de seu adomo ou de sua 
necessidade. Forao estes aquelles , aos quaes nem a 
honra obrigou a defensa, nem a humanidade a com- 
paixao. Pelo excesso os distinguia dos herejes o es- 
candalo ; porque com maior insolencia nao sabiao 
fazer differenca de pessoa a pessoa, de lugar alugar, 
de edificio a edificio. Vio-se a fatalidade da perdicao 
em se intentar a reserva "por meio do estrago. — 
Ao mesmo tempo que o furor dos inimigos 
consummia e abrazava na villa honras, vidas e 
fazendas, ardiao no mare no Arrecife trinta na- 
vios , e lodos os armazens , a que Mathias d' Albu- 
querque mandou p6r fogo; e nelle, al^m d'outras 
muitas drogas, ard^rao mais de duas mil caixas 
d'assucar, em que as chamas consumirao a posse 
e a esperanca da riqueza e da cobica. Espectaculo 
que OS estraugeiros viao com espanto, os naturaes 
com lastima. Fez o successo parecer profecia o que 
antes havia sido comminacao evangelica. 

XlV.Vendo o Holiandez que os nossos abando- 
navao as chamas aquillo que uao podiao guardar 
nem defender, Ucenciou aos soldados o Arrecife e a 
villa, condemnando todas as casas dos moradores ao 
saco.Engolfou-seoroubono permiltido enovedado, 
igualando a cobica a hostilidade e o estrago , sem 
perdoar aos mesmos editicios. Entre as logeas (que 
achou com muito recheio de fazendas, e nellas tudo 
o que podia servir ao decoro e a vaidade ) havia al- 
gumas bem providas de tudo quanto a natureza e a 
arte podem offerecer a gula; nestas se engolfou a in- 



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GASTBIOrO LUSITANO. 37 

fame dos Flamengos , satisfazendo a sede e ao cus- 
tume com preciosos yinhos, e com tanto excesso^ 
que privados do juizo e dos sentidos, ou o somno 
OS deixava insensiveis, ou a carga os fazia immoveis. 
Os escravoSy vendo derrotados tao yilmente aos que 
respeitavao victoriosos, como senhores do campo se 
fizerao arbitros da presa , roubando aos cossarios o 
mais precioso dos despojos. Alguns houve, a quern 
o roubo nao fez esquecer a fidelidade , que forao 
dar conta a Matbias d'Albuquerque, afirmando- 
Ihe que, se queria aproveitar-se da opportunidade 
passaria o inimigo a espada , certo de que no pre- 
sente estado nao ia a buscar homens, seuao odres. 
OfFereceo-se um paizano, com alguns companheiros, 
para o assalto ; mas desprezou-se a offerta , porque 
a calumniou de infiel a suspeita. — Findo o saco 
atlendeo o Flamengo a fortificacao da villa e do Ar*- 
recife ; nao porque temesse o assalto dos nossos , 
senao por ter sojeitos e disciplinados os seus. 

Xy. Davao cuidado ao inimigo as forcas que de- 
fendiao a barra (erao duas, a do mar e a da terra) : 
queria franquear o porto a armada queesta va no mar, 
e reduzir a communicacao dos seus a menor distau- 
cia. Preparourse para ganhar por entrepreza a forca 
da terra, prevenindo todos os petrecbos necessarios 
para o assaho, e todas as cantellas para o segredo. 
capitao Antonio de Lima, govemador'da for^a, 
nao perdia tempo em se fortificar e guamecer de 
tudo o que era necessario para a defensa ; mas nao 
era em todos os seus igual o valor e a constancia : 
pois o abandonarao todos , roenos sete soldados tao 
destimidos , que desprez^rao o exemplo dos com- 



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18 GiSTUOlO LVSITAlia 

panheiros pw imitar a vakutia do capilao. Deo 
parte a Mathias d' Albuquerque do que se passava, 
em occasiao que estava presente Joao Fernandes 
Yieira, yarao a quern o valor e a fortuna fiaerao a 
todas as luzes grande^ cujo animo esperava ocoa- 
sioes para se adianiar ao numero dos annoa : achou 
fiesta o que desejava , e sem dila^ao se offereceo a 
morrer em defensa da forca (como oytro Marco 
Gurcio em beneficio da patria) ; gentileza que imi- 
tarao at^ vinte moradores, ou persuadidos da emo- 
la^o^ ou obrtgados do exemplo. Agradeceo Ma* 
tbias d' Albuquerque o servi^o y e Antonio de Lima 
o ofazequio, conhecendo que, guarnecida a fortaleza 
de animoa tao valerosoa , acbaria o inimigo nella 
mais causa para o deayio que para o assalto. Do va- 
lor mais conhecido fiou o capilao o posto mais ap- 
riscado : enoommendou a Joao Fernandes Vieira 
que no mais perigoso estivesse de sentinella ; o que 
fez sem interpolacao tres dias e tres noitee conti^ 
nuos, sairindo-se seu animo do ck6vek> como o po- 
d^ra fazer do descanco. — Passados cineo dias em 
descan^o , di^xn-se o inimigo a atacar a fortaleza, 
em que se achava Joao Fernandez Vieira ; no mais 
escuro da noite saio da villa com dezeseis escadaa, 
e mn numeroso tro^o de combatentes escolhidoa ) 
e a passo lenlo cbegou a subir pelas escadas , pri-« 
meiro qu% fosse sentido das sentinellas, que nao ti- 
verao mais lugar que de aoordar os companheiros 
com OS golpes , com que rebat^o os inimigoa» 
deitaado das muralhas furiosamenle os que as 
tinhao avancado ; e a todos os que ousados os ser 
guiao opprimirao com golpes^ pedras e travea^ que 



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C^STRiOTO LuaiTANa * 59 

sobre eUes l^itcavao, com tal de^tpo^o que do$ mea- 
inos peda^oi^ das escadas fez o estrago infttrumea-^ 
toa para a ruinat Para a minorar (com divertir e 
ofiEender os cereados) Ihe deiiou o Hollandez dentro 
da fbrtaleza successivas nuveos de granada$, e 
alcanziaa de fogo ; por^ achou Qelles tanto acordo 
este diabolico artiQcio, queapenas dava na forta- 
leza o golpe, quando a vigiUacia dos nossos o coo** 
duzia pelos ares a executar o incendio entre 06 ini- 
luigos. — Crecia o damno i sem cessar o combate : 
a resiatencia accepdia o furor de uns $ a porfia aug- 
lO^taya o yalor de oulros , al^ que o iuimigo cor-> 
tado f taato da parda oomo do deaeiigauo^ ie redrou 
do oonflicto deixaiKio 150 mortos, e muito maior 
numero de fer idos » enlre quantidade d armas e mu« 
ui^oaa; que aoa aoasoe servirao para o daapojo , e 
para o triompbo com que solemnizarao a victoria; 
aqual uao p6de diminuir a perda de quatro mortos 
e se^ feiidod; tao mereoedorea de etornos elogios 
que 06 eograndeeia a iaveja , sem dar lugar a que 
oa eboraaae a dor. 

XVf. Deaenganado o Hollandez que nao podia 
por eutreptesa tomar a fortaleza , a qual tinhao 
eorrido uovoa oombatantes com a noiicia da Tieto* 
ria alcaBcada, dispoz-ae a atacal-a em f6nna regular, 
huaoaudo modo wm que podeaae offender sem aer 
offimdido^ Maudou diaote 660 gaatadores, que 
abriaaeai pela areia uma estrada encoberta e tor^ 
eida , eortando a ponta da reatinga , que divide a 
terra do mar^ peb qual deaemboeasae a por aitio a 
fortaUza, que logo cercarao de cava e triucheiraa 
i^om |»M>pQffeiouadaa pUtaformaa^ em que aaaeutarao 



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40 CA8TU0T0 LU81TA190. 

muitas pe^as de bater, e entre ellas urn grosdo ca- 
nhfto que comecou a desmantellar a fortaleza com a 
furia e braveza que alimenta o odio e a Tinganca. 
Era o edi6cio, alem de limitado, fabrica sem arte 
( consummido do tempo e do descuido), levantado 
para intimidar a singeleza, e nao para resistir a pro- 
fia ajustada da. arte ; mas por isso mesmo 6 mais glo- 
riosa a defensa que os nossos nelle fizerao. 

XVII. Demantellados os muros, descavalgadas 
as pecas, mais era um monte de ruinas que obra 
de forti6cacao aquella fortaleza, em que Joao Fer- 
nandes Vieira levantava o primeiro padrao a sua 
gloria. Animados por elle, oflTendiao e se defendiao 
OS cercados, em quanto houve paredes, que susten- 
tassem o impeto dos assaltados. Por fim pelejavao 
]& OS nossos a peito descuberio y arrasados os de- 
fensivos da forca, abertos os muros, caidos os re- 
paros. Nao ousava com tudo o inimigo dar o ultimo 
asealto , temendo que dos mesmos fragmentos fa- 
bricasse a fortuna para os seus sepulcro , e para os 
nossos theatro ; e assim determinava veneer sem 
invcslir.— Ja a este tempo se via o valor dos Portu- 
gueses rendido ao trabalho e ao destro^o ; inteiros 
no animo, porim destituidos das forcas. Sabiao que 
o soccorro era impossivel , a resistencia inutil , o 
risco irrefragavel,osuccessoconlingente,e tomando 
melhor acordo entrarao em conselho, conferindo 
entre si quanto melhor acerto seria livrar as vidas 
de uma morte inutil, para as aproveitar em uma 
occasiao dilosa que entregal-as a espada inimiga 
com gloria sem fructo : resolv£rao-se na entr^a, 
consultando entre si os partidos. Um estrangeiro^ 



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CASTBIOTO LUSTTANO. &1 

que era oondestavel da artilharia y percebendo esta 

resolu^ao adiantou-se a levantar a bandeira branca^ 

ftzendo com ella chamada para a entrega. Acodio 

o inimigo alrorocado y passdrao-se refens de parte 

a parte , saio da fortaleza o capitao Gil Correa de 

Castello Branco a ajustar as condicoes da entrega , 

que se conced^o como da nossa parte se pedirao. 

Com annas e moveis, trazendo corda accesa, e 

bala em boca, sairao os Portnguezes, e com Kber- 

dade para disporem como quizessem de suas pes- 

seas. — Digna de gloriosa memoria (comoac^ao 

propria de Joao FernandesVieira) foi uma gene- 

rosa adverteucia^ quenesta occasiao teye. Nao se lem- 

brarao os rendidos da reputacao que perdiao nossas 

armas , deixando as bandeiras d'El Rei e insignias 

dos cabos da milicia expostas ao desprezo inimigo; 

porimaquellecoracao, animado sempre de gene- 

rosos espiritoSy menos ambicioso da vida que da 

honra , teve cuidado de mandar a um moco seu 

que recolhesse a prata da gineta e enrolasse em si 

a bandeira do capitao Afonso d' Albuquerque, que 

era um dos rendidos, e cingindo comsigo mesmo 

outra, as salvou ambas do oprobrio. Lembran^a 

verdadeiramente toda do valor, e nada da com* 

modidade, devendo a sua memoria o serrico que 

(azia y e nao o risco a que se expunha. Gloria foi de 

Lucilio ser nesta gentileza o priraeiro ; por^m mais 

se deve gloriar de ser nella Joao Fernandes Yieira 

o segundo. 

XVIII. *Queria o Hollandez que os nossos juras- 
sem de nao tomar armas contra os Estados por tempo 
de seis mexes ; por^ como era contra o pactuado 



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Mt c4pit\ila9ao reciuavaohse firmemente, preferiudo 
antes p^ioso carcere, a queos condemnou a perQdia 
ioimiga^ que liberdade afrontoaa. Apellou a pacieor 
da para os heneficios do tempo, e depois de paasa- 
dos alguQs diaa alcan^ou o que nao pode cou^eguir 
a razao. Nestas djligencias e outras meaos decorosag 
gastou o iniiqigo todo o mez de Fevereiro, Entrou 
prioieiro de Mar^Oj e ao segundo dia fez embaixadt 
a nossa forlelezado mar que ae entregaase, elhe dar 
ria bom qu^rtel, porque se esperasse a que a reu- 
desse por arma^, sem distinc^ao de pe$soa os havia 
de passar todos a espada. capitao Manoel Pacheco^ 
que goveniaya a forca, cousultou com os seus sol-r 
dados a resposta ; e saio decreUKlo que se entregasse, 
pois se yiao faUos de meios para a defender, e sen^ 
esperan^ de soccorro, para que i presente ne^ 
cessidade podesse apellar, — Oppdz*« & resolu9ao 
o tenente Pedro Barbosa com differente parecer, 
dizendo que Matbias d'Albuquerque Ihes tUra 
aquella fortal^ia para a defenderem como anio^sos, 
^ nao para a entregarem como cobardes ; que em 
o fazerem primeiro incorriao a infamia de desleaes 
que de medrosos; que faltava a essencia de varao 
e de yassaUo, quem entregava ao amea^o o que 
devia defender a golpes ; que a bonra dos homens 
briosos era re^ulta do soffrimento, e nao da deses- 
peracao. c< Que dira de ncis o Hollandez, dizia elle, 
i) veodo que nos veqce com palavras, senao que nos 
» entrega o medo e nao a necessidade ? Esia forta^ 
> leza nao mudou o ser depois que nosobrigamos 
JO a sustental-a ; pois logo com que apparencia de 
JD deiKulpa a hayemos de entregar sem cooeJMte ao 



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j^ ii^liKHgo ? Quern vio a valeros^ resisteacia ^n ^pie 
» a no^oa olhoa se defei^deo a fortaleza da terra , 
ji> que ha de dizer, sepao que pode m^us coomoaop 
» a oobardia que o exemplo ? £»peremos o aitio ; 
^ proyemosas forgas com o iuijuigo, e quando qos 
M olhe de rev^ a fortuoa, lugar uos fica para pa^ 
A) tuara intrega, sendo certo que milhore^ parti-r 
» dos bavemos de tirar com a espada uua que coqi 
» ell^ embainhada. » £&te parecer foi ouvido , cqqi 
maistumuUoqueatten9ao; vianseperplexo o c^pjtaoy 
e Janfoq mac d'um meio que podia escusal-o da dea- 
honra : repoudeo ao enviado, que se Ibe concedea* 
sem tre$ dias para eonwltar ueUea ao s^u general 
lyfothias d' Albuquerq^e, ou para que o soccorresse^ 
9u para quese iu^regaase passado este termo* Colheo 
o ioimigOy pela modeatia da respoata> a^diapoai* 
(oes dos auimos ; e certo. de que sem desembainh^r 
aeapada bairia de g^nUar a^ fortale^, toruou logo 
a en^iar o meuaageiro com segundo recado, que nao 
ooDoediatreadias^oem tresborasparaadeUbera^ao; 
que fie logo logo se Ihe uao fizesae a eutrega , 09 
coadepmava a todos os ^cesaos da ira. Nao espe- 
rou mais Manoel Pacheco para se eatregar^ porqu? 
aeu desejo aao esperava mais para o fazer ; e assim 
deixou nas maos do inimigo a fortaleza municiada 
e inteira , de aorte que se podia presumir entrara 
nella para Ih'a guardar, e. nao para Ih'a defender. 
XIX. Com o mesmo cabedal, e com a mesma 
fortuna se fez o Flameugo senhor do Arrecife, sem 
inimigo que temesse, nem temendoque o assaltasse. 
Mathias d' Albuquerque com alguns poucos que 
o seguiao ^e bavia retirado aos matos , buscando 



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&& GA8TRI0T0 LU8ITA1I0. 

nelles amparo para a defeDsa , e nao auxilio para 
a opposicao. Celebrou o inimigo o gosto da vio 
toria com repetir os motivos do escandalo, entre- 
gando-se mais licenciosamente aos sacrilegios , aos 
roubos e as ^iolencias com tao publico ludibrio 
da nacao , e da religiao, que saiao dos templos ves- 
tidos DOS parameiitos sagrados, e nas becas das 
confrarias, representando sua alegria com nossa in- 
juria ; e assim corriao as mas , e entravao nas casas 
destinadas para tribunaes de justica e do govemo, 
e com desprezo e farsa insultavaoo sagrado e o pro^ 
fano. Tinhao-se recolhido para o porto todos as 
naos da armada, todos os marinheiros tinhao sal- 
tado em terra, e tanto crec^rao os inimigos em nu- 
mero quanto crec^rao os iosultos no excesso; e para 
que em nenhuma parte fosse difTerente nossa for- 
tuna ordenarao que uma esquadra de suas fragatas 
corresse os mares d'aquella costa, para que Ihe cais- 
sem nas maos todos os navios de Portugal, que igno- 
rantes do successo buscassem os portos d'aquelle 
Estado. Nao forao poucos os que, entre a seguran^a 
e a noticia , experiment^rao uma mesma sorie em 
tao diversos elementos. 



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LIVRO m. 



SUMMARIO. 

. Chama Mathlas d*AIbiiqaerque ot moradoref a eonsdllo; reiolacaa 
que nelle te toma. — 2. Edificao oi nossos nma fortaleia. ^ 
3. loteDta inimigo ganhdi-a ; foge detbaratado ; yalerosa ou- 
sadia de Manoel Diat da Franca. — 4. Joao Fernandes Yieira ea- 
pitao d'assegurar o campo. — 5. Fortifiea-«e o inimigo em lodat 
af partes; d^ principio a uma trincheira, em que 6 atacado pelot 
noMos ; general hoUandex foge a unhas de cavallo. — 5. Diapo- 
•icao com que cercamos o inimigo ao largo. — 7. Valerosa refolu* 
Cao dos nosaoa.— 8. Aiaalta-se a povoaceo de Sao Antonio: com que 
aucceaao. * 9. Ganbou o HoUandex o perdido ; aeautella-fe para 
o futuro. —10. Sai com todo poder a ganhar uma trincbeira ; de- 
fende-a o capitao Luix Barbalho.— 11. Intenta o Flamengo matar- 
Dos a gente : o que Ibe auccede. — 12. Sai o inimigo contra a 
estancia do rio Doee : o que Ihe snccede. — 13. Intenta ganbar 
uma trincbeira , donde ae retira castigado ; acbou em outraa em- 
prezaa a mesma aorte. — 14. Cbegao a Lisboa e a Madrid aa novaa 
da entrepreza de Pernambuco ; trata-se a restauracao ; numero e 
qualidade do soccorro que se mandon. — 15. Sai o inimigo a malar 
a fome : o que Ibe succede. — 16. Levanta o inimigo uma trin- 
cbeira no sitio que cbamao a Seca , que os nouos pretendem im- 
pedir inutilmente. — 17. Prepara-se o inimigo para inradir a ilba 
de Itamaraca : o que Ibe succede.— 18. Fortificao os nosaos a villa 
de Iguaracd. — 19. Resolve-se o inimigo a larger a rilla ; em- 
baiiada que manda aos nossos ; sua reaposta. — 20. Manda pdr Togo 
i villa, e que Ihe succede.— 21. Batalba naval entre Hollandezea 
e Hespanhoes; accao memoravel do capitao Cosme de Couto; 
perda da capitanea bollandeia, e morte de seu general ; victoria 
da armada bespanbola. — 22. Bom Antonio de Oquendo deita 
soccorro no rio Grande ; causa da desuniao entre os nossos ; della 
se aproveila o inimigo para noa destruir ; a trai^ao d'um Mameluco 
fez exemi'lo a muitos. — 23. luteota Sigismundo ganbar a fortaleza 
da Paralba ; em que acba dura resistencia. — 24. Assalta o ini- 
migo a estancia dos Portugueses ; com que successo. — 35. £spera 
aebar melhor sorie na fortaleza de Nazareth ; retira-se destro^do 
easualmente.— 20. Persuadido de traidores assalta e assola a villa 
de Iguara^ii ; € assaltado na retirada pelos moradores, que eobrao 
parte do roubo. — 27. conde de Bauhollo intenta ganbar a 
forUleza de Orange ; com leve acordo. — 28. Ganbou o inimigo 
por asaalto a nosaa eftaneia doa Afogadoa ; depoia a de Muno de 



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&6 GASTRIOIO LU8ITAN0. 

Mello ; e com perda de genu e de repuUcio nosst a do MoidoBCt. 
— 29. Determina tomar per assalto a Dossa forUleza do Arraial; 
retira-se desordenado , e com perda ; valor de Jao Fernandes Vieira. 
30. Hollandez assalta e aasola diversas povoa^es e engenhos ; 
ganha a ilfaa de Uamaraci. — 31. Empenha-«e em ganhar a noaaa 
forialeza do Arraial; os nossos Ihe cortao o paaso; o que faz Ma^ 
thias d' Albuquerque. — 32. Manda o general hollandez saquear 4 
fregueziade Saoimaro , como nossos capitaes os cortao e desbaratao. 
33. Chega toccurro do reino , que o inimigo destroe. — 34. Sal o 
inimigo com poder sobre a fortaleza do rio Grande, que 6e Ibe 
entrega por irai^ao. — 35. Intentou o Qollandez a conquista do 
ponial de Nazareth ; entra no porto com perda de duas fragaUs ; 
OS nossos entregao ao fogo os navios que nelle tinhao ; o que 
obrao em damno do inimigo ; perde-se a victoria p6r desgra^a. — 
36. Imagina levar pur entrepreza a nossa fortaleza do Arraial; 
sao OS nossos advertidos; retira-se com industrla. — 37. Manda 
Mathias d' Albuquerque investir o reduto do Ponial : como Ihe 
succede.— 38. Arraza o inimigo a povoagao de Cunhad. — 39. Che- 
gou aos nossi^ um soccorro da Bahia. — 40. Salo o Flamengo a 
roubar a campanha ; 6 desbaratado pelos nossos ; a mesina sorte 
teve no porto do Calvo. — 41. Sai de Hollanda uma grossa armada, 
que se dirige sobre a Paralba ; entrega-se a fortaleza e o forte de 
Sao Antonio. — 42. Mathias d' Albuquerque manda soccorro i. Pa- 
ralba ; que ahi succede. — 43. Rouba o inimigo os contornos da 
cidade; marcha Sigismundo a ganhar a campaiiba; Mathias d' Al- 
buquerque Ihe manda coriar o passo ; o que succede au Rebellinho 
nesia expedicao. — 44. Apresta-se Sigismundo para continuar a 
conquista ; os nossos &e prepiiirao para a re&i«tencia. — 45. Manda 
inimigo recouhccer a fortaleza do Arraial ; assalta, e ganha a 
Moribeca ; eitorsoes que execuu. — 46. Luiz Barbalho e Dom 
Fernando buscao o inimigo ; com o qual pelejao e perdem a victoria; 
. que succede ^quelle. — 47. Largao os nossos ao inimigo a po- 
voa^ de Sao Louren^o ; cala|pidades com que a todos igualou a 
serte. — 48. Luiz Barbalho assalta o inimigo com bom succesfio ; 
retira-ae Mathias d' Albuquerque para Sirinhaem. — 48. Sai o ini- 
migo a sitiar a fortaleza do Arraial; prepara-se o governador para 
a defensa ; Joao Fernandes Vieira capitao dos aventureiros. — 
50. De que modo dispoe o cerco o Holfandez ; dao os siiiados va- 
ries atsaltos; profia o inimigo no cerco, e os nossos na defensa. 
ttU Entrega-se a fortaleza a partido; vil perfidia do inimigo; 
Joao Fernandas Vieira se resgata e a dous criados seus. 



L Gafihada pdo Hollander a villa de Oliada e a 



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pcm»ww do Arrecifc, mbedas daqurile diMri^tt ^ 
com todas suas foriiftcacoes , logo »e vio decUnar o 
corpo de toda a capitania. Mathias d' Albuquerque 
achava^seretiradO) e a&sistido doft moradot^^ acotft^ 
panhando-o na fuga quem o desemparAra na resis- 
tencia. A calamidade, quelhes fazia conhecero erro, 
Ihes faria desejar a emeiida. Yeiido estas boas dis- 
posicoeS) e satisfazendo ^s importuuacoes com que 
sua gente o persuadia a tomar as armas , cbamou 
Matbias d' Albuquerque a conselho , e propondo a 
todos o quanto convinha descolrir a cara ao inimigo, 
consta que Ifaes fajlara na forma seguiute : « 
M Holiandez uao se empenhou no exce^sivo gasto 
» d'esta armada pela reputacao de suas lirmas, 
» senao pelo inleresse de nossas drogas. Esta tia^ 
» como tern mostrado a experiencia, etn tanCo exer^ 
» cita a milicia em quanto the abre caminho para 
» a ambigao ; disfarcao o habito com o de soldadoe) 
» nem se arriscao pela victoria^ senao pek riquezat 

> Ajudada sua forca de nossa desgraca se fez senhor 

> de nossas casas e fazendas ; se viera a saquear, 
}) conseguido o roubo largdra a terra. Fortifica*-se 
» nella ; quem duvida que i com designio d^ no$ 
» desfrutar os campos? Se acharopposicao mudard 
T> de intento ; pois i certo que para Ihe colher o* 
}} fructos, OB ha de cultirar ou nossa sujei^ao^ on 
» sua industrial e para o nao conseguir^ basta 
» que o nao favoreca nem o soffrimento nem tk 
».omi6sao; o que fio de animos que sabem estimar 
» a honra, e sentir a perda. Dous meios nos podem 
» conduzir a este fim ; ou o da conquisU . casli* 
» gando a injuria^ ou a da defensa nao permitiindo 



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A8 GAsniaio lusiTAMa 

> a iii¥Mao; qual d'estes ae deva escolher por mais 
» seguroy diii o parecer de tantos zelosoe e inte- 
n ressados quantos se achao neste congresso. » — 
Sem controversia se resolveo a guerra defeosiya j 
porque com ella se escusava o dispendio e ao ini- 
migo se fazia maior damno. 

U. GoDCordes neste parecer, saio Mathias d'Al- 
buquerque acompanhado de todos , a buscar sitio 
regular e conyeniente para nelle fazer uma forta- 
leza, que servisse ao iDtento. Por eleicao dos mais 
intelligentes foi escolhido um outeiro, que se- 
nhoreava toda a circumferencia, posto que pela na- 
tureza em tao proporcionada distancia da villa e do 
Arrecife, que de uma e outra povoa9ao ficava uma 
grande legoa. Deseuhou-se a forca , p6z-se mao & 
obra, e ao passo que crecia o edificio, creciao os 
soldados e moradores (at^ entao dispersos) ; estes 
para viverero & sombra da fortificacaO| aquelles para 
serrirem a obra ; dando-se uns e outros tal pressa, 
que pondo-lhe a primeira mao muitos dias andados 
de Fevereiro, Ihe derao a ultima antes de acabado 
Marco. A esta fortaleza , que era ao mesmo tempo 
poToa^aOy derao o uome de Arraial. 

IILSoberbo com a. victoria, e confiado em sua 
fortuna olhava o Hollandez com desprezo aquelles 
a quem venc^ra ; mas desde que Ihe constou que se 
achavao reunidos, e que levantavao uma fortaleza, 
dispoz-se a imped(l-a , mas nao o fez tanto a tempo 
que nao a encoutrasse capaz de nos defender. £s- 
colheo entre os sens 800 soldados^ e eml4 de niarco 
sairao da villa de Olinda com deliberacao de nos 
ganharem por assalto a povoacao, e a fortaleza do 



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CASTRIOTO LUSITAMO. 49 

Arraial, que neste tempo nao havia chegado a sua 
uUima perfeicao ; por^m mais defensavel do que 
imaginaTa. Tinha assentado comsigo que os Portu- 
guezes emhebidos na obra , primeiro conheceriao o 
assalto pelos golpes que pelos avisos. Fundava este 
discurso ua promessa d'um Flameugo^ chamado 
Adriao Franco^ pratico nos caminhos (deque^a 
{alUinos)queseoffereceo a guiar os HoUandezes por 
veredas occultas e faltas de saitinellas. — S^uindo 
OS passos do sobrediio guia se poz o inimigo em 
mnrcha muito antes de romper a manha; mas 
forao taes os rodeios que fez, que gast^rao muitas 
horas em Jornada para a qual bastava uma, dando 
largo tempo ao conselho, e & prevencao dos nossos. 
Matbias d' Albuquerque, que avisado das senti- 
nellas via o informe da povoacao, a imperfeicao da 
forCaleza, e o poder com que o HoUandez o buscava, 
ordenou aos capitaes Joao de Amorim, Luiz Bar- 
balhoy Marlim Fermra, Pedro Manoel Pavao, e 
ou(roS) que com os soldados de suas companhias 
saissem a ter encontro ao inimigo; o que Gzerao 
com taota destreza , ppfidencia e valor, que o Fla- 
mengo (que se acliava formado em esquadrao no sitio 
chamado Agua Fria) se vio a^ mesmo tempo inves^ 
lido e destro^ado, nao Ihe deixando o furor mais 
remedio que o da fugida. — Seguirao os Portuguezes 
alcance, por^m como sao mais ligeiras as azas do 
medo que as da ira, so Manoel Dias da Franoa, mon- 
tado em um ginete seu o foi seguindo , ferindo e 
matando, sem haver Flamengo que ousasse virar 
a cara para ver que era nm s6 o que os picava ; att^ 
que o investio um tropel de muitos , a tempo que 
I. A 



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^^ OASmOTO UIStlAMa 

se rompeo a cilha, e com a sella caiodo cavallo entre 
elles. Nao desanimou o Taloroso mancebo com este 
auccesso, antes cobrando novo esforqo se deaemba- 
racou do8 inimigoa com tanta geniileaa, que nem 
recebeo ferida nem perdeo honra, ajudando-lhe nesta 
occaaiao a ganharmuiia ummulato sea, que oom 
uma espada e uma rodela obrou maravilhas. Qua- 
renta mortos deixou o inimigo no campo, alguns 
no caminho.levando muitos feridos. Recolh^rao^e 
OS nossos a oelebrar a victoria, que de todos foi 
aclaraada com excessive gosto. Foi o primeiro dia 
de bonanca que depois de lao continuada tormenta 
DOS concedeo a fortuna , e no descustume trouxe 
a estimacao. 

IV. Logo que Mathias d' Albuquerque vio a foi^ 
taleta posta em sua ultima perfeicao (com plata- 
formas, terrapleuos, parapeilos, contra-escarpas, 
cava, penles, trincbeiras, e estacadas que cingiao 
a forca e a povoacao) a guarneceo de refor^ada ar- 
tilharia de bronze e ferro, e de sufficiente presidio; 
consignou os poslos a particulares cabos ; e para 
novos empregos criou novos capilaes. Entre ellea 
nomeou a Joao Fernandes Vieira por capitao dos 
batedores, que de noite e de dia haviao de assegu- 
rar o campo ; achou na pessoa todos os requisitos 
que pedia o cargo ; foi sua escolha pronostico de 
que o valor, a que enlao fiavao os moradores o se- 
guro, despois Ihe havia de metter em casa a liber- 
dade. Obrigado d'esta mesma razao deo Mathias 
d'Albuquerqne a Henrique Bias a gineta de capi- 
tao e cabo de muitos minasecreoulos, que com 
animo intrepido e fiel se alistirao para servir 



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GA8T1I0TO UmiTAllO* 91 

na guerra* Pareoe que com estes inaignes capittot 
nod oontrapesou o tempo insigaes perdas; e bem 
se pdde affirmair que com elles nos deo mais repa* 
taoao do que nos tirou de imperio* 

y. Vendo Theodoro Wadderoburg^ govdmadoir 
das armas hoUandezas^ que nao pod^ra tomar fw 
entrepresa a nossa fortaleza do Arraial i e para im^ 
pedir que a desordem em que Tieiio seus soldados 
fosse em augmento, e acarretasse maior dasrentura^ 
tratou de se fortifiear^ nao sd por 8eguraii9a^ mas 
para oocupar os soldados, e inspirar^lhes mais con* 
fian<^« — Leyantou uma grossa iriiicheira por 
fdra da poroa^ao de Sancto Antonio eutre os dous 
rios e o mar com insupporiavel trabalho dos seus^ 
pela Haiureia do terreno^ Godi o me^mo cuidado 
fortificou a villa, nao se dando por s^uro de nossa 
ousadia^ nem ainda onde seus feparos o tinhao 
mais guardado. Infc»*mado MathiAs d'Albuquerqua 
dos movimentos do inimigo, e de que levantaya 
uma trincheira n'um aitio fronceiro ao nosso Ar-» 
raial, que chamao a ilha de Marcos Andr^ deoiro 
da campina do Taborda, ehamou logo os oapitaesi 
deo'lhes as ordens, encareodo^lhes a importanoia , 
e em 18 de Marco saio do Arraial Antonio Ribeiro 
de Lacarda com 700 sddados entre Portuguezes ^ 
Minas, e Indios a desalojio* o Flamengo, e des« 
fazar a trincheira. EmbuscoU a gente, emandou 
ao capilao Francisco Rebello (illustre pelp diminu** 
iiTO de RebeUinho , a quern as prensas fizerao maior 
que seu appellido) que com tinte soldados fosse 
provocar ao Hollamlez^ a que saisse a pelejar. Deo«* 
se o Flamengo por afrontado do atreyimenio, saio 



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53 GASTRIOTO LUSlTAlVa 

a castigar a demasia fiado nas vantagens de seu 
partido. Nao virirao os nossos a cara ao encontro, 
antes dissimulando o intento ^ se forao retiraodo, 
em ordem a metter o oontrario na emboscada , que 
o inimigo suspeitou sobejamente cauto , e fez alto 
com a sua gente. Rebellinho , que penetrou a 
causa , correo a avancdl-o , lao destemido , que o 
Flamengo , cego da colera , perdeo da vista o receio; 
e o carregou assim furioso que se metteo no cora- 
cao do perigo, conhecendo o erro a tempo que Ihe 
fffltaya o remedio. Sem resistencia se pos^rao os 
inimigos em fugida, bastando aquella detencai de 
que necessitou a escoiha , para deixar cincoenta 
mortos no lugar da batalha , nao entrando neste 
numero os que perdeo no alcance, pers^^uido dos 
nossos por algum espaco^ e at^ a sua trincheira de 
oito mancebos de cavallo , alanoeando a todos os 
que alcancavao. Nao dizem nossas relacoes em que 
poder fic4ra a trincheira; affirmao que nos recolhe- 
roos com vinte seis feridos, sem que da nossa parte 
houvesse morto. — Nao era senhor o HoUandez de 
passar a distancia, que se interpoe entre a villa e o 
Arrecife, sem companhias de guarda ; e nem assim 
se deferideode nossas embuscadas. Em 26 de Marco 
fizerao as sentinellas aviso que o general das armas 
hollandezas , acompanhado d'um seu coronel , se 
dispunha a passar do Arrecife para a villa com 
600 soldados de guarda (ou por dec6ro, ou por 
medo); o que entendido por Mathias d' Albuquerque 
nomeou por cabo d'algumas companhias a Pascoal 
Pereira (soldado de opiniao) ; deo-lhe por ordem 
que d emboscada esperasse o inimigo. successo 



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GASTRIOTO LUUTAMO. 53 

acreditou a escolha. Sairao os nossos de emboscada 
com tanta disciplina, e tanto a tempo, que desoi^ 
denado e roto o HoUandez deo as costas 6& balas; 
uao bouye algum.a quem se vissea cara. Oprimeiro 
que no conflicto servio ao exempio foi o seu gene- 
ral, eandou tao venturoso que encarando neile o 
capitao Luiz Barbalho uma clavina, o nao derribou 
o tiro, porque nao Ibe tomou fogo ; a unha de cavalio 
se pcz em seguro, levemente cortado do nosso ferro 
por um bombro , por&m muito roais cfe medo, 
debiando os seus no perigo, a que nao pod^rao fugir 
quarenta e nove, que ficarao mortos na campanha, 
e muitos outros que perec^ao no alcance* Sem 
conta foiio os que matirao os Indios^ e as ondas ; 
por escaparem ao ferro se deitirao & agua , e nella 
Tiao que a morte com dobradas armas Ibe tiraya a 
?ida. Recolberao-se os nossos sem mortonem ferido, 
com que a victoria se applaudio sem sangue ^ e 
sem enterro o triumpho , para cuja pompa nao fal« 
tavao captivos. 

YL Desde esta occasiao por nenbuma parte saia 
de suas fortificacoes que se naoenredasse no la^o que 
OS nossos por todas Ibe tinbao armado. Direia fdrma 
da situaqao denossasestancias, para que se entenda 
como nossas armas o tinbao cingido. Gorrendo da 
parte do norte para o sul, em uma bermida de 
Sancto Amaro, se aquartellava Matbias d' Albu- 
querque Maranbao com gente da Paraiba , que aco- 
dio a servir na guerra* Seguiase a estancia do 
Padre Manoel de Moraes^ que guarnecia com In- 
dios de seu partido igualmente disciplinados na 
religiao e nas armas. Logo a do Gamarao com os In- 



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6* CAftTRIOTO LWStinO. 

dios de teu governo , que erao todos aquelles, com 
que uestes priqcipios se veio offerecer para servir. 
Pouco dislante (icava a que defendia o capitao Es- 
levao Alvares. Junto ao Buraco de San Tiago tinha 
ftitu^cio a seguinte, que presidiava o capitao Luiz 
Barbalho (era a mais arriscada, e fiou-se ao capitao 
mais deatemido). A este modo continuavao os quar- 
teia peloa aitios de Bd)eribe e Seca encommendados 
a diversoa eapitaes ; dando-se as maos una aos ou- 
troa de aorle que com facilidade se podiao soccorrer. 
ConsignAraorse tro^s de gente escolhida a dide- 
rentes cabos que por turno rondassem e descobris- 
•em as distancias, que se entrepunhao entre uns 
e outros quarteis. Desta maneira nao podiao deixar 
de ser quotidianos os assaltos^ que nao particular!- 
eamos pela semelhanca dos suceessos ; e sdmente 
faremos mencao d'aquelles encontros, que var^ao 
em algumas cfrcumstancias. 

VH. Na villa de Olinda fez o inimigo^ em 16 de 
Manjo, paga g^ral a todaagenteda milicia. Ao tempo 
que em turmas voltavao com o soldo que tinhao 
recebido, andavao sessenta Indios nossos^ deque 
era cabo Joao Mendes Fiores, trabalhando em uma 
trincheira no sitio do Buraco de San Tiago, Dous 
soMados Mamelucos, que estavao de posta ao lai^, 
fizerao aviso aos Indios da boa occasiao com que 
06 rogava a fortuna; e animados com a esperanca 
da presa derao sobre os Flamengos com um repen- 
tino assalto de vozes e cargas, matando a muitos, 
eatordindo a todos, detal maneira que, occupados 
do pasmo, nao tinhao liberdade para a fugida, 
nem animo para a defensa. Oitenta degolou o ferro ; 



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j^auitQS mais os que atou o grilho. Aproveit^rao-se 
OB ladios de armas, vestidos, e soldo de todos, 
{JTSizepdo diante de si os captives, que seryiiio de 
crpdito ^ grandeza da victoria, e a fama do despojo, 
VIII. Nao satisfeitos os nossos de inquietarem 
oontiauamente o inimigo por todas as paries, re^ 
solv^rao a bufiedLo deatio de suas fortifica^oes. 
Ceroa va uma grossa trincheira a povoa^o de Sancto 
Antonio (a que chao)i&rao cidade de Mauricda), 
a qual, assim pda fdnna como pela gaamicao, era 
o fiador de toda a confiauca inimiga. Esta determi* 
Dir^o OS nossos investir e ganhar ; e arraaada con- 
duzar-lhe a artelharia , que era muita e grossa, 
para o nosso ArraiaL Fiou o general a empresa a 
Antonio Ribeiro de Lacerda, o qual aoompaabado 
d outros eapitaes e mil soldados, entre Porluguesep 
p Indios, saio do Arraial em 25 de Maroo, pela 
meia noite. Marchou a gente sem rumor at^ perto 
da trindieira, onde a repartio em tres tro^os para 
inveslir a um mesmo tempo por tres paries. Dado 
signal avancou Luiz Barbalho i trinchetra pela 
frente , que ganhou com leve resistencia ; entrou 
na povoacao , onde nao fikx>u oasa forte que nao in- 
Tesdsse , nem topou contrario que nao rendesse. 
oapitao Manoel da Franca, que com um segundo 
terco commetteo a trincheira por um lado, a subio, 
e rompeo a defensa com facilidade. Nao houve 
inimigo que o parecesse, nem que esperasse golpe; 
todos fugiao ao perigo , tao desatinados que nelle 
buscavao o rem^o ; entregavao as vidas ao pego , 
onde juntamente achavao a morte e o sepulcro. 
Era c terceiro esquadrao o mais grosso : com elle 



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56 GA8TBI0T0 LUSITAHO. 

passou Antonio Ribeiro de Lacerda o rio^ e por 
fbra da trincheira comroetteo a povoacao , na qual 
Ires batalhas form^rao urn conflicto. Nao achava 
para onde fugir a vida , porque em toda a parte 
encontrava um mesmo ferro ; o escuro da noite 
nao deixava distinguir amigos de contrarios, nem 
o furor oppostos de rendidos. A nenhum sexo nem 
idade perdoa^a a espada ; a muitos matavao junta- 
mente a espada e o chumbo ; ja nao achava o nosso 
pulso a quem veneer, senao a quern ferir. A bra^os 
veio um capitao hoUandez com o Rebellinho, e es«* 
pirou apertado de seus bracos o HoUandez. Nas 
casaS| e nas ruas achavao os miseraveis rendidos 
uma mesma fortuna ; era tanta a confusao, ajudada 
do estrondo das armas, das vozes^ e da aflliccao, 
que se tinha por bem afortunado o que podia com 
a vida dar fim ao medo. A artelharia da trincheira^ 
asssesiada pelos nossos com pontaria para as casas 
da povoacao , foi sen maior estrago. Achavao os 
nossos na presenca dos aggressores vivas as memo- 
rias da perda e da injuria ; e o desejo da vinganca 
OS nao deixava lembrar da clemencia* 

IX. Tudo is to se passou antes de ser manha, e 
que foi de grande embaraco para os nossos, porque 
nao podiao distinguir amigos de inimigos , como 
aconteceo aos capitaes Rebellinho e Luiz Barbalho , 
que achando-s^ cada um d'elles na extremidade d'u- 
ma mesma rua, e caminhando a topar-se, presu- 
mirao que era soccorro que viuha ao Hollandez, e 
esfriirao no ataque temendo-se um ao outro. Meste 
ponto deo-se rebate do assalto no Arrecife, e assim 
d'elle como d'algumas n^os ^ que estavao no porto^ 



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GA8T110T0 UJSITAlfa 57 

86 *disparou muita artelharia sobre a povoa^ao, com 
que a nossa genie se confirmou no errado conceito 
que 6zera. D'uma e outra parte se appellidou a 
gritos a retirada y fugindo todos d'umas mesmas 
armas, com aquella confusao e desordem que se vA 
em quem foge de sua propria sombra. Cobrou-se o 
Flamengo da trincheira ; e as bakis de sua artelharia 
nos forao perseguindo ate o ultimo alcance. Nelle 
perdeo a vida o tenente general Pedro Femandes 
Ferrete ; e uma perna o cabo d'esta empresa Anto- 
nio Ribeiro de Lacerda ; goipe de que morreo ao 
outro dia. Deix^mos no campo onze mortos , oito 
PortuguezeSy e tres Indios , e nos recolhemos com 
dez feridos. -— Escarmentado o HoUandez com 
este successo, tratou de acautelkr^se para o fu- 
turo : engrossou os presidios, dobrou as sentinellas, 
mandou com graves penas , que da villa para o 
Arrecife, nem do Arrecife para a villa, nao saTsse 
pessoa alguma» senao nas occasioes que podesse 
ser defendida das companhias que entravao e saiao 
de guarda ; e que as taes pessoas passassem encor- 
poradas nas fileidas dos soldados. Ordenou que as 
ditas companhias se nao movessem de um lugar 
para outro, sem primeiro fezerem algum signal ^s 
fortalezas para que tivessem a artelharia prompta 
a favorecer os sens em toda a oecasiao e tempo. 
Util era a preven^ao , se a dor se sujeit^ra ^s leis 
da cautella. 

X. De uma trincheira nossa^ que escondiao as 
matasy fazia o capitaoLuiz Barbalhaconsideravel 
damno ao inimigo ; o qual, vindo no conhecimento 
da causa, acceso em ira saio em diade SaoLouren^o, 



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^t GAiTBiQTO lUaiTAHa 

10 d'Agostoy com todo o poder, e det^rmiaado a 
arra^ar a trlQcheira, e degolar o presidio sem dar 
quart^l a vivente. Paasou o rio na vasante da mar^, 
antes de romper a manha marchou sem rumor, e 
deo sobi^e a triBcheira, onde Luiz Barbalho, avisado 
da9 Sfuatinellas , o esperou com doze companheiros 
( succedeo nao ter mais soldados eomsigo ) com 
tanto depenfado^ como te tivera igual parddo. 
])eoe recebeo cargas, oppondo^se a desigualdade 
ila sorte & do numero. -** Temeo Luiz Barbalho j 
2^0 o combate, senao adura9ao do conflicto; man- 
dou pedir soecorro ao Arraial , e foi-se retirando 
cpm oa ^eus para outra trineheira, que tinha Hiais 
pelo ipteHor do mato ; mas com tal arte e disci- 
ciplina, que nao deo lugar a que o Fiamengo visse 
Umitado poder que tinha ^ nem que a largava. 
Vendo o inimigo desamparada a trineheira, sobio 
t ^HjfL y e a arrazou sem demora ; e como receasse 
qil9 o soecorro nao podia faltar aos nossos, fez-se 
de volta para a outra parte do rio , a onde coberto 
doscumuios de area, que por aili faz a praia, deo al- 
gumas eargas A notsa gente y que j^ entao vinha 
fm seu alcance^ e ^s quaes respondeo a peito des- 
coberto, Fazia a distancia inutil a opposieao, e pa- 
receo a todos coaveaiente a retirada. 

XI, Apertado da necessidade determinou o ini- 
migo armar-nos uma cilada , na qual perecesse a 
nossa gente. Embuscou a maior parte dos seus; 
e oom o restante saio a uma campina que cingiao 
algumas estancias nossas ; derao as sentinellas re- 
bate nas trincheiras e no Arraial , donde Mathias 
d' Albuquerque despedio com incrivel presteza os 



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rapitim Stnctos da Costa, Roque de Barron Rego, 
Miguel d'Ahreu, e outros em aoceorro daa A066as 
efitancias. Marchlrao as companhias a atiatar o 
inim i flo , que astuto ti>eou a retirar, para que aeu 
•apparente receio noB leyaase de corrida ao laca 
Conhec^rao 08 Doaaos o ardil ; mas coaio quiieaaem 
moatrar sua ousadia adiantirao^ae dous eapiiaett 
naia do que deviao ; uni doa quaes (Barros) ferido 
d'uma bala n'uma coixa dec n um lamteal oade 
caio , e a6 deveo a Tida ao valor da a^u alferea , e 
d'uitt eabo d'esquadra da sua eompauhia ; ^ o outro 
(Sanoloa da Ckiata) accoDnpauhado de aeu alferes 
fbrao entrogar as vidaa a duas bakis, oem mais 
▼alentia que prudancia ^ e aem niais outro fim que 
a Yaidade de perd^kta. Nao hou?e da aeasa parte 
outra perda ; eou muila de morios e fcaridos sa re- 
eolheo o iaimigo. 

XII. Pensou o Hollander que mudando de sitio 
melfaoraria de for tuna. £m "16 de Outubro deitou 
SAn MO inftmtes e quatone batedopea de eatallo, na 
iuten^ de gankar-noa a trincheira do rio Doee, 
o que Ihe parecia facil por nos fioar longe do soo- 
eorro. Estava n dla por eapitao Simao de Figuei- 
redo ( que depoia se ordenou de saeerdote, e fez 
grandias 6aryi9oa & igreja e^i ootoa , usando coai 
igual destresa d'um e d'outro bra^o); saio da triu- 
eheira^ ao rebate das seotmdifais, oom quarenta sol- 
dados, OS quaes forao bastantas para repellir o Fla- 
mengo ; o qual vendo-sa ingauadoem sua esperanca, 
virou as coatas sem resiatir, e foi perseguido pelos 
Boasos aC^ entrar na vilk com grande perda de 
mortoa e feridos* 



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•0 €A8TBKm> LUSITANa 

XIII • Em 21 do mesmo mez sale o inimigo do 
Arrecife com muita copia de soldados ; passou o 
rio de baixamar, e marckou sem ser sentido at^ 
um lugar^ em que alguns capitaes nossos assisliao 
i fabrica d'uma Irincheira. Retirou-os da obra o 
repentinoassalto. Approveitou-seoFlamengo d*esUi 
cii*cum$tancia, e comecou a toda a pressa a arrazar 
a irincheira ; mas acudindo logo os nossos, refor- 
cados pek) capitao Luiz Barbalho, o ferirao tao for*- 
temente , que o obrig^rao a fugir sem outro acordo 
mais , que o de levar a rastro grande nuraero de 
eorpos mortos. — Ceusas em tudo simiUiantesoccu- 
pAiio umas e outras armas todo o restante d'este 
anno de 1 630. Em quasi todos osdias havia pelejas, 
cujos successos em pouco diversiiic^rao , achando- 
nos o inimigo sempre promptos para a defensa e 
para a vinganca. Mao houve occasiao em que nos 
provocasse atrevido , de que nao saisse castigado. 

XIV. Oocupado Pernambuco pdo Hollandez em 
16 de Fevereiro, logo no meiado de Marco se es- 
palhou um rumor vago, que.o dizia amedo, al^ 
que no principio d*Abril se confirmou a nova ; e 
para crescer a magoa se recebeo a noticia da mao 
de quem tinhamos recebido o aggravo. A todos las* 
timava o successo, porque a naihum deixou de 
ferir o golpe. Os bomens de negocio s^itiao a que- 
bra do commercio ; os do governo, a da reputa9ao; 
OS do poYO, a do socego ; os da guerra, a do ocio ; 
e todos, a do Estado. — Tratou-se do remedlo; 
consult^rao^^se os tribunaes; e tomou-se por ex- 
pediente que uma guerra lenta era o unico meio 
possivel de restaurar aquelie Estado, visto acbar-se 



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OAflTUOTO LUMTAMa 01 

a monarchia exhausta de tudo o necessario para 
intentar outro genero de guerra. Esta resolucao 
mais se confirmou quando se soube da opposicao 
que OS naturaes come^avao a fazer ao Hollandez. 
— Nao fez tanta impressao em Madrid a nova 
como (izera em Lisboa , porque nao era tao grande 
o interesse que tinhao os Castelhanos na conser- 
vacao d'um Estado, que 86 era seu para o util, nao 
para o glorioso. Todavia nao pod^rao esquivar-se 
a anuir ao8 pareceres que vinhao de Lisboa acorn- 
panhados de queixas de clamores. Tinha El Rei 
Philippe nomeado oalmirantc real D. Antonio de 
Oquendo , para conduzir &$ Indias a frota de gaU 
lioes ; e se Ihe ordenou qne de caminho tomasse a 
altnra da Bahia, oilde acharia noticias certas do 
esiado em qne seachavao as cousas de Pemambuco, 
para que confbrmando-se com elle^ deilasse no 
porto mais seguro o mestre de campo Joao Vicen- 
cio Sao Pheliche com o seu tereo ilaliano, ]e algu- 
mas oompanhias de Portuguezes , e aqnellas armas 
e muni^oes que parecessem necessarias para a con- 
tinuacao dos progressos, que promettiao os ielizes 
principios d'aquella gnerra. Tambem se mandou, 
que na mesma conserva fosse Duarte d'Albu- 
querque, govemador e senhor donatario d'aquella 
eapitania ; soccorro de que se e speravao grandes 
effeitos , porque se entendia , que com elle se aug- 
menlava nossa genie em animo , e em numero ; 
mas succedeo bem ao contrario y e ao diante se ver^ 
como nelle diegou a Pemambuco nossa total ruina. 
XV. Em quanto em Portugal e Hespanha se pre- 
parava lenCamente o soooorro destinado a Pernam- 



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•1 GAimom UMTAM. 

bttco; continutTa oHcdlahdez suafcexcursoestinto 
mais repetidas quanto mais creacia em seu campo 
a fome. A uma legoa da villa de Olinda €8ta aquelk 
$ilio a que chaoiao as Olarias ^ terreno abundante 
d'unaa fruta conhecida entre o8 naturaes pelonooae 
de cajus. Apertados da fome resoW^rao algiina sair 
da villa furtivamente a colher algumaa vezes da ao^ 
bredita fruta ^ por remedio e por refreacOi A boa 
sorte dos primeiros augmenlou o numero doa se- 
gimdos ^ e estes facilitarao aos terceiroa. Nao ae 
pode encobrir a coatinua^ao i yigilaneia de ndaaaa 
aentinellas, de que logo fizerao aviso a Maihias d'Al*- 
buquerque^ pedindo-lhe genie para tomar ^a maoa 
o iuimigo f sem que algum Ihe fugisse d'ellas* l^o 
dia 7 de Janeiro de 1G31 despedio o general 300 
Portugueses e 80 Indies oom seus capitaes, e por 
cabo o capitao Pedro Teixeira , e todos as ordens de 
Mathias d'Albuquerque Maranhao ; o qqal em lu« 
gares convenientes as mandou embuscar antea 
d'aoianbecer* Pelas oito boras do dia chegarao 300 
HollaAdezes em duas tropas; largarao as armas 
para colberem a fruia , com aquella deaatten^ao a 
que OS obrigava a fome ; romp6rao os nossos das 
emboscadasy derao sobre elles sem piedade nem re^ 
sistencia : nao ibea deijtou o assalto , nem cora^ao 
para a defensa ^ nem acordo para a fuga. Ficarao 
no campo morios 1 48 ; muitos dos feridos busca- 
rao no mato a vida y e ^6 aobarao a sepultura. Aos 
remanecentesi que era bem pequeno numero^ to* 
rao seguindo e matando, at^ as portas da villa, qua* 
tro nossoi de cavalb, a onde chegarao tao poucos que 
OS vioo inimigo como correioa e nao como soldados. 



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QAfTuero UBnmk M 

> XVI* Vendo o inimigo a cmtadia e o bom sim^ 
ce86o dps noaeoB^ tetneroso de que nossas armaa ftw 
8ein um dia bater as porlas- de suas fortiGaacoes ^ 
oao se contentou em cercar ao largo suas jnra^s ^ 
^{uarteis e trincheiras de robustas eslaoadas de p6o 
a pique^ mas resolveo-se a levantar umagrossa trin^ 
eheira a'uma reatinga d'areia, que ebamao a Seca 
por onde temia aer assallado do8 notsos. Em 3 de 
Fevereiro saio com todo o cabedal de official, sol- 
dados , engenheiros, e gastadores oarregadoa d'arte^ 
Iharia^ muDicoes^ fachiuas^ madeiras, eiDstramen^ 
tosservk; pozmao a obra^ e cresoeo de maneira 
que primeiro servio aos seus de defeosa que ao9 
IIOS808 de rebate^ Ao toque d'este satrao os oapitaea 
das estancias yizinhas^ e depois os soldados do Aru 
raial com Mathias d' Albuquerque : era seu iutenld 
investir denodadamente o inimigo; mas vendo o 
general quao arriscada era a impresapela qualidadd 
alagadi^a do (erreno, mandou ao capitao Francisco 
M onteiro Bezerra que com 60 soldados Ihe tomasse 
pulso. Avan9ou esle yalorosamente at^ chegar 
^s alagadi^os , mas reconbeoendo por expeiiencia 
a temeridade da empress j desistio d'ella soffir^ndo 
alguma perda de mortos e feridos^ entrando em o 
numero d'estes o capitao Monteiro em um braco , 
e o tenente de Luiz Barbalho em uma verilba^ Re- 
tirados os nos9os> continuou -o inimigo com a obra^ 
e naquelle sitio fabricou depois uma das melhores 
for9as de sua circumvalla^aot 

XYII. Gonvenoido o Hollandez que nao podia 
pOr terra esiender o seu dominio^ tentou fazAt-o 
por mar^ e foi seu alvo a ilha de Itamarac4 ^ em 



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M GASTAlOf LfJSTTAlfO. 

cuja oonquista pondeniva que Ihe nao poderia a 
fortuna tirar das loaos o roubo , quando Ihe nao 
d^sae o senhorio, Dispoz todos os nieios , que en« 
teudeo o podiao conduzir a este fim ; saio do Arre- 
cife em 22 d'Abril com todos os soldados, que podi^ 
escusar nos presidios; e embarcados em grande 
numero de y^las , descobrio seu intenio mandando 
emproar a iiha de Itamaraca^ a qual cercou com to- 
das suas embarcacoes ; para que d'ellas a um meamo 
tempo saltasse g^ite em terra por diversas partes. 
Govemava a ilha o capitao Salvador Pinheiro^ sol-> 
dado valoroso e pratico, que com sua gente soube 
rebater de sorte o Flamengo , que por naihuma 
parte buscou alojamento que nao achasse sepulcro. 
Retirou-se o Hollandez, sem que da ilha adquirisse 
nem saco nem dominio. Satisfez-se com fabricar 
na barra uma forea, a que chamou de Orange^ 
d'onde os seus nao sairao vez alguma a inquietar os 
maradores que nao voltassem castigados e arrepen- 
didos. 

XVIII. Ficava de fronte d'esta fortaleza ^ e pouco 
distante (na terra firme) a nossa villa de Iguaracu, 
igualmente falta de viziiihos e de defimsa, e porque 
a facilidade da entrepresa nao d^sse occasiao a con- 
fianca do inimigo vizinho e pirata se mandou for- 
liGcar no modo possivel , e guamecer d'algumas 
companhias, com ordem aos capitaes que a defen- 
dessem , e cortassem o passo ao inimigo , em caso 
que intentasse penetrar o certao da terra firme. 

XIX. Via o inimigo diminuirem-se todos os 
dias suas forcas , cortadas do nosso ferro ; conhecia 
a difficuklade de receber soccorro , tinha aviso que 



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GAfiTMOIO VnBKOMCk M 

D. AjKtofiio de Oquendo era passado com armada 
para a fiahia, e a cada hora o imagioaya no porCo ; 
e conaiderando em fim que quanto mais eapaUiada 
tivesse ma gente, mais facii seria aos: noaaoe vtsa^ 
4^I-a, deliberou«-se em largar a villa , e incorporar o 
poder deatro das fortificacoes do Arrecife. — Gomo 
sagaz desejavacapear a necessidadecom o des{Nrezo, 
e a fraqueza com a negocia^. Mandou um e(i^ 
yimIo a Mathias d' Albuquerque, iuatruido no que 
havia de faa^r e dizer : signiGcou com destresa a 
barbaridade do$ soldados que tumultuosos reque«» 
riao ao general boUandez Ibea permittisde por fogo 
a villa y e nao deixar nella pedra sobre pedra ; 
cousa que elle general por nenhun^ via pod^ra 
disuadir, obrigado a estorvar aceao tao Ceia, e a 
lastimar-se dever entregar ao fogo tao nobres e an-- 
tigas fabrica& de t^nplos e casas, como tinha le- 
vantado a reUgiao e a grandeza ; e que Ihe affirm 
mava desejava ter cabedal para comprar a salva«* 
9ao de lugar iao lustroso; que se sua senboria o 
quizesse resgatar do incendio, fizesse aos amoiina- 
dos um donativo de caixas d'assucar, que elle se 
obrigava a roubal-as, e a entregar-lhe pm este meio 
a povoa^ao inteira pella escusar de tao lastimosa 
ruina. — Ouvio-se a embaixada, e assim como sen 
dila9ao se penetrou o artificio, assim sem detensa se 
respondeo a tencao. Foi dito que Mathias d' Albu- 
querque Ibe fallara nesta forma : « Os Portuguezes 
» com as armas na mao nao comprao, conquistao ; 
» sabem dar cargas de balas, a nao de caixas; as 
«> marciaes os alvoroqao , desprezao as que os em^ 
)» bara^ao. As ehagas que nelles abre o aggravo nao 
I. 5 



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I) 66 curio com aMucar, seiiao com polToraj com 
D ininiigos em que falta a f^ sao estavcia os cotttr%- 
u toi que finna o aaogue : e de ncnhuma firmeza 
M oa que affianca a palavra. Aconselbaria eu 
»> aoa^hor general Theodora Wandemburg, que 
» aao gastaase a roagoa em se doer do eatrago de 
i) noaaos ediBoios, porque aei que toda Ihe sera ue* 
» cesaaria para se laatimar do destroco de sous soU 
a dadoB ; e quando o medo oa adiante a queimar 
» a villa, animo e cabedal tem os moradores pwra 
» a reedificarem com tantas ventagens, que as me^ 
D Ikoraa os enainem a julgar por beneficio a ruina^ 
p porque deaejao deixar na cabe^a d'eata capitauia 
n uma memoria em que apezar do tempo leao as 
a idades oa caatigoa de HoUanda, e os triumphos de 
» Portugal. )} 

XX. Nao achou o enviado a reapoata tao dooe 
eomo imaginava; voltou com preateza, e com a 
mesma mandou o general hollandez p6r fogo 4 villa. 
Considerava na presen9a do ameaco a vizinhan^a 
do golpe. Ordenou ao presidio , que ateado o fogo 
ae retiraase para o Arredfe, porque o rebate do in- 
eendio Ihes n&o pravenisae o castigo do damno. 
Pordm nao bastou a promptidao da obediencia para 
OB livrar da noesa vigilancia. De uma embuscada 
oa aasaltirao nossaa armas tatito mais formidaveis, 
quanto a occasiao Ih'as representava maiscolericas; 
muita gente Ihes matou e ferio o avanco eo alcance; 
e muita mais perec^ra, se a maior parte dos nossos 
nao acudira a apagar o fogo , que apoderado dos 
materiaes que achou dispostos^ pela industria e 
pelo tempo^ servio a lastima^ sem dar lugar i diiigen- 



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CAStHlorro ttBltATO. t1 

cia. Ardeo em breve espaco aquella povoacio tad 
celdbrada pelo commercio como ennobrecida pelos 
edificios, sem que de todm se isentasse das ichatiiad 
mais que uma easa ten ea , que rcserrou a totle 
para memoria da penda : succedeo em 25 de No- 
▼embro de 1631. Nao andavao menos accesas ad 
hostilidades no mar que Da terra ; em uma e xy\x^ 
tra parte ardia o furor e a vinganca. 

XXI. Saira da Bahia D. Antonio Oqutendo Com 
a frota deCastella^ que conduzia para as Indian , ^ 
nella encorporado o soccorro que bavia de enea-^- 
minhar a Pernambuco, em cuja altura o achou o 
- Septembro d'este mesmo anno , de tiagem para a 
Bahia* Nao dormia o Flamengo sobre os avisoA 
(multiplicadod e certos) que linha de tudo quantd 
em Hespanha se detenhinara. Apresdou sua ar- 
mada com o maior numero de r^las , sdldados e 
artelharia que Ihe foi possirel ; fiou o gOTcrno e 
succeaso d*eUa a um pmtico e valente eabo por 
nomtd Adriao Patres^ a quem as victorias ganh6ra6 
opiniao de bem afortunado. Acreditou a escolha 
com a promesBa de morrer ou veneer, Chegou a oo- 
casiaOy investirao as armadas comigual l\iror,apro- 
veitando-se de tudo quanto podia a forca , e alcan- 
cava a industria. Em breve espaco vestirao os ele^ 
mentds as cores do conflicto, de sorte que com o 
estrondoda artelharia estremeceo o pego; no fumo 
da polvora se amortalhou o ar; nao descancava de 
fiisillar o fogo ; e de uma e outra vista bebia hor- 
rores aterra. Particularidades houve nesta batalha 
dignas de se perpetuarem na voz do applauso, que 
por restitiiicao aquella idade deve litrar minha 



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$g CASTRIOTO WJftlTAlW). 

penna do esquecimento. — Atracou a capitania 
hespanhola a hoUandeza ; era esU mais alterosa, e 
com esta vantagem pelejava com melhor partido. 
No mais vivo do combale se vio aquella conheci- 
damente arriscada, porque a abordou pelo outro 
lado outra nao flamenga. Conheceo o perigo Cosme 
do Couto, Portuguez de na^ao, e capitao de mar e 
guerra d'um navio de pequena sorte entre todos os 
da esquadra hespanhola , buscou a capitania con- 
traria,e Ihe lancou dentro toda a gente que tinha, 
sem reparar no perigo de seu navio , que sujeito 
as proas das duas capitanias o mettftrao a pique. 
Salvou-se o valeroso Portuguez a nado com im- 
mortal gloria de intentar e conseguir o que de 
nenhum outro podera cantar a fama. Esta proeza 
Ihe alcancou o posto d'almirante, e tima com- 
menda de pequeno lote.— Livre a nossa capitania 
da oppressao, ditosamente castigou o atrevimento ; 
com uma bala desarvorou a capitania hoUandeza ; 
com outra Ihe metteo um panno breado por aquella 
parte do costado que correspondia ao paiol da pol- 
vora ; deo signal o fumo do lugar onde se ateava o 
fogo ;' conheceo o Patres a certeza do perigo, en- 
volveo-se no estandarte general dos Eslados , e 
amortalhado na honra se sepultou vivo nas ondas. 
— Abrazou-se a capitania hoUandeza , e com eUa 
quasi toda a guarnicao que trazia.Aalgunsque se 
pod^rao deitar k agua recolhferao os nossos com 
vida e liberdade. ik neste tempo tinha o Flamengo 
perdido tres fragatas, que a nossa artelharia Ihe 
metteo a pique ; as restantes , al6m de desMrocadas 
^ coin muita gente morta e ferida^ buscarao to- 



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GA8TR10T0 LUSITANO. 



(ias o amparo do Arrecife, como Ihes foi possivel. 
XXII. Grande foi a victoria , e grande o custo : 
duas naos de Hespanha , uma d'ellas a almirante ^ 
consumio o fogo e o mar; muitas desapparelharao 
as balas; os feridos forao muitos, e os mortos nao 
poucos ; entre elles se fez senlida a perda do ca- 
pitao Yalencilha , conhecido de todos pelo nome e 
pelas occasioes dos Gastelhanos. Para reparar a ar- 
mada tomou D. Antonio de Oquendo o porto que 
chamao da Bahia da Traicao , a onde se refez de 
tudo o necessario em breve (empo^ e continuou 
Bua derroia para as Indias de Castella, como trazia 
por regimen to. Com festiyas cargas d'artelharia ce« 
kbrarao os nossos capitaes a victoria; com diffe- 
rente motivo as deo o Flamengo. Ao tempo que as 
duas armadas entrarao no conflicto se desencor- 
poro^ da nossa o soccorro destinado para Pemam- 
buco, com ordem que tomasse o porto mais conye- 
niente e mais seguro d'aquella capitania. Uma e 
outra condi^ao acb^rao na barra do Rio Grande^ a 
onde desembardirao Duarte d'Albuquerque e o 
conde de BanhoUo com toda a infamtaria italiana e 
portugueza, armas, muni9oes, artelharia, manti- 
mentos , e fazendas que levavao de Portugal por 
conta d'El Rei e de particulares ; o que tudo se com- 
boiou logo para o nosso Arraial , a onde os cabos 
forao recdindos com agasalho de auxiliares, e res- 
peitos de superiores. — Alojou-se o conde de Ba- 
nhoUo em quartel apartado com a gente de sen terco ; 
Duarte d' Albuquerque ^ com sen irmao Matbias 
d' Albuquerque. Separa^ao que involveo em si a 
doB aiiimos, e apartou de nds toda a felicidade dos 



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70 GAsma?o irarrAiia 

siicce880$. Favorecia cada qual a geDte de ana oooi* 
paahia» lem fazerem caso dos aolclados mora- 
^orea^ que com tanto valor e risco linhao servido } 
o que Ihes iospiraya graude deacontentamealo e de6-< 
Qonfiau9a, e causou graude damno aoa B^soaoa ca-i 
pjitaes. Viao desprezada sua fidelidade, eacurecido 
aeu valor^ eaqu€cidas suaa empresaa ; e que aois 
bjisonlioa e esti>aahos se davao os preoaios de seua 
servi^os ; uao podiao ver como amigos am que ae 
Ihea adiaatavao enmloa ; e suppo&to que seiE{tf<e a 
obediwcia os oouaervou juntos , nunca a occasiao 
OS vio coaformea. D'eate principio nasc^ao tantas 
de^gra^as e uifortuuios, quaatos baslarao para per* 
der a saelhor parte d'aquelleEstado.^Chegara por 
^te tempo com copioao socoorro ao Arrecife Sisgta- 
ix^uudo Vauscop ^ a quern a oompanhia occidental 
havia dado o bastao de general de mar e \erra, e 
em que tinba grande eonfian^a pek> seu valor, pra* 
tica e induatiua. Tinha este general aprendido naa 
escolas da Europa que nas oonquistaa ohra maia a 
aagacidade que a foj^Qa ^ principalmenle naquellas 
empresas em que a resiateneia 6 maior que o poder 
d^ cwquifiAa; e oei:to n'eata ma&ijiia applkou todie 
fieu puidado a gai^har animos, que Ihe mostrasseoi 
breckaya para esealar praxes. FaTotecido da oocs^ 
1^ achou entrada para fomentar a desuniao dos 
nos30s^ e para ooxiirahir amizade e corre^iondeiicia 
com coiauk de Banholk). Com o pretexto de eiii*> 
baixadaa^ scriplos emimoa^ se facilitou a commuai- 
^)a9ao enlre uma e outra ge&te. — MiUtava entre ee 
possoa um soldado mameluco., cbaoiado Domingos 
F^ruaudea Calabar^ oAiaado, e livre com 



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devia a justicft ; temeo o castigo, e por fogir a prisao 
ae paasoti ao Hdiandez. A ooonnnnicacao )he e&^ 
siBou algunaa palarras flamengaa, e loda a mBde* 
lidade das ofaras. Fm recebido de todos com indna* 
Iriofio agasalho ; deoejosos que o »enip)o pcrsoa^ 
disse a rnnitos a intita^ do delido. Nao foi a 
sagmidade inCntctifera, poitfoe a rauicos eartAfm 
ardit^ que deapob senrirao a^ ininrig^ d'anxilMH 
MS e guiaa para os aaaakot, torn que desirairao 6' 
eonquiBlariio a terra ; a d'edaa oer mars nocitot 
aqaelies, que entren^ Tiriao maia dessimBtadm , 
porque ckmbo ermo amliiiettas de dentro, mo haffia 
moTioaeBlo de que mm fizessem aviso. 

XXIII. InforflMdo SisgiaaniMio do tftdo quavto 
»tre nto sepassara , e eevto de qoe 06 Doseos $a^ 
davae qoaixeeoe e dcstgosladosda povea estnMieacy 
que acbavM no concfe de BoBbcdke^ e em Doarte 
d'AU>iiqifieFqiie,dieieraumm expenmenti^se na oe* 
caa&o ebrrespoBdiw os effeitoa a causa , jalganda 
por in ap o a aifve l nao at aeompanhar a queoa ckr 
ocEo e da vingaii^ : luma de ser a^ima enprera 
a pedra de toqjEBe deate&affiseloe^ Heaekeo com ^eiwm 
cabtB que (bsee a eowfubta da PavaSha , para oade 
OS mais s^itados se ttofaao reCiradov Eadpenhixi o 
resio doseu poder ; eom ette navegaa a smr armada 
ai^ avislar a nmsa fiortaleKa q«e chamao do Cab^ 
delioy sttoacb oabarra. DeikMi* genle^ artdharia e 
miuMcoes em terra y com toda» a» demoastra^oes 
de sitiar a Corca. Sra eapitao maior da viUa:, e §»»• 
vemador da capHania, Aatonio' d^AUmquecqiie^ a 
qnemo primeira rdiateporiia camfpanha eom todos 
OS laradbresy que a br ui W hakd ii teoapoeo-tepatite 



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7Z GASTRIOTO LU8ITAN0. 

do assalto Ihe deixou conduzir. Conservou-se o ca- 
pitao maior em observacao com a sua genie i sombra 
da fortaleza e it vista do inimigo, em quanto man- 
dou aviso ao Arraial para que Ihe acudissem com o 
soccorro necessario* Mao se atreveo o Flamengo a 
investir os nossos^ admirado de encontrar resoluta 
resiatencia onde esperava achar cobarde traicao. 
Nao tinha conhecido os primores dos animos por- 
tuguezes. valor natural quando se anima de fide- 
lidade obra sem vileza. Em todo o tempo que da- 
rarao as goerras de Pernambuco obrirao os mora- 
dores com esta fidalguia : sempre offendidos na 
falta do premio e do favor ; sempre genorosos na 
pontualidade da obriga^ao e do servico. Todos os 
dias vinhao is maos Flamengos e Portuguezes , e 
sempre os nossos levavao a melhor. Em um d'estes 
encontros (em que sempre havia d'uma e outra 
parte mortos e feridos ) oortou uma bala contraria 
a caridade e a vida do P. Fr. Manoel da Piedade , 
religioso de Sao Francisco y que sem medo dos pe^ 
louros andava entre os nossos exercitando a obri- 
gacao de confessor e o oiBcio de soldado. 

XXIV- Chegou neste meio tempo D. Aleixo, 
Gastelhano de na^ao, com algumas companhias de 
Gastelhanos e Portuguezes em soccorro dos nossos; 
o qual servio de augmentar o numero, por^m nao o 
animo dos combatentes. Nunca a companhia d'esta 
na9ao nos servio a victoria^ sempre & perda. Aquelia 
providencia , que separou os dominios j os definio 
emulos, e nao companheiros. Alojados no posto 
eacolhido guardavao a mesma fortaleza j que os de- 
fendia. Seguiao as escaramucai o curso dos dias. 



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GASTUOTO LVStTAIia 7S 

sem mudanca de sorte , at^ que o inimigo se de- 
cidio a assaltar a nossa ^tancia ; o que fez com 
tao boa. fortuna^ que nao foi sentido senao jd quando 
primeiro se enconiravao os bra^os que os olhos^ de 
sorte que a batalha parecia luta , ferindo-se tao de 
perto que as armas serviao mais ao embaraco que 
ao golpe. Largo espaco durou o conflicto e a con- 
fusao y com que os nossos mal despertos tocarao a 
reiirar para se conhecerem , e distinguirem dos 
inimigos. Quarenta mortos nos custou a confianca; 
e entre elles acabou o capitao D. Aleixo. Mnitos 
dias chorou o ioimigo a victoria j que cousistia 
em ficar na campanha. Mas uao se gozou d'ella , 
porque tendo aviso que do nosso Arrial saira o conde 
de BanhoUo Qom o seu terco em soccorro da nossa 
geute, levantou o cerco, recolheo a artelharia, ar-* 
razou OS quarteis ; e embarcada a gente , largou 
panno ; e mais corrido que invejado entrou no Ar* 
recife, olhado dos emulos com desprezo, e dos 
apalxonados com applauso. Festejou-se da nossa 
parte o successo como victoria ; dos soldados porque 
defend^rao a fortaleza; e dos-moradores, porque 
conbec^ao que em quanto quizessem re»stir, 
nenhum poder os havia de domiuar. 

XXV. Com a entrada do novo anno quiz o gene* 
ral boUandez intentar algunm emjMrezaem que suas 
armas ganhassem credits e proveito a sua na9ao. 
f oz o fito na fortaleza da Nazaretb^ sette legoas dis- 
tante do An*ecife para a parle do norte , para que 
setahoreando a barra podesse alii estabelecer empo- 
rio de commercio e centro de dominacao« Saio do 
Arrecife on 14 de Mar^o com mil quinhentos in-^ 



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3& GASMWit immMu 

(aaleft^ e eopiDta ehama de maretnto^ emburca^CMT 
am vinU e eualro immm, e g^rwn^ mnltklao 4e kifi-^ 
cba9» coia odk«luK> de loniar por entreprcia, e tal« 
17€Z SMa resi&tencia a fortaleza da Naztfe&. l^m 
g^vejTBador da fortakM Befilo Maciel (capitao igual^ 
vnente oap^rto e pratico), o qual, apoiar de nacy 
ter €OKiaigeinaiade$esMfita sokbdosi nao ae ame^ 
dreniou com a ferca que o inimigo 09ile«tava, e 
aMtendeado o sen desenbo^ iMUKfou guarnecer d<$ 
H)08queleiroti» uma trinddeira , que defendia um 
ktgar acoMamodado para ae deitar gente em tora ; 
o qw vBto pelo HoUajadez , mudou de iotefita , e 
foft coateandM> a terra na distancia de meia tegua 
eom leacao de deaeiMbareaF em vmn esteiro, ou ca-^' 
Vbala cpue idli &a o Hiar, entraudo algumespaco 
pek tonra AemlnK "^ Sem neticia alguma de tat 
atmada^ neoi. dos ittte»los d'eila, Ymhao carnal^ 
ittenta por terra ^linze mosqiiieteires nosses guar- 
dasde uma grande pntida de dinheiro^ que merca- 
dores da Bahk remetliao a sens correspondenees^ 
para se empregarem aasiiear. Tanto que yirao a ar- 
mada, emboae^urao^^eeno mato^ para observarem a 
derreteque leva^o aa kinchas. Advertirao que, 
carregadas de infontaria buseavao a terra, tomando 
a calhela^ pek q«al oa trazia sua fortuua a metter- 
senas bocas dos mosqiietes ; levarao-nos os quinze 
soldados a c^pa, ederao has primeiras lanchas uma 
e muilas cargas tao hem sortidas, que nao perdi&rao 
tko* Cortado o Flamengo do repentino assalto^ e 
do inopinado da»lroco, voltou as proas &s lanchas, e 
a nda e a i^mo busco« o corpo da armada , mats 
Yencido <fo*modoque do Humero. Ifeste successo 



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uie^>^rado tirou por (M)iMC|C|uwQi<i o goaor^ que e 
gOYeraador ^ fioriaks» « bayia de^g^ar^ecido pftr^i 
pr^parar ^ta embuscaita^ e qw camdo de rqtaite 
$abre (i iipsaa iriiieheira a ppderia iomar sem 
gr^pda reaUteao^iii. Blw^u is hw^M& q^ ^iAim-' 
i^fia ao primeiro destioo^ e rt^eomefasseiB o ataque^ 
Cheg^iio a Uro de maequ^te ; deo a nosaa lrin-i 
ol^eura solnre a infacitana, qiie cara aauiu e apiub^, 
Miieeea^a&earga^,eoiDpoataria Uw^eeHaqfied'ivm 
i^e^ma bala i^ataya dou$ e (9^. CveMao o id^ 
COB o eHngpf e aam quealgoioa*! afareveiM ii #inr* 
pro^ a terra^ Y(4t4i)^ tedas m Im^a de ve^fn 
lyrrai^eada a uwF-ae» eem a Ifoia, que arai oaaia 
deten^a lavgou pannp ^ e ae fez de y^ia* De ea** 
Hiuih0 poz fogo a trea eiftkarwfeaa noaani, que 
•ehou aurtaft no rie FenuoM : pequena viagiBtfi^ 
piura a lee^ida oSeu^a^ 

XXYI. loduzido, e guiadcioFlameQ^o.daft trait 
doires que trauua cea»c;a (eraos^ oaaier parte llalia-r 
uoe) aaku do Arrecife pek vaeiaBoite ^ aUfavesaeuai 
ruinas da viUa de Qlinda, prosegfuie a MMoroha pdtti 
veredas maia oecuUaSi e aeai acr aeulido^ dee mA»t^ 
a villa de Iguaracu o primeiro dia de Maio ^ a tempo 
que OS moradorea aawistiao ua i|pre^ aoa divmos 
ofBeioa, pela solemiudade da fcata doa apoatoka 
Sao Philippe e San Thiago. Como paamadoa ea 
deixott o repentino aaaateoy e e katiDotoao tomuko 
do mulheiioL Alguna^ que a eaao ae achirao eom 
amnea.aeoppuai^o & (uria doFianaeago ; mas ceno 
Ihea MU)ua oofapanbiae orden, atry^rao ad deaaij^ 
mantar o nuiuere dos movtoa* V^eaQaHoUandas 
aeaa oppo(Bii9ao;! aaqueou aeaa iNMayniiiade; daer* 



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H CASTRIOTO LUSITANO. 

truio sem respeito. Nao perdoou nem a idade , nem 
a sexo; nao respeitou a modestia nem o decoro, 
despojando as mulheres de suas roupas, arran- 
oando-lhe8 com crueldade doa dedos os anneis, 
das orelhas ospendentesd ouro. Roubou e destruio 
o sagrado por odio , o porfano por vinganca. que 
eseapou do roubo foi coDdemnado &s chamas. — 
Pouco mais d'uma hora gaatarao neate cruel exer* 
cicio , e carregando qnatrooentos uegros, que para 
estefim traziao comsigo, do que pod^rao levar, 
marchArao com preasa de criminoaos, levando com- 
aigo dous religiosoa de Sao Francisco por odio, e o 
coadjutor assim revestido como saio do altar por 
d^rezo. Fizerao alguns moradores acordo para 
oa aeguir e picar na retaguarda, obrigando*oa com 
mortoa e feridos a lai^ar. parte do roubo; e por 
certo teriao recuperado tudo, e feito n'ellea grande 
matanca , ae a marcha f6ra mais comprida ; mas 
tinhao perto o mar, e nelle as lanchas que os espe- 
ravao , pos^rao terra em meio , navegando para o 
Arrecife com salvas de artelharia e vozes, que ser- 
virao a sua dita de applause, e ao nosso infortunio 
de matraca. 

XXVU. At^ ao fkn de Septembro nada se inteo- 
tau de parte a parte, conservando-se suspensas as 
armas ; da nossa parte por frouxidao e descuido, e 
da do inimigo por artificio e malicia. Dos cabos se 
ateou a todos os nossos soldadoso ocio, em lal f6rma 
que este e o ardil do inimigo forao as duas maos 
que mais trabalharao em nossa ruina. conde de 
Banhollo (que pareoe levou a fatalidade aquelle 
£atado para perdicao d'elie), ou fosse perauadido, 



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CA9TR10T0 EimiTAIIO. 17 

CHI enganadu, dizia a todos cfue a eautdtta do ini** 
migo era medo ; e com e$ta malicia ou singeleza 
mandou fazer aprestos para ir sitiar a fortaleza de 
Orange^ que o Flameogo fabrieou (como (ica dito) 
oa barra da ilha de Itamaradi. Saio do Arraial com 
apparato e poder de soldados, arteiharia, mmii^oea 
e mantimentos; arialou a fortaleza, escolheo sitio, 
planlou a bateria , ooniinuou as cartas sem outro 
effieito mais que o de gastar tempo sem fruto ; que 
tinha o inimigo a praca tao beu fortifieada de trin- 
cheiras, estacadas e reparos, que nao padeceo a 
for^a o menos damuo* -^-^ conde^ que em (odas 
suas resolucoes era leve , voltou para o Arraial 
deixando na iiha aspens de bater^ quehavia tu*ado 
da uossa fortaleza, por despojo ao inimigo. D'este 
lote erao todas as accoes d'aquelle cabo ; por ellas 
se p<kle entender qual era o animo d'aqueUa bo« 
mem, ea razao com que os entendidos e zelosoa 
tinbaopara si, que peccava mais de combanido, que 
defraeo. 

XXVIII* Sendo o principal inteoto do HoUandez 
assenborear^se da campaoba , julgou (e nao ae en*- 
ganava) que se levantasse uma fortaleza no sitio 
que cbamao dos Afogados ( porque naquella parte 
sobem as aguas do rio, ajudadas da mar^^ com tM 
arrebatada furia que afog^ os que colhem na pas* 
sagem), com ella cortarta por todos o$ caminbos a 
invasao e assalios de nossas armas; razao porque os 
nossos o guarneciato de trincbeiras e soldados. £m 
1 8 de Marco de 1 633 saio do Arrecife no quarto 
da alva com oiioceotos infantes escolbidos y pas- 
sou o rio de baxaroar, investio as trincbeiras 



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7i G&SrAlOTO VBfSftiM^ 

skuadasnasttidrgeti^d'elle, eA opportutiidadeiim 
BelkA aofaoh poucos e descuidados defemores j t 
apoderou*^9e d'ellas sem resistencia. Qulzerao os 
noBSod necuperar o perdido, ma« de balde ; porque 
OB inimigod mais fortes em numero os opprimirM 
de maneira que se virao obrigadoft a retirar para 
uma den^a mala ^ que 06 livrou de (beerem com^ 
panhiaa Tinie mortod, que deix&rao no campo; 
entre elles o oapitao Franciaoo Monteiro Bezetra , 
que pagou com a morte o descuido.*— Nao des^ 
prezou oinimigo o favor da fortuna, antes oseguio. 
Guameceo as trincheiras y e marchando pelas ola* 
rias^ avisado e condnzido por um traidor, assaltou 
a que chamavfto de Nuno de Mello , o qual nena 
oecasiao esiava ausente, e seus soldados com menoa 
Tigilancia do que deviao. Suprio o valor a falta dts 
rebate • primeiro Ihc cobrirao de sangue e de luto 
a victoria que Ihe largassem a trincheira. -^ Occu-^ 
pava-ee o Hoilandee em fortifiear as esiancias ga^^ 
nhadas , quando o certificarao da opportunldade j 
que Ihe offei^cia o desciiido y e a confianca cbm que 
na estancia do Mendonca estava o presidio que a 
guarnecia y aproveiton a opportuntdade ; furtado 
as sentineltos invostio a trincheira^ e tal era o des^ 
cuido do8 nossoB que primeiro sentlrao as cutillfr* 
das do inimigo que vissem os bracos que as des^ 
carregavao. Perd*rao atS a vida os capitaes Brai 
Soares, senhor da ilha de Santa Maria y Manoel de 
Sa ) cavalleiro do habilo de Christo, com perto de 
trinta soldados, entre elles D. Manoel Deca, a 
quemdegolWrao depois de se entregar a bora quarld. 
A D» Atlionio Ortit derao a vida, porque Ihc co- 



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nheotew) a Uagaa (era Itidiaao) ( kvaWkv^tio com o 
seu alfares, e outros presioneirost Para perseguirem 
oa Bosaos soklados^ que btisca vao a Balvacao noa ala* 
gadicoS) tratiao comstgo caes de fib > que Ihes Ian*- 
^trao. Muito perdemM nae diias eetandaa doa 
Afogados e de Nunc de Mello> pela importancia do8 
iiUos ; pordm nesia do Mendonca muito mais pela 
quebra da reputa^. 

XXIX. Yendo-fte o general Sisgismundo assim 
favorecido da fortuna^ com deliberada oUsadia^ 
^ reaolveo em envasdr a tiosna fortaleia do At* 
raial ^ que distava do Arrecife uma legoa de ca-^ 
minho. Biapoz os requisitos necessarios para o in*', 
teuto com disaimukcao e preeieza; e salo em 24 
de Mar^o com todo seu poder.Gom mil qutnheiaU>a 
infauies marchou pelos ingeuhoB de Francieoo de 
Britoede AmbroBio Mach«ido^ at^ passar o rio Ga>^ 
Uperibe^ onde fez aho ) dividio sua gente en^ tres e»* 
quadroea^ aoa qUaea ordenou que a um tempo 
avancasBem por tres partes : o primeiro pela do 
engenho de JeronioK) Pies; o segundo pelas coa^ 
las da f greja da Misericordia ; o terc^iro pc^ um 
pequeno riochamado PemamMorim; este ch^ 
gott primeiro^ e sem ser seutido iuvestio a povoa* 
9ao i e chegou aM as p(tf tas da fortaleia. Estava 
toda a genie reoolbida ua igreja, porque era n'uma 
quinta feira sancta* Achou o inimigo lancada aponte 
levadi^) por culpa doe Italiauos, aosquaeaooubea 
guarda d'ella naquelle dia* Em defeusa da ponte^ 
que atrayessava o fosso da circumferencia do 
Arraial estava um reduto ^ e nelle de guamicao 
dezesette Italianos ; a todos degolou o Iniraigo. 



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go GASTtieiO UISITiJU). 

Pedirao bom qwrtel, por^ o Flamengo adiou 
que o nao mereciao pela vileza da eotrega^ ou a 
causa fosse deacuido , ou trai^ao, — Ja a este tem- 
po o segundo e terceiro esquadrao do Hollandez se 
tinhao mettido debaixo da nossa artelharia; portm 
recolhida toda a gente da povoa^ao dentro da forta- 
leza, come^^rao os nossos com seus mosquetes a 
dar tao repetidas e acerladas cargas nos ioimigos, 
que em breve tempo virao as fraldas do Arraial 
juncada3 de corpos morlos. Crescia o estrago com 
a proiia, e o horror do inimigo com a deteo^a. Tanta 
pressa se davao os nossos em ferir e matar , que 
cada um dos Flamengos desesperava de Ihe ficar 
tempo para fugir ; at^ que desprezada a obediencia, 
perdeo seu impa^io a contumacia dos cabos, e forao 
todos largando o intento e o campo. De sorte car- 
reg4rao os nossos ao Flamengo na retirada, que a 
poucos passost o pos^rao em miseravel fugida, dei- 
xandQ mais de quatrocentos mortos na campanha^ 
e maior numero de feridos , e quarenta e* tantos 
presioneiros'; eatre estes quatro capitaes mtal feri- 
dos, eoutros officiaes menores. Perdemos vinte e 
cinco soldados, a saber os dezesete Italianos 
sobreditos^ e oito Portuguezes; maior numero 
de feridos, entre elles o capitao Joao Yazques, 
atrayessado d'uma bala, que morreo ao terceiro 
dia com lastima igual ^*perda; Henrique Dias, 
governador dos Minas, que neste dia se excedeo a 
si mesmo, levemente ferido; e outros de menor 
conta , assim na qualidade como na lesao. — Joao 
Fernandas Vieira , que apenas tinha vinte annos de 
idade, era capilao de descobrir o campo, como 



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GA6TRI0T0 LUSITANO. 81 

fica dito e neste conflicto foi um dos primeiros que 
com seus sbldados deo sobre os inimigos, igualan- 
do-se no valor e disciplina aos cabos mais assigna- 
hdos. Para obedecer , nenhum mais prompto; para 
mandar, nenhmn mais acertado. Era pequena sua 
idade, mais grande sua prudencia, e maior seu 
valor. Todas as idades teve de varao; nao houve 
nolle accao, que buscasse desculpa na mocidade. 
Griou-o a Providencia para homem grande, e em 
nenhum tempo quiz que parecesse pequeno. 

XXX. Com a fortaleza que o inimigo levantou 
no sitio dos Afogados Ihe ficou livre o passo para 
sair pelo sertao a seu gosio, dando repeddos assaltos 
em varias aldeas, muito a seu salvo. Em 1 3 de Abril 
de 1 633, no quarto da alva, derao quatrocentos Hol- 
landezes, acompanhados de muitos negros, mula- 
tos e Indios, sobre a povoacao daMoribeca, que sem 
resislencia saque&rao e destruirao, profanando os 
templos , e despedacando as imagens. Igual sorte 
teve uma aldea que chamavao do engenho de 
D. Catharina de Albuberque , a (mde com um 
mesmo incendio arddrao edifieios e fazendas. Em 
26 de Maio assaltarao duzentos Flamengos ino^ 
pinad^hoiente os engenhos dos Gararapes : para 
carregar assucar iao todos providos de mocbillas, 
que ench^rao & sua vontade, mais saio-lhe 
amargoso o gosto; porque o capitao Domingos 
Dias com vinle soldados, e alguns mancebos da 
terra, Ihes seguio o alcance, matou vinte e cinco, 
e ferio dobrado numero, captivou um sargento 
com mais alguns soldados ; recolheo quanlidade 
de mochillas , que aos victoriosos servlrao de re- 
I. 6 



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fresco e d« triumphoi e aos HoUandeMft o deiwl* 
M de ctesembara^o e de remedio. Com pouca dif^ 
feren^a fet outrag muiUyi ^rtidaa, qua pela ai-« 
milbaDf a ae podam ver ttas passadat. ^ Dapoia dt 
todoa aatea extragoai diapo^rao^aa oa HoUaDdeftap 
a maior ampreia a maia piagua deapojoy poodo o 
fito na ilha da ItanaracA. Em graode multidao 
de kndifts aoibaroarao toda a sua iuikutaria^ a 
oingirao a ilha por mar{ deilarao gaote em terra 
por tantaa partea que per todas fez a inyasao um aa-* 
aalto contiuuado. capitao Salvador Pinheiro que 
a goveroava , intentou valeroaameute deTendSi-a j 
porem oomo o corpo de aua gmite nao podia en* 
cher o vao do cinto, o[^rimido do cerco eeron^ 
dec k multidao. Fortificou o Flameugo a ilha com 
o roubo d'ella. 

XXXI. Um freio era para o inimigo a noaaa 
fortalaaa do Arraial^ porque odetinba no desejo da 
oorrei* livre pda campanha , e todoa os meioa bm^ 
cava para deitar fdra o bocado que o reprimia. 
£aperou queaporfiayenceaae a-reaisteucia, e em 4 
d'Agoato deiiou fora mil iufiaui^s, com o deatiao 
de aucarem a noasa fartaleza« Marcbarao at^ ao 
engenho de Frauciaco de Brito, oude fuerao alt0| 
dando coataa aum tro^o doa aeus, que deixarao 
oceupados em levantar uma trincheira, e guarne* 
cer umaa oaaas que ach4rao devolutaa oa paaaa* 
gem do rio Capebiribe; e a outro que com a mea^ 
ma preveGtf^ao deixarao naa caaaa de Francisco 
Monteiro Bezerra. — Derao as seatinellaa rebate 
no Arraial, mandou Maihiai^ d' Albuquerque sair 
fdra aquellas compaubiaa^ que o repoite aehoo 



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mats prontu; as quaes, guiadas das sentinellasi 
derao sobre os que estavao aquartellados nas casas 
da passagem do rio^ que volerosaineate desalojarao* 
e oonstrang^rao a buscar a salva^o no pego. Em 
seguimento dos primeiros mandou o nosso genial 
outras companhiaS) que levadas por differente ca« 
minhoavancarao as trincheiras e casas do Bezerrai 
ferindo e matando com furor tao viyo , que p Hot* 
landea com as maos leyautadas pedia bom quarteK 
A todos fi^ra Yoar o fogo , se entre os nossos $e 
acbAra urn barrii de polvora/ Buscava a ira por 
onde entrasse a espada | quando o esquadrao qu^ 
ficara de posta chegara a soccorrer as seus, dos 
quaes achou ja mais de quareota mortos, e 
autre elles muiios ofiiciaes de guerra. Obedeceo 
o furor a razao, e esta a fbr<;a; retirarao-se os 
Bossos levando comsigo muitos iuimigosi que de-- 
rio aretirada o nooie de victoria. Flameugo re- 
parado de suas fortifica^oes contiauou com as trin- 
cbeiraS) e com el las deo principio ao cerco, que 
intentava por ao largo a nossa forlaleza do Ar^ 
ratal. — Goujecturou Mathias d'Albuquerque a 
teii^ao do inimigo, e como bom capitao tratou de 
Ihe obstar por todos os meios possiveis. Maudou 
por iQp> aos canayeaes por aquella parte por oude 
Ihe podiao sevir de impedimento a yista) em op* 
posi9ao do quartel do inimigo mandou levantar 
uma trincbeira de grossas vigas, que logo guar* 
neceo de gente e d'artelbaria; mandou sair da for- 
taleza do Arraial toda a gente ioutil para tomar 
armas ; e ao conde de liahhollo, que assist ia a 
obra d'uma fortaleza que no pontal de Nazareth 



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8& CASTRIOrO LUSITANO. 

se fabricava , deo ordem que se recolhesse ao Ar* 
raial com o seu ter^o de infantaria, eo mesmo aviso 
fez a todos os moradores da circumferencia, para 
que o inimigo achasse em toda a parte prevenida a 
defensa e cortada a esperan9a. Quaudo andava 
nestas diligencias, recebeo aviso dequepelo rio de 
Capebiribe subiao a voga siu*da cinco lanchas em 
companhiad'um patacho ; e que o Hollaudez man- 
dava aos sens soccorro de geute, artelharia, muni- 
coes, armas, mantimentos, e retrescos , com or* 
dem que , descarregadas as embarcacoes, mettes- 
sem nellas os generos que tivesse adquirido o 
roubo, para que se conduzissem ao Arrecife sem 
dispendio e com seguranca. Guardou o general 
para si a noticia; chamou ao governador dos In- 
dios D, Antonio Philippe Camarao, communicou- 
Ihe o segredo , ordenando-lhe que com seu terco 
se fosse embuscar em sitio sobranceiro ao rio ^ que 
cliamao o Guardez, com sentinellas ao largo que 
vigiassem a navegacao ; a outros capitaes ordenou 
que com oitocentos infantes se formassem no sitio 
de Pernam-Morim , para todo o successo. Erao 
ISd'Agosto quando pelas duas boras da meia 
noite derao fi as sentinellas do Camarao das em- 
barcacoes do inimigo ; prevenirao-se os embusca- 
dos, e tanto que surdirao a emparelhar com o 
sitio, empregarao nellas successivas cargas ; cairao 
muitos , e o medo obrigou a outros a que se deitas- 
sem a agua, adiantado-se a perder a vida. Ao 
estrondo da mosquetaria acudio o esquadrao que 
08 nossos formarao em Pernam-Morim, e chegan- 
do a tiro derao sobre as embarcacoes uma carga 



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CASTRIOTO LUSITANO. 85 

scrrada. Temeo-se o Flainengo submergido, de- 
samparou os vasos; dos quaes os nossos se apode* 
rarao e de todo o soccorro , que constava de seis 
pecas d'artelharia e bfX)Dze, oito roqueiras, inuita 
quantidade de polvora e balas, abundancia de 
refresco e de viveres de todo o genero , que logo 
conduzirao para o Arraial com algumas bandeiras 
inimigas , que (izerao mais plausi^el a Yictoria, 
deixando as embarcacoes consumidas do fogo. 
Cento e tantos Flameugos perderao nesta occasiao 
a vida ; dos que escaparao das balas e das ondas 
forao poucos illesos ; os que trabalhavao nas trin- 
cheiras , informados do successo , e induzidos do 
medo, largarao a obra com os instrumentos d'ella, 
(ugindo tao desatinados como se levarao a nossa 
espada sobre sua cabe^a. Deixarao arvoradas as 
bandeiras y ou por testemunho de sua cobardia, ou 
per disfarce de suaretirada, que conhecida de 
Mathias d' Albuquerque oa mandou seguir ; mas 
sua ligeireza frustrou nossa diligencia. Achou-se 
nesta occasiao uma carta do general hollandez 
para os sens cabos, em que Ihes ordenava que re- 
cebido o socorro passassem o rio, e a todo o risco 
investissem a escala a nossa fortaleza do Arraial ; 
e que entrada, a nenhum vivente se d^sse vida, 
Trocou o Gko as maos a espada; e recebeo a ferida 
quern havia de dar o golpe. 

XXXII. Mais obrigado da fama que moyido 
d'ardor militar deitou fora o Hollandez quatro- 
centos infantes no dia 21 d'Outubro, com ordem 
d'assaltarem a fregnesia de Saulo Amaro. 
Distanle d'esta freguesia havia uma irincbeira, 



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86 GASTRIOtO LUSITAMO. 

imico reparo dos moradores, na qual se achava o 
capiiao Estevao de Tavora com doze soldadod. 
Encontrando o inimigo resistencia que nao egpc* 
raTa, e vendo-se descoberto pelos nossoa^ que 8up» 
poz era maiornumero, guiado d'um negro, mudou 
de vereda, e encaminhou-8e para o engenho dc 
Jeronimo Luiz. Foi em seu alcance o capiiao 
Estevao de Tavora com os seus doze soldados, e 
alguns moradores que sc Ihe aggrcgarao; ,ma8 
quando chegou ao engenho j4 estava enlregue ^8 
chamas. Informado que o Hollandez com o roubo 
de assucar, gados e moveis marchava para o en* 
genho de Maria Barboza , o seguio a passo largo, 
e o avistou a tempo que nao pdde o inimigo fazcft* 
mais que p6r-lhe o fogo , e marchar carregado de 
pelouros com que os nosso* o serviao sem intcr- 
rupcao. — Nesta hora chegou casualmente iquelle 
lugar capitao Antonio Andr6 com quarentt 
mosqueteiros , e cortou-lhe o pas»o« Vio-se o Hol- 
landez por uma parte atalhado, e por ontra perse* 
guido, e com desesperado medo determinou rom- 
per por uma densa mata , a onde embaracado das 
armaa nem podia marchar com ordem , nem re^ 
sistir com Fdrma. Rompeo o maio ate sair i cam«- 
pina de Tigipio , ondc deo de rosto com Liiiz Bar- 
balho , que o recebeo com uma carga de qnarenta 
mosqueteiros , tao destros na pontaria que derri* 
b4rao trinta Flamengos; desacordadoa os mais 
forao largando a presa e aa armas, attentos a 
conservar as vidas, que miiitos perd^rao norio 
d'um rio, e outros o passirao com agua pelos 
peitos; correndo todos a emparar-se do engenho 



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CA8TU0T0 LqUTAMO. 87 

de AntoDio FertiUndes Pesaoa, otide , em vez de 
abrigo, acbarao eairago. Acaso cheg4ra aquelk 
paragtm o aargento maior do Estado Pedro Gor^ 
rea da GAma com dusentos motqueteiros ; deo 
•obro ot ininiigosi tnatou quarenU etaatos. Qui* 
lerao os caboa inimigos fazer alto ^ para eyitarem a 
desordem em que Tiohao ; por^ oomo o medo 
i inoapaz de diadplma , faliou em todos a obe* 
diencia^ fugindo oada qual per onde o guiava a 
•orte; e te^e tao pouca sua efei^ao, que os maia 
d'eilea oairio oaa mios doe Indioa do Gamarao , 
tao afflictos que Dao reaiatiao aoi golpea, tendo por 
melhor fortuna o morrer que o fogir. De quatro* 
centos nao escapou o diiimo da motte oti da pri- 
eao« Dos nossoa ^ em todoa ob encoiitroa f morrirao 
einoo ; um d'ellea aargento de Luiz Barbalho; t 
ficmrio alguns fOTidoa^ 

XXXIII. Neste ineio tempo partio de LiaboA 
Fvanciaco de Yasoouaellos pbt cabo de duas tiaos 
e algumas Caravelks^ que eonduziao urn socoorro 
ami oemsidemTel aMathias d' Albuquerque; maa6 
Hollaiidez^ que tinba aviso de Uido que no reino 
ie pasaava^ nuyKloubordejar sua armada na altura 
da Fariiba^ e em Novembro d'eale anuo Ihe vi^rao 
cair Has maoa ot Darios do a(>ficonro. A deaigual« 
dade do poder , que oos tirou o partido , fioa aeon-* 
selbmi o rtnmiio; derao as caravellaa a ooata i as 
duas uaos sorgirw na babia da Trai^o. Franoiaeo 
de VlMeomdloi saltou em terra , a kttuou o cami- 
nba do Arraial ^ imaginando que deiaava Seguro o 
soCGorro que ae p6de sal?ar; mas engatiou^ae cul-^ 
ty povque a faka do €ak> tave forca de 



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88 GASTJilOTO LUSITANO. 

exemplo. Abandonarao as naos d'El Rei ^ que pro- 
melt^rao defender^ desprezando vergonhosamenle 
08 clamores dos marinheiros, que os reprehendiao 
com Yozes, e envergonhdrao conn as obras. To- 
mArao estes as armas, e com ellas nas mao6 espera* 
rao o inimigo, e se defend^o como valorosos em 
quanto os nao opprimio a multidao dos coutrarios, 
que OS euTestio, rompeo, e saqueou todo t) cabe- 
dal que Ihe servio. Com estrondosa festa celebrouo 
inimigo sua victoria e nossa injuria , e ounca com 
mais f undamento , porque nunca nossas armas na- 
quella terra padec&rao nem maior quebra nem 
maior perda. 

XXXIV. A fraqueza e a infidelidade se unirao 
nestes dias para nos magoar. Saio o inimigo no 
mez de Dezembro, e com grande poder de gente e 
de navios^ sobre a nossa fortaleza de Kio Grande. 
A n^ociacao tinha comprado a contingencia da 
batalha. Rendeo-a o Flamengo com a vista. Suposto 
que o capitao Pedro Mendes, ferido d'uma bala, 
deo a vida pela defensa. Com pretexto de cobiarde 
a entregou o tenente govemador , que era um 
sargento : pareceo^lhe a fraqueza menos feia que a 
Iraicao; facilmente cae na villeza quem se delibera 
a viver da infamia. primeiro que entrou napraca 
foi o Callabar (aquelle mullato de quem fizemos 
men^ao em n*»XXII), ou para asegurar o concerto, 
ou para se conhecer o autor do contrato. Com 
quarenta soldados que a forga tinha de presidio (os 
mais tinha licenceado o capitao ) levou o inimigo 
preso ao cabo para o Arrecife, Murmurou-se entao 
que com esta apparenda quizerao os inimigos en* 



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GASmOTO LUSlTANa 89 

oobrir a trai^ao da entrega : engaao mais segiiro, 
porto menos apparente. Com toda a artelharia 
de todas suas fortalezas coroadas de luminarias 
publicou o inimigo oseffeitos d'uma traicao, ser- 
vindo um mesmo estrondo a sua alegria e a nossa 
magoa; o que nos ratificou, a cara descoberta, 
remettendo para o nosso Arraial o autorda entre- 
ga livre , favorecido e medrado ; o qual mandou 
logo Mathias d' Albuquerque prender com griihoes, 
e confiscar-lbe os bens , processado o crime pela 
confissao do nio. Nenhuma perda foi para nosmais 
sensirel , porque nenhum successo foi dos nossos 
imaginado. Deo este infausto golpe fim aos suc- 
cessos do anno de 1633. 

XXXY . Gonvidado o Hollandez da boa for tuna 
com que o anno passado se fezsenhor da ilhadelta- 
maFacA*e do Rio Grande , se animou a emprehen- 
deraconquista do pontal de Nazareth, naoso pela 
vizinhanqa , senaopelasconsequeneias : era a porta 
por onde nos entravao os soccorros^ e saiao os 
generos. Preparou os vasos de sua armada ; saio 
do Arrecife em 5 de Fevereiro; eparamelhor 
esconder seu intento , mandou a toda a frota que 
emproasse aaltura daParaiba. Avistou a fortaleza 
doGabeddlo, queguardava a melhor barrad'aquella 
eapitania, e da outra parte deilou quatrocentos 
homens em terra ^ com ordem que ameaoassem e 
nao acommetteas^m a forca de Santo Antonio que 
alii estava situada; o que Bzeraocom vagarosas ap- 
parencias, dando occasiao e tempo para que a yoz 
do rdbate tirasse a gente d'onde a temiao, para a 
parte . a onde o enganavao. Persuadido Mathias 



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90 QAanioTO imaMMO. 

d' Albuquerque oom a viyeu das ipparancias^ det« 
(ttdiodoArraialduzontOB aoldados em quatrooom* 
pauhiaa que foMem toccorrer a Paraiba, a tempo 
que o Hollaudei acautellado e furiiro ^ recolhida a 
gente que tioha deitado em terra , Tinha j& arri^ 
baudo iobre o poutal de Nazareth* -^ Por um m^ 
teiro deitoa um goipe de grate em terra, que e 
•argeuto maior Pedro Gorrea da Gama , governa* 
dor d'aquella praca^ maadou rebater oom maii 
acordo que effeito. Em quanto durava o conflicto 
buscaya a armada inimiga a barra, a qual entrov, 
mas nao tanto a salyo oomo eeperaya ^ porque um 
reduto nosao dirigio tao bemseus tiros que Ihe me^ 
tec a pique duas fragatas , que o mar tragou 
promptameute em quaato as outrat davao fuudo 
uo porlOi a onde em uma poata d'areia fabricou 
o HoUandez um fortim, que as abrigaVa* -^ Os 
nofisoa que yirio o inimigo ienhor do porto ^ a onde 
eelavao muitaa ntos a oarga , e para ella alguna 
akmiseas cheioa de faieuda, a uma e a outra causa 
poe^rao o fogo ; e em pouco tempo (xmsummio o 
iooeiMiio generos de muito valor ^ mas nao inteira^ 
mente^ porque 'a diligencia do inimigo p6dc ate^ 
Ibaki a tempo queaindasalvou daa cbamas cabedal 
quemerecee a estimacao d'uma boa presa, --^Ded« 
•e rebate no Arraial ; Mathias d' Albuquerque e o 
conde Banhollo marcharao immediatamente para 
Nazareth ^ fizerao alto sobre o oabo de 8anto Agoa» 
tinho, queficasobranoeiroA barmi f(nrtifidMo-^ee 
com trincheiras^ assenUrao algumas pecas d'al^ 
canoe ^ e com os pellouros d'elb^ oome^^rao a ser* 
vir OS embaroa^oea itriaiig^g com pofttaria lie 



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QASmOtO LOMTAKOU 91 

certa que largou o porto e as ancorasi e turgirao na 
enseada fora do alcance da arteUiaria. Vetido oitao 
tm nos$M que o reduto^ que o Hollandet fabrica- 
va , ja nao era protegido de luat iiios^ na manha 
dodia 7 de Marco deac6rao do moute seKenia sol- 
dados escolhidose resoluioS) e com tal ralor oiiiTes- 
tirao que immediatameiite o entrarao, e detalojario 
o inimigo. -^ Mao noa foi d'utilidade ctia victoria , 
porque ao tempo que Mathiat d'AUmquerquede»- 
cia t!om trezentot soldadoapara conaervar o gaohi- 
do^ entre osappkusos da yictoria so tevantou uma 
iroz ( que se aifirma ter aaido de peito traidor) que 
OMiitat Teaes repetio Tir sobre eUea o ioimigo com 
todoopodW) e fez tal impressaonosanimoadoTul- 
go que Ihes nao deixou tempo para a reflexao ^ e a 
confusao seguindoi*se a deac^ediencia todoa fugirao 
•em qoealgum Tiete de quem. Protocado inimi- 
go de nosia deBordem^ vditou animoeo^ e recupe- 
itm o perdido« CuatotMnoe este deaaaire vinte mor- 
toi, e luuitoa nais feridoa I uaosendpoMnorado 
porto 9 que era por onde recebiamoi ot aoocorroi • 
XXXVL Animado com eete aucceeao imagiiKHi o 
HoUandea que poderia ofater outro maior. Eu30 de 
Mar^ despedio do Arveoife quinhentoa toldados 
eacolhidos^ e grande multidao de ^asiadoree^ em 
uma copiMa chusaia de lanehas j que favoreeidaB 
da eacuridade da noite aofairao pek) rio Capiberibe 
a cima at^ junto de Pemam-Morim, a onde deeem- 
barc&reo eem serem aeiitideS) e onde letanlarao uma 
trincheira que guaniee^rao de geate e artelharia 
com tat prompiidao que primeiro noe aviwrao as 
Uroa que oa olkoa. -^ Adfvertidoa oeaoBioa eome^a- 



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92 GASTRIOTO LUSITANO. 

rao nao so a corresponder ao inimigo com os tiros de 
nossa artelhria, mas a provocal-ocom alguns solda- 
dos que deitarao fora ^ trayassando-se repetidas es- 
caramucas que sempre acabavaoa favor dos nossos. 
— Vendoo HoUandez fnistradasuaesperanca e sua 
ruina eminente j resoWeo-se a levantar o sitio , e 
para melbor encobrir seu projecto , maudou urn 
tambor com embaixada pedindo a entrega da for- 
taleza com promecas e ameacas. Foi o messageiro 
despedido com o desprezo que merecia; mas de 
que inimigo nao fez caso, porque so queria ga- 
nhar tempo e nao obter resposta. Embarcou n*este 
meio tempo em suas lanchas feridos , mortos, ar- 
telharia e bagagem; e se relirou a vela e aremo, 
evitando com este ardil o destroco que temia mais 
certo na fogida que na assaltada. 

XXXVII. Mathias d'Albuquerque, que assistia 
com o grossoda gente em Nazareth , sabendoo que 
passava no Arratal , se Ihe re{H?esentou occasiao 
opportuna para desalojar o inimigo do reduto, que 
tinha fabricado no pontal , e Ihe mandou dar «e- 
gundo assalto; mas como a resistencia estava pre- 
venida , depois d'uma luta proGosa , sem que a 
victoria se inclinasse para alguma das partes, se 
aparlarao ambas as nac5es do conflicto , deixando 
OS nossos sette mortos, e levaudo maior numero de 
feridos, e tendo os inimigos muitos mais d'uns 
e outros. 

XXXVIIL Deixarao estes dous successos suspen- 
sas umas e outras armas por alguns dias , no des- 
trito de Pemambuco ; tempo de que o Hollandez 
se approveitou para dar urn do a sua espada na 



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CASTBIOTO tUSITAHO. 93 

capitania doRio Grande. Tinha-se4he offerecklo o 
genlio da terra por auxiliar, que i naturalmente 
maligno e inconstante j com nativa propensao para 
o roubo e para a vinganca.PerauadioaoHoUandez 
a entrepreza da povoacao de Cunhau^ com a riqueza 
do saco , e a indefensa do lugar. Saio da fortaleza 
governando ao mesmo gentio que o conduzia , de- 
rao sobre os incautos raoradores tao inopinada- 
mente , que a confiisao cortou ao8 misera^eis ve- 
zinhos o caminho da resistencia e da fogida. Hor- 
rendas e execraveis crueldades exercitou aqui a 
barbaridade e o odio , apostados a excederem-se o 
herege, e o gentio. Nao perdoou a espada nem 
a sexo, nem a idade; nao respeilou a rapacidade 
osagrado, nem o profano; e o que nao pode met- 
ier a saccO) condemnou as chamas. A ferro e a fogo 
perderao a yida perto de cincoenta pessoas^ sendo 
d'este numero um religioso do Carmo, e o capi- 
tao Fragoso, a quern as injurias tornarao mui cruel 
a morte. 

XXXIX. Sem movimento, de que se faca lem- 
branca, esteve em calma a hostilidade at^ o mez de 
Septembro : parecia descanso, e era mina, que arre- 
bentou com a violencia que logo se vio. Em o mez 
deMaio chegou asalvamentoum soccorrodeduzen- 
tos homens, deque eracabo D. Fradique, com mu- 
nicoes e mantimentos , que da Bahia mandou Diogo 
Luiz d'Oliveira, governador g^ral do Estado; 
tomou porto em Nav.areth ; e no mesmo lugar deo 
Mathias d'Albuberque alojamen(o aos soldados do 
soccorro. Era aquelle posto o de maior importan- 
cia; e jielle assistia o maior poder. Poueo tempo 



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despoit cbagaifto ao immigo algumti uio% d« Hoi* 
laoda com novos caboi e miaittros; e com ellei 
novas ordent i ci\io roaultado ao diante veremoa* 
XL. Para ob»arvar a fortaleza dog Aflbgar 
dos, qua o inimigo tinba por mui aegura, tinba 
Luiz Barbalho ( ja eatao noDdeado mestra d^ campo 
d'um t(9if por Matbiaa d'Albuberque ) aacolhido 
o governador doa negroa Honrique Dias o qual, 
embuacaado os aeus nagrog oas matag , pelos lamar 
9afia alcancava quanto^ passos elle dava* Succedeo 
que em 12deSepteiubrosaiaoquatrocentosI1ollaa« 
dezes^ e marcharao pela vargea do rio Capiberibe 
eomodestiuo de aasaltarem o engeoho de Antouio 
Cavalcantiy a opde o gentio seu parcial Ihe promettia 
grande preaa ( e para asaegarar a retirada deixou 
o Flamengo uma eroboscada no engeuho de Fraiv- 
ciftco de Brilo, Tudo eutead^ao e observarao o$ 
soldados de Henrique Dias , que sem dilacao tbz 
ayiao ao otestrede campo Luiz Barbalbo« — * Ouvio, 
neste meio tempo , o Hollandez o rebate que se 
deoLO Arraial i suspeitou que era sentido; temeo- 
ge cortado } maa quando se poz em retirada , dec 
de rosto com o oapitao Antonio Andr^, que com 
cem soldadoa se achava na campina do Figueiredo 
para o asaaltar de cillada. Deo sobre o inimigo 
com desigualdade de numero^ maa com superiorida*- 
dadejvalor ; foi d uma e outra gente igual a resia^ 
tencia e o damno. Acmboscada do inimigo ouvindo 
egtrondo do conflicto , largou o posto para acudir 
aos seug , maa achou-se atalhada por outros cem 
homens nossos , que Luis Barbalho despedio do 
Arraial para esperarem o Flamengo na passagem 



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d'Amluroiio Mtcbado) e ussim earc^ido pelos 
ttoaaos, queTalorouoMnite o feriao , buacou o r^ 
rfaadionafugidai porim^qiimdojaUie pareeia 
aar eacapado do maior perigo , deo na embuioada 
do Heoriqua Dias, quede todo o darrotou, ma« 
tando-lha e ferindo-lhe muita gente, — Quasi ao 
OManH) teiDpo eiperimentou igual fortuna no 
poito do CaWo, E^va alii ancorada uma fragata 
iaimiga ; aajo a tripola^^o a rovbar pelpeertao j 
d&o ^bre ellea o gratio guiado por alguna Portu^ 
goeeoa , e fioi tal o furor com que oa assaltarao, 
que OS que esoaparao de mortos ou feridos , forao 
presaoB* Dazoito rendidot apregentarao os vioto^ 
rioaoa a Maihias d'Abuquevquet 

XI^L Erao oa HoUapdezea mais solUciloa em 
iModar reform do que o governo d'Hegpanha 
em acoudir com aoocorro. Apreatarao quarenia e 
geia fragaUade g^erracom armaa, muDi^oea, e 
mantimentoa em abundaucia t guamecidaa de 
geote eacolbida, e chamada de varias oacoeg; para 
quetodas as pracas do nosao £a(ado fossem toma* 
daa definitivamente pelas armaa da companhia 
oecidentaK Lafgou vela a frota nos primeiros diaa 
de Dei&embro, e fayorecida do tempo appareceo 
com curta viagem sobre o porto da cidade de Fa«* 
raiba. Tomou paono , deitou ferro pouco distante 
da fortaleMdabarrai que cbamao do Gabedello, e 
semimpedimento deitou em terra mil oirocentos in-* 
faatea* — Sitiouoinimigoa fortaleza por terra e por 
mar 9 sem que a uoasa geote Ibe podesse imped ir, 
levantou triocheiras, abrip foaaoSi plaatou arteilia^ 
ria ^ e bateo a for^a com toda aquella divergidade 



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M CASTBIOTO uniTAifa 

de tiros^ que para os assedios inyentou a arte e o 
furor. Tinhao ob nossos levanUdo uma trincheira 
a tiro de pe^a da fortaleza para seguranca da praia ; 
ordenou Sisgismundo a um tro90 de sua gente que 
a escala a envestisse e ganhasse. Avan^ou com Ta- 
lor; foi rebatidocomvalentia. Grecia o furor com 
a perfia , de sorte que ja a peleja era mais vin- 
ganca que combate; at^ que morta a maior parte 
dos defensores a entrou o inimigo , franqueatido- 
Ihe a invasao os corpos mortos dos seus , em tanto 
numero que sobrepostos uns aos outros igualavao 
o alto da trincheira. Nao teve o HoUandez para o 
triumpho mais que a prisao do cabo que era o ca- 
pitao Ferreira ; porqu^ os soldados , que erao ape- 
nas quatorze, primeiro derao a vida que largassem 
a victoria. — Dura resistencia achava o Hollandez 
na fortaleza ; com reciproco damno continuava a 
bateria , sendo maior o dos cercados , porque alim 
dos pelouros, granadas, e outros artificios de 
fogO) ja as minas tinhao feito voar alguns baluar- 
tes, servindo as ruinas a muitos de sepultura. A 
guarnicao constava apenas de trezentos soldados, 
cujo umero tinha consideravelmente diminuido 
com oprofiadoassedio de quatorze dias. As municoes 
estavao exhaustas , os mantimentos consummidos, 
o perigo certo, o soccorroduvidoso; oque hem cott- 
siderado pelos capitaes, com prudente accordo ca- 
pitularao a entrega; e deixarao a pra9a, samdo os 
cap! laes e officiaes da milicia com as custumadas hon- 
ras militares; e em sua companha todos os morado^ 
res com suas armas, ihoveis, e Uberdade, para 
tomarem o caminho que ihes parecesse , e que os 



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CASTRIOTO LUSTTAHa 97 

soldados pagos ficassem prisiondr os at^ se Ihes dar 
passagem para fora do Estado. G>in as rnesmas 
coQdicdeSi e muito menos defensa se rendeo a 
ibrca de Sao AnConio, sabendo que a fertakza 
estava entre^. 

XUl. Logo que Mathias d'Alboquerque reee- 
beo o aviso de que o Flamengo sitkiTa a fS^rta* 
leza do Cal^edello, despedio ao eonde de Banholk) 
com o seu terco de Itaiianos , e D, Fernando de 
Riba Aguero com algumas companhias de Caste-* 
Ifaanos que fossemsoccorrer a praca com a diligen-* 
eia que pedia a importancia , e que. a todo o risco 
Ihe mettessem soccoiro, qiiaodo nao podessem de- 
salojar o inimigo. Erao Castellianos uns^eltalianos 
ontros y e jornaldros todos. Doze dias gastarao ua 
marcha , que de volta fizerao em tres, so a flm de 
ch^rem a tempo que a perda 6s escusasse da ba- 
talba. — Esperayao os habitantes afflictosdacidade 
que o eonde saisse a campo a fazer opposicao ao 
Flamengo , que com insolencia saqueava o con- 
torno 9 ou que ao menos os fortifioasse e defen- 
desse , mas acbou-se enganado ^ e vio-se assoUado 
pbr queraseimaginava defendido. Fermittioaos sens 
o saco da miserayel cidade^ que se executou com 
estranha exorbitancia : golpe, para os naturaes 
lanto mais sensivel quanto menos esperado. Assim 
ficou a atribulada povoacao sem cabedal e sem de- 
fensa, exposta ao ultimo da calamidade e da extor- 
cao. Sem resistencia se apdderou d'ella o Hollan- 
der ; nao deixando a fortuna aos tristes moradores 
mais que a escolha da tribulacao na sorte de cap* 
' lives ou declterrados. Uma parte ^ e foi a maior, 
I. 1 



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91 QAwmmQ imrkMo. 

dfimwft^rw^ nm ftmtiw n- 9e^o o oumfnho dot 
lUlJMiQff qm Ih9 levavao ai fazanikis, outra 
part#t «iiq^«cid«4ai^f^aiida8, ae d^iiou eatar em 
suMcrMW com mala* ooraciio pam aoQrar ioimigfoi 
declarados^ que para seguir auxiliaPM folf^M i t 
eatoaidjQj^ fjaiinngo paaaapoptoa da vatiallos^ 
cofii.{roipaaaaa4e o» awtentap en aeui Ibroa > e no 
Urn. fmroi^ia da raligiao ditlioUQa nomana. 
(MQ4aro«aa ile hosptdat que lago rompeoa tyra** 
nia d4 i«phor» ) Gvaadaa fwfto oa trabalhoa doa 
cpm aeguiraa oa ItaUaqoa i fiorque una tiraoM m« 
UurAipante deapojadoa por oq^M^Ua om qu^m ^pe- 
ravao A<»bar ppotaecao ; a outroa , aaguindo a vepeda 
4q Arriiftlf YJ^o^^a^ aaaaltadoa da fome e da mn 
saria, pRdaceocb liittmoaoa piwaroa na cpuduQao 
de soaa familiaa i que a urn maamp tempo vjaq 
rampm* a wato wm q torBneotOi a o cap com garni- 
doa. Vm taptA affllio^Ao 9 xlaaamparo Ihes era a 
coDsarvJi d» Antonio d'Albuqq^rqua , a de muitos 
senhoraa d'an§[anhoa» triate aiUvio, poisaem po« 
deimm sarvirf3oma socoorroi aarviao ad com o 
ewmpk) I a todoa igualiYa a aorta no infortunio, 
XLUi Tftnto qya Siagiamiwdo ae vio sanhor 
dft eidftd^ 9 foptalaia e barra de Paraiba , re^ 
partio aw ganta em mangaa da pequano numero 
com prdam d# aaqnearam oa angenhoa, aldeaa 
e donoAoilioa da todo o diatrioto , aam dirtiacao de 
alUadoa a p^baldw j o que ae ei^^ecutou com inaaa^ 
siaval qobiija , racolbendo Flamengo uma grossa 
preaa. -rr- Jntprmado peloa aeua de que na cam** 
panha nao bavja sombraa d'oppoaicao nem rebai^ 
dia, 4mxou a cidade oom limitada guariu^aQ) ^ Qom 



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CA9VRI0T0 UmiMO, 99 

o groB90 de aeu pod«r sq foi apodenmda dt terra ; 
marchou At^ a Goyana i em cuja mareba te Ibe 
aggregoQ todo o gentio. eustumado a i^eguira me^ 
Ibor fortuna , e de que elle ae $ervio para a$ auai 
exp^i^oaa. —« Mathiaa d' Albuquerque » que via 
nao sem receio o engrandecimeiitq dp iuimigo, 
cujo yerdadeifo inteuto era de tomar uoaio Ar- 
raial , para a$&im firmar o aeu dominio ^ fn logo 
aviso ao reiuo do que era succedidoi pedindo 
com grande instaacia soccorro para ooutrabalan^ar 
oa reforgoa que elle havia recebido. NaQ oonvii^ia 
poi^m estar ocioaoi e para obatar d'algum modo 
aos progresaoa do Hollander > ordeuou ao oapitao 
Rebelliobo, que com algumaa companhias , tiradaa 
da Nazaretb e do Arraial aaisse a cortar-lbe o 
passo; e quando a opposicao nao baatasse para o 
deter y nao deacausasae de o picar. -^ SutreUuto 
que na fortaleza ae CaEiao todos ob preparativoa 
para esperar e repeUir o inimigo, chegou o oapitao 
Rebellinho com suas compaubias, e as de alguna 
moradores que ae Ibe aggreg^rao, a uma ^Jdea 
cbamada SaoMigueldeMozupe^ a oudefez alto; 
mas tendo aviso qiie Sisgismuudo marcbava com 
todo o poder em direitura ao mesmo lugar^ bus* 
cou outro mais commodo para r^Uzar o seu 
ardil, deitando fogo a aldea, Fassou o iuimigo 
$em deter a marcha dirigiado*$e a Mazurepe, eo- 
gieubo dos religiosos de Sao fiento^ a onde fez alto 
sem a<^ar impedimento , porque religiosos e se^ 
cularea haviao abaudooado. Estava o Rebellinbo 
embuBcado na mala de Joao Leite; assaltou o ini- 
migo com noventa soldados com tanta fortuna que 






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100 CASTMOTO LUSTTAIia 

o ftez retirar duas vezes em grtnde confasao : mu- 
dou de sitio para segundar o assalto ; por^m sendo 
descoberto par infidelidade , foi acommettido por 
todo o poder de Sisgismundo , e depois de se de-* 
fender valerosamente , e senda elle meamo atra^ 
vessado com duas balas. 

XLIV. Nao descancou Sisgimmndo nos bra- 
cos da victoria; antes aproveitando o favor da 
fortuna dispos-se a continiiar a conquista do re- 
concavo : o que conhecido pelos nossos, comecarao 
a preparar-se para a defensa. — Os dous Albu- 
querques, com o conde de Banhollo , que aseistiao 
em o monte de Nazareth , deixarao a fortaleza en- 
tregue a Pedro Gorrea da Gama, sargento maior 
do EstadOy bem guamecida do necessario para 
sustentar um lai^ cerco ; e com um grosso de 
geiite se aquartellarao na povoacao de Santo Anto- 
nio , sitio vantajoso d'onde podiao soccon^r as 
pracas vizinha^. Luiz Barbalho , que assistta na 
povoacao de Sao Lourenco com o seu (erco, dei- 
xoua, pela mesma razao , fortificada o melhor que 
pode , e com duzentos soldados de guarnicao ; com 
a maisgente .se passou para o sitio, qu^ chamao 
OS Curraes de Santa Anna^ e de U despedio duas 
companhiasparaos Guararapes,e outras duas para 
a Jangada , que assisddas dos moradores pod^rao 
rebater o primeiro impeto do inimigo, e dar tempo 
a retirada dos vizinhos. Deixou Luiz Barbalho cem 
homens comsigo , destros e valentes para soc- 
correr a parte donde 6 chamasse a necessidade. 

XLV. Dispostas as cousas nesta ffSrma^ deitou 
oHollandez ftJra do Arrecife trezentos soldados com 



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GASniOTO LDSiTAMO. lOi 

ordem que foesem reconheeer a noeea fbrtaleza do 
Arraial, e obBervar a situacio d'ella, e os postos 
mais covenientes para os quarCeb e batarias, com 
que a determmava cercar e oombater ; deligencia 
que Ihes nao deixou conseguir o goyemador d'ella 
Andr^ Marim , detidos da artelhana lao longe da 
fojr9a) quanto alcancavao as balas, at^ que viradas 
as cosias se relirarao por aquella parte , que o Ar- 
raial olhava para o rio, que se achava deshabitada 
do8 moradores^ que nella se nao davao por seguros 
e se ibayiao recolhido aos matos. — Sisgismuudo^ 
que ardia em desejos de ganhar a pra^a, assentou 
com OS seus que serkt de grande consequencia fazer- 
se senhor de M oribeca , para meibor gaobar a for- 
taleza e a campanha. Saio por ianio a 15 deFeve- 
reiro ao romper damanbaa commilquinhentos sol* 
dadoseduzentoslndios, s^s confederados; maodou 
marcbar pela estrada que guia para os Gararapes ; 
e depcHs de ter fprmado a gente no moinbo novo, 
com caixas, clarins, e baodeiras tendidis, deo 
sobre a povoacao , de wrie que a um mesmo tempp 
conhec^arao os moradores o assalto e o rebate , os 
-quaes , yencidos jMimeiro da confusao que das ar- 
mas, deixarito a poyoa9ao liyre ao inimigo, que 
ganbou sem golpe o que nao imaginou leyar sem 
cuslo. — Depois de se fortificar na Matriz, sa- 
qoeou o lugar e a eampanba j que acbou com todo 
o recbeo. As violencias , for^as e extor^oes^ que 
nesla occasiao padec^ao os miserayeis yizinhos, 
forao tantab e taonovas,<]ue excedem toda expres- 
sao f ayanlajaiido«se muito a crueldade dos Indi#s 
i doaHoUandezes. 



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lOS GASTiioio unnAna 

XLYL LogD q«e Luis Barbftlho tcvt wiMo 
do jMiccesso, mdrchofU com cem homctis que oom^- 
ngo tinha ^ e algum moradores que $e Ihe aggre^ 
g^rao; unio-ee a tWe no caimiiho D* Fernando de 
Riba AgUero , que Mathias d' Albuquerque Ihe 
mandava com duzentos homenSi com ordem que 
encorporados dessem bataiha ao inimigo^ como e 
qoando melhor occasiao iivessem. Fizerao con-^ 
selho OS Talerosos capitaes; e vendo que mo tinhao 
foreas sufficientes para atacar o inimigo aberta-^ 
mente, march^rao para aquella parte que chamao 
a eerra da Agoa, a onde s^biao andava urn terco , 
que Siogumuudo mand^ra a saquear os morado^ 
rea« ->»Embo8carao-se os nossos num sitio, por onde 
havia de passar o inimigo. Dio sobre elle com 
grande ardor i e j& o levatao de vencida , quando 
Sisgismundo, arisado do perigo pelo estrondo da 
bataiha^ en?iou um esquadrao de socoorro j o qual 
fez mudar a sorte das annas, sendo os nossos obri^' 
gados a tomar a fiigida por remedio, tomando ca^ 
da qual a vcn^eda que Ihe pareoeo mats segura. *-^ 
Luiz Barbalhoi acompanhado d'alguns Indios, 
.seguio o caminho de Supup^na ; mas quando me« 
noe o esperaTa , deo de roato com uma partida d^ 
Hollande<es> queacaso marcbava por aqwUa pttte t 
aem detenca o cerc4rao , dando4be Yo^es que se 
rendessea bMn quartel ; por^ o femoso capicao^ 
fiando menus das palavras do inknigo que d'um 
fraco cavallo em que ia montadO| chegou-lhe as 
esporas a tempo que se romp^rao as eilhas^ e Tcto 
ao cbao com a sella. Nao perdeo o animo o brioso 
capitao , antes empunhando a espada com graudt 



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GAanmro urmiMi lOft 

d6Bead]tira9o abria lar^ caminho por-entre Oft 
Flaineagos; e rontpeDcb o ra»lo veio dalrM lagir 
de Gorjaru, ondc as momdoroft Ihederao noto coi^ 
Tailo para se ir a Nazareth , e d'ahi oode Mathiaft 
d'AlbuqverqiMi aBaiBtia; e o meBmo fiterio a 
D4 Fernando e tos luais capilaes. 

XLVIL A guarnicao de Sao Loarenco , d» qm 
en cabo Afibnsod'Albuqaenque, sabido o des- 
troco da notaa genie, lai'g&rao a potoa^o; a qtMl 
foi logo occupada pelo coronal Chriaiotad'Attchei^ 
loAa, qfne goTeroara aa armasr contrarias tio quanel 
de Maciape. ~ Aproveitando^e Sisgiifiitiiido do 
fiavor da fortuna , deipachou logo varied parddaa a 
ronbar oa moradore^das aldeas viiinbas ; 09 quaoii 
depcria de roubades , tiverao que soffrer o jugo inU 
inigOy OB perdendo cases e fa«etidas» a bweat 
patria no d^terro^ onde vterito por fia a experi^ 
mentar igtial sorte« 

KliVlU* Mardbava Sisgimrando 00m o restance 
de sua gtnte 9m aleance dos pobres (ugltivof ^ f ou^ 
bando.e apreuonando ludo que eiicontra?ai 
carragado de groisa presa de owoi praia e rou^ 
pes^ seguia sua marcha encaminhotido-ee para a. 
povoacao de Sanlo Antonio do Gabo ; mas quande 
elle meaos o eiperava caio nttma emboscada , qw 
1am Batbalfao Ibe linba amado, na qiial perdeo 
tanta geoie^ que se m^ aU*efeo a passer adtame 
sem mandar irir do Arracife quinhentos booMnsi 
Refor^ado ee« estes-proseguioseu lUt^nto^ e c«h 
segiiio apoderar*ee da pof oa^ seiti re9iilenGia««M» 
Ganhada a powa^ deSaaUi Aotoaae occnpou 
SisgiioiUDdei tedoseu euididoeaa cortarto^veredas 



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1«& cmnjoTO LoanAMa 

que guiavfto part a nosaa fortaleaa de Nattretli, 
com iQleojU) de a privar de todo o aoocorro. €o- 
nbeceo Malhias d*AUmquerque o deeignio; lemeo 
o oerco, wpmb pek fome que pdo ferro , eantes que 
o obrigasse o perigo , ae relirou para Sirinhaem, 
debando a fortaleza bem provida de soldados, 
armas, muiii9oe8 e viveres, 

XLIX. Tinha o HoUandez reunido toda a forga 
doaeu poder napoYoai^ao de SaoLouren^o, £Bizendo 
d*aquelle lu{;ar frooLeira a nossa fortaleza do Ar- 
iraiai;aUifezaeuftcoii8elho8y decidindo-senellesque 
a urn meamo tempo ae deviao aiiiar aa fortakzaa de 
Nazareth e do Anraial, a fim de que obrigadoa oa 
noaaos a di vidlr aa forfas nao jx>deaaem fazer gran«- 
de reaiatencia. En 3 de Mar^o aaio de Sao Lou- 
ren^o o inimigo com todo o poder , e eocaminhou 
a marcha para a varzea de Capebiribe. Oa mora- 
dorea aviaadoa do rebate ae retirarao \ deixando o 
mdhor de aeua moveis, abuscar com auaa familias 
o abrigo do Arraial; mas^ tendo-M o Flamengo 
adiautado a cortar-lhe aa eatradaa,adiarao o infor- 
tunio oadie eaperavao eooontrar o aailo. — Andr6 
Marim^ goveraadcNr da fortaleza y certo noa inteu- 
toe do iuimigo » ae preveaio para a defenaa como 
pr^tico e Taleroso aoldado : mandou deepejar a 
pra^a de loda a gente iautil para tomar aa armaa; 
advertio que ae recolheaaem aqueUea generoa e • 
matenaea que podiao aenrir ao auatento e aoa repa- 
roa ; ciugio a forlaleaca de cayaa e trindietraa, dei- 
undo entre a fortifica^ao externa e oa muroa da 
for^a capacidade para ae empartrem oa moradoreai 
e ae reccdhcrem oa gadoa da eafflfMiDba; ordaM>u 



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GASriiOTO tmiTAlK). ' 105 

aos capilaes Antonio Aadr^ ^ Henrique Dias , e 
Joito F^nandes Yieira , que ja commandava uma 
comfNinhia de aventureiros^ todos mancebos alen- 
.tados e nobres, que ficassemf^ii'apara descobrirein 
o campo; e d'esta maneirase pfeparava para uma 
vigorosa resistencia. 

L. Gbegou o exercito ininiigo a avktar a forta- 
leza; escolheo sitios para as baterias, edeo prin- 
cipio a circumvallacao. Acavalleirodapra^aestava 
uma eminencia , a onde , por esta razao , tinha o 
conde BanboUo principiado um reduto y que sua 
frouxidao ou seu disignio o deixou lao informe que 
vierao muitos a dizer fizera nelle , para a conve- 
niencia do inimigo o que bastava, e para a de- 
fensa da fortaleza o que nao servia. Aproveitou-se 
o Hcdlandez do posto, e nelle plantou a mais 
grossa de "Sua artelharia , que fortificou de boas 
trincheiras. Fez outra bateria naa easas de Jero- 
nimo Faes ; e em ouiros sitios diyertas plataformas, 
com pecas refor^adas e sufBcientes guaroi^ees ; e 
nas partes onde sabia que podiao laborar ccHn mais 
eifeito J assentou alguns trabucos e morteiros. Foi 
o inimigo fechando as dislancias^ entre bateria e 
bateria y de profundas cavas e grossas trincheiras, 
em quesem distin^ao trabalbavao gastadores e sol- 
dados. De tudo u^cessitava a occupa^o , porqu6 
OS continuos asssjtoados sitiados os constrangiao a 
defenderem com um bra9o que obravao com o 
ouiro. — En 23 de Marco sairao os Portu-^ 
gueses da fortaleza, em bora tao bem escolhida, 
que i^udada sua determinacao do descuido do Hol- 
landez y o poserao em contingeneia de se perder ; 



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106 ^ Qknumo hvuBumo. 

maUrao, feriiioi sacfudtoao o quaitel , • ToltaiM 
inuito a Beu salvo para a fortaleau^ antes que o inir 
migo ie cobraase do terror em qua o poi^rio* £m 
o primeira d' Abril ( que entao foi um domiogo ^ 
Ra«ioa ) derao oa nodsea aefjunda asaaltada ^ qtmai 
com o mesmo successo; e assim coutinuirao varas 
veaea ai^ aoa priocipuNide Jiiiiho.-**-yia o Hollau- 
d€z veucida aua contumacia de no88a reatateDda, 
e deaconfiado daa promessaa de aua eBperan9a, 
determinou empefthar na empreza o ultima tte 
aeu poder e de suainduatria* Biandou couduzirdo 
Arreoife mais arleUiariay e de maior ealibre^ con 
que refoTQou suaa bateriaa ; ordenou que de noke 
e de dia ae laboraate sem interpolacao de tempo em 
todaa as eaUncias^ para que ot oercados nao tivaa^ 
aem bora de deacan^o nem de aeguro ; cboriao efle^ 
tivamenta aa bombaa e as granadaa deritro da for«- 
taleaa ; ^a quaea attarao oa oosaos tao acuatumadoa^ 
que com couroa molbldoa aa eaperavao ^ e Ih'oi 
deitavao em cima taolo que calao ^ dos quaea aba^ 
fiidas ae apagavao aem surtirem eflefto. Redobra- 
▼ao OS Dosaoa de Talor e de constaucia k proprocao 
que o eslrago craacia^ cauaando no inimigo grande 
perda; porque oa artilheiro^ bornenyao com tania 
deatreza aa pecas^que aonde punliao a mirayahife^ 
ria a bala; e oa moaqueteiroa aiiravao com poAta* 
ria tao eeria^ que nao perdiaa tiro. Confuso 
Flamengo de yer a nosaa ooustanoia e am eatrago^ 
reaolveo a levar por assedio o que nao podia con* 
aeguir por asaalto« Cortou-^noa todos oa eaminbos 
do retnadio; pfirOu»noa de Mdaa M oommunioa* 
9dea^ e oonAemootMios a uma penuria lal que 



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GAmiOVO ftOOIlIttk 107 

OMiB pareciao ^atntuaa que e6r|>o« tiiiiMido» os d^ 
fenacHres d'onui fortaleza em que, 9lim dos horro^ 
res da guerra, tado faltara , encepto q aDimo e o 
valor. 

LL Trea mezea se passarao nesta profiada luta^ 
9tm que oa cercados liTeaaem a manor sombra dc 
lerem soGoorridos. A muitoa pareceoest6 deaam«- 
paro artilicio da infiddidade ; outros queriao que 
fosse frouxidao do desaso , por^m o c^to i que a 
ei&caoia deaemparou o valor. Yendo^se pois oe ai**- 
tiadoa destituidoa de todb o humaoo auxilio, e ex^ 
poaioa a furia da invaaao por fatta de muniooea^ 
auatento e vigor (esladode que o ioimigo tiBha 
todoa OS dias aviso )^ com maduro comelbo se re^ 
aolvdrao a enlregar a praca , que nao podiao Uvrar 
com perderem as vidas. Capitularao aentrega com 
as seguintea coudicoes : 1^* Que todoa os caboa a 
soklados pagos sairiao com auas anoas at^ o Aire*- 
cife^ oiuie ae Ihe daria embarca9ao para as Indiaa 
deGasialki.2^« Que deiaariao^ em ceCeos das em^ 
barca^oes que os levasaem, dous capilaes quaes 
elks eacolhessem. 3S Que o aprcsto e forueci**- 
mento doa navios eon^ria por conia da Cotnpa*' 
nhiaoccideaial^-^Estacapilulac^ao foi feita com a 
aaeisteucia^i genetal Siagksmundo VauScop; da 
qual se servirao para esoond^ sues vis inten9dea 
k cerca dos moradi^raa da fortaleza. EmpenharacMW 
08 noasoe capilulaules etn tirar para os moradorea^ 
que estavao recolhidos na* fortaleza , os partidos 
mais favoraveis que ser p()desse , e seni esta con- 
dicao recusavao a entrega. Com fingido seutimento 
se derao os HoUandezes por offendidos , dizeado 



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108 QABtmno LosiTAno. 

que OS mortdores pela entrega da forca , passavao 
dt inimigos a vassallos , e como laes deireriao ser 
iratadoB; e que nao ha via razao |)ara que aos ami- 
gos se tratassem nas capitulacoes como a contra- 
rios , pois como a subditos deviao defend^l-os , e 
^nao oprmil-OB como escravos. Tomirao posse da 
forialeza em 10 de Junho de 4635. — Seguros 
na promesa ( que apadrinhava a razao e a po- 
litica ) quizerao sair os moradoi*es da for- 
taleza y quando os embargou uma ordem dos 
governadores das armas hollandezas ; e logo nm 
decreto passado em nome do Principe de Orange, 
pelo qual os condemnaya |)or traidores a perder^n 
as vidas. Viao-se os afllictos moradores captivos 
sem causa, e oondemnados sem culpa. A confianca 
e a innocencia Ihes faziao insoffrivd o golpe : bus- 
carao a intercessao e o favor na lastima, e s<5 o 
ach^rao na peita, e depois na compra, remindo 
as vidas a excessivo preco. — Joao Femandes Y iei- 
ra se resgatou, e a dous mocos seus^ pelo preco 
em que o Hollandez o estimou ; o mesmo aconte- 
ceo a lodos os mais capitaes, sendo alguns d'elles 
eondemnados a tratos. Uitimamente nenhum de 
quantos recolheo a fortaleza deixou de se resgatar 
com maior rigor do que se fora captiM^ em Argel. 
Pbr tralo lao infame adquirio o inimigo vinte e 
oito mil cruzados; que tantos dizia haviagastado 
no sitio y como se o roubo se jostificara com a 
Urania. 



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LIVRO IV. 

SUMMAMO. 



1. iBlcMStigtoimiBdto aiMllir ft tHta d€MriiilMm;rade^afo 
leza de Ifaiareth.--S.Mftllif«f d'Albuqierque retira-te pan a La^oa; 
manda o Flanengo uma etquadra tohrt o porto do Cairo ; ftz-Vha 
opposHao o condo BaBliolto; torpe ae^fto que pratica. — 3. Matbiai 
d'AIbiiqii«rqiie, infonnado do soecesso , resolTe«te a desalojat o 
inimigo; ^ qval fbge desbaraiado, e perde a prime ra e logonda 
fortifieacao ; mom Calabar corademnado A fbrea ; Maibias d'Alba- 
qnerque prosegne sua marcha para a Lagoa. -«4. Chej^a Sbgia- 
mundo ao porto do Caho, e o que neUe faz; edifiea uma fortaleia 
na Parapoeira, e om redato no rio Caroaragibe. — 6. Chega ao 
Brazil D. FraDCueo de Roxat com am loeeorro ; reaolucao doi mo- 
radorea. — 6. Rebellinho desaloja SisgUmuDdo, entra na po- 
voacao do porto do Calvo; sai a reoeber D. Luiz de Roxag ; encon- 
Ira-ie* com o coronet Chrlitovao Arehitofls. » 7. Ayistao-se ot 
eoiereitoa, e anlma D. Lvlz oa iew; tnta-so a pele|a; imia bak 
uraidora maUa D. Luiz de Rous; perdem ob Portuguezei a vic- 
toria. — 8. Yalerota accao de Manuel Dias de Andrada ; cobardia 
dot estrangeirof ; dA-ie tepultnra ao eorpo de D. Luiz. ~ 9. 
eoode Bafibolio luccede a JD. Luiz ; ditpoMfoea que toma. «-10. 
Rebellinho peleja com o Flamengo, eretira-se rencido; Yinganca e 
craezas que o Hollandez executa nos moradores. ^11. Estrago 
que fez o. Camario na eampanlia de Goyaoa; aeode o Hollandei 
a rebater-lhe a furia , e elle o deseompoe at^ ae retirar vietorioao. 
— 12. capitio Rebellinho talla a campanhadaParalba; encontra- 
ae com o inimigo, e soccorrido por Henrique Diaa retira-ae maia 
veneedor que Yencido ; faiem-se outras eicunoea. — 13. A Gampa- 
nbia occidental maoda de Hollanda novos cabos ao Brazil ; toma 
terra o conde de Nassau, e rai sobre o porto do Calvo ; o conde Ba- 
nbollo traU da ftigir. — fl. Chega o conde Naif au A vista do por- 
lo do Calvo ; aaem oi nosaos a receb61-o ; rompe oi efquadroas. ^ 
15. Segunda batalha ; valerosa accao de Henrique Dias, e do 
cainlio Barbalho. — 16. Bagnollo detempara os sous, e elles o 

. posto e a povoacao ; Nassau pde cerco A fortaleta , que ae antrega 
a . partido* — 17. Intenla Nassau levar a cidade da Bahia por 
entrepreza; retira-se casdgado; fortifica-se para bater a cidade; 
manda uma embaixada aoa oercados ; mui resposta : continua a 



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410 CASTRIOTO LUSlTAWa 

bateria; mas tifaludo peloi nouot, foge comgrande parda.^lS. 
RMolve-»e em Madrid a rettaura^io do-EsUdo ; nomea-ie para a 
empresa o condc da Torre, fluja aolicia chega ao BrazU. —19. 
Sai a armada de LUboa, chega 4 cosla de Pernambuco, e dobra 
eabo de Santo Agostinho; o conde da Torre dispoe ositjo do 
Arrecifepor terra; chega a armada A fiita de Peroambuco; derroU 
para as Indias. — ^. Deitou no porlo do Tonro a Luiz Barbalho ; 
pratica que elle faz A sua gente; d& principfo 4 marcha : o que 
. M« 9uocada.^dl« DAiit mm t% liUft fiiecli^ «» Mm^ e«pii4ea. 
qu^ Q «#oda dA T4)rr« fHAitdav A cM>pii»ht de Pen»«mlw«Q, os 
quaes »a aneorporao com Luiz 9arbAUiop ^ 7X Umi$ a «^4a de 
Naiiaa uma aroN^da a d^truir o recoopafo iM Bato. ^S(3. Chega 
4 Pabia o marquei de Blonulvao por YU^M; mAnda infieaur a 
campanha de Pernambuoa.^24. I^aiHU nAiula embniuda ao 
YiiooRei, qual Iha reaponda com dis«iipuIa«ao«^ 2t(. Heviqua 
piai e Paulo da Cunha chegao ao raeopoiiTo d# Paroambuco ; o 
qua iiellaobra*^ ^ 30. Morte d« Joao inu»Ui| iniM da conda de 
Naasau. 



I. Depois que o HoUandeaj 3e acbou seahor da 
notfsa foFtalesa do Apraial apertou o oerco a da Na- 
zareth , engrossando o poder de um sitio com a 
geute que deaocupou o outro. Detxou a fortaleza 
guarnecida com seiscentos soldadoB escolhidos e 
dnxenlos Indios aUiados, e marchou Sisgismundo 
para Nazareth ; e Gado na fortuna de suas armas, 
intentou levar de caminho por entrepresa a villa 
de Sirinhaem. Mathias d' Albuquerque , que se 
havia retirado para esta villa, como dissemos no 
livro precedentep posto que havia destacado o con- 
de de Banholho com o aeu terco para o sitio da 
Lagoa (^ uma povoacaocom rio que faz barraqua- 
reota e ciuco legoas do Arreoif*^ para o sul ) , para 
qlie nelle 0e fortificaaso e segurasse a retirada y em 
caso de necessidade, informado do desenbo do 
iuimigo y maiidou*o receber com parte da gente 



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que aUi tinbti e com tao bo« fortiioa o fiserao^ 
qo^ Q fhmwgo veodo-^e atalbad^ e iat 0itido i 
^pada^ depois derqahido coiobftte, yoltou a$ wb^ 
tMf 9 desistio da empreza* Fe]Mi#fi¥H» nasie mi^ 
CQutro o capitao Autonio Aodr^^ oujll morto foi 
9Wtida de tQdoa; oatr^Mi douft cfipitie* Qdim pra* 
^ion^iros p^la demaxia com que 9^ empeaharao ; e 
Uvcpno$ outro» mortoa e feridpa » nao aeodo meaor 
a perda do mimi^* -*^ Apertou Siagiarouodo 09 
ataqtu^ & fortalfiza de Nazareth^ de aorte que ji 
ueJla erao mais^ aa ruinaa qu^ oii^^mroa ; augmea« 
tava a fome, diminuiao aa muniode^ e os defeo-' 
9ore9; de soccoiro uao havia uotieia; at^ que reU" 
dida a couataneia aos p^ da impoaaibilidade , 
capitularao a entreat seguiodo o examplo da 
fortaleza do ArraiaL uas coudi^a e noa mativoa. 
Eutrou nella Flameuga em o 1* de Julho 
d'eate mno de 1635. 1?esta maneira ae per<r 
ddrao duas pra^s, que tanto trabalho, disi** 
peudio e aangue custarao. A de Nazareth con^ 
servou o iuimtgo; a do Arrail mandou arpuzar, 
porque talvez a reputava inutil ao aeu deaignio. 
II, M athias d' Albuquerque vendo as nossaa duaa 
forlale%aa em poder do inimigOy e conhecendd 
quanto ae acbava arriacado na villa de Sarinhaem, 
safe d'ella com toda a gente, e marohou para a 
Lagoa. Chamou a si todosoa moradores que ae 
qui»erao retirar ^ que flzerao muitos 00m suaa 
familiaii e moveia; para tudo deo oarruagens, 
e para todoa provisao , senao como o pedia a 
neceasidadf , como o permittia tempo. Buioava o 
general conaolar a todos , e auimaWoa com a oertesa 



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115 GASTRIOTO tUSlTAHO. 

do soccorro esperado em uma armada , que dizta 
ser partida do reino em sen favor; mas ponco ef- 
feito (aziao suas promessas, e s<i em sua companhia 
achava o afflicto povo alguma consdacao. — Entre- 
tanro que Mathias d'Albuqerque fez a sua retirada, 
apprestou Sisgismundo uma armada de doze fra* 
gatasy a qual , navejjando trinta e quatro legoas do 
Arrecife para o sul , foi sobre o porto do CbWo 
guiada pelb rebelado Domingos Pprnandes Cala- 
bar, a cuja persuasao fora preparada. Tomou por- 
to na barra grande , cinco legoas do porto do 
Calvo; deitou aquella gente em terra que julgou 
bastante para seuintento, nao fazendo caso das 
fracas trincheiras que os moradores alii haviao 
feito. — Chegou logo ao porCo do Calvo a noticia, 
ao mesmo tempo que alii tambem chegava .o eonde 
de BanhoUo com o seu ter^o de Italianos, e o mestre 
de campo D. Fernando de Riba Aguero com parte 
de Castelhanos e Portuguezes, de que se formava 
o seu terco , os quaes marchavao em um corpo para 
a Lagoa : era aquelle seu direito caminho. Pareceo 
aos moradores milagroso o succeso ; com toda a 
submissao e efiicacia pedirao ao conde nao perdesse 
occasiao de tantoservico de Deos, de seu Rei, ede 
tanta gloria sua. Nao pode o conde escusar-se ; 
concedeo o soccorro com animo sem duvida de 
fezer irremediavel a perdicao. Mandou que a car- 
niagem seguisse a marcha para a Lagoa , com suf- 
Sciente guarda, e metteo-se na povoacao com toda 
a gente que tinha de guerra. Gastou aquelle dia 
em oercar a igreja matriz de estacadas , para reco- 
Ihimento do povo e reparo da sua- gente. No dia 



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CASTB1OT0 LUSTTANO* 118 

seguinte se virao desenroladas as bandeiras inimi- 
gas no outeiro quechamao de Amador Dias^ de- 
J>aixo das quaes marchaTao settecenioe HoUahdezea, 
corlados jd d'um assalto , qae alguns inancebos na^- 
turaes da terra Ihe tinhao dado , com per^ cour 
siderayel. DivisArao a nossa gente, e fiserao ako 
timidos pelo dan^ino recebido/ e espantados do qu^ 
nao tinhao imaginado , vendo a forma e o numero 
do esquadriio, que os esperava. general inimigo 
fez uma faUa aos seus soldados , animando-os i 
peleja , e mostrando-lhes quanto seria perigoso 
reenar diante da empresa come^a; a qual fee 
n'elles tal impressao, que pompendo a [Mradca mar- 
ch^rao a buscar a balaiha , que o nosso esquadrao 
Ihes offerecia immqyei. — Com igual Marte se d^ 
rao e reoeb^ao.asprimeiras cargas, pordm com 
desigual valentia ter^ou a espada D. Fernando 
de Ril>a Agnero , a quern seguirao cincoenla sol* 
dados portuguezes e caslelhanos , que rompendo 
pelo esquadrao hoHandez j odesGompos^raoeabrf* 
rao com estrago e espanto do inimigo , querotose 
julgou deslMiratado ; e de todo ficiira perdido^ se o 
conde de BanhoUo com os seus Ualianosseguirttao 
efficaz exemplo; mas este, ou por eobarde ou por 
traidor , em vez de entrar na batatha para vaicer 
o plei to ^ deixou os valorosos e fieis soldados com 
seu capitao nas garras do Flamengo, das quaes se 
li?rArao industriosos e valentes : D. Fernando y^l^ 
leo-se d'um alagadico que Ihe servio de reparo^ 
para escapar i morte e A prisao. Ficou o HoUan-* 
dez senhor do campo, da povoa9ao, e dos nora- 
dores desemparados de todo o faror humano. 
L 8 



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. |1{« M^r^^vrt Malhia4^ d*Albiiquenqu§ nn forma 
-WferWji J a^iwJo Qt paftw» do <?qnd§ B^pboJlo, e 

x}i)$ JtiAi#op9t Com* <»i4toO frudeat^ ^ eipepim^a.- 
.litfto «a9(iBo<>^«^ do podep f) 9^\qjaintnto do ini^ 
wigQf dfli|n4io » c«»rwg#fa ^r Ter^» d«su* 
M4«ft I 6 «Qni o» soldfidos d^tfo'minou bu3^r o 
JHQlbnide^ HWk saus alojaipi^toa* For ord^m i^ua sa 
(dimtArto^ capiue^ Fraiiaisco R^hello e As$ei|so 
dfi SiWa 2| fi^pevav o iQimi9> d^ am)>o&cada , «ntr9 
% pQvfWicio e, o outeiro d^ Amador Alvares. — H 
^«»te t0iap# tinim o capitao SquIo parsuadido ao 
Mrs^nta JQaiop da» armas hoUanda^ua* chamftdo 
Fkar ) aaiiie a eortar o pasao a Mathia^ d'Albu- 
quarqiuB, qye marcbavft pwa ft LagM com oa morav 
dbniida F^bafiEkbuoooaiTe^osdomaia precioao 
daaeua Hio?«is> aiaeguraado4hex>iqittashna presa^ 
eioayt^ a vi<^0riai poU ia combataroom urn cabo 
daiarmado e^saobcMkoido. Damou^aa o HolUndas 
hiTar da ctobttgay a aonfiado na aapitao Souto, que 
ae oflpsmoeo pava acompanhari aaio a exacuiar 
pro^oatoi Vipao apeniia ims yiote ioldadoa poiau-t 
gMf aaa a iadioa que os doui oapitaaa emboscadoa 
iinbao daap^didQ a provocar o Flameago , a mais 
aa coofitadinrao ao dito^ ouidando qua eiio foragi^ 
doa qu^ andajaf) rQubaudo. *«-Piear lavava f6 duas 
companbiaa, tando deixado traa da guamigaa em 
fen alogameuto ; s^fuio a Sabastiao do Souto , qua 
Um aerTia da guia, o qual carragaudo oa vinte 9(A^ 
dadoa o entranhou na emboaaada, e $a paaaau aos 
nossoa^ ipia furoiuptoa a diacipliuadoa daiio uma 



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r^oq 4^s)iar«tad9 m diffigo do m^^io <)e mt 
forti|i<!a^(^ m^ nal^ o p^ fai«w t^BtQ a t^mpo qii^ 

j^dQ e$t^> tw4o 4^pa4«, weno* Pwar , <«e qp» 
dez coinpai^it^ \mfi acordo para afliaBtar a fu**- 

dfsfeu^a (jue de^foapai^iraa na priRi^inr M^Uuai 

d'Albuquerq^i cpia do ouieifQ de ApamWi' Alvarez 

yio Ipgmdp o ardU 4a eiint¥)6€«dai eganliado o 

pript^a <^»rtPjL deiiwo CQm a »m «wtt a eoaarti' 

porarrtft^ pf 19 4 dQ«o»flicto, qiie ja se apfvYeitaya 

4a $qrt^U»m do inimigo cwtra w^ fortiAc^oao, a 

qual vw ppd§ fter UHpada d^ pHH^fira ay^Qqada 

por e«tar cing^a d'\uaa e^cada de pi^os a pique 

jn^i fprt^« Fa^^ou*^ a Q«i^ em de^truir n est^pada 

4 $0|ii4]ira d^ hala« d Vt^^Nria e mosqaetopia que 

^^Uftiio gpandit^mpa^tragq np^ e^iftcip^ e p^8oas 

da ifilD^igo] e ao aiPftub^cer vendo aate a ou^dia 

torn que um oapitao e alguoa soldado^ tiubju) af^lb 

c»dp 48 casas oude ^c; df fpndiao muiia ^pia de 

leuha para Ibe d^r^ni fogo, repdeor^a a partido, 

9^m dar ouvidps a^ impprtuuaa iusuupia^ coqi 

q^ie p CaUhar repuguava a ^wtrega. -t« P^p^ttio- 

^e ^ 4;abq» e ^d^do^ que e^i^ip com £W*ma» e 

inwgi^um^ e^peptap Calatar, que havia 4« ^c^ 

pfeyq^ e wtregu^ 4 jwU§«^f NpQ fw o Flajpepgo 

gir^odadiUgmcia por def!e9d«r M^aidpri ao^qual 

jiilgou a justifa que morre^ii^ eu^r^ado^ e que 

8i^a cabe^ ^ seu^ qutrtoi f^sieDi pQ^toa up^ luga- 

f^ mm pul^IicoB. ^ ^ecutada a eeqtan^a, mau- 



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Hi cASTRKyro lositako. 

dou Mathias d* Albuquerque inTentariar tudo que 
perteucia A fiizenda d'El Ret, e nao podendo trans^ 
portara artelharia, amandou esconderem lugares 
occultoa J e com os despojos de menos embaraco 
marchou para a Liagoa acompanhado e seguido de 
muitos moradores , que com suas familias e bens 
fogiao i tyrania , e & obediencia do Hollandez. 

IV. Tres dias depois de partido Mathias d'AU 
buquerque, chegou Sisgismundo ao porto do 
Calvo; entroti na povoacao , que acfaou herma , e 
s6 asslstido dos quartos do Calabar , cuja vista o 
aUeroti de sorte^ que cego da colera mandou dei- 
tar bando j que todos os moradores fossem pas^ 
sados & espada , sem excepcao de pessoa nem de 
idade ; para cuja execu9ao fez de seus soldados m uitas 
partidas , que saissem a comprir o decreto. Grande 
foi a affliccao e o desalento dos naturaes quando 
soub^rao d'este barliaro decreto ; e nao podendo 
resistir-lhe pela forca, recorrfirao a supplica. Vivia 
nos contomos urn religioso da ordem de Sao Paulo 
'primeiro hermitao , por nome Fr. Manoel do Sal- 
vadoi\ lettrado, zeloso e bem procedido, a quern 
buscarao os tristes aflKgidos para remedio e ultima 
consolacaio. Derao-lhe conta do caso , ficou igual- 
mente pasmado e compadecido ; e sem reparar no 
risco a que se expunha^ tomou por sua conta ser 
o procurador de todos : ftl-o com tanta dili- 
gencia, liberdade e efficacia, que convenceo e re- 
duzio Sisgismundo a razao, mitigando o primeiro 
decreto com mandar passar segundo, pelo qual 
condemnava it morte a todos e a qualquer dos mo- 
radores, que dentro de tempo determinado nao 



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CA&TAIQXO tUSJiJANa 117 

viesse comsuaramiUa e moveispata caietye |>edisse 
passaporte para »ua seguranca* — Depois de se 
demorar doze dias no porto do Galvo^ em que 
▼endeo aos moradores o captiveiro por sobido 
preco , saio Sbgismundo a campo espalhaodo Tozes 
que ia em seguimento de Maihias d'Albuquerque, 
e que nao bavia de descancar em quauto o oao 
eolhesse i& mao8; 08 excessos fizeraocreroB ditos, 
mas erao outros seus intentos. Em um Lugar cha- 
mado ParopQeira^ entxe aLagoae Santo Automo, 
levantou uma forca capaz d'alojar seiaceutos ho- 
mei)s, que nella deixou de guami^^ e por seu 
goveraador o corooel Christov jk> Archetofls ;. leyan* 
tou outra de medaor fabrica na« margeua do no 
Gamaragibe , presidiada de cento e vinte soldadoa, 
9eu cabo Jacob Estacour ; corU>u todoa o» cami- 
nhos e veredas que poderiao aervir a conunuBiea* 
9ao dos rendidos com os da Lagoa ( m^^ nao pode 
impedir upa via occulta que os noasoa abrirao 
fflo mato^ pela qual se communicayao) ; e assim 
dispostas as cousas se redrou para o Arrecife, 
publicando que se ia prevenir paravcdtar sobre 
Mathias d'Alburquerque. 

, V. Cinco mezes ba^ia queMatbias df Albuquer- 
que se tinha retirado para a Lagoa com as reli- 
ijpiiaa dos ^ol^bdos e moradores que.ae poddrao 
JUvrar. da insolencia inimiga , quando a 25 de 
Novembro appareceo nos mares . de Peraam- 
buco um gro|so soccorro do reino j que oon- 
duzia D. Luiz deRoxas e Borja. numero^ e gran« 
deza dos vasos fez parecer ao Hollander: formida- 
vel o pode^y e ja se preparava para a resistencia 



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quando o aHyioii a reptsntina volta que fez k frotl 
dirigindcMHie para o CAbo de Santo Agostinho) 
aotideos no^sds recebftrao noticias do edtado d'u^ 
mat e oiitrasliniiaa. No sitio que chatnab a Geroa- 
ga salcArao em term dous mil homens, entre Por^* 
tugiiezes e Castelhanos j desembardiraoartelharia, 
muQi^oett e mantimetito^ j e a afmada se fez a vela 
para a Bahia j recebendo primeiro a Mathias d' Al- 
buquerque , a quera Sua Mage^tade mandava vir 
para o reiao ^ per ordens que D. Luti Ihe remet'^* 
t«o logo. Nao se pagao os principes de quern serve 
com acerto, nenao de quern obra com dlta. —Com 
a nova do soccorro comecArto os Flamengos a 
apresiar^se para a defeusa , e os Portugueses pat^ * 
a restauracao. D. Luiz deteve viute dias a marcha 
para dar tempo a que se abrisse urn caminho nov6 
peioeor^eao do mato para cooducicio do trcm, etc. 
EntreiatitoChtistovao Arehitofh, que govcmava 
o forto do Pampoeira , mandou com pena dc morte 
a todot OS vizinhos do poi'to do Calvo que deUtf* 
de dea dias se reiinrssem com suas famitias^ gados, 
e moveis para o districto 4e Sirinhaem^ cabo dt 
Santo Agostinho, IpojucA^ Moribeea, e outroS* 
Foi p bdiido obiidecido de muitos, e desprezado 
de nao poueoa { eetei ee retidtfao para <>s matos 
com iatento de servifem & convMieacia e 4 vtii^ 
^nca , a qfial logo prindpiarao algu ns maucebos 
aventureiros, que ae achavao oom atmaa ^ fogo^ 
matando em dWersas emboacadas bom numer^ 
de HoUandezes. 

VL Logo que Sisgiammido Van Seopk teve 
noii^ia do desembarque do soccoiro que ehegira 



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ao8 noMOS^ mIo eom toda a f^resteza do Arrecife,. 
acompaohado dosiiokiados qte achdu mais prompt 
tod, coiD 6 dcdigtiio 4e sair ao ^ttcontro de Luia 
de Roxa^, e enp^tmar o pod«r tid porto 46 Calvo^ 
Marefaava e&tmtantd sobre ^te mesmo Ingar d 
capitao RetelKiiho, o qttal, a meia Itgoa da po^ 
voaeao, fe^ alto i e ae embudwu Mi quanto proeu*^ 
raya teir infot*macees do que hdta sa paBdava. Yeio 
ealr^lh^ M^ macd 6 t^ecrefari^ de Si^mundo 
com seis soldadod; «dte^ perd^o a yida, a^eH« 
a propria liberdade. ftla eoiifidMD d'^$t< aloaii^ 
^oti o ftdbtfllifibo a ^hegada ^ m immiM do gCM^^ 
ral holkndez^ e eomo por ordem Hta ibra dar 
aTisk)"ao cofonel Chriseovio ArehitoflBy que «em 
delen^ se vie^M iiH^rporar ooiti a sua fffiHe para 
faEeroppo9teaoaopddSr edillrai'iot Daa-^ ririMA 
na praca eom a notida da ^mb^oada^ (^moa' 
Sisgidmundo a sua g^nM, i daio a campo parare^ 
bat^r ot no^aOd; iiMia tiao aficofttMddo niagucim, e 
reeeodo d'alguma tiota emboftaada^ ¥oliott «9f&> 
tan to medo que sem dilacao largQu o at oja rt itt ito/ 
e p6f fei^aa occmltad ^ i^tegou & fiarm Gpitide, 
onde thiba Ma aftnada , e ttelia $a entbarcou «oiii 
M ^srad; na¥^(m fam o Arfacife, d^iaanda fla poM 
iroacao quantidad^ Aft pcrtvora, bala, <»rdat duitn* 
ko e AatitimentoS,^ ^ que w aprotcit^rM m aol^ 
dados de RebclliMi qd* Mlk ekttkiM da Aotia^ 
deiitri^d ^^tidattaa Ab \a»^. «^ A^ Aift aaguktci 
appai'eee^ao'lai^go Dt Ltite de Roitas 'wm todo at 
eterdlo , <U(tido. de rt luMtoia ta^^t^ y diA# lO'tte^^ 
beUbho a in^b^<^ aeK ^rferal> a queai iko coaM 
do atKJoedidd^ €^ md quaiii eonoartott-auiodk d» 



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120 GASTRiOTO LUSlTAliO. 

resisiir ao coronel Architofls no caso que elle se 
eoeaminhasse para aquelle sitio. — Com effeito 
aquelle coronel hoUandez, informado da marcha 
de D. Luiz je do pouco poder com que se achava 
Sisgisiiuindo oo porto do Calvo ( ignorando a re- 
tirada)^ saio de 8ua fortificacao da Paropoeira com 
mil quinbentos infantes em seguimento do nosso 
exercitOi para spccorrer os sens em todo o con- 
flicto* CertiGcado D. Luiz da marcha do HoUandez, 
saio do porto do Calvo com mil duzentos homens, 
deixando em guarda da povoacao, bagagem, e 
muiii96es a Manoel Dia$ de Andrada com trezentos 
cincoenta soldados , com intento de Ibe cortar o 
passo no sitio que chamao Mata Redonda. iui- 
migOy que de qualquer movimento nosso tinha 
avisos I o mandou buscar com uma embuscada, 
em a qual nos mat&rao o capitao D. Pedro Mari- 
nho e cinco soldados; por^m saio-lhe t|io cara a 
sortida que daxou no campo cincoenta morlos , e 
OS mais s6 escaplrao largando armas e moxillas, e 
valendoHse dos p^. 

VII. Em a manha seguinte avistou J). Luiz de 
Rous o exercito inimigo, que achou formado e 
immovel; loandou ao Rebcllinho e ao Camarao 
que o picassem por um e outro lado ; o que logo 
executarao com damno conhecido do contrario, 
mas sempre (ao fecbado que parecia insensivel. 
D. Luiz, que nao temia a for^a, desprezou a arte; 
a um mesmo tempo mandou locar a iuvestir; e 
animaiMio os sens com energicas palavras , termi- 
sou dizendo-lbes : « A elles^ valorosos soldados, 
« que a victoria^ dequem a busca, e nao de quern 



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CAsnuyro us^taeo. 121 

a a espera. r^ — loTestirao os iu>8sos.oom gi*aiKle 
valor ; nao resisliao os Uollandezes com inenos 
firmeza, conaarvando-ae immoveia na mesma 
forniatara, sem i]ue o numero doa que caiao 
alterasae a ordem doa que ficavao. Repetiao-ae 
aa cargaa^ dizimaTao as balas o numero doa com- 
batentes, e nao ^ yia que para nenhuma daa 
partes se incUnaase a balan^a; at^ que roto o 
eaquadrao inimigo, Ihe comecqu a faltar a d>edien- 
oia ; e apezar do eafor^o de seus caboa, foioinimi- 
go largando o poaU>. — Fareceo aoa Portu^fiezes 
aer o dia aeu^ e em obsequio da eaperan^a accia* 
marao a victoria , que a forluna Ihea tiroa daa 
maos pelo meip maia aensivel que aer podia, por- 
que negando-Ihes a gloria de veneer, Ibea eacon- 
deo juntamente a deaculpa de Gcarem vencidoa. 
Andava D. Luiz entre os aeus di^pcmdo tudo como 
destro general e como valoroso soldado, a tempo 
que uma bala com pontaria traidora o paaaou daa 
costaa ao peito. Impellido da bala caio o corpo por 
terra, por^ o corafao^ maior que ocorpp, o le- 
vantou em p^y moatrando a grandeza de seu eapi^ 
rito nos ultimos alentos de seu peito , com que 
formiou estaa-palavras : « Nao i nada; avaute, va- 
« lerosos soldados, queqinimigovaivencido; com 
(( o fim da batalha se coroa a victoria. » Pedio 
que Ihe ch^;assem o cavallo, e ao por o p^ no 
estribo caio mprto. — Com pre^sa e cauteUa se 
retirou o corpo mprto. da batalba, mas conoo a 
falta da pesaoa era maior que toda a diligencia, 
em breve tempo se espaUb^ou a aoticia , e aaaim 
de^maiou a todoa a nova, que trocoi^.aa.maoa & 



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fortUM. Nio Arfia¥a eadu urn dos nossos no peito 
mais eomcao, qne paw fugif com «i vida a otide 
podes^e qhoraf a perdA. Os cabos, que virao des- 
prewar a ordem , ttao tiverao mafa remedio qu^ 
«!gair a ftiga* S6 os intenciveid capitals Rebdli- 
nho e CamarSo ^itiiO formndos , dOd postoa ond« 
pelejatAo J A oecitipaP tlmo de urn pequctio 
motite) Awdeo qilal tompasso vagoroso march*- 
rao prira a povoacao, fa«eiido alto algtimas rwiw, 
e virando a cara outras a rebate^ a algtiM poucoa 
inimi^^ quf- solios os picavao nA i*etaguaHa* 
Deixou o itiimigo no campo duientos moftos, e 
se retifOU com toais de qtiatrocentos feridos para 
a sua tot^a da Pahtpodra. A perda, que houve 
de noaaa parte , nao se sabe ao certo, mas sabe-st 
qm tare aquella disparidade que se acha eull^ od 
que fewm e OS que se repafao. Alguem houve 
qtie aecttsoti D. hmt d^ RoJcat* de iuconsiderado e 
de temerario; mas quatido uio bastassem os teste- 
munhos doi que forSo s^us companheiros d'ai*mas, 
assas titgado flcou seu nome pela honra que Ihe 
tributMi SiftU pi^ptiti mimlgo. O conde de PCassau 
CollodOtt o retfato de D. L\nt dt Ro5tas (que 
achou^dbt^ seu* ossos ) no salao de seu palacio 
eittre OS dos femosot capitSes do mundo } vencendd 
as palxdes de inlmigo com os argumentos de dis- 
creto. 

Vni. Manoel Bias de Afidt*ada, a quern D. Lulz 
de Roxfiis deix*rsi em guarda da povoadSio e da 
bflgagem , vendo etitrar a nossa gente desordcuada 
detete-A oom poUc^ e di^cretas rsctb^ ; e tal ^ul- 
ma hispifou &os sohlados que voluntaf iameute o 



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aoompai^Mrao a b &ier fnenfe M iiiifl|i^i^E§t« 
eiempio aao foipdrtm Mguido tte Mfc!»co Afll<wiJo, 
filho do conde de BanMIo^ oom lodosMm lulta^ 
Uaooi, que sem mats consdiho qil« o (;m cUitHfM 
Aigio t>ara « Lagoa ) o miMftto izerao digtind on]^ 
taea castelhanoa^ mi t«qil«cido9 dk Mu pwprio ii# 
tural, ott lembradoft d« ndisa amiga atttitmia. Vlo^ 
ee Matioal Dias atalhado; « sojeioii ^ vator 4 pro^ 
demna, oetn que atiape^iko a eiii^ima« -^ A4> <»M> 
iro dia da bata&a tie cmlenM ao padr« Fr. Maflod 
do Salnular e a Hairk|tie Teltei d^ Multo , qtte 
hairiao ratiraob do txmflicio « (smotidtdo e^ire ^ 
mato o (M>rpo da D« Lutt^ que lh# foMMi dar Mm 
pultun; o que fitarao com aentidas lagrkuasi 
Amonalhlrao o torpo eom a daceMia t^s^i^al^ t 
fiado a um loaeo caixao 6 ^fiic^^^o no^ mno^ 
tima lagoado pdn0 do Calvoi ( pequeno a^curo 
lunralo para oinxas deTarlo t&o ^iida a ^^aT«^ 
ddo I )aia6 aa a tet*i^ flii» tobt^io aau nbus^, nif» 
eobfiif^ sua mamoria a da^ uma irateao laa feia 
aomo A qua Iha liMU a iriia. • 

IX. Pda mafta d« D. Lufeda Rouata^iia 
o goremo ( saguudd aa ^rdaog d'K Rai ) oiMi'ta* 
leroao GaMelbatto ^ qua ua LagiNt eftta^^gritam^u^ 
ta anferoiOy cdjo ttotna uoa aaooudea a fUorM, po^ 
qcia u^ maMio dia etA qua o cbatnou o |»Mt(» Ilia 
tirou a rida; paa^ou pm* c<9Usaguihta a€» teroahN) 
nofneado , qua era^ d isohdt da Batili<4(e : deiarml^ 
ua^ iufauMft qua aci^ratdu a tftiimamiiia d'a^- 
qualla pra^vintiia. MtitiwA Diaa d'Audrada da»pa^ 
chou logo UM cattekf ao eouda dettaiiboMoy qua 
aatata ua Lagoa, paid qualHie MMaiMa^aa^nrdaua 



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t34 cmaMom imisMm. 

e a patenle jpot qua £1 Rei Ihe di?ao bitttao» com 
pa^iua^dea e proteelos que sem defeoca marchasse 
com toda a geute a encorporar^se com a que ti- 
uba no porio do Calvo, para que antes que o 
inimigo se visse desassombrado se achassetodo o 
ooBiO poder unkjb. Nenhum aballo fiserao eaias 
dili|;encifts no conde. Parece que nio dera a na- 
tureza a eate homem nem sentimento para a injur 
lia, nem estimulos para a honra. — Quatro mezes 
ae {)as8irao sem que elke tomasse alguma deliberar 
9ao y uem mandasse algum socoorro a Manuel Dias 
d'Andrada, at^ que finalmente saio da Lagoa, roan- 
dando diante seu filho com abuodancia de muni* 
coes, e naquelle sitto fez Jevantar uma fortakza 
capaz e vislosa , que em brevissimo tempo se aper- 
fek^Ui tao h^m artelhada e guamecida que nao 
so pareceo seguro para os proprios , senao ainda 
terror para os oonirarios. — A {Ncimeira expedicao 
que fez o conde foi mandar a Manoel Dias d'An- 
drada com trezeutos sokiados para que se alojasse 
na poYoacaode Sao Louren9o da Una , e empedisse 
ao inimigo as ordiaaitas correrias com que talava 
e destjruia a campanha. Este valeroso e habil capi- 
tho soube desempenhar tao hem e$ta oommissao, 
que nao so resistio a mil quinhentos HoUandezes 
commandados por Si^smundo em pessoa; mas 
uaando de ardil os desalojou^ obrigando*-os a reti- 
rar-ae predpitadameiite para SirinJba^m^ e elle 
voltou victorioeo para o porto do Calvo. Despedio 
neste mesmo tempo o capitoo Souto a oorrer a 
campanba a £avor dps moradores. Kao foi aste tao 
feliz em suaexicursao, porque sens sddados nao 



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guardaiio ft disciplMia que comphrift , tratando com 
dema2ta(h lieenca os proprio§ que iao defender. 

X. capitfto Rebellinho foi nesta mesma occa- 
siao nomeado pelo eonde para que com trezentos 
homerts saisse a campo a cortar por vi das e fiizen^ 
das de HoUandezes e rebeldes ^ at^ onde podesse 
alcancar o braco. Saio em Abril d'este anno j ag- 
gregirao*-se-lhe muHos moradores, ou pelo inte- 
resse do roubo , ou pelo gosto da vinganca. Che*- 
gou a povoacao de Sto'Loutenco, onde se aquar- 
tellou; neHa o bnscoa o iniihigo com avanfajado 
poder. Resistio corajoso ; com gente de reft^sco 
foi cerrando o combate, at* que vendoquenao po- 
dia competir com as for^as nmt superiorts do im« 
migo J se retirou com boa fortuna e toda a sua 
gente , e rompendo pelo ma to ehegou ao porto do 
Calvo com novo credito de soldado. — Indignado 
Sisgismundo com- este atretimento do Rebellinbo 
determinou tomar excess! va Tingan^a, Saio deSi-*- 
rinhaem em 2 de Maio com mil soldados e maioi^ 
numero de Indies Petyguaros e Tapuy6s, mortaes 
inimigos dos Portuguezesj encaminhou a mardia 
por aquellas povoacoes e fazendss , por onde and^-^ 
ra o Rebellinho, e declarando traidores a todos os 
moradores, por terem agasalhado o sobredito capi- 
f ao , e influido nas perdas e damuos dos confede- 
rados, levou tudo a ferro e a ft>go, cetando sua 
colera na inveiicao de tormentos novos que faziao 
gemer a humauidade em longa e cruel morte. No 
distrito de Sirinhaem mandou prender a Jerontmo 
d' Albuquerque, Francisco Rodrigues Porto, ea 
tim filho sen ( homens n6brcs , c dos prindpaes do 



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moil 4 nwllpw i J«iuu)tMk^ qu(! fie eMUmm wm 
04H>A(lfl4l^vQii«|MUq. for filtl^M HAbiW e» C9rne 

tonB«pto pMe<i^o imqvellas p«rt«8 , qu« o attu^ 

ax«it« «4.p^i de : t<N)<W ( d^poU d^ «» qql»r4|)g» <!• 
tap ;f(5for«»d«> %«Q«tit», que q» dwpiri>Q da p^lle ) a 
qii4 le fte^io pii^roiVk^iQ^ com alcatriio fprvente ; 
a^Q) .quQ o« la»tiiwi«M genidos « horriyei^ vu^po 
gfni$ d«ft i9i9«vav«)» IHu|e(s^^t^ moUvMMm a w^ 
aor ^q^mpaiJiao pos forinos v^rdvigoii aotesjwais 
a8ip»hadQ« d4 mo largar«m 9* vida» im mm do9 
t9f>fD(«taA. p» . enf^rc^rao, pqrque »« dilAt«««Q % 
WiEPf|l40«Acia PM «Kten46««. da poUfiia- jguae^ 
oriMMftf « ppr vdntur* m^\* bar)»i^ , praticow o 
^l^ddM nos l«g»»r««4p Ipqi^ca, «at)o d«SantQ 
AfiwUabp, |ilorilMfi4> Qorjau, A^piap^ e Sao 
I,pur8Q9o, cIiagaDd^. 4 (al popt^ m^ f^rocidade, 
qM« arrai)q4v«o dos t>ra60» .d«l» ii>ai< ipopAfplavei* 
fi^ t^nros filboat e QS entr^ga^ap aw splvagww Ta- 
pwyas. quf^QS «ppMlt4vao vivo$ «uaq«s eqUanb^s; 
fi^f^ndo a Ut poqlp a deahupi^oidado dos Indies, 
que coui iua«l«adinha9 abriao peja$ oostaa 03 '\a(e^ 
l\^^ pad«««ntes para Ibes coin@r«D» as entcanbas : 
e <» i'lM^ngps oelebravao wpi ffi8(^Q nojo^ tao 
^riv^^ qu« a4 defiCQDbecia a natur^za ! Para 
^f^iummar t»Q Defauda roaldad« pubUoQu Sisgis- 
WundQ ediiaes, em qw crdenava quCi »ob p^ia d? 
jnv«lpifSiv|!l.pf)f>dicaQ de fa»^adas e vidas, ospbum 
PQrt.ug««9 ttsawe nem tive#fq ein seu podw aW 
gMQigfnwQ d« ariu^s* Alsvq» as ^otregdrfto , ou- 



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mimmo mwmw. 41? 

ajfiqw^ dmf qm tinfca arma* mmiUsii, qm 

Ca|?Q , ^ 4e tAlm^tpair^ imtkiio a fl^n^ 4q oo<^q 
d^ ^anhoUp nne ord^iH>u a P* Ai^tpniQ PtUlippi) 
Cafparao^ q^9 iqipn ttw growQ de Portpgiiezw # 
iBdiM wi^sjB t talar a qawpaal»a» ^ wtr^we a 
Qspada e ^ oh^na (qdo qu^nk) pode^s^ doiyiiMu^ 9 
mwi» e Q fo^oy 8^0 pipdad^ qw) cobifa de mu«a 
qMQ perle«()e««p aqg^tio r^h»ld#4 io4iepa«ap bem 
«fep^ida a melbiar ejiefiuted^, $lala o Caipw^Q, 
entrado ja o mM 4e JiiJhPf p^notrcHi p ?erUP, ^ 
dpQ «)bre ofttfwbaldw cte Qpyaw; foi rop^ntinp 
^ go^P^ » a tPdo^ 1^ jL tudo ^Iq^qqpi} p I^fp^Q- I^ap 
ficdj i?ida qm p fo^^-p nap cqriawp t mw ^rfificip 
4IIP.0 fpgo uap ppDsu0m4wfu Txyf^n \^m vedu(p 
g3ia?»e€idp d^ floUfrndews > qw *eryia a s§g»rau'* 
c|i p ^ ijafepsa 4P goptip; sitipu-^ ^efp dilaj^ ; e 
dupoi^fdp #e appderjir d'wtt wcpprroqup Ibp, vinha 
dp iiu^tiiiMma^i ai'ma^ e mwvSPP^f wvesUo-rp 
pppi fqypr, p (Jpstruio ludo ^i» pUdadpr —^ Che-^ 

gpu ao \fv^^ a i»ptiaia dpa e^tragp^ q^^ f^zia p 
Qiipamo, pgpfi jpl^tar 4pa qua^ salo Ipgp Gbiistoo 

vao Architofls pom pitpceplos l}Qll^ndp*fi4, in-?! 
tl^do (lasMrap pap d^i^nip^pu ppp[i Q^tik n9ticia, 
jW^ap dipipca a Pi4?Prar o jpjjnigo fortiQqapdo-sp 
na Goyaoa, M^itpa p wo^fwap pappcofttrps qpp 
iiwrap ^fl^jMf a puti;^ ftrnwfc a wrdadau-amen^ 



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138 cAsnxctro lusirAMa 

dtgnoft de particular relacao nesta historia ; por^m 
como me chama a snstancia do aaeumpto , ^ forca 
passar de corrida por estes prelvdioB do argmnen- 
to; baBta saber-se qtie se o Flamengo excedia no 
poder, o Camatao o avantejava no valor e na in- 
dustria. Hoifve dia , em que nossa espada file de- 
golou cincoenta Hollandezes; tao i^eceosos dos 
assaltos com que em toda a parte, e a toda a hora 
08 envestia, ji em campo raso , ja em carros pon- 
tateis , com que igualava as suas fortificaeoes , que 
desatSnado o inimigo dizia assombrado, que s<i urn 
Indio tivera poder para Ihe cortar a forcuna e 
confundir a opiniao. Gamarao , que dos faTores 
da sorte nao desconfiava menos que da profia do 
tempo, considerada a distancia entre aqtielle 
sitk) e o porfo do Calvo para se ajudar do soccorro, 
se se ykse em aperto , e a imposibilidade do reme- 
dio y se Ihe fiiltasse o sustento , se resolveo em co- 
roar as yictorias com a retirada. Recolheo a si os 
moradores que o quiz^rao segnir , que com sna0 
familias (izerao numero de mil seiscentas pessoas, 
muitas das quaes ficarao pelos matos ; abrio cami- 
nho pelo sertao em distancia de quarenta legoas, 
caminho seguro para a marcha, mas falto de todo 
o necessario para a vida; e reio entrar no porto 
do Calvo, onde foi recebtdo pelo conde e pelo 
presidio com palmas e vivas , iguahnente devidos 
ao que destruio e ao que conservou. 

XII. Suspensas estiverao umas e outras armas 
at^ o mez de Dezembro , em que o conde ordenou 
ao capitao Rebellinho, que com a gente que es- 
colhessc assaltasse a campanha da Paralba, e nella 



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CASTBIOTO LU81TAN0. 129 

adsoUasse tudo o que fosse de oontrarios e re* 
beldes. Com seu cnstumado valor e diligencia 
executon o Taloroso cabo as ordens e os desejos. 
Nifiquelle districtoadquirio tanto degloria oomo de 
riqueza , deixando ao inimigo a magoa da niais la- 
meniavel perda. — Aquartelhou-se ires legoas da 
cidade em um sitio chamado Tibiri ^ onde o veio 
busear o goTemador da praca que dominava o 
Hollandez com todo o poder d'amigos e eonfede- 
rados. Nao se negou o Rebellinho & batalha ; ainda 
que com muito m^nos poder. Envestirao-se os 
esqaadroes ; largo tempo se sustentou o con«- 
fficio em iguai balan^a , achara a multidao resis«- 
tencia no valor , por^m como era grande o ex- 
ceMo do nmnerO) cedeo a virtude a forca ; e (icoQ 
immigo com a rictoria j mais custosa pela perda, 
que a reiirada dosnossos pela diia de chegar neste 
ponto Henrkf ne Dias a rebater o inimigo para que 
nao seguisse o alcance , e a dar lugar a que se 
forraassem os nossos; encorpm*ado com os quaes 
se redrou para o porCo do €alvo , abra^ando o (er- 
reno da marcba, e de caminho as povoacoes de 
Goyana , de Ipojuca , Sirinhaem e outras ; das 
qnaes recolb^o uma gix>ssa e rica presa; com 
mais circnnstancias de victoriosos que de vencidos; 
— r Ontras muitas vezes mandou o conde diversos 
eapities a slmilhanles fac^oes> que o Hollandez 
vingava com igual ruina ; nao servindo a hosiili* 
dade mais que de assolar os subditos de um e de 
outro dominio, como se cadaqual aspir^ra a ser 
senhor de um imperio d^erto ; o que bem adver- 
tido se p($de dizer do conde de Banhollo , que em 
I. 9 



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ifto 4Mfmmo irarAif. 

lodo o tempo de »eu goyernoestudoucoBio Iwrii 
,di« <le$truir aquaUe E6tado# 

XIII. Nao M de»cuida?a a CoBip«iiliia ooaideiital 
4e Quindar soecorros pai^a con^Udar o 8m podar 
no BrazU« No fim d'esto anno nomeou noyoa ctpi^ 
taesi e apre^tou noyaa frotas. Nomeou por gme- 
ral ao conde Nassau Jao Mauricio, e para seu ta- 
oenle Henrique Vancol, urn do» primeiros mioii^ 
troa da dita companbia. Sairao da Hollanda com 
uma poderosa armada dividida em duaa eaqua* 
draa, que govemayao os doua caboa. £m4 de Janei- 
xo de 4637 tomou porto no Arrecife a esquadra 
de Vancol) ou por mais Ugeira> ou por melhor 
Jiavegada ; poueos dias depots a do conde de Nas* 
aau. — Com a chegada d'este general ae alterou o 
eatado das oousaa. coronel Architofla arraaou a 
fortaleza da Parapoeira , e ccnn a gente do 8eu pr^ 
ttdio se retirou para o Arrecife. Naiaau i depoia de 
tomar conhecimento de tudo^ 8e poz brevemenle 
em campo com um exercilo de quinhentoa homfins^ 
aendo grande parte d'elle Indioa ; mandou fomeoer 
todas as lanchas e embarca9des de remo que se po* 
ddrao ^unlar^ ordenando ao cabo que as commM^ 
dava que posaeae a proa no porto do Galvo, e elle 
marcbou por terra para o meamo lugar , reaoluto 
em ganhar a fortaleza e desalojar da poyoa^ao o 
conde de BanboUo, •^Chegou esta noticia ao por- 
to do Calvo I e causou em os nossos granda assom** 
bro* conde de Banhollo^ que na seguran9a de 
9ua pessoa e bens tinha mais inleresst; quo na do 
Esiado , mandou deitar bando, com pena de mor-» 
te e confiscacao de bens, que nenhum morador se 



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oMsruxno LunxAro. isi 

fetimse neni pesioa idguma de sua faniiUa^ ou fa- 
Mnda de sua oasa ; mas elle poE em salvo a projma^ 
aiandando*a condnzir para a Lagoa cscoUada por 
Italianos do seu ler^o; prevenio eseondidamente a 
retirada por uma vereda enodberta , e mais por 
fermalidade que por outra cousa obamou a oon- 
selho todos os oabos 6 officiaes experimentados. 
Forao varioa os pareceres; conoordarao em fim na * 
defensa » ainda que disoordarao nos meios e no 
modo, O oonde , escondendo o mado e suas mas 
ten^oes^ assenCou com razoes apparentes que se 
asperaase o inimigo dentro das fordficacoes oom 
todo o corpo do poder^ dispondo assim a fuga nas 
apparenoiaa da defensa. Com len^aode a desempa* 
rar guaroeoeo a fortaleaa, como se a qiiizsrade^ 
fender f nella metleo trezentossoldadosesoolbidos, 
com OS melhorea caboe> armas , muni^oes e man- 
umentos para trea mazes : nada Uie faliata para a 
dAffansa , exeepio antmo e atenoao. 

XIV» Chegou entretanio a visla da povoacao o 
oonde de Nassau , e com a sua apparkao se accendeo 
no coracao dos Portuguezes aquelle animo ati alU 
Qunca desmeniido. Quasi como por insiinto sairao 
muitos a eaperal-^ govamados pelo lenente gene* 
ral D. AfiToDSo Ximenes, asistido dos capitaes 
JFrancjsco Rdiello, Joao Lopes Barbalbo, Asseriso 
da Silra, Manoel de Souza d'Abreu, e outros que 
com a gente de suas companbias > e muitos natu* 
raes da terra , faziao um bastante esquadrao , que 
subiria a quatrocentos , entrando neste numero os 
Indies; em companbia dos quas sa'io o seu gover* 
nador g&nl D. Antonio Philippe Camarao ; a seu 



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132 GASTBKm) umiTAifa 

lado sak) (ambem sua mulher Dona Clam, monta- 
da em um cayallo , e tao clara nesta gentileza qat 
deixou escuredda a memoria das Zenobias e Siini* 
ramiS) com quetanto se illustrou a antiguidade. 
Nao ficou atraz dos que mais se adiantarao o go- 
vernador dos crioulos Henrique Dias , porque tao 
valente como zeloto f(H do3 primeiros que saio a 
investir o inimigo com seu teiTio y sempre preto 
na sorte; edt admiracao e enveja sempre alvo. 
conde de BaahoHo^ que estudava na perdicao e 
ruina dosnaturaes, depois de lancar fogo a poToa- 
cao y recolheo-se a um reduto, que havia manda- 
do levantar para segurar a sua retirada , e levou 
comsigo constraugidos a Duarte d'Albuquerque e 
a Manoel Dias d'Andrada. — Sohre o alco d um 
monte se tinha formado o inimigo ; d'elle vio a 
resolucao com que os nossos o buscavao ; desceo a 
receb£l-os na ladeira, onde se investio nma e outra 
gente com igual coragem. A ouzadia e o furor do 
combate juDcou em breve tempo o campo do con- 
fliclo de corpos mortos e feridos. Largo tempo se 
sustentou em equilibrio a batalha, at^ que os 
nossos vencidos do cansanco se retirarao do cob^ 
flicto em boa ordem acolhendo-se debaixo da ar^ 
telharia da fortaleza. 

XV. Na passagem do rio Comendoituba se tra- 
vou segunda ^ por^m mais cruel balalha , em que 
OS nossos obrarao prodigios de valor. Merecem es- 
])ecial mencao os seguinles. Maaoel Dias d'Andra- 
da, desprezada a obediencia ao conde de Banholio 
per acudir ondeo chamava a necessidade, rom- 
|)eo por entre os esquadroes inimigos , fazendo-se 



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QAanmmo uiSDrANo. 133 

cainiaho com a espada, que em sua mao teve este 
dia, mais de raio que de ferro, Antonio Coutinho 
imitou a ousadia, e por enire o esquadrao contra* 
rio abrio larga estrada, poi*^ nao tao feliz como 
aquelle, porque encontrou a morCe, mais depois de 
a ter dado a muitos Hollandezes. — Ao governa- 
dor dos crioulos Henrique Dias ferio uma bala o 
coilo da mao esquerda; suspeitou hervado o chum-* 
bo, e por fazer a cura mais breye, e menos perigosa, 
a mandou cortar, dizendo, « que na direita Ibe 
» ficavao muitas para servir a seu Decs e a seu 
» Rei, e que para a vinganca saberia £sizer seu de« 
u sejo de cada um dos dedos uma mao. » Atraves- 
sado de uma bala^ conlinuou na peleja o capilao 
Joao Lopes Barbalho, escondendo a ferida aos 
seus, por Ihes moslrar como as dava nos inimi- 
gos; retirou-se com os mais^ atravessouo mato, 
chegou a Lagoa^ e convaleceo da ferida. Outras 
proezas succederao mui dignas de se encommenda<- 
rem a memoria ; mas a escaceza da rela9ao as 
n^;ou a esta escriptura. 

X^Yl. Com ardente cuidado se formdrao e dis- 
puxihao ambas as partes para repetirem a batalha 
no dia seguinte, e cada uma esperava ganhar a 
victoria, sendo para os nossos mais provavei, por* 
que haviao de ser commetlidos pelo rio , que Ihes 
servia de trincheira. Tudo descoropoz a cobarde 
resolucao do conde deBanholio^que no mais escuro 
da noite fugio do reduto para a Lagoa, levando 
comsigo a Duarte d'Albuquerque , e uma compa- 
nhia de soldados. Logo que esta nolicia se espalhou 
entre os soldados , comeearao esles a retirar-se em 



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<ksordem , e com elles os moradores e raas femi- 
liaS) a quern o% cabos nao pod^rao oonler^ aendo 
obrigados a seguir inyoluntariamente a vergonho- 
aa fuga de sen general. tenente general D* A\^ 
lonso Xiroenes formou de aeus soldadoB urn pe» 
queno eequadrao, que aos miseraveis vizinhos 
senrio de relaguarda pelo oaminho da praca, que 
era o mais arriacadO) e por isso mais neceditara de 
aer protegido. Os trabalhos^ fomes, e discommodo 
que pasaArao uns e outros forao tantos , que se 
tinha por venUiroso o que mais depressa os ata- 
Ihava com a morte. — Achou^-se pela manba o 
eonde de Nassau sem inimigos a quern combater ; 
passou o rio sem o menor impedimento , pos o si- 
tio a fortaleza , que atacou com dnco batarias , e 
desmantelou em espaco de tres semanas com innu* 
merayeis tiros , recebendo nao 96 igual mas avante^ 
jado reiomo dos cercados. Ja em (oda a forea nao 
havia reparo por arraaar nem baluarte por abrir : 
seryiao a defensa mais os animos que as paredes. 
Nesle estado , combat idos os defensores da deses*^ 
peracao do soccorro e dos temorea do assalto, fixe- 
rao chamada^ e capilularao a enirega com honroaos 
pariidos. Sairaocom auasarmasemoveis, mecha 
acesa , bala em boca , e bandeiras tendidas. Entrou 
o conde de Nassau na fortaleza , guameceo-a, po»- 
Ihe por govemador o capitao Vanduerve , e sem 
deten^a foi no alcance de BanhoUo ; o qual aviaa- 
do da marcha e do intento do inimigo, antes de 
Ihe ver a cara deix6u a Lagoa , e nao parou senao 
no rio de Sao Francisco, deixando os moradores e 
siias familias entregues a espada hollandeza. Neata 



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GASmOTO LI7ilTA]|<K 155 

tribuUi^ Ibes valeo o c^foroo e generosicUKlo de* 
Manod Dias d'Andrada ^ offerecendo aoa maU ani- 
moaoi oompanhia, eaoa desmaiados comelho. A 
et tea dim que se ddxasaem ficar j e do mate pe** 
diseeiD pasiaportes para se Toltarem para suas C9l* 
na e fioendas y t que ae imio expoieaa^xi a pevecer 
!!• meio doa matoa de miseria a de priva^oea, ou a 
aodarem errant^ como aa fSaras. Muitos segofanio 
eate parecer ; algutis poncoa at^tirao sen amparo^ 
e o Mguirao at^ a Bahia. 

XYII* Naaaaa aegtiio o conde de BanhoHo atd 
aaiio de Sm Franciaoo, sem tiuiiGa opodereneon* 
tnir; aquarteihou-ae d'aquem do rio namaitio que 
duHMo oP^iedo; mandou ahi levantar uma for-^ 
talesa y que dentro de dous mezea eatara aperfei^ 
9oada ; entregou o govemo della a Siagismundo 
Van Scaph ^ oom ordem que passasse o rio e deea- 
lo)aaae o coudede Baahollo , que estaTa po^do em 
Sergiped'El R« ^ o que (aeilmente cousiguio^ re- 
oolkendo-se eale para a Bahia ; e tendo tudo aasim 
diaposto voltou para o Arrecife. Animado com to- 
doe eatea suoceaaoa, e ambidaao de dominar todo 
o Brazil) intantou Nassau atacar a cidade da Bahk, 
qoe die eaperava kvar por entrepreza : wa a ca* 
bo^a do Eatado, e eutaidia que ao golpe da cabeQa 
eairfa todo o eorpo a seud p^ rendido. Saio do 
Arrecife em 21 de Mar^o de 1638, com trinta e 
inaa ndoa de guetra , e outra multidao de embar-> 
cafaea de reoao^ tree mil solikdosy copioso numero 
de IndioS) petreehoS) muni^oea, e bastimentos 
proporciooadoa k empreaa ; e com prospera via- 
geiti chafM aoa mares da BaUa. Era gofemador 



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136 GASTftlOTO LUSITANO. 

g^ral do Estado Pedro da Silva^ por alcunha o 
Mole ; o qual , primeiro que Ihe ch^gasse a noticia 
do intento^ vio sobre a cidade o poderdo inimigo; 
taBto mais formidavel , quanto menos imaginado. 
Entrou a armada pela barra, arribou sobre a parte 
da Piraja, buscando a praia que hoje chamao d<« 
Meninos, deitou em terra gente, artelharia e mu- 
nicoes, e sem deten^a se poz em marcha para a; 
cidade, que distava meia legoa d'aquelle sitio. — 
Sairao os nossos a esperar o inimigo ; e com tal 
denodo derao sobre elle , e o carregirao de tao pe- 
sados golpes que o fizerao retirar confuso. Esta 
prompta resolu^ao, e seu glorioso resultado deveo- 
se ao yalor, pratica e viveza do governador doEs- 
tado , ao tenente g^ral Pedro Gorrea da Gama, e 
a todos 08 capitaes que nao desmintirao de s^is 
conhecidos brios, nao cedendo aalgum d'dles o 
conde de Banbollo, e tauto, que parecia outro 
homem. — Apezar d'este revejt nao diaistio Nas- 
sau de seu projecto, propondo-se a levar por forca 
o que nao pud^ra conseguir por eotrepreza. Nas 
costal do convento do Carmo maudou levantar 
iriucheiras, fazer plataformas^ assentar baterias 
para pombater a cidade. Nao estiverao os nosaos 
ociosos , antes acommettendo os gastadores , e as- 
saltando seus quarteis por varias partes e em di- 
versos tempos , fizerao lastimoso estrago nos mise- 
raveis Hollandezes , e com tanto assombro do$ seus 
cabos^ que nem ao conde ficava acordo para man- 
dar, nem aos seus para obedecer. Com grande 
difficuldade, e com maior perda de sua gente con- 
seguiopor fim o conde de Nassau assentar sua arle- 



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CASTBIOTO LimiTAl«0. 157 

Jharia, e logo mandou romper o fogo sdbre a cidade 
nao dtf pela parte de terra, senao pela do mar com 
toda a artelharia da armada ^ recebendo por uma e 
oufn parte mais perda do que a que causaya. — 
Tres dias com suas uoites porfiou a bataria ; no 
maior luror d'elk mandou Nassau um tambor por 
terra y e um trombeta por mar y com embaixada 
ao govemador geral do Estado , na qual com es« 
mdadas razoes Ihe aconsdhaTa entregasse a praca, 
senao queria experimentar no assalto toda a impie- 
dade da ira, e todo o estrago do odio. Conselho e 
amea^o a que o govemador respondeo (dizem que 
nesta forma ) . « As pra9as d'£l Rei meu senhor, 
» sem armas , e so com a reputacao se defendem ; 
» e aquellas que se animao com espiritos portu- 
M guezes, primeiro suas ruini^ as sepultao que 
» sens inimigos as dominem , porque seu natural 
» valor OS eosina a morrer honrados, antes que a 
» viver reodidos; verdade de que os senhores Hol- 
» bndezes sao as mais certas e mais fresca3 teste- 
» munhas; e posso eu s61-o de que nesta occasiao 
)) me custa menos o animar , que o reprimir mens 
» soldados , impacientes de sofirer amea^s , quan- 
>/ do podem castigar atrevimentos ( apurada sua 
» paciencia com a loucura desta embaixada y cujos 
» ministros devem as vidas ao respeito mais que 
» a cortezia^ pois o que se me tem os deteve, ) Ao 
n Conde aconselbara eu que se aproveitasse do 
» tempo para se recolher a sua armada y e nella ao 
» porto d'onde saio : temo que sua presistencia d6 
» taes fios & colera destes mens soldados y que 
n corte por todos os respeitos^ e mc nao valhao 



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1S8 GAanvno imnAMo. 

n minhasdeligeiioias; e dizei*Uie da minha parlSi 
M pelo que teuho de aeu Mnridor, que ja pod^ 
a ter enCendido, que em nenhama occasiao o ha 
M de temer colerico quern agora o nao sefire con* 
M fiado« Ji A esta reaposta se seguio a de uma car* 
ga de moaqnelaria) earn que ae cortou a replica ^ e 
cooseguio a retirada doe enviadoa com a ligeireza 
que Ihes empreatou o temor. — Com a indigua^ao 
que despertou o aggraro se continuou a bateria de 
maior calibre, com tal horror que eatremecia a 
terra , e genua o mar. No mais acceso da confu* 
iao deitou o govemador g^l do Estado pela porta 
da cidade^ que guia para o convento de Sao Bento, 
alguna capitiea oom suae companhias, e ord«n 
que por aqueUa parte desiem uma asaaltada ao ini^ 
^i$Pt a quern o rdiate ciicheo de assombrot na 
oooakkra^ao de nossa gente busear o oonflieto 
quando a imaginaTa cortada do espanto. Greaeeo 
o pasmo com a perda , veudo que todoa os aeus 
&igiao ao golpe • Na terceira noite de combate re* 
oolheo-ae Nassau As embarca^oes que tinha no mar, 
deixando toda a sua artelharia, muniQoes^ armasy 
e.bastimentoB; com tanto numero de corpoemortos 
que cobriao a temu Ciom innumeraveis feridos 
dea i vela a armada, e fokou ao porio do Arre-» 
cife. 

XYUI. Chegarao entretanto a lisboa as nodcias 
dos progressoa do inimigo e das miserias do Esta- 
do; levantarao^ee clamores e queixas que fiaerao 
echo em Madrid. Depots de repetidaa confereneias 
do conselho de Portugal, assaatou^se mandar^^e 
uma armada real tao uumeroaa e pujaote, que 



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Gonmo uwuM. 139 

d'dla se cooeebease moral oertaza da rcataurt^ao 
de todo o £atado do BraziU — omde da Torre 
D. FernaDdo Blascareobas, ctfiitao de granda valor 
e pratka, 6 noa^eado para dirigir e^ta grande 
empreza. For todas as partes d'Hespaaha ae iiome&- 
rao ministros , e applicarao meioa para oa aprea- 
tos da aroaada, ecooduoQao doa vasos ao porto de 
Liafaoa. Divulgou^se logo com a prepara^ao o iatenb- 
lento; voou a nova ao Brazil^ a onde da Flaaftep^ 
gos e Poriugueaet so ouvio com naior astrondo 
qua am Fdrtugal^ causaado tao diversos affaitoa , 
como sao a esperan^a e o reono. 

XIX* Saira de Liaboa noa fina d'Ootubro a ar^ 
mada mui Mumeroaa am gaieoes do Eaiadoi fragar* 
taa de guana y naoa groeaas, oapia grande de em^ 
baroaooca ddinariaa^ ebem pcoiridaa d'inatrumeii* 
toa farilicoa, artelharia^ mimiQoea, petrechos e 
mantimantoa or^adoapdo numero doa eombatenlea 
e pela satisfii^o doa cabos. Bra a froU maia pod^ 
roaa que atd aquella taaapo auloou oa mares 
d'Amarica. Em 10 de Janeiro se aviatou do km* 
eife eom ummbro doa inimigos, e aW^rof^ doa 
naturaaa. Grande fai o temor doa Hollaodezaa i 
Tista de tao grande for^ naval e do pouco qua 
ealavao pravenidoa para a raceber^ tendo wa$ 
forlaleaaadesmantdladasy aua gente e^lhada^ sem 
proviaao de mantimetttoa e munifoea preciaa para 
amteoiar urn eerco , e naa tendo no mar aenao 
etneo naoa, que eaUTM a carga; pelo que Piaaaau 
aaa^itava comaigo aer dic^gado o &a do imperio 
Hollander em aquella porcao da America. Por^ 
aaua temorea ae dtaupirao em breve^ porque a ar^ 



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140 CASTRIOIO SJOUTAm. 

mada em vez de arribar sobre Pemambuco, seguio 
sua derrota para o sul , dobrou o cabo de Santo 
Agostinbo^ e foi deitar ferro na Bahia. Pareceo 
entao inexplicavel este procedimento do conde da 
Torre, e todos o condemnavao ; mas depois se 
publioou que irazia ordem expressa de seu Rei para 
nao commetter a empresa sem primeiro tomar a 
Bahia. Foi este um grave erro de que resultarao 
tristes consequendas. Um anno se deteve a armada 
na Babia , tempo mais necessario para se fortificar 
e guarnecer um inimigo menos vigilante e indus- 
trioso que o Hollandez. — Com acerta(k> conselho 
sedeteminouo conde da Torre em preyeniroscapi- 
f aes mais d^tros nos caminhos e veredas do recon- 
cavode Pernambuco, queserviao na Bahia , para 
que com a sua gente penetrassem os matos, e 
d'elles assaltassem com subitas armas os quarteis 
e habitacoes hoUandezes ; deo-lhe ao mesmo tem- 
po por instrucao secreta , que a certo tempo se 
chegassem a vista do mar, para que vendonavegar 
a frota aseguissem pela costa al^aparagem aonde 
tomasse porto , e nelle se incorporassem com a 
gente que deitasse em terra , a fim de sitiar o Ar- 
recife por uma e outra parte com todo o poder. 
conde de Nassau , que era informado secretamente 
de todas estas disposicoes , guameceo aquelles sur- 
gidouros , de soldados escolhidos e cabos de con- 
fianca , com ordem que acudissem a aquella parte 
que a armada buscasse para deitar gente em terra^ 
e que lh*o impedissem a todo risco e a cara desco- 
berta. — Determinada nesta forma a invasao e a 
resistencia, saio o conde da Torre da Bahia no Cm 



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GAsmoTo tunriiia 141 

do anno 1639 com a frota e flor da milicia, que 
enlao se achiiva em todo o Esiado; e d'este esco- 
Iheo dois mil homens, destinados para salta- 
rem em terra, com os quaes se haviao de incor- 
porar os ea{Htaes que nelia andavao esperando 
esta occasiaOy comodeixamosreferido; poder mais 
que sobejo para romper por toda a opposi^ao con- 
traria , e para acnrralar o inimigo dentro de suas 
fortificacoes. Com vento em poppa navegou a ar- 
mada at^ avislar aBarra Grande; mas quando die- 
gou a vista de Tamandar^, dezesete legoas do Ar- 
recife, come^ou a expwimentar a vebem^ioia 
com que corriao as aguas, que ajudadas da furia 
dos T^Qtos fizeraojnuiil todo o goremo do leme 
e do panno; aasim arrebatayao os vasos que nem 
pod^rao pairar, nem d^tar aneora. inimigo^ 
que conn destreza se sabia afMroveitar das occasioes, 
mandou largar o panno a vinte fragatas e alguns 
patachos , que para este fim tinha prevenidos, que 
sairao do porto com a yantagem de navegarem a 
barlaTento dos nossos; tres fragatas tirerao a ou« 
sadia de quererem abalroar a capitanea, mas forao 
bem caatigadasy porque uma foi logo mettida a 
pique, e as duas se retirarao desarvoradas. Abo* 
nancou o vento por e8pa90 de tres horas > tempo 
em que os nossos se pod^rao ordeoar para a bata« 
Iha , que o contrario evitou desviando-se; porim 
levantou*se logo em tao furiosa tempestade j que 
a uns e a outros nao deixou mais salvacao que a 
de obedecer aos mares* — Levada das ondas des-* 
garrou a frota portugueza para as Indias de Cas- 
tella , a onde priraeiro alevou o destino que a or- 



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143 

dan qpe d'Bl Rei tinha o comb da Torre pata 
qua oMdttida a emprcsa de Panambooo looiaaae 
aa Indiaa^ e oomboiaase os ^aleoea da prata a Sio 
Lucas. Ab naot hoUandezas^ favorecidas do rento, 
ytMkfio para o Arreeife : vinha a capitauea am«- 
bandeirada do negro pelo gmnde nupaero da moiv 
%oa^ e entreellas seu generah conde de Naaaau, 
mal aatisfeilo do auoceaso , mandou degolar o tau 
almirante, com estiloa de fraco e de falso; e a 
ciiieo capitaes mandou enforcar por remistos; e a 
dous pilotoa por Tagarososy e a todos com a igno^ 
mink de verem £aixer em pedaoos anas armas, 
com o pr^o da culpa e do suplicio. 

XX. Nao quiz a fortuna que nem um so ao^ 
oiNnro enviado porCaatdila foiseproveitoao ao EsCar 
do do Brazil. Este que era o mais poderoso, e que 
era destinado a restam^alH) em sua integridade, 
maiogrou«M desgracadamente, deixando mais amaa- 
fada a sua s«guranoa ^ e mormaqte a cidada da 
Bahia » em que o Hollandec nao deixara da raalisar 
suas vistas amlnciosas, se a tempo nao fora secoor*- 
rido* D'este cuidado iao preooupadoa os nossos 
caboS) quando se viao arrebatados pela tormenla : 
propos^rao ao general da armada a necessidade do 
soccorro oom requerimento que os deixasae em 
terra cm qualquer porto d'aquella costa , d'onde 
podasiem marchar pelo certao para a Bahia. Ins* 
tava a iroportancia , e no porto do Touro , catorze 
leguas do Rio Grande para o norte ^ deixou a ar- 
mada ao mestre de campo Luiz Barbalho com mil 
trezentos infantes , e ao Gamarao e Henrique Dias 
com a sua gente. Havia de ser a msrcha pelo in- 



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tttrioi* da mate, e mn parMi por eatre a barbaric 
dade doa Indiot topando egn muitas com aa armaa 
doa ooAlimrios; e em todas aam provisiMD, neoi 
Mpwanfa de loocorro humano; a diatancia de 
ireseniaa legoaa : difficuldadea qua pareoaiiao 
impoaiiveis ao maia otisado oora^o; e ad caboa 
iao deatemidos pod^raointentar e yenoar empreaa, 
que ainda depoia de couaeguida ae fez duvidoaa. -« 
Parle d'um deaerto era o porto <mde a armada dei^ 
Um a Luis Barbalho com a sua ^atite, $6m maia 
viFeras que oa que cada suldado podia trazar era 
aua mochiUa : eircumataooia e$la capaz de fazer 
deaajumar aoamaia daaiemidoa oora^oea. Luia Baiw 
IniUeo beaa conhecia quanto era ftameraria » senao 
louca^ uma ainulhaute empraaa; mat, auaten** 
taudo atmpre aquelle Yak>r que deapraza a vida 
paca acudir a patria afflieta, kunQou^ae noa brafoa 
da Frovidttteia; e para ui^[urar em seqa soldadoa 
oa acDliaMotoa de que estaTii peasoido , foi fama 
Ikw fallara d'eata maueira : (c O motivo que aoa 
» tirQu da Bahia^ noa deitou agora neata praia; 
» d'ella noa tirou a conquiala , a elk noa leva a 
M defeuaa; detarmiMcao^ uma o ouira ^ Cao filha 
>» de ammoa pprtu^uezea ^ que Uvre de achar noa 
M estranboi competeocia , buaoa em ai meama o 
m exoesao, tauto maior em conaervar o peaauido, 
N que em reeuperaro eatragadoi quauto maior 6 
» o perigo da oonduzir eate aeooorro que o de 
n perder aqueUa armada : em aeu mio auocesao ti* 
>i verao parte oa elemeutos ^ e oao oa inimigoa ; em 
» eaia viagem bavemoa de pelejar com os inimigoa 
n e com oa elementoa; eatea armadoa dos rigorea 



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U4 cAimwo umtuf(^ 

» do tempo f aquelles tbs coleras do odio. Tudo 
H veacoremoSySesoestribadosiia causa alentarmos 
)) a confianca, pon i certoquc nao falta Deoaoom 
M auxiliot a quern Ihe dedka obsequios : a fiivores 
» do oeo se nutre o valor dos homens. Imoa a aoe* 
n correr e a livrara patria das leis da infiddidade € 
» das extorcoes da tyrannia, e a influir nas espe- 
» rancas doe parentes e dos naturaes, que em Pier- 
» nambuco Tivem opprimidos do jugo hoUandeE y 
M com libertarmos a Bahia de seu imperio. Poddn^ 
» nos acobardar a falta de mantimentos, se nao 
» cuslumarao suprir os frutos agrestce dos matos; 
> nelles mais certos e menos custosos que nos 
M quarteis do inimigo. A experiencia nos lem en*- 
n sinado que mais fiicilmente se yence a felta que 
» a resistencia ; mas se a onde se contrasta a maior 
» gloria^ sou de parecer que nesta marcha busque- 
a mos opoToado, no quel poderemoe conseguir 
M reoiedio para a forca e argumento para a fama^ 
» mais grata a quem venee homens que a quern 
» mata feras.Por esia yereda oaminharemos a dous 
M fins : amatar a fome, e a refrear a forca; pois i 
» certo que oeinimigoSy que agora deixanossobra^ 
» destruidos, nos bao de faltar depois contrarios. 
» £ quando o HoUandez irritado nos bi>sque po^ 
» deroso , em nossa mao esta a retirada , porque 
• Ihe fazemos tanta yantagem no conhecimento 
n do certao ^ quanta elle nos p6de (daer no nume- 
» ro dos soldados. » — Depois de concluida a ex-* 
horta^ao, que por todos foi igualmente applaudida, 
formou o general a sua gente j comecou a marcha ^ 
leyando diante de seu esquadrao descobridores 



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para as ciUadas ^ e guias para as^eredat ^ omu or* 
dam que todba oa cavallos e bcHa que deaoabriiaem 
Oft reeolhessem para o anstettto e para o Mrvi^« 
Pro6eg;uio sua marcha buaeaada senpre as paToa* 
foes; nas que erao amigas acbava bcm aooUii<» 
BueutD, e sens moradores darao TofaHrtariameBte 
aos soldados o sustento neoessaria; naa iniwwpi s 
entra^a com Tiolenda , tomava o preoiso e qiseip^ 
raava o reslo. Chegou a Yilla de Groyana^ a oode o 
FUoneBgo tinha quinkenlos e trinta bomeKS dq 
presidio; envealioo quartel, passoutudoaespada^ 
estregando i» chamas o que oao pod^ra des^rvir; 
e assim foi fezendo em outras amitas povoacoes^ 
queiodastiverao igual sorte. Cbegou entretanlo 
ao Arrecife a uoticia do esirago e da marcha 
de Luiz Barbalho, com o que impacieDte o ini- 
nigo saio a campo com ires mil soidados , em tres 
Iroi^s , a fim de o perseguir e destruir eomple* 
tamaile; mas a este tempo }i eUe deixava atrAs o 
districto de Pemambuco , e penetrando pelo atiais 
espe^o do mato, nao lendo outro suslento que al-* 
gum pouco milhoy passou o rio de Sao Fraociacoy 
e da parte do sul fez alto para dar desoanco e alivio 
i sua g^oUe de tao dilalada e peuosaviagem; k sua 
vista parou o inimigo, que o seguia, taaseodo na 
passagem o destroy. Goutinuou a marcha^ pas«- 
sados algpns dias, com menos oppressao^ e mais 
commodidkle; at^que entrou na Bahia, termo de 
sua Jornada , que cheia de espanto nao cessou em 
muitos dias de eucarecer o que Luiz Barbalho nes- 
ta fac^o ganbou de gloria e adquirio de fama. 
esquadrao hollandez, assim como tIo o escape 
I. to 



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Mt GiMMom EMrrAiia 

da prawe ft inposMfattidhde do ftlcftMo, rokoo a 
mwtlia pftn a Ameife^ e a ooteia cmira oi po* 
bnmmand(MPm maUMdoedastraiiidb tudoqiMUK 
tetapop aid ParMnboGo. 

XXU DuiiBM dko am o n^ XIX d'eala Urm 
o intaKtft oasi qua o oonde da Terra maiidoiL 
ilgilin caaapankias de aoldadoa a eampanlia da 
Penwnli^uea^ deatroa no terraso e nas veradas 
(fo aaatfu fra cabo da lodas Andrd Vidal de Nd>» 
ffmivM^ o qual oom tanta induatria e valor fez ana 
obrigteaa que se jtilgou o HoUandaz deatruido sem 
remadio. Diridida a noasa ^ente «m pequanoa 
trocoa aaaaltao a um mesmo tempo diversos iu(^- 
rea aan tanta ligeireza , que diaraado o inimigo 
dos tabataa j sdencontrava o sangue e o incendio 
semver a espada nam o aggre&sor. Nao baatou a 
enlBrposicao do mar para dedviar o rate : feitoa oa 
noi^oa em um oorpo ( aproveitaiido-ae da preaa 
qua fiterao em trea barcos), paaaarao 4 ilha de Ita- 
raaraci; em uma iioite a ganh&rao, sacpiearao e* 
deatruirao, oom morte de dous capitiea hoUand^ 
zea J e bom numero de aoldadoa e Indies^ com ta| 
preateza que p6de a manha descobrir o estrago^ 
poi^m nao oa agentea. AsBim continuaTao oa noasos 
em auaa bem suocedidaa exoursoes , quando avia^ 
tarao ^ armada que navegava da Bahia para Far* 
nambuco, e com alvoroco de terem & vista o fim 
deae}ado , derao comprimento &s ordensque doge*- 
neral tinbao reeebido ; desc^rao 48 praias j e por 
terra seguk^o o curse que as embarcacoes levavao 
por mar, com a esperanca de se unirem com a 
gente que d'eilas havia de salr ; a qual perd^rao 



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wade t|m <te miur cm fdft a ofliihiim fpoito «mr 

avLtea a«eaUi^ win fti qQQ it d^iao cqnlwillf 
o» a^^Qfty ntd €iot«a per Qti«JitiMi4» e ^esficiii 
for rmn^io i fi^trai^ que a tqrto alirtM« c^wr 
nbo 4 retinda^ ofMrto^ no moo 4f^ mw^taficiiif 
^ocedM ohfgap Luis BsyrhaUbe 4 ^u^ destrkto t 
cwreo a fama <mn o ciiiroQdo que euatmpa gnter 
o espanto ; coDiFeaeiiQ-Mi a« nosaas partidai^ a foir 
tjts Q'lim eorpoy aa u»irae oem a aua.g^nt»^ « jun* 
to3 f»x)9eipiirao a marcha para a Babia. qft IMm 
que temoa referido. 

XXII* iogo que e Inimigo ae ^rUficou de qu? 
a armada pm^tuguesa eeg-ujra e nuno dfta lediaai 
mandou aair a sua eacpiadra de naea de guerra^ 
entraigue a Carlos Tarlom , oom erdem que palp 
maritimo da Bahia ficeasp a danme peaaivel , usasr 
do mais vi^ro rigor da hostilidade« Com prea^ 
pera viagem ohegou a auseada ^ que tem Ires \effm 
de ooita, deitou gente am tirra. Oa moraderea, 
que primeiro sentirao o far ro que yittem q bra^^^ 
nao tiwr&o mail lugar que de salrar as vidaa , da{^ 
xando nas maos dos inimigos as casas e faaendas* 
Saqueou todoa os engeBbos , que por rioa nayegar- 
veis Ihe fioayao debaixo da espada , enlregandQ iS 
chamai o que nao podiao melter a saoco, Peade 
que na Bahia se ouvio o grito do estragO| mfindpu 
o goyemacbr um grosso de inlantaria oom ea vud^ 
Ihores oabos do presidiq para rdMttarttn o immigp. 
Mardiirao accesot no desejo da vingan^a ; pordm 
forao detidoi das vollas do eaminho j e das passar- 
gens dos rioa. Hollandez, avisado do nesso ar- 



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146 CASTilOM VmfiMk 

rebfttido movimento, Msim medio o tempo com 
o perigo, que uma mesma hora wrvio k nossa 
^iiegada e 6 roa fuga . Lamentavel perda fez o ini- 
raigo em seis dia§ <(«e durou a insolencia e o rou- 
bo : detxou muHoe engenhoB destniidos, mnitoa 
desaparelhadoft ; levou nmitacopia d'asaucar , bob, 
canafi, Tasos, roupaa, e tudo o mais que teve 
valor e preaiimo, sem deixar cousa de utilidade. 
Item pafa o reparo nem para o aerv^. 

XXIII. Ainda se ouviao as queixas c corriao as 
bgrimaa dos moradores, quando o marquez de 
Montalvao Dom Jorge Mascarenhas tomou terra 
na Bahia com o titulo de Viso-Rei, e cargo de 
govemador gAral de todo o Estado do BrazU, B- 
dalgo de relevantes prendas e verdadeiramente 
digno da confianca que El Rei Philippe fiizia de 
sen talento para sarar as quebras de nossas armas^ 
e rebateras for9a8 hollandezas- Parece que nesta 
eacolha sc prognosticou a ultima labaredadaquellc 
govemo , e a toUl mudan^a do Estado, Era o mar- 
quez varao de grandes espiritos , noticioao da mi- 
licia , e destro na sagacidade ; doAo-se do eatrago 
e da injuria , que o chamavao a yinganca com a 
Toz da lastima , e quiz mostrar ao inimigo que seu 
coracao , nem salna perdoar nem podia so&er ; e 
que para a satisfa^ao dos aggravos Ihe sobejava es- 
pada, e para a recompensa das cautellas Ibe nao 
foltava astucia. — Em breve tempo se fez capaz de 
tudo o que era necessario para acertar nas empre- 
sas o mode, e nos sujeitos a escolha. Ghamou a si 
o capitao Paulo da Gunha , a quern fiou o peito e 
o segredo ; ordenou-lhe que escolhesae os soldados 



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GASTiioTo umrtino. 149 

^ue sua opiaiao aproTaase ^ e com ^es, como a 
furto ^ marchasae para a campanha de Pernambu* 
CO, e qadmaase sem diatiofao CDgenhos, cana^ 
veaes , rocas , arvorea , e tudo o mais de que o 
inimigo se podia a{nt)yeitar , para que deseoga* 
uado de que os interesses nao haviao de chegar aos 
gastoSy desamparasse o que sustentaira pelos aTan* 
fos , e nao pela reputa^ao. Partido o capilao a des- 
filada , o seguio com as mesmas ordois o govema- 
dor dos Indios Heurique Dias com o aeu terco. 
Feita esta expedicao, despachou o marquez um 
prc^rio ao ccmde de Nassau com carta, pcJa qual o 
avisara em como alguiis soldados portuguezes mal 
disciplmados se haviao remontado temeroeos do 
castigo ; que sospeitava se passariao a Portugal; 
inteuto que sem duvida os kvaria a buscar o fa- 
vor de Sua ExoeUencia, para que Ihes conoedesse 
emJMirca^ao, ou para o reino ou para os Estados; 
e ae acaso os levasse sua demasia a roubar o recou* 
cavo, Ihe pedia que nem sua generosidade os des- 
eulpasse, nem sua dmiencia se comp^decesse, pois 
para a Uberdade havia griUbos, e para o delito for- 
cas. Fuudavarse a confian^a do marquez em que 
nunca a diligeacia do inimigo havia de alcancar 
a destreza e a perieta dos sens. Licita e discreCa- 
menf e se desfor^ou por este modo o Viso^Rei das 
perdas e enganos com que o conde dos &zia a 
pKrra. 

XXIV • Neste tempo tiuha o conde de Nassau 
mandado dar ao marquez os parabens da viagem 
e da chegada por Mauoel Code , um dos tres de seu 
Qonselho supremo^ e por seereiario da embai** 



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IM GAfnmro umrtAiia 

xa<k a Abnkam Tra^ (mteHigeAte tm lingot por^ 

tuguera ) com urn prawnte de finimos aasim da 

tern como de Hn, A smunda da embfti?(ada j 

depoiB das eongratula^oes da pessoa y era , com as 

eavilkcoes do officio, pedir suspetifeao d'aitiaa^, 

aponlando as convenienciaa de uma trdgoa entre 06 

dom goYemoB , coin a dobrez d'amigo e con^ario. 

Com esdma^ao e agasalho recebeo o Yiao-Rei 06 

eoviados e as offiertas , acompanhando a gratidao 

GOBI a magestade^ coai que os tratou os ditis qne 

sa detiyeriio; al^ que os despedio satisfeitos e obii^ 

gados« Eat breve lempo correspondeo ao cofide de 

Massau , e aoa do supremo cooselho y com vatita*^ 

jteo recorno ; e cdm as mesmas artes dUferio istre^ 

goaa pedid»; negocio que fi^u ao tenente Martim 

ferreira^ e ao sai^ento ifitior Pedro de Arena^ 

OQBi canldosas ioifruccoespara assisdretna propo- 

rem os tapitukM d'eUasi porque vm engano se r^ 

batesse oom outro. Chegarao «d Arrecife ; com 

fiesiiTas demonstncoes forao reeebidos do povo e 

do govomoy e eom paniculares bourne do conde 

de Nassau^ Goacluido o liegocio se voitarao os 

nossoe para a Bahia, satisfeites HMds da corteaU 

que da verdade bollaudeaa ; a oude M^irao o Y iso- 

JRei embebido no caidado de reforfinar as fortified 

9fes aiRrukiadas) que brevemente pots em sua ui^ 

tinia perMcao} e em deiur ao mar duas galeaias 

bem obradas j mostrando-se ao inimigo com uma 

mioaa paz outra na espada^ com o que a urn mes^ 

mo tempo sefeda temido e respettadi» de amigose 

eontrfflrios. 

XXV. EmqiHuito passava o refeiido (iverio 



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ajnunmo umsumo. 161 

iempD 06 €ft|iitttei Paulo dt Cvm^ « HcMrkpa^ Diti 
pua e»eultMni as ordoM da Viio*Aoi« Ck^f^Mio 
•adeitficto de Pernambuco com tm de forogidUn^ 
<|iio fle fes crer ptla pritteira 100900^ e digpas^rio 
omodo maiB aegfuro e meUbor €Mft«iinhlKlo M fim 
freCeadido; dividkioae em paqucsoa tro^os dr. 
dea e ijuinae toMados; a oida urn se consignou o 
lugar < a hora pan a iavaaaO| € para o retirtK 
Desta iorte eapalhados peha ft^eguesias portr io 
iofp a iudo que podia eet materia para o iactndio^ 
com o que, sem tempo nen distiA^^ ae Tiaoan- 
4er Qi engrahos e edificaos^ ea eampoa e o^ Inttos 
^m uiM lAesma rhaia, Todoa olhaWb o aabra^t; 
AQDhuaa atuMima com a eauaa. IWtiigueaea a Fk«- 
Mangas ^faonmo a pei>dai aem qua a algom aobev- 
jaaae magaa para, o daamo all^. Em aodas afc 
fMTlBi ardia tndo aquifio em que ae podia «ef)tf a 
interesse e a esperanca; aa generoa da meDcaooia e 
do sustento confundirao as cinzas ; e nao menos 
OS discursos, que embaracados com a igualdade 
da perda , nao sabiao atinar com principio do 
damno. Com diligencia inutil acodiao todos ao re- 
medio; porque os nossos soldados assim fugiao do 
fogo que punhao, que era o mesmo buscAl-os com 
a luz das chamas j que perd^l-os escoudidos entre 
as sombras do mato « sem que novos incendios Ihes 
dessem tempo para ponderarem as cinzas dos pas- 
sados : achava o fogo os materiaes tao dispostos 
que o mesmo era correr a atalhal-o y que chegar a 
ver tudo consummido. Nao deixou d'obrar em al- 
gumas partes mais o interesse que a obediencia; 
pordm forao tao poucas , que nao fizerao numero 



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453 Cksamto umrrina 

em tamaaiu ioiiima. Duron por muitoe diasa 
causa e o espanto : na duracao dos estragoe viao os 
HoUandezes sua perdicao, reoolhendo igual damuo 
da perda e da yiugan^a* Os moradores e naturaes 
recebiao d*uma mesma mac a miseria e a eqporan-- 
ca J porque so achavao em sua calamidade a de 
sua redemp^ao. E sem duvida f6ra este o meio 
para que o inuiiigo desamparasse a terra, se fatal- 
mente o nao atdhAra aquella Providenctai que 
cx>m a omissao castiga , deixaudo ohmr os homeos 
pdos didames da cegneira. 

XXVI. Nada mais se passou de notavd at^ ao 
fim d*esCe anno, a nao ser a morle de Joao Ames- 
te, irmao do conde de Nasssau, que assistia em 
PemamlNioo chamado da oonTenienda e da oo- 
bi^a; cujo funeral celd)rou o irmao com grande 
solenmidade e magnificencia segundo auso de sua 
terra e rito de raa religiao. 



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UVRO V. 



SUMMARIO. 

I. Preseguicao que 08 HolUndezes fiierao A religiao e a seus minis- 
tros durtDte o seu dominio em Peraambaco. — 2. Permite o 
exereicio das stDigogas , e maodou pr^ar u teitu heretieat^ 
mas sem fructo; caso que o prova* — 3. Conselhos e iribunaes 
que fonnou ; procedimentos Injustos e anibiciosos de seus minis- 
iros; exempk que o prora. — 4. Cases em queo HoUaudei obron 
■em (6 e sem Yerdade. — 5. Casos particulares que mostrao como 
o HoIIandes fazia das leis redes de que poucos escapavao. — 
6. Suecesso rolsterioso que o qualifica. -* 7. Maldade que o enca- 
rece; indistioecao que o eugera. — 8. Deshumanas cnieldato 
que execuUrao os HoUandezes ; novos tormentos que inyenUrao. 
— 9. Caso estraubo. — 10. AbomioaYeii torpczas que usavao. — 
il» Inueiatel eobi^a eieeotada eom o braco do goTerno ; easo 
, que Terifiea. — 12. Desaforados em todo geiiero de vidos. — 
* 13. Pond^ao-se os eicesos da oppAssao e do tuffrimento ; prodi- 
gioia iddidade dos Portugueies part eom Deoi. — 14. Disposi- 
foei d« ditiBt Prondeneia. 



Interromperemos per urn pouco o fio da iiossa 
historia em quanto se prepirao em Portugal os 
grandes acontecimentos, cujo ^o deyia de inEla* 
mar o patriotico coraqao do nosso heroe Joao Fer- 
nandes Vieira, para nos occuparmos em relatar 
neste V livro os attentados e crimes de todo o 
genero que os HoUandezes praticarao , durante a 
sua domina^ao em Fernambuco , contra a religiao^ 
contra a justi^a e contra a verdade : qual sua cobi- 
ca J quaes suas crueldades , quaes seus desaforos ; 
e qual a constancia e soffrimento dos Portuguezes 
no meio de (anlos trabalhos e persegui^oes. 



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15A GASTRIOTO UJSITANO. 

L Quando o FlameDgo entroujoa villa deOlinda 
nao so permittio a os seus o sacco e a extor^ao em 
toda a demazia de victoriosos , mas , para mostrar 
seu aborrecimento a religiao catholica romana, 
Ihes aplaudio os horrendos desacatos com ,que 
profan^rao o sagrado dos templos e das santas ima- 
gens; tao insolenles que, acompanhada a exorbi- 
lancia do <ksprcB0 y fiierao em pedacos ^ e pisaiio 
aos p& tudo que servia e representava o divino 
€ulto« Aqueltes yasos e parameatos que a (6 turiu 
dedicado A catholica veneracao , depots de serem 
materia ao roubo , o forao a irrisao. Com o mesmo 
exoBBO e eecandalo se bouve na villa de Gunhau, 
<}ue ganhou por entrepreza, deixando aos mo- 
radores fanio que seatir nos desacatos feitos a 
Deos e a sens santos ^ que Ihes faltarao lagrimas 
para cborar as injurias e perdas tempora6&« Nao 
de outra sorte se houv^rao o anae de 1634^ quando 
encarregArao aos Gentios Pytiguares e Tapuyas 
a execucao das cruezas , por tomarem a sua conta 
a 4o6 sacrilegioB* Ob mesoios imultoi Vbio ( nao 
com ^Uios enxutoe ) m morador^ de Paraiba t txjm 
fok a dor mais intensa , porque fm o desacato 
oais horritel* Era umdomingo 6 deOcCubfo, dia 
q«ie a devbcao dedieara a solemnidade do Rosam. 
A OMcvrrenoia era de todos ; e nao isentou o golpe 
a netthum , porque o repentino assalto tAn^ Sao 
lu^ar k defenaa nem A vi^anca, (asend^a dese^ 
jada a oegueira com ^e o$ herejes conveit^aoem 
despreso de culto o pomposo da festa. Na oecatiao 
em t{«Be o caade de Banbollo , fajg^o de sua tties^ 
ma sombra ^ ddsou naa garraa do mimigo a fcH^ 



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QAamOTO UISITILIK>« 156 

ialeza e poiFoabao do potato do Gtthro , ficamo 06 

TiBinfaos 8ujeitos a lodo o rigor das arniM, e da 

tyrannia hereiica. Faltara^lbeo o eoflriiiMttIo e a 

paciencia para o escandalo ^ com que o inimigo 

f»ro£MMm o sagrado € o honorifico ^ m Ih^s nao 

animara a tokrancia o P. M ^ Fr. Manoal do Sat- 

▼ador ( Vcja-8e n^ IV do livro IV ) » religioso da 

ordem de Sao Paulo y a quem este mno e aqueUe 

Eatado ^ deyedor de grandes serri^oS) que Ihes 

preaiou expondo-ae mtiitas yeses e em mukas 

partes 5 a grandes perigoa pelo servi^ de Deoe e 

dai*epuUioa» Nao contente de tantos desacliloa e 

profanacoes , prohibio o HoUandei y denlro da Oh- 

dade Maurioea e Arrecife , o uso dos sacrameiiioa 

oon peoa capital a quem viokssc tao ex^craval 

decrelo^ Estendeo-ae a prohibi<;ao por todo o ro- 

concavoi aao porque o bando o compreiidesde, 

seMo p<HH|ue a insolescia o executava f passando a 

obscrvancia do yedado os termoa do probibido; e 

foi laiiia a demazia dos berejes ^ que opprimkU^ 

06 moradores da exacoao abrirao oavas debaiKO da 

terra ^ para esoondermi a maligoidade oa exeroi- 

cios da virtude. Nao foi menor o furor com que 

perseguio os saoerdolea e raligioBoa» A uns des- 

terrou y a outroa preitdeo y a muiloa destruio y nao 

aendo poucot oa que acabon com Calsas culpas e 

afrootesaa mortet. A dous religiosos d'esta reli- 

pK> eradendirao a forca^ porque junlamente 

padteetaemoEalado e as peasoaa* Na volta que fez 

da Bafak o cende de Nassau (ooino deixamos rel^ 

tado) tomou os religiosoa pot* objecto da vingaat^, 

cpK nia pAdeiBxecutar woaaoMadaa* Mandoudeilar 



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156 CA8T1I0T0 LUSITAna 

bandoy que todo6 dentro d*um mezdeiKassem a ter- 
ra, com pena de que a desobediencia se s^airia 
a morte , ordenando a todos que se passassem i 
iiha de Itamaraca; eporque os religiosoe do pt- 
triarcha Sao Bento se nao isentassem , por monges, 
do numero dos frades , escreveo particularmaite, 
e por sua mao, ao seu prelado, dizendo«lhe, com 
simulada perfidia j que se retirasse com seus sub- 
ditos & mesma ilha y a onde com os mab religiosos 
viveriao livres do eslrondo das armas, desassoce- 
gos do commercio, e atrevimento dos soldados. 
Depois de enirados na iiha os mandou pr^ider a 
todos ( despojados de seus habitos, e de todo des- 
pidoS| para que a um mesmo tempo os atormen- 
tasse o pejo e a fiaiUa ). Foi fama que a determi* 
oacao do hereje era pass^l-os a espada sem deixar 
algum com vida. Devia parecer i sua cruddade 
breve o martyrio, e para que se dilatasse com o 
tempo OS mandou embarcar j e deitar em varios 
desertos das Indias de Castella, nds, feridos, e 
separados ; o que tiv^rao por milhor sorte : que 6 
menos sensivel servir de pasto is feras, que de 9a- 
fra a OS tyrannos. 

II. Ao mesmo tempo que prosereviao o culto 
catholico^equenemainda nos mais secretos retiros 
Boffriao o uso de seus sacramentos, permittiao 
na cidade Mauricea e no Arrecife as synago- 
gas I em que os Judeos com publicidade exercita- 
vao seus condemnados ritos. Querendo substituir 
a verdadeira religiao denossos pais as falsas doutri- 
nas de Luthero e Galvino, inanddrao a seus predi- 
cantesque annunciassemao povo suasheresias; mas 



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GASTBIOTO LUSITAIIO. 157 

forao firustrados seus esfor905, porque os Terdadei-* 
ro6 caAdicosolhavao com desprezo para similhantes 
ministros , fugiao de suas pregacoes^ e preferiao 
as presegui^oes e o exierminio ao arrenegarem dc 
sua fe. Atrihuiao os herejes esta constancia dos ca* 
tholicosao alheio imptdso, tendo para si que ainda 
influia em seus espiritos o poder de ministros 
superiores, por meio d'alguns sacerdotes ou dis- 
farcadoSy ou escondidos, e para de todo Ihes tirar o 
respeito com jurisdic^ao prohibio a todos os mora- 
dores de qualquer qualidade que fossem, que nao 
podessem recorrer, nem ao bispo da Babia nem ao 
Goleitor de Portugal, nem & curia romana^ senao 
por via de Hollanda ; confiados em que o desvio e 
a dila^ao reduziria a cinzas a viveza d'aquellas bra- 
zas. Golpe foi este que penetrou o mais intimo da 
alma aquelles fieis; porim nao pode ferir a cons«- 
tancia de sua fidelidade. Com razao se pode glo- 
riar aqueUa parte da America de que servia a igre- 
ja com (6 tao viva, que se apuraya no maior fogo 
da persegui^o » pois nem a licenca , nem o vicio, 
nem o ferro, nem a conveniencia os pode desviar 
de sua firmeza. Referiremos um caso que bem o 
prova.— A trez mancebos, soldados e portuguezes^ 
condemnou o Hollandez a morle de forca , por leve 
culpa ; forao-lhes intimar a sentenca a prisao y e com 
OS ministros entrou um predicante^ parecendo4he 
que a proBssao de soldados, o amor da vida , e o 
medo da morte os ajudaria a preverter. Nestes va- 
SOS Ihe quiz dar a beber a infernal doutrina de Lu- 
thero e Calvino ; ao que um se adiantou a os mais, 
e respondeo ( direi as palavras, que mostrao bem 



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158 GAMMQvo imRim. 

a iateircM , e desenfadado animo de todos ) : a Va^ 
> 86 d'ahi miniatra infenali predioaote de haiTa«« 
H ohos; fm ^eitaa do bebadoapodera h^Terquen 
n n'eata vida beba » maa iiao quern para a outim 
n vi?a : Tiva a (6 catkolioa romana , que pro(eaaa« 
>i moa, e em que morreremoa, e love o diabo tanto 
H hereje com seu I^uthero e Calvino. >j Deixou a 
fiel constanoia asaim cortadot e corridas a todos 
OS eircumitaQteSy que furiosos appellarao do dea* 
preao para a vinganca, tirando a yida aos trea 
fieis mancebos oom varios tormentos ; e padecmdo- 
OS maiores os herejes na firmeca com que at^ o 
ultimo alento os ouvirao prdgar a lei evangelioa 
como a CDSina a igreja romana. 

III. Nao com o desejo sincero de administrar 
justica, mas com o fim de melhor esconder sua 
rapacidade e cobica, estabelecSrao oa Hollandotes 
alguns tribunaes e conselhos de que cumpre dar 
noticia, bem como dos prooedimentos de sous offi- 
ciaes. Formirao um oonselho que cbamavao su-- 
premo , ao qual subiao as causas por appeliaclio e 
aggravo ; oulro que se dizia politico , e conhecia 
de causas crimes; o terceiro tinha por officio jul- 
gar as causas civeis , composto em forma de ca* 
mara; os ministros d'este, que cbamavao esoabi* 
nos , erao seis Hollandezes e quatro Portugueses | 
assegurando no excesso dos votos o absolute dat 
resolucoes. Em todos estes tribunaes se nao admit* 
tia peli^ao que nao fosse em lingua flamenga, para 
que o escrivao e o interprete fossem hollandeies, e 
se pagasse nao so com excesso senao tambem em 
dobro. Para ser apresentada e recebida d'um eou«> 



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cAflniOTO trmtimk ISf 

tto hariio OS Ihig^ntes de offreeer mela patMt y e 
a Mte prindf^o correepondiao oe meioe e 08 fias^ 
ac^biiMlo de scHPte as custas que para um acredor 
afroeadar viiite^ gastava quareiila; e se e rio dava 
aeia de peita, e absoWiao^ de mais ^urigando o 
aslor a pagar as oustas^ e a perder a dlvida. Se 
OB quatro juiEes pc^uguezes Tota^ao ajustados por 
ntenos ^ fica^ao vencidos; e nas senten^s empor^ 
tava pouco que assignassem ou nao os juizes por^ 
tuguezes. F6ra d'estes tribunaes y eujos officiaes 
erao aem nummx), crearao dous ministros, um a 
que ehamavao escoleto^ e oufro fiscal , que erao 
oomo executores das prematieas e baados , que 
saiao dos conselhos , com jurisdic^ao pleuaria para 
condemnarem a seu arbilrio , sem appellacao nem 
aggravo; com pacto de que a melade das condem- 
na^oesseria para osconselheiros, e outrametade 
para os ditos ministros ; e assim erao as condem-> 
nacoes sem causa > sem termo, e sem distinccao. 
— Vejamos agora a justi^a de seus ministros. Se 
algum queria ferir ou furtar , concertava-se pri- 
meirocom um official de justica, e pago d'entemao 
o delito, o commetia com seguro; e se o dcli- 
quenle concertava que havia de furtar dez , e ftir- 
tava vinte, o executavao por outro tanto dinheirO| 
quanto no roubo excedeo ao concerto. Da mesma 
maneira, se o que havia concertado dar uma cuii- 
lada dava duas, pagava o excesso; e uao de outra 
sorte^ se por menos se fahava ao proiaetido, se 
pagava a falta ; e se acaso o roubado , ou ferido 
qnerelava , o arguiao por violador das leis , e como 
tal o condemnavao & prisao , d'onde nao safa sem 



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160 CASTMOTO LCSITANO. 

primeiro pagar com excesso a injuria e a injustu^ 
que padecia. Saiao o esooletee o fiscal pelo re* 
Goncavo, quando o interesse os chama?a (que o 
zelo nunca os movia) a deva9ar dos concubinarioSy 
que condemnavao em subida quantia de dinheiro^ 
exactamente cobrado; e para que o castigo nao 
servisse a emenda Ihes vendiao consentimento , 
pelo pre^o em que se concertavao , convidaudo^os 
assim a perseverar no mao estado. De uma mesmt 
sorte processavao a culpa pela suspeita, e peh 
possibilidade ; pagava o mancebo j so porque podia 
peccar; pagava o velhoy porque em sua mocidade 
peccou ; e a nenhum livrava a malicia de culpado, 
porque igualmenie pagavao os tristes moradores 
o facto e o possivel. De nenhuma outra gente se 
vio a juslica mais affroniada. Pronunciavao^ pdo 
dictame de sua malicia j as mulheres casadas , &xk 
que vivia mais clara a honeslidade , e com mais ad- 
vertencia o recato. Com fingido respeito buscaya 
um d'estes ministros sua casa , quando d'ella fal- 
tava o marido^ e Ihe mostrava na devassa provado 
o delicto com testimunhos suppostos ; vendia-lhes 
o zelo de seu credito , para que nao perecesse sua 
&ma. As inocentes matronas d^maiadas e afflic- 
tas de verem posta sua opiniao em maos tao infa- 
mes y compravao a reputacao a peso de ouro^ sem 
reparar no custo, com tan to que se conservasse o 
credito , e se nao divulgasse a impostura , ficando 
sua honra exposta a cortezia dos tyrannos. For 
estes mesmos fios passava a maldade a roubar e a 
destruir o estado sacerdotal : aos clerigos de me- 
Ihor reputacao e de mais annos envestiao com a 



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cAsmsxyto lustaho. I6f 

mestna estocada ; erao reformados , e a todo o 
pt^ compravao sua estimacao. — Quero referir 
um caso, enelle se verao estampados todos. Tinha 
mandado o seu conselho supremo , que cada um 
dbs Tizinhos plantasse em sua fazenda , quando 
meuos^ mil covas de mandioea ( ordinario sustento 
d'aquellas partes ) ; vierao os executores do bando 
k porta d'um pobre morador, que nao tinha mais 
familia que um so negro, e por elle havia mandado 
barrer o camtnho e o terreiro da casa , por tirar 
tiido o que podesse ser tropeco & malicia d'aquelles 
ministros. ChegSrao; recebeo-os o pobre homeii 
com a boca cheia de riso, e Ihes disse: a Vossas mer- 
» cfis nao tem em que pegar, porque tenho plantado 
»nao so as mil covas, a que me obriga a prema- 
>^tica» senao de mais a mais quinhentas. » Aqui 
levantarao os infemaes ministros as vbzes : « Trai- 
»dor, traidor, seja logo preso por violador dos 
» supremos decretos, excedendo o numero da pre- 
»matica. » Vio-se o miseravel pasmado com a es- 
tranheza da malignidade, e por remir sua vexa- 
cao e liberdade pagou dez mil reis : furto a que 
derao nome de pena. 

rV. Este erao estillo d'aquelles ministros, este 
o estado d'aquella justica ; nella se funda a dura- 
cao dos imperios , sem ella se trabalha a ruina dos 
Estados. Nao com menos pressa corriao os Fla- 
mengos a sua perdicao pela vereda da perfidia, 
faltando. descaradamente & verdade,.sem que nel- 
les se achasse palavra certa , nem contracto segu- 
ro ; de maneira que se p<$de dizer que trabalhou 
mais em sua ruina sua perfidia que nosso poder. 
L 11 



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16S cMssxufio vonxao. 

Citaremo9 alguns casos que o oomprovao^; Capitar 
lario tregoas com o marquez de Montalvao; o a 
pezar distO| e das pazesqueo SenhorReiDom Joao 
rV tinha assentado com 06 Eatadoa de HoUaiMU^ 
e que se confirmarao com reciproco consentimento 
entre o Arrecife e a Bahia^ armarao quatro naoa 
no Arrecife com muni9oe8 e soldadoa^ suffioieii^ 
tes para o intento ; entrarao no porto de Sergipe 
d'El Rek , comcerteza de que nossa aeguran^a nao 
acodiria a defensa; ganh^rao por entrepreza a cir 
dade de Sao Ghristovao, e no porto £abricarao 
uma grande fortaleza. Com similhante mascara fo- 
lio conquistar o reino d^Angola^ de que se fizerao 
senhoreS) aleiyosos e fementidos. Com mortal odio 
saquearao e destruirao tudo quanto enoontr^rao. 
Com bandeiras de paze aalvas de amigos entrarao 
com seis n&os de guerra na costa do Maranhao, e 
chegarao a barra; pedirao licenca para entrarem 
com pretexto de se proverem de mantimentos, de 
que se fingiao faltos. £sc<mdia-«e o fogo da traicao 
dentro das apparencias da amizade; descobrio-M 
acfura do engano^ quando jA faltaya tempo e modo 
para a opposicao : sem ella se fizerao senhores da 
cidade e da fortaleza^ perdendo os moradores a (a* 
zenda e a liberdade ; e muitos aS honras e as vidas. 
Com tao infames artes, comoas referidas, sein^ 
troduzirao na ilha de Sao Thom^, e na fortaleza 
de Sao Jorge da Mina. Outros muitos casos pode* 
riamos apontar , em que sua traicao e perfidia ex^ 
cedeo todos oslimites da credulidade; mas omitti- 
mo-las^ para fallar d'outros em que se publidurao 
infamemente perjuros e perversos. 



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V. Trts vtees por editaes, bandos, e fifm^dos de 
•etis magifltrados tomarao as armas os moradores 
Mm juramento At que assim convinha & sua con* 
servacao ; e cutrtis tre^ vezes Ih'as fizMo cdmprar, 
com pretexto de que assim era necessario para sua 
defensa, compena de morte a entrega^ com pena 
de morte o recibo. Cada dia ( muitas vezes cada 
hora ) se fixavao editaes , e se deitavao bandos en- 
contrados , que com seguro real promettiao e Uega- 
vab aos moradores a mesma cousa ^ para que jun- 
tamente peccasse o pontual e o remisso. Fromet* 
tiao em nome dos Estados proteccao e defensa dd 
ridaB, is honras e ^s fazetidas dos retirados^ 
para qtie deixando o mato , m viedsem com suaft 
fomilias povoar suas casas e engenbos ; e tanto 
que OS tinhao dentro da rede j trazidos de sua 
singela credulidade, os despojavao de tudo. Nao 
siugalarizo as pessoas , os lugares e occasioes, em 
que exercltarao tao execravel perfidia, porque 
apenas houte pessoa^ occasiao e lugar que a nao 
experimentasse. De um successo faremos espelho 
em que se representem todos. Com grande nu- 
mero de Indios ^elvagens ( mortaes itiimigos dos 
Portuguezes ) chegou Jacobo ( um Hollandez , a 
quern a similhanca dos costumes fez superior d'a- 
quelles bari)aro8 ) & povoacao de Cunbad um sab- 
bado de tarde. Nao foi a vinda uem o intento es- 
colha, senao obediencia. Tinbao-lhe remettido do 
Arrecife os do govemo as ordens e instruccoes de 
tudo o que havia de obrar, quaudo e como. Fo- 
rao arisados os moradores da marcha e do po- 
der; a experiencia os ensinou a sospeitar mal de 



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IM CASTUOTO LUSITANa 

tudo : poserao-se em cobro. Entrou na poroacao 
o inimigo com simulada paz ; mandou deitar bando, 
e fixar nas portas da igreja um edital assignado 
pelos do conselho supremo , e jurado pelo dito 
Jacobo , ordenando aos vizinhos do lugar que de- 
baixo de seguro se achassem na igreja ao outro 
dia, que era domingo, para que depois da missa 
conferissem certo negocio ^ que os senhores Esta- 
dos Ihes mandavao communicar , desenganando- 
os de que a pessoa alguma se faria o mafior ag- 
gravo. Obedeo&rao os moradores , chamados a um 
mesmo tempo do preceito da igreja » e do bando do 
hereje ; ou porque nao duvid^rao do seguro, ou 
pprque nao tem^o o perigo. A maior parte en- 
trou para a igreja; outra menos confiada se deixou 
ficar nas casas do engenho. Os que entrarao no 
templo encostarao as paredes do portico os bordoes 
que levavao (armas que Ihes permilia o gOYerno 
hoUandez ) • Vestio-se o sacerdote , poz-«e no al- 
tar , comecou a missa, e ao tempo, em que che- 
gou a levantar a Deos se fizerao os Indios senhores 
da porta do templo ; o que advertido dos morado- 
res conhec^rao o erro e o perigo a tempo que se 
val^rao do ultimo remedio, que foi pedirem 
ao ceo perdao de sens peccados, tao faltos de 
tempo, que se encontrava nas garganlas de todos 
a oragao e a espada, sem que a dos barbaros dei- 
xasse pessoa com vida. Pela mesma sorte passarao 
OS que se recolh^o nas casas do engenho , senao 
que irriiados do sacrilegio e da perfidia , com as 
maos e com os dentes avancarao ao gentio, e bus- 
cando a vinganca se mettiao pelas armas, a onde 



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CASTBI0TO LUSITANO. 165 

juntamente achavao a morte e a satisfacao , porque 
abracados com os ininfiigos matavao e morriao* 

YL Relatarei o que d'esta occasiao acho escrip- 
to por pessoa autorizada e fidedigna. Nao approvo 
mUagreSy mas refiro estranhezas, que o parecem. 
Era osacerdoteque celebravahomemdenoventaan- 
Bos, varaode vida exemplar. Temeo que a cruel- 
dade 8e seguisse o desacato , e virado para o gen- 
tio Ihe disse na sua lingua, em que era peri to, 
que toda a pessoa que nelle tocasse^ ou nas imagens 
eparamentos do altar, Iheficaria tolhida a parte 
com que o fizesse. Temfirao os Indios Tapuyas^ 
e se retirarao reverentes; outra especie d'clles, a 
que chainao Pytiguarfe , ou mais assanhados , ou 
menos respeitosos , com crueldade e desprezo Ihe 
tirarao a vida. Caso marvilhoso ! todas aquellas 
partes de seus corpos , que servirao ao sacrilegio, 
Uies ficarao pasmadas e insensiveis , e todos em 
brevissimo tempo morrSrao despedacados de seus 
proprios dentes ; e para que se nao duvidasse da 
causa do castigo, permittio Deos , que na dureza 
das portas da igreja, como em branda cera , ficas- 
sem impressas asmaos do sacerdote, buscando com 
dlas arriino nos ultimos alentos da vida. Verifi- 
cou-se prodigio, com se ver naquella igreja , 
muitos mezes depois , o sangue dos padecentes tao 
vivo e fresco, como se na mesma bora fora derrar 
mado. £ bem pode suspeitar a piedade, que no li- 
quido d'aquelle sangue comecou a resvalar a vio- 
lencia d'aquelle imperio , pois n*elle se conservarao 
vivos OS sinaes da ft, e mortos os da perfidia. 

yU, Assim aborreciao a verdade que faziao ne- 



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godo publico da mentira^ buscaodo uelU o aiig«- 
mento do cabedal , $em fazerem reparo na opiniao 
da honra, Viao passar por »uas portas um roorador 
bem tratado y retiravao-se , e deziao as auas mu** 
Iheres que o chamassem a titulo de negocio ou da 
cortezia» e que tanto que o tivessem dentro da casa 
gritassem que as solicitavao , pegando d'elles , ati 
que as vozes acodisse o marido e a vizinhan^at Aa 
testemuuhas que ja estav^o preveuidas , juravaoi q 
encareciao todas a culpa para levantarem a peaa; 
e uao se livrava o innocente ( quando os achava 
luais compadecidos ) com menos de cincoenta, aea« 
aenta, cem dobroes; e se tinha por bem afortu-* 
oado aquelle que a todo o custo comprava a U* 
yraQ9a sem prisao , e sem processo. Succedeo esto 
aleive a um homem honrado e de idade, chamado 
Thomaz IMi t ao padre Belchior Manoel GarridO| 
vigario da reguezia de Santo Antonioy e a outro^ 
d'este lote » porque nao reparava a malicia iwi ob« 
jeccoeada verddde, com tauto que pagasse a aubido 
pre^p o eugauo. Audava tao valido este falsificado 
tratOi que ja nao havia morador que se atrevesse 
a eutrar em logea, tenda^ ou officioa, senao em 
tempo que uella se acbasse muito concurso de geoi* 
te. Outro caso nos mostrara todo o eucarecimeato 
d'esta materia* Deviao os Hollaodezes aoa Judeos^ 
que assistiao em Fernambuco , a maior parte de 
9ua fortuua^ porque uelles acharao sempre ajuda, 
avisos e conselhos coatra os Fortuguezes ; £aziaa 
d'elles a maior confiao9a j certos do odio que ti^ 
nhao a lei evangelica^ respeito que sempre osfe; 
coufideates e gratos ao? berejeSi achawlo neUes 



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CMMfrUMO LOfttTAHO. 167 

prestimo e eitima^. Ghamados pok e amstidos 
do faror, multipUcaiio de maneira em numero e 
em cabedal , qoe nao hayia negocio de justica^ nem 
<k fazenda j que nao corresse por suas maos j fi- 
Mndo nellaa sempre o melhor do interesse; com 
o que ingroasarao de sorte, que os nao soffria a 
iaveja e a cobica; e determinou a perfidia hollan- 
deza quebpar-lhes o seguro e os foros , com que 
Ihea permittio a compra de engenhos , curraes, 
terras e officios ; e confiscar-lhes tudo quanto ti- 
nhao adquirido. Achou logo pretexto^ urdio tra- 
pa^as , poz-se o negocio em pleito : erao as mes- 
mas partes OS juizes, haviaode sentenciar eomo 
Hiteressados na causa ; nao tiyeiio os miseraveis 
Judeoe outro remedio mais que remirem as fa- 
feendas a dinhdbro« Successe com que justificamos 
o preeente argumento , de que nao tinhao os Fhn 
mengpos naquelle dominio lealdade, yerdadcy (i, 
nem palavra com amigos e inimigos, eom proprios 
e estranhoB^ com ^andes e pequenhos ; em todo 
e tempo, em toda a parte, e em toda a materia. 

Vni. Jk fallamos em o preeedente livro d'algu*^ 
mas erueldades praticadas pelos HoUandezes; dir 
lemos ainda outras para opprobrio de sua barbari- 
dade. Os meios de que se aproveitava o interesse 
e o gosto d'aquella gente erao a destrui^ao, a morte 
ea injuria; e para que a crueldade servisse mais 
ae deleite , inyentarao novos modos de affix>ntas, e 
exquisitos generos de tormentos. Condemnavao a 
aeoutes; exeeutava-se a pena por taes bra^os^ e 
com taes instrumaitos , que nao se dava golpe^ 
qne nao diirisse lerida. Sentenciavao i morte; 



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166 CASTEIOTO LDSITAMa 

cumpria-se a sentenga com taes esoameos e mar- 
tyrios , que, se fazia duvidar qnal primeiro acar 
Jbava a vida do padeceote , se o ferro , se o pejo. — 
Fazia credito a deshumanidade de sair com estra- 
nhas inventivas de matar. Estendiao os corpos dos 
pacientes sobre umas rodas com tal artificio , que 
c^m o movimento Ihes moiao os ossos; e sea vida 
sobejava ao tormento Ihedavao fim com uma ma^a 
de ferro > que Ihes abatia os peitos. Aos homens 
que tinbao em opiniao de ricos , e nao appareciao 
com o dinheiroy cbamavao os ministros a suas ca- 
sas e em cavaletes de pio os atormentayao atd que 
feueciao ou o eutregavao. A outros peaduravao ^ e 
uogiao com azeite para que a fogo lento acabassem 
as tristes vidas. A muitos imprensavao eatre duas 
taboas repassadas de agudos pr^os, que juntar 
mente os traspassavao e moIao, e por recreio pa&- 
seayao sobre elles. A nao poucos amarravao pela 
cintura, e r^virados os leyantavao em alto com os 
p^ atados^ atravessando entre um e outro um grosso 
madeiro; e por entretenimentocavalgavaoemuma 
eoutraponta, e se balanceavao; festejando com 
gritos e risadas as sentidis vozes, que causa- 
vao aos pacientes as terriveis dores. Nos assaltos, 
nas entrepresas, e nos saccos era maior a . deshu- 
manidade » porque ^a de muitos a fereza. As mo« 
Iheres de qualquer estado e qualidade cortavao as 
maos , rompiao as orelbas , e feriao as gai^antas, 
porque a detenca do tempo os nao atrazasse no rou* 
bo dos anneis , dos pendentes , e das gargantilhas 
(servindo aomartyrio os instrumentos do adorno); 
como se em sua forma^ao ^rrasse a natureza, ou 



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GASTiaOIO LUSITAIKK 169 

em sua ctpacidade faltasse a noticia do sexo. Ordi- 
nariamente sucedia levarem em sua companhia os 
Indios selvagens Tapuyas e Pytiguar^ y conheci^- 
dospelo nome de Gabocolos, de cujas garrasnao 
podia fogir nem o retiro ^ nem o recato , porque 
pelo faro oe descobriao e matavao; tao temidos ^rao 
estee selvagens dos moradores que os nao espan*- 
tava menos uma companhia de Cabocolos que uma 
manada de tigres ; e com muita causa , porque f»- 
ziibo desenfado de executar as mais horriyeis barlja- 
ridades. Esga^vao as crian^s vivas , e com as 
maos as faziao em dnas partes. A outras estretavao 
Has pedras^ e nos troncos , ou de tiro ou de golpe, 
competindo-se na execu9ao a destreza e a forca. 
Os oorpos adnltos abriao , ou pelos peitos , ou pe- 
hs costas, e Ihes tiravao o coracao e os ^gados, 
que a vista de todos comiao; e com o humano san- 
gue satisfaziao a sMe : ferocidade que via o hor- 
ror com olhos do pasmo. 

IX. Forao tantos e tao parecidos os casos que 
para os especiGcar falta a escolha , e confunde a 
simklhan^a ; mas sera for^a que algum sirva d ori- 
ginal a tanta copia. Na occasiao em que D. Anto^ 
nio Philippe Gamarao se retirou de Goyana com os 
moradores que o quizerao seguir ( que foi no anno 
de 1636) deo sobre os que ficarao um diabolico 
verdugochamadoHypoemy governadordaParaiba, 
com uma numerosa partida de Cabocolos , em os 
quaes executou tao inauditas crueldades, que pa- 
rece os desconhecia a mesma atrocidade. Succedeo 
que d'uma casa em que o mortal estrago deixava 
despeda^adaa vutte e tres pessoas^ p6de fugir uma 



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130 QHmiffiO tlWCiMCu 

Biulher casada^ pan se eaocuider no mato^ com 
duascrianfas, unut dftpeito, e outra da petiea 
maia idade ; andados alguna passos se deteve ( dea- 
maiada da propria fragilidade e do filial eator«- 
yo) junto 4 eatrada, servindo-lhe o ayuliado troii- 
00 d'uma arvore da a ancohrir aoa caminhantea. 
Pouco Ihe durou o descanso. Em breve tempo oor 
vio um tropel de Gabooolos , que vinhao no alcanee 
dos fugidos, e foi tal o temor , que Ihe occupoa o 
coia9ao , com a lembran^a daa crueldades que ybnay 
que receo^a de que oa filhiuhos ae descohrisaem 
pdb cboro, e os alarvea Ihoa comeaaem^ os a£3^ 
gou com auas proprias maos, pelos nao ver paaaur 
a alheias entraahas , eacolhemlo a triate mai para 
si e para aeua filhos por melhor sorte uma morte 
certai qu^ uma crualdade imaginada; e «mtM>ay» 
cida contra si meama rompeo pelo mato quatone 
legoaa; chagou i Paraiba, e viveo alguna annofi 
depois absorta no espanto e na pena , com qua a 
martyrisava a memoria do golpe a do medo. 

X. Aquelle natural pudor oom qua a provida 
naturaza refrea noa mortaes aa obscenas torpesafi 
dos brutoa , rompeo a bestial Ucan^ d'aqudles 
abortivoa monstros. Andava a rasao tao prostra^ 
da a yiata do apetite, que igualmeate daapreuya a 
pejo e escandalo. Valia-ae a lascivia da for^a e do 
dominio , e ae executava o delito apezar da rqmg- 
nancia , em que achava sou bestial gosto no?o in^ 
aentivo para cometter o estupro, o adulterio^ a 
inceatOy etodas as mais especieade bestial luxuria, 
aeryindo a yiolencia de unir em um masmo acto a 
ftcffpeaa^a vingan<ga> Forao tantaa etap AMaaas 



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ite n ia fti ai i , co» giie ae oomnifttU tste viojo , qm^ 
disioiula a peuna, porque seqao refrenque o esoan- 
dalo. Os magistradoft) qu^ pela razao de eeu cargo hap 
viao d^ atalhar o de$aforO| com &eu exemplo anima- 
vao o atrevimento. Viao, ou tinhao notic^ia dalguma 
mulher bem parecida 9 com o desengano de hon-i- 
rada , logo com fi»gido pretexto maodavao pren-f 
der aa pessoas que a podiao guardar, e com des^ 
carada lasciTia Ihe entravao em casai sem que 
baata^^m para a defender as lagrima^ e guspiros, 
de que sua castidade se armava; antes como era 
de brutos a for9a, crescia a violeucia com a de«> 
feosa , ceyaudo^se o apetite uos mesmos desyiof 
da luxuria, Ouye muitas que com «uas propria! 
maos se matarao^ e outras que is dos dggressorea 
morr^rao, assim por nao mfamar a yida, como 
tambeip por nao offender sangue« 

XI* Pjao era mcnos a insaciayel cobi^a d'estes 
monstros, £m todo o tempo que durou naquella 
parte d'America o imper^o e p govemo hoUande;( 
nao houye pessoa que possui^se bens de fortuna, 
seoao a merce da tyrannia. mesmo ^ra ter, 
que ter o inimigo que roubar ; a joia, a gala, 
mime em tanto era de seu damno^ em quanto que-- 
ria o Flamengo* Nao se contentou com furtar^ sem 
que o roubo se executasse por lei , e fosse juntas 
mente furto do alheio^ e prohibi9ao do proprio, 
Adyirta-se como neste paiticular andou a malicia 
delgada. Saio decretado de sens conselhos sob gra* 
yes penas que nenhum morador podesse yender, 
nem matar ( nem ainda para comer em sua casa ) 
alg^^| genero de res 9 s^ \xomf^ particular, e s^ 



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172 GASTBIOIO LUSETAlfO. 

a occasiao o obrigava a pedil-a| havia de pagar 
por cada cabeca de cameiro ou de porco um cur- 
zado , e de gado vaccum dez lostoes ; e que se se- 
guia a esta prematica ? Comprarem os HoIIandezes 
OS gados e rezes em p^ por muito baixo preco , e 
depoi8 venderemHias aos arrateis aos mesmos ven* 
dedores pelo preco mais alto que queriao. Oulras 
muitas extorcdes e vexames pratidirao, executadas 
com o bra^o do govemo, que deixo em silencio, 
para s6 fallar d'uma mais escandalosa. Os negros 
que (ugiao a seus senhoreS| se Ihes nao restituiao, 
se de novo os nao compravao; como para este fim 
OS recolbiao com boa cara , poucos erao os que nao 
fugiaOy dando com este latrocinio occasiao a que 
os tristes moradores fossem escravos de seus es- 
cravos. Foi tao apertada a oppressao dos amos 
neste particular, que nao tinhao mais vida nem 
mais fazenda que aquella que o seucaptivo queria; 
porque , se com alguma palavra o escandalizavaoi 
acusavao-nos deque tinhao armasescondidas; e 
sem mais prova nem exame erao condemnados 
por traidores. — Chegou a tamanho excesso o uso 
d'este modo de roubar , que ja nao havia escravos 
que o nao abominassem. Por^m esta falta suprio 
aquella maliciosa cobiga : compravao os meios do 
vicio, e OS dispunhao para o furto, ou com pro- 
messas, ou com ameacas. A um crioulo escravo de 
um morador authorizado convidarao com a liber- 
dade , e com o interesse se quizesse accusar a seu 
senhor de que tinha armas escondidas : para este 
jfim mettftrao em um lugarocculto dous mosquetes 
e duaa epadas^ & vista do negro | porque infor^ 



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GASTRKyiO LUSITAIia 173 

made do lugar e das armas se animasse a delatar o 
crime , seguro na eerteza com que podia fazer a 
accusacao. Corrido o escravo de que o fizessem 
complice de tao iuorme falsidade , e autor de trai- 
cao tao vil , descobrio a seu senhor toda a impos*- 
tura. Acudio atribulado ao remedio do eminente 
perigo ; buscou um religioso aceito ao conde de 
Nassau, que o informoudo caso. Nao se espantou 
o conde do infame iiitento senao da fidelidade do 
escravo ; roandou fazer exame, saio provado o 
trato y e nao sei como, esta vez forao condemnados 
06 aggressores a morte ! Devia obrar n'este caso 
mais o respeito do conde queo pejo dos ministros, 
complices em outros casos similhantes, por elles 
approTados, e quando menos consenlidos. 

XJI. Digamos tudo por maior, que por extenso 
sera impossivel. Trabalhavao quanto podiao os 
Hollandezes naquelle Estado, por se inculcarem 
senhores intrusos e legitimos tyrannos , dando-se 
a conhecer pelo veneno mais que pelo dominio, co- 
mo dos Psyllos ( povos que habitavao no interior 
da Libya) 9 escreve Plutarco : conheciao aosfilhos, 
nao pelo parto, senao pelo pestifero da compleixao, 
de cujo Teneno fugiao as mesmas serpentes. Taes 
e lantosy como tenlxo dito, forao os sacrilegios, as 
injusti^s^ as perfidias, os roubos , as crueldades, 
as injurias, e as.insolencias com que qs HoUande-* 
zes opprimirao os miseraveis vassallos , que nas 
partes do Brazil dominarao , sem respeito algum 
ao temor de Deos y nem ao pejo dos homens , fe- 
cbados OS olhos e os ouvidos a doutrina e ao escan- 
dalo y com que alguns dos seus gritavao nos audi- 



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torioft puUicos^ que nem Deod poderia diMimti- 
lar y nem oi homens Bofftet tao abominareis 
proceditnentos. De um pulpito ( em occasiao que 
todoB ouviao ) os desenganou tim predicante sen 
com livre reprehensao , que nao havia de faltar 
castigo merecido a procedimentos tao estragados, 
e que estivessem certos que aos moradores op^ 
primidos havia de tomar a justii^a ditina por ins- 
trumento do caatigo que mereciao aeus peccados, 
aftsim como para castigar aos moradores mettAra 
acdute nas maos d'elles Hollandezes. Recebeo^s^ 
tao mal a doutrina ^ pelo que tere de ameaco e de 
prognostico, que nunca mais appareceo o predi^ 
cante.Omesmo succedeo aumrabino, quepr^ando 
na sinagoga do Arrecife , estranhou os escandalo*' 
SOS excesBoa d'aquelle gotemo , ^e que inferio sua 
breve duracfto; espantando^M de como dominio 
tao violento durava tanto : cOnsumio-6 a ditigen- 
cia ; porque nunca mais foi visto. Imaginava a ce- 
gueira hollandeza que com atalhar o pr^o es^ 
condia o delito, e desviava o acoute. Parecia-lhe k 
devassidao , que tapando a boca aos homens , a nao 
deixava aberta is sepulturas , As cinzas , &s pedras, 
e aos troncos , que com muda rhetorica a publi- 
cavao, e Ihes pediao o castigo que nao tardou, 
como diremos em as seguintes relacoes. 

XIII- Por*m antes que entremos em o VI livro 
d'esta historia , se me ha de permittir uma digrea* 
sao, a que se nao sabe negar men dlscurso. Ponde* 
radas as insolencias dos Flamengos e a paciencia 
dos Portuguezes, nao sei definir qualdeva menos 
ao espanto , se a constancia do soflrimento , se a 



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QMnWnO LWDTMOi ITS 

profia do aggravo ? Esta accusata ao Holllmdefe de 
iiracional, aquella ao Portuguez de inaenaiYel; e 
neiu a fiiria do bruto quebrava na dureza da pe- 
drat 9P^ laslima; nem a dureza da pedra obedecia 
a oontinua9ao dos golpes que a quebrao ; e ge me 
represeata mysterio escondido em um e outro w- 
tremo, parecendo-me que o soffrimento se anima- 
va da esperan9ay que Ihe promettia a pouca duracao 
da violencia ; e a obstina^ao do esquecimento, que 
Ihe tirava da lembraufa o merecimento do castigo: 
demonatracoes , com que o ceo enainava a uma e 
ouira geute que a constancia de uma outra fortuna 
6 puramente negocia9ao dos mortaes ; e ser oondi^ao 
do6 Estados do muudo descer o que uao pode maid 
subir; eeubiro que nao pode maisdesceri a beneficio 
da instabilidade das cousas d'elle. — Com luz maia 
dara que a darazao o viao os olhos da (i^ que nunca 
pkie escurecer adiligencia da herezia. Seja motivo 
do maior assombro durar entre os opprimidosPer-* 
nambucauos a peste^ sem que ateasse o contagio. 
Nao houve Portuguez que pelo discurso de vinte e 
quatro annos preyaricassena (6, assim divina como 
bumana ; e se algum houve , primeiro foi descarte 
da uacao que membro da infidelidade. A neuhum 
Portuguez virao os Hollandezes contaminado, senao 
depois de expellido. Quandoparecia que a persegui* 
cao OS tinha reduzido a cinza , entao estavao em 
seus peitos mais vivas as brasas da fe para com Deos, 
e para com seu Rei. Olhava-os eutao com espanto 
a America, comoEuropa os viocom assombro o an- 
uo de 1 640 na acclama^ao de seu ligitimo priu- 
cipe o Senhor Rei Dom Joao VI. 



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170 CASniOIO LUUTAlfa 

XIV. A onde o humaiio discurso abate maU as 
azas i na consideracao da impenetravel Providen- 
cia do AltisBimo, pois d'aquelles meios, de que os 
homens se aproveitavao para sacudir o jugo , seva- 
lia a Providencia para apertar o grilho. Que soc- 
corros despedio o reinoem favor dos afflictos Bra- 
zilienses ? que levou Dom Antonio de Oquendo; 
o que conduzio Francisco de Vasconcellos ; o que 
se deo a Dom Luiz de Roxas ; o que entregou Dom 
Rodrigo Lobo ; e ultimamente y o que a todos ex- 
cedeoy governado pelo conde da Torre (naquella 
armada tao memoravel pelo poder como pela des- 
graca) ; que efFeito surtirao ? de despertar no 
Hollandez a colera , e influir nas tribula^oes dos 
moradores; sem que jamais deixassem de receb^ 
maior danmo das annas auxiliares , que das ini- 
migas. Parece verdadeiramente , que com desvios 
Ihes despunha o ceo a coroa dos trabalhos , guar- 
dando a empresade sua liberdade para sen valor, 
porque fosse sua toda a gloria, e so seu o [uremio de 
accao tao esclarecida. 



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LIVRO VI. 



SUMMARK). 



. Coma le Ibrmoa loao Fernandes Yieira na escola da adrenidada 
e da thrivde durante o dominio bollandez M i acclamacao d*fil 
Rci D. Xoao lY. — 2. Breve noticia d'este glorioso icontecimente* 

— 3. Chega aYito i Bahia; dispde-se a acclamacao, que € feste- 
jada eom grande alyoroco ; cuja nova manda o marqaez ao conde 
tfe Ifassaa. — 4. A camara da Bahia prira o marquei do goterno, 
e remeite-o prcao para o refno. — tH, Alyoroco com que a nova 
foi recebida no Arrecife; e festcjo com que o celebreu o conde de 
Nassau; o qaal maoda embafxada A Bahia , e com queinterito. — 
0. Geldnrao-«e as tregoas entre am e outro govemo. — 7. A' fom- 
bra da paz nos fai o inimigo a maior gue^ra; com traicao nos 
ganhoQ a cidade de Sao Christovao. — 8. Chega d Bahia Antonio 
Tdies da Silva , para govemador do Estado ; queiias do povo con- 
tra Hollandez , comprovadas com o que succedeo a uraa hAo 
portugueza. — 9. Intima o govemador ao Hollandez o aggravo ; 
que se desculpa da traicaO com frivolas escusas ; o que faz o go- 
Tenudor.— IQ. Chega d Bahia um enviado do conde de Nassau; a 
a Pernambuco ordem para tirar do governo ao conde de Nassaa. 
11. Tona porto no Arrecife uma ndo hollandeza de volta d' An- 
gola , que di noticia da akivosia com que o Hollandez se fez 
aenbor d'aquella parte, e das hostilidades que alii commetta ; 
motivos para Joao Fernandes Yieira apressar sua determinacao. 

— 13. Apresta-se o conde Nassau para passar a HoUanda. — • 

13. Primeira retolucao de Joao Fernandes Yieira ; que eUe com- 
munica aos sens maiores amigos, e ao govemador do Estado. — 

14. Pede soccorro a Henrique Dias e ao Camarao ; recebe do go- 
vemador resposta e sessenta soldadoi; ed'aquelles dous capitaes 
iavbem reoeba raspoata. — IK. Chega a Pernambuco Antonio Dim 
Cardoso, e por ordam do Joao Parnaiides Yiefra se aloja « oecnlta* 

— id. Assentao entre si revellar o segredo a alguns confidantes; 
loao Fernandes faz a todos uma proposta. — 17. Entrevista que 
tern eom AnUMiki Cardozo; o ^pial desfit a» difficnldades qua oi 
embargavao. — 18. Descobre Joao Fernandes Yieira o Calso trato 
d'alguns; de tddo dd conta a Antonio Gardolo; resposta d*este 

aoa iraidores.--19. Confere eom Joao Fernandas Yieira o qua se 
L 12 



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178 GA8TEI0T0 LUSITANO. 

dere fazer; ctrta ardilatt ^^a eoDfimdir of iraidom ; qve Jooo 
Fernandes Yieira Ihei deo a ler, e com que frustrou seu intento. 
— 90. Cbega a resposta dp governador do Estado. — 21. Manda 
Hpllandet embaixadorei A Bahia; resposta do goTeraador. -^ 
23. Tbeodoiio Eitratet se offrece ao goYernador, que Ihe agradece 
o offerecimeDto com cautella. — 23. Despacha o goTeroadorosen- 
Tiadof de Joao Feroandes Viakv, que chegao a Pernambuco com 
alguDS foldadof aventureiros. — 24. Joao Feroandei Vielra le re- 
solve a sair a campo ; nomea capitaes. — 25. Ardil com que inten- 
ta acabar a domioio hoUaodez, ^26. ProTOoa os moradorea a qua 
l^uem OM annaii pr^tica que fez a todoi» a que foi appmrada 
com applause. -^ 27. . De tudo teve o inimigo inlelra noUcIa; 
procura prender a Joao Fernandes Yieira, o que naaooasegue* — 
2& As novas da vioda do Camarao e Henrique Bias alegrao os 
noasos.— 29. Hous traidores reveUao aos HoUandeses a ooospi- 
ra^ao ; com forca descobarta maoda o HoUaodez aualur .as casas 
da Joao Fernaodes Yieira; o que resutia do assallo. -*.30» Joao 
Fernandes Yieira 6 avisado, muda de sitio, a alaja-u em Caaa- 
ragibe. ^ Si. Cresce o temor do inimigo > manda embaiiadores i 
))abia, faz ariso aos seus darebelliaoi e commette pariidos a 
Joao Fernandes Yi9ira,—3f. PremaUca que manda publkar no 
Arrecife ; effeitos que causou. — 33* Estilo traidor de daus Porta- 
guezes. ^34. Jo2io Fernandes Yieira faz um edital que.manda fi- 
xar nos lugares publicos do Arrecife; o HolJandez promette 4,000 
florins a quern' o mate , e Joao Fernandes Yieira dobrado preco a 
quem o vingue.~35. que si^ccede neste tempo em Ipojucat ^ 
quern foi Domingos Fagundesi eoque obrou. — 36. Retira-seJoao 
Famandes Yieira para 4 mata de Yaico Pires, e de U para Hai- 
cassej capitaes e gente que seguemi e putra que se Ibe reuoe. — 
37. Maoda Hollandez embaixada. ^ Bahia , reiposta do gOTecna- 
dor. — 38. Tbeodozio Estrates ratifica a palavra de servlr a £1 
Beit -» 89^ Cbegao ao Arrecife os embaizadorei. 



I. Ainda que Joao Fernandes Yieira nascSra. em 
^ ilha da Madeira > comQ deuaaK>6 dito em o lAw. I^ 
eUe estinava a tem de Pemambneo eomo sua pa- 
triai e tomava lanlo interesse em sua liberdade w- 
BftO OS que netla haYiao Mscido. Na ctoola da adr 
▼ersidade^ e no meio das calamidades que aflfligiao 
tua f»uia adopUvai %q formou aquetie gmode 



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QAsnioxo umxAKa 470 

contfiOf que clepoisha?ia de qoebrar m ferros que 
a agrilboavao* Haviarie die distinguido na prima- 
vera deaetis annot ^ como temos dito , praikandb 
futfw d^annas dignot d'um experimentado eapiiao, 
e difipuidia^ee a proseguir a encetada carreira; 
ms eonbecendo que a resktencta 66 aema paipa 
dar aleittos ao inimigo para a conquisia , largou aa 
armaai edbedecee afortaDa, julgando diBcrete 
que mttt aprxyveitaria aoe naturaea com a negMia* 
QMcpieeoai obra^e, Vako-aedaindattria, ecom 
pmdente sagackkde ee iatrodmio com 08 Holkm'^ 
de^es de aorte que aeadiaatou a tod<»6 na estima*- 
if$Oy 0a eottfianga e na oppulencia, haTciido«>se 
com aattteia taevettgeobosa^ que era aenhor (lai 
mm recatadaa Boticiaa ^ a no segura d'ellaa <)brafa 
oauto e ditoso. Su^ ganeroaidade oreacia i prapoi^ 
^ qiae ee aogmeiitarao aa iBtamaa dea meradoreav 
A' emsUk de gnaadea diapeftdios iMHseorreo ftoipre 
oan^ceaaitadmi eBuaitaa Ttaea Ubea tomptmx o per^ 
dao e favor ; eamm oomeatei raligioeda auniioa 
feigwrtaya a £&d« mukoa ^ ttrando-'lfaea com o soc^ 
cptro a deadolpft da ueoBaaidada e da p«^ Com 
viyaB rawea e ooBtbliiM dadivas ^aUre a hare» 
tka. furiai qua Emilia "vaaea tomon fat expedieiila 
aaudw^i >Da eooaarrai^ deaterrar da aeu do4- 
vmm Wdaa ae pei^Qas eodraaMkaa i ncgocia^ 
que aarFia4aairimaa fraqoe:^ da nHtttoa, qua 
vaeiUrvM Mieonatancia da fidrilidadfu Repavoapor 
eate mei^ quebraaiiahoiira , oodeayimdo a iom^ 
on deaoieiiluido a mjtim^ e oudlaa yenes «Beoiw> 
Umdo a enrfragai faaattdo o Mmedio tttiio nuda 
vigfunosoi qiMttto eia oiaia fiaesl oafU^Caaava to» 



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189 CA8TUOT0 LDUTiKa 

dos OS annos muiias orfis ; em todas regniava o 
dote pelo desamparo, e a precedencia pelo perigo: 
qualquer infoKunio \he doia oomo proprio. Em 
todo o tempo X) aehava oom igual compaixao o grato 
e o queixo90/o isento e o agradecid^. Sendo eor* 
tre todosos moradores o que mais possuia , e o qtw 
m^lhor se tratava , nem achou olhos na inveja, 
nem desconfianca na pobreza. Assim c(»itrapexa?a 
a gravidade com a benevolencia , qae a eslimacao 
inimiga o senria com respeito , e a dos naturaes oom 
agrado ; e sendo tudo mats venda qne dadiva , en 
tan to maU o que adquiria que o que gastara, que 
elaramente se deixava ver <fair o do cento por um 
a quem despende em 8em90 de Deos e do proxi- 
mo. No xek) do calto divino foi tao exacto que se 
excedia a si mesmo. Reformava, 4 cusia de ana fa- 
zttida^y todas as igrejas « hermidas que o hereje 
roohaya edcatnaa; a« todas melborava noa para- 
mentoseaparatossagrados, desejando que em to- 
das as partes fossa Deos servido com decencia ; adian- 
tou o fervor das confrarias , servindo em todas com 
a faienda e com a pessoa. Por aua diligencia e zelo 
se cottvert^rao a y«dadeira (i cmco jud^os ; deca- 
da um foi padrmho , e de todos j^eanedio. O mes- 
mo J e com o mesmo zelo e dispendio , Ihe succ^eo 
com dous herejes« Para que os officios divines se 
eelebrassem com pompa ^ e se frequentassem os 
sacramentos com liberdade, comprava ao hereje 
as permissoes , e sustentava em sua casa capella de 
musioos escolhidos, e diversos temos de chara- 
meHas. Animava os parochos^ para que se esme- 
rasscm no comju^imento de sua obriga9ao9 com o 



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GASniOTO LDSITAlia. 48t 

paftroemio e com o exenplo. Nao Tiio tens oihos 
oeoefetUbde em que a preesa de aoccorro ae nao 
adUantaaie a anpplieadamiseria. Sua ckarkk^e nao 
ae eaiendia so aoamoradores, aenao aos ealranhos. 
Ch^no ao Arrectfe muitoa aecalarea e eccieaiasti* 
cos que o Flamengo trouxera de Angola como ea- 
cravQS; Joao Feraandes Vieiniy vendo que erao 
PorCuguezes e desvalidoa, aoconrreo a todoa; ao$ 
■lais distinetoa levou para sua casa, a oudeoaboa- 
pedou ^com grandeza ; aos deoiais mandou vestir 
e susCentar a ousta de sua fazenda ; e a todos, ao 
tempo dese emlMircarem e daspedirefn, forneceo de 
veatidoB e manttoieotos, nao ao para a Tiagem, 
senao tambem para sairem em terra quMdo a to- 
maaaaod. Quatro mil crazadoa gaslou nesta c^ra 
de piedade ; e por aqui se p6de considarar o que 
despenderia em tantas ! Aasim vivia no meiodos 
inicnigos de sua nai^ este novo Mois^ ^ conser- 
vando ilibada a suaf!^^ animando e soecorrendo os 
seus cximpalriotas, e meditando os meios de um 
Urn Ihes reslitnir a roubada liba^ade. Sem fiar seu 
iatento mais que de si proprio , foi chamando a seu 
servico aquelles homeus qiie erao intelligentes naa 
artes mecaiiicas ; e repartidos por suas {azendas os 
ocoipava em seus officios. Para as malas, que 
tinha muitas e mui dilatadas, mandava, adesfi* 
lada^ armas, municoes, farinhaa e outros gene- 
roe , que se reodihiao em lugares seguros ^ fazendo 
en tender aos miuistros d'estas conduc^oes, que se 
prevenia para as occasioes da falta. Aos homena de 
bam assistia com beneficios^ para que na opportu- 
mdade Ihes correspondessem gratos; aos popularea 



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ttS QMmero twriaa 

obHgaTa eoflt laTorts^ para m ter obedientei; Aof 
ioIdado9 9 offioiam da milicia poitufuezaioeoorm 
com libwaUdadk^ para os adiar ofarigadbs; aba 
jybUao^Msa aervia e aaCimaTa, para ob oottservar 
sSoCM I e algfuia d'eUea oomprara com exceaaito 
itiapQndiOi para ob diapor confidentas, e reoebar 
d'ellea oa aviaoa loais uteis , e oa segrados maia im<* 
pwtaniea. Em o.maior ferror d^astaa ouidadoa 
oaiOucom Dooa Maria Cesar, aenhorado meihor 
aaogue do roconeavo , com muita fem>9iira e pou* 
fios aDoas ; «por rata meia ae aparentou com o 
iBaia eaUmado a maia lustroio d'aquella capitania^ 
Naoapagau nelleo tbalamo o iooeiidb bellioo; wtt^ 
taapidMAdocom maia yirexaera aan peito o deiejo 
da iavar ao aabo a impnaa madilada da resUmracM 
da Parnambyoo, proaegoia oom afiaca a aonataacia 
am aau projecto, quando a noaicia da aeclamaeao 
do Senhpr Ret D* Joao IV Taio decidiWo em fim 
a maUep inaoa k obra, a a axtoular em publico a 
que em pardcular ha mmto preparava. Daremoa 
uma curta notioia d'aquella faccao^ para voUarmoa 
brayemanta ao nosao Joao Fernande^ Yieira , qua 
d o AchiUea d'esta argumento. 

II. fiem aabida 6 da todaa a parfida politica com 
que Caatella pretandia aniquilar Portugal para 
meihor o dominar; a como prirando-o pouco a 
pouco deaaua f6roa a liberdadas, promatidaa a jii» 
radaa ^ praparava o ultimo golpe reduxindo o retno 
a provincia. Nao podiao oa Fortuguezes soffrer tao 
gramie affironta; meditavao em aeua nobrea oora«* 
edas o modo de aocudir um jugo que jk pesara 
aobe ailea havia aeaaeuta annoa ; e to eaperafao o 



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ii\Qme]>l<> favorarel de levar a offe^to SMt limxifi^ 
resoli^o. Oppfimidos de igufiee if^psii^^i^ sqbl^ 
v^rao^ OS. Catalaes; « os Pprtugue^^^ que j4 
d'antemao linbao . inleligdndas seor^t^s com o $p^ 
rwissimo Duqpe de Bi^ogiMa^, en um sabl;>ada 
1*" de Dezembro de 1640, peU& noye boras da m^ 
nhif pos^iao inifiSt & obra^ e acqlamirao no termro 
do paco de Lisboa o Senhor Rei D. Joao lY • Qua^ 
r^ta fidalgOB resolutos. e^ceeutajrao e»ie grands 
feijto co^i Unio^ denodo e pi^e^teza, qpe q^aIK(<3( 
^ao dez boras estava a lacf^ coos^uida; Migi^el 
de y^poofello^ sem vida^ a duquezarpgenta sam 
mando; q sg^o r^atituidQ ao novo IW acclama^ 
do^ e a cprte qpi^a e saUslaita. Bastou a voas do 
succqsso p^ra ^er ioiitado em tpdo o reiao^ sem 
fielle fiQfu* povoa^iio i^nx aldea,. em que se nao 
yjsM obedecido> com admiravel coucardia e alvo^ 
TifqQ dos aoin^os; mostrando^ eq^ tudo que su?^ 
penpr JD^puldo o$ mcftia- Em. quanta a .magostado 
doSefibor Aei, D. Joao $e dilatou no Alevatejo> que 
foraa poucos dias^ elegeo a nobreza per governar 
dor aa Arcebispo de Lisboa, D« Rodrigo da Gunbai 
que logo despedio porreios a toda^ as cidades e 
v^las do reino oom a alegre nova de sua Uberdade« 
Em 6 de Dezembro recebeo Sua Magestade a co^ 
roa e a obediencia y e sem dilacao a mandou dar 
jfcoPapa Urbano VUI, que governava a Igre^a, 
pelo Bispode Lamego^ P. Miguel de Portugal. 

IIL Nas custumadas bosUlidades (quedeix^mos r^ 
feridas noLivro lY) se passou todo o anno de 1 640^ 
sem nelle baver cousa digna dememoria; entrou 
novo anno, e com elle a felu nova 4a acclama- 



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186 CASTRtOm lUBITAlfa 

6bio gtoiriosa que em Lisboa se fizAra do Senhor 
Rei D. 5o&o IV. Nos fins de Janeiro de 1641 to- 
mou porto na Bahia o P. Francisco de Vithena, 
reKgioso da companhia de Jesus, que de Lisboa 
saira em uma embarcacao ligeira , com carta d'El 
Rei para o marquez de Monte Alvao, Viso-Rei do 
Esiado, eordens secretas para toda acontingencia. 
Era o marquez feitura de Gastella , e teve-^se reedo 
de que podessecom elle mais a gratidao que o nas- 
cimento. Entregou as cartas na mao do marquez 
com o defido segredo ; com portugucz alvoroco leo 
este a nova, beijou a (irma, e deiloti de si toda a 
duvida ; deteve conrsigo o padre , mandou chamar 
ao Dom Abbadede Sao Bento, ao prior do Garmo, 
gnardiao de Sao Francisco , e ao refior da Com- 
}>anhia ; da nobreza os principaes ; da miKcia os 
maiores cabos , e os vereadores da camara. Fedia- 
dos todos em um salao do Paco leo a ciarta ; man- 
dou que faltasse o padre Vilhena. Suspendeo a tOr 
dos a estranheza da novidade. Rompeo o marquez 
osilencio, dizendo que a gravidade da materia 
pedia o parecer de todos, e assim que Ihes rogava 
votassem nella por escripto, assignandorse cada 
qual ao p^ do seu voto. Fallirao alguns, dizendo 
que a resolucao de tamanho negocio nao era para 
repentes ; que se d^sse tempo & considerpacao, ara 
queo didcurso escoihesseo mais acertado. Atalhoa 
o marquez a dila^ao, com advertir a importancia 
do segredo; e descnganou a todos que primeiro se 
haviao de resolver que snissem d aquetie lugar. 
Le?antou-se entao Joanne MendesdcVasconceUos, 
e Crmando com uma mao o chapeo , e com a ontra 



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oMmiMo amthm. 185 

a espada , djase estaa palabras : « Cmnprio o c^ a 
» Portugal ifto dilatada promessa ; chegdmos a vei^ 
n o fimde tao penoea esperanca ; temos o que de- 
» aejaaos; e ha quern remisso duride de acceitar 
» too grande rnerc^ de Deos ? Viva El Rei Dom Joao 
» o Quarto noaso 8enhor; e nao haja qnemo con- 
» tradiga, se i verdadeiro Portuguet. » Repetio- 
se pelo marquez , e por todos os do cooselho , a 
lima yoz a acelamacao dos vivas. Nao 9e permiltio 
que do^ao saisse nem pessoa, nem notieia, at^ 
que 86 nao dnpozesse o modo com que se baria de 
acclamar na cidade. Ordenou-se que saisae (oda a 
gente da milicia em suas companhias (quasi einco 
mil fttfantes tinha a cidade de presidio) com aviso 
aos tenentes de mestres de campo que marchassem 
a fcntnar-se na pra^ dos Guf ndastes ; e que dos 
ler^oa^ um de Gastelhanos , e de Italianos outro^ 
levassem a vanguarda , e assim como fossem pas^ 
sando os mais se Qies mandassem arrimar as ar- 
mas. De^pedida esta ordem , maiularao todos bus« 
oar as roelhores galas, que tinbao em sua casa, 
sem dizer a seus criados para que : com a mesma 
cauiella s^ mandou vir a bandeira da cidade: 
povo, que vio ficar a embarcacao ao pego, ao 
P. Vilhena mudo, aos maiores da cidade con^ 
gregados, a infantaria fbrmada, a? galas pedidas, 
o segredo observado , sem atinar a causa concorria 
em nmnero a esperar a nova. Vestido de festa com 
o mai& precioso de suas joias saio o marquez acom- 
panhade do» congregados e da camara, com a 
bandeira da cidade , levando diante um rei d'ar- 
mas; tocarao^eascaixas, clarins e pifonos; e feito 



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signal pan xiue ye pofiegfe^ fiai^ %o estroEdp ^ kvmr 
i(OU-«Q rei d'arpias, e em voz aita proniwdom 
eslaspalavraft : «.Ouyi, ouvi, ouvi^ eetUi aUentoft. • 
£ loga marqnez rcfoi^DdQ o grita^ disse aa pahi- 
ynui propriaa de siniilhAaie acto i « B^al ^ real, 
li real|:por. o S^nhor Dom Jooo a Quarto , Rei da 
a ;P<u*tu^. j^ Com minca vUto.alvoro^o e alegria 
as r^tjo povo, setfidescao9ar.por muito eBpfL^ 
de taMHuliuar vivaa* AugmentoiHse o hrado eom 
as ropetidas cargasi^que davao oa ter^oa^ a qua 
rt^pood^rao os fortalezaa e.naoa cofu toda a arte- 
Iharia^ em quaoto o inarqufez com a referida con^ 
panhia, cabidO| coouBuaidadea, derezia e po¥o 
caminbavao para a S£ a dar a Hfm gra^s de tar 
iB^oha fnerc^; e nos aeguinte^ diaa ae festejou can 
KmM a vari^dade d$ featas, qm na cidade ae po* 
d^raoordeaar. i— Daspachoulogoo laarquez a aeu 
iilbo n\uxa paU<{ho a dar a seu Rei o parabem da 
coroa» a <>bedi^Qia de vassaUo; oom a meama 
proipptidao avisou, porcorreioa, a todoaos lugarea 
da 8ua juri$dlcQaq para que imitaaseoi o que na ci- 
dade se havia pratioado; com o meamo alvorooo 
despedio um barco , e nelle o pUoto da Barra Joao 
Lopes^com cartas para o coode de Naaaau, a quern 
dava conta da acckma^ao , e das circumatanciaa 
d'ella. Pedia congratulacoes da felicidade do rei- 
UD) e dava parabeos das cony euieacias dos Esla- 
dos; tudo redultas d'um animo verdadeiram^Qte 
poriuguez. . 

(V. Ordenava Sua Magestade a camara da Bahia 
qve, no caso que o marquez peccasae em desobe- 
dioQPia pu tib^^, q privassem do^ver uo, e para 



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cUt ^nolMira. to fiif^ Bosi £e4K> da fiiiritM 
vomtee de miii|M> Lute Bwbulbt, e t Lourtth^o 4e 

mimir^fti e ji«9Ufi^iuremaa<x)iidii;de9, se executou 

6 pci^Qu^ao o Qiegoeio Aa babm^ da m^roAAeuii 
samclue a &OMe f>eader a dkfioomposi^ao d0 Mm 
tamanbo xainifttrou Com auimo ^oeegiKk) rec^o # 
iwrqnez a offepda , porque o mo ^Ifeivaa camia<i 
d^eDienfio aqueUe reoeio*quQ (uppuijia p coi>)oi<a^4 
pao r«eo3ou o aggravo de o maodarem proso pan 
o reiao , p#k d^^encia oom qv^ o r«me4tka<}| 
eerto de qoe em F^i^l ee hayia de vemilfu*: a 
^uAa ooiB; diflereDte juito, p^ue nao ha via tri* 
Umal em qw j»nep4diase a p>i»o« Ch^gou a,Li^ 
boa , aobou en seu R^^estimaqaa « agrado ; e 110$ 
post06 que oeQOpeu.a premio de aeus ^rvico^ i»e a 
maior Yiiig|u[i9ade.teuS(emulos; aiiida que aioor^ 
teeida f>ela rebelliao de aeua filbos. 

y ; Chegpu enti^etaato iw^ Lope^ ao ArrecUej 
deiteu aocora de fro«te do pa^ do conde de Na&^ 
8Wy e Bern e&perar consetttimento^ saltou em terra 
com ageatede sua* eompaohia lufitr^^samente yeir 
tida; dirigk>-se ao pa^o, entxegou a carta do maxr 
quez aoeoude; o qual » a pwas a leo, Ibe.^ 
d'alvi^aifaa uma rioa joia. DtyulgoUrse logo ajao\a» 
qu0 o povo featf jou com tauto alvor09O e j^epeti- 
9ao de y'wMp quasto ae podift espepar da maia 
iiel poYoa^o de Portuguezea; €Spalbou^3e por 
todo o reconc^vo^ e com igualjuUlo Coi applau*- 
dkla. Fa^iao-lbea eompanbia os estraogeiroa , ip 
bem q¥e oomdWersojuifco; popque .0 HoJlanda? 



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(W CASTUOTO HMTMa 

<> formtvade ettabeleeer, por esle otmittbo , mo 
imperio; e ot PortagueeeSi de DeoBifaes moMrar 
o Diodo como hamo de sacadir de seas faombros 
o jugo. — Mandou o coade fixar qitattel de featas 
{K>r todas as pi*a^8 de seu domink), para o segnliK» 
te met d'Abril , cotividaiido com premios arm a^eo- 
tnreiros, e com rogos anobreza principal de ea* 
trangeiros e naluraes , sem que faltasaecsn eaorei^er 
aes bomens de milhor presttmo, com aviso de que 
ae preparassem de caTallos e galas , porque nao 
faltassem ao festejo o luzido e o decoroao. Mandou 
fezer i sua vista urn largo terreiro eeroado de pa- 
lanques, omados e capazes para a quaiidade e para 
a multidao : chegon o- dia dealinado j e enirarao 
na praca duas qQadrillas, a compeieneia lustroeaa, 
uma d'estrangdros que gulava o conde, ouira de 
Portuguezes , que seguia a Pedro Marinho Falcao ; 
c(Hrr6rao parelhas; juglrao canas e alcanzias; de 
tarde houvc sortilha , e nella se julgirao quasi to- 
dos OS precos aos Portuguezes; muitos Ihes deo a 
justica; muitos mais o favor, porque as damas 
estrangeiras, com sua natural coofianca e galhar- 
dia, tir&vao ou das ifiaosou do peito esta ou aquelia 
joia, e as offerecifto ao cavalleiro que mais Ihe le- 
vava OS olhos : gentilleza enti^ elks usada^ e nas 
cortes applaudida. Em o segundo dia foi todo o 
festejo & flamenga : deo o cotide um magnifico jan« 
tar a todas as damas e cavalleiros, com tal condi- 
c&o que na ordem dos brindes fosse o mesmo er- 
ral-os que repeiil-M : jogo, em que as mulheres 
do norte estimao ser vistas, porque se presao de 
destras. Em o terceiro dia se continuirao^ featas 



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GAsnmto unRAM. 189 

de cavaUo ^ que se rratatfrto em umsi frawa e e»» 
plendkla ceia, e ndla se dec o ulthno brinde i 
che^ada de una oaa de Hollanda , pda c[ttal 06 
aenhores Ealados a^iaavao ao ooode da acdamaf* 
qio do Senhor Ret Dom Joao lY, e das pazea i»* 
sentadas com a coroa de Portugal por dec anaos. 
~Logo que se acab4rao as festas, mandou o conde 
de Nassau preparar uma fragaia para a Bdiia, na 
qual euiFiou a Henrique Code , e por seu seerelario 
Abraham Trapes. Era o primeiro otgeeto da em<- 
baixada felieitar os novos goveruadores ; o segm^do 
( e ^te o mais principal ) representir-Uies a grande 
utilidade de uma tregoa uaquelia parte da Ame^ 
rioa entre Flamengos e Poriuguezes^ a sombra das 
pazesqueos Estados tiuhaooelebrado com o reino* 
Forao recebidos ccmi alvoro^, providos com lar* 
gueea^ e agasalhados com todo o respeito. 

VI. Assent^raoHse os priliminares das tregoas^ 
com a prdmessa de que os noesos goVeruadores 
matidariao relirar da campanha de Pernatmlmco ao 
capitao Paulo da Cunba e ao goTemador dos Mi- 
nas Henrique Dias; o que logo se,oom{»rio» e os 
endMixadores hollatideies se retirirao. Passados 
alguas dias mandarao os tiossos govemadores ao 
tenenle general Pedro Correa da Gama, e ao hceoh 
dado Kmao Alral^^ da Penba, para que com suas 
lettras asdstisse to capitulacoes das trfgoas> por 
quanto para sua Talidade era necessario o serem 
conformes ao dereito. Flamengo^ que com a 
reiirada do&sobreditos capitaes se achou livre do 
que maisoinquietava, com frivolas escusas negou 
todaa aqueUaa condifoes que podnio favorecer no$- 



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ItD cuaaoiouMia». 

iQ pUEtidb* Vkio m wm» tnitkdoi o animo do«* 
brido d'a<|cieUa;g€ntef voltirfro. para a BaUa, pit>- 
fios^iBO aoa govcmadorea 4^ ^ue tinhao enlmdiclo^ 
^^aaielDgo fioiriolodoa ocmhaceado aa aiattUijMi 
4o BoUamka^ .que hid tatdou a deaaMtcanr-M 
MMo vamoa a "viar* 

VU. Mao crao auda pasaadoi muiloa diaaquaa- 
do ohagouA Bahia aviio oertaqiia oUoUandaa 
dospadkA do Aimoife rariaa etquadraa fo^ 
muniitoca e ^enta para leTarem porantrepreaa 8er- 
{^le, Angola ^ MaraBbao^ 6w Thaaui e a Mina; 
oqiM facilinMtacooaa|;uirao. ^m iiulividuareinos 
oa BQooasaos, porque acontao^raft longe do teitna 
de ttoasa faittoriai •<> a entarpreaa de 8^pe iioa 
obriga anla^ por aar parte da America, a «air 
aa ^pbeia da nosao atailsipto. -^ Sail aituada a 
cidade de Sao Cbridtovao em a oi|»laaia do &ar- 
giped'JEL Rei| wafinai^te pela parte doaul com a 
fiahia# ^ pelo ttona^om o rio de am FraneiMo e 
com a bafA (ania 4e Peraand^uco ^ de qti e diaia aele 
legoi#t porQa9a(a Umitada, pordm de t^neoo ferv 
til ^e porta capa?^ Tanio que o ii^itmgo ae vio dea- 
aaMoaahrado d«a tropaaporiygtiasaa^qoecxirriao 
e awdU^YJift todoodeatriotodo.PerjiaiilMicop for- 
Dooeo quatro oiM.do tvdo o ipj^ the pareoao m^ 
joea^ario para aconqidMUt e para a reteii9»o« JEttr 
tra^ao no poriia com haj^leiraa de paa^ derao aobre 
a cidade cqa»eatr^ii»do de guerM; aaquearaoEvrf»> 
fizerao-se aeahores ^ aem que algttm doa morado^ 
rea e viziAboa Iho podesse ifttpodir , porqw oa 
obrigftva a ratiiiar a aoguraoQae o pnooeUo; m bom 
qua ^oijiiaoiM iM ttorbtiaitiba tMiiiao^MO^ 



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fiAamoTD uflBTMia Ml 

nio criao. Para padiio da infamia kvantoo aHok 
Uondei nafiarra uma notavel fonli&ca^ao. 

VIIL Tinha aportado na Bahia AntoDH> Tdlei 
da Silva, mandado por El Rei D. Joao IV paf« 
govemar aqaelfe l&tado. Coiu^iTiao iieste fidalgo 
nuitaa e nnii solidas qoalidades, com as quaea 
ra&plaadeoia em sua peaaoa y com excesso j o illtia* 
Ire sangfue que herdira. EncarregaraJhe £1 Rei 
com Unto aperto a obaenraacia daa tregoas com oa 
JttoUandeaea^ que encontrando^se a ooaaemi^ao ib 
Batado com a observanda da paz, Ihe ordinira 
quehrasse pelotloniinioy e nao peta amizade. Aofaou 
Antoaio Tdles frescas as feridas j vivaa as qottixas) 
e acccao oescatKlalo, com que o povo seiastimava 
do aleivoap praccdcr do inimigo ; resolveo-ae em to«- 
IMF um eipediente pelo qnal o inimigD enleii*' 
deiae y que hobm aoffrimento era praceito e oao 
deaanaio, fiuendo-lhe conbeoer a causa de nossa 
impadaneia , ea vileaade sea utrtfimeiito. ^ Deo^ 
Ihe occasiao para ^xaeutar o entrar na Babk uma 
oao portugaeul^ que d'etta saira carr^gada de as-^ 
ancar em direitura para o reino; a eata enoonifott! 
DO mar uma fraipta hoUandeza , que viflba d' Aii^ 
gda pata o Airecife ^o seguroda pas adescaidoui 
e aaleiyozk cslraiigeira a Tc^eo. Tirou d'ella o 
piloloy e parte da maruja, e pan que a noareassBm 
Ihe raetteo quime HoUaodcaea. Contentes com ^ 
prasa navegsrao para o Arrectfe, quando os Por^ 
tBguazes quo fio^rao em a nio rendida derao sobre 
oe Flamengos ^ ea qeaea^ cortadoa do fenroe do aae^ 
do^ se deiaariio mvnttar^ pediado bom quar Ce) ; vKt 
rareo oanotao^ apma^eem.poucoa.diaseotdirao 



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193 CASTBIOn) UJ81TAN0. 

na Bahit ; oontarao ao goTemador o case; de cpie 
elle mandou fazer um proceasa^ em que tesCemu- 
Bhiirao bs mesmos Hollandezea prisioheiros e cul- 
pados. 

IX. Pelo licenciado Simao Alvares de la Penha 
Biandoa o govemador do Estado a inquiri^ao ao 
conde de INastau, e aos do consdiho supremo com 
luna carta, na qual j depois de ae queixar amar-> 
gamente do injusto e atraiooado procedimento dos 
Hollandezes^ ooncluia, dizeodo : « £m esse processo 
» vai proTada a Terdade e a razao da mioha quei- 
}) xa pelos mesmos aggressores da maldade. JUko^ 
» repito o sucoesso , porque me corro de dar duas 
M y^es em rosto com proeeder tao fiemeotido. £s- 
» p^roa restiiui9ao do roubo j eo caitigo dos cul- 
» pados ; e quando fahe a satisfacqiio da parte, que 
» 6 obrigada a dal-a , tenho cabedal e valor para 
» por em execuqao o eastigo e a vingan^a^ ainda 
>» que saiba qoe a de9(^>ediencia me p6de arriscar 
n a cabe^. » — ^ Partio o enviado , chegou ao Ar« 
recife, deo ao oonde a carta e a embaixada. Esca- 
sourse este e os do oonselfao com a fiugida ignoran* 
ck; e para se nao moitrarem comfdioes, disserao 
quenas tmi^oas usadas nao tiyera parte seu con- 
seutimento ^ nem agora o podia ter sen limitado 
imperio para a restkni^ao; mas que informariao 
aos senhones Estados da injusta retencao das pra- 
9as e fazehdas , dando odnta dos aggressores, paiia 
que estes fossem castigados , e aquellas restituidas ; 
e com demostracoes magoadas despachiirao e des- 
pedirao o enviado. Nao esperava o governador nem 
outra resposta, nem outra satisfao^; mas quix 



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GASIRIOIO LUaiTAKa 19S 

justificar com estadiligencia o que delerminava fa- 
zer sua yingan^a. — Despcdio para Angola uma 
carayella carregada de municoes e mautimentoS) 
que aos afflictos despojados foi i*en^dio e vida, 
MaDdou a D. Antonio Philippe Gamarao que 
com o sea terco de Indios passasse a Sergipe^ e se 
alojasse & vista da cidade e da fortaleza, e de ne- 
nhum modo permittisse que o ininiigo disfructasse 
a terra ; com expressa ordem que saindo alguns, 
a primeira e segunda Tez os despojasse do roubo 
edas armasy e os largasse, ayisados que & terceir 
ra vez haviao de pagar o aCrevimento com as vidas. 
Observou o Gamarao pontualniente a ordem; e 
d'ahi per diante nao houve inimigo que ousasse 
sair de suas foriificacoes ; uem a ellas chegou outro 
sustento mais que aquelle que do Arreclfe Ihe en- 
trava pela barra« 

X. Em quanto o governador do Estado fez estas 
expedi^oes^ se occupava o conde de Nassau em des* 
pachar um enviado para a Bahia , a onde cbegou 
com brevidade. A sustancia de sua embaixada se 
resumia em dar o parabem ao goveniador da via**- 
gem» e do lugar, com os offerecimeutos da pessoa^ 
oongratulando-se da vizinhanca ; a que o goverr 
nador. respondeo com a polidez que pedia o seu 
cargo e nascimenlo. — Nestas e u'outras cousas^ 
mais importunas que importantes, se gastou o aauo 
de 1641, e parte do de 1642^ quaudo tomou por- 
to no Arrecife uma .nao de Hollanda, com or- 
dem aos do governo , para que ao conde de Nas« 
sau ^ Joao Mauricio, se Ibe nao d^sse mais que a 
n^tade do seu ordeuado, com car(a para o mesmo 
L 13 



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(9^ CASTBIOTO LtrafTANO. 

conde, em que os da Gompanhia occidental se 
desculpavao com a pobreta da bolca. Pela mesma 
nto recebeo o conde aviso secreto de que os da 
companhia determinavao tirar-ihe o govemo, mal 
Bfttisfeitos dc seus procedimentos , capitulados por 
algUQS falsos amigos, que o accusavao de frouxo, 
absoiuto eambicioso : culpas que formava o ciume 
c a inveja. Conheceo logo o conde os autores da 
intriga , e para Ihes nio dar o gosto de o verem 
priTMlo do governo , resolveo-de em se anticipar 
na renuncia do cargo ; e para esle fim dispo2 de 
aeus moveis, ou por venda ou por dadiva , reaer- 
Tando-^se aquelles que podiao ter pre90 eem ftiier 
YulW) para os levar comsigo. 

XL Chegira neste tempo uma fragala hollan- 
deta , que Tinha d' Angola carregada de (azaftda, 
em ella varios religiosos, clerigos e moradores (fue 
o HoUandez arranc4ra de suas habitacoes. Por elles 
«e soube u perfidia de que us&ra o hereje para com 
elles y e como oommett^ra as mtis crueldades n'a^ 
quella terra. Depois que o Hollander se apossara 
da cidade de Loanda , Pedro Cezar , que era o go- 
vemador d'aquelle reino , se tinha retirado , por 
ordem d'El Rei, a4im sitio junto do mar, onde se 
nquartellou^com a, sua gente, e onde nao ofFendia 
o inimigo. Gorria fama entre os Hollandeies que 
den^ro da nossa fortificacao ee depositatao muitas 
nquezas ; e com o fim de as espoliar de tudo at- 
sentirao amiga^el commercio com os nossos, e se 
trafavao nao como inimigos mas como alliados. 
Foi urn dia o govemador boUandez com alguns ca» 
fittaes sens i nossa povoa^o ( mais para eipitr 



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<iue para yer], onde (brao reoebidoa com agrado, 
agavalhados com magnificcacia , e aervidos com 
magestoBo apparato e adorao. Occupados oa oUioe 
na cobica j perd^rao de vista a gratidao ; e $empre 
aleivoso o HoUandez determmoU) com infame 
traiQao, malar os posauidores^ para Ihes roubar oa 
moveia. Coavidou o govemador Pedro Gezar ca- 
pitaes e nobreza para um banquete na cidade de 
Loanda, com intencao de que a meza do convite 
aeryiaaedetbeatro a morte.Naoacceitaraooanoasos 
o (^Qferecimento, ou impedidoa, ou presagos* loQ- 
pacieQte o inimigo de se yer atalbado Da traicao 
qiie intentaya , nao desiatio da maldade , buacaodo 
camiDhoa por onde podease eonaeguir o iotento* 
Gonaiderou aos Portoguezes dormindo aobre o se- 
giiro da escuaa , e em a noite do dia apontado para 
o banquete^ deo adbre eUea, no quarto da alya^ 
com todo o poder; aem reaiateucia prendeo e rou- 
bou a todos. Despojados da liberdade e da fazea4a 
com tanto rigor e crueldade , que aem Ibe 4^]xa- 
rem OS uauaea yeatidoa^ os embarcarao para o 
Arredfe, oode chegKirao sem parecer de homeus, 
pelo barbaro trato da viagem , havendo nella dias 
em qi^ienao achou sua fomee a^mais queaagua 
salgada do mar. Assim yierao en.traQ4o ^ucceaaiya- 
mente as noticias de aimilbantes inyasoes, mrdidas 
com a meama fallaciai por^m nao kjgradas com a 
mesma fortuna. No Maranbao cairao no hqo que 
arm&rao; porque engolfados no roubo derao occa- 
siao a que os moradores yoltassem sobre elles , e 
cobrassem o perdido, i cusla da yida de muitos e 
do medo de todos, ^ue fugindo ao hosso ferro 



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196 GAsmoio umiTAifa 

busdirao no mar o ^guro. Em Sao Thom^ os cas- 
tigou o clima , de maneira que a muitos deo a 
terra sepulcro, e a poucos aviso para fiigirem a 
morte. Em todas as mais partes perd^o por for- 
ca tudo quanto adquirirao por engano. — Todas 
estas calamidades que pesavaosobre os opprimidos 
habitantes da America e da Africa faziao profunda 
impressao no grande cora9ao de Joao Fernandes 
Vieira, e noite e dia andava absorto em graves 
consideracoes sobre a sorte de tantos infelizes. 
Considerava que com a ausencia do conde ficava a 
miseria de todos sem arrimo, e a tyrannia sem freio ; 
ponderava desterrados os sacerdotes , os herejes 
com senborio, as ovelbas sem pastores, e (emia que 
OS lobos destruissem o rebanbo da igreja, tragan- 
do OS innocentes cordeiros » expostos 4 voraddade 
da herezia j e aos venenosos denies d'aquellas in- 
domitas feras ; e receava que a corrupcao das con- 
demnadas seitas inficionasse a pureza do paste 
espiritual, e despovoasse os curraes do verdadeiro 
pastor ; via que da tardanca do remedio se alimen- 
tava a ruina , e que nas doencas agudas se apro- 
veitao os medicos de medicinas violentas, e pro^ 
punba em seu peito nao esperar mais tempo para 
atalbar o perigo. 

XU. Entrou o anno de 1 643 , tempo em que o 
conde se achaya muito adiante nos aprestos de sua 
viagem; e quando cbegou a occasiao de se embar- 
car deo um banquete a todas as damas, e taver- 
neiras do lugar, no qual se brindou at^ faltar a 
todos o juizo. Partio-se no seguinte dia , que era 
o 1 ** de Maio , acompanbado de muitos Portu- 



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CA8TRI0T0 LUSITAlia 197 

guezes at^ a Paraiba , a onde se embarcou ddixando 
a lodes saadades» nao pelo que deviao, senao 
pelo que reoeavao. Tal era aquelle govemo, que 
Belle achaTao s6 a diflerenca , que Ihes represeu-> 
tava a ccmparacao d'um para muitos tyranuos. 

Xni. Cresceo j com a partida do coude de Nas- 
sau , a miseria dos habiiantes a tal ponto que che- 
garao a aborrecer a Tida. Gemia a affliccao com 
medrosas queixas, e todos os instantes faUavao ao 
coracao de Joao Femaudes Yieira , persuadindo- 
Ihe o remedio com as vozes da lastima e do tempo. 
Obedeceo a paixao, e deliberado em desembainhar 
a espada^ dispoz o goipe, adiantando o intento a 
opportuDidade. Com vigilancia e diligencia mau- 
dou engrossar o numero de seus gados por todos 
OS curraes; recolheo a si todo o genero de armas 
e muDifoes que a cautella Ihe p6debuscar ; todos 
OS mantimentos que pode haver, comprou; ere- 
mettia tudo a seus criados , fazendo dqtosito nas 
matas e nos eugenhos. Disfarcavao que podia; 
e o que nao era possivel deixava a cortezia da sus- 
peita, nao fazendo sua resolucao escrupulo nem 
daxMilpa, nem da calumnia; antes com disoreta 
manha eoganava a todos com a mesma verdade, 
aconselhando-lhesaimita^o. Abominava nas pra- 
ticas a sujeicao e o soffrimento y chorando a igno- 
minia com que via no Brazil sepultada a reputa- 
cao e a valeniia porlugueza, tanto pelo uso , como 
pela memoria. Dizia muitas vezes que a peior 
sorle da miseria era sujeitar o valor i cobar- 
dia ) porqoe nao tinha saida senao para a infamia : 
industria de que se valia para accender os animoS| 



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ids CASTBKyVO tvtsnAMO. 

e para oa deftpertar do somno, wm revelar o se-* 

gredo; com mab resulta de gloria nos impnkos 

qua agora dissimulou , que no8 ob&tacuk>8 que 

depois Tenceo. A todos fallava ; e aos mais atnigo^ 

com mais receio , porque primeiro os via com oa 

olhos da desconGanca , que com oa da alkeia con- 

Yasiencia. — Assim procedia cauteloso Joao Fer- 

nandes Vieira , at6 que recorrendo um dia a Deos 

n*uma fervorosaoracao, recebeo uma especie d'ina- 

pira^ao que o incheo dc novo espirito, e determi- 

nou a entrar na empreza mais livremente. Para 

se asaenhorear dos aoimos , come^ou por dar em 

sua casa muitos e repetidos convites; e sobre 

meza se praticava no procedimento do HoUandez 

seifapre tyranno , da oppressao em que viviao os 

Portuguezes, alargando-se com industfia Joao 

Fernandes Vieira sobre os desejos da liberdade; 

ohegava*se a discorrer sobre os meios necessarios; 

e apalpada a penuria, acabava em desmaios a 

prdtica : sagacidade com que o discrelo varao, com 

a falia do necessario (que simulava), accendia em 

todos o desejo do remedio ; e assim se alegrava de 

confaecer que tendo da sua parte as vontades, o(}e- 

recendo-lhes cabedal e armas^ acharia comsigo 

OS bracos de todos. Desembarcdra no Arrecife em 

SeUembro de 1644 o tenente gaieral Andr^ Vidal 

de Negreiros, em companhia do P. Me«tre Fp. 

Ignacioy religioso de Sao Beuto, que vi^rao a Ba- 

hia a visitar sens parentes que ahi tinhao« Ck)m 

este pretexto, que nao era suspeito ao HoUandez, 

obliverao licenca para irem visitar Joao Fernandes 

VJeira »o seu engenho ) forao reccbidog com tftnta 



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GAiTUOlO lORUMK 199 

atogfia e magttificeiicia cono ae forao espei^adoi* 
Abri<>-0e com eUes, nio boi se por oonfiatiqa » le 
pw obedieocia; ^ que da secreta commimica^iia 
reaultou tomarem oa dous hotpedes o pulse aa 
«atado da terra^ notando com diaiimula^o e das* 
tre$a o poder, a» forlifica^oes, a disdpliua e o 
nuiMTo da gento que o ioimigo tinba ; 08 quaei 
acharao as fortifica^oes dennanteladas , a discipliua 
esquecida^ o uumero dos soldados dumuuto, e a 
vigUfiucia adormecida; occastouado tudoda ausen- 
cia do conde, da sujetcao dos moradores , da so« 
berba dos domioaiites, e dos favores da fortuna. 
YoUaiio para a Paraiba o teneuta e o religioso , e 
por elles escreyeo Joao Feraandes Yieira ao gQ« 
veruador do Estado Antonio Telles da Silva, dan«> 
do«lhe eonta das oausas de sua resoluqao , e doa 
motivos que o movlao a conuneter uma eiiiprea% 
que na estima9ao de todos parecia too didicU ^ mas 
que eUe julgava possiyeli uma vez que eUe govei^-* 
nador Ihe nao Cultasse com o socoorro; proleatava 
dianie de Deos e4os bomens invocar o auxilio exp 
tranhoy se tbe faltasse o proprio ; e dava fira i oarta j 
pedindo com brevidade a resposta, para que a Uiw 
dan^ nao fizesse inutil a diligencia. 

XIV. Meste tempo se aquartellava P, Antouia 
Philippe Gamarao com os seus Indies na eampa- 
nha de Sergipe d'El Rei ( como deixamo* dito), « 
quern Joao Fernandes Yieira f por carta sua, pe^ 
dia o socoorresse^ pois o custumava faxer Quelle* 
moradores em todas suas afflicfoes; e nas que oa 
amea9avao o devia executarcom mais zelo, porque 
de seu auxilio pendia o remedio, eu a perdi^ao 



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90a GABTRIOTO ttnTANO. 

de todm, A mesma negocia^o tez com o gotw-* 
nador doa Minas iknrique Dias; que naquelle 
tempo assisiia no sertao com sen terco a castigar 
uma rd)eliao do gentio. Nao se e9queeeo de dar 
conta de sua valorosa determinacao , e das razoes 
d'ella a seu Rei e senhor D. Joao IV, manifes- 
tando-lhe por extenso a necessidade que o obri- 
gava tao Tiva e tao apertada , que ainda a mesma 
calumnia Ihe poderia escurecer a justi^a, nem re- 
provar a deliberacao : e que nao podia haver lei 
que rompendo os foros da natureza y obrigasse a 
elle governador do Estado as observancias da obe- 
di^icia. — Recebeo o governador do Estado a 
carta de Joao Femandes Vieira , e com a leitura 
d'ella ficou indeciso entre a obediencia e a impor- 
tancia; entre a justica e a difficuldade; supposto 
que se Ihe representavao maiores empresas, que 
muitas vezes venc^a a desespera^ao, e que a vio* 
lenda da oppressao arma contra si mesma o irrepa- 
ravel impeto da liberdade. Se consultava o negocio 
com o seu valor , saia decretado o soccorro ; se com 
as ordens que tinha de seu Rei , saia definida a es- 
cusa. Nesta incerteza the propoz o discnrso um 
meio honesto para a observancia^ e util para a 
contingencia ; o uso doqual o absolvia da obedien- 
cia e da impiedade. Mandou escolher duas iropas 
de soldados , de trinta homens cada uma , cujo 
valor e disciplina os tiraria a salvo de quakpier 
fbrtuna. A cada partida nomeouseu capitao : estes 
forao Paulo Velozo, e Antonio Gomes Taborda, e 
por cabo de ambos Antonio Diits Cardozo^ a quern 
instruio no que devia obrar, regulqndo-ihe as or« 



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d«M pelo^€8(ado dag cousts; e com prMeko qoe se 
nao podesse disuadir a empreia » seguiMe a obftii* 
Bt^o; em tudo sabordinado ao dictame de Joaa 
.Fefnandes Yieira , a quern mandou dizer de pala* 
vra^ que na balanca do conseUio peaasse sua de- 
termina^ao, para que na execu^ao se nao faltasse 
ao serri^o de I>eos e d'El Rei , certo de que s6 
neste caso o acharia prompto para faTorecer os mo- 
radores. — Neste mesmo tempo respondeo D. An« 
tonio Philippe Gamarao a Joao Feraandes Yieira, 
dizendo-lhe que s^n dilacao se puoha a camiuho 
eom o sell (erco , primeiro a obedecer ao gosto que 
aempre tivera de o servir; e logo ao interesse que 
alcan^ava em o ajudar em tao gloriosa empreza ; 
e desde alii Ihe r^idia as gracas da parte que aella 
Ihe queria dar. Quasi nos mesmos termos respon- 
deo o governador dos Minas Henrique Dias, e logo 
se poz em marcha. 

XY. No mez de Dezembro d'este anno chegou 
Antonio Dias Cardozo ao reeoncavo de Pemain-« 
bucoi com ditosa riagem , porque nem foi sentido, 
nem Ihe faltou soldado. Fez logo aTiso a Joao Fer- 
nandes Yieira, o qual o festejou com alegre alvo- 
roco eprudente eautella; com estadeterminoudia 
e sitto para se avisiarem , furtados a quaesquer 
outros oihos. Conferirao com breridade o peso do 
negocio, a importancia do segredo, a ulilidade da 
prevencao^ em obzequio da qual mandou Joao 
Femandes Yieira aposentar, e prover de todo o 
necessario a Antonio Dias Cardozo , com os capi-- 
lies e soldados de sua obedieneia, num lugar se- 
guro e bem aprovisi(Hiado» ContinuArao as entre- 



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209L GAflnmO WKUMK 

vistaflf e cooriiirio ambos em que se maadMient 
quatro 9oldado8 igualmente animosos e ocmGdenlea 
ao govemador do Estado^ para que da sua parte 
o ioformasaem de tudo, pedindo-Ihe ao oiesmo 
tempo que com toda a brevidade os provesae d'ar* 
maa e muni^oes, para estaremprevenidoapara todo 
o acontecixnento. Acreditarao o recado com carta 
simulada e auccinta. 

XYI. Estimulado Joao Feruaades Vieira do de- 
sejo de ver lifres aqu^Ues poros do imperio hol- 
laadeZ) e conhecendo que era neeessario commu- 
nicar o segredo a alguns confidentes para dar 
come9o & empreza , mandou chamar Antonio Dias 
Cardozo para urn iugar occulio, perto de seu en* 
genbo de Sao Joao Baptista , e conferio com ello 
spbre o modo de o fazer , e se separArao preveni- 
do8 para qualquer incidente que aobrcviesae* — 
Como Joao Femandes Vieira castumava, como 
havemos dito, convidar muitas vezes ajuntar 
graade numero de seus amigoa j aproTeitou este 
expedieate para Ihes communicar a sua reaolucao. 
Sentarao*se & meta oa convidados j bem alheios do 
prato que os esperava, e por ultima iguaria se 
abrio oom todos descobrindo-lhes seu intento » e 
o que de sua nobreza e de seus espiritos queria» 
com similhantes razoes : « vinculo do sangue e 
» a oonQanQa da amizade noa ajuntou aqui todoa 
» OS queestamos presentes; duplicadas razoes para 
» me nao enganar em meu conceito : justificado 
n para nao desconfiar do segredo ( quando nap bas« 
» tira ser a importancia de todos)) nao o faz aUieio 
» (juem ao seu wasmo sangue o tia; new o H^ 



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» iercairo quern o communica ao aoftifo j e teaho 

» por certo me nao sai do peito tendo nelk parte 

» pfMoaa taato de raeu cora^o ; nelle arde o fogo 

» do bem commum, desde o primeiro dia qua o 

ii inimigo ae fez eeohor de nossaa fazendas j e de 

» ttossas liberdade^; cresceo o inceiidio com as 

» oppresaoesy cevando-ae o fogo na continua^o 

» das tyraunias, e no exces$o das iojurias feitaa, nao 

» 96 aos bomeos , aenao tambem a Deoi y de ma- 

D neira que nao pod^ra reprimir tauto tempo as 

» labaredas se uao miti^ra a esperan^a de se tro« 

» car a fortUDa; nap perdendo de vista as promes^ 

» sas que me faziao tantoa soccorros e armadas, 

y> quantas malogrou nossa desgrafa, mostrando^ 

» nos a experiencia, o alimentar-se a ruina das 

» esperan^as do remedio ; consideraqao que me fa<« 

» zia en tender I obrar mais em nosso damno a 

» propria culpa, que a alheifi forca^ pois via que 

» OS mesmos elemeotoa se punbao da parte dos 

» contrarios. Agora t}ue ja o custume da sujei^ao 

» nos tem esquecidos do que somos , que nao es« 

>i tranhamos a miseria de captivos , e que o Fla- 

* men^o nos domina com desprezo ( on porque 

» nos Julga mortos para o sentimento y ou porque 

>» nos avalia inhabeis para a vinganca ) ; agora qfie 

» funda seguro de seu imperio no descuido de 

» nossa liberdade^ nao desaUento a conservacao de 

» suas forQasy que presume sobejas as armas, inu« 

>) teisos presidioa, superfluos os soldados; infe- 

» rindo de nojsso abatimento a estabiUdade de aeu 

» doounio J agora digo que j4 nao posso dissimu- 

D Iftr mais tempo cow ^ cbama <^e mc {ibr^W 9 



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20& CAsmoTo umiTAifa 

» rtcao ha tentos annos ( digo que nao hateii 
» animo portugez a onde por tantas razoes nao 
n considere retratado o mesmo desassocego). Bus- 
» quemos nas armas as domonstraeoes dos animos, 
» se i que cadaum deseja deitar de seu pescoco <ao 
» infame jago ; cobremo-nos da afironta com a re- 
» solucao ; saiba o mundo que o soffrimento em 
» n68 foi ardil, e nao vileza. A paciencia volun- 
» taria 6 lustrosa virtude; fbrcada 6 escraTidao 
» senril. Nunca nos podera condemnar abatidos 
» quern souber que csperamos tempo opportund 
J) para bos desforcar vingados.Com lastimoso grito 
n chama por nosso bra^o a dor de tantos insult os, 
» affinontas e injusti9as , como temos padecido ; 
n nao damos passo que nao ponhamos os pfe sobre 
» o sangue das feridas , sobre as cinzas dos incen- 
» dios, sobre as sepuUuras dos mortos, sobre as 
» pedras das minas , e sobre as brasas das inj arias, 
» com queainsolenletyrannia d'estes verdugosnos 
» tem quasi consummidos. Nao havera parte em 
)) que nossos olhos nao vejao vivos os siguaes dos 
» aggravos; e nao ha vera hora , em que deixem de 
» nos refrescar a memoria das offensas. Nao ha 
n entre n6s algum que se possa gabar que a for- 
» tuna o isentou da sorte de todos. Qual houve tao 
» singular na dila, que nao ou^a em sua casa os 
» gemidos da magoa , ou ferido na honra , ou las- 
» timado na fazenda ? E qual podera haver , que 
» naodeseje destruiros ag^ressores de seu damno? 
> Quem a tanta adverteneia se nao der por enlen- 
» dido passara de racional a bruto , e de sensitive 
» a insensivel; reduzido por sua mesma pusilani* 



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GA8T1I0T0 LUSlXAIia 305 

» midade ao ultimo esCado da miseria? Que fado 
» nos acobarda ? que sombras nos atemorlzao? que 
» discursos nos alheiao 7 Uma vil canalba alimen- 
» lada de sua mesma perfidia, cuja espada uao 
» corta senao com os Cos da traicao ? Pois que re- 
» ceamos perder a fazenda ? £ qual de nos deixara 
i» de a perder , se com o sen braco a nao libertar ? 
» Nao fica mais ganhada, perdida pela honra^ que 
9 dada pela infamia ? Que nos ata as maos ? 
« amor da familia ? Nao estara mais segur a avida 
» dos parentes em uma morte fiel, que em uma 
» companbia herelica. Abramos os olhos, e da- 
D ramente veremos quanto melbor nos esCa o mor- 
9) rer pela liberdade da paM^ia, que o viver na pa- 
i> tria sem liberdade. A restauracao do reino nos 
» provoca com oexemplo ; a doMaranhao nos avisa 
» com o sucoesso, a onde tao poucos olH^arao tanto 
n que sopeArao a tyrannia de muitos , e que sem 
» prevengoes arrisco, quero que teuhao vossas 
» mercte entendido o que aobre a maleria t&aho 
» cd)rado. Dei conta da minha determina^o i 
» Bahia» a Henrique Dias, e a D. Antonio Pbi- 
H lippe CamaraOi e entendo que a todos acharei- 
» mos favoraveis; e ji eutre nos esta o eapitao 
» Antonio Dias C^rdozo com sessenta soldados os 
9 mats d elles ofiGk^iaes reformados, tao destros e 
» tao Talorosos , que podem ser cabos de gnindes 
» eaercitos, e alegrem-se vosas merc^, que nao 
» pode haver cousaconcernaite & ezpedl^ao da em* 
^ preza que nao tenba prevenido meu cuidado, 
» porque ha muitos annos que estudo na direc^o 
n d'este negocioy sem outro motiTO mak que o do 



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i06 €A8TRIdT0 tOSITANO. 

» bem commum; o que nao podera duvidar quern 
M sabe o que a dita me favorece , e quanto o ini- 
>f migo me respeita ; e que pelas leis da uatureza 
» e da fortuna tenho mais resoes para estimar a 
H vida que todos quantos a estimao jnais. » 

XVII. OuTirao todos eom muita attencao as ra- 
Eoes de Jao Fernandes Vieira, mas em cada urn 
d'elles produzicao differenles efifeitos, segundo que 
cada um estava mais ou menos disposto para tao 
arriscada «mprezii; e concluirao em que queriao 
ver e fallar com o capitao Antonio Dias Cardoso ; 
em quanto porim ao segredo todos o promett^rao 
e jur4rao; e a elles Joeo Fernandes Vieira o com- 
primento do desejo* assentando com lodoa que 
ao outro dia se achassem em o sen curral de Igi- 
pto k% nove para as dez horas da manha; mas com 
advertencia que fossem separados por nao darem 
mottvo a discursos cttriosos^ nem occasiao a sus- 
peitas malcTolas de quern os Tiase ir de conserva 
para aqudla parte. Dedpedfrao-se cada qual para 
sua casa • e Joao Fernamdes Vieira dedpedio um pro- 
prio a Antonio Dias Gardozo^ .com aviso de que 
em oerto lugar se vissem, porque tinbao quecon- 
ferir. Deo^lhe a vista meuda conta do que se hflvk 
passado^ e do que tinha entendido ; informou-o do 
iugar e da bora em que o bamo de husdir ao ou- 
tro dia ; e instroido de como se havia de portar, se 
aparlarao, cada qaal para oseu domietlio. Ao ou- 
tro dia nao falt&riio os convtdados com animoa tao 
diflerentes como erao as pessoas. Cbegouo capitao 
Antonio Dias Cardozo , ao qual receMrao cortezes 
^artliiiirodMr Logo Ibe pedirio que eom toda a Ter* 



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CASTWnO UJtRAHO. 307 

dade e com toda a confiail^ deolaraise a causa, 
que o ha via traztdo a Bahia, a taa distante lugar, 
e com segredo tao estranho. Anionio Dias Cardozo, 
qua sobre entendido estava indmtriado , Ihes re»- 
pondeo seguro e discrete , que o motivo que o alii 
truxera era o servico de Decs e dos moradores 
d'aquellacapitania; que a causa que o detinhaera 
obediencia que devia as oixiens de seu superior 
Antonio TeUes da Silva , govemador do Estado , e 
o gosto de servir a Joao Fernandes Vieirai a quein 
Ibe ordenara de aBsistir na empresa que intentava ; 
exhortou-oseuergicamenCe a que se unissem iiquelle 
grande varao part expulsarem o ioimigo que os 
opprimiai e ooncluio dizendo : « DesembiiolM^ 
» mos a espada, advertindo que defender as hon- 
» ras e as yidas deairo de nossa mesma t^^a 6 
n pdejar oom armas dobradas; que 6 proprio dp 
o valor medir as for9as pelas causas. h — Suspen- 
80B e arrebatados de dirersos peosamentos ouvirao 
todos ao capitao Antonio Dias Cardozo ; e alguns 
por mais temerosos ou por menos fieii come^rao 
de ponderer as difficuklades que se apresentavao 
para execufao de iio grande eaq>reca, insistindo 
pftncipaloiente sobre os luccessos passa^os, e os 
poucoe Qieios que tinhao para sustenlar a luta^ qu^ 
Uiesparecia temeraria e por venturalouca* Cortou- 
Ibes Antonio Dias Cardozo o discurso, dizendo-lhes 
q[ue a fortuna tern suas idades^ e que tambeoi che- 
ga a ser vdha : ponderou-^lhes o estado de abondono 
era que se adMvao as fortifiea^oes dos HoUande* 
aes; oook) sm HuUcia bavia perdido a dtsciplina, 
a WBHQ ocoopados de meroaocia nao curavao da 



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SOS GASmOlO LUSTTAKa 

defimsa ; mostrou-lhes os meios que tinhao para 
executar a empreza, dizendo-ihes : « que agora 
» importa para conseguirmos este desejado fim i 
» dar8e4he logo principio j escolh^ido e nomeando 
]> d'eiitre luis pessoa que nos goverae, e caboe que 
» nos ajudem a prevenir a gente, e tudo o mais 
» necessario para a faccao. Para vossas mercte e 
» para os moradores i toda a coDveniencia do ne- 
» godo; e para todos nos importante a observancia 
» do segredo : com elie asseguramos a empreza; 
n sem elie nos ^tregaremos a ruina; eu, e mens 
}} soldados com menosreceio, vossas merc^ com 
» maior perigo. » Applaudirao todos a disposi^o; 
com alvoroco approvarao o conselho; e como se 
todos no interior estiverao conformes como no 
exterior y em uma voz unidos adamarao a Joao 
Femanded Vieira por govertiador e gaieral da em- 
preza , jurando-lhe obediencia, (6 e segredo; mui- 
tos com animo sincero^ nao poucos com traidor 
cora^ao. 

XYIII. Ainda nao erao pa3Sftdos tres dias depois 
d'esta entrevista, quando leaes e perjuros em urn 
corpo e com o mesmo semblanteconcorr^rao a casa 
deJoaoFemandesVieira,dizendo-lhecorao o Hol- 
landez estava informado de tudo quanto no mato 
se tratira, e das pessoas que se ach&rao presentes. 
AccusaTao a perfidia do traidor , dando-se o mais 
culpado por mais offendido ; sendo o excesso da 
queixa a que melhor descubria a cara ao antor da 
traicao. Nao se alterou com successo tao novo o 
discrelo e animoso varao, tanto porque o tinha 
previsto, como porque nenhum caso o sobresal- 



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CASTRIOTO LUSITANO. 209 

tava. Dissimulou Joao Fernandes Vieira , f^u a 
todos com animo firme e resoluto, dissuadiodo-os 
do m^o qneaflectavao; e aos que se ofFereciao para 
n^ociar com o conselho supremo urn passapbrte, 
para que Antonio Dias Gardozo saisse da campa- 
nha com toda sua gente, respondeo : « capitao 
Antonio Dias Gardozo 6 tao destemido, e lao bem 
disciplinado, que primeiro perdera mil vidas que 
chegue a faltar no menor ponlo de sua honra ; 
nao mando, aconselbo; desistao vossas merces 
do intento, ou fa?a cada um o que melhor Ihe 
estiver. » Despedio-os isento, e recolheo-se con- 
fuso, mas nao atalhado. — No dia seguinte Antonio 
Fernandes Vieira fez aviso ao capitao Gardozo de 
tudo que se pass^ra na conferencia; e do que pre- 
sumia d'alguns, para que a noticia o acauteUasse. 
Quasi ao mesmo tempo recei3eo o capitao Gardozo 
um correio dos traidores , pelo qual , com dissi- 
mulada perfidia, o certtficavao que o Hollandez^ 
tendo noticia de sua vinda, despedia do Arrecife 
numerosas partidas de soldados a buscal-p^ com 
ordem de baterem todo o mato do destricto, e de 
se nao recolherem sem a entrega de sua pessoa; e 
Ihes parecia impossivel o escapar de tantas maos; 
que elles por o livrarem de perigo tao certo, se of- 
fereciao a pedir-lhe passaporte, e segura passagem 
para Hollands , com todo o necessarid para a via- 
gem; e Ihe rogavao o quizesse acceitar, pelo que 
a todos convinha. — Antonio Dias Gardozo rejei- 
tou heroicamentesimilhantespropostas^ dizendo 
ao mensageiro : « Dizei aos traidores que a sua 
sdeivosia os publica cobardes ; que nao temo 



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310 GASTilOtO LUHTAlia 

damno que nasce do medo ; e que roaior aggravo 
me faiem pela parte do offerecimento que pek da 
trai^o; porque com esla me julgao temido, i 
com aquelle me suppoem horiradoj que similhan*- 
tea paaaaportea podiao swrTir k vilexa de seas ani- 
moi, e nao a mim, que tenho eepada para me 
defender de traidores e d'inimigos; que a dos 
Hollandezes custuma cortar melhor com o amea^o 
quecomoferro; e que com igual facilidade me 
hei de livrar da fotca de una e da infamria de ou- 
tros, dando-uoa o tempo occaaiao para que as 
obras definao o ser das pessoas. » Instou o m«i-» 
sigriro com desculpas e razoes fundadas no medo; 
mas o fiel eapitao a nada cedeo : quiz ainda re* 
plicar com amea^as ; mas o eapitao insofrido^ e 
comaespada na mao, avan^ou contra elle colerico j 
vendo o que o mensageiro , aproTeitou-4^ dos pto, 
e nao parou sgmo k yista dos aut(M^ea do recado ; 
aos quaes referio o que no oapitM achara , e o 
perigo etn que ae vira. Querlaoelles rcfieCir a dili« 
geacta; porim o enriado o nao quiz faz^ a todo o 
pre90, escusando-ie com acertezadeqoe da espada 
havia de ser a resposta. 

XIX. Conferfarao osdous amigos entre si o estado 
das cousas^ e o renedio d'ettas; e assenlarao que 
o mal nao bavia de obedecer a medicamentos Umi^ 
tivos J que s6 os yioleutos poderiao ter efficaok, 
para nao lavrar mais o "v^eneno. Convierao em que 
seria aoerto escrever Antonio Dias Gardozo a Joao 
Femandes Vieira tima carta , que podesse mostrar 
aos HoUandeEes , com as seguintes razoes. « Os 
moradores d*esta capitania me oonrtrang^rao com 



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CA8TBI0T0 LCSITANO. 211 

imporlunacoes a que tiesse ajudil-08 na rebeHiao, 
em qut eataTao conjurados donira os HoUandezes. 
Fiei-ne em anas palaTras e fimias, e rim com tanto 
diaeommodo , como Deos e os meus soldadoa sa* 
bem ; acbei que alguna d'elles, ou por cobardes, ou 
por tnddores aos seus, hariao revelado ao HdlaD- 
dez a se(;redo, de que se tinhao accusado, e 
trrependido; sueCesao pretiato de minha advertent 
da,, eonsiderando a cautelk com que se g«iai%lft« 
▼«o de voasa niepc^^ pois sendo quraci 6 nem Ibo 
eommunielrao o designio, uem me consciHirao.oa 
tearmos da cortezia, e execucao do gosto com (pne 
devo buacar a vosaa.mercd, e ser^il^-o ; qne agora 
Bao fit99 por Ibea mo dar occasiao a loTantarem 
algum teslemunho a sua fidelidade, & qual de* 
▼em 06 Eatadoa tania fineoa. Fa9o esta carta para 
reliEcar i Tosaa mereS sken amigo^ e .dap4ha 
couta em como me voko para a Bahta com toda 
a preaaa, perqtie nao me eBtreguem ao mimig^ 
oe mesmea que o deterflunarao entregar i minha 
eapada; e ae eata me nao poder Inrar de Iraidoreay 
direi a gritoa os que sao, e appelarei de mmha de&* 
gra^ para o faror de Tossa mercd ^ qi» em todd 
e temp^ tsti Hmrecendo a quem Ihe dere, com a 
kaklade do trato, o maior reapeitoi e por toda a 
parte pvUicarei o quanto tern de disereto quern 
aabe b» gralo. Seos guarde a yossa raerc6. v Joao 
Feratandea Yieira depois de reeeber eala carta, e 
depoia de dar todas as providencias para cpie o 
eapilao Cardoso nao fosse surprebendido, teandou 
ebamar os eompreh^ididos na traicao, deo*lkes a 
ler a eana^ ooaid se cativera alheio do aucccdldo^ 



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212 CASTRIOTO LUSITANO. 

e como espantado da novidade^ perguntou que 
causa tivera o capitao Cardozo para tao estranho e 
repentino acordo, como era o partir^e para a Ba- 
hiasem se despedir d*elie. Emmudec^rao confusos, 
e dc todo OS deixou frios verem-se arguidos de 
culpados^ dizendo-lhes Joao Fernandes Vieira que 
OS lacos que ordtao a si mesmos 03 armavao, pois 
sabiao que mais credito havia de dar o Hollandez a 
qaalquer palavraque elle Ihe dissesse , que a quan- 
tas elles jurassem , porque tioha cabedal e animo 
para gaslar mais em uma hora , que todos dies em 
toda sua vida, contente de que sua ingratidao d^ssc 
por fruto a todos o desengano de sua rileza , pois 
tinhao tao abatido coracao ^ que nem obenefieio os 
reduzia, nem a honra os obrigava. £ piara os des- 
pedir ^ sobre aflrontados temerosos^ Ihes leo elle 
mesmo a carta, affirmando que a guardava, para 
que d'eila constasse aos Hollandezes quern os ag- 
gravava , e quern os swvia. Frustrados ficarao os 
mteutos dos traidores com esta energica declara- 
9ao de Joao Fernandes Vieira j que nao ousArao 
elles proseguir seus maos desejos. Nao fallarao tam- 
bem alguns do govemo , ou seguros , ou apaixo«- 
nadoSy que hesta oceasiao o avisarao^ tinha nelle 
muiios amigos^ enos moradores muitos contrarios 
que o calumniavao^ mas sem fruto, porque nunca 
prevaleceriao contra a opiniao de sua leaUlade. Nao 
se namorou Joko Fernandes Vieira tanto do £avor 
que se esquecesse da cautella , porque experimen- 
tado e discreto fiava menos da sua fbrtunaque de 
sua vigilancia; « assim desde a hora em que en* 
tendeo se poderia presumir sua determinacao , vi- 



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CASTftlOTO LUS1TA190. 2« 

veo iao oirotinspecto , que todas as nohes se reti^ 
rava aomato; assistindo os dias em sua casa, com 
(ieis seatinellas ao largo, com cavallo seUado, e 
S6US (^iadoft prevenidos, para que em qualquer 
asaalto servissem a resistencia e 4 fuga. Se do Ar- 
recife o budcavao^ com pretexto de amizade^ on 
denegocio, ou fallava, ou se fingia auseute, s^- 
gondo as pessoas que erao. Se os do govemo o 
mandavao chamar , se escusara , com promessa de 
outro dia, ou coma occupa^ao de muitos^ e nunca 
as esciisas faltarao as cortezias; alojando i^qudfe 
peito tamanhas causas d'afflicdkoy que poddra a 
menor d'ellas sufibcar qualquer outro cora^ae. 

XX. Admirarel foi neste varao a prudeucia; 
nunca alterada pela variedade dos suceessos : nio 
menor o valor e a dissimulaeao com que tudo pi«- 
▼k; mas sens receios comecavao a crecer com a 
tardanca do Camarao e Henrique Kas. Neste co^ 
menos chegarao os quatro soldados de volla da 
Bahia, que no Janeiro proximo partirao de Feiv- 
nambuco , mostrando na pontualidade da negocia- 
eao a causa da detenea ; porque o goyernador do 
Estado OS onvio , e despachou como se podia dese« 
jar; retificando sen animo na resposta das cartaa, 
que Joao Femandes Vieira e Antonio Dias Cai^- 
dozo Ihe tinhao escripto; e dando«>lhe escusaa 
detenea com a assistencia que na Bahia faziao ao 
propria tempo os embaixadores flollandezes; dos 
quaes daremos razao na seguinte escriptura* 

XXI. Comeqarao os Hollandezes a desconfiar 
que alguma eousa se tramava contra elles ; em 
cuja desconfian^a se confirmai^o com as decUra- 



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4jM$ qoe fiiaiio o$ traidores da Miuitflocf a de Anio- 
JHO E^a Cardoso e doB iateatoa de Joao Feraandes 
Viuni; eoofeHrao eoire ai o eamitibo por omde 
ae poderia yir oo eoBbectmeota da c^rteseti t aa*- 
Miitafao em mandar ^mbaiimdoFea a Babiat que 
jaam daiti«sa e»peculaaaem o que ae di^; e regi- 
iiieDto^ e para que ae bouv^sem de maueira que a 
aodOftbra da queixa sobreaaiase a lux da ?erdade» 
Com esle fim nomearoM) a Guilberme Waodrevol, 
um do8 coDselheiroa politkos , e a Tbeodozio 'E^ 
trater, comqiendor da fortakza de Nauretb^ 
com carta do supremo para o governador Antonio 
Tellea da Silva, cuja sustancia se rewmia em ae^ 
xitsar a rebetdia dos moradores , fom^oftada ( como 
je affirmava ) com o faTor de ana senboria ; o qm 
Huo podiao crer d'um vaeaallo d'Ei Rei de Fortu^ 
gaL -1-0 governador , que tiuha freacas noticiaa 
do que ae passavai respoudeo que »e oa moradoi^ 
res se inquieta vao^ era porque o trato da tyranuia 
oa aconselhava ^ e que dado case que oa favors 
ceaae , fizera ) que devia ao fienri^ de Deos e de 
aeu Rei I D que, violentado daobediencia, uao faaia. 
O que so Ibei advertia era que ^ ae nao mudavao 
d'estilo, ataihando m exceaaoa, com que apura^ 
ipao a pacieacia doa naturaeg, os havia de favoreoer, 
al^ onde chegaase a poasibilidade de seu bra^o, 
perase libertareat de tao insoffrivel domiuio; ainda 
que soubeaie que o auKilio Ibe poderia eustar a 
cabe^a. Ouvida esla resposta ae despedirao do go«- 
▼ernador; e depots d'alguns dies, que tomiraopara 
o eiiame da verdade ^ sa voltarao para o Atrecife. 
XXll, tempo cjue oa embaixadorea ae detire- 



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GAfiTOOtso imirAva 915 

rao iia Babk d^ieva tambem o governador o$ qn*- 
tro WYiados de Joao Forodndeft Vieira, como fica 
ditoy a onde TheodoEio Estrater eapreitou occaiiao 
opportuoa para ^eoreU audieneidi que o govafw 
nador Ihe deo , na qual Ihe disse que era catboUeo 
romano, e eomo tal aborrecia os Hollandezea, que 
oa servia por ueeessidade, que o seu desejo fora aem- 
pre de servtr um priucipe, que para nenbum tiuha 
tauta mcliiia9ao como para o senhor Rei de Portu- 
gal Dom Joao lY ; e concluio por dizer que ae elle 
gaveruador determinava a recupcara^o dePeraaov- 
bucoy que Ib'o declaraaae, porque sendo este aeu 
disiguio, elle abriria a melbor porta para a res^ 
.taura9ao. Eotre perauadido e deicoufiado ouvio o 
govemador a Tbeodosio Eatrater, eutendendo que 
sua proposta igualmeute podia aer ardil da mali^ 
cia^ e efimto da deliberacao; e por uao perigar nos 
estremoa, redpoodeo que eUe da sua parte estimava 
a boiura que fazia a na^ao , e que a sua Magestade 
informaria o quauto devia a seu desejo ; mas que 
de preaeute uem teuQao, uem ordem alguma tiuha 
para fazer guerra ao$ vassalloa de Hcdlandai antea 
preceito de conservar a paz; por^m que se por 
algum aceidente $e alterasae o estado das cousat, 
Ihe faria aviso, eseaproveitariadetaobomamme. 
De$pedk)-<fie contente, e navegarao satisfeilos ; um 
porcpie se tiuha declarado ; outco pelo que tinha 
entendido; ambos cbegaraa ao Arrecife, e uelle 
desimagioirao aoa goveniadorea e poYo doe receioa 
que tinbao da guerra. 

XXIII. Neate tempo despachou o govemador oa 
enviados de Joao Fernaudes Vieirai dos quaes ea- 



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Vi6 CASTRIOTO LCSlTAieO. 

<a^?eino8 ja a chegada a Pernamkico, a que foi 
em 10 de Maio de 1645. Pelos ditos enviadosman- 
dau o govemador dizer de palavra a Joao Fernaiv- 
dee Vieira e Antonio Dias Cardozo, que eslivessCTii 
certos de que Ihes havia de assistir , e a todos os 
moradores^ com animo e forcas, em case que os 
Hollandeies persistissera em oa affligir e tyrannizar ; 
e de secreto escreveo a um e outro. O que as cartas 
continhao me nao veio a noticia ; e nos referimos, 
e nao advinhamos. Com os enviados se partirao al- 
gumas tropas d'aventureiros, que voluntariamente 
OS quizerao seguir , no que o govemador se liouve 
neutral j so mandou vir diante de sios cabos d'elles, 
e Ihes encarregou o bom trato e disciplina dos sol- 
dados, que levavao furtivos, como genie do Es* 
lado ; e dissessem da sua parte a Joao Femandes 
Vieira que quando nao pudesse soffrer o daro 
jugo dos Flamengos , levasse a diante o intento da 
liberdade, e o disposesse com o valor c prudencia, 
que d'elle esperava; e que brevemcnte acharia 
comsigo o soGCorro , que Ihe tinha pedido. Com 
estes recados Ihe chegon tambem aviso cerlo em 
como Henrique Dias e o Camarao se tinhao partido 
em soccorro dos moradores, havia jA muitos dias, 
e que o nao terem chegado era culpa do tempo , e 
da marcha , que por causa do dominio hoUandez 
forao obrigados a fazer pelo interior do mato, a 
fim de se esconderem as noticias doinimigo. Ale- 
gres deixdrao a todos os confidentes as boas novas, 
e a vinda dos soldados aventureiros , que chegArao 
neste Maio , e forao alojados na mata de Joao Fer- 
nandes A leira, cam segredo e ordem que eslives- 



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CASTRIOTO LUSlTAm. 117 

sem it ^bediAeift <te Antonio Dias Cardozo, a qu^n 
apertadamente encarregou a Tigilancia e a cautela ; 
em quanto elle Joao Femandes Vieira tomaTa por 
sua conta os avisos de todos os nio?imentos do 
HoUandez. 

XXIV. Informado Joao Femandes Vieira das 
disposicoes que tomava o Hollandez para mandar 
degoHaros mancebos de quinze atrinta e cinco an- 
nos, se determinon em nao esperar mais tempo 
para se p6r em campo. Conferio a resolucao e os 
nieios com aquelles amigos que podiao dar volo na 
materia; e assentarao que snppostas as ordens do 
governador, se nomeassem capitaes por todas as 
freguezias sujeitas ao dominiohollandez, para que 
desde logo livessem a gente allistada e prompfa. 
Fez-se memoria dos homens nobres , fieis e deste- 
midos de cada uma das parroebias , e d*elles esco- 
Iheo Joao Fernandes para capitaes os que parecdrao 
melbor, temettendo-lbes patentes e ordens do 
que haviao de obrar. — Em Ipojuca , criou capi- 
taes a Amador de Araujo^ e a Thom^ Teixeira ; no 
cabo de Santo Agostinhoa Antonio de Castro, Joao 
Paes Cabra)) e Joao Gomes de Mello ; na Moribeca, 
a Joao Scares* d' Albuquerque, e a sen irmao Joao 
Leitao d* Albuquerque; em Iguaracu, a Joao Lou* 
renco Francez, e a Manoel Pereira Corte Real ; em 
Sirinhaem, a Alvaro Fragoso d'Albuquerque; na 
Goyana ,* a Goncalo Cabral , e a Estevao Feman- 
des ; na Paraiba , a Francisco Gomes Muniz , e a 
Lopo Curado Garro ,• em Sao Laurence , a Manoel 
Scares Robles, a Cosme do Rego, a Joao Nunes 
da Mata , e ao l\ Simao de Figueiredo^ qtie de** 



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3$8 C^mOftQ UnUTAVO. 

ppi« de mititar omitoft annos ^ ondeaou ; na Yai^ 
^a, a Fraaoisco.Bereqguer de Andrada^ a Antonio 
Bez^rra p a Joao Nune3 Victoria ^ a Antonio Bor*- 
f^y e a Antonio da Silva por capitao de cavaUoe; 
e supposto que na dita Varzea nomeou outros ca- 
pitae« (todos neceasarios pra o numero da gente) 
fazemos inemoria doa fieis qua a vilaia do.traidor 
jgualmente priva do nome e da honra« Na fregua- 
zia de Santo Amaro nomeou a Tbom^ da Costa; 
na do Porto do Calvo, a Chriatovao Linos; na do 
Rocio de Sao Francisco, a Valentim da Rocha. A 
. todos^ e a cada um em particular mandou instruct 
eoes do quehaviao de fozer j assimem alistar gente, 
como no tempo e no modo, que elles observirao 
com zelo e acordo, Dentro do Arrecife adquirio e 
conservou tres homena^ a poder de dadivas^ que 
Ihe davao aviso de tudo o que determinava o Hol- 
landei; podendo com ellas mais o interease que o 
. perigo. 

XXV. Com estas preven^oes ae £8kcilitira o ne- 
gocio ( f undada toda a esperan^^a no secreto intento 
de Joao Femandes Vieira), se o rigor daa invenuH 
das com adila^ao do tempo nao destruira os meios 
que tinha escolhido a industria , e approvado a 
confianca ; erao aquelles dependentes d*uma occa- 
aiao apparente e konesta, que obrigasse a convi- 
dar OS principaes Hollandezes para um banqueie, 
em sua casa, no qual a abundancia das iguarias e 
dos brindesy e a pi even^ao de occultar armas oo- 
ca$ionasse ou a morle ou a prisao de todos ; e con- 
seguindo-se este priacipio, ficava sem estorvo o 
fim , que era senboreai^se do Arrecife; e em todas 



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GAfTBiOlO UanAli«» 119 

o cmmio dog«ossoft aei proprioa do wimiff>). Este 
ardtl oaa c}u^u a pdr^^ em|MraUoa, porque o Hol- 
knte foi ayisado^ 6 Joao FerMadaa Yieira ^mou 
Hm axpedienta. imn cavalheiro e mais ^ffiMz, 

XXVL Com aecreta ntgocia^o foi iaduzindo a 
lodoe oamanoeboB da Yanea a qua deftenterras^em 
e preTeoisMin as armas com o recato que Uiis 
^adrertia o perigo, para que os acbasae armados 
uma occasiao t muito da bonra de todos, que eUe 
a 8611 tempo lhe$ mauifestaria. Ckimo eutemUrao 
que era Joio FerMudes Ykira o einpeobado ^ nao 
bouve algfum que 6e uao preparasnei alvoro^ado e 
solieito 9 de^jaudo eada quel obrigar com o ^rvi^o 
a quern oae sabtafaltar com respeito* Poz o mesmo 
euidadoem trasier a ma amizade aquellea bomens, 
eom C9 quaes se uao corria ^ o que com facUidade 
4> ooneeguio. Medio o tempo de suaesperant^a pe- 
las promesaas e pelas noUcias, e pareoeodo-lbe 
que nao podiao (altar em qualquer doa dias sc^ain- 
tes Henrique Dias e o Gamarao ; e que adisutava o 
negocio eom anticipar a preveo^ao a chegada, de- 
termiuou deelarar<*se a todos , para o que os cha- 
mau a sua caia , e Ibes deo inteira noticia de seu 
inlento; o que fez na forma seguiute. « At^ora 
n nao dei coata a todos de meu designio, seudo 
» que forma a importancia de cada urn, nao por- 
» que lemesse quebra no segredo ( porque como 
n a conveniencia ^ de todos , de todos deve ser a 
» observancia), senao porque a dila^ao poderia es- 
» friar aquelle fervor, que nos assegura o successo. 
a Mao ^ desigual a conGanca quaudo o nao ^ a es« 



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320 ckffmmo LwnAM. 

» timticao, e supposto qi^ a a%uns pariieahres 
» communiquei meu intento, nao adkntei as 
» pessoas^ ainda que adiantei as noticias^ porqne 
» a todos p^ em igual Italanca : nas emptesas 
» primeiro obrao os minislros das conduo^oes, 
» que 08 bracos dos soldados. Agora que o tempo 
» chama para a necessidade e para a execncaoi 
» a dou a todos; porque Ihe (ique mats honrosa a 
» vihganca , tomando por mao propria a satisfa-^ 
» cao das offensas. As injusticas j roubos, forcas^ 
» injunas, e desprezos que temos soffndo a esta 
» torpe canatha^ foi sempre tolerancta de nossa 
» impossibilidade , porim nao obediencia de nosso 
» alvedrio ; pois i certo que cada um de nos , se 
» deixou de vmgar o aggravo ( todas quantas vo* 
J) zes padecto a olfensa ), foi porque cousideravm 
» que sua espada primeiro Ihe bavia de serrir de 
» verdugo, que aos outros de exemplo; experi- 
» mentando que se convocasse companheiros , os 
Y> bavia de soffrer inimigos ; consinado da baixeza 
» com que muitos , por indignas conveniencias, sao 
» mais estraugeiros que natures. Estes receios atro- 
» pell^rao minha resolucao alguns annos ; nao 
)) que me atalhasse o risco de mhiha pessoa, senao 
» que me atava as maos a contingencia de arris** 
» car as de vossas merc6s d'esie risco, com as or- 
» dens, e com os auxilios , que tenho convocado 
D e pedido contra estes mortaes inimigos. Temos 
» em nosso favor a justica da causa, e nao durido 
» que acbaremos propicio todo o Es<ado giral ; e 
» a vinda dos governadores de Indios e M inas com 
« sens tercos, que ja espero cadfi bora, a presenca 



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CASTRI0IO LUSHAKa 221 

» dos capitaes Antonio Dias Gardozo, Paulo Vel-* 

» lozOy e Antonio Gomes com sessenta soldados e 

» quarenta aventureiros , que 4a Bahia vi^aopor 

>^ aeu gostOy os mais d'elles reformados e todos 

» valerosos. Em todas as freguezias nomeei cai»<- 

^ laeSy pessoas que na occasiao bavemos deachar 

» prevenidos com (odoa os moradores de seu dis- 

» trito, que ja esperao men aviso para executarem 

» nosso intenlo ; este pende da occasiao que tra- 

y» zemos eiitre maos, que 6 o dia das yodsts que 

i> 66 esperao. Nellas se haade acbar osprincipaes 

» Flamengos do Arrecife y rogados para autorizar 

» a mesa; e sei eu que o vinho os ha de entr^ar 

M primeiro a Tingan^a que a resislencia; porque 

» tenbo prevenidos mancebos^ que secretamente 

M armados os bao de matar ^ todos ; com deier- 

1^ minacao de se tomarem os eaminbos para a Ar- 

» recife (a^ onde primeiro ba de cbiegar npssa es- 

» pada que a nova de seu casiigo), que £EU2ihBente 

n senborearemos destituido de cabe^as e armas 

i> (albeos os Hollandezes de defensa pdo somno 

» e pelo descuido). No mesmodia e bora^ba 

» de obrar o mesmoem todas as partes, a onde o 

» inimigo liver fortifica^o e gente; e quando suo- 

}> ceda nao ser a conquista por. entrepresa , sera 

M por cerco ; para o que tenbo almazens providos 

}} de muni^oes^ armas e mantimentos^ a custa de 

» minba induslria e da minba fazenda ; porque 

II sempre me pareceo infaliivel o acbar em vossas 

» mercte valor e promptidao para empreza de 

» tanta utilidade, como gloria para cada.um de 

» nds;^nao so pelas vidas^ senao tambem polo Rei 



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» MturM, a quern 8«nrimo8, epda rdigiao que 
n defeiidemos. > Itoiwcieftteg dUiROU aos ouvinles 
eirta protengada pritica , porque nao podiao wpri- 
mir o alvoroco, com que no &m d'ella gritarM m 
uma voz t « Siva El Rei Dom Joao o Quarto nosso 
» senhof ! viva a f^ calholica romana que profiw* 
w sadios ! e viva Joao Fernandes Vieira, a qnem 
» todos acclamamos por noBdO capitao e noBso go* 
t vernadof neata empreBa de nossa liberdade! » 
CSom tanta sattsfaijao os dcAxou a disposicao, animo 
e getiefOMdade do novo governador, que logo Ihe 
jurarao obediencia, fidelidade e segredo* 

XXVIl. Difficil coudae conservar-»e o wgredo 
entre muitos, mtfrmente quando enira eWca ha al- 
guns stiapeitos ^ traicao. Come^ou-se a espattiar 
o nttnor eiitre oi Hollairfe«68 de que oa Portogue* 
zea 8C queriao revoltar; art* oonfirroava-ae todoe 
OS dias com as iSariM anonimaa que os traidores 
escretiao ao) do conselho, fias quaes relatavao todo 
o que 8C tinha determinado^ e rtqoeriao que se 
nao fiassem de Joao FernandaB Yieira , porque, 
traidof aos Bstados, etmspirava oom ontroe muitos 
contra esirangeiros e naturaea : que se acudisse 
com tempo a emniekicia do darnno^ poia o mmor 
o propunha tio vizhiho. 0» judeos, por natnreza 
timktos , gfiiavflfo sem descanso ,• e por sem diivida 
affirmavao qtre oaPortuguezaa andavao kvntados, 
e tinhio armas e muniooes eaoondidas , com dia 
cerfo para darem no Arreetfe^ e paasarem 4 €»pada 
quanto achassem com vida ; sendo Joao Fernandes 
Yieira a cabeca que os governova, sMbidbso das fa- 
iendaa^ todoa; que secaMig^iacopi toda a pr«8a 



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GA9IBICmi LIKITAIIO. 23t 

e rigor a trti9aOy antes (pieo golpe Impossibililasae 
o reparo ; e premiassem com franqueia os leaes, que 
tinhao reTelado a contpiracao (mo esi^s deE kii 
doze )• Que despertaasein ao brado do Maranhao^ 
sobejo para oe acordar do inais pesado somno. — 
Nao derao ao prmcipio oe Hollandezes grande im-- 
portancia a eates rumores; mas porfim, vendo 
que a queixa 6e augmentaTa e se tornava tumul* 
tuoaa^ comecarao a conceber receio ; oonferirao eiH 
ire 81 o remedio, esaio decretado, com discrete 
politica y que se disaiumk^fte o reoeio , porque se 
Dao atreyesse o povo ; e com cauteloda destresa doi-* 
tavao 08 do goTerno o^ motivos de queixa as eos^ 
tas da inveja, qae todoa os moradores tinhao a 
Joao Femandes Vieira^ e nao a causas que tive98e 
dado parase crer a rdielliao dos naturaes« D^baixo^ 
desta 8imulada confianca msmdarao oa do conacH- 
Ibo rogar a Joao Femandes Yieira que foase •er*' 
vido achar-ae ao outro dia no Ari^cife para assi^ 
gnar alguna papeia iooportantes a Coioipanhia. 
Deichou«se adiar do porlador; £iUott->Uie alegre; 
reapondeo cortczao, que se nao fosse ao ontro dia 
por ocbupacao preeiia , que trazia entre inaos^ se 
nao perderia o negocio; e quando a materia nao 
permittisse dilagao ^ nulndaria seu basiante proou- 
rador^qoe em tudo que fosse senri9o de suas setiho- 
rias e da Gdmpanhia suppriria intetramentea falta 
de sna peasoa (d'uma e outra parte sa vesCia a 
cauteUa da mesma cor). Apertou o menaageiro^ 
que era necessaria sua mesma presen^a , e que sem 
dia nada se poderia concluir ; e porfiou com tel 
aperto que deo por terra com toda a dissimola^io 



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21ft GASTBIOTO LDSITANa 

da eflcusa. Joao Femandes Vieira pelo hileirar que 
penetrava o intento , e que pelos mesmos fios Ihe 
cortava o U50, Ihe disse que se nao cancasse em 
o persuadir , porque sabia mui bem os ioimigos 
que tinha no Arrecife; e nao ignoraya o que ma- 
quiuavao contra sua pessoa; e que da sua parte 
dissesse aos senhores do govemo nao perdessem 
tempo em Ihe mandarem seguro real, porque 
mais real seguro era o da sua casa. Nao se derao 
OS Hollandezes por entcndidos de resposla tao re- 
soluta , appellando para o tempo , certos de que 
Ihes metteria nas maos a Joao Fernandes Vieira, 
ou por entrega de sua confianca , ou por descargo 
de sens alliados. Passados poucos dias chegou um 
barco de aviso, que mandava o commendor da 
Lagoa, pelo qual certificava aos do conselho serem 
passados para a campanfaa de Pernambuco o 
goremador de lodios e Minas D. Antonio Phi- 
lippe Gamarao e Henrique Dias com os sens ter* 
90s ; o que soub^ra por pessoas confidentes , que 
falUrao com alguns dos sobreditos soldados^ e pelo 
trilho da marcha , que elle mesmo vira, muito pelo 
interior do sertao; e que de marcharem furti'vos se 
colhia intentarem algum novo damno. Com indi- 
cios tao evidentes e prova tao certa se resolveo o 
HoUandez em fazer toda a diligencia por haver as 
maos a Joao Fernandes Vieira; mas este^ avisado 
do que se maquinava contra elle, poiemcobro 
todo o precioso de sua casa ; fei aviso a todos os 
capitaes, que havia nomeado nas fireguezias, de 
tudo que era passado ; escreveo uma carta g^ral, 
emqoe referia os successos passados, o estadopre- 



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4 GASTBIOTO LUSITANO. 225 

senle, ea deterininacao futura; concluindo a rela- 
cao com justificar seu zelo ^ e a Decessidade que 
o constraog^ra a acceitar a obiigacao e o posto de 
governador das armas , e cabeca da sublevacao, 
da mao dos opprimidosy que uniformes o acclama- 
rao libertador da patria j nao porque a ambi^ao o 
cegasse^ senao porque o maior servico de Deos e 
de sua patria se conseguisse. Assignou a carta 
por todos OS confideates, e a remetteo ao gover- 
nador do Estado Antonio Telles da Silva^ a quern 
jurava obediencia e fidelidade. D'este dia por diante 
andou Joao Fernandes Vieira de mata em mata, 
sem voltar a sua casa, nem a alguma de suas fazen- 
das : nao houve parte a onde o achasse assistente 
segunda noite^ porque mudava de sitio cada dia. 
Acompanhavao-no seu sogro Francisco Berenger 
de Andrada , que nunca se appartou de seu lado, 
alguns moradores mais confidentes, e sens fieis es- 
cravos, que Ihe serviao de companbia e de defensa. 
XXVIII. Em 7 de Junho do presente anno teve 
Joao Fernandes Vieira nova carta de que os go* 
vernadores de Indios e Minas com os sens soldados 
tinbao passado o rio de Sao Francisco. Estas car- 
tas , com outras de pessoas confidentes y commu- 
nicou Joao Fernandes Yieira aos leaes para os 
animar> e aos traidores para os confundir* Com 
ellas mandou ao vigario da Varzea Francisco da 
Costa Falcao, finissimo Portuguez, que da sua 
parte dissesse aos moradores d'ella se declarassem, 
para saber se os bavia dc tratar como a fieis , se 
como a inimigos , para que na occasiao conhecesse 
seu braco a quern havia de amparar, e a quem devia 
U 15 



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336 GAaraioTO LUSiTAMa 

perseguir. Respond^rao todos que erao verdadeiros 
Portuguezes, e como taes os acharia proinptos 
com fazendas e vidas para ofFerecerem pelo 8«rvico 
d'El Rei e fidelidade da patria. 

XXIX. Dons traidores, nao podendo por mais 
tempo conservar occulta sua perfidia, tomarao o 
caminho do Arrecife, suUrao a salla do conselho, 
e delatarao Joao Fernandes Vieira como fautor da 
rebelliao que se preparava contra os Eslados, di- 
sendo que o golpe estava immineate, e que era ne- 
oesaario evitil^o quanto antes. Para cumulo de 
sua perversidade d^rao os nomes e as moradas dos 
conspirados para se tomarem por iista ; nella se 
mett&rao os que deo a verdade, os que entregou 
o odio J e os que propoz a suspeita , e muitos que 
naquella occassiao advertio a cobi^a. — Nao se 
descuidou o Fiamengo em applioar ddensivos ao 
mal , que ]i temia. Mandou reparar todas suas for- 
tificacoes, e oonduzir lodas suas armas, publiean- 
do o apresto sem descubrir o motivo« Ghegou a 
noiteda vespera de Santo Antonio 12 de Junho^ 
escura, desabrida e tempestuo^a; no principio 
d'ella sairao do Arrecife diversas mangas de solda- 
dos , de vinte at^ trinta homens cada uma, com 
ordens secretas, que por differentes veredas tomas- 
aem todos os caminboa que guiasaem para as ca- 
sas de Joao Fernandes Vieira , de sorte que a um 
mesmo tempo chegassem a ellas , e as cercassem, 
tendo por sem duvida que o seguro do tempo e a 
impossibilidade da fuga o entregariao , ou & mor- 
te, ouaprisao. Enganou-os o desejo , porque se 
tinha adiantado o desvio ao golpe, Entrarao uas 



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CASTRIOTO LUSITANO. 227 

casasy vjrao e revolverao lodos os aposentos e re- 
treles, sem acharem indicios do que buscavao; 
quebrarao a furia em roubar e destruir tudo 
quanto podia servir a cobica e a vinganca. Para se 
Tazerem temer assentarao corpo d'armas naquelle 
lugar, donde como de centro despedirao partidas 
de soldados a toda a circumferencia; pela qual en- 
trarao nas casas d'alguna moradores, mas Dao 
acharao nellas viva pessoa ; prevenidos do aviso se 
tinhao retirado as matas^ e canaveaes, onde dor* 
mirao. Tambem d^rao sobre as casas dos traido- 
res f como elles mesmos tinbao pedido para milbor 
cobrir sua perfidia, um dos quaes prend^rao, por- 
que Ihe convioha deixar-se achar^ e o levarao 
para o ArreeifC) mas com tal familiaridade, que o 
modo destruio o artificio, e a falta de companhia 
publicou a industria. — No dia seguinte, dedicado 
a Santo Antonio, se havia de ce(ebrar sua festa na 
capella de um engenho de Joao Fernandes Vieira; 
pordm o ossalto do inimigo, e o estrondo das armas 
converteo em bellica a manha, que havia de ser 
festiva. Todos os moradores do contorno tratavao 
das armasy nenhum da festa ; assentarao que se 
guardasse esta para outra occasiao, e se mudasse 
para a igreja da Varzea, a onde poderia assistir a ella 
o governador da liberdade, como depois assistio ; 
e se f ez a festa com toda a solemnidade e seguro, 
por razao das sentinellas que estavao ao largo. 
XXX. A' mata, onde Joao Fernandes Vieira 
tinha passado aquella noite, cheg^rao , ao romper 
da alva^ alguns escravos, seus conGdentes, com 
as noticias da assaltadai qve o Flamengo dera em 



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228 GASTRIOTO LUSITANO. 

sua casa , desejoso de o niatar ou prender ; e da 
viblencia com que se roubira e destruira tudo o 
que tinha valor eprestimo. Logo que acclarou o dia, 
mandou descobrir o campo, e certo na seg^uranca 
d'elle » se foi com os de sua companhia ao engenho 
de Luiz Braz Bezerra, homem principal, capaz 
c fiel , para consuUar com elle o que, conforme ao 
estado das cousas, se devia obrar. Acbarao-se 
nesta conferencia Francisco Bei^enguer de Andra- 
da , Cbistovao Berenguer, Aatonio Bezerra, o ca- 
pitao Antonio Borges Uchoa , Francisco de Faria, 
Antonio da Silva, capitao dos cavalleiros^ o capitao 
Antonio Carneiro Falcao, Bernardim de Carvalho, 
Cosme de Castro Pessoa, Manoel Gavalcanti, An- 
tonio Cavalcanti ( com dous filhos ) , o capitao 
Joao Nunes Vitoria ^ com alguma gente d'armas de 
fogo, JoaoCordeiro deMendanha, AlvaroTeixeira, 
Amaro Copes Madureira j que depois veio a ser 
capitao. Propoz a todos o que desejava ; e quando 
esperava o voto de cada um , responderao confor- 
mes, que elles o tinhao feito e acclamado governa- 
dor das armas; e como tal devia ordenar, e elles 
obedecer; e declarado sen parecer, estavao promp- 
tos para o seguir. Mostrou o governador o muilo 
que convinha fazer p^ de exercito, e marcharem 
formados e unidos a buscar alojamento convenien- 
te. Seguindo este parecer , deixirao o engenho de 
Luiz Bezerra, e se forao aquartelar em um outeiro 
situado no interior da mata, que Ihes servia de 
atalaia e alojamento. Neste se detiverao tres dias, 
e nelles se Ihes aggi'egou toda a gente que se 
occupava no servico das fazendas , a quem Joao 



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CASTBIOTO LUSITANO, 229 

Fernandes Vieira promelleo premio, se nesta 
guerra servissem de sorte que o merecesem. Nes- 
tes tres dias dispoz o governador os apprestos ne^^ 
cessarios para a conduccao da genie e dos viveres; 
fez rezenha da sua gente , e se contarao cento e 
trinta homenSy todos soldados noanimo, muitos 
Taltos d'armas , todos de pratica. Com esta compa- 
nhia marchou para outro posto , e fez alto meia 
legoa da Varzea, em um lugar que a naturcza cer- 
cou de alagadicos y chamado Camaragibe , accom- 
modado para a faeilidade das inteligencias e da 
defensa. Fez aviso a lodas as partes da publicacao 
da guerra , para que em todas se pegasse em ar- 
mns, e o seguissem. Mandou deitar bando por as 
freguezias que os escravos Angolas, Minas, Ardas 
e mulatos , que quisessem servir ^ e allistar«$e para 
esta guerra debaixo de suas bandeiras, se Ihes 
daria paga como a soldados, e gosariao de todos 
OS foros da milicia, conseguindo liberdade, e Ihes 
promettia, confiado no favor do ceo, resgat^l-os, 
e dar por cada um a seu senhor o pre^o , em que 
se avaliasse j de sua propria fazenda. Mandou pu« 
blicar por todas as partes , que o Flamengo tinha 
decretado passar a espada a todos os mancebos de 
quinze at(^ trinta annos : industria que apadri- 
nhada pela prisao , que se fez de um , obrigou a 
muitos a buscarem as bandeiras da liberdade. 

XXXI. Por todo contorno do Arrecife se to- 
cavaa rebate; ouvia-se o estrondo da guerra com 
a formidavel voz do temor e do tumulto, accre- 
centado com o grilo do espanto e da sospeitn, cor- 
rendo lao agitadas (($ nQticjas^ (jue nada se ipedi^ 



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230 GASTBIOTO LUSITANO. 

pela verdade, tudo pelo receio e pela causa; a 
onde a confusao mats avultava era dentro no Ar- 
recife : viao os moradores d'elle entre a culpa, e 
inferiao que alii se haviao de experimentar mais 
rigorosos os castigos. Os superiores, accusados da 
propria consciencia, escondiao o medo, e mostra- 
vao nas apparencias que nao havia para que lemer 
a conjuracao dos tumultuosos f altos de tudo; 
por^m nenhum deixava de julgar que a conspira- 
cao tinha alicerces profundos ; procurarao com 
diligencias occullas descobril-os ; e para socegar 
a inquietacao do receio popular mandarao salr 
uma embarcacao ligeira , e nella a Theodozio Es- 
trater, e a Guilherme Wandrevot (intelligentes na 
lingua portugueza , e exercitados em similhantes 
negocios ) com ordem secrela que tomassem porto 
na Bahia, e espiasseni se nella havia ntos de 
guerra, ou levas de gente, em numero que sepo- 
desse presumir bastante para fomentar a conspira- 
cao dos levantados ; e com regimento publico, que 
em nome dos Estados acusassem , diante do go- 
t'ernador Antonio Telles da Silva, a rebelliao dos 
naturaes, e o favor que Ihes davao os foragidos da 
Bahia. Com estas instruccoes sairao do Arrecife 
em OS primeiros dias do mez de Julho d'este anno 
de 1645. Com a mesma cautella despach^rao 
correios secretos a todos os commendores c capi- 
taes das pracase quarteis , que tinhao nas terras 
de seu dominio , com aviso do que temiao , e ordem 
que se fortificassem, e recolhessem todos os sol- 
dados a sens presidios, empregando todo cuidado 
em tomarem os caminhos , para que a nova do 



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GMITIIOVO tmiTANO. 361 

leTantemento nao lavrasBe, alterando os animos 
dos obedientes. For Jorge Homem Pinto (morador 
poderoao da Paraiba, entao asdistenteno Arredfe) 
e Anlonio de Oliveira, provedor e ouvidor da ilha 
de Ilamaraca, maodarao oQerecer a Joao Femandea. 
Yieira duzentos mil cruzados , pagos a onde elle 
quizesse , e com as segurancas que apontasse, por- 
que desiatisse do intento comecado, e deixasse a 
capitania em seu antigo socego : proposta , a que 
magnanimo Tarao ( depois de indifferentes res- 
postas, necessarias para dilaCar o tempo) respond 
dec que nao vendia a honra de castigar tyrannos 
por tao baixo pre^o. Com diligencia publica man- 
darao reformar a fortifica^ao de iodas as forlalezas 
do Arrecifey mettendo nellas dobradas guarni^oes, 
muni96e8^ armas e mantimentos, tudo obrado 
com a industria ^ de que nao era seu temor a causa^ 
senao o mal fundado receio do vulgo. 

XXXII. Yendo os do conselho que nao podiao 
ganhar com promessas Joao Fernandes Yieira, 
manddrao prender todoa os moradores que julga* 
rao fiuspeitos^ para assim diminuirem o numero 
dos revoltosos. Tinhao publicado dias antes um 
edital, que mandava atodas as pessoas dequalquer 
qualidade e estado que fossem^ que do Arrecife, 
nem por si , nem por oulrem , podeSsem tirar fa- 
zenda^ sustento, ou genero algum por contractor 
venda , commutacao ou emprestimo, sem expressa 
licen^a dos superiores do governo, com a luesma 
pena a reos e authores. Pareciapolitica , em ordem 
ao provimento da praca , e foi ardil do lalrocinio; 
QopiK) tambem o foi oiitro decreto que se pubji- 



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3S2 GA8TR10T0 LUSTTAMO. 

cou em o nm de Junho d'este anno, por todas as 
partes de sua jurisdiccao, na seguinte forma. <( Os 
» muito nobres senhores do supremo conselhodas 
» capitanias sujeitas aos mui altos e poderosos 
» Estados de Hollanda, pela illustrissima Compa* 
» nhia das Indias Occidentaes, etc. Por qoanto 
» informados e condoidos d'algims moradores de 
» nossa obediencia ( movidos d'um falso rumor, 
» divulgado por traidores,. que aifirmarao que 
» nossos soldados , com ordem nossa , haviao de 
» sair da campanha a malar e a roubar a (odos os 
» naturaes que vivem fdra de nossas fortiGcacoes) 
» que seausentavao para os matos , deixando suas 
B casas e fazendas , com nolavel detrimento de 
» suas pessoase famiiias; por este decreto Ihes 
» fazemos saber que nossa tencao i defender e 
» conservar a todos nossos subditos em sens foros 
» e isensoes , com real seguro de seus bens e suas 
» pessoas. Em execucao do qual requeremos a 
» todos, da parte de Deos e da nossa, que sem re- 
» ceio algum setomem as suas vivendas, ainda 
» que andem ausentes por crimes, dos quaes desde 
» logo Ihes danios plenaria absolvicao; nao isen- 
» tando de nosso perdao aos que houverem en- 
» corrido em delito de traicao, com tanto que 
D nao sejao cabecas da rebeldia , e que dentro de 
T» nove dias se venhao appresentar ante nds, 
» para fazerem novo termo de Gdelidade, e rece- 
» berem novos passaportes de seguranca. E decla- 
» ramos que a todos os que faltarem a esia nossa 
» ordem , os havemos por rebeldes , e procedere- 
)) mos contra elle?, como pontra jqimi^os decla- 



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CASTBIOTO LDSlTAIfO. 233 

» rados, sem piedade, nem remissao alguma. 
> Dado no supremo conselho em 1 8 dias do mei 
» de Julho de 1645; sellado com o sello maiorde 
M nosso cargo. Joao Bolestrate. Henrique Manoel. 
» Pedro Bakte. Joao Balbeques. » — Publicado 
este cavilloso decreto, acudirao ao conselho aquel- 
les moradores que nao tinhao podido sair de suas 
casas , e outros que nao tinhao lido noticia do Ic- 
vantamento; fizerao todos novo juramento, rece- 
b^rao novos passaportes , e deixarao por cada um 
dous dobroes^ que era o iim destas prematicas, 
sempre promettidas nunca guardadas. Muitas ou- 
tras vei^acoes pralicarao os HoUandezes contra os 
moradores^ que seria longo de referir , e que em 
tudo se ])arec]ao com outras muitas de que temos 
dado noticia. 

XXXIII. Nao podemos deixar de referir ( para 
dareza da historia ) como entre os presos estaya 
no Arrecife o traidor, de que a cima dissemos : 
negoceava este com os HoUandezes que simulada- 
mente o igualassem na sorte com os malsinados, 
para que se nao entendesse fora o autor da trai- 
eaQ. Este ( nao merece mais nome quem vive da 
infamia), falso em todo o estilo, deixou manifesto, 
no do Arrecife , o da perfida. Sua prisao era a casa 
do governador das armas hollandezas ; com liber- 
dade para faliar com todos j e nao o comprehender 
nenhuma pragmatica ; tinha porta franca para 
mandar do Arrecife , e receber de fora tudo o que 
queria , e para que sua mulher Ihe fosse assistir o 
tempo que elle ordenava. Todos os superiores do 
govemo visitavciQ com assistencias o mimos; com 



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2S& GA8TBI0T0 LtSITAIia 

inais continuacao o coronel Mathias Beke, e os ju- 
deos mais conhecidos ; dos Portuguezes/ nenhum 
fiel ; so outro traidor ( homem de (ao baixa sorte, 
que o delicto Ihe nao affrontava o nome) a simi- 
Ihanca influia na correspondencia. Occupava-se 
este segundo em recolher tudo quanto se pas8ava 
entre os nossos , para o referir no Arrecife ao ou- 
tro , o qual o communicava aos Hollandezes ; com 
o que y nao ha via cousa que se passasse entre n6s, 
de que o inimigo nao tivesse inteira noticia. E 
d'esta maneira viviao estes dous homens, um da 
traicao do outro. 

XXXIV. Joao Fernandes Vieira, a quern nada 
se escondia, informado dos desprezos com que 
estes dous traidores o tratavao diante dos Hollan- 
dezes e judeosy desfazendo em sua pessoa , seu 
poder e seu intento; e senlido dosaggravos que 
padeciao muitos homens de bem por seu respeito^ 
determinou com um golpe ferir a todos, e mandou 
fixar em todos os lugares publicos, dentro e f6ra, 
do Arrecife, este edital. « Joao Fernandes Vieira, 
>i primeiroacclamador da liberdade, e governador 
>» das armas na restauracao e restituicao de Per^ 
» nambuco a seu legitimo senhor, faco saber a 
» toda a pessoa de qualquerestado, qualidade e na- 
» ^ao, que quizer tomar armas contra a lyrannia 
» e injusta ocoupacao do Holla ndez^ inimigo com- 
» mum J para o bem de todas estas capitanias, e 
» dos opprimidos moradores d'ellas, assente prafa 
» dentro de quatro dias depois da noticia d'este 
D nosso edital^ sob pena de o havermos por rebelde^ 
i) e procedermos contra elle copio contra inimigQ 



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GASTBIOTO LUSITAHa 235 

» da patria ; e sendo estrangeiro ou judeo , que 
» queira (icar em sua casa j e culliyar suas fa« 
» zendas debaixo de nosso amparo , o defendere- 
» remos como a fiel vassallo da coroa de Portugal, 
» e Ihe daremos todo o favor necessario para co* 

• brar todas e quaesquer dividas, que com justifi* 
» cado titulo Ihe pertencerem ; al^m do que se 
H Ihe darA satisfacao ao soldo que constar Ihe fica 
>} devendo a Companhia de Hollanda; e em caso 
I) que queira passar desla para qualquer outra 
» provineia, porrazoes que tenha para uao mili* 
>i tar debaixo de nossas bandeiras , Ihe daremos 
w livre passagem ; advertindo e requerendo a 
D todos que se nao deixem enganar das appa- 
» rentes confiancas, e falsas promessas do femen- 

• tido Hollandez. Dado desta nossa carnpanha de 
>} Pernambucoem 24deJulhode 1645 annos. 
» govemador, Joao FbrnandesVieira. > Doidos 
do golpe , e irritados da injuria, mandarao os Hol- 
landezes deitar bando por todas as pracas e forta- 
lezas do Arrecife , pelo qual promettiao quatro mil 
florins a quem matasse ou prendesse a Joao Fer- 
nandes Vieira ; e que sendo o matador escravo 
receberia o dinheiro , e ficaria livre ; da mesma 
sorte se estivesse comprehendido em qualquer 
crime. Por outro bando e publicos editaes pro- 
metteo Joao Fernandes Vieira oito mil florins a 
qualquer pessoa que Ihe apresentasse a cabe9a 
de cada um dos do conselho supremo; aos quaes 
escreveo uma carta, cuja sustancia era arguil-os 
de femenlidos, herejes e horriveis tyrannos, com 
maos so para o roubo^ e linguas so para injuria* e 



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236 CASTRIOTO LUSITANO. 

para a blasfemia. Que ouvia dizer publicavao 
buscal-o ; que se nao cancassem em especular ca- 
minhos infames, que elle a cara descoberta os iria 
visitar ao Arrecife, para o que tinha quatorze mil 
soldados brancos , e yinte e quatro mil moradores 
indios , que nesia faccao da liberdade o seguiao : 
numero , que primeiro Ihe aggregou o desejo da 
vinganca , que o braco de sua diligencia. Grande 
pezar e cuidado causou esta carta ao Flamengo, 
porque conhecia o caracter de Joao Fernandes 
Vieira , e pelo lerreno de seu dominio Ihe nao pa- 
recia exagerado o numero de combatentes de que 
elle Ihe fallava. Escondeo quanto pode o receio, 
occultando-o debaixo de apparente desprezo por 
nao allerar os parciaes. 

XXXV. Em quanto estas cousas se passavao em 
Pcrnambuco , succed^rao outras em Ipojuca, que 
mereeem ser referidas. Havia naquella terra um 
mancebo valoroso, chamado Domingos Fagundes, 
natural da villa de Viana do Lima, o qual pelos 
sens alenlados espiritos fora nomeado capitao d'u- 
ma companhia paga (com a obrigacao de a levan- 
tar). Ja se tinha destinguido varias vezes este 
mancebo por varios feitos , que Ihe tinhao gran- 
geado grande reputaoao entre os moradores , e so 
espcrava a primeira occasiao favoravel para se por 
em campo. Aconleceo que em dias de Junho d'este 
anno succedeo matar um morador a um judeo ca- 
sualmentc. ( Era contratador, e dos ricos do Ar- 
recife. ) Acudirao valedores por uma e outra parte; 
c na pcndencia ficarao mortos , pelas custas, ou- 
tros dous tra (antes, tambem judeo$, Foi a revolw- 



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CASTWOTO LUSITAKO. 237 

cao do lugar tal que o cabo do presidio hollandcz se 
imaginou perdido. Saio a prender os deliDquenles, 
mas nao o conseguio, porque ja se tinhao posto a 
salvo. capitao Fagundes , que a este tempo se 
achava com dezeseis soldados de sua compaDhia, 
persuadido da confusao que causai»ao aquellas 
mortes, deo sobre algumas casas de Hollandezes, 
e nellas nao deixou vida o ferro, nem fazenda o 
fogo, que nao consummisse ; e nao fic^ra naquella 
parte Flamengo, nem cousa sua, se Ibe nao ataraas 
maos a falta d arraas de fogo. Determinou buscal- 
as a ousadia a onde as guardava o perigo : assaltou 
uma casa forte, na qual se aquartellava uma com- 
panhia de soldados hollandezes; com morte de 
tresy e fugida dos mais a ganhou, e com as armas 
emunicoes dos despojos guaraeceo aseus soldados. 
Ja ao valente capitao pareciao pequeno emprego 
para sen animo os assaltos fortivos : a cara desco- 
berla investio tr^s barcos , que ( no chamado 
Porto Salgado ) estavao a carga, com boa quanti- 
dade de assucares e farinhas ; e os rendeo , a pezar 
da guarda hoUaudeza qlie os defendia. Neste 
tempo chegou a nova de que eslava Joao Fernan- 
des Vieira posto em campo, com sufficiente pe 
d'exercito, e Amador Araujo, que era o principal 
capitao d'aquelle distrito, com todos os mais capi- 
taes, soldados e moradores se declarirao por par- 
ciaes na sublevacao, supprindo a falla das armas 
com a grandeza dos animos, que os animava a 
lancar mao de cbucos , dardos , facas de monte, e 
paos tostados. Fez grande impressao no Arrecife 
esla nova J causou espanlo a todos, especialmenle 



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358 CASTRIOTO LUSITANa 

ao8 judeos^ os quaes sairao pelas ruas appelli-^ 
dando justica, e persuadindo vinganca; tal foi a 
Tozeariajque Bzerao elles e niais habitantes as porta$ 
dos conselhos e dos ministros, que estes se virao 
obrigados a chamar o general das annas Henrique^ 
dando-Ihe ordemque comseiscentos homens mar- 
chasse a Ipojuca casiigar a rebelliao.Em 24 de Ju- 
nho saio elle com effeito da cidade Mauricea, es* 
condido com as sombras da noite , e com os recatos 
do silencio. Em quanto faz a viagem daremos razao 
do que succedeo na campanha , onde deixamos 
ao governador da liberdade ( neste mesmo dia ) 
occupado em manifestar a empresa por editaes 
publicos, dando por suas ordens o primeiro im- 
pulso a restauracao de Pernambuco. 

XXXVL Nao dava o governador da liberdade 
um passo de que o HoUandez nao tivesse noticia ; 
effeito da Tigilanda com que os traidores , que 
assistiao entre nos, o inqueriao e delatavao. Ten- 
cionava elle dar uma poderosa assaltada no lugar 
em que se achava Joao Feroandes Vieira ; mas 
este^ que tambem tinha boas espias^ retirou-se 
para a mata, que chamao de Vasco Pires Borralho ; 
d'alli mandou chamar o capitao Antonio DiasCar- 
dozoy que com a sua gente se viesse incorpoi*ar 
com elle ; o que logo fez, seguido dos soldados de 
sua companhia. Assim como chcgou, Ihe deo Joao 
Femandes Vieira pa tente de sargento maior e pree- 
minencias de tenente general, ordenando que 
todos Ihe obedecessem como a sua propria pessoa. 
Ghamou a conselho os homens que o podiao dar^ 
e nelle ge resolveo que nao convinha esperar alli o 



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GA8TEI0T0 iUSlTANO. 239 

inimigo com gente bizonlm, falta d armas e de 
pratica, e em tao pequeno numero. Approvado esle 
parecer, se escolheo por lugar mais conveniente 
Q sitio de Maciape, quatro legoas distaote y e por 
importante abrir-se novo caminho pela mala, para 
86 encobrir a marcha, furtada a espias e traido- 
res. — Executou-se o conselho com promptidao; 
abrio-se o caminho , marchou o pequeno exercitd 
( constava de duzentos cincoenta homens e trinta 
segrosroinas); fizerao alto em Maciape, onde se 
Ihe aggregarao os capitaes Francisco Ramos, e 
Braz de Barros, com quarenta homens hem arma- 
dos ; e Joao Barboza, Sebastiao Ferreira, Domingos 
da Costa, Joao Nunes da Mota, e Domingos Rai- 
mundo, com a gente quepod^rao trazer comsigo. 
OrdeDou o governador da liberdade ao ajudante 
Amaro Cordeiro e a outros officiaes da milicia 
(cabode todos o P. Simao de Figueiredo) que 
foasem pelas ribeiras de Gapebiribe, at6 a mata do 
Brazil, intimar a todos os moradores, que com 
suas armas e escravos se yiessem logo para aquelle 
lugar; alias os teria por rebeldes, e como taes se 
procederia contra elles. Estavao os animos tao hem 
dispostos, e era tal a coolianca que todos linhao 
em Joao Fernandes Vieira, que em cinco dias que 
^le se deteve em Maciape se Ihe aggregarao oito- 
centos homens ) os mais d elles praticos na guerra, 
por haverem militado nas occasioes passadas ; po- 
r6m so com trinta armas de fogo, poucas para a 
gente que era, muitas para o rigor com que o ini- 
migo as prohibia. Para supprir esta falta mandou 
governador alimpar bom numero de espingardas^ 



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2^0 CA8TRI0T0 LUSITAIia 

que para esle fim tinha escondidas ; aos mais fet 
armas de chucos e paos tostados^ que suppriaoa 
falfa de picas. A esta heroica resolucao dos mora- 
dores juntou-se a disciplina ; e em pouco tempo 
comecarao os nossos a ser temidos do inimigo peio 
numero e pelo denodo, que todos os dias crescia, 
e que Joao Fernandes alimentava com o exemplo 
e com a fazenda, pois por tempo de ires mezes cor- 
reo por sua conla toda a dezpeza do exercito na 
campanha. Em quanto o exercito oao muda de alo- 
jamento, daremos razao do que passarao os dous 
embaixadores j que o Flamengo maudou & Bahia, 
por nao tirarmos aos successos seu proprio tempo. 
XXXVIL Em o numero XXI dc este sexto li vro 
referimos como em os primeiros dias de Julho 
d este anno mandarao os do conselho supremo em- 
baixadores a Bahia, com ordens que com toda a 
diligencia descubrissem o animo do govemador 
do Estado Antonio Telles da Silva, e sondassem o 
fundo que tinha a sublevacao^ e intento de Joao 
Fernandes Vieira. Com ventoem poppachegaraoa 
Baliia , tomarao terra e toda a infbrmacao concer- 
nente a seu intento. Procurdrao audiencia do go- 
vernador, e nella Ihe expuserao as queixas dos 
seuhores do conselho supremo contra Joao Fer- 
nandes Vieira , e as suspeitas contra elle governa- 
dor de ter coadjuvado aquella rebelliao ; e conclui- 
rao por proteslar contra similhante procedimento, 
fazendo-o responsavcl pelas perdas e damnos que 
se seguissem, pois os Estados haviao de tomar vin- 
ganca d'uma tao grande offensa. — Ouvio o gover- 
nador com attencao os embaixadores^ e com pru- 



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CASTllOTO LU51TAM0. 2Ui 

dencia Ibes respondro que Joao Feraandes Vieira , 
po&lo que Portugue^ pelo naacimeiito, era HoUaa- 
des peio domkilio ; que elk habitava em domiDios 
do supremo conselho ; que usassem para com eUe 
como enteodesdem ; que die nada tiuba com isso 
assim como nada tinha oontribuido j>ara a suble- 
vacao; que em quanto As ameacas^ elle nada re* 
ceava, porque Portugal, que pod^ra reaisUr" a lodas 
as fcNTcas de CasteHa, reconquistandoa sua liberdade, 
tambem saberia eastigar as bol^as de Uolla&da. Manr 
don logo yir diante d'dles todos oe ^bos, que diziao 
tiahao pasaado o rio de Sao Fi^andsco em iavor de 
Joao Femandes Vieira^ os quaes reconhecidos pelos 
dotfs embaixadores j Uies disse o goveroador : • 
(V Digao aos seidiores do ccmeelho, que sobre leatd 
» desengano lhe3 quero agora mandar esies capi- 
>taes com poddrea e gente, para que me tragao 
» preso a Joao Fernandes Vieira (se i certo que 
)) tern tao pequeno soquito j como dizem ) , e Ihes 
D ordenarei que Cacao todo o poasivel por deixarem 
» OS moradores em sen antigo socego ) e deverao o 
n seguro a causa de sen receio. » Confinos e ocm- 
4eiites se despedirao Oa embaixadores do goyer« 
nador. 

XXXVIU. Tbeodoxio Estrdler, que era o prin^ 
cipal embaixador^ nosdias que alii esieve, proou* 
rou audiencia particular do goveraadcH* do Esiado; 
nella Ihe ratificou o animo que tinba de sehrir a 
£1 Rei de Portugal , e daramente cenfesson a Ton- 
tade de entregar aos Portugueses a fof^fialeza de 
Nazareth, de que era commendor; senrico, que 
merecia estknacao grande , pela importanda do 
L 16 



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>'. 



U% GASTtlOTO LOStTiMO. 

porlo, pela ulilidtde do eommercio, < pdas coa- 
MqiieocUitdo'etieaipk) : deter minano que ^ tinha 
praticado a Jeaa Feinandet Vieira por equivocaa 
inteUtgencias , reeeoM de que nao livesse effieito 
seu intenio ; mat que agora que o Tia poato em 
campo 5 tendo por si a ju6ti9a e o aequile, se de*- 
clarava com sua Excellencia, e o disporia com Joio 
Fertiandeft Vieira; nao deacjando da Majealade 
d'E) Rei de Portugal maia premio queoservitot 
n^m de a«a Exoelieacia mak fovor que e ialetrilHO 
d'eata Terdade. Graioe diacreto Uia respoodeo An- 
tonio Telfea da Silve ^ aeooiiando o ofieracimeatay 
e km^Bdo a delermiuacao ; que bem moslraTa aer 
parlo d'ttfit animo geaoroao e juatifindo ; proi^tr 
tettdo-^lhe da parte d'£i Sim sou aenh#r eqtiivalaiite 
pnemid a tao x^devante a^rTt^. 

XXXiX. Eaibamrao oi embaixaibM, cW^a 
riq a Bihia^ velatArio o que virto aa eidaRk, e 
quanto com o ^veraador pafwi m» ettgrandkeoeado 
aeo vidor, aqa fidalguia e sua eapacidaik; afiir^ 
marao <]Qeo aeu cora^ao eca altivo, ^akale e eii« 
aade, e que eidveasem oertoa que o mo haria de 
aobar aefrido o mioimD a{^mTO, »em uagrato a 
mais pequeno obsequio ; assim Iho fnandava mgw- 
fioaiv aQM6elbaQdoK>6 trataaeem os aobditos com 
juati^a e clraaencia pan aa oao tereaa reheUadm ; 
e qua pronieUia maii^ar brevemante •cafMti^a e 
aoMadoi , que jreduaissem e aquietaasesa aea inora- 
derea (para o que, ellea eaviadoa^, Ibe haTtto pro- 
HBKKido paaao fraooo em nome doa fistadoa) ; maia 
dmerao que do porto da fiabia nao esiavao embar- 
oa^oeadegiterrai foradogailtao de Salvador CotTea, 



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CASTRIOTO LUSITANO. '2/43 

que de verga d'alto esperava tempo para comboiar 
a Portugal uma frota de navios mercantes ; e com 
seus mesmos olhos Tirao assistentes na Bahia tqdos 
aquelles cabos^ que se dizia terem passado o rio de 
Sao Francisco^ em soccorro dos rebeldes. Coii> 
estas novas respirou o temor do$ HolLaodcges^ e se 
eonfiraiartto ftqnelles animos indomitos e periklos 
em nao desistirem das tyrannias, e augmentar^m as 
semnzQBft e aggravos em toda a parte e em iodo 
o tempo. Imaginavao-se vingados por nossa^ mes- 
mas» e pela3 suas senhores de (odo o£sUfcdo do 
BrazU ; porq«6 w deliberaWio em malar por ti«k€o 
a todos OS que o governador Antonio Telles dai Silva 
mandate em aeu Mixilie ; e uiitriAO que a falta 
d'eUea (he entregaria a Bahia a maos laradas. Para 
tudo o que )he propuaha 9u% aleivosia se comeQ^-* 
no a |>reparw eom loda a praaaa. Em tudo at tn- 
ganou sua maHcia. como se veri em o seguinte livro. 
Q^^ di» seua ii&actoa nao ftabom os bQipaM adwr- 
ttr o wr a do 4e mm Asenrsos. Nao ha eonian^ «ao 
nescia como a daquelles que piotao os futuro^ das 
eoresAiaeuadMejoay aao podaraada qiia nas maos 
doB homens estao os inttntos^ e nas da DeoR os suc^ 
C^saos; e queoconseguU-os^ ou favoraveis, ou ad- 
vaMOi paia aala an para aqmAla 6m y 96 o ma a m o 
fhos op6de saber, que oao espera tempo para veros 



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Livfio \n. 



SUIULUUO. 

. Mandt o Flamengo tsstltar os nossos pelo mu strgento maior 
Joao Mtr; pM* avito (Turn Iraidor suspende t marcba—^. Chega 
^ifif«e Dim # Ipojvea; o ^iMihiacoAltce; ntrcte t eocMilrar- 
•e com Joio Blar. — 3. Joao Fernaodea Vieirt imn aTiao de tudo; 
leraDta-M de Sao Loureoco, passa o rio Tapicura 4 vista de Joao 
Bkr. -^ 4. louteu doi lrald«rei; perlgo em que poi a emprtM, 
▼eacido pela pnidencit do governador. — ft, Pe/lioacia dot trai- 
dorei* alalhada pela coosUDcia do governador. »6. Volia Henri' 
que Has de Ipojuca , e o qae faz. — 7. Cbegao ao alojamento do 
Cofw dgmtflAdiM 4o Cuurm. — 8. Derrtlo com que tafo o 
bereje do Arteeife; eflfeitos que ctuta. ~ 9. Ardil de que uia Joio 
Fernaodes Yieira em favor dos moradoros da Tanea ; chega-lhe 
Modeia da deaira^aode Cuohai; m«da de aloiaroeiito para o 
nrante &$m Tabocaa; descripc«> d'eete monte. — io. Alojamento 
do noMO exercito ; reduz o governador a um apostate hereje* — 
11. Ot traidores persuadem a que le mate A cara descoberta o go- 
▼eriador. * 19. ioimtgo marclu para o eigeftho do Covai ; dA* 
ae rebate nas Taboeu. — IS. Falla que fes o governador A sua 
gente. -— 14. A vizinbanca do ioimigo Ibe corU o fio ; fortificao- 
•e oa DOatoi ; o capitao Fagundea deicobre o inimlgo na passagen 
4o rio Ta^ieurA, e vai-ae reclraodo M u aoafM emb ot eadai. — 
15* Retire- ae o Hollandez sangrado do noaao ferro; industriacon 
que entre os nofsos se esconde a falta das municoes. — 16. Zelo 
d'alguM rdlgioaos e aaeardotes, q«e detem o governador quando 
arriscava aaa pesaoa. — 17. Ardil do ioimigo atalbado; reiira-ae 
yencido; toma a ayancar^ e torna a ser repellido. ~ 18. Forma- 
se de novo , e acomette o Tabocal ; o governador anima a resis- 
taaeia; ftea o HoUandei deaCnildo. — 1». Feeieiao o» Portogveies 
a victoria, e ae prepfrao para novo combate; queoenganode 
nossaa espies Ibe fes recear. — 20. Foge o ioimigo do campo, e 
ae aproveitooos nosaos doa despojos; dao gracaa a Deoa pela mer- 
e4. — 21. Perda do ioimigo, e nossa; eapitaes e peasoas de qua- 
lidade que se acli&rao no conQicto. — 22. que faz o Flamengo 
em Ipojuca; cbega A Yarzea, eitorsoes que ahi maoda fazer; bar- 
bare decreto que manda publicar. — 23. Chega ao governador 
a nova do aoceorro que aportara em Tamandar^; delibera-ae em 
soceorrer algumas povoacoes. — 24. $ai da Babia Salvador Gor- 
rea de Si por general da frota; mette soceorro em Tamandartf; 



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GAsmooTo LracTAna 245 

accUma-se a liberdade em Siriahatia. — 2tt. loa* d'Albaqvarftta 
pede soccorro aos Mestres de campo que tiobao tiodo da Babit j 
coraelle eereat fortaleia do inimigo, que le rende t parlldo! 
-*30. Maroka Mo Feraandes Yieira a ae^rar oa Maalres deetai. 
po, a queixi manda dar as boas yiodas; os quaes Ihe saem ao en* 
contro; alojao-se, e mandao soccorro ao Mestre de campo Mar- 
tkn Soarea qua ccreava a fSorUlbaa da VazafoUi. — 97. Manda • 
gOTernador marchar o eiescilo para Moribeca,^ de U para o rk 
de Tigipi6. ~ 28. Decrela o geDeral HoUandez a prisao de todai 
as muiberes da Varzea ; determina passar a espada todos os mora- 
dores ; arkado do q«e o goTornador, raar^ a iflq»edir aex0M^. 
—29. Pasa o rio Capeberibe ; avisia o governador e ui?este oa eequa- 
drocshollandczes; chegao Meslre de campo Andr^Vidala reforcar 
o combate. — 90. Alenroso eogano de que se yaleo o ioimigo ; re- 
aolvem-se os nossos em Ihd pte fogo; pede o inianigo fuartal; 
concedem-se-lbes as Tides, exceptos os Indios^ que se mandao pas- 
ser d espada. — 31. que passa Henrique Hus na presenca do 
gofemadot. -^ 33. Alexia que oaosou a todos a liberdade daa 
matroaas ; despojos da batalha ; morios e fericks d'uma e ootra 
parte. — 33. Quem era o P. Fr. Joao da Resurreicao. — 34. Vic- 
torloso e triumpbanle mareba para • Yarzea Joao Femandes Yiei- 
ra; remettemse ot readld^ a Bahia; morte de Joao Biar. — 
35. Cbega Salvador Correa eom a froU 4 vista do Arrecife; man- 
da embaixador ao Arrecife • com que effeito ; obrigado do tempo 
levou aneora, e se fez «> mar. ^ ^. Manda o HaUandez qveiauff 
OS navfos que estayao surtos em Taaaandar^; e o qua miia m»- 
ccdeo. — 37. Primeiras accoes do capitao Manoel Barboza. — 
38. 'Martlm Soares Moreno aperta o sitio a fortaleza da Nazareth ; 
bnaea o eommendor eaipinlios para fiicilitar a antrega* — 99* To* 
mao OS nossos uma lancba, e com que occasiao; protestao de to- 
mara fortaleza a escala; proposta que faz o eommendor aos sens. 
— 40. Refolvemaentrega dafbrtaleza; eapitnlao-se u 00B4if5ei; 
faz*se aviso a Joao Fernandez Yieira , o quai manda o dinbeiro 
para os rendidos ; tomao os nossos posse da fortaleza , e d'uin 
barco que Ihe vinha de soccorro. 



I. Confiado e altivo desprezaYa o Fiamengo o le« 
vantamento doft iiK>radores; aYaliaYa Joao Fer- 
nandes Vieira pw cabe^a send esfMritos, porqiie 
sem autoridade, sem valor e sem disciplina. Viao 
9e<]uito em pequeno munero; imaginava o violenio 



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M5 GAftTwm) wmM&. 

on engttfnid^ai, sein fftmas, sem ttiulii^s, sent cabos 
e sem pritica ; e como sem alma ie lb# repreten- 
tava o o9rpo da rebdliao. Erroth4fae a medida , 
e sdlo-lhe curto o remedio. Mandou ao sargenio 
maior Joao Blar, que com traieoioa soldackM, ar- 
madas de clavinas, saidse do Airecife (cobefto 
com OS sombras da noite) e d^se sobre a mala de 
Vaato Pires Borralbo^ a onde per ayisot oerlos sabia 
que se alojavsl a nossa gente , com ordem que a 
Jmo Fernaudes Yieira e a todos 08 que o teguiao 
matai8«, ou prendes^ ; e que o nao seguisse sem 
engrossar o poder com a genie do governador das 
armas hollandezas, Henricpie Hus, que da vdiade 
Ipojuca se haria encorporar com elle em o mestno 
lugar; ao qual tinbao ordena4o que nao deixasse 
rebelde com vida. Marchou Joao Blar aui chegar ao 
sitio que chamao o Arfaial Velbo, a onde fez alto , 
avisado d'um traidor nosso que asaialia a Joao 
Tet^natidef Vielra : advertia-lhe que se nao mo- 
veise at^ segundo aviso , por quanto a nossa gente 
tinha mudado de alojamento^ e ainda nao tinha 
tomadb {>osto. Obedeceo o Blar, em quanto a sus- 
pensao da marcba , porim nao em quanto i sus- 
petisao das armas, porque com diversas mangas 
lomou (odos OS caminbos da mata^ que guiao para 
OS rios Patebiribe e Ju£;aribey e seguio o caminho 
de Iguara^u, executando em toda a distancia desta 
marcha taes ef tao crueis desacatos e demaxias» que 
ainda agora os olha a memoria com espanio* Com 
a mesfna yioleitcia rerapia pelo religiose e peto 
profano f despedacata as sagi adas imagens com tn- 
jtim* t as honestas <lonzo|las com irrisAo; sem 



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dMtiMfio.certava pela idade mais Torde, e pela 
mais cadociy nao fiuendo disiinc^ao de sexo a sexo, 
nam d'eaUiid a eatado ; coln^ia o estrago do ferro 
com u Ginzas do fogo , e coon oa golpea da morte 
aialhava oa griloa da dor. Nao. indivtduo as atro* 
cidadasi porque deamaui a penna com o horror 
d'ellaa, S46 direi, que Ibe estraobou Henrique Hui 
a ferocidade | ou porque nelle se Tia exceder, ou 
porque a uao podia imitar ; seado elle um^jf uellis- 
siBio espaolo da natureza humaua. 

U* Emouumero XXXV do livro precedeute ae 
disse ooroo em 24 de Juuho aaira do Arrecifi^ Hen- 
rique Hu8 com aeicento^ soldados a castigar moUm 
de Ipojuca ^ agpora diremos eomo , por esconder o 
castigo k eulpa^ marchirao furtiyos at^ a uiala de 
Tabatioga (uma leguadistiinte de Ipojuca) , a onde 
ou o aviao , ou o acaso tioha emboi^cado ao capi- 
iao Fagundea com vinle aoldadoa de sua compa* 
nhia. Approveitou-se da occasiao , e deo ao Flar- 
mengo uma carga, que o deizou eonfuso, mais 
pek> sobresalto que pela perda, que nao passou de 
tres mortoa e alguna feridos, Temeo o Fagundea 
qua ioimigo o cercasse , e muito com tempo se 
reiirou a buscar o siiio, onde ae alojava o capiCao 
maior Amador de Araujo. general boUandex 
apreasou a marcha f por nao diminuir a presa j e 
deo sdbrea povoacao, que achou sero resistencia e 
aem riqueaa , porque os moradores a tinbap quasi 
desemparada , igualmente temerosos xlos judeos 
oQendidos, ,e dos Hollandezes escandalizadoa; nao 
tiverao os invasores em que cevar nem a cobi^ai 
nem a Tingan9a. Mandou general holiaades 



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2A8 GAantlOTO UTSTANO. 

deitar bando qne assegnrava as vidas e as Isr^endas 
aquelles que dentro eni tres dits se recolhessem a 
suas casas ; do que se aproTei(4rM algutis Tiei- 
nhos por escaparem a morrer de feme no inierior 
dos tnatos. Nesie higar mandon o ioimigo enforcar 
a Francisco Godinho por se dizer era urn dosicom^ 
plites iKi consptraoao da liberdade.^^Henrique Hus, 
sabendo que Amndor de Araujo.caminhava com 
algama gente a untr-se com Joao Fernandee Vieira» 
marchou a toda a pressa em seuseguimenio^ deo- 
)he alcance, onde chamao a Ponderama, meia legoa 
antes da povoacao. Era desigual o partido, e ficou 
Amador de Araujo destrocado ; raleo-se da fuga , 
fovorecido da ma (a y def xando cinco raortos , e le- 
vando comsigo os fieridos, se fbi unir com Joao Fer- 
nandes Vieira , que j^ neste tempo se atojara nas 
casas de Balthazar Rodrigufs Govas. Nao ficou o 
Holiandez sem recompensa, que mortose feridoe 
)he custou o eneontro. Henrique Hus, com as or« 
dens qne tinha recebido no Arrecife, marchon 
adiante a incorporar*se com seu sargento maior 
Jyao Blar; mas com tanto medo das emboscadas, 
que o movimento def qualqner ramao sabresaltaTa. 
Com esta iitiaginacao mandou matar o hermilao de 
Santa Luzia (capellao do engenho de Tabatinga), 
porque ouvio tanger o sino da capella, parecendo- 
Ihe que tocava a rebate. Proseguio a marcha re- 
colhendo os Fiamengos que se alojavao nos des- 
trictos de Santo Antonio do Cabo e da Moribeca, 
sem deixar cousa dc moradores que nao roubasse e 
consummisse. Dez dias o delcve esta diligencia, e a 
cresceqle dos fios, ajudnda de sens recejos, 



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GA9TIIT0TO LimiTAlfO. 2&9 

HI. O go^emi^r da libfvddde, qfie a esie tempo 
M alo|t?ft M poTOdcM de Sio Loureiico, oceu^MMlo 
em fM'ei'eiiir todo o qm podia set ittit a empresa ^ 
toi avisado de dentro do Arrecife da^ ordens com 
que HeiBpiqiie Hm e Joao Blar tinliao saldo d*elle , 
e que se aeautellasac, porque unidos o haviao deeii- 
Tesiir em quatquer sitio que occa passe ; a que sem 
d«vida fariao com sobejo pod^r, porque se haviao 
de aproveilar da gente dos presidios, que se aquar- 
telb^a peles contomos. En^re os confidentes se 
leo o aviso^ e resukou da conferencia, que de ne« 
Tihoma sorte se esperasse o inimigo naquelle posCo, 
por irregular para a defeza e favorarel para a in- 
vasao ; que logo se levantassem d*aqudle sitio, e 
fte escoIhesBe outro, em que eooeurressem as con- 
venienciQS necessartas. — Executou-se a resolueao ; 
passirao o rio Capeberibe , que ia de monte a monte 
com mais trabalho que perrgo , pelas balsas e jan«- 
gadas que se fizerao. Pela margem do rio contina* 
Tao a marcha at^ qvie chegarao ao engenho de Sao 
Joao, que se dizia de Arnau de HoHanda Barreto, 
o qual agasathou a todos (em fres dias que alii 
cstivcrao) com benerolenciae abundancia ; e com 
dous filhos se aggregou e seguio a Joao Fernandes 
Vieira. Pareceo bem a todos que se eontinuasse a 
marcha^ dehcando naquelle sitio ao capitao Cosme 
do Rego com cincoenta soldados, eomo sentlneRa 
para descobrlr a campanha , e dar ao exercito os 
avisos necessaries. Sobre este seguro caminhou a 
nossa gente com batedores ao largo, levando diante 
ao P. Simao de Figueiredo com qnatorze ho- 
meiis ligeiros, para guiar e desempedir a vereda 



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ott 4ez horoens de oada vet, piisoii todo QfaMcito 
o rio Tapicura, i viaU de JoioBUr, quedftoalni 
ptrie M <)ceukava eiiire oa matot i eipcMiHlo a 
cbtgada de Hearlque Hua , que drde»M afe md 
aoveaae d'aquelle lugari e se akjou oaa cataa de 
Manoel Fernandes Crua, oade ae deteve s6 a noila 
aeguinte, e d'alli o le?ou comaigo o govemaidor da 
liberdade, para o aitio de Bdchior Rodriguea Cevaa» 
oode a noasa gente fea alto , e se aquarteUou oom 
ioiento d'esperar e reoeber alii o inimigo, ae neUe 
o buacaaie. Joao Blar, que vio parlido o nosao exer^ 
citO| e por urn mulalo traidor enteodeo que ne eugd- 
nho de Arnau de HoUauda ficaya Goame do Rego, 
com cineoenta booMnsdeo aobre eUea no maia idle 
da Boitei e facilmente oa desbaratoui porque dea* 
cuidados dormiao aobre o fteguro de sua coniiaiiQa* 
?Iap deo o asaalto lugar i defeosa ; porim oaa o li-^ 
rou a fugida. Sabiao o» noaaos as vereda» , e fieitos 
n'um corpo rompirao peio malo, e ae forao eacor- 
porar com o governadpr da liberdade 

4. Ja por vezes temoa dito que a traicao pre- 
tendeo deade o principio oaalograr a glorioaa em* 
presa come^ada por Joao Fernaodea Yieira ; agora 
diremoft que, quauto maia eata ae conaoUdava, 
maia aqueUa escogitava meioa de a dealruir« Veodo 
oa traidorea que accanpauhavao Joao Fernandas 
Vieira mo para Ibe imiiarem os impulaoa, sense 
para ibe contai*ein os pasaoa ^ que a sua genie cres^ 
cia em numero e em animo ^ e que o pod^r iaria 
inutets os eaforcoa da trakao, usiirao d'um diaho- 
l|co ardil, que cbegou a por em contingen^ia o pro- 



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§rm» dm enqpraMU Chimirio a ii os homeiis que 
ft piirihBtmidaitoc a tidK)rdina^ tinhao mais dia* 
.poaioa para a creduHdailey e com racoeaappareiitoa 
oaperwtfKUrao qne o urtcMo de Joao FemaBdea 
VSeini oao era do oa liberUr^ aemo de oa dealruir^ 
tmndo^os d^ atias caaaa com a vox da IHierdade 
para os destarrar da pairia ; e a melbor livrar^ leTaU 
oa cQRisigo para a ftihia, porque eotre os Hollan* 
dezea nao tinha quartel. Fiaerao4het uma pralica, 
com que oa quixerao disauadir de aeguir um ambi* 
«iMO que ad qoeria gaohar noma a caala de auaa 
▼idas e fazeiidaay e ooaclnirao diaeada : « Dizemoa 
» Q que palpaflMM « quern ae qaiaer perder, deixe*- 
M ae enganar ; quem tiv^r juiao, aaberi teaaer ^ que 
n iM> p6de haver maior demencia que ler aoa olkoa 
n o praotpieio , e deapeohar-ae por goftio, m -^ Foi 
de aoao em imao a praiiea ; impiimio^^se oom ella a 
deanoiifiinfia ^n mukas aninooa meuaa firiuea na 
raaolufaa, de aorle que dtvklido a exercito em 
buidos eaminhaTa a um motiin iiretoediaveK Po*- 
rim OS capitaea mais valeroaM, aobrea e fieis uoi* 
no-m ao govenMidori ooDtendo oa soldados ; e este 
uaando de sua eoaiumada prudeacia f mandou dar 
om rebate falao, com voi que apparecia o Fla- 
ineogo ; oid^aou ao sargenio maior que repartisse 
a gente pelos postos^ e emboscadas mais (^nvor 
Biotas, divkUndopor U>das<]«amoUuados#^ A obe- 
diedcia de^Mm sem diaourso a maUciai e a repeptie 
Mtt% iembrao^ a duTida, ch^arao as uossassenti*- 
-oellal, e disaerao que o campo estava aem iuimiga. 
Foi ordem a eada um dos ^pilaes que deixaa^c^ 
-OS poaloS) e se reootbessem com a gaute, e cadar- 



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952 cASTBioiD unmiia 

qntl com a de sua <K>m{Minbia pasMiie par oiideie 
a^java o govemador dt libenbde. Eriio trtnU • 
quatro o$ capittes , e assimcomo cada nan prepaa* 
tara , o goveroador »grattdecia a obedimcia, valor 
e preBteza, com que hayia aaido a defcta da sua li*- 
b«rdade, mostrando bem o aangae portuguex que 
herdara, e os brios que tinha ; e que se algum aol- 
dad0| por Falta de animo ou de zek>y se nao atrevia 
a eontinuar a guerra, desde logo o havia deapedido^ 
porque nat occasioee senria a quididade^ e uao o 
numero; e que aa balalhaa se v^ueiao por auimoaos 
e nao por cobardes. A diversos raacfaos, que fica*- 
vao desviadoa , mandou a goTemador fiu^er, pelo 
P. Simao de Figueiredo, a meema pratica, Obroh 
o remedio com tauta elBcacia, que ae outio em 
todos o brado daaaude, porque a gritosproaieUiao 
obediencta e fidelidade a aeu governador Joao Fer- 
nandea Vieira ; q qual com a espada deae»faamhada 
na m&o, e em tok alta , disee que eatava* prompio 
a dar por todos a &zenda e a vida ; e que a qual- 
quer que fosse tao inftime e ousado , q«e se atre* 
vesse a deariar ou persoadir k menor pesaoa d'a- 
quelle exercito a nao pros^^ir na pretensao de 
sua liberdade, o hatia de mandar enforcar por 
traidor, sem dislmccao de pesaoa , nem quebra de 
palavra. 

y . Nao pod^rao oa traidorea destruir a Joao Fer- 
nandas Vieira por meio da divisao que pretend^rao 
introduzir na sua gente ; mas nem por isso deats-- 
<lrao de suas mis intensoes , que tratarao de Ibe 
tirar a vida de palavra e por escrtto. Nao se per- 
suadio que bou vesse homeue tao desam parados da 



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CA8TBI0T0 LI^SITAIfO. 253 

eottsciencia e do juixo que lal inlentassein ; mas 
isomo imfMseoi oe atiso^, com sinaes cerlos das 
pewoas etks dtligeticias, individuando as chrcums- 
Uoda^, tratoo d'atalhar o receio e[o damno pelo 
modo roais seguroe menoaescandaloso , matidando 
p6r diias aentinellas a porta da cozinha j mo dei- 
xando entrar nelia mais que um fiel escravo que 
Ihe faita de t^omer, e nomeando nma guarda, que 
de dta e de noite acompanbasse sua pessoa; e 
d'eale modo eonftindio o odiocom mostrar que des- 
presava a trakao. 

VI* Malogrados por esie modo os mtenfos da 
traicao , proseguio Joao Femandes Vieira na he- 
roica enpr^sa que haria comecado com igual zelo 
e niiO meiior inleUigeiicia. Tinha elie ja nomeado 
capilio maior a Joao Soares d' Albuquerque j com 
ordem que lenoitasse geote na freguezia da Marfr- 
bett o&m diffiflMitacao e segredo, para a acbar 
promj)ta na occasiao ; do alojamenio do Govas Ihe 
eacTeveo, ordenando-lheque aeclamasse a liberdade 
e togo marehai^e- com a genie a unir-te com 
eUe. Em 2 de Julho foi entregue a carta : com 
prompta obediencia se executou a ordem. Saio do 
sea ^figenho acompauhado de sen irmao Joao Lei- 
tea (poi^ eMe elleito capitao) 6 de Tinte homens 
de sua casa , mandando a todos os mancebos que 
pagasaem em armas , e o seguissem sob pena de os 
castigar severamente como rebeldes e remissos. 
Nao houve algum que o fosse ; antes com tumul- 
tuoso alYoroco sairao no UtmB. do bando, sem sa- 
berem os fundam^ntos que tinba a sublevacao, 
porque sd se mandata que tomassem as armas 



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2M CUXMOfO uwir AM. 

contra a iyratum bolltttdeza* Em qtia&io Mm wt 
preparavao d^fiie aobre o M^entio iqtiwbatiloa Fla- 
mengofif com numeroia partida de badtoa^ i|fia 
Tiofaao de Ip<3jttca , (ao inopioadaoiettle , que taCit 
o rebaia a o aaaalto le nao entrepox maia tanipa ipK 
o neoMaario para a nooaa gente ae rattrar a im 
moote, oMia furti^oa ao poder do irtimigo ae Uae 
a^[|(itc;araa iodoa oa chanados* Uiudoa n um coFpa 
tomiraa a derrou da Goi^au , raoolhcaido de c^ 
mmho o§ moradorea da fra|[uam de Saato Anaonio 
do Gabo. Marchaiio todoa debaixodaalMiadeiffaade 
Joao Soara« d'Albuqueaque; a poueaa jorriadaa eo- 
cootraracHM com AiMdor de Araiija eaaa ^aBie^ 
que a^yiiao a l a ii ^t ywada; e fattoa em tii oaape 
d^ quatrooemoi hoiMos obegina ao ilijam—ta 
do Covaa , oade foiio iveabidoa dotpHraraader a 
jMia oajboa wm aqurlla alegiia i^aie a Mdaa daa 
oaoocorro^^vese feaiaesUiaar pate qwdidade n pale 
nomero^ 

VXI- Creacap o al^ora^o que tiwiiia oa 
com a cbegada da aeUe lodioa ^ amajee de 
quetes biacamln^ {antra eUea ttiu daraai qua 
oa publicava ) iodoada lefoo da P,.An>naaa Plii«* 
lifjpe Caioaiio, do qiial aArnaa^, vuiha eaa mm 
^uiioeoi0camo9O?6rmder doa MiaiM HwriqMe 
JDias^ e oao podw> tacdfu* selte oia oilo diaa> A mm 
seutioeUa oeasa^ que aa admUMi a pedir aMferaa^ 
deo o govemador doua eaeravoa« 

yiU. Te?e o goato d'eata mra o (k^ms^ ^yue 
tern u>doa os d'eata vjda. Cb^gav aviao ao geeer^ 
nador da lil>erdade| qua o Fla»ieay publkaia mm 
decratoi peb quaiobr^ara^ tadaa aa mHlhematdia 



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9tu dMalnio, dc qualqser cfualkbde e Mtado que 
foiveoif que tivitMMa nnrtdos, filhos, ettnhados ou 
trmicM BO eMtdlto de Joao Femtndks Vleira , o% 
fei»em icemptalur em termo dt cinoo diss , sob 
peaa de fiMrCe e eoofiieacao de faMndas ; que er- 
ronim^mettle ae execuiarm em todas as que de- 
pots do 4onipo consignado foesem aehadas. — Sood 
tio iBol essa bairbaro riffjir noa ouridos de todos^ 
ffm nao Eoou ptasaa 4i quem mo dt>Hiaa9Be a ira, e 
o daafj oda Tingaaca ; mae soaa qoehtas krio irapo^ 
taimv porque o 4e8liumaBO hereje era inexoratel* 
Sobra tudo foi na Yarat-a em que o quadro era maia 
1. Uma relagao, queeataoeliegou ao noaso 
ipaoMBlo, dwa que en todaa ti^pe9ava o 
oaa pn%Ms6ea do eoaaaMvo, fiiBiido asobri-* 
gpoata 4b «tado aa que smia llie impomMtitaTao 
e ioaiidio. AqueUaa^ ^ quaei a notmma fifiN« 
aempre noethkka, o enalttiDe 4^ grfttio Ikea im^ 
podia a fiaga. Aa q^a a^ riao rodeadas de ittioa^ de- 
ydas do amor, « jMMngadaa da rmmt^, nao tifihao 
aaeollMipwa ft|(ir ou para pa d eecr . Aa donzaUas, 
1^ perdereea a siaia pnoioaa joia , nao sa<^ 
^dhebar a can, ou^m buaear 
> e aa caaa ae Ibe wypc sa a -^ 
pori^o^ Em tedaa gemia a aflieoao 
kmaeia, wm oaitea <eofiaolaoaD mais, 

» a ique danM lioiaa iagiiaaaa a oalraa lagritt^ 

eoccorao, «pia o da mis aMpireaa ou* 

fiiirmdn apue neukmtt ihea podia 

o 4eaejo da fUU, 4fm aa wm Ummmt a 

A%umaa hmawe que iMmeairao o malo , 

piW|M ae Ihaa MpnaauAava m moria aaeima Ma^ 




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256 GASraiOTO USITiMO. 

c^QAsideraodo que nas £era8 tiobfto o loroieDto 
G6r to, BOS. bercjes o tormeolo e a iofuria com igual 
iinpiedade. OatriA^ com eaperanoa duvidosa, bua- 
cavao dila^ao a peQa na extensao do leanpo : por 
as casas dos coofidentes soUciUrao a magoa cam 
qua as ^acoodiao, e o martyrio a que se coiidem- 
luivaot dormiiMlo peloa p^ das arvorea, com o so- 
braialto de m buacar a espida a toda a liofa, e de 
esteader o caaiigo a quem Ihes permiuiaoamparo ; 
e lodas , deaconfiadaa da yida, traUTaa das coiitas 
que baviao de dar a Deoa , a qaem offereciao Ia- 
manhas iribulacoes. Sxoeasivo foi o peaar, que 
eau rek^ causou a iodo o exercilo ^ lasUmaodo 
a UM por mteresaadoa, e a oulroa por coiHbidoa; 
porfim mais que esoeasivo o que penelrou o cora^ 
cao de Joao Feroaiidea Vieirai ao qual (eriaQ juAtoa 
Oft aeolimeiitos de eada um« Era dewdor a iMiima 
de lodoa y oomo causa , e aoouaelhado cava a divida 
mlindou fixar por todaa as partes publicaa do Ar^ 
recife outro edilal do iheor aeguiaie. 

iX. « JoIk) Faraaades Yietra, govaraador das 
A) armas na emprasa da Uberdade doa movadores 
» da PeraambuQO , e das mais capttaniaa atymtas 
K as armas hotlaadeaes : Por quanto nos veia i 
n noCicia o barbani e crudi decrelOy que a lyraiuiia 
» hoUaiideaa fukninou contra aa kis da iwUiCMa 
^ e da politica doa homens , eondemBando ao riQor 
» de anas anMs aqualle acm que a eoricaia das 
» gailea respeita , e a natural li«gittdade escuaa 
H da kxk a boaiilidade edeaacato, com mandar as 
» mulheres de aossa obrigacao que^ sob peoade 
» mono / ae desterrem de suaa ^casaa ( por motive 



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CASTRKm) LUaiTANO. 8ST 

» em que nao padiao ter parte) violando aifuelle na^ 
» ttiral foro, que as isenta de (odos os impulsos da 
)» ira eda vingaa^a , coDtra o qual s6 cobardespode* 
> riao delinqtur. Mandamos a todas e a qualquer 
D mulher de qualques qualidade e estado y que de* 
» baixo de nosso seguro se deixe estar em sua casa 
» (coBdo desohrigada de obedecer a preceito lao bar^ 
» baro), tomando per nossa conta a vinganca do me* 
» nor aggraYo que o Uollandez Ihe fizer ; e juramo9 
» tomar delle tao exacla satisfacao , que com ella se 
» eternize na memoria das gen tes o crime e o cdstigo, 
h e servira a exaccao do estrago de gritar em todas 
» as idades a horribilidade do delicto. Dado nesta 
M campanha da liberdade rai 1 5 de Julbo de 1645. 
n JoAO Fbrnanpes ViBiRA. » Flam«[)go, que leo, 
e y\o este edital fixado nas portas de snas mesmas 
(brtificacoes, ficou tao atormentado, quesuspendeo 
por entao a execucao do bando. — Poucos dias de^ 
pois cfaegou nova ao nosso alojamento da execrarel 
atrocidade que o rnimigo execulou no lugar de Gu^ 
nbauy em a manha de um domingo 16 de Julho, 
como fica referido por extenso em numero V do 
lirro V desta historia. Fez esta nova grande aballo 
nos coraooes dos combatentes» e accendeo em todos 
o fogo da coragem animado com o desejo da vin- 
ganca. Todos se dispunhao a rebater denodada-^ 
mente o inimigo, mas sendo informado o governa^ 
dor da liberdade que era grande o poder com que 
vinha atacal-o , e conhecendo que o sitio nao era 
favoravel para a defesa , chamou a conselbo ^ e de- 
pois de ponderadas as inconveniencias do (orreno j 
se assentou que seria ruina de todos esperar-se o 
L 17 



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kumiga AtqueUe lugar; e que logo Be fauscasse 
outro, em que concorreieein os reqmdUoB que 
pedui apratenle ocotsiao. Pdos soldadoB vma intel- 
ligeatet mandou o sargento maior &zer esta diii* 
gencia* BreTemente voltmo, feita escolha d'um 
■onte que chamaviio das Tabocas ^ que Antonio 
Diaa Cardoco aq)provou, pdo conbacimento que 
tindba d'elle , como Tersado no terreno que sabia a 
palmot. Logo mandou o govemador marcbar o 
e^emto para aquelle sitio, e ae alojou no mail alto 
do outeiro. Deixou o akjamento do Govas (onde es- 
teve vkate e doua diaa) em o ultimo de Juttio^ord^ 
naado ao capitao Antonio Gomes. Taborda fease 
preeocupar o angenho de Balthazar Gon^alvea lio- 
xeoD (l^oa e mek distante do m(mte daa Taboeas), 
part que d'alli previsie todas aa entradas que po- 
diao guiar para o posto etoolhido; e ordem que, 
ae o inimigo tomaase alguma daa yeredas, o reoe- 
beaae com a primeira carga^ e nao deaiatiaae de o 
entreter na retirada , faz€»do4be avttoa de tudo o 
que Ihe pareoeaae neceasario. — Tabocaa ^ o meamo 
que un^ especie de cannas bravaa , mats groaaaa 
que 4u9 de Portugal^ rodeadaa de puas tao agudaa e 
aolidas,qiieaanao deaponta qualquw of^ioaigao. 
Produa a natureaa aaqueUas partes estea cana^eaea 
tao denaoa e compUcadoa que oa nao pode romper 
a for^a , senao com os yagares da arte. Pela muita 
copia d'eatus cannaa, de que aecingia aquellemonte, 
U^ chamaTao os naturaes o monle dasTabocaa. Si- 
toou a natureza este monte nove fegoaa do Airecife 
para a parte do poente, pela qual o cinge um rio ao 
largo, chamado Tapkura^ pohre pela fonte, e ao- 



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CAfiTRlOTO liCSlTAIfO, 859 

berbo no inverno pflas agua^ vertcntes , que en-- 
gfdssao Ma C6#itente. Entre o no e o monte ^ 
tttottra trrtra cstmpiina quie'elha para o snl; ter4 
«eiaqtiatto de legoa de freilte, corfendo atd o 
Tabbcal , tjue cirige o monte por aqnella parte, c6m 
ciiicoehta p^ de groteo em todo o precihto. Dentro 
d'eaile taboeal esla ontra planicie de menor extensBo 
qne a primeira , kdeada tatiabem de 6utr6 6iiito de 
tabocal de ihenos grosrara , que ao modo de trin- 
cheira corre vlU ao alto do monte, O dmo d'ellesi^ 
T* cercado^ pela parte db sul, d^uma mata de grossaS 
e empinadas arv<W^ sissitn bastas que compunhao 
nm forte muro, por aquella parte' orlada d^un^ 
fao^a de tabocal. Pelalsi costas do monte para o Nas- 
cente e^tara um caminho antigo, que senrfra & coh- 
duccno dorpio do^Braxil, que se tfrava d'aquelte$ ma* 
tos, detodosesquecidopelo deraso.Dmd'legoa e tneM 
d'este moAte^ para o norte, existla uma hermida 
dedicada a Santa Antao abbade, de cojo fevor e^- 
peravao' OS Moment a seguranca de seus'garfos'^ 
pehs mtiilaj^ feras qiie p(rodu2 o lerteno; e al^- 
liMw casas terreas ; que diamatfio cMarde do Btaga-! 
Tiome que Hie deo o appelKdo d^ sett lundadoi^. 
€omf eafi descripcao do lugar, em que se deb a 
fmtfllha^ fiterao claros ao lehor t>s incidentes do 
tjonflicto. 

X. Ghegou a noesa gente ao Tabocal , e dentro 
d'elle se alojou em modo d'arraial. No mais alto 
do monte se consignou estancia ao governador ; e 
pelas ladeiras se armarSo tendas , e se levant^hrao 
barracas para os niais ofiitiacs e soldado* se recc/* 
-therem^ em rataa das^ chutas , por ser no-tcmp6do 



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340 CiSTBIOXO tOftlTAKa 

iiivecDO ; guarnecdrao-se as eniradaa e po»tos ne-- 
cesaarios dos soldados de nelboir opinio ; deitarao- 
se aenlineUas ao largo, e forlifi^u-^ o arraial no 
Diodo que o permiitio o iugar e o tempo«-*-NesU 
occasiao e.neate silio inostroul^em o governador 
Joao Feraande3 Vieira que era seu zelo igual a seu 
valor. Teve ceria iuforma^ao de que naquelle des- 
tricto vivia o P. Manoel de Moraes, apostata da 
fe e de seu Eslado^ rePinado hereje por obediencia 
e por observaucia, segiiiudo, pr^gando e defen- 
dendo os erros de JLuUiero e de Calvino : nao ardia 
uo peilo dp goyernador meuos o ^o da religiao , 
que. o fervor da gueiTa. Mandou bu^car preso o 
apostate; chegou este aseus pis banhado em la- 
grimas; protesiou emeoda^ e com religioso pejo 
pedio ao governador fosse ser vido dirigU-o^ para que 
o tribunal a que perlencia o casligQ se houvesse 
com eUe com a custumada brandura e piedade. 
Abjurou logo a communicaj^ao dos herejes ; pro- 
melteo a uniao dos catholicos^ e nesta occasiao nao 
deiiou o lado do goveroador^ .animaudo os solda- 
dos com qm crucifixo uaB maos« Por feliz aonuncio 
d'umagloripsa victoria teve o governador esia coo- 
yersao^ esperando da piedade diviua que assim 
como llie dera for9as para tirar urn arrependido 
d'entre os obstinados, Ihe assistiria poderoso para 
castigar aabstina9ao de tantos precitos, premiando 
seu zelo com os triumphos de sua fc. 

XI. Nao se corregirao os traidores com as sa- 
bias e geaerosas disposicoes que tomara o gover- 
nador; autes devorados d'emula9ao crimiaosa bus- 
carao todos os meios para o destruir. PubUcarao 



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CASTBIOTO LCSITAKO. Ml 

que ludo quanto o govemador dizia da vinda dos 
governadores de Indios e Mioas era fingimento c 
engano : com a tardartca persuadiao a descon- 
fianea^ assegurando o perigo na falta do soccorro, 
e d remedio na morte de Joao Femandes Vieira. 
Diziao que a salvacao de todos consistia em malar 
k cara descoberia a qiiem os arriscara, e em se en- 
tregarem todos ao Hollandez y desculpada a rebel- 
litto com o supplicio da cabeca, Avisarao o gover- 
nador da praiica dos autores da perfidia, e dos in- 
teniod d'ella^ e foi admiraTel a prudencia com que 
o magnanhno varao acudio com medicamentos 
lenitivos a atalhar o mat, curando a ferida sem 
escandalizar a chaga. Dobrou as guardas de sua 
pessoa, affastando de si^ com apparentes causas, 
aos snspeitos ; ordenou ao sargento maior, que se 
alojasse junto & sua estancia ; despedio quarenta 
soldados que fossem esperar o Gamarao e Henrique 
Dias, e os conduzissem para aquelle sitio (dando 
assim a entender que sabia nao estarem muito 
distantes); mandou guamecer os postos mais ar- 
riscados ; e ao ^rgento maior que os repartisse 
pelos cabos e soldados mais confidentes. TRio des- 
apaixanado acudia a ludo o que era necessario 
para a resislencia e para a defensa, como se o nao 
occupara outro cuidado : cobria as causas do receio 
particular com a applicacao do bem commum, sem 
que sua vigilancia fattasse nem a prudencia de go- 
vemador, nem a obrigacao de soldado. 

Xn. Ja neste tempo marchava o Hollandez com 
disciplina , formado lodo n^um corpo ; a que se 
reunirao os tei'cos de Henrique Hus e de Joao Blar, 



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aft2 GASTEIOIQ M«Tiaa 

9 a {]fei)jl)& tiy^(]a das pre^ios , o que tudo fittia 
q n^V^xero de mil e quinhentos s«ldado$ praUeos e 
^8coUudo$, bem anjoado^a gi^acnecidos^ mos*^ 
qv^l^ e chLviaas reforcadas, Avultava p ex^rcUo 
mats que outro laito com a gpapd^ luultidao de la* 
dio$, a maior parde lAio^qwt/eiros ; frecbeiroa of 
oiUro3, e exercUado$ pa milicia^ Com eaie exercito 
a^sim avultado em for^a^ a?ira Hemique^ Um di9 
povoa^o de Sao Louren^o tao seguro da victoria 
que Ibe qao dava cuidado a bataiha : a esperaaca 
do$ de$po|09 apre$3ava a n^rcba doa soldados p de 
lorte que vexicia o tempo. Tom^rao a vereda que 
guiava para o eugeubo do Covas, ooda oa cbamava 
o aviso (ainda uao sabiao que a m>3sa gente tiuba 
melborado de aU)^meuto)» CbegaraO| e quando 
virao tudo desemparado , quebrirao a furia em 
qaafidar p6r fogo aos cdiGcios , xjue erao de uobre 
fabrica, ^^ D'uma emiueocia yao uma #entinella 
no$sa o fumo da9 chama^ e com preateza d/eo couta 
ao governador da Uberdade da parte oode ardia o 
fogo. Sem d^i^cao maudou o sargento maior o ca** 
pitao Joao ISunes da Mata com viate $oldadoa a des* 
cobrir o campo, e ordem do que baviao de fazer se 
aTistassem o inimigo. Neste tempo cbegou um soU 
dado do capilao Ai^tonio Gomes TaU)rda (que por 
ordepi do governador ficara no engenho de Bal- 
thazar Gcm^alve^ Moreno) com aviso da mar<^a do 
immigo , e d'um encontro que tivcra com a sua re- 
taguarda , que oonstava de quatro centos Hollan* 
dezes, e ^m eoquadrao de Indios, aprovcitando-se 
dos matos para esQonder a dcsigualdade do numeroj 
(eraoo$no8so8 du^entoa e <juarenu)ecoineinbosca- 



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cbt e mtestidos o yinka en&dftiido> e cntreteiido e 
Ihe tinlu morto catone HoUaiideies^ smn qoe o 
Flamei^ deixasse a marcha^ nem a nossa gente a 
opposi^o ai6 ordem de ma senhork. Mandovi o 
govemador ao sc^dado , que Toltaase, e disseMe ao 
seu capitaoy se retiraase em boa ordenanca para 
aqBetle sitio , porque nelle se ha via de esperar o 
inimige. 

XUL A certexa e viainhanca do conflicto, como 
BO¥a cauaa , loflammou novo zelo e alvoro^o no 
animo do governador Joao Feraandes V ieira , de 
sorte que com p logro de seu desejo galaateava a 
moleatia de seu cuidado; o gosto Ihe vesda o sem- 
Mante das corea do peito. Mandou fbrmar o exer- 
cilo, e se poano coracao deUe» com (ao alegre rosto 
que parecia communicava a toda a circumferencia 
a viyeza dos espiritos , de que se alimentava seu 
animo, e com similhanies palavras o mostrou. 
« Chegou^ senhores naturaes, companheiros e 
» amigos y para todos a melhor hora ; pois certo 
A que melhor hora ^ a da satisfacao que a do de« 
>» aejo. Nao sei eu que melhor hora podia desejar 
m nossa vingan^a que a de tomar cada qual de nos 
» intetra satisfacao de tanta injuria, quanto nao 
» podera especificar nosaa memoria. Ategora viao 
» nossos olhos disperses os aggressores de nossos 
» damnoa com a impossihilidade de nao poder o 
H goipe castigar a um j sem ficar sujeito A espada 
» de todos. Hoje os trai aqui juntos sua culpa e 
» nossa dila , oflferecendo-nos a gloria de ser cada 
» um de nos o restaurador de sua honra , e o re- 
>> demptor de seu oantiveiro. PiHra tap bri09O8 afw- 



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SM CASmOTO UJSITANO* 

ji mos, cBcusadas sio exhortacoes, pois sobcga em 
n cada um com o sangae portu{;uez o esiimi^o de 
w sua obriga^o ; e nao dira o mundo que degenera 
» Ha America aqueUe valor que assombrou toda a 
>y Aaia J e que se a foma nao divulgou iguaes proezas 
M d'um e outro clima , foi porque as occasioes da 
» Asia faltarao na America, Nao gasto tempo em 
)» dispor o braco , que em toda a parte e em tx)da 
» a ocoasiao acbarao os casos disportos, porque me 
> 6 necessario para representar a todoB a pedra 
» de nosso escandalo : afiadas nella nossas espadas 
i) feinrao com melbor corte. Entrou o HolUndez 
x> com armas e industrias a faz^r-se senbor de 
» nossas fazendas, de nossas vidas, e de nossa U- 
n berdade, e em poucos dias experimeotamos na 
» sujeicao nossa total ruina, tratando nos subditos 
» como a escravos veiididos. Na maior miseria pa* 
» decemos a maior aflronta, dominados d'um poder 
» que conbece o mundo nao pdo valor, senao 
1^ pelo engano ; espantando seus progressos a Eu- 
» ropa mais pelas traicoes que pelas conqutstas : 
>» aquellas, e nao estas, nos tirarao da mao a es- 
» pada que nos primeiros annos corlarao o fio a sua 
» fortuna. Ao passo de nossa desgraca creaceo sua 
» iudolencia, feriudo-nos sua tyrannia com tao 
» deshumano bra^o, que nao pod^o as feridas 
» acbar cura, nem na paciencia, nem na queixa. 
I) Quentes estao as cinzas das fazendas abrazadas , 
» aberlas as cbagas das injurias padecidas, frescas 
n as lagrimas das pessoas atribuladas, e sempre 
i) levautado o ferro desles iulmigos para coiHinuar 
i> OS golps, sem nos d^ij^ar a menor espera^^a de 



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CASTRIOTO LUSITAHa M5 

» Tennos abaikk sua exorbitanie soberba que, se 
n para a vilesa i kldb^ para a honra como deixari 
)» de ser escatidalo ? P6de sua industria fai6r<^iio8^ 
» SBJeiios ; maa nao pod^o nunca seuB procedv* 
» meotos fazerHKis amigos. Alguna o mostrao ger 
>) que me oovem , e sei eu que a bastardia de seus 
» animos produz eetes effeitos ; porque ha naturaes 
» lao malevolos j que se veem arder no fogo que 
» ateiao, e se deixArao eonsummir^ porque sua in- 
» veja nao deixe de os abraxar ; govemao-se pelos 
» diclames da malicia , e tropecao nos erros da 
» paixao. IMzem que nos peiNdemos y porque nao 

> nos desviamoSy pesando na desigualdade do poder 
» a certeza do perigo ; e nao sabem igualar a ba- 
» lanca com o peso da razao, nem advertir o poder 
j» da juslica. Sao as maos da escolha as que tecem 
» a eor6a do triumpho : e em veneer o maior risco 
n consiste a maiorldade da victoria. C!om a falta 
» do$ soccorros persuadem as ruinas ; e nao aten- 

> tao que poderia ser esta todo o bem de nossa for- 
» luna ; e que sua lardanca seri disposicao da di- 
M vina ProTidenc^. Quantos menos entrarmos na 
» batalha , tanto mais honra ganbaranos no con- 

> flicio : repartida peios que assisiem a poreao dos 
» que faliao^ e forea que tenlia cada qual de n6s 
D maior parte na victoria ; della nao p<ide duvidar 
» quern tern a Deos em seu favor ; e n<(s sabemos 
» que pelejamos com gente, que faz gala de oifen- 
» der a Deos* Os pedacos das imagens sagradas , 
» as pedras dos tempios destruidos, os corposdos 
D catholicos despedacados, os aggravos dos sacer* 
n dotes escamecidos, que sao senao armas^ que o 



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» ceo Boa d4 pt» (tetmir e8tes hcwjes ? Pura^ 
H: imbU viBS^^a catio 60 ascandalosos sacriW^ t 
M exwnte-ie iwwo hn^o com aqndle vigor que 
jjk hm tconselha noasa {*• Ncste cncontro eonaisla 
i» iioaea tihewlwte e uoasa stlvi^; porqoe at a 
>i despreziottoa, paaaamoa da fortuiia dc captivoa A 
H nj^ria de apoatataa ; que nio deixari o inimigo 
j» de introduzir a hjer«zia cm animos que sujeita a 
j> vileaa ; c ficarao nosaoa filhoa herdeiroa de noasa 
» condeama^ e de nossamiaeria. » 

XIV. Aqui chegava a fervoroaa pratica do go- 
.vernador, quando Ihe cortou p fio o estrondozo 
rumor d'umaicar^ de moaquetaria,.cfaido e rece- 
Jido do3 vime aoWadoa com que o capitao Joao 
Nunes da Mata fwa deacobrir o campo , seguiido 
aa ordena que recebira do governador. Chegario 
0$ deaoobridores is Tabocaa, dissmK) o que virto, 
e coim) o HoUandex ae yinha chegando para a paa- 
si^cm do rio Tapicura. —. Nao se perdeo tempo 
entre a notidae a dispoaicao. Guarneceo p aargmito 
maior tres emboacadaa que tinha maudado abrir 
iw>s Tabooaea da campina, em fdrroa que umas se 
cobriao a outr«», com a suffici^icia de aolckdos que 
pedia o intaito e o lugar; e comordem a todos que 
de noihuma sorte largassem o posto, aprovritando' 
se do giro para a coiitinuacao daa cargas. A pri- 
meira emboscada eatregou o sargeuto maior aos 
capilaes Joao Paes Cabral , e Joao Peasoa ; a segnuda 
ao capitao Paulo Yelozo; a terceira ao capitao An- 
lonio Borges Ochoa. Os outroa capitaes repariio 
com prudente e militar aitencao pelos mais poatos, 
m^diodo a aufficiencia pela importancia ck ciid(| 



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cAaxuioro iJwixAiia, Sfti 

urn* goveraador JoaoEemaudes Vi^irtj oobi um 
^rosiM) l)a(albao occupou o xnais alto dp lugar, paia 
delle ver ^ acudir cgm soocorro as partes a cmde o 
pedisfie confliclo. Ao capitao Doxoingos Faguude^ 
ordeoiFao, que com aua companhia fosse receber o 
inimigo jia passagem dp rto Tapicura, para o ea* 
treler, e guiar para as emboscadas.— *£in 3 d'A* 
goato cb^gou Flameogo ao rio^ e lemendo qw 
por eatre o^ deosos arvoredos de suas margens o 
esperassem algumas emboscadas^ maodou empre^ 
gar oelles luna cai^ serrada de toda sua mosque- 
taria, acomponbada d'uma coafusa grita do geniioi 
ciijo echo eucbeo todas as coneavidades do coa-- 
torao. Debaixo da auvem que cau$ou o fumo da 
polvora^ epmmeiteo a passagem com animo dester 
mido f que o capitao Fagimdes repr^mio j e sobre* 
saltou com valentia edeatreza^dandp luaa e muitas 
cargas ao iaimi^o de cara a cara , sem quaca a 
virar aa re^rada, com que guiava o Flameago 
para as emboscadas : iacorporou-se com a aossa 
geate da primeira com tal arte^ que presumio p 
Hollaadez ser medo^ o que era ordem* Tinba che- 
gado aquelle posto o sargeato maior» chamado do 
estroado das cargas ^ das algazarras do geatio; 
vio que o iuimigo, em esquadrao fechado, costeava 
o Tabocal, e ordeaou a primeira emboscada d4-se 
a primeira carga ; o que fez com tao bom emprego 
que aao perdeo tiro, Eatre os mortos, o ficoud'uma 
balla um Flameago > aa oppiaiao dos sens o aiais 
valeatC) e como tal escolhido para capitao dos 
a¥eatureiros. Coatiauou o iaimigo a avaa^ar sem 
£azer caso da perda ; mfis deteve a furia com a carga 



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S68 GASTRIOTO LUSITANO. 

da s^unda etnboscada , que com maior damtio o 
descompoz de sorte que, embaracada do estrago, 
deo lugar a que com a cfaegada do segundo esqua- 
drao se engroasasse o primeiro , e recebesse com 
mator damno a carga da terceira emboscada : no 
mais crescido nurmero fei tanto maior impressao ^ 
que virou o Flamengo a cara ao perigo, dando 
muitos passos atfaz^ na marcha e no orgulho. 
Quiz entao o governador , que estava impacienle 
de nao entrar no conflicto, avancar 6l espada como 
soldado valenlc sobrc o inimigo; mas o sargcmo 
maior e todos o detiverao, fazendo-lhe ver que 
elle era a cabeca daquelle corpo, a quern pertencta 
o disp6r, e nao o avancar ; que obedecessem aos 
preceitos da miKcia os impulsos do animo, pois 
sabia que a seguranca de todos consistia na sua, e 
que mais servia & victoria com mandar soccorros i 
necessidade que com exemplo de sua valentia; 
porque arriscando a pessoa > pelejava com um braco, 
e govemando a todos , pelejava com muitos. Obe- 
deceo 4 razao, fazendo mais em se venoer a si mesmo 
que cm querer investir com todo um exercito. 

XV. Advertio neste tempo o sargento maior que 
o inimigo fazia da retirada conveniencia, formando- 
se por diverso estilo, e que devidia do corpo de 
seu exercito um grosso para rebater os nossos capi- 
taes Antonio Gomez Taborda, e Joao Paes Cabral, 
que com suas companhias Ihe descompunhao os 
esquadroes pelos lados , e para prevenir o nao ser 
acommettido pela rataguarda no tempo do combate: 
com todo mais poder avancava a romper o Tabocal 
para nos ganhar o posto, onde estava formadaa 



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GASTBIOTO LUSITANO. S69 

noesa (^ente. Sem turbacao, nem tardanca acudio o 
sargiento tnaior .& resUtencia , medindo a defensa 
pelo modo da invasao. Formoo tres esquadroes, 
para se opporem a for^a por todas aquellas tr^ 
paries que o inimigo no8 buscava. *— As poucas 
arma8 de foga, com a falta de polvora e balk , que 
se comecava a senlir, era o que Ihedaya major cui- 
dado. Cobrio a falla com a industria, dizendo aos 
soldados que aquelle que nao tivesse municoes se 
Cosse a tenda do govemador prover com teR)po , 
porqueocooflic(oonao achasse falto; exortando 
a todos com animo tao pacato j que infhiia nelles 
noTos alfntos. Continuavao os nossofi a rebater 
oom repetidas cargas. quando uma balla conlraria 
Serio o capilao da prinoeira emboscada Joao Faes 
Gabral ; aao quiz este que o retirassem do eon-^ 
fficto^ aates se eotranbou na maior profia da ba* 
talba, ale que segunda balla Ihe tirou a vida , que 
bem cara yendia em prol da liberdade« Igual sorle 
teve o alfiares Joao de Matos ^ que uma baila Ihe 
deo pelos olhos, e com a vista Ihe levou (ambem a 
vida. 

XVL Muito louvavel foi o zelo com que alguus 
reli^oeos e sacerdoCes desc^rao do monte ao lugar 
da batalha, nao (emendoas ballas, para darem conr 
forio aos que pelejavao , e absolvi^ao aos que ago^ 
uizavao.Os que mais se distinguirao foraoos Padres 
Fr« Joao de Rasurreicao , Simao de.Figueiredo e 
Joao de Araujo ; os quaes uao so se occuparao so^ 
Uciios em seu piedoso exercicio, mas acudirao a 
deter o goveruador, que segunda vez queria preci* 
{Nita^-se sobre o inimigo. P. Simao de Figueiredo^ 



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S7d GASTRlOtd L091TAIfO. 

que stibia pela lad^ira no momento que o gover- 
nadof ia descer, Jhc r^preh«ideo Ma fViriosa deter- 
miodcftOy a(ictisando-a de temeraria, e o (teK obc* 
decer aod prcceitos da milicia. Nunca maift se apar^ 
tou de sua iifaarga , porque bem conhecia qvMt 
erko OS pengos a que se expunha a vida do goTer- 
nador^ e nao menos o bom exito da lota. Com esta 
advertencia ofez occupar o po^toque Ihe convtnha 
donde rio como o inhnigo chegado a porta do Ta- 
bocal profiaTa em romper a resistdneia , qne Ihe 
impedia a inyasao, e foi soceorrendo a defensa ^ 
despedindo manga» de sold^os a ter o endontro do 
Flamengo por aquelles partes, que mostrava me- 
Ih6rar-se ganhandio terra. 

XVII. Entre umas e outras armaB andava o sar>- 
gento lilaior Antonio DiaB Cardoro dispondo tudo 
com admiravel talento e valor, quando descobrio 
que o inhnigo carregata com mttior poder por uma 
parte, ondeos nossosnlal !he podiao resi^tir ; man* 
dou logo soccorr«l*o6'pelo P. Simao de Figueiredo 
cotn algtimas mangas de soldados. — -Dtirou ocom^ 
bale por mais de uma bora com igual constanefa> 
ainda que nao com ignal numero, at* que vendo o 
Flamengo que n^da podia obter peltf forda, st 
valeo da industria^ lancahdo pelas ilhargaB do Tin 
bocal algumas companhias ^ com ordem que fize9* 
sem o possivel por ferirem as castas do» Portu* 
guezes ; por^m a vigilancia do govea^ilador o en* 
tendeOy e despedio de sua estancia dous trocos de 
i£o talerosos soldados , que em JH^ve tempo rebft^ 
teraoasmangascontrarias, easdestrulraOy segnhKhv 
lh€ aleanee b\A se recolherem aos eaquadMei 



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doade bayiao saido, mas com tamanho desaUno 
que o HoUandez aflfrowxou o combate, poracudir 
ao degbarato dos seus, que vio postos em verge- 
nboBafugida.Fea&aindanovoa esforgos para ganhar 
terra ; maa vendq que a alegria creacia em os nossoa 
8oldados , e nos aeus a triateBa e o desalento^ de- 
poia de dua9 boras e meia de proGada luta , tocou 
a retirar e deixou o combate com grande perda de 
aua ^enCe* Carregou o capitao Jeronymo da Silva 
Gooa 96 viute aoMadoa, mas com lanta gentille^a, 
que Ibe yeodeo a fortuna a gloria deate dia per 
duas pelouradaa mortaes. Mao menos barato coib« 
prou o capitao M atfaeua Ricardo o eaelarecido itome 
queganbou oeste conflicto. Oulros miutos sdkkdos 
fioaaos derao neale dia a yida peU liberdade da pa* 
tria, qua mereciao agora ser coobeeidos pdo nome 
como entao o ibrao pek> bra^o ; mas aeryio*lhe sea 
humilde nascimeuto de desculpa it iogratidao doa 
yivos.— ^Nao desisUo ainda o inimigo ; antes pondo 
em odrdem auaa fileiras^ ae diapiiolia a ioveatir de 
aovo^ quando um vatente Flamengo, obainado Ya- 
lot> sargenlo maior do terco de Joao Blar, aaio 6^a 
d'ella para tot a noasa diq)oaicao , e tentar a parte 
per onde melbor aoa poderia inveatir ; como moti-* 
tava em um cayalbo» o ptecou facilmeate uma baUa^ 
tirada com pontaria tao certa , que perdeo junta* 
oiBBnte a sella e a viday e pelas aucas do cavallo veio 
ao cbao. Com nao menos magpa que perigo o reti- 
i^irao OS seus. Cb^va o dia 4i quatro boraa da 
tarde^ e como Henrique Bus adverlisse que. as nos- 
laa cargaa erao mais remissas , imaginou que era 
faUa da aoimoi que foi necessidade de poupar a 



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37S CASTRIOTO LXJSITAlia 

polvora ; fez da suspeita motivo para animar os seus^ 
e investio pela quarta vez a entrada do Tabocal, 
com aquelle furor que alimenta a desespera^ao. 
Aqui se vio a nossa gente em conheddo aperto , 
porque cansados dc malar e ferir sustentavao o 
po&to sem poderem morer o bra9o. Nao assim o 
Flamengo , que com gente de refreseo repartia as 
horas do trabalho por muitos, e tinha sobeja gente 
para tudo. Com esta vantagem nos cansou de sorte 
a profui do combate, que a muilos retirou a falta 
do alento , com que nao podia respirar o animo. 
Foi o inimigo ganbando as embo8cadas at^ arros- 
tar com a segunda campina , levando diante de si 
a nossa gente, que se ia pondo em conhecida reti-« 
nda. P. Manoel de Moraes, que cooi fenro- 
rosa deprecacao chamou os olhos de todos a uma 
devota imagem de Christo crucificado , que trazta 
aryorada, assim animou os fids, e confundio os 
herejes, que bastou a venara^ao de uns e o pavor 
de outros, para que a foriuna se desconhecesse a si 
mesma. Em vergonhosa retipada forao os nossos 
pondo o inimigo. governador Joao Fernandes 
Vieira , vendo que a occasiao o chamava , disse aos 
soldados que o aceompanhayao que prometlessem 
a Mai de Deoe um templo dedicado ao seu desterro 
se Ihes concedesse a victoria dos inimigos da patria ; 
e descendo do monte carregou o Hollandez de tao 
pesados golpes, que, corlado do ferro e do medo, 
perdeo a terra ganhada , e se retirou de todo dc^ 
composto ao batalhao , que na primeira campina 
teve sempre formado. Incitados do furor seguiao 
OS nossos alcance do inimigo vencido ^ quando o 



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CA3TU0T0 luutaho. ^ 

governador mandou tocara recolher. Sahia e pru'* 
dente resolucao, porque na campanha nao era igual 
a npssa vantagem^ e concentrados do Tabocal iguo* 
rava o FlameDgo o numero^ e com o brado da ale« 
gria que ahi se mamfestou concebia maior terror^ e 
parecia-lhe maia formidavel seu estrago. Este con- 
flicto cusiou caro aos HollandezeS| que deixarao 
o campo juncado de mortos^ e alagada a terra no 
sangue dos feridos; naoassim aos Portuguezes, que 
s6 tiverao tres morlos e nove escalavrados : suo 
cesso que a todos causou a$sombrO; e a muitos 
pareceo milagre* 

XVIII. Apezar da graude perda que tiverao 08 
Hollandezes ainda j^e nao derao por vencidos de 
todo^ antes yendo que os nossos se recolhiao ao Ta- 
bocal, timao de nossa suspensao motivo para nova 
ousadia^ e cpmo desatinados avancirao outra ves 
ao Tabocal ; mas ach4rao tao viva opposi^ao dos 
Portuguezes, que Ihes pareceo augmentarem-se as 
forcas dos moradores com a continua9ao do traba.-<» 
Iho* Ji a nenbuma das paries lembrava a viotoria^ 
porque uns e outros pelejavao por defender a vida. 
Embebibosnabatalha, nao ficava sentido livre, nem 
para ouvir as vozes dos moribundos, a6 os p^s davao 
fe dos mortos, que conheciao pielo embara^Oi nao 
pelo vullo. Nao se distinguiao inimigos de amigos 
pelos semblantes, senao pelos golpes, com tao hor- 
renda confusao que se davao as feridas com os ins^ 
trumentos do reparo; por^ como o Flamengo 
nos fazia tantas vantagens no crescido numero dos^ 
soldados, que aos feridos, cansados c mortos sue- 
cediao outros descancados e saos , forao os nosso* 
I. * *8 



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i7ft GAamniro litsraiio. 

perdendo terra , sem que o fuiVnr tteixhsde ftdteflir 
({udes a perdiao, e quaes a ganhavao. — O goter- 
nador Joao FemandeiVieira, que, fora do con- 
flicto, ficou com os olhos livres para ver a que parte 
ie inclinata a victoria , e que para o maior aperto 
guardara o melhor soccorro , pondo bs olhos ua 
^agrada imageU), queo P. Manoet d^ Moraes trazm 
arvorada^ebuscando a intercessao onde esperava o 
fevor, disse em voz alta para o^ seas : « Seuhores, 
» rezemos de joelhos uma Sahe Regina i Mai de 
n Deo^, certos de que ^ua piedade nao fklta em 
» buvir a quem a chama. » Tal confianca influio 
em aeu auimo esta deTota diligencia , que a todos 
assegurou a dita, e persuadio a investida. De cor- 
rida com OS $eus se metteo no mais forioso do com- 
bate, matando e ferindo inimigos com golpes tao 
desusados, que a espada em sua mao tihha menos 
de ferro que de raio ; sem differenca cwtava ao 
Tfeinho com o fio, e ao dislaute com o medo^ Ser- 
Tio o exemplo 4 imita^, com que os Portu- 
guezes arraudlrao do campo ao iuimigo descom- 
posto e temido ; e sempre carregado die noasos 
golpes ate o Bm da campina , a onde o rio, que 
buscava para o tranzito y Ibe advertio o pertgo , se 
nao esperasse o favor da noite. •^ Deixou o Iiol«- 
landei no campo todas as municoes, e grande parte 
ditt armas, que na precipftada fogtda mais Ihe 
serviao d'embara^o que de defensa. Na prhneira 
tigiliada noite, em que a escuridao, a tempMtade 
e a creccnte do rio pod^iio embargar a rcsohicao 
mais arrojada, o vadeou o floilandez cbm determi* 
na^ entendtda. Pareceo4he que se o dia segmnte 



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CASTMOTO lUatTAIfO. 275 

o achasse tiaqudle sHio, os seus deminutos e afflio- 
tos\ OS nossos descahcados e briosos, mo flcaria 
pessoa em sen exercito que nao perecesse, ou na 
batalha^ ou no alcance ; e que meuos arriscava em 
valvar atguns que em perdertodos. Em toda aquellii 
uoite nao descancou de camiuhar por veredas in- 
<iulta8, matas, lamacaes e asperezas, que a tempes- 
tade do vento , e inundacao das aguas fazia pare- 
cer mais insoffriveis, com tanta pressa, que em 
poucas horas andou cinco leguas de terra, 

XIX. Em quanlo o Hollandez, ajtldado do si- 
fencio e escuridade da noite , caminhaya dcscoili- 
posto , tot*I>ado e vencido , festejavao os nossos as 
repetidas rictorias, que Deos Ihes dira neste dia , 
e a esperanca de que com sen favor as multiplioa^ 
riao no seguinte com aquelle gosto , que i^esulta 
do seguro da bonanca, quando se segile ao maiGt 
rigor da tormenta. Agrande alegria os nad des- 
cuidoii da gratidao e da vigflancia. Mandou o go- 
Temador que todos rendessem as gracas ao su^ 
premo Senhor das Victorias, e que se preparas^em 
para cntrar em nora batalha, que sem duvida se 
daria ao pfrimciro romper da manha, ou porque o 
ittimigo a kavia de csperar, ou porque noB hayia 
de acommetter. 6uamecArao-se todos os postos de 
«eritinrillaS, para prevenir qualquer assalto repen- 
tino ; no Tabocal de chna , que orlara o alto do 
monte, se mandou rocar aqueHa terra que bastava 
para ndlase emboscar uma partida da nossa geule ; 
e na distancia que se entrepunha^ntre um e ottiro 
Tabocai se levantirao trincheiras qfue corlavfiocin 
tres partes a ktdeira do nwmte. E\vl quanto m tm- 



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276 CASTAIOTO LUSlTAlia 

balhava nellas^ mandou o govemador retirar toda 
a gente para a sua estancia , oonui para lugar maift 
seguro e mais defeiisavaj ^ a onde o inimigo nao 
podia chegar senao deslruido e cansiado pelas op* 
po&i^oes que ja^imeiro havia de veneer. — Tinha 
vi8to governador a valeoiia com que nos cofnbates 
pelejarao as coiupanhias dos Minas e Qriouloe ; e 
certo de sua fidelidade os mandou descobrir o 
campo , com ordem que passassem o rio, e da outra 
parte picassem a retaguarda dos itiimigas, ohri* 
gando-os a que em toda a uoite nao largaasem as 
armas das maos. Chegarao ao alojamento do Fla- 
mengOi que virao desamparado, e ainda alcan9^U^ 
a sua retaguarda que ia i)assando o rio. Com mul- 
tiplicadas cargas e consideravel damno o pers^gui* 
rao, e acobardarao de modo, que imagiDando^se 
cojFtados y se emboscirao pelas matas deixando de 
seguir o caminho dos seus ; aos quaes nao seguiriio 
OS nossos o alcance , por nao excederem as ordens 
que iinhao recebido. Voltarao, e derao conta ao 
govemador do que virao^ e do que obririio. Com 
e$te aviso ordenou Joao Fernandes Vieira ao sar* 
gento maipr que mandasse correr a campanba, 
duas legoas ao largo, por soldados praticos. No 
termo d'ellas ach^rao os nossos cincoenta Hollan- 
dezes que davao guaida a mais de quotrooenlos 
feridos, que, desmaiados pela falta do sangue e 
pelo urabalho da marcha, nao poddrao passar avante 
na conserva dos seus. Forao os nossos vistos das 
sentinellas inimigas , tocarao a rebate , fogirao os 
que poderao ; e os nossos virdrao as costas, enga^ 
nados do vulto e do rebate^ e o derao em 1101SS9 



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CA8IR10T0 wsnao. m 

alqjaiBeolo, dizendo que o liollanclez se rrfazia, 
efentiava para nos tornar a ^nyestir. Nqq £u5cm 
M soinlMns menos impressao nos animos^ quapdo a 
kiiaginacao as pinta com as cores do medo^PasBoiu 
atMNisagente, enganada do aviso , todas as horas 
da noite com as armas na mao : molesiia excessiva 
por succeder em uma noite desabrida^ depois d'nm 
dia gastado em eondnuada batalba , sem que neile 
d^sse lugar a pel^ a se refazerem as foroas^ nem 
ccnn o descan^^ nem com o susCento. 

XX. Rompeo a Itiz da manha pelas sombras da 
noite e da imagina^o, iguaes no horror , e simir 
Hiantes nos eff^ tos. Offereeeo--se o capicao Francisco 
Ramos adescobrir o campoe a Terdade, evokou com 
a cert^za de que em* todo elle nao havia mais que 
despojos do iminigo; com esta daridade, e com a do 
dUasaio a nossa gente a ter nos instrumentos da 
batalba os grAos da victoria j e os pregoes dp trium* 
pfao. Todo o campo estava semeado de oorpos moi^ 
tos y de armas sem conto , de munieoesi como pc^ 
vora, balla, corda, arcose frecbas sem nuoiero, 
que em muitas partes da campina nadavao no 
aangne de sens proprios donos. Alguns manti-> 
mentos assim para a necessidade anno para o re^ 
galo, que igualmente servirao a festa e a folta. Nao 
houve soldado qtie se nao armasse com escolba ; 
nem Indio que se nao vestisse com vaidade. Sue- 
cedendo ^ repeticao da alegria a das cargas com 
que se acdamava a victoria. Pelas nove boras da 
manha chegou um morador d'aquelle contomo 
com as novas oertas do caminho que tomara o Hoi- 
landezy o do grande medo com que marchava, 



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STC 

deixando pelob.iiiatM oa oanftdot d (^n^M^ que 
a iiM podiao fitguir, RepetK) a caott cpie, tmn 
a engano cbM MiBts aoinm nferido , e queo g0<« 
Mml Henrique Hub maadaya dizer por eUa ao g(H 
yemador Joao Femandes Yieira d^sse quartet 
aqudles feudoB que , qnw moribuadosi mandaya 
l^r em carroft para o Arreeife, oomo a todos o 
eteiuayao os preceitoa da imliciai qua nao permitfa 
matar a sangue £rio ; porque d'outra parte aeria 
maior a vingan^a que a oiTenaa, e nao deixaria sua 
eipada morador com yida^ pastaudo pdk>s fios della 
a grandes e pequenoa de um e outro seKo* Com 
esla rela^ao Be ratificou a ceiteza da yictoria^ qua 
outra vee repetirao oi gritoa. gayeruadw , qua 
quasi se nao achava a si oi^mo. entre os excessoa 
do gostD, se uao di^souidou uas demoiistrafoes d# 
grato^com que desajava que todos d^easem^a Dew 
gra^aa pbr iaoianho beoeficio* Com seu e^cemplo 
obrtgQu a que. lodoft f poacoa de joelhoa f com a9 
ndaos leyantadas ao ceo> cooCessaftsem que a eUe 
deyiao a mero^ ( fazendo tampio do aiesmoivgar do 
oonflicto)» Aoabou este acto d'agradecimeuto com 
gtiiar toda oexercito em uma yoz : (( Viya a f ^ 
» cathdica romasa ! rtya a liberdadel yiya El Rei 
» Dom Joao ! yiva, Viya I » £ logo ogoyemador com 
benevolo e alegre seaitblautey e o chapeo ua mao , 
ioi abrft^juulo a cada um do8 oapitaes^ c^eiaea « 
0oldados« engrandecendo o procedimanto de todoe 
com tanta afiabilidade, que os puoha tohre a ca- 
beca I quando oom os bra^os os recolhia no peito^ 
Erao reciprocas as congratuiacdes da diMi » e por- 
que fossem eommuus as oonfiancas da liberdade 



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( ja entio maia possuida que esperada ) a deo Joao 
Feraaudes Vieira a cincoeiUa eacuvos seu3 coia 
a boma d^ jsoldadosy mereckia de aeu yalor e Qde-. 
Ud^e naquella occasiaa; ^ Ihes {& xn^rc& de q^ 
p od e gs e ro ^seniar piai^, e venjoer soldo em quanta 
durasse a guorra^ escolheudo d'eatre elles dous c9r. 
pitaes, para duas compauhiaa, em que os repartiOf. 
de viute e qji^tro soldadot cada uwa* 

XX4* Perdea o UoUaodez neata oecaaiao aa trea 
partes de sua gente : f6ra do9 mortos que retirou 
e escoudeo a correAte do rjo , se ach^rao uo campa 
treKeii tos e aetenia loortos ; uao numeramos os que 
na retirada morr^ao daa feridas peloa matos» peloa 
camiuboa, e uo Arjiecife ; autre eates os mai$ doa 
caho^ e offipiaea da guerra, cujas insiguias Ihes fe^ 
deixar a morta u^ campo e uaa est?adaa* Nao. fpl 
meoior^a mortan^ade dos IinUoar ^»uu parciaf^ 
coQio auxiliarea, qpe aegmao oe^ercito para te^eu^ 
par4e.»oa despojoa* Cpuata^ra o todo da nossa geute 
de luil e tre^eutos homeua, a Mfaer, uiil e duxentoi^ 
Poriugueaes eatre sol^iro^ a easados ( todos sol*' 
didoa no yalori poueos na pratica) e quasi oem 
uaturaeSf autre epcravos e ludioa* As armas de fogo 
uao pasaavao da duzeutas eipiugardaa, ieitasmaiit 
para a ca^a que para a pelcja i alguiuas espadas que 
a porhibi^ao tiuha escoudidas, e coju a ferrugepn 
tao gastadat que podiao magoar, mas uao ferir. Af 
mais anuas erao cutellos do moota, e paos tostados; 
as muuiijoes tao eseassaa que as uegava a peuuria 9 
aiuda a maior iiecessidade ; a/i boras do combated 
urn. dia todo* As dos cereados uao sa ooniao pelos 
^peSfSeuao pelos tiit)s.O uumero dos uossos mpr- 



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}8<^ CASTM0T6 LUSltANa 

tos nao passon de vinle oito, enlre dies os capitaes 
rektados ; os feridos forao trinta e sette, aos quaes 
o cuidado da charidade apressou a convalecenca. 
Dos escravos^mortos e feridos nao fazem mencao as 
relacoes (devia ser esquecimento > c nao desprezo, 
que o nao merec6rao negros que tao esclarecida- 
mente obrarao.)— Nomeareinos aqui, segundo a or- 
dem do alphabeto, e nao do merecimento, os capitaes 
e pessoas dequalidade que se achirao no cpnflicto, 
para qne seus nomes passem a posleridade. Os ca- 
pitaes foriio, Amador de Araujo, Antonio de Crasto, 
Antonio Gomes Taborda, Amaro Cordeiro, Anto- 
nio Borges Uchoa , Bartholomeo Soares Ganha , 
Braz de Barros, Cosme do Rego, Bomihgos Fagua- 
des, Bomingos da Costa, Francisco de Lisboa, Fran- 
cisco Gomes, Faustino Pereira , Francisco Ramos, 
Firancisco de Figueiredo da SiWa, Francisco Gomes 
ik Sllva , Jeronymo da Silva ( noforreo na batalha 
com mais iliustre nome), Joao Soares d' Albuquer- 
que I Joao Leitao d' Albuquerque seu irmao , Joao 
Nunes Victoria , Jeronymo da Cuiiha do Amaral ^ 
Ignacio Mendes, Joao Barboza, JoSo Pessba Bezerra , 
Joao Nunes da Mata , Joao Gomes de Mello , Joao 
Paes Gabral, que nesta batalha, como outro Sansao 
coroou as proezas da vida com se exceder a si 
mesmo na morte; Maihias Ricardo, que no combate 
deo a vida pela patria ; Manoel de Araujo de Mi- 
randa, fllho de Amador de Araujo ; Manoel Soares 
Robles , Marcos Pires , Paulo Velloso , Pedro Ma- 
rinlio Falcao, Pedro Correa, o P. Simao de Fi- 
gueiredo, s^cerdotee capitao, igual no zelo de en- 
caminhar as almas ao valor de esgrimir as annas; 



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CASTWOTO lUSlTANO. J81 

Sebastrao Pereira y Simao Metides , e Thom^ Dias 
da Costa. As pessoa's particulares^ a que a tiobreza 
deo nome, e esta occasfto fama, forao as seguintes. 
Arriao de riollanda , com doos ftlhbs ; Antonio 
Bczeira, Antonio Carakanti; c6m dods filho^; 
Atnao Lopes da Madeira^ Antonio da Silva^ no- 
meado capitao de cavallos, Antonio da Costa , A!- 
Taro Teixeira d^ Mesquita, Antonio Coelho Serpa, 
Antonio Carneiro Falcato, Antonio Gomes, Anto- 
nio de Magalhaes de Mello, que montado em nm 
cavallo , a todos os combates animava tanto com a 
e)thortacao como com a espada ; Antonio da Silva, 
AhtonioTftTares, Antonio da Costa/ Bernardino de 
Carvalho, Balthazar d'Azevedo, Cosme Soares d'A- 
ranjo, ChristoTao Berariguer, cunhado do gover- 
nad6r da liberdade; Diogo da Siha. tambem de 
sua casa ; Domiif gos Barboza , &€u aifcires ; fVata^ 
ciMo Berengner de Andrada, sea sobrhihb; FVan*- 
cisco Rodrignes Tavares, Francisco ^rretd, Joao 
Lourenoo Francez, com dons' filhos; Jerbnymo de 
OliVeira Cardo^^ da casa do m^mo governador ; 
Joao Dias Leite, c6m dous filhos; Joao Cordeiro^ 
Mandanba, Luiz da Costa Sepulveda, Lourenco 
d'Abreu, com nm filbo; Manoel Garaleami d'Al- 
buqaerque , Manoel Alvares de Cai*va)ho , Manoel 
Fernandes^ Croz^ com dous fiihos; Manoel Barreto, 
Simao Velho Barreto, com d6its Glhos; Thomaz da 
Costa; e ontros d*igaal esforco e fidelidade , cujo* 
nomes escreveo entao com melhov tinta sua espada, 
ainda que agora se nao estampem nesta historia 
pornoesa penna. Os sacerdotes, que so ach^rao 
nesta oc^a&iao, de que nos informou a noiicia, fo* 



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;S3 cj^sxwf^ ufm^»^ 

i:aaoP. Simao de F^^ueiredoy ja repetido enlre 
03 capitaea y e agora nomeado , porque o fizeria 
diias vezes conhecido a digaidade e o poato ; o 
P. Joao BapUsta Lobato, natural de Usboii^:; • 
P. Joao de Araujo^ natural de Poate de Umai 
e P, Fr* Joao da Resunei^ao, de quern adiantis 
faremos particular memorial devida aos aingudarea 
s€rvi<;o$ que no dUcurso d'e&ta guerra fox a DeoSt 
a patria e ao reiao* 

XXII. Depois de passar o rio, como liavemoa 
dito , marehou o HoUandez toda a noite com graude 
trabalho; na manha do dux seguinte, 4 d'Agoato, 
ch^u apoyoa^ de Sap Louren^o, seUa l^poas dp 
moute das Tabocas, d'oude fogira vei^cido; whouo 
luga^ de3habitado, cujosmoradores ae retirarao aoa 
matos iucertos do suecesso j deteve-^e neste sitio 
e^erfndo peloa/eridoa^, e logo ayi90u ao ArreciCe 
dfuidQ conta ao$ govemadores do suceedidoi e pe-> 
diudo mautimentps^ mun^^o^a e soldados ; chegou- 
Ihe o aooccuTO ueafie meamo dia^ e depois de inyiap 
OS feieidoay e reoolher oa diaperaoa ae mudou 
para oa Apupucos^ onde os moradores o receb^ 
rao como alliados : uao ae tem^rfto offendidos^ com o 
seguno dos paaaaportea. No terreiro da igreja (ez 
altO| e logo reseuba dageute que tiiiha, e adiou que 
de mil e quinh^ntoa aoldados^ com que^ntrou ooe 
combatea das Tat^ocas^ perdSra mil e cam, com 
a flor doa ofiiciaea daguerra que o acompaubirao* 
Da perda fez Henrique Hus motivo para a perfidia, 
Pagou aoa triatea moradorea o agaaalho e benevo« 
Iqiicia , com que o receb^rao^ eutregando a povoa*- 
^ap e oa coutoruoa ao aacco doa aeua^ que oa aol- 



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if^ , jndws^ e Ind44>8 e?iecistmyQ biia comQ bo* 
mensj satti^ como ,£(^«.Tim1o o qme podia A^nir i 
cohica e a, viogaoi^ destruioo odio a o vouboi a 
crueldade venceo as op{)06i<;Qes da natitrwi q d| 
razjip] acbando iio$ mQtivoa da compfuicao i)Si Iat 
ceiitivos da ira, Frostestarao de bruto^ na demaaia 
com que a torpeza offemdia a modestia; e na Mjjvria 
w^ que atropellava a reti$teiicia* G^niria a nm^ 
sagradp se irr^tat a ma^^ seu odio^ e i^Oy^ra p iMIti 
relig^oR^ 94U poder. D^steuirao, e coatamioaraooa 
t^mplo$ ; fizeraa em.p^da^oi^.aft Muti^ imagwsy.a^) 
P. Joao Dias, sacendo^e da noveaU apuos, fiaii* 
xao a golpas e affiroQtas : aua yirtudo foi para cb de^ 
pravado^ herf^ ^m jnaior deliqlOy e seu dinbeir^ 
a^u luaior verdugQ; peadurado ^ urn bra^o acar 
bara ja y'ld^, se anao remiraa peso d'auro« Nao se 
estoadi^o a mais a crueldade, poFquiQ.to4os os qu^ 
pod^ao ajaticipdrpQ a fuga ao aggravv). ~ Pela t^rd^ 
mandou Henrique Hus ooptiauar a saarcha; fe;^ 
alto na Yarzea^ e se al^jou uo eug^enho de,Do^ 
Aufi^ Pfes ( pma legpa do Arrecife) ; ao, outro din 
piartiQ a ver-se com os do suprwao cousel^xo ;. oqn* 
ferirao-entre si o que mais convioha ao estadp daf 
cpus;^ pi?esentes$ tompu asseuto no que se devia 
faxer ; e despedi4o covn as ordens que M^ de se- 
guir se v9.Itou para ps seus no mesmo dia» Mandon 
saquear o Arraial yelho^ com as mesnias extor^peSj 
e coip toda a s^de da crueldade e da cpbi^a ; nao ficotf 
paredcy. telhado, neqn ^otao que nao tenteassem com 
espetos, suspeitando acbar rjquezas ent^radas^ou 
escoudidas ; na igreja do lugar com mais exorbi- 
tancia^ porque com mais indecencia» No engenbo 



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lU GJIfiTUOlt) LUflrtAMO. 

cte-t^rancisM Monteiro Bezerra execuUm inauditos 
desaforos. A senbores e escravos media a crueMade 
par Hill mesmo lamanho; com urn inesmo fio cor* 
tava o Terro e a injuria peta matrona e pela don- 
zc4la. A Dona Brazia^ mulherdocapitaoFedroCa- 
%iilcanti d^ Albuquerque, e a sua mai Maiia Pcssoa, 
arraitirao como a vis eecravas, porque despre- 
zando a perda da ftrz^nda , nao consentirao nem 
ainda na mab leva mancha da honra. A poucos 
excusou a diaboHca perfidia da espada e da aSrontai 
e aod que perdoava sua eolera guardava para maior 
castigo sua meilicia. Tinha determinado entregar 
a todos a maiores tori^nentos. Deeret&ra seu desa- 
tinado conselho que aquelle flamengo, diamado 
Jteobo (que acima dissemos vivia entre os selva- 
gens), deixasse o sertao, e desceBSedosmontescom 
todbs OS Indios de sen partido a correr a campanha 
&o no de Sao Francisco, onde oesparavao cento e 
sessenta HoHandezes , com ordem que mettessem 
tudo a Ferro e ai'fogo, descendo por Goyana at^ A 
Varzea, onde esperava Henrique Hus. Horrivel 
f5ra o estragOy se a divina ProTidencia o nao ata-» 
ihdra 9 confundindo a malicia oom o seu mesmo 
decreto, como veremos no decurso d'esla historia. 
XXIIL Deixamos ao governador Joao Femandes 
Vieira no sitib das Tabocas, onde se deo a batalha, 
dando e re^bendo as eongratulacoes da Victoria ; 
d'aqui por dianteo veremos (sacrificado um eou«- 
tro hombro ao peso do governo ) cnlrar em lanto 
m^'or cuidado , quiemto mais se estendia sua obri- 
gacaOt Nao achava em si todo o gosto e triumpho 
em quanlo os moradores ausentes nao gozavao de 



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CASTUOTO IWIXAlia 965 

toda a liberd^cie, partidpa^o de aua mftwia fofw 
tuna.Muiias freguezia^ tmbpto seguido o seurtxein^ 
ploy e algumas pediao o seu auxilie (as quenuiis 
insiavao erao Iguai^ii e Goyana); diBpuftha^ 
eUe cm mandar-lbes $occorrO| qutodo the chegou 
a nova de que os mestres de campo An4H Vidal 
de Negreiros^ e Martim. Scares More&o UdJ^ao to- 
rnado terra em Tamandar^ com oiloeeaCo» in* 
fantes^ maQdados da Bahia pelogQveraador do £•*- 
tado, para que faTorecessem a loais ju^ta eauaa; 
esperava aUm disso cada hora os goveiwidoi^es de 
Indios e Minas Henrique Dlas e o CaHMtiao; fiado 
nestas esperancas se determioou em luandar logo 
soccorrp a Iguara^ue a Goyaua. — Um iamlo ia* 
conGdente, que teve noticia d'esta deUbeirai^t 
metteo valias a Joao Fernandea Vieira para que • 
nomeasse cabo d'esta expedicao; coaaKleo-*llie o 
go.xernador a Jornada e o posto , fazendo coaSau^ 
do traidor para o reduzir a fiel ; e pprque affasr 
tando de si o falso o nao fizesse alguma occasiao vef <- 
dadeiro. Entregou-lhe cento e cincoenla bomeiis, 
com ordem que ae incorporasse com a gente para 
melhor se defender do ioimigo, e o despedioalgmis 
dias antes do engenho de Gorjau , onde Qq(4P te 
alojava a nossa genie* Chegou p dito cal)Q a villa 
de Iguara^Uy onde se deteve algum tempo ; pasaou 
depois a Goyana , onde uma pont^da the tirou z 
yida, porque morresse da malignidade d^ que a 
iraicao se alimentava em seu peito : sucoesao qoe 
adiantamos ao tempo ^ por nao d^ixarinoa a potUa 
d'este fio sem no. 
XXIV- Tinha saido da Bahia Salvador Correa 



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6tSkff» gM«*«it d'uAMi frota de trhkta e sette na- 
irimMCKaxitM) que faria tiagem para o reind, e 
em Btift e<mserva mandtra o gOTemador do Estado 
Amoiiio Telles da Silva dous ter^os d'infantaria 
(eeits iMfttres de campo Andrd Vidal de Negreiros, 
e Martim Soarte Moreno) em oito embarcacoes , e 
-por cabo d'ellas Jeronymo Serrao dePaiva (homem 
valoroio e pratico no exercicio militar de mar e 
lerrt) em «ati$fac&o de promessa que fizera aos 
embikadoi^s do govemo holUndez, com ordem 
ipie at idiura de Tamandard tomassetn este porto , 
e ndte ^rdadeira informacao das cansas da suble- 
racfto doa naturaes - e se nao fossem jiistas, bs cas- 
tifjasSMi como a rebeldes, e composessem as cousas 
ckr eon^qne ficasse a terra em paz; porAm se en- 
tendesaem) que de tyrannizados e perseguidos da 
temfe'uao e insolencta do domihio hoUandez, toma- 
Tfto M annas (como se dizia) em defensa de ^as 
ridaa , honras e fazendas , os favorecessem e aju- 
dwsdtti , eomo erao obrigados por lei natural e di- 
vma* Navegou Salvador Corrca ali aquella altura ; 
deivou a Jeronymo Serrao de Paiva com os oito na- 
tmno porto del^mandar6^ o continuou a viagem 
•o reinO) tomando alguns rcfrescos no Arrecife, 
eomo adlaate se dira. — Jeronymo Serrao deixou 
a gMte d« guerra em Tamandar^, e com a do mar 
•&4i«iMou ficar nas embarcacoes, debaixo daqtlelle 
•qjtttt) que the promettia a K do contraclo rrferido. 
Wsm «uccedido divulgar-se da villa de Sirinhaem 
* wja^ttmento de 3oao Femandcs Vieira com a 
yoz de lUberdade, e temendo o Holtendez a imitacao 
t *> exemplo, mtodAra ddtar bando que todoa 



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08 Pbrtuguezes d'aquelle dMrietof em tefin6 de 
tk*ed diag naturaed leva^sem i (brtaleza todas as ar- 
mas ofiefisivas e deft^sivas que tiTeesem, sob pena 
de jnorte irrimissivel. Atemorizados os moradores 
obedecirao uns , e disputihao-se outros a obedecer, 
quando Joao d'Atbuqiierqtie (fkomem de bem, ze- 
Joso e valente) ^onhecendo o^ perfidos ihtentos do 
IfoHandez, que erao desarmAl-os para os matar iu- 
defeaos , declarou a todos o fihi do bando, e per- 
dufitdw)8 k reaisttoci^. R^nio uns quarenta e 
nove manoebos, e com dies se adiantou a idmar ad 
annas ^os' vizinkos, pa»a que as nao tomassemaos 
setw verdu^s; com a mesma ddiberacao melteo a 
pique tres barcos que o iftimigo tiuha catregados 
de dWersos geueros para o Arrecife ; e appellidando 
ISieitfeKfe fez todo mai (foe p6de aos Hottan- 
dezes. 

XXV. Neste tempo diegou k Shinbaem a'nova 
da geute que tomdra terra em Tamandar^. Alvoro- 
gado Jotto d'Albuquerqtoe eom a esperanca do soc- 
corro , atalkm por milagrosa a oppurtunidade do 
auxilio ; saio ao encontro da uossa gente, Mhu 
emt OS mestrea de campo/ e da parte de'Deos e 
d'Ei Rei VticB requcreo tis Ubertassem da oppressao 
e agouia em que estatik), de ttovo condemnados i 
siorfe f^h tyraunia hoHiuddeza ; pedio que farrore- 
eessem os morsNkrres^ que torn pequeua ajuda se 
Ihes eutregaria a lortaleza que naqueile lugar tinba 
o inimigo desapercebida. O tnesmo requefimeuto 
fiterao os moradofes, que a Vigflancia eontraria tra- 
sia desterrados pelos mates. — Era justtficada a 
pcti^^ e muho toufbhtie as oi*deiis que traziao; 



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2M CASXWXEO UKUXAHa 

pd9 que seiQ detf n^ marcbarao para a for^leu 
OS capiiaes V^^\o da Cunha e Christovao de Barir?^ 
com. %x^ cooipaDhias^ cpm jxromessa dos mestres 
de caiDpo que os seguiriao cpm os seus tercos. 
Uaidos OS soldados com os moradores cercarao. a 
fortaleza ao largo ; tomarao a agua , e com ella as 
portas e todas suas ^peran^as ; e logo o capitao 
Paulo da Cunha mandou.yoi bolalim, que dissesse 
da sua parte aos cercados que o goveroador g&al 
Antonio Telles du Silva os enviara Aquella capitania 
em ordem a soccgar os iQoradores por um de dous 
meios : ou castig^udo os que se haviao leyantado, 
se o tivessem feito sem justa causa ; ou &vorecenda- 
os^ se o dominio holiandez Iha houvesse dado 
sem legitimos fundamentos; e que examinados (m$ 
e outros procedimentos , linhao alcancado q«e 
elles dominantes tratavao os moradores, nao como 
a yassallos, seoao como a captivos ; pois temorosos 
de sua^ crueldades^ roubos e injusticas se condem-r 
navao a viver enlre as feras dos matos , por fogi- 
rem a tyrannia de seu imperio ; e que, coma a indi- 
gno$ de serem obedecidos, os queriao lan^ar de suas 
terras^ pelo ([ue sem dila9ao entregassem aquella 
fortaleza a bom parlido , quando nao a tomariao i 
escaldi sem deixarem pessoa com vida. Tomou esta 
embaixada ao Flamengo falto de tudo o que Jhe 
podia servir a conservacao e a defensa. Considerou 
o perigo certo, o soccorro contingente; e se entrp- 
gou com honrosas condicoes, que pontualmente se 
Ihe guarddrao. Sairao da fortaleza sessenta e dpus 
Hollandezes reudidoSy e quarenta enoyelndios; estes 
forao condemnados a forca pelo auditor g^ral Fran- 



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GASTRIOTO LUSITANO. 289 

Cisco Bravo, cuja seotenca se execulou logo (foi o 
lugar do crime o que servio ao supplicio ) ; a todos 
colgarao pelos muros da fortiGcacao. A suas mu* 
Iberes e fiihos repartirao pela povoacao, nao como 
escravos senao por modo de administracao. Para 
esta faccao eoncurreo com valor e zelo urn nobre 
morador chamado Hypolito Alonso de Vercosa, es- 
trangeiro por nascimento, mas natural por affecto. 
Assistirao i entrega os dous mestres de campo, ainda 
que cheg^rao depois de rendida a forlaleza, e nor 
mearao para capitao, e da gente da terra, a Alvaro 
Fragoso d 'Albuquerque, digno de toda a coofiaD9a; 
e a Francisco de la Frauz^ Fran9ez de na^ao, e ca- 
sado com mulher portugueza , fizerao capitao dos 
estrangeiros rendidos ( assent^rao praca os mais 
d'elles); o qual, por satisfazer a sua obrigacao, 
ddxou casa , mulher e filhos , e seguio a marcha 
dos nossos , que o mestre de campo Andr^ Vidal 
de Negreiros encaminhou para onde estava Joao 
Femandes Vieira; Marlim Soares Moreno, com o 
seu terco e com mais fleima , tomou o caminho de 
Nazareth, e cabo de Santo Agostinho : um e outro 
alegres com a nova , que nesle sitio receb^rao da 
victoria das Tabocas. 

XXVI. Sette dias deo Joao Fernandes Vieira ao 
enterro dos mortos e cura dos feridoSi depois da 
batalha, e tambem ao descanco dos seus; no ultimo 
Ihe chegou a nova do soccorro, que a favor dos 
opprimidos moradores mandava da Bahia o gover- 
nador do Estado, e que os mestres de campo vinhao 
em sua demanda. Logo se dispoz a sair-lhes ao en- 
coatro; ao outro dia a passo lento chegou ao en- 
1. 19 



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190 CASTRIOTO LCSITANO. 

genho de Balthazar Goncalves Moreno ; no dia se- 
guinte ao lugar de Gorjacu, e se alojou no engenho 
dc Antonio Nunes Ximenes. iya(|ui despedio An- 
tonio Cavalcanti com o soccorro, que mandava 
aos moradores de Goyana e de Ignaracu. Nesta 
marcfaa se desencontrarao o governador da Hber- 
dade, c os de Minas e Indios que a ligeira o busca- 
vao, deixando algumas jornadas atraz os sens tcrcos. 
Das Tabocas , onde nao achirao o governador, o 
vierao seguindoat^ b alojamentode Gorjacu. Com 
alegres parabens se recebfirao, devidos A diegada e 
ii victoria ; mas nao foi longa a entrevista, porque 
cbegou ao governador o aviso* deque se alojavao 
tia povoacao de Santo Agostinho do Cabo cento 
c oitenta HoUandezes; mandou o governador 
Upressar a marcha ao exercito, mas nao p6de 
apanbar &s roaos os Flamengos, porque advertidos 
por traicao relirirao-se ligeiramente it fortificacao 
de Nazareth. Com o dissabor de Ihe fugir a caca 
mandou o governador fazer alto naquelle lugar , 
6ude teve novas que os mestres de campo Andr6 
Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, com 
a gente de sens tercos e muitos dos moradores de 
terra tinhao chegado a lpojuc4, e estavao com de- 
terminacao de buscar Joao Fernandes Vieira em 
^alqiier sitio em que se alojasse. Escreveo-lhes o 
governador nma carta , em que Ihes dizia que era 
excessivo o gosto, com que estava, de saber que os 
tinha vizinbos (ha via entre as duas pDvoacoes tres 
legoas de disfancia) sem Ihe alterarem o alvoroco, 
com que logo os ia buscar, as praticas que ouvia 
acerca do fim a que vinhao ; porque sabia de certo 



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GASTRIOTO LUSITANO. Ml 

ser o qii€ os (razia, soeegara terra » favorrcer op- 
primidos, e destruir tyrannos ; e que se um megino 
fim OS UQift nas teneoes, nenhuma cousa os pode- 
ria separar nos alojatnentos ; que elle se ficava 
dispondo para Ihcs ir dar os parabens da vinda, e 
offerecer a pessoa a seu servico, ainda que a muitos 
parecesse a obrigaigao eneoutro. — Lerao os mes- 
tres de campo a carta do governo , e yendo por 
ella que a forca da cortezia dominava a da supe- 
rioridade, se dividirao; Martim Soares Moreno ficou 
no sitio que chamao Algodoaes (uma tegoa do 
pontal de Nazareth ) , e Andr^ Vidal marchou ao 
lugar onde se alojava a ffovernador. Avist^rao-se 
OS dous cabos (postos seus soldados em ala, e pre^ 
sente innumerayel multidao de povo de toda a con- 
dicaoy sexo e idade, que no amparo de nossas ar- 
mas Tictoriosas buscavao o seguro da crueldade 
inimiga , tanto mais ferina, quantomais irritada); 
chegirao a falla, e disse Andr^ Vidal de Negrdros^ 
em voz que todos podiao perceber : « goveraadar 
» g^ral do Estado, Antonio Telles da Silya, me 
» manda prender a vossa merc6 , por queixas que 
» tern feito os govemadores do Arrecife, e eattigar 
» OS cabecas da rebelliao , que tern amotinado este 
j> povo. » Ao que respondeo Joao Fernandes Vicirt : 
a O governador g^ral do Estado assim como ouvio 
» a voz da queixa , i forca que ouvisse o grito da 
» oppressao. Eu sei que vossa merc6 traz ordeiis 
» condicionaes, paraas executar pelos mericimeatos 
» das partes, e dar a cada um o castigo, ou o favor 
n mereeido ; c tambem sei xjue chega vossa mercfe 
» a tempo em quov* com aens olhoa a uuseravel 



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92 CASTRIOTO LCSITANO. 

» escravidao, em que a fortuna tern po8(a esta ca- 
» pitauiai cujos inoradores desgarrados e afHictos 
M andao deslerrados de 8uas proprias casas e fazea- 
» das pelos matos de sua mesma pairia y Irazidos 
» de sua miseria a buscar o favor de nosso zelo , 
M que sem reparar no risco se arroja a liberUl-os 
» da lyrannia j que os sujei(a a padecer (ribulacoes 
» que nao pode referir a dar, e injurias que nao 
» sabe relatar o pejo, e so se deixao entender com 
» a certeza de que na companhia das feras se me- 
» Ihorao do que Ihes fazem os homens; e se nesle 
» caso a jusii9a nao explicar o preceito , nao achar^ 
» Yossa mercS o da obediencia , antes provocara 
» conlra si o desacato, livre da culpa, de que ab- 
» solve a todos a natural defensa, permittindo aos 
» morlaes todos os meios para a conservacao da 
D vida e da houra. » Ao ^chod'estas palavras se se- 
guio um tumuUuoso grito de soldados e morado*- 
res ; o qual socegado, tomou a mao um dos solda- 
dos de Andr^ Yidal, que em nome dos que vinbao 
da Bahia fallou nesta forma : c A iujusCa guerra 
» com que o pertido Hollandez ha tantos annos 
» (yranni^a csta capitania nos traz a lodos des- 
» terradoB de nossas casas ; a uns, porque fogem o 
» aggravo ; a outros , porque buscao a vinganca ; 
» e a lodos , porque a todos cobre o luto de paren- 
» tes, amigos e naturaes, mortos pela crueldade 
» flamenga , que com lasdraosa memoria nos esta 
» fallando ao cora^ao todas as boras, chamando- 
» nos para o desaggravo. Temos a occasiao na mao, 
» o exemplo a vista, a fortuna da nossa parte; 
') e a censura certa se nao seguirmos a persuasao. 



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CASTRIOTO LUSITANa 395 

» qutndo no8 estimula a piedade e a inveja^ como 
» patricios, e como Portuguezes ; e assim queremos 
» offerecer as vidas por servico de Deos e bem de 
» nossos naturaes ; e se algum nao for d'este pare* 
» eer pide-se vol tar para a Bahia. » mestre de 
campo , que enfendeo a justa delibera^io de seus 
soldados, cor(ez e discreto se poz da parte da razao, 
dizendo, que bem sabia, pela experiencia de muitos 
annos, at6 onde chegavao soffrimento dos mora- 
dores, e a insolencia dos es(rangeiros ; e uma vez 
que na renitencia de seus soldados tinha a escusa 
de nao executar as ordens de seu superior, elle o 
deixava de ser, e ficava no andar de cada um d elles 
obrigadoaseguirseu intento, com ogosto de mili(ar 
debaixo da bandeira d'um governador tao valeroso 
e Cao amigo como o era elle Joao Fernandes Vieira , 
a cujas ordens ficava subordinado. Derao-se od 
bracos ; fizerao-se todos em um corpo , unidos no 
esquadraoe noanimby com plausiveis vivas de todos 
OS presentes. — Camaradas uns dos outros se aIo« 
jArao OS soldados; e d'alli por diante o ficou sendo 
Andr^ Vidal do governador Joao Fernandes Vieira. 
Gonferirao o eslado das cousas^ e assentarao em 
mandar uma partida de soldados com cabos esco- 
Ihidos ^s ordens do capitao Amador de Araujo^ a 
dar principio ao cerco da fortaleza do ponial de 
Nazareth (empresa determinada primeiro pela ne- 
goeiacao que pela forca) j^ sitiada ao largo pelos 
moradores, assislidos da maior parte dos soldados 
do ter^o de Martim Soares Moreno; o qual, ensi- 
nado de sua genie (mais prompta para a vinganca 
que para a obediencia), se accommodou com a razao 



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3M amsmom imcimo. 

de sua jUsUeli r ^ Mgaiiido o que iiio podic < 
trtr, fei saber a Joao Fernandes Vieira, ene coma 
estava aujeito a aoaa<>rdeii9 em tudo o que d elk e 
da aeu lerco quizesee di&por; e que D^ia fornaa se 
ia incorporar com o grosao da genie que sidava a 
fortaleia de Nazareth < 

XXVII. DepuU de de«pedir o aocoorro para o 
cerco de Nazareth mandou o govemador.da libef^ 
dade marchar o exercito para a povo(a§ao da M<hi- 
beoa ; a sua gente forroava a tauguarda , e a de 
Andr^ Vidal a retaguarda. Nesta forma chegarao 
i povoa^ao em 16 de Agosto, onde fizerao aUo, e 
depois d'algumas boras de repouso, se encamioba- 
rao na direc^ao do rio Tigipio, oode chegarao pelaa 
aeis horas da tarde, o mestre de campo na vau^ 
guarda ; e na retaguarda o goyernador^ que sem 
dar lugar a que o exercito arrimasse as armas^ e se 
alojasse, mandou lomari com gente de guarda, 
todas as estradas e veredasi que saiao daquelle sitio 
para cortar a diligencia dos traidores , e a noticia 
que por aviso seu podia ter o inimigo do nosso alo^ 
jamento. 

XXVIIL general das armas hollandezas Hea<» 
rique HuS| que deixamos aquartellado noeogenho 
de Dona AnnaPaes, em execucao das ordens, que 
tinha recebido dos do governo^ mandou neste mesmo 
dia 1 6 de Agosto ao seu sargelito maior Joao Blar, 
que com duas companhias de Flamengos e alguna 
Indies d^sse sobre as moradas da Varzea, sem 
deixar cousa que nao registasse ; e nellas prendes- 
sem todas as mulheres d'aquelles homens nobres 
que seguiao a Joao Fernandes Yieira , nao so por 



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motivo de viugaii9ay senao como e<pecie de r^Ceii^ 
para qudquer s^cces$o future. Prendeo Joao Biar 
a Dona Antooia Bezerra» mulber de FraucUoo Be-^ 
renguer de Andrada^a Dona Isabel de Goes, mulber 
d^ Antonio Bezerra> aLuiza deOUveira, mulher. 
de Amaro Lopes^ cijija nobreza daya privilegias dc 
couto a cada uma de suas casas , por&m d ellaa a 
tirou a violencia para as casas de Dona Anna Paesi 
onde se deposilarao para se levarem ao Arrecife« 
A Dona Maria Ge^tar, esposa do govemador Joao 
Feraaudes Vieira, primeiro fim desta diligenciti 
nap pode descobrir o inimigo ^ porque maior oui* 
dado a tinha escondida e retirada em bosqu^ oc- 
culto a toda a noticia; com if ma mulata de seu Ser- 
vian, fiado seu sustento a cautella de um fiel 
criado do governadori sempre bem afortunadO| 
porque sempre prevenido, Nao salisfeito o HoUan- 
dez com este procedimento barbaro , formou pro- 
jecto de passar & espada todos os moi^dores , para 
cuja execu^ao os mandava reunir na Yai^ea ; mas 
avisados estes por um Hollandez catholjco escaparao 
ao perigo emboscando-se pelos matos com suas fa-» 
miliaSy d^ixando de suas casas s(5 a$ paredes. — As- 
sistia na Varzea o Ucenciado Malheus de Souza 
Uchoa, capellao que entao era do governador; 
soube que com seu exercito tinha chegado ao rio 
TigipiiJ^- e pela posta, em companhia de Joao Al^ 
vares da Guarda, Ihe veio dar aviso de tudo o que 
temos referido; e que sabia parlicularmente que o 
Hollandez, na seguinte manha, delerminava por 
em seguro a presa assim das pessoas , como das 
fazendas que tiuba roubado, conduzindo tudo para 



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396 CA8TBIOT0 LtJSITANa 

o Arrecife. Oavidas eslas novas j deo-se o gover- 
nador pressa em acodir com prompto remedto a 
tamanho mal. Tocou-se arma, receb^o^se as or* 
dens, formou-se a gente, marchou o exereito com 
a<{uelle passo que aconsdhava o perigo ; toniou o 
governador a vanguarda, e o mestre de campo com 
a gente da Bahia o seguio na retaguarda. Adianta- 
Tao-se, como descobridores do campo, os capitaes 
Ramos e Fagundes, 03 quaes, vencida uma parte 
do caminho, derao com duas sentinellas , que o ini- 
migo tinha deitado ao largo ; tomadas as maos con* 
fess^rao o que sabiao, e pagarao com a vida o exer- 
cicio em que andavao. Passarao avante, e Gzerio 
pausa a vista do engenho de Pedro da Cunha 
Andrada, detidos do rumor que faziao algumas 
mangas de Flamengos , que andavao espalhados a 
roubar. Neste engano as confirmarao os nossos ca- 
pilaes, que sem movimento esperirao que com a 
presa se fossem para o alojamento dos seus, ante-* 
vendo que, se dessem sobre elles, poderia escapar 
algum, cujo rebate levantaria ao Hollandez do sitio 
de Dona Anna Paes ; e fogido para o Arrecife noa 
deixaria a dor de nao remir as presas, c de nao co-- 
brar os roubos. 

XXIX. A' meia noite acabou de chegar toda a 
nossa gente aquelle sitio molestadissima do escuro, 
das chuvas, dos lamagaes, e da aspereza dos ca- 
minhos. M andou-se fazeraltono sobredito engenho, 
e tomadas fres horas de descanco , se continuou 
a marcha na mesma forma e ordem que at£ alli 
trazia. Chegarao os batedorcs ao engenho chamado 
do Meio ( urn dos que o governador possuia na 



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GASniiaiO LVStTARa i91 

Vai'EM), ottde prend^o sets Hollan<!ezes e Ires In* 

diM que andaTao roubando, as quaes largirao as 

presas com as vidas ; o mesmo succedeo a dous 

Indios e um Flamengo , que no engenho de Santo 

Animiio se occupavao no mesmo exercicio. Rom^- 

pia no horisonte a primeira luz da manha, quando 

a noasa vangnarda chegava As margens do rio Ca- 

peberibe, tao crescido cofiti a innundacao das aguas 

que por todas as partes tlegaTa \ko k passagem, e 

poT nenhuma se descobria barco^ canoa, ou jan-* 

gada f em que se podesse passar a outra banda. 

Acendia-se no discurso de todos o desejo da pressa 

com o estorvo da marcha ; fazendo mais sensivel a 

detencaavizinhancadoalojamentocontrariojaquasi 

aTista. governador, que vio a suspensao , com o 

ankno de Alexandre dcterminou cortar o impedi- 

mentOy que nao podia veneer. Seguindo a um mu« 

lato seu , grande nadador^ apertou as pemas ao 

cavallo, avancou ao rio , e com agua pelo arcao da 

sella ^ passou & outra banda. Foi tao poderoso seu 

exemplo que o imit^rao sens soldados, lancando-se 

ao rio pegados uns aos outros para resistirem ao 

rapido da corrente (postas as armas de fogo sobre 

as cabecas) ; e em brevissimo tempo se virao todos 

da outra banda. — Caminhou a nossa gente at6 

descobrir as casas de Dona Anna Paes; e suspen- 

dendo eniao o passo , mandou o governador seis 

soldados praticos e ligeiros, que por entre as ramas 

do mato fossem cortar as sentinellas do inimigo« 

A poucos passos torodrao duas as maos, por enjo de- 

poimento entendeo o governador, que o Holiandez 

estava no terreiro das casas, formado em dous es- 



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3M, GASCUOXO umxAiKw 

quidrdtg, e piMado ordem que jum pda YiH» d'0« 
linda, outro pela Varzea mo deixasse cousa iswto 
de fogo e do ferro ; e que o§ caboe estoviko depiro 
das casas pdstoT a masa para comereHi^ e marcba* 
rem, leyaodo comsigQ a$ laatronas que tiohaa 
presas. Coatiauaiio os uossos soldados a desoobrir 
o campo com o mewio zelo e cauteUa; tomarao as 
niao» mais duaa sentin^livi,,^ sem swem seniido* 
se apro2um4rao do eagei^^« Vendo o governador 
que a occasiao se Ihe apresentava favoravel march^ii 
com a vsCnguarda a sordioa at^ & eutrada do paf o do 
engenho, levando diante um lro?o de soldados es- 
colhidos (o8 mai^ d'eJles capitaes vivos e reforma- 
dos ) com ordem , que dada a primeira e seguuda 
carga, seiovestisse i espada. Tinha mandado ao 
Camarao, que com os Indios do seu ter^o se adiau* 
tasse incoberto a occupar todos os caminhos qua. 
guiavao para o Arrecife, para que ueuhum Fla- 
mengo podesse fugir. Nas primeiras iileiras da 
vanguarda poa^ os capitaes Joao d' Albuquerque , 
Antonio Borges Uchoa, Sebastiao Ferrrira, Anto- 
nio Gomes Taborda , e Francisco de Lisboa , com 
outros d'igual valor e opioiao ; e como guias de 
todoS| OS ajudantes Amaro Gordeiro , e Francisco 
Gardozo. Tanto que a nossa gente se descobrio aos 
esquadroes inimigos, tocarao arma com tambores, 
darinsy gritos e cargas, cujo estrondo fez levantar 
da mesa os cabos hoUandezes com tanta turbaqao 
e desatino , que derao por t^rra com as iguarias, 
frascoSy copos, e tudo o mais que estava em cima 
das niesas^ nao Ihes deixando o repenle tempo para 
pegar nas armas. Forao os aossos capitaes avail- 



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GAaniaio uistrma S9ft 

fando aoft eaqnadroes inimigos; cpie sein perderem 
a ftSrma nao pnusarao ot tiros , at^ que os nossos 
Ihes derao a primeira e segui^da carga. gover- 
nador, que tudo tinha disposto (deixando a reta- 
guarda ao capilao Paulo da Cunba, e a muitos ca* 
pitaes' volantes para inve^tirein por oude primei ro os 
chamasse a occasiao e a necessidade) acompanbado 
de Henrique Dias^ com os seus soldados, ia na 
Tanguarda montado em um formoso ginete, e con^ 
um clarim diante, desembamhou a espada, e disse 
em Yoz alta : « Viva a f<^ e a liberdade ; i espada^ 
}) soldados. » F^ao forao duas^ senao uma roesma 
cousa o preceito e o ayan90| com deliberagao tao 
Talente, que nao ha via armas que o nosso fogo nao 
cortasse^ nem resistencia inimiga que o nosso braco 
nao rompesse. — No maior furor do conflicto che- 
gou o meslre de campo Andr^ Yidal , assistido doa 
capitaes Assensoda Silva, e Antonio GonsalvesTi^ao 
com as suas companhias, os quaes mettidos na ba- 
talba coriavao com igual pulso, e nao com desigual 
effeiu^. inimigo, primeiro descomposto das car- 
gas, e depois sangrado dos golpes, yiroii as costas 
ao damnoy buscando nas casas do engenho , senao 
seguro , desvio ; estavao guarnecidas e em parte 
forlificadas ; e serviao os altos ao reparo dos Fla- 
mengos^ e ao de seus Indios auxiliares as paredes 
d'uma espacosa casa tei^rea. 

XXX. Gorr^rao em desordem os inimigos &% 
casas 9 e sobre elles os nossos, que logo Ihes ga- 
nhirao uma hermida, e um grande cumulo de 
lenha, ealli se travou proGada luta. Vendo-se elles 
por toda a parte perseguidos de aossas baliaS| que 



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300 GASTEIOTO LtrSITANO. 

saindo de reforcados moequetes biscainhos rompiao 
portas e paredes, usarao de urn estratagema para 
suspenderem o combate. Mandarao por as janellas 
das casas aquellas matronas portuguezas, que dis« 
semos aprision^rito na Varzea. Pareceo a diligencia 
de DOS destruirem demonstracao de os inimigos se 
renderem ; e assentou o mestre de campo com o 
govemador se mandasse urn (ambor que requeresse 
a entrega, eofferecessebom quart el^ com desengano 
de que entrados por assalto se nao daria vida a 
pessoa alguma. Fundado no direito das geotes , 
saio o nosso enviadb com uma bandeira branca na 
mao. Ouvio o Flamengo a embaixada; avaliou a 
diligencia por fraqueza ; e perfido por arte , res- 
pondeo com uma horrivel carga de mosquetaria , 
saindo lodos repentinamente as janellas e barandas 
das casas, das quaees dada a cai^ se retirarao para 
dentro, deixando mor(o d'uma ballaao nosso men* 
sageiro. — Levantou-sc entre os nossos uma voz : 
« Traicao, traicao; morrao os perGdos herejes, w 
Como nova causa accendeo o grlto em todos novo 
furor, de sorte que com os tiros nao deixarao appa- 
recer o inimigo, em quanto muitos dos nossos car- 
regavao lenha^ e com ella enchiao os baixos, e cer- 
cavao (odas as paredes d ellas; em pouco tempo se 
fizerao os soldados senhores do ambito, e baixo das 
casas; adianCou-seentretanto o capitao Joao Soares 
d*Albuquerque a impedir ao inimigo a serventia 
da escada, para todo o incidente ,• seguirao sua v<i- 
lerosa determinacao outros muitos capitaes e sol- 
dados ; todos pediao fogo ; o qual applicado aos 
materiaes se comecava a alear com pavorosa vora^ 



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GASTRIOTO LUSITANO. SOI 

cidade. — Crescia a lavareda ; en Ire nuvens de 
fumo entrava ja pelas janellas a chama em com- 
panhia de innumeraveis ballas^ que a aiumaTao. 
Ci^scia com as chamas a raiva; entregava-se o 
hereje ao ferro para escapar ao fogo, e parecia 
querer ser victima da desesperacao antes que en- 
tregar-se a parlido ; mas por fim vendo que dons 
soldudos nossos carregavao dous barris de polvora 
por ordem do governador, para fazerem voar as 
casas ( sem embargo de que no mesmo incendio 
ha viae de acabar innocentes e culpados), Ibe cairao 
as armas das maos, e esperancas do animo, pedindo 
a gritos bom quarlel. seu general Henrique Hus 
mandou arvorar uma bandeira branca, e com duas 
pistolas , viradas as bocas para baixo , e o chapeo 
na mao^ se mostrou rendido a lodos os nossos. — 
Acudio-se a apagar o fogo com diligencia; permit* 
tio-se ao general Hus e ao sargento maior Blar o 
sairem com suas armas e insignias at^ a presenca 
do governador; a mesma honra se permitlio ao 
governador dos Indios, sens auxiliares, e que todos 
OS mais ofliciaes e soldados sairiao das casas desar- 
mados, e a merc^ dos cabos sobrcditos. Recebidas 
nesta forma as condicoes da entrega saio Henrique 
Hus , e em seu seguimento os ofliciaes maiores ; e 
logo lodos OS mais cabos e soldados^ que os nossos 
forao desarmando assim como iao saindo. Plejteava- 
se sobre se haverem de entender, ou jiao, as con- 
dicoes capituladas com os Indios rebeldes; quando 
elles mesmos decidirao a diivida contra si proprios, 
porque depois de rendidos^ com animo traidor, se 
rebellarao, e d'alguns tiros matirao um alferes, e 



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302 GASTRIOTO LUSITANO. 

um soldado, e ferirao gravemente o capitao Anto- 
nio Gomes Taborda : })drbaridade que nos obrigou 
a passal-os a espada. 

XXXI. Tinfaa o sargento maior formada toda a 
nossa infantaria em circulo , que pelo raeio aira- 
vesfavao duas alas de mosqueteiros , por entre os 
quaes forao passando os rendidos ate a presenca 
dos nossos cabos maiores. Vio Joao Femandes 
Vieira diante de si a Henrique Hus com as submis- 
soes de rendido, e Ibe disse estas palavras, modesto 
sobre victorioso : « Mai discursa quern fabrica fu- 
» Uiros sobre as ineonstaneias da fortuna ; e muito 
)) peior quern nos favores della acha molivos para 
» desprezar a razao e para atropellar a justica. 
)) Quem dissera (ha muito poucos dias) que a so- 
V berba bollandeza , animada de nossa desgraca , 
» se desvelava em Fabricar sua ruina 1 Vezes sao 
» do mundo ; e nao se desenganao os mortaes de 
» que so o imperio da razao i o que dura, e o da 
» tyrannia o que mais de pressa acaba. A maior 
» injuria de um governo 6 governar com injuria ; 
» e o pronostico mais certo d^ sua queda i o in- 
» sassiavel de sua cobica, pois por satisfazer a sMe 
» nao repara em secar a fonte : nao dissimula Deos 
» com aquelles delictos, de que faz gala a malicia 
* c pregho o escandalo. Como bavia de fardar o 
1^ castigo a culpas que decretava o poder 7 A Deos 
» nosso senhor, de quem esperava nossa fe o re- 
>) medio, obriga o sofTrimento dos abatidos tanto, 
» como offendem as demazias dos soberbos. A 
» V0884 merc6 nao o posirao nesle estado nossas 
» armas, senao suas insolencias^ de que eu como 



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CASmOTO LUSITANO. 309 

» mais ofTendido soil o mais queixoso ; « tinda 

» assim me compadeco de «ua forinna, c confesso 

» nie occupa todo o cora^ao a piedade dc ana mi- 

V seria^ esquecidos dos ameacos de sua arrogancia 

» que promettiao prcnder a quern o tern preso, e 

» dcslmir a qnem agoi^ o determina favoreccr : a 

» conlingencia dos fuluros acautella sesudos, e 

M descompoe itidiscretos. » A loda esta pratica nao 

rtepondeo Henrique Hus mais que estas determi- 

nadas . razoes. «Pois Tossa senhoria me renceo, 

» e me tern prisoneiro, pode fazer o que for ser- 

I) vido ; e Ihe posso assegurar, qne para render o 

» Arrecife Ihe nao falla mais que caminhar e tomar 

y> posse jle suas fortalezas; porque a flor de sens 

» fioldados e defensores tern Tossa senhoria morta 

» e rendida nestas dtias batalfaas. » Foi o gover- 

nador correndo com os olhos todas as pessoas Pen- 

£das/ edisse para o mestre de campo Andr* Vidal 

de Negreiros : « que Tejo me assegura na Terdade 

T^ do que ouco. » Tornou Henrique Htis : tr Pois 

n Tossms senhorias tern Tenctdo ludo a qoe ae podia 

» temer, nao pei>cfto a oecasiao , que wma tw per^ 

» dida taide se rccupera. » 

XXXH. A primeira diHgencia, a que se dedicou 
o goveraador depois- da victoria , foi a liberdade 
^qtieilas matronas que o tnimigo iinka prisioiKi- 
ras, cuj4 redempcao e Tista augmenlou a gtoria do 
triumplK), e a toz do apptanso^ com que o cMrcito 
acclamava a ipictoria ao som de cakas, dariM j e 
tkaiamethm, augmenladocom o esirepkodM kmt^ 
%aro8 Tttstrmnenioa de Minas e Iftdioe, que^ acoM* 
tMoolkado de aena eonfosos gritoe^ ae (am aoa ti- 



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504 CASmOTO LUSITANO. 

toriosos grato»e aos yencidos importuno. — Lai^oo- 
se a casa de Dona Anna Paes aos soldados comtoda 
sua bagagem , reservando para £1 Rei ludo o que 
erao armas c muni^oes, que se entreg^rao ao pro- 
vedoi* do exercilo. Entre mosqueles e claviuas fo- 
rao seis cenlas armas as que perdeo o inimigo , e 
pass^rao de mil e quinhentas as que nos deixou 
uesla e na occasiao das Tabocas ; de todo o mais 
genero d'armas offensivas e defensivas foi grande 
a copia que se arrecadou. A abuodancia dos mau- 
timenlos foi (anta que servio a necessidade dos sol- 
dados f e ao suslenlo dfi mui(o povo , que de lodas 
as partes concorreo. Aqui se proverao os nossos 
officiaes de muilos e bons cavallosi com apparelbos 
e jaezes para a vaidade e para o servi^o, parece que 
quiz o C^o que not armassem para a liberdade os 
mesmos tyrannos que nos armarao de razao para 
recusar o jugo. £m quanto os nossos se occupavao 
em aproveitar o util , se desvellava o governador 
Joao Feroandes Vieira em enlerrar mortos, e curar 
feridos, em cujo exercicio tomarao grande parte os 
moradores da Varzea e dos Apupucos, uns daado 
sepuUura aos defuntos^ outros casas e medicamen- 
tos aos enfermos, como devedores a uns e a oulros 
de se verem restituidos a suas moradas, das qua^ 
aadavao desterrados^ havia muilos dias. -^ Deixou 
o HoHandez no campo da batalha quatrocenlos 
morios e duaeutos prisioneiros ; e dos que poddrao 
fugir, raros forao os que deixarao de morrer. Du- 
zentos Indios degoUou, logo alli, nosso ferro, e 
depots anossa diligenciaacabouosdemais. Da ooasa 
gente morr^rao dezoito peasoas, e sairao triaU e 



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CASTKIOTO LUSITANO. 305 

cmco feridos : cousa que pai^ece incriveli e que s6 se 
explica por uma proteccao manifesta do ceo. Qua$i 
todos Qossos feridos convalecerao promptamente, 
servindo-lhes depois os signaes dos golpes taoto, a 
honra das pessoas como ao conliogente da halalha 
e formosura da yictoria. 

XXXUI. Nesta guerra de liberdade e indepen* 
dencia nao s6 liverao, parte os inoradores, seoao 
muitos padres e religiosos, como ja temos visU)'; 
uxa d'elles mui distinto, e que merece especial 
lembran9ay foi o P. Fr. Joao da Resurreicao, reli- 
gioso benedictino natural do Brazil. Este religioa> 
foi «sc(^ido pelo seu provincial , que residia oa 
Bahia^ para ir assistir, junto com outro reli- 
giosoy ao abbade do engenho de Mazuresse^ em 
Pernambuco, Fr. Anselmo da Trindade, que por 
sua muita velhice e grande virtude fora respei* 
lado pelo Hollandez. Forao os dous religiosos 
em companhia dos embaixadores flamengos que 
Toltavao para Pernambuco ; desembarcarao no 
Arrecife conGados no favor d'estes ; apresenta- 
rao-se aos do governo, a quern esposerao lisamente 
fim de sua viagem ; mas como chegassem justa- 
mente no tempo em que comecavao a espalhar-se 
OS romores da sublevacao, forao tidos por suspeitos 
e at^ como espias; detiverao-os dentro do Arrecife 
com a cautela da deseon(ian9a at^ que houvesse 
embarcaqao que os levasse para fora da terra. T^r- 
don a execu^ao ; e o tempo Ihes abrio caminho a 
comprar a licenQa para sairem do Arrecife para o 
teu iegenhOy por quatro caixas d'assucar. Succedeo 
entretanto a sublevaQao de Joao Fernandes Vieira; 
I. 20 



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106 CASTRIOTO LU81TAN0. 

retirarao-se os religiosod do engenho , que bem de 
pressa foi saqueado por Joao Blar, e forao fogindo 
de mate em mato at^ se encorporarem com o nosdo 
fex^rcito ; onde Joao Fernandes Vieira os recebeo 
com agrado e tratou com respefto : favor que o 
P. Fr. Joao da Resurreicao Ihe soube merecer com 
o acompanhar al^ o ultimo periodo da gucrra. Na 
primeira occasiao d ella , que foi na das Tabocas y 
diasemos por maioro valor e zelo com que obrou. 
Neata segunda, que acabamos de referir, obrou de 
BortB que, confessor e soldado despertou a emulacao 
de todos, e a inveja de niuitos ; com persuasoes e 
^xemplos ensinava a despre^utr os perigos de uma e 
outra vida com a applicacao do sacrameuto e com o 
¥lgoroso do braco ; e apezar de ser ferido de duas 
ballas fi'uma pema e n'um p^> nao se retirou 
do campo da batalha, antes com mais ardor e zelo 
continuou no exercicio do seu ministerio rdigioso 
e patriocico , at^ que a victoria foi proclamada pe- 
lo6 nosso^. 

XXXI V. Em 17 de Agosto de 1645 se alcancou 
esta victoria. Pedia o discommodo de tantos dias 
e trabalho de tantas marchas ( com o de duas 
batalhas campaes) descanco e alivio para os sol- 
dados ; o que Ihes solici(ou , mandando abalar o 
exerdlo parai o seu engenho de Sao Joao Baptista , 
rito na Varzca , para onde marchou em f6rma de 
triumpfao. Precediao clarins e charamellas com 
todos OS instrumentos bellicos ; seguiao-se os Hol- 
lahdetes rendidos , entre elles o seu general Hen- 
rique Hus , montado em um ginete , privado das 
insignias militares e armas bellicas; logo a nossa 



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CAOTUOTO L08ITAlfa 907 

gente formada em eaquddroe^^ aos quaes seguia o 
goTernador com o mestre de campo, acompa- 
nhando aqiieUas matronas que o inimigo tinha pre- 
sas: dona Anna Bezerra , dona Izabel de Goas, e 
Luiza de Oliveira, as quaes $eus maridos levavao 
d'ancas j segiiidos da multidao popular, que nao 
descancava de louvar a Deos, e abend iqoar os liber- 
tadores de sua escravidao. Chegados ao engenho, 
forao recebidos com excessiva alegria, e hospedados 
com generosa grandeza. — D'este lugar se remet* 
tArao para a Bahia os rendidos, a saber, Henrique 
Hus, Joao Blar, com lodos os ma is que nao quiz^ 
rao assentar pra^ debaixo de nossas bandeiras , 
para servirem a coroa nesta guerra ; e porque o 
dar Ihes guarda de soldados seria defraudar o exer- 
cito, e gasto gem fructo, orden&rao os dous gover- 
nadores Joao Fernandes Vieira e Andr^ Vidal que 
de povoacao em povoa^ao os fossem guardando e 
conduzindo os moradores de uma at^ outra ; e que 
nesta forma se entregassem ao govemador do Es- 
tado Antonio Telles da Silva , para que d'elles dis- 
posesse como bem Ihe parecesse. — Em um dos 
povos por que passarao, matirab os vizinhos a Joao 
Blar dc um tiro, tirando d'este modo justa vinganca 
de um inimigo, que nao respeitava o sagrado nem 
o profano, e que naquelles sitios espalhara o tet^ 
ror e a morte. 

XXXV, Em numero XXIV d'estelivro d^mos 
conta de como o general da frota , que da Babia 
parlira para o reino, melt^ra no porto de Taman- 
dar^ as oito embarcacoes em que o governador do 
Eitado mandira oa mestres de campo Andri Vidal 



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308 CA&TRIOTO LOaiTANO. 

e Mai iim Soares com seus tercos para socegai^em 
OS tumultos do8 moradores de PeruambuGO^ de que 
SCI haviao queixado os do governo hoUaiukiz; refe- 
rimos o que succedeo na marcha a estes cabos; 
agora relataremos o que Salvador Correa passou ua 
viagera, al^ ^quellaaltura que perteince aos termos 
d'esla historia. Em 1 2 de Agosto amanheceo a frola 
ancorada a vista do Arrecife : constava de trinta 
e sette v^ias sorteadas ; sua capitanea , um forte e 
magesloso galeao obrado no Brazil , pela industria 
do general da frota. Hollandez Qcou de tal mode 
perturbado com esta apparicao, que suppondo-a 
hostil pela coincidencia com o successo das Tabo- 
cas J nao Ihe restou mais acordo que para tratar da 
entrega. Nenhuma occasiao se perdeo com mais 
desculpa* nem com maior desgra^a.^— Mandou 
Salvador Correa dous enviados a terra para que 
saudassem os do supremo governo , represenlando- 
Ihes que o fim que alii os trazia nao era outro que 
dar-lhes a nova de como deixava em Tamandard 
oito embarcacoes com dous tercos d'infantaria em 
complemento da promessa que o governador geral 
do Estado Ihes havia feito; que com brevidade 
mandaria socegar os animos dos moradores, e pren- 
der as cabers dos conspirados para os castigar 
pelos merecimentos das culpas, o que tambem 
fazia por obedecer as ordens que tinha do senhor 
Rei Dom Joao o Quarto, pelas quaes Ihe mandava 
apertadamente que com os HoUandezes se conser- 
vasse em todo a boa amizade e correspondencia ; 
e que elle Salvador Correa se ofierecia com todos 
OS Portuguezes daquelk frota para tudo o em que 



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GASTEIOTO LUSITANO. 809 

OS podesse servir; e com aqnelle galeao, em que 
ievava toda sua casa para o reino^ comboiando 
aqufilles navios mercanteSi Ihes pediao Hcenca pa- 
ra se Ihcs Tender algum refresco da terra, e para os 
poderem visitar osquetiTessem gosto de o fazer; em 
9^;uranca do que poderao ficar em refens aqueiles 
seus enviados. Desembarcarao entre muita gente do 
povo que os esperava para o misterio que poderia 
ter a confiahca de tomarem ferra sem licen^ ; acom- 
panbados de alguns e seguidos de todos, subfrao ao 
conselhO) onde foi ouvida sua embaixada y e orde« 
nado que os aposentassem na fdrma devida. Este 
Hecado , f odo de paz , tranqutllizou os animos dos 
do coDselho, ainda que sempre Uies restava alguma 
desconflanca ; pelo que mandafao no mesmo dia 
duas lanchas de refresco, e aos remeiros derao or- 
dem que examinassem o porte, a carga e a gente, 
assim da eapitanea como de todos os mais navios; 
o que fiz^rao i sua vontade pela franqueza com 
que o Dosso general Ihes permittto o exame. Desen- 
ganados os do governo que nada tinhao a recear , 
largarao nb dia seguinte os nossos enriados , que 
voltArao para bordo com um barco de refresco que 
haviao comprado. — No dia seguinte rompeo o 
tempo em tao furiosa tempestade que tem^rao os 
pilotos trincassem as amarras, e dessem a eosta os 
navios ; levirao ancoras, largArao algum panno , e 
forao correndo a vontade dos ventos , fa^endo al*- 
gumas Toltas a terra , mas sempre engolfados no 
mar. Seis dias os trouxe a tormenta n'eetes bordos 
lutando com as ondas, at^ que tornando-se o vento 
mais largo pod^rao seguir sua derroia para o reino. 



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310 GAimUOTO LUSITAMO* 

XXXVL Tanto qye o HoIlaiideiE «e vio Uvro 
do temor que a a^sombrava tratou logo de p6r em 
esiecu^ao o desejo em que ardia ; e diapoz a mait 
lofame traicao que um peiio humano podia &bri-f 
oar. Mandou aprestar nove fragatas , que tinba bo 
Arreoife e ua Paraiba y e bem guarneddas as en« 
tregou ao seu general do mar Joao Lectart, com 
axpreaaas ordenaque fos^Q ao porlo de Tamaodar^i 
a nelle obra^aase e mettease a pique os oito oaFio) 
portugueze^ que alU ae acbavaoi 8em que a pessoa 
viva se d^sse quariel< — ^ Nao tinhao os nossos iia<< 
Tios mais guarnicao que os homens do mar e du«« 
zei:ito8 aoldados bi$oainhos \ pw^m uao bastou o 
repente e a perfidia para deixarem de rebater o pri** 
meiro aa^alto com auimo portuguez ; porque ha«* 
vendo Unto eiMi^easo entre poder e poder, igualou 
a valeotia do9 poucoa com o aumero dos muito^y 
e £6i a poleja tao aanguinolenta e porfiada , que es- 
tere por largo cspaoo itidecisa a vigtoria. Assiatia 
o oapilao maior Jeror^iipo Serrao d^ Paiva d^ntro 
da capitanea , e delJla infundia valor e forQaa em 
todoa OS seu«y fazendo cada um o possivel por imi« 
tar seu exemplo. Daa primeiras cargas perdeo o ini- 
migo a melbpr fragata ^ que passada por ambos os 
costados fui mettida a pique, Umnavio nosso, quq 
auapeitout a irai^ao com que a armada inimiga hn^ 
cava porto , deixou a euseada , e no roar largo 
brigoU com muitod dos Hollandeze^ com lal va-. 
lentia que Ibe desarvorou duaa fragaUs; e desem^ 
baraQado de todas , com a mesma gentileza se fez 
navolta daBahia. Com nao menos valor, ,depoi3 
de larga reaistencia, varirao dous navios nossoa em 



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GAnuoxo umxAHa Itt 

taira, e salUindo aella os homenft do mn$ w d^ 
fi^Sfio d^ sorte que nuoca txxlo o pod^r qontra^ 
ru^ Oft p6de randier uem queimar. A outroi dgni 
navios^ quq nao poddrap abalroar^lhea d^Ura^ ci 
iogOy e ard^ao. Susteatava a nao capilaoea toda o 
peso do corobale, defeqdida da opiiuao e do brafa 
do capitao maior, ai^ que eutrada por tres partM#. 
detendop capiiao a victoria com a pr^^eoi^ e coA 
a espada, cai<> np copv^ cortado d^ muitaa feridait 
Q rendido ao trabalbo eao deaaleuto^ com tauto ea« 
Vr^Qo do FlamepgOf que 1^^ ^ervio a pr^sa da nao ^ 
do qapitao maid de affronta que de triuiopha. Fer^ 
demo9 ne^ta occa^iao quasi ceia pesfoaai eotrandoi 
aeate aumero oa que morr^rao uapeleja, eicOS qu^ 
afogarao as oudas com todos aqueiles que depoia 
BMioii o Hollander a sav^ue frio. A muitoa feridoft 
laoQou ao mar amarr^dP^ dou# a dpus ; a o^troa 
deapachou , por Ihes abrir e reuovar aa feridaa coo^ 
a€|g^odo3 golpea* Pa parte coptraria forao tai^toa 
oa mortos e feridps, qi(e se diviilgou 09 Ajrr^^.fi^ 
Bova da yictona.Qom lagrimaa e lutoa ; e \^ w^ 
tao Q^ra que de bqa vontade a d^ra o Flamengo pela 

CU$tD« . 

XXXMI< A* tyramaias e crueldadea dpa Holt 
laudei^^ assim como per^eguiao ci atormeatavfk^ 
coutiuuamente os pohre^ moradoresi tambem 901:^ 
corrAiao.a formar valences capitaes^, qup un\g 
coutribuirao a recouquistar a liberdade da patria^ 
Deste num^arp d o capitao Mam>el ^Parboza* Vivi4 
este morador retirado po mato^ e ^m sua ca9a, qu^ 
era a uma legaa da cidade Mauricea; deixara mti^ 
tres irmas, couGado que a fragiUdade do sexo in»r 



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313 OACTRIOTO LUSITANO. 

pirasse respeito ao Flamengo; mas nao suocedeo 
assitny f^orqiie' n'uma noite foi a casa assaltada por 
defeeseis'Hollandezes armados, que tratavao de ar- 
rombar as portas. Appellidirao ellas favor contra 
kdroes , qne as quf rSo matar ; succedeo ourir o 
irinao os golpes da violencia e os gritos da afHic- 
cao (esUva elle h'um mate vizinho com outros 
cinco moi^os amigos seus^ todos de dezoito at^ 
▼inte annos); animou os conipanheiros a que o 
ajudassem a salvar suas irmas; nao hatia mats 
armas que duas espingardas^ duas espadas, uma 
fouce de rocar e um bordao ferrado. Derao sobne 
OS dezeseis Hollnndezes com animo tao destemido, 
qut mat^rao a maior parte, e feHrao a muiios dos 
que escapak^ao, ficando-lhes nas maos as armas de 
todos, que erao mosquetes, clavmas, pistolas. Cres- 
ceb com as ai^mas o brio nos seis , e nos outros o 
df sejo de se Ihes aggregarem ; formou-ee uma com- 
panbia de vinte mancebos , de que foi acclamado 
capitao Mahoel Barboza , com os quaes, como filho 
de Perrtambucd , vingou os agg;raTos de sua patria 
em quanto Ihes foi possivel, saqueando, fe^itido e 
matando Hollandezes com emboscadas e assaltos. 
Proveo com as armas os mais companheiros que ja 
chegavao a trinta, e se foi metier na villa de Oiinda 
na tarde de 17 de Agoslo, dia em que os nossos 
alcian^drao a Victoria das casas de dona Anna Paes ; 
por espaco de quarenta dias defendeo os moradores 
da villa assim dos Hollandezes que nelia se aquar- 
tellavao, como dos que guameciao a guarita de Joio 
d' Albuquerque (um reduto, ou fortaleza vizinha 
da povoacao), Avaliou-se sen valor e sen zelo no 



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GASTBIOIO LDfinma SIS 

grio ^e mereda ^ e o governador Joao Feraaadtas 
Vieira iba doo paftente de oapitao de maior nnaicro 
de aoldidofl. 

XXXYIQ. A fortalesa de Nazareth , que depo» 
do Arreeife era a meUior que tinba o Hotlandes^ 
^ti^ye eereada peloa moradores » eonb a cima dis^ 
8M)ot 9 e para refor^c o oecco .tbha ttapchado 
MariiiaSottFto Moreao^qyando se separou do nica- 
tre 4e. campo Andiii Vidal de Ncgrebor. Qiegapdo 
a Peitnir^e ao oq)itao Amador de Araujo, achoo 
que o cereo eBlavft em boa diapoei^o ; fol^ aper* 
tando cada ves maia atd que n'uma ndle leranton 
uma trincfaeira donde a nossa masquetaria iMre* 
jaaae os aleoa da ftirialesa^ de sorte que d'ellea aao 
podeaaeion o$ eercadoa fnerponiaria eerta para os 
da fora. £fa a>mmendor da forleleza um valecoto 
soldadoy €bamadoTheodoiio£atrater» de quean )a 
fiaemos memoria enk al|;umaa partes deMa narra^. 
Vio aoamaobeoer a UnDcheira,^ pela obra oonheceo 
que asaiatiiio aoscercadores eaixB inteUigentes e 
prataoos jsa milicia. Quaudo se oecupaTa' neslaa om- 
sideracotey chegou urn mensageiro 4a parte dbica*^ 
pilao Moreno , que Ihe dhia enlregasse a forlaleBa 
e naoesperasae o astalto, porque se nao dat'ia boas 
quariet a niuguem. Despedio^ o oommendor cam 
publicaaarrogaRcias, e em segredo Ibe disaeqtae ea- 
tava prompto para cumprir opromeitido^ maa que 
importa'vd mandar reeado aomeaire de eampo An- 
dr^ Vidal de Megreiros para que com seu tefc en^ 
gnossaase o poder, e tauto que diegasse Ihe fi esse 
segunda embaixada , a qual re&pooderia em Ibrma 
qjiie nem faltasse a sua palavra^ nam ao seu cre^ 



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tu cMmano unttAm. 

dit&^''^MmoicKH§e avita a AndrA Vidal da Het 
gftmmf que ta aehava com o goveraador na Varaea; 
p6z-«e elle logo a caminlio, chegoa ao campo, e fioi 
raaahldo com as saWaa da superior, indmcriosa- 
weote repetidas, que reniat4rao em mandar se^ 
gonda enbaixada aos cercados, a qua) te reaamia 
etn que logo eDtiregassem a foKakva a bom parlido 
aaleB qnaoassalto fechasaeapoiiaatodooeone^rto. 
pnaaeiro enviado nao era homtin eovhecado, 
pelo qua nao tore rasultado a mtsMo^ porque o 
eommendor nao quia aceeitar uenhuma propoata 
que nao fosse feita por bomem que tivesse poito 
na BOfilicia* Foi eolao esoolbido o capitao FhjlIo rfa 
Cunha, que era j4 conhecido do oeaamaidor. -** 
Recebeo-ooom todasas oortexias^ eerftnoniaaniili^ 
taresieonridou-oaoomer^e diante desMS soldadoa 
o ouvio. Com sagax desenfado respondea que e)le^ 
oomo Hieodotio Eatrater, itm sempre ial amigo 
dos Port uguetas ; mas que em quanto eomaticaidor 
daquella praca tinha s4 por amigo o seu crodito, 
que todo4X>nst8tta em hzer boa a opiniao que d'eU« 
tinha quern Iba entregira i e que nao dizia elle 
raorrar lia defensa, senao dar mil vidas pels menor 
pedra de sua foriificacao ; e lerantando-se da m^a 
tomou a Paulo da Gunha pela mao , e o veio acorn* 
panfaando at6 4 porta, a onde com dissimulacao 
ttie disse, que da sua parte aTisas^e ao mesCre de 
eampo Andrd Vidai que l6go mandassedar um as* 
salto A Ibptaleaa da &inra , ponqae elle a tinha em 
fi^rma que sem difficuldade a renderia; e quecom 
todara prestezaa rortiGcasse, e guarnecesse de ma- 
neira que vissem os seus soldados feehada a porta 



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ummmo vsnnao. MS 

a todo o soceorro que podeiteiii etperar do Aitra^ 
ctfo I e que com a mesma Ibe impedisse a foiHe da 
quo befa^^ porque a faita d'agoa, e dts esptrancib 
d*elki 08 reduzirta a aeu inteoto ; e tm fimque ni* 
eBlranhassem as dila^oea, porque todas se enoami-* 
nhtvao ao dervi^o d'El Rei de Portugal , cuja en a 
fortalaza, e de quern elle era fiel Yasaallo. 

XXXIX. Executou*^ o oHiselho ; e e ofieito 
mosirou que era nasctdo de animo fiel e verdadeiro« 
Sobre este seguro asseotou a confian^ oom que 
Andri Vidal eficrereo a Theodozio Estrater eobra 
a materiiiy a quam respondeo verificaiido a pro^ 
meaea com i^ua mesoaa firma. Como experiipentado 
capitao comefou logo a usar d'aquellea ardift que 
aao ordinarioa em taes ca#Q^) in^piraudo terror uoe 
9euSy augm^o^taudo o njumepo e valor doa iioaiPft| 
e eni:ar^cendo as difficuldadee e penuria ^, qua $e 
yeriao em breye eoud^oomadoa* Succedeo ueMe 
eomenoa tom^rem oa.nossos uma laucha d'un ricQ 
Hollander Escoleto, dodestricto de Santo.Aatomo '^ 
que qom muita fa^nda sua e graude ^u(nero. de 
pessoa/s^ isaira pela barreta para o Arreqife, £lra este 
bomem odiado do% moradores pelas muitas vexa* 
90^ que fazia, pelo que foi paasado a espad^ pelog 
uo^^s ; o mesmo ^uccedeo aos maia Hollandezeg 
que ^Gompanbavao ; por^m a todas as mulbjerea se 
deo qu^rte^, e deppif liberdade, ficando nas.mao^ 
dos ^Idados o barco com todo rechep, e foi cqu^ 
sideravel presa. £ste acouleqimeuto iuesperado cou^ 



1 Bm mtm^rt III do lino ? iltwmoi ifidtra • JutUdlecao 



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SM cAsmioTo umiTANa 

tribuio miritD a aogmebtar os temores dos cer- 
oadM, e a reBoIiicio dos sitiantee. — No comeco 
de S«ttembro mandoii o mestre de (»mpo o capilao 
Panto da Cunfaa, acoMpanhado do auditor g^ral 
Franoisco Bravo e do capitao Joao Gomes de Meilo, 
com dotemne embaixada aos sitiados, dizendo4hes 
que se nao ge rendessem , dar-se-hia o asdalto, e 
todos seriao passados 4 espada, se a fortaleza fosse 
ganhada por aritias. A esta resolucao tap apertada 
respondeo o commendor que nada podia concluir 
naquelle dia, por quaMo Ihe era necessario fazSl-o 
com o conselho de seus oiBciaes; e em segredo 
avisoU que se Ihe nao esperasse nem uma s6 hora 
de tempo. Paulo da Cunha repetio com grande dea- 
eftgano que, se logo logo se nao rendessem^ se pre- 
parassem para a defensa, certos de que a nenhum 
perdoaria a espada.j— No breve tempo que o ca- 
fikaO Paulo da Cunha gastou em ir com a resposta 
e vbltar com a ttistancia, chamou o Estrater todos 
OS seus officiaes da milicia , e com destreza Ihes 
fallou desta maneira : « Todas as respostas que 
» det as efnbahcadas daentrega^ fornoiau o artificio, 
» nenhnma a intelligencia. A onde a podia fundar 
i» meu discurso , quando todos sabemos que em 
D duas batalhas se perdeo aquelle poder em que 
» estribava nosso soccorro ? E cjuando no Arrecife 
» se empenhasse o ultimo esforco em nos soccor- 
» rer, por onde nos havia d'entrar, se por mar e 
}y por terra nos tem o inimigo tomadas as vias? A 
» omissao on a impossibilidade dos nossos gover- 
» nadoires nos reduzio a tal ex(remo, que 6 maior 
» o damno da falta do que o perigo da forca. Por 



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GASTRIOTO LUSIXAKO* 317 

» este caminho d certa a fome, e mfaUifel a sUbj 
r> tendo-nos o inimigo tomada a agoa ; o cohrM-a 
» por annas 6 impossivel ; o busc^a a fuiio sera 
» comprar uma gota tl'ella por muitas de sangue ; 
» fioeza tao mal merecida de qnem bos causou 
)» esta penuria que oitendo faz mais edtima^ao de 
» seus interesses que de nossas vidas. Se per mer* 
» cadores as arriscarmos e perdermos, a que pre- 
» mios, ou a que honras subimos? Genie <|ue paga 
» mal services como ha de saiisfazer finezas ? E se 
» a retencao do roobo e crime e infamia, que hom*a 
i> ganhamos em defender a usurpacao d^esta forta-^ 
» leza a seu proprio seuhor, quando com todo o 
D direilo da justica e das armas se empenha em a 
>) recuperar ? Tenho dito o que sinto, e com tudo 
n estou prompto para seguir a resokicao d'este 
» conselho. » 

XL. Decidio^se o negocio com votos enconira* 
dm; a maior parte determinou a entrega. Sem di- 
lacao mandou o eommendor a Gasgar Vandrelei, 
capilao dos cavalleiros , com outro official da mi- 
Ucia, que saissem a capitular a entrega da fortaleza^ 
cujas condicoes, estendidas em papel, forao as se- 
guiiites: Que os cabos sairiao com todas as honras 
militares^ que se custumao conceder em aimilbames 
casoSy e com todos seus moveis; que a cabos e sol* 
dados se pagariao todos os soldos que a Companfaia 
Ibes cstiTesse devendo; que todas as muoicoeQ, 
armas e artilharia ficariao para £1 &ei ; que a Uydsos 
OS que quizessem militar debaiov) das.bandeiras 
da liberdade se Ihes assentaria praQa, e daria soldo 
como o (odbs os mais do exercito ; que aqudles 



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S18 GASTUOTO LUSRAlia 

que quitetsem servir nas guerras do reino se Ihes 
daria embaroa^o , e que o mesmo ae gnardaria 
com aquellea que quizessem passar a raaa terras. 
Finuadas as oondicoes referidas d'uma e outra 
parte^ mandou dizer o commendor, que die e a for- 
taleia^ e todos os seus estavao as ordens de auas 
senhorias, para que d'uma e outra consa dispozes- 
eem como fosaem servidoa. — Fez-se logo aviso por 
am proprioao govcmador Joao Fcrnandes Vieira, 
nao s6 a buscar o seu beoeplacito, senao tambem a 
pedir^lhe dinheiro para satisfazerem ao segundo 
eapitulo das C0Ddi96es relatadas. Era o dia 8 de 
Settembro, em que Joao Fernandes Vieira festejava 
com grande aokmuidade a Natividade de Nosaa 
Seuhom , quando recebeo o correio que Ihe trazia 
a Dova da #ntrega da fortaleza de Nazareth. Yio 
pela plana dos soldados o que a Gompanhia devia 
aos rendidos, e achou que erao necessarios nove 
mil cruzados, que logo remetteo pelo meamo pro<* 
prio.*~Ghegara o tempo definido para a entrega 
da fortaleza, e formada a nossa infantaria^ a entre- 
gouTheodozio Estrater, dando as chaTcs ao mestre 
d« oampo Audr^ Yidal de Negreiros, com os para*^ 
beos de posse. Sairao os reudidos^ que erao duaentos 
setteala e cinco (nao eutraudo nesia couta um 
oumero grande de gente yaga que nella se tiuha re- 
^3oUudo)) e eatrarao os nossos a guarnecM-a. Se*- 
guio^ae a esta funcao mandar o nosso mestre de 
campo armar uma mesa, deilar-se iiella|o dinheiro, 
e dar^se a cada uoiados reudidos des crazados* Acs 
ctffidaea se pagou conforme 4 divida e ao posto ; 
com que lodos se derao por satisfeiios. A'quetteB 



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GASTEIOTO LUSITANO. 319 

que se offerec^rao a servir com os nossos se Ihes 
assentou pra9a com pagamentos pontuaes , e ajus- 
tados a seus postoa.^Com^s outros se guardiiio as 
capitulacoes inteiramente. Entao se derao univer- 
saes e repetidos vivas : a pureza da f(^^ a liberdade 
da patria^ e ao alcance da victoria, com aquella 
alegria que causava a todos o desejado fim que pro- 
metiiao principios l&o ditosos. Para coroar a gloria 
d^este dia tom4rao os noMOs um btrco que vinha 
carregado de mantimentos , mandado do Arrecife 
em soccorro dos cercadqs. Acharao-$e naquella 
praca dez pecas de bronze, lodas de alcanee, mos- 
quetes de sobejo, polvora, balla, corda em quan- 
lidade ; e nao pequeoa copia <le manUoEieaCos. Foi 
cste 8Uc<iesso de utilissimas consequencias para 
nossos intentos, porquenosdeo porta oapaz para 
a entrada daa fazetidks e do9 soi^corros , e para a 
sacca dos genero^, com uma fortaleza a ciija som- 
bra podlao os navios do commercio eatar seguros 
no porto ; peh mesma razao de grande quebra para 
as esperaD9as do inimigo. Cinco dias se demorou o 
mestre de campo Andr^ Vidal de Negreiros, os 
que impregou em compor a forteleza, e prover do 
necesaario ; e depois de ordenadaa todas as eousas 
se poz em marcha para a Varzea, levando encorpo- 
rados no exercito osrendidps, cjTheodoiioEstrater 
eom o goTemo de todos 6s que nesta occasiao ass^-* 
t4rao praca para servirem entre nds. 



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LIVRO VIIL 



SUMMARIO. 



. que se passou na capilauia de Paralba antes dafubleracoo; oc 
de Gojaaa appellidirao primeiro a liberdade. — 2. Diisimula o 
PluMBgo ai akoracoai 4a Paraltk; trau de enganar ot inondo- 
re$i OS quaes buscao armas para se defeaderem ; alter«o-«e cob a 
prisio de Antonio Barbalho.— 8. Dimlga-«e entre os Porlagueies 
a ▼iftoria de Joio Pernandes Yteira. — 4. Concede o Hollaiides 
aoi motadores armas eonira o semio ; ttnem-se, • fortiftcio«fe mi 
sitios mais defeniaveis -, o inimigo os teme, e se retira da etdade. 
— STMareha o gentio para Goyana; o que Ibe succede. ^t. Man- 
d&o. OS anseos govemadorts soceorro * Paralba ; nome&o para • 
govemo da capitania tres moradores ; acdaua-ie a liberdade ea 
toda ella. — 7. Preparao-se e armdo-se para a defense ; mudao^de 
alojamento. -«8. Manda o Hollandei commetter a cidade e o nosso 
alq)aBie«to ; selira-se vencido ; perda i«a e noast.— 9. Par fella 
de segredo se nao entregou a fortalf za do inimigo. — 10. Cansa e 
Aodo que teve a subleracao no porto do CaWo; ChristOTao Luix 
M ptimalro qte appelttdoii a liberdade; poi eereo A fortaleia 
do porto do Cdvo. — 11. conunendor persoade aos sens a ea- 
trega da praca, e pede que venba um capitio pago para Ih'a eQ< 
Iregar; o gOTemador mandov o capitSo Lourenco Carnelro tomar 
entrega i% forldesa; repartitao de dinbeiro polos i<endidoa; ar- 
rasa-se a fortaleza. — 13. Acelama-se a liberdade no Rio de Sao 
Francisco.— 13. Cercao os nossos a fortaleza, e pedem soceorro ao 
gatemtdar glrtl do Sstado ; tomio ao inimigo um etraVelao e 
uma lancha de muni^es e mantimentos. -^ 14. Cbegt o capiiao 
NicoUo Aranha com o soceorro; elhe desTia outros. — 15 Far 
lem OS nossos embaiiada requerendo a entrega ; Henrique Hus 
Ibe persuade a ei^tr^ga. ^ 16. Capittilao-se u eoadicoes da tm^ 
trega ; consequenoias que fiierio grande a Tictoria. — 17. Edifice 
Joao Pernandes Vieira uma casa de misericordia na Vanea ; cbe- 
gao a ella Andr# Vidal e Martim Soares de volu de Nazaretb ; dao 
posto de mestre de campo dos estrangeiros a Tbeodozio Estrar 
ter. — 18. Ganba-se o forte de Sanu Cruz. — 19. Manda o Hol- 
landei embaixada ao mestre de campo Andrtf Vidal ; resposU por 
escrito. * 20. Conferem os nossos cabos o modo de oontinuar a 



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GASTBIOIO UttlTAMa SH 

gnem ; ptreotr do goyernador da Uberdade; o q«al te eieeuU*^ 
21. Escolbe-se o sitio para uma fortaleza, e se poe mao ik obra; 
primeiros nrndamentos da povoacao do Arraial dovo. — S3. Joa6 
Femaiidea Viefara intanu ganliar a ferulai* du Cioeo Pontaa; 
Tbeodozio Ea trater o diiuade , propondo que se ataqae a ilha de 
Itamarac^. — 25. Executou-se o seu parecer; chega o nosso exer- 
dto a Ignara^Q , passa o no, ^ commette a empresa. — 2#. Ast*^ 
Dio Diat Cardoso gaoha a priroeira fortifieacao; ao meiiBO iMipo 
a rompe o gOTernador pela oi^lra parte; chega Estraler, e o ini- 
migo se reiira a fbrlaleza — 25. Combatem os nossos o forte, que 
Dtto podem tomar ; retirao-se com iodustria, e marebao para a ilftift 
de Iguaracuonde fazem alto. — 26. Di-se coota d'algamas partis 
eularidades d'este suecesso. — 27. Doen^a g^ral de todas as capi- 
tanias. — 28. Dl-se conta d'vina Informa^o jnridica que os natu* 
raes maDd&rao a £1 Rei Dom loao IV. ^ 29. Razoas que adia^tao 
08 acoDtecimeotos do Rio Grande; quero Hollandez prirar os ha- 
bitantes das annas, os quaes penetrao o intento, e se fortifleao.— 
ao. Sao assaHados peloinlmfgo, o qua( se retira yeneido e con** 
Also; volta sobre os Portuguezes flngiodo-se auxiliar; osPortub- 
guezes entendem o engano e orebatem. — 31 Declara-se o inimigo, 
eoteombateoom poder e industrta; reodem^seos nossos a partido^ 
eom as condi^s que logo quebra o HoUaadei*, e os enirega aos 
seWagens; paeiencia comquesoffrem o martyrio. — 32. Igualsorte 
tWerao OS que flcArao dentro do cerco ; inauditos tormentos que 
padeceo Aoionio Baracbo; piedade com que deo a Tida Matbans 
Moreira. — 33. Valerosa consuucia de oito maoceboanurtjfrizados 
pela K e pela patria. — 34. Horrendas cruezas que usa o hereje 
para com os Teneidos. — 85. Mandou o goremador um soccorro 
que Dao ebegou a tempo. — 36. A^olao os nossos a cafflpaoba^ e 
sendo atacados pelos Hollandeies saem Tictoriosos; coDtinuao as 
bottilidades at^ i chegada do Camarao. 



L Deixamos escripto em os livros precedenlea 
eomo Joao Femandes Vieira se resolveo a por por 
obra a empresa da liberdadej como deo noiicia a 
diversas pc^ssoas e a differeates jiartes do seu in- 
tento, e do que haviao de executar com o sea aviso ; 
ja dissemos como o grito da liberdac^e se espalhou 
Ba campanha de Pemambuco : agora diremos o que 
succedeo na Faraiba^ em Itamaraca, no Rio Grande 

21 



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mtA outiw pOToacow sujeitas ao Flamcngo. Vendo 
OB Hollandezes o que tiaha succedido na vespera 
d« Sanio Antoaio^ e como todoa o6 moradMrea es- 
tav&o dispoStos a saeudir o tyranno jugo que os 
oppruBia, passarao ordeiis rigorosas para que todos 
flmem desarmados , e nomeirw novos governa- 
dores para execuiarem as novas disposicoes do go- 
vernor Paulo de Unge^ aiembro do conaelbo poli- 
tico, !bi mandado como governador de Paraiba e 
aeu deatricto com alguma infantaria em guarda de 
aua pes9oa . Chfgou i Paraiba, alojou-se noconveeto 
de Sao Francisco, melhorou todas as fortifica^oes, 
e com boaa patavras e com disaimuladoB obsequtos 
quiz fiizer pfersuadir aos habitatites que cstava de- 
ierminajdo a obrar mais com afogo que comcaatigo ; 
nms no m«smo tempo, com uefenck periidia> dee- 
p4chou um proprio com aviso ^ Pero Poty, gover- 
Bftdor e cabe^a dos Indios que viviap no ceriao, 

Sara que com toda a gente de seu dominio descesse 
08 montes para a cidade, para ahi commetierem 
aa mesaiaa barbarirtades que n'oulroa destrieios 
tinhao praticado. — 3& dissemos o que succedera 
em Goyana e Cunhaii, e como o Flamengo alii usara 
de todas as crueldad^S iinaginaveis para impedir 
a wbleva^o doa moradores contra o seu tyranno 
yasgp c ^igom atecresoeDiaremoa que lap^b^M* de aeoa 
oafoi^os foi prodamada a liberdade oom grande 
yalor « resoiii^m. Tinha o Flamengo mtudado 
imnder OS doos capitnea nomeados por Joao FVer^ 
wandea Vieifa^ e mais alguna Bortuguezes inflnentea^ 
• j«l9(m por «le modo auffsoor a aubferagefO ; mas 
atteprOoeAiiMnio tanrto de rebate aoa Tizkibn da 



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GAftTUOTO UniTAHO. 825 

Goyatna que 06 acautelkm para o tempo do perigo. 
Eiegdrao d'entre ai capitaea e olliciaes que os go^ 
vernaaaemy recolh^K) todas as armas que pod^rao 
baver, e na occasiao mais opporUina ae 6zerao 8d- 
nhorea da povoacao appellidando a -liberdade ; e le 
deflfeiuMrao Taronilmente a Uxloe os incoraoa do 
inimigo pela di8po8i9ao e induatria de Diogo Gar^ 
TalhO) PaBchoal de Fratas, e Martim Frai^zo ; at^ 
que per mandado do goTemador Joao Feraandes 
Vieira os rend^rao dos poatoa oa capitaea FrauciscD 
Lopes de Arosco, e Diogo Vieira Tenrete. 

II. Chegou a nova da rebelliao a Paraibaj ou*- 
▼io^ o goTeruador coiu apparoite deaprezo, maa 
com interior sobresalto. Difsimulou com as priaoes 
e com a prematica daa armas , e mou de meios 
brandos ; maudou fixar editaea em que , da jwrte 
dos Eetadosy concedia p^tlao a todo o genero de 
peeaoa que por algum modo tivesse encorrido uo 
erime da rebelliao , com taato que , apartidoa. da 
aedicao seguisaem o auligo e pacified estilo de. sua 
obedieuoia , em qae coosiatia o seguro de auas 
vidaa e ftuoendas; e particulaitnente pedio a eada 
um dos priucipaes ddadaos , que serTisaem oom 
seu exemplo ao sooego da repubiica^ e que elk to- 
mava por sua conta o cuidado de as livrar da toda 
a vexacao e hostilidadey assim doa soldados eomo 
dos Indtos, para que elles moradorea »e podetoem 
euts*egar ao governo de auas berdades e familiaa. 
— Tinha o falso goveruador mandado Tir, eomo 
aeima dissemos, o Indio Pero Poty ; nao podia es- 
eonder a sua viuda nem o fim para que, e para 
eigaoar os moradores publicou que o maiKUra vir 



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y^h GAsmoTo lumtano. 

com OS Indios de 8ua jurisdiccao para os ier com 
8uas iniilberei e filhos dentro da cidade como em 
custodia, para qae mo tiTesseoi occasiao de vexar 
OS moradoreft. — Bern conhec^rao os moradores 
qual era a maKcia do Flamengo^ e para logo teriao 
levantado o grito da liberdade se nao esperasaem 
receber um soccorro de Joao Femandes Vieira, 
com o qual podessem resistir ao poder do inimigo. 
Espalhou-se entretanto a noticia das crueldades pra- 
ticadas em Cunhau por aquelle HoUandez Jacobo, 
de que j^ d^mos noticia, a qual foi saudavel aviso 
aos moradores, e manifestacao clara das barbaras 
hiteocoes do governador Linge. Reunidos todos 
n'um corpo tratao de buscar armas com cautelia , 
preparao-se para a resisteacia, queixao-se unani- 
memente do procedimeuto do go verno, e manifestao 
a sua ncsDhiima coofiaoca nas pramessas do gover- 
nador. *^ Quiz elle appladd*os, dizendo que o que 
succed^ra em Cunhau fora causado pela violencia 
de Jacobo e nao ordenado pelo governo, e que elle 
daria todas as provideneias para que similbaote 
cousa nao acontecesse na Paraiba; e para melhor 
tranquillizar os moradores saio do sen quarlel com 
gente de guerra a correr o destricto , assegurando 
a todos do receio que tinhao ; mas como, apezar de 
todas esus promessas mandasse prender Antonio 
Bapbalho^ come9Arao os moradores a alterar-se, e 
manifestar seu, descontentamento^ e a preparai^-se 
para a empresa que haviao meditado* 

liL Passados poucos dias depois que o Linge 
voUou para a cidade divulgou-se a grande victoria 
que Joao Fernandes Yieira alcan9ara nas Tabocas 



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GiSTUOTO LOSTTAMO* S35 

dasarmas hollandezasy e da chegada dos mestres de 
campo Aodr^ Vtdal e Marilm Soares com dous 
tercM d'iDfantaria , em soccorro dos moradorea, 
com OS quaes fi'cavao ja incorp^rados. Aatevio o 
Liiige que o succesao havia de aer para todos ex/&ah 
plo ; e a causa j que era urea mesma em toda a 
parte, em todas as partes havia de prodimr oa 
mesmos efFeitos; certo da efficacia com que oa di^ 
loses persuadem & imitacao, roandou logo retirar a 
todos OS Hollandezes e Indios auxiliarescom suas 
familias e moveis para a fortateza , que chamao do 
Cabedello^ situadana barra, cinco legoas da cidade, 
preveuindo^-se para tudo o que podia succeder. 
Assim como o tempo multiplicava os dias d' Agoato^ 
assim yinha correndo a nova de que duzeatos 
Hollandezes clavineiros, acorapanhados dos Ta- 
puyas que conduzia o referido Jacobo (asdolado 
Cunhad),marchavao a destruir a Goyana^ e a pro- 
seguir na execugao do decreto que 06 obrigava a 
nao deixarem pessoa viva em toda aquella ctpi- 
tania. 

ly. Como o governador hoUandez havia dito 
aos moradores que os soldados e Indios comman- 
dados por Jacobo erao rebeldes e levantados , de 
que elle era o chefe, com boa industria Ihe propo- 
s^o a yizinhanca do perigo e a elei^o do remedio. 
IKziao que o esqiiadrao dos rebeldes marchava 
para a villa de Guiana, e que de forca havia de 
atravessar pelos confins da Paraiba, e Ihe ficarao os 
moradores e engonhos debaixo da espada, indefen- 
SOS porque sem armas ; que as permittisse a todos, 
em quanto nao passava a necessidade, para que 



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326 CASmOTO tOflTAMO; 

^rmados podessem resistir aM assaltos ; favor qne 
Ihea nso podia negar como bomem e como gorer** 
nador^ pois a natnreta e a politica as concedia a 
toda k defensa do rides e honras. Ajimtarao a peti« 
cao urn donati Yo, e alcan^oii-se despaoho e oonselho } 
ditendo-ihea que so aproTeitassem das annas qua 
tiTessem (com tanto que nao usaaaem das de fogo), 
e se OB HoUaiidezes rebellados e Tapuyaa insolentea 
OS inyestissem , que se defendessem. — Com esta 
pertnissao fizerao os morador^ seus quartets ; e o 
governador hollaadez, com parte de aeus soldados^ 
se retirou da cidadt para a sua fortaleza do Cabe-* 
dello. Un(rao-se os moradores do certao com os da 
ctdade, fortificirao os sltio$ que Ihes parecArao mats 
defonsaveis, e capaaes para nelles recolfaerem suaa 
iamiltasy e o melhor de seua moveis , com todo o 
mautimento necessario; proT^ao-se d'armas de 
toda a sorie , e oflferecidos a toda a contingencia 
esperirao o fim que a sorte Ihes tiveese destinado. 
— i4 se aiQrmava que o esquadrao dos HoUandezea 
e Tapuyas marchava pelo destricto da Paraiba fa* 
zendo todo o damno que podia ; duzentos dos nos- 
SOS bem resolutos quizerao ir sair ao contro do 
inimigo, mas fbrao disuadidos de seu proposilo 
por Francisco Cancello, homiem prudente que 
sabia modificar a temeridade com a esperanca, e a 
furia com a oppo'rtunidade. Dispunhao«>9e os Hoi- 
landezes que guarneciao o quariel da povoacao a 
uma retirada total, mad saqueando a cidadepordes- 
pedida; pordm como entretantochegassea noticia 
de que Joao Fernandes Vieira mandava um soc-- 
corro a Paraiba, nao se atrev^rao a fez^i«o, antea 



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CASnieM ilWTAlO. Ill 

torn lodlos 08 aoasMM da cortezia $e opeFOv a f^t^t 
rada lam a mtfier desordan. 

V. Fbrao marchando oa ^uzenloa HollandfMI A 
Tapnyaa 4|ue traiiao em sua eompanhia pak pamn 
panha da Paraiba, destnimdo e mataodo ^UMIta 
\bm oaia aas maos^ sao se atre?eadQ a eomn^Mcw 
as caaiis fortes oode oq nosaos estavao pravenidos ) 
fii^rao em peda^os alguns maiicdHM pcMoa ( AM 
ehcgArao a dei ) que com meooB juizo que ^drguUn) 
inveslirio com o numeroso eaquadrao, mais pafft 
perdenm a vida qu^ para strviraoi a palna. Mttitoi 
Pqrmgutzes com mulherea, fiihoa, eser|¥es a mon 
veiaae reoolb^o a urn engenho chamado Inbahim^ 
do qual era aenhor um Flameugo por Qpmf} Aeainit 
que. a todos recol^eo e amparou eom animo &il d 
generoso. Chegou o esquadrao dos bartaroa im 
engenho da outro estraognro , oode cetiv^ao 4 
doua faomens uobsos, a um do^ quaes malariio depots 
a aangue frio. Peloa contomos da Guyanai Qude su^ 
mareha caminhava eiQ direitura > roub4rio tuda 
quaulo 08 naturaes nao pod^o retirar. — Cbe^ 
%ino a vista da povoacao, que estava da outra parte 
dfr um no ; eommett^rao a passagem ao eutrar da 
noite para fazerem mats horrivel o a»alto, e meaoa 
acautelada a defensa e a fuga dos afflictos moran 
dores, quando d'entre 08 raeymos barbfivoa 9e le- 
vantou uma voz^ que viuba sobre elles lodo noasa 
exerdtou Foi tal o medo que Deos iafupdiQ nan 
quelles deshumanos cor^c6eSy que Ihea r^rensea^r 
tou um e muitos esquadroes formados da eutra 
parte do rio^ faaendo o temer pa^[;ecer a todos que 
ouTiao rumor de vozes proporciouado 00m a mulr 



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SS9 CASmOTO LIMTAliO. 

tniao <U gente, que via siu imagtna^io. Tornados 
de medo yaltarao as costas , trope9ando em sua 
mesma fentasia ; e fogiodo de soas mesmas som*- 
biHfl^ deHcarao o caminho semeado d'armas e fa« 
t/tnitApy que hayiao ronbado , para correrem mais 
M^geiros. Atemorizados chegarao ao rio Goramamei 
tres kgoas da Paraiba; e parecendo4hes que na 
deten^a da passagem os poderia alcancar nossa es- 
plrda, deixarao os Tapuyas a conserva dos HoUaa^ 
deses/ e a lodo o correr fogirao para o certao, nao 
te dahdo per seguros saiao depots que peuetrarao 
muiias l^oas de mato. Virao-se os Fiameng^ 
desemparados dos Indios , e oomo de nova causa 
#g invadio novo medo ; guiados de seu desatino , 
Sem saberem per onde, para que, nem porque, 
fok^ao dar nos engenhos de Franoisco Camello , de 
Jeronimo Cadeua e d'outros moradores, que aeka- 
yao com mao armada^ e com uao meuos temordo 
que dies levavao > causado da escuridade da noite, 
e da subdita chegada ; imaginaudo-se estar assal- 
tados dos Tapuyas, e aquelles perseguidos dos 
Portuguezes , pass^rao toda a noite , una fiaudo a 
salva^ao a ligeireza dos p^, sem pararem senao ua 
sua fortaleza do Cabedelb; outros , com as armas 
na mao at^ que a luz da manba os liyrou de sobre- 
sako. No caminho que os Flamengos fizerao para 
ft fortaleza ob aasaltarao alguns mancebos da cidade 
que, depois de Ihes fazerem deixar modullas e 
armas, os despojarao dos proprios yestidos* 
• Vi. Os nossas govemadores, que deiximos alo- 
jados na Varzea, depois da segunda victoria nao 
laborarao meoos com o cuidado no descan^o, do 



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GiSTuno awtJMk m 

que com 09> brakes nos conflictos. Sabiio por CQC- 
temo tado o que se passava na Paraiba e em 66a 
eoatornO) e por imo fkltarem a'neces»dade doe 
desmaiados^ nem &s esperancas dos aniniMei'^^ 
terminarao a mis e a ootros soceorro opportuno e 
propcnrcioaado. Nomearao por capitaeedaleva An* 
lonio Rodngittft Vidal (sobrinho deAndif. Vidal; 
naturaed da Paralba), Simao Soares /Cosine da Ro^ 
eba^ e Francisco Leiiao, coin alguns i^pitaes e of^ 
fidaes para no^ie •companhias que haviao de faeH» 
vanlar naquella capitania. Do ter9o do Canlarao 
Bomeiirao o capitao Ckwcito , com al^ms }ndio8 , 
para que como nataraes daqueUe ceriao persua-^ 
disscim , e chanassem a si os Indios auxiliares do 
inimigo, ofifereoendo-4he8 nossa amizade, e van^ 
tajosos pariidoBquerendo militar debaixo de nossaa 
biindeir2«. Com o metmo intento mandarao a um 
soldado do ter^o de Henrique I>ias, por nonne Hen« 
rique^e Meodonoa, para capitaoilos Afinaae crioo- 
loa, suppondo que muiio3SehaTiao.de alisiar;~* 
Bern providos de munieoes e arHiaa os deapacbai* 
rao em 08 ultimos dias d'AgostOy remetlendo por 
dies paientes de goremadores d'aqueUa capitania 
a Lcpo Curado Garra, a Jerommo de Gadena, e a 
Franciaco Gomez Mauiz. Mais Ihes ordenar&o que 
ao passar por Goyana tomasaem alguma gen6e da 
pdvoa9ao j es€olh»do doe moradotes aquettes que 
tiyeaeem por si a meUior ofMDiao. Executirao com 
cuidado e deligenda as inslruccoea que Moeb^rao ; 
ehamarao primeiramente os tre^ govemadores , e 
depoia de Ihes communicarem as ordens que tra-- 
ztao , conferirao entre si o modo de dar comedo i 



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IM ciffuora umriM. 

oQ^NfMt iMrqitetadt. *-nMo «Ua aegidntey que te^ 
mnttfftD 2 de Settemhra, po^-M por obm o pljuMi 
ootictttAilo^ e a libenlftdfi ibi aeclamiida em toda • 

. VIL Foi ooiiaa maravilhosa a brovidade eciM ma» 
Be convdcario, ronnirM e araiarao todoa oa menb* 
donea; ponque o d«efo de eada urn aaaiaa pagan 
daa arautt qua tmha praTanidaa^ qua %&ak tempo m 
vimo aa compaBfaiaa fanuadaa e guanaecidas de 
aapingardaa, ehucos^ aapadaa, foueoa» paoa toatados 
e eutelloa da monte. Aqui ac vie camo o goate i e 
melher mattre. Asaim acfaeu a todoa discipiinadoa 
a ordem , que pareda lereai mukoa anoos de mi^ 
licia. Ja nae havta quern visse a oava ao medo ) o 
que antes ae notava^de deamaiado era o que ae inn 
anlcava maia de^lemido : na alegria do rostro ae 
Tia o alTorocD do oora^o de todoa. Os principaaa 
oa eatimacae o forao no zelo com que chaHniirito a 
at oa manodios de melbor arte, tomaudo oa poatoa 
de capitaaSy primeiro da iMo do favor que da elei* 
eio ; onjoa nomea Be irao partioularizando pelo dian 
eupso deata hioioria. No dia 3 de Sattembro Ca-> 
lio saiiido as oompanhias com seus oapttaea doa 
lugans dude ae fermarao , e oom ordem militav 
mfirchafaoii appeaentar*ee a aeus governadorea^ qua 
no logtti* da Tibiri as esparavao.-^Befopmamo^aa 
algumas companhiaa, para se dar numero suffix 
oiente Aa demais, Qeando todna 4 asoolha doa eapi* 
taas que vinbao nomeados peloa noaaos govema* 
dores* Deitou-se pelos moradores de toda a 
oapttania nma contribuicao g^ral para o auatento 
da guerra. f Udrao^-se editaes na cidade e seu ooa*» 



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cAtfnamo usmMtk Ml 

torno pAoft qmm o goveraaddr da UberMIe coikm^ 
dia a todos 00 €»trangerres / que qniieiMfm fiMr 
entM 116^9 a posse e livre tiso de suas fazemlas, nd 
fiH*o em que as gozarae ; e que aos que qnteessMi 
assentar praca se Ihes Aipiio es paganientoe con^ 
forme os postos que deixassem : muitos se asseu-* 
t4rio. Gondemnou-se o alojameuto de Tibiri por 
aberto e irregular, approvando-se o sitk> do eitk^ 
genko de Santo Andr^ (era de Jorge Homem Pinto), 
o qual se fbrtificou ffeatro de oito dtas, em f6nM 
que mereceo nome d'Arratal. 

Vm. Em um mesmo dfa se acclamou a HlHT^r 
dade na cidade e lugares circumTtziuhos de toda a 
capicania ; e netle o sotibe goTemador hollande^ 
Paulo de Linge, o qual logo se dlsper a mandar 
atacar o nosso alojamento. Formou um esquadrfto 
de trezentos Hollandezes, e dobrado numero de 
Indios; estes cohduzidos por seu maioral Fero 
Poty, aquelles govemados por um cabo eaeolbtdoi 
Sairao do Cabedello em demanda do Arraial, a tempb 
que pdo rio da Paraiba mandou seu goi^isruador 
subir um sufticiente numero de lanchas, eom ap« 
parencia de irem eommelter a cidade. — Persua- 
didos OS nossos cabos que por mar e terra vinha 
inimigo buscar a eidade, a soccorrArao com tode # 
poder ; mas bem de pressa conhee^rao queo alaque 
se dirigia todo cohtra o Arraial , e que as lanohaa 
subiao ardilosam^nte com voga escassa para nos 
divertir. Tinha ficado no Arraial pouca gente, que 
apenas bastava para as guardas quanto mais para 
a deFensa, o que causou grande cuidado aos homos, 
que nao podiao acudir-lhe com soccorro ; maa o oil 



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lit CASJMMO LOmANO. 

fiim FrMtfMCQ Gomect, que alii ficifa, soiibe des- 
¥iar o pan^<)ii6 o amcA^vft. S«k> oomoUmitado 
podeir que iinhia a Loscar o ioimigo, que enconirou 
nt.eampina 46 lahabim; m?esiiFaa-se os esqua^ 
droes , iguaes no valor, desiguaes no numero , e 
muiio oiais nas armas; as do inimigo todas de 
Sofpf as dos Poriuguezes nem iodas do ferro. Deo 
o FiadieQgo a (Nrimeira carga , quaodo o ceo nos 
favoreeeo 0001 uma paocada d'agpa f com que ani- 
naadoB os oossos iavestirao a espada, cooi valor tao 
destemido e braco tao robusto, que desaiinado dos 
g^pes nao sabta o contrario vadvertir o pequeno 
numero dos ptessoas : nao falUm ao eoeontro aquella 
(HTDfiaquesasf^ta a igualdade da forca. Foi re- 
v3lAA» ooiftbaie> mas oao longo, porque o HoUandez 
veijdk>^ campo eoberto de mortos^ os nossos com 
valop e di^ciplinA 9 e receaodo que nos chegasse 
aocooiiro 9 df^ m costas ao combate tao medrosa-* 
mt^V^ desprdeoildo , qye os aeus despbedientes a 
Sumuiy S6guira0 oa preceitps dp temor, sem para« 
rem Flwiengos e Tapuyas senao deotro de sua 
foiHaleza do CabedeUo. — Cinco sddados nos ma- 
tariio» oitre elles o capitao FraacisQo Iiieiiao : morte 
sintida pela occasiao e pela falta* Os feridos nao 
IbflM) miiitos, e oa fei parecer meoos a breve con- 
valescen^a de todos. Recolhidoa os despojos, se 
¥ottarao os nossos. paira o Arraial, dando*se uns a 
outros as eongraiuU^oes do sucoesso , e a Deos as 
gra^aa de tao inopinada victoria. 
; IX. Ainda corria. o aaogue das feridas, que o 
kiittigo recebeo nesta occasiao , quando o gover^ 
jMidor boUaadez mandou enforcer dentro da sua 



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fortaleza a nm honrado movador da Paralba^ por 
Bome Fernao Rodrigues deButhoes, enviado ( como 
escolhido para o negocio , por se fiarem nelle as 
partes) a concluir com o Linge a cntr^ da Sot^ 
taleza j que sua diligencia tinha muito adiantada , 
e que descompoz de todo a falla do segr^do. Al^ 
caaeou-o, ou por communicacao, ou por mferen- 
cia, um sacerdote , fez ariso do negocio a una pre^- 
dicante do inimigo. Deseoberto o trato, e ciilpado 
o gOTernador, Ihe foi necessario salvar a pe^flioa, a 
opiniao, e o cargo com se mostrar intenCo da ca- 
linrniia, e ficarseguro do complice; o que conse* 
guio com malar o interlocutor. Deade o presente 
tempo at^ o fim de Outubro nao dedctmcifao os 
nossos cb molestar o inimigo com toda a hostiti^ 
dade- poasivel , valendo-ae d'emboseadas , rebates , 
assahos sempre faem succedidos^ e ccmu prisoes e 
mortes de HoUandezes e Indios, <fue nao especifi^ 
caraoa por similhantes e continuos. ' 

Xi rObriga-no8 a bisloria a buscar o tempo em 
que ae acotamou a liberdade no poKo do GaJro, 
queixoso da detensa que fizemoa na rriacao dob 
aconteidimentos da Paraiba« Entre os homens de 
qualidade , que a violencia sojeitaTa nff oircumfte- 
rencia de seu domimo,<era um d -dies 'GhrisCovao 
LinSy nao menos nohre pelo sangue qwi^peios pro^ • 
cedimcntOB. A es^ tal mandoo Joao Fe^nandes 
Vieira patente de capitao de todo aquelle d^ttieto 
do p4H*to do CalTO , onde tioha smt momda> com 
aviso e ondem que, eauto e preveoido, esperasse o 
dia em que se ha via de aociamara liberdade em 
todas as partes sujeitas ao Hollandez. -^ Esperava 



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jCbrittovio Lins o iMmento propiek) pari dmr 
eMCU^ao 48 ordens que receb^, quaodo , TandD 
que o HoUandf z mandaya prender todas aa pewoM 
ile qualidadd como^aodo pelo commeodor Rodrigo 
de Barroa Pimepteiy e teudo noticia que Joao Fep- 
QgDdea Vieira ae pos^ra em campo a favor da liber- 
4adey fiez do succeeao ayiao» e sc^indo o odomUu) 
xfua Ihe dava a occasiao ao cai|;o, com OS Biocadorea 
que o quizeroo seguir appellidoa a Uherdade, e ae 
poz em. campo com as poucaa armaa que pod^M 
livrar da prohibit holiandeza. Informado o oooa- 
meudor dia fortaleza do sucoeMO y e quereudo apa-- 
§ar o £ogo antes que crescease o ioceodiot deikm 
ivra mna <pariida de aoldados com ordem que aaMl- 
taaeem as rebelados, e a todos prendeasem oa ma* 
tasaam* Mao ae etooodeo a GhiiaioTao Laos* e a 
aeua oourederados a riuda e o intento do iaimidO) 
e o eiperott d'emboaoada ; e com liuo boa fortuna, 
que nella perdteao (ados aa yidaS) e deixarao as 
armast cam as quaes ficarao os uoaeos aytis ooaa- 
doS| porque me^bor guamecidos. — Tm dm esit- 
l^drao em suspauaao as armas d'uma e d'outra 
parte I maa oomo acooleeesse terem oa Bosaoa avno 
da que peb rio de Maugoaba subia um baroa, que 
vinba emaocowiDodosuiimi^^ edaadoaotnvuUe 
i> 4qniaaty m.oam ouirle de mote HoUaudeass^ e ae 
*poderas«emde asuilas araus de fogo, mwiiooea e 
iMiiUflteukNi^ reouperayao auyo aoifliu); e rafop^ 
dos par gnwade oumero tb moradones que ae ea«* 
Jbreubayao pek»<aialm^ alojatao-ae earn um quartet 
4e|eMay#l^ e esteiideiido«*ae em doua im^os eiU'- 
giria a fortaku ao largo oade oa qm afeaoftta a 



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mmumTn iiiBimii) it6 

wtiUMOM df'eUi. AnimeMi com a in«hMio % ocMl 
« anBdft> nMid4rio anyi embiiiLada am cercaikM, 
^pie n entl^aiseat t bomi pQr(id([> ^ 4sertm do qM 
ihes f^iianlamp as bdndicoes lotiaid fkvMreit ,' q«i« 
nao de8t)reftaBSem o ofiereciineBlov porqu^ et9L re-> 
aolu^ia de solckdos^ e tambein eonselbo d'AmigM, 
pois Ihes proponhao os meios mais yf^s para a cofi'- 
aerva^ao iki himra, daTidbai t da fazenda ; <)tTe tudo 
ka^iao de peixter Be esperme^m b aiaalt)^. Ou¥fa> <^ 
cooMipeiMior a ^embaixada ^ e deapedio <) enviado 
aem Mspoaia. 

XL Vemfe o o^mme&dor da foneteea qut M 
namimmtoa iao faltemdd, e t^ne o^ Msaoa cr^sdib 
tti iiuiim*o, t apenavM tada vcfi^inaia o ^serco, pet^ 
auadb aoa <9M» tmn boas ra^oea qvi^ ae deria en- 
Iragar a foraatefca. Cottvi^frao todos no parei^ do 
oomnyeitdory o quat matidon nm enriado a C3im^ 
tffym Lem (tinhfta sidoamigos)^ dizendo por elle 
TpBte wA^ OS of&eiaea e soldados vinbao na lentirega * 
porttn que era necessario tnandar vir um oapitao 
fMgado drarkO) qtie tiuiAttoaem PenMimbl#cO( 
para cMa die asaentar aa oa{Mtiilaeoea; o t|iie^AM 
luiTia de faeer com algtm Am aiomKtorea , porqiia 
se nao tttaaeBae que capitulaTU omu oaanMitoa com 
q«e tiTOim aacuaade ) e cpie no entiretant^ o acMV* 
eorresse eoin algum refhasoo. HeeebM €hriM(n4k> 
Lids a eaabaixada , matMloii o rafneaco pedMe, e 
panicipou immediaUineDte ao goreraador Joao 
Femsndea VMtra as {mipostaa do cofMnendor, pe^ 
dindb^lM mMBdaawt lo^ qnam oapitadasfia tonovt* 
dioeea da ^ntmga. ^^ConaittDiooii o gpv^rnadwaf 
impa « a aupi^Ma aoa saua mestrea de«iiapo ; toM« 



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IM Gi«Tii0io umaAao4 

iuirio ealirc si sabre a pessoaque hayiao de maA- 
dar, e fixemocscoihadocapilaoLouran^Garii^^ 
de Acaujo, cavalleiro do habilo de Ghristo, que 
aaaistia jm pdoltl de Nazareth , o qaal |iaitto loge 
a executar a ordem ; chegou ao porta do Cahro, e 
asaentou com Christovao Lins que logo se noUfi^ 
casse sua vioda a Aram Florins (este era o noiae 
do couunendor da fortaleia). Capitulou-ee a ea^ 
trega na fticma seguinte : Que sairia. o inimigo oom 
seus officiaa^ e soldados tocaudo caixa, bandeiras 
tendidas, mecha calada, balla em boca, e todasua 
bagagem Ate o lugar destinado para os desarmarem ; 
que a todos se daria embanca9ao para ae irem oode 
quizesssAi^ que a todos que tivesseW; voAiade.de 
servir o nosso exerdto, se Ihes asseotana pra9a oa 
forofMi dQ e^lilo , fosse sokjado ou morador ; que a 
una e a /outros se coui^edia a posse e cultura de suss 
fai^udas, e lodos os foros com que at^ aqueU^ 
tempp as.posseeiao. Com estas partidas se apossa- 
rao OS nossos da fortaleza em 47 de Setlembro de 
1 645, — Repartirao^B^pelos soldadoa readidos sette 
omtos mil reis ; guardsoioise^hes pontualmeme 
as coodicoes pactuadas, sem que se desse oooasiao a 
menor queixa» muita por^m, is admira^oes dos es- 
traugeiros. Os officiaes e soldados reodidos faziao 
uumero de ceoto dncoenta e seis« — Deixou-nos 
o Fiameu^o a fortaleza inteira y com oik) pecas de 
bronze, qualrode vinie e quatro, duas de dezar- 
selte , e duas de ciuco ; armas e municoes^ nao U 
baslauiesi ^as sabejas para sustittlar. um lar^ 
sitjo* Nao quizerao os moradores que ua fortaleza 
iicasse molivo de soflrerem de porem novo sitio , 



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GASTiaOTO LUSITAIU). M7 

pelo que arrazarao as muralhas, e o capitao com- 
boiou por terra toda a artilharia para a Yarzea , 
onde cbe^u a avistar os nossos govemadores com 
applauso de yivas, e despojos da yictoria. 

XII • Em quanto estas cousas passavao no porto 
do Calvo outras similhantes succediao no lUo de 
Sao Francisco, cuja fortaleza em 19 do mesmo mez 
se entregou aos nossos. Valenlim da Rocha Pita, 
nobre econfidente morador naquella parte , rece* 
b&ra paiente de capiiao de todo aquelle destricto, 
na forma que se tinhao dado a outros deque temos 
fallado ; fora elle advertido pelo govemador da li^ 
berdade do decreto publicado pelo Hollaodez, e da 
trai^ao fue preparava aos moradores ; communicou 
tudo aos homens conhecidos para que o Flamengo 
OS nao achasse desacauteiados ; os quaes todoa se 
disposei*ao para aproveitarem o primeiro momento 
favoravel para proclamarem a liberdade^oqualnao 
tardou. Mandou o HoUandez prender um morador 
principal que residia duas legoas da fortaleza ; pu-> 
blicou*se o mandado, e com elle o alvoraco dos i^* 
zioboSy que saindo ao encontro do preso e dos 
ministros, matarao a estes, que erafo um sargento 
com dez soldados , e pos^rao em sua liberdade q 
preso; Cbegou a nova ao commendor, o qual man- 
dou logo um capitao com settenta soldados, que 
d^sse sobre os aggressores, e que a elles e a toda a 
cousa yiva abrazassem e consummissem ; mas nao 
succedeo como elle determinava, porque os nossos 
pondo-se d'emboscada, esperarao os settenta, e os 
castjgarao com tao boa mao, que nenhum pode 
escapar da morte para levar a nova do castigo. For 



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tn cASTMOTO Ltrsrr Alfa ^ 

terceiras Yias chegtni a noticia do cstrago ao com*- 
mendor que, magoado da perda, se arrepcndeo da 
colera. 

XIII. Em todas as idades foi sempre maior o se- 
quito da fortuna que o da razao. A muitos viti- 
nhos conduzio a tomar as armas o desejo da Hber- 
dade, por6m a muitos mais a nova d'csles successoa. 
Ja orgulho da muUidao julgava peqnena a op- 
posicao do Flaraengo , e Ihes parecia affmnta de 
sen braco o fazerem-se senhores da campanha sem 
ganharem a fortaleza. Antevio o inimigo a pratica, 
e temeroso da ousadia se rec Iheo com todos os 
sens dentro da fortaleza, nao Ihe restando mais es- 
pcranca que a dos soccorros, que Ihe promctlia. 
1]tonsider)iiio os nossos que a dilacao do cerco daria 
tempo a disposicao dos soccorros , e se resolvferao 
«n mandar dous correios A Bahia , expondo ao go- 
Tenrador gdral do Est ado o curso dos snccessos , e 
motfvo dos receios, pedindo-lhe que Ihes man- 
dasse algum soccorro* — No entretanto se occupa- 
rao em conduzir armas, municoes e mantimentos, 
que a pouco custo Ihe ofFereceo a Tentura em um 
caravellao , que o inimigo mandava de soccorro 4 
fortaleza : vinha subindo pelo rio, e assaltado dos 
Hossos o largarao os Flamengos comas vidas. A 
mesma sorte teve uma lancha que navegava com 
onze Flamengos , is ordens d'um ajudante : oiio 
mancebos Poriuguezes a envesiirao em uma canoa ; 
tnatarao da primeira carga seis Hollandezes ; os ou- 
trosacabdrao pelo ferro; e a lancha servio aos 
nossos de triumphoede soccorro. Entreos C5erca- 
ttores « 08 sitiados erao tantos os encoutros como 



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CASTBIOro UJSITAIIO* fM 

erao as occaeioes, e as occasioes como erao^s diaa, 
ftcando as ih>sqoa sempre vencedoreg ; e por aer^m 

05 successos todos os mesmos os nao referimos. 
XIV. Logo que o governador do Estado reccbeo 

06 correios com a participacao do que era passad^ 
no Rio de Sao Francisco, expedio as ordens ao ca** 
pilao NIcolao Aranha, que se alojava no Rio Real, 
para que com a sua companhia partisse com 06 
douscorreiosem soccorro dos moradores do Rio de 
Sao Francisco , o que executou promptamenle che- 
gando a avistar os nossos em 40 d'Agosto d'este 
mesrno anno; e para informar o inimigo da svm. 
ehegada mandou por o fbgo a algumas lancbat que 
tinha amparadas deba»xo de sua artilharia, o que 
eom bom successo se executou. — Ao outro dia da 
sua ehegada mandou Nicolao Aranha apertar o 
eerco com a sua gente (erao cento oitenta ho^ 
mens *bem armados, entre Portuguezes e Indios); 
passou o rio, e se fortificou da parte do norte , na 
qual a fortaleza estava situada , com o que (ran- 
queou a passagem a um grosso de nossa iofantaria, 
e com eHa cingio a fortiGcacao hollandeza ; no dia 
seguinte mandou occupar todas as entradas e saidas 
dapracacom emboscadas e mangas volanCes, que 
servissem & Tigia e a occasiao ; ordenou que -algii- 
mas companhias por iugares diversos picassem jO 
inimigo, no caso que saisse da fortaleza, oqUe se 
nao atreveo a fazer. — Foi-se apertando o ceroo 
cada vez mais at^ que as nossas ballas ja dhegavio a 
fazer estrago nas casas , e com o aperlo do cerco se 
Ihe forao tomando todos os soccorros que yinhao 
pelo rio , e eyitando por meio de lanchas armadas e 



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560 GASTEIOTO LUSITANa 

guamecidas de genie rcdolula que oulros man- 
dados pelo Arrecife podessem apprpximar-se da 
fortaleza. 

XV • Yendo o commendor da fortaleza o aperto em 
que se achava deitou fcSra um bolatim, e porellc 
mandou dizer ao capitao Nicolao Aranha, maiscom 
manha que com franqueza, que Ihe bjcijava as maos, 
e estimava muito sua yizinhan^a, e muito mais 
estimaria o servir-se d'elle, pois sabia como tao 
grande soldado que as leis das armas faziao con*- 
trarios, por^m nao inimigos. Respondeo-lhe o dis- 
creto capitao que, obrigado de sua cortezia; Ihe 
aconselhaya entregasse a fortaleza , antes que a oc- 
casiao Ihe fizesse inimigos todos os que via contra- 
rios. Nao cessarao as hostiiidades^ e continuarao os 
recados de ambas as partes ; se hem que de uma 
as formava a desespera^ao e da outra o desprezo. 
No dia 13 de Settembro ^ em que as armas anda- 
yao mais quentes, mandou Nicolao Aranha um 
tambor e um official com embaixada ao commendor, 
que sens soldados o importunavao , enfadados de 
tanta dila9aOy por licen9a para levarem a fortaleza 
a escala, o que Ihes nao poderia negar se logo a 
lULO entregasse a partidO| para o qiial o achariao 
favorayel ; que Ihe advertia serem mui poucas as 
palayras onde ha via muitas e boas maos. Queria o 
commendor ganhar tempo , esperando que entre- 
tanto Ihe chegasse algum soccorro , e sem rejeitar 
iuteiramente a nossa proposta, respondeo que pe- 
dia tres dias de tregoas para conferir com os mais 
eabos , e assentar o que se deyia fazer. Succedeo 
nesta mesma bora chegar ao Rio de Sao Francisco 



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GASTRIOTO LusirAno. 9fti 

Henrique Hus (com aquelle8 rendidosnas casas 
de dona Anna Faes ^ que os nossos govemadoresf 
mandavao pri^ioueiros para a Bahia), o qual, infoiv 
mado da embaixada e da resposta, se entrepoz por 
laedianeiro do negocio a beaeficio dos cercados* 
Escreveo ao conunendor com licenca nossa, expoz^ 
Ihe a desgra^a que Ihe linha aconlecido, a perda de 
duas batalhas campaes por parte da cQmpanhia , 
a impossibilidade de receber soccorro do Arredfe, 
e Ihe aconselhava que entregasse a fortaleza, e que 
nao esperasse o assalto. Estas razoes ditascomau-* 
toridade , e ouvidas com respeilo poderao tanto , 
que logo o commendor, com iodos os seus^ trata- 
no de entregar a fortaleza. 

XVI. Feitas as capitula^oes ^ e assignadas pelos 
cabos maiores sairao da fortaleza, na forma d'ellas 
(em 1 9 de Settembro) duzentos sessenta e seis Hoi- 
landezes e Francezes, cinco Indios, yinte e qujUro 
mulheres, dezoito meninos e outros tantos escra- 
vos; OS officiaes com suas insignias» os soldados 
em f6rma de guerra, at^ certos passos onde forao 
desarmados. Deixarao na fortaleza dez pecas de 
bronze, grande somma de pelouros sorteados, suf- 
ficiente polvora e murrao, e abundancia de manti- 
mentos. Aos enfermos, mulheres e meninos se deo 
embarcacao para passarem a Bahia com seus mo- 
veis ; alguns soldados se alisiarao debaixo de nos- 
sas bandeiras ; e os mais se passarao a outra parte 
do rio para marcharem para a Bahia como rendi- 
dos. — Foi a restaura^ao desta fortaleza utilissima 
para os progresses de nossas armas ; como foi de 
pemicic^issimas coniequencias para o Fiamengo. 



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363 CAwnxno ummMOi 

Era frontelra^ e chave d'ama e ontrt catupmbt, 
porque abria e fechava o transito de Peraamboco 
para a Bahia, e ao contrario ; deposito do principal 
dustento para os exercilos, porque destaa partes se 
condiiziao os gadoa, de que abunda aquelle refreno; 
e sem dominar aquelle posio nin^em se podia ser- 
tir das rezes quealimeniavao aquellespastos. A uti^ 
lidade foi a lodas as luzes grande, ou se tome pela 
parte da defensa ou peta da cooquista. Nenhuma 
Tictoria tnereceo tanto applauso, porque nenhuma 
se alcan^ou com menos cusio. Os moradores, fiadoa 
na forca de seus bra^os, pediao ao csapitao Artnhn 
qtie Ihes manda.^se arrasar a Fortaieza, para que ao 
inimigo se coriasse a esperan^a, e aos vizinhos o 
recek). £xecutou-se como se pedia; As del pe9as 
de bronze se depositarao em iugar seguro para se 
passarem a Pernambuco com mais commodidade. 
Ordenado tudo o que podia servir A convenicncia 
dos rooradores , marchou NicoUo Aranba eom a 
sua gente para a Vartea a dar conta aos nossos g<H 
veroadores do successo, e do desejo qtie tinha de 
servir a liberdade. 

XVII. Em quanfo o braco dos moradores das 
sobreditas capitanias trabalhava na restauracin) da 
sua liberdade , acudia Joao Femandes k da sau^ 
de todos. Para soccorro e alivio das feridas^ doen« 
cas e miserias que sito consequencias cercissimas 
das guerras e das campanhas, levaniou uma casa 
da Misericordia k iifiitaeao das do reino^ e das qua 
havia antes do Hollandez se fazer senhor da terra 
(de nenhuma deixou o inimigo merooria em todas 
aquellaa capitanias)^ na qual se eiercitasse a pie* 



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didechtigta por diveorsas pe$soas addkUs a diffie- 
xeates e0i|uregO6* Consignou ordeoado para um ca* 
pellaoy que todos os dioa dissesse miasa ao6 en* 
£^m0s» e Ihes administras^ os sacramentos, com 
c^igpa^ de assistir aos euterros dos mortos ; que 
logo proveo em pessoa beaemerita. Determinou. 
por^ao para medico, sirurgiao» botica e servos que 
assislissem && necessidades e limpeza dos enfermoa* 
&epariio os gastos pelos moradores , como o per- 
m^tia a possibilidade de cada um, e nomeou para 
provedor e roais impregados os homens mais ca« 
paae$ e zdosos da terra^ — No maior fenror desta, 
OQcupa^aQ chegarao a Varzea os mestres de campo. 
Avidri Vidal de Negreiros e Martim Soares Morena 
da Tolta da empresa de Nazareth y com todos os. 
estrangeiros rendidos. Consult^rao com o governa* 
dor o premio qua poderia merecer o servi^o d^ 
Theodozio Estrater, em quanto a majestade d'El 
Rei de Portugal Ihe aao fazia merc& ; e atteudendo 
aa desejo que tiuha de servir ao dito senbor na 
ampresa da liberdade , Ihe d^rao o posto de mestre 
de campo de duzentos e cincoenta estr^ngeiros (que 
rendidos oas occasioes referidas asseuUraa pra9a 
4e soldadps ) com promessa de que se Ihe aggre* 
gariao a s^u terco lodos os mais que pelo tempo 
s^dianie quizess^fn servir em o uosso exercilo. No- 
me^rao-lhe por sargento maior um Francez, cha** 
mado Francisco de la Tour, e deixarao k sua es- 
colba a devisao das companhias, e nomea^o doa 
of&ciaes d'ellas* 

XVUK Susteutava o iniroigo (a liro de mosquete 
da villa de Olioda ) uma pequena for^a chamada de 



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Shh CASTBIOTO LtSITAHO. 

Santa Cruz ; limitada no ambito, grande pelo sMo ; 
e inexcusayel transito para a communicacao e aer- 
vico do Arrecife para a villa, e della para o cerlao ; 
j4 neste tempo cortada pela nossa opposi^o desde 
a occasiao em que o capiliio Barboza com os triota 
soldados de sua companhia a occupou. Yendo pois 
osnossoscabos quanto era importante aquelle ponto 
para o progresso de nossas armas, resolv^o que 
se levasse por entrepresa. Asdentarao o tempo e o 
modo; e com uniForme parecer mandarao algumas 
companhias que se passassem da outra parte do rto 
por aquelle sitio que chamao o Buraco de Santiago, 
e de emboscada cortassem todo o soccorro, que do 
Arrecife se podesse intentar pelo yao, que debaixa- 
mar da o rio naqueUa parte. Posta por obra esta 
diligencia, sairao os mestres de campo Andr^ Vidal 
e Theodozio Estrater com o grosso de sens tercos, 
resolutos em levar o forte a escala. Adiantou-se o 
Estrater, pelo coohecimento que tinha com o com- 
mendor HoUandez, a persuadir-lhe a certeza de se 
perder^ e a conveniencia da entrega, antes que 
contra elle se desembainhasse a espada. Convenceo* 
se o Flamengo com as razoes de Estrater^ e se en- 
tregou a partido^ que se Ihe fez com aVaniajados 
favores. Entregou o forte com seis pecas d artilha* 
ria, subejas muni^oes, e sufficientes mantimentos, 
necessario tudo para os soldados portuguezes^ que 
nella ficarao de guami9ao. cabo r^idido com 
todos OS sens assentarao pra^a no ter^o de Estrater, 
primeiro convidados de nossa fortuna que de sua 
affeicao. Guarnecida a forca com uma companhia 
de soldados, para rebaterem o inimigo , se inten- 



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cjmwmo umtuno. us 

t recitperii*a^ se voh^o os noseoB para o sen 
akjamento. 

XIX. Os govemadores hollandezes^ que asnstiao 
BO Arreeife, cortados de taatos golpes quaniaa 
trio as perdas e damnos recebidos, oonsiderayao a 
pressa com que as nossas armas caminhayao i ul-* 
lima ruina de seu imperio ; mandarao unia em- 
tiaixada ao mestre de campo Andre Vidai tie Ne- 
greiros, euja substancia em protesios e jusiificacoes, 
oom que arguiao e coodemnavao os progressos de 
nossoB empresos, a rebel liao de seus subdilos, a 
perda de sens exercitos, as mortes e prisoes de 
seus cabos, os damnos de sens comaaeraos , ^9 
roubos de'BuasfazmidaSy a quebra de sua reputa- 
fao, a injuria dos iilustrissimos Estados; que a 
•lie mesUre de campo se imputava toda a culpa , 
como total causa de todo» os males, pois quando 
o posto, o preceito e a razao o obrigava a solicitar 
a paz, ea socegar os tumultos dos moradores le- 
yantados, influia na guerra, fomentava a rebeUiao> 
era parcial nos insultos, e capilaodos ag^pressores ; 
e que ja que syas obras o declaravao mortal ini« 
migOy nao se negasse is obriga^oes de soldado na 
commuta^ao dos prisioneiros, mandando-4he o seu 
general Henrique Hua com os principaes cabos que 
Ihe tinha retido, em recompensa do capilao maior 
Jeronimo de Silva, que tinhao preso no Arrecife* 
*— Andr^ Vidal, que com esta resposta ficara mais 
colerico que corrido, nao quiz Gar a resposta & me« 
moria ^ e & cortezia do enviado y e tomou por se* 
guro expediente o fskz^l-a por escrito; para que 
nem a adulacao^ i^m o pqo podesse viciar o que 



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itiMeM a pafdi ; BO qual le OQQjiiahM M t 
razoes, como eniao se dizia. « Se o espMto nia 
» fdrt reaulta da estranh^za, todos nos admiramcis : 
» vossaa mercte da miahas rasdu^oes, e eu de seiM 
» iratDB; oias como esies em yoasaa mercte aao 
» faltos por uso , e aquellas em mim jitstificadas 
» por outtume , nenhum fuDdaoiento poderi ter 
» nem em mim o espanto, nem em Tosaas merote 
» a admira^ao. Mandou-me o senhor Antonio Tel* 
n ks da Silvai govemador do Eatado , que Tiesse a 
» esia eapiianta soeegar os tumultoa da rebelliao 
N por Tossaa mencfts Ibo pedir^m ; dei anas ordena 
>i a ezeca^ao ; diegnei a ertes In^ares, nos quaes 
» nao aohet desobedienteSy ackei desfiDr^doa ; nao 
V adiei rebeldes que castigar, achtt opprimidos 
n que fayorecer. A d)ediencia que se deve ao 
Ji senhor nao 9e deve ao tyranno ; at leia da po*' 
>i litica ciyil obrigio a obedecer ao principe natural^ 
» e naoao intruto. Vosaaa mffl*cte malao pat olBoioi 
» roubio por conveniencia ^ injuriao por goalo« 
» Dtgaorme : aao principes, ou piratas? Sao senho- 
» rtSj ou lyrannos? A obediencia em tamo i l(*gal 
» em quanto serve ao superior legitimo , nao em 
a quanto adula o senbor intriiso. Em vosaaa mar- 
a cto uao s6 ^ falso o dbminio, senao o iraio* Que 
» heran^a , ou que direito Uies deo este imperio ? 
a Que engano nao intentao em todas suas accoes? 
9 Pois <k>mo jiilgao que a um governo false devem 
w OS homens uma fidelidade verdadeira ? A traicao 
» mais vil i a que resulta da ingratldao, porque se 
)» fabrica com as maos do beneficio. A necessidado 
a obrigou a vosaas mercte a que pedisaem ao go«* 



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» Ttraador geral do Estado favor pan apazigua- 
)» rem os Portuguezes de seu dominlo. Vieinos em 
M sea soccorroy eu e os soldados que me assistem, 
n e descobrimos o iraidor intento d'esta peticao, 
j» sendo todo o fim d'ella introdnzir*-iios oesta capn 
;» pilania , para que nella cercados de «uas armas 
» no9 consummisse o ferro, a fome e o descerro; 
n traicao que todo o mundo vio h luz das chamasi 
n em que no porto de Tamandard ard^rao os vasos 
>» que DOS c^nduzirao por ordem e mandado de 
» sua cavilla^aoy que temerusa de que logo desco- 
» brissemos o engano^ nos lirou os meios para o. 
» regresso; e seudo eu neste particular o luais 
1^ queixosoy oie querem persuadir o mais culpado« 
9 Muiio cega a malicia ; a cegueira da natureza 
H nao deixa yer aos ouiros ; por^m a da malicia ^ 
n Bern aos ouiros, uem a si mesmos; aquellacqra- 
» se com OS remedios, esta augmenla^se com as 
» prosperidades. Ponderem vpssas mercte de que 
» parte faUa a verdade, e dessa acharao a traicao. 
n A majestade d*El Rei meu senhor Dom Joao o 
n Quarto nos ordena que em tudo conserremos a 
)) paz^ a amizade e a correspondencia com os Hoi- 
» landezes, porque suppoe iguaidadeno trato; poi^ 
» r^m se nelle i tanta a difleren^a como a distancia 
».entre um animo real e um coracao mercantile 
jtf como p6de ser que se nao d6 por offendidoi me^ 
M dindo-se o aggravo pelo excesao dos extremos? 
» Maior servi^o Ihe fa^o em me oppor a injuria , 
i) que em obedecer ao mandato ; porque sei que 
da falta das nocicias nasce a difibrmidade dos 



» 



» preceitos* £ quando^ levado d'este dictamen, pe- 



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8M GASTUOTO tUSITANO. 

T» que na interpreta9ao de suas ordens^ pagarei com 
» a cabeca a falta da obediencia, por^m ficarei cmn 
» a gloria de a saber dar, por ganhar o perdido na 
» reputacao d*um Rei que com fidelidade sirro ; e 
» no cullo d'um Deos que fidelissimo adoro. Stf 
H morrerei com a inveja de nao ser eu o primeiro 
9 que desembainhei a espada para yingar uns e 
M outros aggravos ; mas tambem com a dita de ser 
» o segundo a respeito d*um varao, que nao tem 
» primeiro. Em quanlo ao requerimento de tro- 
» car prisioneiros , facil f6ra o despacho , sendo 
» todo o interesse nosso, pois nos pedem quatro 
» cabos a troco d*um capitao , quatro Flamengos 
D por um Portuguezy dando a uns e outros sen 
)» inirinseco valor ; por^m o general Henrique Hus 
A com todos OS mais rendidos ha dias que forao 
» remettidos A Bahia & disposi9ao do govemador 
» g^ral do Estado , onde chegou^ menos o sargento 
M maior Joao Blar, aquem os moradores d'um lu- 
» gar matarao com quatro ballas^ porque ihes de- 
» via mais que uma vida ; e ja que os prisioneiros 
n reFeridos se nao remettem (por sujeitos* a outra 
» jurisdiccao) aconselharei que yossas mercds os 
1 mandem pedir a Bahia , que com facilidade se 
» darao a todo o barato, por nao ser fazenda da lei. 
>} Os que estao em nosso poder nao tem gosto de 
» yoltar, porque militao entre nos mais por sua 
n conveniencia que por nossa necessidade; que 
» nao necessita de rendidos quern os p6de render. » 
Com esta resposta despachou Andr6 Vidal o en- 
yiado. 
XX. Por algum tempo esteve suspenso o exer-* 



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GASTBIOXO LUSITAKa ftM 

cicio das annas eutre os nossos ; porem os gover- 
nadores d'ellas sem interrupcao de tempo laboravao 
na disposicao de seus progresses e intentos. Consi- 
d^ravao o quaitto importava para o fim da empresa 
nao desistir da continua9ao da guerra ; chamarao a 
eonselho os priocipaes cabos do exercito ; propo- 
serao o negocio, e como os votos erao resulta de 
varios affectos, forao diversos os pareceres, aioda 
que ditados pelo valor, pela prdtica, pela industria^ 
e pelo zelo todos. Muitos conviSrao que se refor- 
masse o Arraial velho, e que fortificada neUe a uossa 
gente saisse a iufestar e reprimir o ioimigo, apro- 
yeitando as occasioes que Ibe d^sse o tempo. Alguns 
approTarao a voto , e reprovarao o sitio ; outros 
tiiihao para si que o mesmo lugar, onde de pre- 
sente se alojavao, era o mais conveniente para o fim 
que se pretendia ; e todos autorizavao suas opinioes 
com OS fundamentos de seus dictames. — gover- 
nador Joao Fernandes Vieira com melhor escoiha, 
I)orque com mais advertencia> disse, que nao con- 
vinha acurralar o poder na circumvalacao d'um 
arraial , porque incluso nelle serviria a defensa e 
nao a conquista, e seria obrar contra a teucao de 
invadir levantar paredes para guardar ; e cortar o 
fio as victorias com . a mesma espada com que se 
venc^rao as batalhas^ dando a en tender ao Fia- 
mengo, ou que nossa ofiensa se satisfazia com tao 
pequena vingan^a, ou que o nosso valor, temeroso 
da vizinhanca de suas pracas, fazia p^ atraz na cor- 
rente de seus progressos. Que seu parecer era, que 
o nosso poder cingisse todas as forcas inimigas em 
quarteis tao vizinhos que se nao perdessem de vista 



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3S0 CA8TEI0T0 UTSTTAlia 

nem os inimigos, nem os parciaes, e que na mesma 
divisao ficasse o poder unido ; que para guarda 
d'armas, municoes e mantimentos se edificasse uma 
fortaleza , debaixo de cuja vista e amparo ficasse 
toda a cirumrerenciai da qual, como do coracao, se 
communicassem espiritos a todo o precinclo do 
cerco. Este voto tiverao (ambem o Camai aq e Heur 
rique Dias , e logo o seguirao (odos os mais cabos. 
— Conformes nesle parecer se applicirao os nossos 
cabos a execuqao dVUe. ReparU'rao-se os sitioSi 
que escolheo a arte, pelos capitaes que tioliao es- 
colhido a opiniao na fdrma seguinte. A paragemi 
chamada deSebasliao deCarvaiho, se deo ao Cama- 
lio para quartet do seu ter^o por ser entre lodas a 
mais arriscada ; a que se chamava de Joao Velho 
Barreto,e ficava a tiro de peca da cidade Mauricea, 
se entregou a Henrique Dias : servia-lhe de irmr 
cheira pela frente o rio Gapeberibe . que por aquetle 
sitio se vadea de baixamar; uos sitios das Salinas, 
carreira dos Mazembos e villa de Olinda, se consi- 
gnarao tres estancias, nas quaes se haviao de forlifi- 
car OS capitaes da terra e os da Buhia, para que uns 
industriassem os outros no terreno e nas veredi^s 
d'elle. Mais se mandarao guarnecer as estancias da 
villa ^t^ o rio Doce, por cujos arrabaldes e pela 
praia do marse ordenou andassem sempre as tropas 
de cavallo que havia com algumas companhias vo- 
lantes, que ^ervissem de guarnicao^ e sentiuellas 
nas disiancias que nao permittiao quarceis. Do re- 
manecente de ofBciaes e soldados se formou um 
grossOy que assistisse aos nossos governadores pa- 
ra darem soccorro a todas as partes, onde o pediase 



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a OMeMdade € a oocasiao, ^iiiados em poMo ^fmre^ 
niente at^ que tiTessem alojamento cerio na (wUt- 
ieza que 8e ha via de fazer. 

XXI. Sobre a escolha do lugar para a situacao 
da fortaleza houre a mesma diTersidade de pare- 
ceres ; mas seguioae igualmente o voto de Joao 
Fernandes Vieira , e foi esco(bida uma emiiraicia 
que a naiureza levani^a pegada ao engenho j que 
86 dizia do Bribao, umakgoa do Arrecife, a qual 
tinha lodos os requisites para asseuto da fortaleza^ 
cuja escoiha nao podia ser suffpeita por parte do 
nosso govemador, porque destruia fertiUMonos 
canaveaes de tres engenhos seus. Um estnmgeirOi 
perito na arte da fbrtinea^ao, deliuiMi a plania do 
ediBcio com a grandeeae a capacidade que ttie pior- 
tou o desejo; e no fin deSeiiemhro se Ihe poe a 
primeira mao.-^Para trabaihar na obra concorroo 
o govemador com todos seus cscravos; e k sua 
imita^ao os moradores com todos os que tiobio, 
que ajudados das companhias por giro d^rao pi<m- 
cipio e fim i obra em tres meces, tempo em que pe 
fez, c se aperfeicoou com reparos, plata-formas, 
esplanadas, coritra-escarpas, pontes, cavas, trinp- 
eheiras, palicadas, e tudo o mais concerrienie e 
proporcionado com a majestade da pra^; e tao 
bem acabada que a oihava a arte com admira9ao, 
e o odio com receio. Oilo pecas de bronze, que o 
inimigo nos deixou no porio do Calvo, se poadrao 
Bella ; com as t]uaes se deo a primmra salva eifl 
dia daCircamcizao do anno de 1646, festejando o 
tnysterio que Ihe deo o nome de fortaleza de Bom 
Jesus; a euja sombra os moradores edifio&iio uma 



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353 CA8TRI0T0 tU61TAN0« 

povoa^to, para a qual coocorr^rao de muiUs partes 
of&ciaes meoanicos de todas as artes de que neces- 
sitava o servi^o publico ; e formarao em pequeno 
campo um Tistoso lugar, ao qual d^rao nome de 
Arraial novo, a differeo^a do antigo. 

XXII. Via Joao Fernandes Vieira ociosas as 
armas de seus soldados, e desajava achar em que 
as empregar; discorria comsigo mesmo sobrc 
qual das fortificagoes inimigas poderia cair com 
melhor succeso o assalto de nossas armas ; medio 
sua memoria a cada uma das fortalezas do Arrecife 
oomo versada em todas ; cotejour-lhe os sitios, a ar- 
iilharia e os presidios ^ e assentou comsigo que a 
fortaleza chamada das Cinco Poutas, situada na 
praia do mar sobre a barreta , um tiro de mosqu^ 
da cidade Maurioea, era a que com menos risco se 
podia ganhar, se pelo escuro d'uma noite se ia- 
vestisse a escala. Com esta 8upposi9ao mandou fazer 
OS apprestos necessarios com tat s^^redo, que nia- 
guem desconGou para que fim erao. Posta a geote, 
que Ihe pareceo necessaria , junto ao rio Capebe- 
ribe^ chamou aos mestres de campo, e Ihes com- 
municou sen designio, para o qual nao pedia con- 
selho, senao para o modo com que se havia de 
obrar, desculpando o recato com o receio de que 
se adiantasse aigum aviso traidor a prevenir o ini- 
migo. — Era TbeodozioEstratero maismoderno, e 
faliou primeiro ; com razoes mui solidas e coriezes 
reprovou o projecto do governador, dizendo que elle 
melhor que ninguem conbecia o estado da forta- 
leza^ as tropas que a guarneciao, e o animo com que 
estavao para a defenderem ; ponderou que nao era' 



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GASTliOTO LimiTAlK). S5B 

impossiTel tom&r^se, mas que haviamos de perder 
trezentos ou quatrocentos homens, e entre elles 
lalvez alguns cabos, cuja falta seria irreparavel; 
que depots d'elta tomada nao teriamos maiiicdes 
nem mantimentos para a conservar^ nem exercito 
ou esquadra para a proteger, e concluio, dizendo : 
<K Advirto a vossas senhorias que o Flamengo a 
» esta hora nao possue em toda esta costa mais 
» queaspracas do Arrecife, cidade Mauricea, rio 
» de Sao Francisco, Paraiba e Rio Grande, e que 
» todo o basttmento d'ellas sai da ilha d'ltamaraci 
*> de que estao senhores ; nenhum goipe Ihe cor- 
» tara mais depressa a vida que o que mais Ibe eu- 
» f rar pela garganta , e assim sou de parecer que, 
» sem largarmos as armas, aproveitemos o movi- 
» mento, e trocando-lhe os 6ns ^ demos sobre a 
» ilha dltamaraca, que sem duvida ac^aremos tao 
7} falta de resistencia como alheia de nossa reso- 
» lucao. » 

XXin. parecer de Estrater foi approrrado por 
todos OS cabos ; e logo se coroecou a p6r em pratica. 
Depois d'entregar a Henrique Dias a defensa do 
sitio 9 e dlspostas todas as cousas como convinha , 
marchou o govemador com os mestres de campo 
Andr^ Vidal, Theodosio Estrater, e Dom Antdnio 
Camarao em direccao & ilha de Itamaraca. — Em 
14 de Settembro chegoii a nossa gente a Tilla d'l- . 
guaracii, onde nossos governadores mandarao ape- 
nar todos os barcos, lanchas, canoas e jangadas, 
para que a certa hora estivessem prestes na barra 
do rio Catuama ; e sem detenca march^rao por terra 
a buscar a ilha pela banda que olha para o norte^ 
J. 23 



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sfift ciimaivo mwmm. 

E$*an por aipieUa parte (lifepdida a pr^^mgnin 4^ 
rio^ que divide a Uba da terra firim» oom uma Aao 
flamenga bem artiUiada, e melbor guarowida de 
HoUaiideza» e lodiog; e aeio a nio ae randar pao 
ae podia a paasagwi franquear. Para aate effaito 
jaandarlK) apr^atar urn barco graoda a wn batel 
com earn homeaa de guamicao aa ordeos do capitao 
Siomd Meaie$f eom praceito de veacer ou inon*er 
na demanda* De boga arraocada inveatirao e abal- 
roarao a vAop na qual acbarao tao dura resigtaacia, 
que rebatidos d'ella vgltarao alraz^ nao para deixa- 
rem aempresai ^oao para reforcaremo iinpeto* 
InTeitlrao-na ^unda yez com dobrado animo, e 
resoltt^ tao firme que a entr^rao e read^o a 
^uata de nuiito aaogue bollaudez e aigum uosso. 
Deixou a entrepreia da nao a paaaagem franca da 
terra para a ilhai a qual pa^a^rao os nossos » nos 
vaaos que eatavao prevenidost coin trabalho nao so 
por causa do numero de gente senao pela largura 
do no, qu« era de quaai meia legoai e ser aiada ne- 
oeaaario eaperar a conjupcao da mar^t 

XXIV. Fassada tpda a gf nte a outra parte, e for- 
mada ua ilba aem ruipor naiaa tiro , aoonteceo dar 
naa maoa de uoa^as senUnellas uma Flamenga, que 
vinba fugida, a qual ae offereceo aos nossot gorer- 
nadorea para guiar os uoasos aoldados. Confiado na 
guia mandou o goveroador da liberdade picar a 
marcha, daudo a yanguarda a Tbeodozio Estrater, 
qual foi aeguindo a Hollandeza ; ia a pos elle o 
aargento maior Antonio Dias Cardozo com urn ba* 
talhao de moradpres; e na relaguarda Joao Feiw 
nandes Vieira, e o mestre de campo Andrd Vidal 



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(usniOTO uniTiLM. M6 

wm o Tt9tMii/t da gaote. Havia^^se il'atraveaaar a 
iiha por trea kt^Ma de dtitanoia de aorte a aid para 
ie buaoar a yilki onde o inimigo Unha a aua forta^ 
IfiM 6 o 0eu alojameato. ResolyAraoHie que mediasa 
a marcba pelaa boras da noite^ e pela <Ustaiicia da 
terra , de sorte que aobre a madrugada te cha gMia 
a ayistar a |)OYoe9aa. A Flamenga que guiava o Sa^ 
trater, ou por ignorancia ou por malicia, o leyou 
por caminho assim iorddo e desviado, que era 
nianha olara , e nao via a que parte ficara o lugar. 
O sargento maior, mail pratico no terreno e meiioa 
confiado nas promeasas da esiraDgeira^ deavioutad 
do &tro^ com deixar de aeguir o deario^ e ao ram** 
per da manha ae aohou junto in trincbeintt do 
contrario, sem ter Tiata ou noticia nem de sua vann 
guarda nem do esquadrao da retaguarda em qua 
vinhao Andr^ Vidal e o govemador ; fez oonta da 
gente oom que ae achara^ e di8p61-a em forma pro^ 
longada para dngir a pra^ por aquelia parte. 6uo« 
oedeo naquella hora salram da villa algumaa Indiaa, 
umas a mareiacar, outraa a busear agoa^ e darem 
de roato com a noasa gente ; voltirao todas de oar^ 
reira para dentro da fortifica^o dando grandea 
griioa. Osnossoa que ae virao deacubertoa saguifao 
as Indias , augmentando a toz do rebate com o ea^ 
trcmdo da invaaao, que aervio de oortar o somtib, e' 
mtroduEir o sobressito noa ytainhoa e aoldadoa do 
presidio. -*- Aquelle mesmo tumuiio que chamou o 
inimigo para a defenaa ebamou tambem para o 
avanco o govemador e ao meatre de campo que 
com o esquadrao da retaguarda chegavao pela outra 
parte as trincbeiras da povoa^o , e preaumindo a 



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356 G4STBI0T0 LUHTANa 

causa do reforido alvoroco tocarao a inyeatir^ e sem 
resistencia a ganharao, com os almazens das muni- 
coese mantimentos do inimigOy que por acudira 
parte, onde o chamava o brado^ desemparou o lugar 
onde com mais damno o feria o golpe. sargento 
maior, que com 08 seua soldados fora em segui- - 
mento das Indias pelas portas das trincheiras, que 
esUvao abertas, os repartio em mangas com ordem 
que patsassem a espada a todos os Indios que se 
alojassem por aquella parte , o que se obrou com o 
estrago que permittio o repente e o indefeso« •* 
Chamados do estrondo das armas j e da voz do es- 
panto yierao acudindo estrangeiros e naturaes a 
tomar as bocas das ruas, porque o destro^o nao pe- 
netrasse o interior da villa. Com a opposicao se 
augmeutou o furor ; e se augment ^rao os golpes 
com a chegada de Theodozio Estrater, a quem a 
desconfianca da detenca obrigava a mostrar, que 
HBO tivera parte nella nem o descuido nem a ma- 
licia. Carregado o inimigo do temor e dos golpes 
se foi retirando para a sombra da fortaieza, bus- 
eando o amparo de sua artilharia, com a qual nos 
fez oonsideravel damno ^ porque os nossos embe- 
Udos no goBto da victoria desprezavao o perigo das 
balas. 

XXV. Ganhada a primeira fortifica^ao, se man- 
dou fortelecer o interior d'ella, porque o inimigo 
perdesse a esperauQa de a recuperar ; o que o sar- 
gento maior executou com toda a presteza e arte, 
de sorte que, fazendo o Hollandez algumas inves^ 
tidas para a cobrar, foi sempre rebatido, e casti- 
gado tao rjgorosamente, que aconselhado da perda 



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GASIEIOTO LUSITAMO. 357 

desistio da porfia. Nao desistirao os nossos de con- 
tinuar a empresa, proseguiodo no ataque da forta- 
leza^ que estava cingida de repetidas estacadas^ e 
dilatado fosso. Durou o combate desd'a primeira 
bora da manha at6 ^s cineo da tarde. Com incaa- 
savel bra^o romp^rao os nossos por todas as oppo- 
siloes da resistencia ate porem as maos na porta da 
fortaleza^ a tempo que muitos d'elles, metidos nas 
casas, procurarao sublr e ganhar os baluartes ; o 
que veudo o ioimigo , e ignorando o damno que 
sua artilharia nos havia feito^ fez signaes de reudido 
pedindo bom quartet. Festejarao os nossos a cba- 
mada com o pregao da victoria, e como se a desoiv 
dem nao cbam^ra pela ruina , se derao a roubar^ 
perdendo com o desmancho aquelle valor que Ihes 
dava a f6rma. Forao os soldados da Bahia os pri« 
meiros que a desobediencia levou ao sacco ; e a 
maior parte dos outros, que persuadio o exemplo, 
at^ as proprias armas largarao para se applicarem 
com todas as maos ao roubo^ dando occasiao a que 
obrassea cobi^a o que nao pud^ra a maior desgra^a. 
Os Indies, desenganados de que a nenhum se havia 
de dar q\iartel, e desejando morrer vingados^ ani- 
m^rao com a desordem dos nossos a froxidao dos 
Flamengos a nao perderem a occasiao que Ihes diva 
tempo para melhorarem de fortuna. Sairao de 
tropel , derao sobre os desgarrados com tal furor e 
animo que foi necessario aos officiaes portuguezes 
todo o coracao e todo o bra90 para Ihe sustentarem 
o impeto; e seria irreparavel o damno, se o gover- 
nador Joao Fernandes Vieira nao tivesse ordenado 
ao sarg^ito maior que com algumas companhias 



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de^ntcrco guarnecesse as trincheirts ganhachs 
prfa parte externa para rebater qtialquer soccorro 
que podesse Yir ao inimigo, M qmm servirao de 
remedio para nao ftigirem os itossos. — Aquelta 
mesma opposfcao que deteve a fiigida dos Portu- 
guezes, corfou o fio 4 victoria dos Ftamengoaj 
porque julgando ardil o que era necessiikde , e te« 
mendo que os nossos commettessem segunda Tec a 
escala, se rctirou 4 fortaieza. ConhecSrao os nossos 
govemadores pek> effeito a causa, e confirmarao o 
inimtgo qa suspeitii com tanto artificio, que o sar- 
gento maior^ seguindo as ordens recebi^s , se ibi 
retirando na retaguarda do exeircito coin pasao tao 
vagaroso, que fexfa crer ao kiimigo nao se deixar a 
einpreaa, se nao mudar^se a (6rm9L a investida. Para 
melhor assegurar a retirada, mandouo goremador 
duas coMpanKias que tomassem a passagem do rio, 
e iiTessem fH^les todos os barcos para que naquelkt 
noite se posesse toda a genie da outra parte , o que 
se executou sem nenhum inconretiiente. Dqiois 
d*a!gumas boras de descatieo e refei^ Hiardiarao 
OS nossos para Igoaracu , levando comsigo os dcs- 
pojos que tirjrao da villa e sens conlornOB, os fo- 
ridos, queerao settenta, velame, mantimaitos e 
artittiaria que tirAreo da nao que veiidArao (erao 
quatro pecas) deixsmdo o casco eonsummido do 
fogo. Em IguaracA flzerao aho, e resenha da gente, 
e pefas listas vfrao que na batalha fie4i*o settenta 
ttortos, sendo trinta e quatro estrangetros do terco 
de Estrater, cuja inatencao e custume de roubar nos 
tirou a victona dasmaos, com a desordem, ecom 
« «MD^plo. Perdeo o inknigo neste ooeaaU^ pw 



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cimt de dasentos eDldadot entre Holltndezes e 
iiidiot J ^endo muito maior o numero de faridos. 

XXVI. Poftto que a victoria neata oocatiao noi 
▼iraase as coataa, nam por isao mereoem maiioa 
dogio OS eabos e soldadoa que entrirao nesta eiii»- 
preza , oa quaes eom o despreao do perigo acredi* 
iAno o snbido do valor. Ao goYemador Joao Fer^ 
nandM Yieira buacon o peito uma bala^ qiae aem o 
oflfender caio a seus p^ ; outra Ihe lavou uma ma- 
deijui de cafaelloa, sem Ihe offender o roalo« Ao 
meatre de eampo Andr^ Vidal deo um peburo noa 
feeboa da piatola ; eomo ae forao sobejaa as armaa 
onde erao tantaa as forcas. Ficou ferido o govov 
nador dos Indioa ; eamollando^^e com aau sangue 
o fino onto de sea valor. Duas baUs ferirao o ca^ 
pitao Assenso da SiWa ; temeroso do braqo o bus<- 
cava de eompanhia o perigo* sargento maior Caiv- 
dozo foi naste stiocesso o al vo da JDveja e do espanto 
d'uma e ootra gente : por eotre dmveiros de balas 
andou todo o tempo <k batalha no mats ariscado 
d'dla^ com tamanho coracao e presfeeza^ que n&- 
ahQBQa o p6de ferir^ porqiie uenhuma o pods asae^ 
gurar com ponlaria cerCa/Oa mats cabos e officiaas 
com a genomlidade daa proexaa impadirao as parw 
ticttiaridades da kmbran^. 

XXVU. Detave-M a nossa gente em Ignara^u 
aquelle tempo que foi neoessario para foriiiiear e 
gnameoar a povoacao e os camidios que podiao 
aerrir as correrias do inimigo, quando intentasse 
aair da ilha a inieslar a terra firme. Pastas as cou- 
ass na mdhor forma que foi possivel^ po^^se o 
► eouicalD am marcha> e cbqppu ao afejattciilo 



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560 cAimKm) LOiixAiia 

da Varzea^ onde a presenca dos goveroadores com- 
municou novo alento aos soldados que guameciao 
as eslancias , para sairem victorioaos dos rebates , 
asaaltos e encontros , em que cada hora se. viao a 
bracos com o inimigo, que acurralado nas fbrlalezas 
do Arrecife padecia as condicoes de yeaddo^ e as 
ffescommodidades de cercado. Com favoraveis suc- 
cessos nos encaminhavao as armas ao fim desejado, 
mas para que os homens se nao es?aecessem com 
as prosperidades , permittio o ceo que oa cidade 
da Paraiba desse um mal cootagioso que pelos ef- 
feitospareceoramo de peste : ateaya-sesem reparo, 
crescia sem tempo i e matava sem remedio. Come- 
9ava em cerra9ao do peito, e logo a defluxao se ma- 
uifestava em pontadas , e com dores de jdeuriz ; a 
alguns matava de r^fimte; a outros em poucas 
horas ; aos que menos apertava nao passavao de tres 
dias. Os medicos, que nao conheciao a causa do 
mal, nao Ihe sabiao applicar remedio , assentando 
entre si o ser ar inficionado e corrupto ; e com 
mais certeza, quando virao a pressa com quefoi 
contaminando uma e outra vizinhan^a at£ chegar 
ao nosso alojamento de Pernambuco. Morr^rao em 
todas as partes innumeraveispessoas semdistinoqao 
de Portuguezes, Flamengos, Indies e escravos ; e 
08 que nao morr^rao viviao em grande afflicfao e 
tristeza, parecendo a todos que era chegado o ul- 
timo fim dos mortaes. Teve este mal principio em 
OS ultimos de Settembro, e durou at^ os primeiros 
de Dezembro ; foi perdendo a forca com a durafso 
' e com a experiencia dos remedies sendo um efficaz 
a mais copiosa sangria, com o qual muitos se sal- 



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CASTIUOTO LDStTAMa 361 

virao. Muito sentirao o& nossos governadores o 
golpe, que este mal deo no exercito, que levou a 
muitos^ cuja falta a saude sentio » como de compa- 
nheiros^ e a occasiao como de soldados. 

XXVIIL Por este tempo fizerao os moradores um 
manifesto ou instrumento juridico por todos assi- 
gnado para enviarem & majestade de seu Rei , des- 
culpando*$e de faltarem a obediencia, que deviao a 
seus reaes decrelos, com as tyrannias com que os 
Uollandezes os obrig^rao a tomar as armas, e com 
as razoes que tiverao para acclamarem a Joao Fer- 
nandes Vieira por geu governador ; o muito que 
Ihe devia a liberdade do Estado, e a reputacao do 
reino ; o valor, a fidelidade , a prudencia e a in- 
dustria com que sublevados os povos d'aquellas 
capitanias da tyranna sujeicao , em que as tinha 
posto o HoUandez ; a fazenda que tinha despendido 
no sustento dos exercitos ; os riscos a que expps^ra 
a yida nas batalhas , devendo-se & sua constancia e a 
sua fazenda as victorias, por meio das quaes se 
viao aquelles povos, no estado presente, com liber- 
dade para o exercicio da religiao , e para as utili- 
dades da coroa ; e fechavao o discurso , manifes- 
tando a confian^a em que viviao de que sua real 
clemencia e magnanimidade os nao ha!via de des- 
emparar, quando de sua grandeza esperavao os 
soccorros necessarios para levarem ao fim uma em- 
presa de tanto servico para Deos, como gloria para 
a nacao, em que mais os empenhava o zelo da (i 
que a conservacao das fazendas. que todos jurarao 
ser assim ; e tomavao a Deos pos testemunha de que 
em. tudo diziao verdade , e o firmarao de suas let- 



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SM CABTMOtO LOSITANa 

(ras c signaes, Fez-se esfc paipel, c se assignoti aos 
7 de Outubro de i 645 ( o governador e os tre« 
mestres de campo nao assignirao) ; e depois de re- 
conhecidas as firmas por um tabcH&o publico, se 
remetteo ao govemudor g^ral do Estado Antonio 
Telles da Silva , para que o enviasse a Portugal, 
se Ihe parecesse. Se a curiosidade do leitor desejar 
Ter OS nomes de todos os que assign&rao, e a mate- 
ria do manifesto mais i)or exlenso, tudo achar4 no 
autor do yaloroso Luzideno , folhas 247, que n6s 
deix&mos, por carta de nomes. 

XXIX. Temos fallado de todas as capitanias de 
Pernambuco onde se appellidou a liberdade, resta- 
ttos porim ainda a dar noticia do que succedeo no 
Rio Grande, em cuja rela^ao tera mais parte o sen- 
timento que o jubilo. Settenta legoas do Arrecife 
para o iiorte desagua no mar o Rio Grande, ficando- 
Ihe a cidade da Paraiba quarenta e cinco fegoas 
para o sul. cabedat da corrente Ibe deo o nome ; 
e o tomou de sua vizinhanca uma povoacao de Por- 
tugnezes que alii ediBcou a conveniencia da barra 
e a fertilidade da terra. Nella fabricou o Hollander 
uma fortaleza quando se fez senbor de toda a ca- 
pitania ; tanto mais custosa quanto mais longe dos 
soccorros pela distancia do Arrecife; razao que o 
fazia absoluto e insolente no trato e no imperio ao 
governador d'ella, por appellidoGosmao^ ao qual 
suas tyrannias fizerao bem conhecido, porque sabia 
que em igual distancia iicava aos miseraveis sub* 
ditos a Bahia para o remedio, fe o Arrecife para «i 
queixa. A todas as mais partes do imperio hoUan- 
def. chegou a notteia da subleva^o, on guiada da 



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diligenda do avitk), ou dd br ftdo da6 victorias ; p<v 
r^ ao Rio Grande por nenhuma via eh«gou, fanto 
porque impedida da distancia^ quattto porque con 
tada da cautela. Nao delinqtiirao aqtleUes mora^ 
doted conti^a osdominantes nem com a iinaginai;ao, 
porque a ignorancia m escti^va da milicia ; mas 
que importa^ se para o tyranno tanto val a culpa 
como a iunocencia ! Viviao aquelles moradores so* 
cegados : o custume da snjeicao os linha esqae* 
ddoa da liberdade, e como nao conhecArao diffe* 
renea na ftfrma^ j4 naoeslratihaf fto a de opprimidos. 
*— Succedeo em 1 6 de Junho o tragico golpe de 
Gonhaid, que ja referimos ; ouvlo-se bo Rio Grande 
ami espanCo a craeldade do suceesso , e lodos os 
moi^adwes forao efitrados de 8U»to e despanio ; es*- 
foroavao^se os Hollandeftes por os eat mar, dizendo 
que erao homens rebellados, e que 09 senhorcs do 
govemo fari&o diligencia para os prenderem e en- 
forcarem todos ; mas os habitantes nao derSo on- 
▼idos a estas vozes, pela experiencia que tinhao 
das promessas flamengas, e sew receio subio de 
ponto quando se espaihou a voz de que os mesmos 
HoUaiklezes e Tapuyas que tii!ib&o assoladoGunha& 
vinhao marchacido para o Rio Grande , e tinhao 
escalado uma casa forte do engenho de Joao Leitao, 
onde sonberao que estavao recolhidos alguns Por- 
tnguezes, aos quaes matirao com barbara cruel- 
dade. Virao que os mesmos que accusavao o crime 
cooperatao no delicto, e conhecendo claramente 
a ficcao , tiveriio por sem duvida o perigo , e para 
a eonfiasao do engano pedirao ao eommendoi' Ihes 
desse aoeeorro eentra oi iMfamdecea e l>ipiiyas 



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3M caTUOIO iUSITAIiiO. 

levanUdos. Descaradaiuente sairao escusos. Con- 
sullarao entre si o remedio^ e resolv^o fortificar- 
se do modo possivel. Determinarao sitio , e nelle 
fizerao um cerco de paos a pique capaz de os re- 
colher com familias e escravos (erao os Portu- 
guezes settenta); prov6rao-se de mantimentos , 
principalmente de faiinha e agoa. As armas nao 
passavao de dezesette espingardas, algumas espadas, 
poucos chu^os, e copia grande de pios tostados; 
polvora, murrao e pelouro, em tao pequena quan- 
lidade que servia mais a opiniao que a defensa. 

XXX. Aquelle HoUaudez cbamado Jaoobo , que 
com OS Tapuyas de sua fac^ao regou de ianocente 
sangue a povoa^ao de Gunhau, como ji dissemos , 
agora desceo noTamente do certao, onde se tiuha 
emboscadOi com muito maior copia d' Alarves para 
executar nos vizinhos da terra o que nao pod^ra 
conseguir no destricto da Paraiba , assistindo-lhe 
uma partida de Hollandezes , mandados para este 
fim pelo gowmador da fortaleza. A' sua chegada 
se adiant^o os moradores , forti(icando-se no so- 
bredito posto^ que se chamava do Potogi, na forma 
referida. Jacobo com os Hollandezes de sua con- 
serva aproximourse dos nossos em som d'amizade 
mas com o fim de sondar-lbes o animo e yer o es- 
tado de sua fortificacao e sens recursos em armas 
e muni9oes ; approvou a sua resolucao, assegurou- 
Ibes que dos Hollandezes levantados nao tivessem 
receio ; e em fim que elle ia para a fortaleza e delle 
OS proveria de muni^oes e armas para se defender 
rem ; ^ despedindo^se , marcbou para a fortaleza , 
que deatava seis i^oas pelo correate do rio. Dos 



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CASTHIOTO LTOITANO. 365 

nossos honve alguns que derko credito a esta pro- 
messa; a maior parte por6m teve-a por fementida, 
e todos se desenganarao quando virao o mesmo Ja- 
cobo capitaneando um grosso de Hollandezes, Ta- 
puyas, Pytiguaras, que investindo a palissada com 
bellico furor, fez todo o possivel pola romper. Ima- 
ginou que o repente e o poder a levasse sem resis- 
tencia ; por^m achou nos cercados tao prompta e 
valerosa defensa, que se rerirou destrocado e ven- 
cido. Aconselhou-se o inimigo com a obstinacao e 
com a perda; pedio a for^ja soccorros , a arte in- 
dustria, e fabricou sobre carros alguns castelios 
de madeira, dos quaes haviao de atirar, com seguro 
e pontaria certa, os mosquefeiros com que os guarr 
neceo ; a cuja sombra podessem os machados rom- 
per as estacadas. Nao tirou o inimigo d'este militar 
ariificio outra cousa mais que a dor com que vio 
tudo deslruido (mortos e feridos muitos dos sens) 
e o applauso, com que os cercados celebr^rao a 
victoria; a qual fez mais alegre o nao ficar algum 
nem ainda com a mais leve ferida. — Ao outro dia 
appareceo o aleivoso Jacobo sobre os sitiados com 
todos OS sens (vestidos os intentos da guerra com 
festivas demonstracoes de paz), e como se com 
aquelle soccorro Ihes vidra a dar os parabens da 
victoria, se foi chegando k estacada com pensa- 
mento de se introduzir dentrodella, confiado nas 
apparencias de amigo. Os Portuguezes , que nao 
temiao a forca, Ihe castigarao a manha : com armas 
de fogo e de arremeco o fizerao de(er, e aflastar da 
circumvalacao ; porque como a tal amigo o queriao 
de longe. — Nao desistio o Hollandez do artificio , 



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366 (;i9T«io?o mmwo^ 

a^tes deitou qoyo Gaidar 4 cavila^o ; maiidou di^er 
ao6 cercados , que ^e admirava de como os tinba 
cegos o Qxedo, poi^ o nao conheciao por auxiliar e 
amigo; que elle por comprir su^ palavra (ouvinda 
dizer na fortaleza que e^tavao 4 bataria com o$ 
Alarves ) pedira ao commeudor aquelle esquadrlo 
para 09 yir soccorrer com toda a pressa, e o deuava 
su^peaso a uovidade de experimentar iuimigos ao$ 
mesmos que deviao receber gratoa ; e se o recdo 
OS tinha cegos^ que abria^em os olho6 da cooGao^a 
e recebessem soccorro antes que seus soldadoa 
presumissem do engano que ?ra rebdliao ; porqua 
D^tes termos oa mandaria ayau9ai*i e publicaria o 
damno, a uns sem culpa , e a outros aem queixa. Os 
cercados, que enteud&rao a ficqao e o inteuto, Ibe 
i^spQuderap ; Que nenhuma maacara podia cobrir 
nem esconder trai^ao too doscarada ; que elle era 
mesmo que uos dias pps^ados oa quizera euganar 
com fingida^ promessas ; e que no^ seguint^s os 
pretendera destrqir com repetidos comba(e$| ©. 
assim mesmo o que gpoduzia os T^puyas para ^ 
eippresaf e que ae di^^pg^uas^ que nao ha via de^ 
repre^ntar no Rio jGrande a cruel tragedia que re- 
presentara en) Cunbau, porque advertidos e ma- 
goados estavao resolutos^m nao largarcm as annas 
sem primeiro perderem a^ vidas, qufe queria tirar a 
todos para Ihes ix)ubar as fazendas. 

XXXI. Acabou de en tender o inimigo que nada 
havia de conseguir a cautela, e remetteo o pcito a 
batalha ; investio a estacada com repetidos c por* 
Bados combates^ em quauto Ihe nao cbegava a ar*- 
tilharia que tinba mand^do vir da fortaleza. Che-- 



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gou e^i e prqtamda pan jo^ar ei 4istniir m 
mifieraveid oercados^ Ihee fes lupa embaixada^ 
diz^do ) que a yiata oa da^enganava da cerieaa de 
ana ruina ; que se eutregaasemi aob-peua ds qua a 
todoa OB que toiBas^e com vida, odun malherea» 
filbos e eacraroa eQiregaria aoa selvagena para que 
06 deapeda^ssem e comeasem vivoa ; e que ae des» 
coofiavao deque entregaudo*se oa tiao trataria eomo 
a amigosvcapitulasiem a fiirma em que ae queriae 
auU^figar, e que em penbor de aua palarra Ihea 
daria o$ refena que ellea pedii^em. ^ (k Porta- 
guezea, que se viao sem meioa para a defeoaa , sem 
auatento para a porfiat e aem esperau^ de soecorro 
appelUrao da iucertega do remedio para a contin*** 
geuoia do perjg^. Eatregarao-ae a piartido, debaixo 
de aeguroa pasaaportes, porque dadoa em uome do 
priucipe de Orauge e doa JUtadoa de Holbnda^ 
jurados e (irmadoa de todoa 09 olBciaea da milicia 
com promeasa de oa defeuderem a oomervarem 
nos furoa em que sempre viy^o ; e para que pare- 
<^sem mais firmea Ibea veudeo o iuimigo aa ooadU 
^8 mais caras : a peso de euro thea deo depois 09 
pasaaportes, e os obrigou a que desaen refens de 
^mprirem iuteirameute capitulado, pediDdo4hes 
a Estevao Macbado de Miranda ^ Frauciaco MeiMies 
Pereira, Simao Correia, Joao de Sitveira, e Vi- 
cente de Souza Fereira; aoa quaei levou logo o 
inimigo para a aua forUleza, como em penbiM' de 
seu diiubeiro. Aoa Hollandezea, que dizia d^ixap 
em refeuai deixou por guardas e espiaa doa raqdi** 
dos. Quaii trea mezes ae alqiarao aquelles mora« 
dorea dentTQ da cerea referida aem que a perfidia 



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568 GA9I1II0TO LimiTAIIO. 

hollandezA Ihes comprisse os artigos da capitulaciio. 
Chegou entre tanto & fortaleza Joao Bolastrater, 
um dos ires do conselho supremo , para £azer exe- 
cutar no Rio Grande, como ministro, o que no At- 
recife decreUra com juiz, isto i : que todos os 
Portuguezes de seite annos para cima se passassenTi 
a espada sem excepcao de pessoa. Para dar comeco 
a esta inaudita crueldade mandou vir i sua pre- 
sent todos 08 principaes que se achaTao aicerrados 
comorefens, elhesdisse, que a campanha estava 
lirre doe Indios selvagens , e nella presidio para 
aeguranca de todos os moradores ; que fosaem tra- 
tar de suas fazendas, visto estar aquella pra^ falta 
de mantimentos ; e para que o executassem com 
mais animo, mandava uma companhia de soldados 
em sua guarda ; e que para commodidade de todos 
Ihe pareceo bem que fossem pelo rio ao outro dia 
( que se contaTao 3 d'Outubro ) , e nelle achariao 
barcos prerenidos de todo necessario para a viagem. 
— Mandirao entretanto os Hollandezes emboscar 
duzoitos Indios Alarves nas mataa yizinhas do 
porto cbamado Riomeracu , meia legoa distante 
do cerco onde assistiao os rendidos, os quaes erao 
commandados pelo seu maioral Paroupava , esti- 
mado do Flaroengo no grao, em qne estimava a 
Pero Poty. No dia e f6rma relatada se embarcarao 
todos OS moradores, naveg4rao at6 b porto de Hio- 
mara^d, onde os deit4rao em terra, rodeadbs da 
companhia hollandeza , cujo capitao os mandou 
despir a todos, e que se pozessem de joelhos. Sem 
repugnancia obedecfirao todos , postos os olhos no 
ceo , ao qual se oifereciao em sacrificio , certos de 



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GASTBiOlt) LOSITAlia 369 

ser chegada a sua uttima hora. IMrao os barbaroa 
Hollande^es signal aos selvagensemboscados ; salrao 
eates dos matos com gestos e gritos tao medkmhos 
que causariao espanio ao insenstvel , quapio maia 
ao6 liuiiiauoa , destmadoa a serem apresad'aqadUes 
tigres. Mandou entio o hereje a urn predicaiite 
de suas dkbalicas seitas queentrasse a pr^ivlhea 
promettendo certezas de gloria e esperan^as de yida 
aos que, convertidos a seus erros, apoBtatassem da 
verdadeira religiao ; por^m os soldados de GbristO) 
com novo espirito veuc^rao a noTa balailia^ e com 
palavras e accoes abominirao a c^geira heredoa^ 
confessando a gritos que morriao na pureui da U 
catholica^ que cr£ e ensina a santa igrc^ de Roma; 
e que de todo o coracao detestaiFao todos os arti* 
culos que se desriavao de seus deeretos y pela oIk 
seryancia dos quaes estavao preetos a dar uma € 
mil yidas , se as iiverao. — YenCido e despreiadip 
o hereje da religiosa constauda, tomou per omla 
o desaggraTO da seita, e a yinganca das injunas, e 
comecou a atormentar com as maos cfe todos aquelica 
fieis seryos de Decs com tai deshumanidade , qne a 
cada um desejaya jHrolongar a yida para prolongar 
o martyrio. De cancado desfalleeeo o Inrago da he* 
retica crueza , por6m n«o o yaior da cathoUca pa* 
ciencia. Retirarao-M os HoUandeKes, e cj^raraode 
refresco os Alaryes, e nio achando naquellca wt^ 
pos parte que de noyo podessem atormentar^ os 
foiio cortando e diyidindo por todas as juntas, 
at^ que neste martyrio d^raoas afanasaieu criador^ 
euyoltas nas confissoes da ii e nas galas da csf* 
paranja. Horri^ia a sua yista deixou a crueldade 
L 24 



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I JO CA6TB10T0 LOSiTAKO* 

aqudles corpos, laDto que oein ainda liobao forma 
de troncoB : a muiios abriiio, pai*a Ihes tirtrem as 
eutranhas, depois de Ihes cortarem as cabecas^ as 
peroas e os braQos ; as cabe^as lirarao as paries 
que Ihes dao a f^rma, como olhos, lingua, narizes 
e orelhas ; aos bra^os, as maos ; as maos, os dedos ; 
e porque tivesse a crueldade de lodos parte no todo, 
nao fioou geatio que nao cortaase a sua parte. 

XXXIl. £m quanto a indomita ferocidade d'a- 
quelles barbaros se dekilava na vista do estrtgo , 
(orko OS Hollaudezes buscar nova materia para doyo 
sacrificio. Chegarao a cerca onde tinhao redusos 
OS settenta Portuguezes, e seguindo seu aleivoso 
trato, Ihes disserao da parte do governador da for- 
taleza que tinhao ordem da Compauhia para se 
ftizer uma eoneordata necessaria para o bem com- 
mum y em a qual se haviao de assignar as partes ; 
para o que conviuha que com toda a brevidade 
chegaseem & fortaleza , e com elles Hollaudezes se 
fbssem embarcar ao porta de Hiomara^ii, oude 
tinhao barcos prestes para fazerem o camiuho com 
menos molestia. Bem presentirao estes infelizes 
qual era a sorte que os esperava ; mas com grande 
resignacao e copiosas lagrimas se apartirao de suas 
raulheres e filhosi e se entregirao is maos de seus 
Terdugos. Ghegirao ao lugar que para a navega^ao 
era porio, e para o martyrio theatro ; serviudo-lhes 
o espanto do que viao de Ihes pintar as circum- 
stancias do supplicio que esperavao. Em voz alta 
fizerao todos a [w^testacao da ft, com a moBma 
firmeza que a haviao feito as primeirasvictimas; e 
foi entao que se unirao h(^ejes e geatioa a ferir, e 



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GASTRIOTO LUSriANO. 371 

cortar pelos fieis servos de Deos com lauta ira c 
deshumaDidade, que se encoDtravao muitos ferros 
a abrir uma mesma ferida. Assanhados da confis- 
sao da (6 que ouviao, se apressavao a lirar as Tidas 
e JiDguas que a pronunciavao, e abriao tantas mais 
bocas que a repetiao, quantos erao os golpes j pelos 
quaes o fiel sangue a gritava ; em que continuit*ao 
at^ que de todo os desamparou o sangue, e os 
deixou a \ida. — A um mancebo casado, por 
nome Autonio Baracho, ao qual a natureza e a for- 
tuna enriquec^rao de aposta , amarrarao a um 
tronco, e depois de cruelmente atormentado e es^ 
carnecidoy Ihe cortarao a lingua e a parte virih 
trocando a infame deshumanidade a cada uma das 
partes o lugar que Ihes dera a natureza. Ja seu 
corpo f pela materia , nao tinha parte sem ferida, 
e ainda assim se armou a atrocidade contra a bar- 
monia da figura, denegrindo-lbe todo o corpo com 
ferros abrazados, e tirando-lbe o cora^ao pelas 
costaS) desejosos sem duvida de verem o tamanbo 
d'um cora^ao em que coube o soffrimento de tantos 
martyrios. — Com Maibeus Moreira usarao a 
mesma tyrannia; porque se deleitavao nas repe- 
ticoes da maior crueza , at^ que deo os ultimos 
alentos na pronunciaqao destas palavras : « Bem- 
» dito e louvado seja o santissimo sacramento. )» 
E seria permissao divina; para que a um mesmo 
tempo visse o bereje , para sua confusao , este di- 
vino mysterio no coracao que tirava e na boca por 
onde saia. Os tormentos e injurias com que tirarao 
a vida ao padre vigario d'aquella freguezia , Am- 
brosio Francisco Ferros, forao com tan to mais ex- 



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S72 ^ CASTRIOTO LUSITANO. 

cesso quanto maior era o odio que tinhao aos sa- 
cerdotes, e o desprezo com que olhavao para os 
miuistros dos sacramentos^ que nega sua pertmaz 
ceguetra. Ainda que a piedade quizera particula- 
rixar 08 tormentos que padeceo , o pejo nao deixa 
dizer as injurias com que a perfidta o atormentou. 

XXXin. Ou de cancados ou de conftindtdos 

» 

pediiio 08 verdugos ao capitao holhndez d^sse a 
vida a oito mancebos^, admirados da fortaleza com 
que triumphavao de affW)ntas e martyrios ; conce- 
deo o capitao o que se Ihe pedia , por^m com pro- 
testo de que a nenhum tempo tomariao armas con- 
tra Hollauda , seuao contra Portugal. Ouvida a 
condicao d^aquelles invenciveis espiritos, respon- 
d^rao que Ihed rendiao as gra9as da nova occasiao 
em que os punhao pata accrescentarem uma coroa 
a outra coroa , sendo para sua estimacao a maior 
dita morrerem por seryir a Deos, a sua patria e 
a sen Rei. Vio-se a diligencia desprezada, a inters 
cessao corrida ; e estimulado o furor inventou novos 
martyrios, com que, aos olhos uns dos outros , foi 
despedacando os corpos que animava a invencivel 
coDstancia, at^ os deixarem sem figura e sem vida. 
A um dos oito mancebos, chamado Jofto MarUns , 
a euja vista martyritarao os sette, persuadiao qat 
conservasse a vida a troco da promessa de assentar 
pra^a em service da Hollanda. Com alegre e desen- 
ganado semblante respondeo que se nao rendia a 
lidelidade d'um Portuguez catholico romano a tao 
vil partido , quando victorioso de suas instancias 
esperava etemizar, com sua morte , a gloria de sen 
nome^ conGado na misericordia divina, que levaria 



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cksmatQ imam}. 375 

sua alma ao }ogro da vida etema. Aqni ae a(;ceiideo 
ixiaia a ira^ porque aqui se vio aiais offeadida a 
induatria« Martyrizava o odio, a colera e a Tin- 
gaii9a ; e nao ficou tormento que nao executaase a 
tyrauuia , passando al^m da morte a crueldade | 
com que Ihe fizerao em miuda3 paries o corpo. 

XXXiy. Depois do referido , andaiio aquelles 
deshumanos verdugos fazeudo riso do eslrago, que 
as mesm^s feras causara horror. A uma mulher 
gasada , que levada do amor conjugal acompanhara 
seu marido, e o cborava despeda9ado« cortarao os 
p^ e as maos , porque se nao podesse apartar da 
oausa de sua magoa, e entre os corpos desanimados 
bebesse a morte no sangue das feridas e no horror 
da companhia : martyrio em que durou ires dias |^ 
atii dar a alma a Deos. A uma menina de dous 
annos tirarao dos bra^os da mai » e cop^ apostado 
tiro a estrelarao no tronco de uma arvore« A outra 
criaufa parUrao em duas partes d'alto a baixo com 
o golpe d'um alfange, A uma donzella de gentU 
fornfia vaid^rao a um Indio por um cao de ca9a. 
Nao aobando j^ o bra^o cousa em que ferir largi- 
rao ao8 Indios os despojos^ que erao as ultimas cor- 
tinas da honestidade, e com estarem hem cortados 
dos golpes y deixarao muito mais cortados a todoa 
os presentes, quando ao tiral*as virao rodeados de 
asperos cilicios e de duras cadeias aquelles ditosos 
corpos ; dispondo-os a virtude da penitencia para 
a padencia do martyrio que tao heroicamente sof- 
fr^o. Coroado o execrando acto com este glorioso 
fim^ caminb^rao os Hollandezes e Tapuyas com 
espantoso tumulto para o lugar onde estavao as 



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37/1 CA5TR10T0 LUSlTANa 

mulhei^es, fiihas e parentas dos mortos (recolhidas 
dentro da estacada, luctando com as incertezas da 
esperam^a e com a vehemencia da suspeiia ) yiva- 
mente afflictas com o receio de sua perda e de seu 
desamparo. Virao o esquadrao inimigo , e de sua 
desordem inferirao o que logo experimentirao , 
porque de Ihes intimarem, na morte dos sens , a 
falta da defensa, as invadirao juntamente brutos e 
crueis ; porque com accao indistincta satisfiz^rao a 
colera e a torpeza^ dando a beber a iodas de urn so 
trago a dor e a injuria , sem que a for^a reparasse 
na resistencia, nem a briitalidade no estado ; ser- 
vindo-se das queixas e das lagrimas como de in* 
sentivos para a violencia. Nunca a demazia andou 
tao desenfreada , porque nunca se vio mais livre o 
desaforo com que a lascivia rompeo pelas ki$ do 
pejo e da lasiima. Roubada d'esta maneira a honra 
e a estima^ao do fragil sexo, Ihe nao deix^rao que 
sentir na perda da fazenda, que Ihes levarao com 
tanta vileza, que nem com que podessem cobrir as 
partes que a mesma natureza csconde, Ihes deixd- 
rao. Com lagrimas inuteis choravao o desam- 
paro e a deshonra ; e corridas de si mesmas in- 
vejavao o estado dos mortos. Pediiio licenca para 
Ihes da rem scpultura; o que nao pod^rao alcancar 
senao depois de passados quinze dias ; para que a 
corrupeao nao d^e lugar 4 piedade , e as feras o 
tivessem de Ihes darem em suas enlranhas horrivel 
sepulcro. Mas o ceo, que dos estorvos fez auxilios, 
e dos desvios estradas,\no8trou nesta occasiao que 
para favorecer a rerdade e Vublicar a victoria de 
seus servos permiitio os meios que para a esconder 



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CASTWOTO LCSITANa 375 

o destruir buscavao seus inimigos ; pois os corpos, 
ainda que dirididos , se achdrao intactos , nao se 
atrevendoatocal-os nem a cormpcao nem osbichos^ 
e exhalando suave fragancia. Mararilha foi esta que 
nos catholicos causou grande compuncao , e nos 
herejes grande assombro, nao se atrevendo a negal-a 
por ser observada por tanta genie. 

XXXV. Ja dissemos neste livro como tendo os 

govemadores noticia do aperto em que estavao os 

moradores do Rio Grande (no mesmo tempo em 

que despedf rao um soccorro para a Paralba ) en- 

commenddrao aos cabos d'elle, principalmente aos 

capitae^ Joao Barboza Pinto, e dom Diogo Pinbeiro 

Camarao, como mais praticos naquelle terreno, 

que da Paraiba passassem ao Rio Grande , para 

eximirem os moradores da affliccao e risco em que 

estavao ; e unidos com elles fizessem ao ioimigd 

toda a hostilidade possivel, conduzindo osgstdos 

de (oda a campanha para sustento do exercito de 

Pernambuco. Com genie da Paraiba engrossdrao o 

soccorro , e com elle partirao depois dos 1 5 d'Ou- 

tubro , e pela difficuldade da marcha chegdrao a 

campanha do Rio Grande em os primeiros dias de 

Novembro, um mez depois do estrago que deixamos 

referido ; e supposto qu6 nos adiantamos no tempo 

por nao quebrar a ponta d'este fio , diremos aqui 

em summa o que obrarao, e ficaremos livres d'este 

desvio, para caminharmos sem elle pela estrada da 

historia. 

XXXVl.Oirvio a nossa gente a lastimosa relacao 
do successo, a crueldade dos Hollandezes e Indios, 
aleivoso tralo d'uns e outros, e irados contra si 



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376 GASTRIOTO LUaiTAKO. 

mesmos pela lardaa^^ e contra os ininiigos pela 
offensa, perdiao a paciencia em eonsiderarem que 
Ihes faltara tempo para a vinganyaj e Ihes aobejava 
para a injuria; nao podendo aproveitar o soocorro 
pant o remedioy senao para o su^ragio. Fizeraoalto 
oa poToa^ao daCunliau,; fbrtifidirao-se no engenho 
do lugar> porque saisse o castigo do mesmo lugar 
onde se executou o aggravo : todas as boras o lem- 
brava o siiio, e uao deixava a magoa desean^ a 
ira, com que os nossos talavao e abrazavao tudo o 
que por aguellas partes tocava aosHollandezes e In- 
dioSy nao bavendo dia em que a fortaleza do inimigo 
nao chegassem correios da sua perda , e de nossa 
vingan^a ; com que irritado, se aprestava com todo 
o poder para assaltar os nossos, certo de que a for- 
tifica^ao do alojamento os nao poderia defender. 
Succedeo que uma noite ouvirao as sentinellas, que 
OS nossos tinbao ao largo^ grande (ropel e rumor, 
como de gente que marcbava furtiva ; d^rao rebate* 
preparou-se a gente para rebater o assalto^ e nesta 
forma estiverao at^ que amanbeceo ; descobrio-se 
campo , e nao se acbou nem indicio nem rasto de 
inimigo. Na nolte^seguinte succedeo o mesmo ; con- 
cluirao d'aqui os nossos que era aviso do ceo para 
que mudassem de alojamento, e tomassem um mais 
seguro f escolb^rao por tanto um posto regulado, e 
medido para a defensa, onde se fecharao com for- 
tificadacircumferencia, Mai tinbao acabadoquando 
o inimigo com todo o poder de estrangeiros, naiu- 
raes e Tapuyas deo sobre o engenbo de Cunhaii, 
que acbou desoccupado ; e entendido o lugar onde 
os nossos se alojavao, os buscou e investio com o 



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GASTBIOTO LUSITANO. S77 

orgulho que recebeo da presump^aode que o temor 
de suas armas nos desolajaria com facilidade; 
por^m em breve tempo se desenganou muito a sua 
custa ; porque vencida a ousadia da iuvasao, do va- 
lor e da resistencia j perdeo o assalto e a flor da 
SUA gente, deixaudo-nos naa maos uma esobreeida 
victoria , que fez mais gloriosa o medo com que 
desbaratado fogio, e foi tauto que, sem attender a 
ordem nem a honra, entrou em aua fortificacao 96m 
muita parte dos soldados , e sem a maior parte das 
armas. Senhores da campanha<x)Dtinuario 09 dos- 
809 na vinganca, at^ tempo em que chegou 4 Fa- 
raiba dom Antonio Philippe Camarao, mandado 
pdo8 n08B09 govemadores, movido9 da reto^ re- 
ferida e de novas razoes^ como escreveremos a seu 
tempo em o seguinte livro. 



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LIVRO IX. 



SUMHARIO. 

. Oi BMMifoverMdonf tptrtto o careo to iolmlgd, qa% fti duu 
sortidu, e eotra casUgado ; por douf negros qua Mem do kirteih 
le sabem os intentof dos Flamengos , e sao rebatidoi com perda. 
~ S. Ootrot fticcesfos em que o inhnlgo i tencido ; em nenhuma 
parle vhrk fegnro; temor com que muiioi ae paisario 4 noma 
parte.~3.6 iaimigo detconfiado dopoderiequarTaler da tndcao; 
como intanta exeeuUl-a, e como nao teve effeito ; sae com todo 
o podar, a a DOtM gaota a tar-lba o encontro, e Ihe fav grande 
attrago. -> 4. Partieuiaridadet d'etta oocasUo ; mortoi a feridof 
d*uma a outra parte.— 5. Os estrangeiroi tratao de fugir reeeosos 
de ae manifetiar o delicto ; o seu mettre de campo, que o luspelta 
ae aoautda ; Ibgem duas companhias para o Arradilft.— (L Publiea> 
le a traicao ; coromettem a Theodozio Estrater e o castigo e o re- 
medio ; o qual le execute com moderacao. ^ 7. lotenta o inimigo 
ioccorrer a forUleza doa Afogadoi, e perde o aocoorro. — 6. Caio 
eitranho. — 9. Chega a Bahia uma carav^la do reioo » que o go- 
vemador manda de soccorro a Pernambuco ; nella escrcTerem os 
Hollandezei randidos aoa do lupremo conialho. — 10. Pelo aju- 
dante Cardoio ae mandarao as cartas ; o qua Ihe suceede oo Arra- 
cife. —11. Dous soldados nossos pdem fogo as naos flamengas : 
com que effeito. — IS. Mandao os nossos governadores soccorro 
ao Camarao ; com etle entra na campanba da Paralba ; o qua Ihe 
Sttccade. — 13. Fortifica-se em seu alojamento ; o inimigo o busca; 
e se perde. — 14. Circumstancias que fizerao grande a victoria ; 
fame que o Camarao mereceo neste dia. — 15. Retir»o-se os bos- 
sos para a Paralba ; por via do Arrecife chegou aos nossoa a nova 
da victoria. —16. Joao FernandesVieira manda dous enviados ao 
reino. — 17. Manda o governador g^ral do Estado cortar os cana- 
veaes da campanba, sem ponderer os incanvenientes, que a obe- 
diencia venceo com o exeraplo de Joao Femandes Vieira. — 18. No 
primeiro dia do anno deo a nova fortaleza a primeira salva. — 
19. Partem os nossos governadores para o pontal de Nazareth; 
quer o Uollandez levantar um reduto; mu jHeBrique Diaso 
impede e desbara^a; voltao os governadores ao Arraial. — 20. Fax 
inimigo o reduto em uma noite; Joao Femandes Vieira chega 
com soeaorro» e desbarata o inimigo. —21. Calamidades que 
soffre o inimigo ; dissencoes no Arrecife, e passagem de rauitos 
para o nosso arraial, pelos quaes tivemos a primeira nova da vie* 



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CASTBIOTO LUSITANO. S79 

torU do Rio Grande. ^ 22. Chega lo Arrtial o etplOo loSo da 
Magol^ai a ffdb tocoorro para o Rio Grande, o foal lera Ajh 
tonio Vidal de Negreiros. — 83. Joao Fernaodes Vieira deiato 
iocega o inimigo ; Henrique Dies escala inn reduto qne Itxera o 
ininlgo ; o eaplt&o Domlngoo Ferraira o desaUna eaa ofluinfai* 
fora. — >24. Henrique Diai ioteota ganhar o reduto fobredito; 
communica a empresa a Joao Femandes Vieira e aos cabos do sea 
terco , que o approvio com alroro^o ; Paulo Diat Sao Phellcbe 
pasaa e rio, e ganba o reduto. —-25. For toda a parte se toca arna 
ao inimigo; accao destemida do capitao Sebaitiao Ferreira. -~ 
25. lotenta o governador hollandex ganhar a Paralba; cliega 
Andf« Ytdal» e traU de caatigar o atreYimento. — 27. Sai o Hol- 
landex a campo ; damoo que recebe das nossas emboscadas. — 
28. Salta o inimigo em Tejucupapo ; o que Ihe luccede. — 29. Per- 
tinacia e caitigo dos judeos do Arrecif^. — 30. Faltao em o noiso 
arraial maotiiDentos e soldades) Joao Femandes Vieira acode k 
falta. — 31. Ardil com que o inimigo nos queria desanimar; co« 
nbecem os nossos a chimera.— 32. Carta de Henrique Dias para os 
Hollandexes.— 33. Gamarto assola a campanhado Rio Gniide; 
totrao mantimentos no nosso arraial. — 34: Apertado da fome sai 
inimigo a buscar mantimentos ; ardil com que nos engana ; 
desembarca em Tejucupapo; Agostlnho Nnnet Ihe pox reststenda. 

— 35. Valor das nuHheres partvignevae ; foge o itinigo desatinado. 

— 36. Joao Fernandas Vieira sai do Arraial a buscar mantimentos ; 
dA principio a fortalexa de Tamandar^, e depois de guarnecida 
folta para o Arraial. -^ 91. Chagao ao Arraial dous padres dat 
Companhia eom ordens d'El Rei para se deixar a campanha ; re» 
plica As ordens Joao Femandes Vieira; neutralidade dos mais 
pareceraa. — 3^. Com tret nAoa defende o inimigo as passagens 
da iiha de ItaaMraca; os nossos goTemadprea inteotlk) ^mhM-as; 
vote de Joao Femandes Vieira. — 39. Com que gente se dispoe e 
intenta a empresa ; cinco Portoguezes rendem a primeira ndio ; os 
Hoilaodcns desampixdo a aegunda e a lefealra , e se ralirao ^ 
ilha. — 40. Ganhada a ilha se recolhem os nossos deixando«a 
assolada ; um maioral dos Indies se passa com quarenta & nossa 
parte. ~ 41. Bntra um soccorro do reino em Raxareth ; mandao-se 
relirar os moradofes da Paralba e Goyana ; o capitao FrantiNo 
Lopes Estrella rende uma lancba do inimigo ; os soldados de Hen- 
rique Dias tomao um comboi do Flamengo. — 42. Assalta o ini- 
naigo a aslaoeia dea Narcos , e fofe castlgado. — 43. ConjoracSo 
contra Joao Fernandes Vieira, de que foi avisado. —44. AUrao a 
espingarda ao gOYcrnador; alteracoo que o successo causou no 
Arraial. — 45. Castigo que da aos traidores. — 46. Motives da 
tralfao. 



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3t0 CASTRIQTO mSITABa 

h Em quanto aos nosaos go?enuidore$ iiao die* 
gtta a noticia do que era passado no Rio Grande, 
e que deixamos escrito no precedente livro, se oc- 
oupavao em hostilixar o inimigo o mais que podiao 
apcrtando de tal modo o cerco, que tinhao posto 
as fortificacoes do Arrecife, que jA nao tinba modo 
de aendir k fome e i sAde que o apertava. Saccedeo 
que no primeiro domingo de Outubro, em que a 
igreja aolemnica a fesia do RoEario, a celehrou 
Henrique Dias e os negros de seu ter^o com as 
dmnomtraqoes poasivei^; acabada a soleouudade se 
reiirou Henrique Dias da vilia de OKnda^ onde se 
festejou o dia, para o seu quartel ; e, ou que fosse 
por aviso, ou por inferencia, advertio aoa capitaes 
das estancias vizinhas que estivessem com vigilan- 
cia, porque sem duvida sairia aquella noite o Hol- 
lander a dar alguma assaltada, como de facto salo, 
ajudado da escuridade da noite, por entre as mar* 
gens do rto Beberibe. Dividio o poder em doos 
tro^os, e com os dous esquadroes, commelteo as 
estancias d'aquella paragem por duas partes, adian- 
tando^e a iuTestida os clarins encontmdos , e as 
cargas vagas, para que primeiro confundissem do 
cpie commettesaem* Nao foi pequena a desordem 
que causou em os nossos o rumor encontrado, e o 
rebate indiffer^ita, porque sem disoiplina se forao 
retirando at* o posto de Joao Soares tf Albuquerque , 
onde, cobrados da confusao , tomarao melhor con- 
aelbo, e voitarao sobre o inimigo a tempo que mar- 
chavao em seu soccorro trinta Indies do terco do 
Camarao, que chamados do estrondo publicavaoo 
auxilio com um clarim que seguiao, cujo ^bo 



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CASTjaOTO LUSriANO. 581 

bastou para espalhar os Hollandezes pelo mato , e 
pararetiraros nossos doconflicto, imaginando todos 
contranos aos que s6 para o HoIIandez o erao, 
mas para os nossos, amigos ; os quaes feitos em um 
corpo, se forao esperar o inimigo de emboscada 
debaixo de suas mesmas fortalezas , donde os assal- 
tarao, ao tempo que se retiravao, com damno seu 
e perlgo nosso ; este por razao da artilharia^ aquelle 
pelos mortos e feridos que deixiirao e recortiferiio. 
Igual sorte teve o inimigo n'outra saida que fez a 
buscar agoa de noite ao rio Beberibe. Esperarao- 
no de emboscada os capitaes Ramos e Soares Com 
suas companhias, d^rao sobre elle com tanto vigor 
que deixou no campo oito mortos, e nove escravos 
dos que trazia para carregarem agoa. No alcance 
perdeo mais que na peleja ; e se recolheo com tantos 
feridos, que se nao entrarao carregados d'agoa^ 
forao bem cobertos de sangue. — Em 1 5 d'Outubro 
safrao do Arrecife dous negros, os quaes sendo 
apresentados ao governador diss^rao que oFlamen- 
go determinava salr a noite seguinte com poder de 
soldados e gastadores a fazer lenba na paragem das 
Salinas, com tencao de nella fabricarem um forte 
com boa guarnicao e artilharia para proteger suas 
correrias. Ouvida a informacao mandirao osgover- 
nadores cbamar os principaes capitaes. e depois de 
concertarem entre si o modo da opposi^ao, os des- 
pedirao com as ordens necessarias , que com pott- 
tualidade executirao. Descoberto o campo , e dis- 
posta a ge&te em emboscada, passarao toda a noite 
com dobradas sentinellas, at^ que ao primeiro rom- 
per d'alva derao os nossos descobridores aviso de 



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M2 cAsmmo vosumsuu 

que nas casas de Francisco do Rego eslava uma 
grande partida de Hollandezes e negros fonnados 
em duas alas^eque seis batedores de cavallo, arma- 
dos de clavinas e pislolas, vinhao descobrindo a 
campanha pela parte chamada a carreira dos Ma- 
zambos. Nao perd^o os nossos a occasiao e o 
tempo ; d^rao sobre os seis de cavallo, cairao morlos 
doiis, fogirao os quatro & redea solta a dar rebate 
aos seus. Sem detenca investio o inimigo por duas 
partes, e sem o esperar se acbou mettido nas em- 
boscadas ; travou-se um combate renhido, que du- 
rou mais de duas boras; mandarao entaoos nossos 
capilaes investir a espada, o que os nossos soldados 
execularao com tanta rapidez e valor, que so co- 
nbeceo o inimigo pela fogida y mas nao pela resis- 
teiicia. Seguirao os nossos o alcance do inimigo at^ 
as portas de suas fortalezas, matando-lhe vinte ho- 
mensy e fazendo-^lbe prisioneiros trinta e dous 
escravos ; tambem Ihe tomarao algumas armas c 
instrumentos que tinhao prestimo para a roca e 
para a fabrica, que aos nossos servirao de despojo 
e de testemunba, com que se apresentarao aos go- 
vemadores sem perda e com muita reputacao. 

II. Nao intentava o inimigo sortida que Ihe nao 
saisse cara ; por^m a necessidadeo obrigava a fazer 
todos OS dias novos esforcos. Com uma partida de 
soldados bollandezes e Indies buscou um dia as 
casas de Sebastiao de Garvalho, onde os nossos ti- 
nhao uma trincheira de presidio, e so assistida de 
duas sentioellas , as quaes em vcndo o Flamengo 
tocdrao arma e se retirarao. Ouvio o rebate o capi- 
laoGosme do R^o, que era o que ficava mais perto; 



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CASTRIOTO LUSITANO. I8S 

e com a gente que achou prompta saio ao eocon(ro 
do iaimigo, que valorosamenle entreleve ale que 
de suas eslancias chegarao os capitaes Jerouimo da 
Cunha do Amaral, e Sebastiao Ferreira com a gente 
de suas companhias , que unidas com os que pe- 
lejavao, carregarao de (al sorle o Flamengo, que 
por fugir aos golpes largou a trincheira e buscou 
o amparo de suas forlalezas. Perdeo o inimigo 
quatro mortos, e nos tivemos tres soldados feridos 
levemente. — Outros successos e encontros simi- 
Ihantes se viao cada dia, que deixamos de refe- 
rir, nao por de menos conta, senao porque forao 
sem cpnto. Andavao os Porluguezes (ao senhores 
da fortuna que faziao do perigo desenfado e da te- 
meridade credito. Por muitas vezes Ihes forao rou- 
bar os gados e cayallos que apascentavao debaixo 
da artilharia das Cinco Ponlas.Os servos e escravos 
que saiao das fortalezas a fazer qualquer servi^ 
logo mudavao de senhor , porque os soldados de 
Henrique Dias os capUvaTao , bebendo o inimigo o 
espanto na temeridade , e o lemor no desprezo^ de 
tal modo que em nenhum lugar se achava seguro. 
— A todos se communicava o temor; o qual se 
augmentava todos os dias entre os de mais baixa 
sorte com a fome e a s6de que padeciao; e com 
esta razao fogiao muitos escravos do Arrecife, per- 
suadidos que nao poderiao escapar das maos dos 
Portuguezes, ou por entrega da penuria* ou por 
conquista da espada. Muitos soldados se -apresen- 
tavao aos nossos governadores trazidos do mcsmo 
motivo, OS quaes repartiao pelos nossos tercos. 
Pelo conforme depoimento d'estes, e d'outros mui* 



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38& GiATRIOTO LUSTTANO. 

to8 de toda a sorte^ se inteirarao os nossos do mi- 
seravel estado em que se achava o Flamengo den- 
tro das pracas do Arrecife , apertado da fome , da 
s4de« do temor em que o punha sua desconfianca. 
III. Desenganado o inimigo, pela continuacao 
dos successos , de que sua forca nao bastava a de- 
fend^l-o de nossa ousadia, apellou para as artes de 
sua malicia, e urdio uma trai^ao de ta) qualidade, 
que o mesmo fora v61-a lograda,que deixar-nosdes- 
truidos. Temos dito como os nossos govemadores 
d^rao a Theodozio Estrater o posto de mestre de 
campo dos estrangeiros , que formavao um ter^o 
de duzentos oitenta homens de nacoes diversas, 
mas todas do norte; sobre este fundamento es- 
tribou a confianca , com que o Flamengo intentou 
corrompM-os : conhecia a natural inconstancia da 
gente d'aquelle clima, e a propencao que tern a fal- 
tar a fe, por qualquer pequeno accidente. Formoii 
o seu conselho supremo um alvard de perdao e 
promessas, em nome dos Estados, em que per- 
doavao todos os crimes commettidos contra a Com- 
panhia, e promettiaorecompensnse melhoramenCos 
a todos que, militando deb^ixo de nossas bandei- 
ras, se passassem as suas fortalezas, e obrassem 
algum feito em utilidade de suas armas e damno 
dos rebelde^. — Espathirao-se entrc os nossos mui- 
tas copias do akadi do conselho, de que logo tive- 
rao nossos governadore^, mas nao pod6rao impedir 
que ellas chegassem tambem Ss maos dos cabos c 
officiaes estrangeiros. Nao forao estes surdos as 
vozes da trai^ao; oomme^4rao logo a corromper 
com fecilidade muitos dos soldados ; pos^rao-se em 



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GlSTUiyiO LUStTAVO. 365 

relaoao com os principaes cabos do Arrecife, cbe- 
gando sua perfidia ao exc^sso de passarem algumas 
vezes ao Arrecife para raelhor concertar o preco 
da venda e da entrega. A^entarao que nos encon- 
tros em que se achassem ( anies da occasiao dese* 
j«da ) OS do Arrecife nao fariao tiro com pontaria^ 
nem os que entre n6s militavao com balla, dando-se 
a conhecer por urn papel dobrado, que trariao 
nas trancas dos chapes, na £firma em que os liti- 
games OS trazem no cinto, em quanto nao sncre- 
desse a bataiha, em que os estrangeiros que mili- 
tavao entre nos levassem a vanguarda ; e unidos 
com a do inimigo vira$6em incorporados sobre os 
noesos. — Aquella natural inclinacao, se ja nao A 
altiva vaidade ,- que os Portuguezes tern a seguir 
qualquer novidade no trajar, fez com que todes 
OS nossos soldados imitassem os Hollandezes, attri* 
bnindo a contra-senha & galanteria, pondo todos 
no chapto similhantes papetinhos^ com o que con- 
fundida a malicia nao pode distinguir os livres dos 
coiKiemnados^ e por este mcio quiz o ceo atalhar 
aquelle damno, o qual o governador Joao Fernan- 
des Vieira ia enfraqueceudo ^ aconselbado da sus- 
p^la^ mas com tal eautela, que nao pod^rao os 
estrangeiros inferir a menor desconfianca. Gorton- 
Ike parte da for^a , mandando uma companhia de 
Hollandezes no soccorro que deo a Paraiba, outra 
para o presidio de TejucujKipo ; e certo na rebeldia^ 
e mcerto na oceasiao, mandou que em nenbum ea- 
contro pelejasseterco unido^senao disperso e entre- 
meiado com os Portuguezes » em fdrma que nunca 
ttvassem occasiao, nem para a fogida, nem para a 
L 25 



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9M CMDMIO UWUML 

offimsa. -*-T- Confiada o inicu^ bo paoto da traiiiio 
aaio do Ajrraeife wi 9 4» Nevmbpo, pda parages 
do6 Afogadoe^ a ajudaido da^^ senliaeHaa infieia, w 
ewbo^ecw de noiM jnoA^ ao c^geaho de AAlooiii 
Feraandea P^soa ^ afirQV]MlaflKlo*«e das caaas dm* 
eng^Aho,. ^uj8 eala«aoi eroMs depo& de moitaa 
tempos , para sair a biiscaMios b^' dia aeguiBtew 
dte?a per fronteiro naqmelle siiio Pedro Gavakattli 
d*AllMiq«rrqiie, o quail albeio da pemicaosa vizni.** 
han^a ^ mandpu a doiis aaldadoa Gom urn alferea^ 
que ao romper da al^a saiaaam a descobrkr o campai: 
o que fizerao diiigaDles, sem enconirarem yesugia^ 
de iaimigo; n^s passando pdas casas do diio 
geiiikO) forao aaaaUadoa doa^ HoUandexea, ^{ue 
y$m dAfsearga matarao o alfefts e uoi doa soldadas; 
Diaa o outro pdde fugir e tooar a rebate , ao qual 
aendirao logo oa capitaea das eateneias viziakaa 
oam sBas eooipanhias,, e se oppaa^o valoroaa* 
mtente ao esquadrio inimigo, que, coaifiado ma pe^ 
d^r o no pacto, avan^ira fturioso. Ouvio-se no Aiv 
raiai a moaquetaria ; earrerao os goyernadapes ooaa 
a soccorro ; a foi antao que o- aai^nto maior Car^ 
dofto, veftde que aa companhias dos HoUaodeaes 
aa fotmovao en. corpo aeparado, e ^mpn^ya^ aa 
cargas nos Portuguezea^ mapdott iflOttedialaQieafee 
i?e4irar os UoUaBdezes para traz, e aasiuitse ataihou 
ai traicao naquella hora ; a qa^ da todo se eyitoat 
COM a chegada do capitao Antooio da Sttva y que 
com sua tropa e a de oulroa moradoras conoeiv- 
v^o J chamados do rebate j cobrirad d« manaiffa 
oa traidores , que y sem manifesio risoo de aaram 
diegokdoa^ nao podiao bzer a meiior aocao de iai* 



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OAISI MOll) LUSflJUNO* SSI 

tBff^rm. Vendo o Flanwngo que o phwo da traicao 
iiniiu Mh^Nl^, e seirtindo-se san^ado db nosso 
fciPrO) ^ ret?iroti, largamto o campo com basfante 
perda , porque m nossos o lerario i espada aif 
d«iirtre das casfla da fbrtaleza. 

IV . FfM e»(ar oecasiao a mai^ arriscada , e a wxy 
Hior BoeoedMft de toda» quantae tfe atpefla gtieira, 
porque' eras pequew^ c«8lo sc atalhou irreparavcl 
damno. Setle homeiis nos matfirao, e ferirao a 
tnrniat eckico; mna baila de peca roeoo a copa do 
eliap^ ao mettre de campo Andrd Vidal, sem mais 
daatio qub urn leve aasombraraento dos oHios ; o 
govemador Joao Femattdes Vierra e o sargento 
mtttor Antonio Dias Gardozo sairao sem lezao ape- 
tarde andareiB poreBtrenuvens de ballas dispondo 
eomo capilaes, e termdo<Kymo addados em todo o 
tempo do eonflioto ; foi -em todos igiial o Talor, e 
aimilhanle a gKn4» : per isso ignat elogto a todos ^ 
derida. — Derxow o inmrigo no eampo trinta mor- 
toa, que nao p6de retirar; oa ferrdos forao aem n»- 
vaero. Na retfrada for maibr a perd», porque erao 
08 golpes dift espada maia certoa que o do9 petouros ; 
cemdellea e grande copia de feridosr aepassarao para 
Arrecife, omia morrlrtpo tantos das cnraa como 
das fcrida^. Na'pasaagem da fortateza dos Afogadoa 
para o Arrecife os e«perou Htenrique Dias de em- 
maeada, e com oa sens aoldacbs os sangr^m de ma- 
tteira, que tev^rao «si»to qac ehorar na despedida 
eomo M pel^ja. Aaaim pagou o NoHatidez a traicao 
que ordio : (Wuto bem merecido de sua insolente 
pOnMlia* 

V. ©a estraogeiros complieea Ba ttaicw) receavao 



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388 CA97MOTP umX4MK 

ser descobertos, e por b3o buscarao meio de enc^ 
brir o delicto commeltendo novo crime, ou con- 
summando o ja come9ad0« capitao Micotao, que 
era o mais comprometlido aa traicao, e outro do 
niesmo tei co propos^rao ao goveraador que os sol* 
dados de suas compai^biasy corridos de que os ti- 
vessem arguido de fracos, os perseguiao e impor- 
tuDavao a que Ihes procuras^em uma oceasiao tal , 
que na opiniao de todos os restaurasse na hoora 
perdida , e que se uao deyia perder a que o teiopo 
Ibe dava , porqne sabiao de cerio que o inimigo 
havia de sair a prover-se d agoa doce , e deleroii- 
nava esperal-o d'emboscada, e uao deixar HolJaa<- 
dez com vida y ou perderem-na todos oa pcK^asiao , 
para o que mo queriao de sua8 s^ohorias mais que 
a licenca. Os ovestresde campo com a credulidade 
Ihes conced^rao a supplica, ainda que contra a von* 
tade do governador. < — Suppunha o Esirater que, 
se no ter^o bouvesse algnns combanidos , os mais 
nao deixariao de ser fieis, e que iazendo elie a es* 
coiha dos que haviao de levar ^ dous capiiaes, 
Ihes cortava os intentos. Mandou formar o ter^o, 
e aberto em duas alas o esqpadrao, noiando os ho- 
n^ns que os dous capitaes apontavaOy a todos escu- 
sou, e Ibes permittio sessenta e tres esUrangeiros 
sorteados, que de todas as companhias^scolbao, 
crendo que d'esta sorte Ihes dava soldados fieis para 
a ^npreaa , e nao coi;npanbeiros para a trai^ao; 
mas foi a supposifao falsa, coiia0 adfante ae vera. 
— Pedirao um ajudante portitigoez que Ihes fraii- 
queasse o transito pelos presidios de nossaa eatan- 
cias ; e marcharao tomando o cuimifiiho do buraco 



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de Santiago, no qua) o nosso sgiidante os deixou, 
come levava por ordem , e se veto dar coma do 
qoe patsava a seus supepiores. EmboBcArao-se 
06 Iraidores entre os maiigueg ^ 6q>eraiido pelo 
baixa-mary para que netla d^e o rio Beberibe 
vao & passageiD ; e tanto que <chegou a bora se po- 
Siftrao todos da outra banda, e ferao marchando por 
entre as fortalezas do inimigOj, tocatido caixa, e 
dando saWas/at^ its portas do Arrecife, saindo 
-d'elle OS do supremo consetho a receb6l*o8, para 
que o exempio da honra convidasse a imitacao da 
perfidia. • 

VI. Assim que o governador da Kberdade rece- 
beo esta nolicia^ fez as diligiencias possireis para se 
certificar nella ; e logo que teve certeza do facto 
eofumunioou o successo com o^ mestres de eampo 
Andr^ Vidal e Martim Soares , e concordarao em 
que se declarasse ao mestre de campo Tbeodozio 
Estrater. Incredulo o aehou a nova. Gotitra a ver- 
dade da notkia instavao os argumentos da razao, e 
parecia-lbe impossivel que se passassem ao inimigo 
homens que de proposito ^colb^ra a cautela, com 
a fiancadospenhores, deixaudo entre nosmulberes, 
filhos, escraTDs e fazendas condemnados a satisfacao 
da divida. — Certificarao-no do facto e da opi- 
niao errada, dizendo-lhe que o nao chamavao como 
a r^, senao como a juiz , a quern pertenda casfi- 
gar o delicto ; e Ihes pediao sentenceasse a causa 
pek> merecimenlo do proeesso , e quando a piedade 
nao p^mittisse castigo adquaido, ao menos se Ihe 
d^ase remedio opportunp. Ao que wspondeo Eetra- 
itv confiado 6 confuso^ eomo fiel e oarrtdo : <r ]& tao 



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3M Qunmn 

» abottiiaaveia Ctttpa, ^mt^ tauiwidade devosaas 
ii sealwriaa a pode faaer crhffA j e a dovkUirw aa 
» oUMk^4MMltt<quandoaykM.maisailmAM..Fei«a 
4 >eoai|rfie€a aaaseMa « 4ms 9n\4mim , que caaollH 
i> com vidaatriaaaAre m decinwe^wfoatiimjio 
% hmsu regiadtttoy io&Uivel i laga Baa iui 
j» que ic|a .fiel. A$ laia ila ntlicia cone 
» 06 daItiM|iiAates a aoiAe irraaNBaivei, am ^o»- 
A ^^pie S€^ fm^ baataaHe, feaaa por<|iia leaadkia 
» ainda c|ua aao aaiiifa^ ;. e aaawi julgo qiie lo*- 
» doa asorrao |^ ^^kae ^ pois a iodaa eaU pa- 
» vado o delicto^ e que nao isente a espada miidMi 
4» fu'opia ptfiBoa^ pois accaitet aer cabo de ul 
a genie, m -Cveiceo ^a Irisileza earn a pai^Oy e a4ai- 
U^ada o diacttrso ae reoolheo para sua caaa eoaa o 
sett aangeBto aiator FraBckeo dela Taur, lao ooca- 
pado do peaar <}ue ae viv^ffao para o aenlimeDta, 
Aao viviio para a coBumuiica^aa. — Sem dtla^ 
maiMloii Joao FarAandea Vietra fomiar os tercoa de 
nossa aailicia, e deoatro d elles o dos estraBgetros, a 
todoB 08 quaes se tomarao as armas ; dando-ae mo 
£aesmo teoapo escHitiiuH) a snaa caaas , em as quaes 
seacbaiao nao «6 claros ladiciMt aanao evideoies 
pvovasde<}ue todM^erao complices oa irs^aa* Fve- 
raQ-se aidsos a Paraiha, e ouiras paries onde hafia 
CQiiipaiibiaa de es4raD§eiros, paira que cohi elloaae 
eateouiasae iaewaia , e se-ffemeitesaeBi as armas -e 
soldadoa aa ihmao Aiwwiial; «s quaes. birefteaiaBle 
cbeg^te^ e eoBi oiuiJbeiiea e iilboa ae iwiAirao 
para aSahia a diific#te«Dida,ga^ef3iA4(Mir|^al4lo 
Cstada^ iO.«aalra de oampo ThecMloaio £airateRy>e 
seu sargoBla Bsaicr iFraAnsQa de k Xoup^ passados 



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•Igniift liiae ^ aloan^^rfe iioea^a para 9e'|)ftSBateiB t 
mr vir na fiaMa , ond« o goveimador g^al o& r^^be^ 
€0» a^anUio^ 6 aocoaiibodoa ocfm !h<mi% xkts imb-^ 
fiiw |Nlstt>8, em qnt imbio sn^rrido, datidb4b66 uitt 

Ylii Gom urn wosmo cuidado ae «ta«t6lava « 
descobrto o inimigo ; fKMittii a oosadik dos P<irtih» 
guetes nompta pek diffiouldad«, taoto tjue Ibe mos- 
tMrra a ococifsiao. Pei%ii«dido& per Henrkfiv^ Diaa? 9Pi 
detepmmSo M nos^A gotetnadore^ e<fti 'ferir o HoV 
laridke; iwi parte maid 'sensiTeL Curtuitla^a sair da 
fiMriaieis* dos Afogados a reeeber e <K>mb«ia^ cm 
9occorto^ y que do Arrecife ttie maudavio Codbs os 
sabbados, para o sustento de foda a semana. Mani^ 
cUirio^se pre¥67]ir>a^ nodsas estancia^ de gente e de 
vigilatickiy para que por qfualqiter parte (Spue o ini^ 
migo detet^tninasseo soccoi^ro lb*o oortaase a'cspadai, 
Disposto j4 o assalto se teve coatax^om a fogida^ a 
para coHar esta $e eiBt>08dKra6 m mesmo^ goferna^ 
dores jtffMo k fortaleEa, com kitMtos de a entrkrem 
d'envolta com os Hoilande^es, na occasilo qua ee 
recothessem de$trocados« per^oidos. Amaiitieoed 
o sabbado eseolhido, e o Flamingo nS^ siio no 
tempo ea&tymado^ ou porqfiie cotheid algum indkiei 
ou po9^ue algum outromcftdeMe Riealtaraua ham 
aeuio cote du» tioras de sol, a miA' auificiaBia 
66colta. Deo uaa emliosoadas de Ifeimque Dios ? 
p«^eo a ttiaior parta dos viteras ; deixou dMe 
mortote ti^ 6apdvoa$ tfdaaaro^ado^cMm leVermat*' 
t^ficia fogk>. Mio M 8eg»ido pe(a amiMidio daa 
ballad^ que^todaaad fertariittaa iatotigavcrutavtao 
0^f. \(Aim Hani^qoe Maa para a SM'eMincia, 



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MS GASXilOI^ LOSITinQU 

a onde no mesmo tempo chegario o$ govemadorcs 
com a sua gente ; os quaes, veodo que o inimige 
com a f iiga se desviiira do la^o, deixarao as eml)05* 
cadasy e por eutre o mato sairao ao lugar do coa- 
flicto , desejosos de desembainhai^m as espadas ; 
diligenck que^ se nio chegou a coiicurreDcia do 
combate, servio a congratula^ao da victoria. 

VIII« Ha 8uecesso8 Lio e^tranbos, que nSo sabe 
o juizo humano deixar de os atiender como prodi- 
giosos. Muitas vezes se pepetio nesta hisCoria o 
nome de Sebastiao de Carvalho, que escond^ramos, 
se £5ra possivel; mas como ? As imprensas o tern 
divulgado, e outras pennas primeiro que a uossa o 
descobrirao; e no que escrevemos seguimos memo- 
rias, e iiao fabricamos successos. Nao se fez menos 
lembrado o autor da ruina que o da restauracao : 
a fama igiialmeate voa com aaazas dageaerosidade 
e da vileza. Foi este bomem o que revelou aos Hoi- 
landezes a primeira determina^ao da liberdade; 
foi o inimigo da patria mais peruicioso que todos 
OS inimigos d'ella , porque o inimigo conquista , o 
traidor entrega. Deixou o sobredito bomem umas 
casas feitas denovo, espacosas e bemobradas, de 
pedra, tijolo e oal as paredes e pilars dellas ; es- 
cadifi e porUes de pedra lavrada; oi alicerces soU- 
dos, OS madeiramentos firmes; o que fazia beliouo 
ecUficto, em qae.{>er0ianecia a meiotpria de seu 
aatOFf que se cbamavao casas de Sebastiao de Car- 
vaUio. Mo tempof.em que succedeo o que esere^e- 
moB , se apoaenlsva nellas o capitao Paulo da Cunha, 
o'qual, na ocoasjao que.acabamos de referir, qu- 
viado o estrondodas cargas;^ artiH^aria, parlio 



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QlimMOTO UlSlTiLMO. MS 

com a geote daseo preaidio para a parte onde o 
chaoiava o combaici; a. di^taocia do caminho Ihe 
oao d€o t^mpo a ehegar ao da peleja; e oonteute 
com a rela9ao do sueeesso $e voltou logo para o sea 
quartel. Tres kovd^s de tempo Ihe poderia gastar a 
deten^a ; bufKX>u as casaa pom os olhos^ e so as vio 
com a memorial reduzidos os materiaes a um cu- 
mulo de carvao e <iuiM, tudo consummido tao sem 
tempo I que a estar a materia disposta^ e natural- 
mente sujeita ao fogo nao pod^ra conaummir o iiv- 
ceadio em tr^^ dias o que gastou em (res horas. 
Eatrou a coosidera^ao . a iazer juizo do caso y e 
todos o ayali^rao por oastigo do oeo , porque se 
nao deixou ver o castigp: senao pelo estrago : mos- 
trando este que aqueUe se offende taJDdo d'uma 
traicao iugrata^ coma d'uma torpeza infame. 

IX. Neste tempo chegou a Bahia uma caravella 
de soccorrO) e ueila uma companhia de soldados , 
que trazia do reiup para guarni^ao da mesmi^ pra^a ; 
seu capilao de mar e guerra Mauoel Ribeiro« Para 
que da Babia fizesse yiagem a Pernambuco a pro- 
Teo com abuudancia , e. despachou com iHrevidade 
Qgoveruador g^ral do Estado Aatonio TeUes da 
Silva , com expressa ordem que, nao podendo to- 
mar oporto deN^zareth^ arribasse a Bahia. Largou 
panno o capitaQ Manoel Ribciro^ naTegando na 
direitura do postp comignado , a^istou tres naos 
flamengas, que Ih^ d4rao ea^a tras xlias, oo-fim 
dos quaes se aqhw Ba altiyra do poi[te> do Gai^vo ; 
arribou a eUe, topiou faUa dps^movadores*; e co* 
nhecida app|9[^]^l4Wid«de4a'Sa9eom>» ae deUberou 
em faltar ao preceito por jiao faltar a nocessidade. 



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Entrou a& barra gran^, ^Aeo reterte de mmi diegMda 
com tmwi oarga <le mosquetlnria ; acudirao m mor** 
dbrcB tfaqueie <iestrict« , qm jimtoe cmn <» sd^ 
dadee e com a gen«8 do mar, dekarao em teita tiMit 
a earga, e o c»piiiK!^ c s^adiw yiara a comboiarem 
al< o Aniiiai. BespaclKm a cmbareft^ ua segukite 
fiofee para a BaMa, onde chegou a sailvamen to, 
oonio «afliiiem ao Arraial o6 meMimenios, nrnm^ 
coes e rofipaa da soc»ito ; em mna « oatra ]^rte 
foi tetwiada a PcsohicAo. — Enttcgoo d capitao Ma- 
nuel Hibeiro o soocairo aos nossos govemadows , 
c c€wi «Ue diwrsas cartas A)S IfoWandfews prisio^ 
Aeiro» que eataveo na Bahia, escrites e efiFiadaa 
com beneptecito 4o go^?«rnador do Estado. Entre 
eUas vifuMto outras reme^idas a^^ conaelho so^ 
premo do Airecife^ mMi d«as quaes era de Hem'ique 
HisB , Mtra do capitao mayor des Indios , e outra 
de aeu sargento maior. (I-embrado dere estart)- 
leilor que forao estors as principaed pessoas que st 
pend^o na occasiao de doM Anna Paes. ) 

X. Descjava Joao Femandes Vieira sabei* o que 
no Arrecife ae pffsaa'va , e aprm^ettou esta oecasiao 
como mais pmpicia. Maadcm preparar e ajudante 
Cardoao^ sujeito em que se achaA^ao 09 requesiios 
necesaarioa para o Aegocto -e para e pwtexto; 
Chegoa aa Airrecife, foi bcft recebido , ainda qnt 
torn a eautete de«nfrar ^»^m olhos cobertos ; entre- 
gou as oatM^, e f^edio Itcenca para entrcgar a Ro- 
diHg^ de BaitMia^ q^e alH ae teoYiAfk prisioneitt) , o 
8O0c<9Prre e rafiKMo qtie sua mulher Ihe mandaTa". 
Foi MMiito Ibemliwpedadb pw ordei& dos do eon-^ 
aclbo maippmib f M viaitkdo pbr todaa as mYitfaered 



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do8 pn^oneirM, de euja Ul}erdacle ee tratma nm 
oaart«i;'6 foi enltB' ifiie Matrgvita Maleanaes, 
amlher flk HBoriqiie Hbs , disse qoe eslava tMi 
gwaaAm obrigaoow ao ^ttroader g^al «k> Sslado 
•pdad DauiiaB iMvces e £enFei«ea cpie aeu BMnddD 
«l'elle irecebk^ «Beareouido o fmcroao'eililo com 
({«ie.tMtarva;a todos^oa pnatvnetrosi, o ipe era dsro 
f<ytniMiiiho*de saaf^raodesa d'aniiao e d»aKi iUue- 
Ire ftaBohnenlOk ^'^ Lidas aa carua-«fla cohisclla^^ e 
QOMsferada a mai^m d'eilaa, aebanio qiietiao am- 
vioba tufonitt a eUas por enlao ; e *wm am 
aoordo BMndaraa d&zar ao eniriadii quea icOflfdi- 
ea^ao vie nfgocies, com 4|iie de preaeaile se adMMo, 
impcdia a brevidade de eeu despaeho ; n>aa <|ue w 
aa CMidesB que trasta Ifae permetliiio a deoeiMai de 
Irea diu , esperaase^ e as fevma ; <piaiodo nao , ae 
poderia veltar^ por nao <(xceder oa Icrmostda Koeii^, 
oepio de que elles^ ao tempo apostado, mm fakai^ 
riao -com a pontualidade da resposla* iauigiiiavaD 
€8 do ooBseUio auprenae que o ajadaate rinksk por 
aapia, e por iafio uaarao desta malksia para ae aaaa^ 
gutavem da suapeila; maaaajwiante, qneconheoeo 
aea inftenio^ Ihes reapondeo que oa soldadoa nao 
serviao como queriao, senao como Ihes ordeMiWio>; 
qua iraaia o pnoo fao eoiMo, que aao paasava d'um 
dfaiy e qaeaosiai Uiea pedia licen^a parase vchatCj 
e jimtamealtf para poder camprar umaa ptuau» de 
caHwabo, por raaau qse deseja^^a aruilo qoaamm 
aeahoriaa o oeabecraaem por seu obrigadD' aaa-'oa*- 
jtaanea ^iie d^aae o tempo. DiaaimuUi]JM>oa io^^ 
vefuoa intelUgencia earn oa apfiteaMadamiaadia, 
e4teiKAraopaniroa)udMCle;'0 <faal eamprafli Oa 



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396 G49TIIHyiO LUBITAna 

•pluBias^ e oom ellas no chapeo saio do Arrecife. 
Poucos passoB fora da trinchetra vio no caminho 
uma carta oom o sobrescrito em.flanieDgo; des- 
conheceo a lingua e a letCra , mas nao duvidou que 
para ser achada a fieerao perdida. Cfaegoa ao Ar- 
iftial , conUm o que Ihe hayia ^oocedido, e o que 
tmha d^servado ; entregou a carta, a qoal ae ah^o 
publicamente^ e nella se achirao duaa gaselas em 
liog^ Aamenga, e uma carta para o meatre de 
campo Theodozio Estrater, que eUe leoem toz aha ; 
cojo argumento se resumia em o afiBrontarem com 
appellidos ignominiosos, dando-lbe em rosto com a 
efitr^a da fortaleza de Nazareth, e oom ser traidor 
ao8 Estados e a Companhia, servindo sem pejoaos 
aiiaugos d'ella, e outras cousas d'eale lote ; por^m 
escrito tudo em frase tao barbara, que igualmente 
fenfasfiou com o estilo e com o assumpio. Queria o 
-Estraler deapicar^-se , como sentido , mas os nossos 
Ibe :aoonselharao que ae yiDgasse como discrelo. 
For Alberto Gerardo, que servia de lingua, se man- 
dirao ler as gazetas ; na parte d' ellas, que nos to- 
cava, erao tao evideotes as mentiras, que se julgoii 
.oompoai^o da ignorancia todo aquelfe artificio da 
malioia. 

XL Mo porto do Arrecife estavao surtas nesta 
occasiao muitas n^s hollandezas. Dous soldados 
nosaoa^ filhos de Pernambuco, se. o(Eereceiio ao go- 
yemador. para as queimarem, o que Ihediss^rao 
aer4hes muito faciL E sem communicarem a nin- 
fj^em o segredo^ se aparelhMo oom loda cautela 
.que o oaao pedia e que a licen^arecommandaTa. £m- 
barearaa*«e n'uipa jangada, que tom^ao na bar-- 



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attmsKfto unMTAno. 397 

reta , oom todos 06 materiaes necessarios, e fayore* 
cidos do escuro da noite, e do surdo do remo^ sem 
serem sentidos se acharao entre as ntos mimigas ; 
escolh^rao entre todas as doas mais alterosas, em 
cada qua I pegaiio um artifieioso composto dos male- 
riaes mais obedienies ao fogo^ que ateado nellas, co- 
me^arao a arder com tamanhas labarcdas que as Tia* 
o espanto Ciim os olhos da perda^ primeiro que se 
lembrasse do remedio que pedia o perigo dos mats 
navios. Foi grandea confusao dos inimigos asrim 
no mar como na terra. Innumeraveis barcas sairao 
a atalfaar o damno, que fora irreparavel se hou-* 
vera qualquer venlo que soprasse o Togo. A muttas 
Baos se cort^rao as amarras deixando-as a vontade 
dos mares, appellando da voracidade d'um elemento' 
para a eolera do outro ; os que virao de terra o in- 
cendio tem^raoque das niospassasse aos edificios, 
e fogirao para a cidade Mauricea : nenhum se lem- 
brava'de fazenda, cada qual attendia a eomtrvac^ 
da vida. Siicced^ra o que se receava, se a viveza da 
diiigeneia nao venc^ra a do fogo, que no esirago 
d'uma s6 nao se consummio , e na menor parte 
d^ourtra se atalhou. Os nossos soldados, amparados 
da confusao , yararao na praia a jangada , entre a 
porta do Arredfe e o forte de Diogo Paes ; sairao 
em terra, e earregarado-a as costas a passarao da 
outra parte da restinga d'areia ; lancada outra yez 
ao rio Beberibe, yogarao para aestancia das salir 
nas ; mat como as sentinellas nao estavao perveni- 
das 9 e uma d'ellas era soldado btsonho , apezar 
d'eHes gritatem que erao amigos Portuguezes, dis-* 
patou mosquete^ e quebrou uma pema a um dos 



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98M«4oB 9 de cttja feridai ostore hem prostmo 4e 
OMprer, mas em fim etcapoii oom ¥idb. O govra^ 
mdor JoM Fomaades Vieimoe recebm nos bnicoB, 
mbiwAB^ nao |HMkr ehegar com a joreono oodr 
dN^va a eafimacao do servico. Uapn a fbrtinHi 
con «N^s doua soMadoa o qii« cuBtmntt c<mr tados 
a» que ofcrao por offidrta, porque nao so Hies ntgou 
a satiifadio senao que turftbem Hies escewko o 



Xli. Chegiraa nestai eoeastao avisos de Cunhai, 
petos quaes entendtrao os nossos gorvemaderes q«e 
o- HoIIandez, ajiidado de Pero Poty^ recolh^*a a si 
todo o gado que pastava na campenha , para aewh- 
dir com elle 4 fome do Arreeife ; e que andava d» 
senhor do campo que ronbava e destraia todb a 
am vostade, sem que teinesse a menor resbteaeia ; 
paasando sua coofianca a aineaear urn so as poroa* 
^ees do Rio Grandev senao as da Paraiba. Refi^escou 
eMi noTHa dos da passadaohaga, «pelo nao ahrir 
oom nova fertda^ despacharau (no principio de De- 
Maoibro) a dont Antonto PbHippe Canaraa com o 
sen terco^ e eom duz^n^oa Tapvyas auadtiares, oam 
ordem que pdos destrictos^dfe €unkad e Rb Graarfe 
oastigassem a fierre e a fo^ ifoUandezes e Imtios 
seus pareiaeSy e com cxaetadtUgenda procurassaot 
seeolher todo o gado , assim rcnsontada como de** 
mestioo^ e o concbizissetn para o Anraial. — Parian 
sem drniona a nossa gente, chegpu a V^mShetj e 
depots de ajostadaa cotn o goremador aa coava*- 
niancias da defensa e da mrpedi^^ oontinnou a 
HMFcba , lerando cooMigo ciaoaenta konena ex- 
pwtoa e pratkos nas Toredaa do terveno, guiadoa 



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dos quaes cheg«F«K> a eampaQha do Rio Gnonk. 
^ia houve vida a que perdoasae a eapada, nem fii«> 
aeaad^ a qi4e aao eiMiaiMwiiaait o fa^, reoeband^w 
nmersLYem paciente$ a uia »efine> tempo a m^/im e 
o golpe. Oovio-se o golpe do eastigo dettiro d» Smh' 
tilezA do cofHram, Kstreoieceo ao prwMiro grtte^ 
eeobrad^ do medov dfet^roainou satisfezer 4q«eixa 
oam raider inaolimcia que* a do aggravo.: pedio 
auxilio 4 fortaleza da Paraiba, que aggregftda » 
Qm^ ^qtiie tinha feeu xtm grosso de oilo ceniM min 
i§if>$ : poder wm que 90 iiDaginava aenbior da vic^ 
tmifiiy, porque suppiwha debil a peaisleocia do re-* 
pnw. Tomou O'pulaa as for^as peb bpa^ d& T«jUo^. 
^,MK> pttle do valor ; e pagou a condewaa^ q^B 
\L0 dederminoii aeirra. 

XIII. ResuAiia'-se o uumero de iK>86a gmte e^a 
$ai» cantos hoqoeQ^, duaeoioa ctacoenta Poitutn 
guMaa 6 tr^azaoto^ eifieo^nta Indio^, obedieatoa 
WIS 9 ottlros ao govevm^^r dom Anioaio Philippe 
GftBiarao* Oc(9iipa*ao para quArlsl o ouieiro de uimi 
ctmpiua quet atrawefisava uaa pequ^no ria; qiM 
pela froiMe Iba aarviacfe cavn^ eo» baa^nta/i»nda», 
e pi^ parte coQtram um deiia» iaboeal. ^m Urmsh 
de triiMslwiira ; deniro da labocaJL e ckkcio se alojava 
ai^^ssa gwi(Q eoiaecilrada e saida para o none a» 
parft a sid. Cevtiiticado o Camavao da restiMufao. ,, 
QpBa que o ioknigo se ppeparsiva para o lais^^ar,, 
gmuTttoeeo^ o amaiMoio oa forma segiiiAie :. etla 
com o&'oapUaes Jom Barbozo Piolo e Joao de Ma«* 
g^lhae& com as suas QOiiip0iihiaiS e ^aria de seua 
lodios tMaarao a ^ua coala a defeoaa da ejutrada 
ptto .parte da wt, oo«io loaia pvoiLiiua a iave&uda. 



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400 CASTftlOTO LtrstTAna 

do iaimigo ; e ^ dn parte do mnrle deo ao capitao 
Jacome Bezerra ^ com aua companhia e a dos mo- 
radores que ae (he tinhao aggrcgado ; a frente, que 
defendia o rio , gnarneeeo de Indios y como tarn* 
bem o (abocal que Ihes defendia as costas. — Mar* 
chou o inimigo contra a nosaar fortificacao, avanrou 
k trincheira que defendia a entrada pela parte do 
nu\j oobrindo com cerradas cargas de mosquetaria 
as fileiras de machados e alfangea desiinados para 
romperero a eetacadada irincheirQ, e franqwearem 
a entrada a sua gente ; por^ ferao repellidos ] ehs 
repetidas cargas de nossos soldados depots de am 
oonflicto que durou por espacb de tres horas* 
Apezar de que o iaimigo perd^ra grande numero 
de mortos e feridos, nao desistio com tudo da em- 
preza ; fez p^ atraz, e formou^se em trea balalhoes ; 
com urn amtentott o combate, com osegundonos 
mandou cortar pelo lado direito, por onde nos de* 
fendia o rio^ e com o tereeif o nos pretendta aCacar 
pelo tabocal, que formava a noasa r^taguarda. Nao 
cons^uio o seu intento, porque, em quanto os 
Bossos rebatiao os ataquea do primeiro^ rec^bia o 
aegundo conaideravel damno dod Indios frechetroe, 
que estavao preTcnidos para a defensa^ e o terceiro 
c&io era duas emboscadaa, que o esperavao ; e dea- 
composto de duas cai^as cerradas e bem succedidas 
ftigio desordenado. Magoado 6 Flameugo de tantos 
goipes ix)cou a retirar, e achon bem poucos dos 
«feu8 que o podessein seguir; o que visto pdos nos- 
sos Indios levantarao um barbaro e conftiso grifo , 
locando juntamente sens bellicos instrumentos que 
«tre dies i signal de inveatir; enletideo o Hoi- 



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landez qua ne disppnhaa a aair do alojameoto e emy 
regalH), e se poz em desordenada fuga, oa qua} 
todofi obedec^ao ao medo , uenhum advartio a fak 
sidadeda causa, que nao conhac^rao aenao dentrq 
de aua fortalata ; a on^ o aegui*o Ibea deixou. virat 
a cara para verem o engano. Gento e quio^ mortoa 
deixou o Flaatengo w> oampo^ e levou quioheotot 
&ridQs { da nos^a parte oao houve morte^ nem fe« 
rida de consideracao. 

XIV. Foi eata viotoria^ em sou taato^i nao so 
digna de applause ^ senao tambem de noo^, peU 
deaigualdade do niunero ^ pela duraiQaa do cooQictOi 
pela qualidade do despojo, e pelo esirago do v&tkr 
cido» Erao 08 inimigos a ter^a parte mais que os 
vencedorea^ guarnecidos de mais e melhoreaarmasi 
poupadofi, e no terreno de seu dominio ; a porfia do 
con]A>ate, demuitas boras ; o exoesso da perda^ taato 
quanto vai de tudo a nada ; os despojos toda a di& 
feren^a de armas e muni9oes , e toda a bagagam e 
roupas que trazia o contrario/; o valor doa vjeto^ 
rbsoB tao advei^UdO| que depoisde featejarem a Yto- 
loria ae deixarao estar quatro dias no campo do 
combate; os ef&itos de tanta utUidade que bumi*- 
Ihom toda a. soberba do inimigOy e assegurou os mo^ 
radorea de todo o receio. — Em todas as occasioes 
pasaadas se tinha moatrado Dom Antonio Philippe 
Gamarao digoo de sua fama i por^m nesta exoedeo 
tseu merecimento a toda a fama de seu'nome. Em 
iodos OS enoontros resplaudeceo aeu yabr ; neste 
seu valiM' e sua virtude, porque, segundo todos 
m notsoa oonfessarao, foi a victoria mais resuba de 
ana oracao que de nosso braco. Primeiro, retirado, 
\. 26 



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gjrtiou timitJtsv horas com Deos, que saissc a pelejar 
com OS inimigos ; e como se da ora^ao trouxera 
oertezas da victoria , Ihe l^rao os seus no sembhnte 
o soccesso do conflicto. Dispos como experto ca- 
pitao, e pelejoQ como valcDte soldado ; assim lou-* 
vou e agradeceo a todos os soldados e officiaes o 
bem que haviao obrado , como se na occasiao nao 
a tivera merecido ; a cada itm em particular attri- 
buio a gloria d'aquelle diaj e vetxkdeiramente , 
que se houverao todos neste combate com tanta 
geniileza , qi>e nao fioou soldado que podesse in- 
vejar os louTores que vira merecer aos compa- 
nheiros. 

XV. Retirarao-se os nossos para a Paraiba, 
c^igados da falta de municoes ; onde os deixou, e 
a sua companhia , o capitao Joao de Magalbaes , 
que mnito a ligeira se partio para o nosso arraial 
de Pernambuco, a leyar a nova da ^ieloria, e du*- 
zentas cabecas de gado ; e em primeiro lugar a 
pedir municoes para voltarem sobre a fortaleza do 
Rio Grandly onde o inimigo^ corlado do ferro e do 
temor, fez a mesma diligencia , inferindo de seu 
estado a nossa resolucao. — Embarcou para o Ar* 
recife os feridos de mais conia , para testemunho 
do estado e do perigo em que licava a forca , des- 
tituida de presidio^ d'armas e de municoes, exposia 
a cortezia dos Portuguezes victoriosos , vingativos 
e senhores da campanha. Esta noticiase transmiltio 
confusa aos nossos , por meio d'alguns negros que 
se passirao, antes que chegasse o capitao Magalbaes ; 
OS quaes, sem saberem especificar outra cousa mais, 
di?«erao terem vistoentrar ires baroos carregados 



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GAfiTmOIO LVSlTAIia. &0S 

de feridos que vinhao do Rio Grande, e davao por 
novas que em uma batalba forao mortas tantas^ 
pessoas y que era geral o pranlo na povoaQao. Da 
chegada do capilao Magalhaes^ e do que d'ella re* 
sultou, daremos conla a seu tempo » que foi no 
Fcvereiro do seguinle anno de 1 646 ; porque nos 
i necessario relatar o que nes(e meio tempo succe^ 
dee nas outras partes. 

XVI. Partido Dom Antonio Philippe Camaraa 
com o soccorro referido , assentarao os jiossos go- 
vemadores, que se alojavao na Varzea, representar 
a majestade d'El Rei Dom Joao o Quarto o estado 
em que de presente se achaya aquelia e as demais 
capitanias da costa , com miuda relacao dos suc- 
oessos e das finezas, com que vassallos tao zelosos de 
seu seryico Ihe mereciao proteccao e auxilio. Para 
negocio de tamanba importancia eleg^rao dous su- 
jeitos, em os quaes concorriao os requisites neces- 
saries para similhante emprego : forao estes Fran*- 
cisco Gomes de Abreu , e Francisco Berenguer de 
Andrada; para cuja viagem se mandarao apprestar 
duascaravellas, em que,dLvididos, partirao do porte 
de Nazareth meadoDezembrod'esteanno. Andava 
o inimigo senhor do mar, e a traicao (ao vigilante 
na terra^ que nao pode a dissimulacao e o recato es- 
cusar o aviso que se deo aes Hollandezes. Ainda as 
duas caravellas nao tinhao perdido a terra de vista^ 
quando a tiverao de duas naos inimigas, que arri-- 
bando sobre ellas Ihes davao caca ; a de Francisco 
Gomes de Abreu , melhor navegada escapou , e 
d^gou a Lisboa a salvamento ; a de Francisco Be- 
renguer de Andrada vio-se laoacocada, que foi 



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fta/i CASthfOtb I.TJWTAlfO. 

obrigada a varar em terra no porto de Tamaadai^, 
onde se salvou a gente , e oa papeis de maior 
importancia. Per falta de soccorro e amparo se 
perdeo o vaso; o que sertio de nos advertir da im* 
portancia e utilidade que se seguiria de haver bo 
porto de Tamandar^ uma fortaleza y para remedio 
de similhantes casos, e o muito que convinha for* 
tificar-se^a Nazareth, e intupir*-se o fundo da Bar- 
reta. Tudo se obrou em bneve tempo, como em 
seu lugar se dira. 

XVIL Em 03 ultimos dias d este anno chegou 
ao nosso Arraial uma apertada ordem do goyemador 
g(h*al do Estado Antonio Telles da Silva, pela qual 
ordenava aos mestres de campo Andr^ Vidal de 
Negreiros e Martim Soares Moreno que obrigasaem 
OS moradores a cortar todos os canaveaes do recon- 
cavo ; e Se alguns recusassem , Ih'os mandassem 
tallar por seus soldados^ sem excep9ao de fazenda, 
nem de pessoa. Esta resolucao que pareceo provi- 
dencia, foi desatino : assim errao os homens em 
seus discursos. Fundou-se o decreto em prejudicar 
ao mimigo, tirando-lhe com a materia a esperanca 
do lucro, que o sustentava na terra, e por este meio 
obrigado a desemparal-a ; e aproveitar aos mora- 
dores, encorporando-se com a nossa gente de guerra 
tres mil sette centos e cincoenta homens , que se 
occupavao na moenda de cento e cincoenta en- 
genhos que tinha a capitania de Pernambuco ; e 
com grande numero de bois, que ficavao livres 
para servirem ao sustento do exercito • por^m o con- 
selho nao comprehendeo quanto maior era o damno 
que a utilidade, que se nos segnia. Para destruir 



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GiSTAIOTQ U^WTANO. 405 

OS iuimigos era incerto o meio^ porque ficava con- 
tingente o deixarem ou nao deixarem a terra; 
para os Portugaezes era infallivel a perda, porque 
destruidos os geoeros perdiao todo o cabedal, para 
sustentar a vida, e para coutiniiar a guerra. Com 
outro maior perigo pod^a por em balajQ9a a fideli- 
dade dos moradores , levando-os a desespera^ao a 
buscar 00 inimigo a conserTa9ao de que os prlvava 
o preceilo ; por^m experimentou nesta occasiao q 
maudatOy sem excusa e sem replica ^ a obedieocia 
d'aquelles fidelissimos vassaUos : nao houve algum 
que esperassq a for^a, seudo eutre todos o primeiro 
que medio os incoavenientes do commum , e des^ 
presou as ooAvenieiicias do particular^ o goverua- 
dor da liberdade, cujo exemplo animou o decreto 
e desarmou o reparo ; tanta opiuiao tinhao aquelles 
moradores d'este homem, que uao dizia^ nem 
obrava oousa a que faltassem j n#m com a obe- 
dienciai uem com a imilacao. 

XyiU. Eatrou o aauo de 4646 para os fieis 
ajkigre^ t para os berejes^ iafausto. Tinha ch^ado a 
nossa fortaleza a sua ultima perfeicao, sem que em 
todo o tempo da obra tivesse o Flameogo a menor 
DOtieia; o pd[*imeiro dia do aono e do mez, que com 
o mysterio Ihe deo o nome de fortaleza do Bom 
Jesus, f^tejirao os nossos com saWas de toda a ar- 
tilbaria de que esiava guarnecida. Das mesmas 
causas de que os Portuguezes tirarao a razao da 
akgria, tirou o HoUandez o motivo do espaato, 
fohresaltedo e coaf uso de ouvir tanto na Tizinhanga 
do Arrecife» ariiUiaria tao grossa ; d'oode llie nas- 
i^ gTMde receioi preveoido quaes sqriao as coo- 



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406 CASTRIOTO LUSrrARO. 

sequencias. Para a nova fortaleza se passou o nosso 
Arraial, deixando o alojamento da Varzea ; e muitos 
particulares levantarao casas, concurrendo toda a 
diversidade de gente, de que se serve a republica, 
tanto da mecanica como da mercancia , de sorle 
que em poucos dias se vio no circulo da fortaleza 
uma nnmerosa povoacao cingida de cavas , trin- 
cheiras o estacadas , que Ihes serviao de mures para 
a deFensa, e de termo para a extensao. 

XIX. No mais ferveroso da obra chegou nova 
ao governador da liberdade de como em o porto 
de Nazareth deit^rao ferro uma caravella de mer- 
cantes, com algumas municoes e gente que man- 
dava e governador giral do Kstado, e um barco seu 
que voltava da Bahia , a onde o mandara carregado 
de assucar, com ordem que todo o procedido se em- 
pregasse cm roupas para cobrir os soldados, que 
andavao despidos. Partio logo em companhia de 
Andr<i Vidal para a Nazareth, deixando a fortaleza 
do Arraial e o governo das annas entregue ao mes- 
tre de campo Martim Soares Moreno. — Aprovri- 
tou-se o inimigo d*esta ausencia dos nossos gover- 
nadores, e intentou levantar um reduto entre as 
suas fortalezas dos Aflbgados e das Ginco Pontas , 
em frente da estancia de Henrique Dias , onde sen>- 
pre achava castigo para o atrevimento. Saio do 
Arrecife com um grosso d'infanlaria, e outro de gas- 
tadores , com todas as armas e apprestos necessa- 
rios para faciiitar a obra. A esperteza e promptidjk) 
das sentinellas deo rebate a Henrique Dias , e este 
a Martim Soares Moreno, communicando-lhe pes- 
soalmente o inlento do Hollandez^ c pediiKlo-*lhe 



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GA6TEI0T0 LUSlTAHa 407 

soccorro ao primeiro signal do combate , porqud 
com OS seus soldados ia investir o Flamengo ; para 
o que levou do Arraial as municoes necessarias. 
Chegou Henrique Dias a sua estaneia ; vio que pos* 
tos em armas o esperavao os seus soidados^ passou^ 
se com elles i outra parte do rio , e por Teredas 
desusadas , que o mato escondia as fortaleias ini-* 
migasy chegou a avistar o contrario sem ser sen-r 
tido; o qual (inha formado a infantaria em esqua4> 
drao cerrado^ com o qual cobria os gastadores, 
occupados em cortar fachina, acarrelar maieriaes 
e abrir sanjas para o reduto, que inCentava £abri-* 
car. Dividio Henrique Dias a sua gente em ires 
partidasv para que a urn mesmo tempo e por di- 
versas partes dessem sobre o esquadrao hdJandez 
tres cargas cerradas. nao saber o Flamengo a 
que parte havia de fazer rosto , com o desatino da 
▼fzinhanca e do repente j fez a industria tao beni 
sortida , que breremente vio descompostos os sol-* 
dados com as ballas, e os gastadopes como estrondo: 
de sorte que uns e outros comecarao a deixar o 
campo, que de todo Ihes fez largar a segunda carga, 
fogindo da terceira para o abrigo de suas fortalezas, 
as. quaes despedirao de si um chureiix) de ballas, 
de que OS nossos se livrarao com virar as costas ao 
perigOy satisfeitos de conseguirem o intenlo, e de 
levarem comsigo a maior parte dos instrumentos^ 
que o inimigo troux^a para a f^brica. A perda 
contraria, s6 quern a padeceo a soiibe ; os nossos de 
nenbuma se queixarao^ porque a nao tiverao. Com 
toda a presteza remelteo IVkirtim Scares o soccorro 
pedido ; poi^m desnecessario^ porque chegou i es^ 



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AM GABTium Lusiiiaa 

ttncia de Udnrique Dias, quaiido elle com sent 
soMados descansavao do trabalho, referindo as pai^ 
ttculaiidades do aucoesso. — Ghegou o aviso ace 
Bossoa goveraadores ^ qtiando estavao em Nazareth 
eompraudo e commulando generoa para o benefiek> 
da guerra e dos aoldados, tudo a ouata da fatenda 
de Joao Feraandea Vietra ; os quaes ^ dada brevi»* 
sima expedkao ao negooio da fazenda^ acudirao ao 
da guerra; cheg^rao ao Arraial em 43 dc Janeiro 
pek meU noite ; e aem $e apaarem , forito & es« 
UDcia de Henrique Diaa j do qual ae informarao do 
referido encontro e do bom auncesso da noaaaa 
armaa^ 

XX« Nao desisdo o inimigo da sua prefeni^ 
de levaatar uin reduto , e aproreilatido-ee da eaca* 
ridade 4bb noitos^ em duaa le^aaitou o prelendido 
reduto > um tiro de mosquete da sua fortakza das 
GinCo Poniat^-escondendo o rumor dos gastadores 
dftbaixo do eslro&do da arliUiaria de auas pra^pas^ 
que aem iifelerpolAQao fez jogar as ditai noiles^ vare* 
jando a ciroumfenwcia do sitio oada setoabattiava« 
Em 22 de Janeiro mio o HoUandez com um groaao 
esquadrao de aoldados, e grande nunero de gaa*^ 
tadorea a oortar o wMo, que pek iMiMidao nao 
deiaaya livre o laborar da artilham^ nem pelaa 
emboscadaa aegura a serventia do reduto. Mai 
tinhao pegado aa ofara, quando Henrique Dias^ 
atiaado deauas sentineUas^ pogou das armi», e aer- 
Tio de muitas e ooBtinuas cargas de mosquet^ia o 
esquadrao inimigo. — O ^cho doe tiros deo rebate 
ao Arraial; Joao Fernandas Vieira, em quanto ae 
preparavaa otttra gente aaio com a sua companhky 



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41000090 uniTAiia 461 

mmtio ao cmflioto na umfo em que andava mats 
aoo^so, 6 qne^a ftkhade polTora e balla ia ^ixando 
fias maos do iiii0iig<^ ^ victoria ; com sua pfettn^a 
m8)^rou iiOYx> valor nos aoldados, o6 qua«a crao 
igtialmepie ankMdlos pelo P. Fr. Joao da Ae» 
earreit^O) c oonaeguto tonter o mimigo atdcpia 
ohegasae o «argeiito aoaior Anloiiio Dias Cardoso 
'COm trea coavpanfaiBa; Reeobn|rao «atao todoa oa 
i»osM&ttovoa lileDtoa, a dapoia de qaatro hoi«t ^ 
naiMenok arrandirao ^o iauMig^ do cai»po , a o 
perseguiraa atd xlabaixo da aitilharia de aitaa forta^ 
lezas. Mandou entao o goyernador iocar a retirar; 
reoolb^raoxae tddoa a aaoa poalot, eaii ti^attoa trea 
lAorlM a qvMtM f^idM. eirtn(|o do mim%o fm 
^ratide) portor a cnatnmada debgeooia de eaeoadar 
sMa xaorlos e faridoa npa impadia^nuaieriiroa. 

XXi< A miaeraTd estado aa via radotidao Hal^ 
landez. Dentro e ttra do Arraetfil wperimentaTk 
tuna meMttta forttfia ; %n do Arreeife aiMtilrava 
o htrop 4eMrord*elle o persegda a fome* Valia mat 
akfuaiMtle fiarinha da terra) que b6s obattAmoa de 
p^^ e 08 naluraes maiidioca, deteaeis loatoeai um 
pote <l'agua doee^ um loalfto i iittia hraiijay tMte 
tinletti; e Vaix> o maia «e aishata tao earo^ V^ 
para OS ricos ^era diffidl o MslMitO) e impoariiFd 
para oa pobrea. Aa wiaada neceaaidade persnadiio 
ti^nlrega ; oa do gotpemo falloa do remadio temiao 
a rebeiliao j a tadM setn duTida eseolbMK^ anteao 
capth^M qoe o fti^nlot^ ; per^ os judeoe^ em 
tuao perthiazes, aconaalhatio a eoEs^ncia ^ teme^ 
roaoa d6 eaaiigo que iMredn itta peridia ; offeree 
eirao'^ a auatuattf o povo e a guerMj i^tiria 



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eatre si um grosso dooalivo^ qiie.lo^Q enlf«^giiio 
aos do supremo conselho ; mas nada se reooediou , 
porque servio a cohi^a de [iouco», e nao sadsfez a 
Tome de algum. — Da peuuria reaultou a disaeosao 
eatre as iia96es de que se IbrmavaaqueUe presidio* 
£iitre a confueao e o medo tiveno alguos ocoaaiao 
para se passareai a nossa parle;,d'esles forao os 
primeiros einoo negros miiias^ que eiu29 de Janeiro 
fbgirao do Arrecife , e derao por jeiiooso as novas 
da victoria queoCsaiarao alcao^otLdos HoUandexes 
Qo Rio Grande;, de que acima faUanios. 

XXII. Cbegoii nesle tempo ao Arraial o eapitao 
Joao de Magalbaes com a nova e oircumstane'ias do 
sUQMsao do Rio Grande; £oi bem recebtdo e hos- 
pedado doe cahos maionespela pessoa, e applau- 
dido dos soldados pelo aocoorro das duzentas ca- 
begas de gado. Gerlificadob o^Dossos ^vernadores 
do soooovro que o inimigo tioba mandado , e do 
ealado em que ficavao oa moradores d'aqnella capi- 
tania, asaenlarao que se Ihes devia acudir oom iudo 
o que fosse neoesaario para snstentar a liberdade 
dos moradores e a reputa^o das armas. Offereoeo- 
ae o mesire de campo Andr^ Yidai de Negreiros 
para ir elie mesmo om pesaoa ; i^os o do con- 
•gresso conbecerao que nao. podja a empresa ^^i^* 
^tregue a melhores maos. Appresiado em brevis- 
simo tempo, se pariio do Arraial em 24 de Feve- 
reiro^ levando comaigo qnaUo comfMuibias do 
twoo de Joao Fernandes Vieira, e do ter?o de Hen- 
rique Dias nma leampdnbia de minaa, e outra de 
€i'toul()i9. Da mardia de todo^ nos.havemos de 



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CAftTBlOTO LD51TAK0. 611 

apartar agora para dannos razaa do que eDtreUiQto 
succedeo em Pernambuco* 

XXIIL A um meamo tempo saio do Arraial o 
scccorro para o Rio Grande ,. e para o Arrecife o 
aviso de um traidor j pelo qual inrormava o im^ 
migo daqiialidade e numero das pessoas, do in- 
tento da Jornada, da bora da parlida , e de iodas as 
circumslancias necessarias para inculcar a falta 
em que ficava o Arraial. Certo Joao Fernandd$ 
Vieira na traicao^ e incerto no traidor (supposto 
que todos o apontavao com o dedo), nao pode deixar 
de se doer pela continuacao do mal, vendo que nao 
passava occasiao em que a perfidia nao andaase tao 
pix)mpta eomo a leaidade. Importava entander o 
Flamengo que nao sentiamos a falta do soceorro* 
Pes8oalmente visitou todas os estancias, preve-* 
nindo-aa de muni^oes, armaa e exorta^oea^ com 
99 ordens necessarias para todo o acoQtecimento. 
Aos capitaes dos presidios ordenou quese uao d^sse 
uma bora de sooego to fortaleaas inimigas, picaudor 
as por turno todas as noites ; ganhou com dadivas 
algumas espias, que o forao muiios tempos, com 
estipendio de doze patacas cada mez ; £oi por euire 
OS mates ver com seus olbos as fortalezas do ini* 
migo, observando as partes e os poslos, d*oode e 
por onde melhor se poderiao assaltar. A primeira 
noite se picou o ioimigo com tal viveza que nio 
houve praca sua , que por todas as partes se nao 
imagiuasse assaltada ; foi tamanbo o tumuUo e o 
receio no Arrecife que se ouviao entre os posaos 
OS gritos do temor e do espanto ; e assim se couii- 
UQOu MB seguiates noites. — * Foi a segunda a que 



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Mt Qunsmo vomtAao. 

mis M aisombrou^ porque investio tfemique Dits 
com OS soldados do sen terco o noro reduto, que w 
oobria oom a artilharia da fcrtaleza das Cinco Pon- 
iBty goamecidode soldados ede quatro pe^as, que 
^nhou sem resktencia, porque osdefensores o lar^ 
girao tnuiio antes que os obrigasae o ferro. Conio 
na empresa se procurava o espanto , despresou^sa 
a victoria e o despojo, largando o reduto e a arti- 
Iharia. ^ Em um sitio que ficava como oentro das 
tfes fortalezas, Afibgados, Seca, e SaKnas , Ihe fes o 
eapitao Domingos Ferreira uma pesada lraiF«8sura. 
Em OS tronoos das arvores^ que ficavao mais des-> 
cobertos, mandou atar murroes accesos, e logo dar 
uma earga eerrada , com ordem a seus sokkMlos 
que dada ella se retirassem a um lado. inimigo, 
diamado dos tiros , divison as mtehssy e persnadio- 
se que esCaviio nas maos das mosqueteiros ; apoD* 
tou para aquella parte toda a artilharia das tres 
fortalezas, is quaes aoompanhirao logo a do Ifoam, 
a dos Perrexis^ e a plata-forma das portae do Ar^ 
reeife, nao descancando de repetir os tiros ^ que oa 
ttOSSossoldadoBdes^ados do perigo Ihes foziao de^ 
parar com mais eui^lado, continuando nas cargas 
de sells mosquetes. Desatinava o Hollandei da cona- 
tancia que via, porque nao suspeitava a cansa, 
adisttdo fundamento para temer a esoala na ir* 
m«La com que apeear de toda sua artilharia perse* 
veraTa a fiSrma. Foi tal a impressao que fez o en- 
gatto, que se onria em todas as partes o grito da 
pertnrbacao e do rumor com que se dispunha a 
reatstencia. Com a claridade do dia conheceo o ioi* 
»igo aeo enganoy e Hie fez coofeesar o capitao Do* 



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CASTKHnO LUSITAm. 411 

noitngos Ferreira que com valor e eng^iho pelejava 
com ariuastlobpadas. 

XXIV. Eotrou o Mar^ de 1646| com die 
Henrique Dias em pen8auieiito& de gaohar e ap*- 
rasar o reduto que o inimigo fabricara a 000^ 
bra da fortalesa das Giuco Poutag^ o qual depoia 
que OS nossos o abaodonarao tinha o inimigo forU^ 
lecido em nova fdrma. Gommunicou o intento ao 
governador Joao Fernandes Vieira > duendcnlbei 
que nao queria parecer, senao favor, polvcMTt^ 
balla, uma duzia de madiados, e peroiasao pavf 
que s6 os negros de sua obediencia Uvessem parte 
na empresa (confian^ bem merecida* po»que gar 
nhada a for^a da experieucia )• Era tanta a opiniao 
que e govemador tinha da capacidade, valor, e 
priiica de £bnrique Dias^ que com um mesm^ 
con(»ito ouTio a determiua^ , e suppoz facto f 
clespedio«*o logo com alegre rosto e liberal despa- 
eho ; ordenou a todas as esCancias, que a hora de*- 
tinada tocassam atma ao inimigo por todas as 
partes ; safo do Arraial com quatro oompanhkis.a 
esperar o successo da emboscada , e participar 
d'uma e outra fortuna. Cbamou Henrique I)ias 
sens officiaes a conselbo , propoz-lhes a empresa ; 
todos a approvarao com lauvor, mas conoordarao 
que nao convinha de nenhuma sor te enlrar na fiiccao 
a pessoa de seu governador, contradizendo-lhe as 
iDStancias com tao vivas razoes, que veiiceo o juizo 
as repugnancias da vontade. Obedeceo Henrique 
Dias aoa seus : nao tern razao para mandar quern 
nao sabe obedecer & razao. *-*-Deseobrio-se o campo, 
e certo de que nelle nao apparecia inimigo^ esco^ 



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ftt4 cAfimioro LmitAiiow 

Iheo Henrique Dias de todo seu tcrco quatro com- 
panhias, as quaes enlrcgou ao commando de seu 
sargento maior Paulo Dias Sao Pheliche. Entrou 
a noite^ passou o rio com a sua gente, e coberio 
do escuro e da bastidao do mato a levou al^ a vista 
do reduto, onde chegou pelas onze horas ; divisou- 
se o vuUo de duas sentinellas inimigas perto da 
estacada, as quaes logo todirao arma. Ghamados do 
rebate sad'ao os defensores a receber duas cargas 
cierradas , e o espanto da faciiidade com que os 
uossos saldirao a cava , e d^rao por terra com um 
laneo da estacada , abrindo caminho ao furor com 
que OS degol^rao 4 espada. Sem perder tempo avaa- 
carao & segunda fortificacao ; e ganhada a trindieira 
Investirao a casa forte , onde os vinte e cinco de 
*seu presidio se linbao recoihido ; os quaes entrados 
pelo lelfaado e pela porta , apezar de toda sua re* 
sistencia, forao mortos a excepcao de quatro. Esta 
victoria custoo-nos oito soldados mortos e vinte e 
quatix> feridosy dos quaes alguns morr^o, sendo 
d'este numero tres capitaes e um alferes. Virao-se 
OS soldados sem capitaes que os governassem j o 
pleito vencido , a detenca inutile o damno certo 
(porque as fortalezas cobriao o redulo de ballas ) 
carregArao as costas os mortos e feridos, e aigum 
despojo d'armas, vestidos e alfaias, e se retirarao 
para a sua estancia. governador da liberdade , 
que esperava a contingencia do suceesao, saio a re- 
ceber OS valorosos soldados , tevando a cada um 
nos bracos com os devidos louvores"^ aos feridoe 
recolheo , e mandou curar com vigilantissimo cui- 
dado. 



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• XXV. Os capitaes das estancias , euvimba ar^ 
tUhaiia 4I0 ioimigo por todas as partes, picarao o 
HoUaadez com arma tao quente que llie pa^ecoo 
aaaalla o que era diveraao. Ao capitao Sebasiiao 
Ferreira, morador na frQg;iiezta de Sio Louren^o^ 
coube em sorte locar arma ao inimigo pek> forte do 
Perrexil ; com trinta soldados escolhidos se metieo 
debaixo da artilharia d'elie, dando ao Flamengo 
tantas e tao bem sortidas cargas, que com um 
noesfoojuizo 8e lepieo assaltadoe readido.-^Vkido 
a Jioticia do gaT^mador da liberdade que a inimigo 
apaseealava algtuuaa cabe^ de.gado o alguns ca- 
vallos debaixo da artilharia de suas fortalezaa^ clia- 
mon o capitao Ferreira, cojnmunicou'*-lbe o desejo 
que tinha de qoe^o inimigo fosse privado d'aquelles 
recursos. capkao , cpie nao aabia recusar neim 
temer^obediente eafog^ sedispOi^ paraa,empresa» 
Eeperou a iioite;^e aoompanhado de ^eu animo e 
tlas aombras d'ella, Coi reoonhecer o sitio. Aohou.o 
gado recolhido, e eeroado d'uma truMhcira de 
pAo a pique, wexa mais eiMrada que uma porta 
unida a da fdrtaleza ; yoUou a dar coata a seus sol* 
dados J e ioftindio em (odos o animo destenido de 
que era dotado. Entrarao nd currdi ^ deitirao sogas 
ao gado, e cortarao as que tinbao presos alguns oa^ 
vallos ; e fpiando ja buscavao a porta para a saida ^ 
forao sentidos^ e se deitarao por terra entre o gado, 
onde escaparao de muitas cargas, que o presidio 
da fortkleut atirou a vulto^ e muito ao largo. De^ 
pois de algum espaeo se tornou a socegar o Fia^ 
menga, tendo para si que se inquietara sem fun-* 
dainento. Nao.$emovAi»ao os nossos senao depots 



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tfoe intefuMrao do aiteiioio que a todos o8 da (brta- 
feza oecopaya o deaoanso. AbHrao a porta do oerto, 
montarao em sette oav^oa ^ tracendo diante de A 
Tmta e oito boia (qae crao todaa as cabe^as ijam 
alii pattavao), eBtrArao-palo mato, • €om4rea car** 
gas desper tarao o inimigo, que adv^ertido do roubo 
aoabeu de eutender que nao podia 6ar de seo se* 
guro aanio o que \he permittiaae o noaao atreFi* 
mento. 

XXVL Aquelles dias, em q«e na campanha 
de Pemambuco sueoadeo orefeiido, gaatou Andi^ 
Vidal de Negmros ua mareba pam 6 Rio Gnade; 
sein aoonteeimento i)Ota?el ob^u a Paraiba^ oude 
acbou o Camarao oom^o aeu ter^o dc Indios, red* 
rado por falia de munii^a^ como* (ka referido* 
Chegira pouoo antes a iartalesa do GabadeUo o 
80CC0IT0 , que o Hollasdez maiuUra do Arraoife 
para o Bio Grande* Jirigando o Flamengo aer a oo- 
oaaiao favoravel, com preflieia e oautela ambaraou 
em lancbas todo o poder ; aobio o rio , com in- 
iento de levar a cidade por entrapreaa : sem aer 
aentido a ayistou ; por^aa daacoberto de duaa aentir 
liellaa nossat fei atalbado pela geote que acudio ao 
rd)ate« Nao lardou o Camarao em foriaar emboa* 
oadaa para o de^truir ao detembarcar ; porte eUe, 
ou temido, ou aoonselhado virou as proas aa lan^^ 
ohaa tauto que ae vio sentidO) e wo parau senao 
dentro de sua fortalesa do Cabedeik>««*<-Aehou A0- 
dr^ Vidal fresca a pratica d'ette aucoesao^ e ao Ca- 
mirao seutido do Flamengo nao voltar castigado ; 
conbeceo elle em Andr^ Vidal a propria n^agoa, e 
kvados d'um meamo mottvoy convidrao em um 



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CASTRTOTO LUSITAKO. M7 

mesmo pensamento , que , por causa de (raicoes , 
conservarao em segredo. Escolherao uma porcao 
de gente bem resoluta, a que mandarao marchar 
para o certao; andado caminho de nove legoas 
mandarao fazer alto, e d'alli voltarao a marcha 
para o mar, tao medida pelo tempo que chegArao 
de noite a um sitio perto da hermida de Nossa Se- 
nhora da Guia, e pouco distante das fortalezas do 
inimigo, Santo Antonio e Gabedelio ; alii formarao 
tres emboscadas, ecomecarao a provocar o inimigo 
para o atrahir ao laco que Ihe tinhao armado. 

XXVII, Vendo-se o Flamengo insultado pop 
um tao pequeno numero de Portuguezes, dispoz-se 
a sair a campo^ contando ganhar completa victoria. 
Saio da fortaieza de Santo Antonio com sessenta 
Hollandezes e cento e sessenta Indios, desembarcou 
no Arraial, d'onde os nossos o tinhao provocado, e 
segurodasua forca descuidou-se da f6rma. Marchava 
diantedos Indios uma feiticeira braziliana ^ que 
brandindo um alfange , dizia : c Deixai-me chegar 
>» com estas unhas a esses caes portuguezes, que 
» para Ihes romper os coracoes sou tigre ; ligeira 
» onca para Ihes dar alcance ; e sequiosa fera para 
» Ihes beber o sangue e despedacar as carnes. » 
Ghamavac-lhe osnaturaes Pag^, que em sua lingua 
9oa prophetiza, e Anhaguiari, que 6 o mesmo que 
senhora dos demonios ; em cujo auxilio punha a 
superstitiosa gentilidade daquelles barbaros toda 
sua confianca. — Com estudado desprezo esperarao 
OS nossos o inimigo, at6 que, chegando a tiro de 
mosquete, o receb^rao com duas cargas; fingirao- 
se enganados de sua imaginacao, no excesso do 
I. 27 



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U\^ CA9TU0T0 LUUTAIiO. 

numero que os commettia , e porno perlurbadoe ae 
pos^rao em desordenado retiro. Ao tempo as8en«» 
tado virarao as costas com arrebaiada fugida, para 
que o alvoroco da victoria e da cobi^a nao deixasae 
ver ao Flamengo o perigo do alcanoe ; levarao oa 
sessenta Iloliaiidezea a vanguarda ; e como, se ga^ 
nhada a victoria forao so a recolher os despojos , 
se mettirao no coraeao das emboscadas , das quaes 
recebSrao duas cargas de mosquetaria tanto a 
tempOi e tao bem empregadas que cairao em terra 
mortos cincoenta e oito HoUandeEes^ e alguns In^ 
dioSy de cujo numero foi a Teiticeira, que ficou esten- 
dida no campo, passada com duas ballas pelos peitos. 
Os outros^ cortados do espanto, e certos da morte, 
buscavao nasaguasdo mar o sepulchro, onde quasi 
todos perecSrao feridos de nossa espada. Perdeo o 
Flamengo nesta occasiao 03 sessenta Hollandezes 
com que saio ^ e todas as armas ^ e as lanchas em 
que se embarcou ; dos Indios nao se pode con tar o 
numero dos mortos ; so quinze nos moatrou o 
campo ; quasi todos os mais escondeo o mar ; rare 
foi o que salvou a fuga , porque a opposiqao do 
bra^o e do terreno Ihe nao deixou aberto outro 
caminhosenao o da praia. Da nossa parte nao houve 
ferido, supppsio que nos enlutou a victoria a morte 
do sargcnto maior Francisco Cardozo. 

XXVllI. Applaudida a victoria com grandes 
demonstracoes de gosto, e recolhidos os despojoSi 
se voltarao os nossos a Paraiba » onde forao rece«» 
bidos com alegres vivas ; sem descancar no triumpiio 
despedio em brevissimo tempo o mestre de campo 
Andrd Vidal para o Rio Grande o govemador dos 



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G/ISTBK>70 LUSRANO. 419 

In4ios eom a sen teroo, aasialido d'algung autros 
capitaea ; e depois partio elle mesmo pan a oam-r 
panhs^ da Feraambuco, assistido do capitao Antor 
nio Gonial ve$ Ti^ao com agente de sua companhia. 
Nos dias que gastou a marcba y aairao da ittia de 
Itamaraca oitenta soldados inimigos, em lanchas, 
que elleg desejavao carregar de mandioca das rocas 
de Tejucypapo, ferteis d'este genero, e aocommo* 
dadas, pela vi^inhaQ9a^ para a facilidade do rouho 
e do remedio. — Desembarc^rao os inimigos a 
furto ; com presteza comee^rao a executar seu de^ 
sejo^ que Ihes atalhou Zenobio Achioli, eabo da 
nulicia d'aquelle destricto. Com triuta soldados oa 
assaltou ; e com tao boa fortuna , que nao deixou 
40S Qontrarios mais acordo , que o de fugirem para 
as lancbasy e nellas para a ilha; levarao vinte fe« 
ridos, e deixarao no campo trinta mortos, com 
todos OS instrumentos e toda a mandioca que 
tinhao arrancado, Apertados da fome tent^rao os 
HoUandezes segunda expedicao, que dirigfrao a 
uma ilheta cbamada Tapessoca ; mas nao forao me^ 
Uiorsuccedidos, porque Agostinho Nunes, sargento 
maior do destricto , acudio com duas companhias, 
e o^ poz em fugida^ deixando no campo oitenla 
mortos» grande numero de armas e municoes, e le^ 
vando muito^ feridos, Terceira vez inten^ou o inii- 
migo levar a effeito sens projectos, envidando todo 
o seu resito. Ordenarao os do conselbo ao sen ge- 
neral do mar Joao Cornelim (ou Cornelizenl Chic^ 
tart) que com cento e cincoenta soldados saisse do 
Arreeife, e levasse da ilba de Itamaraca toda a 
gi^nte, que podessem escusar ob po^esidios, e com 



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430 CASTRIOTO LCSITANO. 

este poder saltasse em Tejucupapo, para que d'um 
mesiDo goipe vingasse nos moradores a injuria , e 
carregasse as lanchas de mantimentos para acudir 
a miseria. Executada a ordem, tomou o Flamengo 
terra em uma parte onde alguns moradores traziao 
escravos arrancando mandioca de suas rocas , oa 
quaes y vendo a multidao das lanchas, corrSrao a 
dar aviso ao mestre de campo Andr^ Vidal ; despe- 
dio elle logo o capitao Goncalves Ticao, para que 
com a sua companhia entretesse o inimigo em 
quanto elle nao vinha pessoalmente ; ma$ nao po- 
dirio OS nossos cabos acudir tanio a tempo que o 
inimigo nao executasse o seu projecto, pois quando 
chegon o capitao Ticao ja navegava de mar em fiSra 
com as lanchas carregadas de mandioca, e de fruta 
de espinho em que abunda aquelle terreno. Uma 
d*ellas p(»^m, apartando-se da conserva das outras 
e costeando a terra, a vista do Pao Amarello, foi 
descoberta d'alguns pescadores nossos que andavao 
em suas jangadas deitando as redes ao mar; trocarao 
08 lancos a pesca, e deixadas as redes envcstirao a 
lancha, que logo rend^rao com a morte de tres 
HoUandezes, que se deitirao ao mar, e com darem 
qnartel a dous e a um mulato e um negro que nella 
ficarao captivos. Aproveitarao-se do refresco e da 
lancha, que depois Ihes servid para maiores em- 
pregos. 

XXIX. Gontinuava entre os HoUandezes a feme 
e a passagem dos soldados e genie vulgar do Ar- 
recifepara o nosso Arraial, e pela mesma razaoas 
testemunhas da falta dos mantimentos, que crescia 
com o tempo ; e juntamente a impaciencia com que 



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CASTRIOTO LUSITANO. 431 

vulgo e geoie miliiar dizia a cara deseoberta, que 
se largasse a praca quando tinhao na inao a conve- 
nieocia de se adiantarem nos partidos, antes que 
sem elles os enlregasse o rigor da fome e o das ar- 
mas. Opiuiao e praiiea que os judeos impuguavao, 
cerlos de que os nao esperava menos casligo na 
entrega que na escala : viviao sobrados, e a mise-' 
ria OS desconhecia compassivos. Forao accusados 
de que tinhao recolhido em si todos os mantimen- 
toS; e que faziao mercancia da tenacidade. D^rao 
em todas suas casas os do governo em uma mesraa ^ 
hora ; acharao abundancia de tudo ; depositou-se 
em maos particulares para soecorro da necessidade 
coi^mum , e a todos os obrigarao a comprar pelo 
preco que vendiao. Tratarao os judeos de baixo 
de mao de amotiuar o povo, inclinado sempre a 
mover-se com qualquer novidade ; mas levant^rao 
contra si as pedras. D^rao sobre elles os soldados, 
matarao selte, e forao tantos os feridos que a occu- 
pacao da cura Ihes tirou da memoria a da vin- 
ganga. 

XXX. mestre de campo Andr^ Vidal de Ne- 
greiroSy depois que enlendeo nao sei* d'utilidade 
sua assistencia emGoyana, separtiopara o Arraial, 
onde chegou em os principios d'Abril ; tempo em 
qne nelie secomecava o sentir a falla de mantimen- 
tos e de sojdados. Os naturaes e moradores andavao 
ja quasi remontados ; e alguns dos soldados, con- 
duzidos da JBahia, se tinhao ido para aquella praca. 
Conferirao-se os meios para remedear uma e outra 
falta, e se defenio por mais etilcaz a auioridade e 
agrado do governador Joao Fernandes Yieira, cuja 



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&12 GAtmiOtO WUTAm* 

pcssoa era «|uem so podia oonduir este negooio. 
Acceilou a ditigencia^ prometiendo correr as prin- 
cipaes povoa^oes do reconcavo, como erao^ cabo de 
Santo Agostinbo, Ipojuca, Siriahaem, Una, Porto 
do CalTO , e outros , em quanto & oonduc^ao dos 
mantineBtos. Re6ol?6rao-se em queixar-^e ao go- 
venaador g^ral do Estado dos soldados que a furto 
96 tinhao vdtado, o qual deo energicas providen*- 
daa para eviiar este mat. Com sagacidade mandou 
tomar a rol os deliqoentes^ e lodos preaos^ castigou 
08 prhicipaes com forcas e desierros ^ e oe menos 
cttlpados mandou voltar logo para a campattha de 
Peroamfonco. A todos os ne^gros^ que achou aerem 
dos moradores daquelle capitania, mandou prendter 
e depositar para se entregarem a sew senhores, ou 
a quern tiyesse pnocuracoes suas : ^pedieme fd 
eate de cotisequencias utitidsimas > poixpie para os 
escravos foi ^Iho, e para os aoldados fireio. 

XXXI • Apre8tou-«e o governador Joao Fwnaii* 
deB Vieira para a joriiada» e para de oaminho eve- 
cutar o desejo que tinha de assegurar o porto de 
Tamandar^ com «ma sufliciente forea , que ignal- 
mente aervisse i defensa da terra e ^ da barra ; e 
partio do Arraial em 10 de Abril. Em esies poucos 
dias quese deteve saio oinimigo com um ardil inal 
urdido> e peor l^grado. Deitou fama que de Hoi* 
lafnda Ibe ckeg^ra aviso em como ficava pwa fazcr 
aTiagem uma grossa armada , que a compankia 
mandava para sujeitar os rebeldes^ e conquislar 
OS fivres. Na crcdulidade desla ttova fimdArtio toda 
a quimera. Fingirao duas carus ; uma d'El Rei Dom 
Jo&o IV^ escrila a Francisco de Souca GontiBiio , 



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GAftTAIOTO Jm«lT4M0. Ml 

^itio reeideote em Uollanda, e inclusa neila outra^ 
que dizia 6er do governador do Estado Antonio 
Telles da Silva , escrita ao mesmo senhor, em a^ 
qual repetia por nova a acclama9ao da liberdade 
do Brazil^ com todas as circumsiancias do Ssbeio^ 
e junUmeote o traslado das ordens , que o mesmo 
Rei despedio logo ao dilo governador geral^ que nao 
iavorecesse a sublevacao, para que sen residente a« 
apresenUsse aos Estados^ e por ellas se entendeese 
que nmm coosentira , nem favorec^ra a dita sukle-* 
¥acao» Public^rao f stas cartas no Arreeifie, e copia-* 
das em muitos treslados as mandarao dettar em 
partes que facilmente caissem oas maos das nossas 
sentin^llas , e d ellas passassem is do goTernador 
Jofto Fernandes Vieira. — L^o*se as cartas, e pelos 
erros do estilo e impossibilidade do tempo, se co* 
nheeeo o engano^ e o intento da fic^to, que era qu&- 
brar^nos o animo , e aguarnios o calor com que 
nosiaa annae o opprimiao. Communioou o goyer^ 
nador da liberdade as cartas aos mestres de campo 
e gOYeroadores de Minas e Indios ; e assentarao que 
9A sepullasae o desprezo. Pai:*eceo^lhe a Henrique 
Bias discreto o castigo, porem intoleravel o silencio^ 
pedio licen^ para responds aos desatinos da in<*- 
vencao do HoUandez ; concedeo^ee^lhe que o fieease^ 
e eacreveo uma carta com as raroes segukites. 

XXXU. a Sao tao conbecidos os artiflcios, oom 
» que a HoUanda sustenta a reputai9ao de suas ai^ 



» 



masy que s^jl engano nao enreda seaao a quem 
I) o fehrioa. Aquelle brado die sua potencia, que no 
» priftctpio persuadio a aiogelesa^ despreza ^ boje 

a experleMcia. Estea papeia ccon qu^ vosaas mer^ 



^ 



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4S4 CASTBIOTO LCSITANa 

» cte uos querem intimidar, nas faUas do discurso 
» mostrao que sao partos da malicia^ e nao da ver- 
» dade. primciro pregao , que publicou a em- 
>i presa da liberdade, foi o grilo que deo a batalha 
1) das TabocaSy pela victoria que nella alcancarao os 
» moradores desta capitaniai , e que a HoUanda es- 
» creveo com a tinta de seu saugue em 3 d'Agosto 
» de 1645 ; e a data da carta supposta, que dizem 
» escreveo £1 Rei de Portugal ao seu assistente 
» Francisco de Souza Coutinho , mostra ser de 
» 5 de Oulubro do mesmo anno ; intervalo de 
» tempo que nao passade sessenta e tres dias, tao 
» iimitado para um correio levar a nova de Per- 
» nambuco a Bahia , e um navio da Bahia a For- 
» tugal^ que escassamente o pod^ra veneer o voo, 
» quanto mais as voltas da navegacao e da jomada : 
w com mais certeza se ajustao entre vossas mercte 
» as partidas da fazenda, que os computos do 
» tempo. Os papeis, que assigna a mao real, 6 
» com a firma de Key, e nao, Sua Real Majestade, 
» como vossas merc^s Grmao estes papeis. Erro 6 
» este muito proprio de quern nao tem lei , nem 
» rei. Se os fios de sua espada cortao tao mal como 
» OS de seu juizo, pouco nos fica que temer; c 
» muito menos vendo, que a mao que ha de dar 
» o goipe erra movendo a penna. Nesta advertencia 
• entendo eu que vossas mercte me hao de avaliar 
» amigo , ainda que pelas obras me experimentem 
» contrario. Em falso fabricao se tem para si que 
3» com embustes se melhorao ; em algum tempo 
M 08 fez dissimular a forca ; por^ ja agora mal os 
» poder^ soffrer a independencia. Kesulta d'dles 



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GA5XR10T0 LUSITAMO. 425 

» forao OS aggravos e tyraiiuias que aiiimarao o 
» gemido^ com que os Pernanibucanos nos persua- 
» dirao i vinganca ^ a mim e ao goveruador dos 
» Indios Dom Antouio Philippe Camarao. Faltamos 
» a obediencia que nos occupava no serlao da 
» Balua, por nao faharmos a& obrigacoes da pa- 
» Iria, respeiiando primeiro as leis da natureza 
JD que as do imperio. Achamos aos opprimidos vio 
« toriosos e desforcados com as annas nas maos, 
» tao corlados da tyrannia, que abominavao as 
9 memorias da sujeicao. Valia-se a razao da lem- 
» branca com que repetia as injurias; e os olhos 
> das ruiuas em que permaueciao os eslragos^ 
» e colli facilidade levaiao o soffrimenlo & ultima 
» desesperacao. Aquelle molivo, que nos fez par- 
» ciaes no aggravo nos fez tambem auxiliares no 
» castigOy com resolucao lao deliberada^ que pri- 
» metro nos ha de fahar a vida , que nos caia da 
» mac a espada ; mal dJscursao, se imaginao bave- 
» mos de crer que nosso Rei e senbor ha de ouTir 
» melhor a inimigos insolenles^ que a vas^allos 
» queixosos. Em quanto a justica Ibe n«o restituio 
j> a coroa pod^ra-nos aasistir s6 com a magoa; 
» agora que Be y& restaurado no trono nao p<ide 
» deixar de nos assistir com o braco : facao esle 
» coDceito, e discorrao polilicos. A onde tropecarao 
» mais c^os^ foi em nos quererem persuadir 
» que o govemo de HoUanda , tao cosido com as 
» razoesd'estado^andasse tao atrevido, que amean 
» ^asse com o poder a um Rei de lamanho cora- 
» 9ao y que desprezou o da maior mooarchia da 
» Europa ; pinUHlhe a imaginacao que Portugal 



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4M GA6TRI010 LUSITAKO. 

M 66 arma contra a acclamacao de nosta liberdade? 
n Como pikle desagradar iniita^o tao generosa a 
D quern nos deo o mais justificado exemplo ? Mai 
M pinta o retrato quem se desvia das cores do ori- 
» ginal : quem para se sustentar se arrima ao en- 
» gano cat com o arrimo. Tenhao por oerto que 
n d'esse Arrecife, onde nossas armas ob tem accnr- 
» ralados, Ihes nao fica mais saida que para Hol- 
» latida ; e se atirao a outro alvo y faasiao os meus 
» negros para Ihes fazerem errar ; e dado caso que 
» pretendao yencer nossa coustancia com sua por- 
» 6sij Ihes poremos a terra em estado^ que Ihes nao 
» po«sa dar mais que a sepullura ; porque sabe^ 
» remos queimar-lhe em uma noite tudo quanto 
» plan^rem em um aimo ; e para que nao duvi* 
% dem d*esta Terdade tenhao entendido que i Hen- 
» rique Kas o que escreve, pegando na peona com 
» a mesma mao cem que pega na espada • n Mandou 
km^ar esta carta em parte , onde logo foi acbada, 
e entregue nas maos dos govemadores do Aire* 
cjfe , que , corridos dos erros da ficcao e ^sortados 
dodesprem da reposta^ se apailarao de stmiihantes 
diiigencias, applioando-ae a outros y de que se per-^ 
s^adiao lirar mais fruto^ ainda que ibsse com mais 
risco. 

KXXIH. Nesta occasiao chegou ao Arrecjfe um 
barco do Rio Grande, pelo qual os Hotlandeees 
q«e presfdiavao aquella fortakea pedifio sooecwrro 
de mantimentos , referindo como o Camarfk) en«> 
tr&ra segimda vez na campauAia, e talira de ma- 
tieiiia a ¥fn% de tode o reeon^aro ^ que nao 
deixira eidifieio que ttio cMeiiMMisae o fogo, 



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petaoa que nSo degoltsse <o fetro > g»do «ie que 
se nio nproreitasse o raubo, manlimeiiio que 
nfo destruiste o bni^ ; e detttro dai nyeema foria^ 
kna coraoio qi^ nio mtiinida^fte a ira ; posta em 
afmto tM tnanifefllOy que igiiaknente temia o ferro 
e a fone^ Ghc^u eeta n^icia to bobso Arratal , 
petos rewlidoa que cada hora ae passatao ; e de« 
pois por correios noasos se cerlifieou a nova , aenl 
particttkridade que mereca outra memoria. — Aui 
^ Faraiba coaduzkrao os capilaes q«ie forao debaixo 
das ordcos de CaEMiio o gado> de volta do Rio 
Graacte^ d'ondeamaiidmiopara^ Arraial^ a tempo 
que oelle tiofaa entrado mm lotie ife dufeenias ca- 
be^» tiindas do destricto do Ri6 «!he ^Sao Fran* 
eiaco. Com esies peqnenoa 8oeeon*os se anitnou a 
Aoasa gettle a eaperar oom botti cora^ aeu maior 
rewedio^ deque se encarregira o govemador Joao 
Feraandea Vaeira, cuja opioiie tiidia ganbado ta* 
naako credito entre w aotdades^ qtte nao bavia na 
eatiaiacao de todos xlvliBrenca etttre a promessa e a 
cobrama ^ ae nw era aqoelle iBlterTrilo 4e tempo, 
preoiaameote neoeasam, pMti igiMtar e repartir : 
afiyto da yerdade cam qoe os tralava y e do amor 
aoAi q«e os favorecia. 

XXXIV. A tttia fib ItaiMiracA, qtire^era o ^Mro 
donde te fitma de manlknentos o Arrecife , dbegott 
a €8iar tao eidftama que fedh remedio a quern 
ocraiuflaaiiia'dar soedorra : abvaogia a todos ^ ttete^*- 
mlade^^ todas se confarmavao em ifmgcAr a vMa 
pela aalwr da iaam. SeStho com doze lam^bas do 
Al'TOoife levaado afiroa naatha dellamap*ca; A6^ 
Tmxdu^iDo.kvmMf emaa^mAle as 



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diizentas cabecas de gado , que do Rio Grande con- 
duziao OS capiiaes Paulo da Cunha e Francisco Lo- 
pes, cnlrarao os mestres de campo em suspeita de 
que o inimigo, informado da marcha, saia a cortar- 
Ihe o caminho, e a fazer preza no gado. Despedirao 
correios a Tejucu{>apo e a Goyana para prevenir os 
dous capitaes do acoutecido; mas a esle tempo ja o 
gado tinha parlido para o Arraial com boasguiase 
suflficienle escolta ; deixando-se os capitaes Rear 
na povoagao de Iguaracu , a titulo de se refrescarem 
da fadiga da marcha. — Tomarao porto na ilha as 
doze lancbas, onde as esperava outra esquadrilha 
d'ellas, ja prevenida para este fim; e por lodas fize- 
lio numjsro de vinte sette, com seis centos solda- 
dos. Mandou o commandante velejar para uma 
paragem que os naturaes chamao porto de Maria 
Farinha ; e um tiro de mosquete ao mar , passou 
ordem que ancorassem , dando a entender que na- 
quelic sitio queria desembarcar; tocimo as nossas 
sentinellas a i^ebate; ouvio-se em Iguaracu, onde 
d^scan^avao os dous capitaes e as suas companbias, 
com as quaes marcbarao a esperar de emboscada o 
inimigo, que sem movimento esperou a noite, e 
fortado aos olbr>s de (odos se fez a v^. Com a luz 
da manha se vio o mar sem embarcaoao algnma ; e 
OS no^os capitaes leyantarao a emboscada, e toma- 
rao o caminho do Arraial , imaginando que o ini- 
migo avisado se voUara para a ilha ; e todos se en- 
ganarao ; porque o Flamengo durante a noite se 
dirigio sobre o porto de Tejucupapo, deitongente 
em terra, com o designio de entrar a poToacao de 
Sao Loiu^neo, e passar a espadaos tiabdios^d'ella. 



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GASmiOtO LUSITAT90. 419 

p»a ficar senhor do campo , e carregar <te manti* 
menyys. — Avisados 08 moradores de S«d Lourenco 
por duas vigias que vJrao desembarcar o HoUandez, 
reoolh^iio-se com soas famiiias em urn meio reduto 
eeroadod'umagrossa palissada com lodas as arroas, 
fieizendas e mantimentos que a limitaeao do tempo 
Ihes permittio. Era sargento maior da gente mill- 
eiana Agostinho Nunes, soldado animoso e pratico^ 
a qiiem esta occasiao subio muiio no ci^edilo. Or- 
denou a um valente mancebo chamado Matheus 
Fernandesy que com outros irinla deseu lole, des- 
trosnas veredas, earmados d'espingardaa, iicaseem 
de ftira da eslacada , para que, como soldados vo- 
kintes, picassem o inimigo^ oobertos do ma(o, per- 
seguindo-o com incessaveis cargas. Mandou urat 
correio de cavallo dar aviso ao Arraial ; ordenou 
iudo quaDto podia servir a defeza, e esperou o as-* 
salto com animo rcsoluto. Marchava entre tanio 
o inimigo formado em um so baialhao, guiado por 
rnn valent^ Hcdiandez, que tinha o posto de sargento 
maior de batalha, o qual, rendo dous Pm*luguezes 
que com accellerado passo iao a meUer^se no re- 
dulo, com o chapeo na mao Ihes disse a vozes : « Ha, 
» senhores Portuguexes, nao fujao que todos somos 
» amigos; como de inimigos fogem ? Pois entendao^ 
» que antes de duas boras os havemos de fazer a 
» todos em pedacos. » Uma das nossas sentinetlas, 
que por entrc o mato nao deixou nunea a ilbai^ dd 
esquadrao inimigo^ ouvindo estas palavras , enea- 
rou o mosquete, e passou com duas balas o sargento 
bollandez pelos peitos^ de que caio mo^rto. Conti-^' 
niK)u o inimigo a marcha sem Bt dH^r^ apejjar de 



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$$v in^^ommocMo continuameiile pdas car^ que 
o§ BOMQS emboieaclos Ihe <fai?ao; aproxifncm-M ilo 
l^tttQy deo iL priiaeirt our^a, dbhaixo de oujia 
btlat avancario os i^atadorea oom machados a 
carter a eataoada^ que os nosaoa, apexar de infe- 
rier^eQi numero, rebal6rio oom vabr e intrepidei. 
Rotiron-se o inimigo do primciro asaalto deixando 
graiide numero de mortos e feridoa^ e loda a gloria 
aosnoaaoa. 

XXXY . Nao defliatio por6m inieiramaite, antes 
intentou de novo ganhar ajpaliasada, maa eneoa-* 
Irou aempre maior resietencia, a qual se aag^ 
mentou com o valor que as molheres portuguezaa 
moatrario neata oecasiao. Huma d'ellaa oom a ima^* 
gem de Christo cnioificado naa maoa andava ani^ 
aaando oa aoMados em todo o tempo do eonQicto; 
fiada ua cauaa da peleja promeitia o Senbor, oom 
que animava y aoa aeua favoravel , aos herejea ten* 
rivel; oom tauio ^e^>reao daa balaa, que pareoia 
beber aeu espi|*ito ua oonfiauca da protee^ao, ou 
diverse naturesia, ou certissima victoria. Debaixo 
de bandeira tao aagrada adpiiuiatravao lodas aa 
mals aos soldados as muni9des e aa armas, faiendo*- 
se parciaes nos golpes, que se davao , como o sao 
o inatrumento e o braQO. As que etcusava o lugar 
do cpmbate, iguaes uo auimo, pelajavao oom sn^ 
periores aroias , porque com os ooraeoes pekrjavao. 
Experimtntou o inimigo o quanto eicediao aa for- 
9as da resisteucia &% da oonquista, no horror oom 
que vio a circumvallacao da estaeada oom segunda 
uincheira de eorpos mortos, seado tantos os doe 
sma que alii aoabarao ^ que nem oa olhes nem a 



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comidcncao 09 podiito conUr sem espuato ; e 00m 
elle deixou o combate; mas nao de todo, porque 
Mdpenhando todas as suas forcas, rcuaio a ana 
geaid n'uju ^squadrao oerrado^ inyeatio lerceira vaa 
i estacada, a qual cheg^rao a romper , e que sem 
duvida entrarao^ se aquellas malronaa com animo 
invencivel se nao opposerao k for^a contraria, que 
com varonil pulso rebat^ao, meneaudo as armaa 
com braco e animo tao robusto e deslemido > que 
nao sabia o Flamengo determinar se o traje dea^ 
mentia o sexo , x)u se a natureza errara a forma } e 
de nenhuma sorie aceriava a causa , que era uni-< 
remise em urn coracao portuguez o valor do sangue 
e a viveza da {6 contra a perfidia hollandeza. Nao 
p6de o inimigo resistir por muiio tempo a tanto 
▼alor e denodo. e de tal sorte se deixou tomar dm 
medo/que largou o combate, as muuicoes e as 
armas; e esquecido de toda a disciplina^ obedeceo 
a desordem, tomou as lancbas, fez<-se ao largo , e 
ainda se nao dava por seguro. Appellid^o os nos-» 
SOS a victoria^ sairao no alcance dos venddos, que 
chegarao a ver quando j& navegavao de mar em 
ftfra ; voltarao ao reduto^ recoibendo os despojosi 
que servirao ao applauso^ com que forao reoebidoa 
de suas familias. 

XXXVL Deixamos posto a camiuho o govern 
nador Joao Femandes Vieira , levando eomsigo a 
companhia de sua guarda, com a vagarosa marcfaai 
a que o obrigava o ir pelo certao de engenho em eii-r 
genhO) e pelas povoacoes de porta em porta , pe^ 
dindo ) cobrando e conduzindo mantimentos para 
o Arraial, at^ que chegou ao porlo deTaroandard^ 



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ni ciistBnyro lusitano. 

mkle o inimigo havia commettido varios estragos, 
cuja lembranca excitou o vivodcsejo, em JoaoFer- 
nandes Vieira, de (abricar nelle uma forca, em que 
as Dossas embarca^oes achassem abrigo, e as conira- 
rias receioy que nenhuma outra cousa Ihe oecupava 
mais o cuidado. — Deliberado em por por obra esie 
pensamentOy mandou notificar e pedir a lodos os 
moradores do contoruo que com os carros e genie 
de servioo que tinbao acudissem a dar ajuda aos 
sokUdos que haviao de trabalhar na fabrica; o que 
fizerao com tanta promptidao e boa vontade, que 
dentro d'um mcz se Ihe deo a primeira e ultima 
mao. Guarnecida d'artilharia, muoicoes e presidio 
mais que sufficieate , se voltou o governador da 
liberdade para o Arraial j onde foi recebido como 
abmento e coracao d'aquelle corpo, pelo que a todos 
Gommunicava de espiritos e mantimeDtos. 

XXXVII. Chegarao por este tempo ao Arraial 
dous padres de companhia, Manoel da Costa e Joao 
Femaiides, enviados da Babia pelo governador do 
Estado Antonio Telles da Silva, com apertadas 
ordens de sua Majestade pelas quaes ordenava aos 
mestres de campo Negreiros e Moreno, que sem 
diiacaose partissem com os ter^os de sen regimento 
para a Babia , alargassem a campanba de Pernam- 
buco aos Hollandezes, porque nao convinba a sua 
reputacao que o mundo suspeitasse que viola va , 
peia sua parte, a paz e amizade assenlada eatre sua 
coroa caqtielles Eslados. — Lidas as ordens, nao 
hoiive coracao, que o pasmo nao deixasse indiOe- 
renle entre a obediencia e a i8en9ao. Joao Fernandes 
yi<»ira, respeitando muito as determinacoes de sua 



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GA8TRI0T0 LUSITANO. A3S 

Majedtade, disse que elle estava convencido que 
EI Rei nao estava bem informado dos progressoe 
que nossas armas haviao feito ; que era impossivel 
que elle abandonasseaerueldade e tyrannia de seus 
inimigos tantos milhares de vassallos; ponderon 
que ha via easos, em que os decretos das reis erao 
condicionaes 9 e concluio dizendo : « Assim que, 
» me parece repliquemos a sua Majestade, com a 
» informacao do estado das cousas , e dos inconve- 
w nientes que traz comsigo esta resolucao , conti- 
» nuando com a guerra na forma presente ati 
y> nova ordem sua. E dado caso que confirme seu 
» dictame , digo que nao hei de largar empresa , 
» tanto do servico de Deos , e d'um principe tao 
» catholico , como i libertar milhares e milhares 
» d'almas da morle temporal e eterna, certas , na 
» sujeicao ao dominio da herezia e do aborr^- 
» mento. Este i o meu voto, e meu parecer ; cada 
» qual siga o que Ihe dictar sua razao , e nao sua 
» conveniencia. » mestre de campo Andre Vidal 
de Negreiros foi do mesmo parecer; mas Martim 
Soares Moreno mostrou-se indeciso ; com tudo fez- 
se a replica com os fundamentos referidos, a qual 
se remetteo a Bahia« para que lerasse a approvacao 
do governador g^ral do Estado; por^m elle, ou 
fosse persuadido de superior impulso, ou obrigado 
de obediente respeito, respondeo que as ordens de 
sua Majestade se guardassem. Entao, clara e des-* 
cobertamente disse Soares Moreno que se devia 
largar a caropanha , e retirar-se a gente : parecer 
que nao admittio Joao Fernandes Vieira e Andri 
Vidal de Negreiros. Retirou-se aquelle para o reino 
L 28 



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k^ GABTBiOTO UmiTAXO. 

deixaii4o o posto^ e estes continuarao firmed no sea 
projficto recebeodo os applausos de todo aqueUe 
povo que os ooosiderava coodo seus libertadores. 
XXXVUl. Ne6te Dieio tempo forao avisados os 
doiia govemadorea que o inimigo , receoso de 
noaaa ousadia, tioha novameute fortificado aa paa- 
sagens do rio por aquella parte que cerca a ilba 
d'ltamaraca, para que se nao podesse atrayessar nas 
parageus, em que o permitte a baixamar eiu occa- 
siio d'aguas vivas* Levarao a cada qual uma Ddo 
(queausteutavao immovel algumas aucoras) todas 
guaraecidaa de soldados , e municiadas de pe^as e 
mosqueteSy com que ficaya aos aeus franca a saida, 
e aoa nossos empedida a entrada. — Recebida a no- 
ticia f conferirao entre si os governadores sobre o 
que deveria fazer-^se. Martim'Soares Barreto, cujo 
posto Ibe dava a primazia no oonselho, foi de pare- 
cer que se devia abandonar um tal intento, ponde- 
rando razoes tiradas da esporienciai pois ja naquelle 
mesmo sitio tinhao o$ nossos encontrado a fortuna 
ad versa ) e concluindo que nao era conselho da pru*- 
dencia buscar a dita no lugar do infortunio. — Com 
animo pacato ouvio Joao Fernandes Vieira os fun- 
damentos da opiniao contraria, e conhecendo a 
vontade qua se escondia no discurso^ respondeo as 
palavras que ouvia, eao animo que fallava, n'eates 
termos. (t A intrepreza , que na occasiao passada se 
• intentou, foi contra o meu parecer^ porque ante- 
» via OS successos, nas inconsidera^oes da occasiao; 
p e aqueUe mesmo juizo^ que entao fiz para se nao 
1) comelter a ilba, fa^o agora para se intentar a em- 
«> presa ; porque o esiado , o tempo e o modo me 



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M enwiaiio a que aoomdhe ag^ra o que diasuadia 
» entaO| lyucfeda meu parecer da differenca dos mo- 
n tiyOB ; que m> mui diversoa oa que conyidao a 
» liberdade de adquerir^ daquelled que propoe a 
n ueceaMdade de couaervar* 0^ lugarea das baudhas 
>i nao sac ceos d'eslreUas para influirem valor om 
» cobaitiia« O mesmo baluarte, que muitas yesea 
» repreaentou o valor da reatsteucia) se chora ulti^ 
» mamente rendido ao estrago da conquista. Que 
» victoria se alcanc^ra^ ou que praca se rend^ra, de 
)> OS exercitos ao primeiro revez da fortuna se re*- 
M tirarao dos campos onde o recebSrao ? Se a dou«- 
» trina^ que dao oa aucces60s 6 a millior douiriiui, 
» quasi todos os da gu^rra nos acooselhao a pre»> 
» sente delibera^ao. Impraticaveia forao os cou'^ 
M flictos ) se uma empresa mal succedida servira a 
» desespera^o da todas. A representacao da ofiensa 
n intimada ao aggressor acoeude o furor do aggra*- 
» vado« A guerra toma as importancias das coute^ 
n queacias, como toma a justifica^io das causas* 
» inimigo 96 fortifioa na ilha ^ para assegurar de 
II nossas annas os mantittientoa> que elia produz; 
» e para poder a seu salvo sair a roubar os do cer^ 
n tao. Se da mia parte creaceo a resistencia com a 
» preveii9ao, da uossa aQgQ)ent»«ie o eiupenho com 
» a importancia ; esta oos chama ao perigo ; e se 
M algum o teme, fuja^lbe com o corpo , sem querer 
» desculpar sua commodidade com nossa dtversao, 
» pois sabe que o romper difficuldades nao 6 para 
» todos : sabe-as veneer quern tern animo para as 
>} oorlar, e juizo para as advertir. n 
XXXIX. AchArao eslaa razoes saUsfacao nos 



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U6 cAsnioio ivsnAMO. 

compatiheiros, e desabrimento nos oppoMos, que 
pek> nao pareoerem se derao por vencidos do arga- 
mento ; e conformes no voio poserao nas inaos do 
govemador a dtspoaicao da empreaa^ que s6 fiou do 
mestrede campo Andr^ Vidal de Negreiros, em 
quern reconhecia talento para o n^;ocio , e capa- 
cidade para o segredo. Em 13 de Janho sak) Joao 
FernandesYieira do Arraial com o mestre de campo 
Negreiros, e quinh^ilos soldados escolhidos, com 
duas pecas d'artilhariade calibre 18 ; efavorecidos 
da noite^ que era escura e chuvosa, chegarao a vista 
do no sem serem sentidos , em uma paragem cha- 
jnada o porto dos Marcos, onde o inimigo guar- 
daya o transito com uma nio guarnecida de soldados 
e.ariilheiros. — Fizerao os nossos alto , cobertos 
dos crescidos mangues que alii produz a natureza ; 
fizerao promptamente uma triucheira e plataforma 
em que cavalgarao as duas pe^s d'artilharia ; for- 
m^rao ao mesmo tempo dous botes e duas jangadas, 
e logo guamecerao com doze homens cada um dos 
botes, que maia nao podia conter. A um alferes 
reformado, por nome Affonso d' Albuquerque, «i- 
tregou o governador o primeiro ; e o segundo a 
Francisco Martins Cachadas, sargento reformado. 
Recommendou-^lbes o bom desempenho d'aquella 
faccao, e deo*lhes por ordem que envestissem e 
abordassem a nao com deliberacao de a ganharem 
ou morrerem na demanda ; e que mandava na es- 
teira dos botes as duas jangadas , para soccorro de 
qualquer incidente ; e que fossem certos que na 
terra os acompanhava sen cuidado , para os faro- 
recer com a artilharia no conflicto, e como premio 



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CA8TBI0TO LUftlTAIia ftS7 

na victoria. Favorecidos com o escuro da noite se 
forao 08 botes chegando a nao a voga surda. Nao 
dormiao as sentinellas ; descobrirao os yultos , e 
pedirao noma. Com o de amigos Ihes respondeo em 
sua lingua urn soldado nosso , de nascimento Al- 
lemao. Entendre que erao Hollandezes, e respon- 
deo que vogassem ao largo. Aperlarao os nossos 
remo buscando a nao com repetidas cargas , a 
qual desenganada do erro, e temerosa do perigo^ 
borneou as pecas , e com o tiro d'uma fez em pci- 
daco6 o bote do Albuquerque, que se tinha adian- 
tado ; salvou-se por^ a gente em um^ das janga- 
das, sem mais damno que d'um soldado ferido. Ji 
neste tempo abordava a gente do seguado bote a 
nao pelo outro lado ; cinco soldados com o seu ca- 
pitao aobirao pelas taboas do costado e pelas cor- 
daSy e a for^a de braco se fizerao senhores do cas- 
tello de proa. Um so soldado nosso pereceo n'este 
atsalto; ferido d'um golpe d'alfange na cabe^a, 
caio ao mar, quando ia a saltar a bordo. Os sette 
que ficarao no bote, attentos a soccorrer os corn* 
panheiros, nao advertirao na corrente das aguas, e 
forao apartados da nao e do intento. Neste tempo 
disparou a nossa artilharia de terra ; recolheo-se o 
Flamengo sobresaltado ao castello de poppa ; erao 
08 inimigos trinta, e vendo-se atacados somente por 
cinco J quizerao fazer p6 atraz ; mas os nossos, re- 
cobrando animo , avan^arao aos HoUandezes a es- 
pada, com tal furor, que matdrao sette, prisiona- 
rao qninze, e obrig^rao a que oito se deitassem ao 
nar, onde encontrarao o ferro , e o grilho de que 
ibgiao» Asaixi ganb^o aquelles cinco Portuguezes 



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a nao pela maneira dita^ e a dila por valor inandito. 
— Vendo os Flamengoe no dia aeguinte rendida a 
nao 9 e receiando que o mesmo acontocesM aos 
dous outros navios , posdrao fogo ao que guardava 
a paaeagmn , chamada de Tap«aauma , e fc^rao a 
nado para terra ; o que riato dos noaaoa govema- 
dorfSy ineti6rao«M no baiel da nao rendida, com 
oito mosqueleiros, e a Toga arrancada passlrao a 
envestir o teroeiro navio ^ que eatava em guarda 
do vao J que se die d'mitre dous rioa ^ o qual ran 
ddrao com a vista , porque oa Flamengos que o 
guameciao nao esperarao aer ataoadoa para o ahan«* 
dooarem y salndo em terra com tal medo que por 
toda a iiha forao tocando a rebate > e amotinando 
OS moradoree. Ganhadas as duas naos com tao pouoo 
cuato mandarao oa noaioa govemadorea Urar-Uiea 
o velame, enxama^ artilharia^ maalros, munigoes 
e mantimentos ; e para que o inimigo se nao apro- 
veitaase dos vasoa, os eQtr^;arao ao fogo, que em 
breve espaco oa consummia. 

XL. Oocupava o ininiigo a fortaleia dhi villa j 
temeo-se assaltado , e nao ouaou ataoar oa noaaos^ 
que espalliando^ae peta ilha, reoDlh^nb o que t'mba 
preatimo, quetmirao o que nao tinha servifo, e 
deixarao aaaobdoa oa alojamentoa, e akiriaados 
Indioa, e tudo o que podia west de utilidadaao ini* 
migo. Mandou ogoveraador Joao Feraaadea Vieira 
tocar a recolheri passou*M a nossa gente a terra 
firme, e com os despojoe daa u&oa, e da iUu mar* 
ch4rao todos para o Arraial ^ deixando ordem e 
geute para qoe ni praia que ehamao o§ Marcos aft 
levantaase tima for^a que fiaeease opf)osioao* ad kga^ 



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migo. Tendo porim noticia que o Flamengo tinha 
desemparado a fortal^a da yilta , a qual tambetn 
a fora dos babitante$ ^ mimdarao ordem os goter-^ 
nadores para que, retirada a anilharia da fortaleza 
a desmanteUa^in pela impossibilidade de se con- 
servar 9em grande dispendio, e grande risco; o que 
assim se executou. — Esta faccao teve tnuito ran- 
tajosas consequencias para as nossas armas , sendo 
uma d'ellas o paasar^'-se para o nosso Arraial um 
maioral dos Brazilianoe , com quarenta Indios de 
sua jftrisdiceao, que os nossoa goveraadores remet- 
tdrao a D< Antonio PbiKppe Gamario, com recom- 
ificsida^ que 09 tratasse bein^ e Dies d^sse aloja* 
mento em parte <mde podessem grangear a Tida, 
sem sobresako daa armas hoUandezas. 

XLI. Tmhao os Hollandezea celebrado com 
salvas d'artilharia a chegada de tres natios em que 
a Gompai^ia Ibes maudava soccorro de soldados e 
muni^oes, e promeasa d'rnna forte armada que de^ 
veria resaarcir todas as perdas. Nao se aher^rao os 
I10S909 com esfas notas, autea recobrirao novo 
animo^ porque neste mesmo tempo entroti no porto 
de Tamandar^ uma fragata nossa com cento e qua- 
renta soldados portugueies ; no pontal de Nazareth 
entr4rao trez caratellas^ com mfantaria, armts, e 
gmeros queiao para a Bahia, e um nario carrcgado 
de Tinbos que ia para o Rio de Janeiro. Todas estas 
embarca^oes ae defend^rao A>9 Holtandezes> qtie 
no mar Ibe derao caca : ctreumstancia, que com a 
do tempo inspirou maior alento aos nossos.— Erao 
08 nossos goTemadores mui precatados ; e reccosoa 
da cbcgada da es^dra inimiga, depots de ourir 



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IM CASTRIOrO LUftUAIia 

conselbo de pessoas enteodidas, resolv&rao mandar 
retirar os moradores da Paraiba e da Goyana para 
a vizinban^a do Arraial, porque estando unidos, 
perderia o iDiroigo a esperanca de os veneer separar 
do8« — Em quanto esta ordeni se executava, teve 
aviso o capitao Francisco Lopes Estrella, que guar- 
necia com sua gente a estancia que cbamavao da 
Barreta, que duas lanchas inimigas i v^la e aremo 
sobiao pella corrente dos rios Tigipid e Giguia, 
perto da paragem onde se ajuntao para entrar no 
mar. Adiantou-se o capitao com o melhor de sua 
compax^iia a esperal-as d'emboscada; Ic^oque teve 
vista da primeira saltou & agua com trinta soldados; 
deo-lbe duas cargas , abordou-a y e com morle de 
oito soldados boUandezes a rendeo; e com elles, 
e com toda a carga (que Qra de mantimentos) a ma- 
reou por entre os arrecifes, a despeito da artiUia- 
ria inimiga, at^ lan9ar ferro na Barreta. A a^unda 
lancba, assim que- vio a sorte da primeira, a v^la 
e a remo fogio para o Arrecife, donde tinha saido. 
— Vinbao estas lancbas com soecorro para a forta- 
leza dos Affogados , que estava em grande aperto, 
e como este se baldasse j despacbarao outro por 
terra as costas de negros, mas nao forao mais feli- 
zes, porque os soldados de Henrique Dias os espe- 
rarao, emboscados entre os mangues d'um lamacal, 
d'onde com repentinas cargas os ferirao, e sobre- 
saltearao de maneira que escravos e soecorro tudo 
ficou nas maos dos nossos. 

XLII. Com successos pouco desemelhantes 
se foi continuando o exercicio d'umas e outras 
armas at^ aos 20 de Julbo, em que o inimigOi fa- 



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GA8T1I10T0 IDSlTiJIO. 4&1 

vorecido do escuro da noite ^ saio com iodo o poder 
para atacar a nossa estaocia que cbamavao dos 
Marcos, com determina^ao de a ganhar ; mas saio- 
Ihe a conta errada , porque os nossos, advertidos 
com o rebate das sentinellas se prevenirao para a 
defesa , e receb^rao o inimigo com duas cargas de 
mosquetaria. A promptidao da resistencia, e o ino^ 
pinado da vigiiancia quebrou de sorte o animo do 
Flamengo y que descomposto Tirou as costas> e nao 
parou senao junto de sua artilbaria , at^ onde o 
perseguirao os nossos^ com tao boa foriuua, que 
fazendo no inimigo grande estrago , se recolhSrao 
com um s6 soldado ferido. 

XLIII. Era, Joao Fernandes Vieira o (error 
dos inimigos por seu valor e vigiiancia ; crescia 
seu credito e reputa^ao y mas crescia tambem a in-% 
veja contra elle. Houverao Amnios ( e chegarao ao 
uumero de dezanove) que nao contentes de pagar 
com ingratidoes os beneficios que d'elle tinbao re- 
cebido conspirarao entre si para tirap-lhe a vida* 
Esta negra trai^o foi por vezes annundada por 
escrito ao governador, e at^ houve pessoa que o 
avisou de palavra, indicando-lbe os nomes doa 
conspiradores; mas elle nunca quiz dar credito, 
atribuindo a malqueren^a o que era dela^ao verda^ 
deira de crime premeditado. Informado o m^tre de 
campo Negreiros do que se passava , buscou o go- 
vemador, expoz-lhe o perigo a que se expunha, 
e instou com elle para que mandasse prender e pro&» 
sessar os eonjurados , cujos nomes erao ja conbe- 
cidos ; mas Joao Fernandes Vieira^ dq>ois de ouvir 
attento o mestre de campo , mais espantado qu» 



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oreddo, rcspoadeo que tndo quanto naquella mt- 
leria Ihe tinhao dito, era invencao da malicia , que 
a titnlo de Mguranca solicitava a descomposicao de 
tantos homens nobres^ como erao oa calamniados. 
Todos oa nome<m, e concluio diiendo : Que ae 
aquelles, sendo homens de qualidacle, parentes, e 
obrigadoa the desejavao a morte , de quern haTia 
de fiar a vida ? Que o apurar verdade de tanto peso 
nao podia ser sem injuria , e que seria intoleravel 
desaoerto criar inimigoa com oa arguir d'infieis. 
Fez o roeatre de canpo ootras muitas diligencias 
para convencer Joao Feraandes Vieira do perigo 
que o ameacava , mas sempre de balde : agradeda 
aem|Mre o cui<fado, julgando superflua a diligencia; 
mas em breres dias oonbeceo, mnito i sua custa , 
de que parte eaUta o erro« 

XLiy. Saira um dk Joao Fernandea Vietra do 
aeu engeobo ^ e eomo se adiantasae dgnm tanto da 
guarda que o acompanbara^ ao entrar n'um baalo 
canavealy trea Mameluoos Ihe encararao aos pei(o& 
trei espingfuardas , com tanta dita do go?ernador 
que so uma pegou fogo, cujas belas Ihc pasairao um 
hombiy>de parte a parte. Metteo o governador mao 
a eapada, avancou o caTallo do cerco, que por ne- 
Bbuma parte p6de Teacer. Acudirao logooaaolda* 
doa ohamadoa do tiro, e informadoa do caso saka*- 
rao a oerca, alcanoarao o aggressor, que aan deiDora 
fizerao em pedaQOs ; poserao fogo ao cama^eal, para 
que morressem queimados os outroa doua Mame- 
ktooe; per^ ellea pod^ao sair p<M* outra parte 
antea qeie o fogo ateasse. ~ Vohou o governtdDr 
para ana oasa^ qoe diatava jneia legoa do Airaial, 



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QA^mimQ iivaixMia &43 

para se owar da fejri<la; ibsouIoq retinr todos o$ 
barcos que serviio 4 paBsagem do rio, que entre o 
Arraial e aua caaa ae anCr^uoha , atevendo o que 
depois succedeo. £gpaIhou-se a nova no Arraial , e 
com ella tal alleraQao^ que despresada a obedienoia 
oorr^o officiae^ e soldado^ a casa do govemador 
pediodo com tumulto o noma dos traidorea para oa 
queimarcni. Foi merc^ do ceo nao se lerem divui^ 
gado 09 nofiiea doa deaanove da ooi\)uracao , que a 
mQ aer aaaim » fora o caatigo maia eacandoloso que 
a culpa. Nao meoor, o per Teutura maia perigoso 
ibi o alvorooo que a aM>U€aa eauaou uaa eatanciaa , 
porque ocoupadoa do aeBtimeiiU) e da eokra es* 
queoiao o iuimigo. Ck>rriao todoa para casa de aeu 
govemador eoio um meamoaDimo, £stava eUe aaur 
grado e de eama; maa teudo uotioiadQ queae paa* 
aava, aallou fora da caBaa, bdouIou a cavallo, e fbi 
ao eaooutro doa aoldadoa que acbou ua pasaagem 
do rk) 9 delidoB pela faUa de bareoa. Com roato 
alegre minoroa a opiniao y e ai^io o arrebatado * 
daaaUuo de deoaram aaua poatoa arriscadoa a in- 
vaaao do imm%o. Com corlesia e brandura os t^ 
dutio a obediWia e a diicifdina ; e com a pro* 
meaaa de que o delicto aeria punido com ledo o 
rigor, fiearao aaliafeitoa^ e vollarao a aeua poatoa 
e eatanciaay dando provaa que ae amavao o aeu go* 
vc^nador como a pai tambem aabiao obedeeer^lhe 
Qomo a attperior. 

XLY. Socegado o tunuUo^ vc^lou o goveraador 
para lua caaa a coatiauar a cura ; logo que ae 
achon reaUd)elecido» owmWu obaouur aeua inimigoa 
(fe qiMm qwm a eaaaoda^ « na^ a ruiiia* Nao re^ 



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hkh GASnUfOTO LUSTTAlia 

sarao elles vir, certos na clemencia ; e ouvirao com 
submissao o que o govemador Ihes disse. Com as- 
pereza Ihes afeou a culpa^ accasou a infamia com 
a recorda^ao dos beneficios ; exagerou a maldade 
com o vinculo do parentesco); provou-lhes a per- 
fidia e a villeza d'uma similhante traicao , e por 
ultimo Ihes disse, que supposto que como seu go- 
vernador, por elles mesmos acclamado, tinha bra^o 
para os punir^ o como Joao Fernandes Yieira, 
espada para os castigar, nem d'uma nem d'outra 
cousa se queria valer, para que conhecesse o mundo 
a differenca que vai d'um cora^ao yil a um amigo 
generoso ; e que nunca permittisse o ceo que seu 
valor se manchasse com a opiuiao de vingativo , 
nem que por sua causa se derramasse sangue de 
Portuguezes. Emmudecidos da culpa e do pejo , 
sairao conftindidos da preeenca do govemador, mas 
nao sairao outros^ como depois mostrou o tempo. 
Condi^ao propria i do ingrato augmentar os ag- 
gravos com a present dos beneficios. 

XL VI. A causa que tiverao os dezanove conju- 
rados para incorrerem em similhantes delictos, 
perguntarao os curiosos ? E responder^ a verdade, 
que nenhuma outra mais que o verem-se prece- 
didos na prosperidade que os sustentava na opiniao 
de honrados. Desejara saber o leitor que conve- 
niencia , ou que premio esperavao os traidores , 
que OS podesse obrigar a resolucao tao feia. Entao 
se escondeo , agora a diremos, porque depois de a 
encobrir a politica a puMicou o escandalo. Prati- 
cava-se que tinhao assentado com os governadores 
do Arrecife entregar^lhe a terra ^ tirando a vida a 



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CASniOIO LDSITAlia hU 

Joao Femandes Yieira, que Ih'a defendia : verdade 
que sedescobrio com sediYulgarem algumas cartas, 
que OS nossos cabos maiores tomarao a uma mu- 
Iher, que foi a terceira de tratos tao infames ; os 
quaes remett^rao ao governador g^ral do Estado 
Antonio Telles da Silva , como a juiz competente 
de similbante causa. O que d'esta dilig^ficia se 
seguio nao pod^mos n6s alcancar, ou porque a 
jrazao d'estado o dissimulou, ou porque alguma 
diligencia o escondeo ; para claro manifesto de que 
foi Joao Fernandes Vieira varao tao grande que 
venceo os mais poderosos inimigos e os mais refi- 
nados traidores, porque Ihe nao faltasse entre os 
capitaes da fama o ser temidoe invejado ; e porque 
OS excedesse em sair victorioso da inveja dos pro- 
prioSy e do poder dos contrarios. 



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UVRO X. 



SUMMARIO. 



1. Tonid* porto no Afrtdfe botw e^>of, eoMimit potooM i 
^ % Aprestao-M ot noifos part t resiitencit ; mandtto retirar 00 
moradores da Paralba e Goyana.^S. Sai SisgismuDdo do Anecire 
para ganhar a Til la d'Otindt ; r«iiri-fe doseotnpotto. -^ 4. Ilaiida 
Sifgifmondo aaiaUar a villa eom dobrtdo podor; fuectdo-lha o 
meiiDO. — 5. Inteota ganhar a estaocia do Aguiar ; of nossos go- 
vernadores Ihe fazem virar ai costaa . ~ 6. Porfia Siigisnidndo em 
tua demandt ; conaogtie aaquaar eDganlio da Sio Barchtlomaa, e 
a pofoafao da Jangada. —7. Camarao poo inimigo em mise- 
ravel fogida ; Siigismundo se imaginott captiYO. — 8. Manda 
saquear Rto de Sdo Francisco ; 6 destrocado pelo Rebellittho. -^ 
9. Intenta Siagia niindo fonifioar-te junto a IgnarafCi. — 10. An- 
dr^ Tidal marcha para a Paratba -, inteota assaltar a Barreta ; o 
inimigo soccorre os seus sem effeito ; levantdo as nossos ceroo 
e se retirao. — 11. Holiandez sai do Arrecife com toda sua ar- 
mada, toma Rio de Sao Francisco ; deita gente em terra e se for- 
tiGca. — 12. Resohe-se govemador em desalojar Flamengo. 
— 13. Morre RebeUinho ; perda dos nossos. — 14. Nomeia El Rei 
conde de Villa-Ponca por general d'uma armada que manda ao 
Brazil; Sisgismondo larga sitio, e se retira a Peroambuco. — 
15. Antonio Dias Cardozo vai a Paratba, e que resulla d*e8ta 
yiagem. — 16. Sente-se a falta de mantimentos entre os nossos, e 
como se remedea. — 17. Parte Andr6 Vidal para Ceard Morim ; 
aproveita-se inimigo de sua ausencia; mas Joao Fernandes 
Vieira Ihe refreia os intentos. ^ 18. Chega a Pemambuco a noya 
da armada portugueia. — 19. Fazem os nossos a fortaleza da ba- 
taria, sem que os inttnigos os sintao ; os quaes atemorizados man- 
dao recolher seu general Sisgismundo. — 20. Os nossos assaltao 
e saqueao paco do conde de Nassau. — 21. Eotra Sisgismundo 
no Arrecife com a sua armada ; layanta uma fortaleza em opposi- 
Cao da nossa bataria. — 22. Diyulga-se em Pernambuco ser che- 
gada 4 Bahia a armada portugueza. — 23. Marcha Henrique 
Dias para Rio Grande ; ganha a fortiOcacao das Guarairas. — 
24. Em Cunhaa Ihe entregao os HoUaodezes oulra; Tolta para 
Arraial Yictorioso e com despojos. — 25. Nomeiou El Rei a Fran- 
cisco Barreto de Meneses por meitre de campo da nossa campanha ; 



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Qijsmmo una Am. Ml 

lit TUgeiB captivao of HolUndezets mag eonMgue fagir do 
Arrecife para o Arraial. — 26. Prepdrao-se os dosios goTeniadores 
para mistira rnna grande annada qut aalra de Hollaiida; a qaal, 
dapoM df aavegar cotn diveria fortuaav chaga «o Arrecife. — 
27. Admiravel fidelidade , valor e constaocia dos Pernambacanog. 
— 28. Oi nosBos goyemadores mandao rctirar os moradores cir- 
eomtttliihoi para t Amial. — H^. PubUeio ot do govetoo oa 
perdao g^al , e esererem a og noafot goTernadoreg ; por am en- 
viado remettem as cartas ao Arrecife. 



L Um anno I menos poucos dias, se tinba pasr 
sado despois da batalha das Tabocas^ em que o ini- 
noigo come^ou a perder terra e dominio ; quando 
em 20 de Julho de 1 646 aporlou na barra do Ar- 
recife o general Sisgismundo Vanescoph com uma 
poderoaa armada^ e nella quatro mil infantes, que 
conduzia Jacob Estacourt , um dos principaes da 
companhia occidental « de que ]a temo9 fallado no 
terceiro livro d'esta historian Deitarao ferro com 
multipUcadas salvas, desembarcarao com muitos 
vivaS| forao recebidos com festivo alvoroco : effeitog 
nascidos da confianca que a todos prometlia a res^ 
tauracao do seu imperio. Sisgismundo depois de 
reunir todos os cabos, e todos que tinbao posto no 
governO) dis8e«4bes em ar de refurehensaoy que se 
admirava de qtie taes e tantos soldados se deixas- 
sem cercar e opprimir de quatro bizonbos, que 
nunca yirao guerra ; tao fracos d'animo que s6 a 
voz de seu nome os punha em fugida para os^ma- 
losi com menos temor das feras que de suas armas* 
Todos ouviraoi e callaraOi esperando castigada sua 
jaotancia pelo mesmo engano de seu desprezo* 
ilouve com tudo um dos presentes, menos sofirido, 
que the censurou ademazia, dizendo a Sisgismundo 



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us cAflmMno LtmrrAiia 

que nao pesava bem os successes quern nao fazia 
differeu^a dos tempos ; que o presente Ihe faria 
entender que aquelles xnesmos homens que no pas- 
sado fugiao timidos^ ouvindo seu nome^ no pre- 
sente, vendo sua pessoa, a haviao d'envestir a es- 
pada com desusado valor ; e assim aconteceo como 
adiante veremos. 

IL Inteirados os nossos governadores do poder 
e desenhos do Flamengo^ e que Sisgismundo como 
tao experlo soldado havia de por todos os meios 
para os levar a efleito, trat^rao de emendar as des- 
ordens passadas, como causa dos passados infortu* 
nios. Despacharao ordem a D. Antonio Phelippe 
Camarao, que assistia na Paraiba, e a todos as 
cabos que fizessem retirar todos os moradores, que 
por froxidao se nao tinhao retirado da Paraiba , 
Goyana e sens destrictos com todas suas familias, 
bens^ gados e roantimentos^ aos quaes comboiassem 
at^ OS p6rem em seguro entre o Arraial e a villa 
d'lgaaracu^ que destinavao por fronteira, para que 
assim reunidos se tomassem mais fortes. Prov^o 
aquellas estancias que circumvalavao as fortificacoes 
do Arrecife de tudo o que Ihes pareceo necessario 
para a resistencia, medindo os aprestos pelo perigo 
e a deligencia pela importancia , fazendo-se ver na 
boa disposicao de suas ordens a inteireza de sens 
animos. — Notificados os moradores, obedec6rao 
pontuaes as ordens, certos de que na execu^ao 
d'ellas consistia seu remedio. Com prompta dili- 
gencia largarao engenhos, casas e fazendas^ carre- 
gando tudo que podiao trazer, e escondendo pelos 
matos que for^osamente haviao de deixar. Pos^- 



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lio^de em. mavdia amstklQft de todia a gefite de 
g^terra , e apeear (fe gerem piur ella protegidos , 
nao tiverao pboco a spffrer nas trinta fegoas que 
Uyfriko que alravessar, veodcvse obrigados a en* 
Wiraf e a esoonder no maio suas allaias e roupas, 
porqiie mmlos doa escravos, aproveitando esta oe-^ 
caaiao a fai^or da noite, fogiiiao abandoiiaiido seiii> 
senhores, deixattdo pela eatmda os bens jque tra* 
ziao. Cbegipao a villa de Iguara^^^ por eujo des- 
tiioU) se ddx4rao ficar algimsy abrigadoa daquefie 
presidio ; outro6 se accomixKKUirao pehi Varzea j t 
sombra do nosso arraial ; os remaaeoentea padsarao 
a Timer nos €ontm*ii08 da fortateza do pontal de 
Nazareth. 

III. Aos 5 de Agosto saioSisgiamuiidodo Arreeife 
com mil dnzentois homena , e com penaamento de 
gattiiar Olinda por entrepreza. Fez a marcha pela 
praie^ servindo-lhe o rio de trmcheira. capitao 
AntoDio da Hocha Daibas^ apezar de nao ter senao 
trinta aoldados , com que esCava de guarnioaio n'uma 
trmcheira^ saio a receber o inii^fiigo ; foi logo imi«- 
tado pelo capitao Braz Soares ; nao tardou tambem 
a vir em sooeorpo d'estea o capitao Soares d' Albu« 
querqiie 0001 a gente da Moribeca ; os quaes todos 
«iirao a praia^ inveatfrao o inimtgo com cargaa tao 
repetidas e tao firme deuodo, que o doscomposerao 
e conhmdirao de sorte, q«e nem a muhidao dos 
Flamengos, nem a dtligem^ doa eabos, nem o res* 
peito de Siagiamnodo podArao eaeuaar a deaordem, 
com que vir4rao ae ooataa ^ correndo a buacar o 
ampajx> da: artilhaiia-'de auas ' forlakzaa. -^ Rece- 
beo entretairto Siagnmqndo um gcosso aoceorro do 
L 29 



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eiCjjWMk^nggitiileBlQtt i Wi pBr o»WiW|w»; nMis#t 
balde, pon|ti0 iriM^ao potto dii fdifi, arecefc^iM 
ceift a pmn^ra^^i^ft^ e tego 4 eef«da o ipreidvM 
e raQftpdrio^ AMdo^abconlMKstr «» geanral S«g|i»^ 

■oveM i deiigMkkde dos got(iM. Ditpiinkft-M o 
iMOii^o faam reMwr tCMeivo tlMpi^, qaaod^eh^- 
gQ«i JoMFemodMVMifd, vind^Mle AnMw)> cTond^ 
adra i prkntigM lom db r«ba«e. Gmmb sot Tizi^ 
nh^nct tamftc^aalterimiOBmlidilMulcwSyqueas- 
cpHcJApa jk fiiiripliM e da vwiyaha fagfefco pwa » 
Arrccife, ^eiiftra db ^pial OS nan^le8«n^ 

IV. Nao se deo Sisgismundo por vencida; anteft 
pmadt)a oilii dnft car4n«ti. a saw cabos qae com 
4i>)rado poikr c<MWiette»aii a intterfurfaa da Tilla ; 
d que fisaiM aaiAdo d» Arractfe en^ f 2 da Agottba^ 
■Mmcoafiadaa^ ptin^fM cMi 9»ca anwera. -^ Os 
ci^itlaet doi pMsidia^ acitta noneadasii. que imo 
aabHo pavdar oooaaiao de kMura, a a finiae da a 
b«sonr desiroB t prMnptoa,. c«ne aasMadoa no 
(dkoque pasiw to ^ aaiirao ao cftoaKtm de iMOHgo 
eom tattte mbr e fuma €|fua 16a npnedcaa o ar«^ 
IjuUm^^^ <y>Haraoia paiao, <k sarta qua em sua 
aapeaa IbadoqaoateMiMaiatelriMoa^ poccppe hoava 
leaapa. ima/ifribe-o aiocpfvoy qitf 

kiMs saio am nataa hrtm, g ooy a sad aa in ha enada st 
eaaa qwoEhuaaagndntrjwuMWiaaiB^ptfdiy^.a fiatsBt 
caaiinhfit d'iMna para anlia ^vklaaia^ ohfietndD o 
Hottaadiez, a ifM viaasaa aa( ooflia% « om chipiaiao 
aaanpo aaukoi i «i» diala, aaaaapttidabiaaMak 

V. Va9db.^«i«iMmdo.qiaii|^ caftt 



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tra a vHift , imi^oii de projeeto, e tnancbu aracar 
a noM! tmmtma, ^e chtfndT&a de Joao de Agtriar, 
mas nio livmo Melhor fortuna que na precedmte 
tentaiita. Ao romped do dia acenMo a passar por 
aqndlB paHe os noiUm deseobridores do canrpo ; 
aemitao aa emtKMcadas do inknigo, todirao anria ; 
eavH>«9e na eBtatitia o rebate; a effle f^rfrao com 
incrivel presteza os capitaes Antonio Boi^^tJdioa, 
e Francisco d'Abreu Lisbon com as 9tfas compa- 
iifaias ; poucos em numero j mas tantos mats no 
animo, que de cara a cara envesftirao o 1!olland«^z, 
e the deliverlio a marcha md qiie se incorporoti 
com eHes o Camarao com^ a g^ente de stta estancja, 
ekasMKla Ciqut4. — Ja neste tempo se appKcaTa o 
Flamengo nwria ao^ reparo qne k offcnua , por6m 
sustentaTa o peso ^ batatha com valor e ftirma. 
€hegarao outroa capitaes, qae comecfatro a ptcar o 
eaqnadrao ittHnigo de tado, e Ihe mandarao tocar 
arma pela retagnatida , com que desatinado o Hol^ 
landez, perdco animo, e comeemr a retirar-se em 
e<rdem; forao os noswos segnindo-o, fizerao alio 
onde podiao chcgar a6 bales. Chegon entrelanfo 
Joao Fernandes Vieira com os ma is goreniadores , 
e nao po<Aeiido soflrer qiie os Holhindf res , prote- 
gfdos peki sna artiUiana, mjuriassem os rms^os 
como com efifeito faziao, disse, que a artilharia do 
itiimigi^ em eapanta^elhacos, e valhat^omo de ti- 
nddos; qnesecasttgaBae a fantasdca conlianca d^a^ 
qfiettetl Ftameogos aCreridos. Mandon que se avan- 
caase de corrida, ana forma prolongada, porque as 
ialas d& nao podessem tmiscar eem pontam certa; 
dMo«siiQM06«}»*tmeiraearga9 ecom a^spada 



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k9i GASTftlOTO MBWWH 

qa mao iuveslirao o mimigo, o qnal priBMiro £»- 
rido do espanto fpi^ do ferro, com iumullo e des* 
ordem se lao^ou a cava dt sua fortal^Eia, sem (|ue 
o coofuso tropel da Tuga reparaaae nos muitos que 
na agya da cava bebiao a morte. Vifw o$ Aoasos 
que nada mais podiao obiisr^ toliirao espalhados e 
de corrida, sen dano algum, deiiaodo os HoUan- 
dezes no aasombro. v 

Yl. Coaveocido Sisgismundo que nada podia con* 
seguir pela forca, determinou mudar de meios em- 
pegrando a arie. Em 15 de Agosto aaio pela meia 
noiie do Arrecife com toda a gente que tiulia, pas- 
sou o vao dos AfTogados, e fez alto no pa^o que 
chamao de Francisco Bairreiros , a meia legoa da 
nossa estancia da Barreta, em que aaaistia por fron* 
teiro o capitao Francisco Lopes. Foriificou-se o 
inimigo^ cobrio*se» plantou artilharia, com deter-* 
minacao de sustentar o posto. Logo qOe nossas sen* 
tinellas o avisUrao^ derao rebate, e se recolbdrao a 
casa forte da estancia. Amanheceo o dia , e nao 
appareceo o inimi^ , que se tinha escondido em 
diversas emboscadas para melhor surprehder os 
nossos. Conheceo o noaso capi4ao o esiratag^ma : 
mandou trinta soldados a descobrircampo; o que 
fizerao ouzada e ditosamente, porqueconsc^uirao 
confaear a forca e intento do inimigo seoo pcrigo* 
Com as noticias que derao maudou o qapitao aviso 
ao Arraialy d6nde Ibe msvud^o sem daten^a qua* 
troceutos soldados de soccorro. Cbego^ este a nossa 
estancia, onde en^anado da cautella do iftimigo 
se voltou para o Arraial ; tendo para si o cabo 
(cujo name nao soubemos) qu^ aua tencao wo pas* 



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CJUraOTO LUSITABO. &53 

sava da fortlficaoio que se levantava. Vendo isto o 
Hollatidez, imandcm dous mil sotdados com duas pe* 
cas de caDi{ianhay quefosscfm a^altar a casa forte de 
nossa estancia, certo na victoria que Ibe assegurava 
6 poder; portot* adiarao os Flamengos tao dura 
ifesistencia , em tao desigual partido , que se apar- 
Uvno do combate com manifesto damno. — Reti- 
rtrao-^Se pela praia at^ junto ao mar, onde forma- 
dos estiverao toda a noite com demonstracao de 
^gunda enrestida, para encobrirem com similhante 
apparencia nova e diversa faccao. Tinhao mandado 
uma companhia ao engenho de Sao Bertholomeo a 
saquear, e tdmar fifigua ; tudo oons^uirao, e trouxe* 
rao presos o senhor do engenho, Femao do Valle, 
e Francisco Bezerra, que se hospedava em sua casa, 
e que depots no Arrecife primeiro o buscou a morte 
que a liberdade. Vendo os nossos governadores 
quanto estava exposta a estancia da Barreta, derao 
ordem para que se abandonasse, e que a genie se 
h*tira«sc para os Guararapes, onde levantassem 
uma forlificacao, qi:e servisse de ^eguro aos nossos 
e de freio aos inimigos. ConHado o Hoflandez pelo 
^uccesso que alcancdra, ?aio do Arrecife eiti t1 de 
Setcmbro, e pela praia do mar tomou o caminho 
da Jangada, qualro legoas da Ifarteta. Ao romper 
da man ha deo sobre a povoacao, que estava des- 
aperccbida por descuido ou ma vontade de sen ca- 
pitao Francisco Lopes; saqueou o que quiz, des- 
truio o que aelioii, e so Ihe fugfrao das maos 
alguns soldados de cavallo, que ^esmontados se 
galvdrao n'Um batel^ ainda que perseguidos das 
bala^ aleao u)iim6 aldanco. 



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yiL DecHse e^tretaiilo rebate 00 AnriMl^ amcticH^ 
capiiap FraocisQO Lopes, laa^ja tajrile^|pfrii«Kiirache^ 
gpQ .0 Caipaiao, c^ual deounMi ou^ no ioittiga 
Uiuto a tem^ q[ue cairao ^norto& quatora^ MoUanr 
df z?s. Foi aii^entapdo o e9tr«go^ ^ com o oUraga 
a p^xda do inimigo, qual coftcdbeo^tal reoeio^ qw 
busCf ndo a aalvacao m fuga, b>i larg9iido a$ annas, 
e o royW per aligeirar o paa^o* r- Quqif inab qiM 
iQdos se iulgou pel dido foi seu ||paeral Siagisr 
muodo. Gomo soldado media o tempo pela di&Uj»cia 
do Arraial^ % tMiia que o alc;au9asse o soccorrog 
certo que do^t seus ^ao ficaria p^asoa com vida, 
Pronietieo grandes pramios a queiu possesse em 
salvo^ua pessoa, porqjde Ihe ftlUva a agilidade com 
^ue 09 seus sem prdem alguma corriw a m^U^iHS^ 
^ Ikrretat ^ii que deniro de sua forliiicacfio se 
yio Cc>ra de risco , mas pSo do medo. Aaiim que 
ealrou aa for^alaza^ sol>io ao filto della, e olbaodo 
para Uigar do. conflicio, vio que o mestre de 
campo Aadr<i Yidal Ube viuha do eucalce com uai4 
gposs^. parlida de soldados^ ^ disse para os seus ; 
« De boa escapamos. » 

\UI, Vendo Sisgismundo que por terra nao era 
feUz^. ^ui% tentar fortuna por. mar. Ordeno^i aoseo 
sargcDto jBiiaior^ que se cbamava Andrezon , que 
cojna uum esquadra de p^osde.guerra., e muita e 
bo9 infa^laria^ fosse sobre a povoa^ao do Rio de 
Sao Frapcisco , e nella e todo seu destricto assolesie 
t^do que vi$se com vida e com prestiipo, reco-» 
ll^exidp tgdos os mantimeqtqs do roubo, e cha-* 
mipdo a si todos os gados da campaoha^ Saio An- 
drezon do Arrecife; tomou a Barraemos primeirq^ 



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^reiirirag iodq«(^ ittoq»4or«6,ogf^4ii4o^ue:pfNUr 

e^Jciita^ dp.ier«[K> da Shi^j v^Md^op^Xt ph- 
yeriM^ g4r4Jl dp £&ia(d9 Aai^iftua TeUoa da ^IvA. 
^ |i9doa f ^Ui^ e j^a^ll^€4i ; e feip aua ^tSfmm 

4.'<9}idb.^4u^ 4^si^ cgm aiai# iniiitf|>livo n^ fm- 

4tta4dau oonduair para a (wi#v^ da Babia^ 

tou Sifigjrawttdo tfm& vftna vea ^ s^rxe 4a& «raiM. 
DiliunA Boiie eacuna d€ QuiulM^o aajc^ omu .iodo e^u 
^o4^i e jQoip dQH8RH> de ^;j4^i4>ar .« fo^rlfkUcfM: Uifi 
^pMk) ^nUe a.viUa dc ]ff|iara^u d a ilba dJs Ita«Nif- 
:raca (aiiio U]a|>ui Ual^ ^ara/ai>i:|ir e aasc^j^ar o ea(- 
a^^lv^.por s>«d^ dcysfj^va^ajr a.pgawu^ffir^^Mir 
fant^a). f <^ ,aentida.,ds|a posaaa yigijE^T^M^Btiip 
i^jde temg^ queo ach^/orti^ado iq i^cd^^rtp, 

.fi oiatrM ^^mdiiio ao rebate i com a g^nfa de $iwi 
olK3d^^(i9« Na des^guaM^dc do jpartjhdaae vio a dp 
^EaJ^mva q}jie os.ncmQa jay^aliraii^ 4 pfpittotd^aeq^ 
.4(^10, OfGom oa Uxiaiigoa &e defead^iio wHrin^iMtf- 
.radoa^ e, fovormdo^ d*al^uiitf^ artUbarM i^iie ^ 
4l^fho assestada.^ A inH(iIi4ftdi^4a:p?^i^ s^9|»mr 
4flo D cbodiut^ cai]^ ig^jialpei^d^, 4iMj^fi4Kvei f9a»/o 
tt(iq[iigQ, peb iolere^ae dp £tci|r com q pq§to^i^U|- 
tqsa.p^u^ <^ Bo^QSy. 9brj|;ad9^ ^.fy^r-^j^flfOr 



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X. Cmtk o sueoesso reftrido se appUcou S^it- 
nMmdo ao ajNresto <ie sua armada ; d%o estavao 
ealretanlo iiuHivos m ntmoB gavemador^. No 
V de NoveMbro marchou o mestre de campo An- 
dre Vidai de Negreiros para a campanlia da ParaiKa • 
A razao de nossas annas bmcarem iiesta parte sen 
Mipr^ «ra pela graiide copia de gados que o 
inimigo apaaoentava naqnelle destricto , deaempit** 
rado do8 moraderes; e pela noticia de que a aom* 
bra de auat fortaletts ae alojayap mais de trezentos 
indios, seua auiciliares. Chegou o mestre de eampo 
com delibera^ao de assaUar os Indtos , antes que a 
noUoia de sua Tinda os acauleliasse ; portm vio-se 
eneontrado do parecer dos sens ; e posto que ao 
depois ecncordassem na determinacao^ ji nao pdde 
p6i>4e &Kk obra, porque os Indios se recolh^rao is 
|ira^s do inimigo com todos os gados que pod^o 
tefar. Mandou Andr^ Vidal fazer o damno posstvel 
6«i loda a capitania ; e mais queixoso dos seus que 
dos oontiaipios , se rettrou para o Arraial com aW 
guftacaplivos j unico fructo d^e^la jomada. — De^ 
«ejando o mesire de campo restam^r o credUo que 
oria algum tanto perdtdo, assentou comsigo com^ 
ttoUer a forca que o HoHandez tinha ua Barreta. 
-dommunie^u o pensamento a Joao Vemand^ 
Vittra, o qual ao princtpio o teve por arduo; mas 
•depots eonveto neJle, e zti deo a piano para b 
^ataque. Bm 2 de Janeiro de 1647 safe AndrS 
Tidal de Bfegreiros do nosso Arraial oom mil in*- 
HiMytes, doas pe^s d^artilhnria, cestoes, pas^ e mars 
perireehos necessarios para asr cavalg^tr ; o tjue fez 
nas ruinas da casa forte, que os nossos arra)iiio 



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.^pia«do se fitrtirJK) idft^uflla cslaneia p«ra osGua- 
r^jnpet. A'fgiuain 4m da MaslM se coimqou a 
baAai!ia da.aosta parte , a ifue a arlilhaffia:do mi^ 
niga^ aio resprndoo $nm m dez boras da manha^ 
for .etiar iteaaaontach; povdmi a^ndo de maiar 
calibre e maps baaii aenrida (fae a m>9aa, mo thoibao 
« MNWoa lugar segwo senao nas catas. Gamarao 
Mm sua QBoAe IrdbalhaTa por lerar a cava a daa- 
anbaear aa porta da farlaleaa) maa niio o pdde 
c aaa egm r por eactrntrar tinsta agua qae cobria os 
joflhos dot 8oldado8«-*« Assm oomo a general hoi- 
laadaa tete rebate da perigo eai qae e&tavao oa^eua, 
4a^>a<tto aoo^Drro aws' apreaaado que opportuao, 
laMgiaando iq«e ae poderia kUroduzir aa foHalesta 
pda ilhala do Gbeira Dinheiro, a aode aefaftm a opi- 
posicao que AadreVidal Ibe litiha prevraido , e 
com o aviso engrottado , de «orte que o Flamnago 
njk) so teve coatra si a resistencia , staao taiab^ 
aeavesUda, quae fez retirar e fugir, a buscar 
^alno caniiviho* fatentoa rnetter o soocorro por 
auav mandaadiftdobrado podpreni laachas; pordm 
Mo Hie nicoedeo eomo imaginiva , porqae a aoasa 
Artiiiiaria os fez aportar da fortaleza* Poi^n no 
baiaamar desembareirao a genie nos arrecifes; 
apoar de qae os nossos oa aiacarao com repetidas 
earj^tSy e fiaerao n'elles bastante eslraga, ceaaoi- 
-gaiiw com lado aco)faen*se aos imiros da fWtakai^, 
e-de 14 forao sabidoa por cordas com a brevidade 
que &es fa^ii«w o wiSdo e o perigo. — Pentad o 
Flaiiievigo em tnandi(r novo<«occorro>n& scad eai 
'doaa^piaaxog. fkirjK^esii^^aeoaBadasrdeaossa artf- 
Hkariay 4%ixHm gModea ai^arias vnaris fi>Hio|refitfK 



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fRdUv »ieiiii«itedamtoqrro^«iaMHidhraii4l»^i]»i^ 
•oiilro dia eUe scwa ImjAhii twwwia yir tatq^ , « 
dolibapoii^ein.ratirar a iqBipoiff»^'agit>»aiMto Aie 

ganha naa pedradas faem sutcedMn^, A' fjtiMn i m 
notta Iretiroii lodo •tMnai'd'wtilkaiia^ w^ i ni w 
<» ptilTOGbod; emm ttMrikai^odttBb pefotao niaai- 
.lial <ie oeroo, deixoai o gttb^.M ^j^a i aJu ai M j Foha ale 
jwi genie com tal a ocoffli »awie«y yw-o aio Bb#^ 
goQ a auapeitar o jkuniigo; jjiMtiwiiofe o^ittUntt) 
H^tire BMtlas 6 niite q«rtK> feruba c peifi^^ 
em^M«»|iar«cao ik qde facabeo onrfiniig^. 

XL Kd H«,da Fwet>eiro aaio o i^neral hottio- 
ijegprifthagrt do Arracifia oom itMbaua vrmada^ le 
Molia toda a fldr «le a«a mfaitarMUf mwiUbmmDM^y 
mmmicoa e petrecfaoa^ wo a^fbra Aaaalarga^iM^ 
goaaaenao tmibefm pan UttaidttatfMia'^MipaHte. 
Alaadou vn^r paca o Aio db£ao>Ei«MNeovii osdb 
tamou p6rt0 a vi^laa, aem aaiif.a ti^m. AiofatM dhe 
¥er^ d'alto foramdaae )Hri^pap«daa ibdaa aaoids 
lie gn^rra 4'«qiiaUa eaqpindirav <x>aft cpa^xM AOTeofe 
airfaa o Aiidn»on> eooi d nadttMr de a«i mSmtmimj 
^u aa a w J daa 4a Awfo o aaoriMno. Sim«6«Qatfl». 
^Mli: a Htoihar parlfao de |ua Mteada^ « # Hl^oa 
pptMaa AhqueUa. porta o ilMwr taprtdftldballu i«i- 
lenlar, pai^ua aa saira do Ahnrnfe aoaa V^yoAb* 
JMkiay por 4Jlia Aa bavaa^ auapaMar m tm^tm^^ a 
--wrifd. BodiA dMHir mmjIo a ^'^^'^' iimimi id^ nfllifiiH. 



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Saio daq,u^lle rio^ ipoaiula^ ifp^ se eip^roa^e % 
alUira da Bahia ; viagem que havemos de s^ffow^ 
por Qao cortara^os duas yez^ a |io da hntovi^, e 
no fim da joriuid^ ^ dara coi^daqiy /mop^def 
eai Pernainbuco o tepofio que dmrou aquel^a «xu^ 
presa. — Gm que Sisgyisinuudo levara w&^Si ex- 
pedii^o era lomar a prasa, ou pelo ip^os. divcrtir. 
OS soccorros que da Bahia podiao vir aPen^^tmbueo« 
Avistoii a Bahia, entjgaudo^ua fM^madapda^^soseadq 
d'ella ipta forq^da^el uio^tra ide ^u pqderi ttal « 
gpe ench^ OS olhos d'espantq e os ouvidos depa,*- 
vor^ com as armas pin(adas pas l)andeu'2a,.e.€aia 
estrondo das salvas ; mas t^mbqm epm alyorpSA 
dps soldadosy que confiados na £ortifica^o^.j;vt>pre^ 
sidlo da cidade, q na eeperanfa da victoria d^rf^ 
zavao o poder, Ou por aviso ^jou,. por i^fj^epci^ 
conheceo o Hollandez a disposlqao dos nosso^ ^ a 
nao se atrevendo a atacar a cidacje, ,^omou terra a 
tres legoas de distaneia^ nUim sitio ehsiof^do Tapa* 
rica, convidado d'um posto^a onde levaAtQU uma 
forca, capaz de alojamen(,o para os ^dados^.^ d^ 
muita e boa artilharia para a d^ei^a. Em circula 
do forte fabricou quatro reductos «m tal forma qu^ 
occupavao as eminenciasj| d'onde a £ortaleza,po4iii 
receber damno ; e dos vasos de aiaa .axTpada iea^ 
urn cordao pela parte do mar^ que Ibe se^ia d^ 
muro. Nao deixou o Inimigo em todo o cjoutof nqcBij 
genho^ nem fazenda qi^e nao roubasse a deji^twiwej^ 
nempor toda a costa embaJCcai^Q.queD^o §^^n 
^uisse> ou tomasse, com o. que, ao.pass^ quen^ 
cidade crescia o numoro dos r€;tira4o3y .p;esci|L 
t^mbema fal^ dos. mantimentos; e coqbecimeat^ 



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Ai desattencio , que deo causa a tao pemiciosos 
dacitoSa 

Xiff. O goremador g^ral do EsCado Antonio 
TcMm da SSta, em cujo animo leria algoma vez 
parte a temeridade , porim nnnca o medo , insti- 
gado agora da repatacao e da magoa, se determinou 
em desalojar a todo o ridco o Flamengo, insoflfrifel 
pela Tizmhanca , pela deienca e pelas insolencias. 
Para jnstifioar sen inlenfo mandou chamar os mes- 
trcs de campo Francisco Kebello, Joao de Araojo, 
Theodozio Estrater^ ^ ao sargento maior Assensoda 
Silra^ aos quaes dectatou a resoluoao em que estava, 
poderando-lhes com energiaf e nobres sentimentos 
as razoes que o determinaAao a assim obrar. O 
mesire de campo Francisco Rebello , faltando como 
eonselheiro prudenfe e como soldado experimen- 
tado, foi deparecer di verso do governador, e allegou 
fortes razoes para confirmnr o seu dito. Ouvio o 
governador o discurso do Rebellinho, e conside- 
rando que os mats cabos haviao de seguir seu pa* 
recer# atalhou a conferencia, eonfirmando-se em 
aeu primeiro inlenlOy do qual se seguirao iri^epa- 
raireis damnos. Poz o governador os olhos no Re- 
bellittho, a quern encamhihava a piaiica, e disse 
qnese haquelle congresso bavia qurm buscara 
desvios para fiigir ao cboque , que ^ flcasse em 
casa , t nao qntzesse desviar a enipreza ; que as 
mats dlllicuHosas erao as que apeleclao os corj»coc5 
grandeSi iquestf em fencer os inconvefiipnlescon- 
aistia veneer ; e porque conhecia bem os hninjos 
dos que tmha presenlcs, Ihes hao queiia dilatir a 
6ecasi&o da viclorra ; que ao outro dia se bavia de 



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dar o assaUo ; e que se a fortakxa se ynh^ie ^ 
seria de iodoa a gloria, e qoando-se nao coqm^ 
guisse, s6 a cUe se havia de p6r a culpa. ProineUeo 
a que^ Ih^ a^preseotasse a cabeca de 3iqgi$iaiimlo 
premio da £g&enda real^ egratifica^aoda sua. £n« 
tendeudo o nieslre de campo Francisco Rebello de 
que sobre seu parecer caia a ceusura , respondeo 
que uujna tem^ra Hollandezes quern cooio eUe con- 
lava as victorias pelas occasioes; porim que apon- 
tava OS inconvenientes da impreza^ e as cpnse- 
quencias d'uma e d'outra fortuna ; para que sua 
senhoria escoliiesse , se couvinha mais ao Estado 
veocer sem perda^ ou perder sem fructo. Ma$ 
supposio que seu zeb e sua experiencia se avaiia^ 
vao por fraqueza, saberia mostrar que nao poupava 
a Tida quem nao temia a morte^ e que o successo 
diria o como sabia morrer por saber aconselliar. 

XllL InQ^mniado no& eslimulos da honra^ e 
cerlo nos perlgos da vida^ saio o Rebellinbo da 
junta y e sem demora pariio para a fronteira com 
OS mais cabos^ qua se achavao na confereucia^ r^ 
solulos todos em servirem & temeridade por nao 
faitarem a obediencia. Escolii^ao mil e duzentot 
soldados, e com elles ao romper da manba seguinte 
ayan9arao a fortaloza inimiga, que os recebeo com 
nuvens de balas , por entjre as quaes romperao a$ 
p^iasadas^, e subirao as triocheiras; buscando o$ 
golpes do ferro dentro dos inoendios do fogo, tao 
alvorocados e dest^ondps* que, a Fiamengo oocu- 
pado do aasambro , desconheceo ob affectos da in-r 
veja, Nao erit metftpr o .valor com que o ioimigo 9^ 
deifeudiai, ajudaudo^e da forc« , da iudu^tna . e da 



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lit MSIUOID VnrtMSKK 

ikMspcracMw A temcko do ftimo, a c^trondb A>s 
thros, <y ^ca das golpes, o assohfer das balas, o 
gffiMT dos fcridos, o Iradar dos cabos, o agdnizar 
do9 moribundoSy enchmo de horror ocombate, coni , 
fgiial lastima , porqne com igtra! pcrda. Os nossos 
soldados mats cegos, como mars empietihados , nao 
sabfto adTerfir sen&o em romo se ksrriao de adian- 
tar ; porim a fortnna j on invejosa do esfbrco , ou 
lastimada do esftago encaminhoa trni pelouro aos 
pritos do mestre de campo RebelKnho, que ffie 
tirou a rida , e deo fim a batalha , porqne a um 
mesmo tempo cato sen corpo desanhnado, e ficou 
o da nossa gente vencido. Os mesmoe que no com- 
bate o naoperdwk) de vista, bebendo em sen exem- 
plo esptritos para a hnitacao , rendo-o defancto , 
enlrc outra multidao de corpos mortos, recebArao 
conselho para a retirada, que pos^o em execucao 
com tamanha d6r como risco j era este d^innmne- 
raveis balas que os segtrrao ; era aquella por ser 
terror dos mimtgos o cabo que deixavao morto. — 
Perdemos neste assalto quinhento6 para seiscentos 
homens : damno que servio de medida ao desatino. 
Nao bastott que sua fama os coroasse de humana glo- 
ria , para que sua faka dvixasse de cafosar a todos in- 
tensa pena. Oseompaiilietros os ^horarao saudosos, 
OS do povo timido0, o govemador conftiso, e todos 
arrependidoS) ainda que nao todos eufpordos. Para 
fttter a perda tameiifavel sobcffaTS a th mestra dc 
campo Francisco Reb^o , cojo none vmn a dimt- 
rmiito de Rebellhiho, foi cm todo tempo merece* 
dor ^ ma Anna eiitem^^lbor forfmlr. Bra spra valor 
fgtial II 9QII indwtriii , e stta drseiptffiai iBtior qtre 



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\m> m^ «^ ii Mofi' wumj e.eM sua mf iO a li^a ; d^ 

%4Wics fHNT^Vie 9e i»it«uo« a^MirUa id^ e^m dw 
iWMh S4A ftei^iiil^ A inwto de Ajfitaok^jGigo^ah^ 

sensivel Q;4ami^t e agwa a 2Q#gM. ^ se eseoynder 
T^if^ ^em. H09^^ detoUo <l;i terra, que cobria svus 
cq^pf^, S^o fofida o sapgenU) iBa^>p Assenso da 
Silva^t 9cn qutJCQ» nwikia oiikiaes e soldidoB^ m^^ 
Q)dl>aDte$ na gloria, dis^meibaDie& oa sorte, 

XIV. Ch€g^a a^i&a a Portugal do aperto eiq 
que ae ai^ava 4 Babia, ap oi^aio temfx) qu/e de. 
U^Uaada Si^ ^^cjrevia pj^r parar-^e nova &o4a parase 
ittandaK ao^Bcazil. Froo^pto eiaapplkar re0>edioa 
taq gpaadf mal n^iftw^ o 3euhor Bom Joao IV para 
g^A^al de wtr aa conde de Villa PcMjyca Ajatoma 
T^U^ da SUva ; cQasig<¥>u-4be cabo&, gente^ mun^ 
gime vafOA, de que sfi.Q(>Q>poa utta grossa armada 
par^ ir de$aU)jar a Siagismiiudo-.— Vooaa xkova 
aa Arr«ci£a; auspeitarao es do gayemo; em sua ca-^ 
be^aa gptpQ « a i«ais. i^rtog uo temor que i^a espe* 
iim%9k dcspacbMto mn eorreio a Babia^ ordfisaandQ 
a SisgUimuido. l^vaase terra e ««ieg^si^ para Per* 
uwibuiQO,. porqua a divisap do podt^r Aao oceanic- 
uaMe a. pifH^di^ de todoa. Con£6rp^u-3e o aviso 
QQKt Qt desiji^ d^vgaueval bolUodiea^i e« sem dib^ao 
tlilbacew]ra,wtilbM*ia, pc^ fogo ;^ quarteis., r&- 
caU^ea a^irvU^r l^^^W^ P4)^i9i<^» e.tomou a derrota 
4e Pe;(aVttbapQt*i^<><^ c^begcoi i\o lau doaoiao de 
^^7^ t^fiPfifijdA «fimQ ji'elle saira,uiana Em. $eti 



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retebiffieniD Ptte mais parte o faiio qae o alToreco, 
porque 8e recebiao os Titos que ehfgavao com as 
lagrioias com que os ollioa choravio 09 niortos que 
nao Tiao. Eate foi (bretcmente rehlado) o soccesfo 
da Jornada que Sisgiamundo fez a Bahia (corao 
alheio do nosso assumpto ) ; agora diremoe o que 
pasaou na campanha de Pemambuco o tempo que 
d*eUa nos apartou a vtagem, estada e Tolta. 

XV. Entrefanto que Sisgismundo ia com a sua 
armada sobre a Bahia, chegou da Paraiba anso de 
que o Hollandez se occupava em grangear e plantar 
canna, cultiYando aquelles cannaveaes que impe- 
didos da chuva nao acabou de consummir o fogo , 
quando os moradores se retirarao; e que a gran- 
gearia ia em augmento muito consideravel , e que 
estarao em vesperas de lancar a mo^r o engenho 
de CunhaA (dezoito legoas da Paraiba ). Conviiiha 
a perseverenca e reputacao de hossas armas cortar 
de urn goipe a posse ea esperan^a do inimigo ; para 
o que saio de nosso Arraial em 16 de Maio o sar- 
gpiito maior Antonio Dias Cardozo com (rezentos 
trinta e sete homens. Assim como entrou na- 
quella capitania despedio ao capilao Cosme do 
Rego Barros com cento e sessenf a soldados, e ordem 
que assaltasse e destruisse o engenho de Gunhau , 
e (odo seu destricto. O inimigo, que ae tinha forti* 
ficado, fez porfiada resisteneia aos nossos que pre- 
tendiao tomar o engenho; mas isto nao impedio 
que Ihe largassem fogo, o qual abraz<yu o engenho 
com todos OS materiaes da fabrica e do lucro ; tal-- 
l&rao a campanha ; e com duzentos bbis e maitos 
^cravos se voltdrao , para ondc os eqpertTa seu 



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GAamOVO LUSFTAIIO. 665 

cabo o tempo que pelas outras partes tinha ja tudo 
coDsammido o ferro e o foga com similhante es- 
trago. Encorporados derao Tolta para o Arraial , 
em o qual entrirao com duzentos prisioneiros y a 
maior parte escravos foragidos, e algumas mnlheres 
estragadaa, que vi viao entre os Hollandezes e Indios ; 
e por cima de trezentas cabecas de gado vaccum : 
soccorro para todos opportuno, e para os soldadog 
grato. 

XVI. Era o Rio de Sao Francisco o ci^rral d'onde 
se conduziao as carnes para sustentacao do nosso 
Arraial ; e por isso logo que elle foi senhoneado pelo 
inimigo comecou a sentir-se falta, assim pelo gado 
que recolhia para si e para o Arrecife, como tam- 
bem pelo que os moradores retiravao para a parte 
da Bahia. governador Joao Femandes Vieira, 
sobre cujos hombros carregava a falta e a queixa^ 
acudio a remedear a fome , com mandar vir todos 
OS gados, que' tinha pelas matas de^uas fazendas, 
de que se foi dando racao aos soldados. A seu 
eicempio acudirao todos os moradores do reconcavo 
com OS soccorros que podiao, com o que cessou a 
queixa, por^m nao a feme, pelo que preciso foi re- 
correr a outro expediente. Conferirao os govema- 
dores Joao Fernandes Vieira, e Andre Vidal de Ne- 
greiros como se poderia acudir a fome; de sorte que 
Ihes nao faltasse a brevidade do remedio ; e assen- 
tirao que se buscasse no mar, em quanto faltasse 
na terra. Passdrao ordem que todos os pescadores 
se obrigassem a pescar naquelles mares que se- 
nhorcavao nossas fortalezas, com o seguro de os 
guardaremefavorecerem nossas armas. Executou* 
I. SO 



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AM r.AarnDro lositahoi 

se a88im ; daTa^fie a infantaria ra^ de peixe, que 
satisfez, em quanto o mestre de campo Aiidr6 
Yidal de Negreiros nao punha em execu^o a pro- 
messa de conduzir gados, a todo o risoo , para o 
sustento do exerdto. 

XVII. Ayisoii-se que no Geari Morim^ lugar 
situado muito acima do Rio Grande para o norte, 
pastava copiosa multidao de gados. Resolveo-se o 
meslre de campo Andr6 Vidal de Negreiros em of- 
ferecer sua pessoa para viagem e conduc^ao tao 
difficultosa. Aprestado de tudo o que Ihe pareoeo 
necessario para a Jornada , partio do Arraial em 
24 de Agosto com oito centos infantes e noventa 
cavallos. Vencidas as difficuldades do caminho e 
do tempo , entrou na capitania do Rio Grande , 
tallando e destruindo tudo o que p6de aleanqar o 
ferro e o fogo , em quanto nao vollava do Ceara 
Morim o capitao Joao Barboza Pinto ^ que por seu 
mandado fora conduzir os gados d'aquella parte. 
Chegou com os que pode ajuntar^ e encorporadas 
as partidas e o poder marchou o mestre de campo 
para o Arraial com setenta cabecas ^ muitas mu- 
Iheres, que libertou da forca e da injuria, e nao 
poucos moradores que buscarao o abrigo de nossas 
armas, para fugirem a seu salvo da tyrannia hol^ 
landeza. — Nao se descuidou o Flamengo de apro- 
veitar a occasiao que Ihe dava o tempo. Teve aviso 
da Jornada do mestre de campo; considerou nossa 
resistencia enfraquecida , e por conseguinte seu 
partido avantajado ; provou a sorte em algumas 
assaltadas, que fez a ditferentes estancias noasas; 
e de todas voltou castigado. Nao deixava com tudo 



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GAntmro LusiTAifa M7 

de DOS custar mortos e feridos a resistencia ; e por 
impedir a continoa^ao do damno, ordenou o goveiw 
nador Joao Femandes Vieira que todas as noitea 
se tocasse arma pelas fortalezas do inimigo ; o que 
86 executou com (al ardor, que pelas horas coutavt 
OS rebates , com que se via obrigado a passdUaa 
todas com as armas na mao. Em quanto durava 
dia OS trazia nao menos inquietos, mandando* 
Ihes armar cilladas, em que ordinariamente caiao, 
ou perdendo a yida ou a liberdade, e juntamente 
a lembranca e o atrevimento de virem atacar noa^ 
sas estancias. 

XVIII. Era pratica corrente entre amigos e ini« 
migos que no porto de Liiboa estava uma armada 
para fazer viagem ao Brazil em soccorro de Per- 
nambuco : nova que d'uma e d'outra parte fazia 
crer o desejo do remedio, e o temor do castigo. Os 
nossos govemadores, como mais empenhados, erao 
OS mais credulos ; ftmdavao a oerteia na justica e 
na razao com que deviao ser soccorridos de^ um 
principe, a quem serviao desinteressados e fieis ; 
obrigado por conveniencia a estimar a vida dos sul>« 
ditos, que por seu servico as arriscavao constantes, 
atropellando pelo defraudo de familias e fazendas y 
por restituirem a seu legitimo senhor o dominio 
e as terras usurpadas. A alegria com que se ouviao 
e davao as novas Ihes tiravao toda a duvida, e as^ 
sim era tamanho o alvoroco em toda a nossa gente, 
que discorriao, e dispunhao ocerco^ o assalto, a 
victoria e o iriumpho ; conferiiido as convenien- 
cias de se combater primeiro esta ou aquella forca, 
esperando na reparticao dos despojos nao a sorte^ 



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A68 GASTEioTO LuarrAiia 

senao a esoolha. Com di verso paisamento enlravio 
08 nossos governadores em negocio lao importante; 
parecia-lhes que em breve tempo chegaria a froU 
esperada a combater o Arrecife pela parte do mar, 
e que necessariamente se havia de fazer o mesmo 
pela de terra, e desejavaa que as prevencoes se 
adianlassem aoccasiao. 

XIX. Vizinho da povoacao de Santo Antonio , 
ou cidade Mauricea (como Ihe deo por nome a vai* 
dade e a lisonja ) ha um sitio, a que os naturaes 
chamaoaSeca; a este tal divide da campanha um 
Tio, nao muito largo, nem muito fundo : a bala d'um 
mosquete o passa de ribeira a ribeira , e na baixa* 
mar se passa com agoa pelo joelho. No dito posCo 
tinha o inimigo a Fortaleza que , tomando o nome 
do sitio, se dizia Seca. Com elia defendia de nossa 
opposi^ao nao s6 a cidade, senao tambem o Arrecife, 
por ficarem descobertas uma e outra povoacao a 
qualquer bataria , que da nossa parte se Ihe qui^ 
zesse por : razoes que persuadirao aos nossos mes- 
tres de campo Joao Fernandes e Andr^ Vidal a en- 
trarem em pensamento de levantarem uma forca, 
d'onde varejassem a sobredita fortaleza , e pracas 
do inimigo. Resolutos no intento, conferirao entrc 
si o tempo, o modo e a parte ; e preparados os 
materiaes e inslrumentos necessarios, sairao do 
Arraial no 1^ d'Outubro, deixando nelleacompe- 
tente guarni^ao as ordens do capitao Albuquerque; 
marchirao com a gente a estancia de Henrique 
Dias, commuuicarAo-lhe a tencao; approvou o 
intento. Escolhida a paragem , derao principio a 
obra , e OS governadores ao exemplo, sendo os pri- 



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GASTRIOTO LUSITAMO. 669 

meiros que pegirao nas enxadas; a cuja imitacao 
o fizerao todos os oiBciaes e soldados tao sofregos 
do trabalho, que de nenhuma sorte quizerao ad- 
mittir a companhia dos escravos, que os morado- 
res offereciao para ajndarem no que fosse necessa- 
rio. silencio com que se obrava era tao observado, 
que nera voz, nem goipe ouvio o inimigo, em todo 
o tempo que durou o trabalho ; e para que o Fla- 
mengo nao podesse ver o edificio^ que sobresaia 
por cima do arvoredo , o cobriao os nossos todas 
as manhas de ramos frescos : artiGcio com que des- 
mentirao os olhos mais attentos , de sorte que por 
nenhum dos sentldos p6de o Hollandez formar a 
menor suspeita da fabrica , sendo tanta sua vizi- 
nhanca^ que entre os nossos se percebiao as prdti- 
cas de suas vigias. Em 30 de Outubro estava a for- 
(aleza posta em sua ultima perfeicao^ com todos 
OS reparos, cava espa^osa e funda, que enchia 
d'agoa o mesmo rio que se interpunha^ e apartava 
a nossa da contraria ; estacadas, trincheiras^ plata- 
formas, em que jogavao muitas e boas pefas d'ar- 
tilharia, e tudo em tal fdrma j que se podia defen- 
der a toda a invasao do inimigo por qualquer parte 
que o quizesse enveslir. — Na madrugada de 6 de 
Novembro mandirao os nossos governadores quei- 
mar um patacho, que o Hollandez tinha no rio 
como atalaia de nossos movimentos. Pegou o fogo^ 
e as labaredas do incendio servirao de luminarias & 
marcial alvorada, com que a nova fortaleza ao 
som de caixas, trombetas e charamellas deo os 
bons dias ao Flamengo com (res cargas cerradas 
d'artilharia e moaquelaria^ que faziao mais horri- 



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670 GASTRIOTO LCSlTAlia 

veil at vaias que o confuso grito dos soldados daTa 
ao8 moradores da cidade e do Arrecife , que desa- 
tinados do estrondo e do sobresallo buscarao abrigo 
contra nosaas balas. Foi tal o temor que este iin<» 
previsto successo causou nao s(S no povo» mas noa 
mesmoa governadores e principaes cabos hollan-* 
dezeS) que assentarao por ultima resolu^ao despa- 
char uma sumaca ao general Sisgismundo, piolan- 
do-lhe o estado em que ficayao, e a perdicao que 
temiao ; com ordem que a toda a pressa naT&-> 
gasse em seu soccorro, antes que chegasse a ar* 
mada portugueza^ que por boras se esperava, e que 
o successo referido os advertia j que nao tardariao 
mais tempo em se renderem aos combates da terra 
do que tardassem os Pcurtuguezes em os cercar 
por mar. Gonfessavao e arguiao o desatinado erro 
de arriscarem o oerto , por ganharem o condn- 
gente. 

XX. Depots que a nossa fortaleza foi construida, 
nao deixavao os nossos de inquietar o inimigo com 
continuos assaltos , que se tomavao todos os dias 
mais atrevidos. Uma noite mandirao os nossos go* 
vernadores a dous cabos que com cem infantes 
escolhidos fossem assaltar o paco, em que vivira o 
conde de Nassau Joao Mauricio^ situado na en- 
trada da cidade Mauricea, edificio Tistoso e de cus- 
tola fabrica. Tinha de guarnicao duas companhias 
de HoUandezes dentro de boas trincheiras ; seguro 
em que descancava sua confian9a. Com destemido 
braco as rorap^rao e ganhirao os nossos, e com 
leve resistencia do presidio, que aos primeiros 
golpes fogio com seus capiiaes a metter*s6 dentro 



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GASIBJOIO UJSIXAm. 471 

na cidade. Saquearao os nossos o pace ^ e com os 
despojos e insignias do8 oiBciaes, que nelle deixa- 
rao OS do presidio, se retir^ao a nova fortaleza, 
sem receberem o menor damno das balas com que 
todas as fortalezas coutrarias os buscavao. Forao 
recebidos de todos com festivo alvoro^, que fazia 
mais applaudido a tumultuosa coufusao e grita em 
que o medo tiaha posto aos moradores da cidade e 
do Arrecife : tao certos ^m sua ultima ruina , que 
a presumirao como se a experimeutarao. 

XXI. Coutiauarao da nossa parte os assaltos 
com a mesma fortuoa, e a bataria da noya fortaleza 
com o mesmo effeilo^ at^ os ultimos dias de Do- 
iembro d'este presente anuo^ quaudo Sisgismundo 
oom toda a sua geute e armada tomou porto uo 
Arrecife. Ouvio da boca de todos nossos progressos 
e aeus infortuuios^ yio com espanto a nossa forta- 
hxA, e considerou com atten^ao o como seuhoreava 
e descobria tudo quanto suas fortifica^oes guardar 
vao. Prouiietteo ^sgismuudo aos do oouselbo su- 
preoio que dentro em tres dias havia de castigar 
-OS Portugueses com suas aiesmas armas, pwque 
ganhada a fortakza^ abriria porto seguro e franco 
para Ibes conquistar a campanba. «— Cada dia 
veapwava a nossa forca que Sisgismun^ com todo 
sea poder a envestisse, ou por sitio, ou por assalto. 
Era noloria a todos a promessa, e a todos enganou 
a esperaD^# Nao se regulou sua altiveza pelos 
preceilos da experiencia : em nenhuma parte nos 
buscou a espada ^ que o cortasse ou o ferro ou o 
medo. Ma margem do rio, que se oppunba a no^a 
fiu>tal^Ka> numdou levantar uma triocbeira, oboa 



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kli CASTRIOTO LUMTANO. 

com que saio iima noiCe ajudado do escuro e dc 
innumeraveis gasC adores ; fjuameceo-a de gro6sa 
at tilharia , e dos melhores soldados , com pensa- 
mento de nos destrair sem se arriscar. Mandoii 
assestar alguns trabucos com que nos lan9ava bom- 
bas e gpranadas, e nao des^presou meio naihum 
para nos desalojar ; mas forao inuteis sens esfor9oSy 
porque nao s6 conservimos a forialeza; mas 
delxando^lheum bom presidio, se retirarao muito 
a sen salvo para o Arraialos nossos ler^os, deixando 
ordem que se regulassem os tiros pela falta de 
polvora^ mas com tal artificio que o Flamengo nao 
inferisse a falta pela suspensao , fazendo-lhe en- 
tender, com as ordinarias cargas ao melter e tirar 
as companhias de guarda , que o nao atirar mais 
era escolba e nao preceito. 

XXII. Em aquelles dias, levados da esperan^a 
e do desejo, sobiao os soldados e os moradores ^s 
coroas dos montes , d'onde melhor descobriao os 
mares, para occuparem os olhos em buscar a ar- 
mada que vinha do reino , persuadidos do tempo 
edo aviso, que ou seria chegada ou estaria vi- 
zinha. Gada qual queria ser o annuncio de nova 
tao grata, e todos os primeiros na dita de v^i^m 
com sens olhos o soccorro , a que fiavao sua re- 
dempcao. Entroa o anno de 1648, e com elle o 
desengano de que nao era ch^ado o fim de seus 
trabalhos, com a nova que logo se divulgou, de 
haver chegado a Bahia a frota esperada, com na- 
vega^ao tao alheia de sua esperanca como aparUda 
de seus olhos, porque, nem do Arrecife, nem das 
espias , que o inimigo trazit pelo mar para ^este 



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oAsniono LwiiiHa 673 

fim f foi descoberta. Pela derrola inferirao todos 
que aquelle poder era mandado a soccorrer a 
Bahia, e nao a remir a Pernambuco. Golpe foi este 
que a todos 08 soldados e moradores d'aquellas 
capitanias pehetrou o intimo do ooracao ; e po* 
d^ra acabar com o animo e fidelidade de todos , 
vendo cada um o pouco caso que no reino se fazia 
de servi^os que mereciao estar yIyos na memoria 
e na esUma^ao de todos. Por^m aquelle valor, a 
aquella constancia apurada a golpes de ioforluniot 
e desprezosy tao fora esteve de fraquear na lealdade, 
que d'esta oonsideracao tomou motivo para se em- 
pregar com mais feryor nos servicos que so para 
seus bra^os guardava o ceo o fim de tao profiada 
guerra, e para sua cabe^aja ooroa de tamaoha vic^ 
toria , como aquella com que depois derao fim i 
empresa. 

XXill. Tinha partido do Arraial para a cam- 
panba do Rio Grande^ em 23 de Novembro de 
1 647, o goyernador dos Minas Henrique Dias com 
seu t^o e algumas companhias do terco do Ca- 
marao ; e porque no principio de Janeiro de 1 648 
entrou naquella capitania, guardamos para este 
lugar a narra^ao d'esta expedi^ao, como para 
seu proprio tempo. Partio pois Henrique Dias 
no tempo referido, com a gente em que no Arraial 
se reparava menos^ para que escondida a falta se 
nao divulgasse o intento, e entrasse naquella cam- 
panba com o partido de ser primeiro descoberto 
pelo damno que pelas noticias. — Correo Henrique 
Dias o destricto do Rio Grande metlendo tudo a 
fierro e a fogo. A^lslou um sitio , que chamao as 



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A14 GAffniOlO LOUfAm. 

Guarairas , oade o inimigo sustentaya uaia casa 
foiie no oentro d^uma lagoa larga e fuiida» dentro 
da qual, oomo em ilha, se alojavao todos 06 indios 
e escravos que o HoUandez occupava nas rogas e 
lavouras daqudle lerreno ; e se reooUiiao os fmo 
(OS e OS roubos de queae sustentairao^ guardadoee 
defendidof de quarenia HollandeTCs^ que com ou« 
tros soldados indios guarneciao a foriificacao : cons* 
tava d'esta de casa forte cercada de duas tiincheiras 
bem obradaa« Depois de exhortar seus soldados 
com palavras de confianca e rosio socegado, diase* 
\hes o oaminho e o modo oomo haviao de avao^ar 
e ganhar a foriificacao; e nao Ihes interpondo da^ 
▼ida entre o invefltir e Tencer^ os meUeo no assallo. 
Lancarao-se a a^a» e com ella pela canta acoom- 
metterao a escala. Defciidteao-se osHoUan^zescom 
ardor fa vorecidos da vantagem do sitio; mas nao 
poddrao impedir que o6 nossos tomassem terra, e 
ganhassem a primeira trineheira. Entre esta e a 
aegunda se travou reohido combate; mas o furor 
dos nossos levou o inimigo de yencida , e bem de 
pressa caio a segunda trineheira em suas maos. 
cabo hollandez, vendo perdida toda a esperanca, 
se m^teo com cinco oompanheiros n'uma canoa, 
furtado ace <Jhos dos seus, para salrar as vidas. 
Escalarao os nossos a casa forte com tibia rssM* 
tencia , e levirao tudo a ponta da espada nao p«^- 
doando a sexo nem a idade. Durou o conflicto 
desde a prima noite at^ pela manfaa; e foi com a 
claridade do dia que se pode conheoer o estrsgo. 
Morr^riM) n'esta occasiao todos qoantos HoUaiih- 
dexes^ Indios e negros kaviasia fortifioa^ eseepto 



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GASTRIOIO LUSITAlia 675 

OS cinco que fugirao. Dos nossos perd^rao a vida 
ires soldados, e ficarao muitos feridos. Gastou-se 
o dia, que foi o de 6 de Janeiro del 648, em recolher 
OS despojos, curar os feridos, enterrar os morios, 
e tomar refei^ao do trabalbo entre as cougratulacoes 
da victoria* 

XXIV. Em 7 do mesmo met marchou o gover* 
nador Henrique Dias para o engenbo de Cunhau , 
onde achou o Hollandez bem fortificado , com 
muila genie de presidio, e nao menos soberbo peia 
ditosa resislencia com quese haviadefendidodo mes* 
tre de campo Andr^ Yidal, nos dias paasados. F^ 
alto em frente do inimigo, e & cara descoberta man* 
dou por um tr<MEnbe(a umaembaixada ao Flamengo, 
dizendo'lhe que sem dik^ao se rendesse, e se Ihe 
faria bom partido, antes que os seus chegassem a 
desembainhar a espada, porque com ella na mao, 
nem a obediencia os obrigava, nem a commisera^ao 
OS detinba ; que acbava iestemunha d'esta verdade 
no successo do dia antecedente, acontecido nas 
Guarairas : exemplo com que desenganadamente 
se poderia aconselhar sua deliberafao ; que se apro- 
veitasse com prudencia da escolha que em sua mao 
punba a fortuna. Ferplexo ficou o Fiamengo com 
um tal proposto ; com palavras equivocas respon* 
deo ao enviado , pensando ganbar tempo com sa-« 
gftcidade ; porim Henrique Dias , que conheceo o 
ardil, mandou segunda embaixada ainda mais ter- 
minante ; e como tardasse a resposta, sem gastar 
mais palavras , mandou a seus soldados que toda 
a leifba, que estava junta para o servico do en* 
genho, diegassem a icotifica^ao iaimig^em eirculo» 



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k16 GASniOTO LUSITARa 

Executou-se a ordem com eslranha presleza; e 
8em duvida que tudo ard^ra, se ao tempo de se Ihe 
por o fogo nao saira de dentro uma mulher portu- 
gncza^ casada com Flamengo, pedindo a Henrique 
Dias quartel para os cercados. Concedeo-lhe as 
vidas^ e Ihe abrfrao as portas. Saquearao os nossos 
as fazendas^ mimi^oes e armas; arrasarao a for- 
tiGcacao e o engenho ; levarao prisioneiros a todos 
os rcndidos ; e assolada a campanha , voltarao 
para o Arraial , onde chegarao com prospero sue- 
cesso, e fiterao entrega aos governadores dos cap- 
tivos e das armas , (icando-se com os mais des- 
pojos. 

XXV. Tinha succedido que o senhor Rei Dom 
Joao IV^ se deliberara em mandar ao Brazil uma 
pessoa que com prudencia, valor e. arte conser- 
vasse 06 moradores (naquella nobre porcao da 
America que continha em si as capitanias suble- 
vadas) sem desamparar os naturaes, nem offender 
OS f lollandezes , obrigado de reaes estimulos para 
nao faUar A amizade dos aliados, nem a conserva- 
^ao dos subditos. Concorriao na pessoa de Fran- 
cisco Barreto da Menezes todos os requisitos, que 
podia desejar a escolba , e que havia mister a im- 
portancia do negocio. Deo-lhe EI Rei titulo de 
mestre de campo general com subordinacao ao go- 
vernador g^ral do Estado (que jaentao«ra Antonio 
Telles da Siiva), e por sen tenente Ihe nomeou 
Philippe Bandeira de Melio. Saio Francisco Bar- 
reto de Menezes da barra de Lisboa com trezentos 
soldados^ muni^oes^ armas , e tudo o mais que 
pareceo conveniente para o fim pretendido. Nave- 



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GASTUOTO LUSITAIIO. &71 

gou Bt6 a altura da Paraiba com viagem favoravel, 
onde deo nas maos d'uma armada hollandeza^ que 
com avisos certos o aguardava. Nao foi a presa sem 
batalha, nem a batalha sem sangue d'uma e outra 
parte. Ficou Francisco Barreto ferido , e assim o 
levarao os HoUandezes para o Arrecife, onde o tra- 
tarao com o respeito devido a sua qualidode, a sua 
opiniao e ao seu posto, e com o resguardo que Ihes 
ensinava a importancia da pessoa y e a esperan^a 
do resgate. — Do grilho soube Francisco Barreto 
fabricar a liberdade : em.24de Janeiro d'este anno 
fogio do Arrecife para o nosso Arraial j ajudado 
d'um Flamengo^ que de guarda se fez medianeiro. 
Foi recebido de todos com notoria alegria , e dos 
mestres de campo Joao Femandes Vieira, e Andr^ 
Vidal de Negreiros com tanlo goslo e respeito^ que 
o agasalharaOy hospedarao e servirao, como se devia 
& sua pessoa, e nao & sua fortuna ; o que elle soube 
estimar com tal fidalguiaque^ sem lembrancas de 
superior, os tratava como companheiros. 

XXVI. Corria havia tempos entre HoUandezes 
e Portuguezes a nova de t|ue nos portos de Hol- 
landa se preparava uma grossa armada para ir ao 
Brazil; a qual se confirmou por uma caravella d*a^ 
viso, mandada de Lisboa, que tomou porto no 
pontal de Nazaretli, sem com tudo se saber a que 
ponto fazia tiro. Com bom juizo intend^rao os 
nossos governadores que a armada yinba em direi- 
tura a Pemambuco; e com incansavel cuidado e 
presteza se applicaraa a prevenir e dispor tudo o 
que pareceo necessarlo e conveniente a opposicao e 
a defensa. Virao o muito que seryiria a seu intento 



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479 GASmcra tOSITARO. 

kdear a fortaleza da bataria de duas plataformas 
Gontra o Arrecife ; por^m nao tendo artilharia nem 
municoes, despacharao em < 3 de Fevereiro para a 
Bahia o capitao Paulo da Gunha com requerimento 
e suppKca ao general da armada portugueza ( que 
estava surta na enseada da Bahia ) Autonio Telles 
conde de Villa-* Pouca j para que Ihe acudisse com 
prompto auxilio. Foi Paulo da Gunha recebido 
com honra , ouvido com piedade , por^m despa- 
chado com esperancas. Fez os mesmos officios com 
o senado da Gamara; mas nem ao menos obteve 
boas palavras ; e partio sem alcancar outra cousa 
mais que patente de sargento maior do lerco de 
Andr^ Vidal, como se no titulo d'um posto levara 
o soccorro de todos. — Em quanto Paulo da Gunha 
se occupava n'esta missao, navegou a armada hoi- 
landeza pelos mares do Brazil ; e o tinha feito pelos 
do norte com diversa fortuna : saira com oiten(a 
e tantas embarcacoes, e nellas nove mil homens de 
guerra. Na passagem do canal foi assaltada d'uma 
tempesfade que Ihe lancou i costa alguns navios, 
e outros desgarrados tomarao diversos portos pelas 
costas de Franca e de Portugal ; os que livrtrao 
melhor se encorporarao com a sua capitanea, aca- 
bada a tempestade, e seguirao sua viagem at^ a al- 
tura de Pernambuco, d'onde se descobnrao no 
principio de Feyereiro, Tomirao porto no Arrecife 
com sessenta ndos, seis mil infantes, e ires mil 
homens do mar, Vinha por general da armada um 
Flamengo chamado Vangoch , presidente no su- 
premo da Companhia ; o qual , tan to que desem- 
barcou^ fez entrega do bastao de general das annas 



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CASmOTO LUSITAliOii AW 

a Siigisnundo Vaneschop, peeRoa muitas vezeft 
r^rida no discurso d'esta hiatoria ^ como figurt 
principal d'esta tragedia. For muitos dias festejott 
o inimigo a grandeza do soccorro, julgando-se 
livre da oppressao em que estara, e senhor do im*^ 
perio que perdfira ; em quanto os nossoe sem outra 
e8peran9a que a da protec^ao divina, continuayao 
firmes em sua constancia^ esperando na razao e jus^ 
tiea de sua causa achar o premio de sua fidelidade. 
XXVII. Nao sei eu quando a fidelidade portu- 
gueza se vio mais apurada, nem quando a pacien**- 
cia militar mais soffrida ; nunca o valor dos ho-^ 
mens sobresaio mais esclarecido que nesta occasiao. 
Tudo quanto a antiguidade n'esta materia nos 
deixou escripto para assombro chegara, quando 
mais, a ser somln^a do que escrevemos. Que vas- 
sallos houve no mundo, que em razao de vassallos 
se possao comparar com os moradores de Pernam« 
buco, que no maior desfavor dos principes^ na 
mais dilatada perfia das tribula^oes^ perdessem fa- 
zendas, desestimassem patrias, e offerecessem yidas 
par nao faltarem & fidelidade de seu monarcha ; 
avaliando por menos sensivel a perpetuidade do 
perigOy e a continua^ao da perda que a observancia 
da iealdade? Digao-me os noticiosos em que idade 
tiverao os principes similhantes servos? A que 
gente nao alterouoanimo, nem a falta do soccorro^ 
nem o desprezo do servi^o, nem a desesperacao do 
premio para abrir em seu peito a menor brecha , 
por onde podesse entrar o minimo pensamenlo de 
infidelidade ? Que coracoes achou a experiencia sem- 
pre firmes do servico de sua patria y quando por 



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iSO GAsnioio umTAMa 

espaco de vinie e qualro annos; umas vezes sujeilos 
a tyrannia^ outras i necessidade, constantes nos 
inrortunios , vigorosos nos trabalhos , incaocayeis 
na tolerancia, desprezados, famiotos e despidos; 
rogados da abundancia e da commodidade, sem 
que por imaginacao claudicassem na firmeza de 
leaes, mais promptos em dar a vida que em resol- 
ver a trai^ao? Resolutos em tomar as armas a benefi- 
cio de sua liberdade, sem imperio que os obrigasse ; 
sem esperanca que os persuadisse ; e sem premio 
que 08 atrahisse, continuarao um e muitos annos, 
de noite e de dia com as armas as costas, sem recu- 
sarem as marchas, sem fugtrem is expedicoes, sem 
Cemer^n os perigos; vencendo as opposicoes do 
tempo e da fortuna ; iias diias comedidos, nas des- 
gra$as animados, nas ordens obedientes, nos tra- 
balhos alegres, nos castigos reportados, na disci - 
plina observanteSy nas occasioes valentes; nunca 
vencidos do medo , sempre vencedores do perigo ; 
nos encontros mais arriscados, sem (erem confa 
com o numero, a tinhao s<i com a honra, avaliando 
o poder inimigo por contrario, mas nao por desi- 
gual; olbavao o excesso para o veneer, nunca para 
o recear. Que valor foi similhante a seu valor ? 
Julgava sua ousadia, que nem as balas dos inimigos 
feriao, nem suas espadas cortavao; tao senhoresdo 
proprio perigo e do poder alheio, que nunca a des- 
graca os achou sem animo , nem o infortunio sem 
ordem. Em dm que em todas as idades, e a (odas 
as nacoes do mundo podem servir os Pernambu- 
canos de exemplo na fidelidade, no valor, na cons* 
tancia , na disciplina e no soffrimento ; que nao 



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GASmOTO LUSTTAliO. k%\ 

importa que os antigos fossem primeipos no tempo, 
como fiquem excedidos da vantagem ^ poia 6 certo 
que nao adiauta a idade seuao o mereGimento. 

XXVIII . Vendo-se os uossos governadores deseoH 
parados de soccorro , tratiirao de aproveitar todos 
OS noeios possiveis para tornar a defeza mais efficaz. 
Assentdrao primeiramente que as forcas reuuidas 
erao mais fortes, e para esse fim mandarao arrasar 
todas as estancias, e tirar d'ellas todos os presidios; 
eassim mais a infantaria que se aquartelava em 
Iguaracu , Pao-Amarello , Juguaribe , Paratibi , e 
villa de Oliada. Decretarao que nenhum morador 
passasse os termos da villa de Sirinhaem » e que 
eutre ella e a Moribeca se fizesse o alojamento mais 
distante. Mandarao que se conservasse a fortaleza 
do Arraial e ada Bataria, tirando d'esta a artilharia 
de bronze para a fortaleza do pontal de Nazareth , 
que necessitava d'ella. Da Yarzea mandarao retirar 
todos OS moradores com sens gados e alfaias, os 
quaes unidos ao corpo do exercito dos differentes 
presidios se recolherao ao Arraial deixando arrasa- 
das as outras estancias. Despedirao os governadores 
varios ofliciaes da milicia, com apertadas ordens, 
para reconduzirem todos os soldados, que pela 
campanha andavao licenciados e fogidos; e para 
fazerem recolher ao Arraial todos os moradores do 
reconcavo, que podessem tomar armas, com bandos 
publicos de perdao geral para os homiziados, e 
gravissimas penas para os remissos e reheldes. Exe- 
cutarao estes ministros o mandato com tanta saga- 
cidade epromptidao, que nos primeiros dias d'Abril 
se fez no Arraial mostra de toda a nossa gente, e 
L 31 



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we acbirio tres mil dinentos bome&s de pd^. 

XXIX. OeeuptvA-se entranto o Hollandes em 
discrplintPftenssoldados, ea exercitik>»nas annas; 
fsia era toda a occupacao de Sisgismando e de aeus 
eabos, pafa augmeafarem sua polencia ; a dos coik» 
selheiroa do supremo , por outra vereda busetva o 
mesmo Am : excogitavao enganos, arteficios^ e apa- 
rencias com que defraudar a dos Portuguezes. 8a jreo 
com um ardil , proveitoso em outro tempo, porim 
no presente despr^sado com a experienoia de cavil- 
loso. Form4rao um amplissimo perdao, que copiado 
innumerareis vezes mand4rao espalhar por todas 
as paries, pelo qual promettiao esqueeimeoto de 
culpas e lembranca de premios para todos aquelles 
que, reduzidos, fossem ao Arrecife em termo de 
dez dias tomar passa-portes de alliados , e jura- 
mento de fieis. Entendiao que o temor de sua po- 
tencia faria obrar o ardil com efficacia : passou o 
tempo, e virao nao ser d'effeito algum a diligencia. 
Tiverao para si que fdra desconfian^a , e nao des- 
prezo, porque se flzera geral a promessa, e nao fol- 
lava com pessoas delerminadas. Mudarao-Ihe a 
f6rma, e dentro em cartas, que mand&rao a particu- 
lares superiores, remett^rao o perdao, e em termo 
cerfo pedirao asrespostas. Transcreveremos aqui, 
traduzida do flamengo em portuguez , a que man- 
ddrao , por modo d'embaixada , aos nossos gover- 
nadores Joao Fernandes Vieira, e Andr^ Vidal dc 
Negreiros : conttnha cstas formaes palarras. 

« Por ordem particular que tlvemos man- 
» dada a nds pelos poderosos Estados geraes, Sua 
D Alteza principe d'Orange, e a geral oufrogada 



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OMnmo umnao. Ml 

M poderjichegiclo«eoutro<{uee8l«nnta|Mmnd<i 
j» para prooeder oon<ra os que se examrM do 
M Dosso domkiio, oonforme a dita ordem (ja dutra 
» Fez a todos intimada}^ em que inandio oe ditot 
a senhorea que a qualqoer peasoa de qnalqser 
M n^ao, ( 6tado e condicao que aeja^ outrogu^mos 
» em aeu nome perdao geral de rdieiiiao, desobe^t- 
M diencia^ conspiracao , e qualquer outro delicto, 
)• ainda que seja uma e muitas tezcs cotnmeCtido. 
i) Em comprimento do que, o temos aaeini coiice«> 
)> dido e pubiicado ; e o uotictamos a Yoaaas Se^ 
» nhorias com infallivel cfrteza de que ludo da 
)) nossa parte sera < omprido exactamente; e sobre 
» esta declaracao esperatnos sets dias pela respoeta 
)i de YossasSenhorias. — Feita em o nosso conselho 
>» do Arrecife em dous de Abril de mil e seiscentoa 
D e quarenta e oito. w — Joao Bolertratbr. — * , 
Hbnriqob Hamel. — Pbdro Bokrs. — Ptlo secret 
im'io : Joao Balbbkbs. 

XXX. Virao os nossos goveroadores a oaria e 
o edital do perdao , cuja copia Ihes remetiiao in- 
cluBa; communidirRo com Francisco Barreto de 
Menezes o que ae devia fazer, e assentoo^se que 
deasem conta ao sargento maior Antonio Diaa 
Gardozo , e aos governadores de Minas e Indio) 
D. Antonio-Philippe Camarao e Henrique Dias; e 
discutida a materia, se determinou que Joao Fer^* 
nandea Vieira, e Andr^ Vidal de Negreiroa, como 
cabecas do exercito e dos morodores, reepondesatm 
i carta. Tomarao tempo, e respond^rao nesta r6rma. 

« As artes de que Vossas Seuhorias se val6rao 



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kSk GASTUOTO LU8ITAN0. 

» sempre sao as de que usao agora, com a differenca 
I) que no tempo passado serviao ao engano , e no 
*) presente ao aviso, porque aquella confianca que 
» acfaavao na singeleza destruio ja a caviUacao de 
» sua malicia. Ao mais bruto animal ensina a na- 
» tureza a conhecer o laoo , que alguma vez Ihe 
» tirou a liberdade, abominando o cibo, com que 
I) o deseja persuadir a astucia do cacador. pi- 
» lolo menos experto sabe fugir do baixo , a onde 
» uma yez tocou , por mais que o escondao as 
» agoas. Com esta adyertencia se responde a esta 
» embaixada , e nelia nos conbecerao Vossas Se- 
» nhorias ensinados de sua mesma diligencia. O 
» ultimo ponto de seu decreto sera o primeiro de 
)» nosso reparo, e o verdugo de sens enganos. Bern 
» mostra a pouca i6 que tern com Deos, quern se 
» vale de Deos para faltar a f<^. Que credito esperao 
» dem a suas palavras aquelles mesmos homens 
» aos quaes nunca guarddrao palavra, nem satisfi- 
» zerao promessa ? Mai negocea quem imagina que 
» com a lembranca das offensas obriga. Quem 
» nunca tratou verdade, como ha de persuadir 
» que nao foi sempre mendroso ? Se todo o muudo 
» sabe o falsi ficado de seu trato, como esperao que 
» o mundo os testemunhe verdadeiros ? Em que 
» parte d'elle deixou de ser cavilioso seu estilo? 
» Em que tempo comprirao o que jurarao ? Di- 
» zendo as gentes a gritos, de escandalizadas : Nes- 
» tas capiianias com mais crescido brado , porque 
» nellas com mais despejado excesso. Com lagri- 
M mas de sangue chorao Cunhaii, Rio Grande, Var- 
» zea, Ipojuca , e quasi todas as povoacoes d este 



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GASTRIOTO LUSITAMO. l^»b 

» reconcavo, a singeleza com que cr^o snas pro- 
» messas , e o rigor com que pag^rao sua incauta 
» credulidade ; e quern a todas as horas ouve o las- 
» timoso gemido que aecusa, nao p6de em alguma 
» dar assenso ao afago que eugana. Se seus de- 
» sejos Ihe persuadem outra cousa , 6 sem duvida 
» que assim como nos querem destruir a liberdade, 
> nos querem tambem tirar o juizo ; e so tirando*- 
» DOS o juizo, nos mudarao a yontade. Tern para 
» si que os moradores d'esta capitania sao troncos 
» sem sentimento para as chagas, sem juizo para 
» as curas? Nao se curao jis feridas com o mesmo 
» ferro que as abre. Porque nao podem executar 
h a vinganfa, escondem a espada debaixo do per- 
» dao ; e para que nos custe mais a pena , nos 
querem vender passa-portes do tormenJo. Se 



» 



y> nos desejao beber o sangue , a que fim nos pro- 
» mettem conservar a vida ? Se nos querem rou- 
3» bar as fazendas, como se oflerecem a guardar^ 
» nos OS bens ? Chamao-nos para a injuria com a 
» voz da honra? Glemencia cbamao a impiedade? 
» Nunca mais cega sua paixao. Que clemencia ou 
x> que favor ha de esperar a oOensa, se experi- 
» mentou no servi^o exorbitances tyrannias? Quem 
)» nos maUratava sujeitos , como nos ha de estimar 
» rebellados? Muito ha que passou o tempo em 
» que o artificio hoUandez conquistava com pala- 
>> vras, porque ha muito que passou o tempo, em 
» que a candideza cathohca se iiava dos herejes, 
» imagidando homens aos mesmos que a igreja 
» em todo tempo intitulou feras. 

» Nao achamos meuos disformidades nas amea- 



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n €o» que M» pTMieMM^ R«co«litttB»e» o iFsAor € 

)i seevk^ p«lft #» merfor opmM0. CerlM 'e9lBiii06 
» na polenm 4e Mas* aramdsi ; e mo x mm esH 
» com4c a do* 8oecorr<» cpe eoaditzio s (fne i^n 
)» e»Ur surla na knpra 4'«96e Arreerfep ; e con tacfo 
» rotai»r » o tM loAge* ^ a femer^ qur ehordmoB 
» oefB: ignaV haslma o infortnnio q«ie 119 caosl a 
>» defraudon, petia gloFiaquen^dimiMrfo. Espe^ 
»• pm}enl*ado tern os senhores Hoikmc^e^ que a 
» espadb peHugneza mo nece$s^ de 9e medir 
» para cortar; e qae e kpaco d*e9te» Hioradores 
»^ » fHTicte Rao ehe^ com a forca>, eh^a 00m e de^ 
»* sejo^; yerdlade rektada 9 e ouf ida- per IMtas k>^ 
» cas, qnantas-'^dao aa fernhis de 9eu9 eanlrariea; e 
» q«a»did em alg«Hiaa feke jf[ a ¥oz dio meiigue 
;^ para a dk^efeBi , aao ha^era peucaa ^oeo digito 
n- pop sinaas. QuaBto meri&, €fue reduzidt) neeso 
D' pudev a* um- corpo (eomo e»li hoje) igmdaiMs a 
* Vossea Seahoria^ eni omimero da gpenfe, e os 
» exeedlsrao» miiito era qvalidade, vsthv e pratiica; 
>^ com aquefiadSsparkMle, que se aeha em defen*- 
» d^p ppopiw, ou eonquisl!ar oaHieio; em scrvir 
> por paga-, ou pdbjar perhofirra* em ctefender a 
» vidfe-, on em* veneer o soldo^. No provimento das 
»' mimboes', eom* terBfioB menos, estamos-mara so^ 
»* fcnados-, porcpie usamos maifr espadtaia qtie mos>- 
» queiea ,- e-em* Bossas* maos obra mais* o ferro que 
» achumiio. 

». Em qiianto ao» auxiliares de que* Yt)ssa5C S^ 
» nhorias fazem tatito cabedal j dte methor pattidb 
» estamos com* 09 poucos que temos> db que Tossas 



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» Setihoriag ood wuitos que contao; porque a mul- 
» tidao do% l3ruiO0 (bx maior carrua^m, mas om 
» fiu loaior eMrcko i buteaiio as oocaaioea pan 
M o de6po|o , mae mo para a halaiha i e bem m 
^ fide descartar d'eUes quern «f t4 tao loii^ da 
» ykloria. Esta uoa proaeUe um Deos, a queoi 
» aervimos^ cuja ki guafdatnos tern erros ; cuja 
«» honra de£endemo6 com zelo ; cujos a^grayoa et^ 
» peramos castigar^ cqbio minisiroe de sua jiuiica( 
» a qual tera em seu favor quern defende o proprio; 
» e contra si quern tern roubado e quer roubar o 
» alheio. Frivolo i o pretexto de querer cobrar o 
» devido. Se Vossas Senhorias disserem, que alguns 
» particulares Ihes devem algumas quantias de di- 
» nheiro, ponha-se a causa em juizo^ e se Ihes pa- 
» gara o julgado. Nunca as armas derao boa razao 
» do direito : fugir a senlenca da lei para a esperar 
» das armas, 6 extorcao da violencia, nao 6 estilo 
» da justi^a. Se Vossas Senhorias quizerem liligar 
» o pleito, neste tribunal nos acharao conformes, 
» e f6ra d'elle, tao enconlrados, que desde este 
)» ponto OS esperamos em campanha com forcas e 
» animo para darmos uma e muitas batalhas, e 
» nellas as vidas pela causa ; e se nos faltar a vic- 
» toria, nao nos ha de faltar terra para as sepultu- 
» ras^ nem honorificos epitafios para a memoria ; 
» que sabem as idades eternizar o nome de quem 
» sabe morrer em defensa da patria. — Arraial em 
» sete de Abril de mil seiscentos e quarenta e 
» oito. » — Os mestres de campo, governadores 
da acclamacao da liberdade. — Joao Fernandes 
ViBiRA.— Andre Vidal de Nbgrbiros. 



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IhHH CASTRIOTO LU81TAN0. 

Nesta mesma substancia, posto que por diflerea- 
tes palavraSy escrev^rao D. Antonio Philippe Cama- 
rao govemador dos Indios, e Henrique Dias gover- 
nador dos Negros; e todas estas respostas foiio 
remetddas ao Arrecife por um enviado, que as en- 
tregou nas maos dos superiores d'aquelle govemo. 
Estiverao alguns dias indecisos, atj4 que se resolve- 
rao a sair a canipo a dar oomeco a canipanha^ cujos 
i^esultados veremos no segoinle livro. 



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CHAPITRE XL 



SUMMARIO. 



1. Manda El Rei entregar o governo das araias a Francisco Barreto 
de Menezes; em que estado o recebeo. — 2. Sai o Hollandez do 
Arrecife, e com que poder ; raarcha para os Affogados.— 3. Dd-se 
rebate no Arraial ; o mestre de campo general cbama a conselho : 
o que nelle se assenta. — 4. Manda o inimigo picar a estancia do 
Barreto ; a qua! se perde. — 5. Marcba o nosso exercito contra o 

~ inimigo , e em que f6rma.— 6. Descripcao dos monies Guararapes ; 
do sitio do nosso alojamento , e tambem da Moribeca.— 7. Aloja-se 
a nossa gente ; o inimigo a avista, e furma a sua. — 8. Disposicoes 
para a batalha ; tocao os exercitos a envestir; os Portuguezes rom- 
pem A espada pelos esquadroes contrarios.— 9. Os inimigos des- 
tro^ados largao os montes ; perdem o estandarte real. — 10. Os 
Negros e Indios nos arriicao a victoria. — 11. Com a gente de 
reserva se cobra o Flamengo no perdido. — 12. Sisgismundo Tai 
ganfaando terra; os nossos mestres de campo o recebem e rebatem; 
profia do combate. — 13. Casos particulares d'este encontro. — 
14. Francisco Barreto manda cortar o passo a Henrique Hus ; re- 
tira-0e Sisgismundo , e depots de cinco boras de combate largao 
OS inimigos o campo em desordenadt fiigidi. —15. Tomao of 
nossos refei^ao e descanco ; foge Sisgismundo para a Barreta. — 
16. Celebrao os nossos a victoria. — 17. Perda do inimigo, e 
nossa. — 18. Capitaes que se acbdrao no conflicto. — 19. Cfaega a 
notida i Babia.— 20. £ntra Sisgismundo no Arrecife, manda 
ganbar a villa de Olinda ; occupa a nossa fortaleza da Bataria. — 
21. Reeoperao os nossos a villa de Olinda ; o capitao Barros de- 
saloja inimigo , e Ibe segue o alcance. — 22. Sirgismundo pede 
OS seus prisioneiros ; cbega ao Arrecife um soccorro de HoUanda. 
— 93. Os negros de Henrique Dias csstigao o inimigo , que se 
retira eonfnso. — 24. Manda Sisgismundo dous mil bomens sobre 
a estaocia de Henrique Dias, que se retirao bem castigados ; entra 
em nosso Arraial soccorro de gados e gente. — 25. Doenca e 
morte do Camarao; suas quaKdades e virtudes. >-26. Faltao os 
mantimentos no Arraial e do Arrecife ; d'elle sai Sisgismundo com 
a armada, e vai destruir os contornos da Babia. — 27. Forma-se 
a nova eompanbia do commercio geral. — 28. Entra o inimigo em 
1IOTO0 peBMBi«iit«0 de oonqoUtar a camptnba; aprestoi que Cu 



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490 CASTRIOTO LUSITAIfO. 

para ella. —90. Preparao-se os nossof para a resistencia.—ao. Sai 
o ioimigo do Arrecife; con que gentc, e em que fdrma.— 31. De- 
termina-se a bataiha , com parcecer de Joao Fernandes Vieira. * 
32. Manda Pranrisco Barreto recoohecer o sitio e fbrma do iDimigo. 
— 33. Joao Fernandes Vieira chega primeiro As maos com o inimigo 
que desbarata; sua yaloroaa coofian^a. — 34. Andre Vidal rompe 
inimigo, omesmofazem os autros capitaes, e o poem em fugida; 
Joao Fernandes Vieira ganha a artilharia do monte. — 35. Andn$ 
Vidal se ?^ alalhado d'um esquadrao inimigo, por^m resiste-Jhe ; 
e p(>e em i'ugida. — 36. Joao Fernandes Vieira assenhorca-se da 
artilharia do inimigo fazendo-lbe grande estrago, em que morreo o 
general das armas, e o almirante do mar; com a sua presen^a se 
dill firo a balaiha, e consuma a victoria. — 37. Francisco Barreto 
abraca e honra todos us cabos e soldados ; festeja-se a Yictoria, e 
dao-fse gracas a Decs. — 38. Perda d*uma e outra parte ; pritio- 
neiros e despojos que deiiou o Flamengo. — 39. Cabos que se 
ach^rao n'esta occa.<iiuo. — 40. Volta a nossa gente para o Arraial ; 
d^-se licenca ao Hollandez para enterrar os mortos ; ?ai o capi- 
iao bollandei ver o nosso Arraial ; como, e para que- — 41. Sos— 
peiisao d'umas e outras armas; sai do reino a primeira firota da 
Companhia geral.— 4^. Sisgismundo manda assallar a ettanck do 
Mendonca, a do Aguiar e a das Salinas, e em todas € mal succedido ; 
manda uma esquadra ao rio de Suo Francisco. — 43. Na estancia 
do Mendonga perde o inimigo reputa^do e gente; no Rio Grande 
casUga Joao Barboza Pinto. ~44. Manda Franciiico Barrelo provo* 
car inimigo; com que successo. — 45. Antonio Dias Cardozo vai 
ao Ria Grande; o que nelle faz. — 46. Suspensao das arraas inl- 
migas« e por que causa ; torna o inimigo a sair ; enconka a estancia 
do Aguiar com dobrada guarnicao ; retira-se destrocado.— 47.MMida 
Sisi^smundo uma ^squadra ao Rio de Sao Francisco ; o que Ihe 
succede. — 48. losiste em ro^r a estancia do Aguiar, e sempre 
paga af custas. 



I. No mmh vivo emprego das prerettcoes com 
tjue o inimigo se dispunha para a conquista, e os 
iioMosparaa defensa^ oonio deixamos dito no livro 
|)Te'ccdiente, chegou ao Arraial de Pernainbuco (ctm- 
tavao^se 1 5 de Abril de 1 648) um caireio mandado 
^iteMaf)de'gciMfFerlda«w«^ ¥€«t<0mMhe<de¥ifia- 



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BmniNro de IMMMdeiV ^ lh» trbok ifceiiftff gomo a sen 
wtiitit dr eaflH^frtMrnll^ tkommrim # |mtkb' pc^ 
Sm»Mag«sladli»^ diwMk^qve iiipfiMld*^ a<ieid«iiteK 
Hie Mi9p€»46rao o m%vdmor^ Ma* Hk^ derrogarao a 
Uttered Cpe o cKlo seohor Air tmb« fi^a^vaMhr^ 
tti^nidecf 9erm aquette'twgQ^^ Era* para receiar (fM 
eMii* esta mot^^a <!^ c^fe doffretsM a catrai^ (i» t»- 
btfdade, e ate se efcegapao * temer sedfcoes ; mm a 
prmfeneia e wodesviar cte n«^€^ Hfie^ti^e cte campe 
gM^ra) e » SlAn]4sstt<^ dtos amtig^ eemeifiarao de tal 
modb an- eovme- qfu« liarveMlb AMNksHieap nas peasoaa 
iHmea a hou^e* ii# gat^no*. €omo potem $e faz 
rtwiiew da* e«ti»egap do> biteCHio a^Ao^c* govenwwtoif 
dka^ arme9, ewmpf^ qwe* dfemos coAta rfeste hig» 
^ estado em qwe ella* se atebaPw^. — Tonxm Joat) 
FeriaKtes*Vif?iwi'Sdbfe ^tKj hombros a emprtfza d^ 
liberdade, quando ella se ju^;«rra'cfe t^wfcy pefdida ; 
|M>E-9eemcam^ miHt9 todtr ao|l^ifitiae*, rs^assisrido 
dot eonfiaficaqiue tit^'em Beo»v do^^o dfeereligiSd 
e dfo bemcKeepatriia. Sem aMia^ ^ sidldadoir vettcee 
e mimige queo budcava eom 9eldado» e arrmffs M. 
bfrtaMia dasTabocas. Depots unid'o com- o mescre dt 
cafmpe Andi* Vidai* dc NegveiW)* , ganfiairato' a vio 
ttem> qtte perdeo o Flaroengo no engenho de JBkma 
Anna Paca; e nove florfadezaB, com outras redutos 
c casafs fortes; pertb de ohentSti peeasr d'anilham 
dfe^ diversion calibnes^ ap maior parte dfe bronzte ; ar* 
mas , munieoes , e- peti^Kos de gtterra em' tant^ 
quantidkdk, quaitfa basttm para'stisftntara gtierra 
TiT^em-eiwe* amrfos'CAiAmibs. ife*dliw:tttwd'cltefe 



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yn CASTUOTO LOSlTANa 

libertirao da siyei^ao hollandeia oento e oilenU 
legoas de campanha que se contao do Seara M orim 
at<S o rio de SJio Francisco com morte e prisao de 
dezoito para dezanove mil contrarios. Dos morado- 
resfizerao soldados tao animosos e destros, que a 
8i mesmos se desconheciao. Nao foi menos a diffe- 
renca que se vio no recibo e na entrega : para sus- 
tento do exercito entreg^rao mantimentos para 
dous mezes ; para pagas dos soldados vinte quatro 
contos em ser, dezoito mil cruzados em eOeitos, e 
em dividas com facil e certa cobran^a. A gente dis- 
ciplinada, o inimigo reprimido, os moradores tra- 
tados com cortezia, prudencia e af&bilidade. Ulti- 
mamente p<ide-se dizer que derao a coroa terras 
e yassallos que podesse governar, e sem dispendio 
da fazenda real ; e a seu principe derao a gloria de 
de o ser de vassallos tao obedientes e leaes , que 
podem ser para todos os subditos doutrina, e para 
todas as idades modelo. 

II. Em quanto os nossos se preparavao para a 
resistencia y preparava-se o inimigo para o ataque. 
Achava-6e Sisgismundo general d'um exercito nu- 
qieroso e luzido; cabos peritos e valerosos, officiaes 
praticos e destemidos ; soldados de varias na^oes, 
por^m exercitados em uma mesma discipUna ; co- 
nhecedor de nossos cabos, de nossos recursos, e do 
terreno que pisava ; isto nao obstante differio por 
bastante tempo o por-se em campanba : o que ja 
excitava murmurios na plebe, e accusa^oes da parte 
do governo; al6 que picado d'estes estimultos saio 
do Arrecife pela uma bora depois da meia noite 
17 d'Abril de 1648^ com sete mil quatro centos 



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GASTBIOTO LUSlTANOb 69S 

eombatentes , deixando de reserva o ooronel Hen^ 
rique Hus ( ja livre de nosso poder ) com mil in- 
fantes^ e ordem que em tempo certo se fosse iocor- 
porar com o exercito nos montes Guararapes, como 
depois fez. Soldados auxiliares entre Negros e In* 
dios mil e quatrocentos, e sete centos gastadores; 
e para que Henrique Hus nao perdesse tempo , Ihe 
deixou ordem secrela, que com seu terco fosse sa- 
quear e passar a espada toda a gente da Varzea ; 
mas foi errado seu projecto, e inutil a ordem, por* 
que toda a gente se tinha retirado como ja disse- 
mos. Levava seis pecas d'arliiharia com municoes, 
armas e mantimentos de sobre-selente, e muita 
quantidade d'algemas, grilhos, cadeas, e cordas 
para prender e maneatar os captivos. — Com bel- 
licosa ostentacao de caixas , clarins , salvas e vozes 
se formou, e poz em marcha para a sua fortaleza dos 
AfTogados, meia legoa para o certao, para o poente, 
onde fez aito ; foi recebido da forlaleza com tantas 
salvas e vivas, que parecia adiantar-6e o triumpho 
a batalha. 

III. Naquelle lugar declardu Sisgismundo a sens 
caboso seu intento, que era occupar a Moribeca, 
povoaqao situada quasi nas fraidas dos montes Gua- 
rarapes, cinco legoas da Nazaretb, e tres do nosso 
Arraial; para d'alli continuar as suasoperacoes. De- 
rao as nossas sintinellas noticia do inimigo ; tocou- 
se arma no Arraiai, pegou a nossa gente em armas ; 
e formada esperou as ordens que havi^ de seguir. 
Com a claridade do dia , se descobrio um grosso 
esquadrao interposto entre a nossa gente e o sitio 
em que se alojava o capitao Antonio Borges Uchoa, 



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t qoem ftna fvente com deoMNKtMcao At 
kiveiCir aquella esUneit : indiMtrift, de qoe fe vaiM 
para eneobrar a passagem de mu exerctU pan a 
outra parte do no , pelo v4o doa Afibgadoa; o que 
eonseguio fartado aoa notaoa olhoa, cnja rista not 
cegara o vulto com que o fittgimeoto noa desviava 
oa olhoa e a auspeiu. '^ meslre de campo gene* 
ral Francisco Barreto dc Meaezea chamou a oon«* 
selho OS caboa maiorea, e em sua determinaeao 
deixou o que se havia de aeguir na occaaiao pr&* 
sente. Nao erao mukos os votos^ e ainda asaim dia^ 
cordarao noa parecerea. A menor parte foi de opi- 
niao que ae nao devia fiar a aalvacao de iodoa i 
fortuna d'uma batalha ; que o maia prudence seria 
recirar-se para o cabo de Santo Agostinho, terrene 
em que^ favorecidos doa mates e do tempo poderia- 
mos oonsumir o HoUandez. Nao foi d'esta opiniao 
Joao Fernandea Vieira : antee sustentou que se 
deTia eaperar o inimigo a p^ firme j porque execu- 
tad^ a retirada, era forcoao deixar nas roaoa do 
inimigo as fortalezas, as familias, e as fazendas, 
unico soccorro das vidas ( que na batalha , ou se 
havia de alcancar a victoria j ou perder a Tida ; e 
em caso que a fortuna adveraa nos tirasse a sorte 
de veneer justificados, nao poderia tirar-nos a gloria 
de morrer valorosoa, como fieis a Deos, obrigadoa 
i nacao , devedores 4 patria , e leaes ao principe. 
Conformou-se o niestre de campo general como pa- 
recer de Joao Fernandas Vieira, que tambem foi de 
Andr^ Vidal, e etitregou a aeu cuidado a disposicao 
da guerra e a fdrma da batalha , redervando para 
ai o dominio de ftizer exeeular asordens. Foi a pri- 



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npiQira qw se dm aos esquadroefi , qu« ^ib$gn^ m 
QQnllicU>» dada a primeira carga se m^tt^s^e mho a 
espada, e se inveBtisse o inimigo, Despediiio o sarw 
gento inaior Cardozo para a froQteira, para e^piar 
Q de$cobrir amarcba do inimigo, Eotretanto oo 
ouparaO'-se nos^s cabas em exortar 06 soldados 
com razoes yivas e efficazes, refrescandQ-lhefi a lem« 
branca das muitas vezes que tiobao vencido of 
m^$moft HoUandezes qua agora os buscavao. Che-«- 
gou neate tempo o sargento maior Cardozo , eiu^ 
formou que o iuimigo ia marcbando para a Barreta^ 
Com eata nova se mandou reeolher toda a nosaa 
geute para o Arraiala descancar e a tomar a refeicao 
quotidiaua em quanto nao cheg^va aviso do capiteo 
Canha do guccedido na Barreta. 

IV. Chegou a vanguarda do exercito inimigo 
a picar a Barreta, e o capitao d'ella Barthobmeo 
Soares Canlia , enganado da imaginacao, que Ibc 
pintou ser commettimento de duzeolos Hollaadezes, 
que de ordinario o inquietavao, com desejos de o$ 
easiigar saio a bu8c&l-*os fdra da fortifica^o com 
quarenta e seis soldados, deiKando ordem aos doua 
idferea seua, que com o restante da gente se nao 
movessem do posto que defendiao» aem expresaa 
ordem sua ; e conftado nas sentinellas, que deixira 
ao largo, de que o inimigo ihe nao poderia cortar 
a retirada, ae empenbou com tanta demazia, que o 
arrepeudimento o nao pode livrar do perigo. Pri- 
meiro se vio cortado que investido. Nao teve o ca^ 
pitao Canba tempo sonao para metter mao a espada 
^ animar os sens com o exemplo ; com ella na mao 
m m^teo pdo esquadrao do inimigo com tal ya** 



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&96 GASTRIOTO LUSITAMO. 

laitia e destreza, que se deo a conhecer a si pelo 
estrago e aos seus pela imitacao* Nao houve entre 
elles quein nao vendesse uma vida por muitas, de 
sorte que primeiro 08 vio o Hollandez mortos que 
rendidos. valoroso capilao , cercado de Indios e 
Tapuyas « os fazia afastar, ou cair com os golpes de 
sua espada, at^ que os rompeo, com espantodos 
Hollandezes e assombro dos barbaros : o que me- 
receo dar-se-lhe quartel , contra o parecer de mui- 
tos. Os que forao investidos ns^estancia sustentarao 
o combate com admiravel constancia, at^ que yen- 
cidos do excesso se saWdrao nos matos, nao sem perda 
d'alguns mortos e feridos. Formado, e com as ar- 
mas na mao passou o Hollandez naquelle sitio o res- 
tante do dia e toda a seguinte noite; mandou Sis- 
gismundo vir do Arrecife a Henrique Hus com o 
seu terco, e proseguio a inarcha pelo caminho da 
Moribeca. 

V. Erao duas horas da tarde (tempo em que a 
noftsa gente recolhida ao Arraial come9ava a tomar 
racao para acudir a fome ), quando chegou aviso do 
que era passado na Barreta. Nao houve soldado 
nosso que se nao alvoro^asse ; e sem fazerem caso 
da comida tom^rao as armas, e formados marcba- 
rao com todo o poder, o qual constava de dous 
mil e quinhenlos Portuguezes , negros e Indios. 
Commandava a vanguardaomestrede campo Andr^ 
Vidal , e nclla ia incorporado o mestre de campo 
general Francisco Barreto de Menezes ; a retaguarda 
foi confiada a Joao Fernandes Vieira. Ghegarao a 
um lugar em que havia dous caminhos, e duvidou- 
se por qual d'elles se havia de marchar ; houve pa- 



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GASTRIOTO LUSITANO. 697 

reoeres encontrados ; mandou o mestre de catnpo 
general fazer aho , at^ que chegasse Joao Fernan- 
dez Vieira ; ouvio-se o seu parecer, o qual , sendo 
conforme com o do sargento maior Antonio IHas 
Cardozo, foi approyadoe mandadoseguirpelo mes- 
tre de campo general. Depois de cortada a ponte 
que podia dar passagem ao inimigo, marchou o 
nosso exercito para os montes Guararapes^ onde se 
experimentarao todas as utilidades do conselho, 
sem que se achasse o menor defraudo entre a 
promessa e a livranca. 

VI. Situou a natureza os montes Guararapes 

tres para quatro legoas do Arrecife , caminhando 

de norle a sul ; tres do nosso Arraial , quasi para 

o poente ; da Barreta duas , correndo do norje ao 

poente. Do monte j onde se come^ a empinar a 

terra at^ o mar, harera distancia de tres quartos 

de legoa de leste a oeste, campina rasa, de muitos 

loda^aes e alagadicos. Dos montes para o certao 

vao continuando as serranias com mais ou menos 

altura; e digo serranias, porque mais o parecem 

que montes, pelo subido, agreste e aspero d*elles. 

Alguns formao tamanho corpo que parece levantao 

a cabeca sobre as nuvens, e pela maior parte sao 

de cadencias que espantao a yista, e a consideracao 

com o despenho e com o profundo; tanto qu6 

suas cavidades querem persuadir que nao parao 

senao no centro da terra. Das eminencias d'elles se 

descobrem dilatadas e ferteis campinas por grande 

distancia de cerlao, que igualmente suspendem e 

recreiao ; e olbando para aparte do mar, se vtem 

muitas legoas de eosta e golfo, em fdrma, que pri- 

t 32 



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meiro se acaba a mU que o abj««tQ, Vmmi 
<l'esie$ moQleSy em partes 6 saibro. «m part« terra 
aolu, como area ; em muitas, pedras desuDulas tM 
pcmderQ$a$ e maciwaft, que pela cor e peso querma 
parecer fenro, rauo por que aa agma da^ iayamadaa 
tem feiio oellea quebradaa, grutas, e barranoM am 
tanto Qumero e allura, que se nao olbao sem medo 
e sem perigo; o de caminhar por elles de cavallo 
6 temeridade ; de pi atrevimento* Todos sao escal-* 
yados, e o natural d elles tao escasso, que se criao 
alguma arrore, i infructifera e agreste. As fraldaa 
d'eslas serranias se cultivso, e acodem com os fnic- 
tos, ajudadas da bumidade qqe reoebem das montes. 
-p- GuararapeSf na liogua do geutio i i o aieamo 
que estrondo, ou estrepito, que causae os iostru^ 
mentos de golpe^ oomo siuo, lambor, atabale, e ou* 
tros ; e o rumor que faiem as aguaa pelas roturaa 
e eoDcavidades d elles Ihes deo o uome de Guara* 
rapes. ultimo d*estes mantes^ saiudo d'elles pan 
o mar^ asseuta o pi sobre um meio circulo de terra 
cba pela parte do sul, que tambem o eerca pela do 
mar (pela terra Qca unido a outros mcntes)! oin** 
gido pela parte da eampina d'um clilaudo alaga-* 
difo, oausado d'uma lagoa que Ihe da prineipio^ 
formando^e uma faxa de terra aolida, que teni de 
lai^gura poueo mais df oem passos, entre o alaga<* 
di9o e o monte ; para a qual se entra por um bo* 
queirao, que formou a naiureza entre a lagoa e 
uma lingua de mato, que desce do dito moiite* 
Pela dita boca enlrou a nossa genie, e se alojou 
naquella faxa de terra oom as eommodidades e for*- 
tifica^oes, que Ihes da^a e sitio^ mko aeado a ineftar 



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qAinawQ lusitaiio. 4W 

ficar Qscondida aoa olhoa do Flamengo, porque 
ra do9 monte^ nqs podia deioobrip. Fa^a o leitor 
ipemoria das particularidados referidaa part en- 
tender com mais clareza a$ cireumstanciai da ba*- 
talba <{iie logo havemof de relatar • A povoagao da 
Aloribeca ( que o iniinigo intentava poatuir, oomo 
. fundameoto de seu designio) fica uma l^goa dos 
moQtoa Guararapes ( pequena pelo numt^ro daa 
casas que a formao, grande pelo dot vizinhot que 
a cercao em particulares vivenda«). terreno fei^- 
tiliaaimo pela abundancia e bondade dog rruetot e 
daa criaa ; retalbado de pequenoa rios, eujaa aguas 
l^va ao mar^ o que chamao da Moribeca> que banha 
e da Home & povoacao. Tudo requisitos de grande 
convenieacia para o intend o de Sisgitmundo. 

Yll* A 18 de Abril de 1648 arrostarao os nossos 
oa monies Guararape^ j e seguindo a direo^o de 
Joao Fernandes Vieira» entr4rao pelo boqueiiio, e 
ae alojou a gente em fdrma prolongada. Tom&rao- 
ae todaa as precau^oea em taea casoa neeeasarias^ 
poaerao-se sentinellas^ mandou^se Antonio Dias 
Cardozo para observar o inimigo ; quando nesfe 
mesmo tempo cbegou o capi(ao Bartholomeu Soarqs 
Ganba, o qual pod^ra escapar^i^e da Barreta; re- 
ferio o poder e o pensamento do Hollandea com 
tudo que at6 aquella bora tinba auceedido ( ii)i 
ouvido com aegredo e avizado com preoeito que 
nenhuma couaa dissesse diante dot aoldadoa no to- 
oante ao exeesao que o exe reito inimigo noa fbala 
cm numero. Oa nossos governadorea mandarao ae- 
gunda vea o capitao Cardoto com sessenta homens 
para &zer frente ao inimigo ; os quaea o reoebArto 



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5M CASniOIO CDSTTAlia 

com uma carga, e o forao conduzindo, sem yira- 
rem a cara nem perderem a ordem, at^ o boqueiiio, 
no qual recolhidos , deixon o Flamengo de os se- 
guir. Ja nesta hora occupava a nossa infantaria 
toda a ladeira do monle em forma de peleja. Pela 
frente^ que £ma rosto ao inimigo , se deixaya ver 
de seus esquadroes a resolucao e a forma , que Sis- 
gismimdo olhava , confundido de seu mesmo en- 
gano. Julgava que vinha a yencer sem peleja, e a 
triumphar sem batalha, mas yendo a resolucao dos 
nossoSy mudou de conceito, e vendo que muitos de 
seus soldados perdiao as cores j correo os esqua- 
droes animando-os 4 batalha com a exhortacao e 
com a ordem. 

YIU. Em nove esquadroes formou o mimigo sua 
gente, a qual se compunha de Francezes, Allemaes, 
Ungaros^ Polacos, Inglezes, Suecos e outras nacoes 
da Europa , nao sendo a menor por^ao a dos Hoi- 
landezes. A vanguarda compunha-se de dous re- 
gimentoSy um de nove centos^ outro de oito centos 
soldados praticos , yalerosos e confidentes ; os mais 
UmIos erao veteranos tirados dos presidios de suas 
pracas, supprindo a falta coia os bizonhos, que 
naquelle anno conduzira do norte a sua frota. Os 
Indios, que nao tinha disciplinado a arte, como Ta- 
puyas e Pytiguares deixou em tro90S soltos e vo- 
lantes, para que melhor podessem s^uir seu estilo 
de pelejar; entre os quaes se ouviao innumeraveis 
bozinas e atabaques, que acompanhavao barbaros 
gritos. A nossa gente era menos em numero , mas 
de maior conta pelas qualidades de ser toda pratica, 
valerosa e portugueza , ^ou por nascimento ou por 



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GASTRIOTO LUSITANO. 501 

trato ; e armada da justica da sua causa , era me- 
Ihor armada. — A nossa vanguarda era comman- 
dada pelo mestre de campo Andr^ Yidal , o qual 
teve ordem que com o seu ter9o e parte do de Joao 
Femandes Vieira commettessem o inimigo pelo 
raso, que era o lado esquerdo, e pelo contra lado 
D. Antonio Philippe Camarao com seu terco de 
Indios. Joao Femandes Vieira foi encarregado de 
buscar o inimigo pelo alto dos monies, e por seu 
contra lado Henrique Dias com a sua gente. ca- 
pitao de cavallos Antonio da Silva teve ordem d'a- 
cudir onde a sua assistencia fosse mais necessaria. 
mestre de campo general , depois de tudo assim 
disposto, ordenou que ao primeiro signal se avan- 
casse ao inimigo por entre as balas de sua primeira 
carga, at^ que ao segundo se disparassem os mos- 
quetes da nossa parte em distancia assim propor- 
cionada^ que se nao perdesse tiro. Tocou-se a in- 
vestir ; mov6rao-se uns e outros esquadroes ; com 
mais ligeireza os Portuguezes, porque com menos 
corpo e mais espirito. Recebeo-os o inimigo com 
valor e disciplina ; mas nao Ihes retardou o passo, 
com toda a resistencia, nem com duas cargas d'ar- 
tilharia e mosquetaria que nelles disparou. Esque- 
cidos do perigo , attentos a invasao , rompiao os 
nossos por nuvens de fumo e balas que escureciao 
o ar^ sem que algum levasse a arma ao rosto. 
Quando ouvirao o signal esperado, que se deo a 
tempo que a proporcao da distancia nao deixou 
perder tiro , derao conformes uma carga com tal 
effeito, que a turba^ao e desordem dos esquadroes 
contrarios mostrirao elaramente que pod^ra mais 



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SOS GAITtiarO LDftltAltfAi 

a pirda que a ordcm* PassoU'-ie {>alavra qtle imre^^ 
tisaem & espada^ e achou a vot a obediencia Mb 
pToropia, e a occasiao (ao opportuna^ que em brere 
tempo txmipdrao oe esquadroes itiimigoji , fazeudo 
cada urn dot PortogueEM catninho tao htgOj 
quauto o media a extensao da e^pada. gentio 
alUado oom o Flamengo^ vendo que nada podia re^ 
^iftlirao furor do6 nosso^, roncebeo tamanho niedd, 
que largandUi ot posiOB e as arraas se pot em desa* 
tada fiigida ; e ial foi seu espanto^ que no ceulro 
doa maios se uad dava por seguro. 

IX« Quasi meia hoi^a sustentou o iuimtgo a re» 
siatenoia em duvidosa bataiha ; por(^m aquelle tempo 
que sua discipiina e seu talor o teve firme, dverao 
oa nosaos para os cortar uo raso e no moute, oom 
taea e tao pesados golpe$, que primeiro os espantou 
o eatrago que o coudicto. Yiao ua resistencia a 
mot*te cerlft) e forao largando o campo, e dcsem- 
belmcatido os moutes com reiirada mal suecedida, 
porque a dis^posicao das ladeiras os submettia de* 
baixo das espadas^ que uelles descari^^rao com 
tao alentado pulso que se oa6 via distinccao entre 
fei'ir e maiar. Itlusti^ ^xemplo davao os mestres dt 
campo Jofiio Femandes Yieira e Heurique Dias aos 
seus ; ^ nao era menos illustre a imita^ao que o exem^ 
pte. J4 nesie tempo o Cortaf nao era veneer, senao 
de^tfuir ; porque nao ha via Inimigo que o pafe- 
c«8se, seuao na reiirada. — Nao anda^o as armaa 
menos qiientes na campina, otide os dous toestres 
de campo lio ganhando terra ao inimigo, que die 
perdia, mas nao a discipliaa nem o animo ; a desi* 
guaMade era dos pufsos; e cOme9oa a ser mafor a 



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do nutnefo^ porque todos os FlamMigos , que ven- 

€ido8 ckixavio ob tnotiies, 6e forao incorporando 

<M>ni OS seuB que pelejavio no mso. O inesnre de 

eatopo Jok> FeraMMfed Vieira, que Ifoes Tinha ti6 

alcAiice) sem nbaixar a ^pada , corrro com os seus 

9oidados a unir-se com os de Andr^ Vidal de Ne- 

greiros, t assim cafregMo o Flamengo, que co- 

nheceo t^s bra^s pelos golpes. Siislbutirao o poste 

eofli a obstinacJio , e nao com a esperan^a , porque 

•e faziao roHo fto p^igo, ei&o tBonstratigidos das re^ 

prehenioes e amea^os de seuB eabos, que os obriga- 

t&o com a iujutia e torn o exempio ; pdrAm o amor 

da vida e o horror dos morios os fez esquecer da « 

obriga^o e da ht^iti. Aos poucos que detinfaa a 

multidao (que b valor fienhum) (et virar as costas 

O capitao Antonio da Silva, que chamado da ocCa- 

Biao atudio ao Insar do combate^ rpmpendo pelo 

inimtgo com o Irllho, e com a laui^a , de sorte que 

feila e alropellaTa rendidos aos que s6 nas armas 

pareciao soldados. 3i os nossos achavao nos inimi- 

gos desvlt) sem rcparo, macando e ferindo sem dis- 

liucc&o de oppostos a redendidos. Cedeo a multidao 

ao valor* Nao pod6rao os Holfcmdezes supportar o 

peso de nossas armas ; perd^r&o de todo a obedieti- 

cia e a discipilna ; rotdS e desbaratados se poseiio 

eA desordenada fugtda , deixando-nos no campo a 

artilbaria^ a bagagena, e seu estandarte generals 

qual tirou das Ui&os de f;eu alferes um sargento 

do terco de Joao Fernandes Vieira, a quem o apre- 

sentou ; chamava-se AfFonso Rodrigues. 

X. prazer <iom que os nossos apellidavao a 
Tlctoiia foi a causa de que o inimigo se cobrasse 



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50/1 GASTRIOTO LUSTTAMO. 

no uso de sua artiiharia ; e o houvera de ser de 
nossa perdi^ao. A nenhum deixou a alegiia , nem 
para retirar, nem para guamecer a artiiharia , de 
que no8 fez senhores a batalha, e muito menos para 
acudir e atalhar a desordem em que os soldados de 
Camarao e de Henrique Dias se engolfaiio em rou- 
bar ; e como ua fortifica^ao da plata forma , d'onde 
jogavao as pe9aSy estava o recheio do exercito, era o 
roubo no mesmo lugar onde se havia de por a 
guarda ; e parecia guarda o que era rapina. Roto, 
como temos dito, p Flamengo, fiigiao os contrarios 
para onde os levava o temor e a esperanca ; uma 
grande partida foi^osteando o monte, aqual ata- 
Ihadados nossos.se deitou aoalagadico; pordm uma 
cargademosquetaria, que os alcan^ou quasisubmer- 
gidos fez com que suas Tidas fossem despojo de dous 
elementos. Qs de outra partida, que com as azas 
do temor fogiao por aquella faxa de terra^ que ficava 
entre o alagadi^o e o monte, seguidos^ deixarao as 
armas^ e alcancados as vidas , sem haver alguma a 
que perdoasse a nossa espada. Forao tantos os mor- 
tos em uma e outra parte, que dava seu aangue ou- 
tro parecer i terra, e outra c6r a agoa. Ja nao 
havia respiracao com alentos para seguir ; ja nao 
havia bra^o com for9as para matar. £spantou-se 
entao a experiencia , como agora a consideragao , 
do trabalho que support^ao os Portuguezes neste 
dia; pois quando o fim do conflicto os convidava 
com descan^o, entao o rebate os mettia em nova 
batalha. 

XI. Escondido aos olhos, e as noticias da nossa 
genie, tinha o Flamengo n'um valie, que faziaoas 



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GASTRIOTO LUSTTANa 505 

fraldas de dous montes, um esquadrao de reserva, 
composto de doze companhias, commandado por 
Henrique Hus, mandado vir do Arrecife para este 
fim^ como ja dissemos; com o qual se encorporarao 
todos quantos Hollandezes o conflicto deixou com 
vida. Seguia-os o nosso alcance; Henrique Hus, 
que vio em uns e outros igual desordem, nao per- 
deo a accasiao que Ihe offerecia a fortuna. Saio a 
encontrar e a rebater o impeto do alcance ; sobio 
o monte, cobrou a artilharia perdida^ e favorecido 
d'ella foi carregando de pesados golpes /> ter^o de 
Henrique Dias, que Ihe fazia rosto com militar re- 
tirada ; foi soccorrido d'algumas companhias y que 
a caso o pod^rao fazer^ por^m nao era bastante tao 
pequena opposi^ao para tamanho poder ; supposto 
que Ihe detinhao o curso ( com que jd descia pelo 
monte, dando e recebendo cargas^ com disciplina e 
acordo) nao Ihe cortavao o passo. 

XII. Os nossos mestres de campo^ que no baixo 
ouvirao o estrondo dos tiros , levantarao os olhos , 
virao a peleja^ mas nao pod^rao conhecer (pela dis- 
tancia) de que armas era o melhor partido ; antes 
que entendessem que os sens erao os que necessita- 
vao de soccorro, osavancou pelo raso Sisgismundo, 
com toda sua gente novamente formada, e com 
nova furia j que brevemente Ihes fez quebrar a va- 
lentia com que os nossos o forao receber, e foi tal a 
opposi9ao que presumio Sisgismundo que^ ou a 
nossa gente beb^ra novos alentos no trabalho de 
todo aquelle dia, ou se havia poupado s6 para 
aquella bora. — Aos estunulos da occasiao sobe- 
javao os do exemplo com que Joao Fernandes Vieira, 



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509 CASnKftO LUSIt AN6. 

Andri Vidal de Ncgrelr6s, e os soldados de seufe 
tercos avanc&rao ao Flanjengo, buscando os poslos 
tnais arriscados. Na competencia da ousadia 6e mos- 
trava a do valor; ^ todos exortava a visu, a poucos 
a inveja, porque nao houve soldado que nao des- 
prezasse 6 perigo. Os Uollandezes resolulos etn 
morrer on vemer deseslimavao a vida : nas pontes 
de nossas espadas os mettla a coIerA ; por ellas bus- 
cavao a vinganca, e nellas achavao o castigo. Caiao 
OS primeiros, e logo os segundos substituiao o lugar. 
SisgismurTdo impaciente dese verbaiido, presagO 
de sua desgraca , accusava a fort una » fnas nao 
abiii^ava a e.^pada; com ella na mao feria e exor- 
tava, animando os seus com ^ lembtanca da honra 
e da injuria ; estremos com que os persuadio a que 
n*esta occaslao obrassem como valentes ; e certo , 
que nenhum dia mereceo & Tama mais esclarecido 
pregao de general e de soldado. — Perfiava o cun- 
flicto, desprezando-se o espanto que causava a lodos 
o confuso eslrondo dos insCrumentos marciaes. 
retumbar das pecas, o fiizilar dos tiros, 6 retinir 
dos golpes, OS gritos dos cabos (sem o gemer dos 
feridos e dos agonizantes ) , causava uma pavorosa 
disonancla. fumo da polvora , o p6 da terra nao 
deixava distinguir amigos de inimigos, porque ti- 
ravao a jurisdiccao aos olhos. Umas com outras se 
moslravao as armas, porque s6 com a luz dos tiros 
se deixavao ver as espadas ; era tamanha a conFusJio 
que pelos golpes e pelos pulsos se conheciao os 
bracos, e nao pelas pessoas. A iienhum deixava a 
vizinhan^a a escolha, e cada qual se valia da arma 
que Ihe permittia a sua distancia ^ e talvez inuteis 



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cMfOjan umiMOk 597 

aindt tt inais curtos , se tinhto A b#a^9 ; apromt-^ 
taado-Be o desaiino d'unhai e dfntest A tnuUidao 
dos corpoB morlos (que para UM era cdikkulO) para 
outroa yallo) a todoi irritata, a nenhutn compdn- 
gia. menos numero dos PorttigueM$ Ihes tAo 
deixuva cair os bracoa, porque animados do invent 
civeis espiritoB se mooCravao inoanaatelSi 

XIU. Aoe doua Hercutet portuguetes Joao Fer^ 
nandes Vieira^ e Andrti Vidal de Negreiroa mo 
pode chegar entao^ nem a emulacaO fiem a itiveja: 
suaa proesas callou haqu^li« dia a admirA^o, para 
agora aa ouvir a incredulidade; pof6m dissimula-as 
a.peiinay porque a Hmila^ do vdo njto chega a t6o 
alio assutnpto. Quanto obrirao e quanto merec^o 
si pen* infereneiaB se po4er4 alcan^r t cotii^id<ire>se 
a duracao do perigo , e logo «e ver4 muito que 
obrou o eaforco. Ao m«aire de eampo Joio Femati^ 
dea Yieira chegou Urn talente Hollatidet a p^ar 
com a mao eaquerda naa redeas do cavalto, e le** 
vantatido o braco direito para o matar de urn golpe, 
antes que deaae a (vrida recebeo Uttift ctnilada, que 
juntamenle o partio e o apartou. Era maid fbr^so 
o bra^o, foi mak ligeiro o movimento. Assim o 
achou lodo o tempo do coitflicto entre as espadad 
eaa balas^ aem quealgum d'estes maieriae^ o feri^ae 
<[iie ae o nao temiao , parece que o rcspeitavao. Dm 
pelouro Ihe furou a orelha do cavallo, nao pelo 
ferir, senao pelo galautear. Etn nada disimilhante 
vio a occasiao ao me^fe de campo Andr6 Vidal de 
NegreiroB. Ferio-lhe tim* bala o cavallo, em que 
nKmtava, passou-se a outro , e deixou o ferido para 
o var deapedii^do d'otttm bala^ t nelle o quMitD 



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SOS GAfiTUOIO UJSIXAlia 

orespeitava a fortuna. A um e outro acertarao 
muitos pelouros, que pararao nos vestidos. Unia- 
08 a amizade, e nao os sabia distinguir a sorie. 
• XIV. mestre de campo general, que pelejava 
com OS bra^os de todos , e a todos assistia com os 
soccorros e com as ordens , vio que no mais tra- 
vado da pendencia vinha Henrique Hus carregando 
a Henrique Dias pela ladeira do monte ; conheceo que 
o pensamento do Hollandez era lancar-nos fora do 
boqueiraOy onde pelejava a maior forcados exercitos; 
fez advertencia a Antonio Dias Cardozo do intento 
e do perigo ; o qual o atalhou com tal disposicao, 
que bem de pressa reprimioaconfian^a hollandeza. 
— Sisgismundo, que a ludo attendia, vendo que 
pela vaniagem do sitio nao podia veneer pela forga^ 
determinou empregar a arte. Fez pe atraz, tocando 
a retirar; formou de novo os sens, c mandou en- 
vestir o boqueirao. Travou-se de novo a luta, e tao 
encarni9ada de parte a parte , que mais pareciao 
feras que bomens os que defendiao e os que ataca- 
vao. Em ganbar e defender o boqueirao consistia a 
victoria d'uma e outra gente ; ambas desprezavao 
o perigo por conseguir o intento. Cinco boras bavia 
que durava a batalba , e nellas se virao os nossos 
algumas vezes tao apertados , que se temSrao per- 
didos ; por^m aquelles beroes invenciveis Joao Fer- 
nandes Vieira e Andr^ Vidal de Negreiros , com a 
propriedade de raios , buscavao a resistencia mais 
dura para romperem mais viofentos; por tudo rom- 
piao sem perderem tempo nem golpe , e aos seus 
inspiravao novos alentos , causando aos inimigos 
terror o espanto. Ja o inimigo, cortado do ferro e 



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GASTRIOrO LUSITANO. 509 

do medo, com tibieza tinha perdido a obediencia ; 
nem a gritos, nem a golpes podiao Sisgismundo 
e seus cabos faz^l-os entrar no conflicto. Sem 
tocar a retirar, o fizerao todos os seus a tempo , 
que andavao as annas e os mosquetes tao esquen- 
tados , que nem as maos os podiao soffrer, nem os 
bracos os podiao sustentar. Com muita difficuldade 
pode atalhar o general hoUandez a fuga dos seus. 
A proximidade da noite Ihe foi favoravel para for- 
mar um batalhao de saos e feridos; e o cancasso 
em que se achavao os nossos Ihe deo occasiao para 
nao ser de todo destruido no alcance. 

XV. A nova forma que Sisgismundo daya aos 
seus fazia crer aos nossos que ainda tinhao inimigos 
que veneer ; para o que , sem largarem as armas 
nem os postos , esperavao o combate. Era no fim 
da tarde^ e a continuacao do trabalho e falta de 
refeicao os tinha quebrantados e desfallecidos nas 
for^as I ainda que inteiros no animos. Acudio-se a 
cada um com uma pequena quantidade de assucar 
desfeito em agoa^ soccorro mais para refrescar que 
para refazer; fraco, mas sufBciente remedio para 
corpos que se alimentavao de tamanhos espiritos. 
— Em trocos os tinha partidos a ordem dos mes- 
tres de campo, com prematica^ que dada a primeira 
carga , se rompesse & espada. Acabava-se o dia e a 
paciencia dos nossos ; com militares desafios pro- 
vocarao ao inimigo uma e muitas ve^es a acceitar 
bataiha ; por^m alheio de similhante pensamento , 
como se fora iusensivel , se conservava immovel , 
poitjue furtado a nossos olhos cobria com o corpo 
de sua gente a diligencia de retirar os feridos mais 



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110 QOTUOIO iOUTAIIO. 

p«ri({OiM para * Barrett ; e forio tantos qw oarro- 
girno einoo barcaa em repetida» viagen^ da£arr«ta 
para o Arreoife, Entrou a noite com tamanha lem- 
pealade de agoa , trovow © veoto , qw parecU 
repetir-ae epire oa elemeQioa o paatado coaflicto. 
Nao per<Jko tempo Si^giamuDdoi maodou mil aol- 
dadoa qu^ ae adiantaasem a guarneoer o caminho 
de emboscadas, para dafender^m a marcba, em 
oaao que oa oosaQS Ibe des^em aloance ; eoberio do 
eacuro $ e acompaohado do silencio ae po« em fu- 
gida pela meia noite. A caso o piclrao yinte 90U 
dados pela retaguarda (que para o oapiar no poato 
aairao de noaao alojamento); aoguinio^lbeo trillion e 
imagtuando que luaiior poder o oarreg^va^ fogiocom 
tal deaatixu>9 que deijLou muitos feridoa, 9 as pou- 
oas armaa que levava, para camiohar mais ligeiro. 
XVI. Com a iuK da manha aairao 0$ moatres de 
campo Joao Fernandas Yifiira e Andre Vidal de Ne- 
greiroa a eerufioar^o, ou da fuga. ou da Fdrma do 
inimigo. Aehirao a campanha coberCa de despojos 
ifim mimigQs^ e deata vea a victoria sem batalha, 
Q gosto aem reo^iQ, tnumpho sem contrario. Cor- 
r^rao a congratular«ae eom meatre de oampo ge- 
neral Franciaoo Barreto da Mene^ea, a quern se 
deviao oa primeiros vivaS) pelo que nesta occaaiao 
obrara sen valor e aua eomprehensao. Aeclamou*ae 
par todo o al(\jamento a victoria , com todaa aa dfh 
menalra^oea de alegria, a de gratiOcacao a Deos, 
ooafeaaando Fecfbdl**a da mao do Aliiasimo. Correo 
a,1[iova por todo aquelle deatricto, e o mesmo aWo- 
rooQ que a oria a duvidava (coodi^ao, que trascom- 
lige a peaae do que nuito ae deaeja quando maia ae 



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duYida), AqiieUes inoradorea, qw poucas hora^ 
antes W consideravao coudemnado^ & morle e ao 
^rilho, vendo-se com Ubefdade certa, eqgrandeciao 
a mis^ricordia divipa, qoncqrrendo para wmas raes- 
inas lagriipas a compunc^aQ e a alegria, Desceiio 
do$ inato3 os mais vizinhos a dar e a receber para^ 
bem de tamapha dita, que Ibes augiDentava a vista 
do perigo na horribilidade do estrago. Nao se via 
pelo campo da batalba outra cousa inais que armas 
destrofadas, e corpos mortos e digfonn^s, ^avoltos 
em aeu mesmo sangue, empo^ado em muitas part^s^ 
o qual a terra ja nao bebia por congelado ; espec- 
taeulo tao borreadO| qm o via a lastima e$queclda 
da offensa. 

XVII. PeixQU o inimigo no campo mil e du- 
zentos morlos, enlre elles dous coronei^ (H\i§ e 
Vanelles); cento e oitenta ofliciaes^ sew entrarem 
p'e^ta conta os que e^ond^rao os matos. que forao 
muitos , e muitos aquelles que nor fajta de ^ura 
morr^o na Barreta e no Arrepife, JJao so d4 pu- 
naero aos feridos, porque a caufella 05 nao deij^oi) 
contar j o§ de maior posto forao o general Sisgis- 
mundq por urn artelho , q cpronei Autbim pelo 
pe§co90, e owtros olficiaes menqres. Dos soldadog, 
a poucos deixou de assignalar Q. no§§o ferro, 0§ 
desp<]yos nao parecerao de exercito gqerreirp, senao 
de cidade pacifica, Quantidade de ouro e prata em 
moeda e pecas ; cavallos ajaezadqs com riqueza e 
primor; vestidosdeguerra e gala; seda3 d'arlifiqiQ 
e valor ; cbapeo^ e plumas d'estima; sedas e olan- 
das em roupa e em pe9a| niuita copia; muitos ea- 
paduxii peito», eapaldare$> e eapacetes de ]^fii^^ pela 



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512 GASTRIOTO LUSITAlta 

tempera e pelas guamicoes : doas pecas de bronze, 
com annas de fogo e ferro em grande quantidade; 
muni9oe8 de toda a sorte, em numero crescido; 
mantimentos para o sustento e para o regalo em 
muita abundancia*; uma botica de toda a abmi- 
dancia de medicamentos ; ultimamente uma somma 
grande de varias prisoes para maniatar captivos y 
que em sua determinacao haviao de ser os soldados 
e moradores^ a que sua vontade concedesse a vida 
(^mais alta Providencia trocou as sortes). Entre os 
prisioneiros foi o seu coronel Kever o principal. 
Gustou-nos a victoria oitenta e quatro mortos, sendo 
d'este numero os capitaes Joao Rodrigues, eDomin- 
gos da Costa, e o alferes Manoel Ferreira de Lemos, 
que viera da-Bahia com um soccorro de polrora. 
Os feridos pass^rao de quatro centos, sendo a maior 
parte do terco de Joao Femandes Vieira. Concedeo- 
nos o ceo esta victoria em o Domingo da Pascoella 
19de Abrilde1648. 

XYIII. Os mestres de campo, officiaes, soldados 
e moradores, que se acharao na batalha, derao 
novos empregos a fama ; a todos deve a patria gra- 
tas memorias , e a monarchia incorruptiveis esta- 
tuas. mestre de campo general Francisco Barreto 
de Menezes nada iicou devendo nem a seu sangue , 
nem a nossa esperanca. Joao Femandes Vieira , e 
Andr^ Vidal de Negreiros venc^rao nesta oecasiao 
o impossivel , de fazerem maiores seus nomes. Os 
governadores de Indios e Negros, D. Antonio 
Philippe Camaraoy e Henrique Dias fizerao co- 
nhecer ao mundo que o valor nao 6 heran^a senao 
excellencia. sargento maior Antonio Dias Car- 



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CASTRIOTO iDSITiMO. 51S 

iJoqoimmDrteUzoa nesta occa»aosua capaeidade a 
aeu bia^« Os tenentes generaes Antonio de Freita^ 
da Silva e Philippe Bandeira de Mello mostxiiio 
quanto seu merecimeuto se adiantava a sua opiniaot 
Os capitees e officiaes menores ensinarao a todoi 
como em uma mesma mao cahiao as armas e as in-^ 
signias. Os nomes d'algvins deixou entao de public 
car o descuido y e agora o tempo ; retiremos os que 
nomeou a lembran^a* Do ter^o de Joao Fernandez 
Vieira forao os capitaes Antonio de Castro, Amaro 
Cordeiroi Antonio de Roeba Damas, Antonio Bor-^ 
ges Ochoa, Affonso d' Albuquerque^ Antonio Ro^ 
drigues Yidal, Bertholomeu Soares Ganba, Braz da 
Kocha y Braz de Barros Teixeira^ Cosme do Rego^ 
DomingosFerreira^ Francisco Berenguer, Francisco 
de Lisboa, Francisco Barreiros, Gregorio Fragozo^ 
Joao Soares d' Albuquerque^ Joao de Pontes, Manoel 
Moniz, Manoel d'Abreu, Manoel Lopes, Paulo 
Teixeira^ Philippe Ferreira^ Sebasliao Ferreira ^ 
Vicente Curado ; e Domingos da Costa e Joao Ro« 
drigues, que morr^rao na batalha. Do ter9o de An* 
drd Vidal fqrao os capitaes Antonio Curado Vidal , 
Antonio Rodrigues Franca, Antonio daSilva^ Ama* 
dor Rodrigoes, Antonio Dias Santiago, Francisco 
daRocha, Joao Barboza Pinto, Joao Lopes, Lou- 
renco Carneiro, Manoel de Aguiar, Pedro Caval*- 
canti d'Albuquerque ; capitaes de cavallos Antonio 
da Silva, e seu tenente Domingos Gomes de Brito . 
XIX. Pelas maos da incredulidade se derao e re* 
ceb^ao as novas da victM^ia na Bahia ; como sonho 
as avaliava quern com maisatten^ao asouvia, at^ que 
com certeza as divulgou o conde de Villa-Pouca, 
h 33 



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Sift • OAdTRlOM LtmitAllO. 

que entio gowamava o Estiuh), per cot^isio quetev^ 
de Zenobio Achioli , a quern asmn a orden^ra o 
mestre dd campo general Frandsco Barreto de Me-- 
nezes, remettendo^lhe por esta via^ com algumaa 
handehras hoUandezas, od tnais certos testemimhos 
da vefdade. F6ra 6 auccesso Uk> aiheiodaesperan^a 
de todod, e do conceito de Antonio Telles, que in- 
formado na desigualdade do poder d'umas e outras 
armas, tinha assentado comsigo, como por impoa* 
sivel deixar de yencer o Flamengo , e tao firme 
estaya nesta opiniao^ que mandAra ao cafAtao Pe^ 
dro de Miranda com duzentos soldados, em cinoo 
companhias, que fosse assegurar a passagem do 
Rio de Sao Franoidco j para que estivesse franca a 
gente que podesse escapar das maos do Flamengo, 
e Tiesse f ogindo para a Bahia. Quanto mais inopi«- 
nada foi a victoria, tanto maid festejadafoi do conde 
general de toda a armada, soldados, e povo; en- 
chendo os ares de vivas, as rnns de festas, e os 
templos d^ lagritnas, com que gostosos e compun*- 
gidos tribute vao a Deos graicas de tamanho bene- 
ficio. mesmo eflfeito causou a nova em todas as 
povoaeoes do Estado. 

XX. Depois de se p6r ^n arrecadacao tudo que 
do despojo perlencia ao ftsco , e depois de enterra- 
dos OS mortos e curados do modo possivel os fori- 
doi, tudo ordenado do melhor modo possivel , e a 
gente refrescada, marchou o nosso exercilo para o 
EngenboNovo, sittiado dosmontesGuararapespara 
o none , no caminbo do Arraial^ onde fizerao alio. 
Em 20 de Abril entrou Sisgismundo no Arredfe, 
onde se vio livre, mas nao desassombrado de nos* 



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^5 Ttrrtii^ e de stia pttd^ j l^tt^ Ihe dofa^bti t wiaA^ 
menito cotii-os pratitos, que caus6rao as to6rtes e 
ferrdas nSKjuelle poi^o, a onde nio houvc pe^oa a 
qtienl tnho alcancasse a magoa t tji Idto. Para levio^ 
tar ds animo^ abatidos e qud!tt)sos fntefitmi Si^a^ 
mundo, d« accordo com seus cabos, ibniaratllhi 
de Olhida; o qu6 ccmsegatrao facilmtote, porqti6 oa 
habitantes a havi&o abandcnado , e os p6ueo8 8ol«* 
dados que guarueoiao o reduto, que cb^tnavao a gua-^ 
rita de JoJo d* Albuquerque, vendo a desigualdade 
das forcas, ae retirarao. — Logb que esia notidii 
chegou ao Etigenho Novo, mandou o mcstre tf* 
campo general tocar arma , e n6 mesmo dia tnfcir- 
chou exercito para o Arraial ; mas ahl enoontroti 
outra nova nJo menos desagradavel que a da pefdA 
de Ollnda. Aquella novaforca, ehamadk da B^taria, 
em que se fuudava toda a esperanca de se ganhar o 
ArreCife, pelo damno irreparavel que d'ella receUtl 
tbdas as boras, achirao os nossos perdida, e oceu^ 
pada do inlmigo, seirt, ai^ aqiieTla bora, se alcancar 
o como, nem o quanda, nem saberem atiuaf, se o 
cbam^ra o aviso, se o desemparo. Soube-se d^is 
que o capit&o , aquem se fidra a resistencia, e que 
tinba gente bastante para reslstir ao ataque, se re-' 
tirira sem combater. Foi por tanto mettldo em 
conselbo de gucrra, e alndi que absolvjdo ha sen-" 
tenca, mmea ficou sua culpa bem timada na opi- 
niito do vnlgo. 

XXI. Magoados os nossos eabos maiores d^ tantd 
maisinfelice, quanto menos esperadoacontecittieiiU), 
tratarao de empenbar o resto para Ihe cor tar as es- 
perancas da dha ; assent4riiaentre si que a villa (to 



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Olinda deyia de ser reganluda qaaato antes. Com 
e0eito em 22 d' Abril «aio do Arrraial o capitao Bras 
de. Barrot com trezenlos soldados, com ordemde 
ganhar a pra^aao inimigo do melhor modoque po- 
desae. Marcharao os nossot f urtiYamente, e chegarao 
j4 de aoite a um sitio, meialegoa da villa, que cfaa- 
maYM de Antonio de Sa da Maia ; com boas senli- 
nellas e praticos descobridores do campo $e aloj^ 
xho neUe. Em a seguinte madrugada amanhec^iio 
08 noasos sobre a yilla. Mandou o capitao Barros a 
dous soldados destros nas. ruas que explorassem o 
que na povoafao havia ; suocedeo que na rua de 
Sao Pedro derao de rosto com as sentinellas con- 
trarias; as quaes vendo-se assaltadas, tocarao a re- 
bate com tiros e vozes, e de corrida tomarao a fc- 
reda que guia para a igreja de Sao Bento, seguidos 
de nossas espias at^ a fortifica^ao de Joao d' Albu- 
querque, onde se alojava o capitao NicoUs com seis 
centos homeos. — Ouvio 'Bras de Barros os tiros 
e vozes do rebate y suspeitou o empenho das sen- 
tinellas, apressou a marcha, chegou a vista do ini^ 
migo, e de passo Ihe deo algumas cargas; metteose 
debaixo desua artilaria, cometteoo assalto, dizen- 
do aos sens : « Avanca I avan^a ! a espada, filhos. m 
Vozes forao estas que assim corlarao o inimigo 
comb se fora o mesmo ferro. Os que se alojavao 
fora da fortifica^ao fugirao com desordem ; os que 
dentro a guarne9iao, com desatino ; deixando-nos 
na mao o reduto e a trincheira, como se para este 
^ a gqardarao. Entrarao os nossos , e voltarao 
sobre os HoUandezes a artilharia do forte, e com 
as balas os buscarao e seguirao at^ onde cursavao 



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CASTRIOTO LUSTTAMa 511 

as pecas. Foi em seu alcance urn troco de soldados 
nosdosy e tantos matava o furor quantos akan^ava 
o braco ; nao houve inimigo que se lembrasse da 
resistencia^ nem do reparo ; assim recebiao o golpe 
como se estiverao obrigados a nao defender a vida; 
todos pareciao Hollandezes; sem algum mostrar que 
era inimigo. Goniinuou o estrago a(^ onde-chegou 
o alento; fahos d'elle fizerao os nossos alto no meio 
da praia, nao s6 para descan^o^ senao tambem para 
desafio. Sairao do Arrecife duas partidas de sol- 
dados para soccorrer o Hollandez^ mas nao se atre- 
T^rao a provar a mao com os nossos, e se content 
tarao em recolher os corpos mortos dos seus> que 
cafrao mais perto da fortaleza. Cento e sessenta Fla^ 
mengos deixou estirados no campo o chumbo e o 
ferro ; e a este respeito se podem or9ar os feridos. 
Custou*nos este desejado successo sette feridos; o 
de mais conta e de mais perigo foi o capitao Ma^ 
theus Fagundes, passado d'uma bala pelosjoelhos. 
Deixou*nos o Flamengo quasi todas as annas ; de 
muni^oes, mantimentos e moveis nao levou cousa 
alguma; nao porque o cegasse a ira, senao porque 
o aconselhou o medo* -^ 

XXII. Em 28 do Abril mandou Sisgismimdo 
pela estancia das Salinas um bolatim e carta, em 
que pedia os prisioneiros , deixando em nossa 
eleicao os partidos ; com advertenda que as mes^ 
mas condicoes se acbariao da sua parte, quando se 
trocdsse a fortuna. Ordenou-se ao bolatim que en- 
tregasse a carta, sem Ihe permiltirem que entrasse 
na estancia, e disserao-lhe de piahivra que a sen 
tempo 86 re^Hmderia. coronel Kever, que era o 



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5I§ oaiaiOTO UMTiJiO. 

r$tfi a(4 que t;^>uve om^buiq di w ren>^er a Bahift) 
edapoU para o mw>. nais que o UoUaod^ Ihe 
pdd^ aloan^, por aataOf foi lioQU^a para que urn 
gmtilhomew da wa oa&a o sQrvisie ua prisao. £ra 
o coronal pessoa de qualidade, a do eadiWiQao autre 
OS saii9.-^£atre aa uaoa da armada hpUaadezai que 
ae dervotarao oa canal, tom^rao alguiMs differeutes 
ponoii M4a aa rapararao^ e d€|>oift salrao em de- 
xxumdA do Bvaiil. £m uiw d'ellaanaYi^a^a um c6- 
ropel ^ homem da grandii 4)pituao por dotes da 
jiatur^exa e da fortuoa (o desc^ido e o tempo iios 
roubpu o name }^ Com a,lguBia9 dw ombarca^oea 
de^rradas qua reoolheo aportou ua barra do Ar^ 
Recife palon idtimos di^s de Abril d'aste pre$eiite 
anno* Foi recabido com meaos alvoro^o que das^ 
maid* Iqlbrpaou^e da cauia , e esquecido da com*- 
paixao $ caosurov a fraqueza de todos com e$cs»- 
dalaia arroganoia* Chagou a vi^ deSi$giwiuAdO| 
gastou poucas palavraa de comprimfeuto , e pa^iou 
logo aa da altive^a j dueodo qua nunca imaginara 
c&peral^ maior ^rmqnta up porto que oa viagem« 
Com modera^ao de entendido Iha respondeo Sisgis-^ 
Auudo J a depow de Ihe panderar as ciraumstaucias 
que tiubaa prodwudo aqualla deea$trat diase4lie 
que ae qu^ria conhecer oa «aldadas qua tiolia a omh- 
hfttar, qua^^n a chpcar com os jf^groa deBBa* 
riqua Jim, daq^udog e descalfos como oa imagiuava 
que dapoii o» eslimasse pelo que mwacasigem; e do 
qua Ihe raccedef^ iuferissei pelos oagros^ qua h^ 
mana aeriao oa braacos t daaengano para qua Uie 
^QiKiadia b, aicottia a <^ mumei^ d<» loldadoa ^9» 



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GA3TBJ01O UmXAMO. 519 

quueBse levar; mafi que ^ guardasse nao viesa? 
iQ9m 83 mao« amarradaa, levando-as soltas. 

XXIU. Ouvio o coronel com desprezo a Siagia^ 
mnodo; aecaitou o offioreoiiOfmto com altiyeza, e$^ 
colhoo OS BoMadoB de que tinba maia aaiisfa^ao; 
gaatou alguaa <Uaa em os ^x^reitar naa aruias, e 
afMrealado de tudo o que the pareoeo naoesaario ^ 
aaio do Arreeife com dous nul ixifaBtes em 24 de 
Maioy e niarcbou paraa eitaocia dettmrique Diaa. 
A poucoa pasaoa dep com aa aeotuieUaa^ eas aeguio 
at^ se recollusreMi4eiitro das triochairaa, que achou 
guaraecidaa com lal for^a e arte, qual nao imagi^ 
nava. Foi rec^ulo d'uma e auiitaa cargas de moa- 
qiietea biacainhoa^ cuja pootaria derribou xmo poo- 
COB. Ml a esta bora o coronal bollandez estava 
menoa quentef e ficou de todo frio qqaodo vio que 
Hemrique IKa9 saia daa trincheiras com todos oa 
aeuaa imreatik) na caiopaaha. Furiosa (oi a pdeja, 
e contumaz a porfia, sem que nenhuma daa partea 
perdesse pabao de terra. Aeudimo entretanlo os 
capitaea daa estaneias vkiahaa; cairegurao o iui- 
migo pdoa ladoi, e Henrique Biaa pela vauguaida 
eom tao pesado f erro, que Ibe fizerao krgar o campo^ 
m Tirat as^08tas» sem que a pressa Ihe desae lugar 
a Detirar oa mortos. Fngio aayevgoidMlo o corouel 
paraa Barrata^ oode Feocido e obaiioado eaooadia o 
nsdo proprioy coudemaaudo a firaqueaa e pouca 
diaetplina doa seua. Logo que fie achou ccdiarto oom 
a artiUiaria dafortaleza, deouova f^nna aos seust c 
depob de os cstimukr ao oombate , maudou tocar 
a eufestir* Hcurr iyd foi o combate pelo eatrago e 
pab taundide. A cootiuuacao daa cavgaa^ a urn 



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529 GASniOlO iMrTAAO. 

menno tempo abria e condmsara os ares com (iimo, 
e com o estrondo. Sisgismundo ^ que estava na 
cama, inferio o resultado do socoesso pdbi duncao ; 
mandou cMrdem ao coronel que logo se r^irasse, e 
passasse i outra banda do rio p^ ponte que Ihe 
mandava lancar. Ajustou-se o [Hneoeito do general 
com o desejo do coronel ; com obedkncia cobruM) 
o t^mor, e sem detenoa se poz em salvo. Chegou 
n'este meio tempo Joao Femandes Vidra; mas seu 
auxilio sobejou a yictoria , porque ji no campo se 
nao via mais que o destroy da batalha , e os ap- 
plausos do triumphoy com que se reeebeo o soc- 
corro. Grandesdiligencias fez Joao FerBandesVieira 
para que o inimigo, que ja tinha passado o rio, 
tomasse a campanha ; por^m elle se nao deo por 
entendido. Passado d'uma bala pela gai^ganta o 
carreg4rao os seus maneaCado. Foi castigo do 
easo ; e pareceo cumprimento do ameaco de Sisgis- 
mundo. 

XXIV. Como a estancia de Henrique Dias era 
a mais incommoda para o inimigo j resolyeo Sisgts- 
mundo em ir atacal-a elle mesmo. Em 1 8 de Agosto 
assaltou a sobredita estancia com dous mil soldados, 
que a envestirao com desatada furia. Defendeo-se 
Henrique Dias com o desenfedo que causa o pelejar 
por regalo, e o veneer por custume. No maior em- 
penbo do combate cb^^rao os soccorros das estan- 
cias vizinhas; deixon o Flamengoa expugna^aO; 
deixando mortos no campo cincoenta soWados, c 
retirando^se com grande numero de feridos. Da 
nossa parte foi a perda tao pequena que a nao es- 
timou a lembranca* Oulras muitas vexes iotenlou o 



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OASTMOrO LimiTANO. 521 

HoUandee omeBDio^ massempre com igual successo. 
Adveriknos que em os mezes de Junho e Julho nao 
houve successo, mais que o referido, que merecesse 
particular lembran^. — - Nao tinha acabado o mez 
de Julho ^ quaudo chegarao ao nosso Arraial qui- 
afaentas cabecas de gado, tiradasde Sergiped'El Rei ; 
e logo em 24 de Agosto, o mestre de campo Fran* 
Cisco de Figueiroa com um ter^o de quatrocentos 
in&ntes , firucto das diligencias do mestre de campo 
geoeral Francisoo Barreto de Menezes^ e soccorro 
€)ue mandava o conde gtfieral Antonio Telles. Che- 
gArao estes novos combatenCes, lodos soldados do 
reino^ ao Arraial a tempo de receber as boas vindas^ 
e dar os parabens da victoria aos do conflicto^ que 
vencido o Hollaudez, se tinhao retirado. 

XXV* Enfermou ncstes dias o goTemador dos 
Indios D* Antonio Philippe Camarao, varao grande 
em na^ao humilde* Gorreio da morte foi a doen9a, 
e por ella conheceo o fim de sua vida que soube 
immortalizar como o sen nome. Nasceo Indio , po- 
r^m entre os Indios o mais nobre. nascimento 
Ihe deo o nome de Foty^ que na lingua do gentio 
6 o mesmo que Camarao ; o baptismo Ihe deo o de 
Antonio. No tempo de Mathias d' Albuquerque era 
ji respeitado entre os sens por maioral de muitos ; 
e com muitos auxiliares o veio soccorrer, e servir a 
na^o quando o nosso poder se alojava no Arraial 
velhoy chamado de Pemam-Morim : illustre prova 
de fidelidade e amor^ com que servia a na^io e o 
prindpe , offerecer-lhe a espada qqando os perse- 
guia a fortuna. A mesma adversidade , de que o 
mais gentio fez causa para a rdiekUa^ fez o Camarao 



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SIS cAvmwm uMiiM. 

moUyo pam a \im^. Eiaservir a ignga e a coroa 
^Mih<m luzido Gffedito de 8oIdado>6 de religiMo; e 
too obMiTante de was €hnffk(joe^ qua nunea o tio 
di«Uahido«}uem>aaproo veoerottioldado. Todoe 
09 diad ouvia mi^sa, e resava o ofi&cio da Nossa 
Seahoraf modoMa .e devoto. Gastava muitaa horns 
en craQM^ a que m appUoava aioda enlre 06 
maiocea ^ilrondosdaguen^a. Para sair aoa rebates , 
« pS4pa wirar nas l>atalbas» pruneiro ae fortakcia 
com 0§ sacraofeeotos que com as armaa. Has oeca* 
aioea «iias arriacadas reoorria ao £ayor4iTiDD^ pa^ 
4indo auxilio a duas imagrgis> do Saahor e da So- 
jabora^ qua eotre as roupis Inua de oanliiiuo sohre 
p pei(o» £m quaoto soldado , nao baure capitao 
mais amadot oam mais d^ecido, porque tmo 
houve oapiteo que adbiasse mais imperio na afiabi- 
lidada qiK no doaainio^do que aa(« ratoroso capi*- 
.taQ« Aa amprasaa o eaperavao seoipraoom as victo- 
rlast ^ gaD^u 4aatas, quautaa iorao as occasioas 
an que pelejou. Para siiu ^eiiio^ era o acio nartf- 
riop a o tralNdbo descaoi^o. Avaliora a pmaUdade 
pardekite^ a m ocoaaioes per dita» Ben 00100^ 
coBia memorial do saas proaaas^ le ouvia aalre oa 
noBsaa aom reapeho^ e eotre oa iniou^s oona ci- 
panto; edilatoi»K) deaoneaiiQia, quache^aaaaa 
lOuvidos did sauRai lao distante^ quanlooapaftavaa 
OS dihtados mares que dhridaoi a A a a ariaa da £i]h 
ropi^; flam peti^o o despadbou seu nsereoiaunito. 
Deo4iie£liWPhilippeohabitodeC;hrisa^ otilula 
de Dom , e o posto de goyemador e capilao f/M 
da todaa os Indios da America* Zakm a dcooKO j 
apia aa diRnai ao poato cpiie oopupava oom tada a di^ 



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m pesfipMgirtoded » eetnanfaaa e de tespeico Mayt 
aempre por iiiterprete (tiiuU que sabift. a lingua 
porUigUEQica)^ porqua emteiMlia aw a imprc^iedade 
e inculto dfta Yozes fiscal do animo e disos^ito da 
pe0ioa» ISa arte da miUcia foi inai^e^ oa do goyetmo 
daro. Com oa aeus era facil no trato ; con oa au*- 
perioraa^ ^rave oa coavca^sa^ao^ ooia oa estranho3, 
^ard no agaaalbo; iaa» tao medido com todos^ 
que^obrigttva a amor a ra^ereocia^ Em todo o tempo 
alugat o aohou q aarvi^o de Df oa prom^itQ e o calto 
das $2mU>a liberal. Gomo diaaveto viveo^ porque 
ao«bo yivw para J>e«6 e patu os iiiomras ; morreo 
coiBio dbriataOi pca;^ua le 9ouim l^fifoveitar de iodos 
08 ramedio$ que ^judao a salta^ao* Na vida ad*- 
quifio ^orioio ciomei oa m^te mosirou que 
p«a$am 4 etaraa vida (como piadoaameute ae p^ 
orer d'um christao qua morre <om moati^as dW<- 
repeftdido e sacrameatado )» Intmio quaai do 
idiumbo e do ferro sab da iouumeravais oambataa 
;a batalbaa, e entragou o eSfHriio a $euCraador^ 
poMcoa maaea dapoia.da doa Cruararapa»> am aua 
propria cama ; para que K^m laltaate a sua mca^ 
o pareeer somoow De(va6*4be aapultum iia Jgreja 
d<> Arraaal^ com a fuoaral pompa qua custawiaw 
a jpiadade a a milicia^ e com aquaUe coiieiirao * 
que obrigava o amor e.o reapeito* 

XXVL Graude £aika 4a maatimeiitoa se corner 
9a[va.a aamir antra os iKMisQ6« Tinba^ae aoabado o 
que vi^ra da Sargipa ; faltavao as £ftriubas, polHfue 
OS moradores nao podiao plantaip a maudioca* Nao 
'Wt aabaiv^ o HoAUndmiiiCTwa femiflHtp en^waa (utt 



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53ft GAMBiOXO LDM T AWOi 

talezas ; mas remediaya^ee com mtis ficilidade e 
menos custo. Com as embarca^oes do reino , que 
por aquelles mares tomarao as smas fVagatas previa 
OS celeiros e augmentava os thesouros. Applicava- 
se a esta guerra como de mais proveito e menos 
pcrigo. — O general Sisgismundo, desejando recu- 
perar sua repiiiacao , tentou uma enlrepreza sobre 
a Bahia. Ajuntou suas nAos, forneceo-as de manti- 
menlQS e municoes para muitos dias^ e com boa guar- 
nioao de infontaria se embarcou^ e navegou para a 
Bahia. Com tempo favoravel entrou naquella en-* 
seiada» deitou gente em terra^ e com fortuna de pi- 
rata e destreza de soldado ; deo' sobre os engenhos 
e casas dos moradores que ficarao mais perto d'a* 
gua. (0 repente da invasao os tinha indefensos. ) 
Encheo as nAos de despojos y sem batalha ; deo 4 
T<(la sem detenoa^ e navegou sem contraste. Deixou 
tudo o que pdde alcan^r o bra^o, porque foi sem 
comparacao maior a perda que o roubo ( vinte e 
dous engenhos ficarao do todo arruinados. ) Entrou 
pela barra do Arrecife com algomas embarca^oes 
que Ihe cafreo nas maos ; foi recebido com applau«- 
sos de victorioso e hem aforlunado. 

XXYU. Com o principio do anno de 1 649 o teve 
a nova companhia g^ral do comtnercio do Brazil, 
Havia muito que entre mercadores corria a pralica 
de se formar uma companhia portugueta para pro* 
teg^ o commercio , e oppor-se 4s phratarias com 
que 08 Holiandezes nos tomavao a maior parfe dos 
navios. Communioou-se o projecto ao principe^ 
com a esperanca das consequencias , tanto para o 
reino eomo para as conquiatas ; dispuiou«se a ttt»- 



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l^ria €^ repetidbs coqgresios de ministros ^ con- 
lracta<lores;.levou a approva^ao 4e todos o meio 
aponlado. Entrarao a dar^he f^rma, e vencida^ as 
dUfiouldades se reduzio a e$pecula^ a pralica ; e 
nesle mez de Janeiro se vio formada a companhia 
g^ral do commercio do Brazil com toda$ as eon- 
dicoes e preceitos que pedi^o a administra9ao dos 
cabedaes e o apresto doseomboios, tendo por (lador 
de sua verdade e conserva^ao a proteccao do prin- 
cipe^ o foyor dos grandes e os interesses do povo. 
Fez rapidos progressos, como veremos no deeurso 
d'esta narracao, a qual nos chama a fallar dos mo- 
Yimentos de Pemambuco. 

XXVIII. Chegado que foi Si^gismundo da via-- 
gem da Bahia, deo causa com sua boa sorte a que 
OS do govemo se imaginassem restituidos a suas 
antigasprosperidades^ das quaes os successes proxi** 
mo6 0$ tinhao privado. Aceeo4co-se entre os parti- 
culares o desejo de intentarem segunda ycz a 
sujeicao da campauba de Peraambuco , e das ca* 
pitanias confinantes; e quern mais fomentou este 
des^o foi o corcmd Brine. (Era taaente general, e 
governava a$ armas pelo impediment de Sisgis-* 
mundo • que o nao dei^ava andar sem arrimo. ) 
Fundava o coronel a confian^ de melbor successo 
na presumpcao de emendar os erros que o general 
Sisgismundo commett^ra na occasiao passada, e nao 
cessava de exagerar a opportunidade, condemnando 
o ocio em que tanto numero de soldados bollan-* 
dezes passavao osdias com gasto e sem utilidade. 
Os do goyemo, namorados das razoes e da viyeza 
do coronel^ Ihe derao poder para que disposesse o 



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que dkia e iiitentava. Fy>g09o e attivo 6 etmmd 
Brine , con se ter ttb9<4ato na doperioridade do 
mando, ae a¥a(iava senhor da mesma fortima. 
PasaoQ ordem que recc^esaem todos os naTtos que 
andairio a obrcoy para ne aprotvitar da melfaor 
gente. Mandou fiuier grande nnmero de pratazatiaa 
e chucoB do ponta e cdrte, com que diria se haviSo 
de rebater as nosaas espadas ; e todaa as horas do 
dia gaatara em exercitar os mais robustos aoldmlos 
no menM d'eilas. Antes de stir a campo , fosse por 
eort^zia, fosse obrigacao, deo conta de sen intentoao 
general Sisgismutido (que ja sabia asnegociaooes e 
designios do coronel). Ottvio-o este com dissimth- 
kcao, ponderou^^lhe as difficuldades da empreza , 
disiPuadkK) d'ella, e conduio dfeendo : <v Leva V • M, 
n 08 mesmoa soldados que jA Ibrao v^eidos a oou^ 
» tender com bs mesm^s homens que ficirao vl^ 
» toriosos^ e espera methor sorte? Jnlgo ser pro* 
» nostico de nossa perdicao bnscdr V. M. para a 
J9 melhor sorte o theatre otidea fortutia represan* 
n tou nossa maior desgr«ica ; e tenho por infalKvel 
n qUBf refireacada a lembranca do suecesso com 
n a ^sta do lugar do eonflieto, influtra em una e 
I) outroa oB mesmos espiritbs. cuato nos enaina 
» a guerrear com uma nacao que toda a Asia pre- 
» sumio inv$nci¥el, que i <»nsummll'a, ajudadoa 
A do tempo e nao fiados no braeo; e V. M, se 
a desengane que nao ha de tracer a capa donde 
» Sisgiamundo a deixon. » Porftm o cooronel, arras* 
tado de seu empenho ede sua ambieiosa pretencao^ 
nao convencido senao protervo , impugnou todo o 
discurso de SisgismundOy e reaotreo a ex^^ucao de 



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GAimiOW LtSITAMO. 577 

«ea dktamen; ao que o sagaz general nfo repHcou, 
p(nrqo€ se Ihe nao imputasse a fraqiieza ou a enveja. 
86 se affirnm que passou o desengano a tomar 
ftrma de galanteo, apostando dinheiro consider 
laTel, sobre qua! dos pareceres sairia mais cerlo. ' 
XXIX. Logo que entrc os uossos se espalhou a 
uotida doe novos intentos do Flamengo j mandou o 
general Francisco Barreto de Menezes deitar bando 
por todas as partes do reconcavo que qualquer sol- 
dado ou official que tivesse assentado praca acu- 
dis8e4 bandeira debaixo de que militava^ em tempo 
determinado. Obedientes e alvorocados concorrfirao 
todos com notavel promptidao. Nad contenles os 
1K)8S6» generaes com os^ preparativos humahos , re- 
eorrfeario tio bera aos divinos. Pedii^o a todos os 
parochos que nas suas igrejas fizessem rogativas 
ao ceo pelo bom successo de nossas armas ; a todos 
OS soldados persuadirao que se chegassem a Decs 
por meio do sacramento da penitencia, e se forta- 
lecessem com o da communtiao. Ao'Vigario g^ral 
Domingos Vieira de Lima pedfrao mandasse expor 
o santissimo sacramento em todas as matrizes por 
trez dlas, para que se desse honra a Decs naquelle 
myaterio em que elle se via oflfendido pela pravi- 
dade heretica. Nao se descuiddrao entretanto os 
nossos governadores de tudo que pertencia 4s dis- 
poslcoes da guerra. Informados de que o Flamengo 
se determinava em buscar o mesmo sitio dos Gua- 
rarapes , mandarao fortificar e guamecer as trin- 
cheiras por onde forcosamente havia de marchar, 
e com particular attencao os que chamavao dos Ba- 
rachos e do Moinbo Novo } orden&rao aos mora- 



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up ciifTBiQ^ uwr Ana 

dorcs drcumTeziahos assistisscm aos presidios owi 
pessoas e maniimeotos; e nos Guararapes engro^ 
$arao os presidios e as muni^oes para a defensa de 
qualquer invasao ou incideate. Passarao ordem ao 
capitao da Moribeca que mandasse guarnecer a 
ponte de Sao Bartholomeo de presidio e seotineUas^ 
e que a qualquer rebate tocasse arma, com tres 
peqas d'artilharia , que tinha na poyoacao, para 
que sem deten9a acudissem os moradores ^inhos 
com annas e bastimentos. Em fim nao ficou cousa 
a que nossos cabos nao acudissem com diligencia e 

acerto. 

XXX. Em 1 8 de Fevereiro de 1 649 saio do Ai^ 
recife o coronel Brine com cinco mil homeos de 
guerra, todos soldados escolhidos por valorosos e 
praticos , altendendo mais a qualidade que a mul- 
tidao; carregavao a bagagem seUecentosgastadores, 
entre ella algumas tendas de campanha para os co- 
roneis e cabos maiores. Desprezou a turba dos In- 
diosy levou s6 duzeutos escolhidos pelo seu maioral 
Pero Poty ; dos homens do mar fbrmou um ter^o 
de trezentos soldados, commandados por seu almi- 
rante; e duas companhias de negros, homens de 
confianca. Reduzio toda esta gente a doze esqua- 
droeSy que diyersificavao doze bandeiras* A sua 
vanguarda constava dos homens mais corpolentoS| 
robustos e destros, armados de pratazanas, alabar- 
das e chu^os, para descomporem e rebaterem 
OS golpes de nossas espadas ; e de similhanle 
gente compoz as frentes de todos os esquadroes. 
Deixou suas pra^as guarnecidas com os homens de 
menos conta ; nao Ihe esquec^rao seis pecas d'arti- 



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GASTRIOTO LU8ITAN0. 529 

Iharia de bronze^ cuja conduccao entregou ao almi- 
ranle com sua gente do mar. Nesta f6rma, e no dia 
referido pela manha, saio do Arrecife, dada ordem 
a sua vanguarda que marchasse para a Barreta; o 
que fez com todo o exercilo com marcial estrondo 
de clarinSy trombetas e tambores. 

XXXI. Pelas dez boras do dia 18 de Fevereiro 
chegou aviso ao Arraial da marcha do inimigo. 
Tocou-se logo arma ; acudirao os soldados a suas 
bandeiras ; cbamou o general a conselho y e nelle se 
resolveo sem controversia que se seguisse o iuimigo 
at^ Ihe dar batalha. Gonstava o nosso poder de dous 
mil e seiscentos homens entre Portuguezes, Minas 
e Indios ; os quaes se pos^rao logo em marcha com 
ligeiro passo pelo caminbo dos monies Guararapes. 
Pelas quatro boras da tarde do mesmo dia cbegou a 
nossa gente ao primeiro monte^ cbamado Utizeiro^ 
a tempo que o inimigo ja tinba occupado os monies 
vizinbos e as fraldas delles por aquelia parte que 
£azia frente ao boqueirao, onde na occasiao passada 
carregou a maior for^a da batalba. Estaya fortifi- 
cado e situado com escolba ; e ordenada sua gente 
em nove esquadroes^ guarnecidos de muitas em- 
boscadas , que a arte e a conveniencia repartio 
pek>s lugares necessarios. Logo que a nossa yan- 
guarda cbegou ao dito monle^ e descobrio a disposi- 
cao e forma do inimigo^ mandou o mestre de campo 
general fazer alto, para que entre os cabos se defi« 
nisse por que parte , como , e quando se bavia de 
envestir o Flamengo. Forao os pareceres di versos; 
mas todos se reduzirao ao voto dos mestres de campo 
Andr<5 Vidal e Francisco de Figueiroa, que era bus- 
I. 34 



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530 GASTRIOTO LUfTTAIia 

car-sc o mimigo pela frentew CommuniooiJkHie t re* 
9olu9fto com Joao Femandes Yidra » que cheg&rft 
naquelle tetnpOi e fbi de contrario *par«oer, dando 
boas raaoefi com que mostrou que se devia ataoar o 
inimigo pela retaguarda. Houve quern fieesae al« 
guma opposicao a este pareoer) mas pdr fim todos 
concordiirao nelle^ e o mestre de campo getieral em 
sua exeou^ao virou o exercito para oEngeuho Noto ; 
entre elle e o doa Guararapea ae alojou a noaaa 
gente aquella nolle com as oommodkladi» que o 
sitio permettia. Dadas as prorideucias necessarias 
conferio o mestre de campo general como e a que 
hora se havia de envesttr o Flamebgo^ e reaolreo- 
se que a occasiao diria o quando^ e que o modo 
hayia de sei* a peito descoberto. 

XXXII* Amanbeceo o dia 19 de Ferereiro, e 
mandou Friuiciseo Barreto que os mestrea de campo 
com seus sargentos maiores saissem a reoonhecer a 
fdrma e situa^ao do inimigo. Subfrao a urn monte 
fronteiro) e d'elle virao tudo o que desejavao. De^ 
pois de tudo bem uotado^ Tolt^rao^ e referiiio ao 
mestre de campo general que o Hollander perseve- 
rata no sitio e na fdrma que tinha o dia antes ^ e 
que o poder^ pelo que parecia^ era por cima de 
cinco mil homens^ al^m dos Indios, negros e gas^ 
tadores; seis pecas d'artilharia ^ algumas tendaa 
armadas em varias partes, e um esquadrao separado, 
que guardava a agoa, de que bebia o exercito. Con- 
ferio-se o que se devia obrar j e resolveo-se que nao 
convinha^ rista a situacao e poder contrario^ inreih 
tlUo, e muito menos expor-lhe aos olhos a inferior 
ridade de nosso exercito, escondido a sua rista 



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GASTRiOXO LUSITAlia 5S1 

pda interposi^ao dos caoateaes que o cohriao , que 
so em caso que se movesse, ou para ir adiante, ou 
para voltar atraz ( o que forcosamente havia de 
fazer) , se devia envestir ; e que no entretanto im«- 
portava^ da nossa parte ^ a Yigilancia^ para que a 
negligencia nao fo88^ molivo de perdermos a occa- 
siaOi Pelas oito horas da manha se ordenou ao ca- 
pitao Antonio Rodrigues Franca que com quatro 
companhias fosse picar o inimigo^ que sem duvida 
se moTcria provocado de Ihe tocarem arma, e as^ 
aim succedeo levado do primeiro impeto ; mas tor* 
nando sobre si^ conheceo a perten^ao da industrial 
e voltou com presteza a occupar os mesmos postos. 
Nao desistio o capitao Franca de sua missao , at^ 
que o Flamengo, impaciente de nossa fleima^ pela 
uma bora depois de meio dia, foi desoccupando o 
alto dos montes, e descendo ao baixo para se for- 
mar em esquadrao serrado* capitao Franca y as- 
sim como vio aballar o HoUandez, deo aviso ao 
mestre de campo general; o qual aproveitando a 
impatiencia e ardor de nossos soldados mandou 
tocar a envestir , sinal a que obedec^rao mais de 
y6o que de passo. ~ Nao teve o inimigo noticia de 
nossa resolu^aO) senao quando Iha deo a vista ^ des- 
cobrindo o avan^o a tempo que a envestida o bus* 
cava pelas partes definidas. Desejou voltar aos 
postos que deixdra ^ por^m atalhado de nossa diii-* 
gencia , Ihe servio o arrependimento de castigo , 
por^m nao de emenda. 

XXXIII. Foi Joao Fernandes Vieira o primeiro 
que chegou a medir o bra^o com o Flamengo, aju- 
dado da maior presteza e da menor distancia. Avan* 



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532 GA9TRI0T0 LUSITANO. 

cou ao boqueirao que achou defendido e fortificado 
com seite balalhoes ^ duas pe9as d'artilharia por 
frente no raso, e quatro por lado no raonte. Orgu- 
Ihoso e destemido o saio a receber o HoUandez , 
imaginando deter-Ihe o passo com a violencia das 
cargas, que os nossos foiio recebendo com igual 
marcha^ desprecando as balas^ como se desprezArao 
as yidas. general contrario , vendo a resolucao 
dos nossos, maadoii mais um batalhao para engros- 
sar OS sette que defendiao o boqueirao ; aqui car- 
regou o raaior peso da batalha , porque na posse 
d'este sitio consistia toda a esperanca da vicloria. 
£m igual balanca sustenlava o combate de uma 
parte o valor, da outra o numero. sangue de 
uma e outra gente mostrava o furor de todos , de 
nenhum a yantagem, esperando a victoria, os ini- 
migosy pela constancia, os nossos, pelo custume. 
mestre de campo Joao FernandesYieira) posto 
diante de sens soldados , Ihes servia de admira^ao 
e d'exemplo. inimigo animoso e disciplinado pe- 
leijava a p^ quedo, mostrando bem no valor e cons- 
tancia da resistencia, que o alentava a lembranca 
da honra e a defensa da vida. No mais travado da 
pendencia topou uma bala com o nosso mestre de 
campo, com damno tao leve, que fez sinal, mas nao 
ferida , para que certificasse a nodoa o intento da 
bala. Gonheceo no avan9o a fortuna, e na detenca 
o perigo, levantou a voz, e mandou envestir & es- 
pada. Nao parte mais furioso o penhasco desatado 
do monte, do que partirao os nossos a ferir o ini- 
migo, assombrado da facilidade com que se vio roto. 
Aquelles chucos e pratazanas, de que os batalhoes 



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GASTRIOTO JLUSlTANa 555 

contraries se armavao para apartarem de si o nosso 
ferroy rendidos & destreza de nossa espada^ abrirao 
caminho largo para seu destroco, porque rebatidos 
ou desviados os primeiros golpes, nao Ihes deixa- 
yao lugar nem tempo para os segundos. Muito 
sangue e vidas custava ao Flamengo a contumacia 
e muito mais a pressa com que se vio desbaratado 
e roto, e o boqueirao ganhado, e occupado o posto 
da nossa gente, senhoreada do sitio e da artilharia 
que o inimigo nos deixou ; por^m nao de todo a 
pendencia ja entao inuiil para a reputa^ao e para a 
esperan^a. *-*Gom a for^a e com a industria bus- 
cava Joao Fernandes Yieira nesta occasiao onde 
melhor empregasse a espada e a vista. Advertio 
que picando o inimigo pela retaguarda , ficaria de 
menor partido ; apartou do corpo de batalha dous 
tro^os de soldados, para que um pela retaguarda , 
outro por um lado Ihe tocassem arma ; o que fize- 
rao com promptidao e fortuna. Occupado nesta 
fac^ao se Ihe metteo o cavallo em o olho d'um la- 
macal , de sorte que quasi submergido se nao pode 
arrancar d'elle } soltou da sella , e como se nada 
faltara a sua pessoa e a seu cargo , tendo comsigo 
sua espada e seu bra^o , coberto d uma rodella y 
tomou a buscar seu primeiro posto na frente do 
poder contrario, que ja o achava menos. Aqui 
montado em outro cavallo, tercando a espada> le- 
vantou a voz e disse para os inimigos : (c Ah! Fla- 
» mengos, rendei-vos a espada de Joao Fernandes 
» Vieira, que nasceo para vosso a^oule* » Chama- 
dos do grito, e advertidos da pessoa , fizerao pon- 
taria n'elle vinte clavinas; desviou a for tuna as 



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5S4 GiATaiOTO LUSITAHa 

balas ; parece que obrigada da estranha ousadia. 
Delia tomou piincipio nossa victoria ^ e o Hollan^- 
dez oceasiao para depoit publicar no Arrecife que 
Joao Fernande8 Yieira ficara morto na campanhaf 
nova, com que oa do govemo contrapeBavao a 
magoa de sua perda. Foi de iodo um exeroito, e se 
equiparava com a de varao tao grande. 

XXXIV. Pop outra parte, com a mesma sorte, 
avancou Andr^ Vidal contra o inimigo. Pelo alio 
da meia ladeira, em que estava formado, o aivestio, 
e o HoUandez o esperou com tal determinacao, que 
Ihe deteve o pasao ; perseverou na eonstancia em 
quanto nao experimentou os fioa de nossa eepada , 
que a um mesmo tempo o ferio , e rompoo pela 
frente, apezar das armas que julgou encontrastaveis. 
Da mesma sorte o eort^rao pelo lado esquerdo oa ca- 
pitaes Francisco Berenguer, Antonio Borges Uchoa, 
Matheus Fagundes e Estevao Femandes, governa* 
dores pelo sargento maior Antonio Dias Cardofo , 
a tempo que pelo lado direito o envestio Antonio 
da Silva com as duas tropaa de cavallos j que valo- 
rosamente com as langaa e tropel romp^rao por ap- 
mas e defensores. mestre de campo Francisco de 
Figueiroa, com a gente do seu terco, fez nesta oo- 
casiao entender ao inimigo que a espada portugueza 
corta pelo reparo e pelo perigo. Em todos se via a 
emulacao, em nenhum a inveja ; porque em todas 
as partes andava igual a valentia^ imitando o co- 
racao e o braco de scus eabos, que igualmenle dis- 
punhao e cortavao. Ja o inimigo , roto por muitas 
partes, nos olhava com medo, e se resolvia confuso, 
bebendo o desalento na vista do estrago ; e perdida 



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QUITBI0ID LUaiTAHO. 5SS 

a di3ciplina dos aeus , largirao o posto , e virario 
43 costaSf toftndo sobre ellas os pezados golpes de 
noaso ferro, ao qual at sujeitava o terreno, que era 
por um monte abaixo, caminho por onde os corpes 
de geus mortos Ihes embara^avao os p^s e entorpe* 
^iao o lino 9 perigo do qual neuhum podia fugir, 
apertado do alcaoce, sem queo desvio o fizesse dea^ 
p^nbar pelas quebras^ f ragas e roturas do mopte que 
ou o detinbao a esperar o golpe, ou o guiarao a 
morrer da queda. — Em quanto succedia o referido, 
pela parte do monte ganhara e guamec^ra o mea^ 
tre de campo Joiio Fernandes Vieira o boqueirao, e 
ataegur^ra a defensa com duas pe^ d'artilharia 
do inimiga, que fic^rao em nosao poder. Subio o 
montei onde o Flameugo tinba a bataria das quatro 
pe^aS) e um grosso d'ipfantaria, eom seus reparos, 
que ipyestio com alentoa d'esfor^ado e rictorioso. 

XXXV. Veudiao os HoUandews caras asvidas^ e 
caaio tiobao brago poupado prpmettiao vigorosa 
reeiatenda* Viuha ideate meio tempo Andr^ Vidal 
de Negreiros no alqance dos Hollandezea vencidos e 
desbaratados y e daaeobrio no valle lun esquadrao 
ittimigOi formadp daa reHqiiias de sen destro^o^ 
haqu£»|doa os soldados d'elle, por nao serem vistos^ 
eaperando nosso descuido para executarem sua 
ten9ao , que era oarregar sobre Joao Fernandes 
Vieira. Andre Vidal^ em eujo ariimo ardeo sempre 
n valor sem fumoa de receio ^ eom um mesmo im^ 
pete empuTibou a espada, e levantou a voz dizendo 
aos poucps que achava con^sigo (toda a sua gente 
vinha espalhada ^ sem mais tino que o de matar e 
£mr) ; (( A! eapada^ soldadoa ; » e para o capitao de 



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556 CASTRIOTO LVSITARa 

carallos Antonio da Silva : « Avance V. M. a'o ini- 
» migo« e nao se de quartel a quern vencido o des- 
» preza. » Duvidou o tenente Manoel de Araujo o 
avancOy pela disparidade do numero, da forma 
e do tempo ; considerou que aos montados haviao 
de busear todos os pelouros, e receoso da certeza 
do perigo^ olhou para o sen capitao , o qual o en- 
tendeo, e o obrigou^ dizendo que na guerra em 
nao temer o perigo se verificava o nascer honrado ; 
e apertando as pemas ao cavallo, seguido de todos 
OS seuS) envestio o esquadrao contrario, que abrio 
a for9a de bra^o. Andr^ Vidal, com aquelles sol* 
dados que Ihe deo o repente j recebida a primeira 
carga do Flamengo, sem Ihe dar tempo a que d^sse 
segunda , o envestio , e oortou com tao for^osos 
golpes y que por onde nao partiao , destroncavao. 
Vinha mais distante Antonio Dias Cardozo, sup- 
prio a tardan^a com 'a intelligencia ; cortou pela 
fralda do mcmte, que Ihe offerecia caminho mais 
curto, e de lado deo uma carga cerrada no esqua- 
drao inimigo com tao bom emprego que Ihe fez 
virar as costas pela ladeira do monte contrario. A 
no8sa[cavallaria^ que por aquella parte fazia frente, 
sem poder voltar ^ porque Ih'o empedia uma grande 
quebrada do monte, esperdu^ sem movimento, uma 
carga do Hollandez com tamanho damno, que d'elle 
cairao mortos o sen tenente Manoel d'Araujo, qua- 
tro soldados^ seis cavallos e alguns feridos ; porim 
OS mais^ seguindo o alcance aos Flamengos, fizerao 
tal estrago , que sobej^o mortos a yingan9a. No 
tempo que este combate andava mais travado, yinha 
um batalhao do inimigo em &vor doa sens , bus* 



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GA8TRI0T0 LU8ITA!K>. 587 

cando-no6 p6r um lado , e sem duvida nos dera 
muito trabalho , sc os outros capitaes , com suas 
companhias em um corpo, se nao adiantarao a re- 
ceb^l-o com tao furioso encontro, que o fizerao 
voltar e fugir. Tinha ainda o Hollandez um esqua- 
drao de reserva, o qual, Tigilante em nosso damno, 
esperou a occasiao mais opportuna. No mais ba- 
ralhado do conflicto corria por um monte a cortar- 
DOS pela retaguarda j o que sendo advertido pelo 
mestre de campo Francisco de Figueiroa^ subio ao 
monte, recebeo na ladeira d'elle com uma carga de 
mosquetaria , assim lograda, que sem defensa o fez 
mudar d'intento. Fugio desordenado e medroso, 
primeiro de nossa espada que de sua perda ; seguio- 
Ihe o alcance com uma turma de moradores , que 
sem consideracao cortavao por sujeitos e rebeldes. 
£m todas as partes achava o Flamengo uma mesma 
fortuna , porque em todas se consumava a victoria 
com uma mesma crueza . « 

XXXYI. Joao Fernandes Yieira, quedeizamos 
no monte pelejando a peito descuberto contra o 
esquadrao inimigo , que guardava a artilharia, as*- 
sistido dos seus obrava de maneira que os nao sabia 
ver o inimigo sem pasmo. Longo e encami^ado foi 
o combate, at^ que, vencida a multidao pelo valor, 
foi rota e ganhada a fortificacao e a gente contraria, 
e se fizerao os Portugueses senhores da bagagem e 
da artilbaria inimiga, com morte do coronel Brine, 
general do Hollandez nesta empreza : andando 
montado compondo e ordenando os seus, como va* 
loroso capitao e destro soldado, quando uma bala 
o matou, e logooutra o cavallo. Ao seu almirante 



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i1» Qwvmo mffAiKK 

4o niar t\po\x a vida outra bala, bem junto do sua 
artUbaria. Pero Potyt maioral do8 Indioa, com sorte 
niaii fa vera vd, ficou priaiopeiro. Ganhada a artH* 
UiarU , e posta am sua guarda a gepte nacessariat 
foi Joao Fernandas Vieira aeguindp a victoria, oom 
t^nto estrago do inimigo , que o nao aabia ver a 
vingan^a aem Ustima. Engolfado no alcance o vio 
perto d« ai um batalbao de HoUandezas^ a sem al^ 
gum deaembainbar a eapada, ?a Ibe^rend^rap todoSf 
pedindo bom quartel, que a gi^eroaa valentia da 
Joao Fernandea Vieira Ibea conoedeo. Nao tinba 
fio« sua espada para cortar fracos, nem readidoa ; 
obstinadoa e rebeldas, sim. -r^ Ainda a esta bora 
durava o conflicto naa fraldas doa montes. Com a 
pspada na mao faziao maravillaa oa mestres da oampo 
finiri Vidal de INagreiros, Francisco de Figueiroa, 
e aarganto maior Antc^uo Dias Cardoao» aem que 
dfvaiaa ns^ a 9au axemplo a imitaQao do» $aldadoa. 
Joao Fernandes Vieira (com a propriedade do raioy 
que sem dascaoQar mtn e mi pelaa parades d'um 
^teio) r^mpmdch^ 0das, aa foi nnir com oa 
ditQs cabo»f a t^mpo que oinimigOy afrouxando no 
oombate nos ia deUando a victoria i opprimido da 
npsaa yiolanaa^ largou o campo^ e virou aa coataa , 
Qom o que em todaa aa partes se via estrago sem 
batalba. Nim bavia oontrario que o qui^ease parei- 
cer ; aa armaa, que oa aoousavao inimigoa , deitavao 
longe de ai| para que oa nao ^vertissem oppostos. 
Os ean^ados a feridos, vestidoa da submisaao, £ar 
siao da uaceasidade virtude; os fliais, deaadnados 
e peiaeguidoa do borror, da eatragQ, e 4a sombra 
do hnOf aoffriaa a pnoipiiarrBe pai^ qi^ehmdaa e 



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CASmmO VBfOtAJK^ 5SQ 

grutas doa montei , nas quaes ^meiro aefaayao ft 
sepultura que a morte. IXestes poucos fovio m 
que aoertarao ¥ereda» gem perigo , deixando as art- 
mas J que o desejo da vida Ibes fazia largar, oomo 
embara^ da fuga. Os uossos, que por toda a parte 
aeguiao o alcance , ja captivavao com desprezo, j4 
nmtavao sem colera. A cavallaria^ seguida dos mo«- 
radores que se achavao mootados , os perseguirao 
eom for^as poupadas, at6 is portas de sua fortalesa 
da Barreta^ onde o cabo conheoeo os seus, para os 
recolber, pela lingua^ mas nao pelas oaras, afeadas 
e difformes do sangue e das feridai. Nos Indios e 
uegroa do Camarao e de Henrique Diaa experiqaen* 
lanio OS tristes vencidos mais viva a perseg^i9a0 e 
a crueza, porque a simgue frio matarao ( naquelle 
e nos dias seguintes) muitos HoUapd^Mss^ que os 
matos esoonderao , e livraiip do primeiro ferro. 
Pareoe que nao virao os plhoa e^mpo de batalbfL 
em que ( em seu tanto ) se consideriiase tamanho 
estrago. 

XXXVU. Francisco Barreto de Menazea, a quern 
ae deveo em grande parte o bom aucoesso d'este 
dia J moitrou nesta ocoasiao o juizo e a destreaa 
com que usara do bastao e da espada. A presraoa 
o fez testemunba fiel do valor de aeua eabos , e da 
valentia de todos ; e a eada \m em particulw fftur 
tificava o service com os LjuYoras e com oa brai^, 
magoado de poder nao mediri-lhes os premioe peloe 
m^recimmios. Ao menor soldadp honraya e en*- 
grandeoia oom o favor e com o gabo , fazendo^'lhe 
entender que o metiia no cora^. Iguaes todos no 
goato, oomo o foriftno perigO| ae davio recipDooos 



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5ft0 GASTBIOnO LUSITAlia 

parabeDS da Tictoria. — Durou a batalha das duas 
at^ is oito horas da noite ; tempo em que os nossos 
soldados se recolh^rao a seu alojamento, onde sem 
lemhran^a do trabalho festejarao a victoria com 
universal confissao de que s6 a Deos se deviao as 
gracas de tamanho beneficio. Toda a noite se pas- 
sou com desvello que causa a desmaziada alegria. 
A relacao do perigo afugentava o somno ; a me- 
moria do trabalho nao deixava lembrar o repouso, 
e muito menos as vozes e estrondo dos instrumentos 
bellicos^.que em toda a noite nao deixarao de pu- 
blicar o triumpho. Por ordem do provisor e viga- 
rio geral se fizerao accoes de gracas a Deos no do- 
mingo seguinte^ comgrande solemnidadeeregozijo, 
assistindo as cummunidades religiosas e grande 
concarso de povo. 

XXXVIII. Com o preco da victoria nao teve com- 
paracao o custo^ ainda que fosse muito consideravel 
a perda. Quarenta e sette mortos d^mos A terra, 
entre elles o sargento maior Paulo da Cunha, o ca- 
pitao tenente de cavallos Manoel d'Araujo ; capi- 
taes feridos^ Gosme do Rego, que morreo em breves 
diasy Manoel d'Abreu, Paulo Teixeira, Joao Soares 
d' Albuquerque , Jeronimo da Gunha do Amaral^ 
Estevao Fernandes, Manoel Antonio de Carvalbo, 
Joao Lopes, Henrique Dias; estes com os mais fe- 
ridos chegirao a fozer numero de duzentos e sette: 
raro foi o que morreo das feridas pelo diligente 
cuidado que se poz em sua cura. — Deixou o Fla- 
mengo por cima de dous mil homens mortos ; entre 
elles o general Brine , e o almirante do mar. Os 
feridos se nao forao todos^ ficarao muito poncos 



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CAsmuyto lusitano. 5M 

por assinaUr. Nao houve quern desse numero certo 
aos prisioneiros ; seria porque so de Pedro Poty, 
maioral dos Indios^ fez caso a vinganca. Dous 
annos e meio viveo preso em duros ferros, depois 
dos quaes o embarcdrao para o reino ; viagem que 
nao acabou atalhado da morte. Entre todos os des« 
pojos forao dez bandeiras , o de maior estima^ao e 
de maior preco o estandarte general ^ que ficou 
em poder de Joao Femandes Y ieira ; os de mais 
utilidade seis pecas d'artilharia de bronze ; armas 
de toda a sorte, sem numero ; municoes de todo o 
generoy mais que muitas ; mantimentos em grande 
copia. Os demais gosto, a copiosa multidao de pra- 
tasanas, chucos e alabardas^ em que os nossos viao 
destro9ada, e rendida a sens p^ toda a confian^a 
inimiga. 

XXXIX. Acharao-se nesta occasiao o mestre de 
campo general Francisco Barreto de Menezes , os 
mestres de campo Joao Femandes Yieira^ Andr^ 
Yidal de Negreiros , e Francisco de Figueiroa ; o 
tenente general Philippe Bandeira de Mella; os sar- 
gentos maiores Antonio Dias Cardozo^ Paulo da 
Gunha , Jeronimo de Inojoza ; os governadores de 
Indios e Minas, D. Diogo Pinheiro Camarao^. e 
Henrique Dias ; o capitao de cavalios Antonio da 
Silvae Manoel d'Araujo; capitaes d'infantaria Joao 
Fradique, Francisco Berenguer , Joao Soares d'Al- 
buquerque, Antonio de Castro , Jeronimo da Gunha 
do Amaral, AfFonsod' Albuquerque, Gosme do Rego 
Barros, Francisco de Lisboa, Bertholomeu Soares 
Canha, Francisco Barreiros, Antonio Borges Uchoa, 
Joao d' Albuquerque , Antonio Rodrigues Yidal , 



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Ml Giiflaon iniiMM. 

Mbmoel Monii, Yioente Curtdo Montinho^ Braz de 
BiiTOB Teixtira ^ Domingos de Si Barbosa , Paulo 
Teixeira, Goncalo Pereira Fidalgo^ Brax da Rooha> 
Manoel d'Akureu, Francisco Ramoe, Manoel Lopes, 
Amaro Gordeiro^ Domingos Ferreira, Gregorio de 
Galdas> Simio Metides, Philippe Ferreira, Estevio 
Feinattdes, Oregorio Fragoso d'Albaquerque^ Se^ 
bastilo Ferreira^ Amonlo da Rocha Damas, Joao 
Barboza , Antonio Curado Vidal , Antonio Rodri- 
gues Franca , Joao Lopes i Manoel d'Aguiar^ Ma- 
noel Antonio de Garvalho, Antonio da 8iWa> Ama- 
dor Rodrigues, Fratidsco da Rocha, Antonio 
Rodrigues Santiago , Pedro de Miranda , Feraao 
de Mello d'Albuqtierctue ^ D. Joao de Souxa^ 
Amaro Yclho Gerqueira, Frandsoo Goutitihoi Mi^ 
guel Fernandes, Clemen te da Rocha , Jacintho da 
Grue ) e Joao Luit. Fah&rio nas listas os nomes 
d'alguns capitaes, ou porque o aWorofo os nao 
adTertioy ou porque a fragilidade das memcn^ias os 
esqueceo* 

XL. No dia 20 de Ferereiro^ depois d'enterrados 
OS mortos^ acommodados os feridosi e recolhido 
todo o despojo do campo inimigo, marchou o nosso 
exeroito para a fortaleza do Arraial^ onde foi rece- 
hide com salvas dos presidios, e com tumultuosa 
acclama^ao de vivas , que sem descan9o davao os 
moradoreSi que seguros na confian^a da victoria 
tinhao jk deixado os matos e esperavao os restaura- 
dores de sua liberdade para os acclamar por ta^. 
--^No seguinte dia mandoU o Hollandez embaixada, 
em quepedia suspensao d'armas para dar sepul* 
tura aos corpos de seus mortos^ que ficarao sobre a 



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terra no campo da batalha. Goncedeo'^e^lhM a li-^ 
oeti^a pcdidiBi^ e o sargento maior Antonio Diaa Gar-* 
dolo foi eiicarregado de assisiir oom a infanlaria 
neoeaaaria aos ministros hollandezes, em quanto 
durasae o enterro segUndo o eatilo da guerra. «-• 
capitao hoUandez^ que foi encarregado d'esta 
diligencia^ Tinha acompanhado d'um judeo muito 
conhecido dos nossos^ que Ihe servia d'interprete. 
Pedirao amboa licen^a para yer o noaso Arraial i 
oonhecerem e abracarem tao deatinotoi capitaes ^ 
maa outro era o seu fim. Depois de conoedida a 
licencat foi conduzido o oapitao hollandez a preaen^a 
de Francisco Barreto de Menezes, que com oa cabos 
maiores o esperava em uma sala alia. Subio^ e com 
qeremoniaa de aubmiasao o aaudou e aos mais, e 
proaeguio com animo doln^ado dando a todoa oa 
petamea da morte do sargento maior Paulo da 
Gunha i e de Joao Fernandas Yieira , a qual elle 
muito sentia como aoldado, posto que no Arrecife 
a tiverao por tamanha dita que oa do goyerno se 
davao una a outros os parabens. Era o fim da yinda 
do capitao hoUandez e do judeo certificar'^se da 
morte de noaso governador da liberdade, a qual ae 
espalharaentre os inimigos^ comoacima dissemoa; 
por issO) Francisco Barreto, depois de Ihes assegu* 
rar que Joao Fernandes Yieira nem ao menos fidira 
feridoy o mandou chamar ao seU engenho de Sao 
Joao (nao muito distante). Chegou Joao Fernandea 
Yieira, e depois de ouvir o que a seu respeilo disse 
o capitao e o judeo, Ihes respondeo : a Se os se-> 
9 nhores hoUandezes dizem que dei a vida pela 
» victoria y fallao pela boca do seu desejo; se o 



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5Uk CA8II1090 LOSTAMw 

» crem , i negocia^ao de sens delictos , porque se 
» persuadem que acabaria seu castigo com minha 
» yida ; mas desenganem-se , que se a%6 agora fiii 
n seu a^oute, yivo, d'aqui por diante o serei como 
M resuscitado; porque sabe Deos resuscitar mortos 
» para castigar soberbos. i> Passou depois a (n^tica 
a materias jooosas, com que os nossos cabos os en- 
iretiverao ; agasalharao - nos com abundancia e 
honra , ati que no outro dia voltarao para o Ar- 
recife , onde o desengano fez tanta impreasao bos 
do goTemo, que foi maior a tristeza que causou a 
▼erdade, que toda a alegria que tinha introduzido 
a suspeita^ porque a causa do pezar era carta , e a 
do gosto duvidosa. 

XLI. Passarao-se alguns mezes em que as arma^ 
esti^^rao suspensas d'uma e d'outra parte , occu- 
pando*se ambas em rq)arar suas perdas, disdpli- 
nar seus soldados, e aprestar-se para nova luta. — 
Em quanto em Pernambuco succedia o referido, 
caminhava no reino & sua execu^ao o assento de que 
08 navios mercantes navegassem em frotas , com- 
boiados por conta da nova companhia g^ral. £m 
4 de Novembro de i 649 saio de Lisboa a primeira 
froia, seu general o conde de Castellomelhor Joao 
Rodrigues de Vasconcelhos (a quem £1 Rei Dom 
Joao IV mandava governar aquelle estado) , e por 
seu almirante Pedro Jaques de Magalhaes, cabos ja 
entao de fama , e que depois occupirao os maiores 
postos de' guerra. Com prospera viagem os virao 
naquelles mares naturaes e estrangeiros , colhendo 
uns as premissas de suas esperancas n<5 seguro do 
commercio , outros confirmando os receios de que 



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CASTRIOTO LUSITANa 546 

buscavao seus portos com segunda tencao. Este 
cuidado servio ao Hollandez de freio para que nao 
ousasse levantar o braco os mezes que a frota tar- 
dou em voltar para o reino. 

XLII. Vio-se Sisgismundo livre da causa que 
Ihe tomava a respiracao, e quiz experimentar o 
estado de sua fortuna. Em 25 d'Agosto mandou um 
grosso d'infantaria, que pela estancia do Mendonca 
tomasse o pulso a nossa vigilancia. Saio pela forla 
leza dos Affogados, como a maisproxima, epresu- 
mia remissao em nosso cuidado pela continuacao 
do ocio ; mas achou as vigias despertas, e as armas 
promptas. Com ellas na mao saio a recebM-o o ca- 
pitao Uchoa com a gente do presidio, a qual, como 
innundacao reprimida, rompeo pelo inimigo com 
tal violencia, que sem esperar segundo golpe virou 
as costas, deixando sette mortos, que Ihe nao per- 
mittio retirar a pressa do alcance ; e nos muitos 
feridos, com que se recolheo, levou a melhor cura 
de seu engano. Em 7 d'Outubro saio para atacar a 
estancia que chamavao do Aguiar, mas nao teve 
melhor fortuna, porque o capitao e seus soldados o 
rebatt^rao com grande perda, Em 1 5 de Dezembro 
fez o Hollandez outra sortida sobre a estancia das 
Salinas, embuscando-se primeiramente no mato 
para melhor lograr seu intento ; mas os nossos tendo 
d'isto noticia, com valor o investirao ; e como por 
algum tempo rebatesse o encontro, larg^rao os nios- 
quetes, e tanto que desembainharao as espadas , os 
fizerao virar as costas, perdendomais gente na fuga 
do que na resistencia. — Desenganado Sisgismundo 
que nada podia obter por terra, mandou unia pe« 
L 35 



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5i||6 GA5TRI0T0 LUSITANO. 

quena esquadra ao no de Sao Francisco, escoiw 
dendo a necessidade de mandar buscar mantimen- 
tos , de que inuito precizava , com a yoz de que 
mandava a destruir os moradores. Em os ultimos 
d'este anno de 1650 saio da barra do Arrecife, e 
deo a vda para o seu destino, que elle julgava 
ignorado dos nossos ; mas Francisco Barreto de 
Menezes tendo nolicia da tencao do Flamengo, de- 
liberou-se em mandar qiiem impedisse sua pre- 
tencao, consultou os meslres do campo, e aprovada 
a cautela, nomeou-se o sargento maior Cardozo 
para a execucao d'ella. Em 5 de Janeiro saio do 
Arraial com quinhenlos soldados, e marcha lao 
ligeira que ja aos 15 cstava dentro dos limites 
daquella capitania, da qual achou ja retirado o 
Flamengo, tao obediente ao aviso que Ihe deo, 
que nada conseguio do que intentava. Nao tendo 
inimigos que combater, abrazou tudo quanto po- 
dia ser de prestimo para o inimigo, recolheo tudo 
o que pareceo util para os sens, e se voltou para o 
Arraial magoado de obrar so o facil. 

XLIII. Continudrao OS nossos em sua vigilancia 
armando continuas ciladas ao Flamengo^ com tao 
bom successo que quasi se nao atrevia a sair fora 
de suas muralhas, aid que se resolveo a sair com 
maior poder para nos atacar a estancia do Men- 
donca. Saio com etTeilo em a manba do dia 7 de 
Abril dc 1651 com trezentos infantes; forao logo 
descobcrlos de nossas sentinellas, derao rebate, 
saio o capitao da eslancia com a sua gente a rece- 
ber inimigo : por largo espaco esteve igual a pen- 
dcncia , al^ que mettendo os nossos mao a espada 



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GASTBIOTO LUSITAlfO. bill 

para logo se indinou a victoria a nossa parte. Vi*- 
r^rao as costas, e deix^rao quinze mortos pela$ 
custas ; maia leves as no^sas , que nao pass^rao de 
seis feridos. — Teve neste tempo noticia o mestre 
de campo general que o inimigo andava senhor da 
campanha do Rio Grande como se a elIa[nao pud^ra 
chegar a nossa espada ; com o volo dos mestres de 
campo nomebu o capitao Joao Barboza Pinto, valor 
roso e pratico, o qual saio do Arraial em 16 de 
Julho com trezentos soldados , e ordem que sem 
perder tempo marchasse ao Rio Grande, e mos«i^ 
trasse ao inimigo, que a espada dos Portuguezes a 
toda a parte cbega, e por tudo corta. Com a noti- 
cia da yinda da nossa gente, recolh6rao-se os Hoi- 
landezes e Indios a uma fortificacao, que tinhao no 
sitio das Guarairas , onde presumirao a defensa, 
mas onde acharao a entrega, porque investida e 
ganhada, perdfirao todos a liberdade, e so alcanca* 
rao a merc6 da vida. Correo Joao Barboza Pinto toda 
o capitania , e como raio abrazou a terra de modo 
que nella nao deixou homem rebelde , nem cousa 
util. Voltou para Pernambuco com alguns gados e 
oitenta e tres captivos flamengos, negros e indios, 
A mesma sorte teve o Flamengo n'uma tentativa 
que fez contra a nossa estancia do Aguiar, onde corw 
tado de nosso ferro , e perseguido de nossos golpes 
deixou precipiiadamente o campo, deixandogrande 
numero de mortos, e fugio a buscar o abrigo de sua 
artilharia. 

XLIV. Seis mezes deixou o HoUandez descancar 
nossas armas ; estavao os nossos soldados descon- 
tentes do ocio, pois nao sabiao viver sera peleiar; 



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548 CASTRIOTO LUSITANO. 

para Ihes satisfazer a vontade, e para nao deixar 
amortecer o espirilo e ardor guerreiro , mandou o 
mestre de campo general ao sargento m6r Cardozo 
que com quacrocentos soldados se emboscasse entre 
as fortalezas dos Afibgados e Barreta , e picasse o 
inimigocoTn algumas mangas de soldados. Vio o co- 
inendor da Barreta que a occasiao o convidava com 
melhor parlido ; saio com alvoroco, inveslio com 
orgulho, que os nossos reprimirao com tanta gen- 
tileza , que o comendor dos Afibgados soccorreo os 
seus com promptidao e poder ; sairao os nossos das 
emboscadas , e em esquadrao unido fizerao frentc 
a um e outro inimigo ; travou-se a pftleja, accendeo- 
se o furor, durou tempo consideravel o choque 
com indifierente fortuna: mais de hora e meia pro- 
fiou a ira (tao quentes os animos como as armas). 
Com a resistencia cresceo o vigor da nossa gente, e 
carregou o inimigo de sorte, que obedeceo o maior 
numero ao melhor braco. Roto c desordenado o 
Flamengo, buscou na fugida o remedio, e nella 
acliou o estrago ; levava nas costas os golpes de 
nossas espadas : perdeo as armas e o tino , e sem 
saberem como, uns se deitdrao ao rio, onde niais 
de pressa beberao a morte ; outros correrao a bus- 
car o amparo nas suas fortalezas, deixando no 
campo quinze mortos, e pelos matos muitos feri- 
dos, onde os mais d'elles perecerao. Recolherao-se 
OS Portuguezcs ao Arraial alegrescomo victoriosos; 
mais agradecidos a occasiao pelos metter no choque, 
que por Ihes dar a victoria. 

XLV. Tendo o mestre de campo general noticia 
de que os HoUandezes tinhao no Rio Grande muito 



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GASTRIOTO LUSITANO* 5&9 

pao brazil para levarem ao norte , e quereformadas 
as rocas, crias e plantas colhiao maQtimentos^ que 
mandavao para o Arrecife, se determinou a man- 
dar o sargento mdr Gardozo com quinhentos sol- 
dados a recolher aquelle genero , e tudo o mais 
que tivesse prestimo, e abrazar o que se nao po^ 
desse conduzir. Parlio do Arraial em 20 de Maio^ 
entrou na campanha sem ser esperado; rendeo 
muitos negros, dos ludios castigou os contrarios, 
e fayoreceo os neutraes. Destruio as rocas, lavou- 
ras, canaveaes e abeguarias; entregou ao fogo grande 
quantidade de pao brazil ; e deixando no sangue 
e nas cinzas o mais horrivel pregao de nosso furor 
e seu casdgo voUarao os nossos para o Arraial, sem 
dilacao, nem perda, onde os soldados festejirao a 
restituicao e posse de nao pouparem inimigos. 

XL VI. Foi este golpe dos mais sensiveis que re- 
cebeo o Flamengo^ porque o ferio na garganta e na 
bolca y e nao convaleceo d'elle em todo um anno , 
tempo em que em tudo se negou a toda a occasiao, 
que podia dar materia e argumento a nossa historia. 
Tinha visto que todas as tentativas Ihes falhavao ; 
nao Ihe restava senao um meio para melhorar sua 
fortuna , e era ganhar-nos a fortaleza do Arraial. 
C!onhecia Sisgismundo a difficuldade da empreza ; 
mas por satisfazer ao desejo dos do governo, pro- 
poz-se a ganhar primeiro a estapcia do Aguiar, 
sem que nada podia intentar com o Arraial. — 
Em 1 1 de Marco de 1 653 saio a campo com poder 
proporcionado ao intento. Era capitao d'aquella es- 
tancia AfTonso d'Albuquerque , herdeiro d'aquelle 
valor que fez grande o nome e o appcllido. Assim. 



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550 GASTBIOTO LUSTTANa 

que descobrio o Flamengo, saio a receb^l^o com o 
seu presidio, com tal f6rma e Talor, que apezar de 
proBosa resistencia o obrigou a largar o campo^ 
com perda de nao pouco8 mortos e feridos. Pouco 
tempo depots voltou o Flamengo com maior poder, 
bem decedido a rocar o mato que cobria a nossa 
estancia , para que sua artilharia podesse laborar 
contra ella ; mas como o nosso mestre de campo 
general tivesse reforcado por prevencao o presidio 
da nossa estancia , saio-lhe o conceito errado. — 
Tinhao-se os Hollandezes emboscado , e esperavao 
que quando nossa genie saisse para os rebater cairia 
em suas maos, e logo com facilidade se apoderariao 
da estancia ; mas o capitao Paulo Teixeira, que se 
achava com muita e boa gente , saio da estancia , 
rompeo as emboscadas , investio o esquadrao ini-^ 
migo, que assombrado de se ver atacado por muito 
tnais gente do que esperava, esfreou na resistencia^ 
e (bgio cortado de seu espanto e de nossos golpes> 
tao vergonhosamente ^ que nao Ibe bastou a causa 
para Ihe diminuir a injuria. Determinou restaurar^ 
ae na honra, e pelas tres boras da tarde voltou com 
dobrado poder e arrogante furia ; mas no mesmo 
posto encontrou a mesma resistencia. Sustentou 
o avan^o em quanto dur^rao as cargas; mas tanto 
que sentio o corte de nossa espada, deixou o campo 
e a victoria, contente com retirar sens mortos, por 
DOS diminuir o triumpho, coroado n'este dia com 
dobradas palmas. 

XLVH. Crescia entretanto no Arredfe a fome 
com a falta de mantimento^ ; era a barra a porta 
por onde Ihe podia entrar o sustento ; acabara^^ae 



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CASTUOXO LUSlTAMa 551 

das presas , o da HoUanda nao chegata y e havia 
mezes que se nao tinha visto embarcacaa do norte. 
For9ado da necessidade aprestou Sisgismundo al- 
gumas embarcacoes para mandar ao Rio deSao Fran- 
cisco, com gente de guerra, que a seu salvo condu- 
zisse OS gados d'aquella campanha as embarcacoes, 
e Delias ao Arrecife. For ordem do mestre de campo . 
general assistia & defensa d'aquelles moradores o 
capitao Francisco Barreiras com a sua companhia , 
com que refreava as correrias do inimigo ; dirao- 
Ihe rebate das que fazia o HoUandez , recolhendo 
gados e mantimentos ; buscou-o nosso capitao acom- 
panhado de sua gente e d'alguns moradores ; avis- 
tarao-se na paragem que se diz Santa Izabel. Foi o 
encontro profiado ; porem como o inimigo vio que 
a resistencia Ihe augmentava o damno , deixou o 
campo retirando-se era ordem, mas nao sem perda, 
que Ihe ficarao no campo trinta e sete soldados. 
Perdemos nesle choque o nosso capitao Barreiras 
e tres soldados, e tivemos doze feridos. Ghegou a 
nova ao Arraial ; e a morte do capitao enlutou o 
gosto da victoria : mereciao suas prendas todo o 
sentimento que causou sua falta. 

XL VIII. Ainda nao desenganado o Flamengo 
com tantos revezes , intentou mais outra vez ro^ar 
mato que nao deixava descobrir a nossa estancia 
do Aguiar. Com trezentos homens saio pela parte 
dos AfTogados a intentar o c6rte da mata entreposta. 
Gmarnecia a estancia o capitao Francisco Pereira 
Guimaraes com sessenta soldados. mesmo foi ver 
o destemido capitao o inimigo^ que avancal-o, rom- 
pd-o, e destruil-o com perda de tres feridos, um 



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552 CA8TEI0T0 LUSTTAIia 

capilao, um alferes e um soldado. Em 12 de No- 
vembro succedeo o choque ; de que o Flamengo 
saio bem sangrado, mas nada convalecido. Em breves 
dias voltou com o mesmo intentOy e quinhentos 
soldados. Saio-lhe ao caminho o capitao Manoel 
d'Aguiar; com leve resistencia o desbaratoi!, e se- 
guio, matando e ferindo, sem algum Ihe virar a 
cara, que todos levavao no abrigo de sua fortaleza* 
Lastimado e confuso o deixou o caso , porem nao 
arrependido. A breve duracao de seu imperio mos- 
trou nesta contumaciam que luctava j^ com a morte; 
deixou de profiar, porque Ibe faltou o tempo, e nao 
porque cobrasse juizo , que delirante o levava ao 
ultimo passo de seu dominio. 



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LIVRO XII. 



SUMMARIO. 



1. Razoes por que J. F. Vieira desejava dar fim A guerra.— 2. Fran- 
cisco Barreto poe a empreza em coDselho. — 3. Pareceres dos mes- 
tres de campo. -- 4. Chega & vista de PerDambuco a frota da 
compaDhia Tinda de Lisboa. ^ 5. Francisco Barreto manda visitar 
o general d'ella; paga esle a vistta saindo a terra; mas escusa-se 
a dar auiilio para a empreza pelas ordens que traz. ^ 6. A ins- 
tanctas de J. F. Vieira ajuntao-se em conselho os cabos de mar e 
terra ^ sens pareceres; 4 approvado o de J. F. Vieira. — 7. D4-se 
principio k empreza pela fortaleza do Rego ; dispoe-se a conquista 
do Arrecife por mar e por terra. — 8. J. F. ^eira reconbece as 
fortalezas ; p5e cerco & fortaleza do Rego. — 9. Formao-se as ba- 
tarias e se abrem as cavas ; intenta o inimigo soccorrer a sua for- 
taleza; com que successo.— 10. Gontiniia Andr^ Vidal de Negreiros 
OS ataques, e se Ihe entrega a fortaleza a partido.— 11. J. F. Vieira 
cerca a fortaleza de Altenar. — 12. Manda Sisgismundo largar a 
fortaleza da Barreta, de que D. Dipgo Pinbeiro se apossa. — 
13. Larga o inimigo a fortaleza do Boraco de Santiago; mudade 
alojamento Francisco Barreto. — 14. Continuao os ataques k for- 
taleza de Altenar, e se Ihe impedem os soccorros ; amotinao-se os 
Hollandezes, e a entregao. — 15. Condicdes com que saem os ren- 
didos ; perda d'uma e outra gente.-*16. Preparao-se os nossos para 
combater a fortaleza das Cincopontas. — 17. Desamparao os Hol- 
landezes a forlaleia dos Affogados. — 18. Ganha Andrd Yidal a 
eminencia do Mihou ; Sisgismundo intenta recuper&l-a ; mas retira- 
ae. — 19. Continiia J. F. Vieira os aproxes das Ginco Pontas; per- 
suadem os judeos a entrega do Arrecife. •— 20. Pede Sisgismundo 
suspensao d'armas para tratar da entrega do Arrecife ; com que 
limite se Ihe concede. — 21. Pessoas que se nomeao para o aeordo 
das capitulacoes ; proposta do HoUandez. — 22. Gapitula-se a en- 
trega do Arrecife ; com que partidos e condicoes. — 23. J. F. 
Vieira toma possd da fortaleza das Cinco Pontas* da cidade Mau- 
ricea , e de todas as fortificacoes e almazens. — 24. mestre de 
campo general faz sua entrada no Arrecife. — 25. Numero dos 
rendidos, da artilbaria e das annas.— 26. Fementido trato do Hol- 
landez. — 27. Francisco de Figueiroa toma posse das mail capi- 



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554 CASTRIOTO LUSITANO. 

UdIas e forUlezai. — 38. Segae a nossa armada a sua demU 
para a Babia ; saem do Arrecife dous avisos para o reino ; de que 
S. M. recebe a nova. — 29. Pra^as que o HoUandez deiiou. — 
30* O que deve a na^o e o reino a J. F. Vieira. 



I. Nos fins de Dezembro de 1653 comecirao os 
habitantes a mostrar-se enfastiados de tanta de- 
mora, e quasi perdiao a esperanca de verem co- 
roados de successo seus heroicos esforcos. Da des- 
confianca passavaoa queixa, accusando de frouxidao 
o que era prudeDcia. Dizendo que se envestisse 
com o Arrecife a todo o risco ; que morrer por 
morrer, antes no assalto com gloria, que no Arraial 
com miseria ; que as vidasque consummia o tempo 
sem fructo melhor se empregariao no combate com 
utilidade e honra. Feriao estas queixas o coracao 
de Joao Femandes Vieira j porque se considerava 
cabo, companheiro , e motivo. Tinha sido causa 
para os moradores toraarem armas, influindo em 
todos com a persuasao e com o exemplo , o desejo 
e esperanca da liberdade : razao, que o fazia autor 
da pena e reo da queixa ; estimulos que o obriga- 
vao a envestigar com mais cuidado os meios por 
onde melhor se poderia conseguir a execucao de 
sua promessa. Esta era toda a occupacao de seu 
juizo, e de seu desejo. Tinha assentado comsigo 
que para a conquista do Arrecife e suas pracas 
valia pouco toda a hostilidade de terra , faltando 
poder que Ihe impedisse os soccorros do mar; e 
como era este o tempo em que as frotas do reino 
sulcavao aquelles mares , resolveo-se a pedir o soc- 
oorro de teus cabos » os quaes como bons Portu- 



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GASTRIOTO LUSITANa 555 

guezes, experimentados soldados^ e convidados 
pela estimacao dos despojos , nao se recusariao a 
tomar parte em tao gloriosa empreza. Propoz ao 
mestre de campo general este pensamento, indicou- 
Ihe OS meios para este fim , maDifestou-lhe todas 
as queixas dos moradores, e quam resolutos esta- 
vao a sacriGcar as vidas para acabar o que haviao 
come^ado e proseguido com tanCa gloria; e concluio 
dizendo : « Ja de hoje por diante poderemos espe- 
» rar que navegue por esta altura a frota do reino^ 
» comboiada pelas embarcacoes, que a companhia 
» do commercio geral Ihe tern coiisignado , e que 
D for^osamente hao de pairar a nossa vista em 
» quanto mettem e recolhem os navios mercantes 
» pertencentes aos portos d'esta capitania. SeVossa 
n Senhoria com sua autoridade , e os moradores 
» d'ella com sua afllic^ao representarem aos cabos 
» da armada a miseria, a que estamos expostos^ e 
j» Ihesrequererem seu favor, pedindo-lhes se deixem 
» estar alguns dias a vista do Arrecife, senao como 
» amigos como neutraes ; e n6s por terra avan^a- 
» remos com as pra9as do Flamengo; e entendo do 
» presente estado das cousas , que ou se render^ 
» assombrado, ou se defendera tao remisso , que a 
)» pouco custo nos restauraremos no dominio usur^ 
» pado. £ nao faca duvida a Yossa Senhoria a falta 
» dos aprestos, porque eu os quero tomar por 
» minha conta , assistindo-me Yossa Senhoria com 
» as ordens necessarias ; a quem peco , considere 
» n'esta materia com a atten^ao que pede a import 
tancia d'ella , crendo que me diz o cora9aO) que 



)) 



» tern Deos guardado para Yossa Senhoria o re«- 



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556 GASTRIOTO LUSITANa 

» mate d'esta empreza , e a ultima coroa d'estas 
M victorias. • 

11. Com atten^ao e alvoroco ouvio o general ao 
mestre de campo , mostrando no semblante a ap- 
provacao do intento; mas como prudente general, 
disse-lhe que por isso que a empreza era diflScil, 
era necessario consult4l-a com os mais cabos que- 
n'ella deviao lomar parte. Passarao-se alguns dias, 
e como o general nao tomava nenhuma resolucao, 
foi segunda vez Joao Fernandes Vieira com o mesmo 
requerimento ao mestre de campo general. Recebeo 
este com o mesmo agrado, conferio com elle as con- 
Iradiccoes , que a seu parecer faziao a execucao im- 
possivel ; facilitou-lh'as Joao Fernandes Vieira com 
demonstracoes tao claras , que deixdrao a empreza 
sem duvida ; e rematou a pralica dizendo que alii 
se achavao os tres mestres de campo com sua se- 
nhoria, que os chamasse a conselho, e proposesse 
o negocio, e se resolveria com o parecer dos mais 
votos. Era esta a determinacao do general; pelo 
que assenUrao lugar e dia conveniente para a im- 
portancia do negocio e do segredo. Algumas legoas 
distante de Nazareth , e sette do Arraial , estA uma 
hermida da invocacao de Sao Goncalo, em sitio 
apartado de toda a communicacao pelo solitario do 
lugar, para a qual chamou Francisco Barreto no dia 
seguinte aos tres mestres de campo, com pretexto 
de romaria. A titulo de passarem a sesta, se reco- 
Ih^rao nella , apartando de si os criados com appa- 
rentes motives. Pedio silcncio e segredo, propoz a 
empreza, conformando-se com a proposta de Joao 
fernandes Vieira, e concluio dizendo : « Na frota 



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GASTRIOTO LUSITANO. 557 

» que por horas esperamos do reino y temos quern 
» corte por mar a communicacao aos HoUandezes ; 
)) e nos cabos que a commandao, quern nos favo- 
» reca por terra . Nesta supposicao quero que Vossas 
» Mercys me digao se Ihe parece que nos apreste- 
M mos para a conquista da Arrecife e das fortalezas 
)) que o guarnecem. » 

III. primeiro que votou foi o mestre de campo 
Francisco de Figueiroa , e expendeo varias razoes 
pelas quaes sustentou que a empreza era nao so 
arriscada, mas impossivelj pois nem por sitio, nem 
por assalto se poderiao tomar as pracas dos HoUan- 
dezes y pela falta de meios que tinhamos para o 
ataque. «Que exereito temos para a circuravalacao? 
» disse elle; que artilharia para bater tantas pracas? 
» Que celleiros para sustentar o assedio ? Que ihe- 
» zouros para pagar aos soldados ? Que aprestos 
« para os aproxes? Que engenheiro para as minas? 
a Que soccorros para as perdas ? E quando nada 
» fahara, com que armada o havemos de cingir por 
» mar, tao vigilante e poderosa , que sirva de ca- 
» deia para impedir os soccorros, e de freio para 
» atalhar a opposicao? n Seguia-se o voto do mes- 
tre de campo Andre Vidal de Negreiros, o qual foi 
de parecer contrario, dizendo que a empreza nao 
so nao era impossivel, mas menos difficultosa do 
que diziao ; e concluio : w Se hei de dizer o que al- 
}} canca meu juizo , posso aflirmar que a empreza 

tem menos de perigo que de receio ; e quantas 
» mais forem as difficuldades, com que nos espera 
» a conquista , tantas mais serao as palmas com 
» que nos chamara a victoria. Se vota meu desejo 



» 



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559 cumioTO LuairAm. 

i> digOy que ]& me quizera ver no assalto dta forti* 
» ficacoes iniinigas ; e que cada instante de deteuca 
» ser^ para mim de penosissima roortiGcacao. 
» Nao saberei o que digo, mas digo o que aiato. » 
Joao Fernandes Vieira tomou entao a mao, e depois 
de enumerar as yictorias alcan^adas contra o mi-* 
migo, e depois de ponderar o quaato deviamos con- 
fiar na proteccao diviaa, comecou as razoes do pri- 
meiro voto^ e fallou nestes termos : « For veniura 
» OS muros das fortiiicacoes inimigas sao de dia«* 
» roante^ para que se izenlem do ferro e da mina? 
D Sao immortaes seus defensores, para que os nao 
» offenda o goipe e a bala ? Sao os contrarios innu- 
» meraveisy para que os nao diminua a morte e o 
» trabalho? Sao invenciveis^ para que os nao renda 
>) perigo e o medo? Pois com que razao deixamos 
)» em suas maos a escolha da occasiao e do tempo 
D para Ihe fezermos guerra? Ha de estar em sen 
» querer o movimento de nossas armas? A occa- 
» siao nos persuade a que o desalojemos e destrua^ 
» mos. Que melhor tempo que este , em que se 
)) acha falto.de gente e de soccorros ? Que occasiao 
» mais favoravel que a presente , em que a frota 
» de Portugal , que esperamos , nos pode dar soc-* 
» corro e gente ? Todos sabemos que as fragatas 
>) contrarias, poucas e mal guarnecidas, como inu^ 
D teis & defensa andao espancando os mares em 
» busca dos roubos ; e quando chamadas da ne- 
i> cessidade avistem a nossa frota, que animo terao 
» para a envestir, cossarios que so vivem de rou- 
» bar? Isto assim, que nos ata as maos ? A imagi- 
» nacao de faltarem aprestos ? Essa nao i certa , 



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CASTRIOTO LUSnANa 5S9 

» porque quando nao sejao facets, nao aerao impos^ 
» diveia. £u me obrigo, com averdade que sempre 
K se achou em minhas promessas, a prevenir todo 
n o neceasario com abundancia e segredo. Nao fie^ 
>} mos nosso desejo ao tempo , que serA fial^K) ao 
» maior inimigo ; poix}ue 86 elle sera poderoso para 
» nos consummir ; e fara o que o Flamengo com 
» todas 8uas forcas nao pode fazer. Mostre a es^ 
» pada portugueza que em nenhum tempo perde 
» o corte , e que no descanco se aGa para cortar 
» melhor na occasiao. Demos o ultimo realce a 
» nossa fama , e ficard duas vezes grande o nome 
» portuguez ; uma pelo valor com que vence ba* 
» talhas, outra com a ousadia com que escala for-* 
» talezas. » Approvou o mestre de campo general 
o parecer de Joao Fernandes Vieira ; louvou seu 
zelo e patriotismo ; prometteo-lhe toda a assisten* 
cia e poderes que tinha ; tomou a seu cargo o cui- 
dado de espiar a frota^ e a diligencia de obngar ao 
general d'ella a sair em terra, e pedir*lhe soccorro 
e companhia para o tempo dos assaltos. Gonformes 
todos neste parecer se apartarao a prevenir armas, 
e a desmentir suspeitas. 

IV. Em 20 de Dezembro appareceo a vista de 
Pernambuco a frota da companhia gdral do com- 
mercio, que saira de Lisboa a 4 de Outubro. Seu 
general Pedro Jaques de Magalhaes, almirante Fran- 
cisco Brito Freire. Ji Francisco Barreto de Menezes 
estava prevenido por um aviso que receb^ra em 7 de 
Dezembro , mandado pelo general da frota da ilha 
de Cabo Verde, onde aportara para recolher os na- 
vios mercantes que alii se Ihe aggregarao. Com os 



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560 CASTRIOTO LOSITANO. 

olhos do receio a yirao os Hollandezes, e com as 
da esperanca os moradores. Os cabos hoUandezes 
( alheios de toda a noticia de seu damno , e s6 ac- 
cusados dos remorsos da propria consciencia) or- 
denarao a uma esquadra que tinhao no mar, que 
saisse a reconhecer o numero de vasos, e a forca 
d'elles. Comprirao as fragatas inimigas as ordens 
ate chegarem a bataria com alguns navios de 
guerra, que as fizerao apartararrependidas quando 
ja OS navios mercantes estavao surtos na forma 
conveniente para o seguro dos que haviao de en- 
trar e sair dos portos daquella capitania , e para a 
commutacao de generos e fazendas da companhia e 
de particulares. 

V. Logo Francisco Barreto assentou com os tres 
mestres de campo que se devia fazer todo o possivel 
para tentear o animo do general da frota, e que 
seria muito a proposito para o intento obrig&l-o a 
sair em terra. Despedio o mestre de campo general 
urn enviado, que da sua parte, e dos officiaes, exer- 
cilo e povo Ihe desse os parabens da viagem, e Ihe 
pedisse licenca pat*a satisfazer a esta obrigacao pes- 
soalmente. general da frola, grato e officioso se 
metteo com o seu almirante n'um esquife , e nave- 
gou para terra , mandando vogar para o rio Doce, 
onde o forao receber Francisco Barreto de Menezes, 
Joao Fernandes Vieira, Andr^Vidal de Negreiros 
e Francisco de Figueiroa. — Deo-se o primeiro 
tempo aos abracos, e ^s saudacoes ; e logo se passou 
a pratica do negocio. Fropoz Francisco Barreto a 
resolucao que se tinha tomado , os fundamentos 
sobre que estribava a confianca, com que todos es- 



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CASTRIOTO LUSITANO. 561 

rayao o favor e ajuda de sua senhoria, pois o assis- 
til-os naquella empreza era service de Deos, utili- 
dade do reino y interesse da companhia , e unico 
remedio dos PerDambiieanos. Que negal-o sem 
risco, e sem dispendio, na presente occasiao, seria 
perdel-a , com a reputacao das armas portuguezas, 
e o credito de cabos de Ian to nome ; pois quem os 
nao visse, na presente miseria, lastimados e com- 
padecidos os nao havia de crer valerosos ; e per- 
dida a restauracao de captiveiro tao duro, por culpa 
de sua senhoria, Ihe nao ficava razao para se dis- 
culpar, nem para com Deos, nem para com os ho- 
mens. general da armada , indeciso entre a com- 
ipiseracao e a homenagem, mostrou que a obediencia 
Ihe atava as maos a piedade , e disse que elle nao 
trazia ordem de seu Rei para a minima hostilidade, 
nem da companhia geral para o menor desvio d'a- 
quella frota, obrigado por juramento a conservacao 
e breve despacho d'ella; que de fazer o contrario 
se poderia seguir exasperar-se o inimigo, e alterar 
as pazes com o reino, e pagar elle com a cabeca a 
desobediencia e o damno, porque senao havia de 
julgar por leve culpa , a que commettesse em 
oflPensa de nacao tao bellicosa. 

VI. Insistirao os mestres de campo^ e entre elles 
com mais efficacia Joao Fernandes Vieira, allegando 
tao fortes razoes que o general e almirante , cru- 
zando as maos, se rendfirao ao seu parecer, e de 
companhia forao todos para a villa de Olinda, onde 
convierao em que ao outro dia se chamassem a con- 
selho todos os ofTiciaes da primeira plana , como 
mestres de campo , tenentes generaes e sargentos 
I. 36 



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5M GASTRIOIO LOfflTANa 

maiores, ptra que multiplicados os requa*iment08 
achasse sua desobediencia desculpa na instaucia. 
Em 25 de Dezembro acudirao os chamados, e foiio 
OS do congresso o general e almiranie da frota, o 
mestre de campo general Francisco Barreto de Me- 
nezes, os mestres de campo Joao Fernandes Yieira, 
Andr^ Vidal de Negreiros, Francisco de Figueiroa; 
tenente general Philippe Bandeira de Mello; e 
os sargenlos maiores Antonio Dias Cardozo , An- 
tonio Jacome Bezerra, e Jeronimo de Inojosa. — 
Quando da conferencia se esperava a determinacao 
applaudida, se desentranharao em dilficuldades os 
primeiros volos, ou porque a emulacao os produ- 
zia, ou porque a desconiian^a os formava. Com o 
parecer dos mestres de campo Andr6 Vidal e Fran- 
cisco de Figueiroa Gcou o negocio vencido, e Fran- 
cisco Barreto com lagar para esperar a. determi- 
nacao do general e almirante da frota ; por^m elles 
disserao que nao haviao de resolver cousa alguma 
sem primeiro ouvirem o parecer de Joao Fernandes 
Vieira , em cujo peito nascera e se alimentara o 
processo daquella causa. Fedio-lhe o mestre de 
campo general que desse o sen parecer, o que fez 
da maneira seguinte. \< Teinos neste couselho os 
» ministros maiores, e do maior poder que nossa 
» liberdade poderia desejar ; e quando imaginei 
» que a razao vencia toda a duvida, vejo fallar na 
» materia com tanta variedade, que me persuado 
» se desconhece a substancia e as circumstancias 
» da empreza. A expugnacao das pracas hollan- 
» dezas podia ser volontaria em quanto este con- 
» gresso a nao publicou forcosa, Nelle se divulgou 



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ja a intento } e publica a conferencia , queip ni\p 
» y^ que necessariam^nte se ha de executar a 
Jt) delermina^o? Em se recusar cousiste nossa xj- 
]» tima perdi^ao. Qu^ conceito ha de fazer de i^os- 
» sas arinas o ipimigo^ s^ alcancar que se Ihe n^o 
> atreve o nosso in2\ior pocjer ? Desprezara o que 
JD teme, conservara q que possue, e conquislara o 
jt) que deseja. At^ agora nos atou as inaos a im- 
» possibilidade de o cingirera por ipar ,• agora que 
n; nossa fortuna nos oflerece o qvie desejavamos 
» desppezamos a dita ? Co^)Oy ou quando espera- 
» mos cobrar semelhante ocpasjao ? Entendia eu 
» que para o que se l^a de o^rar forcosamente , 
>^ nao se votava se ha ou nao ha de ser, senaq por 
^ que meios se ha d^ consegujr* Dei^os caso que 
)) seja tania nossa desgra^a que nao ganhemos q 
M Arrecife ; ganharemos algunjas de suas fortalezas 
» e ficara nosso p^rtido melhorado, o podf^r ini- 
» migo enfraqueeido, e o mundo certo qi^e 6 nosso 
» valor maior que nossa for(una ; e quando menos 
» ficara este povo com a esperanca de que o ini- 
» migo aiormentado de nossos golpes vira facil- 
» mepte em alguma congruencia util. r^ 

VII. Concord^rao todos na conquista das pracas 
inimigas, e passarao os generaes a tratar do modq 
e da parte em quQ se bavia de empregar o primeiro 
golpe, com moral cerleza de que ferisse e nao res- 
valasse. Vot^rap neste particular por sua ordem, 
e forao tao diversos os pareceres, como os votantes. 
Diflerente de todos fallou Joao Fernandes Vieira : 
disse, que para o fim desej^do se deviao arrimar a 
forlaieza das Salipas , que chamavao de Francisco 



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564 CASTRIOTO LUSITANO. 

do Rego , ]K)rque era a de menor foroa , a de me- 
Ihor terreno, e a de maiores eonsequencias; com 
ella se ganhava a passagem do rio, se desempedia 
o caminho da villa, se desquartinavao as fortalezas 
do Perrexil, Brum, e Buraco de Santiago; e d ella 
se podiao varejar o Arrecife e a Barra ; pela dis- 
tancia longe dos sdccorros, e pelo sitio facil para 
seimpedirem. Este parecer agradou a todos, efoi 
appro vado como o mais acertado. — Conferio-seo 
modo, c se resolveo que a primeira diligencia fosse 
espalharem-se cartazes em tpdas as linguas d^js na- 
coes que militavao com o Flamengo, pelos quaes 
se promettesse premio ou castigo aos que fossem , 
ou nao fossem da nossa parcialidade ; o que nao 
deixaria de obrar muito, a vista de nosso poder e 
resolucao. Ordenou-se que lodas as faluas da ar- 
mada e barcos parliculares fizessem todos os dias 
demonstracao de frazerem gente da armada para 
terra, em repetidas viagens, de sorte que o inimigo 
contando as parlidas sommasse um excessivo nu- 
mero de combatenles ; c que se tomassera a levar 
da terra para as naos , tanto que fosse noite, [)ara 
que no outro dia representassem a mesma ficcao, e 
que ullimamente aquella infantaria, queescusasse 
a guarnicao da armada, ficasse em terra &s ordens 
do almirante Francisco de Brito Freire. Advertio- 
se que os navios mercantes de menos tonelladas 
se mandassem, com sufBciente guarda, para os 
portos do sul , para onde era sua direita descarga 
( OS quaes todos aportarao a salvamento ) ; que os 
de maior vulto e alguma forca , com os de guerra 
formassem um precinto , em forma prolongada , 



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GASTRIOTO LUSITANO. 565 

que recolhesse dentro em si a barra, e a barreta 
do Arrecife ; que no seio d'este meio circulo an- 
dassem alguns patachos , e embarcacoes de remo 
aos bordos, naquelles fundos em que podessem 
boiar ; que preparassem cinco ou seis somacas ar- 
tilbadas e guarnecidas, que de noite ao modo de 
ronda corressem aquelle mar, que cingisse a cir- 
cumferencia da armada; que por seu turno se des- 
tinassem duas companhias de infantaria , para 
guarda das praias do norte e do sul do Arrecife ; 
tudo a fim^de que , nem por mar nem por terra , 
nem de noite, nem de dia, podesse entrar o menor 
soccorro ao Fiamengo. 

VIII. Pedirao ao mestre de campo Joao Fernan- 
des Vieira que na noite seguinte saisse com os ho- 
mens que escolhesse a reconhecer as pra9as do 
inimigo, com as fortificacoes d'ellas, terreno, en- 
iradas, e saidas de cada uma, e tudo o mais neces- 
sario para a intelligencia de nossa disposicao, Pedio 
dous engenheiros^ escolheo alguns poucossoldados^ 
e fez tao exactamente a diligencia, que nao houve 
estacada de fortaleza contraria que nao tocasse com 
suas proprias maos; de algumas foi seutido, e com 
se deitar por terra com os sens se livrarao do chu- 
veiro de balas que o inimigo disparava y e socegado 
o alvoroco continuava na diligencia com tanto 
desprezo do risco , que visto foi admiravel , e ou- 
Tido, incrivel. Sobre a madrugada se recolheo, e 
repetio ao mestre de campo general o que exami- 
nou e descobrio ; o que elle agradeceo e iouvou 
com as honras e encarecimentos que merecia ta- 
manho servico. Fez^se aviso a todos os fronteiros, 



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566 GASTIOOTO LVSltANO. 

que sem descancar picassem o HoUandez par todas 
ks partes, porqtie nao podesse stispeitar a qnal 
d'^llas se 6tfcaminhava o primeiro golpe de no^a 
espadii. — Etitroti o anno dt 1654, e a 5 <te Ja- 
neiro comeco* a manifesta e^cpngnac&o das ft>rta- 
lezas iViiinigas. Ne^te e nos segaii!ites xKa^s saira6 
das ertbarcacoes', par muiUs vezes , nao poucos 
b^rcos carregados de infantam e pe(?re<^KJS d^ 
guerra, as bandeiras tetidtdas, tocando caixas, e 
dando sirlvas de mosquetaria ; uns postos em fehra 
voltavao as faluas a bi!iscar outros, seguindo o es- 
tratagema ^as ordens dadas. Os "navios da armada 
formarao o circulo, e executarao tudo o xpie fidrra 
orde^ado. As dezoito fragalas hoHimdezas , que 
pefb forma 'dicta reconhecerao a determittacao , 
postas ao la^go soharao as v^las , e se engoMiir&o 
de sorte qae desapparec^rao. Segoros com a par- 
tfdd d'trma e ^pi'cisenca d outra armada sairao'des 
portos de Sirinhaem> Rio Formcfeo, Tamandar^, 
eCafmaragibe as embarcacoes, que 'estkvao apres- 
tadas para o reino, e todas etftr^rrao lia barra de 
Nteardt?h , ottde tambem servMo pot mar k con- 
dncc&o dos soldados^ petrechos, 'e generos^reve- 
Blldos por*aqtiellas partes, para a occasiao do cerco. 
Pas80u-se orde'tti aos fronteiros que se aviirinlias- 
sem ^om suas goafrnicoes 6s fcfrtalezas contraa*ias 
de maneira que ficassem suas estancias tre^centas 
bracas d'ellas em sieios que as cc^brissem os aivo- 
redos dos bosques , e iiesta fdrma fizcssem cosltas 
a conduccao da artilharia e materiaes necessarios 
para as plataformas e reparos, com que se haviao 
de bater as fortalezas do Rego e de Altenar. B^esie 



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GASTRIOTO UJSITANO. * 567 

dia at^ o 4 4 se occupou a nossa gente em levar && 
luaos nove pe^as de bronze, sendo cinco de 24^ e 
as mais de 1 8 e 1 4 , sem que o inimigo tivesse o 
meoor indicio de zu>sso trabalho, nem da uosso 
ijQlento.Porfim veio a ter noticia de nosso projecto, 
e SisgLsmujado comecou a preparar-se para a de- 
feza. — Aos 13 mandou o mestre decampo ge- 
neral ajuntar o exercilo a surdina ; constava elle 
de dous mil quinhentos soldados , fora de mil iti" 
fanteSy que guarneciao as fortalezas do Arraial, 
villa deOlinda^ Pao Amarello, e Barreta. Em 14 de 
Janeiro, dia em que tocava a vanguarda ao mestre 
de campo Joao Fernandes Vieira, o chamou Fran- 
cisco Barreto, e Ibe ordenou que fosse com seu terco 
p6r sitio e bataria & fortaleza das Salinas y que se 
dizia de Francisco do Rego , condemnada ao pri- 
meiro furor de nossas armas, dizendo^lhe que ao 
seu braco e sua fortuna fiava o logro de suas es- 
peran^as ; e que a este fun escolb^ra aquelle dia 
por conhecer o quanlo importava tomar a victoria 
principio da quella mao da qual o tomara a 
guerra. Rendeo-lbe Joao Fernandes Vieira as gra- 
cas da estima^ao que d'elle fazia ; deo conta a sens 
soldados e ofUciaes da ordem recebida , com tanta 
alegria e alvoro9o, como se naquelle servi9o lev^a 
o premiode todo seu merecimento. Via conseguido 
o que mais desejava, e nao cabia em si mesmo com 
o gosto que tinha ; assim como o sentia o manifes- 
tava, dando a todos o parabem de sua liberdade, e 
da redempcao de sua patria. Exbortou a todos com 
animo seguro da victoria, e ao anoitecer se poz em 
marcha com o seu ter^o em direiiura ao sitio das 



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568 GASTBIOTO LDSITAMO. 

Salinas, seguindo-o o mestre decampo general com 
todo o exercilo, que se alojou pelo reverse das ba- 
tarias. 

IX. Protegidos pelas sombras e silencio da noite 
carregarao os gastadores oito cesioes feitos por 
conta , OS quaes se assentarao , ench^rao , e terra- 
plen^rao a tiro de pistola da fortaleza inimiga , e 
assim mesmo grande copia de saeos, que se ench^ 
rao de areia e terra para reparo de quatro meios 
canhoes de 24, com que se havia de bater a forca, 
todos levados & mao, distancia d'um tiro de mos- 
quete (sem rumor, que o Flamengo podesse sentir) 
com quinhentos mosqueteiros de guarnicao. Assen- 
tou-se a explanada , e nella a artilliaria , e se deo 
logo principio a cava, que saia dos lados da plata- 
fdrma, na qual se trabalhou com tanto cuidado, que 
antes de amanecer a tinhao desembocado no rio , 
de sorte que ficou a fortaleza cercada do ambito 
que formavao rio , bataria e cavas , das quaes se 
desquartinava a porta da fortaleza a tiro de pedra. 
Abrirao-se estradas encobertas para o servico da 
gente e commodidade dos soldados ; e foi cousa 
incrivel o silencio com que trabalhava a multidao 
dos gastadores, tanto^ue nao teve o inimigo indi- 
cio de que podesse formar a menor suspeita. Os 
tabooes e pranchas de que se fizerao as platas-for- 
mas, d'onde haviao de jogar as pecas, se apontarao, 
e postos OS pregos nos furos se ordenou que a 
cada um estivesse um soldado com um seixo na 
mao, e a certo sinal se pregas§6m com tanta uni- 
formidade, que o golpe de muitas parecesse d'uma 
«o mao. Rompeo a manha de 45, e as nossassen- 



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GASTRIOTO LUSITANO. 569 

tinellas, que estavao a falla com as do HoUandez, 
Ihe derao os bons dias, e a nossa artilharia a pri- 
meii^a salva , tudo tanto a um mesmo tempo , que 
Ihe pareceo ao inimigo sonho o estrepito que ouvia. 
Perdia o juizo, quando vio e experimentou nosso 
Irabalho e seu perigo ; e maior fora seu espanto se 
vira na portugueza devacao seu castigo e'nossa con- 
fiaD9a. Com igual furor coutinuava a bataria d'uma 
e outra parte , se hem que com desigual effeito , 
porque os nossos pelouros se armavao das astilhas 
de seus reparos , com que matavao e feriao gente ; 
nao assim as suas balas que a terra e areia de nossa 
fortificacao recebia e sepultava. Mais de seiscentas 
balas grossas despararao as suas fortalezas sobre a 
nossa bataria. Nesta sua forca se defendiao cento e 
tantos soldados com o seu capitao Ugo Maior, cabo 
de opiniao entre elles j a qual augmentou neste dia 
com duas saidas animosas, ainda que inuteis. Nao 
deixava a nos$a mosquetaria apparecer nos altos 
da sua fortaleza homens que nao pescasse. No mais 
vivo da contenda intentarao cinco Hollandezes en- 
trar na fortaleza (mandados sem duvida'com algum 
aviso) ; por^m os nossos soldados o impedirao com 
morte de quatroe fugidadeum.-rSisgismundo, que 
entendia o quanto Ihe importava a conservacao 
d'aquella praca, preparou um copioso soccorro 
com tanta diligencia que pelas tres boras da tarde 
avis^rao as nossas sentinellas que o Flamengo por 
mar e terra vinha a soccorrer a fortaleza. Joao Fer- 
nandes Vieira, que nas occasioes vira sempre repre- 
sentadas as viclorias , avaliou aquella bora pela de 
sua melhor fortuna. Vio que por terra marchava 



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510 GASTBIOTO LOSITAMa 

um esquadrao coberto da artilharia de todas suas 
for^asy para franquear a porta da foriakza siciack, 
ao soceorro de gente^ municoes, e mantimaitos , 
que em lanchas navegava a elia. Ja vinie Flamen- 
cos tinhao saltado em terra, carregados de cunbetes 
de polvora e bala, quando os nossos soldados, ani- 
mados do preceito e do exemplo, com a espada na 
mao descobrindo a um mesmo tempo o peito as 
balas e o braco aos golpes^ sairao de seus reparos^ 
e envestirao o soocorro e a escolta com valor tao 
ousado, que os vinte, largando a cai^, se acolh^rao 
is landias com agua pelo pescoco ; e ellas ao Arre- 
cife, €om deixarem algumas encalhadas^ que pa- 
garao por todas. esquadrao da terra ^ como tinba 
o caminbo mats desembaracado » assun teve mais 
franca a fugida. Desbaratado d'esta sorte o inteoto 
e o soceorro, se retirarao os nossos a seus aloja- 
luentos, com ianto deseniado, que por baixo das 
iriucheiras inimigas fizerao seu caminbo. Nesta 
occasiao uos fedrao o capitao Sebastiao Ferreira, e 
o seu alferes; nella padeceo o inimigo muito daDmo 
de mortos e feridos , -e tauto que nuuca mais se 
atreveo a comprar a opiuiao pelo preco. 

X. Entrou con) a nolle o mestre de campo An- 
dr^ Vidal de Negreiros^ a quem a vanguarda cabia 
por turno. Gontinuarao-se os aproxos, sem que 
d'uma e outra parte afirouxasse a bataria. ca- 
pitao inimigo aconselhado de nosso valor^ e de sua 
desconfianca, nao quiz esperar o assalto. Fez cba- 
mada, e se rendeo com honestospartidos. Entregon 
a fortaleza as tres boras da madrugada de 16 de 
Janeiro, da qual saio com oitenta e sette Hollan- 



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GASTRIOTO lUUTAHO. SH 

tlezes, com seu capitao e dous alferes, una ajudante 
€ seis soldados feridos, deixando dentro qualro 
tnortoft, quatro pecars d'artilbaria, armas^ muntcoes 
e fnanlimentos em bastante copia. Custou-nos a 
victoria cinco moitos « quatorze feridos. Tratarao 
logo OS Bossos de reparar e guamecer a fortaleza , 
e dispunhao-se a surprehtender o soccorro que pela 
manba mandara Sisgismundo; mas esle advertido, 
Tetirou-se nas lanchas sem desembarcar, e s6 foi 
offendido d'alguns pelouros, que Ibe matarao sette 
'soklados. Com a perda d'esta forca ficou o inimigo 
4ao quebrado de airimo, pela ver em tao breve 
tempo rendida e contraria, que ^deaconfiou de po- 
•der conservar o Arrecife. 

XI. <laston-se o dia em aprestos para se oercar 
ebatera fortaleza, que chamavao de Altenar, qua»i 
meio quarto de legua para o sul da fortaleza ren- 
dida, situada na frente do Arrecife. Gabia-lhe ae 
mestre de campo Joao Feroandes Vieira o entrar 
•de guarda , e pelas dez boras da tarde marcbou 
com o seu terco para aquelle lugar, com ordem do 
mestre de campo general que sitiasse a fortaleza 
ipelo estilo que segnira nos ataques da rendida em 
qaanto ao tempo, que no mais o deixava A dispo- 
sicao de sua escolba. Escureceo a noite , e carre- 
garao os gastadores cestoes , sacos , madeiras e ar- 
tilbaria ; e como esta fortaleza de Ahenar tinha a 
mesma situacao na forma e no terreno que a das 
Salinas, teve as mesmas circumstancias no cerco , 
senao que de mais a mais maudou Joao Fernandes 
Yieira duzentos mosqueteiros diante dos trabalba- 
doresy em razao que haviao de abrir o foaso em dea» 



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57i GASTRIOTO LUSITAIfa 

coberto ( tinha o iDimigo rocado o mato duzentos 
passos em circulo da fortaleza). Abrio-se uma cava 
a tiro de pislola da fortificacao contraria, capaz de 
alojar dous mil homens , cuja circumferencia de- 
sembocava no rio d'uma e outra parte. Fez-se uma 
estrada encoberta« que corria da cava para o mato, 
onde fenecia, com o que ficava a fortaleza cingida , 
e privada de lodo o soccorro por terra. Formarao- 
se as esplanadas com os reparos custumados, ca- 
valgarao-8e nella seis meios canhoes, e sendo assim 
que trabalhavao mais de nove centos gastadores, e 
que o inimigo , avizado do sucego da fortaleza do 
Rego, havia de estar com vigilaucia mais attenta ; 
primeiro na manha o informou a vista e o damno 
do que percebesse algum leve indicio da occupacao 
de toda uma noite. 

XII. Ja pelos horizon tes clareava o dia, quando 
ao Flamengo Ihe chegarao a dar a primeira alvorada 
asvozes das sentinellas, e as^balasdaartilharia.Vio- 
se cercado antes de o ter entendido , e ardia no 
furor com que accusava nossa dissimulacao e pres- 
teza, e sua desattencao. No desejo da vinganca 
achava satisfacao sua afronta. Balas sem con to, d esta 
e de todas as mais pracas inimigas nos buscarao 
todo aquelle dia nos alojamentos^ pagando a nossa 
bataria a uma o que recebia de todas. Mandara o 
general HoUandez largar a sua fortaleza da.Barreta 
com ordem aos sens que entregues os quarteis ao 
fogo , se retirassem para o Arrecife com a artilha- 
ria e municoes. Nao sabemos se por aviso , se a 
caso , ordenarao os nossQs a D. Diogo Pinbeiro 
Camarao que fosse assaltar, ou impedir a retirada 



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CASTRIOTO LUSITANO. 573 

do inimigo. Saio com trezentos Indios do seu terco> 
seguio o caminho da Barreta , deo de rosto com 
uma casa forle, que investio e ganhou sem difficul- 
dade, porque a gente que a guarnecia, fogio para 
a forca da Barreta, onde seguido dos nossos foi de 
novo avancada ; era de noite, e o estrondo das ar- 
mas e dos gritos , que usava aquelle gentio , porno 
tambem a ordem que tinhao para se retirarem , 
assim os encheo de medo, que em qualquersombra 
viao a morle; e imaginando que Ihes fogia, a busca- 
vao lancando-se pelas cortinasda forca, para acaba- 
rem mais de pressa, uns estropeados do despenho, 
outros afFogados no rio. Assim se ganhou aquella 
fortaleza, inteira , sem nos cuslar mortenem ferida. 
XIII . Sisgismundo, que dos successos fazia avisos, 
temendo o curso de nossos progressos, mandou lar- 
gar a fortaleza que chamao do Buraco de Santiago, 
com ordem ao presidio que, pegando fogo aos alo- 
jamentos, se relirasse para o Arrecife com tudo 
que nella havia. Obedecerao os sens com sobeja 
diligencia , porque a pressa Ihes fez deixar a arti- 
Iharia, que erao seis pecas de ferro coado. Nao des- 
cansavao as hostilidades no ataque da fortaleza de 
Altenar, nem o commendor d Vila Domberguen de 
,pedir soccorro ; o qual Ihe entrou por mar no dia 
11 de Janeiro pela tarde, sem que toda nossa dili- 
gencia Ih'o podesse impedir. Tinha a fortaleza a 
porta mettida no rio, com duas estacadas de pio a 
pique, que por um e outro lado penetravao at(5 o 
largo d elle , e toda a artilharia e mosquetaria do 
forte da Boa Vista, que o guardava ; e defendidas 
as lanchas por todas as partes , ajudadas do vento 



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57& chxswno ivsm^mK 

e da nur6 Ihe mett^rao por vexes Baquella tarde 
soccorro de gente, muuicoes e refrescc^, — Cha-< 
mado d*esta$ noticias e da importancia de se nao di- 
latar a conquista, roudou o mestre decampo general 
seu quartel para junto da nossa bataria. Gon- 
sultou com OS mestres de campo o mode que pode* 
ria haver para que aquella communica^ao se cor- 
tasse^ e se asseniou que em anoitecendo se formasse 
uma plataforma na margem do rio, quatroceQto&t 
p^s da fortaleza , oapaz de jogarem neila quatro 
pecas de arlilharia de vinte e quatro, coberta e re^ 
parada com cestoes terraplenados , tanto a respeito 
da forca da Boa Vista, como da de Altenar, e em 
tal fdrma que servisse para cortar os soocorroa e 
para destruir os parapeitos do inimigo. Haviao de 
trabalhar os gastadores descobertos as balas init* 
migas ; e o perigo Ihes inFundia tal receio, que li- 
bios se applicavao a execucao do intento. Joao Fer- 
nandes Vieira e Andr^ Vidal , que ejitenderao a 
causa do medo, se adiantarao com muitos soldados 
a dar principio a obra : exemplo que nao deixou no 
coracao dos gastadores a menor lembranca do pe-f 
rigo , sendo assim , que em toda a noite choverao 
nuvens de balas sobre a parte onde se formava a 
bataria, com damno tao pequeno que o nao adver- 
tio o cuidado. 

XIV. Gontinuavao entre tanto os ataques da for-r 
taleza , sustentados principalmente por Henrique 
Dias e seus Minas , que incansaveis trabalhavao nos 
aproxes, com desejo deque as cavasdesembocassem 
na porta da fortaleza, para que se assallasse por eUa 
e pelas brcchas, que tinha feitoa nossa arUlharia; 



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GASTUorro lusitaiio. 575 

e quando nao estivessem capazes se abrissem minas 
para as quaes dava lugar o lerreno, por solido e 
secco. Continuava a hostilidade por todos aqiielles 
meios e modos, de que se podia valer a forca e a 
industria dos cercadores e cercados ; com a resis- 
tencia crescia a contumacia da expugnacao e da 
defensa. A artilharia e mosquetaria de uma e outra 
parte laborava sem descan^o , mas com desigual 
damno, porque com desigual tino. A portugueza, 
reparada e coberta atirava com pontaria ; de outra 
maneira a contraria que, falta de reparos, nem 
acertava tiro , nem se podia guardar das balas ; a 
maior parte de suas estacadas e parapeitos tinhao 
voado com a nossa artilbaria , e com elles toda a 
esperanca que o inimigo podia ter de soccorro ; 
porque descoberla a entrada aos pelouros da nova 
bataria^ primeiro as lanchas haviao de servir a 
sua lastima que a seu remedio. — Com odia 19 de 
Janeiro amanheceo o coracao do inimigo prostrado 
aos p^s do medo. Combatidos de nossas armas e de 
suas desconfiancas chegarao a amotinar-se os sol- 
dados : sem respeilo hem obediencia d superiori- 
dade e & razao requeriao a entrega. Tinha lavrado 
no animo de todos a imaginacao de que minada a 
fortaleza se Ihe havia de dar fogo, e fazel-os voar a 
todos, porque os negros de Henrique Dias assim o 
tinhao dito na noite antecedente aos Indios auxi- 
liares que estavao na fortaleza (gente por natureza 
cruel e cobarde, os quaes sem mais razao que seu 
medojSe tinhao lancado todos ao rionaquella noite); 
ateado a seus coracoes o temor com que os sens 
Indios tinhao fugido, de sorte cresceo o motim, 



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576 CASTRIOTO LUSITANO. 

que apezar dos cabos fizerao chamada , pondo nos 
alios da fortaleza uma bandeira branca , que nio 
advertida dos nossos se repetio muitas vezes e com 
muitas vozes. 

XV. Saio a capitular um ajudante chamado Va- 
naguen, ao qual derao titulo de capitao para auto- 
rizarem a pessoa. Foi levado ao quartel do meslre 
de campo general; assentou-se a entrega, e para 
se capitularem as condicoes, se mandou em refens 
ao HoUandezocapilao Alexandre de Moura. Forao 
OS parlidos da entrega, que sairiao da fortaleza 
com bandeiras tendidas, armas e bagagens ate 
passarem pelo nosso exercito, aonde largariao 
as bandeiras, e poderiao vender as armas ao pro- 
vedor da fazenda real , que as pagaria sem di- 
lacao, e que se Ihes daria passagem para o reino; 
que haviao de entregar a fortaleza com toda a ar- 
tilharia e municoes que nella tinhao. Pelas noFC 
boras da noite sairao o commendor, um sargento 
maior, quatro capitaes, um ajudante, quatro alfe- 
rcs, o engenheiro principal do Arrecife, e duzentose 
vinte sette soldados : os Indios tinhao fugido a nado. 
Deixarao-nos a fortaleza (que logo guarnecemos) 
com dez pecas d'artilharia, nove de bronze, e uma 
de ferro, municoes emanlimentosem grande copia. 
— Custou-nos a conquista d'esta forca , que era 

rniada de quatro meios baluartes , a vida de Ja- 
coim? Rodrigues, alferes do capitao Manoel Lopes, 
com nfestis a de quatro soldados, e o sangue de de- 
zaseis feiridos. Perdeo o Flamengo em sua defensa 
trinta e Vm soldados , que d'entro d'ella deixou 
mortos, ^ saio com vinte feridos. melhorde 



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GASTRIOTO LDSITANO. . 577 

seus despojos forao cinco bandeiras , das quaes era 
uma da guarda do general Sisgismundo, e duas do 
ler^o do coronel Aulhim. Todos os rendidos se 
mand^rao passar a nossa armada, e se distribuirao 
pelas embarcacoes d'ella com benevolencia e com- 
modidade. 

XVI. Com a perda d'esta pra^a se accenderao no 
Arrecife as desconfiancas que ardiao entre o povo, 
soldados e officiaes da milicia e do governo. Havia 
quern assoprasse o fogo, ou por occulta negocia^ao 
ou por declarada conveniencia. Dizia-se que os sol- 
dados no ultimo aperto haviao de saquear o povo, 
e entregar a pra^a ; que o povo se havia de levan- 
tar contra os soldados, e abrir as portas aos cerca- 
dores ; e que povo e soldados determinavao pren- 
der OS officiaes da milicia , e os ministros do 
governo , e despois de Ihes roubarem as casas , os 
haviao de entregar aos Portuguezes ; tratando ca- 
da qual d'estes estados de buscar meios para me- 
Ihorar sen partido : sedicoes , que naquella occasiao 
pod^rao descorcoar o animo mais destemido ; tanto 
assim^que sendo o de Sisgismundo grande, receava 
mais sua gente que nossas armas. Occupavao-se 
estas em abrir torneiras na fortaleza de Altenar, 
para nella virarem toda a artilharia contra a das 
Cinco Pontas, que era o coracao onde se conserva- 
vao OS espiritos, que se difundiao por todas as mais 
pracas do inimigo , por sua grandeza , e por seu 
edificio. A este alvo se encaminhavao os aprestos 
em que toda a nossa gente trabalhava para a com- 
bater. Era situada duzentas bracas do Arrecife para 
o suK 

L 37 



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578 GASTRIOIO LUUTAia 

XVII. Em o dia 19 de Janeiro, depois do en* 
trada a noite mandou o inimigo largar a sua foiv 
taleia dos Affogados, ediiicada um quarto de legoa 
do Arrecife para o certao. Retirou parte da artiv 
Iharia; ard^rao os quarteis e estacadas, vendo*«e 
na luz daquella chamma a corrupcao que tinha 
feito a desconfianca em todo aquelle corpo , pois 
chegara a ponto , que por conservar a cabeca en- 
tregava as mais partes d'elles ao ferro e ao fogo. 
Na tarde d'este dia entriira 4e guarda o mestre de 
campo Andr^ Yidal de Negreiros, e por sua coota 
corria assentar o ceroo i fortaleza das CincoPontas. 
Sobre ella estava uma eminencia , que em tempos 
passados tivera um reduto, a que chamavao o 
Milhou : ficava a cavalleiro da fortaleza , e servia 
de estorvar o damno que d'ella podia receber; 
agora para o mesmo fim o reedificava o general 
Sisgismundo. Deo-se aviso ao general Francisco 
Barreto, e elle aos mestres de campo, e se assentou 
que Andrd Yidal de Negreiros escolhesse mil ho«* 
mens do seu terco, e do de Joao Femandes Vielra, 
e com elles fosse ganhar aquelle posto, e desalojar 
d'elle o inimigo, a todo o risco ; por ser para nossa 
conquista necessario, e para a defensa da fortaleza 
importante, em quanto no sitio da forca se ia tra-r 
balhando nas cavas , plataformas e mais ataques. 

XVIII. Em a noite de 20 para 21 saio Andr^ 
Yidal de Negreiros com o sargento maior Antonio 
Dias Cardozo, e a gente referida ; tomou o caminho 
da fortaleza dos Affogados (occupado ja de nossas 
armas) a tempo que Ih'o mostrava o fogo, em que 
ardiao tres casas fortes , com as quaes o Hollandez 



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G4BT|aOTO f.USITA»a 579 

f ranqinmv^ s^ serventias do Ar]r^cife p^m o v4o 4os 
Affpga4o8, e paw a ilhe^ do Cheira-dinh^iro (q 
m^qio Hbllande? 4s iqawdow queifpar nacjiiellsj 
nqif^jf Pelo sitia dft fortfileza sotrpdita passofi 
Apdr^ Vidal dp Negreirqs 4 cftmpiaa, qwie chamao 
do Taborda ; e pela3 nove bora« atr^ve^sop por baixo 
da artilharia de Cinco foi^ta^ , par? cair §ol)rp o 
reduto do Milbou^ que injn^igo tinha levantadp 
naquella di?, com os matppiae^ juntos para as trin- 
cheir?^^ e pstsicad^s de que qu^ria cerqar. in- 
forme da fortificaQao obrigou a Sisgjsmundo a qup 
disposesse, que dpntro do redutq ficasse uma coin- 
panbia de guaruicao ; e na distaucia que bavia entrp 
eile 9 as Cincq Pontas yipte §014^4^3, dei boUau- 
de^ e A^z iudips , cpu)o ^entiuellas YQlantes par? 
darem aviso de qualquer noyidade. Esjes assiiu 
cpWoseutirao?inos§a geut§ tPc4rao aripa, e fugirao 
OS dejt Flameugos para a fortale?a, e os dez Judios 
para p reduto, buscando ups e optros o va)hapouto 
que Ibes ficaya piais perto, Ipvestiraq ps upssos 
redptp ? peitp descobei to, que 3e defepdeo valoro- 
samante , ajudado de duas pecas d'artilbaria , que 
da fprtaleza varejavap campo com puvens dp 
bala ipiuda^ Pori^m cpmo valor e a destreza dos 
ppsso§ pabos rpmpia com maior impejp pe)a maior 
resistepcia, em brevet boras 3ubirao e ganharao p 
redutp, Sepbores d'pUp, mostrarpio-se 03 nqsso? 
generpsos para com os vppcido^, a quem concpdfir 
rao a vida que buQ^ifdemente ppdirao, Acharao-^p 
da parte do inimigo cincp mortos e cinco feridos. 
Perderoos no assalto, com dous soldados, o capitao 
J[oao Barboza Pip to | que deo nesta pccasiao com a 



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580 CASTRIOTO LtJSITANO. 

vida o ultimo realce a todas as proezas d'ella. — 
SisgismundO; que conhecia a importancia d'esta 
posicao, intentou desalojar-nos ; quiz tentear nosso 
designio , e mandou para este effeito um Indio re- 
belado , por nome Antonio Mendes, que nos picasse 
com vinte soldados. Ghegdrao a tiro de pistola da 
fortificacao , d'onde a mosquetaria os fez voltar de 
carreira, deixando cinco mortos, e recolhendo nao 
poucos feridos obrigados de-desprezo , com que 
pela limitacao do numero os nSo buscou a espada. 
Sisgismundo sa(o entao do Arrecife com todo o 
poder para nos atacar ; mas chegando a sua forta- 
leza das Cinco Pontas, ou aconselhado, ou arrepen- 
dido setornou a retirar; era evidente seu destroco, 
e julgou discretOy que perdido por perdido, antes 
como prudente , que como temerario. 

XIX. Em 23 de Janeiro, por Ihe caber a van- 
guarda, entrou omestre de campo Joao Femandes 
Vieira a continuar os aproxes. Nao era o terreno 
capaz d'artilharia ; e assim era necessario adiant^l- 
08. Escureceo a noiie^ e mandou o mestre de campo 
a cincoenta espingardeiros, que deitados de brucos 
fossem diante dos gastadores, e Ihes assegurassem 
o campo ; diligencia com que luzio tauto o trabalho 
que se adiantarao as cavas duzentos passos, e no 
remate d'ellas se fez uma travessa com torneiras 
de saccaria, capaz de alojar cem mosque teiros, que 
logo a guarnecerao, e com a primeira luz do dia 
tirirao todo o meneo da artilharia contraria ; por- 
(|ue ainda os artilheiros nao chegavao quando 
deixavao a vida : ficavao em descoberto as balas, e 
nao se perdia tiro. — Os judeos do Arrecife, ido- 



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CASTBIOTO LUSITANO. 581 

latras em toda a parte de suas conveniencias e fa- 
zendas, timidos e industriosos avultarao as perdas, 
e encareciao os damnos ; suppunhao iafalliveis as 
ruinas^ e Delias a ira e a Tinganca dos vencedores. 
Com estes discursos aconselhavao a entrega. Pode 
tanto sua persuasao^ que amotinados os soldados e 
o povo a requeriao aos superiores ; obedec^rao a 
forca, desenganados do pouco que contra ella podia 
obrar a razao; e Gzerao chamada/ 

XX. Erao tres boras da tarde do dia 23 quando 
o [mestre de campo Joao Femandes Yieira , fez 
aviso ao general Francisco Barreto de Menezes de 
que inimigo pedia suspensao d'armas para man- 
dar um enviado. Na eminencia do Milhou estava o 
mestre de campo general, occupado em assentar a 
batariaafortaleza dasCincoFontas, onde recebeo o 
capitao Vouter VanW commendor da dita fortaleza, 
mandado pelo general Sisgismundo, e pelos do go- 
verno, com carta para Francisco Barreto, cuja sus- 
tencia se resumia em Ihe pedirem d^sse audiencia 
ao embaixador para Ihe propor o negocio que vinba 
a tratar. De p^ o ouvio o mestre de campo general 
em parte d'onde se deixava ver a diligencia com 
que se continuavao os passos da conquista : maxima 
discreta da sagacidade militar ; insinuar os par- 
tidos da paz com o estado da guerra. Fallou o en- 
viado, e dkse que sua senhoria nomeasse tres de- 
putados para virem a falla com outros que sairiao 
do Arredfe a proporem conveniencias entre umas 
e outras armas, assinando dia, bora e sitio, e con- 
cedendo suspensao de toda a bostilidade em todo 
o tempo que durasse o negocio. — Tudo concedeo 



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582 GAmUOtO LttftltARO. 

o meslre de cathpo getieral com KmiUi^io que ces* 
dasse o tnovlmfento das armas em todo o tempo 
que diihasse a confet^encla, mas h§o tim tbdaa parte, 
porque s6 se havta de entetider a fortale^ das Gln^ 
eo t^ontas at^ a villa de Olinda t e que M seguintd 
dia 34 de Janeiro tiomearia os deputadod e o lugar 
das vistas. 

XXL Ifo mesmo pduto hi aviso a Pedro Jaqiles 
de M agalhaes, general da Armada, daildo^he conta 
do ^uccedidb, ^ de que a siisp^tisab d'armas se nao 
^Stehdia ao mdr, pelas tioliciftB que tinha que o 
Holkndei mandava vir ao cbronel Aulhim com 
ioda a getite que titiha no Rio Grande e P^LTalba^ e 
com ordem que etitrasse no Arrecife a todo o risco ; 
fe pofque conhecia bem o caviloso trtto dos Hoi* 
landezes , rog^va muild A sua setilioi^ia mundasde 
dobhir A prev^ubio e a Vigil^ucid etn toda a armada 
p&\6 muito que importav& cortAr aquell^ soccorro; 
e nao SUccedesse ao Flamengo desriar com eng^o 
n golpe que nao podia teparar com a forca. A Joao 
I^mandes Yieira ordenoU que parAsse na oonti- 
nuac&o dbs AtaqUes ; por^ que assistisse com toda 
a gente i guarntcao d'elles. Aquelle nomeoU para o 
congresso u mestre de edmpo Negrelros, o capitao 
de cavallos Affonso d'AlbU(|uer(}Ue> e it> outidur 
geral FWincisco Altares Moreira, e pdr Secretario 
MancJel GoUcilves Corhea ^ que o era da milicia ; 
OS quae* no seguinte diA, qufe erftd 24 d* Jaueim, 
Torao pAHi o posto destinado, onde j4 os esperin- 
vao OS deputados do Hollander ^ Gisberth With, 
presidente do conselho politico; o cflpitao oom- 
mendordasCincoPontaBVouter Vanltf; o teaente 



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GAffTBIOZO iUSITAHO. 58S 

general Vander Vant, e por secretario Brest, supe- 
rior dos escabinos. — Gongregados os oito, tomou 
a mao Gisberth With , e deo principio a confe- 
rencia, dizendo que os senhcH^es do supremo con- 
selho estaTao certos em que os muito poderosos e 
altos Estados Ga^^aes tinbao assistentes na corte do 
Senhor Rei de Portugal Dom Joao o Quarto para se 
ajustarem conyeniencias sobre as pra^as do Brazil, 
coiiquistadas da linha para o sul , que brevemente 
se concluiriao , e que parecia razao se esperasse , 
com suspensao d'armas, aquella eonclusao da qual 
se poderia seguir uma paz segura , sem as extor- 
coes e damnos d'uma guerra riya , a todos eoutin- 
gente e nociya. — Os nossos deputados cortirao o 
fio a esta pr&tica dizendo que nao traziao com- 
missao do seu general para outra cousa mais que 
para capitutarem a entrega do Arrecife^ e das mais 
pra^as , injustamente usurpadas j e que so na dita 
entrega se devia fallar, e concluir sem ambages 
nem desyios. Respond^o os Hollandezes que nao 
era aquelle negocio que se kayia de definir com 
resolucoes tao apressadas, e que o tom&l*as em ma- 
teria tao ponderosa nao s6 pedia profunda conside- 
ra^ao ^ senao tambem maduro conselho ; al^ de 
que, nao podiao elles defirir a ponto tao essencial 
sem ordem de sens superiores ; que yoltariao a dar- 
Ihes conta; e na segunda feira seguinte> dariao a 
resposta que se Ihes ordenasse. Ao que disserao os 
nossos deputados que se desenganassem, porque 
na mesma bora se hayiao de resolyer na entrega , 
quando nao, que em tempo estayao para tomarem 
por for^a o que nao queria targv d yontade , e 



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584 CASniOTO LDSITAIIO. 

que Ihes lembravao a perda e o estrago ^ a que se 
expunliao. Timidos e supensos os deixou a reso- 
lucao. A expertencia Ihes tinha ensinado , que 
se uao entrepunha tempo entre o ameaco e o golpe 
de nossas armas. Sujeitarao a sagacidade & conve* 
niencia, e obedieiKes pedirao horas para aTisarem 
ao seu governo a grande differen^a , que achavao 
cntre a sua proposta e a nossa determinacao. Per- 
milUo-se-lhes a dilacao por horas contadas. Foiio 
o With e o Brest com a informacao^ e ficarao com 
OS nossos deputados o capitao Yanld e o tenente 
general Vander Vant. Temiao o effeito que em 
nossa impaciencia poderia causar sua detenca, e 
com sua presenca deitarao um fiador a tardanca. 

XXII. Fouco mais d'uma hora se tinha passado 
quando chegou um gentil-homem , que vinha do 
Arrecife com recado aos nossos que nao estranhas- 
sem a dilacao, se a houvesse, porque a causava o 
apontamento das capitulacoes, com que se havia de 
fazer a entrega. Pelas tres horas da tarde chegarao 
com as capitula^oes^ e dous notarios publicos para 
as traduzirem de flamengo em portuguez ; occu- 
pacao que durou al£ as dez horas da noite, em que 
sairao do congresso, uns para o Arrecife , outros 
para o quartel do mestre de campo general, a quern 
entregarao partidos e condicoes que o£krecia e 
pedia o HoUandez. Para se escolher e reprovar o 
que d'ellas nos convinba , ou nao convinha , cha- 
mou a conselho os tres mestres de campo com 
todos os officiaes maiores ; e por involverem pontos 
tocantes ao direito, e alguns artigos i consciencia^ 
chamou taml)em aquellas pessoas , queaspodiao de- 



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GASTBIOrO LDSITANO. 585 

cidir^ e na mesma noite se respoadeo a todas as clau- 
sulas ofTerecidaSy definidososartigos queserecebiao, 
e OS que se regeitavao ; e nesta fiSrma se entregirao 
no seguinte dia pela manha aos deputados hollan- 
dezes, que com os nossos se ajuntarao no mesmo 
lugar, em 25 de Janeiro, quesuccedeo ser domingo. 
Neste mesmo dia escreveo Sisgismundo Vanescop, 
general das armas hoUandezas, uma carta a Fran- 
cisco Barreto com advertencias de discreto e sub-' 
missoes de rendido, pela qual Ihe pedia licenca 
para que um seu tenente coronel com a pessoa que 
sua senhoria nomeasse, conferissem e resolvessem 
as conveniencias dos officiaes, e gente da milicia : 
peiicao que Francisco Barreto despachou benevolo 
e cortez, e nomeou da sua parte ao mestrede campo 
Andr^ Vidal de Negreiros, para que na mesma 
junta elle e o tenente general Vander Vant, no- 
meada pelo Sisgismundo , tratassem o negocio, 
como deputados da conferencia g^ral, e d*esta par- 
ticular, — Conferirao os capitulos d'uma e outra 
parte, e com negar e conceder de ambas se ajusta- 
rao. Altercirao-se os pontos de maior duvida, e 
Yencidas todas, $e manddrao as condicoes aos supe- 
riores , para que com sua approvacao se escreves- 
sem e disposessem por capitulos; e resolrendo, 
que ao outro dia se assignassem pelos generaes e 
deputados, se apartarao todos pelas onze da noite; 
e se firmarao aquelles no dia seguinte 26 de Janeiro 
nesta fdrma. 



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U6 GAilBiOIO WmUM. 



ARTI608 POPULARBS. 



1 . Que o saihor mestre de campo general Fran- 
cisco Barreto de Menezes da por esquecidas todas 
as hostilidades executadas por parte dos vassaUos 
do6 senhores Estados Geraes das.ProvinciasUnidaSt 
e da companhia occidental, ou fossem por mar ou 
por terra I e contra a nacao portugueza, as quaes 
•e htto de reputar como se nunca fossem commet^ 
tidas ; e que neste acoordo se comprebendao todas 
as na^d^ de qual<)uer estado e religiao que sejao , 
ainda que fossem rebeldes a coroa de Portugal , ou 
contra ella oommettessem trai^ao | e que o mesmo 
entendem dot judeos que estao no Arrecife , e ni 
cidade Mauriceai em quanto podem. 

2. Concede a todos os rassallos dos senhores 
Estados Geraes, e mais pessoas que estao a sua 
obediencia^ todos os bens moveis que actualmente 
esdverem possuindo. 

3. Concede de todas as embarca^oes ^ que estao 
d^itro da barra do Arrectfe^ aquellas que esUTe* 
rem sufficientes para passar a linha com aquella 
arlilharia que ao senhor mestre de campo g^ieral 
parecer bastante para sua defensa^ com tanto que 
nao seja de bronze ^ eicepto a que permitte ao 
senhor general Sisgismundo. 

4. A todos 08 vassallos dos ditos senhores Es- 
tados, que forem casados com mulheres portu- 
guezas ou pernambucanas, concede as possao levar 



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QMMtWnO UMTUfO 6t7 

cdffislgo > querendo ella^ , e xp» aa tiies sejao tnh 
tadds como se forao eaaadaa com Portugueses* 

5. Concede a todos os que quisierem ficar na 
terra 9 bbedient^ as armaa e dominio portdgil^z , 
que no tocante a rriigiao TiTitfto pelo estilo que 
▼iTem todos os estl^angeiros em Pbrtugali no pre** 
sente tempo. 

6. Que OS fortes situados na circumferencia do 
Arrecife e cidade Mauricea ^ a saber o dad Cinco 
Pontas, da Boa Vista , do M osteiro de Santo Anto<- 
hio ^ castello da bidade^ for^a das Tres PoAtas ^ do 
Brum^ e seu reduto, castello de Sao Jorge , o do 
inir> e tddas as mais caAas fortes e batarias sO en- 
tregtrao Is ordens do senhor mestre de eampo ge** 
Heral Francisco Barreto de Menezes^ tanto que por 
uma e outra parte se firmarem estes capitulos, 
com toda a artilharia e municoes que nellas estao ; 
^ da mesma sortti as pracas do Arrecife e cidade 
Matu'iceai 

7. Concede que os yassallos dos smhores Esta* 
dos GeraeS) moradores no Arrecife e cidade Mau-^ 
ricea^ podeHio ficar nas ditas pra9as por tempo de 
tres mezes, com tanto que enti^egarao as armas ) e 
quando se quizerem embarcar (ainda que seja atites 
dds tti^s m^zes) Ih'as mandari entiregar pala se 
aproreltarem d'ellas na oceasiao i e se concede aos 
ditos possao comprar aos Portugueses , nas ditas 
pra^as^ todos os mantimentos que Ihes forem nece»- 
sarios para seu sustento^ e para a viagem. 

8« Em quanto4salheac5es^ commutacoes^ nego^ 
eeacdes e rendas^ que os ditos yassallok dos sd^ 
nlMM Estados fiawem tleatro dos tres meaes^ 



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56$ GASTBIOIO UniTAM. 

declara o senhor mestre de campo genentl Fran- 
cisco Barreto, que w&cio feilas na fiirma que apcmta 
*einoartigo 11. 

9. Que o senhw mestre de campo general Fran- 
cisco Barrelo de Menezes poderA assbtir com o seu 
exercito a onde Ihe parecer mdhor, com tal condi- 
^o que 08 vassallos dos senhcM^es Estados Geraes 
nao serao vexados, nem molestados de nenhuma 
•orte de Fortuguez algum de quakpier ealado, 
postOy e qualidade que seja. 

1 0. Concede o senhor mestre de campo general 
a lodos OS vassallos dos senhores Estados Geraes, e 
a todos OS que militao debaixo de suas bandeiras 
que possao levar comsigo os papeis que tiverem , e 
Ihes pertencerem por qualquer via que seja, o que 
se Ihes concede na f6rma em que Ihes serao entre- 
gues sens bens moveis. 

11. Que poderao deixar os bens moveis e de 
raizy que por justo titulo Ihes pertencerem, e de 
que estiverem de posse actualmente ( se os nao po- 
derem* vender no tempo consignado) a ^eus pro- 
curadores, que poderao constituir, de qualquer 
nacao que sejao, dos quaes sarao correspondidos 
na f6rma do estilo. 

12. Item Ihes concede todos os mantimentos 
seccos e molhados, que de presente estao recolhir 
dos em seus almazens para se servirem d'elles na 
terra e na viagem, larg^do aos soldados os de que 
necessitarem para seu sustento quotidiano, e para 
a navega^o que fizerem. Mas nao Ihes outorga o 
dito senhor mestre de campo o massame para os 
aprestos dos navios de sua viagem » por quanto se 



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GASTIIOTO LCSITAlia 58t 

obriga a dar-lh'os apparelhados^ ao tempo de sua 
partida para Hollanda. 

13. Que no tocante as dividas e preten^oes da 
fazenda, que os vassallos dos senhores Estados Ge- 
raes querem repetir aos moradores portuguezes, 
Ihes concede o direito de os obrigarem para diante 
de sua M ajestade o Senhor Rei Dom Joao, em cujos 
tribunaes se poderao decidir. 

14. Mais concede^ que todas as embarca^oes 
pertencentes aos ditos vassallos , que cbegarem a 
este porto do Arrecife no termo dos primeiros 
quatro mezes depois d'estas capitulacoes ( tempo 
em que nao poderao ter noticia d eilas) se poderao 
voltar^ sem que padecao reten9ao , nem aggravo 
algum. 

15. Item concede o senhor mestre de campo 
general aos ditos vassallos dos senhores Estados 
Geraes, que possao mandar chamar os sens navios^ 
que trazem pela costa, para que neste porto do Ar- 
recife possao embarcar, e levar nelles suas pessoas 
e OS bens acima outorgados. 

16. Em quanto ao que os sobreditos vassallos 
pedem sobre nao prejudicar este contrato as con- 
venienciaSy que estiverem ajustadas entre o Senhor 
Rei de Portugal, e os senhores Estados de Hollanda 
antes de cbegarem a sua noticia estas capitulacoes, 
nao concede o mestre de campo general , porque se 
nao entremete nos taes acordos, e tem exercito e 
poder para conseguir por armas a restauracao das 
pracas que se Ihe entregao a partido. 



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soo coTiian unurAva 



A|lT|fip$ BflJ-ITARES. 



1 . Premette o senhor mestre de campo genarftl 
eiquecimento de todas as offeosas que os Ppriu-r 
guezes e Pernambucaaos hajao recebido das armaa 
hoUandezas em qualquer parte y ou por qualqiier 
mode que fosse. 

2. Concede q mesmo'sdnhor a todos 03 aoldadoi 
assistentes no Arpecife^ cidadeMaurioea e fort|deaui3 
adjacentesy .<que possao sair d'ellas com tod^ a^ 
honras militares, que ae cuatumao ooiuseder ao$ 
rendidos, como sao^ mecha acfiesa, hah f^ bo^ai 
bandeiras tendidas, etc. com a limitacao , que aQ 
passar pelo exercito poptugufz apagarao logo as 
mechas , e tiraraD as pedras i espinguarda^ e cla- 
vinas, e entregues as avmas^ se repolherao (sqa al* 
mazem particular, qi)al o senhor m^^r^ de caippo 
ordenqr, tomando por cont^ de seu ouidado o fr^^Uf- 
dar-Ih'a^ entregar, quando se embarparem ; e so 
ficarao com suas armas todos os oQieifies 44 iQiljcia 
de sargento para cima. E q|ie embarcados um ^ 
outros seguirao sua direita yiagem i(os poftq; d^ 
Nantes , Arroohella, ou a qualquer dm ^tadof de 
Hoilanda, sem tomaren^ porto algum do reino d^ 
Portugal : ,para (irmeza do que deixarao, eile^ Yai^ 
salloa dos senhores Estados Geraes, eni rpfipQ^, t^eB 
pessoasy a saber, urn official mator d^ mijipi^, um 
dos governadores do supremo , e un^ dos maiorc^ 
homens do negocio. 

3, Que toda a gente de guerra, cabos^ officiaes 



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GAS79I0T0 I.UfilTA«0« 9H 

e 9oldftdo8 66 embarcarao juntamc^te ooip p aeqbor 
general Sisgismundo , e farao viagem em sua coiur 
panhia , com tal condicao que primeiro deicbarao 
entregues as ordeoB do senhor mestre de campq 
general as pracas do Rio Grande , Paraiba , IUt 
raaraca, Ceara e ilha de Fernao de Norooba, com 
toda a artilbaria; muni^oes e petrechos de guerra, 
que tinhao em si, ao tempo que cbegara Aquella 
costa a armada de Portugal , que esta no porto, e 
no cerco ; e que para flanga de tudo acima dito 
entregarao os refens, acima apontados. 

4. Concede o senbor mestre de campo general 
ao senhor general Sisgismuqdo Vanescop, qua 
depois de entregues todas as pragas e forQa$ acima 
ditas, com toda a artilbaria , que tinhao ao tempo 
referido, yinte pecas d'ella e de bronze de quatro 
at^ dezoito libras de balas, al^m das pecas de ferrq, 
que forem necessarias para a defensa dos naviod 
que levar em §ua companbia, as quaes se Ibe darao 
com as carretas e munigoes necessarias* As demais 
com todas as armas e munigoes que nellas se acba*^ 
rem, se entregarao as ordens do senhor mestre de 
campo general, como 6ca dito. 

5. Que o dito senbor Ibes concede a^ embarea-r 
coes necessarias , na conformidade referida. 

6. Concede tambem o senbor mestre de campo 
general, para toda a gcnte da milicia, os manti-r 
mentos necessarios, na fdrma que estao concedidos 
a todos 08 vassallos dos senbores flstados Geraes 
em o artigo 1 2 ; e declara que nao sendo bastantes, 
promette dar-lbes os sulScientes. 

7. Concede mais ao senbor general Sisgismundo 



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S93 GASTEIOTO LU8ITA1I0. 

Yaoescop , que possa ter^ alicnar, embarcar, ou 
vender quaesquer bens moveis ou de raiz que seus 
forem ; e assim mais todos os eJeravos, que possue 
com juste titulo. £ que do mesmo favor gozarao 
todos OS oiBciaes vivos da milicia ; e que elles, e o 
senhor general Sisgismundo possao morar nas 
casas em que vivem, at^ i bora de sua partida. 

8. Item concede a todos os soldados enfermos e 
feridos se possao curar no bospital, em que de pre- 
sente estao, at^ que tenhao saude para se poderem 
embarcar. 

9. Que em quanto os soldados do senbor gene- 
ral Sisgismundo esliverem em terra nao serao mo- 
lestados, nem offendidos por pessoa y nem por via 
alguma, de gente poftugueza, nem da terra ; e em 
caso que algum o seja dara parte ao senhor mestre 
de campo general , para mandar castigar os aggres* 
sores. 

10. No tocante a se embarcarem juntos com os 
soldados que de presente estao no Arrecife, oidade 
Mauricea, e mais pra9as e forcas rendidas, aos que 
se rend^rao antes d'estas capitulacoes nao concede 
o senbor mestre de campo, porque tem ja dado 
comprimento ao que com elles capitulou sobre a sua 
entrega. 

11. Que o senbor mestre de campo general 
concede perdao a todos os Indios rebelados, assis- 
tentes no Arrecife e pracas adjacentes, especial- 
mente a Antonio Mendes; e da raesma sorte aos 
mulatos, negros e mamelucos; mas nao Ibes con- 
cede a honra militar de sairem com armas. 

12. Que tanto que forem assignadas estascapi- 



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GA8TAI0TO LOSItAHO. 591 

tulacdes, se entregarao as ordens do senhor mestre 
de campo general as pracas do Arrecife, cidade 
Maoricea, e mais fortalezas e redutos d'esta capi- 
tania com toda sua artilharia^ muni^oes e petre- 
choSy e o dito senhor se obriga a dar guarda ao 
senhor general Sisg^mundo para seguranca de sua 
pessoa y e dos mais cabos e ministros do governo , 
em qualquer alojamento que escolherem , todo o 
tempo concedido nestas capitulacoes. 

13. E sobre todos estos capitulos e condicoes 
acima referidas se obrigao os senhores do Gonselho 
Supremo, residences no Arrecife, a entregar tarn- 
bem as ordens do senhor mestre de campo general 
Francisco Barreto de Menezes as pracas da iiha de 
Itamaraca, da ilha de Femao de Noronha , Ceara y 
Rio Grande e Paraiba com suas fortalezas e arti- 
Iharia na fdrma dita; mas que o dito senhor mes- 
tre de campo general sera (^rigado a mandar ao 
Ceara uma nto sufficiente para nella se embarca- 
rem os soldados e moraflores^ vassallos dos ditos 
senhores Estados Geraes, com os bens permittidos 
no segundo artigo d'estas capitulacoes. Mas declara 
odito senhor mestre de campo general , que nao 
sera obrigado a dar mantimentos para a viagem 
das ditas pessoas, que se embarcarem do Ceara 
para Pemambuco. 

14. Concede o dito senhor aos vassallos dos se- 
nhores Estados Geraes todos os navios e embarea- 
9oe3 que tiverem pelos portos do Rio Grande , Pa- 
raiba e ilha de Itamaraca para sua viagem e con- 
duccao de seus bens , sendo capazes de passar a 
linha, mas declara que nao levarao arlilharia de 

L 38 



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5M QAVmmo MWthM^ 

browe» e de ferrp sq a que pr«Qisameme far nraei- 
svia para w«i defe^si, F^a esta ooDocmttla oa 
campaitha 4o Tabonk, aegfunda feim^ pabtcoue 
da Qoifei ^ 4a Jmeire dk 1654 aimot, 

1. Fim<:i«eo lUf^iti) BE MfimRSf mm^^ de ewxpo general. 

3. Affonso de Albuquerque , capiUto. 
U, Manobl GoRiiRA , capitio seoretario. 
5. Francisco Alvaiib Moum^ , oaridor e auditor feral. 

1. Sisca&amiDQ VAi!(¥acf r> (;ei^rat. 

2. GisbertWit. 

3. Vander Vant , tenente general. 

4. Yavtir VAUii, capitao e coMmMder. 

XXOl* Amaaheoeo a terea feira 37 de Janeiro 
grata para oa vencedorea, trUte para os ve&oidos ^ 
uaa e Qutroamadrugaraoaaquette dia» eatesporque 
06 affligio a Tixinlianoa da perda y aque)l^ pcNrqne 
06 deapertou a alvoroi^o da posse. Tocava a Joio 
Feroandes Vicira a vanguarda naqudle dia ; orde* 
noii4he o nqeatre de oampp geBeral que fosse Unnar 
posse da ibrtaleia (ktsGinoaPontas, 4t cidadeMau- 
ricea e 4o Arreeife. 'Saio do alojamento earn mil 
e quinhentes homeos de seu terco, e marehou 
diante da sua gente com uma pica ao homhro. Ao 
passar pela porta da fortaleza da& CiDCoPantas re^ 
cebeo a eatrega, deaarsiou o presidio, e o guartie- 
ceo com duaa compaBhiaa do seu terco, e uma do6 
soldadotde Henrique I>ias. Deixou nella o iaimigo 
viale e duas peeaa d'artilbaria^ as desaseis de hronxe 
e as seis de ferro. Entrou n'uma ]:^nicie que fas 
o terrene entre a fortaleza das Cinco Pentas e a 



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GASTitotd itmif Ana IM 

ckhde Manriceft; fez alto^ formou a suagaite, e 
mandou recado ao governador daqtiella praca, que 
SMDdaMe sair a guarni^ao que nelk estava, para 
aer desarmada na f<6rma das capitulicoea ; (rf)ede« 
o^rao ; e ao entrar pelo nosso eequadrao os foi 
deaarmando a todos o sargento maior Antonio 
Dias Gardozo. Assim oomo entregtrao as armas se 
tcarao entre os Portuguezes com trato tao amigavel, 
que nem pareciao estranhos y nem inimigos ; ef^ 
feitos d'um bandb que o mestre de campo general 
mandara lancar com graves penas, etn que encor*- 
reria qualquer pessoa que fizesse o mais pequeno 
aggravo ao menor estrangeiro. Peneceo o icto e 
marchou avante o mestre de campo Joao Fernandes 
Vieira, a quern todos os rendidos oUiavao com 
admiracao e reyerencia ; passou a ponte, e mandou 
assegurar a entrada do Arrecife pela parte de den*^ 
tro com algumas companhias da ordenanca, e guar* 
necer as ruas que |;uiavao a praca maior da po- 
Toacao, com soldados pagos, para onde marchou ; 
e formado nella desarmou o sargento maior toda 
a infantaria contraria, assim paga como auxiliar e 
miliciana. AUi entregarao settenta e tres chaves, e 
com ellas a posse de todos os lugares fortes, alma* 
zens d'armas, bastimentos, generos e velame^* 
Po2 guamicao nas partes convenientes, e guardas 
nas paragens que as pedlao; e retirados os rendidos a 
sens aposentos^ mandou aviso de tudo o que tinha 
obrado ao mestre de campo general Franoisco Bar- 
reto de Menezes^ pelo sargento maior Antonio Dias 
Cardosso, em tx)mo sua senhoria tinha tudo a sua 
obediencia socegado e pacifico. Neste mesmo tempo, 



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596 QunniOTO usiTAna 

porordem do mestre de campo f;eneral, traKm 
po3&e Xodri Vidal de Negreiros da foitaleza de 
Saoto Antonioy da oidade Maurioea e dos casldlos 
de mar e terra, onde metteo guamicao. Da mesma 
sorte e ao mesmo tempo marchou Franeidco de 
Figueiroa a tomar posse das fortalezas do Brum, e 
d'outras de menos porte , que por aqueUa Gorda 
tiuha o Flamengo^ que tudo se fez com tao boa 
ordem, que se nao deo occasiao nem ao atrev imeuto 
oem a queixa ; havendo-% uma e outra gente com 
tanta prudencia, que p^t^ecia obrar o estudo e 
nao o'acaso. 

XXIV. Quasi todo o dia de 27 se gastou 
nestas occupa^oes militares; nas ultimas hc»ras 
d'eUe recebeo o mestre de campo general o aviso 
de Joao Femandes Vieira; forcado do t^npo 
dilatou sua ^itrada para o seguinte dia, em que 
saio de sen quartel com a autoridade de general, 
e com as galas de soldado ; e certo que nesta 
occasiao mostrou sua pessoa que nella se via o 
bastao autorizado, e a fortuoa merecida. Posto a 
cavallo, e assistido dos cabos e da cavallaria que 
militava, caminhou para o Arreoife. Na entrada 
da cidade Mauricea o saio a receber o general Sis- 
gismundo Vanescop a pe, como caido e humilhado 
sujeitO) triste como desgracado, vestindo-se seu 
semblante das cores de sua fortuna. Apeou-se 
Francisco Barreto de Menezes ensinado do successo 
a desprezar soberanias a vista das miserias, em que 
as converte o menor accidente do tempo. Alii se 
viao ambos os generaes em igual pAsso, um por- 
que odesmontou a cortezia, outro porque o des* 



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GASTBIOTO UJSITANO. 597 

montoii a fortuna. A sua mao direita deo Francisco 
Barreto a Sisgismundo Vanescop, e nesta forma 
caminbarao parao Arrecifepela ponte que o divide 
da cidade. No meio d'ella o esperavao os ministros 
do conselho supremo e politico , que recebeo com 
agrado e cortezia, e os foi levando pelas portas de 
suas casasy em que os obrigou a ficar; menos o 
presidente do politico, que resistindo ao favor o 
acompanhou at6 o palacio principal da povoacao 
que o esparava rica e vistosamente adornado. Em 
todo o decurso da marcha nao descans^rao as forta- 
lezas e companhias de repetir salvas, cujo estrondo 
servio nesta occasiao aquelle imperio de repiques 
, e desinaes^ porque uns o acompanhavao ao tumulo 
outros ao throno. Alii Ihe ofFereceo Joao Femandes 
Vieira as chaves, como instrumentos da posse, com, 
distincta rela^ao da forma em que as recebera em 
seu nome ; e foi correspondido com as gratificacoes 
dividas ; e bem se p6de dizer que da mao de Joao 
Femandes Vieira recebeo Francisco Barreto aquelle 
dominio, e a coroa de Portugal aquelle imperio. 

XXV, numero dos rendidos que arrimarao 
as armas foi o seguinte : mil e duzentos soldados 
pagos, em dezanove companhias , em que entrava6 
oitenta e cinco Indios e vinte e dous negros. Mao 
forao parte nesta conta mais de trezentos que se 
rend^rao na entrega das fortalezas do Rego e de 
Altenar ; nem tao pouco oito centos cincoenta e 
dous Indios, que se haviao retirado para o Geara, 
como nem os moradores, nem os soldados e mora* 
dores que depois se renddrao nas ilhas e fortalezas 
que se entregarao. Achirao-se no Arrecife cento 



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51* CAiniOIO LlWrAM. 

¥iiite e tres pe^i d'arlilharia de brome ; de ferro 
oeato e setenta ; e para ellaa per oima de sets mil 
balas de todo o oalilnre, e a eate reapeito as demais 
muni^oea e armaa; grande divemdade de iiistru<* 
mentos e petrechos deguerra^ e materiaes para elles, 
CQixio ferro, chumbo^ pregaria^ madetraa, feehos, 
cronhaS) etc, Assim tambem para aprestoa das an« 
bai*cac6es e da artilharia, breu, enxarcias, velamei 
mastros, vergas, lemeS) e tudo o mais que podia 
ser neceasario para os exercitos da terra e anna* 
das do mar; maatimeatoa de toda a sorte, para 
mais d'um anno, com abundancia. 

XXVi. Os Hotlandezes ( perfidoa por natureza, 
que o sao em toda a fortuna), naquelle mesmo 
ponto em que se (ko principio a pratiea da entr^ 
ordenarao ( e quando menos consentirao ) que uttk 
seu tenenle coronel Nicolas, de cuja pessoa e tran 
cces fiieooos algumas vezea memoria nesta relaeao, 
saisae do Arrecife (com titulo e apparencias de fiiga) 
em uma jangada^ que sem rumor nem Tulto podiia 
escapar facilmente i vigilancia de nossa armada , 
favorecido da escuridade da noite , aportou a ilha 
d'ltamaraca ; aviaou o estado das cousas , e p«r- 
suadio a muitoa moradores e Indios que se en^>ar- 
cassem com todoa seus moveis, e fugissem em duas 
fragatas que estavao no pcHto ; o que fizerao levando 
c<Mnsigo todoa os escraros que bam na ilba. Foi i 
Paraiba, deo o mesmo aviso, e aoonselbou aoa sol* 
dados que obrigassem com razoes, quando iiao ecmi 
vioksieia, ao ooronel Authim govemador d'aqudk 
capitania e fortakza a que fizesse o mesmo; e se 
embarcarao com todo o redaeio, moai^ees e armas, 



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que poddra^ lerrftr. QtkAsl eoin ^iihilhitite dvlso ^ 
snoeeMo ckiixarao M Flaiii(^o§ a ft>rtaleza do Rio 
Qrat)d^5 o que Be foz sem que nos chegasse a meaor 
nolieia. 

XXYIL Em pritn^iro dia de Fer^l^dro orde- 
nou Franciico Barreio de Menet^ ao mestre de 
campo Francisco de Figtieiroa^ que com oitocentoS 
e cineoenia sotdados fosse tomar entre^ da ilhsi 
de itamat'aea^ Paralba , e Rio Grande. Desarmou 
o8 rendidoe da ilha^ que erao quatrdcentos soldado^ 
e Dumero creseido de moradores ; tomou entregsl 
das fortalezas, com tritita e tr^ pecad de artUharia, 
quasi todaa de bronze, e oopid grslnde de munieoes, 
armas e bastimenios* Guartiecidas aqudlas forcas, 
passou a Paralba, onde aehou ^s duas fortalezas 
da Barra em poder de cincoenta Portuguezes que 
o inimigo tinha prosos , e m soltou j fazendo*mes 
entrega deltas^ e ^ os Flumengoa cdsados e herda- 
do6 na terra ficarao nella« Guartiecidas as ditas 
forcas^ marchou para o Hio Grandey achou a forta- 
leza desemparada; e na terra algdtis poucoa Hollan- 
dezes caaados, e Po^ugUezes alguris, que a fugat 
do Flameugo fez de captiros livres. Cain as me^- 
mas cireufiislafiicias se tomou eiltrega da iiha de 
Felnao de Koronba. A'capitank do Geara sef man- 
doB a nao na fiSraia eapitulada, e neila vierao os 
pendidda para o Arrecife. 

XXVUL Entreg»e o Ajrrecife, e aposentado 
Helle o BMStre de campo nauera) Ff*anciseo Barreto 
de Mciiezes, se deapedirao o genera) da armada 
Pedro Jaques de Magathaes e Francisco Freire sen 
atoiranle oon os mais capitaea da frota , a cujo 



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604 cAsmmo waxtsmk 

aiuilio deve Portugal a reiat^ra^ao de aaa ooroa, 
naquella por^ao de suaa ccmquistas, que se bem 
foi outra mao a que pr^>arou e polio aquella pre^- 
ciosa pedra, bem se p6de dizer que foi a daquella 
anoada a que a engastou. Recoohecidos a esta yfer^ 
dade nao sabiao Francisco Barreto, Joao Femandes 
Vieira , Andr^ Vidal de Negreiros com todos os 
maia cabos e moradores palavras com que gratificar 
tamanho beneficio. Deo a armada a v^a para a 
Bahia seguida de bencaos^ e rogativas de todos os 
soldados e vizinhos ; onde entrou com as novas da 
victoria » e com todos os vasos da frota; e deo 
aquella cidade o melhor dia que teve depois de sua 
fundacao. — Em 3 de Fevereiro saio do Arrecife 
uma caravella d'aviso para o reino por ordem do 
mestre de oampo general, e nella o mestre de campo 
Andre Yidal de Negreiros com a alegre nova da re&- 
tauracao de todas as capitanias occupadas pelo 
Hollandez ; pessoa escolhida para representar k Ma- 
jestade d'El Rei Dom Joao o Quarto o successo e a 
desculpa> com qve os moradores d'ellas excedendo 
a permissao da defensa se movSrao a conquista, 
para que Sua Majestade nao ouvisse o successo 
sem as causas, e pesasse mais a desobediencia que 
o service ; o que nao seria chegando aos ouvidos 
d'aquelle principe a nova e a causa da desculpa ; 
e como uma e outra cousa tinha passado pda mao 
do dito mestre de campo , daria inteira razao dos 
motives occiiltos e manifestos que concurrerao 
para a determinacao , com a fidelidade de parte e 
testemunha. Saio na esteira de Andre Vidal dc 
Negreiros outro vase menor , e nelle o padre Frei 



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GASTUOtO UJSITANa 601 

Joao da Resurrei^ao, rdigio8o de Sao Bento, asais* 
tente que havia sido a todo o processo da guerra 
desde o primeiro movimento at^ o ultimo passo 
d'ella, mandado pelo mestre de campo Joao Fer- 
nandea Vieira ^ interessado em que Sua Majestade 
premias8e os grandes seiTi9oa de tal religioao, mui- 
tas vezes referidos no disourso d'esta hiatoria. — 
Navegarao €stas duas embarca96es por differentea 
rumosy e tomarao a barra de Lisboa em um mesmo 
dia, que foi o de 18 de Mar^o d'aquelle mesmo 
anno; Andr^ Yidal pdias seis boras da tarde, e o 
padre Fr. Joao uma bora depois. Mandou Andr^ 
. Yidal deitar ferro com reaolu^o de fiear aquella 
noite na carayella y e subir para cima no dia se- 
guinte J desembarcando a boras que da caravelia 
entrasse no pa^o , e nelle , sem detenca nem com-* 
municacao alguma se apresentasse a Sua Majes* 
fade. Sem abaixar v^la entrou o padre Fr. Joao, e 
subio ; e ao prepassar conheceo a caraTella do mes- 
tre de campOy que estava sobre ferro; pareceo^lbe 
que o levava diante, e pelo alcancar no pa^o , e 
nelle o patrocinio de seu negocio, entrou pelas dez 
da noite, fallou com o secretario do expediente, e 
nao acbando noticias do mestre de campo Andr^ 
Yidal de Negreiros, pareceo-lhe crime deter a nova, 
e engeitar a dita que Ibe oflTerecia a fortuna. Teve 
audiencia de Sua Majestade , deo-lbe a nova , que 
elle recebeo como beneficio da mao de Deos. Ao 
ontro dia retificou a nova e a alegria o mestre de 
campo Andr6 Yidal de Negreiros, que logo se di- 
vulgou por toda a corte com tanto alvoroco que a 
festejava o gosto de todos, e nao acabava de a crer 



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•n Qumixno uMct apoi 

^ o fliptnto de nttdtos. Utn dM diAft seg^nMB fbi Sitt 
Majeuade em prodssao I S^ a dat as gfa^ d« 
meroe tao granda. 

XXIX. Etta di o fim qua tare o itilrMO impario 
belgioo Mqudla parte da Ammca ; iirila tio )^H>9^ 
trada am pte da aspada portugaesa 8ua repntacao^ 
seu podar a sua CDriuna« Mell^rou o FUunengo o 
qim no Braait adquirioy e so para o debar mdho- 
rado o augtiicBlou : Urn sens esertiputos a fortiraa^ 
Muito foi o qud HoUatida na conquisla do Bra&il 
adquirio por roobo, e muito mais a que deo por 
ealrt^a* Paet^rao da Tinte mil homaii 09 que Ihe 
aontnmnito a defeusa ( nao ikUamos nos di^pas-*- 
dios da oonquUta que nao ti? erao conta ) ; eaa duaa 
partidas perdeo oinoo oiil^ que forio as dos Gua- 
rarapes. ^oceMi^amaule foi ezpulsado da duzaataa 
legoat da oosta , que dcsxou com as forialeaas qua 
ueUaa ievaiitott e posauio^ Em uma tarde nos refi-^ 
da« aa fertalesiaa do Rego, a de Altenar, a dos AA>^ 
gadoa^ a das Ciaco PbuUs, a de Saato Aatonio , a 
da Boa Viala, a do Brum; a da Seca^ a dos Perrexif , 
a do fiUraco de Santiago ; os caatellos do isar e da 
terra^ ddada Maurioea , e o Arrecifa com iodoa 0$ 
fortiM, pfaitaforma9 e batarias^de quo seguarfieciao; 
e cortou tao kirgo a aapada portugueaa^ qua junta-^ 
■Mate FCttdco uma forealeaa no Rio Grande , chus 
oa Paraiba y couk m das ilhaa de Itaraaraca^ Ferino 
da Nore^ha^ e a capttaRia do Ceara ; tendo-ihe j4 
a ts^ tempo aaido dasr maoa as fortalezas de NaMH 
reth, do Rk) de Sao Fran€i$cO|» do Porto do CalTo, 
de ioao d' Albuquerque com a viUa de Qlinda ; em 
todaa ooa daiatHi maia de seiscwiaa peoaa^ iquasi 



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Gumoto LmtrAmx. 60S 

todas do bronze. Ai annas, muniooes « getierod fb-* 
rao em tanta oopia que eiLCedArio d nlimero e a 
estimate. 

XXX. Aquella potencia^ que o Tulgo no Brazil 
julgava insupperaTcly asaistida dos progressos, das 
fortifica^oes , daa armadas , do rottbo e do com- 
roercio, poz debaixo dos p^s o coracao d'um ho- 
mem » porque a excedco a grandessa de seu animo , 
assisUdo do inTencivel espirito que o movia. Foi 
e&ie o grande Joao Fernandas Vieiro ^ varao maior 
que seu nome. Neste heroe competMo a capaci^ 
dade e o valor, porque sua eabeca foi ;i medida de 
aeu braco, obrando a forca o qu^ deliniava o peti«« 
samento ; e seu cabedal tudo quatito Ihe propoz 
desejo. Necessilava de a prestos, pedia^os i sua fa-- 
aenda ; faltavao-lhe soldados, fiixla-os sua praiica ; 
deseja^a leoes; criava^os seu exionpto ; pretendia 
victoria, dava-lh'as a fortuoa* Saio it eampanha 
acompanhado de si mesmo, e ftai6 com o que inten- 
tava. Nao houre oocasiao am que o i^ucesse o po^ 
der : em lodas despreeou o perigo ; em mui(as soc- 
oorreo a faUa; em algumas atalhou cs infortunios. 
Mao houve conselho que nao devesse as resolucoes 
a seu parecer ; nao houve destroco , em que nSo 
inftoisse seu braco, nem tiyemos viotoria que nao 
ittustrasse, ou sua espada^ ou sua disposicao. 
principio daquella guerra resuha foi de seu Im- 
pulso ; a continuacao das armas, effeito foi de sua 
constancia j o soccorro, que a frota dec para se con- 
cluir a empreza , inven^ao foi de sua industria ; o 
cercar as forlalceas do ArreeJfe, eleicao foi de sua 
e^raii^. Nao faltou a aoa grandcza « emulacao ; 



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664 GASTilMO LOfirrAm). 

a 8eus progressos, a inveja ; a sua liberdade , a in- 
gratidao ; a sua cortezia, o atrevimenfo ; e a sua 
fidelidade , a trai^ao. Yerdadeiramnte todo , e em 
ludo um vivo retrato daquelleCastrioto tao conhe- 
cido por suas obras, que se foi primeiro no tempo 
teve em Joao Femandes Vieira segundo no valor 
e na fortuna. A este heroe (apuradas bem as causas, 
6 melhor as razoes com que o Serenissimo Principe 
Dom Pedro , fallando neste varao, o nomeia heroe 
de nossa idade,como algumas yezes ihe ouvi : con- 
dicao verdadeiramente d'um Principe perfeilo nao 
se lembrar do servico sem honrar o merecimenlo) 
devem as idades a mais yiva lembranca ; a nacao 
porlugueza a maior fama; a America toda, o me- 
lhor nome; o reino de PcNrtugal, o commercio mais 
utii; a coroa lusitana, a porcao mais rica; as 
armas portuguezas , o pregao mais vivo ; os Prin- 
cipes lusitanos, o premio mais grato. Os quilates 
de seu merecimento relala fielmente esta hisloria , 
que servira a posteridade de manifesto, em que se 
veja a razao com que a fama o deve collocar entre 
sens capitaes. Com Ihe dar occasioes para o servico 
o buscArao os premios ; e soube Joao Femandes 
Vieira achar occasioes para fozer dos premios os 
maioresservi^os, como diremos na segunda parte 
de sua historia que, sendo Deosservido, daremos 
& estampa muito brevemente. 



P'*o, nem mesmo i certo se elle a com- 



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GASTRIOTO LUSITANa 605 

poz ; o que e para sentir^ porque (icatnos pmados 
cle mais um monumento que attestasse as grandes 
virludes e heroicos feitos de Joao Fernandes Vieira. 



FIM. 



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INDICE. 



Advertencia do editor ix 

Ao sereniflsimo principe dom Pedro xi 

A Joao Fernandes Yieira xiii 

Prologo , XVII 

Livro I. • • , 1 

Uvro II 20 

LiyroIII 45 

Livro IV.. 109 

Livro V 153 

Livro VI 1T7 

Livro VII 244 

Livro VIII '. 320 

Livro IX 1 378 

Livro X 44« 

Livro XI s 489 

Livro XII ... tt52 



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